A QUARTA TEORIA POLÍTICA. Ou “Nunca assuma que entendeu Platão” – Alexandr Dugin
Observação inicial: a edição encontrável na internet em português precisa urgentemente de um revisor! Eu mesmo ‘melhorei’ muitas e muitas aspas abaixo. Às vezes demarquei minha intervenção com colchetes, às vezes não…
“É significativo que o livro Contra o Liberalismo, pelo bem-sucedido intelectual francês Alain de Benoist, que também é publicado em russo pela editora Amphora, possui como subtítulo Em direção à Quarta Teoria Política.”
PRESSUPOSTO MUITO RASO E POBRE: “E se para alguém essa é uma questão de liberdade de escolha, a realização da vontade política, que sempre pode ser dirigida tanto a uma asserção e sua negação, então – para a Rússia – essa é uma questão de vida e morte, a eterna questão de Hamlet. Se a Rússia decidir ‘ser’, então isso significa automaticamente a criação de uma Quarta Teoria Política. Do contrário, para a Rússia resta apenas a opção de ‘não-ser’ e então deixar o palco histórico e mundial, e se dissolver no mundo global, nem criado nem governado por nós.”
“Se, nos séculos anteriores, religião, dinastias, Estados, classes e Estados-nações desempenharam um enorme papel na vida de pessoas e sociedades, então, no século XX, a política passou a um reino puramente ideológico, tendo redesenhado o mapa do mundo, de etnias e civilizações de uma nova maneira.”
“Todas as ideologias políticas, tendo alcançado o pico de sua distribuição e influência no século XX[,] foram o produto da nova Era Moderna, incorporando o espírito da modernidade, ainda que de diferentes modos e mesmo através de diferentes símbolos.”
“A primeira teoria política é o liberalismo. Ele emergiu primeiro, tão cedo quanto o século XVIII[,] e acabou sendo a ideologia mais estável e bem-sucedida, tendo finalmente prevalecido sobre seus rivais nessa batalha histórica.”
“…o desejo dos conservadores de liderar uma revolução ao invés de resistir a ela, levando sua sociedade na direção oposta, i.e. Arthur Moeller van den Bruck, Dmitry Merezhkovsky, etc.” Quem foram?
(*) “Arthur Wilhelm Ernst Victor Moeller van den Bruck (23 April 1876 – 30 May 1925) was a German cultural historian, philosopher and writer best known for his controversial 1923 book Das Dritte Reich (The Third Reich), which promoted German nationalism and strongly influenced the Conservative Revolutionary movement and then the Nazi Party, despite his open opposition and numerous criticisms of Adolf Hitler.”<Neocon> da época!
(**) “Merezhkovsky became a 9-time nominee for the Nobel Prize in literature, which he came closest to winning in 1933. However, because he was close to the Nazis, he has been virtually forgotten after World War II.”
Conclusão: a princípio, não nos interessam.
“O fascismo emergiu depois das outras grandes teorias políticas e desapareceu antes delas. A aliança da primeira teoria política com a segunda teoria política, bem como os equívocos geopolíticos suicidas de Hitler, o derrubaram no meio do caminho.” E no entanto Hitler não era o fascismo.
DUGIN E SEU ÍMPETO DE ESCREVER UM ROMANCE (B): “Portanto, esse fantasma vampiresco sangrento, tinindo com uma aura de ‘maldade global’, é atraente aos gostos decadentes da pós-modernidade, ainda amedrontando a humanidade em grande medida.”
So far, so Fukuyama… So What?
“Ele não era tão dogmático quanto o marxismo, mas não era menos filosófico, gracioso e refinado. Ideologicamente ele se opunha ao marxismo e ao fascismo, não apenas empreendendo uma guerra tecnológica pela sobrevivência, mas também defendendo seu direito de monopolizar sua própria imagem do futuro.” Até aí, nenhuma diferença em relação aos outros dois.
BOLSONARISMO: “…e a ideologia dos ‘direitos humanos’ se torna amplamente aceita, ao menos em teoria e é praticamente compulsória.” E ao menos em teoria é na prática compulsória. Vivas a Dugin ou a seu péssimo tradutor!
“governo mundial” “globalismo”
“grande narrativa”
“identidade…até mesmo de gênero”
“O ‘fim da história’ de Fukuyama chega, a economia na forma do mercado capitalista global substitui a política, e estados e nações são dissolvidas no caldeirão da globalização mundial.” “economia como destino”
“A necessidade da Quarta Teoria Política deriva dessa avaliação.” Muitíssimo conveniente.
“O filósofo francês Alain de Benoist chama isso de ‘la gouvernance’, ou ‘microgerenciamento’.”
“Alguns poderiam argüir que os liberais mentem quando falam sobre o ‘fim da ideologia’ (este foi o tema [do] meu debate com o filósofo Aleksandr Zinoviev)” Não, eles realmente acreditam nisso.
Zinoviev: só mais um “russo propagado e ‘amado’ pelo Ocidente por ser contrário à URSS: “…was one of the symbols of the rebirth of philosophical thought in the Soviet Union. After the publication in the West of the screening book Yawning Heights, which brought Zinoviev world fame, in 1978 he was expelled from the country and deprived of Soviet citizenship. He returned to Russia in 1999. [and died in 2006]” Yawning books…
ideologia fato existencial
“virtualidade”
Ó, fez o dever de casa! leu Baudrillard!
“ver a resenha do período soviético como uma versão ‘escatológica’ especial da sociedade tradicional por Mikhail S. Agurskii ou Sergei Kara-Murza” Contemporâneos sem muita relevância.
“Esse [quarto] ponto de partida é possível (…) porque ele emerge do livre-arbítrio do homem, de seu espírito, ao invés de um processo histórico impessoal.” Eu conto ou vocês contam?
Também leu Nietzsche, mas não sabe dar meio passo além (atrás sabe muitos): “Porém, essa essência é algo completamente novo, previamente desconhecido e apenas deduzido intuitiva e fragmentariamente durante as fases primitivas da história e do conflito ideológicos.”
“é impossível determinar onde a Direita e a Esquerda estão localizadas em relação ao pós-liberalismo. Há apenas duas posições: conformidade (o centro) e dissenso (a periferia). Ambas as posições são globais.”
“A pedra que os construtores rejeitaram veio a tornar-se pedra angular” (Marcos 12:10) Hahaha! A Bíblia, é sério isso?!
O DESAFIO FANTASMA: O INIMIGO AGORA É TODOS: “A Quarta Teoria Política lida com a nova reencarnação de um velho inimigo. Ela desafia o liberalismo, muito como a segunda e terceira teorias políticas do passado, mas ela o faz sob novas condições.”
“Teoricamente, o fim da história poderia ter sido diferente: um ‘Reich planetário’, se os nazistas tivessem vencido, ou o ‘comunismo global’, se os comunistas estivessem certos.” Um filósofo juvenil. Eu poderia ter escrito isso 15 anos atrás, e nem por isso me orgulharia da ‘obra’…
“Alexandre Kojève¹ foi um dos primeiros a prev[ê-lo]; suas idéias foram depois reproduzidas por Francis Fukuyama.”
¹ “Although not an orthodox Marxist, Kojève was known as an influential and idiosyncratic interpreter of Hegel, reading him through the lens of both Karl Marx and Martin Heidegger. The well-known end of history thesis advanced the idea that ideological history in a limited sense had ended with the French Revolution and the regime of Napoleon and that there was no longer a need for violent struggle to establish the ‘rational supremacy of the regime of rights and equal recognition’.” Principais obras: Introduction to the Reading of Hegel: Lectures on the Phenomenology of Spirit, Outline of a Phenomenology of Right, Carl Schmitt and Alexandre Kojève Correspondence, ‘Colonialism from a European Perspective’, Essai d’une histoire raisonée de la philosophie païenne, Kant, Le concept,Le temps et le discours.
“Por essa razão, a questão da modernidade, e, incidentalmente da modernização, pode ser removida da agenda. Agora a batalha pela pós-modernidade começa.” “A ditadura das idéias é substituída pela ditadura das coisas, senhas de login e códigos de barra.” Muh…
“Nós devemos apenas averiguar a localização desses novos pontos vulneráveis no sistema global e decifrar suas senhas de login de modo à hackear seu sistema.”Ele NÃO disse isso!…
“Em qualquer caso, primeiro e mais importante, nós devemos entender a pós-modernidade e a nova situação não menos profundamente do que Marx entendeu a estrutura do capitalismo industrial.”Hm, boa sorte…
“A segunda e terceira teorias políticas são inaceitáveis como pontos de partida para resistir ao liberalismo” Se você diz…
“Perdendo, elas provaram que não pertenciam ao espírito da modernidade, o qual, por sua vez, levou à matrix pós-liberal.” Hahaha
“Fazer uma leitura cruzada delas seria muito mais produtivo: ‘Marx através de uma perspectiva positiva da Direita’ ou ‘Evola através de uma perspectiva positiva da Esquerda’.” Você chegou demasiado tarde à moda dos crossovers… Isso já cheira à naftalina.
“Essa fascinanteiniciativa ‘nacional-bolchevique’, no espírito de Nikolai V. Ustrialov ou Ernst Niekisch, não é suficiente por si mesma.” O sufixo da segunda palavra está errado!
“Esse exercício metodológico é útil como um aquecimento antes de começar uma elaboração completa da Quarta Teoria Política.”Sinto lhe dizer, mas este jogo você irá perder…
“A Tradição (religião, hierarquia, família) e seus valores foram sobrepujados na aurora da modernidade.” Mesmo? Porque não parece…
“Em verdade, todas as três teorias políticas foram concebidas como construções ideológicas artificiais por pessoas que compreenderam, de vários modos, ‘a morte de Deus’ (Friedrich Nietzsche), o ‘desencanto do mundo’ (Max Weber) e o ‘fim do sagrado’.” Aqui o autor se contradiz ferozmente: duas dessas teorias nasceram antes de Deus morrer… A única realmente órfã foi o fascismo.
“Em qualquer caso, a era da perseguição à Tradição acabou, ainda que, seguindo a lógica do pós-liberalismo, isso provavelmente levará à criação de uma nova pseudo-religião global, baseada nos restos de cultos sincréticos disparatados, no ecumenismo caótico desenfreado e na ‘tolerância’.”
“Agora é seguro instituir como programa político aquilo que foi banido pela modernidade.” Agora é seguro sair de seu quarto, seus papais não estão mais bravos…
“Não é por acaso que os heróis da pós-modernidade são ‘aberrações’ e ‘monstros’, ‘travestis’ e ‘degenerados’ – essa é a lei do estilo.” Hahaha
“Agora esta não é simplesmente uma metáfora capaz de mobilizar as massas, mas um fato religioso – o fato do Apocalipse.” “Se nós rejeitamos a idéia de progresso inerente à modernidade (que como nós vimos, acabou), então tudo que é antigo ganha valor e credibilidade simplesmente por ser antigo. ‘Antigo’ significa bom e quanto mais antigo – melhor.”É um niilista de capciosa má-fé que mergulha rápido em suas conclusões, com medo de tropeçar pelo caminho.
“E[,] finalmente, nós podemos identificar a mais profunda – ontológica! [!] – fundação para a Quarta Teoria Política. Aqui, nós devemos prestar atenção não apenas em teólogos e mitologias, mas também na experiência filosófica reflexiva de um pensador particular que fez uma tentativa única de construir uma ontologia fundamental – o estudo mais resumido, [?] paradoxal, profundo e penetrante do Ser. Eu estou me referindo à (sic)¹ Martin Heidegger.”
¹ Um adolescente deve ter traduzido essa obra!
“Uma breve descrição do conceito de Heidegger [breve, e portanto mutilada] é como segue. Na aurora do pensamento filosófico, as pessoas (mais especificamente, os europeus e, ainda mais especificamente, os gregos), [e não qualquer grego – só os filósofos, a nata da nata] levantaram a questão do Ser como ponto focal de seu pensamento. Mas, pela sua tematização, elas se arriscaram a se confundir[?] pelas nuances do relacionamento complicado entre Ser e pensamento, [caberia melhor: ser e aparência; idéia e devir, etc.] entre puro Ser (Seyn) e sua expressão na existência – um ser (Seiende), entre Ser-no-mundo (Dasein – ser-aí) e Ser-em-si (Sein). [não explica as 3 categorias – não explica porque, a seguir, Platão…] Essa falha […falhou – falhou mesmo? Ou simplesmente se deu conta e chegou ao limite possível?] já ocorreu no ensinamento de Heráclito sobre a physis e o logos. [Tampouco explica no que consistiria a falha de Her. nem detalha a natureza e a razão em Her., para não dizer em outros pré-socráticos mais importantes]Logo,”QUE LOGO, QUE NADA! Você não pode resumir 2 milênios de Ontologia em um parágrafo mesquinho. Mas ele procede a esse tipo de “se …isso e aquilo… então forçosamente e inequivocamente …isso…”, infantilmente, ao longo de toda a obra. Vá mais devagar, respire!
O Um Parmenídeo é exatamente a explicitação desse problema dualista inextricável. A via da opinião e a via da Verdade, interdependentes, embora não simetricamente. Isso Dugin passa por alto…
“Logo, ela é óbvia na obra de Parmênides¹ e, finalmente, em Platão, que colocou as idéias entre o homem e a existência [difiro – grosso modo, a idéia é “deus”, enquanto o máximo, mas alcançável pelo homem, daí a problemática da palavra, que remete qualquer leitor moderno simplesmente a um Deus onipotente, em 1º lugar… A idéia não está entre, está acima, e a existência tampouco está separada do homem, como este é um contínuo com a própria idéia, que só existe por ele e para ele enquanto ele flui no tempo, a idéia sendo o que existe eternamente nesta passagem do tempo, sempre perdido mas sempre passível de ser recuperado…] e que definiu a verdade como sua correspondência, a teoria referencial do conhecimento, essa falha alcançou sua culminação.”²
¹ A falha é óbvia em Parmênides! Quem teve estatura até hoje para entender Parmênides? Apostaria que não um Dugin. Onde estão os esboços e rascunhos mais longos de onde Dugin tirou esse resumo prensado de desenvolvimentos tão complicados?
² De modo algum. A teoria referencial do conhecimento seria como Aristóteles apreendeu (mal) a filosofia de seu mestre. Em Platão há o Absoluto, deus é a medida de todas as coisas, não se trata de um reflexo, ou melhor, de uma protoforma, cujo reflexo imperfeito, o conhecimento, está relegado a se desenvolver em bases mais baixas e segregadas.
“Isso deu origem a uma alienação que eventualmente levou ao ‘pensamento calculista’ (das rechnende Denken) e então ao desenvolvimento da tecnologia.” Se isso está em Heidegger, não foi desenvolvido nas obras que eu li. Mas não se pode culpar Platão por Descartes (‘calculista’) e sucessores…
“Pouco a pouco, o homem perdeu de vistas o puro Ser e entrou no caminho do niilismo. A essência da tecnologia (baseada no relacionamento-técnico-com-o-mundo) expressa esse niilismo continuamente cumulativo. Na Nova Era, essa tendência alcança seu pináculo – o desenvolvimento técnico (Gestell) finalmente substitui o Ser e coroa o ‘Nada’. Heidegger odiava amargamente o liberalismo, o considerando uma expressão da ‘fonte calculista’ que reside no coração do ‘niilismo ocidental’.” Ok. Nada tenho a objetar nesta sentença. Porém, até aí ainda podemos imaginar um Heidegger – e um Nietzsche – marxistas…
“A pós-modernidade, que Heidegger não viveu para ver, é, em todos os sentidos, o esquecimento último do Ser, é aquela ‘meia-noite’, quando o Nada (niilismo) começa a escorrer de todas as rachaduras.” Heidegger não viveu para ver, mas Nietzsche viu em vida (um dos grandes paradoxos de nosso bem-posicionado filósofo do séc. XIX).
“Porém essa filosofia não era desesperançosamente pessimista. Ele acreditava que o próprio Nada é o outro lado do puro Ser, o qual – de modo tão paradoxal! – lembra a humanidade de sua existência.” Sim, basta ler Nie.
“Se nós decifrarmos corretamente a lógica [nada aristotélica] por trás do desdobramento do Ser, então a humanidade pensante [Quem é a humanidade pensante? Uma, duas, três pessoas? O governo russo?] poderá salvar a si mesma com máxima rapidez no momento de maior risco.” A paz mundial rapidamente pactuada após a II Guerra por meio da proliferação de armas nucleares não teria sido uma rápida solução num momento de maior risco (holocausto nuclear)? E no entanto como explicar que a pós-modernidade é um fenômeno posterior a esse impasse resolvido? Enfim, o problema é que já pode ter passado muito da “meia-noite”…
“Heidegger usa um termo especial, ‘Ereignis’ – o ‘Evento’, para descrever esse retorno súbito do Ser. Ele ocorre exatamente à meia-noite da noite do mundo – no momento mais escuro da história. O próprio Heidegger constantemente vacilava quanto a esse ponto já ter sido alcançado ou – ‘ainda não’. O eterno ‘ainda não’…” Como todos nós, demasiadamente humanos e filósofos.
“A filosofia de Heidegger pode provar ser aquele eixo central conectando tudo ao seu redor – das segunda e terceira teorias políticas reinterpretadas ao retorno da teologia e da mitologia.” Um salto súbito, sem dúvida, bem duginiano…
“Assim, no coração da Quarta Teoria Política, em seu centro magnético, está a trajetória da Ereignis (o ‘Evento’) iminente, que incorporará o retorno triunfante do Ser no exato momento em que a humanidade o esquece de uma vez por todas a ponto de que seus últimos traços desaparecem.” O advento do EVENTO não é algo hegeliano, ideal, fatídico. Não adianta ser supersticioso e otimista quanto a isso. Marx e Nietzsche não foram. Isso é Cristianismo, i.e., o Deus obsoleto está vivo demais nessa crença da iminência fatal…
“Primeiro, o Estado global e o governo mundial estão gradualmente abolindo todos os Estados-nações em geral.”Não existe Estado global ou governo mundial. Hipóstase. O Estado-nação segue soberano. Para alegria do autor, um deles se chama Rússia. Só um bobo-da-côrte em aula de introdução ao pós-modernismo poderia comprar a idéia inversa.
“Mais importante é o fato de que a totalidade da história russa é um argumento dialético com o Ocidente e contra a cultura ocidental, a luta pela defesa de nossa própria (muitas vezes apenas intuitivamente compreendida) verdade russa, nossa própria ideia messiânica e nossa própria versão do ‘fim da história’”A existência desse livro em um idioma não-russo é a maior das contradições. Será que a verdade russa não é exatamente a verdade platônica que quem não nasceu para entender Platão se nega (metaforicamente, claro, já que disso não é capaz, não adianta querer) a intuir?
“As mentes russas mais brilhantes viram claramente que o Ocidente estava se dirigindo para o abismo.” Me parece que o ser-russo não é exatamente uma nacionalidade…
Dugin acertadamente contesta que a Rússia se tornou o paraíso do neoliberalismo nos anos 90.
“A atual crise econômica global é apenas o começo. O pior ainda está por vir. A inércia dos processos pós-liberais é tamanha que uma mudança de curso é impossível: para salvar o Ocidente, a ‘tecnologia emancipada’ irrestrita (Oswald Spengler) buscará por meios tecnológicos mais eficientes, porém meramente técnicos.”
“a economia globalista e as estruturas da sociedade pós-industrial tornam a noite da humanidade mais e mais negra.”Mas afinal não havíamos chegado à meia-noite, ó poeta?
NOITES BRANCAS: “Ela é tão negra, na verdade, que nós gradualmente esquecemos que está de noite. ‘O que é luz?’ se perguntam as pessoas[,] jamais a tendo visto.” É isso o que acontece com quem não sabe que não sabe Platão, e volta ao início do conto da caverna…
“É claro que a Rússia precisa seguir um caminho diferente. O seu próprio. Aqui está a questão e o paradoxo. Escapar da lógica da pós-modernidade em um ‘único país’ não será tão simples.” Será impossível, adolescente.
“Nessa situação, o futuro da Rússia depende diretamente de nossos esforços para desenvolver a Quarta Teoria Política.”Claro. A minha idéia. A idéia que eu criei. Fichtiano!
“É difícil dizer como o processo de desenvolver essa teoria acabará.” …
“Uma coisa é clara: não pode ser um esforço individual ou um que seja restrito a um pequeno grupo de pessoas.” Então já começou muitíssimo mal.
“O esforço deve ser compartilhado e coletivo. Dessa maneira, os representantes de outras culturas e povos (tanto na Europa como na Ásia) poderão verdadeiramente nos ajudar, já que eles sentem a tensão escatológica do momento presente de um jeito igualmente agudo e estão tão desesperadamente procurando por um caminho para fora do beco sem-saída global.”Dugin comete um erro crasso: distinguir neoliberalismo de Europa. Distinguir Estados Unidos da América de Europa. União indissolúvel.
“É importante lutar contra o liberalismo aqui e agora; é importante identificar suas vulnerabilidades; é importante forjar uma visão de mundo alternativa – mas o futuro está em nossas mãos e é aberto ao invés de pré-determinado.” Vejo que me leu ali em cima!
“Wallerstein, em vários graus, é um mecanicista, como qualquer marxista, enquanto de Benoist é um organicista e holista, como qualquer (verdadeiro) conservador.”Palavras ao vento significando nada.
“O último item ao qual eu gostaria de chamar atenção em relação às ideias de Alain de Benoist e sua relevância é a compreensão do conceito do ‘Quarto Nomos da Terra’ de Carl Schmitt – isto é, o relacionamento entre ciência política e ‘teologia política’ com geopolítica e o novo modelo da organização política do espaço.” Carl Schmitt, nazista (terceira teoria política). Conservador. E liberal. Todo liberal é conservador. Todo conservador é liberal ou produtoa longo prazo do liberalismo (fascismo).
“Eu realmente não compreendo por que certas pessoas, quando confrontadas com o conceito de ‘Quarta Teoria Política’, não correm imediatamente para abrir uma garrafa de champagne e não começam a dançar e se regozijar, celebrando a revelação de um novo horizonte.” Não era pra rir? Tem certeza? Isso já está mais chulo que Bukowski.
“Em certo sentido, o liberalismo incorpora tudo que estava no passado. A ‘Quarta Teoria Política’ é o nome para uma descoberta, para um novo começo.”“Conservador”! Aquele que não sabe sequer nomear sua doutrina deveria saber quanto vale sua doutrina.
“Os comunistas ‘não passaram’ também. Agora, o que resta é que os liberais ‘não passem’ e ‘eles não passarão!’ (No pasarán!).” Mas que porcaria eu estou lendo?
“Ainda de menos (sic) úteis são as sombras escuras do Terceiro Reich, seus ‘cadáveres independentes’,(*) inspirando apenas a brutal juventude punk¹ e os sonhos perturbadores e pervertidos de adeptos do sadomasoquismo.
(*) Nota da Tradução: O autor usa a palavra nezalezhnye em referência à revolução laranja na Ucrânia e às simpatias nazistas entre certos ucranianos do oeste.” Sim, os ucranianos são uma bosta, mas era para eles serem russos, não era? Onde está o pan-eslavismo? Curiosamente, o Donbass está mais a leste…
¹ Não estudou movimentos sociais. Confunde punk com oi!.Isso para um autor de mentalidade púbere é tanto mais imperdoável…
“Conseqüentemente, nós [nós quem?] sugerimos avançar de modo a sairmos da fase niilista da ‘Quarta Teoria Política’ [então a própria QTP tem sua fase adolescente? onde a noite é mais e mais escura, etc.?] em direção à positividade.” De qual tipo? Coachismo quântico ou o bom e velho Comte?
“O sujeito histórico da segunda teoria política é a classe. A estrutura de classes da sociedade e a contradição entre a classe exploradora e a classe explorada são o núcleo da visão da história dramática dos comunistas. História é luta de classes. A política é sua expressão. O proletariado é um sujeito histórico dialético, que é chamado a se libertar da dominação da burguesia e a construir uma sociedade sobre novas fundações. Um indivíduo singular é concebido aqui como parte de uma totalidade de classe e adquire existência social apenas no processo de aquisição de consciência de classe.” Finalmente um bom parágrafo!
“No fascismo, tudo é baseado na versão direitista do hegelianismo, já que o próprio Hegel considerava o Estado Prussiano como o ápice do desenvolvimento histórico no qual o espírito subjetivo era aperfeiçoado.Giovanni Gentile,¹ um proponente do hegelianismo, aplicou esse conceito à Itália fascista.”
¹ “Described by himself and by Benito Mussolini as the ‘philosopher of Fascism’, he was influential in providing an intellectual foundation for Italian Fascism, and ghostwrote part of The Doctrine of Fascism (1932) with Mussolini.”
raça + nação = ração
“Coloquemos tudo aquilo que sabemos sobre o sujeito histórico fora da estrutura das ideologias clássicas, realizando o método husserliano de epoché e tentemos definir empiricamente aquele ‘mundo vital’, que abrirá (sic) diante de nós”
“Se nós considerarmos a história política no estilo da ‘Escola dos Annales’ (método de Fernand de Braudel), então nós temos a chance de descobrir uma imagem um tanto polifônica, expandindo nosso entendimento do assunto.” Vamos reinterpretar César com as fontes que temos agora?
“…na área das hipóteses exóticas de Deleuze e Guattari sobre o rizoma, um ‘corpo sem órgãos’, ‘micropolítica’, etc.[,] ou sobre o horizonte da proto-história com Baudrillard e Derrida (texto, desconstrução, ‘différance’, etc.). Eles nos oferecem novas (dessa vez, totalmente não-conservadoras) capacidades. Portanto,”
“Se o sujeito é Dasein, então a ‘Quarta Teoria Política’ constituiria uma estrutura ontológica fundamental que é desenvolvida sobre a base da antropologia existencial.”Se…então. Onde eu enfio o nome que invento no meio. Se Mario é Zelda, então eu sou Pikachu.
“Naturalmente, este é apenas um esboço apressado das áreas de interesse na nova ciência política.” Naturalmente você deveria melhorar seu livro mais uns 20 anos para que ele ao menos merecesse se acomodar em prateleiras de livrarias.
“começando a partir de certo ponto, o desenvolvimento da ‘Quarta Teoria Política’ ganhará características razoavelmente científicas e racionais, as quais, por agora, mal são discerníveis por trás da energia de intuições inovadoras e da super tarefa (sic) revolucionária[conservadora!] de destruir as velhas ideologias.” Espera, você não era o inimigo da técnica e da ideologia do progresso?
“o antissemitismo de Hitler e a doutrina de que os eslavos são ‘sub-humanos’ e devem ser colonizados é o que levou a Alemanha a entrar em guerra contra a URSS (pelo que nós pagamos com milhões de vidas), bem como ao próprio fato de que os próprios alemães perderam sua liberdade política e o direito de participar na história política por um longo tempo (senão para sempre) (agora resta para elas apenas a economia e, na melhor das hipóteses, a ecologia).” A pura verdade. Mas não creio que o alemão de hoje se ressinta disso.
“O racismo hitlerista, porém, é apenas um tipo de racismo – esse tipo de racismo é o mais óbvio, direto, biológico e, portanto, o mais repulsivo. Há outras formas de racismo – racismo cultural (afirmar que há culturas superiores e inferiores), civilizacional (dividir os povos entre aqueles civilizados e os insuficientemente civilizados), tecnológico (ver o desenvolvimento tecnológico como o principal critério de valor societário), social (afirmar, no espírito da doutrina protestante de predestinação, que os ricos são melhores e superiores quando comparados com os pobres), racismo econômico (em cuja base toda a humanidade é hierarquizada segundo regiões de bem-estar material) e racismo evolucionário (para o qual é axiomático que a sociedade humana é o resultado de um desenvolvimento biológico, na qual (sic) os processos básicos de evolução das espécies – sobrevivência dos mais aptos, seleção natural, etc. – continuam hoje).”Alargou demais o escopo. Não existe racismo econômico quando quem tem capital é muçulmano, etc. Não ter dinheiro não se liga à raça (fora da causalidade racista que torna a raça discriminada pobre). Racismo cultural/civilizacional ou tecnológico internacional é xenofobia. Quando há discriminação tecnológica entre pares de uma mesma comunidade, trata-se de luta de classes, nada que ver com racismo. Já o racismo ‘evolucionário’ descrito acima foi um mélange de luta de classes com racismo ortodoxo (exatamente o hitlerismo). Sequer precisou citar cizânias religiosas, porque todas elas podem ser explicadas com base em xenofobia, racismo clássico e luta de classes.
“Assim, o próprio politicamente correto e suas normas são transformados em uma disciplina totalitária de exclusões políticas, puramente racistas.” Papo de racista envergonhado.
“Até mesmo africanos sofrem acusações de fascismo.”Ora, ora, mas é racista alegar que só o homem branco é capaz de chafurdar na lama e propagar as maiores burrices! Quer-se dizer que o negro não pode aprender um método com um branco, no fundo! E reproduzi-lo a posteriori no próprio país, o que sem dúvida muitos tiranos africanos fizeram.
“Os tipos mais novos de racismo são o glamour, a moda e seguir as últimas tendências informacionais.” Isso se chama capitalismo!
“A asserção de que o presente é melhor e mais gratificante do que o passado e a garantia de que o futuro será ainda melhor do que o presente representa a discriminação do passado e do presente, a humilhação daqueles que vivem no passado e um insulto à honra e dignidade das prévias gerações, e um certo tipo de violação dos ‘direitos dos mortos’.” Para um combatente anti-direitos humanos, é bem chiliquento! Racismo contra o tempo!?! Chega!!!!…
Nós não temos preconceito quanto aos mortos, ou não viveríamos em torno de Deus.
“A globalização então não é nada mais que um modelo de etnocentrismo euro-ocidental, ou melhor, anglo-saxão, globalmente distribuído, o qual é a manifestação mais pura da ideologia racista.” Uau, demorou 74 páginas!
“Como uma de suas características essenciais, a ‘Quarta Teoria Política’ rejeita todas as formas e variedades de racismo e todas as formas de hierarquização normativa de sociedades com base em fundamentos étnicos, religiosos, sociais, tecnológicos, econômicos ou culturais.” Isso é que é uma aldeia global!
“Esse tipo de tentativa é não[-]científico e anti-humano.” ENTÃO é um direito humano buscar progressivamente o seu fim? LOGO, pare de me confundir, seu canalha! Sempre lembrando que é o não-superior povo russo que tem a missão de liderar a nova humanidade rumo à redenção! O russo não é melhor nem pior, ele é diferente… Ponto de vista glamouroso e na moda.
“se o antirracismo diretamente atinge a ideologia do nacional-socialismo (i.e., a terceira teoria política),então ele também indiretamente alcança o comunismo, com seu ódio de classe” É uma big mula mesmo… Seria o liberalóide um racista quando chama o comunista de comedor de criancinhas? Anti-pedofilia é racismo também (a raça das crianças!)??!?
“Sem o racismo, o nacional-socialismo não é mais nacional-socialismo – seja teórica ou praticamente – ele é neutralizado e descontaminado. Nós podemos agora proceder sem medo de objetivamente analisá-lo em busca daquelas idéias que podem ser integradas na ‘Quarta Teoria Política’.” Entendi. Sua salvaguarda para ser homofóbico e misógino (que, obviamente, não são racismos – o estranho é até mesmo Dugin concordar, depois de ver racismo até em objetos inanimados transparentes)!
“Primeiro e mais importante, as idéias comunistas do materialismo histórico e a noção do progresso unidirecional são inaplicáveis a nossos propósitos.” 1) Explique materialismo histórico; 2) Onde e quando progresso unidirecional é aplicado por autores marxistas?
“O reducionismo materialista e o determinismo econômico compreendem o aspecto mais repulsivo do marxismo.” Quando o que mais repugna numa doutrina é o que nela não existe, contra o que ela mesma luta, já se sabe o que ser, fazer e seguir: tal doutrina.
“Na prática, ele se expressou pela destruição da herança espiritual e religiosa daqueles países e sociedades nos quais o marxismo venceu historicamente.” Até hoje um total de zero países. O país que mais destruiu sua própria herança teológico-espiritual foram os Estados Unidos da América. Os anglo-saxões, como você reconheceu mais acima!
“Um desprezo arrogante pelo passado…” Como em sua tese da meia-noite e da Nova Era Pluriversal!
“…e a idéia de classe como o único sujeito histórico” – no capitalismo!
“A crítica potencial do marxismo é extremamente útil e aplicável.” Principalmente para a Casa Branca. Ou dizer isso é racismo?
“O marxismo que podemos aceitar é o marxismo sociológico-mítico.”O marxismo existente na sua própria cabeça de charlatão.
“A primeira e mais proeminente contradição é a previsão não cumprida de Marx sobre o tipo de sociedades que são as mais aptas para as revoluções socialistas. Ele estava confiante de que essas ocorreriam nos países industrializados europeus com elevado nível de manufatura e um alto percentual de proletariado urbano.”Não leu Marx. Marx afirmou que a Inglaterra reunia as condições para a revolução socialista em uma das infinitas passagens de sua obra. Quantas frases contraditórias e picadas eu já não contrapus, colocando Dugin contra Dugin, e vencendo-o, em exíguas 83 páginas de letra grande?
“Tais revoluções eram excluídas de ocorrer em países agrários e países com o modo asiático de produção devido a sua falta de desenvolvimento.”Falso. O modo asiático de produção foi reconhecido como ‘ainda desconhecido pelo Ocidente’ e ‘inclassificável até o presente momento’ por Marx e seus sucedâneos. Marx avaliava socraticamente a epistemologia revolucionária: eu sei que nada sei, sei que nos faltam dados. A humildade do sábio – o antípoda de Dugin.
“No século XX, tudo ocorreu exatamente ao contrário.”Oaxioma dourado de todo liberal ao “refutar” o socialismo.
“o proletariado se dissolveu na classe média e desapareceu dentro da sociedade de consumo contrariamente às expectativas e projeções.” Da Internacional Comunista, que pensava impossível uma revolução meramente nacional se contrapor ao mundo inteiro. Portanto, quem nutria falsas expectativas e projeções eram os dirigentes soviéticos encastelados em seu Capitalismo de Estado sempre na defensiva num cenário de uma pré-Guerra Nuclear.
“…a obra de Alain de Benoist Contra o Liberalismo: Em Direção à Quarta Teoria Política, à qual eu continuo me referindo constantemente e conscientemente em minha explicação.” Seu livro é um mero apenso ao do seu mestre.
“A neurose e os medos localizados no núcleo patogênico da filosofia liberal são vistos claramente em A Sociedade Aberta e seus Inimigos, uma obra pelo clássico do neoliberalismo, Karl Popper. Ele comparou o fascismo e o comunismo precisamente com base no fato de que ambas as ideologias integram o indivíduo em uma comunidade supraindividual, em um todo, em uma totalidade, o que Popper imediatamente qualificou como ‘totalitarismo’.” Nada que feda mais a big tech!
“Em qualquer caso, a ‘Quarta Teoria Política’ pode interpretar as fobias de Popper (que o levaram, e a seus seguidores, a conclusões anedóticas – bastantes reveladoras são suas críticas patéticas a Hegel no espírito de relações públicas negativas e as acusações de fascismo dirigidas a Platão e Aristóteles!) a seu favor.” Popper é de fato um grande doente.
“A ‘Quarta Teoria Política’ deveria ser a teoria da liberdade absoluta, mas não como no marxismo, na qual ela coincide com necessidade absoluta (essa correlação nega a liberdade em sua própria essência).” Como ‘nega’? Liberdade absoluta e necessidade absoluta são sinônimas.
“Tendo deixado os limites da individualidade, o homem pode ser esmagado pelos elementos da vida, pelo caos perigoso. Ele pode querer estabelecer ordem. E isso está inteiramente em seu direito – o direito de um grande homem (‘homo maximus’) – um homem real de Ser e Tempo.” Um facho puro e simples.
“É claro, na maioria das vezes, o homem tende para a existência ‘inautêntica’ do Dasein, tentando se esquivar da questão, para sucumbir à fofoca (Gerede) e à auto-zombaria. O Dasein liberado pode não escolher o caminho para o Ser, pode se ocultar em um esconderijo, pode, novamente, desarrumar o mundo com suas alucinações e medos, suas preocupações e intenções. Escolher o Dasein pode corromper a própria ‘Quarta Teoria Política’, transformando-a em uma auto-paródia.”Portanto…
“Este é um risco, mas Ser é um risco, também.” “Porém, apenas o multiplicador de liberdade fará da escolha do Ser autêntico uma realidade – apenas então as apostas serão verdadeiramente grandes, quando o perigo for infinito.” Melhor deixar isso com o capitalismo; ele está se saindo muito bem destruindo a Terra e tornando nossa extinção cem por cento certa, virtual e infinitamente iminente. Como jovens e brutais punks!
“a ‘Quarta Teoria Política’ não deve se apressar de modo a se tornar um conjunto de axiomas básicos. Talvez seja mais importante deixar algumas coisas por dizer, encontradas em expectativas e insinuações, em alegações e premonições.” Em mil anos você volta…
“enraizado na visão de mundo científica, societária, política e social das ciências humanas e naturais dos séculos XVIII e XIX, quando a idéia de progresso, desenvolvimento e crescimento foi tomada como um ‘axioma’ que não estava sujeito à dúvida.”
“A liberal americana Ayn Rand (Greenspan foi um de seus maiores admiradores) criou toda uma filosofia (‘Objetivismo’) baseada na seguinte ideia brusca: se alguém for rico, então ele é bom. Ela alcançou os limites da idéia weberiana sobre a origem do capitalismo na ética protestante e disse que o <rico> é sempre e necessariamente o <bom>” “Pessoas como Greenspan e o atual presidente da Reserva Federal Americana, Bernanke, são ‘objetivistas’ – isto é, aqueles que interpretam a modernização, o progresso, o crescimento econômico e o desenvolvimento seguindo a veia liberal.”
“Nietzsche era um evolucionista e acreditava que, com base na lógica do desenvolvimento das espécies, o homem seria substituído pelo Super-Homem” Idiota.
“O cientista americano Gregory Bateson, um teórico da etnossociologia, cibernética e ecologia, psicanalista e lingüista, descreveu o processo monotônico em seu livro Mente e Natureza.” Por que não cita apenas Bateson? Qual meu interesse em saber sua profissão, formação ou nacionalidade?
“Bateson concluiu que quando esse processo ocorre na natureza ele imediatamente destrói a espécie; se estivermos falando de um aparato artificial, ele quebra (explode, entra em colapso)” “Resolver o problema dos processos monotônicos foi o principal objetivo que surgiu no desenvolvimento dos motores a vapor. Acontece que a sutileza mais importante nos motores a vapor é o feedback de retransmissão. Quando o processo alcança velocidade de cruzeiro, é necessário reiniciar o abastecimento de combustível, senão o processo monotônico tem início, tudo começa a ressonar e a velocidade do motor se eleva causando sua explosão. Foi precisamente essa solução de evitar o processo monotônico na mecânica que foi o principal problema teórico, matemático, físico e de engenharia durante a primeira fase da industrialização.”
DIVERGÊNCIAS QUANTO À CLASSIFICAÇÃO <SOCIÓLOGO>: “Émile Durkheim, Pitirim Sorokin e Georges Gurvitch,¹ os maiores sociólogos do século XX, os classicistas do pensamento sociológico, [?] afirmavam que o progresso social não existe, em contraste aos sociólogos do século XIX, como Auguste Comte ou Herbert Spencer.” O único sociólogo do séc. XIX foi Marx. Os outros estão muito abaixo da crítica, ainda que em si ‘sociólogo’ nem seja uma denominação elogiosa.
¹ Nunca os li. Sorokin: tentar Sociological Theories of Today (1966). Gurvitch: arriscar The Social Frameworks of Knowledge (1972).
“Em relação a estudos culturais e filosofia, Nikolai Danilevsky, Oswald Spengler, Carl Schmitt, Ernst Jünger, Martin Heidegger e Arnold Toynbee demonstraram que todos
os processos na história da filosofia e na história da cultura são fenômenos cíclicos.”
“Logo que afirmemos que a cultura americana ou russa é melhor do que a dos chukchi ou dos habitantes do norte do Cáucaso nós agimos como racistas.”
“No fim, mesmo Nietzsche incorporou sua idéia da vontade de poder no conceito de eterno retorno.” Uau, como você é esperto, Dugin Jones!
“O liberalismo é uma ideologia igualmente ultrapassada, cruel e misantrópica como as outras duas.” Falsas simetrias tampouco são signos de qualquer “avanço”, mesmo o avanço do puro anel…
“Inevitavelmente, todas as 3 teorias foram baseadas na filosofia de Hegel. Depois de Hegel, o significado da história tornou-se o fato de que o Espírito Absoluto apartou-se de si mesmo, enfatizando-se na substância, a qual se externalizou na história, dialeticamente, até se transformar na sociedade iluminada, na monarquia esclarecida.” Carroça na frente dos bois. Quem veio primeiro, Luís XIV ou Georg Wilhelm Friedrich?
“Na estrutura do nacional-socialismo, o hegelianismo foi externalizado no conceito do Reich Final” “A Quarta Teoria Política descarta completamente a ideia de irreversibilidade da história.” Defina irreversibilidade.
UM GRANDE NADA: “Nós podemos definir muitos pré-conceitos com relação à reversibilidade do tempo e Dasein/Traiectum, por isso podemos definir vários conceitos políticos do tempo e cada um deles pode ser conectado em um atual projeto político, de acordo com os princípios da Quarta Teoria Política.”
“Husserl propôs estudar o tempo com o exemplo da música. A consciência de ouvir uma peça musical não é baseada na estrita identificação das notas soando em um momento concreto e discreto. Ouvir música é algo diferente de ouvir uma nota que soa agora, no presente. A consciência da música é acessada relembrando as notas passadas também, que estão se dissolvendo pouco a pouco no nada, mas sua ressonância, o eco, continua na consciência e dá à frase musical o senso estético.” “Clio e Polímnia são irmãs. Essa lembrança é necessária para dar ao presente o sentido. A anamnese de Platão tinha a mesma função.”
“Isso é o novum – incompreensão espontânea do que está acontecendo.”
“Esse curto-circuito faz com que todo tipo de dualidades surjam – as lógicas e as temporais. A necessidade de parar esse trauma é manifesto na criação do tempo, a articulação dos três momentos do tempo. O tempo é necessário para ocultar o presente, que é a experiência traumática da autorreferência da consciência pura. A intencionalidade e os juízos lógicos estão ambos enraizados nessa evasão da consciência em relação à dor do vazio presente no qual a consciência se apresenta a si mesma.” “A tensão é imediatamente aliviada pela expansão em todos os tipos imagináveis de dualidades que constituem as texturas dos processos contínuos.” “A consciência constitui o tempo correndo do insuportável encontro consigo. Mas esse encontro é inevitável, então o presente e sua alta precisão de percepção existencial nascem.”
“Se uma mente adormece a realidade carece do gosto da existência presente. Ela está completamente imersa no contínuo e ininterrupto sonho.” Sim, e daí? Por que isso implica num livro de teoria política? Isso é curso didático de ontologia existencialista!
“O objeto não tem futuro. A terra, os animais, as pedras, as máquinas, não têm futuro.” “Sem a consciência autorreferente não pode haver tempo.” “O tempo é a identidade final do homem.” “Se falta o futuro, o sujeito não terá o espaço de se evadir, de fugir do encontro impossível consigo mesmo, do curto-circuito mencionado acima. O momento congelado do presente sem o futuro é o da morte.” “A crônica dessa fuga é o sentido da história.” “O futuro faz sentido. Ele possui sentido mesmo antes de se tornar presente.” “se ele não acontecer, ele também é algo carregado com sentido, e auxílio para explicar o que se passa.” “A profecia não-realizada possui exatamente a mesma importância que a realizada.” “A história não é apenas a memória do passado. Ela também é a explicação do presente e a experiência do futuro. Quando nós compreendemos bem a história e sua lógica, nós podemos facilmente adivinhar o que seguirá, o que vai acontecer, que nota [musical] será a próxima.” “O poder do trauma afasta a atenção e o mundo vital até a periferia, que se tornou o círculo-tempo com o futuro se tornando passado, e daí em diante eternamente.” “Há o tempo tomado como a espera perpétua de algo por vir. É o tempo messiânico quiliástico. [milenarista]”
“As histórias de diferentes sociedades são distintas. Exatamente como distintas são as peças, os músicos, os compositores, os instrumentos, o gênero musical e os tipos de notações. É por isso que a humanidade como um todo não pode ter um futuro. Ela não tem futuro. O futuro da humanidade é bastante desprovido de sentido porque carece completamente do valor semântico, do sentido.” Também não existe ‘povo russo’ algum.
“O fato de que cada povo, cada cultura, cada sociedade possui sua própria história transforma o tempo em um fenômeno local. Cada sociedade possui sua própria temporalidade. Todos os momentos dela são diferentes – passado, presente e futuro.”
“É duvidoso que uma sociedade seja capaz de compreender outra sociedade no mesmo nível em que ela é compreendida por seus próprios membros. Tal possibilidade pressupõe a existência da meta-sociedade, a sociedade ‘Deus’, que poderia operar com as máximas profundezas da consciência da mesma maneira que a consciência opera com a atenção, com a noesis, com a intencionalidade, com a lógica e o tempo, e finalmente com o mundo. Obviamente, a sociedade ocidental é particularmente marcada por tal abordagem etnocêntrica e pretensão universalista enraizadas no passado racista e colonialista. Mas no século XX foi certamente provado que isso é completamente infundado e falso. Os estruturalistas, os sociólogos, os antropólogos culturais, os pós-modernistas, os fenomenologistas, os lingüistas, os existencialistas e daí em diante ofertaram argumentos convincentes demonstrando a natureza interior de tal atitude enraizada na vontade de poder e na imposição paranóica de sua própria identidade sobre a do outro. É a doença chamada racismo ocidental.”
“O passado, o presente e o futuro das sociedades históricas não podem ser expostos por qualquer meta-cultura: elas jazem fundo demais e são defendidas dos olhos estrangeiros pelo poder destrutivo do momento autorreferencial, pela coragem da máxima tensão.” “O fim da história é o encerramento lógico do universalismo. O fim da história é a abolição do futuro. A história prossegue e alcança seu estado terminal. Não há mais espaço para continuar. Então com o futuro toda a estrutura do tempo é abolida – não apenas o futuro, mas também o passado e o presente. Como isso pode ser possível? Nós poderíamos compará-lo com o toque simultâneo de todas as notas, sons e melodias existentes, o que nos dará cacofonia, bater e ranger de dentes. Ao mesmo tempo, provocará silêncio absoluto, surdez e acidez.” “o curto-circuito crescerá exponencialmente sem possibilidade de ser dissipado.”
“De modo a prevenir a ignição e o golpe potencializado pelo encerramento da perspectiva temporal e lógica do alívio, o mundo global tentará aprisionar a consciência nas redes e na virtualidade, na qual ela poderia fugir da pressão interna
do autoencontro sem problemas. Se tiver sucesso, o novo mundo do reino das máquinas será criado.”Nada garante essa tão fetichizada autonomia e prevalência da Técnica.Parece o relato de uma outra cultura sobre o Ocidente, mas essa é a perspectiva ocidental sobre o próprio declínio.
“Ao invés de fogo nós teremos eletricidade. Algumas pessoas acreditam que Fukuyama já é um robô.” Fukuyama é menos que um robô: irrelevante. É como um canal de notícias: não teve, não tem e não terá qualquer papel.
“O futuro comum não é futuro. A globalidadecancela o tempo. A globalidade cancela a subjetividade transcendental de Husserl ou o Dasein de Heidegger. Não há mais tempo, nem ser.” Não havendo diferenças de tempo entre os seres, não há Ser.
“O tempo durará e o mundo como a experiência do presenciamento real será apoiado pela estrutura da subjetividade profunda.”
“a formalização no Estado nacional reflete correta e exaustivamente a estrutura do sujeito transcendental como criador de história? Será o tempo histórico futuro necessariamente nacional (como na modernidade), ou ele encontrará novos caminhos? Ou talvez ele retorne às formas pré-modernas?” Só se pode concordar com a sentença duginiana de que “o tempo é reversível” se com isso ele quer dizer coisas como: Hobbes é reversívil.
“As civilizações são comunidades culturais e religiosas – e não nacionais. Nós poderíamos imaginar o passo para trás – na direção pré-nacional (integração islâmica); o passo para frente – na direção pós-nacional (União Europeia ou União Eurasiática)” Já acreditei que UE significasse algo distinto ou paralelo a “Estado-nação”; hoje, não mais. O –asiática de União Eurasiática tem incomensuravelmente mais peso que o Eur-.
“…ou poderíamos tolerar a civilização na forma do Estado Nacional (como com a Índia, China ou Turquia).”Errado pensar que a China é um Estado como todo outro Estado moderno, ou que sempre será.Nivelar a situação do imenso país do hinduísmo e um território europeu “alienígena” como o turco é outra temeridade ou desonestidade intelectual.Tanto quanto estereotipar o homem russo e chamar esse tratado de neofascista, vendo que não é, mas também vendo que nada tem de tratado político.
“Quando alguém está vivo ele pode mudar não apenas o futuro, mas também o passado. O gesto ou movimento significativo realizado no presente acrescentará novo sentido ao passado. Apenas após uma morte resoluta o passado de alguém se torna propriedade de outro. (…) Assim a história é música e obra da Musa.”
“Diferença não significa automaticamente choque e conflito. A história conhece a guerra. A história também conhece a paz. Guerra e paz existiram sempre. Guerra e paz sempre existirão. Eles servem para reviver a tensão, o estresse do presente. Elas liberam e subjugam o horror e a morte.”
“A segunda opção é a globalização. Ela cancela o futuro. Ela demanda a chegada do pós-humano.” Blá-blá-blá… Sabemos que isso não existe. Mesmo o supra-homem é demasiadamente humano perto do “pós-humano literal” como o Ocidente necrosado o quereria imaginar.
“Ao invés do tempo, seus duplos aparecem. Os duplos do passado, presente e futuro.” O verdadeiro inverno nuclear.
“O bloqueio do sujeito transcendental lhe permite mudar o passado do mesmo modo que se coloca um vídeo alternativo no tocador. Uma versão alternativa da sociedade poderia ser carregada como prequela.”
Era uma vez eu e meu duplo. Bebemos e vimos quatro de nós.
NÃO FUGIU DA LUTA DE CLASSES: “Lidar com o presente é um pouco mais complicado e sofisticado. Para removê-lo, nós devemos não apenas bloquear a subjetividade transcendental, nós devemos erradicá-la. [irreversível?] Isso presume a transição do humano ao pós-humano.”
“Vamos assumir que a multipolaridade desapareceu, a história terminou e o projeto da globalização tornou-se uma realidade. Como será organizado o exorcismo final da subjetividade transcendental? Como será implementada ‘a decisão final’ sobre a abolição de Dasein? Antes de tudo, enquanto a sociedade e o homem estiverem presentes, eles devem tomar essa decisão em relação a si mesmos. É impossível fazer apelo a um outro alguém o qual poderia ser culpado por isso ou elogiado. A referência ao outro é aceitável somente quando nós temos o mesmo. Se nós estamos perdendo qualquer identidade, nós não iremos mais ter a alteridade. Então o fim da história é feito por nós e sobre nós mesmos e ninguém mais.”
“Assim, com a figura do outro sendo excluída resta explicar como o homem pode realizar o último gesto de autodissolução e como ele pode transferir as iniciativas de existência para o mundo pós-humano, que desaparecerão imediatamente após o último homem – não haverá mais testemunhas.” Só se a existência for um erro.E até onde sabemos, via lógica da essência da existência, Schopenhauer estava errado.O otimismo supremo do pessimismo filosófico é que a “realidade vence”, i.e., o último homem é sempre passageiro.
“A globalização e o fim da história não podem ser reduzidos à vontade de alguém que teria sido diferente daquele (sic) que é a fonte do tempo. Pelo menos nos limites de (sic) filosofia imanente.” A tradução nunca ajuda!
“nas profundezas da subjetividade transcendental, há outra camada que Husserl não cavou. Husserl estava convicto de que aquela descoberta feita por ele era a última. (…) Tinha [de] haver outra dimensão (…)
Nós podemos designá-la como o Sujeito Radical. Se a subjetividade transcendental de Husserl constitui a realidade através da experiência da manifestação autorreferencial, o Sujeito Radical deve ser encontrado não no caminho para fora, mas sim no caminho para dentro.
Ele se mostra apenas no momento da máxima catástrofe histórica, na drástica experiência do curto-circuito que dura por um momento mais longo e mais poderoso do que é possível suportar.”
“Para ele, o tempo – em todas as formas e configurações – não é nada mais do que uma armadilha, o truque, o artificial, atrasando a real decisão. Para o Sujeito Radical[,] não somente a virtualidade e a rede, mas a [própria] realidade já é a prisão, o campo de concentração, o sofrimento, a tortura. O levo (sic) cochilo da história é algo contrário à condição na qual ele poderia ser, completar a si mesmo, se tornar.”
“O Sujeito Radical é incompatível como todos os tipos de tempo. Ele veementemente demanda o anti-tempo, baseado no fogo exaltado da eternidade transfigurada na luz radical. Quando todo mundo se foi, restarão somente aqueles que não puderam ir.” “em essência nós simplesmente lidamos com uma versão atualizada e continuada do universalismo ocidental que foi transmitido desde o Império Romano, ao cristianismo medieval, à modernidade com o Iluminismo e [à] colonização, até o atual pós-modernismo e ultra-individualismo.”
“A duradoura aliança entre os EUA e a Arábia Saudita representa o exemplo perfeito desse realismo na política externa na prática.”
“A economia política chinesa está tentando reestabelecer sua independência da hegemonia global dos EUA e pode tornar-se o principal fator de competição econômica. Rússia, Irã, Venezuela e alguns outros países relativamente independentes que controlam grandes reservas dos recursos naturais remanescentes do mundo colocam um limite sobre a influência econômica americana. A economia da União Européia e o potencial econômico japonês representam dois possíveis pólos de competição econômica para os EUA dentro do esquema econômico-estratégico do Ocidente.” Pode esquecer!
“Os neocons proclamando o Novo Século Americano estão otimistas em relação ao futuro Império Americano, porém no caso deles é óbvio que eles têm uma clara, se não necessariamente realista, visão de um futuro domínio americano. Nesse caso a ordem mundial será uma Ordem Imperial Americana baseada na geopolítica unipolar. Pelo menos teoricamente ela tem um ponto redentor: é clara e honesta sobre seus objetivos e intenções.”
“Mais nebulosa ainda é a visão extrema de governança global prevista pelos promotores da globalização acelerada. Parece ser possível para efetivamente derrubar a ordem existente dos Estados-nações soberanos, mas em muitos casos isso somente irá abrir a porta para conflitos mais arcaicos, locais, de forças religiosas ou étnicas.”
“1. Aqueles Estados que tentam adaptar suas sociedades aos padrões ocidentais e manter relações amigáveis com o Ocidente e os EUA, mas tentam evitar a dessoberanização direta e total; incluindo Índia, Turquia, Brasil e até certo ponto Rússia e Cazaquistão;
2. Aqueles Estados que estão prontos para cooperar com os EUA, mas sob a condição de não-interferência em seus negócios domésticos, como Arábia Saudita e Paquistão;
3. Aqueles Estados que, enquanto cooperam com os EUA, estritamente observam a particularidade de suas sociedades pela filtragem permanente do que é compatível na cultura ocidental com suas culturas domésticas e o que não é, e, ao mesmo tempo, tentando usar os dividendos recebidos por essa cooperação para fortalecer sua independência nacional, como a China e, às vezes, Rússia; (A Rússia é secundária nessa nova geopolítica, pois a China tem maiores condições de ser estritamente deste terceiro grupo.)
4. Aqueles Estados que tentam se opor aos EUA diretamente, rejeitando os valores ocidentais, a unipolaridade e hegemonia ocidental e americana, incluindo Irã, Venezuela [meu máximo respeito] e Coréia do Norte.”
“Suas posições podem ser definidas como reativas. Essa estratégia de oposição reativa, variando da rejeição à adaptação, algumas vezes é efetiva, outras não.”
“o sistema vestfaliano de Estado soberano”
“Outro desses projetos pode ser definido como o plano neo-socialista transnacional representado na esquerda sul-americana e pessoalmente por Hugo Chávez. Este é uma nova edição da crítica marxista do capitalismo, fortalecida pela emoção nacionalista e, em alguns casos, como com os zapatistas e na Bolívia, por sentimentos étnicos ou críticas ecológicas ambientalistas. Alguns regimes árabes, como até há pouco tempo a Jamahiriya árabe líbia sob Qaddafi, podem ser consideradas na mesma linha. (…) A transição liderada pelos EUA e pelo Ocidente é vista por esse grupo como uma encarnação do imperialismo clássico criticado por Lênin.”
“Os Estados-nações carecem de visão e ideologia, e os movimentos carecem de infra-estrutura e recursos suficientes para colocar suas idéias em prática. Se em alguma circunstância fosse possível superar essa fenda, levando em consideração o crescente peso demográfico, econômico e estratégico do mundo não-ocidental ou ‘o Resto’, uma alternativa para a transição liderada pelos EUA e pelo Ocidente poderia obter forma realista e ser considerada”
“A diferença entre essas duas categorias é que o conceito político do homem é o conceito do homem ‘como tal’, que está instalado em nós pelo Estado ou pelo sistema político, enquanto o homem político é um meio particular, proposto para correlacionar com esse Estado.” “Nós acreditamos que somos causa sui e somente então encontramos a nós mesmos na esfera política.”
BOOMER DUGIN:“Uma discoteca contemporânea, o caos, pode ser considerada uma metáfora para essa trans-individualidade. É possível distinguir entre pares, figuras, passos, expressões, sexos durante a quadrilha ou ainda na dança de rock ‘n’ roll, que é a recente modernidade. [Logo fará 100 anos, o que quer que se chame de ‘dança de roque & rola’… diante dum cenário de esvaziamento das artes e de tecnologias e estéticas que se super-impõem na velocidade da luz, considero um século – ou pouco mais de 70 anos, vá lá – uma verdadeira eternidade…] Mas em uma discoteca há criaturas de sexo incerto, aparência indefinida e identidade vazia, com um lento e regular balançar ao tato da música.” A homofobia é um valor completamente globalista, completamente ianque e ocidental! Não se pode ser localista sem ser homossexual, já diziam os gregos, os verdadeiros universalistas! Se, não obstante, Dugin falou do caos de maneira positiva (o que fica complicado, pois não vejo como identidade vazia pode ser olhada com bons olhos…), o que fará com mais clareza na parte final da obra, digamos que sua metáfora patentemente leiga não foi das mais felizes…
“assim a antropologia política, empregando essa ou aquela constituição do indivíduo, se dissipa e se dispersa no espaço da poeira rizomática.” “para denunciar ativamente a política, a vontade política é necessária. Isso revela que a pós-modernidade está carregada de significado político. E que está carregada com uma obsessão epistemológica e imperiosa pelo significado político da apolitização. Isto é, não é pura entropia da estrutura política, é um contra-projeto revolucionário, um esquema teórico da pós-antropologia política.” = Foucault; ou seja, muito aquém do que se espera de um autor contemporâneo…
“o soldado político[noção de 1930, provavelmente de Schmitt (implícito no texto)] difere do comum pelo fato de que ele mata e morre pela política. Sua matança e morte pessoal se tornam um elemento existencial da manifestação da Política, assim, para ele, a Política adquire uma dimensão existencial. O político, diferente do soldado político, trata da Política, mas não mata ou morre por ela.”
“As palavras de Nietzsche podem ilustrar seu papel na história do século XX: ‘Hoje, no século XIX, as pessoas fazem guerras por recursos e valores materiais, mas prevejo um tempo em que estarão matando por ideais’. Quando é este tempo? Está no século XX.”Mais uma interpretação errônea de Nietzsche. Ele nunca escreveu sobre pequena-política. O McCarthismo, poder-se-ia pensar, é uma guerra ideológica anti-comunista – mas nada disso existiria se não fossem os poços de petróleo e as armas nucleares… Então ainda estamos muito longe da consumação desse tempo. O século XX foi um tanto superestimado por Dugin.
“Nós acreditamos que ao nível (sic) da antropologia política esse soldado político está confrontando o andróide pós-humano rizomático.” Basta trocar ‘nós’ por ‘não’ e temos uma sentença impecável.
“E seu espaço antropológico está sendo ocupado[pós-modernos e seus gerúndios improfícuos…] por uma nova personalidade, uma personalidade muito astuta e suspeita, que não é o soldado político, mas, ao mesmo tempo, não está relacionado (sic) ao sub-indivíduo twitteiro sibilante e rizomático. Essa personalidade é o simulacro do homem político. É algo que imita o soldado político, do mesmo modo que a pós-modernidade imita a modernidade. (…) Isso é o porquê temos esse fenômeno do fascismo contemporâneo, que é um excelente ilustrador dessa condição.” HAHAHAHAHA! Ler isso num livro é surreal – é como estar lendo um comentário de internet. Estou cercado de sub-indivíduos!
“Todo pedaço do fascismo, que constituiu a estrutura do soldado político, se perdeu depois de 1945. Cada e todo fascista declarado depois de 1945 é um simulacro. Os medos dos liberais, tomando a forma dos fascistas, são uma completa paródia, eles não diferem tanto das massas decompostas e semi-dissolvidas.”
“É tanto a aflição fantasmagórica, a qual Baudrillard deu, (sic) descrevendo o mundo com categorias pós-históricas radicais, quanto o sentimento de que não estamos satisfeitos com esse invólucro, [deleuziano] com essa perspectiva pós-antropológica.” “Tendo trazido a questão da antropologia, devemos procurar uma solução e ao mesmo tempo reconhecer essa pós-antropologia, que é não esperar o vindouro vir e sim considerar que está-aí.”
“a teologia política pressupõe a existência do telos político, que pode ser feito por humanos, como o Leviatã de Hobbes, [uma péssima solução – além disso teologia e teleologia são duas coisas diferentes, embora se pareçam, admitamos] ou por não-humanos, como o modelo católico do ‘imperium’, que estava próximo ao coração de Schmitt.”
“É impossível falar sobre antropologia política enquanto se descreve o modelo pós-antropológico da política atual.” “nós observamos epistemas paradigmáticos que são empurrados e promovidos do mesmo modo como foram em quadros da política clássica. Eles permanecem aqui, estão ficando[,] e isso significa que a Política em seu sentido mais amplo está-aí, não é apenas que nem mesmo o homem ou sequer Deus estejam lá [fora do alcance da política moderna, agora que foi suplantada pela política pós-moderna].”
NEM DEUS NEM O SOCIUS (HOMEM) – corpo sem-órgãos ou humanista, ou outro modelo qualquer –, MAS SEMIDEUSES (avaliadores de valores): “[minha]Angelopoliteia (política angelical), que é uma modificação da teologia política para a angeologia política. O que queremos dizer é que a esfera da Política está começando a ser controlada por e está começando a aterrar em confronto[s] das [entre as] entidades supra-humanas.” “Realmente há um centro de comando na pós-política, há atores, há decisões, mas eles estão todos desumanizados na pós-modernidade, estão além dos quadros da antropologia.”
DESTINO VS. ATOR POLÍTICO: “O resto não dependerá do homem[;] (…) será uma guerra de anjos, guerra de deuses, um confronto de entidades, não-amarradas pelas leis e padrões históricos e econômicos, que não se identificam com certas elites políticas nem religiões.” Porém, o mesmo poder-se-ia dizer do materialismo histórico radicalmente interpretado. Somos vontades não-livres.
“A angeologia política deve ser pensada como uma metáfora que é também científica e racional.” Dugin não é muito bom com metáforas!
O anjo é o gênio? Não considerado como indivíduo superior, mas como o espírito aconselhador socrático, que intervém em momentos-chave? Enfim, demonologia política seria uma nomenclatura cem vezes mais interessante…
COMING FULL CIRCLE (PLATÃO-MARX):“Não há uma palavra como ‘coisa’ em grego e isso é muito importante, porque significa que o conceito de realidade é também ausente.” “existem as palavras gregas pragma, existente e prática para o latim res. Pragma é a ação e o objeto ao mesmo tempo. § É muito interessante: a totalidade da metafísica grega evolui entre ‘teoria’ como contemplação e ‘ação’ (praxis)[,] mantendo distância da grave subjetividade latina, ‘coisificação’ escondida no termo res.”
“Se ampliarmos à (sic) mencionada dualidade do gráfico supracitado nos depararíamos com o modelo guénoniano de ‘princípio-manifestação’.” René Guénon: autor relativamente desconhecido. E no entanto o que se pesquisa sobre ele não é nada auspicioso (esotérico; leitura benquista por O. de Carvalho, o câncer do Brasil, etc.)… Não existem coisas como ‘dogmas’ em metafísica, noção que nos é apresentada como sendo dele, já num primeiro resumo sobre sua obra – a não ser para os charlatães; estes definem seus dogmas tão arbitrária quanto convenientemente a fim de se tornarem best-sellers imerecidos… Se é que devemos estudar as obras de alguém antes de julgá-lo com propriedade, porém, valeria a pena, a quem interessar possa, tendo tempo, checar esta sua 1ª obra (em que pese ser um ocidental, portanto devemos ser duplamente céticos quanto à possibilidade de um westerner compreender profundamente como os orientais compreendem eles mesmos sua própria metafísca – o interesse está muito mais no tema que no escritor): “In 1921, Guénon published his first book: an Introduction to the Study of the Hindu Doctrines [procurar a versão francesa]. His goal, as he writes it, is an attempt at presenting to westerners eastern metaphysics and spirituality as they are understood and thought by easterners themselves, while pointing at what René Guénon describes as all the erroneous interpretations and misunderstandings of western orientalism and “neospiritualism’ (for the latter, notably the proponents of Madame Blavatsky’s Theosophy). Right from that time, he presents a rigorous understanding, not only of Hindu doctrines, but also of eastern metaphysics in general.” “For all his intellectual skills might be, it seems unlikely that he succeeded just by himself or with the help of a few books in getting the profound and enlightening understanding of the Vêdânta he seems to have acquired by the age of 23.” As últimas aspas são de David Bisson. Muito suspeito, realmente!
“Vamos relembrar a definição grega original de mito: mito é uma história contada durante o ritual. A dualidade mito e ritual é um dos itens básicos tanto da história da religião quanto da antropologia social e é amplamente discutida. Então vamos para a filosofia e vemos¹ mentalidade-atividade (esse par de termos é muito semelhante a teoria-prática). E finalmente, a tecnologia é bastante simples[?] – esta é a dualidade do projeto e sua realização.”
¹ “vamos para a filosofia e vemos” é uma construção frasal de oitava série em português. Creio nunca ser demais expor a ruindade desse ‘escritor’. Será que apenas russos com português como 2ª língua no campo da tradução se interessam por Dugin?
<A> TAREFA: “Não é por acaso que falamos sobre Dasein como o assunto da teoria política. Dasein é o exemplo sugerido e proposto por H. como uma aspiração para superar o dualismo sujeito-objeto” “O personagem principal do Dasein é ser ‘entre’.” Todo esse ‘tempo’ de livro e só agora faz esse tipo de observação…
“Não devemos usar o sistema de dualismo político clássico, a topografia cientifica tanto nova como do tempo de Aristóteles,¹ ao falar sobre a Quarta Teoria Política e presumir este fato de que o sujeito e o núcleo, o exemplo básico do pólo da Quarta Teoria Politica[,] é Dasein.” Porque seria e não seria ao mesmo tempo.
¹ O pensamento lógico deve ser superado… logicamente.
“Heidegger disse que se queremos compreender o Dasein devemos perceber e formar a ontologia fundamental, que seria não perder contato com as raízes ônticas do Dasein[o ‘metafísico banal’, o presente]e não ascender ou sublimar (cedo ou tarde) a qualquer coisa relacionada com a construção filosófica geral de 2 mil anos atrás (se seguirmos o caminho de Platão ou os mais recentes filósofos pré-socráticos até Nietzsche) em que o tempo moderno se baseia.” “Do ponto de vista da análise do Dasein, ambos, sujeito e objeto, são construções ontológicas, crescidas a partir do ‘entre’, inzwischen ôntico.”
Porém, há um grande problema: implicaria que a praxis marxiana não é já esse entre entre teoria-prática, o ‘-’ do dualismo. Dugin ejeta a praxis para sinonímia de prática stricto sensu, prática revolucionária, e nesse ponto erra sua exegese de Marx, pois o subestima.
“Ao contrário do Hegelianismo, do Marxismo, teoria comunicacional e toda estrutura moderna, em princípio não estamos interessados em qualquer coisa sobre a linha entre teoria e prática.” “a questão da prioridade tanto da consciência como da matéria durante o período soviético é completamente idiota.” Se se dá primazia a alguma, sim; mas não há primazia, o resto é revisionismo. Dugin age como o mais idiota da escola dos liberais, que ele mesmo já criticou e ainda criticará neste livro, como Popper, o bruxo farsesco de Hollywood (alusão a Harry Potter), mais para bufão ou ‘clown da côrte pós-moderna’,¹ ao ‘refutar’ Marx via discurso sonambúlico ‘socialismo <<<real>>> na URSS fracassou’, etc.
¹ Acho que, mesmo sem ser espetacular, sou muito melhor com metáforas que nosso querido autor russo!
DO NADA… “Assim, devemos adiar tais itens como espírito e dimensão divina, e avançar em direção ao caos e outros itens orientados profunda e verticalmente.” E como sempre, Nietzsche é citado perto da palavra caos. Como fica claro no trecho sublinhado, Dugin quer de alguma forma ver a sociedade se tornar aquela discoteca cheia de identidades vazias dançando rockabilly ou o que quer que o valha…
O “MARX” DE MARX (não funciona): “O que é a Quarta Prática Política? É uma contemplação. O que é a manifestação da Quarta Prática Política? É um princípio a ser revelado.” Dugin pensa criar algo novo, e não retroagir a Hegel, ao estipular o seguinte, após o historicamente dado: Hegel – Marx (inversão de Hegel) – Dugin (inversão de Marx). Falácia primária. Quer fugir também de Weber (gaiola de ferro) ao remar de volta ao Alemão clássico (herdeiro ao mesmo tempo do Romantismo e do zero absoluto do romantismo em Kant): “É um princípio de atitude mágica[anti-burocrática, anti-cristã, anti-moderna] para o próprio mundo baseado na idéia de que o imaginável é o único com o que nos deparamos e tudo com que nos deparamos não é nada mais que um pensamento. Que tipo de pensamento é este? O pensamento puro.” Abstração kant-hegeliana. Espero não ler elogios à alquimia nas próximas páginas, cof, cof…
“tínhamos aniquilado quaisquer outros espaços antes de declararmos, não na consumação, mas logo no início, antes de declararmos num contexto pré-ontológico.” O mundo já foi conquistado (Heidegger). Só há uma geopolítica do zero em 2000.
DESTRUINDO COM O MARTELO, &C, &C… “Esse monte de sucata que tem se manifestado não é acidental e possui uma lógica profunda. Metafísica Primordial, primordialidade expressa nas técnicas, modernas e pós-modernas.” “ou nossa luta política é soteriológica [redentora]e escatológica [pós-apocalíptica, pós-escatológica, já que o apocalipse já aconteceu na Política do século XX] ou não faz sentido.”
“A virtualidade[reino da mentira, distopia pós-modernista] é mais próxima do modelo mais-que-original da Quarta Teoria e Prática Política que qualquer outro elemento.” E aqui, de novo, Dugin sabe mentir ao criticar Nietzsche parecendo que não o compreendeu e usando sempre seus expedientes, sem crédito, dentre os quais, agora fica evidente, o saber mentir (“maneira divina de pensar”, Vontade de Potência, paradoxo da árvore que quanto mais cresce no firmamento mais enterra suas raízes no ‘maléfico’ do subsolo, etc.).
“Podemos dizer que o rizoma de Deleuze é uma paródia pós-moderna e pós-estruturalista do Dasein de Heidegger.” “Porém, prestemos atenção ao fato de como faz o pós-modernismo para resolver o problema invertendo a ordem da coluna, através da atração para a superfície, sendo esta a idéia principal que vemos em Deleuze. Lembremo-nos de sua interpretação do ‘corpo sem órgãos’ de Artaud, da sua interpretação da necessidade da destruição, do nivelamento das estruturas e sua interpretação da capa epidérmica do homem (a pele) como base para uma tela onde as imagens são projetadas.” UMA BOLA DE CARNE QUE ATROPELARÁ O CAPITAL.
“Deleuze disse: ‘Libertem o Homo demens!’.” “Aí vem a ‘máquina de desejo’, o processo rizomático, com ideias iônicas e temporalmente crônicas. Esta demência pós-moderna é muito parecida com a Quarta Teoria Política” Esquizodaseinanalyse de novo? Ou esquizod’a[sei]nalyse
“Finalmente, quero dizer que o fim dos tempos e o significado escatológico da política não vão acontecer sozinhos, [ó!] vamos esperar pelo fim em vão. O fim nunca virá se esperarmos por ele e ele nunca virá se não o fizermos.” Porém, como já enunciado, ele será feito. Ele nos fará fazer.
“Este é um grande arsenal do assim chamado (…) ‘noch nicht’.” De novo (estou ficando repetitivo): tirando conhecimento de Marx e Nietzsche. O problema de qualquer leitor ‘não-iniciado’ é que tomará os dizeres ao pé-da-letra. Devemos avisá-los de que nenhum botão vermelho será pressionado.
“Inclusive anteriormente ao Cristianismo [a sociedade proto-européia] era também patriarcal, até nos tempos imemoriais que foram estudados no mediterrâneo por Bachofen no seu O Direito Materno.” De acordo.
“Assim, nas sociedades arcaicas, somente quem sofreu a iniciação pode ser considerado como um homem, caso contrário este alguém não possui sexo social, ou seja, um gênero[;] e é privado das funções sociais masculinas (casamento, participação na caça e ritual).” Mas nessas tribos patriarcais não ter sexo é o mesmo que ser mulher, objetificado(a).
“em algumas sociedades escravistas, os escravos não eram identificados com homens, eles usavam roupas de mulher.”
Para Dugin, o liberalismo é mais machista até que o fascismo.
“a mulher de negócios é uma mulher que manifesta qualidade masculina, feminina – cidadã, uma mulher – branca.” A mulher negra: a última barreira.
“Logo, o feminismo liberal, ou a aspiração de dar à mulher liberdade, significa identificar a mulher com o homem e equalizá-los social e politicamente, isto é, representar socialmente a mulher como um homem.” “Uma mulher que se senta ao volante é um homem ou uma caricatura de homem.”
“O conceito de igualdade de gênero da segunda teoria política [socialismo] se diferencia qualitativamente da compreensão de igualdade da primeira teoria política. [liberalismo] O feminismo, o igualitarismo de gênero no marxismo, acredita que ambos, homens e mulheres, serão envolvidos na [nova] ideologia (…) como uma questão de fato, deixa de ser homens e mulheres que constituem o padrão e o imperativo de gênero do liberalismo.”
“O filósofo neomarxista húngaro[Meszaros? Por que não citá-lo?] disse que ‘o proletariado é aquilo em que sujeito e objeto são os mesmos’. [correto] Partindo de tal formulação, marxistas consistentes[o que seria um marxista inconsistente?] clamam pela insanidade, [!] por uma esquizofrenia, por uma esquizo-revolucionária (sic) (Deleuze).” Não misture alhos com bugalhos.
“o indiferenciado reino do trabalho, onde não há diferença qualitativa entre a ‘boa cozinheira’, o marinheiro ou o herói masculino. Vladimir Lênin uma vez disse: ‘Sob o socialismo, qualquer boa cozinheira poderia com a mesma facilidade governar um Estado’.” E Hannah Arendt acha isso ruim!
A boa cozinheira à copa não torna. Lugar de mulher é onde ela quiser.
“O marxismo oferece algo ainda mais baixo, onde nada sobra das hierarquias de gênero e estratégias.” Estragou tudo, sr. Dugin!
“O fascismo aceita o conhecido modelo dos citadinos, brancos, europeus, sensatos, ricos e o exalta. Se o liberalismo aceita este modelo como norma, o fascismo começa a preencher o homem com propriedades adicionais. Ele não deve ser um simples branco nórdico, não apenas racional, mas unicamente racional (da forma como somente os germânicos possuem racionalidade).” “Além disso, a masculinidade é exaltada e as mulheres eram incitadas a se envolver com KKK: Kinder, Kirchen, küchen.”
“Se virmos razão, riqueza, responsabilidade, cidade, pele branca, sacamos uma arma e atiramos. Este homem precisa morrer, ele não tem chance de sobreviver, pois é fechado num impasse histórico moderno, ele reproduz hierarquias pequenas e não pode ir além de suas próprias fronteiras.”
“Atributos positivos do homem, para além do paradigma moderno: não-adulto. O sujeito da Quarta Teoria Política é um macho não-adulto. [péssimo, ainda como metáfora] Por exemplo, Le Grand Jeu (nome do grupo literário próximo ao surrealismo) deGilbert-Lecomte e René Daumal, que se ofereceram para construir uma vida sem amadurecimento, para permanecerem crianças brincando. Isto pode ser considerado como um convite para desenvolver os princípios de gênero da Quarta Teoria Política” E que foi deles com essa dadaíce toda?
“Aqui usamos da antropologia social e da etnologia de Lévi-Strauss, isto é, a partir da análise das experiências de muitas sociedade[s] não-brancas. Além disso, a loucura: são todas formas de transgressão intelectual, a prática da insanidade voluntária de Friedrich Hölderlin e Nietzsche até Bataille, Artaud.” Aqui há um mal-entendido e fetichização. Não há loucura voluntária. Isso até o limitado Deleuze sabia. Doido é o Dugin. Quando não inventa demais, Dugin se mostra um antropólogo razoável.
RED NECKSNOT ALLOWED:“Em geral, não-branco, insano, não-urbano ou inserido em uma paisagem. Por exemplo, o ecologista, o representante de uma comunidade, isto é, uma pessoa que não rompeu com a natureza, como Redfield em seu The Folk Society [jornal].”
“A Quarta Teoria Política pode ser dirigida ao ser andrógino, e este gênero é o andrógino? Talvez, mas somente se não o projetamos nos óbvios modelos andróginos de divisão de sexo como metades.”
Quem é Gilbert Durand? Só aparecem prováveis homônimos não-relacionados no google…
“Agora estamos no momento de uma reextensão e ruptura final de um gênero. Etapas dessa ruptura são o feminismo, o homossexualismo e a operação de mudança de sexo.” Não! Armadilha neoliberal… E tradutor incauto com isso de –ismo… Dugin fala tanto de raiz, cita a raiz do termo grego, radicula, mas ignora o feminismo radical… Trocando as bolas não se muda o jogo: é necessário refundá-las (profundo…)!
Esqueçam esse maldito triângulo edipiano re-re-reencarnado chamado Artaud-Foucault-Deleuze!
“Elementos do fascismo na pós-modernidade são representados pela prática do BDSM.” Sim, essa frase apareceu sem qualquer transição ou contexto!
A BOMBA A-SSEXUAL
Contra a bomba de H.idrogênio, a bomba de Estrogênio…
Plantar uma sexualidade vegetal em vez de minas…
“Este é o momento mais perigoso da filosofia da liberdade que começa a retirar a liberdade de dizer ‘não’ sob os auspícios da absolutização da liberdade.”
“Uma máquina de corte é o argumento absoluto dos defensores do progresso.” Agora entendi a obsessão de Deleuze com ela! “Tudo poderia ser compreendido, mas uma vida sem uma máquina de corte? Esta é uma afirmação verdadeiramente não-científica: uma vida sem uma máquina de corte é impossível. Não há vida. A vida é uma máquina de corte. Este é o poder do argumento liberal em operação que se manifesta com seu lado totalitário.” HAHAHA
“Isso [o grande engano sobre o ideal de liberdade] deve ser buscado não na época em que Descartes, Nietzsche ou o século XX emergiram, mas em algum lugar da filosofia pré-socrática. Heidegger viu esse momento no conceito de physis e na desvelação (sic) suficiente do estudo platônico das Idéias.” Engraçado que há algumas páginas prescrevia “parar de se preocupar com o passado de dois milênios de filosofia continental e focar no presente, no ser-aí atrás da compreensão do Dasein (o que pode até ser verdade – pun intended –, mas repetido centenas de vezes por Heidegger & sucedâneos sem qualquer indicação ou descoberta mais exata e que avance a questão já cheira a filosofia de boteco).
IRONIAS TRÁGICAS NO REINO DA CULTURA
Para Dugin, o comunismo submergiu – eia, enterro sempiterno! O conservadorismo, tradicionalismo, seja lá que nome rupestre e bucólico se dê a essa doença nostálgica, também submergiu… mas não há problema em ressuscitar esse cadáver, nenhum problema, basta querer! Os socialistas, pelo visto, não querem com a força materialista devida! Para D., aliás, os fundamentalistas islâmicos, que cavaram tão fundo que acharam petróleo, devem ter realmente encontrado a origem ontológica de todos os problemas, numa conversa com os japoneses do outro lado do túnel, digo, do poço! Agora, deixando de esquizopoetizar, é deveras trágico que os muçulmanos, que ajudaram a salvar a sabedoria antiga para que renascera entre os ocidentais, hoje sejam seus principais adversários ideológicos, pelo menos na acepção explosiva do termo (não se trata de piada ou jogo de palavras, já que a oposição chinesa é mais resignada e petrificada, durará mil anos se for preciso).
O sobrinho-neto de Jacob Burckhardt é um branco suíço neo-alquimista pseudo-polímata idiota!
“Louis Pauwels e Jacques Bergier, os autores de O Amanhecer dos Mágicos escreveram: ‘O fascismo é guénonismo¹ com mais essas divisões’.”
¹ Triste (vide acima os wikia sobre Guénon). O gnosticismo e o esoterismo da antropologia da religião mediana costumam ser apenas peneiras que falham ao ocultar o sol nazi que ilumina a cena por trás.
“Em um dos congressos em Roma dedicados ao vigésimo aniversário da morte de Evola, eu dei uma palestra, ‘Evola – visto da sinistra’ (Evola – uma visão desde a esquerda) na qual eu sugeri examinar Evola desde posições esquerdistas (ainda que
ele se considerasse de direita, até mesmo de extrema-direita).” Parabéns pra você! (DV) Apropriações de Evola pelo campo democrático me dão náusea.
Outra coisa que me chama a atenção: Dugin falar tanto da televisão, em termos quase que bourdieusianos, num livro da década passada! O tiktok vaporizou o campeão olímpico de zapping! Gex é um atleta de elite perto do millennial padrão. Cavando rumo ao abismo, não se pode imaginar nada mais raso: depois disso, começarão a devorar enciclopédias em mosteiros – tem de haver um ponto de inflexão em que o buraco negro começa a vomitar matéria!
Eu realmente não imagino Putin meia hora com Dugin – ou 15 minutos LENDO Dugin…
“Velhos crentes parecem ‘retardados’ para nós, mas eles não o são. Eles são diferentes, eles agem dentro de outro tópico.” HAHAAHAHAHAHAHA
Eles são tão retardados que reagirão em 2050.
Lévy-Bruhl: more like Lévy-BRUH
bruhromance, o livro secreto de Bachofengshui
A MANDO DA CIA:“Primeiro, Fukuyama pensou que a política havia desaparecido e que ela estava prestes a ser substituída pelo ‘mercado global’, no qual não haverá nações, Estados, etnias, culturas ou religiões. Mas então ele decidiu que seria melhor desacelerar um pouco e implementar a pós-modernidade mais calmamente, sem revoluções. Porque revoluções podem estar acompanhadas por algo indesejável que poderia atrapalhar o plano do ‘fim da história’. Então Fukuyama começou a escrever que era necessário fortalecer os Estados-nação momentaneamente – este é o conservadorismo liberal.”
“primeiro o filósofo inglês Edmund Burke simpatizava com o Iluminismo, mas após a Revolução Francesa ele o rejeitou e desenvolveu uma teoria conservadora liberal com uma crítica frontal da revolução e das esquerdas.” E hoje sabemos que ele era ignaro em relação à França.
“Eles podem até mesmo gritar em algum momento: parem!Vendo o que a pós-modernidade está trazendo[mais sintaxe horrorosa…]¹ e olhando duramente para o rizoma de Deleuze, eles se sentem como se estivessem no lugar errado.² Ademais, eles temem que uma desconstrução acelerada da modernidade, despontando na pós-modernidade, possa libertar a pré-modernidade.”
¹ Experimentasse um: Ao ver o que a pós-modernidade traz, com dureza no olhar… Enfim, não se pode chamar um “tradutor em tempo real” de tradutor, ainda mais se ele tem todo o tempo do mundo para revisar o texto, diferente do tradutor oral em evento ao vivo!
² Nem sempre uma tradução precisa ser mais longa que o trecho original (o que não tenho como comparar, pois não sei russo): sentem-se no lugar errado, mais uma sugestão para o tradutor deste trabalho, se um dia puder ler-me e incorporar algumas lições! Ah, é uma profusão de eles, eles, eles… Aqui D. está falando dos liberais, para contextualizar.
“Por exemplo, o liberal Habermas (An Unfinished Project?, 1992), outrora da esquerda,¹ diz que se ‘nós não salvarmos um rígido espírito do iluminismo agora, uma fidelidade aos ideais do sujeito livre, uma liberação moral, se não segurarmos a humanidade na margem, não apenas cairemos no caos, mas também voltaremos à sombra da tradição, cujo meio de enfrentamento é a própria modernidade’.”
¹ Os desistentes da esquerda são os piores dentre os reacionários.
“Normalmente, conservadores liberais não fazem uma análise da correlação entre liberalismo e comunismo como a que fizemos, e assim eles continuam a temer o comunismo.” “Mas alguns liberais efetivamente crêem hoje que ‘os comunistas perderam terreno apenas temporariamente’ e ainda podem retornar. Extrapolando medos equivocados, o anticomunismo contemporâneo cria quimeras, fantasmas, simulacros em um grau ainda maior que o antifascismo contemporâneo.”
É HOLLYWOOD, E, AFINAL, ELES APRENDEM VENDO (E FAZENDO) FILMES DE TERROR: “Mas o conservadorismo liberal, em regra, é alheio a essa ironia [Che Guevara em outdoors, etc.] e não está inclinado a zombar de ‘vermelhos’ ou ‘marrons’. A razão disso é que o conservadorismo liberal teme a relativização do logos na pós-modernidade, ao mesmo tempo estando incerto de que o inimigo foi completamente destruído. Ele sonha que um cadáver estirado ainda se move e é por isso que ele não recomenda chegar muito perto, zombar e brincar com ele.” Vejo nesse ‘homem’ liberal a característica dadaísta acima: os “machos não-adultos” na arte, agora na política e economia…
UMA ETIQUETA MUITO FROUXA (E PORTANTO INSERVÍVEL): “Outros pensadores que pertencem a essa escola [‘conservadorismo revolucionário’, hahaha!]¹ são: Martin Heidegger, os irmãos Ernst & Friedrich Jünger, Carl Schmitt, Oswald Spengler, Werner Sombart, Othmar Spann, Friedrich Hielscher, Ernst Niekisch e toda uma plêiade de autores,principalmente alemães. Algumas vezes, eles são chamados de ‘os dissidentes do nacional-socialismo’²(…) Muitos deles participaram em atividades antifascistas subterrâneas e ajudaram judeus a fugir.[que bom! redimiram-se na vida privada, pelo menos…] Particularmente, Friedrich Hielscher, um conservador revolucionário de primeira linha³ e apoiador do renascimento nacional alemão[,] ajudou o famoso filósofo judeu Martin Buber a escapar.”
¹ Outros oxímoros para rir: reacionarismo avant-garde, vanguardismo gradual, radicais moderados.
² A mais pura coincidência!
³ Esse tipo de expressão devia ser banido do léxico.
Uma Play AD de autores.
“Um termo geral na filosofia heideggeriana descrevendo a essência do crescente domínio da técnica é Ge-stell, isto é[,] a construção de modelos cada vez mais alienantes e niilistas.” “Mas se um homem acentua a realidade objetiva como um ‘universal’ (koinon) apenas sobre o que existe (idéia de physis), ele perde [de] vista o nada que o lembra de si mesmo, levando a filosofia ao niilismo – através do Ge-Stell.”
nothing to worry about…
“No devido tempo essa lógica foi seguida por um grupo de surrealistas-dadaístas (Arthur Cravan, Jacques Rigaut, Julien Torma, Jacques Vaché) que glorificaram o suicídio. Mas os críticos [corretamente] consideravam isso uma bazófia vazia. Em dado momento eles cometeram suicídio publicamente, o que provou que arte e surrealismo eram algo tão grande para eles que por isso eles deram a vida.” L’art pour l’art = shit. E Dugin criticava o “soldado da política” previamente, lembram-se?
“Aqui podemos nos lembrar de Kirillov de Os Possuídos de Dostoyevsky (título original russo ‘Besy – Бесы’) para quem o suicídio se tornou uma expressão da liberdade completa que foi revelada após a ‘morte de Deus’.” E devemos lembrar que Kirillov era um tolo!
“Há mais uma orientação – o assim chamado conservadorismo de esquerda ou social-conservadorismo. Um típico representante seu é Georges Sorel (Reflexões sobre a Violência, 1906).” Dugin hipostasia centenas de categorias… Sorel é apenas um reacionário!
“O conservadorismo de esquerda é próximo ao nacional-bolchevismo russo de Nikolay Ustryalov.” “o nacional-socialismo de esquerda de Strasser” Ih… que foi que eu falei?! É com esse tipo de taxonomia irresponsável que os think tanks neofascistas ianques assolaram as economias frágeis e periféricas em sua estratégia de fake news, a ponto de gente com resíduos de miolos na cabeça passarem a se perguntar (os que afirmam taxativamente não passam de isentos de qualquer resquício de miolo na cabeça) ‘nazismo era de esquerda?’. Porque quando apólogos do nazismo começam a vincular o nazismo à esquerda apenas por questões de marketing (já que o nazismo é crime na democracia saudável) significa que uma tentativa de golpe de Estado está em curso (‘acuse-os daquilo que você é/faz’).
“Essa orientação está sendo desenvolvida hoje por Andrey Isaev. No outro polo da ‘Rússia Unida’, está o conservadorismo liberal de Pligin.”
“eurasianistas de esquerda”Quanto mais se multiplicam os nomes, mais irrelevantes são (se não forem PERIGOSOS). Se com isso se quer dizer os pró-China e anti-imperialismo ianque, que gostariam de ver uma aliança “ilimitada” entre China e Rússia para que o mundo volte à multipolaridade, poderiam simplesmente chamá-los de “neo-comunistas”, ou defensores da causa do “comunismo 2.0” ou, francamente, Realpolitik, pois disso depende hoje, dependerá amanhã e sempre dependeu o próprio resfriamento nuclear e nossa simples sobrevivência.
SALADA DE FRUTAS PODRES: “A única coisa que não é aceitável para eurasianistas – é o conservadorismo liberal.” Diria que sentariam na mesma mesa que eu, pois da forma como Putin descreve essa ‘corrente’, são os social-democratas russos, muito distintos dos tais nacional-bolcheviques. Uma rara (?) instância em que um binômio de duas palavras deletérias (conservadorismo e liberalismo) é muito mais benquisto que um binômio aparentemente maniqueísta ou até benigno-neutro, como temos a impressão diante das palavras isoladas “nacionalismo” (soviético, por exemplo) e bolchevismo (que perde toda conotação positiva quando inscrito ‘para inglês ver’ em movimentos neofascistas, da mesma forma e usando a mesma estratégia do ‘nacional-socialismo’, que, inexoravelmente de direita desde que foi elaborado até os fins dos tempos, nada mais é do que nazismo e totalitarismo, com um nome criado para roubar os eleitores do forte partido comunista alemão e fragmentar a classe operária com a máquina de propaganda do Führer).
“Este é um caráter específico do eurasianismo: ele considera a cultura ocidental como um fenômeno local e temporário.”
“Coincidência nenhuma que o primeiro entre os autores russos que se referiu ao livro de Guénon Oriente e Ocidente tenha sido o eurasianista N.N. Alekseev.” Um europeu escreve sobre o Oriente. Um eurasianista então se interessa pelo tema – uau, que inusitado!
“neoeurasianismo” Chega de neo- isso, neo- aquilo! Aposente o prefixo! E novamente: o problema está no uso indiscriminado. Mas para resumir essa citação na obra, Dugin dirá que neoeurasianismo = eurasianismo + Heidegger. E o mais engraçado (vide logo abaixo) é que Heidegger é na verdade anterior aos que Dugin chamará de autores eurasianistas (neodaseinismo?).
neœurasianismo™
neopósestruturalismœurasiano!…
“Periódicos eurasianos são publicados hoje na Itália, França, Turquia.” Isso é pouco, muito pouco.
“Um distanciamento da cultura ocidental permite determinar uma distância se devendo ao fato de que é possível compreender toda a modernidade e dizer a tudo um ‘não’ fundamental.” Tudo ainda a primeira fase do Zaratustra de Nie. – ou a fase do camelo.
“Aqui deve ser relembrado que os eurasianistas, os fundadores da fonologia e os maiores representantes da lingüística estrutural, Roman Jakobson(*) e Nikolay Trubetzkoy,(**) foram os mentores de Lévi-Strauss e ensinaram a ele as técnicas de análise estrutural.” Mas em que sentido eram eurasianistas? Na própria lingüística? O que quereria dizer?
(*) “Role of linguistic indications in the comparative mythology – VII”
(**) “The Legacy of Genghis Khan” Autores que viveram e produziram depois da morte de Heidegger.
“Assim, uma cadeia intelectual pode ser retraçada – eurasianismoestruturalismo-neoeurasianismo.”
“E uma vez que estamos em um período de transição incompleta – há uma grande confusão de termos: [não use isso para justificar tanto neologismo] alguns interpretam os termos básicos de acordo com seu sentido histórico original, alguns já olham para o futuro, sentindo a necessidade de mudanças semânticas (que ainda não chegaram), alguns sonham (e podem se aproximar do futuro ou simplesmente entregar-se a alucinações individualistas irrelevantes), alguns estão simplesmente confusos.” Outros ‘ficam inventando’ (como diria o tradutor espúrio) nominhos e sinônimos que não levam a lugar algum, mas servem para passar o tempo.
“Oswald Spengler em seu famoso livro O Declínio do Ocidente, opôs civilização e cultura, considerando a última como uma expressão do espírito vital orgânico da humanidade e a primeira como o esfriamento desse espírito nas formas mecânicas e tecnológicas. Para Spengler, a civilização é produto da morte cultural. No entanto, essa observação espirituosa, que interpreta corretamente algumas características da civilização ocidental, não recebeu aceitação universal e mais freqüentemente os termos civilização e cultura são usados como sinônimos.” O bom artista é o sujeito incivilizado. Finalmente uma ocasião em que faz diferença, neste livro, distinguir dois termos “parecidos”! Pena que encerra o parágrafo com chave-de-bosta: “De qualquer forma, cada pesquisador pode ter sua própria opinião.” Não é bem assim, não, amigo! O Dasein é a prova mais concreta disso: ele independe de opiniões… Ele institui toda e qualquer opinião, e não é aquilo que eu, você nem Heidegger necessariamente quer. E a cultura é o reino do Dasein.
“Mas depois de Nietzsche, o assim chamados ‘filósofo da suspeita’, esse axioma otimista foi questionado.” “Na crítica pós-moderna do otimismo histórico, o universalismo e o historicismo adquiriram um caráter sistemático e criaram os pré-requisitos doutrinais para uma total revisão do aparato conceitual da Filosofia Ocidental. A revisão em si mesma não foi plenamente implementada, mas o que foi feito (Lévi-Strauss, Barthes, Ricoeur, Foucault, Deleuze, Derrida, etc.) já é suficiente para assegurar a impossibilidade de usar o Dicionário da Modernidade sem sua completa e meticulosa desconstrução.”
“Ricoeur, generalizando a tese do filósofo da suspeita[,] mostra o seguinte quadro: homem e sociedade consistem em um componente racional-consciente (o que Bultmanu chamou de querigma e Marx de superestrutura) e um componente inconsciente (de fato a ‘estrutura’ no sentido estruturalista, a infra-estrutura, vontade de poder).” “Marx considerou as ‘forças produtivas’ e ‘relações produtivas’ como inconscientes.” É por isso que Marx é Marx.
“Isso explica a grande diferença entre a prática histórica das nações e sociedades, cheias de guerras, violência, crueldade, desordens mentais; e a intenção de uma existência harmoniosa, pacífica e iluminada sob a sombra do progresso e do desenvolvimento. § Assim, a tradição crítica, o estruturalismo e a filosofia do pós-modernismo forçaram a mudança de uma interpretação predominantemente diacrônica [dividida em estágios] da civilização, que era norma no séc. XIX e continuou a prevalecer, [em menor medida, no século XX] para [um]a [interpretação predominantemente] sincrônica.” “Podemos agora imaginar a ‘civilização’ como o numerador e ‘selvageria-e-barbárie’ como o denominador da fração condicional.”
“À primeira vista, o universalismo inclusivo parece ser uma completa antítese do particularismo exclusivo que é comum nas comunidades tribais e de clãs do período ‘pré-civilizado’. Mas, historicamente, a alegação de universalidade da civilização – ecumene e assim, singular – constantemente se depara com o fato de que, além dos povos bárbaros, além das fronteiras dessa civilização, existiam outras civilizações com sua própria e excelente versão de universalismo.” “A origem da palavra bárbaro é uma descrição de alguém cuja fala não faz sentido e é uma coleção de sons animalescos. (…) as tribos eslavas, por sinal, eram chamadas os ‘germanos’ ou ‘burros’, pois não sabiam a língua russa.”
“Chegou-se ao ponto [na Pérsia antiga] das conexões endógamas absolutas e da normalização do incesto – [tudo para] o espírito solar dos Iranianos (Ahura Mazda) não ser profanado pela mistura com os filhos de Angra Manyu[diabo].”
“Tribos são baseadas na iniciação, durante a qual o neófito é informado sobre a base da mitologia tribal. No nível da civilização, a mesma função é realizada pelas instituições religiosas e em tempos mais recentes por um sistema de educação universal, claramente ideológico.” “Parece que, atualmente, apenas conservadores opõem civilização e barbárie, presos no Nouveau Compte acrítico, ou nas pesquisas de Bentham.” Não faltam esquerdistas ‘formadores de opinião’ acusando ingenuamente tudo que nos é antagônico de ‘barbárie’ e proclamando amar a ‘ciência ocidental’.
“Enfrentamos tal onda de ignorância acrítica quando reformistas liberais tentaram apresentar a história da Rússia como uma corrente contínua de persistência ante a barbárie. (…) o primeiro McDonald’s, bancos privados, filmes e bandas de rock na televisão soviética são percebidos como ‘objetos sagrados’.” O religioso não suporta que tenhamos vindo do macaco porque seu inconsciente sabe que é ainda “pior” (melhor, indiferente): SOMOS macacos.
“Civilização no contexto do séc. XXI significa exatamente isso: uma área de influência enraizada e estável de algum estilo sociocultural, às vezes (mas não necessariamente) coincidente com as grandes religiões.”
“Hoje observamos que pensar economicamente, falar sobre Estado nacional e interesses nacionais e, mais ainda, colocar no centro da análise atitudes classistas ou raciais[,] é cada vez menos aceito. Por outro lado, raramente qualquer discurso de um político é feito sem mencionar a palavra ‘civilização’ e certamente em todo texto analítico este termo é talvez o mais comum.”
“Falar seriamente sobre raça não é provável depois da trágica história do fascismo europeu[; e a] análise de classe se tornou irrelevante depois do colapso do bloco soviético e da União Soviética.” Não foi por isso: se tornou irrelevante por causa da ascensão da classe média ocidental, ou seja, por conta do êxito soviético das décadas anteriores, não do seu fracasso. Como que “por coincidência” agora as classes médias de todos os países “democráticos” sofrem arrochos sem precedentes. Não há mais uma “ideologia inimiga” e a necessidade de demonstrar que ‘somos economicamente mais felizes’.
“Pode parecer que o único paradigma da ciência política é o liberalismo. Isso criou a impressão de que as fronteiras dos Estados homogêneos, essencialmente liberal-democratas, não mais enfrentam nenhum outro sistema que possa alegar uma alternativa global (…) e logo seriam abolidas, para que fossem criados um governo global e um Estado mundial, uma economia de mercado homogênea, com democracia parlamentar (Parlamento Mundial), sistema liberal de valores e informação tecnológica e de infraestrutura comuns.” A incapacidade de exportar o Super Bowl por si só comprovaria o contrário para todos os liberalóides incrédulos que desejassem reduzir um grau em miopia…
ZIZEK VS. PETERSON 1990s EDITION: “O desenvolvimento dos anos 90 mostrou que Huntington estava mais perto da verdade e Fukuyama foi forçado a revisar suas visões [e reconhecer] que (…) se apressou.” “F. então fez a seguinte abordagem conceitual: ele propôs adiar o fim da história por tempo indefinido e fortalecer as estruturas sociopolíticas, que eram o núcleo da ideologia liberal em estágios anteriores.” Simples: nós também adiamos o advento do comunismo global! Enfim, cada espectro político tem a Rosa Luxemburgo que merece!
“Para Thomas Burnett (e D. Bell [? Fringe??? hahaha]) ‘tecnologia é destino’ e ela incorpora a quintessência da civilização, entendida tecnicamente, quase como Spengler fez, mas com sentido positivo.” Seu cu sendo penetrado de modo inamistoso é o destino!
“O próprio Fukuyama, analisando criticamente suas anteriores colocações otimistas, ocupa uma posição intermediária [perto do otimismo tecnológico do bonachão acima]” Fukuyama é como um Reinaldo Azevedo? Foi ficando mais inteligente ou ‘menos vendido aos patrões’ com o tempo? A utopia fukuyamiana durou menos que o motor de um bom e velho Monza!
“‘Choque’ ou ‘diálogo’? – é uma questão secundária e o consenso principal de que ‘civilização’ é agora o principal sujeito da análise da política internacional[,] muito mais importante.” “Declarar a civilização como sujeito principal e atriz da política mundial é o curso ideológico mais promissor para aqueles que querem estimar o estado real das coisas na política mundial, para aqueles que buscam encontrar uma ferramenta adequada para generalizações da ciência política de uma nova era” “Civilização como conceito, interpretada no contexto filosófico contemporâneo, é o centro de uma nova ideologia. Essa ideologia pode ser definida com multipolaridade.” Good enough.
GRETA THUNBERG VS. GOLIAS II:“A oposição ao globalismo, que está se declarando em todos os níveis e todos os lugares do mundo, ainda não formou um sistema específico de crenças. E esta é a fraqueza do movimento antiglobalização – ele não é sistematizado, falta harmonia ideológica, nesse sistema elementos fragmentários e caóticos dominam e geralmente representam uma vaga mistura de anarquismo e esquerdismo irrelevante, ecologismo e até outras idéias mais extravagantes e marginais.” “Os 3 níveis [Jihad, tradicionalistas e países subdesenvolvidos] existentes de oposição ao globalismo e à hegemonia americana não podem liderar uma estratégia comum e uma ideologia coerente que uniria as várias e espalhadas forças, geralmente diferentes em tamanho.” “Conflitos e alianças são possíveis aqui. O mundo multipolar que surge nesse caso criará pré-requisitos reais para a continuidade da história política da humanidade, adotando uma diversidade regulatória de sistemas religiosos, econômicos, culturais, sociopolíticos e de valores.” “Fazer da civilização um sujeito na política mundial do séc. XXI permitirá a ‘globalização regional’ – uma união de países e nações pertencendo à mesma civilização.[entender civilização no sentido não-depreciativo aqui empregado simplesmente como cultura] Isso levará à vantagem da inclusão social, mas não com respeito a todos sem distinção, mas primeiramente àqueles que pertencem ao tipo comum da civilização. [todos os anti-imperialistas, anti-americanos]” “reconhecendo o direito dos europeus formarem uma nova entidade política [novas entidades políticas, pois a Europa é completamente fragmentária, caldeirão cultural – a revanche do colonialismo!] baseada em suas diferenças civilizacionais, é natural assumir processos similares na civilização islâmica, China, Eurásia, América Latina e África.”
“O Grande Espaço é outro nome para o que chamamos de ‘civilização’ no seu sentido geopolítico, cultural e espacial.” “Em vários grandes espaços o fator de integração pode variar – em alguns será a religião, outros, uma origem étnica comum, outros uma forma cultural comum, em outros ainda o tipo sociopolítico ou a simples localização geográfica.”
“Huntington identifica as seguintes [8 civilizações]: ocidental; confuciana (chinesa); japonesa; [tenho minhas dúvidas…] islâmica; hindu; eslavo-ortodoxa; latino-americana; e possivelmente a africana.”
“Na civilização ocidental, Huntington inclui os Estados Unidos (com o Canadá) e a Europa. Historicamente isso é verdade, mas atualmente, de um ponto de vista geopolítico, eles formam na relação entre si dois ‘grandes espaços’ diferentes e seus interesses estratégicos, econômicos e até geopolíticos divergem mais e mais.” A Alemanha não soube ler a Guerra da OTAN-Ucrânia… Perdeu uma janela de oportunidade…
“A Europa tem 2 identidades – ‘atlantista’ (que pode ser definida com a Europa e a América do Norte) e ‘continental’ (que tende, pelo contrário, a não ser somente o trampolim militar do ‘grande irmão’ norte-americano, mas a conduzir uma política independente e voltar a fazer da Europa um ator independente).
O euroatlantismo tem sua base no Reino Unido e nos países da Europa Oriental (direcionados pela russofobia) e o eurocontinentalismo tem sua base na França e Alemanha, com apoio da Espanha e Itália (a clássica Velha Europa).”
“O mundo Islâmico (…) no entanto, é dividido em vários ‘grandes espaços’ – o ‘mundo Árabe’, a ‘zona continental do Islã’ (Irã, Afeganistão e Paquistão) e a região do Pacífico com influência muçulmana. Um lugar especial nessa situação pertence à África Muçulmana, assim como às crescentes comunidades muçulmanas na Europa e América.
É difícil estabelecer as fronteiras entre as zonas de influência das civilizações chinesa e japonesa no Pacífico, cuja identidade civilizacional continua [em] abert[o].
E claro, é difícil falar da consciência geral dos habitantes da África, ainda que [n]o futuro essa situação possa mudar, pois este processo tem pelo menos 2 precedentes históricos: a Liga das Nações Africanas e os ideais Pan-Africanos.
A reaproximação dos países latino-americanos é evidente, mas dada a pressão norte-americana nos últimos anos, não podemos falar em nenhum processo de integração ali.”
“A fronteira ocidental da civilização eurasiana é em algum lugar ao leste da fronteira ocidental da Ucrânia, fazendo esse Estado ser frágil e insustentável.” Importantíssimo.
“Não existirá padrão universal – nem material nem espiritual. Cada civilização finalmente proclamará que ela própria é uma medida das coisas. Em alguns lugares a medida será o homem, em outros – religião, em outros – ética, em outros – a matéria.”
“O dia atual não dá oportunidade para falar de qualquer espaço estritamente definido para qualquer projeto esquerdista (social, socialista ou comunista), se comparado com o contraste da situação que por um século predominou no campo das ideias e projetos políticos.” Podemos chamar a primeira metade do século XXI de TROTSKISTA por excelência (“dividirmo-nos para sermos conquistados!”).
“Primeiramente, ela foi causada pelo colapso da União Soviética e pela desintegração do campo socialista bem como pelo declínio de influência e prestígio do marxismo europeu” Como os idiotas reacionários que não entendem o niilismo, toma o efeito pela causa. É impressionante e aterrador, no pior dos sentidos, verificar que um russo tido como sábio, atuante em diversos campos das humanas, ainda que anti-propaganda ocidental, não se dê conta de que a reproduz nesses pontos mais cruciais! Está pavlovianamente condicionado a repetir, como um cão da CIA além-mar que o colapso da União Soviética isso e aquilo. Dispersar forças, causar dissensão nos tais blocos multipolares que almeja formar (chega a ser absurdo!), retardar, atrapalhar: faz tudo que o Ocidente quer e não espera que nem o melhor espião instalado na Rússia consiga!
“Inicialmente, a filosofia da esquerda era considerada como sendo uma crítica fundamental, unificada e sistematizada do capitalismo liberal. Em meados do século XX um fenômeno como a crítica sistemática do projeto esquerdista emergiu (tanto dos liberais – Hayek, Popper, Aron,[a ‘bancada evangélica das ciências sociais’]etc. – quanto e dos neomarxistas e marxistas freudianos). Escolas filosóficas fizeram o mesmo à ideologia da esquerda que o projeto esquerdista fez ao capitalismo liberal 100-150 anos atrás.”
“Desde a perspectiva da experiência histórica hodierna, há 3 tendências básicas na filosofia política esquerdista,¹ que ou continuam projetos ideológicos prévios em uma nova fase, ou reconsideram o passado, ou sugerem algo radicalmente novo.”
¹ O imbecil que traduziu isso fez para sacanear: “da esquerda” é a única opção não-pejorativa.
AS 3 TENDÊNCIAS DA ESQUERDA APUD DUGIN:
Vetero-gauchistes;
Nazbol; [ERRO CRASSO – DESCONSIDERAR EM UMA ANÁLISE SÉRIA]
Esquerda pós-moderna[deleuzianos]
Realmente estamos fodidos se acompanhados de nacionalistas e criptoliberais (o que os próprios liberais chamam de ‘identitários’, grosso modo)!
Faz ainda o desfavor de subdividir os “veteranos” (nome que não tem como não soar pejorativo também) em mais 4 ‘seitas’.
“Pós-social-democratas (defensores da ‘Terceira Via’, segundo Giddens).” Isso faz um zero absoluto de sentido! Viuvinhas de Castro (no sentido de que ‘depois ele, nada será como antes’, ou seja, são apenas abutres deletérios, não veteranos clássicos)?! Como veremos mais adiante, é ainda pior do que isso, e o termo, que parece só um infeliz homônimo, realmente parece ter guiado neocons dos anos 90 (pós triunvirato do mal Reagan-Thatcher-Clinton): o herdeiro Tony Blair, o suposto criador do termo ‘terceira via’ para designar uma forma disfarçada de neoliberalismo, continuando a desmobilizar a classe trabalhadora, não instituindo o Estado do Bem-Estar, apenas que sem a mesma bala na agulha da administração da Donzela de Ferro para ferrar os britânicos populares. Bom, Giddens é inglês, devia ser o Dugin de Blair! Ou seja: o trabalhismo britânico pode ir para o inferno com seu ‘Lorde’ (título concedido a Giddens). O irônico é que, avatar da globalização (o termo neutro), ainda é considerado por D. um esquerdista, em flagrante contradição com suas invectivas antiglobalistas! Que intelectual de esquerda em sã consciência se declara pró-globalização? Alguém no poder, num país rico, é óbvio! (Portanto, pode estar à esquerda de alguns países na Europa, mas nada tem de esquerda.) Além de haver sido o braço forte de Blair, recebeu este prêmio: ‘Prémio Príncipe das Astúrias para as Ciências Sociais’. De sociólogos babacas com títulos honoríficos, já estamos cheios no Brasil, tendo um deles até ocupado o assento da presidência e retardado em mais algumas décadas qualquer colaboração regional interessante e geopoliticamente relevante com nossos vizinhos!
PÉSSIMO, PÉSSIMO, PÉSSIMO: “A inércia preserva sua existência nos países europeus, nos EUA e no Terceiro Mundo onde eles continuam a se apegar às fundações básicas da doutrina marxista. [quem dera!] Muitas vezes estando politicamente incorporados em partidos comunistas, eles professam sua ideologia relevante. [Se o Brasil tem um partido comunista funcional, será já demasiado! Quem seria capaz de apontá-lo?] Geralmente, estes marxistas ortodoxos mitigam suavemente (no espírito do eurocomunismo [nada aqui se assemelha a essa configuração muito específica, geo-histórica, européia!]) o radicalismo da doutrina marxista e rejeitam o apelo pelo levante social e pelo estabelecimento da ditadura do proletariado. [então não são ortodoxos, ó, Einstein!]O movimento trotskista (Quarta Internacional) provou ser a forma mais estável da Ortodoxia Marxista” Quem precisa de inimigos quando a Q.I. pode apunhalá-lo pelas costas? Triste afirmação a do último parágrafo. Quando o liberalismorevisionista é seriamente considerado como a raiz do marxismo atual, algo vai muito mal! E o mais irônico: Que tem a tal revolução permanente (conceito trotskista) a ver com uma suposta inércia (destacada acima)? Justamente nada; pulverizaram o marxismo.
“Tipicamente, os seguidores mais ortodoxos de Marx podem ser encontrados nos países que não passaram por qualquer revolução proletária socialista” “Essa versão de Velhos Esquerdistas¹ rejeita a experiência soviética como um exagero histórico[não diria que rejeita – é menos radical do que isto] e não acreditam (sic) no sucesso das previsões marxistas. [segundo Dugin, sem base] Porém, ela continua a sustentar suas crenças como adesão a um ‘sentimento moral’[nada como ser da minoria nutrida de caráter!] e a uma ‘tradição ideológica’ ao invés de realmente esperar uma revoltado proletariado (que parece não existir enquanto classe no mundo ocidental moderno – nesse sentido ela se fundiu com a pequena-burguesia).” Nada esperamos, realmente. Sabemos que não há condições materiais de realizá-la no cenário imperialista atual, antes de forjar as alianças multipolares de amplo alcance tão bem-enumeradas por D.
¹ Sempre detratando… É por isso que eu jamais deixo de detratar Dugin nessa análise quase parágrafo-a-parágrafo, em retaliação!
“O principal defeito dos marxistas ortodoxos ocidentais é que eles continuam a usar termos da sociedade industrializada, [é verdade; porém os malefícios desse suposto atraso são superestimados] enquanto a sociedade euro-ocidental e particularmente a americana já passaram a uma nova fase – a fase da sociedade pós-industrial (de informação).¹ E ela não foi mencionada por nenhum dos clássicos marxistas,² exceto por uma vaga intuição do jovem Marx sobre ‘a dominação real do capital’. Esta – na ausência ou em caso da derrota das revoluções socialistas – pode substituir a ‘dominação formal do capital’, inerente à fase industrializada. Porém, os marxistas ortodoxos, via de regra, não têm interesse nessas menções fragmentárias.” E nem deviam. A única coisa fragmentária que vale a pena são os aforismos nietzschianos.
¹ É como dizer que se agora tudo que está na moda é o pós-estruturalismo, nunca devemos mexer com metafísica. Um comentário suicida do ‘conservador’ Dugin, que quer uma ‘revolução civilizatória tradicionalista’!!
² O “clássico”, por definição, não abordaria o pós-industrialismo!
“Quase todos os aderentes dessa direção ideológica desconfiam de outras forças antiliberais, estão fechados para o diálogo e se degeneram em uma seita.” Hahahaha! Se o antifascismo é uma seita, eu quero ser carola! O ruim de Dugin é que ele parece estar descrevendo o PCO – ou melhor, ele ESTÁ descrevendo o PCO – enquanto tenta compreender amplos espectros sociais como a esquerda latino-americana, o lulismo, o petismo, o PSOLismo, os próprios sociais-democratas, que, todos, em maior ou menor medida, se uniram num pacto, demonstrando imensa capacidade de diálogo. Submetendo-se a alianças com o Centrão menos captado pelo bolsonarismo e até mesmo a antigos adversários e antíteses ideológicas como o Camarada Alckmin! Não é um feito pequeno de pé de página! Dugin, entretanto, perpassa-o com a profundidade de uma arraia…
“Os social-democratas europeus são um pouco diferentes dos comunistas ortodoxos. Essa tendência política se separou do marxismo, e desde o tempo de Kautsky ela escolheu a via evolucionária ao invés da revolucionária, rejeitando o radicalismo e objetivando construir a influência da esquerda (justiça social, Estado de Bem-Estar Social – Estado-Providência e daí em diante)¹ por meios políticos e através de movimentos sindicais organizados.” Onde Dugin situaria o PT se ele estivesse na Europa – chamemos de menchevismo,² se se tratar, p.ex., de um petista anti-estalinista (o pior tipo). E parece que movimentos sindicais organizados já pressupõem a inclusão da esquerda daquele país no marxismo ortodoxo, em tempos de completa erosão da luta de classes!
¹ Desmontados a cada crise cíclica do Capital.
² MENCHEVISMO vs. TROTSKISMO E REVISIONISMO: O leitor mais crítico e desconfiado me perguntaria: Ora, e qual a diferença entre o menchevique do séc. XXI (partidos de esquerda do Terceiro Mundo da atualidade; partidos europeus da época do pós-guerra, antes da onda neoliberal) e o trotskista? É que nós não escondemos o que somos, somos sociais-democratas, a contragosto e como fato estratégico, por demasiado senso de realidade (não haverá uma revolução local enquanto os EUA derem as cartas no mundo – não diria nem que padecemos de falta de esperança ou ceticismo, somos apenas bons observadores, não pessimistas, mas sábios); os trotskistas só querem a continuação do que está aí, mas mesmo assim se chamam de bolcheviques mais autênticos que os soviéticos mais abnegados em sua época. E cá entre nós: quem não gosta de um Estado do Bem-Estar Social? O problema é que onde há uma Cuba, há Estados Unidos destruindo e boicotando tudo. A China (ou Eurásia) é sim uma boa-nova, no horizonte…
“Os social-democratas defendem:
Imposto de renda progressivo (vs. liberais defendem uma alíquota proporcional);
Nacionalização dos grandes monopólios (vs. liberais – privatização); [isso por si só, na Venezuela, quase causa uma invasão direta norte-americana (diferente da ‘guerra de procuração dos 2 Vietnãs-satélites de EUA/URSS) – a primeira da História contra um país ‘comunista’ ou ‘claramente não-neoliberal’ – ainda mais quando falamos de monopólio de empresas petrolíferas!]
Atribuir maior responsabilidade ao Estado no setor privado;
Saúde, educação e aposentadoria gratuitas (vs. liberais – redução da intervenção do Estado na economia, saúde privada, educação privada e planos de aposentadoria privada). [os social-democratas representam minha visão de paraíso]”
Ora, se eu não posso ter ainda os dedos, eu quero os anéis, um por um! Não vejo problema…
“Os social-democratas tentam implementar essas demandas através de mecanismos eleitorais parlamentares e, se confrontados com situações críticas, através da mobilização de sindicatos e organizações públicas até a realização de greves. [ambos vêm se demonstrando ineficazes: parlamentos conservadores mesmo em governos de esquerda; desintegração dos direitos trabalhistas.]
É significativo que os social-democratas usem slogans libertários (não confundir com liberais!):
Legalização das drogas leves;
Proteção de minorias sexuais e étnicas e dos casamentos homossexuais;
Extensão dos direitos civis e liberdades individuais; [aborto, etc.]
Ecologia; [nome bonito e inofensivo para sobrevivência]
Mitigação da legislação (abolição da pena de morte), etc. [para casos irreversíveis de desumanização – bolsonarismo –, sou a favor da pena de morte]”
“Além disso, social-democratas clássicos normalmente defendem:
Progresso; [vago e inócuo]
Luta contra preconceitos arcaicos e religiosos;
Ciência e cultura. [Somente num país que nunca teve ciência – como nunca tivemos, não é possível exagerar nela – diferente da Alemanha do séc. XIX… Pulamos a parte da Ilustração quando conseguimos repeti-los em seu pior, o que vem depois: ascensão de um Hitler.]”
“São os defensores da Terceira Via que são renegados dos movimentos esquerdistas, de fato. E apenas ex-trotskistas vão mais longe do que isso (os trotskistas americanos – os principais teóricos neoconservadores; e os trotskistas europeus, por exemplo, Barroso, o presidente português da Comissão Européia), que mudaram suas visões do comunismo extremista e do socialismo revolucionário para uma igualmente radical defesa do liberalismo, do mercado e da desigualdade econômica.”
“O ‘Nacional-Esquerdismo’ deveria ser considerado um fenômeno muito especial. Diferentemente do marxismo ortodoxo e da social-democracia, essa tendência tem sido pouco explorada e sua interpretação correta é uma tarefa do futuro. O caso é que o próprio Nacional Esquerdismo (sic) quase nunca faz propaganda de sua idéia nacional, a oculta ou até abertamente a critica. Conseqüentemente, o estudo do discurso aberto ou direto do movimento, partidos e regimes nacional-comunistas são dificultados devido ao fato de que as teses discursadas ou correspondem com a realidade apenas parcialmente, ou de jeito algum.”
“Nacional-comunistas se consideram ‘apenas comunistas’, ‘marxistas ortodoxos’, que seguem estritamente as ideias clássicas marxistas.” Achar que somente os países “não-preparados para o comunismo” efetivamente atingiram revoluções comunistas, como Dugin faz, é uma forma mal-disfarçada de acreditar no progresso e na linearidade da História: chegará o dia em que…, só deu errado porque…, nada até aqui comprova a tese do adversário…, todos os problemas serão resolvidos amanhã…, etc. Não há regras fixas e imutáveis. O pior é que Dugin tenta passar essa mesma mensagem seu livro inteiro e não percebe que recai em contradição. Cabe perguntar: para Dugin, China e Venezuela seriam nacional-comunistas? A China tenta reorganizar o mundo em frentes multipolares, como líder do movimento anti-imperialista; a Venezuela, sem forças para liderar, é no entanto agente ativo e colabora com o projeto político chinês. São realmente comunistas. O fato de não haver um comunismo mundial ou pelo menos entre os próprios vizinhos de ambas as nações em nada contraria essa classificação.
“O nacional-comunismo predominou na URSS, na China comunista, na Coréia, no Vietnã, na Albânia, no Camboja e em um número de movimentos comunistas nos países do terceiro mundo – dos ‘Chiapas’ mexicanos e do ‘Sendero Luminoso’ peruano ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão e ao socialismo islâmico.” “o nacional-socialismo anti-hitlerista de esquerda dos irmãos Strasser”
“Evo Morales é o primeiro líder latino-americano de origem indígena” Até Dugin reconhece o óbvio pioneirismo desta façanha.
“a China, nas condições atuais, mais e mais focando no componente nacional de seu modelo social e político, prova que esta base, transformada no tempo adequado e de modo delicado, pode permanecer competitiva mesmo após o triunfo global do capitalismo liberal. Por outro lado, a experiência da Venezuela e da Bolívia demonstra que os regimes nacional-comunistas aparecem hoje em dia e demonstram sua viabilidade mesmo diante de sérias pressões.” Conclusão: não existe nacional-comunismo, apenas comunismo do século XXI.
“Ausência de conceitualização e racionalização do componente nacional em toda a idéia-complexo dos movimentos e ideologias Nacional-Comunistas (a maioria dos aderentes dessa direção ideológica se considera ‘apenas marxistas’ e ‘socialistas’)” Dugin não percebe que com bastante probabilidade isso significa tão-só que não existe esse tal <nacional-comunismo>, categoria forjada dentro de sua própria cabeça.
“Algo que hoje deve corresponder quase completamente com a combinação de palavras ‘projeto da esquerda’ é chamado ‘neoesquerdismo’ ou ‘pós-modernismo’. Em todo o espectro de idéias esquerdistas no início do século XXI essa direção não apenas é a mais inteligente, mas também a mais pensada, intelectualmente regulada e sistematizada.” Caiu no conto de Washington. É a idéia mais pensada (não a mais sábia!) e a menos agida, digamos assim.
“Através de Sartre, clássico dos ‘novos esquerdistas’, [!] Martin Heidegger e a problemática existencialista influenciaram profundamente o movimento esquerdista.” “No sentido filosófico, os ‘novos esquerdistas’ eram estruturalistas, porém, desde meados da década de 80 eles passaram ao ‘pós-estruturalismo’, desenvolvendo ainda mais esse impulso[,] filosófico e começaram a criticar suas próprias perspectivas das décadas de 60 e 70.” O círculo se fecha sem deixar herdeiros ou legado. O círculo estéril.
“Os ‘novos esquerdistas’ reduziram todas as versões do deciframento da ‘infraestrutura’ ao esquema integrante, no qual o papel da ‘infraestrutura’ enquanto tal – independentemente da tendência filosófica específica – foi transferido para o conceito de ‘estrutura’.” “Os novos esquerdistas reencarnaram as idéias de Rousseau sobre um nobre selvagem e ofereceram um panorama da sociedade ideal, na qual não se pode encontrar exploração, alienação, mentira, supressão, exclusão, em analogia com grupos arcaicos praticantes da ‘economia da dádiva’.” “O livro de A. Negri e M. Hardt, Império, no qual as teses dos novos esquerdistas são simplificadas até a primitividade, pode ser considerado um manifesto político dessas tendências.” “O movimento antiglobalização como um todo é orientado por este projeto futuro. E eventos como o Foro de SP,¹ no qual os globalistas pela primeira vez tentaram definir uma estratégia geral, indicam que o projeto da Nova Esquerda tenta formar uma implementação política específica.” “…os protestos generalizados dos novos sindicatos, mais e mais reminiscentes do carnaval…” [?]
¹ Hahaha. Em outros termos, o tal Foro de SP, bode expiatório criado pela extrema-direita, é apenas um movimento da direita (ou Velha Direita, se o Neofascismo Antiglobalista for a Nova).
“Ademais, o pós-modernismo como estilo de arte, o que se tornou corrente na arte ocidental moderna, expressa simplesmente esta filosofia política da ‘Nova Esquerda’, penetrando em nossa vida quotidiana através de pintura, designs e filmes de Tarantino e Rodriguez desprovidos de análise política e filosófica preliminar, deixando para trás uma escolha consciente e se impondo contra nossa vontade.” Quem disse que toda a arte pós-moderna é de esquerda?
“Na prática, nós vemos que não há ‘velhos esquerdistas’ no sentido completo nesse país, bem como no tempo soviético. O grupo dos dissidentes soviéticos (Zinoviev, Shchedrovitsky, Medvedev) não conta, na medida em que eles não conseguiram desenvolver qualquer escola notável. [seria a quarta teoria política de D. uma ‘escola notável? e se for, este é um critério válido para estabelecê-la como preferível à ideologia destes dissidentes?]
Por outro lado, os nacional-comunistas representam uma camada social, psicológica e política ampla com o Partido Comunista da Federação Russa a sua frente. Como toda a história soviética – marcada [pela] vitória do socialismo (um garantido sinal de base arcaica) – é a história do nacional-esquerdismo inconsciente, essa tendência dificilmente é surpreendente.” Haja -ente, diria Heidegger.
“o social-conservadorismo da Rússia Unida e de Putin”
“Enquanto [isso,] os grupos marginais que imitam o neo-nazismo europeu e tentam usar ‘nacional-socialismo’ em seus nomes jamais foram ‘nacional-esquerdistas’, já que eles imitam (como resultado de uma inferioridade mental) [hahaha!] as bugigangas do regime hitlerista, continuam a brincar de soldados e assistem à série de TV Seventeen Moments of Spring,¹ admirando o uniforme negro de Bronevoy-Mueller. [hahahahaha!]O projeto do PNB (Partido Nacional-Bolchevique), o qual ia desenvolver em um autêntico Nacional-Esquerdismo russo[enfia essa nomenclatura na bunda!] baseado nas idéias de Ustrialov, Niekisch e dos eurasianistas de esquerda, infelizmente, ao fim da década de 90[,] havia degenerado em uma formação barulhenta e insignificante[;] e depois começou a servir a forças ultraliberais antirrussas ‘laranjas’, alimentadas pelo Ocidente (contradizendo objetivos fundamentais do ‘nacional-bolchevismo’, o qual é tanto em teoria como na prática um projeto consciente de esquerda… [acabou de afirmar que a história da Rússia é a história do nacional-esquerdismo inconsciente… como conciliar ambas as passagens, tão próximas no texto?])”
¹ “Seventeen Moments of Spring (Russian: Семнадцатьмгновенийвесны, romanized: Semnadtsat’ mgnoveniy vesny) is a 1973 Soviet 12-part television series, directed by Tatyana Lioznova and based on the novel of the same title by Yulian Semyonov. The series portrays the exploits of Maxim Isaev, a Soviet spy operating in Nazi Germany under the name Max Otto von Stierlitz, portrayed by Vyacheslav Tikhonov. Stierlitz is planted in 1927, well before the Nazi takeover of pre-war Germany. He then enlists in the NSDAP and rises through the ranks, becoming an important Nazi counterintelligence officer. He recruits several agents from among dissident German intellectuals and persecuted clergy. Stierlitz discovers, and later schemes to disrupt, the secret negotiations between Karl Wolffa and Allen Dulles taking place in Switzerland, aimed at forging a separate peace between Germany and the western Allies. Meanwhile, the Gestapo under Heinrich Müllerbsearches for the unidentified Soviet resident spy and his ring. The series is considered the most successful Soviet spy thriller ever made and is one of the most popular television series in Soviet history.” “Within the novel Semyonov mentions the phrase seventeen moments of spring in reference to the lyrics of a song sung by Marika Rökk, a popular star in Nazi Germany.” “Broadcast at 19:30 by the channel Programme One between 8 July and 24 August 1973, Seventeen Moments of Spring was immensely popular in the Soviet Union: Klaus Mehnert reported that during its original run, the estimated audience for each episode was between 50 and 80 million viewers, making it the most successful television show of its time. Ivan Zasursky described the series’ reception by the public: ‘during its first showing, city streets would empty. It was a larger-than-life hit, attracting greater audiences than hockey matches.’Crime rates dropped significantly during the broadcasts; power stations had to increase production at the same time, since the activation of many television sets caused a surge in electricity consumption. Oleg Kharkhordin wrote that Seventeen Moments of Spring became a ‘cult’ series, and Richard Stites added it was ‘a television blockbuster’. According to his personal assistant Alexei Chernayev, Leonid Brezhnev was a devoted fan of Seventeen Moments of Spring, and watched the entire series some 20 times. Author Anthony Olcott claimed that it was rumored Brezhnev moved meetings of the Central Committee of the Communist Party of the Soviet Union in order not to miss episodes.Seventeen Moments of Spring remained highly popular after its first run in 1973. It was re-aired annually until the dissolution of the USSR, usually around Victory Day, and continued to be broadcast in Russian television afterwards. In 1983, a writer of the Paris-based Polish magazine Kultura described Seventeen Moments of Spring as ‘the most successful television production in the history of the Soviet Union’. In 1995, after another re-run, Russian commentator Divanov noted: ‘Just like 20 years before, city streets were empty during the showing … A drop in the crime level almost to zero was noted in cities, which testifies to the popularity of Seventeen Moments.’” “Vladimir Putin told that his decision to join the organization was motivated by the spy thrillers of his childhood, among them Lioznova’s series.”
a “He escaped prosecution at the Nuremberg Trials, apparently as a result of his participation in Operation Sunrise. In 1962, Wolff was prosecuted in West Germany for the deportation of Italian Jews, and he was sentenced to 15 years in prison for being an accessory to murder in 1964. He was released in 1971 due to his failing health, and died 13 years later.”
b “He was known as Gestapo Müller to distinguish him from another SS general named Heinrich Müller. (…) He was last seen in the Führerbunker in Berlin on 1 May 1945 and remains the most senior figure of the Nazi regime who was never captured or confirmed to have died.”
“Project MKUltra (or MK-Ultra) was an illegal human experimentation program designed and undertaken by the U.S. Central Intelligence Agency (CIA), intended to develop procedures and identify drugs that could be used in interrogations to weaken individuals and force confessions through brainwashing and psychological torture. It began in 1953 and was halted in 1973. MKUltra used numerous methods to manipulate its subjects’ mental states and brain functions, such as the covert administration of high doses of psychoactive drugs (especially LSD) and other chemicals without the subjects’ consent, electroshocks, hypnosis, sensory deprivation, isolation, verbal and sexual abuse, and other forms of torture.” “In areas under American control in the early 1950s in Europe and East Asia, mostly Japan, Germany and the Philippines, the CIA created secret detention centers so that the U.S. could avoid criminal prosecution. The CIA captured people suspected of being enemy agents and other people it deemed ‘expendable’ to undertake various types of torture and human experimentation on them. The prisoners were interrogated while being administered psychoactive drugs, electroshocked and subjected to extremes of temperature, sensory isolation and the like to develop a better understanding of how to destroy and to control human minds.” “In 1973, amid a government-wide panic caused by Watergate, CIA Director Richard Helms ordered all MKUltra files destroyed. Pursuant to this order, most CIA documents regarding the project were destroyed, making a full investigation of MKUltra impossible. A cache of some 20,000 documents survived Helms’s purge, as they had been incorrectly stored in a financial records building and were discovered following a FOIA request in 1977. These documents were fully investigated during the Senate Hearings of 1977.”
“The Bay of Pigs Invasion (Spanish: Invasión de Bahía de Cochinos, sometimes called Invasión de Playa Girón or Batalla de Playa Girón after the Playa Girón) was a failed military landing operation on the southwestern coast of Cuba in 1961 by Cuban exiles, covertly financed and directed by the United States. It was aimed at overthrowing Fidel Castro’s communist government. The operation took place at the height of the Cold War, and its failure influenced relations between Cuba, the United States, and the Soviet Union.”
“Novos esquerdistas e pós-modernistas estão quase ausentes no espectro político russo; o discurso filosófico pós-moderno é complicado demais para eles.” “Na arte russa – em particular em Vinzavod, na galeria Guelman, bem como nos filmes russos – tendências pós-modernas são claramente visíveis, e sua expressão artística é às vezes impressionante. Os livros de Sorokin ou Pelevin representam o pós-moderno em uma forma literária.” “A Rússia desempenha um papel de consumidor inativo, que não entende o sentido político e ideológico daquilo que automaticamente consome – seguindo a moda e tendências globais”
Niekisch, Hitler: Desastre para a Alemanha: “Niekisch confrontou o Nazismo e os nazistas, e previu mais cedo e mais precisamente do que outros quais seriam as consequências de seu domínio sanguinário para a Alemanha e para a humanidade.”
“Nos casos extremos, os liberais apóiam não apenas a liberdade de aborto, mas até mesmo a liberdade de diferenciação sexual (apoiando os direitos de homossexuais, transexuais e daí em diante).”
“Tal Estado-Nação (État-Nation) não possuía qualquer objetivo histórico comum, qualquer missão determinada. Ela (sic) concebia a si mesma como uma ‘corporação’ ou empresa estabelecida pelo acordo recíproco de seus participantes e que teoricamente pode ser dissolvida a partir das mesmas bases.”
“Na metade do século XX o filósofo francês, hegeliano de origem russa, Alexander Kojève sugeriu que o ‘fim da história’ hegeliano marcaria uma revolução comunista mundial.”
“crítico francês dos EUA, Hubert Vedrin, sugeriu que os EUA deveriam daí em diante ser chamados não de uma superpotência, mas de uma hiperpotência, enfatizando sua solidão e sua superioridade assimétrica.” “Não é simplesmente colonização ou uma nova forma de imperialismo, este é um programa de implementação total do único sistema ideológico, copiado da ideologia liberal americana.” “tanto amigos como inimigos estão sujeitos à reformatação, como estão aqueles que desejam permanecer neutros. Este é o sentido do ‘século americano’: o liberalismo, tendo derrotado seus inimigos formais, penetra completamente.”
“E não é acidente que os neoconservadores emergiram do trotskismo.” “São precisamente os neoconservadores, determinando o tom da política americana contemporânea, que compreendem mais profundamente o sentido ideológico do destino dos ensinamentos políticos na alvorada do século XXI.”
“O princípio da separação de poderes se transmuta na idéia de um referendo eletrônico constante”
“até o último momento da queda da URSS, os líderes do liberalismo russo elogiavam o Partido Comunista, as idéias de Marx, o Socialismo Planificado, enquanto os oligarcas ‘ganhavam o pão’ no Comitê dos Komsomols ou serviam na KGB.”
“Quando Putin chegou ao poder e tentou reverter o processo de desintegração da Rússia, ele não encontrou, em grande medida, nenhuma oposição ideológica. Ele foi desafiado por clãs econômicos concretos, em cujos interesses ele discerniu a mais ativa agência de influência, profundamente entrincheirada na espionagem a serviço do Ocidente.” “Mesmo figuras icônicas do liberalismo russo – Gaydar, Chubais, etc. – se comportaram como oportunistas banais: eles não davam a mínima para o conteúdo ideológico das reformas de Putin.” “Intuitivamente buscando preservar e consolidar a soberania russa, Putin entrou em conflito com o Ocidente liberal e seus planos de globalização, mas sem formar suas ações em uma ideologia alternativa. Isso ocorreu principalmente porque havia muito poucos liberais convictos na Rússia.” “Se as pessoas passam a agir como liberais apenas quando o liberalismo é permitido, está na moda, ou até mesmo é obrigatório, prontos diante da primeira dificuldade para repudiar esses princípios, esse ‘liberalismo’ não tem nenhuma relação com o tipo real. Parece que Khodorkovsky, o ‘ícone’ dos russos liberais contemporâneos, entendeu isso tendo passado algum tempo na prisão. Mas nisso, me parece, ele é uma exceção entre os liberais que permanecem livres.”
“A revolução é um fato empírico. Isso significa que a revolução foi, é e será.” “Em anos recentes, um paternoster sociológico, que diz que a Rússia exauriu seu limite para a revolução, se tornou bastante relevante.” “O sentido da revolução se encontra na insatisfação com o que existe, e na declaração [de] que deve haver algo mais. A revolução é uma busca pela superação do que é presente nesse momento.” “Vive-se na revolução apenas; em outros tempos se está delirando, sonhando, se vive aguardando a revolução.” “Nós somos tentados a nos convencermos de que não houve Revolução de Outubro, esta última sendo chamada de uma reviravolta, uma conspiração, uma influência de ‘forças sombrias’, com instrumentos conspiratórios sendo utilizados, com tudo sendo traduzido ao plano dos modelos econômicos.” “Apenas o tempo revolucionário é um tempo realmente, porque não possui duração, já que é tempo de mudança, uma ruptura, um tempo de aparecimento do novo, um tempo de Ereignis. Segundo Heidegger, a noção de ‘Evento’ (Ereignis) – é ruptura de rotina, um encontro com algo, que não havia sido. Essa é a essência antropológica, ontológica e temporal da revolução. É por isso que o tempo da revolução é o oposto de qualquer outro tempo, porque o homem se torna ele mesmo nesse tempo. No resto do tempo o homem está essencialmente adormecido aguardando pela revolução.” “Durante esse período onírico entre duas revoluções o homem considera sua identidade como positiva, isso quer dizer que ele começa a se associar não com a deficiência, mas com algo presente (com comida, bem-estar, cuidado, detalhes pequenos da realidade). (…) O homem não vive como parte de sua existência, ele está sendo substituído por das Man, e a existência humana genuína, o Dasein, está ausente.” “Assim, a revolução é empírica, ontológica e conceitual em sua natureza. Agora nós podemos abordar a perspectiva da revolução em seu aspecto tecnológico.”
“Pareto incita a deixar de lado as questões relativas à teleologia da revolução e que o foco da atenção deve ser uma fórmula segundo a qual há duas categorias: aqueles que mandam e aqueles que obedecem (…) Segundo suas teses, a elite é um mestre sociológico, um tipo social, que só pode governar, e não pode se recusar a governar” “E muito de seu trabalho foi dedicado à descrição de como as elites liberais camuflam seus verdadeiros objetivos (governar e controlar) sob os nomes de democracia, direitos humanos e liberdade econômica.” Muito mais útil como analista que 80% da “esquerda”.
“alguma parte da elite não possui o poder e ocupa seu lugar (a contra-elite), o qual não é legítimo. E segundo Pareto, tal elite, desprovida de acesso ao poder, porém, não é uma massa. (…) Tal elite constantemente sente que ela não está em seu lugar de direito.”
“aquele que pertence à elite é o mais próximo à categoria do Mangelwesen[homem carente, condição humana] e assim ele é mais humano. Ele quer governar sobre outros, porque ele sente repulsa por si mesmo, ele é insuficiente para si mesmo, ele precisa se expressar de algum jeito, lançar sua figura sobre a sociedade, de outro modo sua vida é inteiramente insatisfatória. A massa, por sua vez, paga por sua vida
tranqüila e relativamente segura com seu status de escrava. E a elite é o mestre, que encara uma escolha entre morte e poder”
“O segundo modo de lidar com a contra-elite, segundo Pareto, é ignorá-la completamente, dando atenção apenas à massa. Esse é o caminho para o suicídio da elite governante, porque a contra-elite, estando entre as massas, começa a transformá-la, e se agrega à anti-elite. A anti-elite, por sua vez, que é um complexo de pervertidos e desviados, começa a corromper as massas.” “O próximo passo é afastar as massas da elite com a ajuda de elementos anti-elite, e a tomada do lugar da elite pela contra-elite.”
“A modernidade é um regime que disse ‘sim’ à revolução, que a tornou aceitável e casual.” “Mas se a revolução foi um ponto da modernidade, na pós-modernidade ela se torna impossível, na medida em que a própria modernidade se tornou impossível.” “Ela compreende bem que, de modo a prevenir a revolução, esta deve ser simulada.” “Nas condições atuais é muito difícil chegar ao fato de que o homem é um Mangelwesen, porque a fronteira entre o que está vazio e o que não está vazio, entre presença e ausência, hoje está diluída.”
“E se a elite governante se posiciona como liberal, então a contra-elite terá que ser anti-liberal. Aqui, a plataforma mais apropriada será a ideologia de Louis Dumont e sua obra Ensaios sobre o Individualismo.
Nessa obra o autor insiste que a principal força de oposição ao liberalismo não é o marxismo, mas a sociologia (holista) como disciplina científica. Nos esquemas da sociologia (holista) uma tese sobre a primazia da sociedade em relação ao indivíduo possui um potencial revolucionário.”
“Em relação [à contra-revolução], nós deveríamos prestar atenção à obra de Christopher Lasch – A Revolta das Elites. Se a versão anterior do padrão sociológico de Ortega y Gasset foi o fato de que na vanguarda da sociedade apareciam novos tipos sociais, que são incapazes de fazer história, então Lasch aponta que novas elites na verdade refletem o conteúdo e as principais qualidades e características das massas.” “Nossas novas elites consistem em pessoas comuns, de classe média, da pequena-burguesia, de pessoas com uma visão de mundo medíocre. Ademais, a elite moderna evita seus deveres elitistas e se torna um duplo simulacro.” “Quando há apenas uma instância para decidir quem está certo e quem está errado e quem deveria ser punido e quem não deveria, nós temos um tipo de ditadura global. Eu estou convencido de que isso não é aceitável.” “O Império Americano deve ser destruído. E em algum ponto, ele será.”
“Espiritualmente, a globalização é a criação da Grande Paródia, o reino do Anticristo. E os Estados Unidos são o centro da sua expansão.” “Nossas idéias podem ser diferentes, mas nós temos uma característica muito forte em comum: o ódio pela realidade social atual.” “Diferenças entre etnias não resultam em superioridade ou inferioridade. As diferenças devem ser aceitas e afirmadas sem nenhum tipo de sentimento ou consideração racista. Não existe uma medida comum ou universal para julgar diferentes grupos étnicos. Quando uma sociedade tenta julgar a outra, ela aplica os seus próprios critérios, portanto, comete violência intelectual.”
“Se nós libertarmos o socialismo das suas características materialistas, [depreendo que no sentido chulo de morte do espírito e olvido da condição da natureza, que é per se mágica, ‘não-científica’] ateístas [avatar final do monoteísmo] e modernistas, [degenerescência ocidental] e se nós rejeitarmos o racismo e os nacionalismos doutrinários (…) nós chegamos a uma ideologia política completamente nova.” Marx + Nietzsche com um deus que saiba dançar.
“Mas este é apenas o primeiro passo. A adição mecânica de profundamente revisadas versões das ideologias antiliberais do passado não nos dá um resultado final.” “Aí nós temos o Estado ideal platônico, a sociedade hierárquica medieval e as visões teológicas do sistema social e normativo (cristão, islâmico, budista, judeu ou hindu). Estas fontes pré-modernas são muito importantes para desenvolver a síntese”
“nós devemos rejeitar categoricamente o anti-comunismo” “Ao mesmo tempo, nós devemos nos opor fortemente a qualquer tipo de confronto entre as várias crenças religiosas – muçulmanos contra cristãos, judeus contra muçulmanos, muçulmanos contra hindus, e daí em diante.” “Não é fácil formar uma aliança tão diversificada. Mas nós devemos tentar se quisermos derrotar o inimigo.”
“O que é crucial considerar, é a autenticidade ou inautenticidade da existência do Dasein. A Quarta Teoria Política insiste na autenticidade da existência. Para que ela seja a antítese de qualquer forma de alienação – social, econômica, nacional, religiosa ou metafísica.” “Valores como justiça social, soberania nacional e espiritualidade tradicional podem nos servir como fundação.”
“A importância do conceito de nous (intelecto), desenvolvido pelo filósofo grego Plotino, corresponde ao nosso ideal.” “O mundo futuro precisa ser noético de algum modo – multiplicidade e diversidade deveriam ser tomadas como riquezas e como tesouro, e não como razão para o conflito inevitável”
“falar sobre a Pós-Modernidade é interessante, excitante e arriscado ao mesmo tempo. É um processo com um fim desconhecido e um sentido desconhecido. Ainda é possível afetar esse fim e esse sentido. A história (aparentemente) acabou e a pós-história está apenas ‘começando’, devemos procurar nela por um espaço de luta, ganhar este espaço e expandi-lo.”
“[O pós-Estado] é uma espécie de república pirata localizada no ciberespaço. Ou um carnaval brasileiro, que substituiu a rotina.” “completos idiotas são designados como acadêmicos e membros correspondentes” “no centro das atenções, incluindo o debate político, estão os mais íntimos detalhes da vida pessoal” “senadores (anciãos [etimologia da palavra]) são eleitos recém-saídos das escolas (se, por exemplo, eles são parentes de figuras influentes)” “clemência com os criminosos aumentando, atribuição da culpa para a vítima, etc.”
“Não existe mais ontem e amanhã, nem mesmo hoje. Existe apenas o agora. Agora são Google e Twitter, mas em um momento estes serão eventos pré-históricos, como o processador Lexicon ou PC286.” “Revoluções pelo Twitter no Mundo Árabe ou presidentes com iPads são claros sinais de pós-antropologia política e do fenômeno do Pós-Estado. A revolta das elites e a oscilação do nível de intensidade da consciência dos grupos dominantes estão ‘próximos de zero’. Um exemplo clássico é um estrategista político viciado em drogas.” O que achou dessa, Aécio?
“O soldado político é o mediastino da antropologia política da Modernidade.” “Hoje não temos a chance de conhecer um soldado político, apenas podemos conhecer seu dublê, seu simulacro, seu impostor.”
“MEDIASTINO Espaço compreendido entre os dois pulmões e dividido em duas partes pelas pregas das pleuras. (O mediastino anterior encerra o coração e o timo; o mediastino posterior contém o esôfago, a aorta e o canal torácico.).”
“O drama dos últimos homens lutando contra pós-homens na oposição política. Heroicamente, tragicamente, poeticamente e irremediavelmente.” “Aqui está a dobra [double bind?] (Deleuze) da antropologia pós-moderna: um simulacro se encontra com um simulacro.”
“O feminismo ultra-esquerdista (gauchisme) é um programa de liberação do sexo como uma forma de construção social hierárquica. Falamos aqui não da liberação da essência feminina, mas sobre superar o sexo como ele é. Se a atenção é presa em particulares de outro sexo (por Simone de Beauvoir, Julia Kristeva ou Luce Irigaray), isso é apenas para a relativização da masculinidade no caminho para a libertação. O
desejo não tem sexo. Liberdade é uma liberdade em relação ao sexo.”
“A outra direção do ultraliberalismo é a loucura sadomaso nazi-satanista; exaltação da masculinidade burguesa em uma soberania sexual individualista do indivíduo atomizado. Estes são os ‘faça o que quiser’ e ‘com quem quiser’ adicionando uma compensação financeira [?] e um princípio de voluntariedade de Crowley.” Baboseira!
“O ‘neo-nazi’ hoje é uma paródia patológica que vem do pasquim barato de Visconti (Os Malditos) ou da exploração tosca e mentalmente fraca no estilo de Recepcionista da Noite. [Eu acrescentaria Venus in Furs, um dos piores livros que já li, do próprio Masoch.] Na área do gênero ‘neo-nazi’ está sempre presente um atributo de entretenimento – clubes gays [estética dos motoqueiros] e decorações clássicas de sex shop.”
“Heidegger, que estava no contexto do nazismo, mas representou um molde para a Quarta Teoria Política, viu o Machenschaft [techne, o fazer do homem, o mundo social do trabalho] também naquele. E rascunhou no sentido de superá-lo e recusá-lo. Existem passagens expressivas sobre o tema em Geschichte des Seyns [História do Ser].” “A idéia de Marx de ‘mudar o mundo’ é próxima à compreensão de Heidegger do conceito marxista em sua essência tecnológica.”
P. 419: sobre o clamor heideggeriano
“Heidegger pensou muito no problema ‘noch nicht’. Estamos perto do ponto da grande meia-noite.” Heidegger e Dugin: meros plagiários do acabamento da filosofia continental (ontologia clássica – Platão-Nietzsche).
“Se colocarmos a quarta prática política em superar a distância intransponível (paradoxo de Zenão sobre Aquiles e a tartaruga …) do ‘ainda não’, vamos ficar para sempre no labirinto do ‘fim dos tempos infinito’.”
P. 420: Morin e o “homo demens”
et passim: nomenclaturas abstrusas à Lacan…
“Segundo Heidegger, a existência é finita. Seu último e mais alto mistério está nessa finitude. A finitude se manifesta em Ereignis. Ereignis é exatamente a factualidade da praxis.”
“A partir do século XIX, com os filósofos europeus mais brilhantes e importantes como Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger e depois os pós-modernistas contemporâneos, o homem europeu começa a suspeitar que o logos estava se aproximando de seu fim.”
“A filosofia européia foi baseada no princípio logocêntrico correspondente ao princípio de exclusão, a diferenciação, a diaresis grega.” Aristóteles repartiu as fatias do bolo para consumo em 2500 anos. A teoria acadêmica do caos é mais do mesmo (raspagem final do logos, últimos restos do bolo no prato). Caos primitivo: não confundir origem com o resto (Baudrillard).
“Por um lado temos o conceito moderno de caos que representa a pós-ordem ou uma mistura de fragmentos contraditórios sem nenhuma unidade ou ordem, ligados entre eles por correspondências e conflitos pós-lógicos altamente sofisticados. Gilles Deleuze chamou esse fenômeno de sistema não-co-possível composto por uma multidão de mônadas (usando o conceito de mônada e co-possibilidade introduzido por Leibniz). Deleuze descreve a pós-modernidade como uma soma de fragmentos não-co-possíveis que podem coexistir. Isso não era possível na visão da realidade de Leibniz, baseada no princípio de co-possibilidade.”
“As mônadas não-ordenadas e não-co-possíveis enxameando ao redor poderiam parecer caóticas, e nesse sentido [é que] usamos a palavra ‘caos’ no dia-a-dia.”
“A visão épica da ascensão e queda do logos no curso do desenvolvimento da filosofia ocidental e na história ocidental foi exposta por Martin Heidegger, que argumentou que no contexto da cultura européia e ocidental o logos não é somente o mais importante princípio filosófico, mas também a base da atitude religiosa, formando o núcleo da Cristandade. Podemos também notar que o conceito de kalam ou intelecto está no centro da filosofia e teologia islâmica. O mesmo é válido para o Judaísmo (ao menos na visão do judeu Fílo[neoplatônico – fi-lo porque qui-lo!] e acima de tudo no Judaísmo Medieval e na Qabballah). Logo, na alta modernidade onde vivemos, assistimos a queda do logos acompanhada pela correspondente queda da cultura clássica greco-romana e das religiões monoteístas.” “Alguma coisa deu errado no início da história ocidental e Martin Heidegger vê esse ponto errado precisamente na afirmação da posição exclusivista do logos exclusivista (sic) no pensamento enquanto tal.” Heidegger comete o erro, entretanto, de localizar o erro grego em Platão ou antes, não em Aristóteles, o formalista. Lembremos que o Absoluto em Platão ainda nos salvará do niilismo e é nossa última salvaguarda ética nessa transição epocal. O jogo do ocultamento (paradoxo da representação) inicia propriamente com o discípulo incompetente, e não foi desmanchado até depois de Schopenhauer, o último filósofo da aletheia…
“A explosão desenfreada da técnica moderna é seu resultado lógico. Heidegger chama isso de Ge-stell e pensa que essa é a razão da catástrofe e aniquilação da humanidade, que inevitavelmente se aproxima.” Talvez esse Evento não possa mesmo ser evitado (dizimação da grande maioria da humanidade numa conjunção de desastre ‘natural’, hecatombe climática, agência prolongada do homem industrial e agência pontual do homem bélico). “O Outro Começo” ou “origem mais originária” em sucessão a umaEscatologia quase-integral.
ENCRUZILHADA DO DESTINO: “Então o Caos como algo que precede o logos e é abolido por ele e sua exclusividade foi manifestado e negado da mesma forma.”
“Esse caminho onde a técnica encontra a ordem espiritual foi fundamentalmente explorado e estudado por Ernst Jünger, amigo de Martin Heidegger. O retorno ao classicismo acompanhado pelo apelo ao progresso técnico.”Isso não é solução, é aprochegar-se e acelerar rumo ao abismo. E de que vale a informação de que Jünger era amigo de Heidegger?
“A segunda maneira é aceitar as tendências correntes e seguir a direção da Confusão envolvendo-se mais e mais na dissipação das estruturas, no pós-estruturalismo e tentar conseguir prazer no confortável deslizamento para o nada.” Ainda bem que oferece uma alternativa… Porém na sentença seguinte nos decepciona drasticamente com uma falsa equivalência e demonstração de que optou pelo lado errado na birfurcação decisiva: “Essa é a posição escolhida por representantes da esquerda e liberais da pós-modernidade. É niilismo em estado puro – originalmente identificado por F. Nietzsche” Não que tenhamos de fato essa alternativa, para além do mero falatório…
“multitudes incalculáveis das flores de putrefação.”A última hora é a que mais demora, já disse Nie.
“No entanto, podemos escolher uma terceira alternativa e tentar transcender as fronteiras do logos” Ahá! Topou com o muro de Deleuze no caminho…
“atravessar as fronteiras do ser é ontologicamente impossível.” Inferno é vertigem. “Se insistirmos, no entanto, em fazer isso devemos apelar para o Caos no seu sentido original grego, como algo que precede o ser e a ordem, algo pré-ontológico.” “Então apenas o Caos pré-ontológico pode nos sugerir como ir além da armadilha da Pós-Modernidade. Ele foi posto de lado na criação da estrutura lógica do ser como fundamento. Agora é sua vez de vir para o jogo.”
“A Modernidade matou a eternidade e a Pós-Modernidade está matando o tempo.” “É um tipo de labirinto sem saída, dobrado e torcido como a fita de Möbius. [a lógica não-euclidiana ainda é um epifenômeno da lógica euclidiana]O logos que era a garantia da retitude da ordem serve aqui para fornecer a curvatura,[a razão fomenta o ‘caos’, no sentido moderno: contra-razão; tragédia.] sendo usado para preservar a impassibilidade da fronteira ontológica com o nada contra eventuais transgressores.” Nenhuma fita de Ariadne poderia nos salvar, se A. é lógica. Uma A. & uma não-A.
E no entanto, da minha perspectiva, Dugin não entendeu que a segunda e a terceira maneira são idênticas. O deslizamento na fita de Möbius é o próprio deslizar ao nada. Não significa que é um destino inevitável e passivo, mas o homem agirá de modo a concretizá-lo, forçosamente (paradoxo lógico – por isso, bom sinal).
“O logos considera a si próprio como o que é e como o que é igual a si próprio. Ele pode aceitar as diferenças dentro de si porque ele exclui o que é diferente de si fora de si. Assim a vontade de poder está atuando. A lei da soberania. Para além do logos, afirma o logos, não há nada. Então o logos excluindo tudo além de si próprio exclui o Caos. (…) o inclusivo Caos inclui também o que não é inclusivo como ele e mais do que aquilo que exclui o Caos. Então o Caos não percebe o logos como outro em relação a si próprio, ou como algo não-existente. O logos como o primeiro princípio da exclusão está incluído no Caos, presente nele, envolvido por ele e possui lugar garantido nele.”Resumo: o princípio da contradição inclui o princípio da não-contradição. Era da Grande Lógica.
“Assim a mãe que carrega o bebê carrega consigo o que é uma parte dela e não é uma parte dela ao mesmo tempo.” Boa metáfora. Se bem que nesse caso seria a mãe que mata a criança, e mesmo assim continua fértil e negando-se a si mesma para reafirmar novos começos (novo paradoxo lógico-aristotélico). Isto é, a Mãe originária, que mantém a primazia. Pode-se evocar este enigma-solução como a resposta afirmativa (otimista, esperançosa) para o dilema da morte de Deus. Morte temporária (a base para afirmá-lo é o próprio princípio da finitude da existência) de um (tipo de) logos.
“O Caos é o eterno nascimento do outro, ou seja, do logos.” “Então chegamos à figura do muito especial logos caótico, que é o logos completamente e absolutamente fresco, sendo eternamente revivido pelas águas do Caos. Esse logos caótico é ao mesmo tempoexclusivo[co-possível] (e é por isso que é propriamente logos) e inclusivo[não-co-possível] (sendo caótico). Trata-se da igualdade e da alteridade de forma diferente.”
“Eu poderia sugerir, como exemplo, a filosofia do pensador japonês Kitaro Nishida, que construiu ‘a lógica do basho’ ou a ‘lógica dos lugares’ em vez da lógica aristotélica. Devemos explorar outras culturas além do Ocidente para tentar encontrar diferentes exemplos de filosofia inclusiva, religiões inclusivas e assim por diante.”O Ocidente não é global no senso estrito do termo, e é por isso que deslizar ao nada não é fatal como parece ser: no fundo, desliza-se ao Oriente. O problema do “rústico”: é possível uma coexistência da tecnologia tal como a modernidade a entende e a não-tecnologia. Não é necessária a abolição da tecnologia no sentido moderno (o que só pode ser uma repetição da história e regresso ao primitivo, de nossa perspectiva).
“Em conclusão, gostaria de dizer que não é correto conceber o Caos como algo pertencente ao passado. O Caos é eterno, mas eternamente coexistindo com o tempo. Então o Caos é sempre absolutamente novo, fresco e espontâneo. Poderia ser considerado como uma fonte para qualquer tipo de invenção e novidade[,] porque a eternidade sempre tem em si mesma algo mais do que era, é ou vai ser no tempo.” Poderia dizer que o Caos inesgotável é a Idéia de Platão, de igual maneira.
“A era astronômica que está chegando ao fim é a era da constelação de Peixes. O peixe na praia. O peixe agonizante. Então precisamos muito de água.” Disso eu não entendo. Noch nicht!
“Apenas uma atitude completamente nova ante o pensamento, nova ontologia e nova gnosiologia podem salvar o logos fora da água, na praia, no deserto que cresce e cresce (como Nietzsche previu).”
“A Europa tem sua atitude positiva particular para com seus vizinhos do sul e do leste. Em alguns casos os benefícios econômicos, os problemas de abastecimento de energia e de defesa comum não coincidem em nada com os americanos.” “Tal e como estão as coisas atualmente, nenhum país (exceto os Estados Unidos) pode darse ao luxo de defender sua soberania real contando apenas com seus próprios recursos internos. Nenhum deles poderia ser considerado como um pólo autônomo capaz de contrabalançar o poder atlantista.”
A EUROPA NÃO QUER, NÃO TEM FORÇA PARA ISSO: “Imaginamos esta Grande Europa como um poder geopolítico soberano, com sua própria identidade cultural, com suas próprias opções políticas e sociais (sobre a base dos princípios da tradição democrática européia), com seu próprio sistema de defesa (incluídas armas nucleares), com seu próprio aceso a recursos estratégicos e minerais (tomando suas
próprias decisões independentes sobre a paz ou guerra com outros países ou civilizações), todo o anterior em função de uma vontade européia comum e um procedimento democrático para a tomada de decisões.” Além disso, mesmo que tivesse a intenção, seu racismo e xenofobia impediriam a concretização desse projeto. A islamofobia, o envelhecimento, o problema da força de trabalho composta por imigrantes. Fazem parte do curto-circuito de decadência dos americanos, são a encarnação mesma do logos não-caótico, e se tornarão periferia ou mero “pólo concorrente” no mundo, mas não como Grande Europa, apenas como co-partícipes atlânticos, como Dugin já muito bem expôs. Trocando em miúdos, a “tradição democrática européia” é uma grande farsa. E eis porque a discordância mais decisiva entre mim e Dugin permanece sendo: o fascismo não é aliado; não só porque é somente uma transmutação esporádica do Capital, como porque a Alemanha, se tivesse direto acesso a armas nucleares, seria potencialmente inimiga da humanidade outra vez. Nisso, é bom que os EUA sejam seu freio armamentista.
Primeiro erro de Ellenberger: dispor o marxismo ao lado de tranqueiras históricas como “racionalismo, darwinismo social, mecanicismo, utilitarismo”.
Segundo erro: chama Nietzsche de uma espécie de “último romântico”.
“La enfermedad le obligó a renunciar a su puesto en 1879.” O que significa que deu aula de filología greco-latina por longos 10 anos. Numa vida tão curta como foi a sua, e em que cada ano deve ser muito grato para a Filosofia ocidental, é realmente uma pena. Mas cabe lembrar que destes 10 anos, 7 já contaram com suas publicações puramente filosóficas que o mundo todo conhece. Teve mais 10 anos de viagens, muita produção metafísica e uma ‘saúde relativa’. E, curiosamente, arredondando, 10 anos de paralisia, antes da norte.
“Nietzsche representa em alto grau o que os alemães denominam uma natureza problemática, isto é, uma personalidade difícil de valorar e que dá lugar a opiniões contraditórias.”
“patrón de crisis sucesivas.”Infelizmente a historiografia está ATRAPALHADA pela sanguessuga Salomé!
“pérdida dramática de su fe cristiana en la 1ª juventud”Mas se não se suspeita disso em momento algum lendo toda sua obra!
“graves sufrimientos físicos y neuróticos”(diagnóstico a posteriori!)
Vontade de tirar uma estrela da avaliação deste livro (4/5 para 3/5) [ver post seguintedo Seclusão]. Porém, ele segue sendo fundamental para desmistificar a real importancia de Sigmund Fraude!
“un hombre que se separa de la sociedad, que vive en solitario en las montañas suizas al igual que Z. en su cueva, y que lanza un anatema sobre la sociedad contemporánea. A continuación surgió su enfermedad mental, que algunos atribuían a una venganza del destino contra un humano que pretendía elevarse por encima de sus iguales.”HAHAHA!
“Geneviève Bianquis, Nietzsche devant ses contemporains. Textes recueillis et choisis, Mónaco, Editions du Rocher, sin fecha, ha demostrado que N. no era un absoluto tan solitario como la leyenda le ha hecho sino que tenía, por el contrario, amigos muy devotos.”
Erich F. Podach, Friedrich’s Werke des Zusammenbruchs, 1961.Algo como O Trabalho Nietzschiano de Destruição do Todo, o que Adorno (felizmente) chamaria, com mais tato, de O Trabalho Metafísico Negativo de Nie..
“El origen de la tragedia es su único libro de contornos perfectamente claros.”Sou obrigado a discordar frontalmente!
“Zaratustra (…) ejerció una fascinación extraordinaria sobre la juventud europea entre 1890 y 1910.”
“ELLENBERGER, ACHO QUE SEU FILHO DE 5 ANOS MEXEU NO SEU LIVRO”:“Negaba la existencia de la causalidad, de las leyes naturales, y la posibilidad de que el hombre alcance ninguna verdad, conclusión ésta expresada en uno de sus aforismos: <Nada es verdad, todo está permitido>.”PS: Não ler Hans Wolff!
“Ludwig Klages llega a denominarle el verdadero fundador de la psicología moderna.”
“Él más grande crítico y psicólogo moral conocido en la historia de la mente humana.” Thomas Mann,N. Philosophy in the Light of Contemporary Events, 1947.
Mittasch, Friedrich Nietzsche als Naturphilosoph, 1952.
Imensa saudade do que não vivi: quando os psicólogos eram necessariamente grandes sábios. Digam-me: como um imbecil pretende tirar conclusões aproveitáveis de um processo terapêutico em que meu inconsciente é o tratado?!
“la frase del Evangelio el que se humilla será ensalzado se podría traducir por el que se humilla desea ser ensalzado.” Aquele que se humilha e ‘o humilhado’ são, a propósito, mundos aparte! Humilhar-se e ser humilhado – nada mais díspar. Antes, poderíamos também dizer: aqueles que são humilhados se exaltam bastante, querendo até ir às vias de fato!
“N. concebía el inconsciente como una zona de pensamientos, emociones, e instintos confusos, además de como un lugar de representación de estados pasados del individuo y de la especie.”
“Sob o nome de inibição(Hemmung), N. descreve o que hoje [na psicología do século XX] se denomina repressão, e aplica-a à percepção e à memória.”
“A palavra ressentimento, que compreendia todo tipo de sentimentos de rancor, despeito, inveja, hostilidade e ódio, recebeu em N. um novo significado. (…) O conceito de ressentimento nietzschiano seria adotado, modificado e desenvolvido por Max Scheler e Marañón (Tiberius. A Study in Resentment, 1956).”
A MERDA ESTANQUE:“Ademais, o indivíduo leva dentro de si todo tipo de opiniões e sentimentos que provêm de seus pais e antepassados, ainda que creia que são propriamente seus.”
Benz (ed.), Der Übermensch, 1961.
(*) “Ernst, Die romantische Ironie, 1915, demuestra, a la página 125, que la famosa frase ‘el hombre debe ser superado’ estaba ya contenida en el Athenäumde Schlegel.”
W.D. Williams, Nietzsche and the French, 1952.– é sempre um prazer ler alguém que, em citação incontroversa sua, demonstra compreender corretamente o conceito de eterno retorno!
O problema do conceito de Übermensch enquanto tal é que ele só funciona em caráter de coletividade.
“Lou Andreas-Salomé fue el 1º en comprender la estrecha relación existente entre los sufrimientos físicos y nerviosos de N….”Além de usar a pior fonte à disposição, como pode confundi-la com um homem?!?
Para Ellenberger, em resumo, N. é o homem que explica ou mantém coesa a Santíssima Trindade da Pseudanálise!
“A él se remonta también el concepto dinámico de la mente con las nociones de energía mental, cuantos de energía latente o inhibida, o liberación de energía o transferencia de un impulso a otro. Antes que Fraud, Nietzsche concibió la mente como un sistema de impulsos que puede colisionar o fundirse unos en otros. En contraste con Fraud, sin embargo, no dio preponderancia al impulso sexual (cuya importancia conocía bien), sino a los impulsos agresivos y autodestructores. Comprendió muy bien los procesos que F. calificó de mecanismos de defensa, en particular la sublimación (término que aparece por lo menos una docena de veces en los trabajos de N.), la represión y la vuelta de los instintos hacia uno mismo. El concepto de imagen del padre y la madre está también implícito en su obra. Las descripciones del resentimiento, de la falsa conciencia y de la falsa moralidad se anticiparon a las descripciones FRAUDIANAS de la culpabilidad neurótica y del superyó.” Sobre a divisão esquemática do inconsciente em 2 instâncias arbitrárias (ou da individualidade total em 3 instâncias arbitrárias, com a própria consciência ou eu sendo uma espécie de ‘cópula’ entre o inconsciente e a ‘consciência’ no sentido em que se empregava o termo até o séc. XIX – uma grotesca confusão fraudiana!): o super-eu é o conceito mais desnecessário do ponto de vista psicológico, qualquer que fosse a escola a considerar. É simplesmente um refinamento obscuro da palabra ‘moral’, que facilitaria imensamente neste contexto! Tudo isso para ter de entender (se se começa a querer entender esas coisas por Fraud, o que é um grande azar na vida!) ao fim do processo o fato basilar e pedestre de que o eu da PSEUDANÁLISE funciona como a mistura da moral vigente com os instintos animais. A cultura individuada. Ou seja, é como se o inconsciente, esse caos sem forma de onde não se pode tirar nada literalmente como é ou seria, fosse se preocupar em organizar o que é animalesco e o que é “regra de etiqueta” ou “educação inculcada pelos pais”.
Alfred Adler como uma espécie de Nietzsche embrutecido para a vulgata.
“Al contrario de Fraud, Jung proclamó siempre abiertamente el enorme estímulo que recibió de N..”
Adaptação para a edição brasileira de MONICA STAHEL
Revisão de GILSON CÉSAR CARDOSO DE SOUZA
5. ed., SP: WMF Martins Fontes, 2010.
Alguns livros são muito longos para ler em vida. Por isso, eu reduzi o conteúdo de 1413 páginas para 329, para que você pudesse ler também! A perda em conteúdo foi a mínima possível, assim espero. Com comentários meus e ilustrações de fora do livro.
ÍNDICE REMISSIVO [CONTROL+F]
I. LUGAR DOS GREGOS NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
LIVRO PRIMEIRO: A PRIMEIRA GRÉCIA
1.1 NOBREZA E ARETE
1.2 CULTURA E EDUCAÇÃO DA NOBREZA HOMÉRICA
1.3 HOMERO COMO EDUCADOR
1.4 HESÍODO E A VIDA DO CAMPO
1.5 O ESTADO JURÍDICO E O SEU IDEAL DE CIDADÃO
1.6 A AUTOFORMAÇÃO DO INDIVÍDUO NA POESIA JÔNICO-EÓLICA
1.7 SÓLON COMEÇO DA FORMAÇÃO POLÍTICA DE ATENAS
1.8 O PENSAMENTO FILOSÓFICO E A DESCOBERTA DO COSMOS
1.9 LUTA E TRANSFORMAÇÃO DA NOBREZA
1.10 A POLÍTICA CULTURAL DOS TIRANOS
LIVRO SEGUNDO: APOGEU E CRISE DO ESPÍRITO ÁTICO
2.1 O DRAMA DE ÉSQUILO
2.2 O HOMEM TRÁGICO DE SÓFOCLES
2.3 OS SOFISTAS
2.4 EURÍPIDES E O SEU TEMPO
2.5 A COMÉDIA DE ARISTÓFANES
2.6 TUCÍDIDES COMO PENSADOR POLÍTICO
LIVRO TERCEIRO: À PROCURA DO CENTRO DIVINO
3.1 PRÓLOGO
3.2 SÉCULO IV
3.3 SÓCRATES
3.4 A IMAGEM DE PLATÃO NA HISTÓRIA
3.5 DIÁLOGOS SOCRÁTICOS MENORES DE PLATÃO
3.6 O PROTÁGORAS
3.7 O GÓRGIAS
3.8 O MÊNON
3.9 O BANQUETE
3.10 A REPÚBLICA – I
3.11 A REPÚBLICA – II
3.12 A REPÚBLICA – III
LIVRO QUARTO: O CONFLITO DOS IDEAIS DE CULTURA NO SÉCULO IV
4.1 A MEDICINA COMO PAIDEIA
4.2 A RETÓRICA DE ISÓCRATES E O SEU IDEAL DE CULTURA
4.3 EDUCAÇÃO POLÍTICA E IDEAL PAN-HELÊNICO
4.4 A EDUCAÇÃO DO PRÍNCIPE
4.5 AUTORIDADE E LIBERDADE NA DEMOCRACIA RADICAL
4.6 ISÓCRATES DEFENDE A SUA PAIDEIA
4.7 XENOFONTE: O CAVALEIRO E O SOLDADO IDEAIS
4.8 O FEDRO DE PLATÃO: FILOSOFIA E RETÓRICA
4.9 PLATÃO E DIONÍSIO: A TRAGÉDIA DA PAIDEIA
4.10 AS LEIS
EPÍLOGO – TRANSIÇÃO
E.1 DEMÓSTENES: AGONIA E TRANSFORMAÇÃO DA CIDADE-ESTADO
I. LUGAR DOS GREGOS NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
“Sem dúvida, a estabilidade não é indício de saúde, porque reina também nos estados de rigidez senil, nos momentos finais de uma cultura: assim sucede na China confucionista pré-revolucionária”
“Por mais elevadas que julguemos as realizações artísticas, religiosas e políticas dos povos anteriores, a história daquilo a que podemos com plena consciência chamar cultura só começa com os gregos.”
“este retorno à Grécia, esta espontânea renovação da sua influência, não significa que lhe tenhamos conferido, pela sua grandeza espiritual, uma autoridade imutável, fixa e independente do nosso destino. O fundamento do nosso regresso reside nas nossas próprias necessidades vitais, por mais variadas que elas sejam através da História.”
“O conhecimento do fenômeno original pressupõe uma estrutura espiritual análoga à dos gregos, atitude semelhante à que Goethe adota na consideração da natureza” “Precisamente num momento histórico em que (…) o complicado mecanismo da cultura se tornou hostil às virtudes heróicas do Homem, é preciso, por profunda necessidade histórica, voltar os olhos para as fontes de onde brota o impulso criador do nosso povo.”
“Quanto maior é o perigo de até o mais elevado bem se degradar no uso diário, com tanto mais vigor sobressai o profundo valor das forças conscientes do espírito que se destacaram na obscuridade do coração humano e estruturaram, no frescor matinal e com o gênio criador dos povos jovens, as mais altas formas de cultura.”
“Em contraste com a exaltação oriental dos homens-deuses, solitários, acima de toda a medida natural; (…) em contraste com a opressão das massas, sem a qual não seria concebível a exaltação dos soberanos (…) o início da história grega surge como princípio de uma valoração nova do Homem”Em busca do Santo Graal que não reluz como ouro – mas é-o –, o Re-Renascimento.
“Do ponto de vista oriental, é impossível compreender como os artistas gregos conseguiram representar o corpo humano, livre e descontraído, fundados, não na imitação de movimentos e atitudes individuais escolhidas ao acaso, mas sim na intuição das leis que governam a estrutura, o equilíbrio e o movimento do corpo. (…) Os gregos tiveram o senso inato do que significa <natureza>.” Kant acerta aqui (livro 3): não se captou um modelo, mas abstraiu-se como ele seria, em existindo. Uma essência traduzida no fenomênico das pinceladas e/ou cinzeladas.
“A mais alta obra de arte a que seu anelo se propôs foi a criação do Homem vivo. Os gregos viram pela 1ª vez que a educação tem de ser também um processo de construção consciente.” “A palavra alemã Bildung (formação, configuração) é a que designa do modo mais intuitivo a essência da educação no sentido grego e platônico.”
“entre os povos, o grego é o antropoplástico.”
“Acima do Homem como ser gregário ou como suposto eu autônomo, ergue-se o Homem como idéia.” Nada de ciência política clássica, nada de liberalismo.
“O humanismo e o classicismo de outros tempos ignoraram este fato, ao falarem da <humanidade>, da <cultura>, do <espírito> dos gregos ou dos antigos, como expressão de uma humanidade intemporal e absoluta. O povo grego transmitiu, sem dúvida, à posteridade, de forma imorredoura, um tesouro de conhecimentos imperecíveis. Mas seria um erro fatal ver na ânsia de forma dos gregos uma norma rígida e definitiva. A geometria euclidiana e a lógica aristotélica são, sem dúvida, fundamentos permanentes do espírito humano, válidos ainda em nossos dias, e dos quais não é possível prescindir. [quem sabe] Mas até essas formas universalmente válidas (…) são (…) inteiramente gregas e não excluem a coexistência de outras formas de intuição e de pensamento lógico e matemático.”
“Nesse tempo em que a história grega desembocou no Império Romano e deixou de constituir uma nação independente, o único e mais elevado ideal da sua vida foi a veneração das suas antigas tradições. Desse modo foram eles os criadores daquela teologia classicista do espírito que é característica do humanismo. A sua estética vita contemplativaé a forma originária do humanismo e da vida erudita dos tempos modernos.”
“Também o neo-humanismo alemão do tempo de Goethe considerou o grego como manifestação da verdadeira natureza humana num período da História definido e único, o que é uma atitude mais próxima do racionalismo da <Época das Luzes>” “Quando, atualmente, com o perigo inverso de um historicismo sem limite nem fim, nesta noite em que todos os gatos são pardos, voltamos aos valores permanentes da Antiguidade, não podemos considerá-los de novo como ídolos intemporais.”
“no melhor período da Grécia era tão inconcebível um espírito alheio ao Estado como um Estado alheio ao espírito.” “…desde a idade heróica de Homero até o Estado autoritário de Platão, dominado pelos filósofos, e no qual o indivíduo e a comunidade social travam a sua última batalha no terreno da filosofia.”
“A trindade grega do poeta, do Homem de Estado e do sábio encarna a mais alta direção da nação.”
“Assim se eleva a <literatura> grega clássica acima da esfera do puramente estético, onde a quiseram em vão encerrar, e exerce um influxo incomensurável através dos séculos.”
“Não é possível compreender o ideal agônico, revelado nos cantos pindáricos aos vencedores, sem conhecer as estátuas que nos mostram os vencedores olímpicos na sua encarnação corporal, ou as dos deuses, como encarnação das idéias gregas sobre a dignidade da alma e do corpo humano.”
“Sem dúvida, os verdadeiros representantes da paideia grega não são os artistas mudos – escultores, pintores, arquitetos –, mas os poetas e músicos, os filósofos, os retóricos e os oradores, quer dizer, os homens de Estado. No pensamento grego, o legislador encontra-se, em certo aspecto, muito mais próximo do poeta que o artista plástico (…) os gregos nunca falam da ação educadora da contemplação e da intuição das obras de arte, no sentido de Winckelmann.”
“a história da educação grega coincide substancialmente com a da literatura.”
“Será colocado de forma nova um problema velho: o fato de o processo educativo ter sido vinculado desde sempre ao estudo da Antiguidade.” “O nascimento da moderna história da Antiguidade, considerada como disciplina científica, trouxe consigo uma mudança fundamental da nossa atitude para com ela.” “Mas, ao lado desta história enciclopédica e objetiva da Antiguidade, menos livre de valorações do que imaginam os seus mais eminentes promotores, permanece o perene influxo da <cultura clássica>”
“Pois bem: quando a nossa cultura toda, abalada por uma experiência histórica monstruosa,¹ se vê forçada a um novo exame dos seus próprios fundamentos, propõe-se outra vez à investigação da Antiguidade o problema, último e decisivo para o nosso próprio destino, da forma e do valor da educação clássica.”
¹ Monstro: parte da nossa essência de que não lembrávamos mais.
#TítulodeLivro
O MONSTRO & O FILÓSOFO
Usar a História para compreender a Metafísica. Nunca ao contrário.
LIVRO PRIMEIRO: A PRIMEIRA GRÉCIA
1.1 Nobreza e arete
“educação e formação tem raízes diversas (…) Já Platão comparou a formação ao adestramento de cães de raça. (…) O kalos kagathos grego dos tempos clássicos revela esta origem tão claramente como o gentleman inglês.”
“Mesmo onde a diferença de formação conduz à constituição de castas rígidas, o princípio da herança que nelas domina é corrigido e compensado pela ascensão de novas forças procedentes do povo. (…) Uma vez que a mais antiga tradição escrita nos mostra uma cultura aristocrática que se eleva acima do povo, importa que a investigação histórica a tenha como ponto de partida. Toda a formação posterior, por mais elevada que seja, e ainda que mude de conteúdo, conserva bem clara a marca da sua origem. A formação não é outra coisa senão a forma aristocrática, cada vez mais espiritualizada, de uma nação.”
“não se pode utilizar a história da palavrapaideia como fio condutor para estudar a origem da formação grega, porque esta palavra só aparece no séc. V. O mais antigo traço é Ésquilo, Sete contra Tebas, 18. (…) no início do séc. V a palavra tinha o simples significado de <criação dos meninos>, em nada semelhante ao sentido elevado que adquiriu mais tarde (…) O tema essencial da história da formação grega é antes o conceito de arete, que remonta aos tempos mais antigos. Não temos na língua portuguesa um equivalente para este termo; mas a palavra <virtude>, na sua acepção não-atenuada pelo uso puramente moral,¹ e como expressão do mais alto ideal cavaleiresco unido a uma conduta cortês e distinta e ao heroísmo guerreiro, talvez pudesse exprimir o sentido da palavra grega.” Discordo: hoje é impossível transmitir essa equivalência através desta palavra. Mas a discordância se dirige só ao tradutor, evidentemente. O mais próximo seria “nobreza de caráter”.
¹ A besta-loira é um animal deficiente.
“O testemunho mais remoto da antiga cultura aristocrática helênica é Homero”
“Tanto em Homero quanto nos séculos posteriores, o conceito de arete é freqüentemente usado no seu sentido mais amplo, isto é, não só para designar a excelência humana, como também a superioridade de seres não-humanos: a força dos deuses ou a coragem e rapidez dos cavalos de raça.(*)
(*) Para a arete do cavalo: [vide além (capítulo sobre Xenofonte] e também em Platão, Rep., 335 B, onde se fala da arete dos cães e dos cavalos. Em 353 B, fala-se da arete dos olhos; arete dos deuses: I, 498.”
“Vigor e saúde são a arete do corpo; sagacidade e penetração, a arete do espírito. (…) É verdade que arete tem com freqüência o sentido de aceitação social, significando então <respeito>, <prestígio>. Mas isto é secundário, e deve-se à grande influência social de todas as valorações do homem nos primeiros tempos. (…) uma força que (…) constituía a perfeição [do indivíduo].”
“Só uma vez, nos livros finais, Homero entende por arete as qualidades morais ou espirituais. Em geral (…) heroísmo, considerado não no nosso sentido de ação mortal e separada da força, mas sim intimamente ligado a ela.” Os hindus que se jogam debaixo das rodas das charretes nas cerimônias religiosas não teriam, portanto, arete.
“morreu como um herói esforçado”: contraponto do patético “morreu como uma pomba” da lavra cristã.
“O nome de aristoi convém a um grupo numeroso; mas, no seio deste grupo, que se ergue acima da massa, há luta pelo prêmio da arete. (…) A palavra aristeia, empregada mais tarde para os combates singulares dos grandes heróis épicos, corresponde plenamente àquela concepção.”
“De certo modo pode-se dizer que a arete heróica só se aperfeiçoa com a morte física do herói. Ela reside no homem mortal, ou melhor, ela é o próprio homem mortal; mas perpetua-se, mesmo depois da morte, na sua fama, i.e., na imagem da sua arete, tal como o acompanhou e dirigiu na vida. (…) Os deuses de Homero são, por assim dizer, uma sociedade imortal de nobres (…) Ser piedoso quer dizer <honrar a divindade>.”
“O amor da pátria, que hoje resolveria a dificuldade, era alheio aos antigos nobres. Agamemnon só consegue apelar para o seu poder soberano através de um ato despótico, pois tal poder nem sequer é admitido pelo sentimento aristocrático, que o reconhece apenas como primus inter pares. No sentimento de Aquiles perante a negação da honra que por suas façanhas lhe é devida, imiscui-se também esta sensação da opressão despótica. (…) As armas de Aquiles, caído em combate, são concedidas a Ulisses, não obstante os superiores merecimentos de Ájax; e a tragédia deste acaba na loucura e no suicídio.”
“A filosofia sublima e universaliza os conceitos que capta na sua limitação originária, mas com isso se confirma e se define a sua verdade permanente e indestrutível idealidade.”
“Aspirar à <beleza> (que para os gregos significa ao mesmo tempo nobreza e eleição) e fazê-la sua é não perder nenhuma ocasião de conquistar o prêmio da mais alta arete.”
“Quem estima a si próprio deve ser infatigável na defesa dos amigos, sacrificar-se pela pátria, abandonar prontamente dinheiro, bens e honrarias para <fazer sua a beleza>. Esta frase curiosa repete-se com insistência, o que mostra até que ponto a mais sublime entrega a um ideal é para Aristóteles prova de um elevado amor-próprio. Quem está impregnado de auto-estima deseja antes viver um breve período no mais alto gozo a passar uma longa existência em indolente repouso; prefere viver só um ano por um fim nobre, a uma vasta vida por nada; escolhe antes executar uma única ação grande e magnífica a fazer uma série de pequenas insignificâncias.
Nestas palavras revela-se o que há de mais peculiar e original no sentimento de vida dos gregos, aquilo por que nos sentimos essencialmente unidos a eles: o heroísmo.”
“Entre os dois grandes filósofos e os poemas de Homero, estende-se a cadeia ininterrupta de testemunhos da persistência da idéia de arete, própria dos primeiros tempos da Grécia.”
1.2 Cultura e educação da nobreza homérica
“Atualmente não é possível considerar a Ilíada e a Odisséia – fontes da primitiva história da Grécia – como uma unidade, quer dizer, como obra de um só poeta, embora na prática continuemos a falar de Homero como a princípio fizeram os antigos, agrupando sob este nome diversos poemas épicos. O fato de a Grécia clássica, desprovida de senso histórico, ter separado daquela massa os dois poemas, considerando-os superiores de um ponto de vista puramente artístico e declarando os outros indignos de Homero, não afeta o nosso juízo científico nem pode ser considerado como tradição no sentido próprio da palavra. Do ponto de vista histórico, a Ilíada é um poema muito mais antigo. A Odisséia reflete um estágio muito posterior da história da cultura. Com esta verificação, ganha a maior importância o problema da determinação do século a que uma e outra pertencem. A fonte principal para chegar à solução deste problema são os próprios poemas. Apesar de toda a perspicácia consagrada a este assunto, reina quanto a ele a maior insegurança. As escavações dos últimos 50 anos enriqueceram, sem dúvida de modo fundamental, o nosso conhecimento da Antiguidade grega, e sobretudo ofereceram-nos soluções precisas no que se refere à questão do núcleo histórico da tradição heróica; mas nem por isso avançamos um passo na determinação da época exata dos nossos poemas, que vários séculos separam do nascimento das sagas.” Curioso que Adorno não seja citado nem uma única vez. Apenas eu mesmo o citei numa observação, neste post.
“É principalmente a Wilamowitz que devemos o fato de ter relacionado as primeiras análises realizadas segundo um critério exclusivamente lógico e artístico com os nossos conhecimentos históricos sobre a cultura grega primitiva.” Veja adiante indicações de leitura do autor Wilam.
“A propensão expressa a renunciar por completo à análise de Homero manifesta-se em trabalhos recentes como o de F. DORNSEIFF, Archaische Mythenerzählung (Berlim, 1933) e F. JACOBY, ‘Die geistige Physiognomie der Odissee’, Die Antike, vol. 9, 159.”
“será impossível considerar a Odisséia como uma imagem da vida da nobreza primitiva, se as suas partes mais importantes procederem da segunda metade do séc. VI, como atualmente crêem cientistas qualificados. E. SCHWARTZ, Die Odyssee (Munique, 1924), p. 294 e WILAMOWITZ, Die Heimkehr des Odysseus (Berlim, 1927), especialmente pp. 171-ss.: <Quem em questões de linguagem, religião ou costumes mistura a Ilíada e a Odisséia, quem, com Aristarco, as separa do resto como [GREGO], não pode pretender ser levado em conta.>” Curioso!
“julgo ter demonstrado que o I canto da Odisséia – aceito pela crítica, depois de Kirchoff, como uma das últimas elaborações da epopéia – já era considerado obra de Homero por Sólon, e mesmo, pelo que tudo indica, antes do seu arcontado (594), i.e., no séc. VII, pelo menos.” “Parece-me fora de dúvida que a Odisséia, quanto ao essencial, já devia existir no tempo de Hesíodo.”
HIPERTROFIA DA HISTORIOGRAFIA:“O desejo compreensível dos investigadores de quererem saber mais do que aquilo que realmente podemos saber acarretou freqüentemente o descrédito injustificado da investigação como tal.”
“Os heróis da Ilíada, que se revelam no seu gosto pela guerra e na sua aspiração à honra como autênticos representantes da sua classe, são, todavia, quanto ao resto da sua conduta, acima de tudo grandes senhores, com todas as suas excelências, mas também com todas as suas imprescindíveis debilidades. É impossível imaginá-los vivendo em paz: pertencem ao campo de batalha.”
“Quando a Odisséia pinta a existência do herói depois da guerra, as suas viagens aventurosas e a sua vida caseira com a família e os amigos, inspira-se na vida real dos nobres do seu tempo e projeta-a com ingênua vivacidade numa época mais primitiva. [Todo o argumento da Dialética do Esclarecimento] Ela é, deste modo, a nossa fonte principal para conhecermos a situação da antiga cultura aristocrática. Pertence aos jônios, em cuja terra nasceu (…) Vê-se claramente que as suas descrições não pertencem à tradição dos velhos cantos heróicos, mas assentam na observação direta e realista das coisas contemporâneas.”
“Se a periferia da imagem do mundo da Odisséia nos arrasta para a fantasia aventureira dos poetas, para as sagas heróicas e mesmo para o mundo do fabuloso e do maravilhoso, é com tanto maior força que a sua descrição das relações familiares nos aproxima da realidade.” “Só um ou outro traço realista e político, como a cena de Tersites, revela o tempo relativamente tardio do nascimento da Ilíada na sua forma atual. Nessa cena, Tersites, o <atrevido>, adita na presença dos nobres mais proeminentes um tom desdenhoso. Tersites é a única caricatura realmente maliciosa de toda a obra de Homero.”Conferir o excelente Tersites shakespeariano:https://seclusao.art.blog/2018/12/16/troilus-and-cressida/.
“Os rapsodos não pertenciam, provavelmente, à classe nobre. Na lírica, na elegia e no iambo, pelo contrário, encontramos com freqüência poetas aristocráticos.” Wilamowitz
“A vergonhosa conduta dos pretendentes [de Penélope] é constantemente estigmatizada como uma ignomínia para eles e para a sua classe. Ninguém pode contemplá-la sem indignação e é, depois, severamente expiada.”
“A figura do aventureiro astuto e rico de recursos é criação do tempo das viagens marítimas dos jônios. A necessidade de glorificar o seu herói liga-se ao ciclo dos poemas troianos, e principalmente aos que se referem à destruição de Ílion.”
“A arete própria da mulher é a formosura. (…) A mulher, todavia, não surge apenas como objeto da solicitação erótica do homem, como Helena ou Penélope, mas também na sua firme posição social e jurídica de dona de casa.” “Na Odisséia, Helena, de volta a Esparta com o primeiro marido, aparece como o protótipo da grande dama, modelo de distinta elegância e de soberana forma e representação social.”
“A posição social da mulher nunca mais voltou a ser tão elevada [da perspectiva grega] como no período da cavalaria homérica. Arete, a esposa do príncipe Feace, é venerada pelo povo como uma divindade.”
“Quando Agamemnon decide levar para a terra Criseida, capturada como despojo de guerra, e declara perante a assembléia que a prefere a Clitemnestra, pois não a acha inferior a ela nem pela presença ou pela estatura, nem pela prudência ou linhagem, é possível que isso seja fruto do caráter particular de Agamemnon – e já os antigos comentadores observaram que toda a arete da mulher está aqui descrita num só verso – mas a maneira imperiosa como o homem procede, acima de toda a consideração, não é coisa isolada no decurso da Ilíada. Amíntor, pai de Fênix, desentende-se com o filho por causa da amante, pela qual abandona a esposa; e o filho, incitado pela própria mãe, faz a côrte àquela, roubando-a do pai.¹ E não se trata de costumes de guerreiros embrutecidos. Acontece em tempo de paz.”
¹ Para tristeza de Platão em Leis XI!
“É na mais alta, íntima e pessoal relação do herói com a sua deusa Palas Atena, a qual o guia nas suas andanças e jamais o abandona, que o poder espiritual da mulher como inspiradora e guia acha a sua expressão mais bela.” E curiosamente não é uma mulher de carne!
“O mestre dos heróis por excelência era, naquele tempo, o prudente centauro Quíron, que vivia nos desfiladeiros selvosos, de abundantes nascentes, das montanhas de Pélion, na Tessália. Diz a tradição que uma longa série de heróis foi sua discípula e que Peleu, abandonado por Tétis, confiou-lhe a guarda de seu filho Aquiles.” “Embora o poeta do canto nono ponha Fênix em lugar de Quíron, Pátroclo é convidado a aplicar num guerreiro ferido um remédio que aprendeu de Aquiles, o qual por sua vez o aprendera outrora de Quíron” “O poeta da <Embaixada a Aquiles> não pôde utilizar o tosco centauro como medianeiro, ao lado de Ájax e Ulisses, pois só um herói cavaleiresco podia surgir como educador de outro herói. (…) Para substituto de Quíron foi escolhido Fênix, que era vassalo de Peleu e príncipe dos dólopes.”
“A Fênix era permitido exprimir verdades que Ulisses não poderia dizer. Na boca daquele, este intento supremo de vergar a inquebrantável vontade do herói e chamá-lo à razão adquire o seu mais grave e íntimo vigor: deixa antever, no caso do seu fracasso, o trágico desenlace da ação como conseqüência da inflexível negativa de Aquiles.”“Todo leitor sente e compartilha intimamente, em toda a sua gravidade, a decisão definitiva do herói, da qual depende o destino dos gregos e do seu melhor amigo Pátroclo e, por fim, o seu próprio destino.” “Peleu entrega o seu filho Aquiles, sem qualquer experiência na arte da palavra e na conduta guerreira, ao seu leal vassalo (…) Fênix ficou junto dele e considerou-o como filho quando lhe foram recusados os próprios filhos pela trágica maldição de seu pai Amíntor.”
“Contra a poderosa força irracional do desvario, da deusa Ate, são impotentes toda a arte da educação humana e todo o conselho razoável.”
“o íntimo conflito entre as paixões cegas e a mais perfeita intuição, tido como o autêntico problema de toda a educação no mais profundo sentido da palavra. Isto não tem nenhuma relação com o moderno conceito de decisão livre nem com a correspondente idéia de culpa. A concepção antiga é muito mais ampla e, por isso mesmo, mais trágica.”
“A figura antitética do rebelde peleida é Telêmaco, cuja educação o poeta nos descreve no primeiro livro da Odisséia. Enquanto Aquiles lança ao vento as doutrinas de Fênix e se precipita para a perdição, Telêmaco presta atenção às advertências da deusa, disfarçada sob a figura do amigo e hóspede de seu pai, Mentes. (…) o costume dos jovens da alta nobreza de serem acompanhados nas suas viagens por um aio ou mordomo.”
“A bonita relação de Telêmaco com Mentor, cujo nome serviu desde o Telêmaco deFénelon para designar o velho amigo protetor, guia e mestre, fundamenta-se no desenvolvimento do tema pedagógico”
“A análise crítica do aparecimento da Odisséia levanta um problema decisivo. A Telemaquia foi um poema originariamente independente ou esteve desde o início incluído na epopéia tal como o encontramos hoje?”
“O conjunto da Odisséia constitui uma linda criação composta de duas partes separadas: Ulisses, ausente e retido na ilha da ninfa apaixonada, rodeado de mar, e o seu filho inativo, à espera dele no lar abandonado.”
“Este jovem passivo, amável, sensível, dolorido e sem esperança teria sido um aliado inútil para a luta rude e decisiva da vingança de Ulisses, que no seu regresso ao lar seria forçado a enfrentar os pretendentes sem nenhuma ajuda. Mas Atena converte-o no companheiro de luta, valente, ousado e decidido.
Objetou-se, contra a afirmação de uma formação pedagógica consciente da figura de Telêmaco, nos quatro primeiros cantos da Odisséia, que a poesia grega não nos dá nenhum quadro do desenvolvimento interno de um caráter. A Odisséia não é, efetivamente, uma novela pedagógica moderna, e por isso a transformação de Telêmaco não pode ser apontada como desenvolvimento, no sentido atual. Naquele tempo só podia ser explicada como obra da inspiração divina. Mas essa inspiração não surge, como é freqüente na epopéia, de modo puramente mecânico, por ordem de um Deus ou simplesmente em sonhos.”
“os dois grandes aristocratas, Píndaro e Platão.”
“Não falta nenhum traço essencial nesta Telemachou paideia: nem os conselhos de um velho amigo experiente; nem o influxo delicado e sensível da mãe temerosa e cheia de cuidados pelo seu filho único (e não será conveniente consultá-la no momento decisivo, porque seria muito mais capaz de, com os seus temores, refrear o filho, por longo tempo mimado, do que compreender-lhe a súbita elevação)” Uma ficção em que Platão tivesse conseguido, senão erigir a República, pelo menos falsificar Homero, de forma que a Odisséia a que temos acesso seja da sua pena, e não mais antiga!
“É com a mais calorosa simpatia que o poeta pinta a confusão íntima de Telêmaco quando este, educado na simplicidade da nobreza rural, é recebido numa pequena ilha como hóspede de grandes senhores e entra pela primeira vez no grande mundo para ele desconhecido.”
“Agamemnon foi morto logo após o regresso de Tróia; Ulisses esteve 20 anos afastado do lar. Este espaço de tempo bastou ao poeta para poder situar o ato e a estada de Orestes na Fócida, antes do começo da ação da Odisséia. [Tudo mui bem pensado. Poderia de fato ser um o autor? Ainda mais sempre o pai de todos?] O acontecimento era recente, mas a fama de Orestes estendera-se já a toda a Terra, e Atena refere-o a Telêmaco em palavras inflamadas.”
1.3 Homero como educador
“foi o cristianismo [neste caso, Platão como seu mentor!] que, por fim, converteu a avaliação puramente estética da poesia em atitude espiritual predominante. É que isso lhe possibilitava rejeitar, como errôneo e ímpio, a maior parte do conteúdo ético e religioso dos antigos poetas e, ao mesmo tempo, aceitar a forma clássica como instrumento de educação e fonte de prazer.” “Repugna-nos naturalmente ver a tardia poética filosófica do helenismo interpretar a educação em Homero como uma árida e racionalista fabula docet ou, de acordo com o modelo dos sofistas, fazer da epopéia uma enciclopédia de todas as artes e ciências. Mas esta quimera da escolástica não é senão a degenerescência de um pensamento em si mesmo correto, o qual, como tudo quanto é belo e verdadeiro, se torna grosseiro em mãos grosseiras.”
“A arte tem um poder ilimitado de conversão espiritual. É o que os gregos chamaram psicagogia.”
“Na epopéia manifesta-se a peculiaridade da educação helênica como em nenhum outro poema. Nenhum outro povo criou por si mesmo formas de espírito comparáveis àquelas da literatura grega posterior. Dela nos vêm a tragédia, a comédia, o tratado filosófico, o diálogo, o tratado científico sistemático, a história crítica, a biografia, a oratória jurídica e panegírica, a descrição de viagens e as memórias, as coleções de cartas, as confissões e os ensaios.”
“E, como sucedeu entre os gregos, também entre os indianos, germanos, romanos, finlandeses e alguns povos nômades da Ásia Central nasceu dos cantos heróicos uma epopéia.”
“Os poeirentos manuscritos da épica medieval da Canção de Rolando, do Beowulf e dos Nibelungos, dormitavam nas bibliotecas e foi preciso que uma erudição prévia os redescobrisse e trouxesse à luz. A Divina Comédia de Dante é o único poema da Idade Média que desempenhou papel análogo ao de Homero, não só na vida da sua própria nação, mas até de toda a humanidade.”
“Hölderlin disse: O que permanece é obra dos poetas. Este verso exprime a lei fundamental da história da educação helênica.”
“Na nossa grande epopéia, precedida de longa evolução dos cantos heróicos, estes epítetos, com o uso, perderam a vitalidade, mas são impostos pela convenção do estilo épico. Os epítetos isolados já não são empregados sempre com um significado individual e característico. São em grande medida ornamentais.”
“Tudo quanto é baixo, desprezível e falho de nobreza é suprimido do mundo épico.”
“Homero tudo engrandeceu: animais e plantas, a água e a terra, as armas e os cavalos. Podemos afirmar que não deixou nada sem elogio e sem louvor. Mesmo Tersites, o único que ele difamou, denomina-o orador de voz clara.” Dión de Prusa
“a poesia mélica nasce de canções populares; o iambo, dos cantos das festas dionisíacas; os hinos e o prosodion, dos serviços divinos; os epitalâmios, das cerimônias populares das bodas; as comédias, dos komos; as tragédias, dos ditirambos. Podemos dividir assim as formas originais a partir das quais se desenvolvem os gêneros poéticos posteriores”
“A didática e a elegia seguem os passos da épica e aproximam-se dela pela forma. Dela recebem o espírito educador que passa mais tarde a outros gêneros, como os iambos e os cantos corais. A tragédia, tanto pelo seu material mítico como pelo seu espírito, é a herdeira integral da epopéia. É unicamente à sua ligação com a epopéia e não à sua origem dionisíaca que ela deve o seu espírito ético e educador.”
“As descrições de batalhas campais só conseguem despertar o nosso interesse nas cenas dominadas por grandes heróis individuais.”
“Em vez de uma história da guerra troiana ou da vida inteira de Aquiles, apresenta apenas, com prodigiosa segurança, as grandes crises, alguns momentos de significação representativa e da mais alta fecundidade poética, o que permite concentrar e evocar, em breve espaço de tempo, dez anos de guerra com todos os seus combates e vicissitudes, passadas, presentes e futuras.”
“A Ilíada começa no instante em que Aquiles, colérico, retira-se da luta, o que põe os gregos no maior apuro.”
“do mesmo modo o final não se compara ao êxito triunfante de uma aristeia comum. Aquiles não fica satisfeito com a sua vitória sobre Heitor. Toda a história finda com a tristeza inconsolável do herói, com aquelas espantosas lamentações de morte de gregos e troianos perante Pátroclo e Heitor, e com a sombria certeza que o vencedor tem a respeito do seu próprio destino.
Quem pretende suprimir o último Canto ou continuar a ação até a morte de Aquiles, e quiser fazer da Ilíada uma aquileida ou pensar que ela era originariamente assim, estará encarando o problema de um ponto de vista histórico e de conteúdo, não do ponto de vista artístico da forma. (…) É o triunfo do herói, não a sua ruína, que pertence à autêntica aristeia. A tragédia contida na resolução de Aquiles de vingar em Heitor a morte de Pátroclo, apesar de saber que após a queda de Heitor o espera a ele, por sua vez, uma morte certa, não encontrará a sua plenitude até a consumação da catástrofe.”
“À cegueira de Agamemnon, junta-se, no Canto IX, a de Aquiles, de conseqüências bem mais graves, porque <não sabe ceder> e, cego pela cólera, ultrapassa todas as medidas humanas. Quando já é tarde demais é que fala cheio de arrependimento. Maldiz então o rancor que o levou a ser infiel ao seu destino heróico, a permanecer ocioso e a sacrificar o seu amigo mais querido. Agamemnon, depois da sua reconciliação com Aquiles, lamenta igualmente a sua própria cegueira numa ampla alegoria sobre os efeitos mortais de ate. Homero concebe a ate, tal como a moira, de modo estritamente religioso, como força divina a que o homem mal pode resistir.”
“A frase de Heráclito situa-se no final do caminho percorrido pelos gregos no conhecimento do destino humano. O poeta que criou a figura de Aquiles está no início desse caminho.”
“A ação não se desentranha como uma desconexa sucessão temporal. Impera sempre nela o princípio da razão suficiente.” “Homero, no entanto, não é autor moderno que considera tudo simplesmente no seu desenvolvimento interno, como experiência ou fenômeno de uma consciência humana. No mundo em que vive, nada de grande acontece sem a cooperação de uma força divina, e a mesma coisa acontece na epopéia.”
“Os deuses estão sempre interessados no jogo das ações humanas. Tomam partido por este ou por aquele, conforme desejam repartir os seus favores ou tirar vantagem. (…) Também na Ilíada os deuses se dividem em dois campos. Isto é crença antiga. Mas são novas algumas facetas da sua elaboração, como o esforço do poeta para manter, tanto quanto possível, na dissensão que a guerra de Tróia provoca no Olimpo, a lealdade mútua dos deuses, a unidade do seu poder e a estabilidade do seu reino divino. A causa última de todos os acontecimentos é a decisão de Zeus. (…) A consideração psicológica e a metafísica de um mesmo acontecimento não se excluem de modo nenhum.” “A epopéia conserva, assim, uma duplicidade característica. Qualquer ação deve ser encarada ao mesmo tempo sob o ponto de vista humano e sob o ponto de vista divino.”
“Basta pensar na epopéia cristã medieval escrita em língua românica ou germânica, onde nenhuma força divina interfere e todos os acontecimentos decorrem sob o prisma do acontecer subjetivo e da atividade puramente humana, para nos darmos conta da diferença da concepção poética da realidade própria de Homero.”
“Quando dois povos lutam entre si e imploram com preces e sacrifícios o auxílio dos seus deuses, põem os deuses em situação delicada, sobretudo dentro de um pensamento que acredita na onipotência e na justiça imparcial do poder divino.” “Em contraste, (…) vê-se na Ilíada um sentimento religioso cuja representação da divindade, e principalmente do soberano supremo do mundo, serve de alimento às idéias mais sublimes da arte e da filosofia posteriores. Só na Odisséia, porém, descobrimos uma concepção mais coerente e sistemática do governo dos deuses.
Recebe da Ilíada a idéia de um concílio dos deuses, no início dos Cantos I e V; mas cai na vista a diferença entre as cenas tumultuosas do Olimpo da Ilíada e os maravilhosos concílios de personalidades sobre-humanas da Odisséia. Na Ilíada os deuses chegam quase a passar a vias de fato.” “os deuses empregam na sua luta meios humanos – humanos demais” “O Zeus que preside ao concílio dos deuses no começo da Odisséia representa uma elevada consciência filosófica do mundo.” “É através desse prisma ético e religioso que o poeta encara os sofrimentos de Ulisses e a hybris [hubris] dos pretendentes, expiada com a morte.”
“Cada personagem conserva firmemente a sua atitude e o seu caráter. Esta rígida construção ética pertence, provavelmente, aos últimos estágios da elaboração poética da Odisséia.”
1.4 Hesíodo e a vida do campo
“A vida despreocupada da classe senhorial, em Homero, não deve induzir-nos em erro: a Grécia exige dos seus habitantes uma vida de trabalho.”
“O seu solo é formado de múltiplos vales estreitos e paisagens cortadas por montanhas. Quase não tem as vastas planícies, fáceis de cultivar, do norte da Europa, o que obriga a uma luta incessante com o solo para arrancar dele o que só assim ele consegue dar. A agricultura e o pastoreio foram sempre as ocupações mais importantes e mais características dos gregos. Só no litoral prevaleceu, mais tarde, a navegação. Nos tempos mais remotos predominou em absoluto a atividade agrícola.”
“Hesíodo conta no conhecido proêmio da Teogonia como despertou para a vocação de poeta: era um simples pastor e guardava os seus rebanhos no sopé do Hélicon, quando um dia recebeu a inspiração das musas, que lhe puseram nas mãos o bastão do rapsodo.”
“Embora não se possa, num povo tão multiforme como o grego, generalizar a partir da situação da Beócia, as condições desta são, em grande medida, típicas. (…) Não existe a escravatura e nada indica, mesmo remotamente, que aqueles camponeses e pastores que viviam do trabalho das suas mãos descendessem de uma raça subjugada na época das grandes migrações, como acontecia na Lacônia.”
“para Hesíodo o mundo heróico pertence a outra época, diferente e melhor do que a atual, <a idade do ferro> que descreve com cores tão sombrias nos Erga. Não há nada de tão característico no sentimento pessimista do povo trabalhador como a história das cinco idades do mundo, que começa com os tempos dourados, sob o domínio de Cronos, e leva, pouco a pouco, em linha descendente, à subversão do direito, da moral e da felicidade humana nos duros tempos atuais.”
“<Camponês> ainda não quer dizer <inculto>. As próprias cidades dos tempos antigos, principalmente na metrópole grega, são acima de tudo cidades rurais e continuam a sê-lo mais tarde”
“O seu poema dirige-se primordialmente aos homens da sua condição e parte do princípio de que os seus ouvintes entendem a linguagem artística de Homero, que é a que ele próprio emprega.”
“Na grande massa das sagas da Teogonia encontramos muitos temas antiquíssimos, já conhecidos de Homero, mas também muitos outros que nele não aparecem. (…) Os preferidos são os mitos que exprimem a concepção da vida realista e pessimista daquela classe ou as causas das misérias e necessidades da vida social que os oprimem: o mito de Prometeu, no qual Hesíodo encontra a solução para o problema do cansaço e dos sofrimentos da vida humana; (…) o mito de Pandora, que é alheio ao pensamento cavaleiresco e exprime a concepção triste e prosaica da mulher como fonte de todos os males. (…) O modo como, p.ex., conta as histórias de Prometeu e Pandora pressupõe nitidamente que já eram conhecidas dos seus ouvintes. (…) todas as classes sociais possuem o seu próprio tesouro de mitos.”
“A grande novidade desta obra está em o poeta falar na primeira pessoa. (…) É o enlace imediato do poema com a disputa jurídica sustentada contra o seu irmão Perses que justifica esta ousada inovação.”
“Zeus, que humilha os poderosos e exalta os humildes” Já ouvi isso nalgum lugar!
“Só o ricaço, que tem os celeiros cheios e não está apertado pelo cuidado da própria subsistência, pode entregar-se à inútil mania das disputas. Ele pode fazer maquinações contra a fazenda e os bens dos outros, e desperdiçar o tempo no mercado.”
“Insensatos, não sabem quão verdadeira é a máxima que diz que a metade é maior que o todo e qual é a bênção contida na erva mais humilde que a terra faz crescer para o homem, a malva [flor púrpura] e o asfódelo.” Erga, 40
“A tendência causal nascente encontrou satisfação na construção sagaz de uma genealogia completa dos deuses. (…) o Caos, que também encontramos nos mitos nórdicos, é evidentemente uma idéia originária das raças indo-germânicas. (…) O pensamento da Teogonia não se contenta em pôr em interação os deuses reconhecidos e venerados nos cultos nem se atém aos conceitos tradicionais da religião em vigor.”
“logo no relato introdutório sobre a Éris boa e a má vê-se que a Teogonia e os Erga, apesar da diferença dos assuntos, não estavam separadas na mente do poeta e o pensamento do teólogo penetra o do moralista, assim como o deste se manifesta claramente na Teogonia.”
“O trabalho e os sofrimentos devem ter aparecido em algum momento no mundo. Não podem ter feito parte, desde a origem, da ordem divina e perfeita das coisas. Hesíodo assinala-lhes como causa a sinistra ação de Prometeu, o roubo do fogo divino, que encara do ponto de vista moral. Como castigo, Zeus criou a primeira mulher, a astuta Pandora, mãe de todo o gênero humano. Da caixa de Pandora saíram os demônios da doença, da velhice, e outros males mil que hoje povoam a Terra e o mar.”
Não merecemos mais o mito.
“Este uso normativo do mito revela-se com maior nitidez porque Hesíodo, nos Erga, coloca a narração das 5 idades do mundo logo em seguida à história de Prometeu, mediante uma fórmula de transição que talvez não tenha estilo, mas é sumamente característica para o que nos interessa. Se quiseres, contar-te-ei com arte uma segunda história até o fim. Acolhe-a, porém, no teu coração. (Erga, 106).”
“Hesíodo não viu que, na realidade, os dois mitos se excluem (…) Enumera como causas da desventura cada vez maior dos homens o aumenta da irreflexão, o desaparecimento do temor dos deuses, a guerra e a violência. Na quinta idade, a do ferro, em que o poeta lamenta ser forçado a viver, domina só o direito do mais forte. Nela só prosperam os malfeitores.” Shishio/Meruem
Somos todos Prometeus. Somos promessas prestes a não vingar.
“Homero e Píndaro chamam ainos também aos exemplos míticos. Só mais tarde o conceito se circunscreve às fábulas de animais. Possui o sentido já conhecido de advertência ou conselho. Assim, não é apenas a fábula do falcão e do rouxinol que é ainos. Ela é só um exemplo que Hesíodo dá aos juízes.”
“A identificação da vontade divina de Zeus com a idéia do direito e a criação de uma nova personagem divina, Dike, tão intimamente ligada a Zeus, o deus supremo, são a imediata conseqüência da força religiosa e da seriedade moral com que a classe camponesa nascente e os habitantes da cidade sentiram a exigência da proteção do direito.”
“Deixa-me aconselhar-te com verdadeiro conhecimento, Perses, minha criança grande. (…) Os deuses imortais puseram o suor antes do êxito. A senda que a ele conduz é íngreme e comprida, e de início penosa.”
“O trabalho é celebrado como o único caminho, ainda que difícil, para alcançar a arete. (…) Não se trata da arete guerreira da antiga nobreza, nem da arete da classe proprietária, baseada na riqueza, mas sim da arete do homem trabalhador, que tem a sua expressão numa posse de bens moderada.” “Hesíodo quer com plena consciência colocar ao lado do adestramento dos nobres, tal como se espelha na epopéia homérica, uma educação popular, uma doutrina da arete do homem simples.”
“Perses, e quem quer que ouça as doutrinas do poeta, deve estar disposto a deixar-se guiar por ele, caso não seja capaz de conhecer intimamente o que lhe é proveitoso e o que lhe é prejudicial. (…) Estes versos constituíram, na ética filosófica posterior, o fundamento primeiro de toda a doutrina moral e pedagógica. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles aceita-os integralmente nas suas considerações preliminares sobre o princípio adequado do ensino moral. (…) Perses não tem uma concepção justa. Mas o poeta tem de admitir que ela pode ser ensinada, na medida em que procura transmitir-lhe a sua própria convicção e influenciá-lo.”
“Quem vive na pobreza é aborrecido pelos deuses e pelos homens; é comparável ao zangão, que devora o penoso trabalho das abelhas. Procura um prazer justo, dando-te ao trabalho numa medida equilibrada. (…) O trabalho é a única coisa justa na tua condição”
“Esta corrente imemorial que brota da terra, inconsciente ainda de si própria, é a parte mais comovedora de Hesíodo e a causa principal da sua fôrça.”
“Hesíodo é o primeiro poeta grego que fala do seu ambiente em seu próprio nome. Deste modo ergue-se acima da esfera épica, que apregoa a fama e interpreta as sagas, até a realidade e as lutas atuais. (…) Surge aqui pela primeira vez uma pretensão a guia, que não se fundamenta numa ascendência aristocrática nem numa função oficial reconhecida. Ressalta imediatamente a semelhança com os profetas de Israel, já salientada de tempos antigos. No entanto, é com Hesíodo, o primeiro dos poetas gregos a apresentar-se com a pretensão de falar publicamente à comunidade, baseado na superioridade do seu conhecimento, que o helenismo se anuncia como uma época nova na história da sociedade.”
“É característica pessoal do poeta-profeta grego querer guiar o Homem transviado para o caminho correto, por meio do conhecimento mais profundo das conexões do mundo e da vida.”
1.4 Educação estatal de Esparta
“Renunciaríamos de antemão a compreender a história dos gregos se, em conformidade com as divisões habituais do assunto, deixássemos o Estado aos historiadores <políticos> e aos investigadores do direito público e nos limitássemos ao conteúdo da vida espiritual. Pode-se escrever uma história da cultura alemã num longo período sem aludir à política. Esta só é fundamental nos tempos modernos. Por causa disso estudou-se durante muito tempo o povo grego e sua cultura predominantemente sob um prisma estético.Mas isto é um violento deslocamento do centro de gravidade. Só na polis se pode encontrar aquilo que abrange todas as esferas da vida espiritual e humana e determina de modo decisivo a sua estrutura. No período primitivo da cultura grega, todos os ramos da atividade espiritual brotam diretamente da raiz unitária da vida em comunidade.”
“É da maior importância para o nosso intuito ver como o espírito da polis grega encontrou a sua expressão, primeiro na poesia e logo a seguir na prosa”
“A mescla de dialetos diferentes, visível na epopéia, prova que a criação artística da poesia homérica é fruto da colaboração de várias raças e povos na elaboração do vocabulário, estilo e métrica dos poemas. (…) A investigação histórica jamais poderá desligar do nosso Homero cantos inteiros que apresentem uma tonalidade unitária de dialetos eólios. As particularidades do espírito dórico e jônico, ao contrário, revelam-se de maneira precisa nas formas da vida das cidades e na fisionomia espiritual da polis. Ambos os tipos se juntam na Atenas dos séculos V e IV. Enquanto a vida real do Estado ateniense recebe o influxo decisivo do ideal jônico, na esfera espiritual, por influência aristocrática da filosofia ática, vive a idéia espartana de uma regeneração que, no ideal platônico da formação, funde-se numa unidade superior com a idéia fundamental jônico-ática, despojada da sua forma democrática, de um Estado regido pelo direito.”
“em vão se buscaria um nome espartano entre os moralistas e filósofos gregos. Em contrapartida, Esparta tem, de pleno direito, um lugar na história da educação.”
“ao contrário de Homero e Hesíodo, na elegia de Tirteu encontramos apenas a formulação de um ideal, como é próprio da essência dessa poesia de puro pensamento.”
“O nosso testemunho principal, a Constituição dos Lacedemônios, de Xenofonte, é fruto do romantismo meio filosófico meio político do séc. IV a.C. (…) A admiração de Xenofonte baseava-se ainda no conhecimento de Esparta através de uma íntima experiência pessoal, enquanto o enlevo romântico que se revela na biografia de Licurgo, por Plutarco,¹ baseia-se apenas num saber adquirido em antigas fontes literárias de valor heterogêneo.”
¹ Nunca será o bastante alertar o leitor desatento: Plutarco não tem quase valor histórico; todas as suas biografias devem ser lidas com suspeição a priori, como anedotas folclóricas guardando esparsos fundos de verdade.
ORIGEM DA DISTINÇÃO DOS NOMES LACEDEMÔNIA E ESPARTA
“A crença de que a educação espartana era uma preparação militar unilateral deriva da Política de Aristóteles. (…) Depois da vitória na guerra do Peloponeso, Esparta conseguiu na Grécia uma hegemonia indiscutível, que perdeu ao fim de 30 anos, após a catástrofe de Leuctra.” “O dinheiro, que antes Esparta mal conhecia, entrou na cidade em torrentes, e <foi descoberto> um velho oráculo, segundo o qual a ambição arruinaria Esparta. Nesta época, dominada por uma política de expansão fria e calculista, ao estilo de Lisandro, em que os Lacedemônios se tinham apoderado despoticamente das acrópoles de quase todas as cidades gregas e as liberdades políticas das chamadas cidades autônomas haviam sido todas destruídas, a antiga disciplina espartana surgiu involuntariamente à luz do uso maquiavélico que dela fazia Esparta.”
“A migração dórica, de que os gregos sempre guardaram uma recordação indelével, é o último dos movimentos de povos, possivelmente originários da Europa Central, que a partir da península balcânica penetraram na Grécia e se misturaram com os povoadores de outras raças mediterrânicas ali fixadas primitivamente, constituindo assim o povo grego que a história nos apresenta. O tipo característico dos invasores conservou em Esparta a sua maior pureza. A raça dórica ofereceu a Píndaro o seu ideal de homem loiro, de alta estirpe, tal como era representado não só o Menelau homérico, mas também o herói Aquiles, e em geral todos os <helenos de loira cabeleira> da Antiguidade heróica. A primeira coisa a levar em conta é que os espartanos constituíam, entre a população lacônia, apenas uma reduzida classe dominante, de formação tardia. Sob o seu domínio estava uma classe popular, livre, operária e camponesa, os periecos, bem como os servos hilotas, a massa dos submetidos, quase sem quaisquer direitos.Os antigos relatos dão-nos de Esparta a imagem de um acampamento militar permanente.Essa aparência vinha muito mais da constituição inteira da comunidade do que de uma ânsia de conquista. (…) A assembléia do povo espartano não é outra coisa senão a antiga comunidade guerreira. Não há nela qualquer discussão. Limita-se a votar SIM ou NÃO em face de uma proposta definida do conselho dos anciãos. [Daí poderia advir o orgulho nacionalista hegeliano diante de uma origem bárbara da cultura superior, não só d’A República como também do Estado Germânico, suposto fim da Históriae consumação do Espírito!] Este tem direito a dissolver a assembléia e pode retirar da votação as propostas com resultado desfavorável. (…) A sua organização representa um poder moderador no conflito de forças entre os senhores e o povo. (…) É significativo que o eforato [conselho de anciãos] seja a única instituição não-atribuída à legislação de Licurgo.”
“quanto mais importância se concede à educação e à tradição oral, menor é a coação mecânica e externa da lei sobre todos os detalhes da vida.”
“A participação de todos os cidadãos espartanos na educação militar torna-os uma espécie de casta aristocrática. Aliás, muitos traços dessa educação lembram a formação da antiga nobreza grega. Mas o fato de ter sido estendida aos que não eram nobres prova que houve uma evolução que modificou neste sentido o presumível domínio original dos nobres.”
“Tirteu é ainda a nossa única fonte em relação às guerras messênicas, dado que a crítica moderna demonstrou ser total ou predominantemente fictícia a tradição dos historiadores mais recentes. O impulso da sua inspiração foi suscitado pela grande sublevação dos messênios, três gerações após a sua primeira subjugação. Durante 19 anos lutaram sem cessar, armados de lanças, os pais de nossos pais, com paciente coração; no 20º ano, os inimigos abandonaram os férteis campos e fugiram para as altas montanhas de Ithoma.”
“Em nenhum outro lugar a poesia grega revela tão claramente como a criação poética brota da vida da comunidade humana. (…) Por isso se exprime com freqüência na 1ª pessoa do plural: Lutemos!, Morramos!.”
“A estreita ligação entre o indivíduo e a cidade estava, em tempo de paz, simplesmente latente para o cidadão médio, mesmo num Estado como o espartano. No caso de perigo, todavia, a idéia da totalidade manifestava-se subitamente com a maior força. A dura necessidade da longa e duvidosa guerra que acabava de eclodir foi a base férrea em que o Estado espartano se cimentou. Não precisava só de políticos e militares, naquela conjuntura. Precisava também encontrar expressão adequada para os novos valores humanos que na guerra se revelavam.” “a lenda fez de Tirteu um enviado de Apolo.”
“Do ponto de vista formal, a elegia de Tirteu não é uma criação original. Os elementos formais lhe foram dados. A forma métrica da elegia – o dístico – é indubitavelmente mais antiga.”
DICOTOMIA ELEGIA X ODE: “A elegia não possui forma <interna> como chegaram a julgar os gramáticos da Antiguidade. Guiados pela evolução posterior do gênero e por uma falsa etimologia, quiseram reduzir todas as formas da elegia a uma raiz comum: o canto fúnebre. A elegia (…) só tinha um elemento constante: o fato de ser dirigida a alguém, indivíduo ou multidão. (…) Até o nosso fragmento, que começa num tom aparentemente mais reflexivo, atinge o seu acme e o seu termo sob a forma da exortação (…) simplesmente tal como a poesia didática dos Erga hesiódicos, dirige-se de maneira mais direta e intencional a uma personalidade determinada.” “Veste com a linguagem da epopéia um assunto contemporâneo.”
“E ainda que fosse mais belo que Titono e mais rico do que Midas e Ciniras, mais régio que Pélops, filho de Tântalo, e dotado de uma língua mais lisonjeira que Adrasto, se tivesse todas as glórias do mundo, mas não possuísse o valor guerreiro, não quereria honrá-lo. Não dará boas provas de si na luta se não for capaz de encarar a morte sangrenta na peleja e de lutar corpo-a-corpo com o adversário.”
“Mas aquele que cai entre os combatentes e perde a vida bem-amada cobre de glória a sua cidade, os seus concidadãos e o seu pai, ao ser chorado por todos, novos e velhos, quando jaz, com o peito, o côncavo escudo e a armadura trespassados por muitos projéteis; a sua dolorosa memória enche a cidade inteira e são honrados entre os homens o seu sepulcro e os seus filhos, e os filhos dos seus filhos e toda a sua linhagem; a honra do seu nome não se extingue jamais e, mesmo que jaza no seio da terra, torna-se imortal.”
“a <polisação> do conceito da arete heróica deriva da <polisação> da idéia da glória heróica” (…) O <nome> é preservado com segurança da fugacidade do presente, pela vida duradoura da comunidade. § os gregos primitivos não conheceram a imortalidade da <alma>. O Homem morria com a morte do corpo. A psyche homérica significa antes o contrário: a imagem corpórea do próprio Homem, que vagueia no Hades como uma sombra: um puro nada.”
“O homem político alcança a perfeição através da perenidade da sua memória na comunidade pela qual viveu ou morreu. Só o crescente menosprezo pelo Estado, próprio das épocas seguintes, e a progressiva valorização da alma individual, que alcança o apogeu com o Cristianismo, possibilitaram aos filósofos tomarem o desprezo da glória por uma exigência moral. Nada de semelhante se encontra ainda na concepção do Estado de Demóstenes e de Cícero. É com a elegia de Tirteu que se inicia o desenvolvimento da ética do Estado.”
“O poeta contrasta a morte gloriosa no campo de batalha com a vida desventurada e errante, destino inevitável do homem que não cumpriu na guerra os seus deveres de cidadão (…) Anda pelo mundo errante, com o pai, a mãe, a mulher e os filhos. Na sua pobreza e indigência, é um estranho onde quer que vá e todos o fitam com olhos hostis.”
“Não estabelece qualquer diferença entre os que foram desterrados por uma necessidade estatal de exceção, porque fugiram ante o inimigo, e os que abandonaram voluntariamente o país para escaparem ao serviço militar, sendo forçados por isso a viver como estranhos em outra cidade.” “O novo ideal da arete política exprime, em face da arete da epopéia, uma transformação da concepção religiosa. A polis é a suma de todas as coisas humanas e divinas.”
“O pensamento que impregna a Eunomia tem a maior importância para o conhecimento da atitude pessoal de Tirteu e da sua oposição ao espírito político da Jônia e de Atenas. Enquanto estas nunca se sentiram vinculadas à autoridade da tradição e do mito, mas se empenharam em regular a distribuição dos direitos políticos segundo um pensamento mais ou menos universal, social e justo, Tirteu, à moda antiga, faz derivar do poder dos deuses a eunomia espartana e vê nessa origem a sua garantia mais alta e inviolável. Foi o próprio Zeus, filho de Crono, esposo da coroada Hera, que aos Heráclidas [tradição de haver dois reis, inicialmente, na cidade – descendentes de Heracles] deu esta cidade. Abandonamos com eles o ventoso Erineus e viemos até a vasta ilha de Pélops.”
“os reis são o único elo legítimo entre o Estado atual e o ato de doação divina que no passado o fundou. O oráculo de Delfos fundamentou para sempre a posição legítima dos reis.”
“O Tirteu da Eunomia pertence a Esparta. O Tirteu das elegias guerreiras pertence à Grécia inteira.”
“Para ilustrar a posição dos guerreiros no seu Estado ideal, Platão toma Tirteu como modelo, quando propõe honrar os guerreiros acima dos vencedores em Olímpia.”
“É a autêntica idéia grega da formação. Uma vez modelada, a forma conserva o seu valor mesmo em estágios posteriores e mais elevados e qualquer novidade precisa confrontar-se com ela. Assim, o filósofo Xenófanes de Cólofon, cem anos após Tirteu, aplica-se em transformar aquelas idéias e sustenta que só à força espiritual cabe, no Estado, a mais alta posição”
“A crítica de Platão dirige-se menos contra Tirteu que contra os excessos de força do Estado espartano da época, cujo fundamento encontra nos poemas guerreiros daquele.Nem mesmo os seus maiores admiradores poderiam descobrir naquela Esparta inflexível e unilateral qualquer vestígio de espírito musical e poético.Nesse sentido, são eloqüentes o silêncio de Xenofonte e os esforços fracassados de Plutarco para preencherem aquela lacuna. (…) Felizmente, apesar da fragmentação das nossas tradições e documentos, podemos provar que a antiga Esparta dos tempos heróicos do séc. VII tinha uma vida mais rica e estava totalmente livre da pobreza espiritual que a sua imagem histórica nos apresenta de modo tão vigoroso.”
“foi chamado o grande músico Terpandro de Lesbos, inventor da cítara de 7 cordas, para dirigir o coro das festas religiosas e organizá-lo segundo o sentido das suas inovações. A Esparta das épocas subseqüentes adotou rigidamente os padrões de Terpandro e considerou toda a evolução posterior como uma revolução contra o Estado. Mas esta própria rigidez mostra até que ponto a antiga Esparta encarou a educação musical como coisa essencial para a formação do ethos humano”
“Os abundantes resquícios de poesias corais de Alcman, lírico originário de Sardes e naturalizado espartano, completam de modo perfeito a imagem da Esparta arcaica.” “Os seus versos, escritos para os coros das jovens espartanas, jorram do humor jovial e da força realista da raça dórica, que só em traços isolados se manifestam através da estilização homérica das elegias de Tirteu. As canções de Alcman, que mencionam os nomes das jovens do coro e apregoam os seus méritos e as suas pequenas ambições e invejas, transportam-nos com idêntica vivacidade e realismo às rivalidades dos concursos musicais da antiga Esparta e revelam-nos que o espírito de emulação do sexo feminino não era inferior ao dos homens. Vê-se por elas também, com toda a clareza, que a condição da mulher na vida pública e privada de Esparta era muito mais livre que entre os Jônios, influenciados pelos costumes asiáticos, e que em Atenas, por sua vez influenciada pelos Jônios.”
1.5 O Estado jurídico e o seu ideal de cidadão
“Aos jônios, como a todos os gregos da Ásia Menor, falta energia política construtiva, e em nenhum lugar deixaram uma formação estatal permanente e ativa.”
“A estreiteza da faixa costeira em que ocorreu a série de invasões e a impossibilidade de penetrar profundamente no interior do país, ocupado por povos politicamente desorganizados e bárbaros, como os lídios, frígios e cários, atraiu cada vez mais as cidades da costa para o comércio marítimo, com o aumento da segurança na navegação. Isto converteu logo a nobreza de proprietária rural em empresária.”
“A ação da Odisséia chega, para leste, até a Fenícia e Cólquida; para sul, até o Egito; para o ocidente, até a Sicília e a Etiópia Ocidental; e para o norte, no Mar Negro, até o país dos cimérios. É perfeitamente a narração do encontro do navegante com uma frota de navios e mercadores fenícios, cujo comércio se estendia a todo o Mediterrâneo e fazia a mais perigosa concorrência aos gregos. A viagem dos argonautas, com as suas maravilhosas descrições de povos e países longínquos, é também uma autêntica epopéia marítima.”
“Esta elevada estima pelo direito por parte dos poetas e dos filósofos não precede a realidade, como se poderia pensar. Pelo contrário, é apenas o reflexo da importância fundamental que aqueles progressos deviam ter na vida pública daqueles tempos, i.e., desde o séc. VII até o início do séc. VI.”
“o aumento da oposição entre os nobres e os cidadãos livres, a qual deve ter surgido em conseqüência do enriquecimento dos cidadãos alheios à nobreza, gerou facilmente o abuso político da magistratura e levou o povo a exigir leis escritas. As censuras de Hesíodo contra os senhores venais, que na sua função judicial atropelavam o direito, eram o antecedente necessário dessa reclamação universal.”
“Dizia-se das partes contenciosas que <dão e recebem dike>. Assim se compendiava numa palavra só a decisão e o cumprimento da pena. O culpado <dá dike>, o que equivale originariamente a uma indenização, ou compensação. O lesado, cujo direito é reconduzido pelo julgamento, <recebe dike>. O juiz <reparte dike>. Assim, o significado fundamental de dike equivale aproximadamente a dar a cada um o que lhe é devido. (…) O alto sentido que a palavra recebe na vida da polis posterior aos tempos homéricos não se desenvolve a partir desse significado exterior, e sobretudo técnico, mas sim do elemento normativo que encontra no fundo daquelas antigas formas jurídicas, conhecidas de todo mundo. (…) hybris [ou hubris] – palavra cujo significado original corresponde à ação contrária ao direito. [arrogância, prepotência: arroga-se um direito que efetivamente não tem, não segue o caminho justo]Enquanto themis refere-se principalmente à autoridade do direito, sua legalidade e sua validade, dike significa o cumprimento da justiça. Assim se compreende que a palavra dike se tenha convertido necessariamente em grito de combate de uma época em que se batia pela consecução do direito uma classe que até então o recebera apenas como themis, quer dizer, como lei autoritária.”
“Os próprios nobres tinham de submeter-se ao novo ideal político que surgiu da consciência jurídica e se tornou medida para todos. (…) Encontramos, desde os tempos mais recuados, uma série de palavras que designam certos gêneros de delitos, como adultério, assassínio, rapto, furto. Mas falta-nos um conceito genérico para designar a propriedade pela qual evitamos aquelas transgressões e nos mantemos dentro dos justos limites.”
“O conceito de justiça, tida como a forma de arete que engloba e satisfaz todas as exigências do perfeito cidadão, supera naturalmente todas as formas anteriores. Todavia, os graus anteriores da arete não são por isso suprimidos: ao contrário, são elevados a uma nova forma.”
“A raiz da ética filosófica de Platão e Aristóteles na ética da velha polis foi desconhecida dos tempos posteriores, habituados a encará-la como a ética absoluta e intemporal. Quando a Igreja cristã começou a estudá-la, achou estranho que Platão e Aristóteles chamassem virtudes morais à fortaleza e à justiça. Mas teve de conformar-se com este fato original da consciência moral dos gregos. (…) fizeram-se por isso inúmeras teses sobre a questão de saber se a fortaleza é uma virtude e como é que pode sê-lo. A aceitação consciente da antiga ética da polis pela moral filosófica posterior e a influência que por meio desta ela exerceu sobre o futuro são para nós um processo perfeitamente natural da história do espírito.”
“A educação pública dos jovens é, porém, uma exigência que a filosofia do séc. IV foi a primeira a formular. Esparta é o único dos Estados mais antigos a exercer influência imediata na formação da juventude.”
“É com razão que Platão denomina <antiga formação> a ginástica e a música. O cuidado que as cidades dedicaram, sob a forma de grandes e onerosos concursos, a esta formação, originalmente aristocrática, não se limitava a desenvolver o espírito de luta e o interesse musical. Era na competição que se formava o verdadeiro espírito comunitário. Assim se compreende facilmente o orgulho que os cidadãos gregos tinham em serem membros da sua polis. Para a identificação total de um grego exigia-se não só o seu nome e o do seu pai, mas também o da sua cidade natal.”
“Com razão, o legislador era considerado educador do seu povo, e é característico do pensamento grego que ele seja freqüentemente colocado ao lado do poeta, e as determinações da lei junto das máximas da sabedoria poética.”
“Mas na filosofia da natureza de Anaximandro de Mileto, por volta do séc. VI, ainda achamos um reflexo mais primitivo da idéia de lei. Transpõe para o reino da natureza a representação da dike da vida social da polis e explica a conexão causal da geração e corrupção das coisas como contenda jurídica, em que, por sentença do tempo, elas terão de expiar e pagar indenização conforme as injustiças que cometeram.” “vê-se bem como é profunda a conexão entre o nascimento da consciência filosófica nos jônios e a origem do Estado jurídico.”
“O homem não é só <idiota>; é <político> também. Precisa ter, ao lado da habilidade profissional, uma virtude cívica genérica, pela qual se põe em relações de cooperação e inteligência com os outros, no espaço vital da polis. (…) a nova política do homem não pode estar vinculada, como a educação popular de Hesíodo,¹ à idéia do trabalho humano. (…) Se contemplarmos o processo evolutivo da educação grega a partir do ponto de vista hodierno inclinar-nos-emos a crer que o novo movimento teria de aceitar o programa de Hesíodo: substituir a formação geral da personalidade, própria dos nobres, por um novo conceito de educação popular, em que se avaliaria cada homem pela eficácia do seu trabalho específico, e o bem da comunidade resultaria de cada um realizar com a máxima perfeição possível o seu trabalho particular,¹ tal como o aristocrata Platão exigia no Estado autoritário da sua República, dirigido por uma minoria espiritualmente superior. Estaria de acordo com o tipo de vida popular e a diversidade dos seus mestres; o trabalho não seria uma vergonha, mas o fundamento único da consideração citadina. No entanto, e sem prejuízo do reconhecimento deste importante fato social, a evolução real seguiu um curso completamente diverso.”
¹ O camponês utilitário
² O trecho sublinhado soa familiar?
“Esta aptidão <geral>, política, pertencia até então unicamente aos nobres. (…) O novo Estado não podia esquecer esta arete, se compreendia corretamente os seus próprios interesses.” “o ideal do cidadão permaneceu o que Fênix já ensinara a Aquiles: estar apto a proferir belas palavras e a realizar ações. Os homens dirigentes da burguesia ascendente¹deviam atingir este ideal, e até os indivíduos da grande massa deviam participar, em certa medida, no pensamento desta arete.”
¹ Muito me incomoda este tipo de vocábulo anacrônico de Jaeger ao longo de toda a obra: até que ponto é lícito chamar uma classe não-plebéia porém não-aristocrática nascente na Antiguidade de “burguesia”, termo insólito no contexto? Vou criticar o mesmo de novo mais adiante!
Cabe a questão: o Homem ainda é um animal político? A sociedade parece mais com um vespeiro.
“Para Sócrates, filho de um pedreiro, um simples operário,¹ constituía um paradoxo surpreendente o fato de um sapateiro, um alfaiate ou um carpinteiro precisarem no seu trabalho de um certo saber autêntico, ao passo que ao político bastava uma educação genérica, de conteúdo bastante indeterminado, embora o seu <ofício> tratasse de coisas muito mais importantes. (…) Observada por este prisma, a falta daquela habilidade especial aparecia diretamente como a essência da democracia. (…) Quando o novo estado (sic) jurídico apareceu, a virtude dos cidadãos consistiu na livre submissãode todos, sem distinção de dignidade ou de sangue, à nova autoridade da lei. (…) Neste sentido, não existia o problema da cooperação.”
¹ De novo… Operário!
O ANTI-MESSIAS & O HOMEM-URBANO: “Aristóteles designa o Homem como ser político e, assim, distingue-o do animal pela sua qualidade de cidadão. Esta identificação da humanitas, do ser-homem, com o Estado, compreende-se apenas na estrutura vital da antiga cultura da polis grega, para a qual a vida em comum é a súmula da vida mais elevada e adquire até uma qualidade divina.”
“Platão dá-nos uma transcrição fiel do sentido originário da <cultura geral>, segundo o espírito da primitiva polis grega. (…) A verdadeira educação é para Platão uma formação <geral>, porque o sentido do político é o sentido do geral.”O homem acusado de precipitar o mundo em decadência (Nietzsche), veja só, não passava de um inveterado nostálgico de tempos insondáveis!
“A antiga cidade-estado (sic) é o 1º estágio, depois da educação nobre, na caminhada do ideal <humanista> para uma educação ético-política geral e humana. Aliás, podemos dizer que foi esta a sua verdadeira missão histórica. (…) Não se pode calcular o seu valor nem pelo gênio de cada um dos chefes, cuja aparição depende de condições excepcionais, nem pela sua utilidade para a multidão, à qual não se pode transmitir sem um efeito nivelador sobre as 2 partes. (…) O ideal de uma arete política geral é indispensável, dada a necessidade da formação contínua de uma camada de dirigentes, sem a qual nenhum povo ou Estado pode subsistir, qualquer que seja a sua constituição.” A Europa é um verdadeiro milagre!
1.6 A autoformação do indivíduo na poesia jônico-eólica
“Todavia, (…) não achamos, à primeira vista, uma expressão equivalente do novo ideal de cidadão na poesia da época.” “Apenas podemos mencionar as histórias relativas à fundação de certas cidades, redigidas num estilo épico convencional. Mas nenhuma destas obras da cultura citadina primitiva, já numericamente raras, se eleva à importância de uma verdadeira epopéia do Estado, como entre os romanos foi a Eneida de Virgílio, a última das grandes obras do gênero. (…) foi na criação da prosa que o novo ethos do Estado encontrou a sua verdadeira expressão revolucionária.”
“nenhum escritor jônico ou eólico captou o heroísmo político interior de Sólon, que se tornaria a fonte de uma nova grande poesia.”
“As conexões causais entre o espiritual e o material permanecem na maior obscuridade por ausência completa de qualquer tradição relativa às condições econômicas da época. (…) E este vestígio do espírito jônico tem a maior importância para a história dos gregos e da humanidade.”
“Até os animais, nas disputas das fábulas, reclamam uns aos outros os <seus direitos>, em humorística imitação das relações humanas.”
COISAS QUE HEGEL NÃO VÊ: “É altamente significativo que o tipo de individualismo que com assombrosa independência se manifesta nestas poesias pela primeira vez, não se exprima, à maneira moderna, como simples experiência da sensibilidade do eu” “Este moderno tipo de individualismo poético não é mais do que um retorno às formas primitivas e naturais da arte” “Nada é mais insensato do que julgar que foram os gregos os primeiros a trazerem ao mundo o sentimento e o pensamento individual. Pelo contrário (…) a lírica chinesa, tão aparentada à moderna.”
“não nos é fácil conceber com clareza e precisão o que Arquíloco e outros poetas da sua espécie entenderam por individualidade.” “As manifestações da individualidade nunca são exclusivamente subjetivas. Seria preferível dizer que, numa poesia como a de Arquíloco, o eu individual busca exprimir e representar em si próprio a totalidade do mundo objetivo e suas leis.”
“Os heróis homéricos teriam sentido a perda do Escudo como a ruína de sua honra e prefeririam sacrificar a vida a sofrer semelhante afronta. O novo herói de Paros exprime as suas reservas neste ponto e está certo de provocar o riso dos seus contemporâneos, quando diz: Um dos Saios, nossos inimigos, regozija-se agora com o meu escudo, arma impecável que sem querer deixei ficar num matagal. No entanto, escapei à morte, que é o fim de tudo. Quero lá saber deste escudo! Comprarei outro melhor. A deliciosa mescla do moderno¹ humor naturalista (alheio a qualquer tipo de ilusões, e segundo o qual até um herói só tem uma vida para perder) com a nobre ressonância da retórica épica, que nos fala de <arma impecável> e da morte que <é o fim de tudo>, é fonte inesgotável de efeitos cômicos. Protegido por eles, o esforçado desertor pode aventurar a sua insolente conclusão e afirmar com sinceridade desconcertante: Comprarei outro melhor! Que é um escudo, afinal, senão um pedaço de pele de boi curtida, com uns adornos de metal brilhante!”
¹ Novamente o incômodo com a palavra.
“na audaciosa afirmação pessoal de Arquíloco em face das limitações do decoro tradicional e na decidida franqueza com que a mantém, já se encontra implícita a consciência de poder ser não apenas mais descarado, mas também mais espontâneo e sincero do que aquele que está submetido com mais rigor ao código moral.”
“Se nos afligimos com a maledicência do povo, não desfrutamos o prazer da vida. A inércia e o comodismo da natureza humana tiveram certamente neste processo de emancipação um papel não-desprezível, e é evidentemente nesta direção que aponta a raiz da palavra.”
“Já Homero ensinava que o espírito do Homem é tão mutável como os dias que Zeus ilumina. Arquíloco aplica ao mundo da vida que o rodeia esta sabedoria homérica. (…) A ética da antiga nobreza venerava a Fama como uma força superior, porque tinha dela uma idéia muito diferente: a honra das grandes façanhas e o seu jovial reconhecimento no círculo dos espíritos nobres. Transferida para a massa invejosa, que mede tudo que é grande pela sua própria e acanhada medida, perde qualquer sentido.”
“Foi com certa precipitação que se atribuiu a condições de caráter pessoais a totalidade da poesia iâmbica, de conteúdo em grande parte exprobratório. Julga-se legítimo, neste como em qualquer outro gênero de poesia, pensar numa explicação puramente psicológica e encarar a poesia como resultante da expansão imediata da subjetividade amarga do seu criador. Esquece-se, assim, que a aparição da sátira literária da primitiva cidade grega é um fenômeno característico da época em que se expande a importância crescente do demos. Originariamente, o iambo era de uso corrente nas festas públicas de Dionisos (sic) e correspondia antes à explosão de um sentimento popular do que à expressão de um rancor pessoal. Prova disso é que o espírito do iambo se incorpora com a maior fidelidade e continua na comédia ática, onde o poeta aparece claramente como o porta-voz da crítica possível.”
“Quero contar-vos uma fábula…, assim começa a história do macaco e da raposa. A fábula da raposa e da águia começa do mesmo modo: Existe entre os homens uma fábula que reza assim…”
“Porque em Hesíodo encontra-se freqüentemente esse tema, quis-se deduzir a sua hostilidade pelas mulheres de certo romance passional cuja experiência amarga se teria refletido dessa maneira. Todavia, a troça contra as mulheres e o sexo feminino é um dos temas mais antigos da sátira popular em reuniões públicas. A sua repetição em Semônides de Amorgos não é só uma débil imitação de Hesíodo; ela se vincula, sim, com o antigo e verdadeiro iambo, que nunca consistiu na simples injúria e difamação pública de uma pessoa a quem se quer mal. (…) a sua contrapartida, a sátira contra os homens, também não faltou, embora antes de Aristófanes não a encontremos na poesia.”
“E qual podia ser o valor ideal ou artístico da simples explosão do ódio ou da raiva pessoal, mesmo expressos da forma mais bela? Se assim fosse, não se teria escutado muitos séculos depois, a voz de Arquíloco ao lado daquela de Homero, nos concursos musicais, não o teriam considerado, como testemunha Heráclito, mestre dos gregos, não teriam captado a íntima ligação dos seus poemas como a consciência geral do mundo circundante.”
“Píndaro, o mestre da educação com base no elogio das virtudes nobres, diz: Vi ao longo o satirizante Arquíloco, desamparado e na maior indigência, a cevar-se nas mais violentas e ofensivas inimizades.”
“A religiosidade de Arquíloco tem raízes no problema da tyche. A sua experiência de Deus é a experiência da tyche. O conteúdo destas considerações, e em parte o seu vocabulário, vem de Homero. Mas a luta do Homem contra o destino é transferida do mundo sublime dos heróis para a esfera da vida cotidiana.” “A partir daí, o desenvolvimento da idéia de tyche entre os gregos segue os passos do desenvolvimento do problema da liberdade humana. O esforço para alcançar a independência significa, em grande medida, a renúncia a muito do que o Homem recebeu da tyche como dom.”
“Este primeiro grande monólogo da literatura grega surge da transferência da exortação a outra pessoa, tal como era de uso no iambo e na elegia, para a própria pessoa daquele que fala e que assim se desdobra e é, por um lado, orador, e, por outro, espírito que pensa e quer.”
“Não te deves pavonear perante o mundo, quando venceres, nem abater-te e lamentar-te quando fores vencido; alegra-te com o que é digno de alegria, não desfaleças em excesso; na desgraça, conhece o ritmo que mantém os homens nos seus limites.”
“A aplicação da palavra ao movimento da dança e à música, da qual deriva a nossa palavra, é secundária e esconde o seu significado fundamental. Antes de mais nada, devemos perguntar como é que os gregos entenderam a essência da dança e da música.”
“Ritmo é aqui o que impõe firmeza e limites ao movimento e ao fluxo. (…) Também Demócrito fala do ritmo do átomo no primitivo e autêntico sentido e por ele entende não o movimento do átomo, mas sim, como já Aristóteles corretamente interpretou, o seu <esquema>. (…) É evidente que, quando os gregos falam do ritmo de um edifício ou de uma estátua, não se trata da transposição metafórica da linguagem musical. E a intuição originária que se encontra no âmago da descoberta grega do ritmo da dança e da música não se refere à fluência destas, mas sim, pelo contrário, as suas pausas e à constante limitação do movimento.”
“Revela-se uma auto-submissão às próprias limitações, consciente e livre da autoridade da mera tradição. O pensamento humano torna-se dono de si próprio e, assim como aspira a submeter a vida da polis a leis universalmente válidas, também penetra, para além destes limites, na esfera da interioridade humana e também coloca balizas no caos das paixões. Nos séculos seguintes, o palco desta luta é a poesia, dado que a filosofia só mais tarde, e em segundo plano, nela toma parte.”
“A poesia da nova época nasce da necessidade, experimentada pelo indivíduo livre, de separar progressivamente o humano do conteúdo mítico da epopéia, na qual se havia exprimido até então.”
“Seres de um só dia, como os animais no prado, vivemos ignorantes do modo que a divindade usará para levar cada coisa a seu fim. Vivemos todos da esperança e da ilusão; os seus desígnios, porém, nos são inacessíveis. …”
Semônides, frag. 1
“Enquanto dura a flor dos anos, os mortais andam de coração leve e traçam mil planos irrealizáveis. Ninguém pensa na velhice ou na morte. E, enquanto têm saúde, não curam da enfermidade. Insensatos os que assim pensam e não sabem que para os mortais é breve o tempo da juventude e da existência. Aprende tu isto e, meditando no fim da vida, deixa a tua alma gozar um pouco de prazer. A juventude surge aqui como fonte de todas as ilusões exageradas e de todos os empreendimentos desmedidos, porque não tem presente a sabedoria de Homero, que recorda a brevidade da vida. Singular e nova é a conseqüência tirada desta afirmação pelo poeta: a exortação a gozar os prazeres da vida enquanto é tempo. Isto não se encontra em Homero.”
“Foi na Jônia que pela 1ª vez surgiu uma poesia hedonista”
“O que em Arquíloco age mais como o extravasamento acidental de uma natureza forte e de um sentimento pessoal e passageiro torna-se, para os seus sucessores, a sabedoria total da vida e traduz-se em exigência universal, no ideal de uma vida que desejam partilhada por todos os homens. Sem a loira Afrodite não há vida nem prazer! Preferia estar morto – proclama Mimnermo – se tivesse de não mais gozar dela. Nada haveria de mais errôneo do que imaginar um poeta como Mimnermo um sensual voluptuoso e decadente. De Semônides não conhecemos o bastante para formarmos uma idéia cabal da sua personalidade. Alguns poemas de Mimnermo possuem um tom político e guerreiro e atestam pelos seus versos homéricos, tensos e vigorosos, uma consciência e tradição cavaleiresca.”
“Do ponto de vista histórico, a poesia hedonista é um dos momentos críticos mais importantes da evolução grega. Só é preciso lembrar que o pensamento grego colocava sempre o problema do indivíduo, na ética e na estrutura do Estado, como um conflito no predomínio do prazer e da nobreza. Na sofística revela-se abertamente o conflito entre estes dois impulsos de toda a ação humana, e a filosofia de Platão culmina com a vitória sobre a aspiração do prazer a tornar-se o mais alto bem da vida humana.”
“para que se chegasse, por fim, a uma fórmula harmônica tal como oferece o ideal da personalidade humana proposto por Aristóteles, foi preciso que a busca da alegria plena de viver e do gozo do prazer achasse uma afirmação resoluta e fundamental em face da exigência da nobreza, mantida pela epopéia e pela antiga elegia.”
“não se pode esquecer que Arquíloco é um precursor da lírica eólica, embora os seus poemas, inclusive os de ódio, em que se manifesta com paixão a sua subjetividade, se orientem ainda por normas universais da sensibilidade moral. A lírica eólica, principalmente em Safo, chega muito mais longe e converte-se em pura expressão do sentimento.”
“a conexão viva das canções de Alceu dedicadas à bebida com os banquetes masculinos, e das canções nupciais e amorosas de Safo com os círculos musicais das jovens companheiras que se agrupam em redor da poetisa”
“Reflexões piedosas, serenas ou resignadas sobre o curso do mundo e o destino enlaçam-se de forma totalmente nova com uma filosofia de bebedores que sepulta todas as agruras da vida pessoal na embriaguez dionisíaca. Assim, o tom individual desta lírica não é incompatível com a convivência da sociedade dos homens, embora se vá estreitando o círculo das pessoas ante as quais se pode manifestar a personalidade individual.”
“Na prece, o Homem encontra-se também na atitude original, na sua nua solidão pessoal, perante o Ser. Ao dirigir-se à força divina como a um tu invisível mas presente, o suplicante converte-se ainda mais em órgão de expressão dos seus próprios sentimentos e emoções, e expande-se, liberto de qualquer testemunha humana. Em parte alguma isto se manifesta de maneira tão bela como em Safo. § Tudo se passa como se o espírito grego precisasse de Safo para dar o último passo no mundo da intimidade do sentimento subjetivo. Os gregos deviam ter sentido isto como algo de muito grande quando, no dizer de Platão, honraram Safo como adécima musa. A poesia feminina não é insólita na Grécia. Mas nenhuma colega na arte chegou à altura de Safo. Esta é singular. Comparada, porém, com a riqueza da poesia de Alceu, a lírica de Safo é muito limitada. Está circunscrita ao mundo das mulheres que a rodeiam, e ainda assim sob o ponto de vista da vida em comum entre a poetisa e o círculo das suas donzelas. A mulher como mãe, amante, ou esposa, que aparece na poesia grega com a maior freqüência e é celebrada pelos poetas de todos os tempos, dado que é com essa imagem que vive na poesia do homem, não aparece na poesia de Safo senão fortuitamente, por motivo do ingresso ou da saída de alguma das donzelas do seu círculo. Não é objeto de inspiração poética para Safo. A mulher entra no seu círculo como a garotinha que acaba de deixar o seio materno. Sob a proteção de uma mulher solteira, cuja vida está votada, como a de uma sacerdotisa, ao serviço das musas, recebe a consagração da beleza, por meio de danças, cânticos e jogos.”
“Entre a casa paterna e a vida matrimonial situa-se uma espécie de mundo ideal intermediário que só podemos conceber como uma educação da mulher de acordo com a mais alta nobreza da alma feminina. A existência do círculo de Safo pressupõe a concepção educativa da poesia, evidente para os gregos desse tempo.”
“Salta aos olhos desprevenidos o paralelo entre o eros platônico e o eros sáfico. § Esse eros feminino, cujas flores poéticas nos encantam pela delicadeza do seu aroma e pelo esmalte das suas cores, teve força suficiente para fundar uma verdadeira comunidade humana. (…) Existia na charis sensual dos jogos e danças e encarnava na grandeza da forma que estava presente como modelo na comunidade das companheiras. A lírica sáfica atinge os seus momentos culminantes na solicitação quente ao coração agreste e ainda não aberto de uma donzela”
“Agora interessa-nos aqui muito menos a verificação da existência de um aspecto sensual na erótica sáfica do que a plenitude de sentimento que abala poderosamente a totalidade da alma humana. A poesia de amor masculina nunca atingiu na Grécia a profundidade espiritual da lírica de Safo. Só mais tarde a polaridade do espiritual e do sensual ganhou real importância na vida erótica, até penetrar profundamente na alma e preencher a vida inteira. § Esta transformação da sensibilidade masculina foi considerada uma efeminação helenística. Em todo o caso, nos primeiros tempos só a mulher era capaz daquela entrega total da alma e dos sentidos, único sentimento que, para nós, merece a designação de amor. (…) Naquele tempo, ainda estranho ao conceito de matrimônio por amor, era difícil surgir na mulher o amor pelo homem. Do mesmo modo, foi apenas na forma do eros platônico que o amor do homem, na sua mais elevada espiritualização, conseguiu em relação à mulher a sua expressão poética. Seria anacronismo interpretar o amor de Safo, sempre ligado à sensibilidade sensual, como o equivalente do anseio metafísico da alma platônica pela Idéia, que é o segredo do seu eros. No entanto, (…) É daqui que deriva a grande dor que dá à poesia de Safo não só o terno encanto da melancolia, mas ainda a elevada nobreza da verdadeira tragédia humana.
A lenda, que cedo se apoderou da sua figura, explicou o mistério que envolve a sua pessoa e a sua vida sentimental por meio da história de um amor infeliz por um belo homem de nome Fáon, e pintou a sua tragédia no dramático salto dos rochedos de Lêucade abaixo. Mas o homem está completamente ausente do seu mundo. Aparece, quando muito, à margem desse mundo, como pretendente de uma das suas queridas pequenas, e é olhado com indiferença.”
“Basta-me ver-te e ficam mudos os meus lábios, ata-se a minha língua, um fogo sutil corre sob a minha pele, tudo escurece ante o meu olhar, zunem-me os ouvidos, escorre por mim o suor, acometem-me tremores e fico mais pálida que a palha; dir-se-ia que estou morta.”
“Onde encontraremos na arte ocidental algo que, antes de Goethe, se compare a ela?”
“Alguns dizem que o que há de mais belo na Terra é um esquadrão de cavalaria; outros, um exército de guerreiros apeados; outros ainda, uma esquadra de navios; mas o mais belo é ser amado por quem o coração suspira.”
1.7 Sólon: começo da formação política de Atenas
“A pujança ática só atingiu o apogeu um século depois, com a tragédia de Ésquilo.”
“Imaginemos que se tivessem perdido todos os vestígios dos poemas de Sólon. Sem eles não estaríamos em condições de compreender o que há de mais grandioso e memorável na poesia ática contemporânea da tragédia e nem a vida espiritual inteira de Atenas – a perfeita interpenetração de toda a produção espiritual grega com a idéia do Estado.”
A SÍNTESE ESPARTA-JÔNIA-ATENAS: “Em Esparta faltava o traço de união entre a força educadora implícita na nova ordem jurídica que regia a vida política e a liberdade sem rédeas dos poetas jônicos, no pensamento e na palavra. A cultura ática foi a primeira a equilibrar as duas forças”
“Os monumentos clássicos da cultura política grega, de Sólon até Platão, Tucídides e Demóstenes, são, na sua totalidade, criação dos filhos da Ática.”
“O primeiro passo para a edificação do direito do sangue, as proverbiais <leis draconianas>, significou mais uma consolidação das relações recebidas que um rompimento com a tradição. Tampouco as leis de Sólon queriam suprimir o domínio dos nobres como tal. Foi a reforma de Clístenes, após a queda da tirania dos Pisistrátidas, que acabou violentamente com ele.”
“Os conceituados proprietários apreciadores de cavalos, que nos vasos arcaicos vemos pintados, conduzindo os seus carros velozes por ocasião de uma festa ou, mais freqüentemente, para assistirem ao funeral de algum companheiro, opunham-se aos servos que trabalhavam no campo como massa compacta. O mais egoísta espírito de casta e a distância altaneira dos superiores e terratenentes em face das classes inferiores opunham uma barreira inamovível às exigências da população, cuja situação desesperada Sólon descreve comovido, no seu grande iambo.”
“A proibição, por Sólon, do fausto asiático e das lamentações das mulheres, em uso até então nas cerimônias fúnebres dos senhores mais importantes, foi uma concessão ao sentimento popular.”
“No que se refere ao tempo de Sólon, a deusa sentada do museu de Berlim é a representação perfeita da altivez feminina nesta antiga aristocracia ática.” Talvez se refira a esta escultura de Perséfone:
“Sem o estímulo do Oriente jônico, seria inconcebível principalmente o movimento político nascido da massa economicamente fraca com a figura de Sólon, seu chefe proeminente, em que se interpenetram inseparavelmente o ático e o jônico.” “A sua linhagem poética é o jônico mesclado de formas áticas, pois, naquele tempo, o ático ainda não estava apto a ser empregado na alta poesia.”
“A Eunomia é, como Dike, uma divindade – Hesíodo dá-lhe o nome de irmãs na Teogonia – e tem também uma ação imanente.” “Convém recordar que na Jônia Tales e Anaximandro, filósofos da natureza milesianos, ensaiavam por essa época as primeiras passadas na ousada senda do conhecimento de uma lei estável do devir eterno da natureza.”
“A tirania, i.e., o domínio exercido sobre a aristocracia restante por uma estirpe nobre e o seu chefe, apoiados na massa popular, era o perigo mais temível que Sólon podia pintar aos olhos da sociedade ática dos eupátridas (…) É altamente significativo que ele nos fale do perigo da democracia. Por imaturidade das multidões, esse perigo era longínquo ainda.” “é característico da natureza humana que, apesar desta intuição, Atenas se tenha visto igualmente forçada a passar pela regência dos tiranos.”
“Se foi por debilidade vossa que haveis sofrido o mal, não lanceis sobre os deuses o peso da culpa. Fostes vós próprios que permitistes a esta gente que se engrandecesse, dando-lhe a força e caindo por isso em vergonhosa servidão.”
Sólon, frag. 8
“Moira torna fundamentalmente inseguros todos os esforços humanos, por mais sérios e coerentes que pareçam, e não há previsão que possa evitar esta Moira, como era evitada a desgraça proveniente da culpa pessoal, na primeira parte do poema. Atinge os bons e os maus, sem distinção. É totalmente irracional a relação entre o nosso esforço e o nosso êxito.” “A insegurança do êxito dos melhores esforços não acarreta a resignação nem a renúncia ao próprio esforço.”
“A interpretação da divina Moira como força de equilíbrio necessária nas inevitáveis diferenças econômicas entre os homens prescreve uma linha de conduta a sua ação política.”
“Jamais um estadista se elevou tão acima da mera vontade de poder como Sólon, que deixou o país e partiu em longa viagem, assim que deu por finda a sua obra legislativa. Não se cansa de salientar que não aproveitou a sua situação para enriquecer ou tornar-se um tirano, como em seu lugar teria feito a maioria, e preza-se de ser alcunhado de néscio por não ter aproveitado a ocasião.”
“Semônides ensinou ser a vida tão breve e tão fértil em dores e canseiras que não devemos chorar um defunto por mais que um dia após a morte.”
“Não há homem feliz. Todos os mortais debaixo do sol estão mergulhados em canseiras.”
Sólon, frag. 5
“À massa basta submeter-se às leis que lhe são impostas. Mas aquele que as impõe precisa ter uma alta medida, que não se encontra afixada em parte alguma.”
“Pela sua união do Estado e do espírito, da comunidade e do indivíduo, Sólon é realmente o primeiro ateniense.”
1.8 O pensamento filosófico e a descoberta do cosmos
“Os <pré-socráticos> constituíram, desde Aristóteles, o problema histórico e o fundamento sistemático da filosofia ática clássica, i.e., o platonismo.”
“A sofística é um acontecimento de tipo educativo, no sentido mais próprio. Só uma história da educação pode dar-lhe o verdadeiro valor. Em geral, o conteúdo teórico da sua doutrina é escasso.”
“A filosofia jônica da natureza sucede a epopéia sem solução de continuidade.” “Não é fácil definir se a idéia dos poemas homéricos, segundo a qual o Oceano é a origem de todas as coisas, difere da concepção de Tales, que considera a água o princípio original do mundo; seja como for, é evidente que a representação do mar inesgotável colaborou para a sua expressão.”
“Mitogonia autêntica ainda encontramos na filosofia de Platão e na de Aristóteles. São exemplos o mito da alma em Platão e, em Aristóteles, o amor das coisas pelo motor imóvel do mundo.”
“Se representarmos o mundo por uma série de círculos concêntricos, a partir da exterioridade da periferia para a interioridade do centro, veremos que o processo pelo qual o pensamento racional toma posse do mundo se realiza na forma de uma penetração progressiva que vai das esferas exteriores para as mais profundas e interiores, até chegar, com Sócrates e Platão, ao centro, quer dizer, à alma. A partir deste ponto, realiza-se, no neoplatonismo, um movimento inverso até o fim da filosofia antiga.”
“Se juntarmos à filosofia da natureza tudo o que a poesia jônica a partir de Arquíloco e a poesia de Sólon trouxeram ao pensamento construtivo no campo religioso e ético-político, ficará evidente que nos basta quebrar os limites que separam a prosa da poesia para obtermos uma imagem completa da evolução do pensamento filosófico, na qual também está compreendido o reino humano.”
“O problema do Homem não foi encarado pelos gregos, a princípio, do ponto de vista teórico. Mais tarde, no estudo dos problemas do mundo externo e particularmente da Medicina e da Matemática, é que se descobriram intuições do tipo de uma techne exata, que serviram de modelo para a investigação do homem interior. Recordemos as palavras de Hegel: o rodeio é o caminho do espírito.”
“O que logo se evidencia na figura humana destes primeiros filósofos – que, naturalmente, não deram a si próprios este nome platônico – é a sua típica atitude espiritual: devotamento incondicional ao conhecimento, estudo e aprofundamento do ser, em si mesmo. (…) A tranqüila indiferença daqueles investigadores pelas coisas que aos demais homens pareciam importantes, como o dinheiro, as honras e até o lar e a família, a sua aparente cegueira com relação aos seus próprios interesses e a sua indiferença perante as emoções da praça pública deram origem às conhecidas anedotas sobre a atitude espiritual daqueles pensadores. Recolhidas principalmente pela Academia platônica e pela escola peripatética, foram propostas como exemplo e modelo do BIOS POLITIKOS, considerado por Platão como a autêntica práxis dos filósofos.”
WHY THE SKY? “O sábio Tales, absorto na contemplação de um fenômeno celeste qualquer, cai dentro de um poço, e a sua criada trácia faz pouco dele, por querer saber as coisas do céu e não ver o que está sob os seus pés. Pitágoras, quando lhe perguntam para quê vive, responde: para contemplar o céu e as estrelas. Anaxágoras, acusado de não se interessar pela família nem pela pátria, aponta com a mão o céu e diz: eis a minha pátria. É comum a todos aquele incompreensível devotamento ao conhecimento do cosmos, à <meteorologia>, como então se dizia num sentido mais vasto e mais profundo, i.e., a ciência das coisas do alto. A conduta e as aspirações dos filósofos são desmedidas e extravagantes, no sentido do povo, e é crença popular dos gregos que aqueles homens sutis e sonhadores são infelizes (…) [Este sentimento] refere-se evidentemente à hybris, pois o pensador ultrapassa os limites impostos ao espírito humano pela inveja dos deuses.
Existências deste tipo, audaciosas e solitárias, só na Jônia, numa atmosfera da maior liberdade pessoal, podiam desabrochar. Esta gente insólita era, ali, deixada em paz, quando em qualquer outro local teria suscitado escândalo e enfrentado toda a espécie de dificuldades. Na Jônia, homens da classe de Tales de Mileto cedo ganhavam popularidade, eram transmitidas com interesse as suas sentenças e afirmações e contavam-se anedotas a seu respeito.”
“Pelo que sabemos, foi Anaximandro o primeiro que teve a coragem de escrever em prosa as suas idéias e de difundi-las, tal como o legislador escrevia as suas tábuas. O filósofo elimina com isso a intimidade do seu pensamento”
“Hecateu de Mileto começa o seu tratado genealógico com estas palavras ingênuas: Diz Hecateu de Mileto: variados e ridículos são os discursos dos gregos; eu, porém, Hecateu, digo o seguinte.”
“Só é verdade o que <eu> posso explicar por razões concludentes, aquilo que o <meu> pensamento consegue justificar perante si próprio. Toda a literatura jônica, desde Hecateu e Heródoto, criador da Geografia e da Etnologia e pai da História, até os médicos, em cujos escritos se encontram os fundamentos da ciência médica durante vários séculos, está impregnada deste espírito e usa nas suas críticas aquela forma pessoal característica.”
“No conceito grego de physis estavam, inseparáveis, as duas coisas: o problema da origem – que obriga o pensamento a ultrapassar os limites do que é dado na experiência sensorial – e a compreensão, por meio da investigação empírica, do que deriva daquela origem e existe atualmente.”
“A conexão do nascimento da filosofia naturalista com Mileto, a metrópole da cultura jônica, torna-se clara, se notamos que os seus 3 primeiros pensadores – Tales, Anaximandro e Anaxímenes – viveram no tempo da destruição de Mileto pelos persas (início do séc. V).”
“Tomaremos o exemplo de Anaximandro, a figura mais imponente dos físicos milesianos, para elucidarmos o espírito daquela filosofia arcaica. É ele o único de cuja concepção de mundo podemos obter uma representação exata. Nele se revela a prodigiosa amplitude do pensamento jônico. Foi ele quem primeiro criou uma imagem do mundo de verdadeira profundidade metafísica e rigorosa unidade arquitetônica. Foi ele também o criador do primeiro mapa da Terra e da geografia científica.” “O mundo de Anaximandro é construído segundo rigorosas proporções matemáticas. O disco terrestre da concepção homérica não passa de uma representação ilusória. Na realidade o caminho diário do Sol do Oriente para o Ocidente passa por baixo da Terra, de modo a reaparecer no Oriente, no seu ponto de partida. O mundo não é, assim, uma meia-esfera, mas uma esfera completa, em cujo centro se situa a Terra.”
“E o diâmetro da Terra tem 3 vezes a sua altura, pois a Terra tem a forma de um cilindro achatado. Não se apóia numa base sólida nem cresce para o ar, como uma árvore, a partir de raízes invisíveis e profundas.(*) Está suspensa no espaço do mundo.
(*) Na cosmogonia órfica de FERECIDES, que em parte se liga às concepções míticas mais antigas, fala-se de um <carvalho alado>. Combina a doutrina de Anaximandro da livre suspensão com a representação da árvore que tem as raízes do infinito. PARMÊNIDES (frag. 15a) diz que a Terra <está enraizada na água>.”
“não tenho qualquer escrúpulo em fazer retroceder até Anaximandro o germe dos esquemas cartográficos que Heródoto, Scylax e outros autores atribuem a Hecateu. A superfície da Terra divide-se em 2 partes aproximadamente iguais: a Europa e a Ásia. Aparece em separado um trecho da última: a Líbia. Rios caudalosos constituem as fronteiras. A Europa e a Líbia são divididas em 2 partes iguais, a primeira pelo Danúbio e a segunda pelo Nilo.” “o Oceano, nunca visto por olhos humanos, pelo menos a leste e ao norte.”
“aquela grande máxima, a única de Anaximandro que nos foi diretamente transmitida: Onde estiver a origem do que é aí também deve estar o seu fim, segundo o decreto do destino. Porque as coisas têm de pagar umas às outras castigo e pena, conforme a sentença do tempo.
Muito se escreveu sobre esta frase, desde Nietzsche até Erwin Rhode, e várias interpretações místicas foram tentadas.”
“A idéia de Sólon é esta: a dike não depende dos decretos da justiça terrena e humana nem resulta da simples intervenção externa de um decreto da justiça divina, como sucedia na antiga religião de Hesíodo. É imanente ao próprio acontecer, no qual se realiza para cada caso a compensação das desigualdades. Portanto, a sua inexorabilidade é o <castigo de Zeus>, a <paga dos deuses>. Anaximandro vai muito além. Essa compensação eterna não se realiza só na vida humana, mas também no mundo inteiro, na totalidade dos seres.” “Temos, portanto, o direito de caracterizar a concepção do mundo de Anaximandro como a íntima descoberta do cosmos. Esta descoberta não se podia fazer senão no fundo da alma humana. Nada se teria podido fazer com telescópios, observatórios ou qualquer outro tipo de investigação empírica. Foi da mesma faculdade intuitiva que brotou a idéia de infinidade dos mundos, atribuída a Anaximandro pela tradição.”
“o Prometeude Ésquilo chama a descoberta do número de obra-prima da sabedoria criadora da cultura.”
“Assim, como freqüentemente sucede, deparamos com um conhecimento perene e infinitamente fecundo unido a uma aplicação prática equivocada. Esta audaciosa supervalorização aparece em todos os grandes momentos do pensamento racional.”
“Só o conhecimento da essência da harmonia e do ritmo que dela brota já seria suficiente para garantir aos gregos a imortalidade na história da educação humana. É quase ilimitada a possibilidade de aplicação daquele conhecimento a todas as esferas da vida.”
“A harmonia exprime a relação das partes com o todo. Está nela implícito o conceito matemático de proporção que o pensamento grego se figura em forma geométrica e intuitiva. A harmonia do mundo é um conceito complexo em que estão compreendidas a representação da bela combinação dos sons no sentido musical e a do rigor dos números, a regularidade geométrica e a articulação tectônica. É incalculável a influência da idéia de harmonia em todos os aspectos da vida grega dos tempos subseqüentes. Abrange a arquitetura, a poesia e a retórica, a religião e a ética.”
“É para a história das religiões um mistério a estreita vizinhança que no culto délfico une Apolo e Dionisos. (…) Nenhum outro deus intervém tão profundamente na conduta pessoal. É provável que o espírito de limitação, ordem a clareza de Apolo nunca tivesse abalado tão profundamente a alma humana, se a funda e excitante comoção dionisíaca não houvesse previamente preparado o terreno, arredando toda a eukosmia burguesa. A religião délfica penetrou então de modo tão vivo e tão íntimo, que demonstrou ser apta a conduzir e colocar a seu serviço todas as forças construtivas da nação. Os <sete sábios>, os reis mais poderosos e os tiranos do séc. VI reconheceram naquele deus profético a suprema instância do conselho justo. No séc. V, Píndaro e Heródoto estavam profundamente imbuídos do espírito délfico e são os seus testemunhos mais notáveis.”
“O sentido da sophrosyne grega seria mal-compreendido se interpretado como expressão de uma natureza inata, de uma índole harmônica e jamais perturbada. Para compreendê-la, basta perguntar por que foi justamente naquele tempo que ela irrompeu de forma tão imperativa, de modo a penetrar subitamente, nas profundezas mais inesperadas da existência e, principalmente, da intimidade humana. (…) A maior ofensa aos deuses é <não pensar humanamente> e aspirar à elevação exclusiva. A idéia da hybris, originariamente concebida de modo perfeitamente concreto na sua oposição à dike e limitada à esfera terrena do direito, cedo se estende à esfera religiosa. Compreende agora a pleonexia do Homem em face da divindade.” “A felicidade dos mortais é mutável como os dias. O Homem não deve, portanto, aspirar ao que está alto demais.” “O sóbrio relancear do espírito de investigação pela profundidade da natureza oferece ao Homem o espetáculo da geração e da corrupção incessantes, governado por uma legalidade universal indiferente ao Homem e ao seu insignificante destino, e que transcende com a sua férrea <justiça> a nossa breve felicidade.”
“A fantasia dos simples pinta a imagem de uma vida futura no além, como uma vida de gozos sensíveis; o espírito dos nobres luta pela própria afirmação no meio da voragem do mundo, com a esperança de uma redenção pela consumação do seu caminho. Ambos, porém, coincidem na certeza do seu destino superior.”
“Também eu sou da raça dos deuses. (DIELS, Vorsokratiker [5ª ed.] I, 15 [ORFEU, frags. 17-ss.]) Estas palavras estão gravadas, como passaporte para a viagem para o outro mundo, nas pequenas tábuas órficas de ouro, achadas nos sepulcros do sul da Itália. § O conceito órfico da alma representa um passo essencial no desenvolvimento da consciência pessoal humana. Sem ele seria impensável a concepção platônica e aristotélica da divindade do espírito e a distinção entre o Homem meramente sensível e o seu próprio eu, que constitui sua vocação plena.” “Empédocles exalta Pitágoras no seu poema órfico, Purificação.Interpenetram-se em Empédocles as crenças órficas da alma e a filosofia jônica da natureza.”
“Assim sou eu, como um exilado de Deus, que vagueia daqui para ali”
Empédocles, frag. 115, 13
“Com Xenófanes de Cólofon, o segundo dos grandes emigrados jônicos que estabeleceram o seu campo de ação no ocidente do mundo helênico, deixamos a linha dos pensadores rigorosos.”“Xenófanes é um poeta. Com ele, o espírito filosófico apoderou-se da poesia. Isto é sinal inequívoco de que o espírito filosófico começa a tornar-se uma força educativa, pois a poesia continua a ser como sempre a expressão autêntica da formação nacional.” “A nova prosa jônica só gradualmente alarga o seu campo e, por estar expressa num dialeto limitado a um círculo reduzido, nunca adquire a ressonância da poesia, que se serve da linguagem de Homero e é, por conseguinte, pan-helênica.”
“Até um pensador abstrato e rigoroso como Parmênides, ou um filósofo da natureza como Empédocles, adotam a forma hesiódica da poesia didática. Talvez tenham sido incitados a fazê-lo pelo exemplo de Xenófanes que, embora não tenha sido um verdadeiro pensador nem tenha escrito nunca um poema didático sobre a natureza, como se disse freqüentemente, foi um dos iniciadores da exposição poética da doutrina filosófica. (*) (…) K. REINHARDT, no seu Parmênides (Bonn, 1916), refuta a opinião corrente¹ segundo a qual Xenófanes é o fundador do eleatismo. Todavia, não me parece ter razão ao considerá-lo como discípulo de Parmênides.” Neste ponto, me auto-re-remeto às instrutivas “leituras CAPES” (projeto ou ciclo OUSIA) (Ver no Seclusão)
¹ Hegelianismo!
“Além dos seus poemas filosóficos, Xenófanes escreveu ainda um poema épico, A fundação de Cólofon, e A fundação da Colônia de Eléia.¹ Este homem inquieto, que aos 92 anos escreve um poema em que contempla uma vida de 67 anos [segundo seu Fragmento 7] de incansáveis peregrinações, iniciada provavelmente com as emigrações de Cólofon para a Itália meridional, erige, com o primeiro, um monumento a sua antiga pátria. Talvez tenha pessoalmente tomado parte na fundação de Eléia. Contudo, nestes poemas aparentemente impessoais, o sentimento pessoal toma uma parte muito maior do que era hábito. (…) foi considerado como um rapsodo que na praça pública recitava Homero, e em círculos reduzidos dirigia as suas sátiras contra Homero e Hesíodo. Isto não combina com a unidade da sua personalidade,² que imprime um caráter inequívoco a todas as palavras que dele se conservaram. Apóia-se numa má interpretação da tradição.”
¹ Infelizmente obras quase que integralmente perdidas.
² Não teria sido seu ganha-pão? Normalmente o grande homem precisa se contradizer para sobreviver…
“Ordena ao poema que cale as vergonhosas dissensões dos deuses e as lutas dos titãs, gigantes e centauros, invenções dos tempos idos, que nos banquetes os cantores gostam de celebrar.” Velho rabugento!
“Comia à mesa dos ricos e das personalidades eminentes, como mostra a anedota da sua engenhosa conversa com o tirano Hierão de Siracusa. Mas nunca encontrou naquele ambiente nem a estima inteligente nem a elevada consideração social que obteve na sua própria pátria jônica: permaneceu só.” Nisso ele foi bem filosofal!
“Em parte alguma da história da cultura grega vemos de modo tão claro o choque violento e inevitável entre a velha cultura aristocrática e os homens da nova filosofia, que pela primeira vez aqui lutam por conquistar um lugar na sociedade e no Estado” “O subseqüente desenvolvimento da história dá razão à segurança do seu gesto. Destruíram o domínio absoluto do ideal agonístico. Já não é possível a Xenófanes ver, como Píndaro, a revelação da divina arete do vencedor em cada vitória olímpica, na palestra ou no pugilismo, nas corridas a pé ou a cavalo.”
“O conceito de arete alcança, com esta fase, o tempo da sua evolução: coragem [Aquiles], prudência [Ulisses/Odisseu], justiça [Atena(s)] e, por fim, sabedoria [os superdotados] – tais são as qualidades que ainda para Platão formam o conteúdo da arete cívica. (…) Deu-se o passo que leva da mera intuição da verdade à crítica e condução da vida humana.” “Com armas pedidas a Xenófanes, ainda Eurípides ataca o tradicional apreço dos gregos pelo atletismo, e a crítica de Platão ao valor educativo dos mitos homéricos segue a mesma linha. (…) Na antiga filosofia da natureza, são outras as forças que imperam: a fantasia dirigida e controlado pelo intelecto, que, de acordo com o eminente sentido plástico e arquitetônico dos gregos, procura articular e ordenar o mundo sensível, e pelo pensamento simbólico, que interpreta a partir da vida humana a existência não-humana.” “As proposições de Parmênides constituem um encadeamento rigorosamente lógico, impregnado da consciência da força construtiva da conseqüência das idéias.” “A força com que Parmênides expõe aos ouvintes as suas doutrinas fundamentais não deriva de uma convicção dogmática, mas da vitória da necessidade do pensamento. O conhecimento é também uma absoluta ananke para Parmênides, que ainda o denomina dike ou moira, evidentemente por influência de Anaximandro.” “A Dike de Parmênides (…) é a necessidade implícita no conceito do Ser (…) Nas frases insistentemente repetidas <o Ser é, o não-Ser não é; e: o que é não pode não-ser>, Parmênides exprime a necessidade do pensamento da qual deriva a impossibilidade de realizar no conhecimento a contradição lógica.” “Parmênides é o primeiro pensador que levanta conscientemente o problema do método científico e o primeiro que distingue com clareza os dois caminhos principais que a filosofia posterior há de seguir: a percepção e o pensamento.”
“Heráclito de Éfeso realiza a revolução mais completa. A história da Filosofia considerou-o por longo tempo um filósofo da natureza e colocou o seu princípio originário, o fogo, na mesma linha da água de Tales e do ar de Anaximandro. O vigor significativo das misteriosas proposições do <Obscuro>, freqüentemente expressas em forma de aforismos, já devia ter evitado aos historiadores a confusão deste temperamento duramente recalcado com o de um investigador consagrado unicamente à fundamentação dos fatos.”
“O logos de Heráclito não é o pensamento conceitual de Parmênides, cuja lógica puramente analítica exclui a representação figurada de uma intimidade espiritual sem limites.”Será assim mesmo? Minha impressão é a de que foram mais lentos ainda para compreender Parmênides do que Heráclito!
“O ethos é o daimon do Homem.”
“Os homens, é certo, vivem como se cada um tivesse a sua razão particular.”
“Tal como a polis, também o universo inteiro tem a sua lei. É a primeira vez que aparece esta idéia tipicamente grega. (…) O logos de Heráclito é o espírito, enquanto órgão do sentido do cosmos.”
“A dike só aparece na luta. A nova idéia pitagórica da harmonia serve agora para dar sentido ao ponto de vista de Anaximandro. Só se une o que se opõe; é da diferença que brota a mais bela harmonia. (…) Toda a natureza está repleta de violentos contrastes: o dia e a noite, o verão e o inverno, o calor e o frio, a guerra e a paz, a vida e a morte sucedem-se em eterna mudança. (…) É um eterno caminho, ascendente e descendente. É mudando que repousa. A vida e a morte, a vigília e o sono, a mocidade e a velhice são, no fundo, uma e a mesma coisa. Uma transforma-se na outra, e esta volta a ser o que era primeiro.”
“O arco e a lira são o símbolo de Heráclito para a harmonia dos contrários no cosmos. Executam ambos a sua obra, pela sua ação tensa, recíproca e oposta. Ao vocabulário filosófico faltava ainda o conceito genérico de tensão. (…) Só no nosso tempo foi apreciada no seu justo valor.” “A doutrina de Heráclito surge como a primeira antropologia filosófica, em face dos filósofos primitivos.”
“O Uno, que é o único sábio e prudente, quer e não quer ser chamado Zeus. O sentimento político dos gregos desse tempo inclina-se a pensar como tirânico o governo de um só.” “A antiga filosofia da natureza não tinha formulado expressamente o problema religioso. A sua concepção do mundo oferecia uma visão do Ser separado do humano. A religião órfica preenchia este vazio e sustentava a crença no caráter divino da alma, em meio ao turbilhão destruidor do devir universal onde a filosofia da natureza parecia precipitar o Homem. Mas a filosofia da natureza, no seu conceito de cosmos dominado pela Dike, oferecia um ponto de cristalização à consciência religiosa. Foi nele que Heráclito inseriu a sua interpretação do Homem (…) Foi pelo conceito heracliteano de alma que a religião órfica se ergueu a um estágio mais alto. Pelo seu parentesco com o <fogo eternamente vivo> do cosmos, a alma filosófica é capaz de conhecer a divina sabedoria e de nela se manter. Assim, a oposição entre o pensamento cosmológico e o pensamento religioso do séc. VI aparece superada e unificada na síntese de Heráclito – que vive já no umbral da centúria seguinte.”
1.9 Luta e transformação da nobreza
“Embora Píndaro pertença à lírica coral e Teógnis à poesia gnômica, do ponto de vista da história da educação formam uma unidade. Neles encarna o despertar da consciência aristocrática o sentimento superior da sua particular vocação e proeminência” “Este ethos consciente e educador é característico, não apenas de Hesíodo, Tirteu e Sólon, mas também de Píndaro e Teógnis, e opõe-se à ingênua espontaneidade com que, entre os jônios, irrompe o espírito em todas as suas formas.”
“A longa duração do domínio dos nobres e da cultura aristocrática – manancial da mais alta vontade educadora da nação – em terras da metrópole pode ter contribuído de modo essencial a que nada de novo pudesse prosperar nela, sem que lhe fosse oposta a tradição, como ideal definido de uma forma perfeita do humano.”
“Píndaro e Teógnis lutam por um mundo agonizante. Os seus poemas não produzem um renascimento da nobreza na ordem política exterior, mas sim a perenidade dos seus ideais, no momento em que as novas forças do tempo os punham em maior risco, e a incorporação do seu vigor social e construtivo ao patrimônio da nação helênica. § Se hoje possuímos uma imagem da vida e condições sociais da nobreza nos sécs. VI e V, é só à poesia que o devemos. (…) É até disso perdemos muito. (…) A descoberta da lírica coral de Baquílides, quase desconhecida até agora, mostra apenas que, para o nosso objetivo, não precisamos sair de Píndaro. Começaremos por Teógnis, porque é, provavelmente, o mais antigo dos dois. Oferece, além disso, a vantagem de nos revelar as difíceis condições sociais em que se debatia a nobreza de então – elas aparecem em primeiro plano nos poemas de Teógnis –, enquanto Píndaro nos mostra antes a cultura aristocrática quanto as suas convicções religiosas e aos seus mais altos ideais de perfeição humana.”
“Por mais interessantes que em si mesmos sejam estes temas filológicos, não os trataria com tanto detalhe, se a tradição que nos revela o poeta não nos fizesse, ao mesmo tempo, penetrar tão profundamente naqueles fragmentos da educação grega, tão intimamente ligados ao influxo posterior de Teógnis. § A coleção que, por puro acaso, nos foi transmitida sob o nome de Teógnis devia já existir no séc. IV (…) A pesquisa recente dedicou uma quantidade apreciável de trabalho primoroso à análise deste livro singular. Na sua forma atual, mal deve ter passado pelo fogo purificador da crítica filológica alexandrina. Foi corretamente usado nos banquetes dos sécs. V e IV, até a época em que esta importante corrente da vida <política> dos gregos foi desaparecendo gradualmente; depois foi lido e propagado apenas como curiosidade literária. Foi logo relacionado com o nome de Teógnis, porque um livro desse poeta serviu de núcleo a um florilégio de máximas e poemas de vários poetas anteriores e posteriores (do séc. VII ao V). Todos foram cantados nos banquetes, ao som da flauta. (…) A antologia não inclui poetas posteriores ao séc. V, o que coincide com a época da morte política da nobreza. (…) A íntima união do banquete e do eros, que Platão nos mostra na sua forma mais elevada no seu Banquete,¹ reflete-se também claramente na história da coleção de Teógnis, visto que o chamado livro II – na realidade um livro independente – tem por objeto o eros, que se festejava naquelas ocasiões. § Felizmente, basta-nos a sensibilidade estilística e espiritual para separar e distinguir nitidamente os poemas de Teógnis daqueles dos outros poetas da antologia. (…) Não se trata de um poema orgânico, mas de uma coleção de máximas. Foi só esta característica que permitiu incorporar aos versos de Teógnis aqueles que lhe são estranhos. (…) Apesar da independência exterior das máximas, observa-se nelas o progresso de uma idéia, e elas têm um prólogo e uma conclusão, que se separam nitidamente das que a seguem. Para reconhecer a autenticidade deste velho livro de Teógnis ajuda-nos muito (…) também a forma constantemente repetida dos discursos do poeta, ao amado jovem a quem dedica sua doutrina (…) O fato de expor a sua doutrina em forma de máximas dá-lhe ocasião de repetir freqüentemente a invocação a <Cirno> ou ao <filho de Polipaides>, embora não em todas as máximas. Na velha poesia proverbial dos nórdicos deparamos também com a mesma forma. Também nela se repete periodicamente o nome da pessoa a que se dirige. (…) Simplesmente, enquanto no livro de máximas de Teógnis aparece com muita freqüência, nas outras partes aparece raras vezes e em trechos próximos uns dos outros. (…) É evidente que a última parte da coleção constituía originalmente uma coleção independente, que incluía fragmentos de Teógnis ao lado dos fragmentos de outros poetas. (…) Platão atesta nas Leis a existência de antologias semelhantes nas escolas da época. (…) O fato de ninguém se ter dado ao trabalho de evitar as repetições que indicamos mostra bem o quanto se procedeu toscamente. (…) o livro de máximas a Cirno é o fundamento autêntico a que se deve referir tudo o mais.”
“Cirno, tive a sensata idéia de estampar nos meus versos o meu selo, de tal modo que nunca ninguém possa roubá-los clandestinamente nem tomar por mau o que neles há de bom, mas digam todos: estes são versos de Teógnis de Mégara, famoso entre todos os homens. Não posso agradar a toda a gente da nossa cidade. Não há nisso maravilha alguma, filho de Polipao, pois nem Zeus consegue agradar a todos, quando manda chuva ou estiagem.”
Versos 19-23
“Este traço individualista é particularmente interessante num aristocrata tradicional do tipo de Teógnis, pois por ele se vê que o espírito do tempo o tinha afetado muito mais profundamente do que ele julgava. (…) Não era totalmente novo mencionar o nome do poeta no começo da obra. Mas o exemplo de Hesíodo na Teogonia não suscitara imitadores e apenas um imediato predecessor de Teógnis, o poeta gnômico Focílides de Mileto, tinha se servido deste artifício para assinalar a propriedade das suas máximas, pela razão evidente do seu tipo de versos se poder tornar facilmente propriedade comum, na qualidade de provérbios. De fato, os famosos versos de Focílides e de Teógnis foram citados como provérbios, sem o nome dos autores, pelos escritores subseqüentes. (…) Seguindo-lhe o exemplo, o tirano Hiparco, filho de Pisístrato, ao escrever as máximas que haviam de ser gravadas nos Hermes das estradas áticas, encimou-as com as palavras: Isto é de Hiparco, para logo prosseguir: Não enganes o teu amigo, ou: Segue sempre o reto caminho. (PSEUDO-PLATÃO, Hiparco, 228C)” TRECHOS DESTA OBRA EM:https://seclusao.art.blog/2019/10/01/pseudo-hiparco-ou-do-amor-a-ganancia/
“Os autores atuais não precisam empregar este meio porque o nome do autor e o título da obra vêm no frontispício. Não era isso que ocorria no séc. VI a.C.. A única solução era a que Hecateu, Heródoto e Tucídides adotaram: começar os livros com a menção do seu nome e a consignação dos seus intentos. Não se seguiu este costume nos livros de medicina que nos chegaram nas coleções de Hipócrates; por isso, os autores de tais livros continuam a ser um mistério para nós.” “a palavra selo se converte na expressão técnica para designar o lugar em que consta o nome do autor.”
PSEUDO-TEÓGNIS: “Mas Teógnis não podia prever as dificuldades com que os eruditos deparariam, dois milênios e meio depois, quando só existisse um exemplar do seu livro. É esta a nossa situação em face do único manuscrito antigo do qual depende toda a nossa tradição de Teógnis. Ele esperava que o livro chegasse a todas as mãos. Mas não era fácil que pudesse pensar em milênios. Não podia prever que, ao fim de cem anos, o seu livro de máximas seria impiedosamente abreviado, compendiado e finalmente agrupado num livro, com os de outros desconhecidos, para cantar nos banquetes. Muito menos podia suspeitar que a incorporação do seu nome ao prólogo do livro, em vez de protegê-lo contra o furto espiritual, pudesse contribuir para que ele fosse considerado como autor de todos os poemas anônimos com ele reunidos na coleção.”
“Focílides oferece-nos regras gerais para a conduta prática da vida. A originalidade de Teógnis aparece claramente, quando se contrapõe àquele ou a Hesíodo. Quer ensinar a formação integral dos nobres, aqueles preceitos sagrados que até agora só oralmente foram transmitidos de geração em geração.” “O jovem a quem se dirige está ligado ao poeta pelos laços do eros. É evidente que estes formam, para o poeta, o pressuposto essencial da sua relação educadora. A sua união deve apresentar algo de típico aos olhos da classe a que ambos pertencem. É significativo que da primeira vez que encaramos de perto a cultura da nobreza dórica nos surja o eros masculino como fenômeno de importância tão decisiva.”
“Não se deve esquecer que o eros do homem pelos jovens ou adolescentes era um elemento histórico essencial na constituição da primitiva sociedade aristocrática, e inseparavelmente vinculado aos seus ideais éticos e à sua posição. Falou-se de amor dórico pelos adolescentes. É perfeitamente justificada a atribuição, pois aquela prática sempre foi mais ou menos alheia ao sentimento popular dos jônios e dos áticos, como a comédia, principalmente, o revela.¹ As formas de vida das classes superiores transmitem-se naturalmente à burguesia rica.”
¹ Jaeger não sabe aqui pesar o surgimento do gênero da Comédia justamente no ocaso da civilização grega.
“desde Sólon – em cujos poemas o amor dos adolescentes aparece ao lado do amor das mulheres e dos esportes nobres como um dos maiores bens da vida – até Platão. Sempre a nobreza helênica esteve profundamente influenciada pelos dórios.”
“a relação do amante com o amado podia ser comparada à autoridade educadora dos pais em relação aos filhos. Aliás, até mesmo a superava em múltiplos aspectos, na idade em que o jovem começa a libertar-se da tradição e da autoridade familiar e atinge a maturidade viril. Ninguém pode duvidar das numerosas afirmações dessa força educadora, cuja história atinge o apogeu no Banquete de Platão. A doutrina da nobreza, em Teógnis, que mergulha a raiz no mesmo círculo de vida, nasce integralmente deste impulso educador cujo aspecto erótico facilmente esquecemos, devido a sua apaixonada gravidade moral.”
“Dei-te asas com que possas voar sobre terras e mares. Em todas as festas e banquetes te verás na boca das pessoas. Jovens encantadores te cantarão o nome à música das flautas. E mesmo após a tua descida ao Hades continuarás a andar por Hellas e pelas ilhas, e atravessarás o mar para seres cantado pelos homens futuros, enquanto durarem a Terra e o Sol. Então já nada serei para ti e, como a um garoto, me iludirás com palavras.”
“O poeta prevê que o Estado, nessa altura ainda em paz, cairá em guerra civil, cujo termo será a tirania. A única via salvadora é o regresso à justa desigualdade e ao governo dos nobres. E isto já não tem qualquer viabilidade.”
“Homens (…) que antes cobriam a sua nudez com grosseiras vestes de pele de cabra e viviam como selvagens fora da cidade são agora, Cirno, as pessoas importantes (…) Espetáculo insuportável! Troçam secretamente uns dos outros e enganam-se, ignorantes de qualquer norma tradicional. Cirno, por nenhum pretexto faças teu amigo um homem destes. Sê amável quando lhes falares, mas não te associes a eles para nenhum desígnio sério. Convém que conheças a mentalidade destes sujeitos miseráveis e saibas que não se pode confiar neles. Esta sociedade perdida só ama a fraude, a perfídia e a impostura.”
Teó., Versos 53-68
“Seria demais esperar da parte do representante da velha nobreza decaída o pleno reconhecimento daquela justiça.” “As queixas contra a violação do direito enchem a primeira parte do poema de Hesíodo tal como do poema de Teógnis.” “Ambos os poetas são levados por impulso pessoal e pelas necessidades de ocasião a formular as suas verdades em proposições de validade universal, de acordo com o estilo arcaico.”
“Toda revolução gera na sociedade uma crise de confiança. Os que têm convicções parecidas unem-se estreitamente porque a traição espreita por todo lado. O próprio Teógnis diz que, em ocasião de discórdia política, um homem seguro vale mais do que o outro. Será isto ainda a velha ética aristocrática? § É certo que propôs como exemplo as amizades ideais de Teseu e Peirítoo, de Aquiles e Pátroclo, e que pertence ao mais antigo estágio da educação aristocrática o culto do bom exemplo.”
“os nobres não tiveram outro remédio senão inserir-se de qualquer modo no todo. Podiam considerar-se um Estado secreto, injustamente submetido ao Estado, e aspirar à restauração do primeiro. Se, porém, o considerarmos com atenção, a verdade é que se converteram num simples partido em luta pelo poder (…) A antiga exigência de uma boa escolha das amizades transforma-se em exagerado exclusivismo político.”
ECOS PARMENÍDEOS: “Teógnis aconselha o seu jovem amigo a adaptar-se exteriormente às circunstâncias vigentes. Segue pela via média, como eu faço.” “Na luta com o demos é preciso também um mimetismo protetor. A dificuldade moral desta luta é não ser, devido a sua natureza específica, uma luta aberta. Mas Teógnis está convencido de que um homem nobre continua sempre nobre.”
“A posição da velha aristocracia fundava-se na posse de propriedades rurais. O aparecimento da moeda afetou-lhe a prosperidade. (…) Esta alteração das condições econômicas afetou profundamente o conceito de arete, pois este englobava a estima social e a posse de bens. Sem ela, era impossível exercer algumas das qualidades essenciais ao homem nobre, como a liberalidade e a magnanimidade. Até entre os camponeses era evidente que a riqueza implicava arete e consideração social, como se vê pelas palavras de Hesíodo.”
“A desigualdade econômica não era para Sólon contrária à vontade divina, pois além do dinheiro e das propriedades havia outra riqueza: a posse de membros sãos e a alegria de viver. Se tivesse de escolher entre a arete e as riquezas teria dado preferência à primeira. Percebemos o que há de revolucionário, forte e positivo nestas idéias se pensarmos que Teógnis não se cansa de lamentar e maldizer a pobreza, atribuindo-lhe um poder ilimitado sobre os homens. (…) A experiência dos odiados novos-ricos ensinou-lhe o quanto é fácil se harmonizarem e se juntarem o dinheiro e a vulgaridade.”
“As considerações de Sólon apenas suscitam em Teógnis um humor resignado e melancólico. Está, pelas suas próprias experiências, profundamente convencido de que o Homem nunca é responsável pelos seus êxitos ou fracassos. Os homens nada mais podem fazer do que entregar-se à vontade dos deuses. Em nada podem contribuir para a determinação do seu próprio destino. Até na riqueza, no sucesso e nas honras se encontra o germe da desventura. Não temos outro remédio, portanto, senão implorar tyche. De que serve o dinheiro ao homem vulgar se não tem o espírito reto! Só pode precipitá-lo na perdição.”
DIGNIDADE X DINHEIRO EM TODOS OS TEMPOS: “onde quer que houvesse um nobre a lutar pela sua sobrevivência e pela sua idiossincrasia, foi seu espelho a sabedoria pedagógica de Teógnis de Mégara. Muitas das suas idéias reviveram em fase posterior, na luta da burguesia contra o proletariado.” [!]
“A poesia de Píndaro é arcaica. Mas ela o é num sentido muito diverso das obras dos seus contemporâneos e mesmo dos poetas pré-clássicos mais antigos. Perto dele, os iambos de Sólon parecem modernos quanto ao vocabulário e ao sentimento. (…) Quando, a partir da <antiga> cultura da Jônia, nos aproximamos de Píndaro, temos a impressão de sair fora (sic) da unidade da evolução espiritual que da epopéia de Homero irradia em linha reta para a lírica individual e para a filosofia jônica da natureza, e de ingressarmos em outro mundo.” “É que, por mais que a fé aristocrática de Píndaro tenha em comum com a epopéia, o que em Homero aparece já quase só como jovial brincadeira tem para Píndaro a mais grave seriedade. Isto, naturalmente, depende em parte da diferença entre a poesia épica e os hinos pindáricos. Nos segundos trata-se de preceitos religiosos; na primeira, de uma colorida narração da vida.”
“Foi porventura nos jogos fúnebres celebrados em Olímpia em honra de Pélops, semelhantes aos que a Ilíada descreve em honra de Pátroclo, que as festividades olímpicas e as posteriores tiveram origem. É sabido que os jogos fúnebres também podiam ser celebrados periodicamente, como os de Adrasto em Sicyon, embora o caráter destes fosse diferente. Festas assim podiam ter sido celebradas muito cedo em honra do Zeus Olímpico. E a descoberta, nos mais antigos santuários, de oferendas com figuras de cavalos permite supor a existência de corridas de carros nos mais primitivos cultos daqueles lugares, muito tempo antes do que a tradição relativa aos jogos olímpicos nos diz sobre o primeiro triunfo de Coroibos nas corridas pedestres.”
“A unidade do físico e espiritual que nas obras-primas da escultura grega admiramos, e que para nós está irremediavelmente perdida, aponta-nos o caminho para chegarmos à compreensão da grandeza humana do ideal agonístico, embora a realidade nunca lhe tenha correspondido.”
“É em Píndaro que pela primeira vez os hinos aos vencedores se convertem numa espécie de poesia religiosa.”
“Hoje ninguém pode mais pensar numa entrega genial e espontânea aos ditames da fantasia, como no tempo do Sturm und Drang se pensou, atribuindo a Píndaro o que era característico das convicções particulares desse tempo. E quando ainda hoje se acolhe inconscientemente essa interpretação, na presença da forma total dos hinos pindáricos, isto não está de acordo com a tendência das últimas gerações a não se fixarem só na originalidade da sua arte, mas também, cada vez mais, no seu elementos técnico e profissional.”
“Muitas vezes, o destino precipita o Homem numa desgraça sem-saída, que não lhe permite alcançar a perfeição. Só é perfeita a divindade. O Homem não o pode ser, quando o toca o dedo do destino.”
“Simônides,apesar de ser insubstituível para a história do problema da idéia grega da arete – na interpretação dos seus escólios, que Sócrates discute com os sofistas no Protágoras¹ de Platão –, não é o representante pleno da ética aristotélica, no sentido de Píndaro.” “É ele o primeiro sofista.”
“A arete só é divina porque um deus ou um herói foi antepassado da família que a possui. Dimana dele a força da arete, a qual se renova sem cessar nos indivíduos que constituem a série das gerações.” “O elogio tem um lugar firme nos epinícios. É pelo ingresso neste coro que o vencedor se situa ao lado dos deuses e dos heróis. A que deus, a que herói, a que homem celebrarei? – começa o 2º poema olímpico.”
“O tempo não pode desfazer o que está feito; mas pode, em parte, sobrevir com o esquecimento, Latha, quando um homem daimon intervém no seu destino. Apesar da sua tenaz repugnância, a aflição morre dominada pela nobre alegria, quando a moira de Deus concede a rica prosperidade de uma ventura superior.”
“Daí resulta para Píndaro um grave problema: explicar como é possível que, após uma longa sucessão de homens famosos, uma família desapareça repentinamente. Isto aparece como uma ruptura inexplicável na cadeia de testemunhos da força divina de uma estirpe, que une aos tempos heróicos a atualidade do poeta. (…) Píndaro fala desta interrupção da areta (sic)humana, no 6º hino nemeu. A raça dos homens e a raça dos deuses estão profundamente separadas.”
“Assim, hoje, Alcímidas, vencedor das competições juvenis, prova que no seu sangue palpita uma força análoga à dos deuses. Parece desaparecer no seu pai, mas reaparece no pai do seu pai, Praxídamas, grande vencedor em Olímpia, no Istmo e em Neméia. Com as suas vitórias acabou com o obscuro esquecimento de seu pai Socleides, filho sem glória de um pai glorioso. Acontece o mesmo que com os campos, os quais ora dão aos homens o pão de cada dia, ora lhe recusam. (…) Para o pensamentos grego é evidente que com o aumento das gerações de uma casa pode aparecer uma colheita má, uma aphoria, idéia que voltamos a encontrar em tempos pós-cristãos, quando o autor do estudo Do Sublime investiga as causas do desaparecimento dos grandes espíritos criadores, na época dos epígonos.” Schiller?
“É nisto que se distingue dos cantos impessoais de Homero. Os seus heróis são homens que vivem e lutam no seu tempo, mas que ele situa no mundo dos mitos”
“A máxima <torna-te quem és> oferece a suma da sua educação inteira. É este o sentido de todos os modelos míticos que se propõe aos homens. Revela-se neles a imagem mais alta do seu próprio ser.”“Não se diz uma palavra sobre Píndaro nas introduções às nossas edições de Platão. Em contrapartida, sempre nelas surgem, como eterna doença e na forma de incrustações estranhas, as matérias-primas dos hilozoístas [hilozoísmo: espécie de panteísmo jônico].”
“O amor filial é, depois da veneração de Zeus, senhor do céu, o dever principal da antiga ética cavaleiresca. Já Quíron, o sábio centauro, protótipo do educador dos tempos heróicos, o imprimiu na mente do peleida Aquiles, quando o teve a seu cuidado.”
“O poeta vive e move-se inteiramente num mundo em que o mito é tão real como a própria realidade; e quer celebre o triunfo de um antigo nobre, quer o de algum tirano que rapidamente alcançou o apogeu, ou o do filho de um burguês sem ascendência, a todos eleva a honras quase divinas, de que se tornaram credores pelo contato da varinha mágica da sua sabedoria sobre o alto sentido destas coisas.” “Mas será possível educar, com a convicção de que é no sangue que se encontra a arete? Píndaro tomou várias vezes posição em face deste problema. Na realidade o problema já fôra levantado por Homero, no canto da Ilíada em que Aquiles é posto em face do educador Fênix, no momento decisivo, e a admoestação deste se mostra ineficaz ante o endurecido coração do herói. No entanto, ali se trata do problema da possibilidade de moldar o caráter inato, ao passo que em Píndaro surge a moderna questão de saber se a verdadeira virtude pode ser ensinada ou se reside no sangue. Não esqueçamos que em Platão surge constantemente uma questão análoga.”
“Píndaro quebra o sigilo e apresenta a sua resposta no terceiro Canto nemeu:
A glória só tem pleno valor
quando é inata. Quem só tem
o que aprendeu é um homem obscuro e indeciso,
jamais caminha com um passo firme.
Apenas esquadrinha
com imaturo espírito
mil coisas altas.”
“A arte do poeta, como a arete das Olimpíadas, também não pode ser ensinada. É, por natureza, <sabedoria>.”
“Mas a águia é a mais rápida entre todas as aves. Rapidamente enxerga ao longe e captura a sangrenta presa. Os corvos crocitam e alimentam-se aqui embaixo.”
“E com isto deixamos o mundo aristocrático, que parece afundar-se gradualmente no silêncio, e de novo nos confiamos à torrente da História, que rumorejante passa por cima dele, quando parecia deter-se.”
“Parece ser uma lei na vida do espírito que, quando um tipo de existência atinge o seu tempo, encontre a força necessária para formular o seu ideal e atingir o seu conhecimento mais profundo (…) Assim, a decadência da cultura nobre da Grécia produziu Píndaro; a da cidade-Estado, Platão e Demóstenes; e a hierarquia da igreja medieval, no momento em que ia transpor a linha do seu apogeu, produziu Dante.”
1.10 A política cultural dos tiranos
“Neste posto avançado do mundo grego, a Sicília, em face do crescente poderio de Cartago sobre o mar e o comércio, foi muito mais duradouro do que na Grécia propriamente dita o <domínio de um só>.”
“A crescente expansão da economia monetária frente à economia natural operou uma revolução no valor das propriedades dos nobres que até então haviam sido o fundamento da ordem política. Agarrados às antigas formas da economia, os nobres estavam num plano inferior em face dos possuidores das novas fortunas adquiridas no comércio e na indústria. E até entre as antigas estirpes se cavava um abismo com a mudança de posição de algumas das velhas famílias, que também se dedicaram ao comércio. Como Teógnis menciona, algumas famílias empobreceram e não puderam conservar a sua antiga posição social. Outras, como os Alcmeônidas da Ática, reuniram tal fortuna, que o seu poderio se tornou insuportável para os seus companheiros de classe, que não puderam resistir à tentação de lutarem pela consecução do poder político.”
“Apesar de serem fenômeno de política puramente interna, ou talvez por isso mesmo, os tiranos estavam ligados uns aos outros por uma solidariedade internacional, freqüentemente baseada em laços matrimoniais. Anuncia-se a solidariedade, tão habitual no séc. V, entre as democracias e as oligarquias. É assim que nasce pela primeira vez – e isso é um fato memorável – uma política de largos vôos que, p.ex., em Atenas, Corinto e Mégara, levou à fundação de colônias.”
“Enquanto a importância de Pisístrato reside no fato de ter preparado a futura grandeza de Atenas, Periandro elevou Corinto a uma altura que, após sua morte, jamais voltou a ser alcançada.”
“Em nenhum lugar os tiranos se agüentavam por mais de 2 ou 3 gerações. A maioria das vezes eram novamente derrubados pela nobreza, já experimentada na política e ciente de seu objetivo. Não obstante, porém, a maior parte das vezes o usufruto da revolução cai logo sob o domínio do povo, como em Atenas. Como observa Políbio na sua teoria das crises e transformações dos regimes políticos, a causa principal da queda dos tiranos é, em geral, a incapacidade dos filhos e netos, que só herdam do pai a força, e não o vigor espiritual, assim como a má utilização do poder recebido do povo num despotismo arbitrário.” “Como diz engenhosamente Burckhardt, havia um tirano em cada grego e ser tirano constituía para todos tal sonho de felicidade que Arquíloco não achou melhor maneira de caracterizar o seu alegre sapateiro do que declarar que ele não aspirava à tirania. Os gregos achavam que o domínio de um homem só, de bondade realmente incomum, estava <de acordo com a natureza> (Aristóteles) e submetiam-se a ele de melhor ou pior grado.”
“A impopularidade desta pressão, que nem sequer o hábito foi capaz de suavizar, obrigou os tiranos a contrabalançá-la por meio da cuidadosa manutenção das formas exteriores de eleição para os cargos, pelo cultivo sistemático da lealdade e pela busca de uma política econômica favorável ao público. Pisístrato compareceu algumas vezes perante os tribunais de justiça, quando estava implicado em alguma demanda, para provar o domínio ilimitado do direito e da lei. Isto produzia no povo uma forte impressão.”
“Os nobres que podiam converter-se em rivais perigosos eram desterrados ou eram encarregados de tarefas honrosas em outros lugares do país.”
“A tirania foi por muitos chamada <o reino de Cronos>, i.e., a idade de ouro, e contava-se todo tipo de histórias sobre as visitas pessoais do senhor aos campos e suas conversas com o povo simples e trabalhador, cujo coração ganhava com a sua afabilidade e com a diminuição das contribuições.” “O tirano é o protótipo do homem de Estado que surgiu mais tarde, embora carecesse da responsabilidade deste. Deu o primeiro exemplo de uma ação de previsão e de visão ampla, realizada pelo cálculo dos fins e dos meios internos e externos, e ordenada segundo um plano. Foi ele na verdade o verdadeiro político.”
“No séc. IV, quando despertou o interesse geral pelas individualidades importantes, e a biografia nasceu como gênero literário novo, o objeto preferido das suas descrições foram os poetas, os filósofos e os tiranos. Entre os chamados 7 sábios, que alcançaram a celebridade no começo do séc. VI, encontramos tiranos como Periandro e Pítaco, ao lado de legisladores, poetas e outras personagens desse tipo. É especialmente significativo que quase todos os poetas daquele tempo tenham passado a vida na côrte dos tiranos. A individualidade não é, pois, um fenômeno de massa, uma nivelação geral do espírito, mas uma verdadeira e íntima independência – razão de sobra para que as cabeças independentes procurassem unir-se entre si.”
“Foi nesse tempo que Atenas conquistou pela 1ª vez o título de cidade das musas, que conservou para sempre.” “Num diálogo falsamente atribuído a Platão, Hiparco, o filho mais novo de Pisístrato, é chamado o 1º esteta, o <erótico e amante da arte>.” https://seclusao.art.blog/2019/10/01/pseudo-hiparco-ou-do-amor-a-ganancia/
“O interesse do Estado pela cultura é um sinal inequívoco do amor dos tiranos pelo povo. Depois da queda deles, continuou no Estado democrático, que não fez mais do que seguir o exemplo dos seus predecessores.”
“O mecenato de muitos tiranos do Renascimento e das côrtes régias posteriores surge-nos, apesar de todos os serviços prestados à vida espiritual de seu tempo, como algo forçado, como se aquele tipo de cultura não tivesse raízes profundas nem na aristocracia nem no povo e fosse apenas o capricho luxuoso de uma pequena camada social. É importante não esquecer que já na Grécia também aconteceu coisa parecida. As côrtes dos tiranos gregos, no fim do período arcaico, são parecidas com as dos primeiros Medici.” “É porque se sentem privilegiados que o homem de espírito e o seu protetor se juntam, apesar até do seu mútuo desdém.”
“Quando a côrte de Samos fechou as portas e o tirano Polícrates foi crucificado pelos persas, Anacreonte mudou a tenda para a côrte de Hiparco, em Atenas, tendo ido buscá-lo um navio de 50 remos. E quando o último rebento dos Pisistrátidas de Atenas caiu e foi condenado ao exílio, Simônides passou-se para a côrte dos Escópadas da Tessália até que, também ali, caiu o teto da sala e pereceu a dinastia inteira. É altamente simbólica a história que nos diz ter sido Simônides o único sobrevivente. Velho de 80 anos, emigrou ainda para a côrte do tirano Hierão de Siracusa. A cultura destes homens era como a sua vida.”
LIVRO SEGUNDO: APOGEU E CRISE DO ESPÍRITO ÁTICO
2.1 O drama de Ésquilo
“Até a morte de Péricles, foram nobres os chefes do Estado democrático de Atenas, e o poeta mais importante da jovem república, Ésquilo, filho de Eufórion e primeiro grande representante do espírito ático, como Sólon cem anos antes, era filho da nobreza rural.”
“São raras na história as batalhas travadas com tão grande pureza por uma idéia, como as de Maratona e Salamina. Dado que os atenienses abandonaram a cidade e se fizeram ao mar <com todo o povo>, a bordo dos navios, devemos crer que Ésquilo tenha participado da batalha naval, ainda que Íon de Quio não o tenha mencionado nas suas memórias de viagens, escritas uma geração depois. (…) Conduzido pela superioridade espiritual de um ateniense e inflamado por um novo heroísmo, um pequeno exército vencera, na luta pela independência, as multidões de Xerxes” Cf.Ésquilo, Os Persas
“Píndaro anseia pela restauração do mundo aristocrático em todo o seu esplendor, de acordo com o espírito da submissão tradicional. A tragédia de Ésquilo é a ressurreição do homem heróico dentro do espírito da liberdade. É o caminho direto e necessário que vai de Píndaro a Platão, da aristocracia do sangue à aristocracia do espírito e do conhecimento.” “Desapareceu o luxuoso vestuário jônico, para dar lugar às vestes dóricas simples e varonis. Desaparece também do rosto das esculturas desta década o sorriso convencional e inexpressivo derivado do ideal jônico de beleza, sendo substituído por uma seriedade profunda e quase severa. É a geração de Sófocles a primeira a encontrar, no meio dos dois extremos, o equilíbrio da harmonia clássica.” “Sófocles, Eurípides e Sócrates são filhos da burguesia. O primeiro descende de uma família de industriais; os pais de Eurípides eram pequenos proprietários rurais; o pai de Sócrates era um honrado carpinteiro [romantização?] de um pequeno arrabalde.”
“A tragédia devolve à poesia grega a capacidade de abarcar a unidade de todo o humano. Neste sentido, só a epopéia homérica se pode comparar a ela. Apesar da grande fecundidade da literatura, nos séculos intermediários, só a epopéia a iguala quanto à riqueza do conteúdo, à força estruturadora e amplitude do seu espírito criador.” “nos épicos dos chamados ciclos renasce o interesse pelo conteúdo material das sagas relativas à guerra de Tróia. Falta a estes poetas a compreensão da grandeza artística e espiritual da Ilíada e da Odisséia. Só querem narrar o que sucedeu antes e depois.” “Esta atitude histórica era inevitável, dado que primitivamente as memórias das sagas eram tidas por história autêntica. A poesia de catálogos, atribuída a Hesíodo por causa do parentesco do estilo do seu autor com o deste, e que vinha satisfazer o interesse dos cavaleiros em descobrirem uma genealogia nobre que os unisse à árvore genealógica dos deuses e dos heróis, dá mais um passo neste processo de historização dos mitos.”
“No momento em que as forças mais poderosas pareciam afastar-se do heroísmo com crescente decisão, e em que florescia o conhecimento reflexivo e a aptidão para as emoções mais sensíveis (como a literatura jônica mostra), nasce das mesmas raízes um novo espírito de heroísmo mais interior e mais profundo, estreitamente vinculado ao mito e à forma do ser que dele provém.”
“Os novos ensaios para determinar, a partir de um ponto de vista filológico, a origem histórica e a essência da tragédia deixam à margem esta questão. Quando derivam a nova criação de uma outra qualquer forma anterior puramente literária e crêem talvez que os ditirambos dionisíacos <adquiriram forma séria> no instante em que uma cabeça original os pôs em contato com o conteúdo dos antigos cantos heróicos, limitam-se a considerar as condições exteriores do problema. A tragédia ática não passaria de um fragmento dramatizado dos cantos heróicos, representado por um coro dos cidadãos de Atenas.” “Infelizmente não temos qualquer idéia precisa das mais antigas formas da tragédia, e portanto só podemos julgar as formas superiores da sua evolução.”
“Tentaremos só avaliá-la como objetivação espiritual da nova forma de homem que naquela altura se desenvolveu, e da força educadora que irradia daquela realização imperecível do espírito grego. É tão considerável o volume das obras conservadas dos trágicos gregos que teremos de olhá-la de uma distância adequada se não quisermos consagrar-lhe um livro inteiro.(…) é a mais alta manifestação de uma humanidade para a qual a religião, a arte e a filosofia formam uma unidade indivisível.” “As épocas em que a história da cultura e da educação humana seguiram total ou predominantemente os caminhos separados destas formas espirituais são forçosamente unilaterais, por mais profundas que sejam as razões históricas daquela unilateralidade.”
“Se encarássemos o desenvolvimento da tragédia grega, desde Ésquilo até Sófocles e Eurípides, do ponto de vista da estética pura, seria totalmente diverso o nosso juízo a seu respeito; mas, do ponto de vista da história da formação humana, (…) é assim que surge o seu processo, como reflete (…) o espelho da consciência pública que é a comédia desse tempo. Os contemporâneos não consideravam nunca a natureza e a influência da tragédia de um ponto de vista exclusivamente artístico. Era a tal ponto a rainha, que a tornavam responsável pelo espírito da comunidade. E embora devamos pensar, como os historiadores, que os grandes poetas não eram só criadores, mas também os representantes daquele espírito, isto não altera em nada a responsabilidade da sua função diretiva, que o povo helênico achou maior e mais grave que a dos chefes políticos que se sucederam no governo constitucional. Só a partir deste ponto de vista é que se pode compreender a intervenção do Estado platônico na liberdade da criação poética, tão inexplicável e insustentável para o pensamento liberal. Sem embargo, este sentido da responsabilidade da poesia trágica não pode ter sido o originário, se pensarmos que no tempo de Pisístrato a poesia era considerada apenas como objeto de prazer.” “Os festivais dramáticos de Atenas constituíam o ideal de um teatro nacional, do tipo daquele que os poetas e diretores de cena alemães da nossa época clássica se esforçaram em vão por implantar.”
“O impulso dionisíaco convinha mais aos dramas cômicos, satíricos e burlescos”
“O poeta não enfrentava, nos bancos dispostos em torno do local das danças, um público de gosto literário estragado, mas sim um público capaz de sentir a força da psicagogia, um povo inteiro disposto a emocionar-se num instante como jamais o teriam podido conseguir os rapsodos, com os cantos de Homero.”
“Ó tu, o primeiro dos gregos, que ergueste as palavras à altura da mais alta nobreza!, assim evoca a sombra de Ésquilo um poeta de uma geração posterior.”
“Outro elemento era a magnificência do espetáculo, que seria vã curiosidade tentar reconstruir. Quando muito, a sua lembrança pode ajudar o leitor moderno a libertar-se da imagem do teatro fechado, totalmente contrária ao estilo da tragédia grega. Basta recordar a máscara trágica, tão freqüente na arte grega, para notar esta diferença. Torna-se patente nela a diferença essencial entre a tragédia grega e qualquer outra arte dramática posterior.Era tão grande o seu afastamento da realidade comum que a fina sensibilidade dos gregos descobriu na paródia e transposição das suas palavras para as situações da vida cotidiana uma fonte inesgotável de efeitos cômicos.”
“A concentração de um destino humano inteiro no breve e impressionante curso dos acontecimentos, que no drama se desenrolam ante os olhos e os ouvidos dos espectadores, representa, em relação à epopéia, um aumento enorme do efeito instantâneo produzido na experiência vital das pessoas”
“Como diz o seu nome, a tragédia nasceu das festas dionisíacas dos coros de bodes. Bastou para tanto que um poeta visse a fecundidade artística do entusiasmo ditirâmbico (tal como o vemos na concentração do mito da antiga lírica coral siciliana) e fosse capaz de traduzi-la numa representação cênica e de transferir os seus próprios sentimentos para o eu estranho do ator. Assim, o coro, de narrador lírico, converteu-se em ator e, portanto, em sujeito dos sentimentos que até então apenas havia partilhado e acompanhado com as suas emoções.”
“Já n’As Suplicantes, uma das tragédias mais antigas, que não era ação, mas pura paixão, a força da sympatheia, que suscitava a participação sentimental dos ouvintes por meio dos lamentos do coro, serviu para dirigir a atenção para o destino que, enviado pelos deuses, produzia aqueles abalos na vida dos homens. Sem este problema da tyche ou da moira, que a lírica dos jônios fizera chegar à consciência daquele tempo, jamais se teria gerado uma tragédia autêntica a partir dos antiquíssimos <ditirambos de conteúdo mítico>. (…) Deles até Ésquilo, vai um passo gigantesco.”
“As lendas tradicionais são vistas através das mais íntimas convicções da atualidade. Os sucessos de Ésquilo, Eurípides principalmente, foram mais além, a ponto de converterem a tragédia mítica numa representação da vida cotidiana.”
“O próprio Agamemnon de Ésquilo se comporta de modo totalmente diverso do Agamemnon de Homero. É um filho genuíno do tempo da religião e da ética de Delfos, constantemente perturbado pelo medo de, como vencedor, na plenitude da força e da ventura, incorrer na hybris. Está completamente impregnado da crença de Sólon, segundo a qual a abundância conduz à hybris e a hybris à ruína. (…) Prometeu é concebido como o principal conselheiro, caído em desgraça, do jovem tirano ciumento e desconfiado que lhe deve a consolidação do seu poder alcançado recentemente pela força e que com ele não o quer partilhar, porque Prometeu o quer aplicar à realização dos seus planos secretos de salvação da humanidade sofredora. Na figura de Prometeu misturam-se o político e o sofista, como o prova a repetida designação do herói por meio do último termo, nessa época ainda honroso também.”
“as longas enumerações de países, rios e povos, que vemos no Prometeu Agrilhoado e no Prometeu Libertado,¹ não constituem só um adorno poético, mas caracterizam ao mesmo tempo a onisciência do herói.”
¹ Só restaram fragmentos.
“Foi Welcker o primeiro a notar que Ésquilo não compunha, em geral, tragédias isoladas, mas trilogias. Mais tarde, no entanto, quando foi abandonada esta forma de composição, continuaram a ser representadas igualmente 3 peças do mesmo autor.” “Um dos mais intrincados problemas das crenças de Sólon, partilhadas pelo poeta, era a transmissão das maldições familiares de pais a filhos, e muitas vezes até dos culpados aos inocentes.” “O problema do drama de Ésquilo não é o Homem. O Homem é o portador do destino. O destino é que é o problema. A atmosfera está carregada de tormenta desde o primeiro verso, sob a opressão do daimon que pesa sobre a casa inteira. Dentre todos os autores dramáticos da literatura universal, Ésquilo é o mestre supremo da exposição trágica.” “É precisamente na contínua intromissão de Deus e do Destino que a mão do poeta se revela. Nada de semelhante vemos no mito. Tudo o que acontece na tragédia encontra-se sob a preocupação dominante do problema teológico, tal como Sólon o desenvolve nos seus poemas, a partir da epopéia mais recente.” “Os erros que arrastam o Homem para a ruína são de uma força demoníaca à qual ninguém pode resistir. É ela que induz Helena a abandonar a casa do marido para fugir com Páris, e é ela que endurece o coração de Aquiles perante a embaixada que o exército lhe envia para dar explicações para a reparação da sua honra ultrajada, e perante as admoestações do seu velho preceptor.”
“como é freqüente a divindade dar sucessos aos insensatos e aos maus, e permitir que fracassem os esforços dos justos, ainda quando são norteados pelas melhores idéias e intenções! É indiscutível a presença desta <infelicidade imprevisível> no mundo. É o resíduo irredutível da velha Ate de que fala Homero e que conserva a sua verdade, ao lado do reconhecimento da própria culpa. Está intimamente vinculada à experiência humana que os mortais denominam sorte, pois esta se transforma facilmente na mais profunda dor, assim que os homens se deixam seduzir pela hybris.”
“O drama Os Persas mostra do modo mais simples como a tragédia esquiliana provém daquela raiz. É digno de nota que ela não pertença a nenhuma trilogia, o que tem para nós a vantagem de nos permitir ver o desenvolvimento da tragédia no espaço mais reduzido de uma unidade fechada.Mas Os Persas é um exemplo único pela ausência do elemento mítico. O poeta elabora em forma de tragédia um acontecimento histórico que viveu pessoalmente.” “Maravilharam-se alguns, ingenuamente, pelo fato de os poetas gregos não terem usado com mais freqüência <temas históricos>. É simples a razão disso. A maioria dos acontecimentos históricos não reúne as condições requeridas pela tragédia grega.” “Tudo se reduz ao efeito do destino na alma daquele que o experimenta.” “A própria experiência da dor não interessa por si mesma. (…) A dor acarreta a agudeza do conhecimento. (…) Existe um grau intermediário no <conhece-te a ti mesmo> do deus de Delfos, que exige o conhecimento dos limites do humano”
“Nenhum poeta antes dele experimentou e exprimiu com tanta força e vivacidade a essência do demoníaco. Até a fé mais inquebrantável na força ética do conhecimento é forçada a convir em que a Ate continua a ser sempre a Ate” “Aquilo que nós chamamos caráter não é essencial na tragédia de Ésquilo.”
“Na Oréstiaalcançam o apogeu não só a imaginação criadora da linguagem e a arte construtiva do poeta, mas também a tensão e o vigor do problema moral e religioso.E parece incrível que Ésquilo tenha escrito esta obra dramática, a mais pujante e viril que a história conhece, na velhice, e pouco tempo antes de morrer.” “A culpa de Orestes não se fundamenta de modo nenhum no seu caráter, nem é a este, como tal que, a intenção do poeta se dirige. Ele é apenas o filho infeliz, amarrado pela vingança do sangue. No instante em que atinge a virilidade, espera-o a maldição sinistra que o levará à perdição, ainda antes de ter começado a gozar a vida. O deus de Delfos compele-o com renovado vigor, sem que nada o possa desviar do destino que o espera.”
“A idéia de Sólon de que os filhos devem expiar as culpas dos pais gera em Sete contra Tebas, final da trilogia relativa aos reis tebanos, um drama que ultrapassa a Oréstia em força trágica, não só pelo parricídio com que termina, mas ainda por outros aspectos. Os irmãos Etéocles e Polinices são vitimados pela maldição que pesa sobre a raça dos Labdácidas, e que Ésquilo fundamenta nas culpas dos antepassados. Sem este fundo, teria sido completamente impossível para o seu sentimento religioso um acontecimento como o que o drama apresenta.” “A arete pessoal e o destino superpessoal atingem aqui a sua tensão máxima.” “Tem-se a impressão de que a culpa dos antepassados em terceiro grau não é uma amarra suficientemente forte para agüentar o peso ingente do sofrimento.”
“os padecimentos e os erros de Prometeu têm origem nele mesmo, na sua natureza e na sua ação. (…) Para Hesíodo, era apenas o prevaricador castigado pelo crime de ter roubado o fogo de Zeus. Com a força de uma fantasia que nunca os séculos poderão honrar e admirar suficientemente, Ésquilo descobriu nesta façanha o germe de um símbolo humano imortal”
“Estava reservado ao gênio grego a criação deste símbolo do heroísmo doloroso e militante de toda criação humana, como a mais alta expressão da tragédia da sua própria natureza. Só o Ecce Homo, saído de um espírito completamente diverso, com a sua dor pelos pecados do mundo, conseguiu criar um novo símbolo eternamente válido de humanidade, sem no entanto roubar nada à validade do anterior.” “É certo que o Prometeu Libertado deveria completar aquela imagem”
“Esta fusão do coro com os espectadores representa uma nova etapa no desenvolvimento da arte coral de Ésquilo. Em As Suplicantes, o verdadeiro ator é ainda o coro das Danaides. Não há outro herói. Que esta era a essência original do coro foi Nietzsche quem pela 1ª vez o exprimiu com toda clareza [em] A Origem da Tragédia, obra genial da juventude, ainda que mesclada de elementos incompatíveis.”
“Uma das raízes mais vigorosas da força educativa da tragédia grega consiste no coro que, com seus cantos de simpatia, objetiva na orquestra as experiências trágicas da ação.”
2.2 O homem trágico de Sófocles
“Foi com plena consciência que Sófocles aceitou o papel de sucessor de Ésquilo” “Não deixa de ter razão a crítica de Aristófanes e dos seus contemporâneos, quando vê em Eurípides não o corruptor da tragédia de Sófocles, mas sim da tragédia de Ésquilo.”
“não nos inclinamos a encarar como preconceito que é necessário superar o entusiástico juízo dos classicistas que considera Sófocles o apogeu do drama grego, pelo rigor da sua forma artística e pela sua luminosa objetividade. É assim que a ciência e o moderno gosto psicológico que a acompanha orientam as preferências para o tosco arcaísmo de Ésquilo e para o refinado subjetivismo dos últimos tempos da tragédia ática” Jaeger banca o apologeta sem igual de todos aqueles que descreve, no final nos tornando vacilantes quanto a qualquer um de seus juízos.
“A impiedade de Eurípides – no sentido que lhe deu a tradição – é mais religiosa, apesar de tudo, que a tranqüila credulidade de Sófocles.”
“Temos que partir do efeito cênico que produz, o qual não se esgota com a compreensão da sua técnica inteligente e superior.”
“como explicar o fracasso, salvo algumas experiências com o público mais ou menos especializado, de todas as naturais tentativas modernas para encenar as tragédias de Ésquilo e de Eurípides, ao passo que Sófocles é o único dramaturgo grego que se agüenta nos repertórios dos nossos teatros? Isto não é certamente fruto de um preconceito classicista. A tragédia de Ésquilo não consegue agüentar-se nos palcos modernos, pela rigidez nada dramática do coro que a domina e que o peso das idéias e da expressão não compensa, sobretudo se faltam o canto e a dança. É certo que, numa época perturbada como a nossa, a dialética de Eurípides desperta um eco de simpática afinidade. Mas não há coisa mais mutável que os problemas da sociedade burguesa. Basta pensar o quanto estão longe de nós Ibsen ou Zola, no entanto incomparavelmente mais próximos do que Eurípides, para compreender que aquilo que constituiria a força de Eurípides, no seu tempo, representa precisamente para nós uma barreira intransponível.”
“Se nos perguntarmos quais são as criações dos trágicos gregos que vivem na fantasia dos homens independentemente do palco e da sua ligação com o drama, veremos que em primeiro lugar estão as de Sófocles. Esta sobrevivência isolada das figuras enquanto tais jamais teria podido ser obtida pelo mero domínio da técnica cênica, cujo efeito é sempre momentâneo. Talvez nada nos custe mais a compreender do que o enigma da sabedoria tranqüila, simples, natural, com que ele ergueu aquelas figuras humanas de carne e osso, repletas das paixões mais violentas e dos sentimentos mais ternos, de grandeza heróica e altiva e de autêntica humanidade, tão semelhantes a nós e ao mesmo tempo dotadas de tão alta nobreza. Nada nelas é artificial ou exorbitante. (…) A verdadeira monumentalidade é sempre simples e natural. O seu segredo reside no abandono do que na aparência é acidental e não essencial, de modo que a lei interior, oculta ao olhar comum, resplandeça com perfeita clareza.”
“Nascem todos de uma necessidade que não é nem a generalidade vazia do tipo nem a simples determinação do caráter individual: é a própria essencialidade, oposta ao que não tem essência.”
“quando chamamos Sófocles de o plástico da tragédia, trata-se de uma qualidade que nenhum outro partilha e que exclui qualquer comparação dos trágicos com a evolução das formas plásticas.”
“O monumento perene do espírito ático na época da sua maturidade é constituído pela tragédia de Sófocles e pela escultura de Fídias. Ambos representam a arte do tempo de Péricles.”
“Podemos, assim, chamar Sófocles de clássico, no sentido de que atinge o ponto culminante no desenvolvimento da tragédia. A tragédia consuma nele a <sua natureza>, como diria Aristóteles.”
“Um escultor de homens como Sófocles pertence à história da educação humana, como nenhum outro poeta grego, num sentido inteiramente novo.” “É algo totalmente diverso da ação educadora, no sentido de Homero, ou da vontade educacional, no sentido de Ésquilo. Pressupõe a existência de uma sociedade humana, para a qual a <educação>, a formação humana na sua pureza, e por si mesma, converteu-se no ideal mais alto.” “Quase se poderia considerá-la uma arte educativa, como em outra época e em condições de tempo muito mais artificiais o foi a batalha de Goethe no Tasso, para descobrir a forma na vida e na arte.”
“É lenda, sem dúvida, o relato que descreve Sófocles na flor da mocidade, a dançar no coro que celebrava a vitória de Salamina, onde Ésquilo combateu. Mas o fato de que a vida do jovem se tenha iniciado na época em que a tempestade acabava de passar é para nós muito elucidativo. Sófocles encontra-se no estreito e altaneiro píncaro do brilhante meio-dia do povo ateniense, e que tão velozmente havia de passar. É na serenidade, sem vento e sem nuvens, do dia incomparável cuja aurora despontou com a vitória de Salamina que a sua obra desabrocha. Pouquíssimo tempo antes de Aristófanes conjurar a sombra do grande Ésquilo, para que este salvasse da ruína a cidade, Sófocles fechou os olhos. Não viu a derrota de Atenas. Morreu depois da vitória de Arginusas ter despertado a última grande esperança de Atenas; e agora lá embaixo – assim o representa Aristófanes pouco depois da sua morte – vive consigo próprio e com o mundo na mesma harmonia com que viveu na Terra.”
“Orgulhosa dessa nova forma das relações humanas, aquela época criou para elas uma nova palavra, <urbano>, a qual duas décadas mais tarde se encontrava em uso pleno entre todos os prosadores áticos, em Xenofonte, nos oradores, em Platão.”
“a arte e a anedota encarnam em Sófocles e Péricles a síntese da mais alta nobreza da kalokagathia ática, tal como corresponde ao espírito do tempo.”
“Não é por mera casualidade de temperamento pessoal que Sófocles é o mestre do meio-tom, ao passo que Ésquilo nunca o poderia conseguir. Em nenhuma outra parte é a forma, de modo tão imediato, a expressão adequada, ou melhor, a revelação do ser e do seu sentido metafísico. Sófocles não responde à pergunta sobre a essência e sentido do ser com uma concepção do mundo ou uma teodicéia, como Ésquilo, mas sim com a forma dos seus discursos e a figura dos seus personagens.”
“Não é sem razão que o coro das tragédias de Sófocles repete constantemente que a fonte de todo o mal é a ausência de medida.” “esta consciência das normas ideais do Homem é peculiar à época em que a sofística se inicia. O problema da arete humana é agora estudado com extraordinária intensidade do ponto de vista da educação. O homem <tal como deve ser> é o grande tema da época e a meta de todos os esforços dos sofistas. Até agora, os poetas buscaram só fundamentar os valores da vida humana. Mas não podiam ficar indiferentes à nova vontade educacional.”
“A <alma> é objetivamente reconhecida como o centro do Homem. (…) Há muito tempo a escultura tinha descoberto as leis do corpo humano e dele fizera o objeto do mais fervoroso estudo. Voltava a descobrir na <harmonia> do corpo o princípio do cosmos, que o pensamento filosófico já confirmara para a totalidade. A partir do cosmos chega agora o mundo grego à descoberta do espiritual.” “é o único reino do ser que, embora sujeito a uma ordem jurídica, ainda não tinha sido penetrado pela idéia cósmica. É evidente que, à semelhança do corpo, a alma também tem o seu ritmo e a sua harmonia. Entramos com isso na idéia de uma estrutura da alma.” “Protágoras fala da educação da alma por meio da verdadeira eurhytmia e euharmostia.”
“Só entre o povo grego a idéia da educação podia brotar das normas da arte escultórica. (…) Naquele tempo, a educação, a poesia e a escultura estavam intimamente ligadas.”
“É esta tendência antropocêntrica do espírito ático que dá lugar ao nascimento da <humanidade>, não no sentido do amor humano pelos outros membros da comunidade, que os gregos chamaram filantropia, mas sim no sentido do conhecimento da verdadeira e essencial forma humana.
É especialmente significativo que seja a 1ª vez que a mulher aparece como representante do humano, ao lado do homem, com idêntica dignidade. As numerosas figuras femininas de Sófocles, como Antígona, Electra, Dejanira, Tecmesa, Jocasta, para não falar de outras secundárias, como Clitemnestra, Ismena e Crisótemis, iluminam com o maior fulgor a elevação e amplitude da humanidade de Sófocles. A descoberta da mulher é a conseqüência necessária da descoberta do homem como objeto próprio da tragédia.”
“Em Sófocles, passam a uma posição secundária as exigências da teodicéia, que tinha dominado o pensamento religioso, desde Sólon até Teógnis e Ésquilo. O que em Sófocles é trágico é a impossibilidade de evitar a dor. É este o rosto inevitável do destino, do ponto de vista humano. Não é que seja abandonada a concepção religiosa do mundo, de Ésquilo; de modo nenhum. Simplesmente já não é nela que se coloca a ênfase. Vê-se isso com especial clareza numa das primeiras obras de Sófocles, a Antígona, onde ainda aparece com vigoroso relevo aquela concepção do mundo.
A maldição familiar da casa dos Labdácidas, cuja ação aniquiladora Ésquilo acompanha durante várias gerações na trilogia tebana, permanece ainda em Sófocles a causa originária, mas situada num plano de fundo. Antígona cai como sua última vítima, do mesmo modo que em Sete de Ésquilo, Etéocles e Polinices. Sófocles leva Antígona e o seu opositor Creonte a participarem na realização do seu destino pelo vigor das suas ações, e o coro não se cansa de falar da transgressão da medida e da participação de ambos no seu infortúnio.”
“Antígona está determinada para a dor, pela sua própria natureza; poderíamos até dizer que foi eleita para ela, visto que a sua dor consciente converte-se numa nova forma de nobreza. Esta eleição para a dor, naturalmente alheia a qualquer representação cristã, revela-se de modo eminente no diálogo do prólogo entre Antígona e as suas irmãs. A ternura juvenil de Ismena retrocede aterrada perante a deliberada escolha da sua própria ruína.”
“com a peculiar ironia trágica de Sófocles, no momento em que o coro acaba de celebrar o direito e o Estado, proclamando a expulsão para fora de qualquer sociedade humana daquele que despreza a lei, Antígona é agrilhoada. Para cumprir a lei não-escrita e obedecer ao mais simples dever fraterno, afronta com plena consciência o decreto tirânico do rei que, baseado na força do Estado, proíbe-lhe, sob pena de morte, que dê sepultura ao seu irmão Polinices, morto em combate contra a própria pátria. No mesmo instante aparece ao espírito do espectador um outro aspecto da natureza humana. O orgulhoso hino emudece perante o súbito e trágico conhecimento da debilidade e da miséria humana.
Foi com uma intuição profunda que Hegel viu na Antígona o trágico conflito de 2 princípios morais: a lei do Estado e o direito familiar.” Uau, que profundo, o grande Hegel… Porém, H. emitiu o parecer errado: não é a lei do Estado que prevalece – como poderia se equivocar de tal maneira? Não que o direito familiar seja o vitorioso: a vitória cabe ao indivíduo realizando-se em sua liberdade ética e antagonizando até o último momento o arbítrio – não dos deuses, mas do próprio homem.
“ainda que se fale de hybris e da falta de medida e de compreensão, não é no centro que estes conceitos se encontram, como na obra de Ésquilo, mas sim na periferia.”???
“A irracionalidade desta Ate, que inquietou o sentido da justiça de Sólon e preocupou a época inteira, é um pressuposto do trágico, mas não constitui o problema da tragédia. Ésquilo procura resolver o problema. Sófocles pressupõe a Ate. Mas não é de mera passividade a sua posição perante o fato inevitável da dor enviada pelos deuses, que desde a sua origem a velha lírica lamentou. Não partilha as resignadas palavras de Simônides, segundo as quais o Homem tem de perder necessariamente a arete, quando o infortúnio inexorável o derruba. A elevação dos seus grandes sofredores à mais alta nobreza é o Sim que Sófocles dá a esta realidade, a esfinge cujo enigma fatal consegue resolver. É o homem trágico de Sófocles o 1º a elevar-se a uma autêntica grandeza humana, pela completa destruição da sua felicidade terrena ou da sua existência física e social.”
“Esta arte chega ao auge de sua perfeição na cena do reconhecimento de Electra e de Orestes. O disfarce intencional do salvador, o seu regresso à casa paterna e a maneira gradual como ele deixa cair as suas vestes fazem a dor de Electra passar por todos os graus, desde o céu até o inferno.”
“Exilado da pátria e cego, o velho Édipo vagueia mundo afora, esmolando, pela mão de sua filha Antígona, outra das figuras preferidas que o poeta jamais abandona. Nada é mais característico da essência da tragédia de Sófocles que a compaixão do poeta para com as suas próprias figuras. Nunca o abandonou a idéia do que seria feito de Édipo.”
“Na plenitude da vida Sófocles achou plena satisfação em colocar Édipo no meio da tempestade do aniquilamento. Põe-no diante dos olhos do espectador no momento em que se amaldiçoa e quer aniquilar, desesperado, a sua existência, tal como já com as próprias mãos havia apagado a luz dos olhos. Também em Electra, no instante em que a personagem atinge a plenitude da tragédia o poeta corta, subitamente, o fio da ação.
É altamente significativo que Sófocles tenha retomado o tema de Édipo, pouco antes da sua morte. Seria errôneo esperar desse segundo Édipo a resolução final do problema. Quem tentasse interpretar neste sentido a apaixonada autodefesa do velho Édipo, a sua repetida insistência em que foi na ignorância que realizou todos os seus atos, confundiria Sófocles com Eurípides.[Interpretação corrente!]Nem o destino nem Édipo são absolvidos ou condenados. No entanto, é a uma luz mais alta que o poeta parece encarar aqui a dor. É um último encontro com o velho peregrino sem descanso, pouco antes de chegar ao seu termo. A sua nobre natureza continua inquebrantável na sua força impetuosa, apesar do infortúnio e da velhice. A consciência ajuda-o a suportar a dor, esta velha companheira insuperável que nem nas últimas horas o abandona. Esta imagem agreste não dá nenhum lugar à ternura sentimental. No entanto, a dor torna Édipo venerável. O coro sente-lhe o terror, mas ainda mais a grandeza, e o rei de Atenas recebe o mendigo cego com as honras devidas a um hóspede ilustre. Era no solo ático que ele devia encontrar o último repouso, rezava um oráculo divino. A morte de Édipo está envolta em mistério. Sai sozinho e sem guia para o bosque e ninguém mais o volta a ver. Tão incompreensível como a senda da dor, pela qual a divindade conduz Édipo, é o milagre da salvação que no fim o espera. (…) Não se pode saber como, mas a consagração à dor aproxima-o dos deuses e separa-o do resto dos homens. Agora repousa na colina de Colono, na pátria querida do poeta, nos bosques sempre verdejantes das Eumênides, em cujos ramos canta o rouxinol. Nenhum pé humano pode pisar o lugar. Mas é dele que irradia a bênção para toda a terra da Ática.”
2.3 Os sofistas
“Foi com os sofistas que a palavra paideia, que no século IV e durante o helenismo e o império haveria de ampliar cada vez mais a sua importância e a amplitude do seu significado, pela 1ª vez foi referida à mais alta arete humana e, a partir da <criação dos meninos> – em cujo simples sentido a vemos em Ésquilo, pela primeira vez (Sete contra Tebas, 18) –, acaba por englobar o conjunto de todas as exigências ideais, físicas e espirituais, que formam a kalokagathia, no sentido de uma formação espiritual consciente.”
“se excetuarmos Esparta, onde desde Tirteu se tinha estruturado uma forma peculiar de educação cívica, a agoge (que não tem nada de semelhante no resto da Grécia), não havia nem podia haver nenhuma forma de educação estatal comparável às que a Odisséia, Teógnis e Píndaro nos mostram; e as iniciativas privadas desenvolviam-se muito lentamente.” “A educação profissional, herdada do pai pelo filho que lhe seguia o ofício ou a indústria, não se podia comparar à educação total de espírito e de corpo do nobre” “Era uma simples ampliação do conceito de comunidade de sangue, com a única diferença de que a vinculação da estirpe substituíra o antigo conceito aristocrático do Estado patriarcal. Não era possível pensar em outro fundamento. Por mais forte que fosse o sentimento da individualidade, era impossível conceber que a educação se fundamentasse em outra coisa que não a comunidade da estirpe e do Estado.”
“E se a moderna cidade-Estado se apropriara da arete física da nobreza, por meio da instituição da ginástica, por que não seria possível alcançar, através de uma educação consciente pela via espiritual, as inegáveis qualidades diretivas, que eram patrimônio daquela classe?”
“Não tem importância para nós, agora, a apreciação da forma democrática da organização do Estado ático” “Problemas como o da educação política do Homem e da formação de minorias dirigentes, da liberdade e da autoridade, só neste grau da evolução espiritual podem surgir e só nele podem alcançar a sua plena urgência e importância para o destino.” “Prova disso é o pensamento dos grandes educadores e filósofos nascidos daquela experiência ter conseguido prontas soluções, que transcendem ousadamente as formas existentes do Estado e cuja fecundidade é inesgotável para qualquer outra situação análoga.”
“o problema das relações das grandes personalidades espirituais com a comunidade, problema que preocupou todos os pensadores até o fim da cidade-Estado, sem que chegassem a entrar em acordo. No caso de Péricles, foi encontrada uma feliz solução para o indivíduo e para a sociedade.”
“Esta necessidade fez-se sentir mais desde a entrada de Atenas no mundo internacional, com a economia, o comércio e a política subseqüentes às guerras contra os persas. Atenas ficou devendo a salvação a um só homem e a sua superioridade espiritual. Depois da vitória, não pôde suportar muito tempo, já que o seu poder era incompatível com o antiquado conceito da <isonomia>, e ele aparecia como um tirano dissimulado. Assim, por uma evolução lógica, chegou-se à convicção de que a manutenção da ordem democrática do Estado dependia cada vez mais da justa eleição da personalidade dirigente. Para a democracia, o problema dos problemas era ter de se reduzir a si própria ad absurdum, a partir do momento em que quis ser mais que uma forma rigorosa do poder político e se converteu no domínio real da massa sobre o Estado.
Já desde o começo a finalidade do movimento educacional comandado pelos sofistas não era a educação do povo, mas a dos chefes. No fundo não era senão uma nova forma da educação dos nobres.”
“Era a eles que acorriam os que desejavam formar-se para a política e tornar-se um dia dirigentes do Estado.” “Não deviam limitar-se a cumprir, mas tinham de criar as leis do Estado e, além da experiência que se adquire na prática da vida política, era-lhes indispensável uma intelecção universal da essência das coisas humanas. É certo que as qualidades fundamentais de um homem de Estado não se podem adquirir. São inatos o tato, a presença de espírito e a previsão, qualidades que Tucídides exalta acima das outras em Temístocles. Pode-se, no entanto, desenvolver o dom de pronunciar discursos convincentes e oportunos.”
“a força que as musas concedem ao rei (…) A faculdade oratória situa-se em plano idêntico ao da inspiração das musas aos poetas.”
“A idade clássica chama de orador o político meramente retórico. A palavra não tinha o sentido puramente formal que mais tarde adquiriu, mas abrangia também o próprio conceito.”
“Esta falsa modernização do conceito grego de arete peca essencialmente por fazer surgir aos olhos do homem atual como arrogância ingênua e sem-sentido a pretensão dos sofistas ou mestres da sabedoria, como os contemporâneos os chamavam e a si próprios eles se intitulavam.”
“É natural que encaremos os sofistas retrospectivamente, pelo ponto de vista cético de Platão, para quem o princípio de todo o conhecimento filosófico é a dúvida socrática sobre a possibilidade de ensinar a virtude. É, porém, historicamente incorreto e inibe toda a compreensão autêntica daquela importante época da história da educação humana sobrecarregá-la de problemas que aparecem apenas numa fase posterior da reflexão filosófica. Do ponto de vista histórico, a sofística é um fenômeno tão importante como Sócrates ou Platão. Além disso não é possível concebê-los sem ela.”
“A racionalização da educação política não passa de um caso particular da racionalização da vida inteira, que mais do que nunca se baseia na ação e no êxito.” “O ético, que <se compreende por si próprio>, cede involuntariamente o passo ao intelectual, que se situa em primeiro plano.” “É o tempo em que o ideal da arete do Homem recolhe em si todos os valores que a ética aristotélica reúne mais tarde como prerrogativas espirituais, e que, com os valores éticos do Homem, procura juntar numa unidade mais alta.” “os seus pressupostos pedagógicos eram tão justos como a dúvida racional de Sócrates.”
“deparamos nos sofistas com duas modalidades distintas de educação do espírito: a transmissão de umsaber enciclopédico e a formação do espírito nos seus diversos campos. Claramente se vê que o antagonismo espiritual destes dois métodos de educação só pode alcançar unidade no conceito superior de educação espiritual. Ambas as formas de ensino sobreviveram até o presente, mais sob a forma de compromisso que na sua unilateralidade.”
“A poesia e a música eram para Protágoras as principais forças modeladoras da alma, ao lado da gramática, da retórica e da dialética. É na política e na ética que mergulham as raízes desta terceira forma de educação sofística. Distingue-se da formal e da enciclopédica, porque já não considera o homem abstratamente, mas como membro da sociedade.”
“Em todo caso, é uma afirmação superficial dizer que aquilo que de novo o de único que liga todos os sofistas é o ideal educativo da retórica: isso é comum a todos os representantes da sofística, ao passo que diferem na apreciação do resto das coisas, a ponto de não ter havido sofistas, como Górgias, que só foram retóricos, e não ensinaram outra coisa. Comum a todos é antes o fato de serem mestres da arete política e aspirarem a alcançá-la mediante o fomento da formação espiritual, qualquer que fosse a sua opinião sobre a maneira de realizá-la.”
“É claro que a nova educação (…) se arriscava a cair nas maiores parcialidades, caso não se fundamentasse numa investigação séria e num pensamento filosófico rigoroso (…) Foi a partir deste ponto de vista que Platão e Aristóteles impugnaram mais tarde o sistema total da educação sofística e o abalaram nos seus próprios fundamentos.”
“A história da filosofia que Aristóteles nos dá na Metafísica não inclui os sofistas. As mais recentes histórias da filosofia consideram-nos como fundadores do subjetivismo e do relativismo filosóficos. O esboço de uma teoria por parte de Protágoras não justifica tais generalizações e é um erro evidente de perspectiva histórica pôr os mestres da arete ao lado de pensadores do estilo de Anaximandro, Parmênides ou Heráclito. [Entendi o sentido de ‘pôr ao lado’ neste contexto; porém, se fosse um comentário elogioso, os sofistas deveriam se sentir honrados de dividir honras com Parmênides.]
A cosmologia dos milesianos mostra-nos até que ponto o afã investigador da <história> jônica estava originariamente distante de todo o humano e de toda a ação educacional e prática. [será?] (…) A audaciosa tentativa de Xenófanes para fundamentar a arete no conhecimento racional de Deus coloca este conhecimento em íntima ligação com o ideal educativo; e parecia, em instantâneo vislumbre, que a filosofia da natureza iria, pela aceitação da poesia, obter o domínio da formação e da vida da nação. Mas Xenófanes é um fenômeno isolado (…) Heráclito foi o único dos grandes pensadores capaz de articular o Homem na construção jurídica do cosmos regido por um princípio unitário. E Heráclito não é um fisiólogo. (…) Com Anaxágoras de Clazômenas, que situa na origem do ser o espírito, como força ordenadora e diretiva, entra na cosmogonia a tendência antropocêntrica do tempo. No entanto, continua sem solução de continuidade a concepção mecanicista da natureza. (…) Empédocles de Agrigento é um centauro filosófico. Na sua alma biforme convivem em rara união a física jônica dos elementos e a religião da salvação órfica.”
“Até um pensador tão estritamente naturalista como Demócrito não pôde deixar de lado o problema do Homem e do seu mundo moral específico. (…) prefere traçar uma linha divisória entre a filosofia da natureza e a sabedoria ética e educativa, que deixa de ser uma ciência teórica para de novo adotar a forma tradicional da parênese.”
“O interesse cada vez maior da filosofia pelos problemas do Homem, cujo objeto determina com exatidão cada vez maior, é mais uma prova da necessidade histórica do advento dos sofistas. Todavia, a exigência que eles vêm satisfazer não é de ordem teórica e científica, mas sim de ordem estritamente prática. É esta a razão profunda pela qual tiveram em Atenas uma ação tão forte, ao passo que a ciência dos fisiólogos jônicos não pôde lançar ali quaisquer raízes. Sem compreenderem nada desta investigação separada da vida, os sofistas vinculam-se à tradição educativa dos poetas, a Homero e a Hesíodo, a Teógnis, a Simônides e a Píndaro.”
“Simônides já é, no fundo, um sofista típico.(*) Os sofistas deram o último passo. Transplantaram para a nova prosa artística, em que eram mestres, os vários gêneros de poesia parenética onde o elemento pedagógico se revelava com maior vigor, e entraram assim em consciente emulação, na forma e no conteúdo, com a poesia. Esta transposição do conteúdo da poesia para a prosa é sinal da sua racionalização definitiva.
(*) Disse-o já PLATÃO, Prot., 339 A.”
“Foram os primeiros intérpretes metódicos dos grandes poetas aos quais vincularam, com predileção, os seus ensinamentos. Não se deve, porém, esperar uma interpretação no sentido em que nós a entendemos. Encaravam os poetas de modo imediato e intemporal e os situavam despreocupadamente na atualidade, como o revela graciosamente o Protágoras de Platão.”
“Homero é para os sofistas uma enciclopédia de todos os conhecimentos humanos, desde a construção de carros até a estratégia, e uma mina de regras prudentes para a vida.(*) A educação heróica da epopéia e da tragédia é interpretada de um ponto de vista francamente utilitário.
(*) PLATÃO, Rep. 598 E, mostra este tipo de interpretação sofística de Homero num quadro cheio de precisão.”
“Tudo isto recorda os literatos do Renascimento. Renasce neles a independência, o cosmopolitismo e a despreocupação que os sofistas trouxeram ao mundo. Hípias de Élis, que falava de todos os ramos do saber, ensinava todas as artes e só ostentava no corpo vestes e adornos feitos por suas mãos, é o perfeito uomo universale. [aqui, self-made man] (PLATÃO, Híp. Men., 368 B.)”
“Não tinham cidadania fixa, devido a sua vida constantemente andarilha. Que na Grécia tenha sido possível este modo de vida tão independente é o mais evidente sintoma do aparecimento de um tipo de educação completamente novo, individualista na sua raiz mais íntima, por mais que se falasse de educação para a comunidade e da virtude dos melhores cidadãos. Os sofistas são, com efeito, as individualidades mais representativas de uma época que na sua totalidade tende para o individualismo. Os seus contemporâneos tinham razão, quando os consideravam os autênticos representantes do espírito do tempo. É também sinal dos tempos viverem da educação. Esta era <importada> como uma mercadoria e exposta à venda. Encerra algo de profundamente verdadeiro esta maliciosa comparação de Platão. Não devemos, porém, tomá-la por crítica aos sofistas e às doutrinas deles, mas antes por um sintoma espiritual.”
“Podemos, pois, considerá-los um estágio da maior importância no desenvolvimento do humanismo, embora este só tenha encontrado a sua verdadeira e mais alta forma após a luta entre os sofistas e sua superação por Platão. Há sempre neles algo de incompleto e imperfeito. A sofística não é um movimento científico, mas sim a invasão do espírito da antiga física e <história> dos jônios por outros interesses da vida e sobretudo pelos problemas pedagógicos e sociais que surgiram em conseqüência da transformação do Estado econômico e social. O seu primeiro efeito, porém, foi suplantar a ciência, tal como nos tempos modernos aconteceu com o florescimento da pedagogia, da sociologia, e do jornalismo. Na medida em que (…) formulou um conceito de educação, a sofística levou a uma ampliação dos domínios da ciência jônica nos aspectos ético e social, e abriu o caminho a uma verdadeira filosofia e ética, ao lado e mesmo acima da ciência da natureza. PLATÃO, no Hípias Maior¹ (281 C), salienta a oposição entre a tendência prática dos sofistas e a antiga filosofia separada da vida.”
“Ainda agora está por resolver a questão de saber se a pedagogia é uma ciência ou uma arte; e não foi ciência mas sim techne que os sofistas chamaram a sua teoria e arte da educação.” “A conversão da educação numa técnica é um caso particular da tendência geral do tempo a dividir a vida inteira numa série de compartimentos separados, concebidos com vistas a uma finalidade e teoricamente fundamentados num saber adequado e transmissível. É sobretudo em matemática, medicina, ginástica, teoria musical, arte dramática, etc. que nós encontramos especialistas e obras especializadas. Até os escultores, como Policleto, escrevem a teoria da sua arte. § Por outro lado, os sofistas consideravam a sua arte o coroamento de todas as artes.”
“Enquanto o dom de Prometeu, o saber técnico, só pertence aos especialistas, Zeus infundiu em todos os homens o sentido da justiça e da lei, pois sem ele o Estado não subsistiria. Existe, porém, um grau mais alto de intelecção do direito do Estado. É o que a techne política dos sofistas ensina, e que é, para Protágoras, a verdadeira educação e o vínculo espiritual que conserva unidas a comunidade e a civilização humanas. § Nem todos os sofistas atingiram tão elevado conceito da sua profissão. O sofista mediano dava-se por satisfeito em transmitir a sabedoria.”
“Convém evitar a identificação da techne com o sentido moderno do conceito de <vocação>, cuja origem cristã o distingue do conceito de techne. Cf. KARL HOLL, Die geschichte des Worts Beruf, Sitz. Berl. Akad., 1924.”
“a língua grega não tem outra palavra para exprimir o poder e o saber que o político adquire por meio da ação. E é perfeitamente visível que Protágoras se esforça por distinguir esta techne das técnicas profissionais, em sentido estrito, e por lhe dar um sentido de totalidade e de universalidade.”
“Esta educação ética e política é um traço fundamental da essência da verdadeira paideia. (…) Não é como exemplo histórico, meramente aproximado, que usamos o termo humanismo; é com plena reflexão, para designarmos o ideal de formação humana que com a sofística penetra nas profundezas da evolução do espírito grego e no seu sentido mais essencial. Para os tempos modernos, o conceito de humanismo refere-se de modo expresso à educação e à cultura da Antiguidade.”
“Platão e Isócrates adotam as idéias educacionais dos sofistas e nelas introduzem diversas modificações. Não há nada que caracteriza tão bem esta transformação como o fato de Platão, chegado ao termo da sua vida e do seu saber, ter transformado, nas Leis, a célebre frase de Protágoras (tão característica, na sua própria ambigüidade, do tipo de humanismo dele): O Homem é a medida de todas as coisas, no axioma: A medida de todas as coisas é Deus.”
“são essenciais ao humanismo a indiferença religiosa, o <relativismo> epistemológico e o ceticismo que Platão combate e que fazem dele o mais duro adversário dos sofistas. (…) Na nossa exposição posterior voltaremos a abordar este problema, assim como a luta da educação e da cultura para fazerem reconhecer a religião e a filosofia, luta que na história universal atinge o ponto culminante com a aceitação do cristianismo no período final da Antiguidade. §Aqui só podemos adiantar uma resposta sumária. A velha educação helênica, anterior aos sofistas, ignora a distinção entre religião e cultura. Está profundamente enraizada no religioso. A cisão tem lugar no tempo dos sofistas, que é ao mesmo tempo a época da criação da idéia consciente da educação.”
1000AGRE ÚNICO: “Provavelmente o humanismo só podia brotar das grandes tradições educacionais helênicas, no momento histórico em que entravam em crise os mais altos valores educativos.”
“Do ponto de vista histórico, é preciso determinar, antes de tudo, se Platão destruiu ou completou o humanismo dos sofistas – o primeiro que a História conheceu. (…) considerando-se as coisas exclusivamente à luz da História, parece que há muito está decidido que o ideal de formação humana propugnado pelos sofistas tem em si um grande futuro, mas não é uma criação acabada. A sua clara consciência da forma tem tido uma inestimável eficácia prática na educação, até o dia de hoje. Mas era precisamente pelo que as suas aspirações tinham de superlativo que ela necessitava de um fundamento mais profundo de ordem filosófica e religiosa. (…) Platão ultrapassa a idéia de educação dos sofistas, precisamente porque volta atrás, e remonta à origem.”
“Foi então que pela 1ª vez surgiu uma paideia do homem adulto. O conceito, que originariamente designava apenas o processo da educação como tal, estendeu ao aspecto objetivo e de conteúdo a esfera do seu significado, exatamente como a palavra alemã Bildung (formação) ou a equivalente latina cultura, do processo de formação passam a designar o ser formado e o próprio conteúdo da cultura, e por fim abarcam, na totalidade, o mundo da cultura espiritual”
“Adquirir consciência é uma grandeza, mas é a grandeza da posteridade.” “conserva toda a sua força a frase de Hegel que diz que a coruja de Atena só levanta vôo ao declinar o dia. Foi só à causa da sua juventude que o espírito grego, cujos mensageiros são os sofistas, alcançou o domínio do mundo. Assim se compreende que Nietzsche e Bachofen tenham visto na época de Homero ou na tragédia, antes do despertar da ratio, o apogeu dos tempos. Mas não se pode aceitar esta valoração absoluta e romântica dos tempos primitivos.” “Sentimos com dor a perda que acarreta o desenvolvimento do espírito.” “É necessariamente esta a nossa posição; encontramo-nos num estágio avançado da cultura, e em muitos aspectos procedemos também dos sofistas. Estão muito mais <próximos> de nós do que Platão ou Ésquilo. Por isso é que precisamos tanto destes.”
“A razão desta carência de notícias está em não terem deixado nenhum escrito que a eles sobrevivesse por muito tempo. Os escritos de Protágoras, que nisto como em tudo tinha um lugar de preferência, ainda eram lidos no final da Antiguidade; mas também foram esquecidos, a partir de então. Cf. PROTÁGORAS, frag. 2, Diels (conservado por Porfírio).”
“A Medicina permanecera largo tempo no estado de arte de curar, mesclada de exorcismos e de superstições populares. O progresso do conhecimento da natureza entre os jônios e o estabelecimento de uma ciência empírica influenciaram a arte de curar e levaram os médicos a realizar observações científicas do corpo humanos e seus fenômenos.” “Transpôs-se da totalidade do universo para a individualidade humana o conceito de physis, que recebeu, assim, um matiz peculiar.”
“O homem desgraçado ou inclinado ao mal constitui exceção. Foi, neste ponto que em todos os tempos se fundamentou a crítica religiosa cristã do humanismo. É certo que nesta questão o otimismo pedagógico dos sofistas não é a última palavra do espírito grego. Todavia, se os gregos tivessem partido da consciência universal do pecado e não do ideal de formação do Homem, jamais teriam chegado a criar uma pedagogia nem um ideal de cultura.”
“Píndaro e Platão jamais partilharam as ilusões democráticas sobre a educação das massas por meio da instrução. Foi o plebeu Sócrates quem redescobriu estas dúvidas aristocráticas relativas à educação. Recordem-se as palavras resignadas de Platão, na Carta Sétima, sobre a estreiteza dos limites dentro dos quais o influxo do conhecimento se pode exercer sobre a massa dos homens, e as razões que ele invoca para se dirigir antes a um círculo restrito e não à multidão inumerável, como portador de uma mensagem de salvação.”
“É precisamente nesta íntima antinomia entre a grave dúvida sobre a possibilidade da educação e a vontade inquebrantável de realizá-la que residem a grandeza e a fecundidade do espírito grego. Há lugar entre os dois pólos para a consciência do pecado e pessimismo cultural do cristianismo e para o otimismo educativo dos sofistas.”
“As diferenças individuais entre os métodos educativos dos sofistas, de que os seus descobridores se mostram tão orgulhosos, não passam de um objeto de divertimento para Platão. Apresenta juntas as personalidades de Protágoras de Abdera, Hípias de Élis e Pródico de Ceos, que são hóspedes simultâneos do rico ateniense Cálias, cuja casa se tornara pousada de celebridades espirituais. Assim se faz salientar que, apesar de todas as diferenças, há entre todos os sofistas um parentesco espiritual.”
“Prêmios e castigos são outorgados pela sociedade, lá onde se trata de bens que podem ser alcançados pelo esforço consciente e pela aprendizagem.” “A virtude cívica é o fundamento do Estado. Sem ela, nenhuma sociedade poderá subsistir. Quem nela não participa deve ser treinado, castigado e corrigido, até que se torne melhor; se for incurável, terá de ser banido da sociedade e até morto. Assim, não é só a justiça punitiva, mas o Estado inteiro, que é para Protágoras uma força educadora. A rigor, é o espírito político do Estado constitucional e jurídico, tal como se realiza em Atenas”
“É digno de nota que os sofistas nunca tenham propugnado a oficialização da educação, embora esta exigência esteja muito próxima do ponto de vista de Protágoras. Supriram esta falta oferecendo a educação por meio de contratos privados.”
“Pelo ensino da música a criança é educada na sophrosyne e afastada das más ações. Segue-se o estudo dos poetas líricos, cujas obras são apresentadas em forma de composições musicais. Introduzem o ritmo e a harmonia na alma do jovem, para que este saiba dominar-se, uma vez que a vida do Homem precisa da euritmia e da justa harmonia. Esta deve manifestar-se em todas as palavras e ações de um homem realmente educado. O jovem é mais tarde levado à escola de ginástica, onde os paidotribes lhe fortalecem o corpo, para que seja servo fiel de um espírito vigoroso e para que o homem nunca fracasse na vida por culpa da debilidade do corpo.” “Os filhos dos ricos começam a aprender antes e acabam mais tarde a sua educação.” “É característico do novo conceito o fato de Protágoras pensar que a educação não acaba com a saída da escola. Em certo sentido, poderia dizer-se que é precisamente nossa época que começa.”
“O conhecimento que por meio do ensino penetra na alma não tem para com ela a mesma relação que a semente tem para com a terra. A educação não é um mero processo de crescimento que o educador alimenta, favorece e guia deliberadamente.”
“É indiferente que talvez tenha sido Platão o primeiro a empregar a expressão <formar>. A idéia de formação está implícita na aspiração de Protágoras a formar uma alma rítmica e harmônica por meio da impressão do ritmo e da harmonia musical.”
“Antes dos sofistas não se fala de gramática, de retórica ou de dialética.”
“Perderam-se os seus escritos gramaticais; mas os gramáticos posteriores, peripatéticos e alexandrinos, os reelaboraram. As paródias de Platão oferecem-nos vislumbres da sinonímia de Pródico de Ceos, e sabemos ainda alguma coisa da classificação dos diversos tipos de palavras, de Protágoras, bem como da doutrina de Hípias sobre o significado das letras e das sílabas. Perderam-se também as retóricas dos sofistas, que eram manuais destinados à publicidade. Um remanescente deste tipo de livros é a retórica de Anaxímenes, em grande parte elaborada com conceitos recebidos.” “É certo que se perdeu sua obra capital, as Antilogias de Protágoras.”
“Foi na escola de Platão que a lógica surgiu em 1º lugar, e as caricaturas que o Eutidemo¹traça dos jogos erísticos de alguns sofistas de 2º plano, cujos excessos a filosofia séria impugna, mostram até que ponto se empregou, desde o início, o vigor da nova arte de discutir como arma nos combates oratórios. Está aqui muito mais próximo da retórica que da lógica teórica e científica.”
“como num teclado, os oradores dominam os tons mais diversos. Tal é a <ginástica do espírito>, cuja falta tão freqüentemente notamos nos discursos e escritos atuais.”
“Os gregos deram o nome de agon aos debates judiciais, porque tinham sempre a impressão de se tratar de uma luta entre 2 rivais, sujeita à forma e à lei. Novas investigações mostraram como a argumentação lógica da prova, introduzida pela retórica, foi substituindo, na oratória jurídica do tempo dos sofistas, as antigas provas jurídicas de testemunhas, torturas e julgamentos.” “A retórica é a forma de educação predominante nos últimos tempos da Antiguidade. Estava tão perfeitamente adaptada à predisposição formal do povo grego, que se converteu numa fatalidade, ao desenvolver-se por cima de tudo o mais, como uma trepadeira.”
“Unida à gramática e à dialética, a retórica tornou-se o fundamento da formação formal do Ocidente. Desde os últimos tempos da Antiguidade formaram juntas o chamado trivium, que juntamente com o quadriviumconstituía as 7 artes liberais, que, sob esta forma escolar, sobreviveram a todo o esplendor da arte e da cultura gregas. Ainda hoje as classes superiores dos liceus franceses conservam, como sinal da ininterrupta tradição da educação sofística, os nomes destas disciplinas, herdadas das escolas monásticas medievais. § Os sofistas não uniram ainda aquelas três artes formais à Aritmética, Geometria, Música e Astronomia, que formaram posteriormente o sistema das 7 artes liberais.”
“Antes deles, a música constituía apenas um ensino prático, como mostra a descrição que Protágoras faz da essência da educação dominante. A instrução musical estava nas mãos dos mestres de lira. A ela uniram os sofistas a doutrina teórica dos pitagóricos sobre a harmonia.”
“O que hoje denominamos cultura humanista no estrito sentido da palavra, e que é impossível sem o conhecimento das literaturas clássicas na sua língua original, só podia florescer num solo não-grego, mas influenciado no que tinha de mais profundo pelo espírito helênico, como foi o povo romano. A educação baseada nas 2 línguas, grega e latina, é, na sua concepção plena, uma criação do humanismo do Renascimento.”
“Uma objeção capital da crítica pública contra este aspecto da educação sofista era a inutilidade das matemáticas para a vida prática. Como se sabe, Platão, no seu plano de estudos, considera a Matemática uma propedêutica para a Filosofia. Nada mais alheio aos sofistas do que esta concepção. (…) Isócrates, um discípulo da retórica sofística que após longos anos de oposição acabou por conceder um certo valor à Matemática” “As Mathemata representam o elemento real da educação sofística; a gramática, a retórica e a dialética, o elemento formal. A posterior divisão das artes liberais no trivium e no quadrivium depõe também a favor daquela separação em 2 grupos de disciplina.”
“PLATÃO, Hípias Maior, 285 B mostra unicamente a enciclopédica variedade do saber de Hípias; Hípias Menor,¹ 368 B, o seu consciente esforço para a universalidade, pois tinha o orgulho de dominar todas as artes.”
“É a primeira vez que se reconhece o valor do puramente teórico para a formação do espírito. (…) Pelo conhecimento matemático alcança-se a capacidade de construir e ordenar e, de modo geral, a força espiritual. Os sofistas nunca chegaram a formular uma teoria desta ação. Foram Platão e Aristóteles os que primeiro alcançaram uma consciência plena da importância educacional da ciência pura.”
“Nos tempos antigos, só por exceção esta atitude espiritual aparecia em algumas personalidades excepcionais, que pelo seu afastamento da vida citadina corrente e seus interesses, e pela sua originalidade entre admirável e ridícula, granjeavam respeito, consideração e amável indulgência. Agora as coisas eram bem outras. Este saber aspirava a converter-se na autêntica e <superior> educação e a suplantar a educação tradicional. § A oposição não podia brotar do povo trabalhador, que desde o início se viu excluído desta educação, pois era <inútil>, cara e dirigida às esferas dirigentes. A crítica só era possível no seio das classes superiores, que sempre haviam possuído uma alta formação e uma medida certa e que, mesmo sob a democracia, mantinham intacto, quanto ao essencial, o seu ideal de gentleman, a kalokagathia. Políticos eminentes como Péricles, e altas personalidades sociais, como Cálias, o homem mais rico de Atenas, davam o exemplo de um apaixonado amor ao estudo, e muitas pessoas de destaque mandavam os filhos às conferências dos sofistas. (…) [os pais] não queriam que seus filhos se convertessem em sofistas. Alguns discípulos mais bem-dotados dos sofistas seguiam os seus mestres de cidade em cidade e aspiravam a fazer profissão dos ensinamentos recebidos.Em contrapartida, os jovens distintos que assistiam as suas conferências não os julgavam modelos dignos de imitação. Pelo contrário, acentuavam a diferença de classe que os separava dos sofistas, todos procedentes de famílias burguesas, e estabeleciam um limite além do qual não podia passar a sua influência. (…) Lembra a discussão entre <Sócrates> – que neste caso se identifica com Platão – e o nobre ateniense Cálicles, no Górgias,¹ sobre o valor da investigação pura para a formação do homem superior que aspira à ação política. Cálicles repele violentamente a ciência como vocação da vida inteira. É boa e útil para preservar os jovens contra tendências perniciosas na perigosa idade em que ocorrem (…) Quem não tiver sentido bem cedo estes interesses não chegará nunca a ser um homem completo e permanecerá sempre numa fase imatura do seu desenvolvimento quem encerrar a sua vida toda nesta atmosfera acanhada. Cálicles estabelece os limites da idade em que é necessário ocupar-se deste saber, ao afirmar que deve ser adquirido <com propósito educativo>, i.e., durante uma idade que serve de simples transição. Cálicles é o tipo da sua classe social. Não nos podemos ocupar aqui da atitude que Platão assume diante dele. O mundo distinto de Atenas e toda a sociedade burguesa participam em maior ou menor grau do ceticismo de Cálicles perante o novo entusiasmo espiritual da sua juventude. (…) Cálicles pertence também à escola sofística, como todas as suas palavras manifestam. Mas aprendeu depois, como político, a subordinar esse grau da sua educação ao curso total da sua carreira de estadista. Cita Eurípides, cuja obra é espelho de todos os problemas do seu tempo.”
“foi originariamente proferida por um grego essa <máxima romana> que emociona tantos dos nossos filo-helenistas.”
“Ocupar-se da investigação <só por mor da educação> e na medida em que esta faz falta era a fórmula da cultura do tempo de Péricles, uma vez que essa cultura era integralmente prática e política. O seu fundamento era o império ateniense, que tinha por finalidade obter o domínio do mundo helênico. Até Platão, quando após a ruína do império pregava o ideal da <vida filosófica>, justificava o seu intento pelo valor prático em prol da edificação do Estado. (…) E foi só depois de desaparecida a grandeza ateniense que, em Alexandria, reapareceu a ciência jônica.”
“O Estado aparece na teoria de Protágoras como fonte de todas as energias educadoras. Além disso, o Estado é uma grande organização educacional que impregna deste espírito todas as suas leis e instituições sociais.”
“Foi entre estes 2 pólos – educação e poder – que o Estado dos tempos clássicos se realizou, em tensão constante. Esta tensão gera-se em todos os casos em que o Estado educa os homens exclusivamente para si. A exigência da consagração da vida individual aos objetivos do Estado pressupõe a concordância destes objetivos com o bem-estar do todo e de cada uma de suas partes, entendido corretamente.”
“Segundo Protágoras, a educação para o Estado significa educação para a justiça. É precisamente neste ponto que, no tempo dos sofistas, se origina a crise do Estado, a qual se converte ao mesmo tempo na mais grave crise da educação. É superestimar a influência dos sofistas considerá-los, e isso ocorre com freqüência, os executores desta evolução. Aparece mais sensível nas suas doutrinas porque é nelas que se espelham com maior nitidez os problemas do tempo e porque a educação acusa com o maior vigor qualquer perturbação da autoridade legítima.”
“a guerra do Peloponeso foi uma prova final para o crescente e irresistível poder de Atenas. Após a morte de Péricles, afetou gravemente a autoridade do Estado e o próprio Estado até, e tornou apaixonada a luta pelo poder interno. Ambos os partidos utilizaram a retórica e a arte de discutir dos sofistas. Mas não se pode afirmar que pelas suas concepções políticas os sofistas deveriam necessariamente pertencer a um dos partidos.” “de uma simples luta de partidos converteu-se numa luta espiritual que corroía os princípios fundamentais da ordem vigente.”
“Cálicles impugna a educação segundo o espírito de Protágoras, i.e., segundo o espírito dos ideais tradicionais da <justiça>, com um pathos que deixa transparecer com paixão uma transmutação total de todos os valores.”
“Desde a meninice que tratamos como leões os melhores e mais poderosos de nós: oprimimo-los, enganamo-los e subjugamo-los, ao dizer-lhes que devem contentar-se com ser iguais aos outros e que é isto o nobre e o justo. Quando, porém, surge um homem de natureza realmente poderosa, sacode tudo isto, rompe as cadeias e liberta-se, calcando aos pés todo o nosso amontoado de letras e sortilégios, as nossas artes mágicas e as nossas leis contra a natureza; e ele, o escravo, levanta-se e aparece como senhor nosso: é então que brilha em todo o seu esplendor o direito da natureza.”
Górgias, 483 E
Palavras tão belas e sinceras quanto perigosas e ambíguas. Toda a ciência política moderna gravitará em torno delas, interpretando-as bem ou mal.
“o conceito de direito, no sentido da lei, perdeu a sua íntima autoridade moral. Na boca de um aristocrata ateniense, é o anúncio declarado da revolução. Com efeito, o golpe de estado de 403, depois da derrota de Atenas, estava animado deste espírito.”
“Para a consciência atual, a política e a moral pertencem, com ou sem razão, a 2 reinos separados, e as normas de ação não são as mesmas em ambos os domínios. Nenhuma tentativa teórica para superar essa cisão pode mudar qualquer coisa no fato histórico de que a nossa ética provém da religião cristã e a nossa política do Estado antigo.” “Esta divergência, sancionada pelos séculos e em relação à qual a filosofia moderna várias vezes tentou fazer da necessidade virtude, era desconhecida dos gregos.” “era (…) quase uma tautologia a convicção de que o Estado era a única fonte das normas morais” Maldito rebelde de Nazaré!
“Devemos abstrair-nos aqui da nossa idéia de consciência pessoal. Também ela é oriunda da Grécia, mas desabrochou em época muito posterior. Só havia 2 possibilidades para os bregos do séc. V: ou a lei do Estado é a norma suprema da vida humana e está em concordância com a ordenação divina da existência, de tal maneira que o Homem e o cidadão são uma e a mesma coisa; ou as normas do Estado estão em contradição com as normas estabelecidas pela natureza ou pela divindade, caso em que o Homem pode deixar de reconhecer as leis do Estado.” // Sófocles, Antígona
“É no momento em que se cava o abismo entre as leis do Estado e as leis cósmicas que se abre o caminho que leva ao cosmopolitismo da época helenística.”
“Senhores, todos quantos aqui estais presentes, sois a meus olhos semelhantes, parentes e concidadãos, não pela lei, mas pela natureza. Segundo a natureza, o semelhante é parente do semelhante; mas a lei, tirano dos homens, força a muitas coisas contra a natureza.”
Protágoras, 337 C
“Hípias quer estender a igualdade e a fraternidade a todos os seres que têm rosto humano. Do mesmo modo se exprime o sofista ateniense Antifonte no seu livro A Verdade, de que recentemente se acharam numerosos fragmentos.(*) Bárbaros e Gregos, temos todos a mesma natureza, em todos os aspectos.
(*) Oxyrh. Pap. XI n. 1364 Hunt, publicado já em DIELS, Vorsok, II (Nachtr. XXXIII) frag. B col. 2, 10 ss. (4ª ed.).”
“Este ideal de igualdade internacional, tão alheio à democracia grega, representa a mais extrema oposição às críticas de Cálicles.”
“Do ponto de vista da política realista, as teorias de Antifonte e de Hípias, com as suas idéias de igualitarismo abstrato, não representavam, de momento, grande perigo para o Estado vigente.”
“Já nos poemas homéricos podem-se enxergar os vestígios mais antigos desta maneira de pensar, que estava bem de acordo com o espírito grego. A sua aptidão inata para considerar as coisas na sua totalidade podia atuar de maneiras muito diferentes no pensamento e na conduta do Homem.” “Um preferia morrer heroicamente a perder o seu escudo. Outro abandonava-o e comprava um novo, pois a vida era-lhe mais querida.”
“Se queremos viver num Estado, temos de nos conformar às suas normas. Mas acontecerá o mesmo se quisermos viver em outro. A lei carece, pois, de força compulsiva absoluta.”
“se falta a coação interna, se a justiça consiste só na legalidade externa dos usos de comportamento e no evitar o prejuízo da pena, então não há qualquer motivo para proceder segundo a lei, nos casos em que não há ocasião nem perigo de faltar às aparências e em que não existem testemunhas da nossa ação.”
“as palavras de Aristóteles na Política, segundo as quais é melhor para o Estado ter leis ruins, mas estáveis, do que leis em contínua mudança, por melhores que sejam. A penosa impressão do forjamento de leis pela massa e da luta dos partidos políticos, com todas as suas contingências e fraquezas humanas, tinha forçosamente de abrir o caminho ao relativismo.” Vivemos nesse quadro desolador.
“Nem todos os sofistas aceitaram tão aberta e integralmente o hedonismo e o naturalismo. Protágoras não o podia ter aceitado, pois nega da maneira mais decidida ter partilhado este ponto de vista, quando Sócrates procura levá-lo a ele, no diálogo platônico do seu nome, e só a sutil dialética socrática consegue que o varão venerável acabe por confessar que deixou aberta na sua doutrina uma brecha por onde o hedonismo, que ele recusava, podia penetrar.”
“O simples conceito de <obediência à lei>, que nos primeiros tempos da constituição do novo Estado jurídico fôra um elemento de liberdade e de grandeza, já não era suficiente para exprimir as exigências da nova e mais profunda consciência moral.”
2.4 Eurípides e o seu tempo
“Entre Eurípides e Sófocles pusemos a sofística de permeio, visto que, nos dramas que se conservaram e que pertencem todos aos seus últimos anos, o <poeta do iluminismo grego>, como foi chamado, está impregnado das idéias e da arte retórica dos sofistas.” “A sofística tem uma cabeça de Jano, da qual um dos rostos é o de Sófocles e o outro o de Eurípides.” “Sófocles caminha sobre os íngremes píncaros dos tempos. Eurípides é a revelação da tragédia cultural que arruinou a sua época.”
“Nunca as múltiplas ramificações do povo heleno – que só tardiamente se atribuíram esse nome comum – tinham na sua história vivido uma tal concentração de forças estatais, econômicas e espirituais, como a que na Acrópole produziu o maravilhoso Pártenon, para honrar a deusa Atena, desde então considerada a alma divina do seu Estado e do seu povo.”
“Quanto maior era a grandeza com que a época se manifestava em todos os seus empreendimentos, e a elasticidade, reflexão e entusiasmo com que cada indivíduo se consagrava às suas próprias tarefas e às da comunidade, tanto mais intensamente se sentia o inaudito crescimento da mentira e da hipocrisia – por cujo preço se comprava aquele esplendor – e a íntima insegurança de uma existência que se via forçada a todos os esforços para alcançar o progresso externo.”
“Na sua atitude puramente clínica, essa análise da enfermidade constitui um paralelo emocionante com a célebre descrição da peste que nos primeiros anos da guerra minou a saúde física e a resistência do povo.”
“a recordação das revoluções passadas e das paixões associadas a elas aumenta a gravidade dos nossos próprios transtornos.”
“a amplitude e a popularidade de uma cultura não-erudita, mas vivida simplesmente, tal como existe na Atenas da 2ª metade dos sécs. V e IV, é fenômeno único na História e talvez só tivesse sido possível nos estreitos limites de uma comunidade citadina em que o espírito e a vida pública chegaram a uma interpenetração tão perfeita.”
“A transformação que a poesia operou nos banquetes (que já não eram mera ocasião para a bebida, a exaltação e o divertimento, mas sim um foco da vida espiritual mais séria) mostra bem a mudança enorme que desde os tempos aristocráticos se operou na sociedade.” “A luta de morte entre a educação antiga e a nova educação libertária e sofística penetra nos banquetes do tempo de Eurípides e marca-o como etapa decisiva na história da educação.”
“De fato, em comparação com uma atmosfera tão inquieta como a de Atenas, na qual pululavam todos os germes daquelas críticas da tradição e onde qualquer indivíduo exigia no campo do espírito uma liberdade de pensamento e de palavra análoga à que a democracia outorgava aos cidadãos na assembléia do povo, pouco significava, em suma, a rude ousadia emancipadora de alguns poetas ou pensadores isolados, no meio de uma comunidade citadina que vivia dentro das normas habituais. Aquilo era completamente estranho e alarmante para a essência do Estado antigo, mesmo na sua fora democrática, e tinha necessariamente de produzir um choque entre esta liberdade individualista não-garantida por nenhuma instituição e as forças conservadoras do Estado. Assim se viu no processo movido a Anaxágoras, sob acusação de impiedade, ou em ataques ocasionais contra os sofistas, cujas doutrinas iluministas eram em parte francamente hostis ao Estado. Geralmente, porém, o Estado era tolerante para com todos os movimentos espirituais e orgulhava-se até da nova liberdade dos seus cidadãos. Não devemos esquecer que a democracia ateniense daquela época e das seguintes serviu a Platão de modelo para a sua crítica da constituição democrática, por ele considerada uma anarquia intelectual e moral.”
“A acusação contra o filósofo Anaxágoras era antes dirigida contra seu protetor e partidário, Péricles.”
“Ganhou foros de cidadania o espírito estrangeiro, que originariamente era um meteco. Mas desta vez não foram os poetas que entraram em Atenas, embora não faltassem também, pois Atenas assumira a direção incontestada em tudo o que se referia às massas.”
“Durante a sua juventude, Platão seguiu Crátilo, discípulo de Heráclito. [mais detalhes em 3.3]”
“Não se fala dos que não viveram em Atenas ou lá não apareceram com freqüência.”
“o Estado, a religião, a moral e a poesia. O Estado racional realiza na concepção histórica de Tucídides a sua última façanha espiritual, em que eterniza a sua essência. Por isso, o grande historiador permanece mais confinado ao seu tempo que os seus 2 grandes concidadãos. O seu profundo conhecimento disse, aliás, menos à Grécia posterior do que a nós, pois não se repetiu tão cedo como ele teria podido pensar a situação histórica para a qual escreveu a sua obra.”
“Eurípides é o último poeta grego, no sentido antigo da palavra. Mas também ele tem um pé num campo distante daquele em que a tragédia grega nasceu. A Antiguidade o chamou o filósofo do palco.”
“Para definir a atitude dessa época historicista e racional em face do mito, temos o fato significativo de o historiador Tucídides sustentar que a investigação da verdade não é nada menos que a destruição do mito.”
“Ésquilo já não tinha adaptado as antigas sagas às representações e aos anseios do seu tempo? Não tinha Sófocles, por razões semelhantes, humanizado os antigos heróis? E a assombrosa renovação, no drama dos últimos 100 anos, do mito que já parecia morto na epopéia mais tardia, o que era ela senão a transfusão de sangue e vida nova ao corpo daquele mundo longo tempo exânime?”
“É evidente que convinha mais à consciência grega a projeção do mito num mundo fictício e idealizado, convencional e estético, como o da lírica coral do séc. VI e dos últimos tempos da epopéia, do que a sua adaptação à realidade comum, que, comparada ao mito, correspondia para o espírito grego ao que nós entendemos por profano.”
“Como em toda a poesia grega verdadeiramente viva, a forma surge em Eurípides organicamente de um conteúdo determinado, é inseparável dele e é por ele condicionada na própria formação lingüística da palavra e na estrutura da frase.” “As novas formas que contribuíram para a formação do drama de Eurípides foram o realismo burguês, a retórica e a filosofia. Esta mudança de estilo tem o maior alcance para a história do espírito, pois anuncia-se nela o futuro domínio destas 3 forças decisivas para a formação do helenismo posterior.”
“Para a época de Eurípides, o aburguesamento da vida significava o mesmo que para nós a proletarização. Muitas vezes faz alusão a ele quando faz entrar em cena, em vez dos heróis trágicos do passado, mendigos maltrapilhos. Era precisamente contra esta degradação da alta poesia que os seus adversários se insurgiam.”
“Discute-se o casamento. São trazidas à luz da publicidade as relações sexuais, que durante muitos séculos tinham constituído um noli me tangere da convenção. São uma luta, como qualquer relação na natureza. Não reina aqui, como sempre sobre a Terra, o direito do mais forte? Assim, já na fábula de Jasão que abandona Medéia descobre o poeta os sofrimentos do seu tempo, e introduz nela problemas desconhecidos do mito original, incorporando-os à grandiosa plástica da representação. § Não eram precisamente Medéias as mulheres da Atenas de então. Eram para isso toscas e oprimidas demais ou cultas demais. Por isso escolhe o poeta a bárbara Medéia que mata os filhos com o intuito de ultrajar o marido infiel, para mostrar a natureza elementar da mulher, livre das limitações da moral grega. Jasão, que para a sensibilidade geral dos gregos era um herói sem mancha, ainda que não certamente um marido fiel, torna-se um covarde oportunista. Não age por paixão, mas sim por cálculo frio. Isso era necessário para fazer da infanticida do mito uma figura trágica. O poeta empresta-lhe toda a sua simpatia, em parte porque considera deplorável o destino da mulher, o qual fica eclipsado, à luz do mito, pelo fulgor do herói masculino, cujas façanhas e fama são as únicas dignas de louvor; mas sobretudo porque o poeta quer fazer de Medéia a heroína da tragédia matrimonial burguesa, tal como se manifesta na Atenas daquele tempo, embora não de forma extrema. (…) Medéia é um autêntico drama do seu tempo, pelo conflito entre o egoísmo ilimitado do homem e a ilimitada paixão da mulher. São essencialmente burguesas as disputas, os impropérios e os arrazoados de ambas as partes. Jasão ostenta prudência e generosidade. Medéia faz reflexões filosóficas sobre a posição social da mulher, sobre a desonrosa violência da entrega sexual a um homem estranho, a quem é preciso seguir no casamento e comprar por um rico dote. E explica que o parto dos filhos é muito mais perigoso e heróico que as façanhas dos heróis na guerra.”
“Em Orestes – que não lembra em nada Ésquilo ou Sófocles – Menelau e Helena, de novo unidos após longa separação, regressam da sua viagem, no momento em que a pena pelo assassínio da mãe afunda Orestes numa comoção nervosa diante da ameaça de linchamento pela justiça popular. Orestes implora o auxílio do tio. Menelau puxa sua bolsa. Mas, embora se sinta compadecido no seu coração, é covarde demais para jogar por seu sobrinho e pela sobrinha Electra a sua felicidade, penosamente reconquistada. Sobretudo porque o seu sogro Tíndaro, avô de Orestes e pai da falecida Clitemnestra, está furioso e sedento de vingança. Isto completa o drama familiar. Movido pelos agitadores, o povo condena Orestes e Electra à morte, por falta de um defesa apropriada. É então que aparece o fiel Pílades, que jura matar a formosa Helena para vingar Orestes da conduta de Menelau. Isso, porém, não chega a acontecer, porque os deuses, que simpatizam com a heroína, raptam-na e a levam para o céu. Em vez dela, Orestes e Pílades querem assassinar-lhe a filha Hermíone e incendiar-lhe a casa. Impede-os, porém, o aparecimento de Apolo, como deus ex machina, e a peça acaba bem.”
“A introdução da retórica na poesia é um fenômeno de não menos graves conseqüências. Era um caminho que levaria à total dissolução da poesia oratória.”
“Assim como de início a prosa buscou na poesia os seus processos, mais tarde a própria prosa produziu uma reação na poesia.”
“Os discursos de personagens míticos constituem um dos mais constantes exercícios das escolas retóricas, como o mostra a defesa de Palamedes por Górgias e o elogio que este faz de Helena.”
“Foi atribuída a Antístenes uma luta retórica entre Ájax e Ulisses diante dos juízes, e a Alcidamante uma acusação de Ulisses contra Palamedes. Quanto mais aventuroso era o tema, mais apto estava a demonstrar a difícil arte <de converter a pior coisa na melhor>, ensinada pelos sofistas.”
“A retórica sofista procura defender o direito do ponto de vista subjetivo do acusado, por todos os processos de persuasão.” “O antigo conceito de culpa era totalmente objetivo.” “Ésquilo e Sófocles ainda estão impregnados dessa antiga idéia religiosa, mas procuram atenuá-la, dando ao Homem sobre o qual recai a maldição uma participação mais ativa na elaboração do seu destino (…) Os personagens são <culpados> no sentido da maldição que pesa sobre eles, mas são <inocentes> para a nossa concepção subjetiva.”
“O velho Sófocles apresenta-nos o seu Édipo em Colono, defendendo-se do decreto de expulsão promulgado pelos habitantes do lugar onde se acolheu, com a alegação da sua inocência e de que foi sem conhecimento nem vontade que cometeu os seus crimes de parricídio e incesto. Alguma coisa aprendeu de Eurípides a este respeito.”
“Como sabemos, a subjetivação do problema da responsabilidade jurídica no direito penal e na defesa perante os tribunais do tempo de Péricles ameaçava esfumar as fronteiras entre a culpabilidade e a inocência.”
“a Helena de Eurípides analisa o seu adultério e considera-o perpetrado sob a compulsão da paixão erótica.” // As Troianas, 948
“A sua intelectualidade sensível, que parece débil em comparação com a força vital profundamente enraizada de Ésquilo, torna-se o instrumento espiritual de uma arte trágica que precisa cimentar e espicaçar, por meio de uma dialética febril, o seu arrebatamento subjetivo.”
“A impiedosa crítica que os homens dirigem contra os deuses é um motivo que sempre acompanha a ação trágica, mas é sempre acidental.”
“em As Troianas, os seus heróis, orgulho da nação, são desmascarados como homens de brutal ambição e animados de simples fúria de destruição.”
“Eurípides desenvolve o elemento lírico que desde o início fôra essencial ao drama, mas o transpõe do coro para os personagens.”
“A comédia, com as suas contínuas censuras à música moderna da arte de Eurípides, prova que perdemos com ela algo de essencial.”
“EmAs Bacantes, obra da velhice, o poeta atinge a elevação máxima da sua força lírica, com a irrupção elementar da embriaguez dionisíaca, que constitui, em todo o âmbito das nossas tradições antigas, a mais genuína manifestação desta estranha loucura orgiástica, e mesmo atualmente nos deixa pressentir com a maior nitidez a força de Dioniso nas almas arrebatadas por aquela fúria.”
“Eurípides é o primeiro psicólogo.” “É a primeira vez que, com despreocupado naturalismo, introduz-se no palco a loucura”
“Na Medéia e no Hipólito, descobre os trágicos efeitos da patologia erótica e da erótica deficiente. Em contrapartida, na Hécuba, descreve o efeito deformador da dor excessiva sobre o caráter, a espantosa e bestial degenerescência da nobre dama que tudo perdeu.”
“O Homem já não quer nem pode submeter-se a uma concepção da existência que não o tome como medida última.”
“A comédia infiltra-se cada vez mais nas cenas trágicas. A comédia de Menandro representa a continuação dessa tendência.”
“Não é de se suspeitar de que foi precisamente por ter compreendido tudo a seu respeito e a respeito do seu mundo, com visão cética, que ele aprendeu a celebrar a felicidade da fé humilde dos antigos, baseada numa verdade religiosa que ultrapassava os limites da razão e que a ele próprio faltava?” “Eurípides é o criador de um tipo de arte que já não se fundamenta na cidadania, mas na própria vida.”
“Os seus retratos mostram-nos a fronte negligentemente cercada de emaranhadas mechas de cabelo, tal como era típico das artes plásticas caracterizar as cabeças dos filósofos.”
“Existem poetas infelizes na vida que na sua obra parecem completamente felizes. Sófocles conseguiu na vida aquela harmonia que a sua arte irradia.”
“O prejuízo causado por Eurípides ao teatro ateniense é compensado pela sua incalculável ação sobre os séculos seguintes.”
2.5 A comédia de Aristófanes
“Só a poesia nos permite apreender a vida de uma época em toda a riqueza das suas formas e tonalidades e na eternidade da sua essência humana. Daí o paradoxo, por outro lado perfeitamente natural, de talvez nenhum período histórico, nem sequer do passado mais próximo, poder ser apresentado e tão intimamente compreendido como o da comédia ática.”
“A cena de Tersites na Ilíada, que expõe o repugnante e odioso agitador à troça pública, é uma cena genuinamente popular, uma pequena comédia entre as múltiplas tragédias que a epopéia homérica encerra. E na farsa divina que a contra-vontade representa o par de enamorados Ades e Afrodite, são os próprios deuses olímpicos que se tornam objeto das joviais gargalhadas dos expectadores.
O fato de que até os altos deuses pudessem ser tema e objeto do riso cômico prova que, no sentir dos gregos, em todos os homens e em todos os seres de forma humana reside, ao lado da força que leva ao pathos heróico e à grave dignidade, a aptidão e a necessidade do riso. Alguns filósofos posteriores definiram o Homem como único animal capaz de rir – embora na maioria das vezes ele seja definido como o animal que fala e pensa. Deste modo, colocam o riso no mesmo plano da linguagem e do pensamento, como expressão da liberdade espiritual. Se fizermos uma ligação entre o riso dos deuses homéricos e esta idéia filosófica do Homem, não poderemos negar a alta origem da comédia, apesar da menor dignidade deste gênero e dos seus motivos espirituais.”
“O espírito moderno só conseguirá compreender o encanto ímpar da comédia aristofânica desde que se liberte do preconceito histórico que a encara apenas como uma primeira fase, genial mas ainda tosca e informe, da comédia burguesa.”
“As vestes fálicas dos atores e os disfarces do coro, especialmente por meio de máscaras de animais – rãs, vespas, pássaros –, provêm de uma antiquíssima tradição, pois já se encontram presentes em velhos autores cômicos, em quem esta memória se mantém bem viva”
“Dificilmente pode ser obra da pura casualidade o fato de que tenha sido Aristófanes o único sobrevivente da tríade de poetas cômicos – Cratino, Eupolis e ele – estabelecida como clássica pelos filólogos alexandrinos. Este cânon, procedente sem dúvida do paralelismo com a tríade dos poetas trágicos, era uma simples sutileza da história literária e não refletia o valor efetivo daqueles poetas, nem sequer para os tempos helenísticos.” “Platão teve razão em introduzir Aristófanes no Banquete, como representante exclusivo da comédia.”“Quando com a idade perdiam sutileza e engenho, fontes elementares do seu êxito, até os poetas preferidos eram vaiados sem compaixão. É esse o destino de todos os palhaços.”
“Parece indubitável que até o velho bêbado Cratino, que Aristófanes, na parábase de Os Cavaleiros, propõe que seja retirado do palco urgentemente e conservado no Pritaneu até a morte, em estado de honorável embriaguez, baseava toda a sua força e todo o seu prestígio na sua sátira contra personagens políticos de notória impopularidade. É este o autêntico iambo antigo, nascido da sátira política. Mesmo Eupolis e Aristófanes, os brilhantes Dióscoros da jovem geração, que começaram como amigos, escrevendo as suas peças em colaboração, e acabaram como inimigos violentos, acusando-se mutuamente de plagiadores, são sucessores de Cratino nas suas invectivas contra Cléon e Hipérbolo.”
“a sátira trivial à calvície de alguns espectadores, o ritmo indecente da dança do córdax, a galhofa das cenas de pancadaria, por meio das quais o autor disfarçava a idiotice das suas piadas.”
“As Nuvens confessa abertamente o quanto se sente superior aos seus predecessores (e não apenas a eles) e em que medida confia no poder da sua arte e da sua palavra. Sente-se orgulhoso por introduzir todos os anos uma <idéia> nova, pondo simultaneamente a força inventiva da nova poesia cômica não só frente à antiga, mas também frente à tragédia, que operava constantemente sobre um material dado. (…) Um poeta cômico podia, com um desafio destes, concitar o interesse universal, do mesmo modo que um jovem político podia lançar-se brilhantemente encarregando-se da acusação num grande processo político de escândalo. Só era preciso ter coragem para isso.”
“Foi na comédia que o excesso de liberdade gerou, por assim dizer, o seu próprio antídoto. Superou-se a si própria e estendeu a liberdade de expressão, a parrhesia, até às coisas e instâncias que mesmo as constituições mais livres consideram tabu.”
“Em Atenas, a função censora pertencia à comédia. É isso que dá à graça de Aristófanes, a qual supera muitas vezes as suas chicotadas, a inaudita seriedade que se oculta por trás das suas alegres máscaras.”
“O fato de que a educação tenha ocupado na comédia, apesar da agitação daqueles dias de guerra, um lugar tão amplo e mesmo predominante, ao lado da política, demonstra a sua enorme importância naquele tempo. Só através da comédia podemos chegar a conhecer a violenta paixão que gerou e as causas de que procede a luta pela educação.”
“Quando a caricatura atingia os homens do governo com uma despreocupação artística análoga à imagem de Sócrates que As Nuvens nos apresenta, era humano que os atingidos empregassem a força para se defender, ao passo que os particulares, como Sócrates, estavam desamparados, como diz Platão, à mercê das troças populares da comédia.”
“As palavras de Goethe em Poesia e Verdade descrevem perfeitamente os efeitos deste gênero de nostalgia do passado, na poesia. Causa universal prazer recordar com engenho a história de uma nação; congratulamo-nos com as virtudes dos nossos maiores e sorrimos perante as faltas que julgamos ter superado há muito tempo.”
“Na Alemanha, foi com o despertar da vida política que despertou (sic) o interesse pela comédia política de Aristófanes. Mas só nas últimas décadas os problemas políticos chegaram a atingir a agudeza que tiveram em Atenas, no final do séc. V. Os dados fundamentais são os mesmos: estão em jogo as forças opostas da comunidade e do indivíduo, da multidão e da inteligência, dos pobres e dos ricos, da liberdade e da opressão, da tradição e do iluminismo.”
“Tudo o que Aristófanes descreve pertence a um capítulo imoral: o humano, excessivamente humano. (…) O real dissolve-se continuamente numa realidade intemporal mais elevada, fantástica ou alegórica. O poeta alcança nisto a sua maior profundidade”
“Aristófanes pinta em Os Comilões a ação deformadora do ensino sofístico sobre a juventude e nessa peça já vai muito mais ao fundo. Um camponês ático educou um dos filhos em casa, à moda antiga, e mandou o outro para a cidade, a fim de desfrutar as vantagens da nova educação. Este regressa transformado, moralmente corrompido e inútil para as tarefas do campo. (…) O pai fica consternado ao ver que ele já não sabe cantar nos festins as velhas obras de Alceu e Anacreonte. Em vez das antigas palavras de Homero, só entende as glosas às leis de Sólon, pois a educação política agora sobrepuja tudo. O nome do retórico Trasímaco aparece num verso em que se trata de uma discussão sobre o uso das palavras. Mas, em conjunto, a peça não parece ter ultrapassado os limites da troça inofensiva.”
“O capricho da natureza tinha até cuidado da máscara cômica de Sócrates, dando-lhe um aspecto de sileno, de nariz chato, lábios protuberantes e olhos saltados.” “Embora na realidade quase todo o dia se passasse no mercado, misteriosamente colocou o seu Sócrates fantástico numa estreita tenda de pensador, onde, suspenso de um balanço sobre o pátio, e de pescoço torcido, investigava o <Sol>, enquanto os seus discípulos, sentados no chão, enterravam na areia os seus pálidos rostos, no intuito de perscrutarem o mundo subterrâneo. É costume estudar As Nuvens à luz da história da filosofia e, no melhor dos casos, desculpa-se Aristófanes. Summum ius, summa iniuria.É uma iniqüidade fazer com que o burlesco Sócrates da comédia compareça no tribunal da rigorosa justiça histórica. (…) O seu herói é um iluminista distante do povo e um homem de ciência ateu. Por meio de alguns traços tomados de Sócrates, personifica-se nesta figura o cômico típico do sábio vaidoso e satisfeito consigo próprio. § Para quem tem em mente a imagem que Platão nos dá de Sócrates, esta caricatura não tem graça. A autêntica graça está na descoberta de semelhanças ocultas, e aqui não enxergamos semelhança nenhuma.”
“A ânsia de Sócrates pelos conceitos parecia superar até a dos sofistas. Não se pode exigir do poeta a quem o racionalismo em voga, sob qualquer forma que se apresentasse, parecia igualmente demolidor, finos matizes entre um e os outros. (…) Aristófanes vê com clarividência a dissolução de toda a herança espiritual do passado e não consegue contemplá-la impassivelmente. É certo que se teria visto na maior perplexidade se alguém lhe tivesse perguntado a sua <íntima convicção> a respeito dos deuses antigos. Mas, como poeta cômico, achava ridículo que os meteorólogos classificassem o éter de divino e procurava representar isso de modo vivo na prece de Sócrates ao Turbilhão (…) ou às Nuvens, cujas formas imateriais suspensas no ar apresentavam uma tão evidente semelhança com as doutrinas dos filósofos. (…) a atmosfera encontrava-se excessivamente saturada de ceticismo perante os resultados do pensamento humano”
ENVELHECEU MAL: “No tempo em que florescia o logos justo e se exigia uma conduta virtuosa, nunca se ouvia uma criança recalcitrar. Todas seguiam na rua ordeiramente a caminho da escola e não levavam capa, ainda que caíssem flocos de neve como flocos de farinha. Eram rigorosamente ensinadas a cantar velhas canções, com melodias dos antepassados. Se alguma cantasse com adornos e floreados, à moda dos músicos de agora, teria sido açoitada. Era assim que se educava uma geração como a dos vencedores de Maratona. Hoje enfraquecem-se as crianças, envolvendo-as em mantas, e uma pessoa arde em fúria ao ver a maneira mole e desleixada como os jovens seguram sobre o ventre os escudos, nas danças de armas das Panatenéias. O logos justo promete aos mocinhos que se entregam a ele e a sua educação ensiná-los a odiar a ágora e os banhos, a se envergonharem de toda conduta vergonhosa (sic), a se indignarem quando troçam deles, a se levantarem na presença dos anciãos e a lhes cederam o lugar, a honrarem os deuses e a venerarem a imagem da Modéstia, a não andarem com[o?] bailarinas e a não responderem ao pai. Devem exercitar-se no ginásio, untando com azeite o corpo vigoroso, em vez de discursarem na ágora ou se deixarem levar aos tribunais para discutirem sobre bagatelas. Coroados de canas, disputarão com camaradas belos e decentes as corridas sob as oliveiras da academia, cheirando a madressilva e a folhas de choupo; em seguida, gozarão a plenitude da primavera. O coro exalta os homens ditosos que viveram nos belos tempos antigos, em que reinava esta educação, e goza o doce aroma da sophrosyne que se desprende das palavras do logos justo.”
“Os oradores da epopéia deram às normas ideais um sentido paradigmático e este uso foi seguido pela poesia mais antiga. Os sofistas aproveitam essa tradição e colecionam exemplos míticos, que ao seu relativismo naturalista e dissolvente podiam servir para todos os fins. Enquanto antes no tribunal a defesa procurava demonstrar que o caso estava em conformidade com a lei, agora ataca as leis e os costumes, e tenta demonstrar que são deficientes. A fim de rebater a afirmação de que os banhos quentes debilitam o corpo, o logos injusto aduz o herói nacional Hércules, o qual, para se regalar, pediu a Atena que fizesse brotar da terra fontes de água quente, nas Termópilas. Elogia o costume de permanecer e discursar na ágora, que o logos justo reprova, e para isso invoca a eloqüência de Nestor e de outros heróis homéricos.”
“Se queres seguir o meu conselho, dá livre curso à natureza, salta e ri, não te detenhas ante o vergonhoso. Se fores acusado de adultério, nega a tua falta e invoca Zeus que também não teve força bastante para resistir a Eros e às mulheres. Não é possível que tu, simples mortal, sejas mais forte que um deus. É a mesma argumentação da Helena de Eurípides, ou da ama, no Hipólito. A discussão culmina no ponto em que o elogio tecido pelo logos injusto a sua moral relaxada provoca as gargalhadas do público.”
“Qual era a posição do poeta na luta entre a velha e a nova educação? (…) Ele próprio foi beneficiário da educação moderna e a comédia seria inconcebível nos bons tempos antigos a que o seu coração pertencia e que, no entanto, o teriam vaiado.” Normal.
“A evocação da antiga paideia não significa um convite a regressar ao passado. Aristófanes não é um reacionário dogmático e rígido. Mas o sentimento de se ver arrastado pela corrente do tempo e de ver substituído por algo de novo também valioso, era vigorosamente suscitado nesta época de transição e enchia de receio os espíritos clarividentes. Nada tinha a ver com o moderno conhecimento das linhas históricas e nem com a crença geral na evolução e no <progresso>.”
“Para nós é paradoxal que este aspecto da nova educação seja escarnecido numa peça cujo herói é Sócrates. Na economia da comédia, pelo menos como chegou até nós, a própria cena da discussão entre o logos justo e o injusto pouco tem a ver com Sócrates, que, por outro lado, não estava presente. Mas o final de As Rãs prova que Sócrates é também, para o poeta, o protótipo de um novo espírito que matava o tempo com sofísticas sutilezas, abstrusas e minuciosas, desprezando os valores insubstituíveis da música e da tragédia.”
“A crítica a Eurípides visa a toda a sua criação poética e converte-se finalmente numa quase perseguição.” “Ficou órfã a tragédia. Atingiu-se evidentemente uma encruzilhada histórica. Mais tarde, na comédia de Aristófanes, Gerytades, apareceram os tristes epígonos, o trágico Meleto, o ditirâmbico Cinesias e o cômico Sanírio, como enviados ao mundo subterrâneo para ali receberem o conselho dos grandes poetas. Assim a época ironizava a si mesma.”
“Dioniso em pessoa desce ao mundo subterrâneo para de novo trazer Eurípides. Até o maior adversário do defunto era forçado a reconhecer que era este o desejo mais ardente do público. O seu deus Dioniso é a personificação simbólica do público do teatro, com todas as suas cômicas fraquezas, grandes e pequenas.” “Aristófanes abandona as suas troças anteriores, na maioria ocasionais e que teriam sido inadequadas àquele momento, para penetrar até o fundo do problema.” “A descida ao mundo subterrâneo era um tema predileto da comédia. Esta atitude põe As Rãs em contato com os Demoi de Êupolis, onde os antigos estadistas e estrategos atenienses são chamados do Hades para auxiliarem o Estado, mal-avisado. Pela união desta idéia com a do concurso dos poetas, Aristófanes chega a uma solução surpreendente: Dioniso, que desceu ao Hades para buscar Eurípides, traz por fim, depois de um triunfo de Ésquilo, em lugar do seu adversário, o velho poeta, para salvar a pátria.”
“O que para os meninos é o mestre
que lhes mostra o reto caminho
isso nós, os poetas, somos para os adultos.
Por isso lhes devemos dizer sempre o que há de mais nobre.”
O Ésquilo de Aristófanes
“E, embora Aristófanes saiba perfeitamente que Eurípides não é um espantalho, mas sim um artista imortal a quem a sua própria arte deve imensas coisas, e embora os seus sentimentos estejam de fato muito mais perto de Eurípides que de Ésquilo, seu ideal não pode ignorar que esta nova arte não está em condições de dar à cidade o que Ésquilo deu aos cidadãos do seu tempo, e que nenhuma outra coisa podia salvar a sua pátria na amarga necessidade do momento.”
“Adeus, Ésquilo, sai já daqui,
vai salvar a cidade com sãos conselhos
e educar os néscios, que são inumeráveis.
Há muito a tragédia não era capaz de tomar a atitude e usar a linguagem que a comédia aqui ousa empregar. O seu âmbito vital era ainda a vida pública e o que nela se move, ao passo que a tragédia abandonara muito antes os seus profundos problemas e se refugiara na intimidade humana.”
2.6 Tucídides como pensador político
“Não é Tucídides o primeiro dos historiadores gregos. Por conseguinte, o primeiro passo para compreendê-lo é tomar conhecimento do grau de desenvolvimento da consciência histórica. É claro que antes dele nada há que se lhe compare; e a História posterior enveredou por caminhos totalmente diversos, pois tomou a sua forma e os seus pontos de vista das tendências espirituais dominantes na sua própria época. Mas há ligação entre Tucídides e os seus predecessores.”
“Tanto quanto sabemos, é Hecateu, oriundo, como os primeiros grandes fisiólogos, do centro cultural de Mileto, o primeiro que transfere a <pesquisa> da physis para a terra habitada, que até então fôra estudada apenas como parte do cosmos e na sua estrutura mais superficial e genérica.”
“Foi Heródoto que deu o segundo passo: ainda mantém unitária a ciência dos povos e dos países, mas já situa o Homem no centro. Viajou por todo o mundo civilizado de então – Oriente Próximo, Egito, Ásia Menor e Grécia –, estudou a descreveu todos os tipos de costumes e maneiras estranhas e a maravilhosa sabedoria dos povos mais antigos, descreveu a magnificência dos seus templos e palácios e contou a história dos seus reis e de muitos homens importantes e notáveis, mostrando como neles se manifestavam o poder da divindade e os altos e baixos da mutável sorte humana. É pela sua referência ao grande tema da luta entre o Oriente e o Ocidente, desde a sua primeira manifestação no combate dos gregos com o vizinho reino da Lídia, no reinado de Creso, até as guerras pérsicas, que esta arcaica e variegada multiplicidade de dados ganha unidade. Com uma complacência e uma habilidade narrativa análogas às de Homero, relata para a posteridade, na sua prosa só aparentemente ingênua e despretensiosa – que os seus contemporâneos saboreiam como os antigos tempos saboreavam os versos da epopéia –, a glória dos feitos dos helenos e dos bárbaros.”
“Tucídides é o criador da história política. Este conceito não se aplica a Heródoto, embora sejam as guerras pérsicas o ponto culminante da sua obra.”
“Comparado com o vasto horizonte universal da descrição de povos e países por Heródoto, cuja serena contemplação se estende a todas as coisas divinas e humanas de toda a terra conhecida, é restrito o campo visual de Tucídides. Não se estende para além da esfera de influência da polis grega. Mas este objeto tão restrito está carregado dos mais graves problemas e é experimentado e analisado com a mais profunda intensidade.”
“A história que Heródoto traça dos povos não teria, por si só, desembocado na história política. Mas Atenas, voltada para o presente e concentrada nele, cedo se viu arrastada num remoinho do destino, em que o pensamento político desperto viu-se forçado a completar-se com o conhecimento histórico, embora em sentido diverso e com conteúdo diferente: era necessário chegar ao conhecimento da necessidade histórica que empurrava a evolução da cidade de Atenas para a sua grande crise. Não é que a história se torne política; o pensamento político é que se torna histórico.”
“fundamentalmente, só se preocupa com a guerra do Peloponeso, i.e., com a história vivida no seu próprio tempo. Ele próprio diz, no primeiro parágrafo do seu livro, que começou a sua obra com o começo da guerra, por estar convencido da importância daquele acontecimento.” “Era, pois, muito diferente daquilo que geralmente entendemos por historiador. E as suas excursões por terras do passado, por mais que apreciemos o seu sentido crítico, são sempre incidentais ou escritas para fazer sobressair, em contraste com o passado, a importância do presente. § O melhor exemplo disto é a chamada Arqueologia, no início do livro I. O seu fim primordial é demonstrar que o passado não tem importância”
“Parece-lhe sem importância o passado dos povos gregos, mesmo nos seus empreendimentos mais elevados e mais famosos, porque a vida daqueles sempre era estruturalmente incapaz de uma organização estatal ou do poder digna deste nome. Não tinha tráfico nem comércio, no moderno sentido da palavra.” “As partes mais favoráveis do país eram precisamente as mais disputadas e os seus habitantes mudavam com a maior freqüência.” “O espírito desta pré-história é análogo ao das construções dos sofistas sobre o começo da civilização humana. (…) Encara o passado com uma visão de político moderno, i.e., do ponto de vista do poder. A própria cultura, a técnica e a economia são consideradas apenas como pressupostos para o desenvolvimento de um poder autêntico. Este consiste principalmente na formação de grandes capitais e extensas riquezas territoriais apoiadas num grande poderio marítimo. (…) O imperialismo de Atenas, do qual já pouco resta, dá-lhe a medida para a avaliação da história primitiva.
A história de Tucídides é de uma independência perfeita, tanto na escolha do ponto de vista como na aplicação destes princípios. Homero é estudado, sem quaisquer preconceitos ou romantismo, com o olhar de um político da força. O reino de Agamemnon é considerado por Tucídides o primeiro grande poderio helênico de que se tem notícia. De um verso de Homero, interpretado com exagero enorme, conclui com uma penetração inexorável que o seu império se estendeu através dos mares e foi sustentado por uma grande marinha. O catálogo dos navios da Ilíada desperta-lhe o maior interesse, e, apesar do seu ceticismo quanto às tradições poéticas, mostra-se disposto a aceitar as suas referências precisas sobre o potencial dos contingentes gregos na guerra de Tróia, porque confirmam as suas idéias sobre a falta de importância dos instrumentos de poder daquele tempo. (…) Com a entrada das ilhas e das cidades da Ásia Menor na liga ática, cria-se no mundo dos Estados gregos um poder capaz de contrabalançar o poderio de Esparta, até então predominante. A história subseqüente não é mais do que a competição entre estes 2 poderes, com os conseqüentes incidentes e conflitos, até que explode a guerra final, em face da qual as anteriores parecem brincadeiras de moleques.”
Novamente o bisonho problema do anacronismo em Jaeger.
“O meu ponto de vista difere do de W. SCHADEWALDT (Die Geschichtschreibung des Thukydides, Berlim, 1929), que, de acordo com E. SCHWARTZ(Das Geschichtswerk des Thukydides, Bona, 1919), defende que a arqueologia é a parte mais antiga de Tucídides e tenta interpretar, a partir dela, o espírito do Tucídides anterior, <o discípulo dos sofistas>.”
“Talvez a minha obra pareça pouco divertida por falta de lindas histórias. Será útil, no entanto, a todo aquele que queira formar um juízo adequado e examinar objetivamente o que aconteceu e o quê, de acordo com a natureza humana, acontecerá certamente no futuro, do mesmo modo ou de modo semelhante. Isto é mais uma aquisição de valor permanente do que uma peça de luxo para satisfação momentânea.”
“A essência do acontecer histórico não reside para ele numa ética qualquer ou numa filosofia da história, nem numa idéia religiosa. A política é um mundo regulado por peculiares leis imanentes, que só se podem descobrir se considerarmos os acontecimentos, não isoladamente, mas em ligação com o seu curso total.”
“O conceito de Tucídides sobre o conhecimento da história política não pode ser caracterizado melhor do que por umas célebres palavras do Novum Organon de Bacon, onde opõe à Escolástica o seu próprio ideal científico: Scientia et potentia humana in idem coincidunt, quia ignoratio causae destituit effectum. Natura enim non nisi parendo vincitur. Et quod in contemplatione instar causae est, id in operatione instar regulae est. [A ciência e a potência humana (política) coincidem,¹ uma vez que a ignorância da causa invalida seus efeitos. A natureza só pode ser vencida pelo conhecimento das causas. A causa (teórica) observada pelo método da contemplação nos conduz a operações regulares (regras práticas).]
[¹ Outra interpretação mais atual: as Humanidades e as Ciências Exatas. Ambas são objetos lógicos de estudo no infinito otimismo da era baconiana.]
A peculiaridade do pensamento de Tucídides sobre o Estado é a sua carência de qualquer doutrina abstrata, de qualquer fabula docet, ao contrário da concepção religiosa de Sólon e das filosofias do Estado dos sofistas ou de Platão. (…) A concepção de Tucídides seria inconcebível independentemente do tempo em que ele viveu.”
“Buscar nos discursos de Tucídides os vestígios de algo realmente pronunciado na época é um empreendimento tão estéril como procurar descobrir nos deuses de Fídias determinados modelos humanos.”
“O conceito de causa provém do vocabulário da Medicina (…) Foi ela que pela 1ª vez estabeleceu a distinção científica entre a verdadeira causa de uma enfermidade e o seu mero sintoma.”
“O conhecimento desta causa tem algo de libertador, pois coloca aquele que o possui acima das odiosas lutas dos partidos e do espinhoso problema da culpa e da inocência. Mas também tem algo de opressivo, pois faz aparecer como resultantes de um longo processo, condicionado por uma mais alta necessidade”
Von Ranke, História da Prússia, 2ª ed., 1871.
“Como 2ª potência comercial da Hélade e, portanto, como naturais competidores de Atenas, os coríntios são os seus inimigos mais encarniçados. (…) Vemos surgir diante de nós uma imagem do caráter do povo ático de uma força nunca igualada por nenhum orador ateniense, ao tecer o louvor da sua pátria, nem sequer pela oração fúnebre de Péricles, composta livremente pelo próprio Tucídides, que dela conservou não poucos traços no discurso dos coríntios. Com certeza não se trata realmente de um discurso mantido pelos coríntios em Esparta, mas sim de uma criação essencialmente livre de Tucídides. Este louvor de um inimigo diante dos inimigos é uma peça de grande refinamento retórico que, além da sua imediata finalidade agitadora, desempenha para o historiador um papel importantíssimo: dá-nos uma análise incomparável dos fundamentos psicológicos do desenvolvimento do poderio de Atenas.”
“Nos primeiros dias da guerra, a opinião pública via em Atenas a encarnação da tirania e em Esparta o refúgio da liberdade.”
“O continuador de Tucídides, Xenofonte, prova até que ponto os contemporâneos estavam longe de compreender a idéia de uma legalidade imanente a todo o poder político.”
“Assim como a tragédia grega se distingue do drama posterior pelo coro, cujas emoções refletem sem cessar o curso da ação e lhe acentuam a importância, também a narração histórica de Tucídides distingue-se da história política dos seus sucessores pelo fato de o assunto vir constantemente acompanhado de uma elaboração intelectual que o explica, converte os fatos em acontecimentos espirituais e por meio de discursos torna-os patentes ao leitor.”
“Nem no resultado da campanha siciliana nem no resultado final da guerra reconhece ele uma obscura necessidade histórica. Podemos imaginar um tipo de pensamento histórico absoluto que julgue intolerável ver ali o efeito de uma necessidade, mas sim o resultado de um falso cálculo ou o simples jogo do puro acaso.”
LIVRO TERCEIRO: À PROCURA DO CENTRO DIVINO
3.1 Prólogo
“A época helenística será tratada num livro à parte. Aristóteles, Teofrasto, Menandro e Epicuro deverão ser estudados no começo do período helenístico, cujas raízes de vida remontam ao séc. IV. Tal como Sócrates, Aristóteles é uma figura que marca a transição entre duas épocas. Em Aristóteles, porém, mestre dos sábios, a concepção da paideia sofre uma notável diminuição da sua intensidade, o que torna difícil situar esta figura ao lado da de Platão, o verdadeiro filósofo da paideia.”
“Se isso dependesse apenas da vontade do autor, os seus estudos fechariam com uma descrição do vasto processo histórico pelo qual foi helenizada a cristandade e cristianizada a civilização helênica.” “Este livro sublinha muitas vezes que não foi pela destruição das suas bases prévias, mas sempre pela sua transformação, que a cultura grega evoluiu. (…) A regra de Fílon¹ dominou a cultura grega desde Homero até o neoplatonismo e os padres cristãos da baixa Antiguidade.”
¹ “20BC-circa50AD), also called Philo Judaeus, was a Hellenist Jewish philosopher who lived in Alexandria, in Egypt. (…) He adopted allegorical instead of literal interpretations of the Hebrew Bible. (…) He represented the Alexandrian Jews in a delegation to the Roman Emperor Gaius Caligula following civil strife between the Alexandrian Jewish and Greek communities. (…) His ethics were strongly influenced by Aristotelianism and Stoicism, preferring a morality of virtues without passions
(…)
Some of Philo’s works have been preserved in Greek, while others have survived through Armenian translations, and a smaller amount survives in a Latin translation. Exact date of writing and original plan of organization is not known for much of the text attributed to Philo.”
“O historiador deve deixar o filósofo resolver as suas antinomias. Isto não significa, porém, que a história do espírito seja um puro relativismo. Mas é indubitável que o historiador não se deve aventurar a decidir quem é que tem a verdade absoluta.”
“Na baixa Antiguidade, os documentos escolhidos para serem conservados eram-no inteiramente em função de sua importância para o ideal da paideia, e praticamente deixava-se de lado qualquer livro que se considerasse falho de valor representativo, segundo este ponto de vista. A história da paideia grega está completamente fundida com a história da transmissão e conservação dos textos clássicos mediante manuscritos.”
JAEGER, Platos Stellung im Aufbau der grieschischen Bildung, Berlim, 1928.
“Os meus estudos preliminares para o capítulo sobre a medicina grega transcenderam os limites desta obra e foram publicados em livro separado (Diokles von Karystos).”
3.2 Século IV
“A queda brusca de Atenas do alto da sua posição abalou o mundo helênico porque deixava nos limites do Estado grego um vazio difícil de preencher.” “É assombrosa a rapidez com que o Estado ateniense se recompôs da sua derrota e soube encontrar novas fontes de energia material e espiritual.” “Também agora Atenas continuava a ser – ou, antes, foi agora que ela começou a ser de verdade – a paideusis da Hélade.” “O séc. IV é a época clássica da história da paideia, se entendemos por esta o despertar de um ideal consciente de educação e de cultura. É com razão que coincide com um século tão problemático.” “O século anterior decorrera sob o signo da plena realização da democracia. Quaisquer que sejam as objeções contra a viabilidade política deste ideal jamais realizado de uma autonomia extensiva a todos os cidadãos livres, é indubitável que o mundo lhe deve a criação de uma personalidade humana responsável diante de si própria.” “O Estado ateniense não pareceu reconhecer o fato de o seu ideal, apesar da sua grande superioridade material, ter sucumbido na luta. Não é no terreno constitucional que se devem buscar os traços da vitória espartana, mas sim na órbita da filosofia e da paideia.” “Despontava a convicção de que Esparta era menos uma determinada constituição do que um sistema educacional aplicado até as suas últimas conseqüências.”“Isto sugeria a idéia de fazer da educação o ponto de Arquimedes, em que era necessário apoiar-se para mover o mundo político.” “Na literatura do séc. IV deparamos com todos os matizes da realização desta idéia, desde a admiração simplista e superficial do princípio espartano da educação coletiva até a sua recusa absoluta e a sua substituição por um ideal novo e superior de formação humana e de ligação do indivíduo à coletividade.” “o caráter privado de toda a anterior educação de Atenas aparecia como um sistema fundamentalmente falso e ineficaz, que devia ceder o passo ao ideal da educação pública, embora o próprio Estado não soubesse fazer o mínimo uso desta idéia. Mas a mesma idéia abriu largo caminho através da filosofia, que a assimilou” “Aconteceu o que na História acontece tantas vezes: a consciência salvadora chegou tarde.”
Licurgo, Discurso contra Leócrates
“A sua caminhada em direção a uma nova paideia partiu da convicção de que era necessário um ideal novo e mais alto do Estado e da sociedade, e acabou por ser a busca de um novo Deus.” O eterno cotejo Protágoras x Platão.
“A poesia perdeu o seu poder de direção da vida espiritual. O público exige em proporção cada vez maior a representação regular das obras procedentes dos velhos mestres do séc. anterior, e a lei acaba por ordená-la.”
“A comédia definha e já não é a política que ocupa o centro dela. É com facilidade excessiva que temos tendência a esquecer que foi ainda imensa a produção poética desta época, sobretudo em matéria de comédias. É que a tradição sepultou todos estes milhares de obras. Só se conservaram as dos prosadores: Platão, Xenofonte, Isócrates, Demóstenes e Aristóteles, além das de não raros autores secundários.” “É tão significativa a supremacia espiritual da prosa sobre a poesia, que ela acaba por extinguir totalmente pelos séculos afora a recordação desta.”
“Os discursos de Isócrates e de Demóstenes permitem-nos tomar parte na história dos sofrimentos e na problemática do Estado grego, nesta fase final da sua vida. E é com os escritos docentes de Aristóteles que pela 1ª vez a ciência e a filosofia gregas patenteiam à posteridade o interior do laboratório das suas investigações.”
“Uma história da literatura que partisse da simples forma do eidos estilístico não conseguiria captar esta unidade vital interior da época.” “O triunfo da prosa sobre a poesia foi obtido graças à aliança entre as vigorosas forças pedagógicas, que já na poesia grega atuavam cada vez em maior grau, e o pensamento racional da época, que penetrava agora cada vez mais fundo nos verdadeiros problemas vitais do Homem. Finalmente, o conteúdo filosófico e imperativo da poesia despoja-se da sua forma poética e modela no discurso livre uma nova forma que corresponde mais perfeitamente a suas necessidades, e chega até a ver nessa forma um tipo novo e superior de poesia.”
“a nova orientação implica um perigoso isolamento do espírito e um fatal menosprezo da sua função de cultura coletiva.” “são poucos os que injetam sangue na massa; e falham no instante decisivo. É fácil dizer que as pessoas cultas teriam podido transpor este abismo, por si próprias. Platão, a mais importante figura da época e a que viu mais claramente que nenhuma outra o problema da estrutura da comunidade e do Estado em conjunto, tomou na sua velhice a palavra sobre este tema e explicou por que não conseguira trazer uma mensagem para todos.” “O que acontece é que os esforços se concentravam primeiro no problema do modocomo se podiam formar os governantes e os guias do povo, e só em segundo lugar nos meios pelos quais estes homens dirigentes podiam formar o conjunto do povo.” Além da formação do líder político, a formação do rebanho.
3.3 Sócrates
“Do homem de carne e osso e do cidadão ateniense nascido em 469 a.C. e condenado à morte e executado no ano 399 a.C. poucos traços ficaram gravados na história da humanidade, quando esta o elevou à categoria de um dos seus poucos <representantes>. Para a formação desta imagem não contribuíram tanto a sua vida e a sua doutrina, se é que realmente professava alguma, como a sua morte, sofrida por causa das suas convicções. A posteridade cristã outorgou-lhe a coroa de mártir pré-cristão, e o grande humanista da época da Reforma, Erasmo de Roterdam, incluía-o ousadamente entre os seus santos e orava: Sancte Socrates, ora pro nobis!”
“Na Idade Média, Sócrates não fôra mais que um nome famoso transmitido à posteridade por Aristóteles e Cícero. A sua estrela começa agora a se elevar, enquanto a de Aristóteles, o príncipe da Escolástica, entra em declínio. Sócrates torna-se o guia de todo o Iluminismo e de toda a filosofia moderna; o apóstolo da liberdade moral, separado de todo dogma e de toda tradição, sem outro governo além daquele da sua própria pessoa e obediente apenas aos ditames da voz interior da sua consciência”
“Escrever a história da representação de Sócrates seria uma empresa gigantesca. O mais eficaz será fazê-lo segundo determinados períodos. Uma tentativa deste gênero encontra-se, p.ex., na obra de Benno BÖHM, Sokrates im 18. Jahrhundert: Studien zum Werdegang des modernen Persönlichkeitsbewusstseins[Sócrates no século XVIII: Estudos sobre o desenvolvimento da consciência da personalidade moderna], Leipzig, 1929.”
“No entanto, seria uma posição completamente falsa crer que todo este empenho em edificar sob a égide de Sócrates uma nova <humanidade> terrena fosse dirigida contra o Cristianismo, em vez do que se fizera na Idade Média, ao colocar Aristóteles como o fundamento de toda a filosofia cristã. Pelo contrário, ao filósofo pagão era agora confiada a missão de contribuir para criar uma religião moderna, em que o conteúdo imperecível da religião de Jesus se fundisse com certos traços essenciais do ideal helênico do homem.” “quando veio a Reforma, com o seu esforço por levar a sério, pela 1ª vez, a volta à forma <pura> do Evangelho, surgiu como reação e contrapartida o culto socrático da época <iluminada>. Esse culto, porém, não pretendia desbancar o Cristianismo, antes lhe infundia forças que naquela época se julgavam indispensáveis. Até o pietismo, produto da reação do sentimento cristão puro contra uma religião cerebral e teológica já exaurida, abrigava-se junto a Sócrates e julgava descobrir nele uma certa afinidade espiritual.”
“Foi nos nossos dias, a partir do momento em que Nietzsche se desligou do Cristianismo e proclamou o advento do super-homem, que o sábio ateniense teve de pagar o ilimitado poder que desde o início da Idade Moderna exercera, como protótipo da anima naturaliter christiana. À força de aparecer ao longo dos séculos vinculado a ele, Sócrates parecia tão indissoluvelmente unido àquele ideal cristão de vida dualista, desdobrada em corpo e alma, que não se podia imaginar como não sucumbiria com ele. Ao mesmo tempo, na tendência anti-socrática de Nietzsche renascia, sob nova forma, o velho ódio do humanismo erasmiano contra o humanismo conceitual dos escolásticos.”
Eduard Zeller, História da filosofia grega
“Dizer pré-socrático equivalia a dizer pré-filosófico, uma vez que os pensadores do mundo arcaico eram agora fundidos com a grande poesia e a grande música da sua época, para formarem o quadro da <época trágica> dos gregos.”
“…Deste modo, Sócrates era apeado do pedestal firme, embora sem ser de 1ª categoria, onde o colocara a filosofia idealista do séc. XIX, de acordo com a sua própria imagem da História, e de novo se via arrastado para o turbilhão das lutas do presente. (…) A luta travada por Nietzsche é, depois de muito tempo, o 1º indício de que a antiga força atlética de Sócrates permanece intacta e ameaça, mais que nenhuma outra, a segurança interior do super-homem moderno. (…) Ninguém teria mais direito a ser compreendido a partir da sua própria <situação> do que o próprio Sócrates, um homem que não quis deixar à posteridade nem uma só palavra escrita por sua mão, pois se entregou por completo à missão que o seu presente lhe apontava. Esta situação da sua época, que Nietzsche, na sua luta implacável contra os excessos da extrema racionalização da vida moderna, não tinha interesse nem paciência para compreender em detalhe, foi por nós exposta com todo o rigor como a <crise do espírito ático> (pp. 283-ss.) [LIVRO SEGUNDO].”
“Entre os especialistas modernos que situam o nascimento dos diálogos socráticos como forma literária já em vida do próprio Sócrates, citaremos apenas Constantin RITTER, Platon (Munique, 1910), t. I, p. 202, e WILAMOWITZ, Platon (Berlim, 1919), t. I, p. 150. Esta hipótese cronológica sobre os primeiros diálogos platônicos está relacionada com a concepção que os citados autores têm da essência e do conteúdo filosófico destas obras.”
“A semelhança entre as condições em que nasce a literatura socrática e aquelas de que datam os mais antigos relatos cristãos sobre a vida e a doutrina de Jesus foi muitas vezes destacada e, de fato, salta à vista.”
“O abalo deste acontecimento deixou na vida deles um traço fundo e forte. E tudo parece indicar que foi precisamente esta catástrofe que os levou a representar o seu mestre em escritos. Esta opinião foi fundamentada em detalhe, contra Ritter, por Heinrich MAIER, Sokrates (Tubing, 1913), pp. 106-ss. Também A.E. TAYLOR, Sócrates (Edimburgo, 1932; trad. esp. México, 1961), p. 10, adere ao seu ponto de vista.”
“A socrática converte-se no eixo literário e espiritual do novo século e, depois da queda do poder temporal de Atenas, o movimento que dela nasce passa a ser a fonte mais importante do seu poder espiritual sobre todo o mundo.”
“O retrato literário de Sócrates é a única imagem fiel, decalcada sobre a realidade viva de uma individualidade grande e original, que a era clássica grega nos transmitiu. E o móbil a que este esforço respondia não era a fria curiosidade psicológica nem a ânsia de proceder a uma dissecação moral, mas antes o desejo de viver o que nós denominamos personalidade, ainda quando à linguagem faltavam a idéia e o termo necessários à expressão deste valor.”
“Cf. R. HIRZEL, Der Dialog (Lepzig, 1895), t. I, pp. 2-ss., sobre o desenvolvimento anterior do diálogo, e pp. 83-ss. sobre as formas dos diálogos socráticos e seus representantes literários.”
“O círculo socrático durou poucos anos. Cada um dos discípulos aferrava-se apaixonadamente a sua concepção e surgiram até diversas escolas socráticas. É por este motivo que nos encontramos na situação paradoxal de até hoje não termos sido capazes de nos pôr de acordo quanto à verdadeira significação da sua figura, apesar de ser ele a personalidade de pensador da Antiguidade que chegou até nós com uma tradição mais rica.”
“Platão, dramaturgo inato, já escrevera tragédias antes de entrar em contato com Sócrates. A tradição afirma que ele as queimou todas, quando, sob a impressão dos ensinamentos deste mestre, dedicou-se à investigação filosófica da verdade. Mas, quando, após a morte de Sócrates, resolveu manter viva, a seu modo, a imagem do mestre, descobriu na imitação artísticado diálogo socrático a missão que lhe permitiria colocar o seu gênio dramático a serviço da filosofia.”
“Os informes de Xenofonte só coincidem com os de Platão num pequeno trecho, para além do qual nos deixa sobre brasas, com a sensação de que Xenofonte peca por falta, enquanto, em contrapartida, Platão peca por excesso. Já Aristóteles inclinava-se a crer que a maior parte dos pensamentos filosóficos do Sócrates de Platão devem ser considerados doutrina deste e não daquele.” “Creio que K. von FRITZ (Rheinisches Museum, t. 80, pp. 36-8) aduz novas e concludentes razões contra a autenticidade da Apologia de Xenofonte.”
“Xenofonte conheceu a venerou Sócrates na sua juventude, sem nunca, porém, ter chegado a incluir-se entre os seus verdadeiros discípulos.” “Xenofonte não tornou a ver Sócrates. Foi algumas décadas mais tarde que escreveu as suas obras socráticas. A única que parece anterior é a que agora se conhece com o nome de <Defesa>.(*) Trata-se de uma alegação em defesa de Sócrates contra uma <acusação>, segundo todas as aparências puramente literária e fictícia, e onde se julgou descobrir um folheto do sofista Polícrates, publicado durante a década de noventa do séc. IV.(**) A este folheto responderam sobretudo Lísias e Isócrates, e pelas Memoráveis de Xenofonte chegamos à conclusão de que também ele tomou a palavra por aquele motivo.
(*) Seguindo H. MAIER e outros, aplicamos este nome aos 2 primeiros capítulos das Memoráveis de XENOFONTE.
(**) Xenofonte fala sempre do <acusador> no singular, enquanto Platão, na Apologia,¹ se refere sempre aos <acusadores> no plural, como corresponde realmente à situação gerada durante o processo. É certo que, no princípio, Xenofonte refere-se também à acusação judicial, mas depois dedica-se principalmente a refutar as censuras feitas posteriormente a Sócrates, segundo nos informam outras fontes, no panfleto de Polícrates.”
“Temos um exemplo de como Xenofonte incorporou mais tarde numa unidade mais ampla um escrito concebido nas suas origens como independente, no princípio das Helênicas (1-II, 2). Originariamente esta parte propunha-se a acabar a obra histórica de Tucídides. Termina, como é natural, com a guerra do Peloponeso. Mais tarde, Xenofonte ligou com este escrito o seu relato da história da Grécia de 404 a 362.”
“Nos diálogos de Platão, Sócrates aparece como filósofo que expõe a teoria das idéias, pressupondo-a expressamente, como algo familiar ao círculo dos seus discípulos.”
“Aristóteles (…) fornece indicações importantes sobre a relação que existe entre Sócrates e Platão:
Na primeira época dos seus estudos, Platão seguira os ensinamentos de Crátilo, discípulo de Heráclito, o qual ensinava que na natureza tudo flui e nada possui uma consistência firme e estável. Quando conheceu Sócrates, Platão viu abrir-se diante de si outro mundo. (…) Platão acabou por se persuadir que ambos, Sócrates e Crátilo, tinham razão, dado que se referiam a dois mundos completamente diversos. (…)
(…) nos diálogos que (…) devem ser considerados como as primeiras obras de Platão, todas as investigações de Sócrates assumem a forma de perguntas e respostas sobre conceitos universais: O que é a coragem? O que é a piedade? O que é o autodomínio? E até o próprio Xenofonte nota expressamente, embora só de passagem, que Sócrates desenvolvia incessantes investigações desse tipo, esforçando-se por chegar a uma determinação dos conceitos. (Mem., 6) (…) Mas, com o tempo, não podia satisfazer, pois o Sócrates que nos apresenta parece ser uma mediocridade e a sua filosofia dos conceitos uma banalidade. Era precisamente contra este pedante homem de conceitos que investiam os ataques de Nietzsche. Foi por isso que estes ataques não fizeram mais do que minar a confiança em Aristóteles como testemunho histórico, naqueles cuja fé na grandeza de Sócrates e na sua força revolucionária universal não se deixou abalar. Estaria Aristóteles tão desinteressado do problema das origens da teoria platônica das idéias, que ele próprio combate com tão grande violência? (…) Esta vacilação aparece caracterizada com clareza pelas 2 tentativas mais notáveis e mais cientificamente sistematizadas que nestes últimos anos se fizeram para penetrar no Sócrates histórico: a grande obra do filósofo berlinense H. Maier sobre Sócrates e os trabalhos da escola escocesa, representada pelo filólogo J. Burnet (Greek Philosophy, 1924, além do verbete ‘Socrates’ na Hastings Encyclopaedia of Religion and Ethics, vol. XI) e pelo filósofo A.E. Taylor (op. cit.).” “Como fontes históricas sobre o Sócrates real, Maier considera sobretudo os escritos <pessoais> de Platão: a Apologia e o Críton;¹ ao lado destes, reconhece como relatos de livre criação, mas no fundo fiéis à verdade, uma série de diálogos menores de Platão, tais como o Laques,² o Cármides,³ o Lísis,4 o Íon, o Eutífron6 e os dois Hípias.”
“Sócrates proclama o evangelho do domínio do Homem sobre si próprio e da <autarquia> da personalidade moral. Isto faz dele a contrafigura ocidental de Cristo e da religião oriental da redenção.”
“Não tem a mínima verossimilhança interna a pretensão de distinguir artificiosamente entre o Platão da primeira fase e o da última, para assim se chegar à conclusão de que só o primeiro se propõe [a] oferecer um retrato de Sócrates, enquanto o segundo toma-o só como máscara para expor a sua própria filosofia, tal como ela se desenvolveu ao longo dos anos. (…) Na realidade, já que não tencionava expor a doutrina de Sócrates, mas sim os seus próprios pensamentos, Platão abandona Sócrates como figura principal dos seus diálogos e a substitui por outras personagens estranhas ou anônimas. Sócrates era efetivamente tal como Platão o pinta: o criador da teoria das idéias, da teoria da reminiscência e da preexistência da alma, da teoria da imortalidade da alma¹ e da teoria do Estado ideal. Numa palavra: era o pai da metafísica ocidental.”
¹ Não grifo porque a teoria da imortalidade é um sine qua non da teoria das reminiscências e das idéias, bem como estas são sine qua non da primeira, ou seja, estão em inextricável dependência no corpus (supostamente socrático-)platônico.
“Quem pretender descobrir no campo da teoria e do pensamento sistemático a sua grandeza terá de lhe atribuir demais, à custa de Platão, ou então duvidará radicalmente da sua importância pessoal. (…) a importância desta figura não vem continuar nenhuma tradição científica nem pode ser derivada de nenhuma constelação sistemática na história da filosofia. Sócrates é o homem do momento, num sentido absolutamente elementar. A sua volta sopra uma aragem verdadeiramente histórica.”
“É a segunda vez que na história da Grécia o espírito ático invoca as forças centrípetas da alma helênica contra as suas forças centrífugas, opondo ao cosmos físico das forças naturais em luta, criação do espírito investigador da Jônia, uma ordem dos valores humanos. Sólon descobrira as leis naturais da comunidade social e política. Sócrates embrenha-se na própria alma, a fim de penetrar no cosmos moral.”
“Na idade madura, Sócrates viveu o apogeu do poder ateniense e o florescimento clássico da poesia e da arte de Atenas, e visitava a casa de Péricles e de Aspásia. Foram seus discípulos governantes tão discutidos como Alcibíades e Crítias.”
“Sócrates era um grande amigo do povo, mas era considerado mau democrata. (…) era indubitável que ele tinha declarado defeituoso, como norma fundamental, o princípio socrático dominante em Atenas, segundo o qual o governo era incumbência da maioria do próprio povo (…) É caso para pensar que esta posição se ia formando dentro dele, diante da crescente degenerescência da democracia ateniense, durante a guerra do Peloponeso. Para quem, como ele, tinha sido educado no espírito dominante na época das guerras pérsicas e assistira ao apogeu do Estado, era forte demais aquele contraste para não provocar toda uma série de dúvidas críticas.” Um grande homem jamais deixará de ser um aristocrata no seu íntimo.
“é importante compreender que na Atenas daqueles dias também se considerava atuação política o fato de permanecer à margem dos manejos políticos do momento e que os problemas do Estado determinavam de modo decisivo os pensamentos e a conduta de qualquer homem, sem exceção.”
“Segundo os informes do Fédon,¹ Sócrates, através desta crítica da filosofia da natureza, chegava à teoria das idéias, a qual, no entanto, de acordo com os dados convincentes da Aristóteles, não se pode atribuir ainda ao Sócrates histórico.” Jaeger se contradiz.
“Na Antiguidade, qualquer referência de princípios à experiência, como fundamento de toda a ciência exata da realidade, estava sempre associada à Medicina (…) É da Medicina grega, e não da filosofia grega, que é filho o empirismo filosófico dos tempos modernos.”
“Há uma certa analogia interior entre o diálogo socrático e o ato de se desnudar para ser examinado pelo médico ou pelo ginasta, antes de se lançar no combate, na arena. (…) O ateniense daqueles tempos sentia-se mais no seu meio no ginásio do que entre as 4 paredes da sua casa, onde dormia e comia. Era ali, sob a transparência do céu da Grécia, que diariamente se reuniam novos e velhos para se dedicarem ao cultivo do corpo.”
“O palco, onde, em longo solilóquio, brilham os sofistas é a casa particular ou a sala improvisada. Em contrapartida, Sócrates é o cidadão simples, a quem todos conhecem. A sua ação passa quase despercebida; a conversa com ele agarra-se quase espontaneamente, e como sem querer, a qualquer tema de ocasião. Não se dedica ao ensino nem tem discípulos; assim o afirma, pelo menos. Só tem amigos, camaradas.A juventude sente-se fascinada pelo fio cortante daquele espírito, ao qual não há nada que resista.”
“E quem julga que se pode retrair, intratável, perante ele, ou encolher os ombros com indiferença ante a forma pedante das suas perguntas ou a intelectual banalidade dos seus exemplos, não tarda a baixar da pretensa altura do seu pedestal. (…) Por outro lado, é compreensível que as nossas histórias escolares da filosofia deixem tudo isso de lado, por o considerarem meros adornos poéticos da imagem que Platão traça de Sócrates.”
“É certo que o próprio Sócrates designa a sua <ação> – que palavra significativa! – pelos nomes de <filosofia> e <filosofar>; e, na Apologia platônica, afiança aos seus juízes que não se afastará dela enquanto viver e respirar. Mas não devemos dar a estas palavras o significado que vieram a ganhar em séculos posteriores, ao cabo de uma longa evolução (…) Toda a literatura dos socráticos se manifesta unanimemente contra esta possibilidade de separar a doutrina da pessoa.”
“A palavra <alma>, pelas suas origens na história do espírito, tem sempre para nós uma conotação de valor ético ou religioso. Tem um tom cristão, como as expressões <serviço de Deus> e <cuidado da alma>. Ora, é nas prédicas protrépticas de Sócrates que a palavra <alma> adquire pela 1ª vez este alto significado.”
“Se consultarmos a clássica obra-prima de Erwin Rohde, Psique, chegaremos à conclusão de que Sócrates não tem significado especial dentro deste processo histórico. Este autor passa-o por alto. Rohde, à p. 240, apenas nos sabe dizer de Sócrates, na única passagem da sua obra em que o cita, que ele não acreditava na imortalidade da alma. Para tal contribui o preconceito contra Sócrates, <o racionalista>, que Rohde já partilhara com Nietzsche desde a sua juventude”
BURNET, “The Socratic Doctrine of the Soul”, em Proceedings of the British Academy for 1915-6.
“A origem da forma do discurso exortatório ou diatribe, como tal, remonta naturalmente aos tempos primitivos. No entanto, a forma educacional e moral da prédica que prevalece nas homilias cristãs ao lado da dogmática e da exegética adquire o seu caráter literário na socrática, que, por sua vez, remonta à protréptica oral de Sócrates.”
“Seria a socrática uma antecipação do Cristianismo, ou poderá mesmo afirmar-se que com Sócrates irrompe na evolução do helenismo um espírito estranho, oriental, o qual, graças à posição da filosofia grega como grande potência educadora, se traduz logo em efeitos de envergadura histórica universal, impelindo à união com o Oriente?”
“Quis-se atribuir a Sócrates a teoria da imortalidade do Fédon platônico e até a teoria da preexistência do Mênon,¹ mas estas duas idéias complementares têm origem claramente platônica. A posição socrática em face do problema da subsistência da alma aparece certamente bem-definida na Apologia, onde, em presença da morte, não se diz qual será a sua sorte depois desta.”
“se aceitarmos a afirmação de Aristóteles de que a teoria das idéias não é de Sócrates mas de Platão, teremos de defender idêntica posição no que se refere à teoria da imortalidade do Fédon, que se baseia na teoria das idéias.”
“têm origem puramente helênica todos os traços aliciantes que na prédica socrática nos parecem cristãos. (…) É na poesia e na filosofia que floresce a evolução religiosa superior do espírito grego, e não no culto dos deuses, que costumamos encarar quase sempre como o conteúdo principal da história da religião helênica.”
“É indubitável que a religião dionisíaca e órfica dos gregos, bem como a dos mistérios, apresentam certas <fases preliminares> e analogias; mas não se pode explicar este fenômeno dizendo que as formas socráticas do discurso e da representação derivam de uma seita religiosa que se pode afastar a seu bel-prazer como estranhas aos gregos, ou aceitar como oriental. Tratando-se de Sócrates, o mais sóbrio dos homens, seria verdadeiramente absurdo pressupor a existência de uma influência eficaz destas seitas orgiásticas nas camadas irracionais da sua alma.”
“A alma de que Sócrates fala só pode ser compreendida com acerto se é concebida em conjunto com o corpo, mas ambos como dois aspectos distintos da mesma natureza humana.”
“Sócrates não pode crer que só o Homem tenha espírito.”
“A virtude física e a virtude espiritual não são, pela sua essência cósmica, mais do que a <simetria das partes> em cuja cooperação corpo e alma assentam. É a partir daqui que o conceito socrático do <bom>, o mais intraduzível e o mais exposto a equívocos de todos os seus conceitos, se diferencia do conceito análogo na ética moderna. Será mais inteligível para nós o seu sentido grego se em vez de dizermos <o bom> dissermos <o bem>, acepção que engloba simultaneamente a sua relação com quem o possui e com aquele para quem é bom.” Não melhora muito, sinceramente… Pelo contrário, até piora: além do bem e do mal; o bem desta frase já se tornou estanque. Já em o espírito superior é bom, é o melhor, depreende-se que ele é bom porque é mais que os outros homens, está acima do ruim (não mau, porém estragado).
“Se o conceito da vida, do bios (que designa a existência humana, não como um simples processo temporal, mas como uma unidade plástica cheia de sentido, como uma forma consciente de vida) ocupa doravante uma posição de tão grande relevo na filosofia e na ética, é à vida real do próprio Sócrates que, numa parte muito considerável, isso se deve. A sua vida foi uma antecipação do novo bios, baseado integralmente no valor interior do Homem.”
“A sua descoberta da alma não significa a separação dela e do corpo, como tantas vezes se afirma em desabono da verdade, mas antes o domínio da primeira sobre o segundo. Mens sana in corpore sano é uma frase que corresponde a um autêntico sentido socrático.”
“Os sofistas eram os mestres desta arte que, apresentada desta forma, constituía coisa nova. Sócrates parece ligar-se plenamente a eles, para logo seguir o seu próprio caminho. (…) A paideia dos sofistas era uma colorida mistura de materiais de origem vária. O seu objetivo era a disciplina do espírito, mas não existia entre eles unanimidade quanto ao saber mais indicado para atingi-la, pois cada um deles seguia estudos especializados e, naturalmente, considerava a sua disciplina como a mais conveniente de todas. Sócrates não negava o valor que havia em ocupar-se de todas as coisas que eles ensinavam, mas o seu apelo ao cuidado da alma continha já potencialmente um critério de limitação dos conhecimentos recomendados por aqueles educadores.”
“Os gregos, aliás, consideravam geralmente o mundo cósmico como algo de sobrenatural e imperscrutável para os simples mortais. E [o] Sócrates [de Xenofonte] partilhava este temor popular contra o qual ainda Aristóteles teve de se erguer no início da sua Metafísica. Reservas semelhantes Sócrates fazia também em relação aos estudos matemáticos e astronômicos dos sofistas de orientação mais realista” “Contrapôs-se então a ele o Sócrates de Platão, que na República preconiza a educação matemática como único caminho certo da filosofia. Este ponto de vista está, porém, condicionado pela própria evolução platônica para a dialética e para a teoria do conhecimento”
“Platão e Xenofonte coincidem em que Sócrates era um mestre de política. Só assim se compreende o seu choque com o Estado e o seu processo [judicial].” Não tem a ver com a acusação de monoteísmo – ou não como entendemos a questão hoje (de forma puramente teológica).
“Esta passagem em Memoráveis I demonstra que o que nós denominamos <ético>, separando-o como um mundo à parte, estava indissoluvelmente ligado ao político, não só para Xenofonte, mas também para Platão e Aristóteles.”Os fins são os meios.
CORRUPTOR DE MENORES: “Aquilo de que Sócrates era acusado era precisamente o uso que Alcibíades e Crítias fizeram da sua cultura, na vida política. Segundo Xenofonte, porém, esta censura devia servir-lhe antes de desculpa, visto que um tal uso dos seus ensinamentos era contrário às intenções do mestre.” O grande jamais corromperá o pequeno. Mas não poderá tampouco salvá-lo de sua condição ou moira.
“O homem que é educado para governar tem de aprender a antepor o cumprimento dos deveres mais prementes à satisfação das necessidades físicas. Tem de se sobrepor à fome e à sede. Tem de se acostumar a dormir pouco, a deitar-se tarde e a se levantar cedo.” Exigente demais!
“Quem não é capaz de tudo isto fica condenado a figurar entre as massas governadas.” “O ascetismo socrático não é a virtude monacal, mas sim a virtude do homem destinado a mandar.”
“A enkrateia não constitui uma virtude especial, mas, como acertadamente diz Xenofonte, a <base de todas as virtudes>, pois equivale a emancipar a razão da tirania da natureza animal do homem e a estabilizar o império legal do espírito sobre os instintos. (…) podemos traduzir o conceito de enkrateia (…) pela expressão (…) <autodomínio>.”
“nesta época, a palavra <livre> é primordialmente o que se opõe à palavra escravo. Não tem aquele sentido universal, indefinível, ético e metafísico, do moderno conceito de liberdade.”
MEGERA INDOMADA: “O diálogo com o seu próprio filho Lâmpocles, que se revoltava contra o mau humor de Xantipa, sua mãe, mostra o quanto estava longe Sócrates de dar razão àqueles que condenavam precipitadamente os pais, ou denotavam uma impaciência pouco piedosa em relação ao seu feitio ou até aos seus defeitos manifestos.”
“Em Homero, a amizade é a camaradagem do soldado; e na educação da nobreza, em Teógnis, apresenta-se como proteção e baluarte contra os perigos da vida pública, em tempos de convulsões políticas.”
“É certo que a experiência ensina que até entre os homens bons e que aspiram a fins elevados nem sempre reinam a amizade e a benevolência, mas, ao contrário, impera com grande freqüência um antagonismo mais feroz que entre as criaturas pouco dignas. Aqui está uma experiência particularmente desanimadora.”
“A amizade começa pelo aperfeiçoamento da própria personalidade. Mas necessita, além disso, dos dons do <erótico>, que ironicamente Sócrates gosta de predicar de si próprio, do homem que precisa dos outros e corre atrás deles, que recebeu da natureza o dom, logo por ele tornado arte, de agradar a quem lhe agrada. Não é como a Cila de Homero, que imediatamente se agarrava aos homens, os quais, assim, fugiam dela ao vê-la de longe. Parece antes a sereia, que atrai o homem de muito longe, com o seu canto suave.”
“Sócrates nunca fala em <discípulos> e rejeita também a pretensão de ser <mestre> de quem quer que seja. Limita-se a manter <convivência> com os homens, seja qual for a sua idade, e <conversa> com eles.”
“Um dos grandes paradoxos é este homem, o maior educador que se conhece, não ter querido falar de paideia com referência a sua própria atividade, embora todo mundo visse nele a mais perfeita personificação desse conceito. É claro que a palavra não se podia evitar indefinidamente, e tanto Platão como Xenofonte a usam freqüentemente para designarem as aspirações de Sócrates e caracterizarem a sua filosofia. Mas Sócrates encontrou esta palavra carregada pela prática e teoria <pedagógicas> do seu tempo: considerava como representantes típicos da paideia moderna Górgias, Pródico e Hípias.” “E através desta ironia genuinamente socrática descobre-se a consciência da missão da verdadeira educação e da magnitude da sua dificuldade, da qual o resto do mundo não tem a menor idéia.”
“É Platão que, baseado nas tentativas de um novo conceito do saber que descobre em Sócrates, elabora a lógica e o conceito; segundo este autor, Sócrates foi apenas o pregador, o profeta da autonomia moral. No entanto, esta explicação esbarra com dificuldades tão grandes como a opinião contrária, a de que em Sócrates já vem defendida a teoria das idéias.”
“Nenhum dos diálogos socráticos de Platão chega a definir realmente o conceito moral que nele se investiga; mais ainda, existiu por muito tempo a opinião geral de que nenhum destes diálogos chega realmente a um resultado.”
“O conhecimento do bem, que Sócrates descobre na base de todas e cada uma das chamadas virtudes humanas, não é uma operação da inteligência, mas antes, como acertadamente Platão compreendeu, a expressão consciente de um ser interior do Homem.”
“a idéia socrática contém implícita a premissa de que não pode existir a ilegalidade consciente, porque isso implicaria a existência de ilegalidades voluntárias.”
“a natureza do bem implica que cada um o reconheça como quiser. A vontade humana situa-se, assim, no centro das nossas considerações.”
“A verdadeira essência da educação é dar ao Homem condições para alcançar o fim autêntico da sua vida. Identifica-se com a aspiração socrática ao conhecimento do bem, com a phronesis. E esta aspiração não se pode restringir aos poucos anos de uma chamada cultura superior. Só pode alcançar seu objetivo ao longo de toda a vida do Homem” “O Homem, assim concebido, nasceu para a paideia. Esta é o seu único patrimônio verdadeiro. Como todos os socráticos são unânimes nesta concepção, o seu autor deve ter sido Sócrates, ainda que ele afirmasse de si próprio que não sabia <educar os homens>.”
“É certo que Sócrates, ao contrário de Platão, não parece partir fundamentalmente da idéia de que os Estados atuais não têm remédio.”
“Quantas vezes ele insiste em que não é ele, Sócrates, mas sim o logos quem diz isto ou aquilo! (…) No fundo, o conflito com o Estado nasce para a filosofia e para a ciência a partir do momento em que a investigação se exerce sobre a natureza das <coisas humanas>, i.e., sobre o problema do Estado e da arete e surge em face desta questão como razão normativa. É o instante em que a filosofia troca a herança de Tales pelo legado de Sólon.”
“Foi nem mais nem menos Hegel quem negou à razão subjetiva o direito de criticara moral do Estado, que é por si a fonte e a concreta razão de ser de toda a moral sobre a Terra. Eis um pensamento totalmente inspirado na Antiguidade e que nos ajuda a compreender a atitude do Estado ateniense para com Sócrates.”
“Platão era o único que se sentia, como ateniense e como político, à altura de compreender Sócrates plenamente. Indica no Górgias como a tragédia se vem aproximando.”
“Pessoalmente, Sócrates está muito longe das conseqüências que Platão deriva da sua morte. E mais longe ainda da valorização e da interpretação histórico-espiritual que se dá ao acontecimento de que foi vítima. A inteligência histórica, se tivesse existido naquele tempo, teria destruído o sentido trágico deste destino. (…) É um privilégio muito duvidoso o de ver à luz da história a própria época e mesmo a própria vida.” “Platão afirma o homem político no domínio da Idéia, mas por isso mesmo afasta-se da realidade política, ou procura realizar o seu ideal em outra parte qualquer do mundo, em que existam melhores condições para ele.”
“O pouco apreço pela ciência e pela erudição, o gosto pela dialética e pelos debates em torno aos problemas do valor são características atenienses, tanto quanto o sentido do Estado, dos bons costumes, do temor de Deus, se deixar para trás a charis espiritual que paira sobre tudo.”
“O mais provável é não ter Platão escrito estas palavras em Atenas. Por certo, deve ter fugido para Mégara, com os demais discípulos de Sócrates, após a morte deste, e foi ali ou nas suas viagens que escreveu as suas primeiras obras socráticas.”
3.4 A imagem de Platão na história
“É só a partir da cultura antiga que se pode compreender uma figura como a de Santo Agostinho, que traçou a fronteira histórico-filosófica da concepção medieval do mundo, por meio da sua Cidade de Deus, tradução cristã da República de Platão. A própria filosofia aristotélica, com a recepção da qual a cultura dos povos medievais do Oriente e do Ocidente, no seu apogeu, assimilou o conceito universal do mundo da filosofia antiga, não era senão uma outra forma do platonismo.”
COISA MAIS BIZA…RRA! “O Platão que o teólogo e místico bizantino Gemistos Plethon transmitiu aos italianos do quattrocento e cujas doutrinas Marsílio Ficino professava na Academia platônica de Lourenço de Médici, em Florença, era um Platão visto pelos olhos de Plotino (…) Para aqueles tempos, Platão era acima de tudo o profeta e o místico religioso”
“Até agora tentara-se reconstruir a filosofia à maneira do séc. XVIII, esforçando-se por abstrair dos seus diálogos o conteúdo dogmático, quando o tinham. Depois, com base nas teses assim estabelecidas e tomando como modelo as filosofias posteriores, procurava-se penetrar na metafísica e na ética platônicas, e edificar com todas estas disciplinas um sistema, já que só se concebia a existência de um pensador sob esta forma. O mérito de Schleiermacher consiste em ter visto bem, com certeiro golpe de vista que os românticos tinham para desentranhar a forma como expressão da individualidade espiritual, que aquilo que a filosofia platônica tinha de característico era precisamente não tender para a forma de um sistema fechado, mas sim manifestar-se por meio do diálogo filosófico inquisitivo.”
“podemos até afirmar que, assim como na Antiguidade a filosofia alexandrina foi desenvolvendo os seus métodos à luz da investigação da obra de Homero, também a ciência histórica do espírito alcançou no séc. XIX o seu máximo apuro, com a luta para conseguir compreender o problema platônico.”
“Tanto a explicação pormenorizada do texto como a investigação da autenticidade das diversas obras chegadas até nós sob o nome de Platão abriram o caminho a um estudo concreto que se ia especializando sem cessar, de modo que o problema platônico parecia ir afundando cada vez mais nesta direção. Foi então que, a partir de C.F. Hermann, os intérpretes se foram habituando a encarar as obras deste filósofo como a expressão de uma evolução progressiva e gradual da sua filosofia”
“É certo que, após alguns êxitos iniciais, este caminho da investigação acabou por se desacreditar, em consequência dos seus exageros, pois veio cair na ilusão de que seria possível situar no tempo todos e cada um dos diálogos, através de uma estatística filológica perfeitamente mecanizada. Seria ingratidão, porém, esquecer que foi uma descoberta puramente filológica que determinou a maior reviravolta operada, desde Schleiermacher, nos estudos platônicos.” “é possível distinguir três grupos principais de obras, onde se podem distribuir com boa verossimilhança os diálogos mais importantes. § Este resultado das investigações filosóficas da 2ª metade do séc. XIX tinha, por força, de abalar a imagem schleiermacheriana de Platão, já considerada clássica, uma vez que se verificou serem obras maduras, correspondentes a sua senectude, vários diálogos platônicos por ele tidos como primeiros e introdutórios, e que versavam sobre problemas metódicos. (…) Agora eram rapidamente puxados para o centro da discussão os diálogos <dialéticos>, como o Parmênides,¹ o Sofista² e o Político,³ nos quais o Platão do último período parece discutir com a sua própria teoria das idéias.” Confrontar com o que diz Azcárate. Missão para depois.
“Não é, pois, nada estranho que este neokantismo se tenha sentido surpreendido e fascinado por tão inesperada projeção dos seus próprios problemas na evolução dos últimos anos de Platão” Aqui: revigoramento do ceticismo em oposição ao ultra-romantismo.
“nesta nova concepção de conjunto, a importância de Platão para a filosofia moderna assentava no aspecto metódico, com a mesma unilateralidade com que para a filosofia metafísica do meio século anterior assentava no apoio que a metafísica platônica e aristotélica lhe dava, na sua luta contra a crítica de Kant.” “A nova forma de conceber este filósofo culminava na tentativa de infirmar, como falsas, as objeções de Aristóteles à teoria platônica das idéias, tentativa que vinha mostrar indiretamente que essa nova forma se deixava guiar por Aristóteles, mesmo sem aceitar o seu modo de ver, pois concentrava no mesmo ponto a sua interpretação da doutrina platônica.”
“as Leis, que representa mais da quinta parte de toda a obra escrita de Platão e onde a teoria das idéias não desempenha o menor papel.”
IRONIAS DE FERRO: Enquanto bilhões vivem sem uma metafísica, certos indivíduos têm o privilégio de viver ativamente 2 ou 3 projetos destas. Onde quer que o sol nasça e bata, Platão é que ri de nós.
“Foi de novo uma descoberta filológica que permitiu um passo fundamental e que, sem pretensões filosóficas de nenhum tipo, levou a derrubar os limites demasiado estreitos em que estava encerrada esta concepção da obra platônica. Desta vez, não foi a cronologia a afetada pela descoberta, mas sim a crítica da autenticidade dos textos. Já desde a Antiguidade sabia-se que a coleção dos escritos platônicos transmitida pelos séculos continha muitas coisas inautênticas, mas foi a partir do séc. XIX que a crítica textual atingiu o máximo grau de intensidade. É certo que no seu cepticismo visava muito além do alvo e acabou por ficar paralisada. (…) as suspeitas caíram apenas, essencialmente, sobre escritos de qualidade duvidosa. Julgavam-se falsas também as cartas de Platão: a existência indubitável de peças e fragmentos falsos na coleção de cartas que chegou até nós sob o seu nome levava os críticos a repudiar a coleção em bloco; e, como era indiscutível que algumas destas cartas continham um material histórico valioso acerca da vida de Platão e das suas viagens à côrte do tirano Dionísio de Siracusa, recorria-se à hipótese do autor destes documentos apócrifos ter utilizado na sua redação informes muito apreciáveis. Historiadores como Eduard Meyer, levando em conta o grande valor das cartas como fonte histórica, advogaram a sua autenticidade, e logo o seu exemplo foi seguido pelos filólogos, a partir do momento em que Wilamowitz confirmou a autenticidade das cartas sexta, sétima e oitava, i.e., das peças mais importantes da coleção.”
COMPELIDOS À MISANTROPIA: “O patético relato de Platão sobre suas repetidas tentativas de intervenção ativa na vida política dava ao seu biógrafo a possibilidade de pintar algumas cenas ricas de colorido, que vinham quebrar dramaticamente o recolhimento da vida do filósofo no seio da Academia e descobriam, além disso, o complicado fundo psicológico desta vida, cuja atitude contemplativa, como agora se mostrava, tinha sido imposta pela trágica pressão das condições desfavoráveis de seu tempo a um caráter inato de dominador. Vistas por este prisma, as repetidas vezes que Platão tentou uma carreira de estadista não apareciam de modo nenhum como episódios infelizes de uma vida puramente intelectual, nos quais Platão procurara concretizar certos princípios éticos da sua filosofia. Todavia, a convicção de que é o Platão autêntico e real o homem que na Carta VII nos fala da sua própria evolução espiritual e dos objetivos da sua vida, a partir dos quais adota uma posição diante da sua própria filosofia, tem também uma importância decisiva para a concepção de conjunto da sua obra filosófica.” “A esta concepção da filosofia platônica chegara eu em longos anos de esforço incessante dirigido à captação da sua verdadeira essência, sem prestar grande atenção às cartas, uma vez que desde a juventude partilhava o preconceito filológico contra a sua autenticidade.”
“podem reunir-se em grupo à parte os diálogos menores; (I) mas as obras extensas como o Protágoras, o Górgias, o Mênon, o Banquete e o Fedro,¹ onde estão contidas as idéias platônicas essenciais sobre a educação, merecem ser examinadas separadamente e uma a uma (II) (…) A República e as Leis são, naturalmente, as obras que devem formar o verdadeiro nervo central deste estudo. (III)”
“A sua filosofia, encarada como o apogeu de uma cultura (paideia) tornada já histórica, deve ser focada, mais do que geralmente se costuma fazer, na sua função orgânica dentro do processo total do espírito grego e da história da tradição helênica, e não como um mero sistema de conceitos com existência própria.”
“A história da paideia, encarada como a morfologia genética das relações entre o homem e a polis, é o fundo filosófico indispensável no qual se deve projetar a compreensão da obra platônica.” “A sua obra de reformador está animada do espírito educador da socrática, que não se contenta em contemplar a essência das coisas, mas quer criar o bem.”
3.5 Diálogos socráticos menores de Platão
“São muito reduzidas as proporções exteriores destas obras, que correspondem pouco mais ou menos a uma conversa travada por casualidade.” “o dialeto ático neles usado não tem paralelo na literatura grega, pela sua graça natural, espontaneidade e genuína vivacidade de colorido.” “estes diálogos, do tipo do Laques, do Eutífron e do Cármides, revelar-se-iam pelo seu brilho e pelo seu frescor, como as obras de juventude de Platão.”
“Já no Eutífron fala-se do processo movido contra Sócrates, e como a Apologia e o Críton, ambos tratando do desenlace de Sócrates, se encaixam no mesmo grupo é provável que todas as obras reunidas neste grupo tivessem sido escritas logo depois da morte do mestre.”
“<Petulância juvenil> é a rubrica sob a qual WILAMOWITZ agrupa estas obras alegres, que considera as mais antigas de todas.”
“Já na velhice Platão escreveu um diálogo, o Filebo,¹ onde Sócrates aparece como figura central, apesar de nas demais obras da velhice, nos chamados diálogos dialéticos, o Parmênides, o Sofista e o Político, e no diálogo sobre a filosofia da natureza intitulado Timeu,² Sócrates desempenhar um papel secundário e ser nas Leis substituído pela figura do estrangeiro ateniense.”
“Não foi da dúvida que os primeiros diálogos platônicos nasceram. Que não é assim já o indica a soberana segurança com que é vincada a linha interior daquelas conversas, não tanto em cada obra de per si, mas principalmente no conjunto delas.” Opinião distinta da de Azcárate.
“É preciso ser muito ingênuo para, do fato de nenhum destes diálogos terminar com a definição didática do tema discutido, tirar a conclusão de que estamos diante de um principiante que arrisca os primeiros passos, falhados, num campo ainda inexplorado teoricamente.” “O nosso pensamento, associando-se ao dos outros, procura adiantar-se ao andamento da discussão (…) Se se tratasse de uma conversa real a que tivéssemos assistido, poderíamos atribuir ao acaso este resultado negativo.” “A falta de saída, que era para Sócrates um estado permanente, converte-se para Platão no estímulo que o impele à resolução da aporia.”
“Sobre a história da interpretação moderna de Platão, cf. o livro (já antiquado mas ainda útil para certos pormenores) de F. UEBERWEG, Untersuchungen über die Echtheit und Zeitfolge platonischer Schriften, etc. (Viena, 1861)”
“A ciência política apresenta-se já no Cármides, como no Górgias, em paralelo com a ciência médica.”
“A maior censura que se pode fazer a muitos representantes do método histórico-evolutivo, tanto no que se refere a sua defeituosa concepção artística como quanto a sua deficiente concepção filosófica, é partirem da hipótese de que, em todas e cada uma das suas obras, Platão diz tudo o que sabe e pensa.”
“Platão e seus irmãos Glauco e Adimanto, que ele, de modo muito significativo, apresenta precisamente na República como discípulos e interlocutores de Sócrates, pertenciam evidentemente, como Crítias e Alcibíades, àquela juventude da antiga nobreza ática que, de acordo com as tradições familiares, sentia-se chamada a dirigir o Estado e buscava em Sócrates o mestre da virtude política.” “Mas, enquanto para homens como Alcibíades e Crítias esta doutrina não fazia mais do que atiçar a fogueira dos seus ambiciosos planos de golpes de Estado, para Platão, que o seu tio Crítias convidou a colaborar no novo Estado autocrático, após a derrocada da constituição democrática vigente, era visível a incompatibilidade daquele regime com as idéias de Sócrates, e foi por isso que ele se negou a cooperar.”
“A duplicidade deste acontecimento gerou a certeza de que não foram a constituição democrática ou oligárquica, como tais, mas sim única e exclusivamente a degenerescência moral do Estado vigente, fossem quais fossem as suas formas, o que o arrastou a um conflito mortal com o mais justo dos seus cidadãos.”
“profunda resignação” “Chegara à convicção de que para um homem como ele, plenamente possuído da vontade educacional de Sócrates, seria um absurdo esbanjamento de si próprio imiscuir-se ativamente na vida política de Atenas, pois lhe parecia que o Estado existente, e não só o ateniense mas todos eles, estava condenado a desaparecer, se não o salvasse um milagre divino. E que esta concepção não é precisamente resultado da sua evolução posterior, mas sim que já vivia nele desde o princípio, prova-o a Apologia, 31E, e a recapitulação dos mesmos pontos em Apol., 36B.”
“a pretensão de tornar os filósofos reis ou os governantes filósofos, para que o Estado possa ser melhorado.” “Enquanto a Carta Sétima foi tida por apócrifa, considerou-se este indício evidente da sua falsidade; o falsificador, pensava-se, quisera dar-lhe um cunho de autenticidade e para isso reproduzira uma das idéias mais conhecidas de Platão; mas incorrera no descuido de apresentar como já existente na década de 90 a República, obra donde a frase procede e que, segundo os resultados da moderna investigação, não fôra escrita antes da década de 70 do séc. IV. (…) Não havia a mínima dúvida de que se tratava de uma citação de si próprio feita por Platão, e ele, naturalmente, não podia ignorar quando escrevera aquela obra.” “ora, o mais verossímil é que as idéias proclamadas nos seus diálogos tenham sido expostas e discutidas muitas vezes no seu ensinamento oral, antes de serem dadas a conhecer por escrito ao mundo exterior”
Julius STENZEL, Plato’s Method of Dialectic (barato na Amazon)
O SEGUNDO MUNDO: SENSÍVEL, ETERNO
“Aristóteles já assimila com toda a clareza teórica os métodos lógicos da abstração. A pergunta socrática o que é o bom?, o que é o justo?, não implicava de modo nenhum o conhecimento teórico do que eram logicamente os conceitos universais. Portanto, quando Aristóteles diz que Sócrates ainda não chegara a hipostasiar, como algo distinto da realidade sensível, os conceitos universais que investigava (o que Platão faz), essa afirmação não se deve interpretar no sentido de que Sócrates já teria chegado à teoria aristotélica do universal e de que Platão cometeu mais tarde o erro inconcebível de duplicar de certo modo esses conceitos gerais, já antes conhecidos por Sócrates na sua natureza abstrata, e de colocar ao lado do conceito do justo uma idéia do justo existente em si mesma. (…) as idéias platônicas (…) representam para Aristóteles uma duplicação inútil do mundo sensível. Ele é supérfluo para Aristóteles, pois este já atingiu a natureza abstrata do conhecimento universal.”
Aristóteles: “o universal está no devir. Eu sou a síntese de Sócrates, Heráclito e Parmênides.”
“Quando Platão aponta dentro do múltiplo o uno, que o método dialético procura captar como forma ou, dito em grego, como idéia ou eidos, apóia-se na terminologia da Medicina do seu tempo” “Partindo daqui, vemos como o movimento dialético se vai elevando já nos primeiros diálogos até chegar à virtude em si, na unidade da qual Sócrates sintetizava as várias virtudes particulares. A investigação da virtude particular leva constantemente, não a distingui-la das outras, como a princípio poderia parecer, mas sim àquela unidade superior a tudo o que é virtude, ao bem em si e ao seu conhecimento.” “Rep., II, 537C: o verdadeiro dialético é o sinóptico, capaz de abarcar as coisas no conjunto. A mesma descrição do dialético aparece no Fedro, 265D. A síntese do diverso na unidade da idéia.”
“O cotejo do emprego dos conceitos eidos e idea nos diálogos de Platão, para chegar a resultados concludentes, teria de abarcar também outras palavras e expressões usadas para descrever o uno no múltiplo”
“Nenhuma das suas obras contém uma completa exposição da teoria das idéias, neste sentido, nem sequer na época em que a existência desta teoria se pode comprovar por meio de repetidas referências a ela.” “São poucas as passagens em que Platão entra no exame dos problemas mais espinhosos da teoria das idéias. Pelas informações pormenorizadas de Aristóteles sobre a chamada fase matemática da teoria das idéias, na qual Platão procura explicar as idéias com a ajuda dos números, verificamos com assombro que ele e os seus discípulos elaboraram na Academia uma doutrina de cuja existência os diálogos daquele período nem sequer nos permitem suspeitar”
“Aliás, nem é certo que as primeiras obras de Platão não contivessem qualquer alusão à existência da teoria das idéias, pois já no Eutífron, que todos os autores classificam entre os diálogos da primeira fase, fala-se do objeto da investigação dialética como de uma idéia”
CRITER, Neue Untersuchungen über Platon (Munique, 1910)
“Os diálogos menores surgem assim como uma introdução ao problema central do pensamento platônico, nos seus dois aspectos: o intrínseco e o formal.”
“O que se pode assegurar, sim, porque é evidente, é que a tendência histórico-evolutiva do séc. XIX liga pouco demais para as numerosas linhas de conexão que Platão traça entre umas e outras obras, e por meio das quais nos dá a entender que todas elas vão gradualmente cobrindo um grande problema de conjunto e formam uma grande unidade em que o primeiro passo só é plenamente explicado pelo último. (…) SHOREY, The Unity of Plato’s Thought (Chicago, 1904)”
“O repetido fracasso dos esforços empregados em descobrir a verdade e presenciados pelo leitor faz com que este compreenda pouco a pouco, com clareza cada vez maior, a dificuldade de chegar a um conhecimento real e adquira a consciência das premissas que até então admitia como evidentes e que constituem o fundamento da sua própria existência.”
A ETERNIZAÇÃO DA LINGUAGEM ESCRITA: “O poder educador de Sócrates (…) iria (…) conquistar o mundo” Platão como o proporcionador de uma grande maiêutica, de uma vida inteira, como se reproduzira então o “diálogo da vida”. Transmitindo para o futuro as sementes da oralidade original mas restrita no tempo de Sócrates. Neste escopo, Aristóteles devia julgar-se o “aluno perfeito”, que Sócrates e Platão sempre haviam procurado.
3.6 O Protágoras
“Permitimo-nos, por razões de brevidade, conservar a tradução tradicional das palavras gregas arete e episteme por <virtude> e <saber>, respectivamente, apesar de serem ambas equívocas porque têm as conhecidas acepções concomitantes modernas, que as palavras gregas não possuíam. (…) não dar à palavra <saber> o sentido que tem presentemente a palavra <ciência>, em vez do significado espiritual dos valores, daquilo a que os gregos chamam phronesis”
“Protágoras, o diálogo, está envolto num esplendor de alegria juvenil, de engenho e finura espiritual, que não encontramos em nenhuma outra obra platônica.”
“Um jovem discípulo e amigo de Sócrates, Hipócrates, desperta-o, alta madrugada, batendo com força a sua porta e rogando-lhe que o deixe entrar. É que ao regressar a Atenas, na noite do dia anterior, ouviu dizer que Protágoras se encontra na cidade; e tão grande acontecimento emociona-o. (…) E vem ter com Sócrates tão cedo, para lhe rogar que o apresente ao mestre. Como prelúdio do diálogo principal surge agora, no ambiente do pátio da casa onde os 2 personagens passeiam até despontar o dia, uma conversa de puro estilo socrático, na qual Sócrates tenta sondar a firmeza da decisão do jovem Hipócrates e fazer-lhe compreender a aventura em que se vai meter.”
“Neste diálogo, Sócrates não é um ancião venerável como o sofista Protágoras, mas sim um homem na força da idade, o que contribui para acentuar a falta de respeito que inspira. Hipócrates vê nele apenas o conselheiro e o amigo encarregado de lhe facilitar o aceso a Protágoras. (…) se o jovem se quisesse tornar médico, diz-lhe, devia receber o ensino do mais importante dos médicos de seu tempo, o seu homônimo Hipócrates de Cós; se desejasse ser escultor, o de Policleto ou Fídias; portanto, ao dirigir-se a Protágoras para se fazer seu discípulo, parece disposto a abraçar a carreira de sofista. Hipócrates, porém, repele decididamente esta insinuação e é aqui que se acusa uma diferença essencial entre a educação sofística e o ensino dos profissionais: os discípulos particulares do sofista são os únicos que estudam a sua arte com o intuito de mais tarde a exercerem como profissão; os mancebos atenienses de famílias distintas que se juntam a sua volta não têm em vista outra finalidade que não a de o escutarem para <se cultivarem>. O que o jovem do diálogo não sabe dizer é em que consiste esta cultura (paideia), e fica-se com a sensação de que a sua atitude é típica da juventude do seu tempo, ansiosa por se cultivar.”
NÃO ACEITAMOS DEVOLUÇÕES! “Protágoras (…) considerado com realismo, assemelha-se, pois, como fenômeno social, ao mercador e vendedor ambulantes que oferecem ao comprador, por dinheiro, as mercadorias importadas.”
“É claro que Sócrates não se apresenta, de modo nenhum, como um médico desse tipo; mas, uma vez que afirma que para a alimentação do corpo se devem consultar em caso de dúvida, na qualidade de peritos, o médico ou o mestre de ginástica, por si mesma desponta a interrogação de quem será o perito chamado a sentenciar sobre o alimento adequado à alma, quando isso for necessário.”
“Preocupados com o problema da essência do verdadeiro educador, ambos os personagens se põem a caminho para a residência de Cálias, pois fez-se dia e têm de se apressar para visitar o sofista, assediado por visitantes de manhã à noite. O porteiro daquela casa rica já está em estado de irritação, sinal de que não são Hipócrates e Sócrates os primeiros a chegar.”
“profiteri, donde é derivado o termo professor, empregado no Império Romano para designar o sofista dedicado ao ensino.”
Circus comes to town.
Saber é lucrar. Arquétipo: Agostinho.
“Parece contraditório que Platão, por sua vez fundador de uma escola, manifeste-se tão violentamente contra o profissionalismo dos sofistas. A sua escola, porém, baseava-se no princípio socrático da amizade e pretendia continuar, através da sua dialética, a velha forma da educação por meio do trato pessoal.”
“Acostumado a apoiar-se no prestígio educacional dos grandes poetas da Antiguidade, desde Homero até Simônides, e na herança da sua sabedoria, que os sofistas se esforçavam por transformar numa sabedoria escolar sensata e moralizadora, Protágoras inverte os papéis e vê os antecessores da sua arte naqueles heróis do espírito, que sob o manto da poesia queriam ocultar à desconfiada sociedade do seu tempo a sua (de todos e de cada um deles) qualidade de sofistas.”
“Sócrates repara que Protágoras sente-se orgulhoso dos seus novos admiradores, e sugere que se convidem também Pródico e Hípias para a conferência, o que Protágoras acolhe com satisfação.”
“Se um jovem entrasse para aluno de Zêuxis e este prometesse torná-lo melhor, todo mundo saberia em quê: na pintura. Se com o mesmo propósito acorresse a Ortágoras de Tebas, ninguém tampouco ignoraria que neste caso o progresso se referiria à sua instrução como tocador de flauta. Pois bem, em que campo progredirá para o melhor quem receber o ensino de Protágoras?” “À pergunta feita Protágoras não pode responder em nome de todos os que exibem o nome de sofistas, pois entre eles também não existe unanimidade de critério quanto a este ponto. P.ex., Hípias, ali presente é representante das <artes liberais>, sobretudo do que mais tarde se chamaria quadrivium: aritmética, geometria, astronomia e música. Estes ramos do ensino sofístico eram os que melhor podiam fazer jus à pergunta de Sócrates, pois apresentavam o desejado caráter técnico; mas na sua educação Protágoras dá preferência incondicional aos ramos sociais do saber. Entende que os jovens que passaram pelo habitual ensino de tipo elementar e agora aspiram a completá-lo por meio de uma cultura superior que os prepare, não para uma profissão determinada, mas para a carreira política, não desejam entregar-se a novos estudos técnicos determinados, porque é de outra coisa que necessitam, e é isto que ele lhes quer ensinar: a capacidade de se orientarem retamente a si próprios, de orientarem os outros sobre o melhor processo de administrarem a sua casa, e de dirigirem com êxito, em palavras e ações, os assuntos do Estado.”
“Sócrates reconhece que esta é uma elevada finalidade, mas expõe as suas dúvidas acerca da possibilidade de estimular por meio do ensino esta virtude” “Os homens que mais se salientam pelas suas qualidades espirituais e morais não dispõem de meios para transmitirem aos outros as qualidades que os distinguem, a sua arete. Péricles, pai dos dois jovens aqui presentes, deu-lhes uma educação excelente em tudo aquilo para que existem professores, mas naquilo em que a sua própria grandeza se firma ele não os educa nem os entrega a outro para que os eduque, antes os deixa andar à solta, para <instruírem-se livremente>, como se a arete fosse por si própria pousar sobre eles.” O bom nobre à nobreza torna.
“Recolhe, assim, sob forma filosófica, uma idéia fundamental da aristocracia, que Píndaro apresentara e que a pedagogia racionalista dos sofistas preferia deixar de parte, em vez de se deter para refutá-la. Parecia não conhecer limites o otimismo pedagógico dos sofistas; a sua vigorosa concepção intelectual do objetivo da educação contribuía para alentar este otimismo, que parecia, aliás, corresponder à tendência geral do tempo, sobretudo à evolução da maioria dos Estados para a democracia.”
“É evidente que, ao procurar encontrar assim um processo moderno que substituísse, em bases racionais, a antiga e rigorosa educação dada à nobreza, Protágoras demonstrava um sentido muito arguto para captar as necessidades do presente e a mudança operada na situação; mas era precisamente neste ponto que melhor se revelava a falha da paideia sofística.”
“A objeção de Sócrates tem tal caráter de objeção de princípio que obriga Protágoras, desde logo, a desviar a conversa do campo meramente técnico-didático para um plano espiritual superior. Nem todos os sofistas teriam sido capazes de seguir neste terreno o crítico da sua pedagogia, mas Protágoras era o homem indicado para isso. Nas intervenções em que responde a Sócrates detidamente, Platão apresenta-nos com mão de mestre um adversário nada desprezível. Teria sido um mau representante da época pedagógica se não tivesse tomado posição diante daquele problema fundamental de toda a educação ou não estivesse em condições de lutar por ela. A dúvida suscitada sobre a possibilidade de educar o homem partia de experiências individuais contra as quais não havia nada a alegar. É por isso que Protágoras desloca habilmente o ponto de partida e examina o problema sob o ponto de vista dos seus novos conhecimentos sociológicos”“sem aceitar como premissa a possibilidade de educar a natureza humana, todas estas instituições, que de fato existiam, perderiam o sentido e a razão de ser.”
“Esta vasta exposição de princípios permite a Platão fazer com que o grande sofista – que é ao mesmo tempo um mestre da forma – brilhe em todas as modalidades da retórica. Sócrates confessa-se arrebatado e vencido” “A força de Sócrates não está na graça com que narra mitos ou faz longas exposições doutrinais, mas antes na tensão dialética das suas perguntas certeiras, às quais é forçoso retorquir. Esta arte dialética de Sócrates revela-se triunfalmente na tentativa seguinte de atrair o adversário ao seu próprio terreno.”
“não é à luz de uma virtude concreta que Sócrates aponta aqui as relações entre a parte e o todo, mas sim por meio da comparação integral de todas as virtudes entre si, com o que se propõe demonstrar a unidade delas. Que ele, ao fazer isto, proceda, em certos aspectos concretos, de modo mais sumário que nos diálogos menores, não obedece apenas à circunstância de o seu propósito de estabelecer uma comparação completa obrigá-lo precisamente a percorrer um caminho mais longo, e a encurtar, portanto, as etapas; é importante ver também que uma minúcia maior o faria incorrer em repetições, já por si inevitáveis, aliás.”
“Sócrates procura arrancar ao seu interlocutor a concessão de que a justiça e a piedade são essencialmente a mesma coisa ou, pelo menos, coisas muito semelhantes e afins, o que Protágoras aceita, embora contra [a] vontade. Sócrates pretende aduzir a mesma prova a respeito das outras parelhas de virtudes mencionadas, deixando para o fim a valentia, por esta ser de todas as virtudes a que mais se diferencia psicologicamente das outras.”
“A crescente indisposição de Protágoras obriga Sócrates a interromper aqui a conversa, antes de ser ter atingido o seu objetivo” “Protágoras (…) se aproveita para desviar a conversa sobre a virtude e a possibilidade de ensiná-la para outro terreno, o da explicação poética, uma das formas essenciais da paideia sofística.”
“ele tira dos versos de Simônides um sentido congruente com a sua conhecida tese de que nenhum homem pratica voluntariamente o mal.” Diante do fascismo, é mera questão semântica de somenos importância: que em sua cabeça o fascista esteja fazendo o bem, tanto faz. Deve ser execrado e neutralizado da mesma forma que se a tese contrária fosse prevalente (a de que o malvado têm ciência da própria maldade e liberdade de escolha).
“Sócrates interroga a multidão em profundidade, para averiguar a razão por que considera neste caso que o prazer procurado é nocivo, em última instância. E obriga-a a reconhecer que não sabe dar outra razão a não ser que o prazer desfrutado acarreta como conseqüência um mal maior. Por outras palavras: a meta final (TELOS), em relação à qual a multidão reconhece diferenças de valor entre umas e outras sensações de prazer, é, por sua vez, o prazer e só o prazer. É nesta passagem que o conceito fundamental da finalidade aparece pela primeira vez em Platão.” “Pelo fato de isso ser certo é que o <deixar-se arrastar pelo prazer>, que a multidão invoca como motivo, significa apenas que se cometeu um erro de cálculo escolhendo o prazer menor em vez do maior, pela simples razão de ser o que estava mais perto no momento da opção.”
“Investigaremos em outra ocasião, continua Sócrates, qual é esta arte da medida e em que consiste a sua essência; mas o que desde já podemos assegurar é que são um saber e um conhecimento tais que nos podem fornecer a pauta para a nossa conduta, bastando para isso demonstrar o ponto de vista defendido por Protágoras e por mim (Prot., 357). O conceito da medida e da arte de medir (metretike), que se emprega aqui repetidamente e com grande insistência, tem uma importância fundamental para a concepção platônica da paideia e do saber. Aqui aparece primeiramente como simples postulado e, além disso, aplicado para determinar o bem supremo, o qual não pode ser concebido, de modo nenhum, em sentido socrático.”
“Sócrates sublinha expressamente a sua concordância com a tese de que o bom é o agradável e de que isto é, portanto, o critério da vontade e da conduta do Homem. O próprio Protágoras, animado pelo consenso geral, também adere agora, tacitamente, à tese que antes via com certo receio (Qui tacet, consentire videtur [Quem cala consente]). Deste modo, todas as sumidades em educação ali agrupadas sob o mesmo teto acabam por se harmonizar, unânimes, ao nível dos polloi, de que Sócrates partira. Sócrates tem-nos todos presos na armadilha.”
“Com isto, Sócrates obriga os sofistas a aceitarem o seu conhecido paradoxo de que ninguém <procede mal> voluntariamente (…) Partindo dessa concepção é fácil, para ele, resolver o problema, não resolvido ainda, das relações entre a valentia e o saber, acrescentando assim o último elo que faltava a sua cadeia demonstrativa da unidade da virtude, ainda incompleta.”
“Pois bem, se definimos o medo como o pressentimento de um mal, a conseqüência será que Protágoras, ao conceber a valentia como o não-retroceder perante aquilo sobre que incide o temor, incorre em contradição com a tese que todos acabam de assinar, e que afirma que ninguém avança conscientemente para o que considera um mal.” “Chegamos assim à conclusão de que a valentia é essencialmente o mesmo que sabedoria: o conhecimento do que na realidade se deve ou não temer.”
“Sócrates, que não achava a virtude suscetível de ser ensinada, agora busca provar por todos os meios que a virtude é, sob todas as formas, um saber; e Protágoras, que a considerava matéria apta para ensino, faz, ao contrário, grandes esforços para demonstrar que ela é tudo menos um saber (…) O drama finda com o espanto mostrado por Sócrates em face deste resultado aparentemente contraditório”
“Suspeitamos de que Sócrates, dada a descontração com que se manifesta no Protágoras, troça de todos os sofistas e de nós mesmos. E por fim exigimos que nos fale a sério de um problema de tanta seriedade. É isto que ele faz no Górgias, que é, sob muitos pontos de vista, o perfeito irmão gêmeo do Protágoras e o indispensável complemento sério do humor travesso vazado neste.” Velhos não podem sorrir (obra mais tardia de Platão)
3.7 O Górgias
“O ponto de vista extremo nesta questão é o aplicado por WILAMOWITZ, no seu Platon t. I, aos diferentes diálogos. Uma obra como o Fedro, p.ex., onde se investigam as relações entre a retórica e a dialética, é exposta por esta autor sob o lírico título de <Um venturoso dia de Verão>. Não se pode passar por alto da relação entre o ponto de vista de Wilamowitz e o livro de Dilthey intitulado Vida e poesia. A fórmula <vida e poesia>, tirada da lírica moderna, não serve para interpretar os diálogos de Platão.”
“a seriedade do Górgias não se deve exatamente ao fato de nele se refletir um estado de ânimo momentaneamente ensombrado, e a proximidade temporal da morte de Sócrates não é necessária para explicar o pathos grandioso que esta obra respira, como não o é para explicar o fúnebre dramatismo do Fédon, que os mesmos intérpretes situam, no tempo, muito longe da morte de Sócrates e bem perto do jovial Banquete.”
“Górgias de Leontinos, criador da retórica, na forma em que ela havia de pautar os últimos decênios do séc. V, é para Platão a personificação desta arte, tal como Protágoras é da sofística no diálogo que tem o seu nome.” Existe sofística sem retórica e retórica sem sofística?
UMA RETÓRICA AINDA ÉTICA: “a sofística, que é um fenômeno meramente pedagógico (…) Rhetor continua ainda na época clássica a ser o nome para designar o estadista, que num regime democrático precisa sobretudo ser orador. A retórica de Górgias propõe-se formar retóricos neste sentido da palavra.”
“Górgias cita até casos em que a palavra do retórico convenceu um enfermo da necessidade de tomar um remédio ou de se submeter a uma operação, depois de o médico competente ter fracassado nesse intento.”
“É a sua arte que aponta para todo tipo ao qual deverão submeter o seu saber. Não foram os arquitetos e engenheiros navais, cujo saber Sócrates enaltece como modelo, quem levantou as fortificações e os portos de Atenas, mas sim Temístocles e Péricles, que, apoiados no poder da retórica, convenceram o povo da necessidade de realizar estas obras.” “Se um atleta usar a sua força para estrangular pai e mãe, não haverá motivo para disso tornar responsável o seu mestre, pois este lhe transmitiu a sua arte, para que fizesse bom uso dela.” “Quando Górgias afirma que o retórico transmite aos seus discípulos a sua arte para que eles façam <bom uso> dela, parece pressupor que o mestre nesta arte sabe o que é bom e justo e que os seus discípulos já albergam neles, ou recebem do mestre, um saber igual.”
“A descrição deste antagonismo entre o sentimento de poder, ainda meio envergonhado e tingido de moral, da velha geração inventora da retórica e o consciente e cínico amoralismo da nova geração revela a grande arte de Platão para desenvolver dialeticamente, por meio de uma gradação de cambiantes, um tipo espiritual, em todas as suas formas características. (…) três formas fundamentais (…) o aparecimento de cada tipo novo recrudesce a luta (…) Às figuras de Górgias e do seu discípulo Polo vem juntar-se mais tarde, como terceiro e mais coerente representante do <homem retórico>, o estadista Cálicles, que proclama abertamente o direito do mais forte como moral suprema.”
FALAR É CRIAR PODER: “A crítica da segunda parte do Górgias parte da tese que afirma ser a retórica uma techne. O nosso conceito de arte não reflete adequadamente o sentido da palavra grega. Esta tem em comum com a arte a tendência à aplicação e ao aspecto prático. Por outro lado, em oposição à tendência individual criadora não submetida a nenhuma regra (para muitos implícita hoje na palavra arte), acentua o fator concreto do saber e da aptidão, que para nós estão ligados ao conceito de especialidade. [um anti-saber platônico]” “Designa toda profissão prática baseada em determinados conhecimentos especializados e, portanto, não só a pintura, a escultura, a arquitetura e a música, mas também, e talvez com maior razão ainda, a medicina, a estratégia militar ou a arte da navegação.” “neste sentido, o grego techne corresponde freqüentemente, na terminologia filosófica de Platão e Aristóteles, à moderna palavra teoria (…) Techne, por sua vez, distingue-se, como teoria, da <teoria> no sentido platônico de <ciência pura>, já que aquela teoria (a techne) é sempre concebida em função de uma prática.”
“Conforme os contextos, pode acontecer em Platão a palavra episteme em vez da palavra techne, quando lhe interessa destacar o fato de esta <arte> política ter como base um verdadeiro <saber>.”
“Sócrates (…) divide a lisonja em 4 classes: a sofística, a retórica, a <arte> da perfumaria e a <arte> culinária.” Paladar, olfato, tato (social!)… só faltaram a <arte> de ler ou contemplar esculturas e a <arte> de ouvir música.
“A vida do Homem divide-se em vida da alma e vida do corpo, e ambas requerem uma arte especial para velar por elas. Os cuidados da alma incumbem à política ou arte do Estado (e esta correlação, surpreendente para nós, lança uma luz esplendorosa sobre o objetivo final de Platão, ou seja, a arte do Estado, e sobre o sentido completamente novo que ele dá a este conceito)[uma sociedade em que a psicologia se tornou um ramo epistemológico é uma sociedade falida, a necrose da política]; a arte destinada a velar pelo corpo carece de nome especial. E ambas as artes – a que consiste em velar pela alma e a que versa sobre os cuidados do corpo – subdividem-se por sua vez em duas espécies, das quais uma corresponde à alma sã ou ao corpo são e a outra vela pelo corpo ou alma enfermos. O ramo da política chamado a velar pela alma sã é a legislação, enquanto a alma enferma reclama os cuidados da administração prática da justiça. Dos cuidados do corpo sadio se encarrega a ginástica; os do corpo doente são matéria da Medicina. As 4 artes encaminham-se para a consecução do melhor (…) Como variantes da lisonja, correspondem-lhes 4 imagens ilusórias: à legislação, a sofística; à justiça, a retórica; à ginástica, a <arte> da perfumaria; e à Medicina, a <arte> culinária. [!] Estas já não visam à consecução do melhor no Homem, mas aspiram somente a lhe agradar. Para isso, agem à base da mera experiência e não, como as verdadeiras artes, sobre o fundamento de um princípio firme e do conhecimento”
“As características essenciais do conceito de techne são: primeira, é um saber baseado no conhecimento da verdadeira natureza do seu objeto; segunda, é capaz de dar conta das suas atividades sempre que tem consciência das razões”
“O modelo que Platão apresenta nesta análise da essência de uma verdadeira techne é a Medicina. (…) A <arte política>, que é a meta da filosofia e da cultura novas que se procuram fundar, é concebida como uma medicina da alma.”
“Tal como no Protágoras, Platão pretende aqui demonstrar que os sofistas e retóricos, embora tenham aperfeiçoado até o requinte os meios técnicos de cultura e de influência sobre os homens, continuam a dar guarida às idéias mais primitivas (…) Platão opõe um novo humanismo ao humanismo dos sofistas e retóricos.”
“Polo (…) não consegue compreender como Sócrates pode não julgar apetecível o poder do tirano. E resta-lhe ainda o último trunfo, que ele joga, ao perguntar se porventura não se deve julgar ditoso o rei dos persas. E, como Sócrates responde: Não sei, pois ignoro qual é a sua paideia e a sua justiça, [sua formação e adestramento, sua criação e seu autofreio] Polo, sem se poder conter, atira-lhe esta pergunta surpreendente: Como? É nisso que se baseia toda a felicidade?”
“Temos de optar entre a filosofia do poder e a filosofia da educação.”
“Rep., 444C-E. A arete é a saúde da alma; é portanto, o estado normal, a verdadeira natureza do Homem.”
“Sempre se suspeitou que por trás de Cálicles se ocultava uma certa personagem histórica da alta sociedade ateniense daquele tempo. Essa hipótese é muito verossímil e tem até certa probabilidade psicológica. (…) É, sem dúvida, uma figura tão histórica como Anito, inimigo de Sócrates e adversário dos sofistas, que aparece no Mênon; no caso, é indiferente que Cálicles fosse o nome real do personagem ou simplesmente um pseudônimo.”
“Cálicles é o 1º dos defensores da retórica que ao ataque moral de Sócrates contra ela opõe um pathos de verdade própria. Reata desse modo a discussão sobre a retórica, encarada como instrumento da vontade de poder, discussão que Sócrates, com a inversão dialética do conceito de poder, fizera derivar, em seu favor, para o ético.”
“No conceito de Cálicles, poder defender-se a si próprio constitui o critério do verdadeiro homem e uma espécie de justificação ética da tendência ao poder, como se o Estado primitivo se prolongasse até o presente. Quem não puder defender-se quando sofrer uma injustiça, mais lhe valerá morrer. Cf. Górg., 483B.” “As leis, a massa é quem faz, quer dizer, os fracos, que são os que concedem louvores e censuras segundo o padrão das suas conveniências.”
“quando entra em cena um homem verdadeiramente forte, pisa em todo aquele amontoado de letras que são as nossas leis e instituições contrárias à natureza, e imediatamente volta a brilhar a chama do direito natural.”No caso de ser um homem verdadeiramente fraco, ídolo e ícone dos lumpen, chegou-se à desintegração máxima. É o direito natural não de uma casta legisladora na verdadeira acepção da palavra, mas o direito natural das bestas-feras.
“Cálicles vê na educação apenas adestramento orientado no sentido de extraviar e iludir sistematicamente as naturezas fortes e a manter de pé o poder dos fracos. [Suma do Capital: pedagogia moderna] A formação começa na infância, como com os animais selvagens que se quer domesticar.” “Na concepção da lei como uma prisão contrária à natureza, Cálicles coincide com o sofista Antifonte e com a sua teoria do nomos e da physis.”
“como cairá no ridículo sempre que pretender agir como pessoa privada ou pública, cada vez irá refugiando-se mais nos seus estudos, pois só neles se sentirá seguro. De tudo isto se depreende que, para fins de formação de paideia, é conveniente não se dedicar à filosofia senão durante certo tempo, pois, se o prazo deste estudo se prolonga, uma pessoa liberal torna-se servil, num estudo que agrilhoa o espírito e rouba totalmente a garra ao Homem. Esta maneira de encarar a paideia como uma simples fase da formação, para a qual se requerem só uns tantos anos, manifesta um perfeito antagonismo em relação ao elevado conceito de Platão, para quem ela abarca toda a vida do Homem.”
“De que lhe adiantaria – diz – a sua filosofia da resignação perante a injustiça, se um belo dia o sepultassem na prisão e o acusassem injustamente de qualquer delito? Poderia acontecer que o acusassem de crime de morte, sem que ele <pudesse defender-se>. Podia acontecer que o esbofeteassem e que o autor da injúria se retirasse impune. A alusão à morte de Sócrates realça a força das palavras do cru realista aos olhos do leitor desta cena, que se supõe ocorrida muito tempo antes da condenação de Sócrates à morte.¹
Sócrates está satisfeito por ter enfim encontrado um adversário que diz abertamente o que pensa. Se conseguir fazê-lo incorrer também em contradição, já ninguém poderá objetar que Cálicles não exprimiu a sua verdadeira opinião, como Górgias e Polo.”
¹ Ao leitor cristão é inevitável também a associação com Cristo: sua altíssima e exigente moral demanda que a bofetada não seja paga nem defendida. Ninguém é digno de seguir esta elevada moral. Não há, no caso de Cristo, sentimento interno de injúria, nem ressentimento pela impunidade daquele que esbofeteia. Desde a bofetada já há uma corrupção: o não-nobre não está no lugar de esbofetear o nobre. Sequer passa pela sua cabeça – não se trata de sanção judicial ao ato vil. Isso, claro, numa República. Está errado bater como também está errado apanhar. É como a situação da mendicância na contemporaneidade: o princípio do justo caminho já foi perdido. Diante deste quadro, e somente deste quadro, tudo é permitido, nobres e vilões estão em equanimidade. Era do chorume.
“Os modernos intérpretes de Platão fizeram muitas vezes da contradição entre esta maneira de definir o telos e a definição hedonística que dele se dá no Protágoras o ponto de partida para toda a sua concepção da evolução platônica, dando por certo que, até o Górgias, Platão não se elevou à altura moral do Fédon, com cuja tendência ao ascetismo e à positiva valoração ética da <morte> aquele coincide também.”
“basta substituir, como norma, o prazer pelo bem, que é considerada a mais exata de todas as medidas por Platão, no Filebo, e por Aristóteles no Político, obra de juventude ainda acentuadamente platonizante.” O Político aristotélico não deve ser confundido com a sua Política, muito menos com o Político platônico.
“E, como inequivocamente o Górgias nos ensina, a arete é aquilo cuja parousia faz os bons serem bons: quer dizer, é a Idéia, o protótipo de tudo o que é bom.”
“Se o prazer e o desprazer não podem servir de norma à nossa conduta, a retórica tem de abandonar o posto diretivo que os seus representantes lhe atribuíam nos mais importantes assuntos da vida do Homem” “A escolha acertada do agradável e do desagradável, que só tenha a preocupação de saber se é bom ou mau: eis a missão decisiva da vida humana. Isto, porém, como o próprio Cálicles concede laconicamente a Sócrates, não incumbe a qualquer um.”
“É agora que ganha significado pleno a interrogação de Sócrates sobre o caráter da retórica como saber, com que o Górgias principia. (…) dois tipos de vida (bioi) diferentes. Um baseia-se nas artes da lisonja, que na realidade não são artes, mas simples imagens enganosas delas. Atentando para a modalidade principal deste gênero, nós a chamamos de ideal retórico da vida.” “Em face dele aparece o tipo de vida filosófico. (…) trata-se, portanto, de uma verdadeira techne no pleno sentido da palavra (…) Esta terapêutica não existe só para o indivíduo, mas também para a coletividade. Por conseguinte, também a lisonja pode incidir sobre o indivíduo e sobre a massa. Platão aduz como exemplos da 2ª vários gêneros de poesia e de música, a música de flauta, a poesia coral e ditirâmbica e a tragédia. Todos eles visam exclusivamente [a]o prazer e, se neles descontarmos o ritmo, o metro e a melodia, ficará só a pura demegoria e a eloqüência pública (para a atitude negativa de Platão contribui, pois, a degeneração virtuosista da arte, na sua época). Esta concepção da poesia como parte da eloqüência, que mais tarde, adiantada já a Antiguidade, se generalizaria, aparece aqui pela 1ª vez, e tem em Platão um sentido francamente pejorativo.” “A análise da poesia segue a mesma linha que a da sofística e a da retórica, no Protágoras e no Górgias(…) O demos perante o qual o poeta aparece como retórico não é somente a parte masculina da cidade, mas uma massa mista de crianças, mulheres e homens, de livres e de escravos. No entanto, a retórica de primeiro plano, a que se dirige aos homens da cidade, ou seja, a retórica política, também não é melhor que o gênero por nós denominado poesia”
“Se a grandeza de um estadista consiste realmente em satisfazer os seus próprios apetites e os da massa, então é indubitável que tais políticos merecem a fama que a História lhes confere. Porém, se a missão do estadista é infundir às suas obras determinada forma, um eidos tão perfeito quanto possível, para em seguida se orientar por ele, como fazem o pintor, o arquiteto, o construtor naval e todo e qualquer técnico, ordenando de modo lógico as partes do todo para que se ajustem bem, então chegaremos à conclusão de que aqueles estadistas não passaram de uns incompetentes. Assim como toda a produção de arte tem a sua forma e a sua ordem, de cuja realização depende a sua perfeição, e assim como o corpo humano tem o seu próprio cosmos, que chamamos de saúde, também na alma existe um cosmos e uma ordem.”
“É certo que antes de Platão a língua grega não usa o termo cosmos neste sentido de ordem legal interior da alma; conhece, porém, o adjetivo kosmios, para exprimir uma conduta refletida e disciplinada. Também a lei de Sólon falava da eukosmia da conduta pública dos cidadãos e principalmente da juventude.”
“devendo recordar-se que, no grego, a palavra <bom> não tem apenas o estrito sentido <ético> que hoje se dá a ela, mas é o adjetivo correspondente ao substantivo arete, e portanto designa toda a classe de virtude ou excelência.” “quando a língua grega designa o bem-estar com a expressão <fazer bem>, esta expressão encerra, para Platão, uma sabedoria mais profunda que a advertida por aqueles que a empregam: (…) <fazer bem> assenta pura e exclusivamente no <agir bem>.”
“O que entre os deuses e os homens tem vigor não é a pleonexia, a ambição por mais; é a proporção geométrica. Mas de geometria nada entende Cálicles.”
“Se se tratasse de se proteger contra as injustiças sofridas, não haveria outro caminho senão o de submeter-se incondicionalmente ao sistema político vigente na sua época. Quando um tirano furioso e desprovido de paideia domina o Estado, não tem outro remédio senão temer todo aquele que esteja espiritualmente acima dele. Jamais se poderá, pois, tornar seu amigo, e desprezará, ao mesmo tempo, os que forem piores do que ele. Por conseguinte, o tirano não poderá ter por amigos senão os que lhe sejam semelhantes, os que louvem e censurem o mesmo que ele louva e censura, e estejam, além disso, dispostos a se deixarem dominar por ele.”
“Ambos aparecem colocados diante do mesmo problema: o de como se devem comportar para com o <tirano> do seu Estado – o demos ateniense – que exige sejam (sic) incondicionalmente respeitados os seus desejos. Sócrates mostrou que não ignora as conseqüências que a sua franqueza lhe pode acarretar e que está disposto a afrontá-las pelo bem da pátria. É Sócrates, o representante da virtude, quem é o herói. Cálicles, o defensor da moral do senhor, do direito do mais forte, é na realidade o homem fraco, que se adapta exteriormente para dominar, mediante a hábil flexibilidade do homem de palavras.”
“Cálicles e Sócrates aparecem agora como a mais perfeita encarnação destes dois tipos de homem: o adulador e o lutador.”
“É Platão quem, seguindo correntemente o hábito socrático da indagação dialética, introduz o conceito de exame na educação superior. Na República edifica totalmente sobre esta base a cultura do governante. Trata-se de um conceito tirado das technai dos especialistas: do médico, do arquiteto, etc., como o próprio Platão nos dá a entender pelos exemplos.”
“Pelo que os seus críticos dizem dele, Péricles tornou os atenienses ociosos, covardes, tagarelas e ambiciosos, quando introduziu o pagamento de gratificações. Recebeu-os relativamente sossegados das mãos dos seus predecessores para convertê-los num povo revoltado, como a sua própria sorte o prova. Címon e Temístocles foram por esse povo enviados para o exílio, e Milcíades esteve para ser lançado no Hades.”
PRINCÍPIO DA ARETE DO S-H: “Ainda não existiu um estadista no sentido socrático da palavra. Os estadistas famosos de Atenas foram meros servidores do Estado, em vez de serem educadores do povo. Converteram-se no instrumento das fraquezas da natureza humana, que procuraram explorar, em vez de as superarem por meio da persuasão e da coação.”
“Ninguém fale, porém, de ingratidão do povo que derrubar e expulsar os seus governantes. É o velho subterfúgio dos sofistas que têm a pretensão de educar os homens na virtude e se queixam de ingratidão quando os discípulos se portam mal para com eles e se recusam a pagar-lhes os honorários. Entre o sofista e o retórico não há diferença essencial, a não ser que por ela entendamos ser o retórico, que com tão grande desdém olha o sofista, muito inferior a ele na realidade, exatamente como o juiz o é em relação ao legislador e o médico em relação ao ginasta. Quando o retórico ou o sofista acusam quem dizem ter <educado>, é a si próprios e a sua educação que na realidade acusam.”
“A opção pré-existencial da sorte da vida no além, que Platão pinta no final da República (617B-620D), serve de fundo metafísico a esta opção terrestre. A passagem do Górgias é, por sua vez, o desenvolvimento do tema da Apologia (29D) em que Sócrates opta também, ante o perigo iminente que ameaça a sua vida, pela conservação do seu bios filosófico.”
“creio que somos pouquíssimos os atenienses (para não dizer que sou eu só) que nos esforçamos por praticar a verdadeira arte do Estado; talvez seja eu o único a defender a causa do Estado entre os homens deste tempo.”
“É no Górgias que Platão abandona pela 1ª vez a simples atitude de exame e investigação predominante nos diálogos anteriores; apresenta ali o filósofo, na época em que esta investigação, de aparência meramente intelectual, e à qual ele atribui um tão alto valor para uma conduta reta, desvenda toda a sua profundidade, e em que o jogo, que ele veio seguindo de modo tão inexplicavelmente apaixonado, se transforma em luta contra o mundo inteiro, luta que exige o sacrifício da própria vida. Nos primeiros diálogos de Platão, a partir do Críton, soam de preferência os arpejos claros e alegres desta música filosófica, os quais atraem todos os amantes das musas. Mas quem não treme quando de repente ouve ressoar no Górgias as vozes profundas e brônzeas da sinfonia socrática e por trás daquela perfeita alegria capta o motivo da resignação diante da morte? Pela 1ª vez desde a Apologia aparecem aqui fundidas num todo a vida e a doutrina de Sócrates. Por entre a aparente indecisão lógica dos diálogos de Sócrates resplandece aqui a resolução incondicional da existência socrática, certa da sua meta final, uma existência, portanto, que já de algum modo deve possuir aquele saber tão ardentemente desejado e que exclui qualquer possibilidade de uma opção errônea da vontade.”
“Platão expõe-no com a certeza – adquirida na unidade da palavra e da realidade na pessoa do seu mestre – de isto ser pura e simplesmente o autêntico Ser. O Górgias desvenda ao nosso olhar uma nova valoração da vida.”
“Não é fácil considerar o Sócrates histórico o autor destas livres adaptações literárias dos mitos religiosos, mesmo que de vez em quando neles prendesse a atenção. Mas também não se pode aceitar, por corresponder a uma concepção excessivamente tosca da verdade espiritual, a hipótese tão difundida de que foi nas suas viagens ou de outro modo qualquer que Platão assimilou a influência dos mistérios órficos ou outros mitos parecidos, e os combinou, na sua concepção, com a ética socrática. [talvez se refira principalmente a Nietzsche? Pouco provável, haja vista a nota de rodapé a seguir.]Os mitos platônicos sobre o destino da alma no além-morte não são produtos dogmáticos de nenhum sincretismo histórico-religioso.(*) Interpretá-los assim seria menosprezar completamente a capacidade poética criadora de Platão, que neles atinge um dos seus pontos culminantes.
(*) Neste erro incorre a maioria dos investigadores que abordam o elemento órfico de Platão, movidos pelo interesse do historiador das religiões. O que vai mais longe neste sentido é Macchioro, que faz derivar do orfismo a maior parte da filosofia de Platão.”
Há 3 mundos e 4 reinos aquáticos no mais inferior deles (Fédon), mas quem liga, se somos apenas homens da segunda caverna que irão parar no Hades ou não? Nossa integridade ética ou a falta dela não se alterarão por causa disso.
SOBRE O VALOR DOS VALORES DE UM PONTO DE VISTA EXTRA-MORAL: “Sem um tal ponto de apoio num mundo invisível, a existência do homem que vive e pensa como Sócrates perderia o equilíbrio, pelo menos se for vista pelos olhos de seres limitados ao mundo dos sentidos. A verdade da valoração socrática da vida só se podia compreender se referida a um <além>, tal como o descrevia a linguagem vigorosa e sensível das representações órficas da vida post-mortem: uma morada onde se podia emitir um juízo definitivo sobre o valor e o desvalor, a felicidade e a ruína do Homem, onde a <própria alma> era julgada pela <própria alma>, sem o invólucro protetor e enganoso da beleza, da posição social, da riqueza e do poder. Este <juízo>, que a imaginação religiosa transpõe para uma 2ª vida, situada para além da morte, torna-se para Platão uma verdade superior, quando procura desenvolver até o fim o conceito socrático da personalidade humana como um valor puramente interior, baseado em si próprio.”
“as injustiças passadas perduram na alma e formam a essência dela.”
“As incuráveis – na maioria almas de tiranos e homens de poder, que já não é possível salvar com nenhuma terapêutica – são erigidas em exemplos eternos, paradeigmata,¹ para benefício das outras.”
¹ Paradigma e também arquétipo, norma.
“Platão põe agora na pessoa do seu mestre a sua própria convicção apaixonada de ser Sócrates o verdadeiro educador de que o Estado precisa, e faz com que Sócrates, cheio de um sentimento da própria personalidade e com um pathos nada socrático, mas inteiramente platônico, denomine-se, baseado na sua pedagogia, o único estadista do seu tempo.”
“Enquanto na Apologia este conflito podia ainda aparecer aos olhos de certos leitores como uma catástrofe isolada, o Górgias põe a descoberto que o pensamento de Platão gira sem cessar em torno daquele conflito.” “A Carta Sétima esclarece com precisão a perene importância filosófica que esta experiência vivida tem para Platão, e o faz com tal brilho que a obra e o testemunho pessoal se completam do modo mais perfeito.”
“A crítica do Górgias dirige-se de maneira tão exclusiva contra os estadistas atenienses do presente e do passado, que há a aparência de que a vontade reformadora de Platão admitiria ainda a possibilidade de uma transformação política na sua própria pátria. No entanto, a Carta Sétima prova que já naquela época Platão não admitia tal possibilidade. Como é que o espírito socrático podia penetrar num Estado refratário até a medula, como o ateniense? Por trás do Górgias ergue-se já a idéia do Estado dos filósofos. A crítica demolidora do Estado histórico, contida nesta obra, não tende para a revolução violenta nem é a explosão de um fatalismo sombrio, de um estado de espírito calamitoso, o qual teria sido compreensível depois da bancarrota interna e externa de Atenas, subseqüente à guerra do Peloponeso.”O que é então? Um ligeiro escapismo que duraria 3 mil anos.
“Para a maneira moderna de sentir confundem-se aqui duas missões distintas que, pelo menos até há pouco, era costume separarmos com rigor. A nossa política é política realista, a nossa ética individual, idealista.” “Foi no tempo de Sócrates que esta unidade sofreu o primeiro abalo sério. As razões do Estado e o sentimento moral dos indivíduos começaram a divorciar-se cada vez mais abertamente, à medida que se embrutecia a vida política e se tornava independente e mais afinado o sentimento moral dos melhores indivíduos. Esta ruptura da 1ª harmonia entre a virtude humana e a virtude cívica (…) constitui a premissa histórica do pensamento platônico sobre a filosofia do Estado. Era agora revelado que o poder do Estado de submeter os espíritos ao seu império – poder evidente na antiga cidade-Estado – tinha o seu reverso perigoso. Com o tempo, forçosamente levaria os indivíduos de cultura superior a enveredarem por atalhos e a afastarem-se do Estado ou a aplicarem-lhe a sua norma ética ideal, gerando desse modo um conflito insolúvel entre o seu modo de ver e o Estado real.”
A Idéia de Ser do Filho de Deus não é animada, mas um quadro na parede.
“segundo o modo de ver de Platão, o Estado não pode ficar para trás em face desta evolução moral e tem de encetar o caminho de se converter em educador e médico de almas ou então resignar-se, caso não queira assumir esta missão, a ser considerado um organismo degenerado e indigno da sua autoridade.”
“Longe de se opor ao saber profissional, é deste que ele tira o seu ideal.” “É precisamente ao chegar ao ponto da evolução em que esperamos deparar com o moderno conceito de consciência pessoal e de livre decisão moral do indivíduo que nós vemos este conceito ser de novo eliminado e em seu lugar instaurada uma verdade filosófica objetiva que reivindica para si o direito de dominar toda a vida da comunidade humana e, portanto, do indivíduo.”
Aquela brincadeira de infância: o último a chegar é a mulher do tirano.
3.8 O Mênon
“No Protágoras, Sócrates procurara ganhar os sofistas para a sua causa. Mas quanto mais tentava aprofundar a sua tese de que a virtude só podia ser, em última instância, um saber, afastando-se assim da sua primitiva negação da possibilidade de a virtude ser ensinada, mais Protágoras resistia a aceitar que a sua pretensão de passar por mestre da virtude só podia ser salvaguardada mediante a aceitação do axioma socrático de que a virtude é um saber.”
“uma vez estabelecida a equivalência entre a virtude e o saber e esclarecida a importância deste saber-virtude para toda a educação, tornava-se urgentemente necessária uma investigação especial do problema do que era o saber assim concebido. Pois bem, o Mênon é o primeiro diálogo em que se aborda esta investigação. Esta é, aliás, a obra mais chegada no tempo ao grupo de diálogos que anteriormente comentamos, e constitui, portanto, a resposta mais imediata de Platão ao problema colocado no Protágoras: que espécie de saber é aquele que Sócrates considera fundamental para a arete?” “Em nenhum momento poderia haver um programa da sua escola que limitasse a filosofia ao problema do saber, principalmente se esta palavra se concebe com a generalidade abstrata da moderna teoria do conhecimento e da lógica moderna.”
“Segundo Platão, é em começar por inquirir primeiro o que é a arete em si, antes de se aventurar a dizer como se entra na posse dela, que se baseia a nova formulação do problema por Sócrates. Quando Sócrates condiciona a aquisição da arete à solução do problema da sua essência, ou seja, a um difícil e complexo processo intelectual, isto significa que a arete passou a ser algo problemático para ele e para a sua época.”
“Mênon aprendeu com Górgias, seu mestre, a distinguir a virtude do homem e a da mulher, a do adulto e a da criança, a do homem livre e a do escravo.”
“Este algo, a partir de cujo ponto de vista as virtudes não aparecem múltiplas e distintas, mas, ao contrário, são todas uma e a mesma virtude, é o que Platão denomina eidos. (…) A locução <olhando para> aparece com freqüência na pena de Platão e exprime plasticamente a essência do que ele entende por eidos ou idea.” O Ser grego é acessível através da visão, e não da reflexão cartesiana da representação. O olho reflete a luz (as cores, a forma) assim como na era moderna a ‘mente’ reflete a própria ‘idéia’ (o próprio olho refletindo a forma)!
“o eidos platônico se elabora de maneira absolutamente concreta, com base no problema da virtude (arete). Se queremos saber o que é a saúde, não vamos averiguar se ela se manifesta de modo diverso no homem, na mulher, etc., mas procuramos, sim, captar o eidos, sempre e em todas as partes idêntico, da saúde.”
“Precisamente, o eidos do bem ou da arete, do qual Platão fala, não é outra coisa senão esta concepção do bem <em totalidade>. O característico disso é que este bem <em totalidade> é ao mesmo tempo designado por Platão como o verdadeiro real e existente, o que repugna a uma equiparação com o nosso <conceito> lógico, com o universal. No Mênon, tal como nos diálogos anteriores, não deparamos nunca com uma verdadeira definição da arete, e é evidente, aliás, que semelhante definição não tem de momento nada que ver com o problema da virtude em si, quer dizer, da idéia. O <que é> é explicado como idéia e não como definição.”
“É Aristóteles quem, de certo modo, rompe a marcha por este caminho errado, ao sustentar que foi Sócrates quem primeiro procurou definir os conceitos universais, que Platão hipostasiou em uma realidade ontológica e assim inutilmente duplicou.” “A maioria dos lógicos modernos segue os passos de Aristóteles nesta reconstituição do processo interior que levou Platão a estabelecer a teoria das idéias. A <escola de Marburgo>, que durante algum tempo preconizou com grande insistência e em numerosas publicações uma nova interpretação platônica, declarou-se energicamente contrária à concepção aristotélica. Veja-se principalmente Paul NATORP, Platos Ideenlehre (Marburgo, 1910). Esta reação não levou diretamente a esclarecer a compreensão da verdadeira posição histórica dos dois grandes filósofos, porque pecava em sentido contrário. (…) Julius STENZEL, no seu primeiro livro, Studien zur Entwicklung der platonischen Dialektik (Breslau, 1917, trad. inglesa de D.J. Allan, Oxford, 1940[op. cit. em negrito]), foi quem soube tirar as conclusões acertadas desta tentativa frustrada da escola de Marburgo e aprofundar a verdadeira situação histórica da lógica platônica do Ser.”
“Este conceito lógico universal parece tão evidente aos olhos de um moderno que se considera simples apêndice fastidioso e problemático aquilo em que a idéia platônica ultrapassa este conceito (…) ainda que nós distingamos claramente em Platão os 2 aspectos – o do lógico universal e o do ontológico real –, o certo é que para ele formam absolutamente uma unidade.”
“os equívocos dos intérpretes modernos não provêm tanto de se interpretarem mal as palavras do próprio Platão, coisa dificilmente concebível em si mesma, como do fato de para elas terem transferido certas noções lógicas de origem posterior.” “Na opinião de Aristóteles, Platão fizera dos conceitos universais entidades metafísicas, atribuindo-lhes uma existência independente, separada das coisas captadas pelos sentidos. A verdade é que Platão nunca deu o segundo passo (o de <hipostasiar> os conceitos), simplesmente porque também não dera o primeiro, ou seja, a abstração dos conceitos universais como tais. Longe disso: para ele, o conceito lógico aparece ainda completamente envolto na roupagem da idéia.”
“A relação destes esforços dialéticos comuns com o ato de visão intelectual que aparece no fim deste caminho esclarece-se na Carta VII, por meio da comparação com o ato de friccionar 2 pedaços de madeira até fazerem fogo.”
“Além do alto grau de consciência lógica que Platão revela constantemente neste diálogo, é eloqüente neste sentido principalmente a grande quantidade de termos técnicos que ele usa para designar os seus diferentes passos metódicos. Para fazer um <exercício>, como Platão faz aqui, é necessário dominar as regras que se querem tomar como base. Neste sentido, é muito instrutiva a arte consciente da ilustração dos processos lógicos por meio de exemplos (paradigmas), cuja função Platão põe continuamente em relevo.”
“a essência não admite, como p.ex. o Fédon ensina, um mais e um menos, e nenhuma figura o é em maior ou menor grau que outra qualquer. O círculo não é figura em grau mais alto do que o retângulo. Cf. Fédon, 93B-D etMênon 74E.” // Geometria aristotélica: círculo é a figura por excelência.
arte experimental x a priori autocontido em si mesmo
“Enquanto o Górgias, para traçar o esboço de uma nova techne ético-política, tomava antes a Medicina por modelo, o Mênon segue principalmente o exemplo das matemáticas.”
A transposição acima, da arte médico-hipocrática às matemáticas, obriga a entrada da reminiscência no arcabouço platônico. A idéia de reminiscência se torna uma necessidade filosófica (reminiscência como visão interior preexistente):
“Para se aproximar da natureza desta intuição interior, Platão recorre ao mundo de idéias do mito religioso. E como os gregos não podem representar-se nenhuma intuição sem objeto real, e por outro lado o espírito do Homem – p.ex., o do escravo da investigação geométrica anterior – não viu nem conhece ainda nada de semelhante, Platão interpreta a existência potencial do conhecimento matemático na alma como uma visão comunicada a esta numa vida anterior.”
“Interessa menos a Platão a idéia da imortalidade, como base necessária para o seu conceito da personalidade moral, do que a possibilidade de essa idéia servir de fundo a sua nova teoria de um saber de certo modo inato na alma do Homem. Sem aquele fundo, este saber ficará reduzido a uma idéia pálida e vaga. Em contrapartida, em conexão com a preexistência, abrem-se perspectivas inimagináveis em várias direções, e o conhecimento do Bem em si, que se investiga, alcança a completa independência em relação a qualquer experiência exterior e uma dignidade quase religiosa.”
“Sócrates sempre se detivera no não-saber. Platão, ao contrário, sente-se impetuosamente impelido a ir avançando até alcançar o saber[impossível por definição, caso em que nos tornaríamos deuses, cf. O Banquete]. Apesar disso, é na ausência de saber que ele vê o sinal da verdadeira grandeza de Sócrates, pois Platão interpreta-a como as dores do parto de um tipo completamente novo de saber, que Sócrates trazia nas entranhas. Trata-se daquele conhecimento interior da alma que o Mênon procura captar com precisão e descrever pela 1ª vez: a intuição das idéias. (…) E não foi porque só a partir desse momento Platão tivesse sido capaz de vê-la assim; é que ele só a julgou possível de assim ser explicada aos outros a partir do momento em que abordou a tarefa de expor a natureza maravilhosa deste saber, que descobria dentro de si próprio a raiz da suacerteza.” “Platão demonstra logo, à luz do exemplo matemático do episódio do escravo, que a aporia é precisamente a fonte do conhecimento e da compreensão.” “A digressão matemática do Mênon serviu para pôr em destaque a fecundidade educadora das aporias e para as apresentar como a primeira fase na senda do conhecimento positivo da verdade.” “No Mênon não faz mais do que indicar a teoria de que o saber socrático é reminiscência, bem como a teoria da imortalidade e da preexistência, que haviam de ser desenvolvidas mais tarde, no Fédon, na República, no Fedro e nas Leis. (…) A aspiração à verdade não é outra coisa senão a expansão na alma do conteúdo que por natureza ela contém.” “Não é por alguém lhe ensinar, mas sim por tirar do seu próprio espírito o saber, que o escravo descobre a verdade da regra matemática.”
“A coragem de investigar aparece aqui como a característica da verdadeira virilidade. Trata-se, evidentemente, de explicar as censuras de críticos como Cálicles, segundo os quais a entrega permanente à filosofia produzia efeito deprimente e tirava a virilidade ao homem.”
“Fica, todavia, sem determinação plena a relação entre a justiça e a virtude por antonomásia e vemos que a essência desta não fica esclarecida por aquela definição, em que se comete o erro lógico de querer explicar a essência da virtude mediante uma parte dela, que é a justiça.” Só o sábio (detentor do valor dos valores) pode arbitrar. Não se arbitra sobre o valor dos valores, apenas sobre os valores, com base no valor dos valores.
“a experiência parece demonstrar que não existem professores de virtude, e que até hoje nem os homens mais importantes do passado e do presente de Atenas foram capazes de transmitir aos próprios filhos as suas virtudes e o seu caráter. Sócrates está disposto a admitir que aqueles homens possuíam a arete, mas, se esta consistisse num saber, teria por força de se ter manifestado como força educadora.”
EU SEI, MAS NÃO SEI COMO SEI: “Assim, ao terminar o Mênon, continuamos, aparentemente, no mesmo lugar em que estávamos no Protágoras. Mas isto é só aparência, pois na realidade o novo conceito do saber que com o auxílio dos exemplos matemáticos adquirimos na parte central do Mênon abre-nos as perspectivas para um tipo de conhecimento que não é suscetível de ser ensinado do exterior, mas nasce na própria alma de quem o inquire com base numa orientação correta do seu pensamento. Em Platão, o encanto da arte socrática do diálogo consiste em que nem sequer aqui, quando estamos tão próximos de alcançar o resultado, ele nos serve por suas mãos, mas faz com que o encontremos nós próprios.” “Com efeito, a nova paideia não é suscetível de <ensino>, tal como os sofistas o concebiam, e deste ponto de vista Sócrates tinha razão ao negar a possibilidade de educar os homens pelo simples fato de instruí-los.”
“uma vez que o ensino dos sofistas não conduz à arete e a arete que os estadistas possuem por natureza não pode transmitir-se a outros, parece que só por obra do acaso divino a arete pode existir no mundo, a não ser que se encontre um estadista capaz de converter em estadista um outro homem. Todavia, esta expressão <a não ser que>, que facilmente poderia passar despercebida, contém na realidade a solução do dilema, pois já sabemos pelo Górgias que, segundo a paradoxal tese de Platão, é Sócrates o único verdadeiro estadistas que torna os homens melhores.”
“um talento e um dom naturais que não saibam dar razão de si próprios.”
“Já antes de abandonar o corpo, o espírito de Sócrates paira no Fédon, como o cisne apolíneo sobre as pradarias do Ser puro; no Banquete, em contrapartida, Platão apresenta o filósofo como a forma suprema do homem dionisíaco e o conhecimento da beleza eterna, a cuja visão ele se eleva, como a satisfação suprema do primitivo impulso humano, do eros, do grande daimon que mantém coeso, interior e exteriormente, o cosmos. Na República, finalmente, o saber do filósofo revela-se como a fonte, na alma, de toda a força legisladora e criadora de comunidades.”
“o conhecimento do <sentido> é a força criadora que tudo dirige e tudo ordena.”
3.9 O Banquete
“Já no Lísis, um dos seus mais graciosos diálogos menores, Platão colocara o problema da essência da amizade, frisando com isso um dos temas fundamentais da sua filosofia, que mais tarde desenvolveria em toda a sua plenitude, nas grandes obras da sua maturidade que tratam do eros: o Banquete e o Fedro.”
“A sua teoria da amizade constitui o nervo de um modo de considerar o Estado, no qual vê primordialmente uma força educadora. Na República e na Carta Sétima, Platão fundamenta o seu afastamento de qualquer atividade política na carência total de amigos e camaradas certos que o pudessem ajudar na empresa da renovação da polis.¹ Quando a comunidade sofre de uma doença orgânica que lhe afeta o conjunto ou é destruída, a obra da sua reconstrução só pode partir de um grupo reduzido, mas fundamentalmente são, de homens com idênticas idéias, o qual sirva de célula germinal para um novo organismo”
¹ Eis o mal de todo “bom filosófo”!
“É, portanto, um problema que ultrapassa em muito o âmbito que nas modernas sociedades, extremamente individualizadas, chamamos amizade. Para compreendermos claramente o verdadeiro alcance do conceito grego da philia, precisamos apenas seguir o desenvolvimento posterior deste conceito até chegarmos à teoria da amizade, sutilmente matizada, da Ética a Nicômaco.”
“A psicologia trivial que em tempos de Platão se esforçava, com pouco êxito, por encontrar uma explicação para a amizade atribuía-a quer à semelhança de caráter quer à atração dos contrários. Elevando-se acima deste campo exterior de simples comparações psicológicas, o Lísis de Platão, em audacioso avanço, descobre o novo conceito de <primeiro amado>, que Platão exige e pressupõe como fonte e origem de toda a amizade entre os homens.” “por trás daquele <primeiro amado>, em virtude do qual amamos tudo o mais, estava o supremo valor, que o Bem encerra em si. A data do Lísis e a sua significação para o problema da evolução filosófica de Platão foram objeto de uma interessante polêmica entre M. POHLENZ (em Göttinger Gelehrte Anzeigen, 1916, núm. 5) e H. VON ARNIM (em Rheinisches Museum, Nova Série, t. LXXI, 1916, p. 364). A minha opinião coincide com a de Arnim quanto à origem mais antiga do Lísis.”
“Com o próprio título da obra Platão indica já que, ao contrário do que ocorre na maioria dos seus diálogos, ela não gira em torno de uma figura central. Não estamos diante de um drama dialético como o Protágoras ou o Górgias. E ainda menos a podemos comparar a obras puramente científicas do tipo do Teeteto¹ ou do Parmênides, onde se expõe sobriamente o esforço realizado para resolver determinado problema.”
“À volta da mesa do poeta trágico Ágaton, congregam-se representantes de todos os tipos de cultura espiritual da Grécia. Aquele poeta acaba de alcançar no agon dramático um brilhante triunfo e é ao mesmo tempo o festejado e o anfitrião. Mas é Sócrates quem, dentro de um círculo restrito, alcança o triunfo no agon dos discursos, um triunfo mais poderoso que o aplauso das 30 mil ou mais pessoas que no dia anterior aclamaram Ágaton no teatro. (…) Além do trágico, está presente Aristófanes, o melhor comediógrafo da época; e, dado que os discursos destas figuras marcam indubitavelmente o ponto culminante de todo o diálogo, antes de Sócrates, como último de todos, começar a falar, o resultado é o Banquete se tornar a encarnação visível do primado da filosofia sobre a poesia, primado que Platão postula na República.Para alcançar esta dignidade, a filosofia teve de converter-se também em poesia, ou pelo menos criar obras poéticas de 1ª grandeza, que, graças a sua força imortal e independentemente de toda a luta de opiniões, patenteassem ao nosso olhar a sua essência.”
“A combinação da paideia aristocrática de Teógnis com o amor do poeta pelo distinto jovem Cirno, a quem dirige as suas exortações, ilumina a relação existente entre o banquete e o eros educacional que inspirou o Banquete platônico. (…) os banquetes (…) figuravam entre as formas fixas de sociabilidade de mestres e alunos”
“Entre os títulos das obras perdidas de Aristóteles e outros discípulos de Platão aparecem mencionadas leis minuciosas destinadas a regulamentar os banquetes, semelhantes às que Platão preconizava nas Leis.(*) No início desta obra dedica um livro inteiro ao valor educacional do beber e das reuniões de bebedores, defendendo estas práticas contra os ataques de que eram alvo.
(*) Segundo ATENEU, V, Xenócrates, discípulo e segundo sucessor de Platão, escreveu as Leis para o banquete, destinadas à Academia; e outro tanto fez Aristóteles para a escola peripatética.”
“A escola de Isócrates adota a atitude contrária. Reflete-se nela a sobriedade do mestre, que via no excesso de bebida a ruína da juventude ateniense. E nem sobre o eros pensava diferentemente. Mas Platão obriga as duas forças, Eros e Dioniso, a se colocarem a serviço da sua idéia. (…) Ele julga que, sem o impulso e o entusiasmo inesgotáveis e incessantemente renovados das forças irracionais do Homem, jamais será possível atingir o cume daquela transfiguração suprema que atinge o espírito, quando este contempla a idéia do Belo. A união do eros e da paideia, eis a idéia central do Banquete.”
“Desconhecemos as experiências pessoais vivas que serviram de base a este processo de purificação. Sabemos que inspiraram uma das maiores obras poéticas da literatura universal.”
“Censura os poetas, porque tendo por missão cantar em hinos os deuses, esqueceram-se de Eros, e propõe-se, em conseqüência, preencher esta lacuna, cantando em prosa o panegírico deste deus.”
“Pausânias, sem abandonar o tom mitologizante do discurso de Fedro e firmando-se na dupla natureza de Afrodite, a serviço da qual se encontra Eros, distingue o Eros Pândemos e o Eros Urânios.” “O eros usual e corrente, o instinto irrefletido e vulgar, é vil e repudiável, porque tende à mera satisfação dos apetites sensuais; em contrapartida, o outro é de origem divina e o impulsiona o zelo de servir ao verdadeiro bem e à perfeição do amado.”
“Na Élida e na Beócia, i.e., nas regiões da Grécia espiritualmente menos desenvolvidas e estagnadas numa fase de cultura arcaica, considera-se o eros como algo simplesmente intocável. Sucede o contrário na Jônia, quer dizer, de acordo com a interpretação de Pausânias, na parte do mundo helênico mais afim da maneira de ser asiática, onde o eros é rigorosamente castigado. O orador explica o fato pela influência dos bárbaros e das suas concepções políticas.” “Também não se pode negar que, segundo a lenda histórica, a democracia ateniense foi fundada por uma dupla de tiranicidas, Harmódio e Aristogeíton, unidos pelo eros para a vida e para a morte.” “Ao contrário da atitude de outros Estados que se citam, a atitude de Atenas e de Esparta não é de aprovação nem de condenação, mas antes equívoca e complexa.”
“a opinião defendida por Pausânias procede essencialmente da própria Esparta, como também acontece com a prática da pederastia como tal. Este costume, derivado da vida nos acampamentos militantes da época das migrações das tribos – época muito mais próxima entre os dórios que entre os demais gregos e que se prolongava no modo de vida da casta guerreira espartana (…) Quando Esparta caiu e a sua influência específica desapareceu, o que sucedeu pouco depois da época em que nasceu o Banquete, a pederastia declinou rapidamente, pelo menos como ideal ético, e só perdurou nos séculos posteriores da Antiguidade como prática viciosa e desprezível dos cinaedi.” Werner escreve de uma perspectiva inevitavelmente homofóbica. Mas estes cinaedi com certeza são depravados sadomasoquistas da decadente Roma, como a palavra indica: usavam chicotes para torturar e lacerar suas vítimas, i.e., interesse libidinal e amoroso, assim como o doentio Ultra-Romantismo vai idealizar em obras como Venus in Furs.
“A Platão, acontece-lhe com o eros o mesmo que com a polis e com a fé da velha Grécia, na qual se baseava: como poucos espíritos daquela época de transição, sente de maneira forte e pura todas aquelas idéias, mas transmite ao novo mundo, em cujo centro metafísico a projeta, apenas a imagem transfigurada da essência ideal delas.” Amizade platônica: essência ideal da pederastia. O gozo do professor em ensinar e do aluno em aprender.
“Uma terceira forma de tradição espiritual é a que se manifesta no discurso de Erixímaco. Como médico, parte da observação da natureza, sendo que o seu horizonte visual não se limita ao Homem” “Erixímaco defende sistematicamente o poder gerador de Eros como princípio do devir de todo o mundo físico (…) À primeira vista, parece impossível estabelecer, do ponto de vista da physis, qualquer divisão entre as diferentes formas ou modalidades do eros, por um critério de valor moral, como Pausânias procurara fazer, partindo do nomos vigente na sociedade humana. (…) Na sua opinião, o denominador comum a que aquela distinção de ordem moral deve reduzir-se é a distinção entre o são e o enfermo.” “Compreendemos agora por que Platão escolheu um médico para representante da concepção naturalista. Ele o fez precisamente em vista desta distinção, que conduz à submissão do eros a um critério valorativo.” “O seu conceito da concórdia harmônica baseia-se na teoria heracliteana dos contrários, que aliás desempenhava também considerável papel no pensamento médico da época, como revela principalmente a obra pseudo-hipocrática Da Dieta.” Littré pende mais para “hipocratizar” ambos os livros “hipocráticos” sobre dieta alimentar.
“Devem conceder-se todos os favores ao homem casto e conservar o seu eros; mais ainda, é preciso empregá-lo como meio para transplantar esse recato e essa moral para os homens que ainda os não possuem. Tal é o eros uranios, o amor pela musa Urânia. Em contrapartida, deve ser aplicado com cautela o eros pandemos, a inclinação para a musa Polímnia. (…) algo assim como o médico usa e fiscaliza as artes do cozinheiro.
Na sua intervenção, Erixímaco faz do eros uma potência alegórica tão universal, que a sua substância corre o risco de desaparecer no seio do geral. Em contrapartida, o comediógrafo Aristófanes volta, no seu engenhoso e genial discurso, a orientar-se para os fenômenos humanos concretos do amor”
“Este impulso nostálgico todo-poderoso que em nós palpita só pode ser compreendido pela especial natureza do gênero humano. No grotesco mito da forma esférica do homem primitivo (…) vemos expressos, com a profundidade da fantasia cômica de Aristófanes, a idéia que até agora buscamos em vão nos discursos dos outros. O eros nasce do anseio metafísico do Homem por uma totalidade do Ser, inacessível para sempre à natureza do indivíduo.” “O amor por outro ser humano é aqui focalizado à luz do processo de aperfeiçoamento do próprio eu. Esta perfeição só é atingível na relação com um tu (…) Aristófanes focaliza o problema em toda a sua extensão, não só como amor entre 2 seres do mesmo sexo, mas sob todas as formas em que se apresenta. (…) Não é, evidentemente, a união física que faz com que um sinta um prazer tão grande com a presença do outro e a ela aspire com tanta força, mas é indubitavelmente uma coisa diferente o que a alma de ambos quer”
“Assim como o saber era concebido no Mênon como um voltar a recordar o ser puro contemplado na preexistência, assim o eros aparece agora como a nostalgia da totalidade da natureza primitiva do Homem, tal como numa era anterior do mundo existiu, e portanto como orientação estimuladora em direção a algo que eternamente devia ser.” Um quê já de desembocadura no niilismo.
“se pusermos este mito diante do espelho do discurso de Diotima, veremos bem que já se entrevê de maneira vaga, através dele, a norma do Bem, na qual encontram realização plena todo verdadeiro amor humano e toda amizade autêntica.
O último discurso antes daquele de Sócrates, reverso consciente da franca e expressiva pintura burlesca do poeta cômico, é o panegírico do jovem Ágaton (…) o mito de Aristófanes elevara o tema do eros acima da amizade masculina e convertera-o no problema da essência do amor em geral; na subseqüente declamação do poeta trágico em moda, tão aplaudido, a quem a comédia coeva [daquele tempo] motejava por ser amigo das mulheres, o tema da pederastia passa completamente para o segundo plano¹ (…) A imagem do eros traçada por Ágaton é a menos psicológica do mundo, coisa surpreendente, sobretudo se a compararmos com o discurso imediatamente anterior de Aristófanes, baseado inteiramente na ação exercida pelo eros sobre a alma humana. Ao contrário, o relato de Ágaton tem forte tendência para o idealismo.”
¹ Podemos dizer com confiança: como na obra de Jaeger inteira.
“É a sua própria imagem refletida num espelho que ele nos pinta com enleio narcisista, na sua descrição de Eros.” “É este discurso que Platão escolhe para fundo imediato do discurso de Sócrates. Põe o esteta, sensualmente refinado e conhecedor, em contraste com o asceta filósofo”
“Todo o eros representa um anseio por qualquer coisa que não se tem e se deseja ter. Por conseguinte, se Eros aspira ao Belo, é porque não é ele próprio o Belo (…) É a partir desta base dialética negativa que Platão desenvolve a teoria de Sócrates e de Diotima. Não é, contudo, em forma didática que ele a desenvolve, mas sim sob a forma do mito em que Eros aparece como descendente de Poros (riqueza) e de Penia (pobreza)”
“Sócrates deixa Ágaton em paz assim que este, após as primeiras perguntas, lhe confessa, alardeando amável fraqueza, que já se sente como se não soubesse absolutamente nada de tudo o que acabava de falar. Assim se atam os pés à ânsia de saber mais que os outros, ânsia malsoante em boa sociedade. Mas a conversa é levada dialeticamente ao seu termo pelo recurso da sua deslocação para um passado remoto e da conversão de Sócrates, de interrogador molesto e temido que era, em ingênuo interrogado. Põe-se a contar aos convidados uma conversa que teve há muito tempo com a profetisa de Mantinéia, Diotima, acerca do eros.”
“No domínio da religião grega, a forma dos mistérios era a forma mais pessoal da fé e Sócrates descreve aqui, como visão por ele vivida pessoalmente, a ascensão do filósofo até o mais alto cume, onde se conserva a nostalgia do eternamente belo, que palpita no fundo de todo o eros.”
“Também não é um ser moral; é, sim, algo intermediário entre o moral e o imoral, um grande daimon que age como intérprete entre os deuses e os homens.”
“Os deuses não filosofam nem aprendem, porque estão na posse de toda a sabedoria. Por sua vez, os tolos e os ignorantes não aspiram a adquirir conhecimento, pois o verdadeiro mal da incultura reside precisamente em que, sem nada saber, julga saber muito. Só o filósofo aspira a conhecer, pois sabe que não conhece e sente necessidade de conhecer. O filósofo ocupa um lugar intermediário entre a sabedoria e a ignorância; é por isso que só ele está apto para a cultura e se esforça sincera e seriamente por adquiri-la.”
“À imagem do Eros traçada por Ágaton, a qual era simplesmente uma representação do ser amável e amado, Platão opõe, por conseguinte, uma imagem que tira os seus traços da essência do amante.”
“O fato de que, apesar de tudo, a linguagem não chame de eros ou eran toda a vontade, mas reserve aquele nome e aquele verbo para exprimir certos anseios, tem, segundo Platão, o seu paralelo em outras palavras, como poiesis, ‘poesia’, a qual, embora signifique apenas ‘criação’, foi no entanto reservada pelo uso para um determinado tipo de atividade criadora. Na realidade, esta nova consciência de quanto há de arbitrário nesta ‘delimitação’ do significado de termos como eros ou poiesis não é senão um fenômeno concomitante do alargamento deste conceito, por obra de Platão e da operação pela qual ele procura enchê-lo de um conteúdo universal.”
“São as palavras de Diotima o melhor e mais conciso comentário deste platonizante conceito aristotélico [?] do amor de si próprio.”
“Por outro lado, esta transmutação parece privar o eros do seu sentido finito, verdadeiro e imediato, que é o desejo de algo concretamente belo. É por isso que Platão lhe faz justiça na parte seguinte do discurso de Diotima.” “A vontade física da procriação ultrapassa amplamente a esfera humana. Se partirmos do fato de que todo o eros é ânsia de ajudar o eu próprio autêntico a realizar-se, o impulso à procriação e perpetuação dos animais e dos homens aparecerá como a expressão do impulso de deixar no mundo um ser igual a eles próprios.”
“Todo o eros espiritual é procriação, ânsia de cada um eternizar a si próprio numa façanha ou numa obra amorosa de criação pessoal que perdure e continue a viver na recordação dos homens. Todos os grandes poetas e artistas foram procriadores deste tipo e o são igualmente, no mais alto grau, os criadores e modeladores da comunidade estatal e doméstica.”
“Para ele só é digna de se viver uma vida que decorra na constante contemplação desta beleza eterna. Não se trata portanto de um ato de contemplação a partir de um momento especial, de um momento estético de deslumbramento. A exigência de Platão só pode ser satisfeita por uma vida humana inteira projetada para esta meta (TELOS).”
“O belo e o bom não passam de dois aspectos gêmeos de uma única realidade, que a linguagem corrente dos gregos funde numa unidade, ao designar a suprema arete do Homem como <ser belo e bom> (KALOKAGATHIA).” “Ora, para Platão existe absoluta harmonia entre o cosmos físico e o cosmos moral.”
“já no amor pela beleza corpórea, fala-se dos ‘formosos discursos’ que provoca.”
“Não é no afastamento do mundo daquele que conhece que se deve traduzir na prática esta separação da idéia universal do Belo das suas manifestações finitas.”
“O sentido e razão de ser de toda a paideia é fazer triunfar o Homem dentro do homem. A distinção entre o homem-individualidade-fortuita e o homem superior serve de base para todo humanismo. Foi Platão quem tornou possível a existência do humanismo com esta concepção filosófica consciente, e o Banquete é a obra em que pela 1ª vez se expõe esta doutrina.”
“Platão não deixa a obra terminar pelo afastamento do véu que cobre a idéia do Belo e pela interpretação filosófica do eros. A obra culmina na cena em que Alcibíades, à cabeça de um bando de companheiros ébrios,¹ irrompe casa adentro e em audacioso discurso aclama Sócrates como mestre do eros (…) A sua paixão pedagógica impele-o para todos os jovens belos e bem-dotados, mas no caso de Alcibíades é a profunda força de atração espiritual, que irradia de Sócrates, que surte efeito e que, invertendo a relação normal de amante e amado, faz com que seja o próprio Alcibíades a aspirar em vão pelo amor de Sócrates”
¹ O coro.
“A tragédia do amor de Alcibíades por Sócrates, a quem procura e de quem ao mesmo tempo quer fugir, pois Sócrates é a consciência que o acusa a ele mesmo, é a tragédia de uma natureza filosófica esplendidamente dotada” “É a instintiva veneração do forte por aquilo que compreende ser a força (…) e a aversão que a debilidade do ambicioso e do invejoso sente contra a grandeza moral da verdadeira personalidade” “É indubitável que Alcibíades queria ser discípulo de Sócrates, mas a sua natureza não o deixa separar-se de si próprio. Alcibíades encarna o tipo que melhor podia servir a Platão para ilustrar que era aquele tipo que realmente Sócrates queria: é o jovem de aspirações geniais que toma nas suas mãos os assuntos dos atenienses, sem contudo preocupar-se consigo mesmo, embora isso lhe fosse tão necessário (Banq., 216 A). (…) Alcibíades queria trabalhar na edificação do Estado antes de edificar o <Estado dentro de si mesmo> (cf. Rep. IX, final).”
Afinal de contas – flashback –: a virtude pode ser ensinada?
R: Não para alces!
3.10 A República – I
R.L. NETTLESHIP, The Theory of Education in the Republic of Plato (Chicago, 1906).
“Nem o próprio Aristóteles, a quem costumamos chamar o sistemático por antonomásia, emprega ainda a palavra <sistema> com este significado.”
“A criação de um tipo elevado de Homem, de que nos fala o Estado platônico, nada tem a ver com o povo em conjunto, concebido como raça.”
Os idiotas do Hades ou fundo oceânico.
“ocupam livros inteiros (os livros 2 e 3) os debates sobre a música e a poesia; o problema do valor das ciências abstratas é colocado num lugar central (livros 5 a 7), e no livro 10 volta a ser examinado o problema da poesia, a partir de novos pontos de vista. Uma aparente exceção ao que foi dito é a investigação das formas de governo nos livros 8 e 9.”
“Grandioso tema para os juristas, não só do nosso tempo, mas também da época de Platão, que pela primeira vez fez surgir a ciência comparada do Estado! Mas nem sequer sob este ponto de vista a atenção do filósofo incide sobre a vida jurídica real; é na teoria das ‘partes da alma’ que desemboca a investigação do problema do que é justo.”
“O intérprete neoplatônico Porfírio sublinhava acertadamente que a teoria das partes da alma em Platão não é psicologia no sentido corrente, mas sim psicologia moral. Aristóteles não a adota na sua obra de psicologia, mas usa-a nos trabalhos éticos. O seu significado é pedagógico. Veja-se o meu Nemesios von Emesa (Berlim, 1913), p. 61.”
“Cf. GOMPERZ, Griechische Denker, t. II. Gomperz defende que a descrição da educação dos governantes da República (livros 6-7) é apenas um pretexto para expor a epistemologia e a ontologia próprias de Platão. No mesmo sentido, Gomperz vê na educação dos guardiões, nos livros 2-3, outro pretexto que torna possível para Platão examinar extensamente toda a espécie de problemas nos diferentes campos da mitologia, da religião, da música, da poesia e da ginástica. Como se mostrará com a nossa análise da República, a essência da paideia platônica requer todos os elementos que Gomperz enumera, e teria sido impossível fazer a sua exposição sem a relacionar com eles num sentido filosófico. A paideia não é um simples elo externo que faz da obra um todo; constitui a sua verdadeira unidade interna.”
“esta atitude (…) é típica da incompreensão do séc. XIX por esta obra de Platão. A ciência, que se elevava a uma orgulhosa altura a partir da sabedoria acadêmica do humanismo, já era (…) incapaz de compreender a sua própria origem. Este ideal científico desenvolveu-se nas ciências naturais, onde o foi buscar a filologia, com um desconhecimento total da sua própria essência.”
“Um século antes, Jean-Jacques Rousseau soubera aproximar-se bem mais do Estado platônico, ao declarar que a República não era uma teoria do Estado, como pensavam aqueles que só julgavam os livros pelos títulos, mas sim o mais formoso estudo jamais escrito sobre educação.”
“Hipódamo e Faleas, cujas utopias ainda conhecemos, nas suas linhas gerais, pela Política de Aristóteles, apresentam, como é próprio do espírito da época do racionalismo, esboços de uma ordem social justa e duradoura, cuja forma esquemática recorda, de certo modo, a geometria dos planos arquitetônicos traçados para a cidade pelo mesmo Hipódamo.
“Veja-se o ‘Anônimo de Jâmbico’ em DIELS, Vorsokratiker, t. II 5ª.ed.”
“Para o discípulo de Sócrates, já não pode significar a mera obediência às leis do Estado a legalidade que tinha sido outrora o baluarte protetor do Estado jurídico, perante um mundo de poderes feudais anárquicos e revolucionários.” “A lei, que fôra calculada para uma vigência longa e até eterna, mostrou-se necessitada de reformas ou ampliações.” “O direito torna-se uma simples função do poder.”
“Como representante da filosofia da força de Cálicles, é escolhido na República o belicoso sofista Trasímaco; além disso, apesar da lúcida arte platônica da variação, deparamos também com algumas repetições da cena do Górgias.”
“Glauco e Adimanto, em dois discursos que se sucedem um ao outro, expõem belicosamente o problema, numa forma rigorosa, a única que pode satisfazer a juventude da sua geração: é a justiça um bem que se deva buscar por si próprio ou apenas um meio que acarreta determinada utilidade? Ou figurará entre as coisas que amamos tanto por elas mesmas como pelos seus benéficos resultados?”
“Quem dentre nós, na posse de um tal anel, teria na alma a firmeza adamantina necessária para resistir ao poder da tentação? (…) Já mencionamos a importância que tem o problema de o Homem, na presença de testemunhas, agir com tanta freqüência diferentemente de quando está só. (…) O conto do anel de Giges é em Platão símbolo genial desta concepção naturalista do poder e das aspirações humanas. Se queremos conhecer o verdadeiro valor da justiça para a vida do Homem, não temos outro caminho senão comparar a vida de uma pessoa completamente injusta, mas cujo verdadeiro caráter permaneça oculto, e a vida de um homem que, sendo verdadeiramente justo, não saiba ou não queira guardar sempre com o maior cuidado as aparências externas do direito, tão importantes.” “Porventura não exaltaram igualmente este ideal apenas pela recompensa que os deuses concedem ao justo?”
“Adimanto fala impelido visivelmente por uma verdadeira angústia interior e, sobretudo para o final do discurso, as suas palavras respiram a sua experiência pessoal. Platão o faz representante da geração a que ele próprio pertencia. É assim que se tem de interpretar a escolha dos seus irmãos como interlocutores chamados a impulsionar a investigação e a formular em termos exatos, perante Sócrates, o problema que ele procura resolver.”
“cada palavra sua é um golpe de crítica vibrado contra a educação até ali misturada, precisamente à base daqueles velhos poetas clássicos e daquelas famosíssimas autoridades morais, que na alma da juventude, tão reta no seu pensar, deixam cravado o espinho da dúvida. Platão e os seus irmãos eram o produto daquela antiga educação e consideravam-se vítimas dela.” “Adimanto insiste em que ao avaliar a justiça se prescinda completamente da utilidade social que traz consigo (…) A expressão que corresponde à utilidade social da arete é doxa. Na ética grega antiga, esta palavra corresponde sempre à arete e é equivalente a esta. Um bom exemplo de doxa neste sentido (reputação) está em SÓLON (frag. 1,4 Diehl). Portanto, Platão pretende aqui desligar a arete da sua vinculação a esta doxa.”
“As pequenas censuras da voz interior, diz Adimanto, são facilmente abafadas pela experiência de que a injustiça permanece quase sempre ignorada; e a consciência religiosa de que o olhar de Deus nos vê pode ser contrariada com um pouquinho de ateísmo ou com as fórmulas rituais de qualquer religião de mistérios que permita ao Homem purificar-se das suas culpas.” “Formulado assim o problema da justiça, a investigação eleva-se a uma altura contemplativa a partir da qual todo o sentido da vida – tanto o valor moral como a felicidade – aparece deslocado exclusivamente para a vida interior do Homem. (…) não há outro caminho senão este, para se fugir ao completo relativismo implícito na teoria do direito do mais forte.”
“A julgar pelo título da obra, pensar-se-á que o Estado será finalmente proclamado como a verdadeira e fundamental finalidade da longa investigação sobre a justiça. Mas Platão trata esse tema pura e simplesmente como um meio para um fim, e o fim é pôr em relevo a essência e a função da justiça na alma do Homem.”
“A conseqüência inevitável desta elefantíase dos Estados, que se conservam tanto mais saudáveis quanto menores forem as suas proporções, é a ânsia territorial, pelo desmembramento e anexação de pedaços dos Estados vizinhos. Desvendamos assim a origem da guerra, que sempre nasce de causas econômicas. Platão refere-se aqui à guerra como um fato dado, reservando expressamente para outra investigação o problema de saber se a guerra é boa ou má. Como é natural, o passo imediato é a criação do ofício de guerreiro.” “O fato de lhes dar o nome de ‘guardiões’ já tem implícita a limitação das suas funções à defesa.”
“logo nos vemos convertidos em escultores, aos quais é entregue a missão de formar, por assim dizer, com mão de artista, através da seleção dos caracteres mais adequados e da sua educação, o tipo de ‘guardião inteligente e valoroso’.”
“Para o guerreiro ser um bom guardião dos seus, a sua alma tem de reunir, como os bons cães, duas qualidades aparentemente contraditórias: doçura para com os seus e agressividade contra os estranhos. E a ironia de Platão vê nesta qualidade um traço filosófico, já que tanto os cães como os ‘guardiães’ avaliam a diferença entre as pessoas conhecidas e as desconhecidas, como critério do que julgam seu e do que reputam estranho.”
“quanto mais entramos nos pormenores da paideia dos ‘guardiões’, tanto mais nos penetra a sensação de irmos perdendo completamente de vista a chamada investigação fundamental sobre a justiça. É certo que, numa obra que se apresenta na forma de um diálogo tão ramificado, temos de aceitar como impostas de certo modo pelo tipo de composição muitas coisas que submetem a dura prova o nosso sentido sistemático da ordem”
“A educação dos ‘guardiões’ de acordo com um sistema legalmente estabelecido pelo Estado é uma inovação revolucionária de alcance histórico incalculável. É a ela que em última instância remonta a exigência do Estado moderno sobre a regulamentação autoritária da educação dos cidadãos, defendida principalmente desde o Século das Luzes e a época do absolutismo por todos os Estados, qualquer que fosse a sua forma de governo.” “em nenhum lado, fora de Esparta, existia, segundo testemunha Aristóteles, uma educação organizada pelo próprio Estado e pelas autoridades.”
“Para ele, a solução do duplo problema da formação do corpo e da alma é a paideia da Grécia Antiga, com a sua divisão em ginástica e música, paideia que, portanto, ele conserva como base.”
“o que é decisivo assenta precisamente na fecunda tensão entre o seu radicalismo conceitual e o seu sentido conservador a respeito da tradição espiritualmente plasmada. Por isso, antes de darmos ouvidos à sua crítica, é importante deixar claro que é sobre a paideia da antiga Grécia (por mais reformas que nela se introduzam) que a sua nova concepção filosófica repousa.” “Este debate não é, por conseguinte, um problema filosófico acessório, como o crítico moderno costuma pensar, mas tem para Platão uma importância filosófica absoluta.”
“não há nada mais despropositado que o à-vontade com que nos pomos a contar às crianças histórias sobre qualquer tipo de homens. (…) aqueles que contam histórias e lendas devem ser vigiados, pois deixam na alma da criança um traço mais duradouro que as mãos dos que lhe cuidam do corpo. (…) É certo que um fundador de Estados não pode ser, como tal, um poeta, mas deve, sim, ter uma consciência clara dos tipos gerais que os poetas tomam como base das suas narrações. (…) Diante do olhar do leitor atual de Homero ou de Hesíodo aparecem imediatamente numerosas cenas que ele não julgaria diferentemente de Platão, se as medisse pela tabela do seu próprio sentimento moral.”
Só se pode recomeçar do zero porque o zero absoluto se chama Heleno.
Ser belo ou não? Eis o dilema do atraente.
“Há uma continuidade ininterrupta que vai destes antiquíssimos testemunhos de condenação religiosa e moral de Homero até os Padres cristãos da Igreja, os quais não poucas vezes tiram das obras destes filósofos pagãos os seus argumentos e até as suas palavras contra o antropomorfismo dos deuses gregos. No fundo, a série começa logo com o próprio poeta da Odisséia, visivelmente preocupado em atribuir aos seus deuses, e de modo especial a Zeus, uma atitude mais digna do que a manifestada na Ilíada.”
“É por isso que esta atitude se torna de tão difícil compreensão para o homem atual, visto não haver muito tempo que a ‘arte’ moderna teve de libertar-se, entre dores ingentes, do moralismo do Século das Luzes. Aqui está por que razão é para muitos de nós inabalável a tese de que o gozo de uma obra de ‘arte’ é moralmente indiferente. Não é que seja nosso propósito inquirir aqui da verdade ou falsidade desta teoria; a única coisa que nos interessa é deixar claro uma vez mais que ela não corresponde à maneira de sentir dos gregos.”
O EVANGELHO DE ENTÃO: “Na realidade, a chamada lei não-escrita encontra-se edificada na poesia. À falta de fundamentação racional, um verso de Homero é sempre o melhor argumento de autoridade, que nem os próprios filósofos desdenham. Esta autoridade só se pode comparar à da Bíblia e à dos Padres da Igreja, nos primeiros tempos do Cristianismo. § Só esta vigência universal da poesia como suma e compêndio de toda a cultura permite-nos compreender a crítica a que Platão a submete (…) O mundo que os poetas nos descrevem como real degrada-se em mundo de mera aparência, quando medido pelo conhecimento do Ser puro” Platão inimigo do moralismo, não da espontaneidade, como sempre é o filósofo. Jeane e o anel de Giges (mulher de César sem a substância, a mulher-contorno).
“Nas apreciações modernas, nem sempre se dá conta, com a devida clareza, da relação existente entre a crítica platônica da poesia e a peculiar posição que o poeta ocupava entre os gregos, como educador do povo. O pensamento ‘histórico’ do séc. XIX também não foi em absoluto capaz de, no seu modo de encarar o passado, sobrepor-se às premissas ideológicas do seu próprio tempo. Buscávamos argumentos para desculpar Platão ou para apresentar os seus preceitos como mais inocentes do que na realidade são. Eram psicologicamente interpretados como a rebelião das forças racionais da alma do filósofo contra a sua própria natureza poética, ou explicava-se o seu desprezo dos poetas pela decadência cada vez mais acentuada da poesia, no próprio tempo dele.” A mesma posição intrincada em que se encontra hoje o crítico da ciência, porque não se pode fazer entender por virtualmente ninguém! Passa por místico, negacionista e charlatão aquele que é o mais científico de todos, na boa acepção. A mediatriz de Popper e Kuhn, tão abaixo de si, é sua nêmese, é a força gigantesca da ralé e do rebotalho dos reprodutores irrefletidos. Dos comunicólogos e formadores de opinião!
“Encarava-se o problema com uma tendência excessiva a situar-se no ponto de vista da liberdade da arte. (…) retocava-se o quadro para evitar que Platão caísse na vizinhança da polícia artística da burocracia moderna.”
“supondo que o tirano Dionísio se tivesse resolvido a pôr em prática o Estado platônico, teria fracassado neste ponto, ou então seria preciso proibir antes de mais nada os seus próprios dramas, caso fosse atendida a sentença judicial de Platão. No Estado platônico, a reforma da arte poética tem um alcance puramente espiritual e só é política na medida em que toda a finalidade espiritual encerra, em última instância, uma força de formação política.”
“Essa poesia não tem cabimento no Estado seco e cheio de nervo que ele procura edificar, mas só em outros mais ricos e suntuosos. § É assim que a dignidade ímpar com que os gregos tinham envolvido a poesia converte-se na perdição dela.”
“Como na realidade, porém, a poesia e o Estado não mudarão, fica aparentemente de pé, como único resultado visível aos olhos da crítica platônica, o abismo insuperável que daí por diante dividirá a alma grega.”
“Mas por que é que Platão não declara sem rodeios que são as suas obras que se devem pôr nas mãos dos educadores e educandos como verdadeira poesia? É exclusivamente a ficção do diálogo falado que o impede. Na obra da senectude já abandona esta ilusão e pede que as Leis se propaguem no mundo degenerado, como o tipo de poesia de que ele necessita. E desta forma a poesia agonizante afirma uma vez mais o seu primado na obra do seu grande acusador.”
“A sua crítica e seleção dos mitos, segundo a tabela do conteúdo de verdade moral e religiosa que contêm, pressupõem um princípio irrefutável.”
“Rep., 379A (…) é a passagem onde a palavra teologia aparece pela primeira vez na história do espírito humano. Platão é o seu criador.”
Foda-se, eu sou o Poeta (a lei)!
“A aspiração ideal do Homem culmina na arete heróica, mas sobre ela impera a moira, com a sua inelutável necessidade, e é a ela que também se acham submetidos, em última instância, a vontade e o êxito dos mortais. O espírito da poesia helênica é ‘trágico’, porque professa a conexão de tudo, mesmo das supremas aspirações do Homem, com o governo do sobre-humano em todos os destinos mortais. E nem a consciência da própria responsabilidade do indivíduo atuante pelos seus atos e desditas, consciência que foi crescendo à medida que se ia racionalizando a vida no séc. VI, pôde diminuir, no sentido moral de um Sólon, um Teógnis, um Simônides ou um Ésquilo, aquele último núcleo indestrutível da antiga fé na moira, que vive na tragédia do séc. V”
“O conflito entre este ponto de vista religioso e a idéia moral da responsabilidade do homem que age mantém-se latente ao longo de toda a obra poética dos gregos.¹ Tinha necessariamente que instalar [sic – estalar] em ruptura aberta no momento em que o postulado ético radical de Sócrates fosse aplicado como pauta à interpretação da vida inteira. O mundo da arete em que Platão constrói a sua nova ordem fundamenta-se na premissa da autodeterminação moral do próprio eu sobre a base do conhecimento do bem. (…) se a divindade fosse tal que enredasse o homem ambicioso nas malhas da culpa, viveríamos todos num mundo em que a paideia careceria de toda razão de ser.²”
¹ O verdadeiramente trágico é que o cristianismo está do lado da responsabilidade demasiado humana, e é como um ateísmo quando comparado ao poder consolatório do politeísmo olímpico. Desta feita, a balança pende apenas para a culpa e um ideal inatingível, do mesmo lado, sem qualquer contrapeso. Um híbrido repulsivo de livre-arbítrio e destino manifesto ao qual o indivíduo moderno não pode se subtrair.
² Cristianismo.
“No mundo visto pelos olhos de Demócrito, em que impera a lei da causalidade, não se concebe uma paideia como a platônica.”
“Toda a crítica da antiga paideia se fundamenta, como princípio de divisão, na teoria platônica das 4 virtudes cardeais: a piedade, a valentia, o domínio de si próprio e a justiça. Esta última não é aqui levada em conta, o que expressamente se explica no final, alegando em abono disso o fato de ainda não se ter esclarecido o que é na realidade a justiça e o que significa para a vida e para a felicidade do Homem.”
“A espantosa descrição que Homero faz do mundo infernal educaria no medo da morte os ‘guardiões’. Platão não pretende, naturalmente, desterrar Homero totalmente, mas submete-o a mutilações” “Ao zeloso guarda filológico da tradição parecerá isto, e é lógico, a mais terrível congeminação da arbitrariedade e da tirania. Para este, é intangível a palavra original do poeta.” “Mas, se atentarmos bem, veremos que a época em que a poesia era ainda coisa viva mostrava já certas tentativas curiosas e passos preliminares desta exigência platônica de recriação poética, os quais nos fazem ver com outros olhos aquela sua pretensão, considerada arbitrária. A necessidade de recriar poeticamente um verso já plasmado, nós a vemos, p.ex., sustentada por Sólon diante de um poeta do seu tempo, Mimnermo, o qual defendera, com sereno pessimismo, que o homem devia morrer quando atingisse os 60 anos. Sólon convida-o a modificar o sentido da poesia, fixando aos 80 anos o limite da idade.”Homero mesmo nunca foi Homero, convenhamos.
“Essa eparnothosis[figura de linguagem; nesse sentido, aplicar interpretações mais atenuadas ou enfáticas, conforme o espírito do tempo exige] é aplicada generalizadamente pelos filósofos antigos na sua interpretação dos poetas, e deles se transmite mais tarde aos escritores cristãos. (…) É por isso que a censura de incompreensão racionalista dos poetas do passado, feita a Platão, não deixa de revelar, por sua vez, uma certa incompreensão histórica da parte dos críticos modernos, a respeito do que atradição poética do seu povo significava para ele e para os seus contemporâneos. Quando, p.ex., Platão sustenta nas Leis que é preciso recriar poeticamente o antigo poeta espartano Tirteu – que enaltecia a bravura como a cúpula das virtudes cívicas e cuja obra continuava a ser a Bíblia do povo espartano – para em lugar da bravura pôr a virtude da justiça, capta-se diretamente a grandeza da força de persuasão que o verso de Tirteu devia ter alcançado na alma de quem só por meio de uma recriação poética julgava poder cumprir ao mesmo tempo o seu dever para com o poeta e para com a verdade.”
“quanto mais intenso é o prazer, maior é a eficácia formativa de uma obra de arte sobre quem a contempla. Compreende-se, pois, que esta idéia da formação surgisse precisamente no seio do povo mais artístico do mundo, os gregos, onde a capacidade do prazer estético alcançou um grau mais elevado do que em nenhum outro povo da História.”
“Aquiles, que aceita de Príamo um resgate pelo cadáver de Heitor e indenização monetária da parte de Agamemnon, lesa o sentimento moral dos séculos posteriores, como lesa o seu mestre Fênix, que o aconselha a reconciliar-se com Agamemnon, por uma compensação material. [?] As provocadoras palavras de Aquiles contra Esperqueu, o deus-rio, o ultraje que faz ao deus Apolo, a profanação do cadáver do nobre Heitor e a matança dos prisioneiros nas fogueiras de Pátroclo não merecem que se lhes dê crédito.”
O Inferno deveria ser só para incutir o medo de não ter vivido como se podia.
“Esta verdade é a mais completa inversão do que nós entendemos por realismo artístico e do que já existia como tal na geração anterior a Platão.” Quem inverte apenas tem de se haver com o problema mais adiante.
“a raivosa tenacidade com que ele trata o combate tem a sua mais profunda razão de ser na convicção de que a força educadora das imagens poéticas e musicais provadas pelos séculos é insubstituível. Segundo Platão, mesmo que a filosofia fosse capaz de descobrir o conhecimento redentor de uma norma suprema de viver, a sua missão educacional só seria cumprida pela metade”
“Não é só no conteúdo, mas sobretudo na forma, que se apóia o efeito da obra das musas.” Que alguém demonstrasse a verdade num tratado insípido, nada estaria provado – a não ser que se pode ser insípido até nas ações mais grandiosas!
“Na maioria dos casos, nem sequer um ator trágico é capaz de representar bem a comédia, e um recitador de epopéias raras vezes está em condições de desempenhar um papel dramático.”
“Não era[m] bons especialistas, mas apenas bons cidadãos em geral que a antiga paideia se propunha a formar.” “Constitui fenômeno raro, mas psicologicamente compreensível, a nítida predileção pela purificação das profissões especializadas, num gênio universal como o de Platão.”
“O conceito platônico da mimesis dramática, no sentido da renúncia de si mesmo, é um conceito paidêutico; o da imitação da natureza, pura e simplesmente um conceito técnico.”
“Aos artistas desse gênero moderno e cheio de encantos são prestadas no Estado platônico todas as honras e toda a admiração, ungem-lhes a cabeça e a adornam com fitas de lã; mas, uma vez honrados, acompanham-nos a outra cidade, visto que não há lugar para eles no Estado puramente educador. Nesse Estado admitem-se unicamentepoetas mais secos e menos geradores de prazer.” “Platão, que no seu período pré-socrático tinha um grande fraco pela tragédia, teria seguramente conhecido por experiência própria, na sua pessoa e na de outros, o lado negativo destas paixões.”
“as melodias ou harmonias como tais, desligadas da palavra, essas, sim, exigem a nossa atenção.” “Assim como no palco o espetáculo domina a poesia e criou o que Platão chama de teatrocracia, nos concertos a poesia era serva da música. (…) A música emancipada torna-se demagoga do reino dos sons.”
“Não podemos escrever em detalhe a ginástica ou a música gregas, os fundamentos em que assentava a paideia do período antigo e do clássico, porque nisso não consente o legado da tradição. É por isso que na nossa exposição esses temas não são tratados em capítulo à parte, mas nos ocupamos deles onde quer que a sua imagem se apresente nos monumentos e discussões da Antiguidade”
“Igualmente se reprovam as melodias lânguidas, quer jônicas quer lídias, boas para as orgias, mas inaceitáveis aqui, porque nem a embriaguez nem a languidez ficam bem aos ‘guardiões’. (…) Glauco (…) dá-se conta de que, nessas condições prevalecerão só as melodias dórica e frígia, mas Sócrates não se deixa arrastar a tais pormenores. Platão pinta-o assim, conscientemente, como o homem de verdadeira cultura, cujo olhar mergulha na essência das coisas, mas a quem não compete rivalizar com os especialistas. A precisão, que é no perito exigência natural, seria no homem culto pedantismo e não seria julgada digna de um homem livre. (…) E tal como as melodias ricas também a riqueza de instrumentos musicais se abandona. (…) São inteiramente suprimidas as flautas, as harpas e os címbalos, [grosso modo, a bateria ancestral] e conservam-se só a lira e a cítara [outro tipo de lira; curiosamente, porém, a harpa é outra lira, mais complexa que a lira e a cítara, talvez – isso é especulação – mais antiga que ambas], instrumentos adequados a melodias simples; no campo deverão soar apenas as gaitas dos pastores. Recordamos a este propósito a narração de que as autoridades espartanas proibiram a atuação do genial inovador Timóteo, mestre da música moderna daquele tempo, porque ele não utilizava a cítara de 7 cordas de Terpandro, santificada pela tradição, mas sim um instrumento com mais cordas e maior riqueza harmônica.”
“Já acima dissemos que, pela sua origem, o termo grego ‘ritmo’ não implica a acepção de movimento, mas exprime em numerosas passagens o ‘momento’ de uma posição ou ordenação fixa de objetos [capítulo 1.6]. O olhar do grego descobre-o tanto no estado de quietude como no de movimento, no compasso da dança, do canto ou do discurso, principalmente se for em verso. Conforme o número de longas e breves de um ritmo e o seu nexo mútuo, produz-se uma ordenação distinta no passo ou na voz.”
“a teoria do ethos na harmonia e no ritmo. É desta teoria que deriva o que Platão ensina sobre a seleção das harmonias”
O DAIMON DA MÚSICA: “também na Poética de Aristóteles e na de Horácio a maneira de tratar os metros da poesia parte do mesmo ponto de vista, a saber: quais são os métodos mais indicados para cada conteúdo. Assistimos aqui a uma continuidade da tradição anterior a Platão, embora exista a tendência para identificar com ele este modo paidêutico de abordar o problema da música.”
“Mas até o simples fato de esta teoria ser tirada de Dámon, o maior teórico musical do tempo de Sócrates, prova que não estamos diante de algo especificamente platônico, mas que é, antes, uma concepção da música peculiar aos gregos, a qual (…) foi desde o início decisiva para a posição dominante que a harmonia e o ritmo desempenhavam na cultura grega. § Aristóteles continua a desenvolver a teoria do ethos na música, no esboço sobre educação, contido no livro VIII da sua Política. Segue para isso na esteira de Platão, mas, como costuma acontecer-lhe em maior grau ainda que ao seu mestre, é intérprete da maneira de pensar do conjunto da Grécia.” Uma espécie de sintetizador, jamais criador. Aristóteles, o Primeiro Enciclopedista.
“Mas não concede nenhum ethos, em geral, às impressões transmitidas pela visão através das artes plásticas. Entende que este tipo de efeitos se limita a certas figuras pictóricas e escultóricas, e mesmo nestas só o reconhece em proporções restritas. Aliás, segundo Aristóteles, também não é de verdadeiros reflexos de um ethos que se trata, mas de meros sinais dele, expressos em cores e figuras. Nenhum ethos, p.ex., transparece nas obras do pintor Pauson, mas ele existe, em contrapartida, nas de Polignoto e nas de certos escultores. As obras musicais, pelo contrário, são imitações diretas de um ethos. O admirador da arte plástica dos gregos sentir-se-á inclinado a negar ao filósofo olhos de artista, e assim explicará a sua maneira diferente de julgar o conteúdo ético da música e o da pintura e escultura. Talvez com isso se pudesse relacionar a sua tese de que, nos sentidos humanos, é o ouvido o órgão espiritual por excelência, ao passo que Platão atribuía aos olhos a suprema afinidade com o espírito. [quanta contradição! se Platão privilegia a visão e ainda assim a música é hierarquicamente superior às artes plásticas – a-sonoras – em seu corpus!] Mas apesar de tudo fica de pé o fato de nenhum grego jamais se ter lembrado de reservar na paideia um lugar para as artes plásticas e a sua contemplação”
“As palavras correspondentes, <educação> e <nutrição>, que a princípio tinham um significado quase idêntico, continuam a ser sempre termos gêmeos.”
“Platão reconhece que a cultura do espírito exige também certos pressupostos de clima e certas condições de desenvolvimento. (…) O Estado é necessário como meio ambiente, como a atmosfera que o indivíduo respira. (…) É necessário que desde a mais tenra infância todo mundo respire neste ambiente qualquer coisa como o ar de uma região saudável.”
“Uma pessoa corretamente educada na música, pelo fato de a assimilar espiritualmente, sente desabrochar dentro de si, desde a sua mocidade, e numa fase ainda inconsciente do desenvolvimento, uma certeza infalível de satisfação pelo belo e de repugnância pelo feio, a qual a habilita mais tarde a saudar elegantemente, como algo que lhe é afim, o conhecimento consciente, quando ele se apresenta.” “Esta educação adquire um novo significado, como fase prévia irrecusável para o conhecimento filosófico puro, que sem a base da cultura musical ficaria flutuando no ar.”
“Segundo a teoria de Platão, por mais arguta que seja a inteligência, não tem acesso direto ao mundo dos valores, que, em última instância, é o que interessa à filosofia platônica. Na Carta Sétima, o processo de conhecer é descrito como um processo gradual que faz a alma parecer-se cada vez mais com a essência dos valores que aspira a conhecer.” “Para Platão, a educação do caráter é a via que conduz à educação dos olhos da inteligência, e modifica de tal maneira a sua natureza que lhe é possível alcançar o princípio supremo”
“Platão não toma de forma alguma por modelo as regras que os atletas têm de observar quanto à alimentação; estas regras tornam os atletas excessivamente sensíveis e sujeitam-nos em demasia à sua dieta; e principalmente o seu hábito de dormir muito não é o mais indicado para quem deve ser a vigilância em pessoa. Os ‘guardiões’ devem poder adaptar-se a todas as mudanças de comida, de bebida e de clima, sem que por causa disso corra perigo a sua saúde. Platão reclama para eles um tipo de ginástica totalmente diferente e mais simples”
“Há duas coisas que para Platão constituem sintomas infalíveis de má paideia: os tribunais de justiça e os estabelecimentos de saúde. O grande desenvolvimento destas instituições é tudo, menos o orgulho da civilização. O objetivo do educador deve ser conseguir que se tornem supérfluas dentro do seu Estado.” “como é que um carpinteiro que adoece poderia entregar-se durante muito tempo a um tratamento que o impedisse de exercer a sua profissão? Não tem outro remédio senão trabalhar ou morrer.” E no entanto hoje o motorista de aplicativo não tem qualquer noção da verdadeira saúde. É tão aniquilado como cada um de nós, os “servos legalizados”. Sequer tem um pressentimento da possibilidade da consciência sobre seu grande problema.
“existe uma natural afinidade eletiva entre a filosofia platônica e um corpo ao qual uma educação rigorosa põe na posse de uma saúde perfeita. (…) É certo que Platão postula no Fédon a necessidade de a alma voltar as costas ao mundo do corpo e dos sentidos, para se poder concentrar no exame das verdades puramente abstratas, mas o espírito que na República inspirava a paideia ginástica é um perfeito complemento deste quadro.”
ASPIRINAS PARA AQUILES: “Foi para os homens sãos, cujo corpo sofria passageiramente algum dano local, e com o fim de eliminar esse dano, que Asclépio inventou a arte da medicina. Em contrapartida, nunca nos poemas homéricos este deus ou os seus filhos se ocupam dos corpos minados pela doença. [o que é até objeto de uma famosa tragédia]” “Em contrapartida, o médico deve deixar morrer os corpos totalmente enfermos, como o juiz mata os homens cuja alma está incuravelmente enferma à força de crimes.” “Heródico¹ foi pondo obstáculos à morte, à força de prolongá-la artificialmente”
¹ “Herodicus was a 5th century BC Greek physician, dietician, sophist, and gymnastic-master. He was born in the city of Selymbria, a colony of the city-state Megara, and practiced medicine in various Greek cities including Selymbria, Megara, Athens, and Cnidos.”
“O princípio da seleção rigorosa e consciente tem também a sua importância, do ponto de vista político, para a estrutura do Estado platônico, pois é sobre ela que assenta a possibilidade de manter de pé o sistema da diferenciação por escalões.”
“Neste Estado não existe a mínima garantia de tipo constitucional contra o abuso dos poderes extraordinários e quase ilimitados que põe nas mãos daqueles que o regem.A única garantia efetiva de que de guardiões do Estado não se converterão em donos e senhores dele, de que não degenerarão de cães de guarda em lobos que devoram o rebanho que lhes cumpre guardar, reside, segundo o filósofo, numa boa educação.” “ele não se interessa aqui pelo Estado como problema técnico ou psicológico, mas o aborda simplesmente como delimitação e como fundo de um sistema perfeito de educação.”
NO MUNDO DA INOVAÇÃO JURÍDICA, DAMOS UM TAPA NA TESTA E GEMEMOS: “A idéia de um Estado ideal tem implícita a idéia de que tudo o que dele difere é necessariamente pior do que ele próprio. O que é simplesmente perfeito não deixa margem a nenhum desejo de progresso, mas apenas à vontade de conservá-lo. E para conservá-lo, não se dispõe de outros meios que não sejam os empregados para criá-lo. Depende tudo apenas de não se inovar nada na educação.”
“O desprezo pela maquinaria administrativa e legislativa do Estado moderno, a substituição da legislação concreta pela força do costume e por um sistema público educacional que presidisse à vida inteira, a instituição de refeições coletivas para os ‘guardiões’, a supervisão governamental da música e a concepção dela como firme cidadela do Estado, são todos traços genuinamente espartanos. Mas só um filósofo da época da degenerescência da democracia ateniense e formado em oposição a ela podia oferecer esta interpretação de Esparta como o tipo de Estado em que se conseguia evitar com êxito o individualismo extremista.”
“A renúncia de Platão a estas conquistas constitui, naturalmente, um extremo só explicável pela desesperada situação espiritual da Atenas daquele tempo. Platão chegou à trágica convicção de que até as leis e as constituições não passam de meras formas, que só têm valor quando no povo existe uma substância moral que as alimenta e conserva. Espíritos conservadores julgavam notar precisamente na democracia que aquilo que mantinha coeso esse Estado era, no fundo, uma coisa diferente daquilo que a sua ideologia própria fazia passar por tal.”
“A perduração ininterrupta dessa lei não-escrita é que tinha sido o forte da democracia ateniense na sua época heróica; foi a sua decadência que, apesar de todas as leis em vigor, converteu em arbitrariedade a liberdade dela. Segundo Platão, uma educação do tipo daquela de Licurgo era o único caminho para restaurar, não a aristocracia de nascimento pela qual suspiravam muitos dos seus companheiros de classe, mas sim os antigos costumes e, por meio destes, consolidar de novo o Estado.”
“ao atingirmos a meta da verdadeira educação, teríamos realizado também a verdadeira justiça”
“Visto que, à exceção da justiça, se atribuiu a cada uma das 4 virtudes cardeais da antiga política o respectivo lugar dentro do Estado, pela sua localização numa classe especial da população, já não resta à justiça nenhum lugar especial nem classe nenhuma da qual seja patrimônio; e então surge intuitivamente perante o nosso olhar a solução do problema: a justiça consiste na perfeição com que cada classe dentro do Estado abraça a sua virtude específica e cumpre a missão especial que lhe cabe.
Lembramos, todavia que, na realidade, este estado de coisas não é a justiça no verdadeiro sentido da palavra, mas simplesmente a sua imagem refletida e ampliada na estrutura da comunidade; procuremos, pois, a essência e a raiz dela no próprio interior do Homem.”
“Não é, pois, na ordem orgânica do Estado, em virtude da qual o sapateiro deve trabalhar como sapateiro e o carpinteiro desempenhar o seu ofício próprio, que a justiça consiste. Ela consiste na conformação interior da alma, de acordo com a qual cada uma das partes faz o que lhe compete e o Homem é capaz de se dominar e de congraçar numa unidade a multiplicidade contraditória das suas forças internas.”
“Assim como a saúde é o bem supremo do corpo, a justiça é o bem supremo da alma. Com isto se vota ao mais completo ridículo a pergunta sobre se ela será saudável e útil para a vida (…) Não merece ser vivida a vida sem justiça, tal como não vale a pena viver uma vida sem saúde.”
“se só existe uma forma de justiça, existem, em contrapartida, muitas formas de degenerescência dela, com o que desperta de novo em nós a recordação da medicina e da saúde.”
“Não há no Estado platônico nenhum traço que tenha produzido nos contemporâneos e na posteridade uma sensação tão grande como a digressão sobre o regime da comunidade de mulheres e de prole, entre os ‘guardiões’. O próprio Platão tem de vencer certa resistência para exprimir na República o seu paradoxal critério sobre este ponto, pois teme a tempestade de indignação que irá levantar.” Note-se que se diz da comunidade de prole dos guardiães. A ralé segue sendo ralé, e portanto seus núcleos familiares, que são indiferentes à máxima coesão deste Estado, não sofrem interferência em relação ao costume tradicional. Tradicional ou contemporâneo a Platão e à história conhecida da Antiguidade? Pois temos muitas razões para inferir que a civilização provém de castas em que tudo era estruturado comunalmente.
“Quem como ele é educado para se devotar completamente ao serviço da coletividade, quem não tem casa própria nem propriedade alguma nem vida privada, como poderá possuir e governar uma família? Se toda a acumulação de propriedade particular é reprovável, por fomentar o egoísmo econômico e familiar e entorpecer, dessa forma, a realização da verdadeira unidade entre os cidadãos, é natural que nem sequer diante da família, como instituição jurídica e ética, Platão se detenha, mas tal como o resto a sacrifique também.”
“Em Esparta, onde o homem da classe dominante vivia entregue quase por inteiro ao cumprimento de seus deveres cívicos e militares, durante a vida inteira, a vida de família desempenhava só um papel secundário e os costumes da mulher, neste estado tão severo em tudo o mais, tinham na Grécia fama de licenciosos.” Esparta eram os Cantões Suíços daquele tempo. Atenas, uma Paris ou Berlim.
“É bem significativo que a sua comunidade de mulheres e de filhos se limite à classe dos ‘guardiões’, que estão a serviço direto do Estado, e não se torne extensiva à massa da população trabalhadora. A Igreja resolveria mais tarde este problema, pela imposição do dever de celibato aos sacerdotes, que nela representam a classe dominante. Mas Platão, que pessoalmente era celibatário, não acreditava que esta forma se pudesse levar em consideração dentro do seu Estado” Pois compreendia a força do instinto mesmo diante do Estado ideal. “O lema da exclusão de toda a propriedade individual, incluindo a da mulher, combinado com o princípio da seleção da raça, leva à exigência da comunidade de mulheres e de filhos para os ‘guardiões’.” Um sistema ainda menos hereditário que a democracia moderna, para não dizer da monarquia eurocêntrica, uma vez que hoje basta com ter Kubitschek ou Brizola no sobrenome para estar virtualmente eleito. Perversão da meritocracia platônica, nada platônica, se é que me faço entender.
“Não partilha a opinião dominante no seu país, segundo a qual a mulher é destinada pela natureza exclusivamente a conceber e a criar filhos e a governar a casa. É certo que reconhece que a mulher é em geral mais fraca do que o homem, mas não crê que isto seja obstáculo para ela participar nas funções e nos deveres de ‘guardiões’.”
“Platão prevê com toda a clareza as conseqüências a que esta lei se expõe e que parecem ameaçar com a maldição do ridículo as suas revolucionárias inovações. As mulheres deverão, nuas, alternar com os homens na palestra, e não só as jovens, mas também as enrugadas mulheres de idade, do mesmo modo que nos ginásios é freqüente ver muitos homens já idosos praticando os seus exercícios. Mas Platão não acredita que esta norma ponha a moral em perigo; e que se pense disto o que se quiser, o certo é que o mero fato de ele poder formular tal proposição demonstra a mudança imensa de sensibilidade que se operara em relação à posição do homem perante a mulher, desde a época anterior a Péricles, em que Heródoto escrevia, na sua narração sobre Giges e Candaules, que ao despojar-se do vestido a mulher despojava-se também do poder.Platão observa que os bárbaros consideravam a nudez desonrosa também para o homem e que o sentimento moral dos gregos da Ásia Menor, influenciado por aqueles, tinha certa afinidade com tal maneira de pensar. O sentimento moral dos gregos da Ásia Menor revela-se na sua arte do séc. VI, que, sob este aspecto, é muito diferente da arte do Peloponeso.”
“A figura do corpo nu do atleta varão convertera-se há muito em tema fundamental das artes plásticas, sob a influência da ginástica e do seu ideal de arete física e também sob a ação do seu sentimento do moralmente decente e decoroso.” “há quanto tempo a implantação da ginástica nua entre os homens levantou a mesma tempestade de troça e indignação que hoje levanta a proposta de tornar esta prática extensiva à mulher?”
“não existem profissões só acessíveis ao homem ou à mulher.”
IVO BRUNS, Vorträge und Aufsätze[Conferências e ensaios] (Munique, 1905)(sobre a emancipação da mulher em Atenas)
“o conceito de ‘os melhores’ não se pode definir no seu sentido pleno, enquanto não se explicitar o princípio da seleção” “É na melhor educação que se deve basear o governo dos melhores; aquela, por sua vez, exige como terreno de cultura as melhores aptidões naturais. Esta idéia era corrente no tempo de Platão e provinha principalmente da teoria pedagógica dos sofistas.”
“Já Teógnis, nos seus poemas exortativos, profetizara à nobreza arruinada da sua cidade pátria, ansiosa por se restaurar financeiramente por meio de casamentos com filhas de plebeus ricos, as desastrosas conseqüências que esta mistura de raças traria à conservação da antiga arete dos nobres.” “O velho Teógnis não sonhara sequer chegar a tais conseqüências. Entre a moral racional de Teógnis e o sistema platônico de ‘controle’ estatal, cabia como solução intermediária a paideia espartana, preocupada em velar pela procriação de uma descendência saudável, no caso da camada senhorial da sociedade.”
“Estas medidas eugenésicas de Platão, baseadas nas suas intenções educacionais, seguem as normas da medicina grega”
“O cuidado dos recém-nascidos deve subtrair-se absolutamente à jurisdição das mães.” “As mães só terão acesso às crianças para amamentá-las, mas nem sequer conhecerão os próprios filhos, pois deverão querer a todos por igual.” “O objetivo supremo de Platão era conseguir que as alegrias e as dores de cada um fossem as alegrias e dores de todos.”
“Devem eles ser iniciados na guerra logo desde a infância, tal como os filhos dos oleiros aprendem a arte da olaria, vendo o pai trabalhar ou dando-lhe uma ajuda na sua tarefa.” “Poder-se-ia pensar que a mera contemplação das batalhas é menos eficaz, como meio de educação bélica, do que o adestramento regular da juventude em jogos guerreiros, onde ela possa participar ativamente. (…) Trata-se de um processo de enrijecimento espiritual, por meio do contato com a espantosa mecânica da guerra autêntica.”
“Tirteu e Platão são os psicólogos da batalha e vêem o verdadeiro problema que ela implica para um ser humano.”
“ele proíbe a devastação dos campos e o incêndio das casas, fatos que também não são habituais nas guerras civis de um Estado civilizado do séc. IV, mas atraem sobre a cabeça dos culpados a maldição dos deuses” “Despojar por mera sede de lucro os caídos no campo de batalha é punido como indigno de um homem livre, bem como impedir que se levantem do campo os mortos. As armas são a única coisa que um guerreiro pode arrebatar ao inimigo caído.”
“Ainda na obra De iure belli ac pacis, escrita no séc. XVI pelo grande humanista e pai do direito internacional Hugo Grócio, reconhecia-se como não-contrário à natureza o direito de escravizar os inimigos, em caso de guerra.” “na opinião de Grócio só sob o cristianismo se conseguiu o que o Sócrates platônico em vão pregara aos gregos como um preceito do instinto nacional de autoconservação. Mas o próprio Grócio observa que também os maometanos seguiam esta mesma regra de direito internacional, nas lutas contra povos da sua religião. Devemos, portanto, generalizar a sua tese no sentido de que não foi o Estado antigo nem a idéia nacional do séc. IV, mas sim a comunidade de fé das religiões universais, a qual se estendia a povos diversos, que assentou os fundamentos que possibilitaram a realização parcial dos postulados de Platão.”
“a grande verdade educacional que a República ilustra plasticamente é a estrita correlação entre a forma e o espaço. Não é só de um princípio artístico que se trata, mas sim de uma lei do mundo moral. O homem perfeito só num Estado perfeito se pode formar”
“É sobre estes 2 conceitos procedentes da Grécia primitiva, o de paradigma e o de mimesis, modelo e imitação, que toda a paideia grega assenta. A República de Platão representa uma nova etapa dentro dela.”
“É certo que os Estados atuais, como o Górgias punha em relevo, fazem da aspiração ao poder um fim em si, e por isso não estão habilitados a cumprir a missão educacional na qual Platão vê a essência do Estado. Enquanto o poder político e o espírito filosófico não coincidirem, Platão julga impossível uma solução construtiva do problema grego da formação do Homem, em sentido socrático, e portanto da superação dos males da sociedade presente. Surge assim a famosa tese platônica segundo a qual não acabará a miséria política do mundo enquanto os filósofos não se tornarem reis ou os reis não começarem a investigar de forma verdadeiramente filosófica. É este postulado que ocupa o lugar central da República. Não se trata de uma engenhosa frase incidental, mas da fórmula que oferece a solução ideal para aquele trágico divórcio entre o Estado e a educação filosófica que vimos em obras anteriores de Platão.” Enunciado perene, ainda vigente no “pós-Marx” e no “pós-Nietzsche”!
“E assim, na República, a Filosofia aparece pela primeira vez no primeiro plano da atenção.”
“Platão não condena o poder como uma coisa ‘má em si’; submete apenas o seu conceito a um esclarecimento dialético radical, que o limpa da mancha do egoísmo. Liberta-o da arbitrariedade e volta a reduzi-lo à vontade pura, cuja meta inamovível é, por natureza, o Bem. Nenhum ser humano pode voluntariamente enganar-se naquilo que considera bom e salutar. O verdadeiro poder só pode consistir na capacidade de realizar a aspiração natural que lança o Homem para aquela meta. A sua premissa é, portanto, o conhecimento real do Bem. E é assim que a filosofia torna-se paradoxalmente o caminho para o verdadeiro poder.”
“a economia artística da República solicita a ilusão de, por assim dizer, ser aqui a 1ª vez que o leitor se vê obrigado a meditar sobre a filosofia” “No seu isolamento atual, ela própria tem dificuldade em compreender que foi só batalhando com aqueles problemas que conseguiu forjar o grandioso caráter que na sua 1ª fase criadora a distinguiu. A resignada frase de Hegel, dizendo que a coruja de Atena só se levanta ao entardecer, contém sem dúvida uma certa verdade e a consciência dela estende a sua sombra trágica sobre o esforço heróico que o espírito humano se dispõe a realizar à última hora, com a tentativa platônica de salvação do Estado.”
“Só ele [o filósofo] pode dizer o que é justo e belo por si; as opiniões da massa a respeito destas e das demais coisas oscilam na penumbra entre o não-ser e o verdadeiro Ser. E nisto não diferem da massa os estadistas.” “os caprichos da massa tornam-se a pauta suprema da conduta política e o espírito desta adaptação vai pouco a pouco se infiltrando em todas as manifestações da vida. Este sistema de adaptação exclui a possibilidade de uma autêntica educação do Homem, orientada de acordo com a pauta dos valores imutáveis.” “É o conhecimento da verdade que deve ocupar o trono do Estado reconstruído.” “O conhecimento da norma suprema, que o filósofo abriga na sua alma, é o fecho da cúpula do sistema do Estado educacional platônico.”
“Platão não parece subscrever o clamor dos sofistas e humanistas contra o profissionalismo da cultura. Parece paradoxal esta atitude, num homem que como ele tem em tão alto apreço o saber pelo próprio saber.” “Platão volta ao conceito de techne política que formulara no Górgias, e isso nos lembra ao mesmo tempo as dúvidas iniciais apontadas por Sócrates no Protágoras sobre a possibilidade de ensinar a virtude política. (…) Na República, Platão já não deixa Sócrates albergar nenhuma dúvida.”
“Platão não leva muito a sério as dúvidas formuladas sobre a missão política do filósofo. O exame destas dúvidas serve-lhe de pretexto para se desvencilhar de muitos daqueles que se arrogam o nome de filósofos. Mas a par disto defende com o máximo rigor a verdadeira filosofia e considera qualquer concessão feita aos críticos como uma acusação contra o mundo. A imagem por ele traçada do destino do filósofo converte-se numa tragédia impressionante. Se nas obras de Platão há alguma página escrita com o sangue do seu coração, é esta. Já não é só o destino de Sócrates, feito símbolo, o que move a sua pena. Mistura-se a ele, aqui, a história da sua própria ambição suprema e o ‘fracasso’ das suas forças ante a missão que outrora se julgara especificamente chamado a cumprir.”
“dá-nos uma definição filosófica, indispensável para a compreensão da sua tese sobre os governantes-filósofos, principalmente para o leitor atual, que facilmente pode associar à palavra grega incorporada aos nossos idiomas a idéia de erudito. O seu ‘filósofo’ não é exatamente um professor de Filosofia, que se arrogue um título destes, baseado nos conhecimentos que tem da sua especialidade. E ainda menos é um ‘pensador original’, pois não seria possível existirem simultaneamente tantos pensadores quanto os ‘filósofos’ de que Platão precisa para governar o seu Estado.”
“amante da cultura”“a personalidade humana altamente cultivada”
QUANDO CULTURA ERA SABER, E NÃO UM “SABER NÃO-TÉCNICO”: “Platão concebe o filósofo como um homem de grande memória, de percepção rápida e sedento de saber. Um tal homem despreza tudo o que é minúsculo, o seu olhar eleva-se sempre ao aspecto global das coisas e abarca, de uma vigia altíssima, a existência e o tempo. Não tem a vida em grande apreço nem sente grande apego aos bens exteriores. É estranho a ele tudo o que seja gabolice. É grande em tudo, mas sem por isso deixar de possuir um certo encanto.” Comparar com os atributos dos últimos homens e de Zaratustra.
Vivemos a Era da Crítica (Sofística 2.0).
“o representante da arete perfeita (…) O filósofo platônico não é senão a forma do kaloskagathos, quer dizer, a forma do ideal supremo de cultura do período grego clássico, renovada num sentido socrático.”
DE TALES A SCHOPENHAUER: “A censura da incapacidade destes homens recai, na realidade, sobre aqueles que não sabem usar a sua capacidade. (…) Cada um dos dotes, se é desenvolvido de forma unilateral e desligado dos outros, torna-se um obstáculo a uma formação verdadeiramente filosófica. (…) O desenvolvimento são do Homem é condicionado por uma boa alimentação, pela estação do ano e pela região; esta norma geral, que vigora para todas as plantas e animais, afeta de maneira especial os temperamentos melhores e mais vigorosos. (…) Um temperamento filosófico, que em terreno propício é chamado a florescer maravilhosamente, produz como fruto o contrário dos seus magníficos dotes, se for semeado ou plantado no solo de uma má educação” O caso do tirano erudito.
“Platão defende a idéia deste destino inapreensível para a inteligência humana e que as mentes religiosas não consideram fruto do mero acaso, mas antes obra de um poder miraculoso.”
“da maneira como os temperamentos filosóficos se salvam milagrosamente de todos os obstáculos com que o ambiente corrupto ameaça desde o primeiro instante a trajetória da sua formação. Segundo Platão, o que infunde caráter trágico à existência do homem filosófico neste mundo é o fato de só pelo influxo de uma graça ou tyche divina especial ele poder sobrepujar os obstáculos” O leão na caverna (Z4)
“Os que culpam os sofistas da degenerescência da juventude é que são os piores sofistas. Na realidade, é a influência do Estado e da sociedade que educa os homens e faz deles o que quer.” “Nenhum caráter, nenhuma personalidade se pode formar senão de acordo com esta paideia exercida pela massa, e não ser que venha em seu auxílio a graça especial dos deuses.” “professores e educadores só podem educar as pessoas naquilo que a massa lhes ordena e que impera na opinião pública.” “Os educadores que melhor entendem as palavras e o tom mais de agrado da ‘grande besta’. São os homens que fazem profissão da adaptação.”
“a salvação dos temperamentos filosóficos pode acontecer neste mundo. Aqui, aparece tacitamente aos olhos do leitor o nexo causal entre a salvação pessoal de Platão e o fato de ter encontrado em Sócrates o verdadeiro educador. Estamos na presença do caso excepcional em que uma personalidade individual pode transmitir aos discípulos bens de valor eterno. Longe, porém, de receber qualquer recompensa, este educador de educadores teve de pagar com a vida a sua independência em relação à educação da massa.” Um Sócrates pode ensinar a outro Sócrates a virtude. Singularidade radical e extrema.
“O conhecimento do que é bom em si é uma característica essencial do filósofo. Falar de uma massa filosófica constitui para Platão uma contradição em si. É precisamente a hostilidade mútua a relação natural entre a massa e a Filosofia’
“missão interior”
“caracteres como os de Alcibíades e Crítias, cujos defeitos se haviam tentado imputar a Sócrates e ao seu sistema educacional.” “logo foram corrompidos pelo meio ambiente” “têm um grande ímpeto e um fulgor espiritual que os levam a se distinguirem da massa.”
“São raríssimos os caracteres espirituais que conseguem furtar-se à corrupção. Talvez o consiga um homem muito culto e de caráter nobre, que se veja obrigado a viver no exílio como um estranho e a quem este isolamento involuntário sirva de tábua de salvação para não cair sob a influência corruptora, uma grande alma que tenha nascido numa cidade pequena e que, por se desinteressar dela, se volte para o mundo espiritual; ou então o representante de uma especialidade, que com razão compreenda a mesquinhez dela e lhe vire as costas para enveredar pela senda da Filosofia. (cf. Rep. 496 B-C)”
“a mais profunda das resignações”
“E quando vê os outros viverem no meio da impureza, sente-se satisfeito por se ver limpo da injustiça e poder viver a trabalhar no que é seu e deixar um dia este mundo no final da sua carreira”
“Bem longe da crença de poder transformar o Estado real do seu tempo, e rebelde também à idéia de se lançar na arena da luta política, volta a ser aqui o que era lá: o verdadeiro homem desconhecido para a opinião do mundo.” “É o seu afastamento de toda a atuação pública que constitui a sua verdadeira força. Platão já na Apologia descrevera Sócrates como o homem que sabia perfeitamente por que é que o seu daimon o desviara sempre, ao longo de toda a sua vida, de atuar na política.” “Quem realmente quiser lutar em prol da justiça é na vida privada que tem de fazê-lo”“foi a morte de Sócrates que gerou a grande crise na vontade política de Platão.” “O filósofo faz da necessidade da minoria uma virtude.”
“Professores e alunos sempre tinham existido, mas seria um anacronismo histórico considerar escolas do tipo platônico as coletividades deste gênero que conhecemos da filosofia pré-socrática. (…) as circunstâncias de Platão ter fundado a Academia logo após a sua primeira viagem ao Ocidente grego, na qual teve ocasião de estabelecer um contato bastante estreito com os pitagóricos, indica que existia entre estes fatos uma íntima relação.”
“J.L. Stocks fez uma tentativa para salvar a historicidade da tradição contida em CÍCERO, Tusc. Disp., V, 3, 8, segundo a qual foi Pitágoras quem empregou a reivindicou para si a palavra filósofo. Eu, porém, nunca pude aceitar os argumentos do meu excelente amigo cuja morte prematura foi uma perda considerável para os estudos clássicos.”
“Apesar da especulação platônica sobre o Estado, a escola de Platão não agia como grupo político na vida da sua cidade natal, como agiam os pitagóricos, antes da destruição da sua Ordem.”
“Na realidade, a Academia não teria podido existir senão no seio da democracia ateniense, que deixava Platão falar, ainda quando criticava o seu próprio Estado. Havia já muito tempo que nela se considerava um erro grave ter condenado Sócrates, e via-se no seu herdeiro principalmente o homem que aumentava o renome espiritual da cidade, que, apesar de vacilar na sua posição externa de poder, se ia tornando cada vez mais o centro espiritual do mundo helênico.”
“Depois de o filósofo baixar à resignação da grandeza ignorada e do retraimento perante o mundo, é difícil voltar à idéia do que representa o homem chamado a dominar o Estado futuro.” “O filósofo é uma planta divina que necessariamente irá degenerar ou adaptar-se, quando transplantada para o solo árido dos Estados atuais.” “Na penúria em que Platão vive, a sua filosofia é unicamente formação de si mesmo, e não cultura.”
“Persevera na sua disposição permanente e de certo modo escatológica de se entregar como força auxiliar ao mundo divinamente perfeito que pertence ao ‘porvir’.” “protege o conceito de ‘porvir’, para o qual o filósofo se forma, do perigo de escorregar para o imaginário” “É esta posição intermediária – que ele ocupa entre a pura investigação, desligada de todo o fim ético e prático, e a cultura meramente pragmática, política, dos sofistas – que faz o humanismo platônico ser realmente superior a ambos.”
3.11 A República – II
“Platão não procura, no que se segue, definir em sentido rigoroso a natureza do Bem-em-si. Em nenhuma das suas obras o faz, apesar da freqüência com que elas, no final da investigação, conduzem a este ponto. O Filebo é dentre as obras de Platão aquela em que se investiga de forma mais sistemática o problema aqui proposto: se é o prazer ou a razão o bem supremo. Mas nem sequer ali se chega no fim a qualquer definição do que é o Bem. O que se faz é apenas deduzir 3 das suas características: a beleza, a simetria e a verdade”
“recusando tudo o que seja excessivamente técnico-filosófico e exemplificando em vez disso, por meio de uma analogia plástica, a posição e a ação do Bem no mundo. Uma alegoria, em que a máxima força poética conjuga-se com a sutileza plástica do traçado lógico, descobre repentinamente o lugar e o sentido da idéia do Bem, como princípio supremo da filosofia platônica, lugar e sentido que até agora se tinham conservado deliberadamente obscuros nas obras de Platão, ou então como um ponto esboçado na distância.”
“A ‘contemplação’ era na dialética platônica a expressão da função espiritual em virtude da qual se vê no múltiplo a unidade da idéia e que o próprio Platão caracteriza por vezes com o nome de synopsis. Mas como, ao chegar ao seu último pedaço, já se não pode exarar por escrito o caminho dialético que conduz à contemplação da idéia do Bem, substitui-o pela contemplação sensível do seu ‘análogo’ no mundo visível.”
“Podemos dizer que a visão é o mais solar dos nossos sentidos, mas a capacidade de ver provém principalmente da luz que o Sol difunde e que banha aquela, do exterior.”
O SER-DO-ENTE: “Ao mundo do visível não dá o Sol apenas a visibilidade, mas o nascimento, o crescimento e a nutrição. (…) também o mundo do cognoscível não recebe da idéia do bem só a cognoscibilidade, mas ainda o ser, embora o Bem em si não seja o Ser, mas algo superior a ele pela sua posição e pelo seu poder.” “O mesmo se diz de Deus em ARISTÓTELES (Dial. frag., edição WALZER, P. 100, frag. 49 ROSE) (…) As vacilações (…) implicam (…) uma alternativa, ou seja, duas afirmações coincidentes com a verdade.” O melhor discípulo de Parmênides.
JAEGER, The Theology of the Early Greek Philosophers (La teología de los primeros filósofos griegos, FCE, 1952)
“No livro VIII da Cidade de Deus, que elaborou conscientemente para enfrentar a República de Platão, Santo Agostinho entrega a este o cetro de toda a teologia anterior ao Cristianismo.”
Karl STUMPF, Verhältnis des platonischen Gottes zur Idee des Guten (Halle, 1869)
“Hermann Lotze, pai da moderna teoria filosófica do <valor>”
SOLMSEN, Plato’s Theology, 1942
BOVET, Le Dieu de Platon (Tese de Genebra), 1902
“A pergunta socrática sobre qual é a natureza e unidade da arete revela-se finalmente como problema do Bem divino, a ‘medida de todas as coisas’ (como se define Deus nas Leis).”
“já alguns dos filósofos pré-platônicos evitavam a palavra THEOS ou preferiam falar de <o divino>”
“Platão parece deter-se apenas no aspecto metafísico da idéia do Bem. Parece ter perdido completamente de vista a relação que ela tem com a missão da cultura do Homem. É isto que leva constantemente os intérpretes a arrancarem a comparação do solo em que está enraizada e a encará-la como um símbolo auto-suficiente da metafísica ou da teoria do conhecimento de Platão, sobretudo quando têm em conta que ela forma o final do livro VI, aparecendo assim (contra a intenção platônica) como o remate da sua exposição e desligada do que vem a seguir.” “Uma antologia que culmina na idéia do Bem: eis a metafísica da paideia. O ser de que Platão fala não está desligado do Homem e da sua vontade.”
“Mas a meta fica além do mundo dos fenômenos diretamente dado e está oculta ao olhar do homem sensorial por um múltiplo invólucro. Romper estes invólucros impeditivos é o primeiro passo que se tem de dar para que a luz do Bem jorre no olhar da alma e lhe faça ver o mundo da verdade.” O mundo-verdade de Nietzsche é uma ficção; o mundo da verdade platônico é, dessa mesma perspectiva, ainda o aquém, “aparência”. Platão entendido corretamente nega o platonismo.
“Só ao chegarmos ao segundo segmento principal da linha saímos do campo das meras opiniões para entrarmos no do conhecimento e da investigação científica, no reino da verdade, quer dizer, na esfera em que se processará a educação platônica dos governantes-filósofos.”
“Só quando entramos na segunda e última fase do mundo inteligível alcançamos um tipo de conhecimento que, embora parta de hipóteses também, não as aceita, à maneira das matemáticas, como princípios, mas simplesmente como o que a própria palavra indica, ou seja, como premissas e degraus, para a partir deles erguer-se logo a seguir até o absoluto, até o princípio universal. É este método de conhecimento que é o verdadeiro logos, o logos puro.” “Mas é visível que Platão não pretende explanar aqui, numa página, os últimos segredos da sua teoria do método e da sua lógica, como parecem pensar a maioria dos intérpretes, que sempre aqui viram o seu paraíso”
“meras conjeturas” (1)
“percepção sensorial dos objetos reais (…) simples imagem refletida” (2)
“uma esfera de madeira” (3)
“(a esfera em si)” (4)
“Platão não afirma que o Ser sobre o qual versa o conhecimento matemático seja um reflexo do que a dialética concebe. Mas é algo semelhante a isto que ele parece pensar quando diz que as teses mais gerais que o matemático aceita como princípios são meras hipóteses para o filósofo, que delas parte para se elevar (…) A proporção matemática que ilustra as 4 fases vai desde a alegoria do Sol, que constitui o final e ponto culminante do livro VI, até a alegoria da caverna, com que o VII começa; e a ascensão do conhecimento até a idéia do Bem, que até aqui apenas de maneira abstrata fôra exposta, aparece neste livro plasmada como símbolo, com uma força poética insuperável.”
OS 4 NÍVEIS:
(1) Sombras;
(2) Reflexos;
(3) Imagens;
(4) e a imagem-em-si. RAZÃO (mas não é a Verdade ou o Absoluto).
Um quinto nível, inatingível, SOL, seria, portanto, a Idéia no sentido de Além.
“A princípio não poderia ver senão sombras, em seguida já conseguiria ver as imagens dos homens e das coisas refletidas na água, e só por fim estaria apto a ver diretamente as próprias coisas. Contemplaria depois o céu e as estrelas da noite e a sua luz (…) considera-se feliz pela mudança ocorrida e lamenta os seus antigos irmãos de cativeiro. (…) preferiria ser o mais humilde jornaleiro do mundo da luz do espírito a ser o rei daquele mundo de sombras. E se por acaso voltasse outra vez ao interior da caverna e se pusesse, como antigamente, a rivalizar com os outros cativos, cairia no ridículo, pois já não conseguiria ver nada nas sombras e lhe diriam que arruinara os olhos ao sair para a luz. E se procurasse libertar qualquer dos outros e arrancá-los das trevas, correria o risco de o matarem, caso pudessem apoderar-se da sua pessoa.”
“O conceito de esperança é aqui empregado com especial referência à expectativa que o iniciado nos mistérios experimenta em relação ao além. A idéia da passagem do terreno à outra vida é aqui transferida para a passagem da alma do reino do visível ao reino do invisível.”
“A repugnância do verdadeiro filósofo em se ocupar dos assuntos humanos e a sua ânsia de permanecer nas alturas nada tem de surpreendente, se esta comparação corresponde à realidade; e é perfeitamente compreensível que o filósofo tenha de cair por força no ridículo, ao regressar deste espetáculo divino às misérias do mundo dos homens (…) os transtornos desorientadores da visão que afetam os olhos da alma, quando ela desce da luz às trevas, são diferentes dos que se produzem ao passar das sombras da ignorância para a luz, e quem chegar ao fundo do problema não se rirá, mas considerará, num caso, feliz a alma, e no outro a lamentará.”
“Diante das profundas comparações contidas nesta passagem, que desde a Antiguidade foi inúmeras vezes interpretada nos mais diversos sentidos, estamos nós em situação extraordinariamente favorável, porque o próprio Platão encarregou-se de comentá-la e esclarecê-la, de maneira suficientemente clara, completa e concisa.”
“A comparação do Sol e da caverna, agrupadas numa unidade, como vimos pela proporção matemática das 4 gradações do Ser, representam uma só encarnação simbólica da essência da paideia.”
“no primeiro parágrafo do livro VII (…) Platão aponta a caverna expressamente como uma alegoria da paideia. Para falar mais exatamente, apresenta-a como uma alegoria da natureza humana e da sua atitude perante a cultura e a incultura, a paideia e a apaideusia. Para o leitor capaz de compreender de uma só vez o encadeamento lógico de mais de uma tese, está implícita nela uma dupla referência para trás e para frente.”
Novo Protágoras: o Sol é a medida de todas as coisas.
“A paideia não é focalizada aqui do ponto de vista do absoluto, como na alegoria do Sol, mas antes do ponto de vista do Homem: como transformação e purificação da alma para poder contemplar o Ser supremo. Ao desviar a nossa atenção da meta para o pathos deste processo interior de cultura, Platão aproxima-nos ao mesmo tempo da verdadeira exposição da sua trajetória metódica, no ensino das matemáticas e da dialética.”
“No fundo, é logo desde as primeiras obras que Platão se esforça por fazer compreender a ignorância socrática como a aporia de um homem que caminha para a superação e aprofundamento do saber até então dominante. O que se diz na República sobre este problema não pode, naturalmente, ser comparado, quanto à precisão, com os diálogos especialmente consagrados ao tema do saber, mas limita-se a ordenar os seus resultados.”
CONTRA A INOCUIDADE DO DISCURSO <LEIAM LIVROS>: “A verdadeira educação consiste em despertar os dotes que dormitam na alma. Põe em funcionamento o órgão por meio do qual se aprende e se compreende; e conservando a metáfora do olhar e da capacidade visual poderíamos dizer que a cultura do Homem consiste em orientar acertadamente a alma para a fonte da luz, do conhecimento. Assim como os nossos olhos não poderiam voltar-se para a luz a não ser dirigindo o corpo inteiro para ela,¹ também nos devemos desviar <com toda a alma> do corpo do devir, até que ela esteja em condições de suportar a contemplação das camadas mais luminosas do Ser.
[¹ O “falso” desprezo pelo corpo (o cristianismo como inversão do Platonismo, e não sua consumação).]
Portanto, é numa <conversão>, no sentido original, espacialmente simbólico, desta palavra que a essência da educação filosófica consiste. É um volver ou fazer girar <toda a alma> para a luz da idéia do Bem, que é a origem de tudo.(*) Este processo distingue-se, por um lado, do mesmo fenômeno na fé cristã, para o qual mais tarde foi transposto este conceito filosófico da conversão, porque este conhecer radica num ser objetivo; por outro lado, tal como Platão o concebe, está completamente isento do intelectualismo¹ que sem qualquer razão se censura nele.
(*) Cf. A. NOCK, Conversion (Oxford 1933). Este autor procura no helenismo clássico os antecedentes do fenômeno religioso cristão da conversão e menciona, entre outros, o passo platônico.”
¹ op. cit.
(*) “entre a alma do Homem e Deus interpõe-se, segundo a concepção platônica, o longo e duro caminho da perfeição. Sem perfeição não pode existir a arete. A ponte que Platão estende entre a alma e Deus é a paideia. Esta é incremento do verdadeiro Ser.”
“O Estado das Leis é um Estado teônomo, não em oposição ao Estado da República, mas pelo contrário a sua imagem e semelhança. Guarda este princípio supremo, ainda que ele apareça nas Leis aplicado de maneira diferente e não deixe ao conhecimento filosófico senão a margem que corresponde ao grau inferior do Ser, sobre o qual assenta. Platão diz no Fédon que a descoberta do Bem e da causa final constitui a encruzilhada histórica dos caminhos da concepção da natureza, onde se separam o mundo pré-socrático e o mundo pós-socrático.”
“Não pode haver a menor dúvida de que os discípulos viram na proclamação platônica do Bem como causa última do mundo – e assim o prova a elegia do altar de Philia, em Aristóteles – a fundação de uma religião nova e, ao menos uma vez neste mundo, viram realizada na pessoa do seu mestre, à guisa de exemplo, a fé platônica na identidade do bem e da felicidade.”
“Platão é o criador do conceito de teologia, e a obra em que pela 1ª vez na História universal aparece este conceito revolucionário é a República, onde, com vistas a aplicar à educação o conhecimento de Deus (concebido como bem) são traçadas as linhas fundamentais da Teologia. A Teologia, i.e., o estudo dos problemas supremos pela inteligência filosófica, é um produto especificamente grego. É um fruto da suprema audácia do espírito, e os discípulos de Platão bateram-se contra o preconceito pan-helênico, na realidade um preconceito popular, segundo o qual a inveja dos deuses negava ao Homem a possibilidade de compreender estas coisas tão elevadas. Não eram apoiados na autoridade de uma revelação divina, na posse da qual julgassem se encontrar, que lutava contra eles, mas sim em nome do conhecimento da idéia do Bem, que Platão lhes ensinara e cuja essência é a total ausência de inveja.”
“Podemos muito bem adotar o título de Spinoza e chamar à República – a obra fundamental de Platão, na qual se assentam as bases ideais da paideia – Tractatus Theologico-Politicus.”
“A imagem das ilhas da bem-aventurança, escolhida para caracterizar o paraíso da vida contemplativa, é tão feliz que conseguiu impor-se para sempre. Voltaremos a encontrá-la no Protréptico do jovem Aristóteles, obra em que o discípulo de Platão apregoa o seu ideal de vida, de onde aquela fórmula passa à literatura da Antiguidade e se difunde para além dela.”
“É precisamente no momento da sua tensão máxima que o sentido político originário de toda a paideia grega triunfa no conteúdo ético e espiritual que Platão lhe infunde de novo.”
“o filósofo deve descer outra vez à caverna.” Base do Zaratustra.
“É este forte sentimento de responsabilidade social que distingue da filosofia dos pensadores pré-socráticos o ideal platônico da suprema cultura espiritual. O paradoxo histórico é que estes sábios, mais preocupados com o conhecimento da natureza do que com o Homem, tiveram uma ação política prática mais intensa do que Platão, apesar de todo o pensamento deste girar em torno dos problemas práticos.” “uma parte dos antigos historiadores da Filosofia apresentava os pensadores mais antigos precisamente como modelos da devida associação da ação e da idéia, ao passo que os filósofos posteriores se foram consagrando cada vez mais à teoria pura.”
“Não sente nenhum dever de gratidão ativa para com o Estado degenerado da realidade, porque, embora também nele possam nascer filósofos, não é pelo fato de a opinião pública ou os órgãos deste Estado os estimularem que eles nascem lá.”
* * *
3.11.a. As matemáticas como propaideia
“A lenda atribui a paternidade desta ciência ao herói Palamedes, que combateu em frente de Tróia e de quem se diz que ensinou ao chefe supremo Agamemnon o uso da nova arte para fins estratégicos e táticos. Platão ri daqueles que assim pensam, pois segundo isto Agamemnon não teria sido capaz até então sequer de contar os dedos, e muito menos os contingentes do seu exército e da sua frota.” “é sabido que o desenvolvimento da ciência da guerra no séc. IV requeria um conhecimento cada vez maior das matemáticas.” “É um estudo humanístico, pois sem ele o Homem não seria Homem.”
“Não devemos esperar da sua maneira de enfocar o assunto que ele entre a fundo no conteúdo dos problemas matemáticos e muito menos que exponha todo um curso didático desta ciência.¹ Exatamente como faz ao tratar da música e da ginástica, Platão limita-se a traçar as linhas diretivas mais simples, segundo o espírito das quais se devem estudar estes problemas.”
¹ Não, por Zeus! Só um pouquinho de matemática já está ótimo…
“A senda através da Filosofia, que Platão prescreve a esta cultura, exige dos futuros ‘governantes’ um anelo tão puro de cultura, que a referência à importância prática que estes conhecimentos possam vir a adquirir para eles quase pode ser considerada um perigo para a verdadeira fundamentação dos estudos matemáticos. Diz-nos a tradição que Platão levou a sério este problema quando lhe pediram que educasse o tirano Dionísio II para governar segundo as suas concepções. PLUTARCO, Díon, c. 13, informa que o príncipe e toda a côrte dedicaram-se durante certo tempo ao estudo das matemáticas e que o ar ficava cheio do pó que a multidão levantava ao traçar as figuras geométricas no chão. É principalmente a geometria que lhe fornece ocasião para polemizar contra os matemáticos que desenvolvem ridiculamente as suas demonstrações, como se as operações geométricas implicassem um fazer (praxis) e não um conhecer (gnosis).”
(*) “W.A. HEIDEL, ‘The Pythagoreans and Greek Mathematics’, em American Journal of Philology, 61 (1940), pp. 1-33, traça o desenvolvimento dos estudos matemáticos na Grécia mais primitiva, tanto quanto lhe permitem as provas que existem, em círculos não-pitagóricos, especialmente na Jônia.” Visão corroborada pelo recentíssimo (e excelente) trabalho de Tatiana Roque, História da Matemática.
“Os pitagóricos medem as harmonias e os tons audíveis entre si e buscam neles o número, mas a sua missão termina onde começam os ‘problemas’, cuja investigação o nosso filósofo considera a verdadeira meta da sua cultura e que põe igualmente em relevo, ao tratar da geometria e da Astronomia.”
“a regularidade matemática dos fenômenos celestes pressupõe a existência de agentes dotados de consciência racional.” No astrônomo/observador!
(*) “Timeu, 38 D. Repele-se aqui o exame pormenorizado da teoria das esferas, dizendo-se que este método daria maior importância ao secundário que à finalidade que deve servir. De modo diferente procede ARISTÓTELES na sua Metafísica, 8, onde critica as razões que dão os astrônomos para fixar o número exato das esferas embora se equivoquem ao fazer o cálculo.” Aristóteles dá sempre a impressão, em sua Metafísica, de não reconhecer qualquer diferença entre a Academia (platonismo, com que rompeu) e os pitagóricos (entre o Número e a Idéia enquanto entidades).
“Sócrates aparece sempre como o homem que tudo sabe, seja qual for o ponto que se focalize, e embora só lhe interesse o que ele considera fundamental, quando a ocasião se apresenta revela um domínio assombroso em campos de conhecimento que, parece, deveriam ser-lhe estranhos.” “Nesse ponto, temos de controlar muito bem a liberdade soberana com que nos seus diálogos Platão faz de Sócrates o advogado dos seus próprios pensamentos.”
“O Sócrates histórico¹ não teria repreendido severamente o seu interlocutor, como o Sócrates platônico, ao ouvi-lo justificar o valor da Astronomia pela sua utilidade para a agricultura, para a navegação e para a arte da guerra.”
¹ Reza a lenda (assim digo porque nunca o li) que Xenofonte é a melhor fonte. Xeno ‘é a melhor’ fonte!
“O olhar para o alto em que a Astronomia estudada matematicamente educa a alma é perfeitamente diverso de voltar os olhos para o céu, como fazem os astrônomos profissionais.” Perfeitamente como meu próprio desenvolvimento cognitivo: a física teórica era o que me interessava porque eu desconhecia a metafísica e o ético, mas já queria olhar para dentro de mim mesmo mais do que olhar para um ponto espacial elevado.
“A introdução da estereometria constitui uma surpresa e permite a Platão variar um pouco esta parte do seu estudo. A influência da prática de ensino na Academia transparece aqui, indubitavelmente. A tradição da história das matemáticas, que data da baixa Antiguidade e sobe até a obra fundamental de Eudemo, discípulo de Aristóteles, considera autor da estereometria o notável matemático Teeteto de Atenas, em memória do qual Platão escreveu, poucos anos depois da República, o diálogo que tem o seu nome. SUIDAS, Escol., em EUCL., Elem., XIII (t. 5, p. 654, 1-10, Heilberg). A atribuição do descobrimento dos 5 poliedros regulares a Pitágoras por Proclo (no índice geométrico) é lendária, como o provaram de modo irrefutável as recentes investigações de G. Junge, H. Vogt e E. Sachs.”
“O conteúdo do último livro (o XIII, dedicado à estereometria dos Elementos de Euclides, a obra fundamental e imorredoura das matemáticas gregas, a qual apareceu uma só geração depois, devia ter essencialmente como base as descobertas de Teeteto.” Cf. T.L. HEATH, A Manual of Greek Mathematics (Oxford, 1931), p. 134.
“Como nos encontramos separados por mais de 2 mil anos da época em que as matemáticas gregas receberam de Euclides a forma científica consagrada como clássica, a qual ainda hoje se conserva em vigor dentro dos limites então traçados, não se torna fácil para nós retroceder até a situação espiritual em que esta forma se encontrava ainda em gestação ou tendia a consumar-se. Se levarmos em conta que foi obra de poucas gerações, compreenderemos como o labor concentrado de um punhado de investigadores geniais, empenhados em impulsionar o seu progresso, criou uma atmosfera de confiança, mais ainda, de certeza na vitória”
“Nem a filosofia platônica nem qualquer outra grande filosofia poderia ser concebida sem a influência fecundante dos novos problemas levantados e das novas soluções apresentadas pela ciência daquele tempo. Ao lado da Medicina, cuja influência podemos constantemente verificar, foram principalmente as matemáticas que a impulsionaram.” “O mais antigo contato de Platão com as matemáticas deve ter sido anterior às suas relações com os pitagóricos, uma vez que diálogos como o Protágoras e o Górgias, os quais revelam já um nítido interesse pelas matemáticas, foram escritos antes da 1ª viagem do filósofo à Sicília.”
As obras platônicas contemplam um Teodoro velho (Teodoro de Cirene, matemático de uma geração anterior a Teeteto) e um Teodoro jovem (não-matemático).
“a tradição assenta numa reduplicação errônea acerca do que aconteceu na 3ª viagem; porém, quem Platão ia visitar na 1ª viagem à Itália, antes de ir a Siracusa (no ano de 388), senão os pitagóricos? É certo que DIÓGENES LAÉRCIO, III, 6, que dá informações sobre o caso, só menciona Filolau e Eurito, mas não Arquitas, como motivo da 1ª viagem.”
“Há um dado da antiga biografia de Aristóteles que afirma ter ele cursado a escola de Platão ‘sob Eudoxo’. deste dado concluímos que houve um estreito contato da Academia com o grande matemático deste nome e com a sua escola; esse contato transparece por todas as vias na nossa tradição e nas relações pessoais de Aristóteles com ele, referidas na Ética, e as quais remontam a uma longa permanência de Eudoxo na escola platônica, cuja data se poderia fixar com precisão no ano em que Arist. entrou para a Academia (ano 367).”
“Estes fatos indicam-nos insistentemente que nunca devemos perder de vista que o que se desdobra perante os nossos olhos nas obras literárias de Platão é apenas a fachada do edifício científico e das atividades docentes da Academia, cuja estrutura interna ele esboça.” “O fato de as críticas dirigidas a Platão versarem precisamente sobre a hipertrofia das matemáticas prova que era nestas que se via a pedra angular do seu sistema de cultura.”
PLATÃO PRECAVIDO CONTRA O DESPONTAR DO NIILISMO: “O moderno conceito da ciência, que traça a esta limites tão vastos como aqueles que a experiência humana pode alcançar, faz com que a hegemonia exclusiva das matemáticas na paideia platônica nos pareça, se bem que grandiosa, unilateral; isso nos inclina, talvez, a vermos também nesse fenômeno o efeito da supremacia temporal das matemáticas da sua época. Todavia, por mais que a consciência do progresso que irradiava dos seus grandes descobridores houvesse necessariamente de contribuir para a posição de predomínio que as matemáticas desfrutavam na Academia, a verdadeira razão disso deve ser buscada, em última instância, no caráter da própria filosofia platônica e no seu conceito do saber, que excluía da cultura os ramos puramente empíricos do saber. (…) O fato de depararmos, nos fragmentos conservados da comédia ática daquele tempo, com motejos às intermináveis disputas sustentadas por Platão e seus discípulos em torno da determinação do conceito das plantas e dos animais, e sua divisão, não contradiz em nada a imagem projetada diretamente pelos diálogos platônicos.”
* * *
“o pensamento está para as opiniões como o Ser está para o devir”
“o dialético é o homem que compreende a essência de cada coisa e sabe dar conta dela.”
“O nome de ‘guardiões’ – em si estranho –, dado por Platão à classe dominante, foi escolhido, ao que parece, na previsão da virtude filosófica deste supremo estado de vigilância espiritual em que se trata de educá-los.”
“Deverão ficar aborrecidos consigo próprios, quando se demonstrar para eles que trabalham em erro, em vez de se rebolarem como os porcos no esterco da sua própria incultura.”
“Todas essas idéias são totalmente novas no tempo de Platão e encontram-se em oposição à fé cega no saudável senso comum daqueles que não aprenderam nada além do seu trabalho diário. Desde então têm aparecido no mundo escolas e exames em grande abundância e todavia, se Platão vivesse hoje entre nós, é muito duvidoso que ele pudesse concluir que as exigências estavam cumpridas em todos os requisitos.”
“toda a iniciação prematura na cultura espiritual tropeça com um obstáculo enorme: a falta de interesse da criança em aprender. Esta falta de interesse não se pode combater pela coação, pois não há nada de mais oposto à essência profunda da cultura livre que o aprender pelo medo servil a um castigo.”Quem mais se aproxima deste legado pedagógico platônico na modernidade é Rousseau.
“A educação espiritual descansará completamente durante este prazo, pois as fadigas e o cansaço são incompatíveis com o estudo.” “O princípio de que a educação espiritual deve reatar-se aos 20 anos tem esse corolário: aquela formação gímnica, que Platão trata de distinguir bem da participação voluntária, mais adiantada ou mais tardia, em outros exercícios de ginástica, deve preencher o período dos 17 aos 20 anos. É a idade em que Atenas instruía como efebos os moços varões aptos para o serviço das armas. O seu tempo de serviço durava 2 anos e começava aos 18.”
“A longa duração da formação dialética, que na sua totalidade abrange 15 anos, e nem sequer neste período alcança o seu verdadeiro fim, põe em relevo, melhor do que outra coisa qualquer, o conceito platônico do saber e a essência desta trajetória nas suas diversas fases. A exigência deste plano de estudos parece à 1ª vista o sonho e o anseio de um especialista a quem os planos de ensino da sua disciplina não deixam nunca a margem de tempo que ele julga precisar para a consecução perfeita dos seus objetivos e que, pondo-se a ruminar uma utopia pedagógica, reclama para o estudo das suas matérias tantos anos de ensino quantos os meses que lhe são dedicados ao plano real.” “de um estudo da Filosofia limitado a alguns anos, como era habitual na sua época e ainda hoje continua a ser, nada havia a esperar, nem quanto à formação filosófica nem quanto à educação dos governantes.” Interessante. Quem sabe a completa marginalização da filosofia pelo Estado não seja o melhor que poderia acontecer?
“A formação dialética de 15 anos que vai dos 20 aos 35 é, neste plano, o fundamento intelectual sobre o qual assenta a cultura dos governantes. E é extraordinariamente elucidativo que este ensino finde, como parecia natural, com o conhecimento da idéia do Bem: entre o período de formação dialética e esta base suprema, Platão intercala um 2º período de estudos de 15 anos, que vai dos 35 aos 50.”
“Platão vê o perigo da dialética criar um sentimento de pretensa superioridade que leve os adeptos a usarem a arte recém-adquirida para refutar os outros e a fazerem deste jogo um fim em si.”
“Platão esforça-se sempre por fazer compreender a diferença existente entre a paideia e a paidia, quer dizer entre a cultura e o mero passatempo.” “palavras que em grego têm, além do mais, a mesma raiz, já que ambas se relacionam originariamente com os atos da criança, do pais. (…) É curioso que os gregos tenham encontrado o problema do jogo na época em que aspiravam a penetrar de um modo filosófico mais profundo na paideia, matéria que eles levavam tão a sério. Contudo, a passagem do jogo para a máxima seriedade foi desde sempre o autenticamente natural”
“a dialética conduz à refutação das idéias dominantes sobre o justo e o belo, i.e., das leis e costumes em vigor, sob os quais os jovens se criaram como se fossem seus pais.”
“Platão entende que a garantia fundamental contra a anarquia reside na trajetória da cultura dialética acabar o mais tarde possível – é por isso que fixa seu final aos 50 anos”
“O problema do número não é importante, uma vez que não afeta a própria essência da constituição. Podemos caracterizá-la como uma aristocracia no verdadeiro sentido da palavra. A cultura grega tivera por ponto de partida a nobreza de sangue; agora, no final de toda a evolução reaparece na visão platônica o princípio seletivo de uma nobreza do espírito, quer ela governe quer não.”
“Não é um novo Estado, como nas Leis, que Platão toma como ponto de partida, mas sim uma polis já existente, que importa transformar.” Curiosamente o estereótipo é contrário (Leis como programa mais pragmático e, portanto, como se usara outra base). E isso porque a geografia ou formalidade da polis nada tem que ver: espiritualmente, o povo que migra já tem as condições mínimas (não ideais, mas satisfatórias mundanamante) para a instituição das Leis; já a República se fará aos poucos, como dito acima, não importa que no mesmo território, erradicando de tijolo em tijolo a moral corrompida dos pais dos primeiros guardiães, até consolidar-se o Estado ideal, e transformar a Filosofia numa crisálida, o que não significa tornar-se estanque: se é a melhor das Filosofias, ela justamente não decai nem corrompe, nem é substituída, por ser autêntica e dinâmica a cada florescer de uma nova gerações de guardiães. Na forja do Estado ideal não tem-se uma colônia desabitada para povoamento, mas tem-se todo o tempo do mundo. Se apenas a Europa moderna soubesse o verniz do primeiro…
3.11.b. A doutrina das formas de Estado como patologia da alma humana [Aristóteles como “o psiquiatra”]
“só existe um Estado perfeito, ao passo que são numerosíssimas as variedades do Estado defeituoso.”
“Também Aristóteles, na sua Política, enlaça numa unidade a teoria do Estado perfeito com a das formas falsas do Estado. O fato de que uma só ciência se encarrega destas 2 missões, aparentemente tão distintas, é considerado por ele um problema, que trata a fundo. [Aí seria necessária uma Ciência (da Grande) Política] Arist. (…) começa a investigar uma a uma todas as formas de Estado existentes, algumas das quais reconhece como acertadas, para finalmente expor o que entende por Estado perfeito [estudo de caso, mera observação empírica do que estava-ali]. É exatamente ao contrário de Platão que procede: este parte do problema da justiça absoluta e do Estado ideal em que ela se realiza, apresentando a seguir todas as demais formas do Estado como desvios da norma, e portanto como fenômenos de degenerescência.” Deus é a medida.
Podemos dar a questão por perdida quando a Política passa a ser um problema político, e não mais educacional. Neste mundo, não há “medicinas alternativas”!
“O fato de existirem poucos homens, animais ou plantas perfeitamente sãos não converte a enfermidade em saúde nem faz da média deficiente, acusada na experiência, a norma.”
“As formas reais do Estado são todas fenômenos de enfermidade e degenerescência.”
O DEVIR E O BEM: “Toda a teoria de Platão e de Arist. sobre as transformações do Estado não é senão uma teoria da stasis, palavra que tem em grego um significado mais vasto que o nosso conceito de ‘revolução’.”
“Ainda na patologia vegetal de Teofrasto, que tem a forma clássica na sua obra Das Causas das Plantas, vemos claramente refletida a luta entre o conceito rigorosamente platônico da norma como a forma melhor e mais conveniente da planta, i.e., como a sua arete, e o conceito puramente estatístico do normal.”
“É talvez pelo seu realismo e pela maneira como capta os pontos fracos, que a análise que Platão faz do tipo democrático se distingue da glorificação de Atenas feita na oração fúnebre de Péricles; e distingue-se também do panfleto crítico Constituição de Atenas, pela ausência de qualquer ressentimento oligárquico.”
“O Estado real que mais se aproxima do Estado perfeito é o espartano” “A exposição deste sistema, para o qual Platão cria o conceito novo da timocracia, atendendo ao lado de que se ajusta por inteiro à pauta da honra, apresenta o encanto especial da individualização histórica, ao contrário das outras formas de Estado”
“é conveniente estabelecer um paralelo entre a sua imagem de Esparta e o seu ideal de Estado, para ver o que no Estado platônico difere conscientemente do Estado espartano. Ainda mais importante, a este respeito, é a crítica direta do Estado espartano, nas Leis, livros I-II. É a falsa liga dos ‘metais’ que determina a composição contraditória do tipo espartano de homem. O elemento de ferro e de bronze nele existente impele-o ao lucro, à aquisição de dinheiro e de bens imóveis. Esse elemento, que é um elemento pobre da alma, tende a equilibrar-se por meio da riqueza exterior. Em contrapartida, o elemento de ouro e de prata impulsiona-o para a arete e o reconduz ao estado originário.” “Desta forma os elementos fundidos no caráter espartano entrechocam-se, até que por fim chegam a um compromisso entre a aristocracia e a oligarquia.” “os membros das classes inferiores, que antes gozavam da proteção daquela [a aristocracia] e eram chamados amigos e sustentáculos dos governantes, vêem-se reduzidos à escravidão e são doravante considerados periecos e hilotas. Vigiá-los torna-se para a camada dominante, em que se convertem os governantes, uma tarefa não menos importante que a de salvaguardar militarmente o Estado contra os perigos do exterior.” Vigiar é diferente de guardar.
“Esparta inclina-se para o tipo de homem simples e corajoso, mais apto para a guerra do que para a paz.” “No exterior ostenta máxima sobriedade, mas as habitações privadas são verdadeiros tesouros e ninhos de luxo e dissipação.” “como crianças às escondidas dos pais, entregam-se voluptuosamente e em segredo aos prazeres proibidos, à margem da lei, que o Estado se glorifica de personificar.” “Esta hipocrisia é o produto inevitável da educação espartana, que não se baseia na convicção interior do Homem, mas numa rotina imposta à força. É a seqüela da carência de uma cultura verdadeiramente musical, que vem sempre unida à razão e à ânsia de saber.”
MÉTODO ANTI-HISTÓRICO: “Em toda esta parte da República, Platão invoca de novo o princípio fundamental a que o filósofo da paideia se deve ater: o método de fazer ressaltar o típico. O homem espartano (…) é, por isso, uma invenção platônica.”
TODO VALOR-BASE (VALOR DOS VALORES) IMPLICA UMA HIERARQUIA, E UMA HIERARQUIA, A ASSUNÇÃO DE UMA PERSPECTIVA: “Para Platão, o tipo representa a personificação de um valor ou de uma determinada fase de valor.” Enquanto, inversamente, na modernidade, o tipo-ideal de Weber, p.ex., pretende-se axiologicamente neutro.
“autárquico, amigo das musas, embora de per si bem pouco musical; amigo de ouvir, mas perfeitamente incapaz de falar. É áspero para os escravos: ‘em vez de ser indiferente para com os escravos, como é o homem realmente culto.’ (Rep., 549 A 2)”
“é obediente aos superiores, mas cobiçoso de poder e desejoso de se distinguir.” “Talvez despreze o dinheiro na juventude, mas, à medida que envelhece, vai nele se instalando a avareza.” “Talvez tenha um pai excelente que vive num estado mal-governado, o que o leva a se conservar o mais afastado possível das honras e dos cargos, e a velar um pouco o seu brilho, para não atrair sobre si atenções demais. Mas a mãe é uma mulher ambiciosa, que se sente insatisfeita com a posição ocupada na sociedade pelo marido. (…) Aborrece-a também que ele não a tenha em maior estima, e se limite a prestar-lhe a atenção estritamente necessária. Tudo isso a leva a inculcar no filho a idéia de que o pai é pouco viril e é preguiçoso, e todas aquelas coisas que as mulheres sempre dizem dos maridos deste tipo.¹ Também os escravos ganham suas simpatias, dizendo-lhe ao ouvido que o seu pai não é tão respeitado como devia ser, porque as pessoas como ele são consideradas palermas. Deste modo, a alma do filho é seduzida e arrastada, pois, enquanto o pai ‘rega’ e fortalece nele a parte racional da alma, as demais pessoas que o cercam estimulam nele a parte ambiciosa e impulsiva”
¹ Preconceito sexista?
“O que essencialmente interessa a Platão, no seu estudo comparativo das diversas constituições, é captar estas diferenças típicas de estrutura do homem individual em cada uma das diferentes formas de Estado.”
“O mais provável é que a sua análise do homem espartano fosse escrita um pouco antes da bancarrota do poder de Esparta, que ninguém esperava.”
“seu Estado educacional, longe de representar o ponto culminante do império espiritual do ideal espartano, é de fato o golpe mais rude vibrado neste ideal.” “em Platão (…) a Esparta real desce das alturas de um ideal absoluto para a categoria da melhor das formas imperfeitas do Estado.”
“É pela tirania que Platão sente a aversão mais profunda. Mas este sentimento fundamental, que parece ligá-lo à democracia clássica, separa-o, na realidade, desta forma de regime do seu tempo.” “Entre a liberdade e a escravidão não é só uma antítese que existe, pois os extremos às vezes se tocam”
“A oligarquia é, por assim dizer, uma aristocracia baseada na crença materialista de que é a riqueza que constitui a essência da distinção.”
“a falta de disposição dos ricos de contribuírem para os encargos da guerra.”
“Ao chegar aqui, deparamos com uma reflexão muito detalhada sobre questões econômicas, a que não se deu importância nenhuma ao traçar a estrutura do Estado perfeito, porque este se preocupava exclusivamente com a missão educacional e deixava de lado todo o resto. Platão estabelecerá mais tarde nas Leis, de modo positivo e de forma legal, o que aqui expõe de forma crítica e de passagem, no plano dos princípios.”
“a evolução operada no jovem” “Mata na alma a ambição em que o pai o educara e com ela a parte egoísta e impulsiva da qual brotam todos os atos ambiciosos. Humilhado pela pobreza, dedica-se à poupança e ao trabalho, e vai juntando moeda após moeda.”
“‘democratas moderados’, chamados de ‘oligarcas’ pelos democratas radicais.”
“Platão domina maravilhosamente a arte de evitar a repetição pedante das mesmas idéias fundamentais em cada nova metabasis, ocultando-as por detrás de imagens que exprimem com grande força plástica as três partes da alma e as relações normais que entre elas devem existir.”
“o homem oligárquico: homem poupador, trabalhador, eficiente, que em sóbria disciplina submete todos os outros anseios à ânsia única de acumular dinheiro, que desdenha as formas belas e não tem o mínimo sentido para a cultura, para a paideia, como o prova o fato de ele eleger um cego, Plutos, para chefe do coro. A sua incultura (apaideusia) estimula nele os impulsos do zangão, os instintos do pobre e do delinqüente, nascidos da mesma raiz da cobiça de dinheiro.” “sabe comedir-se (…) por medo” “visto de fora, o homem de dinheiro aparece como um tipo extraordinariamente belo e correto, mas há nele muito de fariseu, pois essa classe de homens não conhece o que é a verdadeira virtude e a harmonia interior.”
“A existência de uma camada cada vez mais vasta de pessoas empobrecidas, exploradas pelos ricos, e o predomínio da usura e do juro acabam por se converter em causa de mal-estar e de perturbações sociais.” Quanta diferença para os tempos do “mercantilista” Montesquieu!
“Nunca o realismo platônico se eleva a tão grande altura como quando descreve a psicologia do homem simples que, queimado pelo sol, nervoso e musculado, luta na guerra ao lado de um daqueles homens ricos, a quem vê debater-se, impotente, sob a gordura inútil”
“Num abrir e fechar de olhos o Estado oligárquico desaparece e se instala a democracia.”
NASCE O LUGAR DE FALA: “Todos os cidadãos alcançam direitos iguais e os cargos são preenchidos por sorteio. É este traço, para Platão, a verdadeira característica essencial da democracia”
“De um ponto de vista histórico, confunde-se aqui um fenômeno degenerativo com a própria essência da coisa, pois os próprios criadores da democracia ateniense coincidiram na crítica à mecanização da idéia de igualdade, tal como ela se manifesta na provisão de cargos por sorteio.”
“No Menexeno,¹ seguindo a velha prática das orações fúnebres dos guerreiros, Platão exalta os méritos da democracia, por ter salvo a nação nas guerras pérsicas; mas na República não se faz nenhuma alusão a eles.”
“a idéia do dever de prestar contas, que é, segundo Os Persas de Ésquilo, o que distingue a forma de Estado ateniense do despotismo asiático.”
“O indivíduo triunfa no seu caráter fortuito, naturalista; mas é precisamente isto que faz com que ‘o Homem’ e a sua verdadeira natureza sejam preteridos. Esta emancipação do indivíduo prejudica tanto o Homem como o sistema da coação e da disciplina exagerada que oprime o indivíduo. O que Platão descreve como o homem democrático é o que hoje chamaríamos de tipo individualista, que, tal como o tipo ambicioso, o avarento e o tirânico, surge efetivamente em todas as formas de Estado, mas constitui um perigo especial para a democracia.”
“Platão acha duvidoso o valor desta liberdade porque todo mundo a goza.”
“essa é a tua opinião, mas a minha é outra. Ao chegar aqui, o educador, que nesta atmosfera de incontrolabilidade sente-se como poderia sentir-se o peixe na terra seca, entra em choque com a tolerância política, que prefere escutar uma opinião insensata a reprimi-la pela violência.”
“Aquele que se vir destituído do seu cargo pela lei ou por uma decisão judicial, continua apesar disso a governar,(*) [pelo dinheiro] sem que ninguém lhe impeça. O espírito da tolerância impera aqui sobre a justiça.
(*) Rep. 557 E.”
“Por sua vez, são os próprios patrióticos guardas desta constituição ateniense que mais tendem a censurar estes defeitos do sistema, embora não se mostrem dispostos por isso a renunciar a suas vantagens.”
“Enviam para o exílio o respeito (aidos), o qual chamam de tolice, e procedem à troca de nomes de todos os conceitos de valor. À prudência chamam agora falta de virilidade, à moderação e à ordem, mesquinhez inculta; e desterram dali todas as virtudes. Sob roupagens sedutoras, entronizam entre gritos de louvor tudo o que é contrário ao que elas representam, e chamam a anarquia de liberdade, a dilapidação dos bens do Estado de magnanimidade, e a desvergonha de valentia.”
“TUCÍDIDES, III, 82, 4. Tal como aqui Platão, também ISÓCRATES no Areopagítico, 20, está evidentemente influenciado pela análise das crises políticas e dos seus sintomas em Tucídides. Esta teoria das crises adaptava-se magnificamente à concepção médica que Platão tinha dos fenômenos que se processavam no Estado e na alma dos indivíduos. Já acima, p. 452s., mostramos, à luz do exemplo do problema da causa da guerra, quanto estava o próprio pensamento de Tucídides fortemente influenciado pelo modelo da Medicina. Um novíssimo rebento do ponto de vista de Tucídides é a teoria das crises políticas que Jacob BURCKHARDT sustenta nas suas Weltgeschichtlichen Betrachtungen.”
“Fiel a sua premissa, atribui ao homem democrático como tal a culpa exclusiva do que o historiador apresenta para a Grécia inteira como conseqüência deplorável da guerra do Peloponeso.”
“Tão cedo viverá entre canções e vinho, como beberá água e emagrecerá; tão cedo se dedicará ao esporte como se sentirá mole e inativo ou entregue apenas aos interesses espirituais. Às vezes lança-se na política, levanta-se e fala, outras vezes retira-se para o campo, por achar formosa a vida rural, ou então dedica-se à especulação. A sua vida carece de ordem, mas ele a chama de vida formosa, liberal e feliz. Este homem é uma antologia de diversos caracteres e alberga um tesouro de idéias que se excluem uns aos outros.
A valorização platônica do homem democrático é absolutamente determinada pela conexão psíquica direta entre este tipo e as origens da tirania. É certo que a tirania é aparentemente a forma que mais se aproxima do Estado que Platão considera melhor. Tal como a monarquia do sábio e justo assenta no império de uma só pessoa.”
“é apenas a forma da concentração e da unidade suprema de uma vontade, que tanto pode ser justa como absolutamente injusta. A injustiça é o princípio em que se baseia a tirania. Este antagonismo que se encerra sob uma forma exteriormente semelhante converte a tirania na caricatura do Estado ideal, para Platão, e a aproximação dela é o critério do mal. A tirania se caracteriza por um máximo de falta de liberdade. E é precisamente isso que explica que ela provenha da democracia, um regime que outorga um máximo de liberdade, visto que a exaltação extrema de qualquer estado de coisas, ao tornar-se um exagero, faz com que ele se transforme no contrário.” “Esta explicação médica do processo político baseia-se, naturalmente, na experiência do último quarto de século transcorrido desde a guerra do Peloponeso. A tirania antiga surgira com a passagem da aristocracia à democracia; a chamada tirania nova, do tempo de Platão, era a forma típica de liquidar a democracia, na altura em que esta chegava à fase mais radical e já irreversível da sua evolução.”
“Para impedir esta passagem, a República romana chegou até, em épocas difíceis, a realizar a tentativa vitoriosa de converter em instituição legal da democracia o império de um único indivíduo, durante um período limitado: era este, com efeito, o significado do cargo de ditador.”
“É certo que a teoria platônica das passagens de umas formas de Estado para outras não pretende apresentar nenhuma sucessão histórica; mas, pela maneira como apresenta a crise da liberdade, é o futuro de Atenas que Platão encara nos anos da última reintegração aparente que estava reservada a sua cidade. Talvez a história tivesse realmente seguido este caminho durante mais ou menos tempo, se o Estado ateniense pudesse continuar a se desenvolver, sujeito a meras leis internas. A tirania, porém, não surgira no próprio seio da democracia, mas seria imposta a ela por uma potência externa.”
“Os pais adaptam-se ao nível da idade infantil e têm medo dos filhos; estes portam-se como adultos prematuros e pensam como velhos. Não sentem o mínimo respeito pelos pais nem dão guarida a nenhum sentimento de pudor, já que ambas as coisas chocariam o seu sentimento da verdadeira liberdade. Pessoas estranhas e estrangeiras arrogam-se a mesma posição que se fossem cidadãos do Estado, e os cidadãos vivem dentro do Estado desinteressados dele, como se fossem estrangeiros.” “Entre os jovens reina um espírito de maturidade próprio da velhice, ao passo que entre os velhos está na moda o espírito juvenil e nada se evita com tanto cuidado como a aparência de dureza e de rigor ‘despótico’.” Nada parece resumir com mais franqueza a impressão que tenho dos meus anos 2005-2016.
“Parece-lhe que em nenhum lugar como no Estado democrático os cães, os burros e os cavalos andam com tanta liberdade, com tanto desembaraço e com tão grande sentimento de si próprios. Parecem querer dizer a todos os que encontram na rua: se você não sair da frente, não sou eu que vou lhe dar passagem.” O acabamento da Antropologia pede a supremacia da Veterinária.
“Os zangões, cujo efeito pernicioso já pudemos observar no Estado oligárquico, são igualmente na democracia os germes das doenças que põem em perigo a vida coletiva. Um sábio apicultor elimina-os a tempo, do povo, a fim de salvar o conjunto da colméia. Os zangões são os demagogos que falam e atuam na tribuna, enquanto a massa zumbe a sua volta e não consente que ninguém exteriorize uma opinião diferente. O mel é a fortuna dos ricos e constitui o verdadeiro alimento dos zangões. A massa da população politicamente inativa, que vive do trabalho das suas mãos, não possui nada de grande, mas é chamada a decidir nas assembléias, e os demagogos pagam-lhe com um pouco de mel, quando ela se decide a confiscar a fortuna dos ricos; mas é para si próprios que os zangões guardam a maior parte dessa fortuna. Os abastados lançam-se na política para se defenderem com as únicas armas eficazes dentro do Estado. [as palavras] Por outro lado, porém, a sua resistência é interpretada como um grito de combate e a massa confere ao seu chefe poderes ilimitados. E assim nasce a tirania.” Perfeito.
“Para proteger a vida, cerca-se de uma guarda pessoal que deliberadamente lhe entrega a multidão, a qual é suficientemente tola para se preocupar mais com ele do que consigo própria.”
“Começa a agir como amigo do povo e seduz todo mundo com o seu trato afável. Nega que o seu governo tenha algo de comum com a tirania e faz ao povo grandes promessas” “Mas, para se tornar indispensável como chefe, vê-se forçado a procurar pretextos contínuos para realizar empreendimentos bélicos. Isto vai pouco a pouco atraindo sobre ele o ódio cada vez maior do povo, e as críticas sobem mesmo aos lábios dos seus sequazes mais fiéis e dos conselheiros mais chegados, os quais o ajudaram a subir ao poder e hoje ocupam elevados postos. E não tem outro remédio senão afastá-los todos, se quiser manter o seu poder. Os homens mais valentes, os mais puros e os mais sábios vêem-se obrigados a tornarem-se seus inimigos”
“E para poder sustentar um séquito tão grande, precisa praticar mais um desacato: o confisco dos bens sagrados para o Estado. Finalmente o povo repara no que criou. Para fugir da sombra da escravidão que receava da parte de homens livres, caiu num despotismo entregue em mãos de escravos.”
“Platão é o pai da psicanálise. É ele o primeiro que desmascara a monstruosidade do complexo de Édipo, a volúpia de se unir sexualmente à própria mãe, como sendo parte do eu inconsciente, que ele traz para a luz por meio da investigação das experiências dos sonhos; e apresenta ainda toda uma série de recalcados complexos de desejos análogos a este, que vão até o comércio sexual com os deuses,¹ a sodomia e o simples desejo de matar. Rep. 571 C-D” O leitor do século XX é mesmo um imbecil! O lado esclerosado de Platão, no que se refere à homofobia de um ateniense. (!!) Chega a ser incrível cunhar a frase. Curioso, aliás, como a sodomia faz Grécia e “Israel” confluírem.
¹ Ao quê isso hoje se equipara? Ex-Big Bosta Brasil, Anitta?…
LEI SOCIOLÓGICA: Quanto mais homofobia, mais gays. A sina LGBT.
SÓCRATES NA CELA (FÉDON): “Assim como, na sua opinião, é no irracional que se preforma o racional, também é no inconsciente que o irracional se forma. Da descoberta platônica das conexões existentes entre a vida dos sonhos e os atos do homem desperto tira Aristóteles sugestões importantes para as suas investigações sobre os sonhos; mas as investigações aristotélicas têm mais um caráter de ciências naturais” Não diga! E por isso não chegam a conclusão alguma. Bom, pelo menos ele tampouco inventa conclusões, como Freud!
“Esta pedagogia do sono teve grande influência nos últimos tempos da Antiguidade.” “Não é moral, mas dietética, a receita que Platão dá à alma para o sono.”
“O exemplo que nos 4 casos apresenta para pôr em destaque a deterioração da fase seguinte é o de um jovem que forma as suas opiniões e os seus ideais em oposição com os do pai.” “À medida que o pai exagera unilateralmente a sua tendência para o ideal que persegue, tendência legítima dentro de certos limites, a resistência natural da juventude perante os velhos, a qual se agita na alma do filho, vê alimentada a sua repugnância contra a adaptação integral ao tipo paterno da arete.”
“tanto na alma como no Estado, o que fomenta a anarquia é o problema dos desempregados.”
“A experiência mostra que a essência do tirânico está sempre associada principalmente a 3 forças psíquicas de destruição: o erotismo, o alcoolismo e a depressão maníaca. É quando o homem se torna, por predisposição, por hábito ou pelas duas coisas ao mesmo tempo, alcoólico, erótico ou melancólico, que a alma tirânica surge.”
“Eros, o grande tirano, arrasta-o a todas as loucuras”
“o tirânico existe em todos os tamanhos, desde o pequeno ladrão e salteador até o homem que as pequenas almas de tirano conseguem elevar ao poder supremo do Estado (…) Finalmente, repete-se numa fase superior o mesmo espetáculo de violência que a princípio o pequeno tirano dava em relação ao pai e à mãe e que agora o tirano grande faz contra a sua pátria-mãe e pai.”
“Dáimon é o deus na sua ação e significado voltados para o Homem.”
“Existem em grego várias palavras para exprimir o que nós chamamos ‘vida’: aion designa a vida como duração e tempo delimitado de viver; zoe significa antes o fenômeno natural da vida, o fato de estar vivo; bios é a vida considerada como unidade de vida individual, a que a morte põe termo, e também como subsistência: é, por conseguinte, a vida enquanto qualitativamente distinta daquela de outros seres humanos.”
“São como os gregos que, às portas de Tróia lutavam pela recuperação de Helena sem saberem que a Helena de Tróia não passava de uma imagem enganosa e que, como conta Estesícoro, a verdadeira Helena se encontrava no Egito.” “E Platão leva tão longe o seu jogo irônico que determina as distâncias relativas a que os tipos de Homem correspondentes às diversas formas de Estado se encontram do verdadeiro prazer, calculando que o tirano vive 729 vezes menos agradavelmente que o homem platônico.”
“O leão é o Homem considerado como ser temperamental, com os seus sentimentos de cólera, de pudor, de coragem, de entusiasmo. Mas o verdadeiro Homem, ou o Homem no homem, como este novo conceito é maravilhosamente explicado na alegoria platônica, é a parte espiritual da alma.”
“Platão pediu-nos que o acompanhássemos na descoberta do Estado, e em vez dele descobrimos o Homem. Quer o Estado ideal seja realizável no futuro, quer seja irrealizável, podemos e devemos construir sem cessar o ‘Estado em nós’.” “este é o maior de todos os paradoxos forjados pelo pensamento de Platão.”
“Na luta pela renovação da polis, esta renovação do próprio indivíduo era originariamente concebida como o germe de uma nova ordem universal. Porém, a interioridade da alma revela-se por fim como o último refúgio da inquebrantável vontade normativa do antigo homem da polis grega, que soubera construir outrora a cidade-Estado, mas que agora já não encontra no mundo nenhuma pátria.”
“A seriedade com que nos tempos primitivos e no período clássico do Helenismo tinham sido concebidas as relações entre o indivíduo e a comunidade pareceu durante muito tempo traduzir-se num entrelaçamento sem par da vida do indivíduo com o espírito da polis. Do ponto de vista de Platão, contudo, compreendemos que precisamente este entrelaçamento total, caso se leve a cabo coerentemente, nos faz sair fora da esfera terrestre do Estado e nos eleva ao único mundo onde real e verdadeiramente pode imperar: o mundo divino.”
3.12 A República – III
“como costuma acontecer em Platão, o problema da forma implica um profundo problema filosófico”
“Na educação posterior dos governantes, baseada já num saber puramente filosófico, a poesia e a cultura musical não desempenham papel importante, razão pela qual Platão não teve até agora ocasião de dizer a sua última palavra acerca da missão educativa da poesia, do ponto de vista da Filosofia, i.e., do puro conhecimento da verdade. (…) Portanto, justifica-se absolutamente que Platão examine uma vez mais, sobre esta base, a questão da poesia.”
“esta última batalha decisiva entre a Filosofia e a poesia. (…) Do ponto de vista ‘moderno’, que encara a poesia como simples literatura, é difícil de compreender esta exigência, que parece uma ordem tirânica, uma usurpação de direitos alheios. Mas, à luz da concepção grega da poesia como representante principal de toda a paideia, o debate entre a Filosofia e a poesia tem necessariamente de recrudescer no momento em que a Filosofia ganha consciência de si própria como paideia e por sua vez reivindica para si o primado da educação.
Este problema converte-se forçosamente num ataque a Homero, entre outras coisas porque todos amam este poeta, e portanto se compreenderá melhor quanto é sério o problema levantado, se o ataque incidir sobre ele, o poeta por antonomásia. (…) Dissuadiram-no até agora de professar publicamente estas opiniões uma timidez e um respeito santos para com o poeta, sentidos desde criança.”
“É contra a poesia trágica que é dirigida a força principal do ataque, pois é nela que se manifesta mais vigoroso o elemento ‘patético’ impulsionador da ação que a poesia exerce sobre a alma.”
(*) “A descrição que em Íon, 531 C, Sócrates faz do conteúdo tão complexo do mundo das idéias homéricas parece muito com a de Rep., 598 E.”
“Ainda na obra de Plutarco sobre a vida dos poetas, pertencente à época imperial, deparamos com igual feição realístico-escolar de considerar a poesia homérica a fornte de toda a sabedoria.”
“Encontramo-nos aqui numa viragem da história da paideia grega. A luta trava-se em nome da verdade contra a aparência. (…) E como nunca nem em parte alguma, talvez, se poderá vir a realizar o Estado ideal, como Platão acaba de declarar, o repúdio da poesia não significa tanto o seu afastamento violento da vida do Homem, como uma delimitação nítida da sua influência espiritual para quantos aderirem às conclusões de Platão. A poesia estraga o espírito dos que a ouvem, se eles não possuírem o remédio do conhecimento da verdade. Isto quer dizer que se deve fazer descer a poesia para degrau mais baixo. Continuará sempre a ser matéria de gozo artístico, mas não lhe será acessível a dignidade suprema: a de se converter em educadora do Homem.” Terá sido fortuito meu gosto pela poesia ter despertado apenas mais tarde?
ATRÁS DO FILÓSOFO E DO MÚSICO: “a relação que existe entre a poesia e a verdade e entre a poesia e o Ser.” “Tal como alguém que pretendesse criar um segundo mundo, colocando a imagem deste no espelho, assim o pintor se limita a traçar a simples imagem refletida das coisas e da sua realidade aparente.” “O pintor é, assim, o criador imitativo de um produto que, à luz da verdade, ocupa o terceiro lugar. O poeta pertence à mesma categoria”
“só lhe interessa saber se possuía a arte política e se era realmente capaz de educar os homens. Pergunta ao poeta, como num exame com todas as regras, se alguma vez melhorou uma cidade ou aperfeiçoou as suas instituições, como os antigos legisladores, ou se ganhou uma guerra, ou se, como Pitágoras e os seus discípulos, ofereceu aos homens, na vida privada, o modelo de uma vida nova (bios). Mas é indubitável que nunca chegou a congregar em redor de si, como os sofistas, os mestres da educação contemporâneos, discípulos e seguidores dedicados a cantar-lhe a fama. Isso era, sem dúvida, uma sátira manifesta aos sofistas, que consideravam Homero e os poetas antigos como seus iguais” Séculos nos separam como se fosse ontem!
“A poesia é como o esplendor juvenil de um rosto humano, que em si não é belo e cujos encantos, por isso, desaparecem com a juventude.” Atribui à Poesia a crítica que Cálicles atribui à Filosofia.
“É a consciência profunda de que a poesia não é uma planta que floresça em qualquer estação, idéia que pela 1ª vez começa a desenhar-se no espírito grego.”
“A elevação do eu moral acima do Estado em decomposição, a substituição do espírito criador pela forma poética da criação, o retorno da alma a si própria, tudo isso são rasgos que só um gênio de primeira grandeza, como Platão, podia captar como visão de uma nova realidade.”
“A sua obra é o reflexo dos preconceitos e ideais dominantes, mas falta-lhe a verdadeira arte da medida, sem a qual não é possível sobrepor-se à aparência. Em todo este diálogo é notável a ironia de Sócrates, que veste as suas profundas reflexões com a conhecida roupagem pedante e deixa ao leitor muita coisa em que pensar, com a escolha dos exemplos das mesas e das cadeiras.”
“Mas a poesia coloca-se na fase infantil e, à semelhança da criança, que, ao sentir uma dor, leva a mão à parte dolorosa do corpo e chora, também ela acentua ainda mais o sentimento de dor que representa, imitando-a.”
“Oh, I can no more!” – quão insuportável se tornou ler Dumas Filho e Eça de Queirós!
“a parte passional da alma está sempre excitada e aparece sob múltiplas formas e, portanto, é mais fácil de imitar.” Um ator mediano não seria capaz de imitar o “ébrio contido”, tal qual Sócrates no Banquete. Já Alcibíades é um tipo muito simples e acessível!
“Interessa-lhe um aspecto da alma diferente do psicofísico, interessa-lhe a alma como receptáculo de valores morais.”
“Tal como o Estado, também a alma do Homem não se mostra nunca sob a sua forma perfeita, quando encarnada na realidade terrena. Só a vemos no estado em que Glauco a pinta, no emergir da ressaca da vida, coberta de algas e de conchas, alquebrada e gerida aqui e ali, estragada pelas ondas, mais semelhante a um bicho do que ao seu verdadeiro ser.”
“A estrela polar do homem platônico já não pode ser a fama alcançada entre os seus concidadãos, como o fôra durante todos aqueles séculos de esplendor da antiga polis grega, mas apenas a fama peranteDeus.” O Homem ou representantes da arete.
“Faz uma tentativa audaciosa para conciliar a consciência moral do dever, que vive em nós, com a antiga e oposta fé grega no daimon, que encadeia magicamente todos os atos do Homem, desde o princípio até o fim. § A idéia da paideia pressupõe a liberdade de opção;(*) mas a ação do daimon pertence à esfera da ananke.
(*) (…) O conceito de opção em sentido ético, aparece desde muito cedo em Platão, relacionado com o problema da reta conduta (…) É sobre esta base que depois Arist. constrói na Ética a sua teoria da vontade.”
“O único saber com valor é saber escolher, pois dá ao Homem a capacidade de adotar a verdadeira decisão. É este o sentido do mito, que o próprio Platão explica.”
LIVRO QUARTO: O CONFLITO DOS IDEAIS DE CULTURA NO SÉCULO IV
“Este livro parte do mesmo ponto do que o precede, mas segue uma linha de desenvolvimento intelectual diferente. (…) O livro regressa na 2ª parte a Platão e estuda a fase posterior da sua carreira como filósofo.
4.1 A Medicina como paideia
“Pode-se afirmar sem exagero que sem o modelo da Medicina seria inconcebível a ciência ética de Sócrates, a qual ocupa o lugar central nos diálogos de Platão.”
“Apesar de tão evoluída, a Medicina dos nossos dias, fruto do renascimento da literatura médica da Antiguidade clássica na época do humanismo, é, pela sua especialização rigorosamente profissional, algo de totalmente distinto da ciência médica antiga.”
(*) “Anteriormente, ao contrário, era de Tales que se fazia partir a história da Medicina grega, de acordo com a teoria de CELSO (I Proem., 6), segundo a qual a filosofia onicientífica abarcava primitivamente todas as ciências. Isto é uma construção histórica romântica da época helenística.”
“A Medicina jamais teria conseguido chegar a ciência, sem as investigações dos primeiros filósofos jônicos da natureza”
(*) “J.H. BREASTED, The Edwin Smith Surgical Papyrus published in Facsimile and Hieroglyphic Transliteration with Translation and Commentary (2 vols, Chicago, 1930). Cf. Abel REY, La Science Orientale avant les Grecs (Paris, 1930) (…) MEYERHOF, ‘Über den Papyrus Edwin Smith, das älteste chirurgiebuch der Welt’in Deutsche Zeitschrift für Chirurgie, t. 231 (1931), pp. 545-90. »
“Aos médicos egípcios não faltava por certo especialização, muito acentuada entre eles, nem empirismo. A solução do enigma não pode ser mais simples: reside pura e simplesmente no fato de aqueles homens não terem do conjunto da natureza o ponto de vista filosófico que os jônios tinham. Sabemos hoje que a Medicina egípcia já era bastante forte para superar a fase de magia e de bruxaria que a metrópole grega ainda conheceu no mundo arcaico que rodeava Píndaro.”
“Quando um médico [todos os profissionais eram peripatéticos, ambulantes] chegar a uma cidade desconhecida para ele, deve determinar, antes de mais nada, a posição que ela ocupa em relação às várias correntes de ar e ao curso do Sol … assim como anotar o que se refere às águas … e à qualidade do solo … Se conhecer o que diz respeito à mudança das estações e do clima, e o nascimento e o ocaso dos astros … conhecerá antecipadamente a qualidade do ano … Pode ser que alguém julgue isto demasiadamente orientado para a ciência, mas quem pensar assim pode convencer-se, se alguma coisa for capaz de aprender, que a Astronomia pode contribuir essencialmente para a Medicina, pois a mudança nas doenças do homem está relacionada com a mudança do clima.”Hipócrates,Dos Ventos, Águas e Regiões
“É o mesmo espírito da filosofia milesiana da natureza que inspira as memoráveis palavras do ensaio Da Doença Sagrada (a epilepsia), as quais asseveram que a dita enfermidade sagrada não é nem mais nem menos divina que outra qualquer e depende de causas naturais, como as restantes. Todas as doenças são divinas e humanas. (ver especialmente caps. I e XXI).”
“As mais recentes investigações científicas a eles consagradas provaram em grande parte que os escritos que formam esta coleção – os quais se contradizem mutuamente em muitos trechos e até se combatem – não podem provir do mesmo autor, conclusão a que já a filologia hipocrática da Antiguidade havia chegado. Esta filologia, tal como a dedicada a Aristóteles, surgiu como fenômeno concomitante do renascimento espiritual daqueles dois grandes mestres do período helenístico e existiu enquanto permaneceram de pé a cultura grega e a ciência médica, como parte integrante dela. Os extensos e eruditos comentários de Galeno às obras de Hipócrates e todo o resto que nos chegou fragmentado ou na integridade – contribuições lexicográficas e outros escritos acerca daquele autor – e que é proveniente de uma etapa posterior da Antiguidade, põem-nos diante dos olhos uma imagem daquelas investigações eruditas que infunde respeito pela sua ciência e pela sua capacidade; mas ao mesmo tempo ficamos céticos perante a sua confiança excessiva em poder tornar a descobrir o autêntico Hipócrates, entre a massa dos escritos hipocráticos.”
“É o mesmo fenômeno com que deparamos quando se trata de pôr em ordem a herança literária dos chefes de grandes escolas filosóficas, como Platão(*) e Arist., embora em menor grau do que no caso de Hipócrates.
(*) (…) Henri ALLINE, Histoire du Texte de Platon (Paris, 1915)”
“O ‘juramento’ hipocrático, que deviam prestar os que queriam ingressar na agremiação, continha entre outras a obrigação solene de guardar o segredo da doutrina. Era geralmente de pais a filhos que ela se transmitia, uma vez que estes podiam suceder àqueles no exercício da profissão. As pessoas estranhas, ao serem aceitas como discípulos, eram equiparadas aos filhos. Em troca, obrigavam-se a transmitir gratuitamente a arte médica aos filhos que o seu mestre deixasse ao morrer. Outro traço muito típico era também o de os discípulos se casarem, tal como os aprendizes, dentro da corporação. Do genro de Hipócrates, Polibo, expressamente se nos diz que era médico. Por acaso é o único membro da escola de Cós de quem Arist. cita nominalmente uma pormenorizada descrição do sistema circulatório.”
“na profissão médica é tão forte ainda a solidariedade grupal que na prática profissional não é corrente frisar a paternidade individual de determinadas idéias e doutrinas. Era evidentemente na exposição oral dos ensinamentos perante o grande público que o médico investigador expunha em seu próprio nome as suas idéias pessoais.”
“está comprovada pelas investigações do século passado a existência de uma escola médica em Cnido (Ásia Menor) e de outra escola grega ocidental, siciliana.”
“…a progressiva tecnicização da vida e a diferenciação em profissões mais especializadas, para as quais se requer uma formação especial com altas exigências espirituais e éticas, mas só acessível a um reduzido número de pessoas. É significativo que as obras dos médicos falem muito de leigos e de profissionais. É uma distinção prenhe de conseqüências, que encontramos pela 1ª vez. A palavra leigo provém da linguagem da Igreja medieval e nas suas origens servia para designar os não-clérigos e mais tarde, em sentido lato, os não-professos; em contrapartida, o termo grego idiotes, que exprime a mesma idéia, tem origem político-social. Designa o indivíduo que não está enquadrado no Estado e na comunidade humana, mas vive a seu bel-prazer. Em oposição a ele, o médico sente-se um demiurgo, i.e., um homem de ação pública, nome também dado, aliás, a qualquer artífice que se dedique a produzir roupas ou ferramentas para o povo. Os leigos, encarados como objeto da atividade demiúrgica do médico, costumam também ser designados por membros do demos.”
“O médico grego partilha com o artista a carência de um nome que diferencie das atividades do artífice, em sentido moderno, a sua alta capacidade.”
“Quanto ao resto, as palavras citadas indicam desde logo que se sentia como problema a posição isolada, ainda que altíssima, que o novo tipo de médico ocupava no conjunto da comunidade.”
“Surge uma literatura médica especial, destinada a pessoas estranhas à profissão. Felizmente chegaram até nós os 2 gêneros de literatura, a profissional e a destinada ao grande público. É à 1ª que pertence a grande massa das obras médicas conservadas. Estas obras não podem ser aqui apreciadas, porque o nosso interesse incide primordialmente na 2ª classe.”
(*) “Importa distinguir as conferências iatro-sofistas sobre temas genéricos, em prosa retórica, dos escritos redigidos em forma sóbria e objetiva, dirigidos igualmente ao grande público, como as obras Da Medicina Antiga, Da Doença Sagrada e Da Natureza do Homem. Os 4 livros Da Dieta são também obra literária. Esta literatura destina-se ao ensino dos leigos e à própria propaganda, necessária num mundo onde ainda não existia uma profissão médica autorizada pelo Estado. Cf. De Vet. Med., 1 e 12; De Arte, 1; De Victu ac., 8.”
“É no jovem Eutidemo, que mais tarde se converteria em ardente partidário de Sócrates, que Xenofonte pinta este novo tipo de culto. Só tem interesses espirituais e já comprou uma biblioteca inteira. Compõem-na obras de Arquitetura, de Geometria, de Astronomia, e principalmente muitos livros de Medicina.”
“também dentro dos campos especiais existe indubitavelmente uma forma de homem culto que corresponde àquele tipo de homem de cultura geral.” ARIST., Part. An., I, 1, 639 a 1
“O conceito aristotélico de homem culto em matéria de Medicina ou de ciência natural é menos confuso que o tipo descrito por Platão e Xenofonte.”
“O aparecimento dessa esfera intermediária entre a ciência profissional e o campo do profano integral é um fenômeno característico da história da cultura grega do período pós-sofístico.”
“Hipócrates – diz-nos – ensina a perguntar sempre em 1º lugar se é simples ou multiforme a natureza do objeto acerca do qual queremos adquirir um verdadeiro saber e uma verdadeira capacidade e, no caso de ser simples, a continuar a investigar até que ponto é capaz de exercer influxo sobre outro objeto determinado ou de lhe sofrer a influência; se, pelo contrário, apresenta múltiplas formas ensina-nos a enumerar estas formas ou tipos e a verificar para cada uma delas o que verificaríamos se se tratasse de um objeto simples: como influi sobre os outros ou como é suscetível de por eles ser influenciado.”
“Arist. distingue essencialmente entre a educação individual e a coletiva, apoiando-se para isso no exemplo da Medicina.”
“bastará lembrar que para Arist. a ética versa sobre a regulação dos impulsos humanos do prazer e da dor.” “Por conseguinte, o comportamento moral é a tendência a concentrar-se no justo meio que para cada qual existe entre o excesso e o defeito. Os termos aqui usados por Ar., o conceito de excesso e de defeito, de ponto médio e de justa medida (…) e o do tato seguro, a recusa de uma regra absoluta e a exigência de uma norma adequada às características de cada caso concreto, são tudo termos e critérios tirados diretamente da [pior parte da] Medicina” “Ao tomarem por fundamento uma fase de conhecimento alcançada já num terreno paralelo, Platão e Ar. infundem a sua doutrina uma autoridade maior. Tudo está relacionado na estrutura da vida grega e uma pedra assenta sobre outra.”
“Ainda não se fez até hoje nenhuma tentativa sistemática para definir o conceito de natureza na antiga literatura médica dos gregos, apesar da importância que isso teria para toda a história do espírito no mundo de então e na posteridade.”
W. THEILER, Geschichte der Teleologischen Naturbetrachtung bis auf Aristoteles (Zurich, 1925)
A. BIER, ‘Beiträge Zur Heikunde’, in Münschener Medizinische Wochenschrift, 1931, nos. 9ss.
“Em oposição a Galeno, Hipócrates era considerado um empirista puro, e com isto julgava-se estabelecida a incompatibilidade do ponto de vista teleológico com Hipócrates. Este era reputado um dos grandes representantes antigos da atitude puramente mecânico-causal em face da natureza. (cf. GOMPERZ, Griechische Denker, t. I)”
“não nos espanta depararmos também com a palavra arete nas obras que condensam o pensamento médico antigo. Não é sob a influência de Platão que este termo penetra na Medicina. Pelo contrário (…) É especialmente nas doenças que na ação da natureza se revela a adequação a um fim. [que frase porcamente traduzida!] (…) Os sintomas da doença, e sobretudo a febre, representam já de si o início do processo de restabelecimento do estado normal. (…) o médico limita-se a averiguar onde pode intervir para ajudar o processo natural encaminhado à cura. A natureza a si própria se ajuda.O apressuramento da psyche em acudir à parte do corpo ferida – que Heráclito, frag. 67a, compara à precipitação da aranha em correr para o local da teia rasgada pela mosca – recorda a precipitação da natureza em acudir em auxílio do corpo, contra as doenças, segundo a doutrina dos hipocráticos. Este passo dá mais a impressão de uma teoria médica que de um aforismo de Heráclito.”
“É neste ponto que o moderno vitalismo introduz, como nível intermédio entre o consciente e o inconsciente, o conceito fisiológico de estímulo[,] fonte das reações teleológicas do organismo. Em Hipócrates este conceito não aparece ainda.”
“Embora a Medicina tentasse a princípio invadir o campo da ginástica, as obras dietéticas que se conservam atestam que não tardou a estabelecer-se uma divisão de jurisdições, em que o médico se submetia para certas coisas à autoridade do ginasta.”
“Perderam-se as obras mais antigas sobre higiene. Se o critério cronológico vigente fosse certo, disporíamos para a época dos fins do séc. V e começos do IV, em que se principiou a desenvolver este aspecto da cultura física grega, de 2 testemunhos, além do breve escrito De um Regime de Vida Saudável e 4 livros Da Dieta, obra famosa na baixa Antiguidade; e ainda os extensos fragmentos, conservados por escritores posteriores, da obra perdida do importante médico Díocles de Caristo.”
“Caráter totalmente diverso tem a obra verdadeiramente enciclopédica Da Dieta, que o autor empreendeu com o propósito de resumir e completar onde fosse preciso toda a literatura sobre o assunto, que já era muito copiosa na sua época. O autor é um filósofo e um sistemático, e caracterizá-lo-íamos com pouca justiça se o qualificássemos de simples compilador.É mais que duvidoso que as tentativas de análise desta obra, que até agora se fizeram e a retalharam para atribuir uns pedaços a um sofista heraclitizante, outros a um discípulo de Anaxágoras e outros ao dietético Heródico, representem a solução do enigma.” “Temos de nos decidir a situar Da Dieta não mais antes de começos do século, mas sim bem dentro, do séc. IV.”
“Um conhecido fragmento do dramaturgo Epícrates, procedente desta época, fala de algumas tentativas de classificação de todo o mundo animal e vegetal feitas na Academia, na presença de um médico siciliano, entre outros.” “Foi mais tarde, nas obras de Espeusipo e Aristóteles, que vieram à luz da publicidade as investigações da Academia sobre a classificação do reino animal e vegetal. O sistema do dietético apresenta certas semelhanças com os daqueles dois.”
“Os numerosos pontos de contato da sua interpretação casuística dos vários tipos de imagens projetadas nos sonhos com os livros de sonhos hindus e babilônicos de época anterior e posterior levaram já outros investigadores à conclusão de que estamos perante uma influência direta do Oriente na ciência médica dos gregos. Essa influência oriental pode ter-se produzido por si mesma também em época anterior. Mas em nenhuma época se enquadra melhor do que no séc. IV, na Jônia de Eudoxo de Cnido” “Os gregos não podiam ser acessíveis à sabedoria e superstição orientais sobre a vida dos sonhos, antes que a alma se convertesse para eles próprios no centro do pensamento, o que nesta forma científico-teórica não sucedeu antes do séc. IV.” “O escrito de Arist. ‘Da Profecia dos Sonhos’, chegado até nós, prova que o problema do valor de realidade dos sonhos reaparece no séc. IV já numa fase científica.”
“Também a linguagem Da Dieta encaixa melhor nos meados do que no começo do séc. IV ou em período anterior. Ainda se continuou a escrever em dialeto jônico ao longo de todo este séc., e os períodos construídos aqui e além, corretamente longos, antitéticos e isocóricos [simétricos, de dimensão e ênfase paralelas], indicam mais a época de Isócrates e da sua retórica que a de Górgias. Um estilo como o do dietético é inconcebível ao lado da redação perfeitamente despida de retórica e simplista das obras de medicina profissional que com certa segurança podemos situar na época de Hipócrates ou na geração posterior a ele. Diferem também consideravelmente das obras de uma época anterior, dirigidas a um vasto público e fortemente influenciadas pela prosa sofística.”
“Observamos primeiro a influência da antiga filosofia da natureza sobre a Medicina do séc. V e em seguida a repercussão da nova Medicina empírica sobre a filosofia de Platão e Aristóteles.Em Díocles, autor que se encontra visivelmente influenciado pelas grandes escolas filosóficas de Atenas, a Medicina volta a ser a parte que recebe, embora seja certo que não recebe nada sem contribuir por sua vez com alguma coisa.”
“a mais rigorosa de todas as ciências em matéria de provas, a Matemática, tem necessariamente que pressupor como fatores dados certas qualidades das grandezas ou dos números.”
“não estranha que os gregos, como todos os testemunhos o indicam, fossem grandes madrugadores. Não convém levantar-se logo depois do despertar, mas deve esperar-se que a lassidão do sono se dissipe dos membros, e em seguida friccionar a cabeça e o pescoço nos locais em que estiverem expostos à pressão da almofada. Antes de defecar, recomenda-se que se esfregue o corpo inteiro com um pouco de azeite misturado com água, no Verão. [!] Friccionar-se-á o corpo, de maneira suave e uniforme, fazendo funcionar ao mesmo tempo todas as articulações. O banho imediatamente após o levantar não é indicado. [!] Deve-se esfregar o rosto e olhos com água fria e límpida, lavando previamente as mãos. Segue-se a isto uma série de pormenores precisos sobre o cuidado dos dentes, do nariz, dos ouvidos, do cabelo e do couro cabeludo. Este último deve ser conservado elástico e limpo, para a transpiração, e ao mesmo tempo rijo. [?] Realizadas todas estas operações, aquele que tiver o que fazer dirigir-se-á ao seu trabalho, depois de ter comido alguma coisa. Quem dispuser de tempo para isso, deve dar um passeio, quer antes quer depois do desjejum, passeio cujo caráter e duração devem ajustar-se à constituição física e à saúde do indivíduo.”
“a pessoa deverá sentar-se para resolver seus assuntos domésticos ou para outras ocupações suas até à hora do exercício físico. Para a prática deste, os jovens irão ao ginásio e as pessoas idosas ou fracas aos banhos ou a qualquer outro local ensolarado para se friccionarem.” “É preferível que a própria pessoa se friccione a que se deixe massagear por outra, pois os próprios movimentos substituem a ginástica.” Curioso como terceirizaram tudo – da massagem à malhação!
“Aos cuidados matinais do corpo segue-se o almoço que deve ser muito leve e não-flácido, para que possa ser digerido antes da ginástica da tarde. [A sabedoria espanhola!] Para logo e depois do almoço está indicada uma breve sesta em local escuro, fresco e sem correntes de ar; em seguida, alguns trabalhos caseiros e um passeio e, por fim, após breve repouso, os exercícios físicos da segunda parte do dia. Este finda com a refeição principal. Díocles não fala dos diversos exercícios; e a literatura dietética não nos informaria acerca deste ponto, o mais importante da cultura física grega, se não fosse por intermédio do autor da obra Da Dieta, que, coerente com o seu método diferente de todos os outros, faz seguir a classificação das comidas e bebidas de uma enumeração de todos os tipos de esforços físicos e psíquicos, incluindo entre eles os exercícios gímnicos. [!] Díocles, por seu lado, exclui da dieta a ginástica, que deixa inteiramente a cargo do ginasta. Edifica, porém, todo o seu plano médico diário sobre os 2 pilares dos exercícios matinais e vespertinos, no ginásio.” Até mesmo o sr. Abílio Diniz leva uma vida de escravo!
Filosofar queima calorias?, eis a questão.
“Díocles, no entanto, repara naturalmente que não vive num mundo médico abstrato e por conseguinte não procede como se todos os homens vivessem exclusivamente preocupados com a conservação da saúde. O autor da obra Da Dieta compreende também este problema social e a necessidade de chegar a um acordo entre os princípios ideais do método e as condições materiais de vida do paciente.” “Em seguida, vai descontando coisas para os que também têm de trabalhar e dispõem de pouco tempo para dedicar aos cuidados do corpo. Não se deve, porém, pensar que os médicos gregos só escreviam para os ricos. Isto seria falso. Também os filósofos de então pressupunham um ócio total para o seu bios, deixando que cada qual descontasse deste ideal a parte necessária.”
“O exemplo da cultura física médica revela precisamente que a polis grega era, mesmo na sua forma democrática, uma aristocracia social” Uma Águas Claras pensante, sem carros, todos “tabeliães” de meio-período. Todos, i.e., 10% da população.
“Nenhum dos grandes tipos de vida profissional do nosso tempo, nem o comerciante nem o político, nem o cientista, o operário ou o camponês se enquadraria no âmbito deste estilo de vida da Grécia.”
“Seria um erro pensar que os kaloi kagathoi passavam todo o dia no ginásio, friccionando-se e fazendo exercícios, depilando-se e colorindo-se de areia, para voltarem a se lavar, devotados a uma atividade que até o agon livre convertia em febril trabalho especializado.”
“o conceito de são é ampliado até formar um conceito normativo universal aplicável ao mundo” “A Medicina grega é simultaneamente raiz e fruto desta concepção do mundo, que constitui o seu alvo constante” “Se a Medicina pôde conquistar uma posição tão representativa da cultura grega, foi por ter sabido proclamar no campo mais próximo ao da experiência imediata do Homem a vigência inviolável desta idéia fundamental da alma grega.” Ah, a barbárie!
4.2 A retórica de Isócrates e o seu ideal de cultura
“Isócrates, como mais destacado representante da retórica, personifica a antítese clássica do que Platão e a sua escola representam. A partir de então ressoa como nota fundamental através da história da cultura antiga o pleito da Filosofia e da retórica, cada uma das quais pretendendo ser a melhor forma de educação.”
(*) “H. Von ARMIN, Leben und Werke des Dion von Prusa (Berlim, 1898), pp. 4-114, faz um resumo histórico bastante completo da evolução desta polêmica.”
“Nas suas fases subseqüentes, o antagonismo degenera por completo, a espaços, numa luta puramente acadêmica, uma vez que ambas as partes carecem de autêntico conteúdo vital; na época em que o debate principia, elas representam ainda as forças e necessidades verdadeiramente motoras da nação grega e é no centro do palco da vida política que o seu diálogo se trava. É isto que lhe dá o colorido dos verdadeiros acontecimentos históricos e o grande estilo que lhe assegura o interesse permanente da posteridade; mais ainda: olhando para trás, reparamos que nesta luta ganham expressão os problemas verdadeiramente decisivos da história grega daquele tempo.
Tal como Platão, também Isócrates encontrou nestes últimos tempos admiradores e expositores; e a partir do Renascimento imperou, indiscutivelmente, mais que qualquer outro mestre da Antiguidade, na prática pedagógica do humanismo.Do ponto de vista histórico, é perfeitamente legítimo que o seu nome seja destacado nas capas dos livros modernos como o pai da ‘cultura humanística’, na medida em que não são os sofistas os que têm direito a reivindicar este título.”
(*) “Cf. o livro do discípulo de E. Drerup, August BURK, Die Pädagogik des Isokrates als Grundlegung des Humanistischen Bildungsideals (Würzburg, 1923), especialmente os capítulos sobre a ‘Sobrevivência da pedagogia isocrática’, pp. 199 ss., e ‘Isócrates e o humanismo’, pp. 221 ss.. Posteriormente publicaram-se 4 conferência de Drerup, com o título Der Humanismus in seiner Gecshichte, seinem Kulterwerten und seiner Vorbereitung in Unterrichtswesen der Griechen (Paderborn, 1934). Estudiosos britânicos como Burnet [op. cit.] e Ernest Barker chamam Isócrates de pai do humanismo.” Werner e esses autores seus contemporâneos devem ter influenciado Heidegger. Um assunto deveras simples, tratado em menos de 1500 páginas!
(*) “Isto visa igualmente àqueles que numa história da paideia exigem que se comece por definir o que se entende por tal. Era o mesmo que pedir ao historiador da Filosofia que se cingisse à definição de Platão, ou à de Epicuro, à de Kant ou à de Hume, cada um dos quais entendia por Filosofia uma coisa totalmente diferente. A missão de um livro de história sobre a paideia é descrever com a maior fidelidade possível, tanto na sua peculiaridade individual como na sua ligação histórica, os diversos significados, formas de manifestação e camadas espirituais da paideia grega.”
“Não deixa de ter importância saber que o que os educadores atuais consideram muitas vezes a essência do ‘humanismo’ é substancialmente a continuação da linha retórica da cultura antiga e que, na realidade, a história do humanismo chega infinitamente mais longe, pois abrange a totalidade das repercussões da paideia grega e, portanto, a ação universal da Filosofia e da ciência helênica.(*) Encarada desta forma, a consciência da autêntica paideia dos gregos converte-se diretamente na autocrítica do humanismo erudito dos tempos modernos.(**)
(*) Cf. sobre isso o meu ensaio ‘Platos Stellung in Aufbau der Griechischen Bildung‘ (Berlim, 1928), publicado pela 1ª vez em Die Antike, vol. IV, 1928, nos 1-2.
(**) (…) A habitual construção histórica do humanismo com as rígidas divisões de Idade Média e Renascimento, escolasticismo e humanismo torna-se insustentável (…) Non datur saltus in historia humanitatis.”
“O antigo dualismo helênico da educação gímnica acabou por descer finalmente para um nível inferior.”
UM POLEMISTA EXTEMPORÂNEO: “É possível que o amargor e o sarcasmo lacerante com que Platão a persegue sejam em parte explicáveis pelo peculiar sentimento do vencedor, quando se vê forçado a lutar contra um inimigo que, dentro dos seus limites, parece indomável. Torna-se difícil compreender a apaixonada atitude de Platão, se pensarmos que seus ataques se dirigem exclusivamente contra os grandes sofistas da geração de Sócrates, nos quais ele vê personificado aquele tipo de cultura: Protágoras, Górgias, Hípias e Pródico. Estes homens já estavam mortos e meio esquecidos, quando Platão escreveu os seus diálogos, pois vivia-se depressa naquele século; e era necessária toda a arte de Platão para arrancar ao reino das sombras, como por encanto, a ação exercida sobre os contemporâneos por aquelas figuras, outrora célebres.”
(*) “O Protágoras e o Górgias de Platão datam da 1ª década do séc. IV; em contrapartida, a fundação da escola de Isócrates não pode ser anterior ao ano 390, pois os discursos chegados até nós permitem-nos seguir as suas atividades de redator de discursos forenses por conta de outros até fins da referida década. E talvez até a devamos situar mais próximo de nós, na década de 80.”
(*) “Em Antídosis, 270, Isócrates reivindica o título de PHILOSOPHIA só para a sua obra, entendendo que os restantes educadores, dialéticos, matemáticos e os ‘tecnógrafos’ retóricos não têm direito a usá-lo.”
“Hoje, depois de se ter imposto, desde há bastantes séculos, o sentido platônico da palavra filosofia, parece pura arbitrariedade aquela inversão” “Era Isócrates quem se cingia à linguagem usual, ao incluir na categoria dos sofistas Sócrates e os seus discípulos, assim como Protágoras ou Hípias, empregando por outro lado o termo filosofia para designar todas as modalidades da formação geral do espírito, que é, p.ex., o sentido que também Tucídides lhe dá.” “Atenas fundou a cultura (PHILOSOPHIA), diz aqui Isócrates, referindo-se evidentemente, ao exprimir-se assim, ao caráter da coletividade e não ao punhado de sutis dialéticos que se agrupavam ao redor de Sócrates ou de Platão.”
(*) “BLASS assinala justamente que no tempo de Isócrates a palavra filosofia ainda significava cultura, razão pela qual nada tem de ridícula a sua pretensão de ensinar filosofia. Acha, porém, arrogância a pretensão de Isócrates a ser o único representante da verdadeira filosofia, i.e., da verdadeira cultura. Mas, no fim de contas, igual pretensão, de serem os únicos a ensinar a verdadeira cultura, tinham Platão e todas as outras escolas. Cf., p.ex., PLATÃO, Carta VII, 326 A; Rep., 490 A, etc.”
“Os retóricos e os sofistas dos diálogos de Platão carecem, logo de início, de razão contra Sócrates, pelo simples fato de serem estrangeiros e por não compreenderem de modo nenhum o verdadeiro problema deste Estado e dos seus habitantes. Aparecem, sempre, no mundo ateniense, tão fechado em si mesmo, com o seu saber já definido e importado de fora. (Cf. Platão Prot., 313 C ss.) É certo que falam uma espécie de linguagem internacional que qualquer homem culto pode compreender, mas falta-lhes o tom ateniense e a graça e a espontânea facilidade do trato, sem as quais é impossível conseguir um êxito completo neste solo.”
(*) “É duvidoso até que ponto merece crédito histórico a exposição de Platão no Fedro, quando põe na boca de Sócrates uma profecia sobre o grande futuro de Isócrates. Pode ser que não tivesse mais fundamento que uma impressão passageira causada ao velho Sócrates pelo jovem retórico. Não é forçoso que tal observação correspondia a um conhecimento íntimo, e muito menos a uma relação de discípulo a mestre. No entanto encontramos em Isócrates numerosos pontos de contato com o pensamento socrático, pontos que H. GOMPERZ, em ‘Isokrates und die Socratik’ (Wiener Studien, 27, 1905, p. 163 e 28, 1906, p. 1), estudou mais profundamente que ninguém. É com razão que sugere a hipótese de Isócrates dever os seus conhecimentos à literatura socrática, o que é abonado pelo fato de não se bater contra estas idéias antes da 2ª década do séc. IV, quando já ele próprio atuava como teórico da educação. Parece-me todavia que Gomperz exagera a influência de Antístenes sobre Isócrates.”
“Ele próprio conta que era um homem de constituição física fraca. Não só não tinha voz potente, mas sentia uma timidez invencível sempre que tivesse que falar em público. A massa como tal assustava-o. É evidente que, ao falar sem qualquer escrúpulo desta agorafobia, Isócrates não pretende desculpar apenas a sua abstenção completa de toda a atividade política, mas tem ainda a consciência de que esta disposição de espírito constitui um traço original, enraizado nas camadas profundas do seu ser. Tal como no caso de Sócrates, o seu afastamento da política não provém da falta de interesse, mas de uma problemática que, ao mesmo tempo, dificulta e aprofunda a sua compreensão da verdadeira missão do kairos. (…) é de outro ponto (…) que a obra de renovação deve partir.”
“Habitava-o um político sonhador, cujo pensamento, no fundo, seguia os mesmos trâmites do dos políticos de fato, guiado por idéias feitas de desejos, como as de poder, fama, prosperidade, expansão.”
“Platão censurava a retórica por ensinar apenas meios de persuasão, sem ser capaz de apontar nenhuma finalidade, razão pela qual só servia para fornecer aos homens armas espirituais para a consecução dos seus objetivos contrários à moral. Era um defeito inegável e constituía, além disso, para a retórica, uma fonte de perigos, numa época como aquela em que a consciência dos melhores se tornava cada vez mais sensível. Na sua orientação para a idéia pan-helênica viu Isócrates o caminho por onde se podia resolver também este problema. Tratava-se, por assim dizer, de encontrar um meio-termo (…) A nova retórica tinha de encontrar um objetivo que fosse eticamente defensável e suscetível, além disso, de aplicação política prática. Na sua opinião, era com uma nova ética nacional que isto se conseguiria.” A decadência e os nacionalistas. Ex: pan-eslavismo, etc.
“Não é raro que idéias, que o mestre concebe nos seus últimos anos e com as quais entusiasma os discípulos, definam para estes a orientação de toda a sua atividade.”
“Graças ao seu programa, os defeitos da sua própria natureza, tanto os do corpo como os do espírito e caráter, e ainda os da própria retórica, tornam-se quase virtudes ou pelo menos ganham a aparência de tais. Nunca o retórico, ideólogo e panfletista político voltaria a encontrar-se numa situação tão favorável nem a poder gabar-se de exercer uma influência semelhante sobre a nação inteira”
“Felizmente não foram poucas as vezes que ele se exprimiu acerca da sua arte e dos seus objetivos como educador, com aquele jeito consciente que lhe era próprio e que a cada passo se interrompia para refletir em voz alta sobre o que dizia e como e por que dizia; mais ainda, no início da sua carreira escreveu várias obras de caráter programático, para esclarecer bem a posição por ele ocupada entre os outros representantes da cultura do seu tempo.”
“Nada sabemos das razões nem da data da sua passagem da atividade de escritor de discursos (logógrafo, como p.ex. Lísias e Demóstenes,equivalente em certos aspectos à de um advogado, nos nossos dias) à de mestre de retórica.”
(*) “Os ‘discursos’ de Isócrates nunca foram pronunciados como tais. É pura ficção a sua forma oratória.”
(*) “Que o discurso Contra os Sofistas se deva situar no início da sua atividade docente o próprio Isócrates é quem o afirma em Antíd., 193. (…) julgo impossível evitar a conclusão de que o discurso Contra os Sofistas também ataca violentamente Platão, além de outros socráticos. Como obras suas anteriores pressupõe já o Protágoras e o Górgias, e talvez também o Mênon (…) A concepção de Muenscher, expressa na Realenziklopädie de Pauly-Wissowa (…) segundo a qual Isócrates, na época do discurso Contra os (…), se achava ainda identificado com Platão quanto ao essencial, não se fundamenta no próprio discurso (…) Esse falso ponto de vista deriva exclusivamente da localização demasiado remota do Fedro, onde Platão vê com melhores olhos Isócrates do que os retóricos do tipo de Lísias. A hipótese de sua origem imediatamente posterior ao discurso Contra os (…) levar-nos-ia necessariamente a interpretar este discurso como pró-Platão, o que forçaria a verdade.”
“E tinha de fato de parecer necessariamente estranha a mudança da atitude socrática de dúvida acerca da existência de algo que se pudesse chamar educação para o pathos pedagógico dos primeiros diálogos platônicos.” “Ele próprio pretende, naturalmente, ser um educador, mas mostra certa compreensão pelos profanos que preferem não ouvir falar de educação para nada, a confiarem nas promessas dos ‘filósofos’.”
(*) “Segundo a maior probabilidade, foi a confusão entre a sua dialética e a erística – que na polêmica de Isócrates era firmemente mantida – que levou Platão a traçar no Eutidemo uma linha divisória nítida entre Sócrates e os espadachins erísticos. (…)”
“Todos os traços característicos do platonismo que são evidentes para uma inteligência mediana são aqui habilmente resumidos em pouco espaço: o estranho método polêmico das perguntas e das respostas; a importância quase mística atribuída à phronesis, i.e., ao conhecimento dos valores, qual órgão especial da razão; o vigoroso intelectualismo, que espera toda a salvação do saber, e a quase religiosa transcendência da promessa de eudaimonia feita pelo filósofo. Isócrates refere-se, evidentemente, às características terminológicas do novo estilo filosófico, características que ele sabe captar com a fina intuição do conhecedor da língua para descobrir o que deverá chocar ou parecer ridículo à maioria das pessoas cultas”
“os regulamentos da Academia exigem que os honorários sejam de antemão depositados num banco ateniense.” “É um argumento [isocrático] que parece de mau gosto mas que não deixa de ser engenhoso. Também Platão no Górgias argumentava maliciosamente e em termos parecidos contra os retóricos que se queixavam de que os seus discípulos abusavam da arte oratória, sem verem que com isso era na realidade a si próprios que acusavam, pois, se fosse certo que a retórica tornava os discípulos melhores, seria inconcebível que estes abusassem do que tinham aprendido.”
(*) “(…) O Górgias é agora unanimemente situado, e por motivos convincentes, na segunda metade da 1ª década do séc. IV (…)”
(*) “Devia ser mais aplicável a Antístenes do que a Platão a censura referente aos escassos honorários que os filósofos recebiam dos seus alunos; é, porém, muito pouco o que sabemos acerca destas coisas, para podermos emitir um juízo seguro. (…) Sobre os honorários dos socráticos, veja-se DIÓGENES, II, 62, 65, 80 e IV, 14.”
“Nenhum domínio da vida tolera menos do que este a redução de todos os casos concretos a uma série de esquemas e formas fundamentais fixas. Platão dá o nome de idéias a estas formas fundamentais no campo das manifestações lógicas. Como vimos, foi da Medicina do seu tempo que ele tirou esse tipo de intuição plástica e o transpôs para a análise do Ser.”
(*) “É no Crátilo, no Teeteto, no Político e nas Leis que Platão compara as suas ‘idéias’ às letras do alfabeto.”
“Em princípio, Isócrates não repele, nem de longe, a possibilidade de uma teoria retórica das idéias: as suas obras revelam que se ia aproximando cada vez mais dela e que edificava a sua oratória, em todos os aspectos, nas linhas do domínio destas formas fundamentais da oratória.”
“Numa palavra: a arte oratória é criação poética. Não pode prescindir [d]a técnica, mas tampouco se pode deixar absorver por ela. E assim como os sofistas se julgavam os verdadeiros continuadores dos poetas e adaptaram o gênero deles a sua prosa, também Isócrates tem consciência de continuar a obra dos poetas e de assumir o papel que eles desempenhavam, até há pouco, na vida da nação.” “E quanto menos Isócrates espera ou deseja percorrer o caminho do estadista prático, mais ele necessita do sopro da poesia para a sua missão puramente espiritual”
“É ele próprio que, como Píndaro, estabelece também o paralelo entre as suas criações e as dos artistas plásticos e orgulhosamente se equipara a Fídias. Em Ant., 2. Isócrates compara-se ao escultor Fídias e aos pintores Zêux[is] e Parrásio, os maiores artistas da Grécia; Platão procede da mesma forma na República” Todo escritor chega independentemente a este juízo!
“Também ser escultor era para o sentimento social dos gregos da época clássica um conceito que ainda estava ligado a algo de ofício e de rotina. E no entanto este ofício englobava toda a série de cambiantes que iam desde o modesto canteiro até o genial criador do Partenon.”
“É com muita cautela que Isócrates se pronuncia acerca da utilidade da educação. Reconhece que o fator decisivo são os dons naturais e confessa francamente que as pessoas de talento e sem cultura chegam freqüentemente mais longe que as pessoas cultas mas sem talento, isso supondo que se possa realmente falar de cultura sem algo que realmente valha a pena cultivar.” “Mais tarde, na República, Platão fará depender da coincidência de qualidades que raramente coexistem na realidade a consecução do supremo objetivo da cultura.”
“Platão aspira a formar a alma por meio do conhecimento das idéias como normas absolutas do bom, do justo, do belo, etc., de acordo com a lei da sua estrutura imanente à própria alma, até conseguir realizar nela um cosmos inteligível que abarque a totalidade do Ser. Isócrates, ao contrário, não admite este saber universal. O órgão da cultura retórica é a simples opinião, embora admita no espírito, como ele próprio acentua repetidas vezes, uma capacidade prática para alcançar com certeza o objetivo, a qual, sem possuir um verdadeiro saber, em sentido absoluto, lhe permite optar pela solução acertada.” O <excêntrico discípulo de Parmênides>.
“também Isócrates não é capaz de descrever mais que os elementos e as fases do processo cultural, por trás das quais continua a ser um mistério a formação, como tal, do Homem. (…) É portanto unicamente da justa combinação entre natureza e arte que a cultura depende.”
“Os redatores de discursos trabalhavam para ganhar o pão, pois o seu artigo era, na prática, o mais procurado. Conhecemos esse gênero de trabalho pelos discursos-modelo publicados por Antifonte, Lísias, Iseu, Demóstenes e pelo próprio Isócrates nos seus primeiros tempos. Esse gênero é uma das flores mais curiosas do jardim da literatura grega, um produto específico do solo ático. A mania de litigar dos atenienses, tão ridicularizada na comédia, é o reverso do Estado jurídico, do qual tão orgulhosos se sentiam. A ela se devia o interesse geral que os debates judiciais e as competições agonísticas despertavam. Os discursos-modelo dos logógrafos servem ao mesmo tempo de propaganda dos seus automotores, [?] de modelo proposto à imitação dos discípulos e da matéria de entretenimento para o público leitor.” “Não se deve pôr em dúvida a sinceridade desta repugnância, que basta para explicar a razão por que Isócrates renunciou a esta atividade.”
“Isócrates segue, pois, Platão na crítica, mas não na construção positiva. Não acredita na possibilidade de ensinar a virtude, como não acredita na possibilidade de ensinar o senso artístico, e como Platão só reserva o nome de techne para uma educação capaz de fazer isto, Isócrates julga impossível que ele exista.”
“Isócrates deve ter ficado com a mesma impressão dos primeiros diálogos de Platão que era gerada na maioria dos leitores modernos até há pouco: a de tratar apenas de problemas de iniciação moral, que estranhamente apareciam em íntima relação com a dialética. Em contrapartida, a retórica tem a vantagem de ser uma cultura inteiramente política. Precisa apenas encontrar um novo caminho, uma nova atitude, para neste campo alcançar um posto espiritual diretivo. A antiga retórica não conseguira grande coisa, porque se ofereceu como instrumento à política diária, em vez de se elevar acima dela. Já se revela aqui a certeza de poder infundir à vida política da nação um pathos mais elevado. Infelizmente falta a parte principal do fragmento do discurso Contra os Sofistas que chegou até nós (…) A diversificação de Isócrates em relação ao objetivo educacional de Platão deve ter tido que mudar, necessariamente, quando aquele adquiriu consciência prática do princípio da filosofia platônica. De fato, esse princípio já se anunciava na declaração expressa no Górgias platônico de que era Sócrates o único estadista autêntico do seu tempo, visto que aspirava a tornar melhores os cidadãos. Esta declaração podia ser facilmente interpretada como simples paradoxo, sobretudo por Isócrates, que via na ânsia de originalidade e na caça aos paradoxos inéditos a motivação fundamental de todos os escritos contemporâneos e temia, com razão, que neste terreno lhe fosse difícil rivalizar com Platão e com os filósofos. Mais tarde, no Filipe, voltando os olhos para trás, a fim de abarcar a obra de Platão, pouco depois de sua morte, já o considera o grande teórico do Estado, embora, infelizmente, o seu pensamento não seja realizável. Levanta-se, assim, o problema de saber quando teria surgido nele este novo ponto de vista sobre Platão. A resposta ele nos dá em Helena, modelo de encômio, que incide sobre um tema mítico e cujo louvor nos tem de parecer, por força, tanto mais paradoxal quanto ela é, em geral, alvo de censuras.”
O HIMENEU DE PÃ E HELENA: “Panegírico (380): o programa da unificação dos Estados gregos através de uma guerra nacional comum contra os bárbaros. Na 1ª década, Isócrates move-se ainda por inteiro nas águas de Górgias.”
(*) “(…) É o próprio ARISTÓTELES quem afirma, em Ret., III, 14, 1414 b 26, que não é necessário, precisamente no gênero literário dos discursos epidícticos, que o prólogo esteja organicamente ligado ao corpo principal da obra. Como exemplo, dá a Helena de Isócrates e compara o prólogo do encômio ao prelúdio (proaulion) de um concerto de flauta, unido por laços muito frouxos ao próprio concerto.”
(*) “(…) A respeito de Antístenes, cf. ARISTÓTELES, Metaf. n 29, 1204 b 33, e ainda o comentário de Alexandre de Afrodísia a esta passagem; e PLATÃO, Sofista, 251 B.”
“Dessa vez, Isócrates já distingue os socráticos dos simples erísticos, que não se propõem educar ninguém, mas pretendem apenas colocar outros homens em dificuldades. Censura a todos quererem refutar outros, quando eles próprios já se encontram há muito refutados”
“Isócrates exprime a sua posição perante o ideal platônico da precisão e solidez científicas, na fórmula de que o mínimo avanço no conhecimento das coisas verdadeiramente importantes deve ser preferido à maior superioridade espiritual imaginável em matérias mesquinhas e sem importância, que não têm nenhuma utilidade para a vida. Naturalmente, como psicólogo que é, compreende a predileção da juventude pela arte polêmica da dialética, pois não tem o menor interesse pelos assuntos sérios, quer públicos, quer privados, mas quanto mais inútil for o jogo mais a diverte. Merecem, porém, censura os pretensos educadores que incitam os discípulos a este passatempo, pois incorrem com isso na mesma falta que eles próprios censuram aos representantes da eloqüência forense: a de corromper a juventude.” Inconciliável com o Platonismo. O que é o mesquinho e o que é o importante? Pergunte ao Ser!
“a ala radical dos socráticos: Antístenes e Aristipo.”
“É por isso que a repulsa de Isócrates pelo amplo ‘rodeio’ teórico de Platão cresce à medida que ambos mais parecem coincidir no tocante ao fim prático da educação. Isócrates só reconhece o caminho direto. A sua educação nada sabe da tensão interior que existe no espírito de Platão entre a vontade propulsora que o incita a agir e o retraimento proveniente da longa preparação teórica. É certo que Isócrates está suficientemente afastado da política cotidiana e dos manejos dos estadistas do seu tempo para compreender as objeções que Platão formula contra eles. O que ele, homem do meio-termo, não compreende é a radical exigência ética da socrática, que se intromete entre os indivíduos e o Estado. Procura melhorar a vida política por um caminho diferente do da utopia. Sente indubitavelmente a arraigada repugnância do cidadão culto e abastado contra as selvagens degenerações tanto do domínio das massas como da tirania dos indivíduos (…) Não partilha, porém, o radical espírito reformador de Platão e nada está mais longe do seu espírito que o consagrar a vida inteira a tal missão.” Desconhece a arte do sacrifício.
“A guerra pusera em evidência que o anterior estado de coisas era insustentável e urgia abordar uma reconstrução dos Estados gregos.”
DA HIPOCRISIA COMO NECESSIDADE FENOMÊNICA QUE INTEGRA O ABSOLUTO
Há mais semelhança entre o mundo antigo e o nosso do que pode medir qualquer vã filosofia sob o Sol! A certeza íntima que temos de que nossas utopias calarão fundo no coração de uma humanidade que sequer veremos… Porém, enquanto indivíduos deste mundo, mesmo sabendo que “já vivemos para a posteridade”, resta-nos uma máscara protetora e conciliadora: somos intelectuais de esquerda. Sem nosso lado panfletário que nos serve de mola nosso eu-ideal fica sem esteio.
4.3 Educação política e ideal pan-helênico
“Em nenhuma parte a tendência a l’art pour l’art tem menos razão de ser do que na arte da expressão espiritual.”
“O significado etimológico da retórica, para o bem ou para o mal, a polis.”
O problema da retórica é ser retórica demais.
“A falência do Estado de Péricles colocava um problema: saber se Atenas, depois da sua lenta recuperação, devia enveredar de novo pelo mesmo caminho de expansão imperialista (que já uma vez a levara à beira do abismo).” Síndrome de Vasco da Gama. Vencer absolutamente é tombar – vide Roma.
“Estava muito longe de comungar a fé numa paz eterna.”
“Que o imperialismo, caso fosse inevitável, se dirigisse contra os outros povos, de nível cultural inferior e inimigos naturais dos gregos”
(*) “É por necessidade que se expõem de maneira sintética as tendências pan-helênicas surgidas antes de Isócrates; não escasseiam as investigações de detalhe. Limita-se a Isócrates o escudo (sic) de J. KESSLER, ‘Isokrates und die panhellenische Idee’ in: Studien Zur Geschichte und Kultur des Altertums, t. IV, CADERNO 3 (Paderborn, 1911). (…)“
„Nas celebrações olímpicas e píticas, interrompia-se, sob a imposição da paz divina, o estrépito das armas esgrimidas entre gregos”
“Trata-se de reconciliar Esparta com Atenas, para em seguida estes 2 Estados, os mais fortes, compartilharem a hegemonia sobre a Grécia.”
“Isócrates traça um quadro da grandeza de Atenas que remonta até a pré-história mítica.” “Este quadro histórico baseia-se inteiramente nos princípios segundo os quais a política ateniense se interpreta a si mesma. É uma política intrinsecamente semelhante, muito semelhante mesmo, à que inspira a política externa inglesa dos tempos modernos. Por outro lado, este processo de interpretação retroativa da história antiga de Atenas à luz das pretensões políticas de agora tem um paralelo próximo na interpretação que Treitschke dá da história antiga da Prússia-Brande[m]burgo, do ponto de vista do papel diretivo nacional mais tarde assumido por este Estado. Os tempos primitivos pseudo-históricos são sempre mais próprios do que quaisquer outros posteriores e mais bem-conhecidos para se deixarem moldar neste tipo de construções.”Hitler sabia-o muito bem.
“Todo o mito nacional e cultural traz consigo esta estreiteza de horizontes e esta exaltação absolutista da sua própria raça. Quer ser aceito mais como artigo de fé que como fria verdade científica. É por isso que diante dele não se podem alegar dados históricos.”
“O que domina a sua filosofia da História, e sobretudo a sua construção da história primitiva de Atenas, é a sua fé na missão peculiar da cultura ateniense.” “Em oposição com o caráter exclusivista de Esparta, a cultura ateniense caracteriza-se por atrair os estrangeiros, em vez de os repudiar.” “Aos combates de força física e de destreza, desde remotos tempos característicos da Grécia inteira, juntam-se em Atenas os agones da oratória e do espírito. Estes torneios converteram as fugazes festas nacionais olímpicas e píticas numa grande panegyris ininterrupta.” “A imagem esplendorosa que Isócrates tem diante dos olhos não deixa margem para a problemática trágica em que Platão, com grande sutileza, penetra os perigos do meio.”
“O logos, no duplo sentido de linguagem e espírito, converte-se para Isócrates no symbolon da paideusis.”
“Segundo a tese de Isócrates, o resultado da obra espiritual de Atenas foi o nome dos gregos não designar no futuro uma raça, mas antes um grau supremo do espírito.”
“À primeira vista, parece um imenso paradoxo Isócrates proclamar esta missão supranacional da cultura do seu povo, movido precisamente por um insuperável sentimento de orgulho nacional; mas esta aparente contradição desaparece logo que relacionamos a idéia supranacional do Helenismo, a sua paideia de âmbito universal, com o objetivo da conquista e colonização da Ásia pelos gregos.” “Há uma forma de sentimento nacional que se manifesta como exclusão dos outros povos: é fruto da fraqueza e do separatismo, pois nasce da consciência de que só através do isolamento artificial se poderá afirmar.”
“Com base em analogias atuais poderíamos sentir-nos tentados a designar isto pelo nome de propaganda cultural e a comparar a retórica à imprensa e à publicidade modernas, precursoras da conquista econômica e militar. Contudo, a fórmula de Isócrates nasce de uma profunda visão da estrutura real do espírito e da paideia gregas, e a História prova que era algo mais (…) Sem a vigência universal da paideia grega que ele aqui proclama pela 1ª vez, não teria sido possível a existência de um império universal greco-macedônico nem a da cultura helenística universal.” Alexandre, o Isócrates prático.
“Esta parte do discurso termina com uma defesa contra a crítica dos métodos do imperialismo ateniense da primeira liga marítima, crítica utilizada por Esparta, depois de ganhar a guerra, para manter Atenas em permanente sujeição, o que constituía um obstáculo moral no caminho da restauração do poder marítimo ateniense.”
“O Panegírico foi definido como o programa da segunda liga marítima de Atenas.(*) Esta concepção exagera as relações existentes entre esta obra e a política real e não avalia com exatidão o elemento ideológico contido nela. É, no entanto, exata no sentido de que Isócrates exige o restabelecimento do poder de Atenas, como meio indispensável para a consecução do seu fim, que é a sujeição do reino da Pérsia.
(*) Assim pensam Wilamowitz e Drerup. Cf. também G. MATHIEU, Les idées politiques d’Isócrate (Paris, 1925). »
(*) “Já no Plataico de Isócrates vemos que o domínio marítimo ateniense apresenta um aspecto muito menos pan-helênico e muito mais particularista. Acerca da data deste opúsculo, cf. o meu Demóstenes, O Estadista e a sua Evolução, pp. 199-203 (Berlim, 1939).”
“A exigência de submeter a política a valores eternos tinha de parecer exagerada a alguns; mas esta exigência de que ela fosse moldada por um princípio superior era geral, e a ética nacional de Isócrates tinha que parecer a muitos de seus discípulos uma saída feliz e oportuna, entre os extremos do ceticismo moral e da retirada filosófica para o Absoluto.” “O seu objetivo transcende a forma do Estado historicamente dada e entra no reino do ideal. Isto implicava a confissão do seu divórcio da realidade política circundante.” “Já não está por trás dele uma classe nobre superior ou todo um povo; está o círculo escolhido de um movimento espiritual ou uma escola fechada, que só pode esperar exercer uma influência mediata na vida da comunidade”
e-Sócrates
4.4 A educação do príncipe
“Nicocles, filho de Evágoras (…) era discípulo de Isócrates, de cuja escola saiu, como do cavalo de Tróia, toda uma série de governantes, segundo a famosa frase de Cícero.” “O orgulho que Isócrates sente pelos discípulos, que também se manifesta abundantemente na Antídosis, é um dos aspectos amáveis da sua vaidade”
“As 3 obras do grupo do Nicocles são modelos da arte pedagógica praticada na escola de Isócrates. Enquanto no Panegírico ressoa, por assim dizer, o acorde pan-helênico, o tom fundamental da intenção política em que esta educação se inspira, nas obras cipriotas surge mais claramente o ponto em que apóia, na prática, a paideia de Isócrates.” “estas obras abrem-nos os horizontes de um problema que (…) tinha forçosamente de ser de suma importância: o de a possibilidade de a cultura influir no Estado através da educação dos governantes. Este problema surge-nos na literatura do século IV, em escritores e pensadores da mais variada orientação: em toda a filosofia de Platão e nas suas tentativas práticas de influenciar o tirano Dionísio, as quais o próprio Platão descreve na Carta Sétima como a tragédia da paideia; em Isócrates, nas suas obras sobre Nicocles, na mensagem a Dionísio de Siracusa, no Arquidamo, no Filipe, e sobretudo nas relações com o seu discípulo Timóteo; na grande novela pedagógica de Xenofonte, a Ciropedia; na amizade filosófica de Aristóteles com o tirano Hermias de Atarneu, e principalmente nas relações pedagógicas daquele com o futuro dominador do mundo, Alexandre. Também o Protréptico de Arist. era um discurso exortativo dirigido a um tirano de Chipre, Témison.”
“Nem todos os poetas que circulavam pelas côrtes dos tiranos do séc. IV eram simples parasitas e aduladores, que logo se punham a cantar a democracia, quando os tiranos caíam, como Platão censura aos poetas do seu tempo.”
“A encarnação da verdadeira arete na imagem de uma personagem histórica individual, tal como Isócrates a traça aqui, pode comparar-se à fusão da pessoa e coisa na descrição platônica de Sócrates”
“dois discursos, Nicocles e A Nicocles”
“Ao enquadrar assim num esquema absoluto a tirania, que os gregos de resto consideravam a suma e compêndio da arbitrariedade, legaliza-a de certo modo e insinua no tirano a vontade de governar o povo de acordo com uma lei fixa e uma norma superior. No séc. IV deparamos repetidas vezes com o problema de saber como converter a tirania numa constituição mais suave.” Como transformar o cobre em ouro.
“chamamos retóricos aos homens em condições de falar diante de muitos e denominamos homens de bom juízo os que são capazes de refletir com acerto no seu foro íntimo.”
“ao contrário de Platão, Isócrates não considera como missão de Estado a educação do cidadão e o seu aperfeiçoamento pessoal” “É com facilidade que Isócrates transforma em ideologia de despotismo esclarecido a sua fé fortemente materialista no bem-estar.” “Teoricamente é pessimista em face do paradoxo filosófico da possibilidade de ensinar a virtude; praticamente, porém, a sua vontade educativa permanece intacta.” “Enquanto Platão relutava em empreender o caminho de Siracusa e só o fez a instâncias e rogos insistentes dos amigos e do próprio soberano, Isócrates não espera que o convidem.”
“O seu sentido do direito natural exige sempre a verdadeira arete como justificação do poder sobre o Estado, e não instituições que funcionem de modo automático, mas sem personalidade. Isto, porém, não deve confundir-se, como prova ostensivamente o testemunho de Isócrates, com a glorificação do poder à margem de qualquer lei.” “O soberano deve reunir no seu caráter o amor pelo Estado. Deve, por assim dizer, unir em si a Antígona e Creonte.”
(*) “(…) Já AULO GÉLIO, Noct. Att., XIII, 7, emitia a este respeito um juízo correto ao distinguir humanitas – paideia. O conceito de filantropia não tem qualquer acepção central em Isócrates; o fulcro do seu pensamento é o conceito de paideia, que serve de base ao seu ‘humanismo’. (…)”
“O trabalho deve ser lucrativo, mas a mania de pleitear deve infligir ao culpado danos sensíveis. As palavras de Isócrates refletem neste aspecto a existência do povo ateniense e a fúria processual nele desencadeada.”
“Faz que a tua palavra seja mais certa que as juras dos outros. (…) Porta-te para com os Estados mais fracos como desejarias que os Estados mais fortes se portassem para contigo. (…) Não tenhas por grande o soberano que estenda a mão para coisas maiores do que as que pode alcançar, mas sim quem, aspirando a coisas elevadas saiba levar a cabo o que empreende (…) Não conceda a tua amizade a todos quantos desejem ser teus amigos, mas só a quem for digno da tua natureza. Não escolhas, para tal, os homens cujo convívio mais te agrade, mas antes os que te ajudem a governar melhor o Estado.”
“o rei é o espelho do caráter da polis inteira. Aqui, como em Platão, reaparece em fase superior a idéia de modelo da antiga paideia da nobreza grega, idéia que é transposta do problema da educação individual para a educação de toda a cidade. Mas, enquanto Platão desloca o paradigma para o absoluto, para a idéia do Bem e, portanto, para Deus, medida de todas as coisas, Isócrates confina-se à idéia do modelo pessoal.” “a idéia da paideia é no seu tempo o verdadeiramente vivo e o sentido supremo da existência humana.”
“A dignidade é real, mas faz o povo retrair-se. A amabilidade torna fácil e agradável o trato com os homens, mas tende a rebaixar a categoria do rei.” “Baseia a formação do monarca não no conhecimento dos supremos conceitos universais teóricos das matemáticas e da dialética, como Platão, mas sim no conhecimento da História. Aparece neste traço pela 1ª vez a influência espiritual direta da historiografia sobre o pensamento político e a cultura da época. Mesmo sem precisarmos recordar os múltiplos conhecimentos soltos que, como provamos, Isócrates deve a Tucídides, também aqui somos forçados a pensar sobretudo nele, no novo gênero de historiografia política que este historiador criou.”
“A paideia de velho estilo, que se conservava dentro do âmbito da ginástica e da música, ainda não reconhecia nem o pensamento nem o saber históricos. O passado não faltava totalmente, já que que era inseparável da poesia; mas só revestia nela a forma da narração dos feitos heróicos de certas personagens ou do próprio povo, e o histórico ainda não se diferenciava claramente do mítico.”
A VERDADEIRA FILOSOFIA É ATEMPORAL: “Nos esboços platônicos de um vasto sistema de paideia científica são tomados em consideração até os ramos mais recentes das matemáticas, da Medicina e da Astronomia; mas a grande e nova criação da historiografia política fica totalmente na sombra. Aparentemente, isto poderia justificar a impressão de que a verdadeira influência de Tucídides se limitou aos círculos estritamente profissionais, i.e., aos seus imitadores isolados, que se esforçavam por escrever outro fragmento da História, segundo as orientações do mestre. Mas não devemos perder de vista, para este efeito, a outra grande representante da paideia grega do seu tempo, a retórica. Assim como o poder formativo das matemáticas só foi plenamente reconhecido, como era lógico, pela paideia filosófica, assim o novo poder educativo do saber histórico, que se revela na obra de Tucídides, encontra o seu lugar no âmbito do sistema da cultura retórica.”
“Na retórica posterior, perdura este interesse pela História na forma de paradigma histórico, o qual recorda as origens paidêuticas desta atitude em face da História. Mas a eloqüência verdadeiramente política já morreu nesta época tardia, por ter perdido a base com o desaparecimento da cidade-Estado grega. Por essa razão, o emprego dos exemplos históricos passou a ser nela uma coisa morta e puramente ornamental. O sistema retórico de cultura de Isócrates, nascido ainda de debates verdadeiramente políticos e de grande estilo, é o único da Antiguidade grega em que cabe seriamente o estudo histórico. Temos paralelo disso em Roma principalmente em Cícero”
“Prefere-se a pior comédia às sentenças escolhidas dos poetas mais profundos.” “Transparece aqui o sentimento de que a nova arte da retórica, posta ao serviço das concepções educativas, representa uma desvantagem decisiva em relação à poesia. Os verdadeiros mestres na direção das almas (psicagogia) são aqueles velhos poetas, aos quais todos têm de regressar constantemente depois de ouvirem as novas teorias, e isto pela simples razão de serem mais agradáveis.”
“O triunfo posterior da cultura retórica sobre a filosófica, ao menos entre as camadas mais amplas da gente culta, deriva em parte da superioridade da forma, que era sempre o primordial para a retórica (…) a Filosofia e a Ciência deixaram mais tarde de rivalizar com a retórica neste campo e cederam conscientemente ao desleixo da forma, desleixo que chegaram até a equiparar à cientificidade.” Nota curiosa: Heráclito, Parmênides, Platão, Kierkegaard, Nietzsche, Deleuze, Baudrillard: Os reis-filósofos são também poetas. Kant, Hegel, Sartre (nos escritos técnicos), Heidegger: estilistas inábeis.
4.5 Autoridade e liberdade na democracia radical
“Da desintegração causada pelas guerras pérsicas se levantou Atenas e se converteu em guia da Hélade, pois o medo fez com que todas as suas forças espirituais se concentrassem na meta da recuperação. Mas, em seguida, do cume do poder assim conseguido de novo se precipitou subitamente na guerra do Peloponeso, pouco faltando para se ver agrilhoada à servidão. Os espartanos, por seu lado, deveram o seu antigo poderio à sóbria vida de guerreiros, em virtude da qual se foram elevando dos começos insignificantes de sua história até o domínio sobre o Peloponeso. Mas este poderio impeliu-os à soberba, até que por fim, depois de conseguirem a hegemonia por terra e por mar, se viram reduzidos à mesma situação de penúria que Atenas. Isócrates alude aqui à derrota de Esparta em Leuctra, que tão profunda impressão causou nas pessoas da época, sem excluir os admiradores incondicionais de Esparta; prova-o a mudança sofrida pelos juízos acerca de Esparta e das suas instituições estatais, na literatura política do séc. IV. Platão, Xenofonte e Aristóteles, tal como Isócrates, citam repetidas vezes o desmoronamento da hegemonia espartana na Hélade, que explicam dizendo que os espartanos não souberam usar sabiamente o seu poder.”
“Sob o comando de Cononte, e principalmente sob o de seu filho Timóteo, [seria o mesmo de acima?] logramos a hegemonia sobre toda a Grécia; mas não tardamos a perdê-la outra vez, por não termos a constituição de que precisávamos para defendê-la.”
“Segundo a conclusão a que Isócrates chega, os homens eram diferentes nos tempos de Sólon ou de Clístenes; portanto, o único meio de livrá-los do seu individualismo exagerado é restaurar a constituição do Estado que vigorava naquele século.” Só homens restaurados restauram códigos deteriorados.
“A tarefa de formar os homens desloca-se, assim, do campo da existência espiritual para o da educação exterior, em que o Estado se converte autoritariamente em agente externo da missão educativa. Desta forma, a paideia torna-se mecânica, e este defeito ressalta com maior força do contraste entre o modo puramente técnico como Isócrates pretende realizá-la e a concepção romântica do passado, que ele assim aspira a fazer ressurgir.” Mas ao menos ele recuou de sua oposição diametral a Platão, revalorizando o papel do Estado.
“É elucidativo reparar como a imagem ideal do passado que Isócrates traça para caracterizar o espírito da educação a que aspira se vai inadvertidamente convertendo num sonho utópico, em que se esfumam todas as cores do presente e se resolvem todos os problemas. Esta estranha maneira de encarar a História só se compreende quando se vê que todos os louvores tributados ao passado são simplesmente concebidos como a negação de um mal correlativo do presente.”
“No tempo dos pais da democracia ateniense, Sólon e Clístenes, ainda não se confundia o desenfreio com a democracia, a arbitrariedade com a liberdade, a licenciosidade da palavra com a igualdade, a absoluta falta de domínio do comportamento com a suprema felicidade; ao contrário, os indivíduos deste jaez eram castigados e existia a preocupação de tornar melhores os homens.¹ (…) A época da decomposição da forma só conhece a paideia no sentido negativo da corrupção que se transmite do conjunto a cada um dos membros. Isócrates apresenta em termos semelhantes a paideia negativa que nasce da ambição de poder da polis e faz variar o espírito dos cidadãos. (De Pace, 77). (…) é característico da época o fato de a paideia em sentido positivo só ser possível na forma de reação consciente dos indivíduos isolados contra as tendências gerais da evolução.”
¹ O dito se aplica completamente ao presente, é só pensar na licenciosidade boçal com que uma Damares se arroga o direito de “falar o que quiser” quando pisa numa igreja com fins políticos. Uma liberdade que o texto da Constituição não lhe deu, mas que o afrouxamento dos costumes democráticos e o descaso de um Supremo Tribunal Federal, que só agora e lentamente vem revendo sua conduta, decerto semearam.
(*) “…é interessante que este mesmo lema trabalhar e poupar (…) apareça em PLATÃO, Rep., 553 C, para caracterizar o homem oligárquico. Dificilmente Isócrates teria tirado desta caricatura as cores para pintar a sua imagem ideal: é por isso que é tanto mais interessante a sua coincidência com Platão”
“O restabelecimento do Areópago fez-se no 1º período dos Trinta, altura em que Teramenes e a ala moderada dos conservadores tinham uma influência decisiva na política. O regresso dos democratas após a expulsão dos Trinta anulou evidentemente estas medidas legislativas; e o fato de Teramenes, autor do lema constituição dos maiores, ter sido morto por Crítias e pelos elementos oligárquicos radicais também não contribuiu para que este grupo moderado e a sua herança espiritual fossem vistos com mais simpatia no período seguinte de restauração do governo do povo. Compreende-se, assim, que Isócrates evite intencionalmente a expressão constituição dos maiores ou a transcreva sob outras formas, para não causar escândalo.
(*) “…Contra a opinião dos que pretendiam dissuadir o autor de publicar esta obra, por acharem incurável a situação de Atenas e perigosa a hostilidade dos dirigentes radicais contra os moderados, devem naturalmente ter-se levantado vozes aconselhando a publicação, pois de outra forma jamais se teria resolvido a isso um homem tão prudente [medroso] como Isócrates….”
(*) “De modo semelhante, PLATÃO, Carta VII, 326 A, indica-nos que concebera e expusera oralmente vários decênios atrás, antes da sua 1ª viagem à Sicília, as idéias publicadas mais tarde na República….”
“Os atenienses tão depressa acorrem com 300 bois para o sacrifício como deixam cair no mais completo esquecimento as festas consagradas pelos seus maiores.”
“Antiquitates Rerum Humanarum et Divinarum de Varrão, obra gigantesca de erudição histórico-cultural e teológica. Esta obra nasceu de uma situação interna análoga à da época isocrática. (…) Para poder escrever coisas como as que se citaram acima, tinha de ter estudado com certa precisão as práticas religiosas e as festas da antiga Atenas”
“Os pobres não conheciam ainda a inveja da classe abastada, mas os sem-fortuna partilhavam a felicidade dos outros e era com razão que olhavam a riqueza daqueles como a fonte do seu próprio sustento.”Eis o espírito contido noCoriolanodeShakespeare. Já hoje vivemos o dilema de uma “elite” que é invejosa do pobre em ascensão, incapaz de reconhecer que a felicidade desta classe emergente é e deve ser reflexo da sua própria na partilha nacional. Não se reconhecem absoluto como imbuídos da missão de sustentar essa massa, embora se jactem em dizer que criam riqueza, que portanto seriam a fonte do crescimento econômico, sem se dar conta que sem a integração pobre-rico por meio do trabalho ninguém propriamente enriquece, na competição canibal internacional. O país fica apenas mais fraco e mais isolado, e a maior riqueza do rico às expensas de explorar o trabalhador, despido de seus direitos fundamentais, converte-se numa falsa riqueza, ou pelo menos numa riqueza relativamente parca comparada a outras nações em que há maior justiça social.
“períodos de industrialização e crescimento do capital” “investia-se produtivamente o dinheiro”Eu é que contextualizo para o presente; mas Jaeger, como sempre, vê essas categorias ainda não-nascentes na própria Grécia Antiga, tão antepassada do Capital! Se há uma crítica severa a fazer a sua magnum opus, sempre achei e acharei que seria esta.
“Era a confiança mútua que presidia à vida dos negócios e os pobres davam tanta importância como os possuidores de grandes fortunas à segurança das relações econômicas. Ninguém escondia a própria fortuna nem temia que ela se tornasse do domínio público, mas todos a empregavam praticamente, com a convicção de que isto não só era vantajoso para a situação econômica da cidade, mas até aumentava a própria fortuna.” Exatamente o que falei acima sobre o Brasil contemporâneo! Foi com a decomposição da oligarquia ateniense que Atenas caiu. É com a decomposição ainda mais abrupta da nossa elite do atraso cada vez mais atrasada que o Brasil está sendo jogado para a periferia da periferia das lideranças mundiais.
“O defeito do sistema vigente reside em se limitar em Atenas a paideia ao pais, isto é, à infância. (Areop., 37). Desde a época dos sofistas, todas as cabeças da paideia grega, Platão e Isócrates principalmente, concordavam em que a paideia não se limitava ao ensino escolar. Para eles, era cultura, formação da alma humana. É isto que distingue a paideia grega do sistema educacional das outras nações. Era um ideal absoluto. (…) no passado (…) se velava pelos adultos ainda com maior cuidado do que pelas crianças.”
“Este organismo só era acessível a pessoas escolhidas pelo nascimento e que na vida tivessem dado provas de caráter irrepreensível. Este princípio de seleção fazia do Areópago a mais distinta corporação da sua classe existente na Grécia.” Talvez extremamente corporativista; nobre, todavia.
“O que importa, portanto, é infundir à polis um ethos bom e não dotá-la de um amontoado cada vez maior de leis especiais para cada setor da existência. (…) Platão acreditava poder renunciar por completo a uma legislação especializada no seu Estado ideal, pois supunha que nele a educação atuaria automaticamente”A Inglaterra e sua Constituição enxuta como eterna miragem moderna. Como ser enxuto, p.ex., em legislação tributária?
“Isócrates considera irrecusável que a paideia se adapte à situação de fortuna de cada indivíduo. Este ponto de vista teve certa importância na teoria dos gregos sobre a juventude” “Só na República de Platão ele é eliminado: toda a educação superior fica a cargo do Estado e da elite por ele supervisada.” “A concentração da educação no Estado devia ser encarada por Isócrates como uma exigência totalmente irreal de um radicalismo pedagógico que não serviria de fato para criar uma elite espiritual” Mas se é que o Estado tem condições de cuidar da educação, seria somente de um seletíssimo número. A educação de viés ultrapopular e abrangendo cem por cento da população, mesmo a elite, mesmo os despolitizados, vivendo de fazer concessões em prol da inclusão, seria hipócrita ou semeadora de desastres e desestabilizações futuras do governo.
“A equiparação estabelecida entre a educação do espírito e as diversas modalidades do esporte é característica da concepção da paideia como um jogo distinto, concepção que Isócrates partilha com o aristocrata Cálicles do Górgias de Platão.”
“o Areópago mantinha os cidadãos dentro dos limites, palavra que já em Sólon aparece e que desde então se repete com freqüência em declarações sobre a disciplina legal dos cidadãos.” “As pessoas comportavam-se com seriedade e não tinham o prurido de passar por excêntricas ou espirituosas.”
“aidos, aquele sentimento respeitoso de santo temor” “não é fácil definir este sentimento de pejo ou de temor: é um fenômeno inibitório de grande complexidade espiritual, formado por múltiplos motivos sociais, morais e éticos, ou antes o sentimento de onde brota esse fenômeno.”
“o seu conceito de democracia é substancialmente mais amplo do que o da maioria dos democratas do tempo.”
* * *
“Ninguém repetiu este ataque à demagogia tirânica e ao materialismo da massa com maior força de convicção do que Demóstenes, campeão da liberdade democrática contra os seus opressores estrangeiros.”
“Finalmente, ao afirmar que os atenienses estavam obrigados, não só para consigo mesmos, mas também pela sua missão como salvadores e protetores de toda a Grécia, a se sobreporem à presente situação economicamente ruim e de indolência e a sujeitarem-se a uma educação rigorosa, capaz de habilitar outra vez o povo a cumprir o seu destino histórico, Demóstenes fez sua também a idéia com que culmina o discurso sobre o Areópago.
A tragédia da renúncia à forçareside nisto: quando as idéias de Isócrates começavam assim a lançar raízes no coração da juventude, já o seu autor abandonara definitivamente a fé no ressurgimento de Atenas como poder independente e como guia de uma grande federação de Estados. No discurso de Isócrates sobre a paz, assistimos à abdicação de todos os seus planos que visavam ressuscitar no interior do país a criação política de Timóteo e erguer o império renovado da 2ª liga marítima ateniense. Hoje não podemos ler o programa educativo contido no discurso sobre o Areópago sem pensar na renúncia que no Discurso sobre a Paz, redigido no final da guerra perdida, Isócrates recomenda ao povo ateniense em relação aos antigos confederados separados” “Isócrates aconselha agora a que se conserve a paz não só com os confederados apóstatas, mas ainda com o mundo inteiro, com o qual Atenas se encontra em litígio.”
“A zona de domínio da liga ficou reduzida à terça parte do território que possuía no tempo da sua máxima expansão, sob o comando de Timóteo. E o número dos confederados baixou em proporção, uma vez que os mais importantes foram voltando as costas à liga. A situação financeira era catastrófica.”
“Este programa apresenta grande afinidade com o escrito de Xenofonte sobre receitas públicas, que apareceu na mesma época e pretendia apontar uma saída à crítica situação. A direção efetiva do Estado passou para as mãos do grupo conservador, encabeçado pelo político Eubulo, cujas idéias se orientavam na mesma direção.” “é evidente (…) que os 2 discursos não podem provir da mesma época.” “isso vem também confirmar a nossa conclusão de que o discurso sobre o Areópago tem necessariamente que datar de época anterior ao agudo rebentar da crise”
UM GRANDE XADREZ ENTRE DOIS IMPÉRIOS: “No Areopagítico não há a mínima dúvida acerca da excelência do domínio marítimo nem da sua importância histórica tanto para Atenas como para a Grécia” “O Discurso sobre a Paz, levado pelo seu pessimismo, tende, pelo contrário, a provar que o princípio de todos os males foi precisamente o começo do domínio naval.” “É a completa mudança diante do problema da força operada desde o Panegírico até o Discurso sobre a Paz, que explica a apreciação antagônica da paz de Antálcidas, nas 2 obras. O Panegírico condena-a do modo mais severo, considerando-a símbolo da vergonhosa submissão dos gregos aos persas, vergonha só possível após a ruína do domínio marítimo ateniense. (…) a paz de Antálcidas aparece agora como a plataforma desejável a que importa voltar para reorganizar a quebrantada vida política da Grécia. (…) e compreende-se que os sentimentos antipersas do nosso autor voltassem a se avivar mais tarde no Filipe, assim que com o rei da Macedônia surgiu um novo campeão da causa grega.”
“No Panegírico, o imperialismo é justificado pela relação que tem com o bem-estar do conjunto da nação grega; no Discurso sobre a Paz, o domínio e a tendência à expansão do poder são pura e simplesmente repudiados, afirmando-se expressamente a validade da moral privada, mesmo nas relações entre Estados. [!]” Admissão tácita de que Atenas não tinha mais vocação para liderar o mundo. No máximo, estaria já muito em vantagem, dada a situação precária vigente, se conseguisse se tornar uma polis entre iguais.
“A tendência ao poder e ao domínio é apresentada como a fonte de todos os males da história grega. Isócrates considera que esta tendência é por essência análoga à tirania e, portanto, intrinsecamente incompatível com a democracia.” Muito interessante e precursor do ângulo do anti-imperialismo e constitucionalismo modernos, porém trágico para os atenienses de então.
“Com efeito, a tendência ao poder está profundamente enraizada no interior do homem e é necessário um gigantesco esforço do espírito para arrancá-la pela raiz. (…) E, assim como no Areopagítico são apresentados como escola de tudo quanto é bom a legalidade e a severidade da ordem de vida dos antepassados, assim no Discurso sobre a Paz se atribui à educação do povo e dos seus dirigentes, corrompida por obra do poder, tudo o que há de mau e desregrado no presente.”
“O verdadeiro modelador das almas humanas é a ânsia de poder, a aspiração a mais. Esta, quando domina o Estado e a sua ação, não tarda a converter-se também em lei suprema da conduta individual.” “A democracia converte-se, pois, como se vê, na renúncia à tendência de poder. Mas isto não equivalerá, talvez, à eliminação voluntária da única democracia importante que ainda existia, na sua luta com as outras formas de governo, que buscam o mesmo objetivo por caminho direto, sem tropeçarem nos obstáculos constitucionais das liberdades cívicas? Eis um problema realmente sugestivo. Na realidade, devemos reconhecer que a exigência de Isócrates de se renunciar ao poder arbitrário do domínio ateniense era proclamada numa época em que aquele poder já desaparecera de fato pela força dos acontecimentos. A fundamentação moral através da vontade livre não passava de uma justificação a posteriori, que de certo modo facilitava a tarefa dos impotentes herdeiros do antigo esplendor, aliviando a consciência dos patriotas cuja mentalidade discorresse ainda pelos trâmites da tradicional política de força.”
“E quase parece inconcebível que o Estado ateniense, relegado por ele ao papel de funcionário aposentado, tenha podido erguer-se de novo, sob a direção de Demóstenes, para a derradeira luta, uma luta em que já não se buscava a conquista de um poder maior, mas sim a defesa da última coisa que lhe restava, após a perda do seu império: a liberdade.”
4.6 Isócrates defende a sua paideia
“Isócrates fala muito de si próprio nas suas obras, mas esta necessidade encontra a sua expressão mais pura numa das suas últimas criações (…) o discurso sobre as trocas de fortuna, a Antídosis, que é o nome que este conceito tem na língua ática.”
(*) “Em Antíd., 9, indica uma idade de 82 anos. Este discurso perdera-se na sua maior parte; só o princípio e o fim dele se conservaram, até que em 1812 o grego Mistoxides descobriu a parte principal (72 a 309).
“Cada uma das pessoas sobrecarregadas com o imposto da trierarquia tinha direito, se considerasse o gravame injusto, a dar o nome de um cidadão mais rico a quem se pudesse com maior razão exigir o cumprimento do mesmo dever; e para demonstrar que a riqueza desse cidadão era maior que a sua podia pedir que trocasse de fortuna consigo. Em razão deste costume foram dirigidos à pessoa e à atividade docente de Isócrates diversos ataques que, embora não rigorosamente relacionados com o fundo da questão, tinham certa relação com a sua fama de ter juntado uma grande fortuna, com as suas atividades publicitárias e educativas.”
“O processo por causa da troca de fortunas é apenas o motivo para redigir uma obra em que, a pretexto de ter sido publicamente argüido, defende, i.e., situa sob o ângulo que lhe parece adequado a sua vida, o seu caráter e as suas atividades didáticas. Na mesma obra, disserta pormenorizadamente sobre a estranha mistura de discurso forense, de autodefesa e da autobiografia que a Antídosis representa e pretende que esta mescla de idéias seja apreciada como uma sutileza especial da sua arte retórica. (…) Foi Platão, na Apologia de Sócrates, o 1º a converter o discurso forense de defesa em forma literária de confissão, em que uma personalidade destacada no plano espiritual procura prestar contas dos seus atos. Esta nova forma de auto-retrato literário deve ter causado funda impressão na mentalidade egocêntrica de Isócrates, que dela se serve no discurso sobre a troca de fortunas.” “1º monumento autêntico da autobiografia que possuímos, ou antes, como 1º relato do seu espírito e da sua vida, a Antídosis interessa-nos ainda de maneira especial, por ser a exposição mais ampla que ele nos deixou sobre os objetivos e os resultados da sua paideia.”
“Na Antídosis, Isócrates toma, indubitavelmente, posição perante ataques como os de Aristóteles.” “É a grandeza do seu objetivo que distingue os seus discursos de todos os outros, pois se ventilam neles os interesses da nação grega e não os deste ou daquele indivíduo.” “É por isso que a sua arte congrega a sua volta numerosos discípulos, ao passo que os redatores empíricos de discursos são incapazes de formar realmente uma escola.”
“imitação, conceito que tende cada vez mais a tornar-se a verdadeira medula do seu sistema educativo.”
“já no fim da vida (…) Isócrates apresenta-se à opinião literária como um clássico consumado, que propõe como modelo as suas próprias obras. É aqui que tem as suas raízes o classicismo posterior. A todas as suas obras antepõe ele o Panegírico, tanto pela exemplaridade da forma como pelo testemunho do seu sentir patriótico, nas quais não se destaca tanto o pan-helenismo como o seu consciente sentimento de ateniense. É certo que os seus concidadãos punham este último em dúvida. No entanto, depois de ter apresentado 2 anos antes a talassocracia ateniense como a raiz de todos os males, era evidente que não podia publicar sem qualquer retoque o Panegírico”
“Isócrates tem certeza que com este discurso voltará agora a ser calorosamente aplaudido pelos círculos patrióticos de Atenas, mas não deixa de ser significativo que, para contrabalançar essa glorificação de Atenas e da sua grandeza histórica, insira de seguida um fragmento da sua obra mais recente, o Discurso sobre a Paz, e precisamente aquela parte do discurso em que prega uma paz duradoura e a renúncia ao domínio de Atenas sobre os mares.”
“Seria interessante saber se, quando fala dos legisladores, Isócrates quer se referir também a Platão, que naquela época andava entregue à redação das suas Leis. Este fato devia ser conhecido nos círculos espirituais de Atenas interessados nestas questões e jorrava uma nova e derradeira luz sobre a vontade educativa de Platão.”
“das leis se louvam as mais antigas e dos discursos os mais modernos.”Antíd., 82
“E a sua obra de educador tem também uma importância superior à dos filósofos ou sofistas que exortam o homem à virtude da justiça e ao autodomínio, pois é só aos indivíduos que o seu apelo à phronesis, ao conhecimento moral e a uma conduta de acordo com ele, se dirige, dando-se eles por satisfeitos quando conseguem atrair alguns homens. A atuação de Isócrates, ao contrário, dirige-se à polis inteira e procura incitá-la a realizar ações que a tornem feliz e libertem os outros gregos das suas dores.”
“Para o leitor moderno, o essencial é a sua herança literária, através da qual continua a nos falar. Mas para o ateniense, sobretudo para aquele que não conhecesse com precisão a longa série de estadistas e de outras eminentes personalidades da vida pública saídos da escola de Isócrates, tal enumeração tinha de significar forçosamente mais que a mera palavra escrita.”
(*) “Hemipo, discípulo de Calímaco, compôs a obra Sobre os Estudiosos de Filosofia que se tornaram Governantes, baseando-se nas listas dos estóicos e acadêmicos de Filodemo, que haviam sido descobertas. (…) É natural que o tirano Hermias de Atarneu desempenhasse nela um papel importante, juntamente com os seus conselheiros políticos Erasto e Corisco, discípulos de Platão. (…) Por certo que em tais listas figuravam ainda Díon e alguns platônicos mais jovens, como Eudemo de Chipre e os seus correligionários, mortos em Siracusa na luta contra a tirania. Mas era também discípulo de Platão o assassino de Díon, Calipo, que a seguir se fez tirano. Em Heracléia, no Ponto, foi ainda um discípulo de Isócrates e Platão – Clearco – que se entronizou como tirano depois de derrubar e assassinar o platônico Quíon. Cf. MEYER,Geschichte des Altertums, t. V, p. 980.”
“Crítias e Alcibíades. Os socráticos tinham-se esforçado naquela época por absolver o seu mestre de qualquer responsabilidade no futuro papel desempenhado por aqueles homens na história da sua pátria, durante os mais difíceis tempos da provação de Atenas.”
“a tragédia da sua carreira como educador (apesar de tão cheia de êxitos, vista de fora), tragédia que é para ele, ao mesmo tempo, a do Estado ateniense. Esta tragédia radica no velho problema das relações entre as grandes personalidades e a massa, na vida da democracia grega.”
“Não era um temperamento vigoroso, endurecido nos trabalhos, mas sim um homem de nervos sensíveis e de saúde delicada. Comparado com Cares, o militarão cheio de cicatrizes, o deus da guerra do partido radical, a quem Isócrates se quer evidentemente referir nesta narração, embora sem lhe mencionar o nome, Timóteo representa o ideal do estratego moderno.”
“Timóteo não era inimigo do povo nem inimigo do Homem; não era soberbo nem sofria de nenhuma outra má qualidade deste gênero. O sentimento da sua própria grandeza, que lhe era tão útil como chefe militar, é o que o tornava difícil no trato diário e lhe dava uma certa aparência de homem altivo e brusco.”
“É impossível contemplar esta imagem, sem pensar no exemplo de Homero, que Isócrates deve ter tido presente, ao escrever estas páginas, em que se entretecem verdade e poesia: referimo-nos ao discurso exortativo de Fênix a Aquiles, no livro IX da Ilíada. O problema que se colocava aqui era o mesmo: moderar o sentimento da megalopsychia, da grandeza de alma, pela sua inserção na estrutura de uma comunidade humana freqüentemente rebelde ao reconhecimento e à gratidão.”
“Timóteo, muito embora me desse razão quando eu assim falava, era incapaz de modificar a sua natureza. Era kaloskagathos, digno da cidade e da Grécia, jamais comparável àquela classe de homens a quem incomoda tudo quanto os ultrapasse.” Antíd., 138.
“a ficção de um concidadão ter solicitado judicialmente trocar com ele de patrimônio o obriga a focar também este aspecto material da sua profissão.”
“Àquela data, a sua riqueza despertava quase inevitavelmente a inveja e a cobiça da massa; e, enquanto antigamente quem possuía uma grande fortuna sentia orgulho em exibi-la, no tempo de Isócrates todos procuravam ocultar o que possuíam, com medo de perdê-lo, ainda que tivesse sido adquirido por meios lícitos. Isócrates, porém, não pretende furtar-se ao problema da sua fortuna; ao contrário, este problema é visivelmente para ele um ponto cardeal para o qual pretende dirigir a atenção do leitor, uma vez que o êxito material das suas atividades docentes é, aos seus olhos e aos da maioria dos seus contemporâneos, o critério supremo para ajuizar das suas obras. Considera injusto pretender-se medir os ordenados dos professores pelos dos comediantes – que no entanto eram considerados exorbitantemente altos – e aconselha a compará-los aos de pessoas da mesma categoria e profissão. Entre estas menciona o seu mestre Górgias, que ensinou na Tessália, numa época em que os tessálios eram os homens mais ricos de toda a Grécia; e ele era tido pelo mais rico de todos os retóricos. Pois bem: quando morreu, Górgias não deixou mais de 1100 estateres.” “E não foi dos seus concidadãos que recebeu o dinheiro, mas sim de estrangeiros atraídos a Atenas pela fama do seu nome, contribuindo desta forma para a prosperidade econômica da sua cidade natal. O sólido caráter burguês de Isócrates e da sua formação ressalta neste ponto com a maior clareza, se o compararmos, p.ex., com a atitude aristocrática de Platão, que nunca explorou como negócio a educação filosófica.” “A regulamentação dos honorários era em uns e outros, bem como nos médicos, absolutamente individual. Não esqueçamos que a atitude de Platão perante estes problemas representa a exceção.”
(*) “Esta substituição da ginástica e da música pela ginástica e a filosofia (isto é, pela retórica) indica claramente que Isócrates se eleva acima da antiga paideia dos gregos, e à velha educação, baseada na poesia, substitui uma nova e mais bela forma de educação do espírito. Contudo a sua ‘filosofia’ pressupõe o adestramento ‘musical’ de estilo antigo, tal como o faz o sistema educativo ideal de Platão para os governantes filósofos, na República. Na idade avançada (Panat., 34), Isócrates acalentava o desejo de tratar a fundo a posição que a poesia ocupava no reino da cultura.” Não só na Rep. de Platão, como também no Fédon.
“Assim como até o corpo mais frágil se fortalece, quando por ele se vela cuidadosamente, e os animais se podem amestrar e mudam de caráter por meio da domesticação, assim também existe uma disciplina que forma o espírito do Homem. Os profanos tendem a desdenhar a importância que o fator tempo tem aqui, e ficam céticos se não apalpam os resultados dos esforços ao cabo de poucos dias ou, quando muito, ao fim de um ano. Isócrates repete aqui a sua teoria dos diversos graus de eficiência da paideia. Mas, embora reconhecendo esta diversidade, continua a defender sem vacilar que a eficiência pode ser comprovada em todos os seres mais ou menos dotados. Todos exibem em maior ou menor medida o selo da mesma formação espiritual.”
“Cita-se até, segundo uma paródia livre de Eurípides, um verso das suas lições de retórica, o qual reza assim, transcrito para prosa: Seria deplorável guardar silêncio e deixar falar Isócrates. Aristóteles propunha-se satisfazer com estes cursos a necessidade que os seus discípulos sentiam de uma cultura formal. O ensino retórico tendia a completar o estudo da dialética.”
(*) “…A mim o que parece mais verossímil é o Fedro ser posterior ao Grilo de Aristóteles (pouco depois de 362), ainda que não muito posterior. Tanto no Grilo como no Górgias, a retórica não é considerada techne, ao passo que no Fedropode-se converter em tal. (…) Em todo caso, creio que o Fedro deve ser considerado anterior à Antídosis (ano 353).”
“Ambas as coisas tinham forçosamente de atentar contra a Escola de Isócrates e provocar a sua indignação. Um dos seus discípulos, Cefisodoro, compôs contra Arist. uma extensa obra em 4 livros (…) O caráter irônico de Arist. leva-nos a pensar que a sua inovação deve por força ter originado uma polêmica mordaz, embora na sua Retórica citasse freqüentemente os discursos de Isócrates como modelos de oratória.”
“Platão, apesar de todas as suas reservas, não tinha outro remédio senão compreender a diferença profunda que existia entre Isócrates e outros retóricos do tipo de Lísias. Quando põe na boca de Sócrates a profecia de que Isócrates saberá desenvolver um dia os seus dons naturais de ordem mais filosófica e criar algo de pessoal, põe-nos o problema de vermos até que ponto a trajetória posterior do retórico satisfez realmente aquelas esperanças.”
(*) “Em Antíd., 258, Isócrates afirma cautelosamente que são certos filósofos erísticos os que o difamam; estabelece, pois, distinção entre o próprio Platão e o seu discípulo Arist..”
“É certo que não se pode dar o nome de Filosofia a esta cultura meramente lógica e conceitual, visto que não dá normas nem para bem falar nem para bem agir. É, no entanto, um exercício da alma e uma iniciação à verdadeira Filosofia, à cultura político-retórica.” Vd. o Político: o Jovem Sócrates, um matemático ateniense, e o Estrangeiro em busca da definição do Homem Político.
(*) “…Platão julga ter refutado no Górgias estas censuras de Cálicles, mas Isócrates volta a colhê-las na sua totalidade, prova de que este antagonismo entre os 2 ideais de cultura é eterno….”
“antigos sofistas (termo com que se refere aos que hoje designamos por pré-socráticos).”
(*) “…Já na Helena, 2-3, Isóc. atacara os filósofos pré-socráticos, Protágoras, Górgias, Zenão e Melisso,¹ como simples rebuscadores de paradoxos, e prevenira contra a sua imitação. Na Antídosis critica Empédocles, Íon [não se sabe se é o Íon de Quio já citado], Alcmeôn, Parmênides, Melisso e Górgias. É claro que não critica Górgias como retórico, mas sim como inventor do famoso argumento o ser não é, que foi uma exageração dos paradoxos tão do gosto dos filósofos eleatas.” Não poupava o próprio mestre – mas, mais grave, não devia saber puxar muita coisa de proveito do que lia, para atirar a torto e a direito assim e ver qualidade tão-só em si.
¹ Provavelmente um campeão da irrelevância. Só citado agora; bastante superficialmente discorrido na História da Filosofia hegeliana. Um péssimo discípulo de Zenão, caso o tenha realmente sido.
“as especulações metafísicas sobre o Ser e a natureza, ligadas aos nomes de Empédocles, Parmênides, Melisso e outros são por ele consideradas pura insensatez e provocam a sua indignação. No Parmênides e no Teeteto de Platão discutem-se vivamente os problemas da escola eleata, de Heráclito e de Protágoras. Nas listas das obras de Arist. são especialmente citadas obras de Xenófanes, Zenão, Melisso, Alcmeôn, Górgias e os pitagóricos. Estes estudos nasceram do contato intensivo da Academia com os pensadores antigos e os seus frutos já se manifestaram nas partes mais antigas da Metafísica de Arist., sobretudo no livro I, que trata dos pensadores anteriores a ele.”“Isóc., involuntariamente, já não consegue mais exprimir o seu pensar discrepante senão na forma da negação do ponto de vista platônico.” O início da “síndrome” que já dura +2000 anos.
De modo esquemático:
Parmênides ——(V)—– Sócrates —– Platão
Parmênides ——(O)—– Górgias —– Isócrates,
onde (V) = Verdade e (O) = Opinião, conforme desmembrados do Um de Parm..
“Segundo Isóc., a censura que Platão dirige no Górgias aos grandes estadistas do passado cai sobre aquele mesmo que a formula, pois, ao aplicar aos homens uma pauta sobre-humana, o que faz é precisamente praticar uma injustiça contra os melhores dente eles. (…) opinião acertada (…) concedida como dom divino)” DV
Ad infinitum a mesma crítica ao Übermensch…
“Enquanto para Platão a fase superior da arete e da paideia começa para além deste êxito baseado no instinto e na inspiração, o sistema educativo de Isócrates, sujeitando-se por si mesmo a uma limitação consciente e levado pelo seu ceticismo de princípio, move-se exclusivamente na fase do simples critério pessoal e da mera opinião. A opinião certa não é para ele um problema de conhecimento exato, mas sim de gênio, e como tal inexplicável e refratário a ser transmitido por meio do ensino.”
“Em parte alguma as limitações espirituais de Isócrates ressaltam com maior clareza do que na crítica à teoria platônica da paideia.” Um aristocrata é um aristocrata, crendo num Homem ou não (somente homens).
(*) “Antíd., 274-5: uma techne do tipo da que exigem os dialéticos nunca existiu antes, tampouco existe agora. Mas antes de inventar tal paideia conviria abster-se de prometê-la aos outros….”
“À essência da pleonexia (desejo de mais), profundamente enraizada na natureza do Homem, como instinto de posse, dedica ele aqui uma investigação especial, em que procura dar a este conceito um sentido positivo. É neste ponto que Isócrates traça uma nítida linha divisória entre si próprio e o Cálicles de Platão. Esta linha divisória é a da moral.”
(*) “De Pace, 33. Já nesta obra (…) se vê claramente que Isócrates é contrário ao amoralismo do Cálicles platônico e à sua teoria do direito do mais forte (…) Na Antídosis, Isó. procura separar nitidamente as duas coisas.” Sempre haverá “duas” Vontades de Potência: a do Bom (Melhor) e a dos maus. Todo mestre será malversado. E embora separáveis, sempre terão o mesmo nome. Não se trata de contestar o “princípio natural” da “sobrevivência do mais forte”, mas de estabelecer: o que é o mais forte?
(*) “Antíd., 282 e 285. Em 283, Isó. censura o abuso das palavras em que incorremos filósofos, ao transpô-las das coisas supremas para as coisas piores e mais reprováveis. Na realidade, ele próprio muda o sentido do termo pleonexia, de algo moralmente repugnante em algo ideal. Ao fazê-lo, segue sensivelmente o exemplo de Platão, que no Banq., 206 A define o eros idealizado como o impulso para a assimilação do mais belo e do melhor…”
“Isócrates aceita a moral prática dos socráticos, embora sem a dialética nem a ontologia platônicas” Isócrates quer as vantagens da Filosofia sem seus efeitos colaterais! Hipertrofia que se repetiu na Alemanha: quando o culto se torna o bárbaro. E, no fundo, Caetano Veloso filosofa em alemão. Somos seus continuadores.
“Não é próprio do ateniense desprezar o logos nem sentir ódio à cultura do espírito, ódio freqüente agora entre os políticos poderosos e entre a massa, e que constitui um sintoma de degenerescência do Estado ático.” “é ao espírito ático que se deve a fama da cidade no mundo inteiro.” “Ao perseguirem os representantes da cultura espiritual, os atenienses procedem como procederiam os espartanos se punissem as atividades guerreiras, ou os tessálios se anatematizassem a criação de cavalos e a equitação.”
“MUDA BRASIL”, MBL, etc.: “A tendência mais extremista da democracia foi adotando uma atitude cada vez mais hostil para com a cultura, à medida que se ia definindo a ligação entre a cultura e a crítica política.” “O que revoltava a massa, a criação de uma nova aristocracia espiritual em vez da antiga nobreza de sangue, que já tinha definitivamente perdido a sua importância, era o ideal consciente da educação isocrática.”
“Finge-se pronunciar estas palavras perante um tribunal, mas na realidade brotam do refúgio de um recanto, a partir do qual já não se apresenta a mínima possibilidade de influir no andamento das coisas, porque já se tornou insondável o abismo entre o indivíduo e a massa, entre a cultura e a incultura.”
“Na nova estrela ascendente do rei Filipe da Macedônia, na qual os defensores da polis viam um signo funesto, viu Isó. totalmente o contrário, a luz de um futuro melhor; e no seu Filipe saudou o adversário de Atenas como o homem a quem a tyche conferira a missão de realizar o seu ideal pan-helênico.” “Dos homens que eram, em Atenas, a alma da resistência contra a Macedônia, mesmo de Demóstenes, falava só como de homens incapazes de fazerem qualquer bem à polis.”
“O ancião de 97 anos [!] (…) espalha-se em considerações históricas sobre a melhor forma de governo, que consiste, segundo Isó., numa combinação correta dos 3 tipos fundamentais de constituição.” “Esta teoria influenciou os estadistas peripatéticos e através deles informou a obra do historiador Políbio – sobretudo no modo de expor o espírito do Estado romano – e ainda o ideal de Estado de Cícero, no seu De Republica.”
4.7 Xenofonte: o cavaleiro e o soldado ideais
“Se deixarmos de lado (…) Platão (…) só um homem dentre os escritores do círculo socrático, Xenofonte, chegou até nós através de numerosos escritos. Em contrapartida, discípulos como Antístenes, Ésquines e Aristipo, preocupados apenas com imitar as diatribes morais do seu mestre, dificilmente representam para nós mais do que simples nomes.” Com efeito, os dois últimos estão citados apenas duas vezes nesse amplo resumo, contando com a menção acima.
“Mesmo que não seja lido como o primeiro prosador grego, pela transparente simplicidade da sua linguagem (e ainda hoje assim é considerado nas nossas escolas); mesmo que o julguemos através da leitura dos grandes autores do seu século, de um Tucídides, de um Platão ou de um Demóstenes; muitas coisas que hoje nos poderiam parecer espiritualmente banais ganham, pelo encanto da sua pena, um aspecto diferente.”
“Xenofonte, que nascera num dos demos atenienses, o mesmo de que Isócrates descendia, passou pelas mesmas experiências infelizes deste e de Platão, na última década da guerra do Peloponeso, época em que se tornou adulto.” “Não foi Sócrates, porém, quem marcou o destino da sua vida, mas sim a ardente inclinação para a guerra e para a aventura” “o mais brilhante dos seus livros, a Anábase ou Expedição de Ciro”
“ao regressar da campanha da Ásia, uniu-se diretamente aos espartanos que sob o comando de Agesilau combatiam em prol da liberdade dos gregos da Ásia Menor e voltou à Grécia com o rei”
Alfred CROISET, Xenophon, son charactère et son talent (Paris, 1873)
“E teve que pagar com a extradição para fora da sua cidade as inapreciáveis experiências militares, etnográficas e geográficas adquiridas na sua campanha asiática.”
“O gosto pelas variadas atividades de agricultor, juntamente com a recordação de Sócrates e a inclinação para tudo quanto fosse histórico e militar, é uma das principais características da personalidade de Xenofonte”
“Xenofonte permaneceu longe da pátria durante os decênios do novo apogeu ateniense, com a 2ª liga marítima; não voltou a ser chamado a sua cidade antes da decadência desta liga, a última grande criação política de Atenas, data em que procurou contribuir com alguns pequenos escritos de caráter prático para a obra de reorganização do exército e da economia. (…) A sua vida abrange, pois, pouco mais ou menos, o mesmo período da de Platão.”
“Quando redigiu o seu escrito em defesa de Sócrates, que figura agora como livro primeiro, à cabeça das suas Memoráveis, escritas muito depois – motivadas principalmente pela polêmica literária que ao final da década de noventa provocou o livro difamatório do sofista Polícrates contra Sócrates e os socráticos –, era a uma razão predominantemente política que obedecia a sua incorporação no círculo dos defensores de Sócrates: ao desejo de provar, lá do exílio, que Sócrates não devia ser identificado com as tendências de Alcibíades ou de Crítias, os quais as escolas concorrentes lhe pretendiam atribuir como discípulos, a fim de desacreditarem como suspeito de espírito antidemocrático tudo quanto tivesse qualquer relação com Sócrates. Nem sequer os acusadores do mestre se tinham atrevido a tanto, no seu processo.”
“sentimentos antidemocráticos, misodemia”
“A redação de um capítulo como a conversa entre Sócrates e Péricles o Moço, Mem., III, 5, em que se parte do pressuposto que o principal inimigo de Atenas são os tebanos (…) só se pode conceber na altura em que Atenas e Esparta eram aliadas contra Tebas, após o início do novo apogeu desta cidade, i.e., nas décadas de 60 ou 50 do século IV.”
“Embora transpareça constantemente em Xenofonte o orgulho nacional e a fé na superioridade da cultura e do talento gregos, ele está muito longe de pensar que a verdadeira arete seja um dom dos deuses depositado no berço de qualquer burguesinho helênico.” [!]
“Entre os persas considerava-se incorreto cuspir e assoar o nariz”
“Na imagem de Ciro traçada por Xen. aparecem intimamente associadas a helenofilia e a alta arete persa. Ciro é o Alexandre dos persas e só difere do macedônio pela sua tyche. A lança que o trespassou podia ter derrubado também Alexandre. [?] Cf. An., I, 8, 27. Alexandre professava a mesma idéia de Ciro acerca da bravura pessoal do chefe, idéia que os gregos do séc. IV consideravam romântica. Expunha-se ao perigo sem qualquer finalidade e era ferido com freqüência.” Agamemnon não podia ser um protótipo do ateniense clássico? Péricles não combatia?
[?] Já entendemos que Alexandre não era um imortal – é necessária toda essa ênfase?!
PAN-PAN-HELENISMO: “Estes gregos vislumbraram agora, embora sem terem percebido claramente, a possibilidade e as condições de uma influência da cultura grega para além das fronteiras da própria raça.”
“De outra forma não teria podido surgir um livro como a Ciropedia, que apresenta aos gregos o ideal da verdadeira virtude de um monarca, encarnado na pessoa de um rei persa.
Esta obra, em cujo título figurava a palavra paideia, é para nós decepcionante, no sentido de que é só no seu começo que trata realmente da educação de Ciro.(*) Não estamos na presença de uma novela cultural da Antiguidade, mas sim de uma biografia completa, ainda que muito romanceada, do rei que fundou o império persa.
(*) (…) Também a Anábase tira o título do 1º capítulo da obra, apesar da parte principal se consagrar à narração da retirada dos gregos, i.e., da katabasis. Não faltam exemplos deste tipo de títulos na literatura grega.”
“O mero fato de os gregos do séc. IV poderem entusiasmar-se com tal figura atesta como os tempos tinham mudado (…) Entramos na era da educação dos príncipes.”
“O guerreiro de Xen. é o homem que confia singelamente em Deus. Na sua obra sobre os deveres do capitão de cavalaria, há uma passagem onde diz que se algum leitor se espantar de todos os seus atos começarem com Deus, é porque nunca se viu forçado a viver em perigo constante.”
“O centro da sua educação é a praça pública diante do palácio real, rodeada também por outros edifícios públicos. Deste lugar estão banidos comerciantes e lojistas, para que o seu bulício não se misture à eukosmiada gente culta. É patente o contraste com o que acontecia em Atenas e na Grécia. Aqui, a praça e as imediações dos edifícios viam-se cercadas de tendas de comércio e cheias de azáfama ruidosa e agitada dos negócios.” “Os diretores da educação infantil saem das fileiras dos velhos escolhidos como mais aptos para esta função; os educadores dos jovens capazes de pegar em armas, dos <efebos>, são distintos representantes dos homens de idade madura. As crianças, como na Grécia os adultos, têm uma espécie de tribunal perante o qual podem apresentar suas queixas e agravos, contra os gatunos, assaltantes e autores de atos violentos, de fraude ou de injúria. Os autores de um desacato são disciplinarmente castigados; mas também o são aqueles que acusam inocentes. Xenofonte salienta como peculiar atributo dos persas o grave castigo com que sancionam a ingratidão. Esta é considerada a raiz de todo o impudor e, portanto, de todo o mal.”
“O regime de vida das crianças é o mais simples que se possa imaginar. Trazem de casa para a escola um pedaço de pão e uma salada, bem como uma caneca para tirarem e beberem água, e todos comem juntos sob a vigilância do mestre. Este sistema de educação chega até os 16 ou 17 anos; nessa idade, o jovem ingressa no corpo dos efebos, onde permanece durante 10 anos.”
“O alto apreço que se tem pelo exercício de caça é, segundo Xen., um sintoma de saúde do sistema persa. O nosso autor celebra as virtudes desta prática que enrijece o homem, e tanto aqui como na sua obra sobre o Estado dos espartanos e no Cinegético, concebe-a como um dos elementos essenciais de toda a paideia correta.”
“Só ingressam na classe dos efebos as crianças cujos pais disponham de recursos para enviar os filhos a esta escola de kalokagathia, em vez de fazerem-nos trabalhar, e só alcançam a categoria de adultos e a seguir a dignidade de anciãos os efebos que completam o tempo de serviço militar.” Do contrário permanecem presos em Neverland.
“Aos cidadãos espartanos com plenitude de direitos tinha, contudo, de parecer estranho que até o rei dos persas e a alta nobreza se entregassem fervorosamente à agricultura. Em Esparta eram considerados banais estes trabalhos”
“Tudo isto tinha que parecer muito estranho ao público grego, se excetuarmos talvez o de Esparta (…) Isto recordará ao leitor moderno as escolas de cadetes dos Estados militares do tipo do antigo Estado prussiano, chamadas a fornecer ao exército o material humano e, assim, a formarem os seus pupilos desde a infância.” “apesar de Xen. entender que a linhagem é aqui substituída pela norma da independência financeira dos pais das crianças que se pretende educar, o mais provável é que esta categoria coincidisse quanto ao essencial com a nobreza dos proprietários de terras do Estado persa.”
“No prólogo da Ciropedia volta resolutamente as costas aos persas do seu tempo e explica as razões da sua decadência.E igual atitude adota para com a Esparta dos seus dias, no final da sua obra sobre o Estado espartano. Não teria procedido assim, sem dúvida, em vida do rei Agesilau, a quem exaltou numa apologia, escrita quando a sua morte (360), como a personificação da autêntica virtude espartana.”
“A exuberante vida oriental, que muitos consideram típica da Pérsia, é para ele característica da Média [país de nascimento deParysatis, mãe de Ciro]. Foi esta a principal razão do império medo ter caído nas mãos dos persas, logo que estes tiveram consciência da sua superioridade. Este povo persa, o do tempo de Ciro, não era um povo de escravos, mas de homens livres e iguais em direitos”
“Em tempos de Xen. e de Platão, e com certeza muito antes, este cosmos espartano já aparecia aos olhos do mundo como uma formação acabada. Contudo, devemos exclusivamente ao interesse destes pensadores e escritores pela paideia dos espartanos o ter-se conservado algum conhecimento de Esparta digno de nota.”
“Os escritos de Platão sobre o Estado são o melhor comentário ao que a mentalidade grega entendia por imitação. Os gregos tendiam menos do que nós a encarar na sua individualidade única uma criação coerente consigo própria, mesmo quando determinada pelas condições de sua essência” “É o princípio da educação como função pública que constitui a verdadeira contribuição de Esparta para a história da cultura, contribuição cuja importância é impossível exagerar.”
“pela 1ª vez na literatura ganhou caráter agudo o problema do campo e da cidade.” “Este amor ao campo está tão distante do bucolismo sentimental dos poetas idílicos gregos como do espírito rústico e burlesco das cenas campestres de Aristófanes.”
“Para justificar o interesse pela agricultura em geral e apresentá-la como um tipo de atividade merecedora do respeito social, Sócrates [o Sóc. xenofôntico, i.e.] lembra o exemplo dos reis persas, que só consideravam digna de se associar aos deveres militares uma única paixão: o cultivo da terra”
“Para velar pelos frutos da terra é mais indicada a alma tímida da mulher do que a coragem do homem, a qual é, em contrapartida, indispensável para evitar que no trabalho do campo se cometam transgressões ou desacatos. São inatos à alma feminina o amor às crianças e a abnegada devoção para cuidar delas. O homem está mais apto a suportar o calor e o frio, a percorrer caminhos longos e penosos ou a defender as terras de armas na mão.” Blablablá de capataz.
SEMENTINHA DA REV. INDUSTRIAL:“Se a presença pessoal do fazendeiro não faz os trabalhadores retesarem voluntariamente os músculos [ih, negócio meio estranho!] e trabalharem a um ritmo preciso e harmonioso, é porque o patrão carece da capacidade indispensável para o desempenho da sua missão”
“Também Platão nas Leis atribui à caça um lugar na sua legislação educativa. É no final, depois das leis sobre o ensino matemático-astronômico, muito distante das normas sobre a ginástica e a instrução do soldado e bastante desligada delas, que esta seção figura. Talvez isto permita chegar à conclusão de que se trata de uma adição posterior à redação da obra. É possível que tenha sido precisamente o aparecimento da obra de Xen. que chamou a atenção de Platão para esta lacuna do seu sistema educativo. Em todo caso, a publicação do Cinegético coincide mais ou menos com os anos em que Platão trabalhava nas Leis.”
“Platão não se resolve absolutamente a reconhecer como paideia tudo quanto no seu tempo se chamava caça. Não quer, porém, estabelecer nenhuma lei sobre isso e, como com tanta freqüência faz nas Leis, limita-se a misturar louvores e censuras no tocante a certos gêneros de caça. Condena severamente toda sorte de pesca de rede e de anzol, por entender que não fortalece o caráter do homem. Só autoriza, portanto, a caça a quadrúpedes e ainda por cima praticada abertamente e em pleno dia, não durante a noite ou valendo-se de redes ou armadilhas.”
“Como argumento para provar o caráter apócrifo do Cinegético quis-se aduzir o fato do autor não indicar que a caça devia ser feita a cavalo, pois era esta a forma como os atenienses distintos a praticavam.” “O que deve figurar indiscutivelmente num livro sobre a caça é, isso sim, a maneira de adestrar os cães. E Xen. condensa no Cinegético a sua experiência nesta arte com inúmeros pormenores cheios de encanto, que o definem como grande conhecedor destes animais.” “ao reivindicar o reconhecimento da caça como meio e caminho para a formação da personalidade, vai contra a corrente da evolução da sua época” “a caça a feras, como o leão, o leopardo, a pantera e o urso só se praticava naquele tempo na Macedônia, na Ásia Menor e no interior da Ásia.”
“A obra vem citada na relação dos escritos de Xen. por Diógenes Laércio, relação que remonta aos trabalhos de catalogação dos filólogos alexandrinos do séc. III a.C..”
“É interessante notar que também em matéria de paideia existem agora peritos e leigos, ainda que neste campo o leigo exerça com maior vigor que em nenhum outro a sua crítica.”
4.8 O Fedro de Platão: filosofia e retórica
“Constituía o compêndio mais resumido das idéias platônicas acerca da relação entre a palavra escrita e falada e o pensamento, e conseqüentemente era o pórtico por onde todos entravam no templo da filosofia de Platão. O entusiasmo ditirâmbico pelo qual no Fedro Sócrates se deixa arrastar nos discursos sobre o eros – entusiasmo que ele próprio ironicamente faz notar – era tido por indício seguro das origens remotas deste diálogo. Já a crítica antiga caracterizara, em parte, como mau ou ‘juvenil’ o estilo destes discursos, o que indubitavelmente equivalia a primitivo, não em sentido biológico, mas no sentido de valoração artística, i.e., de censura a um estilo excessivamente redundante.” “A condenação intrínseca do Fedro como um problema juvenil é, a meu ver, uma improvisação digna da ignorância de Diógenes Laércio. É evidente que este pensava que o verdadeiro problema do diálogo era o tema do discurso de Lísias, que figura no começo do Fedro e é, sem dúvida, um tema pueril.”
“Parecia lógico que Platão fornecesse logo no início da sua carreira literária uma explicação sobre a sua atitude perante a obra de escritor em geral e sobre o valor da palavra escrita para a filosofia” “E foi precisamente com a ajuda do Fedro que Schleiermacher descobriu esta nova interpretação formal, que viria a fornecer a pauta para todo o resto. (…) Mas à medida que as investigações sobre Platão foram assimilando, no decorrer do séc. XIX, a idéia de evolução histórica (…) descobriram-se indícios que sugeriam uma origem mais tardia” “Esta viragem foi feita sobretudo por Karl Friedrich HERMANN,Geschichte und System der platonischen Philosophie (Heidelberg, 1839).”
“Finalmente, via-se que a riqueza do vocabulário e a complexidade de composição com que nesta obra se expõe o pensamento platônico traíam a sua proveniência da época da sua maturidade (…) Depois de situarem durante certo tempo o Fedro na época do Banquete, i.e., no período intermédio (após a fundação da escola platônica), os intérpretes viam-se agora obrigados a deslocar de novo este diálogo para a última fase da vida do filósofo. Hermann situa o Fedro, ao lado de obras como o Menexeno, o Banquete e o Fédon, na época por ele designada como 3º período da obra escrita de Platão, antes da República, do Timeu e das Leis. Usener e Wilamowitz defendiam ainda, contra Hermann, a primitiva cronologia de Schlei.; Wilamowitz, contudo, abandonou mais tarde este ponto de vista. Mais longe ainda que Hermann foi H. von ARNIM, ao situar o Fedro entre as últimas obras de Platão, no seu livro Platos Jugenddialogue und die Entstehungzeit des Phaidros (Leipzig, 1914).”
STENZEL, Plato’s Method of Dialectic, 1940
(*) “…Isto confirma o testemunho de CIC., Or., 13, tirado dos eruditos helenísticos que classifica o Fedro como obra de velhice de Platão.”
“É certo que grande parte das dificuldades que a composição da obra apresenta ao leitor deriva apenas do paralelismo, explicável mas falso, com o Banquete. Se o compararmos com esta obra, que trata toda ela do problema do eros, é fácil vermos no Fedroo 2º grande diálogo erótico de Platão.”
“É nas suas relações com o problema da retórica que reside a unidade do Fedro. As 2 partes da obra dedicam-se em igual medida a este problema.” “A chamada parte erótica, ou seja, a 1ª, começa com a leitura e a crítica de um discurso de Lísias, apresentado como o dirigente da mais influente escola retórica de Atenas, e que no tempo de Sócrates estava no apogeu do seu prestígio. (…) como, a partir das falsas premissas de Lísias sobre o eros se pode tratar melhor do que ele o mesmo tema ou como deve esta questão ser exposta, quando se sabe verdadeiramente o que ela é.”
“autêntica retórica” “deixa sem solução o problema de saber se alguma vez chegará a existir este tipo de retórica. Apesar disso, Platão faz Sócrates dizer que deposita grandes esperanças no jovem Isócrates, e o diálogo termina com as elogiosas palavras do mestre a este novo retórico. § Estes elogios tributados a Isóc. formam um contraste consciente com as mesmas censuras dirigidas a Lís., que encabeçam tanto a parte I como a parte II”
MESTRE DA ANACRONIA: “Embora seja difícil dizer a priori a que época da atuação de Isóc. pode corresponder este episódio, é evidente que a profecia sobre a grandeza futura deste homem não teria tido qualquer sentido na juventude de Platão, quando ainda não existia nenhuma escola sua nem nada que permitisse distingui-lo dos outros redatores de discursos. É preciso que a nova retórica já tenha apresentado provas decisivas da potência de espírito de seu autor, para que Platão pudesse pensar em cingir com o laurel daquela profecia socrática(*) a fronte do homem da mais importante das escolas de Atenas suas opositoras.
(*) CIC.: <haec de adolescentes Socrates auguratur at ea de seniore scribit Plato et scribit aequalis.>”
“O Fedro só pode ser compreendido como nova fase da atitude de Platão para com a retórica. Essa atitude é ainda de franca recusa no Górgias, onde a retórica é a suma de uma cultura que não se baseia na verdade mas sim na mera aparência. É certo que, separando bem, já se descobrem de vez em quando neste diálogo certas referências ao que poderíamos chamar a própria consciência retórica de Platão.”
“O que é decisivo é que o ponto de partida desta obra seja a leitura de um discurso-modelo de Lís., dado por este aos discípulos para o aprenderem de cor. (…) A escolha do eros como tema do discurso obedece à freqüência com que os exercícios dos retóricos se valiam deste tema. Entre os títulos das obras perdidas de Arist. encontramos citada toda uma coleção deste tipo de teses retóricas sobre o eros.” “Também no Banquete o problema do eros, concretamente no início do duelo oral e no discurso de Fedro, aparece como um tema nitidamente retórico.”
“A juventude ateniense andava muito preocupada com saber se e em que circunstâncias era lícito ceder à exigências do amante, aludindo com isto fundamentalmente à entrega física. [dar o cu] Já conhecemos este problema, pelo discurso de Pausânias contido no Banquete. Lísias vence os que consideravam lícito, com a tese perversa de que era sempre melhor para o amado entregar-se a um amigo que não se encontrasse dominado pelo eros, mas conservasse o sangue-frio. Este amigo não se deixava arrastar pelas turbulências sentimentais do amor nem prejudicaria o seu jovem amigo, isolando-o egoistamente, à força, de todos os outros homens, para prendê-lo exclusivamente a ele. No seu 1º discurso, que pronuncia de cabeça descoberta, pois não lhe passa despercebido o caráter blasfemo da tese, Sócrates reforça estes argumentos com uma rigorosa classificação e definição das diversas classes de apetites. Coincide plenamente com Lís. em considerar o eros uma modalidade do apetite sensual, edificando sobre esta premissa a sua argumentação.”
“Nada é mais contrário ao alto conceito do caráter de um eros como o proclamado no discurso de Diotima (…) Mas é esta maneira forçada de abordar dialeticamente o problema que torna imprescindível que a discussão, arrastada pela força de uma necessidade interna, transcenda este tema concreto do eros e se eleve às verdadeiras alturas da contemplação filosófica.”
“O eros é aqui situado no mesmo plano dos dotes poéticos e proféticos e a inspiração apresentada como sua essência comum.”
MITO DA CAVERNA II: “O discurso vai subindo àquela região supraceleste em que a alma, impelida pelo eros e seguindo o deus que lhe é afim por essência, já é digna de contemplar o Ser puro. Sócrates justifica o estilo poético do seu discurso, recorrendo a Fedro, em atenção ao qual emprega este recurso. Nem de outro modo se pode falar a um discípulo e admirador da cultura retórica. Mas Sócrates prova-lhe que o filósofo com facilidade sabe ultrapassar a sua arte, caso o pretenda. O vôo entusiástico das suas palavras não é um frio artifício como tão freqüentemente o é o estilo sublime dos retóricos”
“É possível ensinar a virtude?” Só sendo virtuoso.
“É possível ensinar a falta de virtude?” Não.
Tautologia, enfim: só aprende a virtude quem é virtuoso. Dormente, desencaminhado, jovem e inexperiente demais… Inconsciente… Ou apenas um virtuoso que finalmente pode abrir o coração diante de outro virtuoso. A sina do virtuoso, de ambos os lados.
“É principalmente com os recursos da comparação que a argumentação dos retóricos opera.” “É o conhecimento do díspar e do semelhante que serve de base a qualquer definição lógica de um objeto. E supondo que o objetivo fosse enganar o auditório, i.e., levá-lo a conclusões falsas a partir de meras aparências, também isto pressupunha um conhecimento exato do método dialético de classificação, pois só assim se poderia penetrar nos diversos graus de semelhança das coisas.”
“É importante para nós sabermos que foi da filosofia, e não da teoria artística da retórica ou dos poetas, que a exigência da unidade orgânica de uma obra literária partiu, e que ela teve de ser proclamada por um artista-filósofo, admirador da integridade orgânica da natureza e, ao mesmo tempo, um gênio da lógica.”
“o que impeliu Platão a escrever o Fedro foi a clareza cada vez maior com que via a ligação entre os problemas teóricos aparentemente difíceis e abstratos da sua posterior teoria das idéias e as mais simples exigências que que se colocavam à capacidade de falar e de escrever, que, naquela época, constituíam um tema muito procurado e muito debatido.” “Em vez de se deixar arrastar pelo tom antipático ou desdenhoso da polêmica, que Isóc. gostava de usar também contra Platão, no início das suas atividades, este sabe combinar os elogios ao adversário, que respeita, com a referência às profundas conexões espirituais existentes entre os 2 campos.”
“O resto da retórica, tudo o que Lísias e outros como ele ensinam aos seus alunos, não pode nunca constituir, por si, uma técnica.¹ Forma, por assim dizer, a parte pré-técnica da retórica. Platão vai enumerando de um modo deliberadamente cômico toda a terminologia das várias partes do discurso que os retóricos distinguem nos seus manuais. Todos os representantes da antiga retórica aparecem neste quadro com os seus nomes, e alguns deles com as suas invenções pessoais, que revelam certa tendência para uma crescente complicação.”
“dotes naturais” X “prática”, “conhecimento”
¹ “a sua crítica da retórica anterior vai-se transformando nas suas mãos num ideal perfeitamente pessoal dessa arte, ideal cuja realização, unicamente, lhe permite converter-se de fato em techne, no verdadeiro sentido da palavra.”
“A grandeza de Péricles como orador devia-se a sua profunda cultura de espírito. Era a concepção filosófica do mundo do seu amigo e protegido Anaxágoras que dava forma a todo o seu pensamento” “Estes heróis da arete da verdadeira eloquência, no mito e na história pátria, não só se citam como figuras paradigmáticas para apoiar e ilustrar o conceito platônico de retórica, mas ainda como o contrário da secura e da penúria escolasticista¹ dos técnicos e especialistas modernos da arte oratória.”
¹ Novamente, esperamos que Jaeger não esteja usando o termo escolasticista no – indiretamente associável ao, mas incabíbel, anacrônico – sentido católico do termo, e sim no sentido de doutrina ou escola, mais universal.
“Quem julgar que com qualquer rotina pode ir avante achará este caminho desmedidamente longo e trabalhoso.”
“É claro que, como Platão reconhece no final, a verdadeira finalidade da retórica não consiste em falar para agradar aos homens, mas sim em agradar a Deus.(*) (…) Todas as aporias das suas obras anteriores vêm agora desembocar na atitude rigorosamente teocêntrica que caracteriza a paideia da sua última fase.
(*) (…) Portanto, é naquele ponto da retórica em que transparece a concepção do mundo própria do relativismo de Protágoras e dos sofistas que se apóia um novo ideal da arte oratória, cuja norma é o Bem eterno. [Quase a prova cabal da cronologia tardia do Fedro.]”
O ANTI-COMPILADOR (FALSO SABER): “Platão mostra-se muito inclinado a aceitar a arte de escrever dos retóricos profissionais. Mas nem por ser uma invenção genial se deve considerar agradável a Deus. O mito da invenção da arte da escrita, i.e., dos sinais escritos, pelo deus egípcio Toth serve para esclarecer isso. Quando o deus acorreu a Thamos de Tebas com a sua nova descoberta, gabando-se de com ela oferecer aos homens um recurso salvador para a sua memória e portanto para o seu saber, Thamos retorquiu-lhe que a invenção da escrita serviria, ao contrário, para desleixo da memória e para levar o esquecimento às almas” Uma instância em que um homem sábio ensina um deus. Este Thamos é só uma máscara para Sócrates, que anteviu o problema do “discurso charmoso”.
“Toda a grandeza de Platão se revela nesta posição soberana por ele adotada ante a palavra escrita, posição que tanto o afeta, nas suas atividades de criação literária, como a produção dos retóricos.”
“A posição paralela adotada no Fedro foi desde muito cedo relacionada com a forma platônica dos escritos filosóficos, ou seja, com o diálogo socrático; e viu-se nela uma razão fundamental para considerar esta obra uma exposição programática. Na realidade, é difícil de conceber que, com este ceticismo em relação à palavra escrita, o Platão da 1ª fase pudesse enfrentar a sua gigantesca obra de escritor.Em contrapartida, esta atitude perante a obra já realizada podia explicar-se psicologicamente, a posteriori, como um meio de preservar a sua liberdade mesmo em relação à própria obra escrita.” E das malversações de um futuro distante.
“As suas produções caem em todas as mãos, tanto nas de quem as compreende como nas de gente falha de compreensão, [Kikuchis] e a palavra escrita é incapaz de se explicar ou defender, quando injustamente atacada. Precisa de outrem, como advogado. A verdadeira escrita é a que se grava na alma do que aprende (…) o único proveito do escrito com tinta é recordar o que já se sabe.” Ah, tantas ressonâncias… Ou diria reminiscências…
“Quem se interessar pela verdadeira cultura do espírito não se contentará com os escassos frutos temporãos cultivados como desfastio no horto retórico, mas terá a necessária paciência para deixar amadurecer os frutos da autêntica cultura filosófica do espírito. [frase redundante] Já pela República e pelo Teeteto conhecemos esta defesa da cultura filosófica: o seu pressuposto é o princípio do longo rodeio, é importante ver como Platão sempre volta a ele.A semeadura da paideia platônica só pode frutificar em regime de longo convívio, como diz a Carta Sétima, e não em poucos semestres de regime escolar.”
Uma vez filósofo, sempre filósofo. Ou, posto que sempre filósofo, no arremate de uma biografia, pode finalmente declarar: foi filósofo. Princípio do anti-gracismo ou dos “filósofos por um tempo”, estagiários prostitutos do saber.
4.9 Platão e Dionísio: a tragédia da paideia
“Quando a crítica filológica destes últimos decênios logrou reivindicar como testemunhos autênticos do próprio Platão as cartas sétima e oitava, durante muito tempo consideradas apócrifas, acrescentou com isso um importante capítulo à história da paideia.(*) É certo que fatos exteriores referentes às relações entre o filósofo e o mais poderoso tirano do seu tempo ficariam de pé, mesmo que estas cartas, a sétima em especial, não fossem documentos autobiográficos de 1ª categoria, mas apenas uma ficção sensacionalista de qualquer requintado falsário literário, que tivesse querido explorar como rendoso tema novelesco o contato do grande Platão com a política do tempo.
(*) (…) Sobre a autenticidade das Cartas VII e VIII, cf. WILAMOWITZ, Platon/Platão, vol. II, e recentemente G. PASCUALI, Le Lettere di Platone (Florença, 1938). Há eruditos que reconhecem a autenticidade de todas as cartas em bloco, mas tal hipótese esbarra com dificuldades insuperáveis.”
“O observador histórico descobre, porém, um encanto insuperável em poder ler aqui a tragédia de Siracusa; e a maneira como Plutarco, na sua vida de Díon, adorna os acontecimentos para convertê-los em drama, não agüenta em nenhum sentido a comparação com a vida que extravasa do âmago da principal fonte de informação destes acontecimentos: a Carta VII de Platão.”
“Platão insistia sempre na ação, no bios, apesar de o campo de ação tender a restringir-se cada vez mais do Estado exterior para o Estado dentro de nós.”
“Os seus irmãos Adimanto e Glauco aparecem diretamente na República como a personificação da juventude ateniense apaixonada pela política. Glauco pretende enveredar pela carreira política logo aos 20 anos e Sócrates tem de se esforçar muito para o fazer desistir do seu propósito. Crítias, tio de Platão, é o célebre oligarca e cabecilha revolucionário do ano 403. Platão coloca-o mais de uma vez em seus diálogos como interlocutor e tencionava, além disso, dedicar-lhe o diálogo que traz o seu nome, obra que não chegou a acabar e que havia de encerrar a trilogia encabeçada pela República.”
“ano 388: (…) empreendeu, cerca dos 40 anos, a sua viagem a Siracusa, onde a sua teoria arrebatou por completo a alma ardorosa e nobre de Díon, parente próximo e amigo do poderoso senhor de Siracusa. A tentativa de Díon para ganhar para o seu ideal o próprio Dionísio I estava, naturalmente, condenada ao fracasso. A grande confiança humana que este político realista, de cálculo frio, depositava no seu parente Díon, homem todo entusiasta (…) baseava-se mais na absoluta lealdade e pureza de caráter de Díon que na sua capacidade para contemplar o mundo do estadista de ação com os olhos do tirano. Platão diz na carta que Díon esperava que o seu parente desse a Siracusa uma constituição e governasse o Estado de acordo com as melhores leis.”
“Este episódio é o prelúdio da tragédia que mais tarde se desencadearia entre Platão, Díon e Dionísio II, filho e sucessor de Dionísio I. Platão regressou a Atenas, enriquecido com uma grande experiência, e ali fundou, pouco depois, a sua escola. No entanto, as relações com Díon sobreviveram ao fracasso que havia de fortalecer Platão na sua decisão de se abster de toda a política ativa, decisão proclamada já na Apologia.”
“A República de Platão saíra (…) na década de 70. Esta obra deve ter constituído um novo incitamento para as idéias de Díon, pois nela apareciam formulados em forma clássica os pensamentos que tempos atrás ouvira exprimir ao seu autor. Poucos anos depois de publicado, este livro ocupava o centro das discussões.”
“certos sábios (…) pretenderam descobrir no Estado de regime de castas dos egípcios ou no Estado hierárquico-teocrático de Moisés o protótipo da paideia platônica ou algo de semelhante a ela. (…) cf. meu ensaio ‘Greeks and Jews’in: Journal of Religion, 1938.”
“O Estado perfeito é um mito, Rep. 501 E. Mas um príncipe filósofo podia torná-lo realidade, 502 A-B.” Mais do que um príncipe, uma casta inteira.
“Neste plano de Díon, o único fato real intangível era o poder ilimitado do tirano, e esse fato não poderia prometer nada de bom, pois ninguém sabia o uso que seria feito do poder. Mas a fé de Díon era suficientemente audaciosa para especular com a juventude de Dionísio. Juventude queria dizer maleabilidade e, conquanto ao inexperiente jovem tivesse faltado até agora aquela amadurecida visão moral e intelectual que Platão exige do seu príncipe ideal, outro ponto de apoio não parecia surgir para converter em realidade a idéia platônica.”
“Os planos de educação do tirano, iniciados após a subida deste ao trono, tinham fracassado após 2 tentativas. O poderoso Estado dos Dionísios igualmente se afundara, pois, uma vez frustrados os seus esforços educativos, Díon, desterrado pelo tirano, acabou por fazer uso da violência. Foi também de curta duração a sua vitória sobre o tirano. Após breve domínio, sucumbiu às mãos de assassinos, vítima das dissensões surgidas no seu próprio campo. A chamada carta de Platão, escrita depois do assassinato do amigo, constitui um esclarecimento e uma justificação dos seus atos perante a opinião pública, embora revista a forma de um conselho dirigido ao filho e partidários de Díon na Sicília, exortando-os a permanecerem fiéis ao ideal do falecido.”
“Só a tyche divina podia tornar o governante filósofo ou o filósofo governante. (…) Quando Díon pôs Platão em contato com Dionísio, a tyche divina pareceu estender a mão. E foi ela também que guiou a um fim trágico a cadeia das causas e efeitos quando o soberano não reconheceu aquela mão e a afastou.”
“No fundo, é a primitiva concepção grega da natureza humana”
“Na República ainda parecia existir um largo abismo entre o princípio divino do todo, o princípio do Bem, e a vida humana autêntica. Mas o interesse de Platão dirige-se em grau crescente à forma e ao modo de executar a sua ação no reino do visível, i.e., na História, na vida, no campo do concreto.” Se foi isso, Platão ficou bastante senil; não só pelo conteúdo das Leis, o que é óbvio, mas diante da própria idéia de escrever o livro não como um tratado filosófico moral qualquer, mas como um panfleto-para-a-ação, segunda metade da conduta platônica na qual não acredito, daí sublinhar em verde este trecho de Jaeger.
“O significado deste episódio ultrapassa em muito o puramente biográfico. Ganha o valor de ilustração direta da teoria da República, 2º a qual a universal experiência da inutilidade dos filósofos neste mundo equivale, realmente, a uma declaração da miséria do mundo e não diz nada contra a Filosofia.”
“Díon aceitava a pessoa do soberano como um fato dado, do qual se tinha de partir, pelo que, em vez de tirar Dionísio, por seleção, da classe dos guardiões, era preciso prepará-lo a posteriori para o desempenho de uma função que na realidade já exercia. Isto representava uma limitação muito séria aos postulados estabelecidos por Platão.” “Na República, Platão apontava como condição mais importante para a educação poder prosperar a atmosfera ou meio ambiente em que se processava.” “Fala a seguir do medo que nele infundia o aventuroso empreendimento a que Díon o arrastava e justifica esse medo por meio da sua experiência pedagógica, a qual lhe dizia que a gente nova se entusiasma facilmente, mas carece de constância nos seus anseios. Estava convencido de que o caráter provado e a idade já madura de Díon eram o único ponto de apoio firme, em todas as circunstâncias.”
“agia (…) pelo receio de parecer um homem só de palavras. A resignação que tão comoventemente se espelha na República já tinha implícito, no fundo, uma resposta negativa a este esforço para arrancá-lo ao seu isolamento. Platão arriscava agora a fama na tentativa de refutar com a própria conduta o seu pessimismo, bem-justificado. Como ele próprio conta, abandonou a sua atividade docente em Atenas, atividade absolutamente digna dele, para se entregar à pressão de uma tirania que de modo nenhum se harmonizava com as suas concepções filosóficas. Mas julgava conservar, assim, limpo de culpa o seu nome perante o Zeus da hospitalidade e também, em última análise, perante a sua vocação filosófica, que não lhe consentia escolher o caminho mais cômodo.”
“Dionísio, o Velho, embora confiasse humanamente em Díon, e com razão, procurou subtraí-lo à influência do filósofo, mandando este embora. Seu filho, mais fraco, deu ouvidos aos inimigos invejosos de Díon, desejosos de conquistarem autoridade sobre ele próprio, os quais insinuavam que, sob o manto das suas idéias filosóficas reformadoras, Díon conspirava para derrubá-lo e tornar-se tirano. (…) Dionísio, no entanto, não abrigava suspeitas contra as intenções do filósofo e sentia-se, além disso, lisonjeado pela sua amizade com ele; nestas condições, fez precisamente o contrário do que seu pai teria feito na mesma situação: exilou Díon e procurou conquistar a amizade de Platão.”
“Platão regressou, pois, a Atenas, embora tivesse que prometer que voltaria, uma vez terminada a guerra que entretanto rebentava. Evitava romper de todo com o tirano, pensando principalmente em Díon e esperançoso em ver o seu amigo voltar do exílio à pátria.” “Não é fácil compreender o que levou Platão a aceitar um novo convite de Dionísio, poucos anos depois de ter fracassado a sua 1ª missão junto dele. Como razões para justificar a sua conduta alega os incessantes pedidos dos seus amigos de Siracusa, principalmente dos pitagóricos do sul da Itália e do grande matemático Arquitas (que governava Tarento) e seus partidários. Antes de deixar Siracusa, Platão estabelecera laços políticos entre estes elementos e Dionísio; se agora recusasse o novo convite do tirano, esses laços poderiam perigar. Este mandou um barco de guerra a Atenas buscar Platão (…) prometeu-lhe além disso que o seu amigo seria chamado do exílio, caso aceitasse o convite.” “Desta vez a narração platônica passa pura e simplesmente por alto tudo quanto se refere ao seu acolhimento e à situação política com que deparou ao chegar a Siracusa, para se fixar exclusivamente no estado da educação que ali encontrou.”
“Um espírito animado do verdadeiro amor ao saber sente-se fortalecido no seu desejo pela consciência dos obstáculos que se erguem diante dele, e põe em ação todas as suas forças e as do seu guia espiritual para alcançar a almejada meta; ao contrário, o homem rebelde à cultura retrocede, atemorizado, perante o esforço e o severo regime de vida que lhe é imposto, e sente-se incapaz de enveredar por este caminho.”
“Pretende a tradição que Dionísio, após a queda do seu regime, se dedicou ao ensino em Corinto. Platão, aliás, menciona a existência daquele livro em que, parece, a sua doutrina era plagiada, só por ter ouvido falar, pois nunca chegou a lê-lo. Contudo, isto dá-lhe ensejo para um esclarecimento da sua obra de escritor e da relação entre ela e a sua teoria, o que não pode surpreender-nos muito, depois do que nos diz no Fedro (…) Nada tem de estranho que seja precisamente nos derradeiros anos da sua vida que se multipliquem estas declarações sobre a impossibilidade de plasmar satisfatoriamente em forma escrita a verdadeira essência dos seus conhecimentos.”
“Sobre a certeza suprema que serve de ponto de apoio ao seu pensamento, nada existe nem existirá jamais escrito pelo seu punho. A teologia de Arist. é, no pensar deste pelo menos, matéria de ensino, a disciplina suprema entre outras disciplinas. É indubitável que Platão julga possível e necessário operar, através da gradação do saber que na República pinta como paideia filosófica, a catarse do espírito, a fim de purificá-lo dos elementos sensíveis apegados a ele e encaminhá-los cada vez mais para o Absoluto.” Palavra ironicamente poluída pelo mau uso sistemático.
“É nesta passagem que Platão emprega a metáfora da faísca que salta e se prende à alma de quem passa por tal processo.”
“a contemplação, que é finalidade da semelhança com Deus, continua a ser para Platão um arrheton. Já o Banquete pintava em termos semelhantes, como uma mistagogia, a ascensão da alma à contemplação do eternamente belo; e diz no Timeu: é difícil descobrir o criador e pai deste todo e, uma vez descoberto, é impossível declarar publicamente a sua essência.”
“Platão, que viveu algum tempo como prisioneiro no palácio do rei, acabou por ser alojado no quartel da guarda pessoal, que era hostil ao filósofo e constituía uma ameaça para a sua vida, até que por fim Arquitas de Tarento, secretamente informado do sucedido, consegue que o tirano consinta no regresso de Platão. Na viagem de volta encontra-se nas festas de Olímpia com o desterrado Díon. O amigo dá-lhe parte do plano que elaborou para se vingar, mas Platão nega-se a participar nos preparativos.” “Deixava, no entanto, a Díon a liberdade para recrutar adeptos entre os seus partidários, alguns dos quais se alistaram como voluntários no seu corpo de liberdade. E embora a tirania de Siracusa dificilmente pudesse vir a ser derrubada sem o apoio ativo da Academia, Platão sempre encarou o sucedido como uma tragédia e, depois da queda dos 2 beligerantes, aplicou-lhes a palavra de Sólon: foram eles próprios os culpados da sua ruína.”
“a diferente atitude adotada pelos 2 homens, e revelada neste episódio, só leva a separar nitidamente o idealismo de Díon, puro e otimista, mas ligeiro e superficial, da heróica resignação de Platão, baseada num instinto infalível.” “Platão recusa, por princípio, a revolução como processo político.”
“constitui um importante sinal dos tempos o fato de ambos, Isóc. e Platão, se julgarem na obrigação de comparecer perante o público com o seu querer e destino pessoal.”
4.10 As Leis
“Um homem tão erudito como Plutarco sentia-se orgulhoso por figurar entre o reduzido número de conhecedores das Leis; e na época bizantina a transmissão da obra esteve por um fio, como o revela o fato de provirem de um único exemplar todos os manuscritos que nos chegaram.(*) Já em pleno séc. XIX os autores não sabiam o que fazer das Leis e o mais representativo dos historiadores da filosofia neste período, Eduard Zeller, chegou mesmo a declarar, num trabalho do seu 1º período, que se tratava de uma obra apócrifa.
(*) Sobre a tradição documental das Leis, cf. L.A. POST, The Vatican Plato and its Relations (Middletown, 1934).”
“E como as Leis representavam mais que 1/5 da obra escrita de Platão (…) um tal estado de coisas indica como ainda se tomava pouco a sério (…) [a sua] filosofia (…) como as Leis não eram, pelo seu conteúdo, nem lógica nem ontologia, esta obra era considerada secundária pelos filósofos.”
“Tal como a República, obra em que culmina a 1ª fase literária de Platão, as Leis são uma exposição universal do bios humano. É curioso, porém, que depois de terminar aquela obra, o filósofo tenha sentido a necessidade de traçar de novo e sob outra forma aquela imagem de conjunto, erguendo um 2º Estado junto ao Estado perfeito da República. Como dizem as Leis, trata-se ali de um Estado feito só para deuses e filhos de deuses.” “o divino e perfeito do qual se aproxima, sem (…) com ele coincidir (…) se deduz (…) que (…) não significa de forma alguma o abandono do seu ideal de Estado anterior. (…) é, pois (…) no diferente grau de paideia pressuposto que a diferença entre as 2 obras reside.”
“Filipe de Opunte, secretário e confidente de Platão, que depois da morte do mesmo editou e dividiu em 12 livros as Leis”
(*) “…A tradição sobre a redação da Epínomispor Filipe não deve ser separada da informação segundo a qual foi ele que editou as Leis, com base nas tábuas de cera legadas por Platão (…) E esta notícia devia proceder de uma fonte antiga muito boa, provavelmente da primitiva Academia. O estilo da Epínomis confirma cabalmente o teor da informação. A.E. TAYLOR, ‘Plato and the authorship of the Epinomis’ (in Proceed. Brit. Acad., vol. XV) e H. RAEDER, ‘Platons Epinomis’ (in Danske Videnskab. Selskab., Hist.-phil. Medd., 26, 1) (…) F. MUELLER, Stilistische Untersuchüng der Epinomis (Berlim, 1927) (…) A minha investigação acerca da Epínomis (premiada em 1913 pela Academia de Berlim) está inédita.”
“Nem sequer seria fácil ir traçando, como fizemos com a República, as linhas gerais deste volumoso estudo, visto que a composição das Leis e a sua unidade levantam um problema dificílimo”
“Do ponto de vista da história da filosofia as Leis estão, quanto ao método, sob muitos aspectos, mais próximas de Arist.. O velho Platão procura, com os seus princípios, aprofundar uma matéria cada vez mais ampla, em lugar de ir tornando mais insondável o abismo entre a idéia e o fenômeno, como fizera nos anos anteriores.” Parmênides, Platão, Nietzsche: o caminho da opinião, o caminho da verdade. não-Um, Leis, VdP; Um, República, Zaratustra.
“é demasiado tarde que a ação do legislador intervém, pois a sua missão mais importante não consiste precisamente em castigar as transgressões, mas em evitar que elas sejam praticadas. Ao dizer isto, Platão segue o exemplo da ciência médica, cuja tendência cada vez mais nítida daquele tempo era encarar como verdadeiro objeto da sua ação não o homem enfermo, mas o homem são. Daqui deriva a importância tão grande, decisiva até, que a Medicina do tempo concedia à dietética.”
(*) “O próprio Platão nos fornece diversas indicações para a compreensão do estilo, solene e lento, retorcido por vezes. Nada o repugna tanto quanto aqueles homens incultos e seguros de si, conhecidos pelo seu veloz ritmo psíquico, os intelectuais….”
“Platão converte-se em legislador. Em tudo se pode comparar os grandes representantes da legislação grega; só difere deles em se elevar ao princípio modelador fundamental que as suas obras potencialmente continham: a idéia de que o legislador é o protótipo do educador.”
“Foi neste conceito platônico do ‘ethos’ das Leis que se originou o famoso ensinamento de Montesquieu, L’Esprit des Lois, o qual tão grande importância haveria de ter para a vida do Estado moderno.” E ainda assim, quão pouco filosófico e limitado no alcance!
“Ao lado destas 2 típicas personagens dóricas que no espiritual procedem como irmãos gêmeos, introduz Platão no seu diálogo, como 3ª personagem e principal interlocutor, o estrangeiro de Atenas, personagem misteriosa e soberanamente superior, que as outras reconhecem e respeitam de bom grado, apesar da sua marcada aversão por todo ateniense médio.”
“As Leis revelam, numa forma mais concreta do que qualquer das suas outras obras, a tendência, em que Platão se inspira desde o início, a fundir numa unidade superior a essência dórica e a ática.” “Segundo Platão, o pior que podia acontecer seria misturarem-se e confundirem-se entre si todas as estirpes gregas. Isto seria para ele um mal comparável à mistura de gregos e bárbaros.” “a iminência da fundação de uma colônia. Trata-se de dar à polis cretense que vai ser fundada a melhor constituição, dentro das circunstâncias.” “É certo que na República mal se menciona a Esparta histórica, a propósito da edificação do Estado perfeito; é que Platão move-se ali totalmente no reino do ideal. Mas, na série das constituições degeneradas, a timocracia espartana figura como o tipo de constituição da realidade empírica que mais se aproxima do ideal.” “Nenhum aspecto da obra platônica oferece uma base para se falar de um espartanismo unilateral; nisto, as Leis constituem o melhor comentário à República.”
“meu ensaio Tyrtaios Über die Wahre Arete, 1932”
“é no poeta, supremo legislador da vida humana, que deve buscar-se a idéia primordial da arete humana” “Os poetas surgem sempre como representantes clássicos dos valores vigentes. Mas, desta forma, são ao mesmo tempo referidos a uma forma suprema, e é a comprovação dialética desta norma que constitui a contribuição da filosofia para a obra da paideia.”
“Para quem considera a vitória o único sentido da existência é a coragem, necessariamente, a única virtude. Seguimos acima a polêmica travada em torno da aceitação das virtudes, desde os dias em que Tirteu anunciou ao mundo a primazia do ideal varonil espartano, como um dos temas mais grandiosos que ressoam através da poesia grega. Platão retoma de novo este problema filosófico: e o velho litígio entre Tirteu, que celebrava a bravura, e Teógnis, para quem toda a arete se condensava na justiça, é decidido por Platão a favor do segundo. O passo decisivo que supera o antigo ideal dórico é a fundação do Estado jurídico.”
“Os legisladores dóricos nos ensinam que se deve partir conscientemente de um determinado conceito de arete. É nisto que estes legisladores devem realmente servir de modelo”
“Como já Teógnis dizia da justiça, os bens superiores têm sempre implícitos os bens ou virtudes inferiores. E a verdadeira unidade que os engloba todos, os divinos e os humanos, é a phronesis, a arete do espírito. Com este declaração Platão supera todos os conceitos de virtude que os primeiros poetas gregos (…) estabeleceram.”
“o beber, tal como outros tantos chamados bens da vida, não é em si nem bom nem mau. Platão exige que nos banquetes impere severa disciplina, cujo instrumento deve ser um bom presidente de mesa, que refreie os elementos caótico e selvagens, e os encaminhe para o verdadeiro cosmos. Por trás da prolixa investigação sobre o valor dos banquetes nas Leis está o costume da celebração de banquetes na Academia platônica.” O Banquete responde todas as perguntas neste tocante: todos os convidados são refinados, exceto Alcibíades, e o modelo de conduta é Sócrates.
“O estilo da sua velhice caracteriza-se pela tendência quase filosófica a dar importância a um certo problema particular, a partir do qual o autor abre em seguida caminho para considerações mais gerais.”
“O problema da decadência da cultura ocupa inteiramente o seu espírito, desde o 1º instante. A decadência dos Estados, de que fala com freqüência e que lhe servia de ponto de partida, não é mais do que uma parte do problema.” “Recuperar para a sua época esta totalidade da arete, que é o mesmo que dizer a totalidade do homem e da vida, era a mais difícil das missões, a qual, pela sua importância, não sofria comparação com qualquer contribuição de conhecimentos especiais que o espírito filosófico pudesse dar.”
“É característico nesta obra, como em todas as posteriores à República, falar muito do <divino> ou Deus; isto explica-se ou por Platão ter mais tarde abandonado a primitiva prevenção contra o uso desta palavra para designar o seu princípio, [de sempre, a Idéia e nada mais – sim, a Idéia é a medida de todas as coisas; a perfeição é o modelo de todas as condutas] ou pela sua aplicação sem reservas indicar outra fase de conhecimento mais próxima da doxa[muito aquém da capacidade dos guardiães da República – deus como a certeza dos ainda titubeantes, pré-requisito necessário para alçar vôos mais altos, i.e., o limite dos “pré-socráticos”, que ainda não sabem que não sabem]. No entanto, neste passo, como em geral em toda a obra, Platão mostra-se muito interessado na concatenação psicológica através da qual o princípio supremo atua na alma do homem.”
“A obediência da alma ao logos é o que denominamos domínio de si. Com isto fica também esclarecido o que é a paideia: é a direção da vida humana pelo fio do logos, manejado por Deus. Platão não explana por si próprio em detalhe estas conclusões derivadas das suas premissas, mas limita-se a dizer que o leitor pode agora ver claramente o que são a arete e a maldade”
“A embriaguez intensifica as sensações de prazer e debilita as energias espirituais. É como se o homem voltasse à infância. Esse estado é a pedra-de-toque para comprovar a força dos fatores inibitórios do pudor e da timidez, que atuam inconscientemente.”
“a alma deve igualmente expor-se à tentação do prazer, para se fortificar contra ele. Platão não chega a explorar a casuística dos tipos de prazer para os quais esse meio de verificação foi concebido.” Estar tentado é muito melhor que estar logrado.
“Na 1ª infância, a educação tem de se preocupar exclusivamente com as sensações de prazer e dor e a respectiva orientação. São elas o verdadeiro material sobre o que versa, nessa idade, a educação. Assim concebida, a paideia converte-se em pedagogia.”
“Platão faz agora depender cada vez mais a educação superior da sorte que caiba na alma da criança a este precoce tratamento do ethos. Era uma descoberta inevitável para quem, como ele, fizera da equação socrática entre a vontade e o saber o ponto de partida da sua paideia.”
“A ação do próprio logos só pode frutificar, numa fase posterior, com a condição do logos de outrem, do educador ou dos pais, lhe ter aberto o caminho na fase inconsciente. Toda a arete, na medida em que arete é ethos, formação moral no atual sentido da palavra, assenta na sinfonia da razão e do hábito. (…) Platão chega aqui ao ponto donde parte também a Ética de Arist.” Quem foi o meu educador? O maior mistério. Eu sou Nicômaco, mas quem foi meu Aristóteles?
“Na chamada Grande Ética, nascida na antiga escola peripatética e pela tradição falsamente atribuída ao próprio Arist.[Hegel caiu], esta evolução leva a pôr totalmente em dúvida a essencial ligação da ética com o espírito e a sua cultura, e a não mais lhe reconhecer outra missão que a de educar os impulsos.” A ética a-histórica é o apequenamento da Ética. Psicanálise é o homem menor, último. Ultimado e boçal. Adorno (Minima moralia), p.ex., desespera completamente de qualquer possibilidade de arete no séc. XX.
<DE MARX A NIETZSCHE>: “Vem 1º um período em que Platão considerava como meta suprema aprofundar cada vez mais a visão e o conhecimento consciente, levado pela fé na ação que sobre toda a cultura moral da personalidade esta exaltação e este aprofundamento exerciam; depois, no fim da vida, a obra de Platão volta a colocar em 1º plano a antiga idéia grega da formação do Homem,¹ e o filósofo vê agora a sua verdade à nova luz.”
¹ Um Übermensch, neste caso! O homem com “h” maiúsculo é a medida…
“aparente regresso do ideal ao histórico. Depois de atingir o ponto máximo, na sua caminhada para o puro ideal, sente a necessidade de, na medida do possível, realizar este ideal e plasmá-lo em vida, necessidade que o puxa de novo para o mundo[como com todo bom educador] e faz dele [P.] um prometéico forjador de homens.”
“Trata aqui de formação no mais estrito sentido da palavra, da maneira de andar e de se comportar, e de todas as manifestações do ethos interior da alma.”
“Ao contrário dos outros animais, o homem possui o sentido da ordem e da desordem nos movimentos, o que chamamos ritmo e harmonia.”Merece questionamento. Na verdade este é o erro, a separação mente-corpo promovida pelo Iluminismo de todas as épocas. Ademais, não seria a criança ainda um animal, que depois regride?
QUEM NÃO APRECIA A MÚSICA (CORRETAMENTE!) E NÃO SABE DANÇAR… “Quem não tiver passado pela escola do prazer nos movimentos rítmicos e na harmonia das canções corais é um homem inculto.” Sinto-me como um animal na pista de dança, diria o clubber nietzschiano.
“Esta unidade do ético e do estético já mal existia na arte do seu tempo. É por meio da corêutica, que tem presente como modelo, que o filósofo se propõe a restaurá-la.¹ Isto pressupõe uma norma absoluta do belo e constitui o maior dos problemas para o educador que pretenda edificar tudo sobre uma base artística.”
¹ Origem da Tragédia: o Coro de Eurípides como décadence [ironia: de-cadência: falta de cadência].
“Platão amplia a vista à procura de um país onde existam formas sagradas e fixas da arte, libertas de toda a ânsia de inovação e de toda a arbitrariedade. E só as encontra no Egito, onde a arte não sofre, aparentemente, evolução e conserva com todo o rigor um sentido espantoso para o que a tradição já consagrou.(*) A partir do seu ponto de vista, o filósofo julga adquirir uma nova compreensão deste estado de coisas” Paradoxal: impossível repetir Platão – ou Homero ou Sófocles –, sobretudo porque conseguir imitá-lo seria criar.
(*) “A arte egípcia tinha por força de causar aos gregos, povo de sensibilidade desperta e fugaz, a impressão de não haver nela qualquer mudança ou evolução.”
“Na sua opinião, o destino da arte depende da sua capacidade para se manter independente do gosto hedonístico e materialista do público. Cícero disse uma vez que o requintado gosto do público de Atenas era tabela para apreciar a elevação do nível artístico, e atribui à ausência de tal critério a sensaboria da arte em outras terras.” A decadência de uma grande nação é, ainda, mais majestosa do que a opulência de uns bem-aventurados temporários, sortudos nanicos.
“a comissão instituída por Atenas para atribuir os maiores prêmios às melhores obras apresentadas em público”
“O leitor da nossa exposição não terá dificuldade em compreender o que Platão quer dizer. A discussão da arete suprema e sobre os supremos bens da vida corre ao longo de 2 séculos, através da poesia antiga. É a ela que se liga a posição conscientemente adotada por Platão nas Leis. As odes dos poetas são para ele epodos, exortações dirigidas à alma de quem as escuta, para que sob o encanto da forma assimile docilmente, como um remédio açucarado, o conteúdo sério que encerram.”
“Para Platão, o que chamamos tradição histórica não é muito mais recuado do que ontem ou anteontem, comparado com as sombrias épocas pré-históricas, em que a evolução da raça humana avançava a passo de caracol. Só uma pequena parte dos homens da época anterior se salva, de cada vez, das grandes inundações da superfície da Terra, das pestes e outras calamidades semelhantes, a fim de entrar na idade seguinte”
“Guiado por Homero, narra a passagem do estado ciclópico, desprovido de leis, para a submissão sistemática a normas e para o regime patriarcal.” Para fora do regime patriarcal, diria o ingênuo Hegel!
“Na época em que Platão escreveu as Leis, na década 4ª ou 5ª do séc. IV, erguia-se aos olhos das pessoas reflexivas do mundo grego, como um imenso problema, o destino dos povos dóricos – a imagem da sua passada grandeza e do alto nível espiritual que outrora haviam tido, seguidos da tragédia da sua decadência, selada pela aniquilação de Esparta em Leuctra.” “Acontecia no passado, com os dórios do Peloponeso, o mesmo problema que o presente parecia pôr ao conjunto dos Estados gregos” “o que ditou a ruína dos reinos dóricos?”
“ARISTÓTELES diz (…) que teriam conseguido o domínio do mundo, se se tivessem unido dentro de um só Estado. É difícil não ver nisto a influência do ideal pan-helenístico de Isócrates. (…) (cf. o final da Helena).”
“A imaginação histórica de Platão via nestes acontecimentos dos sécs. VIII e VII, que no seu tempo eram quase míticos, a verdadeira e irremediável tragédia.”
“Quando Platão escreveu as Leis, ainda Isóc. não pensara em Filipe da Macedônia como chefe potencial dos Estados gregos contra a Pérsia. De fato, o seu Filipe foi escrito depois da morte de Platão.”
“sete axiomas de governo” “premissa que não pode ser demonstrada, da qual partimos numa dedução científica, principalmente em matemática. Segundo o testemunho de Arist., é neste campo que esta terminologia aparece pela 1ª vez.” “fundamentação geral da política (o que não exclui necessariamente a sua 1ª acepção de exigência de governo).” “Também o nº fixo dessas regras fundamentais que Platão vai enumerando (de 1 até 7) põe em destaque o seu sentido axiomático; com o nº, assinala-lhes Platão o caráter restrito, como também faz a geometria de Euclides.”
NÓS, DA ERA DO AQUÁRIO OU ERA DO AZAR: “1) os pais devem governar os filhos; 2) os nobres devem governar os não-nobres; 3) os velhos os jovens; 4) os senhores os escravos; 5) os melhores os piores; 6) os homens cultos e sensatos os incultos. O 7º axioma é o princípio democrático que diz: o que é eleito por sorte deve imperar sobre aquele em que a eleição não tenha recaído. Nesta passagem, como nas Leis em geral, Platão aceita a sorte como decisão divina e não vê nela um mecanismo sem-sentido, o que freqüentemente fazia ao criticar a democracia nas obras anteriores.”
“nas Leis ele mostra-se resolutamente contrário à unificação do poder (…) O exemplo de Esparta prova que uma constituição mista é mais duradoura. A instituição da monarquia é limitada em Esparta tanto pelo regime dos reis como pela intervenção dos gerontes e dos éforos.”
“os 2 homens realmente superiores que criaram este império, Ciro e Dario, não souberam educar os filhos.(*) Era nas mãos de rainhas ambiciosas, de novas ricas, que estava a paideia dos príncipes persas. Assim se explica que Cambises e Xerxes tenham em tão pouco tempo dilapidado tudo quanto seus pais conquistaram.
(*) desde então não apareceu mais na Pérsia nenhum grande rei; 695 E.”
“Platão risca também a Ciropedia de Xenofonte. Nada encontra na Pérsia que possa servir de modelo aos gregos. É evidente que foi a existência de uma obra em que se louvava a paideia dos persas que deu pretexto a Platão para se deter tão demoradamente nela. (…) Platão confronta a Pérsia com Atenas, os 2 Estados politicamente antagônicos, e prova que ambos se desmoronaram pelo mesmo vício: a ausência de uma autêntica paideia. Com isto rouba à crítica o seu ferrão político partidário.”
“Na descrição deste aidos, que era o que efetivamente mantinha a coesão interna do edifício social, coincide com o Areopagítico de Isóc., obra escrita na mesma época das Leis.”
“faz derivar esta evolução de Atenas da decadência da música e da poesia e da sua degeneração numa indisciplina amusical.” “O quadro que Platão traça da evolução da música grega é integralmente focado do ponto de vista da sua concepção da paideia. Poderia pensar-se que os teóricos da música posteriores a ele se emanciparam deste critério, para exporem a evolução desta arte de acordo com idéias puramente artísticas, mas na obra do Pseudo-Plutarco, c. 27, a evolução da histórica da música segue uma trajetória que parte do seu primitivo caráter propedêutico para se aproximar cada vez mais do teatral, acabando, por fim, por se entregar completamente a este. O testemunho de Platão é várias vezes invocado em apoio da tese. Examinando o assunto com cuidado, vê-se que a imagem por ele traçada da história da música é tirada de Aristoxeno, historiador peripatético da música.”
“Os peritos na paideusis podiam escutar até o final sem interrupções, e a multidão conservava-se ordeira, sob a batuta do mantenedor da ordem. Mas veio a seguir outra época em que os indivíduos de grandes dotes poéticos, mas sem nenhum discernimento quanto ao conteúdo normativo da arte, impelidos por um êxtase dionisíaco e arrastados pelas simples sensações, confundiam os ditirambos com os peanes e os hinos com os trenos, procurando imitar com a cítara os efeitos ruidosos da música de flauta. (…) Impunha-se assim no reino das musas a ausência de leis e incitava-se a multidão à loucura de julgar estas coisas e de exteriorizar os seus juízos com estrepitosas manifestações. O silencioso sossego do teatro transmutou-se em algaraviada e a distinção que até ali reinara neste campo foi substituída pela teatrocracia, pelo império do público inculto. Se realmente fosse uma democracia de homens livres, nada teria havido a objetar: mas era apenas a petulância e o desenfreamento de todos em tudo, desenfreamento e petulância que se não detinham perante nada.”
“Por um instante pareceu que iria aqui brotar da crítica do processo histórico a estrutura do Estado ideal, uma vez que Platão estabelecia os axiomas de governo, dos quais devia partir qualquer tentativa desta natureza. Abriam-se de novo, cada vez mais vastos, os horizontes históricos, para assegurar a correta aplicação destes axiomas. Interpretados em sentido platônico, estes horizontes conduzem à idéia de uma constituição mista, que o filósofo vê realizada na antiga Esparta. A Pérsia e Atenas, ao invés, representam, na sua forma de Estado atual, os extremos exagerados da tirania e da arbitrariedade, que nascem de uma ausência de paideia.”
“A conversação toma assim um rumo prático, que é o mesmo que dizer sistemático, pois a partir de agora vemos um filósofo influir na estruturação da polis.” “o 1º preceito, de acordo com o qual a cidade a fundar não deverá ser marítima, se relaciona com o critério fundamental da educação platônica. Na Constituição de Atenas, é à evolução desta cidade como potência marítima que Arist. atribui a radicalização da democracia ateniense num governo de massas. Era uma idéia originária do grupo conservador, moderado, dos democratas atenienses, que voltava à luta para impor a sua influência, precisamente na altura em que Platão escrevia as Leis e Arist. forjava na Academia as suas concepções, após a derrota da 2ª liga marítima. Platão coincide com Arist. e com o velho Isóc. tanto na atitude negativa em face do domínio marítimo ateniense como na fé numa constituição mista.” “enquanto Platão vê encarnado em Esparta o ideal da constituição mista (Leis, 629), Isóc. transplanta este ideal para a antiga Atenas”
“A aversão da nobreza pelas tendências ao domínio marítimo e pelo armamento naval transparece já na crítica que os velhos elementos conservadores do Conselho de Estado fazem à política do jovem rei Xerxes, em Os Persas de Ésquilo. (…) Platão vai ainda mais longe e nega importância decisiva à batalha naval de Salamina, que constituía o título de glória nacional dos atenienses. Para ele, foi o esmagamento das forças terrestres dos persas em Maratona e Platéia que salvou a Grécia da escravidão.”
“É Deus quem manda mais, a seguir vêm a tyche e o kairos e, como 3º fator, a indústria humana, a techne, que lhes acrescenta o que a arte do timoneiro faz no meio da tempestade, ajuda por certo nada desprezível.”
“Segundo Platão, é só em grau, e não por essência, que as restantes formas de regime político diferem da tirania. Todas são despotismos, e a lei que nelas vigora é a expressão da vontade da classe dominante a cada momento. Contudo, não é a própria essência da lei que a torna o direito do mais forte. Platão aplica os seus axiomas a este problema e chega à conclusão de que os mais aptos para governar são os que obedecem mais rigorosamente à verdadeira lei.”
“Outros pensadores gregos anteriores a Platão haviam apregoado como o divino a inesgotável unidade-totalidade, a força motriz primordial ou o espírito formador do mundo. A partir do seu ponto de vista filosófico, que parte do ético ou do educacional, Platão considera-o antes a norma das normas, a medida das medidas. Assim concebido, o conceito de Deus converte-se em centro e fonte de toda a legislação, e esta na sua expressão imediata e realização terrena.”
“A sua filosofia da natureza é o fundo necessário sobre o qual se projetam a sua paideia e a sua teoria do Estado, tais quais estão expostas nas suas obras políticas mais importantes, a República e as Leis. Em rigor, seria falta de integridade excluir da exposição da sua paideia o Timeu ou outra qualquer obra platônica”
NE PLUS ULTRA:“Devemos ter presente que a Idéia é, em Platão, a mais alta realidade do que existe e que, portanto, a idéia do Bom representa o grau de bem mais poderoso, e superior a qualquer outra coisa do mundo.”
“Não é a 1ª vez que vemos um poeta ou pensador grego proclamar a sua medida suprema dos valores, sob forma de correção de um antecessor famoso. (…) Em vez dos antigos deuses individuais da polis aparece Deus <medida de todas as coisas>, o agathon de Platão, forma primordial de toda a arete. O cosmos torna-se uma conexão teleológica e Deus passa a ser o pedagogo universal.” “o legislador é o homem divino que no seu íntimo alberga o verdadeiro logos e convence a polis a convertê-lo em lei; e a lei é o fio por meio do qual Deus move o seu joguete, o homem.” O Destino tem de querer o homem nobre.
“…os livros X e XII das Leis” A parte chata! Infelizmente nosso mundo não é digno nem de uma ciência dos astros. Efetivamente cumprimos a profecia de transformar estrelas em pó.
“O preâmbulo torna-se muito mais longo do que a própria lei.”
“A idade matrimonial do homem é fixada entre os 30 e os 35 anos. Os que permanecerem celibatários depois de atingirem esta idade são obrigados a pagar uma multa anual em dinheiro, processo destinado a impedir que o celibato fosse explorado como meio para enriquecer. Os celibatários estão, além disso, excluídos das honras que na polis os mais jovens tributam aos anciãos. Nunca são <anciãos> em sentido social.”
“A instituição dos cargos públicos e a definição das atribuições a eles inerentes deve preceder o corpo das leis, de acordo com as quais os funcionários irão governar.”
“Ivo BRUNS, Platos Gesetze, pp. 189s., considera 734 E 6 – 735 A 4 um fragmento erradio do 1º projeto de Platão.”
“Um dos encantos principais das Leis consiste precisamente em elas se ocuparem a fundo de um problema que não só a Repúblicaomite por completo, mas que, além disso, nunca fôra seriamente abordado nas discussões sobre a verdadeira educação, desde que o movimento sofístico principiara.”
“paideia do povo” “É o último passo para a realização plena do programa do movimento socrático, um passo chamado a ter uma importância incalculável, apesar de nenhum legislador do seu tempo se ter sentido tentado a tornar realidade o ideal platônico de uma educação geral da massa do povo. Como se pôs em evidência, foi quando a educação pretendeu ser mais do que uma aprendizagem meramente técnica e profissional, com o primitivo ideal aristocrático de formação da personalidade humana no seu conjunto, que, como sempre sucede, a história da paideia grega começou.” “mas, mesmo na democracia ateniense, esta missão estava inteiramente confiada à iniciativa privada individual. O passo revolucionário que Platão dá nas Leis e que constitui a sua última palavra sobre o Estado e a educação consiste em instituir uma verdadeira educação popular a cargo do Estado.”
(*) “A aceitação da existência de uma casa e de uma família no Estado das Leis já representa uma aproximação da realidade vigente. Os fundamentos desta ordem social são assentes na parte da obra que trata da distribuição da propriedade territorial (735 B s.). (…) a consagração da propriedade privada é por sua vez, como Platão observa (740 A), a expressão de uma determinada fase da educação de cultura: a do presente”
“No atual estado de coisas, a educação privada segue em direções contrárias conforme as diversas famílias, sem que o legislador possa opor-se a estas contradições, que as mais das vezes se manifestam em coisas pequenas, quase imperceptíveis. Se, porém, atentarmos nos seus efeitos de conjunto, veremos que estas diferenças na concepção do que deve ser uma educação acertada chegam mesmo a pôr em questão a obra da legislação escrita.”
TESTEMUNHAS DE DIANA: “Não é uma seleção dos esposos a cargo do Estado, como faz na República para os ‘guardiões’ (…) Mas recomenda aos cônjuges que dediquem a estes problemas uma atenção especial e cria uma comissão de mulheres que devem instalar-se no templo de Ilithya, deusa dos partos. Têm neste templo as suas horas de serviço, em que realizam as suas deliberações. Outorga-se-lhes um direito de inspeção sobre os matrimônios, como o período de procriação, extensivo aos 10 anos subseqüentes a sua celebração. Esta comissão de mulheres intervém quando os cônjuges são incapazes de procriar. No 2º caso, dissolve-se o matrimônio.”
“Estatui-se um sistema penal bastante desenvolvido, sobretudo no tocante à honra, para castigar os que de maneira consciente e obstinada agirem contra o que os bons conselhos e a razão indicam.”
“Ao prescrever a necessidade de a criança se mover ainda antes de sair do seio materno, não faz mais do que estender a este campo o sistema de exercícios físicos a que a Medicina do seu tempo dedicava um interesse primordial. Platão lembra o exemplo dos galos de briga ou outras aves pequenas criadas para a luta, às quais os donos treinam para a sua missão, levando-as consigo no braço ou sob a axila, em longos passeios.” “Platão não quer que as crianças andem antes dos 3 anos, com medo de que fiquem canejas [parecidas com cães!]. As amas têm de ser suficientemente fortes para as carregarem no colo até aquela idade. Exagera-se sem dúvida”
“da teoria do tratamento físico do recém-nascido passa diretamente à teoria do caráter.”
“O descontentamento e o mau humor contribuem para a sensação de medo. Platão preconiza o justo meio-termo entre a brandura e a opressão. A primeira torna a criança hipersensível e excessivamente caprichosa, a 2ª mata nela a liberdade e torna-a hipócrita¹ e misantropa. O educador deve evitar com o maior cuidado criar na criança o que hoje denominaríamos um complexo de inferioridade, resultado a que facilmente conduz uma educação opressiva. O objetivo deve ser educar a criança na alegria”
¹ Em que sentido? De que emulará o pai ruim quando for pai, oprimindo os outros e alegando que “foi assim que fui criado”? Se assim for, é outra superestimação da psicologia da infância de Platão.
“O hábito tem grande força, a ponto de Platão derivar a palavra caráter de hábito em grego.” “Não é como leis, mas como usos não-escritos que Platão encara estas normas.”
ANTROPOLOGIA ANTIGA: “Está por trás desta obra, como o atestam as muitas e interessantes citações de costumes de povos estrangeiros nas Leis, um estudo dos nomina gregos e bárbaros suficientemente extenso para poder estabelecer uma comparação com as próprias leis. Platão menciona e dá como exemplos os costumes dos espartanos, celtas, iberos, persas, cartagineses, citas, trácios, saurômatas, cretenses e muitas outras cidades e regiões gregas.”
PEDAGOGIA AINDA MUITO AVANÇADA: “Dos 3 aos 6 anos (…) Nesta idade, são as crianças, quando se juntam, que devem inventar os seus jogos, sem que estes lhes sejam prescritos. Platão quer que estas reuniões de crianças se efetuem nos lugares sagrados de cada bairro da cidade. Precede deste modo a moderna aquisição dos jardins de infância.” “A educação dos meninos e meninas deve estar entregue às mulheres, em regime de co-educação, até os 6 anos. A partir dos +6 anos, Platão estabelece a separação dos 2 sexos. A formação da criança deve adestrar tanto a mão esquerda como a direita e não uma só.”
“O serviço militar obrigatório de todos os cidadãos não era originariamente apenas uma instituição espartana; era também a base jurídica em que assentava a existência civil da democracia ateniense. Não só não era considerada antidemocrática, mas, ao contrário, via-se nela o pressuposto evidente das liberdades que todo cidadão deste Estado desfrutava. Dadas a freqüência das guerras que Atenas se viu obrigada a travar no séc. V, a época do seu maior poder, impunha-se como evidente por si próprio o cumprimento deste dever. Com o aparecimento do regime de mercenários no séc. IV, começam as queixas universais contra a decadência da capacidade e do espírito militar dos cidadãos. Subsistiu, contudo, o serviço militar obrigatório de 2 anos para os efebos, o qual, à vista daquilo, foi considerado uma exigência de maior importância que anteriormente para a educação da juventude.” “Mas nessa altura a liberdade já se perdera para sempre. O remédio aplicou-se tarde demais para poder surtir efeito; é que a grande massa dos cidadãos só compreendeu a necessidade de reforçar a sua capacidade militar quando se viu perante o fato consumado da derrota que acabou definitivamente com a democracia ateniense.”
“A palavra antigo não tem qualquer sentido depreciativo, como acontece na era atual, em que tanto mudam as modas. Novos jogos significam um novo espírito na juventude, o qual, por seu turno, exige novas leis. Toda mudança (a não ser que se trate de mudar o que está mal) é, em si, perigosa, quer se processe no tocante ao clima, quer se refira à dieta corporal, ou ao caráter da pessoa.”
“as Leis proíbem tudo o que não sejam canções e danças oficiais. O termo nomos tem em grego a dupla acepção de lei e de canção.” “As normas dadas aos poetas vivos, que devem ter sempre presente, como pauta, o espírito das leis, estão sem dúvida concebidas somente para a época subseqüente à fundação do novo Estado, uma vez que depois não se deve introduzir nem a mínima alteração nas canções admitidas.”
“Quando tentamos imaginar o edifício educativo de Platão como um Estado, ele nos parece surpreendente; quando, porém, pensamos na maior instituição educativa do mundo pós-clássico, a Igreja Católica, vemos que a obra de Platão é uma espécie de antecipação profética de muitos traços da essência do Catolicismo.(*) O que hoje aparece desdobrado em Estado e Igreja constituía ainda para Platão uma unidade, dentro do conceito da polis. Mas nada contribuiu tanto para desfazer esta unidade e criar um reino espiritual, ao lado do terrestre e acima dele, como as imensas exigências que Platão faz à potência espiritual educativa da sociedade humana.
(*) Platão castiga com a pena de morte os que negarem a verdade do sistema e duvidarem da existência de Deus [do seu sistema, da Constituição; portanto, não há nada de medieval nisso]: cf. Leis, liv. X, 907 D – 909 D.” Essa tese é completamente absurda: Platão antecipa o sistema universal de educação pública, moderno, laico, porém com tolerância religiosa.
“a escolaridade geral obrigatória; a equitação para a mulher; a construção de escolas e ginásios públicos; a educação para os 2 sexos, que na República Platão reservava aos ‘guardiões’; a rigorosa divisão do tempo nas tarefas diárias; o trabalho noturno (totalmente ignorado dos gregos) para as pessoas com postos diretivos na vida pública e privada; a fiscalização dos professores; e a criação, no Estado, de uma autoridade suprema em matéria de instrução, com um ministro da educação à frente.” “todos os funcionários se reúnem no Santuário de Apolo e, em votação secreta, elegem o membro do conselho secreto do Estado, o guardião da lei que cada qual julgar mais capaz para dirigir os assuntos da educação. Os seus colegas mais chegados não participam na prova para verificação da dignidade da pessoa eleita. A duração do cargo é de 5 anos, no termo dos quais não se pode reeleger o titular do posto. Ao abandonar, porém, as suas funções, incorporar-se-á como membro ao conselho noturno do Estado, ao qual pertencerá, natural e automaticamente, em 1º lugar, como inspetor-geral da paideia.”
“Aprendiam-se de cor poemas inteiros, como outras fontes da mesma época confirmam (XENOFONTE, Banq., IV, 6), tendência que obedecia à concepção da poesia como enciclopédia de todo o saber e que Platão combate na República.” “Para não sobrecarregar a memória em demasia, pensa que só se devem assimilar trechos soltos de obras poéticas.” “No fundo vemos espreitar, naturalmente, o perigo de muitos elogiarem esta obra unicamente com a intenção de ocuparem um cargo.” A Bíblia como única leitura da vida de um enorme contingente de pessoas parece o descalabro supremo. Li hoje mesmo (18/11/21) em Memórias da Casa dos Mortos, Dosto., que na prisão na Sibéria este era o único livro permitido.
“A introdução legal das próprias obras de Platão como objeto de ensino, em vez dos poetas antigos, nas escolas e orquestras do seu Estado do futuro, é o último passo lógico e coerente dado neste caminho.” Aqui, Nietzsche 2 milênios depois, foi bastante mais humilde, reconhecendo que sua obra era mera destruição, o negativo do que adviria…
“É elucidativo ver como o filósofo que na República fundava sobre a dialética e as matemáticas a cultura dos governantes, se põe a cogitar nas Leis sobre se este tipo de saber é realmente aconselhável para a cultura do povo.” “O que Platão exige da matemática no livro VII das Leis corresponde ao nível popular de cultura. Cf. 735 A 4.” Infelizmente o mundo moderno acrescentou muito conhecimento teórico inútil a esta disciplina. E o nível popular de cultura sabe, tragicamente, menos que os gregos.
“O que Platão expõe aqui corresponde, evidentemente, a uma informação mais recente sobre o nível de conhecimento das matemáticas egípcias. Este conhecimento devia-o, provavelmente, a Eudoxo, que vivera e fizera observações no Egito, durante muito tempo. (DIÓGENES LAÉRCIO, VIII, 87) [Compilador suspeito. De toda forma, isso vai contra o palpite nietzschiano do “estágio egípcio” de Sócrates ou Platão.]” “Que deve ter sido Eudoxo o veículo da informação confirma-o quase com caráter de certeza o fato de Platão relacionar esta referência com a introdução de outra teoria desconhecida também dos gregos daquele tempo e que tinha a maior importância para o culto divino. Referimo-nos à teoria astronômica segundo a qual os planetas ostentam o seu nome sem qualquer razão, pois, ao invés do que parece à 1ª vista, não se movem no firmamento 1º para diante e depois em sentido inverso: descrevem, sim, um movimento de translação sempre no mesmo sentido. Esta teoria fôra estabelecida por Eudoxo e a ela se devia o conhecimento – que neste ponto Platão menciona concretamente – de o planeta Saturno, que parecia mover-se mais lentamente, ser na realidade o mais rápido de todos e o que percorria uma órbita maior. T.L. HEATH, op. cit., p. 188 … sistema ‘filolaico’” “Daqui, a exigência do ensino matemático e astronômico na escola primária desemboca diretamente na peculiar teologia das Leis, que vê na contemplação do ciclo matemático eterno dos astros uma fonte essencial da sua fé em Deus.” Se é verdade que quanto menos sabemos dos astros menos temos uma cultura, como explicar nosso estágio atual, de uma Física hipertrofiada e cultura estanque? Existe uma justa medida? PARADOXO: Querendo instituir o monoteísmo (o reconhecimento de uma norma absoluta), Platão acaba por exaltar e reacalorar o entusiasmo e a devoção aos deuses do Olimpo (na forma dos planetas conhecidos). O importante é o eterno retorno das órbitas do sistema solar, que um dia reseta, recomeça, não os corpos celestes em separado.
MAIS UM PRECEDENTE PERIGOSO: “Mas também no campo espiritual se deve isolar contra todas as influências ocasionais do exterior que possam desviar a ação das suas leis perfeitas. As viagens ao estrangeiro só serão autorizadas aos mensageiros, embaixadores e theoroi. (…) [estes eram] ‘observadores’ da cultura e das leis de outros homens [nasce a antropologia institucional] (…) Sem um conhecimento dos homens, bons e maus, nenhum Estado pode tornar-se perfeito nem conservar as suas leis.A finalidade principal destas viagens de estudo ao estrangeiro é levar os theoroi a travarem relações com as poucas personalidades superiores, homens divinos, que existem no meio da multidão e com os quais vale a pena falar e chegar a um entendimento. [Metalinguagem – formato escolhido para as Leis!]” “a tyche divina torna também possível, excepcionalmente, o aparecimento destes homens num meio hostil. [Ou já não possuiríamos nenhum sábio.] O próprio Platão viveu muito tempo ausente de Atenas e a lei sobre as viagens ou missões ao estrangeiro dos homens espiritualmente mais notáveis provém, segundo todos os indícios, das suas experiências pessoais.” “Depois de deixar o seu cargo, Sólon fez uma viagem através da Ásia e do Egito para se informar por si mesmo” “Só a homens experientes, com os 50 anos já completos, se encomenda uma tal missão. Ao regressarem à pátria é-lhes facultado livre acesso ao órgão supremo da autoridade, o conselho secreto e noturno do Estado.” “Os que regressam do estrangeiro, depois de terem observado de perto as instituições dos outros homens, devem dar parte de todas as sugestões que dos outros tenham recebido em matéria de legislação e educação, bem como das suas próprias observações. Os seus conselhos devem, todavia, ser submetidos a uma crítica severa, para que a sua aplicação não sirva de veículo a influências perturbadoras.”
(*) “O órgão do Estado que deve conhecer o objetivo é o conselho noturno 962 C 5. Os governantes são definidos na República, no mesmo sentido, como aqueles que possuem o conhecimento do paradigma, a Idéia do Bem.”
#Pesquisa futura: a relação entre o Um parmenídeo e o Bem em Platão.
Hoje, relendo, creio que nem é necessário ou possível efetuar tal pesquisa! Ambos são indistinguíveis ou um o dégradé do outro.
“a conhecida hipótese moderna, segundo a qual Platão abandonou a teoria das idéias, nos últimos anos da sua vida. Cf. Jackson, Lutoslawki e outros [homens que estão errados].” Jamais ouvira falar disso!
VALOR, O ALFA E O ÔMEGA DA VIDA SÁBIA
“no livro XII, Platão remete para a dialética, dando por suposto que se trata de algo conhecido dos seus leitores; voltar a tratar do seu valor cultural seria apenas repetir o que já expusera” “Neste ponto capital, o pensamento de Platão mantém-se inabalável desde a 1ª à última das suas obras.” “No que se refere à formação filosófica, os componentes do conselho noturno não ficam atrás dos guardiões da República.” “A verdade que os governantes devem possuir é o conhecimento dos valores, i.e., das coisas de que vale a pena preocuparem-se na ação.” “Para poderem aplicar praticamente esta pauta nas leis e na vida, o legislador e os órgãos do governo devem possuir o conhecimento de Deus como ser e valor supremo.”
“A uma história da paideia grega não lhe interessa entrar numa análise pormenorizada da estrutura conceitual desta teologia. É uma questão que compete a uma história da teologia filosófica dos gregos e que nesta perspectiva trataremos em outro lugar. A paideia e a teologia filosófica dos gregos foram as 2 formas principais por cujo meio o helenismo influiu na História Universal, durante os sécs. em que praticamente nada se conservava da ciência e da arte gregas. Ambas as coisas, a arete humana e o ideal divino, aparecem primitivamente ligadas em Homero. Platão restaura esta ligação, num grau diferente.” Efetivamente hoje entendo de forma menos crítica (menos discordante e rabugenta, quero dizer) que quando li as Leis pela 1ª vez: a palavra deus e o que implica não podem estar ausentes de uma discussão sobre a formação e o valor dos valores. Não Jeová, mas outra abstração… Nesse sentido, também é talvez precipitado chamar de teologia o estudo desses valores gregos – até que se entenda que teologia filosófica nada tem a ver com as religiões monoteístas hoje em voga.
“O ponto culminante desta trajetória é o final das Leis, a que devemos juntar o livro X, inteiramente consagrado ao problema de Deus. O prolongamento histórico da metafísica platônica na teologia de Arist. e de outros discípulos de Platão vem confirmar que por trás das soluções esboçadas no final desta criação plat. se esconde nada mais nada menos que o projeto desta ciência das coisas supremas (…) Não se acusa aqui nenhuma diferença entre um simples saber cultural e um supremo saber, contra o que ultimamente se procurou estabelecer (MAX SCHELER, Die Formen des Wissens und die Bildung)” A quem caberia o cetro do ministério na modernidade: o sacerdote, o legislador, o pedagogo ou o filósofo? Nós não podemos reconciliar as especialidades.
“Desde Arist., que das Leis de Platão encaminhou para a sua teologia estas 2 fontes da certeza de Deus,(*) até a Crítica da Razão Prática, de Kant, que, no fim de todas as suas idéias teóricas destinadas a derrubá-lo, voltou outra vez a desembocar praticamente nele, nunca a humanidade logrou, com a filosofia, erguer-se acima deste conhecimento. Estes fatos, dignos de sobre eles se meditar, foram reunidos e apreciados no meu Aristóteles, pp. 187 s.”
(*) “corpos celestes”, “alma”
Kant reduziu a fé no conhecimento a um mínimo na Crítica da Razão Pura, mas deu uma volta de 180º logo depois. A Faculdade do Juízo pode ser considerada um anexo, pois não retoma o ceticismo moral do 1º volume, apenas estabelece, em que pese Deus, a autonomia do artista. Deleuze faz escândalo da pretensa “revolução de fim da vida” de Kant – mas bem conhecemos Deleuze! Meu máximo respeito: Kant, assim como Nietzsche e Platão, buscava o máximo conhecimento, num nível tremendamente superior aos empreendimentos de Aristóteles e Hegel, p.ex. E foi íntegro nas suas fases tão distintas durante a “trilogia”: como Platão, detectou o niilismo moral-epistemológico passível de nascer da crítica acabada da Razão pura; não só seu imperativo categórico atacou o problema, mas o ceticismo foi revisado da ótica “sobrenatural” do dom estético anos mais tarde…
EPÍLOGO – TRANSIÇÃO
E.1 Demóstenes: agonia e transformação da cidade-Estado
(*) “Georges CLEMENCEAU, Démosthène (Paris, 1926). Acerca das vacilações e diferenças nacionais que nos tempos modernos se notam nos juízos sobre Demóstenes, cf. Charles Darwin ADAMS, Demosthenes and his influences (Londres, 1927) na série‘Our Debt to Greece and Rome’. O autor mostra claramente a predileção que os democratas do séc. XVIII sentiam por Demóstenes e a repulsa que esta figura desperta nos modernos historiadores alemães.”
Engelbert DRERUP,Imagens de uma Antiga República de Advogados / Demosthenes um Urteil des Altertums, 1923
“O mais erudito representante da ortodoxia demosteniana de velho estilo é Arnold SCHAEFER, Demosthenes und Seine Zeit, 3 vols. (Leipzig, 1856).”
GLOTZ & CLOCHÉ, Démosthène, 1937
P. TREVES, Demostene e la libertà Grega, 1933
“meu livro, Demóstenes: O Estadista e a sua Evolução.”
“mundos que até há poucos decênios pareciam hermeticamente fechados e independentes, como a história do Estado e da filosofia, do jornalismo e da retórica, aparecem agora como membros vivos de uma unidade orgânica, participando no mesmo grande processo vital da nação.”
“A polis, considerada como forma definitiva da vida política e espiritual, é o dado fundamental da história grega nos sécs. que vão de Homero a Alexandre.” “O melhor livro recente sobre a polis é o de G. GLOTZ, La Cité Grecque, 1928.”
“O problema da autonomia da polis não mais acalmou desde a sua 1ª transgressão pela política imperial ateniense de Péricles, que rebaixou os confederados ao plano de simples súditos.” “o abandono do Estado autônomo da polis era tão incompatível com a mentalidade política dos gregos como até hoje o tem sido, praticamente, com a nossa própria mentalidade política, a renúncia ao princípio dos Estados nacionais para adotarmos formas de Estado mais amplas na Europa.”
“Enquanto com Platão o espírito filosófico da época se vira com todas as suas forças para o problema espiritual do Estado e aborda a missão da sua reconstrução moral, independentemente das condições de tempo e de espaço, o Estado ateniense real vai, pouco a pouco, se sobrepondo a seu abatimento e recupera uma liberdade de movimento que lhe abre perspectivas para um lento fortalecimento do seu poder.” “Atenas, apoiada pelos que anteriormente tinham sido aliados de Esparta, por Tebas e Corinto, conseguiu reconquistar gradualmente a sua posição no mundo dos Estados gregos e reconstruir, com dinheiro persa, as fortificações que tinha sido obrigada a destruir depois da guerra. Depois veio o 2º passo: Tebas desligou-se de Esparta, o que brindou Atenas com a possibilidade de fundar a 2ª liga marítima, a qual, evitando a política excessivamente centralizada da 1ª liga, soube estreitar os vínculos de Atenas com os seus aliados. A sua cabeça destacaram-se políticos e soldados de verdadeira grandeza, como Timóteo, Cabrias, Ifícrates e Calístrato; e o abnegado impulso do sentimento patriótico dos anos que se seguiram à fundação da nova liga marítima deu, na guerra dos 7 anos contra Esparta, travada ao lado de Tebas, o magnífico fruto da paz do ano 371, que conferiu a Atenas a indiscutível primazia no mar e legalizou definitivamente a nova liga, mediante tratados internacionais.”
“esta nova juventude sente-se atraída para o turbilhão do movimento político; e são os jovens metecos estrangeiros das pequenas cidades e de países vizinhos da Grécia, como Aristóteles, Xenófanes, Heráclides e Filipe de Opunte aqueles que se consagram inteiramente à vida platônica de uma pura investigação.”
“Foi o florescimento outonal da vida do Estado ateniense na época de Demóstenes que desenvolveu a eloqüência política como gênero admiradíssimo de arte literária.”
PLUTARCO,Demóstenes
“Os discursos de Péricles como estadista, tal como realmente tinham sido pronunciados por ele, não puderam servir de modelo ao jovem Demóstenes, pois não tinham sido publicados literariamente nem se conservam. Com efeito, o único eco da eloqüência política de Atenas na época do seu esplendor eram os discursos reproduzidos na obra de Tucídides, cujo perfil artístico e espiritual e cuja profundidade de pensamento sobrepujavam toda a prática da oratória política, tal como a realidade a oferecia.”
“Sobre a análise da forma oratória em Demóstenes deve consultar-se principalmente a obra de F. BLASS, Geschichte der Attischen Beredsamkeit, t. III, parte I.” “os seus discursos não são mera ficção literária, como a crítica moderna muitas vezes julga”
“Atenas, que estivera 1º ao lado de Tebas contra Esparta, separou-se dos seus aliados tebanos na paz de 371, para guardar a tempo nos seus celeiros a colheita da guerra.” “Neste momento a política ateniense de Calístrato mudou de quadrante e firmou abertamente aliança com Esparta, para contrabalançar o poder da sua antiga aliada (…) Nascia assim a idéia do equilíbrio, que deu forma à política ateniense das décadas seguintes e com a qual se procurou estabelecer um novo sistema no mundo dos Estados gregos.”
“Demóstenes teve de pôr-se desde muito cedo em contato com os tribunais, forçado pela própria experiência da sua vida: a dilapidação da grande fortuna que lhe legara seu pai, levada a cabo pelos seus autores; e depois de ter comparecido pessoalmente ante os juízes, como orador em defesa da sua própria causa, escolheu a carreira de redator de discursos forenses e de conselheiro jurídico. (DEMÓSTENES, Contra Afobo e Contra Onetor)” + Contra Andrócio,Contra TimócrateseContra Leptines.
“a coerência sistemática da sua conduta se revela a principal força de Demó., ainda que naquela altura fosse para outros e sob a direção de outros que ele trabalhasse.” “É sobre o problema de política externa que o seu interesse incide logo desde o início”
“A concepção política, representada no campo literário por Isóc., e no campo da política efetiva por Eubulo, principal dirigente da corrente de oposição da classe opulenta, rejeitava conseqüentemente toda a atividade política externa por parte do Estado enfraquecido, e via o seu futuro na sua limitação consciente aos problemas de uma prudente política interna e econômica.”
“Desde o surpreendente aparecimento de Tebas como 3ª potência ao lado de Esparta e Atenas, este plano de equilíbrio tinha que se impor necessariamente como o testamento e a herança clássica do mais eficiente período da política ateniense, depois de Péricles.”
“Desde a perda de Anfípolis, cidade marítima macedônica, cuja posse se discutia desde tempos remotos, que o rei Filipe se encontrava em guerra com Atenas, que reivindicava para si este antigo ponto de apoio do seu comércio e da sua frota.” “Interveio em seguida na guerra entre Tebas e a Fócida, derrotou os focenses e já se dispunha a penetrar na Grécia central pelas Termópilas, para aí se impor como árbitro, quando os atenienses se ergueram e enviarem àquele desfiladeiro, fácil de defender, um corpo de exército que barrou o caminho a Filipe (Arnaldo MOMIGLIANO, Filippo il Macedone (Florença, 1934). Este não procurou forçar a passagem: dirigiu-se para o norte; marchou através da Trácia sem encontrar resistência séria e, de súbito, ameaçou Atenas nos Dardanelos, onde ninguém o esperava. Todos os cálculos de Demóstenes quanto à proteção dos estreitos contra os trácios se tornaram inúteis de um só golpe: o quadro mudara por completo e o perigo macedônio revelava-se fulminantemente em toda a sua grandeza.” “Agora já não se tratava de uma luta de princípios entre a intervenção e a não-intervenção.” “O não ter tomado a sério a guerra de bloqueio colocava Atenas, inesperadamente, na defensiva.”
“É um problema de difícil solução saber se Demóstenes, em condições mais favoráveis, teria podido converter-se num desses estadistas construtivos e criadores cuja existência pressupõe um país de energias em crescimento. O que se pode afirmar é que, na Atenas do seu tempo, teria sido inconcebível sem um adversário como Filipe da Macedônia, que o obrigou a pôr em ação a sua profunda e ampla visão, a sua decisão e tenaz coerência.”
“A ciência do séc. XIX excede não raras vezes, na aplicação do seu ceticismo, os limites do suscetível de ser provado, e foi o que também neste caso aconteceu. (…) Já os antigos reuniram estes discursos numa categoria especial, sob o nome de Filípicas, mas não é unicamente o terem sido pronunciados contra o mesmo adversário que os caracteriza e distingue dos discursos anteriores. É na grandiosa idéia da educação do povo que a sua unidade se baseia, idéia que foi expressa de maneira concisa e lapidar na tese do discurso sobre o armamento.”
“Nos povos governados democraticamente, a decisão de lutar não dimana das ordens do <governo>: é, sim, do íntimo do cidadão que ela deve brotar, pois todos tomam parte na decisão. As Filípicas de Demó. são todas dedicadas à formidável tarefa de preparar o povo para tomar esta decisão, para a qual faltava à maioria desse povo clareza de visão e capacidade de sacrifício.” “só por uma completa ausência de capacidade espiritual de distinção se poderia confundir com a demagogia corrente o dom de Demóstenes para se servir ocasionalmente desta linguagem.” Jaeger exagera? Só lendo Demóstenes para descobrir!
“D. tinha 31 anos quando subiu à tribuna com o seu programa de ação.”
“E assim como em Sólon o problema da participação dos deuses no infortúnio do Estado anda ligado à idéia da tyche, assim também esta idéia reaparece, sob novas variantes, nos discursos em que D. põe em guarda contra Filipe. (…) O adiantado processo de individualização desta época faz com que os homens, na sua ânsia de liberdade, sintam com maior intensidade a sua submissão efetiva ao curso exterior do mundo. O séc. que se inicia com as tragédia de Eurípides encontra-se, mais que nenhum outro, penetrado pela idéia de tyche, e tende cada vez mais a abandonar-se à resignação.”
“Isto confere uma especial importância ao fator ético nos discursos de D. procedentes desta época, fator sem paralelo nos discursos de política externa de outros autores, que a literatura grega conservou.” “É precisamente aqui, na forma como aprofunda a psicologia e a moral do simples cidadão, que D. se revela um verdadeiro educador.”
(*) “A obra de Virgínia (sic) WOODS, Types of Rulers in the Tragedies of Aeschylus (tese de doutoramento pela Universidade de Chicago, 1941), contém uma análise completa do ethos político dos governantes, no drama ateniense do 1º período. Este estudo foi feito por sugestão minha.”
“É no estilo que o sentido trágico desta época deixa sua marca. As suas profundas sombras patéticas reaparecem nos rostos das mais grandiosas obras de arte plástica do mesmo período, modeladas por Escopas”
GREECE – CIRCA 2002: Head of Atalanta, by Skopas (420-340 BC), sculpture from the Athena Alea Temple in Tagea, (Greece). Greek Civilization, 4th Century BC. Athens, Ethnikó Arheologikó Moussío (National Archaeological Museum) (Photo by DeAgostini/Getty Images)
“D. não teria conseguido tornar-se o maior dos clássicos da época helenística, em que se integrava mal o seu ideal político, se não tivesse sabido dar uma expressão perfeita ao tom das suas emoções espirituais.” “Oorador e o estadista confundem-se e formam nele uma unidade. A forma oratória pura não seria nada sem o peso específico do espírito do homem de Estado, que força por se exprimir nela.”
“A queda de Olinto e a destruição das numerosas e florescentes cidades da península da Cálcida, as quais formavam a Liga Olíntica, obrigaram Atenas a negociar a paz com Filipe da Macedônia. Esta paz foi firmada no ano 346 e Demóstenes encontrava-se também entre aqueles que a desejavam por razões de princípio. Opôs-se, contudo, à aceitação das condições propostas pelo adversário, pois lhe entregavam, sem proteção, os territórios da Grécia central e deixavam Atenas à mercê de um cerco cada vez mais apertado. Não pôde, porém, impedir que a paz se firmasse nestas bases e, no seu Discurso sobre a Paz, teve até que se pronunciar contra a resistência armada, quando já era um fato a ocupação pelo macedônio do território da Fócida e das Termópilas, tão importantes para o domínio da Grécia central.”
“O Discurso sobre as Simoriase o que defende a liberdade dos ródios são testemunhos clássicos da sua contínua e vigilante disposição de acalmar a mera verborréia da embriaguez sentimental chauvinista.” “Até hoje, nem os seus críticos nem os simples políticos sentimentais que se lhe seguiram souberam compreendê-lo, e é isso que explica que tenham atribuído a vacilações de caráter o que não é senão rigorosa coerência de pensamento, expressa numa conduta elasticamente variável.”
“A unificação da Hélade não podia ser levada a cabo sob a forma de absorção dos diversos Estados autônomos num Estado nacional unitário, ainda que o progressivo enfraquecimento dos Estados já estivesse adiantado como o estava agora. Só de fora podia vir. A resistência contra o inimigo comum era o único fator que poderia fundir todos os gregos, unificando-os como nação. O fato de Isóc. considerar como inimigo o império persa, cujo ataque fizera, há 50 anos, esquecer aos gregos as suas dissensões internas, e não a Macedônia, que era no presente o único perigo sério e real, podia explicar-se pela força da inércia, visto que Isóc. já vinha pregando havia várias décadas a idéia desta cruzada.(*) Todavia, era um erro político imperdoável pensar que podia afastar o perigo macedônio, aclamando Filipe, o inimigo da liberdade de Atenas e de todos os gregos, como chefe predestinado desta futura guerra nacional.
(*) U. WILCKEN, ‘Philip II von Makedonien und die Panhellenische Idee’, in Ber. Berl. Akad., 1929.”
“Filipe soube compreender com perspicácia que era possível vencer um povo como o grego com as suas próprias armas, pois onde imperam a cultura e a liberdade existem sempre a desunião e a discrepância quanto ao caminho a seguir nos problemas mais importantes. A multidão é demasiado míope para descobrir logo o caminho certo. D. fala muito da agitação a favor da Maced., explorada em todas as cidades gregas.” “D. não se propunha a persuadir nenhum conselho secreto da coroa, mas um povo desinteressado e mal-dirigido”
“Os seus discursos proferidos em tempo de paz são uma série ininterrupta de tentativas destinadas a opor este seu pan-helenismo ao pan-helenismo pró-macedônio de Isóc.”
“e agora Tebas, que teria sido naquela ocasião mais importante para Atenas que a própria Esparta, sentia-se mais estreitamente ligada a Filipe do que lhes aconselhava o seu próprio interesse; a isso fôra forçada pela política de Atenas e de Esparta, que apoiavam os seus adversários da Fócida. D. considerou sempre má política aquele apoio dado aos focenses somente por ódio contra Tebas. E eis que agora o rei da Fócida oferecia a Filipe a ocasião para intervir na Grécia central.”
“Mas a aliança com Tebas só à última hora, antes da batalha de Queronéia, foi levada a efeito: cf. o Discurso da Coroa, 174-9. Foi um triunfo trágico para D.. No meio de uma Grécia como esta, dividida e desintegrada, parecia trabalho de Sísifo formar uma frente pan-helênica de combate contra Filipe. E mesmo assim D. conseguiu-o, após longos anos de esforço. Esta sua evolução até se tornar paladino da liberdade grega é tanto mais surpreendente quanto a realização política da idéia do pan-helenismo parecia um sonho, mesmo depois de ter sido proclamada pela retórica.”
“nenhuma contradição irredutível medeia entre a atitude política realista dos primeiros discursos e o programa da luta pan-helênica da última fase de D., assim como não há contradição entre o Bismarck da 1ª fase, defensor dos interesses puramente prussianos, e o fundador da unidade política dos alemães em 1870.”
“Na grande batalha espiritual de rompimento que são o Discurso do Quersoneso e a Terceira Filípica, pouco antes do começo da guerra, D. reaparece a nossos olhos como o dirigente popular dos primeiros discursos contra Filipe, anteriores à paz do ano 346.” “Mas os gregos continuam inativos diante da expansão aniquiladora da potência de Filipe, como diante de uma tempestade ou uma catástrofe elementar da natureza, que o homem contempla passivamente, dominado pelo sentimento de total impotência, esperando que o raio caia, talvez, na casa do vizinho.”
“Olinto, Erétria, Oreos reconhecem hoje: se o tivéssemos visto antes, não teríamos sido aniquiladas; mas agora é tarde.” Fil., III
“Quando as vagas podem mais que o leme, já todo o esforço é vão.”
“O sentido de lucro da massa e a corrupção dos oradores têm de se render e render-se-ão em face do espírito heróico daquela Grécia que outrora venceu a guerra contra os persas.”
“Muitos anos atrás D. já se tinha perguntado inevitavelmente, face desse paralelo histórico, se os atenienses do seu tempo não seriam uma raça degenerada, diferente da do passado. Ele, porém, não é nem um historiador, nem um teórico da cultura, unicamente preocupado em verificar fatos. Neste campo é também, forçosamente, o educador que vê diante de si uma missão a cumprir. Por muito desfavoráveis que os sinais pareçam, não acredita na degenerescência do caráter do povo.Um homem como ele jamais seria capaz de renunciar ao Estado ateniense e de lhe voltar as costas como a um doente incurável.É certo que os atos deste povo se converteram em atos mesquinhos e lucrativos, mas como poderia ser outra a mentalidade destes homens? O que é que lhes poderia infundir um sentido mais elevado da existência, um ímpeto mais audacioso? Isóc. só sabe tirar do paralelo histórico com o passado uma conclusão: a de que este passado desapareceu para sempre. Mas um estadista ávido de ação não podia aceitar esta conclusão, enquanto restasse na sua fortaleza um baluarte para defender.”
K. JOST, Das Beispiel und Vorbild der Vorfahren bei den attischen Rednern und Geschichtschreibern bis Demosthenes (Paderborn, 1936)
“Mesmo que o abismo entre o ontem e o hoje fosse ainda mais profundo, Atenas não poderia separar-se da sua história sem renunciar a si mesma.Quanto maior a grandeza da história de um povo, mais ela se lhe impõe como destino nas épocas de decadência, mais trágica é a possibilidade de se furtar ao seu dever, ainda que este seja irrealizável.(*) É indubitável que D. não se enganava conscientemente, nem empurrava levianamente os atenienses para uma aventura.
(*) <Que havia, pois, de fazer a polis, ó Ésquines, quando viu que como Filipe tentava estabelecer o seu império e a sua tirania sobre a Hélade? Ou que havia de dizer ou propor o homem que, como eu, se sentia conselheiro do povo de Atenas, e que desde os seus começos até o dia em que subiu à tribuna dos oradores não fez outra coisa senão lutar pela pátria e pelos supremos lauréis da sua honra e da sua fama?> Discurso da Coroa”
“a arte do possível” “político realista” “existência ideal”
“Até o mais sábio dos estadistas se vê aqui diante de um mistério da natureza que a razão humana é incapaz de resolver de antemão. Logo que os fatos se verificam, sucede com bastante freqüência aparecerem como verdadeiros estadistas pessoas para quem isto não era mais que um novo problema de cálculo e para quem, portanto, não era fácil fugir a um risco que não se sentiam interiormente obrigados a correr nem pela fé no seu povo, nem pelo sentimento da sua própria dignidade, nem pela intuição de um destino inelutável. Neste momento decisivo foi D. o homem em quem a feição heróica do espírito da polis grega encontrou esta grave expressão. Basta-nos contemplar o seu rosto toldado por sombrias preocupações, sulcado de rugas, tal como a obra do artista o conservou, para compreendermos que também ele não era por natureza nem um Aquiles nem um Diomedes, mas simplesmente, como os demais, um filho do seu tempo. Mas quem não vê precisamente que a luta parece tanto mais nobre quanto mais sobre-humanos parecem os deveres por ele pregados a uma geração de nervos tão sensíveis e com uma vida interior individualista?” “Já Tucídides dissera que os atenienses só eram capazes de enfrentar um perigo com plena consciência dele, e não como outros, cuja valentia nascia não raras vezes da ignorância do perigo.”
“D. pensa que Atenas estará perdida, se aguardar que o inimigo penetre no país. (…) Já antes forcejara por atrair a Pérsia a sua causa; e, à vista da queda deste império logo após Filipe da M. ter conseguido submeter os gregos, a neutralidade da Pérsia perante a sorte de Atenas revelou-se uma enganosa ilusão. D. acreditara que a força da sua lógica de estadista conseguiria convencer o grande rei do que aguardava a Pérsia, se Filipe derrotasse os gregos.”
“Na Quarta Filípica faz pressão para se chegar a um acordo, a um compromisso pelo menos, a uma desintoxicação da atmosfera.”
“Os antigos Estados, apesar de se terem agrupado para travar a última batalha pela liberdade, já não foram capazes de fazer frente ao poder militar organizado do reino macedônio. A sua história desembocou no grande império que Alexandre, depois da súbita morte violenta do rei Filipe em mãos assassinas, fundou na sua irresistível campanha de conquistas que realizou através da Ásia, sobre as ruínas do império persa. Com a colonização, a economia e a ciência gregas viram abrir-se novos e imprevistos horizontes de desenvolvimento, mesmo depois da desintegração do império de Alexandre, nos Estados dos diádocos, logo a seguir à morte prematura do seu fundador.”
“A morte poupou a Isóc. a dor de ter de reconhecer demasiado tarde que a vitória, sobre um inimigo imaginário, de um povo que perdeu a sua independência não representa nunca uma verdadeira exaltação do sentimento nacional, e que a unidade imposta de fora não pode nunca solucionar o problema da desintegração dos Estados.Todos os verdadeiros gregos teriam preferido durante a campanha de Alexandre receber a notícia da morte do novo Aquiles, a implorá-lo (sic) como deus, obedecendo a ordens supremas. A espera febril dessa notícia por todos os patriotas, com as suas alternativas de sucessivos desenganos e de precipitadas tentativas de insurreição, constitui por si só uma tragédia.”
“Ainda que as suas armas tivessem triunfado, os gregos não teriam mais futuro político, nem fora do domínio estrangeiro nem sob o seu jugo. A forma histórica de vida do seu Estado já havia caducado e nenhuma nova organização artificial podia substituí-la. É falso medir a sua evolução pela pauta do moderno Estado nacional.”
“Só uma vez, na batalha de D. em prol da independência da sua pátria, se produziu na história da Grécia uma onda de sentimento nacional, traduzido na realidade política pela existência comum, frente ao inimigo exterior. Foi neste instante do seu derradeiro esforço para manter a sua existência e o seu ideal que o Estado agonizante da polis alcançou nos discursos de D. a imortalidade.”
“Demóstenes confessa com espírito verdadeiramente trágico a verdade dos seus atos e exorta o povo a não desejar ter tomado outra decisão senão a que o passado lhe impunha.”
As citações e comentários a seguir são baseados exclusivamente na obra O Mundo como Vontade e como Representação. O post com mais aspas e comentários deste livro está em data mais remota no Seclusão. Todas as citações do 2º e 3º volume, que não existem em Português, foram traduzidas por mim para esta compilação.
ÍNDICE (usar CTRL+F para pular para o tópico desejado)
Em negrito, o capítulo (tópico de capítulo) mais importante.
1. O PRIMEIRO GRANDE FILÓSOFO A ENTENDER KANT, O PRIMEIRO FENOMENÓLOGO DA IDADE MODERNA
1.1 COISA-EM-SI = VONTADE
2. O PRIMEIRO GRANDE FILÓSOFO NÃO-SOCIALISTA A DENUNCIAR E REFUTAR O IDEALISMO HEGELIANO: COMO DESCONTAMINAR-SE DE HEGEL, O CHARLATÃO
3. CRÍTICA DA RELIGIÃO: A ESCOLÁSTICA DUROU ATÉ KANT, MAS FOI CONTINUADA PELO HEGELIANISMO: A verdadeira filosofia deve compreender que nunca estará dissociada das religiões e se situar honestamente no campo
3.1 CRISTIANISMO, FIGURA AMBIVALENTE PARA SCHOPENHAUER
3.1.1 CRISTIANISMO PRIMITIVO, NOVO TESTAMENTO & DOGMAS
3.1.2 O PODER SECULAR DO CATOLICISMO
3.1.3 REFORMA PROTESTANTE
3.2 PRECURSOR ORIENTALISTA: EXALTAÇÃO DO HINDUÍSMO E DO BUDISMO
3.4 ÉTICA: O DILEMA DE CILA OU CARIBDE: ACEITAÇÃO DO FENÔMENO OU ASCETISMO
3.4.1 A VIDA DO HOMEM SANTO
4. O FILÓSOFO QUE COMPREENDEU PLATÃO A MEIAS: POR QUE A IDÉIA DE PLATÃO DEVE SER LIDA COMO A ANTI-IDÉIA POR EXCELÊNCIA, I.E., COMO VONTADE, ASSIM ENUNCIADA DESDE A ANTIGUIDADE
5. O ANTI-ARISTÓTELES: CONSEQÜÊNCIA DA HIPER-VALORIZAÇÃO ARISTOTÉLICA PROMOVIDA PELO(A) HEGELIANISMO/ESCOLÁSTICA: O Aristotelismo deve ser superado
6. POR QUE SCHOPENHAUER E NIETZSCHE ESTÃO, ESSENCIALMENTE, EM PÓLOS OPOSTOS NA FILOSOFIA – E NÃO O CONTRÁRIO – MESMO QUE AQUELE SEJA O PRINCIPAL PRECURSOR DESTE
7. DESPROPÓSITO DA VIDA HUMANA CONSCIENTE: A EXISTÊNCIA É SÓ UM SONHO
8. SOBRE O SUICÍDIO
9. EPISTEMOLOGIA DAS CIÊNCIAS NATURAIS
9.1 A MATEMÁTICA E A LÓGICA: ARISTÓTELES E NIILISMO
9.2 A ASTRONOMIA
9.3 A FÍSICA
9.4 A BIOLOGIA
10. A MEDICINA
10.1 CONTRIBUIÇÕES À PSIQUIATRIA (FISIOLOGIA DO GÊNIO)
11. EPISTEMOLOGIA DAS CIÊNCIAS HUMANAS
11.1 A HISTÓRIA
11.2 O DIREITO
11.3 SOBRE A EVOLUÇÃO E A IMPORTÂNCIA DAS LÍNGUAS: SUMA DEPRECIAÇÃO DO HOMEM ALEMÃO
12. SCHOPENHAUER E A ESTÉTICA: APERFEIÇOADOR DE KANT
12.1 ARQUITETURA
12.2 ESCULTURA
12.3 PINTURA
12.4 POESIA E TEATRO
12.5 METAFÍSICA DO GÊNIO
12.6 MÚSICA, O PALIATIVO FINAL
13. A FAMOSA MISOGINIA SCHOPENHAUERIANA
14. RESÍDUOS: AFORISMOS, PASSAGENS DIFÍCEIS DE CLASSIFICAR, CONSOLAÇÕES OU INVECTIVAS CONTRA FILÓSOFOS OU PERSONALIDADES MENORES
1. O PRIMEIRO GRANDE FILÓSOFO A ENTENDER KANT, O PRIMEIRO FENOMENÓLOGO DA IDADE MODERNA
“Com Locke a coisa-em-si é sem cor, som, cheiro, gosto, não é nem quente nem fria, nem mole nem rígida, nem macia nem áspera; e no entanto ela conserva extensão e forma, é impenetrável, está em repouso ou movimento, possui massa e número. Com Kant, a coisa-em-si já se despiu de todas essas últimas qualidades, porque elas só são possíveis por intermédio do tempo, espaço e da causalidade, e este trio emana do intelecto (cérebro), assim como as cores, os tons, os aromas, etc., se originam dos nervos dos órgãos dos sentidos.”
“Em geral, este é o ponto em que a filosofia de Kant conduz à minha, ou em que esta brota daquela como um galho do tronco. Os leitores se convencerão disso quando lerem com atenção na Crítica da razão pura p. 536 e 537 (V, 564), e depois ainda compararem com esta passagem a introdução àCrítica da faculdade de juízo, p. XVIII e XIX da 3ªed., ou p. 13 da edição Rosenkranz, em que é até mesmo dito: ‘O conceito de liberdade pode tornar representável uma coisa-em-si (que é de fato a vontade) em seu objeto (Objekt), mas não na intuição; ao contrário, o conceito de natureza pode tornar de fato representável seu objeto (Gegenstand) na intuição, mas não como coisa-em-si.’” Resumo: o sentido da vida não está dado! Por isso existe o mundo: para o Ser ser!
“Queremos conhecer a significação dessas representações. Perguntamos se este mundo não é nada além de representação, caso em que teria de desfilar diante de nós como um sonho inessencial ou um fantasma vaporoso, sem merecer nossa atenção.”Será a conclusão nas últimas linhas do primeiro tomo, mesmo que inadvertida. Em resumo, este momento é o pulo do gato ainda-kantiano-demais da filosofia schopenhaueriana…
“Já na audição se dá algo completamente diferente. Tons podem provocar dores imediatamente e, sem referência à harmonia ou à melodia, podem ser também de imediato sensualmente agradáveis. O tato, enquanto uno com o sentimento do corpo inteiro, está ainda mais submetido a esse influxo imediato sobre a vontade, embora também haja tato destituído de dor ou agrado. O odor, entretanto, é sempre agradável ou desagradável; o paladar ainda mais. Portanto, estes 2 últimos sentidos são os mais intimamente ligados à vontade. Eis por que sempre foram chamados de sentidos menos nobres e, por Kant, de sentidos subjetivos.”
“O excelente livro de Thomas Reid,¹ Inquiry into the Human Mind on the Principles of Common Sense[o livro não tem tradução ao português, mas se uma houvesse, seria Investigação da mente humana segundo os princípios do senso comum; em breve, tradução completa minha no Seclusão], serve de prova negativa das verdades kantianas, e nos convence piamente da inadequação dos sentidos para produzirem a percepção objetiva das coisas, e nos convence também da origem não-empírica da percepção do espaço e do tempo. (…) O livro de Thomas Reid é, enfim, muito instrutivo e digno de nosso tempo – dez vezes mais digno do que a soma de toda a filosofia que vem sendo escrita desde Kant.”
¹ 1710-1796, adversário de David Hume.
“O intelecto deve, primeiro de tudo, unir em um ponto todas as impressões, ao tempo em que gera suas implicações de acordo com suas respectivas funções, seja se resumindo a meras percepções ou atingindo concepções, um ponto que será, por assim dizer, o foco de todas as suas ramificações, tudo a fim de que a unidade da consciência se apresente como idêntica ao eu volitivo, cuja mera função do conhecimento ela é. Esse ponto de convergência da consciência, ou o eu teórico, é simplesmente a unidade sintética da apercepção kantiana, a partir da qual todas as idéias se estendem, como num colar de contas ou ramo de árvore, e com base no que o <eu penso>, como o fio condutor de tudo que é derivado, <deve ser capaz de acompanhar todas as idéias que formulamos>.”
1.1 COISA-EM-SI = VONTADE
“a palavra do enigma é dada ao sujeito do conhecimento que aparece como indivíduo. Tal palavra se chama VONTADE.” “Isso que se furta a toda fundamentação, contudo, é justamente a coisa-em-si, aquilo que essencialmente não é representação, não é objeto do conhecimento e só se torna cognoscível quando entra naquela forma.”
“a vontade é o conhecimento a priori do corpo, e o corpo é o conhecimento a posteriori da vontade. – Decisões da vontade referentes ao futuro são simples ponderações da razão sobre o que se vai querer um dia (…) apenas a execução estampa a decisão, que até então não passa de propósito cambiável, existente apenas in abstracto na razão. Só na reflexão o querer e o agir se diferenciam; na efetividade são uma única e mesma coisa.” “No entanto, é totalmente incorreto denominar a dor e o prazer representações, o que de modo algum são, mas afecções imediatas da vontade em seu fenômeno, o corpo, vale dizer, um querer ou não-querer impositivo e instantâneo sofrido por ele.”Grande erro de Schopenhauer: frase responsável pela hedionda vitória da psicanálise (fracasso da humanidade) no século XX.
“COISA-EM-SI, entretanto, é apenas a VONTADE. (…) Aparece em cada força da natureza que faz efeito cegamente, na ação ponderada do ser humano: se ambas diferem, isso concerne tão-somente ao grau da aparição, não à essência do que aparece.” Erro fundamental reparado por Nietzsche.
“Também me compreenderá mal quem pensar que é indiferente se indico a essência em si de cada fenômeno por vontade ou qualquer outra palavra. Este seria o caso se a coisa-em-si fosse algo cuja existência pudéssemos simplesmente DEDUZIR e, assim, conhecê-la apenas mediatamente, in abstracto. Então se poderia denominá-la como bem se quisesse. O nome seria um mero sinal de uma grandeza desconhecida. (…) Até os dias atuais subsumiu-se o conceito de VONTADE sob o conceito de FORÇA.” “renunciamos ao único conhecimento imediato que temos da essência íntima do mundo: fazemos tal conhecimento se dissipar num conceito abstraído do fenômeno, com o qual nunca poderemos ir além deste último.” Ao mesmo tempo que sentimos a segurança e verdade por trás destas palavras, ou nestas palavras, sentimos também a hesitação, dúvida e autocontradição do sistema schopenhaueriano (mas somente quem já chegou ao final do livro quarto e voltou a comparar algumas afirmações clássicas do autor pode reparar nesta segunda parte).
SÍNTESE IMPECÁVEL DA OBRA:“A totalidade do processo é o auto-conhecimento da Vontade; começa nisso e retorna a isso, e constitui o que Kant chamara de fenômeno em oposição à coisa-em-si.” “Assim sendo, a totalidade é, em última instância, a Vontade, que de e por si mesma se converte em representação, e é essa unidade fenomenal que chamamos com letra maiúscula de a Representação.”
“Kant assumira afoitamente que, aparte o conhecimento objetivo, quer seja, aparte o mundo como representação, nada nos é dado salvo a consciência, a partir da qual ele elaborou aquele mínimo que ainda lhe restava de propriamente metafísico, i.e., sua teologia moral, à qual ele atribuiu, não obstante, e de forma conseqüente, por um lado, validade exclusivamente prática, e absolutamente nenhuma validade teórica para existir. Ele pecou ao não ver que (…) nossa própria natureza fenomênica deve também estar enquadrada no mundo da coisa-em-si, isto é, na raiz das representações, a Vontade [que é imoral].”
“A polêmica de Lucrécio (IV, pp. 824-58) contra a teleologia é tão crua e desajeitada que refuta a si mesma e nos convence do oposto. Agora quanto à de Bacon (De augm. scient., III, 4), ele não faz, em 1º lugar, distinção no tocante ao uso de causas finais entre naturezas organizadas e não-organizadas (o que seria o ponto focal); em seus exemplos de causas finais, mistura a ambas. A partir daí, Bacon bane as causas finais da física e da metafísica, de uma só vez; mas esta última é, de acordo consigo, o que é a metafísica para muitos ainda hoje, idêntica à teologia especulativa. (…) Por fim, Spinoza (Ética, I, proposição 36, apêndice) torna bastante claro que ele identifica a teleologia com a físico-teologia – contra a qual se expressa com amargura – de tal maneira que chega a enunciar Natura nihil frustra agere: hoc est, quod in usum hominum non sit[A natureza não age em vão, i.e., nunca faz nada que não seja de proveito para o homem], bem como que Deus fez tudo para dirigir o homem,¹ etc.” “Seu propósito era meramente bloquear a passagem ao teísmo; e, confessemos, ele reconheceu de maneira acertada que a prova físico-teológica² é o maior adversário do teísmo. Mas estava reservado a Kant o encargo de refutar esta prova, e a mim o de fornecer a correta exposição da filosofia kantiana, de modo que satisfiz à velha máxima: Est enim verum index sui et falsi[Há uma medida verdadeira do que é verdadeiro e do que é falso], ou seja, há um critério avaliador das aparências, que supera o ceticismo.”
¹ E que, portanto, existindo o homem, deus se retira de todo do mundo e não é mais necessário.
² Aquilo que os escolásticos tanto buscaram e desenvolveram até seus últimos limites. Mais detalhes em uma das notas de rodapé das próximas aspas.
“Com efeito, toda mente sã e funcional deve, considerando a natureza organizada, no mínimo chegar à teleologia spinozista, a não ser que esta mente seja deturpada por opiniões preconcebidas, ou físico-teológicas¹ ou antropo-teleológicas,² as primeiras absorvidas por Spinoza em seu argumento teleológico panteísta, as segundas condenadas, pela mesma razão, no spinozismo.”
¹ Neste trecho se torna ainda mais claro o que Sch. entende por físico-teologia, i.e., uma física com primado do último termo, da teologia: um saber das causas finais aplicado aos mandamentos da religião, como se assim se pudesse extrair os desígnios morais últimos de qualquer credo, monoteísta ou politeísta.
² A antropo-teleologia é a ciência dos fins aplicada ao homem, considerando-o “emancipado” da natureza. Em Spinoza, dizer que a natureza tem seus fins últimos é o mesmo que dizer: o Deus que criou as religiões e o homem tem seus fins últimos; com efeito, ele é a própria natureza. Chega-se a uma espécie de determinismo ou finalismo ateu absoluto. Já em Hegel encontramos a contraposição a Spinoza, porém de uma forma simetricamente deficiente: em vez de considerar que não há finalidades últimas, nossos destinos estando em aberto, por termos “dominado a natureza”, respondemos, segundo o hegelianismo, à História, que é a forma de manifestação da Razão ou do Espírito, da Essência Absoluta. Ou seja, a História é o desenrolar das causas finais de acordo com os próprios parâmetros do Espírito em sua jornada temporal de auto-reconhecimento. Mas sabemos o quanto Hegel é desprezado por Sch. (vide 2., em instantes). Mais valeria dizer: o homem não tem um sentido a cumprir na História; se ele é joguete ou escravo de alguma coisa, se há algo a que sua liberdade empírica e ética responde, este algo se chama Vontade e faz parte de nós e de nossos corpos, por mais que dela não possamos conhecer em sua totalidade, ao contrário da ciência hegeliana que dá todos os instrumentos para concluir sobre as causas últimas do Espírito na Fenomenologia do Espírito, Ciência da Lógica e Enciclopédia Filosófica. Resumindo em 2 frases a tese (anti-)teleológica schopenhaueriana: Temos olhos para ver, ouvidos para escutar, dentes para triturar a comida… Não temos um projeto de humanidade realizável através de um Estado-nação nem pretendemos encontrar a (re)conciliação com o Deus cristão neste, o único mundo.
“Toda observação do mundo com o fito de explicar qual é a tarefa do filósofo confirma e comprova que vontade de vida, longe de ser uma invenção arbitrária ou uma expressão vazia, é a única expressão genuína acerca da natureza mais íntima do mundo.”
2. O PRIMEIRO GRANDE FILÓSOFO NÃO-SOCIALISTA A DENUNCIAR E REFUTAR O IDEALISMO HEGELIANO: COMO DESCONTAMINAR-SE DE HEGEL, O CHARLATÃO
Com exceção de Feuerbach, Marx e Engels (falamos apenas de figuras proeminentes de livros-textos de filosofia), Arthur Schopenhauer foi o primeiro a compreender a fragilidade do sistema hegeliano, contrapô-lo como um todo e descrever de forma límpida e facilmente compreensível os erros e absurdos do Hegelianismo. É, portanto, o primeiro filósofo fora do movimento dos jovens hegelianos de esquerda e socialistas que romperiam posteriormente com seu mentor ideológico, chegando ou não a uma teoria completa pós-hegeliana (Feuerbach ficou no meio do caminho, paralisado criativamente após a crítica a Hegel; Marx & Engels fundaram o materialismo histórico). Schopenhauer é o primeiro filósofo independente de correntes sócio-políticas amplas a ser um Anti-Hegel de envergadura.
“A filosofia [hegeliana] da identidade, nascida em nosso tempo e de todos conhecida, poderia não ser compreendida sob a citada oposição, [sujeito e objeto] na medida em que não torna o sujeito nem o objeto o ponto de partida propriamente dito, mas um terceiro, o absoluto cognoscível por intuição-racional, que não é sujeito nem objeto, mas o indiferenciado. Embora a ausência completa de qualquer intuição-racional me impeça de falar da mencionada indiferenciação e do absoluto, todavia, na medida em que tenho acesso a todos os protocolos dos contempladores-racionais, [o deboche!…] também abertos a nós profanos, tenho de observar que a dita filosofia não pode ser excluída da oposição anteriormente estabelecida entre os 2 erros, já que, apesar da identidade entre sujeito e objeto (não-pensável, e intuível apenas intelectualmente, ou experienciada por imersão nela), a referida filosofia une em si os 2 erros quando os decompõe em 2 disciplinas, a citar: o idealismo transcendental, que é a doutrina-do-eu de Fichte e, por conseqüência, em conformidade com o princípio de razão, faz o objeto ser produzido ou tecido fio a fio a partir do sujeito; e a filosofia da natureza, que, semelhantemente, faz o sujeito surgir aos poucos a partir do objeto mediante o uso de um método denominado construção, que me é pouco claro, mas o suficiente para bem notar que se trata de um progresso conforme o princípio de razão em várias figuras. Renuncio à profunda sabedoria contida nesta construção.” HAHAHA!
“pobreza espiritual, confusão, perversidade vão vestir-se a si mesmas com os termos mais rebuscados, as expressões mais obscuras, para assim, em frases difíceis e pomposas, mascararem pensamentos miúdos, triviais, insossos, cotidianos”
CRÍTICA DO IDEALISMO ALEMÃO, MAIS CONHECIDO COMO HISTORICISMO:“Semelhante FORMA HISTÓRICA DE FILOSOFAR fornece na maioria das vezes uma cosmogonia, a qual admite muitas variedades, ou então um sistema daemanação, doutrina da queda; ou ainda, por parte da dúvida desesperadora advinda dessas tentativas estéreis, é-se levado a um último caminho, oferecendo-se uma doutrina do constante vir-a-ser, brotar, nascer, vir a lume a partir da escuridão, do fundamento obscuro, do fundamento originário, do fundamento infundado e outros semelhantes disparates.” “toda uma eternidade (…) já transcorreu até o momento presente, pelo que tudo o que pode e deve vir-a-ser já teve de vir a ser. Todas essas filosofias históricas, não importa seus ares, fazem de conta que Kant nunca existiu e tomam O TEMPO por uma determinação da coisa-em-si”
“O autêntico modo de consideração filosófico do mundo, ou seja, aquele que nos ensina a conhecer a sua essência íntima e, dessa maneira, nos conduz para além do fenômeno, é exatamente aquele que não pergunta ‘de onde’, ‘para onde’, ‘por quê’, mas sempre em toda parte pergunta apenas pelo QUÊ do mundo” Antes não seria pelo ‘que’ (conjunção conectiva)?
OS LIMITES DA FILOSOFIA CONTINENTAL (Ponto de concordância com H.):“Repetir abstratamente toda natureza íntima do mundo de maneira distinta e universal, por conceitos, e assim depositá-la como imagem refletida nos conceitos permanentes, sempre disponíveis, da razão, isso, e nada mais, é filosofia.” Trecho mal-redigido ou traduzido?! Seria como escrever: “Repetir conceitual, distinta e universalmente toda natureza íntima do mundo, e assim depositá-la como imagem¹ da razão: apenas isso é filosofia.”
¹ Pois toda reflexão é abstrata, conceitual – ou seja: o autor repete 4x a mesma terminologia inútil. Além disso, o próprio “razão” já é quase uma quinta referência ao mesmo arcabouço de idéias (conceitos!), em menos de 3 linhas completas! Um pot-pourri de pleonasmos… Mas o pior é que acho que nenhum filósofo negaria sua afirmação, que foi feita para ser polêmica…
“A despeito de tudo que possa ser dito, nada é tão persistentemente e tão reiteradamente incompreendido como o Idealismo, porque ele é interpretado como significando que se nega a realidade empírica do mundo exterior.” Memento: o idealismo hegeliano é somente uma forma de idealismo.
“Gradativamente essas amplas e desnecessárias concepções passam a ser usadas quase que como símbolos algébricos, e são manipuladas a torto e a direito como estes últimos na matemática; assim, a filosofia fica reduzida a um mero processo combinatório, um tipo de ajuste de contas que (como todo cálculo) nada emprega nem demanda senão as faculdades inferiores. Disso finalmente resulta um mero malabarismo de palavras, do qual o exemplo mais chocante nos é apresentado pelo acéfalo Hegelianismo, em que dito malabarismo é levado ao extremo do puro nonsense.”
“O nobre escolástico Pico de Mirandula já havia percebido que a razão é a faculdade das idéias abstratas, e o entendimento a faculdade das idéias da percepção, como se vê pelo seu livro De Imaginatione, cap. 11 (…) Spinoza também caracteriza a razão de modo sumamente correto como a faculdade de elaborar concepções gerais (Ética, 2, proposição 40, escólio 2). Essas filigranas nem precisariam ser citadas se não fossem as artimanhas lançadas nos últimos 50 anos pela totalidade dos filosofastros da Alemanha para descrever o conceito de razão.”
“Pode-se verificar o quanto a escolha das palavras em filosofia é importante diante do fato de que aquela expressão inepta – a Idéia –, e todos os mal-entendidos dela decorrentes, tornaram-se o solo e fundação de toda a pseudofilosofia hegeliana, que ocupou os alemães por 25 longos anos.”
“ressalto, de passagem, que meu antípoda direto entre os filósofos é Anaxágoras [o queridinho de Hegel entre os pré-socráticos]. Ele assume arbitrariamente como aquilo que é primigênio e originário, aquilo de que tudo o mais procede, o nous, uma inteligência, um sujeito de representações, e é considerado o primeiro a promulgar tal visão racionalista.” “de acordo comigo, os pensamentos, pelo contrário, são a última aparição.” “Toda essa teologia física (ou física teológica) é uma insistência e persistênciano erro, o exato oposto da verdade expressa no início deste capítulo. O erro que consiste em afirmar que a forma mais perfeita da origem das coisas é unicamente aquela pensada, racionalizada por um intelecto. § Desde o tempo de Sócrates até o tempo vigente nós vemos que a principal questão das disputas intermináveis dos filósofos foi e é o ens rationis, a alma.”
“o velho dogmatismo construiu uma ontologia quando só tinha material para uma dianoiologia[ciência das faculdades intelectuais ou do pensamento – em outras palavras, seu cume é a filosofia hegeliana].”
“Os hegelianos, fanáticos que vêem a filosofia da história como o fim último de toda filosofia, fariam melhor em ler Platão, que infatigavelmente repete que objeto da filosofia é aquilo que é inalterável e que sempre permanece, e não aquilo que agora é assim, depois assado.”
“Todos os filósofos cometeram o mesmo erro: eles situam o elemento eterno, metafísico e indestrutível do homem invairavelmente no intelecto.”
“A contradição é que do ponto de vista do conhecimento ou intelecto (ou ainda da representação, ou ainda: dos fenômenos) os filósofos sempre tentaram provar com persuasivas razões que a morte não é um mal; e não obstante o medo da morte permanece inevitável para todos, porque está enraizado não no conhecimento, mas na vontade.”
GROSSO MODO, ASSIM SCH. RESUME A PROBLEMÁTICA HISTÓRICO-FILOSÓFICA:
politeísmo (onde se subscreve a moral socrática) monoteísmo (infantilização/regressão) panteísmo (antítese completa do estágio anterior, e por isso, no extremo da amoralidade ou imoralidade, tão daninha quanto a hipermoralidade beata) recuperação com Spinoza (resgate parcial da discussão ética SECULAR do indivíduo) + menção honrosa para o ceticismo ou exposição ético-negativa de Hume e Voltaire. Filisteísmo (interpretação ainda mais espúria e materialista da ‘fraca’ Ética spinozista) Hegel (uma queda abrupta, posto que fetichizando a Santíssima Trindade, como seria fácil de imaginar) (Sabidamente, Schopenhauer diz que não só ele mesmo ainda não podia ser compreendido, como nem mesmo Kant o tinha sido em sua época.) Discípulos de Hegel (o fundo do poço, relativização de todos os valores e a neura do Estado-nação como ‘indivíduo’, como se se pudesse falar de ética nessa esfera da pura aparência). |Schopenhauer| (síntese final).
“Quem quer que tenha compreendido minha filosofia da ascese não mais encarará como além de todas as medidas da extravagância que faquires se sentem e, contemplando a ponta de seus narizes, busquem banir todo pensamento e percepção; e que em muitas passagens dos Upanishads encontrem-se prescrições para o indivíduo mergulhar silenciosamente em si mesmo pronunciando o misterioso mantra Om, até acessar o imo do ser, onde sujeito e objeto e conhecimento desaparecem.” Parágrafo feito de encomenda para polemizar com Hegel. Ver também 3.2.
3. CRÍTICA DA RELIGIÃO: A ESCOLÁSTICA DUROU ATÉ KANT, MAS FOI CONTINUADA PELO HEGELIANISMO: A verdadeira filosofia deve compreender que nunca estará dissociada das religiões e se situar honestamente no campo
3.1 CRISTIANISMO, FIGURA AMBIVALENTE PARA SCHOPENHAUER
“aquela doutrina considera cada indivíduo de um lado como idêntico a Adão, o representante da afirmação da vida e, nesse sentido, entregue ao pecado (original),¹ ao sofrimento e à morte; de outro, o conhecimento da Idéia mostra cada indivíduo como idêntico ao redentor,² ao representante da negação da Vontade de vida e, nesse sentido, partícipe de seu auto-sacrifício, redimido por seu mérito, salvo das amarras do pecado e da morte, i.e., do mundo. (Romanos 5:12-21³)”
¹ Não diria isso: aquele constringido pelo pecado original nega esta vida (efeito involuntário da fé cristã).
² Este, também, é claro, nega esta vida (cristão idôneo que verdadeiramente entendeu sua fé). No fim de contas, nenhum dos dois é capaz de afirmar a vida, a não ser no além, o que é o mesmo que negar absolutamente a vida (o fenômeno, mas também a Vontade subjacente).
³ A propósito, um dos trechos mais mal-escritos da Bíblia inteira!
“o sublime fundador do cristianismo teve necessariamente de adaptar-se em parte consciente, em parte inconscientemente, ao judaísmo, de modo que o cristianismo é composto de 2 elementos bastante heterogêneos, dentre os quais prefiro o puramente ético, nomeando-o exclusivamente cristão, para distingui-lo do dogmatismo judeu com o qual é confundido. Se – como amiúde se temeu, em especial nos dias atuais – essa religião excelente e salutar entrar definitivamente no ocaso, eu procuraria a razão disso apenas no fato de ela consistir não de um elemento simples, mas de 2 elementos originariamente heterogêneos postos em combinação pelo curso mundano dos eventos. Ora, daí só poderia resultar a dissolução, devido à degeneração provocada por parentesco desigual e pela reação ao espírito avançado do tempo. (…) o lado puramente ético (…) é indestrutível.”
“Recorri aqui aos dogmas da religião cristã (eles mesmos estranhos à filosofia) tão-somente para mostrar que a ética oriunda de toda a nossa consideração – a 1ª sendo no todo coerente e concordante com as partes da 2ª –, embora nova e surpreendente em sua expressão, de modo algum o é em sua essência; ao contrário, concorda totalmente com todos os dogmas propriamente cristãos, e no essencial já se achava nestes.”E é o terrível aspecto derivado disso que torna suas conclusões completamente equivocados, Schopenhauer! – diria Nietzsche!
“ensinar que alguém que veio recentemente do nada, e conseqüentemente por toda uma eternidade foi um nada, e que esse alguém, no entanto, será imperecível é o mesmo que ensinar a alguém que, embora ele seja produto do trabalho de um pai e uma mãe, num devido tempo e local, assim mesmo ele terá de se responsabilizar por suas ações por toda a eternidade.”
“o tempo em que eu não mais serei chegará objetivamente; mas subjetivamente nunca pode chegar. Deve ser perguntado, então, a que ponto cada qual, em seu coração, estende sua crença numa coisa que é absolutamente inconcebível” “Nisso o Antigo Testamento é perfeitamente consistente; porque nenhuma doutrina da imortalidade é cabível partindo-se duma criação do nada. O cristianismo do Novo Testamento possui tal doutrina por ser hindu em espírito, muito provavelmente também indiano de origem, muito embora apenas indiretamente, através do Egito. Mas com o talo judeu, sobre o qual essa sabedoria indiana teve de ser enxertada na Terra Sagrada, esta doutrina é tão pouco compatível como é o livre-arbítrio com seu determinismo”
“Eu admiro as origens orientais do cristianismo, mas não sua própria roupagem.”
“Embora o cristianismo, em todas as partes essenciais, tenha pregado somente o que a Ásia sempre soube muito antes, e de forma até melhor, reconheço que para a Europa ele foi uma coisa nova e uma grande revelação, elevando em muito a tendência espiritual das bárbaras nações européias.”
3.1.1 CRISTIANISMO PRIMITIVO, NOVO TESTAMENTO & DOGMAS
“não é mais necessária liberdade alguma no operari, [agir] pois ela se encontra no esse, [essência] e justamente aqui reside também o pecado, enquanto pecado original. (…) rejeita-se o que é genuinamente cristão e retorna-se ao judaísmo. (…) todo dogma arruína a teologia, bem como qualquer ciência. De fato, se se estuda a teologia de Agostinho nos livros De civitate Dei (especialmente no 14º livro), experienciamos algo análogo ao caso em que tentamos manter em pé um corpo cujo centro gravitacional está fora dele: não importa como se o gire ou se o mude de lugar, sempre cairá novamente.” Schopenhauer ofereceu as armas para a própria tréplica “neo-pelaginiana”, pelo visto… Porém, comentando o trecho em vermelho,o dogma é o sine qua non da teologia ou crença, enquanto que ele define um campo científico, mas não seu teor, dentro de amplos limites (ex: o dogma da Física são algumas leis fundamentais, mas tudo o que se inscrever nelas e for debatível entre os físicos não será dogmático – o dia em que os dogmas da Física qua Física forem insustentáveis, acabará esta disciplina).
“Onde é que já houve verdadeira liberdade no pensar? Já foi muito gabada e alardeada, mas sempre que essa liberdade quer se exceder um milímetro além das convenções dos mais precários dogmas da religião de um país, um sagrado estremecimento parece se apoderar dos tão tolerantes profetas, e eles acabam por dizer: <Nenhum passo adiante!>. Que progresso da metafísica seria possível sob tamanha opressão?”“em metafísica os antigos ainda são nossos professores.” “Considere-se a que pico de arrogância o sacerdócio de qualquer religião não chegaria se a crença em suas doutrinas fosse tão firme e cega quanto eles realmente desejam. Dê-se uma olhada também nas guerras do passado, nos distúrbios, rebeliões e revoluções da Europa do oitavo ao décimo oitavo século; quão poucas não encontraremos que não possuíam como sua essência ou pretexto alguma controvérsia sobre credos, i.e., um problema metafísico, que se tornara ocasião de suscitar nações contra nações. (…) Eu gostaria de ter uma lista autêntica de todos os crimes que a cristandade realmente evitara, e de todas as boas ações que ela realmente praticou, para assim poder colocar ambas como contrapeso, no outro lado da balança.” “A filosofia não passa essencialmente de sabedoria mundana: seu problema é o mundo. A ela concerne isso e somente isso, deixando os deuses em paz – mas ela espera, em troca, ser também deixada em paz pelos deuses.”
“a conexão entre o Novo e o Velho Testamento é no fundo apenas externa, acidental e forçada. A única conexão visível entre o cristianismo e o judaísmo está na estória da Queda, que, de toda forma, encontra-se isolada dentro da estrutura do próprio Velho Testamento; diria até que esquecida pelos últimos profetas, pois desse mito fundador não se deriva nenhum dogma após os primeiros livros. De acordo com as próprias palavras das Escrituras, referendando meu entendimento, só os adeptos mais ortodoxos do Velho Testamento é que insistem na questão da crucificação de Cristo, porque consideram seus ensinamentos em conflito com os dos judeus.”
“É interessante ver como Clemente mistura o Novo e o Velho Testamento, tentando estabelecer uma coesão entre ambos; mas, no afã de realizar seus esforços, só o que ele conseguiu, em grande parte, foi preterir o Novo Testamento em prol dos dogmas do Antigo. No começo do terceiro capítulo de sua obra ele objeta ao marcianismo que eles derivem para o paganismo de Platão e Pitágoras ao considerar a criação uma falha ou erro. Marcião, com efeito, ensina que a natureza é má, feita de um material imperfeito, ou seja, invariavelmente má desde a raiz. Para Marcião, não se deve povoar este mundo, mas se abster do casamento.”Schopenhauer, famoso anti-natalista, teve, obviamente, muitos precursores, cristãos ou não.
3.1.2 O PODER SECULAR DO CATOLICISMO
“entre os povos monoteístas, ateísmo, ou a falta de Deus, tornou-se sinônimo de ausência de moralidade. Aos padres tais confusões conceituais são bem-vindas e apenas em conseqüência delas pôde originar-se aquele monstro assombroso, o fanatismo, imperando não só sobre indivíduos isolados, perversos e maus além de toda medida, mas também sobre povos inteiros, e, finalmente, o que para a honra da humanidade só aconteceu uma vez em sua história, corporificando-se neste Ocidente como Inquisição, a qual, segundo as mais novas informações finalmente autênticas, somente em Madri (no resto da Espanha havia muito mais desses queimadouros religiosos) em 300 anos matou de modo torturante na fogueira 300 mil pessoas por questões de fé. Convém lembrar tudo isso a todos os fanáticos, sempre que eles queiram levantar a sua voz.”
“Por que uma religião necessitaria do sufrágio de uma filosofia? Ela já tem tudo a seu lado – a revelação, a tradição, os milagres, as profecias, o governo, a aristocracia, o consentimento e a reverência da massa, mil templos onde é pregada e praticada, um séquito de vocacionados sob a alcunha de padres e, o que é ainda mais importante que todo o resto, o privilégio nunca superestimado de contar com a liberdade de imprensa para suas doutrinas e o direito de inculcar-se seus dogmas aos novos rebentos por toda parte, o que os converte praticamente em idéias inatas.” “Teria sido mutuamente benéfico se a metafísica cristã ou teologia se tivesse mantido aparte da metafísica laica. Ambas se desenvolveriam a contento em suas próprias potencialidades. Ao invés disso vemos, durante toda a era cristã, o esforço de se engendrar uma fusão de ambas, porque os conceitos e dogmas de uma são aplicados à outra, de forma que as duas se deterioraram.”
“Spinoza tinha seus motivos para nomear o que sobrara de Deus em seu sistema substância; assim, se não a coisa, a palavra estava preservada. As estacas de Giordano Bruno e de Vanini estavam ainda frescas na memória; ambos também foram sacrificados por esse Deus em nome de quem um número incomparavelmente maior de homens serviu de bode expiatório no altar consagrado, altar do qual jorrou mais sangue do que os de todos os deuses pagãos dos dois hemisférios somados. Se, considerando esse histórico, Spinoza, nas entrelinhas, chama o mundo de Deus, isso não passa de um subterfúgio para escapar de sua época, e é como se fosse Rousseau, no seu Contrat social, denominando a massa, o conjunto dos homens e cidadãos, de o soberano.”
“quando vejo com que cuidado essa época incrédula finaliza as igrejas góticas deixadas inacabadas na crédula Idade Média, me parece que o que desejam é embalsamar uma cristandade morta.”
3.1.3 REFORMA PROTESTANTE
“[Que nossas ações são predeterminadas] é uma doutrina cristã original dos evangelhos, defendida por Agostinho, em acordo com os mestres da Igreja, contra as rasteirices dos pelagianos¹ e cuja purificação dos erros e restabelecimento foi o objetivo principal dos esforços de LUTERO, como este o declara expressamente em seu livro De servo arbitrio: a tese de que a VONTADE NÃO É LIVRE² mas está originariamente propensa ao que é mau.”
¹ Cristãos contra a doutrina do pecado original e a favor do livre-arbítrio e de certa faculdade de auto-divinização no homem. Me pergunto como tal seita sobrevive no cristianismo a ponto de ter um verbete no Wikipédia – certamente os primeiros pelagianos foram todos queimados na fogueira; mas imaginar que ainda se organizem!… Parecem mais um braço do paganismo que agride a crença cristã a partir de seu interior! Atenção para a pérola: “John Rawlsera um crítico do pelagianismo, uma atitude que ele manteve mesmo depois de se converter em ateu. Suas idéias anti-pelagianas influenciaram seu livro A Theory of Justice [mantive no original por não saber qual a tradução oficial – Uma Teoria de Justiça é minha tradução literal], onde ele argumenta que diferenças na produtividade entre os seres humanos são um resultado de ‘arbítrios morais’ e que, em conseqüência, níveis de renda desiguais são imerecidos.” Será uma crítica ao pelagianismo algo central num livro de Direito/Economia?!? Disso eu jamais ouvira falar! Além disso, por mais que eu seja um “justiceiro social”, essa tese é prática e barata como uma mula manca adornada de ouro!
² Não entender este trecho no sentido da Vontade de potência livre/não-livre (diferença traçável entre Sch./Nietzsche num nível metafísico, cf. 6.), mas apenas como negação do livre-arbítrio na discussão te(le)ológica sobre o determinismo (liberdade X necessidade) nas ações e nos assuntos humanos (muito em voga, na religião, na época da reforma protestante e, nas ciências humanas, no século XIX, embora, claro, seja uma discussão infindável).
“a contradição entre a bondade de Deus e a miséria do mundo, e entre a liberdade da vontade e a presciência divina, é o tema inesgotável de uma controvérsia quase secular entre cartesianos, Malebranche, Leibniz, Bayle, Klarke, Arnauld (…) todos eles giram incessantemente em círculos (…) i.e., tentam resolver uma soma aritmética que nunca chega a um bom resultado (…) Apenas Bayle mostra que percebeu este problema.” Ainda não tive a felicidade de ler nada “autoral” deste “enciclopedista” avant la lettre! (O Dicionário histórico e crítico é sua obra mais famosa, contendo sinopses das vidas dos maiores pensadores e personalidades – em breve no Seclusão.)
“Não se compreende Hume sem antes ler sua História da Religião Natural nem seus Diálogos sobre a Religião Natural. Ali vê-se-o no seu máximo, e ambas as obras, perfiladas com o Ensaio n. 21, ‘Dos caráteres nacionais’, são os escritos que fazem deste homem – e não conheço nenhum outro livro ou ensaio que justifique tanto sua fama – tão odiado pelo clero anglicano até os dias atuais.”
“O protestantismo, desde que eliminou o ascetismo e seu ponto central, a santidade do celibato, abandonou, portanto, o que restava do núcleo mais profundo da religião cristã, de modo que chegará o tempo em que reconhecerão que o protestantismo é uma nova religião, separada do cristianismo. Em nossos dias essa tendência se tornou aparente através da lenta transformação dos dogmas protestantes em racionalismo barato, um pelagianismo moderno, que por fim degenera na doutrina do Pai amoroso, quem teria criado o mundo a fim de que as coisas se dessem sempre em felicidade e harmonia (sinal evidente de que ele falhou no processo!), quem também, caso se interprete de forma diferente e se aceitem apenas algumas palavras da Bíblia, promete um mundo futuro ainda mais belo (é uma pena que a entrada para este mundo seja tão sofrida!). Essa pode ser uma boa religião para pastores letrados, casados e bem-estabelecidos economicamente; mas isso nada tem que ver com cristianismo. Cristianismo é a doutrina da profunda culpa da raça humana condenada a viver só, e da esperança de libertação deste estado de miséria, que, porém, só pode ser obtida via os maiores sacrifícios e a negação de si mesmo, ou seja, via uma completa inversão da natureza humana. Lutero pode estar repleto de razão do ponto de vista prático, i.e., quanto aos escândalos da Igreja de seu tempo, que ele queria purificar, mas, quanto à teoria, se engana cabalmente. Quão mais sublime uma doutrina é, mais está exposta a abusos nas mãos da natureza humana, que, como um todo, é de disposição mesquinha e má: natural que o catolicismo se tornasse muito mais vilipendiado que o protestantismo. Em suma, Lutero foi demasiado longe na sua interpretação da Palavra, longe o bastante para aniquilar a nobreza da crença em questão.”
3.2 PRECURSOR ORIENTALISTA: EXALTAÇÃO DO HINDUÍSMO E DO BUDISMO
“A mais sábia de todas as mitologias, a indiana, exprime isso dando ao Deus que simboliza a destruição e a morte (como Brama, o deus mais pecaminoso e menos elevado do Trimurti, simboliza a geração e o nascimento, e Vishnu a conservação), Shiva, o atributo do colar de caveiras e, ao mesmo tempo, o linga, símbolo da geração, que aparece como contrapartida da morte.” “Eis por que os sábios ancestrais do povo da Índia expressaram diretamente esse conhecimento nos Vedas, permitido somente às 3 castas regeneradas, ou nas doutrinas sapienciais esotéricas, e isso até onde o conceito e a linguagem o podem apreender e até onde era possível a suas formas de exposição pictórica e rapsódica; na religião popular, todavia, ou doutrina exotérica, isso foi comunicado apenas de maneira mítica.” “Esta [mitologia hindu] é o fim de todas as doutrinas religiosas, na medida em que são roupagens míticas completas da verdade inacessível à tosca inteligência comum.”
“Nunca as nossas religiões deitaram ou irão deitar raízes na Índia; a sabedoria ancestral da raça humana não será reprimida pelos acontecimentos na Galiléia. Ao contrário, a sabedoria indiana avança sobre a Europa e produzirá uma mudança fundamental em nosso saber e pensamento.”
“Propriamente falando, aquela justiça exacerbada do hindu é mais que justiça, a saber, é já efetiva renúncia, negação da Vontade de vida, ascese (…) Por outro lado, viver sem fazer nada, servindo-se das forças de outrem em meio à riqueza herdada e sem realizar coisa alguma, já pode ser visto como algo moralmente injusto, embora, segundo as leis positivas, tenha de permanecer algo justo.”
“Parece-me que, assim como as línguas mais antigas são as mais perfeitas, assim também com as mais antigas religiões. Se eu tomasse os resultados da minha filosofia como o padrão da verdade, seria obrigado a conceder a preeminência ao budismo contra todo o resto.” “Até 1818, quando primeiro apareceu meu trabalho, havia muito pouca informação, excessivamente incompleta e minguada, sobre o budismo na Europa, limitada inteiramente a uns quantos ensaios nos primeiros volumes das Asiatic Researches[Pesquisas Asiáticas, série enciclopédica de várias tendências e autores, segmentada em muitos livros-compilações – mas não superestimar sua relevância contemporânea, já que se trata de pré-antropologia bastante etnocêntrica], focados no budismo dos burmese. Só a partir de então mais dados sobre essa religião nos chegaram, principalmente através dos instrutivos e profundos ensaios do meritório membro da Academia de São Petersburgo J.J. Schmidt, nos relatórios e anuários daquela academia; de pouco em pouco também estudiosos britânicos e franceses enriqueceram o material, a ponto de que eu finalmente pude fornecer uma copiosa lista dos melhores trabalhos em religião, o que fiz em Sobre a Vontade na Natureza, na portada Sinologia. Desafortunadamente Csoma Körösi,¹ húngaro perseverante, que, para estudar a língua e os escritos sagrados do budismo, permaneceu tantos anos no Tibete, e quase sempre em monastérios budistas, morreu justo quando começava a pôr no papel os resultados de suas vastas pesquisas.”
Analysis of the Dulva, part of the Kangyur, Asiatic Researches, Calcutta, 1836, vol. 20-1, pp. 41-93;
A Grammar of the Tibetan Language in English. Prepared under the patronage of the Government and the auspices of the Asiatic Society of Bengal, Calcutta: Baptist Mission Press, 1834;
Collected works of Alexander Csoma de Körös, Budapest: Akadémiai Kiadó, 1984.
“Todos conhecem apenas um ser na imediatez – sua própria vontade autoconsciente. Tudo o mais sabe-se apenas indiretamente, e é julgado em analogia com a própria vontade. Este processo o homem leva adiante na proporção do grau de seus poderes reflexivos. Mesmo estes só emanam em última instância em virtude do fato de que na realidade há apenas um ser; a ilusão do múltiplo (Maja), que provém das formas da compreensão objetiva do exterior, não poderia penetrar a consciência interior, simples e una” Alta relação com 6.
“Os ditos filósofos e glorificadores da história são meros realistas, e também otimistas e eudemonistas, conseqüentemente cabeças ocas e o tipo ideal do filisteu. Por fim, são a escória do cristianismo, já que o espírito autêntico, o cerne do cristianismo, como outrossim o do bramanismo e do budismo, é o conhecimento da vaidade da felicidade terrena, o completo desprezo por ela, e o virar o rosto para as aparências, preferindo uma existência de outro tipo, digo, de um tipo oposto. (…) mesmo o budismo ateísta está muito mais relacionado ao cristianismo que o judaísmo otimista ou sua cria, o islamismo.”
“os deuses hindus são conhecidos por não piscar os olhos quando aparecem em forma humana.”
“Encontramos a doutrina da metempsicose, florescendo nos tempos mais nobres e antanhos da raça humana, espalhada e com efeito sendo a crença sincera da maioria da humanidade; no fundo, até de todas as religiões, com exceção do credo judeu e dos 2 que dele descenderam. Na forma mais sutil de todas, entretanto, esta verdade está exposta na doutrina esotérica do budismo. Enquanto os cristãos se consolam com a idéia de se reencontrarem no outro mundo, no qual o indivíduo recuperaria todos os seus traços de personalidade e reconheceria qualquer face familiar da Terra instantaneamente, nas outras religiões o reencontro com os outros está se dando exatamente agora, só que sem o conhecimento das partes.” O Espiritismo é a terceira e última subreligião monoteísta da decadência. Claro, na outra mão, que se o budismo “tomasse conta da terra”, no sentido nietzschiano, qualquer progresso estaria comprometido, ou ao menos hibernado…
“a resignação perfeita, que é o espírito mais íntimo tanto do cristianismo quanto da sabedoria indiana, a renúncia a todo querer, a viragem, a supressão da Vontade e, com esta, da essência inteira do mundo, portanto a redenção.”
“No Veda (…) diz-se que quando um homem morre, sua faculdade de ver se torna una com o sol, seu olfato com a terra, seu paladar com a água, sua audição com o ar, sua fala com o fogo, e assim por diante (Upanixade, I, p. 249-ss.); e ainda pelo fato de que, em cerimônia especial, a pessoa moribunda transfere um por um seus sentidos e faculdades inteiras ao filho, como se fosse continuar a viver nele (ibid., II, p. 82-ss.).”
“Consideremos, por exemplo, o Alcorão. Esse livro deplorável foi o bastante para fundar uma religião ecumênica, de proporções globais, satisfazendo as necessidades metafísicas de inúmeros milhões de homens por 1200 anos, tornando-se o fundamento de sua moral, uma que, aliás, não nutre pouco desprezo pela morte, capaz de inspirar os fiéis a guerras sangrentas e a grandes campanhas militares. O islamismo é a forma mais triste e pobre de teísmo. Decerto que muito pode ter-se perdido nas traduções; mas nunca descobri um só pensamento de valor neste credo. Esse exemplo demonstra que capacidade metafísica não anda de mãos dadas com necessidade metafísica.”
“esse estranho hermafrodita ou centauro, a assim chamada filosofia da religião, que, como uma espécie de gnose, tenta interpretar as religiões estabelecidas e explicar o que é o verdadeiro sensu allegorico[sentido alegórico – das Escrituras] mediante algo que seria um verdadeiro sensu proprio[sentido próprio, verdade absoluta – em suma a fil. da rel. tenta interpretar a mensagem espiritual contida nos símbolos, recorrendo à própria mensagem, um absurdo]. Mas para isso teríamos de possuir a verdade em seu sensu proprio desde o início; e neste caso uma interpretação seria supérflua.”
“Os judeus decerto foram exitosos, com o fogo e a espada, em expulsar da Europa e de parte da Ásia aquela crença consoladora primitiva da humanidade; mas resta duvidoso por quanto tempo. Quão árdua foi essa tarefa é bem-exposto nas mais antigas histórias da igreja. Maior parte dos hereges era perseguida em virtude da crença na metempsicose neste mundo mesmo; p.ex. os simonistas, os basilidianos, os valentinianos, os marcionistas, os gnósticos e os maniqueus ou maniqueístas. Os judeus mesmo caíram, em parte, nessa heresia, como Tertuliano e Justino (em seus diálogos) nos informam. No Talmud é dito que a alma de Abel migrou para o corpo de Seth, e depois para o de Moisés.”
“o que no Novo Testamento nos é, por assim dizer, visivelmente envolto em véu e névoa, aparece-nos desvelado nas obras dos místicos com total clareza e distinção.”
“O místico se encontra em oposição ao filósofo por ser aquele que começa pela interioridade, enquanto o filósofo começa pelo mundo exterior.” “O filósofo deve, sendo assim, guardar-se do perigo de cair na senda mística e, p.ex., seguindo intuições intelectuais ou pretensas apreensões imediatas da razão, enveredar pela vã exposição de um conhecimento positivo sobre aquilo que está perpetuamente inacessível a toda modalidade do conhecimento, ou no máximo pode ser filosoficamente obtido pela via indireta do conhecimento negativo facultado ao filósofo.” “Eis que o que se acaba de dizer explica por que meu sistema, quando atinge o ponto culminante, assume um caráter de negação. Meu sistema só pode falar daquilo que é negado, daquilo de que desistimos: o que, com isso, se ganha, o que se torna patrimônio humano, é minha obrigação moral dizer: nada[corroborando as famosas últimas palavras de seu primeiro tomo]. Tudo que se pode acrescentar, ademais, é a consolação de que esse nada é meramente relativo, não um absoluto. Porque se algo é nada, este algo representando tudo aquilo que sabemos, essa conclusão serve para nós, falando em termos gerais. Isso é nada, para o homem. Não segue necessariamente dessa premissa que de qualquer ponto de vista imaginável e em todo sentido possível o que se ganha deva ser nada, mas somente que nós estamos limitados a um conhecimento completamente negativo do que excede o fenômeno, o que justifica a asserção óbvia de que a perspectiva humana é em si mesma imperfeita, errática, insuficiente. Aqui é onde o místico procede de forma positiva, então não recaio em contradição se digo que, a partir desse ponto, só resta a experiência mística. Para aqueles que desejam esse tipo de suplemento ao conhecimento negativo que é o ponto culminante da filosofia ocidental, recomendo escritos místicos os mais ricos e belos que conheço, o Oupnekhat [este nome é o da 1ª tradução européia dos Upanishads, livros sagrados do hinduísmo]. Para além disso, prescrevo as Enéadas (Ἐννεάδες) de Plotino, [o motivo do nome é porque cada capítulo está dividido em 9 partes] os escritos de João Escoto Erígena, certas passagens de Jakob Böhm; e em especial o maravilhoso livro da Madame de Guion, Les Torrens, e o autor Angelus Silesius. Finalmente, não poderia deixar de fora os poemas dos sufistas, [místicos islâmicos] que podem ser encontrados em latim vertidos por Tholuk, além de já existir também em alemão. Os sufistas são o mesmo para o Islã que os gnósticos representam no Ocidente. O teísmo, calculado com referência à capacidade do múltiplo, coloca a fonte da existência fora de nós, como um objeto. Todo misticismo, logo também o sufismo, de acordo com os vários graus de sua iniciação, reposiciona essa fonte gradualmente de volta em nós, como sujeitos, de forma que o adepto reconhece com espanto e deleite que ele mesmo é essa fonte. Esse procedimento, comum a todo misticismo, achamos expresso não só pelo Mestre Eckhart, o pai do misticismo teutônico, na forma de um preceito para o ascetismo perfeito, <o homem não deve procurar Deus fora de si> (edição de Pfeiffer, volume 1), mas também de forma muito ingênua pela própria ‘filha espiritual’ de Eckhart, que procurava Deus no exterior até experimentar a conversão em seu imo. Contando desta etapa de sua vida, ela escreve: <Senhor, rejubila-te comigo, eu me tornei Deus>. O misticismo dos sufistas também se expressa através de uma concórdia análoga com esse espírito, apoiado principalmente na revelação que desperta na consciência de que cada um é o cerne do mundo e a fonte de toda a existência, a quem tudo retorna.” “Correspondendo a essa diferença de concepção, o misticismo maometano apresenta um caráter muito sereno; o misticismo cristão, um melancólico e sombrio; ao passo que o hindu, posando sobre todos os demais, é como que um meio-termo destes extremos.” “A seita quietista, o ascetismo e o misticismo estão inextricavelmente entrelaçados. Todo aquele que prega um deles, ao tomar conhecimento dos ensinamentos dos outros 2 deve necessariamente aceitá-los, mesmo contra seus próprios desígnios.” “Mas a palavra seita, usada em virtude da influência da Igreja no julgamento destas minorias, não deve ser encarada a sério. O membro de uma seita adere, defende e propaga um dogma favorito assim que a ela se converte. Os místicos indianos, cristãos e muçulmanos, os quietistas e os ascéticos são, contudo, diferentes dessa caracterização, salvo na significância interior e espiritual de seus ensinamentos.”
“Quem quer que tenha lido tais escritos, comparando seu estilo ao do ascetismo e do quietismo, vendo como este mesmo estilo percorre todas as obras do bramanismo e do budismo, onde se fala, a cada página, das mesmas noções gerais, admitirá, ao cabo, que toda filosofia, que deve, para ser coerente e consistente, rejeitar todo esse modo de pensar, coisa que ela só pode fazer denominando os representantes místicos de impostores ou loucos, deve com toda probabilidade ser falsa. Todos os sistemas europeus, com exceção do meu, são abarcados por esta crítica.” “Nenhuma filosofia pode deixar o tema do quietismo e do ascetismo isento de resolução. Esse tema é, em seu conteúdo, idêntico ao de todas as metafísicas e éticas já elaboradas. Eu espero e desejo que toda filosofia otimista declare-se como tal. Se, no julgamento dos contemporâneos, a coincidência paradóxica e sem precedentes encontrada entre minha filosofia e o ascetismo e o quietismo, se parece com uma enorme rocha que obstrui o caminho, eu, ao contrário, vejo nessa circunstância a prova de sua corretude e de sua verdade, e também um fundamento explicativo de por que minha filosofia é ignorada e na verdade mantida o mais escondida possível pelas universidades protestantes. Porque não somente as religiões do Oriente, mas o próprio cristinismo autêntico estão permeados deste caráter ascético fundamental que minha filosofia explica como a negação da vontade de vida. Vejo que o protestantismo vigente quer a todo custo ocultar essa verdade.” “a cabeça desses homens, infelizmente, bem como a cabeça de milhares de outros na Alemanha do tempo presente, encontra-se distorcida e corrompida pelo hegelianismo miserável, essa escola de tédio, esse centro da incompreensão e ignorância, esse destruidor de mentes, sabedoria espúria, que, ao menos, e já demasiado tarde, começa a ser reconhecido por aquilo que é; logo a veneração de Hegel será relegada à Academia dinamarquesa, para quem até um grosseiro charlatão como ele é um summus philosophus[é o mestre de todos os outros filósofos]” HAHAHAHAAHA! O destino de Hegel lembra um pouco o de Wagner: esculhambado por Schopenhauer/Nietzsche, vive até hoje entre nós, bastante arranhado, é verdade, mas ainda ‘recomendado’.
“O maniqueísmo é de certo modo um meio-termo entre o otimismo e o pessimismo, uma ponte entre o judaísmo e o cristianismo, como o significado de seu próprio nome já aduz. No Zend-Avesta, Ormuzd, o bom deus, é antagonizado pelo pessimismo de Ahriman. E foi do maniqueísmo que o judaísmo proveio, como J.G. Rhode comprovou extensivamente em seu livro Die heilige Sage des Zendvolks[A palavra sagada dos povos Zend]. Ormuzd é o protótipo de Jeová, e Ahriman o de Satã, que, no entanto, passa a exercer um papel demasiado secundário no credo semita (…) destarte, o mito da queda é o único que permanece como elemento pessimista do Antigo Testamento, e isto ainda assim por mera derivação do maniqueísmo.”
“Ocorre que Ormuzd é derivado do bramanismo, embora de uma vertente mais vulgar do bramanismo primitivo. Ele é o avatar de Indra, o deus subordinado do firmamento e da atmosfera, que é representado freqüentemente em rivalidade com os homens. Esta identidade foi muito claramente estabelecida por J.J. Schmidt em seu livro sobre a relação das doutrinas gnóstico-teosóficas com as religiões do Oriente. Indra-Ormuzd-Jeová viria a assumir a figura da divindade cristã, porque essa última religião nasceu na Judéia. No entanto, devido ao caráter cosmopolita do Cristianismo, seu nome foi esquecido e passou-se a denotá-lo pela palavra de cada língua para seres supra-humanos, i.e., TEOS, Deus, que vem do sânscrito Deva (a origem mútua de deus e demônio), ou ainda, entre os gótico-germânicos, God, Gott, que vém de Odin Wodan, Guodan, Godan. Da mesma forma foi que o Islã batizou seu deus de Allah, que também era um nome de divindade na antiga Arábia.” “Na China, a 1ª dificuldade dos missionários proveio do fato de que em Mandarim não há apelação do tipo, nem mesmo palavra que equivalha a ‘criação’; as 3 principais religiões chinesas desconhecem deuses, no plural ou no singular.”
“A singular seita dos shakers dos Estados Unidos [desconheço o termo em português para se referir a eles], fundada por uma britânica, Anne Lee, em 1774, possui cerca de 6 mil praticantes, divididos em 15 comunidades. Eles povoam diversos vilarejos dos estados de Nova York e Kentucky, sobretudo no distrito de New Lebanon, perto da cidade de Nassau. A característica fundamental desta vertente cristã é o celibato absoluto e a completa abstenção de qualquer prazer sexual. É unanimemente admito, mesmo pelos ingleses e americanos que os visitam, que deles troçam em qualquer outro respeito, que essa regra é estrita e perfeitamente observada, apesar de que irmãos e irmãs [no sentido lato, i.e., homens e mulheres] ocupem comumemnte as mesmas casas, comam na mesma mesa, até dancem juntos nas cerimônias religiosas da igreja. Quem se abstém honestamente levando adiante o maior autosacrifício instintual pode e deve dançar diante do Senhor, é a idéia central da seita.”O problema de uma seita rara em que ninguém se reproduz (ninguém faz sexo!) é que ela está destinada do começo à mais lenta e morosa das extinções. Veja o Wikipedia dos shakers (link acima para artigo completo), com números um pouco diferentes dos apresentados por Sch. para o séc. XIX (mais comunidades, mas menos membros).“Em 2019, só um vilarejo shaker resta:Sabbathday Lake Shaker Village [a Cidade Shaker do Lago de Sábado], no Maine. Conseqüentemente, muitos dos acampamentos e vilas Shakers antigos, hoje despovoados, se transformaram em museus.”(tradução do Wikipedia English)
“Não há famílias e, destarte, não há propriedade privada. Todos se vestem igual, à moda quaker, com grande asseio. São industriosos e diligentes: preguiça e indolência são repudiados. Outra regra da seita é proibir qualquer barulho desnecessário, como gritos, batidas de porta, estalar de chicotes [o terror de Schopenhauer, que já escreveu longamente a respeito dessa prática na Alemanha!],batidas fortes, etc. (…) Eles têm a política de jamais pregar em busca de novos adeptos, mas testam rigorosamente aqueles que se apresentam voluntariamente ao noviciado, durante vários anos. Além disso, todos são livres para deixar a comunidade; o índice de excomunhões por mau comportamento é baixíssimo. Crianças adotadas são educadas muito de perto, mas de modo leigo, sem os dogmas mais severos da crença, e quando se tornam maiores é que podem escolher se juntar à seita. Dizem que nas controvérsias entre os ministros shakers e o clero anglicano, o último costuma levar a pior, porque os shakers argumentam solidamente com base em passagens do Novo Testamento. Mais informações sobre a seita podem ser obtidas em Run through the United States de Maxwell (1841) e em History of all Religions de Benecit (1830)”
“Os antigos, embora tão mais avançados quanto a tudo o mais, continuaram crianças com respeito ao principal, e foram superados nesse quesito até mesmo pelos druidas, que ao menos ensinavam a metempsicose. Que um ou dois filósofos, como Pitágoras e Platão, pensassem diferente do resto dos gregos não muda nada.” Enigma: quem é mais burro, aquele que só entende alegorias ou aquele que só entende a mensagem direta? Ao contrário do que Schopenhauer pensa, creio que tanto a religião quanto a filosofia sejam um híbrido destas duas (para ele a filosofia é uma vocação seleta por lidar com a mensagem direta, a bíblia, p.ex., apenas conta estórias morais, etc.). Nada mais ilusório. Nesse sentido, Platão seria um superfilósofo inacessível até para os prosaicos filósofos… E o que dizer da simplicidade com que a massa abraça um culto tão ‘esotérico’? Talvez porque ele não o seja (tanto).
3.4 ÉTICA: O DILEMA DE CILA OU CARIBDE: ACEITAÇÃO DO FENÔMENO OU ASCETISMO
“remanesce sempre a forma do tempo, e o ser objeto e sujeito do conhecimento em geral. Nessa sabedoria inerente a coisa-em-si despiu, em grande medida, seu véu, mas não está ainda de todo nua. Em virtude da forma que o tempo possui, sempre aderido a esta coisa-em-si, todo mundo conhece sua vontade somente em seus atos sucessivos, e nunca como um todo, em e para si: por conseguinte, ninguém conhece seu carátera priori, senão que aprende a conhecê-lo através da experiência, e sempre de modo incompleto.”
OLAVO DE CARVALHO IN A NUTSHELL:“Nada é mais exasperante, quando debatemos contra um homem sem razões e muito menos argumentos, de modo que nós tentamos de tudo para convencê-lo de nossa perspectiva, sob a impressão de que tudo que importa no problema é seu entendimento, nada é mais exasperante, eu dizia –– que descobrir de súbito que ele não quer entender, ou antes que ele quer não-entender; que nossa única maneira de vencer o debate seria apelando para sua vontade e disposição, que se encontra fechada contra a verdade. E quando esta disposição fechada se torna pública, essa circunstância só estimula seu dono a invectivar contra os outros ainda mais, utilizando-se de barafundas deliberadas, chicanas e sofismas, a fim de se entrincheirar detrás de seu falto entendimento e de sua falta de insight, crendo-se, através desse método agressivo, refugiar em lugar seguro. Logo, enquanto assim for, esse homem não será enleado e manterá suas convicções, porque bons argumentos e provas aplicadas contra a vontade (o temperamento) são como os golpes de um fantasma desferidos contra um corpo sólido.”
“Não posso estabelecer, como é sempre estabelecida, a diferença fundamental entre todas as religiões sobre a questão de se são monoteístas, politeístas, panteístas ou ateístas, mas unicamente sobre a questão de se elas são otimistas ou pessimistas, quer seja, se apresentam a existência do mundo como justificada em si mesma, e destarte a louvam e valorizam, ou se entendem a existência como mera conseqüência de nossa culpa, e destarte concluem que não deveríamos ser, pois reconhecem que a dor e a morte nada têm que ver com a ordem eterna, original e imutável de todas as coisas, como o mundo devera ser. O poder que permitiu ao cristianismo superar o judaísmo, e depois todo o paganismo greco-romano, subjaz tão-só em seu pessimismo, na confissão de que nossa condição é igualmente pecaminosa e amaldiçoada, ao passo que o judaísmo e o helenismo eram otimistas.”
“maldade extraordinária (…) exemplos desse tipo são: Ricardo III, Iago em Otelo, Shylok em O mercador de Veneza, Franz Moor [Schiller], Fedra de Eurípides, Creonte em Antígona” “Shakespeare nos apresenta na figura do Cardeal de Beaufort (Henrique VIParte II) o terrível fim de um facínora que morre cheio de desespero, pois nem sofrimento nem morte podem quebrar sua vontade veemente, que ia até o extremo da crueldade.”
“seria tão tolo esperar que nossos sistemas morais e éticos criassem caracteres virtuosos, nobres e santos quanto que nossas estéticas produzissem poetas, artistas plásticos e músicos.”
“neste livro de ética não se devem esperar prescrições nem doutrinas do dever, muito menos o estabelecimento de um princípio moral absoluto parecido a uma receita universal para a produção de todas as virtudes. Também não falaremos de ‘DEVER INCONDICIONADO’, porque este (…) contém uma contradição, nem tampouco falaremos de uma ‘lei para a liberdade’” Clara oposição a Kant.
“A filosofia de Bruno não possui uma ética propriamente dita, e a ética da filosofia de Spinoza não procede absolutamente da essência de sua doutrina, mas, apesar de bela e louvável, é adicionada a ela simplesmente por meio de fracos e palpáveis sofismas.”
“Meu único fim, pois, só pode ser expor a afirmação e a negação, [da vontade de vida] trazendo-as ao conhecimento distinto da faculdade racional, sem prescrever nem recomendar uma ou outra”
“toda pessoa tosca, seguindo seu sentimento, defende ardorosamente a plena liberdade das ações individuais, embora os grandes pensadores de todas as épocas, inclusive os doutrinadores religiosos mais profundos, a tenham negado.”
“Ponderemos pelo que decidiremos no momento da aparição das circunstâncias, que nos permitiriam atividade e decisão livres. Na maioria das vezes a ponderação racional, que vê longe, fala antes em favor de uma decisão; já a inclinação imediata, por sua vez, fala em favor de outra. Enquanto, compelidos, permanecemos passivos, o lado da razão aparentemente tende a ganhar a preponderância; entretanto, já antevemos fortemente o quanto o outro lado irá nos atrair quando a oportunidade para agir se fizer presente. Porém, até lá nos esforçaremos zelosamente, por fria meditação dos pro et contra, em alumiar o mais claramente os motivos dos 2 lados, a fim de que cada um possa com toda a sua força fazer efeitos sobre a vontade quando o momento preciso se apresentar, e, com isso, nenhum erro da parte do intelecto desvie a vontade para decidir-se de modo diferente do que faria se tudo fizesse efeito equanimemente. Semelhante desdobrar distinto dos motivos em dois lados é, no entanto, tudo o que o intelecto pode fazer em relação à escolha. A decisão propriamente dita é por ele esperada de modo tão passivo e com a mesma curiosidade tensa como se fosse a de uma vontade alheia. De seu ponto de vista, entretanto, as duas decisões têm de parecer igualmente possíveis: isso justamente é o engano da liberdade empírica da vontade. (…) O intelecto nada pode fazer senão clarear a natureza dos motivos em todos os seus aspectos, porém sem ter condições de ele mesmo determinar a vontade, pois esta lhe é completamente inacessível, sim, até mesmo, como vimos, insondável.”
“como Kant ensina, e toda a minha exposição torna necessário, se a coisa-em-si reside fora do tempo e de toda forma do princípio de razão, segue-se que não apenas o indivíduo tem de agir de maneira igual em situação igual e que cada ação má tem de ser a garantia segura de inumeráveis outras que ele TEM DE levar a cabo, e não PODE deixar de fazê-lo, mas também que, como Kant ainda diz, caso apenas fossem dados, de maneira completa, o caráter empírico e os motivos, a conduta futura do homem poderia ser calculada como um eclipse do sol ou da lua. (…) A Vontade, cujo fenômeno é toda a existência e vida do homem, não pode mentir no caso particular. O que o homem quer em geral sempre quererá no particular.
A defesa de uma liberdade empírica da vontade, vale dizer, do liberi arbitrii indifferentiae, está intimamente ligada ao fato de se ter colocado a essência íntima do homem numa ALMA, a qual seria originariamente uma entidade QUE CONHECE, sim, propriamente dizendo, uma entidade abstrata QUE PENSA, e só em conseqüência disto algo QUE QUER. Considerou-se, assim, a Vontade como de natureza secundária, quando em realidade o conhecimento o é. A Vontade foi até mesmo considerada como um ato de pensamento e identificada com o juízo, especialmente por Descartes e Spinoza. De acordo com isso, todo homem teria se tornado o que é somente em conseqüência de seu CONHECIMENTO. Chegaria ao mundo como um zero moral”
“Seu caráter é originário, pois querer é a base de seu ser. Pelo conhecimento adicionado ele aprende no decorrer da experiência o QUÊ ele é, ou seja, chega a conhecer seu caráter. [e não mudar]”
“o homem é sua própria obra antes de todo conhecimento, e este é meramente adicionado para iluminá-la. Daí não poder decidir ser isto ou aquilo, nem tornar-se outrem, mas É de uma vez por todas, e sucessivamente conhece o QUÊ é. Pela citada tradição, ele QUER o que conhece; em mim ele CONHECE o que quer.” Em última instância, como será aprofundado em 6., conhecer-se a si mesmo (Sócrates) e tornar-se aquilo que se é (Nietzsche) são uma e a mesma coisa.
“o dogma da predestinação (…) Romanos 9:11-24, o qual é manifestamente derivado da intelecção do homem como imutável, de tal maneira que sua vida e conduta, o seu caráter empírico, são apenas o desdobramento do caráter inteligível, são apenas o desenvolvimento de decididas e imutáveis disposições já reconhecíveis na criança.”
“a conduta de um homem pode variar notavelmente sem que com isso se deva concluir sobre a mudança em seu caráter. O que o homem realmente e em geral quer, a tendência de seu ser mais íntimo e o fim que persegue em conformidade a ela, nunca pode mudar por ação exterior sobre ele, via instrução, do contrário, poderíamos recriá-lo.”
“a uma juventude arrebatada, selvagem, pode seguir-se uma idade madura, ordenada e judiciosa.”
“no começo somos todos inocentes, e isto apenas significa que nem nós, nem os outros, conhecemos o mal de nossa própria natureza (…) Ao fim, nos conhecemos de maneira completamente diferente do que a priori nos considerávamos, e então amiúde nos espantamos conosco mesmos.
ARREPENDIMENTO nunca se origina da Vontade ter mudado (algo impossível), mas de o conhecimento ter mudado.”
“para enganar a si mesmas, as pessoas fingem precipitações aparentes, que em realidade são ações secretamente ponderadas. Porém mediante tais truques sutis não enganamos nem adulamos ninguém, senão a nós mesmos.”
“O peso de consciência em relação a atos já cometidos não é arrependimento, mas dor sobre o conhecimento de nosso si mesmo”
“pensamentos abstratos. São estes que amiúde nos são insuportáveis, criam tormentos, em comparação com os quais o sofrimento do mundo animal é bastante pequeno.”
“seria esforço vão trabalhar numa melhora do próprio caráter (…) sendo preferível submeter-se ao fatídico, entregando-se a toda inclinação, mesmo as más.”
“Ao lado do caráter inteligível e do empírico, deve-se ainda mencionar um terceiro, diferente dos dois anteriores, a saber, o CARÁTER ADQUIRIDO, o qual se obtém na vida pelo comércio com o mundo e ao qual é feita referência quando se elogia uma pessoa por ter caráter, ou se a censura por não o ter.” Schopenhauer só se complica tentando aperfeiçoar seu sistema e acrescentar cada vez mais coisas. Se ele tivesse feito uma obra bem menor, seria um clássico imortal da filosofia, coisa que quase já é, sem reparos a acrescentar! Não existem 2 caráteres, muito menos 3!
“Ora, se a pessoa segue apenas as aspirações que são conformes ao seu caráter, sente, em certos momentos e disposições particulares, estímulo para aspirações exatamente contrárias e incompatíveis entre si: nesse sentido, se quiser seguir aquelas primeiras sem incômodo, estas últimas têm de ser completamente refreadas.” “assim como, de acordo com a doutrina do direito de Hobbes, cada um de nós tem originariamente o direito a todas as coisas, mas não o exclusivo a cada uma delas, e no entanto se pode obter o direito exclusivo a coisas individuais renunciando-se ao direito a todas as demais, enquanto os outros fazem o mesmo em relação ao que escolheram; exatamente assim também se passa na vida, quando só podemos seguir com seriedade e sucesso alguma aspiração determinada, seja por prazer, honra, riqueza, ciência, arte ou virtude, após descartarmos todas as aspirações que lhe são estranhas, renunciando a tudo o mais.”
“embora (…) siga o próprio caminho guiado por seu demônio interior (…) a muitos invejará em virtude de posição e condição que, no entanto, convêm exclusivamente ao caráter deles, não ao seu, e nas quais se sentiria antes infeliz, até mesmo sem as conseguir suportar. Pois assim como o peixe só se sente bem na água, o pássaro no ar, a toupeira debaixo da terra, todo homem só se sente bem na sua atmosfera apropriada.”
“muitos fazem os mais diversos e fracassados tipos de tentativa, violamo próprio caráterno particular e ainda têm de se render novamente a ele no todo: aquilo que conseguem tão penosamentecontra a própria natureza não lhes dá prazer algum. O que assim aprendem permanece morto. Até mesmo do ponto de vista ético, um ato demasiado nobre para o seu caráter e nascido não de um impulso puro, imediato, mas de um concerto, de um dogma, perderá todo o mérito até mesmo aos seus olhos num posterior arrependimento egoístico.”
“Assim como só pela experiência nos tornamos cônscios da inflexibilidade do caráter alheio e até então acreditávamos de modo pueril poder através de representações abstratas, pedidos e súplicas, exemplos e nobreza de caráter fazê-lo abandonar seu caminho, mudar seu modo de agir, despedir-se de seu modo de pensar, ou até mesmo ampliar suas capacidades; assim também se passa conosco.” “Conhecemos, portanto, o gênero e a medida de nossos poderes e fraquezas, economizando assim muita dor.” “Guardaremo-nos de tentar aquilo que não nos permitirá ser bem-sucedidos.” “Amiúde alguém assim partilhará a alegria em sentir seus poderes e raramente experimentará a dor em ser lembrado de suas fraquezas, o que se chama humilhação” “Eis por que nada é mais salutar para nossa tranqüilidade de ânimo que a consideração do já-acontecido a partir do ponto de vista da necessidade, de onde todos os acasos aparecem como instrumentos de um destino soberano.”
A ESTAGNAÇÃO SCHOPENHAUER-CAMUS: “O desenvolvimento mais claro de tudo isso, o tema capital deste último livro, foi-nos preparado e facilitado pelas considerações entrementes expostas sobre liberdade, necessidade e caráter. Porém, tais considerações se tornarão ainda mais claras após as termos colocado novamente e dirigirmos nosso olhar para a vida mesma, cujo querer ou não-querer é a grande questão” A vida só quer.
“De modo algum o tédio é um mal a ser desprezado; por fim ele pinta verdadeiro desespero no rosto.” “Também em toda parte, por meio da prudência estatal, são implementadas medidas públicas contra o tédio, como contra outras calamidades universais; porque esse mal, tanto quanto seu extremo oposto, a fome, pode impulsionar o homem aos maiores excessos: o povo precisa panem et circenses. O rígido sistema penitenciário da Filadélfia torna, pela solidão e inatividade, o mero tédio um instrumento de punição (…) Na vida civil, o tédio é representado pelo domingo, e a necessidade pelos 6 dias da semana.” “Quando desejo e satisfação se alternam em intervalos não muito curtos nem muito longos, o sofrimento ocasionado por eles é diminuído ao mais baixo grau, fazendo o decurso de vida o mais feliz possível.”
“os obtusos: (…) para a maioria dos homens, as fruições intelectuais são inacessíveis. Eles são quase incapazes de alegria no puro conhecimento: estão completamente entregues ao querer.”
“os jogos de carta, que, no sentido mais próprio do termo, são a expressão do lado deplorável da humanidade.” Entender como nossos jogos de azar.
“Os esforços infindáveis para acabar com o sofrimento só conseguem a simples mudança da sua figura, que é originariamente carência, necessidade, preocupação com a conservação da vida. Se, o que é muito difícil, obtém-se sucesso ao reprimir a dor nesta figura, logo ela ressurge em cena, em milhares de outras formas (variando de acordo com a idade e as circunstâncias), como impulso sexual, amor apaixonado, ciúme, inveja, ódio, angústia, ambição, avareza, doença, etc.Finalmente, caso não ache a entrada em nenhuma outra figura, assume a roupagem triste, cinza do fastio e do tédio, contra os quais todos os meios são tentados. Mesmo se em última instância se consegue afugentar a estes, dificilmente isso ocorrerá sem que a dor assuma uma das figuras anteriores, e assim a dança recomeça do início, pois entre dor e tédio, daqui para acolá, é atirada a vida do homem.”
“uma convicção viva produzirá um grau significativo de equanimidade estóica, e reduzirá consideravelmente a preocupação angustiada acerca do próprio bem-estar. Contudo, em realidade um tal controle tão poderoso da razão sobre o sofrimento imediatamente sentido raramente ou nunca é encontrado.”
“a paradoxal mas não absurda hipótese de que em cada indivíduo a medida da dor que lhe é essencial se encontraria para sempre determinada através de sua natureza”
“grandes sofrimentos tornam todos os pequenos totalmente insensíveis e, ao inverso, na ausência de grandes sofrimentos até mesmo as menores contrariedades nos irritam e atormentam (…) quando uma grande infelicidade, cujo mero pensamento antes nos estremecia, de fato ocorre, nossa disposição permanece no todo inalterável após a imediata superação da primeira dor; por outro lado, logo após o aparecimento de uma felicidade longamente ansiada, não nos sentimos no todo e duradouramente muito melhores ou mais contentes do que antes.”
CONCORDE COM GRODDECK, O PAI DA PSICOSSOMÁTICA: “o motivo externo de tristeza não passa daquilo que para o corpo é um vesicatório,¹ o qual atrai para si todos os humores ruins que, do contrário, espalhar-se-iam pelo organismo. A dor encontrada em nosso ser nesse período de tempo, e portanto inevitável, seria, sem as causas exteriores determinadas do sofrimento, repartida em centenas de pontos, aparecendo na figura de centenas de outras contrariedades ou caprichos sobre coisas que agora ignoramos inteiramente”
¹ “Que faz nascer bolhas na pele” (para combater um mal maior).
“tanto o júbilo quanto a dor excessivos se fundam sempre sobre um erro ou um engano: conseqüentemente, essas duas tensões excessivas da mente podem ser evitadas por intelecção.” “A ética estóica empenhava-se sobretudo por livrar a mente de todo esse engano e suas conseqüências”
“E assim se passam as coisas, ao infinito, ou, o que é mais raro e pressupõe uma certa força de caráter, até que encontremos um desejo que não pode ser satisfeito nem suprimido: então, por assim dizer, temos aquilo que procurávamos, a saber, algo que a todo momento poderíamos acusar, em vez do nosso próprio ser, como a fonte dos sofrimentos, que nos divorcia de nossa sorte, porém nos reconcilia com a nossa existência, na medida em que novamente temos conhecimento de que, a ela mesma, o sofrimento é essencial e a satisfação verdadeira é impossível. A conseqüência dessa última forma de desenvolvimento é uma certa disposição melancólica, o sustento contínuo de uma única, grande dor, que faz desdenhar todos os sofrimentos ou alegrias pequenos; por conseguinte um fenômeno muito mais digno que a frenética correria por sempre novas formas de ilusão, coisa muito mais usual.”
“É sempre uma exceção se um semelhante decurso de vida sofre uma interferência e, devido a um conhecer independente do serviço da vontade e direcionado à essência do mundo em geral, conduz à demanda pela contemplação estética ou à demanda pela renúncia ética.” Schopenahuer confunde: onde advém a contemplação, não é certo que deva haver renúncia ética (à ação). Nem onde há participação coletiva há necessariamente sua presença. Além disso, aquilo que é independente da Vontade, e portanto se escora exclusivamente no fenômeno, certamente se interessa pelas coisas do mundo, de forma ativa, não-contemplativa. Um estóico que descobrisse a Vontade antes de Sch. estaria além do envolvimento ou contemplação (gozo) estético, e, aí sim, sem dúvida, seria o perfeito indiferente ético. Porém essa figura é utópica.
“A justiça eterna furta-se ao olhar turvado pelo conhecimento que segue o princípio de razão, o principium individuationis. (…) Vê o homem mau, após perfídias e crueldades de todo tipo, viver em alegria e deixar o mundo sem ser incomodado. Vê o oprimido arrastar-se numa vida cheia de sofrimento, até o seu fim, sem que apareça um vingador ou retaliador. Mas só conceberá e aprenderá a justiça eterna quem se elevar por sobre o conhecimento que segue o fio condutor do princípio de razão, atado às coisas particulares; assim fazendo, conhece as Idéias [a Vontade; vide 4.], vê através do principium individuationis e percebe que as formas do fenômeno não concernem à coisa-em-si. É só uma pessoa assim que, em virtude desse mesmo conhecimento, pode compreender a essência verdadeira da virtude”
EXPLICITAÇÃO DA FÓRMULA DO NIILISMO NEGATIVO: “podemos, metafórica e figurativamente, chamar a total auto-supressão e negação da Vontade, sua verdadeira ausência, unicamente o que acalma e cessa o ímpeto da Vontade para todo o sempre” “podemos chamar essa total auto-supressão e negação da Vontade de bem absoluto, summum bonum, e vê-la como o único e radical meio de cura da doença [a existência mesma] contra a qual todos os outros meios são anódinos, meros paliativos.”
“mediante a moral e o conhecimento abstrato em geral, nenhuma virtude autêntica pode fazer efeito, mas esta tem de brotar do conhecimento intuitivo, [temperamento, caráter] o qual reconhece no outro indivíduo a mesma essência que a própria.” “pode-se tão pouco formar um virtuoso por meio de discursos morais e sermões quanto formar um único poeta com todas as estéticas desde Aristóteles.”
“Seria em realidade muito funesto se a principal coisa da vida humana, o seu valor ético, válido pela eternidade, dependesse de algo cuja obtenção está submetida tão ao acaso quanto os dogmas, as crenças religiosas, os filosofemas.”¹ “Decerto os dogmas podem ter uma forte influência sobre a CONDUTA, sobre os atos exteriores, assim como o têm o hábito e o exemplo (neste último caso porque o homem ordinário não confia em seu juízo, de cuja fraqueza está consciente, seguindo apenas a experiência própria ou de outrem); mas com isso a disposição de caráter não mudou. (…) Todo conhecimento comunicável só pode fazer efeito sobre a vontade exclusivamente como motivo. (…) o que o homem verdadeiramente e em geral quer sempre permanece o mesmo. Se adquirir outros pensamentos, foi meramente sobre as vias para alcançar esse fim; motivos imaginários podem guiá-lo como se fossem reais.”
¹ Aqui vale lembrar: Gustave Le Bon tampouco foi um pioneiro.
“Eis por que quase nunca podemos julgar com acerto moral os atos de outrem e raras vezes os nossos. – Os atos e as maneiras de agir de um indivíduo e de um povo podem ser bastante modificados por dogmas, pelo exemplo e pelo hábito. Porém, em si, todos os atos (opera operata) são meras imagens vazias; só a disposição de caráter que conduz a eles fornece-lhes sentido moral. Este, por sua vez, pode em realidade ser o mesmo, apesar da diversidade exterior dos fenômenos. Com grau igual de maldade um homem pode morrer na guilhotina e outro pacificamente no regaço de seus parentes. Pode ser o mesmo grau de maldade o que se expressa em UM povo nos traços crus do assassino e do canibalismo, e em OUTRO fina e delicadamente in miniature nas intrigas da côrte.”
“O homem nobre nota que a diferença entre si e outrem, que para o mau é um grande abismo, pertence apenas a um fenômeno passageiro e ilusório, reconhece imediatamente, sem cálculos, que o Em-si do seu fenômeno é também o Em-si do fenômeno alheio, a saber, aquela Vontade de vida constitutiva da essência de qualquer coisa, que vive em tudo”
“O direito do homem à vida e à força dos animais baseia-se no fato de que, com o aumento da clareza de consciência, cresce em igual medida o sofrimento, e a dor, que o animal sofre através da morte e do trabalho, não é tão grande quanto aquela que o homem sofreria com a privação de carne ou de força do animal. O homem, pois, na afirmação de sua existência, pode ir até a negação da existência do animal, e a Vontade de vida no todo suporta aí menos sofrimento que no caso inverso. Isso ao mesmo tempo determina o grau de uso que se pode fazer das forças animais sem cometer injustiça, o que, entretanto, é freqüentemente desrespeitado, particularmente em relação aos animais de carga e aos cães de caça; contra o quê, portanto, a sociedade protetora dos animais em especial orienta sua atividade. Aquele direito do homem, na minha opinião, não se estende à vivissecção, sobretudo em animais superiores. Já o inseto não sofre tanto através da sua morte quanto o homem sofre com a sua picada. – Isto os hindus não o perceberam.” “Parece até mesmo que a difícil passagem da Bíblia, Romanos 8:21-24, pode ser interpretada nesse sentido.”
“o estado de voluntária renúncia, resignação, verdadeira serenidade (…) [E seu oposto:] As promessas da esperança, as adulações do tempo presente, a doçura dos gozos, o bem-estar que fazem a nossa pessoa partícipe da penúria de um mundo sofrente sob o império do acaso e do erro atraem-nos novamente ao mundo e reforçam os nossos laços de ligação com ele.”
“Sua Vontade se vira; ela não mais afirma a própria essência espelhada no fenômeno, mas a nega. (…) a transição da virtude à ASCESE.”
“Quem atingiu o 2º patamar ainda sempre sente – como corpo animado pela vida, fenômeno concreto da Vontade – uma tendência natural à volição de todo tipo, porém a refreia intencionalmente, ao compelir a si mesmo a nada fazer do que em realidade gostaria de fazer: ao contrário, faz tudo o que não gostaria de fazer, mesmo se isto não tiver nenhum outro fim senão justamente o de servir à mortificação da Vontade.” Nesse ‘estágio’ “o lado doce da vida” fica eternamente trancado – porém reavivado com persistência – dentro dos sonhos.
ISSO ESTÁ PARA ALÉM DO ESTÓICO (UTÓPICO ALÉM DO UTÓPICO):“todo sofrimento exterior trazido por acaso ou maldade, cada injúria, cada ignomínia, cada dano são-lhe bem-vindos. Recebe-os alegremente como ocasião para dar a si mesmo a certeza de que não mais afirma a Vontade, mas alegremente toma partido de cada inimigo fenomênico da Vontade, inimigo esse que é a sua própria pessoa.” Talvez, portanto, quando diz “dar a outra face”, o Evangelho seja mais impraticável que o próprio estoicismo, tido tantas vezes como um Sermão da Montanha exagerado…
SUPERVALORIZAÇÃO? “sua obra-prima imortal Fausto, exposição essa ao meu ver inigualável poeticamente, na história do sofrimento de Gretchen. Esta é um perfeito modelo do segundo caminho que conduz à negação da Vontade, não, como o primeiro, pelo mero conhecimento adquirido livremente do sofrer de um mundo inteiro, mas através da dor excessiva sentida na própria pessoa.” Schopenhauer às vezes parece um garoto que tudo vê pelas lentes de sua idéia fixa. Mas todos os filósofos devem ser crianças, em grau menor ou maior!
“Um caráter deveras nobre é sempre pensado por nós com um certo traço de tristeza silenciosa, que de modo algum se deve ao constante desgosto ligado às contrariedades cotidianas (este seria antes um traço ignóbil e faria temer uma disposição má de caráter mau).”
“a negação da Vontade de vida, ou – é o mesmo – a resignação completa”
“Ora, como em conseqüência de tal efeito da graça toda a essência do homem é radicalmente mudada e revertida, de tal forma que ele nada quer do que até então veementemente queria, logo, em conseqüência do efeito da graça, RENASCIMENTO. Pois o que ela chama de HOMEM NATURAL, a quem nega toda capacidade para o bem, é justamente a Vontade de vida – que tem de ser negada, caso a redenção de uma existência como a nossa deva ser alcançada. Em realidade, por trás da nossa existência encrava-se algo outro, só acessível caso nos livremos do mundo.” Um papel lamentável de carrasco, senhor Último Homem! Essencialmente, um Platão insatisfeito… Em seguida seu “trunfo” é citar Romanos 8:3, como se ainda estivéssemos na idade média e não no século XIX!
CIRCUNSTÂNCIA X CONSTÂNCIA, CARÁTER X APARÊNCIA, ESSÊNCIA X SUPERFÍCIE, DOR E PRAZER CONTRA O INCONSCIENTE OU GÊNIO PESSOAL: “Se, por exemplo, sozinhos conosco mesmos, pensamos sobre nossas circunstâncias mais pessoais e, eventualmente, representamos vivamente e no nosso presente imediato a ameaça de um perigo verossímil e a possibilidade de um desfecho trágico após sua ocorrência, logo a ansiedade se produz, comprimindo nosso coração, diminuindo a circulação do sangue nas veias. Mas se, logo em seguida, nosso intelecto passa de uma possibilidade indesejada para seu oposto, dando asas à imaginação e livre curso a esperanças e alegrias longamente cultivadas, nosso pulso se acelera novamente, o sangue corre impetuoso e o coração se sente leve como uma pluma, pelo menos até o intelecto acordar de seu devaneio. Suponha então que uma ocasião suscite à memória insultos e agravos sofridos muito tempo atrás: de supetão, a raiva e o amargor encherão nosso peito, que há um segundo estava imerso em tranqüilidade. Imagine também que venha à tona, por acidente, a imagem de um antigo amor, agora perdido, carregando consigo toda a cadeia de pensamentos a ele atrelada: todas as nuances do romance uma vez vivido, seus momentos mais mágicos em relevo; essa raiva que havia brotado de súbito dará lugar instantaneamente a um profundo pesar e à melancolia. E, finalmente, se nos ocorre algum incidente humilhante e vexatório, afundamos e desmilingüimos de pronto. Gostaríamos de desaparecer da vista de todos, e da nossa mesma. Ruborizamos, acanhados. Nossa reação mais natural é tentar distrair o espírito emitindo alguma exclamação, como se fosse para espantar um espírito mau. Vê-se que o intelecto joga, brinca, manipula: a Vontade apenas dança conforme a música. Sim, o intelecto é o maestro dessa composição,¹ e faz a Vontade representar o papel duma criança jogada de um lado para outro em cenários de dor e prazer, de exuberância e de pavor alternados, conforme uma babá que conta uma estória bem variada, multifacetada e envolvente. Isso só é possível porque a Vontade existe por si mesma sem conhecimento, e nossa faculdade do entendimento, [o a priori kantiano] uma vez aplicada a ela, não dispõe, por si mesma, de uma <Vontade>. Assim, parece que a primeira é uma eterna marionete, a última um titereiro, único canal para a manifestação dos motivos dos movimentos do boneco.
[¹ Talvez apenas no homem fraco, vencido?]
Em que pese esse esquema desalentador, a primazia última da Vontade se torna uma certeza absoluta no juízo do analista perspicaz e insistente, isto é, do homem que conquista um certo autodomínio e procede à reversão desta Vontade: [autodomínio: subjugação do intelecto, pois ele é naturalmente incontrolável, e a Vontade é que deve sobrepujá-lo por completo, deixar de ser só a carroça!] de joguete do intelecto, a Vontade passa em última instância a exercer importantes proibições ao intelecto (à imaginação). [Mas esta disciplina schopenhaueriana parece ainda muito fraca diante do que tenho em mente quando falo da verdadeira supremacia da Vontade sobre a cognição!] Associações inteiras de idéias são em última instância bloqueadas. É um aprendizado derivado do próprio intelecto,[e por isso tão limitado] utilizável pela Vontade. O sujeito, após repetidas teatralizações e recorrências do mesmo vendaval de sentimentos, chega à conclusão de que, deixado desimpedido, o intelecto despertaria emoções nem sempre interessantes à Vontade, como as circunstâncias debilitantes descritas mais acima. Neste ponto – e só neste ponto –, ocorre uma inflexão, análoga ao do cavaleiro sobre a cavalgadura. É bem esse o vocabulário: a Vontade toma as rédeas, e dirige o intelecto a fim de evitar, doravante, certas estradas e paisagens já conhecidas e indesejadas.A princípio essa reviravolta de marionete em cavaleiro parece fantástica, mas todo aquele que já sentiu o vigor do impulso inicial da Vontade decidida em empreender essa torção sabe que a continuidade do processo ocorre mais por inércia do que por esforço continuado: o essencial é a decisão original da Vontade em virar o jogo e inverter os papéis.² A resistência nesse novo jogo de jóquei não provém do intelecto, como se poderia pensar, pois a imaginação do sujeito se conserva eternamente indiferente às emoções – a resistência vem da própria Vontade, quando não decidida o suficiente. A Vontade é sempre instável e oscilante, [não seria o intelecto? e o intelecto que deixa a Vontade assim?] e terá, ora mais ora menos, certa inclinação ou propensão a uma determinada variante de representações coerentes entre si. Jamais as inclinações da Vontade deixarão de ser ambíguas num certo grau, porque a Vontade em si mesma, impossível de ser ‘flagrada’ diretamente, se apresentará ao sujeito (a Si mesmo, à Vontade mesma, por intermédio do intelecto, que a interpreta) ora sob um aspecto em que exalta e endeusa uma idéia, ora sob um outro aspecto em que abomina e odeia esta mesma idéia – como que por capricho. O que move a Vontade é um interesse não-valorativo, i.e., tal coisa instiga, excita a Vontade – não interessa o prazer ou o desprazer desta excitação em si mesma. O conhecimento abstrato – o intelecto – do sujeito é que revelará, com o passar do tempo, que determinada representação ou idéia seguirá ‘atormentando’ o sujeito, sem meta clara nem qualquer lógica.³ Então por que um teatro tão exaustivo? Em conformidade com o aprendizado do conhecimento abstrato, a Vontade dirigirá sua propensão a evitar ao máximo a sensação do tormento, [mas deveria apenas ignorá-lo!] de modo a dirigir com mais sentido sua ‘busca’ ou ‘atuação’. É assim, mediante as próprias descobertas, que o intelecto abstrato acaba sendo compelido a colaborar mais e mais com a Vontade, que antes submetia por completo. Na linguagem das ruas, a aquisição desta sabedoria e desta capacidade de torná-la prática e configuradora do caráter individual é o que se chamaria <tornar-se o senhor de si mesmo>. [ou tornar-se o que se é] Não há dúvida de que o senhor desta frase é a Vontade, e o servo (o si mesmo) é o intelecto. É sempre a Vontade que prevalece[ria] no homem que se desenvolve até a última instância, [o homem redimido, transvalorado] sendo seu verdadeiro núcleo, o íntimo do Ser mesmo.”
² Isso é o mesmo que o salto da fé de Kierkegaard.
³ Cf. o protagonista de O Eterno marido, de Dostoievski.
“Eu não acredito que Baltasar Gracián estava correto quando disse (Discreto, p. 406), <Não há simplório que não seja malicioso>, embora ele tenha o provérbio espanhol em seu favor: <Nunca a necedade caminhou sem malícia>. Porém, pode acontecer de muitas pessoas estúpidas se tornarem maliciosas pela mesma razão de muitos corcundas, por amargor diante da negligência sofrida em face da natureza, e porque elas pensam poder, eventualmente, compensar aquilo de que prescindem (entendimento) através da esperteza e astúcia, procurando assim ligeiros triunfos. Sob essa luz, a propósito, torna-se compreensível porque quase todo mundo se torna malicioso na presença de uma natureza muito superior.” “Grande superioridade intelectual isola mais do que qualquer outra coisa, e faz do homem em questão, nem que apenas veladamente, odiado. É o contrário disso que faz pessoas estúpidas tão queridas no geral; especialmente quando muitos só conseguem ver nelas aquilo que tanto procuram (distanciar-se de grandes espíritos).”
“Se um homem é tolo, perdoamo-lo alegando que ele não tem culpa; mas, na hora de desculpar um homem maligno, recorrer à falta de culpa seria o mesmo que se tornar objeto do riso geral. E ainda assim tanto uma coisa quanto a outra, a tolice e a maldade, são inatas. Mas isso serve para provar mais uma vez que a Vontade é o homem propriamente falando, e que o intelecto é uma mera ferramenta.”
“Se, olhando para fora de nós, refletimos que há vita brevis, ars longa, [vida breve, arte¹ longa] e consideramos como as mais belas e maiores mentes, o mais das vezes antes mesmo ou logo após atingirem seu platô, e os maiores mestres, não muito tempo após chegarem ao domínio pleno de sua ciência, são logo varridos da existência, recebemos essa confirmação: que o sentido e o propósito da vida não é intelectual, mas moral.”
¹ Trabalho ou desempenho de alguma atividade, i.e., em latim esta palavra assume uma conotação bem mais ampla. No final, a frase quer dizer: pouco tempo para muito o que fazer e aprimorar.
“o intelecto sofre mudanças muito consideráveis com o tempo, enquanto que a vontade e o caráter remanescem intocados por ele.”
“O avanço da idade, que gradualmente consome os poderes do intelecto, deixa as qualidades morais intocadas. (…) malícia, despeito, avareza, dureza de coração, infidelidade, egoísmo e vilezas de todo tipo se mantêm, e justamente pelo novo contraste se tornam muito mais aparentes.”
“Um enigma é resolvido, um enigma tão velho quanto o próprio mundo, simplesmente porque esse tempo todo ele estava sendo analisado de cabeça para baixo. A liberdade persistentemente buscada no Operari,[ação, por extensão fenômeno] a necessidade no Esse. [ser] (…) [no meu sistema,] a liberdade é transferida para o Esse, e a necessidade limitada ao Operari.” “Para salvar a liberdade do destino e da sorte, ela teve de ser transferida da ação para a existência.”Nasce aqui formalmente o existencialismo, pois todas as condições já estão postas para Nietzsche, Husserl, Heidegger e Sartre o desenvolverem posteriormente.
“Inclinação é toda forte suscetibilidade da vontade a motivos de certo jaez. Paixão é uma inclinação tão poderosa que os motivos que a excitam exercem um poder sobre a vontade, que é mais forte que o poder de qualquer motivo possível que poderia se opor ao primeiro; destarte, seu domínio sobre a vontade se torna absoluto, [confuuuuuuuuso – isto é a própria vontade! e pior: a vontade desintelectualizada, ou seja, nua e crua] e conseqüentemente, com referência à paixão, a vontade é passiva ou sofrimento.¹ Deve ser ressalvado, entretanto, que é raro que as paixões atinjam tal grau em que se as possa chamar conforme meu conceito. O mais das vezes afetos ganham o nome de paixões meramente por aproximação nuançada: nesse estágio mais assíduo das paixões, há ainda contra-motivos atuantes para, ao menos, restringir o efeito passional, que às vezes não pode mesmo ser distinguido pela consciência (paixão fraca).”
¹ Eis que Schopenhauer involuntariamente descobriu a fuga final, desta vez uma que funciona: viver apaixonado!
O TUDO É PERMITIDO (DOSTOIEVSKI) AVANT LA LETTRE E SUA SUPERAÇÃO:“Depois de ser desmerecidamente negligenciado por mais de um século, Spinoza foi, em geral, superestimado neste século pela reação causada pelo efeito do vaivém do pêndulo da opinião. Todo panteísmo deve necessariamente ser descartado em prol das demandas inevitáveis da ética, e depois pelo mal e sofrimento do mundo. Se o mundo é uma teofania, então tudo que o homem, ou mesmo o animal, faz é igualmente divino e excelente; nada pode ser censurável, e nada pode ser mais enaltecido que o restante: destarte, inexiste ética.”
“Um homem que assimilasse firmemente em seu modo de pensar as verdades até agora referidas e, ao mesmo tempo, não tivesse chegado a conhecer por experiência própria ou por uma intelecção mais ampla que o sofrimento contínuo é essencial a toda a vida; e na vida encontrasse satisfação e de bom grado nela se deleitasse, e, ainda, por calma ponderação, desejasse que o decurso de sua vida, tal qual até então foi experimentado, devesse ser de duração infinda ou de retorno sempre novo; cujo ânimo vital fosse tão grande que, no retorno dos gozos da vida, de boa vontade e com prazer assumisse as suas deficiências e tormentos aos quais está submetido; um tal homem, ia dizer, se situaria ‘com firmes, resistentes ossos sobre o arredondado e duradouro solo da terra’ e nada teria a temer. Armado com o conhecimento que lhe conferimos, veria com indiferença a morte voando em sua direção nas asas do tempo, considerando-a como uma falsa aparência, um fantasma impotente, amedrontador para os fracos, mas sem poder algum sobre si, que sabe: ele mesmo é a Vontade, da qual o mundo inteiro é objetivação ou cópia; ele, assim, tem não só uma vida certa mas também o presente por todo o tempo, presente que é propriamente a forma única do fenômeno da Vontade; portanto, nenhum passado ou futuro infinitos, no qual não existiria, pode lhe amedrontar, pois considera a estes como uma miragem vazia e um Véu de Maia. Por conseguinte, teria tão pouco temor da morte quanto o sol tem da noite. – No Bhagavad-Gita Krishna coloca seu noviço Arjuna nesse ponto de vista, quando este, cheio de desgosto (parecido a Xerxes) pela visão dos exércitos prontos para o combate, perde a coragem e quer evitar a luta, a fim de evitar o sucumbir de tantos milhares. É quando Krishna o conduz a esse ponto de vista, e, assim, a morte daqueles milhares não o pode mais deter: dá então o sinal para a batalha.”
3.4.1 A VIDA DO HOMEM SANTO
“Portanto, aqui talvez tenhamos pela 1ª vez expresso abstratamente e purificado de todo elemento mítico a essência íntima da santidade, da auto-abnegação, da mortificação da vontade própria, da ascese como NEGAÇÃO DA VONTADE DE VIDA que entra em cena após o conhecimento acabado de sua essência ter-se tornado o quietivo de todo querer.”
“Desenvolvem escrúpulos de consciência em cada prazer inocente ou em cada pequena agitação da própria vaidade, a qual também morre por último, e, entre todas as inclinações do homem, é a mais difícil de destruir, a mais ativa e a mais tola. – Sob o termo, por mim já amiúde empregado, de ASCESE, entendo no seu sentido estrito essa quebra PROPOSITAL da Vontade pela recusa do agradável e a procura do desagradável, mediante o modo de vida penitente voluntariamente escolhido e a autocastidade, tendo em vista a mortificação contínua da Vontade.”
“O grau supremo dessa justiça de disposição – sempre associada à autêntica bondade, sendo que o caráter desta não é mais meramente negativo – vai tão longe que a pessoa pode até questionar o próprio direito à propriedade herdada e assim desejar manter o seu corpo apenas com as próprias forças, espirituais ou físicas, sentindo todo serviço prestado por outros, todo luxo, como uma repreenda, inclusive podendo entregar-se por fim à pobreza voluntária. Desse modo, vemos PASCAL, após assumir orientação ascética, não mais querer serviços de ninguém, apesar dos seus vários serviçais; e, em que pesasse sua doença crônica, fazia a própria cama e buscava a refeição na cozinha, etc. (Vie de Pascal par sa soeur, p. 19).” Uau, que independente esse Pascal!
“Um santo pode estar convencido das mais absurdas superstições, ou, ao contrário, ser um filósofo; é indiferente. Apenas a sua conduta o evidencia como santo.”
“A literatura indiana, a julgar pelo pouco que podemos conhecer do até agora traduzido, é bastante rica em descrições da vida dos santos e penitentes, chamados samanas, saniasis, etc.” “Também entre os cristãos não faltam casos em favor das elucidações aqui intentadas. Leiam-se as, na maioria das vezes, pessimamente escritas biografias daquelas pessoas denominadas almas santas ou pietistas, quietistas, entusiastas pios, etc. Coleções dessas biografias foram feitas em várias épocas, como a Vida das almas santas de Tersteegen, a História dos renascidos de Reiz. Em nossos dias confira-se a coleção de Kanne que, misturada ao muito de ruim, contém várias coisas boas, entre as quais a Vida da Beata Sturmin. A essa categoria pertence por inteiro a vida de São Francisco de Assis, verdadeira personificação da ascese e modelo de todos os monges mendicantes.(…) Vita S. Francisci a S. Bonaventura concinnata (Soest, 1847). (…) Histoire de S. François d’Assise, par Chavin de Mallan (1845). (…)Spence Hardy: Eastern monachism, an account of the order of mendicants, founded by Gotama Budha (1850) (…)recomendo a autobiografia de Madame de Guion, esta bela e grandiosa alma, cuja lembrança sempre me enche de reverência, que deve ser gratificante a todo espírito nobre conhecer, e fazer justiça à excelência de sua disposição de caráter, vendo com indulgência as superstições de sua razão, apesar de saber que, às pessoas de espírito comum, i.e., a maioria, aquele livro sempre terá um péssimo crédito, pois em geral e em toda parte cada um só pode apreciar aquilo que lhe é de algum modo análogo(…) a conhecida biografia de Spinoza, se usarmos como chave para ela a sua excelente introdução ao deficiente ensaio De emendatione intellectus; pois se trata do intróito mais eficiente que conheço como calmante para a tempestade das paixões (…) inclusive Goethe, por mais grego que fosse, não considerou indigno de sua pena mostrar-nos esse lado mais belo da humanidade, em límpido espelho da poesia, quando expôs de forma idealizada a vida da senhorita Klettenberg, em Confissões de uma bela alma.”
“as descrições da vida dos homens santos e auto-abnegados são para o filósofo – apesar de na maioria das vezes serem muito mal-escritas e narradas com uma mescla de superstição e absurdo –, devido ao significado de seu estofo, incomparavelmente mais instrutivas e importantes até mesmo que Plutarco e Lívio.”
“Mateus 16:24-25; Marcos 8:34-35; Lucas 9:23-24, 14:26-27 e 14:33. Essa tendência foi gradativamente desenvolvida e deu origem aos penitentes, aos anacoretas, aos monges”
“Teologia alemã, da qual Lutero diz, no prefácio a ela aditado, que de nenhum livro, excetuando-se a Bíblia e Agostinho, mais aprendeu o que seja Deus, Cristo e o homem.” Prequel da Ideologia alemã? Hahaha.
“Entretanto, esta consideração é a única que nos pode consolar duradouramente, quando, de um lado, reconhecemos que sofrimento incurável e tormento sem fim são essenciais ao fenômeno da Vontade, ao mundo e, de outro, vemos, pela Vontade suprimida, o mundo desaparecer e pairar diante de nós apenas o nada.”C0nstrução linguística infeliz, porque insuficiente, porque demonstrativa do não-resultado ou do resultado aquém do esperado que a filosofia da representação e da Vontade de Schopenhauer manejou conquistar: quietivo tímido da vontade, mesmo para indivíduos santos, nada de supressão, a não ser de maneira hiper-figurada. Qual é a utilidade da filosofia schopenhaueriana, pois? Não epistemológica, sem dúvida; apenas ética, como espécie de prolegômenos para a vida prática (nem se pode chamar de ‘guia’ o que não contem senão uma base precária em direção a uma). Uma ética de não levar a existência demasiado a sério e, portanto, bastante limitada, em que pese realista. Com efeito, limitada porque realista. Esta citação também é a frase final do livro.
O próprio tradutor achou necessário acrescentar em nota de rodapé ao último parágrafo: “a linguagem fracassa nesse momento final de sua filosofia”. Por que outro motivo haveria de fazê-lo senão porque o empreendimento schopenhaueriano deixou a desejar?
Ressalva: nada destas minhas críticas incisivas e mordazes diminui a importância do autor no panorama filosófico ocidental, pois ele foi continuado por outros pensadores e sua noção de Vontade segue tendo uma repercussão tremenda.
4. O FILÓSOFO QUE COMPREENDEU PLATÃO A MEIAS: POR QUE A IDÉIA DE PLATÃO DEVE SER LIDA COMO A ANTI-IDÉIA POR EXCELÊNCIA, I.E., COMO VONTADE, ASSIM ENUNCIADA DESDE A ANTIGUIDADE
“os GRAUS DE OBJETIVAÇÃO DA VONTADE, ia dizer, não são outra coisa senão as IDÉIAS DE PLATÃO.” “Se para nós a Vontade é a COISA-EM-SI e as IDÉIAS a sua objetidade imediata num grau determinado, encontramos, todavia, a coisa-em-si de Kant e a Idéia de Platão – único que verdadeiramente é –, estes dois grandes e obscuros paradoxos dos dois maiores filósofos do Ocidente, de fato não como idênticas, mas como intimamente aparentadas e diferentes apenas em uma única determinação.”
“Platão diz o seguinte:
(…) Sim, cada um veria inclusive a si mesmo e aos outros apenas como sombras na parede à frente. Sua sabedoria, então, consistiria em predizer aquela sucessão de sombras apreendida na experiência. Ao contrário, apenas as imagens arquetípicas reais daquelas sombras, as Idéias eternas, formas arquetípicas de todas as coisas, é que podem ser ditas verdadeiras, pois elas SEMPRE SÃO, MAS NUNCA VÊM-A-SER.[Aqui parou Kant] A elas não convém PLURALIDADE, pois cada uma, conforme sua essência, é una, já que é a imagem arquetípica mesma, cujas cópias ou sombras são as coisas efêmeras isoladas da mesma espécie e de igual nome.”
“Platão não chegou a essa expressão superior e só indiretamente pôde isentar as Idéias dessas formas, na medida em que nega às Idéias o que só é possível por elas, a saber, pluralidade do igual, nascer e perecer.”
“só a Idéia é a mais ADEQUADA OBJETIDADE possível da Vontade ou coisa-em-si; é a própria coisa-em-si, apenas sob a forma da representação” Interpretação platônica desautorizada!
“O tempo é meramente a visão esparsa e fragmentada que um ser individual tem das Idéias, as quais estão fora do tempo,[Como representação? Por isso o grifo verde acima em ‘sob a forma’!] portanto são ETERNAS.” Acaba de contradizer o precedente. Se ao menos aqui fosse IDÉIA, e à p. 242 (página da citação anterior) IDÉIAS, no plural, poderíamos ceder a palmatória a Sch…. O problema é que o autor inverteu os termos. A representação nunca é Una. E o que está fora do tempo é sempre, no autor, o Um, “a” Vontade.
“Antes, muitos dos exemplos platônicos de Idéia e as elucidações de Platão sobre as mesmas são aplicáveis apenas aos conceitos.”
PLATÃO, O INFINITO: “Não podemos admitir que uma obra artística seja intencional e deliberadamente a expressão de um conceito, como é o caso da ALEGORIA. Uma alegoria é uma obra de arte que significa algo outro que o exposto nela.” “Com a POESIA, a alegoria tem uma relação completamente diferente do que com a arte plástica. Se nesta é repreensível, naquela é admissível (…) aqui o que é dado imediatamente em palavras é o conceito, e o próximo passo é sempre ir deste ao intuitivo, cuja exposição tem de ser executada pela fantasia do ouvinte.”
“Visto que, como já dito, toda esta obra é apenas o desdobramento de um pensamento único (…) é requerida a lembrança do leitor não apenas de coisas há pouco ditas, como também das precedentes, para assim poder conectá-las com o lido a todo momento, por mais que já tenha sido dito de outro modo. Exigência esta também feita por Platão aos seus leitores nas digressões complexas e tortuosas de seus diálogos, os quais só depois de longos episódios retomam o pensamento principal; contudo, exatamente por isso, o pensamento se torna mais claro.” “Daqui a necessidade de um estudo repetido do livro, unicamente por meio do qual a conexão de todas as suas partes se torna distinta” Ok, Sch., não precisa dizer de novo!
“Nunca houve, nem nunca haverá, um mito tão intimamente ligado à verdade filosófica, no entanto acessível a tão poucos, quanto esta doutrina ancestral[a transmigração das almas] do povo mais nobre e antigo (…) no entanto, já Pitágoras e Platão apreenderam com admiração aquele non plus ultra da exposição mítica, adquirida da Índia, ou do Egito, e a respeitaram, aplicaram-na e, embora não saibamos em que extensão, até mesmo nela acreditaram. – Nós, por outro lado, agora a enviamos aos brames, [?] clergymen ingleses e tecelões da confraria morávia, [??] a fim de por compaixão doutriná-los melhor, fazendo-lhes entender [na seqüência, i.e., em separado à doutrina da transmigração tentar catequizar os outros, supondo que o cristianismo é melhor ou superior] que foram criados do nada e devem agradecer e alegrar-se com isso.” HAHAHA!
[?] O mesmo que brâmane no português de Portugal. Porém, neste caso, seria um reenvio, já que a doutrina veio de lá (da Índia, da Ásia)!
[??] A Morávia é atualmente uma região da República Tcheca. No geral, essas aspas são complicadas de entender, provavelmente devido à tradução ruim.
“Platão encetou pela geometria. [Ele começou a vida com outros estudos prévios à filosofia, e entendeu que seus discípulos, ou os filósofos d’A República, também o deveriam, para não cometer o tipo de erro metafísico dos jovens…] Da mesma maneira, somos incitados a tomar a geometria, em Platão, como um exercício preliminar através do qual a mente do pupilo se acostumará a lidar com objetos incorpóreos, tendo até ali, em sua vida prática, travado relações somente com coisas corpóreas.” Porém, círculos imaginados ou desenhos no papel tem muito mais a ver com rodas e távolas perfeitamente redondas que com a Idéia do círculo.
“A Idéia de Platão é o pináculo: pura representação, zero vontade. (…) Sendo assim, em Platão, o gênio poderia ser definido como o mais alto grau deobjetividade do conhecimento.” Terrível salada! A Idéia de Platão já encerra a consideração do subjacente no mundo das aparências, portanto é um conceito-mestre entre os conceitos que já espelha a resolução nietzschiana da metafísica ocidental, em seu portentoso início antigo. Apenas no século XX, mas lentamente, num processo ascendente ainda não-finalizado, os filósofos começaram a compreender Platão em toda a sua magnitude ontológica. Além disso, na frase em negrito Sch. contraria tudo que dissera até então sobre a Idéia de Platão. As Idéias são tudo, menos representação! Quanto à tipificação do gênio como aquele que dominou a objetividade, a razão em detrimento da vontade, temos os maiores motivos para inverter a equação: o gênio é aquele que coloca as rédeas da razão nas mãos da Vontade, como na metáfora já utilizada mais acima. Mas são acima de tudo um debate e uma dicotomia tolas: se o gênio se funde com o universo no momento da criação da obra-prima, ele só está sendo ele mesmo – e ele é o universo – ou o universo está sendo ele? Irrelevante jogo de palavras. Mas observador imparcial ele não é, e se Sch. usa o termo objetividade nesse sentido mais bem-compreendido por nós na filosofia e no mundo técnico-acadêmico, digamos que é um uso bastante infeliz do termo, onde subjetividade caberia mil vezes melhor. De todo modo, o artista e o filósofo – há, não por acidente, uma completa identidade neste aspecto – não são aqueles capazes de verem a Verdade, mas de sê-la ou produzi-la. A visão está ligada à contemplação passiva, ao objeto; o ser e produzir à atividade, ao sujeito.
5. O ANTI-ARISTÓTELES: CONSEQÜÊNCIA DA HIPER-VALORIZAÇÃO ARISTOTÉLICA PROMOVIDA PELO(A) HEGELIANISMO/ESCOLÁSTICA: O Aristotelismo deve ser superado
“a forma substantialis de Aristóteles designa exatamente Aquilo que aqui nomeio o grau de objetivação da Vontade em uma coisa.” Ou seja: substância em Aristóteles e Idéia em Platão são – PARA SCHOPENHAUER – um e o mesmo.
“o horror íntimo do malvado em relação aos seus próprios atos, o qual ele tenta ocultar de si, contém ao mesmo tempo, junto ao pressentimento da nulidade e mera aparência do principium individuationis[esta terminologia é aristotélica: é um ataque direto a sua filosofia] e da diferença por este posta entre si e outrem, também o conhecimento da veemência da própria vontade, da violência com a qual se entregou e apegou à vida, precisamente esta vida observada diante de si em seu lado terrível no tormento provocado em alguém por ele oprimido, e com quem, entretanto, é tão firmemente enlaçado que, exatamente dessa forma, o que há de mais horrível sai de si mesmo como um meio para a afirmação completa da sua vontade.” “Eis por que coisas que aconteceram há muito tempo ainda continuam a pesar na consciência.” “o mau (…) [v]ê a extensão em que pertence ao mundo e quão firmemente está ligado a ele.” “Fica em aberto se isto alguma vez irá quebrar e suplantar a veemência de sua vontade.” “quem reconhece e aceita voluntariamente o limite moral entre o injusto e o justo, mesmo ali onde o Estado ou outro poder não se imponha, quem, conseqüentemente, de acordo com a nossa explanação, jamais, na afirmação da própria vontade, vai até a negação da vontade que se expõe em outro indivíduo – é JUSTO.” “vê através do Véu de Maia [além do princípio de individuação] e iguala a si o ser que lhe é exterior, sem injuriá-lo.”
Quase insiro estas passagens no capítulo sobre ética, mas me contive.
“O que há de mais proveitoso em Aristóteles são as opiniões dos filósofos mais arcaicos, que ele cita. (…) Aristóteles (…) fiel a seu método costumeiro, desliza pela superfície das coisas, confina-se a características isoladas e concepções fixadas por expressões correntes [a-filosóficas, vulgares]e afirma que sem sensação não pode haver desejo, e que plantas não possuem sensação. Ele se põe, entretanto, em considerável embaraço, como demonstra sua linguagem confusa, quando ele mesmo afirma: <ali onde falha a compreensão, uma palavra toma o lugar como deputada de tudo que ela quer dizer>, isto é, vira uma nutriz do saber. Plantas o possuiriam, segundo o autor, então fariam jus ao que se chama de alma. (…) [Esse termo, saber,] é, portanto, um mau substituto para toda a investigação realmente profunda de seus antecessores, que ele não perde tempo em criticar de forma rasteira (Empédocles, Anaxágoras, Platão).”
DA BOTÂNICA AOS ASTROS: “Vemos ainda, no segundo capítulo [do livro Das Plantas], que Empédocles chegou mesmo a reconhecer a [bis]sexualidade das plantas; o que Aristóteles também rejeita, e oculta sua falta de conhecimento específico atrás de proposições gerais, como essa: as plantas não poderiam ter ambos os sexos combinados, pois isso significaria que elas são mais completas que os animais.Por um procedimento praticamente análogo ele rejeita o correto sistema astronômico de Pitágoras, e graças a seus absurdos princípios fundamentais, que Aristóteles expõe detalhadamente nos seus livros intitulados Do céu, valida no seu lugar o sistema de Ptolomeu, procedimento que fez a humanidade retroagir em 2 mil anos. [!]” Pitágoras havia de fato formulado um sistema heliocêntrico? A resposta, conforme a Wikipédia, abaixo, é: mais que heliocêntrico – de alguma forma, Filolau, pitagórico (a fonte é Estobeu), intuiu que o sistema solar não representava o centro do universo! Segue minha tradução dos trechos relevantes da enciclopédia pública em sua página inglesa: “Um sistema astronômico posicionando a Terra, a Lua, o Sol e outros planetas revolvendo ao redor de um <Fogo Central> invisível foi desenvolvido já no quinto século antes de Cristo e fôra atribuído ao filósofo pitagórico Filolau. O sistema foi chamado de <o primeiro coerente em que corpos celestiais se movem em círculos>, antecipando Copérnico em 2 mil anos ao deslocar <a Terra do centro do cosmo, (e) fazendo dela um planeta como os outros>. Embora seus conceitos de um Fogo Centraldistinto do Sol e de uma <Anti-Terra>¹ fossem errôneos, o sistema continha o insight de que <o movimento aparente dos corpos celestes> se dava (em grande medida) devido ao <próprio observador encontrar-se em movimento>.”
¹ Conhecida invenção teórica dos pitagóricos para que o sistema solar conhecido, contando com a Terra, a lua e o sol, apresentasse 10 e não 9 corpos celestes, sendo o 10 um número <divino> no pitagorismo.
“Quanto a Aristóteles de forma geral, gostaria de chamar a atenção ao fato de que seus ensinamentos, enquanto referentes à natureza não-organizada, são muito deficitários e hoje inutilizáveis, tanto mais que, nas concepções mecânicas e físicas fundamentais ele admite os erros mais grosseiros, o que é tanto menos perdoável quanto, antes dele, os pitagóricos e Empédocles já haviam ensinado, na matéria, o caminho das pedras, chegando a conhecimentos superiores.¹ Empédocles, como lemos no próprio Aristóteles, Do céu, 2º livro, capítulo I, p. 284, já havia exprimido a concepção de uma força tangencial decorrente da rotação da Terra, servindo de contraparte à gravidade, o que Aristóteles cita, porém rejeita. Quanto à investigação aristotélica da natureza organizada, entretanto, podemos dizer que esse é seu campo por excelência. Aqui, a riqueza de seu conhecimento, a agudeza de suas observações, a profundidade de seus insights, nos assombram.”Aristóteles, o Biólogo Vocacionado.
¹ Isto representa uma grande rocha demolidora de toda a exegese hegeliana na História da Filosofia, muito calcada no aristotelismo, inclusive na Física aristotélica. E não devemos nos esquecer, ainda que Schopenhauer não o cite, de Epicuro, que interpretou os pré-socráticos (principalmente os atomistas) no sentido correto, evitando os enganos de Aristóteles neste setor de sua filosofia.
6. POR QUE SCHOPENHAUER E NIETZSCHE ESTÃO, ESSENCIALMENTE, EM PÓLOS OPOSTOS NA FILOSOFIA – E NÃO O CONTRÁRIO – MESMO QUE AQUELE SEJA O PRINCIPAL PRECURSOR DESTE
“A Vontade é, pois, livre de toda PLURALIDADE, apesar de seus fenômenos no espaço e no tempo serem inumeráveis.” A vontade de potência, em Nietzsche, é múltipla e autocontraditória, jamais unitária. Um homem que cavou tão fundo só não viu que um jogo não é jogado com apenas peças brancas, ou com apenas peças pretas, sem adversário e nada mais. O jogo do universo exige vários jogadores, vontades colidindo, competindo para ver qual vai mais longe e perdura mais na humanidade.
O QUANTIFICADOR DO NADA: “Se a coisa-em-si, como acredito ter demonstrado de modo claro e suficiente, é a VONTADE, então esta, considerada nela mesma e apartada de seu fenômeno, permanece exterior ao tempo e ao espaço; por conseguinte não conhece pluralidade alguma, portanto é UNA [só porque está-se tratando da Vontade enquanto coisa-em-si, o que ela não é]. Mas, como já disse, uma não no sentido de que um indivíduo ou um conceito é uno, mas como algo alheio àquilo que possibilita a pluralidade, o principium individuationis.” Se acrescentasse que é autocontraditória, não obstante, até poderíamos aceitá-la como a versão definitiva da vontade. “Por conseqüência, a pluralidade das coisas no espaço e no tempo, que em conjunto são uma OBJETIDADE, não lhe concerne, e ela, apesar dessa pluralidade, permanece indivisa.” Desnecessário dizer que, em Nietzsche, a Vontade é a verdadeira encarnação de “objetividade”, inapurável diretamente pelo ser humano (como as Idéias de Platão).
“Assim, em toda parte na natureza vemos conflito, luta e alternância da vitória, e aí reconhecemos com distinção a discórdia essencial da Vontade consigo mesma. [autocontraditória – CHECK – Will leveled up!] Cada grau de objetivação da Vontade combate com outros por matéria, espaço e tempo. Constantemente o que subsiste tem de mudar de forma, na medida em que, pelo fio condutor da causalidade, fenômenos mecânicos, químicos, orgânicos anseiam avidamente por entrar em cena e assim arrebatam uns aos outros a matéria, pois cada um quer manifestara própria Idéia.¹ Esse conflito pode ser observado em toda a natureza.”
¹ Na medida em que Sch. emprega o verbo “manifestar”, ou seja “evidenciar”, ou seja representar, para sua concepção de Idéia (que por colocar em letra maiúscula deve equiparar à platônica, o que como já bem-mostrado é exatamente seu oposto, uma ANTI-IDÉIA), além de depois comentar que o “conflito pode ser observado” na natureza, ele fala aqui da Vontade aplicada ao reino dos sentidos, da sua Representação (PARTES 1&3 do TOMO 1). Ou ele interpreta mal a Idéia de Platão, no que não acredito neste contexto, ou o sentido da frase seria: manifestar o imanifestável (o que se esconde por trás do fenômeno). Obviamente, uma vez que a Idéia seja aplicada ao reino das aparências, não são mais as Idéias platônicas aquilo de que se fala. Essa nota de rodapé se justifica devido à péssima escolha de título para a tradução inglesa dos TOMOS 2&3, “WILL & IDEA”, que, obviamente, eu retifiquei em todos os momentos para “WILL & REPRESENTATION”, que é o que quis dizer o tradutor atrapalhado. “Manifestar a própria representação” seria contraditório no trecho acima, e não partiria da boca de Schopenhauer (felizmente é um trecho em português). O que pode confundir o leitor é que a noção de manifestar algo oculto foi conjugada com a observação direta dos fenômenos naturais, logo à frase seguinte! Mas quando assim aparecesse na versão inglesa (to manifest the representation itself) significaria que Sch. sem dúvida quisera denominar o fenômeno, e não a Vontade. Se o tradutor quisesse manter algum tipo de fidelidade simétrica e ao mesmo tempo o trambolho-palavra IDEA, deveria ter pensado em “World as IDEA & REPRESENTATION”. Representação fenomênica não poderia em caso algum ter ficado de fora do título desta obra que é, essencialmente, bipartida (torna-se quadripartida por uma espécie de chacota schopenhaueriana misturada com homenagem a Kant). Para fechar o raciocínio: supondo que Sch. se expressa corretamente no original e que o tradutor inglês quisesse efetuar ‘o melhor trabalho’, como Jair o fez pelo menos nesse trecho, podemos admitir ainda que “quer manifestar” não é o mesmo que “manifestar”, e aí sim usar “(platonic) Idea”, algo que os múltiplos fenômenos gostariam de manifestar embora não possam (would wish/aim/long/yearn/crave/urge to manifest its own Will/Idea).
“No fundo, tudo isso se assenta no fato de a Vontade ter de devorar a si mesma, já que nada existe de exterior a ela, e ela é uma Vontade faminta. Daí a caça, a angústia, o sofrimento.” “Cada vontade é vontade de alguma coisa. Tem um objeto, um fim de seu querer.”
Por diversos momentos Schopenhauer parece poder desembocar numa filosofia que seria perfeitamente precursora do nietzschianismo, da transvaloração de todos os valores, do enunciado de um Übermensch, da morte de Deus ou de um eterno retorno, porém, na prática, Schopenhauer sempre retroage dessa ousadia teórica e recai no que podemos chamar, da ótica de Nietzsche, de um niilismo passivo, conforme fica claro no título sobre a relação de Schopenhauer com o cristianismo e o próprio budismo. Nietzsche soube utilizar os elementos vanguardistas de Sch. e seperar o joio do trigo em sua filosofia, i.e., evitar o caráter reacionário da falta de vontade de viver, problema do agravamento do niilismo cultural que Sch. tão engenhosamente nos revelou, mas ao qual não deu uma resposta positiva e fenomênica. Podemos dizer que o conceito schopenhaueriano de vontade é estático; em Nie. ele é dinâmico.
“a translação dos planetas, a obliqüidade da elíptica, a rotação da terra, a separação entre terra firme e oceanos, a atmosfera, a luz, o calor e todos os fenômenos semelhantes, que na natureza são aquilo que o baixo fundamental é na harmonia, acomodam-se plenos de pressentimento à geração futura de seres vivos, dos quais serão o sustentáculo mantenedor. Do mesmo modo, o solo se adapta à alimentação das plantas, estas à alimentação dos animais, estes à alimentação dos predadores, e todos estes àquele primeiro.” Inconciliável: Vontade UNA / Idéias MÚLTIPLAS. Inconciliável dum ponto de vista lógico, anyway… Chutando para o espaço sideral o princípio de não-contradição, tudo isto é lícito, legítimo, coerente, irretocável.
“O autoconhecimento da Vontade e, daí, a sua decidida afirmação ou negação é o único evento em si.” Parágrafo 35 in a nutshell: #EternoRetorno #Nietzsche; e depois retrocesso a #Camus. Nem infinito, nem retorno, nem negação: só afirmação-nova-no-tempo.
“Resta apenas o mundo como representação; o mundo como Vontade desapareceu.”Resumo do objetivo de Sch. no livro 3.
“Vontade livre”O alvo de ataque do Nietzsche maduro – porém, não se pode chamar a Vontade não-livre deste de “ressurreição” do imperativo categórico. Até porque não é universal nem voluntária: faz parte do caráter de poucos escolhidos, que não podem ser auto-escolhidos. Uma casta-diretriz dos valores da humanidade, os avaliadores de valores. Dizer que a vontade é livre para devorar a si mesma é negar que ela tenha outra escolha ou que a parte devorada da vontade (no final, sempre a vontade como um todo) seja parte desse mesmo destino de uma vontade una.
“Que a Vontade enquanto tal seja LIVRE segue-se naturalmente de nossa visão, que a considera como a coisa-em-si, o conteúdo de qualquer fenômeno.” Novamente, é correto, do ponto de vista schopenhaueriano, pois para ele a Vontade = COISA-EM-SI (1.1).
“A necessidade do agir individual foi suficientemente demonstrada por Priestley em sua Doctrine of philosophical necessity. Foi Kant, todavia, cujo mérito a este respeito é em especial magnânimo, o primeiro a demonstrar a coexistência dessa necessidade com a liberdade da Vontade-em-si (…) estabelecendo a diferença entre caráter inteligível e empírico, a qual conservo por inteiro,¹ conquanto o primeiro é a Vontade como coisa-em-si a manifestar-se em fenômenos num determinado indivíduo e num determinado grau, [neste caso o nome ‘caráter inteligível’ está pessimamente auferido – melhor seria dizer caráter metafísico ou, respeitando a própria nomenclatura do autor, caráter-em-si] já o segundo é este fenômeno mesmo tal qual ele se expõe no modo de ação segundo o tempo,¹ e já na corporização segundo o espaço. A fim de tornar mais clara a relação entre ambos, a melhor expressão a ser empregada é aquela presente no meu ensaio introdutório sobre o princípio de razão, ou seja, que o caráter inteligível de cada homem deve ser considerado como um ato extratemporal, [?] indivisível e imutável da Vontade,² cujo fenômeno, desenvolvido e espraiado em tempo, espaço e em todas as formas do princípio de razão, é o caráter empírico como este se expõe conforme a experiência, vale dizer, no modo de ação e no decurso de vida do homem.”
¹ Eis a procurada refutação de que as Vontades de Nie. e Sch. sejam sinonímias, in loco.
² Esse remendo só é necessário ao sistema schopenhaueriano porque ele não abria mão de uma Vontade una, ao invés de múltiplas Vontades em eterno conflito. Não existe unidade na natureza, apenas a aparência conceitual de tal (i.e., a palavra fenômeno quando aplicada a todo fenômeno ao mesmo tempo).
“O mito aqui aludido é o da transmigração das almas. Ele ensina que todos os sofrimentos infligidos em vida pelo homem a outros seres têm de ser expiados numa vida posterior neste mundo e precisamente pelos mesmos sofrimentos. [ou em outros mundos renascidos após a destruição do atual, como prega o budismo] Tal ensinamento vai tão longe que quem apenas mata um animal nascerá no tempo infinito exatamente como este animal, sofrendo a mesma morte.” Esse quadro é muito mais horripilante que o eterno retorno da sua própria vida, Sch. – como conciliar tal contradição?
“BOM (…) BELO e VERDADEIRO (…) Dentre as pessoas familiarizadas com os escritos de nossos tempos, quem não se enfastiou com aquelas 3 palavras, por mais que elas apontem coisas originariamente admiráveis? Quem não se enfastiou após ver milhares de vezes como os mais incapazes de pensamento acreditam, com boca escancarada e ares de bronco inspirado, poder apenas com a pronúncia das mencionadas palavras transmitir grande sabedoria?” “tudo o que é favorável à Vontade em alguma de suas exteriorizações e satisfaz seus fins é pensado pelo conceito BOM, por mais diferentes que essas coisas possam ser noutros aspectos. (…) tudo o que é exatamente como queremos que seja.” “felicidade (…) como sendo idêntica ou conseqüência da virtude, e isso sempre de maneira sofística (…) Ao contrário, em (…) nossa consideração, a essência íntima da virtude resultará de um esforço em direção totalmente oposta à da felicidade, ou seja, oposta à direção do bem-estar e da vida.” Estes trechos estão nesta seção porque cremos que, quando Schopenhauer se põe como adversário do cristianismo (o que ele não faz senão de modo hesitante), pode muito bem ser considerado o verdadeiro precursor de livros póstumos como O Anticristo e Muito Além do Bem e do Mal. Aliás, às vezes penso que, em contundência, e até por ter vindo primeiro, Sch. paradoxalmente aparece como o maior dentre os detratores do cristianismo. Hoje mesmo, 4/7/22, lia o personagem canastrão Fomá Fomitch, de A aldeia de Stepantchikovo de Dostoievski, declarar, em capítulos sucessivos, 1º que a virtude é o mesmo que a felicidade, para logo no seguinte, bufão que é, em 2º, dizer que a virtude é o contrário da felicidade, e que por isso se comprazeria em sofrer virtuosamente. Ao contrário de um asceta ou do próprio Sch., entretanto, este personagem dostoievskiano é incapaz de viver sem os luxos da vida nobre um dia sequer.
“O BOM (sic) ABSOLUTO é uma contradição.” Reitera-se: o núcleo nietzschiano já estava bem-preparado. 1. Não há absoluto; 2. A existência do bem exige que ele seja relativo a um mal. Ambos os conceitos são relativos, posto que criados, convencionados.
“o homem bom de modo algum deve ser considerado como um fenômeno da Vontade originariamente mais fraco em comparação ao homem mau.” Comentário nitidamente antitético com tomos anteriores. Porque aqui Sch. parece duvidar de si mesmo, enquanto que Nietzsche diria isso de peito aberto e muito mais convicção. Em Nietzsche, o mau, o pior, o terrível – no sentido não-depreciativo – é aquilo que tem força para transformar a si mesmo em parâmetro ou valor dos valores do que é bom e excelente. Daí a controvérsia sobre o sentido de sua vontade de poder, que é entendida por leitores incautos como alguma espécie de apologia à supremacia do mais forte, como alguma defesa do caos da natureza puro e simples ou do emprego da força bruta, em forma física ou na forma ampliada e estatal (política), o que não passa de mau uso da palavra “forte” em Nie., alguém claramente anti-darwinista e anti-Estado, antifascista avant la lettre.
O ANTI-HEGEL, O PRÉ-NIETZSCHE:“essa doutrina tão repetida de que o homem caminha progressivamente para um nível de perfeição cada vez maior, ou qualquer fé que deposita no devir o processo de desenvolvimento mundial, está em completa oposição ao conhecimento a priori de que em qualquer ponto do tempo um tempo infinito já correu, e, em conseqüência, de que tudo aquilo que deveria advir com o tempo já deve necessariamente ter existido; dessa forma abre-se uma lista interminável das contradições de assunções dogmáticas sobre a realidade dada das coisas. Por outro lado, devo veementemente recusar que qualquer doutrina de minha filosofia poderia ser adicionada a essa mesma lista, porque cada uma de minhas premissas foi pensada em presença da realidade perceptível, e nenhum pensamento importante meu tem sua raiz puramente em abstrações conceituais. Há, ainda, na minha filosofia, um pensamento fundamental aplicado a todos os fenômenos do mundo como chave; [fala da descoberta da invisível Vontade] mas esse raciocínio se prova o alfabeto correto mediante o qual todos os mundos e sentenças adquirem sentido e significado.[!] (…) Sendo assim, até agora minha filosofia é como uma soma que produz o resultado absolutamente esperado, porém não no sentido de que ela soluciona todos os problemas ou responde todas as perguntas. Afirmar qualquer coisa do gênero seria uma negação presunçosa dos limites do conhecimento humano em geral. Qualquer que seja a tocha que conduzamos à frente, e qualquer que seja o terreno iluminado por ela, nosso horizonte sempre remanescerá envolto em profunda noite. A solução definitiva do enigma do mundo está necessariamente ligada às coisas-em-si-mesmas, jamais aos fenômenos.”
“O conhecimento condicionado deve repousar na fundação de toda obra de arte genuína. A mudança objetiva requerida para isso não pode proceder da vontade, justamente por tal mudança consistir na eliminação de todas as volições; a arte não pode ser ato da vontade, i.e., não pode repousar em nossa escolha.” Mas é justamente a liberdade (do intelecto) que pressuporia a negação da Vontade; o artista é o oposto da figura que Sch. descreve: um hiper-concentrador de Vontade! Significa que Schopenhauer erra duplamente no aforismo: 1) não é o intelecto o mecanismo que explica o dom (irracional); 2) ainda que o fosse, ele implicaria que o artista poderia escolher seus meios, sua forma de expressão da obra de arte, e Sch. termina a passagem contradizendo-se! Em suma, é verdade que nada disso depende de nossa escolha, mas isso depõe a favor da Vontade como protagonista do processo artístico. Como Nietzsche é muito insistente nesse ponto (o que eu defendi, contra Sch.), incluí estas aspas aqui, mas há comentários mais extensos na seção 12.5.
“Não há contraste maior do que aquele entre o incessante devir do tempo, que leva todos os conteúdos consigo, e a rígida imobilidade do que é atual e presente, o que em todos os tempos é um e o mesmo. Se desse ponto de vista observamos os eventos da vida, i.e., de um ponto de vista puramente objetivo, o Nunc stans[eternidade] se torna claro e visível para nós no centro da roda do tempo. Aos olhos de um ser de vida incomparavelmente mais longa, que de um só vistaço compreendesse a raça humana em todo seu percurso, incluindo a alternação constante de nascimento e morte, nossa existência assemelhar-se-ia a uma vibração contínua. Não ocorreria a este ser interpretar nossa condição como o emergir de algo novo ou o retorno ao nada em momento algum. Assim como para nós a faísca revolvendo em círculo em alta velocidade parece um círculo contínuo, para os olhos desta criatura privilegiada em relação a nós a morte e a vida como um todo não apareceriam como mais do que vibrações daquilo que tem um Ser e permanência indiscutíveis.”
“Aquele que refletir que até o agora, quando se existe, um tempo infinito já decorreu, e com ele uma infinidade de mudanças, reconhecerá sua existência como uma necessidade. Toda a extensão dos estados possíveis já se exauriu sem que com isso a existência tivesse logrado a autodestruição. Se fosse possível que o indivíduo não fosse, ele já não seria agora. A infinitude do tempo já decorrido, com a exaustão das possibilidades de eventos dela decorrente, garante que o que existe deve existir.” Veraz a acusação de Wagner de que Nietzsche apenas reproduzia Schopenhauer em seus livros mais polêmicos? [1/3] – Gaia é mais forte que bombas de hidrogênio: uma espécie de paradoxo do avô se instala no presente: no futuro ninguém apertará o botão vermelho.
“Mas o grande equívoco reside de fato na palavra eu” “Mas o ‘eu’ é um ponto escuro na consciência, como na retina o ponto exato em que o nervo da visão entra é cego, como o próprio cérebro, que concede ao corpo a faculdade da sensação, é inteiramente desprovido de sensação, como o corpo do sol é negro, e como o olho tudo vê, exceto a si mesmo.” [2/3] Tudo isso também foi repetido e ruminado por Nietzsche.
“Porém, o seguinte aspecto deve ainda ser levado em consideração: a individualidade da imensa maioria dos homens é tão miserável e destituída de valor que com sua perda o sujeito em questão na verdade nada perde. Só naqueles em que ainda pode residir algum valor está o elemento humano universal”Imensa maioria dos homens:substrato do último homem, eterno como qualquer Um. Aqueles em que ainda pode residir algum valor: substrato do além-homem nietzschiano. [3/3!]
“a mais excitante das questões metafísicas. Começo, fim e continuação são concepções que derivam simples e tão-somente do tempo, e são válidas, portanto, exclusivamente com ele em vista. Mas o tempo não tem uma existência absoluta; não é o modo de dizer da coisa-em-si, mas meramente o modo de nosso conhecimento de nossa existência e natureza, conhecimento que é aliás um tanto imperfeito e limitado aos fenômenos. Uma resposta às perguntas nascidas das nossas concepções do tempo é impossível,¹ e toda asserção nesse sentido, num ou noutro sentido, está sempre aberta a objeções convincentes.” “Tudo isso apenas quer dizer: o problema é transcendente. A morte permanece um mistério.”
¹ O que invalida qualquer possibilidade de conclusão do projeto heideggeriano de Ser e Tempo: livro que, não à toa, Heidegger jamais veio a terminar. Provavelmente porque soubesse que qualquer continuação dos dois primeiros volumes estaria aquém do projeto inicialmente traçado, que era ter essa visão ‘extra-humana’ do tempo para assim compreender o sentido do ser.
“O sujeito atua na vida como executando um serviço compulsório que lhe cabe. Mas quem contraiu a dívida? – Seu progenitor, na fruição dos prazeres sensuais. Logo, porque um aproveitou, o outro deve viver, sofrer e morrer. (…) Mas minha filosofia é a única que confere à ética seus direitos totais; porque só se a verdadeira natureza do homem é sua própria vontade, e conseqüentemente ele é, no sentido mais estrito, sua própria obra, suas dívidas ou faltas pertencem de fato e inteiramente a ele próprio e devem ser pagas por ele mesmo e não por outrem. Sempre que o homem tem uma outra origem, que é obra de seres diferentes dele mesmo, [nas outras filosofias e religiões] sua culpa volta à origem.” É importante assinalar esse parágrafo nesta seção porque a tomada de responsabilidade do indivíduo pela própria vida e existência é o imperativo ético essencial implicado no eterno retorno. E o único imperativo ético que pode dar certo é anticristão, pois não temos culpa de nada; Adão não tem culpa de nada; a existência não tem culpa de nada.
“Dessa forma, o problema discutido na época socrática é agora, pela 1ª vez, finalmente resolvido, e a demanda por pensar a razão enquanto moral é satisfeita.” “Minha doutrina atinge esse limite na vontade de vida, que em sua própria manifestação afirma ou nega a si mesma. (…) Devemos interromper nossa reflexão aqui” Nietzsche seguiu todos os passos de Schopenhauer, mas não parou ou se interrompeu ‘aqui’.
“Um homem, ao fim de sua vida, se fosse igualmente sincero e clarividente, talvez jamais a desejasse de novo, porém, antes, preferiria a total não-existência. O conteúdo essencial do célebre monólogo em Hamlet, quando resumido, é este: nossa condição é tão miserável que o decididamente preferível seria a completa não-existência.¹ Se o suicídio efetivamente nos oferecesse esta última, de tal modo que a alternativa ‘ser ou não ser’ fosse posta no sentido pleno da palavra, então aquele seria incondicionalmente escolhido como um desenlace altamente desejável (a consumation devoutly to be wish’d). No entanto, algo em nós diz que não é bem assim”
¹ Formulação do odium fati.Mas não é essa a questão: o passado não é aniquilado. O cadáver de Hamlet não quer ter vergonhas nem arrependimentos…
7. DESPROPÓSITO DA VIDA HUMANA CONSCIENTE: A EXISTÊNCIA É SÓ UM SONHO
“Eis por que de bom grado nunca ficam sozinhos com a natureza; precisam de sociedade, ao menos de um livro. Seu conhecer permanece servil à Vontade. Procuram, por conseguinte, só por aqueles objetos que têm alguma relação com o seu querer e, de tudo que não possua uma tal relação, ecoa em seu interior, semelhante a um baixo fundamental, um repetitivo e inconsolável ‘de nada serve’. Assim, na solidão, até mesmo a mais bela cercania assume para eles um aspecto desolado, cinza, estranho, hostil.”
“a supressão do caráter da espécie mediante o caráter do indivíduo é caricatura, e a supressão do caráter individual mediante o caráter da espécie é ausência de significação.”
“Esses indivíduos que aparecem sucessivamente estão por inteiro sozinhos, visto que a massa e a multidão da posteridade sempre será e permanecerá tão perversa e obtusa quanto a massa e a multidão de todos os tempos. – Que se leiam os lamentos dos grandes espíritos em todos os séculos sobre os seus contemporâneos: soam sem exceção como hoje, porque o gênero humano sempre foi o mesmo.”
“Dom Quixote (…) alegorizava a vida de um homem que, diferentemente dos demais, não tem em vista apenas cuidar do próprio bem-estar mas persegue um fim objetivo, ideal, que se apossou de seu pensamento e querer, com o que se sente, obviamente, isolado neste mundo.”
“Hamlet, a quem Horácio gostaria de seguir voluntariamente; porém, aquele pede que permaneça e respire por mais algum tempo neste ingrato mundo de dores, a fim de esclarecer o destino de Hamlet e zelar por sua memória.” “A palavra final no Maomé de Voltaire expressa isso literalmente, quando a agonizante Palmira diz a Maomé: ‘O mundo é para tiranos, vive!’”
“as críticas obtusas (…) que o Dr. Samuel Johnson dirige a peças isoladas de Shakespeare, censurando a sua licenciosidade: qual fato levou as Ofélias, as Desdêmonas, as Cordélias a serem culpáveis? – Só a visão de mundo rasa, otimista, racional-protestante, ou, melhor dizendo, judaica, fará a exigência de justiça poética para, com a satisfação desta, encontrar a sua própria. O sentido verdadeiro da tragédia reside na profunda intelecção de que os heróis não expiam os seus pecados individuais, mas o pecado original, i.e., a culpa da existência mesma”
ADEUS, QUERIDO COCÔ (ESCREVI-O COM (C)ALMA)! “Ora, assim como estamos a todo momento contentes em conservar a forma, sem lamentar a matéria perdida, também temos de nos comportar do mesmo modo quando na morte ocorre o mesmo, porém numa potência mais elevada” “Do mesmo modo que somos indiferentes num caso, não devemos tremer no outro.” “parece tão tolo embalsamar cadáveres como o seria conservar nossos excrementos.”
“Naturalmente, se pensarmos retrospectivamente nos milênios transcorridos, nos milhões de pessoas que neles viveram, perguntaremos: que foram elas? Que se fez delas? Por outro lado, precisamos só evocar o passado de nossas vidas e vìvidamente renovar suas cenas na fantasia para de novo perguntar: que foi tudo isso? Que foi feito deles? Como no caso de nossa vida, assim também no caso da vida daqueles muitos milhões. Ou deveríamos supor que o passado alcançou uma nova existência ao receber o selo da morte? Nosso próprio passado, inclusive o dia mais recente e o anterior, é tão-somente um sonho nulo da fantasia; o mesmo é o passado de todos aqueles milhões. Que foi? Que é? A Vontade, cujo espelho é a vida, e o conhecer destituído de volição, que mira claramente a Vontade nesse espelho. Quem ainda não reconheceu isso ou não o quer reconhecer pode acrescentar à questão anterior, sobre o destino das gerações passadas, ainda esta: Por que precisamente ele, o questionador, é tão feliz em possuir este tempo presente precioso e fugidio, único real, enquanto aquelas centenas de gerações de homens, sim, os heróis e os sábios daqueles tempos, naufragaram na noite do passado e assim se tornaram nada, enquanto ele, seu insignificante eu, existe realmente? Ou, de maneira mais sucinta, embora estranha: Por que este agora, seu agora, é precisamente agora, e não FOI há muito tempo?”
“quem está satisfeito com a vida como ela é, quem a afirma em todas as suas maneiras, pode confiantemente considerá-la como sem fim e banir o medo da morte como uma ilusão a infundir-lhe o tolo temor de que poderia ser despojado do presente, ludibriando-o sobre um tempo destituído de presente, parecido com aquela ilusão relativa ao espaço, em virtude da qual alguém fantasia a exata posição ocupada por si no globo terrestre como a de cima, e as restantes como a de baixo.” “temer a morte porque ela nos arrebata o presente não é mais sábio do que temer deslizar para baixo no globo terrestre redondo, a partir do topo, onde felizmente nos encontramos agora.” “meio-dia sempiterno”¹ “se um homem teme a morte como seu aniquilamento, é simplesmente como se pudesse pensar que o sol se lamentaria diante da noite(*) (…) Contrariamente, quem está oprimido pelo peso da vida e ainda assim a deseja e afirma (…) não pode esperar da morte a libertação, nem pode salvar a si mesmo pelo suicídio. Apenas com aparências falsas lhe seduz o frio e tenebroso Orco, como se fôra o porto da paz.
[¹ Nietzsche puro!]
(*) Eckermann, Conversas com Goethe: (…) Goethe diz: ‘Nosso espírito é um ser de natureza totalmente indestrutível: ele faz efeito continuamente de eternidade a eternidade. É comparável ao sol, que parece se pôr apenas aos nossos olhos terrenos, mas que em realidade nunca se põe, brilhando incessantemente.’ – Goethe tomou a comparação de mim, não eu dele. [!] Sem dúvida ele a utilizou nessa conversa de 1824, em virtude de uma reminiscência, talvez inconsciente, da passagem acima escrita, pois esta aparece, com os mesmos termos aqui empregados, na 1ª ed. de minha obra, p. 401, e também ocorre novamente na p. 528, bem como na conclusão do §65. Aquela 1ª ed. lhe foi enviada em dezembro de 1818, e em março de 1819 ele mandou, por minha irmã, uma carta de congratulação para Nápoles, onde então me encontrava. À carta adicionava uma papeleta, onde assinalava os números de algumas páginas que especialmente lhe agradaram. Logo, ele lera o meu livro.”
“Os males imediatamente necessários e absolutamente universais, p.ex., a necessidade no avanço da idade e a morte, bem como os muitos incômodos cotidianos, normalmente não nos entristecem.”
“É realmente inacreditável o quanto a vida da maioria dos homens, quando vista do exterior, decorre insignificante, vazia de sentido e, quando percebida no seu interior, decorre de maneira tosca e irrefletida. Trata-se de um anseio e tormento obscuro, um vaguear sonolento pelas 4 idades da vida em direção à morte, acompanhado por uma série de pensamentos triviais. Assemelham-se a relógios aos quais se deu corda e funcionam sem saber por quê. Todas as vezes que um homem é gerado e nasce, o relógio da vida humana novamente tece a corda, para mais uma vez repetir o seu estribilho inúmeras vezes tocado: frase por frase, medida por medida, com insignificantes variações. – Todo indivíduo, todo rosto humano e seu decurso de vida é apenas um sonho curto a mais do espírito infinito da natureza, da permanente Vontade de vida; é apenas um esboço fugidio a mais traçado por ela em sua folha de desenho infinito, ou seja, espaço e tempo, esboço que existe ali por um mero instante se for comparado a ela, e depois é apagado, cedendo lugar a outros. Contudo, e aqui reside o lado sério da vida, cada um desses esboços fugidios, desses contornos vazios, tem de ser pago com toda a Vontade de vida em sua plena veemência, mediante muitas e profundas dores e, ao fim, com uma amarga morte, longamente temida e que finalmente entra em cena. Eis por que a visão de um cadáver nos torna de súbito graves.
A vida do indivíduo, quando vista no seu todo e em geral, quando apenas seus traços mais significativos são enfatizados, é realmente uma tragédia; porém, percorrida em detalhes, possui o caráter de comédia, pois as labutas e vicissitudes do dia, os incômodos incessantes dos momentos, os desejos e temores da semana, os acidentes de cada hora, sempre produzidos por diatribes do acaso brincalhão, são puras cenas de comédia.”
“Se se conduzisse o mais obstinado otimista através dos hospitais, enfermarias, mesas cirúrgicas, prisões, câmaras de tortura e senzalas, pelos campos de batalha e praças de execução, e depois lhe abríssemos todas as moradas sombrias onde a miséria se esconde do olhar frio do curioso; se, ao fim, lhe fosse permitida uma mirada na torre da fome de Ungolino, ele certamente também veria de que tipo é este meilleur des mondes possibles.”
“Cada um mira a própria morte como o fim do mundo; já a morte dos seus conhecidos é de fato ouvida com indiferença” “O lado terrível disso se encontra na vida dos grandes tiranos e facínoras, nas guerras que devastam o mundo, enquanto o seu lado hilariante é objeto da comédia, e aparece sobretudo na presunção e na vaidade, o que Rochefoucauld, melhor que qualquer outro escritor, conseguiu apreender e expor in abstracto.”
“Éris (…) expulsa do conflito dos indivíduos por meio da instituição estatal, retorna de fora como guerra entre os povos e então exige, no seu total e numa só parcela, como débito acumulado, sacrifícios sangrentos, os quais se lhe haviam evitado ao recorrer-se à astuta precaução. Sim, supondo-se que tudo isso fosse, ao cabo, ultrapassado e posto de lado por uma prudência acumulada pela experiência de milênios, o resultado seria a efetiva superpopulação de todo o planeta, cujo horrível mal só uma imaginação audaciosa poderia agora tornar presente.”
“Os dias passam cada vez mais rápido, os eventos perdem sua significância, tudo se torna lívido. O homem avançado em idade tateia ao redor mancando ou permanece num canto como uma sombra, um fantasma de seu antigo eu. O que restaria acaso para a morte destruir?”
“Que uma mosca que zumbe agora em meus ouvidos vá dormir esta noite, e zumba de novo amanhã, ou morra nessa mesma noite, e então na primavera seguinte outra mosca que nasceu dos ovos daquela antiga zumba novamente: tudo isso em si mesmo é a mesma coisa”
“Repare em seu cachorro. Quão despreocupado e pacificamente ele vive! Muitos milhares de cães tiveram de perecer até que chegasse a vez desse exemplar viver. Mas a morte dessa infinidade de antepassados não afetou em nada a Representação do cachorro. O cão de hoje existe tão fresco e dotado com força vital quanto os indivíduos mais primitivos da espécie. Todo dia ele vive como se fosse seu primeiro dia e como se nunca um dia pudesse ser seu último. Nos seus olhos brilha o princípio indestrutível dessa vida cíclica e inexaurível, o archaeus[arquétipo].”
FILOSOFIA VAMPÍRICA AVANT LA LETTRE: “Desejar que a individualidade fôra imortal não significa nada mais que desejar a perpetuação de um erro infinitamente. Pois no fundo toda individualidade é apenas um erro singular, um passo em falso, algo que era melhor jamais ter sido”
“Eis o ponto em que a filosofia transcendental se conecta à ética. (…) o medo de que, com a morte, tudo terminará se iguala ao caso daquele que imagina, num sonho, que há apenas sonhos sem um sonhador.”
“Os terrores da morte dependem em maioria da falsa impressão de que se o ego desaparece agora, o mundo continua. Mas na verdade é o oposto” O rio Lethe da Vontade é a morte de um indivíduo. Com o esquecimento, a Vontade está livre e inexausta novamente para poder desejar, noutro invólucro.
8. SOBRE O SUICÍDIO
“o suicídio já se nos apresenta aqui como um ato inútil e, por conseguinte, tolo. Quando tivermos avançado ainda mais em nossa consideração, ele aparecerá numa luz menos favorável ainda.”Nem para o moribundo incurável que já sentiu o doce mel da vida entre os lábios?
“Eis por que nas maiores dores espirituais a pessoa arranca os cabelos, golpeia-se no peito, arranha o rosto, atira-se ao chão: tudo sendo propriamente apenas meios violentos de distração em face de um pensamento de fato insuportável. E justamente porque a dor espiritual, como a mais aguda de todas, torna alguém insensível à dor física, o suicídio é bastante fácil para quem se encontra desesperado ou imerso em desânimo crônico, embora antes, em estado confortável, tremesse com tal pensamento. De maneira semelhante, preocupações e paixões, portanto o jogo do pensamento, abalam o corpo muito mais freqüente e intensamente que deficiências físicas.”
“o suicídio não fornece salvação alguma: o que cada um QUER em seu íntimo, isto ele deve SER; e o que cada um É, precisamente isto ele QUER.”
“terrível e lenta autopunição para a completa mortificação da Vontade: o que ao fim pode conduzir à morte voluntária mediante jejum, atirar-se aos crocodilos ou precipitar-se do pico sagrado do alto do Himalaia ou ser sepultado vivo, e também mediante o lançar-se sob as rodas do carro colossal que passeia as imagens de deuses entre o canto, o júbilo e a dança das bailadeiras (apsaras). [hinduísmo]” “Tanta concordância em épocas e povos tão diferentes é uma prova factual de que aqui se expressa não uma excentricidade ou distúrbio mental, como a visão otimista rasteira de bom grado o afirma, mas um lado essencial da natureza humana, e que, se raramente aparece, é tão-só em virtude de sua qualidade superior.”
“O suicídio, em realidade, é a obra-prima de Maia na forma do mais gritante índice de contradição da Vontade de vida consigo mesma.”
“o suicida se assemelha a um doente que, após ter começado uma dolorosa operação de cura radical, não permite o seu término, preferindo permanecer doente. (…) Eis por que todas as éticas, tanto filosóficas quanto religiosas, condenam o suicídio, embora elas mesmas nada possam fornecer senão estranhos argumentos sofísticos.” “quietivo final”
“Reconhecidamente, de tempos em tempos repetem-se casos nos quais o suicídio é estendido às crianças. O pai mata os filhos que tanto ama e em seguida a si próprio. Se tivermos em mente que a consciência moral, a religião e todos os conceitos tradicionais fazem reconhecer no assassinato o pior crime; e que, porém, o pai o comete na hora da própria morte e em verdade sem ter nessa ocasião motivo egoístico algum, então o ato só pode ser explanado como se segue. A vontade do indivíduo se reconhece imediatamente nas crianças, enredada na ilusão que envolve o fenômeno como se fosse a essência-em-si e, ademais, profundamento abalado pelo conhecimento da miséria de toda vida, acredita que, ao suprimir o fenômeno, também suprime a essência mesma; portanto, deseja resgatar a si e aos filhos da existência e de suas penúrias.”
“Entre esta morte voluntária resultante do extremo da ascese e aquela comum resultante do desespero, deve haver muitos graus intermediários e combinações, sem dúvida difíceis de explanar. Contudo, a mente humana tem profundezas, obscuridades e complicações cuja elucidação e detalhamento são de extrema dificuldade.”
“A tendência ao suicídio é especialmente hereditária.”
9. EPISTEMOLOGIA DAS CIÊNCIAS NATURAIS
“o fim e ideal de qualquer ciência da natureza é, no fundo, um materialismo desenvolvido até as suas últimas consequências.”
“o fim da ciência não é a certeza máxima, pois esta pode ser igualmente encontrada até mesmo no conhecimento singular, mais desconexo, mas a facilitação do saber mediante a sua forma (…) dizer (…) que a cientificidade do conhecimento reside na sua maior certeza é uma opinião equivocada, como também é falsa a afirmação daí proveniente de que só a matemática e a lógica seriam ciências no sentido estrito do termo, visto que somente nestas, devido a sua completa aprioridade, tem-se certeza irrefutável do conhecimento.” “o velho erro de que somente aquilo que é demonstrado é completamente verdadeiro (…) Antes, ao contrário, cada demonstração precisa de uma verdade indemonstrável que em última instância sustenta a ela ou a sua demonstração.” Heidegger plagiará essas aspas em Ser e Tempo, sem dar o crédito.
“Ora, como todas as demonstrações são silogísticas, não é preciso primeiro procurar demonstração para uma nova verdade, mas uma evidência imediata. Só pelo tempo em que esta se encontra ausente é que a demonstração pode ser provisoriamente fornecida. Nenhuma ciência pode ser absolutamente demonstrável, tampouco quanto um edifício pode sustentar-se no ar. Todas as suas demonstrações têm de ser remetidas a algo intuitivo, por conseguinte não mais demonstrável. (…) Toda evidência última, i.e., originária, é INTUITIVA, o que a palavra já o indica.”
DEBATEDORES E REFUTADORES DE REDES SOCIAIS: “Demonstrações são destinadas não tanto aos que estudam mas antes aos que querem disputar. Estes negam obstinadamente a intelecção imediatamente fundamentada.”
“nenhum ramo das ciências naturais, p.ex., a física, a astronomia, a fisiologia, pode ser descoberto de uma só vez, como foi possível com a matemática e a lógica, mas precisaram e precisam de experiências completas e comparadas de muitos séculos.”
Ciências “quantitativas” para o autor: história natural, fisiologia, mineralogia, geologia, mecânica, físico-química…
Chamaríamos, no lugar do “quantitativo” de Sch., de ciências meramente descritivas. Poderia incluir a própria psicologia se fosse uma disciplina formada em sua época.
9.1 A MATEMÁTICA E A LÓGICA: ARISTÓTELES E NIILISMO
“De nossa parte exigimos a remissão de cada fundamentação lógica a uma intuitiva. A matemática euclidiana, ao contrário, empenha-se com grande afinco, em todo lugar, em descartar deliberadamente a evidência intuitiva sempre ao alcance da mão, substituindo-a por uma evidência lógica.” “Euclides (…) em vez (…) de nos dar uma intelecção fundamental da essência do triângulo, simplesmente formula algumas proposições desconectadas e escolhidas arbitrariamente acerca dessa figura, fornecendo dela um fundamento de conhecimento lógico por meio de uma demonstração laboriosa conduzida segundo o princípio de contradição. (…) Quase se tem a sensação desconfortável parecida àquela produzida por um truque.” “Outras vezes, como no teorema de Pitágoras, linhas são traçadas sem se saber ao certo por quê; depois se nota que eram laços estendidos para capturar desprevenida a concordância do leitor, o qual, atônito, tem de admitir o que, em seu foro íntimo, permanece completamente inconcebível, tanto mais que pode estudar a matemática euclidiana inteira sem ganhar uma intelecção propriamente dita das leis das relações espaciais, mas apenas aprende de memória alguns de seus resultados.” “Entretanto, a maneira como tudo isso foi conduzido por Euclides mereceu toda a admiração que os séculos lhe dedicaram, indo tão longe a ponto de seu método de tratamento da matemática ter sido declarado modelo de todas as exposições científicas, segundo o qual se procurou modelar as demais ciências.”
“É em geral o método analítico o que desejo para a exposição da matemática, em vez do sintético, usado por Euclides.” “Na Alemanha começa esporadicamente a mudar a exposição da matemática, e o caminho analítico é trilhado mais vezes.”
“o princípio de contradição mesmo, que é uma verdade metalógica e fundamento universal de toda demonstração lógica. Quem nega a necessidade intuitivamente exposta das relações de uma proposição expressa espacialmente pode com igual direito negar os axiomas, a conclusão enquanto conseqüência das premissas, sim, pode até mesmo negar o princípio de contradição: pois tudo isso são coisas igualmente indemonstráveis, imediatamente evidentes e conhecidas a priori.”
“É esse Hobbes o mesmo que, em seu livroDe principiis Geometrarum, caracteriza estranhamente seu modo de pensamento, no todo empírico, negando por completo a matemática propriamente pura, ao afirmar, obstinadamente que o ponto possui extensão e a linha possui largura, e, como nunca podemos exibir-lhe um ponto sem extensão e uma linha sem largura, tampouco podemos fazer-lhe compreender a aprioridade da matemática ou a aprioridade do direito, visto que ele se fecha a qualquer conhecimento não-empírico.”
“A dependência do fator tempo em toda contagem é-nos revelada pelo fato de que em todas as línguas ‘multiplicação’ é expressa exatamente por tempo, i.e., por um conceito-de-tempo: sexies, six fois, sex mal [seis vezes].” Vez no dicionário: período igual de tempo, do latim para ‘sucessão’.
“o conceito de NADA é essencialmente relativo e sempre se refere a algo determinado, que ele nega. Essa qualidade foi atribuída (especialmente por Kant) apenas ao nihil privativum que, sinalizado com (-) em oposição a (+), podia, de um ponto de vista invertido, tornar-se (+). Ora, em oposição ao nihil privativum foi estabelecido o nihil negativum, o qual em toda relação sempre seria nada, utilizando-se como exemplo a contradição lógica,¹ que se suprime a si mesma.” Belo trecho dessa vez, significativamente elucidativo! A propósito,o matemático curioso com relação à filosofia, porém essencialmente leigo, que, lendo passagens como essa, lançasse a hipótese de que a filosofia continental (até Sch., pelo menos) nada mais é que “discussões excessivamente abstratas de matemáticos entre si” estaria de certa forma correto…
¹ Princípio aristotélico (princípio da não-contradição), talvez o mais importante da Primeira Filosofia (ironia das ironias, ele não é um conceito meta-Lógico, i.e., não deveria servir para elaborar metafísica, e sim apenas para discussões práticas): Se A é não-B, e se B é não-A, logo: A não pode ser não-A (auto-evidente); não-A é B; B não pode ser não-B; não-B é A. O que seria o ‘nada negativo’ que Schopenhauer enumera? Aquilo que não existe formalmente: um A = não-A ou B = não-B; ou ainda: um superveniente C que se identificasse com A e B ao mesmo tempo (o que seria chamado, desde Aristóteles, também de absurdo ou impossibilidade). O nada não tem lugar no mundo dos fenômenos. Para transcender esse ‘sistema’, teríamos de imaginar um mundo ou uma filosofia contraditórios, i.e., transgredir esse princípio básico da não-contradição, aceitar e abraçar o absurdo e o paradoxal. Este trecho também nos ajuda a compreender por que Schopenhauer “santifica” seu bem ascético, i.e., dá um status de bem absoluto à negação da Vontade, em que pese dizer que o “bem absoluto” é uma contradição e que só existe o bem relativo. Dentro deste quadro de superação-de- ou de aplicação-literal-e-extrema-de-Aristóteles, o filósofo consegue ser coerente consigo mesmo (ele representa o C que se identifica ao mesmo tempo com o A e o B) – levando a lógica às últimas conseqüências do lado de cá (do mundo das aparências e, paradoxalmente, do mundo cristão, que justamente nega por inteiro este mundo das aparências!).
“qualquer nada (…) subsumido em um conceito mais amplo é sempre apenas um nihil privativum. (…) exemplo do não-pensável, necessariamente requerido na lógica para demonstrar as leis do pensamento.” “O universalmente tomado como positivo, o qual denominamos SER, e cuja negação é expressa pelo conceito NADA na sua significação mais geral, é exatamente o mundo como representação”
“Negação, supressão, viragem da Vontade é também supressão e desaparecimento do mundo, seu espelho. Se não miramos mais a Vontade neste espelho, então perguntamos debalde para que direção ela se virou, e em seguida, já que não há mais onde e quando, lamentamos que ela se perdeu no nada.” Mais fácil falar e especular do que escapar efetivamente do problema do nada negativo ou absoluto, do qual não se escapa. Enquanto houver fenômeno, há Vontade. Sempre.
9.2 A ASTRONOMIA
CÉU, O LABORATÓRIO PERFEITO: “Eis o material inteiro da astronomia que, tanto pela sua simplicidade quanto pela sua segurança, conduz a resultados definitivos e muito interessantes, fazendo jus à grandeza e importância de seus temas. P.ex., se conheço a massa de um planeta e a distância de seu satélite, posso concluir com certeza o período de translação do último conforme a segunda lei de Kepler. O fundamento dessa lei é que, a essa distância, apenas essa velocidade determinada é capaz de manter o satélite orbitando em torno do seu planeta, impedindo que caia nele.”
“o movimento aparente dos planetas é conhecido empiricamente. Depois de muitas hipóteses falsas sobre a relação espacial desse movimento (órbita planetária), a hipótese verdadeira foi finalmente encontrada, bem como as leis que o movimento segue (as leis de Kepler). Por fim, também a causa destes (gravitação universal) e a concordância empiricamente conhecida de todos os casos observados com o conjunto inteiro das hipóteses e suas conseqüências (…) forneceram a certeza completa.”
“não se deve procurar nenhum primeiro empuxo para a força centrífuga, mas ela, nos planetas, conforme a hipótese de Kant e Laplace, é o resíduo da rotação originária do corpo central, de onde os planetas se separaram e esse corpo se contraiu, e ao qual o movimento é essencial: ele ainda possui rotação e vaga ao mesmo tempo no espaço sem fim, ou translada talvez em torno de um corpo central maior, invisível para nós. Essa visão concorda inteiramente com a conjetura dos astrônomos acerca de um sol central e também com o distanciamento observado de todo o nosso sistema solar, e talvez de toda a galáxia à qual pertence o nosso sol” Toda periferia tem um centro, e o centro mesmo é uma periferia de outro centro maior e no entanto mais ignoto.
9.3 A FÍSICA
“Ah, se não se fosse tão estúpido a ponto de se ver quase que paralisado por conta dos grandes fenômenos! Assim como, erradamente, criaram uma alma para o cérebro, deveriam, seguindo o exemplo, ter explicado a digestão por uma alma no estômago, a vegetação por uma alma na planta, a afinidade química por uma alma nos reagentes, aliás, até a queda de uma pedra pela alma da pedra.”
“sempre restarão forças originárias; sempre restará, como resíduo insolúvel, um conteúdo do fenômeno que não pode ser remetido a sua forma; sempre restará, portanto, algo não mais explanável por outra coisa senão, e em conformidade com, o princípio de razão.”
“A altura a que as ciências naturais se alçaram em nosso tempo ridiculariza todos os séculos passados, e este é um píncaro que a humanidade atinge pela primeira vez. Mas não importa quão majestosos sejam os avanços que a física (entendida no amplo sentido dos antigos) nos possa proporcionar, nem o menor dos passos foi dado no caminho de uma metafísica, assim como um avião jamais obterá proporcionalmente mais espaço cúbico (volume) por ser maior longitudinalmente. E não é só: mesmo que o homem viajasse por todos os planetas e estrelas fixas, ainda nem por isso ter-se-ia aproximado um passo dessa metafísica. É justamente o caso contrário: o de que quão maiores forem os avanços na física mais sentiremos a necessidade de uma metafísica.”
“Somente se nos privarmos à força dessa primária e simples informação [de que tudo tem uma causa] podemos por um breve período nos maravilharmos com o processo de nossas próprias ações corpóreas como um milagre, quer seja, o de que entre o ato da vontade e a ação do corpo não há, realmente, conexão causal, posto que são diretamente idênticos, sua aparente diferença residindo na simples circunstância de que, aqui, o que é um e o mesmo é apreendido por nós como 2 modos diferentes de conhecimento, o externo e o interno [movimento material x intenção].”
“Na Alemanha, os ensinamentos de Kant preveniram a continuidade irrestrita das absurdidades da física atomística e puramente mecânica; muito embora no presente mais imediato essas concepções prevaleçam por aqui, isto é conseqüência da frivolidade, opacidade, crueza e tontice reintroduzidas por Hegel em nosso meio.”
“O materialismo inevitavelmente se converte em atomismo; como já aconteceu em sua infância nas mãos de Leucipo e Demócrito, e vem acontecendo novamente na sua segunda infância, causada pela idade; com os franceses porque eles nunca chegaram à filosofia kantiana, e com os alemães porque eles a esqueceram. E esse movimento é levado muito além nessa segunda infância. Não só corpos sólidos são ditos como consistindo de átomos, mas até os líquidos, a água, e depois o ar, os gases, não, mesmo a luz, que, dizem as teorias materialistas, consiste em ondulações de um éter completamente hipotético, impassível de prova mesmo pelo dogmatismo empiricista. Segundo eles a luz consistiria de átomos, explicando-se as diferentes cores pela rapidez variável dessas ondulações. Essa é uma hipótese científica que, como com a velha teoria das 7 cores de Newton, começa a partir de uma analogia com a música, inteiramente arbitrária e violentamente levada adiante.”
CRÍTICA AOS NEOMATERIALISTAS OU MATERIALISTAS MECANICISTAS E DETERMINISTAS (Schopenhauer nunca chegou a conhecer o Marxismo):“Diferentes movimentos perpétuos são então atribuídos a todos os átomos, rotações, vibrações, &c., de acordo com a função de cada qual; da mesma forma todo átomo tem sua atmosfera ou éter, ou então algo mais, e tudo que for necessário para dar plausibilidade à teoria é posteriormente acrescentado. As inventividades da filosofia da natureza de Schelling e seus discípulos eram, pelo menos, engenhosas, altivas, ou no mínimo sagazes; mas estes, [refere-se aos materialistas ruins de sua época] pelo contrário, são desajeitados, insípidos, reles e estranhos; há agora a legítima produção de mentes que são, acima de tudo, incapazes de conceber qualquer outra realidade que não a de uma matéria fabulosa, sem-qualidade. Essa matéria é um objeto absoluto, a saber, um objeto sem sujeito. Em segundo lugar, esses neo-materialistas não pensam em nenhuma outra atividade que não seja movimento e impacto: esses dois, e somente esses dois, são-lhes compreensíveis. Que tudo possa ser reduzido a movimento e impacto é sua afirmação a priori; é a coisa-em-si deles.” “Para eles o curso do mundo é como o de um relógio depois que o relojoeiro montou todas as peças e lhe deu corda, isto é, aqueceu-o, estimulou-o, tornou-o frenético. Daí que, deste ponto de vista artificial e incontestável, vemos o universo convertido em mera máquina ou engrenagem, cujo propósito nos é insondável. Mas ainda que, mesmo sem justificativas palpáveis para isso, aliás, no fundo, a despeito de toda o caráter concebível da coisa e de se a imaginar regida perfeitamente por leis físicas, ainda que alguém assumisse a seu bel prazer um primeiro começo, nada seria por isso essencialmente modificado. Pois a primeira condição das coisas, arbitrariamente estabelecida, por óbvio, determinaria de antemão e automaticamente, fixando-os irrevogavelmente – dos mínimos detalhes ao todo do sistema –, todos os estados sucedâneos.” Não deixaria de ser um postulado totalmente correto – tirante que não se aplica, evidentemente, à natureza humana que é a da responsabilidade pela própria existência! Ou seja: se a estética pudesse viver sem a ética e vice-versa, até que estes toscos materialistas poderiam ser sábios; no mundo como ele é, entretanto, são apenas uns parvos.
“Se um insight direto dos trabalhos da natureza nos fosse possível, forçosamente reconheceríamos que o espanto e admiração provocados pela teleologia são análogos aos sentimentos experimentados pelo selvagem descrito por Kant em sua explicação do cômico e do riso na Crítica da faculdade do juízo. O selvagem em questão, quando viu espuma jorrar de uma garrafa de cerveja recém-aberta, disse assim: Não é que eu esteja espantado pelo jeito como esta espuma saiu da garrafa; estou espantado que qualquer um consiga colocá-la aí dentro!” Não podemos responder como o que existe, existe; apenas confessar que existem e conformarmo-nos.
9.4 A BIOLOGIA
“Tampouco a explanação fisiológica da vida vegetativa (functiones naturales, vitales), por mais longe que se vá, pode suprimir a verdade de que toda vida animal a se desenvolver nesses moldes é ela mesma fenômeno da Vontade. De modo geral, como foi elucidado antes, cada explanação etiológica só pode fornecer a posição necessariamente determinada no espaço e no tempo de um fenômeno particular, seu aparecimento necessário conforme uma regra fixa. Mas por essa via a essência íntima do fenômeno permanece sempre infundada, sendo pressuposta por qualquer explanação etiológica, e apenas indicada pelo nome força, lei natural ou, caso se trate de ações, caráter, vontade.”
“O cão está para o homem como a taça de vidro está para a taça de metal, e é por isso que o cão é-nos tão querido: dá-nos imenso prazer perceber nele todas essas inclinações e emoções que nós mesmos, em nosso cotidiano, escondemos e disfarçamos tão bem de nossos iguais; e exibidas, o que é mais, de modo tão simples e franco por cada exemplar diante de seu dono.”
“a opinião, tão afetada e forçada em nossos dias, de que há vida no que não é organizado, aliás no globo em si mesmo, e de que, também, o sistema planetário inteiro seria um organismo, é inteiramente inadmissível.” Curioso, porém: atende-se ao pré-requisito estabelecido por Schopenhauer para seres organizados da manutenção da forma (circular, cíclica), com mudança constante de material, isto é, sol, cometas, asteróides e planetas não estão quimicamente congelados no tempo e mantêm entre si uma certa homeostase ‘individual’ e ‘sistemática’. Poder-se-ia objetar que o núcleo da terra ou do sol não poderiam se manter com uma simples troca atômica (mudança de material), mas poderá ser que as constantes mudanças na superfície da terra e da lua – para citarmos só dois corpos celestes – não afetam sua existência? Na verdade essa questão não faz sentido justamente por não se tratar de vida – forma-conteúdo são unos na transformação climática que está acontecendo, p.ex..
“Para muitos filósofos de baixa qualidade, toda teleologia é ao mesmo tempo uma teologia, e a cada instância de finalidade reconhecida na natureza, em vez de pensar e aprender a compreendê-la, eles prorrompem no seu grito infantilizado, ‘Propósito! Propósito!’, começam a usar os refrões da velha e sempre subsistente filosofia de comadronas (o ápice do pensamento domesticado) e se tornam surdos a qualquer argumento da razão, como, p.ex., o grande Hume já lhes tinha lançado antes mesmo de eles nascerem.” Traduzindo este parágrafo para uma linguagem mais direta e acessível: se é para fazer metafísica de baixa qualidade, o melhor mesmo é seguir em investigações empíricas sobre a natureza, sem tecer nenhuma hipótese maior que as próprias pernas.
“Por que o indivíduo existe seria respondido de forma clara; mas por que existe a espécie mesma? Essa é uma pergunta que a natureza, quando considerada de forma meramente objetiva, não pode responder.”
“Devo aqui expressar a minha opinião de que não há pele de cor branca natural no homem. Originalmente ele só pode ter tido pele negra ou parda, como nossos ancestrais os hindus. Um homem branco nunca nasceu do útero da Mãe-Natureza; não há o que chamam de ‘raça branca’. Todo homem branco de hoje é resultado do desbotamento gradual da cor, de um clareamento artificial de gerações. (…) Os ciganos, uma raça indiana que migrou à Europa há não mais do que 400 anos, demonstram o estado de transição entre a compleição dos hindus e a nossa. Nos impulsos de procriação, a natureza que fala no homem deseja o retorno dos cabelos negros e dos olhos marrons, que são o fenótipo primitivo.”
10. A MEDICINA
“Não está ao nosso alcance ensinar e aprender in abstracto uma Fisionômica, porque as nuances são aqui tão sutis que conceito algum tem flexibilidade para lhes corresponder. Conseqüentemente, o saber abstrato está para elas como uma imagem de mosaico está para um quadro de VAN DER WERF ou DENNER.” Gall e Lavater como imbecis altamente intuitivos que creram poder ensinar algo inócuo e amorfo – sobre formas! – em calhamaços… Sua sensação de que “ninguém houve de semelhante antes de mim” induziu-os ao erro de se crerem gênios, mas tão-só lidavam com algo que não era passível de ser ensinado, e ninguém intuitivo como eles quis ser tão temerário.
“Por isso sou da opinião de que a [ciência] fisionômica não pode avançar com segurança a não ser até o estabelecimento de algumas regras muito gerais, como p.ex. estas: na testa e nos olhos pode-se ler o que há de intelectual numa pessoa, já na boca e na metade inferior da face o que há de ético, as manifestações da vontade. Testa e olhos se explicitam reciprocamente: tomados isoladamente são compreensíveis apenas pela metade.O gênio nunca é sem uma testa alta, larga, belamente arqueada, mas a recíproca amiúde não é verdadeira. O espírito pode ser inferido de um semblante espirituoso tanto mais seguramente quanto mais feia for a face, e, de um semblante estúpido pode-se inferir tanto mais seguramente a estupidez quanto mais bela for a face; porque a beleza, enquanto correspondência com o tipo da espécie, já porta em e por si a expressão da clareza espiritual, o contrário ocorrendo com a fealdade, etc.” Varg Vikernes possui uma face estúpida quando jovem; depois, uma expressão austera, que no entanto nos ludibria (feiúra encobridora), posto que ele não é um sábio (confirmação da regra).
“A sensibilidade em si mesma é totalmente incapaz de contrair um músculo sequer. Isso só pode ser realizado pelo próprio músculo, e sua capacidade para realizá-lo é chamada irritabilidade, i.e., suscetibilidade ao estímulo.”“a Vontade é o substrato metafísico da irritabilidade do músculo”
“Ultimamente, a perspectiva fisiológica tem, finalmente, prevalecido na Patologia. Segundo esta, doenças são em si um processo curativo da natureza, que esta última introduz a fim de remover, superando suas causas, uma desordem que de alguma forma inoculou-se no organismo. Na batalha decisiva, a crise, esse processo regenerador é ou vitorioso, reconquistando a saúde para o organismo, ou derrotado.” “Por outro lado, que a vontade¹ seja ela própria a enfermidade, como afirmou Brandis repetidas vezes em sua obra Über die Anwendung der Kälte, [Sobre o emprego do frio (para a cura das doenças)] que citei na 1ª parte do meu ensaio Sobre a Vontade na Natureza, isso não passa de um grande mal-entendido.”
¹ Entendo que se esteja empregando o termo aqui no sentido mais fisiológico da coisa, i.e., temperamento ou disposição do paciente, daí a tradução pela letra minúscula.
“As reflexões de Bichat e as minhas apóiam-se reciprocamente: sua obra é o comentário fisiológico da minha; e a minha é o comentário filosófico da dele. Seria melhor para o leitor isolado de qualquer um de nós que lesse o outro, para melhor entender cada qual.” “Como anatomista e fisiologista ele principia pelo objetivo, i.e., a consciência de outras coisas; eu, como filósofo, principio pelo subjetivo, a auto-consciência.”
“um corpo desajeitado e atrapalhado indica pensamentos desajeitados e atrapalhados, e será visto como sinal de estupidez tanto em indivíduos quanto no caráter geral das nações, tanto como a ausência de autocontrole e a vacuidade do olhar. Outro sintoma do estado fisiológico em questão (a falta de inteligência) é o fato corrente de que muitas pessoas, ao dialogarem em movimento, se vêem obrigadas a parar no meio do passeio sempre que a conversação com um outro, que siga caminhando normalmente, comece a estabelecer múltiplas conexões e entrelaçamentos temáticos; o cérebro destes primeiros, tão limitado, assim que se vê premido a juntar pensamentos abstratos de ordem não tão mesquinha, vê-se sem reservas energéticas e tem de usar também o poder de concentração que lhe era necessário a fim de manter os membros em livre movimentação, isto é, a motricidade nervosa do tolo tem de se dedicar à conversa, uma vez que no mundo das pessoas que vivem mergulhadas nas aparências o que há de mais profundo para elas ainda está muito perto da superfície mais elementar, é tudo uma coisa só. [!!]” As pessoas que não conhecem o – ou nunca fixaram o olhar no – abismo.
10.1 CONTRIBUIÇÕES À PSIQUIATRIA (FISIOLOGIA DO GÊNIO)
“Que veementes sofrimentos espirituais ou terríveis e inesperados eventos com freqüência ocasionam a loucura, explano-o da seguinte maneira. Todo sofrimento desse tipo está sempre limitado, enquanto acontecimento real, ao presente. Nesse sentido, é sempre transitório e, assim, nunca excessivamente grave.” “quando um tal desgosto, um tal saber doloroso, ou pensamento, é tão atormentador que se torna absolutamente insuportável e o indivíduo poderia sucumbir a ele, a natureza assim angustiada recorre à LOUCURA como último meio de salvação da vida.” “Como exemplo considere-se o furioso Ajax, o rei Lear e Ofélia.”
“um pulso enérgico e até mesmo, de acordo com Bichat, um pescoço enxuto, são pré-requisito para atividades de ordem superior no cérebro. (…) Mas o oposto do acima também ocorre: desejos veementes, caráter afetado e violento, tudo isso aliado a um baixo intelecto, i.e., cérebro pequeno de má conformação num crânio não obstante largo. Este é um fenômeno tão comum quanto repulsivo: podemos compará-lo à aparência da beterraba.”
A ESTUPIDIFICAÇÃO DO SEU PRINCIPAL SUCESSOR (HEBETUDE RETARDADA):“mediante o esforço repetitivo nosso intelecto se afadiga até a completa estupefação, se torna exausto, como uma pilha voltaica depois de sucessivos choques. Sendo assim, todo labor mental contínuo demanda pausas e descanso; de outra forma a estupidez e a incapacidade seguem, a princípio, é claro, apenas temporariamente; mas se esse descanso é persistentemente negligenciado ao intelecto, ele tornar-se-á excessiva e ininterruptamente cansado, e a conseqüência é uma deterioração permanente, que num homem já velho passa por completa incapacidade, infantilidade, imbecilidade, e finalmente loucura. Esta não deve ser atribuída à idade, em e por si mesma, mas a esforços cerebrais demasiados, tiranicamente longos e incessantes, no caso de sobrevir no fim da vida. Essa é a razão de Swift ter terminado louco, de Kant se ter tornado infantil, de Walter Scott, mas também Wordsworth, Southey e muita minorum gentium[gente pequena, anônimos] acabarem como tolos ineptos. Goethe permaneceu até o fim lúcido, vigoroso e de mente muito ativa, porque ele, que nunca deixou de ser um homem do mundo e um cortesão, nunca transformou suas ocupações em compulsão. O mesmo pode-se dizer positivamente de Wieland e Kuebel, este último vivo até os 91, e também de Voltaire. Tudo que acabei de dizer prova quão subordinado e material, e que mera ferramenta, o intelecto é. É por isso que seu cultivo requer, pela terça parte da vida, sua suspensão no estado do sono, i.e., o repouso do cérebro, do qual o intelecto é mera função, tanto que não existe intelecto sem cérebro apesar de poder existir o contrário, além do estômago necessariamente preceder a digestão, ou o corpo preceder suas impulsões, de modo que em idade avançada não só o corpo como os instintos se debilitam e decaem. A Vontade, por outro lado, como a coisa-em-si, nunca é lerda, é absolutamente incansável, sua atividade é sua essência, nunca deixa de desejar, e quando, durante o sono profundo, abandona o intelecto, e assim não pode agir exteriormente por motivos compreensíveis, é ativa como a força vital, preocupa-se sem cessar com a economia interna do organismo e, enquanto vis naturae medicatrix (vontade natural regeneradora), trata de pôr em ordem as irregularidades que nele vicejavam.”
“Supostamente chegamos ao ápice das condições físicas e mentais ao redor do trigésimo aniversário, por conta da dependência que temos da pressão do sangue e do efeito da pulsação sobre o cérebro, época em que também passa a haver a predominância do sistema arterial sobre o venoso, produzindo a maior elasticidade das fibras cerebrais, sendo que ainda por cima nesta etapa não declinamos em relação ao sistema genital despertado na adolescência. Já por volta do 35º ano, uma leve diminuição da energia física do cérebro se torna perceptível, e o sistema venoso voltando a se tornar preponderante, bem como ocorrendo um relativo endurecimento da consistência do tecido cerebral, tudo isso – que é ainda mais notável no sujeito sedentário que não exercita o corpo, no sujeito que não utiliza as faculdades mentais com constância, no sujeito que não aprende com experiências ou não atravessa muitas experiências, no sujeito que não acumula conhecimento, no sujeito que não cultiva uma habilidade de caráter holístico, coisas que como que contrabalançam todas essas perdas – pode ainda decair de modo gradual e pouco acentuado até uma idade muito avançada. Em suma, é o cérebro similar a um instrumento que vai se desgastando aos poucos, e a velocidade do desgaste depende daquele que o utiliza.”
“Montaigne diz de si mesmo que sempre foi um dorminhoco. Que passou uma larga parte de sua vida dormindo, e que na velhice ainda dormia de 8 a 9 horas por noite (III, capítulo 13). Descartes, segundo consta, também era um grande dorminhoco (Baillet, Vie de Descartes, 1693,p. 288). Kant se permitia 7 horas de sono somente, mas era tão difícil para ele despertar que acabou ordenando a seu mordomo que o forçasse, contra sua vontade, sem ouvir qualquer objeção sua de manhã; só assim para conseguir ficar de pé (Jachmann, Immanuel Kant, p. 162). Isso se explica pela razão de que quanto mais um homem é desperto, quer seja, quão mais clara e ativa é sua consciência, maior é sua necessidade de sono, tanto em qualidade quanto em quantidade. Naturezas pensantes ou árduos exercitadores de trabalhos cerebrais devem reservar para seu organismo mais tempo para regenerar as energias. Que um exercício muscular continuado também nos deixa sonolentos pode ser explicado pelo fato de que o cérebro, através da medula oblongata, a medula espinhal e os nervos motores, distribui o estímulo aos músculos, gerando sua irritabilidade, e dessa forma, prolongando-se o esforço, exaure sua força. A fadiga observada nos braços e pernas tem, portanto, origem no cérebro; a dor que essas partes ‘sentem’ é em realidade experimentada pelo cérebro, conectado aos nervos motores tanto quanto aos nervos dos sentidos.”
“No sonambulismo magnético a consciência é duplicada: 2 correntes de pensamento, cada uma auto-suficiente, mas um tanto diferentes uma da outra, surgem; a consciência desperta nada sabe da sonambúlica. Mas o temperamento e o caráter são idênticos em ambas, eles são invariáveis no indivíduo; ambas as personalidades exprimem as mesmas inclinações e aversões. A função pode até estar duplicada, mas não a natureza essencial.”À luz do que os otimistas da protopsiquiatria e da primeira psiquiatria dinâmica do séc. XIX afirmavam, Sch. se mostra, novamente, pelo menos meio século à frente de seu tempo neste assunto (magnetismo animal). Janet o corrobora por inteiro em seu Automatismo psicológico.
“A Vontade em si está presente em todo o organismo, já que este é meramente sua forma visível; o sistema nervoso existe em todas as partes meramente para o propósito de possibilitar o direcionamento da ação adjudicando-se o controle, como se o corpo servisse à Vontade como um espelho, para que esta veja aquilo que executa, assim como nós usamos um espelho para nos barbearmos.”
OS TESTARUDOS: “O cérebro desses seres deve ter uma conformação muito original em relação aos outros. Seu desenvolvimento é, na comparação, descomunal, em magnitude física tanto quanto em características espirituais. O cérebro do gênio é particularmente largo e alto. Na outra mão, sua profundidade será inferior, e o cerebrum preponderará de forma anormal em proporção ao cerebellum.¹ (…) Mas nosso conhecimento não é ainda suficiente para determinar as relações das partes com o todo no cérebro com exatidão, embora reconheçamos facilmente aquela forma craniana que indica inteligência elevada e nobreza.² (…) decerto que a proporção quantitativa da matéria branca para a matéria cinzenta tem influência decisiva, o que, lamentavelmente, não podemos especificar mais no momento.³ O estudo post-mortem do corpo de Byron (apud Medwin) demonstrou que em seu caso a matéria branca estava em uma proporção desusadamente superior comparada com a matéria cinza; constatou-se, também, que o cérebro pesava 2,72kg.” O que é matéria cinzenta num mundo de ruído branco? O que é matéria branca num mundo poluído e cinzento?
¹ Essencialmente Schopenhauer postula uma preponderância muito maior dos setores cerebrais ligados à inteligência e emoção que do setor ligado ao trabalho muscular e regulação da postura. Se a anatomia cerebral continua tão simplista quanto em sua época (sem endeusar qualquer neurologia, mas creio que não vem a ser inteiramente o caso), podemos ter certeza de que nenhum gênio no futebol é um gênio no sentido filosófico aqui tratado, e todos possuem cerebelos bem avantajados!
² E essa ignorância das relações entre as partes do nosso sistema nervoso permanecem, 150 anos depois. Ninguém pode afirmar nada nessa área sem correr um grande risco de desmentido.
³ O engraçado é que a matéria cinzenta é popular e pelo visto cientificamente mais associada hoje ao que Sch. atribuía à matéria branca, cf. Wikipédia: “Enquanto a substância cinzenta (composta de neurônios) é primeiramente relacionada com processamento e cognição, a substância branca (composta de axônios mielíticos) modula a distribuição de ações potenciais, agindo como um reléa e coordenando a comunicação entre diferentes regiões cerebrais.”Mais um motivo, ironicamente, para o gênio ter realmente mais matéria branca, como se disse de Byron, e para Sch. estar errado quanto a sua tese da preponderância do intelecto, e não da vontade, no gênio (ver 12.5 para mais detalhes).
a “relé, s.m. Aparelho que retransmite o sinal que recebe, amplificando-o consideravelmente; Aparelho capaz de fazer com que uma energia menor [o cerebellum, invertendo o que Sch. disse, anormalmente maior no gênio] controle outra maior [o cerebrum].”
“Mesmo a delicadeza da conformação nervosa no indivíduo não é suficiente para suscitar o fenômeno do gênio se a herança do pai não é adicionada,¹ um temperamento vívido e apaixonado, que se exibe somaticamente como energia transbordante – anormal – provinda do coração, e conseqüentemente da circulação do sangue, especialmente no que toca à irrigação da cabeça.”
¹ Schopenhauer tem a idéia fixa de que o gênio está estritamente associado ao caráter do masculino. Isso interfere com sua misoginia exacerbada, mais explorada num tópico à parte, o nº 13.
“A condição descrita acima, i.e., a herança do temperamento paterno, porém num cérebro mal-organizado, dá vivacidade sem presença de espírito, acaloramento sem luz, gera pessoas irritáveis, homens de uma insuportável motricidade e petulância.Que em dois irmãos só um tenha gênio, e esse geralmente o mais velho, o caso de Kant, p.ex., é em primeiro lugar explicado pelo fato de que o pai estava na idade do vigor e da paixão somente à concepção do gênio.” Idiossincrasias schopenhauerianas sem qualquer fundamento.
11. EPISTEMOLOGIA DAS CIÊNCIAS HUMANAS
“Quando concebemos uma hipótese, temos olhos de lince para qualquer dado que a confirme, e olhos de míope para qualquer coisa que a contradiga.”
“Podemos considerar o ponto em que o entendimento faz a transição da mera sensação sobre a retina à causa dessa sensação como as fronteiras entre o mundo como vontade e o mundo como representação.”
11.1 A HISTÓRIA
“As ciências propriamente classificatórias: zoologia, botânica, também a física e a química (na medida em que reduzem todo fazer-efeito inorgânico a poucas forças fundamentais), possuem o maior número de subordinações. A história, ao contrário, propriamente dizendo, não possui subordinação alguma, pois o universal nela consiste apenas na visão panorâmica dos principais períodos, dos quais, porém, não se podem deduzir eventos particulares – os quais estão subordinados só ao tempo e coordenados segundo o conceito. Conseqüentemente, a história, tomada em sentido estrito, é sem dúvida um saber, mas não uma ciência.”
“A verdadeira sabedoria não é adquirida medindo-se o mundo ilimitado ou, o que seria mais pertinente, sobrevoando pessoalmente o espaço infinito, mas antes investigando qualquer coisa em particular, procurando conhecer e compreender perfeitamente a sua essência verdadeira e própria.” Quem não entende a ausência-de-fim do momento presente não pode ser historiador.
“Também a experiência e a história ensinam a conhecer o homem; contudo, mais freqüentemente OS homens e não O homem”
“Agora vemos como também os historiadores antigos seguiam o preceito de Winckelmann de que o retrato deve ser o ideal do indivíduo (…) Já os novos historiadores, diferentemente, salvo raras exceções, apresentam na maioria das vezes apenas ‘um barril de entulhos e inutilidades, e quando muito uma ação principal de Estado’.”
“É errado afirmar que as autobiografias são cheias de engodo e dissimulação. A mentira é em toda parte possível, mas talvez em nenhum outro lugar é mais difícil do que justamente na autobiografia.”
“Verificamos que as 3 raças de homem que, tanto em traços fisiológicos como lingüísticos, são indubitavelmente independentes em suas origens, quer seja, os caucasianos, os mongóis e o etíopes, encontram-se em casa apenas no Velho Mundo. A América é povoada pela raça mongol misturada e climaticamente modificada, que com toda a probabilidade veio da Ásia.”
“A história será mais interessante quão mais especializada for sua narração, mas assim perde em credibilidade, pois adquire ares de romance.”
“Ao passo em que a história nos ensina que a cada ocasião algo mais ocorreu, a filosofia tenta convencer o sujeito da constatação única de que todos os tempos e lugares foram, são e serão exatamente os mesmos.”
“Histórias construtivas, guiadas por um otimismo e idéia de raça ou povo como fins em si, sempre se consumam num Estado gordo, rico e confortável, com uma constituição bem-regulada, boa justiça e polícia, artes úteis, indústrias integradas ao social e, sobretudo, numa atmosfera de perfeição intelectual. Esse quadro não é ruim para uma ficção: o bom ficcionista ou teleologista sabe que a moral permanece essencialmente inalterável.”
“Aquele que leu Heródoto já estudou história o bastante, do ponto de vista filosófico. Tudo que forjará a história dos próximos séculos já está lá: os esforços, ações, sofrimentos, e o destino da raça humana.”
“A história deve ser vista como a razão, ou a consciência reflexiva, da raça humana, e ocupa o lugar de uma autoconsciência imediata comum a todos, de modo que só através dela a raça humana vem a ser um todo, vem a ser humanidade.”
“Da mesma forma, o que a linguagem é para a razão dos indivíduos, como condição indispensável de seu uso, a escrita é para a razão da coletividade humana; porque só depois da escrita é que sua existência real começa, como a existência de cada um principia com a aquisição da linguagem. Escrever serve para restaurar a unidade da consciência coletiva, que é constantemente interrompida pela morte, e portanto é fragmentária. Assim, o pensamento do antepassado é pensado pelo seu descendente remoto. A escrita é o remédio para a cisão da humanidade e da consciência dessa humanidade em um número infinito de individualidades efêmeras, e é também, portanto, um clamor contra o próprio tempo, que sempre favorece o esquecimento. E não só a escrita: para completar essa memória, devemos prestar atenção nos monumentos de pedra, que em grande parte são mais antigos que aquela. Quem acreditaria, não fossem os grandes monumentos, que houve um tempo em que, a um custo incalculável, alguns poucos indivíduos mobilizaram com seu poder uma multidão de milhares por tantos anos a fim de construir as pirâmides do Egito, monolitos, tumbas rochosas, obeliscos, templos e outras construções que sobreviveram milênios? Comparadas a essa magnitude temporal, quão mesquinha não é a vida do indivíduo, insuficiente em si mesma para ver o início e o fim de uma obra desse vulto? Por gerações sem conta os faraós mantiveram de pé o fim ostensivo que tinham em mente, usando a ignorância da maioria como meio. E que fim era esse? Falar a seus descendentes remotos, conectar-se a eles, estabelecer, a sua maneira, a unidade da consciência da humanidade. Os edifícios dos hindus, dos egípcios, mesmo dos gregos e romanos, foram calculados para durar milhares de anos, porque do alto de sua cultura elevada eles enxergavam um horizonte mais amplo. Já as edificações da Idade Média e dos tempos modernos só tem sua função imediata em vista, e não foram erguidas para durar mais que alguns séculos, no máximo. Em parte, confessemos, isso se deve já ao fato de o homem depois da Antiguidade depositar mais confiança na difusão da escrita para cumprir o papel desse elo histórico de gerações. Desde o nascimento da arte da imprensa, isso ganha uma proeminência extraordinária. Não é dizer que morreu o desejo de, através da arquitetura contemporânea, preservar um legado, falar com a posteridade. É sempre uma desgraça quando um grande monumento é destruído ou desfigurado para servir a fins utilitários vis. Monumentos da escrita têm menos a temer dos elementos, em comparação com os bárbaros.¹ Os egípcios bem quiseram combinar ambas as formas (arquitetura + escritura), pois supriram suas construções com hieróglifos, ou melhor, adicionaram mesmo pinturas em caso de que os hieróglifos não pudessem mais ser decriptados.”
¹ Antecipa brilhantemente o nazismo, a época neo-inquisitorial em que se queimaram pilhas de livros. Ou seja: temos menos a temer de tsunamis e terremotos que do próprio lobo do homem.
“A história está para a poesia como a pintura de retratos está para a pintura histórica, pois a história dá o verdadeiro no particular, a poesia no universal.”
11.2 O DIREITO
“O conceito de injustiça – sua negação da justiça, conceito originariamente MORAL – torna-se JURÍDICO pela mudança do ponto de partida do lado ativo para o passivo, ou seja, por inversão. Isso, ao lado da doutrina do direito de Kant, a qual, do imperativo categórico, deduz falsamente a fundação do Estado como um dever moral, deu origem aqui e ali, nos novos tempos, ao erro bastante esquisito e grosseiro de que o Estado seria uma instituição para o fomento da moralidade[e não seu contrário!] e que teria se originado graças aos contínuos esforços em promover essa moralidade, sendo, portanto, orientado contra o egoísmo. [quando obviamente estabelece um poder político concentrado onde antes havia de facto uma política e uma governança em alguma medida altruístas]” “Mais disparatado ainda é o teorema de que o Estado seria condição da liberdade em sentido moral e, com isso, da própria existência da moralidade.”
“Kant faz a afirmação fundamentalmente falsa de que, exteriormente ao Estado, não há direito algum de propriedade. Só que, em conformidade com a nossa dedução recém-feita, há sim propriedade no Estado de natureza, lastreada em direito perfeitamente natural, i.e., moral, o qual não pode ser violado sem injustiça, podendo pois ser defendido sem injustiça. Por outro lado, e isto também é certo, fora do Estado não há DIREITO PENAL. Todo direito de punir é estabelecido exclusivamente pela lei positiva, que, ANTES do delito mesmo, determinou uma punição para ele e cuja ameaça, como contra-motivo, deve sobrepor-se a todo possível motivo que conduz ao delito.Essa lei positiva deve ser vista como reconhecida e sancionada por todos os cidadãos do Estado. Ela, portanto, funda-se sobre um contrato comum, a cujo cumprimento os membros do Estado estão obrigados em todas as circunstâncias. Destarte, deve-se, de um lado, infligir a punição ou, de outro, recebê-la. Destarte, a aceitação de uma punição é algo que pode ser imposto pelo direito. De toda essa cadeia se segue que o imediato OBJETIVO DA PUNIÇÃO num caso particular é CUMPRIR A LEI COMO UM CONTRATO. Por sua vez, o único objetivo da LEI é IMPEDIR o menosprezo dos direitos alheios, pois, para que cada um seja protegido do sofrimento da injustiça, unem-se todos em Estado, renunciando à prática da injustiça e assumindo o fardo da manutenção dele.”
“Retaliação do mal, com o mal sem ulterior finalidade, não é moralmente, nem de qualquer outra maneira, justificável, porque inexiste um fundamento da razão para tal, e a jus talionis estabelecida como um princípio independente e último do direito penal carece de sentido. Por conseguinte, a teoria kantiana da punição, concebida como retaliação pela vontade de retaliação, é uma visão totalmente infundada, perversa. No entanto, seus vestígios sempre se fazem presentes nos escritos dos jurisconsultos, na forma de perífrases imponentes, verborragia oca, como aquela de que, pela punição, o delito é expiado ou neutralizado ou suprimido e coisas semelhantes.”
11.3 SOBRE A EVOLUÇÃO E A IMPORTÂNCIA DAS LÍNGUAS: SUMA DEPRECIAÇÃO DO HOMEM ALEMÃO
“A necessidade mais imediata de se aprender os idiomas antigos se liga aos arcaicos termini technici, e eles estão cada vez sob maior perigo de negligência mediante o uso de línguas contemporâneas nas investigações eruditas. Se efetivamente esse aprendizado [do latim e do grego] vier a caducar, se o espírito dos antigos, indissociável de suas línguas, desaparecer da educação liberal, toda essa rudeza, insipidez e vulgaridade tomarão posse completa da literatura. As obras dos antigos são a estrela-guia de todo esforço literário ou artístico; se estas obras desaparecem, a literatura e a arte vão junto. Hoje mesmo somos testemunha da miséria e puerilidade de estilo da grande maioria dos escritores – e parte disso se justifica pelo fato de essa geração nunca ter escrito em latim. Uma das maiores utilidades do estudo dos antigos é nos resguardar da verbosidade; os antigos não medem esforços para escrever de modo conciso e calculado. O erro básico dos modernos é a prolixidade, o que os escritores da atualidade começam a tentar disfarçar cortando cada vez mais letras e sílabas e inventando abreviaturas que se tornam lugares-comuns. Sendo assim, é um imperativo empreender o estudo dos antigos por toda a nossa vida, muito embora depois de um tempo as horas dedicados a esses autores possam diminuir bastante. Os antigos sabiam dessa verdade: não se deve escrever como se fala. Os modernos, por outro lado, não têm sequer vergonha de imprimir aulas e congressos que ministram! O estudo dos autores clássicos é muito convenientemente chamado de estudos nas Humanidades, porque através deles o aluno, antes de tudo, torna-se novamente homem, pois ingressa naquele mundo que era ainda livre das absurdidades da idade média e do romantismo, que vieram a penetrar tão fundo na população européia que mesmo na atualidade [meados do século XIX] qualquer recém-nascido já nasce soterrado por esses escombros (preconceitos). Nossa primeira obrigação é nos livrar de todo esse lixo para voltarmos a sermos homens. Jamais pensemos que nossa sabedoria moderna poderá um dia fazer as vezes dessa peculiar iniciação na condição humana; não nascemos, como os gregos e romanos, livres, desacorrentados, filhos diretos da natureza. O que primeiro somos? Filhos e herdeiros da cavernícola era medieval e sua loucura, suas pregações infames, e também da cavalaria, essa coisa meio-brutal, meio-infantil. E apesar de vermos o romantismo e o medievalismo caminhando lentamente para seu esgotamento, é mister notar que o homem moderno não se ergue sobre os próprios pés. Sem a escola dos antigos nossa literatura degenerará em fofoca vulgar e filisteísmo inócuo. Tudo isso me leva ao bem-intencionado conselho de pôr termo de vez a essa mania germanófila tão condenável.”
“no lugar de Untersuchung agora se escreve Untersuch; [investigação] pior ainda, no lugar de allmälig, mälig; [gradualmente – as grafias em voga são allmähllich ou mähllich, até mais longas!] em vez de beständig, ständig. [incessante, remanescente, constante, perpétuo]¹No lugar de beinahe [quase], nahe[perto]. Ora, se um francês começasse a escrever près no lugar de presque, [perto no lugar de quase], ou se um inglês escrevesse most[mais] em vez de almost[quase], seriam objeto de ridículo; mas na Alemanha quem quer que faça esse tipo de supressão passa por original. Nossos químicos já escrevem löslich [solúvel]e unlöslich[insolúvel] no lugar de unauflöslich, [indissolúvel ou irreconciliável/inconciliável] e se os gramáticos não quebrarem suas juntas e articulações eles roubarão da língua uma valiosa palavra. Nós, cadarços, e também conglomerados dos quais o cimento é amolecido, bem como qualquer coisa análoga, são löslich[desatados, afrouxados, quando esta palavra era exclusiva para esta conotação]; mas aquilo que é auflöslich, [dissolúvel]² ao contrário, é tudo que desaparece num líquido, como o sal na água. Auflösen[dissolver, derreter, desintegrar] é o terminus ad hoc, [termo técnico, importado da ciência cosmopolita européia] que diz isso e nada mais, precisando um conceito. Nossos agudos improvisadores da língua, porém (…) por coerência e contigüidade, seriam obrigados a fazer de lösen sinônimo ou substituto de ablösen[aliviar, abrandar, até substituir ou revezar, e guardar], auslösen, [liberar, causar, lançar]einlösen, [resgatar, honrar, redimir]³ etc. Neste andar da carruagem, a língua se tornará de uma uniformidade boçal e estéril.Lembremos, contudo, que empobrecer o idioma em uma só palavra significa, ao mesmo tempo, tornar o pensamento da nação mais pobre em um conceito inteiro. Essa é, apesar de tudo, a tendência dos esforços conjuntos de quase qualquer autor dos últimos 10 ou 20 anos. O que demonstrei com a ajuda de um caso poderia ser corroborado por cem mais, e essa abjeta economia de sílabas se dissemina como uma doença. Os malditos desgraçados contam mesmo as letras, e não hesitam em mutilar uma palavra, ou usar outra num falso sentido, sempre que assim puderem ganhar 2 caracteres. Aquele incapaz de novos pensamentos irá trazer ao menos algumas novas palavras ao mercado, e todo desperdiçador de tinta ainda ousa considerar sua vocação melhorar a língua! Os jornalistas são os mais desavergonhados; os jornais, devido à natureza trivial de seus conteúdos, possuem, logicamente, os maiores públicos; de fato um público que na maioria das vezes lê jornais e apenas jornais. E através dos jornais cria-se a mais nefanda ameaça à língua. Eu recomendaria, portanto, que se submetesse essa classe profissional a uma CENSURA ORTOGRÁFICA, ou que pelo menos pagassem uma multa por cada palavra estrambótica ou mutilada. Afinal, o que é que pode ser mais descabido do que essas mudanças na língua procederem das camadas mais baixas da literatura? A língua, em especial uma língua, relativamente falando, original como a alemã, é a herança mais valiosa de uma nação, sendo ao mesmo tempo uma obra de arte excessivamente complicada, facilmente danificável, e impossível de ser restaurada – um caso clássico de noli me tangere. [não-me-toque, i.e., o princípio daquilo que não deve ser mexido se isso puder ser evitado, sob pena de acabar estragando a coisa] Outras nações já passaram pelo mesmo, demonstrando grande compaixão por seus idiomas, ainda que fossem idiomas ou dialetos muito menos singulares que o alemão. A língua de Dante e de Petrarca difere em ninharias do italiano vigente; Montaigne é bastante legível ainda hoje, assim como Shakespeare, até em suas edições mais remotas. Para o cidadão alemão é melhor ter palavras mais longas em sua boca, uma vez que ele pensa devagar, e as palavras compridas dão-lhe tempo para refletir. Esse estado dominante da economia lingüística dos alemães se exibe em fenômenos ainda mais característicos. Por exemplo: em completa oposição à lógica e à gramática, o alemão usa o imperfeito no lugar do perfeito e do mais-que-perfeito; o verbo auxiliar não sai de seus bolsos; prefere o ablativo ao genitivo; unicamente para omitir uma ou duas partículas lógicas elaboram-se sentenças tão intrincadas que é necessário reler 3 vezes para se entender; é só o papel, e não o tempo do leitor, que os escrevinhadores se importam em poupar. Em nomes próprios, como é a maneira dos hotentotes, [comentário com matiz racista de Schopenhauer, se referindo a um povo africano] não se dignam a indicar o caso pela inflexão do próprio substantivo ou pela desinência do artigo: que o leitor o adivinhe! Mas, ah!, o alemão tem ainda uma predileção toda especial por contrair a vogal dupla e suprimir o h, que é sempre pronunciado, essas letras sagradas para a prosódia [entonação]”
¹ A bem da verdade, as formas com prefixos ou afixos, as mais longas, ainda são dicionarizadas. O estrago não foi tão considerável quanto Schopenhauer previa. No português, uma mudança ortográfica vulgarizadora análoga poderia ser: de (fazer uma)investigação, termo “erudito”, para (dar uma)investigada (coloquial).
² Hoje, com efeito, unlöslich possui apenas o significado químico (in)solúvel, mas lösen possui tanto o químico quanto o de desatar um nó (embora haja variados sinônimos, como binden e zubinden), ao passo que auflöslich caiu em completo desuso. Para comparar com uma mudança em português correlata que suprima afixos e morfemas mas mantenha a palavra na mesma ordem simbólica, poderíamos citar indissolúvel e dissolúvel, onde o -dis- é facultativo, e eu já havia sublinhado no texto principal. Curiosamente, na nossa língua a semântica de (dis)solver também guarda relação com o ato de (des)atar, que associamos imediatamente a cadarço ou nó; mas, no caso, usamos o primeiro apenas para operações abstratas (resolver, solucionar um problema; quando muito, podemos desatar um nó górdio, figura de linguagem).
³Hoje redimir pode ser expresso em alemão tanto com ablösen quanto com einlösen. Digamos que o einlösen é mais pertinente a contextos como honrar ou redimir uma dívida ou – no uso arcaico que se preservou – uma mulher, uma virgem, honrá-la, etc., casando-se com ela, p.ex..
“Redigir Literatur no lugar do correto Litteratur é também muito benquisto, pois salva uma letra. Em defesa desse procedimento, o particípio do verbo linere é citado como raiz da palavra. [esse termo saiu de uso] Ocorre que linere significa difamar; por uma estranha coincidência, a nova grafia pode muito bem ser acertada para dar conta da maior parte da impressão de livros dos alemães; assim distingue-se mais facilmente uma rara Litteratur de uma muito prolífica e interminável Literatur.” [!!!] Hoje, Litteratur desapareceu do léxico…
“A fim de escrever com concisão, um homem deve melhorar seu estilo e drenar todo falatório e tagarelice, o que dispensará cortes de sílabas e letras em virtude do custo do papel. Mas escrever tantas páginas inúteis, tantos artigos inúteis, tantos livros inúteis, e depois querer compensar o desperdício de matéria e de tempo às custas de sílabas e letras inocentes – isso é que é o superlativo do que na língua inglesa chamam de <being penny wise and pound foolish>: avaro com centavos e ninharias, extremamente perdulário no que realmente importa e é o olho da cara.”
“É de se lamentar a ausência de uma Academia Germânica para cuidar da língua contra o pedestrismo literário, especialmente numa era em que mesmo os ignaros das línguas antigas se aventuram a empregar as prensas.”
“Toda vez que iniciamos o aprendizado de uma língua nova, temos de repetir todo o processo do zero. Mas se aprendemos uma língua para o uso passivo e não o ativo – isto é, unicamente para ler, mas não para falar, como, p.ex., muitos de nós aprendem o grego – a conexão é unidimensional, pois as concepções ocorrem em nós juntas com as palavras; na outra mão, a palavra nem sempre nos ocorre junto com a concepção. Isso acontece em miniatura quando aprendemos novos vocábulos numa língua que já dominamos, particularmente com nomes de lugares e pessoas.”
12. SCHOPENHAUER E A ESTÉTICA: APERFEIÇOADOR DE KANT
“Aquele conhecimento profundo, puro e verdadeiro da essência do mundo se torna um fim em si para o artista, que se detém nele. Eis porque um tal conhecimento não se torna para ele um quietivo da Vontade¹”
¹ Seria o desejável. Mas é assim de fato com a classe artística? Ou não seria antes o caso da exceção?
O quanto não sofreu Schopenhauer, que não foi santo nem poeta (músico, pintor…), apenas filósofo sem coroa! Sua norma, a Vontade, também não foi acolhida pelas futuras constituições dos homens…
“O que é nobre e sábio raramente consegue fazer sua aparição ou encontra eficácia e eco; mas o absurdo e o perverso no domínio do pensamento, o rasteiro e de mau gosto na esfera da arte, o mau e fraudulento na esfera dos atos, realmente afirmam sua supremacia, obstados apenas por pequenas interrupções. Ao contrário, o insigne de todo tipo não passa, sempre, de uma exceção, um caso entre milhões: por conseguinte, se porventura tiver se anunciado numa obra duradoura, ela permanece subseqüentemente isolada após ter sobrevivido ao rancor de seus contemporâneos, sendo conservada como uma espécie de meteorito vindo de uma outra ordem de coisas, diferente da aqui imperante.”
“A boa vontade é, em moralidade, tudo; mas na arte não é nada.”
“A filosofia está para a arte como o vinho para as uvas.” A filosofia descobre o cerne da aparência. O contrário também poderia ser afirmado sem que a veritas cedesse em 1 milímetro para o erro. Cristo era mais artista que filósofo. Carpinteiro. O dá-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo da Estética: Dá-me uvas boas o bastante e meus pés saberão amassá-las numa boa bebida que fermentarei.
“Na série de artes expostas por mim, a arquitetura e a música são os dois extremos da escala.”
12.1 ARQUITETURA
“a luta entre gravidade e rigidez é propriamente o único tema estético da bela arquitetura.” “A nossa alegria numa semelhante obra seria de súbito bastante diminuída se nos fosse revelado que o material de construção é pedra-pomes, pois assim ela apareceria como uma espécie de construção ilusória. O mesmo efeito seria produzido pela informação de que se trata apenas de um edifício de madeira, quando até então pensávamos ser de pedra, precisamente porque isso doravante muda, altera a relação entre rigidez e gravidade e, com isso, a significação e a necessidade de todas as partes”
“Todo o exposto demonstra precisamente que a arquitetura faz efeito não apenas matemática mas também dinamicamente, e que aquilo a falar-nos por ela não é meramente a forma e a simetria, mas antes as forças fundamentais da natureza, as Idéias primeiras, graus mais baixos de objetividade da Vontade.”
“Se alguém pudesse trazer um grego antigo para diante de nossas mais celebradas catedrais góticas, o que ele lhe diria? — βάρβαρος!” Aqui a língua portuguesa (senão muitas outras!) dá espaço para um belo trocadilho: barbaroi!, i.e., bárbaros! Que um edifício ou qualquer outra coisa seja bárbaro poder-se-ia entender como elogio. Que livro maravilhoso, a caracterização do herói ficou bárbara! A despeito disso, o grego em questão só quis mesmo depreciar nosso estilo arquitetônico forasteiro e irracional diante do cânone clássico. Isto lá é arte?!
12.2 ESCULTURA
“Ele imprime no mármore duro a beleza da forma que a natureza malogrou em milhares de tentativas, coloca-a diante dela e lhe brada: ‘Eis o que querias dizer!’. Para em seguida ouvir a concordância do conhecedor: ‘Era isso mesmo!’. Só assim pôde o gênio grego descobrir o tipo arquetípico da figura humana e estabelecê-lo como cânone da escultura.”
“Que Laocoonte, no famoso grupo de esculturas, não grite, é algo manifesto. A estranheza geral e sempre repetida em face disso deve ser atribuída a que, na sua situação, todos nós gritaríamos: e assim também o exige a natureza. Pois, no caso da dor física mais intensa e do súbito aparecimento da maior das angústias corporais, toda reflexão que poderia conduzir a uma resignação silenciosa é subitamente reprimida da consciência e a natureza se alivia pelo grito, exprimindo assim a dor e a angústia, ao mesmo tempo em que invoca alguém salvador e espanta o agressor. Já Winckelmann sentia falta da expressão do grito. No entanto, na medida em que procurava uma justificativa para o artista, transformou, propriamente dizendo, Laocoonte num estóico, o qual considerava inadequado à sua dignidade gritar secundum naturam, e assim acrescentar à própria dor a coerção inútil de evitar a sua manifestação. Em conseqüência, W. vê em Lao. ‘o espírito de um grande homem posto à prova, um mártir procurando suprimir e reter em si mesmo a expressão do sentimento: ele não irrompe em sonoros gritos, como o faz em Virgílio, mas somente emite gemidos lamentosos’ (…) Esta opinião é por sua vez criticada por Lessing (…) no lugar do fundamento psicológico, ele coloca o fundamento puramente estético, ou seja, que a beleza, princípio da arte antiga, não admite a expressão do grito. Outro argumento por ele aduzido, de que um estado completamente passageiro e incapaz de qualquer duração não pode ser exposto numa obra de arte imóvel, tem contra si centenas de exemplos de figuras maravilhosas, captadas em movimentos inteiramente fugidios, dançando, lutando, correndo etc. Goethe mesmo, em seu estudo sobre Lao., que abre os Propileus (p. 8), considera a escolha de um semelhante momento passageiro absolutamente necessária.” “Sobre o palco Laocoonte obrigatoriamente tinha de gritar. Também Sófocles faz Filoctetes gritar: de fato, nos palcos antigos ele efetivamente devia gritar. (…) um grito pintado ou destituído de voz seria ainda mais risível do que música pintada”O grito pode ser desenhado como onda; além disso já existe música pintada, acreditem!
“na escultura o drapejado é em certa medida o que na pintura é o escorço: ambos são alusões, mas não simbólicas, e sim tais que, se bem-executadas, compelem imediatamente o entendimento a intuir o aludido, como se ele realmente tivesse sido dado.”
“A escultura grega apela à intuição, pelo que é ESTÉTICA. Já a escultura indiana apela ao conceito, pelo que é SIMBÓLICA.”
“A escultura moderna, o que quer que realize, ainda é análoga à poesia moderna em latim, e, como esta, é uma filha da imitação, nascida de reminiscências. Se tenta ser original, cai no nonsense, especialmente quando toma o mau caminho de se conformar à natureza [crítica às esculturas realista e naturalista] em vez de às proporções clássicas dos gregos.”
12.3 PINTURA
DA GULA AO PORNÔ:“Frutas pintadas ainda são aceitáveis, visto que, como um desenvolvimento tardio de flores, e pela sua forma e cor, oferecem-se como um belo produto natural, sem que se seja obrigado a pensar na sua comestibilidade. Mas, infelizmente, encontramos com freqüência, pintadas com naturalidade ilusória, iguarias preparadas e servidas, ostras, arenques, lagostas, pães amanteigados, cerveja, vinho, etc.; tudo isso é bastante repreensível. – Na pintura de gênero e na escultura o excitante consiste nas suas figuras nuas, cujo posicionamento, semipanejamento e todo o modo de execução são calculados para despertar a lubricidade do espectador, pelo que a pura consideração estética é de imediato suprimida e a obra se posta contra a finalidade da arte.”
“Alguma vez a natureza produziu um homem perfeitamente belo em todas as suas partes? – Opinou-se que o artista tem de estudar conjuntamente as muitas partes belas isoladas distribuídas por muitos homens e delas compor um todo belo. Eis uma opinião disparatada. (…) de onde deve o artista reconhecer que precisamente estas formas isoladas são belas e não as outras? – Também vemos até onde foram (…) os antigos pintores alemães. Considerem-se suas figuras nuas. – Conhecimento algum do belo é possível de maneira puramente a posteriori.”
A PINTURA NÃO NECESSITA SER HISTÓRICO-CRISTÃ: “Indivíduo algum ou ação alguma podem ser sem-significado [o quanto isso não contrasta com o teor do livro 4!] (…) Eis por que nenhum evento da vida humana deve ser excluído da pintura. Em conseqüência, é-se muito injusto com os maravilhosos pintores da escola neerlandesa ao apreciar somente suas habilidades técnicas, desprezando-os no resto, alegando-se que, na maioria das vezes, só expõem objetos da vida cotidiana, enquanto se consideram como significativos, ao contrário, somente os eventos da história universal ou bíblica.” “Até mesmo a fugacidade dos momentos que a arte fixou em tais obras (hoje em dia denominadas pinturas de gênero) desperta uma leve e específica comoção: pois, fixar o mundo fugaz (em constante transformação) em imagens duradouras de eventos particulares a fazerem as vezes do todo é uma realização da arte da pintura pela qual esta parece trazer o tempo mesmo ao repouso, na medida em que eleva o indivíduo à Idéia de sua espécie.” “é em geral uma grande infelicidade que o povo cuja cultura deveria servir de base para a nossa não seja o indiano nem o grego, ou mesmo o romano, mas justamente esse povo judeu; o que foi nefasto em especial para os pintores geniais da Itália, nos séc. XV e XVI, arbitrariamente restritos a uma esfera limitada de temas, na maioria das vezes mesquinharias de todo tipo. Pois o Novo Testamento, em sua parte histórica, é para a pintura tão desfavorável quanto o Antigo, e a história subseqüente dos mártires e Padres da Igreja é um tema mais infeliz ainda.”
“TISCHBEIN, pintor filosófico ou o filósofo que pinta. A metade superior de um seu desenho representa mulheres cujos filhos estão sendo raptados, mulheres que, em diferentes grupos e posições, expressam variada e profundamente a dor materna, angústia, desespero; a parte inferior mostra, em agrupamento e ordenação inteiramente iguais, ovelhas, das quais as crias também são retiradas: de forma que a cada cabeça e a cada posição humana da metade superior do desenho corresponde, na metade inferior, um análogo animal, com o que se vê distintamente em que moldes a dor possível na abafada consciência animal se relaciona com o devastador tormento unicamente possível pela distinção do conhecimento, pela claridade de consciência.”
“Diante de um quadro, como diante de um príncipe, todos devem aguardar, de pé, o que ele dirá, se é que dirá alguma coisa.”
“A escultura parece quadrar melhor como a afirmação, a pintura como a negação da vontade de vida. Esse ponto de vista seria autodemonstrável a partir do fato de a escultura ser a arte dos antigos por excelência, enquanto a pintura tem sido até aqui a arte da era cristã.” Agora nem mesmo a vontade de morrer se manifesta – em suspenso num ecrã nem frio nem quente,diria Marshall McLuhan…
12.4 POESIA E TEATRO
“Assim como o químico combina 2 fluidos perfeitamente claros e transparentes e dessa combinação resulta um precipitado sólido, também o poeta, a partir da universalidade transparente e abstrata dos conceitos, sabe combiná-los e obter um precipitado concreto, individual, a representação intuitiva.”
“a crítica e a sátira, sem nenhuma condescendência, deveriam açoitar os poetas medíocres (…) Pois, se até mesmo a torpeza de um imbecil deixou irado o brando Deus das musas, a ponto de dilacerar Mársias, não vejo onde a poesia medíocre possa basear sua pretensão à tolerância.”
“O puro e simples historiador, que trabalha exclusivamente conforme os dados, assemelha-se a alguém que, sem conhecimento algum da matemática, investiga e mede por traços a proporção das figuras encontradas casualmente; com isso o estabelecimento dessas medidas encontradas empiricamente está todo ele sujeito aos erros das figuras assinaladas. O poeta, ao contrário, assemelha-se ao matemático que constrói aquelas relações a priori, na pura intuição, expressando-as não como a figura efetivamente assinalada as possui, mas como as mesmas são na Idéia e que o desenho deve tornar sensível.”
“Embora nas artes apenas o gênio autêntico possa realizar algo de bom, parece que unicamente a poesia lírica constitui uma exceção, pois até homens no todo não tão eminentes podem, às vezes, mediante forte estímulo proveniente do exterior e um entusiasmo momentâneo, elevar suas faculdades espirituais acima de sua medida comum, e assim produzir uma bela canção.” “Reproduzem-se na poesia lírica do genuíno poeta o íntimo da humanidade inteira e tudo o que milhões de homens passados, presentes e futuros sentiram e sentirão nas mesmas situações”
“Justamente por isso o jovem se prende tanto ao lado intuitivo e exterior das coisas; justamente por isso se inclina à poesia lírica e, só quando se torna adulto, à dramática. Podemos pensar o ancião no máximo como poeta épico, semelhante a Ossian e Homero, pois narrar pertence ao caráter de quem é idoso.”
“O jovem que foi iniciado na poesia antes que na própria realidade passa a desejar desta última o que só a primeira pode dar; essa é a principal fonte do desconforto que oprime o peito dos jovens talentosos.”
“ninguém pode prescrever ao poeta o dever de ser nobre e sublime, moralista, pio, cristão, isso ou aquilo, muito menos censurá-lo por ter este e não outro caráter. O poeta é o espelho da humanidade, e traz à consciência dela o que ela sente e pratica.”
“Os poetas conduzem seus heróis por milhares de dificuldades e perigos até o fim almejado; porém, assim que este é alcançado, de imediato deixam a cortina cair, pois a única coisa ainda a ser mostrada seria que o fim glorioso no qual o herói esperava encontrar a felicidade foi em realidade um ludibrio, de modo que após atingi-lo não se encontra num estado melhor que o anterior.”
“a genialidade propriamente dita só serve para conquistas teóricas, é só para isso que liga o gênio, que, por isso mesmo, não se impacienta na hora de aguardar o tempo certo para lançar suas idéias e para obter o reconhecimento (muitas vezes, póstumo). Quanto à ocasião para meditar e avançar em seu trabalho, o gênio oportunamente escolhe os momentos de repouso, em que nenhuma comoção o atinge, nenhuma onda afeta a superfície lisa do lago que é sua mente, um espelho que reflete perfeitamente a possibilidade da compreensão do mundo.¹ (…) O Torquato Tasso de Goethe é inteiramente redigido deste ponto de vista. (…) em confirmação deste pressuposto, vemos como em todas as eras grandes generais e ministros, os tipos eficientes e práticos, aparecem, sempre que meras condições externas se mostram favoráveis. Grandes poetas e filósofos, por outro lado, só surgem realmente de séculos em séculos.”
¹ Hoje isso seria impraticável no Brasil.
“Quão mais corretamente, quão mais estritamente de acordo com as leis da natureza seus personagens são apresentados, maior é sua fama; daí que Shakespeare se encontre no topo.”
“repetida, mas variada e distintamente, a pergunta atravessa o pensar como um relâmpago, O que é tudo isso?, ou então, Como tudo isso está configurado? A 1ª questão, se se mantém continuamente presente na cabeça, desenvolve o filósofo; a outra, reiteração após reiteração, nas mesmas condições, forja o artista ou poeta.”
“Minha própria experiência de muitos anos me ditou a opinião de que a loucura ocorre proporcionalmente, com mais freqüência, entre os atores. Quão mal eles não empregam sua memória! Diariamente eles têm de aprender um novo texto ou recordar um antigo; mas esses textos não possuem conexão nenhuma entre si, são aliás contraditórios e contrastantes um com o outro, e toda noite o ator se esforça por esquecer dele mesmo por inteiro e por ser uma pessoa bastante diferente. Esse tipo de coisa pavimenta o caminho da loucura.”
“as artes plásticas e pictóricas não são indispensáveis: nações inteiras – p.ex. os povos muçulmanos – não as têm, mas nenhum povo é sem música e poesia.”
“O melhor reconhece a si mesmo como melhor uma vez que ele contempla quão superficial é a visão dos outros, quanto a sua se encontra além daquela, muito além do que os outros são capazes de reproduzir, porque quem não produz, muito menos poderia reproduzir. Se hipoteticamente o poeta superior enxergasse os poetas superficiais tão mal quanto ele mesmo é enxergado por eles, era mister que o poeta superior desesperasse; sendo necessário um homem extraordinário para fazer-lhe justiça, é de lei que os poetas de baixa extração poderão estimá-lo tão pouco quanto ele poderá estimar poetastros. É preciso que ele viva longamente baseado apenas em auto-aprovação antes que o mundo o enxergue e o aprove. Enquanto esse dia não chega, na praça pública ele é despido mesmo do selo de auto-aprovação, porque a sociedade requer modéstia. Mas é tão impossível que aquele que tem mérito – e que sabe quanto ele custa – seja cego ao mérito quanto que um homem de 1,80m não se dê conta de que é mais alto que a multidão.” “Horácio, Lucrécio, Ovídio e praticamente todos os antigos falaram de si com altivez, assim como Dante, Shakespeare, Bacon de Verulam e tantos outros. Que um homem possa ser grandioso sem nisso reparar é uma absurdidade de que só uma mente irremediavelmente incapaz poderia se convencer”“mérito e modéstia nada têm em comum, salvo a primeira letra.”
“Se tivéssemos acesso à oficina dos poetas, verificaríamos que o pensamento é posto à frente da rima dez vezes para cada vez que a rima tem a prevalência”
“Assim que uma última sílaba recebeu um som equivalente em verso posterior, seu efeito está exaurido; a terceira recorrência da mesma nota seria meramente uma segunda rima que atinge acidentalmente o mesmo som, mas sem sublinhar o efeito; o terceiro verso se conecta aos dois preexistentes, mas não ajuda a elevar ou criar impressão. Isso porque a primeira nota não soa antes de ser repetida, mas quando é de novo repetida não volta a soar: seria um pleonasmo estético que isso acontecesse. Sonetos, terza rima[terceira rima] e oitavas [ottava rima] são muitas vezes penosas e torturantes de se ler graças à redundância do efeito. Não valem o que se sacrifica para obter as rimas. Que o grande gênio poético supere ocasionalmente até a limitação dessas formas, continuando a se mover com sutileza e graça, só prova que um gênio é gênio, mas não é uma carta de recomendação dessas formas em si, porque elas continuam a ser, a despeito dos grandes poetas, difíceis e ineficazes.” “Sendo assim, vejo como prova de bom gosto, e não como evidência de ignorância, que Shakespeare em seus sonetos tenha atribuído rimas diferentes a cada quadra. De qualquer forma, seu efeito acústico não diminui por isso, e o pensamento, em troca, obtém assim muito mais ressonância do que poderia com a preservação e reprise das palavras à la española.”
“Quando a poesia romântica transfere suas cenas para a Grécia ou a Roma antigas ela perde a concretude e o detalhe, se torna insuficiente e fragmentária, abstrata, generalista, sem individuação. (…) Só Shakespeare, em suas peças de época, é que está livre desta crítica. Sem hesitar, ele apresentou, sob nomes greco-romanos, ingleses de seu próprio tempo.”
AS TRÊS PRATELEIRAS DOS ANIMADORES DE PERSONAGENS: “Os poetas de maior calibre são como ventríloquos, em que ora o herói, ora a donzela, ora o antagonista são apresentados sucessivamente com as mais variadas cores, todos de forma convincente. Isso se vê em Shakespeare e Goethe. Os poetas de segunda safra transformam o protagonista num alter ego próprio. Esse é o proceder de Byron. Nele e nos seus semelhantes os personagens secundários são insípidos, borrões. Já no poeta medíocre, nenhum personagem escapa dessa sina.”
“Somos capazes de detectar a qualidade do todo de uma obra literária lendo não mais do que algumas páginas. (…) Com apenas uma amostra sentimos o ritmo, a flexibilidade e a leveza do autor de gênio, pressentimos com pouco material a que elevação sua mente pode chegar em seu máximo. Mas, na outra mão, também captamos instantaneamente o enfado, a rigidez, a tolice e o pesadume de uma pena. Assim como a língua é a expressão do intelecto de uma nação, o estilo vem [a] ser a expressão mais imediata do intelecto de um autor, mais até que sua fisiognomonia. Deixamos um livro de lado quando percebemos que através de suas páginas tudo que atingimos é uma região mais obscura que a nossa mesma, a menos que nosso objetivo seja unicamente nos instruir de fatos ali relatados; jamais de pensamentos.”
12.5 METAFÍSICA DO GÊNIO
“nossa consciência tem dois lados; uma metade é a consciência de nós próprios, que é a Vontade; a outra metade é a consciência das outras coisas, ou seja, primariamente conhecimento, mediante a percepção, do mundo externo, a apreensão dos objetos.”Isso já havia sido dito com outras palavras no livro – o que ocorre é que, neste contexto, que é a Estética e o processo de criação, o artista e sua obra se tornam indistinguíveis (Consciência máxima! Objetividade, se já existiu alguma). Só se voltam a separar no momento da crítica: autor de um lado, obra do outro. A crítica imparcial bem-sucedida é o exercício da subjetividade do logos. Neste ínterim, portanto, não há que se falar em autoconsciência como sinônimo da Vontade.
“Só apreendemos o mundo de forma puramente objetivaquando não mais sabemos que a ele pertencemos; e todas as coisas parecem mais e mais belas à medida que delas e somente delas somos conscientes, e quanto menos somos conscientes de nós próprios.” Está correto se se refere puramente ao processo da crítica da arte, com alguns ajustes – Sinal trocado: de forma puramente SUBJETIVA – quanto mais somos conscientes de nós próprios (o crítico apreende a obra como algo estranho, sujeito x objeto, esqueceu que a criação do artista, sua objetividade, está em ser o objeto enquanto o objeto é consciência, na fusão dos pólos). Propriamente falando, o artista não julga o que é ou não é o belo, pois se torna provisoriamente o próprio belo. Como pode a beleza argumentar intelectualmente sobre a beleza? Ela apenas é. Narciso não se reconhece ao espelho, está menos consciente de si, pode julgar seu reflexo (o outro) como belo. Narciso é o crítico – quem está desinteressado de si está interessado no outro (a obra). Nele, sujeito e objeto estão divorciados, Narciso não é a imagem de Narciso. O artista é todo consciência-de-si, ele e a obra são cegos à outridade, entendem apenas os reflexos (o espelho que reflete a si próprios), estão fechados em si numa subjetividade infinita – mas como não há outro, apenas mesmidade, identidade, trata-se da OBJETIVIDADE PERFEITA E AUTO-SUFICIENTE DO QUE É IGUAL A SI MESMO. Narciso, o crítico, se afoga porque carece, busca o complemento, a beleza (Narciso não é a beleza, ele é inconsciente de si, seu corpo não está em consideração a não ser como outro, infinitamente separado por um abismo). O reflexo (a obra) não quer nada. Sujeito e objeto aqui são um, o mundo. O exterior e o interior simultâneo. O Ser. Não há logos, só recursividade tautológica. Vênus é. O amor é cego e no entanto não deseja enxergar (interagir com o exterior). O amor é o processo de criação.O amor está na boca do mundo, é discursado pelos loucos da subjetividade irrestrita. Só neste sentido, o amor é a Poesia (subjetividade) e a crítica é a Verdade (objetiva). Homero descreve o mundo; a verdade desmistifica-o. A verdade é a verdade dos homens, discurso, sempre carente da serena objetividade muda e inacessível da beleza.
Goethe compreendeu esta antítese, e por isso sua autobiografia se chama Poesia & Verdade. Poesia é a sua obra, verdade o indivíduo biografado. Por ser uma obra, versando sobre a obra e a crítica, é Poesia, como foram antes seus poemas que não falavam de poemas, mas uma poesia sem objeto, inacabada. Por ser uma crítica, prosando sobre a crítica e a obra, é Verdade, verdade clínica e impessoal de sua vida. Beleza deficitária, crítica consumada. Tentativa de uma síntese impossível a não ser dentro da obra de arte que é o artista enquanto indivíduo. O jeito do belo ver, elogiar, participar – a possibilidade da crítica ser bela e definitiva.
Sch. se contradiz – e muito – em estética! Se o objetivo é o instinto da espécie, é óbvio que o artista terá mais instinto que o plebeu – mas Sch. vê a recepção da obra como algo objetivo, e não o inverso, ao mesmo tempo em que nele o plebeu tem mais instinto, e menos autoconsciência. Sua teoria está de ponta-cabeça.
“só o gênio é capaz de um esquecimento completo da própria pessoa e de suas relações; segue-se que a GENIALIDADE nada é senão a OBJETIVIDADE mais perfeita, ou seja, orientação objetiva do espírito, em oposição à subjetiva que vai de par com a própria pessoa, i.e., com a [própria]vontade.” “como diz Goethe, fixar em pensamentos duradouros o que aparece oscilante no fenômeno.” “claro olho cósmico”No entanto, continua confuso e ambivalente. Quando quer, joga a Vontade para o fenômeno, com mediação da IDÉIA. Schopenhauer troca objetividade e subjetividade o tempo todo nas suas definições da genialidade.
“excedente de conhecimento livre”
“purificado de Vontade, [Mas o abandono da razão é o contrário!] espelho claro da essência do mundo – Daí se explica a vivacidade que beira a inquietude,¹ em indivíduos geniais, na medida em que o presente quase nunca lhes basta, já que não preenche a sua consciência. Daí resulta aquela tendência ao desassossego, aquela procura incansável por novos objetos dignos de consideração, o anseio quase nunca satisfeito por seres que lhes sejam semelhantes e que os ombreiem e com os quais possa se comunicar. Já o filho comum da terra, ao contrário, plenamente satisfeito com o presente comum, absorve-se nele e em toda parte encontra o seu igual, possuindo aquele conforto especial na vida cotidiana que é negado ao gênio.”
¹ Aquele que cessa de desejar – que corta o fluxo do tempo, na obra de arte, tornando-se OBJETIVO – torna-se vivaz? Como explicar esse tipo de contradição schopenhaueriana?!
ETNÓGRAFOS DOS MORTOS: “Portanto, a fantasia põe o gênio na condição de, a partir do pouco que chegou a sua apercepção efetiva, construir todo o resto e assim deixar desfilar diante de si quase todas as imagens possíveis da vida. (…) o gênio precisa da fantasia para ver nas coisas não o que a natureza efetivamente formou, mas o que se esforçava para formar, mas que, devido à luta de suas formas entre si, não pôde levar a bom termo.” Uma teoria do gênio correta encaixada no molde errado (sua “Vontade” kantiana).
“há grandes espaços intermédios no qual (sic) o indivíduo de gênio, tanto no que diz respeito aos méritos quanto às carências, em muito se aproxima do indivíduo comum.” “o fazer-efeito de um ser supra-humano diferente do próprio indivíduo e que apenas periodicamente se apossa dele. A aversão do gênio em direcionar sua atenção ao conteúdo do princípio de razão mostra-se primeiro em referência ao fundamento de ser, enquanto aversão à matemática, cuja consideração segue as formas mais gerais do fenômeno, espaço e tempo”
“a impressão do presente é bastante poderosa sobre o gênio, arrasta-o para o irrefletido, o afeto, a paixão.” “ele julga e narra de maneira extremamente objetiva [subjetiva, sincera] aquilo que diz respeito aos seus próprios interesses, sem ocultar o que seria prudente ocultar (…) inclinam-se a monólogos e podem em geral mostrar muitas fraquezas que de fato os aproximam da loucura.” “todo aquele que conheceu as Idéias eternas nas coisas efêmeras aparece como louco.”
“ele vê em toda parte o extremo, e, justamente por isso, o seu agir atinge extremos. Ele não consegue encontrar a justa medida, falta-lhe a fleuma (…) O gênio conhece as Idéias perfeitamente, mas não os indivíduos. Eis por que, como já se observou, um poeta pode conhecer profunda e essencialmente O ser humano, porém de maneira muito ruim OS homens. O gênio, pois, é facilmente enganado e se torna um joguete nas mãos de astutos.”
DE-KANT-AÇÃO: “Que a Idéia se nos apresente mais facilmente a partir da obra de arte do que imediatamente a partir da natureza ou da efetividade, isso se deve ao fato de o artista, que conheceu só a Idéia e não mais a efetividade, também ter reproduzido puramente em sua obra a Idéia, separada da realidade efetiva com todas as suas contingências perturbadoras. O artista nos permite olhar para o mundo mediante os seus olhos.Que ele possua tais olhos a desvelar-lhe o essencial das coisas, independentemente de suas relações, eis aí precisamente o dom do gênio, o que lhe é inato. E, ademais, que ele esteja em condições de também nos emprestar esse dom, como se pusesse em nós os seus olhos, eis aí o adquirido, a técnica da arte.”
(N.T.) “para diferenciar Sch. de Kant, que opera uma ‘transição’ (Übergang) definitiva entre o belo e o sublime no capítulo 23 da Crítica da faculdade de juízo. (…) Como dito linhas antes pelo autor, o sentimento do sublime em sua determinação fundamental (Idéia intuída) é ‘uno’ com o do belo, distinguindo-se deste apenas pelo ‘acréscimo’ do elevar-se do contemplador para além da relação conhecida como desfavorável do objeto com a Vontade. Tanto é que Sch. falará mais adiante do ‘sublime no belo’ (Erhabenen am Schönen). Com isso, o termo gradação funcionou melhor porque indica os graus seqüenciais em que suavemente o belo e o sublime se confundem de acordo com o estado estético em que se está, sem porém distinguirem-se em natureza.”
ANTI-GORE:“se reconheceu desde sempre que o excitante negativo(repugnante) é inadmissível na arte, na qual até mesmo o feio é suportável, desde que não repugnante, e seja posto em lugar adequado”
“O fato de todos reconhecermos a beleza, caso a vejamos, sendo que no caso do artista autêntico isso ocorre com uma tal clareza que ele a mostra como nunca se vira e, por conseguinte, supera a natureza com sua exposição, tudo isso é apenas possível devido ao fato de que a Vontade – cuja objetivação adequada em seu grau mais elevado deve aqui ser descoberta e julgada – SOMOS NÓS MESMOS.”
“A possibilidade de uma tal antecipação a priori do belo no artista, bem como o seu reconhecimento a posteriori no espectador, reside no fato de ambos serem o mesmo em-si da natureza, a Vontade que se objetiva. Pois, como disse Empédocles, apenas pelo igual é o igual reconhecido; apenas a natureza pode entender a si mesma; apenas a natureza pode aprofundar-se em si. E também apenas pelo espírito é o espírito compreendido.”
“O CONCEITO é (…) alcançável e apreensível (…) comunicável por palavras sem ulterior determinação, esgotável por inteiro em sua definição.¹ A IDÉIA (…) é absolutamente intuitiva (…) nunca sendo conhecida pelo simples indivíduo enquanto tal (…) [mas pelo] puro sujeito do conhecimento (…) alcançável apenas pelo gênio, em seguida por aquele que (…) está numa disposição genial. (…) a medida do seu próprio valor intelectual.”
¹ Subordinado ao espaço-tempo.
O conceito é a medida do homem;
A Idéia a medida de deus. Deus em Platão como a perfeição humana.
“A verdadeira e única fonte de qualquer obra de arte é a Idéia” “Justamente porque a Idéia é e permanece intuitiva, o artista não está consciente in abstracto da intenção e do fim de sua obra” “não pode relatar sua atividade” “Por sua vez, imitadores, maneiristas, imitatores, servum pecus procedem na arte a partir do conceito.” “Na medida em que sugam o seu alimento de obras alheias, assemelham-se a plantas parasitas; também se assemelham aos pólipos, que assumem as cores daquilo de que se apropriam.” “Só o gênio, contrariamente, é comparável a um corpo orgânico que assimila, transforma e produz.” “a elevada formação do gênio jamais prejudica a sua originalidade. (…) tais obras maneiristas encontram com freqüência, e rapidamente, a aprovação sonora dos contemporâneos (…) Contudo, após alguns anos, tais obras já são inapreciáveis, visto que (…) mudaram.”
“tenho de naturalmente rejeitar essa e outras semelhantes colocações de Winckelmann sobre a metafísica do belo propriamente dita, embora de resto o respeite muito. Por aí se nota como se pode ter a maior receptividade para o belo da arte, e ter o juízo mais correto sobre as obras artísticas sem no entanto estar em condição de oferecer uma descrição abstrata, propriamente filosófica, de sua essência.”
“numa carta (…) ao contrário da conversação, perde-se a medida da impressão que se provocaria sobre outrem. O destinatário de uma carta a perscruta de modo sereno e numa disposição alheia à do remetente, a lê repetidas vezes, em diferentes ocasiões, podendo facilmente desmascarar a intenção secreta. Conhece-se melhor e mais fácil um autor, também como homem, a partir de seu livro, pois todas aquelas condições fazem efeito na escritura de um livro de modo ainda mais vigoroso e constante.”
PODERIA SER AO MESMO TEMPO A CRÍTICA DEFINITIVA E UMA TOLERÂNCIA QUANTO À EXISTÊNCIA DA PSICANÁLISE, ESSA PSICOLOGIA DO MEDÍOCRE COTIDIANO: “As ciências empíricas perseguidas como fim em si e sem qualquer tendência filosófica são como um rosto sem olhos. Elas são, entretanto, uma ocupação válida para homens de boa capacidade que contudo não são homens excelentes. Para as mentes superiores, esse tipo de investigação minuciosa e irrelevante seria mesmo uma perturbação e um incômodo.”
“Uma elevada capacidade mental sempre foi olhada como um dom da natureza ou dos deuses; por essa razão essa capacidade foi chamada Gaben [talento em alemão], Begabung [idem], ingenii dotes [mais uma vez o mesmo significado, no latim], dádiva (um homem ‘gifted’ de ‘gift’, presente, prêmio, doação, em inglês [em português diríamos dadivoso, superdotado]), de modo que se via e se vê o portador de tal capacidade como alguém diferente do homem mesmo, alguém que apenas cumpre um destino, graças a um favor emanando de fora ou de cima.” “todas as religiões prometem um prêmio [mas não no sentido de presente, e sim de recompensa, i.e., algo que não vem gratuitamente] após a morte, i.e., na vida eterna, pela sublimidade no campo da vontade durante a vida (a Vontade está associada ao coração), mas nenhuma gratifica, em si, o ser bom da cabeça ou sábio. A virtude, mundanamente entendida, espera sua recompensa nesse mundo mesmo; a prudência outrossim; já o gênio, a genialidade, em lugar algum (nem neste mundo, nem no próximo); o gênio é sua própria recompensa. A vontade é considerada a metade eterna do ser humano, o intelecto a metade perecível e temporal.”
“Qualidades brilhantes do espírito conquistam admiração, porém nunca afeição; esta se encontra reservada para a moral, as qualidades do caráter.”
O FUNESTO DESTINO DE LISA SIMPSON: “Nossos anos escolares podem ser comparados àqueles da vida futura, na maioria dos casos, como os dumb shows entre-atos de algumas das tragédias de Shakespeare se comparam à peça mesma: esses espetáculos desempenhados por bobos da côrte apenas com mímica antecipam, para quem prestar atenção, muitos dos diálogos e acontecimentos da peça principal, que nada mais é que nossa vida futura. § Porém, isso não quer dizer que seja possível, por quaisquer meios, prognosticar, da mesma forma, o futuro das capacidades intelectuais do homem pela sua inteligência quando garoto; ao contrário, via de regra os ingenia praecocia[gênios precoces], meninos-prodígios, acabam como uns cabeças-ocas. Já o gênio costuma ser, na infância, lento em suas concepções, e compreende com dificuldade, justamente porque compreende profundamente.”
“devido ao fato de que toda ansiedade provém da vontade, e o conhecimento, ao revés, é indolor e sereno para si mesmo, o gênio adquire sobrancelhas desdenhosas e altaneiras, conjugadas com um olhar límpido, perscrutador, parte do rosto que não está subjugada à vontade e seus caprichos, aquela aparência de magnanimidade, de uma serenidade quase sobrenatural que de tempos em tempos deixa-se observar na sua plenitude, e que contrasta poderosamente com a melancolia de todas as demais feições do gênio,¹ especialmente com sua boca, totalmente subordinada à vontade.”
¹ DA SERIEDADE DO SUPERIOR: Chamada pelo normalman de “seriedade”. Mas o que acontece é que o gênio é ansioso em total desproporção com sua vida pessoal comezinha. Sua ansiedade transborda das criações artísticas para a vida pessoal. O estúpido e bobo leva uma vida incontáveis vezes mais serena; é claro que ele se aparvalha diante das menores tontices, que duram pouco, mas talvez não reconheça um perigo real, hegemônico e duradouro. A nova onda fascista veio nos provar isso. Nossa serenidade não é extra-mundana, mas muito, muito profana e imanente. Quando até o que assenta e está na base do próprio cotidiano das massas demonstra fissuras e rachaduras, vivemos do despertar ao adormecer intranqüilos, farejando alguma coisa. Para o normalman, tudo vai bem, ou o que vai mal não deve gerar mais inquietação do que o necessário (geralmente, a autopreservação no seu sentido mais tosco e materialista, a vantagem nos ‘pequenos negócios’). A polarização entre as forças democráticas e reativas e o fascismo opressor, que é vista com bons olhos e sinal de pujança pelo gênio (afinal o fascismo está sendo contrabalançado), desagrada essas pessoinhas sem bússola do real. No fim, não é como Sch. diz, que o gênio tem mais intelecto e menos volição que o normal ou medíocre, mas ele possui mais a ambos; ainda que proporcionalmente possam estar mais injetados do dito intelecto: têm MAIS vontade e muito mais intelecto. A condição do gênio é impassível de intuição ou pressentimento, empatia, pelo normie – os medianos tateiam, deduzem, podem acertar em cheio como podem bater na lua querendo aterrissar em Marte, a margem de erro nessas análises é a mais ampla e dilatada possível, seu método para detectarem os verdadeiros gênios é completamente caótico…
“Mas mesmo o homem de grande entendimento e razão, que se pode chamar sem erro de sábio, é ainda muito diferente do gênio, e nesse tocante: que seu intelecto retém uma tendência prática, se preocupa com a escolha dos melhores meios e fins, destarteconserva-se a serviço da vontade, e conseguintemente está ocupado de um modo que é coerente de alto a baixo com sua natureza.A seriedade firme e prática da vida que os romanos denominam gravitas [gravidade, reverência]pressupõeque o intelecto jamais abandone o serviço da vontade a fim de vadiar em recantos distantes que não concernem à vontade. Desta feita, o sábio não admite essa separação entre vontade e intelecto que é a condição do gênio.” Nenhum povo defendeu jamais os gênios. Que os romanos fossem de uma moral pró-genialidade seria paradoxal – mas sim, eles eram bastante graves! Acerca dos erros grifados em verde, creio não precisar me estender muito: Schopenhauer sempre inverte a compreensão da vontade como seria necessário “flagrá-la”: o gênio é aquele que exatamente se funde com a vontade, de modo que nem conduz nem é conduzido, é outra coisa, despersonaliza-se. Não sabe, a rigor, o que é razão e intelecto enquanto é genial. E, o mais importante, o sábio, por uma limitação congênita, sempre separa o que deveria estar unido: o que ele não admite verdadeiramente é a união entre vontade e intelecção. O sábio sem gênio “está ocupado de um modo que é coerente de alto a baixo com sua natureza”: mas sua natureza é a de desrespeitar a sua vontade, sobrevalorizando a razão, espezinhando o sentimento. Não se trata aqui de negar o pathos tipicamente romano; mas este pathos se chama gravitas, não genialidade. Os recantos distantes da vida prática são o habitat insuspeito da Vontade que dirige e é dirigida pelo gênio.
“Para o gênio, suas pinturas, poemas ou pensamentos são um fim; para os outros (imitadores ou observadores), um meio. Os últimos só vêem pela frente seus próprios negócios, por isso sabem muito bem como avançá-los, bajulando seus contemporâneos, servindo suas necessidades e atendendo seus humores. Sendo assim, esses outros, os normais e vulgares, vivem em sua maioria nas circunstâncias mais felizes; o primeiro, o gênio, o mais das vezes em condições miseráveis. Ele sacrifica seu bem-estar pessoal a fim de atender seu fim objetivo; e ele não pode agir ao contrário, porque toda sua seriedade e gravidade aí repousam. Os normais, seus opostos extremos, agem ao avesso; portanto, estes últimos são pequenos, mas o gênio é grande. O trabalho do gênio é atemporal, mas seu reconhecimento costuma advir apenas na posteridade: ele vive e morre como comum, em seu próprio tempo. De forma geral, só é um grande homem aquele que, em seu trabalho, prático ou teórico, não procura tirar vantagens para si mesmo, mas persegue tão-somente seu final objetivo (desinteressado).”
“Portanto, esse predicado altivo pertence somente ao herói genuíno e ao gênio: contrariamente à natureza humana, estes espécimes nunca buscaram o próprio sucesso, nunca viveram para si mesmos, mas para todos, para a humanidade. E tanto como a matemática das populações obriga que a maioria seja constantemente pequena, jamais podendo aspirar à grandeza, a natureza proíbe a ocorrência contrária: a de alguém que pudesse ser constantemente grande, grande a cada momento, o que é impossível—
Porque todo homem é feito de barro,
E o costume é sempre sua nutriz.”
“<Quem quer que tenha nascido com um talento, para um talento, sempre encontra nele a mais bela das existências>, diz Goethe. Quando olhamos para as vidas de grandes homens dos tempos passados, não pensamos <Ó, quão feliz deve ele estar agora, por ser ainda admirado entre nós após tanto tempo!>, mas sim: <Quão feliz deve ele ter sido no imediato fruir de sua mente, cujos traços continuam a ressuscitar ao longo dos séculos!>. Não na fama em si, mas naquilo que ele sabe que atingiu (e que originou sua fama), recai o valor que ele próprio – e portanto a humanidade póstuma – se atribuiu. Este é o íntimo prazer que compensa o sofrimento material desta raça de crianças imortais que existem em todos os tempos.”
“A afinidade entre gênio e loucura, tão amiúde observada, depende primariamente daquela separação do intelecto da vontade que é essencial ao gênio, porém contrária à natureza.¹ Mas tal separação em si não indica que o gênio esteja acompanhado de uma menor intensidade de vontade. Ora, o gênio é instantaneamente reconhecido por um caráter apaixonado e veemente; mas a pessoa de excelência prática, o homem de ação, apresenta meramente o tanto de intelecto exigido por uma vontade enérgica, enquanto que a maioria massacrante dos homens carece mesmo disso; já o gênio consiste numa superabundância completamente anormal de intelecto, pelo menos em relação ao que é preciso para o uso da vontade.Baseado nessa discrepância, o homem de obras genuínas é mil vezes mais raro que o homem de ação.²É essa superfluidade anômala de intelecto que torna o gênio preponderante em suas faculdades intelectuais e liberto da vontade.³ Desenraizado daquilo que é sua origem,[a origem do homem nos instintos volitivos] ele pode exercer sua atividade com todo seu vigor e elasticidade; daí nascem todas as criações do gênio.”
¹ A impressão de loucura deriva de ver alguém que age com grandeza sem que o intelecto seja sua força-motriz. Nada mais louco que a Vontade se realizando plenamente em algo tão frágil e passageiro como o mero indivíduo. O intelecto se mantém no caminho da constância. O gênio, o artista, se despersonalizam, sobretudo da ótica do exageradamente sábio. Na próxima frase Schopenhauer parece se dar conta de seu erro primário e remedeia a afirmação.
² Aqui podemos afirmar com segurança: Napoleão foi um homem de ação, não um gênio. O gênio “não se dá bem com o seu presente”, e não se trata de mera circunstância ou azar: quão maior sua genialidade, mais essa desavença é exigida como autêntica medida do seu grau supino de genialidade.
³ Eu encaro como o homem prático aquele que se divorcia da Vontade e cujo comportamento se tornou uma quimera fictícia (tratando o fenomênico como se fosse o real fundamental – só aqui é que haveríamos de falar em loucura). O gênio, o superabundante em intelecto se compararmos com seu estoque de vontade, é aquele, no entanto, que nunca separa os galhos e a copa das suas raízes instintuais: ele é exatamente o que a natureza projeta para a raça superior de homens. É uma pena que, enxergando tão longe, sendo tão sutil durante grande parte de seu percurso, Schopenhauer não perceba algo comparativamente tão simples e seja tão grosseiro em suas conclusões cabais: o gênio só pode estar enraizado o mais profundamente na Vontade e ser a completa afirmação apaixonada do mundo mesmo! O desinteresse e o ascetismo nada têm que ver com o gênio, são duas faces da mesma moeda: do homem prático, que ignora o rizoma da existência, e do homem que ‘desistiu do mundo’, entregue à abstração vazia e ao miscitismo! Ninguém que se opõe a sua natureza e que corta seus vínculos com suas próprias origens (fica sem raiz, sem vínculo, sem origem) pode chegar longe num mundo em que realizar-se é justamente estar no mundo com o máximo ímpeto e densidade!
“Árvores muito altas e bonitas não dão frutos; as árvores que dão fruto são pequenas, feias, mutiladas. A rosa do jardim cultivado não dá rosas; a rosa pequena, selvagem, quase sem cheiro, é que dá muitos botões e perpetua. Os edifícios mais bonitos não são os mais úteis; um templo não é uma moradia. Um homem de raros e elevados dons compelido a consumir-se em negócios comezinhos e cotidianos, para os quais os homens mais ordinários seriam muito mais aptos, é como um vaso caríssimo decorado de belíssimas pinturas usado como um recipiente comum de cozinha”
NOSSO TUDO OU NADA EXASPERANTE DE CADA DIA (QUE NUNCA É O ÚLTIMO, A DESPEITO DAS APARÊNCIAS): “O gênio é, acima de tudo, o servo de dois mestres (…) freqüentemente ele conturba a vontade, o que significa que o indivíduo com dom se torna mais ou menos inútil para a vida, isto é, em sua conduta se assemelha a um louco, de acordo com o homem vulgar. Devido a seu conhecimento muito elevado, tenderá a enxergar mais o universal que o particular;mas acontece que a Vontade exige o conhecimento aplicado ao particular.[ERRO CRASO: a Vontade já é esse particular, ela busca o universal, a vontade-para-o-poder, engrandecer-se.] Ocasionalmente, no entanto, assim que uma brecha se oferece, todo esse conhecimento anomalamente excessivo se dirige com todo o ímpeto [veja que o conhecimento não tem ímpeto – isso significa que é a Vontade que se expressa mediante a faculdade da sabedoria] às circunstâncias, [o particular] às misérias da vontade e da vida, [a Vontade se volta para si mesma como num espelho] com a aptidão para apreendê-las assaz vìvidamente, bem até demais, para observar tudo em cores muito nítidas, em cores tão claras que ofuscam, e de uma forma temerariamente exagerada, de onde se constata que o indivíduo genial recai ora num extremo, ora noutro.”A pulga que vira um elefante ou a síndrome de Alice ou de Mario Bros. (encolhe e engrandece várias vezes num só dia).
A SOCIEDADE DOS MEUS MELHORES AMIGOS MORTOS: “A todo o dito resta acrescer que o gênio vive essencialmente só. É demasiado raro encontrar o tipo, ainda mais na companhia dos outros homens, que o acham, e por ele mesmo são considerados, muito diferente(s) e aparte. (…) O gênio não está adaptado a conversações: os vulgares terão tão pouco prazer nele e em sua superioridade opressiva quanto este invulgar terá com os homens. (…) Para que o gênio entabule relações com um igual, via de regra, tem de agir indiretamente, consumindo as obras que os gênios do passado legaram.”
“O homem talentoso é aquele que acerta com facilidade o centro do alvo que o franco-atirador normalmente não consegue atingir; o homem de gênio é aquele que acerta centros de alvos que os franco-atiradores não conseguem sequer enxergar. O gênio só é conhecido por vias indiretas, e tarde demais; ainda assim, só crê no gênio quem dá fé e confia nos relatos dos homens, pois que vendo a coisa por si mesmo o homem vulgar nada teria de mais a falar, nada perceberia de extraordinário.”
“em muitos estudantes¹ uma tendência puramente intelectual e uma excentricidade sugestiva do gênio é inconfundível. Mas a natureza retoma a sua marcha;[os instintos reacionários voltam a contrabalançar a natureza excessivamente intelectual que ameaça aflorar no indivíduo] eles assumem a forma de crisálida[o desenvolvimento intelectual sofre uma pausa – período de latência] e a antiga inclinação reaparece na idade adulta, transformando-os em filisteus encarnados,² o que nos choca quando os reencontramos mais tarde na vida.”
¹ Significa que por mais que muitos alunos pareçam promissores e realmente exibam o temperamento do gênio, o número efetivo de gênios na idade adulta é mínimo.
² O emprego da expressão “incarnate Philistines” no texto que traduzi soa estranho aqui, pois não combina com o teor da frase. Philistine tem necessariamente uma conotação jocosa, e no entanto Schopenhauer quer se referir aos eruditos sob uma luz de decência! Ou Sch. quer dizer que esse “retorno do intelecto” é muito defasado na maioria dos homens? I.e., surpreendemo-nos de um completo asinino (filisteu) aos 30 ter se tornado finalmente alguém ponderado aos 50? Porém isso não faz nenhum sentido, não é realista! Sendo este o caso, entretanto, deveríamos ler assim o final da frase: …transformando-os, quando não passavam de filisteus encarnados, o que nos choca….
“O entendimento, a habilidade técnica e a rotina devem preencher as frestas que a concepção e inspiração do gênio deixou para trás, e deve misturar com estas todo tipo de obra suplementar necessária como cimento das únicas partes real e genuinamente brilhantes. Isso explica por que em todas as obras, excetuando-se apenas as obras-primas perfeitas dos maiores mestres de todos os tempos (como, p.ex., o Hamlet, o Fausto, a ópera de Don Juan), notamos a mescla com qualquer coisa de insípido e enfadonho, que em alguma medida prejudica a fruição do todo. Provas vivas são o Messias[obra musical], Gerusamme liberata[outra composição sonora], mesmo O Paraíso Perdido e a Eneida; e Horácio já havia feito a observação contundente: Quandoque dormitat bonus Homerus[Às vezes até o bom Homero dormita].¹ Mas que assim seja é conseqüência das limitações das capacidades humanas em geral.”
¹ Em inglês o trecho dá azo a um excelente trocadilho: even good Homer sleeps/slips. Dorme (no ponto); desliza, vacila.
12.6 MÚSICA, O PALIATIVO FINAL
“uma bela arte permaneceu excluída de nossa consideração e tinha de permanecê-lo, visto que, no encadeamento sistemático de nossa exposição, não havia lugar apropriado para ela. Trata-se da música.” “linguagem universal, cuja distinção ultrapassa até mesmo a do mundo intuitivo” “a alegoria interior com a qual o íntimo mais fundo de nosso ser é trazido à linguagem.”
“o ponto de comparação da música com o mundo, a maneira pela qual a primeira está para este como cópia ou repetição, encontra-se profundamente oculto. A música foi praticada em todos os tempos sem se poder dar uma resposta a tal indagação. Ficou-se satisfeito em compreendê-la imediatamente, renunciando-se a uma concepção abstrata dessa compreensão imediata.”
ABSURDIDADE:“a música, visto que ultrapassa as Idéias e também é completamente independente do mundo fenomênico, ignorando-o por inteiro, poderia em certa medida existir ainda que não houvesse mundo[!!!!]– algo que não pode ser dito acerca das demais artes.De fato, a música é uma tão IMEDIATA objetivação e cópia de toda a VONTADE, como o mundo mesmo o é, sim, como as Idéias o são, cuja aparição multifacetada constitui o mundo das coisas particulares.¹ A música, portanto, de modo algum é semelhante às outras artes, ou seja, cópia de Idéias, mas CÓPIA DA VONTADE MESMA,[acaba de se contradizer de novo!] cuja objetidade também são as Idéias. Justamente por isso o efeito da música é tão mais poderoso e penetrante que o das outras artes, já que estas falam apenas de sombras, enquanto aquela fala da essência.”
¹ Se suas Idéias são para significar Vontade, perdem o sentido. Na realidade ressuscitar, malversando, Platão (nestes casos específicos do texto schopenhaueriano) só prejudica a compreensão moderna da Filosofia clássica e desvaloriza o próprio filosofar contemporâneo. Se há diferença, ela é não-concorde ao próprio sistema schopenhaueriano e, mesmo se não fosse, nunca é explicada pelo autor.
“O desvio da correção aritmética dos intervalos mediante um temperamento qualquer, ou produzida pelo tipo escolhido de tom, é análogo ao desvio do indivíduo do tipo da espécie. Sim, as dissonâncias impuras que não formam nenhum intervalo determinado são comparáveis aos abortos monstruosos situados entre duas espécies animais, ou entre homem e animal.” Isso seria verdade para a música clássica, mas não para a música do século XX (o sobressair da dissonância).
O ÚLTIMO METAFÍSICO DO TOM: “Somente a MELODIA tem conexão intencional e plenamente significativa do começo ao fim. Ela narra a história da Vontade iluminada pela clareza de consciência, cuja impressão na efetividade é a série de seus atos. Porém, a melodia diz mais: narra a história mais secreta da Vontade, pinta cada agitação, cada esforço, cada movimento seu, tudo o que a razão resume sob o vasto e negativo conceito de sentimento”
“A invenção da melodia, a revelação nela de todos os mistérios mais profundos do querer e sentir humanos, é a obra do gênio, cuja atuação aqui, mais do que em qualquer outra atividade, se dá longe de qualquer reflexão e intencionalidade consciente, e poderia chamar-se uma inspiração. Aqui o conceito é infrutífero, como na arte em geral. O compositor manifesta a essência mais íntima do mundo, expressa a sabedoria mais profunda, numa linguagem não-compreensível por sua razão: como um sonâmbulo magnético fornece informações sobre coisas das quais, desperto, não tem conceito algum. No compositor, mais do que em qualquer outro criador, o homem é completamente separado e distinto do artista. Mesmo na explanação dessa arte maravilhosa o conceito mostra a sua indigência e limites.”
“Quanto ao número inesgotável de possíveis melodias, corresponde ao inesgotável da natureza na diversidade de seus indivíduos, fisionomias e decursos de vida. A passagem de uma tonalidade para outra completamente diferente, quando a conexão com a anterior é no todo interrompida, compara-se à morte, na medida em que nesta o indivíduo finda. No entanto, a Vontade que nele apareceu existe tanto quanto antes, aparecendo num outro indivíduo, cuja consciência, todavia, não possui ligação alguma com a de seu antecessor.”
“A música exprime não esta ou aquela alegria singular e determinada, esta ou aquela aflição, ou dor, ou espanto, ou júbilo, ou regozijo, ou tranqüilidade de ânimo, mas eles MESMOS, i.e., a Alegria, a Aflição, a Dor, o Espanto, o Júbilo, o Regozijo, a Tranqüilidade de Ânimo, em certa medida in abstracto, o essencial deles, sem acessórios, portanto também sem os seus motivos.” “Essa é a origem do canto com palavras e, por fim, da ópera – que justamente por isso nunca devem abandonar a sua posição subordinada para se tornarem a coisa principal, fazendo da música mero meio de sua expressão, o que se constitui num grande equívoco e numa absurdez perversa.”Prelúdio d’O Caso Wagner.
“Tão seguramente como a música, longe de ser mero acessório da poesia, é uma arte independente, não só independente mas a mais poderosa de todas as artes, e por conseguinte alcança seus fins inteiramente com seus próprios recursos, tão seguramente quanto isto, é possível dizer que a música não necessita das palavras das letras ou da ação de uma ópera, que são acréscimos opcionais.”
“Com respeito à superioridade da música em relação a seus elementos subordinados na forma da atuação dos atores-músicos na ópera e letra da canção, e porque a música está para o libretto e a ação como o universal para o particular, como a regra para o exemplo, seria aconselhável que o libretto fosse escrito para a música e não a música composta para o libretto. No entanto, o método costumeiro (o segundo) existe porque as palavras e ações contidas no libretto conduzem o compositor, de qualquer maneira, às afetações da vontade que estão em seu imo, e despertam nele os sentimentos a ser exprimidos pela composição; agem, portanto, como meios excitantes da imaginação musical.” Atualidade total, na era das trilhas sonoras encomendadas.
“Que seja possível a relação entre uma composição e uma exposição intuitiva reside no fato de as duas serem apenas expressões diversas da mesma essência íntima do mundo. Quando uma tal relação de fato está presente [é que] o compositor soube expressar na linguagem universal da música os estímulos da Vontade constitutivos do núcleo de um evento: então a melodia da canção, a música da ópera são plenamente expressivos. A analogia encontrada pelo compositor entre aquelas duas (…) tem de provir do conhecimento imediato da essência do mundo, inconsciente para a sua razão, e não pode (…) ser imitação intermediada por conceitos. Do contrário a música não expressa a essência íntima, a Vontade mesma, mas apenas imita de maneira inadequada o seu fenômeno. Isto o faz toda música imitativa propriamente dita: p.ex., As estações, de Haydn, também muitas passagens de sua Criação, em que fenômenos do mundo intuitivo são imediatamente imitados. Também é o caso de todas as peças de batalha. Tudo isso deve ser por completo rejeitado.”
“a seriedade que lhe é essencial, a excluir por completo o risível do seu domínio próprio e imediato, explica-se pelo fato de seu objeto não ser a representação, exclusivamente em relação à qual o engano e o risível são possíveis” “Quão plena de sentido e de significação é a linguagem musical, testemunham-no até mesmo os sinais de repetição, junto com o da capo [do início em italiano], que seriam insuportáveis nas obras escritas com palavras. Na música, entretanto, são bastante apropriados e benéficos, pois, para apreendê-la completamente, tem-se de ouvi-la duas vezes.” Ou 200 ou 2000…
“Observe que na música de ópera o pathos transmitido é sempre o mesmo, não importa se o tema teatral é a desavença entre Agamemnon e Aquiles ou numa simples família burguesa. O material suplementar é irrelevante. Como Deus vê apenas o coração dos homens, a música vê e é apenas a vontade e as paixões ocultas por detrás das aparências. Desse modo, até diante das bufonarias da ópera cômica a música verdadeira preserva sua beleza, pureza e sublimidade essenciais. Na música não existe absurdo. A significância séria e profunda de nossa existência paira sobre toda a farsa e a interminável miséria da vida humana.”
“Se considerarmos a música puramente instrumental, uma sinfonia de Beethoven nos apresenta a maior das confusões, mas que não deixa de estar baseada na mais perfeita ordem, o mais veemente conflito, que é transformado no instante seguinte na mais bela concórdia. É rerum concordia discors, um quadro perfeito e verdadeiro da natureza do mundo, que flui num labirinto ilimitado de incontáveis formas, que mediante constante destruição executa uma constante reparação.” “como um mundo espiritual sem matéria”¹ “É claro que enquanto ouvimos temos a tendência se representar a música em carne e ossos e prestar-lhe uma roupagem concreta, ver através dos ouvidos cenas da vida e da natureza. Geralmente, porém, isso não é sequer requisitado para a compreensão e fruição da música, consistindo apenas em adição estranha e arbitrária inevitável dada a natureza dos sentidos.”
¹ O verdadeiro sentido de sublimação. Esqueça a psicanálise!
“a música nunca nos causa tristeza verdadeira. Mesmo em suas tensões mais melancólicas, ainda é prazerosa, e com muito deleite ouvimos em sua linguagem a história secreta de nossa vontade, com todas as suas emoções e esforços, seus variegados prolongamentos, obstáculos e misérias. Em contraste, quando, na realidade e seus terrores, é a nossa vontade mesma que é afetada e atormentada, não em sua história, mas no momento atual, quando não se trata mais de tons e relações numéricas, nós mesmos somos as cordas tensas e vibrantes que são esticadas, o que é sem dúvida doloroso.”
“Em regiões setentrionais, cuja vida está sujeita a condições árduas, especialmente entre os russos, a menor da escala musical prevalece, mesmo na música de igreja. Allegro in minor é característica da música francesa; é como se alguém dançasse com sapato apertado.”
13. A FAMOSA MISOGINIA SCHOPENHAUERIANA
ABSURDO FINALISMO… “A causa eficiente que se demonstra nas configurações animais também é válida para a barba no homem; a finalidade dela é, eu suponho, ocultar os signos patognômicos¹ rapidamente alternantes na expressão humana, que traem qualquer movimento da mente. Esses signos são principalmente visíveis no entorno da boca; desta feita, a natureza, i.e., o organismo humano mesmo – de forma a minimizar suas perdas, escondendo do olho penetrante do adversário essas alterações sutis, cuja percepção seria muito perigosa nos atos de barganha ou em situações-limite – trata de fazer crescer pêlos na região, o que se traduz pelo completo desenvolvimento da barba no homem adulto (outro índice de que homo homini lupus, o homem é o lobo do homem). As mulheres, ao contrário, podem dispensar essa ‘vantagem natural’; pois sua dissimulação e autodominío das feições são inatos.”Menos nas lusitanas…
¹ Normalmente a palavra faria referência a sintomas mórbidos reconhecíveis por um especialista; neste caso, Schopenhauer emprega o prefixo pathos, que é o mesmo de patologia, para designar expressamente os afetos e as emoções, a variabilidade do caráter humano e as expressões faciais que as acompanham, e que acabam por involuntariamente nos trair. Perguntem aos jogadores de pôquer!
“Falta de inteligência não prejudica uma mulher aos olhos de um homem. De fato, uma fêmea extraordinariamente bem-dotada mentalmente, ou mesmo uma gênia, provavelmente gerarão repulsa no homem, por serem anomalias.”
CONTRA O SAPIOSSEXUALISMO, HAHAHA! “É uma pretensão vã e absurda quando as mulheres afirmam que estão apaixonadas pelo cérebro de um homem, ou isso é sincero mas não passa de uma mania de uma natureza degenerada.”
“Os homens não têm seus instintos sexuais e amorosos determinados pelo caráter da mulher; daí haver tantos Sócrates com esposas iguais Xantipas. Alguns exemplos são Shakespeare, Albrecht Dürer, Byron.
14. RESÍDUOS: AFORISMOS, PASSAGENS DIFÍCEIS DE CLASSIFICAR, CONSOLAÇÕES OU INVECTIVAS CONTRA FILÓSOFOS OU PERSONALIDADES MENORES
“é tão reduzido o verdadeiro público de um autêntico filósofo que mesmo os discípulos que o compreendem só aparecem de séculos em séculos.”
“todo evento ou obra, sufocados em gérmen, ainda têm a infinitude inteiramente aberta para o seu retorno.”
“Apenas a significação interior vale na arte, a exterior vale na história. Ambas são completamente independentes uma da outra, podem aparecer juntas, mas também sozinhas.”
“Que é afinal a modéstia senão a fingida humildade por meio da qual, num mundo povoado de inveja, pede-se perdão pelas excelências e méritos próprios àqueles que não os possuem?”
“VIOLÊNCIA ou ASTÚCIA, os quais, em termos morais, são em essência a mesma coisa.”
“Quem se recusa a mostrar ao andarilho o caminho correto não pratica injustiça; mas quem lhe aponta o caminho errado, pratica-a.”
“O gozo da prática da injustiça num indivíduo é sempre menor que a dor ao sofrer a injustiça de outrem” Isso é tão sintético que poderia ter salvado Kant de escrever sua tortuosa Crítica da Razão Prática!
“assim como de maneira bastante engenhosa se denominou o historiador um profeta às avessas, o legislador é um moralista às avessas.”
“Todo amor puro e verdadeiro é compaixão. Todo amor que não é compaixão é amor-próprio.” “Até mesmo a amizade autêntica é sempre uma mescla de amor-próprio e compaixão” “O CHORO é COMPAIXÃO CONSIGO MESMO ou, a compaixão que retorna ao seu ponto de partida.” “sente-se que quem ainda pode chorar também tem de ser necessariamente capaz de amar”
“Embora a idade e a doença tivessem transformado a vida dele num tormento e, através do desamparo, um fardo pesado para o filho, ainda assim a morte [do pai] é chorada intensamente.”
“A verdadeira filosofia deve ser sempre idealista; de fato, deve sê-lo se quiser ser tão-só uma filosofia honesta, ainda que falsa.”
“Jacobi, em sua doutrina de que a realidade do mundo exterior é assumida com base na fé, é exatamente <o realista transcendental que se faz passar por idealista empírico> tão censurado por Kant em sua Crítica da Razão Pura”
“Fichte não deve ser mencionado em minha obra: ele não merece um lugar entre os verdadeiros filósofos; entre aqueles eleitos da humanidade que, com honestidade profunda, buscam não coisas pessoais, mas a verdade; aqueles, portanto, que não devem ser confundidos com outros, os que, sob essa pretensão, só se importam com miudezas egocêntricas e a própria carreira. (…) Mas quem quer que nomeie esse tal Fichte ao lado de Kant – e falando sério! – demonstra que não tem a menor noção de quem é Kant e o que ele representa.” Essa espetada é sem disfarces direcionada a Hegel, este nivelador universal!
“Materialismo é a filosofia do sujeito que se esquece de levar em consideração a si mesmo.”
“Chega a ser comovente como, desprovidos tanto da profundidade dos alemães como da honestidade dos ingleses, os filósofos franceses distorcem e reviram o pobre material da sensação daqui e dali, buscando incrementar sua importância, a fim de elaborar os fenômenos profundamente significativos do mundo da percepção e do pensamento.”
“Poderemos nos chamar de civilização somente quando nossos ouvidos puderem viver desprotegidos sem danos, quando não for mais <direito adquirido> de cada um perturbar a paz de consciência e a tranqüilidade de quem caminha na rua através de uma infinidade de sons como assovios, berros, relinchos, marteladas, o estalar de chicotes, latidos, etc., etc. (…) Algo mais sobre este assunto é dito no 13º capítulo do segundo volume do Parerga” Sim, amigo, eu me lembro muito bem! Quem estiver interessado (são passagens bem divertidas!), basta clicar em https://seclusao.art.blog/2017/05/30/o-pessimismo-de-arthur-schopenhauer/ e digitar Lichtenberg na busca (ctrl + F).
SÓ SEI QUE NADA (ESPERO DE) SEI(TAS): “se pudéssemos com firmeza persuadir 3 homens de que o sol não é a causa da luz do dia, seria de se esperar que logo essa nova convicção se tornaria generalizada.”
“Inferir é fácil, julgar é complicado. Falsas inferências são raras, falsos julgamentos se dão o tempo todo.”
“Quanto mais um homem é capaz de uma seriedade integral, mais, também, ele pode rir de coração.”
“A ironia é objetiva, isto é, direcionada sempre ao outro; mas o humor (o cômico) é subjetivo, i.e., existe primariamente apenas para si mesmo. É por essa razão que as obras-primas da ironia estão entre os antigos, mas as obras-primos do humor se acham entre os modernos.
“Falar diretamente dos corpos parece aos filósofos contemporâneos excessivamente vulgar; daí que eles digam <ser>, que juram soar melhor”
GERENTE-GERAL DA FIRMA:“o filósofo deve pesquisar em todos os campos do conhecimento, e inclusive, até certos limites, estar familiarizado em cada um. Segue daí que aquele conhecimento completo que só pode mesmo ser adquirido pelo estudo do detalhe está-lhe necessariamente interdito. (…) o filósofo pode ser comparado ao maestro: deve saber a natureza e o uso de todos os instrumentos da orquestra, sem embargo não seria proveitoso saber tocar todos, nem mesmo um deles como um perito ou virtuoso. O especialista é como Penélope semi-viúva à espera, que cose só para descoser. Tanto faz seus dias, o que importa é Odisseu. Ele irá ligar os pontos e dar utilidade ao trabalho da carne, ao alfinete e ao vestido.
“em si mesmas, as matemáticas deixam a mente exatamente onde elas a encontraram (…) mesmo Descartes, muito melhor matemático do que filósofo, considerava a matemática de segunda ordem, ideal para cultivar a atenção e controlar a superexcitação dos nervos”
“Se tivermos lido um livro de anedotas, digamos, 50 anedotas, e depois deixamos o livro de lado, imediatamente depois da leitura pode ser que sejamos incapazes de lembrar de cor uma única anedota. (…) O mesmo com qualquer tipo de leitura. Nossa conexão com o que aprendemos lendo depende de nossas linhas de pensamento, no contexto adequado. Aprender a fundo uma língua significa fortalecer essas conexões.”
O PROBLEMA DE DAR AULAS OU FALAR EM UMA CONFERÊNCIA, AINDA MAIS QUANDO NÃO SE É UM ESPECIALISTA:“Ocasiões suscitam pensamentos; pensamentos suscitam ocasiões apenas às vezes. Se nos propomos a fazer algo num momento determinado, isso só pode se dar perfeitamente se 1) ou não pensamos em nada até a chegada deste momento, 2) ou se nesse momento determinado nós somos lembrados do pensamento por algum símbolo, com que está associado, seja uma impressão externa plantada previamente [que tal uma simples anotação?] ou um pensamento que é de novo suscitado de forma natural. [um aluno que através de uma questão recupera nossa memória]”
“Toda manhã quando despertamos nossa consciência é uma tabula rasa, que, no entanto, logo se enche de novo. (…) até o ponto em que tudo que nos ocupava na véspera (ontem) lá de novo está.”
“algumas vezes não podemos mais nos lembrar, de manhãzinha, de uma melodia que na noite passada grudou em nossa cabeça a ponto de nausear-nos.” Mas às vezes é o oposto: acordamos ouvindo distintamente um estribilho que, estamos seguros, não nos havia ocorrido meses a fio!
“A consciência é meramente a superfície de nossa mente, da qual, igual a Terra, não conhecemos as profundezas, só mesmo a crosta.”
“Nossa auto-consciência tem, não o espaço, mas somente o tempo como forma. Não pensamos em três dimensões, como percebemos o mundo, mas só em uma, isto é, numa linha, sem largura ou profundidade. Essa é a fonte da maior das imperfeições essenciais do nosso intelecto.” Alguém que não dormisse seria alguém cuja linha reta do raciocínio e da consciência se tornou uma forca (uma corda que se torce sobre si mesma e asfixia nossa própria consciência).
“após longa e ininterrupta reflexão sobre um mesmo tema nosso raciocínio se torna gradualmente confuso e estúpido, e termina em completo estupor. Desta feita, após um certo intervalo, que, é claro, varia de indivíduo a indivíduo, devemos nos interromper e abandonar nossa meditação ou deliberação antes de resolvê-la, e nos dar certa paz e relaxamento. Mesmo que se trate de um problema crucial e muito pessoal; ou se elimina essa perturbação da mente ainda que temporariamente, por mais opressiva que seja a ansiedade em torno dela, e nos engajamos nalguma distração indiferente e banal, ou…” “Porque quando retomarmos o fio do problema, refletiremos sobre a coisa de uma outra maneira, como se fosse todo um assunto novo. Entraremos no cerne da problemática muito mais rápido e de um outro ponto de vista, desconectado das primeiras impressões de excitação e repulsa que os pensamentos já haviam percorrido, mais distanciados dos fatos. Nossa vontade aprecia tudo de outro ângulo.” “a mesma coisa, por sinal, nos parece diferente pela manhã, à tarde, à noite, ao meio-dia, noutro dia… às vezes muito diferente”
“Em geral, ocupações teóricas tornam nossa mente inábil para negócios privados, e vice-versa.”
“quando o grau de cultura é mais ou menos o mesmo, a conversação entre um homem de grande intelecto e um homem ordinário é como a jornada de dois homens caminhando lado a lado, um deles cavalgando um cavalo muito fogoso, o outro indo a pé. Logo se torna incômodo para ambos continuar a travar conhecimento. Após certa duração de tempo, impossível mesmo. Porque por um breve intervalo o cavaleiro pode apear de sua montaria e acompanhar o outro na caminhada, se bem que até mesmo a impaciência de seu animal lhe dará muito que fazer!”
“Não há meio-termo entre o desejo e a renúncia.”
“Entre os modernos, aquele que vive DA filosofia é, via de regra, salvo raríssimas exceções, o extremo oposto daquele que vive PARA a filosofia, a ponto deste ser o antípoda secreto e irreconciliável daquele. (…) E assim com os discípulos dos grandes filósofos: aquele que em vida passou despercebido, em penúria e sem jamais colher os frutos de sua grandeza, após a morte vê-se reabilitado perante a sociedade, o que é o exato oposto dos tais <renomados professores> [seria Hegel a grande exceção?]. Porém, uma vez que o filósofo deixa um legado, as novas gerações se tornam verdadeiros parasitas: herdeiros sem mérito, rebaixam sua filosofia a seu próprio patamar mesquinho e perpetuam o ciclo da gentalha, vivendo DO seu mestre, e não PARA ele. Que Kant tenha podido viver DA e PARA a filosofia dependeu da mais rara eventualidade de que, pela primeira vez desde os imperadores Antonino e Juliano, um filósofo subira ao trono. Só mesmo sob a proteção de um tal monarca a Crítica da Razão Pura poderia ter visto a luz do dia. Mal morreu o Kaiser e Kant, ainda no meio de sua carreira, foi tomado de apreensão. Como um ex-súdito de um governante sucedido por inimigos poderosos, Kant viu-se na posição de modificar, expurgar e espoliar sua obra-prima na 2ª edição, e ainda assim quase perdera o direito de lecionar e de publicar; o que o salvou foi que Campe de Brunswick¹ se tornou seu mecenas, e Kant ganhou o posto de tutor de sua família.”
¹ Nada sei a respeito dessa figura. Até seu nome parece estar transliterado errado.
“Sobre si mesmo todos sabem diretamente, sobre todos os demais só indiretamente. Nisso consistindo o problema.” Ou nem mesmo a si diretamente…
“O intelecto é de fato um confidente da Vontade, mas um confidente a quem não se conta tudo.” “O intelecto fica cansado; a Vontade, nunca.”
“De 10 coisas que nos importunam, 9 seriam incapazes de fazê-lo se as entendêssemos integralmente em suas causas e, destarte, conhecêssemos sua necessidade e verdadeira natureza; mas o faríamos muito mais amiúde se as tomássemos como objeto de reflexão antes de fazermos delas objeto de ira e indignação.”
“Aquele sem frieza e presença de espírito só sabe o que deveria ter feito ou dito quando a oportunidade já passou.”
“é muito mais fortuito nascer poeta que filósofo.”
“Às vezes, por causa de uma interrupção, é inteiramente impossível retomar o fio de meu pensamento de instantes atrás, ou tentar rememorar, p.ex., de que notícia acabei de me inteirar. Acontece que, se o problema em questão tinha de qualquer ângulo o menor e mais distante interesse pessoal, a sensação que nos é deixada é conservada pela Vontade. Mesmo que não lembre o conteúdo, estou perfeitamente consciente do quanto aquilo em que meditava ou de que obtive conhecimento me afetava, agradável ou desagradavelmente, e quase posso dar com a maneira com a qual isso interagia comigo, i.e., se me envergonhava, gerava puramente ansiedade, me irritava ou me deprimia, ou então produzia o oposto dessas afeições. Quer dizer que a mera relação da coisa com minha Vontade é retida na memória mesmo após a coisa em si [sem hífen aqui: a coisa ela mesma, qualquer coisa, conteúdo banal ou de somenos importância metafisicamente falando, i.e., não é o noumeno de Kant!] ter se dissipado, e esse fato se torna a principal pista que nos conduz de volta àquela coisa.”
“assim que a mente escapa do disparate da infância, cai nas ciladas de inumeráveis erros, preconceitos e quimeras, algumas vezes até mais absurdos e toscos que os da infância, sendo que agora a mente possui a qualidade de perseverar muito mais nestes erros, até que finalmente a experiência acumulada começa a remover um por um desses preconceitos, sendo que muitos deles desaparecem sem que nos demos conta. Isso demora muitos anos para se suceder, de modo que em muitas legislações adquire-se a chamada maioridade no vigésimo aniversário – mas a maturidade consumada, os anos da discrição, só muito raramente dá as caras antes do quadragésimo aniversário.”
“todo esse mundo objetivo, tão vasto e ilimitado em espaço, tão infinito em tempo, tão insondável em sua perfeição, é, na verdade, só determinado movimento ou afeição provinda de uma comparativamente muito escassa matéria cinzenta confinada a um crânio.”
“Podemos chamar o instinto de um caráter ou personalidade que é para além de todas as medidas unidimensional e achatado. Vide os insetos: eles são quase que o perfeito exemplo de sonâmbulos naturais (despidos de toda e qualquer individualidade).”
“Só na aparência os homens são puxados pelo que vai adiante; na realidade eles são empurrados pelo que vai atrás; não é a vida¹ que os tenta a continuar, mas a necessidade que os impele para a frente.”
¹ Entender como esperança.
“nenhum homem de mente sóbria pode sonhar em ser um gênio.”
“Decerto que o que um homem adquire em experiência e conhecimento até a idade da puberdade é, tomado como um todo, mais do que tudo que ele futuramente aprenderá, por mais que ele chegue a uma grande erudição; porque aquele conhecimento inicial é o fundamento de todo o conhecimento posterior.”
“No geral eu recomendo a todos que queiram se familiarizar com minha filosofia ler cada linha que já escrevi. Eu não sou um escritor volumoso,¹ fabricador de compêndios, não lucro com minha filosofia, meus escritos não almejam à aprovação de um ministro de Estado; em suma, não sou alguém sob a influência de fins materiais.”
¹ Mentira! Estou há anos tentando ler sua obra completa, camarada!!
“Juventude sem beleza tem sempre ainda um charme; beleza sem juventude nenhum.”
“o sono é um dos irmãos da morte; já o desmaio é seu irmão gêmeo.”
TUDO VAI FICAR BEM: “Mesmo à morte violenta é impossível ser dolorosa, já que até ferimentos graves não são sentidos senão algum tempo depois, amiúde não antes de que a própria vítima observe seus sinais exteriores. Se esses ferimentos levam rapidamente à morte, a consciência se esvai antes da descoberta; se os ferimentos conduzem lentamente à morte, trata-se de desfecho idêntico ao de outras doenças. Todos aqueles que perderam a consciência debaixo d’água, ou asfixiados pela fumaça, ou numa tentativa mal-sucedida de enforcamento, são conhecidos por haverem relatado não sentir a mínima dor.”
“Só o homem carrega consigo em conceitos abstratos a certeza de sua morte, embora a mesma só o angustie muito raramente, em momentos particulares, quando uma ocasião a presentifica à fantasia. Contra a voz poderosa da natureza a reflexão pouco pode.” “Ninguém tem uma convicção realmente vívida da certeza da própria morte, pois, do contrário, não poderia haver diferença tão grande entre sua disposição e a do criminoso condenado.” “a consciência interna (…) evita (…) o envenenamento da vida do ser racional pelo pensamento sobre a morte, já que tal consciência é a base daquele ânimo vital que conserva cada vivente e o capacita a continuar vivendo serenamente, como se não existisse morte” “Todavia, nada impede que, quando a morte entre em cena para o indivíduo no particular e na efetividade, ou apenas na fantasia, ele tenha então de encará-la nos olhos, sendo assim assaltado pelo medo” “às vezes enfrentamos a dor mais terrível só para escapar da morte por mais alguns instantes”
De forma puramente SUBJETIVA – quanto mais somos conscientes de nós próprios (o crítico apreende a obra como algo estranho, sujeito x objeto, esqueceu que a criação do artista, sua objetividade, está em ser o objeto enquanto o objeto é consciência, na fusão dos pólos). Propriamente falando, o artista não julga o que é ou não é o belo, pois se torna provisoriamente o próprio belo. Como pode a beleza argumentar intelectualmente sobre a beleza? Ela apenas é. Narciso não se reconhece ao espelho, está menos consciente de si, pode julgar seu reflexo (o outro) como belo. Narciso é o crítico – quem está desinteressado de si está interessado no outro (a obra). Nele, sujeito e objeto estão divorciados, Narciso não é a imagem de Narciso. O artista é todo consciência-de-si, ele e a obra são cegos à outridade, entendem apenas os reflexos (o espelho que reflete a si próprios), estão fechados em si numa subjetividade infinita – mas como não há outro, apenas mesmidade, identidade, trata-se da OBJETIVIDADE PERFEITA E AUTO-SUFICIENTE DO QUE É IGUAL A SI MESMO. Narciso, o crítico, se afoga porque carece, busca o complemento, a beleza (Narciso não é a beleza, ele é inconsciente de si, seu corpo não está em consideração a não ser como outro, infinitamente separado por um abismo). O reflexo (a obra) não quer nada. Sujeito e objeto aqui são um, o mundo. O exterior e o interior simultâneo. O Ser. Não há logos, só recursividade tautológica. Vênus é. O amor é cego e no entanto não deseja enxergar (interagir com o exterior). O amor é o processo de criação. O amor está na boca do mundo, é discursado pelos loucos da subjetividade irrestrita. Só neste sentido, o amor é a Poesia (subjetividade) e a crítica é a Verdade (objetiva). Homero descreve o mundo; a verdade desmistifica-o. A verdade é a verdade dos homens, discurso, sempre carente da serena objetividade muda e inacessível da beleza.
Goethe compreendeu esta antítese, e por isso sua autobiografia se chama Poesia & Verdade. Poesia é a sua obra, verdade o indivíduo biografado. Por ser uma obra, versando sobre a obra e a crítica, é Poesia, como foram antes seus poemas que não falavam de poemas, mas uma poesia sem objeto, inacabada. Por ser uma crítica, prosando sobre a crítica e a obra, é Verdade, verdade clínica e impessoal de sua vida. Beleza deficitária, crítica consumada. Tentativa de uma síntese impossível a não ser dentro da obra de arte que é o artista enquanto indivíduo. O jeito do belo ver, elogiar, participar – a possibilidade da crítica ser bela e definitiva.
O princípio aristotélico (ou princípio da não-contradição) talvez seja o mais importante da Primeira Filosofia (ironia das ironias, ele não é um conceito meta-Lógico, i.e., não deveria servir para elaborar metafísica, e sim apenas para discussões práticas). Uma rápida demonstração da aplicação do princípio: se A é não-B, e se B é não-A, logo: A não pode ser não-A (auto-evidente); não-A é B; B não pode ser não-B; não-B é A.
O que seria o ‘nada negativo’ que Schopenhauer enumera ao lado da contraparte aristotélico-kantiana do ‘nada positivo’ ou ainda ‘nada (meramente) privativo’? Aquilo que não existe formalmente: um A = não-A ou B = não-B; ou ainda: um superveniente C que se identificasse com A e B ao mesmo tempo (o que seria chamado, desde Aristóteles, também de absurdo ou impossibilidade). O nada não tem lugar no mundo dos fenômenos.
Mas a fim de transcender esse ‘sistema’, teríamos de imaginar um mundo ou uma filosofia contraditórios, i.e., transgredir esse princípio básico da não-contradição, aceitar e abraçar o absurdo e o paradoxal. Essa luta de Schopenhauer pelo reconhecimento do nada negativo também nos ajuda a compreender por que o autor “santifica” seu bem ascético, i.e., dá um status de bem absoluto à negação da Vontade, em que pese dizer que o “bem absoluto” é uma contradição e que só existe o bem relativo. Dentro deste quadro de superação-de- ou de aplicação-literal-e-extrema-de-Aristóteles, o filósofo alemão consegue ser coerente consigo mesmo (ele representa o C que se identifica ao mesmo tempo com o A e o B) – levando a lógica às últimas conseqüências do lado de cá (do mundo das aparências ou fenomênico e, paradoxalmente, do mundo moderno-cristão, que justamente nega por inteiro este mesmo mundo em sua doutrina mais purificada!).
“Para distinguir a ‘idéia’, em sentido hegeliano, do termo corrente ‘idéia’, optamos por marcá-la com maiúscula: ‘Idéia’.”
“Preferimos traduzir Gestalt por ‘forma’ e não por ‘figura’, em razão da conotação estética que o termo ‘figura’ apresenta nas artes visuais. Ressalte-se, porém, que a tradução para ‘figura’ não é incorreta, tanto que em alguns momentos optamos por ela, p.ex. no caso de caracteres, personagens de uma tragédia, e quando se tratava de uma figura matemática, p.ex. um triângulo.” “Gestalt é ‘forma’ enquanto Form é ‘Forma’.” O sentido de Form é mais universal. Ex: Gestalte de arte: simbolismo, classicismo, romantismo; Formen de arte: um objeto particular numa dada pintura. Toda Gestalt é uma Form, nem toda Form é uma Gestalt.
“O termo Darstellung na maior parte das vezes foi traduzido por ‘exposição’; algumas vezes, porém, por ‘representação’ (com acréscimo do termo alemão entre colchetes), tendo em vista que o termo ‘exposição’ pode facilmente ser confundido com ‘mostra’, no sentido de uma ‘mostra de arte’. Nesta opção de Darstellung por ‘representação’, porém, apresenta-se o perigo do falseamento de uma distinção importante da filosofia pós-kantiana e idealista, a saber, entre Darstellung e Vorstellung, termo este que mais propriamente corresponde a ‘representação’ em português.” “‘representação’ quando traduz Darstellung deve ser tomada no sentido de uma ‘representação plena’ (onde não há separação entre interior e exterior), de uma ‘apresentação’ ou ‘manifestação’ total do espírito e não no sentido estrito de ‘re-presentação’ ou de mera ‘concepção’.”
“um erro grave: confundir ‘estado’ (Zustand) com ‘Estado’ (Staat) no subitem ‘O estado universal do mundo’ da 1ª parte. Esta é a mesma tradução que se encontra reproduzida, em parte, no volume Hegel da Col. ‘Os Pensadores’ (SP, Abril Cultural) e que recentemente foi reeditada na íntegra pela Ed. Martins Fontes, SP, 1996-7, em 2 vols. (vol. I: O Belo na Arte, 1996 e vol. 2: O Sistema das Artes, 1997).”
“algumas vezes optamos por desmembrar alguns períodos longos, para adaptar o texto alemão à estrutura da língua portuguesa.”
PREFÁCIO DE HEINRICH GUSTAV HOTHO PARA A 1ª EDIÇÃO DOS CURSOS DE ESTÉTICA
Como com História da Filosofia: “o texto dos Cursos de Estética não foi publicado pelo próprio Hegel e sim é uma reconstituição feita por um de seus alunos.”
“É difícil compreender como o próprio Hegel na cátedra sempre conseguia se orientar no fluxo das preleções a partir destes cadernos com seu vocabulário lacônico e notas marginais confusas escritas umas por cima das outras e ampliadas ano após ano. Pois mesmo o leitor mais experiente não consegue orientar-se na leitura destes manuscritos valendo-se do reconhecimento dos sinais que apontam para cima e para baixo, para a direita e para a esquerda e ao dispô-los adequadamente.”
“ouvir e ler são coisas distintas e o próprio Hegel, como se mostra pelos manuscritos, nunca escreveu assim como falava.”
“manter (…) o colorido de sua dicção, que se imprimia vivamente em todos os que mais demoradamente se familiarizavam com seus escritos e preleções.” Todo editor acha que seu próprio método é superior, fim.
INTRODUÇÃO
“Em virtude da inadequação ou, mais precisamente, por causa da superficialidade deste nome, [a Estética propriamente wolffiana] procuraram-se também formar outras denominações, como o nome kalística (do grego kallos).”
(*) Wolff (1679-1754) foi o último expoente da filosofia na Alemanha anterior ao Kantismo. “O termo latino aesthetica foi pela 1ª vez aplicado a esta nova ciência por Alexander Baumgarten (1714-62) em sua Methaphysica (1739) e Aesthetica (1750-8). O termo deriva do grego aisthanesthai: ‘perceber’; aisthesis: ‘percepção’; aisthetikos: ‘o que é capaz de percepção’.”
“enquanto mero vocábulo, ele é para nós indiferente e uma vez que já penetrou na linguagem comum pode ser mantido como um nome. A autêntica expressão para nossa ciência é, porém, filosofia da arte, mais precisamente filosofia da bela-arte.” Contradiz-se.
“Pois a beleza artística é a beleza nascida e renascida do espírito e, quanto mais o espírito e suas produções estão colocadas acima da natureza e seus fenômenos, tanto mais o belo artístico está acima da beleza da natureza.”
“A superioridade do espírito e de sua beleza artística perante a natureza, porém, não é apenas algo relativo, pois somente o espírito é o verdadeiro, que tudo abrange em si mesmo, de modo que tudo o que é belo só é verdadeiramente belo quando toma parte desta superioridade e é por ela gerada.”
“parece que sempre permanecerá prejudicial para a arte o fato de necessitar da ilusão [Täuschung], mesmo que de fato se submeta a fins sérios e produza efeitos sérios.”
“A arte tem à sua disposição não somente todo o reino das configurações naturais em suas aparências múltiplas e coloridas, mas também a imaginação criadora que pode ainda, além disso, manifestar-se em produções própriasinesgotáveis. Perante esta plenitude incomensurável da fantasia e de seus produtos livres, o pensamento parece que tem de perder a coragem para trazê-los em sua completude diante de si, para julgá-los e enquadrá-los em suas fórmulas gerais.”
“Segundo todos estes aspectos parece que a bela-arte, tanto em sua origem quanto em seu efeito e âmbito de abrangência, em vez de se mostrar adequada ao esforço científico, antes resiste em sua autonomia contra a atividade reguladora do pensamento e não se mostra adequada à autêntica investigação científica.”
“[segundo a estética seminal francesa, anterior à minha filosofia – diz Hegel] não podem existir leis gerais do belo e do gosto, uma vez que as representações do belo são tão infinitamente variadas e, por isso, algo de particular.”
“a arte não é de fato independente e livre, mas servil. Entretanto, o que nós pretendemos examinar é a arte livre tanto em seus fins quanto em seus meios.” “a ciência [também] pode ser empregada como entendimento servil para fins finitos e meios casuais e assim não adquire sua determinação a partir de si mesma, mas a partir de outros objetos e relações”
“A bela-arte é, pois, apenas nesta sua liberdade verdadeira arte e leva a termo a sua mais alta tarefa quando se situa na mesma esfera da religião e da filosofia e torna-se apenas um modo de trazer à consciência e exprimir o divino, os interesses mais profundos da humanidade, as verdades mais abrangentes do espírito.”
“trata-se da liberdade do conhecimento pensante, que se desobriga do aquém, ou seja, da efetividade sensível e da finitude.”
“toda esta esfera do mundo empírico interior e exterior não é o mundo da verdadeira efetividade e deve com mais rigor do que a aparência artística ser denominada de uma mera aparência e de uma ilusão mais dura.”
“As representações [Darstellungen] artísticas tampouco podem ser consideradas uma aparência ilusória perante as representações [Darstellungen] mais verazes da historiografia. Pois a histor. não possui como elemento de suas descrições a existência imediata, mas sua aparência espiritual. (…) [Já] a obra de arte coloca diante de nós as forças eternas que regem a história, desligadas do presente sensível imediato e de sua inconsistente aparência.”
“A penetração do espírito na Idéia é-lhe mais penosa quando passa pela dura casca da natureza e do mundo cotidiano do que lhe é pelas obras de arte.”
“sobretudo o espírito do mundo atual, ou melhor, o espírito de nossa religião e de nossa formação racional se mostra como tendo ultrapassado o estágio no qual a arte constitui o modo mais alto do absoluto se tornar consciente [, ao contrário do mundo grego].”
“O pensamento e a reflexão sobrepujaram a bela-arte.”
“ou podemos lamentar a miséria do presente, o estado intrincado da vida burguesa e política, que não permite que o ânimo aprisionado a interesses mesquinhos possa libertar-se para os fins superiores da arte. Já que a própria inteligência, nas ciências, está a serviço dessa miséria e de seus interesses, e as ciências, só tendo utilidade para tais fins, se deixam seduzir e envolver por essa aridez.”
“Os belos dias da arte grega assim como a época de ouro da Baixa Idade Média passaram.”
“o estado de coisas da nossa época não é favorável à arte. Mesmo o artista experiente não escapa desta situação.” “a natureza de toda a cultura espiritual faz com que ele esteja justamente no centro desse mundo reflexivo e de suas relações. Ele não pode abstraí-lo por vontade e decisão pessoais; nem por meio de uma educação específica ou de um distanciamento das relações humanas fabricar e formar uma solidão particular, restauradora do que se perdeu.”
“A ciência da arte é, pois, em nossa época muito mais necessária do que em épocas na qual a arte por si só, enquanto arte, proporcionava plena satisfação.” Já não suportamos mais a crítica. Fora com ela!
“considero o filosofar completamente inseparável da cientificidade, sejam quais forem as concepções que se possa ter da filosofia e do filosofar.”
“Nesta ocupação com o outro de si mesmo, o espírito pensante nem se trai, a ponto de esquecer-se e de abandonar-se, nem é tão impotente, a ponto de não poder apreender o que se distingue dele. Na verdade, ele apreende conceitualmente a si e a seu oposto. (…) É por isso que a obra de arte, na qual o pensamento se aliena, pertence ao âmbito do pensamento conceitual. (…) A arte, porém, longe de ser a Forma suprema do espírito, como ainda veremos de um modo mais detido, apenas na ciência alcança sua autêntica legitimidade.”
FILOSOFIA ABSTRATA E PARTICULARISTA DO BELO (1)
X
FILOSOFIA UNIVERSALISTA DA ARTE (2)
“tem o empírico como ponto de partida – é o caminho necessário para aquele que pretende tornar-se um erudito em arte [ESTETA, CRÍTICO]. E, assim como atualmente quem não se dedica à física deve estar de posse dos conhecimentos físicos mais essenciais, do mesmo modo tornou-se necessário a um homem culto genérico possuir alguns conhecimentos de arte. [um crítico a meias! mas seria melhor saber zero!] A pretensão de se apresentar como DILETANTE ou CONHECEDOR DE ARTE é bastante difundida.”
“a reflexão totalmente teórica, a que se esforça por conhecer o belo como tal a partir dele mesmo e por fundamentar sua Idéia.”
1(a). “Mas, para serem realmente reconhecidos como erudição, estes conhecimentos devem possuir uma natureza variada e uma ampla abrangência. Isso porque a 1ª exigência é a exata familiaridade com o âmbito incomensurável das obras de arte individuais de épocas antigas ou recentes. Trata-se de obras de arte que em parte já sucumbiram na efetividade e em parte pertencem a nações ou recantos distantes do mundo; e que o desfavor do destino suprimiu ao nosso olhar. (…) toda obra de arte pertence à sua época, ao seu povo, ao seu ambiente, e depende de concepções e fins particulares, históricos e de outra ordem. Neste sentido, a erudição em arte exige igualmente uma ampla riqueza de conhecimentos históricos, que devem ser, além disso, muito especializados, tendo em vista que a própria natureza individual da obra de arte está referida ao singular e necessita do que é especializado para sua compreensão e esclarecimento. – Esta erudição (…) não requer somente memória (…) necessita (…) imaginação aguçada” Sem a imagem do todo da obra de arte (e, o que é mais, de inúmeros e variegados detalhes muito sutis mas proporcionalmente importantes), nada feito, e o erudito cai em descrédito!
1(b). “Assim como em outras ciências que possuem um início empírico, estes pontos de vista (…) formam critérios e enunciados gerais ou, numa generalização ainda mais formal, as teorias das artes. (…) P.ex., da Poética arist., cuja teoria da tragédia ainda hoje tem interesse. Ainda entre os antigos é a Ars Poetica de Horácio e o escrito de Longino sobre o sublime que podem nos dar uma concepção geral do modo de como tal teorizar era tratado.” Em geral, tratava-se de preceitos e regras para seguir numa época de decadência da arte.
“boa parte de tais determinações são reflexões muito triviais que em sua generalidade não levam a nenhuma verificação do particular, embora seja disso que principalmente se trate. A epístola de Horácio (…) está cheia delas”
“outro tipo de interesse dessas teorias não consiste em propiciar diretamente a produção de obras de arte autênticas, mas na intenção de formar o juízo sobre obras de arte e o gosto.”
Exemplos modernos: Home, Elementos de Crítica, 1762; Batteux em geral; Ramler, Introdução às Ciências do Belo (4 vols., 1756-58) (que é efetivamente uma tradução de Batteux).
No início, a análise do gosto pertencia exclusivamente à psicologia: “uma vez que a formação do gosto apenas se dirigia ao que era exterior e escasso e, além do mais, tomava igualmente suas prescrições apenas de um círculo estreito de obras de arte e de uma formação estreita do entendimento do ânimo, sua esfera era insuficiente e incapaz de captar o que é interior e verdadeiro ou de aguçar o olhar na consideração das obras.” Resultado final: o belo e seus vários lados.
Meyer, História das Artes Plásticas na Grécia
“o caricatural apresenta-se como o característico do feio, o qual certamente é uma desfiguração.” Conceito de belo ainda muito limitado, o desta época!
1(c). “O direito do gênio”
A antropologia da arte de uma geração próxima à de Hegel começa a valorizar as artes não-européias. O Romantismo é já sintoma desta mudança de percepção sobre a arte clássica.
É claro que se o romantismo invadiu o Germanismo (apud Hegel), ele seria muito enaltecido em sua Estética – óbvio ululante!
“Somente a erudição da história da arte manteve seu valor permanente e deverá mantê-lo tanto mais quanto, em virtude da ampliação acima referida da receptividade espiritual, seu horizonte se alargar em todos os sentidos.” O especialista geral e o especialista especialista em alguma vertente artística!
“Foi o que fez Goethe, que escreveu muito sobre arte e obras de arte [sem ser um filisteu].”
2. (prolongamento)
Aquele que entendeu Platão apenas a meias (mas esse é um defeito de incontáveis alemães!): “a falta de conteúdo inerente à idéia platônica não mais satisfaz as necessidades filosóficas mais ricas de nosso espírito atual. É claro que também na filosofia da arte necessitamos partir da Idéia do belo, mas não devemos somente nos ater àquele modo abstrato de filosofar das idéias platônicas, que representam só o começo do filosofar sobre o belo.”
Então Hegel propõe uma síntese de 1+2 = (3)
3. “O [autêntico] conceito filosófico do belo” “princípios substanciais, necessários e totais.”
“temos de começar com o seu conceito.”
“Se começamos com o próprio conceito de belo artístico, (Platão) este passa a ser imediatamente uma pressuposição e mera hipótese; o método filosófico, contudo,… (blá, blá, blá)”
“Gostaríamos de tratar com poucas palavras esta dificuldade própria à introdução a toda disciplina filosófica considerada de um modo autônomo por si mesma.”
delimitação do objeto;
o que é o objeto.
“Poderia inclusive parecer risível se para a astronomia e para a física fosse imposta a exigência de provar que existe o sol, o firmamento, os fenômenos magnéticos, etc. Nestas ciências, que se ocupam com algo que existe sensivelmente, os objetos são tomados da experiência externa e, em vez de demonstrá-los, considera-se suficiente mostrá-los. Contudo, mesmo no interior das disciplinas não-filosóficas podem emergir dúvidas sobre a existência [Sein] de seus objetos [éter, buraco negro, etc.]”
“Essa dúvida sobre a existência ou não de um objeto da representação ou intuição interiores, essa contingência da consciência subjetiva de tê-lo gerado em si mesma e a dúvida sobre a correspondência do objeto em seu em-si-e-para-si com a maneira de concebê-lo, suscita no homem precisamente a mais alta necessidade científica” A velha lorota de requerer-se uma prova daquilo que (supostamente) não é captado pela apercepção (o belo)…
“Não resta mais nada, portanto, a não ser aceitar o conceito da arte, por assim dizer, lematicamente.¹ Isto é o que ocorre com todas as ciências filosóficas particulares, quando são tratadas de modo isolado.” Segundas filosofias…
¹ Derivado de lemático, lema. Mas não vejo no que diferiria de tematicamente, então ainda suspeito que possa ser erro ortográfico.
“No momento, não é nossa finalidade demonstrar a Idéia do belo, que é nosso ponto de partida, i.e., deduzi-la segundo a necessidade dos pressupostos que antecedem as ciências, de cujo seio ela nasce. Tal trabalho é próprio de um desenvolvimento enciclopédico de toda a filosofia e de suas disciplinas particulares.” A.k.a.: agora vamos sem pensar, depois vamos parar no mesmo lugar! (going full circle ‘round the object)
À página 47 de minha edição, últimas linhas, começa a CONCLUSÃO DA INTRODUÇÃO (sim, com H. é sempre complicado neste nível!).
“período do gênio, período que foi instituído pelas primeiras produções poéticas de Goethe e, então, pelas de Schiller. [Inauguração do Tempestade e Ímpeto] Em suas primeiras obras estes poetas partiram do zero ao pôr de lado todas as regras que na época eram fabricadas e ao agir intencionalmente contra elas, no que também ultrapassaram amplamente outras. Não pretendo, contudo, esmiuçar as confusões que imperaram sobre o conceito de entusiasmo e de gênio, e sobre a confusão que ainda hoje impera acerca do que o entusiasmo por si mesmo é capaz de gerar.”
“a obra de arte tem um lado puramente técnico, que se estende até o artesanal, especialmente na arquitetura e na escultura, menos na pintura e na música e menos ainda na poesia.”
“é por sua vez pelo estudo que o artista toma consciência deste Conteúdo¹ e conquista a matéria e o conteúdo de suas concepções.”
¹ Por ser altamente brega, esta será a única vez em que respeito a grafia da tradução, com “c” maiúsculo.
“A música, p.ex., que somente se ocupa com o movimento totalmente indeterminado do interior espiritual, com o ressoar por assim dizer do sentimento destituído de pensamento, tem pouca ou nenhuma necessidade de matéria espiritual na consciência. O talento musical se anuncia, por isso, geralmente na juventude muito precoce, em cabeças ainda vazias e em ânimos pouco exercitados, sendo que pode muito cedo já ter chegado a uma altura bastante significativa, antes mesmo de ter experimento espírito e vida.”
“Bem diverso é o caso da poesia. Nela se trata da exposição cheia de conteúdo e pensamentos feita pelo homem, de seus interesses profundos e das potências que o movem.”
“Os primeiros produtos de Goethe e de Schiller são de uma tal imaturidade, até mesmo de uma crueza e barbaridade, que chegam a assustar.”
H. contrapõe aqui o entusiasmo barato, fogo-de-palha, ao verdadeiro entusiasmo do poeta formado e completo.
“Deles [na maturidade] podemos dizer que foram os primeiros que souberam dar à nossa nação obras poéticas e são nossos poetas nacionais, assim como apenas o velho Homero buscou inspiração para seus cantos imortais e eternos e os produziu.”
“tudo o que é espiritual é melhor do que qualquer produto natural. Aliás, nenhum ser natural expõe ideais divinos, como a arte o faz.”
“D. é tão ativo na produção artística quanto nos fenômenos da natureza. O divino, porém, adquiriu um ponto de passagem correspondente a sua existência [Existenz] [existência do Espírito] no modo como se deixa conhecer na obra de arte, ao ser esta gerada pelo espírito, ao passo que a existência [Dasein] [fenomenológica] na sensibilidade sem consciência da natureza não é um modo de aparecer adequado ao divino.”
capricho & necessidade
com capricho necessário arrematei minha obra
“Não podemos ainda responder completamente a esta questão acerca da necessidade não-casual, mas absoluta da arte, uma vez que ela é mais concreta do que a resposta que poderia ser dada neste momento. [dentro da metafísica ocidental!]”
O homem não é, mas é ao quadrado. é²
Penso, logo atuo.
Só o homem pensa.
As ações dos outros animais não são ações, se se quer que haja apenas uma palavra para o que ação é no seu mais íntimo profundo.
E tudo se torna ainda mais complicado quando pensamos que nem toda cultura antropologiza! Poderíamos considerar o auge do Romantismo como uma arte de cachorro!
“Temor, angústia, preocupação, susto, p.ex., são decerto algumas modificações de um e mesmo modo de sentir, embora em parte sejam apenas gradações quantitativas, em parte formas que não têm nada a ver com seu conteúdo, pois lhe são indiferentes.”
Descrição do temor como uma mescla de [+] e [-] batalhando no sujeito.
expectância da prevalência de uma presença ou de sua destruição
“O que resta é minha afecção meramente subjetiva na qual desaparece a coisa concreta ao ser comprimida na esfera mais abstrata. Por isso, a investigação sobre os sentimentos que a arte suscita ou deve suscitar permanece totalmente numa indeterminação e é uma consideração que abstrai justamente do autêntico conteúdo”
“No sentimento, no entanto, esta subjetividade destituída de conteúdo não só se mantém, mas é a coisa principal, e por isso os homens gostam tanto de sentir.” Os imbecis cinematográficos de hoje em dia. Como andar de montanha-russa ou usar uma droga.
“A profundidade da coisa permaneceu inacessível para o gosto” “É por isso que o assim chamado bom gosto se amedronta diante de todos os efeitos mais profundos, silencia onde a própria coisa vem à tona e desaparecem os aspectos exteriores e secundários.” O limite do gosto são os meios de produção da sociedade burguesa.
“o conhecimento de arte, e este é seu ponto fraco, pode prender-se ao estudo dos aspectos puramente exteriores, do que é técnico, histórico e assim por diante, e não perceber muita coisa ou mesmo ignorar por completo a verdadeira natureza da obra de arte. (…) No entanto, se sua natureza for autêntica, o conhecimento de arte se volta ao menos para princípios e conhecimentos determinados e para um juízo com base no entendimento, ao que se junta também a apreciação da obra de arte e as mais precisas distinções de seus diversos aspectos”
“Por isso, a obra de arte, embora possua existência sensível, [Existenz] não necessita de uma existência sensível-concreta [Dasein] e de uma vitalidade natural.” desejo da carne x desejo do espírito“Pois a inteligência racional não pertence, como os desejos, [em H. desejo é apenas desejo da carne, que se entenda bem] ao sujeito particular enquanto tal, mas somente ao particular como imediatamente universal em si mesmo. (…) Por meio disso, o homem busca restabelecer a essência interior das coisas que a existência sensível não pode imediatamente mostrar, embora esta constitua seu fundamento. Assim como não tem nada em comum com os impulsos dos desejos apenas práticos, a arte também não compartilha do interesse teórico na forma científica, cuja satisfação é tarefa da ciência.” Nem pura sensação nem pura abstração. A arte não é uma equação ou heroína injetada nas veias.
“Como a obra de arte é um objeto exterior que se manifesta numa determinidade imediata e singularidade sensível, segundo a cor, a forma, o som ou a intuição particular e assim por diante, a reflexão sobre arte não pode transcender a objetividade imediata que lhe é oferecida e querer captar o conceito desta objetividadecomo conceito universal, como faz a ciência.”
“O interesse artístico se distingue do interesse prático do desejo pelo fato de deixar seu objeto subsistir livremente em si mesmo (…) Em contrapartida, a consideração artística se distingue de modo inverso da consideração teórica da inteligência científica, dado que se interessa pelo objeto em sua existência particular e não age para transformá-lo em seu pensamento e conceito” Nem o sexo nem o conhecimento biológico das enzimas secretadas durante o ato sexual: apenas o que significa simbolicamente o sexo para o homem, i.e., eu, talvez apenas este sexo, nesta circunstância, com esta mulher. No fundo, o sexo com o Ser. O sexo com o meu duplo. A retroalimentação desta experiência passada, presente, futura na minha existência.
“a obra de arte se situa no meio, entre a sensibilidade imediata e o pensamento ideal.”
“o olfato, o paladar e o tato ficam excluídos da obra de arte.”
“a arte produz intencionalmente a partir do sensível apenas um mundo de sombras de formas, sons e visões e não se deve pensar que é por mera impotência ou limitação que o homem sabe apenas apresentar uma superfície do sensível e esquemas quando cria obras de arte.” “ressonância e eco”
“Podemos comparar [a atividade artística] com o modo de agir de um homem experiente, espirituoso e inteligente que, embora conheça profundamente a vida, a substância comum a todos os homens, aquilo que os move e os domina, no entanto, nem submete estes conhecimentos, para si próprios, a regras gerais, nem sabe explicitá-los aos outros por meio de reflexões universais” “Tal tipo de imaginação se baseia antes na memória (…) [que na] criatividade em si.” Essa seria a fantasia artística média, em H..
“A fantasia artística produtiva, porém, é a fantasia de um grande espírito e de um grande ânimo, é o conceber e criar representações e figurações, mais precisamente, figurações dos mais profundos e universais interesses humanos numa exposição imagética totalmente determinada e sensível.”
“Assim, pode-se dizer com mais razão que não há um talento científico específico, no sentido de um mero dom natural. A fantasia, pelo contrário, possui um modo de produção ao mesmo tempo instintivo, na medida em que o imagético e a sensibilidade essenciais da obra de arte devem estar subjetivamente presentes no artista como dom e impulso naturais; como agir inconsciente devem também pertencer ao lado natural do homem.” “É por isso que todos podem, em maior ou menor grau, fazer arte, mas para alcançar o ponto em que a arte verdadeiramente começa é necessário talento artístico inato.”
“Na maior parte das vezes tal talento enquanto disposição natural já se anuncia na precoce juventude e se revela numa ansiedade turbulenta – viva e ativamente – para dar forma de modo imediato a um material sensível determinado, e em considerar esse tipo de expressão e comunicação como o único ou como o principal e o mais adequado.”
“Quando James Bruce, em sua viagem à Abissínia, mostrou pinturas de peixes a um turco, deixou-o imediatamente perplexo, mas logo em seguida recebeu a resposta: <Se este peixe no dia do Juízo Final se levantar contra ti e disser que ganhou um corpo, mas não uma alma viva, como tu te justificarás perante tal acusação?>”
HIPER-REALISMO ANTIGO: “há exemplos de reprodução perfeitamente ilusória. As uvas pintadas por Zêuxis (cf. Plínio, História Natural) foram consideradas, desde sempre, como triunfo da arte e, ao mesmo tempo, como triunfo do princípio da imitação da natureza, pois pombas vivas as teriam picado.” Hoje as pombas implumes saem do cinema convencidas da realidade de todas as imagens, e menos convencidas, em proporção, de qualquer possível metafísica comunicada pela tela.
“quanto mais a reprodução for parecida com o modelo natural, tão mais rapidamente esta alegria e admiração também se tornarão por si mesmas geladas e frias ou se transformarão em tédio e antipatia. Já se falou com espírito sobre retratos que se parecem tanto com o retratado que chegam a ser repugnantes.”
“Kant cita (…) que (…) tão logo descobrimos que o autor do canto do rouxinol que apreciamos era na verdade uma pessoa, imediatamente ficamos enfastiados com tal canto.”
(N. da T.) “Note-se, entretanto, que K. cita este exemplo para afirmar a superioridade do belo natural sobre a tentativa de sua mera reprodução, ao passo que para H. o acento está colocado na questão da inferioridade da mera imitação em relação à natureza enquanto tal [e mais ainda em relação à autêntica arte].” No fundo, duas formas de dizer a mesma coisa.
artifício e imitação (Kunststück) x arte efetiva (Kunstwerk)
“a esta competição abstratamente imitativa devemos comparar o artifício de alguém que, sem errar, aprendeu a lançar ervilhas por um pequeno orifício. Tal homem se apresentou com esta habilidade para Alexandre e este o presenteou com um alqueire de ervilhas como recompensa por esta arte inútil e sem conteúdo.”
“se entre os homens acontece que nem todo marido ache sua mulher bela, todo noivo julga bela a sua noiva – e até mesmo exclusivamente bela; e é uma sorte para as 2 partes que o gosto subjetivo não tenha nenhuma regra rigorosa para esta beleza.”
“[nem] a exigência de naturalidade enquanto tal é, porém, o substancial e primordial que fundamenta a arte” Neste trecho, subentende-se que H. desaprovaria, e com acerto, a escola naturalista das artes plásticas, mas também sua manifestação literária posterior, que lhe são póstumas.
“A arte deve efetivar em nós aquele conhecido enunciado Nihil humani a me alienum puto”
“ensinar a conhecer intimamente tudo o que é horrível e horripilante assim como o que é prazeroso e beato” linha de um contínuo K. H. N.
“para que as experiências da vida não nos deixem insensíveis”
apriorisionamento dos imediatistas
Teria H. ido além de Aristóteles-Schopenhauer na teoria da catarse? “Pois a determinação de que a arte deve refrear a brutalidade, formar as paixões, permaneceu totalmente formal e universal, de modo que se tratava novamente de uma espécie determinada e do objetivo essencial desta formação. § A perspectiva da purificação das paixões, na verdade, sofre da mesma deficiência encontrada anteriormente na suavização dos desejos, embora ressalte pelo menos mais vivamente a necessidade de uma medida para as representações [Darstellungen] artísticas, por meio da qual possa ser averiguada a dignidade ou não da arte. Esta medida é justamente a eficiência na separação do puro e do impuro nas paixões. Por isso, ela precisa de um conteúdo que seja capaz de manifestar esta força purificadora; e na medida em que a finalidade substancial da arte deve ser a produção de tal efeito, o conteúdo purificador deve tornar-se consciente segundo sua universalidade e essencialidade.” Ainda não escapa do imperativo categórico! Mas sigamos, pois aqui H. está analisando a validade do argumento, ainda…
Enfim, queremos criar um novo mundo ou apenas estudar as belas-artes do atual valor dos valores? Pois Platão está justificado em “romper com Homero (e, portanto, a poesia até sua época em conjunto)” apenas diante do niilismo que grassava a polis (o mal maior).
fabula docet
A degradação ocidental da Ars poetica de Horácio
“a arte foi o primeiro mestre dos povos.” Poderá ser o último, numa civilização decadente?
Não se pode, é óbvio, querer politizar Shakespeare – porque ele já está politizado!
“E assim chegamos ao limite em que a arte precisa deixar de ser arte, deixar de ser finalidade para si mesma, já que foi rebaixada a um mero jogo de entretenimento ou a um mero meio de instrução.” Já antecipa a própria crítica da arte pela arte e da arte como meio de uma só vez. A arte sempre está no meio… de dois extremos empíricos impróprios. O precário equilíbrio da existência…
“[OUTRA HIPÓTESE:] a arte, por meio do conhecimento do bem verdadeiramente moral e, assim, por meio da instrução, deve ao mesmo tempo incitar à purificação e somente então deve realizar o aperfeiçoamento do ser humano enquanto sua utilidade e finalidade suprema.”
O “ARGUMENTO MORTAL KOMBAT”:“É fácil aceitar que em seu princípio a arte não pode ter como intenção a imoralidade e sua promoção. Contudo, há uma diferença entre ter como finalidade explícitada exposição a imoralidade e não ter como finalidade explícita da exposição o que é moral. De toda obra de arte autêntica podemos tirar uma boa moral, embora isso dependa de uma explicação e, desse modo, de quem extrai a moral. Assim, alguém pode defender descrições as mais contrárias à ética baseado no fato de que é preciso conhecer o mal e o pecado para que se possa agir moralmente. Em contrapartida, falou-se que a representação [Darstellung] de Maria Madalena, a bela pecadora que depois fez penitência, já levou muita gente ao pecado, já que a arte faz parecer belo praticar penitência, e para isso é preciso antes pecar. – Mas a doutrina do melhoramento moral, apresentada de modo conseqüente, não se contentará em também poder extrair uma moral da arte; pelo contrário, ela irá querer que a doutrina moral brilhe claramente como finalidade substancial da obra de arte e, inclusive, querer expressamente apenas permitir que sejam expostos objetos, caracteres, ações e acontecimentos morais. Pois a arte pode escolher seus objetos, ao contrário da historiografia ou das ciências, para as quais a matéria é dada.”
“Um homem eticamente virtuoso não é já por si mesmo moral.” “o homem (…) somente faz o bem porque adquiriu a certeza de que isso é o bem. (…) a universalidade abstrata da vontade, que possui sua contraposição direta na natureza” A ponto de chegarmos a civilizações em que o estado natural é a norma, ou seja, onde o homem é um HOBBES DE PONTA-CABEÇA!
Diagnóstico: faltava ao século XIX (parte I!) a consideração de um ângulo extra-moral…
“No espírito [esta luta interior] se mostra no que é sensível e espiritual no homem, como a luta do espírito contra a carne; do dever pelo dever, da lei fria com o interesse particular, o ânimo caloroso, as inclinações e propensões sensíveis e o individual em geral; como a dura contraposição entre a liberdade interior e a necessidade da natureza exterior; além disso, como a contradição entre o conceito morto, em si mesmo vazio, e a vitalidade completa e concreta, entre a teoria, o pensamento subjetivo e a existência objetiva e a experiência.”
JOGUETE DA CONSCIÊNCIA INFELIZ: “A formação espiritual, o entendimento moderno, produzem no homem esta contraposição que o torna anfíbio, pois ele precisa viver em 2 mundos que se contradizem” “a consciência permanece, por isso, num mero dever [Sollen] e o presente e a efetividade se movimentam apenas na inquieta oscilação entre 2 alternativas, na busca de uma reconciliação sem encontrá-la.”
O IDEALISMO COMO FALSA CHAVE: “Se a formação universal incorreu em tal contradição, torna-se tarefa da filosofia superar estas contraposições, i.e., mostrar que nem um em sua abstração nem outro em idêntica unilateralidade possuem a verdade, mas ambos se solucionam por si”
AUTO-ILUSÃO: “Este conhecimento coincide imediatamente com a crença e volição espontâneos, que justamente tem constantemente esta contraposição solucionada na representação e a estabelecem e realizam para si como finalidade na ação.”
“Na medida em que o derradeiro fim último, o aperfeiçoamento moral, apontou para um ponto de vista superior, necessitamos também reclamá-lo para a arte.” A arte é ser-no-mundo, não objeto utilitário. Espelha o sistema filosófico do pensador. Prefigura-se aqui a completa autonomia da arte, ainda que obviamente inscrita no campo ético. Mas, enfim, arte & niilismo são duas faces da mesma moeda… Não é possível venerar um sem querer o outro. Eu sou um niilista. Eu não acredito em nada, só acredito na arte!
“Este reconhecimento do caráter absoluto da razão em si mesma, que nos tempos modernos provocou a virada da filosofia, este ponto de partida absoluto deve ser reconhecido e não deve ser refutado na filosofia kantiana, mesmo que se a tome como insatisfatória.”
CONFUNDINDO O PONTO DE CHEGADA COM O DE PARTIDA:“A crítica kantiana constitui o ponto de partida para a verdadeira apreensão [Begreifen] do belo artístico, apreensão que, todavia, somente se pôde fazer valer, por meio da superação das deficiências kantianas,¹ como a apreensão superior da verdadeira unidade da necessidade e da liberdade, do particular e do universal, do sensível e do racional.”
¹ Isso decerto não aconteceu até muito depois de Hegel morrer, muito menos nos epígonos alemães do Romantismo!
“Devemos a Schiller o grande mérito de ter rompido com a subjetividade e abstração kantianas do pensamento e de ter ousado ultrapassá-las, [haha!] concebendo a unidade e a reconciliação como o verdadeiro, e de efetivá-las artisticamente.”
“Neste contexto, Schiller [cujos poemas são inferiores porque tenta filosofar por meio deles] enquanto poeta apenas pagou tributo a sua época, e isso de um modo que apenas honrou esta alma sublime e ânimo profundo, e para o proveito da ciência e do conhecimento.”
Schi., Cartas sobre a educação estética: “Nesta obra, Schi. parte do ponto principal de que cada homem individual possui em si mesmo a disposição para um homem ideal. Este verdadeiro homem é representado pelo Estado”
“Por causa disso, a ciência alcançou por meio de Schelling seu ponto de vista absoluto” “Friedrich von Schlegel, desejoso do novo, na busca ávida de distinção e do surpreendente, se apropriou da Idéia filosófica tanto quanto era capaz sua natureza que, aliás, não era filosófica, mas essencialmente crítica.” A dinastia dos Sch.!
“Winckelmann deve ser visto como um daqueles que no campo da arte soube descobrir um novo órgão para o espírito e também modos de consideração totalmente novos.”
“A partir desta direção, e especialmente do modo de pensar e das doutrinas de Schleg., desenvolveu-se em seguida sob diversas configurações a chamada ironia. A ironia encontrou seu profundo fundamento [hmm], segundo um de seus aspectos, na filosofia de Fichte, na medida em que os princípios dessa filosofia foram aplicados à arte.”
“[Segundo o FICHTISMO – fictismo, pouco realista!] eu vivo como artista quando todo o meu agir e manifestar em geral, na medida em que se refere a algum conteúdo, somente permanece para mim uma aparência e assume uma forma que está totalmente em meu poder.” “Minha aparição [Erscheinung], na qual me ofereço aos outros, pode até ser algo sério para eles, na medida em que me tomam como se eu estivesse tratando mesmo de algo sério; no entanto, deste modo eles apenas se enganam, são pobres sujeitos limitados que não possuem o órgão e a capacidade de apreender a altura do meu ponto de vista.” “Essa virtuosidade de uma vida irônica e artística se concebe, pois, como genialidade divina, para a qual tudo e todos são apenas uma criação sem essência, na qual o criador livre, que se sabe desvencilhado e livre de tudo, não se prende, pois pode tanto destruí-la quanto criá-la. Aquele que se encontra em tal ponto de vista da genialidade divina observa do alto com distinção todos os outros homens, que são considerados limitados e rasos, na medida em que o direito, a eticidade, etc., ainda valem para eles como algo de sólido, de obrigatório e de essencial. É claro que tal indivíduo, que assim vive como artista, mantém relações com outras pessoas, vive com amigos e com as pessoas que gosta, mas como gênio, tal relação com sua efetividade determinada, com suas ações particulares, assim como com o em-si-e-para-si universal é para ele ao mesmo tempo algo nulo e ele se relaciona ironicamente com tudo isso.” “beatitude do gozo próprio” Mas não foi Fichte que a inventou, e sim Schlegel! E, como diz H., “muitos outros a macaquearam ou a repetirão sempre novamente.”
CRÔNICAS DE UM ADOLESCENTE QUE LEU NIETZSCHE NUM TEMPO COMPRIMIDO: “A forma mais imediata desta negatividade da ironia é a vaidade” E o que Deus mesmo faria em tal caso? Procuraria um centro! Impelido pela verdade, o autoproclamado solitário e ensimesmado morrerá asfixiado pelas paredes de seu próprio gênio inimitável e sem-precedentes… Se torna um artista nostálgico, um fichteano, em suma. Misto de asceta descontente e lasso vadio urbanoide, pálido e doentio, este deus acamado, tirano de seu quarto, prefere não sair para respirar ao ar livre, para apenas agravar o quadro. Sim, ele se tornará um desses poetas apaixonados que morrem aos 23 anos! Um Dom Quixote tão menos nobre… Sua donzela mal vale um meio moinho enguiçado… Chega-se ao cúmulo de afirmar em sua insânia: posto que não era tão elevado quanto pensava, não há elevação! Se não posso ser Deus, ninguém será! Será este rapaz engraçado (ridículo) ou digno de pena e comiseração? Herói de araque demais para pertencer ao ramo do trágico, ele não morre no final, mas pega um cruzeiro para fora da Europa!… Sim, porque tudo que é sórdido desmancha no ar fuliginoso! E assim termina a carreira do promissor poeta, antes de sequer começar…
“Ainda bem que tais naturezas nostálgicas e sem conteúdo não agradam: é um consolo saber que esta improbidade e hipocrisia não são bem-recebidas e que as pessoas, pelo contrário, anseiam tanto por interesses completos e verdadeiros quanto por caráteres que permanecem fiéis a seu conteúdo grave.”
“Solger não era como os outros que se satisfaziam com uma formação filosófica superficial, pois uma necessidade interna autenticamente especulativa[como esse binômio envelheceu mal!] o impelia a descer na profundidade da Idéia filosófica. E assim ele chegou ao momento dialético da Idéia, ao estágio que denomino de <infinita negatividade absoluta>” Chegou aos céticos da Idade Clássica.
“esta negatividade é (…) contudo apenas um momento.” PA DUM TSSS
E Solger não viveu como o poeta romântico-niilista de mais acima, mas apenas escreveu como tal, o que é sumamente diferente. Bem-vindo ao clube, jovem Solger (que não alcançou idades avançadas, como já posso dizer que seja a minha)! (Mentira. Solger viveu 38/9 anos. Porém é razoável dizer que, se emocionalmente ainda somos adolescentes na casa dos 30 nesta década de 2020, maturamos enquanto artistas já muito antes, graças aos meios à disposição.)
Em vez de testemunhar a dissolução irônica do Bem, eu quero poder ver a dissolução literal do Estado… Este é(seria) MEU MOMENTO!
O HOMEM QUE NÃO SEGUIA SUA PRÓPRIA FILOSOFIA: “Tieck exige constantemente ironia; mas, quando ele mesmo se dedica ao julgamento de grandes obras de arte, seu reconhecimento e descrição da grandeza delas são realmente primorosos.”
“Se enunciamos que Deus é o uno simples, o mais alto ser enquanto tal, apenas expressamos uma abstração morta do entendimento irracional.” “Daí os judeus e os turcos não terem podido expor pela arte seu Deus de um modo positivo como os cristãos, pois seu Deus não é nem ao menos uma tal abstração do entendimento.” “também a arte exige a mesma concreção [da Santíssima Trindade]”
“Pois a arte não assume esta forma apenas porque ela se encontra à disposição e porque não há outra, [!!!] mas porque no conteúdo concreto reside também propriamente o momento do fenômeno exterior e efetivo e, igualmente, sensível. (…) o exterior da forma, através do qual o conteúdo torna-se intuível e representável, tem a finalidade de somente existir para o nosso ânimo e espírito.”
“No entanto, [face às ocorrências da natureza] a obra de arte não é tão despreocupada por si, mas é essencialmente uma pergunta, uma interpelação ao coração que ressoa, um chamado aos ânimos e aos espíritos.”
“O deus grego não é abstrato, mas individual, e está próximo da forma natural; o Deus cristão também é uma personalidade concreta e isso enquanto pura espiritualidade, e deve ser sabido no espírito como espírito. Seu elemento de existência é, assim, essencialmente o saber interior e não a forma exterior natural, por meio da qual ele apenas de modo incompleto é passível de exposição, mas não segundo toda a profundidade de seu conceito.”
P. 89 (edição impressa): difícil de justificar mais essa divisão tripartida hegeliana: a- ciência da arte geral/ideal; b- ciência da arte particular (em progressão gradual de formas!); c- ciência da arte particular (em progressão gradual de conteúdos!).
“Por exemplo, os chineses, os indianos e os egípcios permaneceram em suas configurações artísticas (sic – conservaram) figuras de deuses e ídolos desprovidos de Forma ou com uma determinidade ruim ou não-verdadeira da Forma e não souberam dominar a verdadeira beleza porque suas representações mitológicas, o conteúdo e o pensamento de suas obras de arte ainda eram em si mesmos indeterminados ou de uma determinidade ruim, e não eram ainda o conteúdo em si mesmo absoluto.”
“A determinidade é como que a ponte para o fenômeno.”
“princípio do modo de aparição particular”
“Deste modo, é somente a Idéia verdadeiramente concreta que produz a verdadeira forma, e esta correspondência de ambos é o ideal.”
b- “a doutrina das Formas da arte”
“Por isso, as Formas da arte nada mais são do que as diferentes relações de conteúdo e forma, relações que nascem da própria Idéia e, assim, fornecem o verdadeiro fundamento de divisão desta esfera. Pois a divisão deve sempre residir no conceito, do qual é a particularização e a divisão.” A divisão é a divisão do conceito! Imagina ser ouvinte nesta aula…
“forma de arte simbólica” como estágio primitivo da obra de arte. “determinidade abstrata” Ex: leão=força
Segue-se ao puro símbolo, conforme Hegel, uma fase de jactância, sublimidade ou exuberância, caricata ou estilística. “a Idéia é aqui ainda o mais ou menos indeterminado” – insatisfação ou inadequação da Idéia consigo mesma.
“Estes aspectos constituem, em termos gerais, o caráter do 1º panteísmo artístico do oriente”
“bizarro, grotesco e destituído de gosto”
“Na segunda Forma de arte, que gostaríamos de designar como sendo a clássica, a dupla deficiência da Forma de arte simbólica está eliminada.” “a concordância entre o significado e a forma deve sempre permanecer deficiente e apenas abstrata.” “é a Forma clássica que pela 1ª vez oferece a produção e intuição do ideal completo e o apresenta como efetivado.” “a espiritualidade concreta; pois somente a espiritualidade é a verdadeira interioridade.”
O último esteta “de respeito” a rebaixar o mundo clássico em relação ao próprio mundo moderno na Arte?
“Há de ser o próprio conceito originário que inventou [erfunden] a forma para a espiritualidade concreta, de tal modo que agora o conceito subjetivo apenas a encontrou [gefunden] e, enquanto existência natural figurada, a tornou adequada à livre espiritualidade individual.” Seria brilhante se não fosse uma hipóstase.
“Esta (…) é a forma humana”
“É certo que freqüentemente a personificação e a antropomorfização foram denegridas como se fossem uma degradação do espírito” Apenas pelos monoteístas!
PARADOXO DE PROTEU (TUDO É HUMANO, OU APENAS O BOM É HUMANO, ENQUANTO O MAL É LENTAMENTE ALOJADO NA CATEGORIA RESIDUAL DOS ANIMAIS!): “Neste contexto, a migração da alma é uma representação abstrata, sendo que a fisiologia deve ter tido como um de seus princípios que a vitalidade em seu desenvolvimento necessariamente precisa progredir para a forma do homem como sendo este o único fenômeno sensível adequado ao espírito.”
Para H., apenas um anúncio que “exige a passagem para uma 3ª Forma de arte mais elevada, a saber, a romântica”…
“A Forma de arte clássica, de fato, alcançou o ponto mais alto que a sensibilização da arte foi capaz de alcançar”
O Romantismo é o falseamento da realidade outorgando-se ser mais-do-que-o-real-NECESSARIAMENTE-simplificado-do-clássico. (JUÍZO MEU, obviamente ausente em H.)
“a Forma romântica (…) adquiriu um conteúdo que transcende esta Forma [clássica] e seu modo de expressão. Este conteúdo – para lembrar representações já conhecidas – coincide com o que o cristianismo afirma acerca de Deus como espírito, à diferença da crença nos deuses dos gregos que constitui o conteúdo essencial e o mais adequado para a arte clássica.”
“O deus grego se destina à intuição espontânea e à representação sensível e, por isso, sua forma é o corpo do homem, o círculo de sua potência e de sua essência é individual e particular, é uma substância e poder perante o sujeito, com os quais a interioridade subjetiva apenas em si está em unidade, mas não tem esta unidade como saber subjetivo interior e próprio.” E quem liga para este saber! Só porque não durou eternamente e foi sucedido por outras formas de culto não significa que o Olimpo seja inferior!
“pelo fato de saber que é animal, deixa de sê-lo e se dá o saber de si como espírito.”
Eu poderia acrescentar: pelo fato de se saber isento da desmesura, o modelo grego deixa de ser humano (falível) e se torna de facto divino!
H. não compreendeu a completude grega, que projeta no dogma cristão: “Do mesmo modo, a unidade da natureza humana e divina é algo sabido e apenas por meio do saber espiritual e no espírito é uma unidade realizada. O novo conteúdo assim conquistado[a posteriori, com lendas, no papel] não está, portanto, atado à exposição sensível, como a que lhe corresponde, mas está livre desta existência imediata que deve ser estabelecida, superada e refletida negativamente na unidade espiritual. Deste modo, a arte romântica é a arte se ultrapassando [Hinausgehen] a si própria, mas no interior de seu próprio âmbito e na própria Forma artística.”
3. O indivíduo e seu “ânimo” como a grande 3ª Forma hegeliana!
“A interioridade comemora seu triunfo sobre a exterioridade e faz com que esta vitória apareça no próprio exterior e por intermédio dele, fazendo com que o fenômeno sensível desapareça na falta de valor.” Hegel
“A exterioridade comemora seu triunfo sobre a interioridade e faz com que esta vitória apareça no próprio interior e por intermédio dele, fazendo com que o metafísico e espiritual desapareçam na falta de valor.” Eu!
“O lado da existência exterior é entregue à contingência e abandonado à aventura da fantasia, cuja arbitrariedade pode tanto espelhar o que está presente, tal como está presente, como também embaralhar e distorcer grotescamente as configurações do mundo exterior. (…) e é capaz de conservar ou reconquistar esta reconciliação consigo mesmo em todo tipo de contingência e acidentalidade que por si mesmo se configura, em todo infortúnio e dor e até mesmo no próprio crime. Por meio disso surge novamente a indiferença, inadequação e separação entre a Idéia e a forma – como no simbólico –, mas com a diferença essencial de que no romântico a Idéia deve aparecer em si mesma completa como espírito e ânimo. Por esta razão, esta perfeição superior se priva da correspondente união com a exterioridade, sendo que somente pode buscar e completar sua verdadeira realidade e aparição [Erscheinung] em si mesma.”
“Em termos gerais (…) As 3 Formas consistem na aspiração, na conquista e na ultrapassagem do ideal como a verdadeira Idéia da beleza.”
“as Formas de arte universais devem nesta terceira parte se mostrar também como determinação fundamental para a divisão e identificação das artes particulares”
“por um lado, as artes particulares pertencem especificamente a uma das Formas de arte universais e constituem sua adequada efetividade artística exterior; por outro lado, apresentam a totalidade das Formas de arte 2º seu modo de configuração exterior.”
“A primeira das artes particulares (…) é a bela arquitetura.” “o tipo fundamental da arquitetura é a Forma de arte simbólica.”
“Ela permite que uma envoltura se erga para o alto para a reunião dos fiéis – enquanto proteção contra a ameaça da tempestade, contra a chuva, o mau tempo e animais selvagens”
“é por meio da arquitetura que o mundo exterior inorgânico é purificado, ordenado simetricamente”
“Em segundo lugar, neste templo entra então o próprio Deus, na medida em que o raio da individualidade bate na massa inerte, a penetra, e a própria Forma infinita do espírito, não mais meramente simétrica, concentra e configura a corporeidade. Esta é a tarefa da escultura.” “assume a Forma de arte clássica como seu tipo fundamental.”
Nesse esquema ridículo de Hegel, a terceira manifestação não é a terceira arte, como se poderia imaginar, mas praticamente a soma de todas as artes tipicamente modernas.
“temos a pintura, a música e a poesia.”
“A primeira arte, que ainda se encontra próxima da escultura, é a pintura.” Não diga, Einstein.
“A segunda arte (…) é a música.” Todo poeta se põe em último (e com isso quero dizer 1º) lugar.
“o som, o sensível estabelecido negativamente”
ARQUITETURA HEGELIANA (COF, COF!): “a música constitui novamente o ponto central das artes românticas e o ponto de transição entre a sensibilidade espacial abstrata da pintura e a espiritualidade abstrata da poesia.”
A aparição do cinema refuta toda a Estética hegeliana.
música poesia
sensação signo
E nessa teimosia, H. pensa ganhar alguma coisa…
“o audível e o visível se rebaixaram à mera alusão do espírito.”
“Mas, exatamente neste estágio supremo, a arte também ultrapassa a si mesma, na medida em que abandona o elemento da sensibilização reconciliada do espírito, e da poesia da representação passa para a prosa do pensamento.”
“Na verdade, tentaram-se muitas vezes outros tipos de divisões, pois a obra de arte oferece tal riqueza de aspectos que, como muitas vezes ocorreu, podemos estabelecer ora este, ora aquele como fundamento de divisão” Não pode ser deus dos filósofos aquele que sequer sabe dançar.
Último parágrafo da introdução: “Portanto, o que as artes particulares realizam em obras de arte singulares, segundo o conceito, são apenas as Formas universais da Idéia de beleza que a si se desenvolve; enquanto que na sua efetivação exterior ergue-se o amplo panteão da arte, cujo construtor e mestre de obras é o espírito do belo que se apreende a si mesmo, mas que a história mundial irá consumar apenas em seu desenvolvimento de milênios.”
PARTE I. A IDÉIA DO BELO ARTÍSTICO OU O IDEAL
POSIÇÃO DA ARTE EM RELAÇÃO À EFETIVIDADE FINITA E À RELIGIÃO E À FILOSOFIA
“Mas, como subjetividade, o espírito é primeiramente apenas em si a verdade da natureza, na medida em que ainda não tornou seu verdadeiro conceito para si mesmo. A natureza não lhe está contraposta como o outro posto por meio dele, no qual ele retorna a si mesmo, mas como ser-outro [Andersseins] insuperado e limitado, ao qual, como se o outro fosse um objeto encontrado à frente, o espírito permanece relacionado enquanto o subjetivo em sua existência de saber e de vontade e apenas pode figurar em natureza o outro lado.” grifos do autor, como nas próximas citações.
“Este é o ponto de vista do espírito apenas finito, temporal, contraditório e, por isso, passageiro, insatisfeito e não-beato.”
“O espírito apreende a própria finitude como o negativo de si mesmo e conquista a partir disso sua infinitude. (…) por meio disso ele se torna para-si-mesmo (…) O próprio absoluto se torna objeto do espírito, na medida em que o espírito entra no estágio da consciência e se diferencia em si mesmo como aquele que sabe [Wissendes] e, em face desse saber, como objeto absoluto do saber.” “Mas na consideração especulativa superior, é o próprio espírito absoluto, para ser para-si o saber-de-si-mesmo, diferencia-se (sic) em-si-mesmo e, assim, põe a finitude do espírito, no seio da qual ele se torna objeto absoluto do saber-de-si-mesmo. Assim, ele é espírito absoluto em sua comunidade, o absoluto efetivo como espírito e saber-de-si-mesmo. § Este é o ponto pelo qual devemos começar na filosofia da arte.”
“O fato de as coisas serem assim, podemos aqui apenas indicar; a demonstração científica compete às disciplinas filosóficas precedentes; à lógica, cujo conteúdo é a Idéia absoluta enquanto tal, à filosofia natural como à filosofia das esferas finitas do espírito.” Nunca é função da filosofia demonstrar nada empiricamente.
“a partir das relações contingentes de sua mundanidade e do conteúdo finito de seus fins e interesses, se abre para a consideração e execução de seu ser-em-si-e-para-si.”
“Em primeiro lugar, temos o amplo sistema das necessidades físicas, para as quais trabalham os grandes círculos da indústria em sua larga produção e conexão, o comércio, a navegação e as artes técnicas; mais acima está o mundo do direito, das leis, da vida em família, a divisão em classes, todo o âmbito abrangente do Estado; a seguir, a necessidade da religião que se encontra em cada ânimo e se satisfaz na vida religiosa; por fim, a atividade multiplamente dividida e intrincada na ciência, o conjunto dos dados e conhecimentos, que tudo abarca em si mesmo. No seio destes círculos também se apresenta a atividade na arte, o interesse pela beleza e a satisfação espiritual com as suas configurações. Aqui surge então a questão acerca da necessidade interna de uma tal necessidade no contexto dos restantes âmbitos da vida e do mundo.”
“O conteúdo de um livro, p.ex., pode ser indicado em algumas palavras ou períodos e nele não deve aparecer outra coisa a não ser o universal já indicado no índice. [E vai fazer o quê se eu incluir outra coisa? Matar minha mãe? Brincadeiras à parte, é realmente uma péssima idéia hegeliana, não digo tradução, pois não é o caso, faz-se o que se consegue fazer: índice e conteúdo são a mesma palavra em alemão, Inhalt. Ok, um livro não possui mais que seu conteúdo, não a representação de seu conteúdo, mas seu conteúdo em si.] O abstrato é este elemento simples, que corresponde ao tema e constitui o fundamento para a execução; o concreto, em contrapartida, é a execução.”
“Passar por este processo de contraposição, de contradição e de solução da contradição é o privilégio superior das naturezas vivas. O que por si é e permanece apenas afirmativo, é e permanece sem vida. A vida caminha para a negação e para a dor que acompanha a negação e é somente afirmativa por si mesma por meio da eliminação da contraposição e da contradição.”
“Os animais vivem em satisfação consigo e com as coisas que estão à sua volta, mas a natureza espiritual do homem impulsiona a dualidade e o dilaceramento, em cuja contradição ele se debate.”
“Podemos designar de modo universal a vida desta esfera, este gozo da verdade que, enquanto sentimento, é beatitude e, enquanto pensamento, é conhecimento, como a vida na religião.”
“A arte, por meio da ocupação com o verdadeiro enquanto objeto absoluto da consciência, também pertence à esfera absoluta do espírito e, por isso, segundo seu conteúdo, encontra-se no mesmo terreno da religião, no sentido mais específico do termo, e da filosofia.”
“a filosofia não possui outro objeto a não ser Deus, sendo assim essencialmente teologia racional e, por estar a serviço da verdade, é culto divino continuado.”
“os poetas e os artistas foram para os gregos os criadores de seus deuses, i.e., os artistas deram à nação a representação determinada do fazer, da vida e da atuação dos deuses, portanto o conteúdo determinado da religião. E certamente não no sentido de que estas representações e ensinamentos já estavam presentes antes da poesia num modo abstrato da consciência, enquanto proposições universais religiosas e determinações do pensamento que a seguir foram por artistas revestidas em imagens e envoltas externamente com o enfeite da poesia. Antes, pelo contrário, o modo da produção artística era tal que aqueles poetas apenas podiam destacar o que neles fermentava nesta forma da arte e da poesia.” “Esta seria a posição original, verdadeira, da arte enquanto primeira auto-satisfação imediata do espírito absoluto.” “no caso de Platão, que já se opôs com veemência aos deuses de Homero e Hesíodo. No progresso da formação cultural, surge em geral em cada povo uma época em que a arte aponta para além de si mesma.”
“Podemos bem ter a esperança de que a arte vá sempre progredir mais e se consumar, mas sua forma deixou de ser a mais alta necessidade do espírito.” “Podemos descrever este progresso da arte para a religião dizendo que a arte é apenas um aspecto para a consciência religiosa.” “a devoção não pertence à arte enquanto tal.” “A devoção é este culto da comunidade em sua forma mais pura, interior e subjetiva”
PRIMEIRO CAPÍTULO. CONCEITO DO BELO EM GERAL
“A Idéia é um todo segundo os 2 lados do conceito subjetivo e objetivo, mas ao mesmo tempo a concordância e unidade mediadas, que eternamente se realizam e se realizaram, dessas totalidades. Apenas assim a Idéia é a verdade e toda verdade.” “O fenômeno não é ainda verdadeiro apenas porque tem existência [Dasein] interior ou exterior e é em geral realidade, mas somente porque esta realidade corresponde ao conceito. (…) E, de fato, verdade não em sentido subjetivo, quando uma existência se mostra adequada às minhas representações, mas na significação objetiva, quando o eu ou um objeto exterior, a ação, o acontecimento e o estado, realizam em sua efetividade o próprio conceito. Se esta identidade não se dá, o existente [Daseiende] é apenas um fenômeno no qual, em vez de se objetivar o conceito total, apenas se objetiva algum aspecto abstrato dele; aspecto que pode atrofiar-se até a oposição contra o verdadeiro conceito, na medida em que se autonomiza em si mesmo contra a totalidade e unidade.”
“A Idéia é verdadeira tal como ela é segundo seu em-si e princípio universal e, enquanto tal, é pensada. (…) O belo se determina como aparência [Scheinen] sensível da Idéia. Pois o sensível e objetivo em geral não guardam na beleza nenhuma autonomia em si mesmos, mas têm de abdicar da imediatez de seu ser, já que este ser é apenas existência e objetividade do conceito e é posto enquanto uma realidade que expõe o conceito enquanto em unidade com sua objetividade e, por isso, nesta existência objetiva, que apenas vale como aparência do conceito, expõe a própria Idéia.”
“o entendimento sempre permanece preso ao finito, unilateral e não-verdadeiro.”
“o conceito não permite à existência [Existenz] exterior seguir por si mesma leis próprias no belo, mas determina a partir de si sua articulação e forma fenomênicas que, enquanto concordância do conceito consigo mesmo, constituem igualmente em sua existência [Dasein] a essência do belo.”
“Enquanto inteligência finita, sentimos os objetos interiores e exteriores, os observamos e percebemos de modo sensível, deixamos que venham à nossa intuição e representação e inclusive às abstrações de nosso entendimento pensante, que lhes dá a forma abstrata da universalidade. Neste caso, a finitude e a não-liberdade residem no fato de as coisas serem pressupostas como autônomas. Por isso, nos orientamos pelas coisas, deixamos que elas atuem e mantemos nossa representação, etc., presa à crença nas coisas, já que estamos convencidos de apenas apreender corretamente os objetos quando nos portamos de modo passivo e limitamos toda a nossa atividade à formalidade da atenção e ao impedimento negativo de nossas imaginações [Einbildungen], opiniões prévias e preconceitos. Mediante esta liberdade unilateral dos objetos está imediatamente posta a não-liberdade da apreensão subjetiva. Pois, para a apreensão subjetiva, o conteúdo está dado [gegeben] e, no lugar da autodeterminação subjetiva, surge a mera recepção e o acolhimento do existente, tal como se encontra à nossa frente enquanto objetividade. A verdade só deve ser alcançada pela submissão da subjetividade.
A mesma coisa tem lugar junto à volição finita, mesmo que de um modo oposto. Aqui os interesses, os fins e as intenções estão no sujeito que quer fazer valê-los contra o ser as propriedades das coisas. (…) Agora, pois, retira-se a autonomia das coisas, na medida em que o sujeito as coloca a seu serviço e as observa e manipula como úteis (…) de tal modo que sua relação, na verdade sua relação utilitária com fins subjetivos, constitua sua autêntica essência.”
“O sujeito é finito e não-livre no teorizar por meio das coisas, cuja autonomia é pressuposta; no campo prático não é livre por causa da unilateralidade, da luta e da contradição interna dos fins e dos impulsos e paixões suscitados a partir do exterior, bem como por causa da resistência nunca totalmente eliminada dos objetos.”
“Idêntica finitude e não-liberdade atinge o objeto em ambas as relações. Embora pressuposta, sua autonomia no teórico é apenas uma liberdade aparente. Pois a objetividade enquanto tal apenas é, sem que seu conceito como unidade e universalidade subjetivas seja em seu seio para ela. O conceito está fora dela. (…) Na relação prática, esta dependência enquanto tal é expressamente posta [gesetzt], e a resistência das coisas diante da vontade permanece relativa, sem que possua em si mesma a potência da autonomia última.”
Um modo um tanto desajeitado de expor a ‘realidade das coisas’: “a consideração do belo é de natureza liberal, um deixar-atuar os objetos enquanto em si mesmos livres e infinitos, e não um querer-possuir-e-utilizá-los-como-úteis para necessidades e intenções finitas, de modo que o objeto como belo também não aparecerá nem oprimido e forçado por nós, nem combatido e superado pelas demais coisas externas.”
“Mediante esta liberdade e infinitude, que o conceito do belo assim como a bela objetividade e sua consideração subjetiva trazem em si mesmos, o âmbito do belo é arrancado da relatividade das relações finitas e elevado ao reino absoluto da Idéia e de sua verdade.”
SEGUNDO CAPÍTULO. O BELO NATURAL
O inanimado: “Este é o 1º modo da existência do conceito.” “tais corpos isolados em si mesmos são existências abstratas defeituosas.”
A objetividade: “a separação [Auseinandertreten] autônoma das diferenças do conceito.” “P.ex. o sistema solar. O sol, os cometas, as luas e os planetas aparecem, por um lado, como corpos celestes autônomos separados uns dos outros; por outro lado, porém, eles são o que são apenas por meio de sua posição determinada no seio de um sistema total de corpos.”
“O conceito, contudo, não permanece preso a esta unidade meramente existente-em-si[an sich seienden] dos corpos particulares autonomamente. Além da diferença, a unidade tem de tornar-se real.”
A unidade ideal: “estágio da existência real, corporal e autônoma contra a própria separação recíproca. No sistema solar, podemos falar do sol. – Mas esta unidade ideal ainda é insuficiente. Se o sol for a alma do sistema, tem ele mesmo ainda uma subsistência autônoma fora dos membros que são a explicação desta alma. Ele mesmo é apenas um momento do conceito, uma unidade incompleta”
A unidade concreta: “a luz do sol é ainda uma luz qualquer, abstrata” Também assim não se avança (um momento do real não é o real).
A negação da negação da unidade: “as diferenças retornaram à unidade subjetiva.” “O conceito não permanece mais mergulhado na realidade, mas vem à existência nela, enquanto a própria identidade e universalidade interiores constituem sua essência.”
“Somente este terceiro modo do fenômeno natural [da unidade conforme exposto aqui] é uma existência da Idéia e a Idéia, enquanto natural, é a vida. A natureza morta inorgânica não é adequada à Idéia e apenas a natureza viva orgânica é uma efetividade dela.”
“não devemos conceber a identidade da alma e do corpo como mera conexão, mas de um modo mais profundo.”
“doença (…) a vitalidade ruim e atrofiada”
“Este pôr e solucionar a contradição da unidade ideal e da separação recíproca real dos membros constitui o constante processo e a vida apenas existe enquanto processo(Prozess).”
“idealista não é apenas a filosofia, e sim já a natureza enquanto vida faz faticamente (faktisch) o mesmo que a filosofia idealista realiza em seu campo espiritual.”
“A realidade, que a Idéia enquanto vitalidade natural conquista, é, por isso, realidade fenomênica. O fenômeno, a saber, não significa nada mais a não ser que uma realidade existe (existiert) e que não tem, todavia, imediatamente, seu ser-em-si-mesma, e sim é ao mesmo tempo em sua existência (Dasein) posta negativamente.”
“Até o momento consideramos o real particular em sua particularidade acabada enquanto o afirmativo. Esta autonomia, entretanto, é negada no vivente e apenas a unidade ideal no seio do organismo corporal conquista a potência da relação afirmativa sobre-si-mesma. (…) Se, portanto, é a alma que aparece no corpo, [e não o corpo na alma, absurdo epistemologicamente, embora indiferente da perspectiva de quem entende a união indissolúvel corpoalma] o fenômeno é simultaneamente afirmativo.”
Alma: “potência contra a particularização autônoma dos membros; mas é também a escultora deles”
“o exterior que apenas permanece exterior nada mais é do que uma abstração e unilateralidade. Entretanto, no organismo vivo temos um exterior no qual aparece o interior”
“uma vez que na objetividade o conceito enquanto conceito é a subjetividade que se refere a si [uma vez que a realidade é forçosamente subjetiva], em sua realidade existente para-si, a vida existe apenas como algo vivo(Lebendiges), enquanto singularidade. (…) este ponto de união é negativo porque o ser-para-si subjetivo apenas pode surgir por meio do pôr-idealmente (Ideelsetzen) as diferenças reais enquanto apenas reais, ao que está ligada, porém, ao mesmo tempo a unidade subjetiva e afirmativa do ser-para-si.” Só podemos existir como diferença dinâmica do que não é real (objetivo) para nós.
“esta totalidade não está determinada a partir de fora e é mutável, pois se configura e se processa a partir de si mesma, estando assim sempre referida a si como unidade subjetiva e finalidade própria.”
Selbstbewegung
“se o movimento dos planetas e assim por diante não aparece como impulso exterior e enquanto estranho aos corpos, este movimento está, todavia, ligado a uma lei fixa e a sua necessidade abstrata.”
“o animal ainda tem em seu organismo espacialidade sensível a partir dele mesmo e a vitalidade é automovimento no seio desta realidade, como circulação sangüínea, movimento dos membros e assim por diante.”
“o belo naturalvivo não é nem belo para-si mesmo nem produzido-a-partir-de-si-mesmo como belo e em vista da bela aparição(Erscheinung). A beleza natural é apenas bela para um outro, i.e., para nós, para a consciência que concebe a beleza.”
“A música, a dança, certamente possuem movimento em si mesmas; este, porém, não é apenas casual e arbitrário como o do animal, mas em si mesmo conforme a leis, determinado, concreto e mensurável – mesmo que ainda façamos totalmente abstração do significado, de quem o movimento é a bela expressão.” “Nem a intuição sensível dos desejos singulares e casuais, dos movimentos e satisfações arbitrários nem a consideração do entendimento da conformidade a fins do organismo transformam, para nós, a vitalidade animal em belo natural”
“Na sensação (Empfindung) e em sua expressão mostra-se a alma como alma.”
“O hábito é apenas uma necessidade subjetiva. Segundo este critério, podemos achar os animais feios, porque mostram um organismo que se afasta de nossas intuições habituais ou as contradiz.”
“designamos organismos animais de bizarros (…) por exemplo, peixes cujo corpo grande de modo desproporcional acaba num rabo curto e cujos olhos, num lado, estão um ao lado do outro. Quanto às plantas, [nós europeus] já estamos mais acostumados com os mais variados desvios, embora os cactos com seus espinhos e a formação mais retilínea de seus braços angulares possam parecer estranhos. Quem possui formação e conhecimento vastos de história natural, a este respeito irá tanto conhecer precisamente as partes singulares como também guardará na memória a maior quantidade de tipos, segundo sua coesão recíproca, de tal modo que pouca coisa incomum lhe aparecerá diante dos olhos.”
“Cuvier era famoso por, pela visão de um só osso – fosse ele fóssil ou não –, poder estabelecer a qual espécie animal o indivíduo detentor deste osso pertencia.”
ex ungue leonem:da unha o leão
“das garras, do fêmur, é extraída a constituição dos dentes, destes a figura do osso ilíaco [relativo à cintura], a forma da vértebra dorsal.”
Sentido:
a) órgão da apreensão imediata – ôntico, fenomenal
b) significado universal – ontológico, essencial
Qual é o sentido do ser? A visão ontológica!
Aquele que além de tudo ainda foi um mestre naturalista (polímata desgraçado!): “Goethe abordou de modo ingênuo os objetos, mediante consideração sensível, e possuía ao mesmo tempo o completo pressentimento de sua conexão de ordem conceitual. Também a história pode ser assim apreendida e narrada, de modo que por meio dos acontecimentos e indivíduos singulares transpareçam secretamente sua significação essencial e sua conexão necessária.”
“a natureza em geral, como exposição sensível do conceito concreto e da Idéia, haveria de determinar-se bela, na medida em que [n]a intuição das configurações naturais de ordem conceitual é pressentida uma tal correspondência, e na consideração sensível nasce, ao mesmo tempo, para o sentido, a necessidade e a conco[r]dância da articulação total. [Mas] a intuição da natureza enquanto bela não avança para além desse pressentimento” Essa edição da tradução possui muitos erros tipográficos (complemento com meus colchetes).
Quase se pode formular: quanto mais idiota é a pessoa, mais ela tende a se maravilhar com “as belezas naturais” contingentes. Os verdadeiros grandes espíritos admiram a natureza a sua maneira: conceitualmente, com um olhar sobre o todo, não sobre o caos que predomina nas partes.
“o cristal natural nos causa admiração por meio de sua forma regular que não é produzida por nenhuma influência mecânica apenas externa, mas por meio da determinação interior peculiar e força livre, livre do ponto de vista do próprio objeto.”
“O bicho-preguiça, [adiciono aqui também o panda, embora atualmente sintamos muita simpatia por esse tipo de animal ‘indolente’!] pelo fato de apenas se arrastar com dificuldade e cuja totalidade do hábito apresenta a incapacidade para o movimento rápido e a atividade, desagrada por causa desta preguiça sonolenta.”
A SAPOMANIA PÓS-MODERNA:“Igualmente não podemos achar belos os anfíbios, alguns tipos de peixes, crocodilos, sapos, tantas espécies de insetos, etc. Mas em particular, seres híbridos, que constituem a passagem de uma forma determinada para outra e mesclam sua forma, poderão chamar nossa atenção, embora apareçam como feios, como o ornitorrinco, que é uma mistura de pássaro e animal quadrúpede. Também este modo de julgar pode primeiramente parecer mero hábito, na medida em que concebemos um tipo sólido dos gêneros animais.”
Disposição anímica (Gemütstimmung): simplesmente aquilo que Kant chamaria de sublime, por mexer com nossas emoções.
ORIGENS DO MITO DE YGGDRASIL? <A ÁRVORE QUE NÃO PÁRA DE CRESCER, ATÉ SE TORNAR FONTE DE TODA A VITALIDADE DA TERRA>… “O animal certamente também cresce, mas permanece estagnado num determinado ponto de grandeza e se reproduz enquanto autoconservação de um e mesmo indivíduo. Já a planta cresce sem parar; o aumento de seus galhos, folhas e assim por diante se suspende apenas com a sua morte.” “cada galho é uma nova planta e não é como no organismo animal apenas um membro singularizado.” “Falta à planta sua unidade ideal de sensação.”
NIETZSCHE NÃO ESCOLHE FIGURAS DE LINGUAGEM AO ACASO: “Este caráter do constante impulsionar-se-a-si-sobre-si-para-fora¹(Sich-über-sich-Hinaustreibens) no exterior, transforma, pois, também a regularidade e a simetria, enquanto unidade no exterior-a-si-mesmo(Sichselberäusserlichen), em um momento principal para as configurações vegetais.”
¹ Rudimentos do contínuo superar-se-a-si-mesmo-e-transvalorar-se humano!
“Também no orgânico, portanto, a regularidade tem o seu direito de ordem conceitual, mas apenas junto aos membros que fornecem os instrumentos para a relação imediata com o mundo exterior e não operam a referência do organismo a si mesmo enquanto subjetividade da vida que retorna a si mesma.” Possuímos dois olhos, dois ouvidos, um nariz bipartido, lábios simétricos, membros, etc., para nos relacionarmos com o mundo, porém o que há de mais importante, i.e., estômago, intestino, pulmões (até certo ponto, isto é, pois também se relacionam ao externo, mesmo em localidade ‘invisível’, para coletar oxigênio), coração e cérebro, já não possuem essa regularidade dual, assim como a musculatura do lado esquerdo (inverso do hemisfério nervoso das paixões – vontade) se desenvolve diferentemente da musculatura do lado direito (inverso do hemisfério nervoso do intelecto). Outrossim, a ambidestria é incomum, mesmo impossível, se não for perfeitamente forçada.
“A linha oval possui liberdade superior na interior conformidade a leis. Ela é conforme a leis, todavia não se conseguiu encontrar matematicamente a sua lei. Ela não é uma elipse, e sim está curvada no alto de modo diferente do que embaixo.”
“A última superação do meramente regular na conformidade a leis encontra-se nas linhas que, semelhantes às linhas ovais, porém seccionadas segundo seu eixo maior, fornecem metades desiguais, na medida em que um lado não se repete no outro, mas oscila de modo diferente. A assim chamada linha ondulante é desta espécie, tal como Hogarth(*) a designou como linha da beleza. Assim, p.ex., as linhas do braço giram num lado de modo diferente do que noutro. Há aqui conformidade a leis sem mera regularidade. Tal espécie de conformidade a leis determina em grande variedade as formas dos organismos vivos superiores.
(*) William Hogarth (1697-1764), pintor inglês, autor de uma obra de estética, A Análise da beleza (1753), onde a linha serpenteada é considerada como elemento primordial do belo, superior à linha reta (N.T.).”
A harmonia: “Assim, p.ex., o azul, o amarelo, o verde e o vermelho são diferenças de cor necessárias que residem na própria essência da cor. Nelas não temos apenas desigualdades como na simetria, que se combinam regularmente para a unidade externa, mas contraposições diretas, como a do amarelo e do azul e sua neutralização e identidade concreta.” “A exigência de tal totalidade pode ir tão longe a ponto de, como diz Goethe, o olho, mesmo tendo apenas uma cor enquanto objeto à frente, ver de modo subjetivo igualmente a outra.” “Mas também a harmonia enquanto tal ainda não é a subjetividade e a alma livres e ideais. Nestas a unidade não é mera correspondência recíproca e concordância, mas um pôr-negativo-das-diferenças, mediante as quais se realiza apenas sua unidade ideal. A harmonia não chega a tal idealidade.”
“Principalmente os dialetos apresentam sons impuros, sons intermediários como ao.” “as línguas nórdicas freqüentemente deformam o som das vogais por meio de suas consoantes, ao passo que a língua italiana mantém esta pureza e por isso é tão cantante.”
Chama cores primárias de “cores cardinais”. Cores derivadas são “abafadas”.
“Até o momento consideramos o belo natural como a 1ª existência do belo; é preciso agora perguntar como o belo natural se distingue do belo artístico.” “por que a natureza é necessariamente imperfeita em sua beleza e de onde brota esta imperfeição?”
“A idéia platônica ainda não é o verdadeiramente concreto, pois, apreendida em seu conceito e em sua universalidade, ela já vale como o verdadeiro. Tomada nesta universalidade, porém, ela ainda não se efetivou e não é em sua efetividade o verdadeiro por si mesmo. Ela permanece presa ao mero em-si.”
“indigência universal”
“Esta é a prosa do mundo, tal como aparece à consciência tanto de um quanto de outro indivíduo, um mundo da finitude e da mutabilidade, do entrelaçamento no relativo e da pressão da necessidade à qual o indivíduo singular não é capaz de se subtrair. Pois cada vivente singular permanece preso à contradição de ser para si mesmo fechado enquanto este ser uno e igualmente depender dos outros; e a luta pela solução da contradição não consegue ultrapassar a tentativa e a continuação da constante guerra.”
#(relativo)OFFTOPIC:O que é o além-homem nietzschiano (da ótica do devir estético humano descrito por Hegel em seus Cursos de Estética)? Pensando em termos de teoria da evolução das espécies segundo Darwin, póstuma a Hegel mas com certeza prefigurada em seus contornos e bastante de seu conteúdo pelo filósofo idealista alemão, o além-homem (tradução melhor para o ambíguo super-homem do português do original “Übermensch”) seria o primeiro animal autodeterminado. Pela primeira vez a seleção do devir da espécie pode ser um adestramento, adestramento de si próprio, a construção de uma humanidade propriamente dita (ainda inexistente), ao contrário da seleção entregue às puras contingências externas. Um projeto de além-homem inclui desde o último homem ou sub-homem (o obstáculo a superar), o homem (espécie de consciência intermediária, os que não são obstáculos reativos e reacionários, mas não são ativos nessa transvaloração dos valores ou conscientes da questão) e os filósofos de vanguarda, entregues à “causa”. Com o decorrer do tempo, num mundo já pós-ocidental (num nível não-concebido por nós, que de certa forma já vivemos num contexto de superação da metafísica ocidental), inclui(rá) o próprio ente que se vê nessa transição epocal (Zaratustras? enunciadores, ainda aquém do além-homem em si) e, finalmente, o próprio além-homem, que não é mais “homem”, mas que só poderá existir pelo esforço do que um dia já foi homem, e provavelmente coexistiria com ele eternamente, qualquer que seja a nova conformação social. Seria como se realmente, sem recorrer a algo transcendental, um sujeito hipostasiado que explique a evolução (em Darwin é a própria cientificidade de sua teoria, p.ex.), pudéssemos ver o peixe, o anfíbio e os (depois dos répteis, evidentemente, até chegar a nossa identidade no reino dos) mamíferos como atores e autores do seu próprio projeto de “viagem do mar à terra”, faces de um mesmo todo. Obviamente, apenas o homem é capacitado para integrar um projeto multifacetado como este (aquilo que deve ser conscientemente superado). A tríade peixe-anfíbio-animal terrestre não passa, em contraposição, de um caos tornado destino, por se localizar em nosso passado, evolução involuntária, impessoal, figuras que não dialogam entre si (precisamente por não discursarem ou dialogarem em absoluto, atributo definidor de “homem”).
“A contingência das formas não encontra fim. Por isso, quanto ao conjunto, as crianças são as mais belas, porque nelas ainda estão adormecidas todas as particularidades como num embrião fechado e em silêncio, na medida em que ainda nenhuma paixão limitada revolve seu peito e nenhum dos múltiplos interesses humanos, com a expressão de sua miséria, a[s]fix[i]ou-se firmemente nos traços passageiros. Mas, embora a criança em sua vitalidade apareça como a possibilidade de tudo, faltam a esta inocência igualmente os traços profundos do espírito, que é impelido a exercer-se-a-si-em-si-mesmo e a encontrar direções e fins essenciais.”
“[Nossa carência congênita] é a razão porque (sic) o espírito não pode reencontrar a visão e o gozo imediatos desta sua verdadeira liberdade na finitude da existência (…) e, por isso, [busca-se] um terreno superior (…) a arte e sua efetividade ideal.”
“conquista[-se] um fenômeno exterior, no qual não mais aparece a indigência da natureza e da prosa, mas uma existência digna da verdade que, por seu lado, permanece em livre autonomia, na medida em que possui sua determinação em si mesma”
TERCEIRO CAPÍTULO. O BELO ARTÍSTICO OU O IDEAL
“se perguntarmos em qual órgão particular o todo da alma enquanto alma aparece, indicaremos imediatamente o olho; pois no olho se concentra a alma e ela não apenas olha através dele, mas também é vista nele.”
“como exclama Platão no célebre dístico a Aster: [onde encontrar?]
Quisera ser eu o céu, ó minha estrela, quando você olha as estrelas!
Para observá-la do alto com mil olhos!”
Segundo Hegel, a sensibilidade artística, se fosse uma pele, seria uma pele inteiramente revestida por olhos. Não é à toa que quimeras e criaturas mitológicas com um “corpo de cem ou mil olhos” são comuns em praticamente qualquer cultura, transpassando para a vida moderna (The Legend of Zelda – Jabu-Jabu’s Belly –, Hunter x Hunter – Youpi –, e mesmo na figura derivada do corpo-que-é-um-grande-olho de Lord of The Rings – Sauron –, etc.).
Utilizei os exemplos acima antes de ler o trecho seguinte:“a arte transforma cada uma de suas configurações num Argos(*) de mil olhos, para que a alma e a espiritualidade internas sejam vistas em todos os pontos.
(*) (…) filho de Arestor (…) Hera o encarregou de vigiar a vaca Io, mas Hermes, seguindo ordens de Zeus, matou o monstro. Para imortalizar o servidor, Hera tirou-lhe os olhos e os espalhou pela cauda do pavão, ave que lhe era consagrada. (N.T.)”
“É algo completamente diferente se o retratista apenas em geral imita a fisionomia tal como se encontra a sua frente em sua superfície e forma exterior silenciosa ou se sabe expor os traços verdadeiros que são a expressão da mais própria alma do sujeito.”
“as assim chamadas imagens vivas, que recentemente se tornaram moda, imitam conforme a fins e alegremente obras-primas famosas e reproduzem exatamente o detalhe, o drapê, etc.; mas, para a expressão espiritual das formas, vê-se muitas vezes o emprego de rostos do cotidiano e isso tem um efeito contraproducente.” “As Madonas de Rafael, em contrapartida, nos mostram formas do rosto, da face, dos olhos, do nariz, da boca que, enquanto formas em geral, já são adequadas ao amor materno beato, alegre e ao mesmo tempo piedoso e humilde.”
“E se hoje a musa,
A livre deusa da dança e do canto,
Seu antigo direito alemão, o jogo da rima,
Modestamente de novo exige – não a recriminem!
Antes a agradeçam por lançar a imagem sombria
Da verdade no reino sereno da arte,
Por destruir ela mesma, com lealdade,
A ilusão que cria, e não imputar,
Enganosamente, à verdade sua aparência;
Séria é a vida, serena é a arte.”
Schiller
“O homem subjugado ao destino [Geschick] pode perder sua vida, mas não a liberdade. Este repouso-sobre-si é o que permite que, ainda na própria dor, se mantenha e se deixe aparecer a serenidade do repouso.”
“se não a fealdade, pelo menos a não-beleza (Unschönheit).”
MORBIDEZ QUE PARA HEGEL ERA SUBLIMIDADE: “Embora na arte romântica o sofrimento e a dor atinjam de modo mais profundo o ânimo e o interior [Innere] subjetivo do que nos antigos, nela, todavia, também pode vir à exposição uma interioridade [Innigkeit] espiritual, uma alegria na resignação, uma beatitude na dor e um encanto no sofrimento, mesmo uma voluptuosidade até no martírio. Mesmo na música religiosa-séria italiana este prazer e transfiguração da dor perpassem a expressão da lamentação. [único jeito das frígidas gozarem]No romântico, em geral, esta expressão é o sorriso através de lágrimas.”
Jakob Balde (1604-1688), Cid(em latim, traduzido para todas as línguas român(t)icas). Havia certa confusão nessa época na hora da atribuição do autor (quase todos apontavam os tradutores locais como reais autores da obra, etc.). Esse mesmo cavaleiro Cid, no entanto, parece ter sido uma figura quase tão universal ou pelo menos policultural quanto Fausto.
(*) “Carl Maria von Weber (1786-1826), compositor alemão. O Freischütz (O Franco-atirador)é uma ópera de 1821, baseada na obra de mesmo nome do escritor Johann August Apel (1771-1816). Primeiro sucesso de Weber no domínio da ópera e única de suas obras que permaneceu popular, o Freischütz ilustra bem a tendência romântica ao satanismo, pois o personagem central não é Max, o herói frágil, mas o malvado Kaspar, que vendeu sua alma ao diabo.”
“O riso em geral é um desencadeamento explosivo que, contudo, não deve permanecer incontrolado, caso o ideal não deva ser percebido.”
CÂNONES VAGOS E RUINS DE HEGEL: “Sob certo aspecto, o princípio da moderna ironia também possui neste axioma a sua justificação, só que a ironia, por um lado, freqüentemente está destituída de toda seriedade verdadeira e ama principalmente o deleite com objetos ruins; por outro lado, acaba em mera nostalgia do ânimo em vez do agir e do ser efetivos; como Novalis, p.ex., um dos ânimos mais nobres que se encontrava neste terreno, que foi impulsionado ao vazio de interesses determinados, a esta timidez perante a efetividade e, se assim se pode dizer, [não, não pode!], alçado a esta tísica do espírito.” H. nunca escondeu, nessa e noutras obras e coletâneas de aulas, que não nutre lá uma opinião muito favorável de Novalis…
“Assim, encontra-se sem dúvida na ironia aquela absoluta negatividade, na qual o sujeito se refere a si-mesmo na aniquilação das determinidades e unilateralidades; mas na medida em que a aniquilação não se refere como no cômico apenas ao que é em-si-mesmo nulo e que se manifesta em seu caráter vazio, mas na mesma medida também a tudo o que é excelente e consistente em-si, a ironia – assim como aquela nostalgia – mantém o aspecto da incompostura interior não-artística.” O erro aqui não está em atribuir “absoluta negatividade” à ironia, nem em qualquer suposto exagero ao atribuir ao sujeito irônico a capacidade da “aniquilação das determinidades e unilateralidades”: está em não dar a devida importância a este niilismo que Hegel sabia descrever mas não destacar ou valorar como necessidade ocidental (para o bem e para o mal).
“a arte em geral, e de modo especial a pintura, já se afastaram, mediante outros estímulos, desta mania pelos assim chamados ideais [fala aqui no sentido da arte imitativa dos modernos, emulando o estilo clássico dos antigos] e, em seu caminho, tentaram ao menos alcançar coisas mais substanciais e mais vivas em formas e conteúdo, por meio da renovação do interesse pela pintura mais antiga italiana e alemã, assim como pela pintura holandesa tardia.
Do mesmo modo que ficamos fartos daqueles ideais abstratos, também o ficamos da naturalidade em voga na arte. No teatro, toda a gente está de coração cansado das histórias familiares banais e de sua exposição fiel à natureza. A lamentação dos homens com a mulher, os filhos e filhas, com o soldo, com a subsistência, com a dependência de ministros e intrigas dos camareiros e secretários, e igualmente a dificuldade da mulher com as criadas na cozinha e com os assuntos amorosos e sentimentais – todas estas preocupações e lamúrias cada um encontra de modo mais fiel e melhor em sua própria casa.”
(*) “A escola de Düsseldorf [na qual H. mete o pau inclementemente] constituiu um movimento de amplitude européia (e mesmo americana), cujos integrantes principais foram F. Lessing (1808-1880), autor de quadros históricos, e Ludwig Richter (1803-1884) de Dresden, que possuía um gosto por lendas populares. Mas o seu artista mais importante, que morreu ainda jovem, foi Alfred Rethel (1816-1859), grande ilustrador obcecado pelo tema da morte.”
O DELEITE DO VIRTUAL: “os objetos não nos deleitam porque são de tal modo naturais, mas porque são feitos [gemacht] tão naturalmente.”
“o famoso Denner(*) não deve ser tomado como modelo em sua assim chamada naturalidade.
(*) Balthasar Denner (1685-1749), retratista e miniaturista alemão conhecido por sua técnica de representar a natureza de modo exageradamente fiel.”
“[na pintura e na escultura moderna, dado nosso vestuário,] as jaquetas e as calças não variam, quer movimentemos os braços e as pernas desse ou daquele modo. No máximo as pregas se esticam de modo diferenciado, mas sempre segundo uma costura firme, como as calças na estátua de Scharnhorst(*).
(*) Gerhard von Scharnhorst (1755-1813), herói militar prussiano.”
“falsa imitação da Forma natural“
“Os holandeses escolheram o conteúdo de suas representações a partir deles mesmos, do presente [Gegenwar] de sua própria vida, e não se deve censurá-los por terem pela arte efetivado mais uma vez este presente [Präsente].” A Europa já se havia saturado de pinturas cristãs!
“O holandês construiu em grande parte ele próprio o terreno onde mora e vive, e é forçado a defendê-lo e mantê-lo continuadamente contra o ataque do mar” “O conteúdo universal de suas imagens é constituído por esta cidadania e vontade de empreendimento nas coisas pequenas e grandes, no próprio país quanto no vasto mar” “Foi neste sentido de nacionalidade robusta que Rembrandt pintou sua famosa Ronda Noturna em Amsterdan, que Van Dyck pintou tantos de seus retratos, Wouwerman suas cenas de cavaleiros, e mesmo aqueles banquetes, jovialidades e festas agradáveis dos camponeses se situam neste contexto.”
Rembrandt, Ronda Noturna
“Num sentido semelhante, os meninos mendigos de Murillo (na galeria central de Munique) são primorosos. Considerado segundo o exterior, o objeto aqui também é da natureza comum: a mãe cata piolhos em um dos meninos enquanto ele come seu pão em silêncio; outros dois num quadro semelhante, esfarrapados e miseráveis, comem melancias e uvas. Mas precisamente nesta pobreza e quase nudez brilha interna e externamente nada mais do que a total indiferença e despreocupação; um Dervixe [asceta hindu] não as poderia ter melhor” “Em Paris há um retrato de menino de Rafael: a cabeça está apoiada preguiçosamente sobre o braço e olha com tal beatitude de satisfação destituída de preocupação para o horizonte e para o vazio que não conseguimos parar de observar esta imagem de saúde alegre e espiritual.”
“Tais quadros de gêneros, porém, devem ser pequenos e aparecer em todo o seu aspecto sensível como algo insignificante, como algo que já superamos no que diz respeito ao objeto exterior e ao conteúdo. Seria insuportável vê-los executados em tamanho natural e, assim, com a pretensão de que pudessem efetivamente nos satisfazer em sua totalidade.”
Von Rumohr (o “Anti-Winckelmann”), Investigações Italianas, vol. I: “o senhor Rumohr parece acreditar que o prolongamento do abdômen, que Winckelmann em História da Arte da Antiguidade (1764), livro 5, cap. 4, #2, designa como característica dos ideais das formas antigas, é deduzida de estátuas romanas.” “a beleza a mais importante repousa sobre aquele simbolismo das formas, dado na natureza e não-fundado sobre o arbítrio humano”
“As formas naturais existentes do conteúdo espiritual devem ser tomadas como simbólicas no sentido universal, já que não valem por si imediatamente” Agora H. melhorou um pouco o tal sr. Rumor!
“as esculturas gregas descobertas recentemente como de fato pertencentes a Fídias impõem-se sobretudo pela vitalidade profunda [de fisionomias universais].”
“[já] Homero [- em seu meio literário -] pôde descrever o caráter de Aquiles igualmente tanto como duro e atroz quanto como suave e cordial e segundo ainda tantos outros traços d’alma.”
“Em pinturas alemãs e holandesas antigas encontra-se freqüentemente reproduzido o mecenas com sua família, mulher, filhos e filhas. Eles devem todos aparecer imersos em devoção, e a religiosidade brilha efetivamente em todos os traços (…) reconhecemos nos homens bravos guerreiros (…) muito experimentados na vida e na paixão, e nas mulheres (…) esposas de semelhante qualidade (…) Se, nestas pinturas, que são famosas no que diz respeito a suas fisionomias verdadeiramente naturais, compararmos estas fisionomias com Maria ou com os santos e apóstolos que estão presentes ao lado, podemos, em contrapartida, ler nestes rostos apenas uma expressão, e todas as formas, a estrutura óssea, os músculos, os traços de repouso e de movimento estão concentrados nesta única expressão. A diferença entre o autêntico ideal e o retrato é dada pelo que apenas se ajusta ao conjunto.”
Agora vem uma chuva de teologia historicista aborrecida pra caralho:
“em 1º lugar, a única substância divina se cinde e se dispersa em uma pluralidade de deuses que repousam em si mesmos de modo autônomo, tal como na intuição politeísta da arte grega; e também para a representação cristã o Deus aparece, perante sua unidade puramente espiritual, imediatamente como homem entrelaçado no âmbito do terreno.”
2º lugar: os santinhos do pau oco etc.
3º lugar: o indivíduo (o protestante!) – logo, temos Luteros também na pintura e demais artes
Começa-se a rezar para passar em medicina, etc.
OS FABULOSOS X-OLIMPIANOS: O Olimpo é um gibi da Marvel: termina, se bem que não, pois não lembramos do que aconteceu primeiro e do sucedâneo e do desfecho, i.e., lembramos particularidades, momentos isolados, mas sequer conseguimos pô-los em ordem cronológica. A lógica do pai de Zeus não existe mais!
“Mesmo os deuses eternos do politeísmo não vivem em paz eterna. Eles se dividem em facções e lutas com paixões e fins opostos e devem submeter-se ao destino. Mesmo o Deus cristão não está subtraído à passagem pela humilhação do sofrimento, inclusive pelo opróbrio da morte e não é libertado da dor da alma, na qual ele deve gritar: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”
“a potência consiste apenas em manter-se no negativo de si.” “Pois é pela vontade que o espírito em geral penetra na existência”
H. adoraria o Windows e suas subpastas…
“A vingança de Orestes, p.ex., foi justa, mas ele apenas a executou segundo a lei de sua virtude particular, e não segundo o juízo e o direito. – No estado que reivindicamos para a representação artística, o ético e o justo devem, portanto, conservar sem exceção forma individual”
arete (heroísmo clássico) vs. virtus (reino da anti-arte)
“Ser um romano apenas de modo abstrato e representar na própria subjetividade enérgica apenas o Estado romano, a pátria e sua grandeza e potência: é esta a seriedade e dignidade da virtude romana. Os heróis, em contrapartida, são indivíduos que a partir da autonomia de seu caráter e de seu arbítrio assumem a responsabilidade pelo todo de uma ação e a realizam e junto aos quais o justo e o ético aparecem como modo de pensar singular.”
(*) “Téspio possuía 50 filhas e desejava netos nascidos do herói Hércules. Este se alojava em sua casa e em cada noite encontrava uma bela mulher em seu leito. Possuía-a, pensando tratar-se sempre da mesma. E assim conceberam de sua semente as 50 filhas de Téspio.” Comprem óculos para o filho de Zeus urgente!
HOMERO & PÉRSIA: “Os heróis da antiga poesia árabe também surgem com uma autonomia idêntica, não-ligados a nenhuma ordem estabelecida desde sempre e não como meras partículas desta ordem”
(*) “Xá-naméou Livros dos Reis, imensa epopéia de 6 mil dísticos composta no séc. X pelo poeta persa Ferdúsi.”
“Desta espécie são os heróis da Távola Redonda assim como o círculo dos heróis, cujo ponto central é constituído por Carlos Magno.” “mesmo que Carlos também queira agitar-se como Júpiter no Olimpo, ainda assim eles o abandonam com seus empreendimentos e partem autonomamente para a aventura. O modelo completo para esta relação encontramos mais adiante no Cid.” “Uma imagem semelhante e admirável de autonomia independente oferecem os heróis sarracenos que se mostram para nós numa figura ainda mais áspera. – Mesmo o Reineke Fuchs(*) renova para nós a visão de um semelhante estado.
(*) (…) <epopéia animal>(*) [de Heinrich, 1180]. O gênero, fortemente carregado de crítica social, foi fixado na literatura alemã por um Volksbuch em alto-alemão, publicado em 1544. Goethe compôs um poema épico do mesmo título em 1794.
(*) O leão é decerto sr. e rei, mas o lobo e o urso etc. fazem igualmente parte do conselho.”
“A consistência e a totalidade autônoma do caráter heróico não quer dividir a culpa e não sabe nada desta contraposição das intenções subjetivas e do ato objetivo com suas conseqüências, ao passo que na complicação e na ramificação do agir atual cada um recorre a todos os outros e afasta o quanto pode a culpa de si.”
“toda uma linhagem sofre pelo primeiro criminoso” “Entre nós, os efeitos dos antepassados não honram os filhos e os netos; os crimes e os castigos daqueles não desonram os descendentes e muito menos podem macular seu caráter (…) mesmo o confisco dos bens familiares constitui um castigo que lesa o sujeito.”
“o herói é o que seus pais eram, sofreram, fizeram.”
É preciso imaginar um Hércules kafkiano.
“De modo mais preciso, uma época heróica possui então a vantagem diante de um estado mais formado e tardio” “Shakespeare, p.ex., tirou muitas matérias para as suas tragédias de crônicas ou de novelas antigas que falam de um [E]stado que ainda não se desprendeu para uma ordem completamente estabelecida, e sim na qual a vitalidade do indivíduo, em sua resolução e execução, ainda prevalece e é determinante. Seus dramas propriamente históricos possuem um ingrediente principal do histórico meramente exterior e, por isso, estão mais afastados do modo de exposição ideal, embora também aqui os estados e as ações sejam sustentados e elevados por meio da dura autonomia e teimosia dos caracteres.”
AS PASTORAIS: “o idílico vale apenas como um refúgio e diversão do ânimo”
Gessner, Idílios, 1756.
“Devemos admirar o genius de Goethe, pelo fato de em Hermann e Dorotéia¹ concentrar-se num âmbito semelhante, na medida em que escolhe uma particularidade estreitamente limitada da vida do presente, mas ao mesmo tempo traz à tona, como pano de fundo e como atmosfera nos quais se move este círculo, os grandes interesses da revolução e da própria pátria, e coloca a matéria por si limitada em relação com os acontecimentos mundiais os mais potentes e abrangentes.”
¹ Peça em verso no melhor estilo Shakes., porém sem rimas brancas! “Epopéia burguesa”.
A arte preferiria narrar a vida dos reis porque neles ainda impera a “a-“lei do mais forte. Obviamente que hoje não se imagina um Zola escrevendo O Germinal com a família real inglesa como pano de fundo…
“o Götz(*)de Goethe. A época de Götz e Franz é a interessante época na qual a cavalaria, com a autonomia nobre de seus indivíduos, encontra sua decadência por causa de uma ordem e legalidade objetivas em vias de nascer. A escolha deste contato e desta colisão entre a época heróica medieval e a vida moderna legal, enquanto primeiro tema, testemunha a grande sensibilidade de Goethe. Pois Götz e Sickingen ainda são heróis que, a partir de suas personalidades, coragem e sentido justo e reto, querem regular de modo autônomo os Estados em seus círculos mais estreitos ou mais amplos; mas a nova ordem das coisas leva o próprio Götz à injustiça e o condena a sucumbir. Pois apenas a cavalaria e o sist. feudal são na Idade Média o terreno autêntico para esta espécie de autonomia. – Mas se a ordem legal se constituiu de modo mais completo em sua forma prosaica e se tornou predominante, a autonomia aventureira dos indivíduos cavalheirescos sai de relação e, se ela ainda quer afirmar-se-a-si como o que é unicamente válido, regular a injustiça no sentido da cavalaria e proporcionar ajuda aos oprimidos, ela se torna ridícula como Dom Quixote, tal como descreve Cervantes.
(*) Primeiro drama de G., Götz von Berlichingen é do ano de 1773 e se situa no fim do séc. XV. Seu personagem principal é o cavaleiro Götz; Franz von Sickingen é o seu melhor amigo.”
“poderíamos mesmo dar o nome de poesia de ocasião ao Werther.(*) Pois por meio do Werther Goethe elaborou seu próprio dilaceramento e dor interiores do coração, os acontecimentos de seu próprio peito, numa obra de arte, tal como o poeta lírico, em geral, desafoga seu coração e expressa aquilo que o afeta nele mesmo enquanto sujeito.
(*) Die Leiden des jungen Werthers é um célebre romance epistolar de Goethe do ano de 1774, escrito sob a impressão de vivências pessoais com Charlotte Buff em Wetzlar. Sua atmosfera sentimental também é determinada pelo romance sentimental de Rousseau, a Nova Heloísa (1761), e pelo aparecimento dos poemas de Ossian.”
“a violação é uma modificação do Estado que, sem ela, é harmônico, modificação que ela mesma deve novamente ser modificada.”
“as trilogias dos antigos são continuações no sentido da colisão [o que fundamenta uma violação] surgir do fim de uma obra dramática para uma 2ª obra, que novamente exige sua solução em uma 3ª.” Mas não diga!
“a situação plena de colisão é principalmente objeto da arte dramática”
“não é possível estabelecer determinações universais da fronteira até a qual a dissonância pode ser impulsionada, uma vez que cada arte segue seu caráter peculiar.” “a poesia tem o direito de prosseguir para o interior até a proximidade do tormento mais extremo do desespero e, no exterior, até a feiúra enquanto tal. Nas artes plásticas, porém, na pintura e mais ainda na escultura, a forma exterior se apresenta firme e permanente, sem novamente ser superada e, assim como os sons da música, logo novamente desaparecer de modo fugaz.”
“O direito da sucessão ao trono, enquanto motivo de colisões que aqui se situam, não necessita já estar regulado e estabelecido por si mesmo, porque então o conflito logo se torna de uma espécie inteiramente diferente. Se a sucessão ainda não foi estabelecida por leis positivas e sua ordem vigente, não pode ser considerado como injusto o fato de que tanto o irmão mais velho quanto o irmão mais novo ou um outro parente da casa real devam reinar.” “A inimizade entre irmãos é uma colisão presente em todas as épocas da arte, que já começa com Caim (…) Também no Xá-namé” “Uma colisão semelhante encontra-se na base do Macbeth de Shakespeare. Duncan é rei, Macbeth seu parente próximo mais velho e, por isso, o autêntico herdeiro do trono, ainda antes dos filhos de Duncan. E assim, a 1ª ocasião para o crime de Macbeth também é a injustiça que o rei lhe fez ao nomear seu próprio filho como sucessor do trono. Esta justificação de Macbeth, que se depreende das crônicas, Shakespeare deixou totalmente de lado, porque sua finalidade era apenas salientar o elemento horrendo na paixão de Macbeth, para assim adular o rei Jacó, [?] que deve ter tido algum interesse em ver Macbeth representado como criminoso. Por isso, segundo o tratamento de Shakespeare, permanece imotivado o fato de Macbeth também não matar os filhos de Duncan, e sim permitir a sua fuga e de também nenhum dos grandes lembrar deles.”
SEM ALFA NEM ÔMEGA: “Na casa de Agamenon, Ifigênia reconcilia em Táurida a culpa e o infortúnio da casa. Aqui o início constituiria a salvação de Ifigênia por Diana que a leva a Táurida; esta circunstância, porém, é apenas a seqüência de outros acontecimentos, a saber, do sacrifício em Áulis que novamente é condicionado pela ofensa de Menelau, de quem Páris rapta Helena e assim sucessivamente até o famoso ovo de Leda. Igualmente a matéria que é manuseada na Ifigênia em Táurida contém de novo como pressuposto o assassínio de Agamenon e toda a seqüência de delitos na casa de Tântalo. Algo semelhante se passa com o ciclo mitológico tebano.” “tal execução já se tornou algo enfadonho e foi considerada como questão da prosa, em vista de cuja minúcia se estabeleceu como lei da poesia a exigência de conduzir o ouvinte imediatamente in media res[ao meio das coisas].” “Homero começa na Ilíada imediatamente, de modo determinado, com a questão que lhe importa, a raiva de Aquiles, e não relata antes os acontecimentos precedentes ou a história da vida de Aquiles, e sim nos oferece imediatamente o conflito específico e, na verdade, de um modo que um grande interesse constitui o pano de fundo de seu quadro.”
P. 214: O erro sobre Antígona apontado por Jaeger.
“Shakespeare nos apresenta em Lear o mal em toda a sua atrocidade. O velho Lear divide o reino entre suas filhas e é tão insensato a ponto de confiar nas palavras falsas e aduladoras delas e ignorar a muda e fiel Cordélia. Tal coisa já é por si insensata e demente, e assim a ignominiosa ingratidão e indignidade das filhas mais velhas e de seus maridos o levam à loucura efetiva.”
“tanto a livre autonomia dos deuses quanto a liberdade dos indivíduos agentes encontram-se colocadas em perigo.” “o espírito de Deus conduz a Deus. Mas então o interior humano pode aparecer como o terreno meramente passivo sobre o qual atua o espírito de Deus” “Mesmo grandes poetas não conseguiram manter-se livres da exterioridade recíproca entre os deuses e os homens.” Deus ex machina: Freeza tem de perder, e o show tem de continuar…
“Quando ouvimos nos antigos que Vênus ou Amor forçaram o coração, Vênus e Amor são inicialmente sem dúvida forças externas ao ser humano, mas o amor é do mesmo modo um movimento e uma paixão que pertence ao peito humano enquanto tal e constitui seu próprio interior.” “Esta interrupção interior da ira, este freio que é um poder estranho à ira, o poeta épico tem aqui o pleno direito de expor como um acontecimento externo, porque Aquiles aparece de início inteiramente apenas tomado pela ira.”
“Goethe realizou em sua Ifigênia em Táurida o que há de mais admirável e belo a este respeito.” (*) “…indicamos a tradução de Carlos Alberto Nunes”
“Senhora Atena, quem ouvindo os deuses não os obedece não tem juízo. Pois como poderia ser bela a luta com os deuses poderosos?”
O personagem Toas de Eurípides
Que Goethe seja superior a Eurípides, não se depreende que seja o suficiente para a modernidade se arrogar a coroa, Hegel! De fato não é tão meritório “ser superior a Eurípides”, como que um coadjuvante esforçado no seu contexto!
„Hat denn zur unerhörten Tat der Mann „Apenas o homem tem, pois, direito
Allein das Recht? drückt denn Unmögliches ao ato inaudito? Apenas ele imprime
Nur er an die gewaltge Heldenbrust?“ a impossibilidade no valente peito heróico?”
„Du glaubst, es höre
Der rohe Skythe, der Barbar, die Stimme
Der Wahrheit und der Mesnchlichkeit, die Atreus,
Der Grieche, nicht vernahm?“
„Bringst du die Schwester, die auf Tauris‘ Ufer
Im Heilligtume wider Willen bleibt,
Nach Griechenland, so löset sich der Fluch“
„Gleich einem heilgen Bilde,
Daran der Stadt unwandelbar Geschick
Durch ein geheimes Götterwort gebannt ist,
Nahm sie dich weg, dich Schützerin des Hauses;
Bewahrte dich einer heilgen Stille
Zum Segen deines Bruders und der Deinen.
Da alle Rettung auf der weiten Erde
Verloren schien, gibst du uns alles wieder.“
„In deinen Armen fasste
Das Übel mich mit allen seinen Klauen
Zum letztenmal und schüttelte das Mark
Entsetzlich mir zusammen; dann entfloh’s
Wie eine Schlange zu der Höhle. Neu
Geniess ich num durch dich das weite Licht
Des Tages.“
“Pior do que nas matérias antigas se encontra a situação nas matérias cristãs.” Nisso sim há um mérito gigantesco da Era Goethe: mais, mais claridade solar do Pagão!
“Objetou-se a Shakespeare por causa desta ausência de atividade, e se o recriminou porque a peça do Hamlet parecia em parte não querer sair do lugar. Hamlet é, porém, uma natureza fraca em termos práticos, um belo ânimo retraído-em-si-mesmo, que dificilmente consegue decidir-se a sair desta harmonia interna; é melancólico, pensativo, hipocondríaco e meditativo, e, por isso, não-inclinado a um ato rápido; tal como também Goethe insistiu na representação que S. teria querido descrever: [Wilhelm Meister] impôs um grande ato sobre uma alma que não estava à altura do ato. E neste sentido ele encontra a peça completamente elaborada.” “Hamlet vacila porque não acredita às cegas no espírito.” “Vemos aqui que a aparição [duplo sentido: a idéia da vingança e o ectoplasma de seu pai] enquanto tal não dispõe de Hamlet sem resistência, mas ele duvida e quer alcançar a certeza pelos próprios meios, antes de empreender o agir.”
“As potências universais, por fim, que não se apresentam apenas por si em sua autonomia, mas estão igualmente vivas no peito humano e movem o ânimohumano no seu ser mais íntimo, podemos designar, segundo os antigos, com a expressão pathos. Esta palavra é de difícil tradução, pois <paixão> (Leidenschaft) sempre subentende aquilo que é mesquinho, baixo, ao passo que exigimos do ser humano que ele não permaneça preso às paixões (Leidenschaftlichkeit). (…) [o] pathos[não é] repreensível nem teimoso.”
“o sagrado amor fraterno de Antígona é um pathos”
“Orestes, p.ex., mata sua mãe não baseado numa paixão, e sim o pathos o impulsiona”
“Quanto a isso, também não podemos dizer que os deuses possuem pathos.” Pois os deuses são estóicos involuntários! Cada deus olímpico é na verdade uma das emoções autônomas do pathos que necessitam do veículo humano.
“O pathos constitui, pois, o verdadeiro ponto central, o autêntico domínio da arte; a exposição dele é o que principalmente atua e produz efeito na obra de arte assim como no espectador. Pois o pathos toca numa corda que ressoa em cada peito humano” “O pathos move porque é a potência-em-si-e-para-si na existência humana.”
“A comoção(Rührung), em termos gerais, é com-moção [Mitbewegung]enquanto sentimento, e os seres humanos, principalmente hoje em dia, são em parte fáceis de comover.”
“O Timon shakespeariano é um misantropo inteiramente exterior; os amigos comeram às custas dele, dilapidaram sua fortuna e quando ele mesmo precisou de dinheiro o abandonaram. A partir disso, torna-se um inimigo apaixonado dos homens. Tal coisa é concebível e natural, mas não é nenhum pathos legítimo. Na obra juvenil de Schiller, O Misantropo, o ódio semelhante é ainda uma mania (Grille) moderna. Pois aqui o inimigo da humanidade é um homem de reflexão, pleno de conhecimentos e sumamente nobre, generoso com seus camponeses, os quais libertou da servidão, e cheio de amor para com sua filha tanto bela quanto digna de ser amada. De modo semelhante é que Quinctius Heymeran von Flamingse atormenta no romance de August Lafontaine com o capricho das raças humanas.”
“Os antigos estavam acostumados a explicitar em sua profundidade o pathos que anima os indivíduos, sem por meio disso cair em reflexões frias ou em palavrório. Também os franceses são a este respeito patéticos (pathetisch) e sua eloquência da paixão não é sempre apenas um mero revolvimento de palavras, tal como muitas vezes nós alemães, no retraimento de nosso ânimo, o consideramos, na medida em que a vasta expressão do sentimento aparece para nós como uma injustiça imputada ao sentimento. Houve neste sentido, na Alemanha, uma época da poesia, na qual principalmente os ânimos jovens, saturados da retórica agu[a]da [aguada no original!] francesa e exigindo naturalidade, chegaram, pois, a uma força que principalmente se expressava apenas em interjeições. A questão não se resolve, todavia, com o mero ah! e oh! ou com a maldição da ira, com o arremessar-se e com o exceder-se. A força de meras interjeições é uma má força e o modo de manifestação de uma alma ainda rude. O espírito individual, no qual o pathos se expõe, deve ser um espírito pleno em si mesmo, capaz de se expandir.”
“Goethe é menos patético do que Schiller” “seus cantos deixam perceber o que pretendem, sem se explicitarem completamente.”
“De modo semelhante, Claudius (1740-1815), no Mensageiro de Wandsbecker (vol. I), contrapôs Voltaire e Shakespeare, de modo que um éo que o outro parece: <Mestre Arouet diz: eu choro; e Shakespeare chora>. Mas é justamente em torno do dizer e do parecer que se trata na arte. Se Shakespeare literalmente apenas chorasse, seria um mau poeta.”
“o pathos na atividade concreta é o caráter humano.”
“A um ser humano verdadeiro pertencem muitos deuses, e ele guarda em seu coração todas as potências que estão dispersas no círculo dos deuses” Mal posso acreditar que este é H.!
“Com efeito, quanto mais cultos eram os gregos, tanto mais deuses eles possuíam, e seus deuses mais antigos eram embotados, não-configurados (herausgestaltet) para a individualidade e determinidades.”
“Em Homero, cada herói é todo um âmbito total e vital de propriedades e traços de caráter.”
“Com Aquiles podemos dizer: isto é um homem!”
“Em contrapartida, que individualidades rasas, pálidas, mesmo se também vigorosas, são o córneo Siegfried, o Hagen de Tronje e mesmo Volker, o menestrel!”
“Um outro modo da falta de postura do caráter constituiu-se, principalmente em produções alemãs recentes, na fraqueza interior do sentimentalismo, que na Alemanha reinou por tempo suficiente. Como primeiro exemplo famoso deve ser mencionado o Werther” “A bela alma (Schönseelichkeit) de Jacobi, em seu Woldemar, [também] se insere neste caso.”
“A pedantice e a impertinência de não ser capaz de suportar pequenas circunstâncias e inépcias – que, porém, um grande e forte caráter supera incólume –, ultrapassa qualquer representação, e justamente a coisa mais insignificante leva tal ânimo ao supremo desespero.”
“De uma outra maneira, esta deficiência na solidez substancial interior do caráter também foi desenvolvida de modo que tais magnificências superiores esquisitas do ânimo fossem inversamente hipostasiadas e apreendidas como potências autônomas. Aqui se situam a magia, o magnetismo, o demoníaco, a fantasmagoria-elefante do visionário, a doença do sonâmbulo, etc.” “as potências escuras devem justamente ser banidas do âmbito da arte, pois nela não há nada de escuro, e sim tudo é claro e transparente, e com estes presbitismos [hipermetropia] apenas é dada a palavra à doença do espírito e a poesia é lançada no nebuloso, no vaidoso e no vazio, do qual nos fornecem exemplos Hoffmann e Heinrich von Kleist, este em seu Príncipe de Homburg. O caráter verdadeiramente ideal não tem nada vindo do além e de fantasmagórico, e sim tem por seu conteúdo e pathos interesses efetivos, nos quais ele está consigo mesmo. Principalmente a clarividência tornou-se trivial e comum na poesia recente. No Wilhelm Tell de Schiller, em contrapartida, quando o velho Attinghausen, no momento da morte, proclama o destino da sua pátria, tal profecia é empregada em lugar oportuno.”
“Hamlet é em si mesmo certamente indeciso, mas não tem dúvida pelo que tem de realizar e sim pelo como tem de realizar algo. Agora, contudo, há quem também transforme os caracteres de Shakespeare em fantasmas e pense que a nulidade e a insuficiência na oscilação e na mudança de posição, que este disparate, deve justamente interessar por si mesmo. Mas o ideal consiste no fato de que a Idéia é efetiva, e a esta efetividade pertence o ser humano enquanto sujeito e, desse modo, como ser uno firme-em-si-mesmo.”
“À existência efetiva do ser humano pertence um mundo circundante, assim como à estátua do deus pertence um templo.”
“A arte deve nos liberar (…) da espirituosidade (Witz) [esperteza] que o ser humano está acostumado a esbanjar no campo social.” “Esta aparência de idealidade, contudo, é em parte apenas uma abstração nobre da subjetividade moderna[COVARDIA], à qual falta a coragem de travar relações com a exterioridade; em parte é também uma espécie de violência que o sujeito se impõe para colocar-se fora deste círculo por-meio-de-si-mesmo, se já não está em-si-e-para-si alçado acima desse círculo por meio do nascimento, estamento e situação.”
“não é o conteúdo espiritual, a alma concreta do sentimento, que nos fala pelos sons; muito menos é o som enquanto som que nos move no mais íntimo; e sim é esta unidade abstrata introduzida pelo sujeito no tempo que ressoa na mesma unidade do sujeito.”
“os pintores antigos destinavam as cores fundamentais, em sua pureza, às vestimentas das pessoas principais, e as cores misturadas às figuras secundárias (Nebengestalten). Maria geralmente usa um manto azul, pelo fato do repouso suavizante do azul corresponder à quietude e suavidade interiores; mais raramente ela usa um vestido em vermelho vivo.”
“Na pintura as cores não devem ser impuras e cinzentas, e sim claras, determinadas e em si mesmas simples.”
QUE SACO A ARTE MODERNA! “Igualmente o som da voz humana deve desenvolver-se pura e livremente a partir da garganta e do peito, sem deixar o órgão vibrar junto ou, como é o caso em sons mais roucos, sem deixar notar de modo perturbador qualquer impedimento não-superado.”
“Homero, embora não forneça descrições da natureza, é, em suas designações e referências, tão fiel e nos fornece uma intuição tão exata de Scamandro, do Simois, das costas, das baías, que ainda hoje pôde ser situada geograficamente a mesma paisagem concordando com a sua descrição.”
“Também os mestres cantores, quando colocam em verso antigas histórias bíblicas e têm Jerusalém como local, nada oferecem a não ser o nome. No Livros dos Heróisalgo parecido acontece; Ortnit cavalga entre os pinheiros, luta com o dragão, sem ambiente humano, lugares definidos, etc., de modo que nesta relação não é oferecido praticamente nada à intuição. Mesmo na canção dos Nibelungos não é diferente; ouvimos certamente algo sobre Worms, o Reno e o Danúbio; mas também aqui fica-se preso ao indeterminado e árido.”
“Na direção oposta, a lírica expõe de modo predominante apenas o ânimo interior, e não necessita, desse modo, quando acolhe o exterior, mostrá-lo para uma visão tão determinada.”
“a pintura, segundo sua natureza, penetra a este respeito mais do que qualquer outra arte, principalmente no particular.” O problema do cinema foi potencializar isso 10 vezes.
“O árabe é uno com sua natureza e apenas pode ser compreendido com seu céu, suas estrelas, seus desertos quentes, suas tendas e cavalos.”
“Na estátua de Palas em Atenas e de Zeus em Olímpia não foi economizado ouro e marfim; em quase todos os povos os templos dos deuses, as igrejas, as imagens dos santos, os palácios dos reis dão um exemplo de esplendor e luxo, e desde sempre as nações se alegraram por ter, em suas divindades, sua própria riqueza diante dos olhos, assim como se alegraram com o luxo dos príncipes, pelo fato de tal coisa existir e decorrer de seu meio. [MORAL DE ESCRAVOS] Podemos sem dúvida perturbar um tal gozo por meio dos assim chamados pensamentos morais, se estabelecermos a reflexão de quantos atenienses pobres poderiam ter sido saciados com o manto de Palas, de quantos escravos poderiam ter sido resgatados; e em momentos de grandes necessidades do Estado tais riquezas também nos antigos foram empregadas para fins úteis, tal como hoje entre nós são empregados os tesouros de mosteiros e igrejas.” “rememoramos a necessidade e a carência, cuja eliminação é justamente exigida pela arte, de modo que para cada povo apenas pode redundar em fama e honra suprema a doação de seus tesouros a uma esfera que se eleva prodigamente sobre todas as necessidades comezinhas.”
“O primeiro modo segundo o qual a arte procurou remover todas estas esferas constitui a representação de uma assim chamada época de ouro ou também de um estado idílico.” “[Mas o]s escritos de Gessner, p.ex., são hoje pouco lidos, e se os lemos não podemos neles nos sentir em casa.” “O ser humano não deve viver em tal pobreza espiritual idílica, ele deve trabalhar.”
“Dante nos apresenta de modo comovedor apenas em poucos traços a morte por inanição de Ugolino. Quando Gerstenberg(*) em sua tragédia de mesmo nome descreve amplamente, passando por todos os graus do horror, como primeiramente os 3 filhos e por fim o próprio Ugolino morrem de fome, trata-se de uma matéria que repugna completamente à exposição artística.
(*) Heinrich Wilhelm von Gerstenberg. Foi este autor dinamarquês, de grande influência sobre Klopstock, que <lançou> Shakespeare e Homero na Alemanha em torno de 1760. (N.T.)”
“Surge, em meio a esta formação industrial e exploração recíproca de um pelo outro a utilização dos demais indivíduos, em parte a mais dura crueldade da pobreza, em parte, se a necessidade deve ser afastada, os indivíduos devem aparecer como ricos, de tal (sic) como que ficam livres do trabalho para suas necessidades e podem entregar-se a interesses superiores.”
Ou somos artesãos angustiados ou não vivemos em casa, embora tranquilos e apáticos.
[N.T. #73] “Johan Heinrich Voss (1751-1826), tradutor de Homero, autor de epopéias idílicas em hexâmetros, ricas em descrições quase realistas da vida cotidiana. A Luise é de 1783.”
“Ora, café e açúcar são produtos que não poderiam ter saído de um tal círculo e imediatamente apontam para uma conexão totalmente diferente, para um mundo estranho e suas múltiplas mediações do comércio, das fábricas, em geral, da moderna indústria.” Ora, está dizendo que a arte se subordina ao comércio! Linhas depois justifica o mesmo procedimento quando empregado por Goethe. Assaz previsível.
“Os poemas homéricos, tenha Homero efetivamente vivido ou não como o único poeta da Ilíada e da Odisséia, estão pelo menos 4 séculos separados da época da guerra de Tróia e um espaço de tempo 2x maior ainda separa os grandes trágicos gregos dos dias dos antigos heróis, dos quais transportam o conteúdo de sua poesia ao seu presente.”
“as obras de arte autênticas, imortais, permanecem desfrutáveis para todas as épocas e nações, mas mesmo então é preciso, para a sua completa compreensão por povos e séculos estranhos, um vasto aparato de notícias, de conhecimentos e de informações geográficas, históricas e até mesmo filosóficas.”
“Encontramos de modo mais forte esta espécie de ingenuidade puramente nostálgica e hermética em Hans Sachs que, certamente com um frescor da intuição e um ânimo alegre, <nüremberguizou>, no sentido mais próprio, Nosso Senhor Deus Pai, Adão, Eva e os patriarcas. Deus Pai, em certo momento, instrui e dá uma aula para Abel, Caim e os outros filhos de Adão, assumindo completamente a maneira e o tom de um mestre de escola daquela época; ele os catequiza sobre os 10 mandamentos e o pai-nosso; Abel sabe tudo muito bem e mostra-se piedoso; Caim, porém, se comporta mal e responde como um rapaz perverso e ateu (…) Pilatos aparece como um magistrado malcriado, rude e soberbo; os soldados, totalmente segundo a vulgaridade de nosso tempo, oferecem tabaco para Cristo na cruz; ele despreza e então eles enfiam o rapé com violência pelas narinas e todo o povo encontra nisso sua diversão, por ser totalmente piedoso e devoto; inclusive, tanto mais devoto quanto mais o interior da representação religiosa se torna para eles vivo nesta presencialidade imediata” “nada mais se mostra a não ser uma contradição burlesca.”
#IDÉIA: Escrever uma fan fiction – livre transposição moderna – do episódio do homicídio fraterno de Caim, em que ele não logra êxito. Pois Abel é um desconfiado hipocondríaco dos nossos tempos, enquanto que Caim, um assassino hesitante, um Raskholnikov. Desta feita, não só Caim, se lograsse êxito, não suportaria a culpa, como na realidade Abel consegue antever os passos de seu algoz de berço e ou foge ou mata o ainda-não-assassino em legítima defesa, e pela legítima defesa ser um argumento jurídico válido em nossa época é que Deus o perdoa.
“Voltaire foi injusto ao dizer que os franceses melhoraram as obras dos antigos; eles apenas as nacionalizaram, e nesta transformação procederam com tanto mais antipatia infinita com tudo o que era estrangeiro e individual à medida que seu gosto exigia uma formação social perfeitamente cortês, uma regularidade e universalidade convencional do sentido e da representação. A mesma abstração de uma formação delicada eles também transferiram para a dicção. Nenhum poeta podia dizer cochon ou mencionar colher e garfo e milhares de outras coisas. Em vez de colher ou garfo, dizia-se um instrumento com o qual se leva alimentos líquidos ou sólidos à boca e outras coisas do gênero. Mas justamente por isso seu gosto permaneceu sumamente limitado.
Por isso foram os franceses os que menos puderam se dar bem com Shakespeare e, quando se dedicavam a ele, sempre eliminavam justamente o que para nós alemães teria sido nele o mais agradável.”
“E assim, em suas obras de arte também os chineses, americanos ou heróis gregos e romanos deviam falar e se portar totalmente como cortesãos franceses. O Aquiles da Ifigênia em Áulida é um príncipe francês completo, e se não fosse pelo nome ninguém encontraria nele um Aquiles. No teatro, ele certamente estava vestido como grego e guarnecido com o escudo e a couraça, mas ao mesmo tempo com os cabelos penteados e polvilhados, as ancas alargadas por almofadas e com saltos vermelhos nos sapatos amarrados com fitas coloridas.”
“De acordo com um princípio semelhante, na França freqüentemente não se pratica a historiografia em vista dela mesma e de seu objeto, mas por causa dos interesses de época, para poder fornecer boas doutrinas ao governo ou para torná-las odiosas.”
(*) “August Kotzebue (1761-1819), autor de peças de divertimentos particularmente insípidas: foi assassinado em 23/03/1819 por um estudante seguidor de Hegel, cujo assassinato ocasionou a publicação dos <decretos de Karlsbad> e uma onda de repressão antiliberal que ameaçou o próprio Hegel.”
“ao contrário dos franceses, somos em geral os arquivadores os mais cuidadosos de todas as particularidades estrangeiras e, por isso, também na arte requeremos fidelidade à época, ao lugar, aos usos, às vestimentas, às armas. Tampouco nos falta a paciência para estudar, mediante esforço árduo e erudição, o modo de pensar e intuir das nações estrangeiras e de séculos longínquos”
“cachorros e gatos, e até mesmo objetos repugnantes, nos são agradáveis”
síndrome de Schlegel
“não há nada de mais vazio e frio do que quando nas óperas se diz: Ó deuses!, Ó Júpiter! ou mesmo Ó Ísis e Osíris! – e ainda mais quando se acrescenta a miséria dos oráculos – e raramente eles não aparecem nas óperas –, em cujo lugar apenas agora surgem na tragédia a loucura e a clarividência.”
“Na canção dos Nibelungos, estamos certamente, em termos geográficos, sob terreno familiar, mas os burgúndios e o rei Átila estão tão distantes de todas as relações de nossa formação atual e seus interesses pátrios que mesmo sem erudição podemos nos sentir muito mais familiarizados com os poemas homéricos. Assim, Klopstockcertamente foi motivado por meio do impulso como que pátrio a colocar os deuses escandinavos no lugar da mitologia grega, mas Wodan, Walhalla e Freia permaneceram meros nomes, que pertencem ainda menos do que Júpiter e Olimpo à nossa representação ou falam ainda menos do que eles ao nosso ânimo.”
“Sófocles não deixava que Filoctetes, Antígona, Ájax, Orestes, Édipo e seus corifeus e coros falassem tal como falariam em sua época. De modo idêntico os espanhóis possuem os seus romances do Cid; Tasso canta em sua Jerusalém Libertada a questão universal da cristandade católica; Camões descreve a descoberta do caminho para as Índias Orientais em torno do Cabo da Boa Esperança e os feitos em si mesmos infinitamente importantes dos heróis marítimos, e estes feitos eram os de sua nação; Shakespeare dramatizou a história trágica de seu país e o próprio Voltaire a sua Henriade.”
“A Noachidade Bodmer (1698-1783) e o Messiasde Klopstockestão fora de modo, como também não vale mais a opinião de que pertence à honra de uma nação possuir também seu Homero e, além disso, seu Píndaro, Sófocles e Anacreonte.”
“A ninguém ocorreria hoje fazer um poema a Vênus, Júpiter ou Palas.”
“Nas peças históricas de Shakespeare há muita coisa que permanece para nós estranha e pouco pode nos interessar. Na leitura ficamos certamente satisfeitos com isso, no teatro não.”
“Quando Falstaff fala de pistolas, isto é indiferente. Mais sério, porém, é quando Orfeu se mostra com um violino na mão, na medida em que aqui a contradição entre os dias míticos e um tal instrumento moderno, do qual cada um sabe que em épocas tão antigas ainda não havia sido inventado, se apresenta de modo muito forte.”
“muitos procuram, em vão, mesmo nas mais belas canções de amor, seus próprios sentimentos e, por isso, declaram a exposição como igualmente falsa, ao passo que outros, que apenas conhecem o amor pelos romances, acreditam não serem amados na efetividade até que reencontram em-si-mesmos, em-torno-de-si, os sentimentos e situações completamente iguais àqueles dos romances.”
fantasia criadora X imaginação passiva
“Ele deve ter visto muito, ouvido muito e conservado muito em si mesmo, como em geral os grandes indivíduos quase sempre se distinguem por uma grande memória.”
(*) “Begeisterung na tradição latina também é traduzida por ‘inspiração’. Preferimos entusiasmo apoiando-nos, neste caso, no sentido grego do enthousiasmos enquanto <exaltação criadora> (N.T.).”
“A primeira exigência constitui este dom e interesse de uma apreensão determinada do que é efetivo em sua forma real bem como a retenção do que foi intuído. Inversamente, é preciso unir ao conhecimento da forma exterior a familiaridade com o interior do ser humano, com todos os fins do peito humano” “ele deve ter refletido sobre o essencial e verdadeiro, segundo toda a sua amplitude e toda a sua profundidade. (…) em toda grande obra de arte também se percebe que a matéria foi por muito tempo e profundamente ponderada e meditada segundo todas as direções.”
“seu coração já deve ter sido golpeado e movido em profundidade (…) o genius certamente efervesce na juventude, como foi o caso com Goethe e Schiller, mas somente a idade madura e avançada pode levar a uma completude a autêntica maturidade da obra de arte.”
genius X talento; ou genius & talento
“o talento sem o gênio não consegue ir muito além da habilidade exterior.”
Os absolutos primeiros poemas de Goethe: Canto de Maio, Boas-Vindas e Adeus.
“Fauriel (filólogo, 1772-1844) publicou uma coletânea de cantos dos gregos modernos, em parte tomado da boca das mulheres, amas e criadas, as quais não conseguiam parar de se admirar pelo assombro que ele demonstrava por seus cantos.”
“Um italiano ainda hoje improvisa dramas de 5 atos e isso sem ter decorado nada, mas tudo nasce do conhecimento das paixões e situações humanas e do entusiasmo profundamente atual.”
“Aquele que apenas se propõe a ser entusiasmado para fazer um poema ou pintar um quadro e inventar uma melodia, sem trazer já em-si-mesmo algum conteúdo como estímulo vivo, e necessita primeiramente procurar aqui e ali por uma matéria, ele ainda não produzirá (fassen), a partir desta mera intenção, não obstante todo o talento, nenhuma bela concepção ou não será capaz de produzir uma obra de arte consistente.”
Inspiração como diferente, mais que a soma de vontade, determinação, sensibilidade.
Porém a inspiração retém, quando quer que ela se manifeste. Não é como se a janela de oportunidade do bom artista fosse tão estreita.
“As odes encomiásticas de Píndaro nasceram muitas delas por encomenda. Igualmente por infinitas vezes a finalidade e o objeto para os edifícios e os quadros foram propostos aos artistas” “Inclusive ouvimos freqüentemente entre os artistas a queixa de que lhes faltam as matérias [os gatilhos] que poderiam trabalhar.”
“Shakespeare se inspirava por lendas, antigas baladas, novelas e crônicas”
“Se questionarmos a seguir em que consiste o entusiasmo artístico, veremos que ele nada mais é do que ser preenchido completamente pela coisa, estar totalmente presente na coisa e não descansar até o momento em que a forma artística estiver exprimida e em-si-mesma acabada.”
“mau entusiasmo”
(*) “Jean Paul Friedrich Richter (1763-1825), denominado Jean-Paul, uma das mais importantes figuras do romantismo alemão, autor de sátiras, idílios humorísticos e grandes romances (Hesperus, Flegeljahre, Titan) bem como de uma obra de estética, Vorschule der Ästhetik (Curso Elementar de Estética), 1804, na qual desenvolve uma teoria do humor como <inversão sublime>. (N.T.)”
“Não possuir nenhuma maneira foi desde sempre a única grande maneira, e somente neste sentido Homero, Sófocles, Rafael e Shakespeare hão de ser chamados originais.”
FIM DO PRIMEIRO VOLUME
GLOSSÁRIO ALEMÃO (& FRANCÊS) RESIDUAL:
Anschaubarkeit: intuitibilidade
Beschlossenheit: fechamento :: closure
Entzweiung: cisão
être en negligé: interessante faceta do idioma francês – literalidade que passa ao simbólico – para se dizer “estar em roupão”, i.e., em negação!
Pensando em termos de teoria da evolução das espécies segundo Darwin, póstuma a Hegel mas com certeza prefigurada em seus contornos e bastante de seu conteúdo pelo filósofo idealista alemão, o além-homem (tradução melhor para o ambíguo super-homem do português do original “Übermensch”) seria o primeiro animal autodeterminado. Pela primeira vez a seleção do devir da espécie pode ser um adestramento, adestramento de si próprio, a construção de uma humanidade propriamente dita (ainda inexistente), ao contrário da seleção entregue às puras contingências externas. Um projeto de além-homem inclui desde o último homem ou sub-homem (o obstáculo a superar), o homem (espécie de consciência intermediária, os que não são obstáculos reativos e reacionários, mas não são ativos nessa transvaloração dos valores ou conscientes da questão) e os filósofos de vanguarda, entregues à “causa”. Com o decorrer do tempo, num mundo já pós-ocidental (num nível não-concebido por nós, que de certa forma já vivemos num contexto de superação da metafísica ocidental), inclui(rá) o próprio ente que se vê nessa transição epocal (Zaratustras? enunciadores, ainda aquém do além-homem em si) e, finalmente, o próprio além-homem, que não é mais “homem”, mas que só poderá existir pelo esforço do que um dia já foi homem, e provavelmente coexistiria com ele eternamente, qualquer que seja a nova conformação social. Seria como se realmente, sem recorrer a algo transcendental, um sujeito hipostasiado que explique a evolução (em Darwin é a própria cientificidade de sua teoria, p.ex.), pudéssemos ver o peixe, o anfíbio e os (depois dos répteis, evidentemente, até chegar a nossa identidade no reino dos) mamíferos como atores e autores do seu próprio projeto de “viagem do mar à terra”, faces de um mesmo todo. Obviamente, apenas o homem é capacitado para integrar um projeto multifacetado como este (aquilo que deve ser conscientemente superado). A tríade peixe-anfíbio-animal terrestre não passa, em contraposição, de um caos tornado destino, por se localizar em nosso passado, evolução involuntária, impessoal, figuras que não dialogam entre si (precisamente por não discursarem ou dialogarem em absoluto, atributo definidor de “homem”).
“Não tanto o rigor sistemático como, sobretudo, o caráter provocador do questionamento fizeram da questão de Ser e Tempo o maior desafio para o pensar do séc. XX. Em ritmo revolucionário, Ser e Tempo se pôs à altura da Fenomenologia do Espírito (…) e do Zaratustra (…)”
“tudo é pensável a não ser a condição de possibilidade da própria representação.” Emulação simples de Schopenhauer
“Para o pensamento não há lugar preenchido num tempo ocupado.”
“Esta imersão nos proporciona, a cada passo, a experiência de sentir a impossibilidade de falar e dizer o que é o ser.”
“ainda não chegamos ao <coração intrépido do des-velamento da circularidade perfeita>”
“viagem de retraimento de um horizonte que, longe de nos repelir, nos atrai e arrasta.”
“atravessar o esquematismo” atravessar o pântano hegeliano!
“As peculiaridades e estranhezas da linguagem de Ser e Tempo não provêm de idiossincrasias do autor. São exigências e imposições da própria viagem da questão, pelas vias das línguas.” “A tradução brasileira de Márcia Sá Cavalcanti se sobrecarrega das dificuldades inerentes ao estágio atual da língua portuguesa.” “Sem um mínimo de respeito, sem o menor esforço de naturalização, transplantam-se as palavras técnicas, os termos científicos, as siglas publicitárias das línguas exportadoras de bens, serviços e invenções para as línguas importadoras. … e em conseqüência se esvai a vitalidade no falar e dizer” “O português ainda não explorou nem desenvolveu o suficiente os recursos de seu espírito criador com tentativas renovadas de pensamento filosófico, poético ou inventivo. Por isso não tem [sequer] muita tradição de fracasso na vida do pensamento. E, sem fracasso em tentativas de dizer e escutar o gênio da linguagem nas aventuras do discurso, não se aprende nem a pensar o não-dito da fala e do silêncio, nem a esperar o inesperado nas esperas e esperanças de um povo empenhado pela identidade” Bela prosa cacofônico-poética!
“o silêncio do sentido (…) nada criativo” Na verdade o prefaciador perdeu uma excepcional oportunidade: calar-se.
OBSERVAÇÃO PRELIMINAR À 7ª EDIÇÃO, 1953 (25 anos depois…)
O que pode querer dizer um livro inacabado que foi desistido de ser acabado? Heidegger desacredita de sua própria obra ou tinha forçosamente de ser assim, desde o momento mais originário?
“remete-se à [He.] Introdução à metafísica”
* * *
“Será que hoje temos uma resposta para a pergunta sobre o que queremos dizer com a palavra <ente> [coisa]? De forma alguma.”
“Será que hoje estamos em aporia por não compreendermos a expressão <ser>? De forma alguma.”
“A elaboração concreta da questão sobre o sentido do <ser> é o propósito do presente tratado. A interpretação do tempo como horizonte possível de toda e qualquer compreensão do ser em geral é sua meta provisória.” O leitor está avisado: propor-se-á a questão, sem qualquer rudimento seguro de resposta. Num longo e denso tratado. Ao menos eu o “encolhi” nesta seleção dos trechos fundamentais (explicados e criticados)!
EXPOSIÇÃO DA QUESTÃO SOBRE O SENTIDO DO SER [INTRODUÇÃO]
1. NECESSIDADE, ESTRUTURA E PRIMADO DA QUESTÃO DO SER
“O que Aristóteles e Platão conquistaram manteve-se, em muitas distorções e <recauchutagens>, até a Lógica de Hegel. E o que se arrancou aos fenômenos encontra-se trivializado.”
“evidência meridiana”
“Illud, quod primo cadit sub apprehensione, est ens, cuius intellectus includitur in omnibus, quaecumque quis apprehendit.”Tomás de Aquino
“Uma compreensão do ser já está sempre incluída em tudo que se apreende na coisa.”
“Unidade da analogia: com essa descoberta, Aristóteles colocou numa base nova o problema do ser, apesar de toda dependência da questão ontológica de Platão. No entanto, ele também não esclareceu a obscuridade desses nexos categoriais. A ontologia medieval discutiu variadamente o problema, sobretudo nas escolas tomista e escotista, sem, no entanto, chegar a uma clareza de princípio. E quando, por fim, Hegel determina o <ser> como o <imediato indeterminado> e coloca essa determinação à base de todas as ulteriores explicações categoriais de sua Lógica, ele ainda permanece na mesma direção da antiga ontologia com a diferença de que abandona o problema já colocado por Aristóteles da unidade do ser face à variedade multiforme das <categorias> reais. Quando se diz, portanto, que o <ser> é o conceito mais universal, isso não pode significar que o conceito de ser seja o mais claro”
“de fato, o <ser> não pode ser concebido como ente; enti non additur aliqua natura: o <ser> não pode ser determinado acrescentando-lhe um ente. [alternativamente: o ente não acrescenta à compreensão da natureza]” Aqui, ente = essência, em si, já dado. Por isso a construção heideggeriana famosa é ser-do-ente, sujeito-implícito-inerente-ao-objeto, e não um absurdo ente-do-ser, posto que o sujeito é uma irredutível.
“A impossibilidade de se definir o ser [afirmada por Pascal] não dispensa a questão de seu sentido, ao contrário, justamente por isso a exige.” Questionável.
“essa compreensão comum demonstra apenas a incompreensão.”
“um enigma já está sempre inserido a priori em todo ater-se e ser para o ente enquanto ente.”
“O <evidente> deve ser e permanecer o tema explícito da analítica (<o ofício dos filósofos>).”
“Repetir a questão do ser significa, pois, elaborar primeiro, de maneira suficiente, a colocação da questão.”
“Questionar é procurar cientemente o ente naquilo que ele é e como ele é. A procura ciente pode transformar-se em <investigação> se o que se questiona for determinado de maneira libertadora.”
“Todo questionamento de… é, de algum modo, um interrogatório acerca de…”
“tornar transparente” “orientação prévia”
“nós nos mantemos numa compreensão do <é>, sem que possamos fixar conceitualmente o que significa esse <é>.”
“mero conhecimento verbal”
O que é o inessencial da essência?
“O ser-dos-entes não <é> em si mesmo um outro ente.
“modo próprio de demonstração”
“Na medida em que o ser constitui o questionado e ser diz sempre ser-de-um-ente, o que resulta como interrogado na questão do ser é o próprio ente. Este é como que interrogado em seu ser. (…) o ente já deve se ter feito acessível antes, tal como é em si mesmo.”
“Em qual dos entes deve-se ler o sentido do ser? De que ente deve partir a saída para o ser? O ponto de partida é arbitrário ou será que um determinado ente possui primazia na elaboração da questão do ser? Qual é este ente exemplar e em que sentido possui ele uma primazia?”
E qual é o ser-do-sentido? De que adianta portanto apurar o sentido de algo obscuro sempiterno?
“Esse ente que cada um de nós somos [se o ser fosse uma mera coisa…] e que, entre outras, possui em seu ser a possibilidade de questionar, nós o designamos com o termo pre-sença. [Dasein ou ser-aí]” Todos são pre-senças, mas cada pre-sença é singular (cada ser tem seu aí).
(*) “Pre-sença não é sinônimo de existência e nem de homem. A palavra Dasein é comumente traduzida por existência [mas quer sim dizer existência particular, e só um tolo interpretaria Existenz e Dasein trocando-os um pelo outro quando se apercebesse do contexto]. Em Ser e Tempo, traduz-se, em geral, para as línguas neolatinas pela expressão <ser-aí>, être-là, esser-ci, etc. Optamos pela tradução de pre-sença pelos seguintes motivos: 1) para que não se fique aprisionado às implicações do binômio metafísico essência-existência; 2) para superar o imobilismo de uma localização estática que o <ser-aí> poderia sugerir. O <pre>¹ remete ao movimento da aproximação, constitutivo da dinâmica do ser, através das localizações;3) para evitar um desvio de interpretação que o <ex> de <existência>² suscitaria caso permaneça no sentido metafísico de exteriorização, atualização, realização, objetivação e operacionalização de uma essência. O <ex> firma uma exterioridade, mas interior e exterior fundam-se na estruturação da pre-sença e não o contrário³”
Referencia nesta nota de rodapé entrevista de Heidegger ao Der Spiegel, Rev. Tempo Brasileiro, n. 50, jul/set 1977.
¹ Implementação das mais absurdas de um tradutor já vistas: nada significa isolado, aí tem lugar indefinido e intuitivamente transitório e deveria ter sido privilegiado na transposição ao português.
² No máximo poderíamos dizer: desistência – de ler Heidegger!
³ PRECAUÇÕES DESNECESSÁRIAS! Quem há de entender, entenderia mesmo assim; quem não há de entender, não há de entender mesmo assim…
“é sempre estéril recorrer a objeções formais como a acusação de um <círculo vicioso>, facilmente aduzível, no âmbito de uma reflexão sobre os princípios. Essas objeções formais não contribuem em nada para a compreensão do problema”
“O ser é pressuposto, mas não como um conceito disponível, não como o que é procurado.”
“visualização preliminar do ser”
“Não pode haver <círculo vicioso> na colocação da questão sobre o sentido do ser porque não está em jogo, na resposta, uma fundamentação dedutiva, mas uma exposição de-monstrativa das fundações.” O círculo é sempre feliz e completo, virtuoso.
“O que se insinuou foi apenas um primado da pre-sença.”
“A elaboração do setor em suas estruturas fundamentais já foi, de certo modo, efetuada pela experiência e interpretação pré-científicas da região do ser que delimita o próprio setor de objetos. Os <conceitos fundamentais> assim produzidos constituem, de início, o fio condutor da primeira abertura concreta do setor.”
“O <movimento> próprio das ciências se desenrola através da revisão mais ou menos radical e invisível para elas próprias dos conceitos fundamentais. O nível de uma ciência determina-se pela sua capacidade de sofrer uma crise em seus conceitos fundamentais. Nessas crises imanentes da ciência, vacila e se vê abalado o relacionamento das investigações positivas com as próprias coisas em si mesmas.”
BECOS SEM-SAÍDA NÃO IMPORTA O CÁLCULO: “A ciência mais rigorosa e de estrutura mais consistente, a matemática, parece sofrer uma <crise de fundamentos>.” “A teoria da relatividade na física nasceu da tendência de apresentar o nexo próprio da natureza tal como ele <em si> mesmo se constitui. Como teoria das condições de acesso à própria natureza, a teoria da relatividade procura preservar a imutabilidade das leis do movimento através de uma determinação de toda a relatividade[novo absoluto fenomenológico, nova variável empírica de eleição], com isso, coloca-se diante da questão da estrutura do setor de objetos por ela pressuposto, i.e., do problema da matéria.”
“a história literária se torna história dos problemas.”
“Pouco a pouco a teologia começa a entender de novo a visão de Lutero para quem a sistematização dogmática repousa sobre um questionamento que, em sua origem, não advém de um questionamento da fé, e cuja conceituação, mais do que insuficiente para a problemática teológica, a encobre e até mesmo deturpa.”
“Essas investigações devem anteceder às ciências positivas. E isso é possível. O trabalho de Platão e Aristóteles são uma prova.” “A <lógica> é um esforço subseqüente e claudicante que analisa o estado momentâneo de uma ciência em seu <método>.” Ora, nossa lógica é aristotélica.
“Assim, o que é primeiro filosoficamente não é uma teoria da conceituação da história, nem a teoria do conhecimento histórico e nem a epistemologia do acontecer histórico enquanto objeto da ciência histórica, mas sim a interpretação daquele ente propriamente histórico em sua historicidade.”
“A lógica transcendental [Kant] é uma lógica do objeto a priori, a natureza, enquanto setor ontológico. § O questionamento,¹ porém – a ontologia no sentido mais amplo – independente de correntes e tendências ontológicas –, necessita de um fio condutor. [vocês ainda enjoarão desse binômio!] Sem dúvida, o questionamento ontológico é mais originário do que as pesquisas ônticas das ciências positivas. No entanto, permanecerá ingênuo e opaco, se as suas investigações sobre o ser-dos-entes deixarem sem discussão o sentido do ser em geral.”
¹ Depreende-se que em contraposição à lógica transcendental do Iluminismo He. propõe uma lógica do questionamento como metodologia para a filosofia? Nome um tanto estranho!
“A questão do ser visa às condições de possibilidade das próprias ontologias que antecedem e fundam as ciências ônticas.”
“Chamamos existência [Existenz] ao próprio ser com o qual a pre-sença pode se comportar dessa ou daquela maneira e com o qual ela sempre se comporta de alguma maneira [simplificando, o universo, a matéria]. Como a determinação essencial desse ente [o próprio universo! obviamente ele só pode ser um ser, um modo, nunca um objeto para nós…] não pode ser efetuada mediante a indicação de um conteúdo qüididativo [o quê? quem?], já que sua essência reside, ao contrário, no fato de dever sempre assumir o próprio ser como seu, escolheu-se o termo pre-sença [SER-AÍ] para designá-lo enquanto pura expressão de ser.”
(*) “A palavra existência resulta da aglutinação da preposição ek e do verbo sistere. (…) Nessa acepção, só o homem existe [tem presença]. Deus é mas não existe. O carro é mas não existe. [ambos só existem em nossa consciência, i.e., somente são em…]” Ref. Carta sobre o Humanismo– cheira a uma refutação de Sartre.
Questionamento existenciário [existenziell] como algo banal (mera constatação: toda era tem seu Zeitgeist; por que eu sou isso ou aquilo? por condições históricas determinadas, condições de possibilidade de sê-lo tal qual – basicamente existencialismo 101 mal-aplicado, e muito aplicado, por-aí…), inferior ao questionamento existencial [Existenzialität]. nível ôntico x nível ontológico
(*) “co-pertinência originária de existência, existencial, existenciário nas épocas da pre-sença.”
“Assim, a compreensão do ser, própria da pre-sença, inclui, de maneira igualmente originária, a compreensão de <mundo> e a compreensão do ser-dos-entes que se tornam acessíveis dentro do mundo.”
“primado ôntico: a pre-sença é um ente determinado em seu ser pela existência.” “primado ontológico: com base em sua determinação da existência, a pre-sença é em si mesma <ontológica>.” “terceiro primado que é a condição ôntico-ontológica da possibilidade de todas as ontologias [missão: determinar a ontologia ou o ente de todos os entes que não têm ser, i.e., que não são (n)o próprio (modo do) ser-aí].”
“raízes existenciárias, i.e., ônticas” “Só existe a possibilidade de uma abertura da existencialidade da existência, e com isso a possibilidade de se captar qualquer problemática ontológica suficientemente fundamentada, caso se assuma existenciariamente o próprio questionamento da investigação filosófica como uma possibilidade de ser da pre-sença, sempre existente. Assim esclarece-se também o primado ôntico da questão do ser.” Resumindo: tem-se de começar de algum lugar, e esse lugar é sempre pouco ambicioso…
“Já cedo se percebeu o primado ôntico-ontológico da pre-sença, embora não se tenha apreendido a pre-sença em sua estrutura ontológica genuína nem se tenha problematizado a pre-sença nesse sentido.”
“A comprovação do privilégio ôntico-ontológico da questão do ser se funda na indicação provisória do primado ôntico-ontológico da pre-sença.”
2. AS DUAS TAREFAS DE UMA ELABORAÇÃO DA QUESTÃO DO SER: O método e o sumário da investigação
“Na verdade, a pre-sença não somente está onticamente próxima ou é o mais próximo. Nós mesmos a somos cada vez. Apesar disso, ou justamente por isso, é o que está mais distante do ponto de vista ontológico.” O modo normal do ser-aí em todos os tempos é uma compreensão pré-ontológica de si mesmo. Acontece que agora o Ocidente pede o acabamento de uma metafísica… Momento privilegiado. Entender agora na acepção de vários séculos…
“São dificuldades que estão enraizadas no modo de ser do próprio tema e da própria atitude temática e não numa possível insuficiência do aparelhamento de nossa capacidade cognoscitiva ou numa deficiência de conceituação adequada”, o que aliás seria muito conveniente para nós se assim o fosse.
“a psicologia filosófica, a antropologia, a ética, a <política>, a poesia, a biografia e historiografia já pesquisaram as atitudes, potências, forças, possibilidades e envios da pre-sença.” “Será que essas interpretações se fizeram de maneira tão originariamente existencial como talvez tenham sido originariamente existenciárias? [Ele faz perguntas para as quais é evidente que responde NÃO.] Ambas as maneiras não precisam coincidir necessariamente, embora também não se excluam.”
“Somente depois de se elaborar, de modo suficiente, as estruturas da pre-sença, seguindo uma orientação explícita do problema do ser, é que os resultados obtidos até aqui poderão receber uma justificativa existencial.” E isso apenas no segundo volume.
“Da cotidianidade, não se devem extrair estruturas ocasionais e acidentais, mas sim estruturas essenciais. Essenciais são as estruturas que se mantêm ontologicamente determinantes em todo modo de ser de fato da pre-semça.”
“Trata-se, sem dúvida, de uma ontologia que se deverá edificar caso uma antropologia <filosófica> se deva apoiar em bases filosóficas suficientes.” “A análise da pre-sença, porém, não é somente incompleta mas também provisória. (…) O que lhe compete é liberar o horizonte para a mais originária das interpretações do ser. Uma vez alcançado esse horizonte, a análise preparatória da pre-sença exige uma repetição em bases ontológicas mais elevadas e autênticas.” Estaria de antemão se referindo à parte jamais escrita?
“A temporalidade (Zeitlichkeit) será de-monstrada como o sentido da pre-sença.” Mas nada verdadeiro se ganhará com isso, como havemos de ver. Ou ainda melhor: sentido da pre-sença é uma coisa, do ser é outra coisa…
“deve-se agora mostrar que o tempo é o ponto de partida do qual a pre-sença sempre compreende e interpreta implicitamente o ser.” O tempo é o horizonte ou norte. O tempo é o próprio espaço subsumido, afinal. Isso é o que Hegel diz. Mas Heidegger refutará esse conceito de tempo mais à frente. Ou dirá: esse é o tempo; o tempo é mero modo ôntico; o modo ontológico do tempo é o(a) temporal/temporalidade.
“tempo como ser-do-ser-aí”
“o conceito vulgar de tempo (…) consolidad[o] (…) desde Aristóteles até depois de Bergson. Nessa tarefa, deve-se esclarecer que e como esse conceito e sua respectiva compreensão do tempo brotam e derivam da temporalidade. Com isso, restitui-se ao conceito vulgar de tempo sua razão própria em oposição à tese de Bergson para quem o tempo nele indicado é espaço. [praticamente a antítese de Hegel]”
“<Temporal> diz aqui sendo e estando a cada vez <no tempo>, determinação esta que, sem dúvida, é ainda bastante obscura.”
BORRASCA DO SER: “Também o <não-temporal>, o <atemporal> e o <supratemporal> são, em seu ser, <temporais>.” “Como a expressão <temporal> é usada tanto na linguagem pré-filosófica como na linguagem filosófica no sentido indicado, e como, por outro lado, essa expressão é tomada na presente investigação em outro sentido, denominaremos a determinação originária do sentido do ser e de seus modos e caracteres a partir do tempo de determinação temporária.” É mesmo um dândi. Temporalidade temporariedade
“A determinação de historicidade se oferece antes [mais originariamente] daquilo a que se chama de história (acontecimento pertencente à história universal). Historicidade indica a constituição ontológica do <acontecer> próprio da pre-sença como tal. É com base na historicidade que a <história universal>, e tudo que pertence historicamente à história do mundo, se torna possível.” “a pre-sença é sempre como e <o que> ela já foi. Explicitamente ou não, a pre-sença é sempre o seu passado e não apenas no sentido do passado que sempre arrasta <atrás> de si e, desse modo, possui, como propriedades simplesmente dadas, as experiências passadas que, às vezes, agem e influem sobre a pre-sença. Não. A presença <é> o seu passado no modo de seu ser, o que significa, a grosso modo, que ela sempre <acontece> a partir de seu futuro.”“a pre-sença sempre já nasceu e cresceu dentro de uma interpretação de si mesma, herdada da tradição.” “Essa historicidade elementar da pre-sença pode permanecer escondida para ela mesma, mas pode também ser descoberta e se tornar objeto de um cuidado especial.” “A história factual (Historie) ou, mais precisamente, a factualidade historiográfica (Historizität) só é possível como modo de ser da pre-sença que questiona porque, no fundamento de seu ser, a pre-sença se determina e constitui pela historicidade.” “somente apropriando-se positivamente do passado é que ela pode entrar na posse integral das possibilidades mais próprias de seu questionamento.” “a pre-sença também de-cai em sua tradição [além de cair, sempre tendo um já dado para si própria]”
TRADIÇÃO vs. SER-AÍ
“A tradição até faz esquecer essa proveniência. Cria a convicção de que é inútil compreender simplesmente a necessidade do retorno às origens.” Tradição historiográfica é uma contradição em termos. Historiógrafos: aqueles sem-tradição. Mas existem historiógrafos e historiógrafos: falo do ideal, no sentido oposto ao descrito abaixo por Heidegger (historiografia da má-fé, século XIX, etc.).
“A conseqüência é que, com todo o seu interesse pelos fatos historiográficos e em todo o seu empenho por uma interpretação filologicamente <objetiva>, a pre-sença já não é capaz de compreender as condições mais elementares que possibilitam um retorno positivo ao passado, no sentido de sua apropriação produtiva.”
“A ontologia grega e sua história, que ainda hoje determina o aparato conceitual da filosofia, através de muitas filiações e distorções, é uma prova de que a pre-sença se compreende a si mesma e o ser em geral a partir do <mundo>.”
“transformada em simples material de reelaboração (Hegel).” “Em sua cunhagem escolástica, o essencial da ontologia grega se transpôs, através das Disputationes Metaphysicae de Suárez, para a metafísica e filosofia transcendental da Idade Moderna, chegando ainda a determinar os fundamentos e objetivos da Lógica de Hegel.”
“destruição do acervo da antiga ontologia” “A destruição também não tem o sentido negativo de arrasar a tradição ontológica. Ao contrário, ela deve definir e circunscrever a tradição em suas possibilidades positivas e isso quer sempre dizer em seus limites, tais como de fato se dão na colocação do campo de investigação possível. Negativamente, a destruição não se refere ao passado; a sua crítica volta-se para o <hoje> e os modos vigentes de se tratar a história da ontologia, quer esses modos tenham sido impostos pela doxografia, quer pela história da cultura ou pela história dos problemas.” Todo esse raciocínio de He. é plagiado descaradamente de Nietzsche em seus escritos sobre a História, sem citação da fonte.
“Kant foi o primeiro e o único a dar um passo no caminho de investigação para a dimensão da temporariedade. Ou melhor, Kant foi o primeiro que se deixou encaminhar, nesse caminho, pela pressão dos próprios fenômenos.”
“Ele próprio sabia que estava se aventurando numa região obscura: <Esse esquematismo de nosso entendimento, no tocante aos fenômenos e a sua forma, é uma arte escondida nas profundezas da alma humana, cujos mecanismos verdadeiros dificilmente poderíamos arrancar à natureza para colocá-los a descoberto diante de nossos olhos> [Crítica da razão pura]”
“Também se haverá de mostrar por que Kant fracassou na tentativa de penetrar na problemática da temporariedade.” 1) a falta da questão do ser; 2) a falta da ontologia do ser-aí. “Devido a essa dupla influência da tradição, a conexão decisiva entre o <tempo> e o <eu penso> permaneceu envolta na mais completa escuridão, não chegando sequer uma vez a ser problematizada.” “Com o <cogito sum>, Descartes pretende dar à filosofia um fundamento novo e sólido. O que, porém, deixa indeterminado nesse princípio <radical> é o modo de ser da res cogitans ou, mais precisamente, o sentido do ser do <sum>. A elaboração dos fundamentos ontológicos implícitos no <cogito sum> constitui o ponto de parada na segunda estação a caminho de um retorno destrutivo à história da ontologia.”
“ens creatum”
“Ser criado, no sentido amplo de ser produzido, constitui um momento essencial na estrutura do antigo conceito de ser.” “Com base neste preconceito, a posteridade moderna omitiu uma análise ontológica do <ânimo>, que deveria ser conduzida pela questão do ser e, ao mesmo tempo, como uma discussão crítica da antiga ontologia legada pela tradição.”
“Todo conhecedor da Idade Média percebe que Descartes <depende> da escolástica medieval. Essa descoberta, porém, não diz nada, do ponto de vista filosófico, enquanto a influência fundamental exercida pela ontologia medieval na determinação ou na não-determinação posterior da res cogitans permanecer obscura.”
“O ente [em Platão] é entendido em seu ser como <vigência>, isto é, a partir de determinado modo do tempo, do <presente>.” “a pre-sença, i.e., o ser-do-homem” “É por isso que a ontologia antiga, elaborada por Platão, torna-se uma <dialética>.” Homem, o animal-que-dialoga-e-desperta-idéias-já-tidas.
“Essa interpretação grega do ser foi desenvolvida sem nenhuma consciência explícita do seu fio condutor, sem saber e, sobretudo, sem compreender a função ontológica do tempo e sem penetrar no fundamento de possibilidade dessa função. Ao contrário: o próprio tempo é considerado como um ente entre outros, buscando-se apreender a estrutura do seu ser no horizonte de uma compreensão do ser orientada, implícita e ingenuamente, pelo próprio tempo.”
“fundamentos da antiga ontologia – sobretudo em seu grau mais puro e elevado, alcançado por Aristóteles.” “tornar-se-á claro, retrospectivamente, que a concepção kantiana do tempo se move dentro das estruturas apresentadas por Aristóteles. Isso significa que a orientação ontológica fundamental de Kant é grega, não obstante todas as diferenças que uma nova investigação comporta.”
“O método fenomenológico permanecerá altamente questionável caso se queira recorrer às ontologias historicamente dadas ou a tentativas congêneres. (…) não se pode seguir o caminho da história das ontologias para se esclarecer o método.” “O uso do termo ontologia não visa a designar uma determinada disciplina filosófica entre outras. Não se pretende, de forma alguma, cumprir a tarefa de uma dada disciplina, previamente dada. Ao contrário, é a partir da necessidade real de determinadas questões e do modo de tratar imposto pelas <coisas em si mesmas> que, em todo caso, uma disciplina pode ser elaborada.” “enquanto se compreender a si mesma, a fenomenologia não é e não pode ser nem um ponto de vista nem uma corrente. [superestima suas possibilidades] A expressão fenomenologia diz, antes de tudo, um conceito de método. Não caracteriza a qüididade [conteúdo, o que são] real dos objetos da investigação filosófica mas o seu modo, como eles o são. Quanto maior a autenticidade de um conceito de método e quanto mais abrangente determinar o movimento dos princípios de uma ciência, tanto maior a originariedade em que ele se radica numa discussão com as coisas em si mesmas e tanto mais se afastará do que chamamos de artifício técnico, tão numerosos em disciplinas teóricas.” “Exteriormente, o termo fenomenologia corresponde, no que respeita a sua formação, à teo-logia, bio-logia, sócio-logia, termos que se traduzem por ciência de Deus, da vida, da sociedade.” “A história da palavra em si, que apareceu, segundo se presume, na Escola de Wolff, não tem aqui importância.”
fenômeno = o que se mostra em si mesmo
estudo das coisas que são tais quais elas são ou parecem ser (raiz grega que combina ilusão e verdade)
amostra, anunciar-se de… (intermediário, imagem de algo)
“Manifestação e aparência se fundam, de maneira diferente, no fenômeno. Essa multiplicidade confusa dos <fenômenos> que se apresenta nas palavras fenômeno, aparência, aparecer, parecer, manifestação, mera manifestação, só pode deixar de nos confundir quando se tiver compreendido, desde o princípio, o conceito de fenômeno: o que se mostra em si mesmo.”
“Quando dizemos que o significado básico de logos é discurso, essa tradução literal só terá valor completo quando se determinar o que é um discurso.” A voz da razão como perfeito pleonasmo!
Malversações ao longo do tempo: razão, juízo, conceito, definição, fundamento, relação, proporção!
Em Aristóteles: discurso transparente
discurso – deixar ver – diz-curso – dizer o curso das coisas – verbo, voz, imagens
Parece uma etimologia contrária à de fenômeno no sentido da elisão ou encobrimento de algo.
“E, novamente, porque o LOGOS é um deixar e fazer ver, por isso é que ele pode ser verdadeiro ou falso.”
Fenomenologia, a seguir esta carreira, poderia até querer dizer explicitação do implícito, etc., dialética de mentira-verdade das coisas, etc.
“Quando, hoje em dia, se determina a verdade como o que pertence <propriamente> ao juízo e se faz remontar essa tese a Aristóteles, comete-se um duplo equívoco, pois essa atribuição a Arist. não é correta e, principalmente, deturpa-se o conceito grego de verdade. Em sentido grego, o que é <verdadeiro> (…) é a simples percepção sensível de alguma coisa.” Uma cor é sempre uma cor. “Isto significa: a visão sempre descobre cores, a audição descobre sempre sons.” “o máximo que pode acontecer [em termos de falseamento] é não haver percepção”
A ARTE DO DISCURSO: “O que já não possui a forma de exercício de um puro deixar e fazer ver mas que, para de-monstrar, recorre sempre a uma outra coisa e assim deixa e faz ver cada vez algo como algo, assume, junto com esta estrutura sintética, a possibilidade de en-cobrir. A <verdade do juízo>, [falsificação moderna] porém, é somente a contrapartida deste encobrir, i.e., um fenômeno de verdade derivado em muitos aspectos. Tanto o realismo quanto o idealismo se equivocam no que respeita ao sentido grego de verdade. Somente nesse conceito é que se poderá compreender a possibilidade de uma <teoria das idéias>.”
“Examinando-se concretamente os resultados da interpretação de <fenômeno> e <logos>, salta aos olhos a íntima conexão que os liga.” “deixar e fazer ver por si mesmo aquilo que se mostra, tal como se mostra a partir de si mesmo.” “O termo fenomenologia tem, portanto, um sentido diferente das designações como teologia, etc. Estas evocam os objetos de suas respectivas ciências, em seu conteúdo qüididativo. O termo <fenomenologia> nem evoca o objeto de suas pesquisas nem caracteriza o seu conteúdo qü..”
Modo do demonstrar
Estudo o mais direto possível
Descrição de essências (fenômenos em si mesmos)
“A ontologia só é possível como fenomenologia.” “<Atrás> dos fenômenos da fenomenologia não há absolutamente nada” “O conceito oposto de <fenômeno> é o conceito de encobrimento.” “Este encobrimento na forma de <desfiguração> é o mais freqüente e o mais perigoso, pois as possibilidades de engano e desorientação são particularmente severas e persistentes.” “Quer no sentido de velamento[ignorância de um fenômeno] ou entulhamento [seu ocultamento posterior à descoberta], quer ainda como desfiguração[troca de imagem para uma falsa aparência], o próprio encobrimento dispõe, por sua vez, de duplas possibilidades.” “A possibilidade de uma petrificação, endurecimento e inapreensão do que se apreendeu originariamente se acha no próprio trabalho concreto da fenomenologia.”
apreender, sentir-se apreensivo, apreensão
“Fenomenologia da pre-sença é hermenêutica no sentido originário da palavra em que se designa o ofício de interpretar.” “a hermenêutica da pre-sença como interpretação ontológica de si mesma adquire um terceiro sentido específico[1) interpretação ontológica do ser; 2) interpretação ontológica dos entes ou essências, dos fenômenos destituídos de ser, i.e., ser-aí;] – sentido primário do ponto de vista filosófico – a saber, o sentido de uma analítica da existencialidade da existência. Trata-se de uma hermenêutica que elabora ontologicamente a historicidade da pre-sença como condição ôntica [sine qua non] de possibilidade da história factual.”
“O ser é o transcendens pura e simplesmente. A transcendência do ser do ser-aí é privilegiada porque nela reside a possibilidade e a necessidade da individuação mais radical.” “A verdade fenomenológica (abertura do ser) é veritas transcendentalis.”
“A filosofia é uma ontologia fenomenológica e universal que parte da hermenêutica do ser-aí, a qual, enquanto analítica da existência, amarra o fio de todo questionamento filosófico no lugar de onde ele brota e para onde retorna.”
“As investigações que se seguem são apenas possíveis na base estabelecida por E. Husserl, cujas Investigações Lógicas fizeram nascer a fenomenologia.” “A compreensão da fenomenologia depende unicamente de se apreendê-la como possibilidade.” Rasga elogios à página 70.
<DESCULPEM-ME O LINGUAJAR PESADO>:“Caso seja lícita uma referência a investigações ontológicas anteriores, embora incomparáveis em seu nível, confrontem-se os trechos ontológicos do Parmênidesde Platão ou o 4º capítulo do VII livro da Metafísica de Arist. com uma passagem narrativa de Tucídides. Ver-se-á, nas formulações, o inaudito que os filósofos exigiam dos gregos. Quando as forças são essencialmente menores e o setor do ser que se deve abrir é ontologicamente muito mais difícil do que o que foi dado aos gregos, crescerá a dificuldade de formação de conceitos e a dureza das expressões.”
“Em si mesma a pre-sença é <histórica>, de maneira que o esclarecimento ontológico próprio deste ente [modo] torna-se sempre e necessariamente uma interpretação <referida a fatos históricos>.”
PRIMEIRA PARTE:
A INTERPRETAÇÃO DA PRE-SENÇA [SER-AÍ] PELA TEMPORALIDADE E A EXPLICAÇÃO DO TEMPO COMO HORIZONTE TRANSCENDENTAL DA QUESTÃO DO SER
A rigor esta é também a última parte desenvolvida por Heidegger. De certo modo, poder-se-ia parar de ler este resumo e seleção aqui, após 16 páginas, sem prejuízo algum, caso já se tenha entendido o autor…
PRIMEIRA SEÇÃO:
ANÁLISE PREPARATÓRIA DOS FUNDAMENTOS DA PRE-SENÇA
O ser-no-mundo é um a priori constituinte do ser-aí.
1. EXPOSIÇÃO DA TAREFA DE UMA ANÁLISE PREPARATÓRIA DA PRE-SENÇA
“O ente que temos a tarefa de analisar somos nós mesmos (…) O ser é o que neste ente está sempre em jogo.” Não podemos encarar ser, haja vista esta frase, como outra coisa senão vida, o que já foi realizado na filosofia do XIX.
“1. A <essência> deste ente está em ter de ser.”
O conteúdo deste ente depende da existência.
“é tarefa ontológica mostrar que, se escolhemos a palavra existência para designar o ser-deste-ente, esta não tem nem pode ter o significado ontológico do termo tradicional existentia. Para a ontologia tradicional, existentia designa o mesmo que ser simplesmente dado” Doravante, existência será atributo exclusivo do ser-aí. (objetos ‘não existem’, segundo essa fenomenologia, existir e ser não se confundem, como já visto mais acima)
Nada está dado, a não ser pela minha consciência, e consciência histórica. Abole-se a coisa-em-si.
“As características constitutivas da pre-sença são sempre modos possíveis de ser e somente isso. Toda modalidade-de-ser-deste-ente é primordialmente ser.”
Resgate da idéia (pun!) de que a imagem ou idéia platônica não se aplica, p.ex., às mesas.
“o termo <pre-sença> não exprime a sua qüididade como mesa, casa, árvore, mas sim o ser.”
“2. O ser é sempre meu. Neste sentido, a pre-sença nunca poderá ser apreendida ontologicamente como caso ou exemplar de um gênero[acepção aristotélica] de entes simplesmente dados. Pois, para os entes simplesmente dados, o seu <ser> é indiferente ou, mais precisamente, eles são de tal maneira que o seu ser não se lhes pode tornar nem indiferente nem não-indiferente.”Vinculação que Heidegger encontrou em Descartes num momento privilegiado da metafísica ocidental.
“A pre-sença só pode perder-se ou ainda não se ter ganho porque, segundo seu modo de ser, ela é uma possibilidade própria, ou seja, é chamada a apropriar-se de si mesma.”
“A im-propriedade da pre-sença não diz <ser> menos nem em grau <inferior> de ser.”
“Denominamos esta indiferença cotidiana da pre-sença de medianidade. § Porque a cotidianidade mediana perfaz o que, em 1º lugar, constitui o ôntico deste ente, sempre se passou por cima dela e sempre se passará, nas explicações da pre-sença.”
“Então, que há de mais próximo de mim do que eu mesmo? Decerto, eu trabalho aqui, trabalho em mim mesmo, transformei-me numa terra de dificuldades e de suor copioso”
Sto. Agostinho
“no modo impróprio do ser-aí está igualmente em jogo o ser-do-ser-aí – o ser-aí se comporta e se relaciona para com este ser via a cotidianidade mediana, mesmo que seja apenas fugindo e se esquecendo dele.”
(*) “SER SIMPLESMENTE DADO = VORHANDENHEIT”
Vor (antes de, no tempo) + Hand (mão). Aprioridade no sentido objetivo do materialismo mecanicista: o tipo de aprioridade externa não afetada pelo indivíduo.Na verdade é uma contradição em termos, já que o que é simplesmente dado nunca é ser.
“Existenciais e categorias são as 2 possibilidades fundamentais de caracteres ontológicos. (…) o ente é um quem (existência) ou um que (dado).”
“A analítica existencial da pre-sença está antes de toda psicologia, antropologia e, sobretudo, biologia.” “<Do ponto de vista epistemológico>, essas investigações são necessariamente insuficientes já pelo simples fato da estrutura de ciência destas disciplinas – o que nada tem a ver com a <cientificidade> daqueles que trabalham para o seu desenvolvimento – ter-se tornado cada vez mais questionável.”
“Uma das primeiras tarefas da analítica será mostrar que o princípio de um eu e sujeito, dados como ponto de partida, deturpa, de modo fundamental, o fenômeno da pre-sença.” “Para que se possa perguntar o que deve ser entendido positivamente ao se falar de um ser não-coisificado do sujeito, da alma, da consciência, do espírito, da pessoa, é preciso já se ter verificado a proveniência ontológica da coisificação.” “Não é, portanto, por capricho terminológico que evitamos o uso desses termos bem como das expressões <vida> e <homem> para designar o ente que nós mesmos somos.” “O que chama atenção é o fato de não se questionar ontologicamente a própria <vida> como um modo de ser.”
“Junto com Dilthey e Bergson, participam dessas limitações todas as correntes do <personalismo> por eles determinadas, e todas as tendências para uma antropologia filosófica. Mesmo a interpretação fenomenológica da personalidade, em princípio mais radical e lúcida, não alcança a dimensão da questão do ser da pre-sença.”
“o ser-da-pessoa não pode exaurir-se em ser um sujeito de atos racionais, regidos por determinadas leis. (Scheler)” “Desde essa 1ª elaboração, Husserl desenvolveu esse problema de modo ainda mais penetrante e profundo, tendo transmitido partes essenciais desse trabalho em suas preleções de Freiburg.”
Um nível de discussão bem bobinho e trivial, como se a fenomenologia tivesse iniciado a filosofia: “A pessoa não é uma coisa, uma substância, um objeto. Com isso se ressalta e acentua a mesma coisa indicada por Husserl, ao exigir para a unidade da pessoa uma constituição essencialmente diferente das coisas da natureza.”
“Atos são sempre algo não-psíquico. Pertence à essência da pessoa apenas existir no exercício de atos intencionais e, portanto, a pessoa em sua essência não é objeto algum.”
ANTI-PSICANÁLISE:“Toda objetivação psíquica, por conseguinte toda apreensão de um ato como algo psíquico, equivale a uma despersonalização [desautenticação, para não confundir com o termo psiquiátrico].”
“O que, no entanto, constitui um obstáculo e desvia a questão fundamental do ser da pre-sença é a orientação corrente pela antropologia cristã da Antiguidade.” Citação de Gên 1:26
É PLATÃO IMANENTE? “Mas a idéia de <transcendência>, [a ‘má’ transcendência] segundo a qual o homem é algo que se lança para além de si mesmo, tem suas raízes na dogmática cristã, da qual não se pode querer dizer que tenha chegado sequer uma única vez a questionar ontologicamente o ser do homem.”
“Na medida em que as cogitationes permanecem ontologicamente indeterminadas, sendo tomadas implicitamente como algo <evidente> e <dado>, cujo <ser> não suscita nenhuma questão, a problemática antropológica fica indeterminada quanto a seus fundamentos ontológicos decisivos.”
Biologia, a ciência do novo século, o século do ser-aí… Iron-ia de ferro.
“O fato de as pesquisas positivas não verem os fundamentos e considerá-los evidentes não constitui uma prova de que eles não se achem à base e que não sejam problemáticos, num sentido mais radical do que poderá ser uma tese das ciências positivas. Abertura do a priori não é construção <apriorística>. Com Husserl, não somente voltamos a compreender o sentido de toda <empiria> filosófica autêntica, como aprendemos a manusear os instrumentos aqui necessários. (…) a pesquisa a priori exige a preparação adequada do solo fenomenal.”
BLUES/REDS: “A interpretação da pre-sença em sua cotidianidade não deve, porém, ser identificada como descrição de uma fase primitiva da pre-sença, cujo conhecimento pudesse ser transmitido empiricamente pela antropologia.” “Ainda não ficou estabelecido que a psicologia do cotidiano ou até a psicologia científica e a sociologia, de que faz uso a etnologia, dêem a garantia científica para uma possibilidade adequada de acesso, interpretação e transmissão dos fenômenos a serem investigados. (…) Mas como as ciências positivas não <podem> nem devem esperar pelo trabalho ontológico da filosofia, o desenvolvimento das pesquisas não há de assumir a forma de um <progresso>, mas sim de uma re-petição e purificação ontológica, mais transparente do que tudo que se descobriu onticamente.”
Cassirer, 1925 (do clube de amiguinhos do Husserl)
“A comparação sincrética de tudo com tudo e a redução de tudo a tipos ainda não garante de per si um conhecimento autêntico da essência.”
2. O SER-NO-MUNDO EM GERAL COMO CONSTITUIÇÃO FUNDAMENTAL DA PRE-SENÇA
“o que indagamos com a interrogação <quem?>”
“o banco <dentro do espaço cósmico>.”
“Ser simplesmente dado <dentro> de um dado, o ser simplesmente dado junto com algo dotado do mesmo modo de ser, no sentido de uma determinada relação de lugar, são caracteres ontológicos que chamamos de categorias.”
“<eu sou> diz: eu moro, me detenho junto…” “O ser-em é, pois, a expressão formal e existencial do ser da pre-sença que possui a constituição essencial de ser-no-mundo.”
A pobre preposição tem de ser-vir (he-he!) ao ente e ao ser, com o perdão da cacofonia, ó, sujeito!
“em princípio, a cadeira não pode tocar a parede mesmo que o espaço entre ambas fosse igual a zero.”
o que está feito, está feito, e não se pode fazer mais nada
até meu filho negar isso, no caso
DE FATO
Em H.: relativo ao ser facticidade
relativo ao ente outros sufixos de fa(c)t–…
“ontologicamente a pre-sença é cura.” “o ser da pre-sença para com o mundo é, essencialmente, ocupação. [descurado de si]”
(*) Besorgen é ocupação, Sorge é cura. Fürsorge é preocupação.
“A tradução decidiu utilizar o radical latino cura para Sorge, ocupação para Besorgen e preocupação para Fürsorge. Os motivos dessa decisão atêm-se ao fato de o próprio Ser e Tempo ter remetido à fábula latina de Higino sobre a Cura e à inexistência em português de derivados de cura na acepção de um relacionamento específico da pre-sença com os seres simplesmente dados e com os seres existentes.” Cura é o modo ontológico do ser-aí; o modo ôntico (imediato, mais baixo) é cuidado.
Não há solipsismo nem puro relativismo porque todo ser está no mundo. No mesmo mundo.
“A formulação <ter um mundo circundante>, tão trivial do ponto de vista ôntico, é, do ponto de vista ontológico, um problema.”
“Embora experimentado e conhecido pré-fenomenologicamente, o ser-no-mundo se torna invisível por via de uma interpretação ontologicamente inadequada. (…) Desse modo, esta interpretação torna-se o ponto de partida <evidente> para os problemas da epistemologia ou <metafísica do conhecimento>.” “Esta correlação do sujeito-objeto é um pressuposto necessário.”
a presença é obs-cura
“Sujeito e objeto, porém, não coincidem com pre-sença e mundo.” “Mas reina um grande silêncio sobre o que significa positivamente o <interior> da imanência em que o conhecimento está, de início, trancado” “Em seu modo de ser originário, a pre-sença já está sempre <fora>, junto a um ente que lhe vem ao encontro no mundo já descoberto.” “E, mais uma vez, a percepção do que é conhecido não é um retorno para a <cápsula> da consciência com uma presa na mão, após se ter saído em busca de apreender alguma coisa.”
3. A MUNDANIDADE DO MUNDO
“A descrição fica presa aos entes. É ôntica.”
“A substancialidade é o caráter ontológico das coisas naturais, das substâncias. Esse caráter é o fundamento de tudo.”
“Será o <mundo> um caráter do ser da pre-sença? Toda pre-sença não terá sempre seu mundo? Mas com isso <mundo> não seria algo <subjetivo>? Como, então, seria possível um mundo <comum> <em> que nós, sem dúvida, estamos?”
“<Mundanidade> é um conceito ontológico e significa a estrutura de um momento constitutivo do ser-no-mundo.”
“A tarefa de <descrição> fenomenológica do mundo é tão pouco clara que já a sua determinação suficiente exige esclarecimentos ontológicos essenciais. § A polissemia da palavra <mundo> salta aos olhos em seu uso freqüente, bem como nas considerações tecidas até aqui.”
“1. Mundo é usado como um conceito ôntico [direto, empírico], significando, assim, a totalidade dos entes que se podem simplesmente dar dentro do mundo.
2. Mundo funciona como termo ontológico [invisível, essencial] e significa o ser dos entes mencionados no item 1.” Em H., “mundo” (<mundo> na minha transcrição do livro). E justo quando eu imaginava que as aspas em H. eram sempre depreciativas ou relativas ao alheio…
3. … [irrelevante]
“4. (…) A própria mundanidade pode modificar-se e transformar-se, cada vez, no conjunto de estruturas de <mundos> particulares, embora inclua em si o a priori da mundanidade em geral.” Talvez H. considere este seu “mundo definitivo”, daí excluir o 2 de sua fenomenologia, i.e., colocá-lo entre aspas (conceito incompleto).
você é inmundo, pois está no mundo
“O ente simplesmente dado <no> mundo, designamos de intramundano ou pertencente ao mundo.”
“Entendida em sentido ontológico-categorial, a natureza é um caso limite do ser de um possível ente intramundano. (…) Esse conhecimento tem o caráter de uma determinada desmundanização do mundo.”
(*) Mundo circundante = Umwelt (literalmente: mundo abrangente)
A CARTILHA DAS COORDENADAS BERGSONIANAS: “Ora, a ontologia tentou justamente interpretar o ser do <mundo> como res extensa, partindo da espacialidade. É em Descartes que se mostra a tendência mais extremada para uma ontologia do <mundo> desta espécie, ontologia edificada em contraposição à res cogitans que, porém, não coincide, nem do ponto de vista ôntico nem do ontológico, com a pre-sença.” Descartes apresenta dois eixos-entes que não se tocam. Sintomático.
A. ANÁLISE DA MUNDANIDADE CIRCUNDANTE E DA MUNDANIDADE EM GERAL
“Que ente há de ser pré-tematizado e estabelecido como base pré-fenomenal?”
“ao se interpelar o ente como <coisa> já se recorre implicitamente a uma caracterização ontológica prévia.”
“Será possível alcançar o caráter ontológico daquilo que vem ao encontro no modo de lidar próprio da ocupação, abstraindo-se da obscuridade da estrutura – ser dotado de valor?”
“Designamos o ente que vem ao encontro na ocupação com o termo instrumento [Zeug, o alemão para coisa; raiz latina: instrumentum].”
“Em sua essência [seu ser], todo instrumento é <algo para…>.”
(*) SER-PARA: quando ser é o substantivo, Sein-zu (nível ontológico); quando ser é o verbo, no sentido de é-para do mero instrumento, no sentido pragmático e funcional, o termo heideggeriano é Um-zu.
se[r]-para[r]-uma-briga
(*) “MANUALIDADE = ZUHANDENHEIT
No exercício histórico da pre-sença, a mão ocupa um lugar central de concretização e desdobramento. O limite para frente desse exercício é imposto pelos seres simplesmente dados (Vor-handenheit). A doação dos desempenhos e das possibilidades de desempenho proporciona os seres à mão, os seres constituídos pela manualidade (Zu-handen): os instrumentos, os utensílios, os equipamentos, os dispositivos, etc.”
(*) “CIRCUNVISÃO = UMSICHT
[a visão do olho de cima, não-semita, não ‘o olho que tudo vê’, a-Argos]
A construção do mundo cotidiano das ocupações não é cega mas guiada por uma visão de conjunto, a circunVisão, que abarca o material, o usuário, o uso, a obra, em todas as suas ordens.”
“quanto menos se olhar de fora a coisa martelo, mais se sabe usá-lo, mais originário se torna o relacionamento com ele e mais desentranhado é o modo em que se dá ao encontro naquilo que ele é” “A visualização puramente <teórica> das coisas carece de uma compreensão da manualidade.” “originariamente, contemplar é ocupação [e] agir possui sua visão. A atitude teórica visualiza meramente, sem circunvisão.”
“O que está imediatamente à mão se caracteriza por recolher-se em sua manualidade para, justamente assim, ficar à mão. O modo de lidar cotidiano não se detém diretamente nas ferramentas em si mesmas. Aquilo com que primeiro se ocupa e, conseqüentemente, o que primeiro está à mão é a obra a ser produzida.” A casa nasce antes da pá, do muro, do cimento, do martelo…
“A mata é reserva florestal” – fico dividido em dois ditos igualmente verdadeiros: 1) …e cada vez mais; 2) …e cada vez menos.
“Manualidade é a determinação categorial dos entes tal como são <em si>.” “está a Manualidade fundada ontologicamente no ser simplesmente dado?”
o haver não se dá, pois não tem nada para dar
deixe-me com meus haveres, dê-me um des-canso
abrir o mundo é totalmente diferente de descobrir o mundo
quando o ser-aí se abre ele volta ao conhecimento inato de si
quando ele descobre o mundo, apenas desvela mais um de seus modos-no-mundo e ocupa algo aparentemente inédito, que ainda não é uma verdadeira abertura
o Brasil foi descoberto, mas não aberto
abrir é tarefa de macaco-velho (quem já conhece muito a terra)
gato ex-cal-dado
“O conjunto instrumental não se evidencia como algo nunca visto, mas como um todo já sempre visto antecipadamente na circunvisão. Nesse todo, anuncia-se o mundo.”
“O não-anunciar-se do mundo é a condição de possibilidade para que o manual não cause surpresa.”
“Uma orientação exclusiva ou primordial pelo que é simplesmente dado não pode esclarecer ontologicamente o <em-si>.”
Tradução: Fiar-se somente ou principalmente no dado (empírico e a priori, no imediato da coisa) não ajuda a responder sobre a essência do em-si, isto é, não ajuda a responder essencialmente sobre a própria essência desses objetos ou coisas. Como se poderia chegar a conhecer ‘x’ (term. kantiana) apenas via observação dos fenômenos?
Ora, nem quando até essencialmente algo aparece como dado a simples descrição das aparências pode dar uma resposta metafísica à altura… Pois – ó! – as aparências enganam…
A possibilidade do conhecimento implica uma onipotência primigênia. [metempsicose]
O ser-do-ente é eterno, ou pelo menos infinitamente recorrível em seus antepassados…
“O mundo é algo em que o ser-aí enquanto ente já sempre esteve, para o qual o ser-aí pode apenas retornar em qualquer advento [futuro] de algum modo explícito.” O que aconteceu (e aconteceu) acontecerá de novo.
“A ocupação já é o que é, com base numa familiaridade com o mundo.” “O que é isso com que a pre-sença se familiariza e pelo que a [mundanidade das coisas] pode aparecer [alienando toda familiaridade à pre-sença]?”
preocupação – estranhamento – ansiedade (logo H. chegará a essa análise oposta).
“hoje, temos a tendência de submeter todos os entes a uma <interpretação> na chave de <relação>. Trata-se de uma interpretação que sempre <dá certo> porque, no fundo, não diz nada, como o esquema de forma e conteúdo, tão facilmente utilizado.”
“Recentemente, instalou-se nos veículos uma seta vermelha e móvel, cujo posicionamento mostra, cada vez, p.ex. num cruzamento, qual o caminho que o carro vai seguir. O posicionamento da seta é acionado pelo motorista. Esse sinal é um instrumento que está à mão, não apenas na ocupação (dirigir) do motorista. Também os que não estão no veículo e justamente eles fazem uso desse instrumento, esquivando-se para o lado indicado ou ficando parados. Esse sinal está à mão dentro do mundo na totalidade do conjunto instrumental dos meios de transporte e regras de trânsito. (…) essa <referência> enquanto sinal não é a estrutura ontológica do sinal enquanto instrumento.” Hahahaha. “A <referência> mostrar é a concreção ôntica [fenomênica] do para quê específico. [virar a porra do carro sem bater noutros carros nem atropelar ninguém]” “O uso de sinais permanece inteiramente no âmbito de um ser-no-mundo <imediato> [excluindo assim a sinalética dos sistemas mágicos, não-intramundanos, desta análise de sinais contemporâneos ou funcionais].”
“para o homem primitivo, o sinal e o assinalado coincidem.”
“Esta interpretação do sinal tinha apenas a finalidade de oferecer um apoio fenomenal para se caracterizar a referência.” Para de encher lingüiça, cara!
“O caráter ontológico do manual é a conjuntura.” Marquei em verde pela fealdade da expressão, hoje inutilizável, apropriada pelos “administradores”.
Um plano cartesiano é de longe ou de perto a única coisa que não existe.
O mapa quem faz é o ser-aí, sempre ao centro, com circunvisões de novas periferias o tempo (pun) todo!
(*) “PARA QUÊ = WOZU
Porque o português só conhece onde como advérbio e não como relativo, a tradução construiu uma constelação de expressões e modos de dizer que recebeu ao longo do texto as seguintes correspondências:
Wozu = para quê [literalmente teria de ser para onde]
Woraufhin = perspectiva em que [na direção onde]
Worumwillen = em função de [pertinente aonde]
Wobei = estar-junto [onde é familiar, onde é vizinho]
Womit = estar-com [onde em conjunto]
Worin = no contexto em que [no contexto aonde]
Wohin = destino [lançando-se aonde]
Woher = proveniência [vindo donde]”
(*) CONJUNTURA = BEWANDTNIS
A tradução literal impossível seria deixar-se fazer a volta, i.e., completar um giro ou ciclo, abrir-se para a essência.
“Conjuntura é o ser dos entes intramundanos em que cada um deles já, desde sempre, liberou-se.” “um perfeito a priori”
“O fato de se dar uma conjuntura constitui a determinação ontológica do ser deste ente e não uma afirmação ôntica sobre ele. (…) Com o para quê [sentido] da serventia, pode-se dar, novamente, uma conjuntura própria” Como tornar o martelo aquilo que ele é: construtor de moradias.
“Tal familiaridade [originária] com o mundo não exige, necessariamente, uma transparência teórica das remissões que constituem o mundo como mundo.”
“A significância é o que constitui a estrutura do mundo em que a pre-sença já é sempre como é.”
“Essas <relações> e <relatos> do ser-para, da função, do estar-com de uma conjuntura, em seu conteúdo fenomenal [ôntico], resistem a toda funcionalização matemática” “Conceitos de função dessa espécie só se tornam ontologicamente possíveis remetendo-se a um ente cujo ser possui o caráter de pura substancialidade. Conceitos de função não são outra coisa do que conceitos formalizados de substância.” Matemática calcula (n)o reino da essência.
B. CONTRAPOSIÇÃO DA ANÁLISE DA MUNDANIDADE À INTERPRETAÇÃO DO MUNDO DE DESCARTES
O porquê da escolha do título “Ser e TEMPO”: como antítese ao espaço e às coordenadas cartesianas. ESPAÇO é essencialmente e por excelência aquilo que é incapaz de denotar e conotar o Ser. Ou apenas conotar, se assumirmos que Heidegger empregaria denotar para falar do nível ôntico do ser e conotar para se referir ao nível ontológico.
res cogitans X res corporea espírito X natureza
“a falta de clareza de seus fundamentos ontológicos e dos próprios membros da oposição radica-se diretamente nessa distinção efetivada por Descartes.”
“O termo para o ser de um ente em si mesmo é substantia. Essa expressão ora designa o ser de um ente como substância, substancialidade, ora o próprio ente, uma substância. Essa ambigüidade de substantia, que já trazia em si o antigo conceito de OUSIA, não é casual.”
“O que constitui propriamente o ser em si mesmo da res corporea? Como se pode apreender uma substância como tal? (…) As substâncias são acessíveis em seus <atributos> e cada substância possui uma propriedade principal a partir da qual a essência da substancialidade de uma substância pode ser recolhida. Qual é esta propriedade na res corporea? (…) a extensão em comprimento, altura e largura constitui o ser propriamente dito da substância corpórea que nós chamamos <mundo>. (…) A extensão é a constituição ontológica do ente em causa que deve <ser> antes de quaisquer outras determinações ontológicas a fim de que estas possam <ser> o que são.” “Se os corpos duros, i.e., os que não cedem à pressão, trocassem de lugar com a mesma velocidade com que a mão <corre> em direção aos corpos, então nunca se chegaria a tocá-los, e a dureza nunca seria percebida, e com isso, portanto, nunca seria dureza.”
“a extensão, isto é, aquilo que se pode alterar em qualquer modo de divisibilidade, figuração e movimento, o capax mutationum, o que se mantém, remanet, em todas essas alterações.”
“permanência constante”
“Por substância só podemos entender um ente que é de tal modo que para ser não necessite de nenhum outro ente. O ser de uma <substância> caracteriza-se por uma não-necessidade.”
“Ao ser entendido como ens perfectissimum, <Deus> é aqui um título puramente ontológico.” “Todo ente que não for Deus necessita de produção em sentido amplo e de conservação. A produção de algo simplesmente dado, ou também a necessidade de se produzir, constituem o horizonte em que se compreende o <ser>.” “Entre ambos os entes, subsiste uma diferença <infinita> de ser e, apesar disso, chamamos de ente tanto o criado como o criador. Por conseguinte, usamos a palavra ser numa extensão tal, que o seu sentido abrange uma diferença <infinita>. Por isso e com certo direito, podemos chamar também o ente criado de substância. (…) dentro da região dos entes criados, do <mundo> no sentido de ens creatum, existe algo que <não necessita de um outro ente>, no tocante à produção e conservação das criaturas, p.ex. o homem.” O problema está em que, de novo, o homem é res cogitans e res corporea.
“Nas afirmações <Deus é> e <o mundo é> predicamos o ser. Essa palavra <é> não pode indicar o ente cada vez referido no mesmo sentido (univoce), já que entre ambos existe uma diferença infinita de ser”
“A escolástica apreende o sentido positivo da significação de <ser> como significação <analógica> para distingui-la da significação unívoca ou meramente sinônima. Apoiando-se em Aristóteles, em quem o problema já se delineou no ponto de partida da ontologia grega, fixaram-se vários modos de analogia, segundo os quais também as <Escolas> se distinguiam quanto à apreensão da função significativa de ser. No tocante à elaboração ontológica do problema, Descartes fica muito aquém da escolástica, chegando mesmo a recuar diante da questão.” “Sem dúvida, a ontologia medieval, do mesmo modo que a antiga, questionou muito pouco o que o próprio ser designa. (…) O sentido permaneceu não-esclarecido porque foi tomado por <evidente>.” “Descartes não apenas recua inteiramente diante da questão ontológica da substancialidade, como acentua explicitamente que a substância como tal, i.e., a substancialidade, já é em si mesma, de antemão, inacessível para si mesma. [Diz:] O <ser> ele mesmo não nos <afeta>, não podendo por isso ser percebido. Segundo a sentença de Kant, que apenas repete a frase de Descartes, <o ser não é um predicado real>. Com isso, renuncia-se em princípio à possibilidade de uma problemática pura do ser e busca-se uma saída pela qual se possam obter as determinações acima caracterizadas das substâncias. Porque <ser> de fato não é acessível como os entes, ele passa a ser expresso por determinações ônticas dos entes em questão, isto é, pelos atributos [fenomenológicos]. (…) pressupostos sem discussão.”
“É a substância divisível? Então é real e veraz (está no espaço)”, argumenta D. de si para si.
“Porque o ôntico é colocado abaixo do ontológico, a expressão substância exerce um significado ora ontológico ora ôntico, funcionando, porém, na maioria das vezes, como significado misturado.”
ENUMERO LOGO ERRO: “Que modo de ser da pre-sença é estabelecido como a via de acesso adequada ao que, enquanto extensio, Descartes identifica com o ser do <mundo>? A única via de acesso autêntica para esse ente é o conhecimento, a intellectio, no sentido do conhecimento físico-matemático. O conhecimento matemático vale como o modo de apreensão dos entes, capaz de propiciar sempre uma posse mais segura do ser dos entes nele apreendidos. (…) Propriamente só é o que sempre permanece. E é isso o que a matemática conhece. (…) Descartes não retira o modo de ser dos entes intramundanos deles mesmos. Com base numa idéia de ser[-constância] (…) prescreve ao mundo o seu ser <próprio>. Não é, portanto, principalmente o apoiar-se numa ciência particular e, por acaso, especialmente estimada, a matemática, o que determina a ontologia do mundo, mas uma orientação fundamentalmente ontológica pelo ser enquanto constância do ser simplesmente dado” “Descartes cumpre, assim, de maneira filosoficamente explícita, a virada das influências da ontologia tradicional sobre a física matemática moderna e os seus fundamentos transcendentais.”
“modo de acesso ao ente ainda possível de uma percepção intuitiva”
É duro dizê-lo, mas Descartes não entendeu o conceito de rigidez! Ou melhor: não entendeu a rigidez. O conceito de rigidez nada tem que ver com a rigidez.
Coordenadas não se tocam, como entes poderiam [r]esistir mutuamente?
Divisão e descontinuidade
“Com isso veda-se completamente o caminho para se ver o caráter fundado de toda percepção sensível e intelectual e para compreendê-las como uma possibilidade do ser-no-mundo.”
“Será que com essas discussões críticas não se estará exigindo de Descartes uma tarefa que se encontra totalmente fora de seu horizonte?” “A discussão deve-se orientar pela tendência real da problemática mesmo que esta não ultrapasse uma compreensão vulgar.” Palavras, palavras, palavras
“A análise cartesiana do <mundo> possibilita, pela 1ª vez, uma construção segura da estrutura da manualidade; necessita apenas de uma complementação, facilmente exeqüível, da coisa natural para transformá-la numa perfeita coisa de uso.”
“O acréscimo de predicados de valor [não-matemáticos, i.e., qualidades] não é capaz de propiciar em nada uma nova perspectiva sobre o ser dos bens mas apenas pressupõe para estes o modo de ser de puras coisas simplesmente dadas.” “Em última instância, os valores têm sua origem ontológica unicamente no ponto de partida prévio da realidade das coisas como nível fundamental. Já a experiência pré-fenomenológica, no entanto, mostra nos entes entendidos como coisa algo que não pode ser inteiramente compreendido por meio desse caráter.”
“Do ponto de vista ontológico, o que significa o ser dos valores, ou seja, <a sua valência>?” Não faz pergunta difícil, H.!
“E essa reconstrução de uma coisa de uso inicialmente <descascada> não necessitaria sempre de uma visão prévia e positiva do fenômeno cuja totalidade deve ser reproduzida na reconstrução? Se, porém, a sua própria constituição ontológica não tiver sido explicitada previamente de modo adequado, a reconstrução procederá sem qualquer projeto.” Hic salta Nietzsche.
Perguntas capitais:
“1. Por que (…) desde Parmênides (…) passou-se por cima do fenômeno do mundo? De onde provém a repetição contínua desse passar por cima?
2. Por que o ente intramundano se torna tema ontológico para esse fenômeno?
3. Por que este ente encontra-se, de início, na <natureza>?
4. Por que a complementação desta ontologia do mundo, que se sente necessária, cumpre-se em se recorrendo ao fenômeno dos valores?
Somente nas respostas a estas questões é que a problemática do mundo poderá alcançar uma compreensão positiva”
O método cartesiano não é ontologicamente metódico.
Heidegger é bom para perguntar, ruim para responder.
C. O CIRCUNDANTE DO MUNDO CIRCUNDANTE E A ESPACIALIDADE DA PRE-SENÇA
REVIRANDO CARTÉSIO: “O instrumento tem seu local ou então <está-por-aí>, o que se deve distinguir fundamentalmente de uma simples ocorrência numa posição arbitrária do espaço [x, y].” “O lugar é sempre o <aqui> e <lá> determinados a que pertence um instrumento.” “Chamamos de região este para-onde da possível pertinência instrumental”
“Esta orientação regional da multiplicidade de locais do que está à mão constitui o circundante” “Nunca nos é dado, de início, uma multiplicidade tridimensional de possíveis posições preenchidas por coisas simplesmente dadas.” “O que continuamente está à mão não tem um local, pois é previamente levado em conta pelo ser-no-mundo da circunvisão.”
“o sol cuja luz e calor são usados cotidianamente possui seus locais marcados e descobertos pela circunvisão (…): o nascente, o meio-dia, o poente, a meia-noite.” “indicações privilegiadas” “A casa tem o seu lado do sol e o seu lado da ventilação; por ele se orienta a distribuição dos <cômodos> [ou não, na periferia] e nestes, novamente, a <instalação> de acordo com o seu caráter instrumental.” “Igrejas e sepulturas, p.ex., são dispostas segundo o nascente e o poente, regiões da vida e da morte”
“Distanciar diz fazer desaparecer o distante, isto é, a distância de alguma coisa diz proximidade. Em sua essência, a pre-sença é essa possibilidade de dis-tanciar.” “Assim como o intervalo, a distância é uma determinação categorial dos entes destituídos do modo de ser da pre-sença. (…) quaisquer 2 coisas, 2 pontos não estão distantes um do outro, porque nenhum deles é capaz de distanciar em seu modo próprio de ser.”
Será que o sentido da afirmação disseminada que li sobre Heidegger no tocante à Técnica é nessa possibilidade catastrófica iminente da aldeia global comprimir todo o horizonte, achatar as distâncias e tornar tudo circunvizinhança do ser-aí? “Todos os modos de aumentar a velocidade que nós, hoje, de forma mais ou menos forçada, exercemos impõem a superação da distância. Assim, p.ex., com a <radiodifusão>, a pre-sença cumpre hoje o dis-tanciamento do <mundo>, através de uma ampliação e destruição do mundo circundante cotidiano, cujo sentido para a pre-sença ainda não pode ser totalmente aniquilado.”
“Mesmo quando nos servimos de medidas precisas e dizemos: <até em casa é meia hora>, essa medição deve ser tomada como uma avaliação, pois aqui <meia hora> não são 30 minutos mas uma duração que não possui <tamanho>, no sentido de extensão quantitativa.”
“todo dia os caminhos corriqueiros que levam ao ente dis-tante são diferentemente longos.” “Os intervalos objetivos de coisas simplesmente dadas não coincidem com a distância e o estar próximo do manual intramundano.” “Trata-se de uma <subjetividade> que talvez descubra o mais real da <realidade> do mundo, a qual nada tem a ver com uma arbitrariedade <subjetiva> nem com <apreensões> subjetivistas de um ente <em si> diverso.”
ANTOLHOS (Da sabedoria hindu à Rei de Evangelion): “Para quem usa óculos, p.ex., que, do ponto de vista do intervalo, estão tão próximos que os <trazemos no nariz>, esse instrumento de uso, do ponto de vista do mundo circundante, acha-se mais distante do que o quadro pendurado na parede em frente.” Hoje somos míopes surdos do ventre inchado, sempre com fone e fome.
“[Mas] Em seu ser-em, que instala dis-tanciamento, a pre-sença também possui o caráter de direcionamento.” “Sendo, a pre-sença, na qualidade de um ser que distancia e se direciona, possui uma região já desde sempre descoberta.” “A espacialização da pre-sença em sua <corporeidade>, a qual abriga em si uma problemática especial que não será tratada aqui, acha-se também marcada por essas direções.”
“manobra”
ma[n-o]b-ra
mão inimiga no peito amigo
b-ra So fort v-in-gador
“Pelo puro sentimento da diferença de meus 2 lados nunca poderia localizar-me corretamente no mundo. (Kant)” “O fato de eu já estar sempre num mundo não é menos constitutivo da possibilidade de orientação do que o sentimento de direita e esquerda.”
O CARÁTER DO ASSUNTO TEM LICENÇA POÉTICA PARA A REDUNDÂNCIA MAIS VULGAR: “A interpretação psicológica de que o eu possui algo <na memória>, no fundo, tem em mente a constituição existencial do ser-no-mundo.”
(*) “Todo ser é sempre ser-com mesmo na solidão e isolamento, a pre-sença é sempre co-presença (Mitdasein), o mundo é sempre mundo compartilhado (Mitwelt), o viver é sempre com-vivência (Miteinandersein).”
(*) “Para indicar a ação impessoal de um verbo, a língua alemã dispõe de 2 pronomes: es e man. <Es> indica uma impessoalidade indiferenciada. O sujeito da ação pode ser uma coisa, uma pessoa, uma situação [Es regnet – chove]. O <man> exprime, por sua vez, uma impessoalidade diferenciada, pois diz que ocorreu uma despersonalização de pessoas. [Man frölich ist – É-se feliz ou A gente é feliz].”
(*) “PRÓPRIO = SELBST
O termo <Selbst> e seus derivados, Selbst-sein, Selbstheit, das Selbst, Selbigkeit não designam nem a consciência, nem o inconsciente nem a personalidade, em qualquer sentido ou acepção psicológica e antropológica.”
(*) DE-MONSTRAÇÃO = AUFZEIGUNG; AUFWEISUNG
A palavra portuguesa de-monstração, tomada em sua formação etimológica, corresponde bem aos 2 termos alemães Auf-zeigung e Auf-weisung, pois ambos exprimem o movimento de mostrar, indicar, apontar, sem a conotação de seu uso lógico e matemático.”
(*) “CURIOSIDADE = NEUGIER
A voracidade insaciável de novidades pelo simples fato de ser diferente e diverso integra o mecanismo da despersonalização e descaracterização de toda autonomia e respeito da propriedade. O curioso não se interessa por transformar-se e diferenciar-se.”
CU-RIOSO
NEW-GEAR AUTO-PILOT nóiáguia
A REALLY SAD LOT
ANTI-KANT (ou SCHOPENHAUER, para todos os efeitos): “O espaço n[ão] está no sujeito (…) Ao contrário, o espaço está no mundo na medida em que o ser-no-mundo constitutivo da pre-sença já descobriu sempre um espaço. (…) É o <sujeito>, entendido ontologicamente, a pre-sença, que é espacial em sentido originário. Porque a pre-sença é nesse sentido espacial, o espaço se apresenta como a priori. Este termo não indica a pertinência prévia a um sujeito que de saída seria destituído de mundo e projetaria de si um espaço. Aprioridade significa aqui precedência do encontro com o espaço (como região) em cada encontro do manual no mundo circundante.”
“A intuição formal do espaço descobre possibilidades puras de relações espaciais. Estas consistem numa seqüência hierárquica na liberação de um espaço puro e homogêneo, desde a pura morfologia das figuras espaciais, visando a uma análise da posição (situs), até às ciências puramente métricas do espaço.” “O mundo perde a especificidade de suas circundâncias, o mundo circundante transforma-se em mundo da natureza. (…) contexto de coisas extensas simplesmente dadas.” Eis a desmundanização, com seu aspecto de neutro e homogêneo do espaço.
4. O SER-NO-MUNDO COMO SER-COM E SER-PRÓPRIO. O “IMPESSOAL”
“O pronome quem é aquilo que, nas mudanças de atitude e vivência, se mantém idêntico e, assim, refere-se a esta multiplicidade. Do ponto de vista ontológico, nós o entendemos como algo simplesmente dado, já sempre constantemente vigente para e numa região fechada e que, num sentido privilegiado, oferece uma base enquanto o subjectum. (…) Por mais que se rejeite a substância da alma ou o caráter de coisa da consciência e da objetividade da pessoa, ontologicamente, já no ponto de partida, fica-se atrelado a algo cujo ser guarda, explícita ou implicitamente, o sentido de ser simplesmente dado. A substancialidade é o guia ontológico da determinação dos entes a partir do qual se responde à pergunta quem.” “Ora, o ser simplesmente dado é o modo de ser de um ente que não possui o caráter da pre-sença.” “Pode ser que o quem da pre-sença cotidiana não seja sempre justamente eu mesmo.” “E se, partindo do dado do eu, a analítica existencial caísse, por assim dizer, nas tramas da própria pre-sença e de sua auto-interpretação mais corriqueira?” “O <eu> só pode ser entendido no sentido de uma indicação formal não-contingente de algo que, em cada contexto ontológico-fenomenal, pode talvez se revelar o <seu contrário>. Nesse caso, o <não-eu> não diz, de forma alguma, um ente em sua essência desprovido de <eu>, mas indica um determinado modo de ser do próprio <eu> como, p.ex., a perda de si próprio.” “a <substância> do homem é a existência e não o espírito enquanto síntese de corpo e alma.”
SER-TU: “Humboldt observou várias línguas que exprimem o <eu> pelo <aqui>, o <tu> pelo <aí>, o <ele> pelo <lá>, portanto, línguas que, numa formulação gramatical, exprimem os pronomes pessoais pelos advérbios locativos. É discutível qual o significado originário das expressões locativas, quer adverbiais, quer pronominais.” “O aqui, lá, aí, não são primariamente mera determinação de lugar dos entes intramundanos, simplesmente dados em posições espaciais, e sim caracteres da espacialidade originária da pre-sença.”
ser-aí-com (= co-pre-sença nesta tradução)
“O estar-só é um modo deficiente de ser-com e [justamente] sua possibilidade é a prova disso.” “Esse fenômeno que, de maneira não muito feliz, designa-se de <simpatia> deve, por assim dizer, construir ontologicamente uma ponte entre o próprio sujeito isolado e o outro sujeito, de início, inteiramente fechado.” “<O outro é um duplo de próprio.> É fácil ver que essa reflexão aparentemente evidente apóia-se em bases pouco sólidas. A pressuposição dessa argumentação de que o ser da pre-sença é para si mesmo o ser-para-um-outro não é justa. Enquanto essa pressuposição não se comprovar evidente em sua justa determinação, permanece enigmático de que maneira ela haverá de esclarecer a relação da pre-sença-para-consigo-mesma com referência ao outro-como-outro.”
“O quem não é este ou aquele, nem o próprio do impessoal, nem alguns e muito menos a soma de todos. O <quem> é o neutro, o impessoal.” “O impessoal desenvolve sua própria ditadura nesta falta de surpresa e de possibilidade de constatação. Assim, nos divertimos e entretemos como impessoalmente se faz; lemos, vemos e julgamos sobre a literatura e a arte como impessoalmente se vê e julga; também nos retiramos das <grandes multidões> como impessoalmente se retira; achamos <revoltante> o que impessoalmente se considera revoltante. O impessoal, que não é nada determinado mas que todos são, embora não como soma, prescreve o modo de ser da cotidianidade.”
“Em seu ser, o impessoal coloca essencialmente em jogo a medianidade. (…) Essa medianidade, designando previamente o que se pode e deve ousar, vigia e controla toda e qualquer exceção que venha impor-se. Toda primazia é silenciosamente esmagada. Tudo que é originário se vê, da noite para o dia, nivelado como algo de há muito conhecido. O que se conquista com muita luta, torna-se banal. Todo segredo perde sua força. O cuidado [ver acima o ‘passivo’ da Cura] da medianidade desentranha também uma tendência essencial da pre-sença, que chamaremos de nivelamento de todas as possibilidades de ser.”
“public-idade” limit-ações da trad-ução!
“O impessoal encontra-se em toda parte, mas no modo de sempre ter escapulido quando a pre-sença exige uma decisão.” “o impessoal retira a responsabilidade de cada pre-sença.” “Pode assumir tudo com a maior facilidade e responder por tudo, já que não há ninguém que precise responsabilizar-se por alguma coisa. O impessoal sempre <foi> quem… e, no entanto, pode-se dizer que não foi <ninguém>.” “o impessoal conserva e solidifica seu domínio caturro. [grosseiro, superficial]” “o impessoal, enquanto ninguém, não é um nada. Ao contrário, neste modo de ser, a pre-sença é um ens realissimum, caso se entenda <realidade> como um ser dotado do caráter de pre-sença.” “O impessoal também não é uma espécie de <sujeito universal> que paira sobre vários outros. Essa concepção só é possível caso o ser dos <sujeitos> seja compreendido como o que não possui o caráter de pre-sença, e caso se parta da suposição de que os sujeitos são casos factuais simplesmente dados de um gênero.” “Não é de admirar que a lógica tradicional fracasse diante destes fenômenos quando se pensa que a lógica tem seu fundamento numa ontologia-das-coisas-simplesmente-dadas que, além de tudo, é precária. Por mais que se aperfeiçoe e amplie, a lógica não pode, em princípio, tornar-se mais flexível. As reformas da lógica, orientadas pelas <ciências do espírito>, só fazem aumentar a confusão ontológica.” “O próprio da pre-sença cotidiana é o próprio-impessoal que distinguimos do si mesmo em sua propriedade”
O EU PRÉ-FILOSÓFICO: “De início, <eu> não <sou> no sentido do propriamente si mesmo e sim os outros nos moldes do impessoal. É a partir deste e como este que, de início, eu <sou dado> a mim mesmo. De início, a pre-sença é impessoal e, na maior parte das vezes, assim permanece.”
“O ser-no-mundo [finalmente] tornou-se visível em sua cotidianidade e em sua medianidade.”
“A interpretação ontológica segue inicialmente esta tendência e entende a pre-sença a partir do mundo, onde a encontra como ente intramundano.”
“O ser do que é próprio não repousa num estado excepcional do sujeito que se separou do impessoal. Ele é uma modificação existenciária do impessoal como existencial constitutivo.”
5. O SER-EM COMO TAL
“Até aqui, a caracterização fenomenal do ser-no-mundo voltou-se para o momento estrutural mundo e para responder à questão quem deste ente em sua cotidianidade. Entretanto, já nas primeiras caracterizações das tarefas de uma análise preparatória dos fundamentos da pre-sença, antecipou-se uma orientação sobre o ser-em como tal, que se demonstrou concretamente no modo de conhecer o mundo.”
Em busca do ser-da-cura (devidamente ocupado, em termos heideggerianos).
“O fenômeno da igualdade originária dos momentos constitutivos foi, muitas vezes, desconsiderado na ontologia, na medida em que ela pretende, por métodos desabridos, comprovar a proveniência de tudo e de todos a partir de uma <base primordial> única e simples.”
“Ser <esclarecido> [dotado de luz] significa: estar em si mesmo iluminado como ser-no-mundo, não através de um outro ente, mas de tal maneira que ele mesmo seja a claridade.”
A. A CONSTITUIÇÃO EXISTENCIAL DO PRE [-AÍ DO SER-AÍ]
Os estados de humor.
“O fato de os humores poderem se deteriorar e transformar diz somente que a pre-sença já está sempre de humor.”
“naquilo de que o humor faz pouco caso, a pre-sença se descobre entregue à responsabilidade do aí. É no próprio esquivar-se que o aí se abre em seu ser.”
“O humor não realiza uma abertura no sentido de observar o estar-lançado [estar-aí] e sim de enviar-se e desviar-se. Na maior parte das vezes, ele faz pouco caso do caráter pesado da pre-sença que nele se revela, e muito menos ainda quando se alivia de um humor. Esse desvio é o que é, no modo da disposição.”
“Mesmo que a pre-sença estivesse <segura> na fé de seu <destino> ou pretendesse saber a sua proveniência mediante um esclarecimento racional, nada disso diminuiria o seguinte fenômeno: o humor coloca a pre-sença diante do fato de seu aí que, como tal, se lhe impõe como enigma inexorável.”
“O irracionalismo – enquanto o outro lado do racionalismo – fala apenas estrabicamente daquilo para o que o racionalismo é cego.” “Que um ser-aí de fato possa, deva e tenha de assenhorear-se do humor através do saber e da vontade pode, em certas possibilidades da existência, significar uma primazia da vontade e do conhecimento. (…) nunca nos assenhoreamos do humor sem humor, mas sempre a partir de um humor contrário.”
“O <mero humor> abre o aí de modo mais originário, embora também o feche de modo ainda mais obstinado do que qualquer não-percepção. Isso é o que mostra o mau-humor. Nele (…) a circunvisão da ocupação se desencaminha.”
“O humor se pre-cipita. Ele não vem de <fora> nem de <dentro>.”
“Do ponto de vista ontológico-fundamental, devemos em princípio deixar a descoberta primária do mundo ao <simples humor>. Uma intuição pura, mesmo introduzida nas artérias mais interiores de alguma coisa simplesmente dada, jamais chegaria a descobrir algo como ameaça. [sem medo, não se sabe nem o que é destemor; ou, falando de forma mais poética, é impossível agir de modo temerário!]”
A primeira investigação metafísica sobre o humor provém da Retórica de Aristóteles. Por que a Retórica e não a Psicologia (Da alma)? Segundo H., porque é a Retórica essencialmente o campo da hermenêutica sistemática do ser-com. O que seria um orador sem humor?! Não um homem…
A partir dos estóicos, o humor se limita e se conforma a ser assunto subsidiário da Filosofia.
“É um mérito da pesquisa fenomenológica ter re-criado uma visão mais livre desses fenômenos.” É porque falta a Hegel qualquer consideração nesse sentido e nessa instância (uma pascalização de sua filosofia, p.ex.) que sua filosofia é tão estanque.
“O que se teme, o <temível>, é sempre um ente que vem ao encontro dentro do mundo e que possui o modo de ser do manual, ou do ser simplesmente dado ou ainda da co-pre-sença.”
“o que é temível em sua temeridade?”
1. dano
2. região de dano
3. o familiar na estranheza dessa região
4. o danoso ainda é ‘meio-distante’, ou já seria outra coisa que temor. Angst
5. é terrível aquilo que até o último instante, por assim dizer, não nos revela se poderá ou não chegar
“Nesse aproximar-se, o dano se irradia e seus raios apresentam o caráter de ameaça.” “Não se constata 1º um mal futuro (malum futurum) para a seguir temer. O temer também não constata 1º o que se aproxima mas, em sua temeridade, já o descobriu previamente.” “A circunvisão vê o temível por já estar na disposição do temor. Como possibilidade adormecida no ser-no-mundo disposto, o temer é <temerosidade> e, como tal, já abriu o mundo para que o temível dele possa se aproximar.”
“Apenas o ente em que, sendo, está em jogo seu próprio ser, pode temer.” Cães não temem.
Ora, como se poderia temer pelo mundo? Justamente o que não estará nunca dado nem passível de se dar!
“Pode-se temer em lugar de, sem sentir temor. (…) O temer em lugar de… de certa forma sabe que não é atingido, embora, na verdade, seja atingido pela co-pre-sença, pela qual se teme. (…) o temer-em-lugar-de não perde sua autenticidade específica quando <propriamente> não teme.”
“Na medida em que uma ameaça, em seu <na verdade ainda não, mas a qualquer momento sim>, subitamente se abate sobre o ser-no-mundo da ocupação, o temor se transforma em pavor.” “O referente do pavor é, de início, algo conhecido e familiar. Se, ao contrário, o que ameaça possuir o caráter de algo totalmente não-familiar, o temor transforma-se em horror. E somente quando o que ameaça vem ao encontro com o caráter de horror, possuindo ao mesmo tempo o caráter de pavor, a saber, o súbito, o temor torna-se então, terror. Outras variações do temor nos são conhecidas como timidez, acanhamento, receio e estupor.”
Temeroso na essência.
“Toda disposição sempre possui a sua compreensão, mesmo quando a reprime.”
“Dizer que a pre-sença existindo é o seu aí significa, por um lado, que o mundo está <pre-sente>, a sua pre-sença é o ser-em. Este é e está igualmente <presente> como aquilo em função de que a pre-sença é.”
A compreensão é a abertura.
“Significância é a perspectiva em função da qual o mundo se abre como tal. Dizer que função e significância se abrem na pre-sença significa que a pre-sença é um ente em que, como ser-no-mundo, ele próprio está em jogo.”
Eu compreendo toda a história do grunge: compreensão no sentido de encapsulamento, abrangência físicos, espácio-temporais de um fenômeno; nasci antes do grunge começar, e até hoje estou vivo conforme antigas bandas grunge e novas bandas post-grunge surgem, o que quer dizer que eu formo um conjunto em que grunge é só um subconjunto completamente contido em mim mesmo. Compreensão em sentido ôntico.
Compreensão como poder-ser. nível ontológico: “A pre-sença é a possibilidade de ser livre para o poder-ser mais próprio.” “A pre-sença é de tal maneira que ela sempre compreendeu ou não compreendeu ser dessa ou daquela maneira. (…) ela <sabe> a quantas ela mesma anda” “Esse <saber> não nasce 1º de uma percepção imanente de si mesma, mas pertence ao ser do aí/pre- do ser-aí/pre-sença que, em sua essência, é compreensão.” “E somente porque o ser-aí é na compreensão de seu aí é que ele pode-se perder e desconhecer. E na medida em que a compreensão está na disposição [humor] e, nessa condição, está lançada existencialmente, o ser-aí já sempre se perdeu e desconheceu. Em seu poder-ser, portanto, o ser-aí já se entregou à possibilidade de se reencontrar em suas possibilidades.”
“possibilidade de ser-ventia” maluco genial!
“Será por acaso que a questão do ser da natureza visa às <condições de sua possibilidade>?” “por que o ente, destituído do caráter de ser-aí, é compreendido em seu ser quando se abre nas condições de sua possibilidade? Kant pressupõe algo assim, talvez com razão. Mas essa pressuposição não pode mais permanecer sem verificar seu direito.”
compreensão projeto
“O projeto é a constituição ontológico-existencial do espaço de articulação do poder-ser de fato.”
“a pre-sença se lança no modo de ser do projeto. O projetar-se nada tem que ver com um possível relacionamento frente a um plano previamente concebido, segundo o qual o ser-aí instalaria o seu ser. Como ser-aí, ele já sempre se projetou e só é na medida em que se projeta.”
“Enquanto projeto, a compreensão é o modo de ser do ser-aí em que o ser-aí é as suas possibilidades enquanto possibilidades.”
“somente porque o ser do aí é tanto o que será quanto o que não será é que o ser-aí pode, ao se compreender, dizer: sé o que tu és!” Torna-te aquilo que tu tens a possibilidade aberta de ser.
Sócrates Nietzsche
“<Im>-própria não significa que a pre-sença rompa consigo mesma e <só> compreenda o mundo. Mundo pertence ao seu próprio ser como ser-no-mundo.”
“Em seu caráter existencial de projeto, a compreensão constitui o que chamamos de visão da pre-sença. (…) Chamamos de transparência a visão que se refere primeira e totalmente à existência.” Ver é converter o simplesmente dado (existenciário) em originário ou existencial, essencial. “A tradição da filosofia, porém, orienta-se desde o princípio, primariamente pelo <ver> [entre aspas, ou seja: ocular, ôntico, vulgar] enquanto modo de acesso para o ente e para o ser.”
O olho que tudo vê na verdade é cego. Aquele que tudo pode não pode-ser. (Ver acima sobre não-ser-judeu no aspecto teleológico do deus todo-poderoso.)
“retira-se [assim] da intuição pura a sua primazia que, noeticamente, corresponde à primazia ontológica tradicional do ser simplesmente dado. Intuição e pensamento já são ambos derivados distantes da compreensão. Também a intuição da essência fenomenológica está fundada na compreensão existencial.”
“Mas não será que, com a explicação da constituição existencial do ser-do-aí, no sentido do projeto projetado, o ser do ser-aí não se torna ainda mais enigmático?”
“fracassar com autenticidade”
“Na interpretação, a compreensão se torna ela mesma e não outra coisa. (…) Interpretar não é tomar conhecimento de que se compreendeu, mas elaborar as possibilidades projetadas na compreensão.” “O mundo já compreendido se interpreta.”
“Ter simplesmente diante de si uma coisa [abrangê-la situacionalmente] é somente fixá-la como uma não-compreensão.” “O fato de o <como> [modo da interpretação] não ser pronunciado onticamente não deve levar a desconsiderá-lo enquanto constituição existencial a priori da compreensão.”
“Tudo o que está à mão sempre já se compreende a partir da totalidade conjuntural.” “A interpretação sempre se funda numa visão prévia” O que H. quer dizer com essa linguagem tão espúria é simplesmente: não existe uma situação de zero valor, não-valor, ou que antedate o valor – o valor sempre está-aí, sempre esteve aí para o homem… Desnudar valores é valorar.
“Devemos supor tais fenômenos [a supremacia e ubiqüidade do valor, enquanto valor dos valores] como <realidades últimas>?” R: Sim, mas existe mais de um valor-dos-valores, embora sempre deva haver um para uma época.
CRIATÓRIO DE PALAVRAS PARA O QUE JÁ ESTAVA-AÍ (CONCRETAMENTE, NA FILOSOFIA DO XIX!): “Sentido é a perspectiva em função da qual se estrutura o projeto pela posição prévia, visão prévia e concepção prévia.”
O VELHO VÉU DE MAIA: “O ser-aí só <tem> sentido na medida em que a abertura do ser-no-mundo pode ser <preenchida> por um ente que nela se pode descobrir.” E depois: a única fuga do valor é “falsa”, é a incompreensão do valor vigente. Este é o contra-senso ou nonsense. “o <fundamento> só é acessível como sentido mesmo que, em si mesmo, seja o abismo de uma falta de sentido.”
“Toda interpretação que se coloca no movimento de compreender já deve ter compreendido o que se quer interpretar. Esse fato foi sempre observado na interpretação filológica, embora apenas nos setores dos modos derivados de compreensão e interpretação.” Filologia: 2nd hand knowledge
“Segundo as regras mais elementares da lógica, no entanto, o círculo é um circulus vitiosus.” “Enquanto não se abolir da compreensão esse círculo, a historiografia deve-se satisfazer com possibilidades de conhecimentos menos rigorosas.” “Mas ver nesse círculo um vício, buscar caminhos para evitá-lo e também <senti-lo> apenas como imperfeição inevitável significa um mal-entendido de princípio acerca do que é compreensão.” “O decisivo não é sair do círculo mas entrar no círculo de modo adequado.” A matemática não é mais rigorosa do que a história. É apenas mais restrita”
“Mesmo o ouvir-dizer é um ser-no-mundo e um ser-para-o-que se ouviu.”
“Validade indica, por um lado, a <forma>da realidade, atribuída ao conteúdo do juízo enquanto o que permanece inalterado frente ao processo <psíquico> de julgamento, esse em contínua transformação.” “Por outro lado, validade também significa que o sentido do juízo de valor vale para o seu <objeto>, assumindo assim o significado de <validade objetiva> e objetividade em geral.” validade universal
“Se ainda se defende uma epistemologia <crítica>, para a qual o sujeito propriamente <não sai de si> para alcançar o objeto, então, nesse caso, a validade como objetividade, a validade do objeto, funda-se na existência válida do sentido verdadeiro (!). As 3 acepções explicitadas de <valer>, ser ideal, objetividade, constringência[universalidade – o termo conota contração, achatamento, espécie de castração de possibilidades], não são apenas confusas em si mas se confundem entre si.”
“Nós não restringimos previamente o conceito de sentido à acepção de <conteúdo de juízo>, entendendo-o como fenômeno existencial, já caracterizado, [aberto] onde o aparelhamento formal do que se pode abrir na compreensão e articular na interpretação se faz visível.”
“o martelo é pesado, o peso é do martelo, o martelo tem a propriedade de ser pesado. A concepção prévia sempre presente em toda proposição permanece, na maior parte das vezes, sem surpresas, pois toda língua já guarda em si uma conceituação elaborada.” “A falta de palavra não pode ser entendida como falta de interpretação.” “Quais são as modificações ontológico-existenciais que fazem com que a interpretação da circunvisão dê origem à proposição [algo dela derivado]?” Nascimento da proposição: quando “o como é forçado a nivelar-se com o ser simplesmente dado.” O martelo do exemplo não mais em relação com o ser-aí, ser-no-mundo, mas como ente a priori martelo objetificado.
como hermenêutico-existencial X como apofântico (ver glossário ao final – limite da lógica formal aristotélica)
“A demonstração é, ao mesmo tempo, uma conjunção e uma disjunção. Sem dúvida Aristóteles não levou a questão analítica até o seguinte problema: na estrutura do logos, que fenômeno permite e exige que se caracterize toda proposição como síntese e diairese [separação]?” “O fenômeno da cópula mostra até que ponto esta problemática ontológica influi na interpretação do logose, inversamente, até que ponto o conceito de <juízo> repercute, numa reação curiosa, na problemática ontológica.” “já de saída se pressupõe [em Aristóteles, i.e., na Lógica] evidentemente a estrutura sintética, mantendo-a, então, numa função decisiva da intepretação do logos.” “O esclarecimento da 3ª acepção de proposição como comunicação (declaração) levou ao conceito de falar e dizer, até aqui propositadamente desconsiderado. O fato de somente agora se tematizar a linguagem deve indicar que este fenômeno se radica na constituição existencial da abertura do ser-aí.”
Eu falo, mas não com palavras.
Aqui vê-se a fragilidade de Deleuze: seu desejo não tem um para ou de…
“partilha da disposição comum”
“No discurso, o ser-aí se pro[jeta]nuncia.” Só se projeta o que já está/é fora.
“Somente quem já compreendeu é que poderá escutar.”
“Quem silencia no discurso da convivência pode <dar a entender> com maior propriedade [mormente como oposição].”
“a incompreensão da trivialidade”
“o mudo é a tendência <para falar>.”
“Quem nunca diz nada não pode silenciar”
“Silenciar em sentido próprio só é possível num discurso autêntico.”
“Terá [a ágora grega] sido mero acaso?” “Os gregos não dispunham de uma palavra própria para linguagem porque entendiam esse fenômeno <sobretudo> como discurso.”
“A tarefa de libertara gramática da lógica necessita de uma compreensão preliminar e positiva da estrutura a priori do discurso como existencial.” “Também não basta assumir o horizonte filosófico em que Humboldt problematizou a linguagem.”
“De que modo é o ser-da-linguagem para que ela possa estar <morta>? (…) Dispomos de uma ciência da linguagem, a lingüística, e, no entanto, o ser daquele ente por ela tematizado é obscuro” “A investigação filosófica deve renunciar a uma <filosofia da linguagem> a fim de poder questionar e investigar <as coisas elas mesmas> e dever colocar-se em condições de trazer uma problemática clara, do ponto de vista dos conceitos.”
B. O SER COTIDIANO DO AÍ E A DE-CADÊNCIA DO SER-AÍ
“Quais são os caracteres existenciais da abertura do ser-no-mundo quando o ser-no-mundo cotidiano se detém no modo de ser do impessoal?” “Como ser-lançado-no-mundo, não será que o ser-aí foi jogado de saída na public-idade do pessoal?”
“deve-se evidenciar a abertura do impessoal, quer seja, o modo de ser cotidiano do discurso, da visão e da interpretação em determinados fenômenos. Com relação a esses fenômenos, não será supérfluo observar que a interpretação tem um propósito puramente ontológico e se mantém muito distante de qualquer crítica moralizante do ser-aí cotidiano e de qualquer aspiração a uma <filosofia da cultura>.”
APOLOGIA DA FOFOCA: “A expressão <falatório> não deve ser tomada aqui em sentido pejorativo. Terminologicamente, significa um fenômeno positivo que constitui o modo de ser da compreensão e interpretação do ser-aí cotidiano.”
“possibilidades da compreensão mediana”
Qual é o ser-da-fofoca? Ela que não é algo dado, pois é linguagem.
…Todos nós pegamos o bonde andando.
“O empenho da comunicação é que se fale. O que se diz, o dito e a dicção se empenham agora pela autenticidade e objetividade do discurso e de sua compreensão.”
“O falado no falatório arrasta consigo círculos cada vez mais amplos, assumindo um caráter autoritário. As coisas são assim como são porque delas se fala assim. Repetindo e passando adiante a fala, potencia-se a falta de solidez.” Imprensa: a fofoca ultimada.
A FECHADURA DO DISCURSO: “O falatório que qualquer um pode sorver sofregamente [ex: LULA LADRÃO] não apenas dispensa a tarefa de uma compreensão autêntica como também elabora uma compreensibilidade indiferente, da qual nada é excluído.”
“Este fechamento [do discurso] é, de novo, potenciado pelo fato de o falatório pretender ter compreendido o referencial com base nessa pretensão de reprimir, postergar e retardar toda e qualquer questão e discussão.” “O predomínio da interpretação pública já decidiu até mesmo sobre as possibilidades de sintonização com o humor, i.e., sobre o modo fundamental em que o ser-aí é tocado pelo mundo.” “O falatório é (…) um contínuo desenraizamento. Do ponto de vista ontológico, isso significa: como ser-no-mundo, a pre-sença que se mantém no falatório rasgou suas remissões ontológicas primordiais, originárias e legítimas com o mundo, com a co-pre-sença e com o próprio ser-em. (…) Mais do que um não-ser, esse desenraizamento perfaz sua <realidade> mais cotidiana e mais persistente.
A estranheza da oscilação em que o ser-aí tende para uma crescente falta de solidez permanece encoberta sob a proteção de auto-evidência e autocerteza que caracterizam a interpretação mediana.”
“Aquilo que se pressignou na sentença de Parmênides chega, nessa interpretação, a uma compreensão temática e explícita. O ser é tudo que se mostra numa percepção puramente intuitiva, e somente esse tipo de ver descobre o ser.” O que é esse tipo de ver? A curiosidade heideggeriana. Raiz da ontologia na Grécia.
“Da intuição pura a dialética de Hegel retirou o seu moto [por mais que pense superar Kant] e somente à sua base é que se tornou possível.”
OTIUM:“A curiosidade liberada ocupa-se em ver, não para compreender o que vê, para chegar a ele num ser, mas apenas para ver. Ela busca apenas o novo” “abandonar-se ao mundo”
“impermanência” (antítese da pre-sença)
“não busca o ócio de uma permanência contemplativa e sim a excitação e inquietação mediante o sempre novo e as mudanças do que vem ao encontro.”
“possibilidade continua de dispersão.”
A curiosidade não é o espanto inicial do filósofo na Metafísica de Aristóteles.
“O falatório também rege os caminhos da curiosidade. É ele que diz o que se deve ter lido e visto.” “responsabilidade do falatório”Se pudéssemos resumir: o falatório é a burrice personificada, a curiosidade inútil, a tolerância em excesso.
“Se, na convivência cotidiana, tanto o que é acessível a todo mundo quanto aquilo de que todo mundo pode dizer qualquer coisa vêm igualmente ao encontro, então já não mais se poderá distinguir, na compreensão autêntica, o que se abre do que não se abre.” “Tudo parece ter sido compreendido, captado e discutido autenticamente quando, no fundo, não foi. Ou então parece que não o foi quando, no fundo, já foi.” “Não somente todo mundo conhece e discute o que se dá e ocorre, como também todo mundo já sabe discorrer sobre o que vai acontecer, o que ainda não se dá e ocorre, mas que <propriamente> deve ser feito.” “quem autenticamente <está na pista> não fala sobre isso”
DO ‘NÃO FOI GOLPE’: “Supondo que aquilo que impessoalmente se pressentiu e farejou seja, algum dia, transformado em fato, será justamente a ambigüidade quem terá cuidado para que morra imediatamente o interesse pela coisa realizada. Esse <interesse> só subsiste no modo da curiosidade e do falatório, na medida em que se dá como a possibilidade de mero pressentimento em comum, sem nenhum compromisso. Quando e enquanto se está na pista de alguma coisa, o mero estar-junto recua o compromisso do acompanhamento do momento em que se dá início à realização do que se pressentiu.” “isso qualquer um poderia ter feito” O Barão de Coubertin diria: o importante é pressentir. “Em sua ambigüidade, o falatório e a curiosidade cuidam para que aquilo que se criou de autenticamente novo já chegue envelhecido quando se torna público.”
“no impessoal a compreensão da pre-sença nãovê a si mesma em seus projetos”
“onde cotidianamente tudo e, no fundo, nada acontece.”
“De início, o outro <está presente> pelo que se ouviu impessoalmente dele, pelo que se sabe e se fala a seu respeito. O falatório logo se insinua dentre as formas de convivência originária. Todo mundo presta primeiro atenção em como o outro se comporta, no que ele irá dizer. A convivência no impessoal não é, de forma alguma, uma justaposição acabada e indiferente, mas um prestar-atenção-uns-aos-outros, ambíguo e tenso.”
“a ambigüidade não nasce primordialmente de uma má-fé e nem é detonada primeiro por um ser-aí singular [determinado].” “o impessoal haverá sempre de objetar que essa interpretação não corresponde ao modo de ser da interpretação do impessoal.”
“Por si mesma, em seu próprio poder-ser ela própria mais autêntico, a pre-sença já sempre caiu de si mesma e de-caiu no <mundo>. De-cair no <mundo> indica o empenho na convivência, na medida em que esta é conduzida pelo falatório, curiosidade e ambigüidade.” “Não ser ele mesmo é uma possibilidade positiva dos entes que se empenham essencialmente nas ocupações do mundo. Deve-se conceber esse não-ser como o modo mais próximo de ser da pre-sença em que, na maioria das vezes, ela se mantém.
Assim, a de-cadência da pre-sença também não pode ser apreendida como <queda> de um <estado original>, mais puro e superior. Disso nós não dispomos onticamente [fenomenal, diretamente] de nenhuma experiência e, ontologicamente [essencialmente], de nenhuma possibilidade e guia ontológicos para uma interpretação.” Fare thee well, Christianity!
“Seria igualmente um equívoco compreender a estrutura ontológico-existencial da de-cadência, atribuindo-lhe o sentido de uma propriedade ôntica negativa que talvez pudesse vir a ser superada em estágios mais desenvolvidos da cultura humana.”Ou é uma espetada em Nietzsche (que não acerta em cheio e sequer tem nexo, pois Nietzsche não foi citado hora nenhuma até esse ponto do livro), ou de toda forma demonstra uma escolha inapropriada do termo “de-cadência” para ilustrar seu conceito de devir do ser-aí-no-mundo, já que não tem qualquer conotação de queda ou definhamento.
“a própria pre-sença prepara para si mesma a tentação constante de de-cair. É que o ser-no-mundo já é em si mesmo tentador.”
“A pretensão do impessoal, de nutrir e dirigir toda <vida> autêntica, tranqüiliza a pre-sença, assegurando que tudo <está em ordem> e que todas as portas estão abertas.”
“pode nascer a convicção de que a compreensão das culturas mais estranhas e a sua <síntese> com a própria cultura levaria a um esclarecimento verdadeiro e total da pre-sença a seu próprio respeito. A curiosidade multidirecionada e a inquietação de tudo saber dá a ilusão de uma compreensão universal da pre-sença.”
“ela busca a mais exagerada <fragmentação de si mesma>.” “A pre-sença se precipita de si mesma para si mesma na falta de solidez e na nulidade de uma cotidianidade imprópria. Mediante a interpretação pública, essa precipitação fica velada para a pre-sença, sendo interpretada como <ascensão> e <vida concreta>.” Quando ele recebeu a crítica de sua suposta magnum opus deve ter tido vontade de reescrevê-la toda para desmentir o desmentido que levou: ora, gostas de flertar com todos esses conceitos metafísicos de seus antecessores a cada página, H.!
Empilhamento de palavras exóticas, sem que se ganhe nada com isso: “turbilhão”
Debatesse com Adorno! Acho que ambos se divertiriam muitíssimo em meio ao tédio chamado séc. XX! “Será que a pre-sença pode ser compreendida como um ente em cujo ser está em jogo o poder-ser, se justamente em sua cotidianidade a pre-sença se perdeu a si mesma e, na de-cadência, <vive> fora de si mesma?”
sistematização do ser-rebanho
“Mas nada de corujas e goticismo!”, teria dito Hegel II.
Dizer que a II Guerra não representa uma viragem (em qualquer sentido que se escolher) de uma autenticidade completa para uma inautenticidade completa ou vice-versa (após a guerra) seria duma má-fé excruciante. Seria, porque o livro tem a sorte de ser anterior ao evento histriônico-histórico.
“A interpretação ontológico-existencial não se refere, portanto, a um discurso ôntico sobre a <corrupção da natureza humana>, não apenas porque lhe faltam os recursos necessários, mas também porque a sua problemática antecede qualquer proposição a respeito da corrupção ou da incorruptibilidade.” “Minha interpretação não se refere a um discurso parcial ou imediatista sobre a <corrupção da natureza humana>, não apenas porque minha interpretação é absolutamente nua e neutra, e cética na medida ideal, como também porque a História não tem qualquer importância para mim, estou acima dessas miudezas.”
6. A CURA COMO SER DA PRE-SENÇA
“A visualização preliminar dada no início a respeito do fenômeno perdeu agora o vazio da 1ª caracterização genérica.” “a questão a que aspirava a análise preparatória dos fundamentos da pre-sença, qual seja: Como se haverá de determinar, do ponto de vista ontológico-existencial, a totalidade do todo estrutural indicado?” = Qual a relação do ser-aí com a unidade existencial-factual (totalidade do real)? Qual é a relação do presente com o eterno vir-a-ser? = Afinal, o que é a Cura?
“Faz-se necessária uma confirmação pré-ontológica da interpretação existencial da pre-sença como cura.”
cura mundanidade manualidade realidade
“Na problemática ontológica, ser e verdade foram, desde a Antiguidade, correlacionados, embora suas razões originárias permaneçam talvez encobertas.” “Do ponto de vista existenciário, sem dúvida, a propriedade do ser-próprio se acha, na de-cadência, obstruído e fechado. (sic)”
“Aquilo com que a angústia se angustia é o ser-no-mundo como tal. (…) Nada do que é simplesmente dado (…) serve para (…) angustiar-se.” “O mundo possui o caráter de total insignificância.”
“Está tão próximo que sufoca a respiração, e, no entanto, em lugar algum.”
“Mesmo esse nada-ter-a-ver, o único que o discurso cotidiano da circunvisão é capaz de compreender, não é um nada completo.”
“é a angústia que pela 1ª vez abre o mundo como mundo.”
“Essa estranheza persegue cotidianamente a pre-sença e ameaça, mesmo que implicitamente, com a perda cotidiana no impessoal.” “O ser-no-mundo tranqüilizado e familiarizado é um modo da estranheza da pre-sença e não o contrário. O não sentir-se em casa deve ser compreendido, existencial e ontologicamente, como o fenômeno mais originário.”
“A angústia é condicionada fisiologicamente [, mas o] (…) disparo psicológico da angústia só é possível porque a pre-sença, no fundo de seu ser, se angustia.”
“A pre-sença já está sempre <além de si mesma>, não como atitude frente aos outros entes que ela mesma não é, mas como ser-para-o-poder-ser que ela mesma é. Designamos a estrutura ontológica do <estar em jogo> como o preceder a si mesma da pre-sença.”
“Pertence a esse ser-no-mundo o fato de, entregando-se à responsabilidade de si mesmo, já se ter lançado em um mundo.” “Em outras palavras: existir é sempre um fato. Existencialidade determina-se essencialmente pela facticidade.”
CURA ENQUANTO ESSA PRECEDÊNCIA INERENTE: “Fica excluída dessa significação toda tendência ôntica [imediatista] como cuidado ou descuido.” “A expressão <cura de si mesmo>, de acordo com a analogia da ocupação e preocupação, seria uma tautologia.”
“no preceder-a-si-mesma, o <si> indica sempre o próprio, no sentido do próprio-impessoal. Mesmo na impropriedade, a pre-sença permanece essencialmente um preceder-a-si-mesma, da mesma forma que a fuga-de-si-mesma-na-de-cadência ainda apresenta a constituição ontológica na qual está em jogo o seu ser.
Enquanto totalidade originária de sua estrutura, a cura se acha, do ponto de vista existencial-a priori, <antes> de toda <atitude> e <situação> da pre-sença, o que sempre significa dizer que ela se acha em toda atitude e situaçãode fato.”
“Sendo em sua totalidade essencialmente indivisível, toda tentativa de reconstrução ou recondução do fenômeno da cura a atos ou impulsos particulares tais como querer ou desejar, propensão ou tendência, converte-se em fracasso.
Tanto o querer como o desejar estão enraizados, com necessidade ontológica, na pre-sença enquanto cura e, do ponto de vista ontológico, não são vivências indiferentes que ocorrem numa <corrente> inteiramente indeterminada quanto ao sentido de seu ser.”
“Do ponto de vista ontológico, [sempre bom ressaltar, para os imbecis do big bang] a cura é <anterior> aos fenômenos mencionados [surgimento da vida da perspectiva da física ou da biologia] que, sem dúvida, só podem ser adequadamente <descritos> dentro de certos limites, sem que seja necessário evidenciar ou tornar conhecido o horizonte ontológico em seu todo.” “Para a presente investigação de uma ontologia fundamental, que não aspira a uma ontologia tematicamente completa da pre-sença e muito menos a uma antropologia concreta, basta que se indique como estes fenômenos se fundam existencialmente na cura.”
“No querer, só se apreende um ente já compreendido, i.e., um ente já projetado em suas possibilidades como ente a ser tratado na ocupação ou a ser cuidado em seu ser na preocupação.” “Para a possibilidade ontológica do querer são constitutivos: a abertura prévia do em-função-de-que (o preceder a si mesma), a abertura do que se pode ocupar (o mundo como algo em que já se é) e o projeto de compreensão da pre-sença num poder-ser para a possibilidade de um ente <que se quis>.”
“Esse nivelamento das possibilidades da pre-sença ao que se oferece, de imediato, no cotidiano realiza, ao mesmo tempo, uma obliteraçãodo possível como tal. A cotidianidade mediana da ocupação se torna cega para as possibilidades e se tranqüiliza com o que é apenas <real>.”
“…de maneira a dar a impressão de que algo está acontecendo.”
A MEGA SENA DA MECA DO FUNCIONALISMO: “No desejo, a pre-sença projeta o seu ser para possibilidades as quais não somente não são captadas na ocupação como não se pensa ou se espera, sequer uma vez, a sua realização. Ao contrário, a predominância do preceder-a-si-mesma, no modo do simples desejar, comporta uma incompreensão das possibilidades factuais. O ser-no-mundo, cujo mundo se projeta primariamente como mundo do desejo, perde-se, de modo insustentável, no que se acha disponível, e isso de tal modo que o que está disponível como o único manual jamais é suficiente à luz do que se deseja. Desejar é uma modificação existencial do projetar-se da compreensão que, na de-cadência do estar-lançado, ainda adere pura e simplesmente às possibilidades. Essa adesãofecha as possibilidades; aquilo que está ‘presente’ na adesão do desejo torna-se ‘mundo real’. Ontologicamente, desejar pressupõe a cura.”
É verdade que o desejo — cegueira e antolhos — é sempre a decadência e mundanização de uma pretensa onisciência, possível de ser concebida apenas a posteriori após a ‘decadência’ e ‘mundanização’. Isso é o que torna as pessoas tão pasmadas. O homem é aquele que nunca sacia seu desejo? Falso. Este não é o homem-no-homem! Já está saciado. O homem é aquele que estabelece sua própria prisão em vez de liberdades.
“A adesão de-cadente revela a tendência da pre-sença de se <deixar viver> pelo mundo em que ela sempre está.” “[A cura] cega coloca todas as possibilidades a serviço da tendência.”
“Enquanto modificação de todo ser-no-mundo, a pre-sença já é sempre cura.” Pois sua fuga redunda em achar-se e com-frontar-se consigo mesma. O ser-aí en-cara de igual para igual no mundo jamais-aplanado.
“a idéia de ser é tão pouco <simples> como o ser da pre-sença.”
“do ponto de vista ontológico, a <novidade> dessa interpretação é, do ponto de vista ôntico, bastante antiga.” Quer dizer que nada do que H. explica é novo ou inédito, mesmo em face da filosofia clássica dos gregos.
“o ser da pre-sença se caracteriza pela historicidade que, de todo modo, só deve ser comprovada ontologicamente. Se, com base em seu ser, a pre-sença é ‘histórica’, então uma proposição oriunda de sua história e que a ela remete, sendo anterior a toda ciência, possui um peso particular, embora, sem dúvida, não seja um peso puramente ontológico.”
“A auto-interpretação da pre-sença como <cura> foi apresentada numa antiga fábula.”
Como bom alemão, recorre a Fausto: (*) “Burdach mostra que Goethe extraiu de Herder a fábula que consta como a 220 das Fábulasde Higino, tendo-a trabalhado para a segunda parte de seu Fausto.”
“Certa vez, atravessando um rio, Cura viu um pedaço de terra argilosa: tomou um pedaço e começou a lhe dar forma. Enquanto refletia sobre o que criara, interveio Júpiter. Cura pediu-lhe que desse espírito à forma de argila, o que ele fez de bom grado. Como Cura quis então dar seu nome ao que tinha dado forma, Júpiter a proibiu e exigiu que fosse dado o[utro] nome. Enquanto Cura e Júpiter disputavam sobre o nome, surgiu também TELLUS [Terra]¹ querendo dar o seu nome, uma vez que havia fornecido um pedaço de seu corpo. Os disputantes tomaram SATURNO como árbitro. Saturno pronunciou a seguinte decisão, aparentemente eqüitativa: <Tu, Júpiter, por teres dado o espírito, deves receber na morte o espírito e tu, Tellus, por teres dado o corpo, deves receber o corpo. Como, porém, foi Cura quem primeiro o formou, ele deve pertencer à Cura enquanto viver. Como, no entanto, sobre o nome há disputa, ele deve se chamar HOMO, pois foi feito de húmus.>²”
¹ Anatomy is destiny! Júpiter ou Zeus é Mefistófeles.
² “Substância orgânica e negra, resultante da decomposição parcial de vegetais ou de animais, que se acumula sobre o solo ou a ele se mistura. Etimologia (origem da palavra húmus). Do latim humus.i, terra.” Está decidido: o homem é originariamente preto.
Carl Sagan, Shakespeare. Começa e termina com-poeira. Ca’poeira luta metafísica… Alergia à vida.
“essa primazia da cura emerge no contexto da concepção conhecida em que o homem é apreendido como o composto de corpo e espírito.”
O homem é o que está vivo. O homem é originariamente irreligioso, eis sua essência mais recôndita. O animal para a vida do barro e da terra e moral. Zeus nunca é nosso responsável, i.e., nunca pagamos o preço pela venda da alma na fábula (nun-ca-veiramos, hamletianamente). Cristo como o não-homem (uma curiosidade).
Se uma moeda fôssemos, a Cura seria o valor ou o trabalho de oficialização estatal sobre o metal responsável por inseri-la em circulação (em qualquer ponto do ciclo).
“esse ente não é abandonado por essa origem, mas, ao contrário, por ela mantido e dominado enquanto for e estiver no mundo.” Esse o verdadeiro sentido da frase platônica deus é a medida de todas as coisas (do homem). Mas não significa que não foi o homem que atribuiu a medida, só quer dizê-lo objetivamente. Porque o homem não existe. Seria Prometeu acorrentado, mas nós somos livres. Não haverá punição pela transgressão. Tudo menos isso. Temos a chave da própria prisão e devemos usá-la enquanto é tempo. Ou enquanto o tempo é. A chave abre e roda a cunha. E também sela (o destino).
Desde os primórdios já era uma vez.
A menos que um dia a Hindo-China nos negasse, essa seria a interpretaçãofinal final e formal.
Questões preliminares:
1. É a coisa real (transcende a consciência do ser)? Resposta condensada: Esse modo de raciocínio é uma tautologia.
2. Se real o mundo externo (inanimado, fora da consciência), essa realidade é passível de prova? Resp.cndsd: Não. Mas é absurdo cobrar a prova.
3. A coisa, no Realismo, possui um ser-em-si (diferente de coisa-em-si ou noumeno, porém igualmente impossível, conforme verificaremos)? Resp.cndsd: Só o que existe é a coisa-para-o-ser, não um ser-para-a-coisa, apesar da nomenclatura enganosa de todas as traduções!
4. O que é a coisa chamada ‘realidade’? Resp.cndsd: A filosofia tradicional (antiga + moderna), que deve ser superada!
Elaboração das respostas condensadas acima (elas se fecham num círculo, e com isso se abrem para o Ser):
1., 2.
Instrumento tradicional de estudo do real: INTUIÇÃO
Instrumento fenomenológico (ontológico originário) de estudo do “real”: “A questão se o mundo é real e se o seu ser pode ser provado, questão que a pre-sença enquanto ser-no-mundo haveria de levantar – e quem mais poderia fazê-lo? – mostra-se destituída de sentido.”
O que é o mundo? A totalidade ou apenas a circunvisão do ser-aí? Não faz sentido falar num mundo da totalidade, pois sem a circunvisão do ser-aí, ele existindo ou não, ficaria fechado ao ser, e não nos interessa em nível ontológico a discussão ou investigação de um mundo tal (ôntico). Ou seja, devemos abandonar a analítica da empiricidade das coisas e da intuição (entidade dos sentidos do fenômeno), o que Heidegger chama por várias vezes de entes já dados ou a priori. (FILOSOFIA ATÉ KANT, incluindo Hegel, pois originariamente falando Hegel vem antes de Kant, retroage em relação à precedência cronológica do primeiro. Além disso, do prisma heideggeriano, a intuição e o espaço-tempo kantianos são ainda empirismo, i.e., realismo, investigação tradicional.)
“Essa confusão das questões, o confundir-se doque se quer comprovar com o que se comprova e com a comprovação, mostra-se na <refutação do idealismo> de Kant. Kant chamou de <escândalo da filosofia e da razão humana em geral> o fato de ainda não se dispor de uma prova definitiva, capaz de eliminar todo ceticismo a respeito da <presença (Dasein) das coisas fora de nós>” Ou seja, ceticismo a respeito do real, nada a ver com o ser-aí. Schopenhauer sabia, ainda que pelas razões erradas, que o Idealismo era o vencedor na velha contenda Idealismo x Realismo, que pendeu para o lado do realismo durante a proeminência dos filósofos franceses e britânicos e que havia estagnado na época do criticismo kantiano, chegando a seu suposto termo metafísico dada sua solução negativa. Hegel podia até ser idealista, mas sua fé transcendental em algo completamente não-observável (a teleologia) compromete posicioná-lo ao lado de Schopenhauer em alguma coisa, ainda que coincidam em nomenclatura por poucas linhas!
“De início, deve-se observar explicitamente que Kant usou o termo <presença> (Dasein) para designar o modo de ser que, na investigação precedente, nós chamamos de <ser simplesmente dado>. <Consciência de minha presença> significa para Kant: consciência de meu ser enquanto ser simplesmente dado no sentido de Descartes.” K. funde ser e ente, ou mais exatamente consciência e objeto (eis o espírito do criticismo).
A PROVA A PRIORI DOS 9: “A prova da <presença das coisas fora de mim> sustenta-se no fato de que transformação e permanência pertencem, de modo igualmente originário, à essência do tempo.”
“alguma coisa permanente simplesmente dada” em Kant são espaço, tempo e causa.
“Na verdade, a prova não consiste numa conclusão causal e por isso não guarda as suas inconveniências.” “Num primeiro momento, tem-se a impressão de que Kant abandonou o princípio cartesiano da preexistência de um sujeito isolado. (…) O fato de Kant fornecer uma prova da <presença das coisas fora de mim> já mostra que, nessa problemática, ele toma o sujeito, o <em mim>, como ponto de apoio. (…) a experiência do <tempo> que a prova inclui só se faz <em mim>.” Quando eu é/sou o solo, morre-se/morro no abismo, pois o eu é sempre a instância mais fraca na metafísica ocidental.
“O que Kant prova é o ser simplesmente dado necessariamente em conjunto de um ente que se transforma e um que permanece. Essa equiparação de 2 seres simplesmente dados ainda não diz o simplesmente-dar-se-em-conjunto-de-sujeito-e-objeto.”
“Kant pressupõe a diferença e o nexo entre <em mim> e <fora de mim> – o que é correto do ponto de vista do fato, mas incorreto no sentido a que tende a sua prova. (…) Mas mesmo que se visse o todo da diferença e o nexo entre <dentro> e <fora>, pressuposto na prova, e se concebesse ontologicamente o que nessa pressuposição é pressuposto, ainda ruiria a possibilidade de se considerar como necessária e ainda ausente a prova da <presença das coisas fora de mim>.
O <escândalo da filosofia> não reside no fato dessa prova ainda inexistir e sim no fato de sempre ainda se esperar e buscar essa prova. (…) O modo de ser desse ente que prova e exige provas é que é subdeterminado.” Chega de fora, dentro, exterior e interior! Só o que há é a unidade do ser-aí-no-mundo.
“A pre-sença, entendida corretamente, resiste a tais provas porque ela já sempre é, em seu ser, aquilo que as provas posteriores supõem como o que se deve necessariamente demonstrar.”
“sujeito desmundanizado ou inseguro acerca de seu mundo.”
3., 4.
“O <problema da realidade>, no sentido da questão se um mundo exterior é simplesmente dado e se é passível de comprovação, apresenta-se como um problema impossível. Não porque tenha por conseqüências aporias intransponíveis, mas porque o próprio ente que é tematizado recusa esse modo de colocar a questão. O que se deve não é provar o fato e como um <mundo exterior> é simplesmente dado, e sim de-monstrar por que a pre-sença,¹ enquanto ser-no-mundo, possui a tendência de 1º sepultar epistemologicamente o <mundo exterior> em um nada negativo para então permitir que ele ressuscite mediante provas.” “Se, nessa orientação ontológica, o modo de colocar a questão for <crítico>, encontra então um mero <interior> enquanto o único ser simplesmente dado certo e seguro.”
¹ A presença ainda muito sentida de Kant!
“Na medida em que, na proposição existencial, não se nega o ser simplesmente dado dos entes intramundanos, ela concorda – por assim dizer doxograficamente [como que por analogia, pois a ‘opinião’ ou o método dá no mesmo desfecho] – com a tese do realismo. (…) O que a separa do realismo é a incompreensão ontológica de que sofre o realismo. Ele tenta esclarecer a realidade onticamente mediante o contexto efetivo e real entre as coisas reais.
Com relação ao realismo, o idealismo possui uma primazia fundamental, por mais oposto e insustentável que seja no que respeita aos resultados, desde que ele próprio não se compreenda equivocadamente como idealismo <psicológico>. Quando o idealismo acentua que ser e realidade apenas se dão <na consciência>, exprime, com isso, a compreensão de que o ser não deve ser esclarecido pelo ente [mundo, neste contexto]. Na medida, porém, em que não se esclarece o fato de aqui se dar uma compreensão do ser e o que diz ontologicamente essa compreensão, i.e., como lógica da pre-sença, o idealismo constrói no vazio a interpretação da realidade.”
“Se o título idealismo significar o mesmo que compreender a impossibilidade de se esclarecer o ser pelo ente mas que, para todo ente, o ser já é o <transcendental>, então é no idealismo que reside a única possibilidade adequada de uma problemática filosófica.” Como já ressaltado, de uma forma um tanto estrambótica é que Kant e Schopenhauer adquiriram este saber. Kant é uma espécie de “mago da filosofia moderna” ao reunir os epítetos de campeão dos céticos (‘o’ criticista) e ao mesmo tempo o de formador da filosofia transcendental(sintética).
“Se, porém, idealismo significar a recondução de todo ente a um sujeito ou a uma consciência que, por sua vez, se caracteriza como o que permanece indeterminado em seu ser, sendo, no máximo, caracterizado negativamente como uma <não-coisa>, [PRIVILEGIADO de forma inexplicável – o limite dos idealismos ‘fajutos’ de Fichte e Hegel – apesar da clivagem notável de qualidade e profundidade entre os 2, é precisamente aqui que um é tão raso quanto o outro…] então, do ponto de vista do método, esse idealismo se mostra tão ingênuo quanto o realismo mais grosseiro.” Sch. como que evita ou faz uma administração de danos nesse tocante ao tirar da “cartola ontológica” sua Vontade. Pois não é o indivíduo que rege seu sistema: a Vontade É a coisa-em-si. Nietzsche chega ainda mais longe: descarta a coisa-em-si, ‘aperfeiçoa’ a vontade, ao imanentizá-la ao máximo (limite da metafísica pré-fenomenológica no sentido husserliano?). Heidegger vai com asserção batizar esse método na continuidade deste parágrafo, sem citar o autor: “orientação ‘perspectivista’”.
Scheler como um elo entre o kantismo e o ‘ontologismo’ husserl-heideggeriano: fracassou porque apesar dos pequenos avanços fenomenológicos insistiu em que o problema estava no refino do aparato epistemológico, o que no entanto não é verdade, pois do ponto de vista epistemológico o kantismo já havia de certo modo chegado ao limite da questão nas bases ‘clássicas’.
“[Em Dilthey] Realidade é resistência ou, mais precisamente, o conjunto das resistências. A elaboração analítica do fenômeno de resistência constitui o ponto positivo do referido tratado e a melhor confirmação concreta da idéia de uma <psicologia descritiva e classificatória>.” “[Porém] O <princípio da fenomenalidade> impediu Dilthey de chegar a uma interpretação ontológica da consciência.” “…a remissão ontológica da consciência ao próprio real, tudo isso necessita de uma determinação ontológica. [de onde vêm as vontades e seus freios à consciência?]” “Interpretar ontologicamente a pre-sença, porém, não significa uma recondução ôntica a um outro ente.”
“A análise ontológica dos fundamentos da <vida> não pode ser acrescentada posteriormente como uma infra-estrutura. É ela que carrega e condiciona a análise da realidade, bem como toda explicação do conjunto das resistências e de suas pressuposições fenomenais.”
“abre-se algo pelo que impulso e vontade se empenham.” “O próprio empenho… que se depara com resistência, e é o único que pode se deparar, já se acha junto a uma totalidade con-juntural.” “o <ser-contra> e o <ser oposto> são sustentados pelo ser-no-mundo que já se abriu. § Resistência também não é experimentada num impulso ou vontade que <emergem> por si mesmos. Impulso e vontade mostram-se como modificações da cura.”
“Resistência caracteriza o <mundo externo>, no sentido dos entes intramundanos mas nunca no sentido de mundo. <Consciência da realidade> é ela mesma um modo de ser-no-mundo.
Caso o <cogito sum> deva servir como ponto de partida da analítica existencial da pre-sença, então é preciso não apenas revertê-lo mas reconfirmar, de modo ontológico-fenomenal, o seu conteúdo. A 1ª proposição seria: <sum> no sentido de eu-sou-em-um-mundo.” “Descartes diz, ao invés: cogitationes são simplesmente dadas”
* * *
“A <natureza> que nos <envolve> é, na verdade, um ente intramundano [coisa] que, no entanto, não apresenta o modo de ser do que está à mão nem de algo simplesmente dado no modo de <coisidade da natureza>.”
“realidade não possui primazia no âmbito dos modos de ser dos entes intramundanos, assim como esse modo de ser não pode ser caracterizado adequadamente, do ponto de vista ontológico, como mundo ou pre-sença.”
“O fato de a realidade se fundar ontologicamente no ser da pre-sença não pode significar que o real só poderá ser em si mesmo aquilo que é se e enquanto existir a pre-sença.
De fato, apenas enquanto a pre-sença é, ou seja, a possibilidade ôntica de compreensão do ser, <dá-se> ser. Se a pre-sença não existe, também nem <independência> nem <em si> podem <ser>.” Sem o sujeito observador, o real não seria real.
“Agora pode-se realmente dizer que, enquanto houver compreensão do ser e com isso compreensão do ser simplesmente dado, então o ente prosseguirá a ser.
A dependência caracterizada, não dos entes, mas do ser em relação à compreensão do ser, i.e., a dependência da realidade [de um modo do real] e não do real em relação à cura, assegura o prosseguimento da analítica da pre-sença de não resvalar numa interpretação não-crítica que, guiada pela idéia de realidade, sempre de novo tenta se impor.” Não existe um sentido indiferente para realidade.
O SER-DO-ENTE É SÓ O INÍCIO: “a compreensão do ser como ente [em si] só é possível se o ente possui o modo de ser da pre-sença.” “A primeira descoberta do ser-dos-entes com Parmênides <identifica> o ser com a compreensão que percebe o ser.” Descrever aquilo que é, como ele é, implica que a coisa tenha um ser. Logo, a preocupação sempiterna dos filósofos com o ser e a verdade eram, precipuamente, a preocupação com a relação ser e coisa.
“A investigação toma agora um novo princípio.” “A investigação evidenciará que a questão sobre o modo de ser da verdade pertence necessariamente à questão sobre a <essência> da verdade. Daí se segue o esclarecimento do sentido ontológico da afirmação de que <verdade se dá> e do modo em que necessariamente <se deve pressupor> que <se dá> verdade.”
A VERDADE CLÁSSICA NA ERA TRÁGICA DOS GREGOS:“1. O <lugar> da verdade é a proposição (o juízo). 2. A essência da verdade reside na <concordância> entre o juízo e seu objeto. 3. Aristóteles, o pai da lógica, não só indicou o juízo como o lugar originário da verdade, como também colocou em voga a definição da verdade como <concordância>.”
O mundo é bom. Nós só temos de achar onde.
Isaak Israelis > Avicenna > Tomás de Aquino
“A antiga e famosa questão, com a qual se supunha colocar os lógicos em apuros, é a seguinte: O que é verdade?”Brentano
“Verdade ou aparência não se encontram no objeto na medida em que ele se dá na intuição e sim no juízo a seu respeito, na medida em que é pensado.”Ainda uma questão da justa opinião de Parmênides…
Que caráter ontológico possuem essa opinião e essa coisa?
“O que significa o termo <concordância>?”
“Assinalar é uma relação entre o sinal e o assinalado mas não uma concordância. Decerto, nem toda concordância significa uma espécie de convenientia, tal como se fixou na definição da verdade. [Aristóteles e escolásticos] O número 6 concorda com 16 – 10. Os números concordam e são iguais, no tocante à quantidade. Igualdade é um modo de concordância. A ela pertence estruturalmente uma espécie de <perspectiva>.”
“Em que perspectiva intellectus e res concordam?”
“A <concordância> tem o caráter da relação <assim como>.”
APORIA: “Segundo a opinião geral, só o conhecimento é verdadeiro. Conhecer, porém, é julgar. Em todo julgamento, deve-se distinguir a ação de julgar enquanto processo psíquico real e o conteúdo julgado enquanto conteúdo ideal. Deste último, diz-se que é <verdadeiro>. Em contrapartida, o processo psíquico real é simplesmente dado ou não.” “Será um acaso o fato desse problema há mais de 2 milênios não sair do lugar? Ou será que o descaminho da questão consiste em seu ponto de partida, ou seja, na separação ontologicamente não-esclarecida entre real e ideal?” “Não será que a realidade do conhecimento e do juízo se rompe em 2 modos de ser ou <camadas>, cuja sutura jamais chegará a alcançar o modo de ser do conhecimento?” “A definição aparentemente arbitrária, [feita por nós, os fenomenólogos] contudo, apenas traz uma interpretação necessária daquilo que a tradição mais antiga da filosofia pressentiu de maneira originária, e chegou a compreender pré-fenomenologicamente.”
“A tradução pela palavra verdade e, sobretudo, as determinações teóricas de seu conceito encobrem o sentido daquilo que os gregos, numa compreensão pré-filosófica, estabeleceram como fundamento <evidente> do uso terminológico de ALETHEIA.
A adução desses testemunhos deve resguardar-se de uma mística desenfreada das palavras; entretanto, o ofício da filosofia é, em última instância, preservar a força das palavras mais elementares, em que a pre-sença se pronuncia a fim de que elas não sejam niveladas à incompreensão do entendimento comum, fonte de pseudoproblemas.”
“A <definição> proposta da verdade não é um repúdio da tradição mas uma apropriação originária” “A <definição> da verdade como descoberta e ser-descobridor também não é uma mera explicação de palavras. (…) Ser-verdadeiro enquanto ser-descobridor é um modo de ser da pre-sença. O que possibilita esse descobrir em si mesmo deve ser necessariamente considerado <verdadeiro>, num sentido ainda mais originário.” “A presença [enquanto em modo de ser mais próprio, e não da impropriedade mundana e cotidiana] é e está <na verdade>.” “A verdade da existência é a abertura mais originária e mais própria que o poder-ser da pre-sença pode alcançar.” “Em sua constituição ontológica, a pre-sença é e está na <não-verdade> porque é, em sua essência, de-cadente.” “É por isso que, em sua essência, a pre-sença tem de explicitamente tomar posse do que se descobriu contra a aparência e a distorção e sempre se reassegurar da descoberta.” “A descoberta em seu fato é, ao mesmo tempo, um roubo.” “O fato da deusa-verdade de Parmênides colocá-lo diante de 2 caminhos, um do descobrimento, e outro do velamento, significa simplesmente que a pre-sença já está sempre na verdade e na não-verdade. O caminho do descobrimento só é conquistado na cisão compreensiva entre ambos e no decidir-se por um deles.”
“O que se pronuncia [proposições epistemológicas] torna-se, por assim dizer, um manual intramundano que pode ser retomado e propagado.” “A proposição pronunciada é um manual de tal modo que traz em si mesma uma remissão ao ente descoberto, na medida em que preserva a descoberta.” “A própria remissão se dá como algo simplesmente dado.”
“O juízo contém algo que vale para os objetos” Kant
Modo impróprio: descoberta conformidade (ouvir-dizer – a pre-sença se fecha no falatório), i.e., concordância
“Com isso fica demonstrado o caráter ontologicamente derivado do conceito tradicional de verdade.” Refutação da lógica aristotélica ou não-lógica da pre-sença.
“A tese de que o <lugar> genuíno da verdade é o juízo não apenas é erroneamente atribuída a Aristóteles como constitui, no que respeita a seu conteúdo, um desconhecimento da estrutura da verdade.” “A <verdade> mais originária é o <lugar> da proposição e a condição ontológica de possibilidade para que a proposição possa ser verdadeira ou falsa [juízo apofântico].”
“As leis de Newton, o princípio de contradição, toda verdade em geral só é verdade enquanto a pre-sença é. Antes da pre-sença e depois da pre-sença não havia verdade e não haverá verdade porque, nesse caso, a verdade não pode ser enquanto abertura, descoberta e descobrimento.” “As leis de Newton, antes dele, não eram nem verdadeiras nem falsas. Isso não pode significar que o ente que elas, descobrindo, demonstram não existisse antes delas. As leis se tornam verdadeiras com Newton.” A mesma bastardização evidentecopiada por Latour no fim do mesmo século. “Veja que os micróbios já existiam, só não para a ciência pré-microbiológica!”
“O fato de se darem <verdades absolutas> só pode ser comprovado de modo suficiente caso se logre demonstrar que, em toda a eternidade, a pre-sença foi e será. Enquanto não houver essa prova, a sentença será apenas uma afirmação fantástica que não recebe nenhuma legitimidade apenas porque os filósofos geralmente nela <acreditaram>.” Enquanto o homem existir, haverá verdade. Somos o novo absoluto. O homem e o deus-do-homem são a medida inexorável de todas as coisas.
“Será que a verdade, compreendida de modo adequado, se vê lesada pelo fato de, onticamente, só ser possível no <sujeito>, e de depender do ser-do-sujeito?”
“Não somos nós que pressupomos a <verdade>, mas é ela que torna ontologicamente possível que nós sejamos de modo a <pressupor> alguma coisa. A verdade possibilita pressuposições.
O que diz <pressupor>? Compreender alguma coisa como a base e o fundamento do ser de um outro ente.” “Devemos <fazer> a pressuposição de verdade porque ela já se <fez> com o ser do <nós>.”
“<Em si> não se pode perceber por que o ente deve ser descoberto, por que deve haver verdade e pre-sença. A objeção corriqueira do ceticismo, a negação do ser ou da possibilidade de se conhecer a <verdade> estão a meio caminho.” O ceticismo demonstra que “a verdade pertence à[o modo de ser da] proposição”. “Ademais, desconsidera-se o fato de que, mesmo quando ninguém emite um juízo, já se pressupõe a verdade na medida em que a pre-sença é.”
“O cético, quando o é de fato, no modo da negação da verdade, não precisa ser refutado. Na medida em que é e se compreendeu nesse ser, ele dissolve a pre-sença e, com isso, a verdade, no desprezo do suicídio.” “a pre-sença não pode ser colocada para si mesma à prova.”
CONTRA O SUJEITO IDEAL: “Não pertence ao a priori do sujeito de fato [empírico], ou seja, à facticidade da pre-sença, a determinação de que ela é e está, de modo igualmente originário, na verdade e na não-verdade?” A partir de qualquer instante, a partir de qualquer local. “A recusa de uma <consciência em geral> não significa a negação do a priori assim como a suposição de um sujeito idealizado não garante a aprioridade da pre-sença fundada no real. § Afirmar <verdades eternas> e confundir a <idealidade> da pre-sença, fundada nos fenômenos, com um sujeito absoluto e idealizado, pertencem aos restos da teologia cristã no seio da problemática filosófica, que de há muito não foram radicalmente expurgados.” [DV]
“Mas será que com o fenômeno da Cura se abriu a constituição ontológico-existencial mais originária da pre-sença? Será que a multiplicidade estrutural, que se encontra no fenômeno da Cura, oferece a totalidade mais originária do ser de fato da pre-sença? Será que a investigação feita até aqui já permitiu ver o todo da pre-sença?” Só o tempo nos dirá, mas não no âmbito de Heidegger…
DIC:
apofântico: “[Lógica] Na lógica aristotélica, relativo aos enunciados verbais possíveis de serem falsos ou verdadeiros.” Ao dizer isso, Aristóteles diz que a palavra, isto é, o logos, conhecimento, pode ser verdadeiro ou falso, dependendo do contexto em que o discurso é enunciado ou proposto.
originário (em Heidegger): aquilo que é próprio e autêntico, pertencente ao ser-aí no seu sentido mais profundo e existencial, além de já contemplar a própria existencialidade, i.e., um projeto totalizante da vida. O mal-entendido com a função de “mais antigo” que poderia adquirir para um leitor incauto se deve à noção de “preceder-se a si mesmo” do ser-aí.
FIM DO PRIMEIRO VOLUME
SEGUNDA SEÇÃO:
Pre-sença e temporalidade[de certo modo decepcionante, pálido reflexo da 1ª]
“Mas o que significa originariedade de uma interpretação ontológica?”
“Toda interpretação possui sua posição prévia, visão prévia e concepção prévia. No momento em que, enquanto interpretação, se torna tarefa explícita de uma pesquisa, então o conjunto dessas <pressuposições>, que denominamos de situação hermenêutica, necessita de um esclarecimento prévio que, numa experiência fundamental, assegure para si o <objeto> a ser explicitado. Uma interpretação ontológica deve liberar o ente na constituição de seu próprio ser.”
“Uma interpretação ontológica originária, no entanto, não exige somente uma situação hermenêutica segura e ajustada aos fenômenos, mas deve assegurar-se, explicitamente, de ter levado todo o ente tematizado a sua posição prévia. Também não é suficiente uma descrição preliminar do ser-desse-ente, mesmo que fundada em bases fenomenais. A visão prévia do ser deve respeitar-lhe, sobretudo, a unidade dos momentos estruturais possíveis e pertinentes. Só então é que se pode colocar e responder com segurança fenomenal a questão do sentido da unidade da totalidade ontológica de todo o ente.
Será que a análise existencial da pre-sença, anteriormente realizada, nasceu de uma tal situação hermenêutica, de modo a se ter conquistado uma garantia de originariedade, exigida pela ontologia fundamental?”
“a caracterização ontológica da constituição existencial ainda guardou uma falta essencial.” “[Já que investigamos a pre-sença em sua medianidade a fundo apenas,] Enquanto não se incorporar a estrutura existencial do poder-ser próprio à idéia de existência, a visão prévia, orientadora de uma interpretação existencial, ressentir-se-á de originariedade.”
“A cotidianidade é justamente o ser <entre> nascimento e morte.” “O ente cuja essência é constituída pela existência resiste, de modo essencial, à sua possível apreensão como ente total. A situação hermenêutica não apenas não assegurou a <posição> de todo o ente como é até questionável se isso, por fim, se pode alcançar e se uma interpretação ontológica originária da pre-sença não estará fadada ao fracasso, considerando-se o modo de ser do próprio ente tematizado.” Confissões, do ex-seminarista Martin Heidegger
“O <fim> do ser-no-mundo é a morte.”
“conceito existencial da morte”
“ a morte é um ser-para-a-morte existenciário [ôntico]”
“Mas será que a pre-sença pode existir toda ela de modo próprio?”
“um poder-ser próprio da pre-sença reside no querer-ter-consciência.” Já sempre quis e já sempre teve (o homem).
Provavelmente um terceiro volume teria de se embrenhar na questão: CURA & TÉCNICA.
“A cotidianidade desentranha-se como modo da TEMPORALIDADE.”
“a cura deve precisar de <tempo> e, assim, contar com <o tempo>.”
“conceito tradicional de tempo”
temporalidade e intratemporalidade “temporalização da temporalidade”;
“temporalização ainda mais originária da temporalidade”
“O projeto de um sentido do ser em geral pode-se realizar no horizonte do tempo.”
(*) “No séc. XIX, Kierkegaard concebeu, explicitamente, o problema da existência como existenciário, refletindo a seu respeito com profundidade. (…) ele, contudo (…) encontra-se inteiramente sob o domínio de Hegel e da filosofia antiga vista por este último.” Como que de propósito, parece que não haverá uma singular referência ao filósofo que tem a chave potencial da hermenêutica metafísica de Heidegger…
1. A POSSIBILIDADE DA PRE-SENÇA SER-TODA E O SER-PARA-A-MORTE
“A possibilidade da pre-sença ser-toda contradiz, manifestamente, a cura que, de acordo com seu sentido ontológico, constitui a totalidade do todo estrutural da pre-sença.” Tradução para nosso idioma: A possibilidade do instante em primeira pessoa (o momento presente) ser um todo universal e completo, autônomo, contradiz de forma óbvia a existência do início ao fim do ser, i.e., sua vida em si mesma, que abarca o próprio instante, aliás, milhões de instantes, sendo ela realmente a última instância.
O especial do instante é que no momento primordial da vida, ele já estava lá.
“A falta de esperança, p.ex., não retira a pre-sença de suas possibilidades, sendo apenas um modo próprio de ser para essas possibilidades.” “Contudo, esse momento estrutural da cura diz, sem ambigüidades, que, na pre-sença, há sempre algo pendente, que ainda não se tornou <real>, como um poder-ser de si mesma.” E nem irá.
(*) “Reservou-se findar para exprimir o fim próprio da pre-sença [senciência] e finar para o fim dos demais seres vivos.”
(*) “A palavra portuguesa impendente exprime a experiência do que é iminente. [de forma bem ruim, eu diria!] Por conservar a mesma derivação de pendente [e no alemão –stand] traduziu-se Bevorstand por impendente.” Na verdade a tradução se escurou no Inglês, em que impending = iminente.
(*) “SELBST = SI-MESMO
Cf. N34 da 1ª parte, o termo alemão selbst exprime tanto próprio como si-mesmo. Considerando-se que na 2ª parte o que está em questão é o poder-ser todo em sentido próprio da pre-sença, a tradução deixou predominar o termo si-mesmo para diferenciar, no horizonte da identidade, de próprio (eigen).”
(*) “Ruf e todos os seus derivados provêm do verbo rufen cujo sentido é chamar. Os desdobramentos e as nuanças dessa experiência se explicitam através das derivações oriundas do acréscimo de prefixos cujas correspondências em português se procurou construir com as derivações por prefixo do étimo latino clamor.”
(*) “ENTSCHLOSSENHEIT = DE-CISÃO [DESTRANCABILIDADE, retorno à unidade]
A palavra alemã é um derivado do verbo schliessen que significa fechar, trancar. O prefixo ent acrescenta a idéia de um movimento em sentido contrário e daí o significado de destrancar, abrir. Uma das modalidades de exercício da pre-sença é o destrancar-se e abrir-se para… que, no tocante à dinâmica de si-mesma, designa a experiência de determinação, resolução. [de-terminação, re-solução, acabamento] Para exprimir toda essa envergadura de sentido, a tradução se valeu do processo semelhante designado pela palavra de-cidir, de-cisão cujo sentido primordial se constrói em torno do movimento de arrancar, separar (scindere).”
(*) DE VOLTA À ANTROPOLOGIA NIETZSCHE-MAUSSIANA (Ver O desejo de Deleuze):¹ “O sentido originário de Schuld usado por H. explica claramente no texto em que medida é justificada a tradução desse termo por débito.”
(*) “Porque Zukunft [futuro] é uma derivação de zukommen (ad-vir), a tradução guardou o termo porvir.”
(*) “GEWESENHEIT = VIGOR DE TER SIDO[era melhor simplesmente VIGORADO, que já contém a essência da explicação que segue, mantém a brevidade e a terminação de PASSADO!]
A palavra alemã é uma derivação do verbo wesen que significa vigir, vigorar, estar em vigor. Como substantivo, Gewesenheit e seus derivados conotam a dupla experiência de uma força que já se instalou e que continua atuante. Por isso a tradução optou pela expressão vigor de ter sido.”
(*) “GEGENWART = ATUALIDADE
GEGENWÄRTIGEN = ATUALIZAÇÃO
VERGEGENWÄRTIGEN = TORNAR ATUAL
A palavra Gegen-wart se compõe do verbo warten = esperar e da preposição gegen = contra e diante de. A palavra portuguesa presente não exprime, de modo algum, a conotação de adversidade e resistência ativas à espera. Uma vez que o horizonte ontológico de Gegenwart remete primordialmente à ação, a tradução reservou o termo atualidade para exprimir Gegenw.. Atualidade deriva-se do verbo agere = agir e conota a força de impor-se-a-…, guardando pois a dimensão de oposição e resistência.”
(*) “GEWÄRTIGEN = ATENDER
(…) ad-tendere = tender para, empenhar-se por.”
“No momento, porém, em que a pre-sença <existe>, de tal modo que nela nada mais esteja de forma alguma pendente, ela também não-mais-está-presente. Retirar-lhe o que há de pendente significa aniquilar o seu ser. [nada de poder-ser nem responsabilidade nem pôr-se em jogo]”
“E não se estaria, no fundo, supondo, sem nem se dar conta, a pre-sença como ser simplesmente dado, da qual sempre escaparia algo que simplesmente ainda não se deu?” Malandro nietzschiano! “Terá a argumentação apreendido o ainda-não-ser e o <preceder> em sentido genuinamente existencial?” R: Não!
“Teria a expressão <morte> um sentido biológico ou ontológico-existencial ou ainda um sentido delimitado de modo seguro e suficiente?” A despeito de que haja cem por cento de certeza que ela irá acontecer, não conte com o fenômeno da sua morte (enquanto em seu ser-aí próprio, para usar a nomenclatura de H.).
HOMEM: O animal que: pode experimentar a morte alheia.
“Levando-se ao extremo, o não-mais-ser-no-mundo do morto ainda é também um ser, na acepção do ser simplesmente dado de uma coisa corpórea. (…) O fim de um ente, enquanto pre-sença, é o seu princípio como mero ser simplesmente dado.”
“preocupação reverencial”
“É a partir do mundo que os que ficam ainda podem ser e estar com ele.”
Esse encaminhamento me surpreendeu: “A indicação da morte dos outros como tema sucedâneo para a análise ontológica da conclusão e totalidade da pre-sença repousa ainda sobre uma pressuposição, que mostra um inteiro desconhecimento do modo de ser da pre-sença.”
Porém… “Mas será, na realidade, essa pressuposição tão desprovida de fundamento?”
“O conceito médio de exitus não se identifica com o conceito de finar.” Semelhança acústica desconcertante com êxito. Exeunt.
“Estar pendente e faltar são co-pertinentes.”
“Estar pendente significa, portanto: o que é co-pertinente ainda não está a-juntado.”
suce-SÃO
Na coisa (ente), faltas ou pendências são determinadas por somas de outras coisas que, na terminologia heideggeriana, “estão à mão”, i.e., simplesmente dadas.
A quarta dimensão do problema do ser é, portanto, o tempo, aquilo que liga o que somos ao que falta sermos, ao que seremos.
“Pode-se dizer, p.ex., da lua que o último quarto ainda está pendente até chegar à lua cheia. O ainda-não míngua com o desaparecimento da sombra que oculta.” “Esse ainda-não refere-se unicamente à apreensão perceptiva.” Porque, na lua nova, é impendente o surgimento da lua cheia. (ciclo natural)
“O fruto imaturo, p.ex., encaminha-se para o seu amadurecimento.” E lá vai Hegel…
O que alcançou a maturidade quer morrer (desaparecer, regredir, etc. – aquilo que for possível segundo o objeto tratado!).
“a pre-sença tem tão pouco necessidade da morte para chegar à maturidade que ela pode ultrapassá-la antes do fim.” Ex: o humano mantido em animação artificial sem sinais vitais no cérebro.
“Em que sentido a morte deve ser concebida como findar da pre-sença?”
MORTE QUÂNTICA: “Na morte, a pre-sença nem se completa, nem simplesmente desaparece nem acaba e nem pode estar disponível à mão.”
“A morte é um modo de ser que a pre-sença assume no momento em que é. <Para morrer basta estar vivo>.”
“A tentativa de se alcançar uma compreensão da totalidade, dotado do caráter de pre-sença, tomando-se como ponto de partida um esclarecimento do ainda-não e passando-se pela caracterização do fim, não logrou sua meta. Ela só mostrou negativamente que o ainda-não, que cada pre-sença é, recusa sua interpretação como o pendente.”
“Essa pesquisa ôntico-biológica da morte tem por base uma problemática ontológica. Permanece em questão como a essência da morte se determina a partir da essência ontológica da vida. De certo modo, a investigação ôntica da morte sempre-já se decidiu sobre essa questão.” O século XX seria o século-mor dessa “representação ôntica esclarecida”.
“a pre-sença nunca fina.”
a presença nunca afina
agora ela não afina, nem ontem, nem amanhã,
porque ela é grossa e ríspida,
invencível insuperável!
pode te deitar por terra
num instante…
“Uma <tipologia> do <morrer>, entendida como caracterização dos estados e dos modos em que se <vivencia> esse deixar de viver, já pressupõe o conceito de morte. Ademais, uma psicologia do <morrer> acaba fornecendo mais soluções sobre a <vida> <dos que morrem> do que propriamente sobre o morrer.”
Mas que bosta pára-normal se tornou esse tratado?“Caso se determine a morte como <fim> da pre-sença, i.e., do ser-no-mundo, ainda não se poderá decidir onticamente¹ se, <depois da morte>, um outro modo de ser, seja superior ou inferior, é ainda possível, se a pre-sença <continua vivendo> ou ainda se ela é <imortal>, sobrevivendo a si mesma.” Embora devamos conceder que quando H. põe entre aspas significa que não sai da “boca dele”. Ainda assim, sinto saudade da assertividade do século XIX, que FIN(D)OU no subseqüente.
¹ Verdade que – ontologicamente – a história é outra…
“Por fim, tudo o que se possa discutir sob a rubrica de uma <metafísica da morte> extrapola o âmbito de uma análise existencial da morte.” Existencial, ontológico e metafísico deveriam querer dizer a mesma coisa. Esse embrulho todo não enriquece a Primeira filosofia…
“Desde S. Paulo à Meditatio futurae vitae de Calvino, a antropologia elaborada na teologia cristã sempre viu a morte no seio da interpretação da <vida>. W. Dilthey, cujas tendências propriamente filosóficas se encaminham para uma ontologia da <vida>, não podia deixar de reconhecer o seu nexo com a morte.”
Unger, Herder, Novalis und Kleist. Studien über die Entwicklung des Todesproblems im Denken und Dichten von Sturm und Drand zur Romantik, 1922.
„Para a pre-sença, enquanto ser-no-mundo, muitas coisas podem ser impendentes.” “o impendente privilegiado” Mas impendente é tão feio que usarei sempre iminente destarte.
A iminência dos im-postos e não-postos e expostos e outpostos e sobrepostos e depostos.
“A angústia com a morte é angústia <com> o poder-ser mais próprio, irremissível e insuperável. O próprio ser-no-mundo é aquilo com que a angústia se angustia.”
Quem está lançado atinge um alvo.
Vampiros ou deuses ainda são humanos na fenomenologia.
“O discurso pronunciado ou, no mais das vezes, <difuso> sobre a morte diz o seguinte: algum dia, por fim, também se morre mas, de imediato, não se é atingido pela morte.” “mas eu não; pois esse impessoal é o ninguém.” “Escapar da morte encobrindo-a domina, com tamanha teimosia, a cotidianidade que, na convivência, os <mais próximos> freqüentemente ainda convencem o <moribundo> que ele haverá de escapar da morte e, assim, retornar à cotidianidade tranqüila de seu mundo de ocupações.”
“Em seu conto A Morte de Ivan Illich, Tolstoi expôs o fenômeno do abalo e do colapso desse <morre-se impessoal>.”
“No domínio público, <pensar na morte> já é considerado um temor covarde, uma insegurança da pre-sença e uma fuga sinistra do mundo.” É o estóico um covarde? “A cotidianidade pára no momento em que admite ambiguamente a <certeza> da morte a fim de enfraquecê-la e de aliviar o estar-lançado na morte, encobrindo ainda mais o morrer.”
“Estar-certo de um ente significa: ter por verdadeiro enquanto verdadeiro.”
“Assim como o termo <verdade>, a expressão <certeza> possui um duplo significado.”
“O ter-por-verdadeiro, enquanto manter-se-na-verdade, só se torna suficiente quando está fundado no próprio ente descoberto e se faz transparente como um ser-para-o-ente-assim-descoberto” “A suficiência do ter-por-verdadeiro se mede pela pretensão de verdade a que pertence.” “A certeza inadequada mantém encoberto aquilo de que está certa.”
“é certo que <a> morte vem.”A morte é o inferno, porque é temática para-os-outros.
“Ela permanece necessariamente aquém do maior grau de certeza, da certeza apodítica, alcançada em certas esferas do conhecimento teórico.”
“pensar-na-morte cansado e ineficaz”
“A indeterminação da morte certa determina as ocupações cotidianas, colocando-lhes à frente as urgências e possibilidades previsíveis do cotidiano mais próximo.”
“O escape de-cadante e cotidiano da morte é um ser-para-a-morte impróprio.” “Enquanto não se elaborar e determinar ontologicamente esse ser-para-a-morte em sentido próprio, a interpretação existencial do ser-para-o-fim perpetuará uma falta essencial.”
se, como, quando
“É a partir do real e com vistas a ele que o possível é absorvido no real pela espera.”
“Como possibilidade a proximidade mais próxima do ser-para-a-morte se acha, face ao real, tão distante quanto possível.”
rei-vindicação
“a pre-sença só pode ser propriamente ela mesma quando ela mesma dá a si essa possibilidade.” Quando o instante reflete em si mesmo, i.e., no único, no singular que é estar neste aí irremissível.
“Antecipando, a pre-sença evita recuar para trás de si mesma e da compreensão de seu poder-ser, evitando <tornar-se velha demais para as suas vitórias> (Nietzsche).” Finalmente cita sua inspiração-mor!
“Porque a antecipação da possibilidade insuperável inclui em si todas as possibilidades a sua frente, nela reside a possibilidade de se tomar previamente de modo existenciário toda a pre-sença, ou seja, a possibilidade de existir como todo o poder-ser.” Modo complicado de dizer: apreender a finitude da existência. Aprender a ocupar-se se preocupando ao mesmo tempo.
“Manter-se nessa verdade, ou seja, estar certo do que se abriu, exige justamente a antecipação.” Ninguém (nenhum “jovem”) tem qualquer abertura cotidiana para o fato de que é possível que morra antes dos 50. Eu sou o único que conheço a seguir esse “prazo”. Obviamente tenho planos para além do prazo, que no caso é a extensão-prorrogação do meu atual projeto. Se isso não se cumprir, não há prejuízo (como se houvesse prejuízos para um morto)… Se isso se cumprir, não há prejuízo, porque me preparo! Digo, minha biografia não será “manchada” ou “diminuída” na 1ª hipótese. Preciso agora cuidar com “pressa não-apressada” do que eu julgo mais importante. O deadline convertido em death-line. #NowPlaying Tribulation – Lady Death
“Para se alcançar a coisalidade, ou seja, a indiferença da evidência apodítica, a pre-sença precisa, primeiramente, perder-se na conjuntura das coisas – o que pode até constituir uma tarefa e uma possibilidade da cura.”
O ser ou não ser de Hamlet é uma antecipação exitosa ou falhada?
Talvez que ele só quisesse, como bom esgrimista, saber se iria ven-ser ou não ven-ser (pun intended).
“Como a compreensão antecipadora se projeta para um certo poder-ser continuamente possível, de maneira que sempre fique indeterminado quando a absoluta impossibilidade da existência tornar-se-á enfim possível?” Temos que ter um plano B para cada dia após o limite auto-estipulado em que sobrevivermos.
“O ser-para-a-morte-próprio é essencialmente angústia.”
SOBRE O SER-PARA-A-MORTE-IMPRÓPRIO: angústia infundada perigo real de morte temor covardia (o “não é possível que isso está acontecendo! agora não! o que farei?”, tão amado pelos filmes de terror hollywoodianos… – A PRÉ-ERA DA ANGÚSTIA)
“Com isso, surge também a possibilidade de a pre-sença poder-ser toda em sentido próprio, mas somente como uma possibilidade ontológica.” “Apesar disso, esse ser-para-a-morte existencialmente <possível> permaneceu, do ponto de vista existenciário, uma suposição fantástica.” Um fenômeno fantástico.
(s)urge do nada
“A questão sobre um ser todo da pre-sença em sentido próprio e sua constituição existencial só poderá ser colocada em bases fenomenais consistentes quando se conseguir atá-la a uma possível propriedade de seu ser, testemunhada pela própria pre-sença.” No fundo, o livro responde (ou se digna a tentar responder) apenas uma pergunta: quem tem a hegemonia, o impróprio ou o próprio do ser-aí?
2. O TESTEMUNHO SEGUNDO O MODO DE SER DA PRE-SENÇA, DE UM PODER-SER EM SENTIDO PRÓPRIO E A DE-CISÃO
“Recuperar a escolha significa escolher essa escolha, decidir-se por um poder-ser a partir de seu próprio si-mesmo.” “A auto-interpretação cotidiana da pre-sença conhece como voz da consciência aquilo que a seguir apresentaremos como testemunho.”
“A exigência de uma <prova empírico-indutiva> para o <fato> da consciência e para a legitimidade de sua <voz> significa uma deturpação ontológica desse fenômeno.” O modo de ser da consciência não é empírico.
“A análise mais profunda da consciência a desentranha como clamor. O clamor é um modo de discurso.”
Você (eu!) me deve uma satisfação!
“A interpretação da consciência haverá não apenas de ampliar a análise anterior da abertura do aí mas, sobretudo, de apreendê-la de forma mais originária com vistas ao ser da pre-sença em sentido próprio.” “a pre-sença <sabe> a quantas ela mesma anda na medida em que se projetou em possibilidades de si mesma ou, afundando-se no impessoal, recebeu da interpretação pública do impessoal as suas possibilidades.”
“o próprio do impessoal” X “o próprio de si-mesma”
O meu clamor se deu aos 19-21 anos. Quando eu me tornei eu mesmo.
“Devemos lembrar que a verbalização não é essencial nem para o discurso e nem para o clamor.”
“sobressalto brusco” “Só é atingido pelo clamor quem se quer recuperar.”
“Face a um fenômeno como a consciência, salta logo aos olhos a insuficiência ontológico-antropológica da classificação das faculdades da alma ou dos atos pessoais.”
“Além das interpretações da consciência empreendidas por Kant, Hegel, Schopenhauer e Nietzsche deve-se atentar para: M. Kähler, Das Gewissen, erster geschichtlicher Teil, 1878, e o artigo do mesmo autor na Realenzyklopädie f. prot. Theologie und Kirche. Além disso: A. Ritschl, Über Gewissen, 1876, reeditado nos Gesammelte Aufsätzen, 1896, p. 177s. E, por fim, a monografia há pouco publicada de H.G. Stoker, Das Gewissen (Schriften zur Philosophie und Soziologie, ed. por Max Scheler, tomo II, 1925). (…) [apesar de seus inúmeros defeitos,] A monografia de Stoker significa um avanço considerável frente à interpretação da consciência feita até hoje, mais pelo tratamento abrangente dos fenômenos da consciência e de suas ramificações do que pela de-monstração das raízes ontológicas do fenômeno.”
“Para que perspectiva se aclama? Para si-mesmo em sentido próprio. E não para aquilo que vale na convivência pública, não para o que ela pode ou de que se ocupa e, sobretudo, não para aquilo que a toma ou pelo que se engajou e se deixou arrastar.” “o impessoal sucumbe em si mesmo.” “Justamente no ultrapassar, o clamor empurra o impessoal para a insignificância.”
O si-mesmo não é um cientista investigador nem o comum dos mortais movido pela curiosidade (ocupações banais, ônticas).
“O que a consciência de-clama para o aclamado? Em sentido rigoroso, nada.”
“nada tem para contar”
Não se trata de dialética
É um chamamento. Com toda a incompreensão associada às religiões que isso pode desencadear. Afinal, é uma re-ligação.
“O discurso da consciência sempre e apenas se dá em silêncio.”
Ao sair de casa, abandone todas as esperanças (contato com-os-outros), lia-se no pórtico acima da portaria do próprio prédio, mas virado não para os pedestres ou eventuais visitas, e sim para o morador que sai para o trabalho…
“O que o clamor abre é, não obstante, unívoco e preciso, mesmo que possa sofrer interpretações diversas, segundo as possibilidades de compreensão de cada pre-sença singular. [umas mais, outras menos burras]”
intramundane divine intervention
o clamor é infalível: o sabor amargo da água é mera culpa do recipiente
Heidegger pensa que está inovando e abrindo novos horizontes filosóficos, mas tudo a que chega é a uma reescritura de Platão, ou seja, esta é uma obra sobre “o que é ser filósofo, afinal?”: “Embora jamais se descaracterize, quem clama também não oferece a menor possibilidade de tornar o clamor familiar para uma compreensão da pre-sença orientada <mundanamente>.”
“ele [o indeterminado] não aceita tagarelices a seu respeito.” O falatório, quem diria, é ensimesmado.
DANADINHO: “Na condição de aclamada, a pre-sença não se a-pre-senta diferentemente do que como clamante? Não será o seu poder-ser si-mesmo mais próprio o clamante?”
E a ironia do destino é que o clamor é impessoal! Outro “impessoal” que o heideggeriano…
(em azul, porque essa é minha própria história:) “O clamor <se faz> contra toda espera e mesmo contra toda vontade. Por outro lado, [ou pelo mesmo lado] o clamor, sem dúvida, não provém de um outro que é e está no mundo junto comigo. O clamor provém de mim e, no entanto, por-sobre-mim.” É o demônio de Sócrates, ingênuo Heidegger!
“atribui-se [na pre-sença dos burros] essa força instalada a alguém que dela tem posse ou ainda se a toma como uma pessoa que anuncia (Deus).” O erro fatal dos escravos do ser como simplesmente dado.
“Embora possa ficar velado para a pre-sença o seu porquê, o fato de ela ser de fato (sic) implica que o próprio <fato> já se tenha aberto para a pre-sença.”
“Na maior parte das vezes, porém, o humor fecha o estar-lançado.”
“a facilidade da liberdade pretendida pelo próprio-impessoal.” A questão é que para o filósofo o clamor é muito mais fácil do que “a liberdade lá fora”!
“o fato <cru> no nada do mundo.”
“O que poderia ser mais estranho para o impessoal, perdido no <mundo> das múltiplas ocupações, do que o si-mesmo singularizado na estranheza de si e lançado no nada?”
“O que mais retira tão radicalmente da pre-sença a possibilidade de deturpar a compreensão e o conhecimento de si do que a entrega e o abandono de si mesma?”
“Estranheza é, na verdade, o modo fundamental mas encoberto de ser-no-mundo.”
“A sentença: a pre-sença é, ao mesmo tempo, quem clama e o aclamado, perde agora o seu vazio formal e a sua evidência. A consciência revela-se como clamor da cura”
“Conclama-se a pre-sença, aclamando-a para sair da de-cadência no impessoal”
“Ei, você se precede a si mesmo, escute isso!”
Conhece-te o que és!
Torna-te aquilo que é a ti mesmo!
a mescla de me
“voz universalmente obrigatória”
“Essa aclamação afirmada nasce da <boa> ou da <má> consciência? Será que a consciência propicia algo positivo ou só funciona criticamente?”
“O que a consciência testemunha só poderá adquirir plena determinação caso se delimite, com clareza e suficiência, o caráter que deve ter o ouvir que genuinamente corresponde ao clamor.”
“Todas as experiências e interpretações da consciência convêm, de alguma maneira, que a <voz> da consciência fala de <débito>.” Ulisses, tu precisas fechar teu círculo! – demônio Atena
“Quem diz que nós somos e estamos em débito e o que significa débito?”Somos Adãos (Adões?) melhorados. Porque nascemos já adultos, mas com um verdadeiro passado infantil, ao contrário do protótipo de homúnculo cristão. Aprendemos a duras penas sobre a responsabilidade, não é comendo maçãs (malus) que lá chegamos… Não há cobra nesse conto. E é uma ascensão. Homem-foguete incircunciso.
eu sou, logo devo (uma vida e uma morte)
MUNDO PRÉ-NIETZSCHIANO: “De imediato, a compreensão cotidiana toma o <ser e estar em débito> no sentido de uma <dívida>, de <ter o rabo preso com alguém>.” Da alma com o corpo. Ou antes o inverso.
“ser a causa de alguma coisa”
Jesus é incompleto porque ele ainda se relaciona com o conceito de cura e débito dessa forma: pago pelos outros, sinto-culpa-com-os-outros. Porém, o clamor é apenas de si para si mesmo. A culpa verdadeira é autógena. Aquele que morreu por nós não importa mais: eu sou aquele que morrerá por mim mesmo.
EXISTIR É PESADO E SÓLIDO:
“O fundamento não precisa retirar o seu nada do que é por ele fundamentado.”
“Existindo, a pre-sença é o fundamento de seu poder-ser porque só pode existir como o ente que está entregue à responsabilidade de ser o ente que ela é. Embora não tendo ela mesma colocado o fundamento, a pre-sença repousa em sua gravidade que, no humor, se revela como carga.”
“Ser-fundamento diz, portanto, nunca poder se apoderar do ser mais próprio em seu fundamento. [a existência]”
“a própria pre-sença é um nada de si mesma.”
“Sem dúvida, a ontologia e a lógica atribuíram coisas demais ao não, tornando extensamente visível a sua possibilidade sem, no entanto, o ter desentranhado ontologicamente.”
“Porque toda dialética foge para a negação, sem fundamentar, dialeticamente, a própria negação mesmo que só para fixá-la como problema? Já se problematizou alguma vez a origem ontológica do nada ou, antes disso, já se buscaram as condições desse nada sobre as quais se funda o problema do não, de seu nada e de sua possibilidade?” Sim. Nie..
“o bonum e a privatio possuem a mesma proveniência ontológica que a ontologia do ser simplesmente dado, que se aplica igualmente à idéia de <valor> dela <haurida>.”
“Não se pode determinar o ser e estar em débito originário pela moralidade porque ela já o pressupõe.”
“Conclamação do ser e estar em débito não significaria, portanto, conclamação do mal?” Por que retroagir tanto, pulando o – ou dando as costas ao – século XIX, H.?
“Essa interpretação[, a] mais violenta de todas”
Algumas vezes na leitura, Heidegger parece me dizer: Só é necessário provar e comprovar aquilo que é necessário comprovar (em minha pesquisa e investigação). Mas não! Segundo seus próprios pressupostos, nem isso seria “necessário” “comprovar”!
A consciência não tem ouvidos. Ainda bem. Ou melhor: o ouvido não tem consciência.
“A cotidianidade toma a pre-sença como um manual de ocupação, ou seja, como gerência e cálculo. A <vida> é um <negócio>, independentemente se ela paga ou não o seu preço.” Já ontologicamente, não há manual algum e <sempre se paga o preço>, sendo filósofo entende-se e estende-se isso para o próprio ser-aí.
METAPHYSICAL DISPLAY OF POWER
com-dicção humana
“No fundo, a má consciência é tão pouco uma mera censura retroativa que ela reclama, sobretudo, numa referência antecipadora ao estar-lançado.” “Se já a caracterização da <má> consciência não alcança o fenômeno originário, isso vale ainda mais no que diz respeito à <boa> consciência, mesmo que esta seja considerada uma forma autônoma ou fundada essencialmente sobre a <má>.” “Na medida em que o discurso sobre a <boa> consciência nasce da experiência da consciência feita pela pre-sença cotidiana, isto apenas mostra que ela, mesmo quando se fala de <má> consciência, no fundo, não atinge o fenômeno.”Heidegger é desonesto em sua metodologia: devia simplesmente dizer, nessa seção do livro: eu li o livro Além do bem e do mal e remeto todos os verdadeiramente interessados pela questão do ser a ele.
“A teoria do valor, seja fundamentada formal ou materialmente, também abriga uma <metafísica dos costumes>, i.e., uma ontologia da pre-sença e da existência como pressuposto ontológico implícito.” “Recorrer ao âmbito de tudo o que a experiência cotidiana da consciência conhece como única instância para a sua interpretação só pode se legitimar caso reflita, primeiramente, se, neste nível, a própria consciência pode-se fazer acessível.”
“A interpretação comum pode pretender [pré-tender, hohoho!] sustentar-se nos <fatos>, limitando, nessa sua compreensão, a abrangência de abertura do clamor.” Eu, estudante universitário, deprimido, cada vez mais desimpessoalizado (na horrível nomenclatura heideggeriana), acumulando saber filosófico, à entrada da casa dos 20 anos, “transmuto-me”, muito influenciado por Nietzsche e Sartre, p.ex.. É claro que historiograficamente, i.e., onticamente, de forma rasa, tenderiam, numa biografia minha, a ver no ISOLAMENTO a causa-mor dessa “iluminação extra-moral”. Como todo incauto intérprete de Nietzsche e associados, me chamariam de louco ou pelo menos diriam “período conturbado”, “neurose criativa”, como o tal Ellenberger! Ora, é óbvio que o tal clamor tem de ter circunstâncias fenomênicas – com que tipo de exegetas infantilizados estamos lidando aqui?! Ocorre que foi indiscutivelmente a instância da abertura do meu ser-aí ao meu ser-no-mundo e ser-para-a-morte. Uma transformação absolutamente interna, tirando esse olhar crítico a posteriori, já que ninguém se deu conta, [meus colegas, professores, família] se estamos falando da compreensão platônica das coisas e não de sintomas vulgares de depressão.
“É a partir da expectativa de uma indicação útil das possibilidades de <ação> seguras, disponíveis e calculáveis que se sente a falta de um conteúdo <positivo> no que se clama.” E agora, o que eu vou fazer?! Passeio na calçada entre a UnB e minha casa, tangendo o colégio CEAN. Apenas seguir descascando, ou simplesmente parar e <viver>, se me der na telha, porque a indiferença é minha para quando <eu quiser>. Me aprofundar nessas leituras, como interesse máximo. Me formar e dar aula, como interesses comezinhos, ônticos. O que isso me diz? Errei na carreira, tive uma graduação turbulenta – mas e daí? Isso não fere o projeto ontológico, obviamente. Aqui estou, dando a ele a continuidade pressentida desde sempre. E o fato de eu ter me assegurado <no mundo>, financeiramente, i.e., praticamente, também nada diz sobre <obter um êxito dissimulado> (farisaísmo da boa consciência, como Heidegger coloca). Todas essas externalidades são o realmente indiferente da minha vida. O dispor de mais ou menos tempo para seguir em meu projeto seguem como preocupação secundária “de fundo”, o que mais me importa em relação a minha existência pública ou material! E ainda assim converto algo tão obtuso em escrita, i.e., criação artística.
“Com as máximas esperadas e precisamente calculadas, a consciência negaria à existência nada menos do que a possibilidade de agir.” Isso fica para o Rafael imediato, o mais profundo apenas assiste de camarote nessas horas, mas intervém se for o caso. Exemplo: Antecipe sua leitura de Ser e Tempo, está demorando demais!
“O querer-ter-consciência [todo esse processo do clamor] transforma-se em presteza para a angústia. [um saber (se) ouvir sabiamente]” “A consciência só clama em silêncio, ou seja, o clamor provém da mudez da estranheza e reclama a pre-sença conclamada para aquietar-se na quietude de si mesma.” O Rafael que desde pequeno era “tagarela demais” teve de se fechar para o outro se abrir: mas o primeiro Rafael ainda existe, com-os-outros, no mundo da impessoalidade.
“Chamamos de de-cisão essa abertura privilegiada e própria, testemunhada pela consciência na própria pre-sença, ou seja, o projetar-se silencioso e prestes a angustiar-se para o ser e estar em débito mais próprio.” “Quanto a seu <conteúdo>, o <mundo> à mão não se torna um outro mundo, o círculo dos outros não se modifica, embora, agora, o ser-para o que está à mão, em sua compreensão e ocupação, e o ser-com da preocupação com os outros sejam determinados a partir de seu poder-ser mais próprio.” É o além-homem apenas um filósofo na verdadeira acepção da palavra? Aquele que se desescravizou o homo oeconomicus, a instrumentalidade ultimada?
PRIMEIRA SOCIEDADE (OU COMO SE TORNAR ÉTICO): “A pre-sença de-cidida pode se tornar <consciência>-dos-outros. Somente a partir do ser si-mesma mais próprio da de-cisão é que brota a convivência em sentido próprio.” Ou seja, um querer-compor-um-humanismo.
“O decisivo é justamente o projeto e a determinação que, cada vez, abrem as possibilidades de fato. A indeterminação que caracteriza cada poder-ser de fato lançado da pre-sença pertence necessariamente à de-cisão.” “A de-cisão se apropria propriamente da não-verdade. A pre-sença já está e, talvez sempre esteja, na in-de-cisão. Esse termo designa apenas o fenômeno já interpretado como abandono à interpretação predominante do impessoal.” //Parmênides.
“Enquanto conceito inverso à de-cisão em sua compreensão existencial, a in-de-cisão não significa uma qualidade ôntica e psíquica, no sentido de sobrecarga de repressões.”
“Somente para-a-de-cisão é que pode ocorrer aquilo que chamamos de acaso, ou seja, o que lhe cai a partir do mundo circundante e do mundo compartilhado.” “Em contrapartida, a situação permanece essencialmente fechada, para o impessoal. Ele conhece apenas os <casos gerais> que se perdem nas <ocasiões> mais imediatas e contesta a pre-sença, calculando os <acasos>, os quais, por desconhecê-los, sustenta e professa como sua realização.” Kairos é ainda excessivamente pragmático e utilitarista enquanto conceito, pelo menos para a horda de idiotas que dele poderia querer se apropriar…
“Expor os traços fundamentais e as correlações das possibilidades de fato existenciárias bem como interpretá-las em sua estrutura existencial pertencem ao âmbito das tarefas da antropologia existencial.” Cf. Psicologia da Comovisão(tenho certeza que a tradução está diferente) de Jaspers.”¹ H. alerta: esta obra não deve ser usada como um manual tipológico das cosmovisões possíveis.
¹ Psychologie der Weltanschauungen; bem que pode ser esse também:Filosofia da existência: conferências pronunciadas na Academia Alemã de Frankfurt. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1973.
“Propriedade da pre-sença agora não é mais uma expressão vazia (…) Todavia, o sentido próprio do ser-para-a-morte enquanto poder-ser todo em sentido próprio, existencialmente deduzido, permanece um projeto puramente existencial, que ainda necessita de um testemunho da pre-sença.” Ou seja, H. procura a de-cisão geral desse ser-para-a-morte (do homem em geral). Digamos que a de-cisão em âmbito individual só diz respeito a nós, os superiores, nós os eleitos, etc. Mas me parece muita pretensão chegar a essa nova re-solução! Além disso, ele não sabe explicar como nós, os privilegiados, chegamos a ser privilegiados. Mas isso é inexplicável.
3. O PODER-SER TODO EM SENTIDO PRÓPRIO DA PRE-SENÇA E A TEMPORALIDADE COMO SENTIDO ONTOLÓGICO DA CURA
Demorou muito para incluir o tempo na problemática do ser, após a promessa na introdução!
“Não será que a tentativa de forçar a união entre de-cisão e antecipação não leva a uma construção insuportável, de todo não-fenomenológica, que nem é capaz de reivindicar o caráter de um projeto ontológico com base fenomenal?”
“Até aqui as discussões a respeito do método mantiveram-se em segundo plano.”
“A determinação do sentido ontológico da cura consiste na liberação da temporalidade.”
“A certeza da de-cisão significa: manter-se livre para uma retomada possível e de fato necessária.” “de-cidir com propriedade pela re-petição de si mesmo.” “A de-cisão antecipadora não é, de modo algum, um subterfúgio inventado para <superar> a morte.” “O querer-ter-consciência, determinado como ser-para-a-morte, também não significa um desprendimento do mundo, mas conduz, sem ilusões, à de-cisão do <agir>.” Quem se afasta da curiosidade mesquinha, se afasta também do mau idealismo. Não vive mais cinicamente, tampouco como um idealista sonhador caricato. O herói decidido e conclamado. Espírito-livre nietzschiano.
“A filosofia nunca haverá de querer contestar as suas <pressuposições> mas também não quererá admiti-las sem discussão. A filosofia concebe as pressuposições junto com os seus referentes e os submete a um desdobramento mais penetrante.”
“do ponto de vista ontológico, o ente que nós mesmos somos é o mais distante.” (DV) Vivemos no aí, sendo necessário um processo complexo de auto-reconhecimento inerente a nossa condição para vislumbrarmo-nos como ser total do nascimento à morte (como entes). É como se nos afastássemos o máximo de nós mesmos e de nossa circunvizinhança para podermos concluí-lo, impessoal, objetivamente. Concluir o quê? Essa simples verdade factual, que independe de qualquer instante, desde que já tenha sido assegurada a primeira vez.
Conquistar o infinito (perder-se indistintamente nele, a única coisa que se pode fazer perante o infinito) é fácil. O difícil é conquistar o próprio finito, sem o quê não existe destino.
“tudo que vai volta” tudo que abre, fecha.
Sou, logo irei morrer e não ser.
Já vivi com tanto tato e contato!
“…será que esse pre-supor possui o caráter de um projeto que compreende?”
ser-em-círculo-da-pre-sença
O DIZER-EU
“O <eu> é uma mera conseqüência que acompanha todos os conceitos. Com ele, <nada se representa a não ser um sujeito transcendental dos pensamentos>.”
“O eu-penso é a forma da apercepção [pré-percepção ou percepção ágrafa – o sine qua non kantiano] que precede e adere a toda experiência.” K.
“Denominar este eu de <sujeito lógico> não significa que o eu em geral seja, meramente, um conceito obtido por via lógica.” Até porque, como vimos acima, o eu-penso é um não-conceito ou percepção ilógica, pré-lógica.
“O <eu penso> significa <eu combino>.” Tem de haver um eu para que os conceitos se liguem, e o mundo exista.
“Isso significa que [para K.] o eu penso não é algo representado e sim a estrutura formal do representar como tal, através do que, só então, se torna possível todo e qualquer representado.”
eu = eidos = base dos conceitos + conceitos
“Determinar ontologicamente o eu como sujeito significa já sempre supor o eu como algo simplesmente dado. O ser-do-eu é compreendido como realidade da res cogitans.”Por isso em H. o ser-do-eu tem de se tornar ser-do-ente. (A síntese que K. pensara ter realizado se realiza.)
OBRA DE KANT: Um sistema em que a ética é um módulo do sistema, e não um componente orgânico impossível de isolar desse mesmo sistema é um sistema, falho e não-ético ou anti-ético.
CRÍTICA ULTIMADA AO CRITICISMO: “Não é preciso pensar <materialistamente> nem <racionalistamente> para se ficar, de todo, prisioneiro da ontologia da <substância> [o eu cartesiano, o simplesmente dado] de maneira ainda mais perniciosa por ser, aparentemente, evidente.”
Scheler, Der Formalismus in der Ethik und die materiale Wertethik
„Kant não viu o fenômeno do mundo e foi suficientemente conseqüente ao afastar as <representações> do conteúdo a priori do <eu penso>.”
De ser-no-MUNDO a SER-NO-mundo.
Heidegger chama, desnecessariamente, o discurso mediano ao se referir a si de eu-eu ou dizer-eu-eu.
“No silêncio, o ser-si-mesmo em sentido próprio justamente não diz <eu-eu> porque, na silenciosidade, ele <é> o ente-lançado que, como tal, ele propriamente pode-ser.”
Não deve ser coincidência que solidão, sozinho e solo, chão, sejam semelhantes desde o latim. Sustentáculo da alma e da ação.
“O que significa sentido?” Hahaha.
“sentido é o contexto no qual se mantém a possibilidade de compreensão de alguma coisa, sem que ele mesmo seja explicitado ou, tematicamente, visualizado. Sentido significa a perspectiva do projeto primordial a partir do qual alguma coisa pode ser concebida em sua possibilidade como aquilo que ela é. O projetar abre possibilidades, i.e., o que possibilita.” “Expor o sentido da cura significa portanto: perseguir o projeto orientador e fundamental da interpretação existencial originária da pre-sença para que se torne visível a perspectiva do projetado.”
“Toda experiência ôntica de um ente, tanto a avaliação do que está à mão numa circunvisão como o conhecimento científico de algo simplesmente dado, está sempre fundada em projetos mais ou menos transparentes do ser do respectivo ente.”
Ex1: Rafael-escritor como ente: ter uma carreira de escritor.
Ex2: A lingüística como ente: entender diacrônica e sincronicamente o objeto de estudo, i.e., a língua (as línguas).
“Este deixar-se-vir-a-si, que na possibilidade privilegiada a sustém, é o fenômeno originário do porvir.”
“Somente enquanto a pre-sença é no vigor de ter sido [vigorado, passado irrevogável e pertencente ao ser do ser-aí, passado vigente, para mim] é que ela, enquanto porvir, pode vir-a-si de maneira a vir de volta.” Sempre se lembrar do projeto, da decisão e do clamor.
“A de-cisão só pode ser o que é como a atualidade[presente do ser-aí, gerúndio].”
“a de-cisão se atualiza na situação.”
“Chamamos de temporalidade este fenômeno unificador do porvir que atualiza o vigorado.” “Temporalidade [é] (…) o sentido da cura” “O uso terminológico dessa expressão deve, de início, manter distantes todos os significados impostos pelo conceito vulgar de tempo como futuro, passado e presente.”
“temporalidade imprópria”
“Nesse campo de investigação, violência não é arbitrariedade mas uma necessidade fundada nas coisas elas mesmas.”
JÁ & AÍ
Quando decaímos no mundo é que passa a existir o tempo.
“A temporalidade possibilita a unidade de existência, facticidade e de-cadência, constituindo, assim, originariamente, a totalidade da estrutura de cura.”
“A temporalidade não <é>, de forma alguma, um ente.”
“A temporalidade temporaliza”
“São os modos possíveis da temporalidade que possibilitam a pluralidade dos modos de ser da pre-sença, sobretudo os modos do próprio e impróprio.”
“Temporalidade é o <fora de si> em si e para si mesmo originário. Chamaremos, pois, os fenômenos caracterizados de porvir, vigorado e atualidade, de ekstases¹ da temporalidade.”
¹ estase e êxtase – estase conforme o dicionário português: “parada, paralisação” – neste caso: do tempo no tempo. êxtase cf. o dic. port.: ‘fora de si’ (mesmo estando em si, modo privilegiado), dotado de vários humores, talvez todos em concatenação, incluindo a ânsia. pasmo (momento da de-cisão – a partir dele, pode-se revivê-lo sempre). Do grego “mover-se para fora”.
Sou eu, a despeito das aparências, porque se olho com des-cuido, agora não sou o que fui e o que serei, embora realmente o seja.
“O característico do <tempo> acessível à compreensão vulgar consiste, entre outras coisas, justamente no fato de que, no tempo, o caráter ekstático da temporalidade originária é nivelado a uma pura seqüência de agoras, sem começo nem fim.”
4: O tempo original se desdobra em 3.
eterno-vir-a-ser (única realidade): passado-instante ou nada-futuro (inautenticidade)
autenticidade própria (limite da possibilidade do meu eu): inautenticidade do mundo que me precede e me sucede ou está invisível a mim enquanto vijo no sentido newtoniano de tempo.
“Finitude não diz primordialmente término. (…) O porvir originário e próprio é o para-si, um para-si que existe como a possibilidade insuperável do nada.”
“A tentação de se passar por cima da finitude do porvir originário e próprio e, com isso, da temporalidade, considerando-a <a priori> impossível, nasce da contínua imposição da compreensão vulgar do tempo.” “Somente porque o tempo originário é finito é que o tempo <derivado> pode se temporalizar como in-finito.”
“autoconsistência da existência”
consistência x inconsistência
“historicidade da pre-sença” (a partir da inautenticidade do mundo podemos chegar à autenticidade unitária do ser)
A civilização que matou o tempo.
Mentira, recuperou-o.
Devolveu-o ao trono.
No jogo, sempre se olha o cronômetro com muita atenção. Dele é que tudo depende. O campo é uma outra coisa…
“Desgastando-se a pre-sença gasta a si mesma, ou seja, gasta o seu tempo. Gastando tempo ela conta com ele.” Quem conta, conta-com, ouvi alguém dizer. “Contar com o tempo é constitutivo do ser-no-mundo.” Duplo sentido: ser-dependente-do-tempo, não poder viver sem o tempo, e ao mesmo tempo mensurar o, criar uma unidade de, tempo.
TEMPO ÔNTICO, BE BORN! “Chamamos de intratemporalidade a determinação temporal dos entes intramundanos.” Segundo H., o limite da fenomenologia bergsoniana.
4. TEMPORALIDADE E COTIDIANIDADE
“A origem ontológica do ser da pre-sença não é <inferior> ao que dela surge. A origem ontológica já o sobrepuja em poder e, no âmbito ontológico, tudo o que <surge> é degeneração. Para o senso comum, a tendência ontológica para a <origem> nunca se transforma em evidência ôntica.”
“Enquanto descoberta que compreende o incompreensível, toda explicação tem suas raízes na compreensão primordial da pre-sença.”
“A existência pode tornar-se digna de questionamento. Para que este <questionamento> seja possível, é necessária uma abertura.”
“Sem dúvida, de início e na maior parte das vezes, a pre-sença fica in-de-cisa, ou seja, fica fechada em seu poder-ser mais próprio no qual ela só se empenha singularizando-se.” “Essa inconstância não significa, porém, que a temporalidade careça, por vezes, de porvir, mas sim que a temporalização do porvir está sujeita a mutações.”
“O termo, do ponto de vista formal indiferente, para o porvir encontra-se na designação do 1º momento estrutural da cura, i.e., no preceder-se. De fato, a pre-sença continuamente se precede, mas nem sempre se antecipa”
“O atender[espécie de compreender ôntico] sempre já deve ter aberto o horizonte e o âmbito a partir do que algo pode ser esperado. Esperar é o modo do porvir fundado no atender que, em sentido próprio, se temporaliza como antecipação.”
“Chamamos de in-stante a atualidade própria, i.e., a atualidade mantida na temporalidade própria.” “Em princípio, o fenômeno do in-stante não pode ser esclarecido pelo agora. O agora é um fenômeno temporal que pertence ao tempo da intratemporalidade (…) <No in-stante>, nada pode ocorrer. Ao contrário, enquanto atualidade em sentido próprio, é o in-stante que deixa vir ao encontro o que, estando à mão ou sendo simplesmente dado, pode ser e estar <em um tempo>.”
“Foi, sem dúvida, Kierkegaard quem viu com a maior profundidade o fenômeno existenciário do in-stante, o que não significa que ele tenha logrado uma correspondente interpretação existencial.” “Quando Ki. fala de <temporalidade>, ele quer referir-se ao <ser-e-estar-no-tempo> do homem. O tempo como intratemporalidade conhece apenas o agora e nunca o in-stante.”
“Por oposição ao in-stante, no sentido de atualidade própria, chamamos de atualização a atualidade imprópria. (…) in-de-cisa”
“A compreensão imprópria se temporaliza como um atender atualizante a cuja unidade ekstática pertence necessariamente um vigorado, que lhe corresponde.” Chega de tecnicismos!
“Chamamos de re-petição o ser o vigorado em sentido próprio.”
“A ekstase (retração) do esquecimento tem o caráter de uma extração, fechada para si mesma, do vigorado em sentido mais próprio, de tal maneira que esse extrair-se de… fecha, ekstaticamente, aquilo de que se extrai e, com isso, a si mesmo.” “o esquecimento é o sentido temporal (…) que (…) na maior parte das vezes (…) eu (…) sou.”
atender esperar
esquecer recordar
“Mas o que pode haver de comum entre os humores e o <tempo>?”
“A recolocação não produz o vigorado, mas a disposição sempre revela, para a análise existencial, um modo do vigorado.” “A interpretação temporal limitar-se-á aos fenômenos já analisados do temor e da angústia.” “Só no atendimento é que o que ameaça pode estar de volta para o ente que eu sou e, dessa forma, a pre-sença só pode ser ameaçada caso já se tenha aberto, ekstaticamente, o endereço da volta.” “voltar para um estar-lançado mas de tal maneira que ele se fecha”
“quem teme não-mais-se-reconhece no mundo circundante.”
“atualização conturbada”
“esquecimento de si inerente ao temor”
“É sabido que o habitante de uma casa em chamas, p.ex., freqüentemente, quer <salvar> as coisas mais indiferentes por estarem mais imediatamente à mão.”
“Tudo o que, além disso, pertence ao fenômeno fica sendo um <sentimento de prazer e desprazer>.”
o mundo não está me atendendo neste momento, pois está ocupado
“Ela recoloca o fato puro do estar-lançado mais próprio e singular.” “Mas a angústia também não implica em uma retomada re-petitiva da existência na de-cisão.”
“a angústia não pode se perder em ocupações. Quando algo assim parece ocorrer numa disposição, então se trata do temor que o entendimento cotidiano confunde com a angústia.”
“A angústia só conduz para o humor de uma de-cisão possível.”
“Como se pode encontrar um sentido temporal na morna ausência de humores que domina o <cotidiano cinzento>?”
“e os afetos como esperança, alegria, encantamento e jovialidade?”
“tédio, tristeza, melancolia e desespero”
ter esperança = ter-esperança-para-si
“ter-se-conquistado”
indiferença x equanimidade (humor privilegiado da pre-sença)
“Permanece um problema independente o modo em que se deve delimitar, ontologicamente, estímulo e contato dos sentidos em algo apenas-vivo, [?] e o modo, p.ex., como e onde o ser dos animais é constituído por um <tempo>.”Bem-lembrado.
má curiosidade (curiosidade sem método) dispersão desamparo: “Este modo da atualidade é o fenômeno que mais explicitamente se opõe ao in-stante.”
“O retrair-se da existência na atualização [atender, nível ôntico] não significa que a pre-sença se desligue de seu eu e de seu si-mesmo.”
“A curiosidade não é <provocada> pela visibilidade sem fim do que ainda não se viu, mas pelo modo de-cadente de temporalização da atualidade que surge. Mesmo que tenha visto tudo, a curiosidade sempre inventa algo novo.”
“abrir a situação-limite originária do ser-para-a-morte.”
“Os tempos não surgem porque o discurso <também> se pronuncia a respeito de processos <temporais>, i.e., que vêm ao encontro <no tempo>. Seu fundamento também não é o fato de que a fala transcorre <num tempo psíquico>.”
“Com a ajuda do conceito vulgar e tradicional do tempo, de que se vale forçosamente a ciência lingüística, nunca se pode colocar o problema da estrutura existencial e temporal dos tipos de ação.” Cf. Wackernagel, Vorlesungen über Syntax, vol. I, 1920.
“[Só através da minha analítica] se poderá delimitar o sentido ontológico do <é>, que uma teoria artificial da sentença e do juízo desfigurou, reduzindo-o à <cópula>. O <aparecimento> do <significado> e a possibilidade de uma elaboração conceitual só podem se esclarecer e compreender, ontologicamente, com base na temporalidade do discurso, da pre-sença em geral.”
“a compreensão é sempre atualidade [nível ontológico do presente] do vigorado.”
“[já] a disposição se temporaliza num porvir <atualizante>. Não obstante, a atualidade <surge> ou se sustenta num porvir do vigorado.” Repete-se à exaustão.
“Temporalização não significa <sucessão> de ekstases. O porvir não vem depois do vigorado e este não vem antes da atualidade.”
“A unidade ekstática da temporalidade, i.e., a unidade do <fora de si> nas retrações de porvir, vigorado e atualidade é a condição de possibilidade para que um ente possa existir como o seu <aí>. O ente que carrega o título de pre-sença se <iluminou>. A luz que constitui a luminosidade da pre-sença não é uma força ou fonte ôntica simplesmente dada de uma clareza cintilante que, por vezes, ocorre neste ente. Antes de toda interpretação <temporal>, determinou-se como cura o que ilumina essencialmente esse ente, i.e., aquilo que o torna <aberto> e também <claro> para si mesmo.”
“Na intenção de proteger o fenômeno das tendências de fragmentação mais evidentes e, por isso, mais fatais, interpretou-se, com maior detalhamento, o modo mais imediato e cotidiano do ser-no-mundo, a saber, o ser que se ocupa junto ao que está à mão dentro do mundo. Agora que a própria cura foi, ontologicamente, delimitada e reconduzida ao seu fundamento existencial, à temporalidade, a ocupação pode, por sua vez, ser explicitamente concebida a partir da cura e da temporalidade.”
“De que modo algo como mundo é possível? Em que sentido mundo é? [DV] O que o mundo transcende e como transcende?” “A exposição ontológica destas questões ainda não é a sua resposta.”
“A falta da estrutura fenomenal daquilo com que se lida tem como conseqüência um desconhecimento da constituição existencial do modo de lidar.”
“nexo instrumental”
“Todo <trabalhar> e pôr mãos à obra não significa vir de um nada e deparar-se com um instrumento isolado, preliminarmente dado.”
“deve-se buscar a condição de possibilidade do deixar e fazer em conjunto num modo de temporalização da temporalidade.” H. quase apertando a mão de Marx.
surpresa, importunidade, impertinência
“É preciso que o próprio afazer se veja perturbado para que possa vir ao encontro algo que não pode ser manuseado.”
“o teste e o afastamento”
“Mas como é possível <constatar> o que falta, ou seja, o que não está à mão e não apenas o que está à mão mas não é manuseável?”
“o dar pela falta”
“É o não-atender da atualização perdida que abre o espaço <horizontal> de jogo em que o espantoso pode sobrevir à pre-sença.”
“não contar com…”
levar em conta outra coisa
“Somente porque se descobre o que opõe resistência com base na temporalidade ekstática da ocupação é que a pre-sença pode, de fato, se compreender em seu abandono a um <mundo>, que ela nunca domina.”
“Quais as condições de possibilidade, inerentes à constituição ontológica da pre-sença e existencialmente necessárias, para que a pre-sença possa existir no modo da pesquisa científica?” Duvido que algo mais elaborado que “desenvolvimento do capitalismo” possa ser apontado… Em outros termos, busca-se o ser-da-ciência.
Fenomenologia versus semiótica
“O decisivo para o <aparecimento> do comportamento teórico residiria no desaparecimento da práxis. É justamente quando se toma a ocupação <prática> como o modo primário e predominante de ser da pre-sença que a <teoria> deve sua possibilidade ontológica à falta da práxis, ou seja, a uma privação.” “Pelo contrário (…) Abster-se do uso instrumental significa tão pouco <teoria> que, na <observação> demorada, a circunvisão permanece inteiramente atada ao instrumento ocupado e à mão. O lidar <prático> possui seus modos próprios de demorar-se.”
“A observação no microscópio depende da produção de <preparados>. A escavação arqueológica, que precede à interpretação do <achado>, exige as mais intensas manipulações. E mesmo a elaboração mais <abstrata> de problemas e a fixação do que foi obtido manipulam instrumentos de escrever, p.ex..” “Para poder se tornar <objeto> de uma ciência, o que está à mão não precisa perder o seu caráter instrumental. A modificação da compreensão ontológica não parece ser um constitutivo necessário da gênese do comportamento teórico <frente às coisas>.”
“Na proposição <física>, <o martelo é pesado>, não apenas se deixa ver o caráter de ferramenta deste ente que vem ao encontro, mas também o que pertence a todo instrumento à mão, a saber, o seu local. Este se torna indiferente. (…) O local se transforma em posição no espaço e no tempo, em um <ponto do mundo>, que não se distingue de nenhum outro. Isto implica que a multiplicidade de locais delimitados no mundo circundante, própria do instrumento à mão, não se transforma apenas em puro sistema de posições, mas sim que se aboliram os limites do próprio ente do mundo circundante.”
in-tegração
“O exemplo clássico do desenvolvimento histórico de uma ciência, e também da gênese ontológica, é o aparecimento da física-matemática.” “projeto matemático da própria natureza”
matéria (base não-numérica) movimento, força, lugar, tempo (enumerar a matéria em suas regiões)
“A fundamentação das ciências dos fatos só foi, portanto, possível na medida em que o pesquisador compreendeu que, em princípio, não existem meros fatos.” “E assim, o caráter exemplar da ciência matemática da natureza também não reside em sua exatidão específica e na obrigatoriedade para <todos>, mas no fato de que, nela, o ente temático é descoberto da única maneira em que pode ser descoberto, a saber, no projeto prévio de sua constituição ontológica.”
“Chamamos de tematização a totalidade desse projeto ao qual pertencem as articulações da compreensão ontológica, a delimitação dela derivada do setor de objetos e o prelineamento da conceitualização adequada ao ente. A tematização visa liberar os entes que vêm ao encontro dentro do mundo de modo a que eles possam ser <projetados para> uma pura descoberta, i.e., que eles possam se tornar objetos. A tematização [portanto] cria objetos”
“atualização privilegiada”
Agora começo a vislumbrar como e por que “ouvi dizer por aí” que Heidegger fala que o objetivo da humanidade, através da Técnica, é o “domínio do planeta”. E creio que essas vozes de falatório compreenderam mal: ele descreve o atual panorama do desenvolvimento tecnológico-histórico, mas não está abençoando este sentido.
“A compreensão de ser pode permanecer neutra. Manualidade e ser simplesmente dado ainda não se diferenciam e, sobretudo, ainda não são concebidos ontologicamente.”
“Como é, ontologicamente, possível a unidade de mundo e ser-aí? De que modo o mundo deve ser, para que o ser-aí possa existir enquanto ser-no-mundo?”
“A condição existencial e temporal da possibilidade do mundo reside no fato de a temporalidade, enquanto unidade ekstática, possuir um horizonte.” Eu-sou-meu-mundo
“Chamamos de esquema horizontal esse para-onde da ekstase.”
“O fato destes entes [simplesmente dados] se descobrirem junto com o próprio aí da existência não está à mercê do ser-aí. Somente o quê, cada vez, se descobre e se abre, em que direção se faz, até onde e como se faz é que são tarefas de sua liberdade, embora sempre nos limites de seu estar-lançado.”
“O mundo já está, por assim dizer, <muito mais fora> [de-cidido, ontologizado] do que qualquer objeto pode estar. Por isto, o <problema da transcendência> não pode ser reduzido à questão de como um sujeito sai de dentro de si e chega a um objeto fora de si [sem o enquadramento material e histórico no mundo]”
“Concebendo o <sujeito> como ser-aí que existe e cujo ser está fundado na temporalidade, deve-se então dizer: mundo é <subjetivo>. Mas do ponto de vista transcendente e temporal, este mundo <subjetivo> é mais <objetivo> do que qualquer <objeto> possível.” Porque assim interessa ao ser-no-mundo.
“Contudo, a comprovação de que a espacialidade só é existencialmente possível através da temporalidade não pode pretender reduzir o espaço do tempo ou dissolvê-lo em puro tempo.”
“A pre-sença introjeta – em sentido literal – o espaço.” Não seria projeta?
“Existindo, ela já-sempre arrumou para si um espaço.”
“a introjeção do espaço é tão pouco idêntica a uma <representação> do espacial que é esta que pressupõe aquela.”
“É até mesmo questionável se a explicação até agora desenvolvida da temporalidade é suficiente para delimitar o sentido existencial da cotidianidade.”
RESUMO DA VIDA DO FILÓSOFO: “<De início> significa o modo em que a pre-sença <se revela> na convivência da public-idade, mesmo que, existenciariamente, ela tenha <no fundo> superado a cotidianidade. <Na maior parte das vezes> significa o modo em que a pre-sença nem sempre, mas <via de regra>, se mostra para todo mundo.”
“A monotonia da cotidianidade considera como mudança justamente aquilo que o dia traz. A cotidianidade determina a pre-sença mesmo quando ela não escolheu para <herói> o impessoal.”
“Na cotidianidade, a pre-sença pode <sofrer> de estupidez, pode mergulhar na sua estupidez ou dela escapar, buscando uma nova dispersão para fazer frente à dispersão dos negócios e tarefas.”
“Mas, no fundo, o termo cotidianidade nada mais pretende indicar do que a temporalidade que possibilita o ser da pre-sença.” A totalidade orgânica do ser-aí.
5. TEMPORALIDADE E HISTORICIDADE
“A pre-sença só se fez tema existindo, por assim dizer, <para frente>, deixando, com isso, <para trás> de si todo o vigorado. (…) se desconsiderou (…) a ex-tensão da pre-sença entre nascimento e morte.” “Haverá algo mais <simples> do que caracterizar o <contexto da vida> entre nascimento e morte?”
vivência e permanência
“No fundo, a concepção vulgar do <contexto da vida> também não pensa numa moldura que, estando <fora> da pre-sença, a abrangesse, mas procura, com razão, esta moldura na própria pre-sença.” Torna-se patente o quanto Sartre não entendeu este livro.
“De forma alguma a pre-sença só <é> real num ponto do tempo, de maneira que, além disso, estaria <cercada> pela não-realidade de seu nascimento e de sua morte.”
O SIGNIFICADO DE CURA: “De fato, a pre-sença só existe nascendo e é nascendo que ela já morre, no sentido do ser-para-a-morte.”
O ENTRE: “Chamamos de acontecer da pre-sença a movimentação específica deste estender-se na ex-tensão. A questão sobre o contexto da pre-sença é o problema ontológico de seu acontecer. Liberar a estrutura do acontecer e suas condições existenciais e temporais de possibilidade significa conquistar uma compreensão ontológica da historicidade.”
quem? consistência
“Não é na ciência historiográfica que se deve buscar a história. Mesmo que o modo científico e teórico de tratar o problema da <história> não vise apenas a um esclarecimento <epistemológico> (Simmel) da apreensão histórica, nem a uma lógica da construção conceitual da exposição histórica (Rickert), mas também se oriente pelo <lado do objeto>, mesmo assim, nesse tipo de questionamento, a história só se faz acessível, em princípio, como objeto de uma ciência.” “A tematização, a abertura historiográfica da história é a pressuposição de uma possível <construção do mundo histórico pelas ciências do espírito>.”
temporalidade história, e não história temporalidade
“a origem do tempo da intratemporalidade a partir da temporalidade. [sua base]” “Quanto mais o problema da história se aproximar de seu enraizamento originário, mais agudamente aparecerá a indigência dos meios <categoriais> disponíveis e a insegurança dos horizontes ontológicos primários.”
“No fundo, a presente análise trata unicamente da preparação de um caminho para que a atual geração possa apropriar-se das pesquisas de Dilthey, com as quais ela ainda deve se confrontar.”
“A ambigüidade do termo <história> mais imediata e freqüentemente observada, embora não seja de forma alguma <fortuita>, anuncia-se no fato de que esse termo significa tanto a <realidade histórica> como a sua possível ciência.” Primeiro passo: história =/= historiografia
o passado das coisas
passado que ‘morreu’ (definição negativa)
passado que ‘segue em nós’ (pré-vigorado) (definição positiva)
passente
ascensão-queda
autoria
passividade
marcar época
con-junto de influências
inimiga da Natureza
Darwin e o ticket de entrada do natural na própria história, revivendo com nova pujança o termo “História natural”
“Será que a pre-sença de fato é primeiro <algo simplesmente dado> para depois, oportunamente, entrar <numa história>?” “uma caracterização mais precisa do curioso primado do <passado> no conceito de história é que deve preparar a exposição da constituição fundamental da historicidade.”
“O que foram as coisas que hoje não são mais?”
“O que passou?” “mundo”
O mundo começa com a mão.
“Será a pre-sença o vigorado apenas no sentido do que vigora por ter sido pre-sente [por ter-estado-aí] ou será ela o vigorado enquanto algo atualizante e por vir [presente e futuro], ou seja, na temporalização de sua temporalidade?”
“O ente não fica <mais histórico> mediante uma recondução regressiva a um passado sempre mais distante, no sentido de que o mais antigo fosse o que é mais propriamente histórico.”
“A compreensão existenciária própria escapa tão pouco da interpretação legada que, no de-cisivo, ela sempre retira a possibilidade escolhida dessa interpretação, contra ela mas sempre a seu favor.” O que Heidegger quer dizer nesse trecho é que meu ser-aí, e meu ser-no-mundo, apesar de ser este mundo, sempre chega à de-cisão e vive cotidianamente, sem percebê-lo, no 2º caso, influenciado por coisas históricas que ainda não feneceram, i.e., pelo legado dos antepassados, dos mortos, de toda a cultura prévia a minha própria existência. Todos esses dados estão de tal forma embrenhados e mesclados com a ‘minha realidade contemporânea’ que se tornam indissociáveis – então, por mais que eu seja para o presente, sempre me alimento do passado, não só na minha vida mais instrumentalizada mas também no momento da ascensão filosófica. Prova disso é que fui ajudado principalmente por figuras como Nietzsche e Marx para chegar ao meu clamor. Sou um devorador de livros antigos, cujo conteúdo perpetuamente se atualiza em minha existência e realidade próprias.
“Se todo bem é uma herança e se o caráter dos bens reside em possibilitar uma existência própria, então é na de-cisão que se constitui a transmissão de uma herança.” Escolho aquilo que não me serve mais e o que ainda me serve, mesmo tendo saído do seio dos meus pais.
“meta incondicional”
simplificar, se apropriar e se esquivar
“A pre-sença só pode sofrer golpes do destino porque, no fundo, ela é destino.” Já o in-de-ciso não tem destino.
“O envio comum [nível ontológico da convivência] não se compõe de destinos singulares da mesma forma que a convivência não pode ser concebida como a ocorrência conjunta de vários sujeitos.”
SEMI-SOLIPSISMO/REPUBLICANISMO PLATÔNICO: Só alguns são homens, só alguns têm alma, só alguns vivem, os outros são matéria bruta dada para seus destinos e aconteceres.
“O envio comum dos destinos da pre-sença em e com a sua <geração> constitui o acontecer pleno e próprio da pre-sença.” Para este conceito de geração, cf. Dilthey, Über das Studium der Geschichte der Wissenschaften von Menschen, der Gesselschaft und dem Staat (1875).
“Não obstante impotente, o destino é a potência maior sempre pronta a enfrentar as contrariedades do projetar-se silencioso e prestes a angustiar-se para o ser e estar em débito, em sentido próprio”
“Não é necessário que a de-cisão saiba explicitamente a proveniência das possibilidades para as quais ela se projeta.”
“A re-petição é a transmissão explícita, ou seja, o retorno às possibilidades da pre-sença, que vigora por ter sido pre-sente.”
“o fato de a existência escolher seus heróis funda-se na de-cisão antecipadora”
MANDANDO A ÁRVORE GENEALÓGICA ÀS FAVAS: “Surgindo de um projeto de-cidido, a re-petição não se deixa persuadir pelo <passado> a fim de deixá-lo apenas retornar como o que alguma vez foi real.”
“A re-petição nem se abandona ao passado nem almeja um progresso.” (isso seria retirar toda a autenticidade do ser-aí)
No in-stante, o ser-aí sai de si e do tempo vulgar para ser agora sim si-mesmo, i.e., a responsabilidade implica que não fui causado e nem perpetuo, mas inovo, ao mesmo tempo que também não carrego uma carga ou débito para todas as gerações futuras, que terão a sua própria cura para com que lidar.
Hamlet é toda a História.
Havia filósofos mesmo antes das obras da ciência histórica. A constituição do saber historiográfico é um fator apenas secundário. Embora eu saiba de onde advém o eterno-retorno, lá sei eu e Nietzsche lá sabia se isso não adviria, p.ex., de qualquer conto contado ou inclinação de algum de seus amigos ou familiares, ou dos pais deles?! Portanto a transmissão do saber foi indireta, tendo sido ele o primeiro a assumi-lo (até onde sabemos), mas sem que para isso ele houvesse de se deter e investigar o passado (hipótese assaz provável).
Segundo o que entendi até o momento, o envio comum seria por exemplo: a Alemanha escolheu o nazismo como seu destino (aplicado a nações).
HISTORICIDADE IMPRÓPRIA DA PRE-SENÇA
“O mundo é ao mesmo tempo, solo e palco” Shakespeare o sabia.
DELEUZE EJACULA: “Será então o acontecer da história apenas o transcurso isolado de <fluxos vivenciais> em sujeitos singulares?”
História da compreensão humana da natureza enquanto ente histórico: sugestão de pesquisa.
“O que <acontece> com o instrumento e a obra como tais [seres destituídos de pre-sença] possui um caráter próprio de movimentação que permanece, até agora, inteiramente obscuro.” Que nos importa que seja exato que erupções vulcânicas nos preservaram os fósseis de criaturas chamadas dinossauros? Este não é um passado ou vigorado, pois não importa ao homem ontologicamente, no sentido de que sempre-esteve-aí. Como o apagar do sol não é. Poderíamos dizer ser-para-o-apagar-do-sol, exagerando. Se há de existir um envio comum próprio e autêntico, teríamos a formulação: humanidade-para-o-apagar-do-sol. A cura do mundo, ele vive apenas como Gaia. O que acontece no sistema solar ou ainda mais perifericamente “não interessa ao mundo”. Cf. Gotti, Die Grenzen der Geschichte, 1904.
O único terremoto de interesse para a historicidade é o terremoto humano, Nietzsche, por exemplo.
CONTRA OS AMANTES DA HISTÓRIA À LA MARCOS (O homem vulgar é altamente imagético, precisa “aprender” “história” através de filmes de Hollywood – e por que não Bollywood? Hipocrisia.): “E, por fim, porque o sentido de ser vale como o absolutamente evidente, a questão do modo de ser da história e do mundo e da movimentação do acontecer em geral, <propriamente>, não passa de superstição verbal, infrutífera e prolixa.”
O QUE VIGORA AGORA? SÓ COISAS INVISÍVEIS QUE O PROJETO TEM DE SER SENSÍVEL A FIM DE APURAR. DISTORCER O INAPREENSÍVEL A NOSSO FAVOR (saber mentir): compreender o Império Romano no meu projeto, não como <tal qual fôra>, o que seria de todo modo uma falsificação, e sem relevância ontológica.
Um exemplo máximo de envio comum impróprio é o Brasil. A efervescência cotidiana deste país não pode nublar a consciência do filósofo.
Podemos ficar sem chão? O que é chão? Montanha é chão? Raízes de uma árvore do mundo são chão?
O ser histórico ideal é aquele que foge-da-morte, o ser-curioso-para-ninharias, como advento do comunismo sobre a Terra num futuro ultradistante (exemplo).
“A historicidade própria compreende a história como o <retorno> do possível”
“Pode-se, não obstante, ousar um projeto da gênese ontológica da ciência historiográfica, partindo-se da historicidade da pre-sença. Este projeto serve de preparação para o esclarecimento da tarefa de uma destruição historiográfica da filosofia, a ser posteriormente realizada.”
GENEALOGIA DA HISTORIOGRAFIA A PARTIR DA HISTORICIDADE DA PRE-SENÇA
“O tema da historiografia não é nem o que aconteceu singularmente e nem um universal que paira sobre a singularidade, mas a possibilidade que de fato vigorou na existência.” E quanto mais exata é a História, mais improvável ela é.
“Esta não se repete como tal [como simplesmente dada], ou seja, não é compreendida de modo propriamente historiográfico, mesmo quando distorcida pela palidez de um padrão supratemporal.”
“A seleção do que deve se tornar objeto possível da historiografia já foi feita na escolha existenciária e factual da historicidade da pre-sença, onde somente a historiografia surge e unicamente é.”
“Em nenhuma ciência, a <validade universal> dos parâmetros e as exigências de <universalidade>, imposta pelo impessoal e por sua compreensibilidade, são menos critérios possíveis de <verdade> do que na historiografia própria.” “Comprometendo-se previamente com a concepção de mundo de uma época, o historiógrafo ainda não comprova ter compreendido o seu objeto num modo propriamente histórico e não apenas estético.”
“a historicidade própria de um <tempo> também não se comprova pelo interesse historiográfico altamente diferenciado, que abrange até mesmo as culturas mais primitivas e distantes. Ter aparecido o problema do historicismo é o sinal mais claro de que a historiografia pretende alienar o ser-aí da sua historicidade própria. (…) Épocas sem historiografia não são, em si mesmas, sem história.”
UHU, DE QUEM TERÁ PUXADO A INSPIRAÇÃO?!…“A possibilidade de a historiografia em geral poder ser tanto uma <utilidade> como uma <desvantagem> <para a vida> funda-se no fato de esta ser, em sua raiz, histórica e, portanto, enquanto existindo de fato, sempre já se ter decidido por uma historicidade própria ou imprópria. Na Segunda Consideração Intempestiva (1874), Nietzschereconheceu o essencial a respeito da <utilidade e desvantagem da historiografia para a vida>, tendo-se pronunciado de maneira precisa e penetrante. Ele distingue 3 espécies de historiografia: a monumental, a antiquária e a crítica, sem, no entanto, de-monstrar, explicitamente, a necessidade dessa tríade e o fundamento de sua unidade. A tríade da historiografia está prelineada na historicidade do ser-aí. É ela também que permite compreender em que medida a historiografia própria deve ser a unidade concreta e factual dessas 3 possibilidades. A divisão feita por Nietzsche não é acidental. O início de sua <consideração> deixa entrever que ele compreendeu bem mais do que chegou a exprimir.” Substrato da alegoria tríplice da criança, do leão e do camelo do Zaratustra. Neste meio poético pode-se dizer que N. efetuou ou explicitou a necessidade da tríade e fundamentou sua unidade.
1. monumental
exaltar fatos isolados e grandiosos do passado, de forma a dar indicações de uma possibilidade de transvaloração do sujeito ‘histórico’. dizer-sim com dizer-não feitos corretamente, com cinismo e inocência, da criança no seu jogo.
2. antiquária
também não está contente com o mundo contemporâneo, mas se afasta dele por se afastar, não para se projetar numa reação ao niilismo. o dizer-sim de algo que já passou (a selva), burro, instintivo, do leão.
3. crítica
tragicamente a maior apologista do atual, o tipo moderno por excelência, que tentará se afastar dum passado inafastável. sem poder criador. é verdade que, sendo ‘realista’, não podemos achar um amanhã realmente novo sem atravessar esse hoje sórdido, [o dizer-não do camelo no deserto, que não sabe dizer-sim quando seria a hora] e por isso precisamos ser diplomáticos com este hoje, por mais cinza que seja.
* * *
Conde Yorck von Wartenburg (o continuador-contemporâneo de Dilthey), Briefwechsel zwischen Wilhelm Dilthey und dem Grafen Paul Yorck von Wartenburg, 1887-1897, 1923. Realmente a melhor época para se trocar cartas na Europa… São efetivamente esses 20 anos de correspondência a única forma de checar o pensamento deste quase-personagem shakespeariano (cof, cof, York)…
“O trabalho de pesquisa de Dilthey [<O PRIMEIRO HERMENEUTA>] pode ser dividido, esquematicamente, em 3 campos: estudos sobre a teoria das ciências do espírito e sua delimitação frente às ciências da natureza; pesquisas sobre a história das ciências do homem, da sociedade e do Estado; investigação sobre uma psicologia que deve expor <todo o fato homem>.” “Yorck acha que as investigações de Dilthey <salientam pouco a diferença genérica entre o ôntico e o histórico (p. 191, grifo do autor).”
GOLPE DE PUNHAL NO VENTRE DA ANTROPOLOGIA:“Toda comparação é estética, está sempre presa à figura.” “para Windelband, história é uma série de imagens, de figuras singulares, uma exigência estética.”
“Com seu agudo instinto, Yorck quis dizer que a história tradicional ainda se atém muito às <determinações puramente oculares>, que visam ao que é corporal e figurável.” Em suma, chega de ôntico!
“Ranke é um grande ocular, para quem não pode se tornar realidade o que desapareceu. De maneira bem própria a R., também se esclarece a restrição da matéria histórica ao que é exclusivamente político. Somente este constitui o dramático.”
P. 208: Primeira ocorrência, talvez, de “inessencial”, em sentido próprio (tum dum!) no livro.
NIETZSCHE CONTRA A FILOLOGIA, PELO PORTA-VOZ YORCK:“O autêntico filólogo tem um conceito de história como de um baú de antiguidades. Eles não chegam ao que não se pode apalpar – aonde só se chega através de uma transposição psíquica viva. No fundo, eles são cientistas da natureza, que se tornam ainda mais céticos quando lhes falta o experimento. Devemos nos afastar inteiramente de todas essas tralhas, como, por exemplo, de quantas vezes Platão esteve na Magna Grécia ou em Siracusa. Pois aí não há vida alguma. Tais maneirismo exteriores, que só posso ver criticamente, tornam-se por fim, um grande ponto de interrogação, reduzindo-se a uma vergonha quando comparados com as grandes realidades que são Homero, Platão e o Novo Testamento. Tudo o que é verdadeiramente real se transforma em esquemas quando não-vivenciado e apenas considerado como <coisa em si>.”
“Os cientistas se comportam face às forças do tempo à semelhança da sociedade francesa mais erudita e refinada frente ao movimento revolucionário. Tanto aqui como lá, trata-se apenas de formalismo, do culto da forma. Determinar relações é a última palavra da sabedoria.”
“o conhecimento progrediu no sentido da superação dele próprio, o homem retraiu-se para tão longe de si mesmo que não é mais capaz de ver a si.”
“Toda história viva é uma crítica”
“O esforço se assemelha à luta de Jacó, a vitória é certa para quem luta.”
“É pelo conhecimento do caráter ontológico da própria presença humana e não por uma epistemologia ligada ao objeto da consideração histórica que Yorck alcança a compreensão penetrante e clara do caráter fundamental da história enquanto <virtualidade>.”
“O ponto nevrálgico dos dados psicofísicos não é (é = ser simplesmente dado na natureza. Observação do autor), mas vive. E uma reflexão sobre si mesmo, que não se dirige a um eu abstrato mas à plenitude do meu si-mesmo, é que haverá de me encontrar historicamente determinado tal como a física me reconhece cosmologicamente determinado. Tanto quanto natureza, eu sou história…” Por esse trecho, vemos o quanto Heidegger está informado – até no vocabulário! – por Yorck!
“E Yorck, que via com profundidade toda a inautenticidade da <determinação de relações> e toda a <falta de solidez> dos relativismos, não hesita em tirar as últimas conseqüências desta visão profunda da historicidade da pre-sença: <Mas, por outro lado, para a historicidade interior da autoconsciência é, metodologicamente, inadequada uma sistemática separada da história. Assim como a psicologia não pode abstrair da física, também a filosofia – e justamente quando é crítica – não pode abstrair da historicidade… – A atitude consigo mesmo e a historicidade são como a respiração e a pressão do ar e – por mais paradoxal que possa parecer – no aspecto metodológico, a não-historização me parece um resto metafísico>”
“Em minha opinião, existe uma filosofia da história – não se assuste – porque filosofar é viver – quem poderia escrevê-la! Decerto, não no sentido em que até agora se concebeu e buscou, contra o que o senhor irrefutavelmente se pronunciou. Falso, até impossível, embora não seja o único, tem sido o questionamento até hoje existente. Por isso já não há nenhum filosofar real que não seja histórico. A separação entre filosofia sistemática e exposição histórica é, essencialmente, incorreta”Vejamos o que devia querer dizer com filosofia sistemática, hoje impossível. Claro que a filosofia sincrônica, da qual até rimos…
Off-topic, mas caberia perfeitamente como prefácio da República ou em Jaeger: “O poder tornar-se prática é, sem dúvida, o fundamento próprio e justo de toda ciência. Mas a práxis matemática não é a única. A finalidade prática de nosso ponto de vista [humanidades] é a pedagógica, no sentido mais amplo e profundo do termo. Ela é a alma de toda verdadeira filosofia e a verdade de Platão e Aristóteles.”
“O senhor sabe o que eu acho a respeito da possibilidade de uma ciência da ética. Apesar disso, sempre se pode fazer algo melhor. Para quem são propriamente esses livros? Arquivos e arquivos! O único valor digno de nota é o élan de passar da física para a ética.”
“O que penetra até o fundo da vida furta-se a uma exposição exotérica e, por isso, a terminologia não é compreendida pelo senso comum, sendo, inevitavelmente, simbólica. É da especificidade do pensamento filosófico que decorre a especificidade de sua expressão verbal.”
“A tarefa pedagógica do Estado seria desfazer a opinião pública elementar e possibilitar, tanto quanto possível, a formação da individualidade no ver e no perceber. Ao invés do que se chama de consciência moral – essa alienação radical – voltamos a consciências singulares, que paradoxalmente fortaleceriam a consciência moral”
A curiosa dualidade utilizada pelo autor, ôntico x histórico, precisaria de uma fundamentação mais originária, pois H. diz: como se entenderia esse ‘histórico’, sem defini-lo pelo ôntico, e na verdade pressupondo que uma unidade serve de base a essa distinção mesma? I.e.: não é uma falsa dicotomia entre aparência-espírito, o que já havia sido tentado na história da filosofia, mas a remissão, neste caso, justamente à historicidade da pre-sença (somente meio século depois de Yorck, evidentemente, chegou-se a essas palavras).
“Não é por acaso que Yorck chama o ente não-histórico de ôntico simplesmente. Isso apenas reflete o predomínio ininterrupto da ontologia tradicional que, provindo do antigo questionamento do ser, mantém a problemática ontológica numa estreiteza de princípio. [corpo e alma, blábláblá…]”
Chegou a hora de consumar Dilthey-Yorck, é o que está nos dizendo H..
6. TEMPORALIDADE E INTRATEMPORALIDADE COMO ORIGEM DO CONCEITO VULGAR DE TEMPO
RECUO? “O tempo <em que> os entes intramundanos vêm ao encontro deve, ainda mais necessariamente, receber uma análise de princípio, porque, além da história, também os processos naturais se determinam <no tempo>.”
“De onde a pre-sença toma o tempo? Como esse tempo se comporta frente à temporalidade?”
“Na interpretação hegeliana do tempo, tanto a possibilidade de interpretar o tempo de forma subjetiva quanto objetiva são, de certa forma, superadas.” “Em seu resultado, a presente interpretação da temporalidade da pre-sença e da pertença do tempo do mundo à temporalidade parece concordar com Hegel. (…) porém (…) faz-se necessária uma breve exposição da concepção hegeliana da relação entre tempo e espírito”
Tempo como ser e ente
“agora-agora”
“Chamamos de <tempo> a atualização que interpreta a si mesma, ou seja, o que é interpretado e interpelado no <agora>.”
“lapso de tempo”
“A temporalidade é o fundamento do relógio. Enquanto condição de possibilidade da necessidade factual do relógio, a temporalidade condiciona, igualmente, a possibilidade de sua descoberta. Pois somente a atualização, que atende e retém o transcurso do sol, que vem ao encontro junto com a descoberta dos entes intramundanos, é que possibilita e exige a datação que interpreta a si mesma, a partir do que está publicamente à mão, no mundo circundante.” Destaquei em verde dada a banalidade desse meio-parágrafo já às portas do fim do volume, exasperando o leitor.
O TEMPO-NO-TEMPO E O MUNDO-NO-MUNDO: “o mundo das ocupações é datável, se dá num lapso de tempo, é público e, por ser assim estruturado, pertence ao próprio mundo.”
ENTRE O MEIO-DIA E A MEIA-NOITE
“quando as sombras alcançarem tantos pés, nos encontraremos lá”
“O que significa ler o tempo?”
“Não caberia aqui aprofundar o problema da medição do tempo característica da teoria da relatividade.” Seguido de uma explicação do completo encerramento da física, quântica, especial ou qualquer outra, no mero nível ôntico de vivência.
“As relações entre os números históricos, o tempo calculado astronomicamente e a temporalidade e historicidade da pre-sença necessitam de uma ampla investigação.” “As duas obras fundamentais sobre a formação da cronologia histórica são: Josephus Justus Scaliger, De emendatione temporum, 1583, e Dionysius Petavius, SJ, Opus de doctrina temporum, 1627. Sobre a antiga medição do tempo, vide G. Bilfinger, Die antiken Stundenangaben, 1888; Der Bürgerliche Tag. Untersuchungen über den Beginn des Kalendertages im klassischen Altertum und im christlichen Mittelalter, 1888; H. Diels, Antike Technik, 2ed., 1920 (capítulo Die antike Uhr).”
Resposta a Hegel: “O tempo do mundo [ôntico] é <mais objetivo> do que qualquer objeto possível porque, enquanto condição de possibilidade dos entes intramundanos, ele já se <objetivou> junto com a abertura de mundo, ekstática e horizontalmente. Apesar da opinião de Kant (…) De início, o <tempo> se mostra justamente no céu, lá onde, impessoalmente se encontra quando se é orientado por ele de forma natural [e não apenas psiquicamente]”
“Mas o tempo do mundo também é <mais subjetivo> do que qualquer sujeito possível porque, no sentido entendido de cura como ser do si-mesmo que de fato existe, ele também possibilita esse ser.”
“Assim como todos os entes não-dotados de caráter de pre-sença, ele [o temporal, ontológico] é atemporal, quer ocorra, se origine e decorra <realmente>, quer subsista <idealmente>.”
Nunca se superestima o Estagirita o suficiente, pelo visto: “Esta nada mais é do que a interpretação ontológico-existencial da definição do tempo dada por Aristóteles.” Tudo por causa dessa reles frasezinha:“O tempo é isso, a saber, o que é contado no movimento que se dá ao encontro no horizonte do anterior e do posterior”.
“Sua interpretação do tempo movimenta-se, sobretudo, na direção da compreensão ontológica <natural>. Mas como esta compreensão e o ser nela compreendido tornam-se um problema de princípio para a presente investigação, a análise aristotélica do tempo só poderá ser tematicamente interpretada após resolver-se a questão do ser.” “Toda a discussão seguinte a respeito do conceito de tempo atém-se fundamentalmente à definição aristotélica, ou seja, tematiza o tempo tal como ele se mostra na ocupação, guiada por uma circunvisão.”
“Embora não se diga explicitamente que os agora são, como as coisas, simplesmente dados, do ponto de vista ontológico, eles são <vistos> no horizonte da idéia do ser simplesmente dado.” “Enquanto tempo-agora, a interpretação vulgar do tempo do mundo não dispõe de horizonte para, assim, poder tornar acessíveis para si mundo, significância e possibilidade de datação.”
“já Platão teve de chamar o tempo de imagem derivada da eternidade” Na parte do Timeu em que Deus criou o céu: ou seja, Heidegger não disse, até agora, nada de novo… Dois mil e tantos anos de falsa jactância…
“Não é a partir da ex-tensão horizontal da unidade ekstática da temporalidade, publicada na ocupação do tempo, que se compreende o esticar-se num lapso de tempo.”
“A principal tese da interpretação vulgar do tempo – de que ele é <infinito> – revela, ainda mais profundamente, o nivelamento e o encobrimento do tempo do mundo, inseridos nessa interpretação, e, com isso, da temporalidade em geral.” “Como esse pensar o tempo até o fim ainda deve sempre pensar o tempo, costuma-se concluir que o tempo é infinito.” (demonstrado com suficiência por Kant e Hegel) “o impessoal nunca pode morrer. Nunca morrendo e compreendendo equivocadamente o ser-para-o-fim, o impessoal dá uma interpretação característica à fuga da morte. Até o fim, ele <sempre ainda tem tempo>.”
“Por que dizemos: o tempo passa, e não acentuamos igualmente: ele aparece (vem)?” “No discurso do passar do tempo, a pre-sença acaba compreendendo mais do tempo do que gostaria, ou seja, apesar de todo encobrimento, a temporalidade, em que o tempo do mundo se temporaliza, não está inteiramente fechada.”
“vontade de deter o tempo”
“No discurso acentuado do passar do tempo reside o reflexo público do porvir finito da temporalidade da pre-sença.”
“Não necessita de uma discussão ampla o fato de o conceito tradicional de eternidade ter haurido o seu significado de <agora permanente> (nunc stans) da compreensão vulgar do tempo e de ter sido definido pela idéia do ser simplesmente dado <contínuo>.”
“Desse modo, em princípio, a interpretação da pre-sença como temporalidade não se acha fora do horizonte do conceito vulgar de tempo. Hegel já fez a tentativa explícita de elaborar o nexo entre tempo, vulgarmente compreendido, e o espírito. Em contraste, para Kant, o tempo, não obstante <subjetivo>, está desligado, colocando-se <ao lado> do <eu penso>.”
“Hegel, todavia, não se contenta em expor a intratemporalidade do espírito como um fato, mas ele busca a possibilidade de compreender que o espírito cai no tempo, o qual é <o sensível, o totalmente abstrato>.”
“1. Como Hegel delimita a essência do tempo? 2. O que pertence à essência do espírito para que ele possa <cair no tempo>?” Como instância máxima e seu Absoluto, é inexplicável tal necessidade subordinativa, por assim dizer.
“o conceito hegeliano de tempo expõe a elaboração conceitual mais radical e bem pouco considerada da compreensão vulgar do tempo.”
“Fiel à tradição [aristotélica], a análise hegeliana do tempo tem seu lugar na 2ª parte da Enciclopédia das ciências filosóficas, intitulada: Filosofia da Natureza.”
<O espaço é tempo, ou seja, o tempo é a verdade do espaço.>
“Na negação da negação (i.e., na pontualidade), o ponto se coloca para-si, emergindo, portanto, da indiferença em que subsiste.” A sucessão de pontos se torna análoga à sucessão de agoras.
“Tempo é o devir <intuicionado>, ou seja, a passagem que não é pensada” Ainda o tempo kantiano em H.
“A caracterização hegeliana do tempo a partir do agora pressupõe que o agora permaneça encoberto e nivelado em toda a sua estrutura, a fim de poder ser intuicionado como algo simplesmente dado, embora ideal.”
“Mas, por vezes, ele também caracteriza o tempo como a <abstração do desgaste>, fornecendo, assim, a fórmula mais radical [ainda demasiado humana e cristã] da experiência e interpretação vulgares do tempo.” “na caracterização do tempo como devir, Hegel também compreende o devir em sentido <abstrato>, que ultrapassa a representação de <fluxo> do tempo.” “É somente partindo deste conceito dialético-formal do tempo que Hegel pode expor o nexo entre tempo e espírito.”
“Na passagem de Kant para o sistema elaborado de Hegel, cumpre-se ainda uma vez a irrupção decisiva da ontologia e da lógica aristotélicas. Isso é um fato de há muito conhecido. Mas ainda permanecem obscuros o caminho, o tipo e os limites da influência. Uma interpretação filosófica e concretamente comparativa da Lógica de Jena de H. [não é a Lógica que conhecemos, mas um tratado de juventude] e da Física e Metafísica de Ar. trará uma nova luz.” “a concepção de Bergson concorda, em seus resultados, com a tese de Hegel de que espaço é tempo.” E no entanto eu observei o outro lado da moeda, bem mais acima: ora, Hegel subsume o espaço NO tempo; Bergson o oposto.
“[Em Hegel] <Progredir> é sempre um saber-que-se-sabe-em-sua-meta, sendo, por isso, sabido.” “Porque a inquietação do desenvolvimento do espírito, que se leva para seu conceito, é a negação da negação, resta-lhe como próprio, em se realizando, cair <no tempo>, no sentido de negação imediata da negação. Pois <o tempo é o próprio conceitoque existe e se representa para a consciência como intuição vazia; por isso, o espírito se manifesta necessariamente no tempo e tanto mais quanto menos ele apreende seu conceito puro, ou seja, tanto menos ele elimina o tempo.>”
<A história universal é, por conseguinte, a interpretação do espírito no tempo assim como a idéia se interpreta no espaço como natureza>
“Enquanto simplesmente dado e, com isso, exterior ao espírito, o tempo não possui poder algum sobre o conceito, mas, ao contrário, o conceito <é o poder do tempo>.”
“Não se poderá discutir aqui se a interpretação hegeliana de tempo e espírito e de seu nexo é legítima e se ela se baseia em fundamentos ontologicamente originários.” Covarde!
“O <espírito> não cai 1º no tempo, mas ele existe como temporalização originária da temporalidade.”
“O <espírito> não cai no tempo, mas a existência de fato <cai> da temporalidade própria e originária na de-cadente.”
Se faz de humilde no final para despistar que sua obra é incompleta e está aquém da ontologia nietzschiana de quase 100 anos antes, que já propunha um escape do Ocidente, enquanto que a proposição heideggeriana é exatamente como seu clamor (que no entanto é filosoficamente autêntico, mesmo se inteiramente baseado em Nietzsche): vazia, silenciosa. “A elaboração da constituição ontológica da pre-sença é, porém, apenas um caminho. A meta é elaborar a questão do ser em geral.” “[A conclusão de minha presente pesquisa] Não é algo com que a filosofia possa se tranquilizar.” Ó!
“Por nem sequer ter sido desencadeado, o combate em torno da interpretação do ser não se pode dar por terminado.”
Final patético: “Como se há de interpretar esse modo de temporalização da temporalidade? Haverá um caminho que conduza do tempo originário para o sentido do ser? Será que o próprio tempo se revela como horizonte do ser?”
Jean Baudrillard – Ed. Relógio D’Água, omite-se o tradutor.
subtítulo imaginário:
A TROCAÇÃO SIMBÓLICA E A MORTE – DO LUTADOR DE M&MA
HISTÓRIA
P. 17: “a pretexto de preservar o original, se proíbe o acesso de visitantes às grutas de Lascaux [aí lascô], mas que se construiu a réplica exata a 500m de distância, para que todos possam vê-las (dá-se uma olhadela à gruta autêntica pelo postigo e depois visita-se o todo reconstruído).”
“toda a ciência e a técnica se mobilizaram recentemente para salvar a múmia de Ramsés II, depois de a terem deixado apodrecer durante algumas dezenas de anos no fundo de um museu. O Ocidente foi tomado de pânico, perante a idéia de não poder salvar o que a ordem simbólica tinha sabido conservar durante 40 séculos, mas longe do olhar e da luz. Ramsés não significa nada para nós, apenas a múmia é de um valor incalculável, pois é ela que garante que a acumulação tem um sentido.” “Estamos fascinados com Ramsés como os cristãos da Renascença estavam com os índios da América, esses seres (humanos?) que nunca tinham conhecido a palavra de Cristo.” “Então das 2 1: ou se admitia que essa lei não era universal ou se exterminavam os índios para apagar as provas. (…) Deste modo terá bastado exumar Ramsés para o exterminar ao museificar”
COMUNISMO
“a esquerda dá muito bem conta de si própria e faz espontaneamente o trabalho da direita.”
“Todas as hipóteses de manipulação são reversíveis num torniquete sem fim.”
Makarius, A estratégia da catástrofe (em francês)
“Com o esgotamento da esfera política, o presidente torna-se cada vez mais parecido com esse manequim de poder que é o chefe nas sociedades primitivas (Clastres).”
“Por uma ironia é da morte do social que surgirá o socialismo, como é da morte de Deus que surgem as religiões.” Deus morreu, e finalmente obedeceu-o o judeu.
“Acabou o valor de uso ou o prestígio do automóvel (use menos gasolina, cuide da sua segurança, ultrapassou a velocidade, etc.), ao qual as características dos automóveis fingem adaptar-se. É pelo mesmo deslizar do <direito> de voto para <dever> eleitoral que se assinala o desinvestimento da esfera política.” Ter carro é uma boa idéia, o ruim é ter o carro!
Pp. 51-2: “Que sentido teve esta guerra, e a sua evolução não terá sido a de consolidar o fim da história no acontecimento histórico fulminante e decisivo da nossa época? Por que motivo esta guerra tão dura, tão longa, tão feroz, se dissipou de um dia para o outro como por encanto? Por que esta derrota americana (o maior revés da história dos EUA) não teve qualquer repercussão interna na América? (…) Nada aconteceu.” “normalização das relações Pequim-Washington: era isso a questão fulcral da guerra do Veitname e os EUA abandonaram o Veit. mas ganharam a guerra.”
Desassinei CartaCapital e nada mudou…
“Os comunistas atacam os socialistas como se quisessem quebrar a união da esquerda. Dão crédito à idéia de que estas resistências viriam de uma exigência política mais radical. De fato, é porque não querem o poder. [Paradigma PCO] Mas não o querem nesta conjuntura, desfavorável para a esquerda em geral, ou desfavorável para eles no interior da União da Esquerda – ou já não o querem por definição? Quando Berlinguer declara: <Não há que ter medo de ver os comunistas tomar o poder na Itália>, isto significa ao mesmo tempo:
que não há que ter medo porque os comunistas, se chegarem ao poder, não mudarão nada ao seu mecanismo capitalista fundamental;
que não existe qualquer risco de eles alguma vez chegarem ao poder (pela razão de eles não o quererem);
e mesmo se o alcançarem nunca farão mais que exercê-lo por procuração;
que, de fato, o poder, o verdadeiro poder, já não existe e portanto não há qualquer risco de que alguém o tome ou o retome;
mais ainda: eu, Berlinguer, não tenho medo de ver os comunistas tomar o poder na Itália – o que pode parecer evidente mas não tanto como isso já que
isso pode querer dizer o contrário (não é preciso psicanálise para tal): tenho medo de ver os comunistas tomar o poder (e existem boas razões para isso, mesmo para um comunista).
Tudo isto é verdade simultaneamente. (…)
E esta lógica não é nem de um partido nem de outro. Ela atravessa todos os discursos independentemente da sua vontade.”
“só o capital goza, dizia Lyotard, antes de pensar a partir de agora que nós gozamos no capital.”
“O poder pode encarnar a sua própria morte para reencontrar um vislumbre de existência: os Kennedy morriam por terem ainda uma dimensão política. Os outros, Johnson, Nixon, Ford, não tiveram direito senão a atentados-fantoches, a assassínios simulados.”
CINEMA
#semiofftopicChinatown, Os Três Dias do Condor (Three Days of The Condor), Barry Lyndon, 1900, Os Homens do Presidente (All The President’s Man), Last Picture Show, China Syndrome, “Mulholland Drive, the masterpiece of David Lynch”, Dr. Mabuse (jetrotal), Nosferatu, Nashville.
RESCALDO DAS RECOMENDAÇÕES:
Guépard [The Leopard] (1); Senso [Sedução da Carne] (2).
(1) retrato da aristocracia decadente;
(2) quando affairs internacionais afetam na política interna.
Diretor: Visconti, Luchino
Filme relacionado: Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses) (1950)
“Fala-se de voltar a fazer filmes mudos, melhores, sem dúvida também eles que os da época. Ergue-se uma geração de filmes que são, para os que conhecemos, o que o andróide é para o homem: artefatos maravilhosos, sem falhas, simulacros geniais aos quais não falta senão o imaginário, e esta alucinação própria que faz o cinema. A maior parte dos que vemos hoje [1980!] (os melhores) são já dessa categoria. Barry Lindon é o melhor exemplo: nunca se fez melhor, nunca se fará melhor… em quê?”
“Prazer cool, frio, nem sequer estético no sentido rigoroso do termo: prazer funcional, prazer equacional, prazer de maquinação.”
“Em Visconti há sentido, história, uma retórica sensual, tempos mortos, um jogo apaixonado, não só nos conteúdos históricos mas na encenação. Nada disto em Kubrick, que manobra o seu filme como um jogo de xadrez, que faz da história um cenário operacional.”
Já desconfiava da notoriedade sobre-comum deSergio Leone…
“O cinema plagia-se, recopia-se, refaz os seus clássicos, retroativa os mitos originais, refaz o mudo mais perfeito que o mudo de origem, etc.: tudo isto é lógico, o cinema está fascinado consigo próprio como objeto perdido, tal como está (e nós estamos) fascinado(s) pelo real como real em dissipação.”
A “economicidade” do discurso é, então, boa? – Prof. Marco Aurélio, CEUB
HOLOCAUSTO
“A televisão. Verdadeira solução final para a historicidade de todo o acontecimento. O esquecimento, o aniquilamento alcança assim, por fim, a sua dimensão estética (…) a partir de agora <toda a gente sabe>, toda a gente vibrou e choramingou perante a exterminação – indício certo de que <isso> nunca mais ocorrerá. (…) não ocorrerá de fato nunca mais porque desde sempre tem vindo (…) E querem-nos fazer crer que a televisão vai levantar a hipoteca de Auschwitz fazendo irradiar uma tomada de consciência coletiva”
O RESTO
“As pessoas têm vontade de tomar tudo, pilhar tudo, comer tudo, manipular tudo.Ver, decifrar, aprender não as afeta. (…) Nunca esperam esse fascínio ativo, destruidor, resposta brutal e original”
“O próprio cenário da cidade subterrânea – versão chinesa [X-Men; Teenage Mutant] de enterro das estruturas – é ingênuo.”
“Nós éramos uma cultura da violência libertadora (a racionalidade). (…) Uma outra violência completamente diferente que não sabemos analisar aparece hoje: violência implosiva”“Esta violência é-nos ininteligível porque todo o nosso imaginário está centrado na lógica dos sistemas em expansão.”“Os sistemas estelares também não deixam de existir, uma vez dissipada sua energia de radiação” “Deve-se evitar tomar a implosão por um processo negativo, inerte, regressivo, como a língua no-lo impõe ao exaltar os termos opostos de evolução, de revolução. (…) O Maio de 68 foi sem dúvida uma primeira reação violenta à saturação social (…) de resto em contradição com a ideologia dos próprios participantes, que pensavam ir mais longe no domínio do social (…) esta implosão tem conseqüências mais sérias que a própria revolução.”
Talvez hoje notássemos a diferença entre os homens se todos andassem com uniformes iguais. Mas como estão, individualizados, são não as vestimentas, é lógico, mas a carne e o espírito todos iguais.
Un livre, ma oeuvre!, appellé « Provérbios de Cila ou Sentenças de Caribde », avec tous mes jeux de mots de ces derniers ans au blog!
Ninguém se suicida pelo passado vergonhoso que tem nas costas; mas pelo futuro vergonhoso que sabe que terá.
“a pornografia é ficção hipertrofiada de sexo consumido na sua irrisão, para a sua irrisão, espetáculo coletivo da inanidade do sexo na sua assunção barroca”
Uma sociedade de que o sexo fosse banido e só houvesse clones de clones de clones da última geração de humanos nascidos sexuadamente.
“ser filho de si próprio é ainda ser o filho de alguém”
O homem é o câncer do homem.
Ballard, Crash
Philip Dick, Simulacres
Spinrad, Jack Barron ou L’éternité
Brunner, Stand on Zanzibar
(póst. a este livro) Viviane Forrester, O horror econômico(~20% nos favoritos: google books)
P. 173: “Os animais não têm inconsciente, porque têm um território. Os homens não têm um inconsciente senão desde que já não têm território. O território e as metamorfoses foram-lhes tiradas ao mesmo tempo – o inconsciente é a estrutura individual de luto onde se volta a representar, sem cessar e sem esperança, esta perda – os animais são a sua nostalgia.” [negrito meu]
SOBRE BAUDRILLARD: Seria preciso uma 3ª perspectiva. A 1ª é ele mesmo; a 2ª a “wikipedianesca”: que ele é um pensamento datado, tão incorreto quanto as escolas anteriores e as próximas, pertencente aos pós-estruturalistas, como um quadrinho na sucessão imagética do gibi. E então… sejamos IMPARCIAIS? Eis que o câmbio engancha e trava na troca de march…ops!
Eu sou um dado de 6 lados e você só acessa uma face…
O ISMO DO TERROR
E em seguida virá o CAOSISMO
O ACASISMO
O CONTINGENCIALISMO
“A violência teórica é o único recurso que nos resta.”
niilismo chapa branca como a névoa
um niilista na conferência da UnaSul
tudo vermelho
Lipovetski, A Era do Vazio
“Sexo e morte são os dois grandes temas reconhecidos pela sua capacidade de desencadear a ambivalência e o riso. (…) por que nos rimos? Só nos rimos da reversibilidade das coisas, e o sexo e a morte são figuras eminentemente reversíveis.”
“Todo o real é residual, e tudo o que é residual está destinado a repetir-se indefinidamente no fantasmal.”
“Mas quando tudo é recalcado já nada o é. Não estamos longe desse ponto absoluto do recalcamento (…) ponto de saturação crítica (…) então as energias já não têm de ser libertadas, gastas, economizadas, produzidas: é o próprio conceito de energia que se volatilizará por si próprio. (…) É preciso levar ao consumo insensato da energia para lhe exterminar o conceito. É preciso chegar ao recalcamento máximo (…) Quando o último litro de energia tiver sido consumido (pelo último ecologista), quando o último indígena tiver sido analisado (pelo último etnólogo), (…) quando a última fantasia tiver sido elucidada pelo último analista (…) dar-nos-emos conta de que esta gigantesca espiral da energia e da produção é apenas uma metafísica do resto e será resolvida de repente”
S&S REVISITED CONTRA O HOMEM QUE CONTRARIOU A DIALÉTICA [entreato]
Simulacra & Stimulation
estimulaxante
I can’t retreat all this meat from my teeth.
Reluctant as though you(r) may be…
trance&dance
transe&dane-se
The east, at least.
viragem voraz
virose rosa as a rose
whip! zás-trás
la vie en… zéro
varo a noite vingada
da traição armada
inútil escapar da fenda
There in the sun a dead start,
cogumelo rosa venenoso de Hiroshimario
postumo póst-humor, pós-tumor
* * *
aos-cílios de cuscuzteio para a mulher mulamanca máquiada
com quiabo
et laquê
o’melet’e me be an egg!
Eu sou Bill Microsoft, ou Windows Gate? Todos os portões se abrem, mas um vírus entra em Tróia. Juíndous do Mundo MicroSolar. Ploft! Versão Final 0.0
O dia que o mais miserável banguela chinês será mais rico que todas as ações da Nike. Corre atrás do tênis!
sou dinâmica e velocidade tão puras que inerciam… Na vida do artista tudo é glacial e nunca muda.
O futuro do mundo é um grande Já(la)pão. Do mundo, i.e., deste mundo. Velho e negativo. Fraturado e sorridente; e, pensando bem, não há engraxates, e os sapatos permanecem limpos! Ah, deixa eu me esticar na minha quase-cama…
uh, a garota tem cílios
man também tem cílios
se eu não tivesse olhos eu não veria os cílios
os filhos das filhas
só o cego extirpa sua própria linhagemfamília
sou cego no sossego?
ou morcego das noites atribuladas sigo na agitação dos mares broncos?
rumo a novos continentes negrotons
trabalho demente do operário trabalho elementar do operário trabalho demente do elemento trabalho de mão de mente do erário demento ele mente
O capitalismo irá acabar quando eu todos os meus livros resolver queimar retardado a fazer elucubrações braçais embaraçosas
poços viçosos de muita angústia
preto poço do conhecimento
A fala é uma falta, a escrita é uma estria. A cirurgia foi um sucesso, a marca é atroz e produz orgulho, será mostrada e demonstrada para todo o sempre no corpo anti-perene do ser-sendo comendo e sendo comido devorado pelas próprias estrias magnetiquespirituais subliminares de primeira plana. Chama que arde poética sem cicatrizar nem ferir morais preexistentes e quentes.
Doidivanitas subsolus
O papel do dólar não deixa nunquinha de ser uma expressão assaz irônica!
O nada do papel & o papel do nada
a flutuação e afogamento das moedas veladas pelos fardas-pretas
* * *
SIMULACRA & SIMULATION (S&S 2.0)
Anotações de 31/01/16 a 14/10/16
Tradução inglesa de Sheila Faria Glaser – an effort to fulfill the trilogy of the 2015 Baudrillard&Deleuze-thematic posts on this blog! A linguistical and comparative work, also. Maria de Costa Pereira havia sido a tradutora portuguesa que lemos acima!
DIC:
shred: pedaço; rasgo; traço.
“Overwhelming versatility of desire in Deleuze, an enigmatic reversal that brings desire ‘revolutionary in itself, and as if involuntarily, wanting what it wants’, to desire its own repression and to invest in paranoid and fascist systems? A malign torsion that returns this revolution of desire to the same fundamental ambiguity as the other, the historical revolution.”
“this fable has now come full circle for us, and possesses nothing but the discrete charm of 2nd order simulacra.”
“It is all of metaphysics that is lost.”
“it is genetic miniaturization that is the dimension of simulation.” “The real no longer needs to be rational, because it no longer measures itself against either an ideal or negative instance.” “Never will again the real have the chance to produce itself” “the orbital recurrence of models and the simulated generation of differences.”
“One can see that the iconoclasts, whom one accuses of disdaining and negating images, were those who accorded them their true value, in contrast to the iconolaters [who – oh! – arrive so late!] who only saw reflections in them and were content to venerate a filigree God.”
“This was the approach of the Jesuits, who founded their politics on the virtual disappearance of God and on the worldly and spectacular manipulation of consciences – the evanescence of God in the epiphany of power – the end of transcendence.”
“Whereas representation attempts to absorb simulation by interpreting it as a false representation, simulation envelops the whole edifice of representation itself as a simulacrum.” “no longer a Last Judgement to separate the false from the true, the real from its artificial resurrection, as everything is already dead and resurrected in advance.”
Carlos Castaneda, The Teachings of Don Juan: A Yaqui Way of Knowledge & the 2 sequences…
“They no longer walk, but they go jogging, etc.”
O conceito de eterno no que tem limite ou de contível ou contável no que na verdade não tem fim: transfinito. Conceito meramente pós-euclidiano?
Sinu-site não vai, vai no papel mesmo!
I lea(r)n (fr)on(n) you
FLÁVIO & OS ECO-CHATOS DO ÚLTIMO BARRIL DE PETRODÓLARES:“it is the social itself that is organized along the lines of a disaster-movie script.” Dois idiotas bebendo no bar.
TRANS-TRANSLATION
META-TRANS-ACTION
TRANS-ITO
TRANS-CADO EM CASA
UMA TRANSMA ELABORADA
Sou imanentossexual!
Saturno Toguro Sartori Saqueio fumo e trago anéis de Saturno. Disco platinado. Efeito foguesfumaçado mato italiano cópia do renasço.
“the only weapon of power is to reinject the referential everywhere, to persuade us of the reality of the social, of the gravity of the economy and the finalities of production. To this end it prefers the discourse of crisis, but also, why not? that of desire.‘Take your desires for reality!’ can be understood as the ultimate slogan of power since in a non-referential world even the confusion of the reality principle and the principle of desire is less dangerous than contagious and hyperreality [here we are now, entertain us].” Nothing is real but pain now… Donnez-moimon pain. bagueta baqueta é a lights out of tie tá?! QUE DEDÊ! Sai, R.! Beleuze… Paraneud & eud. Para n’ode to victory zero.
Quem eu estou lendo mesmo???“Capital was the first to play at deterrence (…) deterritorialization (…) exterminating all use value, all real equivalence of production and wealth (…) disastrous spiral”
Mansão Engendrar de Amigos Imaginados
“What every society looks for in continuing to produce, and to overproduce, is to restore the real that escapes it.”
Maquinaquiavel
Quem procura a crise na verdade assume a roupagem da crise da procuração. Eu escrevo é para esquecer, se eu escrevesse para lembrar este blog seria mínimo. E bem polido.
“in a society that cannot terminate its mourning.”
Madil Boo Rousseff
“the new presidents are nothing but caricatures and fake film” Não há um segundo Collor, macaco marionete do poder. Oozaru de cauda cortada.
annual annulation
Nirvanaxon “Nixon arrived at the goal of power: to be taken seriously enough to be denounced, and liquidated.”
“Ford is immunized by his impotence, which infuriates him.” which in fury eats him
Bill Clinton paga a conta do clitóris não perfeitamente redondo ou elíptico ou branco ou limpo. Pagar boquete para o homem mais poderoso do mundo – todos os canais de TV e audiência chupando, na verdade, o sêmen e o gérmen da Terra – parece conosco mesmo, foi menos que uma compulsão ao auto-sexoral. …An(d) oral(B)for all…
before all the breakfasts…
legitimate mating
Então fica entalada na garganta a pergunta: Monica Lewinsky engoliu ou não a porra toda? Bill gozou? Hillary já se masturbou pensando nisso, imaginando a cena? Cada americano agiu na cabecinha da secretária – em nome de todos, ela não podia recusar.
“Um homem da sua posição não pode…”
Não pode ser um homem.
Tem que ser um manequim, sem pau…
Para que não cheguem a quebrar o pau…
E especular sobre a impotência e a infelicidade do sonho americano…
No Texas e aposentado, Bush pode ser o depravado…
Que situação chata! superação da crise…
&fall
fomentou a fome no mundo, já dizia Mastruz.
TRANSCAMAERATURA
FhC é um coxinho, porque todas as suas viúvas são coxinhas.
“a typical ideal American Family, California home, 3 garages, 5 children, assured social and professional status, decorative housewife, upper-middle-class standing. In a way it is this statistical perfection that dooms it to death, it is, as in ancient sacrifices, chosen in order to be glorified and to die beneath the flames of the medium, a modern fatum. Because heavenly fire no longer falls on corrupted cities, it is the camera lens that, like a laser, comes to pierce lived reality in order to put it to death. ‘The Louds: simply a family who agreed to deliver themselves into the hands of television, and to die by it’, the director will say.” “sacrificial spectacle offered to 20,000,000 Americans.”
“You no longer watch TV, it is TV that watches you” “A switch from the panoptic mechanism of surveillance (Discipline and Punish) to a system of deterrence, in which the distinction between the passive and the active is abolished.”
“YOU are the model!” “YOU are the majority!”
“We are no longer in the society of the spectacle, of which the situationists spoke, nor in the specific kinds of alienation and repression that it implied.”
“That discourse ‘circulates’ is to be taken literally: that is, it no longer goes from one point to another, but it traverses a cycle that without distinction includes the positions of transmitter and receiver, now unlocatable as such.”
“power is something that circulates and whose source can no longer be located” “an endless reversion that is also the end of power in its classical definition.” “one can always ask of the traditional holders of power where they get their power from. Who made you duke? The king. Who made you king? God. Only God no longer answers. But to the question: who made you a psychoanalyst? the analyst can well reply: You.”
“power is resolved in perfect manipulation.”
HORIZON AT DUSK: “Anti-Copernican revolution: no transcendental instance either of the sun or of the luminous sources of power and knowledge – everything comes from the people and everything returns to them.”
“dissolution of TV in life, dissolution of life in TV – indiscernible chemical solution”
“a collapse of the 2 traditional poles into each other: implosion (…) That is where simulation begins.”
“Atomic war, like the Trojan War, will not take place”
EGG-SMASHING… A SALAD OF IDEAS
A vida ou o DNA, qual é o preeminente?
A balança do terror é o terror da balança.
Um reality show com a Família Silva não daria muito certo…
Quem te fez Deus? Meu procurador, o mendigo.
Pra infelicidade das bandas punk, nada sucederá…
A sacola plástica tampouco irá nos assassinar…
Mas O PNB armamentista sem hesitar se multiplicará…
Daqui, na selva, até o extra-civilizado Japão – o jornalista é o único bobinho crente no final das contas. O resto pode se entregar à flutuação dos juros e ao sexo de cada dia; é o que conta no último dia do mês: estar com tudo em dia.
changed, change the world
(chan)ta(ge)m d(o) (mundo)
“No longer can any revolt, any story be deployed according to its own logic because it risks annihilation.” “Because if the law, with its aura of transgressions, if order, with its aura of violence, still taps a perverse imaginary, the norm fixes, fascinates, stupefies, and makes every imaginary involute.” “The vertigo of a world without <<f>>laws.”
“all bombs are clean”
“misfortunes are even more numerous (…) But, subtly, they no longer have any meaning, they are no longer anything but the duplex effect of simulation at the summit.”
A bomba. A ilha. A bomba. Um mundo. Deterrência. A song. Uma música. Uma música… Estouro d’Os Tímpanos.
“all ‘newsreel’ footage thus gives the sinister impression of kitsch, of retro and porno at the same time – doubtless everyone knows this, and no one really accepts it. The reality of simulation is unbearable – crueler than Artaud’s Theater of Cruelty.”
“precisely only the Americans, as they did in Hiroshima, have a right to this ‘use value’ of the bomb: all of those who have acquired it since will be deterred from using it by the very fact of possessing it.” “Responsibility, control, censure, self-deterrence always grow more rapidly than the forces or the weapons at our disposal: this is the secret of the social order.” “the whole myth of the total and revolutionary strike crumbles at the very moment when the means are available – but alas precisely because those means are available. Therein lies the whole process of deterrence.”
“Energies freeze in their own fire, they deter themselves.”
“The illusion would be to congratulate oneself on this ‘awareness of history on the part of cinema’, as one congratulated oneself on the ‘entrance of politics into the university’.” “at least there was history, at least there was violence (albeit fascist) (…) this void, the leukemia of history and of politics”
“it is naïve to conclude that the evocation of fascism signals a current renewal of fascism (…) it is for this reason that fascism can again become fascinating in its filtered cruelty”
“History is a strong myth, perhaps, along with the unconscious, the last great myth.”
“Fascism itself, the mystery of its appearance and of its collective energy, with which no interpretation has been able to come to grips (neither the Marxist one of political manipulation by dominant classes, nor the Reichian one of the sexual repression of the masses, nor the Deleuzian one of despotic paranoia)”
“Harrisburg is a sort of 2nd-order simulation. There is certainly a chain reaction somewhere, and we will perhaps die of it, but this chain reaction is never that of the nuclear, it is that of simulacra, and of the simulation where all the energy of the real is effectively swallowed” “an explosion is always a promise, it is our hope: (…) the whole world waits for something to blow up” “unhappiness is when there is no nuclear spectacle (Hiroshima is over) (…) substantial food for our messianic libido.” “But that is precisely what will never happen. No more energy in its spectacular and pathetic form – all the romanticism of the explosion which had so much charm, being at the same time that of revolution – but the cold energy of the simulacrum and of its distillation in homeopathic doses in the cold system of information.” “In the film, also, real fusion would be a bad argument: the film would regress to the level of a disaster movie – weak by definition (China Syndrome, 1979)”
“in its inspired moments, it is God who through his cataclysms unknots the equilibrium of terror in which humans are imprisoned. Closer to us, this is what terrorism is occupied with as well: making real palpable violence surface in opposition to the invisible violence of security.”
“the Molochian joy of filming the sacrificial joy of so many millions spent, of such a holocaust of means”
“the war in Vietnam ‘in itself’ perhaps in fact never happened, it is a dream, a baroque dream of napalm and of the tropics” “perhaps waiting for nothing but consecration by a superfilm” “this is the brutal quality of this film – not being rotten with the moral psychology of war.”
“clownish effect in overdrive”
“how is such a horror possible?”
“if the Americans (seemingly) lost the other one, they certainly won this one. Apocalypse Now is a global victory.”
“the film is a phase of this war without end”
“One has not understood nothing, neither about the war nor about cinema, if one has not grasped the reversibility of both destruction and production, of the immanence of a thing in its very revolution, of the organic metabolism of all the technologies.”
Simulados & Liaisons
Sila und siLa
careforbde the entrance
Homecaribde medical centre of eternity
Vaginaltura
momento pelado vendo a crueza do momento-estátua nádega
nada a negar às danadas nadadeiras p/ q. +- ñ qro v.
na adega a gnt vê
agarradinho
sa(liv)at(e)
the pizza
eu te (de)texto no meu jogo de Romeu
rogo a Deus
louco rasga dinheiro mas são rasga bilhete azul
receitazul
“a veritable cultural mourning for which the masses are joyously gathered”
“any operation meant to put an end to culture only serves, as one knows, to resurrect it.”
O meio é a massagem do ego.
O mundo moderno, sólido como é, é convexo, e não côncavo, porque somos o eterno “deslizar da maçaneta da descoberta”, encarnamos a queda do centro para a periferia, de dentro para fora, somos expulsos do paraíso e não quaisquer escravos da gravidade, de um miolo magnético. Cada vez mais expansivos e claros, rolando sobre nós mesmos. Não há buraco ou mistério. A borda do precipício é o horizonte infinito. Não investigamos, escorregamos.
O jogo da batata cada vez mais gelada.
eu não repouso eu redecolo
inertia e sóbrinha violenta e rápida ao mesmo tempo
Não querendo ser freudiano, mas como não ver sexo na descida de um toboágua? cupidez estupidez 10 estampidos de cupins despe o cu no caixão
Talião tal filho
Tal leão tal simbazinho
fetishy não se mostra fácil
Fat’n’roll
Shynese democracy
Me tira de dentro do espelho, eu que te coloquei aí.
“The dream of seeing all that explode by dint of contradictions is precisely nothing but a dream. What is produced in reality is that the institutions implode of themselves, by dint of ramifications, feedback, overdeveloped control circuits. Power implodes, this is its current mode of disappearance.”This text
“all the philosophies of the release of energy, of the irradiation of intensities and of the molecularization of desire [!] go in the same direction, that of a saturation as far as the interstitial and the infinity of networks. The difference from the molar to the molecular is only modulation, the last perhaps, in the fundamental energetic process of expanding systems.”
CREMATÍSTICA SOLAR: “the solar myth of an inexhaustible radiation, on which Bataille founds his sumptuary anthropology: it is the last explosive and radiating myth of our philosophy.”
where everybody conceal their interests, the aggreegate!
conscious zeal
im-plant a new forestal order
Nem só de perucas brancas se faz a aristocracia.
Monod, Chance and necessity(a monadologia em xeque)
CAMINHO DO DESTINO
Cada um escolho seu caminho
cada um tem um destino
apesar do mau-olhado
eu não desafino
mesmo rouco entoo o hino
talvez que meu destino
seja a desafinação
seguir torto é o meu caminho
* * *
“information produces meaning (…) We are all complicitous in this myth. It is the alpha and omega of our modernity”
“the integrated circuit of the negative”
“Myth exists, but one must guard against thinking that people believe in it”
VICENTES & FAZENDAS: “media are producers of the implosion of the social and this is only the macroscopic extension of the implosion of meaning at the level of the sign.”
CAMPAINHA DA LIQUIDARIEDADE: Descrição de uma crise de pânico no trabalho
Eu sou o ponto da minha sala onde a comunicação se perde e o chiado aparece. O mudo sabe-tudo. Aquele que mais pode e menos muda o mundo. O único que vai fundo e ainda assim não pesca nada, só dissabores de garganta. Baque–teria como desligar o ar?–do coração engasgadopusoprimido. Me dói muito saber. “O homem que derruba o café” “O ateu que suja a mesa” “O excêntrico que irá se casar” “O músico que não dá espetáculo” “O gênio que não quer trabalhar” “O esforçado que vive doente” O subjugado arrogante. A quina da minha cela. Sente na minha sela – cavalo que dá coice e come doce.
24/07/16
“But it would be useful to posit the opposite hypothesis”
“the term catastrophe itself only signifies the curvature, the winding down to the bottom of a cycle that leads to what one could call the <horizon of the event>”
B., Requiem for The Media
O TÍTERE MANIPULADOR:¹“the media make themselves into the vehicle of the moral condemnation of terrorism and of the exploitation of fear for political ends, but simultaneously, in the most complete ambiguity, they propagate the brutal charm of the terrorist act, they are themselves terrorists, insofar as they themselves march to the tune of seduction.”
¹ Nome alternativo: Paradoxo de Eddie – para denotar a posição intermediária de Satã na capa do Number of The Beast (1982).
“insoluble double bind”
“the practices of the masses – that we bury under the derisory terms of alienation and passivity.”
“the current argument of the system is to maximize speech, the maximum production of meaning. Thus the strategic resistance is that of the refusal of meaning and of the spoken word – or of the hyperconformist simulation of the very mechanisms of the system”
“See what surplus value of the social each advertisement tries to produce: Werben werben (advertise advertise) – the solicitation of the social everywhere, present on walls, in the hot and bloodless voice of female radio announcers, in the accents of the sound track” “If at a given moment the commodity was its own publicity (there was no other) today publicity has become its own commodity.” “The social as a script, whose bewildered audience we are.”
“since today advertising has escaped the social and moral dramaturgy that it still represented 20 years ago.” this excerpt is from 40 years ago – o que houve? precessão da implosão?! somos muito mais moralistas, embora a formula siga relativamente inalterada…
“It is information that is putting an end to the reign of advertising. That is what inspires fear, and what is thrilling.”
“miniaturization of everyday life by computer science.”
“the autoerotic index of a system that does nothing but designate itself – whence the absurdity of seeing in it an <alienation> of the female body.”
“the social must be saved just as nature must be preserved: the social is our niche” “it has fallen into the register of supply and demand”
“Folklore dances in the metro, innumerable campaigns for security, the slogan <tomorrow I work> accompanied by a smile formerly reserved for leisure time”
“<I don’t let anyone choose for me> an Ubu-esque slogan, one that rang so spectacularly falsely, with a mocking liberty, that of proving the social while denying it.”
“Disaffected, but saturated. Desensitized, but ready to crack.”
“Everywhere there are 3 or 4 paths, and you are at the crossroads.”
“the stupefied hyperreal euphoria that we would not exchange for anything else, and that is the empty and inescapable form of seduction.” “it is useless to analyze advertising as language, because something else is happening there: a doubling of language (and also of images), to either linguistics nor semiology correspond”
“fixing the disappearance of the religious in the orgasm of statues.”
“The commodity is buried, like information is in archives, like archives are in bunkers, like missiles are in atomic silos.” “a culture that chose to bury itself in order to definitely escape its own shadow, to bury its seductions and its artifices”
heimlich/umheimlich
“Monocellular utopia which, by way of genetics, allows complex beings to achieve the destiny of protozoas.”
GEG (GÊNESE DA ESPIRAL GENÉTICA)
Eu fui meu pai. Eu me eduquei. Eu fui Édipo, eles me cegaram. Minha mãe me levou ao médico. Não me arrependi. Não estou sereno. Ou será que meus pais são meus avós, ou será que meus avós são meus pais? Não é essa a questão mas eu senhor e bebê, adulto e escravo? Que responsável abominável e inocente?
“a sacred fascination of the Two” “The individual is no longer anything but a cancerous metastasis of its base formula.”
Richard Pinhas, ‘Notes synoptiques à propos d’un mal mystérieux’
“The closer one gets to the perfection of the simulacrum the more evident it becomes how everything escapes representation” “there is no real: the 3rd dimension is only the imaginary of a 2-dimensional world, the 4th that of a 3-dimensional universe… Escalation in the process of a real that is more and more real through the addition of successive dimensions.” “only what plays with 1 less dimension is true, is truly seductive.” “What is exact is already too exact.”
A sombra do holograma.
“as if all truths swallowed its own criteria of truth as one <swallows one’s birth certificate> and lost all its meaning.” “Meaning, truth, the real cannot appear except locally, in a restricted horizon” “even the exact sciences come dangerously close to pataphysics.”
pathosphysics
Kafka, Colônia Penal
“Death, wounds, mutilations are no longer metaphors of castration, exactly the opposite – not even the opposite.”
“Kafka’s machine is still puritan, repressive, <a signifying machine>, Deleuze would say”
THE WHOLE HOLE
Tatuados são pan-sexuais. Fura-fura-dores. Costura o apêndice, engole o bandeide e a camisinha. Alça. Metal coçante, marca d’água marca-passo-na-rocha. Umbigo foradentro e do avesso. Ombroburacomanchagrande – pintassilgo. Pêlos pelos ê mais pelos. Semifinalmose. Cútis vermelha do cu. Ouro derretido na saliva lírica. Pino e(x)torsões. Tirar titica fresco de inseto galinha. Bafo antes do café da manhã – abafa. Faca. Manteiga. Tragar cocô frito. Tosse tuberculosa. Fiapo. Desdém. Dor ósseo-muscular. Espasmo. Alergorítimo do alergorritmo. Dança caipira pira pora nossa senhora roxa que xoxa. Organograma fungacional. A meretriz e a filial da putaria.
“a work of death that is never a work of mourning”
Não se chega a lugar nenhum – felizmente, que PARADA mas s a critica….
“The functionalism of Crash devours its own rationality, because it does not know dysfunction.” “Few books, few films reach this resolution of all finality or critical negativity, this dull splendour of banality or of violence, Nashville, Clockwork Orange.”
caerotic care and rot errático aero arroto carrot ambulância ambivalente
“The most likely answer is that the good old imaginary of science fiction is dead and that something else is in the process of emerging (not only in fiction but in the theory as well)”
1. “transcendent sphere” “dream is still the individualized form of utopia, in which transcendence is outlined in depth, even in unconscious structures” “the island”
2. “unbounded projection” “speed, and power increase to the nth power” “metallurgy, etc. Projected hypostasis of the robot.” “science fiction adds the multiplication of its own possibilities.”
3. “The models no longer constitute either transcendence or projection” “they’re immanent” “The field opened is that of simulation in the cybernetic sense” “(scenarios, the sitting up of simulated situations, etc.)” “there is no more fiction.”
“Reality could go beyond.” “The imaginary was the alibi of the real in a world dominated by the reality principle. Today, it is the real that has become the alibi of the model, in a world controlled by the principle of simulation.” “fiction will never again be a mirror held toward the future, but a desperate re-hallucination of the past.” “The conquest of space that follows that of the planet is equal to de-realizing (dematerializing) human space”
HALO-SE-NAÇÃO
Dragon Ball Z implode em Supernova, recidiva de velhos problemas, sensação de vazio, reciclagem noutra cor. Vilões divertidos – Goku trabalhador. Supermáquina dourada de tempos opacos-sombrios, dancinha e docinho da careta. Gordos em multiversos paralelo-integrados do combate zerozenal vital – tudo pretexto para fugir da mulher. A conveniência de Goten. Fusão de kis discrepantes e mimados. Só namekusei que nada rosazul eu sinto que, divino, eu sei. Super-shang tsung, hello, desire, long long time no see. I long for this re-visit.
A outra dimensão te deixa intacto no mesmo lugar.
Parar é que é voar.
“simulation is insuperable, unsurpassable, dull and flat” – Alice trancada no quarto sem [se] toca[r e] sem espelho.
“<One cannot simply do whatever one wants with nature.> The problems having become serious enough to damage the profitability of business, this drop in profitability may lead the breeders to return the animals to more normal living conditions.”
“In the same way one rediscovers psychology, sociology, the sexuality of prisoners as soon as it becomes impossible to purely and simply incarcerate them (1)
(1) Thus, in Texas, 400 men and 100 women experiment with the sweetest penitentiary in the world. A child was born there last June and there were only 3 escapes in 2 years. The men and women take their meals together and get together outside of group therapy sessions. Each prisoner possesses the only key to his individual room. Couples are able to be alone in the empty rooms. To this day, 35 prisoners have escaped, but for the most part they have returned of their own accord.”
“The worker also needs responsibility, self-management, in order to better respond to the imperative of production.”
“Once animals had a more sacred, more divine character than men.” “Only the animal is worth being sacrificed; as a god, the sacrifice of man only comes afterward, according to a degraded order.” “The structural opposition is diabolic, it divides and confronts distinct identities” “the cycle, itself, is symbolic” “(Does Deleuze envision something like that in his becoming-animal and when he says <Be the rose panther!>?)”
“must not be confused with the status of the domestic pet – the only type of animals that are left to us outside reserves and breeding stations – dogs, cats, birds, hamsters, all packed together in the affection of their master.” “In particular, our sentimentality toward animals is a sure sign of the disdain in which we hold them. It is proportional to this disdain. It is in proportion to being relegated to irresponsibility that the animal becomes worthy of the human ritual of affection and protection” “Sentimentality is nothing but the infinitely degraded form of bestiality, the racist commiseration, in which we ridiculously cloak animals to the point of rendering them sentimental themselves.”
“The violence of sacrifice, which is one of <intimacy> (Bataille), has been succeeded by the sentimental or experimental violence that is one of distance.” “Making animals speak, as one has made the insane, children, sex (Foucault) speak.” “It is not the ecological problem of their survival that is important, but still and always that of their silence. In a world bent on doing nothing but making one speak, in a world assembled under the hegemony of signs and discourse, their silence weighs more and more heavily on our organization of meaning.” “Thus spoke the moral discourses of man in fables. They supported structural discourse in the theory of totemism. Every day they deliver their <objective> – anatomical, physiological, genetic – message in laboratories. They served in turns as metaphors for virtue and vice, as an energetic and ecological model, as a mechanical and formal model in bionics, as a phantasmatic register for the unconscious and, lastly, as a model for the absolute deterritorialization of desire in Deleuze’s <becoming-animal> (paradoxical: to take the animal as a model of deterritorialization when he is the territorial being par excellence).” “…animals maintain a compulsory discourse.” “One never escapes the reversion that follows any kind of exclusion.” “Such was the silence of madmen that it forced us to the hypothesis of the unconscious – such is the resistance of animals that it forces us to change hypotheses. For if to us they are and will remain unintelligible, yet we live in some kind of understanding with them.”
“(3) That animals wander is a myth, and the current representation of the unconscious and of desire as erratic and nomadic belongs to the same order. Animals have never wandered, were never deterritorialized (…) freedom to <fulfill all needs>, today <of realizing all his desires> – because modern Rousseauism has taken the form of the indeterminacy of drive, of the wandering of desire and of the nomadism of infinitude (…) free, virgin nature, without limits or territory, where each wanders at will, never existed, except in the imaginary of the dominant order of which this nature is the equivalent mirror. We project the very schema of deterritorialization that is that of the economic system and of capital as ideal savagery. Liberty is nowhere but in capital, it is what produced it, it is what deepens it. (…) the radicality of <desire>, one sees this in current theories, increases at the same rate as civilized abstraction, not at all antagonistically, but absolutely according to the same movement, that of the same form always more decoded, more decentered, <freer>, which simultaneously envelops our real and our imaginary. (…) they dream of total deterritorialization where the system never imposes anything but what is relative: the demand of <liberty> is never anything but going further than the system, but in the same direction.”
“[territory is] the morsel of space in immediate contact with the organism” “the notion of territory is also opposed in some way to that of the unconscious. The unconscious is a <buried> repressed, and circumscribed structure. The territory is open and circumscribed. The unconscious is the site of the indefinite repetition of subjective repression and fantasies. The territory is the site of a completed cycle of parentage and exchanges”
O MUNDO DO NÃO-DESEJO:“The obligations are absolute therein – total reversibility – but no one knows death there, since all is metamorphosed.” “don’t we live now and already, beyond the effects of the linearity and the accumulation of reason, beyond the effects of the conscious and unconscious, according to this brute, symbolic mode? (…) don’t we dream of implosion rather than of explosion, of metamorphosis rather than energy, of obligation and ritual defiance rather than of liberty?”
O TEMA DA SOMBRA E DO REFLEXO DO EU:
Peter Schlemihl, The Man Who Lost his Shadow
The Student from Prague (movie)
Hans Christian Andersen, The Shadow
“Psychoanalysis itself is the first great theorization of residues (lapses, dreams, etc.). It is no longer a political economy of production that directs us, but an economic politics of reproduction” “the return of the repressed as a powerful moment, of the return of the remainder as surplus of meaning”
VÃ PIRO DOIDÃO
Não agüentou meus detritos! Ou amo-os só como detritos.
“It is the Left that secretes and desperately reproduces power, because it wants power, and therefore the Left believes in it and revives it precisely where the system puts an end to it. The system realizes one by one all the objectives of the historical and revolutionary Left that sees itself constrained to revive the wheels of capital in order to lay siege to them one day.”
“Diplomas are worthless: why would it [academia] refuse to award them? in any case it is ready to award them to everybody!”
“By rotting, the university can still do a lot of damage. But for this to be the case it is necessary to start with this very rotting, and not to dream of resurrection. (…) the death of university as a model of decomposition of the whole of society, a contagious model of the disaffection of a whole social structure, where death would finally make its ravages, which the strike tries desperately to avert, in complicity with the system, but succeeds, on top of it all, only in transforming the university into a slow death, a delay that is not even the possible site of a subversion” “the challenge of a deterritorialization even more intense than the one that came from the system (…) this total lack of a need to gather in a given place (…) not the crisis of the university, that is not a challenge, on the contrary, it is the game of the system, but the death of the university – to that challenge, power has not been able to respond, except by its own dissolution in return”
“They were not there to save the Sorbonne, but to brandish its cadaver in the face of the others, just as black people in Watts and in Detroit brandished the ruins of their neighborhoods to which they had themselves set fire.” Thus, there are no buses.
“1968 is dead, repeatable only as a phantasm of mourning.” “All around us there are nothing but dummies [manequins; chupeta(!)] of power, but the mechanical illusion of power still rules the social order” “Yet it is there that one must fight, if even fighting has any meaning anymore.” “it is in this tactical universe of the simulacrum that one will need to fight – without hope, hope is a weak value, but in defiance and fascination.”
“The challenge capital directs at us in its delirium – liquidating without shame the law of profit, surplus value, productive finalities, structures of power – must be raised to an insanely higher level. Capital, like value, is irresponsible, irreversible, ineluctable.” “only the vertiginous seduction of a dying system remains, in which work buries work, in which value buries value” “Surrounded by the simulacrum of value and by the phantom of capital and of power, we are much more disarmed and impotent than when surrounded by the law of value and of the commodity” “This supreme ruse [astúcia; falcatrua; estratagema] of the system only a superior ruse can stop, only a pataphysics of simulacra can remove us from the system’s strategy”
“This is why there are still good days left to fascist and authoritarian methods, because they revive something of the violence necessary to life. The violence of ritual, the violence of work, the violence of knowledge, the violence of blood, the violence of power and of the political is good! This is lacking today, and the need for it makes itself felt.”
“it is necessary to recreate the professor either as a mannequin of power and knowledge, or to invest him with a modicum of legitimacy derived from the ultra-Left – if not the situation is intolerable for everyone.” “it is based on the phantom scenario of pedagogy that things continue and this time can last indefinitely. Because there is an end to value and to work, there is none to the simulacrum of value and of work. The universe of simulation is transreal and transfinite: no test of reality will come to put an end to it”
let the world get evil and get old
get hOLD of it
I always kNEW
niilismo do teoria da niilismo
“When God died, there was still Nietzsche to say so (God is not dead, he has become hyperreal)” “in a bizarre fashion, nihilism has been entirely realized no longer through destruction, but through simulation and deterrence.”
Não em vão, mas num vão, por um vão! Vão!
“there is no longer an apocalypse”
Alice nunca vai acabar de desaparecer.
Betaform
“Now, fascination is a nihilistic passion par excellence” “He who strikes with meaning is killed by meaning.” “revenge of speed on inertia.”
“it would be our own mode of destroying finalities: going further, too far in the same direction” “is it not the obscene secret of cancer?”
O MUNDO EM CANTADO DO BARULHO
impermeável a terapias
irreversibilidade irreversível
“there is no longer even pathos – that mythical energy that is still the force of nihilism (…) dramatic anticipation. It is no longer even disenchantment, with the seductive and nostalgic, itself enchanted”
P. 162: o papel crucial de Benjamin & Adorno no “3º niilismo”.
“melancholia is the fundamental tonality of functional systems, of current systems of simulation, of programming and information.”
“Against this hegemony of the system, one can exalt the r[e]uses of desire, practice revolutionary micrology of the quotidian, exalt the molecular drift or even defend cooking. This does not resolve the imperious necessity of checking the system in broad daylight.”
(*) “Martin Heidegger especially insisted upon this; he saw Ecce Homo not as the ‘apotheosis of uninhibited self-presentation and boundless self-mirroring’ nor as ‘the harbinger of erupting madness’, nor even simply as a ‘biography’, but rather in fact as ‘a <destiny>, the destiny not of an individual but of the history of the era of modern times, of the end of the West.’ (Martin Heidegger, Nietzsche. Volumes Three and Four, ed. David Farrell Krell, San Francisco: Harper & Row, 1987, 3). Following Heidegger, Rodolphe Gasché interpreted EH as a ‘Gestalt’ in the sense of the form of a being (ιδέα in the Platonic sense, ειδος in the Aristotelian sense), in the sense of the mature form of Nietzsche’s life to be sure, but nonetheless as a Gestalt that, contrary to Heidegger, obliterates ‘the metaphysical duality of being and becoming’ (275) through the idea of the eternal recurrence of the same (Rodolphe Gasché, ‘Autobiography as Gestalt: Nietzsche’s Ecce Homo’, in Daniel O’Hara, ed., Why Nietzsche Now?, Bloomington, 271-290). Nevertheless, even such a keen Nietzsche interpreter as Eric Blondel could see in Ecce Homo only ‘an accumulation of lies, apotheoses, falsifications’, in other words, ‘selfishness’ (293) – to which Nietzsche himself explicitly confessed (EH, Why I Am So Clever 9) (Eric Blondel, ‘Nietzsches Selbstsucht in Ecce Homo’, Perspektiven der Philosophie 20, 1994, 291-300). Peter Sloterdijk confirms Nietzsche’s ‘<selfishness>’ (45) or ‘<megalomania>’ (40), both of which he places in quotation marks: ‘The light values of Nietzsche’s most exposed statements about himself are so excessive that even the most benevolent and freethinking readers, even those who, in their intoxication, are agreeable to him, avert their eyes at these moments’ (40). But Sloterdijk also legitimizes this selfishness in describing ‘the event of Nietzsche as a catastrophe in the history of language’ (8) and his ‘obscene abundance of self-praise’ as the unleashing of the ‘eulogistic power of language’ or of ‘speaking well [Gutreden]’ – of speaking well not for Nietzsche’s own sake, but in order to overcome the ressentiment-laden ‘speaking-poorly-systems [Schlechtredesysteme]’ of metaphysics and morality (28f.). Sloterdijk writes that Nietzsche pursued ‘the revaluation of all embarrassments [Peinlichkeiten]’ with the ‘cynicism’ of a Diogenes of Sinope (46) and offered his readers a new innocence of extravagant speaking well through the ‘gift-giving virtue’ with which he has his Zarathustra speak (51). Of course, in the end Sloterdijk counts Nietzsche only as a ‘trend designer’ of the ‘individualistic wave’, as a ‘life-style-brand’: ‘Only a fool, only a poet, only an ad writer’ (54, 57). And not a philosopher? (Peter Sloterdijk, Über die Verbesserung der guten Nachricht. Nietzsches fünftes ‘Evangelium’. Rede zum 100te Todestag von Friedrich Nietzsche, gehalten in Weimar am 25. August 2000 (Frankfurt, 2001).”
“No philosopher before Nietzsche spoke in this way; none declared himself the destiny of philosophy and of humanity. We must confront even this unheard-of claim and ask why he spoke in this way.”
JOGO DE ESPELHOS: “But this claim could also be ironic – in the sense of Socrates, whose assertion that he knew nothing could likewise only appear presumptuous in the face of his superior knowledge. Yet only under the protection of this presumption could Socrates question his interlocutors in such a presumptuous way as he did, thereby exposing all their knowledge as groundless.” “He presumed the right to subject a divine oracle to philosophical examination, invoking his own god who spoke only to him and remained unknown and foreign to others, his δαιμόvιov.” “and then the intention was not to elevate his own revaluation into the divine realm, but rather to bring the Socratic and the Christian revaluation, both of which invoked a god, back into the human, all-too-human realm.”
“To will one’s destiny is thus to make yet another paradox of the already paradoxical concept of destiny. It then contains not only the uncontainable, but also both the unwilled and the willed.” Querer o inquerível.
“if one does not want to succumb to destiny, one must be hard and inexorable like destiny – by accepting that which is beyond his control as his own will”
1. I know my fate
“In professing to know a fate, one speaks as a prophet. But prophets (at least those of the Hebrew Bible) do not foretell destinies so much as they primarily ‘see’ – despite the resistance of common foolishness – and then proclaim what has already happened (in the case of the biblical prophets, primarily the turning away of the chosen people from God) and what the consequences must be.”
Eu sei quais serão as conseqüências de meus atos – com bastantes detalhes, no Ocidente. A continuação – ou definhação – da Primeira filosofia.
A transmutação é necessária; a existência da existência garante sua inexorabilidade. A fé no fenômeno e a recusa de outro mundo – obrigatória desde a morte de Deus – avalizam suas conclusões.
2. One day my name will be associated with the memory of something tremendous
“Even the name, then, is a destiny that one makes his own. Everything that happens to the ‘bearer’ of a name crystallizes around that name, which becomes the ‘concept’ that one has of him, and it is this concept that outlives him – for as long as someone remembers him.”
A evidenciação de uma compulsão. Mas nada diz sobre o ‘something tremendous’.
(*) “Conway’s pugnacious essay targets the idolatry that he believes Alexander Nehamas and Richard Rorty have committed with Nietzsche and especially with Ecce Homo, which he thoroughly excoriates.”
(*) “Derrida says that Nietzsche was the first philosopher to treat, with such decisiveness, ‘philosophy and life, the science and the philosophy of life with his name and in his name’, and that, in the sign of this name, he bound a ‘logic of the dead’ to the ‘logic of the living’”
3. a crisis without equal on earth, the most profound collision of conscience, a decision that was conjured up against everything that had been believed, demanded, hallowed so far
“Habermas judges Nietzsche to be just as dangerous as Nietzsche judged himself to be. And yet
Nietzsche had only ‘uncovered’ that the reason of European philosophy was a ‘counterfactual’ justification that did not take the factual as its standard – that it was, in other words, the object of a belief that is now, as Habermas also notes, no longer self-evident.”
(*) “He says that Nietzsche promoted a ‘heightening of the subjective to the point of utter self-oblivion’, that he ‘upset’ ‘the categories of intelligent doing and thinking,’ thus robbing modernity of its ‘emancipatory content’ and ‘shov[ing] it into the realm of metaphysically transfigured irrationality’. On this reading, Nietzsche carried out the ‘destruction of reason’, as Georg Lukács called it. Nietzsche critiqued the metaphysical concept of reason (see primarily Twilight of Idols), but also developed a new, quite differentiated concept of reason, which has yet to be explored in its contexts by Nietzsche researchers. For a critique of Lukács’s Nietzsche-critique, see Henning
Ottmann, ‘Anti-Lukács. Eine Kritik der Nietzsche-Kritik von Georg Lukács,’Nietzsche-Studien 13 (1984), 570-586, and Ottmann, Philosophie und Politik bei Nietzsche (Berlin/New York 1999), 429-433. For a discussion of Habermas’s Nietzsche-critique, see, most recently, Peter Sedgwick, ‘Nietzsche, Normativity, and Will to Power,’Nietzsche-Studien 36 (2007), 210-229.”
“the critique of reason had arrived at a crisis and now demanded a reorientation from the ground up, especially in Europe, which had believed so firmly in one, timeless reason. But as Nietzsche noted in his Lenzer Heide note, this reorientation would lead initially to a massive disorientation, to the liberation of forces that can, in their desperation, only destroy and thus also want to destroy; and this ‘crisis’ would erupt in a ‘paroxysm’, a ‘blind raging’‘of nihilism and delight in destruction’. The ‘dangerous consequences’ became a prophecy: the world wars, totalitarianisms, genocides and terrorisms that characterized the twentieth century could be understood (at least in part) as the outcomes of the intellectual crisis that had befallen the fundamental convictions of European thought, in particular the conviction in the beneficial effects of a reason that was common to all. From that time on, we can never again be sure of European reason.”
4. I am no man, I am dynamite
“ideas can develop explosive power. When opposed to other ideas, they can explode relationships between ideas – even those relationships in which the firmest belief has been held. Even the idea of the ‘equality of souls before God’ was, as Nietzsche says in The Antichrist 62, an ‘explosive of a concept which eventually became revolution, modern idea, and the principle of decline of the whole order of society – [was] Christian dynamite’.”
(*) “Nietzsche repeated the metaphor on a number of occasions in his letters. See Nietzsche to Paul Deussen, November 26, 1888, KSB 8, No. 1159, p. 492; to Georg Brandes, early December 1888, KSB 8, No. 1170, p. 500f.; to Helen Zimmern, December 8, 1888, KSB 8, No. 1180, p. 512; and to Heinrich Köselitz, December 9, 1888, KSB 8, No. 1181, p. 513 (‘highest superlative of dynamite’).”
5. Yet for all that, there is nothing in me of a founder of a religion
“A revaluation of all values like the one Nietzsche proclaims had to trigger a strong impetus for new religions – an impetus that we are also experiencing today.” “Unlike other critics of religion, Nietzsche does not replace religion with truth; he was also the harshest critic of truth.”
“Philosophers operate in dangerous proximity to founders of religion, only philosophers are less successful.”
(*) “GS 149: ‘Pythagoras and Plato […] had souls and talents that fitted them so obviously for the role of religious founders that one can scarcely marvel enough that they should have failed. Yet all they managed to found were sects.’ (…) : ‘None of the great Greek philosophers was a leader of the people: attempted most consistently by Empedocles (after Pythagoras), but also not with pure philosophy, but instead with a mythicized version of it. Others reject the people from the outset (Heraclitus). Others have a wholly refined circle of educated people as their public (Anaxagoras). Socrates displays the strongest democratic-demagogic tendency: the result is the establishment of sects, in other words, counterevidence. How could lesser philosophers ever be successful where philosophers of this sort were not? It is not possible to base a popular culture on philosophy. Thus, with regard to culture, philosophy never can have primary, but always only secondary, significance. How is it significant?’Unpublished Writings, p. 119 (…) ‘But first build one’s circle, chase others away.’ Aurora” – Um Clube da Lutaavant la lettre. Mas a situação de Zaratustra no Livro I é uma paródia desta época.
6. religions are affairs of the rabble
O PROBLEMA DO LUMPEN
“In philosophy too there is the rabble, people who follow the prevailing truths and valuations in order to find approval and acclamation.”
7. I find it necessary to wash my hands after I have come into contact with religious people
8. I want no “believers” (…) I think I am too malicious to believe in myself; I never speak to masses.”
Quem acredite inteiramente no que diz se torna logo uma referência popular.
Mesmo que eu fosse uma unanimidade, eu não seria (por mim mesmo).
9. I have a terrible fear that one day I will be pronounced holy
“To be ‘holy’ is to be inviolable and therefore also inviolably certain.” “With his Antichrist, Nietzsche wanted to enlighten and thus to overcome the values of Christianity. So he had to be apprehensive that, if he were successful, he himself would be pronounced holy by those who can only abandon an old belief for a new one”
Sandro Barbera, Paolo D’Iorio and Justus H. Ulbricht (eds.), Friedrich Nietzsche. Rezeption und Kultus (Pisa 2004);
Michael Hertl, Der Mythos Friedrich Nietzsche und seine Totenmasken. Optische Manifeste seines Kults und Bildzitate in der Kunst (Würzburg 2007).
(*) “And countless half-moral, half-religious ‘movements’ have invoked Nietzsche, including vegetarianism, [?!] feminism [?!?] and Zionism. [?!?!] Indeed, this kind of thing has happened to no other philosopher to date.”
10. I do not want to be a holy man; sooner even a buffoon… Perhaps I am a buffoon…
“the holy man where thought becomes inviolable and passes over into belief; the buffoon where it passes over into unbelief, where it becomes unbelievable and absurd and loses all seriousness. One must either believe the holy man or deny his holiness; the holy man constrains one to an either-or. But one is free before the buffoon; one can believe him one time and then laugh at him another time. This is the freedom that is important to Nietzsche, given the seriousness of the ‘destiny’ of the ‘task’ that he has taken on as his destiny.”
11. Yet in spite of that – or rather not in spite of it, because so far nobody has been more mendacious than holy men – the truth speaks out of me.
“The tension of this text – the loftiest in Nietzsche’s oeuvre – is now heightened to the extreme, evincing the agitation, passion and anger of a great prophet and thereby calling into question all objectivity. Nietzsche is now writing, speaking, breathlessly: with ellipses (‘…’), as if there were not enough time to utter the words; with insertions (parentheses), as if interrupting himself; with breaks marked by dashes (‘—’), as if there were no space for logical conjunctions.” “instinctively the reader himself takes responsibility for filling in the ellipses and the missing conjunctions. Without wanting to, the reader reads himself into the text, reads himself as well as the author.”
Rudolf Fietz, Medienphilosophie. Musik, Sprache und Schrift bei Friedrich Nietzsche (Würzburg 1992), 380-382;
Werner Stegmaier, ‘Nietzsches schriftstellerische Methoden’ in Nietzsches Befreiung der Philosophie. Kontextuelle Interpretation des V. Buchs der Fröhlichen Wissenschaft (Berlin/Boston 2012).
(*) “Heinz Schlaffer interprets this as a fascistic temptation: ‘He [the reader] waits longingly for the Führer, who can read the signs correctly because he himself has laid them out.’ According to Schlaffer, a literary scholar, Nietzsche’s style is responsible for the unfettering of German prose and, consequently, of German history (…) What must the condition of an intelligence and a politics have been, that they were so confused by a literary style?”
12. for so far one has called lies truth
O século XX não pôde prescindir de Nietzsche, encarando-o como mentiroso, hipócrita, errado ou… verdadeiro. Girando a mesma moeda sobre a mão. O que quer que ainda tenhamos a coragem de chamar de verdade parte do confronto com Nietzsche.
13. formula for an act of supreme self-examination on the part of humanity
Vale a pena seguir o projeto iluminista?, etc.
“truth has become self-evident, and because it has become self-evident it is difficult to break open. Whoever has the freedom to do that, Nietzsche says, must have faced the exceptional hardships in life that make such freedom possible”
“A genius is simply someone who, in his own hardship, rather randomly finds new and far reaching possibilities for others (see HH I 231)”
14. in opposition to the mendaciousness of millennia
“Millennia are Nietzsche’s philosophical measure of time: he has in mind primarily the two millennia that have passed since the founding of philosophy and Christianity, but also the fact that Europe must ‘cast its goals millennia hence’, that it stands under the ‘compulsion to great politics’ (BGE 208). This is the measure of time that measures up to his revaluation.”
“Clearly, ‘opposition’ is in this case not a conceptual opposition like truth and lie, but rather an existential opposition precisely to such supposedly self-evident conceptual oppositions. One does not bother to contradict them anymore, but rather stumbles into opposition to them by living differently, experiencing differently, thinking differently”
15. My genius is in my nostrils…
“Nostrils are the olfactory organs of horses: Nietzsche is likely alluding to Plato’s famous myth of the soul as a chariot (Phaedrus, 246 a-b), in which reason directs the horses but is also dragged along by them.”
16. I contradict as has never been contradicted before and am nevertheless the opposite of a No-saying spirit.
O ANTI-SCHOPENHAUER
Todos disseram “não” antes, veladamente ou não.
17. I am a bringer of glad tidings like no one before me
Zaratustra como o Quinto Evangelho
18. when truth enters into a fight with the lies of millennia, we shall have upheavals, a convulsion of earthquakes, a moving of mountains and valleys, the like of which has never been dreamed of.
“In this crisis Christian morality, as dogmatized by the Greeks, will manifest its deep rootedness in the thought of Europeans and will thus determine the politics whose most extreme means is war”
“They are, [the ideological wars] as the twentieth century sufficiently demonstrated, the most dangerous dynamite, further and literally employed by terrorism in the twenty-first century, as well.”
(*) “The word ‘ideology’ does appear in Nietzsche, though he seldom uses it.”
(*) “Nietzsche wrote to the Paris journalist Jean Bourdeau, to whom he sent his ‘proclamation’ against the Hohenzollern dynasty: ‘I honestly think it possible to bring order to the whole absurd situation of Europe by means of a kind of world-historical laughter, without even a drop of blood having to flow. In other words: the Journal des Débats is enough…’ (Nietzsche to Jean Bourdeau, presumably January 1, 1889, KSB 8, No. 1232, p. 570). (…) According to Balke, Nietzsche is only drawing the consequences from that which Michel Foucault would call ‘biopolitics’, and which had been immanent in European politics for ages, as Peter Sloterdijk then pointed out.”
“Nietzsche used the phrase ‘great politics’ early on, at first (and ironically) for the new German Empire. In his later work ‘great’ means not that which towers over other things, but rather that which is not negated by its opposition, does not perish by it, but rather can make it fruitful for himself and grow from it. In this way the ‘great reason of the body’ makes the ‘little reason’, pure reason, its ‘instrument and toy (Z 1)’; a ‘great health’ can ‘give itself up’ to grave sickness and thus become more robust (GS 382); ‘the great life’ itself lives off of war (TI, Morality as Anti-Nature 3); ‘great tolerance’ can, with ‘magnanimous self-mastery’, tolerate intolerance and grow from it (AC 38); and ‘great style’ can unite the highest pathos with sobriety and cheer (EH, Why I Write Such Good Books 4).”
(*) “The National Socialists, with their nationalism, socialism and anti-Semitism, would have been an abomination to Nietzsche, whose writings they found ‘too anti-nationalistic, too anti-German, too anti-philistine, too anti-revanchist, too anti-collectivist, too anti-militaristic, too anti-anti-rational, too anti-anti-Semitic, […] too irreconcilable with all politics of ressentiment’ (Sloterdijk, Über die Verbesserung der guten Nachricht, 59), so that they could not have invoked those writings without falsifying them. It was the National Socialists who first used the concepts of the degenerate and the parasitic in this manner. And Nietzsche did not publish these notes, which he composed at the same time as the drafts for the introductory aphorism of ‘Why I Am a Destiny’. In the notes to EH, Why I Am a Destiny 1, there follows another paragraph which he likewise did not publish:¹ ‘I know nothing that would be more opposed to the noble meaning of my task than this execrable incitement to the egoism of a nation [Volk] or a race that now lays claim to the name <great politics>; I have no words to express my contempt for the intellectual standard that now, in the form of the German Reich Chancellor and with the Prussian officer-attitudes of the Hohenzollern house, believes itself called to be the ruler of the history of humanity […]. There is more dynamite between heaven and earth than is dreamt of by these bloodstained idiots…’ (Nachlass 1888/89, 25[6]2, KSA 13, 640f.).”
¹ O que significa? Que a versão que temos ainda é forjada? Realmente não lembro de nada parecido no pacato Aurora, mas cabe bem como parágrafo do próprio EH.
“In Nietzsche’s time, the absolute (i.e., detached from life and its fortunes) value of an absolute truth – which was supposed to recognize adequately, and moreover give meaning to, all of life’s sufferings – had plainly become unbelievable. Since, in the European tradition, all other values were based on this value, a ‘revaluation of all values’ was inevitably called for. According to Nietzsche, it was his ‘lot’ and ‘calamity’ to have to see that unmistakably, to have to articulate it with incorruptible decency, and thus to have to become the ‘destiny’ of European humanity and, to the extent that all the world falls under European influence, the destiny of all humanity”
“Thus can one take even this unheard-of aphorism philosophically seriously and at its word.”
Volume I (Contendo os 4 livros ou TOMOS clássicos de MVR + o apêndice “Crítica da filosofia kantiana”), edição em Português, tradução e editoração de Jair Barboza, UNESP, 2005.
APRESENTAÇÃO: Um livro que embriaga
“Nos meios acadêmicos franceses o autor passa despercebido e até hoje ainda se encontra envolvido em penumbra. O mesmo não se dá na Alemanha, para o que em muito contribuiu sua recepção pela Escola de Frankfurt. Quanto à Inglaterra, graças ao domínio da filosofia analítica, o destino de qualquer filosofia continental é quase sempre a má compreensão e conseqüente assimilação falha, se bem que em referência a Sch. tenhamos lá a exceção de B. Magge. Ora, como o Brasil tem uma tradição filosófica acadêmico-uspiana marcadamente francesa, era natural que, num 1o momento, também importássemos de lá a penumbra a envolver o pensamento schopenhaueriano. Isso começa a mudar com uma tese doutoral defendida na Alemanha, de Muriel Maia, e publicada em 1991 pela Vozes, A outra face do nada. Em 1994 vem a lume pela Edusp/Fapesp, baseada em tese doutoral defendida no Brasil, de Maria Lúcia Cacciola, Schopenhauer e a questão do dogmatismo. A partir daí os estudos schopenhauerianos ganham significativo incremento entre nós, a ponto de bianualmente realizar-se numa cidade brasileira um colóquio em torno do pensamento do autor de O mundo, fórum privilegiado para discutir as mais diversas e instigantes temáticas filosóficas, não só relacionadas a Sch., mas também a um espectro de autores e temas que de algum modo permitem a prática da autêntica filosofia (que, como ensinava o velho e bom Platão, é essencialmente diálogo).”
“O leitor tem aqui a primeira versão integral [propaganda enganosa!] – com 3 prefácios, corpus da obra e a crítica da filosofia kantiana”
“Seguindo também a vontade dele, as palavras destacadas no texto vão em VERSALETE [CAPS LOCK aqui], em vez de itálico como é usual hoje em dia.” “As minhas notas, em algarismos arábicos, são indicadas por (N.T.), para diferenciá-las das notas de Sch. indicadas com asterisco (*), em conformidade com o original.” As MINHAS notas (Rafael Aguiar) estarão devidamente assinaladas fora das aspas, em cor azulada quando de fundamental importância.
“O ofício de traduzir textos filosóficos, ainda mais um clássico, é inglório: os justos méritos são todos do autor do texto e as críticas são todas para o tradutor” Critiquem o tradutor se calhar, ele deixou o e-mail no prefácio: jbarboza@gmx.net.Minha própria opinião sobre a presente tradução ao Português é de que ela é medíocre; não fosse pelas altas considerações ao estilo do original e pelos volumes 2 e 3 em Inglês, teria descontado uma estrela da avaliação do post (“3 de 5 estrelas”, no lugar de 4). Muitos trechos ficam horrendos e/ou ininteligíveis sem uma repaginada ou intervenção. Não cri necessário avisar ao leitor quando empreendi essas alterações “salvacionistas” na sintaxe das frases de Jair Barboza.
PREFÁCIO À 1ª EDIÇÃO
Schopenhauer diz que seu sistema filosófico não poderá ser compreendido se não for lido pelo menos duas vezes (daí minha escolha de título A música ouvida só uma vez nunca foi ouvida). À parte termos fontes melhores que tornam uma segunda leitura discricionária (eu havia lido muito Nietzsche antes de experimentá-lo), pude cumprir com suas exigências: 2012/2019 foram os anos em que li este PRIMEIRO TOMO (vou chamar a partir de agora de VOLUME 1, para não confundir o leitor, já que o 1o tomo é subdividido em 4 partes que Schopenhauer mesmo chamou de TOMOS)!
LEITURAS DO AUTOR RECOMENDADAS ANTES DE ‘O MUNDO…’:
Sobre a quádrupla raiz do princípio de razão suficiente (Introdução fundamental à filosofia moderna)
Sobre a visão e as cores(Não-vinculada ao assunto aqui tratado a não ser indiretamente – como forma acabada da teoria sobre a propagação da luz antes do séc. XX e do campo da física monopolizar o discurso acerca do tema, e como um aperfeiçoamento do ótimo tratado de Goethe sobre este assunto, é um texto que valerá a pena.)
Sobre a vontade na natureza(Prelúdio importante para as 2ª e 4ª parte do VOLUME 1.)
“Era tão contra a minha vontade copiar-me, ou com labor colocar de novo em outras palavras o que já foi dito de modo suficiente, que preferi este caminho, embora até pudesse fornecer aqui uma exposição melhor do conteúdo do ensaio, sobretudo depurando os conceitos oriundos da minha então excessiva ocupação com a filosofia kantiana, tais como categorias, sentidos externo e interno, e coisas semelhantes.” Curiosamente, Sch. vai se repetir muito nos volumes 2 e 3, e até que relativamente nos tomos do volume 1, então prepare-se para uma jornada bem cíclica!
“cada aforismo isolado e disperso que constitui o Upanixade¹ pode ser deduzido como conseqüência do pensamento comunicado por mim” Uma maneira anti-cronológica de ver as coisas!
¹ Upanishad em inglês.
“O leitor que chegou até o prefácio, este que o rejeita, tendo pago em dinheiro vivo pelo livro, pode agora perguntar como será indenizado. – Meu último refúgio, então, é lembrar-lhe que sabe usar de diversas maneiras um livro não-lido. (…) poderá colocá-lo na cômoda ou mesa de chá de sua amada.” HAHAHA
“Agosto de 1818”
PREFÁCIO À 2ª EDIÇÃO
NÃO AOS ALOÍSIOS! OU: AOS NÃO-ALOÍSIOS…
“Quem pratica e leva a sério uma coisa que não conduz a vantagens materiais não pode contar com a simpatia dos contemporâneos.”
“É impossível a uma contemporaneidade que durante 20 anos exaltou Hegel, esse Caliban¹ espiritual, como o maior dos filósofos, de maneira tão sonora que toda a Europa ouviu, encetar o desejo de aplauso àquele que descobriu semelhante farsa; uma tal contemporaneidade não possui mais coroas de glória para outorgar: sua aprovação prostituiu-se e sua censura não significa coisa alguma.”
¹ Caliban era um curandeiro farsante de uma peça, Próspero e Caliban.
PALAVRÓRIO PARA OCULTAR O DESINTERESSE EDITORIAL NUM VOLUME ÚNICO (Ver, a respeito, as palavras finais deste post!): “Por isso, embora fosse mais agradável ao leitor ter toda a minha obra numa única peça, em vez de, como agora, em duas metades para serem trazidas juntas em seu uso [três terços, agora], queira ele pensar que para isso seria exigido de minha parte a realização, numa só idade, daquilo que apenas em duas é possível, na medida em que, para tanto, teria de possuir numa só e mesma idade as qualidades divididas pela natureza em dois períodos da vida completamente diferentes.” “Por outro lado (…) o leitor encontrará algumas compensações pelo desagradável uso simultâneo de dois tomos na variedade e alívio que traz o tratamento do mesmo objeto pela mesma cabeça, no mesmo espírito, no entanto em anos bem diferentes.” Schopenhauer, aviso que, para nós, microencefálicos do XXI, ainda não chegou a edição de bolso do seu clássico: em fascículos, divididos em umas 30 partes, como seria mais adequado para as calças jeans atuais!
“Quem, entretanto, não domina a filosofia kantiana, está, por assim dizer, em estado de inocência, não importa o que tenha praticado, ou seja, permaneceu naquele realismo natural e pueril no qual todos nascemos e que capacita para todas as coisas possíveis, menos para a filosofia” 100 anos mudam totalmente a noção do óbvio!
“Os capítulos principais de cada um desses filósofos autênticos fornecerão 100x mais intelecção de suas doutrinas do que os comentários esforçados e entediantes feitos por cabeças comuns sobre os mesmos, que na maioria das vezes se encontram profundamente enraizados na filosofia da moda, ou em sua opinião pessoal preferida.”
“Se em todos os tempos vemos juntos os Górgias e Hípias [sofistas] bem no topo, e o absurdo via de regra predomina, parecendo impossível que, através do coro dos encantadores e encantados, ouça-se a voz de um indivíduo; ainda assim, em todos os tempos, as genuínas obras vão fazendo aos poucos, silenciosamente, o seu efeito próprio e poderoso, e, como num milagre, vê-se finalmente o seu soerguimento a partir do tumulto, semelhante a um aeróstato que, do denso espaço atmosférico da terra, eleva-se às alturas mais puras, onde, uma vez chegando, permanece, e ninguém mais pode fazê-lo descer.”
26 anos depois do primeiro prefácio – desta vez já com os volumes 2 e 3 preparados.
PREFÁCIO À 3ª EDIÇÃO
Petrarca, De vera sapientia
“Se por fim cheguei e tenho a satisfação, no ocaso de meu decurso de vida, de ver o começo de minha influência, é com a esperança de que ela, conforme uma antiga regra, durará em proporção direta à demora com que começou.” O ideal, pois, seria que ela comece muito depois da própria morte.
“1859” Espantosos 41-2 anos depois do 1º prefácio!
APÊNDICE: Crítica da filosofia kantiana
“Como a água deslocada por um navio logo se fecha atrás dele, assim também o erro, quando espíritos proeminentes o colocam de lado e conquistam um espaço para si, volta a fechar-se rapidamente atrás deles, conforme a natureza (Goethe, Poesia e verdade,¹ III, 521)” Todo gênio tem de errar do zero.
¹ Em breve no Seclusão.
“As pessoas começam a perceber que a verdadeira e séria filosofia ainda se encontra lá onde Kant a deixou. Em todo caso, não reconheço que tenha acontecido algo na filosofia, entre mim e ele; por conseguinte, ligo-me imediatamente a ele.” “manifestamente, minha linha de pensamento, por mais diferente que seja no seu conteúdo da kantiana, fica inteiramente sob a influência dela”
“O MAIOR MÉRITO DE KANT É A DISTINÇÃO ENTRE FENÔMENO E COISA-EM-SI (…) Ele foi conduzido a este caminho por LOCKE (vejam-se Prolegômenos de toda metafísica, §13, n. 2)” “LOCKE abstraiu da coisa em si a participação que os órgãos dos sentidos têm no seu fenômeno; KANT, entretanto, ainda abstraiu a participação das funções cerebrais (embora não sob este nome)”
“os Prolegômenos (este mais belo e mais compreensível de todos os escritos capitais de K., que é muito pouco lido, embora facilite extraordinariamente o estudo de sua filosofia)”
“filosofia leibniz-wolffiana: deve-se conhecer todas as 3 teorias, antes de proceder ao estudo da filosofia kantiana.”
Fosse o homem tão prudente e linear, jamais teria mergulhado de cabeça em piscina alguma. É indiferente de onde partimos, uma vez que precisamos sentir o perigo e nos molhar.
“ele apresentou a mesma verdade, por um novo lado e um novo caminho, que já Platão incansavelmente repete e na maioria das vezes exprime em sua linguagem do seguinte modo: este mundo que aparece aos sentidos não possui nenhum verdadeiro ser, mas apenas um incessante devir, ele é, e também não é; sua apreensão não é tanto um conhecimento mas uma ilusão.”
“a doutrina de Maia, pela qual não se entende outra coisa senão aquilo que K. nomeia o fenômeno em oposição à coisa-em-si” O FIO OU VÉU DE MAIA: Joguete dos deuses.
“Kant (…) expressou a mesma doutrina de um modo totalmente novo e original (…) fez dela, mediante a exposição mais calma e sóbria, uma verdade demonstrada e incontestável; já Platão e os indianos (…) fundamentaram suas afirmações meramente sobre uma intuição geral do mundo, produzindo-a como enunciado direto de sua consciência e a expondo mais mítica e poeticamente que filosófica e distintamente.” Grande ironia platônica!
“Ele levou semelhante tarefa a efeito ao desmontar e exibir, peça por peça, toda a maquinaria de nossa faculdade de conhecimento”
NOSSA ÉPOCA EXAGEROU O TIPO! “Pode-se portanto comparar todos os dogmáticos a pessoas que acham que, se caminhassem em linha reta, chegariam ao fim do mundo. Kant, porém, teria circunavegado o mundo e mostrado que, porque ele é redondo, não se pode sair dele por movimento horizontal, no entanto por meio de movimento perpendicular talvez isso não seja impossível. Pode-se também dizer que o ensinamento de K. propicie a intelecção de que o princípio e fim do mundo devem ser procurados não fora dele, mas dentro de nós mesmos.”
“Costuma-se fazer a filosofia escolástica estender-se só até cerca de 100 anos antes de Descartes”
“Giordano Bruno (…) apenas se aproxima em alguma coisa de Platão, no vigoroso dom e força de orientação poética ao lado do filosófico”
“A teologia especulativa e a psicologia racional a ela conectada receberam dele o golpe de morte, e desde então, desapareceram da filosofia alemã.” “A grandeza desse mérito de K. só pode ser medida por quem atentou para a influência perniciosa daqueles conceitos sobre a ciência natural e sobre a filosofia em todos os escritores, mesmo os melhores, dos sécs. XVII e XVIII.” “antes de K. estávamos NO tempo; agora, o tempo está em nós”
“Vemos inclusive os melhores escritores do tempo, p.ex. Lessing, enredados da maneira mais deplorável possível nas perfeições e imperfeições e debatendo-se com elas.”
“…seus erros, ao qual passo agora.”
“quem é claro para si mesmo até o fundo e sabe de maneira inteiramente distinta o que pensa e quer, jamais escreverá de modo indistinto, jamais estabelecerá conceitos oscilantes, indeterminados e nem recolherá para designação deles expressões difíceis, complicadas, de línguas estrangeiras, para depois usá-las continuamente, como o fez K. ao tirar palavras e fórmulas da filosofia antiga, até mesmo da escolástica e combiná-las umas às outras para seus propósitos, como p.ex. ‘unidade sintética transcendental da apercepção’, e em geral ‘unidade da síntese’, usadas todas as vezes em que apenas ‘unificação’ seria suficiente.”
“Quo enim melius rem aliquam concipimus, eo magis determinati sumus ad eam unico modo exprimendam, diz Decartes em sua 5ª carta.”
#PROJETO: TRADUZIR HEGEL PARA A LÍNGUA DOS HOMENS! (cada vez mais próximo!)
“Entretanto o maior atrevimento em servir à mesa um nonsense mal-cozido, em empastelar redes de palavras delirantes e vazias de sentido, como até então se tinha ouvido apenas em hospícios, entrou em cena finalmente com HEGEL, e se tornou o instrumento da mais canhestra mistificação geral que já existiu, com um resultado que parecerá digno de fábulas à posteridade e que permanecerá como um monumento da estupidez alemã.”
Wer mag sich mit den Narr’n befassen? – GOETHE
// “Quem quer se ocupar com os tolos?”
“uma característica inteiramente peculiar do espírito de K. é uma satisfação singular pela SIMETRIA, que ama a multiplicidade variegada, para ordená-la e repetir a ordem em subordens, e assim por diante, exatamente como nas igrejas góticas.”
“A TÁBUA DOS JUÍZOS (…) uma dúzia bem exata de categorias, simetricamente dispostas sob 4 títulos”“elegante edifício”
“K. nunca chegou a distinguir claramente o conhecimento intuitivo do conhecimento abstrato.”
“aquilo conhecido a priori pela pura intuição, ou pelas formas do entendimento, é uma REGRA, e apenas o que resulta a priori de meros conceitos é um princípio. Voltaremos depois a esta distinção arbitrária e inadmissível quando tratarmos da dialética.”
RAZÃO A PRIORI X RAZÃO EMPÍRICA (JUÍZO): “julgar é a operação do entendimento quando o fundamento do juízo for empírico, transcendental ou metalógico; mas se este fundamento for lógico, como aquele em que consiste a inferência, age aqui uma faculdade de conhecimento bem especial, e muito mais aprimorada, a razão.”
“O entendimento é também sempre redefinido de modo novo em 7 passagens da Crítica da razão pura.” “na p. 158 (V, 197)¹ é dito que ele ‘não é somente a faculdade das regras, mas a fonte dos princípios fundamentais segundo a qual tudo se encontra sob regras’, e, não obstante, fôra anteriormente oposto à razão, porque exclusivamente esta seria a faculdade dos princípios”
¹ Quinta edição, novo número de página. K. multilou sua obra-mestra nas revisões (e não em prol da clareza e concisão).
“A mesma falta de atenção suficiente, com a qual passa por cima de questões do tipo: que é intuição?, que é reflexão?, que é conceito?, que é entendimento?: faz com que também passe por cima das seguintes investigações igualmente necessárias: o que é OBJETO,¹ o qual distingo de REPRESENTAÇÃO?,² que é existência?, que é objeto?,³ que é sujeito?, que é verdade, ilusão, erro? No entanto ele persegue, sem refletir ou olhar em redor, seu esquema lógico e sua simetria. A tábua dos juízos deve e tem de ser a chave de toda sabedoria.
¹ (N.T.) Gegenstand, ou seja, ‘objeto empírico’, vale dizer, aquilo que está (stehen) diante de mim (gegen).
² (N.T.) Vorstellung, que está (stellen) em frente a mim (vor), portanto um termo cuja acepção é quase idêntica à de Gegenstand.
³ (N.T.) Aqui, Objekt, ou seja, objeto na sua acepção mais geral, que inclui o objeto empírico Gegenstand.”
Conforme esse esquema descritivo, teríamos uma imagem, grosso modo, aproximadamente assim:
“Toda a passagem das 348-92, na qual K. expõe seu idealismo decidido com extrema beleza e distinção, foi por ele suprimida na 2ªed. e, em contrapartida, foi introduzida uma série de declarações conflitantes. Nesse sentido, o texto da Crítica da razão pura, tal qual circulou de 1787 até1838, tornou-se um livro desfigurado e corrompido, autocontraditório, cujo sentido, exatamente por isso, não podia ser completamente claro e compreensível a ninguém.” “Em conseqüência das minhas representações, o Sr. Prof. Rosenkranz foi convencido no ano de 1838 a restabelecer em sua forma originária a Crítica da razão pura, pois a imprimiu no mencionado segundo tomo de acordo com a PRIMEIRA edição de 1781, conquistando com isso um mérito inestimável na filosofia; sim, talvez tenha resgatado do ocaso a obra mais importante da língua alemã, e por isso sempre lhe devemos ser gratos.” Pseudo-Kant apud Kant!
“Com a decisiva visão idealista fundamental expressa tão distintamente na 1ªed. da Crítica, encontra-se todavia, em inegável contradição, o modo como K. introduz a COISA-EM-SI; e, sem dúvida, essa é a principal razão para ele, na 2ªed., suprimir a citada passagem principal idealista e se autodefinir como alguém diretamente opositor do idealismo berkeleyano, com o que, entretanto, tão-somente incorporou inconseqüências a sua obra, sem poder remediar o principal defeito dela.”
“FICHTE (…) foi suficientemente atrevido e impensado a ponto de negar por completo a coisa-em-si e estabelecer um sistema no qual não apenas, como em K., a parte meramente formal da representação mas também a parte material, o conteúdo completo dela, foram pretensamente deduzidos a priori do sujeito. (…) de tal maneira que conseguiu desviar, de K. para si, a atenção do público e, assim, dar à filosofia alemã o rumo ao qual foi conduzida mais adiante por Schelling, e finalmente atingiu seu alvo na absurda sabedoria hegeliana de bundões.” [!!!]
“da doutrina da estética transcendental não saberia descartar coisa alguma, apenas acrescentar.”
“Ele deixa a intuição nela mesma incompreensível, puramente sensível, portanto inteiramente passiva, [concepção limitada e anterior da intuição, até Hume] e só pelo pensamento (categorias do entendimento) permite que um OBJETO seja apreendido. Com isso (…) traz O PENSAMENTO PARA A INTUIÇÃO. (…) com isso o pensamento perde o seu caráter essencial de universalidade e abstração”
“nosso pensamento não serve para conferir realidade às intuições: esta elas já o têm, desde que são capazes dela (realidade empírica) por si mesmas.”
“os discípulos sem autonomia de pensamento de todo grande pensador tornam-se o espelho de aumento de seus erros.”
“Se quisermos ir para além dessa representação, chegaremos à pergunta sobre a coisa-em-si, cuja resposta é o tema da minha obra inteira, bem como de qualquer metafísica em geral.”
“Um indício da falta de fundamento da doutrina das categorias já é dado pela sua própria exposição. Nesse sentido, que distância há entre a ESTÉTICA transcendental e a ANALÍTICA transcendental! LÁ, que clareza, determinidade, segurança, firme convicção enunciada abertamente e comunicada de maneira infalível! Tudo é cheio de luz, nenhum canto escuro é deixado: Kant ali sabe o que quer e sabe que tem razão.AQUI, ao contrário, tudo é obscuro, confuso, indeterminado, vacilante, incerto, a exposição é temerosa, cheia de desculpas e remissões ao que vem em seguida, ou até mesmo tergiversações.”
“Na ESTÉTICA transcendental todas as proposições são efetivamente demonstradas a partir de fatos inegáveis da consciência; na ANALÍTICA transcendental, ao contrário, quando a consideramos mais de perto, encontramos meras afirmações de algo que é assim e assim tem de ser. (…) a exposição traz a marca do pensamento do qual procedeu, pois o estilo é a fisionomia do espírito.” “a lei de causalidade é a real, mas também a única forma do entendimento, e as restantes 11 categorias são apenas janelas cegas. Na 1ª edição, a dedução das categorias é mais simples e mais ágil que na 2ª.”
“parece ter-se assustado com o fato de, caso se fizesse a admissão do nexo causal entre sensação dos sentidos e objeto, este último se tornaria de imediato a coisa-em-si, introduzindo o empirismo lockeano. Semelhante dificuldade seria, entretanto, posta de lado, pela clareza de consciência que nos relembraria que a lei de causalidade é de origem subjetiva, tanto quanto a sensação dos sentidos mesma; ademais, também o próprio corpo, na medida em que aparece no espaço, já pertence às representações. Porém Kant impediu-se de conceder isso devido ao seu temor em face do idealismo berkeleyano.”
“O prefácio aos Princípios metafísicos da ciência da natureza contém uma longa nota que, igualmente, fornece uma explicação das categorias, asseverando que elas ‘em nada diferem das ações formais do entendimento no julgamento’”
“Peço que atiremos 11 categorias janela afora e conservemos tão-somente a de causalidade, porém reconhecendo que sua atividade já é condição da intuição”
“Única descoberta baseada em apreensão objetiva e suprema clareza humana de consciência é o apperçu de que tempo e espaço são por nós conhecidos a priori.”
“ao admitir esquemas de conceitos puros (SEM CONTEÚDO) a priori do entendimento (categorias) análogos aos esquemas empíricos (ou representantes de nossos conceitos reais pela fantasia), passa-lhe despercebido que falta por completo a finalidade desses esquemas.”
“o conceito de substância não tem nenhum outro verdadeiro conteúdo senão o de conceito de matéria.”
“é incontestável o verdadeiro análogo lógico entre a ação recíproca e o circulus vitiosus (…) Ora, assim como a lógica recusa o circulus vitiosus, do mesmo modo o conceito de ação recíproca deve ser banido da metafísica.”
“Causalidade é a lei segundo a qual os ESTADOS da matéria a entrarem em cena determinam suas posições no tempo. Na causalidade trata-se apenas de estados, sim, propriamente dizendo, só de MUDANÇAS, e não da matéria enquanto tal, nem da permanência sem mudança. A MATÉRIA enquanto tal não está sob a lei de causalidade, já que não vem a ser, nem perece: tampouco a COISA toda, como se costuma dizer; mas exclusivamente os ESTADOS da matéria.” “Só no caso em que o estado A precede no tempo o estado B, e sua sucessão não é casual mas necessária, noutros termos, não é mera seqüência mas conseqüência – apenas neste caso o estado A é causa, e o estado B é efeito. O conceito de AÇÃO RECÍPROCA contém, todavia, que ambos são causa e ambos são efeito um do outro.” “ambos (…) constituem UM só estado” “Também afirmo terminantemente que o conceito de AÇÃO RECÍPROCA não pode ser ilustrado por um único exemplo sequer. Tudo o que se desejasse apresentar como tal é ou um estado de repouso, para o qual o conceito de causalidade, que tem significação só em relação às mudanças, não encontra aplicação alguma, ou é uma sucessão alternada de estados homônimos a se condicionarem, para cuja explanação basta a simples causalidade.”
Humboldt, Ansichten der Natur, vd. sua teoria do deserto: “nos desertos de areia não chove, mas chove nas montanhas densas de vegetação que os delimitam. A causa não é a atração das montanhas sobre as nuvens. Porém, a coluna de ar aquecido, elevando-se da planície arenosa, impede que as partículas de vapor se desfaçam e impele as nuvens para o alto; sobre montanhas, a corrente de ar que se eleva verticalmente é mais fraca; as nuvens descem e se segue a precipitação no ar mais frio. Assim, a falta de chuva e a ausência de vegetação do deserto se encontram em ação recíproca.” “Se houvesse verdadeira ação recíproca, o perpetuum mobile seria possível e até mesmo certo a priori.”
“há, segundo as diferentes figuras deste princípio (da razão), uma necessidade física (do efeito a partir da causa), uma lógica (pelo fundamento de conhecimento, nos juízos analíticos, silogismos e assim por diante), uma matemática (segundo o fundamento do ser no espaço e no tempo) e por fim uma necessidade prática, com a qual não queremos indicar alguma determinação por um suposto imperativo categórico, mas a ação necessária que entra em cena via um determinado caráter empírico, em conformidade com os motivos apresentados. – Tudo o que é necessário, todavia, é apenas relativo, a saber, sob a pressuposição do fundamento do qual se segue. Nesse sentido, necessidade absoluta é uma contradição.”
“Na natureza, como representação intuitiva, tudo o que acontece é necessário, pois procede de uma causa. Se, contudo, observarmos este acontecimento singular em sua relação a todo o resto que não é sua causa, reconhecemo-lo como contingente: isto, entretanto, já é uma reflexão abstrata. Se, ainda, abstrairmos de um objeto da natureza sua relação causal com tudo o mais, portanto sua necessidade e sua contingência, então um tal conhecimento compreende o conceito de REAL, conceito este em que se considera apenas o EFEITO, sem buscar a causa, em relação à qual se deveria chamá-lo NECESSÁRIO e, em relação a todo o resto, CONTINGENTE.”
“a origem de toda essa falsa explanação acerca do necessário e do contingente já se encontra em Aristóteles, em De generatione et corruptione, Liv. II, c. 9&11, no qual o necessário é explicado como aquilo cujo não-ser é impossível; a ele se contrapõe aquilo cujo ser é impossível; e entre os 2 se encontra aquilo que pode ser e também não ser, portanto aquilo que nasce e perece, e este seria então o contingente. Em conformidade com o dito acima, é claro que esta explanação, como tantas outras de Arist., surgiu do permanecer em conceitos abstratos, sem retorno ao concreto e intuitivo, no qual, todavia, encontra-se a fonte de todos os conceitos abstratos na qual estes têm de ser continuamente controlados.”
“todos os juízos APODÍTICOS são originariamente e em sua última significação HIPOTÉTICOS. Tornam-se CATEGÓRICOS apenas pela introdução de uma ASSERTÓRICA menor, portanto na conclusão. Se esta menor é ainda indecidida e a indecidibilidade é expressa, tem-se o juízo PROBLEMÁTICO.”
“Em verdade, a distinção entre necessário, real e possível existe propriamente dizendo apenas in abstracto e segundo o conceito.”
“a contingência é um fenômeno meramente subjetivo, nascendo da limitação do horizonte de nosso entendimento, e em verdade um fenômeno tão subjetivo quanto o horizonte ótico no qual o céu toca a terra.”
“os Princípios da ciência da natureza, inteiramente retalhados conforme a tábua das categorias – o que possivelmente ocasionou aquilo que há de falso misturado aqui e ali ao verdadeiro e excelente desta importante obra.”
“É falso que em toda mudança o tempo mesmo PERMANEÇA. Antes, o tempo mesmo é precisamente o que flui: um tempo que permaneça é uma contradição.”
“Em termos estritos, o simultâneo é uma determinação negativa que meramente indica o fato de duas coisas, ou estados, não serem diferentes quanto ao tempo, portanto sua diferença deve ser procurada em outra parte.”
“Ser e fazer-efeito são nela unos, o que já a palavra WIRKLICHKEIT indica.¹ Unificação íntima de espaço e tempo – causalidade, matéria, efetividade – é algo uno, e o correlato deste uno é o entendimento.
¹ Como se vê, a língua alemã possui 2 termos para realidade, o de uso corrente Wirklichkeit, efetividade, realidade efetiva, e o de origem latina Realität. Wirklichkeit é mais apropriado justamente porque deriva de wirken, fazer-efeito.”
“Pode-se de bom grado comparar a minha refutação da prova kantiana com os ataques anteriores à mesma por FEDER, Über Zeit, Raum und Kausalität; e por G.E. SCHULZE, Kritik der theoretischen Philosophie, t. 2.”
“Aquela inacreditável ausência de lucidez sobre a essência das representações intuitiva e abstrata leva K., no capítulo ‘da distinção de todos os objetos em fenômenos e números’ à monstruosa afirmação de que sem pensamento, portanto sem conceitos abstratos, não haveria de modo algum conhecimento de um objeto, e que a intuição, visto que não é pensamento, também não é conhecimento algum, e em geral não passa de uma mera afecção da sensibilidade, uma mera sensação!”¹ “Intuições, ao contrário, têm em si mesmas grande e imediata significação (nelas, de fato, objetiva-se a coisa-em-si). Fazem o papel de si mesmas, expressam a si, não têm conteúdo meramente emprestado, como os conceitos.”
¹ Ora: é Kant quem nos ensina, primeiramente, que o pensamento é uma das modalidades da intuição! Quando Kant se desmente dessa maneira, realmente redigiu e pensou mal.
“Ele repreende Leibniz e Locke. O 1º por ter reduzido tudo às representações abstratas, o 2º às representações intuitivas. No entanto, distinção alguma é alcançada e, embora L. e Le. efetivamente tenham cometido esse erro, K. mesmo cai num 3º, que inclui os 2 erros anteriores, a saber, ter misturado intuitivo e abstrato numa tal extensão que daí nasce um híbrido monstruoso, uma não-coisa, da qual não é possível representação distinta alguma, e que, por conseguinte, só podia confundir, aturdir e pôr em conflito os discípulos.”
“Se elimino todo pensamento (através de categorias) de um conhecimento empírico, não permanece conhecimento algum de um objeto, pois por mera intuição nada é pensado, e o fato desta afecção da sensibilidade estar em mim não constitui referência alguma de tal representação a algum objeto.– Em certa medida, esta sentença contém todos os erros de K. em uma noz” Péssima tradução!
“PENSAMENTO, adicionado somente ao homem, não aos animais, é mera abstração da intuição, não fornece conhecimento algum fundamentalmente novo, não põe objetos que antes já não existissem, mas muda apenas a forma do conhecimento já adquirido pela intuição, ou seja, torna-a conhecimento abstrato em conceitos, com o que sua intuitividade é perdida, mas por outro lado sua combinação se torna possível e isto amplia consideravelmente sua aplicabilidade.”
“LEIBNIZ, em vez de aprender com os grandes filósofos contemporâneos seus, Spinoza e Locke, preferiu pôr à mesa suas próprias invenções estranhas.”
“Justamente aquela distinção despercebida por K. entre conhecimento abstrato e intuitivo foi a que os antigos filósofos designavam por [termo grego: aproximadamente nossa INTELIGIBILIDADE], cuja oposição e incomensurabilidade tanto os ocupou nos filosofemas dos eleatas, na doutrina platônica das Idéias,¹ na dialética dos megáricos, e mais tarde a escolástica na disputa entre nominalismo e realismo, cuja semente, de desenvolvimento tardio, já estava contida na orientação oposta de espírito de Platão e Arist..”
¹ Aqui, Sch. está sendo leviano. Cf. Heidegger, sobre a ingenuidade de Sch. com respeito a Platão.
“Após ser obrigado a rejeitar a doutrina das categorias de K., do mesmo modo como ele rejeitou a de Ar., quero aqui indicar um 3º caminho para alcançar o que é tencionado. O que ambos procuravam sob o nome de categorias eram os conceitos mais universais sob os quais se tinha de subsumir todas as coisas, por mais diferentes que fossem, e assim, por meio deles, seria ao fim pensado todo o existente.”
“não podemos pensar linguagem alguma que não consista ao menos em substantivos, adjetivos e verbos.” “em todo juízo deve ser possível encontrar sujeito, predicado e cópula, esta última afirmativa, ou negativa, mesmo que cada um destes não seja designado por um nome próprio, como todavia ocorre na maioria dos casos.” “pode-se pensar numa linguagem em que adjetivo e verbo estivessem sempre fundidos um no outro, como às vezes o estão em todas as línguas.” “A gramática filosófica tem de ensinar o mecanismo exato da expressão das formas do pensamento, como a lógica tem de ensinar as operações com as formas mesmas do pensamento.”
“menciono a Vorläufig Grundlage zur Sprachphilosophie, 1835, de S. STERN, como um ensaio totalmente malsucedido de construir as categorias a partir das formas gramaticais. A saber, ele confundiu inteiramente o pensamento com a intuição e, por conseguinte, quis deduzir das formas gramaticais as supostas categorias da intuição, em vez das categorias do pensamento” “O primeiro material do pensamento são sempre os conceitos e apenas a estes se referem as formas da lógica, nunca DIRETAMENTE à intuição.” “De meros conceitos nunca podem provir outras proposições senão ANALÍTICAS. Se conceitos devem ser ligados sinteticamente e no entanto a priori, tal ligação tem de necessariamente ser intermediada por um 3º termo, por uma intuição pura da possibilidade formal da experiência, do mesmo modo que os juízos sintéticos a posteriori são intermediados pela intuição empírica: conseqüentemente, uma proposição sintética a priori nunca pode provir de meros conceitos.”
“Assim como, antes, sob o título de anfibologia, meros filosofemas leibnizianos foram tomados como desvios naturais e necessários da razão e como tais foram criticados, a mesma coisa ocorre agora com os filosofemas de Wolff.”
“Nunca (…) pode-se dar para um condicionado uma SÉRIE propriamente sucessiva de condições que existisse meramente como tal e em virtude daquilo que, ao fim, é ultimamente condicionado; ao contrário, ela é sempre uma alternante de condicionados e condições” “Assim, o princípio de razão SUFICIENTE exige tão-somente a completude da CONDIÇÃO MAIS PRÓXIMA, nunca a completude de uma SÉRIE.”
“um incondicionado é literalmente uma incoisa.”
“Que a comodidade faça esta ou aquela pessoa deter-se em algum lugar e arbitrariamente assumir tal absoluto, em nada adianta contra aquela inabalável certeza a priori, mesmo que, ao fazê-lo, assuma um ar e feições pomposas. De fato, todo o discurso sobre o absoluto, este tema quase exclusivo das filosofias ensaiadas desde Kant, nada é senão a prova cosmológica incognito.”
Todo ser tem seu limite e absoluto. O dos mais baixos é a subsistência mesma. O de outros são palavras que dotam de superpoderes. O de outros, terceiros, são missões automutantes. Mas a faculdade de mentir sobre si mesmo com belas palavras deveria ser o dom mais prezado. Criar e deslocar. Absoluto ex nihilo. O Nada são os outros.
“Seid ihr nicht die Weiber, die beständig
Zurück nur kommen auf ihr erstes Wort,
Wenn man Vernunft gesprochen stundenlang?
Que o regresso a uma causa incondicionada, a um 1º começo, não esteja de modo algum fundado na natureza da razão, está de resto provado em termos concretos pelo fato de as religiões originárias do nosso gênero, que possuem ainda hoje o maior número de seguidores sobre a face da terra, i.e., o bramanismo e o budismo, não conhecerem e não tolerarem tais assertivas, mas remeterem ao infinito e à série dos fenômenos mutuamente condicionados.”
Os deuses são transmorfos. Pernicioso seria outro Um dentro do Grande Um, que é o universo.
“pressuposição de um objeto incondicionado em sua existência”
“conflito insolúvel”
“Para decidir isso seria necessário pedir ajuda à investigação histórica e pesquisar se os povos antigos e não-europeus, em especial os hindustânicos, e muitos dos mais antigos filósofos gregos, de fato também chegaram àqueles conceitos; ou se somos apenas nós que, bastante benevolentes, os atribuímos a eles, da mesma forma que os gregos reencontravam por toda parte seus deuses, ou quando de maneira totalmente falsa traduzimos o Brama dos hindus e o Tien dos chineses como ‘Deus’; ou se, antes, ao contrário, não seria o caso de o teísmo propriamente dito ser encontrado apenas na religião judaica e nas duas religiões dela provenientes, cujos seguidores, exatamente por isso, teriam abrangido os adeptos de todas as outras religiões da terra sob o nome de pagãos – uma alcunha, diga-se de passagem, extremamente parcial e rude, que deveria ser banida pelo menos dos escritos dos mestres eruditos, já que confunde e mistura bramanistas, budistas, egípcios, gregos, romanos, germanos, gauleses, iroqueses, patagônicos, caribenhos, taitianos, australianos e muitos outros. Para padres, uma tal expressão é cabível”
“No que tange a Platão, sou da opinião de que ele deve aos judeus as suas quedas periódicas no teísmo.” Será?
“Quem é Platão senão um Moisés que fala grego?” NUMENIUS
“CLEMENTE amiúde repete que Platão conheceu e usou Moisés (…) Strom. I, 25; V, 14, §90-ss.; Paedagog., 2:10 & 3:11 (…) Cohortatio ad gentes, 6”
“Muito infeliz (…) foi a escolha do nome IDEAS para aquelas 3 pretensas produções necessárias da razão pura teórica. (…) as Idéias de Platão são inteiramente intuitivas, como também o indica tão precisamente a palavra que ele escolheu, a qual só poderia ser adequadamente traduzida por ‘intuitibilidades’ ou ‘visibilidades’. Kant se apropriou do termo para designar aquilo que está situado tão longe de toda possibilidade da experiência que até mesmo o pensamento abstrato só pode alcançá-lo pela metade. A palavra Idéia, primeiramente introduzida por Platão, conservou desde então, por 22 séculos, sempre a significação na qual ele a empregou, pois não apenas todos os filósofos da Antiguidade mas também todos os escolásticos, inclusive os padres da Igreja e os teólogos da Idade Média, a empregaram exclusivamente naquela significação platônica, ou seja, no sentido da palavra latina exemplar; como SUÁREZ expressamente o indica na sua 25ª Disputatio, seção I. – Que mais tarde ingleses e franceses foram induzidos por meio da pobreza de suas línguas ao uso indevido daquela palavra, é bastante ruim, porém não determinante.” “Ora, como o abuso de poucos anos não pode ser levado em consideração contra a autoridade de muitos séculos, sempre emprego o termo Idéia em sua significação platônica antiga, originária.”
“Kant (…) considera conhecer, pensar e querer como efeitos cuja causa procura e, não podendo admitir o corpo como causa, admite então para eles uma coisa por inteiro diferente do corpo. Nesses moldes, o primeiro e o último dos dogmáticos demonstram a existência da alma:¹ a saber, Platão no Fedro, e também Wolff”
¹ Com “a” de alegoria.
“desse conceito de MATÉRIA, a SUBSTÂNCIA é por sua vez uma abstração, conseqüentemente um genus mais elevado, e nasceu porque do conceito de matéria só se permitiu ficar o predicado da permanência, abstraindo-se porém todas as suas propriedades restantes e essenciais, extensão, impenetrabilidade, divisibilidade” “aquela abstração é ou destituída de finalidade e admitida como sem função, ou tem uma secreta segunda intenção. Esta vem a lume quando, sob o conceito de substância, uma segunda subespécie é coordenada à matéria, que é sua autêntica subespécie, a saber, a substância imaterial, simples, indestrutível – alma.” “o conceito SUBSTÂNCIA foi formado meramente para ser o veículo da sub-repção [fraude sutil] do conceito de substância imaterial.”
“idéias cosmológicas”
“As teses e antíteses que dessa forma entram em conflito lembram a ‘causa justa e injusta’ que Sócrates, nas NUVENS de Aristófanes, faz com que se apresentem lutando.”
“o sofisma consiste nisto: em vez da falta de começo na série dos estados, o que primariamente era a questão, subitamente é introduzida a falta de fim (infinitude) (…) Mas o término de uma série sem começo pode sempre ser PENSADO sem prejuízo de sua falta de começo, bem como, inversamente, é possível o começo de uma série sem fim.”
POLIER, Mythologie des Indous
“Em relação aos limites espaciais do mundo é provado que, se este deve chamar-se uma TOTALIDADE DADA, necessariamente tem de ter limites. A conseqüência é correta.”
“a dificuldade de pensar o mundo como limitado no espaço reside em que o espaço mesmo é necessariamente infinito e, por isso, um mundo limitado, finito no espaço, por maior que o mundo fosse, tornar-se-ia uma grandeza infinitamente pequena, desproporção na qual a imaginação encontra um obstáculo insuperável, pois lhe sobra apenas a escolha de pensar o mundo como infinitamente grande ou como infinitamente pequeno.”
(N.T.) “Metrodoro, o mestre de Epicuro, ensina que é absurdo nascer apenas uma espiga num vasto campo, e apenas um mundo no espaço infinito.”
“Física, III, cap. 4, capítulo este bastante digno de leitura”
Priestley, On Matter and Spirit
“infinitum non potest esse actu: […] sed impossibile, actu esse infinitum”Metafísica, 10
“compreenderemos mal a nós mesmos caso pretendamos pensar o infinito, não importa o seu tipo, como algo objetivamente subsistente, pronto, independente do regresso.”
“sistema de acomodação”
“Em geral, este é o ponto em que a filosofia de Kant conduz à minha, ou em que esta brota daquela como um galho do tronco. Os leitores se convencerão disso quando lerem com atenção na Crítica da razão pura p. 536 e 537 (V, 564), e depois ainda compararem com esta passagem a introdução àCrítica da faculdade de juízo, p. XVIII e XIX da 3ªed., ou p. 13 da edição Rosenkranz, em que é até mesmo dito: ‘O conceito de liberdade pode tornar representável uma coisa-em-si (que é de fato a vontade) em seu objeto (Objekt), mas não na intuição; ao contrário, o conceito de natureza pode tornar de fato representável seu objeto (Gegenstand) na intuição, mas não como coisa-em-si.’” Resumo: o sentido da vida não está dado! Por isso existe o mundo: para o Ser ser!
“Se fôssemos apenas seres com representação, o caminho para a coisa-em-si nos seria por completo vedado.”
“a ilusão de uma liberdade perfeita do indivíduo em suas ações particulares é mais vívida justamente na convicção do homem mais tosco que nunca ponderou; por conseguinte, não é fundada em especulação alguma, embora com freqüência seja para aí transportada. Por outro lado, somente filósofos, e em realidade os mais profundos deles, portanto os escritores mais pensantes e os poucos iluminados da Igreja, estão livres da ilusão.”
TU DEVES: “em vez de reconhecer toda sua existência como ato de sua liberdade, [cada um,] ao contrário, antes procura a esta em suas ações particulares.”
“Vontade livre” (termo importante na filosofia nietzschiana)
“leia-se toda a ‘6ª seção da antinomia da razão pura’, sobretudo a discussão sobre a diferença entre o caráter empírico e o inteligível, p. 534-50 (V, 562-578), que conto entre aquilo que de mais excelso já foi dito pelo homem”
“o ens realissimum dos escolásticos (…) a prova ontológica da existência de Deus, rudimentarmente estabelecida por Anselmo de Canterbury e em seguida aperfeiçoada por Descartes. (…) a representação grotesca de um continente de todas as realidades possíveis foi transformada num pensamento essencial e necessário da razão.” “a escolástica, um movimento sem igual na história universal, o qual nunca mais pode retornar.”
“uma argumentação de CLEANTO (…) trata disso, mas de uma mera conclusão a partir da analogia, a saber, porquea experiência ensina que na terra UM ser é sempre mais excelente que outro, e [por]que de fato o homem, como o mais excelente, fecha a série, e ainda possui muitas falhas, segue-se daí que necessariamente tem de existir seres ainda mais excelentes”
HUME, Natural history of religion
H., Dialogues on natural religion
Dois livros de David que ainda me faltam!
“Já no Órganonde Aristóteles se encontra um capítulo no todo suficiente para a refutação da prova ontológica, como se tivesse sido intencionalmente escrito justamente para isso: trata-se do 7º capítulo do 2º livro dos Analyt. Post..”
“Em cada empreendimento humano há algo que não está em nosso poder e não pode entrar em nosso cálculo. O desejo de ganhar isto para si é a origem dos deuses.” O monoteísta, o ateu e o pagão: O avaro, o humilde e o pródigo.
“Entrementes, é uma característica digna de nota da filosofia universitária como, caso a verdade não se resigne e se adapte, é-lhe mostrada a porta sem cerimônia, com a observação: ‘Pra fora, verdade! Não podemos te UTILIZAR. Devemos-te algo? Tu nos pagas? Então, fora!’”
“Ora, aqueles a quem Kant colocou em permanente embaraço através de sua crítica da teologia especulativa foram os professores de filosofia. Recebendo seus soldos de governos cristãos, não podiam renunciar aos principais artigos de fé.”
Bacon [Francis B.], Essays (Sermones Fideles)
Owen, Ostéologie comparée, 1855
“Ora, que tem a ver com um tal inglês e com a Académie des Sciences a Crítica da faculdade de juízo ou até mesmo meu livro sobre a Vontade na natureza? Com sua tamanha profundidade, não conseguem esses senhores olhar para baixo.”
“Decerto que não é um dos menores méritos de Frederico, o Grande, o fato de, sob seu governo, Kant ter podido desenvolver e publicar a Crítica da razão pura. Dificilmente sob qualquer outro governo um professor assalariado teria ousado semelhante coisa. Já ao sucessor do grande rei, Kant teve de prometer não mais escrever.” O que obviamente não cumpriu!
“Agir racionalmente e agir virtuosa, nobre e santamente seriam uma única e mesma coisa; e agir egoísta, maldosa e viciosamente seria pura e simplesmente agir de maneira irracional.” Na prática, Kant beija Platão.
“Censurar Maquiavel pela imoralidade de seu escrito é tão fora de propósito quanto o seria censurar um professor de esgrima por não ter iniciado sua aula com uma preleção moral contra assassinato e homicídio.”
“o feito de Coriolano, que depois de ter empregado durante anos sua força para vingar-se dos romanos (…) enternece-se com a súplica do senado e com o choro de sua mãe e de sua mulher, renunciando à vingança tão longa e laboriosamente preparada, e até mesmo, na medida em que chama com isso para si a justa cólera dos Volscos, morre por aqueles romanos, cuja ingratidão conhecia e com tanto empenho quisera punir.”
“O que, nesse sentido, se chama RAZÃO PRÁTICA é muito aproximadamente designado pela palavra latina prudentia, que, segundo Cícero (De Nat. Deor., II, 22), é uma contração de providentia.”
“É completamente errado traduzir nil admirari por ‘não se admirar’. Essa sentença de Horácio não concerne tanto ao teórico, mas sim ao prático e quer realmente dizer: ‘Não avalie de maneira incondicional um objeto’”
“Nossos antepassados não fizeram as palavras sem lhes atribuir um sentido determinado, e assim elas ficariam esperando possíveis filósofos chegarem séculos mais tarde e lhes determinar naquilo que deveriam ser pensadas; ao contrário, indicaram por elas conceitos bem-determinados. As palavras, portanto, não mais estão sem dono. Sujeitá-las a um sentido totalmente diferente do que foi tido até agora significa abuso, concessão de uma licença para cada um poder usá-la no sentido que lhe aprouver, com o que, daí, resulta inevitavelmente uma confusão sem fim.”
“todos os filósofos antigos, exceção feita a Platão, [!] portanto peripatéticos, estóicos, epicuristas quiseram, por meio de diferentes estratagemas, identificar virtude e felicidade, tornando-as dependentes uma da outra segundo o princípio de razão ou segundo o princípio de contradição.”
[!] Mas Sócrates-Platão é justamente o centro irradiador dessa síntese ética!
SÍNDROME DE ALDACI: “A questão já antes tratada por Platão e Sêneca, se a virtude pode ser ensinada, deve ser respondida negativamente. (…) a virtude é (…) inata como o gênio e (…) os professores de estética, com todas as suas forças reunidas, são tão incapazes de atribuir a alguém a capacidade de produções geniais (…) quanto o são todos os professores de ética e pregadores da virtude de transformar um caráter não-nobre num caráter virtuoso e nobre. Impossibilidade muito mais óbvia que a transformação do chumbo em ouro. A procura de uma ética e de um princípio supremo seu que teriam influência prática e efetivamente iriam transformar e melhorar o gênero humano assemelha-se à procura da pedra filosofal. – Mas já falei suficientemente no fim do 4º livro da presente obra sobre a possibilidade de uma completa mudança na mentalidade do homem”
“O amor de K. à simetria arquitetônica entra em cena diante de nós também na Crítica da razão prática, quando lhe dá todo o mesmo talhe da Crítica da razão pura, servindo-se de novo dos mesmos títulos e formas, com evidente arbítrio, o qual é visível especialmente na tábua das categorias da liberdade.”
“Uma das obras mais tardias de K. é a DOUTRINA DO DIREITO. É tão fraca que, embora a rejeite inteiramente, considero supérflua uma polêmica contra ela, pois parece não ser a obra desse grande homem, mas o rebento de um filho comum da terra, que há de morrer de morte natural por sua própria fraqueza.” “Os erros que censurei quando da Crítica da razão pura como inerentes em toda parte a K. são encontrados na doutrina do direito num tal excesso que amiúde se acredita ler uma paródia satírica do estilo kantiano” “as mais absurdas opiniões são desenvolvidas, como a de que no estado de natureza, i.e., fora do Estado, não haveria direito algum à propriedade. Isso significa propriamente: todo direito é positivo, e assim o direito natural está fundado no direito positivo, quando o inverso deveria ser o caso.”
J.C.F. Meister, Naturrecht
“É admirável como K., a quem a arte sempre permaneceu muito estranha e que, segundo tudo indica, pouca receptividade possuía para o belo, sim, provavelmente nunca teve oportunidade de ver uma obra de arte significativa, e por fim até mesmo parece que não teve notícia alguma do gigante que o ombreava, Goethe, único homem de seu século e de sua nação para ser colocado ao seu lado – é admirável, ia dizer, como apesar de tudo isso K. foi capaz de prestar com mérito à consideração filosófica sobre a arte e sobre o belo um serviço duradouro.”
“Procurou-se separar o autêntico belo artístico do inautêntico, e descobrir quais eram as características dessa autenticidade que depois podiam servir como regras.” “Ar. percorreu tal caminho sobre o qual ainda encontramos nos tempos recentes Home, Burke, Winckelmann, Lessing, Herder (…) Baumgarten”
“K. não parte do belo mesmo, intuitivo, imediato, mas do JUÍZO sobre o belo, do chamado, e muito feiamente, juízo do gosto.”
“Com isso nasce aquela combinação barroca entre conhecimento do belo e conhecimento da finalidade dos corpos naturais em UMA faculdade de conhecimento, chamada FACULDADE DE JUÍZO” “Poder-se-ia também ali fazer uma acusação de grande inconseqüência, pois, após ter sido incansavelmente repetido na Crítica da razão pura que o entendimento é a faculdade de julgar, e após as formas de seus juízos terem sido transformadas em pedra fundamental de toda filosofia, entra agora em cena uma faculdade de juízo inteiramente peculiar e por completo diferente daquela outra.” “De longe o que há de mais excelente na Crítica da faculdade de juízo é a teoria do sublime. Ela é incomparavelmente mais bem-sucedida que a teoria do belo e dá não apenas, como esta, o método geral da investigação mas também um trecho do correto caminho, de maneira que, embora não forneça a solução propriamente dita do problema, chega bem perto.”
ERROU NO FINALZINHO! “Semelhante elucidação teria sido especialmente favorável à excelente indicação kantiana de que um conhecimento mais profundo da essência em si, cujo fenômeno são as coisas na natureza, indicaria, tanto no fazer-efeito mecânico (conforme leis) quanto no fazer-efeito aparentemente intencional da natureza, um único e mesmo princípio último, o qual poderia servir como fundamento comum para a explicação de ambos. Espero ter fornecido um tal princípio mediante o estabelecido da Vontade como a coisa-em-si p.d..”
“meus escritos, poucos que sejam, [!!!] não foram compostos ao mesmo tempo mas sucessivamente, no decorrer de uma longa vida e com amplos intervalos”
Que a Divina Vontade me dê bons editores de Obras Completas post-mortem!
LIVRO PRIMEIRO: Do mundo como representação
Primeira consideração: A representação submetida ao princípio de razão: o objeto da experiência e da ciência
§1
“O mundo é representação.” “O quão cedo essa verdade fundamental foi conhecida pelos sábios da Índia, na medida em que aparece como o princípio básico da filosofia védica atribuída a VYASA, testemunha-o William Jones no último de seus ensaios: ‘On the philosophy of the Asiatics’, Asiatic researches, V. 4, p. 164”
§4
“A gravidade, ao contrário, apesar de sua universalidade, deve ser computada entre os conhecimentos a posteriori, apesar de KANT, nos seus Princípios metafísicos da ciência da natureza (…) a estabelecer como cognoscível a priori.”
“O contrário não vale, ou seja, o conhecimento da lei de causalidade depender da experiência – justamente o que caracterizou o ceticismo humeano, refutável exclusivamente pelo que acabou de ser dito. [descrição oftalmológica do sentido da visão, que é intelectual]”
§5
“O realismo põe o objeto como causa, e o efeito dele no sujeito. O idealismo fichtiano faz do objeto um efeito do sujeito. (…) segue-se que nem uma nem outra das duas afirmações pode ser comprovada, e o ceticismo faz ataques vitoriosos a ambas.”
“Aqui não há erro nem verdade (confinados ao domínio abstrato da reflexão). Aqui o mundo se dá aberto aos sentidos e ao entendimento, com ingênua verdade como aquilo que é, como representação intuitiva, a desenvolver-se legalmente no vínculo da causalidade.”
O ONTEM NÃO EXISTE MAIS: “A alegação de que o sonhado possui vivacidade e clareza menores do que a intuição efetiva não merece ser levada em conta, pois ninguém teve ainda ambos presentes para poder efetuar a comparação, mas se pôde apenas comparar a LEMBRANÇA do sonho com a realidade presente.”
Calderón, A vida é sonho
§6
“Uma concepção intuitiva imediata do entendimento foi a descoberta da lei da gravitação por R. Hookes,¹ bem como a remissão de tantos e grandes fenômenos a essa lei, o que logo foi confirmado pelos cálculos de Newton. Também nesses moldes foi a descoberta de Lavoisier do oxigênio e seu papel significativo na natureza. Exatamente nos mesmos moldes foi a descoberta de Goethe da origem das cores físicas.”
¹ O correto é R. Hooke, cf. Vol. 2 abaixo.
“Tomada em seu sentido mais exato, a PRUDÊNCIA indica exclusivamente o entendimento a serviço da vontade.”
Qual é o problema de errar as casas dos botões?
“até mesmo um filhote de cão não se aventura a pular da mesa, por mais que deseje, porque prevê o efeito da gravidade de seu corpo, sem, contudo, conhecer este caso especial a partir da experiência.”
“o aparente tamanho maior da lua no horizonte que no zênite, o qual não é ótico, visto que, como o micrômetro demonstra, o olho apreende a lua no zênite até num ângulo maior de visão do que no horizonte: é o entendimento que, como causa do brilho fraco da lua e de todas as estrelas no horizonte, assume uma distância maior em relação a elas, avaliando-as como objetos terrestres conforme a perspectiva atmosférica, com o quê a lua é tomada no horizonte como muito maior do que no zênite, e, ao mesmo tempo, considera-se a abóbada celeste mais estendida no horizonte, logo, achatada.”
§7
“A filosofia [hegeliana] da identidade, nascida em nosso tempo e de todos conhecida, poderia não ser compreendida sob a citada oposição [sujeito e objeto], na medida em que não torna o sujeito nem o objeto o ponto de partida propriamente dito, mas um terceiro, o absoluto cognoscível por intuição-racional, que não é sujeito nem objeto, mas o indiferenciado. Embora a ausência completa de qualquer intuição-racional me impeça de falar da mencionada indiferenciação e do absoluto, todavia, na medida em que tenho acesso a todos os protocolos dos contempladores-racionais [o deboche!…], também abertos a nós profanos, tenho de observar que a dita filosofia não pode ser excluída da oposição anteriormente estabelecida entre os 2 erros, já que, apesar da identidade entre sujeito e objeto (não-pensável, e intuível apenas intelectualmente, ou experienciada por imersão nela), a referida filosofia une em si os 2 erros quando os decompõe em 2 disciplinas, a citar: o idealismo transcendental, que é a doutrina-do-eu de Fichte e, por conseqüência, em conformidade com o princípio de razão, faz o objeto ser produzido ou tecido fio a fio a partir do sujeito; e a filosofia da natureza, que, semelhantemente, faz o sujeito surgir aos poucos a partir do objeto mediante o uso de um método denominado construção, que me é pouco claro, mas o suficiente para bem notar que se trata de um progresso conforme o princípio de razão em várias figuras. Renuncio à profunda sabedoria contida nesta construção.” HAHAHA!
Essa grande tirada só pode ser entendida por quem ao menos leu a perspectiva schopenhaueriana do criticismo kantiano (mais acima).
“é possível fazer uma classificação de tais sistemas conforme as 4 classes de objetos possíveis estabelecidas no meu ensaio introdutório. Assim, pode-se dizer que, da 1ª daquelas classes, ou do mundo real, partiram Tales e os jônicos, Demócrito, Epicuro, Giordano Bruno e os materialistas franceses; da 2ª, ou dos conceitos abstratos, Spinoza (vale dizer: do conceito de substância, meramente abstrato e que existe unicamente em sua definição) e, anteriormente, os eleatas; da 3ª classe, vale dizer, do tempo, por conseguinte dos números, os pitagóricos e a filosofia chinesa do I-Ching; por fim, da 4ª classe, i.e., do ato da vontade motivado pelo conhecimento, partiram osescolásticos, que ensinavam uma criação a partir do nada, mediante o ato da vontade de um ser pessoal-transcendental.”
“O materialista se assemelha ao Barão de Münchhausen, que, debatendo-se na água e montado em seu cavalo, puxa este para cima com as pernas, e levanta a si mesmo pela ponta da peruca estendida ao alto.” Conforme bem lembrado no ensaio de Mann.
“o fim e ideal de qualquer ciência da natureza é, no fundo, um materialismo desenvolvido até as suas últimas consequências.”
“a geometria tem o espaço como problema, e o princípio de razão de ser no espaço como órganon; a aritmética tem o tempo como problema, e o princípio de razão de ser no tempo como órganon; a lógica tem a ligação dos conceitos enquanto tal como problema, e o princípio de razão de conhecer como órganon; a história tem os fatos humanos ocorridos em seu conjunto como problema, e a lei de motivação como órganon; a ciência da natureza, por sua vez, tem a matéria como problema, e a lei de causalidade como órganon.”
“só entre química e fisiologia é que se ganhou alguma coisa”, e não estritamente falando na química ou na fisiologia propriamente ditas.
“o mundo ainda possui um lado completamente diferente, a sua essência mais íntima, o seu núcleo, justamente a coisa-em-si.”
“Oposto ao explicitado procedimento que parte do objeto, para daí fazer originar-se o sujeito, opõe-se o procedimento que parte do sujeito para daí querer produzir o objeto. O 1º procedimento foi comum e universal em toda filosofia até agora [1818]; o segundo, ao contrário, é encontrado propriamente em apenas um único exemplo, em verdade bastante novo, o da filosofia-aparente de Fichte, que neste sentido tem de ser notada.” Acrescente-se ainda M. Stirner: o SOLIPSISMO como fundo do poço absoluto.
“Fichte se tornou filósofo apenas com a coisa-em-si de Kant, sem a qual muito provavelmente teria escolhido profissão bem diferente, com muito mais sucesso, já que possui talento retórico significativo. (N.T.) Schopenhauer mesmo teve a oportunidade de ouvir a retórica de Fichte pessoalmente, já que foi seu aluno na Universidade de Berlim, nos anos de 1811-12.”
“E, assim como por sobre os deuses dos antigos ainda reinava o destino eterno, também por sobre o Deus dos escolásticos ainda reinavam aquelas aeternae veritates, ou seja, as verdades metafísicas, matemáticas e metalógicas (…) Se eu devesse indicar a figura do princípio de razão que serve de fio condutor para Fichte fazer o não-eu ser produzido a partir do eu, como uma teia feita pela aranha, indicaria o princípio de razão de ser no espaço. Só relacionadas a esta figura é que adquirem algum sentido e significado aquelas sofríveis deduções de como o eu, de si, produz e fabrica o não-eu, conteúdo do livro mais sem-sentido e tedioso jamais escrito. – A filosofia fichtiana, de resto indigna de menção, nos é interessante aqui apenas como real oposição tardiamente surgida ao velho materialismo, que foi a mais conseqüente filosofia que parte do objeto, como a fichtiana foi a mais conseqüente filosofia que parte do sujeito.”
(*) (Observação final do §7) “A estes 7 primeiros capítulos correspondem os 4 primeiros capítulos do 1º livro dos complementos [VOLUME 2].”
§8
“Se na representação intuitiva a ILUSÃO distorce por momentos a realidade, na representação abstrata o ERRO pode imperar por séculos, impondo seu jugo férreo a povos inteiros, sufocando as mais nobres disposições, e, mesmo quem não é por ele enganado, é acorrentado por seus escravos ludibriados.”
“Quem quiser dar-se ao trabalho de percorrer a massa de escritos filosóficos que foram publicados desde Kant, reconhecerá que, assim como as falhas do príncipe são expiadas pelo povo inteiro, os erros dos grandes espíritos espalham sua influência nefasta por gerações inteiras”
§9
Herder,Metacrítica
“Duas esferas estão contidas numa 3ª, mas não a preenchem:
Este último caso vale para todos os conceitos cujas esferas não se comunicam imediatamente, visto que sempre um 3º, embora freqüentemente muito extenso, os encerra.”
“Semelhante esquematismo dos conceitos pode servir de fundamento tanto para a teoria dos juízos quanto para toda a silogística. Com o quê o ensinamento destes se torna bastante leve e fácil, pois todas as suas regras são vistas, deduzidas e explicadas a partir da origem. Porém, não é necessário carregar a memória com essas regras, porque a lógica nunca pode ter para a filosofia uma utilidade prática, mas apenas teórica. (…) embora se possa dizer que a lógica está para o pensamento racional como o baixo fundamental para a música, e, também, em termos menos precisos, que a ética está para a virtude como a estética para a arte, tem-se de notar, em contrapartida, que nunca um artista veio a sê-lo pelo estudo da estética, muito menos um caráter nobre pelo estudo da ética; que, muito antes de Rameau, já se compunha música correta e belamente; e, ainda, que não é preciso conscientizar-se do baixo fundamental para notar as desarmonias; da mesma forma, não se precisa saber lógica para evitar ser enganado por falsas conclusões.” Créditos concedidos em Lógica IV antes de nascer.
“a lógica é meramente o saber in abstracto daquilo que cada um sabe in concreto. Logo, tão pouco quanto se precisa dela para não concordar com um falso raciocínio, tão pouco se recorre à ajuda de suas regras para fazer um raciocínio correto, e até o mais erudito dos lógicos a põe completamente de lado em seus pensamentos reais.” “enquanto nas outras ciências a verdade do caso particular é comprovada pela regra, na lógica se dá o contrário, e a regra tem sempre de ser comprovada pelo caso particular.” “Quem ensina lógica para fins práticos assemelha-se àquele que tenta ensinar um castor a construir a sua casa.” “Por ser disciplina autônoma, acabada e perfeita, a subsistir por si, em si contida, é legítimo tratá-la cientificamente e independente de tudo o mais, portanto ensiná-la nas universidades.”
“hoje em dia quem não quiser permanecer tosco nos principais assuntos, e ser computado na massa obtusa imersa na parvoíce, tem de estudar filosofia especulativa. O nosso séc. XIX é um século filosófico, o que não significa que ele tenha filosofia ou a filosofia seja dominante nele, mas antes que está maduro para ela e, exatamente por isso, sente a sua necessidade. Tem-se aí um sinal de uma elevada formação,¹ até mesmo um ponto fixo na escala da cultura dos tempos.”
¹ Dois degraus para o fim da filosofia.
“foram-se descobrindo gradualmente expressões mais ou menos perfeitas, como o princípio de contradição, de razão suficiente, do terceiro excluído, o dictum de omni et nullo, bem como as regras especiais da silogística, como, p.ex., ex meris particularibus aut negativis nihil sequitur, a rationato ad rationem non valet consequentia, etc. Que tudo isso só aconteceu muito lenta e trabalhosamente, e antes de Aristóteles as coisas eram imperfeitas, pode-se, em parte, notá-lo na maneira prolixa e tediosa com que verdades lógicas são trazidas a lume em muitos diálogos platônicos” “Ar., no entanto, reuniu, ordenou, corrigiu o que foi antes encontrado e o trouxe a um nível incomparavelmente superior de perfeição.” “estaremos pouco inclinados a acreditar na afirmação de escritores persas, que JONES nos relata (bastante prejudicado por ela),¹ a saber, que Calístenes encontrara entre os indianos uma lógica acabada e a enviou ao seu tio Ar. (Asiatic researches, v. 4, p. 163).”
¹ Péssima tradução. Obviamente aqui o tradutor da Ed. UNESP quis dizer mais exatamente algo como induzido por, parcial para com, no sentido de formar um preconceito, erro comum nos falsos cognatos ingleses e espanhóis. O engraçado é que os termos alemães correspondentes, respectivamente, a preconceito e prejuízo (Vorurteil e Verlust) não se parecem – o que me leva a acreditar que foi uma tradução de segunda mão – que coisa!
§10
“A razão é de natureza feminina, só pode dar depois de ter recebido. Abandonada a si mesma, possui apenas as formas destituídas de conteúdo com que opera.”
§11
“Como a língua alemã ainda possui a palavra sinônima EMPFINDUNG, ‘sensação’, seria útil reservá-la, como sub-espécie, para os sentimentos corpóreos.”
FILOSOFIA DA ILHA: “Os gregos denominavam os outros povos bárbaros. Os ingleses denominam tudo o que não é da Inglaterra ou inglês continente ou continental. Os fiéis vêem todos os demais como heréticos ou pagãos. O nobre considera os que não o são roturiers. Para o estudante, todos os outros são filisteus. E coisas semelhantes. A mesma parcialidade, até se pode dizer ignorância por orgulho, deve ser imputada, por mais estranho que soe, à razão mesma, na medida em que esta engloba sob o ÚNICO conceito de SENTIMENTO qualquer modificação da consciência que não pertence imediatamente ao SEU modo de representação”
§12
“O cálculo diferencial de modo algum amplia o nosso conhecimento das curvas. Ele nada contém além do que estava contido na intuição delas. Contudo, muda o tipo de conhecimento, transforma-o de intuitivo em abstrato, acarretando assim grandes êxitos no uso prático.”
“Unicamente os números podem ser exprimidos em conceitos abstratos a lhes corresponderem exatamente, mas não as grandezas espaciais. O conceito mil difere do conceito dez de maneira tão precisa quanto diferem essas duas grandezas temporais na intuição.” “Porém, entre o conceito abstrato de uma milha e o de um pé, sem representação intuitiva alguma de ambos e sem ajuda do número, não há mais diferença exata alguma que corresponda a tais grandezas.” Os ‘intuitivos da ilha (grande)’!
ERRO CLAMOROSO OU A DENÚNCIA DO ABSURDO DO SÉC. XX (COMEÇANDO NO SÉCULO XVII E APENAS AUMENTANDO): “Essa necessidade própria do espaço de, com suas 3 dimensões, ter de ser traduzido em tempo – o qual tem apenas 1 dimensão –, caso se queira ter um conhecimento abstrato das relações espaciais, i.e., um SABER e não uma mera intuição, é o que faz a matemática tão difícil. O que se torna bastante claro quando comparamos a intuição das curvas com o seu cálculo analítico, ou a tabela de logaritmos das funções trigonométricas com a intuição das relações variáveis das partes do triângulo expressas na referida tabela. Que combinação incrível de algarismos, que quantidade extremamente laboriosa de cálculos não seria exigida para expressar in abstracto o que a intuição apreende aqui de uma só vez, perfeitamente, com precisão infalível, ou seja, a diminuição do cosseno à medida que o seno cresce, o cosseno de um ângulo enquanto seno de outro, a relação inversa de crescimento e diminuição de dois ângulos, etc.” O fetiche dos programadores (neo-oráculos).
“Nossa intuição dos números em seu elemento próprio, o mero tempo, sem adição do espaço, vai quando muito até dez.”
“Não está ao nosso alcance ensinar e aprender in abstracto uma fisionômica, porque as nuances são aqui tão sutis que conceito algum tem flexibilidade para lhes corresponder. Conseqüentemente, o saber abstrato está para elas como uma imagem de mosaico está para um quadro de VAN DER WERF ou DENNER.” Gall e Lavatercomo imbecis altamente intuitivos que creram poder ensinar algo inócuo e amorfo – sobre formas! – em calhamaços… Sua sensação de que “ninguém houve de semelhante antes de mim” induziu-os ao erro de se crerem gênios, mas tão-só lidavam com algo que não era passível de ser ensinado, e ninguém intuitivo como eles quis ser tão temerário.
“Por isso sou da opinião de que a [ciência] fisionômica não pode avançar com segurança a não ser até o estabelecimento de algumas regras muito gerais, como p.ex. estas: na testa e nos olhos pode-se ler o que há de intelectual numa pessoa, já na boca e na metade inferior da face o que há de ético, as manifestações da vontade. Testa e olhos se explicitam reciprocamente: tomados isoladamente são apenas meio compreensíveis.O gênio nunca é sem uma testa alta, larga, belamente arqueada, mas a recíproca amiúde não é verdadeira. O espírito pode ser inferido de um semblante espirituoso tanto mais seguramente quanto mais feia for a face, e, de um semblante estúpido pode-se inferir tanto mais seguramente a estupidez quanto mais bela for a face; porque a beleza, enquanto correspondência com o tipo da espécie, já porta em e por si a expressão da clareza espiritual, o contrário ocorrendo com a fealdade, etc.” Varg Vikernes possui uma face estúpida quando jovem; depois, uma expressão austera, que no entanto nos ludibria (feiúra encobridora), posto que ele não é um sábio (confirmação da regra).
“Caso o cantor ou o virtuose realize o seu recital por reflexão, este permanece morto. O mesmo vale para compositores, pintores, sim, para poetas. O conceito sempre é infrutífero na arte; apenas a parte técnica desta pode ser por ele conduzida.”
“Até mesmo no que se refere ao nosso comportamento, às maneiras pessoais no trato com os outros, o conceito é apenas de valor negativo, para conter o extravasamento grosseiro do egoísmo e da bestialidade, com o que a cortesia faz seu elogiável trabalho.” Quem não tem polidez é puramente animal (ex: Mª do Socorro, Rubens…)
“A conduta transcorre, como se diz, conforme o SENTIMENTO, i.e., não segundo conceitos, mas segundo o conteúdo ético.”
“O mesmo a razão realiza, ao fim, na arte, onde ela também em nada contribui para o principal, porém apóia a execução, justamente porque o gênio não está sempre desperto e, não obstante, a obra deve ser consumada em todas as suas partes, tornando-se um todo.”
§13
“Ora, é exatamente a incongruência entre o conhecimento intuitivo e o abstrato, em virtude da qual este está para aquele como um trabalho de mosaico está para a pintura, o fundamento de um fenômeno notável que, tanto quanto a razão, é exclusividade da natureza humana, não tendo recebido até agora, apesar de renovadas tentativas, nenhuma explicação aceitável. Trata-se do RISO.” “De fato, o RISO se origina sempre e sem exceção da incongruência subitamente percebida entre um conceito e os objetos reais que foram por ele pensados em algum tipo de relação” Bergson utilizou Schopenhauer em seu tratado.
“O dito espirituoso sempre se deve mostrar em palavras, o disparate cômico, entretanto, na maioria das vezes em ações, embora também em palavras quando meramente expressa a intenção, em vez de efetivamente consumá-la, ou também quando se exprime em meros juízos e opiniões.”
“O pedante, com suas máximas universais, quase sempre é incompetente; na arte, para a qual o conceito é infrutífero, produz abortos maneiristas, rígidos e sem vida. Até mesmo em termos éticos o propósito de agir justa e nobremente não pode sempre ser conduzido por máximas abstratas, visto que em muitos casos a natureza infinitamente nuançada das circunstâncias torna necessária uma escolha do justo a proceder imediatamente do caráter, enquanto o emprego de máximas meramente abstratas produz em parte falsos resultados, porque se aplicam apenas parcialmente, em parte não podem ser levadas a bom termo, na medida em que são alheias ao caráter individual de quem age, que não pode ser negado inteiramente – daí, portanto, resultando inconseqüências. Não podemos eximir completamente KANT da censura de ter dado azo ao pedantismo moral, já que torna condição do valor moral de uma ação o fato de esta ocorrer a partir de puras máximas abstratas, racionais, sem nenhuma inclinação ou afeto momentâneo.”
§14
“O número dos princípios superiores aos quais se subordinam todos os demais é bastante variado, conforme as diversas ciências, de tal forma que numas há mais subordinação, noutras mais coordenação.”
“As ciências propriamente classificatórias: zoologia, botânica, também a física e a química (na medida em que reduzem todo fazer-efeito inorgânico a poucas forças fundamentais), possuem o maior número de subordinações. A história, ao contrário, propriamente dizendo, não possui subordinação alguma, pois o universal nela consiste apenas na visão panorâmica dos principais períodos, dos quais, porém, não se podem deduzir eventos particulares – os quais estão subordinados só ao tempo e coordenados segundo o conceito. Conseqüentemente, a história, tomada em sentido estrito, é sem dúvida um saber, mas não uma ciência. Na matemática euclidiana os axiomas são os únicos princípios superiores indemonstráveis, aos quais se subordinam estrita e gradualmente todas as demonstrações.”
“Precisamente porque a perfeição científica consiste nisso, segue-se que o fim da ciência não é a certeza máxima, pois esta pode ser igualmente encontrada até mesmo no conhecimento singular, mais desconexo, mas a facilitação do saber mediante a sua forma (…) dizer (…) que a cientificidade do conhecimento reside na sua maior certeza é uma opinião equivocada, como também é falsa a afirmação daí proveniente de que só a matemática e a lógica seriam ciências no sentido estrito do termo, visto que somente nestas, devido a sua completa aprioridade, tem-se certeza irrefutável do conhecimento.” “o velho erro de que somente aquilo que é demonstrado é completamente verdadeiro (…) Antes, ao contrário, cada demonstração precisa de uma verdade indemonstrável que em última instância sustenta a ela ou a sua demonstração.”
“Ora, como todas as demonstrações são silogísticas, não é preciso primeiro procurar demonstração para uma nova verdade, mas uma evidência imediata. Só pelo tempo em que esta se encontra ausente é que a demonstração pode ser provisoriamente fornecida. Nenhuma ciência pode ser absolutamente demonstrável, tampouco quanto um edifício pode sustentar-se no ar. Todas as suas demonstrações têm de ser remetidas a algo intuitivo, por conseguinte não mais demonstrável. (…) Toda evidência última, i.e., originária, é INTUITIVA, o que a palavra já o indica.”
CÉU, O LABORATÓRIO PERFEITO: “Eis o material inteiro da astronomia que, tanto pela sua simplicidade quanto pela sua segurança, conduz a resultados definitivos e muito interessantes, fazendo jus à grandeza e importância de seus temas. P.ex., se conheço a massa de um planeta e a distância de seu satélite, posso concluir com certeza o período de translação do último conforme a segunda lei de Kepler. O fundamento dessa lei, entretanto, é que, a essa distância apenas essa velocidade determinada é capaz de manter o satélite orbitando em torno do seu planeta, impedindo que caia nele.”
“o movimento aparente dos planetas é conhecido empiricamente. Depois de muitas hipóteses falsas sobre a relação espacial desse movimento (órbita planetária), a hipótese verdadeira foi finalmente encontrada, bem como as leis que o movimento segue (as leis de Kepler). Por fim, também a causa destes (gravitação universal) e a concordância empiricamente conhecida de todos os casos observados com o conjunto inteiro das hipóteses e suas conseqüências (…) forneceram a certeza completa.”
“a indução (…) vale dizer, a intuição múltipla”
“que a matéria permanece, i.e., que não pode nascer nem perecer, sabemo-lo imediatamente como verdade negativa, pois nossa pura intuição do espaço e do tempo dá a possibilidade do movimento, o entendimento dá, com a lei de causalidade, a possibilidade da mudança de forma e qualidade; no entanto, faltam-nos as formas de representabilidade de uma origem e desaparecimento da matéria. Aquela verdade foi evidente para todos, em todos os tempos e em toda parte, nunca tendo sido seriamente contestada”
DEBATEDORES E REFUTADORES DE REDES SOCIAIS: “Demonstrações são destinadas não tanto aos que estudam mas antes aos que querem disputar. Estes negam obstinadamente a intelecção imediatamente fundamentada.”
§15
“Em toda parte, portanto, a evidência imediata é de longe preferível à verdade demonstrada, que é para ser aceita apenas onde a primeira é muito remota, não quando esta se encontra tão, ou mais perto do que a última.”
“De nossa parte exigimos a remissão de cada fundamentação lógica a uma intuitiva. A matemática euclidiana, ao contrário, empenha-se com grande afinco, em todo lugar, em descartar deliberadamente a evidência intuitiva sempre ao alcance da mão, substituindo-a por uma evidência lógica.” “Euclides (…) em vez (…) de nos dar uma intelecção fundamental da essência do triângulo, simplesmente formula algumas proposições desconectadas e escolhidas arbitrariamente acerca dessa figura, fornecendo dela um fundamento de conhecimento lógico por meio de uma demonstração laboriosa conduzida segundo o princípio de contradição. (…) Quase se tem a sensação desconfortável parecida àquela produzida por um truque.” “Outras vezes, como no teorema de Pitágoras, linhas são traçadas sem se saber ao certo por quê; depois se nota que eram laços estendidos para capturar desprevenida a concordância do leitor, o qual, atônito, tem de admitir o quê, em seu foro íntimo, permanece completamente inconcebível, tanto mais que pode estudar a matemática euclidiana inteira sem ganhar uma intelecção propriamente dita das leis das relações espaciais, mas apenas aprende de memória alguns de seus resultados.” “Entretanto, a maneira como tudo isso foi conduzido por Euclides mereceu toda a admiração que os séculos lhe dedicaram, indo tão longe a ponto de seu método de tratamento da matemática ter sido declarado modelo de todas as exposições científicas, segundo o qual se procurou modelar as demais ciências.”
“Os eleatas foram os primeiros a descobrir a diferença, mais freqüentemente a oposição, entre o intuído e o pensado (…) mais tarde foram seguidos por megáricos, dialéticos, sofistas, neo-acadêmicos e céticos” “Reconheceu-se (…) precipitadamente que tão-só o pensamento lógico-racional funda a verdade, embora Platão (em Parmênides), mediante exemplos (no modo usado ulteriormente por Sexto Empírico), mostrasse aos megáricos, pirrônicos e neo-acadêmicos como, por seu turno, também silogismos e conceitos conduzem a erros, sim, produzem paralogismos e sofismas que se originam muito mais facilmente e são muito mais difíceis de resolver do que a ilusão da intuição sensível.”
Kepler, De harmonia mundi
“É em geral o método analítico o que desejo para a exposição da matemática, em vez do sintético, usado por Euclides.” “Na Alemanha começa esporadicamente a mudar a exposição da matemática, e o caminho analítico é trilhado mais vezes.”
“o princípio de contradição mesmo, que é uma verdade metalógica e fundamento universal de toda demonstração lógica. Quem nega a necessidade intuitivamente exposta das relações de uma proposição expressa espacialmente pode com igual direito negar os axiomas, a conclusão enquanto conseqüência das premissas, sim, pode até mesmo negar o princípio de contradição: pois tudo isso são coisas igualmente indemonstráveis, imediatamente evidentes e conhecidas a priori.”
“Se um delinqüente é capturado, suas declarações são registradas num protocolo, a fim de verificar a sua concordância e julgar a sua veracidade. Não obstante, isso é apenas um expediente de ajuda, o qual não se leva muito a sério, caso se possa por si mesmo investigar imediatamente a verdade de cada uma de suas declarações, mesmo porque a pessoa em questão pode mentir de maneira conseqüente desde o início. Aquele primeiro método, entretanto, foi o seguido por Euclides para investigar o espaço.” “é digno de nota que esse método de demonstração foi empregado apenas na geometria, não na aritmética, pois nesta a verdade é de fato iluminada exclusivamente pela intuição” “a aritmética (…) faz de cada proposição isolada um axioma. Em vez das demonstrações que saturam a geometria, o conteúdo inteiro da aritmética e da álgebra, ao contrário, é um mero método para abreviação no numerar.”
(*) “O verdadeiro e esplêndido da doutrina de Spinoza é inteiramente independente de demonstrações, justamente como na geometria.”
“nenhum ramo das ciências naturais, p.ex., a física, a astronomia, a fisiologia, pode ser descoberto de uma só vez, como foi possível com a matemática e a lógica, mas precisaram e precisam de experiências completas e comparadas de muitos séculos.”
“a gravidade é uma qualitas oculta, que escapa ao pensamento, por conseqüência não deriva necessariamente da forma do conhecimento. O mesmo não ocorre com a lei de inércia, que, como tal, se segue da lei de causalidade: eis por que uma remissão a esta é uma explanação por inteiro suficiente. Duas coisas são absolutamente inexplanáveis, i.e., não-remissíveis à relação expressa pelo princípio de razão. Em primeiro lugar, o próprio princípio de razão em todas as suas figuras, porque ele é o princípio de toda explanação, somente em referência ao qual ela possui significado; em segundo lugar, aquilo que não se alcança por ele e a partir do quê, entretanto, provém o originário de todos os fenômenos: a coisa-em-si, cujo conhecimento de modo algum está submetido ao referido princípio. A coisa-em-si tem de aqui permanecer incompreensível.”
“A FILOSOFIA tem como peculiaridade o fato de nada nela ser tomado como pressuposto, mas tudo lhe é em igual medida estranho e problemático, não apenas as relações dos fenômenos, mas também eles mesmos, sim, o próprio princípio de razão, ao qual as outras ciências se contentam em remeter todas as coisas. Na filosofia, nada seria ganho com tal remissão, já que cada membro de uma série é tão estranho para ela quanto os demais. (…) mesmo o que as ciências pressupõem como fundamento e limite de suas explanações é justamente o verdadeiro problema da filosofia”
“Reproduzir o conhecimento in concretoin abstracto, ou seja, elevar as intuições sucessivas que se modificam, bem como tudo o que o vasto conceito de SENTIMENTO abrange e meramente indica como saber negativo, não-abstrato, obscuro, a um saber permanente – eis a tarefa da filosofia. Esta, por conseguinte, tem de ser uma expressão in abstracto da essência do mundo.” “Eis por que ela, em parte separa, em parte une, e assim vê de modo sumário toda a diversidade do mundo em geral conforme o seu ser, e a transmite como saber em poucos conceitos abstratos.” “a capacidade para a filosofia consiste justamente naquilo apontado por Platão, i.e., o conhecimento do uno no múltiplo e do múltiplo no uno.”
§16
“Esse recolher-se na reflexão faz o homem parecer um ator que, depois de seu desempenho e até que entre novamente em cena, ocupa um lugar na platéia entre os espectadores, de onde, sereno, assiste à sucessão dos acontecimentos, mesmo que seja a preparação da sua morte (na peça); depois, porém, volta ao palco e age e sofre como estava escrito.”
“É preciso proporcionar-se entendimento ou uma corda”
Antístenes
Ter pais e não trolls 0%
Ser o maior autor deste século ?%
Cícero, Paradoxa
“a sabedoria estóica, mesmo depois de exposta, nunca pôde ganhar vida ou verdade poética interior, mas permaneceu um boneco de madeira com o qual não se pôde fazer nada.”
LIVRO SEGUNDO: Do mundo como vontade
Primeira consideração: A objetivação da vontade
§17
“encontramos a filosofia como um monstro de inumeráveis cabeças, cada uma falando sua própria língua.”
“ponto de vista unilateral da quantidade” (representação) conceituação plagiada por Freud (pois sem crédito), e reconhecida por Husserl & caterva.
ciências ‘quantitativas’: história natural, fisiologia, mineralogia, geologia, mecânica, físico-química…
“[nada sobre] a essência íntima de nenhum daqueles fenômenos.”
Chamaríamos, no lugar do “quantitativo” de Sch., de ciências meramente descritivas. Poderia incluir a própria psicologia se fosse uma disciplina formada em sua época.
“eterno mistério” “forças naturais”
“Queremos conhecer a significação dessas representações. Perguntamos se este mundo não é nada além de representação, caso em que teria de desfilar diante de nós como um sonho inessencial ou um fantasma vaporoso, sem merecer nossa atenção.”Será a conclusão nas últimas linhas do primeiro tomo, mesmo que inadvertida.
Em resumo, este momento é o pulo do gato ainda-kantiano-demais da filosofia schopenhaueriana…
§18
“além disso (…) a palavra do enigma é dada ao sujeito do conhecimento que aparece como indivíduo. Tal palavra se chama VONTADE.”
(N.T.) “OBJETIDADE DA VONTADE – No original, Objektität des Willens. O termo Objektität, neologismo de Sch., costuma provocar confusão entre tradutores, que às vezes o vertem por ‘objetividade’, termo inadequado, pois faz perder de vista o caráter inconsciente de imediatez do ato da vontade, anterior ao seu tornar-se fenômeno consciente na intuição do entendimento.”
“a vontade é o conhecimento a priori do corpo, e o corpo é o conhecimento a posteriori da vontade. – Decisões da vontade referentes ao futuro são simples ponderações da razão sobre o que se vai querer um dia (…) apenas a execução estampa a decisão, que até então não passa de propósito cambiável, existente apenas in abstracto na razão. Só na reflexão o querer e o agir se diferenciam; na efetividade são uma única e mesma coisa.” “No entanto, é totalmente incorreto denominar a dor e o prazer representações, o que de modo algum são, mas afecções imediatas da vontade em seu fenômeno, o corpo, vale dizer, um querer ou não-querer impositivo e instantâneo sofrido por ele.”Grande erro de Schopenhauer: frase responsável pela hedionda vitória da psicanálise (fracasso da humanidade) no século XX.
“essência” “milagre” “Em certo sentido todo o presente livro é um esclarecimento de tal milagre.”
“primeira classe de representações”
“quarta classe de representações”
“lei de motivação”
§19
“O egoísmo teórico, em realidade, nunca é refutado por demonstrações. Na filosofia, contudo, foi empregado apenas como sofisma cético, ou seja, como encenação. Enquanto convicção séria, ao contrário, só pode ser encontrado nos manicômios; e, como tal, precisa não tanto de uma refutação mas de uma cura.” “nós, que procuramos mediante a filosofia ampliar os limites do nosso conhecimento, veremos aquele argumento cético que nos foi aqui contraposto como um pequeno forte de fronteira, que não se pode assaltar, mas do qual a guarnição nunca sai, podendo-se por conseguinte passar por ele e dar-lhe as costas sem perigo.”
“a afirmação de Kepler, em seu ensaio De planeta Martis, de que os planetas têm de possuir conhecimento para se manterem tão exatamente em sua órbita elíptica e assim avaliarem a velocidade de seu movimento, de modo que o triângulo da área de sua órbita sempre permane[ça] proporcional ao tempo no qual passam por sua base.”
§20
“SEM-FUNDAMENTO”
“Tampouco a explanação fisiológica da vida vegetativa (functiones naturales, vitales), por mais longe que se vá, pode suprimir a verdade de que toda vida animal a se desenvolver nesses moldes é ela mesma fenômeno da vontade. De modo geral, como foi elucidado antes, cada explanação etiológica só pode fornecer a posição necessariamente determinada no espaço e no tempo de um fenômeno particular, seu aparecimento necessário conforme uma regra fixa. Mas por essa via a essência íntima do fenômeno permanece sempre infundada, sendo pressuposta por qualquer explanação etiológica, e apenas indicada pelo nome força, lei natural ou, caso se trate de ações, caráter, vontade.”
“abre-se o caminho para a explanação teleológica do corpo. (…) Dentes, esôfago, canal intestinal são a fome objetivada.”
“COISA-EM-SI, entretanto, é apenas a VONTADE.” “Aparece em cada força da natureza que faz efeito cegamente, na ação ponderada do ser humano: se ambas diferem, isso concerne tão-somente ao grau da aparição, não à essência do que aparece.” Erro fundamental reparado por Nietzsche.
§22
“Também me compreenderá mal quem pensar que é indiferente se indico a essência em si de cada fenômeno por vontade ou qualquer outra palavra. Este seria o caso se a coisa-em-si fosse algo cuja existência pudéssemos simplesmente DEDUZIR e, assim, conhecê-la apenas mediatamente, in abstracto. Então se poderia denominá-la como bem se quisesse. O nome seria um mero sinal de uma grandeza desconhecida. (…) Até os dias atuais subsumiu-se o conceito de VONTADE sob o conceito de FORÇA.” “renunciamos ao único conhecimento imediato que temos da essência íntima do mundo: fazemos tal conhecimento se dissipar num conceito abstraído do fenômeno, com o qual nunca poderemos ir além deste último.” Ao mesmo tempo que sentimos a segurança e verdade por trás destas palavras, ou nestas palavras, sentimos também a hesitação, dúvida e autocontradição do sistema schopenhaueriano (mas somente quem já chegou ao final do livro quarto e voltou a comparar algumas afirmações clássicas do autor).
§23
“servindo-me da antiga escolástica, denomino tempo e espaço pela expressão principium individuationis, que peço para o leitor guardar para sempre.” Será mesmo bom guardar, pois ele usará bastante a expressão nos tomos II e III!
Cento e vinte Issos batalham por mim como se fossem espermatozóides do novo nascer.
“Ela é, pois, livre de toda PLURALIDADE, apesar de seus fenômenos no espaço e no tempo serem inumeráveis.”
“Apesar de todos os propósitos e reflexões, não muda sua conduta, e desde o início até o fim de sua vida tem de conduzir o mesmo caráter por ele próprio execrado e, por assim dizer, desempenhar até o fim o papel que lhe coube.”
“Denomino CAUSA, no sentido estrito do termo, o estado da matéria que, ao produzir outro com necessidade, sofre ele mesmo mudança igual à que provoca, o que se expressa na lei: ‘ação e reação são iguais’.” “Tais causas em sentido estrito fazem efeito em todos os fenômenos mecânicos, químicos, etc. (…) todas as mudanças dos corpos inorgânicos. Por outro lado, denomino EXCITAÇÃO aquela causa que não sofre reação alguma proporcional ao seu efeito e cujo grau de intensidade nunca é paralelo à intensidade do efeito. (…) Desse tipo são todos os efeitos sobre corpos orgânicos enquanto tais. (…) A excitação ocupa o meio-termo, faz a transição entre o motivo, que é causalidade intermediada pelo conhecimento, e a causa em sentido estrito. (…) Assim, p.ex., o aumento da seiva nas plantas se dá por excitação e não é explanável a partir de meras causas segundo leis da hidráulica ou dos tubos capilares; contudo, recebe apoio destes, estando já bastante próximo da pura mudança causal. Por outro lado, os movimentos da Hedysarum gyrans e da Mimosa pudica, embora se sigam de mera excitação, são bastante similares aos que se seguem de motivos, e quase aparentem querer fazer a transição. A contração da pupila em virtude do aumento de luz se dá por excitação, porém já entra no movimento por motivo, ocorrendo porque a luz muito forte poderia afetar dolorosamente a retina, com o quê, para evitá-lo, contraímos a pupila. – A ereção se deve a um motivo, pois a ocasião que a produz é uma representação; todavia, faz efeito com a necessidade de uma excitação, ou seja, não se pode resistir a ele, mas, para torná-lo ineficaz, é preciso afastá-lo. Esse é também o caso de objetos repugnantes, que estimulam o vômito.” Fisiologia assaz analítica quando comparada a Nietzsche.
MARSHALL HALL, On the diseases of the nervous system
F.B. Osiander, Über den Selbstmord (On Suicide)
Schopenhauer dava crédito ao mito do suicídio pela supressão voluntária da respiração – segundo ele praticada por Diógenes o Cínico e por tribos africanas!
§24
“Isso que se furta a toda fundamentação, contudo, é justamente a coisa-em-si, aquilo que essencialmente não é representação, não é objeto do conhecimento e só se torna cognoscível quando entra naquela forma.”
“quanto mais necessidade um conhecimento implica, tanto mais há nele aquilo que não pode ser pensado nem representado de outro modo, como p.ex. as relações espaciais (…) Ao contrário, quanto mais nele há que tem de ser apreendido de maneira pura e contingente, quanto mais ele se nos impõe de modo simplesmente empírico, tanto mais há nele algo de propriamente objetivo e verdadeiramente real, mas também tanto mais inexplicável é, ou seja, não pode mais ser deduzido de outra coisa.”
“quimismo” “foronomia” “átomos oníricos”
“pessoas que, 50 anos após a publicação da doutrina das cores de Goethe, ainda acreditam na luz homogênea de Newton”
“sempre restarão forças originárias; sempre restará, como resíduo insolúvel, um conteúdo do fenômeno que não pode ser remetido a sua forma; sempre restará, portanto, algo não mais explanável por outra coisa e em conformidade com o princípio de razão.”
“Aquilo que para cada homem é seu caráter infundado, pressuposto em qualquer explanação de seus atos a partir de motivos, é para cada corpo orgânico precisamente sua qualidade essencial, seu modo de atuar, cujas exteriorizações são ocasionadas por ação vinda de fora, enquanto a qualidade essencial mesma, ao contrário, não é determinada por coisa alguma externa a si, portanto é inexplanável. Suas exteriorizações isoladas, únicas pelas quais se torna visível, estão submetidas ao princípio de razão; ela mesma, no entanto, é sem-fundamento. Em essência isso foi corretamente reconhecido pelos escolásticos, que a designaram forma substantialis(Cf. Suárez, Disput. metaph., disp. XV, sect. I).”
“Nós, diferentemente, que aqui intentamos não etiologia mas filosofia, i.e., não conhecimento relativo mas incondicionado da essência do mundo, escolhemos o caminho oposto e partimos Daquilo que nos é de imediato conhecido da maneira mais completa e plenamente confiável, daquilo que nos é mais próximo, para então compreendermos o que é distante, unilateral e mediato. (…) Somente da comparação com Aquilo que se passa em mim quando meu corpo executa uma ação após um motivo tê-lo posto em movimento (…) posso adquirir intelecção no modo como os corpos destituídos de vida mudam através de causas e assim compreender o que é a sua essência íntima.”
“a quarta classe de representação [citada mais acima sem contexto] estabelecida no ensaio sobre o princípio de razão tem de se tornar para mim a chave para o conhecimento da essência íntima da primeira classe. A partir da lei de motivação tenho de aprender a compreender a lei de causalidade em sua significação íntima.”
APETITE & AMOR: METAFÍSICA MEDIEVAL:“Se fôssemos pedras, ou torrentes, ou vento, ou flama, ou algo semelhante, sem consciência e vida, ainda assim não nos faltaria um certo apetite por posição e ordem; pois no movimento dos corpos, por assim dizer, exprime-se o amor decisivo para sua tendência para baixo, devido ao peso, ou para cima, devido à leveza. Um corpo é impulsionado pelo seu peso exatamente como o espírito é impelido pelo amor.”Sto. Agostinho, tradução de Jair Barboza
§25
O QUANTIFICADOR DO NADA: “Se a coisa-em-si, como acredito ter demonstrado de modo claro e suficiente, é a VONTADE, então esta, considerada nela mesma e apartada de seu fenômeno, permanece exterior ao tempo e ao espaço; por conseguinte não conhece pluralidade alguma, portanto é UNA. Mas, como já disse, uma não no sentido de que um indivíduo, ou um conceito é uno, mas como algo alheio àquilo que possibilita a pluralidade, o principium individuationis.” Se acrescentasse que é autocontraditória, poderíamos aceitá-la como a versão final da vontade. “Por conseqüência, a pluralidade das coisas no espaço e no tempo, que em conjunto são uma OBJETIDADE, não lhe concerne, e ela, apesar dessa pluralidade, permanece indivisa.”
Sei que sem mim Deus não pode viver um instante sequer
Se eu for aniquilado, também seu espírito tem de necessariamente extinguir-se.
Angelus Silesius
“A verdadeira sabedoria não é adquirida medindo-se o mundo ilimitado ou, o que seria mais pertinente, sobrevoando pessoalmente o espaço infinito, mas antes investigando qualquer coisa em particular, procurando conhecer e compreender perfeitamente a sua essência verdadeira e própria.” Quem não entende a ausência-de-fim do momento presente não pode ser historiador.
“os GRAUS DE OBJETIVAÇÃO DA VONTADE, ia dizer, não são outra coisa senão as IDÉIAS DE PLATÃO.”
§26
“faculdade (…) da dissimulação. Aparentemente essa diferença da espécie humana em relação às demais vincula-se aos sulcos e circunvoluções do cérebro, que nos pássaros faltam por completo e nos roedores ainda são pouco marcantes; e mesmo nos animais de grau mais elevado são muito mais simétricos dos dois lados e mais constantes em cada indivíduo do que no homem.” WENZEL, De structura cerebri hominis et brutorum, 1812; CUVIER, Leçons d’anat. comp.[ano?]; VICQ D’AZYR, Hist. de l’acad. d. sc. de Paris, 1783.
“Sim, tenho de me surpreender com o fato de Mallebranche,¹ apesar das peias e do fardo de estar totalmente imerso em dogmas positivos impostos por seu tempo, ainda assim, ter encontrado de maneira tão feliz e correta a verdade”
¹ (sic) O correto é Malebranche.
“Que um seja mau e outro bom, isso não depende de motivos e influências exteriores, como doutrinas e sermões; nesse sentido, o caráter é algo absolutamente inexplicável. Porém, se um malvado mostra sua maldade em injustiças diminutas, intrigas covardes, velhacarias sórdidas que ele exerce no círculo estreito de seu ambiente, ou se ele, como um conquistador, oprime povos, faz um mundo ajoelhar-se em penúrias, derramando o sangue de milhões – isso é a forma exterior de seu fenômeno, o inessencial dele, dependente das circunstâncias nas quais o destino o colocou, dependente do ambiente e das influências exteriores dos motivos. Contudo, jamais sua decisão em virtude de tais motivos é explicável a partir deles, pois essa decisão procede da Vontade, cujo fenômeno é este homem. (…) A maneira como o caráter desdobra suas propriedades é inteiramente comparável à maneira como os corpos da natureza destituída de conhecimento mostram as suas propriedades.”
O que Rafael, Diogo e Giordano Bruno têm em comum? Que eles seriam os mesmos em qualquer época e lugar…
§27
“a forma substantialis de Aristóteles designa exatamente Aquilo que aqui nomeio o grau de objetivação da Vontade em uma coisa.” Como visto no §25, acaba de casar mestre & discípulo.
“do conflito entre fenômenos mais baixos resultam os mais elevados, que devoram a todos, porém efetivando o esforço de todos em grau mais elevado. – Por isso, vale aqui a lei: serpens, nisi serpentem comederit, non fit draco. (Serpente que não come serpente não vira dragão)”
SEROTONIN WARS
“Assim, em toda parte na natureza vemos conflito, luta e alternância da vitória, e aí reconhecemos com distinção a discórdia essencial da Vontade consigo mesma. [autocontraditória – CHECK – Will leveled up!] Cada grau de objetivação da Vontade combate com outros por matéria, espaço e tempo. Constantemente o que subsiste tem de mudar de forma, na medida em que, pelo fio condutor da causalidade, fenômenos mecânicos, químicos, orgânicos anseiam avidamente por entrar em cena e assim arrebatam uns aos outros a matéria, pois cada um quer manifestar a própria Idéia.¹ Esse conflito pode ser observado em toda a natureza.”
¹ Na medida em que Sch. emprega o verbo “manifestar”, ou seja “evidenciar”, ou seja representar, para sua concepção de Idéia (que por colocar em letra maiúscula deve equiparar à platônica, o que como já bem-mostrado é exatamente seu oposto, uma ANTI-IDÉIA), além de depois comentar que o “conflito pode ser observado” na natureza, ele fala aqui da Vontade aplicada ao reino dos sentidos, da sua Representação (PARTES 1&3 do TOMO 1). Ou ele interpreta mal a Idéia de Platão, o que não acredito, ou o sentido da frase seria: manifestar o imanifestável (o que se esconde por trás do fenômeno). Obviamente, uma vez que a Idéia seja aplicada ao reino das aparências, não são mais as Idéias platônicas aquilo de que se fala. Essa nota de rodapé se justifica de antemão pelo que veremos da péssima escolha de título para a tradução inglesa dos TOMOS 2&3, “WILL & IDEA”, que, obviamente, eu retifiquei em todos os momentos para “WILL & REPRESENTATION”, que é o que quis dizer o tradutor atrapalhado. “Manifestar a própria representação” seria contraditório no trecho acima, e não partiria da boca de Schopenhauer (felizmente é um trecho em Português). O que pode confundir o leitor é que a noção de manifestar algo oculto foi conjugado com a observação direta dos fenômenos naturais, logo à frase seguinte! Mas quando assim aparecesse na versão inglesa (to manifest the representation itself) significaria que Sch. sem dúvida quisera denominar o fenômeno, e não a Vontade. Se o tradutor quisesse manter algum tipo de fidelidade simétrica e ao mesmo tempo o trambolho-palavra IDEA, deveria ter pensado em “World as IDEA & REPRESENTATION”. Representação fenomênica não poderia em caso algum ter ficado de fora do título desta obra que é, essencialmente, bipartida (torna-se quadripartida por uma espécie de chacota schopenhaueriana misturada com homenagem a Kant). Para fechar o raciocínio: supondo que Sch. se expressa corretamente no original e que o tradutor Inglês quisesse efetuar ‘o melhor trabalho’, como Jair o fez pelo menos nesse trecho, podemos admitir ainda que “quer manifestar” não é o mesmo que “manifestar”, e aí sim usar “(platonic) Idea”, algo que os múltiplos fenômenos gostariam de manifestar embora não possam (would wish/aim/long/yearn/crave/urge to manifest its own Will/Idea).
“não se deve procurar nenhum primeiro empuxo para a força centrífuga, mas ela, nos planetas, conforme a hipótese de Kant e Laplace, é o resíduo da rotação originária do corpo central, de onde os planetas se separaram e esse corpo se contraiu, e ao qual o movimento é essencial: ele ainda possui rotação e vaga ao mesmo tempo no espaço sem fim, ou translada talvez em torno de um corpo central maior, invisível para nós. Essa visão concorda inteiramente com a conjetura dos astrônomos acerca de um sol central e também com o distanciamento observado de todo o nosso sistema solar, e talvez de toda a galáxia à qual pertence o nosso sol”
“é suprimida a infalibilidade na atuação destituída de conhecimento da Vontade”
§28
“Os reinos da natureza formam uma pirâmide, cujo ápice é o homem. Para os que apreciam comparações, também se pode dizer que os fenômenos desses reinos acompanham o do homem tão necessariamente quanto todas as inumeráveis gradações da penumbra acompanham a plena luz do dia, e pelas quais esta se perde na escuridão. Ou ainda se pode chamá-los ecos do homem e dizer: animais e plantas são a 5ª e a 3ª inferiores do homem, enquanto o reino inorgânico é a 8ª baixa. Toda a verdade desta última metáfora só nos será clara quando, no livro seguinte, investigarmos a profunda significação da música. Ali se nos mostrará como a melodia encadeada em notas altas, ágeis, deve em certo sentido ser vista como expondo a vida e o esforço do homem encadeados pela reflexão; por outro lado, as vozes soltas e o baixo que se move gravemente, do qual procede a harmonia, necessária para a plenitude da música, estampam o restante da natureza animal e da natureza destituída de conhecimento.” “No fundo, tudo isso se assenta no fato de a Vontade ter de devorar a si mesma, já que nada existe de exterior a ela, e ela é uma Vontade faminta. Daí a caça, a angústia, o sofrimento.”
“A planta revela todo o seu ser à primeira vista, e com perfeita inocência, sem sofrer por carregar os genitais expostos à visão em sua parte superior, enquanto nos animais os genitais estão situados em partes ocultas. Essa inocência das plantas repousa em sua falta de conhecimento. Não no querer, mas no querer com conhecimento é que reside a culpa. Toda planta nos conta sobre sua terra, seu clima e a natureza do solo em que nasceu. Eis porque até mesmo o leigo sabe facilmente se uma planta exótica pertence aos trópicos ou a uma zona temperada, se cresce na água ou nos pântanos, nas montanhas ou em maciços.”
“caráter” “Idéia particular”
“ato próprio” “caráter inteligível”
“caráter empírico”
“a translação dos planetas, a obliqüidade da elíptica, a rotação da terra, a separação entre terra firme e oceanos, a atmosfera, a luz, o calor e todos os fenômenos semelhantes, que na natureza são aquilo que o baixo fundamental é na harmonia, acomodam-se plenos de pressentimento à geração futura de seres vivos, dos quais serão o sustentáculo mantenedor. Do mesmo modo, o solo se adapta à alimentação das plantas, estas à alimentação dos animais, estes à alimentação dos predadores, e todos estes àquele primeiro.” Inconciliável: Vontade UNA / Idéias MÚLTIPLAS. Inconciliável dum ponto de vista lógico, anyway… Chutando para o espaço sideral o princípio de não-contradição, tudo isto é lícito, legítimo, coerente, irretocável.
“ponderada astúcia (…) o instinto dos animais nos fornece o melhor esclarecimento para a restante teleologia da natureza.”
§29
“vemos aquela filosofia que investigava o macrocosmo, a de Tales, e aquela que investigava o microcosmo, a de Sócrates, coincidirem na medida em que se prova o objeto de ambas como sendo o mesmo.”
“Cada vontade é vontade de alguma coisa. Tem um objeto, um fim de seu querer.”
“o que aquele ser quer em geral (…) cada homem sempre tem fins e motivos segundo os quais conduz o seu agir e sabe a todo momento fornecer justificativas sobre seus atos isolados; no entanto, caso se lhes pergunte por que em geral quer, ou por que em geral quer existir (…) a pergunta lhe pareceria absurda.”
“Suficientemente feliz é quem ainda tem algo a desejar, pelo qual se empenha, pois assim o jogo da passagem contínua entre o desejo e a satisfação e entre esta e um novo desejo – cujo transcurso, quando é rápido, se chama felicidade, e, quando é lento se chama sofrimento – é mantido, evitando-se aquela lassidão que se mostra como tédio terrível, paralisante, apatia cinza sem objeto definido, languor mortífero.”
LIVRO TERCEIRO: Do mundo como representação
Segunda consideração: A representação independente do princípio de razão: a Idéia platônica: o objeto da arte
§30
“o princípio de razão, que é o princípio último de toda finitude, de toda individuação, forma universal da representação” “caso as Idéias devam se tornar objeto de conhecimento, isso só pode ocorrer pela supressão da individualidade no sujeito cognoscente. A explanação detalhada e definitiva deste tema é o que doravante nos vai ocupar.” Lado aleijado da “simetria quadripartite” de Schopenhauer? A desculpa perfeita para falar exclusivamente de Estética por alguns parágrafos!
§31
“Se para nós a Vontade é a COISA-EM-SI e as IDÉIAS a sua objetidade imediata num grau determinado, encontramos, todavia, a coisa-em-si de Kant e a Idéia de Platão – único que verdadeiramente é –, estes dois grandes e obscuros paradoxos dos dois maiores filósofos do Ocidente, de fato não como idênticas, mas como intimamente aparentadas e diferentes apenas em uma única determinação.”
“Platão diz o seguinte:
(…) Sim, cada um veria inclusive a si mesmo e aos outros apenas como sombras na parede à frente. Sua sabedoria, então, consistiria em predizer aquela sucessão de sombras apreendida na experiência. Ao contrário, apenas as imagens arquetípicas reais daquelas sombras, as Idéias eternas, formas arquetípicas de todas as coisas, é que podem ser ditas verdadeiras, pois elas SEMPRE SÃO, MAS NUNCA VÊM-A-SER.[Aqui parou Kant]A elas não convém PLURALIDADE, pois cada uma, conforme sua essência, é una, já que é a imagem arquetípica mesma, cujas cópias ou sombras são as coisas efêmeras isoladas da mesma espécie e de igual nome.”
“Platão não chegou a essa expressão superior e só indiretamente pôde isentar as Idéias dessas formas, na medida em que nega às Idéias o que só é possível por elas, a saber, pluralidade do igual, nascer e perecer.”
“é tão reduzido o verdadeiro público de um autêntico filósofo que mesmo os discípulos que o compreendem só aparecem de séculos em séculos.”
§32
“só a Idéia é a mais ADEQUADA OBJETIDADE possível da Vontade ou coisa-em-si; é a própria coisa-em-si, apenas sob a forma da representação” Interpretação platônica desautorizada!
“O tempo é meramente a visão esparsa e fragmentada que um ser individual tem das Idéias, as quais estão fora do tempo,[Como representação? Por isso o grifo verde acima em ‘sob a forma’!] portanto são ETERNAS.” Acaba de contradizer o precedente. Se ao menos aqui fosse IDÉIA, e à p. 242 (página da citação anterior) IDÉIAS, no plural, poderíamos ceder a palmatória a Sch…. O problema é que o autor inverteu os termos. A representação nunca é Una. E o que está fora do tempo é sempre, no autor, o Um, “a” Vontade.
§33
Apolo de Belvedere, segundo Schopenhauer o ápice da representação da independência entre o cérebro ou cabeça (parte racional) e o restante do corpo humano (parte instintiva, cega). Não seria contraditório que este último (sinônimo da Natureza) apareça em Sch. como regido pela Cultura, que é mera aparência e não tem o direito de representar a Vontade mais que nenhum outro fenômeno visível? Pois a Vontade não é racional, não tem propósito “exterior”.
§34
“Em si mesma, i.e., alheia à representação, a Vontade é una com a minha vontade.”
NADA COM ISSO SE GANHA. ONDE SE QUER CHEGAR ALÉM DO SER-ANIMAL? “Quem, dessa maneira, absorveu-se tão profundamente e se perdeu na intuição da natureza, e existe ainda apenas como puro sujeito que conhece, em verdade tornou-se de imediato ciente de que, enquanto tal, é a condição, portanto o sustentáculo do mundo e de toda existência objetiva, visto que esta, doravante, expõe-se como dependente da sua existência.”Kantiano demais.
§35
Gozzi, Analisi riflessiva della fiaba L’amore delle tre melarance
“todo evento ou obra, sufocados em gérmen, ainda têm a infinitude inteiramente aberta para o seu retorno.”
“O autoconhecimento da Vontade e, daí, a sua decidida afirmação ou negação é o único evento em si.”
Parágrafo 35 in a nutshell: #EternoRetorno #Nietzsche; e depois retrocesso a #Camus. Nem infinito, nem retorno, nem negação: só afirmação-nova-no-tempo.
§36
O QUANTO A PSICANÁLISE NÃO BEBERIA DESTAS LINHAS? “arte plástica, poesia ou música. Sua única origem é o conhecimento das Idéias, seu único fim é a comunicação desse conhecimento. – A ciência segue a torrente infinda e incessante das diversas formas de fundamento a conseqüência: de cada fim alcançado é novamente atirada mais adiante, nunca alcançando um fim final, ou uma satisfação completa, tão pouco quanto, correndo, pode-se alcançar o ponto onde as nuvens tocam a linha do horizonte. A arte, ao contrário, encontra em toda parte o seu fim.” “A roda do tempo pára. As relações desaparecem. Apenas o essencial, a Idéia, é objeto da arte.”
“O modo de consideração que segue o princípio de razão é o racional, único que vale e ajuda na vida prática e na ciência; já o modo que prescinde do conteúdo deste princípio é o genial, único que vale e ajuda na arte. O 1º é o modo de consideração de Aristóteles, o 2º é no todo o de Platão. O 1º é comparável a uma tempestade violenta que desaba sem princípio e fim, a tudo verga, movimenta e arrasta; o 2º, ao calmo raio de sol que corta o caminho da tempestade, totalmente intocado por ela.” (Não seria o contrário?)
“só o gênio é capaz de um esquecimento completo da própria pessoa e de suas relações; segue-se que a GENIALIDADE nada é senão a OBJETIVIDADE mais perfeita, ou seja, orientação objetiva do espírito, em oposição à subjetiva que vai de par com a própria pessoa, i.e., com a [própria] vontade.”
“como diz Goethe, fixar em pensamentos duradouros o que aparece oscilante no fenômeno.”
“claro olho cósmico”No entanto, continua confuso e ambivalente. Quando quer, joga a Vontade para o fenômeno, com mediação da IDÉIA.
“excedente de conhecimento livre”
“purificado de Vontade, [Mas o abandono da razão é o contrário!] espelho claro da essência do mundo – Daí se explica a vivacidade que beira a inquietude,¹ em indivíduos geniais, na medida em que o presente quase nunca lhes basta, já que não preenche a sua consciência. Daí resulta aquela tendência ao desassossego, aquela procura incansável por novos objetos dignos de consideração, o anseio quase nunca satisfeito por seres que lhe sejam semelhantes e que os ombreie e com os quais possa se comunicar. Já o filho comum da terra, ao contrário, plenamente satisfeito com o presente comum, absorve-se nele e em toda parte encontra o seu igual, possuindo aquele conforto especial na vida cotidiana que é negado ao gênio.”
¹ Aquele que cessa de desejar – que corta o fluxo do tempo, na obra de arte – torna-se vivaz? Como explicar esse tipo de contradição schopenhaueriana?!
ETNÓGRAFOS DOS MORTOS: “Portanto, a fantasia põe o gênio na condição de, a partir do pouco que chegou a sua apercepção efetiva, construir todo o resto e assim deixar desfilar diante de si quase todas as imagens possíveis da vida. (…) o gênio precisa da fantasia para ver nas coisas não o que a natureza efetivamente formou, mas o que se esforçava para formar, mas que, devido à luta de suas formas entre si, não pôde levar a bom termo.”
Uma teoria do gênio correta encaixada no molde errado (sua “Vontade” kantiana).
“homens completamente desprovidos de gênio podem possuir bastante fantasia.” Maurício G. – DÉJÀ VU, como se já tivesse publicado no blog esta exata citação acrescida deste nome.
“Ele talvez escrevinhará as suas fantasmagorias, com o que vêm a lume os romances comuns de todos os gêneros que divertem seus iguais e o grande público: os leitores sonham ao se porem no lugar do herói, achando então a exposição bastante ‘espirituosa’.”
“o verdadeiro oposto da contemplação, o espionar.”
“há grandes espaços intermédios no qual (sic) o indivíduo de gênio, tanto no que diz respeito aos méritos quanto às carências, em muito se aproxima do indivíduo comum.” “o fazer-efeito de um ser supra-humano diferente do próprio indivíduo e que apenas periodicamente se apossa dele. A aversão do gênio em direcionar sua atenção ao conteúdo do princípio de razão mostra-se primeiro em referência ao fundamento de ser, enquanto aversão à matemática, cuja consideração segue as formas mais gerais do fenômeno, espaço e tempo”
“A experiência também nos confirmou que grandes gênios da arte não têm talento algum na matemática: nunca um homem foi bastante distinto em ambas ao mesmo tempo. Alfieri inclusive conta que nunca conseguiu compreender nem sequer a quarta proposição de Euclides. [HAHA! Congruência de triângulos.] Goethe foi bastante repreendido pelos adversários obscurantistas de sua doutrina das cores devido ao seu desconhecimento da matemática: aqui, naturalmente, por não se tratar de cálculos e medidas segundo dados hipotéticos, mas de conhecimento imediato, via entendimento, da causa e do efeito, essa repreensão foi feita em lugar tão indevido e conduzida tão ao revés, que esses senhores revelaram aí, bem como por seus demais ditos de Midas, sua total carência de faculdade de juízo.”
“a conhecida anedota acerca de um matemático francês que, após ter lido Ifigênia, de Racine, perguntou: qu’est-ce-que cela prouve, o que isso prova?”
“a impressão do presente é bastante poderosa sobre o gênio, arrasta-o para o irrefletido, o afeto, a paixão.” “ele julga e narra de maneira extremamente objetiva aquilo que diz respeito aos seus próprios interesses, sem ocultar o que seria prudente ocultar (…) inclinam-se a monólogos e podem em geral mostrar muitas fraquezas que de fato os aproximam da loucura.” “todo aquele que conheceu as Idéias eternas nas coisas efêmeras aparece como louco.”
“Nunca houve grande engenho sem uma mistura de demência.” Aristóteles
Nem todo louco dá bom dia a cavalo.
Goethe,Torquato Tasso
“…se compararmos o número de gênios verdadeiramente magnânimos, produzidos pela Europa culta em todos os tempos antigos e novos, com as 250 milhões de pessoas que vivem atualmente na Europa e se renovam a cada 30 anos.”
“Entrementes, gostaria de expor o mais brevemente possível minha opinião sobre o fundamento puramente intelectual do parentesco entre genialidade e loucura [SEGUNDO TOMO]” Jaspers teve volumosa bibliografia.
“Que veementes sofrimentos espirituais ou terríveis e inesperados eventos com freqüência ocasionam a loucura, explano-o da seguinte maneira. Todo sofrimento desse tipo está sempre limitado, enquanto acontecimento real, ao presente. Nesse sentido, é sempre transitório e, assim, nunca excessivamente grave.” “quando um tal desgosto, um tal saber doloroso, ou pensamento, é tão atormentador que se torna absolutamente insuportável e o indivíduo poderia sucumbir a ele, a natureza assim angustiada recorre à LOUCURA como último meio de salvação da vida.” “Como exemplo considere-se o furioso Ajax, o rei Lear e Ofélia.” A obsessão de mãos em momentos de repouso. Melhor ferir o próprio couro cabeludo que sucumbir à ressurreição de traumas.
“ele vê em toda parte o extremo, e, justamente por isso, o seu agir atinge extremos. Ele não consegue encontrar a justa medida, falta-lhe a fleuma (…) O gênio conhece as Idéias perfeitamente, mas não os indivíduos. Eis por que, como já se observou, um poeta pode conhecer profunda e essencialmente O ser humano, porém de maneira muito ruim OS homens. O gênio, pois, é facilmente enganado e se torna um joguete nas mãos de astutos.”
§37
DECANTAÇÃO: “Que a Idéia se nos apresente mais facilmente a partir da obra de arte do que imediatamente a partir da natureza ou da efetividade, isso se deve ao fato de o artista, que conheceu só a Idéia e não mais a efetividade, também ter reproduzido puramente em sua obra a Idéia, separada da realidade efetiva com todas as suas contingências perturbadoras. O artista nos permite olhar para o mundo mediante os seus olhos. Que ele possua tais olhos a desvelar-lhe o essencial das coisas, independentemente de suas relações, eis aí precisamente o dom do gênio, o que lhe é inato. E, ademais, que ele esteja em condições de também nos emprestar esse dom, como se pusesse em nós os seus olhos, eis aí o adquirido, a técnica da arte.”
ESPETADA EM KANT: “explanarei mais detalhadamente a consideração filosófica do belo e do sublime, tanto na natureza quanto na arte, sem separar estas duas esferas.”
§38
“Na medida em que o quadro também exige a participação do espectador em semelhante estado, a sua comoção muitas vezes é incrementada pela oposição com o estado pessoal inquieto, a constituição mental irrequieta turvada pelo querer veemente, na qual se encontra. No mesmo espírito, pintores de paisagem, em especial Ruisdael, freqüentes vezes pintaram temas paisagísticos extremamente insignificantes, e com isso produziram o mesmo efeito de maneira ainda mais aprazível.”
“Note-se o quão próximo de nós pode sempre se encontrar um domínio em que podemos nos furtar por completo à nossa penúria! Mas quem tem a força para nele se manter por longo tempo?”
“Eis por que de bom grado nunca ficam sozinhos com a natureza; precisam de sociedade, ao menos de um livro. Seu conhecer permanece servil à Vontade. Procuram, por conseguinte, só por aqueles objetos que têm alguma relação com o seu querer e, de tudo que não possua uma tal relação, ecoa em seu interior, semelhante a um baixo fundamental, um repetitivo e inconsolável ‘de nada serve’. Assim, na solidão, até mesmo a mais bela cercania assume para eles um aspecto desolado, cinza, estranho, hostil.”
O ETERNO “ERA FELIZ E NÃO SABIA”… “na medida em que tornamos presentes os perdidos dias pretéritos, longinquamente situados, na verdade a fantasia chama de volta apenas os objetos, não o sujeito do querer, que outrora carregava consigo seus sofrimentos incuráveis, como o faz agora. Mas, tais sofrimentos foram esquecidos. (…) Eis por que, sobretudo quando uma necessidade nos angustia mais do que o comum, a recordação súbita de cenas do passado distante muitas vezes paira diante de nós como um paraíso perdido. Apenas o objetivo, não o individual-subjetivo, é chamado de volta pela fantasia, figurando diante de nós aquele objetivo como se, outrora, fosse tão puro e tão pouco turvado por qualquer relação com a vontade como o é agora a sua imagem na fantasia – embora antes a relação dos objetos com o nosso querer provocasse tanto tormento quanto agora.”
“Resta apenas o mundo como representação; o mundo como Vontade desapareceu.”Resumo do objetivo de Sch. no livro 3.
“Ormuzd mora na mais pura luz. Ahriman na noite eterna. O paraíso de Dante assume as aparências de Vauxhall em Londres, visto que todos os espíritos bem-aventurados aparecem em pontos de luz, reunidos em figuras regulares.”
“Já na audição se dá algo completamente diferente. Tons podem provocar dores imediatamente e, sem referência à harmonia ou à melodia, podem ser também de imediato sensualmente agradáveis. O tato, enquanto uno com o sentimento do corpo inteiro, está ainda mais submetido a esse influxo imediato sobre a vontade, embora também haja tato destituído de dor ou agrado. O odor, entretanto, é sempre agradável ou desagradável; o paladar ainda mais. Portanto, estes dois últimos sentidos são os mais intimamente ligados à vontade. Eis por que sempre foram chamados de sentidos menos nobres e, por Kant, de sentidos subjetivos.”
§39
“Uma tal elevação tem de ser não apenas obtida com consciência, como também mantida com consciência, sendo, assim, acompanhada de uma contínua lembrança da Vontade, porém, não de um querer particular, individual, como o temor ou o desejo, mas da Vontade humana em geral, tal qual esta se exprime em sua objetidade, o corpo humano. Caso um ato isolado e real da Vontade entre em cena na consciência por meio de uma aflição efetiva pessoal e de um perigo advindo do objeto, imediatamente a vontade individual, assim efetivamente excitada, ganha a preponderância, e a calma da contemplação se torna impossível. A impressão do sublime se perde, visto que cede lugar à angústia”
(N.T.) “para diferenciar Sch. de Kant, que opera uma ‘transição’ (Übergang) definitiva entre o belo e o sublime no capítulo 23 da Crítica da faculdade de juízo. (…) Como dito linhas antes pelo autor, o sentimento do sublime em sua determinação fundamental (Idéia intuída) é ‘uno’ com o do belo, distinguindo-se deste apenas pelo ‘acréscimo’ do elevar-se do contemplador para além da relação conhecida como desfavorável do objeto com a Vontade. Tanto é que Sch. falará mais adiante do ‘sublime no belo’ (Erhabenen am Schönen). Com isso, o termo gradação funcionou melhor porque indica os graus seqüenciais em que suavemente o belo e o sublime se confundem de acordo com o estado estético em que se está, sem porém distinguirem-se em natureza.”
“O caráter sublime, p.ex., notará erros, ódio, injustiça dos outros contra si, sem no entanto ser excitado pelo ódio; notará a felicidade alheia, sem no entanto sentir inveja; até mesmo reconhecerá as qualidades boas dos homens, sem no entanto procurar associação mais íntima com eles; perceberá a beleza das mulheres, sem cobiçá-las.”
§40
DA GULA AO PORNÔ: “Frutas pintadas ainda são aceitáveis, visto que, como um desenvolvimento tardio de flores, e pela sua forma e cor, oferecem-se como um belo produto natural, sem que se seja obrigado a pensar na sua comestibilidade. Mas, infelizmente, encontramos com freqüência, pintadas com naturalidade ilusória, iguarias preparadas e servidas, ostras, arenques, lagostas, pães amanteigados, cerveja, vinho, etc.; tudo isso é bastante repreensível. – Na pintura de gênero e na escultura o excitante consiste nas suas figuras nuas, cujo posicionamento, semipanejamento e todo o modo de execução são calculados para despertar a lubricidade do espectador, pelo que a pura consideração estética é de imediato suprimida e a obra se posta contra a finalidade da arte.”
ANTI-GORE: “se reconheceu desde sempre que o excitante negativo(repugnante) é inadmissível na arte, na qual até mesmo o feio é suportável, desde que não repugnante, e seja posto em lugar adequado”
§41
“A figura e expressão humanas são o objeto mais significativo das artes plásticas, assim como as ações humanas o são da poesia.”
CADEIRA-MADEIRA: “Em conformidade com nossa visão, não podemos concordar com Platão, quando este afirma (Rep., X, 596 b; Parmen., 130 b-d) que mesa e cadeira expressam as Idéias de mesa e cadeira. (…) Porém, conforme Aristóteles (Met., XI, cap. 3), Platão mesmo estatuíra somente Idéias de seres naturais (…) e no cap. 5 é dito que, conforme os platônicos, não há Idéia alguma de casa e anel. Em todo caso, já os discípulos mais próximos de Platão, como relata Alcino, negavam que houvesse Idéia de artefatos.”
§42
(…)
§43
“a luta entre gravidade e rigidez é propriamente o único tema estético da bela arquitetura.”
“As colunas são as formas mais simples de sustento, determinadas tão-somente por seu fim. A coluna torneada é de mau gosto; a pilastra quadrangular é, de fato, menos simples que a coluna redonda, embora casualmente de mais fácil execução.”
“A nossa alegria numa semelhante obra seria de súbito bastante diminuída se nos fosse revelado que o material de construção é pedra-pomes, pois assim ela apareceria como uma espécie de construção ilusória. O mesmo efeito seria produzido pela informação de que se trata apenas de um edifício de madeira, quando até então pensávamos ser de pedra, precisamente porque isso doravante muda, altera a relação entre rigidez e gravidade e, com isso, a significação e a necessidade de todas as partes”
“Se, entretanto, nos alegrássemos durante a visão de um belo edifício e alguém chegasse e dissesse que ele consiste em materiais completamente diferentes, com peso e consistência bastante diversos, todavia indiscerníveis aos olhos, então a construção inteira seria tão indigna de fruição quanto um poema em língua desconhecida. Todo o exposto demonstra precisamente que a arquitetura faz efeito não apenas matemática mas também dinamicamente, e que aquilo a falar-nos por ela não é meramente a forma e a simetria, mas antes as forças fundamentais da natureza, as Idéias primeiras, graus mais baixos de objetividade da Vontade.” “Inclusive a simetria não é uma exigência imprescindível, visto que até mesmo as ruínas podem ser belas.”
“Ora, se o belo não encontra apoio algum na hidráulica utilitária, é porque os seus respectivos fins, via de regra, não se combinam, apesar de haver raras exceções, como, p.ex., a Cascata di Trevi em Roma.”
§44
Jakob Böhme, Signatura rerum
§45
“na exposição do ser humano, separam-se o caráter da espécie e o caráter do indivíduo. O primeiro, então, se chama beleza (sem sentido inteiramente objetivo), enquanto o segundo retém o nome de caráter ou expressão. Só que aqui entra em cena uma nova dificuldade, ou seja, expor simultânea e perfeitamente ambos os caracteres num mesmo indivíduo.”
“Goethe diz: Quem contempla a beleza humana não pode padecer de mal algum.”
“Alguma vez a natureza produziu um homem perfeitamente belo em todas as suas partes? – Opinou-se que o artista tem de estudar conjuntamente as muitas partes belas isoladas distribuídas por muitos homens e delas compor um todo belo. Eis uma opinião disparatada. (…) de onde deve o artista reconhecer que precisamente estas formas isoladas são belas e não as outras? – Também vemos até onde foram (…) os antigos pintores alemães. Considerem-se suas figuras nuas. – Conhecimento algum do belo é possível de maneira puramente a posteriori.”
“O fato de todos reconhecermos a beleza, caso a vejamos, sendo que no caso do artista autêntico isso ocorre com uma tal clareza que ele a mostra como nunca se vira e, por conseguinte, supera a natureza com sua exposição, tudo isso é apenas possível devido ao fato de que a Vontade – cuja objetivação adequada em seu grau mais elevado deve aqui ser descoberta e julgada – SOMOS NÓS MESMOS.”
“Ele imprime no mármore duro a beleza da forma que a natureza malogrou em milhares de tentativas, coloca-a diante dela e lhe brada: ‘Eis o que querias dizer!’. Para em seguida ouvir a concordância do conhecedor: ‘Era isso mesmo!’. Só assim pôde o gênio grego descobrir o tipo arquetípico da figura humana e estabelecê-lo como cânone da escultura.”
“A possibilidade de uma tal antecipação a priori do belo no artista, bem como o seu reconhecimento a posteriori no espectador, reside no fato de ambos serem o mesmo Em-si da natureza, a Vontade que se objetiva. Pois, como disse Empédocles, apenas pelo igual é o igual reconhecido; apenas a natureza pode entender a si mesma; apenas a natureza pode aprofundar-se em si. E também apenas pelo espírito é o espírito compreendido.”
“a influência bestial da sabedoria hegeliana de bundões (Hegelschen Afterweisheit, onde After = saída do intestino, ânus)”
“A opinião disparatada de que os gregos teriam descoberto o ideal estabelecido da beleza humana de maneira inteiramente empírica, recolhendo partes isoladas e belas, encontrando e desvelando aqui um joelho, ali um braço, tem por análogo a opinião sobre a poesia de que, p.ex., Shakespeare conseguiu fazer entrar em cena, em seus dramas, a grande variedade e justeza de seus caracteres tão verdadeiros e coerentes, tão profundamente trabalhados, a partir de sua própria experiência mundana de vida, tendo-a então repetido.”
UM HUMANISMO, HERE WE GO AGAIN!“a supressão do caráter da espécie mediante o caráter do indivíduo é caricatura, e a supressão do caráter individual mediante o caráter da espécie é ausência de significação.”
“nas obras dos antigos não encontramos a beleza humana, por eles distintamente apreendida, expressa numa única figura, mas em muitas delas”
“olhos e cores, que residem fora do âmbito da escultura” erro de época cometido por Sch., já que depois descobriu-se que as estátuas eram pintadas.
“Ora, como a beleza é manifestamente o objeto privilegiado da escultura, LESSING procurou explicar o fato de LAOCOONTE NÃO GRITAR dizendo que o grito é incompatível com a beleza. Como esse objeto foi tema, ou ao menos ponto de partida de um livro de Lessing, e como muita coisa foi escrita sobre o assunto antes e depois dele, julgo ser-me concedida a oportunidade para, aqui, emitir episodicamente a minha opinião sobre o assunto, embora esta especial elucidação não esteja em conexão propriamente dita com a nossa consideração, sempre direcionada ao universal.”
§46
“Que Laocoonte, no famoso grupo de esculturas, não grite, é algo manifesto. A estranheza geral e sempre repetida em face disso deve ser atribuída a que, na sua situação, todos nós gritaríamos: e assim também o exige a natureza. Pois, no caso da dor física mais intensa e do súbito aparecimento da maior das angústias corporais, toda reflexão que poderia conduzir a uma resignação silenciosa é subitamente reprimida da consciência e a natureza se alivia pelo grito, exprimindo assim a dor e a angústia, ao mesmo tempo em que invoca alguém salvador e espanta o agressor. Já Winckelmann sentia falta da expressão do grito. No entanto, na medida em que procurava uma justificativa para o artista, transformou, propriamente dizendo, Laocoonte num estóico, o qual considerava inadequado à sua dignidade gritar secundum naturam, e assim acrescentar à própria dor a coerção inútil de evitar a sua manifestação. Em conseqüência, W. vê em Lao. ‘o espírito de um grande homem posto à prova, um mártir procurando suprimir e reter em si mesmo a expressão do sentimento: ele não irrompe em sonoros gritos, como o faz em Virgílio, mas somente emite gemidos lamentosos’ (…) Esta opinião é por sua vez criticada por Les. (…) no lugar do fundamento psicológico, ele coloca o fundamento puramente estético, ou seja, que a beleza, princípio da arte antiga, não admite a expressão do grito. Outro argumento por ele aduzido, de que um estado completamente passageiro e incapaz de qualquer duração não pode ser exposto numa obra de arte imóvel, tem contra si centenas de exemplos de figuras maravilhosas, captadas em movimentos inteiramente fugidios, dançando, lutando, correndo etc. Goethe mesmo, em seu estudo sobre Lao., que abre os Propileus (p. 8), considera a escolha de um semelhante momento passageiro absolutamente necessária.”
“a exposição do grito reside por inteiro fora do domínio da escultura. Não se podia produzir em mármore um Lao. gritando, mas apenas um de boca escancarada e esforçando-se inutilmente por gritar e no qual a voz ficava entalada na garganta” Não diga! E pra me dizer isso você devotou um capítulo inteiro na sua magnum opus?
“o Lao. de V. grita como um touro (…) por isso Homero retrata Marte e Minerva gritando horrivelmente, sem detrimento de sua dignidade e beleza divinas. Do mesmo modo na arte teatral. Sobre o palco L. obrigatoriamente tinha de gritar. Também Sófocles faz Filocteto gritar: de fato, nos palcos antigos ele efetivamente devia gritar. (…) um grito pintado ou destituído de voz seria ainda mais risível do que música pintada [o grito pode ser desenhado como onda] (…) a Santa Cecília no órgão, o violinista de Rafael na galeria Sciarra em Roma”
§47
“a escultura se serve do drapejado não como um velamento mas como uma exposição indireta da forma” “na escultura o drapejado é em certa medida o que na pintura é o escorço: ambos são alusões, mas não simbólicas, e sim tais que, se bem executadas, compelem imediatamente o entendimento a intuir o aludido, como se ele realmente tivesse sido dado.”
“pobreza espiritual, confusão, perversidade vão vestir-se a si mesmas com os termos mais rebuscados, as expressões mais obscuras, para assim, em frases difíceis e pomposas, mascararem pensamentos miúdos, triviais, insossos, cotidianos”
§48
“PINTURA HISTÓRICA”
“Indivíduo algum ou ação alguma podem ser sem significado [o quanto isso não contrasta com o teor do livro IV!] (…) Eis por que nenhum evento da vida humana deve ser excluído da pintura. Em conseqüência, é-se muito injusto com os maravilhosos pintores da escola neerlandesa ao apreciar somente suas habilidades técnicas, desprezando-os no resto, alegando-se que, na maioria das vezes, só expõem objetos da vida cotidiana, enquanto se consideram como significativos, ao contrário, somente os eventos da história universal ou bíblica.” “Apenas a significação interior vale na arte, a exterior vale na história. Ambas são completamente independentes uma da outra, podem aparecer juntas, mas também sozinhas.”
“Até mesmo a fugacidade dos momentos que a arte fixou em tais obras (hoje em dia denominadas pinturas de gênero) desperta uma leve e específica comoção: pois, fixar o mundo fugaz (em constante transformação) em imagens duradouras de eventos particulares a fazerem as vezes do todo é uma realização da arte da pintura pela qual esta parece trazer o tempo mesmo ao repouso, na medida em que eleva o indivíduo à Idéia de sua espécie.” Vivesse mais algumas décadas e Sch. ficaria louco!
“Do mesmo modo que no palco não é admissível que o principal transcorra detrás da cena (como nas tragédias francesas), também é um erro, ainda maior, se isso ocorre numa pintura.”
“é em geral uma grande infelicidade que o povo cuja cultura deveria servir de base para a nossa não seja o indiano nem o grego, ou mesmo o romano, mas justamente esse povo judeu; o que foi nefasto em especial para os pintores geniais da Itália, nos séc. XV e XVI, arbitrariamente restritos a uma esfera limitada de temas, na maioria das vezes mesquinharias de todo tipo. Pois o Novo Testamento, em sua parte histórica, é para a pintura tão desfavorável quanto o Antigo, e a história subseqüente dos mártires e Padres da Igreja é um tema mais infeliz ainda.”
“a resignação perfeita, que é o espírito mais íntimo tanto do cristianismo quanto da sabedoria indiana, a renúncia a todo querer, a viragem, a supressão da Vontade e, com esta, da essência inteira do mundo, portanto a redenção.”
§49
“Antes, muitos dos exemplos platônicos de Idéia e as elucidações de Platão sobre as mesmas são aplicáveis apenas aos conceitos.”
“O CONCEITO é (…) alcançável e apreensível (…) comunicável por palavras sem ulterior determinação, esgotável por inteiro em sua definição.¹ A IDÉIA (…) é absolutamente intuitiva (…) nunca sendo conhecida pelo simples indivíduo enquanto tal (…) [mas pelo] puro sujeito do conhecimento (…) alcançável apenas pelo gênio, em seguida por aquele que (…) está numa disposição genial. (…) a medida do seu próprio valor intelectual.”
¹ Subordinado ao espaço-tempo.
O conceito é a medida do homem;
A Idéia a medida de deus.
“Às vezes também os mais limitados reconhecem as grandes obras pela autoridade de outrem, para desse jeito esconderem sua fraqueza.”
“a ira da falta de valor. Que é afinal a modéstia senão a fingida humildade por meio da qual, num mundo povoado de inveja, pede-se perdão pelas excelências e méritos próprios àqueles que não os possuem?”
“Em virtude da forma temporal e espacial de nossa apreensão intuitiva, a IDÉIA é a unidade que decaiu na pluralidade; o CONCEITO, ao contrário, é unidade, mas produzida por intermédio¹ da abstração de nossa faculdade racional: a 2ª pode ser descrita como unitas post rem, a 1ª como unitas ante rem.”
¹ Não cessa de se contradizer!
‘o seu ódio vem à tona alegremente’
Sem detrimento de sua filosofia, Sch. brilha ainda mais enquanto poeta.
“…por reflexão sintética” À medida que não encontra mais palavras para se explicar, recorre ao mentor Kant.
“A verdadeira e única fonte de qualquer obra de arte é a Idéia” “Justamente porque a Idéia é e permanece intuitiva, o artista não está consciente in abstracto da intenção e do fim de sua obra” “não pode relatar sua atividade” “Por sua vez, imitadores, maneiristas, imitatores, servum pecus procedem na arte a partir do conceito.” “Na medida em que sugam o seu alimento de obras alheias, assemelham-se a plantas parasitas; também se assemelham aos pólipos, que assumem as cores daquilo de que se apropriam.” “Só o gênio, contrariamente, é comparável a um corpo orgânico que assimila, transforma e produz.”
“a elevada formação do gênio jamais prejudica a sua originalidade. (…) tais obras maneiristas encontram com freqüência, e rapidamente, a aprovação sonora dos contemporâneos (…) Contudo, após alguns anos, tais obras já são inapreciáveis, visto que (…) mudaram.”
“Esses indivíduos que aparecem sucessivamente estão por inteiro sozinhos, visto que a massa e a multidão da posteridade sempre será e permanecerá tão perversa e obtusa quanto a massa e a multidão de todos os tempos. – Que se leiam os lamentos dos grandes espíritos em todos os séculos sobre os seus contemporâneos: soam sem exceção como hoje, porque o gênero humano sempre foi o mesmo.”
§50
PLATÃO, O INFINITO: “Não podemos admitir que uma obra artística seja intencional e deliberadamente a expressão de um conceito, como é o caso da ALEGORIA. Uma alegoria é uma obra de arte que significa algo outro que o exposto nela.”
“A noite de Correggio, O gênio da glória de Aníbal Caracci, As horas de Poussin”
“É o caso de uma tartaruga para significar o pudor feminino; Nêmesis abrindo a sua túnica e olhando para o próprio seio, significando que também vê as coisas mais ocultas”
“A escultura grega apela à intuição, pelo que é ESTÉTICA. Já a escultura indiana apela ao conceito, pelo que é SIMBÓLICA.”
“tenho de naturalmente rejeitar essa e outras semelhantes colocações de Winckelmann sobre a metafísica do belo propriamente dita, embora de resto o respeite muito. Por aí se nota como se pode ter a maior receptividade para o belo da arte, e ter o juízo mais correto sobre as obras artísticas sem no entanto estar em condição de oferecer uma descrição abstrata, propriamente filosófica, de sua essência.”
“Com a POESIA, a alegoria tem uma relação completamente diferente do que com a arte plástica. Se nesta é repreensível, naquela é admissível (…) aqui o que é dado imediatamente em palavras é o conceito, e o próximo passo é sempre ir deste ao intuitivo, cuja exposição tem de ser executada pela fantasia do ouvinte.”
“Note-se o quanto Cervantes fala belamente do sono, ao exprimir que nos alivia de todos os sofrimentos espirituais e corporais”
“Grande efeito fez sobre a plebe romana, que se retirou de seu país, a fábula de Menenius Agrippa envolvendo estômagos e membros.” Ler Coriolano de Shakespeare.
Goethe, Triunfo da sensibilidade
“Dom Quixote (…) alegorizava a vida de um homem que, diferentemente dos demais, não tem em vista apenas cuidar do próprio bem-estar mas persegue um fim objetivo, ideal, que se apossou de seu pensamento e querer, com o que se sente, obviamente, isolado neste mundo.”
“Quem adivinharia, se não fosse informado, o motivo de o peixe ser o símbolo do cristianismo? Apenas um Champollion.” Porque o cristão morre pela boca! Champollion foi um dos fundadores da egiptologia e grande decifrador de hieróglifos. Está explicado!
§51
“Assim como o químico combina 2 fluidos perfeitamente claros e transparentes e dessa combinação resulta um precipitado sólido, também o poeta, a partir da universalidade transparente e abstrata dos conceitos, sabe combiná-los e obter um precipitado concreto, individual, a representação intuitiva.”
“Também a experiência e a história ensinam a conhecer o homem; contudo, mais freqüentemente OS homens e não O homem”
“A história está para a poesia como a pintura de retratos está para a pintura histórica, pois a história dá o verdadeiro no particular, a poesia no universal.”
“A mediocridade não é concedida ao poeta,
Seja por homens, deuses ou colunas.”
“Mediocribus esse poetis
Non homines, non Di, non concessere columnae”
“a crítica e a sátira, sem nenhuma condescendência, deveriam açoitar os poetas medíocres (…) Pois, se até mesmo a torpeza de um imbecil deixou irado o brando Deus das musas, a ponto de dilacerar Mársias, não vejo onde a poesia medíocre possa basear sua pretensão à tolerância.”
“Agora vemos como também os historiadores antigos seguiam o preceito de Wilckelmann de que o retrato deve ser o ideal do indivíduo (…) Já os novos historiadores, diferentemente, salvo raras exceções, apresentam na maioria das vezes apenas ‘um barril de entulhos e inutilidades, e quando muito uma ação principal de estado’.”
“O puro e simples historiador, que trabalha exclusivamente conforme os dados, assemelha-se a alguém que, sem conhecimento algum da matemática, investiga e mede por traços a proporção das figuras encontradas casualmente; com isso o estabelecimento dessas medidas encontradas empiricamente estão todas sujeitas aos erros das figuras assinaladas. O poeta, ao contrário, assemelha-se ao matemático que constrói aquelas relações a priori, na pura intuição, expressando-as não como a figura efetivamente assinalada as possui, mas como as mesmas são na Idéia e que o desenho deve tornar sensível.”
“Was ich nie und nirgends hat begeben
Das allein veraltet nie.”
Schiller
“É errado afirmar que as autobiografias são cheias de engodo e dissimulação. A mentira é em toda parte possível, mas talvez em nenhum outro lugar é mais difícil do que justamente na autobiografia.”
“numa carta (…) ao contrário da conversação, perde-se a medida da impressão que se provocaria sobre outrem. O destinatário de uma carta a perscruta de modo sereno e numa disposição alheia à do remetente, a lê repetidas vezes, em diferentes ocasiões, podendo facilmente desmascarar a intenção secreta. Conhece-se melhor e mais fácil um autor, também como homem, a partir de seu livro, pois todas aquelas condições fazem efeito na escritura de um livro de modo ainda mais vigoroso e constante.”
“o drama, que é o gênero mais objetivo e, na maioria dos aspectos, o mais perfeito e difícil da poesia. (…) Embora nas artes apenas o gênio autêntico possa realizar algo de bom, parece que unicamente a poesia lírica constitui uma exceção, pois até homens no todo não tão eminentes podem, às vezes, mediante estímulo forte proveniente do exterior e um entusiasmo momentâneo elevar suas faculdades espirituais acima de sua medida comum, e assim produzir uma bela canção.”
“Reproduzem-se na poesia lírica do genuíno poeta o íntimo da humanidade inteira e tudo o que milhões de homens passados, presentes e futuros sentiram e sentirão nas mesmas situações”
“ninguém pode prescrever ao poeta o dever de ser nobre e sublime, moralista, pio, cristão, isso ou aquilo, muito menos censurá-lo por ter este e não outro caráter. O poeta é o espelho da humanidade, e traz à consciência dela o que ela sente e pratica.”
“Como uma paródia cômica corretamente executada do caráter lírico, deve-se mencionar uma notável canção de Voss, na qual descreve a sensação de um pedreiro embriagado caindo de uma torre e a fazer, durante a queda, a observação deveras estranha ao seu estado (portanto pertence ao conhecimento destituído de vontade) de que o relógio da torre marca onze e meia.”
“I live not in myself, but I become
Portion of that around me, and to me
High mountains are a feeling”
Byron
Justamente por isso o jovem se prende tanto ao lado intuitivo e exterior das coisas; justamente por isso se inclina à poesia lírica e, só quando se torna adulto, à dramática. Podemos pensar o ancião no máximo como poeta épico, semelhante a Ossian e Homero, pois narrar pertence ao caráter de quem é idoso.”
“Hamlet, a quem Horácio gostaria de seguir voluntariamente; porém, aquele pede que permaneça e respire por mais algum tempo neste ingrato mundo de dores, a fim de esclarecer o destino de Hamlet e zelar por sua memória.”
“A palavra final no Maoméde Voltaire expressa isso literalmente, quando a agonizante Palmira diz a Maomé: ‘O mundo é para tiranos, vive!’”
“as críticas obtusas (…) que o Dr. Samuel Johnson dirige a peças isoladas de Shakespeare, censurando a sua licenciosidade: qual fato levou as Ofélias, as Desdêmonas, as Cordélias a serem culpáveis? – Só a visão de mundo rasa, otimista, racional-protestante, ou, melhor dizendo, judaica, fará a exigência de justiça poética para, com a satisfação desta, encontrar a sua própria. O sentido verdadeiro da tragédia reside na profunda intelecção de que os heróis não expiam os seus pecados individuais, mas o pecado original, i.e., a culpa da existência mesma”
(1) “maldade extraordinária” “exemplos desse tipo são: Ricardo III, Iago em Otelo, Shylok em O mercador de Veneza, Franz Moor [Schiller], Fedra de Eurípides, Creonte em Antígona”
(2) “destino cego” “a maioria das tragédias dos antigos; entre os modernos, citem-se como exemplos Romeu e Julieta, Tancredode Voltaire, A noiva de Messina.”
(3) “relações recíprocas” “meras circunstâncias são colocadas, tais quais aparecem com freqüência; contudo, as pessoas são de uma tal maneira opostas, que precisamente a sua situação as compele conscientemente a tramar a maior desgraça umas contra as outras (…) Esse último tipo de tragédia me parece superar em muito as anteriores pois nos mostram a grande infelicidade não como exceção, não como algo produzido por circunstâncias raras ou caracteres monstruosos, mas como algo que provém fácil e espontaneamente das ações e dos caracteres humanos” Opinião muito pessoal de Sch…
“Nas duas primeiras técnicas vemos o destino monstruoso e a maldade atroz que, no entanto, ameaçam só de longe, por conseguinte temos a esperança de nos subtrair a eles sem necessidade de nos refugiarmos na renúncia; ao contrário, na última técnica as potências que destroem a felicidade e a vida aparecem de tal forma que também fica aberto para elas, a todo instante, o caminho até nós, pois aqui vemos o grande sofrimento ser produzido por complicações cujo essencial também pode tocar o nosso destino, ou por ações que talvez nós mesmos seríamos capazes de realizar, e portanto não teríamos o direito de denunciar a injustiça.” Chimera Ant: a humanidade imperialista das formigas; o inseto imoral em nós.
“Uma tragédia deve ser aqui mencionada como modelo perfeito nesse aspecto, porém superada em outros aspectos por várias outras peças do mesmo grande mestre: trata-se de Clavigo. Também Hamlet pertence em certa medida a este gênero, se se leva em conta tão-somente a sua relação com Laertes e Ofélia. Também Wallensteintem o mesmo mérito. Fausto é inteiramente desse tipo, se considerarmos como ação principal a sua conduta com Gretchen e o irmão desta. Do mesmo modo o Cid de Corneille, apesar de faltar a este o desfecho trágico, que de outro lado tem a relação análoga de Max com Tekla.”
§52
“uma bela arte permaneceu excluída de nossa consideração e tinha de permanecê-lo, visto que, no encadeamento sistemático de nossa exposição, não havia lugar apropriado para ela. Trata-se da música.” “linguagem universal, cuja distinção ultrapassa até mesmo a do mundo intuitivo” “a alegoria interior com a qual o íntimo mais fundo de nosso ser é trazido à linguagem.”
“o ponto de comparação da música com o mundo, a maneira pela qual a primeira está para este como cópia ou repetição, encontra-se profundamente oculto. A música foi praticada em todos os tempos sem se poder dar uma resposta a tal indagação. Ficou-se satisfeito em compreendê-la imediatamente, renunciando-se a uma concepção abstrata dessa compreensão imediata.”
“para que a minha exposição sobre a significação da música seja aceita com genuína convicção, julgo necessário a freqüente audição musical, acompanhada de persistente reflexão”
ABSURDIDADE:“a música, visto que ultrapassa as Idéias e também é completamente independente do mundo fenomênico, ignorando-o por inteiro, poderia em certa medida existir ainda que não houvesse mundo[!!!!]– algo que não pode ser dito acerca das demais artes.De fato, a música é uma tão IMEDIATA objetivação e cópia de toda a VONTADE, como o mundo mesmo o é, sim, como as Idéias o são, cuja aparição multifacetada constitui o mundo das coisas particulares.¹ A música, portanto, de modo algum é semelhante às outras artes, ou seja, cópia de Idéias, mas CÓPIA DA VONTADE MESMA[acaba de se contradizer de novo!], cuja objetidade também são as Idéias. Justamente por isso o efeito da música é tão mais poderoso e penetrante que o das outras artes, já que estas falam apenas de sombras, enquanto aquela fala da essência.”
¹ Se suas Idéias são para significar Vontade, perdem o sentido. Na realidade ressuscitar, malversando, Platão (nestes casos específicos do texto schopenhaueriano) só prejudica a compreensão moderna da Filosofia clássica e desvaloriza o próprio filosofar contemporâneo. Se há diferença, ela é não-concorde ao próprio sistema schopenhaueriano e, mesmo se não fosse, nunca é explicada pelo autor.
TEORIA DE UMA MUITO LIMITADA MÚSICA DO HOMEM BRANCO: “deve haver entre música e Idéias não uma semelhança imediata, mas um paralelismo, uma analogia (…) Demonstrar essa analogia facilitará, enquanto ilustração, o entendimento da presente explanação, dificultada pela obscuridade do seu tema.” Obscuro, de fato!
“é lei da harmonia que só podem acompanhar uma nota grave aqueles tons agudos que efetivamente ressoam automática e simultaneamente com ela (seus sons harmoniques) mediante vibrações concomitantes. Algo análogo ao fato de que todos os corpos e organizações da natureza têm de ser vistos como originados pelo desenvolvimento gradual a partir da massa planetária, que é tanto seu sustentáculo quanto sua fonte [o baixo]” “O grave tem um limite além do qual tom algum é audível. Isso corresponde ao fato de que matéria alguma é perceptível sem formas e qualidade, i.e., sem exteriorização de uma força não mais explicável, na qual justamente se exprime uma Idéia, e, mais geralmente, que matéria alguma pode ser completamente destituída de volição.”
O SOL, NÃO A CROSTA TERRESTRE, É O BAIXO DO SUPRA-HOMEM: “Ademais, no conjunto das vozes intermediárias que produzem a harmonia e se situam entre o baixo contínuo e a voz condutora que canta a melodia, reconheço a seqüência integral das Idéias na qual a Vontade se objetiva.”
“O desvio da correção aritmética dos intervalos mediante um temperamento qualquer, ou produzida pelo tipo escolhido de tom, é análogo ao desvio do indivíduo do tipo da espécie. Sim, as dissonâncias impuras que não formam nenhum intervalo determinado são comparáveis aos abortos monstruosos situados entre duas espécies animais, ou entre homem e animal.” “Também existência alguma experimenta uma sucessão de desenvolvimentos espirituais, muito menos se torna mais perfeita por meio de formação, mas todas subsistem o tempo inteiro uniformemente, de acordo com aquilo que a sua espécie é, e determinadas por lei fixa.”
O ÚLTIMO METAFÍSICO DO TOM: “Somente a MELODIA tem conexão intencional e plenamente significativa do começo ao fim. Ela narra a história da Vontade iluminada pela clareza de consciência, cuja impressão na efetividade é a série de seus atos. Porém, a melodia diz mais: narra a história mais secreta da Vontade, pinta cada agitação, cada esforço, cada movimento seu, tudo o que a razão resume sob o vasto e negativo conceito de sentimento”
“A invenção da melodia, a revelação nela de todos os mistérios mais profundos do querer e sentir humanos, é a obra do gênio, cuja atuação aqui, mais do que em qualquer outra atividade, se dá longe de qualquer reflexão e intencionalidade consciente, e poderia chamar-se uma inspiração. Aqui o conceito é infrutífero, como na arte em geral. O compositor manifesta a essência mais íntima do mundo, expressa a sabedoria mais profunda, numa linguagem não compreensível por sua razão: como um sonâmbulo magnético fornece informações sobre coisas das quais, desperto, não tem conceito algum. No compositor, mais do que em qualquer outro criador, o homem é completamente separado e distinto do artista. Mesmo na explanação dessa arte maravilhosa o conceito mostra a sua indigência e limites.”
“A demora do novo estímulo da vontade, o languor, não poderia encontrar outra expressão a não ser no tom fundamental prolongado, cujo efeito é logo insuportável” drone!
DE VIVALDI A CARLOFF: “A música de dança, consistindo em frases curtas e fáceis, em movimento veloz, parece exprimir a felicidade comum, fácil de ser alcançada: ao contrário, o allegro majestoso, com grandes frases, longos períodos, desvios vastos, descreve um esforço mais elevado, mais nobre, em vista de um fim distante e sua realização final. O adagio fala do sofrimento associado a um grande e nobre esforço, que desdenha qualquer felicidade vulgar. Quão maravilhoso é o efeito dos modos maior e menor! É fascinante observar como a mudança de um meio tom, a entrada em cena da terça menor em vez da maior, impõe a nós imediata e inevitavelmente um sentimento penoso, angustiante, do qual o modo maior rapidamente de novo nos liberta. O adagio atinge no modo menor a expressão mais aguda da dor, tornando-se lamento comovente. A música de dança, em modo menor, parece indicar a perda da felicidade frívola – que antes se deveria desdenhar – ou falar do alcançamento de um objetivo menor por meio de fadigas e labutas. – Quanto ao número inesgotável de possíveis melodias, corresponde ao inesgotável da natureza na diversidade de seus indivíduos, fisionomias e decursos de vida. A passagem de uma tonalidade para outra completamente diferente, quando a conexão com a anterior é no todo interrompida, compara-se à morte, na medida em que nesta o indivíduo finda. No entanto, a vontade que nele apareceu existe tanto quanto antes, aparecendo num outro indivíduo, cuja consciência, todavia, não possui ligação alguma com a de seu antecessor.”
“A música exprime não esta ou aquela alegria singular e determinada, esta ou aquela aflição, ou dor, ou espanto, ou júbilo, ou regozijo, ou tranqüilidade de ânimo, mas eles MESMOS, i.e., a Alegria, a Aflição, a Dor, o Espanto, o Júbilo, o Regozijo, a Tranqüilidade de Ânimo, em certa medida in abstracto, o essencial deles, sem acessórios, portanto também sem os seus motivos.” “Daí advém o fato de nossa fantasia ser tão facilmente estimulada pela arte dos sons, tentando assim figurar em carne e osso aquele mundo espiritual invisível, vivaz e ágil, a falar tão imediatamente a nós, logo, tenta corporificá-la num exemplo analógico. Essa é a origem do canto com palavras e, por fim, da ópera – que justamente por isso nunca devem abandonar a sua posição subordinada para se tornarem a coisa principal, fazendo da música mero meio de sua expressão, o que se constitui num grande equívoco e numa absurdez perversa.” Prelúdio d’O Caso Wagner.
“quando a música procura apegar-se em demasia às palavras e amoldar-se aos eventos, esforça-se por falar uma linguagem que não é a sua. De um semelhante erro ninguém melhor se livrou do que ROSSINI. Por isso sua música fala tão distinta e puramente a sua linguagem PRÓPRIA, visto que quase não precisa de palavras e, por conseguinte, provoca todo o seu efeito mesmo se executada só com instrumentos.”
“a música, como dito, é diferente de todas as outras artes por ser não cópia do fenômeno (…) mas cópia imediata da Vontade e, portanto, expõe para todo físico o metafísico (…) Em conseqüência, poder-se-ia denominar o mundo tanto música corporificada quanto Vontade corporificada.”
“em certo sentido, as melodias são, semelhantemente aos conceitos universais, uma abstração da realidade efetiva.”
“Toda essa relação pode ser muito bem expressa na linguagem dos escolásticos, caso se diga: os conceitos são as universalia post rem, a música entretanto fornece as universalia ante rem, e a realidade as universalia in re.”
“a mesma composição se adapta a muitas estrofes, daí também o vaudeville.”
“Que seja possível a relação entre uma composição e uma exposição intuitiva reside, no fato de as duas serem apenas expressões diversas da mesma essência íntima do mundo. Quando uma tal relação de fato está presente [é que] o compositor soube expressar na linguagem universal da música os estímulos da Vontade constitutivos do núcleo de um evento: então a melodia da canção, a música da ópera são plenamente expressivos. A analogia encontrada pelo compositor entre aquelas duas (…) tem de provir do conhecimento imediato da essência do mundo, inconsciente para a sua razão, e não pode (…) ser imitação intermediada por conceitos. Do contrário a música não expressa a essência íntima, a Vontade mesma, mas apenas imita de maneira inadequada o seu fenômeno. Isto o faz toda música imitativa propriamente dita: p.ex., As estações, de Haydn, também muitas passagens de sua Criação, em que fenômenos do mundo intuitivo são imediatamente imitados. Também é o caso de todas as peças de batalha. Tudo isso deve ser por completo rejeitado.” [!]
“a seriedade que lhe é essencial, a excluir por completo o risível do seu domínio próprio e imediato, explica-se pelo fato de seu objeto não ser a representação, exclusivamente em relação à qual o engano e o risível são possíveis” “Quão plena de sentido e de significação é a linguagem musical, testemunham-no até mesmo os sinais de repetição, junto com o da capo, que seriam insuportáveis nas obras escritas com palavras. Na música, entretanto, são bastante apropriados e benéficos, pois, para apreendê-lo completamente, tem-se de ouvi-la duas vezes.” 200 ou 2000…
“se (…) a filosofia nada é senão a correta e plena repetição e expressão da essência do mundo em conceitos mais universais (…) quem me seguiu e penetrou no meu modo de pensar não achará paradoxal se disser, supondo-se que tenhamos sucesso em dar uma explicação perfeitamente correta, exata e detalhada da música (…) repetição exaustiva (…) que isso seria de imediato uma suficiente repetição e explanação do mundo em conceitos, ou algo inteiramente equivalente, portanto seria a verdadeira filosofia.”¹Pretensão: meu livro é música, então DEVE ser lido duas vezes para ser entendido!
¹ Reducionismo absurdo!
“Música é um exercício oculto de metafísica no qual a mente não sabe que está filosofando.” Leibniz
“se aplicarmos essa visão à interpretação acima exposta sobre a harmonia e a melodia, notaremos que uma mera filosofia moral sem explanação da natureza, como Sócrates queria introduzir,¹ é análoga a uma melodia sem harmonia, desejada exclusivamente por Rousseau” [?]
¹ O Sócrates que conhecemos é o platônico – e Platão exibe o equilíbrio perfeito entre ética e estética. Em adição: filosofia natural-racional não é filosofia estética, antes basicamente seu contrário. Aristóteles representaria a hipertrofia da filosofia da natureza.
Duas versões do pior dos mundos: o redimido (ultra-moral) e o ateu (ultraestético). O único mundo perfeito e portanto possível é o eticoestético. Esse bom e esse belo e esse melhor unificados, porém, ainda não foram encontrados, ainda não nasceram. (Contribuição ao meu PENSAMENTO ÚNICO.)
Outra derivação lógica: burrice e mau-caratismo são os dois lados de uma mesma moeda. Burrice e mau-caratismo como valores absolutos numa escala dada, que é relativa às demais escalas intersubjetivas, isto é. Minha definição de burrice e mau-caratismo não comporta, para mim, um homem burro e bom simultaneamente (absurdo, paradoxo). Se está estabelecido que o homem é bom, ele não é burro, a despeito das aparências. Se estiver estabelecido que é mau-caráter, não tem como ser sábio, por mais erudição que demonstre. O caráter verdadeiro seguirá o da inteligência, forçosamente, e assim por diante. Meu pai é burro e mau-caráter – este é o modo de vida uno por ele conhecido, inescapável. Burro porque mau-caráter, mau-caráter porque burro. Sua essência. Destarte, é natural afirmar, ainda, que ele não possui a aura de uma pessoa bela. Não existem classificações intermediárias, já que se baseiam no meu próprio julgamento do mérito de um indivíduo.
“Um sistema de tons perfeitamente puro e harmônico é não apenas física mas até mesmo aritmeticamente impossível. Os números mesmos, através dos quais os tons se expressam, possuem irracionalidades insolúveis.”
“toda música possível desvia-se da pureza perfeita. Ela pode apenas ocultar sua dissonância essencial pela distribuição da mesma em todos os tons, i.e., por temperamento. Veja-se a esse respeito Akustik [Traité d’acoustique]de Chladni, §30, e seu Kurze Übersicht der Schall – und Klanglehre, p. 12.”
“Ora, se todo o mundo como representação é a visibilidade da Vontade, a arte é o clareamento dessa visibilidade, a camera obscura que mostra os objetos mais puramente, permitindo-nos melhor abarcá-los e compreendê-los: é o teatro dentro do teatro, a peça dentro da peça em Hamlet. [e outras peças do astuto Shakespeare]”
“Aquele conhecimento profundo, puro e verdadeiro da essência do mundo se torna um fim em si para o artista, que se detém nele. Eis porque um tal conhecimento não se torna para ele um quietivo da Vontade¹ (…) contrariamente (…) ao santo que atinge a resignação. (…) saída (…) consolo ocasional”
¹ Seria o desejável. Mas é assim de fato com a classe artística? Ou não seria antes o caso da exceção?
“Como símbolo dessa transição [asceta-artista] pode-se considerar a Santa Cecília de Rafael (1514-15).”
O quanto não sofreu Schopenhauer, que não foi santo nem poeta (músico, pintor…), apenas filósofo sem coroa! Sua norma, a Vontade, também não foi acolhida pelas futuras constituições dos homens…
LIVRO QUARTO: Do mundo como vontade
Segunda consideração: Alcançando o conhecimento de si,
afirmação ou¹ negação da Vontade de vida
¹ (N.T.) “Trata-se de uma opção” Jura, gênio?!
§53
“a parte seguinte da nossa consideração (…) poderia chamar-se filosofia prática, em contraste com a parte teórica tratada até agora.¹ Na minha opinião, contudo, toda filosofia é sempre teórica, já que lhe é sempre essencial manter uma atitude contemplativa, não importa o quão próximo seja o objeto de investigação, e sempre inquirir, em vez de prescrever regras. [parece ironia vindo do autor!]”
¹ Ao contrário da espessura dessa parte face às outras (bem maior, ocupando um terço do primeiro volume, embora seja em teoria a quarta parte), sempre há menos o que escrever nesse tocante; o autor foi corajoso por trazer à tona novamente a Primeira filosofia, mas foi sumamente confuso em pensá-la e caracterizá-la, elaborando uma miscelânea de doidivanas.
“seria tão tolo esperar que nossos sistemas morais e éticos criassem caracteres virtuosos, nobres e santos, quanto que nossas estéticas produzissem poetas, artistas plásticos e músicos.”
“o meu pensamento único propriamente dito” “o agir do homem” “irei ao meu limite”
“neste livro de ética não se devem esperar prescrições nem doutrinas do dever, muito menos o estabelecimento de um princípio moral absoluto parecido a uma receita universal para a produção de todas as virtudes. Também não falaremos de ‘DEVER INCONDICIONADO’, porque este, como exposto no apêndice, contém uma contradição, nem tampouco falaremos de uma ‘lei para a liberdade’”
“Vontade livre”O alvo de ataque do Nietzsche maduro – porém, não se pode chamar a Vontade não-livre deste de ‘ressurreição’ do imperativo categórico. Até porque não é universal nem voluntária: faz parte do caráter de poucos escolhidos, que não podem ser auto-escolhidos. Uma casta-diretriz dos valores da humanidade, os avaliadores de valores.
“Nossa tarefa filosófica, portanto, só pode ir até a interpretação e a explanação do agir humano e suas diversas e até mesmo opostas máximas, das quais ele é a expressão viva”
CRÍTICA DO IDEALISMO ALEMÃO, MAIS CONHECIDO COMO HISTORICISMO: “Semelhante FORMA HISTÓRICA DE FILOSOFAR fornece na maioria das vezes uma cosmogonia, a qual admite muitas variedades, ou então um sistema daemanação, doutrina da queda; ou ainda, por parte da dúvida desesperadora advinda dessas tentativas estéreis, é-se levado a um último caminho, oferecendo-se uma doutrina do constante vir-a-ser, brotar, nascer, vir a lume a partir da escuridão, do fundamento obscuro, do fundamento originário, do fundamento infundado e outros semelhantes disparates.” “toda uma eternidade (…) já transcorreu até o momento presente, pelo que tudo o que pode e deve vir-a-ser já teve de vir a ser. Todas essas filosofias históricas, não importa seus ares, fazem de conta que Kant nunca existiu e tomam O TEMPO por uma determinação da coisa-em-si”
“O autêntico modo de consideração filosófico do mundo, ou seja, aquele que nos ensina a conhecer a sua essência íntima e, dessa maneira, nos conduz para além do fenômeno, é exatamente aquele que não pergunta ‘de onde’, ‘para onde’, ‘por quê’, mas sempre em toda parte pergunta apenas pelo QUÊ do mundo” Antes não seria pelo ‘que’ (conjunção conectiva)?
§54
“A mais sábia de todas as mitologias, a indiana, exprime isso dando ao Deus que simboliza a destruição e a morte (como Brama, o deus mais pecaminoso e menos elevado do Trimurti, simboliza a geração e o nascimento, e Vishnu a conservação), Shiva, o atributo do colar de caveiras e, ao mesmo tempo, o linga, símbolo da geração, que aparece como contrapartida da morte.”
“Natura non contristatur”
ADEUS, QUERIDO COCÔ! “Ora, assim como estamos a todo momento contentes em conservar a forma, sem lamentar a matéria perdida, também temos de nos comportar do mesmo modo quando na morte ocorre o mesmo, porém numa potência mais elevada” “Do mesmo modo que somos indiferentes num caso, não devemos tremer no outro.” “parece tão tolo embalsamar cadáveres como o seria conservar nossos excrementos.”
“perdemo-nos num vazio sem fundo, sentindo-nos semelhantes a uma esfera oca de cristal, da qual soa uma voz, cuja causa, entretanto, não encontramos ali; quando queremos assim apreender a nós, nada obtemos senão, assustados, um fantasma instável.”
“Naturalmente, se pensarmos retrospectivamente nos milênios transcorridos, nos milhões de pessoas que neles viveram, perguntaremos: que foram elas? Que se fez delas? Por outro lado, precisamos só evocar o passado de nossas vidas e vìvidamente renovar suas cenas na fantasia para de novo perguntar: que foi tudo isso? Que foi feito deles? Como no caso de nossa vida, assim também no caso da vida daqueles muitos milhões. Ou deveríamos supor que o passado alcançou uma nova existência ao receber o selo da morte? Nosso próprio passado, inclusive o dia mais recente e o anterior, é tão-somente um sonho nulo da fantasia; o mesmo é o passado de todos aqueles milhões. Que foi? Que é? A Vontade, cujo espelho é a vida, e o conhecer destituído de volição, que mira claramente a Vontade nesse espelho. Quem ainda não reconheceu isso ou não o quer reconhecer pode acrescentar à questão anterior, sobre o destino das gerações passadas, ainda esta: Por que precisamente ele, o questionador, é tão feliz em possuir este tempo presente precioso e fugidio, único real, enquanto aquelas centenas de gerações de homens, sim, os heróis e os sábios daqueles tempos, naufragaram na noite do passado e assim se tornaram nada, enquanto ele, seu insignificante eu, existe realmente? Ou, de maneira mais sucinta, embora estranha: Por que este agora, seu agora, é precisamente agora, e não FOI há muito tempo?”
“Quid fuit? Quod est. Quid erit? Quod fuit (…) cada um pode dizer: ‘Para sempre sou o senhor do presente e ele me acompanhará por toda a eternidade como a minha sombra; por isso não me assombro e pergunto de onde ele veio, e por que ele é, precisamente agora’”
“quem está satisfeito com a vida como ela é, quem a afirma em todas as suas maneiras, pode confiantemente considerá-la como sem fim e banir o medo da morte como uma ilusão a infundir-lhe o tolo temor de que poderia ser despojado do presente, ludibriando-o sobre um tempo destituído de presente, parecido com aquela ilusão relativa ao espaço, em virtude da qual alguém fantasia a exata posição ocupada por si no globo terrestre como a de cima, e as restantes como a de baixo.” “temer a morte porque ela nos arrebata o presente não é mais sábio do que temer deslizar para baixo no globo terrestre redondo, a partir do topo, onde felizmente nos encontramos agora.” “meio-dia sempiterno” “se um homem teme a morte como seu aniquilamento, é simplesmente como se pudesse pensar que o sol se lamentaria diante da noite(*) (…) Contrariamente, quem está oprimido pelo peso da vida e ainda assim a deseja e afirma (…) não pode esperar da morte a libertação, nem pode salvar a si mesmo pelo suicídio. Apenas com aparências falsas lhe seduz o frio e tenebroso Orco, como se fôra o porto da paz.
(*) Eckermann, Conversas com Goethe: (…) Goethe diz: ‘Nosso espírito é um ser de natureza totalmente indestrutível: ele faz efeito continuamente de eternidade a eternidade. É comparável ao sol, que parece se pôr apenas aos nossos olhos terrenos, mas que em realidade nunca se põe, brilhando incessantemente.’ – Goethe tomou a comparação de mim, não eu dele. [!] Sem dúvida ele a utilizou nessa conversa de 1824, em virtude de uma reminiscência, talvez inconsciente, da passagem acima escrita, pois esta aparece, com os mesmos termos aqui empregados, na 1ª ed. de minha obra, p. 401, e também ocorre novamente na p. 528, bem como na conclusão do §65. Aquela 1ª ed. lhe foi enviada em dezembro de 1818, e em março de 1819 ele mandou, por minha irmã, uma carta de congratulação para Nápoles, onde então me encontrava. À carta adicionava uma papeleta, onde assinalava os números de algumas páginas que especialmente lhe agradaram. Logo, ele lera o meu livro.”
“o suicídio já se nos apresenta aqui como um ato inútil e, por conseguinte, tolo. Quando tivermos avançado ainda mais em nossa consideração, ele aparecerá numa luz menos favorável ainda.” Nem para o moribundo incurável que já sentiu o doce mel da vida entre os lábios?
“Só o homem carrega consigo em conceitos abstratos a certeza de sua morte, embora a mesma só o angustie muito raramente, em momentos particulares, quando uma ocasião a presentifica à fantasia. Contra a voz poderosa da natureza a reflexão pouco pode.”
“Ninguém tem uma convicção realmente vívida da certeza da própria morte, pois, do contrário, não poderia haver diferença tão grande entre sua disposição e a do criminoso condenado.”
“No Veda isso é expresso ao se dizer que quando um homem morre, sua faculdade de ver se torna una com o sol, seu olfato com a terra, seu paladar com a água, sua audição com o ar, sua fala com o fogo, e assim por diante (Upanixade, I, p. 249-ss.); e ainda pelo fato de que, em cerimônia especial, a pessoa moribunda transfere um por um seus sentidos e faculdades inteiras ao filho, como se fosse continuar a viver nele (ibid., II, p. 82-ss.).”
“a consciência interna (…) evita (…) o envenenamento da vida do ser racional pelo pensamento sobre a morte, já que tal consciência é a base daquele ânimo vital que conserva cada vivente e o capacita a continuar vivendo serenamente, como se não existisse morte” “Todavia, nada impede que, quando a morte entre em cena para o indivíduo no particular e na efetividade, ou apenas na fantasia, ele tenha então de encará-la nos olhos, sendo assim assaltado pelo medo” “às vezes enfrentamos a dor mais terrível só para escapar da morte por mais alguns instantes”
CRACK! estalar da mandíbula
“Um homem que assimilasse firmemente em seu modo de pensar as verdades até agora referidas, e, ao mesmo tempo, não tivesse chegado a conhecer por experiência própria ou por uma intelecção mais ampla que o sofrimento contínuo é essencial a toda a vida; e na vida encontrasse satisfação e de bom grado nela se deleitasse, e, ainda, por calma ponderação, desejasse que o decurso de sua vida, tal qual até então foi experimentado, devesse ser de duração infinda ou de retorno sempre novo; cujo ânimo vital fosse tão grande que, no retorno dos gozos da vida, de boa vontade e com prazer assumisse as suas deficiências e tormentos aos quais está submetido; um tal homem, ia dizer, se situaria ‘com firmes, resistentes ossos sobre o arredondado e duradouro solo da terra’ e nada teria a temer. Armado com o conhecimento que lhe conferimos, veria com indiferença a morte voando em sua direção nas asas do tempo, considerando-a como uma falsa aparência, um fantasma impotente, amedrontador para os fracos, mas sem poder algum sobre si, que sabe: ele mesmo é a Vontade, da qual o mundo inteiro é objetivação ou cópia; ele, assim, tem não só uma vida certa mas também o presente por todo o tempo, presente que é propriamente a forma única do fenômeno da Vontade; portanto, nenhum passado ou futuro infinitos, no qual não existiria, pode lhe amedrontar, pois considera a estes como uma miragem vazia e um Véu de Maia. Por conseguinte, teria tão pouco temor da morte quanto o sol tem da noite. – No Bhagavad-Gita Krishna coloca seu noviço Arjuna nesse ponto de vista, quando este, cheio de desgosto (parecido a Xerxes) pela visão dos exércitos prontos para o combate, perde a coragem e quer evitar a luta, a fim de evitar o sucumbir de tantos milheres. É quando Krishna o conduz a esse ponto de vista, e, assim, a morte daqueles milhares não o pode mais deter: dá então o sinal para a batalha.”
“A filosofia de Bruno não possui uma ética propriamente dita, e a ética da filosofia de Spinoza não procede absolutamente da essência de sua doutrina, mas, apesar de bela e louvável, é adicionada a ela simplesmente por meio de fracos e palpáveis sofismas.” “completa AFIRMAÇÃO DA VONTADE DE VIDA.”
“Meu único fim, pois, só pode ser expor a afirmação e a negação, trazendo-as a conhecimento distinto da faculdade racional, sem prescrever nem recomendar uma ou outra”
“Visto que, como já dito, toda esta obra é apenas o desdobramento de um pensamento único (…) é requerida a lembrança do leitor não apenas de coisas há pouco ditas, como também das precedentes, para assim poder conectá-las com o lido a todo momento, por mais que já tenha sido dito de outro modo. Exigência esta também feita por Platão aos seus leitores nas digressões complexas e tortuosas de seus diálogos, os quais só depois de longos episódios retomam o pensamento principal; contudo, exatamente por isso, o pensamento se torna mais claro.” “Daqui a necessidade de um estudo repetido do livro, unicamente por meio do qual a conexão de todas as suas partes se torna distinta” Ok, Sch., não precisa dizer de novo!
§55
“Que a Vontade enquanto tal seja LIVRE segue-se naturalmente de nossa visão, que a considera como a coisa-em-si, o conteúdo de qualquer fenômeno.” Suprema ironia que o conceito nietzschiano “VONTADE NÃO-LIVRE” seja seu exato sinônimo! (Observação que redigi 2012 – veja abaixo sua refutação)
“necessidade é conseqüência”
“Mas como isso é compreensível? Eis aí algo que só se tornará distinto na completa seqüência do texto.” BLÁ, BLÁ, BLÁ… Por que não evitou tantos parágrafos redundantes e metalingüísticos?
“toda pessoa tosca, seguindo seu sentimento, defende ardorosamente a plena liberdade das ações individuais, embora os grandes pensadores de todas as épocas, inclusive os doutrinadores religiosos mais profundos, a tenham negado.”
“A necessidade do agir individual foi suficientemente demonstrada por Priestley em sua Doctrine of philosophical necessity. Foi Kant, todavia, cujo mérito a este respeito é em especial magnânimo, o primeiro a demonstrar a coexistência dessa necessidade com a liberdade da Vontade em si (…) estabelecendo a diferença entre caráter inteligível e empírico, a qual conservo por inteiro,¹ conquanto o primeiro é a Vontade como coisa-em-si a manifestar-se em fenômenos num determinado indivíduo e num determinado grau, [neste caso o nome ‘caráter inteligível’ está pessimamente auferido] já o segundo é este fenômeno mesmo tal qual ele se expõe no modo de ação segundo o tempo,¹ e já na corporização segundo o espaço. A fim de tornar mais clara a relação entre ambos, a melhor expressão a ser empregada é aquela presente no meu ensaio introdutório sobre o princípio de razão, ou seja, que o caráter inteligível de cada homem deve ser considerado como um ato extratemporal, [?] indivisível e imutável da Vontade,² cujo fenômeno, desenvolvido e espraiado em tempo, espaço e em todas as formas do princípio de razão, é o caráter empírico como este se expõe conforme a experiência, vale dizer, no modo de ação e no decurso de vida do homem.”
¹ Porém, eis a refutação de que as Vontades de Nie. e Sch. sejam sinonímias. Meu pensamento único (em roxo, no §52) foi desenvolvido ou lapidado enquanto lia este livro, mas está em oposição aos ensinamentos de Schopenhauer. Em Nie. e de acordo comigo, só existe esta segunda Vontade. A outra é um engano.
² Esse remendo só é necessário ao sistema schopenhaueriano porque ele não abria mão de uma Vontade una, ao invés de múltiplas Vontades em eterno conflito. Não existe unidade na natureza, apenas a aparência conceitual de tal (i.e., a palavra fenômeno quando aplicada a todo fenômeno ao mesmo tempo).
“Mas não repetirei aqui de maneira incompleta a magistral exposição de Kant. Contudo a pressuponho como conhecida.” Gostaria de crer que a Crítica da Razão Prática seja um livro que se precise ler tão-somente uma vez nessa vida!
“Ponderemos pelo que decidiremos no momento da aparição das circunstâncias, que nos permitiriam atividade e decisão livres. Na maioria das vezes a ponderação racional, que vê longe, fala antes em favor de uma decisão; já a inclinação imediata, por sua vez, fala em favor de outra. Enquanto, compelidos, permanecemos passivos, o lado da razão aparentemente tende a ganhar a preponderância; entretanto, já antevemos fortemente o quanto o outro lado irá nos atrair quando a oportunidade para agir se fizer presente. Porém, até lá nos esforçaremos zelosamente, por fria meditação dos pro et contra, em alumiar o mais claramente os motivos dos 2 lados, a fim de que cada um possa com toda a sua força fazer efeitos sobre a vontade quando o momento preciso se apresentar, e, com isso, nenhum erro da parte do intelecto desvie a vontade para decidir-se de modo diferente do que faria se tudo fizesse efeito equanimemente. Semelhante desdobrar distinto dos motivos em dois lados é, no entanto, tudo o que o intelecto pode fazer em relação à escolha. A decisão propriamente dita é por ele esperada de modo tão passivo e com a mesma curiosidade tensa como se fosse a de uma vontade alheia. De seu ponto de vista, entretanto, as duas decisões têm de parecer igualmente possíveis: isso justamente é o engano da liberdade empírica da vontade. (…) O intelecto nada pode fazer senão clarear a natureza dos motivos em todos os seus aspectos, porém sem ter condições de ele mesmo determinar a vontade, pois esta lhe é completamente inacessível, sim, até mesmo, como vimos, insondável.”
“como Kant ensina, e toda a minha exposição torna necessário, se a coisa-em-si reside fora do tempo e de toda forma do princípio de razão, segue-se que não apenas o indivíduo tem de agir de maneira igual em situação igual e que cada ação má tem de ser a garantia segura de inumeráveis outras que ele TEM DE levar a cabo, e não PODE deixar de fazê-lo, mas também que, como Kant ainda diz, caso apenas fossem dados, de maneira completa, o caráter empírico e os motivos, a conduta futura do homem poderia ser calculada como um eclipse do sol ou da lua. (…) A Vontade, cujo fenômeno é toda a existência e vida do homem, não pode mentir no caso particular. O que o homem quer em geral sempre quererá no particular.
A defesa de uma liberdade empírica da vontade, vale dizer, do liberi arbitrii indifferentiae, está intimamente ligada ao fato de se ter colocado a essência íntima do homem numa ALMA, a qual seria originariamente uma entidade QUE CONHECE, sim, propriamente dizendo, uma entidade abstrata QUE PENSA, e só em conseqüência disto algo QUE QUER. Considerou-se, assim, a Vontade como de natureza secundária, quando em realidade o conhecimento o é. A Vontade foi até mesmo considerada como um ato de pensamento e identificada com o juízo, especialmente por Descartes e Spinoza. De acordo com isso, todo homem teria se tornado o que é somente em conseqüência de seu CONHECIMENTO. Chegaria ao mundo como um zero moral”
“Seu caráter é originário, pois querer é a base de seu ser. Pelo conhecimento adicionado ele aprende no decorrer da experiência o QUÊ ele é, ou seja, chega a conhecer seu caráter. [e não mudar]”
“o homem é sua própria obra antes de todo conhecimento, e este é meramente adicionado para iluminá-la. Daí não poder decidir ser isto ou aquilo, nem tornar-se outrem, mas É de uma vez por todas, e sucessivamente conhece o QUÊ é. Pela citada tradição, ele QUER o que conhece; em mim ele CONHECE o que quer.”
“hábito (…) constância do caráter”
“o dogma da predestinação (…) Romanos 9:11-24, o qual é manifestamente derivado da intelecção do homem como imutável, de tal maneira que sua vida e conduta, o seu caráter empírico, são apenas o desdobramento do caráter inteligível, são apenas o desenvolvimento de decididas e imutáveis disposições já reconhecíveis na criança.”
“a conduta de um homem pode variar notavelmente sem que com isso se deva concluir sobre a mudança em seu caráter. O que o homem realmente e em geral quer, a tendência de seu ser mais íntimo e o fim que persegue em conformidade a ela, nunca pode mudar por ação exterior sobre ele, via instrução, do contrário, poderíamos recriá-lo.”
“procurar o que inalteradamente procura por um caminho diferente do até então seguido.”
“a uma juventude arrebatada, selvagem, pode seguir-se uma idade madura, ordenada e judiciosa.”
“no começo somos todos inocentes, e isto apenas significa que nem nós, nem os outros, conhecemos o mau de nossa própria natureza (…) Ao fim, nos conhecemos de maneira completamente diferente do que a priori nos considerávamos, e então amiúde nos espantamos conosco mesmos.
ARREPENDIMENTO nunca se origina de a Vontade ter mudado (algo impossível), mas de o conhecimento ter mudado.” A diferença da minha conduta dos 17-19 anos para depois.
“para enganar a si mesmas, as pessoas fingem precipitações aparentes, que em realidade são ações secretamente ponderadas. Porém mediante tais truques sutis não enganamos nem adulamos ninguém, senão a nós mesmos.”
“O peso de consciência em relação a atos já cometidos não é arrependimento, mas dor sobre o conhecimento de nosso si mesmo”
“pensamentos abstratos. São estes que amiúde nos são insuportáveis, criam tormentos, em comparação com os quais o sofrimento do mundo animal é bastante pequeno.”
O QUE ALOÍSIOS JAMAIS SABERÃO: “Eis por que nas maiores dores espirituais a pessoa arranca os cabelos, golpeia-se no peito, arranha o rosto, atira-se ao chão: tudo sendo propriamente apenas meios violentos de distração em face de um pensamento de fato insuportável. E justamente porque a dor espiritual, como a mais aguda de todas, torna alguém insensível à dor física, o suicídio é bastante fácil para quem se encontra desesperado ou imerso em desânimo crônico, embora antes, em estado confortável, tremesse com tal pensamento. De maneira semelhante, preocupações e paixões, portanto o jogo do pensamento, abalam o corpo muito mais freqüente e intensamente que deficiências físicas.”
“seria esforço vão trabalhar numa melhora do próprio caráter (…) sendo preferível submeter-se ao fatídico, entregando-se a toda inclinação, mesmo as más.”
Cícero, De fato (principalmente caps. 12 e 13 – argumento contra a “razão indolente” ou “nos tempos atuais, a crença turca”)
“Ao lado do caráter inteligível e do empírico, deve-se ainda mencionar um terceiro, diferente dos dois anteriores, a saber, o CARÁTER ADQUIRIDO, o qual se obtém na vida pelo comércio com o mundo e ao qual é feita referência quando se elogia uma pessoa por ter caráter, ou se a censura por não o ter.” Schopenhauer só se complica tentando aperfeiçoar seu sistema e acrescentar cada vez mais coisas. Se ele tivesse feito uma obra bem menor, seria um clássico imortal da filosofia, coisa que quase já é, sem reparos a acrescentar! Não existem 2 caráteres, muito menos 3!
“Ora, se a pessoa segue apenas as aspirações que são conformes ao seu caráter, sente, em certos momentos e disposições particulares, estímulo para aspirações exatamente contrárias e incompatíveis entre si: nesse sentido, se quiser seguir aquelas primeiras sem incômodo, estas últimas têm de ser completamente refreadas.” “assim como, de acordo com a doutrina do direito de Hobbes, cada um de nós tem originariamente o direito a todas as coisas, mas não o exclusivo a cada uma delas, e no entanto se pode obter o direito exclusivo a coisas individuais renunciando-se ao direito a todas as demais, enquanto os outros fazem o mesmo em relação ao que escolheram; exatamente assim também se passa na vida, quando só podemos seguir com seriedade e sucesso alguma aspiração determinada, seja por prazer, honra, riqueza, ciência, arte ou virtude, após descartarmos todas as aspirações que lhe são estranhas, renunciando a tudo o mais.”
“embora (…) siga o próprio caminho guiado por seu demônio interior (…) a muitos invejará em virtude de posição e condição que, no entanto, convêm exclusivamente ao caráter deles, não ao seu, e nas quais se sentiria antes infeliz, até mesmo sem as conseguir suportar. Pois assim como o peixe só se sente bem na água, o pássaro no ar, a toupeira debaixo da terra, todo homem só se sente bem na sua atmosfera apropriada.”
“muitos fazem os mais diversos e fracassados tipos de tentativa, violamo próprio caráterno particular e ainda têm de se render novamente a ele no todo: aquilo que conseguem tão penosamentecontra a própria natureza não lhes dá prazer algum. O que assim aprendem permanece morto. Até mesmo do ponto de vista ético, um ato demasiado nobre para o seu caráter e nascido não de um impulso puro, imediato, mas de um concerto, de um dogma, perderá todo o mérito até mesmo aos seus olhos num posterior arrependimento egoístico.”
“Assim como só pela experiência nos tornamos cônscios da inflexibilidade do caráter alheio e até então acreditávamos de modo pueril poder através de representações abstratas, pedidos e súplicas, exemplos e nobreza de caráter fazê-lo abandonar seu caminho, mudar seu modo de agir, despedir-se de seu modo de pensar, ou até mesmo ampliar suas capacidades; assim também se passa conosco.”
“Conhecemos, portanto, o gênero e a medida de nossos poderes e fraquezas, economizando assim muita dor.” “Guardaremo-nos de tentar aquilo que não nos permitirá ser bem-sucedidos.” Se os parentes mais próximos e suas predisposições tirânicas deixarem!
“Amiúde alguém assim partilhará a alegria em sentir seus poderes e raramente experimentará a dor em ser lembrado de suas fraquezas, o que se chama humilhação” Se os chefes e seus “pseudoconselhos afetivoprofissionais” deixarem.
“Eis por que nada é mais salutar para nossa tranqüilidade de ânimo que a consideração do já-acontecido a partir do ponto de vista da necessidade, de onde todos os acasos aparecem como instrumentos de um destino soberano.”
§56
A ESTAGNAÇÃO SCHOPENHAUER-CAMUS: “O desenvolvimento mais claro de tudo isso, o tema capital deste último livro, foi-nos preparado e facilitado pelas considerações entrementes expostas sobre liberdade, necessidade e caráter. Porém, tais considerações se tornarão ainda mais claras após as termos colocado novamente e dirigirmos nosso olhar para a vida mesma, cujo querer ou não-querer é a grande questão”
“à medida que o fenômeno da Vontade se torna cada vez mais perfeito, o sofrimento se torna cada vez mais manifesto.”
SEDE ESTÚPIDOS! “O homem no qual o gênio vive é quem mais sofre.” Porém…
“TISCHBEIN, pintor filosófico ou o filósofo que pinta. A metade superior de um seu desenho representa mulheres cujos filhos estão sendo raptados, mulheres que, em diferentes grupos e posições, expressam variada e profundamente a dor materna, angústia, desespero; a parte inferior mostra, em agrupamento e ordenação inteiramente iguais, ovelhas, das quais as crias também são retiradas: de forma que a cada cabeça e a cada posição humana da metade superior do desenho corresponde, na metade inferior, um análogo animal, com o que se vê distintamente em que moldes a dor possível na abafada consciência animal se relaciona com o devastador tormento unicamente possível pela distinção do conhecimento, pela claridade de consciência.”
§57
“De modo algum o tédio é um mal a ser desprezado; por fim ele pinta verdadeiro desespero no rosto.” “Também em toda parte, por meio da prudência estatal, são implementadas medidas públicas contra o tédio, como contra outras calamidades universais; porque esse mal, tanto quanto seu extremo oposto, a fome, pode impulsionar o homem aos maiores excessos: o povo precisa panem et circenses. O rígido sistema penitenciário da Filadélfia torna, pela solidão e a inatividade, o mero tédio um instrumento de punição (…) Na vida civil, o tédio é representado pelo domingo, e a necessidade pelos 6 dias da semana.” “Quando desejo e satisfação se alternam em intervalos não muito curtos nem muito longos, o sofrimento ocasionado por eles é diminuído ao mais baixo grau, fazendo o decurso de vida o mais feliz possível.”
“os obtusos: (…) para a maioria dos homens, as fruições intelectuais são inacessíveis. Eles são quase incapazes de alegria no puro conhecimento: estão completamente entregues ao querer.”
“os jogos de carta, que, no sentido mais próprio do termo, são a expressão do lado deplorável da humanidade.” Todo RPG precisa de ROGUES.
“Os esforços infindáveis para acabar com o sofrimento só conseguem a simples mudança da sua figura, que é originariamente carência, necessidade, preocupação com a conservação da vida. Se, o que é muito difícil, obtém-se sucesso ao reprimir¹ a dor nesta figura, logo ela ressurge em cena, em milhares de outras formas (variando de acordo com a idade e as circunstâncias), como impulso sexual, amor apaixonado, ciúme, inveja, ódio, angústia, ambição, avareza, doença, etc.Finalmente, caso não ache a entrada em nenhuma outra figura, assume a roupagem triste, cinza do fastio e do tédio, contra os quais todos os meios são tentados. Mesmo se em última instância se consegue afugentar a estes, dificilmente isso ocorrerá sem que a dor assuma uma das figuras anteriores, e assim a dança recomeça do início, pois entre dor e tédio, daqui para acolá, é atirada a vida do homem.
¹ Verdrägen ou Verdrägung”
“Os males imediatamente necessários e absolutamente universais, p.ex., a necessidade no avanço da idade e a morte, bem como os muitos incômodos cotidianos, normalmente não nos entristecem.”
“uma convicção viva produzirá um grau significativo de equanimidade estóica, e reduzirá consideravelmente a preocupação angustiada acerca do próprio bem-estar. Contudo, em realidade um tal controle tão poderoso da razão sobre o sofrimento imediatamente sentido raramente ou nunca é encontrado.”
“a paradoxal mas não absurda hipótese de que em cada indivíduo a medida da dor que lhe é essencial se encontraria para sempre determinada através de sua natureza”
ESCALA “ZERO A CAROL-ZENA”: “grandes sofrimentos tornam todos os pequenos totalmente insensíveis e, ao inverso, na ausência de grandes sofrimentos até mesmo as menores contrariedades nos irritam e atormentam (…) quando uma grande infelicidade, cujo mero pensamento antes nos estremecia, de fato ocorre, nossa disposição permanece no todo inalterável após a imediata superação da primeira dor; por outro lado, logo após o aparecimento de uma felicidade longamente ansiada, não nos sentimos no todo e duradouramente muito melhores ou mais contentes do que antes.”
“o motivo externo de tristeza não passa daquilo que para o corpo é um vesicatório,¹ o qual atrai para si todos os humores ruins que, do contrário, espalhar-se-iam pelo organismo. A dor encontrada em nosso ser nesse período de tempo, e portanto inevitável, seria, sem as causas exteriores determinadas do sofrimento, repartida em centenas de pontos, aparecendo na figura de centenas de outras contrariedades ou caprichos sobre coisas que agora ignoramos inteiramente” Não fosse a TPM da colega Socorro, ela seria uma dessas caras amarelas de rodoviária…
¹ “Que faz nascer bolhas na pele” (para combater um mal maior).
“tanto o júbilo quanto a dor excessivos se fundam sempre sobre um erro ou um engano: conseqüentemente, essas duas tensões excessivas da mente podem ser evitadas por intelecção.” “A ética estóica empenhava-se sobretudo por livrar a mente de todo esse engano e suas conseqüências”
Mais um erro de cálculo? Que o diga a literatura póstuma!
“Lembra sempre de preservar equânime
A tua mente nos momentos de adversidade e de
Temperar a tua alegria insolente nos momentos de felicidade.”
Horácio
A situação dos tonéis das Danaides levada ao mais extremo: “Não bebas água, pois sempre sentirás sede!”
“E assim se passam as coisas, ao infinito, ou, o que é mais raro e pressupõe uma certa força de caráter, até que encontremos um desejo que não pode ser satisfeito nem suprimido:¹ então, por assim dizer, temos aquilo que procurávamos, a saber, algo que a todo momento poderíamos acusar, em vez do nosso próprio ser, como a fonte dos sofrimentos, que nos divorcia de nossa sorte, porém nos reconcilia com a nossa existência, na medida em que novamente temos conhecimento de que, a ela mesma, o sofrimento é essencial e a satisfação verdadeira é impossível. A conseqüência dessa última forma de desenvolvimento é uma certa disposição melancólica, o sustento contínuo de uma única, grande dor, que faz desdenhar todos os sofrimentos ou alegrias pequenos; por conseguinte um fenômeno muito mais digno que a frenética correria por sempre novas formas de ilusão,² coisa muito mais usual.”
¹ I. Matar o Pai que há em mim (minha consciência menosprezadora); II. Ser o escritor perfeito; III. Acumular todo o conhecimento planejado (ler todos os livros grifados em todas as minhas leituras antes de morrer). Os três se me afiguram impossíveis no mesmo grau!
² Novos doutorados e novos treinos de academia exóticos para exibir aos coleguinhas.
Máxima resignação: o artista filho de um megero.
§58
“Os poetas conduzem seus heróis por milhares de dificuldades e perigos até o fim almejado; porém, assim que este é alcançado, de imediato deixam a cortina cair, pois a única coisa ainda a ser mostrada seria que o fim glorioso no qual o herói esperava encontrar a felicidade foi em realidade um ludibrio, de modo que após atingi-lo não se encontra num estado melhor que o anterior.”
“A melodia é sempre um desvio da tônica por milhares de vias tortuosas e surpreendentes, até a dissonância mais dolorosa, para ao fim reencontrar o tom fundamental, que expressa a satisfação e o repouso da Vontade, depois do qual, entretanto, nada mais pode ser feito e cuja continuação produziria uma monotonia insípida e arrastada, correspondente ao tédio.”
“as grandes paixões (Raja-Guna) que aparecem nos grandes caracteres históricos (…) a vida do gênio (Satua-Guna) (…) a grande letargia (Tama-Guna)”
“É realmente inacreditável o quanto a vida da maioria dos homens, quando vista do exterior, decorre insignificante, vazia de sentido e, quando percebida no seu interior, decorre de maneira tosca e irrefletida. Trata-se de um anseio e tormento obscuro, um vaguear sonolento pelas 4 idades da vida em direção à morte, acompanhado por uma série de pensamentos triviais. Assemelham-se a relógios aos quais se deu corda e funcionam sem saber por quê. Todas as vezes que um homem é gerado e nasce, o relógio da vida humana novamente tece corda, para mais uma vez repetir o seu estribilho inúmeras vezes tocado: frase por frase, medida por medida, com insignificantes variações. – Todo indivíduo, todo rosto humano e seu decurso de vida é apenas um sonho curto a mais do espírito infinito da natureza, da permanente Vontade de vida; é apenas um esboço fugidio a mais traçado por ela em sua folha de desenho infinita, ou seja, espaço e tempo, esboço que existe ali por um mero instante se for comparado a ela, e depois é apagado, cedendo lugar a outros. Contudo, e aqui reside o lado sério da vida, cada um desses esboços fugidios, desses contornos vazios, tem de ser pago com toda a Vontade de vida em sua plena veemência, mediante muitas e profundas dores e, ao fim, com uma amarga morte, longamente temida e que finalmente entra em cena. Eis por que a visão de um cadáver nos torna de súbito graves.
A vida do indivíduo, quando vista no seu todo e em geral, quando apenas seus traços mais significativos são enfatizados, é realmente uma tragédia; porém, percorrida em detalhes, possui o caráter de comédia, pois as labutas e vicissitudes do dia, os incômodos incessantes dos momentos, os desejos e temores da semana, os acidentes de cada hora, sempre produzidos por diatribes do acaso brincalhão, são puras cenas de comédia.”
§59
“O que é nobre e sábio raramente consegue fazer sua aparição ou encontra eficácia e eco; mas o absurdo e o perverso no domínio do pensamento, o rasteiro e de mau gosto na esfera da arte, o mau e fraudulento na esfera dos atos, realmente afirmam sua supremacia, obstados apenas por pequenas interrupções. Ao contrário, o insigne de todo tipo não passa, sempre, de uma exceção, um caso entre milhões: por conseguinte, se porventura tiver se anunciado numa obra duradoura, ela permanece subseqüentemente isolada após ter sobrevivido ao rancor de seus contemporâneos, sendo conservada como uma espécie de meteorito vindo de uma outra ordem de coisas, diferente da aqui imperante.”
“Um homem, ao fim de sua vida, se fosse igualmente sincero e clarividente, talvez jamais a desejasse de novo, porém, antes, preferiria a total não-existência. O conteúdo essencial do célebre monólogo em Hamlet, quando resumido, é este: nossa condição é tão miserável que o decididamente preferível seria a completa não-existência.¹ Se o suicídio efetivamente nos oferecesse esta última, de tal modo que a alternativa ‘ser ou não ser’ fosse posta no sentido pleno da palavra, então aquele seria incondicionalmente escolhido como um desenlace altamente desejável (a consumation devoutly to be wish’d). No entanto, algo em nós diz que não é bem assim”
¹ Formulação do odium fati. Mas não é essa a questão: o passado não é aniquilado. O cadáver de Hamlet não quer ter vergonhas nem arrependimentos…
“Se se conduzisse o mais obstinado otimista através dos hospitais, enfermarias, mesas cirúrgicas, prisões, câmaras de tortura e senzalas, pelos campos de batalha e praças de execução, e depois lhe abríssemos todas as moradas sombrias onde a miséria se esconde do olhar frio do curioso; se, ao fim, lhe fosse permitida uma mirada na torre da fome de Ungolino, ele certamente também veria de que tipo é este meilleur des mondes possibles.”
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“Ugolino della Gherardesca (c.1220–March 1289), Count of Donoratico, was an Italian nobleman, politician and naval commander. He was frequently accused of treason and features prominently in Dante’s Divine Comedy.”
“Ugolino was born in Pisa into the della Gherardesca family, a noble family of Germanic origins whose alliance with the Hohenstaufen Emperors had brought to prominence in Tuscany and made them the leaders of the Ghibellines in Pisa.
Between 1256 and 1258 he participated in the war against the filo-genoese giudicato of Cagliari, in Sardinia. Ugolino then obtained the south-western portion of the former giudical territory, with its rich silver mines, where he founded the important city of Villa di Chiesa, today Iglesias.
As head of his family, the Ghibelline party and podestà of Pisa, Ugolino took action to preserve his power in the face of the political hostility of Pisa’s neighbours. In 1271, through a marriage of his sister with Giovanni Visconti, judge of Gallura, he allied himself with the Visconti, the leaders of the Guelphs in Pisa. In doing so, he aroused the suspicions of his fellow Ghibellines.
The subsequent disorders in the city in 1274 led to the arrest of both Ugolino and Giovanni, who were accused of plotting to undermine Pisa’s government and, with the support from Tuscany’s Guelphs, share power among themselves. Ugolino was imprisoned and Giovanni banished from Pisa. Giovanni Visconti died soon afterwards, and Ugolino, no longer regarded as a threat, was set free and banished. In exile, Ugolino immediately began to intrigue with the Guelph cities of Florence and Lucca. With the help of Charles I of Anjou, he attacked his native city and forced it to make peace on humiliating terms, pardoning him and all the other Guelph exiles. After his return, Ugolino at first remained aloof from politics but quietly worked to reassert his influence.
In 1284, war broke out between Pisa and Genoa and both Ugolino and Andreotto Saracini were appointed as captains of two divisions of fleets by Alberto Morosini, the Podestà of Pisa. The two fleets met in August in the Battle of Meloria. The Genoese fought valiantly and destroyed 7 Pisan galleys and captured 28. Among the 11,000 captives was the Podestà. Ugolino and his division set the sign of surrender and withdrew, deciding the battle in favour of Genoa. This flight was later interpreted as treachery but not by any writer earlier than the 16th century.
When Florence and Lucca took advantage of the naval defeat to attack Pisa, Ugolino was appointed podestà for a year and succeeded in pacifying them by ceding certain castles. When Genoa suggested peace on similar terms, Ugolino was less eager to accept, for the return of the Pisan prisoners, including most of the leading Ghibellines, would have diminished his power.
Ugolino, now appointed capitano del popolo for 10 years, was now the most influential man in Pisa but was forced to share his power with his nephew Nino Visconti, son of Giovanni. The duumvirate did not last, as Ugolino and Nino soon quarrelled. In 1287, Nino, striving to become Podestà, entered into negotiations with Ruggieri degli Ubaldini, Archbishop of Pisa, and the Ghibellines. Ugolino reacted by driving Nino and several Ghibelline families out of the city, destroying their palaces and occupying the town hall, where he had himself proclaimed lord of the city.
In April of that year, Ugolino again refused to make peace with Genoa, even though the enemy was willing to be content with financial reparations. Ugolino still feared the return of the captured Pisans, who saw Ugolino as the cause for their prolonged captivity and had sworn to get their revenge for this.
In 1288, Pisa was hit by a dramatic increase in prices, resulting in food shortage and riots among the bitter populace. During one of these riots, Ugolino killed a nephew of the Archbishop, turning the latter against him. On 1 July 1288, after leaving a council-meeting discussing peace with Genoa, Ugolino and his followers were attacked by a band of armed Ghibellines. Ugolino withdrew into the town hall and repelled all attacks. The Archbishop, accusing Ugolino of treachery, aroused the citizens. When the town hall was set on fire, Ugolino surrendered. While his illegitimate son was killed, Ugolino himself – together with his sons Gaddo and Uguccione and his grandsons Nino (surnamed ‘the Brigand’) and Anselmuccio – were detained in the Muda, a tower belonging to the Gualandi family. In March 1289, on orders of the Archbishop, who had proclaimed himself podestà, the keys were thrown into the Arno river and the prisoners left to starve. Their corpses were buried in the cloister of Saint Francis Church and remained there until 1902, when they were exhumed and transferred to the Gherardesca family chapel.”
“Dante placed Ugolino and Ruggieri in the ice of the second ring (Antenora) of the lowest circle of the Inferno, which is reserved for betrayers of kin, country, guests, and benefactors. Ugolino’s punishment involves his being entrapped in ice up to his neck in the same hole with his betrayer, Archbishop Ruggieri, who left him to starve to death. Ugolino is constantly gnawing at Ruggieri’s skull. (Canto XXII)”
“‘Father our pain’, they said,
‘Will lessen if you eat us, you are the one
Who clothed us with this wretched flesh: we plead
For you to be the one who strips it away’.”
(Canto XXXIII, ln. 56–59)
“…And I,
Already going blind, groped over my brood
Calling to them, though I had watched them die,
For two long days. And then the hunger had more
Power than even sorrow over me”
(Canto XXXIII, ln. 70–73)
“For this reason Ugolino is known as the ‘Cannibal Count’ and is often depicted gnawing at his own fingers (‘eating of his own flesh’) in consternation, as in the sculpture The Gates of Hell by Auguste Rodin, in Ugolino and his Sons by Jean-Baptiste Carpeaux and in other artwork, though this may also simply refer to Ugolino’s own statement in the poem that he gnawed his fingers in grief.”
§60
“É sempre uma exceção se um semelhante decurso de vida sofre uma interferência e, devido a um conhecer independente do serviço da vontade e direcionado à essência do mundo em geral, conduz à demanda pela contemplação estética ou à demanda pela renúncia ética.” Schopenahuer confunde: onde advém a contemplação, não é certo que deva haver renúncia ética (à ação). Nem onde há participação coletiva há necessariamente sua presença. Além disso, aquilo que é independente da Vontade, e portanto se escora exclusivamente no femômeno, certamente se interessa pelas coisas do mundo, de forma ativa, não-contemplativa. Um estóico que descobrisse a Vontade antes de Sch. estaria além de envolvimento ou contemplação (gozo) estético, e, aí sim, sem dúvida, seria o perfeito indiferente ético. Porém essa figura é utópica.
“Em conformidade com isso, aquela doutrina considera cada indivíduo de um lado como idêntico a Adão, o representante da afirmação da vida e, nesse sentido, entregue ao pecado (original),¹ ao sofrimento e à morte; de outro, o conhecimento da Idéia mostra cada indivíduo como idêntico ao redentor, ao representante da negação da Vontade de vida e, nesse sentido, partícipe de seu auto-sacrifício, redimido por seu mérito, salvo das amarras do pecado e da morte, i.e., do mundo. (Romanos 5:12-21)”
¹ Não diria isso: aquele constringido pelo pecado original nega esta vida. (efeito involuntário da fé cristã)
² Este, também, é claro, nega esta vida. (cristão idôneo que verdadeiramente entendeu sua fé) No fim de contas, nenhum dos dois é capaz de afirmar a vida, a não ser no além, o que é o mesmo que negar absolutamente a vida (o fenômeno, mas também a Vontade subjacente).
“Du bist unser!
Nüchtern solltest wiederkehren:
Und der Biss des Apfels macht dich unser!”
“os poetas e filósofos antigos, dentre eles Hesíodo e Parmênides, disseram bsstante significativamente que EROS é o primeiro, o criador, o princípio do qual provêm todas as coisas (cf. Aristóteles, Metafísica I, 4).”
G.F. SCHOEMANN, De cupidine cosmogonico, 1852.
Maia diz: Amai, sem tergiversação. Hinduísmo vs. cristianismo.
“Os genitais são o princípio conservador vital, assegurando vida infinita no tempo. Com semelhante qualidade foram venerados entre os gregos no phallus e entre os hindus no linga, os quais, portanto, são o símbolo da afirmação da Vontade.”
§61
“Cada um mira a própria morte como o fim do mundo; já a morte dos seus conhecidos é de fato ouvida com indiferença” “O lado terrível disso se encontra na vida dos grandes tiranos e facínoras, nas guerras que devastam o mundo, enquanto o seu lado hilariante é objeto da comédia, e aparece sobretudo na presunção e na vaidade, o que Rochefoucauld, melhor que qualquer outro escritor, conseguiu apreender e expor in abstracto.”
“o bellum omnium contra omnes, descrito primorosamente por Hobbes no 1º capítulo de De cive.” Também não precisa exagerar!
§62
“Quem sofre a injustiça sente a invasão na esfera de afirmação do próprio corpo, via negação deste por um indivíduo estranho, como uma dor imediata, espiritual, completamente separada e diferente. Por outro lado, a quem pratica a injustiça apresenta-se por si mesmo o conhecimento de que ela, em si, é a mesma Vontade que também aparece no outro corpo, afirmando-se com tanta veemência num único fenômeno que, ao transgredir os limites do próprio corpo e de suas forças, torna-se negação exatamente dessa Vontade no outro fenômeno e, por conseguinte, tomado como Vontade em si, entra em conflito consigo mesmo precisamente por meio dessa veemência, cravando os dentes na própria carne. Também a quem pratica a injustiça esse conhecimento apresenta-se instantaneamente não in abstracto, mas como um sentimento obscuro, o qual se denomina mordida de consciência, ou, mais de acordo com o presente caso, sentimento de INJUSTIÇA COMETIDA.” Precisava ser tão repetitivo e se alongar tanto para referir algo tão simples?
“O conceito de INJUSTIÇA, aqui analisado em sua abstração mais universal, expressa-se in concreto da maneira mais acabada, explícita e palpável no canibalismo.” De volta a Ugolino.
“Depois dele temos o homicídio, cuja perpetração é instantaneamente seguida com horrível distinção pela mordida de consciência, cuja significação acabamos de estabelecer de modo seco e abstrato, comprometendo com chaga incurável a tranqüilidade de espírito pelo resto da vida.”
“todo autêntico direito de propriedade, i.e., moral, está originariamente baseado única e exclusivamente no trabalho elaborador” “Leis de Manu, IX, 44”“Quanto a Kant, só a sua debilidade senil pode explicar a sua doutrina do direito, este entrançamento estranho de erros, uns se seguindo aos outros, chegando ele a fundamentar o direito de propriedade na primeira ocupação.” “De fato, lá onde uma coisa, pelo esforço de outra pessoa, por menor que ele seja, é trabalhada, melhorada, protegida de acidentes, conservada, mesmo sendo esse esforço apenas a colheita ou o recolher do chão um fruto silvestre – se uma outra pessoa se apodera dela, manifestamente priva outrem do trabalho de suas forças e portanto faz o corpo do outro, em vez do próprio, servir a SUA vontade; afirma assim a própria vontade para além de seu fenômeno atá a negação da vontade alheia, ou seja, pratica injustiça. (…) a fundamentação do direito natural de propriedade (…) DETENÇÃO (…) formação (…) o último sempre é suficiente” “Portanto, o chamado direito de 1ª ocupação é, em termos morais, por inteiro destituído de fundamento.” Belo marxismo incipiente, doutor Schop.!
“VIOLÊNCIA ou ASTÚCIA, os quais, em termos morais, são em essência a mesma coisa.” “a legalidade da astuta estratégia de guerra”
“Quem se recusa a mostrar ao andarilho o caminho correto não pratica injustiça; mas quem lhe aponta o caminho errado, pratica-a.”
“o conceito de INJUSTIÇAé originário e positivo, já o oposto dele, o de JUSTIÇA, é derivado e negativo.”
“DIREITO NATURAL, que se poderia melhor denominar direito moral, pois sua validade não se estende ao sofrimento, à realidade externa, mas só ao ato e ao autoconhecimento oriundo desse ato da vontade individual, autoconhecimento que se chama CONSCIÊNCIA MORAL.”
“É esse Hobbes o mesmo que, em seu livroDe principiis Geometrarum, caracteriza estranhamente seu modo de pensamento, no todo empírico, negando por completo a matemática propriamente pura, ao afirmar, obstinadamente que o ponto possui extensão e a linha possui largura, e, como nunca podemos exibiri-lhe um ponto sem extensão e uma linha sem largura, tampouco podemos fazer-lhe compreender a aprioridade da matemática ou a aprioridade do direito, visto que ele se fecha a qualquer conhecimento não-empírico.”
“O gozo da prática da injustiça num indivíduo é sempre superado pela dor relativamente maior ao sofrer a injustiça de outrem” Isso poderia ter salvado Kant de escrever a Crítica da Razão Prática.
“As repúblicas tendem à anarquia, as monarquias ao despotismo, a monarquia constitucional, meio-termo para escapar desses excessos, tende ao império das facções. Para criar um Estado perfeito, primeiro tem-se de criar seres cuja natureza permita que sempre sacrifiquem o próprio bem-estar em favor do bem-estar público. Até lá, entretanto, algo pode ser alcançado na existência de UMA família cujo bem-estar é completamente inseparável do bem-estar do país, de maneira que, pelo menos nas grandes questões, nunca uma pode ser favorecida sem que o outro o seja. Aí residindo a força e a vantagem da monarquia hereditária.” Silogismo.
“Caso fosse possível pensar uma prática da injustiça separada do sofrimento da injustiça por outra parte, então, de maneira conseqüente, o Estado não poderia proibi-la. – Ademais, na MORAL, a vontade, a disposição íntima é o único objeto real a ser considerado; disso se segue que a vontade firme de cometer injustiça, obstada e tornada ineficiente mediante poder externo, iguala-se por completo à injustiça de fato cometida e, diante do tribunal, leva aquele que assim quer a ser condenado como injusto. Por seu turno, vontade e disposição enquanto tais não são de maneira alguma assuntos de Estado, mas apenas o ATO (seja este meramente intentado ou praticado) e este o é em virtude de seu correlato, vale dizer, o SOFRIMENTO da outra parte.¹ Para o Estado, portanto, o ato, a ocorrência é a única coisa real; a disposição íntima, a intenção é investigada tão-somente na medida em que, a partir dela, conhece-se a significação do ato.”
¹ Vive como um cristão e poderás ser nazista em teu foro íntimo.
“assim como de maneira bastante engenhosa se denominou o historiador um profeta às avessas, o legislador é um moralista às avessas.” “O conceito de injustiça, sua negação da justiça, conceito originariamente MORAL, torna-se JURÍDICO pela mudança do ponto de partida do lado ativo para o passivo, ou seja, por inversão. Isso, ao lado da doutrina do direito de Kant, o qual, do imperativo categórico, deduz falsamente a fundação do Estado como um dever moral, deu origem aqui e ali nos novos tempos ao erro bastante esquisito de que o Estado é uma instituição para o fomento da moralidade e se originou do esforço em promovê-la, sendo, portanto, orientado contra o egoísmo.” “Mais disparatado ainda é o teorema de que o Estado é condição da liberdade em sentido moral e, com isso, da moralidade.”
“Kant faz a afirmação fundamentalmente falsa de que, exterior ao Estado, não há direito algum de propriedade. Só que, em conformidade com a nossa dedução recém-feita, há sim propriedade no Estado de natureza, lastreada em direito perfeitamente natural, i.e., moral, o qual não pode ser violado sem injustiça, podendo pois ser defendido sem injustiça. Por outro lado, e isto também é certo, fora do Estado não há DIREITO PENAL. Todo direito de punir é estabelecido exclusivamente pela lei positiva, que, ANTES do delito mesmo, determinou uma punição para ele e cuja ameaça, como contramotivo, deve sobrepor-se a todo possível motivo que conduz ao delito.Essa lei positiva deve ser vista como reconhecida e sancionada por todos os cidadãos do Estado. Ela, portanto, funda-se sobre um contrato comum, a cujo cumprimento os membros do Estado estão obrigados em todas as circunstâncias, portanto deve-se infligir punição de um lado, ou, de outro, recebê-la; por conseguinte, a aceitação de uma punição é algo que pode ser imposto com direito. Daí se segue que o imediato OBJETIVO DA PUNIÇÃO num caso particular é CUMPRIR A LEI COMO UM CONTRATO. Por sua vez, o único objetivo da LEI é IMPEDIR o menosprezo dos direitos alheios, pois, para que cada um seja protegido do sofrimento da injustiça, unem-se todos em Estado, renunciando à prática da injustiça e assumindo o fardo da manutenção dele.”
“Retaliação do mal, com o mal sem ulterior finalidade, não é moralmente nem de qualquer outra maneira justificável, porque inexiste um fundamento da razão para tal, e a jus talionis estabelecida como um princípio independente e último do direito penal carece de sentido. Por conseguinte, a teoria kantiana da punição, concebida como retaliação pela vontade de retaliação, é uma visão totalmente infundada, perversa. No entanto, seus vestígios sempre se fazem presentes nos escritos dos jurisconsultos, na forma de perífrases imponentes, verborragia oca, como aquela de que, pela punição, o delito é expiado ou neutralizado ou suprimido e coisas semelhantes.”
“Esta sentença repetida tão infatigavelmente por todos os kantianos, ‘que se tem de tratar os homens sempre como fim, não como meio’, certamente soa imponente e é bastante adequada para os que gostam de ter uma fórmula que lhes isenta de todo pensamento extra. Contudo, considerada sob uma luz mais clara, essa sentença é extremamente vaga, indeterminada e atinge seu intento de maneira completamente indireta, e a cada caso de sua aplicação exige antes explanação específica, determinação e modificação”
“O assassino condenado à morte (…) era cidadão. A fim de gozar a segurança de sua vida, de sua liberdade, de sua propriedade, deu como penhor sua vida e prosperidade em favor da segurança de todos, e esse penhor é agora executado.”
“Éris (…) expulsa do conflito dos indivíduos por meio da instituição estatal, retorna de fora como guerra entre os povos e então exige, no total e num só pagamento, como débito acumulado, sacrifícios sangrentos, os quais se lhe haviam evitado ao recorrer-se à astuta precaução. Sim, supondo-se que tudo isso fosse ao fim ultrapassado e posto de lado por uma prudência acumulada pela experiência de milênios, o resultado seria a efetiva superpopulação de todo o planeta, cujo horrível mal só uma imaginação audaciosa poderia agora tornar presente.”
§63
“Pensais que os crimes ascendem aos deuses em asas,
E então lá alguém tem de gravá-los nas tábuas de Zeus,
E que Zeus olha para eles e pronuncia sentenças sobre os homens?
Todo o céu não seria grande o suficiente
Para conter os pecados humanos, se Zeus os escrevesse
Nem ele os veria a todos
E sentenciaria cada punição. Não!
A punição já está entre nós, caso apenas queirais vê-la.”Eurípides
“A justiça eterna furta-se ao olhar turvado pelo conhecimento que segue o princípio de razão, o principium individuationis. (…) Vê o homem mau, após perfídias e crueldades de todo tipo, viver em alegria e deixar o mundo sem ser incomodado. Vê o oprimido arrastar-se numa vida cheia de sofrimento, até o seu fim, sem que apareça um vingador ou retaliador. Mas só conceberá e aprenderá a justiça eterna quem se elevar por sobre o conhecimento que segue o fio condutor do princípio de razão, atado às coisas particulares; assim fazendo, conhece as Idéias, vê através do principium individuationis e percebe que as formas do fenômeno não concernem à coisa-em-si. É só uma pessoa assim que, em virtude desse mesmo conhecimento, pode compreender a essência verdadeira da virtude”
“Eis por que os sábios ancestrais do povo da Índia expressaram diretamente esse conhecimento nos Vedas, permitido somente às 3 castas regeneradas, ou nas doutrinas sapienciais esotéricas, e isso até onde o conceito e a linguagem o podem apreender e até onde era possível a suas formas de exposição pictórica e rapsódica; na religião popular, todavia, ou doutrina exotérica, isso foi comunicado apenas de maneira mítica.”
“Mahavakya: Tatoumes, ou, mais precisamente, tat twam asi, ‘isso é tu’.” Upanixade, I
“Esta [mitologia hindu] é o fim de todas as doutrinas religiosas, na medida em que são roupagens míticas completas da verdade inacessível à tosca inteligência comum.”
“O mito aqui aludido é o da transmigração das almas. Ele ensina que todos os sofrimentos infligidos em vida pelo homem a outros seres têm de ser expiados numa vida posterior neste mundo e precisamente pelos mesmos sofrimentos. Tal ensinamento vai tão longe que, quem apenas mata um animal, nascerá no tempo infinito exatamente como este animal, sofrendo a mesma morte.” Esse quadro é muito mais horripilante que o eterno retorno da sua própria vida, Sch. – como conciliar tal contradição?
“Assim, uma pessoa nascerá de novo em castas inferiores, ou como mulher, animal, pária, chandala, leproso, crocodilo e assim por diante.”
“brâmanes, sábios, santos. A recompensa suprema (…) que também espera a mulher que em 7 vidas sucessivas morreu voluntariamente na pira funeral do esposo, e a pessoa cuja boca nunca pronunciou uma mentira – a recompensa suprema, ia dizer, o mito só pode expressar negativamente na linguagem deste mundo, por meio da promessa tantas vezes renovada de não voltar a nascer: non adsumes iterum existentiam apparentem (‘Não assumireis de novo a existência aparente’): ou como os budistas, que não admitem nem vedas nem castas, exprimem-se: ‘Tu deves atingir o nirvana, ou seja, um estado no qual não existem 4 coisas, a saber, nascimento, velhice, doença e morte’.
Nunca houve, nem nunca haverá um mito tão intimamente ligado à verdade folosófica, no entanto acessível a tão poucos, quanto esta doutrina ancestral do povo mais nobre e antigo (…) no entanto, já Pitágoras e Platão apreenderam com admiração aquela non plus ultra da exposição mítica, adquirida da Índia, ou do Egito, e a respeitaram, aplicaram-na e, embora não saibamos em que extensão, até mesmo nela acreditaram. – Nós, por outro lado, agora a enviamos aos brames [?] clergymen ingleses e tecelões da confraria morávia, a fim de por compaixão doutriná-los melhor, fazendo-lhes entender que foram criados do nada e devem agradecer e alegrar-se com isso.” HAHAHA!
“Nunca as nossas religiões deitaram ou irão deitar raízes na Índia; a sabedoria ancestral da raça humana não será reprimida pelos acontecimentos na Galiléia. Ao contrário, a sabedoria indiana avança sobre a Europa e produzirá uma mudança fundamental em nosso saber e pensamento.”
§64
(…)
§65
(N.T) “Gut und böse. Mais adiante aparecerá uma palavra próxima de böse, justamente schlecht, cuja equivalência em português poderia ser encontrada em ‘mal’ ou ‘ruim’, reservando-se ‘mau’, em termos morais, precisamente para böse.”
“BOM (…) BELO e VERDADEIRO (…) Dentre as pessoas familiarizadas com os escritos de nossos tempos, quem não se enfastiou com aquelas 3 palavras, por mais que elas apontem coisas originariamente admiráveis? Quem não se enfastiou após ver milhares de vezes como os mais incapazes de pensamento acreditam, com boca escancarada e ares de bronco inspirado, poder apenas com a pronúncia das mencionadas palavras transmitir grande sabedoria?”
“tudo o que é favorável à Vontade em alguma de suas exteriorizações e satisfaz seus fins é pensado pelo conceito BOM, por mais diferentes que essas coisas possam ser noutros aspectos. (…) tudo o que é exatamente como queremos que seja.”
“MAU, méchant[, evil] (…) mallus, cativo, bad são usadas tanto para os homens quanto para as coisas inanimadas”
“felicidade (…) como sendo idêntica ou conseqüência da virtude, e isso sempre de maneira sofística (…) Ao contrário, em (…) nossa consideração, a essência íntima da virtude resultará de um esforço em direção totalmente oposta à da felicidade, ou seja, oposta à direção do bem-estar e da vida.”
(*) “entre os povos monoteístas, ateísmo, ou a falta de Deus, tornou-se sinônimo de ausência de moralidade. Aos padres tais confusões conceituais são bem-vindas e apenas em conseqüência delas pôde originar-se aquele monstro assombroso, o fanatismo, imperando não só sobre indivíduos isolados, perversos e maus além de toda medida, mas também sobre povos inteiros, e, finalmente, o que para a honra da humanidade só aconteceu uma vez em sua história, corporificando-se neste Ocidente como Inquisição, a qual, segundo as mais novas informações finalmente autênticas, somente em Madri (no resto da Espanha havia muito mais desses queimadouros religiosos) em 300 anos matou de modo torturante na fogueira 300 mil pessoas por questões de fé. Convém lembrar tudo isso a todos os fanáticos, sempre que eles queiram levantar a sua voz.”
“BOM ABSOLUTO é uma contradição.” O núcleo nietzschiano já estava preparado. 1. Não há absoluto; 2. A existência do bem exige que ele seja relativo a um mal. Ambos os conceitos são relativos, posto que criados, convencionados.
“podemos, metafórica e figurativamente, chamar a total auto-supressão e negação da Vontade, sua verdadeira ausência, unicamente o que acalma e cessa o ímpeto da Vontade para todo o sempre” “podemos chamar essa total auto-supressão e negação da Vontade de bem absoluto, summum bonum, e vê-la como o único e radical meio de cura da doença contra a qual todos os outros meios são anódinos, meros paliativos.”
“o horror íntimo do malvado em relação aos seus próprios atos, o qual ele tenta ocultar de si, contém ao mesmo tempo, junto ao pressentimento da nulidade e mera aparência do principium individuationis e da diferença por este posta entre si e outrem, também o conhecimento da veemência da própria vontade, da violência com a qual se entregou e apegou à vida, precisamente esta vida observada diante de si em seu lado terrível no tormento provocado em alguém por ele oprimido, e com quem, entretanto, é tão firmemente enlaçado que, exatamente dessa forma, o que há de mais horrível sai de si mesmo como um meio para afirmação completa da sua vontade.”
“o suicídio não fornece salvação alguma: o que cada um QUER em seu íntimo, isto ele deve SER; e o que cada um É, precisamente isto ele QUER.”
“Eis por que coisas que aconteceram há muito tempo ainda continuam a pesar na consciência.” “o mau (…) [v]ê a extensão em que pertence ao mundo e quão firmemente está ligado a ele.” “Fica em aberto se isto alguma vez irá quebrar e suplantar a veemência de sua vontade.”
“os opostos sempre se esclarecem mutuamente e o dia revela simultaneamente a si mesmo e à noite, como Spinoza disse de maneira admirável.”
§66
“mediante moral e conhecimento abstrato em geral, nenhuma virtude autêntica pode fazer efeito, mas esta tem de brotar do conhecimento intuitivo, o qual reconhece no outro indivíduo a mesma essência que a própria.” “pode-se tão pouco formar um virtuoso por meio de discursos morais e sermões quanto o foi formar um único poeta com todas as estéticas desde Aristóteles.”
“Seria em realidade muito funesto se a principal coisa da vida humana, o seu valor ético, válido pela eternidade, dependesse de algo cuja obtenção está submetida tão ao acaso quanto os dogmas, as crenças religiosas, os filosofemas.”¹ “Decerto os dogmas podem ter uma forte influência sobre a CONDUTA, sobre os atos exteriores, assim como o têm o hábito e o exemplo (neste último caso porque o homem ordinário não confia em seu juízo, de cuja fraqueza está consciente, seguindo apenas a experiência própria ou de outrem); mas com isso a disposição de caráter não mudou. (…) Todo conhecimento comunicável só pode fazer efeito sobre a vontade exclusivamente como motivo. (…) o que o homem verdadeiramente e em geral quer sempre permanece o mesmo. Se adquirir outros pensamentos, foi meramente sobre as vias para alcançar esse fim; motivos imaginários podem guiá-lo como se fossem reais.”
¹ Aqui vale lembrar: Gustave Le Bon tampouco foi um pioneiro.
“Eis por que quase nunca podemos julgar com acerto moral os atos de outrem e raras vezes os nossos. – Os atos e as maneiras de agir de um indivíduo e de um povo podem ser bastante modificados por dogmas, pelo exemplo e pelo hábito. Porém, em si, todos os atos (opera operata) são meras imagens vazias; só a disposição de caráter que conduz a eles fornece-lhes sentido moral. Este, por sua vez, pode em realidade ser o mesmo, apesar da diversidade exterior dos fenômenos. Com grau igual de maldade um homem pode morrer na guilhotina e outro pacificamente no regaço de seus parentes. Pode ser o mesmo grau de maldade o que se expressa em UM povo nos traços crus do assassino e do canibalismo, e em OUTRO fina e delicadamente in miniature nas intrigas da côrte.”
“quem reconhece e aceita voluntariamente o limite moral entre o injusto e o justo, mesmo ali onde o Estado ou outro poder não se imponha, quem, conseqüentemente, de acordo com a nossa explanação, jamais, na afirmação da própria vontade, vai até a negação da vontade que se expõe em outro indívudo – é JUSTO.” “vê através do Véu de Maia [além do princípio de individuação] e iguala a si o ser que lhe é exterior, sem injuriá-lo.”
“O grau supremo dessa justiça de disposição – sempre associada à autêntica bondade, sendo que o caráter desta não é mais meramente negativo – vai tão longe que a pessoa pode até questionar o próprio direito à propriedade herdada e assim desejar manter o seu corpo apenas com as próprias forças, espirituais ou físicas, sentindo todo serviço prestado por outros, todo luxo como uma repreenda, inclusive podendo entregar-se por fim à pobreza voluntária. Desse modo, vemos PASCAL, após assumir orientação ascética, não mais querer serviços de ninguém, apesar dos seus vários serviçais; e, em que pesasse de sua doença crônica, fazia a própria cama e buscava a refeição na cozinha, etc. (Vie de Pascal par sa soeur, p. 19).”
“Propriamente falando, aquela justiça exacerbada do hindu é mais que justiça, a saber, é já efetiva renúncia, negação da Vontade de vida, ascese (…) Por outro lado, viver sem fazer nada, servindo-se das forças de outrem em meio à riqueza herdada e sem realizar coisa alguma, já pode ser visto como algo moralmente injusto, embora, segundo as leis positivas, tenha de permanecer algo justo.”
“o homem bom de modo algum deve ser considerado como um fenômeno da Vontade originariamente mais fraco em comparação ao homem mau.” Comentário nitidamente antitético com tomos anteriores.
“O homem nobre nota que a diferença entre si e outrem, que para o mau é um grande abismo, pertence apenas a um fenômeno passageiro e ilusório, reconhece imediatamente, sem cálculos, que o Em-si do seu fenômeno é também o Em-si do fenômeno alheio, a saber, aquela Vontade de vida constitutiva da essência de qualquer coisa, que vive em tudo”
(*) “O direito do homem à vida e à força dos animais baseia-se no fato de que, com o aumento da clareza de consciência, cresce em igual medida o sofrimento, e a dor, que o animal sofre através da morte e do trabalho, não é tão grande quanto aquela que o homem sofreria com a privação de carne ou de força do animal. O homem, pois, na afirmação de sua existência, pode ir até a negação da existência do animal, e a Vontade de vida no todo suporta aí menos sofrimento que no caso inverso. Isso ao mesmo tempo determina o grau de uso que se pode fazer das forças animais, sem cometer injustiça, o que, entretanto, é freqüentemente desrespeitado, particularmente em relação aos animais de carga e aos cães de caça; contra o quê, portanto, a sociedade protetora dos animais em especial orienta sua atividade. Aquele direito do homem, na minha opinião, não se estende à vivissecção, sobretudo em animais superiores. Já o inseto não sofre tanto através da sua morte quanto o homem sofre com a sua picada. – Isto os hindus não o perceberam.”
§67
“Todo amor puro e verdadeiro é compaixão. Todo amor que não é compaixão é amor-próprio. (…) Até mesmo a amizade autêntica é sempre uma mescla de amor-próprio e compaixão” “O CHORO é (…) COMPAIXÃO CONSIGO MESMO ou, a compaixão que retorna ao seu ponto de partida.” “se sente que quem ainda pode chorar também tem de ser necessariamente capaz de amor”
“a morte do pai. Embora a idade e a doença tivessem transformado a vida dele num tormento e, através do desamparo, um fardo pesado para o filho, ainda assim sua morte é chorada intensamente. (…) Desnecessário lembrar que toda a ética exposta em esboço nestes §61-67 recebeu seu tratamento mais detalhado e completo no meu escrito sobre o fundamento da moral.” Schopenhauer é um dos pais do marketing!
§68
“o estado de voluntária renúncia, resignação, verdadeira serenidade (…) As promessas da esperança, as adulações do tempo presente, a doçura dos gozos, o bem-estar que fazem a nossa pessoa partícipe da penúria de um mundo sofrente sob o império do acaso e do erro atraem-nos novamente ao mundo e reforçam os nossos laços de ligação com ele.”
“Sua Vontade se vira; ela não mais afirma a própria essência espelhada no fenômeno, mas a nega. (…) a transição da virtude à ASCESE.” Sinto a confusão argumentativa de Sch. – oscilando entre o herói e o vagabundo, semi-Cristo. Sou modesto, sou um quarto de Deus!
“a grande indiferença por tudo” “desmente o corpo: não quer satisfação sexual alguma”
“Asiatic Researches, v. 8, Colebrooke, On the Vedas, excerto do Sama-Veda, bem como seus Miscellaneous essays, v. I, p. 88”
“o admirável e vertiginoso Angelus Silesius, no dístico intitulado Der Mensch bringt Alles zu Gott” “místico ainda mais magnânimo, Meister Eckhard (sic – Meister Eckhart)” “Meister Eckhart quer dizer: como o homem, em e consigo mesmo, também redime os animais, serve-se deles nesta vida. – Parece até mesmo que a difícil passagem da Bíblia, Romanos 8:21-24, pode ser interpretada nesse sentido.”
Foe Koue Ki, trad. Abel Rémusat: Foe Koue Ki, ou Relation des royaumes bouddhiques, voyage dans la Tartarie (Histoire, French Edition)
“Quem atingiu o 2º patamar ainda sempre sente – como corpo animado pela vida, fenômeno concreto da Vontade – uma tendência natural à volição de todo tipo, porém a refreia intencionalmente, ao compelir a si mesmo a nada fazer do que em realidade gostaria de fazer: ao contrário, faz tudo o que não gostaria de fazer, mesmo se isto não tiver nenhum outro fim senão justamente o de servir à mortificação da Vontade.”
Nesse ‘estágio’ “o lado doce da vida” fica eternamente trancado – porém reavivado com persistência – dentro dos sonhos. Eu sempre estou atravessando um Portal, só não sei se é mais um ou se é Especial…
ISSO ESTÁ PARA ALÉM DO ESTÓICO (UTÓPICO ALÉM DO UTÓPICO): “todo sofrimento exterior trazido por acaso ou maldade, cada injúria, cada ignormínia, cada dano são-lhe bem-vindos. Recebe-os alegremente como ocasião para dar a si mesmo a certeza de que não mais afirma a Vontade, mas alegremente toma partido de cada inimigo fenomênico da Vontade, inimigo esse que é a sua própria pessoa.” Talvez, portanto, quando diz “dar a outra face”, o Evangelho seja mais impraticável que o próprio estoicismo, tido tantas vezes como um Sermão da Montanha exagerado…
“alimenta-o [o próprio corpo] de maneira módica para evitar que seu florescimento exuberante e prosperidade novamente animem e estimulem fortemente a Vontade”
À página 485 Schopenhauer já está em contradição com sua própria análise da futilidade do suicídio de algumas páginas atrás!
Sankhya Carica, tr. Horace Wilson.
“aqui se mostra a grande diferença, tão importante em nossa consideração, impregnando-a em toda parte e tão pouco observada até agora, entre o conhecimento intuitivo e o conhecimento abstrato. Entre os dois há um grande abismo que, em referência ao conhecimento da essência do mundo, só é transposto pela filosofia.” “Portanto, aqui talvez tenhamos pela 1ª vez expresso abstratamente e purificado de todo elemento mítico a essência íntima da santidade, da auto-abnegação, da mortificação da vontade própria, da ascese como NEGAÇÃO DA VONTADE DE VIDA que entra em cena após o conhecimento acabado de sua essência ter-se tornado o quietivo de todo querer.” Quanta pretensão!
“(N.T.) devemos ter em mente que Sch., a princípio, por desejo do pai, estudou para seguir a carreira comercial e só após a morte do genitor é que se dedica à filosofia. Como herança dessa formação, abundam em seus textos belas e secas metáforas econômicas.” Ao que vemos, ninguém ‘mata o pai em vida’ neste mundo…
“Um santo pode estar convencido das mais absurdas superstições, ou, ao contrário, ser um filósofo; é indiferente. Apenas a sua conduta o evidencia como santo.”
OS LIMITES DA FILOSOFIA CONTINENTAL: “Repetir abstratamente toda natureza íntima do mundo de maneira distinta e universal, por conceitos, e assim depositá-la como imagem refletida nos conceitos permanentes, sempre disponíveis da razão, isso, e nada mais, é filosofia.” Trecho mal-redigido ou traduzido?! Seria como escrever: “Repetir conceitual, distinta e universalmente toda natureza íntima do mundo, e assim depositá-la como imagem¹ da razão: apenas isso é filosofia.”
¹ Pois toda reflexão é abstrata, conceitual – ou seja: o autor repete 4x a mesma terminologia inútil. Além disso, o próprio “razão” já é quase uma quinta referência ao mesmo arcabouço de idéias (conceitos!), em menos de 3 linhas completas! Um pot-pourri de pleonasmos… Mas o pior é que acho que nenhum filósofo negaria sua afirmação, que foi feita para ser polêmica…
CONFISSÃO DE SANTO CHOPENTINHO: “minha descrição acima feita da negação da Vontade de vida (…) é meramente abstrata, geral, e, por conseguinte, fria.”
“A literatura indiana, a julgar pelo pouco que podemos conhecer do até agora traduzido, é bastante rica em descrições da vida dos santos e penitentes, chamados samanas, saniasis, etc.”
“Também entre os cristãos não faltam casos em favor das elucidações aqui intentadas. Leiam-se as, na maioria das vezes, pessimamente escritas biografias daquelas pessoas denominadas almas santas ou pietistas, quietistas, entusiastas pios, etc. Coleções dessas biografias foram feitas em várias épocas, como a Vida das almas santasde Tersteegen, a História dos renascidos de Reiz. Em nossos dias confira-se a coleção de Kanne que, misturada ao muito de ruim, contém várias coisas boas, entre as quais a Vida da Beata Sturmin. A essa categoria pertence por inteiro a vida de São Francisco de Assis, verdadeira personificação da ascese e modelo de todos os monges mendicantes.(…) Vita S. Francisci a S. Bonaventura concinnata (Soest, 1847). (…) Histoire de S. François d’Assise, par Chavin de Mallan (1845). (…) Spence Hardy: Eastern monachism, an account of the order of mendicants, founded by Gotama Budha (1850) (…) recomendo a autobiografia de Madame [de] Guion [Vie de…], esta bela e grandiosa alma, cuja lembrança sempre me enche de reverência, que deve ser gratificante a todo espírito nobre conhecer, e fazer justiça à excelência de sua disposição de caráter, vendo com indulgência as superstições de sua razão, apesar de saber que às pessoas de espírito comum, i.e., a maioria, aquele livro sempre terá um péssimo crédito, pois em geral e em toda parte cada um só pode apreciar aquilo que lhe é de algum modo análogo”
“a conhecida biografia de Spinoza, se usarmos como chave para ela a sua excelente introdução ao deficiente ensaio De emendatione intellectus; pois se trata do intróito mais eficiente que conheço como calmante para a tempestade das paixões (…) inclusive Goethe, por mais grego que fosse, não considerou indigno de sua pena mostrar-nos esse lado mais belo da humanidade, em límpido espelho da poesia, quando expôs de forma idealizada a vida da senhorita Klettenberg, em Confissões de uma bela alma.”
“as descrições da vida dos homens santos e auto-abnegados são para o filósofo – apesar de na maioria das vezes serem muito mal-escritas e narradas com uma mescla de superstição e absurdo –, devido ao significado de seu estofo, incomparavelmente mais instrutivas e importantes até mesmo que Plutarco e Lívio.” Lívio nunca li, mas Plutarco é mais um fabulista que um biógrafo…
“Mateus 16:24-25; Marcos 8:34-35; Lucas 9:23-24, 14:26-27 e 14:33). Essa tendência foi gradativamente desenvolvida e deu origem aos penitentes, aos anacoretas, aos monges”
Fénelon, Explications des maximes des Saints sur la vie intérieure
“Teologia alemã, da qual Lutero diz, no prefácio a ela aditado, que de nenhum livro, excetuando-se a Bíblia e Agostinho, mais aprendeu o que seja Deus, Cristo e o homem.” Prequel da Ideologia alemã? Hahaha.
O ANTI-FARISEUS: “Ali, portanto, tem-se muito mais a aprender sobre o assunto, em vez de discorrer sobre ele com convencimento judaico-protestante.”
TAULER, Imitação da vida pobre de Cristo
______, Medulla animae
“o que no Novo Testamento nos é, por assim dizer, visível envolto em véu e névoa, aparece-nos desvelado nas obras dos místicos com total clareza e distinção.”
“o sublime fundador do cristianismo teve necessariamente de adaptar-se em parte consciente, em parte inconscientemente, ao judaísmo, de modo que o cristianismo é composto de 2 elementos bastante heterogêneos, dentre os quais prefiro o puramente ético, nomeando-o exclusivamente cristão, para distingui-lo do dogmatismo judeu com o qual é confundido. Se – como amiúde se temeu, em especial nos dias atuais – essa religião excelente e salutar entrar definitivamente no ocaso, eu procuraria a razão disso apenas no fato de ela consistir não de um elemento simples, mas de dois elementos originariamente heterogêneos postos em combinação pelo curso mundano dos eventos. Ora, daí só poderia resultar a dissolução, devido à degeneração provocada por parentesco desigual e pela reação ao espírito avançado do tempo. (…) o lado puramente ético (…) é indestrutível.”
(*) “Institutes of Hindu-Law, or The Ordinances of Manu, [traduzido] do sânscrito por William Jones (…) em especial os capítulos 7 e 12. (…) Nos últimos 40 anos a literatura indiana cresceu de uma tal maneira na Europa que, se tentasse agora completar esta nota à 1ª edição, encheria muitas páginas.”
“terrível e lenta autopunição para a completa mortificação da Vontade: o que ao fim pode conduzir à morte voluntária mediante jejum, atirar-se aos crocodilos ou precipitar-se do pico sagrado do alto do Himalaia ou ser sepultado vivo, e também mediante o lançar-se sob as rodas do carro colossal que passeia as imagens de deuses entre o canto, o júbilo e a dança das bailadeiras (apsaras).” “Tanta concordância em épocas e povos tão diferentes é uma prova factual de que aqui se expressa não uma excentricidade ou distúrbio mental, como a visão otimista rasteira de bom grado o afirma, mas um lado essencial da natureza humana, e que, se raramente aparece, é tão-só em virtude de sua qualidade superior.”
“Não somos mais o indivíduo que conhece em função do próprio querer incansável, correlato da coisa isolada” Tem certeza? Você parecia procurar com entusiasmo novas porções de literatura hindu! Atrás, no fundo, de uma quimera, uma só Quimera, mais quimérica que o SALTO DA FÉ de Kierkegaard!
« Midi de la gloire; jour où il n’y a plus de nuit; vie qui ne craint plus la mort, dans la mort même: parce que la mort a vaincu la mort, et que celui que a souffert la première mort, ne goutera plus la seconde mort » Vie de Madame de Guion, op. cit.
“Desenvolvem escrúpulos de consciência em cada prazer inocente ou em cada pequena agitação da própria vaidade, a qual também morre por último, e, entre todas as inclinações do homem, é a mais difícil de destruir, a mais ativa e a mais tola. – Sob o termo, por mim já amiúde empregado, de ASCESE, entendo no seu sentido estrito essa quebra PROPOSITAL da Vontade pela recusa do agradável e a procura do desagradável, mediante o modo de vida penitente voluntariamente escolhido e a autocastidade, tendo em vista a mortificação contínua da Vontade.” Não está um pouco tarde no livro para definir conceitos centrais dele? Curioso que estou a infinitas distâncias do ser beato, e no entanto já identifico tal descrição como a exata narrativa do meu modo de vida – involuntário, diga-se!
SUPERVALORIZAÇÃO? “sua obra-prima imortal Fausto, exposição essa ao meu ver inigualável poeticamente, na história do sofrimento de Gretchen. Esta é um perfeito modelo do segundo caminho que conduz à negação da Vontade, não, como o primeiro, pelo mero conhecimento adquirido livremente do sofrer de um mundo inteiro, mas através da dor excessiva sentida na própria pessoa.” Schopenhauer às vezes parece um garoto que tudo vê pelas lentes de sua idéia fixa. Mas todos os filósofos devem ser crianças, em grau menor ou grau maior!
Se tua vida é fudida, não te alarmes: quanto mais fudida é a vida, menos é benquista e sentida!
“Shakespeare nos apresenta na figura do Cardeal de Beaufort (Henrique VIParte II) o terrível fim de um facínora que morre cheio de desespero, pois nem sofrimento nem morte podem quebrar sua vontade veemente, que ia até o extremo da crueldade.” Nem me recordo deste personagem!
“Um caráter deveras nobre é sempre pensado por nós com um certo traço de tristeza silenciosa, que de modo algum se deve ao constante desgosto ligado às contrariedades cotidianas [tipo-mor: S******] (este seria antes um traço ignóbil e faria temer uma disposição má de caráter mau).”
“ensimesmamento (…) leve pressentimento da morte (…) Eis por que tal aflição é acompanhada de uma alegria secreta, e é isto, creio, o que a mais melancólica de todas as nações chamou the joy of grief. Aqui, todavia, reside também o perigo do SENTIMENTALISMO, tanto na vida real quanto em sua exposição poética”
“a negação da Vontade de vida, ou – é o mesmo – a resignação completa”
§69
Novas especulações enjoativas sobre o suicídio.
“A Vontade de vida aparece tanto na morte auto-imposta (Shiva), quanto no prazer da conservação pessoal (Vishnu) e na volúpia da procriação (Brama). [DV] Essa é a significação íntima da UNIDADE DO TRIMÚRTI, que cada homem é por inteiro, embora no tempo seja destacada ora uma, ora outra de suas 3 cabeças.” “O suicídio, em realidade, é a obra-prima de Maia na forma do mais gritante índice de contradição da Vontade de vida consigo mesma.”
“o suicida se assemelha a um doente que, após ter começado uma dolorosa operação de cura radical, não permite o seu término, preferindo permanecer doente. (…) Eis por que todas as éticas, tanto filosóficas quanto religiosas, condenam o suicídio, embora elas mesmas nada possam fornecer senão estranhos argumentos sofísticos.” “quietivo final”
“Reconhecidamente, de tempos em tempos repetem-se casos nos quais o suicídio é estendido às crianças. O pai mata os filhos que tanto ama e em seguida a si próprio. Se tivermos em mente que a consciência moral, a religião e todos os conceitos tradicionais fazem reconhecer no assassinato o pior crime; e que, porém, o pai o comete na hora da própria morte e em verdade sem ter nessa ocasião motivo egoístico algum, então o ato só pode ser explanado como se segue. A vontade do indivíduo se reconhece imediatamente nas crianças, enredada na ilusão que envolve o fenômeno como se fosse a essência em si e, ademais, profundamento abalado pelo conhecimento da miséria de toda vida, acredita que, ao suprimir o fenômeno, também suprime a essência mesma; portanto, deseja resgatar a si e aos filhos da existência e de suas penúrias.”
“Entre esta morte voluntária resultante do extremo da ascese e aquela comum resultante do desespero, deve haver muitos graus intermediários e combinações, sem dúvida difíceis de explanar. Contudo, a mente humana tem profundezas, obscuridades e complicações cuja elucidação e detalhamento são de extrema dificuldade.”
Francamente, sua tentativa de inventário ou hierarquia dos suicídios ou da negação da Vontade já saturaram! Pouco importa distinguir uns dos outros na loooonga série… Além disso, esta última citação iguala, na forma pagã, a assertiva tão comum entre filósofos e cientistas pré-Iluminismo quando se deparavam com os limites derradeiros de suas descobertas: “Os mistérios de Deus são incognoscíveis, blah, blah, blah…”
§70
“Ora, como em conseqüência de tal efeito da graça toda a essência do homem é radicalmente mudada e revertida, de tal forma que ele nada quer do que até então veementemente queria, logo, em conseqüência do efeito da graça, RENASCIMENTO. Pois o que ela chama de HOMEM NATURAL, a quem nega toda capacidade para o bem, é justamente a Vontade de vida – que tem de ser negada, caso a redenção de uma existência como a nossa deva ser alcançada. Em realidade, por trás da nossa existência encrava-se algo outro, só acessível caso nos livremos do mundo.” Um papel lamentável de carrasco, senhor Último Homem! Essencialmente, um Platão insatisfeito… Em seguida seu “trunfo” é citar Romanos 8:3, como se ainda estivéssemos na idade média e não no século XIX!
“Ademais, é uma doutrina cristã original dos evangelhos, defendida por Agostinho, em acordo com os mestres da Igreja, contra as rasteirices dos pelagianos¹ e cuja purificação de erros e restabelecimento foi o objetivo principal dos esforços de LUTERO, como este o declara expressamente em seu livro De servo arbitrio, a de que a VONTADE NÃO É LIVRE mas está originariamente propensa ao que é mau.”
¹ Cristãos contra a doutrina do pecado original e a favor do livre-arbítrio e de certa faculdade de auto-divinização no homem. Me pergunto como tal seita sobrevive no cristianismo a ponto de ter um verbete no Wikipédia – certamente os primeiros pelagianos foram todos queimados na fogueira; mas imaginar que ainda se organizem!… Parecem mais um braço do paganismo que agride a crença cristã a partir de seu interior! Atenção para a pérola: “John Rawls was a critic of Pelagianism, an attitude that he retained even after becoming an atheist. His anti-Pelagian ideas influenced his book A Theory of Justice, in which he argued that differences in productivity between humans are a result of ‘moral arbitrariness’ and therefore unequal wealth is undeserved.”Será uma crítica ao pelagianismo algo central num livro de Direito/Economia?!?
“a despeito de Agostinho e Lutero, essa opinião se adequa ao senso comum do pelagianismo, que em verdade é o racionalismo dos dias atuais”
“não é mais necessária liberdade alguma no Operari, [no agir] pois ela se encontra no Esse, [na essência] e justamente aqui reside também o pecado, enquanto pecado original. (…) rejeita-se o que é genuinamente cristão e retorna-se ao judaísmo. (…) todo dogma arruína a teologia, bem como qualquer ciência. De fato, se se estuda a teologia de Agostinho nos livros De civitate Dei (especialmente no 14º livro), experienciamos algo análogo ao caso em que tentamos manter em pé um corpo cujo centro gravitacional está fora dele: não importa como se o gire ou se o mude de lugar, sempre cairá novamente.” Schopenhauer ofereceu as armas para a própria tréplica “neo-pelaginiana”, pelo visto… Porém,o dogma é o sine qua non da teologia ou crença, enquanto que ele define um campo científico, mas não seu teor, dentro de amplos limites (ex: o dogma da Física são algumas leis fundamentais, mas tudo o que se inscrever nelas e for debatível entre os físicos não será dogmático – o dia em que os dogmas da Física qua Física forem insustentáveis, acabará esta disciplina).
“a contradição entre a bondade de Deus e a miséria do mundo, e entre a liberdade da vontade e presciência divina, é o tema inesgotável de uma controvérsia quase secular entre cartesianos, Malebranche, Leibniz, Bayle, Klarke, Arnauld (…) todos eles giram incessantemente em círculos (…) i.e., tentam resolver uma soma aritmética que nunca chega a um bom resultado (…) Apenas Bayle mostra que percebeu este problema.” Ainda não tive a felicidade de ler nada “autoral” deste “enciclopedista” avant la lettre! (O Dicionário histórico e crítico é sua obra mais famosa, contendo sinopses das vidas dos maiores pensadores e personalidades – em breve no Seclusão.)
“Recorri aqui aos dogmas da religião cristã (eles mesmos estranhos à filosofia) tão-somente para mostrar que a ética oriunda de toda a nossa consideração – a 1ª sendo no todo coerente e concordante com as partes da 2ª –, embora nova e surpreendente em sua expressão, de modo algum o é em sua essência; ao contrário, concorda totalmente com todos os dogmas propriamente cristãos, e no essencial já se achava nestes.”E é o terrível aspecto derivado disso que torna suas conclusões completamente equivocados, Schopenhauer! – diria Nietzsche!
§71
“o conceito de NADA é essencialmente relativo e sempre se refere a algo determinado, que ele nega. Essa qualidade foi atribuída (especialmente por Kant) apenas ao nihil privativum que, sinalizado com ‘-‘ em oposição a ‘+’, podia, de um ponto de vista invertido, tornar-se ‘+’. Ora, em oposição ao nihil privativum foi estabelecido o nihil negativum, o qual em toda relação sempre seria nada, utilizando-se como exemplo a contradição lógica,¹ que se suprime a si mesma.” Belo trecho dessa vez, significativamente elucidativo! A propósito,o matemático curioso com relação à filosofia, porém essencialmente leigo, que, lendo passagens como essa, lançasse a hipótese de que a filosofia continental (até Schop., pelo menos) nada mais é que “discussões excessivamente abstratas de matemáticos entre si” estaria de certa forma correto…
¹ Princípio aristotélico (princípio da não-contradição), talvez o mais importante da Primeira Filosofia (ironia das ironias, ele não é um conceito meta-Lógico, i.e., não deveria servir para elaborar metafísica, e sim apenas para discussões práticas): Se A é não-B, e se B é não-A, logo: A não pode ser não-A (auto-evidente); não-A é B; B não pode ser não-B; não-B é A. O que seria o ‘nada negativo’ que Schopenhauer enumera? Aquilo que não existe formalmente: um A = não-A ou B = não-B; ou ainda: um superveniente C que se identificasse com A e B ao mesmo tempo (o que seria chamado, desde Aristóteles, também de absurdo ou impossibilidade). O nada não tem lugar no mundo dos fenômenos. Para transcender esse ‘sistema’, teríamos de imaginar um mundo ou uma filosofia contraditórios, i.e., transgredir esse princípio básico da não-contradição, aceitar e abraçar o absurdo e o paradoxal. Este trecho também nos ajuda a compreender por que, há algumas páginas Schopenhauer “santificou” seu bem ascético, i.e., deu um status de bem absoluto à negação da Vontade, em que pese ter dito que o “bem absoluto” era uma contradição e que só existia o bem relativo. Dentro deste quadro de superação-de ou de aplicação-literal-e-extrema-de Aristóteles, o filósofo consegue ser coerente consigo mesmo (ele representa o C que se identifica ao mesmo tempo com o A e o B) – levando a lógica às últimas conseqüências do lado de cá (do mundo das aparências e, paradoxalmente, do mundo cristão, que justamente nega por inteiro este mundo das aparências!).
“qualquer nada (…) subsumido em um conceito mais amplo é sempre apenas um nihil privativum. (…) exemplo do não-pensável, necessaruanente requerido na lógica para demonstrar as leis do pensamento.”
“O universalmente tomado como positivo, o qual denominamos SER, e cuja negação é expressa pelo conceito NADA na sua significação mais geral, é exatamente o mundo como representação”
“Negação, supressão, viragem da Vontade é também supressão e desaparecimento do mundo, seu espelho. Se não miramos mais a Vontade neste espelho, então perguntamos debalde para que direção ela se virou, e em seguida, já que não há mais onde e quando, lamentamos que ela se perdeu no nada.” Mais fácil falar e especular do que escapar efetivamente do problema do nada negativo ou absoluto, do qual não se escapa. Enquanto houver fenômeno, há Vontade. Sempre.
As últimas linhas do PRIMEIRO VOLUME são um desfecho patético comparado com a força do argumento geral construído no decorrer da obra!
“Entretanto, esta consideração é a única que nos pode consolar duradouramente, quando, de um lado, reconhecemos que sofrimento incurável e tormento sem fim são essenciais ao fenômeno da Vontade, ao mundo e, de outro, vemos, pela Vontade suprimida, o mundo desaparecer e pairar diante de nós apenas o nada.” C0nstrução linguística infeliz, porque insuficiente, porque demonstrativa do não-resultado ou do resultado aquém do esperado que a filosofia da representação e da Vontade de Schopenhauer manejou conquistar: quietivo tímido da vontade, mesmo para indivíduos santos, nada de supressão, a não ser de maneira hiper-figurada. Qual é a utilidade da filosofia schopenhaueriana, pois? Não epistemológica, sem dúvida; apenas ética, como espécie de prolegômenos para a vida prática (nem se pode chamar de ‘guia’ o que não contem senão uma base precária em direção a uma). Uma ética de não levar a existência demasiado a sério e, portanto, bastante limitada, em que pese realista. Com efeito, limitada porque realista.
O próprio tradutor achou necessário acrescentar em nota de rodapé ao último parágrafo: “a linguagem fracassa nesse momento final de sua filosofia”. Por que outro motivo haveria de fazê-lo senão porque o empreendimento schopenhaueriano deixou a desejar? Ressalva: nada das críticas incisivas sobre este tomo IV diminui a importância do autor no panorama filosófico ocidental, pois ele foi continuado por outros pensadores e sua noção de Vontade segue tendo uma repercussão tremenda.
OBS: Doravante, para os VOLUMES II & III, ocorre inversão da notação sobre notas de rodapé: (*) corresponderá a observações do editor/tradutor; eventuais notas de Sch. aparecerão numeradas (¹,²,³…) entre aspas, e as minhas também numeradas, porém fora das aspas.
Volume II, edição inglesa, tradução de Haldane & Kemp, 6. ed., 1909.
SUPLEMENTOS AO PRIMEIRO TOMO
“When Descartes took his cogito ergo sum as alone certain, and provisionally regarded the existence of the world as problematical, he really discovered the essential and only right starting-point of all philosophy (…) Thus true philosophy must always be idealistic; indeed, it must be so in order to be merely honest. For nothing is more certain than that no man ever came out of himself in order to identify himself directly with things which are different from him”
“Realism which commends itself to the crude understanding, by the appearance which it assumes of being matter-of-fact, really starts from an arbitrary assumption, and is therefore an empty castle in the air, for it ignores or denies the first of all facts, that all that we know lies within consciousness.”
“In spite of all that one may say, nothing is so persistently and ever anew misunderstood as Idealism, because it is interpreted as meaning that one denies the empirical reality of the external world.”
NÃO BRINQUE COM OS ALEMÃES: “Jacobi, who set up such a credit or faith theory of the world, and had the fortune to impose it upon a few professors of philosophy, who for 30 years have philosophised upon the same lines lengthily and at their ease, is the same man who once denounced Lessing as a Spinozist, and afterwards denounced Schelling as an atheist, and who received from the latter the well-known and well-deserved castigation.” “Jacobi, in his doctrine that the reality of the external world is assumed upon faith, is just exactly <the transcendental realist who plays the empirical idealist> censured by Kant in the Critique of Pure Reason”
“Among the moderns only Locke has definitely and without ambiguity asserted the reality of matter; and therefore his teaching led, in the hands of Condillac, to the sensualism and materialism of the French. Only Berkeley directly and without modifications denies matter. The complete antithesis is thus that of idealism and materialism, represented in its extremes by Berkeley and the French materialists (Hollbach). Fichte is not to be mentioned here: he deserves no place among true philosophers; among those elect of mankind who, with deep earnestness, seek not their own things but the truth, and therefore must not be confused with those who, under this pretence, have only their personal advancement in view. Fichte is the father of the sham philosophy [fraude], of the disingenuous method which, through ambiguity in the use of words, incomprehensible language, and sophistry, seeks to deceive, and tries, moreover, to make a deep impression by assuming an air of importance—in a word, the philosophy which seeks to bamboozle and humbug those who desire to learn. After this method had been applied by Schelling, it reached its height, as every one knows, in Hegel, in whose hands it developed into pure charlatanism. But whoever even names this Fichte seriously along with Kant shows that he has not even a dim notion of what Kant is.”
“Materialism is the philosophy of the subject that forgets to take account of itself.” “Realism necessarily leads, as we have said, to materialism. (…) To escape from these consequences, while realism remained in undisputed acceptance, spiritualism was set up, that is, the assumption of a second substance outside of and along with matter, an immaterial substance. This dualism, equally unsupported by experience and destitute of proof and comprehensibility, was denied by Spinoza, and was proved to be false by Kant, who dared to do so because at the same time he established idealism in its rights.”
“The world from which I part at death is, in another aspect, only my representation. The centre of gravity of existence falls back into the subject.”
“As a forcible conclusion of this important and difficult discussion I shall now personify these two abstractions, and present them in a dialogue after the fashion of Prabodha Tschandro Daya. It may also be compared with a similar dialogue between matter and form in the Duodecim Principia Philosophiæ of Raymund Lully.”
“(…)
THE SUBJECT –What insane arrogance! Neither thou nor thy form would exist without me; ye are conditioned by me. Whosoever thinks me away, and believes he can still think ye there, is involved in gross delusion, for your existence apart from my representation is a direct contradiction, a meaningless form of words. Ye are simply means ye are perceived by me. My representation is the sphere of your existence; therefore I am its first condition.
MATTER – Fortunately the audacity of your assertion will soon be put to silence in reality and not by mere words. Yet a few moments and thou actually art no more. With all thy boasting thou hast sunk into nothing, vanished like a shadow, and shared the fate of all my transitory forms. But I, I remain, unscathed and undiminished, from age to age, through infinite time, and behold unshaken the play of my changing form.
(…)
THE SUBJECT – Thou dost well to refrain from contesting my existence on the ground that it is linked to individuals; for, as inseparably as I am joined to them, thou art joined to thy sister, Form, and hast never appeared without her. No eye hath yet seen either thee or me naked and isolated; for we are both mere abstractions. It is in reality one being that perceives itself and is perceived by itself, but whose real being cannot consist either in perceiving or in being perceived, since these are divided between us two.
BOTH [FUUUSÃO!!] – We are, then, inseparably joined together as necessary parts of one whole, which includes us both and exists through us. Only a misunderstanding can oppose us two hostilely to each other, and hence draw the false conclusion that the one contests the existence of the other, with which its own existence stands or falls.”
“With Locke the thing in itself is without colour, sound, smell, taste, neither warm nor cold, neither soft nor hard, neither smooth nor rough; yet it has still extension and form, it is impenetrable, at rest or in motion, and has mass and number. With Kant, it has laid aside all these latter qualities, because they are only possible by means of time, space, and causality, and these spring from an intellect (brain), just as colours, tones, smells, &c., originate in the nerves of the organs of sense.”
“The mass of the nerves of sensation of the whole of the organs of sense is very small compared with that of the brain, even in the case of the brutes,¹ whose brain, since they do not, properly speaking, i.e., in the abstract, think, is merely used for effecting perception, and yet when this is complete, thus in the case of mammals, has a very considerable mass, even after the cerebellum, whose function is the systematic guidance of movements, has been taken away.”
¹ Sempre que Sch. fala “brutes” deve-se entender os animais, não o homem primitivo.
“That excellent book by Thomas Reid, Inquiry into the Human Mind (1ed., 1764; 6ed., 1810), as a negative proof of the Kantian truths, affords us a very thorough conviction of the inadequacy of the senses to produce the objective perception of things, and also of the non-empirical origin of the perception of space and time. (…) Thomas Reid’s book is very instructive and well worth reading—ten times more so than all the philosophy together that has been written since Kant.”
“It is amusing to see how, lacking alike the profundity of the German and the honesty of the English philosopher, they [the French] turn the poor material of sensation this way and that way, and try to increase its importance, in order to construct out of it the deeply significant phenomena of the world of perception and thought.”
“To take only a couple of the better attempts of this sort out of a multitude of others, I may mention as examples Condorcet at the beginning of his book, Des Progrès de l’Esprit Humain, and Tourtual on Sight, in the 2nd volume of the Scriptures Ophthalmologici Minores” “I irrefutably establish the intellectual nature of perception as long ago as 1816, in my essay On Sight and Colour [2.ed, 1854; 3.ed, 1870], and with important additions 15 years later in the revised Latin version of it which is given under the title Theoria Colorum Physiologica Eademque Primaria, in the 3rd volume of the Scriptores Ophthalmologici Minores, published by Justus Radius in 1830; yet most fully and thoroughly in the 2nd (and 3rd) edition of my essay On the Principle of Sufficient Reason, § 21. Therefore on this important subject I refer to these works, so as not to extend unduly the present exposition.” E fá-lo muito bem!
NADA MAIS FALSO:“Physiologically it rests upon the fact that in the organs of the nobler senses, thus in sight and hearing, the nerves which have to receive the specific outward impression are quite insusceptible to any sensation of pain, and know no other sensation than that which is specifically peculiar to them, and which serves the purpose of mere apprehension.”
“Even with the brain this is the case, for if it is cut into directly, thus from above, it has no feeling. Thus only on account of this indifference with regard to the will which is peculiar to them are the sensations of the eye capable of supplying the understanding with such multifarious and finely distinguished data, out of which it constructs in our head the marvellous objective world”
– Seu insensível!!!
– Ó, muito obrigado, madame!
SURDO É RETARDADO, CEGO NÃO: “Words are only imperfectly represented by visible signs; and therefore I doubt whether a deaf and dumb man, who can read, but has no idea of the sound of the words, works as quickly in thinking with the mere visible signs of conceptions as we do with the real, i.e., the audible words. If he cannot read, it is well known that he is almost like an irrational animal, while the man born blind is from the first a thoroughly rational being.”
“How much the use of reason is bound up with speech we see in the case of the deaf and dumb, who, if they have learnt no kind of language, show scarcely more intelligence than the ourang-outang or the elephant.”
NOTHING WORST, REALLY: “Sight is an active, hearing a passive sense. Therefore sounds affect our mind in a disturbing and hostile manner, and indeed they do so the more in proportion as the mind is active and developed; they distract all thoughts and instantly destroy the power of thinking.” VIRE FUMO OU SE TORNE A PRÓPRIA BAGUNÇA.
“Therefore the thinking mind lives at peace with the eye, but is always at war with the ear. This opposition of the two senses is also confirmed by the fact that if deaf and dumb persons are cured by galvanism they become deadly pale with terror at the first sounds they hear, while blind persons, on the contrary, who have been operated upon, behold with ecstasy the first light, and unwillingly allow the bandages to be put over their eyes again.”
“But this whole opposition stands in direct conflict with that coloured-ether, drum-beating theory which is now everywhere unblushingly served up, and which seeks to degrade the eye’s sensation of light to a mechanical vibration, such as primarily that of hearing actually is, while nothing can be more different than the still, gentle effect of light and the alarm-drum of hearing.”
“although we hear with two ears, the sensibility of which is often very different, yet we never hear a sound double, as we often see things double with our two eyes; we are led to the conjecture that the sensation of hearing does not arise in the labyrinth or in the cochlea, but deep in the brain where the two nerves of hearing meet, and thus the impression becomes simple.”
A luz do trovão gravada na retina.
“the sun shone on all statues, but only the statue of Memnon gave forth a sound.” A maçã de Newton não era nem mais vermelha nem mais verde. Mas sua voz é a mais chata da galáxia!
A DIVINA COMÉDIA DOS TÍMPANOS (TO HELL AND FORTH): “Kant, Goethe, and Jean Paul were highly sensitive to every noise, as their biographers bear witness.”
SILÊNCIO NO TRIBUNAL DA MINHA CONSCIÊNCIA: “Goethe in his last years bought a house which had fallen into disrepair close to his own, simply in order that he might not have to endure the noise that would be made in repairing it. Thus it was in vain that in his youth he followed the drum in order to harden himself against noise. It is not a matter of custom.”
PROFISSÃO: REPÓRTER: “On the other hand, the truly stoical indifference to noise of ordinary minds is astonishing. No noise disturbs them in their thinking, reading, writing, or other occupations, while the finer mind is rendered quite incapable by it. But just that which makes them so insensible to noise of every kind makes them also insensible to the beautiful in plastic art, and to deep thought or fine expression in literary art; in short, to all that does not touch their personal interests.”
Amostra grátis da morte.
“It is always a good sign when an artist can be hindered by trifles from exercising his art. F—— used to stick his fingers into sulphur if he wished to play the piano. … Such things do not interfere with the average mind … it acts like a coarse sieve (Lichtenberg,¹ Vermischte Schriften, vol. I, p. 398).”
É sempre um bom sinal quando um artista pode ser interrompido e atrapalhado por ninharias em seu processo de criação artística. F. [identidade desconhecida!], sendo por demais sensível a sons, chegava ao extremo de ter de afundar seus dedos em ácido sulfúrico caso se sentisse compelido a tocar o piano e interromper seus afazeres. Esses sofrimentos de ordem delicada são incompreensíveis para a mente do “homem médio”, que filtra tais incômodos de forma tosca e obtusa, sem sequer neles reparar, ao passo que sente mortalmente os sofrimentos ásperos, que o artista sensível é capaz de suportar tranqüilamente.
¹ Físico e ensaísta (1742-1799). Parece valer a pena conferir tudo que ele deixou em seus diários, sem publicar, até morrer. Boas indicações: The Reflections of Lichtenberg, Swan Sonnenschein, 1908 (selected and translated by Norman Alliston) / Aphorisms, Penguin, 1990 (trans. with an introduction and notes by R.J. Hollingdale), reprinted as The Waste Books, 2000 / Philosophical Writings (trans. and ed. by Steven Tester), Albany: State University of New York Press, 2012. Não confundir com Lichtenberger, crítico acadêmico, jovem demais para Schopenhauer ter conhecido, embora nascido no séc. XIX, que escreveu sobre Nietzsche, Wagner, Goethe, o Nazismo, entre outros tópicos de interesse!
“Se escuto cães ladrando por horas no jardim duma casa sem ninguém vir interrompê-los, sei exatamente o que pensar da capacidade intelectual dos moradores.”
“Poderemos nos chamar de civilização somente quando nossos ouvidos puderem viver desprotegidos sem danos, quando não for mais <direito adquirido> de cada um perturbar a paz de consciência e a tranqüilidade de quem caminha na rua através de uma infinidade de sons como assovios, berros, relinchos, marteladas, o estalar de chicotes, latidos, etc., etc. (…) Algo mais sobre este assunto é dito no 13º capítulo do segundo volume do Parerga” Sim, amigo, eu me lembro muito bem! Quem estiver interessado (são passagens bem divertidas!), basta clicar em https://seclusao.art.blog/2017/05/30/o-pessimismo-de-arthur-schopenhauer/ e digitar Lichtenberg na busca (ctrl + F).
“o piano de cores foi um dos erros mais absurdos da humanidade [uma aparente tentativa, no século XVIII, de produzir o que então se chamou de ‘música para os olhos’ ou ‘harmonia das cores’; insucesso que se estenderia, em outras tentativas individuais funestas, ao longo de todo o século XIX de Schopenhauer!]”
QUESTÃO DE PONTO DE VISTA (Expressar o mesmo em outras palavras)!“From the fact that we are able spontaneously to assign and determine the laws of relations in space without having recourse to experience, Plato concludes (Meno, p. 353, Bip.) that all learning is mere recollection. Kant, on the other hand, concludes that space is subjectively conditioned, and merely a form of the faculty of knowledge. How far, in this regard, does Kant stand above Plato!”
“This dependence of all counting upon time is also betrayed by the fact that in all languages multiplication is expressed by time, thus by a time-concept: sexies, six fois, sex mal.”
“We ask what o’clock it is; we investigate time, as if it were something quite objective. And what is this objective existence? Not the progress of the stars, or of the clocks, which merely serve to measure the course of time itself, but it is something different from all things, and yet, like them, independent of our will and knowledge.”
“By degrees such unduly wide conceptions come to be used almost like algebraical symbols, and tossed about like them, and thus philosophy is reduced to a mere process of combination, a kind of reckoning which (like all calculations) employs and demands only the lower faculties. Indeed there finally results from this a mere juggling with words, of which the most shocking example is afforded us by the mind-destroying Hegelism, in which it is carried to the extent of pure nonsense.”
“Why not earlier? And so far back indeed that one never gets down from it to the present, but is always marvelling that the present itself did not occur already millions of years ago.”
ORIGAMI NEVOENTA DO ENTE:“even in Aristotle (Metaph., 4:2) we find causes divided into 4 classes which are utterly falsely, and indeed crudely conceived.” “Now this table may be regarded at pleasure either as a collection of the eternal laws of the world, and therefore as the basis of our ontology, or as a chapter of the physiology of the brain, according as one assumes the realistic or the idealistic point of view; but the second is in the last instance right. [tabela comparativa de conceitos do esqueleto da metafísica ocidental das páginas 214 a 222]”
O erro de Hegel: superestimar Aristóteles.
O erro de Schopenhauer: subestimar Platão.
Não existe filósofo perfeito.
“Só há uma Matéria, e todas as diferentes matérias são diferentes estados da Matéria. Enquanto unidade tal, ela é referida como Substância. O que causa diferentes estados da Matéria são acidentes.”Ou seja: substância é um termo inútil que devera ser abolido da Metafísica.
“O Tempo pode ser percebido a priori, embora somente sob a forma de uma linha.”
“24. O instante não tem duração; O ponto não tem extensão; O átomo não tem realidade (mas é a unidade de modelo mecânico).”
“Shall we then believe that Kant silently appropriated such important thoughts of another man? and this from a book which at that time was new? Or that this book was unknown to him, and that the same thoughts sprang up in 2 minds within a short time? (…) But what are we to say if we find Kant’s most important and brilliant doctrine, that of the ideality of space and the merely phenomenal existence of the corporeal world, already expressed by Maupertuis 30 years earlier? This will be found more fully referred to in Frauenstädt’s letters on my philosophy, Letter 14.”
“We are therefore obliged to assume that Laplace knew that Kantian doctrine.Certainly he expounds the matter more thoroughly, strikingly, and fully, and at the same time more simply than Kant, as is natural from his more profound astronomical knowledge; yet in the main it is to be found clearly expressed in Kant, and on account of the importance of the matter, would alone have been sufficient to make his name immortal. It cannot but disturb us very much if we find minds of the first order under suspicion of dishonesty, which would be a scandal to those of the lowest order. For we feel that theft is even more inexcusable in a rich man than in a poor one. We dare not, however, be silent; for here we are posterity, and must be just, as we hope that posterity will some day be just to us. Therefore, as a 3rd example, I will add to these cases that the fundamental thoughts of the Metamorphosis of Plants, by Goethe, were already expressed by Kaspar Wolff in 1764 in his Theory of Generation. Indeed, is it otherwise with the system of gravitation? The discovery of which is on the Continent of Europe always ascribed to Newton, while in England the learned at least know very well that it belongs to Robert Hooke, who in the year 1666, in a Communication to the Royal Society, expounds it quite distinctly, although only as an hypothesis and without proof. The principal passage of this communication is quoted in Dugald Stewart’s¹ Philosophy of the Human Mind, and is probably taken from Robert Hooke’s Posthumous Works. The history of the matter, and how Newton got into difficulty by it, is also to be found in the Biographie Universelle, article Newton. Hooke’s priority is treated as an established fact in a short history of astronomy, Quarterly Review, August, 1828. Further details on this subject are to be found in my Parerga, vol. 2, § 86 (2nd edition, § 88). The story of the fall of an apple is a fable as groundless as it is popular, and is quite without authority.”
¹“I can only advise that not an hour should be wasted over the scribbling of this shallow writer.”
“Now when we are considering matter only as regards its quantity, not its quality, this expression can only be mechanical, i.e., it can only consist in motion which it imparts to other matter. For only in motion does the force of matter become, so to speak, alive; hence the expression vis viva for the manifestation of force of matter in motion. (…) We must therefore compare one quantity of motion with the other, and then subtract the velocity from both, in order to see how much each of them owed to its mass.”
* * *
“Their memory is therefore always dependent upon what is now actually present. Just on this account, however, this excites anew the sensation and the mood which the earlier phenomenon produced. Thus the dog recognises acquaintances, distinguishes friends from enemies, easily finds again the path it has once travelled, the houses it has once visited, and at the sight of a plate or a stick is at once put into the mood associated with them. All kinds of training depend upon the use of this perceptive memory and on the force of habit, which in the case of animals is specially strong. It is therefore just as different from human education as perception is from thinking.”
PERFUME DE MULHER: “when we visit a place where we once were in early childhood”
“This is the nature of all the recollections of the brutes. We have only to add that in the case of the most sagacious this merely perceptive memory rises to a certain degree of phantasy, which again assists it, and by virtue of which, for example, the image of its absent master floats before the mind of the dog and excites a longing after him, so that when he remains away long it seeks for him everywhere.”
“Between the brute and the external world there is nothing, but between us and the external world there is always our thought about it, which makes us often inapproachable to it, and it to us.” Um estranho morando numa rua estranha – e barulhenta – onde ninguém me conhece, ninguém pensa em mim exceto quando me vê chegar do trabalho ou descer à padaria para tomar meu café da manhã. Em resumo, uma folha seca no outono, de um pomar já pelado pelas agruras do tempo…
“In this respect the dog stands to the man in the same relation as a glass goblet [taça] to a metal one, and this helps greatly to endear the dog so much to us, for it affords us great pleasure to see all those inclinations and emotions which we so often conceal displayed simply and openly in him.”
A vida como uma partida de pôquer.
“On the 27th of August 1830 there was held at Morpeth, in England, a coroner’s inquest on the keeper, Baptist Bernhard, who was killed by his elephant. It appeared from the evidence that 2 years before he had offended the elephant grossly, and now, without any occasion, but on a favourable opportunity, the elephant had seized him and crushed him. (See the Spectator and other English papers of that day.)”
“insight can only be obtained by the help of the faculty of judgment, from perception, which alone is complete and rich knowledge.”
“if I read those modern philosophemes which move constantly in the widest abstractions, I am soon quite unable, in spite of all attention, to think almost anything more in connection with them; for I receive no material for thought, but am supposed to work with mere empty shells, which gives me a feeling like that which we experience when we try to throw very light bodies; the strength and also the exertion are there, but there is no object to receive them, so as to supply the other moment of motion. If any one wants to experience this let him read the writings of the disciples of Schelling, or still better of the Hegelians.”
MAYBE ANALYTICAL PHILOSOPHY IS JUST 100% BULLSHIT? “Simple conceptions would necessarily be such as could not be broken up. Accordingly they could never be the subject of an analytical judgment. This I hold to be impossible, for if we think a conception we must also be able to give its content.” Nada se ganha descrevendo o gosto de um frango.
“the more perfect grammar of the ancient languages renders a more artistic and more perfect construction of the thoughts and their connection possible.Thus a Greek or a Roman might perhaps content himself with his own language, but he who understands nothing but some single modern patois will soon betray this poverty in writing and speaking; for his thoughts, firmly bound to such narrow stereotyped forms, must appear awkward and monotonous.Genius certainly makes up for this as for everything else, for example in Shakespeare.”
“The princely scholastic Pico de Mirandula already saw that reason is the faculty of abstract ideas, and understanding the faculty of ideas of perception in his book, De Imaginatione, ch. 11 (…) Spinoza also characterises reason quite correctly as the faculty of framing general conceptions (Eth. ii. Prop. 40, schol. 2). Such facts would not need to be mentioned if it were not for the tricks that have been played in the last 50 years by the whole of the philosophasters of Germany with the conception reason.”
PRELÚDIO A O ANTICRISTO: “Having become accessible to thought, he is at once exposed to error. But every error must sooner or later do harm, and the greater the error the greater the harm it will do. The individual error must be atoned for by him who cherishes it, and often he has to pay dearly for it. And the same thing holds good on a large scale of the common errors of whole nations. Therefore it cannot too often be repeated that every error wherever we meet it, is to be pursued and rooted out as an enemy of mankind, and that there can be no such thing as privileged or sanctioned error. The thinker ought to attack it, even if humanity should cry out with pain, like a sick man whose ulcer the physician touches. (…) For example, we can accustom them to approach this or that idol with holy dread, and at the mention of its name to prostrate in the dust not only their bodies but their whole spirit; to sacrifice their property and their lives willingly to words, to names, to the defence of the strangest whims (…) to renounce all animal food, as in Hindustan, or to devour still warm and quivering pieces, cut from the living animal, as in Abyssinia; to eat men, as in New Zealand, or to sacrifice their children to Moloch [Isso deveria ocorrer com alguma freqüência ao redor de todo o mundo, não ser típico de uma região ou interdito em outras!]; to castrate themselves; to fling themselves voluntarily on the funeral pires of the dead—in a word, to do anything we please. Hence the Crusades, the extravagances of fanatical sects; hence Chiliasts and Flagellants, persecutions, autos da fé, and all that is offered by the long register of human perversities.” “The tragical side of error lies in the practical, the comical is reserved for the theoretical.”
SÓ SEI QUE NADA (ESPERO DE) SEI(TAS): “if we could firmly persuade 3 men that the sun is not the cause of daylight, we might hope to see it soon established as the general conviction.”
“In Germany it was possible to proclaim as the greatest philosopher of all ages Hegel, a repulsive, mindless charlatan, an unparalleled scribbler of nonsense, and for 20 years many thousands have believed it stubbornly and firmly; and indeed, outside Germany, the Danish Academy entered the lists against myself for his fame, and sought to have him regarded as a summus philosophus. (Upon this see the preface to my Grundproblemen der Ethik.) These, then, are the disadvantages which, on account of the rarity of judgment, attach to the existence of reason. We must add to them the possibility of madness. The brutes do not go mad, although the carnivora are subject to fury, and the ruminants to a sort of delirium.” Imagino que hoje a psicologia animal refute este dado.
* * *
“Books impart only secondary ideas.¹ Mere conceptions of a thing without perception give only a general knowledge of it.”
¹ Não sei se o termo mais apropriado seria indirect ideas…
“while almost every one is capable of comparing conceptions with conceptions, to compare conceptions with perceptions is a gift of the select few.”
“All original thinking takes place in images, and this is why imagination is so necessary an instrument of thought, and minds that lack imagination will never accomplish much, unless it be in mathematics. On the other hand, merely abstract thoughts, which have no kernel of perception, are like cloud-structures, without reality. Even writing and speaking, whether didactic or poetical, has for its final aim to guide the reader to the same concrete knowledge from which the author started; if it has not this aim it is bad.”
“Upon this depends the infinite superiority of genius to learning; they stand to each other as the text of an ancient classic to its commentary.” “the knowledge of genius consists in the apprehension of the (Platonic) Ideas of things”
“Another may know by heart all the 300 maxims of Gracian, but this will not save him from stupid mistakes and misconceptions if he lacks that intuitive knowledge. For all abstract knowledge affords us primarily mere general principles and rules; but the particular case is almost never to be carried out exactly according to the rule; then the rule itself has to be presented to us at the right time by the memory, which seldom punctually happens; then the propositio minor has to be formed out of the present case, and finally the conclusion drawn. Before all this is done the opportunity has generally turned its back upon us, and then those excellent principles and rules serve at the most to enable us to measure the magnitude of the error we have committed. Certainly with time we gain in this way experience and practice, which slowly grows to knowledge of the world, and thus, in connection with this, the abstract rules may certainly become fruitful.”
“Natural understanding can take the place of almost every degree of culture, but no culture can take the place of natural understanding.” “One case in his own experience teaches him more than many a scholar is taught by 1,000 cases which he knows, but does not, properly speaking, understand.”
“If now this perceptive knowledge is very scanty, such a mind is like a bank with liabilities tenfold in excess of its cash reserve, whereby in the end it becomes bankrupt. Therefore, while the right apprehension of the perceptible world has impressed the stamp of insight and wisdom on the brow of many an unlearned man, the face of many a scholar bears no other trace of his much study than that of exhaustion and weariness from excessive and forced straining of the memory in the unnatural accumulation of dead conceptions.”“At any rate the constant streaming in of the thoughts of others must confine and suppress our own, and indeed in the long run paralyse the power of thought if it has not that high degree of elasticity which is able to withstand that unnatural stream.”Como se não fosse o bastante a configuração atual do conhecimento impossibilitar gênios, há ainda uma espécie de processo seletivo entre os pensadores mais talentosos – aquele que apesar de todas as leituras que precisa realizar no século XXI se destacar como um grande pensador em Filosofia Continental é realmente um campeão dos campeões, o ápice da ‘cadeia acadêmico-alimentar’.
SUN-BOOK: “blinded by the light of books.”
“ceaseless reading and study directly injures the mind—the more so that completeness and constant connection of the system of our own thought and knowledge must pay the penalty if we so often arbitrarily interrupt it in order to gain room for a line of thought entirely strange to us. To banish my own thought in order to make room for that of a book¹ would seem to me like what Shakespeare censures in the tourists of his time, that they sold their own land to see that of others.”
¹ Ou isso ou Schopenhauer sofria de algum tipo de irritabilidade acentuada ou burn-out que tornara improfícua sua tentativa de continuar sua instrução. Um veloz fluxo de idéias, obsessive e irrequieto, ansioso e ininterrupto, que tornava qualquer leitura desprazerosa a partir de certo ponto, dada a necessidade de processar, refletir e comentar o input de nova informação. Nada muito diferente do que eu mesmo sinto. Doravante, ele se via compelido, no fim da vida, decerto, muito mais a escrever do que a ler; e provavelmente se dedicava a hobbies “inofensivos” como ouvir música e passear, nos intervalos de produção intelectual. Mas todo o seu Sistema já estava sedimentado. A autocrítica, na hipótese de deparar-se com algo realmente interessante ou importante na literatura àquela altura de sua vida, já estaria impossibilitada. Outro claro sinal de que o que ele diz é no mínimo válido para algumas mentalidades: os piores livros só consigo terminá-los se fizer demasiadas críticas e anotações intermitentes à leitura. Em grandes clássicos, quase não sinto vontade de acrescentar nada. Eis o dilema: O Mundo como Vontade e Representação poderia ainda ser um clássico, haja vista que já o comentei tanto?!
“In order to have thoughts they must read something”Ou apenas para ter pensamentos sadios de novo, tomados por uma neurose ou depressão incuráveis (caso clássico: Sade).
“Indeed it is dangerous to read about a subject before we have thought about it ourselves. For along with the new material the old point of view and treatment of it creeps into the mind, all the more so as laziness and apathy counsel us to accept what has already been thought, and allow it to pass for truth.”No que é que já não pensamos de antemão nessa vida?
“Now they regard reading as their work and special calling, and therefore they gorge themselves with it, beyond what they can digest. Then reading no longer plays the part of the mere initiator of thought, but takes its place altogether; for they think of the subject just as long as they are reading about it, thus with the mind of another, not with their own.”
“The man of thought is so because such things [playing cards, gossip] have no interest for him. He is interested only in his problems, with which therefore he is always occupied, by himself and without a book.”
“On the other hand, the compulsory exertion of a mind in studies for which it is not qualified, or when it has become tired, or in general too continuously and invita Minerva, dulls the brain, just as reading by moonlight dulls the eyes. This is especially the case with the straining of the immature brain in the earlier years of childhood. I believe that the learning of Latin and Greek grammar from the 6th to the 12th year lays the foundation of the subsequent stupidity of most scholars.”Ufa! Tive uma infância-adolescência bem normal. O Luan, não. Quem lê Kant no ensino médio? Agora falando sério, este final de parágrafo contradiz Sch. mais acima: que o latim e o grego são as melhores línguas para expressar conceitos. Porém, entende-se que Sch. está apenas sendo azedo como se deve com os filisteus!
“the really characteristic and original views of which a gifted individual is capable, and the working up, development, and manifold application of which is the material of all his works, even if written much later, can arise in him only up to the 35th or at the latest the 40th year of his life, and are really the result of combinations he has made in his early youth.”
“at last, after the 42nd year, the venous system obtains the upper hand, as Cabanis has admirably and instructively explained.” Deve ser interessante envelhecer…
PRIMAVERA CEREBRAL: “Therefore the years between 20 and 30 and the first few years after 30 are for the intellect what May¹ is for the trees” A partir do ano que vem, pra mim, só com Jesus na causa!
¹ Setembro/outubro em nosso caso.
“He may by reflection make clearer what he has apprehended; he may yet acquire much knowledge as nourishment for the fruit which has once set; he may extend his views, correct his conceptions and judgments, it may be only through endless combinations that he becomes completely master of the materials he has gained; indeed he will generally produce his best works much later, as the greatest heat begins with the decline of the day, but he can no longer hope for new original knowledge from the one living fountain of perception.”
“Conceptions are certainly the material of philosophy, but only as marble is the material of the sculptor. It is not to work out of them but in them; that is to say, it is to deposit its results in them, but not to start from them as what is given. Whoever wishes to see a glaring example of such a false procedure from mere conceptions may look at the Institutio Theologica of Proclus in order to convince himself of the vanity of that whole method. These abstractions such as unum, multa, bonum, producens et productum, sibi sufficiens, causa, melius, mobile, immobile, motum, &c., are indiscriminately collected, but the perceptions to which alone they owe their origin and content ignored and contemptuously disregarded. A theology is then constructed from these conceptions, but its goal, the teos, is kept concealed.”
“At all times we find persons, like this theologian Schleiermacher, who is too fond of philosophising, famous while they are alive, afterwards soon forgotten. My advice is rather to read those whose fate has been the opposite of this, for time is short and valuable.”
“A science constructed from the mere comparison of conceptions, that is, from general principles, could only be certain if all its principles were synthetical a priori, as is the case in mathematics: for only such admit of no exceptions. If, on the other hand, the principles have any empirical content, we must keep this constantly at hand, to control the general principles. For no truths which are in any way drawn from experience are ever unconditionally true. They have therefore only an approximately universal validity”
“Yet even Plato himself has very frequently permitted such mere abstract reasoning; and Proclus, as we have already mentioned, has, after the manner of all imitators, carried this fault of his model much further. Dionysius the Areopagite, De Divinis Nominibus, is also strongly affected with this. But even in the fragments of the Eleatic Melissus we already find distinct examples of such mere abstract reasoning”
“But a perfect gem of philosophical mere abstract reasoning passing into decided sophistication is the following reasoning of the Platonist, Maximus of Tyre, which I shall quote, as it is short: <Every injustice is the taking away of a good. There is no other good than virtue: but virtue cannot be taken away: thus it is not possible that the virtuous can suffer injustice from the wicked. It now remains either that no injustice can be suffered, or that it is suffered by the wicked from the wicked. But the wicked man possesses no good at all, for only virtue is a good; therefore none can be taken from him. Thus he also can suffer no injustice. Thus injustice is an impossible thing.>”
“To infer is easy, to judge is difficult. False inferences are rare, false judgments are always the order of the day.” “In most men the faculty of judgment is only nominally present; it is a kind of irony that it is reckoned with the normal faculties of the mind, instead of being only attributed to the monstris per excessum.”
“While each one would be ashamed to go about in a borrowed coat, hat, or mantle, they all have nothing but borrowed opinions, which they eagerly collect wherever they can find them, and then strut about giving them out as their own. Others borrow them again from them and do the same thing. This explains the rapid and wide spread of errors, and also the fame of what is bad; for the professional purveyors of opinion, such as journalists and the like, give as a rule only false wares, as those who hire out masquerading dresses give only false jewels.”
* * *
“The problem of the origin, which is everywhere the same, and hence of the peculiar significance of laughter, was already known to Cicero, but only to be at once dismissed as insoluble (De Orat., ii. 58).” “Platner, in his Anthropology, §894, has collected the opinions of the philosophers from Hume to Kant who have attempted an explanation of this phenomenon peculiar to human nature. Kant’s and Jean Paul’s theories of the ludicrous are well known. I regard it as unnecessary to prove their incorrectness, for whoever tries to refer given cases of the ludicrous to them will in the great majority of instances be at once convinced of their insufficiency.”
“The audience in a theatre in Paris once called for the Marseillaise to be played, and as this was not done, began shrieking and howling, so that at last a commissary of police in uniform came upon the stage and explained that it was not allowed that anything should be given in the theatre except what was in the playbill [cartaz]. Upon this a voice cried: <Et vous, Monsieur, êtes-vous aussi sur l’affiche?>—a hit which was received with universal laughter.”
“Of this kind is also the well-known anecdote of the actor Unzelmann. In the Berlin theatre he was strictly forbidden to improvise. Soon afterwards he had to appear on the stage on horseback, and just as he came on the stage the horse dunged, at which the audience began to laugh, but laughed much more when Unzelmann said to the horse: <What are you doing? Don’t you know we are forbidden to improvise?>”
“On account of the want of reason, thus of general conceptions, the brute is incapable of laughter, as of speech. This is therefore a prerogative and characteristic mark of man. Yet it may be remarked in passing that his one friend the dog has an analogous characteristic action peculiar to him alone in distinction from all other brutes, the very expressive, kindly, and thoroughly honest fawning and wagging of its tail. But how favourably does this salutation given him by nature compare with the bows and simpering civilities of men! At least for the present, it is a thousand times more reliable than their assurance of inward friendship and devotion.”
“the transition from profound seriousness to laughter is so easy, and can be effected by trifles. For the more perfect that agreement assumed by seriousness may seem to be, the more easily is it destroyed by the unexpected discovery of even a slight incongruity. Therefore the more a man is capable of entire seriousness, the more heartily can he laugh.”
“Men whose laughter is always affected and forced are intellectually and morally of little worth; and in general the way of laughing, and, on the other hand, the occasions of it, are very characteristic of the person.”
“Irony is objective, that is, intended for another; but humour is subjective, that is, it primarily exists only for one’s own self. Accordingly we find the masterpieces of irony among the ancients, but those of humour among the moderns.”
* * *
“Logic, Dialectic and Rhetoric go together, because they make up the whole of a technic of reason, and under this title they ought also to be taught—Logic as the technic of our own thinking, Dialectic of disputing with others, and Rhetoric of speaking to many (concionatio); thus corresponding to the singular, dual, and plural, and to the monologue, the dialogue and the panegyric.” “for the technical rules of disputation, eristics, very little has hitherto been accomplished. I have worked out an attempt of the kind, and given an example of it, in the second volume of the Parerga, therefore I shall pass over the exposition of this science altogether here.”
“Rutilius Lupus, the epitomiser of a later Gorgias.”
“although they are of great theoretical interest, they are of little practical use; partly because, though they certainly give the rule, they do not give the case of its application (…) Thus they teach only what every one already knows and practises of his own accord”
PRINCÍPIO DO TERCEIRO EXCLUÍDO (Lógica Pura): “Every predicate can either be affirmed or denied of very subject.” Uma sentença é verdadeira – ou então seu contrário o é. Subtipo do simples e fundamental princípio da não-contradição. “the feeling of contradiction” como prova.
PRINCÍPIO DA RAZÃO SUFICIENTE (Ser-no-Mundo): A enunciação de uma verdade depende do fenômeno e da consciência (mundo exterior). “From this it is easy to see that one truth can never overthrow another, but all must ultimately agree; because in the concrete or perceptible, which is their common foundation, no contradiction is possible.” “This second law of thought is therefore the connecting link between logic and what is no longer logic, but the matter of thought.” “Therefore all judging consists in the use of a verb, and vice versa.”
“To speak of the bodies so directly appears to them [os filósofos contemporâneos] too vulgar; and therefore they say <being>, which they think sounds better”
CAETANISMOS: “Thus zwar [é verdade] (the contracted <es ist wahr> [isso é verdadeiro]) seems to belong exclusively to the German language. It is always connected with an aber which follows or is added in thought, as if is connected with then.”
“<Immanuel Kant> signifies logically, <all Immanuel Kant>.”
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“An inference is that operation of our reason by virtue of which, through the comparison of two judgments a third judgment arises, without the assistance of any knowledge otherwise obtained. The condition of this is that these two judgments have one conception in common, for otherwise they are foreign to each other and have no community. But under this condition they become the father and mother of a child that contains in itself something of both. Moreover, this operation is no arbitrary act, but an act of the reason, which, when it has considered such judgments, performs it of itself according to its own laws. So far it is objective, not subjective, and therefore subject to the strictest rules.” “He knew it only implicite, now he knows it explicite”
“In reality the premisses assumed from without, both for theoretical insight and for motives, which bring about resolves, often lie for a long time in us, and become, partly through half-conscious, and even inarticulate, processes of thought, compared with the rest of our stock of knowledge, reflected upon, and, as it were, shaken up together, till at last the right major finds the right minor, and these immediately take up their proper places, and at once the conclusion exists as a light that has suddenly arisen for us, without any action on our part, as if it were an inspiration; for we cannot comprehend how we and others have so long been in ignorance of it. It is true that in a happily organised mind this process goes on more quickly and easily than in ordinary minds; and just because it is carried on spontaneously and without distinct consciousness it cannot be learned.”
“The voltaic pile may be regarded as a sensible image of the syllogism. Its point of indifference, at the centre, represents the middle, which holds together the 2 premisses, and by virtue of which they have the power of yielding a conclusion. The 2 different conceptions, on the other hand, which are really what is to be compared, are represented by the 2 opposite poles of the pile. Only because these are brought together by means of their 2 conducting wires, which represent the copulas of the 2 judgments, is the spark emitted upon their contact—the new light of the conclusion.”
“in general, eloquence is more the gift of nature than the work of art; yet here, also, art will support nature.”
RESUMO DA MAIÊUTICA: “Therefore we ought rather to keep the conclusion completely concealed, and only advance the premisses distinctly, fully, and in different lights.”
A VIRTUDE PODE SER ENSINADA? “In difficult cases we may even assume the air of desiring to arrive at a quite opposite conclusion from that which we really have in view. An example of this is the famous speech of Antony in Shakspeare’s Julius Cæsar.” Uma das poucas peças de Sh. que me falta ler!
“In defending a thing many persons err by confidently advancing everything imaginable that can be said for it, mixing up together what is true, half true, and merely plausible. But the false is soon recognised, or at any rate felt, and throws suspicion also upon the cogent and true arguments which were brought forward along with it.”
“The Chinese go, perhaps, too far the other way, for they have the saying: <He who is eloquent and has a sharp tongue may always leave half of a sentence unspoken; and he who has right on his side may confidently yield three-tenths of his assertion.>”
“A proposition of immediate certainty is an axiom. Only the fundamental principles of logic, and those of mathematics drawn a priori from intuition or perception, and finally also the law of causality, have immediate certainty. A proposition of indirect certainty is a maxim,¹ and that by means of which it obtains its certainty is the proof. If immediate certainty is attributed to a proposition which has no such certainty, this is a petitio principii. If a proposition has absolute universality [mediata imediatizada pelo <consenso>], the perception to which it appeals is not empirical but a priori.”
¹ Protótipo de “maximista” nas humanidades: La Rochefoucauld.
O Um será sempre atacado de mais de dois lados.
Cimento é duro mas demora a secar. Quanto mais concreto e granítico é o pensamento, mais cimentado a longo prazo ele é (demora mais a solidificar, permanece por mais tempo sem desgaste no uso comum dos homens).
MAS É LÓGICO!
Indução analítica
Dedução sintética
Expansão ao absurdo
Ab and 1 4 v1d4
Redução ao claro
Carbonoriginal
Realidade virtual
Sucção centrífuga
“Certainly the analytical method consists in referring what is given to an admitted principle; the synthetical method, on the contrary, in deduction fromsuch a principle.¹ [Lei, axioma, prova, máxima, princípio, prova, consenso, hipótese, a depender do grau de qualidade atingido pelo formulador da proposição, aferição variável no tempo. Contradições lógicas (erros grosseiros) se autorrefutam, sem necessidade de prova; ciências bem-estabelecidas, que já amealharam axiomas e técnicas seguras para o estabelecimento de uma série de provas, exigem o método analítico e condenam o método sintético. Por outro lado, nenhuma ciência se estabeleceu sem grandes riscos em seu início, porque grandes resultados e descobertas exigem afirmações com grau de certeza reduzido, cujo teste de validade pode demorar mais ou menos tempo, mas não é imediato.]. The analytical method proceeds from the facts; [from] the particular, to the principle or rule; [from] the universal, or from the consequents to the reasons; the other conversely [FÁBRICA DOS FATOS – mas discordo que a análise venha do particular para a regra, sendo o contrário! No início de uma ciência, uma impressão particular não é um fato. Ou seja, o particular que gera uma regra já não é um particular, mas um fato.]. Therefore it would be much more correct to call them the inductive and the deductive methods, for the customary names are unsuitable and do not fully express the things. [O mais irônico é que Sherlock Holmes – ou bons detetives! – não deduz, ou pelo menos não deveria: ele apenas induz (pelas pistas) para <resolver o caso>! Certamente homens como Licurgo e Jesus Cristo, a despeito do que todos pensam, foram caracteres dedutivos.]
[¹ A teoria tem de estar “pronta” ou a análise fracassará. Século XX in a nutshell? Para ser exitoso no método sintético, é preciso ser um Kant. Mas os cabeças-pequenas que abundam usarão pressupostos errados e deduzirão cegamente, em ambas as mãos errarão, indiscriminadamente, sem que haja “rota mais fácil” ou “caminho mais curto”. O Saussure, o Baudrillard de sua geração saberá aproveitar migalhas do pão dormido ou iniciar a refundação de algo no vazio. Seria perda de tempo se questionar binariamente sobre isso. Há quem consiga extrair 120% de 12%, há quem consiga anular qualquer fração ou centésimo! Há quem consiga alimentar e adornar o que já é rico e abundante, e quem enfeia, com bigodes de mau gosto, qualquer Mona Lisa finalizada. Há quem salve torres inclinadas e perdidas, com puxadinhos de gênio; e quem consiga até piorar rabiscos de crianças remelentas enfezadas…]
If a philosopher tries to begin by thinking out the methods in accordance with which he will philosophise, he is like a poet who first writes a system of æsthetics in order to poetise in accordance with it.Both of them may be compared to a man who first sings himself a tune and afterwards dances to it. The thinking mind must find its way from original tendency. Rule and application, method and achievement, must, like matter and form, be inseparable. But after we have reached the goal we may consider the path we have followed. Æsthetics and methodology are, from their nature, younger than poetry and philosophy; as grammar is younger than language, thorough bass [baixo contínuo] younger than music, and logic younger than thought.”Deus é o método e a estética antes da ciência e do belo. É a boca sábia que entoará todos os poemas da História… É Kant antes do lunático que se estrepa e cai no fosso… É um Newton (Oldton) precoce e bizarro que fala em aceleração antes de pomares, precipícios, e aliás, pecado original (A Queda)… É um metal extremo antes de Woodstock. Uma Madonna antes de da Vinci. Um filho do Átomo antes de Rutherford, Niels Bohr ou mesmo Demócrito! Sou eu descobrindo aos 17 anos que não deveria cursar Ciências Sociais, antes mesmo de pensar em desistir de Jornalismo… Enfim, se o Deus cristão ainda fosse honesto como os fundadores do credo, talvez decretasse Moratória. Mas, se seguirmos a lógica, deixaremos de ser homens antes de acabarmos como espécie…
SOBRE O FIM DA METAFÍSICA OCIDENTAL: É possível induzir que chegamos ao esgotamento das possibilidades do nosso sistema de pensamento lógico-filosófico; sem no entanto ter nenhuma resposta – dedutiva – para o problema… Vanguardas artísticas estão no limbo entre deduções e induções convenientes… Sentem na pele a mudança e o novo… Um grande <e se…> perfeitamente ajuizado… Se fosse preciso compará-los a empresários: são necessariamente aqueles que só querem apostar nas ações que provavelmente mais desvalorizariam… Um método pragmático deliberadamente invertido, muito diferente do caos e da contingência puros e simples… É como que absurdo <sonhar em> tornar-se um <inventor>, quando o <sonhar> não é só um sinônimo mais vago para algum forte tipo de indução inata…
Princípios sobre princípios sobre princípios até que se chegue a um fim, perchance.
Na verdade, a roda nunca foi inventada – desde que se o assuma inocentemente, é sempre possível (e necessário) reinventá-la sempre.
There is no such thing as wheel to live!
“That Latin has ceased to be the language of all scientific investigations has the disadvantage that there is no longer an immediately common scientific literature for the whole of Europe, but national literatures. And thus every scholar is primarily limited to a much smaller public, and moreover to a public hampered with national points of view and prejudices. Then he must now learn the 4 principal European languages, as well as the 2 ancient languages. In this it will be a great assistance to him that the termini technici of all sciences (with the exception of mineralogy) are, as an inheritance from our predecessors, Latin or Greek. (…) Only the Germans have hit upon the unfortunate idea of wishing to Germanise the termini technici of all the sciences. This has two great disadvantages. First, the foreign and also the German scholar is obliged to learn all the technical terms of his science twice, which, when there are many—for example, in Anatomy—is an incredibly tiresome and lengthy business. If the other nations were not in this respect wiser than the Germans, we would have the trouble of learning every terminus technicus 5 times. If the Germans carry this further, foreign men of learning will leave their books altogether unread; for besides this fault they are for the most part too diffuse, and are written in a careless, bad, and often affected and objectionable style, and besides are generally conceived with a rude disregard of the reader and his requirements.”
“What an ugly, harsh-sounding word, for instance, is Stickstoff instead of azot! Verbum, substantiv, adjectiv are remembered and distinguished more easily than Zeitwort, Nennwort, Beiwort, or even Umstandswort instead of adverbium. In Anatomy it is quite unsupportable, and moreover vulgar and low. Even Pulsader and Blutader are more exposed to momentary confusion than Arterie and Vene; but utterly bewildering are such expressions as Fruchthälter, Fruchtgang, and Fruchtleiter instead of uterus, vagina, and tuba Faloppii, which yet every doctor must know, and which he will find sufficient in all European languages. In the same way Speiche and Ellenbogenröhre instead of radius and ulna, which all Europe has understood for thousands of years. Wherefore then this clumsy, confusing, drawling, and awkward Germanising? Not less objectionable is the translation of the technical term in Logic, in which our gifted professors of philosophy are the creators of a new terminology, and almost every one of them has his own. With G.E. Schulze, for example, the subject is called Grundbegriff, the predicate Beilegungsbegriff; then there are Beilegungsschlüsse, Voraussetzungsschlüsse, and Entgegensetzungsschlüsse; the judgments have Grösse, Beschaffenheit, Verhältniss, and Zuverlässigkeit, i.e., quantity, quality, relation, and modality.” “Speisebrei instead of chime seems to refer to the food of little children, and Lungensack instead of pleura, and Herzbeutel instead of pericardium seem to have been invented by butchers rather than anatomists.”
“Besides this, the most immediate necessity of learning the ancient languages depends upon the old termini technici, and they are more and more in danger of being neglected through the use of living languages in learned investigations. But if it comes to this, if the spirit of the ancients bound up with their languages disappears from a liberal education, then coarseness, insipidity, and vulgarity will take possession of the whole of literature. For the works of the ancients are the pole-star of every artistic or literary effort; if it sets they are lost. Even now we can observe from the miserable and puerile style of most writers that they have never written Latin. A principal use of the study of the ancients is that it preserves us from verbosity; for the ancients always take pains to write concisely and pregnantly, and the error of almost all moderns is verbosity, which the most recent try to make up for by suppressing syllables and letters. Therefore we ought to pursue the study of the ancients all our life, although reducing the time devoted to it. The ancients knew that we ought not to write as we speak. The moderns, on the other hand, are not even ashamed to print lectures they have delivered. The study of the classical authors is very properly called the study of Humanity, for through it the student first becomes a man again, for he enters into the world which was still free from all the absurdities of the Middle Ages and of romanticism, which afterwards penetrated so deeply into mankind in Europe that even now every one comes into the world covered with it, and has first to strip it off simply to become a man again. Think not that your modern wisdom can ever supply the place of that initiation into manhood; ye are not, like the Greeks and Romans, born freemen, unfettered sons of nature. Ye are first the sons and heirs of the barbarous Middle Ages and of their madness, of infamous priestcraft, and of half-brutal, half-childish chivalry. Though both now gradually approach their end, yet ye cannot yet stand on your own feet. Without the school of the ancients your literature will degenerate into vulgar gossip and dull philistinism. Thus for all these reasons it is my well-intended counsel that an end be put at once to the Germanising mania condemned above.”
“instead of Untersuchung is written Untersuch, nay, even instead of allmälig, mälig; instead of beinahe, nahe; instead of beständig, ständig. If a Frenchman took upon himself to write près instead of presque, or if an Englishman wrote most instead of almost, they would be laughed at by every one as fools; but in Germany whoever does this sort of thing passes for a man of originality. Chemists already write löslich and unlöslich instead of unauflöslich, and if the grammarians do not rap them over the knuckles they will rob the language of a valuable word. Knots, shoe-strings, and also conglomerates of which the cement is softened, and all analogous things are löslich (can be loosed); but what is auflöslich (soluble), on the other hand, is whatever vanishes in a liquid, like salt in water. Auflösen (to dissolve) is the terminus ad hoc, which says this and nothing else, marking out a definite conception; but our acute improvers of the language wish to empty it into the general rinsing-pan lösen (to loosen); they would therefore in consistency be obliged to make lösen also take the place everywhere of ablösen (to relieve, used of guards), auslösen (to release), einlösen (to redeem), &c., and in these, as in the former case, deprive the language of definiteness of expression. But to make the language poorer by a word means to make the thought of the nation poorer by a conception. Yet this is the tendency of the united efforts of almost all our writers of books for the last 10 or 20 years. For what I have shown here by one example can be supported by 100 others, and the meanest stinting of syllables prevails like a disease. The miserable wretches actually count the letters, and do not hesitate to mutilate a word, or to use one in a false sense, whenever by doing so they can gain 2 letters. He who is capable of no new thoughts will at least bring new words to market, and every ink-slinger regards it as his vocation to improve the language. Journalists practise this most shamelessly; and since their papers, on account of the trivial nature of their contents, have the largest public, indeed a public which for the most part reads nothing else, a great danger threatens the language through them. I therefore seriously advise that they should be subjected to an orthographical censorship, or that they should be made to pay a fine for every unusual or mutilated word; for what could be more improper than that changes of language should proceed from the lowest branch of literature?Language, especially a relatively speaking original language like German, is the most valuable inheritance of a nation, and it is also an exceedingly complicated work of art, easily injured, and which cannot again be restored, therefore a noli me tangere.Other nations have felt this, and have shown great piety towards their languages, although far less complete than German. Therefore the language of Dante and Petrarch differs only in trifles from that of today; Montaigne is still quite readable, and so also is Shakespeare in his oldest editions. For a German indeed it is good to have somewhat long words in his mouth; for he thinks slowly, and they give him time to reflect. But this prevailing economy of language shows itself in yet more characteristic phenomena. For example, in opposition to all logic and grammar, they use the imperfect for the perfect and pluperfect; they often stick the auxiliary verb in their pocket; they use the ablative instead of the genitive; for the sake of omitting a couple of logical particles they make such intricate sentences that one has to read them 4 times over in order to get at the sense; for it is only the paper and not the reader’s time that they care to spare. In proper names, after the manner of Hottentots, they do not indicate the case either by inflection or article: the reader may guess it. But they are specially fond of contracting the double vowel and dropping the lengthening h, those letters sacred to prosody”
“Em vez de Untersuchung (pesquisa, estudo, investigação), passaram a escrever Untersuch.¹ Mais que isso: no lugar de allmälig, agora escrevem mälig.² No lugar de beinahe (quase), nahe (perto). Beständig (remanescente, constante), para essa gente, virou ständig (idem). Se um francês resolvesse escrever près (perto) em vez de presque (quase), ou um inglês most (mais) no lugar de almost (quase), seriam ambos alvo de riso. Mas na Alemanha quem faz essas coisas ganha reputação de autêntico e original. Os químicos já escrevem löslich e unlöslich no lugar de unauflöslich. Se continuar assim e os gramáticos não derem um nó nessa <galera de jaleco>, vamos continuar a perder valiosas palavras e distinções.³ Tudo que puder ser afrouxado será tratado pelo mesmo adjetivo (nó, cadarço, até o cimento, que pode ser amolecido ou solto). O que pode se dissolver, por outro lado, termo importado da ciência internacional, perderá a especificação técnica. Culpa dos nossos <enriquecedores> do Alemão! Através desse expediente nefando, não será estranho se lösen também tomar o lugar de ablösen (liberar, transferir, etc.), auslösen (causar, desencadear), einlösen (redimir, honrar), etc. A língua se tornará de uma uniformidade boçal e estéril. E, lembre-se, tornar o idioma mais pobre num termo pode não se resumir a <empobrecer o povo em uma palavra>, mas empobrecer o povo num conceito inteiro. Em outras palavras, privar às pessoas o entendimento do conceito. E, tão graves quanto são as perspectivas, é acelerado e certeiro este processo de desmonte e achatamento: de 10 ou 20 anos para cá parece haver uma união de esforços dos escritores neste sentido. Cada exemplo meu poderia levar a 100 outros casos. Essas restrições e supressões silábicas espalham-se como verdadeiras doenças. Os desgraçados da imprensa são capazes de contar as letras, e mutilam palavras sem pensar, isso quando não passam a empregar arbitrariamente uma palavra no lugar de outra, desde que com isso ganhem dois caracteres. Não é preciso ser capaz de pensar novos pensamentos a fim de produzir neologismos, inclusive. Todo balançador de caneta imagina em seu íntimo que contribui dessa forma com a cultura e se sente um raríssimo vocacionado. Jornalistas são os mais despudorados; e como seus jornais, por serem o cúmulo da trivialidade em conteúdo, são os campeões de audiência, e ainda por cima possuem leitores exclusivos, que nada mais lêem na vida além do próprio jornal, cria-se através de seus métodos a mais terrível ameaça à língua. Eu aconselho com sinceridade que se submetam todos estes sujeitos dotados de responsabilidade pública à CENSURA ORTOGRÁFICA, ou que pelo menos os veículos ou profissionais paguem uma taxa ou multa a cada palavra mutilada e fora de contexto. Nada mais descabido que as mudanças lingüísticas procedam dos escalões mais baixos da literatura. Uma língua, especialmente uma relativamente original em sua formação como foi a alemã, é a herança mais valiosa de uma nação; não só isso, mas é por assim dizer uma obra de arte exuberantemente complicada, e frágil, pois fácil de ser violentada, violência esta que é irretratável e irreversível, portanto uma entidade sagrada à qual se aplica o princípio do noli me tangere. Outras nações sentiram esse baque, mas demonstraram muito maior compaixão por suas línguas. O idioma de Dante e Petrarca difere em bagatelas do italiano moderno; Montaigne é ainda bastante legível em seu francês arcaico, assim como Shakespeare nas suas mais antigas edições.”
¹ No Português, uma mudança ortográfica vulgarizadora análoga poderia ser: de investigação, termo “erudito”, para investigada (coloquial).
² Ambos os termos não estão mais dicionarizados (caíram em desuso).
³ Hoje, com efeito, löslich possui apenas o significado químico (in)solúvel, ao passo que auflöslich caiu em desuso. Para comparar com uma mudança em Português correlata que suprima afixos e morfemas mas mantenha a palavra na mesma ordem simbólica, poderíamos citar indissolúvel e insolúvel, onde o -dis- é facultativo. Curiosamente, no Português a semântica de (dis)solver também guarda relação com o ato de (des)atar, que associamos imediatamente a cadarço ou nó; mas, no caso, usamos o primeiro apenas para operações abstratas (resolver, solucionar um problema; quando muito, podemos desatar um nó górdio, figura de linguagem).
“But since writing is the copy of speech, posterity will imagine that one ought to speak as one writes; and then of the German language there will only remain a narrow, mouth-distorting, jarring noise of consonants, and all prosody will be lost.”
“The spelling Literatur instead of the correct Litteratur is also very much liked, because it saves a letter. In defence of this the participle of the verb linere is given as the root of the word. But linere means to smear [difamar]; therefore the favoured spelling might actually be correct for the greater part of German bookmaking; so that one could distinguish a very small Litteratur from a very extensive Literatur.” !!!
“In order to write concisely let a man improve his style and shun all useless gossip and chatter, and then he will not need to cut out syllables and letters on account of the dearness of paper. But to write so many useless pages, useless sheets, useless books, and then to want to make up this waste of time and paper at the cost of the innocent syllables and letters—that is truly the superlative of what is called in English being penny wise and pound foolish.”
“A fim de se escrever com concisão um homem deve melhorar seu estilo e drenar toda fofoca e tagarelice, o que dispensará cortes de sílabas e letras em virtude do custo do papel. Mas escrever tantas páginas inúteis, tantos artigos inúteis, tantos livros inúteis, e depois querer compensar o desperdício de matéria e de tempo às custas de sílabas e letras inocentes – isso é que é o superlativo do que na língua inglesa chamam de <being penny wise and pound foolish>: avaro com centavos e ninharias, extremamente perdulário no que realmente importa e é o olho da cara.”
“It is to be regretted that there is no German Academy to take charge of the language against literary sans-culottism, [pedestrismo literário] especially in an age when even those who are ignorant of the ancient language venture to employ the press.”
“As in music every particular period must correspond to the tonality to which thorough bass has advanced, so every author, in proportion to the line he follows, must bear the stamp of the philosophy which prevails in his time. But besides this, every science has also its special philosophy; and therefore we speak of the philosophy of botany, of zoology, of history, &c. By this we must reasonably understand nothing more than the chief results of each science itself, regarded and comprehended from the highest, that is the most general, point of view which is possible within that science. These general results connect themselves directly with general philosophy, for they supply it with important data, and relieve it from the labour of seeking these itself in the philosophically raw material of the special sciences.”
“Goethe has afforded a beautiful example of the philosophy of zoology in his reflections on Dalton’s and Pander’s skeletons of rodents (Hefte zur Morphologie, 1824).”
FREUDÉDIPO: “Empirical sciences pursued purely for their own sake and without philosophical tendency are like a face without eyes. They are, however, a suitable occupation for men of good capacity who yet lack the highest faculties, which would even be a hindrance to minute investigations of such a kind.”
GERENTE-GERAL DA FIRMA: “the philosopher must survey all fields of knowledge, and indeed to a certain extent be at home in them; and thus that complete knowledge which can only be attained by the study of detail is necessarily denied him.” “the philosopher may be compared to the conductor, who must know the nature and use of every instrument, yet without being able to play them all, or even one of them, with great perfection.”
O ESPETÁCULO DA BOMBA DE AR: O especialista é como Penélope semi-viúva à espera, que cose só para descoser. Tanto faz seus dias, o que importa é Odisseu. Ele irá ligar os pontos e dar utilidade ao trabalho da carne, ao alfinete e ao vestido.
ESFERA, CÍRCULO E CONSCIÊNCIA
“It surprises me that the 8th axiom is not rather attacked. <Figures which coincide with each other are equal to each other.>¹ For <coinciding with each other> is either a mere tautology or something purely empirical which does not belong to pure perception but to external sensuous experience. It presupposes that the figures may be moved; but only matter is movable in space. Therefore this appeal to coincidence leaves pure space—the one element of geometry—in order to pass over to what is material and empirical.
[¹ Refere-se aos Elementos de Euclides: de fato, ele não se expressou muito bem neste caso. Não se deve buscar erros metafísicos nisso, apenas ignorá-lo.]
The reputed motto of the Platonic lecture-room, of which mathematicians are so proud, was no doubt inspired by the fact that Plato regarded the geometrical figures as intermediate existences between the eternal Ideas and particular things, as Aristotle frequently mentions in his Metaphysics. Moreover, the opposition between those self-existent eternal forms, or Ideas, and the transitory individual things, was most easily made comprehensible in geometrical figures, and thereby laid the foundation of the doctrine of Ideas, which is the central point of the philosophy of Plato, and indeed his only serious and decided theoretical dogma.”Os dois últimos itálicos e o último negrito são as malversações ideais (a Idéia de malversação!) da “doutrina” platônica! Lembremos que Aristóteles não compreendeu Platão, então qualquer crítica à Idéia na Metafísica deve ser absolutamente olvidada.
“In expounding it, therefore, he started from geometry. [Ele começou a vida com outros estudos prévios à filosofia, e entendeu que seus discípulos, ou os filósofos d’A República, também o deveriam, para não cometer o tipo de erro metafísico dos jovens…]In the same sense we are told that he regarded geometry as a preliminary exercise through which the mind of the pupil accustomed itself to deal with incorporeal objects, having hitherto in practical life had only to do with corporeal things.” Porém, círculos imaginados ou desenhos no papel tem muito mais a ver com rodas e távolas perfeitamente redondas que com a Idéia do círculo.
“This, then, is the sense in which Plato recommended geometry to the philosopher; and therefore one is not justified in extending it further.¹ I rather recommend, as an investigation of the influence of mathematics upon our mental powers, and their value for scientific culture in general, a very thorough and learned discussion, in the form ofa review of a book by Whewell in the Edinburgh Review of January 1836.²”
¹ Estudar os princípios da geometria, mas não se tornar um geômetra nem dedicar sua vida a especializar-se seriamente na área.
O Whewell acima ninguém mais é que o professor de lógica e matemática escocês W. Hammilton: “The conclusion the author arrives at is that the value of mathematics is only indirect, and lies in the application to ends which are only attainable through them; but in themselves mathematics leave the mind where they find it, and are by no means conducive to its general culture and development, nay, even a decided hindrance. This conclusion is not only proved by thorough dianoiological investigation¹ of the mathematical activity of the mind, but is also confirmed by a very learned accumulation of examples and authorities. The only direct use which is left to mathematics is that it can accustom restless and unsteady minds to fix their attention. Even Descartes, who was yet himself famous as a mathematician, held the same opinion with regard to mathematics.”
¹ Regras da arte de pensar
“But the impossibility of the appearance of a thought without its sufficient occasion, even when there is the strongest desire to call it up, is proved by all the cases in which we weary ourselves in vain to recollect something, and go through the whole store of our thoughts in order to find any one that may be associated with the one we seek”
“If we have read in a book of anecdotes, say, 50 anecdotes, and then have laid it aside, immediately afterwards we will sometimes be unable to recollect a single one of them. But if the occasion comes, or if a thought occurs to us which has any analogy with one of those anecdotes, it immediately comes back to us; and so with the whole 50 as opportunity offers. The same thing holds good of all that we read. Our immediate remembrance of words, that is, our remembrance of them without the assistance of mnemonic contrivances, and with it our whole faculty of speech, ultimately depends upon the direct association of thoughts. For the learning of language consists in this, that once for all we so connect a conception with a word that this word will always occur to us along with this conception, and this conception will always occur to us along with this word.”
“We have afterwards to repeat the same process in learning every new language; yet if we learn a language for passive and not for active use—that is, to read, but not to speak, as, for example, most of us learn Greek—then the connection is one-sided, for the conception occurs to us along with the word, but the word does not always occur to us along with the conception. The same procedure as in language becomes apparent in the particular case, in the learning of every new proper name. But sometimes we do not trust ourselves to connect directly the name of this person, or town, river, mountain, plant, animal, &c., with the thought of each so firmly that it will call each of them up of itself; and then we assist ourselves mnemonically, and connect the image of the person or thing with any perceptible quality the name of which occurs in that of the person or thing. Yet this is only a temporary prop to lean on; later we let it drop, for the association of thoughts becomes an immediate support.”
“The search of memory for a clue shows itself in a peculiar manner in the case of a dream which we have forgotten on awaking, for in this case we seek in vain for that which a few minutes before occupied our minds with the strength of the clearest present, but now has entirely disappeared.”
O PROBLEMA DE DAR AULAS OU FALAR EM UMA CONFERÊNCIA: “It depends upon the same impossibility of the appearance of a thought without its occasion that if we propose to do anything at a definite time, this can only take place if we either think of nothing else till then, or if at the determined time we are reminded of it by something, which may either be an external impression arranged beforehand [que tal uma simples anotação?] or a thought which is itself again brought about in the regular way.”
“Every morning when we awake our consciousness is a tabula rasa, which, however, quickly fills itself again. (…) till all that occupied us yesterday is there again.”
“sometimes we cannot recall in the morning a melody which the night before ran in our head till we were tired of it.” But sometimes it’s the opposite: we wake up listening in our heads to a melody that we are pretty sure we haven’t heard for months!
“The whole process of our thought and purpose seldom lies on the surface, that is, consists in a combination of distinctly thought judgments; although we strive against this in order that we may be able to explain our thought to ourselves and others. But ordinarily it is in the obscure depths of the mind that the rumination of the materials received from without takes place, through which they are worked up into thoughts; and it goes on almost as unconsciously as the conversion of nourishment into the humours and substance of the body.Hence it is that we can often give no account of the origin of our deepest thoughts. They are the birth of our mysterious inner life. Judgments, thoughts, purposes, rise from out that deep unexpectedly and to our own surprise. A letter brings us unlooked-for and important news, in consequence of which our thoughts and motives are disordered; we get rid of the matter for the present, and think no more about it; but next day, or on the third or fourth day after, the whole situation sometimes stands distinctly before us, with what we have to do in the circumstances.Consciousness is the mere surface of our mind, of which, as of the earth, we do not know the inside, but only the crust.”
“Our self-consciousness has not space but only time as its form, and therefore we do not think in 3 dimensions, as we perceive, but only in one, thus in a line, without breadth or depth. This is the source of the greatest of the essential imperfections of our intellect.” Alguém que não durma (K.) é alguém cuja linha reta do raciocínio e da consciência se tornou uma forca (uma corda que se torce sobre si mesma e asfixia nossa própria consciência).
“In respect of this quality our intellect may be compared to a telescope with a very narrow field of vision; just because our consciousness is not stationary but fleeting.” “The thought which is vividly present to me now must after a little while have escaped me altogether; and if a good night’s sleep intervene, it may be that I shall never find it again, unless it is connected with my personal interests, that is, with my will”
“through long-continued reflection upon one subject our thinking also is gradually confused, becomes dull, and ends in complete stupor. Therefore after a certain time, which varies with the individual, we must for the present give up every meditation or deliberation which has had the fortune to remain undisturbed, but yet has not been brought to an end, even if it concerns a matter which is most important and pertinent to us; and we must dismiss from our consciousness the subject which interests us so much, however heavily our anxiety about it may weigh upon us, in order to occupy ourselves now with insignificant and indifferent things.” “If now we resume it again at another time, we approach it like a new thing, with which we become acquainted anew, although more quickly, and the agreeable or disagreeable impression of it is also produced anew upon our will.” “the same thing appears to us at different times, in the morning, in the evening, at mid-day, or on another day, often very different”
“while we are occupied with plans which are great and general, we have to contend with the most trifling details and the cares of the moment. (…) In general, theoretical occupations of the mind unfit us for practical affairs, and vice versa.”
“But what is to be expected of heads of which even the wisest is every night the scene of the strangest and most senseless dreams, and which has to take up its meditations again on awakening from these?” “Indeed it is really wonderful that we are not completely confused by the very heterogeneous mixture of ideas and fragments of thought of every kind which are constantly crossing each other in our minds, but are yet always able to see our way again and make everything agree together.” “at bottom it is the will that is spoken of whenever <I> appears in a judgment.”
“Accordingly the knowledge even of the learned man exists only virtualiter as an acquired facility in calling up certain ideas; actualiter, on the other hand, it also is confined to one idea, and is only conscious of this one at a time.”
“With a small quantity, but of good quality, one achieves more than with a very large quantity of bad quality.” Vide Abbé Faria!
“Of most common occurrence is the falsifying of knowledge which is brought about by wishes and hopes, for they picture to us the scarcely possible as probable and well nigh certain, and make us almost incapable of comprehending what is opposed to it”
“How little of all that we have done, experienced, learnt, or read, can we recall!”
“the unconsciousness of plants still remains the foundation, and may be traced in the necessity for sleep”
“The perfections possible to intellect are so opposed that they exclude each other. Therefore no man can be at once Plato and Aristotle, or Shakespeare and Newton, or Kant and Goethe.” “a decidedly excelling intellect, even in one respect alone, is among the rarest of natural phenomena. Therefore the productions of such an intellect are preserved through thousands of years, indeed every relic of such a highly favoured individual becomes a most valuable treasure.”
“The remoteness of the consequents and reasons to which any one’s thought can extend seems to stand in a certain relation to the rapidity of his thinking” “Probably the slow and lasting thought makes the mathematical mind, while rapidity of thought makes the genius.”
“We can detect this quality of the whole thought as soon as we have read only a few pages of an author. (…) In this we feel at once the pace, the flexibleness and lightness, even indeed the soaring power of his mind; or, on the contrary, its dulness, formality, lameness and leaden quality. For, as language is the expression of the mind of a nation, style is the more immediate expression of the mind of an author than even his physiognomy. We throw a book aside when we observe that in it we enter an obscurer region than our own, unless we have to learn from it mere facts, not thoughts.”
Sobre os jargões de cada campo: “This immense satisfaction in words is thoroughly characteristic of inferior minds.” “the secret consciousness of this, which in the case of scholars is bound up with the early learnt and hard necessity of passing themselves off as thinking beings, to meet which demand in all cases they keep such a suitable store of ready-made words. It must really be amusing to see a professor of philosophy of this kind in the chair, who bona fide delivers such a juggle of words destitute of thoughts, quite sincerely, under the delusion that they are really thoughts, and in front of him the students, who just as bona fide, i.e., under the same delusion, listen attentively and take notes, while yet in reality neither the one nor the other goes beyond the words, but rather these words themselves, together with the audible scratching of pens, are the only realities in the whole matter.” Oh, Ed.!
“For, relying on the words and phrases received from his predecessors, each one confidently passes over obscurities and problems, and thus these are propagated through centuries from book to book; and the thinking man, especially in youth, is in doubt whether it may be that he is incapable of understanding it, or that there is really nothing here to understand” “Many truths remain undiscovered simply on this account, that no one has the courage to look the problem in the face and grapple with it.”
“But we ought to know that inferior minds are the rule, good minds the exception, eminent minds very rare, and genius a portent. How otherwise could a human race consisting of about 800,000,000 individuals¹ have left so much after 6,000 years to discover, to invent, to think out, and to say?”
¹ O que Schopenhauer quer dizer? Seria a população do mundo civilizado em sua época ou alguma outra soma? Encontrei 1.2bi para a população mundial de 1850. Talvez os números a sua disposição fossem diferentes. Para a população de 6 mil anos atrás, me parece absurdamente alta! Numa rápida busca entrei só 11 milhões como um chute.
“those who stand very high in the one scale of rank and in the other have this in common, that for the most part they live in exalted isolation, to which Byron refers when he says:—
To feel me in the solitude of kings
Without the power that makes them bear a crown.
—Proph. of Dante, c. I.”
QUANTAS BOAS ALEGORIAS, SR. SCHOPENHAUER!“when the degree of culture is about the same, the conversation between a man of great intellect and an ordinary man is like the journey together of 2 men, one of whom rides on a spirited horse and the other goes on foot. It soon becomes very trying to both of them, and for any length of time impossible. For a short way the rider can indeed dismount, in order to walk with the other, though even then the impatience of his horse will give him much to do.” L****, o <faça-uma-especialização-agora-mesmo!>
“It [the canaille] would no longer seize always what is newest, in the childish delusion that books, like eggs, must be enjoyed while they are fresh, but would confine itself to the works of the few select and chosen minds of all ages and nations, would strive to learn to know and understand them, and might thus by degrees attain to true culture.”
* * *
“When this striving after a painless existence, so far as it is attainable by the application of rational reflection and knowledge of nature of life, was carried out with the greatest consistency and to the last extreme, it produced cynicism, from which stoicism proceeded.”
“All ancient moral systems, with the single exception of that of Plato, were guides to a happy life. Accordingly in them [but including Plato, that’s the irony] the end of virtue was entirely in this life, not beyond death.”
Aquele que nasce rico sentiria muito desprazer ao levar uma vida de Diógenes; sendo assim, o ideal é manter o mesmo nível de necessidades materiais existentes na vida ao se tornar pela primeira vez filósofo. Uma vida tolerante de classe média. Com vida tolerante quer-se dizer: aceitar a conseqüência da fortuna, sem procurá-la mais que na manutenção do nível corrente dos bens. Um funcionário público moderado, de baixo escalão, de ensino superior. Ganhar na loteria, receber heranças ou ter arrocho salarial, cortes na renda devidos a circunstâncias externas como crise econômica ou obrigação de sustento de outrem, tudo isso não deve ser procurado mas também não deve ser evitado caso bata à porta, e a tudo isso deve-se submeter resignado e tranqüilo.
“Therefore the old, genuine Cynics, Antisthenes, Diogenes, Krates, and their disciples had once for all renounced every possession, all conveniences and pleasures, in order to escape forever from the troubles and cares, the dependence and the pains, which are inevitably bound up with them and are not counterbalanced by them.”
HOJE, APENAS DOR DE ESTÔMAGO: “Accordingly they contented themselves with what in Athens or Corinth was to be had almost for nothing, such as lupines [legumes], water, an old threadbare cloak, a wallet, and a staff. They begged occasionally, as far as was necessary to supply such wants, but they never worked. Yet they accepted absolutely nothing that exceeded the wants referred to above. (…) They occupied their time in resting, going about, talking with all men, and much mocking, laughing, and joking; their characteristic was carelessness and great cheerfulness.” “Thus in this, as in so many other respects, they show a great likeness to the mendicant friars of modern times, that is, to the better and more genuine among them, whose ideal may be seen in the Capucine Christoforo in Manzoni’s famous romance.” “With the friars, as with the Sannyâsis, who are akin to them, it is an aim which transcends life; but with the Cynics it is only the conviction that it is easier to reduce their wishes and their wants to the minimum, than to attain to the maximum in their satisfaction, which indeed is impossible, for with their satisfaction the wishes and wants grow ad infinitum”
“The fundamental difference between the spirit of cynicism and that of asceticism comes out very clearly in the humility which is essential to the ascetic, but is so foreign to the Cynic that, on the contrary, he is distinguished beyond everything else for pride and scorn”
“Now the Stoics proceeded from them in this way—they changed the practical into the theoretical.” “Nay more, he who must actually dispense with these things in order not to be moved by them, thereby shows that in his heart he holds them to be truly good things, which one must put quite out of sight if one is not to long after them.” E o verdadeiro “excluir das vistas” é ter sempre consigo, porém a ponto de esquecermo-nos que temos.
“Epictetus, chap. vii., says that the wise man, like one who has landed from a ship, &c., will also let himself be comforted by a wife or a child, but yet will always be ready, whenever the captain calls, to let them go again. Thus the Stoics perfected the theory of equanimity and independence at the cost of the practice, for they reduced everything to a mental process, and by arguments, such as are presented in the first chapter of Epictetus, sophisticated themselves into all the amenities of life. [INFELIZMENTE PRECISAMOS DE AUDIOVISUAIS E INTERNET:] But in doing so they left out of account that everything to which one is accustomed becomes a need, and therefore can only be given up with pain; that the will does not allow itself to be played with, cannot enjoy without loving the pleasures; that a dog does not remain indifferent if one draws a piece of meat through its mouth, and neither does a wise man if he is hungry; and that there is no middle path between desiring and renouncing. (…) they were therefore mere braggarts, and stand to the Cynics in much the same relation as well-fed Benedictines and Augustines stand to Franciscans and Capucines.”
“Whence it follows that the Stoical morality is only a special form of Eudæmonism.”
* * *
“Consider, for example, the Koran. This wretched book was sufficient to found a religion of the world, to satisfy the metaphysical need of innumerable millions of men for 1200 years, to become the foundation of their morality, and of no small contempt for death, and also to inspire them to bloody wars and most extended conquests. We find in it the saddest and the poorest form of Theism.Much may be lost through the translations; but I have not been able to discover one single valuable thought in it.Such things show that metaphysical capacity does not go hand in hand with the metaphysical need.”
“Thus originated in the primitive ancestors of the Brahmans, the Rishis, the almost super-human conceptions which were afterwards set down in the Upanishads of the Vedas.”
“By the Greeks they were called Sophists, by the moderns they are called Professors of Philosophy. Aristotle without hesitation numbers Aristippus among the Sophists. In Diogenes Laertius (ii. 65) we find that the reason of this is that he was the first of the Socratics who accepted payment for his philosophy; on account of which Socrates also returned him his present. Among the moderns also those who live BY philosophy are not only, as a rule, and with the rarest exceptions, quite different from those who live FOR philosophy, but they are very often the opponents, the secret and irreconcilable enemies of the latter.”
“Hence many a great man has had to drag himself wearily through life unknown, unhonoured, unrewarded, till at last, after his death, the world became undeceived as to him and as to them [the professors] (…) But if he is dead, then the thing is reversed; the new generation of the former class, which always exists, now becomes heir to his achievements, cuts them down to its own measure, and now lives BY him. That Kant could yet live both BY and FOR philosophy depended on the rare circumstance that, for the first time since Divus Antoninus and Divus Julianus, a philosopher sat on the throne. Only under such auspices could the Critique of Pure Reason have seen the light. Scarcely was the king dead than we see that Kant also, seized with fear, because he belonged to the guild, modified, expurgated, and spoiled his masterpiece in the 2nd edition, and yet was soon in danger of losing his place; so that Campe invited him to come to him, in Brunswick, and live with him as the instructor of his family”
“How should a religion require the suffrage of a philosophy? It has everything upon its side—revelation, tradition, miracles, prophecies, the protection of the government, the highest rank, as is due to the truth, the consent and reverence of all, a thousand temples in which it is proclaimed and practised, bands of sworn priests, and, what is more than all, the invaluable privilege of being allowed to imprint its doctrines on the mind at the tender age of childhood, whereby they became almost like innate ideas.”
VERDADE E FÉ: “It would be most beneficial to both kinds of metaphysics that each of them should remain clearly separated from the other and confine itself to its own province, that it may there be able to develop its nature fully. Instead of which, through the whole Christian era, the endeavour has been to bring about a fusion of the two, for the dogmas and conceptions of the one have been carried over into the other, whereby both are spoiled.”
“that strange hermaphrodite or centaur, the so-called philosophy of religion, which, as a kind of gnosis, endeavours to interpret the given religion, and to explain what is true sensu allegorico through something which is true sensu proprio. But for this we would have to know and possess the truth sensu proprio already; and in that case such an interpretation would be superfluous.”
“And to require that a great mind—a Shakespeare; a Goethe—should make the dogmas of any religion implicitly, bona fide et sensu proprio, his conviction is to require that a giant should put on the shoe of a dwarf.”
“It almost seems that, as the oldest languages are the most perfect, so also are the oldest religions. If I were to take the results of my philosophy as the standard of truth, I would be obliged to concede to Buddhism the preeminence over the rest.”“For up till 1818, when my work appeared, there were very few, exceedingly incomplete and scanty, accounts of Buddhism to be found in Europe, which were almost entirely limited to a few essays in the earlier volumes of Asiatic Researches, and were principally concerned with the Buddhism of the Burmese. Only since then has fuller information about this religion gradually reached us, chiefly through the profound and instructive essays of the meritorious member of the St. Petersburg Academy, J.J. Schmidt, in the proceedings of his Academy, and then little by little through several English and French scholars, so that I was able to give a fairly numerous list of the best works on this religion in my work, Über den Willen in der Natur, under the heading Sinologie. Unfortunately Csoma Körösi,¹ that persevering Hungarian, who, in order to study the language and sacred writings of Buddhism, spent many years in Tibet, and for the most part in Buddhist monasteries, was carried off by death just as he was beginning to work out for us the results of his researches.”
Analysis of the Dulva, part of the Kangyur, Asiatic Researches, Calcutta, 1836, vol. 20-1, pp. 41-93;
A Grammar of the Tibetan Language in English. Prepared under the patronage of the Government and the auspices of the Asiatic Society of Bengal, Calcutta: Baptist Mission Press, 1834;
Collected works of Alexander Csoma de Körös, Budapest: Akadémiai Kiadó, 1984.
“I cannot place, as is always done, the fundamental difference of all religions in the question whether they are monotheistic, polytheistic, pantheistic, or atheistic, but only in the question whether they are optimistic or pessimistic, that is, whether they present the existence of the world as justified by itself, and therefore praise and value it, or regard it as something that can only be conceived as the consequence of our guilt, and therefore properly ought not to be, because they recognise that pain and death cannot lie in the eternal, original, and immutable order of things, in that which in every respect ought to be. The power by virtue of which Christianity was able to overcome first Judaism, and then the heathenism of Greece and Rome, lies solely in its pessimism, in the confession that our state is both exceedingly wretched and sinful, while Judaism and heathenism were optimistic.”
#TítulosdeLivros
É O MUNDO BOM?
DO ERRO PROVISÓRIO OU METAFÍSICA DA INVEJA
A única a existir. Produzida pelo desacordo, temporário, de menor ou maior duração, entre nosso corpo e uma nova maneira de pensar que adquirimos com a idade, i.e., no nosso devir: não o por que existimos ou não deveríamos existir? mas algo totalmente mais simplório e cabível, menos melodramático: por que esta é minha vida, e não a do que trabalha somente porque quer, do que não trabalha porque não precisa, ou do que tem um emprego em que se auto-realiza? Do que possui a mulher mais bela e condizente com seu temperamento, etc.? Porque no fundo esta é a única questão metafísica, que não pode ser resolvida, a menos que esse desacordo alma-corpo, FALSO, finalmente passe, de alguma forma. Eu só posso ser eu, e não aceitaria ser outra coisa. Na saúde ou na doença, minha saúde e minha doença, em minhas restrições, em minha miopia literal, que o vulgo não consegue suportar ou preferiria qualquer coisa a ter de hospedar… Só a pergunta: por que eles são tão tolos? faz algum sentido, provisório. O avesso por que não correspondo às expectativas deles? é tão absurdo quanto qualquer credo espírita ou imaginar-me fora do meu próprio corpo: este, único mundo, sou eu. Uma férdade, fusão última de verdade e fé. Porque não existe, nem nas leis materiais, algo diferente do que aquilo a que me dedico e aquilo que sofro. Acostumar-se a isso é tautologia e jogo de palavras.
“But because in the case of thought the inexplicable appears most immediately, a spring was at once made here from physics to metaphysics, and a substance of quite a different kind from all corporeal substances was hypostatised—a soul was set up in the brain. But if one had not been so dull as only to be capable of being struck by the most remarkable of phenomena, one would have had to explain digestion by a soul in the stomach, vegetation by a soul in the plant, affinity by a soul in the reagents, nay, the falling of a stone by a soul in the stone.” “From Leucippus, Democritus, and Epicurus down to the Système de la Nature, and further, to Delamark, Cabanis, and to the materialism that has again been warmed up in the last few years, we can trace the persistent attempt to set up a system of physics without metaphysics, that is, a system which would make the phenomenon the thing in itself.”
“The height to which in our time the natural sciences have risen in this respect entirely throws into the shade all previous centuries, and is a summit which mankind reaches for the first time. But however great are the advances which physics (understood in the wide sense of the ancients) may make, not the smallest step towards metaphysics is thereby taken, just as a plane can never obtain cubical content by being indefinitely extended.(…) Nay, even if one wandered through all the planets and fixed stars, one would thereby have made no step in metaphysics. It is rather the case that the greatest advances of physics will make the need of metaphysics ever more felt” “One finds oneself tempted to call that over-microscopical and micrological investigator of nature the cotquean [matrona] of nature.”
“Mathematics can leave perception altogether, and, as is especially the case in algebra, trigonometry, and analysis, can operate with purely abstract conceptions, nay, with conceptions which are represented only by signs instead of words, and can yet arrive at a perfectly certain result, which is still so remote that any one who adhered to the firm ground of perception could not arrive at it. But the possibility of this depends, as Kant has clearly shown, on the fact that the conceptions of mathematics are derived from the most certain and definite of all perceptions, from the a priori and yet intuitively known relations of quantity, and can therefore be constantly realized again and controlled by these, either arithmetically, by performing the calculations which are merely indicated by those signs, or geometrically, by means of what Kant calls the construction of the conceptions. This advantage, on the other hand, is not possessed by the conceptions out of which it was believed metaphysics could be built up; such, for example, as essence, being, substance, perfection, necessity, reality, finite, infinite, absolute, ground, &c. For such conceptions are by no means original, as fallen from heaven, or innate; but they also, like all conceptions, are derived from perceptions; and as, unlike the conceptions of mathematics, they do not contain the mere form of perception, but more, empirical perceptions must lie at their foundation.”
O ANTI-HEGEL: “the oft-repeated doctrine of the progressive development of man to an ever higher perfection, or in general of any kind of becoming by means of the process of the world is opposed to the a priori knowledge that at any point of time an infinite time has already run its course, and consequently all that is supposed to come with time would necessarily have already existed; existed;and in this way an interminable list might be given of the contradictions of dogmatic assumptions with the given reality of things. On the other hand, I must deny that any doctrine of my philosophy could fairly be added to such a list, because each of them has been thought out in the presence of the perceived reality, and none of them has its root in abstract conceptions alone. There is yet in it a fundamental thought which is applied to all the phenomena of the world as their key; but it proves itself to be the right alphabet at the application of which all words and sentences have sense and significance. [!] (…) Therefore, so far, it is like a sum that comes out right, yet by no means in the sense that it leaves no problem over to solve, no possible question unanswered. To assert anything of that sort would be a presumptuous denial of the limits of human knowledge in general. Whatever torch we may kindle, and whatever space it may light, our horizon will always remain bounded by profound night. For the ultimate solution of the riddle of the world must necessarily be concerned with the things in themselves, no longer with the phenomena.”
“For where has there ever been true freedom of thought? It has been vaunted sufficiently; but whenever it wishes to go further than perhaps to differ about the subordinate dogmas of the religion of the country, a holy shudder seizes the prophets of tolerance, and they say: <Not a step further!>What progress of metaphysics was possible under such oppression?” “in metaphysics the ancients are still our teachers.”
“Consider to what a pitch the arrogance of the priesthood of every religion would rise if the belief in their doctrines was as firm and blind as they really wish. Look back also at the wars, disturbances, rebellions, and revolutions in Europe from the 8th to the 18th century; how few will be found that have not had as their essence, or their pretext, some controversy about beliefs, thus a metaphysical problem, which became the occasion of exciting nations against each other. (…) I wish I had an authentic list of all crimes which Christianity has really prevented, and all good deeds it has really performed, that I might be able to place them in the other scale of the balance.” “Philosophy is essentially world-wisdom: its problem is the world. It has to do with this alone, and leaves the gods in peace—expects, however, in return, to be left in peace by them.”
SUPLEMENTOS AO SEGUNDO TOMO
“This is perhaps the simplest and most comprehensible way of disclosing the deep gulf between the ideal and the real. This belongs to the things of which, like the motion of the earth, we are not directly conscious; therefore the ancients did not observe it, just as they did not observe the motion of the earth.”
“In truth, on the contrary, a subjective and an objective existence, a being for self and a being for others, a consciousness of one’s own self, and a consciousness of other things, is given us directly, and the two are given in such a fundamentally different manner that no other difference can compare with this. About himself every one knows directly, about all others only very indirectly. This is the fact and the problem.” “Thinking has primarily only a relation to perceiving, but perception has a relation to the real being of what is perceived, and this last is the great problem with which we are here concerned.”
“It may be said one can see how important the choice of expressions in philosophy is from the fact that that inept expression condemned above [Idea] and the misunderstanding which arose from it became the foundation of the whole Hegelian pseudo-philosophy, which has occupied the German public for 25 years.”
“the perceived object must be something in itself, and not merely something for others.” “an identity of the ideal and the real might always be affirmed; only, after Kant, this would not be saying anything new. (…) The real side must be something toto genere different from the world as idea”
LEI DE EQUIVALÊNCIA
Só sei que nada sei = Não sei que tudo sei
“For even in self-consciousness the I is not absolutely simple, but consists of a knower, the intellect, and a known, the will.”
“there still remains the form of time, and that of being known and knowing in general. Accordingly in this inner knowledge the thing in itself has indeed in great measure thrown off its veil, but still does not yet appear quite naked. In consequence of the form of time which still adheres to it, every one knows his will only in its successive acts, and not as a whole, in and for itself: therefore no one knows his charactera priori, but only learns it through experience and always incompletely.”
“Thus in this sense I teach that the inner nature of everything is will, and I call will the thing in itself. Kant’s doctrine of the unknowableness of the thing in itself is hereby modified to this extent, that the thing in itself is only not absolutely and from the very foundation knowable, that yet by far the most immediate of its phenomena, which by this immediateness is toto genere distinguished from all the rest, represents it for us”
“what that will ultimately is in itself? (…) This question can never be answered”
“That conception [a existência da alma] must therefore appear no more in philosophy, but may be left to German doctors and physiologists, who, after they have laid aside scalpel and spattle, amuse themselves by philosophising with the conceptions they received when they were confirmed. They might certainly try their luck in England. The French physiologists and zootomists have (till lately) kept themselves free from that reproach.”
* * *
“Voluntas est quippe in omnibus, imo omnes nihil aliud, quam voluntates sunt: nam quid est cupiditas et lætitia, nisi voluntas in eorum consensionem, quæ volumus? et quid est metus atque tristitia, nisi voluntas in dissensionem ab his, quæ nolumus? cet.” Agost.
AS DUAS METADES DA LARANJA CHAMADA VONTADE: “We may also regard the plant as a like symbol of consciousness. It has, we know, 2 poles, the root and the corona: the former struggling into darkness, moisture, and cold, the latter into light, dryness, and warmth; then, as the point of indifference of the two poles, where they part asunder, close to the ground, the collum (rhizoma, le collet). The root is what is essential, original, perennial, the death of which involves that of the corona, is thus the primary; [corpo humano, espécie humana] the corona, on the other hand, is the ostensible, but it has sprung from something else, and it passes away without the root dying; it is thus secondary. [intelecto, indivíduo]”
“As a large corona commonly springs only from a large root, so the greatest intellectual capabilities are only found in connection with a vehement and passionate will. A genius of a phlegmatic character [indiferente ou apático, carregando dois sentidos antitéticos] and weak passions would resemble those succulent plants that, with a considerable corona consisting of thick leaves, have very small roots; will not, however, be found.”
“an energetic pulse, and even, according to Bichat, a short neck, is a requisite of great activity of the brain.” Ou você só cria homens-bomba! “But the opposite of the above certainly occurs: vehement desires, passionate, violent character, along with weak intellect, i.e., a small brain of bad conformation in a thick skull. This is a phenomenon as common as it is repulsive: we might perhaps compare it to beetroot [beterraba].”
“The gulf which lies between a very sagacious brute and a man of very limited capacity is perhaps not much greater than that which exists between a blockhead and a man of genius; therefore here also the resemblance between them in another aspect, which springs from the likeness of their inclinations and emotions, and assimilates them again to each other, sometimes appears with surprising prominence, and excites astonishment.”
“On account of the simplicity which belongs to the will as the thing in itself, the metaphysical in the phenomenon, its nature admits of no degrees, but is always completely itself. Only its excitement has degrees, from the weakest inclination to the passion, and also its susceptibility to excitement, thus its vehemence from the phlegmatic to the choleric temperament. The intellect, on the other hand, has not merely degrees of excitement, from sleepiness to being in the vein, and inspiration, but also degrees of its nature, of the completeness of this, which accordingly rises gradually from the lowest animals, which can only obscurely apprehend, up to man, and here again from the fool to the genius.”
CIRCUNSTÂNCIA X CONSTÂNCIA, CARÁTER X APARÊNCIA, ESSÊNCIA X SUPERFÍCIE, DOR E PRAZER CONTRA O INCONSCIENTE OU GÊNIO PESSOAL
“If, for example, alone with ourselves, we think over our personal circumstances, and now perhaps vividly present to ourselves the menace of an actually present danger and the possibility of an unfortunate issue, anxiety at once compresses the heart, and the blood ceases to circulate in the veins. But if then the intellect passes to the possibility of an opposite issue, and lets the imagination picture the long hoped for happiness thereby attained, all the pulses quicken at once with joy and the heart feels light as a feather, till the intellect awakes from its dream. Thereupon, suppose that an occasion should lead the memory to an insult or injury once suffered long ago, at once anger and bitterness pour into the breast that was but now at peace. But then arises, called up by accident, the image of a long-lost love, with which the whole romance and its magic scenes is connected; then that anger will at once give place to profound longing and sadness. Finally, if there occurs to us some former humiliating incident, we shrink together, would like to sink out of sight, blush with shame, and often try forcibly to distract and divert our thoughts by some loud exclamation, as if to scare some evil spirit. One sees, the intellect plays, and the will must dance to it. Indeed the intellect makes the will play the part of a child which is alternately thrown at pleasure into joyful or sad moods by the chatter and tales of its nurse. This depends upon the fact that the will is itself without knowledge, and the understanding which is given to it is without will. Therefore the former is like a body which is moved, the latter like the causes which set it in motion, for it is the medium of motives. Yet in all this the primacy of the will becomes clear again, if this will, which, as we have shown, becomes the sport of the intellect as soon as it allows the latter to control it, once makes its supremacy in the last instance felt by prohibiting the intellect from entertaining certain ideas, absolutely preventing certain trains of thought from arising, because it knows, i.e., learns from that very intellect, that they would awaken in it some one of the emotions set forth above.It now bridles the intellect, and compels it to turn to other things. Hard as this often may be, it must yet be accomplished as soon as the will is in earnest about it, for the resistance in this case does not proceed from the intellect, which always remains indifferent, but from the will itself, which in one respect has an inclination towards an idea that in another respect it abhors. It is in itself interesting to the will simply because it excites it, but at the same time abstract knowledge tells it that this idea will aimlessly cause it a shock of painful or unworthy emotion: it now decides in conformity with this abstract knowledge, and compels the obedience of the intellect. This is called <being master of oneself>. Clearly the master here is the will, the servant the intellect, for in the last instance the will always keeps the upper hand, and therefore constitutes the true core, the inner being of man.”
“Se, por exemplo, sozinhos conosco mesmos, pensamos sobre nossas circunstâncias mais pessoais e, eventualmente, representamos vivamente e no nosso presente imediato a ameaça de um perigo verossímil e a possibilidade de um desfecho trágico após sua ocorrência, logo a ansiedade se produz, comprimindo nosso coração, diminuindo a circulação do sangue nas veias. Mas se, logo em seguida, nosso intelecto passa de uma possibilidade indesejada para seu oposto, dando asas à imaginação e livre curso a esperanças e alegrias longamente cultivadas, nosso pulso se acelera novamente, o sangue corre impetuoso e o coração se sente leve como uma pluma, pelo menos até o intelecto acordar de seu devaneio. Suponha então que uma ocasião suscite à memória insultos e agravos sofridos muito tempo atrás: de supetão, a raiva e o amargor encherão nosso peito, que há um segundo estava imerso em tranqüilidade. Imagine também que venha à tona, por acidente, a imagem de um antigo amor, agora perdido, carregando consigo toda a cadeia de pensamentos a ele atrelada: todas as nuances do romance uma vez vivido, seus momentos mais mágicos em relevo; essa raiva que havia brotado de súbito dará lugar instantaneamente a um profundo pesar e à melancolia. E, finalmente, se nos ocorre algum incidente humilhante e vexatório, afundamos e desmilingüimos de pronto. Gostaríamos de desaparecer da vista de todos, e da nossa mesma. Ruborizamos, acanhados. Nossa reação mais natural é tentar distrair o espírito emitindo alguma exclamação, como se fosse para espantar um espírito mau. Vê-se que o intelecto joga, brinca, manipula: a Vontade apenas dança conforme a música. Sim, o intelecto é o maestro dessa composição, e faz a Vontade representar o papel duma criança jogada de um lado pro outro em cenários de dor e prazer, de exuberância e de pavor alternados, conforme uma babá que conta uma estória bem variada, multifacetada e envolvente. Isso só é possível porque a Vontade existe por si mesma sem conhecimento, e nossa faculdade do entendimento, uma vez aplicada a ela, não dispõe, por si mesma, de uma <Vontade>. Assim, parece que a primeira é uma eterna marionete, a última um titereiro, único canal para a manifestação dos motivos dos movimentos do boneco.
Em que pese esse esquema desalentador, a primazia última da Vontade se torna uma certeza absoluta no juízo do analista perspicaz e insistente, isto é, do homem que conquista um certo autodomínio e procede à reversão desta Vontade: de joguete do intelecto, a Vontade passa em última instância a exercer importantes proibições ao intelecto (à imaginação). Associações inteiras de idéias são em última instância bloqueadas. É um aprendizado derivado do próprio intelecto, utilizável pela Vontade. O sujeito, após repetidas teatralizações e recorrências do mesmo vendaval de sentimentos, chega à conclusão de que, deixado desimpedido, o intelecto despertaria emoções nem sempre interessantes à Vontade, como as circunstâncias debilitantes descritas mais acima. Neste ponto – e só neste ponto –, ocorre uma inflexão, análoga ao do cavaleiro sobre a cavalgadura. É bem esse o vocabulário: a Vontade toma as rédeas, e dirige o intelecto a fim de evitar, doravante, certas estradas e paisagens já conhecidas e indesejadas. A princípio essa reviravolta de marionete em cavaleiro parece fantástica, mas todo aquele que já sentiu o vigor do impulso inicial da Vontade decidida em empreender essa torção sabe que a continuidade do processo ocorre mais por inércia do que por esforço continuado: o essencial é a decisão original da Vontade em virar o jogo e inverter os papéis. A resistência nesse novo jogo de jóquei não provém do intelecto, como se poderia pensar, pois a imaginação do sujeito se conserva eternamente indiferente às emoções – a resistência vem da própria Vontade, quando não decidida o suficiente. A Vontade é sempre instável e oscilante, e terá, ora mais ora menos, certa inclinação ou propensão a uma determinada variante de representações coerentes entre si. Jamais as inclinações da Vontade deixarão de ser ambíguas num certo grau, porque a Vontade em si mesma, impossível de ser ‘flagrada’ diretamente, se apresentará ao sujeito (a Si mesmo, à Vontade mesma, por intermédio do intelecto, que a interpreta) ora sob um aspecto em que exalta e endeusa uma idéia, ora sob um outro aspecto em que abomina e odeia esta mesma idéia – como que por capricho. O que move a Vontade é um interesse não-valorativo, i.e., tal coisa instiga, excita a Vontade – não interessa o prazer ou o desprazer desta excitação em si mesma. O conhecimento abstrato – o intelecto – do sujeito é que revelará, com o passar do tempo, que determinada representação ou idéia seguirá ‘atormentando’ o sujeito, sem meta clara nem qualquer lógica. Então por que um teatro tão exaustivo? Em conformidade com o aprendizado do conhecimento abstrato, a Vontade dirigirá sua propensão a evitar ao máximo a sensação do tormento, de modo a dirigir com mais sentido sua ‘busca’ ou ‘atuação’. É assim, mediante as próprias descobertas, que o intelecto abstrato acaba sendo compelido a colaborar mais e mais com a Vontade, que antes submetia por completo. Na linguagem das ruas, a aquisição desta sabedoria e desta capacidade de torná-la prática e configuradora do caráter individual é o que se chamaria <tornar-se o senhor de si mesmo>. Não há dúvida de que o senhor desta frase é a Vontade, e o servo (o si mesmo) é o intelecto. É sempre a Vontade que prevalece no homem que se desenvolve até a última instância, sendo seu verdadeiro núcleo, o íntimo do Ser mesmo.”
“For example, I have conceived a plan, about which, however, I have still some scruple, but the feasibleness of which, as regards its possibility, is completely uncertain, for it depends upon external and still undecided circumstances. It would therefore certainly be unnecessary to come to a decision about it at present, and so for the time I leave the matter as it is. Now in such a case I often do not know how firmly I am already attached to that plan in secret, and how much, in spite of the scruple, I wish to carry it out: that is, my intellect does not know. But now only let me receive news that it is practicable, at once there rises within me a jubilant, irresistible gladness, that passes through my whole being and takes permanent possession of it, to my own astonishment. For now my intellect learns for the first time how firmly my will had laid hold of that plan, and how thoroughly the plan suited it, while the intellect had regarded it as entirely problematical, and had with difficulty been able to overcome that scruple. Or in another case, I have entered eagerly into a contract which I believed to be very much in accordance with my wishes. But as the matter progresses the disadvantages and burdens of it are felt, and I begin to suspect that I even repent of what I so eagerly pursued; yet I rid myself of this feeling by assuring myself that even if I were not bound I would follow the same course. Now, however, the contract is unexpectedly broken by the other side, and I perceive with astonishment that this happens to my great satisfaction and relief. Often we don’t know what we wish or what we fear. We may entertain a wish for years without even confessing it to ourselves, or even allowing it to come to clear consciousness; for the intellect must know nothing about it, because the good opinion which we have of ourselves might thereby suffer. But if it is fulfilled we learn from our joy, not without shame, that we have wished this. For example, the death of a near relation whose heir we are.” “we refrain from doing something on purely moral grounds, as we believe, but afterwards we discover that we were only restrained by fear, for as soon as all danger is removed we do it.” “We may remark in passing that in all this we have a confirmation and explanation of the rule of La Rochefoucauld: L’amour-propre est plus habile que le plus habile homme du monde”
“O intelecto é de fato um confidente da Vontade, mas um confidente a quem não se conta tudo.”
“The intellect becomes tired; the Will is never tired.” “if our will is strongly excited, as in all emotions, thus in anger, fear, desire, grief, &c., and we are now called upon to know, perhaps with the view of correcting the motives of that emotion, the violence which we must do ourselves for this purpose is evidence of the transition from the original natural activity proper to ourselves to the derived, indirect, and forced activity.”
“Tandis que les faibles muscles de leurs bras et de leurs jambes savent encore a peine former quelque mouvemens indécis, les muscles de la face expriment déjà par des mouvemens distincts presque toute la suite des affections générales propres a la nature humaine: et l’observateur attentif reconnait facilement dans ce tableau les traits caractéristiques de l’homme futur” Cabanis, Rapports du Physique et Moral, vol. I, p. 123.
“It is because the brain attains its full size in the 7th year that from that time forward children become so remarkably intelligent, inquisitive, and reasonable. But then comes puberty; to a certain extent it affords a support to the brain, or a resounding-board, and raises the intellect at once by a large step, as it were by an octave, corresponding to the lowering of the voice by that amount. But at once the animal desires and passions that now appear resist the reasonableness that has hitherto prevailed and to which they have been added. Further evidence is given of the indefatigable nature of the will by the fault which is, more or less, peculiar to all men by nature, and is only overcome by education—precipitation.”
13+13-1=25 “Scarcely are a few data concerning the circumstances before us, or the event that has occurred, or the opinion of others conveyed to us, superficially comprehended and hastily gathered together by knowledge, than from the depths of our being the will, always ready and never weary, comes forth unasked, and shows itself as terror, fear, hope, joy, desire, envy, grief, zeal, anger, or courage, and leads to rash words and deeds, which are generally followed by repentance when time has taught us that the hegemonicon, the intellect, has not been able to finish half its work of comprehending the circumstances, reflecting on their connection, and deciding what is prudent, because the will did not wait for it, but sprang forward long before its time with <Now it is my turn!> and at once began the active work, without the intellect being able to resist, as it is a mere slave and bondman of the Will, and not, like it, active from its own power and its own impulse; therefore it is easily pushed aside and silenced by a nod of the Will, while on its part it is scarcely able, with the greatest efforts, to bring the will even to a brief pause, in order to speak. This is why the people are so rare, and are found almost only among Spaniards, Turks, and perhaps Englishmen, who even under circumstances of provocation keep the head uppermost, imperturbably proceed to comprehend and investigate the state of affairs, and when others would already be beside themselves, con mucho sosiego, still ask further questions, which is something quite different from the indifference founded upon apathy and stupidity of many Germans and Dutchmen. Iffland used to give an excellent representation of this admirable quality, as Hetman of the Cossacks,¹ in Benjowski,[?] when the conspirators have enticed him into their tent and hold a rifle to his head, with the warning that they will fire it if he utters a cry, Iffland blew into the mouth of the rifle to try whether it was loaded. Of 10 things that annoy us, 9 would not be able to do so if we understood them thoroughly in their causes, and therefore knew their necessity and true nature; but we would do this much oftener if we made them the object of reflection before making them the object of wrath and indignation.”
¹ Título honorífico militar.
[?] Não sei se se trata do escritor húngaro ou da peça de Kotzebue! O mais bizarro é que Iffland também é um autor muito famoso, mas o que se diz dele na seqüência (que assopra o cano de um rifle) parece dizer respeito a um homônimo fictício de drama! Inclusive ambos voltam a ser citados em associação, no terceiro volume.
A ESTUPIDIFICAÇÃO DO SEU PRINCIPAL SUCESSOR (HEBETUDE RETARDADA):“through continued effort it becomes weary to the point of complete stupefaction, is exhausted, like the voltaic pile, through repeated shocks. Hence all continuous mental work demands pauses and rest, otherwise stupidity and incapacity ensue, at first of course only temporarily; but if this rest is persistently denied to the intellect it will become excessively and continuously fatigued, and the consequence is a permanent deterioration of it, which in an old man may pass into complete incapacity, into childishness, imbecility, and madness. It is not to be attributed to age in and for itself, but to long-continued tyrannical over-exertion of the intellect or brain, if this misfortune appears in the last years of life. This is the explanation of the fact that Swift became mad, Kant became childish, Walter Scott, and also Wordsworth, Southey, and many minorum gentium, became dull and incapable. Goethe remained to the end clear, strong, and active-minded, because he, who was always a man of the world and a courtier, never carried on his mental occupations with self-compulsion. The same holds good of Wieland and of Kuebel, who lived to the age of 91, and also of Voltaire. Now all this proves how very subordinate and physical and what a mere tool the intellect is. Just on this account it requires, during almost a third part of its lifetime, the entire suspension of its activity in sleep, i.e., the rest of the brain, of which it is the mere function, and which therefore just as truly precedes it as the stomach precedes digestion, or as a body precedes its impulsion, and with which in old age it flags and decays. The will, on the contrary, as the thing in itself, is never lazy, is absolutely untiring, its activity is its essence, it never ceases willing, and when, during deep sleep, it is forsaken of the intellect, and therefore cannot act outwardly in accordance with motives, it is active as the vital force, cares the more uninterruptedly for the inner economy of the organism, and as vis naturæ medicatrix sets in order again the irregularities that have crept into it.”
Creio que estou no auge de minhas funções. Um dia quem sabe eu só jogarei PlayStation e ouvirei Beethoven. Me aposentarei até disso… Apenas apertando botões. Falência de múltiplos neurônios.
“He who is without them [coolness and presence of mind] only knows what he should have done or said when the opportunity has passed.”
“The first appearance of danger throws them into groundless anxiety. If the intellect begins to investigate the matter it is rejected as incompetent, nay, as a deceitful sophist, because the heart is to be believed, whose fears are now actually allowed to pass for arguments as to the reality and greatness of the danger. So then the intellect dare make no search for good reasons on the other side, which, if left to itself, it would soon recognise, but is obliged at once to picture to them the most unfortunate issue, even if it itself can scarcely think this issue possible”
“A conceived hypothesis gives us lynx-eyes for all that confirms it, and makes us blind to all that contradicts it.”
“it is much more fortunate to be born a poet than a philosopher.” Divertir é mais fácil que ensinar.
“it is not the really great minds that make historical characters, because they are capable of bridling and ruling the mass of men and carrying out the affairs of the world; but for this persons of much less capacity of mind are qualified when they have great firmness, decision, and persistency of will, such as is quite inconsistent with very high intelligence. Accordingly, where this very high intelligence exists we actually have a case in which the intellect directly restricts the will.”
Leroy, Lettres sur l’intelligence et la perfectibilité des animaux
“The lover forgets no opportunity favourable to him, the ambitious man forgets no circumstance that can forward his plans, the avaricious man never forgets the loss he has suffered, the proud man never forgets an injury to his honour, the vain man remembers every word of praise and the most trifling distinction that falls to his lot. And this also extends to the brutes: the horse stops at the inn where once long ago it was fed; dogs have an excellent memory for all occasions, times, and places that have afforded them choice morsels; and foxes for the different hiding-places in which they have stored their plunder.”
“Sometimes, through an interruption, it has entirely escaped me what I have just been thinking about, or even what news I have just heard. Now if the matter had in any way even the most distant personal interest, the after-feeling of the impression which it made upon the will has remained. I am still quite conscious how far it affected me agreeably or disagreeably, and also of the special manner in which this happened, whether, even in the slightest degree, it vexed me, or made me anxious, or irritated me, or depressed me, or produced the opposite of these affections. Thus the mere relation of the thing to my will is retained in the memory after the thing itself has vanished, and this often becomes the clue to lead us back to the thing itself.”
“On the one hand, the moral tendency of the man in his prime and the old man is still the same as was that of the boy; on the other hand, much has become so strange to him that he no longer knows himself, and wonders how he ever could have done or said this and that. In the first half of life today for the most part laughs at yesterday, indeed looks down on it with contempt; in the second half, on the contrary, it more and more looks back at it with envy. But on closer examination it will be found that the changeable element was the intellect, with its functions of insight and knowledge, which, daily appropriating new material from without, presents a constantly changing system of thought, while, besides this, it itself rises and sinks with the growth and decay of the organism.”
“If willing sprang merely from knowledge, our anger would necessarily be in every case exactly proportionate to the occasion, or at least to our relation to it, for it would be nothing more than the result of the present knowledge. This, however, is rarely the case; rather, anger generally goes far beyond the occasion. Our fury and rage, the furor brevis, often upon small occasions, and without error regarding them, is like the raging of an evil spirit which, having been shut up, only waits its opportunity to dare to break loose, and now rejoices that it has found it.”
“Nothing is more provoking, when we are arguing against a man with reasons and explanations, and taking all pains to convince him, under the impression that we have only to do with his understanding, than to discover at last that he will not understand; that thus we had to do with his will, which shuts itself up against the truth and brings into the field willful misunderstandings, chicaneries, and sophisms in order to intrench itself behind its understanding and its pretended want of insight. Then he is certainly not to be got at, for reasons and proofs applied against the will are like the blows of a phantom produced by mirrors against a solid body.”
“Si quelqu’un excelle parmi nous, qu’il aille exceller ailleurs” “Among quartzes adamant is outlawed.”
“Then he will see with astonishment what good judges they are, what correct perception of the merit of others they have, and how well they know how to find out the best, like the sparrows, who never miss the ripest cherries.”
“That the greatest excellence of mind will not easily be found combined with equal excellence of character is sufficiently explained by the extraordinary rarity of both, while their opposites are everywhere the order of the day; hence we also daily find the latter in union.”
“I do not believe Balthazar Gracian was right in saying (Discreto, p. 406), <No ay simple, que no sea malicioso> (There is no simpleton who would not be malicious), though he has the Spanish proverb in his favour, <Nunca la necedad anduvo sin malicia> (Stupidity is never without malice). Yet it may be that many stupid persons become malicious for the same reason as many hunchbacks, from bitterness on account of the neglect they have suffered from nature, and because they think they can occasionally make up for what they lack in understanding through malicious cunning, seeking in this a brief triumph. From this, by the way, it is also comprehensible why almost every one easily becomes malicious in the presence of a very superior mind.”
“To certain men a man of mind is a more odious production than the most pronounced rogue.”
Lichtenberg
“there is nothing by which a man exasperates most people more than by displaying a superior ability of brilliancy in conversation. They seem pleased at the time, but their envy makes them curse him in their hearts” Dr. Johnson [?]
“Thus on this account great mental superiority isolates more than anything else, and makes one, at least silently, hated. Now it is the opposite of this that makes stupid people so generally liked; especially since many can only find in them what, according to the law of their nature referred to above, they must seek.”
“By those who place mind and learning above all other human qualities this man will be reckoned the greatest of his century. But by those who let virtue take precedence of everything else his memory can never be execrated enough. He was the cruelest of the citizens in persecuting, putting to death, and banishing.” Rosini
“And so also, before the courts of the world, it is everywhere sufficient to deliver a criminal from all punishment that his guilt should be transferred from his will to his intellect, by proving either unavoidable error or mental derangement, for then it is of no more consequence than if hand or foot had slipped against the will.”
“If a man is stupid, we excuse him by saying that he cannot help it; but if we were to excuse a bad man on the same grounds we would be laughed at. And yet the one, like the other, is innate. This proves that the will is the man proper, the intellect merely its tool.”
“High mental capacities have always been regarded as the gift of nature or the gods; and on that account they have been called Gaben, Begabung, ingenii dotes, gifts (a man highly gifted), regarding them as something different from the man himself, something that has fallen to his lot through favour.” “all religions promise a reward beyond life, in eternity, for excellences of the will or heart, but none for excellences of the head or understanding. Virtue expects its reward in that world; prudence hopes for it in this; genius, again, neither in this world nor in that; it is its own reward. Accordingly the will is the eternal part, the intellect the temporal.”
“Brilliant qualities of mind win admiration, but never affection; this is reserved for the moral, the qualities of the character.”
“<I am a man more sinned against than sinning>King Lear (…) if we see that others are inferior to us here, this will not cause us any joy, but we will rather deplore it, and sincerely wish that they were as we are.”
“If, looking without us, we reflect that there is vita brevis, ars longa, and consider how the greatest and most beautiful minds, often when they have scarcely reached the summit of their power, and the greatest scholars, when they have only just attained to a thorough knowledge of their science, are snatched away by death, we are confirmed in this, that the meaning and end of life is not intellectual but moral.”
“the intellect suffers very important changes through time, while the will and character remain untouched by it.”
“as soon as the mind has escaped from the folly of childhood it falls into the snares of innumerable errors, prejudices, and chimeras, sometimes of the absurdest and crudest kind, which it obstinately sticks to, till experience gradually removes them, and many of them also are insensibly lost. All this takes many years to happen, so that one grants it majority indeed soon after the 20th year, yet has placed full maturity, years of discretion, not before the 40th year.”
“This has reached its real culminating point about the 30th year, on account of its dependence upon the pressure of blood and the effect of the pulsation upon the brain, and through this again upon the predominance of the arterial over the venous system, and the fresh tenderness of the brain fibre, and also on account of the energy of the genital system. After the 35th year a slight diminution of the physical energy of the brain becomes noticeable, which, through the gradually approaching predominance of the venous over the arterial system, and also through the increasing firmer and drier consistency of the brain fibre, more and more takes place, and would be much more observable if it were not that, on the other hand, the psychical perfecting, through exercise, experience, increase of knowledge, and acquired skill in the use of it, counteracts it—an antagonism which fortunately lasts to an advanced age, for the brain becomes more and more like a worn-out instrument.”
“the events at school stand to those of the future life for the most part as the dumb-show in Hamlet that precedes the play to be given at the court, and foretells its content in the form of pantomime, stands to the play itself. But it is by no means possible to prognosticate in the same way the future intellectual capacities of the man from those shown in the boy; rather as a rule the ingenia præcocia, prodigies, turn out block-heads; genius, on the contrary, is often in childhood of slow conception, and comprehends with difficulty, just because it comprehends deeply.”
J U D A S “The advance of age, which gradually consumes the intellectual powers, leaves the moral qualities untouched.” “malice, spite, avarice, hardheartedness, infidelity, egoism, and baseness of every kind also remain undiminished to our latest years.”
“just like the man who before he has a beard will wear a false one, and later, when his own beard has become grey, will dye it brown.”
“Hence the implacable nature of the anger and hate of old persons—
The young man’s wrath is like light straw on fire,
But like red-hot steel is the old man’s ire.”
“The universally used and generally very well understood expressions heart and head have sprung from a true feeling of the fundamental distinction here in question; therefore they are also apt and significant, and occur in all languages.” “When a hero dies his heart is embalmed, not his brain; on the other hand, we like to preserve the skull of the poet, the artist, and the philosopher. So Raphael’s skull was preserved in the Academia di S. Luca at Rome, though it has lately been proved not to be genuine; in Stockholm in 1820 the skull of Descartes was sold by auction.”
“We certainly know something more of our life than of a novel we have formerly read, yet only very little. The principal events, the interesting scenes, have impressed themselves upon us; in the remainder a thousand events are forgotten for one that has been retained. The older we become the more do things pass by us without leaving any trace. Great age, illness, injury of the brain, madness, may deprive us of memory altogether, but the identity of the person is not thereby lost. It rests upon the identical will and the unalterable character of the person.” “even actions of moral significance can sometimes, after years, be only imperfectly recalled, and we no longer know accurately and in detail how we acted on a critical occasion. But the character itself, to which the actions only testify, cannot be forgotten by us; it is now still quite the same as then.”
VENCIDO PELA MINHA DEIDADE NO FUNDO DO POÇO DA ANGÚSTIA (“NÃO AINDA, MISERÁVEL, VOCÊ AINDA TEM MUITO QUE FAZER!”): “Upon this inexpressible horror mortis is also founded the favourite principle of all ordinary minds, that whosoever takes his own life must be mad; yet not less the astonishment, mingled with
a certain admiration, which this action always excites even in thinking minds, because it is so opposed to the nature of all living beings that in a certain sense we are forced to admire him who is able to perform it. For suicide proceeds from a purpose of the intellect, but our will to live is a prius of the intellect. Thus this consideration also confirms the primacy of the will in self-consciousness.” Eu tenho tudo, sou bonito, sou gostoso, sou bom, inteligente, e tenho Vontade. O que mais eu poderia querer?, perguntaria – em terceira pessoa, que abstrato! – o tipo naïve par excellence A(dria)na ou Bárbara. Anas e Bárbaras: sempre neófitas, estão no começo do alfabeto.
“The brain, with its function of knowing, is only a vedette established by the will for its external ends, which, up in the watch-tower of the head, looks round through the windows of the senses and marks where mischief threatens and where advantages are to be looked for, and in accordance with whose report the will decides. This vedette, like every one engaged on active service, is then in a condition of strain and effort, and therefore it is glad when, after its watch is completed, it is again withdrawn, as every watch gladly retires from its post. This withdrawal is going to sleep, which is therefore so sweet and agreeable, and to which we are so glad to yield; on the other hand, being roused from sleep is unwelcome, because it recalls the vedette suddenly to its post.” “a certain degree of strength is required for sleeping. Therefore too great fatigue or natural weakness prevent us from seizing it, capere somnum.” “The need of sleep is therefore directly proportionate to the intensity of the brain-life, thus to the clearness of the consciousness. Those animals whose brain-life is weak and dull sleep little and lightly; for example, reptiles and fishes: and here I must remind the reader that the winter sleep is sleep almost only in name, for it is not an inaction of the brain alone, but of the whole organism, thus a kind of apparent death. Animals of considerable intelligence sleep deeply and long. Men also require more sleep the more developed, both as regards quantity and quality, and the more active their brain is.”
“Montaigne relates of himself that he had always been a long sleeper, that he had passed a large part of his life in sleeping, and at an advanced age still slept from 8 to 9 hours at a time (III, chap. 13). Descartes also is reported to have slept a great deal (Baillet, Vie de Descartes, 1693, p. 288). Kant allowed himself 7 hours for sleep, but it was so hard for him to do with this that he ordered his servant to force him against his will, and without listening to his remonstrances, to get up at the set time (Jachmann, Immanuel Kant, p. 162). For the more completely awake a man is, i.e., the clearer and more lively his consciousness, the greater for him is the necessity of sleep, thus the deeper and longer he sleeps. Accordingly much thinking or hard brain-work increases the need of sleep. That sustained muscular exertion also makes us sleepy is to be explained from the fact that in this the brain continuously, by means of the medulla oblongata, the spinal marrow, and the motor nerves, imparts the stimulus to the muscles which affects their irritability, and in this way it exhausts its strength. The fatigue which we observe in the arms and legs has accordingly its real seat in the brain; just as the pain which these parts feel is really experienced in the brain; for it is connected with the motor nerves, as with the nerves of sense.”
“In magnetic somnambulism the consciousness is doubled: 2 trains of knowledge, each connected in itself, but quite different from each other, arise; the waking consciousness knows nothing of the somnambulant. But the will retains in both the same character, and remains throughout identical; it expresses in both the same inclinations and aversions. For the function may be doubled, but not the true nature.”À luz do que os otimistas do séc. XIX afirmavam, Sch. se mostra, novamente, pelo menos meio século à frente de seu tempo neste assunto (magnetismo animal).
“The greatest error in Gall’s phrenology is that he assigns organs of the brain for moral qualities also.”
“According to an experiment made by Spallanzani¹ and repeated by Voltaire, a snail that has had its head cut off remains alive, and after some weeks a new head grows on, together with horns; with this, consciousness and ideas again appear; while till then the snail had only given evidence of blind will through unregulated movements.
¹ Risultati di esperienze sopra la riproduzione della testa nelle lumache terrestri: in the Memorie di matematica e fisica della Società Italiana, Tom. I, p. 581; Voltaire, Les colimaçons du révérend père l’escarbotier.”
“It was perhaps Tiedemann who first compared the cerebral nervous system to a parasite (Tiedemann und Treviranns Journal für Physiologie, Band i. §62). The comparison is happy; for the brain, together with the spinal cord and nerves which depend upon it, is, as it were, implanted in the organism, and is nourished by it without on its part directly contributing anything to the support of the economy of the organism; therefore there can be life without a brain, as in the case of brainless abortions, and also in the case of tortoises, which live for three weeks after their heads have been cut off” “Indeed a hen whose whole brain Flourens had cut away lived for 10 months and grew.”
ACESSÓRIO DISPENSÁVEL: “Even in the case of men the destruction of the brain does not produce death directly, but only through the medium of the lungs, and then of the heart (Bichat, Sur la Vie et la Mort, Part 2, art. 2, §1).” Morte cerebral: como cultivar peixes de aquário na forma de ex-parentes.
“Only if we forcibly deprive ourselves of this primary and simple information can we for a short time marvel at the process of our own bodily action as a miracle, which then rests on the fact that between the act of will and the action of the body there is really no causal connection, for they are directly identical, and their apparent difference only arises from the circumstance that here what is one and the same is apprehended in 2 different modes of knowledge, the outer and the inner.”
“Mere resolves of the will, on the contrary, till they are carried out, are only intentions, and are therefore matter of the intellect alone; as such they have their place merely in the brain, and are nothing more than completed calculations of the relative strength of the different opposing motives. They have, therefore, certainly great probability, but no infallibility. They may turn out false, not only through alteration of the circumstances, but also from the fact that the estimation of the effect of the respective motives upon the will itself was erroneous, which then shows itself, for the deed is untrue to the purpose: therefore before it is carried out no resolve is certain. The will itself, then, is operative only in real action; hence in muscular action, and consequently in irritability.” “for galvanic, chemical, and even mechanical stimuli can effect the same contraction which the motor nerve calls forth.” “Sensibility in itself is quite unable to contract a muscle. This can only be done by the muscle itself, and its capacity for doing so is called irritability, i.e., susceptibility to stimuli.” “will is the metaphysical substratum of the irritability of the muscle”
“If now perhaps the motor nerve that leads to my hand is severed, the will can no longer move it. This, however, is not because the hand has ceased to be, like every part of my body, the objectivity, the mere visibility, of my will, or in other words, that the irritability has vanished, but because the effect of the motive, in consequence of which alone I can move my hand, cannot reach it and act on its muscles as a stimulus, for the line of connection between it and the brain is broken. Thus really my will is, in this part, only deprived of the effect of the motive.”
“how, then, can we reconcile it with this, that the voluntary actions, those most undeniable expressions of the will, clearly originate in the brain, and thus only through the spinal cord reach the nerve fibers, which finally set the limbs in motion, and the paralysis or severing of which therefore prevents the possibility of voluntary movement? This would lead one to think that the will, like the intellect, has its seat only in the brain, and, like it, is a mere function of the brain. (…) The necessity of consciousness is, as I have often explained, occasioned by the fact that in consequence of the increased complication, and thereby more multifarious wants, of an organism, the acts of its will must be guided by motives – no longer, as in the lower grades, by mere stimuli.”
“Thus such an intellect must first of all unite in one point all impressions, together with the working up of them by its functions, whether to mere perception or to conceptions, a point which will be, as it were, the focus of all its rays, in order that that unity of consciousness may arise which is the theoretical ego, the supporter of the whole consciousness, in which it presents itself as identical with the willing ego, whose mere function of knowledge it is. That point of unity of consciousness, or the theoretical ego, is just Kant’s synthetic unity of apperception, upon which all ideas string themselves as on a string of pearls, and on account of which the <I think>, as the thread of the string of pearls, <must be capable of accompanying all our ideas.>” “For although the will is quite directly present in these, inasmuch as they are merely its manifestation, yet when it has to move according to motives, or indeed according to reflection, it requires such an apparatus for the apprehension and working up of ideas into such motives, in conformity with which its acts here appear as resolves: just as the nourishment of the blood with chyle [leite] requires a stomach and intestines, in which this is prepared, and then as such is poured into the blood through the ductus thoracicus, which here plays the part which the spinal cord plays in the former case.”
Por que eu coço minha barba? Os motivos da existência são antropomórficos, believe me. Eu dou alma ao que antes era puro impulso. O que este impulso ou protoalma diz a minha elucidada alma? O que posso responder à primeira pergunta? Eu sou/estou irritado e quero fazer isso, alguma coisa, não sei bem o quê… Minhas mãos não querem parar, elas querem continuar, mesmo que meus dedos doam e meu cérebro precise de repouso… Meu corpo nunca está em inércia, especialmente o meu, se podemos estabelecê-lo. Todos somos seres humanos, certo? Mas você é mais inquieto que todos a sua volta, isso com certeza, não tem erro nem tiro no escuro!… Crise de propósito de propósito?! O que está faltando nesta falta que é a náusea que é a vida, Rafael? Vamos tentar responder isso ruminando, pois pelo visto uma resposta categórica ‘inda não ‘tá pronta, oh my, yare yare.
“Bichat ascribes the flowing back of the blood through the veins to the pressure of the walls of the capillary tubes, and Magendie, on the other hand, to the continue action of the impulse of the heart (Précis de Physiologie, vol. II, p. 389). That the movement of the blood is also independent of the nervous system, at least of the cerebral nervous system, is shown by the fetus, which (according to Müller’s Physiologie), without brain and spinal cord, has yet circulation of the blood.”
“Cor primum vivens et ultimum moriens” Haller
“The course of the arteries also determines the form and size of all the limbs; consequently the whole form of the body is determined by the course of the blood. Thus in general the blood, as it nourishes all the parts of the body, has also, as the primary fluidity of the organism, produced and framed them out of itself. And the nourishment which confessedly constitutes the principal function of the blood is only the continuance of that original production of them. This truth will be found thoroughly and excellently explained in the work of Rösch referred to above, Über die Bedeutung des Blutes, 1839.” “it has not the red colour quite at the beginning. This disposes of the objection which might be drawn from the fact that the brain and the spinal cord begin to form before the circulation of the blood is visible or the heart appears.” “The blood of invertebrate animals never assumes the red colour” “From all this it follows that the will objectifies itself most immediately in the blood as that which originally makes and forms the organism, perfects it by growth, and afterwards constantly maintains it, both by the regular renewal of all the parts and by the extraordinary restoration of any part that may have been injured. The first productions of the blood are its own vessels, and then the muscles, in the irritability of which the will makes itself known to self-consciousness; but with this also the heart, which is at once vessel and muscle, and therefore is the true centre and primum mobile of the whole life.”
“the whole nervous system constitutes, as it were, the antennæ of the will, which it stretches towards within and without. The nerves of the brain and spinal cord separate at their roots into sensory and motory nerves. The sensory nerves receive the knowledge from without, which now accumulates in the thronging brain, and is there worked up into ideas, which arise primarily as motives. But the motory nerves bring back, like couriers, the result of the brain function to the muscle, upon which it acts as a stimulus, and the irritability of which is the immediate manifestation of the will.”
“The ganglia lie wherever the organic functions of the vegetative system require care. It is as if there the will was not able by its direct and simple action to carry out its aims, but required guidance, and consequently control; just as when in some business a man’s own memory is not sufficient, and he must constantly take notes of what he does. For this end mere knots of nerves are sufficient for the interior of the organism, because everything goes on within its own compass.”
“the reflex actions discovered by Marshall Hall, such as sneezing, yawning, vomiting, the second half of swallowing, &c., &c. (…) Marshall Hall, whose discovery of the reflex movements I have mentioned above, has given us in this the theory of involuntary movements.”
“The will itself is present in the whole organism, since this is merely its visible form; the nervous system exists everywhere merely for the purpose of making the direction of an action possible by a control of it, as it were to serve the will as a mirror, so that it may see what it does, just as we use a mirror to shave by.”
O mistério do cérebro epiléptico do não-epiléptico.
“Marshall Hall’s excellent book On the Diseases of the Nervous System is peculiarly fitted to bring out clearly the difference between volition and will, and to confirm the truth of my fundamental doctrine.”
“Who makes the chicken in the egg? Some power and skill coming from without, and penetrating through the shell? Oh no! The chicken makes itself, and the force which carries out and perfects this work, which is complicated, well calculated, and designed beyond all expression, breaks through the shell as soon as it is ready, and now performs the outward actions of the chicken, under the name of will. It cannot do both at once; previously occupied with the perfecting of the organism, it had no care for without. But after it has completed the former, the latter appears, under the guidance of the brain and its feelers, the senses, as a tool prepared beforehand for this end, the service of which only begins when it grows up in self-consciousness as intellect, which is the lanterna to the steps of the will”
The humble hen made itself, how couldn’t men or the world?
“great and fundamental as is the difference in us between willing and knowing, the ultimate substratum of both is yet the same, the will, as the real inner nature of the whole phenomenon.”
SÍNTESE IMPECÁVEL: “For the whole process is the self-knowledge of the will; it starts from this and returns to it, and constitutes what Kant has called the phenomenon in opposition to the thing-in-itself.”
O imenso perigo de uma má tradução: “Thus the whole is ultimately the will, which itself becomes idea [sic – REPRESENTATION!], and is that unity which we express by I.” Poder-se-ia até conceber, por exemplo, que Schopenhauer nomeasse seu trabalho O Mundo como Idéia e Representação em Alemão, tamanho é o ANTAGONISMO aqui!
“Quite recently the physiatrica point of view has at last prevailed in pathology. According to it diseases are themselves a curative process of nature, which it introduces to remove, by overcoming its causes, a disorder which in some way has got into the organism. Thus in the decisive battle, the crisis, it is either victorious and attains its end, or else is defeated.” “On the other hand, that the will itself is sick, as Brandis repeatedly expresses himself in his book, Über die Anwendung der Kälte, which I have quoted in the first part of my essay Über den Willen in der Natur is a gross misunderstanding.”
“he borrowed his fundamental thought from me, and with the usual honesty which prevails at the present day in the learned world, said nothing about it.” HAHAHA!
“Bichat’s reflections and mine reciprocally support each other, for his are the physiological commentary on mine, and mine are the philosophical commentary on his, and one will best understand us both by reading us together.” “He makes the foundation of his expositions the opposition of the organic to the animal life, which corresponds to mine of the will to the intellect. Whoever looks at the sense, not at the words, will not allow himself to be led astray by the fact that he ascribes the will to the animal life; for by will, as is usual, he only understands conscious volition, which certainly proceeds from the brain, where, however, as was shown above, it is not yet actual willing, but only deliberation upon and estimation of the motives, the conclusion or product of which at last appears as the act of will. All that I ascribe to the will proper he ascribes to the organic life, and all that I conceive as intellect is with him the animal life: the latter has with him its seat in the brain alone, together with its appendages: the former, again, in the whole of the remainder of the organism. The complete opposition in which he shows that the 2 stand to each other corresponds to that which with me exists between the will and the intellect. As anatomist and physiologist he starts from the objective, that is, from the consciousness of other things; I, as a philosopher, start from the subjective, self-consciousness”
“Anger boils in my veins” “Stirs my gall” “My bowels leap with joy” “Jealousy poisons my blood”
“Les chants sont le langage des passions, de la vie organique, comme la parole ordinaire est celui de l’entendement, de la vie animale: la déclamation, tient le milieu, elle anime la langue froide du cerveau par la langue expressive des organes intérieurs, du coeur, du foie, de l’estomac”
“Nothing is better fitted than this excellent and thorough book to confirm and bring out clearly that the body is only the embodied (i.e., perceived by means of the brain functions, time, space, and causality) will itself, from which it follows that the will is the primary and original, the intellect, as mere brain function, the subordinate and derived.”
“le tempérament physique et le CHARACTÈRE MORAL ne sont point susceptible de changer par l’éducation (…) Le charactère est, si je puis m’exprimer ainsi, la physionomie des passions; le tempérament est la physionomie des fonctions internes: or les unes et les autres étant toujours les mêmes, ayant une direction que l’habitude et l’exercice ne dérangent jamais, il est manifeste que le tempérament et le charactère doivent être aussi soustraits à l’empire de l’éducation. Elle peut modérer l’influence du second, perfectionner assez le jugement et la réflection, pour rendre leur empire supérieur au sien, fortifier la vie animal afin qu’elle résiste aux impulsions de l’organique. Mais vouloir par elle dénaturer le charactère, adoucir ou exalter les passions dont il est l’expression habituelle, agrandir ou resserrer leur sphère, c’est une entreprise analogue a celle d’un médecin qui essaierait d’élever ou d’abaisser de quelque degrés, et pour toute la vie, la force de contraction ordinaire au coeur dans l’état de santé, de précipiter ou de ralentir habituellement le mouvement naturel aux artères, et qui est nécessaire à leur action, etc.”
“The reader who is familiar with my philosophy may imagine how great was my joy when I discovered, as it were, the proof of my own convictions in those which were arrived at upon an entirely different field, by this extraordinary man, so early taken from the world.”
“A special authentication of the truth that the organism is merely the visibility of the will is also afforded us by the fact that if dogs, cats, domestic cocks, and indeed other animals, bite when violently angry, the wounds become mortal; nay, if they come from a dog, may cause hydrophobia in the man who is bitten, without the dog being mad or afterwards becoming so. [!!]For the extremest anger is only the most decided and vehement will to annihilate its object; this now appears in the assumption by the saliva of an injurious, and to a certain extent magically acting, power, and springs from the fact that the will and the organism are in truth one.This also appears from the fact that intense vexation may rapidly impart to the mother’s milk such a pernicious quality that the sucking child dies forthwith in convulsions (Most, Über sympathetischen Mittel und Kuren, p. 16). [!!!]” Parece que este autor só é conhecido pelo próprio Schopenhauer, mesmo no google (ele dá mais detalhes no seu tratado Sobre a Vontade na natureza)!
“Now, 60 years later, M. Flourens suddenly appears with a polemic against it in his work, De la vie et de l’intelligence, and makes so bold as to declare without ceremony that all that Bichat has brought to light on this important subject, which was quite his own, is false. And what does he oppose to him in the field? Counter-reasons? No, counter assertions and authorities, indeed, which are as inadmissible as they are remarkable—Descartes and Gall!”
“For in the 19th century a Cartesian in philosophy is just what a follower of Ptolemy would be in astronomy, or a follower of Stahl in chemistry.” “Oh how must Bichat and I be ashamed of ourselves in the presence of such wisdom! But, to speak seriously, what can be more disheartening, or rather more shocking, than to see the true and profound rejected and the false and perverse extolled; to live to find that important truths, deeply hidden, and extracted late and with difficulty, are to be torn down, and the old, stale, and late conquered errors set up in their place; nay, to be compelled to fear that through such procedure the advances of human knowledge, so hardly achieved, will be broken off! But let us quiet our fears; for magma est vis veritatis et prævalebit. M. Flourens is unquestionably a man of much merit, but he has chiefly acquired it upon the experimental path. Just those truths, however, which are of the greatest importance cannot be brought out by experiments, but only by reflection and penetration. Now Bichat by his reflection and penetration has here brought a truth to light which is of the number of those which are unattainable by the experimental efforts of M. Flourens, even if, as a true and consistent Cartesian, he tortures a hundred more animals to death.”
Volume III, edição inglesa, tradução de Haldane & Kemp, 6. ed., 1909.
SUPLEMENTOS AO SEGUNDO TOMO (cont.)
“it may be remarked in passing, my direct antipode among philosophers is Anaxagoras; for he assumed arbitrarily as that which is first and original, from which everything proceeds, a nous, an intelligence, a subject of representations, and he is regarded as the first who promulgated such a view.”“according to me, thought appears as the very last.” “All physico-theology is a carrying out of the error opposed to the truth expressed at the beginning of this chapter—the error that the most perfect form of the origin of things is that which is brought about by means of an intellect. § From the time of Socrates down to our own time, we find that the chief subject of the ceaseless disputations of the philosophers has been that ens rationis, called soul.”
REBORN, WORLD!
COMO ESTUDAR A ESCOLA EMPÍRICA (LENDO OS MÉDICOS FRANCESES CLÁSSICOS): “Here Cabanis is specially to be named, whose excellent work, Des rapports du physique au moral, is initiatory of this method of consideration on the path of physiology. (…) Even Gall may be named here, although his chief aim was missed.” “The most recent advances in the physiology of the nervous system, through Sir Charles Bell, Magendie, Marshall Hall, and others, have also enriched and corrected the material of this method of consideration.” Infelizmente – ou felizmente? – sinto que não avançamos muito neste terreno desde Sch..
“A philosophy which, like the Kantian, entirely ignores this point of view for the intellect is one-sided, and consequently inadequate. It leaves an impassable gulf between our philosophical and our physiological knowledge, with which we can never find satisfaction.” “the whole objective world, so boundless in space, so infinite in time, so unsearchable in its perfection, is really only a certain movement or affection of the pulpy matter in the skull.”
“Knowledge and multiplicity, or individuation, stand and fall together, for they reciprocally condition each other. Beyond the phenomenon in the true being of all things, to which time and space, and consequently also multiplicity, must be foreign, there can also be no knowledge. Buddhism defines this as Pratschna Paramita, i.e., that which is beyond all knowledge (J.J. Schmidt, On the Maha-Jana and Pratschna Paramita).”
“We may regard the point at which the understanding makes the transition from the mere sensation upon the retina to the cause of that sensation as the boundary between the world as will and the world as representation”
“The difference of the whole manner of existence which the extremes of the gradation of intellectual capacity establish between man and man is so great that that between a king and a day labourer seems small in comparison.”“thus the northern, cold-blooded, and phlegmatic nations are in general noticeably inferior in mind to the southern vivacious and passionate peoples; although, as Bacon has most pertinently remarked, if once a man of a northern nation is highly gifted by nature, he can then reach a grade which no southern ever attains to. [?] It is accordingly as perverse as it is common to take the great minds of different nations as the standard for comparing their mental powers: for that is just attempting to prove the rule by the exceptions.”
“genius proper is only for theoretical achievements, for which it can choose and await its time, which will just be the time at which the will is entirely at rest, and no waves disturb the clear mirror of the comprehension of the world. (…) Goethe’s Tasso is written from this point of view.” “and accordingly we see great generals and great ministers appear in every age, whenever the merely external conditions are favourable to their efficiency. Great poets and philosophers, on the other hand, leave centuries waiting for them”
“clumsiness in the movement of the body indicates clumsiness in the movement of the thoughts, and will be regarded as a sign of stupidity both in individuals and nations, as much as sleepiness of the countenance and vacancy of the glance. Another symptom of the physiological state of the case referred to is the fact that many persons are obliged at once to stand still whenever their conversation with anyone who is walking with them begins to gain some connection; because their brain, as soon as it has to link together a few thoughts, has no longer as much power over as is required to keep the limbs in motion by means of the motory nerves, so closely is everything measured with them. [!!]”
“If, therefore, nature presents to us every living thing as appearing out of nothing, and, after an ephemeral existence, returning again forever to nothing, and if it seems to take pleasure in the unceasing production of new beings, in order that it may be able unceasingly to destroy, and, on the other hand, is unable to bring anything permanent to light; if accordingly we are forced to recognise matter as that which alone is permanent, which never came into being and never passes away, but brings forth all things from its womb, whence its name appears to be derived from mater rerum, and along with it, as the father of things, form, which, just as fleeting as matter is permanent, changes really every moment, and can only maintain itself so long as it clings as a parasite to matter (now to one part of it, now to another), but when once it entirely loses hold, disappears, as is shown by the palæotheria and the ichthyosaurians, we must indeed recognise this as the direct and genuine utterance of nature, but on account of the origin of the intellect explained above, and the nature of it which results from this origin, we cannot ascribe to this utterance an unconditional truth, but rather only an entirely conditional truth, which Kant has appropriately indicated as such by calling it the phenomenon in opposition to the thing-in-itself.
If, in spite of this essential limitation of the intellect, it is possible, by a circuitous route, to arrive at a certain understanding of the world and the nature of things, by means of reflection widely pursued, and the skilful combination of objective knowledge directed towards without, with the data of self-consciousness, this will yet be only a very limited, entirely indirect, and relative understanding, a parabolical translation into the forms of knowledge, thus a quadam prodire tenus, which must always leave many problems still unsolved.”
“the old dogmatism constructed an ontology when it had only materials for a dianoiology. [ciência das faculdades intelectuais ou do pensamento – em outras palavras, seu cume é a filosofia hegeliana]”
“He [K.] had, however, hastily assumed that, apart from objective knowledge, i.e., apart from the world as representation, there is nothing given us except conscience, out of which he constructed the little that still remained of metaphysics, his moral theology, to which, however, he attributed absolutely only a practical validity, and no theoretical validity at all. He had overlooked that (…) yet our own nature necessarily also belongs to the world of things-in-themselves, for it must have its root in it.”
“the connection of the world of phenomena with the inner nature of things.”
“Thus here lies the path upon which I have gone beyond Kant and the limits which he drew, yet always restricting myself to the ground of reflection, and consequently of honesty, and therefore without the vain pretension of intellectual intuition or absolute thought which characterises the period of pseudo-philosophy between Kant and me. In his proof of the insufficiency of rational knowledge to fathom the nature of the world Kant started from knowledge as a fact, which our consciousness affords us, thus in this sense he proceeded a posteriori. But in this chapter, and also in my work, Über den Willen in der Natur, I have sought to show what knowledge is in its nature and origin, something secondary, designed for individual ends; whence it follows that it must be insufficient to fathom the nature of the world. Thus so far I have reached the same goal a priori.” “Then this physiological consideration, in the wider sense, becomes the supplement of that ideological, as the French say, or, more accurately, transcendental consideration.”
“Upon the degree of this separation ultimately depends the difference and the gradation of intellectual capacity, both between different kinds of animals and between individual human beings; thus it gives the standard for the intellectual completeness of these beings. For the clearness of the consciousness of the external world, the objectivity of the perception, depends upon it.”
Platonic’s Idea is the summit: pure representation, zero will. “Therefore genius may be defined as the highest grade of the objectivity of knowledge.”
“It is the insight that what is inward and original in all the changes and movements of bodies, however various they may be, is in its nature identical; that yet we have only one opportunity of getting to know it more closely and directly, and that is in the movements of our own body. (…) Our body is accordingly the thing-in-itself so far as this can ever be reached by knowledge. Consequently it is that which must express itself in some way in everything in the world, for it is the inner nature of the world and the kernel of all phenomena.”
“What is most interesting in them, as is so often the case with Aristotle [hahaha], are the opinions of earlier profound philosophers quoted by him. (…) Aristotle (…) true to his customary method, glides on the surface of things, confines himself to single characteristics and conceptions fixed by current expressions, and asserts that without sensation there can be no desires, and that plants have not sensation. He is, however, in considerable embarrassment, as his confused language shows, till here also, <where fails the comprehension, a word steps promptly in as deputy>, namely, [<GREEK TERM>], the faculty of nourishing. Plants have this, and thus a part of the so-called soul (…) [This term] is therefore a bad substitute for the more profound research of his predecessors, whom he is criticising [Empedocles, Anaxagoras, Plato].”
“We also see, in the 2nd chapter [do livro Das Plantas], that Empedocles even recognised the sexuality of plants; which Aristotle then also finds fault with, and conceals his want of special knowledge behind general propositions, such as this: that plants could not have both sexes combined, for if so they would be more complete than animals.By quite an analogous procedure he displaces the correct astronomical system of the world of the Pythagoreans, and by his absurd fundamental principles, which he specially explains in the books De coelo, introduces the system of Ptolemy, whereby mankind was again deprived of an already discovered truth of the greatest importance for almost 2,000 years.”[!]Pitágoras formulou um sistema heliocêntrico? A resposta, conforme Wikipedia abaixo, é: mais que heliocêntrico – de alguma forma, Filolau, pitagórico (a fonte é Estobeu), intuiu que o sistema solar não representava o centro do universo:
“An astronomical system positing that the Earth, Moon, Sun, and planets revolve around an unseen <Central Fire> was developed already in the 5th century BC and has been attributed to the Pythagorean philosopher Philolaus. The system has been called <the first coherent system in which celestial bodies move in circles>, anticipating Copernicus by 2,000 years in moving <the earth from the center of the cosmos (and) making it a planet>. Although its concepts of a Central Fire distinct from the Sun, and a nonexistent <Counter-Earth> were erroneous, the system contained the insight that <the apparent motion of the heavenly bodies> was (in large part) due to <the real motion of the observer>.”
“And just because the plant is without knowledge it bears its organs of generation ostentatiously in view, in perfect innocence; it knows nothing about it. As soon as in the series of existences knowledge appears the organs of generation are transferred to a hidden part. Man, however, with whom this is again less the case, conceals them intentionally: he is ashamed of them.”
“In fact, the boundary between the organised and the unorganised is the most sharply drawn in the whole of nature, and perhaps the only one that admits of no transgressions; so that natura non facit saltus seems to suffer an exception here. Although certain crystallisations display an external form resembling the vegetable, yet even between the smallest lichen, the lowest fungus and everything unorganised there remains a fundamental and essential difference. In the unorganised body that which is essential and permanent, thus that upon which its identity and integrity rests, is the material, the matter; what is unessential and changing is, on the other hand, the form. With the organised body the case is exactly reversed; for its life, i.e., its existence as an organised being, simply consists in the constant change of the material, while the form remains permanent.”
“the talk, which is so much affected in our own day, of the life of what is unorganised, indeed of the globe itself, and that it, and also the planetary system, is an organism, is entirely inadmissible.” Curioso, porém: atende-se ao pré-requisito acima da manutenção da forma (circular, cíclica), com mudança constante de material, isto é, sol, cometas, asteróides e planetas não estão quimicamente congelados no tempo e mantém entre si uma certa homeostase ‘individual’ e ‘sistemática’. Poder-se-ia objetar que o núcleo da terra ou do sol não poderiam se manter com uma simples troca atômica (mudança de material), mas poderá ser que as constantes mudanças na superfície da terra e da lua – para citarmos só dois corpos celestes – não afetam sua existência? Na verdade essa questão não faz sentido justamente por não se tratar de vida – forma-conteúdo são unos na transformação climática que está acontecendo, p.ex..
HIDROSTÁTICA + HIDRODINÂMICA = HIDRÁULICA
“elective affinity (an expression which is entirely borrowed from the conscious will).”
“Finally [fechando o ciclo da natureza morta, aberto – num sentido – pela descoberta da gravidade e as leis daí decorrentes nas ciências exatas, e inclusive as descobertas do campo híbrido da Fisiologia-Biologia; ou melhor, fazendo a SÍNTESE, MORALIZANDO A NATUREZA], the poet shows us how the will conducts itself under the influence of motives and reflection.” “The more correctly, the more strictly according to the laws of nature his characters are there presented, the greater is his fame; hence Shakespeare stands at the top. The point of view which is here taken up corresponds at bottom to the spirit in which Goethe followed and loved the natural sciences, although he was not conscious of the matter in the abstract. Nay more, this not only appears from his writings, but is also known to me from his personal utterances.”
“The body which is impelled or exposed to pressure would be crushed to pieces by the impelling or pressing body if it did not withdraw itself from its power by flight, in order to preserve its cohesion; and when flight is impossible for it this actually happens. Indeed, one may regard elastic bodies as the more courageous, which seek to repel the enemy, or at least to prevent him from pursuing further.” Medo de altura é instintivo, não prescinde da experiência.
“One sees from that explanation that metaphysics never interrupts the course of physics, but only takes up the thread where physics leaves it, at the original forces in which all causal explanation has its limits. Only here does the metaphysical explanation from the will as the thing-in-itself begin.”
“indeed, Kepler’s third law is no longer constantly valid, but in equal times it describes unequal areas.”
“Those constructions of light from molecules and atoms which have originated with the French are indeed a revolting absurdity. An article by Ampère, who is otherwise so acute, upon light and heat, which is to be found in the April number of the Annales de chimie et physique, of 1835, may be considered as a flagrant expression of this, and indeed of the whole of atomism in general. There the solid, the fluid and the elastic consist of the same atoms, and all differences arise solely from their aggregation; nay, it is said that space indeed is infinitely divisible, but not matter; because, if the division has been carried as far as the atoms, the further division must fall in the spaces between the atoms! Light and heat, then, are here vibrations of the atoms; and sound is a vibration of the molecules composed of the atoms. In truth, however, these atoms are a fixed idea of the French savants, and therefore they just speak of them as if they had seen them. Otherwise one would necessarily marvel that such a matter-of-fact nation as the French can hold so firmly to a completely transcendent hypothesis, which is quite beyond the possibility of experience, and confidently build upon it up to the sky. (…) At bottom they are still Lockeans, owing to the earlier influence of Condillac. Therefore, for them the thing-in-itself is really matter, from the fundamental properties of which, such as impenetrability, form, hardness, and the other primary qualities, everything in the world must be ultimately explicable. (…) In Germany Kant’s teaching has prevented the continuance of the absurdities of the atomistic and purely mechanical physics for any length of time; although at the present moment these views prevail here also, which is a consequence of the shallowness, crudeness, and folly introduced by Hegel.”
“The defence of atoms might be conducted in this way. One may start from porosity and say something of this sort: All bodies have pores, and therefore so also have all parts of a body: now if this were carried out to infinity, there would ultimately be nothing left of a body but pores. The refutation would be that what remained over would certainly have to be assumed as without pores, and so far as absolutely dense, yet not on that account as consisting of absolutely indivisible particles, atoms; accordingly it would certainly be absolutely incompressible, but not absolutely indivisible. It would therefore be necessary that it should be asserted that the division of a body is only possible by penetrating into its pores; which, however, is entirely unproved. If, however, this is assumed, then we certainly have atoms, i.e., absolutely indivisible bodies, thus bodies of such strong cohesion of their spatial parts that no possible power can separate them: but then one may just as well assume such bodies to be large as small, and an atom might be as big as an ox, if it only would resist all possible attacks upon it.”
“matter is the visibility of the will. Consequently Plotinus and Giordano Bruno were right, not only in their sense but also in ours, when they made the paradoxical assertion already referred: Matter itself is not extended, consequently it is incorporeal.”
“Gravity is yet the lowest of all grades of the objectification of the will; therefore it appears in all matter without exception, thus is inseparable from matter in general.” “we can always picture to ourselves matter without weight, but not without extension, repulsive force, and stability, for then it would be without impenetrability, and consequently would not occupy space”
“Whether, however – now, since the paths to the perpetuation of the forms stand open, and are secured and sustained by nature with boundless care and jealousy –, generatio aequivoca¹ still takes place, can only be decided by experience; especially since the saying Natura nihil facit frustra might, with reference to the paths of regular propagation, be used as a valid argument against it.”
¹ Não confundir com geração espontânea: é o nascimento de novas espécies por mutação – processo comum entre as bactérias após o advento dos antibióticos, p.ex.. Também é a condição sine qua non de processos de mutação e da teoria da evolução de Darwin ou outran a Terra (evolução por saltos, quântica).
“Or is it thought more likely that the eggs of the epizoa [verme] are constantly floating about in the air in expectation? (Fearful to think of!) Let us rather remember the disease of phthiriasis, which occurs even now. An analogous case takes place when through special circumstances the conditions of life appear of a species which up till then was foreign to that place. Thus August St. Hilaire saw in Brazil, after the burning of a primitive forest, as soon as ever the ashes had cooled, a number of plants grow up out of them, the species of which was not to be found far and wide” “The assumption now in favour that spores and eggs of the innumerable species of all those kinds of animal life are everywhere floating in the air, and that they wait through long years for a favourable opportunity to be born, is more paradoxical than that of generatio aequivoca.”
“The war which has been waged for the last 10 or 15 years against generatio aequivoca, with its premature shouts of victory, was the prelude to the denial of the vital force, and related to it. Let no one, however, be deceived by dogmatic assertions and brazen assurances that the questions are decided, settled, and generally recognised. On the contrary, the whole mechanical and atomistic view of nature is approaching its bankruptcy, and its defenders have to learn that something more is concealed behind nature than action and reaction. The reality of generatio aequivoca and the folly of the extraordinary assumption that in the atmosphere, everywhere and always, billions of seeds of all possible kinds of fungi, and eggs of all possible kinds of infusoria, are floating about, till now one and then another by chance finds its suitable medium,has quite recently (1859[!]) been thoroughly and victoriously shown by Pouchet before the French Academy, to the great vexation of the other members.”
“The old world, America and Australia have, it is well known, each their peculiar independent fauna, entirely different from that of the other 2.” “In Australia this analogy can only be very imperfectly followed because its fauna is very poor in mammalia, and contains neither beasts of prey nor apes.” “In mammals America always produces the inferior analogue, but in birds and reptiles the better. Thus it has the advantage in the condor, the macaw, the humming-bird, and the largest batrachia and ophidia; but, for example, instead of the elephant it has only the tapir, instead of the lion the puma, instead of the tiger the jaguar, instead of the camel the lama, and instead of apes proper only monkeys. Even from this last defect it may be concluded that in America nature was not able to rise to man; for even from the nearest grade below man, the chimpanzee and the orang-outang or pongo, the step to man was still an excessively great one. Correspondingly we find that the 3 races of men which, both upon physiological and linguistic grounds, are undoubtedly equally original, the Caucasian, the Mongolian, and the Ethiopian, are only at home in the old world; while America, on the other hand, is peopled by a mixed or climatically modified Mongolian race, which must have come over from Asia.”
“In this way materialism inevitably becomes atomism; as happened to it already in its childhood in the hands of Leucippus and Democritus, and happens to it again now that it has come to a 2nd childhood through age; with the French because they have never known the Kantian philosophy, and with the Germans because they have forgotten it. And indeed it carries it further in this its 2nd childhood than in its first. Not merely solid bodies are supposed to consist of atoms, but liquids, water, air, gas, nay, even light, which is supposed to be the undulations of a completely hypothetical and altogether unproved ether, consisting of atoms, the difference of the rapidity of these undulations causing colours. This is an hypothesis which, like the earlier Newtonian 7-colour theory, starts from an analogy with music, entirely arbitrarily assumed, and then violently carried out.”
“Credat Judæus Apella!¹ Certainly the nature of light is to us a secret; but it is better to confess this than to bar the way of future knowledge by bad theories.”
¹ Horácio
CRÍTICA AOS NEOMATERIALISTAS OU MATERIALISTAS MECANICISTAS (Sch. nunca chegou a conhecer o marxismo): “Different perpetual motions are then ascribed to all the atoms, revolving, vibrating, &c., according to the office of each; in the same way every atom has its atmosphere of ether, or something else, and whatever other similar fancies there may be. The fancies of Schelling’s philosophy of nature and its disciples were for the most part ingenious, lofty, or at least witty; but these, on the contrary, are clumsy, insipid, paltry, and awkward, the production of minds which, in the first place, are unable to think any other reality than a fabulous, qualityless matter, which is also an absolute object, i.e., an object without a subject; and secondly can think of no other activity than motion and impact: these two alone are comprehensible to them, and that everything runs back to these is their a priori assumption; for these are their thing-in-itself.” “Thus the course of the world is like that of a clock after it has been put together and wound up; thus from this incontestable point of view it is a mere machine, the aim of which we cannot see. Even if, quite without justification, nay, at bottom, in spite of all conceivability and its conformity to law, one should assume a first beginning, nothing would thereby be essentially changed. For the arbitrarily assumed first condition of things would at its origin have irrevocably determined and fixed, both as a whole and down to the smallest detail, the state immediately following it” Não deixa de ser um postulado totalmente correto!
“Thereby a riddle is solved which is as old as the world, simply because it has hitherto always been held upside down and the freedom persistently sought in the Operari, [ação, por extensão fenômeno] the necessity in the Esse. [ser] (…) [in my system,] freedom has been transferred to the Esse, and necessity limited to the Operari.” “To save freedom from fate and chance, it had to be transferred from the action to the existence.”
“Every one knows only one being quite immediately—his own will in self-consciousness. Everything else he knows only indirectly, and then judges it by analogy with this; a process which he carries further in proportion to the grade of his reflective powers. Even this ultimately springs from the fact thatthere really is only one being; the illusion of multiplicity (Maja), which proceeds from the forms of external, objective comprehension, could not penetrate to inner, simple consciousness; therefore this always finds before it only one being.”
“if we consider at the same time that each of these masterpieces, itself of short duration, has already been produced anew an innumerable number of times, and yet every example of a species, every insect, every flower, every leaf, still appears just as carefully perfected as was the first of its kind; thus that nature by no means wearies and begins to bungle, but, with equally patient master-hand, perfects the last like the first: then we become conscious, first of all, that all human art is completely different, not merely in degree, but in kind, from the works of nature” “If we further reflect that the production of these hyperboles of all works of art costs nature absolutely nothing, so that, with inconceivable prodigality, she creates millions of organisms which never attain to maturity, and without sparing exposes every living thing to a thousand accidents, yet, on the other hand, if favoured by chance or directed by human purpose, readily affords millions of examples of a species of which hitherto there was only one, so that millions cost her no more than one; this also leads us to see that the multiplicity of things has its root in the nature of the knowledge of the subject, but is foreign to the thing-in-itself” Chamando a Vontade de una e princípio da razão suficiente de tão múltiplo quantos forem os observadores, em suma.
“Why is our consciousness brighter and more distinct the further it extends towards without, so that its greatest clearness lies in sense perception, which already half belongs to things outside us,—and, on the other hand, grows dimmer as we go in, and leads, if followed to its inmost recesses, to a darkness in which all knowledge ceases? Because, I say, consciousness presupposes individuality”
“Immortality of the individual might be compared to a point of the surface flying off at a tangent. But immortality, by virtue of the eternal nature of the inner being of the whole phenomenon, may be compared to the return of that point, on the radius, to the centre, of which the whole surface is just the extension.”
“The human race may be imagined as an animal compositum, a form of life of which many polypi, especially those which swim, such as Veretillum, Funiculina [na respectiva ordem, logo abaixo], and others, afford examples.”
“The 6 equal radii of a snowflake, separating at equal angles, are measured beforehand by no knowledge; but it is the simple tendency of the original will, which so exhibits itself to knowledge when knowledge appears.” “If direct insight into the working of nature was possible for us, we would necessarily recognise that the wonder excited by teleology referred to above is analogous to that which that savage referred to by Kant in his explanation of the ludicrous felt when he saw the froth irresistibly foaming out of a bottle of beer which had just been opened, and expressed his wonder not that it should come out, but that any one had ever been able to get it in” “Therefore our astonishment at design may likewise be compared to that which the first productions of the art of printing excited in those who considered them under the supposition that they were works of the pen, and therefore had to resort to the assumption of the assistance of a devil in order to explain them.” “If we give ourselves up to the contemplation of the indescribably and infinitely ingenious construction of any animal, even if it were only the commonest insect, lose ourselves in admiration of it, and it now occurs to us that nature recklessly exposes even this exceedingly ingenious and highly complicated organism daily and by thousands to destruction by accident, animal rapacity, and human wantonness, this wild prodigality fills us with amazement; but our amazement is based upon an ambiguity of the conceptions, for we have in our minds the human work of art which is accomplished by the help of the intellect and by overcoming a foreign and resisting material, and therefore certainly costs much trouble. Nature’s works, on the contrary, however ingenious they may be, cost her absolutely no trouble; for here the will to work is already the work itself, since, as has already been said, the organism is merely the visibility of the will which is here present, brought about in the brain.” Sorte nossa que a “transmutação de todos os valores” não depende da razão!
spleen embaçado
“the skull of the bird in the egg has exactly as many bones as that of the human foetus”
“It has been observed that consumptive women, [tísicas] in the last stage of their illness, readily become pregnant, that the disease stops during pregnancy, but after delivery appears again worse than before, and now generally results in death; similarly that consumptive men generally beget another child in the last days of their life.”
“flies poisoned with arsenic still couple, and die in the act of copulation.”
“The final cause of the pubes [pêlos pubianos] in both sexes, and of the Mons Veneris in the female, is that even in the case of very thin subjects the Ossa pubis shall not be felt, which might excite antipathy” Proteger da sensação acutilante do osso.
“The same efficient cause holds good also of the beard of the man; the final cause of it, I suppose, lies in the fact that the pathogonomic signs, thus the rapid alterations of the countenance betraying every movement of the mind, are principally visible in the mouth and its vicinity; therefore, in order to conceal these from the prying eye of the adversary, as something dangerous in bargaining, or in sudden emergencies, nature gave man the beard (which shows that homo homini lupus). The woman, on the other hand, could dispense with this; for with her dissimulation and command of countenance are inborn.” Menos nas lusitanas…
“Here we have first to count the reciprocally adapted organisation of the genitals of the 2 sexes, and then also many circumstances that assist the propagation of the species, for example, in the case of the Lampyris noctiluca (the glowworm) the circumstance that only the male, which does not shine, has wings to enable it to seek out the female; the wingless female, on the other hand, since it only comes out in the evening, possesses the phosphorescent light, so that the male may be able to find it. Yet in the case of the Lampyris italica both sexes shine, which is an instance of the natural luxury of the South.”
“Since all sucking requires the action of respiration, it can only take place in the respirable medium itself, and not under water, where, however, the sucking young of the whale hangs on to the teats of the mother; now to meet this the whole mammary apparatus of the cetacea is so modified that it has become an injecting organ, and placed in the mouth of the young injects the milk into it without it requiring to suck.”
“The reciprocal support which the plant and the insect worlds receive from each other will be found admirably described in Burdach’s large Physiology, vol. I, §263.”
“Three great men have entirely rejected teleology, or the explanation from final causes, and many small men have echoed them. These 3 are, Lucretius, Bacon of Verulam [Francis B.], and Spinoza. But in the case of all 3 we know clearly enough the source of this aversion, namely, that they regarded it as inseparable from speculative theology, of which, however, they entertained so great a distrust (which Bacon indeed prudently sought to conceal) that they wanted to give it a wide berth. [âncora]”
“To all these teleology is at once also theology, and at every instance of design recognised in nature, instead of thinking and learning to understand nature, they break at once into the childish cry, <Design! design!> then strike up the refrain of their old wives’ philosophy, and stop their ears against all rational arguments, such as, however, the great Hume has already advanced against them.” Traduzindo este parágrafo: se é para fazer metafísica de baixa qualidade, o melhor mesmo é seguir em investigações empíricas sobre a natureza, sem tecer nenhuma hipótese maior que as próprias pernas.
“In order to know Hume one must read his Natural History of Religion and his Dialogues on Natural Religion. There one sees him in his greatness, and these, together with Essay 21 <Of National Characters>,¹ are the writings on account of which—I know of nothing that says more for his fame—even to the present day, he is everywhere hated by the English clergy.”
¹ Ainda pendentes no meu caso.
“the polemic of Lucretius (IV, 824-858) against teleology is so crude and clumsy that it refutes itself and convinces us of the opposite. But as regards Bacon (De augm. scient., III, 4), he makes, in the 1st place, no distinction with reference to the use of final causes between organised and unorganised nature (which is yet just the principal matter), for, in his examples of final causes, he mixes the 2 up together. Then he banishes final causes from physics to metaphysics; but the latter is for him, as it is still for many at the present day, identical with speculative theology. (…) Finally, Spinoza (Eth. I, prop. 36, appendix) makes it abundantly clear that he identifies teleology so entirely with physico-theology, against which he expresses himself with bitterness, that he explains Natura nihil frustra agere: hoc est, quod in usum hominum non sit [A naturez não age em vão, i.e., nunca faz nada que não seja de proveito para o homem]; and also … [Deus fez tudo para dirigir o homem], etc.” “His aim merely was to block the path of theism; and he had quite rightly recognised the physico-theological proof as its strongest weapon. But it was reserved for Kant really to refute this proof, and for me to give the correct exposition of its material, whereby I have satisfied the maxim: Est enim verum index sui et falsi [Há uma verdadeira medida do verdadeiro e do falso].”
“Nada é supérfluo que seja obra da natureza.” Arist.
“Cada parte do corpo é um instrumento para o corpo; cada corpo um instrumento para o todo.”
“In fact, every good and regular mind must, in considering organised nature, hit upon teleology, but unless it is determined by the preconceived opinions, [suponho que queira dizer ‘conhecimentos das ciências biológicas, positivos, i.e., a humilíssima senda de Hume, p.ex.] by no means either upon physico-theology [ciência aplicada aos mandamentos da religião como se assim se pudessem extrair seus desígnios (morais) últimos] or upon the anthropo-teleology [o homem não tem um sentido a cumprir, p.ex., na História – mas apenas o que lhe predeterminou a natureza, o que não quer dizer muito; de fato é Hegel o principal contradictor de Spinoza neste tema] condemned by Spinoza.” Temos olhos para ver, ouvidos para escutar, dentes para triturar a comida… Não temos um projeto de humanidade realizável através de um Estado-nação nem pretendemos encontrar a conciliação com o Deus cristão neste, o único mundo.
“With regard to Aristotle generally, I wish further to draw attention to the fact here, that his teaching, so far as it concerns unorganised nature, is very defective and unserviceable, as in the fundamental conceptions of mechanics and physics he accepts the most gross errors, which is the less pardonable, since before him the Pythagoreans and Empedocles had been upon the right path and had taught much better.¹ [Isto representa uma grande rocha demolidora de toda a exegese hegeliana na História da Filosofia] Empedocles indeed, as we learn from Aristotle’s 2nd book, De coelo (I, p. 284), had already grasped the conception of a tangential force arising from rotation, and counteracting gravity, which Aristotle again rejects. Quite the reverse, however, is Aristotle’s relation to the investigation of organised nature. This is his field; here the wealth of his knowledge, the keenness of his observation, nay, sometimes the depth of his insight, astonish us.”Aristóteles, o Biólogo.
¹ E não devemos nos esquecer de Epicuro, que interpretou os pré-socráticos (principalmente os atomistas) no sentido correto, evitando os enganos de Aristóteles.
“Instinct is a character which is only set in motion by a quite specially determined motive, and on this account the action that proceeds from it is always exactly of the same kind; while the character which is possessed by every species of animal and every individual man is certainly a permanent and unalterable quality of will, which can yet be set in motion by very different motives, and adapts itself to these; and on account of this the action proceeding from it may, according to its material quality, be very different, but yet will always bear the stamp of the same character, and will therefore express and reveal this; so that for the knowledge of this character the material quality of the action in which it appears is essentially a matter of indifference. Accordingly we might explain instinct as a character which is beyond all measure one-sided and strictly determined.” “insects are accordingly, to a certain extent, natural somnambulists.”
“We are also reminded here of the dæmon of Socrates, on account of which he had the feeling that he must leave undone some action expected of him, or lying near him, without knowing why—for his prophetic dream about it was forgotten.” “One had taken his passage on a ship, but when it was about to sail he positively would not go on board without being conscious of a reason;—the ship went down. Another goes with companions to a powder magazine; when he has arrived in its vicinity he absolutely will not go any further, but turns hastily back, seized with anxiety he knows not why;—the magazine blows up. A third upon the ocean feels moved one night, without any reason, not to undress, but lays himself on the bed in his clothes and boots, and even with his spectacles on;—in the night the ship goes on fire, and he is among the few who save themselves in the boat. All this depends upon the dull after-effect of forgotten fatidical dreams, and gives us the key to an analogous understanding of instinct and mechanical tendencies.”
“If the path is closed by water against the march of the ants, those in front boldly throw themselves in until their corpses are heaped up into a dam for those that follow. When the drones have become useless they are stung to death. Two queens in the hive are surrounded, and must fight with each other till one of them loses its life. The ant-mother bites its own wings off after it has been impregnated, for they would only be a hindrance to it in the work that is before it of tending the new family it is about to found under the earth (Kirby and Spence, vol. 1).” “The wasps, who through the whole summer have with great care and labour fed their larvæ on the produce of their plundering, but now, in October, see the last generation of them facing starvation, sting them to death (Kirby and Spence, ibid., p. 374).”
“Much unsuitable is the way in which so-called pantheists express themselves, whose whole philosophy consists in that they call the inner nature of the world, which is unknown to them, <God>; by which indeed they imagine they have achieved much.”
“this world of constantly needy creatures, who continue for a time only by devouring one another, fulfil their existence in anxiety and want, and often suffer terrible miseries, till at last they fall into the arms of death”
“But Spinoza had special reasons for thus naming his one substance, in order, namely, to preserve at least the word, although not the thing. The stake of Giordano Bruno and of Vanini was still fresh in the memory; they also had been sacrificed to that God for whose honour incomparably more human sacrifices have bled than on the altars of all heathen gods of both hemispheres together. If, then, Spinoza calls the world God, it is exactly the same thing as when Rousseau in the Contrat social, constantly and throughout denotes the people by the word le souverain”
“Every glance at the world, to explain which is the task of the philosopher, confirms and proves that will to live, far from being an arbitrary hypostasis or an empty word, is the only true expression of its inmost nature.”
“Look, for example, at the incredible anxiety of a man in danger of his life, the rapid and serious participation in this of every witness of it, and the boundless rejoicing at his deliverance. (…) we would rather be amazed that it was a matter of any consequence whether one attained a few years earlier to the place where after an ephemeral existence he has billions of years to be.”
“Why the individual exists would thus be clear; but why does the species itself exist? That is a question which nature, when considered merely objectively, cannot answer. For in vain do we seek by contemplating her for an end of this restless striving, this ceaseless pressing into existence, this anxious care for the maintenance of the species. The strength and time of the individuals are consumed in the effort to procure sustenance for themselves and their young, and are only just sufficient, sometimes even not sufficient, for this.” “For the individuals are fleeting as the water in the brook; the Ideas, on the contrary, are permanent, like its eddies [contracorrentes, turbilhões]: but the exhaustion of the water would also do away with the eddies. We would have to stop at this unintelligible view if nature were known to us only from without, thus were given us merely objectively” “Take, for example, the mole, that unwearied worker. To dig with all its might with its enormous shovel claws is the occupation of its whole life; constant night surrounds it; its embryo eyes only make it avoid the light. It alone is truly an animal nocturnum; not cats, owls, and bats, who see by night.” “the consideration of the animal world left to itself in lands uninhabited by men is also specially instructive. A beautiful picture of this, and of the suffering which nature prepares for herself without the interference of man, is given by Humboldt in his Ansichten der Natur (2nd edition, p. 30 et seq.);¹ nor does he neglect to cast a glance (p. 44) at the analogous suffering of the human race, always and everywhere at variance with itself.” “and this goes on in secula seculorum, or till once again the crust of the planet breaks.”
¹ H., Views of Nature
“Yunghahn relates that he saw in Java a plain far as the eye could reach entirely covered with skeletons, and took it for a battlefield; they were, however, merely the skeletons of large turtles, 5 feet long and 3 feet broad, and the same height, which come this way out of the sea in order to lay their eggs, and are then attacked by wild dogs (Canis rutilans), who with their united strength lay them on their backs, strip off their lower armour, that is, the small shell of the stomach, and so devour them alive. But often then a tiger pounces upon the dogs. Now all this misery repeats itself thousands and thousands of times, year out, year in.”
“Certainly, according to pantheism or Spinozism, of which the systems of our century are mere travesties, all that sort of thing reels itself off actually without end, straight on through all eternity. For then the world is a God, ens perfectissimum, i.e., nothing better can be or be conceived.” “But why the whole tragi-comedy exists cannot in the least be seen; for it has no spectators, and the actors themselves undergo infinite trouble, with little and merely negative pleasure.” “We can console ourselves for that [a squirrel sacrificing himself to save his young]; but that such a poor innocent squirrel sitting beside its nest with its young is compelled, step by step, reluctantly, battling with itself and lamenting, to approach the wide, open jaws of the serpent and consciously throw itself into them is revolting and atrocious. What monstrous kind of nature is this to which we belong!”
“In peace industry and trade are active, inventions work miracles, seas are navigated, delicacies are collected from all ends of the world, the waves engulf thousands. All strive, some planning, others acting; the tumult is indescribable. But the ultimate aim of it all, what is it? To sustain ephemeral and tormented individuals through a short span of time in the most fortunate case with endurable want and comparative freedom from pain, which, however, is at once attended with ennui; then the reproduction of this race and its striving.” “these puppets are not pulled from without, but each bears in itself the clockwork from which its movements result. This is the will to live, manifesting itself as an untiring machine, an irrational tendency, which has not its sufficient reason in the external world.” “Accordingly we often see a miserable figure, deformed and shrunk with age, want, and disease, implore our help from the bottom of his heart for the prolongation of an existence, the end of which would necessarily appear altogether desirable if it were an objective judgment that determined here.”
“But if the rope becomes weak the puppet sinks; if it breaks the puppet must fall, for the ground beneath it only seemed to support it: i.e., the weakening of that love of life shows itself as hypochondria, spleen, melancholy; its entire exhaustion as the inclination to suicide, which now takes place on the slightest occasion, nay, for a merely imaginary reason, for now, as it were, the man seeks a quarrel with himself, in order to shoot himself dead, as many do with others for a like purpose”
“Men are only apparently drawn from in front; really they are pushed from behind; it is not life that tempts them on, but necessity that drives them forward.”
“I scarcely need to draw attention to the fact that the considerations with which we now conclude the 2nd book already point forcibly to the serious theme of the 4th book, indeed would pass over into it directly if it were not that my architectonic symmetry [confissões de um kantiano!] makes it necessary that the 3rd book, with its fair contents, should come between, as a 2nd consideration of the world as representation, the conclusion of which, however, again points in the same direction.”
SUPLEMENTOS AO TERCEIRO TOMO
“[Representations are] the complete expression of the essence which exhibits itself as an object of perception, comprehended, not in relation to an individual will, but as it expresses itself spontaneously, whereby indeed it determines all its relations, which till then alone were known. The Representation [in singular] is the root-point of all these relations, and thereby the complete and perfect phenomenon”
“strictly speaking, space is as foreign to form and colours as time.”
“The Representation is properly eternal, but the species is of endless duration, although its appearance upon one planet may become extinct.”
PLATÃO & A CADEIRA: “Of manufactured articles there are no Representation [Idea], but only conceptions” Só em frases como essa o título anglófono guarda qualquer fidelidade com o conteúdo da obra como um todo! Mas individualizer a representação como o Um é uma idiossincrasia schopenhaueriana, que não chega a ser daninha, mas decerto é desnecessária – e prenuncia sua concepção monista da Vontade, que Nietzsche tanto condenaria.
“For the rest, the doctrine of Representations originated with the Pythagoreans, unless we distrust the assertion of Plutarch in the book De placitis philosophorum, I, 3.”
“Knowledge conditioned in this way must lie at the foundation of every genuine work of art as its origin. The change in the subject which is required for this cannot proceed from the will, just because it consists in the elimination of all volition; thus it can be no act of the will, i.e., it cannot lie in our choice.” Mas é justamente a liberdade (do intelecto) que pressuporia a negação da Vontade; o artista é o oposto da figura que Sch. descreve: um hiper-concentrador de Vontade! Significa que Schopenhauer erra duplamente no aforismo: 1) não é o intelecto o mecanismo que explica o dom (irracional); 2) ainda que o fosse, ele implicaria que o artista poderia escolher seus meios, sua forma de expressão da obra de arte, e Sch. termina a passagem contradizendo-se! Em suma, é verdade que nada disso depende de nossa escolha, mas isso depõe a favor da Vontade como protagonista do processo artístico.
“our consciousness has 2 sides; partly, it is a consciousness of our own selves, which is the will; partly a consciousness of other things, and as such primarily, knowledge, through perception, of the external world, the apprehension of objects.”O que ocorre é que, no processo de criação, o artista e sua obra se tornam indistinguíveis (Consciência máxima! Objetividade, se já existiu alguma). Só se voltam a separar no momento da crítica: autor de um lado, obra do outro. A crítica imparcial bem-sucedida é o exercício da subjetividade do logos.
METAFÍSICA DA ARTE:
AUTO-OBJETIFICAÇÃO DO ARTISTA & SUBJETIVIDADE DO RECEPTOR
“For we only apprehend the world in a purely objective mannerwhen we no longer know that we belong to it; and all things appear the more beautiful the more we are conscious merely of them and the less we are conscious of ourselves.” Está correto se se refere puramente ao processo da crítica da arte, com alguns ajustes – Sinal trocado: in a purely SUBJECTIVE manner –the less we are conscious of ourselves (o crítico apreende a obra como algo estranho, sujeito x objeto, esqueceu que a criação do artista, sua objetividade, está em ser o objeto enquanto o objeto é consciência, na fusão dos pólos). Propriamente falando, o artista não julga o que é ou não é o belo, pois se torna provisoriamente o próprio belo. Como pode a beleza argumentar intelectualmente sobre a beleza? Ela apenas é. Narciso não se reconhece ao espelho, está menos consciente de si, pode julgar seu reflexo (o outro) como belo. Narciso é o crítico – quem está desinteressado de si está interessado no outro (a obra). Nele, sujeito e objeto estão divorciados, Narciso não é a imagem de Narciso. O artista é todo consciência-de-si, ele e a obra são cegos à outridade, entendem apenas os reflexos (o espelho que reflete a si próprios), estão fechados em si numa subjetividade infinita – mas como não há outro, apenas mesmidade, identidade, trata-se da OBJETIVIDADE PERFEITA E AUTO-SUFICIENTE DO QUE É IGUAL A SI MESMO. Narciso, o crítico, se afoga porque carece, busca o complemento, a beleza (Narciso não é a beleza, ele é inconsciente de si, seu corpo não está em consideração a não ser como outro, infinitamente separado por um abismo). O reflexo (a obra) não quer nada. Sujeito e objeto aqui são um, o mundo. O exterior e o interior simultâneo. O Ser. Não há logos, só recursividade tautológica. Vênus é. O amor é cego e no entanto não deseja enxergar (interagir com o exterior). O amor é o processo de criação.O amor está na boca do mundo, é discursado pelos loucos da subjetividade irrestrita. Neste sentido, o amor é a Poesia e a crítica é a Verdade. Homero descreve o mundo; a verdade desmistifica-o. A verdade é a verdade dos homens, discurso, sempre carentes da serena objetividade muda e inacessível da beleza.
Goethe compreendeu esta antítese, e por isso sua autobiografia se chama Poesia & Verdade. Poesia é a sua obra, verdade o indivíduo biografado. Por ser uma obra, versando sobre a obra e a crítica, é Poesia, como foram antes seus poemas que não falavam de poemas, mas uma poesia sem objeto, inacabada. Por ser uma crítica, prosando sobre a crítica e a obra, é Verdade, verdade clínica e impessoal de sua vida. Beleza deficitária, crítica consumada. Tentativa de uma síntese impossível a não ser dentro da obra de arte que é o artista enquanto indivíduo. O jeito do belo ver, elogiar, participar – a possibilidade da crítica ser bela e definitiva.
“Every bodily sensation is in itself an excitement of the will, and indeed oftener of the noluntas [falta-do-querer]than of the voluntas.”
“For what we behold only in a picture or in poetry stands outside all possibility of having any relation to our will”
“Now this holds good, not only of the works of plastic and pictorial art, but also of poetry; the effect of which is also conditioned by indifferent, will-less, and thereby purely objective apprehension. It is exactly this which makes a perceived object picturesque, an event of actual life poetical; for it is only this that throws over the objects of the real world that magic gleam which in the case of sensibly perceived objects is called the picturesque, and in the case of those which are only perceived in imagination is called the poetical. If poets sing of the blithe morning, the beautiful evening, the still moonlight night, and many such things, the real object of their praise is, unknown to themselves, the pure subject of knowledge which is called forth by those beauties of nature, and on the appearance of which the will vanishes from consciousness, and so that peace of heart enters which, apart from this, is unattainable in the world.” “The natural disposition for the predominance of this state is genius.”
“As will, and therefore as individual, he is only one, and this one exclusively, which gives him enough to do and to suffer. As the purely objective perceiver, he is the pure subject of knowledge in whose consciousness alone the objective world has its existence; as such he is all things so far as he perceives them. And in him is their existence without burden or inconvenience. It is his existence, so far as it exists in his representation; but it is there without will.”
“Let one remember how when we are gladdened by some fortunate occurrence the whole world at once assumes a bright colour and a smiling aspect, and, on the contrary, looks gloomy and sad when we are pressed with cares; also, how even a lifeless thing, if it is to be made use of in doing something which we abhor, seems to have a hideous physiognomy; for example, the scaffold, the fortress, to which we have been brought, the surgeon’s cases of instruments; the travelling carriage of our loved one, &c., nay, numbers, letters, seals, may seem to grin upon us horribly and affect us as fearful monstrosities.”
“<Behind that jutting cliff the well-mounted band of friends should await me,—beside that waterfall my love should rest; this beautifully lighted building should be her dwelling, and that vine-clad window hers;—but this beautiful world is for me a desert!> and so on. Such melancholy youthful reveries really demand something exactly contradictory to themselves; for the beauty with which those objects present themselves depends just upon the pure objectivity, i.e., disinterestedness of their perception,¹ and would therefore at once be abolished by the relation to his own will which the youth painfully misses, and thus the whole charm which now affords him pleasure, even though alloyed with a certain admixture of pain, would cease to exist.”
¹ Exatamente o oposto!
“Everything is beautiful only so long as it does not concern us. (We are not speaking here of sensual passion, but of æsthetic pleasure.)”
“Why has the sight of the full moon such a beneficent, quieting, and exalting effect? Because the moon is an object of perception, but never of desire:
The stars we yearn not after
Delight us with their glory.—Goethe”
“Finally, this is also furthered by the fact that the moon lights without heating, in which certainly lies the reason why it has been called chaste and identified with Diana. In consequence of this whole beneficent impression upon our feeling, the moon becomes gradually our bosom friend. The sun, again, never does so; but is like an over-plenteous benefactor whom we can never look in the face.” Exatamente a diferença entre um espectador e um criador. O criador não é cegado pela luz do sol, porque é o próprio sol.
“since this has for its objects the Platonic Representations,¹ and these are not comprehended in the abstract, but only perceptibly, the essence of genius must lie in the perfection and energy of the knowledge of perception.” Suprema ironia que eu tenha sido a obra final do meu progenitor Materialista com “M” de Mammon. O que há de falho em mim decorre da herança: porém, segundo Schopenhauer, eu sou o rei do mundo fenomênico, não do espiritual!
¹ Insisto em modificar Idea por Representation da tradução inglesa sempre que possível porque: 1) a tradução foi descuidada; 2) Schopenhauer não entendeu a doutrina platônica.
“For talent is an excellence which lies rather in the greater versatility and acuteness of discursive than of intuitive knowledge. He who is endowed with talent thinks more quickly and more correctly than others; but the genius beholds another world from them all, although only because he has a more profound perception of the world which lies before them also, in that it presents itself in his mind more objectively, and consequently in greater purity and distinctness.”
“In the case of the brutes [o homem primitivo, mas os Josés de Jesus também], where it is almost entirely confined to the direct relations, the matter is just on that account most apparent: what has no relation to their will does not exist for them. (…) Therefore the normal mind does not attain to an absolutely pure, objective picture of things, because its power of perception, whenever it is not spurred on by the will and set in motion, at once becomes tired and inactive, because it has not enough energy of its own elasticity and without an end in view to apprehend the world in a purely objective manner. Where, on the other hand, this takes place—where the brain has such a surplus of the power of ideation that a pure, distinct, objective image of the external world exhibits itself without any aim; an image which is useless for the intentions of the will, indeed, in the higher degrees, disturbing, and even injurious to them—there, the natural disposition, at least, is already present for that abnormity which the name genius denotes, which signifies that here a genius foreign to the will, i.e., to the I proper, as it were coming from without, seems to be active. But to speak without a figure: genius consists in this, that the knowing faculty has received a considerably greater development than the service of the will, for which alone it originally appeared, demands. (…) Thus genius consists in an abnormally large measure of intellect, which can only find its use by being applied to the universal of existence, whereby it then devotes itself to the service of the whole human race, as the normal intellect to that of the individual. In order to make this perfectly comprehensible one might say: if the normal man consists of 2/3 will and 1/3 intellect, the genius, on the contrary, has 2/3 intellect and 1/3 will.”
“the man without imagination will never achieve anything great, unless it be in calculating and mathematics. The works of plastic and pictorial art and of poetry, as also the achievements of mimicry, may also be regarded as means by which those who have no imagination may make up for this defect as far as possible, and those who are gifted with it may facilitate the use of it.” Chegamos ao exato contrário da afirmação mais freqüente de que “não há gênios nas humanas”!
“The investigation of the particular phenomena is the field of the talents, in the real sciences, whose special object is always only the relations of things to each other.”
“The pleasure which we have in many of Goethe’s songs which bring the landscape before our eyes, or in Jean Paul’s sketches of nature, depends upon the fact that we thereby participate in the objectivity of those minds,¹ i.e., the purity with which in them the world as representation separated from the world as will, and, as it were, entirely emancipated itself from it. It also follows from the fact that the kind of knowledge peculiar to genius is essentially that which is purified from all will and its relations, that the works of genius do not proceed from intention or choice, but it is guided in them by a kind of instinctive necessity.” Sch. se contradiz – e muito – em estética! Se o objetivo é o instinto da espécie, é óbvio que o artista terá mais instinto que o plebeu – mas Sch. vê a recepção da obra como algo objetivo, e não o inverso, ao mesmo tempo em que nele o plebeu tem mais instinto, e menos autoconsciência. Sua teoria está de ponta-cabeça.
¹ Correto: participamos da objetividade única do grande gênio através de nossa subjetividade. Mas nós, enquanto bons espectadores, é que separamos as coisas. Em realidade, não há nada disso.
“because all anxiety proceeds from the will, and knowledge, on the contrary, is in and for itself painless and serene, this gives to the genius lofty brow and clear, perceiving glance, which are not subject to the service of the will and its wants, that look of great, almost supernatural serenity which at times breaks through, and consists [contrasts?] very well with the melancholy of their other features,¹ especially the mouth”
DA SERIEDADE DO SUPERIOR
¹ Chamada pelo normalman (ex: meu irmão) de “seriedade”. Mas o que acontece é que o gênio é ansioso em total desproporção com sua vida pessoal comezinha. Sua ansiedade transborda das criações artísticas para a vida pessoal. O estúpido e bobo leva uma vida incontáveis vezes mais serena; é claro que ele se aparvalha diante das menores tontices, que duram pouco, mas talvez não reconheça um perigo real, hegemônico e duradouro. O fascismo veio nos provar isso. Nossa serenidade não é extra-mundana, mas muito, muito profana e imanente. Quando até o que assenta e está na base do próprio cotidiano das massas demonstra fissuras e rachaduras, vivemos do despertar ao adormecer intranquilos, farejando alguma coisa. Para o normalman, tudo vai bem. A polarização entre as forças democráticas e reativas e o fascismo opressor, que é vista com bons olhos e sinal de pujança pelo gênio, desagrada essas pessoinhas sem bússola do real. Ora, se uma Jussara Pereira, normalwoman, tivesse mesmo menos intelecto e mais vontade que eu nessa gigantesca proporção de um terço (no sentido schopenhaueriano destes termos), eu não teria de ouvir dela que me “falta inteligência emocional (sic)”! No fim, temos os dois a mais, ainda que proporcionalmente possamos estar mais injetados do dito intelecto: temos mais vontade e mais intelecto. Nossa condição não lhes é intuível – eles tateiam, deduzem, podem acertar em cheio como bater na lua querendo aterrissar em Marte, é um método completamente caótico esse dos normais lidarem com os geniais…
“In tristitia hilaris, in hilaritate tristis”
Giordano Bruno
In pandemics, serene
In everyday life, anxious as hell
E completei mais tarde: no fim de semana um caco.
* * *
“the traveller in anxiety and haste will see the Rhine and its banks only as a line, and the bridges over it only as lines cutting it. In the mind of the man who is filled with his own aims the world appears as a beautiful landscape appears on the plan of a battlefield.”
“The normalman is sunk in the whirl and tumult of life, to which he belongs through his will; his intellect is filled with the things and events of life; but he does not know these things nor life itself in their objective significance”
“and then again in very different degrees of distinctness, the question passes through the mind like a flash, What is all this? or again, How is it really fashioned?. The first question, if it attains continued presence, will make the philosopher, and the other, under the same conditions, the artist or the poet.”
“My poetic rapture was very small, so long as I only encountered good; but it burnt with a bright flame when I fled from threatening evil. The tender poem, like the rainbow, is only drawn on a dark ground; hence the genius of the poet loves the element of melancholy.” Goethe
“The good will is in morality everything; but in art it is nothing.”
“Para o gênio, suas pinturas, poemas ou pensamentos são um fim; para os outros (imitadores ou observadores), um meio. Os últimos só vêem pela frente seus próprios negócios, por isso sabem muito bem como avançá-los, bajulando seus contemporâneos, servindo suas necessidades e atendendo seus humores. Sendo assim, esses outros, os normais e vulgares, vivem em sua maioria nas circunstâncias mais felizes; o primeiro, o gênio, o mais das vezes em condições miseráveis. Ele sacrifica seu bem-estar pessoal a fim de atender seu fim objetivo; e ele não pode agir ao contrário, porque toda sua seriedade e gravidade aí repousam. Os normais, seus opostos extremos, agem ao avesso; portanto, estes últimos são pequenos, mas o gênio é grande. O trabalho do gênio é atemporal, mas seu reconhecimento costuma advir apenas na posteridade: ele vive e morre como comum, em seu próprio tempo. De forma geral, só é um grande homem aquele que, em seu trabalho, prático ou teórico, não procura tirar vantagens para si mesmo, mas persegue tão-somente seu final objetivo (desinteressado).”
“Portanto, esse predicado altivo pertence somente ao herói genuíno e ao gênio: contrariamente à natureza humana, estes espécimes nunca buscaram o próprio sucesso, nunca viveram para si mesmos, mas para todos, para a humanidade. E tanto como a matemática das populações obriga que a maioria seja constantemente pequena, jamais podendo aspirar à grandeza, a natureza proíbe a ocorrência contrária: a de alguém que pudesse ser constantemente grande, grande a cada momento, o que é impossível—
Porque todo homem é feito de barro,
E o costume é sempre sua nutriz.”
“<Quem quer que tenha nascido com um talento, para um talento, sempre encontra nele a mais bela das existências>, diz Goethe. Quando olhamos para as vidas de grandes homens dos tempos passados, não pensamos <Ó, quão feliz deve ele estar agora, por ser ainda admirado entre nós após tanto tempo!>, mas sim: <Quão feliz deve ele ter sido no imediato fruir de sua mente, cujos traços continuam a ressuscitar ao longo dos séculos!>. Não na fama em si, mas naquilo que ele sabe que atingiu (e que originou sua fama), recai o valor que ele próprio – e portanto a humanidade póstuma – se atribuiu. Este é o íntimo prazer que compensa o sofrimento material desta raça de crianças imortais que existem em todos os tempos.”
“But even the man of great understanding and reason, whom one might almost call wise, is very different from the genius, and in this way, that his intellect retains a practical tendency, is concerned with the choice of the best ends and means, therefore remains in the service of the will, and accordingly is occupied in a manner that is thoroughly in keeping with nature. The firm, practical seriousness of life which the Romans denoted gravitaspresupposes that the intellect does not forsake the service of the will in order to wander away after that which does not concern the will;therefore it does not admit of that separation of the will and the intellect which is the condition of genius.” Nenhum povo defendeu jamais os gênios. Que os romanos fossem de uma moral pró-genialidade seria paradoxal!
“The kinship of genius and madness, so often observed, depends chiefly upon that separation of the intellect from the will which is essential to genius, but is yet contrary to nature. But this separation itself is by no means to be attributed to the fact that genius is accompanied by less intensity of will; for it is rather distinguished by a vehement and passionate character; but it is to be explained from this, that the practically excellent person, theman of deeds, has merely the whole, full measure of intellect required for an energetic will while most men lack even this; but genius consists in a completely abnormal, actual superfluity of intellect, such as is required for the service of no will. On this account the men of genuine works are a thousand times rarer than the men of deeds. It is just that abnormal superfluity of intellect by virtue of which it obtains the decided preponderance, sets itself free from the will,¹ and now, forgetting its origin, is freely active from its own strength and elasticity; and from this the creations of genius proceed.”
¹ Eu encaro como o homem prático aquele que se divorcia da vontade e cujo comportamento se tornou uma quimera fictícia (tratando o fenomênico como se fosse o real fundamental – só aqui é que haveríamos de falar em loucura). O gênio, o superabundante em intelecto se compararmos com seu estoque de vontade, é aquele, no entanto, que nunca separa os galhos e a copa das suas raízes instintuais: ele é exatamente o que a natureza projeta para a raça superior de homens.
“Lofty and beautiful trees bear no fruit; the fruit-trees are small, ugly cripples. The full garden rose is not fruitful, but the small, wild, almost scentless roses are. The most beautiful buildings are not the useful ones; a temple is no dwelling-house. A man of high, rare mental endowments compelled to apply himself to a merely useful business, for which the most ordinary man would be fitted, is like a costly vase decorated with the most beautiful painting which is used as a kitchen pot”
NOSSO TUDO OU NADA EXASPERANTE DE CADA DIA (QUE NUNCA É O ÚLTIMO, A DESPEITO DAS APARÊNCIAS): “First of all, the genius will be, as it were, the servant of 2 masters, for on every opportunity it frees itself from the service to which it was destined in order to follow its own ends, whereby it often leaves the will very inopportunely in a fix, and thus the individual so gifted becomes more or less useless for life, nay, in his conduct sometimes reminds us of madness. Then, on account of its highly developed power of knowledge, it will see in things more the universal than the particular; while the service of the will principally requires the knowledge of the particular. [ERRO: a Vontade já é esse particular, ela busca o universal, a vontade-para-o-poder, engrandecer-se.]But, again, when, as opportunity offers, that whole abnormally heightened power of knowledge directs itself with all its energy to the circumstances and miseries of the will, it will be apt to apprehend these too vividly, to behold all in too glaring colours, in too bright a light, and in a fearfully exaggerated form, whereby the individual falls into mere extremes.”
A pulga que vira um elefante.
“Hence it arises that highly gifted individuals sometimes are thrown by trifles into violent emotions of the most various kinds, which are incomprehensible to others, who see them transported with grief, joy, care, fear, anger, &c., by things which leave the everyday man quite composed. Thus, then, the genius lacks soberness, which simply consists in this, that one sees in things nothing more than actually belongs to them, especially with reference to our possible ends; therefore no sober-minded man can be a genius.”
A SOCIEDADE DOS MEUS MELHORES AMIGOS MORTOS: “What reasonableness, quiet composure, finished surveyal, certainty and proportionateness of behaviour is shown by the well-endowed normal man [Rafael Matta in a nutshell] in comparison with the now dreamy absentness, and now passionate excitement of the man of genius, whose inward pain is the mother’s lap of immortal works! To all this must still be added that genius lives essentially alone. It is too rare to find its like with ease, and too different from the rest of men to be their companion. With them it is the will, with him it is knowledge, that predominates; therefore their pleasures are not his, and his are not theirs. They are merely moral beings, and have merely personal relations; he is at the same time a pure intellect, and as such belongs to the whole of humanity. The course of thought of the intellect which is detached from its mother soil, the will, and only returns to it periodically, will soon show itself entirely different from that of the normal intellect, still cleaving to its stem. For this reason, and also on account of the dissimilarity of the pace, the former is not adapted for thinking in common, i.e., for conversation with the others: they will have as little pleasure in him and his oppressive superiority as he will in them. They will therefore feel more comfortable with their equals, and he will prefer the entertainment of his equals, although, as a rule, this is only possible through the works they have left behind them.”
“Il y a peu de vices qui empêchent un homme d’avoir beaucoup d’amis, autant que peuvent le faire de trop grandes qualités.” Chamfort
“Poucos são os vícios que impedem um homem de ter muitos amigos, os mesmos vícios que podem proporcionar as raras amizades de enormes qualidades.”
“The man of talent is like the marksman who hits a mark the others cannot hit; the man of genius is like the marksman who hits a mark they cannot even see to; therefore they only get news of him indirectly, and thus late; and even this they only accept upon trust and faith.”
“Il en est de la valeur des hommes comme de celle des diamans, qui à une certaine mesure de grosseur, de pureté, de perfection, ont un prix fixe et marqué, mais qui, par-delà cette mesure, restent sans prix, et ne trouvent point d’acheteurs.” Ch.
“Nel mondo non è se non volgo” Maquiavel
“Nada no mundo senão o vulgo!”
Qual é a semelhança entre gênios, figos e dias?
R: São mais bem-aproveitados fora da estação, após a maturidade, melhor secos do que frescos!
“The fundamental condition is an abnormal predominance of sensibility over irritability and reproductive power; and what makes the matter more difficult, this must take place in a male body. (Women may have great talent, but no genius, for they always remain subjective.)” UTOPIA: A MÁRTIR
LOS TESTARUDOS (CONTAINS AN IRONY)
“Certainly the brain will thereby very easily affect the rest of the organism injuriously, and through its heightened life and ceaseless activity wear it out prematurely, unless it is itself possessed of energetic vital force and a good constitution: thus the latter belong to the conditions of genius. Indeed even a good stomach is a condition on account of the special and close agreement of this part with the brain. But chiefly the brain must be of unusual development and magnitude, especially broad and high. On the other hand, its depth will be inferior, and the cerebrum will abnormally preponderate in proportion to the cerebellum. Without doubt much depends upon the configuration of the brain as a whole and in its parts; but our knowledge is not yet sufficient to determine this accurately, although we easily recognise the form of skull that indicates a noble and lofty intelligence. The texture of the mass of the brain must be of extreme fineness and perfection, and consist of the purest, most concentrated, tenderest, and most excitable nerve-substance; certainly the quantitative proportion of the white to the grey matter has a decided influence, which, however, we are also unable as yet to specify. However, the report of the post-mortem on the body of Byron (apud Medwin) shows that in his case the white matter was in unusually large proportion to the grey, and also that his brain weighed 6 pounds [2.72kg].” What’s grey matter anyway? White’s anatomy…
O IRRITADIÇO + A BEM-FORMADA + UMA PROBABILIDADE DE 25%, QUIÇÁ?¹
“In contrast to the superior size of the brain, the spinal cord and nerves must be unusually thin. (…) This whole quality of the brain and nervous system is the inheritance from the mother,to which we shall return in the following book.” Oui, oui, la délicatesse des traits…“But it is quite insufficient to produce the phenomenon of genius if the inheritance from the father is not added, a lively, passionate temperament, which exhibits itself somatically as unusual energy of the heart, and consequently of the circulation of the blood, especially towards the head.”
¹ O filho pode nascer com a configuração craniana do pai e com a lassitude materna (decidamente, o pior dos cenários)!… E se Schopenhauer estiver certo, tem de ser do sexo masculino, irrevogavelmente. Destarte, parecem ter ‘acertado comigo’ de segunda!
“…from the requisite strength of the heart the brain receives that internal movement different from its constant rising and sinking at every breath, which consists in a shaking of its whole mass at every pulsation of the 4 cerebral arteries, and the energy of which must correspond to the here increased quantity of the brain, as this movement in general is an indispensable condition of its activity. To this, therefore, small stature and especially a short neck is favourable, because by the shorter path the blood reaches the brain with more energy; and on this account great minds have seldom large bodies. Yet that shortness of the distance is not indispensable” Quando penso que vou encontrar uma restrição absoluta, há sempre um ‘senão’…
“for example, Goethe was of more than middle height.”
JOSÉ DE JESUS: “This condition coming from the father explains many faults of temperament described above. But, on the other hand, if this condition exists without the former, thus with an ordinarily or even badly constructed brain, it gives vivacity without mind, heat without light, hot-headed persons, men of unsupportable restlessness and petulance. That of two brothers only one has genius, and that one generally the elder, as, for example, in Kant’s case, is primarily to be explained from the fact that the father was at the age of strength and passion only when he was begotten; although also the other condition originating with the mother may be spoiled by unfavourable circumstances.”¹
¹ Quando meu irmão nasceu, tinha meu pai 29 e minha mãe 27. Novos demais? Na idade ideal quando se quer ter uma família feliz, sem dúvida. Quando eu nasci, 7 anos mais tarde, tornou-se impraticável viver uma adolescência e uma primeira juventude minimamente compreensíveis para 2 espíritos já obtusos e agora muito mais velhos e recalcitrantes em seus costumes e percepção de mundo (obsolescência cada vez mais grave de seus pontos de vista estacionários), mundo este sempre em rapidíssima mutação (a ponto de até hoje, mais de 20 anos depois do advento da internet, apresentarem o mesmo comportamento requerido pelos pais para criar filhos nos anos 1980…). A idade da força e da paixão seria, conforme alguns autores, entre os 30 e os 40… 36 e 34. Sete décadas em conjunto.
“Dans l’enfance le système nerveux, comparé au musculaire, est proportionellement plus considérable que dans tous les âges suivans, tandis que par la suite, la pluspart des autres systèmes prédominent sur celui-ci. On sait que, pour bien voir les nerfs, on choisit toujours les enfans (Bichat, De la vie et de la mort, art. 8, §6).”
“childhood is the time of innocence and happiness, the paradise of life, the lost Eden on which we look longingly back through the whole remaining course of our life. But the basis of that happiness is that in childhood our whole existence lies much more in knowing than in willing” “The innocent and clear glance of children, at which we revive ourselves, and which sometimes in particular cases reaches the sublime contemplative expression with which Raphael has glorified his cherubs, is to be explained from what has been said.”
“Certainly what a man acquires of insight and knowledge up to the age of puberty is, taken as a whole, more than all that he afterwards learns, however learned he may become; for it is the foundation of all human knowledge.”
“On what, then, the likeness between childhood and genius depends I scarcely need to express further: upon the surplus of the powers of knowledge over the needs of the will, and the predominance of the purely intellectual activity which springs from this. Really every child is to a certain extent a genius, and the genius is to a certain extent a child.”Não é tão simples assim. Ainda mais com um intelecto e uma vontade de definições tão ambíguas!
“In Riemer’s Mittheilungen über Goethe (vol. I, p. 184) it is related that Herder and others found fault with Goethe, saying he was always a big child. Certainly they were right in what they said, but they were not right in finding fault with it. It has also been said of Mozart that all his life he remained a child (Nissen’s Biography of Mozart, p. 2 and 529). Schlichtegroll’s Nekrology (for 1791, vol. II, p. 109) says of him: <In his art he early became a man, but in all other relations he always remained a child>. Every genius is even for this reason a big child; he looks out into the world as into something strange, a play, and therefore with purely objective interest. Accordingly he has just as little as the child that dull gravity of ordinary men, who, since they are capable only of subjective interests, always see in things mere motives for their action.”
“in many students¹ a purely intellectual tendency and an eccentricity suggestive of genius is unmistakable. But nature returns to her track; [os instintos reacionários voltam a contrabalançar a natureza excessivamente intelectual que ameaça aflorar no indivíduo] they assume the chrysalis form [o desenvolvimento intelectual sofre uma pausa – período de latência] and reappear at the age of manhood, as incarnate Philistines,² at whom we are startled when we meet them again in later years.”
¹ Significa que por mais que muitos alunos pareçam promissores e realmente exibam o temperament do gênio, o número efetivo de gênios na idade adulta é mínimo.
² O emprego da expressão “incarnate Philistines” soa estranho aqui, pois não combina com o teor da frase. Philistine tem necessariamente uma conotação jocosa, e no entanto Schopenhauer quer se referir aos eruditos sob uma luz de decência! Ou Sch. quer dizer que esse “retorno do intelecto” é muito defasado na maioria dos homens? I.e., surpreendemo-nos de um completo asinino (filisteu) aos 30 ter se tornado finalmente alguém ponderado aos 50? Porém isso não faz nenhum sentido, não é realista!
“The predominance of the cerebral nervous system and of intelligence in childhood, which is here under consideration, together with the decline of it in riper age, receives important illustration and confirmation from the fact that in the species of animals which stands nearest to man, the apes, the same relation is found in a striking degree. It has by degrees become certain that the highly intelligent orang-outang is a young pongo, which when it has grown up loses the remarkable human look of its countenance, and also its astonishing intelligence, because the lower and brutal part of its face increases in size, the forehead thereby recedes, large cristæ, muscular developments, give the skull a brutish form, the activity of the nervous system sinks, and in its place extraordinary muscular strength develops, which, as it is sufficient for its preservation, makes the great intelligence now superfluous.”
“Les singes de tous les genres offrent ce rapport inverse de l’âge et de l’intelligence. Ainsi, par exemple, l’Entelle (espèce de guenon du sous-genre des Semno-pithèques et l’un des singes vénérés dans la religion des Brames) a, dans le jeune âge, le front large, le museau peu saillant, le crâne élevé, arrondi, etc. Avec l’âge le front disparait, recule, le museau proémine; et le moral ne change pas moins que le physique: l’apathie, la violence, le besoin de solitude, remplacent la pénétration, la docilité, la confiance. Ces différences sont si grandes, que dans l’habitude où nous sommes de juger des actions des animaux par les nôtres, nous prendrions le jeune animal pour un individu de l’âge, où toutes les qualités morales de l’espèce sont acquises, et l’Entelle adulte pour un individu qui n’aurait encore que ses forces physiques. Mais la nature n’en agit pas ainsi avec ces animaux, qui ne doivent pas sortir de la sphère étroite, qui leur est fixée, et à qui il suffit en quelque sorte de pouvoir veiller à leur conservation. Pour cela l’intelligence était nécessaire, quand la force n’existait pas, et quand celle-ci est acquise, toute autre puissance perd de son utilité.” Cuvier “This last confirms my principle that the intellect, like the claws and teeth, is nothing else than a weapon in the service of the will.”
“Whenever I doubt whether an event which I remember really took place, I throw upon myself the suspicion of madness: unless it is that I am uncertain whether it was not a mere dream. If another doubts the reality of an event, related by me as an eye-witness, without mistrusting my honesty, then he regards me as insane. Whoever comes at last, through constantly recounting an event which originally was fabricated by him, to believe in it himself is, in this one point, really insane.”
“In the Lalita-vistara, well known to be the history of Buddha Sakya-Muni, it is related that at the moment of his birth all the sick became well, all the blind saw, all the deaf heard, and all mad people <recovered their memory>. This last is mentioned in 2 passages.”
“My own experience of many years has led me to the opinion that madness occurs proportionally most frequently among actors. But what a misuse they make of their memory! Daily they have to learn a new part or refresh an old one; but these parts are entirely without connection, nay, are in contradiction and contrast with each other, and every evening the actor strives to forget himself entirely and be some quite different person. This kind of thing paves the way for madness.”
“For the rest, I have only considered the p[s]hys[ch]ical origin of madness, thus what is introduced by external, objective occasions. More frequently, however, it depends upon purely physical causes, upon malformations or partial disorganisation of the brain or its membranes, also upon the influence which other parts affected with disease exercise upon the brain.”Na verdade é o contrário: ele só considerou causas internas, as outras são as externas (conversely)!
“It is the same as with suicide, which is rarely brought about by an external occasion alone, but a certain physical discomfort lies at its foundation; and according to the degree which this attains to a greater or less external occasion is required; only in the case of the very highest degree is no external occasion at all required.”
“I remember a man in a madhouse who had been a soldier, and had gone out of his mind because his officer had addressed him as Er.(*)
(*) In German inferiors are sometimes addressed as Er instead of Sie.”
“Pinel taught that there is a mania sine delirio, frenzy without insanity. This was controverted by Esquirol, and since then much has been said for and against it. The question can only be decided empirically. But if such a state really does occur, then it is to be explained from the fact that here the will periodically entirely withdraws itself from the government and guidance of the intellect, and consequently of motives, and thus it then appears as a blind, impetuous, destructive force of nature, and accordingly manifests itself as the desire to annihilate everything that comes in its way.” Isso é o conceito de psicose.
“Every corn of rice casts its shadow.” “Every neglected plant at once becomes beautiful.”
“That the sight of a mountain chain suddenly rising before us throws us so easily into a serious, and even sublime mood may partly depend upon the fact that the form of the mountains and the outline of the chain arising from it is the only constantly permanent line of the landscape, for the mountains alone defy the decay which soon sweeps away everything else, especially our own ephemeral person. Not that at the sight of the mountain chain all this appeared distinctly in our consciousness, but an obscure feeling of it is the fundamental note of our mood.”
“Before a picture, as before a prince, every one must stand, waiting to see whether and what it will speak to him”
“A filosofia está para a arte como o vinho para as uvas.” [a filosofia descobre o cerne da aparência] O contrário também poderia ser afirmado sem que a veritas cedesse em 1 milímetro para o erro. Cristo era mais artista que filósofo. Carpinteiro. O dá-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo da Estética: Dá-me uvas boas o bastante e meus pés saberão amassá-las numa boa bebida que fermentarei.
“Le secret d’être ennuyeux, c’est de tout dire.” Voltaire
“Sculpture gives merely the form without the colour; painting gives the colour, but the mere appearance of the form; thus both appeal to the imagination of the beholder. The wax figure, on the other hand, gives all, form and colour at once; whence arises the appearance of reality, and the imagination is left out of account. Poetry, on the contrary, appeals indeed to the imagination alone, which it sets in action by means of mere words.”
Curioso como meu cérebro parece se partir em 2 em tempos em que intercalo leituras de Jung com Schopenhauer, haja vista a ‘opinião’ de cada qual sobre a ‘Idéia’ platônica: “The communication of such a Representation can therefore only take place on the path of perception, which is that of art.”
“understanding, technical skill and routine must here fill up the gaps which the conception and inspiration of genius has left, and must mix with these all kinds of necessary supplementary work as cement of the only really genuinely brilliant parts. This explains why all such works, only excepting the perfect masterpieces of the very greatest masters (as, for example, Hamlet, Faust, the opera of Don Juan), inevitably contain an admixture of something insipid and wearisome, which in some measure hinders the enjoyment of them. Proofs of this are the Messiah, Gerusalemme liberata, even Paradise Lost and the Æneid; and Horace already makes the bold remark, Quandoque dormitat bonus Homerus. But that this is the case is the consequence of the limitation of human powers in general.”
“That in Italy even the simplest and most unornamented buildings make an æsthetic impression, while in Germany this is not the case, depends principally upon the fact that in Italy the roofs are very flat. A high roof is neither support nor burden, for its two halves mutually support each other, but the whole has no weight corresponding to its extension.”
“According to the weight of the whole burden generally will the Doric or the 2 lighter orders of columns be chosen, for the first, not only by the greater thickness, but also by the closer position of the columns, which is essential to it, is calculated for heavier burdens, to which end also the almost crude simplicity of its capital is suited. The capitals in general serve the end of showing visibly that the columns bear the entablature, and are not stuck in like pins”
“If it were the task of architecture as a fine art simply to exhibit these, then the model would have the same effect as the finished work. But this is distinctly not the case; on the contrary, the works of architecture, in order to act æsthetically, absolutely must have a considerable size; nay, they can never be too large, but may easily be too small. Indeed ceteris paribus the æsthetic effect is in exact proportion to the size of the building, because only great masses make the action of gravitation apparent and impressive in a high degree. But this confirms my view that the tendency and antagonism of those fundamental forces of nature constitute the special æsthetical material of architecture, which, according to its nature, requires large masses in order to become visible, and indeed capable of being felt.”
“At the sight of the pottery and implements of the ancients we feel that if nature had wished to produce such things it would have done so in these forms. Since, then, we see that the beauty of architecture arises from the unconcealed exhibition of the ends, and the attainment of them by the shortest and most natural path, my theory here appears in direct contradiction with that of Kant, which places the nature of all beauty in an apparent design without an end.”
“the modern architect cannot noticeably depart from the rules and patterns of the ancients without already being on the path of deterioration.”
“I scarcely need to remind the reader that in all these considerations I have had in view antique architecture alone, and not the so-called Gothic style, which is of Saracen origin, and was introduced by the Goths in Spain to the rest of Europe. Perhaps a certain beauty of its own kind is not altogether to be denied to this style, but yet if it attempts to oppose itself to the former as its equal, then this is a barbarous presumption which must not be allowed for a moment. How beneficently, after contemplating such Gothic magnificence, does the sight of a building correctly carried out in the antique style act upon our mind!”
“If one could bring an ancient Greek before our most celebrated Gothic cathedrals, what would he say to them? — (βάρβαρος) barbaroi!” “For the freely lying entablature has vanished, and with it the columns: support and burden, arranged and distributed in order to give visible form to the conflict between rigidity and gravity, are here no longer the theme. Moreover, that thorough, pure rationality by virtue of which everything admits of strict account, nay, already presents it of its own accord to the thoughtful beholder, and which belongs to the character of antique architecture, can here no longer be found; we soon become conscious that here, instead of it, a will guided by other conceptions has moved; therefore much remains unexplained to us.” “the horizontal line which is that of burden has entirely vanished, and the action of gravity only appears indirectly, disguised in arches and vaults, while the vertical line which is that of support, alone prevails, and makes palpable to the senses the victorious action of rigidity, in excessively high buttresses, towers, turrets, and pinnacles without number which rise unencumbered on high.”
“the brilliant side of Gothic churches is the interior; because here the effect of the groined vaulting borne by slender, crystalline, aspiring pillars, raised high aloft, and, all burden having disappeared, promising eternal security, impresses the mind; while most of the faults which have been mentioned lie upon the outside. In antique buildings the external side is the most advantageous, because there we see better the support and the burden; in the interior, on the other hand, the flat roof always retains something depressing and prosaic. For the most part, also, in the temples of the ancients, while the outworks were many and great, the interior proper was small. An appearance of sublimity is gained from the hemispherical vault of a cupola, as in the Pantheon, of which, therefore, the Italians also, building in this style, have made a most extensive use. What determines this is that the ancients, as southern peoples, lived more in the open air than the northern nations who have produced the Gothic style of architecture. Whoever, then, absolutely insists upon Gothic architecture being accepted as an essential and authorised style may, if he is also fond of analogies, regard it as the negative pole of architecture, or, again, as its minor key. In the interest of good taste I must wish that great wealth will be devoted to that which is objectively, i.e., actually, good and right, to what in itself is beautiful, but not to that whose value depends merely upon the association of ideas. Now when I see how this unbelieving age so diligently finishes the Gothic churches left incomplete by the believing Middle Ages, it looks to me as if it were desired to embalm a dead Christianity.”
“Accordingly painting may also present ugly faces and emaciated figures; sculpture, on the other hand, demands beauty, although not always perfect, but, throughout, strength and fulness of the figures. Consequently a thin Christ upon the Cross, a dying St. Jerome, wasted by age and disease, like the masterpiece of Domenichino, is a proper subject for painting; while, on the contrary, the marble figure by Donatello, in the gallery at Florence, of John the Baptist, reduced to skin and bone by fasting, has, in spite of the masterly execution, a repulsive effect. From this point of view sculpture seems suitable for the affirmation, painting for the negation of the will to live, and from this it may be explained why sculpture was the art of the ancients, while painting has been the art of the Christian era.” Agora nem mesmo a vontade de morrer se manifesta – em suspenso…
“Therefore it assisted the Greek sculptors very much that the climate and customs of their country gave them opportunity the whole day of seeing half-naked forms, and in the gymnasium entirely naked forms.”
“That I with mind divine
And human hand
May be able to form
What with my wife,
As animal, I can and must.”
Goethe
“Modern sculpture, whatever it may achieve, is still analogous to modern Latin poetry, and, like this, is a child of imitation, sprung from reminiscences. If it presumes to try to be original, it at once goes astray, especially upon the bad path of forming according to nature as it lies before it, instead of according to the proportions of the ancients.”
O ETERNO PODER DA COR NUMA CIVILIZAÇÃO SEM ESPERANÇA: “The art of the painter, considered only so far as it aims at producing the appearance of reality, may ultimately be referred to the fact that he understands how to separate purely what in seeing is the mere sensation, thus the affection of the retina, i.e., the only directly given effect, from its cause, i.e., the objective external world, the perception of which first rises in the understanding from this effect; whereby, if he has technical skill, he is in a position to produce the same effect in the eye through an entirely different cause, the patches of applied colour, from which then in the understanding of the beholder the same perception again arises through the unavoidable reference of the effect to the ordinary cause.”
“how should he compose an actual physiognomical unity when the principle of this unity is really unknown to him? Therefore, in the case of every face which has merely been imagined by an artist, we must doubt whether it is in fact a possible face, and whether nature, as the master of all masters, would not show it to be a bungled production by pointing out complete contradictions in it. This would, of course, lead to the principle that in historical paintings only portraits ought to figure, which certainly would then have to be selected with the greatest care and in some degree idealised.”
“Accordingly, since the shrieking of Laocoon had to be avoided for reasons which did not lie in the objects to be represented, but in the nature of the representing art, the task thus arose for the artist so to present this not-shrieking as to make it plausible to us that a man in such a position should not shriek. He solves this problem by representing the bite of the snake, not as having already taken place, nor yet as still threatening, but as just happening now in the side; for thereby the lower part of the body is contracted, and shrieking made impossible. This immediate but only subordinate reason was correctly discovered by Goethe, and is expounded at the end of the 11th book of his autobiography, and also in the paper on Laocoon in the first part of the Propylæa”
“In my time (1823) there was even discovered in Florence a Madonna of Raphael’s, which had hung for a long series of years on the wall of the servants’ hall of a palace (in the Quartiere di S. Spirito); and this happens among Italians, the nation which is gifted beyond all others with the sense of the beautiful.” “How unfailingly, on the contrary, a beautiful melody that touches the heart makes its journey round the world, and an excellent poem wanders from people to people.”
“the plastic and pictorial arts may be dispensed with: whole nations—for example, the Mohammedan peoples—are without them, but no people is without music and poetry.”
“But the best himself recognises himself as such in the fact that he sees how superficial was the view of the others, how much lay beyond it which they were not able to repeat, because they did not see it, and how much further his own glance and picture reaches. If he understood the superficial poets as little as they do him, then he would necessarily despair; for just because it requires an extraordinary man to do him justice, but the inferior poets can just as little esteem him as he can them, he also has long to live upon his own approval before that of the world follows it. Meanwhile he is deprived even of his own approval, for he is expected to be very modest. It is, however, as impossible that he who has merit, and knows what it costs, should himself be blind to it, as that a man who is 6 feet high should not observe that he rises above others.”
“Horace, Lucretius, Ovid and almost all the ancients have spoken proudly of themselves, and also Dante, Shakespeare, Bacon of Verulam, and many more. That one can be a great man without observing anything of it is an absurdity of which only hopeless incapacity can persuade itself”“merit and modesty have nothing in common except the initial letter.”
“Only good-for-nothings are modest.” Goethe
“pale, green, and yellow envy consumes his heart”
“Poetry is related to philosophy as experience is related to empirical science. Experience makes us acquainted with the phenomenon in the particular and by means of examples, science embraces the whole of phenomena by means of general conceptions.”
“in old age one prefers prose.”
“The youth who has been initiated into poetry earlier than into reality now desires from the latter what only the former can achieve; this is a principal source of the discomfort which oppresses the most gifted youths.”
“He is only half responsible for all that he says; metre and rhyme must answer for the other half.” “rhythm is a much nobler and more worthy expedient than rhyme” “The poorness of French poetry depends principally upon the fact that it is confined to rhyme alone without metre, and it is increased by the fact that in order to conceal its want of means it has increased the difficulty of rhyming by a number of pedantic laws, such as, for example, that only syllables which are written the same way rhyme, as if it were for the eye and not for the ear that the hiatus is forbidden” “the rhymed Latin poems of the Middle Ages have a peculiar charm.”
“If we could see into the secret workshops of the poets, we would find that the thought is sought for the rhyme 10 times oftener than the rhyme for the thought”
“On the other hand, even famous passages from famous poets shrink together and become insignificant when they are reproduced accurately in prose.”
“the Chinese dramas partly consist of verses which are sung. The meaning of them is often obscure, and, according to the statements of the Chinese themselves, the end of these verses is especially to flatter the ear, and the sense is neglected, and even entirely sacrificed to the harmony.”
“The sign by which one most immediately recognises the genuine poet, both of the higher and lower species, is the unforced nature of his rhymes. They have appeared of themselves as if by divine arrangement; his thoughts come to him already in rhyme.”
POETRY WITH NO RHYME (NOR HARM!) AND NO REASON: “According to my feeling (proofs cannot here be given) rhyme is from its nature binary: [pares e não ímpares] its effect is limited to one single recurrence of the same sound, and is not strengthened by more frequent repetition. Thus whenever a final syllable has received the one of the same sound its effect is exhausted; the third recurrence of the note acts merely as a second rhyme which accidentally hits upon the same sound, but without heightening the effect; it links itself on to the existing rhyme, yet without combining with it to produce a stronger impression. For the 1st note does not sound through the 2nd on to the 3rd: therefore this is an æsthetic pleonasm, a double courage which is of no use. Least of all, therefore, do such accumulations of rhymes merit the heavy sacrifices which they cost in the octave rhyme, the terza rima, and the sonnet, and which are the cause of the mental torture under which we sometimes read such productions, for poetical pleasure is impossible under the condition of racking our brains. That the great poetical mind sometimes overcomes even these forms, and moves in them with ease and grace, does not extend to a recommendation of the forms themselves, for in themselves they are as ineffectual as they are difficult.”
“Since this is so, I do not regard it as an evidence of ignorance, but as a proof of good taste, that Shakspeare in his sonnets has given different rhymes to each quatraine. At any rate, their acoustic effect is not in the least diminished by it, and the thought obtains its rights far more than it could have done if it had had to be laced up in the customary Spanish boots.”
“classical poetry has an unconditional, romantic poetry only a conditional, truth and correctness; analogous to Greek and Gothic architecture. Yet, on the other hand, we must remark here that all dramatic or narrative poems which transfer their scene to ancient Greece or Rome lose by this from the fact that our knowledge of antiquity, especially in what concerns the details of life, is insufficient, fragmentary, and not drawn from perception. This obliges the poet to avoid much and to content himself with generalities, whereby he becomes abstract, and his work loses that concreteness and individualisation which is throughout essential to poetry. It is this which gives all such works the peculiar appearance of emptiness and tediousness. Only Shakspeare’s works of this kind are free from it; because without hesitation he has presented, under the names of Greeks and Romans, Englishmen of his own time.”
“It has been objected to many masterpieces of lyrical poetry, especially some Odes of Horace (see, for example, the 2nd of the 3rd book) and several of Goethe’s songs (for example, The Shepherd’s Lament), that they lack proper connection and are full of gaps in the thought. But here the logical connection is intentionally neglected, in order that the unity of the fundamental sensation and mood may take its place, which comes out more clearly just by the fact that it passes like a thread through the separate pearls, and brings about the quick changes of the objects of contemplation, as in music the transition from one key to another is brought about by the chord of the 7th, through which the still sounding fundamental note becomes the dominant of the new key.”
“Accordingly, as in the lyrical poem the subjective element predominates, so in the drama, on the contrary, the objective element is alone and exclusively present. Between the 2, epic poetry in all its forms and modifications, from the narrative romance to the epos proper, has a broad middle path. For although in the main it is objective, yet it contains a subjective element, appearing now more and now less, which finds its expression in the tone, in the form of the delivery, and also in scattered reflections. We do not so entirely lose sight of the poet as in the drama.”Adorno leu Sch.. Quando digo leu, quero dizer que plagiou!
DRAMA: “For only the circumstances, the fate, the events, make the character manifest its nature, and only from the character does the action arise from which the events proceed.”
“The common end of the drama and the epic, to exhibit, in significant characters placed in significant situations, the extraordinary actions brought about by both, will be most completely attained by the poet if he first introduces the characters to us in a state of peace, in which merely their general colour becomes visible, and allows a motive to enter which produces an action, out of which a new and stronger motive arises, which again calls forth a more significant action, which, in its turn, begets new and even stronger motives, whereby, then, in the time suitable to the form of the poem, the most passionate excitement takes the place of the original peace, and in this now the important actions occur in which the qualities of the characters which have hitherto slumbered are brought clearly to light, together with the course of the world.”
“Great poets transform themselves into each of the persons to be represented, and speak out of each of them like ventriloquists; now out of the hero, and immediately afterwards out of the young and innocent maiden, with equal truth and naturalness: so Shakespeare and Goethe. Poets of the second rank transform the principal person to be represented into themselves. This is what Byron does; and then the other persons often remain lifeless, as is the case even with the principal persons in the works of mediocre poets.”
TRAGEDY: “As the chord of the 7th demands the fundamental chord; as the colour red demands green, and even produces it in the eye; so every tragedy demands an entirely different kind of existence, another world, the knowledge of which can only be given us indirectly just as here by such a demand. In the moment of the tragic catastrophe the conviction becomes more distinct to us than ever that life is a bad dream from which we have to awake.”
“[in Greek religion] all gods forsake the dying:—in Christianity they come to him; and so also in Brahmanism and Buddhism, although in the latter the gods are really exotic. Thus Hippolytus, like almost all the tragic heroes of the ancients, shows submission to inevitable fate and the inflexible will of the gods, but no surrender of the will to live itself.”
“But I am also entirely of opinion that modern tragedy stands higher than that of the ancients. Shakespeare is much greater than Sophocles; in comparison with Goethe’s Iphigeniaone might find that of Euripides almost crude and vulgar. The Bacchæ of Euripides is a revolting composition in favour of the heathen priests. Many ancient pieces have no tragic tendency at all, like the Alcestis and Iphigenia in Tauris of Euripides; some have disagreeable, or even disgusting motives, like the Antigone and Philoctetes. (…) All because the ancients had not yet attained to the summit and goal of tragedy, or indeed of the view of life itself.” Aforismo bastante hegeliano…
“The Shakespearian tragedy, on the other hand, is like a line which has also breadth: it takes time, exspatiatur: speeches and even whole scenes occur which do not advance the action, indeed do not properly concern it, by which, however, we get to know the characters or their circumstances more fully, and then understand the action also more thoroughly. This certainly remains the principal thing, yet not so exclusively that we forget that in the last instance what is aimed at is the representation of human nature and existence generally.”
“In the whole of Homer there is in my opinion no really magnanimous character presented, although many good and honest. In the whole of Shakespeare there may be perhaps a couple of noble, though by no means transcendently noble, characters to be found; perhaps Cordelia, Coriolanus—hardly more; on the other hand, his works swarm with the species indicated above [the bad men, the defectives, the lunatics and weirdos]. But Iffland’s and Kotzebue’s pieces have many magnanimous characters; while Goldoni has done as I recommended above [only one magnanimous man per piece], whereby he shows that he stands higher. On the other hand, Schiller’s Minna von Barnhelm labours under too much and too universal magnanimity; but so much magnanimity as the one Marquis Posa displays is not to be found in the whole of Goethe’s works together.”
“Now the circumstances which plunge a citizen family into want and despair are in the eyes of the great or rich, for the most part, very insignificant, and capable of being removed by human assistance, nay, sometimes even by a trifle: such spectators, therefore, cannot be tragically affected by them. [Dostoievsky, avaliado por Sch., perderia muitos pontos] On the other hand, the misfortunes of the great and powerful are unconditionally terrible, and also accessible to no help from without; for kings must help themselves by their own power, or fall. To this we have to add that the fall is greatest from a height.”
“If now we have found the tendency and ultimate intention of tragedy to be a turning to resignation, to the denial of the will to live, we shall easily recognise in its opposite, comedy, the incitement to the continued assertion of the will.” “Certainly it must hasten to drop the curtain at the moment of joy, so that we may not see what comes after; while the tragedy, as a rule, so ends that nothing can come after.”
“Even the most general in history is in itself only a particular and individual, a long period of time, or an important event; therefore the special is related to this as the part to the whole, but not as the case to the rule” “Therefore I may always know in general of the Thirty Years” War that it was a religious war, waged in the 17th century; but this general knowledge does not make me capable of telling anything more definite about its course.” “Therefore history is the more interesting the more special it is, but the less to be trusted, and approaches then in every respect to the romance.”“While history teaches us that at every time something else has been, philosophy tries to assist us to the insight that at all times exactly the same was, is, and shall be.” “The chapters of the history of nations are at bottom only distinguished by the names and dates; the really essential content is everywhere the same.” “From this point of view the material of history appears to us as scarcely a worthy object of the serious and painful consideration of the human mind, the human mind which, just because it is so transitory, ought to choose for its consideration that which passes not away.”
“For, since only the individual, and not the human race, has actual, immediate unity of consciousness, the unity of the course of life of the race is a mere fiction. [O ANTI-HEGEL: Parte ‘X’!] Besides, as in nature only the species are real, and the genera are mere abstractions, so in the human race only the individuals and their course of life are real, the peoples and their lives mere abstractions. Finally, constructive histories, guided by a positive optimism, always ultimately end in a comfortable, rich, fat State, with a well-regulated constitution, good justice and police, useful arts and industries, and, at the most, in intellectual perfection; for this, in fact, is alone possible, since what is moral remains essentially unaltered.”
“The Hegelians, who regard the philosophy of history as indeed the chief end of all philosophy, are to be referred to Plato, who unweariedly repeats that the object of philosophy is that which is unchangeable and always remains, not that which now is thus and now otherwise.” “One ought therefore to seek to understand what exists, what really is, today and always, i.e., to know the Ideas (in Plato’s sense [Representações]).”
“The said philosophers and glorifiers of history are accordingly simple realists, and also optimists and eudæmonists, consequently dull fellows and incarnate philistines;¹ and besides are really bad Christians, for the true spirit and kernel of Christianity, as also of Brahmanism and Buddhism, is the knowledge of the vanity of earthly happiness, the complete contempt for it, and the turning away from it to an existence of another, nay, an opposite, kind.” “therefore even atheistic Buddhism is far more closely related to Christianity than optimistic Judaism or its variety Islamism.”
¹ De novo essa expressão: aqui é inequivocamente: cabeça-de-avestruz! Materialistas de quinta categoria (o irônico é que são epígonos do Idealismo ultimado).
“The true philosophy of history consists in the insight that in all these endless changes and their confusion we have always before us only the same, even, unchanging nature, which today acts in the same way as yesterday and always; thus it ought to recognise the identical in all events, of ancient as of modern times, of the east as of the west; and, in spite of all difference of the special circumstances, of the costume and the customs, to see everywhere the same humanity. This identical element which is permanent through all change consists in the fundamental qualities of the human heart and head—many bad, few good.”
“If one has read Herodotus, then in a philosophical regard one has already studied history enough. For everything is already there that makes up the subsequent history of the world: the efforts, action, sufferings, and fate of the human race”“Really, however, there remains for it, after this conquest by art and rejection by science, a quite special province, different from both, in which it exists most honourably. What reason is to the individual, that is history to the human race.”
“Therefore every gap in history is like a gap in the recollective self-consciousness of a man; and in the presence of a monument of ancient times which has outlived the knowledge of itself, as, for example, the Pyramids, or temples and palaces in Yucatan, we stand as senseless and stupid as the brute in the presence of the action of man, in which it is implicated in his service; or as a man before something written in an old cipher of his own, the key to which he has forgotten; nay, like a somnambulist who finds before him in the morning what he has done in his sleep. In this sense, then, history is to be regarded as the reason, or the reflected consciousness, of the human race, and takes the place of an immediate self-consciousness common to the whole race, so that only by virtue of it does the human race come to be a whole, come to be a humanity.”“Now, what language is for the reason of individuals, as an indispensable condition of its use, writing is for the reason of the whole race here pointed out; for only with this does its real existence begin, as that of the individual reason begins first with language. Writing serves to restore unity to the consciousness of the human race, which is constantly interrupted by death, and therefore fragmentary; so that the thought which has arisen in the ancestor is thought out by his remote descendant; it finds a remedy for the breaking up of the human race and its consciousness into an innumerable number of ephemeral individuals, and so bids defiance to the ever hurrying time, in whose hand goes forgetfulness. As an attempt to accomplish this we must regard not only written, but also stone monuments, which in part are older than the former. For who will believe that those who, at incalculable cost, set in action the human powers of many thousands for many years in order to construct the pyramids, monoliths, rock tombs, obelisks, temples, and palaces which have already existed for thousands of years, could have had in view the short span of their own life, too short to let them see the finishing of the construction, or even the ostensible end which the ignorance of the many required them to allege? Clearly their real end was to speak to their latest descendants, to put themselves in connection with these, and so to establish the unity of the consciousness of humanity. The buildings of the Hindus, the Egyptians, even the Greeks and Romans, were calculated to last several thousand years, because through higher culture their horizon was a wider one; while the buildings of the Middle Ages and of modern times have only been intended, at the most, to last a few centuries; which, however, is also due to the fact that men trusted more to writing after its use had become general, and still more since from its womb was born the art of printing. Yet even in the buildings of more recent times we see the desire to speak to posterity; and, therefore, it is shameful if they are destroyed or disfigured in order to serve low utilitarian ends. Written monuments have less to fear from the elements, but more to fear from barbarians, than stone ones; they accomplish far more. The Egyptians wished to combine the 2, for they covered their stone monuments with hieroglyphics, nay, they added paintings in case the hieroglyphics should no longer be understood.”
“The 4 voices, or parts, of all harmony, the bass, the tenor, the alto, and the soprana, or the fundamental note, the third, the fifth, and the octave, correspond to the 4 grades in the series of existences, the mineral kingdom, the vegetable kingdom, the brute kingdom, and man. This receives an additional and striking confirmation in the fundamental rule of music, that the bass must be at a much greater distance below the 3 upper parts than they have between themselves; so that it must never approach nearer to them than at the most within an octave of them, and generally remains still further below them. Hence, then, the correct triad has its place in the third octave from the fundamental note. Accordingly the effect of extended harmony, in which the bass is widely separated from the other parts, is much more powerful and beautiful than that of close harmony, in which it is moved up nearer to them, and which is only introduced on account of the limited compass of the instruments. This whole rule, however, is by no means arbitrary, but has its root in the natural source of the tonal system; for the nearest consonant intervals that sound along with the fundamental note by means of its vibrations are the octave and its fifth.”
“The fact that the high voice which sings the melody is yet also an integral part of the harmony, and therein accords even with the deepest fundamental bass, may be regarded as the analogue of the fact that the same matter which in a human organism is the supporter of the representation of man must yet also exhibit and support the representations of gravitation and chemical qualities, that is, of the lowest grades of the objectification of will.
That music acts directly upon the will, i.e., the feelings, passions, and emotions of the hearer, so that it quickly raises them or changes them, may be explained from the fact that, unlike all the other arts, it does not express the representations, or grades of the objectification of the will, but directly the will itself.
As surely as music, far from being a mere accessory of poetry, is an independent art, nay, the most powerful of all the arts, and therefore attains its ends entirely with means of its own, so surely does it not stand in need of the words of the song or the action of an opera.”
“The words are and remain for the music a foreign addition, of subordinate value, for the effect of the tones is incomparably more powerful, more infallible, and quicker than that of the words. Therefore, if words become incorporated in music, they must yet assume an entirely subordinate position, and adapt themselves completely to it. But the relation appears reversed in the case of the given poetry, thus the song or the libretto of an opera to which music is adapted. For the art of music at once shows in these its power and higher fitness, disclosing the most profound ultimate and secret significance of the feeling expressed in the words or the action presented in the opera, giving utterance to their peculiar and true nature, and teaching us the inmost soul of the actions and events whose mere clothing and body is set before us on the stage. With regard to this superiority of the music, and also because it stands to the libretto and the action in the relation of the universal to the particular, of the rule to the example, it might perhaps appear more fitting that the libretto should be written for the music than that the music should be composed for the libretto. However, in the customary method, the words and actions of the libretto lead the composer to the affections of the will which lie at their foundation, and call up in him the feelings to be expressed; they act, therefore, as a means of exciting his musical imagination.”Atualidade total, na era das trilhas sonoras.
“Music is certainly able with the means at its own disposal to express every movement of the will, every feeling; but by the addition of words we receive besides this the objects of these feelings, the motives which occasion them.”
“The pleasure of the spectator, unless he is a mere gaper, really depends upon an indistinct feeling of this. Yet in the opera music also shows its heterogeneous nature and higher reality by its entire indifference to the whole material of the incidents; in consequence of which it everywhere expresses the storm of the passions and the pathos of the feelings in the same way, and its tones accompany the piece with the same pomp, whether Agamemnon and Achilles or the dissensions of a bourgeois family form its material. For only the passions, the movements of the will, exist for it, and, like God, it sees only the hearts. It never assimilates itself to the natural; and therefore, even when it accompanies the most ludicrous and extravagant farces of the comic opera, it still preserves its essential beauty, purity, and sublimity; and its fusion with these incidents is unable to draw it down from its height, to which all absurdity is really foreign. Thus the profound and serious significance of our existence hangs over the farce and the endless miseries of human life, and never leaves it for a moment.”
“If we now cast a glance at purely instrumental music, a symphony of Beethoven presents to us the greatest confusion, which yet has the most perfect order at its foundation, the most vehement conflict, which is transformed the next moment into the most beautiful concord. It is rerum concordia discors, a true and perfect picture of the nature of the world which rolls on in the boundless maze of innumerable forms, and through constant destruction supports itself.” “like a spirit world without matter”(o verdadeiro sentido de sublimação)“Certainly we have a tendency to realise them while we listen, to clothe them in imagination with flesh and bones, and to see in them scenes of life and nature on every hand. Yet, taken generally, this is not required for their comprehension or enjoyment, but rather imparts to them a foreign and arbitrary addition”
“Since now, in the foregoing remarks, and also in the text, I have considered music only from the metaphysical side, that is, with reference to the inner significance of its performances, it is right that I should now also subject to a general consideration the means by which, acting upon our mind, it brings these about; therefore that I should show the connection of that metaphysical side of music, and the physical side, which has been fully investigated, and is well known, I start from the theory which is generally known, and has by no means been shaken by recent objections, that all harmony of the notes depends upon the coincidence of their vibrations, which when 2 notes sound together occurs perhaps at every second, or at every 3rd, or at every 4th vibration, according to which, then, they are the octave, the fifth, or the fourth of each other, and so on. So long as the vibrations of 2 notes have a rational relation to each other, which can be expressed in small numbers, they can be connected together in our apprehension through their constantly recurring coincidence: the notes become blended, and are thereby in consonance. If, on the other hand, that relation is an irrational one, or one which can only be expressed in larger numbers, then no coincidence of the vibrations which can be apprehended occurs, but obstrepunt sibi perpetuo, whereby they resist being joined together in our apprehension, and accordingly are called a dissonance. Now, according to this theory, music is a means of making rational and irrational relations of numbers comprehensible, not like arithmetic by the help of the concept, but by bringing them to a knowledge which is perfectly directly and simultaneously sensible. Now the connection of the metaphysical significance of music with this its physical and arithmetical basis depends upon the fact that what resists our apprehension, the irrational relation, or the dissonance, becomes the natural type of what resists our will (…) And further, since that rational and irrational element in the numerical relations of the vibrations admits of innumerable degrees, shades of difference, sequences, and variations, by means of it music becomes the material in which all the movements of the human heart, i.e., of the will, movements whose essential nature is always satisfaction and dissatisfaction, although in innumerable degrees, can be faithfully portrayed and rendered in all their finest shades and modifications, which takes place by means of the invention of the melody.”
“music never cause us actual sorrow, but even in its most melancholy strains is still pleasing, and we gladly hear in its language the secret history of our will, and all its emotions and strivings, with their manifold protractions, hindrances, and griefs, even in the saddest melodies. When, on the other hand, in reality and its terrors, it is ourwill itself that is roused and tormented, we have not then to do with tones and their numerical relations, but are rather now ourselves the trembling string that is stretched and twanged.”
“originally and in its own nature, bass can never present the melody. If, however, the melody is assigned to it, this happens by means of counterpoint, i.e., it is an inverted bass—one of the upper parts is lowered and disguised as a bass; properly speaking, it then requires a second fundamental bass as its accompaniment.” “We may remark in passing that such a melodious bass, forcibly obtained by inversion, might, in keeping with our metaphysic of music, be compared to a block of marble to which the human form has been imparted: and therefore it is wonderfully suitable to the stone guest in Don Juan.”
“Melody consists of 2 elements, the one rhythmical, the other harmonious. The former may also be described as the quantitative, the latter as the qualitative element, since the first is concerned with the duration, and the second with the pitch of the notes. In the writing of music the former depends upon the perpendicular, and the latter upon the horizontal lines. Purely arithmetical relations, thus relations of time, lie at the foundation of both; in the one case the relative duration of the notes, in the other the relative rapidity of their vibrations. The rhythmical element is the essential; for it can produce a kind of melody of itself alone, and without the other, as, for example, on the drum; yet complete melody requires both elements. It consists in an alternating disunion and reconciliation of them”“Rhythm is in time what symmetry is in space, division into equal parts corresponding to each other.” “In the series of the arts given by me architecture and music are the 2 extreme ends.”
“The musical period consists of several bars, and it has also 2 equal parts, one rising, aspiring, generally going to the dominant, and one sinking, quieting, returning to the fundamental note[/tone].Two or several periods constitute a part, which in general is also symmetrically doubled by the sign of repetition; 2 parts make a small piece of music, or only a movement of a larger piece; and thus a concerto or sonata usually consists of 3 movements, a symphony of 4, and a mass of 5.”
“Its harmonious element has as its assumption the fundamental note, as the rhythmical element has the species of time, and consists in a wandering from it through all the notes of the scale, until by shorter or longer digressions it reaches a harmonious interval, generally the dominant or sub-dominant, which affords it an incomplete satisfaction; and then follows, by a similarly long path, its return to the fundamental note, with which complete satisfaction appears. (…) But both must so take place that the attainment of the interval referred to and the return to the fundamental note correspond with certain favourite points of the rhythm, otherwise it will not work.”
“A succession of merely consonant chords would be satiating, wearisome, and empty, like the languor produced by the satisfaction of all wishes. Therefore dissonances must be introduced, although they disquiet us and affect us almost painfully, but only in order to be resolved again in consonances with proper preparation. Indeed, in the whole of music there are really only 2 fundamental chords, the dissonant chord of the 7th and the consonant triad, to which all chords that occur can be referred.”“And as there are 2 general fundamental moods of the mind, serenity, or at least healthiness, and sadness, or even oppression, so music has 2 general keys, the major and the minor, which correspond to these, and it must always be in 1 of the 2. But it is, in fact, very wonderful that there is a sign of pain which is neither physically painful nor yet conventional, but which nevertheless is suitable and unmistakable: the minor. From this we may measure how deeply music is founded in the nature of things and of man. With northern nations, whose life is subject to hard conditions, especially with the Russians, the minor prevails, even in the church music. Allegro in the minor is very common in French music, and is characteristic of it; it is as if one danced while one’s shoe pinched.”
“Perhaps some may be offended, that, according to this metaphysic of it, music, which so often exalts our minds, which seems to us to speak of other and better worlds than ours, yet really only flatters the will to live, because it exhibits to it its nature, deludes it with the image of its success, and at the end expresses its satisfaction and contentment. The following passage from the Vedas may serve to quiet such doubts: Etanand sroup,{?} quod forma gaudii est, (CARACTERES GREGOS) pram Atma ex hoc dicunt, quod quocunque loco gaudium est, particula e gaudio ejus est” (Oupnekhat, vol. I, p. 405; et iterum, vol. II, p. 215).”
SUPLEMENTOS AO QUARTO TOMO
“In general I make the demand that whoever wishes to make himself acquainted with my philosophy shall read every line of me. For I am no voluminous writer, no fabricator of compendiums, no earner of pecuniary rewards, not one whose writings aim at the approbation of a minister; in a word, not one whose pen is under the influence of personal ends.” “Therefore I have written little, but that little with reflection and at long intervals, and accordingly I have also confined within the smallest possible limits those repetitions which in philosophical works are sometimes unavoidable on account of the connection, and from which no single philosopher is free; so that by far the most of what I have to say is only to be found in one place. On this account, then, whoever wishes to learn from me and understand me must leave nothing unread that I have written. Yet one can judge me and criticise me without this, as experience has shown; and to this also I further wish much pleasure.”
“All religious and philosophical systems are principally directed to this end, and are thus primarily the antidote to the certainty of death, which the reflective reason produces out of its own means.”
“Brahmanism and Buddhism, which teach man to regard himself as himself, the original being, the Brahm, to which all coming into being and passing away is essentially foreign, will achieve much more in this respect than such as teach that man is made out of nothing, and actually begins at birth his existence derived from another.”
“to teach him that he recently came out of nothing, and consequently through an eternity has been nothing, but yet for the future will be imperishable, is just the same as to teach him that although he is through and through the work of another, yet he will be held responsible through all eternity for his actions.” “In consequence, we see now in England (1844), among ruined factory hands, the Socialists, [!] and in Germany, among ruined students, the young Hegelians, sink to the absolutely physical point of view, which leads to the result: edite, bibite, post mortem nulla voluptas [coma e beba, pois quando morreres não terás vontades]”
[!] Nada a ver com o socialismo marxista.
“Opinions change with time and place; but the voice of nature remains always and everywhere the same, and is therefore to be heeded before everything else.”
“Nothing excites us so irresistibly to the most lively interest as danger to the life of others; nothing is so shocking as an execution. Now the boundless attachment to life which appears here cannot have sprung from knowledge and reflection; to these it rather appears foolish, for the objective worth of life is very uncertain, and at least it remains doubtful whether it is preferable to not being, nay, if experience and reflection come to be expressed, not being must certainly win.”Hamlet ao pensar já respondeu a pergunta. Assim que os problemas do mundo vieram “em seu socorro”, ele viveu (agiu), e em conseqüência morreu.
“Kant’s ideality of time alone solves all these riddles. But we are not speaking of that now. This, however, results from what has been said, that to mourn for the time when one will be no more is just as absurd as it would be to mourn over the time when as yet one was not”
FILOSOFIA DO DESMAIO:“first the power of sight leaves us, still fully conscious, and then immediately the most profound unconsciousness enters; the sensation that accompanies it, so far as it goes, is anything but disagreeable; and without doubt, as sleep is the brother of death, so the swoon is its twin-brother.”
TUDO VAI FICAR BEM:“Even violent death cannot be painful, for even severe wounds are not felt at all till some time afterwards, often not till the outward signs of them are observed. If they are rapidly mortal, consciousness will vanish before this discovery; if they result in death later, then it is the same as with other illnesses. All those also who have lost consciousness in water, or from charcoal fumes, or through hanging are well known to say that it happened without pain.”
“the days roll ever faster, events lose their significance, everything grows pale. The old man stricken in years totters about or rests in a corner now only a shadow, a ghost of his former self. What remains there for death to destroy?”
“All that have met with insuperable obstacles to their existence or their efforts, that suffer from incurable diseases or inconsolable griefs, have as a last refuge, which generally opens to them of its own accord, the return into the womb of nature, from which they arose for a short time, enticed by the hope of more favourable conditions of existence than have fallen to their lot, and the same path out of which constantly remains open.”
“The Hindus give the god of death, Yama, 2 faces; one very fearful and terrible, and one very cheerful and benevolent.”
“But the principle of our life we must, primarily at least, conceive as a force of nature, until perhaps a more profound investigation has brought us to know what it is in-itself. [Até tu caindo nesta armadilha, Brutus?] Thus, taken simply as a force of nature, the vital force remains entirely undisturbed by the change of forms and states, which the bond of cause and effect introduces and carries off again, and which alone are subject to the process of coming into being and passing away, as it lies before us in experience. Thus so far the imperishable nature of our true being can be proved with certainty.”
“What! it will be said, the permanence of the mere dust, of the crude matter, is to be regarded as a continuance of our being? Oh! do you know this dust, then? Do you know what it is and what it can do? Learn to know it before you despise it. This matter which now lies there as dust and ashes will soon, dissolved in water, form itself as a crystal, will shine as metal, will then emit electric sparks, will by means of its galvanic intensity manifest a force which, decomposing the closest combinations, reduces earths to metals; nay, it will, of its own accord, form itself into plants and animals, and from its mysterious womb develop that life for the loss of which you, in your narrowness, are so painfully anxious.”
“On the other hand, nature, which never lies, but is always straightforward and open, speaks quite differently upon this theme, speaks like Krishna in the Bhagavadgita. What it says is: The death or the life of the individual is of no significance.” “If I kill a living creature, whether a dog, a bird, a frog, or even only an insect, it is really inconceivable that this being, or rather the original force by virtue of which such a marvellous phenomenon exhibited itself just the moment before, in its full energy and love of life, should have been annihilated by my wicked or thoughtless act. And again, on the other hand, the millions of animals of every kind which come into existence every moment, in infinite variety, full of force and activity, can never, before the act of their generation, have been nothing at all, and have attained from nothing to an absolute beginning.”
“that the birth of an animal is an arising out of nothing, and accordingly that its death is its absolute annihilation, and this with the further addition that man, who has also originated out of nothing, has yet an individual, endless existence, and indeed a conscious existence, while the dog, the ape, the elephant, are annihilated by death, is really something against which the healthy mind revolts and which it must regard as absurd.”
“Throughout and everywhere the true symbol of nature is the circle, because it is the schema or type of recurrence. This is, in fact, the most universal form in nature, which it carries out in everything, from the course of the stars down to the death and the genesis of organised beings, and by which alone, in the ceaseless stream of time, and its content, a permanent existence, i.e., a nature, becomes possible.”
“Whence will all these come? Where are they now? Where is the fertile womb of that nothing, pregnant with worlds, which still conceals the coming races? Would not the smiling and true answer to this be, Where else should they be than there where alone the real always was and will be, in the present and its content?”
“Whether the fly which now buzzes round me goes to sleep in the evening, and buzzes again tomorrow, or dies in the evening, and in spring another fly buzzes which has sprung from its egg: that is in-itself the same thing”
“<Till 10 o’clock in the morning no Cercaria ephemera (one of the infusoria) is to be seen (in the infusion), and at 12PM the whole water swarms with them. In the evening they die, and the next morning they again appear anew.> (Burdach, Phisiology, op.cit.). So it was observed by Nitzsch¹ 6 days running.” [!!]
¹ Dos vários e vários Nitzsch alemães de proeminência que viveram a travessia do XVIII ao XIX, podemos ratificar que se trata de Christian Ludwig Nitzsch (1782-1837), o único naturalista entre eles.
“The plant always thrives and blooms, the insect hums, the brute and the man exist in unwasted youth, and the cherries that have already been enjoyed a thousand times we have again before us every summer. The nations also exist as immortal individuals, although sometimes their names change; even their action, what they do and suffer, is always the same; although history always pretends to relate something different: for it is like the kaleidoscope, which at every turn shows a new figure, while we really always have the same thing before our eyes.” “The will to live manifests itself in an endless present, because this is the form of the life of the species, which, therefore, never grows old, but remains always young.”
“winking the eye, by the absence of which the Indian gods are known, if they appear in human form.”
“Let us now think of that alternation of death and birth as infinitely rapid vibrations, and we have before us the enduring objectification of the will, the permanent Representations of being, fixed like the rainbow on the waterfall.”
“Therefore every moment we can cheerfully cry, <In spite of time, death, and decay, we are still all together!>”
“For the substratum, or the content, or the material of the present, is through all time really the same. The impossibility of knowing this identity directly is just time, a form and limitation of our intellect. That on account of it, for example, the future event is not yet, depends upon an illusion of which we become conscious when that event has come.” “To assist this insight, imagine all the events and scenes of human life, bad and good, fortunate and unfortunate, pleasing and terrible, as they successively present themselves in the course of time and difference of places, in the most checkered multifariousness and variety, as at once and together, and always present in the Nunc stans, while it is only apparently that now this and now that is; then what the objectification of the will to live really means will be understood. (…) The dogma of metempsychosis has proceeded from the feeling of the truth which has just been expressed.”
« Parmenides et Melissus ortum et interitum tollebant, quoniam nihil moveri putabant » Estobeu
Parmênides e Melisso seqüestraram o nascer e o morrer, posto que para eles nada se movia
« Stulta, et prolixas non admittentia curas
Pectora: qui sperant, existere posse, quod ante
Non fuit, aut ullam rem pessum protinus [imediatamente] ire;—
Non animo prudens homo quod præsentiat ullus,
Dum vivunt (namque hoc vitae nomine signant),
Sunt, et fortuna tum conflictantur utraque: [ambos]
Ante ortum nihil est homo, nec post funera quidquam. »
Empédocles
« Un château immense, au frontispice duquel on lisait: ‹Je n’appartiens à personne, et j’appartiens à tout le monde: vous y étiez avant que d’y entrer, vous y serez encore, quand vous en sortirez›. »
Diderot
“There is no greater contrast than that between the ceaseless flight of time, which carries its whole content with it, and the rigid immobility of what is actually present, which at all times is one and the same. And if from this point of view we watch in a purely objective manner the immediate events of life, the Nunc stans becomes clear and visible to us in the centre of the wheel of time. To the eye of a being of incomparably longer life, which at one glance comprehended the human race in its whole duration, the constant alternation of birth and death would present itself as a continuous vibration, and accordingly it would not occur to it at all to see in this an ever new arising out of nothing and passing into nothing; but just as to our sight the quickly revolving spark appears as a continuous circle, the rapidly vibrating spring as a permanent triangle, the vibrating cord as a spindle, so to this eye the species would appear as that which has being and permanence, death and life as vibrations.”
“we are essentially, and in the chief respect, the same as the brutes (…) For if we seek anything upon a wrong path, we have just on that account forsaken the right path, and upon the path we follow we will never attain to anything in the end but late disillusion. Up, then, follow the truth, not according to preconceived notions, but as nature leads!”
“I know well that if I seriously assured anyone that the cat which now plays in the yard is still the same one which made the same springs and played the same tricks there 300 years ago, he would think I was mad”“What an unfathomable mystery lies, then, in every animal! Look at the nearest one; look at your dog, how cheerfully and peacefully he lives! Many thousands of dogs have had to die before it came to this one’s turn to live. But the death of these thousands has not affected the Representation of the dog; it has not been in the least disturbed by all that dying. Therefore the dog exists as fresh and endowed with primitive force as if this were its first day and none could ever be its last; and out of its eyes there shines the indestructible principle in it, the archæus [arquétipo].”
“Now death is the temporal end of the temporal phenomenon; but as soon as we abstract time, there is no longer any end, and this word has lost all significance. But I, here upon the objective path, am trying to show the positive side of the matter, that the thing-in-itself remains untouched by time, and by that which is only possible through time, arising and passing away, and that the phenomena in time could not have even that ceaselessly fleeting existence which stands next to nothingness, if there were not in them a kernel of the infinite. Eternity is certainly a conception which has no perception as its foundation; accordingly it has also a merely negative content; it signifies a timeless existence. Time is yet merely an image of eternity, as Plotinus has it”
“the time when I shall not be will objectively come; but subjectively it can never come. It might therefore, indeed, be asked, how far everyone, in his heart, actually believes in a thing which he really cannot conceive at all”
“Sentimus, experimurque, nos æternos esse.”
Sentimos e experimentamos que nós eternos.
“Ex nihilo nihil fit, et in nihilum nihil potest reverti.”
Do nada nada se faz, e no nada nada pode sucumbir.
“Thus in this the Old Testament is perfectly consistent; for no doctrine of immortality is suitable to a creation out of nothing. New Testament Christianity has such a doctrine because it is Indian in spirit, and therefore more than probably also of Indian origin, although only indirectly, through Egypt. But to the Jewish stem, upon which that Indian wisdom had to be grafted in the Holy Land, such a doctrine is as little suited as the freedom of the will to its determinism” “Brahmanism and Buddhism, on the other hand, have quite consistently, besides the continued existence after death, an existence before birth to expiate the guilt of which we have this life.”
“In Colebrooke’sHistory of the Indian Philosophy, in the Transactions of the Asiatic London Society, vol. 1, p. 577 [we read thus]: Against the system of the Bhagavatas which is but partially heretical, the objection upon which the chief stress is laid by Vyaso is, that the soul would not be eternal if it were a production, and consequently had a beginning.”
“The lot in hell of impious persons called Deitty is the most severe: these are they who, discrediting the evidence of Buddha, adhere to the heretical doctrine that all living beings had their beginning in the mother’s womb, and will have their end in death.”
Upham, Doctrine of Buddhism
“But he will recognise his existence as necessary who reflects that up till now, when he exists, already an infinite time, thus also an infinity of changes, has run its course, but in spite of this he yet exists; thus the Whole range of all possible states has already exhausted itself without being able to destroy his existence. If he could ever not be, he would already not be now. For the infinity of the time that has already elapsed, with the exhausted possibility of the events in it, guarantees that what exists, exists necessarily.”Veraz a acusação de Wagner de que Nietzsche apenas reproduzia Schopenhauer em seus livros mais polêmicos? [1/2]
“If time, of its own resources, could bring us to a happy state, then we would already have been there long ago; for an infinite time lies behind us. But also: if it could lead us to destruction, we would already have long been no more.” This is important, thank you! Gaia vs. Hydrogen Bombs…
“From the fact that we now exist, it follows, if well considered, that we must at all times exist. For we are ourselves the nature which time has taken up into itself in order to fill its void; consequently it fills the whole of time, present, past, and future, in the same way, and it is just as impossible for us to fall out of existence as to fall out of space. Carefully considered, it is inconceivable that what once exists in all the strength of reality should ever become nothing, and then not be, through an infinite time.” Quantos milênios mais, quantos milênios mais, “raça” humana?
Uma espécie de paradoxo do avô se instala no presente: no futuro ninguém apertará o botão vermelho.
“Hence has arisen the Christian doctrine of the restoration of all things, that of the Hindus of the constantly repeated creation of the world by Brahma, together with similar dogmas of the Greek philosophers.”
“the really essential part of things, of man, of the world, lies permanently and enduringly in the nunc stans, firm and immovable; and that the change of the phenomena and events is a mere consequence of our apprehension of them by means of our form of perception, which is time. Accordingly, instead of saying to men, <Ye have arisen through birth, but are immortal>, one ought to say to them, <Ye are not nothing>, and teach them to understand this in the sense of the saying attributed to Hermes Trismegistus, Quod enim est, erit semper.”
“But the great equivocation really lies in the word I” “But the ‘I’ is the dark point in consciousness, as on the retina the exact point at which the nerve of sight enters is blind, as the brain itself is entirely without sensation, the body of the sun is dark, and the eye sees all except itself.”[2/2]
“Besides, however, it may further be taken into consideration that the individuality of most men is so miserable and worthless that with it they truly lose nothing, and that that in them which may still have some worth is the universal human element”Substrato do último homem, eterno como qualquer Um
FILOSOFIA VAMPÍRICA AVANT LA LETTRE: “Indeed, even the rigid unalterableness and essential limitation of every individual would, in the case of an endless duration of it, necessarily at last produce such great weariness by its monotony that only to be relieved of this one would prefer to become nothing. To desire that the individuality should be immortal really means to wish to perpetuate an error infinitely. For at bottom every individuality is really only a special error, a false step, something that had better not be”
“indeed really all men, are so constituted that they could not be happy in whatever kind of world they might be placed. In proportion as such a world excluded want and hardship, they would become a prey to ennui, and in proportion as this was prevented, they would fall into want, misery, and suffering.”
“Accordingly here lies the point at which the transcendent philosophy links itself on to ethics. (…) That which really dreamt this dream is yet different from it, and alone remains over. On the other hand, the fear that with death all will be over may be compared to the case of one who imagines in a dream that there are only dreams without a dreamer.”
“the compatibility of virtue and egoism. But these 2 will never embrace: they are fundamentally opposed.”
“The most thorough answer to the question as to the continued existence of the individual after death lies in Kant’s great doctrine of the ideality of time, which just here shows itself specially fruitful and rich in consequences, for it substitutes a purely theoretical but well-proved insight for dogmas which upon one path as upon the other lead to the absurd, and thus settles at once the most exciting of all metaphysical questions. Beginning, ending, and continuing are conceptions which derive their significance simply and solely from time, and are therefore valid only under the presupposition of this. But time has no absolute existence; it is not the manner of being of the thing-in-itself, but merely the form of our knowledge of our existence and nature, and that of all things, which is just on this account very imperfect, and is limited to mere phenomena.” “For this shows itself also in the fact that an answer to the question which arises from those time-conceptions is impossible, and every assertion of such an answer, whether upon one side or the other, is open to convincing objections.” “This just means: the problem is transcendent. In this sense death remains a mystery.”
“yet, on the other hand, we must here keep in mind that we have not, like Kant, absolutely given up the knowledge of the thing-in-itself, but know that it is to be sought for in the will.” “All philosophers have erred in this: they place the metaphysical, the indestructible, the eternal element in man in the intellect.”
“the human race, on the contrary, always remains and lives. But in the true being of things, which is free from these forms, this whole distinction between the individual and the race also disappears, and the 2 are immediately one. The whole will to live is in the individual, as it is in the race, and therefore the continuance of the species is merely the image of the indestructibility of the individual.”
“This organism, whose infinite complication and perfection is only known to him who has studied anatomy, cannot, from the side of the representation, be otherwise conceived and thought of than as a system devised with the most ingenious forethought and carried out with the most consummate skill and exactness, as the most arduous work of profound reflection. But from the side of the will we know, through self-consciousness, the production of this organism as the work of an act which is exactly the opposite of all reflection, an impetuous, blind impulse, an exceedingly pleasurable sensation.”
“This also explains the contradiction that from the standpoint of knowledge [representation] philosophers have always proved with cogent reasons that death is no evil; yet the fear of death remains inevitable for all, because it is rooted, not in knowledge, but in the will. It is also a result of the fact that only the will, and not the intellect, is indestructible, that all religions and philosophies promise a reward in eternity only to the virtues of the will, or heart, not to those of the intellect, or head.” DV
“our own nature is a riddle to us, i.e., to our intellect”
“Death and birth are the constant renewal of the consciousness of the will, in itself without end and without beginning, which alone is, as it were, the substance of existence (but each such renewal brings a new possibility of the denial of the will to live).”
“It may be remarked by the way that the fear of death may also partly depend upon the fact that the individual will is so loath to separate from the intellect which has fallen to its lot through the course of nature, its guide and guard, without which it [the will] knows [through the intellect!] that it is helpless and blind.” Não só a sensação, mas o conceito do medo da morte. A abstração do imediato.
“The terrors of death depend for the most part upon the false illusion that now the ego vanishes and the world remains. But rather is the opposite the case”
O rio Lethe da Vontade é a morte de um indivíduo. Com o esquecimento, a Vontade está livre e inexausta novamente para poder desejar, noutro invólucro.
Um homem que cavou tão fundo só não viu que um jogo não é jogado com apenas peças brancas, ou com apenas peças pretas, sem adversário e nada mais. O jogo do universo exige vários jogadores, vontades colidindo, competindo para ver qual vai mais longe e dura mais na humanidade.
“Therefore we certainly come here upon a kind of metempsychosis, although with the important difference that it does not concern the whole, not the knowing being, but the will alone; and thus, with the consciousness that the form of time only enters here as an unavoidable concession to the limitation of our intellect, so many absurdities which accompany the doctrine of metempsychosis disappear. If, indeed, we now call in the assistance of the fact, to be explained [already explained] in chapter 43, [control + F: ‘§43’] that the character, i.e., the will, is inherited from the father, and the intellect from the mother, it agrees very well with our view thatthe will of a man, in itself individual, separated itself in death from the intellect received from the mother in generation, and in accordance with its now modified nature, under the guidance of the absolutely necessary course of the world harmonising with this, received through a new generation a new intellect, with which it became a new being, which had no recollection of an earlier existence; for the intellect, which alone has the faculty of memory, is the mortal part or the form, while the will is the eternal part”Golpe do destino: que, se há alguma chance, a única parte que eu vou eternizar, via escritos, é a intelectual – a volitiva morrerá comigo.
“In accordance with this, this doctrine is more correctly denoted by the word palingenesis¹ than by metempsychosis. These constant new births, then, constitute the succession of the life-dreams of a will which in itself is indestructible, until, instructed and improved by so much and such various successive knowledge in a constantly new form, it abolishes or abrogates itself.”Eu nada teria a acrescentar ao mundo! Esse é o limite da minha individualidade, coincidente com o limite do meu ramo genealógico…
¹ “Nova gênese” em grego, mas atualmente mero conceito geológico. A força da vontade mineral que carregamos em todos nós, correto, Schop.?
“The true and, so to speak, esoteric doctrine of Buddhism, as we have come to know it through the latest investigations, also agrees with this view, for it teaches not metempsychosis, but a peculiar palingenesis, resting upon a moral basis which it works out and explains with great profundity. This may be seen from the exposition of the subject, well worth reading and pondering, which is given in Spence Hardy’sManual of Buddhism, pp. 394-6 (with which compare pp. 429, 440, and 445 of the same book), the confirmation of which is to be found in Taylor’s Prabodh Chandro Daya, London, 1812, p. 35; also in Sangermano’s Burmese Empire, p. 6, and in the Asiatic Researches (op. cit.),vol. VI, p. 179, and vol. IX, p. 256. The very useful German compendium of Buddhism by Köppen is also right upon this point. Yet for the great mass of Buddhists this doctrine is too subtle; therefore to them simple metempsychosis is preached as a comprehensible substitute. [saber exotérico da doutrina]”
“When in the 14th century the black death had for the most part depopulated the old world, a quite abnormal fruitfulness appeared among the human race, and twin-births were very frequent. The circumstance was also very remarkable that none of the children born at this time obtained their full number of teeth; thus nature, exerting itself to the utmost, was niggardly in details.”
“Every new-born being indeed comes fresh and blithe into the new existence, and enjoys it as a free gift: but there is, and can be, nothing freely given.”
“The great truth which is expressed here has never been entirely unacknowledged, although it could not be reduced to its exact and correct meaning, which is only possible through the doctrine of the primacy and metaphysical nature of the will and the secondary, merely organic nature of the intellect. We find the doctrine of metempsychosis, springing from the earliest and noblest ages of the human race, always spread abroad in the earth as the belief of the great majority of mankind, nay, really as the teaching of all religions, with the exception of that of the Jews and the 2 which have proceeded from it: in the most subtle form, however, and coming nearest to the truth, as has already been mentioned, in Buddhism. Accordingly, while Christians console themselves with the thought of meeting again in another world, in which one regains one’s complete personality and knows oneself at once, in those other religions the meeting again is already going on now, only incognito.” O Espiritismo é a terceira e última subreligião monoteísta da decadência. Claro, na outra mão, que se o budismo “tomasse conta da terra”, no sentido nietzschiano, qualquer progresso estaria comprometido, ou ao menos hibernado…
“Recognition is certainly here limited to an obscure intimation, a reminiscence which cannot be brought to distinct consciousness, and refers to an infinitely distant time”
“Obry says rightly, in his excellent book, Du Nirvana Indien, p. 13: <Cette vieille croyance a fait le tour du monde, et était tellement répandue dans la haute antiquité, qu’un docte Anglican l’avait jugée sans père, sans mère, et sans généalogie>. Taught already in the Vedas, as in all the sacred books of India, metempsychosis is well known to be the kernel of Brahmanism and Buddhism. (…) It accordingly prevails at the present day in the whole of non-Mohammedan Asia, thus among more than half of the whole human race, as the firmest conviction, and with an incredibly strong practical influence. It was also the belief of the Egyptians (Herod., II, 123), from whom it was received with enthusiasm by Orpheus, Pythagoras, and Plato: the Pythagoreans, however, specially, retained it. That it was also taught in the mysteries of the Greeks undeniably follows from the 9th book of Plato’s Laws. The Edda also, especially in the Völuspá, teaches metempsychosis. Not less was it the foundation of the religion of the Druids (…) Even a Mohammedan sect in Hindostan, the Bohrahs, of which Colebrooke gives a full account in TheAsiatic Researches, vol. 7, p. 336 sqq., believes in metempsychosis, and accordingly refrains from all animal food. Also among American Indians and negro tribes, nay, even among the natives of Australia, traces of this belief are found”
“Also in a book by Ungewitter, Der Welttheil Australien, it is related that the Papuas in Australia regarded the whites as their own relations who had returned to the world. According to all this, the belief in metempsychosis presents itself as the natural conviction of man, whenever he reflects at all in an unprejudiced manner. It would really be that which Kant falsely asserts of his 3 pretended Ideas of the reason, a philosopheme natural to human reason, which proceeds from its forms; and when it is not found it must have been displaced by positive religious doctrines coming from a different source. I have also remarked that it is at once obvious to everyone who hears of it for the first time.”
“I cannot get rid of the thought that I died before I was born.”
Lichtenberg
“Even the excessively empirical Hume says in his sceptical essay on immortality, p. 23: <The metempsychosis is therefore the only system of this kind that philosophy can hearken to.>”
“[Nota de Schopenhauer] This posthumous essay is to be found in the Essays on Suicide and the Immortality of the Soulby the late David Hume, Basil, 1799, sold by James Decker. By this reprint at Bâle these 2 works of one of the greatest thinkers and writers of England were rescued from destruction, when in their own land, in consequence of the stupid and utterly contemptible bigotry which prevailed, they had been suppressed through the influence of a powerful and insolent priesthood, to the lasting shame of England. They are entirely passionless, coldly rational investigations of the 2 subjects named.”
“The Jews certainly have succeeded, with fire and sword, in driving out of Europe and part of Asia that consoling primitive belief of mankind; it is still doubtful for how long. Yet how difficult this was is shown by the oldest Church histories. Most of the heretics were attached to this primitive belief; for example, Simonists, Basilidians, Valentinians, Marcionists, Gnostics, and Manichæans. The Jews themselves have in part fallen into it, as Tertullian and Justinus (in his dialogues) inform us. In the Talmud it is related that Abel’s soul passed into the body of Seth, and then into that of Moses.”
E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem [prisioneiro do pecado e da carne de Adão]?
E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas.
Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou?
Mateus 16:13-15
“Luke, it is true, who also has the passage (9:18-20), adds the words (GRAFIA GREGA), and thus attributes to the Jews the assumption that such an ancient prophet can rise again body and all, which, since they know that he has already lain between 600 and 700 years in his grave, and consequently has long since turned to dust, would be a palpable absurdity. In Christianity, however, the doctrine of original sin, i.e., the doctrine of punishment for the sins of another individual, has taken the place of the transmigration of souls and the expiation in this way of all the sins committed in an earlier life. Both identify, and that with a moral tendency, the existing man with one who has existed before; the transmigration of souls does so directly, original sin indirectly.”
“We are at bottom something that ought not to be: therefore we cease to be. Egoism consists really in the fact that man limits all reality to his own person, in that he imagines that he lives in this alone and not in others. Death teaches him better, for it destroys this person, so that the true nature of man, which is his will, will henceforth live only in other individuals; while his intellect, which itself belonged only to the phenomenon, i.e., to the world as representation, and was merely the form of the external world, also continues to exist in the condition of being representation, i.e., in the objective being of things as such, [?] thus also only in the existence of what was hitherto the external world.”
“The etymology of the word Nirvana is variously given. According to Colebrooke (Transact. of the Royal [London?] Asiat. Soc., vol. I, p. 566) it comes from va, ‘to blow’, like the wind, and the prefixed negative nir, and thus signifies a calm, but as an adjective ‘extinguished’. Obry, also, Du Nirvana Indien, p. 3, says: <Nirvanam en sanscrit signifie à la lettre extinction, telle que celle d’un feu.>According to the Asiatic Journal,vol. XXIV, p. 735, the word is really Neravana, from nera, ‘without’, and vana, ‘life’, and the meaning would be annihilatio. In Eastern Monachism, by Spence Hardy, p. 295, Nirvana is derived from vana, ‘sinful desires’, with the negative nir. J.J. Schmidt, in his translation of the history of the Eastern Mongolians, says that the Sanscrit word Nirvana is translated into Mongolian by a phrase which signifies <departed from misery>, <escaped from misery>. According to the learned lectures of the same in the St. Petersburg Academy, Nirvana is the opposite of Sanfara, which is the world of constant re-birth, of longings and desires, of illusion of the senses and changing forms, of being born, growing old, becoming sick, and dying. In the Burmese language the word Nirvana, according to the analogy of other Sanscrit words, becomes transformed into Nieban, and is translated by <complete vanishing>. See Sangermano’s Description of the Burmese Empire, translated by Tandy, Rome, 1833, § 27. In the 1st edition of 1819 I also wrote Nieban, because we then knew Buddhism only from meagre accounts of the Burmese.”
“Yet in the case of the lower animals, since they are capable of no reflection, the instinctive maternal affection (the male is generally ignorant of his paternity) shows itself directly and unsophisticated, and therefore with perfect distinctness and in its whole strength.”
Freycinet, Voyage aux terres Australes, 1826.
“The blood-thirsty tyrant and defensor fidei, Henry VIII of England had a daughter by his 1st marriage, Queen Mary, equally distinguished for bigotry and cruelty, who from her numerous burnings of heretics has won the name of Bloody Mary. His daughter by his 2nd marriage, Elizabeth, received an excellent understanding from her mother, Anne Boleyn, which prevented bigotry and curbed the parental character in her, yet did not do away with it; so that it still always shone through on occasions, and distinctly appeared in her cruel treatment of Mary of Scotland.” Essa teoria simplista de herança masculine-feminina de Sch. é incabível.
“The tendency to suicide is specially hereditary.”
“On the other hand, among artists, poets, and philosophers, to whose works alone genius is properly ascribed, I know of no case analogous to that. Raphael’s father was certainly a painter, but not a great one; Mozart’s father, and also his son, were musicians, but not great ones. However, it is indeed wonderful that the fate which had destined a very short life to both of these men, each the greatest in his own sphere, as it were by way of compensation, took care, by letting them be born already in their workshop, that, without suffering the loss of time in youth which for the most part occurs in the case of other men of genius, they received even from childhood, through paternal example and instruction, the necessary introduction into the art to which they were exclusively destined.” Exagerado.
“D’Alembert was the illegitimate son of Claudine de Tencin, a woman of superior mind, and the author of several romances and similar works, which met with great approbation in her day, and should even still be enjoyable”
THE PAINTER OF THE SOULS: “Between mother and son the greatest moral opposition can exist, between father and son only an intellectual opposition.” Isso vai contra minha disciplina do caráter.
“What a remarkably able, clever, and superior woman Goethe’s mother was is now universally known. How much she has been spoken of in literature! while his father has not been spoken of at all; Goethe himself describes him as a man of subordinate faculties.”
“Bacon’s mother was a distinguished linguist, wrote and translated several works, and in all of them showed learning, acuteness, and taste. Boerhave’s mother distinguished herself through medical knowledge.”
“I would also add the brothers Schlegel, if it were not that the younger, Friedrich, made himself unworthy of the honour of being named along with his excellent, blameless, and highly distinguished brother, August Wilhelm, by the disgraceful obscurantism which in the last quarter of his life he pursued along with Adam Müller [rebatizado Ritter von Nitterdorf; jornalista].”
“But just as often the above result does not take place; for example, Kant’s brother was quite an ordinary man. To explain this I must remind the reader of what is said in the 31st chapter on the physiological conditions of genius. Not only an extraordinarily developed and absolutely correctly formed brain (the share of the mother) is required, but also a very energetic action of the heart to animate it, i.e., subjectively a passionate will, a lively temperament: this is the inheritance from the father. But this quality is at its height only during the father’s strongest years; and the mother ages still more quickly. Accordingly the highly gifted sons will, as a rule, be the eldest” “If single cases should be found in which a highly gifted son had a mother who was not mentally distinguished at all, this may be explained from the fact that this mother herself had a phlegmatic father, and on this account her more than ordinarily developed brain was not adequately excited by a corresponding energy of the circulation—a necessary condition, as I have explained above in chapter 31.”
“Plato had already something of the kind in his mind when in the 5th book of his Republic he set forth his wonderful plan for increasing and improving his class of warriors. If we could castrate all scoundrels, and shut up all stupid geese in monasteries, and give persons of noble character a whole harem, and provide men, and indeed complete men, for all maidens of mind and understanding, a generation would soon arise which would produce a better age than that of Pericles. But, without entering into such utopian plans, it might be taken into consideration that if, as, if I am not mistaken, was actually the case among certain ancient nations, castration was the severest punishment after death, the world would be delivered from whole races of scoundrels, all the more certainly as it is well known that most crimes are committed between the age of 20 and 30.”Não só nega que não seja impossível a felicidade na Terra (sua própria doutrina) como é uma eugenia que não se pode aceitar: o destino deve escolher a sorte de cada qual, não somos azeitonas para fazer esse tipo de experimento; o casamento e a reprodução devem ser completamente livres e consensuais.
“In many countries, among others in South Germany, the bad custom prevails of women carrying burdens, often very considerable, upon the head. This must act disadvantageously upon the brain, which must thereby gradually deteriorate in the female sex of the nation; and since from that sex the male sex receives its brain, the whole nation becomes ever more stupid; which in many cases is by no means necessary. Accordingly by the abolition of this custom the quantum of intelligence in the whole nation would be increased, which would positively be the greatest increase of the national wealth.” HAHAHAHAHA
A NECESSÁRIA HIPÓTESE IDIOTA SOBRE O TABU DO INCESTO:“For from a marriage of brothers and sisters nothing could proceed but constantly ever the same will with the same intellect, as both already exist united in both the parents, thus the hopeless repetition of the phenomenon which has already been.”
“Ye wise men, highly, deeply learned,
Who think it out and know,
How, when, and where do all things pair?
Why do they kiss and love?
Ye men of lofty wisdom, say
What happened to me then;
Search out and tell me where, how, when,
And why it happened thus.”
—BÜRGER
“We are accustomed to see poets principally occupied with describing the love of the sexes. This is as a rule the chief theme of all dramatic works, tragical as well as comical, romantic as well as classical, Indian as well as European. Not less is it the material of by far the largest part of lyrical and also of epic poetry, especially if we class with the latter the enormous piles of romances which for centuries every year has produced in all the civilised countries of Europe as regularly as the fruits of the earth.”
“nothing that is artistically beautiful can be without truth”
“Certainly, however, it is also confirmed by experience, although not by the experience of everyday, that that which as a rule only appears as a strong yet still controllable inclination may rise under certain circumstances to a passion which exceeds all others in vehemence, and which then sets aside all considerations, overcomes all obstacles with incredible strength and perseverance, so that for its satisfaction life is risked without hesitation, nay, if that satisfaction is still withheld, is given as the price of it. Werthers and Jacopo Ortis exist not only in romance, but every year can show at least half a dozen of them in Europe” “Finally, every year can show cases of the double suicide of a pair of lovers who are opposed by outward circumstances.”
“The one who has most concerned himself with it is Plato, especially in the Symposium and the Phædrus. Yet what he says on the subject is confined to the sphere of myths, fables, and jokes, and also for the most part concerns only the Greek love of youths.The little that Rousseau says upon our theme in the Discours sur l’inégalité is false and insufficient. Kant’s explanation of the subject in the 3rd part of the essay Über das Gefühl des Schönen und Erhabenen is very superficial and without practical knowledge, therefore it is also partly incorrect. Lastly, Platner’s treatment of the matter in his Anthropology (§1347 seq.) everyone will find dull and shallow. On the other hand, Spinoza’s definition, on account of its excessive naïveté, deserves to be quoted for the sake of amusement: Amor est titillatio, concomitante idea causæ externæ(Ethics,IV) [O amor é uma coceira que acompanha a idéia de uma causa externa]. Accordingly I have no predecessors either to make use of or to refute. The subject has pressed itself upon me objectively, and has entered of its own accord into the connection of my consideration of the world.”
“let them reflect that if the object which today inspires them to write madrigals and sonnets had been born 18 years earlier it would scarcely have won a glance from them. For all love, however ethereally it may bear itself, is rooted in the sexual impulse alone, nay, it absolutely is only a more definitely determined, specialised, and indeed in the strictest sense individualised sexual impulse.”
“Wherefore all this noise? Wherefore the straining and storming, the anxiety and want? It is merely a question of every Hans finding his Grethe.” “The ultimate end of all love affairs, whether they are played in sock or cothurnus, is really more important than all other ends of human life, and is therefore quite worthy of the profound seriousness with which every one pursues it. That which is decided by it is nothing less than the composition of the next generation.”
“The moment at which the parents begin to love each other—to fancy each other, as the very happy English expression has it—is really to be regarded as the first appearance of a new individual and the true punctum saliens of its life, and, as has been said, in the meeting and fixing of their longing glances there appears the first germ of the new being, which certainly, like all germs, is generally crushed out.” Muito bonito, mas também não passa de velha poesia…
“Accordingly, in the first place, everyone will decidedly prefer and eagerly desire the most beautiful individuals, i.e., those in whom the character of the species is most purely impressed; but, secondly, each one will specially regard as beautiful in another individual those perfections which he himself lacks, nay, even those imperfections which are the opposite of his own. Hence, for example, little men love big women, fair persons like dark, &c. &c.”
“It is a voluptuous illusion which leads the man to believe he will find a greater pleasure in the arms of a woman whose beauty appeals to him than in those of any other” Eu melhorei tanto minha autoimagem ultimamente que meus parâmetros de exigência como que me obrigam ao celibato…
“The sense of beauty which instinctively guides the selection for the satisfaction of sexual passion is led astray when it degenerates into the tendency to pederasty; analogous to the fact that the blue-bottle (Musca vomitoria), instead of depositing its eggs, according to instinct, in putrefying flesh, lays them in the blossom of the Arum dracunculus, deceived by the cadaverous smell of this plant.”
“First of all we have to remark here that by nature man is inclined to inconstancy in love, woman to constancy. The love of the man sinks perceptibly from the moment it has obtained satisfaction; almost every other woman charms him more than the one he already possesses; he longs for variety. The love of the woman, on the other hand, increases just from that moment. This is a consequence of the aim of nature which is directed to the maintenance, and therefore to the greatest possible increase, of the species. The man can easily beget over a hundred children a year; the woman, on the contrary, with however many men, can yet only bring one child a year into the world (leaving twin births out of account).”
“Youth without beauty has still always attraction; beauty without youth has none.”
“Acute diseases only temporarily disturb us, chronic diseases or cachexia [caquexia] repel us, because they are transmitted to the child. The 3rd consideration is the skeleton, because it is the basis of the type of the species. Next to age and disease nothing repels us so much as a deformed figure; even the most beautiful face cannot atone for it; on the contrary, even the ugliest face when accompanied by a straight figure is unquestionably preferred.”
“Here also comes in the great value which all attach to the smallness of the feet: it depends upon the fact that they are an essential characteristic of the species, for no animal has the tarsus and the metatarsus taken together so small as man, which accords with his upright walk; he is a plantigrade.”
“The teeth also are important; because they are essential for nourishment and quite specially hereditary. The 4th consideration is a certain fulness of flesh; thus a predominance of the vegetative function, of plasticity; because this promises abundant nourishment for the foetus; hence great leanness repels us in a striking degree.”
“The last consideration of all is the beauty of the face. Here also before everything else the bones are considered; therefore we look principally for a beautiful nose, and a short turned-up nose spoils everything. [!] A slight inclination of the nose downwards or upwards has decided the happiness in life of innumerable maidens, and rightly so, for it concerns the type of the species. A small mouth, by means of small maxillæ, is very essential as specifically characteristic of the human countenance, as distinguished from the muzzle [focinho] of the brutes.A receding or, as it were, cut-away chin is especially disagreeable, because mentum prominulum [bochechas proeminentes] is an exclusive characteristic of our species.Finally comes the regard for beautiful eyes and forehead; it is connected with the psychical qualities, especially the intellectual which are inherited from the mother.
The unconscious considerations which, on the other hand, the inclination of women follows naturally cannot be so exactly assigned.” HAHAHA!
“Want of understanding does a man no harm with women; indeed extraordinary mental endowment, or even genius, might sooner influence them unfavourably as an abnormity.”
CONTRA O SAPIOSSEXUALISMO, HAHAHA! “It is a vain and absurd pretence when women assert that they have fallen in love with the mind of a man, or else it is the over-straining of a degenerate nature.”
“Men, on the other hand, are not determined in their instinctive love by the qualities of character of the woman;hence so many Socrateses have found their Xantippes; for example, Shakspeare, Albrecht Dürer, Byron, &c.”
“At the foundation of the aversion of a big woman to big men lies the intention of nature to avoid too big a race”
“Blondes prefer dark persons, or brunettes; but the latter seldom prefer the former.”
“I may here express my opinion in passing that the white colour of the skin is not natural to man, but that by nature he has a black or brown skin, like our forefathers the Hindus; that consequently a white man has never originally sprung from the womb of nature, and that thus there is no such thing as a white race, much as this is talked of, but every white man is a faded or bleached one.(…) The gipsies, an Indian race which immigrated only about 400 years ago, show the transition from the complexion of the Hindu to our own. Therefore in sexual love nature strives to return to dark hair and brown eyes as the primitive type”
“The species alone has infinite life, and therefore is capable of infinite desires, infinite satisfaction, and infinite pain. But these are here imprisoned in the narrow breast of a mortal. No wonder, then, if such a breast seems like to burst, and can find no expression for the intimations of infinite rapture or infinite misery with which it is filled. This, then, affords the materials for all erotic poetry of a sublime kind, which accordingly rises into transcendent metaphors, soaring above all that is earthly. This is the theme of Petrarch, the material for the St. Preuxs, Werthers, and Jacopo Ortis, who apart from it could not be understood nor explained.”
“Accordingly the loss of the loved one, through a rival, or through death, is also for the passionate lover a pain that surpasses all others, just because it is of a transcendental kind, since it affects him not merely as an individual, but attacks him in his essential æterna, in the life of the species into whose special will and service he was here called.”
“the greater part of the Decameron appears as mere mocking and jeering of the genius of the species at the rights and interests of individuals which it tramples under foot.”
“The love of a man often affords comical, and sometimes also tragical phenomena; both because, taken possession of by the spirit of the species, he is now ruled by this, and no longer belongs to himself: his conduct thereby becomes unsuited to the individual. That which in the higher grades of love imparts such a tinge of poetry and sublimeness to his thoughts, which gives them even a transcendental and hyperphysical tendency, on account of which he seems to lose sight altogether of his real, very physical aim, is at bottom this, that he is now inspired by the spirit of the species whose affairs are infinitely more important than all those which concern mere individuals, in order to find under the special directions of this spirit the whole existence of an indefinitely long posterity with this individual and exactly determined nature, which it can receive only from him as father and the woman he loves as mother, and which otherwise could never, as such, attain to existence (…) It is the feeling that he is acting in affairs of such transcendent importance which raises the lover so high above everything earthly, nay, even above himself, and gives such a hyperphysical clothing to his very physical desires, that love becomes a poetical episode even in the life of the most prosaic man; in which last case the matter sometimes assumes a comical aspect.” Podem os castrados (metafóricos ou literais) amar? O que é dos casais que se formam desde o 1º momento sem intenção alguma de ter uma prole?
“…unless, to save life, nature allows madness to intervene, which then covers with its veil the consciousness of that hopeless state.” // Quincas Borba
(*)“The appendix to this chapter was added only in the 3rd edition of the German, and is meant to explain, in consistency with Schopenhauer’s general principles, the wide prevalence of the practice of pederasty, among different nations and in different ages.It is omitted.”
“He performs life as a compulsory service which he owes. But who has contracted the debt?—His begetter, in the enjoyment of sensual pleasure. Thus, because the one has enjoyed this, the other must live, suffer, and die. (…) But my philosophy is the only one which confers upon ethics its complete and whole rights; for only if the true nature of man is his own will, and consequently he is, in the strictest sense, his own work, are his deeds really entirely his and to be ascribed to him. On the other hand, whenever he has another origin, or is the work of a being different from himself, all his guilt falls back upon this origin, or originator.”
Grosso modo, assim Sch. resume a problemática histórico-filosófica:
politeísmo (onde se subscreve a moral socrática) monoteísmo (infantilização/regressão) panteísmo (antítese completa do estágio anterior, e por isso, no extremo da amoralidade ou imoralidade, tão daninha quanto a hipermoralidade beata) recuperação com Spinoza (resgate parcial da discussão ética SECULAR do indivíduo) + menção honrosa para o ceticismo ou exposição ético-negativa de Hume e Voltaire. Filisteísmo (interpretação ainda mais espúria e materialista da ‘fraca’ Ética spinozista) Hegel (uma queda abrupta, posto que fetichizando a Santíssima Trindade, como seria fácil de imaginar). (Sabidamente, Schopenhauer diz que não só ele mesmo ainda não podia ser compreendido como nem mesmo Kant o tinha sido em sua época.) Discípulos de Hegel (o fundo do poço, relativização de todos os valores e a neura do Estado-nação como ‘indivíduo’, como se se pudesse falar de ética nessa esfera da pura aparência). |Schopenhauer| (síntese final).
O TUDO É PERMITIDO AVANT LA LETTRE:“After having met with unmerited neglect for more than a hundred years, Spinoza has, in general, become too much esteemed in this century through the reaction caused by the swing of the pendulum of opinion. All pantheism must ultimately be overthrown by the inevitable demands of ethics, and then by the evil and suffering of the world. If the world is a theophany, then all that man, or even the brute, does is equally divine and excellent; nothing can be censurable, and nothing more praiseworthy than the rest: thus there is no ethics.”
“Only when the world is regarded entirely from without and from the physical side alone, and nothing else is kept in view but the constant restorative order, and the comparative imperishableness of the whole which is thereby introduced, is it perhaps possible to explain it as a god, yet always only symbolically.”
“Accordingly the problem which has been discussed from the time of Socrates is now for the first time really solved, and the demand of thinking reason directed to morality is satisfied.” “My doctrine reaches this limit in the will to live, which in its own manifestation asserts or denies itself. (…) We must stop there”
“At the end of the 8th book of the Odyssey, Ulysses, who in all his many sorrows is never represented as weeping, bursts into tears, when, still unknown, he hears his early heroic life and deeds sung by the bard Demodocus in the palace of the Phæacian king, for this remembrance of the brilliant period of his life contrasts with his present wretchedness. Thus not this itself directly, but the objective consideration of it, the picture of his present summoned up by his past, calls forth his tears; he feels sympathy with himself.”
“A client, when he had heard his case set forth by his counsel in court, burst into a flood of tears, and cried, <I never knew I had suffered half so much till I heard it here today.>”
“Inclination is every strong susceptibility of the will for motives of a certain kind. Passion is an inclination so strong that the motives which excite it exercise a power over the will, which is stronger than that of every possible motive that can oppose them; thus its mastery over the will becomes absolute, [confuuuuuuuuso] and consequently with reference to it the will is passive or suffering.¹ It must, however, be remarked here that passions seldom reach the degree at which they fully answer to the definition, but rather bear their name as mere approximations to it: therefore there are then still counter-motives which are able at least to restrict their effect, if only they appear distinctly in consciousness.” Diria que minha paixão é o senso inato de justiça, quando escolho piorar minha vida em troca de romper com algumas pessoas esporadicamente (uma necessidade invencível). Da última vez, p.ex., reproduzi em miniatura o rompimento com meu pai ao expor a toxicidade da antiga chefia.
¹ Eis que Schopenhauer involuntariamente descobriu a fuga final, desta vez uma que funciona: viver apaixonado.
“the emotion is related to the passion as delirium to madness.” Temor e tremor. Mas resta a possibilidade de descrever friamente toda a minha tensão, então ainda me referirei a esses ‘fins de ciclo’ como paixões…
“Certainly the right is insured protection only in the State. But it itself exists independently of the State. For by force it can only be suppressed, never abolished. Accordingly the State is nothing more than an institution for protection, which has become necessary through the manifold attacks to which man is exposed, and which he would not be able to ward off alone, but only in union with others.”Regressão hobbesiana (anal).
“But, as is always the way in human affairs, the removal of one evil generally opens the way for a new one”
Hobbes Montesquieu O problema do trabalho e da propriedade privada
“According to Kant’s explanation, which amounts to a jus talionis, it is not the deed but the man that is punished. The penitentiary system also seeks not so much to punish the deed as the man, in order to reform him. It thereby sets aside the real aim of punishment, determent from the deed, in order to attain the very problematic end of reformation.” “Education is a benefit, punishment ought to be an evil; the penitentiary prison is supposed to accomplish both at once.” “Therefore moral reformation is really not possible, but only determent from the deed through fear.” “when possible, the apparent severity of the punishment should exceed the actual: but solitary confinement achieves the reverse. Its great severity has no witnesses, and is by no means anticipated by any one who has not experienced it; thus it does not deter. It threatens him who is tempted to crime by want and misery with the opposite pole of human suffering, ennui”
“For the security of the life of the citizens capital punishment is absolutely necessary. (…) But to impose the punishment of death, as in Poland, for shooting an ure-ox is too much, for the maintenance of the species of ure-oxen may not be purchased with human life.” Imagino que pessoas de 100, 200 ou 300 anos atrás se escandalizariam com as penas de morte por tráfico de substâncias como pasta de cocaína.
SCHOPENHAUER NOS UMBRAIS DO MISTICISMO
“The doctrine of metempsychosis, touched on above, deviates from the truth merely through the circumstance that it transfers to the future what already is now. It makes my true inner nature exist in others only after my death, while, according to the truth, it already lives in them now, and death merely removes the illusion on account of which I am not aware of this; just as an innumerable host of stars constantly shine above our heads, but only become visible to us when the one sun near the earth has set.”
“Only Greek paganism and Islamism are entirely optimistic: therefore in the former the opposite tendency had to find expression at least in tragedy; but in Islamism, which is the worst, as it is the most modern, of all religions,¹ it appeared as Sufism, that very beautiful phenomenon, which is completely of Indian spirit and origin, and has now continued for upwards of a thousand years.”
¹ Mesmo juízo que o meu.
“Now, whoever has comprehended this will no longer regard it as beyond all measure extravagant that Fakirs should sit down, and, contemplating the tip of their nose, seek to banish all thought and perception, and that in many passages of the Upanishads instructions are given to sink oneself, silently and inwardly pronouncing the mysterious Oum, in the depths of one’s own being, where subject and object and all knowledge disappear.” Parágrafo feito de encomenda para polemizar com Hegel.
“The mystic is thus opposed to the philosopher by the fact that he begins from within, while the philosopher begins from without.” “He ought therefore to beware of falling into the way of the mystics, and, for example, by the assertion of intellectual intuitions or pretended immediate apprehensions of the reason, to seek to make a vain show of positive knowledge of that which is forever inaccessible to all knowledge, or at the most can be indicated by means of a negation.” “Now it answers to this that my system when it reaches its highest point assumes a negative character, thus ends with a negation. It can here speak only of what is denied, given up: but what is thereby won, what is laid hold of, it is obliged (at the conclusion of 4th book) to denote as nothing, and can only add the consolation that it is merely a relative, not an absolute nothing. For if something is none of all the things which we know, it is certainly for us, speaking generally, nothing. But it does not yet follow from this that it is absolutely nothing, that from every possible point of view and in every possible sense it must be nothing, but only that we are limited to a completely negative knowledge of it, which may very well lie in the limitation of our point of view. Now it is just here that the mystic proceeds positively, and therefore it is just from this point that nothing but mysticism remains. However, any one who wishes this kind of supplement to the negative knowledge to which alone philosophy can guide him will find it in its most beautiful and richest form in the Oupnekhat, then also in the Enneads of Plotinus, in Scotus Erigena, in passages of Jakob Böhm, but especially in the marvellous work of Madame de Guion, Les Torrens, and in Angelus Silesius; finally also in the poems of the Sufis, of whichTholuk has given us a collection translated into Latin, and another translated into German, and in many other works. The Sufis are the Gnostics of Islam. Hence Sadi denotes them by a word which may be translated ‘full of insight’. Theism, calculated with reference to the capacity of the multitude, places the source of existence without us, as an object. All mysticism, and so also Sufism, according to the various degrees of its initiation, draws it gradually backwithin us, as the subject, and the adept recognises at last with wonder and delight that he is it himself. This procedure, common to all mysticism, we find not only expressed by Meister Eckhart, the father of German mysticism, in the form of a precept for the perfect ascetic, <that he seek not God outside himself> (Eckhart’s works, edited by Pfeiffer, vol. I, p. 626), but also very naïvely exhibited by Eckhart’s spiritual daughter, who sought him out, when she had experienced that conversion in herself, to cry out joyfully to him, <Sir, rejoice with me, I have become God> (loc.cit., p. 465). The mysticism of the Sufis also expresses itself throughout precisely in accordance with this spirit, principally as a revelling in the consciousness that one is oneself the kernel of the world and the source of all existence, to which all returns.” “Corresponding to this difference of the conception, Mohammedan mysticism has a very serene character, Christian mysticism a gloomy and melancholy character, while that of the Hindus, standing above both, in this respect also holds the mean.” “Quietism, asceticism and mysticism stand in the closest connection; so that whoever professes one of them is gradually led to accept the others, even against his intention.” “They do not constitute a sect, which adheres to, defends, and propagates a favourite dogma once laid hold of; indeed the Indian, Christian, and Mohammedan mystics, quietists and ascetics are different in every respect, except the inner significance and spirit of their teaching.” “A very striking example of this is afforded by the comparison of the Torrens of Madame de Guion with the teaching of the Vedas, especially with the passage in the Oupnekhat, vol. I, p. 63, which contains the content of that French work in the briefest form, but accurately and even with the same images, and yet could not possibly have been known to Madame de Guion in 1680.” “the life of St. Francis, and also the order he founded, was just a kind of Sannyasiism.” “his beautiful Cântico also bears witness to his inborn Indian spirit by the praise of the sun, the moon, the stars, the wind, the water, the fire, and the earth.
(*) S. Bonaventuræ vita S. Francisci, ch. 8;K. Hase, ‚Franz von Assisi‘, ch. 10. ‘I cantici di S. Francesco’, editi da Schlosser e Steinle., Francoforto, s.M., 1842.”
“one must read the mystics themselves, and not be contented with 2nd-hand reports of them; for every one must himself be comprehended before one judges concerning him. Thus to become acquainted with quietism I specially recommend Meister Eckhart, the Deutsche Theologie, Tauler, Madame de Guion, Antoinette Bourignon, the English Bunyan, Molinos(*) and Gichtel.
(*) Recueil de diverses pièces concernant le quiétisme, ou Molinos et ses disciples.Amstd., 1688.”
“Whoever has read such writings, and compared their spirit with that of ascetism and quietism as it runs through all works of Brahmanism and Buddhism, and speaks in every page, will admit that every philosophy, which must in consistency reject that whole mode of thought, which it can only do by explaining the representatives of it to be either impostors or madmen, must just on this account necessarily be false. But all European systems, with the exception of mine, find themselves in this position.” “no philosophy can leave the theme of quietism and asceticism undecided if the question is proposed to it; because this theme is, in its matter, identical with that of all metaphysics and ethics. Here then is a point upon which I expect and desire that every philosophy, with its optimism, should declare itself. And if, in the judgment of contemporaries, the paradoxical and unexampled agreement of my philosophy with quietism and asceticism appears as an open stumbling-block, I, on the contrary, see just in that agreement a proof of its sole correctness and truth, and also a ground of explanation of why it is ignored and kept secret by the Protestant universities. For not only the religions of the East, but also true Christianity, has throughout that ascetic fundamental character which my philosophy explains as the denial of the will to live; although Protestantism, especially in its present form, seeks to conceal this.” “these men’s minds, unfortunately like thousands more at the present day in Germany, are completely spoiled and distorted by the miserable Hegelism, that school of dulness, that centre of misunderstanding and ignorance, that mind-destroying, spurious wisdom, which now at last begins to be recognised as such, and the veneration of which will soon be left to the Danish Academy, in whose eyes even that gross charlatan is a summus philosophus” HAHAHAHAAHA! O destino de Hegel lembra um pouco o de Wagner: esculhambado por Schopenhauer/Nietzsche, vive até hoje entre nós, bastante arranhado, é verdade, mas ainda ‘recomendado’.
“That the doctrine of Jesus may not run counter to the ideas of the present day, men have hastened to introduce surreptitiously the thought that Jesus only praised celibacy with reference to the circumstances of the time, and in order to leave the activity of the Apostles unfettered; but there is even less indication of this in the context than in the kindred passage, 1 Cor. 7:25-ss.; but we have here again one of the places where ascetic principles, such as prevailed among the Essenes, and probably still more widely among the Jews, appear in the teaching of Jesus also.”Strauss, Life of Jesus
“Marriage, in genuine Christianity, is merely a compromise with the sinful nature of man, as a concession, something allowed to those who lack strength to aspire to the highest, an expedient to avoid greater evil”
“Augustine says of the Tatianites: ‘Nuptias damnant, atque omnino pares eas fornicationibus aliisque corruptionibus faciunt: nec recipiunt in suum numerum conjugio utentem, sive marem, sive foeminam. Non vescunlur [comedores] carnibus, easque abominantur.’ (De hoeresi ad quod vult Deum. hoer., 25)”
“Matrimonium et stuprum [sedução!] est commixtio carnis; scilicet cujus concupiscentiam dominus stupro adoequavit. Ergo, inguis, jam et primas, id est unas nuptias destruis? Nec immerito: quoniam et ipsae ex eo constant, quod est stuprum” (Tertullian, De exhort. castit., c. 9).
« Carové, Über das Cölibatgesetz, 1832, and Lind, De coelibatu Christianorum per tria priora secula, Havnioe, 1839. »
“Judaism, with its optimistic history of creation, with which the world-denying tendency of the New Testament is certainly in contradiction. But the connection of the New Testament with the Old is at bottom only external, accidental, and forced; and the one point at which Christian doctrine can link itself on to the latter is only to be found, as has been said, in the story of the fall, which, moreover, stands quite isolated in the Old Testament, and is made no further use of. But, in accordance with the account in the Gospels, it is just the orthodox adherents of the Old Testament who bring about the crucifixion of the founder of Christianity, because they find his teaching in conflict with their own.”
“In general it is interesting to see how with Clement the New and the Old Testament get mixed up together; and he strives to reconcile them, yet for the most part drives out the New Testament with the Old. Just at the beginning of the 3rd chapter he objects to the Marcionites that they find fault with the creation, after the example of Plato and Pythagoras; for Marcion teaches that nature is bad, made out of bad materials; therefore one ought not to people this world, but to abstain from marriage.” “At the same time, in his holy zeal, he will not allow the Marcionites even the honour of originality, but, armed with his well-known erudition, he brings it against them, and supports his case with the most beautiful quotations, that even the ancient philosophers, that Heraclitus and Empedocles, Pythagoras and Plato, Orpheus and Pindar, Herodotus and Euripides, and also the Sibyls, lamented deeply the wretched nature of the world, thus taught pessimism. Now in this learned enthusiasm he does not observe that in this way he is just giving the Marcionites water for their mill, for he shows that <All the wisest of all the ages> have taught and sung what they do, but confidently and boldly he quotes the most decided and energetic utterances of the ancients in this sense. Certainly they cannot lead him astray. Wise men may mourn the sadness of existence, poets may pour out the most affecting lamentations about it, nature and experience may cry out as loudly as they will against optimism—all this does not touch our Church Father: he holds his Jewish revelation in his hand, and remains confident.” “he seems to have had no presentiment that just after his time the celibacy of the Christian priesthood would be more and more introduced, and finally, in the 11th century, raised to the position of a law, because it is in keeping with the spirit of the New Testament.”
Bournouf, Introduction à l’histoire du Buddhisme
“the first Jewish Christians of Jerusalem, who called themselves Nazarenes, refrained from all animal food. On account of this origin (or, at least, this agreement) Christianity belongs to the ancient, true and sublime faith of mankind, which is opposed to the false, shallow, and injurious optimism which exhibits itself in Greek paganism, Judaism, and Islamism.”
“The Zend religion holds to a certain extent the mean, because it has opposed to Ormuzd a pessimistic counterpoise in Ahriman. From this Zend religion the Jewish religion proceeded, as J.G. Rhode has thoroughly proved in his book, Die heilige Sage des Zendvolks; from Ormuzd has come Jehovah, and from Ahriman, Satan, who, however, plays only a very subordinate role in Judaism (…) and there only remains the myth of the fall as a pessimistic element, which certainly (as the fable of Meschia and Meschiane) is derived from the Zend-Avesta.”
“Ormuzd himself, however, is derived from Brahmanism, although from a lower region of it; he is no other than Indra, that subordinate god of the firmament and the atmosphere, who is represented as frequently in rivalry with men. [conexões com o Firmamento chinês também?] This has been very clearly shown by J.J. Schmidt in his work on the relation of the Gnostic-theosophic doctrines to the religions of the East. Thus Indra-Ormuzd-Jehovah had afterwards to pass over into Christianity, because this religion arose in Judæa. But on account of the cosmopolitan character of Christianity he laid aside his own name to be denoted in the language of each converted nation by the appellation of the superhuman beings he supplanted, as, TEOS, Deus, which comes from the Sanscrit Deva (from which also devil comes), or among the Gothico-Germanic peoples by the word God, Gott, which comes from Odin, Wodan, Guodan, Godan. In the same way he assumed in Islamism, which also sprang from Judaism, the name of Allah, which also existed earlier in Arabia.”
“In China the first difficulty of the missionaries arose from the fact that the Chinese language has no appellation of the kind and also no word for creating; for the 3 religions of China know no gods either in the plural or in the singular.”
“On this opportunity one may see how certain Protestant theologians, in their efforts to misinterpret the text of the New Testament in conformity with their rationalistic, optimistic, and unutterably shallow view of life, go so far that they actually falsify this text in their translations. Thus H.A. Schott, in his new version given with the Griesbach text of 1805, has translated the word [GREGO], John 15:18-19, by Judoei, 1 John 4:4, by profani homines; and Col. 2:20, [GREGO] by elementa Judaica; while Luther everywhere renders the word honestly and correctly by Welt (world).”
O CRISTIANISMO COMO RELIGIÃO EMINENTEMENTE ORIENTAL EM SUA FORMAÇÃO:“There is nothing in which one has to distinguish the kernel so carefully from the shell as in Christianity. Just because I prize this kernel highly I sometimes treat the shell with little ceremony; it is, however, thicker than is generally supposed.”
O ANTI-HEGEL III: “Protestantism, since it has eliminated asceticism and its central point, the meritoriousness of celibacy, has already given up the inmost kernel of Christianity, and so far is to be regarded as a falling away from it. This has become apparent in our own day by the gradual transition of Protestantism into shallow rationalism, this modernPelagianism, which ultimately degenerates into the doctrine of a loving father, who has made the world, in orderthat things may go on very pleasantly in it (in which case, then, he must certainly have failed), and who, if one only conforms to his will in certain respects, will also afterwards provide a still more beautiful world (with regard to which it is only a pity that it has such a fatal entrance). That may be a good religion for comfortable, married, and enlightened Protestant pastors; but it is no Christianity. Christianity is the doctrine of the deep guiltof the human race through its existence alone, and the longing of the heart for deliverance from it, which, however, can only be attained by the greatest sacrifices and by the denial of one’s own self, thus by an entire reversal of human nature.Luther may have been perfectly right from the practical point of view, i.e., with reference to the Church scandal of his time, which he wished to remove, but not so from the theoretical point of view. The more sublime a doctrine is, the more it is exposed to abuse at the hands of human nature, which, on the whole, is of a low and evil disposition: hence the abuses of Catholicism are so much more numerous and so much greater than those of Protestantism.” “But in consequence of this he was led to desire to limit as much as possible the claims of Christianity itself, and for this end he first confined it to the words of the Bible; but then, in his well-meant zeal, he went too far, for he attacked the very heart of Christianity in the ascetic principle”
COMO FILOSOFAR COM (A FOICE E) O MARTELO
O início da transformação do misticismo nazareno na autodisciplina intramundana do trabalho incessante ligado paradoxalmente à avareza e acumulação de capital que vemos estudada em detalhe em Weber– da abnegação espiritual sincera à completa venalidade materialista do indivíduo contemporâneo. É exatamente essa faceta do protestantismo que torna esta religião tão exitosa em salvar drogados e ex-satanistas ou bandidos. A mais completa apologia do status quo. Nada mais anticristão. Até entendo por que pessoas como o Tadeu confundem o amor fati com esta definição filistéia! E agora parece que cheguei a uma compreensão aperfeiçoada do que Nietzsche queria indicar com ‘budismo europeu’ – a passagem à re-espiritualização é dura, pois implica primeiro numa aceitação-do-mundo-como-ele-é, para poder superá-lo (essencialmente é uma interiorização da luta de classes marxista e superação do capitalismo global, a forja de um mundo material em que o espiritual não está mais corrompido). O budismo europeu é quando a civilização hoje tornada mundial está cansada deste mundo e está tentada a dele desistir. O problema é que desistir deste presente passageiro (embora maior que o tempo de vida de um indivíduo) é o mesmo que atirar pela janela toda a existência. Em suma, aqui é que se situa mais explicitamente a oposição fundamental e irreconciliável entre Nietzsche e Schopenhauer. Onde verdadeiramente se continua (se deveria continuar) após a última linha do primeiro tomo de O mundo como vontade(…), não rumando ao misticismo novamente, mas indo-além-no-mundo, em oposição à vida seca e material daquela Europa do XIX. Figuras como Elon Musk, espécies de líderes ideológicos da atualidade ou representantes do Zeitgeist, ainda estão situadas no positivismo otimista do progresso ilimitado, avatar tão velho! Falta muito ainda. Ainda não é o tempo de espiritualizar-se, primeiro deve-se usar o martelo e a foice o suficiente… O budismo europeu se concretaria quando o mais próspero dos bilionários já não for capaz de sentir a menor centelha de prazer na vida! Predominância e universalização da ética de escravos. Todos na Terra já são encarnações de Jesus de Nazaré. Aí está a brecha para a ascensão de uma nova casta de senhores fortes, espiritualmente amante da vida e inimiga dos valores vigentes. É neste exato sentido que se deve ler o “O Cristianismo estava à beira do colapso, quando essa tragédia, o luteranismo, despontou e ressuscitou o cadáver!”, ou aforismo parecido, no Anti-Cristo. Dá até saudade da concupiscência imoral de um Bórgia – ao contrário, nos deparamos hoje com a de um Edir Macedo (urgh)! É porque de um neo-protestantismo (no fundo apenas, ainda, o bom e velho protestantismo) não nascerá outra doutrina CRISTÃ para salvar novamente a religião que este ciclo ou esta era terão irremediável fim histórico próximo…
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“in religions, as in philosophy, optimism is a fundamental error which obstructs the path of all truth.” Não à toa sou o que sou.
“the highly remarkable sect of the Shakers, in North America, founded by an Englishwoman, Anne Lee, in 1774. The adherents of this sect have already increased to 6,000, who are divided into 15 communities, and inhabit a number of villages in the states of New York and Kentucky, especially in the district of New Lebanon, near Nassau village. The fundamental characteristic of their religious rule of life is celibacy and entire abstention from all sexual satisfaction. It is unanimously admitted, even by the English and Americans who visit them, and who laugh and jeer at them in every other respect, that this rule is strictly and with perfect honesty observed; although brothers and sisters sometimes even occupy the same house, eat at the same table, nay, dance together in the religious services in church. For whoever has made that hardest of all sacrifices may dance before the Lord; he is a victor, he has overcome.” O problema de uma seita rara em que ninguém se reproduz (ninguém faz sexo!) é que ela está destinada do começo à mais lenta e morosa das extinções. Veja o Wikipedia dos Shakers, com números um pouco diferentes dos apresentados por Sch. para o séc. XIX (mais comunidades, mas menos membros):“During the mid-19th century, an Era of Manifestations resulted in a period of dances, gift drawings, and gift songs inspired by spiritual revelations. At its peak in the mid-19th century, there were 2,000-4,000 Shaker believers living in 18 major communities and numerous smaller, often short-lived, communities.External and internal societal changes in the mid- and late-19th century resulted in the thinning of the Shaker community as members left or died with few converts to the faith to replace them. By 1920, there were only 12 Shaker communities remaining in the United States. As of 2019, there is only 1 active Shaker village:Sabbathday Lake Shaker Village, in Maine. Consequently, many of the other Shaker settlements are now museums.”
“There are no families, and therefore there is no private property, but community of goods. All are clothed alike, in Quaker fashion, and with great neatness. They are industrious and diligent: idleness is not endured. They have also the enviable rule that they are to avoid all unnecessary noise, such as shouting, door-slamming, whip-cracking, loud knocking, &c.” Sch. teria fundado uma sucursal na Alemanha, reza a lenda! “They persuade no one to join them, but test those who present themselves by a novitiate of several years. Moreover, everyone is free to leave; very rarely is any one expelled for misconduct.Adopted children are carefully educated, and only when they are grown up do they voluntarily join the sect. It is said that in the controversies of their ministers with Anglican clergy the latter generally come off the worse, for the arguments consist of passages from the New Testament. Fuller accounts of them will be found particularly in Maxwell’s Run through the United States, 1841; also in Benedict’s History of all Religions, 1830; also in the Times, November 4, 1837, and in the German magazine Columbus, May number, 1831.” “A German sect in America, very similar to them, who also live in strict celibacy and continence, are the Rappists [!]. An account of them is given in F. Loher’s Geschichte und Zustande der Deutschen in Amerika, 1853. In Russia also the Raskolniks are a similar sect.” “But among the ancient Jews we already find a prototype of all these sects, the Essenes, of whom even Pliny gives an account (Hist. Nat., 5:15), and who resembled the Shakers very much, not only in celibacy, but also in other respects; for example, in dancing during divine service, which leads to the opinion that the founder of the Shakers took the Essenes as a pattern.”
“Although Christianity, in essential respects, taught only what all Asia knew long before, and even better, yet for Europe it was a new and great revelation, in consequence of which the spiritual tendency of the European nations was therefore entirely transformed.”
“The ancients, although far advanced in almost everything else, remained children with regard to the chief concern, and were surpassed in this even by the Druids, who at least taught metempsychosis. That 1 or 2 philosophers, like Pythagoras and Plato, thought otherwise alters nothing as regards the whole.” O que farás no Hades? Ora, o mesmo que aqui!
Enigma: quem é mais burro, aquele que só entende alegorias ou aquele que só entende a mensagem direta? Ao contrário do que Schopenhauer pensa, creio que tanto a religião quanto a filosofia sejam um híbrido destas duas (para ele a filosofia é uma vocação seleta por lidar com a mensagem direta, a Bíblia, p.ex., apenas conta estórias morais, etc.). Nada mais ilusório. Nesse sentido, Platão seria um super-filósofo inacessível até para os prosaicos filósofos… E o que dizer da simplicidade com que a massa abraça um culto tão ‘esotérico’? Talvez porque ele não o seja (tanto).
JES(US) BETWEEN THE HAMMER AND THE ANVIL:“The Holy Ghost is the distinct denial of the will to live: the man in whom this exhibits itself in concreto is the Son; He [God] is identical with the will which asserts life, and thereby produces the phenomenon of this perceptible world, i.e., with the Father, because the assertion and denial are opposite acts of the same will whose capability for both is the only true freedom.” Santíssimo Quarteto?
“the gallows is a place of quite peculiar revelations, and a watch-tower from which the man who even then retains his presence of mind obtains a wider, clearer outlook into eternity than most philosophers over the paragraphs of their rational psychology and theology. The following speech on the gallows was made on the 15th April, 1837, at Gloucester, by a man called Bartlett, who had murdered his mother-in-law: ‘Englishmen and fellow countrymen—I have a few words to say to you, and they shall be but very few. Yet let me entreat you, one and all, that these few words that I shall utter may strike deep into your hearts. Bear them in your mind, not only now while you are witnessing this sad scene, but take them to your homes, take them, and repeat them to your children and friends. I implore you as a dying man—one for whom the instrument of death is even now prepared—and these words are that you may loose yourselves from the love of this dying world and its vain pleasures. Think less of it and more of your God. Do this: repent, repent, for be assured that without deep and true repentance, without turning to your heavenly Father, you will never attain, nor can hold the slightest hope of ever reaching those bowers of bliss to which I trust I am now fast advancing’ (Times, 18th April 1837).” Sch. recai na filosofia mais exotérica de comadronas!
“With the Ebionites it is a capital principle that whoever takes his portion in this age gets nothing in the future, and conversely. Accordingly in Luke the blessings are followed by as many woes, which are addressed to the rich, and to them that laugh, in the Ebionite spirit. In the same spirit, he says, is the parable (Luke 16:19) of the rich man and Lazarus given, which nowhere mentions any fault of the former or any merit of the latter, and takes as the standard of the future recompense, not the good done or the wickedness practised, but the evil suffered here and the good things enjoyed, in the Ebionite spirit.” “This appears still more decidedly in the passage Matt. 10:9-15, where all possessions, even shoes and a staff, are forbidden to the Apostles, and they are directed to beg. These commands afterwards became the foundation of the mendicant order of St. Francis (Bonaventuræ vita S. Francisci, c. 3).”
“While now by this the thoughtless man only finds himself tormented in reality, in the case of him who thinks there is added to his real pain the theoretical perplexity why a world and a life which exist in order that one may be happy in them answer their end so badly. First of all it finds expression in pious ejaculations, such as, <Ah! why are the tears on earth so many?> &c. &c. But in their train come disquieting doubts about the assumptions of those preconceived optimistic dogmas. One may try if one will to throw the blame of one’s individual unhappiness now upon the circumstances, now upon other men, now upon one’s own bad luck, or even upon one’s own awkwardness, and may know well how all these have worked together to produce it; but this in no way alters the result that one has missed the real end of life, which consists indeed in being happy. The consideration of this is, then, often very depressing, especially if life is already on the wane; hence the countenances of almost all elderly persons wear the expression of that which in English is called disappointment. Besides this, however, hitherto everyday of our life has taught us that joys and pleasures, even if attained, are in themselves delusive, do not perform what they promise, do not satisfy the heart, and finally their possession is at least embittered by the disagreeables that accompany them or spring from them; while, on the contrary, the pains and sorrows prove themselves very real, and often exceed all expectation.” “Whoever now has returned by one or other path from that error which dwells in us a priori, will soon see all in another light, and will now find the world in harmony with his insight, although not with his wishes.” “it is just pain and trouble that tend towards the true end of life, the turning away of the will from it.” Pense na dor e nos dilemas, mas dos quais uma Vontade não foge!
“in the presence of every corpse the watch goes under arms.”
“Just because a sudden death makes this retrospect impossible, the Church regards such a death as a misfortune, and prays that it should be averted.”
“But if, conversely, the desire outlives the capacity for enjoyment, and we now regret particular pleasures in life which we miss, instead of seeing the emptiness and vanity of all; and if then gold, the abstract representative of the objects of desire for which the sense is dead, takes the place of all these objects themselves, and now excites the same vehement passions which were formerly more pardonably awakened by the objects of actual pleasure, and thus now with deadened senses a lifeless but indestructible object is desired with equally indestructible eagerness; or, also, if, in the same way, existence in the opinion of others takes the place of existence and action in the real world, and now kindles the same passions—then the will has become sublimated and etherealised into avarice or ambition; but has thereby thrown itself into the last fortress, in which it can only now be besieged by death. The end of existence has been missed.”
“I am not even speaking at all of lofty virtue, nobleness, magnanimity, and self-sacrifice, which one hardly finds anywhere but in plays and novels, but only of those virtues which are the duty of everyone. Let whoever is old think of all those with whom he has had to do; how many persons will he have met who were merely really and truly honest?”
“After all my explanations one may still ask, for example, whence has sprung this will that is free to assert itself, the manifestation of which is the world, or to deny itself, the manifestation of which we do not know. What is the fatality lying beyond all experience which has placed it in the very doubtful dilemma of either appearing as a world in which suffering and death reign, or else denying its very being?—or again, what can have prevailed upon it to forsake the infinitely preferable peace of blessed nothingness? An individual will, one may add, can only turn to its own destruction through error in the choice, thus through the fault of knowledge; but the will-in-itself, before all manifestation, consequently still without knowledge, how could it go astray and fall into the ruin of its present condition? Whence in general is the great discord that permeates this world? It may, further, be asked how deep into the true being of the world the roots of individuality go; to which it may certainly be answered: they go as deep as the assertion of the will to live; where the denial of the will appears they cease, for they have arisen with the assertion. But one might indeed even put the question, <What would I be if I were not will to live?> and more of the same kind. To all such questions we would first have to reply that the expression of the most universal and general form of our intellect is the principle of sufficient reason; but that just on this account that principle finds application only to the phenomenon, not to the being-in-itself-of-things.” “What the world is as world may be understood: it is phenomenal manifestation; and we can know that which manifests itself in it, directly from ourselves, by means of a thorough analysis of self-consciousness. Then, however, by means of this key to the nature of the world, the whole phenomenal manifestation can be deciphered, as I believe I have succeeded in doing. But if we leave the world in order to answer the questions indicated above, we have also left the whole sphere in which, not only connection according to reason and consequent, but even knowledge itself is possible” “So much as to the limits of my philosophy, and indeed of all philosophy.”
“that the inner nature in all things is absolutely one and the same, my age had already grasped and understood, after the Eleatics, Scotus Erigena, Giordano Bruno, and Spinoza had thoroughly taught, and Schelling had revived this doctrine.But what this one is, and how it is able to exhibit itself as the many, is a problem the solution of which is first found in my philosophy.”
“Scotus Erigena, quite consistently with the spirit of Pantheism, explains every phenomenon as a theophany; but then this conception must also be applied to the most terrible and abominable phenomena. Fine theophanies! What further distinguishes me from Pantheism is principally the following.
(1). That THEOS is an x, an unknown quantity; the will, on the other hand, is of all possible things the one that is known to us most exactly, the only thing given immediately, and therefore exclusively fitted for the explanation of the rest. (…)
(2). (…) with me alone ethics has a sure foundation and is completely worked out in agreement with the sublime and profound religions, Brahmanism, Buddhism, and Christianity, not merely with Judaism and Mohammedanism. The metaphysic of the beautiful also is first fully cleared up as a result of my fundamental truth, and no longer requires to take refuge behind empty words. With me alone is the evil of the world honestly confessed in its whole magnitude: this is rendered possible by the fact that the answer to the question as to its origin coincides with the answer to the question as to the origin of the world. (…)
(3.) That I start from experience and the natural self-consciousness given to everyone, and lead to the will as that which alone is metaphysical; thus I adopt the ascending, analytical method. (…)”
“Since, in consequence of the Kantian criticism of all speculative theology, the philosophisers of Germany almost all threw themselves back upon Spinoza, so that the whole series of futile attempts known by the name of the post-Kantian philosophy are simply Spinozism tastelessly dressed up, veiled in all kinds of unintelligible language, and otherwise distorted, I wish, now that I have explained the relation of my philosophy to Pantheism in general, to point out its relation to Spinozism in particular.”
“[For Spinoza, man] is even to rejoice in his life as long as it lasts; entirely in accordance with Ecclesiastes 9:7-10. (…) therefore its ethical side is weak, as in the Old Testament” “Especially chap. 16 of the Tractatus theologico-politicus is the true compendium of the immorality of Spinoza’s philosophy.”
“Spinoza could not get rid of the Jews; quo semel est imbuta recens servabit odorem. His contempt for the brutes, which, as mere things for our use, he also declares to be without rights, is thoroughly Jewish, and, in union with Pantheism, is at the same time absurd and detestable (Eth. IV, appendix, c. 27). With all this Spinoza remains a very great man. But in order to estimate his work correctly we must keep in view his relation to Descartes.” “Yet partly to avoid injuring his teacher, partly in order to be less offensive, he gave it a positive appearance by means of a strictly dogmatic form, although its content is chiefly negative. His identification of the world with God has also this negative significance alone. For to call the world God is not to explain it: it remains a riddle under the one name as under the other. But these 2 negative truths had value for their age, as for every age in which there still are conscious or unconscious Cartesians. He makes the mistake, common to all philosophers before Locke, of starting from conceptions, without having previously investigated their origin, such, for example, as substance, cause, &c., and in such a method of procedure these conceptions then receive a much too extensive validity. [mesma crítica de Hegel] Those who in the most recent times refused to acknowledge the Neo-Spinozism which had appeared, for example, Jacobi, were principally deterred from doing so by the bugbear of fatalism. By this is to be understood every doctrine which refers the existence of the world, together with the critical position of mankind in it, to any absolute necessity, i.e., to a necessity that cannot be further explained. Those who feared fatalism, again, believed that all that was of importance was to deduce the world from the free act of will of a being existing outside it; as if it were antecedently certain which of the 2 was more correct, or even better merely in relation to us.”
FINIS
Depois do fim, anti-schopenhauerianamente, acrescentemos, apenas, o trecho final de seu prefácio rabugento à 3ª edição, que explica um pouco, também, do Parerga et(…):¹
“Seven years after the appearance of the 2nd edition I published 2 volumes of Parerga and Paralipomena. What is included under the latter name consists of additions to the systematic exposition of my philosophy, and would have found its right place in these volumes, but I was obliged to find a place for it then where I could, as it was very doubtful whether I would live to see this 3rd edition [Sch. reclama que não teve como lançar a terceira edição por uma editora senão 42 anos depois da 1a aparição de O Mundo como Vontade(…), milagrosamente ainda vivo – ele que publicou sua magnum opus – com várias páginas de notas a menos que a versão definitiva – tão novo, aos 30!]. It will be found in the 2nd volume of the said Parerga, and will be easily recognised from the headings of the chapters.”
¹ O nome em português é Ornatos e suplementos.
LISTA DAS LEITURAS LISTADAS EM NEGRITO VERMELHO NA ORDEM EM QUE SURGEM NO TEXTO¹ (a bibliografia mais importante d’O Mundo, fora de Kant-Platão):
¹ Autores repetidos receberam numeração
Humboldt, Views of Nature
Suárez, Disputas Metafísicas, sobretudo a seção 1
Polier, Mythologie des Indous
Aristóteles, Física
Hume,¹ Natural History of Religion
Hume,² Dialogues on Natural Religion
William Jones, Asiatic researches Volume 4,¹ On the philosophy of the Asiatics
I-Ching
Marshall Hall, On the diseases of the nervous system
Laplace, sua magnum opus
Jakob Böhme, Signatura Rerum
Goethe,¹ Triunfo da sensibilidade
Leis de Manu (recomendação: tradução inglesa de William Jones)
Vie de Pascal, par sa soeur
Hume,³ Essay 21, ‘Of National Characters’
Colebrooke,¹ Asiatic researches Volume 8,² On The Vedas
Chavin de Mallan, Histoire de S. François d’Assise
Madame de Guion,¹ Vie de Madame de Guion
Fénelon, Explications des maximes des Saints sur la vie intérieure
Thomas Reid, Inquiry into the Human Mind
Norman Alliston (ed.), The Reflections of Lichtenberg
R.J. Hollingdale (ed.), [Lichtenberg’s]Aphorisms, reprinted as L.’s “The Waste Books”
Steven Tester (ed.), [Lichtenberg’s] Philosophical Writings
Frauenstädt’s letters on Schopenhauer’s philosophy, Letter 14
Robert Hooke, his Communication to the Royal Society in 1666 (1º enunciado da lei da gravitação universal) – caso não encontre: “The principal passage of this communication is quoted in Dugald Stewart’s Philosophy of the Human Mind, and is probably taken from Robert Hooke’s Posthumous Works.” Não obstante, notar que Sch. nos recomenda não gastar 1h de nossas vidas lendo Stewart, péssimo escritor.
Goethe,² Hefte zur Morphologie
Alexander Csoma de Körös,¹ Essay towards a Dictionary, Tibetan and English. Prepared, with assistance of Bandé Sangs-rgyas Phuntshogs
Alexander Csoma de Körös,² Analysis of the Dulva, part of the Kangyur, Asiatic Researches, vol. 20-1³
Collected works of Alexander Csoma de Körös³
Jachmann, Immanuel Kant
Rösch, Über die Bedeutung des Blutes
Bichat, Sur la Vie et la Mort
Most,Über sympathetischen Mittel und Kuren
J.J. Schmidt,On the Maha-Jana and Prajnaparamita
Os Vedantas (op. cit), capítulo Oupnekhat ou Upanishad(há dissensão dos escoliastas sobre se é genuíno ou apócrifo)
Colebrooke,²Transactions of the Asiatic London Society, vol. 1, History of the Indian Philosophy
Spence Hardy, Manual of Buddhism
Asiatic Researches Vol. 64
Asiatic Researches Vol. 95
Edda
Asiatic Researches Vol. 76
Hume,4Essays on Suicide and the Immortality of the Soul
Talmud
Plotinus, Enneads
Scotus Erigena em geral
Madame de Guion,² Les Torrens
Angelus Silesius em geral
Tholuk,¹ Sufismus, sive theosophia Persarum pantheistica
Tholuk,² Blütensammlung aus der morgenlandischen Mystik
Tholuk,³ Speculative Trinitätslehre des späteren Orients
Em vermelho: trechos importantes, possivelmente contendo uma idéia completa.
Em negrito, sublinhado, itálico: trechos importantes, normalmente contendo alguma idéia incompleta ou detalhe secundário que não deve ser perdido de vista (parte da teoria que não deve ser ignorada para o entendimento completo desta).
Em vermelho e grifado: trechos mais importantes.
Em verde: pérolas do filósofo ou idéias abstrusas. Quando grifado, muito abstrusas!
Em azul: comentários meus (exegese e julgamento do filósofo).
ÍNDICE (Use control+F para pular para a seção desejada)
s/nº INTRODUÇÃO
1. PRELIMINARES
2. COMEÇA O CURSO – AS RELAÇÕES DA FILOSOFIA COM A HISTÓRIA, COM PRIMAZIA DA SEGUNDA
2.1 INDIVÍDUOS X IDÉIAS: UM FALSO DEBATE
2.2 SOBRE A BUSCA PELA VERDADE AO LONGO DO TEMPO: A ELABORAÇÃO DE SISTEMAS FILOSÓFICOS MUTUAMENTE CONTRADITÓRIOS.
2.3 PRIMEIROS ELEMENTOS DO HEGELIANISMO
2.4 DELIMITAÇÃO DO MÉTODO DO ESTUDO DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA; A PAIXÃO HEGELIANA PELA RELIGIÃO E PELA ESCATOLOGIA.
2.5 DELIMITAÇÃO DO QUE É FILOSOFIA
3. PANORAMA GERAL DA FILOSOFIA GREGA
4. ANAXÁGORAS
5. PARMÊNIDES
6. PITÁGORAS
7. HERÁCLITO
8. OS ATOMISTAS
9. PROTÁGORAS
10. SÓCRATES
10.1 O PROBLEMA DA ÉTICA DIVINA: NEGANDO E AFIRMANDO SÓCRATES
10.2 O INDIVÍDUO SÓCRATES & O OCASO ATENIENSE: O LADO NEGATIVO DA FILOSOFIA
11. PLATÃO
11.1 O PLATONISMO
11.2 O PLATONISMO COMO ÁPICE PRECOCE DO FILOSOFAR & O LIMBOBOL COMO TÊNIS METAFÍSICO (onde o Pensamento Único é o estilo característico de cada atleta-pensador)
11.3 A MAIÊUTICA OU TEORIA DAS REMINISCÊNCIAS
11.4 TEORIA DAS IDÉIAS
11.5 O HERMETISMO PITAGÓRICO EM PLATÃO
11.6 A REPÚBLICA
11.6.1 DAS QUATRO VIRTUDES DA POPULAÇÃO DA REPÚBLICA
11.6.2. CONTINUIDADE DA REPÚBLICA NO TEMPO
11.7 ESTÉTICA
11.8 CONCLUSÃO
12. ARISTÓTELES
12.1 O VERDADEIRO TAMANHO DO LEGADO DE ARISTÓTELES; DISTORÇÕES HISTÓRICAS DE HEGEL
12.2 METAFÍSICA ARISTOTÉLICA
12.3 FÍSICA ARISTOTÉLICA
12.4 ÉTICA ARISTOTÉLICA
12.5 LÓGICA ARISTOTÉLICA
13. A RESSACA: FILOSOFIA PÓS-PLATÔNICA E PÓS-ARISTOTÉLICA
13.1 ESTOICISMO, EPICURISMO, CETICISMO & OUTRAS ESCOLAS PERIFÉRICAS DO PENSAMENTO: UMA VISÃO COMPARATIVA.
13.2 IDADE DAS TREVAS: DO NEOPLATONISMO À ESCOLÁSTICA OU O MILÊNIO PERDIDO
14. REALISMO X IDEALISMO: POR TRÁS DAS CORTINAS, NACIONALISMO.
15. BACON
16. DESCARTES
17. SPINOZA
18. O CÉTICO EMPIRISMO OU EMPÍRICO CETICISMO DOS BRITÂNICOS
19. LEIBNIZ
20. JUÍZO HEGELIANO ACERCA DA DEFICIENTE METAFÍSICA MODERNA
21. O MATERIALISMO FRANCÊS SUI GENERIS
22. KANT: A NÊMESE DO ESPÍRITO DE HEGEL
s/nº QUIXOTADAS, DITIRAMBOS & AFORISMOS SÁBIOS
s/nº MAIS HEGEL (& ASSOCIADOS)? OUTROS POSTS DO SECLUSÃO.
INTRODUÇÃO
O ensaio a seguir possui um caráter fragmentário, aforismático. Na realidade batizo-o de ensaio por falta de palavra melhor. Na sua maior extensão, são apenas citações do próprio Hegel. Mas condensam e apanham todas as observações que teci a seu respeito em outras postagens do blog, referenciadas ao final. É, primeiro, um modo de encontrar todos os meus juízos mais importantes proferidos sobre a filosofia hegeliana num único post; e uma maneira mais resumida e direta ao ponto de conhecer as próprias afirmações de Hegel. Para se ter idéia, todo o material aqui colhido se concentra em obra póstuma sua considerada periférica, e no entanto bem abrangente e reveladora: a História da Filosofia são cursos universitários ministrados por Hegel. Através deles podemos conhecer a idéia central (ou ‘a idéia que Hegel fazia da idéia central’) de praticamente todos os filósofos relevantes até sua própria época (e também a filosofia de muitas figuras irrelevantes!) – talvez exceto por Blaise Pascal, que, embora não tivesse sua existência completamente ignorada pelo “Idealista Alemão” ou “Pai da Dialética Moderna”, é citado apenas de passagem. Mas o mais importante é: através dos erros e acertos fulcrais de Hegel, podemos entender o que é o Historicismo ou Teleologia do sistema do pensamento hegeliano. Mesmo prejudicados por não adentrarmos em obras como a Filosofia do Direito, a Fenomenologia do Espírito, o Curso de Estética, a Filosofia da História (cuja proposta é simetricamente oposta à deste curso – entender o devir dos acontecimentos humanos COM BASE na filosofia hegeliana, e não explicar a sucessão dos pensamentos cronologicamente) e a Enciclopédia, espero trazer resultados conclusivos ou, pelo menos, nada desprezíveis sobre o valor do Hegelianismo, ou dos Hegelianismos, sem sobrecarregar e estafar o leitor. Uma das principais razões para isso é que o linguajar de um curso oral depois transcrito em papel é muito mais leve e didático do que o tipo de exposição bem característico de Hegel nas suas obras publicadas em vida. O homem é um só: não importa quantos livros tenha escrito, se o assunto é geral o suficiente, poderemos perscrutar seu interior e suas intenções – seu mérito, enfim.
Muito se fala de Georg Wilhelm Friedrich Hegel; mas o que podemos jogar no lixo da História e o que ainda devemos levar em conta? Em que pese haver 50 mil iniciativas do gênero, faço minha própria tentativa neste espaço. Devo dizer que não gosto de carranca: recorro ao humor para quebrar o gelo e satirizar os absurdos com que eventualmente depararemos. Ou à poesia. Porém, aquele que disser que não encontra aqui filosofia, estará distorcendo descaradamente o conteúdo do “ensaio”. Depois de explorar o cerne do pensamento de Hume e Kant de forma relativamente breve, nada mais justo que continuar a série HISTÓRIA DAS IDÉIAS, que agora sim se tornou série, com “O Homem da História”, o homem para quem a História representa ou representou pela primeira vez um papel todo especial. Não deixará de ser uma História das Idéias sobre a História em si, mas com uma limitação evidente: pára no início do século XIX. É por isso que meus comentários em azul são tão necessários, mesmo que o leitor pudesse compreender cada palavra de Hegel: dou uma perspectiva adicional, contraposta o mais das vezes, elimino certos pontos cegos que uma alma medíocre de hoje em dia pode enxergar muito bem no gênio hegeliano, existência que passou há quase 200 anos. Hegel é o continuador natural de Kant, e como todo continuador resenha seus antecessores: como Kant parte de Hume, Hegel parte de Kant e tem muito a dizer a respeito destas duas figuras, por exemplo. Hume, no entanto, que já ficava ofuscado diante de Kant, é apenas uma estrelinha num amplo firmamento iluminado nas “anotações do sistema fonador hegeliano”. Não deixa de ser, portanto, um complemento do primeiro capítulo da HISTÓRIA DAS IDÉIAS, embora o objetivo inicial seja descolado da Crítica kantiana. Desta vez a massa informacional será muito maior – páginas, páginas e páginas no seu ecrã! –, por isso prepare o corpo e a mente!
Para facilitar, minha exposição obedeceu, também, como o próprio livro que aqui usamos como base, o critério cronológico. Dividi os tópicos pelos filósofos ou fases ou escolas que Hegel comenta. Observações gerais sobre como Hegel pensava poderão, portanto, estar espalhadas por qualquer dos 22 ‘capítulos’. Achando necessário, separei algum tema que se tornava muito recorrente e insistente num tópico dedicado (os melhores exemplos são quando entramos em Platão e Aristóteles, os filósofos mais importantes da História até a época de Hegel – seus capítulos possuem várias subseções). Por fim, minhas tiradas mais sarcásticas e/ou impossíveis de contextualizar estão posicionadas num epílogo ou anexo próprios.
É importante ainda que saibam que a obra que li está em espanhol, mas para aumentar a acessibilidade desse material traduzi todos os trechos de Hegel que usei. Junto, poderão ser despejadas, na bacia, além do bebê, outras águas: citações dos filósofos que Hegel comenta. Claro que a cada novo filósofo, todos os filósofos precedentes reaparecem, de alguma forma, corroborando Hegel (embora ele exagere demais a esse respeito), e tornando tudo mais labiríntico e nuançado. Saibam de uma vez: Sócrates, Platão e Aristóteles são presença obrigatória em qualquer novo pensador que apresente seu legado ao mundo. No fim, creio que nunca me arrependerei de ter começado a HISTÓRIA DAS IDÉIAS “pelo meio”, isto é, com autores modernos, porque sem os antigos eles, por assim dizer, não existem: assim, introduzo desde o 1º capítulo da série o pensamento antigo, mesmo sem dedicar, por enquanto, um post específico a ele.
1. PRELIMINARES
CRÍTICA DOS FILOSOFASTROS¹ CONTEMPORÂNEOS DE HEGEL: “[Hegel corrigiu o erro dos historiadores de filosofia até sua época, que cometiam] o absurdo intento de destacar Anaximandro de tal forma que chegou-se mesmo a colocá-lo depois de Heráclito no história do pensamento, como se se tratasse de autor mais maduro.” É muito comum que pensemos na história como progresso. E é mais comum ainda que se escreva uma história levando-se em conta, às vezes inconscientemente, apenas uma linha reta temporal, tendente a valorizar mais só aquilo que vem a seguir em detrimento do que já é passado. Ora, Heráclito aparece primeiro; mas Hegel ajudou nossa historiografia a revisar a importância que concedíamos a ele: hoje ele é tido como um dos pré-socráticos (início da filosofia ocidental) mais importantes, superando as contribuições de Anaximandro. Os alunos de Hegel (os responsáveis por editar o livro da História da Filosofia) destacam essa faceta pioneira do mestre: ignorou a linha temporal em alguns casos em que isso melhorava o didatismo e a qualidade de seu curso. “Assim, quando Hegel não considera Heráclito entre os primeiros jônios, senão que o coloca depois dos pitagóricos e eleatas, não se encontra na cúspide da erudição de nossos dias, [ironia para se referir aos filisteus daquele tempo, filosofastros, filósofos apenas no nome] que decidiu sozinha que lugar corresponde a Heráclito baseando-se tão-somente em superficialidades.” Estas aspas são de Michelet, um dos editores da obra.
¹ “substantivo masculino Indivíduo, que se supõe filósofo, e que discorre sem acerto.”
Porém, também é verdade que, apesar de reconhecer a primazia de Heráclito na “hierarquia atemporal dos filósofos”, Hegel comete o erro de superestimar além do que seria aceitável outro filósofo pré-socrático, nomeadamente Anaxágoras, considerado o primeiro que filosofou séria e abstratamente (por conceitos determinados). Ver capítulo 4.
HEGEL, O PROLIXO: “Entre outras causas, esta História da Filosofia de Hegel conservou o caráter de conferência pela falta de tempo que tinha o autor [enquanto professor para ministrar seu curso ao longo de um semestre (na realidade entre 3 e 4 meses)]. Hegel teve de ser muito mais lacônico ao final do curso que em seu princípio. [Engraçado, eu não tive essa impressão: minhas anotações são maiores sobretudo para o terceiro volume da História, que começa, é verdade, no neoplatonismo, o que é quase um contra-senso, já que significa que ao iniciar o capítulo final da trilogia ele ainda está no próprio mundo antigo, e percorre a Idade Média e a Idade Moderna ‘na velocidade do relâmpago’ – só que o que permite que sua obra não seja tão assimétrica é que a filosofia antiga é muito mais rica que a posterior, e ainda sentimos que Hegel ‘enrola’ muito ao se arrastar sobre pensamentos nefandos, banais, irrelevantes, de joões-ninguém europeus; além disso, é muito mais raro que conheçamos a vida e a obra de Fichte¹ ou Böhme¹ do que os ensinamentos de Platão e Aristóteles, por isso a tendência é registrarmos mais informações dos sistemas mais novos, em efeito. Quem sou eu para contradizer Michelet, que estava no curso ministrado por Hegel! Mas para o leitor contemporâneo quase que só os 2 primeiros volumes têm significância; e, no 3º, pontos focais: Descartes, Spinoza, Leibniz, os intelectuais franceses e Kant.]Seja como for, a partir de Aristóteles, cuja exposição já se dava na 2ª metade do curso, as aulas já não duravam tanto tempo.” No livro, a filosofia aristotélica está no 2º volume – a verdade é, também, que Hegel não iniciava diretamente com Tales (o “primeiro filósofo”), mas dava uma Introdução Geral enorme, falando da História e da Filosofia em todos os tempos, antes de iniciar a jornada mais ou menos cronológica que se exige de uma abordagem histórica. Só esse expediente já significa que uns bons 20% ou 25% do curso já teriam se passado após sua introdução. Se ainda posso opinar mais, Fichte e Schelling, como veremos ao final, são, para mim, completamente inócuos e não faz sentido arrematar o curso com eles, desperdiçando 10 minutos sequer, considerando que antes veio o próprio Immanuel Kant, e que toda a filosofia hegeliana é – veremos – um ensaio de resposta (ou anseio de resposta, seria melhor) ou pura e simples contraposição a Kant!
¹ Porém, Fichte e Böhme não possuem relevância a ponto de estarem neste ensaio-resumo. Na continuidade do parágrafo faço o mesmo juízo de Schelling.
2. COMEÇA O CURSO – AS RELAÇÕES DA FILOSOFIA COM A HISTÓRIA, COM PRIMAZIA DA SEGUNDA
2.1 INDIVÍDUOS X IDÉIAS: UM FALSO DEBATE
“longe disso, aqui as criações são tanto melhores quanto menos imputáveis forem, por seus méritos ou sua responsabilidade, ao indivíduo, [Hegel está falando da proeminência do estudo de vidas isoladas na História e, portanto, na História da Filosofia, método que ele considera equivocado] quanto mais corresponderem ao pensamento livre, ao caráter geral do homem como tal homem, quanto mais se vê através das individualidades e contingências biográficas, por trás do sujeito criador, o próprio pensamento, que não é patrimônio exclusivo de ninguém.” Toda esta lição de Hegel, não obstante, é supérflua: pouco importa. O método socrático, por exemplo, é universal, mas foi um homem chamado Sócrates que o pariu. É claro que falar de Sócrates é atingir todos os tempos, e só descrevendo Sócrates é que entendemos o método socrático. Alexandre, o Grande, para citar um não-filósofo, tem tanto de pessoal quanto tinha Sócrates: era um homem, um tipo de homem, uma síntese especial de vários indivíduos, historicamente marcada – e por isso atemporal.
2.2 SOBRE A BUSCA PELA VERDADE AO LONGO DO TEMPO: A ELABORAÇÃO DE SISTEMAS FILOSÓFICOS MUTUAMENTE CONTRADITÓRIOS.
“Com efeito, ante o espetáculo de tão variegadas opiniões, de tão numerosos e diversos sistemas filosóficos, alguém sente-se arrastado pela confusão, sem encontrar um ponto de apoio firme em que se fixar. Vemos como, em torno dos grandes temas que o homem se vê solicitado a explorar filosoficamente, mesmo os maiores espíritos [homens!] erram e se equivocam,¹ invariavelmente refutados e contraditos por outros. ‘E se isso ocorre a tão insignes espíritos, como posso, ego homuncio [eu, homenzinho], ter a pretensão de decidir tais problemas?’
[¹ Hegel diz “yerran”; errar em português também tem duplo sentido: cometer um erro e andar por todo canto, explorar muitos lugares, às vezes por desorientação, às vezes por não guardar um propósito claro.]
Esta conclusão, que se extrai da grande diversidade dos sistemas filosóficos, é considerada como daninha, mas representa, ao mesmo tempo, uma vantagem subjetiva.” “…Todas as filosofias asseguram que são verdadeiras, todas indicam signos e critérios distintos por meio dos quais se há de reconhecer a verdade; por isso, o pensamento sóbrio e sereno tem que sentir, forçosamente, grandes escrúpulos antes de se decidir por uma [filosofia].
Este é o interesse maior a que deve servir a história da filosofia.”
Uma premissa correta, porém impossível de ser praticada – sem severos danos – durante a era sistemática. Heidegger teria algo a dizer sobre isso… Mas a elaboração desse meu comentário fica para um outro HISTÓRIA DAS IDÉIAS… Reparem, por ora, uma coisa que será vista com freqüência: Hegel expõe todo um argumento impecável para, a partir dele, emitir um juízo completamente deformado pela sua forma tão “presa ao século em que vivia” de enxergar todas as coisas… Isso é o que eu chamo de passar a prova toda prestes a tirar um 10 e no momento decisivo pôr tudo a perder e zerar a nota!
2.3 PRIMEIROS ELEMENTOS DO HEGELIANISMO
Seu erro consistiu em imaginar-se mais qualificado que Platão. Hierarquia entre IDÉIA-CONCEITO:“O produto do pensamento é o pensado em geral; mas o pensamento é ainda algo formal, o conceito é já o pensamento mais determinado e a idéia, finalmente, o pensamento em sua totalidade e determinado como o ser em-e-para-si.¹ Por conseguinte, a idéia é o verdadeiro e somente o verdadeiro; a natureza da idéia consiste, essencialmente, em desenvolver-se e em chegar a compreender-se somente por obra da evolução, em chegar a ser o que é.”
¹ Não se assuste com as nomenclaturas. Não é preciso desvendá-las AGORA. Continue lendo com confiança. Vamos fazer uma imersão aos poucos neste caldeirão, menos dolorosa, acostumando cada célula de nossa pele à temperatura…
A IDÉIA (de PLATÃO, que é de onde Hegel tira sua “idéia de Idéia”) NÃO EXISTE – ERA UMA METÁFORA! CONSELHO SÉRIO: Eis porque não se deve levar a filosofia tão a sério! O alemão: sujeito sem senso de humor. Destarte: incompleto. O grego é mais rico e sinuoso do que se pode pensar por meros vocábulos: quando você menos imagina, Platão deu-lhe um laço.
Por enquanto, concentre-se em mentalizar esta hierarquia básica, para Hegel, do menor para o maior:
1. pensamento
2. conceito (já é filosofia, propriamente)
3. Idéia (em maiúscula), a Verdade obtenível através da filosofia levada a cabo corretamente: primeiro por pensamentos, depois por conceitos, e finalmente pela forma correta de elaborar os conceitos num sistema coerente. Para Hegel só há uma filosofia correta, uma verdade. E é sobre esse dilema que ele – e nós, em conseqüência – irá se debater por todo o livro.
4. a Idéia consciente de si mesma – para Hegel, Platão chegou apenas à terceira etapa, não realizando todo o potencial da Filosofia. A Idéia, o pensamento supremo, que se entende enquanto ser e essência (um homem no mundo, que filosofa sobre coisas eternas) é o “fim da filosofia”, em todos os sentidos. A chave de Hegel para explicar a ocorrência da Idéia consciente de si mesma no mundo é a própria História.
PONTO NEVRÁLGICO DO HEGELIANISMO (salve este trecho como você salva seu editor de texto enquanto redige sua monografia; salve este trecho como você salva seu progresso no seu RPG favorito, porque você fatalmente terá de voltar a estas linhas varias vezes):
“a possibilidade [ou] (…) ser-em-si”: o latim ESSENTIA
“a realidade (entelequia)¹ [ou] ser-para-si”: o latim IN CONCRETO
¹ Só poderemos exaurir nossa explicação de enteléquia (em português) quando estivermos estudando Aristóteles via Hegel (12.2).
Todo ser-para-si é ser-em-si (toda aparência e ato está contido na essência e nas condições de possibilidade),
porém nem todo ser-em-si é ser-para-si (nem toda possibilidade torna-se realidade).
Repetindo com um pouco de economia de palavras:
Toda aparência¹ ou enteléquia (ato concreto) é essência (realização de potência).
Mas a essência não está em todas as fases (faces) da aparência.
¹ O termo aparência é pego de empréstimo das filosofias sucedâneas de Schopenhauer, Nietzsche e do existencialismo e fenomenologia do século XX.
O real (Real) de Hegel não é real.
A razão (Razão) de Hegel é onipresente (o deus operando a máquina).
Todo acontecer é deus, mas deus é algo mais que a soma dos aconteceres.
Hegel é um teleólogo.
Teleologia: “substantivo femininoCiência que se pauta no conceito de finalidade (causas finais) como essencial na sistematização das alterações da realidade, existindo uma causa fundamental que rege, através de metas, propósitos e objetivos, a humanidade, a natureza, seus seres e fenômenos.”
O mundo se revela com uma epifania. A própria realidade (fenômeno)¹ é epifenômeno.² O mundo é mero sintoma do Espírito.
¹ O mesmo que aparência.
² Trocadilho de epifenômeno com fenômeno, citado anteriormente na frase. Epifenômeno é aquilo que pode ser causado por algo, mas nunca interfere nesse algo, ou seja, um efeito secundário que não produz nova causa. Sinônimo de sintoma usado na próxima frase. Em Hegel, é Deus, ou o Espírito realizando-se na História (no tempo), através do próprio homem, o responsável pela união do ser-em-si e do ser-para-si, o objetivo final de toda Filosofia.
Desdobrar-se, realizar o que já é em essência não são processos estranhos ao homem mesmo atingindo-se algo de diferente ou pioneiro em sua vida: o filósofo tem de ser homem; nem todo homem é filósofo; todo filósofo nasce homem e devém filósofo eventualmente. Agora ele é filósofo e homem. Ele se desdobrou, duplicou, tornou-se dois, mesmo sendo um. Sem essa pseudo-duplicação (ou duplicação abstrata), não há a reunião do ser-em-si e do ser-para-si.
“Tudo o que acontece no céu e na terra – o que acontece eternamente –, a vida de Deus e tudo o que sucede no tempo, tende somente a um fim: que o espírito se conheça a si mesmo, que se faça objeto para si mesmo, que se encontre, devenha para si mesmo, que conflua consigo mesmo; começa sendo duplicação, alienação, mas só para se encontrar a si mesmo, para poder retornar a si.” Muito bonito, porém sem fundamento. Ou melhor dizendo, irreal. Por isso, ao mesmo tempo que o estudo de Hegel é epistemologia e Primeira filosofia (metafísica), é também, e sem contradição, teleologia (ciência dos fins) e teologia (ciência do conhecimento humano de deus). Ele representa uma continuidade da filosofia cristã (escolástica), e não uma ruptura completa com ela, como ele mesmo pensava. Porém, sua dialética influencia a filosofia póstuma e ainda pensamos usando suas categorias lógicas.
“Es un prejuicio corriente creer que la ciencia filosófica sólo maneja abstracciones, vacuas generalidades; que, por el contrario, la intuición, la conciencia empírica de nosotros mismos, el sentimiento de nosotros mismos y el sentimiento de la vida, es lo concreto de suyo, el reino determinado de suyo.”
O ÚLTIMO CONTRA-ATAQUE DO OBJETIVISMO: “É um preconceito corrente crer que a ciência filosófica só maneja abstrações, vácuas generalidades; (ou então,) pelo contrário, que a intuição, a consciência empírica de nós mesmos, o sentimento de nós mesmos e o sentimento da vida, são seu (terreno) concreto, seu reino determinado.”
Eis um exemplo da péssima escrita de Hegel (aqui podemos responsabilizar, também, seus alunos, na transcrição de sua oratória, que eram hegelianos, afinal). Para evidenciá-lo, mantive o original (ou melhor, a tradução alemão-espanhol) em cinza, expondo minha tradução logo abaixo. Havia a possibilidade de traduzir “concreto por si só”, “reino determinado por si só”, mas isso aumenta o nonsense do parágrafo e não é fundamental neste caso. Preferi manter a sintaxe mais óbvia ao leitor: remetendo o objeto ao sujeito inicial da frase. Se se quer que o pronome da 3ª pessoa do singular “seu” se refira a algo, tem de ser, pelo contexto, a “a ciência filosófica”. A 2ª metade da frase, após o sinal de ponto-e-vírgula, consiste naturalmente na enumeração de elementos do método hume-kantiano (empirismo, ceticismo, criticismo subjetivistas), tudo aquilo a que Hegel faz ferrenha oposição. O conhecimento mais elevado, para ele, só pode ser mediado pelo Espírito. Como Kant era o maior nome da filosofia na juventude de Hegel, era sobre ele que se deveria centrar o ataque. Expressões como “abstrações, vácuas generalidades” já resumem numa carapuça todo o objetivismo incompetente anterior a Hegel (e Kant). Quanto ao postulado da apercepção imediata de Kant,¹ o “real adversário”, nas linhas seguintes Hegel proporá sua síntese, “sua versão” (antípoda) do a priori sintético daquele filósofo.
¹ Para entender o sentido de apercepção, temos que chegar a Leibniz, tópico 19.A priori ficará claro em vários trechos referentes ainda à filosofia antiga. Mas podemos adiantar: o a priori de Kant era a consciência e aquilo de que ela era formada (tempo, espaço e noção de causalidade); o a priori de Hegel é o Espírito do Mundo, também chamado de Absoluto.
“‘A matéria tem de ser 1 de 2 coisas: ou um todo contínuo ou formada por pontos’, diz-se; e, sem embargo, vemos como obedece aos 2 critérios.” O inteligente expresso de forma que hoje nos soa burra: o ponto é uma convenção abstrata; porém se se dissera ‘a matéria enquanto onda (contínua) ou a matéria enquanto partícula (reduzida a elementos distinguíveis)’, como na física do séc. XX, aí Hegel teria acertado em cheio. Visionário, portanto.
Aqui Hegel faz o Kantismo (quando diz “o entendimento”, inferior ao “saber”, ao ‘verdadeiro’ pensar) consistir num jogo de eleição estereotipado entre sim/não, ‘isto ou aquilo’, generaliza a Crítica da razão pura como uma mera retórica ou erudição binária, escrava do PRINCÍPIO DA NÃO-CONTRADIÇÃO (Aristóteles), enquanto arroga ao seu sistema ‘Espiritual’ a supremacia por comportar dentro de si o sim e o não em simultâneo (a síntese totalizante).
“Necessariamente tem que se produzir o destino destas determinações, o qual consiste, precisamente, em que se enlacem e somem todas elas, descendendo assim ao nível de simples momentos. A modalidade em que cada momento se estabelecia como algo próprio e independente se vê, por sua vez, suspensa (no sentido físico e topográfico e no sentido legal do adjetivo); após a expansão vem a contração – a unidade de que todos aqueles momentos partiram. E este terceiro termo só pode ser, por sua vez, o começo de uma nova evolução. Poder-se-ia pensar que este processo se desenvolve ao infinito; mas não é assim; pois também ele tem uma meta absoluta, que mais tarde saberemos qual é; têm que se produzir, contudo, muitas viragens antes de que o espírito cobre sua liberdade, ao adquirir a consciência de si mesmo.” Mero messianismo travestido.
“A grande premissa, a de que também no mundo seguiram as coisas um curso racional, o que dá verdadeiro interesse à história da filosofia, não é outra coisa senão a fé na Providência, só que numa outra forma.” Ao menos o reconhece (que não passa de um messias imanente!).
Um dos maiores contra-argumentos a Hegel é por que o Espírito demorou tanto para “se revelar” (em sua filosofia, é óbvio), ou então ‘por que não demorou mais’, e por que houve tantos solavancos e retrocessos nessa ‘jornada’. Isso poderia ser dito por qualquer contemporâneo de Hegel. Mas o que mais nos autoriza a dizer que ele errou é que vivemos séculos depois dele, e vimos que a História não persegue um fim objetivo.
“hoje já não pode haver platônicos, aristotélicos, estóicos ou epicuristas; querer ressuscitar estas filosofias equivaleria a fazer regredir a uma etapa anterior o espírito mais desenvolvido, mais imerso em si.” Não devia haver. Mas não poder é um pouco de autoritarismo, você não acha?!
2.4 DELIMITAÇÃO DO MÉTODO DO ESTUDO DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA; A PAIXÃO HEGELIANA PELA RELIGIÃO E PELA ESCATOLOGIA.¹
¹ O mesmo que teleologia, porém num contexto religioso. No Cristianismo, é um estudo delimitado ao livro do Apocalipse ou de João (não confundir com o outro apóstolo João). Aquele que tiver familiaridade com esta literatura notará muitas convergências na parte dos símbolos e números com a doutrina pitagórica, que iremos investigar junto com Hegel (6.).
“Esta conexão, [filosofia e história]essencial, apresenta 2 lados. O 1º é o propriamente histórico; o 2º, o que se refere (…) às relações entre a filosofia e a religião, etc.; [improcedente: num estudo de história da filosofia, investigar relações da filosofia com a religião do seu tempo não tem primazia, e estas relações poderiam ser apuradas residualmente no 1º lado, o puramente histórico] o que nos ajudará, ao mesmo tempo, a determinar com maior precisão o que é a filosofia.”
A velha teoria civilização-cultura: sempre que a primeira se funda, a segunda ainda mal começou a se consolidar. Quando a última está em seu auge, a civilização já está em decadência. E é só em períodos de efervescência cultural e, portanto, ruína civilizacional, que um povo filosofa. Sócrates-Platão-Aristóteles e o mundo heleno em desagregação; São Tomás e o mundo pós-Império Romano do Ocidente sem esteio, ao mesmo tempo em que o Estado-moderno está na pré-História; Schopenhauer, Nietzsche e a desagregação da civilização ocidental, ou pelo menos da Europa como protagonista; a Escola Crítica e a falência do Socialismo Real; os franceses dos loucos anos 1960 e avante em plena inércia pós-modernista… Curiosamente, Hegel não parece participar de um desses momentos, mas está integrado na Prússia fortalecendo-se nacionalmente. Não há cultura, há apenas filisteus (Hegel admite-o). Sempre que é necessário, nessa época, citar a cosmovisão de um grande homem, recorriam os alemães a Goethe, que foi da geração anterior.
Curiosamente, já antecipa a principal crítica anti-hegeliana de Feuerbach: “Ainda que na verdadeira religião se tenha revelado e se revele o pensamento infinito, o espírito absoluto, ela é também a taça que verte no coração, na consciência representativa e na inteligência do finito. A religião não só se dirige a toda modalidade de cultura —‘o Evangelho se predica aos pobres’— como também deve estar dirigida expressamente ao coração e ao ânimo, penetrar na esfera da subjetividade e, com isso, no campo das representações finitas.”
FILOPÊNDULO: Na época de Hegel o ateísmo estava “datado”. Dataria de novo logo depois o teísmo. Essas condições espirituais vão e voltam nos povos como modas.
“sabemos que as últimas palavras de Sócrates foram para suplicar a seus amigos que sacrificassem um galo a Esculápio,¹ desejo que combinava mal, decerto, com os pensamentos sustentados por Sócrates sobre a essência de Deus e, principalmente, sobre a ética. Platão predica apaixonadamente contra os poetas e seus deuses.
¹ Divindade da medicina.
Hegel foi extremamente ingênuo nessa colocação, pois este Sócrates que conhecemos pela pena de Platão, o Sócrates “do galo de Esculápio”, é o próprio Platão, isto é, não é o Sócrates histórico, mas um personagem que serve ao Platonismo, e portanto sai de sua boca mais o que convém ao pensamento desenvolvido pelo próprio discípulo que ao ‘biografado’ em si. Sabemos, ademais, e Hegel não o nega, que Sócrates não foi condenado à morte por impiedade aos deuses, ou não exatamente por questões religiosas; se sua acusação não envolvesse corromper a juventude, não haveria como a democracia de Atenas condenar este cidadão.
“Não atua de mediador entre Ormuz e Ahriman, à maneira de um pacificador, deixando subsistentes ambas as forças; não participa do bem e do mal, como um lamentável híbrido, senão que se coloca resolutamente do lado de Ormuz, e peleja com ele contra o mal. Ahriman é chamado, às vezes o filho primogênito da luz, mas só Ormuz nela permaneceu. Ao ser criado o mundo visível, Ormuz se encarregou de estender sobre a terra, em seu incompreensível reino luminoso, a firme abóbada celeste, circundada, ainda, na parte de cima, pela primeira luz primigênia. No centro da terra está a montanha Albordi, tão alta que alcança a luz primigênia. O reino luminoso de Ormuz campeia sem que nada o empane sobre a firme abóbada celeste e no alto da montanha Albordi; campeou também sobre a terra até chegar a sua terceira época. Uma vez chegada, Ahriman, cujo reino da noite se achava até agora escondido debaixo da terra, estende seus domínios ao mundo de Ormuz e reina conjuntamente com ele. O espaço que separa o céu da terra se divide ao meio entre a luz e a noite. Como Ormuz, até agora, só governava sobre um reino de espíritos da luz, Ahriman governava somente sobre um reino de espíritos tenebrosos; mas, então, ao estender seu reino, Ahriman opõe à criação luminosa da terra uma criação da terra tenebrosa. Contrapõem-se, desse modo, a partir deste instante, 2 mundos, um mundo puro e bom e outro impuro e mau, e esta contraposição se estende através de toda a natureza.
No alto do Albordi, Ormuz cria Mitra como mediador para a terra; a finalidade da criação do mundo físico não é outra senão a de voltar a seu ponto de partida, à essência, desviada de seu criador, fazê-la de novo boa e desterrar, no processo, para sempre, o mal.” Toda a sua filosofia jaz no Zend-Avesta, ó Hegel! Trata-se do livro sagrado da religião dos maniqueus.
“É certo que Platão é louvado com freqüência em virtude de seus mitos, e diz-se que ele dá provas, neles, de um gênio superior ao da generalidade dos filósofos. Entende-se, ao dizer-se isso, que os mitos de Platão estão por sobre a maneira abstrata de se expressar; e não resta dúvida de que este pensador se expressa com grande beleza.” No geral, entretanto, Hegel não compreende bem Platão.
“Assim, por exemplo, pode-se dizer que a eternidade é um círculo, uma serpente que morde a própria cauda; isto não passa de uma imagem, e o espírito não necessita se valer de semelhantes símbolos.” Pelo contrário: é muito diferente afirmar que o universo é infinito e eterno, simplesmente, a compará-lo à cobra que se digere a si mesma, a Ouroboros: significa que há um fim e uma genealogia determinados, que podem, no entanto, ser qualquer ponto do círculo, e que o caminho do círculo não deixa por isso de ser infinito. Isso traz conseqüências extremamente importantes para a consideração do conceito de causa e efeito na filosofia. Atende ao requisito fundamental de todo filosofar numa só imagem, também: o Um no múltiplo e o múltiplo no Um. Ao contrário do Espírito, a Vontade¹ se alimenta de si mesma, ferindo-se mortalmente, condição sine qua non de sua própria perpetuidade canibal. O Espírito não tem carne, nada sofre ao se desenrolar, entrar em sínteses e voltar a si mesmo; é morto, não é a ‘vida viva’ (a expressão é do próprio Hegel) –, ao contrário de Ouroboros, que sente na carne cada etapa da eterna criação/destruição. Quem mata, morre, quem morre mata, e participam ambos da dança e do jogo inelutável. Todo lixo é luxo e todo luxo é lixo a seu devido tempo…
¹ Expressão para se referir a um “em-si” em Schopenhauer e Nietzsche. Porém, observar: aqui o em-si foi caracterizado de forma tão dinâmica que não passa de uma simplificação grosseira falar nesses termos; falo assim apenas para que se vislumbre imediatamente a amplitude deste conceito, que merece ser estudado à parte. Além do mais, a Vontade schopenhaueriana e a Vontade nietzschiana não são concordes.
“Da mesma forma que os franco-maçons manejam símbolos considerados como uma profunda sabedoria – profunda à guisa de um poço do qual não se enxerga o fundo –, o homem se inclina facilmente a considerar profundo o oculto, como se por debaixo dele houvesse algo verdadeiramente profundo.” Ao chato, o abismo não parece profundo. Não gosto dessa estreiteza hegeliana em desconsiderar o ocultismo a priori, i.e., recusando-se a investigar qualquer coisa que extrapole seus próprios critérios racionais. Não estou defendendo a maçonaria, mas há muito mais no irracionalismo do que apenas seitas “para-cristãs”, por assim dizer.
2.5 DELIMITAÇÃO DO QUE É FILOSOFIA
“O verdadeiro ponto de arranque da filosofia deve ser buscado ali onde oabsoluto já não existe como representação e onde o pensamento livre não pensa simplesmente o absoluto, mas capta sua idéia; isto é, ali onde o pensamento capta como pensamento o ser (que pode ser também o pensamento mesmo), conhecido por ele como a essência das coisas, como a totalidade absoluta e a essência imanente de tudo, por mais que não seja, no fim das contas, mais que um ser exterior.” “Este critério geral, o do pensamento que se pensa a si mesmo, é uma determinabilidade abstrata; é o começo da filosofia, o qual é, por sua vez, um algo histórico, a forma concreta de um povo, cujo princípio[axioma, i.e., não no sentido de ‘começo’] cifra-se no que acabamos de dizer.”
Se não fôramos capazes de dizer por nós próprios que só os gregos foram filósofos, esta afirmação (que só os gregos foram filósofos!) seria verdadeira. Como podemos enunciá-lo sem problemas, também deve ser possível a nós o filosofar. Ou seja, é uma afirmação falsa. E quando Hegel diz que a filosofia começou na Grécia Antiga, essa sua afirmação é correta de um ponto de vista evolucionista como é aquele que usaremos para investigar a história da Filosofia aqui, mas não passa de arbitrariedade, pois o fundamento para afirmá-lo é místico. Somos e não somos herdeiros dos gregos, ao mesmo tempo, pois toda cultura tem autonomia de pensamento.
“O homem que vive sob o medo e o que domina pelo medo os outros homens ocupam, ambos, a mesma fase; a diferença não é outra senão a maior energia da vontade, a qual pode tender a sacrificar todo o finito a um fim especial.” “da passividade da vontade, como escravidão, se passa na prática à energia da vontade, mas sem que, tampouco, esta seja outra coisa a não ser arbitrariedade. Também na religião nos encontramos com o império absoluto dos sentidos em forma de culto religioso e, como reação contra isto, dá-se, ademais, entre os orientais, a evasão à mais vácua das abstrações como infinito, a sublimidade da renúncia a tudo, principalmente entre os hindus, que por meio do tormento remontam à abstração mais íntima; há hindus que passam 10 anos seguidos olhando fixamente a ponta do próprio nariz, alimentados pelos circunstantes, sem nenhum outro conteúdo espiritual que o da abstração consciente; indivíduos cujo conteúdo é, portanto totalmente finito. Não é este, destarte, o terreno em que pode brotar a liberdade.” Curioso como o abaixo-de-zero de Hegel (o puro arbítrio, uma espécie de estado sub-humano) é o fim-final (o mais glorioso, a meta suprema) para Schopenhauer, a liberdade fenomênica pura perante uma agora-tida-como-tirânica Vontade! Sem me estender muito, me explico: Schopenhauer crê que a vida é dor e sofrimento incessantes. Não há fuga do fenômeno, e quem rege o fenômeno é a Vontade, um substrato sem aparência que excede o controle ou a vontade humana (ironicamente, dada a nomenclatura). Mas a parte positiva de sua filosofia é uma espécie de budismo adaptado em que a meditação, o misticismo, até o êxtase do auto-suplício, são benéficos ao homem – apesar de não alterarem o único fixo e indelével da condição humana (a dor, o sofrimento e o despropósito), são a fuga em seu estado máximo, uma fuga imanente à pura aparência, uma espécie de sonífero para a Vontade, que faz parte do inconsciente humano, do impulso vital, dos instintos. Ao negar, com a ajuda da consciência, a si mesmos, ao se auto-negar, o homem atinge o único estado digno, para Schopenhauer. Não é em vão que me estendo um pouco a respeito de Arthur Schopenhauer, que viveu na geração seguinte a Hegel: ele será provavelmente o tema do HISTÓRIA DAS IDÉIAS 3.
“É certo que o espírito nasce no Oriente, mas de tal modo que o sujeito, aqui, não existe ainda como pessoa, senão no substancial objetivo, que em parte se representa de um modo supra-sensível e em parte também de um modo mais ligado ao material, como algo negativo e que tende a desaparecer.” A típica arrogância ocidental. Porém, se o Espírito deverá retornar a si mesmo…
“Antes, se exagerava a importância da sabedoria indiana, muito embora se ignorasse o que havia por detrás disso; agora sim a compreendemos, e temos razões para afirmar que esta sabedoria não é, se nos atemos ao caráter geral, uma sabedoria filosófica.” A força do pêndulo não perdoa ninguém: como moda, o hinduísmo vai e volta na Europa…
“Na Grécia vemos florescer a liberdade real,¹ por mais que simultaneamente ainda prisioneira de uma determinada forma e com uma clara limitação, posto que na Grécia existiam escravos e os Estados gregos se achavam condicionados pela instituição da escravidão.” No superexigente molde hegeliano, a dialética do senhor-escravo nunca tem fim.
¹ Lembrete de que, em Hegel, o ideal (ou essencial) é maior do que o real, que não passa do momento concreto.
3. PANORAMA GERAL DA FILOSOFIA GREGA
“No que se refere ao estado histórico externo da Grécia nesta época, diremos que os começos da filosofia grega recaem no século VI antes do nascimento de Cristo, no tempo de Ciro, na época do ocaso dos estados jônios livres da Ásia Menor. No momento em que desaparece esse formoso mundo, que havia logrado conquistar por si mesmo um elevado nível de cultura, surge a filosofia. Creso¹ e os lídios foram os primeiros que puseram em perigo a liberdade dos jônios; mas foi mais tarde a dominação persa aquela que a destruiu totalmente, obrigando a maioria dos habitantes a abandonar aquelas terras e a fundar colônias, sobretudo na parte ocidental.
[¹ Wikipédia: “Creso foi o último rei da Lídia, da dinastia Mermnada, (560 a.C.–546 a.C.), filho e sucessor de Alíates que morreu em 560 a.C. Submeteu as principais cidades da Anatólia (salvo a cidade de Mileto)”.]
E, ao mesmo tempo em que se fundiam as cidades jônicas, a outra Grécia deixava de ser governada pelas dinastias dos antigos príncipes; haviam desaparecido os Pelópidas e as outras linhagens régias, estrangeiras em sua maioria. A Grécia havia estabelecido, em parte, múltiplos contatos com o exterior e, em parte, esforçava-se por encontrar um vínculo social dentro de si mesma; a vida patriarcal havia passado à história, e em muitos Estados sentia-se a necessidade de constituir-se livremente, subordinando-se a normas e instituições legais.” Aqui é-se forçado a perguntar: que conceito de patriarcado era esse dos alemães, para julgar que justamente quando o homem se distancia mais e mais do matriarcado e sedimenta o patriarcado ele estaria fugindo do que era patriarcal?!
“Uma das mais famosas sentenças dos Sete Sábios é a que se atribui a Sólon em uma conversa com Creso, que Heródoto (I, 30-33) relata, segundo seu estilo próprio, muito prolixamente e que podemos resumir assim: ‘Que ninguém pode se considerar feliz antes de morrer.’” Nem Deus escapa!
“Comparado com a filosofia hindu, o eudemonismo¹ é, cabalmente, o contrário daquela. No hinduísmo, o destino do homem é a liberação da alma em relação ao corporal, a abstração perfeita, a alma como algo que vive exclusivamente para si.” Cabe ainda o questionamento: no Ocidente pós-moderno, o que devemos buscar prioritariamente, sendo na prática impossível qualquer um dos dois de forma autêntica? A fuga ascética ou esse contentamento no sereno fenomênico?
¹ Eudemonismo é uma terminologia aristotélica. Para simplificação didática, podemos equiparar as correntes epicurista e estóica, na somatória, à busca de um eudemonismo, isto é, felicidade terrenal ou serenidade. Ver 12.4 e 13.1.
Mérito de Atenas para H.: ciência e belas-artes; a filosofia.
Mérito de Esparta para H.: subsumir¹ as individualidades na idéia de Estado.
¹ “[Filosofia] Conceber como compreendido dentro de um conjunto: subsumir um indivíduo numa espécie, uma espécie num gênero.”
“Assim como a individualidade que se separa do geral cai na impotência e perece, tampouco pode se manter de pé o unilateralmente geral, o costume da individualidade.” Obviamente, para H., “o filósofo do Estado”, a Prússia era a síntese de Esparta-Atenas.
OS SECRETOS DESÍGNIOS DO NADA:“Assim, p.ex., na idéia de que Deus, por sua sabedoria, governa o universo no que tange aos fins, o fim se estabelece para si numa essência representativa, [contradição em termos] sábia. [?] Mas o geral do fim consiste em que, sendo uma determinação fixa para si, que domina a existência, o fim seja o verdadeiro, a alma de uma coisa. O bom encontra seu conteúdo no fim mesmo, de tal modo que, atuando com este conteúdo e depois de se manifestar ao exterior, não brote nenhum outro conteúdo além do que já existia com anterioridade.” Primeiro, devo dar os parabéns ao autor pela péssima escrita. Nem minha exímia tradução pôde salvar este trecho! Segundo, o fim de Hegel era procurar seu conceito de fim perfeito, a Idéia – mas antecipo-lhes que isso ele não logrou… Hegel é um autor que ora ou outra manda essas pérolas monumentais que estão nos anais da filosofia… Não é sua incapacidade, leitor, que o impede de ver o que há no parágrafo, mas simplesmente o fato de que não há mesmo nada a não ser uma pura tempestade de palavras pomposas (defeito que H. se jacta em colocar nos outros, aliás!).
“O exemplo mais importante disto no-lo oferece a vida mesma. A vida é movida por impulsos, e estes impulsos são seus fins; mas, enquanto algo vivo simplesmente, não tem a menor noção destes fins, os quais são, simplesmente, determinações primárias e imediatas, fixas. O animal labora para satisfazer estes impulsos, isto é, para cumprir o fim; comporta-se ante as coisas exteriores mecanicamente, umas vezes, e outras vezes quimicamente. Mas a relação de sua atividade não é algo puramente mecânico ou químico; o produto é mais como o animal mesmo, o qual só se produz a si mesmo como fim de si mesmo em sua atividade enquanto que destrói e inverte aquelas relações mecânicas e químicas.” “A própria conservação é um produzir constante, na qual não nasce nada novo, mas apenas renasce, continuamente, o velho; é um constante retorno da atividade a si mesma, encaminhada a sua própria produção.” Trecho com saborzinho de Lavoisier. Marx saberia retirar de tudo isso conseqüências melhores… Por enquanto ainda não está planejado um capítulo da HISTÓRIA DAS IDÉIAS com Karl Marx como protagonista, mas diria que, a longo prazo, sua presença é mais do que certa na série…
* * *
A partir de agora segmentaremos a exposição por filósofos ou escolas de pensamento. Se parecer que passamos muito de soslaio sobre um autor ou um grupo de autores neste primeiro momento da Grécia, não tema: em Platão e Aristóteles muitos deles serão revisitados, e seu estudo adensado.
4.ANAXÁGORAS
Aristóteles (e, quase, por isso Hegel) considera o finalista Anaxágoras o primeiro filósofo “profissional”, comparado ao amadorismo anterior.
“Com ele vemos a filosofia instalada na verdadeira Grécia, que até então não havia tido filosofia alguma, e, concretamente, em Atenas” Perfeito para o seu sistema de “razão da História”… E o engraçado é que isto anula tudo o que Hegel diz sobre Parmênides ser o REAL iniciador da filosofia, , no tópico seguinte!… (Não entender este REAL como o real de Hegel, i.e., mera coisa secundária!!)
5. PARMÊNIDES
“a verdadeira filosofia começa, a rigor, com Parmênides.”Pouco cito Parmênides aqui, em que pese ser O MAIS IMPORTANTE DOS PRÉ-SOCRÁTICOS, por já ter publicado no blog posts dedicados ao autor.
“Um dos dados mais importantes que de sua vida conhecemos é a viagem que fez com Zenão a Atenas, onde Platão os apresenta, num de seus diálogos, conversando com Sócrates.” E tomas tal poema como a verdade absoluta? Pois acertaste em cheio: nada mais sensato do que atribuir imenso valor à prosa de Platão!
6. PITÁGORAS
“O fundamental para nós é a filosofia pitagórica, não tanto a do próprio Pitágoras como a dos pitagóricos, tal como se expressam Aristóteles e Sexto Empírico; [comentadores posteriores] claro está que há que se distinguir entre ambas as coisas, e o cotejo do que passa por ser a doutrina pitagórica revela imediatamente uma série de diferenças e discrepâncias.” Me parece mais difícil até determinar um Pitágoras histórico do que um Sócrates histórico… Há casos em que menor número de fontes é salutar, na contramão do senso comum; ainda mais quando dentre os poucos indivíduos encarregados de perfilar Sócrates temos Platão e Xenofonte; ainda que tenham distorcido ou caricaturado alguns pontos, estão longe de ser fanáticos. Platão, ao menos, tem uma agenda própria, o que permite certo nível de isenção e distanciamento em relação ao seu outrora mestre.
7. HERÁCLITO
“É um modo formoso, espontâneo, infantil de expressar a verdade em termos verdadeiros. Apresenta-se aqui pela 1ª vez o geral e a unidade da essência da consciência e do objeto, e a necessidade da objetividade.” “O verdadeiro ser não é este ser imediato, mas a mediação absoluta, o ser concebido, o pensamento.” Aqui se diluem as fronteiras do que é Heráclito e do que é superinterpretação à la Hegel.
8. OS ATOMISTAS
“Assim concebido, o principio atomístico não fôra superado, nem pode sê-lo; permanece para sempre; o ser para-si tem de apresentar-se necessariamente em toda filosofia lógica como um momento essencial, ainda que não como momento último.” Para quem ainda tinha dúvidas, essa é uma História da Filosofia Hegeliana (“todos os autores que me influenciaram”) e não uma história da filosofia…
9. PROTÁGORAS
“Vemos em Protágoras uma grande reflexão; concretamente, é a reflexão sobre a consciência aquilo que cobra consciência em Protágoras. [seu pensamento único, o que realmente há de “progresso” em sua filosofia] Mas isto não é senão a forma do fenômeno, retomada e desenvolvida pelos céticos posteriores. O fenômeno, a aparência, não é o ser sensível, senão que, ao estabelecer isto como aquilo que aparece, estabeleço, ao mesmo tempo, seu não-ser.A tese de que ‘o que é, é somente para a consciência’, ou esta outra: ‘a verdade de todas as coisas é a manifestação destas coisas na-e-para-a consciência’, parece contradizer-se por completo a si mesma. Parece, de fato, que nela vai implícita, simultaneamente, a afirmação exatamente oposta: por um lado, nada é em-si como aparece e, por outro, tudo é verdadeiramente assim como aparece.”
Refutação de Hegel: A aparência é o ser sensível, o ser mesmo. O que é não é de forma alguma o mesmo para o outro. Essência e aparência coincidem no sujeito. Porém, cada sujeito é um mundo fenomênico à parte. Portanto, como Protágoras não considera o absoluto, seu raciocínio é impecável.
10. SÓCRATES
10.1 O PROBLEMA DA ÉTICA DIVINA: NEGANDO E AFIRMANDO SÓCRATES
Partamos de duas premissas: 1) o homem é burro, isto é, vil demais para criar-se uma ética. 2) o homem é sábio, isto é, virtuoso o bastante para criar-se uma ética. Ponto de vista da religião monoteísta: o homem só pode ser burro demais, do contrário não haveria religiões nem necessidade de religiões. Deus precisa ensinar a ética ao homem, eis o fundamento e o fim último da crença. Porém, se o homem é burro demais para criar-se uma ética, ele também é vil demais para aprender uma ética, incapaz que é de entender os desígnios de deus. Não está à altura de uma ética divina para os homens.
Posto que sabemos o que é ética, ela deve ser atingível. Posto que há religiões, é seguro dizer que via de regra prescinde-se de ética. Posto que há religiões há muito tempo, porém, e sua presença milenar não demonstra a aquisição da virtude pela humanidade como um todo, conclui-se que: poucos notáveis são virtuosos, a maioria é tola. Alguns notáveis assumiram papéis de pregadores, profetas, sacerdotes religiosos. Alguns notáveis seguiram o caminho da autoformação. A grande massa se subdivide igualmente entre os dois caminhos. Muitos crêem-se éticos (sábios) sem sê-lo. Sábios autointitulados, intitulados pela comunidade laica ou sancionados por aqueles que controlam os dogmas espirituais. Se a virtude fosse passível de se ensinar, não só Deus como os sábios ensiná-la-iam.
As gerações da humanidade repetem a proporção entre sábios e tolos. Desde sempre, para sempre. De qualquer modo, apenas uma pimenta para a discussão: não é possível conhecer-se a si mesmo.O sábio não se conhece; vive sempre na berlinda entre uma pretensa sabedoria e a estultícia. O muito burro vive na vaidade, crendo-se sábio. Ao notar esse comportamento dos muito estultos, o sábio aprende que ter certeza sobre sua própria sabedoria é um indício pouco auspicioso. Ele sempre oscila entre considerar-se um hipócrita ou um tolo, não importa como conduza sua vida, e a reputação que obtém entre “os outros homens”. Sua vida é uma comédia, pois só é possível agir com ética inconscientemente. Os autointitulados tolos podem ser considerados uma multitude de coisas: sábios (e portanto suscetíveis de ser tolos debaixo do véu), hipócritas que desejariam o status da sabedoria empregando uma falsa modéstia para enganar os homens, um espírito que conhece suas limitações; mas não muda o fato de que todas essas possibilidades não são dignas de crédito. Não se confia no tolo só porque ele assume sua tolice. E o parâmetro para o sábio, por mais que sábios existam, não é deste mundo. Permanece como mistério insondável da existência. Como num jogo de pega-pega entre a cabeça e a cauda, aporia, contradição insolúvel.
IRONIAS DO NÚMERO 3 (O PREFERIDO DE HEGEL): A ironia socrática não é o método socrático, mas o destino inelutável e externo do filósofo: jovem soldado, serviu três vezes. Três vezes regressou triunfante do Peloponeso, e ao cumprir regiamente seu dever para com sua pátria, ajudou a consumar o desfecho da cultura grega. Da própria cultura, da cultura socrático-platônica, modelo dos modelos de homem. O que tem de ‘cabalístico’ nisso? Pedro negou Cristo por 3 vezes!
10.2 O INDIVÍDUO SÓCRATES & O OCASO ATENIENSE: O LADO NEGATIVO DA FILOSOFIA.
“nós propendemos a ver nas virtudes, como realmente são hoje, antes aspectos dos dotes ou do temperamento do homem, ou a revesti-las sob a forma do genérico e necessário; em Sócrates, no entanto, não apresentam a forma dos bons costumes, do temperamento do homem ou de uma necessidade qualquer, senão a forma de uma determinação independente. É sabido que a fisionomia de Sócrates indicava um temperamento dominado pelas paixões feias e baixas, que seu espírito soube refrear e governar, como ele mesmo nos diz em algum lugar.” Além de tudo que aqui afirma, tece depois que o belo é o santo e o sábio — mas que doutrina esta do Romantismo europeu!! Hegel, horroroso, não podia dominar nada e seria, de acordo consigo mesmo, um grande mandrião! Porém, Sócrates nunca afirmou que conseguira voluntariamente contrariar sua má natureza; o fato de ele ser feio e de Alcebíades ser belo nada tem que ver com ambos os temperamentos. Lição primária, na qual sou obrigado a reprovar o aluno extravagante Hegel.
“Isto é somente um dos lados, em que Sócrates faz caso omisso de tudo o que seja contradição e apresenta como conteúdo afirmativo as leis, i.e., o direito, tal como cada qual se o representa. Porém, se perguntamos quais são estas leis, veremos que são precisamente aqueles que regem, tais como se acham presentes no Estado e na representação das gentes e que, chegado o momento, são levantadas (suspensas) como algo determinado, o que quer dizer que não são absolutas.” O que ainda é melhor que afirmar numa Filosofia do Direito que o Estado da monarquia constitucional é o non plus ultra do Espírito!
11. PLATÃO
11.1 O PLATONISMO
“esta filosofia fôra concebida, em cada época, de modo distinto e sofrera, principalmente, as ingerências e tergiversações de mãos muito torpes nos tempos modernos, mãos que não acharam inconveniente introduzir nestes escritos suas próprias concepções, incapazes de captar espiritualmente o espiritual, ou considerando como o mais essencial e mais notável da filosofia platônica o que, em realidade, não pertence ao campo da filosofia, mas ao modo de pensar e de representar as coisas; todavia, a rigor, é o desconhecimento da filosofia o que entorpece a compreensão da filosofia platônica.” Que ironia, já que Hegel põe Platão abaixo de Aristóteles e não reconhece sua verdadeira grandeza!
“[Por outro lado,] fazer de Platão insuperável, como o ponto de vista em que nós mesmos deveríamos nos situar, [a Alemanha do XIX!] é uma das debilidadespróprias do nosso tempo.” Basta substituir debilidades por forças ou qualidades e vemos o quanto H. acertaria em cheio! A roda do tempo não perdoa, e hoje gostaríamos de poder ter ao menos a força de suportar esse pensamento: usar Platão como uma estrela-guia. O pós-modernismo é fraco demais, mas tem, melhor que a época de Hegel, esse arrependimento vivo no lugar da hipocrisia etnocêntrica.
“E se se o retirasse da caverna, ficaria cego dada a luz do sol e, deslumbrado com tanta claridade, não poderia ver as coisas que chamamos reais e odiaria quem lhe houvesse arrastado à luz, como se odeia quem nos arrebatou a verdade, legando-nos, em troca, só dor e lástima.” Ao invés de mero joguete de uma má consciência (como é levado a crer freqüentes vezes em seus primeiros encontros com o absurdo e o tragicômico, principalmente na infância, adolescência e juventude), o filósofo é o único que vive verdadeiramente. Quantos milhares de seres humanos eu já não conheço, com alguma certidão, que vivem apenas nas aparências mais foscas?
“A obra iniciada por Sócrates foi levada a cabo por Platão, que só reconhece como essencial o geral, a idéia, o bom. Mediante a exposição de suas idéias, Platão pôs a descoberto o mundo intelectual, sem no entanto nele ver um mundo situado mais além da realidade, no firmamento, num lugar distinto, senão no mundo real, do mesmo modo que Leucipo [atomista] havia aproximado o ideal da realidade, sem colocá-lo – metafisicamente – por trás da natureza. A essência da teoria das idéias se há de buscar, portanto, na concepção de que o verdadeiro não é o que existe para nossos sentidos, mas que o verdadeiro e único ser do mundo está no determinado por si, no geral em-e-para-si: o mundo intelectual é, assim, o verdadeiro, o digno de ser conhecido, o eterno, o divino em-e-para-si. As diferenças não são essenciais, apenas transitórias; sem embargo, o que Platão chama absoluto é, ao mesmo tempo, como algo único e idêntico consigo mesmo, algo concreto por si, enquanto que é um movimento que retorna a si mesmo e que permanece eternamente em si. E o amor pelas idéias é o que Platão chama entusiasmo.” Um lugar aqui mesmo, no mundo das aparências, em que os sábios podem conferenciar entre si, sem medo de estarem falando com espectros (solipsistas em alucinação): o termo médio em que os privilegiados realmente se entendem, porque a natureza do saber é una. Curioso que aqui H. resuma o próprio programa, sem tirar nem pôr: posteriormente, no entanto, exaltando os méritos de Aristóteles e dos filósofos modernos, ele desmentirá reiteradas vezes que Platão atinge o absoluto em-e-para-si (note que ele o citou duas vezes aqui), alegando que sua filosofia, perfeita no tocante ao geral, é carente no que respeita ao determinado, e que, portanto, desconsiderando a individualidade, não chegou a efetuar o movimento dialético completo do Espírito – coisa que H. apontou como inequivocamente realizada por Platão neste trecho!!
11.2 O PLATONISMO COMO ÁPICE PRECOCE DO FILOSOFAR & O LIMBOBOL COMO TÊNIS METAFÍSICO (onde o Pensamento Único é o estilo característico de cada atleta-pensador)
“O segundo erro com que nos encontramos, no tocante às idéias, consiste não em situá-las fora de nossa consciência, mas em considerá-las como ideais necessários para nossa razão, porém de modo que os produtos desta razão não terão realidade agora nem a adquirirão jamais.”
Aí já depende, meu caro Hegel: do que estamos falando? De simples ‘discussões triviais entre filósofos’ (sobre um mundo-verdade e um mundo das aparências)a – o que é relativamente simples de imaginar que se possa ter cotidianamente, pois muitos são os filósofos, embora sejam minoria, e qualquer filósofo concebe bem esta distinção, ou não seria, por definição, filósofo –; ou do Bem e da Justiça? Porque estes seriam sóis, realmente meras figuras de linguagem, inobteníveis a não ser que estejamos falando de seres muito crédulos e supersticiosos, pasme, maioria deles filósofos! O absoluto por definição não se toca.
a Quem está acostumado com a refutação nietzschiana de um mundo-verdade pode ter ficado confuso com este parágrafo – mas alto lá! Um mundo-verdade cristalizado e eterno na acepção chinfrim de frades, é a isto que Nie. objetava! (‘Chega deste Bem, unilateral, estilizado! Para esta concepção ultrapassada, ofereço uma nova discussão, que vá além deste bem e deste mal, mal condicionado por esta visão de bem tão limitada, mal que está prestes a se tornar universal no meio acadêmico ocidental! Só assim é que poderemos recomeçar com coisas sérias! Os idiotas saturaram o nosso meio, o nosso mundo-verdade vivo, precisamos recolher o lixo – são 23:59, mas amanhã é um novo dia!’ – Esta é uma paráfrase bem realista de um Nie. mais direto ainda do que estamos acostumados a ler, explicando-se para quem tiver olhos e ouvidos. Sua presença pormenorizada na HISTÓRIA DAS IDÉIAS virá no tempo certo.) Mas o mundo-verdade exclusivo da mentalidade dos filósofos (dos filósofos verdadeiros, palavra tão desvalorizada com o tempo!) nada tem de ossificado e estável – simplesmente porque é orgânico e cambiante enquanto o filósofo vive individualmente e enquanto a raça dos filósofos vive coletivamente, jamais sendo igual a si mesmo – isso! –, um mundo-verdade riacho heraclítico! Uma verdadeira imagem do inferno para o ante-filósofo, um quadro expressionista, tolices e nada mais (estou falando novamente daquele que não tem acesso ao privilégio, o prisioneiro da caverna de Platão – para ser anti-filósofo ele ainda teria de merecê-lo; como aquele que está ‘antes do’ filosófico na gradação espiritual, ainda não merece esse título de antípoda, pois está aquém desta discussão).
Exemplo do que significa perseguir o absoluto, porém jamais tocá-lo:Posso discutir com o Pablo (outro esclarecido) sobre o ser-do-ente e o ser-aí, mas nunca poderemos propor uma síntese da condição humana ou um propósito para a existência – essa faculdade está além de qualquer evento da existência, de qualquer conciliábulo entre os grandes filósofos da História mesmo que se pudessem reunir num auditório além do tempo. De tal encontro nada sairia além do que sói acontecer nas noitadas de bar das gentes mais simples. Mas Hegel imaginou que continha esta sementinha em suas mãos, quanta candura! O girassol escolhido pelo Espírito do Mundo – perfume dos perfumes, essência das essências!‘Não pedi para nascer no lugar e no tempo certos, ainda assim nasci…’, seria mais ou menos o que ele teria a dizer a respeito de tão imensa (e grata, para ele mesmo) coincidência… O primeiro falastrão europeu a poder dizê-lo, bem como o último!
Parafraseando Górgias, ainda que fosse possível combinar entre alguns entes um propósito para a existência, este acordo simplesmente não seria fechado nem posto em prática! Mas a verdade é que faltam inclusive as condições de possibilidade dessa suposta negociação – mesmo que houvesse um ente em algum ponto capaz de levantar um propósito universal (o que já seria absurdo), ele sequer saberia como formulá-lo em sua mente; e se, mais incrível ainda, houvesse dois desses seres, separados por várias gerações e milhares de quilômetros, e mesmo se eles pudessem conferenciar fluentemente num mesmo idioma numa representação miraculosa em que coabitassem o mesmo universo, digo, o mesmo cômodo, e pudessem até mesmo se tocar, conversar francamente tanto quanto estimassem necessário –– mesmo assim, ainda assim, esses dois seres acabariam apenas gastando saliva, quem sabe brigando feio, indo às vias de fato! Supondo que se concedesse ainda o fato de ambos estarem munidos da idéia perfeita e que entrassem em harmonia absoluta entre si, ainda assim eles se esfumariam de sua sala metafísica logo após este evento único da ‘pós-História universal hegeliana’ e não poderiam repassar as novas à humanidade – QUE PENA! Não estava na lista das coisas que as Parcas coseriam, definitivamente… Não, o jogo do filosofar é infinito, e Platão o sabia, antes do século XX, época em que encontramos seus primeiros comparsas e intérpretes à altura.
A forma ansiosa do filósofo é como ele se apresenta externamente, no mundo das aparências. O “ser” do filósofo é o anti-ansioso por excelência: ele não quer se apressar a um fim, a conclusões, ele aproveita as raquetadas do jogo! Legislador ou não (de toda forma no capitalismo é impossível), o filósofo sempre foi e sempre será pelo menos o que hoje se convenciona chamar de artista em sua arte do filosofar… É sem dúvida um jogo que se joga a sua maneira, mas essa maneira, essas regras, são idênticas para todo filósofo sério, que joga. E ainda há espaço de sobra para idiossincrasias nesses torneios e nessas justas: Roger Federer, Nadal, Sampras, Rod Laver, Borg, John McEnroe, todos eles tinham suas técnicas e estilos bem diferentes, embora compartilhassem um mesmo fim enquanto dentro da quadra… Como tenista metafísico, Hegel é um menino mimado que perde para o paredão, seu único adversário. Como poderia ele superar Platão só de boca, sem experimentar jogar contra ele? O engraçado é que os piores filósofos foram os únicos que tiveram match points. Todos perderam, entretanto…
É preciso imaginar um jogo de reflexão exaustivo, mas em que a massagem poderia nos restituir à partida, sem que jamais abandonássemos o confronto… Seria este o Sísifo contente que Albert Camus figurou?! E mesmo ele passou o jogo inteiro pensando que o principal era definir se desistia ou não…
Falando em existencialistas, esse podia muito bem ser o parágrafo que inspirou Sartre a intitular sua magnum opus: “A opinião[quando, na história da metafísica, a metafísica essencial começa a ficar chata, e o tenista prefere se desconectar do jogo, dar uma viajada, i.e., dar maior peso às aparências que ao desgastado mundo-verdade – chamemos esse momento de ‘entressafra de talentos’] é, portanto, o intermediário entre a ignorância e a ciência [o impossível] e seu conteúdo uma mescla do ser e o nada.” Chamemos esse tênis espiritual de LIMBOBOL! Quando a opinião passa a prevalecer em termos filosóficos, seria, para continuar nesta alegoria que acabo de inventar, como se alguém da arquibancada se levantasse e desafiasse um tenista profissional – e para calamidade de todos conseguisse fazer frente a ele, por um set inteiro! Filosofar com opiniões… Uma tarde (Zeitgeist) bem atípica, daquelas de que se poderá dizer: há tempo e lugar para tudo nesse mundo ao menos uma vez…
Pensamento único como lobby único do jogador! Você pode até ter e tentar outros, mas é aquele que o levará mais longe, e entrará para a história como sua marca registrada…
11.3 A MAIÊUTICA OU TEORIA DAS REMINISCÊNCIAS
“Claro está que a palavra ‘rememoração’(*) é, num sentido, uma expressão desafortunada:¹ concretamente, no sentido em que alude à reprodução de uma representação que se tivera já noutro tempo.²
(*) “Hegel analisa aqui o termo Erinnerung, que possui também o sentido que ele lhe atribui, [O 2º sentido, após o 1º sentido evidenciado nesta passagem, o de mergulhar em si mesmo – escolhi esta palavra em português porque ‘recordo’, do castelhano, apesar de remeter a recordação não seria o mais adequado, haja vista que –cordação não nos evoca nada; já ‘memoração’ é uma palavra dicionarizada. Por outro lado, anamnese seria ainda mais pertinente que rememoração, em termos de filosofia platônica. Obviamente, reminiscência é um sinônimo virtualmente perfeito de anamnese, exceto que esta última também seria mais empregada no sentido medicinal hoje. Ambos os termos possuem, de qualquer maneira, um sentido mitológico ou sobrenatural em Platão, que faz uma analogia com a reencarnação da alma.] implícito também no prefixo ‘re’ do termo castelhano [Editor espanhol].”
¹ Pelo contrário: é uma expressão muito afortunada, H.!
² Há mais implicações aqui do que se poderia pensar levianamente. Por exemplo, há alguma relação de continuidade entre a teoria da reminiscência e o princípio nietzschiano do eterno retorno, uma vez que se entenda que ambos os filósofos usam o termo apenas em sentido metafórico. Não existe um Espírito que começou ex nihilo e ainda não se desenvolveu completamente, nem em Platão nem em Nietzsche, e por isso Hegel é um estranho no ninho aqui e não pode ser levado muito em conta. O que Platão quer assinalar? Que o mundo já é perfeito e tudo é ‘sabido’ no fenômeno, não importa se no ‘passado’ ou no ‘futuro’, já que o tempo em si (essencialmente) não existe (apenas para o indivíduo em questão – o que também aproxima esta percepção plantonista do a priori kantiano). Só que o indivíduo não é o filósofo, i.e., é só o recipiente carnal do conhecimento filosófico, objetivo, uno. Então, por mais que para nós no cotidiano o tempo seja algo fora de nós com uma existência própria e independente, do ponto de vista filosófico consciência, conhecimento (e especificamente aquisição de conhecimento) e tempo estão como que fundidos numa unidade.
“Quando Platão chama de ‘rememoração’ a este fato de que a ciência brote da consciência, vai implícito nisto o critério de que este saber tem que haver existido realmente, alguma vez, nesta consciência, ou seja, de que a consciência concreta tem por conteúdo este saber não somente em si, por sua essência, mas também enquanto consciência concreta, e não como consciência geral. Mas este momento do concreto forma simplesmente parte da representação, e a rememoração não é pensamento, pois a lembrança se refere ao homem como a um este sensível, não de um modo geral.” Hegel se atém a detalhes técnicos de zero importância. E é surpreendente que leve tão a sério o signo lingüístico nesta ocasião, quando constatamos o que escreveu na Enciclopédia (ver post anterior estrelando Derrida, “SPEECH AND WRITING ACCORDING TO HEGEL” (Fala e escrita de acordo com Hegel): https://seclusao.art.blog/2021/08/10/speech-and-writing-according-to-hegel-derrida-1971-in-w-f-hegel-critical-assessments-ed-robert-stern-1993/). Repito a indicação ao final do post.
“No que se refere agora à educação e à formação da alma, é este um ponto que guarda relação com o anterior. É necessário, no entanto, não conceber o idealismo de Platão como um idealismo subjetivo, como aquele idealismo ruim que, sem dúvida, se apresenta nos tempos modernos,como se o homem não fôra capaz de aprender nada nem fôra determinado exteriormente, senão que todas as representações emanassem do sujeito.” No trecho em verdeH. está dirigindo uma crítica, visivelmente, a Kant – acontece que essa crítica não procede (ele estereotipa Kant, numa retórica para atender aos seus próprios interesses).
Sobre o conteúdo do parágrafo acima, em referência, unicamente, à formação do filósofo em Platão: há um Estado em que essa formação é facilitada, mas esse Estado nunca aconteceu historicamente (e não estamos aqui apenas repetindo Platão, afirmando que até sua Atenas isso não ocorrera – estamos dizendo que nenhum Estado-nação moderno o logrou!). A República de Platão é este Estado. Mais sobre isso no tópico específico sobre a República, 11.6.
“Esta noção, segundo a qual o saber vem, ìntegramente, de fora aparece sustentada nos tempos modernos por certos filósofos empíricos completamente abstratos e toscos, que afirmaram que tudo o que o homem sabe do divino sabe-o por obra da educação e do hábito e que o espírito não é, por conseguinte, uma possibilidade totalmente indeterminada. O ponto extremo disto é a doutrina da revelação, segundo a qual tudo é infundido a partir do exterior.” Já aqui H. fala de forma tão áspera que só posso imaginar que se refira aos ingleses e escoceses, e não a Kant, sem sequer dar-se ao trabalho de citar nomes! Com efeito, Kant voltar-se-á contra o empirismo extremo de Locke, Berkeley e Hume, portanto nele a experiência fica desvalorizada. São estes autores que tornaram a expressão tábula rasa consagrada (mas ela vem desde o latim, bastando suprimir o acento agudo). Chama-se de tábula rasa a mente do indivíduo para John Locke, p.ex., que nasce vazia, rudimentar.
11.4 TEORIA DAS IDÉIAS
“O equívoco está em que um conteúdo não é o verdadeiro pelo mero fato de que se incorpore a nosso sentimento. Por isso, a grande lição de Platão consiste em sustentar que o conteúdo só se torna pleno mediante o pensamento, posto que é o geral, que só se pode captar por meio da atividade do pensamento. Este conteúdo geral é precisamente o que Platão determina como a idéia.” Feuerbach se sentiria devastado caso H. fosse vivo e o rebatesse com este parágrafo. Para contextualizar, Feuerbach foi o primeiro filósofo do pós-hegelianismo que, em vez de ser seu discípulo, voltou-se contra ele numa crítica ao Sistema hegeliano. Porém, seu empreendimento fracassou, era incompleto, não passava de um esboço – calcava-se numa crítica da razão e numa exortação pueril dos sentimentos e do amor, sem contudo conseguir definir nada em termos nem concretos, nem abstratos. Essa primeira crítica seria finalmente retomada com método pelo jovem Marx, no agitado século XIX alemão, desembocando no materialismo histórico-dialético, a famosa inversão do idealismo hegeliano em prol do estudo da História e das condições materiais do ponto de vista fenomenológico e da agência humana no mundo, em detrimento de um Espírito ou Idéia que regeria a História universal (que agora não existe, pois toda História tem um ponto de vista) de forma autônoma, manifestando-se na humanidade a fim de se corporificar e se auto-realizar. Foi antes, diria Marx, o próprio homem quem criou esta noção de um Espírito impessoal – a verdadeira liberdade ou maturidade filosófica seria o aprendizado de que o homem, ser social, deve carregar a responsabilidade pelo seu próprio destino (auto-determinação). Quanto a Feuerbach, novamente, sua crítica ao hegelianismo não vai além de um ateísmo exacerbado, sem o mesmo refino dialético de Hegel, recuperado e dirigido agora a outros fins por Karl Marx.
ACIMA DA CIÊNCIA BACONIANA, O AXIOMA; ACIMA DO AXIOMA, A ONTOLOGIA SÁBIA: Conhecimento que necessite e possa ser provado é um degrau muito inferior quando o assunto é Primeira Filosofia. Quando notamos a importância que os geômetras gregos tinham para Platão, notamos por que a matemática não pode ser considerada uma ciência moderna, embora seja o protótipo para todos os campos empíricos da atualidade. Além das formas e figuras abstratas, entretanto, jaz o que só aqueles capacitados para explorar o mundo-verdade podem acessar. É por isto que a comunicação do filósofo, do saber, não existe, a rigor, com os mortais (aprendizes); [fora do LIMBOBOL] eles só podem se comunicar entre si, e quem queira se comunicar com eles deve se elevar. O legado deles é meramente para almas gêmeas, nunca para ‘o populacho’. Eles não enriquecem o mundo, quer dizer, pelo menos não diretamente.
ESCADA DO MUNDO-VERDADE À PURA REPRESENTAÇÃO: “— Compreendo algo, mas não o bastante. Me parece que queres afirmar que o conhecimento que dos seres inteligíveis se adquire pela via da dialética é mais claro que o que se adquire pela via daquelas ciências para as quais as hipóteses são princípios e estão obrigadas a se valer da inteligência e não dos sentidos; mas como aquelas ciências especulam a partir de pressupostos e não se elevam até o princípio absoluto, parece que não se dá, nelas, o pensamento que se daria caso se tratasse de entes pensados segundo um princípio. Me parece, ainda, que chamas de intelectivoo modo de proceder da geometria e das ciências afins, e de tal modo que ocupam um lugar intermediário entre a razão e a representação.
— Compreendeste perfeitamente bem meu pensamento. Quanto a estas 4 distinções, indicarei agora quais são as 4 maneiras da alma de se comportar: o pensamento compreensivo tende ao supremo; a inteligência ao segundo; o terceiro se chama fé, a última é o saber figurado. [a opinião]Ordena-as segundo sua maior ou menor evidência, segundo seus objetos participem mais ou menos da verdade.”
CONSTRUÇÃO DO MUNDO-VERDADE NO SEIO DO MUNDO DAS APARÊNCIAS:“[Platão,] em geral, concebe o absoluto como a unidade do ser e do não-ser no devir, conforme as próprias palavras de Heráclito, como a unidade do uno e do múltiplo. Ademais, Platão incorpora à dialética objetiva de Heráclito a dialética eleática,¹ que consiste na ação exterior do sujeito encaminhada a pôr de manifesto a contradição, de tal modo que a mutabilidade externa das coisas é substituída agora por seus câmbios interiores em si mesmas, quer dizer, em suas idéias, que são, aqui, suas categorias.” “Os sofistas se limitam a considerar o fenomênico, cuja sede é a opinião: também eles tomam, pois, como base, evidentemente, pensamentos, mas não os pensamentos puros ou o que é em-e-para-si. § É este um dos motivos que fazem com que alguns saiam insatisfeitos do estudo das obras platônicas. Quando se começa a ler um destes diálogos, depara-se com esta maneira livre de se expressar de Platão, belas cenas naturais, uma maravilhosa introdução que promete guiar-nos à filosofia —à mais alta de todas, à filosofia platônica— através de pradarias cobertas de flores. Descobrimos aqui coisas sublimes, de que a juventude sempre gosta bastante; mas esta 1ª impressão não tarda a desaparecer. (…) Ao aterrissar no campo do verdadeiramente dialético e especulativo, o leitor tem de marchar por ásperas e empinadas veredas, deixando-se espetar pelos espinhos da metafísica.”
¹ H. desgina “dialética objetiva” o método da filosofia heraclitiana, considerada a criadora da forma lógica da dialética (raciocínio dinâmico). Aqui, ele defende que Platão funde as concepções de Heráclito e de Parmênides, dois dos pré-socráticos mais importantes, a fim de forjar sua filosofia – embora não o cite nominalmente, Parmênides era um dos “eleatas”. Acontece que, a não ser por amplos comentários aristotélicos que ficaram muito famosos, Zenão, por exemplo, outro eleata, não mereceria ser citado ao lado de Parmênides. Outros dois filósofos eleatas têm menor expressividade: Xenófanes (não confundir com Xenofonte nem Xenócrates) e Melisso.
11.5 O HERMETISMO PITAGÓRICO EM PLATÃO
“Deus, mesclando o idêntico e o outro com a essência e fazendo dos três um, divide de novo este todo em partes, em tantas como julga conveniente.”
“Ora, o modo de classificação desta subjetividade contém os famosos números platônicos, cujas origens se há de buscar, sem dúvida alguma, nos pitagóricos, em torno dos quais os pensadores antigos e modernos empregaram grandes esforços interpretativos, inclusive o próprio Kepler¹ em seu Harmonice Mundi, embora sem sucesso de nenhum deles em chegar a compreender exatamente o sentido [dos números].” Convenhamos: nem os pitagóricos entendiam a si mesmos, trabalho inútil aqui!
¹ O astrofísico Johannes Kepler.
“Quis-se fazer de Platão o santo patrono dos estados de entusiasmo e arroubamento; mas isto é, como vemos, completamente falso.” Platão atribui as adivinhações e as profecias apenas à parte ‘má’ do organismo, a jocosa, a excretória, particularmente o fígado, na anatomia de seu tempo; daí decorreria a fascinação da consulta às vísceras de animais, ritual comum entre os antigos, e, em todos os tempos, a fascinação pelos padrões aleatórios e gesltálticos (mais propriamente falta de qualquer padrão!) das borras do café, etc.
11.6 A REPÚBLICA
(RE)VOLTANDO A/À REPÚBLICA: “e reconhecia e proclamava que a natureza moral (a livre vontade em seu caráter racional) só podia chegar a impor seus direitos e cobrar realidade¹ dentro de um verdadeiro povo.” O qual ainda não presenciamos na Terra.
¹ Expressão contumaz de Hegel. Em seu sistema, algo só pode intervir na realidade (o ato, o para-si, que emana da potência, da essência ou em-si quando as condições são logicamente satisfeitas) com o ‘aval’ do Espírito, daí o real em Hegel ser algo ‘menor’ do que a ‘existência’ em si. Quando Hegel diz que “todo real é racional” e vice-versa (famosa passagem da Fenomenologia do Espírito), significa que tudo aquilo que é parte do processo da Razão aparecerá sob alguma forma em algum momento na História – o irracional é aquilo que não pode ser formulado num determinado estágio, necessitando ser esclarecido ou iluminado, i.e., aparecer racionalmente, modificado dialeticamente como fenômeno. O irracional é aquilo que não pode cobrar realidade. Embora ‘exista’, considerando que o Espírito faz essa mediação, o irracional enquanto irracional não é ainda real. Isso nos leva ao paradoxo em que Hegel e Platão finalmente concordam: embora existente enquanto Idéia e representável mediante conceitos filosóficos, a República de Platão – que não é uma fantasia ou utopia, já que o autor captou seus fundamentos da sua realidade imediata (a Atenas antiga) – ainda não se realizara no mundo real-racional. Poderíamos, de nossa posição no século XXI, demonstrar mais ceticismo quanto a essa possibilidade – mas jamais negar o caráter sério e empírico (no bom sentido) da obra platônica, que versa sobre a formação do homem bom e quais são os limites dessa formação, i.e., da própria humanidade e em seu estrato mais superior ou excelente. Quanto a Hegel, ele imaginava que as condições do Estado ou sociedade perfeito(a), regido(a) por homens que compreendessem a Idéia absoluta, seriam satisfeitas na Alemanha dentro em breve. Hoje rimos dessa puerilidade, batizando-a de etnocêntrica. É que, para Hegel, só um povo liderava a História em cada período. Os gregos lideraram a humanidade e a cultura, criando a Filosofia, nos últimos séculos pré-cristãos; atualmente (quero dizer, no tempo de Hegel) a ‘tocha olímpica’ estaria com os teutos e o Idealismo alemão, povo eleito pelo Espírito para realizar, cobrando realidade, essa apoteose da História universal. Obviamente a partir de Marx o foco muda por completo. Não mais há um verdadeiro povo nacional ou étnico, mas uma classe internacional e cosmopolita que, impelida pelo desenvolvimento do modo produtivo vigente, haveria de suceder a burguesia na História, superando as contradições internas do capitalismo financeiro. Pior ainda, a partir do século XX não temos mais qualquer fé em nenhuma dessas teses. Podemos ser socialistas, sem dúvida, mas não vemos mais a iminência da vitória de uma classe proletária, e aliás uma análise das condições materiais nos aponta que as noções de classe, e portanto da luta entre classes, foram completamente pulverizadas (no pós-modernismo). Essencialmente, o otimismo de Marx e Engels ainda era uma espécie de avatar da fé no progresso, que com certeza já sublimamos – o problema é que estamos em estágio de carência, sem haver colocado nada no lugar. Um impasse histórico que se arrasta.
Obviamente, aqui começa a exposição a dos erros de H. a olho nu, confundindo eternamente cultura e natureza, principalmente o estado de natureza ou direito natural, concepções arbitrárias e no entanto universais no tempo de H.. Naturalizando (fetichizando, apud Marx) o Estado jurídico-moderno, imaginando a natureza enquanto o oposto da cultura letrada e filistéia exatamente como esse puro arbitrário e negativo pertencente aos primórdios do homem (sempre uma inferência nesses autores, sem qualquer base), que em realidade já vemos hoje como o próprio jogo de forças inútil e paralisante dos Estados-nações. H. serve no máximo como cura de um ultra-romantismo desenvolvido após a leitura descuidada de Rousseau (21.), mas sua Teoria do Estado chega a ser tão fabulosa quanto qualquer outra meta-narrativa antitética do período.
“Estamos acostumados a partir da ficção de um estado natural, o qual não é, em realidade, um estado do espírito, da vontade racional, senão dos animais entre si. Por isso Hobbes observava, com razão, que o verdadeiro estado de natureza é a guerra de todos contra todos.” Como H. pode demonstrar tamanha lucidez ao mesmo tempo em que diz que o que vê (um número 4 gigantesco!) é tudo menos aquilo que vê (um 5 indesmentível)?!? Pois é isso que Hegel faz nessa passagem: reconhece que o estado natural é mero folclore, mas dá razão ao folclorista Hobbes (isto é, quase só falta afirmar que 2 + 2 = 5)! Nem os animais (quanto mais os humanos) vivem em guerra; a cadeia alimentar não pode ser comparada ao instituto-cultura humano(a) do conflito organizado. Essa analogia é desastrosa. Nada há de qualitativamente diferente entre o homem pré-histórico e nós. A estrondosa ingenuidade hegeliana se torna mais palpável quando se percebe seus 2 componentes principais: um biologismo rústico aplicado a um humanismo muito mal-concebido e distorcido (excessivamente confiante no Direito, no direito burguês, que é o mesmo que cria a ilusão do indivíduo livre, que ele tanto ataca como concepção desviante da legitimidade coletiva do Estado!), posto que estruturado à imagem e semelhança daquele primeiro, ainda que, nas piruetas sucessivamente negadoras do ‘Espírito’, pareça sua brilhante correção, i.e., o contrário do que é. Caminhando desde uma espécie de darwinismo social avant la lettre à apologia pura e simples da moral burguesa, nada se ganha nessa estreita jornada rumo à verdade do Espírito, num sentido hegeliano ou noutro qualquer.
“Por isso se formulou acerca da República de Platão o juízo de que seu autor nela traça o chamado ideal de uma constituição política, que se cola logo à obra como um epíteto proverbial, no sentido de que esta concepção não passa de ser uma quimera, que pode, sem dúvida, se pensar e que seria também, tal como Platão a descreve, excelente e verdadeira, e mesmo realizável, mas só sob a condição de que os homens fossem excelentes, como talvez possam sê-lo na lua, mas não como é o homem na terra, com referência ao qual é simplesmente irrealizável.” Esse juízo de H. é correto: realmente é assim que a República é vista genericamente (como uma espécie de introdução à Ciência Política, como engenharia constitucional da Idade Antiga); e claro está que não pode ser chamado de um tratado político (empírico no sentido da empiria da ciência política, uma ciência de matizes ingleses – 18.), muito menos ainda de uma projeção de um ESTADO IDEAL (à guisa de um Thomas More)! Esse é, porém, um preconceito entranhado demais para se desfazer a essa altura. Enxergá-lo como um tratado ético do e para o filósofo, sem para isso tocar em nada que seja do Estado, é o mais raro entre nós. Hegel não pode enxergar a filosofia sem a questão do Estado embutida, mas nós podemos.
“Eis a filosofia platônica da natureza: o mundo eterno, como o Deus bem-aventurado em si, é a realidade, não no mais-além, não na outra vida, senão que no mundo presente considerado em sua verdade, e jamais do modo que se oferece aos sentidos de quem apenas vê, escuta, etc., este mundo. Se consideramos assim o conteúdo da idéia platônica, veremos que Platão expõe, na realidade, a moralidade dos gregos em seu modo substancial, pois é a vida do Estado grego¹ e não outra o que forma o verdadeiro conteúdo da República de Platão. Platão não é homem que se perca em teorias e princípios abstratos; seu espírito verdadeiro sabe reconhecer e expor o verdadeiro.”
¹ Só um ligeiro corretivo: a vida dos espartanos, no máximo. O que os espartanos – modelo de constituição já realizada na História até o tempo de Platão que o filósofo mais admira, vivenciando já a decadência da democracia ateniense, iniciada no tempo de Sócrates, e não podendo concordar com o princípio da democracia que recai ou para o populismo ou para a tirania (um fenômeno nada estranho a nós!) – realizam em sua aristocracia bélica é o ponto de partida para Platão ir ainda além, mas não no sentido de além deste parágrafo de H., evidentemente (o outro mundo): ir além filosoficamente, ir além no raciocínio político-social imanente. Um homem dotado de arete poderá beber desse ensinamento em qualquer época da humanidade. O que mais separa Platão de Aristóteles, veremos, é que para Aristóteles e para a ciência política moderna, sua herdeira direta, Esparta seria uma espécie de ponto de chegada. A Platão não interessa estudar as boas práticas e os defeitos da constituição espartana historicamente falando, como um guia político para a posteridade. O que lhe interessa são os princípios gerais de um bom governo e de uma boa educação do povo que, enxergados indiretamente, via as instituições existentes num dado tempo (a Esparta do séc. IV a.C.), podem servir de norte atemporal do homem. Aristóteles diria “posto que temos isso, aquilo e aquiloutro, e nada mais, ‘isso’ é o máximo que se pode fazer em políticas; então façamos isso”. Esse é um curso de pensamento tão pobre comparado à Teoria das Idéias platônica de realização do potencial humano muito acima da simples pedagogia pragmática dos governantes que às vezes duvidamos que ambos tenham mesmo sido professor e aluno.
11.6.1 DAS QUATRO VIRTUDES DA POPULAÇÃO DA REPÚBLICA
A primeira virtude da República, obviamente, entre as 4 descritas por Platão, na ordem de maior para menor, é: a sabedoria, monopólio da minoria no píncaro da formação estratificada.
A segunda, a dos guerreiros, é a valentia.
A terceira, a dos comerciantes e demais profissionais liberais, é a temperança ou moderação.
A quarta, que deve ser praticada dos mais humildes aos mais sábios, é a justiça, a base incondicional da boa sociedade.
Sabedoria não é nada sem valentia. Valentia não é nada sem temperança. E temperança não é nada sem justiça. Conforme aumenta a posição hierárquica da casta, aumentam também a carga, a responsabilidade e o número de virtudes que se deve acumular.
CONTRASTE COM CÓDIGOS RELIGIOSOS OU PENAIS CIVIS: No momento em que é preciso começar a ensinar que não se devem cometer homicídios, já não há nobreza e justiça no coração dos homens. No momento em que se codificam as horas de lazer e as vestimentas, já nada há. Nem mesmo merece-se o qualificativo de escravo nessa situação. A República nada traz sobre isso.
11.6.2. CONTINUIDADE DA REPÚBLICA NO TEMPO
“Os costumes não devem ser independentes das instituições; i.e., as instituições não devem se dirigir simplesmente aos costumes mediante estabelecimentos educativos, [formais], religiosos, etc. As instituições devem se considerar como o primordial, como aquilo que faz nascer os costumes, já que estes não são nada além do modo como cobram as instituições umaexistência subjetiva. O próprio Platão dá a entender até que ponto espera encontrar contraditores. E entretanto hoje sói encontrar-se, como defeito seu, o de ser demasiado idealista: se é que cabe assinalar um defeito em Platão, este é cabalmente o de não ser idealista o bastante.” O que Hegel quer dizer é: Platão tem consciência de que nenhum Estado subsiste historicamente desta forma pela eternidade; há um apogeu, e há uma decadência, por mais que se tente preservar os costumes mediante as instituições, e as instituições espelhadas nos costumes. É esta queda que Platão exprime do modo mais incontroverso possível na República.
11.7 ESTÉTICA
“Mas este algo geral não conserva, tampouco, a forma da generalidade, mas o geral é o conteúdo que tem como forma o modo sensível; nisso precisamente estriba a determinação do belo. Na ciência, o geral assume de novo a forma do geral ou do conceito; o belo, ao contrário, se apresenta como uma coisa real ou como uma representação em forma de linguagem, que é o modo pelo qual o real vive no espírito. A natureza, a essência e o conteúdo do belo só podem ser conhecidos e julgados pela razão, pois trata-se do mesmo conteúdo que tem a filosofia. Mas como a razão no belo [o a priori] se manifesta também de um modo real, [no fenômeno] temos que também o belo cai sob o prisma do conhecimento. [sensibilidade]” Uma vez que a Crítica da Faculdade do Juízo, de Kant, é apenas uma variação do tema da Estética platônica, economizaremos em nosso curso citando apenas os pensamentos de Kant fora da ciência estética no capítulo 22.
11.8 CONCLUSÃO
“Com o dito, fica exposto o conteúdo fundamental da filosofia platônica. O ponto de vista de Platão é este: em primeiro lugar, aparece a forma fortuita do diálogo, em que aparecem conversando uns tantos homens nobres e livres, sem outro interesse que não o da vida espiritual da teoria; em segundo lugar, à medida que vão mergulhando no conteúdo, descobrem os mais profundos conceitos e os mais belos pensamentos, como pedras preciosas com que se tropeçasse, não num deserto, mas propriamente num caminho seco e pedregoso; [não num meio estéril, mas numa trilha em que é possível avançar, apesar da esterilidade das opiniões]em terceiro lugar, não encontraremos aqui nenhuma conexão sistemática, ainda que tudo emane e flua de um só interesse” Hegel ainda nos dá mais duas etapas, mas elas não nos interessam.
12. ARISTÓTELES
12.1 O VERDADEIRO TAMANHO DO LEGADO DE ARISTÓTELES; DISTORÇÕES HISTÓRICAS DE HEGEL.
“Embora o sistema de Aristóteles não apareça desenvolvido em suas partes partindo do conceito mesmo, mas como uma série de partes que caminham lado a lado, não resta dúvida de que [as partes] formam uma totalidade de filosofia essencialmente especulativa.” Para H. isso é um grande mérito, devido às ‘semelhanças’ que encontramos entre o próprio H. e Aristóteles. Para nós, não obstante, este consiste no maior defeito destes dois filósofos.
“Uma razão para ser prolixo, tratando-se de Aristóteles, temo-la em que nenhum outro filósofo fôra objeto de tanta injustiça por parte das tradições totalmente órfãs de pensamento que se mantiveram à margem de sua filosofia e que ainda se acham na ordem do dia hoje, apesar de ter sido este pensador, durante longos séculos, o mestre de todos os filósofos.” “E, enquanto que lê-se muito Platão, o tesouro da obra aristotélica permaneceu pouco menos que ignorado séculos e séculos, até vermos reinando, até os tempos mais recentes, os mais falsos prejuízos em torno de Aristóteles.”Totalmente ao revés! A Escolástica só bebeu de Aristóteles; Platão era um anexo turvo para todo um milênio, e por isso a filosofia afundou tanto na Idade Média!
“É, por exemplo, uma opinião muito generalizada a de que a filosofia aristotélica e a platônica se enfrentam e opõem uma à outra, concebendo-se esta como baseada no idealismo e aquela como baseada sobre o realismo, o realismo mais trilhado e trivial.” Opinião generalizada corretíssima!
“Alexandre o Grande, quando em meio a suas conquistas e achando-se já muito dentro da Ásia inteirou-se de que Aristóteles havia dado a conhecer em obras especulativas (metafísicas) a parte acromática¹ de sua filosofia, enviou-lhe uma carta reconvidando-o a dar a conhecer ao povo vulgar os frutos dos trabalhos e investigações de ambos;² a isso Aristóteles retrucou que, apesar de lhe haver dado a conhecer esta filosofia (ao povo chão), os resultados seguiriam tão desconhecidos como antes. (Aulo Gélio, Noites Áticas)”
¹ Refere-se ao mito comum de que haja uma vertente esotérica (de elite, filosófica, propriamente dita) e outra popular ou vulgar em certos autores como Platão e Aristóteles, em que a gente comum pudesse lê-lo e entendê-lo. A acromática seria esta “filosofia” vulgar (exotérica) para iniciantes. Talvez a origem do termo seja a constatação pejorativa de que esses trechos são sem cor e sem vida, inertes, desbotados? Hahaha! (acromatia: aquilo que não tem cor) Fato é que este trecho comprova que: 1) não havia esta divisão binária e didática na filosofia aristotélica, nem provavelmente em qualquer outra; 2) mesmo uma filosofia exotérica não é absorvida ou compreendida pelo povo, se é séria; ou seja, por mais elitista que soe o discurso, toda boa filosofia é esotérica, para poucos espíritos ilustrados. Há, é claro, pseudo-filósofos, mas esses realmente só escrevem para o povo, e não têm conteúdo esotérico apreciável.
² É sabido que Aristóteles foi o mestre de Alexandre, mas daí a conceber que Alexandre filosofou ao lado de Aristóteles, sendo co-responsável de seus escritos, é um exagero!
“O que na educação deste personagem pode ser atribuído ao ensino filosófico de Aristóteles é o haver sabido libertar interiormente seus talentos naturais, a peculiar grandeza de seus dotes de espírito, elevando-os a um plano de completa independência consciente de si mesma, como o vemos comprovado melhor que nunca nos próprios fins buscados por Alexandre e em seus feitos. Alexandre alcançou, com efeito, essa absoluta certeza de si mesmo que só a intrepidez infinita de pensamento e a independência do espírito diante dos planos especiais, pequenos e limitados permitem. Essa intrepidez o elevava à finalidade perfeitamente geral que o animava: a ambição de organizar o mundo numa vida e num intercâmbio comuns e coletivos, mediante a fundação de Estados subtraídos à individualidade contingente e fortuita.
Alexandre pôs em prática, dessa forma, o plano que já concebera seu pai sem haver podido chegar a realizá-lo: o de se colocar à cabeça dos gregos para vingar a Europa na Ásia e submeter a Ásia à Grécia; de tal modo que, assim como no começo da história da Grécia os gregos haviam marchado unidos na guerra contra Tróia, esta união servira agora de final e de remate ao verdadeiro mundo helênico.” Tem certeza que os motivos de Filipe e Alexandre eram tão coletivos e étnicos e, o que é pior, alheios à própria dinastia? Seria único na História do Mundo, efetivamente. Não creio que Alexandre tenha submetido a Ásia para “se vingar pela Grécia”, isto me parece um daqueles absurdos possíveis apenas no Hegelianismo…
SUPERESTIMA ARISTÓTELES A PONTO DE CONCEBÊ-LO COMO MASTERMIND POR TRÁS DAS AÇÕES DE ALEXANDRE:“primeiro visitou e consultou o oráculo dos amonitas (hoje, Siwa), procedendo logo a destruir o reino persa e incendiar Persépolis, a velha inimiga da teologia hindu, para se vingar, assim, de todas as vexações causadas por Dario contra os hindus e seus irmãos de religião.”
“Tem diante de si a intuição em sua integridadee plenitude, e nada passa por alto, por muito vulgar que isto ou aquilo sejam.” Deveríamos criar o termo endução para explicar os casos de indução e dedução (ou endo-ção, de fora) indistintos (raciocínios perfeitos que são ambos e nenhum, não são de dentro nem de fora, apenas são).
ORA, ORA, SE NÃO É DEUS! “Ao enfocar todos os momentos contidos na representação, como se formassem uma unidade, não prescinde de nenhuma determinabilidade, não se atém primeiro a uma determinação e logo depois a outra, senão que afronta-as todas a um só tempo, enquanto que a reflexão intelectiva, [Platão] que tem como regra a identidade, só pode sair adiante com ela pela simples razão de que, ao afirmar uma determinação, olvida [ignora] a outra e dela prescinde.” Infelizmente, ainda que fosse verdade, precisamos de novos deuses e novas verdades… Claramente Aristóteles é venerado com toda a parcialidade por H. e não podemos levar sua resenha deste filósofo muito a sério!
“O empirismo de Ar. é um empirismo total, posto que ele o leva, de novo, constantemente, à especulação; podemos, então, dizer que, como empirista consumado, é, ao mesmo tempo, um espírito pensante.” Já vimos esse movimento se consumar umas 300x na História; estou nauseado…
12.2 METAFÍSICA ARISTOTÉLICA
“Aristóteles distingue, mais detalhadamente, 2 formas fundamentais: a da potência e a do ato.”GROSSO MODO, podemos dizer que a fonte de toda a concepção da síntese hegeliana está aqui (voltar aos trechos em negrito do 2.3): essência e aparência, racional e real, em-si e para-si. Importante frisar que o segundo, embora o fenômeno não seja o principal de Hegel, posto que seu “deus”, por assim dizer, é a Razão, é importantíssimo como esteio da essência compreendida no mundo antigo como enteléquia e hoje como teleologia ou ciência dos fins. Devemos entender o fenômeno nesse mais nobre sentido, em que participa da dialética da enteléquia, para não gerar mais dúvidas, como o nível de realidade consumada ou efetiva, ou seja, em que o Espírito exerce toda sua potência, no que Hegel chama de O CONCRETO (APARÊNCIA) ELEVADO A CONCEITO (aparência que Aristóteles chama de substantia – em oposição à Idéia platônica, que ele entendeu unilateralmente –, mas ambos são o mesmo); e no que eu chamaria de ‘fenômeno sagrado’, se posso ‘blasfemar’ o vocabulário hegeliano e neologizar à minha maneira e à minha conveniência para facilitar meu trabalho e a compreensão que o leitor deve ter de Hegel ao fim desta excursão. Muito se dirá em autores modernos pré-hegelianos que a substância é a matéria viva, em movimento ou, propriamente, contempladas por nós, i.e., não de uma maneira estritamente mecanicista (como na Física).
Curiosamente, Hegel é o acme do Idealismo e seu centro nevrálgico é o concreto ou empírico. Na filosofia subsecutiva, que teve de reparar seus pontos de vista, temos o império da Fenomenologia, em que o centro tem de ser a própria potência ou vontade (configurando a ‘substância pós-moderna’), que havia sido menosprezada até ali como provocadora última da realidade. Fazendo uma última simplificação, podemos assinalar a filosofia pós-platônica e pré-Marx-nietzscheana como excessivamente preocupada com o começo e o fim; e as filosofias DE PLATÃO SOMENTE, NA ANTIGUIDADE INTEIRA, e de Marx, Schopenhauer e Nietzsche EM DIANTE como aquelas atentas ao devir. Não preciso, espero, ter de ressalvar que a genealogia e a teleologia continuam sendo tratadas dentro da fenomenologia do séc. XX em diante e que o devir já era “conhecido” e tratado até mesmo pelos insofisticados pré-socráticos. O que eu quis dizer é que o eixo de preocupação de primeira plana sofreu uma inversão quase simétrica em termos do que é o objeto da filosofia. Numa sentença, regressamos a Platão e reiniciamos de onde ele havia parado, com alguns conselhos muito úteis achados no caminho do calvário que antecedeu nossa chegada ao deserto chamado fim do milênio. (!!!)
INFINITO É O FENÔMENO (A AÇÃO):“quando dizemos a essência, não estabelecemos com isso, ainda, a atividade, pois a essência é somente o em-si, a potência, sem forma infinita.”
“Portanto, enquanto que o predominante, em Platão, é o princípio afirmativo, a idéia, como algo somente idêntico consigo mesmo no abstrato, em Aristóteles predomina o momento da negatividade, mas não como mudança, nem tampouco como o nada, senão como distinção, como determinação, destacado por ele enquanto tal. Este princípio da individuação, não no sentido de uma subjetividade contingente, particular, senão no sentido da subjetividade pura, é característico de Aristóteles.” O principium individuationis como o erro do milênio ou, antes, dos últimos três milênios!
“O devir de Heráclito é uma determinação certeira e essencial; mas, em compensação, carece ainda da determinação da identidade consiga mesma, da firmeza da generalidade. O rio se modifica constantemente, mas se mantém também perene e tem, ainda mais, uma existência geral.¹ De onde se deduz imediatamente que Ar. (Metafísica IV, 3-6) polemiza principalmente contra Heráclito e outros quando diz que o ser e o não-ser não são um e o mesmo, fundamentando assim aquela famosa tese da contradição de que um homem não é ao mesmo tempo um barco.” Hahaha?!
¹ Quando Nietzsche diz que Heráclito poderia ter enunciado o eterno retorno, o que quer dizer é: faltava-lhe a condição subjetiva para afirmar a figura de linguagem do rio (o eterno, a essência) como aquilo que também se desdobra sobre si mesmo em fenômeno, repetindo-se como aparência e transitoriedade finita e fugidia (além das águas deste rio, o próprio rio, que no fim de contas é apenas um subterfúgio para se referir ao universo).
PRESENTE ETERNO (Conceito escolástico influenciado por Ar.): “Deus é a substância[ponto de encontro] em cuja potência vai também implícito, como algo inseparável, o ato; nela, a potência não se distingue da forma, já que produz a partir de si mesma suas determinações de conteúdo.” Aristóteles cria que a Idéia de Platão estava situada fora do tempo, portanto do presente, do movimento e da realidade (existência); por isso achava ter reparado Platão. Tão ingênuo quanto parece! Nível de argumentação: “Meu absoluto é melhor que o seu! Crê em Deus-Pai!”.
“Deve-se considerar como a verdadeira essência, prossegue Ar. (Metaf. XII, 7) o que se move em si mesmo, o que ‘se move em círculo; e isto não se deve buscar somente na razão pensante [principium cognoscendi], senão também no fato’. (…) Como o igual a si mesmo e como algo visível, esta essência absoluta é ‘o céu eterno’; 2 modos de representação do absoluto são, portanto, a razão pensante e o céu eterno.” Formulação superingênua do eterno retorno.
CURIOSA NOTA DE RODAPÉ, DEMONSTRANDO QUE AS AULAS DE HEGEL ERAM PESADAS, INSOSSAS E CONFUSAS, E QUE O FORMATO FINAL DO LIVRO É MAIS LEVE DEVIDO À INTERFERÊNCIA DOS DISCÍPULOS:“Como esta explicação hegeliana da famosa passagem de Aristóteles tem em seu favor o testemunho de tantas autoridades, o editor não pode seguir aqui, como tantas vezes no transcurso dessas Lições, a norma estabelecida pela sociedade de amigos de Hegel a cujo encargo corre a edição de suas obras, que é a de corrigir tacitamente os erros e inexatidões que tenham podido deslizar pela exposição do autor. É evidente, de todo modo, que Ar. fala de 3 substâncias de um mundo sublunar, que move o firmamento; do firmamento mesmo, como o centro, que é ao mesmo tempo o motor e o movido, e de Deus, como o motor imóvel.”Frase original de H., para contrastar: “O céu é algo movido e é também, ao mesmo tempo, algo que move. E sendo, assim, o esférico algo tanto movente como movido, tem que haver necessariamente um centro que mova, mas seja por si mesmo imóvel e, simultaneamente, eterno e uma substância e a energia” Suas sentenças não são pontuadas, e vai elencando sinônimos após as conjunções de ligação como se enriquecesse a exposição (por si inócua) acrescentar mais nomes e sinônimos ao que já tinha nome (Deus), e aumentando a barafunda do que é, pois que estas coisas são também outras coisas: enfim, que o primum mobile ou deus aristotélico é também ETERNO (Qual a definição de eternidade? Há algum deus que seja mortal ou limitado?), é também SUBSTÂNCIA (Qual a definição de substância? Por que não é redundante ser Deus e substância ao mesmo tempo?), é também ENERGIA (Qual é a definição de energia? Por que não é redundante ser Deus, substância e energia tudo ao mesmo tempo? No que deus ficaria pior se fosse retirado algum desses sinônimos arbitrários?)!… Uma absoluta perda de tempo – e energia!
Me parece incrível, fabuloso até, que nem Ar. nem H. tenham percebido que só estão reescrevendo Platão sem o mesmo talento literário (ou percebem-no, mas fazem disso, dessa redação tecnicista, seu cínico ganha-pão):“Este sistema dura eternamente. ‘Mas a nós [como indivíduos] só por um breve tempo nele nos está reservada uma residência, que é a mais excelente que poderíamos desejar.’” E ainda mais: o “filósofo da ação” (Ar., segundo a introdução de H.) é o mais contemplativo de todos!“o pensamento é fim último e absoluto para si mesmo.”
“O momento fundamental da filosofia aristotélica consiste, portanto, em que a energia do pensamento e o pensado objetivo sejam uma e a mesma coisa” Ironia: Aristóteles cobra o porquê do Bem, p.ex., de Platão e Leucipo, mas tampouco dá o seu porquêenergético. Não que seja um defeito seu; a energia é a mera referência de uma força física, e portanto um não-conceito, filosoficamente falando; o simples infundamentado e inessencial sobre o qual não se deve falar. O que pega mal é a hipocrisia do Estagirita (epíteto aristotélico): o parco entendimento dos outros (hipercrítica que exerce sobre o próprio mestre) e a excessiva indulgência em relação a si mesmo (a própria filosofia não é depurada e desenvolvida como seu lado crítico da tradição nos faz pensar que fosse capaz). Nesse sentido ele é o pai ancestral de filósofos como Deleuze!
BLÁ, BLÁ, BLÁ… “Em nossa linguagem, designamos o absoluto, o verdadeiro, como a unidade do subjetivo e do objetivo que, portanto, não é um nem outro, ainda que seja ambos de uma vez; pois bem, Ar. se debatera com estas formas especulativas, que ainda hoje seguem sendo as mais profundas, e as expressou com a maior clareza. (…) A unidade é, portanto, uma expressão ruim, antifilosófica, e a verdadeira filosofia não é o sistema da identidade, [referência a Platão] mas seu princípio há de se buscar numa unidade que é atividade, movimento, repulsão e, na distinção, algo idêntico a si mesmo.” Tudo isso continua a nos mostrar que, se queremos derrubar Hegel de vez, devemos levar também tudo de aristotélico a pique!
12.3 FÍSICA ARISTOTÉLICA
“No que se refere ao outro caso, ou seja, a diferença entre o pesado e o leve, que se aprecia nos corpos mesmos, temos que aquele se move mais ligeiramente que este através do mesmo espaço; ‘mas esta diferença se dá somente no espaço cheio, pois o corpo pesado separa mais rapidamente o cheio, graças a sua força’. Esta concepção é absolutamente exata e vai dirigida principalmente contra uma série de representações que fazem estragos em nossa física. Estas representações [fenômeno observável] acerca do movimento igual do pesado e do leve, como as que se referem à gravidade pura, [una] ao peso puro, à matéria pura, etc., são uma abstração, como se se tratara de coisas iguais em si e diferentes somente pela resistência casual do ar. [múltipla]¹” Aristóteles não tem ‘culpa’ alguma de não conhecer a aceleração da gravidade em uma mesma pressão atmosférica, mas Hegel não deveria ignorar Newton! Lembrando que nesta parte não se procede exatamente à história da filosofia, mas da própria física…
¹ Hegel confunde os reinos da aparência e da essência, como se a essência fosse figurada na própria representação! Mas, apesar do modo oblíquo que elegeu para se expressar, Hegel não colide aqui com o modelo da física experimental (contra o que ele mesmo pensa): o que ele quis dizer é simplesmente que não existe o vácuo perfeito, então, na prática, se um bloco compacto de uma liga metálica muito pesada, digamos, de 1 tonelada, cai retilineamente por um abismo ao lado de uma pessoa de 80kg, por mais que essa pessoa seja maior que o bloco e possua ‘mais superfície’ (sofrendo a resistência do vento oposto em uma área maior que a do bloco), não significa que ambos chegariam ao fim do abismo – que deveria ser profundo o suficiente – simultaneamente (após o fim da aceleração da gravidade e o começo da trajetória em que ambos cairiam a 10m/s, uniformemente), pois a resistência do ar ainda seria maior contra o bloco de metal, mais ‘pesada’, anulando sua massa gravitacional. Um tubo de ensaio em que o vácuo perfeito fosse possível seria contraditório com o célebre modelo das ‘quedas idênticas’ porque aí já nem haveria possibilidade de queda dos corpos, apenas repouso. Isso serve para nos darmos conta da futilidade da física como ensinada nos livros-textos escolares em enunciados de exercícios matemáticos: “desprezando-se a resistência do ar, etc.”…
“Quando a água se converte em ar, ganha em extensão; mas a matéria segue sendo a mesma, sem que a ela se some nenhuma outra coisa distinta: o que ocorre é que o que antes era em potência é-o agora em ato.”Também é incrível como o mundo moderno levou tantos séculos para chegar ao mesmo entendimento formal. Dito isto, Ar. continua péssimo metafísico; mas exímio cientista natural!
“Dão uma de espertos aqueles que nos reprovam o fato de incluirmos entre os elementos a água, o ar, etc. Mas nem sequer sob o nome de ‘neutralidade’ os físicos modernos chegaram a uma generalidade concebida como unidade, como a que Ar. atribui aos elementos; em realidade, o hidrogênio, quando combinado com uma base, não segue existindo como tal, segundo às vezes se afirma, dentro da nova combinação.” É verdade que o modo descritivo moderno é pobre, mas H. se esforça além do aceitável para encimar Ar. sobre a Física moderna, vendo na física do Estagirita algo mais do que é.
12.4 ÉTICA ARISTOTÉLICA
RESERVATÓRIO: “O pensamento se converte em entendimento passivo, isto é, em algo objetivo; e assim se aclara agora até que ponto é o nihil est in intellectu, quod non fuerit sensu [nada está no intelecto que já não tenha sido sentido/passado pelos sentidos] o sentido [pun not intended] da filosofia de Ar..” Não pode ser pensado aquilo que não foi sentido Não pode ser pensado aquilo que não foi pensado, pois intelecção e sensação estão imbricados. Tudo que foi pensado foi sentido, etc., etc.. E implicações com os trechos destacados por Derrida na Enciclopédia. (ver link, já citado em outro capítulo, novamente referenciado nas referências bibliográficas ao final)
“Quando o conhecimento é mau ou inclusive inexistente, mas o coração, apesar disso, se comporta bem, poderá, segundo Ar., existir bondade, mas não virtude, já que falta o fundamento, ou seja, a razão, sem a qual a virtude não pode existir.” Sempre traduzir conhecimento na Ética de Aristóteles como sabedoria no sentido schopenhaueriano, para facilitar. E coração como o verdadeiro ethos contemporâneo. Ar. repercute aqui o mito do burro bom. Na verdade eu entendo que ele pode ser no máximo inofensivo (já que a maioria dos burros é realmente má). Falo em Schopenhauer, porque ambos são concordes neste aspecto (diferença entre sabedoria e caráter). Já eu descartaria a existência de um burro bom, ou dum inteligente mau: sabedoria e caráter estão acoplados no caráter do indivíduo, muitas vezes com sua índole ou inteligência camuflada (no caso dos pseudosábios, que são maus mas ocultam sua falta de inteligência socialmente; e dos pseudobons, que são burros mas só não aparecem como maus por falta de oportunidades para exercer a maldade publicamente).
“Daí que Ar., segundo víamos, censure Sócrates por condicionar a virtude exclusivamente ao conhecimento.” Naturalmente que Ar. censura Sócrates, pois que não o entendeu. Aristóteles endeusou (literalmente!) a Razão, mas não entendeu tampouco a razão socrático-platônica: não significa usar o pensamento ou acumular informações. Significa ser sábio. Logicamente, o sábio socrático é virtuoso. Não existe inteligência, para Sócrates, dissociada de caráter – logo se vê que minha concepção descrita acima não é original, mas que sou partidário de Sócrates e Platão neste tema! Ar. entende que aquele que possui a ciência filosófica alcançaria como que por milagre noções éticas em Sócrates e Platão, o que é distorcer seus pensamentos! É muito fácil estereotipar esse entendimento, dizendo que para Sócrates a virtude era uma iluminação individual. Mas esta não é a correta leitura da doutrina platônica (e afinal não sabemos exatamente o quanto da concepção socrática da virtude é apenas uma criação platônica ou não). A ocorrência moderna que chamamos de “erudito que na verdade não passa de velhaco” não refuta ‘a ingenuidade socrática’: ele é um erudito, pois que seja, porquanto querem chamá-lo de erudito, ou permitem que se chame a si de erudito; isto não importa para nós! Ele é um hipócrita que nada tem que ver com a figura do sábio. Tampouco pode-se chegar a essa condição por esforço. Daí a força atual que conserva a metáfora da reminiscência em Platão: ou se nasce bom (sábio) ou mau (ignorante). O fato de uma criança ainda ser ignorante tampouco refuta a tese: através da reminiscência, aquele nascido sábio reencontrará a sabedoria que já está dentro de si. Outro exemplo: um político maquiavélico é tolo, pois não compreende que tudo é vaidade.
“Por conseguinte, na virtude, enquanto esta tende à realização e é atributo do indivíduo, não se pode dizer que seja a razão o princípio único, senão que é a inclinação o elemento propulsor, concreto, o que precisamente na prática e no sujeito tende à realização.” Hegel descreve apropriadamente Ar.. O grifo verde se destina a criticar a compreensão aristotélica da moral: ele decompõe a conduta ética em teórica e prática. Sua delimitação ética é sem dúvida a que norteia a disciplina Ética moderna. Porém, isso é um mal, um retrocesso em relação a Platão. Nietzsche foi o primeiro filósofo a apontar tal erro. A virtude é um atributo inato do indivíduo. Não se pode realizar a virtude quando é-se dela carente, daí a ilusão de que alguém dotado da capacidade teórica (todo homem) de ser virtuoso falha na execução (só executa a virtude aquele que nasceu virtuoso e sábio). Ter conhecimento teórico da virtude e não aplicá-lo na prática é o mesmo que dizer que é-se meio-virtuoso, virtuoso incompleto. Ora, ou é-se virtuoso ou não se o é. É redundante falar em virtude não-realizada, por isso Aristóteles discorda de Platão – pois crê que vale a pena falar desse tipo de meia-virtude. A razão é o princípio único, porém não a razão aristotélica. Isso faz com que Aristóteles tenha de recorrer à ‘inclinação’ como elemento propulsor, uma nomenclatura vazia. Essa inclinação é inata à razão corretamente compreendida no platonismo, e não existe tal decomposição em 2 palavras ou conceitos, em que um se subordina aleatoriamente ao outro. Assim, não é que a Ética seja uma disciplina voltada à prática; ela é teórico-prática, uma unidade, desde o início. Mas o homem moderno não enxerga a validade do teórico, preferindo expulsá-lo do campo ético.
“ainda que se tenha censurado como algo muito insuficiente e indeterminado o fato de que Ar. determine a virtude mais como uma diferença de grau, há que se reconhecer que isto é algo que está implícito na natureza mesma da coisa. A virtude, e mais que nenhuma outra a virtude determinada, entra numa órbita em que ocupa um lugar o quantitativo; o pensamento aqui não permanece em-si, sendo indeterminado o limite quantitativo.” Essa definição é satisfatória no mundo dos moralistas e autores de auto-ajuda, no mundo dos comuns e plebeus. Para um filósofo, é um achado muito aquém do desejável.
“Aristóteles se dava conta, mais ou menos claramente, [?] de que a substância positiva, a necessária organização e realização do espírito prático no Estado, é realizada por meio da atividade subjetiva de tal modo que esta encontra naquele sua determinação. Por isso também é que Ar. vê na filosofia política toda a filosofia prática e o fim do Estado como a felicidade geral. [eudemonismo]” De novo, o mesmo erro. Não existe política apenas prática. A ciência política moderna é Aristóteles desenvolvido: é o que temos, mas não é ciência nem um conhecimento sobre política, ainda. Uma verdadeira ciência política seria A República desenvolvida sobre a Terra, na educação dos povos.
“o princípio moderno, segundo o qual a vontade particular do indivíduo se erige, como o absoluto, no ponto de partida; [a revolução francesa] e assim todos contribuem, mediante a emissão de seus sufrágios, para decidir o que há de reger como lei, estabelecendo a comunidade sobre estas bases. Em Ar., ao contrário, como em Platão, o Estado¹ é o prius, [fundamento originário, pressuposto, dado a priori] o substancial, o fundamental, pois seu fim é o mais alto de todos, desde o ponto de vista da prática.”²
¹ Essa generalização de H. pode custar muito caro em mal-entendidos: “Estado” significa coisas diferentes para Platão, Aristóteles e para o próprio Hegel.
² O leitor fica tentado a se perguntar: se o princípio moderno é o individual e o princípio antigo é o coletivo, qual deve prevalecer, qual é o melhor? A resposta curta e grossa é: nenhum. Não podemos mais defender uma Teoria do Estado, nem tampouco continuar com os pressupostos do Liberalismo, que institui o Homooeconomicus atomizado, um inútil político.
“Nenhum país como a Grécia abundava tanto em múltiplas constituições quanto em variações dentro de cada uma delas num só Estado, apesar do quê os gregos não chegaram a conhecer em nenhum momento esse direito abstrato dos Estados modernos que isola o indivíduo, deixa-o viver como quer e, não obstante, mantém-no em coesão com todos os outros como num espírito invisível, de tal modo que em nenhum se dê nem a consciência nem a atividade com vistas ao conjunto, mas que cada qual atue para o todo, sem saber-se bem como, tão-só na medida em que se o reconhece essencialmente como pessoa e em que só se preocupa com a proteção de sua individualidade.¹ É uma atividade dividida, de que cada um só tem em suas mãos um fragmento: analogamente como, numa fábrica, ninguém forma um todo, senão só uma parte, e não possui as demais habilidades necessárias, já que somente alguns determinam a coesão do conjunto.” Trecho fundamental para a funda(menta)ção do Marxismo.
¹ H. exagera – e muito – a “perfeição” desse tipo de sociedade…
“A liberdade burguesa, nesse sentido, consiste precisamente na carência do geral, no princípio do isolamento; mas esta liberdade constitui um momento necessário que os antigos Estados não conheciam” É como dizer que Diógenes, o Cínico era uma existência necessária – quase uma confissão de messianismo!
“só agora torna-se possível a consistência interior e a indestrutível generalidade, real e consolidada em suas partes.” O Estado moderno é realmente muito consistente – como exemplifica muito bem a arbitrariedade racional-legal chamada Israel –; só esperamos que não seja exatamente indestrutível! Felizmente, entretanto, Hegel não perde muitas páginas comentando a Política de Ar., um livro ao meu ver extremamente defasado, talvez o mais obsoleto do próprio autor. Como H. deixa claro, a política, em Ar., como atividade prática, está contida na sua Ética (sobre ética, Aristóteles escreveu 3 livros, dos quais temos 2 inteiros e fragmentos de um 3º).
12.5 LÓGICA ARISTOTÉLICA
“Os conceitos determinados se predicam com união ou sem união: assim, p.ex., cabe dizer: o homem vence, o boi anda, ou então: o homem, o boi, vencer, andar.”
As determinações da lógica aristotélicas já foram há muito tempo absorvidas por todos os que filosofam. Quatro noções básicas (abaixo resumo 3 delas) são: o gênero, o geral, o particular e o individual. Hoje achamos tudo isso muito “bobinho” e autoevidente.
EXPLICAÇÃO CONTIDA NA DEFINIÇÃO DE GÊNERO: “O conceito é uma realidade lógica e, portanto, algo em si puramente pensado, i.e., possível. No juízo, postula-se o conceito A como um sujeito real e se o combina com outro algo real, como conceito B; trata-se de que B seja o conceito e de que A se ache dotado de ser com respeito àquele, mas B é somente o conceito mais geral. No silogismo, trata-se de imitar a necessidade: ao passo que no juízo contém-se a síntese de um conceito e um dever-ser, no silogismo dá-se a tal síntese a forma da necessidade, equiparando ambos os termos contrapostos dentre de um terceiro como através do termo-médio da razão, p.ex. no justo meio da virtude. A premissa maior expressa um ser lógico, a menor uma possibilidade lógica, uma vez que Caio [nome próprio] é, para a lógica, um algo simplesmente possível; a conclusão serve de laço de união entre ambos os termos.” Pela explicação, parece muito mais difícil do que é!
Há um problema com a Lógica aristotélica quando avaliada por Hegel, pois falta-lhe a noção do Absoluto, presente na lógica hegeliana. Por isso, o “geral” em Ar. é uma determinação “pobre”, aquém do “geral moderno”, ou geral em H. Veja abaixo:
O GERAL: Aquilo que não é nem ser-em-si (essência, potência, o abstrato) nem ser-para-si (aparência, ato, o concreto). Porém é algo determinável, via diferenciação (pelo princípio da individuação de Aristóteles).
O PARTICULAR: O concreto, partícipe do geral, a aparência que o sujeito pode nomear como momento seu. O predicado determinado-com-referência-a. Poderíamos dizer que se houvesse a reflexão sobre a reflexão nesse processo, seria o Absoluto hegeliano (o ser-em-e-para si); mas aqui não há este desdobrar e retornar a si mesmo da consciência individual, então o processo é incompleto.
O INDIVIDUAL: A aparência pura (fenômeno, representação). O predicado indeterminado. Chamado, em outro tópico do livro, de categoria da substância. Como é mera ação cega, um nível abaixo da concretude, mal é conceituável.
Enfim, ‘memorizar’ essas sutilezas a nada leva, senão que o raciocínio filosófico e o pensamento lógico se formam naturalmente no filósofo. O acrescer o tempo todo homônimos só confunde a cabeça dos neófitos.
“A segunda obra [a Lógica é dividida em vários livros desde a Antiguidade, mas hoje todas essas partes compõem um só livro] é a que versa sobre a interpretação” Provavelmente o que hoje ensina-se como RACIOCÍNIO LÓGICO propriamente dito. Proposições, verdade ou falsidade (inferência e juízo do conteúdo que se contradiz).
13. A RESSACA: FILOSOFIA PÓS-PLATÔNICA E PÓS-ARISTOTÉLICA
13.1 ESTOICISMO, EPICURISMO, CETICISMO & OUTRAS ESCOLAS PERIFÉRICAS DO PENSAMENTO: UMA VISÃO COMPARATIVA.
“Com efeito, se os estóicos remontassem sobre o simples conceito de agir ao serviço do fim que é em-si e penetrassem no conhecimento do conteúdo, não necessitariam expressar isto como um sujeito. A própria conservação racional do homem é, para eles, a virtude.” A filosofia estóica é uma primeira desagregação, ou segunda, após Aristóteles, da ética teórico-prática platônica: é quem dita uma ética apenas prática, como o Ocidente já a entende, mas unilateral de acordo conosco, pois que necessita da “escola gêmea”, o epicurismo, para ser total, ser uma ética completa da virtude prática (que já é em si inferior ao platonismo).
“A realidade moral consiste precisamente nisto, em ser; pois do mesmo modo que a natureza é um sistema permanente e ente, [ser, contido em si mesmo, ‘independente’ do homem] também o espiritual tem que ser isso: um mundo objetivo. Mas a esta realidade não chegaram os estóicos. E este pensamento poderia se expressar também assim: sua realidade moral é só o modo, [a forma] um ideal e não uma realidade” A.k.a. Platão, principalmente n’O Banquete e no Fédon. Afinal, quem nunca foi queimado dentro dum cavalo de madeira nem cortou a própria jugular a mando do imperador nem tomou de livre e espontânea vontade a cicuta após ser condenado na assembléia ateniense nada pode discorrer sobre essas 3 consumações (a morte ‘dolorosa’): não pode dizer que morrer queimado vivo é em si pior ou melhor do que infligir-se um corte ou tomar veneno, ou mesmo que ser banido de sua polis. O sábio resigna-se ao seu fado, e é só.
H. começa a especular, p.ex., se estaria vivendo estoicamente um estóico que declarasse que é irracional, em que pese de certa forma natural, respeitar a propriedade privada, para polemizar com os apologistas do ideal estóico (já que isso não parece ter importância alguma no estoicismo concreto ou histórico): “Tratar de justificar por meio de um fundamento semelhante conteúdo é, por conseguinte, confundir o conhecimento das coisas em detalhe com o conhecimento de toda a realidade; é a superficialidade do conhecimento que se nega a reconhecer algo por não reconhecê-lo desde tal ou qual ponto de vista ou em tal ou qual aspecto, e única e exclusivamente porque só indaga e conhece as razões imediatas, sem que possa saber se existem também outros aspectos e outras razões.”
“sou eu, então, quem faz surgir estas razões sábias e boas. Não são as razões mesmas a coisa, o objetivo, senão que são obra de minha livre vontade, do meu capricho, algo de que me valho eu para justificar ante mim mesmo minhas nobres intenções” Para o sábio, isto faz sentido e é seu mundo – para a maioria massacrante da população, não.
“A firmeza formal do espírito que se abstrai de tudo não nos sugere nenhuma evolução de princípios objetivos, mas apenas um sujeito que se mantém em pé nesta imutabilidade e nesta indiferença, não cega, porém querida; e nisto consiste a infinitude da consciência de si mesmo.” “A força da repulsa à existência é grande e a energia desta atitude negativa, sublime.” “Ao desaparecer a existência política e a realidade moral da Grécia, e quando mais tarde tampouco o império romano pôde encontrar satisfação no presente, este mundo se recolheu sobre si mesmo, buscando dentro de si o justo e moral que havia desaparecido já da vida geral exterior. § Platão proclamou o ideal de uma república, ou seja, de uma vida racional dos homens dentro do Estado, pois esta vigência do direito, moralidade e costume era, para ele, o fundamental, o que forma o lado da realidade do racional; e só mediante este estado racional do mundo podia, segundo ele, existir a harmonia do exterior com o interior, neste sentido concreto.” H. superestima a esperança platônica de que teríamos o Estado do sábio, que fosse um programa para seguir, ainda que não fosse uma utopia no sentido de Thomas More. Como o próprio H. determinou no lugar certo, tratava-se de uma “Esparta melhorada”, concebível, ao menos, no mundo grego, antes do ocaso completo de Atenas. Ainda assim, não há nada de histórico na República. É realmente muito mais um subterfúgio para imaginar onde e quando um autoeducado sábio poderia viver para sua máxima plenitude, ao lado de outros raros como ele. A não ser que projetemos para um futuro indefinido essa realização social. De toda forma, Hegel apenas repisa a grandeza de Platão com sua escrita estrambótica (é estrambótico dizer estrambótico), i.e., empregando seus jargões “lado da realidade racional”, “estado racional do mundo”, “sentido concreto”, etc., hegelianizando o platonismo (enfeiando o belo).
“É aquela anuência com que nos encontrávamos nos estóicos como o assentimento que o pensamento dava a um conteúdo; contudo, o pensamento que reconhece a coisa como algo seu e o incorpora a si não passa, nos estóicos, de algo puramente formal. Em Epicuro, ao contrário, também a unidade da representação do objeto consigo mesma se acha presente na consciência como uma recordação, mas esta recordação tem como ponto de partida o sensível; a imagem, a representação, é o assentimento prestado a uma sensação.” “O nome é certamente algo geral, pertence ao pensamento, faz do múltiplo uma coisa simples, é inclusive o mais ideal que cabe conceber: porém de tal modo que sua significação e seu conteúdo são o sensível e não devem valer como este algo simples, mas como o sensível. Esta coisa simples nos conduz não ao saber, mas à opinião.” “A opinião é, com efeito, uma representação como aplicação da opinião-como-algo-pressuposto, isto é, uma aplicação do tipo a um objeto presente, que se investiga a fim de ver se a representação do objeto coincide ou não com o objeto.” Opinião como representação fundamentada. Isto é: representação pura é apresentação. Opinião é que é re-presentação. Que são as estrelas, o firmamento? Uma apresentação à qual damos fé em virtude de nossas representações terrenas. Uma quase-opinião.
“Tais são os pontos fundamentais da canônica de Epicuro, a pauta geral para a verdade; é tão simples que não pode haver nada mais simples, mas é também muito abstrata. São representações psicológicas correntes, justas em seu conjunto, embora completamente superficiais; é simplesmente a mecânica da representação do ponto de vista das primeiras manifestações da percepção.” Acontece que a filosofia voltará a essa ‘simplicidade’ depois da derrocada do Idealismo universalista.
“Hoje até os céticos falam dos fatos da consciência; está claro que o que eles nos dizem não vai, tampouco, além da canônica epicurista que acabamos de expor.” Céticos: menos céticos que os cínicos; cínicos: mais cínicos que os céticos. O cinicismo (para diferenciar de cinismo, adjetivo corrente no nosso idioma e que quer dizer agora outra coisa) foi historicamente bastante anterior, em parte contemporâneo ao sofismo e a Sócrates, em parte apenas herdeiro de ambos. Não tem relevância para o percurso da Primeira filosofia, mas apenas certa repercussão biográfico-historiográfica, com relatos pitorescos de algumas personalidades como Diógenes, o pensador sarcástico ateniense que vivia, de uso, num tonel, e apenas de posse do sumamente necessário. Por essa razão (não é de absorção obrigatória para o entendimento da mais alta Filosofia), a escola cínica não consta deste Curso (até consta, mas não no meu resumo das aulas de H.).
“Enquanto que Epicuro considera as coisas, segundo acabamos de ver, como repletas da multiplicidade dos átomos, temos que o pensamento é o outro momento além dos átomos, o vazio, os poros, o que permite erguer um dique diante desta enxurrada de átomos.” “apartamos a vista de algo, ou seja, interrompemos precisamente este fluxo.” Princípio da individuação e coerência – ou viver tornar-se-ia impossível. Um filósofo do momento presente.
“Os átomos, enquanto átomos, devem permanecer indeterminados; mas os atomistas se viram arrastados à inconseqüência de lhes atribuir qualidades” Surpreendentemente contemporâneo, considerando os desenvolvimentos posteriores da Química. Mas o que interessa para nós é: o epicurismo é uma espécie de ‘correção de rota’ dos filósofos pré-socráticos da escola atomista.
A birra-mor de H. com o epicurismo é que seu sistema não pode ser teleologizado! “conseqüente com seus atos, Epicuro se declara imediatamente contrário à existência de um fim último geral do universo e de toda relação de fim em geral, como, p.ex., da finalidade do orgânico em si mesmo, assim como também é contra as representações teleológicas da sabedoria de um criador do universo, de seu governo do mundo, etc.;¹ e nisto sua atitude não pode ser mais lógica consigo mesma, já que em sua concepção resta eliminada toda unidade, qualquer que seja o modo como esta se represente, seja como fim da natureza nela mesma, seja como um fim que, ainda que residindo noutra coisa, faz-se valer na natureza; nos estóicos, em compensação, encontramos este ponto de vista teleológico e, ademais, bem-desenvolvido.”
¹ Agora entendo melhor a acusação de ateísmo e heresia contra Epicuro! (Não lançada por H., mas pelos próprios antigos.)
“a partir do conhecido podemos deduzir o desconhecido.” Que é o homem?, teria perguntado Drácula. E ele mesmo respondeu, sem aguardar seu estupefato interlocutor, mero humano que não filosofava: É alguém incapaz de seguir Hegel! É alguém que prefere seguir pelas sendas de Epicuro e Kant para conhecer a natureza e aquilo que excede à natureza! E Drácula estava correto em seu juízo sobrenatural, i.e., de semideus que refletia sobre essas coisas…
Grosso modo, podemos ainda dizer: Hegel é aquele para quem o desconhecido é aquilo que podemos deduzir do conhecido – nenhum descalabro maior!
“é, em realidade, o mesmo princípio que segue regendo hoje em dia na ciência natural comum e corrente.” Só bastaria, aliás, mais tato aos físicos quânticos: se não imaginassem demais, deduziriam coisas mais fidedignas e modestas, longe de buracos de minhoca e que-tais…
“Chega-se à noção de representações, leis e forças gerais, tais como a eletricidade e o magnetismo, as quais se aplicam depois aos objetos e atividades não-suscetíveis de ser diretamente percebidas por nós. Assim, p.ex., sabemos da existência dos nervos e de sua interdependência em relação ao cérebro; e dizemos que as sensações, etc., se transmitem desde a ponta do dedo, suponhamos, até o cérebro mesmo. (…) A anatomia pode nos revelar os nervos, mas não seu modo de atuar; pois bem, não há nada senão se representar tal modo por analogia com outros fenômenos, p.ex. com as vibrações de uma corda tensa, equiparando às cordas vibráteis as vibrações dos nervos até chegar aos centros cerebrais. Ou como no conhecido fenômeno que se observa, sobretudo, numa série de bolas de bilhar colocadas muito juntas umas das outras, em que a última da fila avança quando empurra-se a primeira, enquanto que as intermediárias, cada uma das quais impulsa aquela que segue, não se movem, na aparência; nada resta, pois, senão imaginar-se os nervos como formados por bolinhas pequeníssimas, invisíveis ainda que através das mais poderosas lentes de aumento, a última destas bolas aquela que salta ao contato das anteriores e toca (movimenta) a alma. Analogamente, a luz concebe-se como uma série de fios ou raios, como vibrações do éter ou como bolinhas etéreas que se chocam entre si. [!]” Espantosamente, H. sabia muito bem no que o epicurismo repercutia em nossa epistemologia atual – mas decidia jogar tudo no lixo, enquanto se trata de hegelianismo decantado de ‘impurezas indesejáveis’. Se soubeste descrever a luz antes do séc. XX, este é um sinal de que acertaste!
“Advirta-se que, nesta classe de explicações, Epicuro é expressamente bem liberal, eqüitativo e tolerante, posto que diz que as diversas representações que se formem em nós com relação aos objetos sensíveis – todas elas, por demasiadas que sejam – podem ser aplicadas ao que não podemos observar diretamente por nós mesmos; que não se pode afirmar um só modo como o acertado, mas que se pode chegar ao resultado que se busca por diversos caminhos.”
“O raio pode ser explicado por meio de toda uma série de possíveis representações, p.ex. a da fricção e colisão das nuvens, que produzem a figuração do fogo e provocam o raio.” “É exatamente o mesmo método a que recorrem nossos físicos, ainda hoje, a fim de explicar como se produz a chispa elétrica nas nuvens, ao se chocarem. Com efeito, como tanto no raio como eletricidade se observa uma fagulha, toma-se este elemento comum como base para chegar a conclusões acerca da analogia entre ambos os fenômenos, afirmando-se que também o raio é um fenômeno elétrico. Ora, as nuvens não são corpos duros, e a umidade, longe de produzir eletricidade, na verdade dispersa-a; por isso estas conversas fiadas dos físicos de hoje são em realidade tão vazias como a representação de Epicuro.” Tá bom, Hegel, doutor em física fenomenológica (física do mundo experimental)!
“A filosofia epicurista jogou pela janela todas aquelas crenças supersticiosas em torno do vôo das aves num sentido ou outro, da significação que podia ter a lebre cruzar o caminho, da inspeção das entranhas dos animais, da alegria ou tristeza das galinhas, [!] etc.” De novo apenas reprise de Platão.
“Sendo assim, não existe qualquer diferença essencial entre o tipo de vida do estóico e do verdadeiro epicurista que se ajuste às normas e aos preceitos de seu mestre. § Todavia, ainda que à 1ª vista pareça que já os cirenaicos [escola periférica de filosofia] proclamavam o mesmo princípio moral que mais tarde haviam de preconizar os epicúreos, Diógenes Laércio (X, 139, 136-137) se encarrega de assinalar a diferença nos seguintes termos:¹ os cirenaicos se propunham como fim antes o prazer como algo concreto, ao passo que Epicuro predica-o como um meio, afirmando como prazer a ausência da dor, sem admitir nenhum estado intermediário.” Reflexões pessoais (recomendo a leitura apenas para quem já se familiarizou com Nietzsche): Talvez Nietzsche tenha compreendido mal o epicurismo e o estoicismo. Bom, não é impossível: julgo que compreendeu mal Parmênides, ao não alçá-lo à altura de um Heráclito… Ausência de dor não é um critério nobre, supra-hominídeo. Nietzsche ataca os estóicos e é claramente favorável ao epicurismo. No entanto, como enaltece o valor da dor como escape da polêmica hedonismo vs. ascetismo, procurando pensar além do binômio estéril e superficial dor-prazer, cabe aqui assinalar, se H. está correto neste ponto (e creio que esteja, que estoicismo e epicurismo são os dois lados de uma mesma moeda), que os epicuristas não haviam conseguido, ainda, escapar desse dilema, sobrevalorizando a dor em sua ética.
¹ Finalmente uma contribuição conceitual de Laércio! Diógenes Laércio, que é um historiador da filosofia, e não filósofo, é infelizmente um mau historiador. Às vezes, em termos de filosofia antiga, torna-se inevitável consultá-lo dada a falta de fontes – mas eu não recomendo sua leitura completa, muito menos de maneira inocente; é preciso sempre estar desconfiado da veracidade de suas afirmações. Ele se enquadra mais no que o próprio Hegel chamaria de “fofoca filosófica”, contando anedotas e curiosidades sobre a vida dos grandes pensadores. É difícil vê-lo falando algo relevante sobre os conceitos filosóficos desses mesmos personagens.
“Além disso, os cirenaicos consideravam as dores do corpo como piores do que as da alma, ao passo que o ponto de vista de Epicuro era o oposto.” Dor física é bom demais – vocês já experimentaram correr até a exaustão?!
“Epicuro quer que o homem se forme uma noção exata da morte, para que esta não turve sua tranqüilidade. (…) ‘Em seguida, acostuma-te a pensar que a morte não deve nos preocupar o mínimo que seja, pois todo o bom e o mau reside nas sensações, e a morte é o despojo de toda sensação. Daí que o pensamento certeiro de que a morte não nos afeta faça do caráter mortal da vida uma fonte de gozo, já que este pensamento nos aparta da infinitude e da ânsia da imortalidade. Pois nada há de temível na vida para quem chegou verdadeiramente a conhecer que o não-viver não tem nada de temível.’” Famoso trecho de Epicuro que, creio, Sartre citou n’O Ser e o Nada e eu cheguei a anotar num papelito que guardava na carteira, coisa de 10 anos atrás – até as chuvas brasilienses esfarelarem o pobre material!
TODOS FILHOS DE GÓRGIAS: “Há que se distinguir entre o ceticismo antigo e o novo ceticismo; a nós só nos interessa o primeiro: só ele apresenta uma natureza verdadeira e profunda, uma vez que o novo está mais próximo de ser um epicurismo. [?] Deste modo, nos últimos tempos, Schulze vem predicando em Göttingen seu ceticismo e escreveu um livro intitulado Enesidemo, com o intuito de comparar-se com este cético [este obscuro Enesidemo!], interpretando, em outras obras, o ceticismo em contraste com as doutrinas de Leibniz e Kant.” “Este e outros autores tomam como base de sua concepção a crença de que se deve ter por verdade o ser sensível, o que a consciência sensível nos entrega, duvidando, em troca, de tudo o mais. O que opinaríamos seria o último, o único importante, os fatos da consciência.” Algo me diz que estamos todos em Schulze neste momento da humanidade… Não conheço Schulze nem Enesidemo, detesto desapontá-los!
“O ceticismo moderno é a subjetividade e a vaidade da consciência, evidentemente insuperável, claro que não nos terrenos da ciência e da verdade, mas somente no terreno da própria consciência, ou seja, no da subjetividade.” Não sejais cético; sede ético!
CONSUMISMO E CETICISMO ABSOLUTO: Falta de ética
O consumismo é o ceticismo individual elevado a modo de produção. Mero deixar-passar hesitante robótico. Hiato indefinido de cultura e humanidade. Recesso da História. Se o momento pode ser procrastinado por meio de simulações, há de haver uma pane da engrenagem de simulação, da matriz simulacional. Do motor que emite todos os simulacros, a simulação das simulações. Há de vir, advirá, porém são séculos de filme mudo enquanto isso…
“Sexto Empírico viveu e ensinou aproximadamente em meados do século II d.C.. Suas obras se dividem em 2 partes: 1) Suas Pyrrhoniae Hypotyposes, em 3 livros, oferecem-nos, de certo modo, uma exposição geral do ceticismo em seu conjunto; 2) De seus livros Adversus Mathematicos—isto é, contra a ciência em geral e especialmente contra os geômetras, aritméticos, gramáticos, músicos, lógicos, físicos e éticos—, que constituem 11 livros no total, somente 6 são dirigidos de fato contra os matemáticos, já que os 5 restantes se dedicam a polemizar contra os filósofos.” [!]
“Quem busca um objeto tem: ou que encontrá-lo; ou que negar que ele possa ser encontrado; ou seguir buscando-o. Outro tanto acontece com as investigações filosóficas: uns afirmam haver encontrado o verdadeiro, outros negam que seja possível chegar a captá-lo; os terceiros, por fim, perseveram em sua busca. Os primeiros, tais como Aristóteles, Epicuro, os estóicos e outros, são chamados dogmáticos; quem afirma a impossibilidade de chegar a captar a verdade são os acadêmicos [platônicos]; os céticos seguem na busca. Existem, pois, 3 filosofias: a dogmática, a acadêmica e a cética.” Neste conceito Platão é o rei dos céticos, e com Razão! Mas falando sério: é genialmente estúpido, ou estupidamente genial, já que Sexto Empírico inverte exatamente sua própria escola (o ceticismo não deixa de ser um dogma) com o Platonismo: a Idéia entendida corretamente (anti-hegelianamente) é a busca eterna pela sabedoria. Não estou inventando, a menos que queiram me dizer que o dito no Banquete é mera figura de retórica e que fui ludibriado: levo essa passagem ao pé da letra. Quanto ao cético, é aquele que já desistiu de encontrar a coisa, mesmo quando finge para si mesmo que se empenha em procurá-la!
“O princípio eficiente do ceticismo é a esperança da imperturbabilidade.” É como dar-se por vencedor hoje de todas as tribulações do amanhã. O amanhã já foi, mas quê importa, que é que tem de mais, ser um perdedor?!? Confessar-se nada mais que um fodido é o princípio (pun intended) da vitória (Sócrates, alguém?). Tens que ter um prato de comida preferido, uma banda favorita e, claro, hobbies, ou serás só um vento mau!
OS 5 TROPOS DOS CÉTICOS (DOGMAS QUE, UMA VEZ REFUTADOS NA PRÁTICA, E NÃO NA RETÓRICA, CURAM O FILÓSOFO DO MAL DO CÉTICO, DIGO, DO MAL DO SÉCULO!)
1. As opiniões divergem. Não as ‘opiniões’ (sensações) animais nem as opiniões do simples ‘homem’. Mas as opiniões dos sábios! (rever 2.2) O argumento poderia ser resumido da forma seguinte: Se fosse possível um consenso filosófico e uma filosofia universal, este consenso e esta universalidade já teriam sido alcançados.Implicações, se não se refuta o ponto: Hegel tenta a Síntese Suprema – falha; Nietzsche, a Escola Crítica & os pós-modernos insistem em acusar o erro. Ainda estamos recolhendo os cacos e estilhaços em que a Filosofia Continental se partiu então. De fato só o ceticismo chega a sua meta em cada geração. Se muito se diz por aí que “o século XX ainda não terminou”, eu poderia levar ao extremo essa noção dizendo que, se Sexto Empírico segue atual, “o século II ainda não terminou”! O verdadeiro filósofo deve viver esta verdade (este tropo), mas seguir buscando a sua verdade, que, se for verdadeira, será universal… Deve aprender a lidar com esta contradição interna.
2. O axioma da queda no progresso (ou recesso) infinito. Cada afirmação necessita um princípio ou axioma; cada princípio ou axioma necessita de uma nova fundação; que necessita de um novo dogma assentador, etc. Um sério inimigo do Idealismo Romântico; mas Kant, p.ex., parece nada sofrer com este tipo de refutação! A cura é o a priori. E o a priori kantiano leva de volta à teoria das reminiscências ou metempsicose, que muitos atribuem, originalmente, ao hinduísmo. Podemos fazer 2 analogias a respeito do axioma da progressão/regressão infinita: a criança que sempre perguntará “por quê?” após qualquer resposta a um outro por quê; na própria mitologia hindu, quando se diz que o mundo é um disco sustentado por um elefante que jaz sobre o dorso de uma tartaruga, que faz as vezes de Átlas… Já se vê onde (não) quero chegar. Interessantíssimo: descobri que há pelo menos 3 versões independentes do mesmo mito com pequenas variações (o da tartaruga-suporte): a indiana, a chinesa e a de aborígenes americanos.
3. O tropo que eu chamo de “Zagallo” (o patriota fake): Nenhum juiz é isento para julgar o que quer que seja, pois só ocupa um lugar relativo, e portanto errado de acordo com todo outro juiz. Com efeito, é um argumento muito sagaz contra patriotas de última ocasião e/ou numerólogos maníacos (Olavos)! Falando mais sério, significa que nem mesmo se se admitisse em geral que Platão é ‘o filósofo’ e encontrara a Verdade, por exemplo, nem mesmo isto é aceito pelos céticos.
4. Este argumento é engenhoso porque parece uma refutação cética contra os próprios argumentos 1-2-3: Existe sim este Absoluto do qual derivam todas as causas. Ex: a matemática de Euclides. Ou seja, é possível aceitar um princípio sem prova. Mas o hic salta (o momento da verdade ou, neste caso, da falta de verdade) é: o cético se beneficiaria da mesma regra. Significa parar de remar e aceitar que tudo é água (mais uma vez atestando que são os céticos que “param de procurar”, não os platônicos!). A suprema resignação. A opinião do sábio aplanada, nivelada à opinião vulgar. (Argumento engenhoso, que já denota, porém, o desespero do filósofo cético.)
5. Prova circular. Variante do 2º tropo, mas em que em vez de derivar-se de axioma em axioma em linha reta ao infinito, deriva-se em um círculo vicioso. Situação do viajante no tempo e do destino inalterável: tudo é a causa de tudo, nada é a causa de nada. A e B se sobredeterminam. Aporia. É um infinito-no-finito. A solução parece ser a mais fácil de todas: a correta compreensão da imanência (compreensão do mundo como aparências auto-suficientes, contidas em si mesmas, consigo mesmas como fundamento primeiro e fim último) leva à consideração desta derivação axiomática não como um círculo vicioso, mas como um círculo virtuoso. Autoevidência da verdade.
Esses 5 pontos seriam os Elementos ou a Bíblia dos Céticos. Atemporais e independentes de demonstrações no mundo fenomênico.
De modo que os adversários de Sexto Empírico se vêem forçosamente na situação do ladrão que perdeu e foi pego já antes de empreender sua fuga, pois não conseguem abstrair até que ponto vai a malícia e a antecipação do daimon (gênio) de seu rival, o captor:
Supondo que o ladrão antecipasse que, na única via que pode usar para fazer a travessia, o amontoado de moitas estranhamente situado sobre a grama ou a estrada na verdade ocultam um insidioso alçapão, e pule para a esquerda ou para a direita, rente ao muro, para tentar atravessar pelo estreito umbral que lhe resta, eis que descobre que o umbral era a verdadeira armadilha, pois aciona uma corrente que o prende ou então uma bigorna que cai do céu em sua cabeça; não que a moita realmente não cobrisse um buraco, mas ela servia apenas para dar confiança ao suposto astuto ladrão e forçá-lo ao xeque-mate (distração antecipada). Uma amarelinha maldosa em que o jogador já perdeu antes de começar.
Como falei de Kant como panacéia ao 2º tropo, H. também o considera na continuidade do texto (aula):“Para o criticismo, que não conhece em-si algum, nada absoluto, todo saber sobre o que é em-si como tal é dogmatismo, quando em realidade é o mais furioso dos dogmatismos, enquanto assegura que o Eu, a unidade da consciência de si mesmo, oposta ao ser, é em-e-para-si e que à margem dela está o em-si, como 2 fatores que não podem, em absoluto, coincidir.” O engraçado é que Hegel vê em Kant tudo o que nós não vemos: uma repulsão extrema ao Absoluto. Quando o que mais se critica na epistemologia kantiana é seguir se referindo ao que não existe como se existisse (este em-si divorciado da realidade fenomênica)! Ou seja: Hegel tacha Kant de radical; nós de carola! Ainda era possível ir além, e a filosofia pós-hegeliana mostrou que a solução era voltar a Kant para enfim superá-lo. De certo modo a Filosofia Continental sempre pode ser caracterizada como a oposição polar de 2 figuras, desde Platão-Aristóteles a várias duplas mais recentes, Marx-Nietzsche, por exemplo: dois sucessores-negadores. Marx continua o historicismo hegeliano subvertendo-o; Nietzsche, acerbo crítico da moral (cristã, ocidental), na verdade é um salvador da moral (no sentido mais universal) e da noção de valor, destarte tributário do Kantismo…
* * *
“Honra ao ceticismo o haver chegado a adquirir esta consciência acerca do negativo, concebendo as formas do negativo deste modo determinado.”
“Se, não obstante, o ceticismo se atreve a se enfrentar com este algo propriamente especulativo, não poderá atentar contra ele em nada; seu procedimento contra o racional consiste, pois, em geral, em fazer dele algo determinado, nele introduzindo uma determinação finita do pensamento ou um conceito de relação ao qual se atém, mas que não reside, muito menos, no infinito, argumentando logo contra ele; quer dizer, consiste em concebê-lo de um modo falso, assim o refutando. Ou antes diríamos que arma ele mesmo ao infinito com as unhas com que há de arranhá-lo.” The dog that bites the hand that feeds. O cachorro que morde a mão que alimenta.
“Hoje até o especulativo se converte em algo tosco; pode alguém ater-se à palavra e, no entanto, aparece invertida a coisa, ao despojar-se o especulativo da identidade do determinado.” Convenhamos que não teria graça refutar Max Stirner pela lógica.
“Ora, o saber do especulativo requer, além da disjuntiva, um terceiro termo; é um tanto este como o outro e um nem este nem o outro.”
Um todo, ou o Um, não é só Um, embora não seja dois. É que o Um é a negação de si. Neste sentido é que H. prefacia sua história com a estranha terminologia “o Um (se des)dobra”, a consciência, o filosofar, se duplica sobre si mesmo(a). O todo é sempre o todo em relação consigo. A consciência é sempre a consciência de si mesma (consciência x consciência, onde ‘x’ é o terceiro termo ou a ‘relação’ – relação-com-a-consciência é uma contradição ou insuficiência, pois só pode haver relação-com-a-consciência-e-a-consciência, desdobramento ensimesmado). Toda consciência necessariamente se nega, porém necessariamente apenas para se reafirmar ao fim do processo. “O compreender-se a si mesma da razão é precisamente o modo como o todo compreende todas as suas partes, quando se o enfoca em seu verdadeiro sentido especulativo, e só neste sentido pode-se falar aqui desta relação.” “O ceticismo pertence, portanto, ao período de decadência da filosofia e do mundo.”
13.2 IDADE DAS TREVAS: DO NEOPLATONISMO À ESCOLÁSTICA OU O MILÊNIO PERDIDO
FOSSILIZAÇÃO DO MUNDO-VERDADE CUJO AUGE SE DEU EM PLATÃO: “O ponto de vista geral da filosofia neoplatônica ou alexandrina consiste, portanto, em se criar sobre a base da perda do universo que seja, dentro de sua exterioridade, um mundo interior e, portanto, um mundo reconciliado; e este mundo é o da espiritualidade, que aqui começa.”
“A mesma liberdade, bem-aventurança, imperturbabilidade que perseguiam como fim o epicurismo, o estoicismo e o ceticismo segue sendo agora, é verdade, uma aspiração para o sujeito; mas facilitadas essencialmente pela orientação em direção a Deus, do interesse pelo verdadeiro em-e-para-si, e não da evasão do objetivo”Eis o maior erro: pressupor que as massas podem cumprir esse desígnio sábio imanente!
“É falso o que sói dizer-se, que não é necessário conhecer Deus para conceber esta relação. Porquanto Deus é o primeiro, é Ele quem determina a reação; destarte, a fim de chegar a saber o quê é o verdadeiro da relação é necessário conhecer Deus.”Supondo que isso estivesse correto, também estaria correto que matar Deus é igualmente necessário ao final do processo…
“A palavra tem sido considerada sempre como uma manifestação de Deus, porque não é corporal; enquanto som, desaparece imediatamente; sua existência é, pois, imaterial.” A música e a palavra como símiles eternos de Hegel para a transitoriedade e o efêmero, como a chave para entender, ao menos, sua Estética.
“em realidade, quando estabelecemos o ser, o nada do ser é o pensamento, algo muito positivo.” Por mais boba, pedestre e trivial que soe, esta frase é fundamental para compreender H.!
“Proclo marca a culminação da filosofia neoplatônica; ora, esta filosofia segue se manifestando até uma época muito tardia, inclusive através de toda a Idade Média.” Período nulo em termos de filosofia. Não perder nenhum segundo com estes autores!
Um paradoxo: Hegel chama os gregos de incompletos e ingênuos, mas a primeira parte de suas aulas, módulo 1 de 3, dedicado ao mundo antigo, ocupa 75% de sua obra… Agora a marcha do Espírito mal tem o que fazer…
“Dessa forma, a Igreja se acha governada pelo Espírito para poder se ater às determinações da idéia, mas sempre de um modo histórico. Tal é a filosofia dos Padres da Igreja” Em outras palavras: os Padres da Igreja estavam certos até serem abandonados pelo Espírito, que se alojou em Luteros e Calvinos! Pra onde Ele foi? Onde estará agora?!
A maior obra do período escolástico (que alguns subdividem em patrística-escolástica, sendo esta pertencente à 1ª parte), Cidade de Deus, de Sto. Agostinho, não consta das palestras hegelianas…
14. REALISMO X IDEALISMO: POR TRÁS DAS CORTINAS, NACIONALISMO.
H. deixa claro – realismo e idealismo não são 2 rios ou 2 vias de mão única. Não há simetria. O realismo certamente só pode confluir num sentido – do particular (dados imediatos, que não deixam por isso de ser mentais), pois são fenômenos, para AS IDÉIAS; e ainda assim não A IDÉIA, isto é, a mais elevada de todas, o ABSOLUTO. Para H., a investigação empírica só funciona para descobrir leis da física ou uma ou outra lei política ou princípio ou axioma do Direito. Mas o idealismo conflui nos 2 sentidos, é muito mais perfeito. Pelo pensamento (o Único) se acessam as coisas; pelas coisas – o particular – se chega ao geral, ao pensamento do absoluto (A IDÉIA). Em síntese, a experiência é limitada, embora seja humana e, de qualquer forma, melhor do que a abstração vácua (escolástica). Veja que há “geral” e “geral” em H.: gerais e gerais; uns são apenas conceitos (o limite do realismo), outros são apenas uma fase intermediária do idealismo. O geral está sempre em contraposição ao determinado, que é o fenômeno puro, poder-se-ia dizer, carente da generalização sistemática – mas tem-se de perguntar: em qual contexto? De qual geral se está falando? Sempre que se ler H. isto tem sua importância.
I – As coisas são sempre meio, nunca fins.
II – Os fins, se determinados pela experiência, são apenas meios para os fins absolutos ideais.
“E contudo ambas as direções vêm convergir num ponto comum, já que também a experiência, por sua vez, se esforça por derivar das observações princípios e leis gerais; já o pensamento, partindo do geral abstrato, necessita se dar um conteúdo determinado, por onde o apriorístico e o aposteriorístico não formem 2 campos absolutamente deslindados. Na França, impôs-se preferencialmente o geral abstrato; na Inglaterra prevaleceu, na contramão, o geral, o critério da experiência, que ainda hoje goza de grande recomendação naquele país; a Alemanha, em compensação, tomou como ponto de partida a idéia concreta, o interior do homem, pleno de ânimo e espírito.” Nonsense. Hegel quer dizer que em seu país se está no melhor dos mundos; que em sua filosofia se está no verdadeiro. No mais verdadeiro que os outros verdadeiros! O difícil para Hegel é ir além do a priori kantiano, que é um tipo muito especial de a priori, mais elevado que o a priori francês, se podemos assim dizer. Aqui não é o lugar para tratar do criticismo kantiano, que é, efetivamente, a síntese correta, e antes mesmo de Hegel aparecer. Seja como for, Hegel tem de recorrer a um suposto Espírito do Mundo para pretender estar um grau acima de Kant em objetividade. Uma objetividade divina (em-si!)! Alega que não só a representação mental, mas o mundo como matéria viva, o em-si kantiano, não-partícipe da experiência, é sinônimo com sua representação mental, mas se, e somente se, se souber “rastreá-lo”, “sentir seu cheiro”, que é o que ele faz em seu Historicismo. Isso, no entanto, é o vulgar e depreciativo de sua filosofia. O em-si só pode ser em-si enquanto for inessencial no sentido hegeliano, i.e., o que se chama a partir de Schopenhauer de vontade, e que a terminologia existencialista abandonará, mas continuará usando implicitamente. O que é inessencial não tem “agenda própria”, não tem fim em vista, teleologia, apenas é, com-o-homem.
15. BACON
“Ainda que não o soubesse nem se desse conta, a filosofia de Bacon empurrava a essa confusão quanto ao conteúdo. Pois ainda que em rigor rechaçasse a dedução de um modo geral e só admitisse as conclusões indutivas, não resta dúvida de que ele mesmo incorre, inconscientemente, em deduções. Em parte, todos aqueles heróis da experiência que, seguindo Bacon, puseram em prática seus postulados e que crêem chegar ao conhecimento puro da coisa pela via da observação, o experimento e a experiência, o que fazem é proceder sem nenhuma classe de conclusões nem conceitos, compreendendo e concluindo tanto pior quanto mais crêem não ter nada a ver com os conceitos e, ademais, não remontam nunca o plano da indução até o conhecimento imanente e verdadeiro. Portanto, quando Bacon contrapõe a indução ao silogismo, formula uma contraposição puramente formal; toda indução é, ao mesmo tempo, uma dedução, coisa que já sabia também Aristóteles.”Toda observação é ideológica. Mas é possível construir novas ideologias mediante observações. Isso se conforma ao que eu havia afirmado parodicamente sobre criarmos o neologismo endução (12.1).
16. DESCARTES
“A 2ª fase é a da conciliação metafísica; e é realmente aqui onde, com Descartes, começa a filosofia da época moderna enquanto pensamento abstrato.” Descartes resumido como SUSPENSÃO ACEITAÇÃO. Pseudo-suspensão, já que depois todo o fenomênico é automaticamente aceito, pois provém de Deus em última instância, i.e., provém imediatamente de mim, da consciência pensante, e Deus não pode dotar meu intelecto de um erro ou de uma fraude metafísica. E no entanto isto já é suficiente, conforme H., para se adentrar a modernidade: “E assim se apresenta o problema de como é ou pode ser o pensamento idêntico ao objetivo. Com isso, destaca-se por si mesmo e se converte em objeto o interior, o que serve de base a esta metafísica; estamos já plenamente dentro da filosofia moderna.” “agora os pensadores vivem em condições completamente distintas daquelas em que viveram os filósofos dos tempos antigos.”
“Para que haja um silogismo tem de haver 3 termos; aqui, concretamente, teria que haver um 3º que servisse de mediador, de elo entre o pensar e o ser; mas este 3º termo não existe. [13.1] O «logo» ou «portanto» que enlaça ambos os lados não é o «logo» ou o «portanto» de um silogismo; a conexão entre o ser e o pensar se estabelece somente de um modo imediato. Esta certeza é, desta forma, o prius; todas as demais proposições vêm depois.” penso existo – um pleonasmo, redundância, tautologia, auto-referência e nada mais. Não no sentido de deboche do que é. A auto-referência por excelência, além do mais. O “ponto zero” do plano cartesiano, de onde parte todo o pensamento metafísico moderno.
“no ser não há de representar-se, muito menos, um conteúdo concreto; daí que é a mesma identidade imediata a que constitui também o pensamento. (…) a imediatidade é uma determinação unilateral; o pensamento não contém esta determinação somente, senão também a de servir de mediador consigo mesmo: a imediatidade existe precisamente pelo fato de que o mediar é, simultaneamente, suspender [erguer e sustar] a mediação.” eu penso eu existo; (eu) (eu); je = je, eu = eu; a rigor, não existe sequer o “”, elemento relacional, que designa ou conota MEDIAÇÃO, já que é uma Imediação. O (je)² é a própria mediação. pensexisto. pensamentosser. É o principio de individuação de Aristóteles em seu grau máximo formulado da forma mais sintética. Esta imediação não contempla, ainda, o inconsciente enquanto tal (é o ser no aqui e agora, mas não o Ser total).
“como com freqüência sucede em sonhos, posso crer que vejo ou que me desloco, apesar de que sequer abra meus olhos nem me mova do lugar”A rigor, pensa-se no sonho, o que enfraquece o discurso cartesiano. Ainda que em simulacro, há uma certeza na representação onírica de que se pensa, pois apesar de não ser em vigília o ato é efetivamente levado a cabo, idêntico ao pensar.
“O 3º é, assim, o trânsito desta certeza rumo à verdade, ao determinado; também este trânsito apresenta em Descartes um caráter simplista, e com isso se oferece a nossa consideração, pela 1ª vez, a metafísica cartesiana.” “Ora, a verdade de todo saber descansa sobre a prova da existência de Deus” Podemos resumir as meditações cartesianas como uma tentativa mal-sucedida (mas corajosa) de resgatar a alegoria da caverna de Platão; obviamente, o que este magnânimo pensador consegue de modo completo numa fábula autocontida, Descarte mal e mal consegue em uma frase, ou seja, não consegue sustentar por mais do que 3 palavras, com o mesmo poder, o tipo de raciocínio-em-direção-à-essência. Não é culpa do francês: o fato de haver um Deus monoteísta a que se deve remeter todos os achados atrapalha bastante…
A suprema ironia é que o que prova ontologicamente o eu e a outridade neste caso é o princípio <NIHIL EX NIHILO> (nada deriva do nada), quando na era cristã, justamente, tudo depende desse motto. Ter-se-ia que imaginar uma sociedade (a Atenas clássica?) que não crê em genealogia ou escatologia (o contrário dos modernos) e que fundamentasse sua filosofia no Nada (o contrário dos modernos) para se dar conta de tamanho paradoxo!
17. SPINOZA
Muito encontrado em outras grafias, como Espinosa.
«Deus é causa imanente, mas não transitiva (transiens) de todas as coisas», quer dizer, externa. Sua essência e sua existência são o mesmo, a saber: a verdade. Uma coisa que fôra determinada a fazer algo, fôra necessariamente determinada por Deus, já que Deus é a causa: e sendo esse seu destino, não pode carecer de determinação. Na natureza não há nada contingente. A vontade não é uma causa livre, senão exclusivamente necessária, exclusivamente um modo; isto quer dizer que se acha determinado por outro. Deus não atua com vistas a causas finais (sub ratione boni).Quem o afirma parece estatuir, ao lado de Deus, algo que não depende de Deus e sem relação com os desígnios de Deus, como se fôra um fim. Concebido assim o problema, Deus não seria uma causa livre, mas achar-se-ia submetido ao fatal. E igualmente insustentável é querer submeter tudo à arbitrariedade, isto é, a uma vontade indiferente de Deus.”Sp., Ética – os trechos em vermelho são muito importantes, pois mostram que Spinoza não está submetido a nenhuma teleologia, i.e., historicismo, hegelianismo… Obviamente ele é muito criticado por H. devido a essa escolha filosófica.
“O desenvolvimento de seu pensamento é extraordinariamente simples ou, melhor dizendo, não é desenvolvimento algum; arranca diretamente do espírito.” Algo mais específico eu deixarei para evidenciar quando ler a Ética em si, por isso não sublinhei de verde, embora desse vontade! Quem sabe Spinoza não figurará num novo capítulo da HISTÓRIA DAS IDÉIAS?
“Spinoza afirma que o que se chama universo não existe de modo algum, pois é só uma forma de Deus e não algo em-e-para-si. O universo não possui uma realidade verdadeira; o todo se lança ao abismo de uma identidade única. Nada é, portanto, na realidade finita: esta não possui verdade alguma; para Spinoza, somente Deus é.” H. chama isso de acosmismo (meu deus, quanta expressão feia nesse trabalho!).
“Quem pinta nosso filósofo com cores tão negras esquece de manter Deus de pé, valorizando em troca o finito, o temporal; e esfrega na cara de Spinoza sua própria anulação e a do mundo.” Porque ele disse que tudo era vaidade, em termos filosóficos, aí está! Todo filósofo é odiado por isso pelos filosofastros…
“O sistema spinozista é o do panteísmo e o do monoteísmo absolutos, elevados ao plano do pensamento. O spninozismo dista muito, então, de ser um ateísmo no sentido corrente da palavra; mas efetivamente o é no sentido de que nele não se concebe Deus como espírito. Nesse mesmo sentido poderíamos, todavia, acusar de ateísmo muitos teólogos que só denominam Deus o Ser supremo, onipotente, etc., e que não querem, na realidade, reconhecer Deus, só atribuindo verdade ao finito; e as doutrinas destes são bastante mais perigosas que as de Spinoza.” Um livro interessante para quem está no seminário DE PADRES (me refiro a este de H., mas não nego que a Ética de Spinoza, pelas citações já lidas, também deva sê-lo bastante!).
“E, assim como Spinoza se limitava a considerar estas representações, já que o mais alto, para ele, era sua desaparição na Substância una, Locke se detém a investigar como nascem estas representações[filósofo especializado no para-si] e Leibniz, por sua parte, contrapõe a Spinoza a pluralidade infinita dos indivíduos, se bem que todas as suas mônadas têm como essência fundamental a mônada una. [filósofo especializado no em-si] Ambas as filosofias surgem, pois, como reação contra as unilateralidades spinozistas, aqui postas de manifesto.” Podemos dizer que Spinoza foi o maior filósofo do ser-em-si-e-para-si até seu tempo (obviamente estou excluindo Platão), na nomenclatura de Hegel. Até mesmo H. – que é nosso antípoda tantas vezes – teria de concordar!
18. O CÉTICO EMPIRISMO OU EMPÍRICO CETICISMO DOS BRITÂNICOS
“A idéia de substância (que Locke toma em pior sentido que Spinoza), idéia complexa, procede do fato de que percebemos, com freqüência, idéias simples tais como a idéia de azul, a idéia de algo pensado, etc. Nos representamos esta justaposição como algo que sustenta por igual aquelas idéias simples, no que estas idéias existem, etc. Assim deduz Locke também o conceito geral de potência. E pela mesma via deriva, à continuação, as determinações de liberdade e necessidade, de causa e de efeito.” Tudo o que Kant resolve em um enunciado este senhor tem de debulhar mal e mal em páginas e páginas…
“Bem podemos afirmar que não cabe conceber nada mais superficial que esta derivação das idéias.” “Ao falar do espaço, p.ex., confessa Locke que não sabe o que é em-si. Esta chamada análise lockeana das representações complexas e sua chamada explicação das mesmas lograram encontrar uma acolhida geral em razão de sua clareza e nitidez pouco comuns. Afinal, existe algo mais claro que dizer que o conceito de tempo provém de que percebamos o tempo, e o conceito de espaço de que vejamos o espaço? Os franceses, sobretudo, aceitaram-no de contínuo e o desenvolveram; sua Ideologia não contém, na verdade, mais do que isso.”
“ali onde o pensamento é algo concreto por natureza, onde o pensamento e o geral aparecem identificados com o extenso, carece de todo interesse e inclusive de sentido o perguntar-se qual é a relação entre ambos, que o pensamento desdobrara. Como supera o pensamento das dificuldades que ele mesmo [o pensamento] criara? Ocorre que em Locke não se cria nem se desperta nenhuma dificuldade. [muito menos solução] E para que possa se satisfazer a necessidade de reconciliação é necessário que se comece por sentir a dor do desdobramento.” Na filosofia continental, filosofa-se com a dor (digo, ela é sintoma, ou pode ser sintoma, de que se está filosofando, efetivamente); na filosofia britânica, filosofa-se com o tédio, l’ennui.
“A sociabilidade, p.ex., é um momento que encontramos na experiência, já que o homem obtém da sociedade múltiplos benefícios. Ora, em que se baseia a necessidade do Estado, da sociedade? Em uma inclinação social. Esta é a causa. Exatamente o mesmo que na Física: o físico efetua sempre este tipo de tradução formal. [vazia] A necessidade de uma existência, p.ex. a dos fenômenos da eletricidade, encontra sua fundamentação em uma causa que os produz; é simplesmente a forma da redução do exterior ao interior, do ente ao pensado, o qual se representa, não obstante, por sua vez, como um ente.” A conta quem paga somos nós, dos séculos XX e XXI, herdeiros da Colônia inglesa nas Américas. Do mais vil imperialismo que já grassou neste so-calledplanet. Se Hegel soubesse que o Espírito do Mundo reuniria a Terra numa Aldeia Global com estes ‘capitães’, teria reformulado seu sistema ainda em vida.
“Newton foi indubitavelmente quem mais contribuiu para a difusão da filosofia de Locke ou da maneira inglesa de filosofar, em geral, e em particular para sua aplicação a todas as ciências físicas. Seu lema era «Física, guarda-te de metafísica!», o que vem a querer-dizer, mais ou menos: ciência, guarda-te de pensar!” HAHAHAHAHA!
“A natureza mesma se encarrega de refutar essa deplorável maneira de experimentar, pois a natureza é algo muito mais excelente que o que esses míseros experimentos dela nos dizem: ela mesma e o contínuo experimentar dão o melhor desmentido desses falsos métodos. E, assim, vemos que dos esplêndidos descobrimentos newtonianos em matéria de ótica só um fica de pé: a divisão da luz em 7 cores: em parte porque o que se ventila aqui é o conceito do todo e das partes, e também graças a uma determinação insensível perante o contraposto.”Já dediquei até um post sobre isso. Mas uma última palavra: creio que um dia diremos, esquecendo Cristo, e nos lembrando de Isaac Newton somente para esquecê-lo (lembrarmo-nos constantemente de conservá-lo esquecido): ANO XXX DEPOIS DE NÃO-NEWTON (ex: 272 d.¬N., para assinalar que não vivemos mais no mundo ocidental ou na modernidade que conhecemos). Obviamente meus tetranetos já serão caveiras até lá. Mas já vivemos em algum ano a.¬N., se serve de consolo!
O HOMEM-ESCADA: “Devemos expor, na seqüência, o ceticismo de Hume, que adquiriu maior notoriedade histórica do que em si merece; o importante nele, do ponto de vista histórico, consiste em que Kant arranca, em realidade, desta doutrina a fim de construir sua própria filosofia.”
19. LEIBNIZ
Muito encontrado em outras grafias, como Leibnitz.
“Gottfried Wilhelm (barão de) Leibniz nasceu em 1646, em Leipzig, onde seu pai era professor de filosofia.” Deve ser o único filósofo da história filho de outro filósofo!
“Todas estas ocupações, tão díspares, não foram obstáculo para que descobrisse, em 1677, o cálculo diferencial, a propósito do qual se viu arrastado a uma disputa com Newton, na qual, por certo, mantiveram uma atitude pouco nobre tanto este como a Sociedade de Ciências de Londres. Os ingleses, que propendiam a atribuir todo este método matemático a Newton e eram bastante injustos com os demais, não levavam em conta que os Principia newtonianos viram a luz com posterioridade ao descobrimento de Leibniz, e em uma nota à 1ª edição, que mais tarde desapareceu, faz-se o elogio do filósofo alemão.” ‘Obscenidades’ que não deveriam estar num livro hegeliano de história da filosofia, digo, do Espírito do Mundo. A verdade é que este assunto, além disso, mesmo para uma historiografia da matemática, seria controverso e haveria necessidade de abordá-lo em mais parágrafos: ao que tudo indica, Newton já possuía o conhecimento do cálculo diferencial (não se descobre algo assim, o termo correto seria inventar), porém tinha o hábito de publicar apenas muito vagarosamente, após reunir mais material e ‘sentir a recepção’ das idéias na comunidade matemática, ao passo que outros autores como René Descartes e o próprio Leibniz publicavam imediatamente após concluírem artigos e teses, sem constrangimento em se autocontradizerem ou desmentirem de seguida. Aqui o patriotismo de H. foi provavelmente em vão, apesar de estar certo quanto ao caráter protecionista dos ingleses! Ler https://seclusao.art.blog/2021/05/26/historia-da-matematica-uma-visao-critica-desfazendo-mitos-e-lendas-tatiana-roque-2012/.
“às percepções da consciência Leibniz chama apercepções.” O vocabulário da filosofia vai enriquecendo, mas com isso não se garante que enriqueça a filosofia mesma. Apercepção, que em Kant é um termo incognoscível (o que não compromete compreendê-lo), significa, pois, originalmente: a representação conceituável (pensável). O que é mais que pura aparência (a dor, as cores, o mais primitivo de cada sentido), embora decorra evidentemente do fenômeno.
+ 2 VOCABULÁRIOS KANTIANOS:«Estas verdades eternas descansam sobre 2 princípios: um é o da contradição, outro o da razão suficiente.»
20. JUÍZO HEGELIANO ACERCA DA DEFICIENTE METAFÍSICA MODERNA
“À filosofia antiga podemos retornar constantemente, compreendendo-a e reconhecendo-a; é uma filosofia satisfatória, situada em sua própria fase de evolução, um ponto central concreto que dá satisfação à missão do pensamento, tal e como se a enfoca. Em troca, esta metafísica moderna a que nos estamos referindo não faz outra coisa senão desenvolver os antagonismos até convertê-los em contradições absolutas. Tudo bem que se indica a solução absoluta delas, Deus, mas somente como uma solução abstrata, situada no além; no aquém, ficam de pé todas as contradições, sem resolução quanto a seu conteúdo.”
21. O MATERIALISMO FRANCÊS SUI GENERIS
“Esta essência vazia é para nós, em geral, o pensamento puro, o que os franceses chamam o être suprème (ser supremo), ou se representa objetivamente como algo que é, como algo que aparece diante da consciência, como a matéria.” “É o conceito que se apresenta numa atitude puramente destrutiva, que não se desenvolve de novo com base nesta matéria ou neste pensamento puro, nesta pura substancialidade. Aqui vemos manifestar-se livremente, então, o chamado materialismo e ateísmo, como resultado necessário da pura consciência-de-si compreensiva. “Só permanece a essência presente e real, pois a consciência-de-si só reconhece o em-si como algo que existe para ela como consciência-de-si, na qual se sabe, portanto, real: a matéria, como aquilo em que pode estender-se e realizar-se na pluralidade, a natureza. No presente, tenho a consciência de minha realidade; e, em conseqüência, a consciência-de-si se encontra a si mesma como matéria, a alma como algo material, as representações como movimentos e câmbios no órgão interior do cérebro, que seguem as impressões externas dos sentidos.” Ultrapassado? Talvez. Mas sempre que relembramos esta etapa do pensamento, nos excitamos, como por exemplo diante das ingênuas questiúnculas de Descartes. Ah, França!
“O estado religioso, com seu poder e sua magnificência, com a corrupção dos costumes, com a cobiça, a sede de honras, a canalhice, para as quais se pede, entretanto, reverência e acatamento: toda esta contradição que existia na realidade se deve ter bem presente se se quiser compreender o sentimento de rebelião que se apoderou destes escritores.”Atualíssimo!
H. diz: apesar de Hume muito ter contribuído, a verdadeira transição da filosofia carente-moderna ao Kantismo (a filosofia moderna verdadeira que começa, não isso de cartesianismo!) se dá mesmo é com Rousseau. Ele é a ponte entre a Grã-Bretanha e a Alemanha, (!) nada de Canal da Mancha!
22. KANT: A NÊMESE DO ESPÍRITO DE HEGEL
“O próprio espírito deve dar testemunho ao espírito de que Deus é o espírito; o conteúdo deve ser o verdadeiro. Mas isto não se comprova porque se me revele a mim, porque a mim se me assegure.” E com esse delírio que é um recuo escolástico, mas que H. pensa que é seu passo a mais, chegamos à conclusão de que ele e Kant são como água e óleo, pois K. é opaco a H.!
“Claro está que agora tudo se chama intuição, inclusive o pensamento, a consciência; Deus, apesar de pertencer só ao pensamento, pode ser captado também mediante a intuição, por meio da chamada consciência imediata.” O que há que resetar do kantismo é a parte em verde.
“Trata-se de uma faculdade de caráter especial; e somente quando se sucedem ambas as coisas, i.e., quando os sentidos prescrevem a matéria, e o entendimento tenha com ela combinado seus pensamentos, brota o conhecimento. Os pensamentos do entendimento como tal são, destarte, pensamentos limitados, pensamentos do finito.
Pois bem, a lógica, enquanto lógica transcendental, estabelece os conceitos que o entendimento encontra a priori nele mesmo e mediante os quais pensa os objetos completamente a priori. Os pensamentos têm esta forma: são a função sintetizadora através da qual o múltiplo se reduz à unidade. Esta unidade sou eu, é a apercepção transcendental, o aperceber puro da consciência de si, eu = eu; o eu deve «acompanhar» todas as nossas representações.” Recordando: Percepção: sensação pura e simples. Apercepção: sensação que é mais geral que a anterior, embora siga sendo imediata, e que não é conceitual por assim dizer, dado nosso próprio nível de exigência do que deva ser um conceito. Isto é: não só as rachaduras da parede do meu quarto, cujo padrão é mais ou menos indescritível, mas os próprios tempo e espaço: estas são apercepções. Diferente da qualidade da mesa na qual apóio agora meus cotovelos, a umidade de meus cachos agora que acabei de sair de um banho, o ruído ambiente… Espaço e tempo são de onde emanam todos esses fenômenos, e eu apenas acabo de abstrair o que é a extensão territorial e a dinâmica da sucessão em duas palavras específicas; porém não posso manusear tempo e espaço como um relógio e dizer mais do que isso sem incorrer em besteirol; esse é meu limite. Posso fazer poesia sobre espaço e tempo, sobre as rachaduras na minha parede (sobre estas últimas, posso até escrever de forma técnica), mas continuará sendo uma determinação fundamental que determina meu próprio ânimo (visão, tato, no máximo, no caso das rachaduras) e o limite do que posso expressar nesta poesia.
“Existem, portanto, segundo Kant, 12 categorias fundamentais, divididas em 4 classes; e não deixa de ser curioso, e ademais meritório, que cada gênero esteja formado, por sua vez, por uma tríade.” Poderemos seguir fazendo uma pseudometafísica só reformulando essas categorias ad infinitum… Pouco importa seu número, seus nomes… Pelo menos pouco importa segundo o que o indivíduo quer com o mundo e com a vida – que esteja claro! E essa obsessão hegeliano-pitagórica pelo número 3 é algo que não cabe em filosofia séria.
“4) A 4ª classe são as categorias da modalidade, da relação do objetivo sobre nosso pensamento; possibilidade, existência (realidade) e necessidade. A possibilidade deveria ser o 2º; mas, com relação ao pensamento abstrato, a representação vazia é o 1º.” Incluí esse trecho para ilustrar um dos vários momentos em que não sabemos se é H. que está superinterpretando e julgando ou se está apenas expondo ipsis litteris a filosofia kantiana. Como é um detalhe sem relevância da Crítica da Razão Pura, eu não me recordo dessa passagem – não sei se quem o diz é Kant ou Hegel, querendo corrigi-lo! Eu até chutaria que é o 2º, pois julgo que Kant não concordaria com o termo “representação vazia”.
“O enlace deste algo duplo é, a propósito, uma das páginas mais belas da filosofia kantiana, em que se unem a sensibilidade pura e o entendimento puro, predicados anteriormente como termos absolutamente antagônicos. Contém-se aqui um entendimento intuitivo ou uma intuição intelectiva; mas não é assim como o entende Kant, que não junta estes pensamentos: não compreende que unifica, deste modo, ambas as partes integrantes do conhecimento, expressando com isso o em-si do mesmo.” O mais engraçado dos grandes filósofos é que avançam precursoramente dizendo aquilo que nem eles mesmos entendem, para que em seguida alguém os interprete corretamente (e por sua vez cometa mais erros parecidos lá na frente)! Se isso não é intuição transcendental da mais enraizada e incontestável eu não sei o que é!
“A razão é, portanto, segundo Kant, a faculdade para conhecer a partir de princípios, i.e., para conhecer o particular no geral, por meio de conceitos; o entendimento, pelo contrário, chega ao particular pela via da intuição. Mas as próprias categorias são algo particular. O princípio da razãoem geral é, segundo Kant, o geral, enquanto que encontra o incondicionado para o conhecimento condicionado do entendimento. Sendo assim, o entendimento é, para ele, o pensamento em condições finitas; a razão, na outra mão, o pensamento que faz do incondicionado seu objeto. Desde então, a terminologia filosófica se acostuma a distinguir entre o (simples) entendimento e a (elaborada) razão, distinção com que não nos encontramos nos filósofos antigos. O produto da razão é, segundo Kant, a idéia—expressão platônica—; por idéia entende Kant o incondicionado, o infinito. É uma grande frase esta de que a razão produz idéias; mas em Kant a idéia é somente o geral abstrato, o indeterminado.” E se Platão concorda com Kant, como ficamos, H.?
“é o Eu, o pensante, uma substância, uma alma, uma coisa anímica? Mais adiante se pergunta se é algo permanente, imaterial, incorruptível, pessoal, imortal, e algo que mantenha uma comunidade real com os corpos. A falsidade do raciocínio consiste em que a idéia racional necessária da unidade do sujeito transcendental predique-se como uma coisa, pois só assim se converte em substância o que há nela de permanente. De outro modo, encontrar-me-ia a mim mesmo evidentemente como algo permanente em meu pensamento; mas somente na consciência perceptiva e não fora dela. O Eu é, assim, o sujeito vazio, transcendental, de nossos pensamentos, que só por meio de seus pensamentos é conhecido; mas sem que, partindo daí, possamos chegar a formar-nos nem o mais leve conceito do que é em-si. (É esta uma distinção demasiado repelente, pois o pensamento não é outra coisa que o em-si!) Não podemos predicar dele nenhum ser, pois o pensamento é uma mera forma, e não obtemos a representação da essência pensante por uma experiência externa, mas simplesmente pela consciência-de-si, ou seja, porque não podemos tomar o Eu nas mãos, não podemos vê-lo, cheirá-lo, etc. Sabemos perfeitamente bem, sem dúvida, que o Eu é o sujeito; mas, se remontamos sobre a consciência-de-si e dizemos que é substância, vamos além do que temos o direito de ir. O Eu não pode, pois, dar ao sujeito nenhuma realidade.
Aqui vemos Kant cair na contradição entre a barbárie das idéias que refuta e a barbárie de suas próprias idéias, que não saem do marco daquelas refutadas. Tem, em 1º lugar, toda a razão quando afirma que o Eu não é uma coisa anímica, um algo permanente e morto, dotado de existência sensível; e, em realidade, se houvesse de ser uma coisa comum e corrente, teria que cair também, necessariamente, dentro do campo da experiência; em 2º lugar, Kant não sustenta o contrário disso, a saber, que o Eu, como este pensar-o-geral e pensar-se-a-si, tenha em si mesmo a verdadeira realidade que exige como modo objetivo, senão que não sai da representação da realidade segundo a qual esta consiste em ser uma existência sensível, em vista do quê, como o Eu não se dá em nenhuma experiência externa, não é real. (…) dito de outro modo: Kant só concebe a consciência-de-si, pura e simplesmente, como algo sensível.” Ao exportar o em-si, K. recai para trás até de Descartes com sua certeza!
“A necessidade destas contradições é justamente o lado interessante que Kant (Crítica da razão pura, p. 324) traz a nossa consciência, já que segundo a metafísica comum e corrente se o um rege há que dar-se o outro lado por refutado. E, no entanto, o que há de importante nesta afirmação de Kant vai dirigido contra sua intenção. Pois ainda que seja certo que Kant (Crítica da razão pura, pp. 385 e seguinte) dissolva estas antinomias, dissolve-as somente no peculiar sentido do idealismo transcendental, que não nega ou põe em dúvida a existência das coisas exteriores, apenas «permite que as coisas sejam intuídas no espaço e no tempo» (para o qual não se necessita contar com nenhuma autorização); porém, para ele «o espaço e o tempo não são, em si mesmos, tais <coisas>; eles não existem fora de nosso ânimo»; quer dizer, todas estas determinações de princípio no tempo, etc., não correspondem às coisas, ao em-si do mundo mesmo dos fenômenos, que existe para-si fora de nosso pensamento subjetivo.” Sim, são mera retórica kantiana, que ‘inventa’ uma antinomia, i.e., uma possibilidade de refutação de seu sistema, que apenas jogará aos leões, porque seu sistema já nasce irrefutável. A lógica usada em cada uma é a antiga (pré-criticismo), e a síntese é a lógica a partir de Kant. É um artifício que infla muito a espessura da Crítica da Razão Pura.
“Isto é, Kant não chega a estabelecer justo aquela síntese do conceito e do ser, ou seja, a compreender a existência, a estabelecê-la como um conceito; a existência segue sendo para ele simplesmente algo diferente do conceito.” Não chegou aos existencialistas.
“Deste ponto de vista, a consciência-de-si-mesmo é sua própria essência, enquanto que a razão teórica tinha outra, distinta: concretamente, no primeiro caso o Eu é, em seu caráter individual, essência imediata, generalidade, objetividade; a subjetividade tende, em segundo lugar, à realidade, mas não à realidade sensível, a que antes encontrávamos, senão que, aqui, [na Crítica da Razão Prática]a razão faz-se passar pelo real. Aqui, é o conceito aquele que tem a consciência de sua defeituosidade, coisa que não devia ter a razão teórica, já que o conceito tem de seguir sendo tal conceito. Impõe-se, então, aqui, o ponto de vista do absoluto, já que o homem encerra em seu peito algo infinito. Tal é o que há de satisfatório na filosofia kantiana: ela cifra o verdadeiro ao menos no ânimo do homem, só mediante o qual reconheço aquilo que se acha em harmonia com minha própria determinação.”Obviamente que a Crítica da Razão Prática seria o livro mais adorado pelo protestante Hegel! Matou o Sol Absoluto de Platão no peito e saiu jogando – fintando dialeticamente – no time da Metafísica (talvez contra o Entendimento Pensante Futebol Clube) para marcar um GOOOLAÇO… Infelizmente para Hegel, não aposentaram a camisa 10 após sua morte, porque a despeito de toda sua autopresunção ele não era Pelé e as próximas gerações ofuscaram-no…
“Uma das determinações extraordinariamente importantes da filosofia kantiana é a de que deve se reduzir a si mesma aquilo que a consciência-de-si considera como a essência, a lei e o em-si. Conforme o homem persiga este ou aquele fim, conforme julgue desta ou doutra maneira o mundo ou a história, o quê deve reputar como seu fim último? Para a vontade, não existe outro fim senão aquele retirado dela própria, o fim de sua liberdade.” A brecha perfeita para o Historicismo hegeliano: uma mal-formulada ética laico-cristã!
QUIXOTADAS, DITIRAMBOS & AFORISMOS SÁBIOS
Todos queriam ser Hegel.
Todos queriam estar depois de Hegel.
Não, todos queriam estar depois deste sujeito pós-hegeliano!
Eis o pau que não matará nenhuma cobra
Nem mostrará o instrumento homicida a ninguém!
Quem chegar por último…
Morre nauseado e solteiro.
Dom Quixote tem uma história. Não existe um Dom Quixote que se olvide.
O filósofo não tem o direito de censurar seus amigos por esquecerem que ele existe! Esse é um problema muito pessoal…
O FILÓSOFO COMO UM ELETRICISTA: Fases de curto-circuito da verdade.
TWIN PEAKS & DAVID LYNCH: Tudo tem um propósito, o resto é garmonbozia.
QUANDO O IDEAL É MAIS REAL DO QUE O REAL: O real é uma parte pequena do meu feudo. O contrato ideal.
Como se poderia pensar que se poderia pensar exatamente o que Tales pensou?! Tendo uma auto-estima de mil Budas, talvez, ou nem assim!
Eu escrevo que Hegel escreveu que Aristóteles escreveu que Tales disse (escreveu, por suposto, mas este escrito não sobreviveu) que o princípio (não no sentido de começo mas de importância) de todas as coisas era a água. Ironicamente qualquer manuscrito único, por mais importante que fosse, não poderia dar notícias ao futuro se fosse umedecido.
Um elo entre um nada e outro nada ainda menor.
A avant-garde do Nada. A retaguarda do império.
Não só mataram Deus como transaram com seu cadáver.
Nem todo humanismo é uma filosofia, mas toda filosofia é um humanismo.
Quando você desenvolve uma dialética só para poder ser autocontraditório à vontade (e se masturbar para o número 3)!
Na missa a missiva: às premissas, mas sem pressa!
Um filósofo que subestima Platão NÃO é um filósofo.
Diógenes Laércio e Plutarco só servem para confundir as gerações futuras. São ilegíveis hoje!
Nunca se conseguiu comprovar se Pitágoras realmente existiu. Às vezes era só uma pegadinha de estudantes, e deram o nome de Pitágoras a um burro que era o mascote oficial da seita!
O MONÓLOGO-DIÁLOGO ILUSTRADO
Kant: O conceito é pensável porque é antes de tudo sensível…
Hegel: O conceito é sensível porque é antes de tudo pensável!!!
Kant & Hegel: O conceito só pode ser pensado porque é essência-e-aparência!
Kant: Sim, finalmente estamos de acordo em alguma coisa!…
Hegel: No que mais poderíamos concordar?
Kant: Hm, deixe-me ver… Se eu fosse você, acho que me aprazeria exprimir assim: o não-conceito não pode ser pensado, pois ou é só essência ou é só aparência.
Hegel: Com efeito! E você, Kant, escreve frases tais quais: o não-conceito pode ser sentido quando é só aparência; o não-conceito não pode ser sentido quando é só essência (sua coisa-em-si!). Ou seja, o conceito é sentido como não-conceito (apenas como aparência)…
Kant: Ficamos bons na arte de invertermos os papéis! E assim você concluiria, Hegel: a essência pura é inacessível enquanto não integrar um conceito.
Esculpir bebês para parir estátuas.
Sócrates foi condenado à morte porque descobriu o inconsciente. 2200 anos depois um austríaco fraudulento vai criar uma associação internacional para enganar a civilização dizendo que ele descobriu o inconsciente!
mundo verdade, mundo-vedado.
Hegel se embaralha metendo Deus no bagulho do Um!
O único espelho do mundo é o mundo mesmo.
Portanto, desça do púlpito e volte ao mundo-verdade verdadeiro!
Percebe o que deixaste para trás na primeira olhada abstrato-panorâmica do cenário!
Conceptos como cáscaras vacías del Ser.
Deus como uma rodinha de skate.
O ponto euclidiano como patas de uma aranha em eterno debate descoordenado.
Seria o niilismo apenas um subconjunto do hegelianismo? A exportação lenta e gradualíssima de um mal da intelligentsia ao “povão”? A história desse espraiamento?
Talvez o maior livro de meta-dados que se pudesse escrever fosse uma biografia de Diógenes Laércio! Fonte: Diog. Laér.
Os maiores rivais dos escépticos eram os assépticos, pois gostavam de ter uma discussão muito limpa!…
6º “Empírico” era cético, grande tirada!
É essencial que saibas que a essência não existe!
Em si o ceticismo está correto – era uma piada!! Cof, cof… A evolução final do sofista, o SUPERSOFISTA.
A Roma nossa de todos os dias. O Protestantismo da Filosofia procrastina a morte da Filosofia, para o mal de todos… Rola-se a dívida especulativa (duplo sentido desdobrado, arrotado e peidado em si mesmo saindo como suor pelos poros respirados em seqüência)…
Jesus, o primeiro teleólogo da Terra.
A solução mundial deveria consistir em vedar qualquer trânsito e comunicação entre ocidente e oriente. Cultural ou de ogivas nucleares. Tudo que for cultura ocidental e bomba atômica fica do lado do Tio Sam. A nós, orientalistas, nossos nirvanas sutis, mil odores de rosas que aprendemos a distinguir… E então chega-se à Unidade do Mundo verdadeira, já que o Ocidente – para lá – é só um além, nem é mais mundo…
Aporia… Ah, poria… algo mais?! Limite fenomênico. Limite-se, fenomênico! KNOW HOW TO LIE – LIE & REST. Já deuS.
MAIS HEGEL (& ASSOCIADOS)? OUTROS POSTS DO SECLUSÃO, referenciados durante o artigo.
HISTÓRIA DAS IDÉIAS 1: Introdução à Epistemologia Hume-kantiana
O QUE ARISTÓTELES E STEPHEN HAWKING TÊM EM COMUM? Um pouco sobre a contenda edipiana Física x Metafísica: Mal-entendidos comuns entre uma e outra, do ponto de vista filosófico, passando por figuras ilustríssimas como Von Humboldt, Freud e Alfred Jarry!
“En este último tomo de las Lecciones sobre la historia de la filosofía se concentra el final de la filosofía griega, que unida a la revolución operada en el mundo por el cristianismo abre una época totalmente nueva, la filosofía medieval —cuyo espíritu, hay que reconocerlo, no fue comprendido por Hegel— [HAHAHA] y, por último, la filosofía moderna, que cierran las magníficas exposiciones¹ de Kant, Fichte y Schelling.
[¹ Assim espero – não me desaponte!…]
De acuerdo con la idea hegeliana que rige estas Lecciones, todos los milenios transcurridos desde el inicio de la filosofía con Tales de Mileto hasta el momento mismo en que Hegel dicta su curso, han sido necesarios para que pudiera llegar a producirse la filosofía alemana de esta época, pues el Espíritu del Mundo marcha siempre con paso lento y perezoso hacia su meta.”
PRIMERA PARTE:
LA FILOSOFÍA GRIEGA (cont.)
SECCIÓN TERCERA:
TERCER PERÍODO: LOS NEOPLATÓNICOS
“La última fase con que nos habíamos encontrado —la que representaba el abandono de todo lo firme y objetivo, la huida a la abstracción pura e infinita de suyo, la absoluta pobreza de contenido determinado, con la consiguiente satisfacción subjetiva y el retorno a sí misma de la conciencia de sí— había encontrado su coronación y remate en el escepticismo, aunque ya el sistema estoico y el epicúreo marchasen hacia la misma meta.”
“Esta idea inculcada en el hombre de que la esencia absoluta no es nada extraño para la conciencia de sí, de que para él no significa nada la esencia en que no vive su conciencia de sí inmediata, este principio se revela ahora como el principio general del Espíritu del Mundo, como la creencia y el saber generales de todos los hombres; con él se transforma de golpe todo el aspecto del universo, se destruye todo lo anterior y se produce un renacimiento del mundo.”
“Cicerón pone de manifiesto como pocos filósofos un desconocimiento completo acerca de la naturaleza de su Estado y de la situación en que se encontraba”
“El poder romano es el escepticismo verdadero. Pues bien, este carácter de la generalidad abstracta como despotismo absoluto, que va directamente unido en la desaparición de la vida del pueblo a la individualización de la atomística, como el retraimiento a los fines e intereses de la vida privada, es el que vemos llevarse a cabo con una correspondencia perfecta en el campo del pensamiento.”
“En el mundo griego, sobre todo, vemos cómo se esfuma la alegría de la vida espiritual para dejar paso al dolor y la angustia producidos por esta ruptura.”
“Esta fe en el milagro, que es al mismo tiempo la falta de fe en la naturaleza presente, lleva aparejada asimismo la incredulidad en cuanto al pasado o en cuanto al hecho de que la historia sólo haya sido lo que realmente fue. Toda la historia y la mitología verdaderas de los romanos, los griegos y los judíos, y hasta las palabras y las letras sueltas, cobran ahora otra significación: son algo roto de suyo, encierran un sentido interior que es su esencia y se manifiesta en forma de letras y signos vacíos de contenido, que son su fenómeno.” Não está exagerando?
“Dios, el ser simple de los judíos, vivía para ellos fuera de la conciencia de sí; semejante Dios piensa, indudablemente, pero no es el pensamiento; se halla más allá de la realidad, es solamente la alteridad del mundo intuido a través de los sentidos.”
“La idea en el pensamiento puro —la idea de que Dios no hace esto exteriormente como un sujeto, de que todo esto, por tanto, no acaece como una resolución casual de Dios y como producto de una ocurrencia suya, sino de que Dios produce este movimiento como una sucesión de momentos de su esencia que se manifiestan así como su eterna necesidad en sí mismo, que no forma parte para nada de las condiciones del acaecer— la encontramos expresada en algunos judíos filosofantes o platónicos determinados.”
“Ya en la filosofía pitagórica se manifestaba la diferencia en forma de tríada; en Platón veíamos, después, la idea simple del espíritu como la unidad de la sustancia indivisible y de la alteridad, aunque solamente como una mezcla de ambas.”
FOSSILIZAÇÃO DO MUNDO-VERDADE CUJO AUGE SE DEU EM PLATÃO: “El punto de vista general de la filosofía neoplatónica o alejandrina consiste, por tanto, en crearse a base de la pérdida del universo un universo que sea, dentro de su exterioridad, un mundo interior y, por tanto, un mundo reconciliado; y este mundo es el de la espiritualidad, que comienza aquí.”
“La misma libertad, bienaventuranza, imperturbabilidad que perseguían como fin el epicureísmo, el estoicismo y el escepticismo, sigue siendo ahora, es verdad, una aspiración para el sujeto; pero facilitadas esencialmente por la orientación hacia Dios, del interés por lo verdadero en y para sí, y no de la evasión de lo objetivo”Eis o maior erro: pressupor que as massas podem cumprir esse designio sábio imanente!
“Ahora bien, en cuanto que la voluntad humana se determina como algo negativo frente a lo objetivo, surge el mal por oposición a lo afirmativo absoluto.”
“La desventura del mundo romano estaba en abstraerse de aquello en que el hombre venía encontrando su satisfacción; esta satisfacción nacía precisamente de aquel panteísmo por virtud del cual el hombre veía la verdad y lo supremo en las cosas naturales, en el aire, el fuego, el agua, etc., y en sus propios deberes, en la vida política del Estado. Ahora, en cambio, sobreviene la desesperación en el dolor del mundo acerca de su presente, aparece la falta de fe en estas formas y manifestaciones del mundo natural finito y en el mundo moral de la vida del Estado”
“Es falso lo que suele decirse de que no es necesario conocer a Dios para concebir esta relación. Por cuanto que Dios es lo primero, es Él quien determina la relación; por tanto, para llegar a saber qué es lo verdadero de la relación es necesario conocer a Dios.”Supondo que isso estivesse correto, também estaria correto que matar Deus é igualmente necessário ao final do processo…
“diremos algunas palabras acerca de Filón, el judío, y señalaremos algunos momentos interesantes que se presentan en la historia de la Iglesia.”
“Bajo el reinado de Calígula, Apión atacó duramente por escrito a los judíos, y Filón fue enviado a Roma como embajador de su pueblo, con la misión de inculcar a los romanos un concepto mejor del que de él tenían.”
“Filón compuso una larga serie de obras, de las cuales se conservan todavía muchas, por ejemplo las que llevan por título Sobre la estructura del universo, Sobre las recompensas y los castigos, Sobre los sacrificios, Sobre la ley de las alegorías, Sobre los sueños, Sobre la inmutabilidad de Dios; las obras que de Filón se han conservado aparecieron en folio en 1691, en Francfort, y reeditadas más tarde por Pfeiffer en Erlangen. Filón era famoso por su multifacético saber y se hallaba muy familiarizado con los filósofos griegos.
Los dos rasgos que caracterizan a este pensador son: la asimilación de la filosofía platónica y su esfuerzo por poner de manifiesto la filosofía de las Sagradas Escrituras judaicas. Los relatos y descripciones de su historia del pueblo judío se distinguen porque en ellas el autor pierde todo el sentido inmediato de la realidad. A todo atribuye un significado mítico y alegórico, empeñándose por descubrir a Platón en Moisés.”
“El espíritu de la filosofía obliga a los judíos a buscar en sus libros sagrados, como obligó a los paganos a buscar en Homero y en la religión popular, un profundo significado especulativo, y a presentar sus escritos religiosos como un sistema perfecto de sabiduría divina.”
“En la historia, en el arte, en la filosofía, etc., lo importante es siempre que aparezca expresado lo que se quiere expresar”
“Lo prosaico ha desaparecido; por eso, en los autores del siguiente período los milagros son algo usual y corriente”
Filón, De mundi opificio
“como cuando decimos: «Dios Padre», es decir, este Uno no revelado, indeterminado de suyo, que aún no ha creado nada; lo otro es la determinación y la distinción con respecto a sí mismo, la creación. Lo creado es su otro, lo que a un tiempo es en él, lo que también le pertenece como suyo y es, por tanto, un momento de sí mismo, siempre y cuando concibamos a Dios como concreto y vivo”
“La palabra ha sido considerada siempre como una manifestación de Dios, porque no es corporal; en cuanto sonido, desaparece inmediatamente; su existencia es pues inmaterial.” A música e a palavra como símiles eternos de Hegel para a transitoriedade e o efêmero, como a chave para entender, ao menos, sua Estética.
“en realidad, cuando establecemos el ser, la nada del ser es el pensamiento, algo muy positivo.”Por mais boba e trivial que soe, esta frase é fundamental para compreender H..
“Llámase cábala a la sabiduría secreta de los judíos, en la que se deslizan, sin embargo, muchos elementos turbios; y también sus orígenes aparecen envueltos entre nubes de fábula. Dícese que esta sabiduría se contenía en dos libros: el Jezirah (Creación) y el Zohar(Resplandor). El primero de estos dos libros, considerado como el principal y atribuido a un rabí llamado Akiba, espera en la actualidad una edición más completa que prepara el Sr. v. Mayer, en Francfort.(*)
(*) Apareció en 1894, traducido y anotado por Goldschmidt [E.].” E no entanto é basicamente só o segundo (e falo de pequenos trechos) que se encontra por aí hoje.
“La cábala no tiene evidentemente un origen tan antiguo como el que sus adoradores le atribuyen, pues según ellos este libro divino le fue entregado a Adán para consolarlo del pecado original. Es una mescolanza de preceptos de astronomía, de magia, de medicina y de profecía. El rastro histórico revela que estas ciencias y estas prácticas eran cultivadas en Egipto. Akiba vivió poco después de la destrucción de Jerusalén y tomó parte en la revuelta de los judíos contra el emperador Adriano, en la que aquéllos lograron levantar un ejército de 200 mil hombres para proclamar como Mesías a Barcoquebas; pero la rebelión fue sofocada y el rabino desollado vivo. El segundo libro fue compuesto, al parecer, por un discípulo suyo, el rabí Simeón Ben Joachi, llamado la Gran Luz, la chispa de Moisés. (Brucker) Ambos libros fueron traducidos al latín en el siglo XVII. Un israelita especulativo, el rabí Abraham Cohen Irira, escribió también un libro titulado La puerta del cielo (Porta coelorum), pero éste es posterior, del siglo XV, y denota ya relaciones con los árabes y los escolásticos.”
“Antiguamente, no se encontraba en los judíos nada que guarde relación con esas ideas en que se representa a Dios como una luz, en perpetua lucha con un ser hecho de sombra y que encarna el mal, nada de ángeles buenos y malos, de la caída de los ángeles malos, de su condenación, de su estancia en los infiernos, del juicio final en que habrán de ser juzgados los buenos y los malos y de la corrupción de la carne. En estos libros, los judíos empiezan a remontar sus pensamientos por encima de la realidad. Empieza a abrirse ante ellos un mundo espiritual o, por lo menos, un mundo de espíritus, ya que hasta ahora estos judíos no veían más allá de los horizontes de su propia vida, hundidos en la basura y las pretensiones de su existencia y entregados por entero a la conservación de su pueblo y de sus generaciones.
La cábala viene a ser, sobre poco más o menos, lo siguiente. Lo Uno aparece proclamado como el principio de todas las cosas, es también la fuente primigenia de todos los números. Pero, así como la unidad no es un número de tantos, otro tanto acontece con Dios, fundamento de todas las cosas, el Ensoph. La emanación relacionada con ello es el efecto de la primera causa, logrado mediante la restricción de aquel primer fundamento infinito al que aquélla sirve de límite.” “Primeramente se producen 10 emanaciones de éstas, Sephiroth, que forman el mundo puro, azilútico, a cuyo ser es ajeno todo cambio. Viene después el mundo briáhtico, sujeto a mudanzas. El tercer mundo es el mundo formado o jezirático (…) Viene, en cuarto lugar, el mundo hecho o asiáhtico, que es el mundo más bajo de todos, el mundo sensible y vegetativo.” Somos todos Asiáhticos!
“Los gnósticos, que aparecen divididos en muchas sectas, tienen como fundamento determinaciones semejantes a las que ya hemos expuesto. El profesor Neander las ha reunido con gran acopio de erudición y las ha estudiado en detalle; algunas formas corresponden a las que hemos señalado más arriba. Su orientación era el conocimiento (γνῶσις), de donde esta corriente toma, además, el nombre.” TAL, Neander. Conhecimento primitivo, 120.000.000 a.C..
“Uno de los gnósticos más destacados es Basílides. También él considera como lo primero al Dios indecible (θεὸἄςάρρητος), que es el Ensoph de la cábala”
Neander, Genetische Entwicklung der vornehmsten gnostischen Systeme «Evolución genética de los sistemas gnósticos más importantes»
“La ciudad de Alejandría habíase convertido, en efecto, desde hacía mucho tiempo, sobre todo gracias a los Tolomeos, en la sede principal de las ciencias. Aquí entraban en contacto, se influían mutuamente y se entremezclaban, como en su verdadero centro, todas las religiones y mitologías de los pueblos de Oriente y Occidente, lo mismo que su historia, bajo las más diversas formas y manifestaciones. Las religiones eran comparadas las unas con las otras: en cada una de ellas se buscaba y acoplaba lo que contenían las otras; y, sobre todo, se atribuía a las representaciones religiosas un profundo significado y un sentido alegórico general.
Estas tendencias engendraron y tenían, evidentemente, que engendrar oscuros abortos, el más puro de los cuales es la filosofía alejandrina, ya que la fusión de las filosofías tenía que resultar más fácil que aquellas otras combinaciones de tipo religioso que no son sino turbios engendros de una razón que aún no ha llegado a comprenderse a sí misma.”
“La modalidad de la filosofía cultivada en Alejandría no seguía, por tanto, las huellas de ninguna escuela filosófica anterior determinada, sino que en sus manifestaciones reconocía como una unidad los diversos sistemas de la filosofía, principalmente el pitagórico, el platónico y el aristotélico, lo cual hace que se la presente, muchas veces, como eclecticismo. Brucker (Hist. crit. phil. t. II, p. 193) es, según lo que yo he podido ver, el primero que ha emitido este juicio; le dio pie para ello, sin embargo, Diógenes Laercio” “Por otra parte, Diógenes es anterior a la escuela de Alejandría, y Pótamo fue, según Suidas (s.v.Ποταμών, t. III, p. 161), preceptor de los hijastros de Augusto: para un maestro de príncipes, hay que reconocer que el eclecticismo es una doctrina muy adecuada. [ironia?] Y como este Pótamo era alejandrino, Brucker se cree autorizado a extender la calificación de ecléctica a la filosofía alejandrina en su conjunto, lo cual ni es justo en cuanto a la cosa misma, ni refleja tampoco la verdad histórica.
El eclecticismo es algo muy malo si se le toma en el sentido de una mescolanza que se forma inconsecuentemente, tomando unas cosas de una filosofía y otras de otra, como esos vestidos hechos con retazos de distintas telas y diversos colores.” “las gentes listas que proceden así conscientemente, creen lograr lo mejor tomando lo bueno de cada sistema, como lo llaman, para formarse de este modo un acervo con los mejores pensamientos; con lo que reúnen indudablemente todo lo bueno, pero nunca la consecuencia del pensamiento ni, por tanto, el pensamiento mismo.” “En este sentido, también fue ecléctico Platón, ya que en su filosofía se unifican los principios de Pitágoras, Heráclito y Parménides; como son eclécticos los filósofos de Alejandría, en cuanto que tienen tanto de pitagóricos como de platónicos y aristotélicos. Lo que ocurre es que este calificativo de «ecléctico» lleva siempre consigo la idea de la mescolanza y la selección.”
“La filosofía neoplatónica no formaba, pues, una escuela filosófica propia y especial como las anteriores, sino que las reunía y unificaba todas, aunque consagrándose de un modo muy especial al estudio de Platón, Aristóteles y los pitagóricos.” “Estos comentarios de los filósofos antiguos se ofrecían en forma de cursos o por escrito; se han conservado muchos de ellos, algunos de los cuales son, hay que reconocerlo, excelentes.” “Los mejores comentarios proceden de esta época; la mayoría de las obras de Proclo son comentarios acerca de diálogos sueltos de Platón”
“Ammonio Saccas, que quiere decir «cargador de sacos», aparece citado como uno de los primeros o más famosos maestros de esta escuela; murió el año 243 d.C.. Pero no poseemos ninguna obra de él, ni ha llegado tampoco a nosotros la menor noticia acerca de su filosofía. Entre los numerosos discípulos de Ammonio figuraban muchos hombres famosos en otras ciencias, por ejemplo Longino y más tarde Orígenes, aunque no se sabe con seguridad si sería éste, realmente, el famoso Padre de la Iglesia. Pero el más célebre de los discípulos de Ammonio, como filósofo, fue Plotino, cuyas obras son las que más han contribuido a dar a conocer la filosofía neoplatónica. La posteridad atribuye a Plotino, en realidad, todo el conjunto coherente de esta filosofía, considerándola, en rigor, como suya.
Los discípulos de Ammonio juramentábanse, según los deseos de su maestro, para no poner por escrito su filosofía en ninguna clase de obras; así se explica por qué Plotino no empezó a escribir hasta muy tarde; en realidad, las obras que de él se han conservado no fueron editadas sino hasta después de su muerte por uno de sus discípulos, Porfirio.”
“Plotino era egipcio y nació hacia el año 205 d.C., en Licópolis, bajo el gobierno de Septimio Severo. Después de haber estudiado con muchos maestros filosóficos, fue formándose en él un carácter melancólico y cavilador; a los 28 años, conoció a Ammonio, en cuya enseñanza encontró, por fin, su espíritu la paz y la satisfacción que buscaba, habiendo permanecido por espacio de 11 años al lado del nuevo maestro.
Como por aquel entonces estaba en gran predicamento la sabiduría india y brahmánica, Plotino se enroló en el ejército del emperador Gordiano que había de tomar parte en la campaña de Persia, pero el fracaso de esta expedición hizo que se frustrase el propósito de Plotino, el cual sólo a duras penas logró salvar la vida. Cumplidos ya los 40 años, se trasladó a Roma, donde permaneció por espacio de 26, hasta que le sorprendió la muerte.” Nada acontecia, porcada (antes de inventarem a feijoada!).
POR FALAR EM CARNE, ALIÁS: “En Roma llevó una vida bastante singular, absteniéndose de comer carne, a la manera de los pitagóricos, sometiéndose a frecuentes ayunos y vistiendo, además, el traje de los pitagóricos antiguos.” Por isso morreu antes dos 70, tsc.
“El emperador Galiano que ocupaba a la sazón el trono y que le tenía en gran estima, lo mismo que la emperatriz, estaba inclinado, según se cuenta, a conceder al filósofo una ciudad de la Campania para que instaurase en ella la república platónica. Los ministros impidieron, sin embargo, la realización de este plan y no cabe duda de que obraron muy cuerdamente, pues dada la situación exterior del imperio romano y el completo cambio operado en el espíritu de los hombres desde los tiempos de Platón, es indudable que una empresa como ésta, de haber llegado a realizarse, no habría servido, ni mucho menos, para honrar a la república platónica — menos aún que en tiempos del propio Platón. Y suponiendo que semejante plan hubiese sido concebido por el mismo Plotino, no dice mucho ciertamente en su favor; sin embargo, no es posible saber a ciencia cierta si su plan se refería exclusivamente a la república platónica o contenía ciertas ampliaciones o modificaciones. La implantación de un verdadero estado platónico habría sido ciertamente, en tales circunstancias, contrario a la naturaleza de las cosas, ya que la república imaginada por Platón era un Estado libre e independiente, cosa que en modo alguno podía ser evidentemente la república que se proyectaba instaurar dentro del marco del imperio romano.”
“Las obras de Plotino fueron reunidas bajo el título general de Enéadas, 6 en total, cada una de las cuales contiene 9 estudios sueltos. Poseemos, por tanto, en conjunto, 54 estudios o libros de éstos, cada uno de los cuales se divide, a su vez, en numerosos capítulos; trátase, pues, de una obra muy extensa y ramificada. Sin embargo, el conjunto de estos libros no forma un todo coherente, sino que, realmente, cada uno de ellos aborda y trata filosóficamente una materia distinta, lo que hace que sean verdaderamente fatigosos la lectura o el estudio de toda la obra.”Como se Aristóteles tivesse decidido deixar por escrito o que fôra o Platonismo, portanto…
“hay algunos libros en los que pueden captarse bastante bien sus ideas, sin que la lectura de los demás represente un gran progreso. En Plotino predominan especialmente las ideas y las expresiones de Platón, aunque nos encontramos también en él con muchas prolijas exposiciones al modo aristotélico: las formas de la dínamis, la energía, etc., señaladas por Aristóteles son muy familiares a Plotino y su exposición y sus combinaciones constituyen uno de los temas predilectos de su estudio.”
“Ahora bien, si entramos a examinar más de cerca lo que esta filosofía es, vemos que en ella no se habla ya para nada de criterio, como en los estoicos y los epicúreos, sino que la tendencia de Plotino es a situarse en el centro, en la pura intuición, en el pensamiento puro. Por tanto, lo que constituye la meta para los estoicos y los epicúreos, la unidad del alma consigo misma en la ataraxia, es aquí el punto de partida: Plotino se coloca en el punto de vista que consiste en provocar este estado dentro de sí mismo como un estado de arrobamiento (ἔκστασις), así lo llama, como un estado de entusiasmo. Basándose, en parte, en este nombre mismo y, en parte, en la propia cosa se ha encontrado la razón para calificar a Plotino de místico y de estrafalario; y tal es en efecto la fama general de que aparece rodeada esta filosofía, con lo que, por otra parte, no deja de contrastar bastante el hecho de que cifre la verdad única y exclusivamente en la razón y en la comprensión.
Por lo que se refiere, en primer lugar, al nombre mismo de éxtasis, quienes califican a Plotino de místico ven en esto algo muy semejante al estado a que se transportan en su espíritu los indios, los brahmanes y los monjes y monjas locos que, para recogerse por entero dentro de sí mismos, se esfuerzan por sustraerse a todas las representaciones y a todas las sensaciones de la realidad que los rodea, hundiéndose en este estado de arrobamiento de un modo permanente y entregándose por entero a esta contemplación del vacío, ya vean en él una claridad o un reino de sombras, y sobreponiéndose a todo movimiento, a toda diferencia y, en general, a todo pensamiento. La mística cifra la verdad en un ser que ocupa un lugar intermedio entre la realidad y el concepto, en algo que no es realidad, pero que tampoco puede ser concebido, que no es, por tanto, sino un ente de la imaginación. Pues bien, Plotino se halla extraordinariamente alejado de todo esto.
Sin embargo, lo que le ha dado esta fama, por lo que se refiere a la cosa misma es, en parte, el hecho de que se rienda frecuentemente a llamar misticismo a todo aquello que trasciende la conciencia sensible o los conceptos determinados del entendimiento, considerados en su limitación como esencias; y, en parte, también su manera que consiste en hablar en general de conceptos, de momentos espirituales como si se tratase de verdaderas sustancias.”
“en las biografías de los grandes maestros de esta escuela, de un Plotino, un Porfirio y un Jámblico, encontramos, lo mismo que en la de Pitágoras, algunos rasgos de magia y milagrería. Y como, además, seguían conservando la fe en los dioses paganos, afirmaban con respecto a la adoración de las imágenes de los dioses que éstas se hallaban llenas, en efecto, de virtud y presencia divinas. (…) respecto a las imágenes de los dioses, no encontramos en las obras de Plotino nada semejante.”
“Es evidente que si llamamos misticismo a todo lo que sea elevarse al plano de las verdades especulativas que se hallan en contradicción con las categorías del entendimiento finito, tendremos que acusar también a los alejandrinos de esta culpa; pero con la misma razón podríamos, entonces, llamar mística a la filosofía de Platón o de Aristóteles. Es indudable que Plotino habla con entusiasmo de la exaltación del espíritu en el pensamiento; pero éste es, en realidad, el auténtico entusiasmo platónico, el elevarse a la órbita del movimiento del pensamiento.”
“Así concebido, es evidente que Dios es un más allá de la conciencia individual de sí mismo: de una parte, en cuanto esencia o pensamiento puro; de otra parte, en cuanto que Dios, como algo real y concreto, es la naturaleza misma, la cual se halla más allá del pensamiento. Pero precisamente esta modalidad objetiva retorna por sí misma a la esencia; o, dicho de otro modo, la individualidad de la conciencia es superada.” “La idea de la filosofía de Plotino es, por tanto, un intelectualismo o un elevado idealismo, el cual, sin embargo, por el lado del concepto, no es aún un idealismo acabado: pero aquello de que Plotino cobra conciencia en su éxtasis son, en realidad, pensamientos filosóficos, conceptos e ideas de carácter especulativo.”
“La revelación de lo infinito cabe representarse, en efecto, de muy diversos modos, y en los tiempos modernos se ha hablado mucho de lo que se produce partiendo de Dios, pero esto es siempre una representación sensible o algo inmediato. No se expresa con ello la necesidad del revelarse a sí mismo, sino que se establece simplemente un acaecer. Para la representación basta con que el Padre engendre al Hijo eterno; como aquella Trinidad aparece certeramente concebida la idea en lo que se refiere también al contenido, lo cual merece tenerse en alta estima. Pero el que estas determinaciones sean verdaderas no quiere decir que sea suficiente y satisfactoria, por ese solo hecho, la forma de la inmediatidad del movimiento para el concepto. Sino que, como el devenir de la unidad simple, en cuanto aquel levantamiento de todos los predicados, es precisamente esta misma negatividad absoluta que es en sí el producirse mismo, resulta que no se debe partir de la unidad para pasar luego a la dualidad, sino concebir ambas cosas como una sola.”
“la luz de la luz”
«La materia es un verdadero no-ser, como el movimiento que se destruye a sí mismo: la inquietud absoluta, pero quieta de suyo, es decir, lo contrario de lo que en sí misma es; es lo grande pequeño, lo pequeño grande, lo más que es menos y lo menos que es más. Así determinada, la materia es más bien lo contrario de lo que es; en efecto, intuida o establecida es como algo que huye; o no establecida, es algo establecido, lo simplemente engañoso.»
“También el mal, como lo contrapuesto al bien, comienza a ser ahora objeto de consideración, pues el problema del origen del mal necesariamente tiene que interesar a la conciencia del hombre de un modo general. Lo negativo frente al pensar es estatuido por los filósofos alejandrinos como materia; ahora bien, en cuanto que se presenta la conciencia del espíritu concreto, también lo negativo abstracto es concebido de este modo concreto como dentro del espíritu mismo y, por tanto, como lo espiritual negativo.”
«Ahora bien, ¿cómo se conoce el mal? En cuanto que el pensar se vuelve de espaldas a sí mismo, nace la materia; ésta sólo nace mediante la abstracción de lo otro. Lo que queda cuando retiramos las ideas es, decimos, la materia; el pensamiento se convierte, por tanto, en otra cosa, en un no-pensamiento, en cuanto que se atreve a proyectarse sobre lo que no es lo suyo. Así como el ojo se desvía de la luz para mirar a las tinieblas, en las que no puede ver —he aquí, precisamente, un ver que es un no-ver—, así también el pensamiento sufre lo contrario de lo que es para poder ver lo contrario a él.»
“No existiría el mal si no existiese la materia; la naturaleza del universo es una mezcla hecha de νοῦς y de necesidad. Ser entre los dioses quiere decir ser en el pensamiento, pues los dioses son inmortales. También podríamos concebir la necesidad del mal del modo siguiente: como el bien no puede existir solo, la materia es necesaria como contrapartida de él. O cabría decir, asimismo, que el mal es lo extremo mediante la continua degradación y la caída, lo que por este camino no puede llegar ya a ser; de todos modos, es necesario que exista algo después de lo primero, como lo extremo. Y esto es, en efecto, la materia, que no tiene ya nada de ello; en esto reside precisamente la necesidad del mal.»
“Los gnósticos convierten lo espiritual, lo intelectual, en lo único verdadero; pues bien, Plotino se declara rotundamente contrario a esta pura intelectualidad y mantiene como esencial la coordinación de lo real con lo inteligible. Plotino honraba a los dioses paganos, atribuyéndoles un sentido profundo y una profunda efectividad. Y así vemos que dice, en el mismo estudio (cap. 16): «No es despreciando al mundo y a los dioses en él y a las demás cosas bellas como puede el hombre alcanzar el bien. El malo desprecia a los dioses, y cuando lo hace es verdaderamente malo. La supuesta adoración de los dioses inteligibles (νοητοὺςθεούς) por los gnósticos no envuelve nada semejante (ἀσυμπαθὴςἂνγένοιτο)», es decir, no puede darse una armonía en los pensamientos y en el mundo real, cuando el espíritu se mantiene exclusivamente dentro de lo pensado.”
“Desdoblamiento, emanación, producción, alumbramiento, desprendimiento: son todas palabras muy empleadas también en los tiempos modernos, pero que no dicen nada. El escepticismo y el dogmatismo, como conciencia, como conocimiento, entrañan la contraposición de subjetividad y objetividad. Plotino desecha este antagonismo y se lanza a la región más alta, al pensamiento del pensamiento aristotélico; toma mucho más de Aristóteles que de Platón y, al hacerlo así, no procede dialécticamente, ni trascendiendo de sí mismo, ni retrotrayéndose de sí a sí mismo como conciencia.”
“De Porfirio se ha conservado también, entre otras obras, una «Introducción» al Organon de Aristóteles acerca de los géneros, las especies y los juicios, que son los momentos fundamentales en que el discípulo de Plotino expone la lógica del Estagirita. Esta obra ha sido utilizada en todos los tiempos como manual para exponer la lógica de Aristóteles y una de las fuentes de que disponemos para estudiar su forma; en realidad, nuestros tratados usuales de lógica contienen sólo poco más de lo que nos ofrece esta exposición de Porfirio.”
“Con Jámblico, desciende el pensamiento al rango de lo imaginativo y el universo intelectual se convierte en un mundo de ángeles y demonios, perfectamente clasificados, al paso que la especulación degenera en magia. Los neoplatónicos llamaban a esto teurgia (θεουργία)” “No se sabe con seguridad si la obra De mysteriis Aegyptiorum, atribuida a Jámblico, es realmente suya. Proclo habrá de asignar a esta obra, más tarde, una gran importancia, asegurando que de ella procede su idea fundamental.”
“Proclo marca la culminación de la filosofía neoplatónica; ahora bien, esta filosofía sigue manifestándose hasta una época muy tardía, incluso a través de toda la Edad Media.”Período nulo em termos de filosofia. Não perder nenhum segundo com estes autores.
“La Academia, el año 529 d.C., fue ordenada a la clausura junto con la escuela, por el emperador Justiniano, quien, además, expulsó de su reino a todos los filósofos paganos; entre ellos se encontraba Simplicio, famoso comentador de Aristóteles de cuyos comentarios hay algunos que no han sido publicados aún.”
“Se ha dicho: «lo que tenemos entre nosotros cuando, en nuestro gabinete, vemos cómo los filósofos disputan y se van a las manos, llegando a tales o cuales soluciones, no son más que abstracciones hechas de palabras». Pero esto es falso; completamente falso. No son tales abstracciones, sino hechos del Espíritu del Mundo y, por tanto, del destino.”
Um paradoxo: chama os gregos de incompletos e ingênuos, mas a primeira parte ocupa 75% de sua obra… Agora a marcha do Espírito mal tem o que fazer (e veremos que rodopia ainda muito vanamente quando o assunto é Filosofia Alemã!)…
SEGUNDA PARTE:
LA FILOSOFÍA DE LA EDAD MEDIA
INTRODUCCIÓN
“El segundo período llega hasta el siglo XVI, abarcando, por tanto, otros mil años, que procuraremos recorrer aquí con botas de 7 leguas.”
“Se ha llamado al conocimiento de esta necesidad una construcción de la historia a priori; pero de nada sirve tratar de desacreditar este método como inadmisible e incluso como un alarde de soberbia. Unos se empeñan en ver en la historia una evolución puramente contingente. Otros, tomando más en serio la providencia y el gobierno universal de Dios, se representan la cosa como si el cristianismo fuese algo ya preexistente y perfecto dentro de la cabeza de Dios, siendo lo contingente únicamente el momento en que aparece en el mundo.”
“Lo que se dice del hombre como tal, lo que es en general cada hombre en sí, es lo que aquí se representa bajo la forma del primer hombre, de Adán”
MÁ-FEZES:“Pues la idea filosófica es la idea de Dios, y el pensamiento tiene un derecho absoluto a ser reconciliado o, para decirlo de otro modo, a que el principio cristiano corresponda al pensamiento.”
“Y lo que la Reforma hace no es levantar un edificio doctrinal nuevo, sino limpiar el antiguo de sus aditamentos posteriores.” O lerdo Espírito do Mundo vacilou 1500 anos… Isso se tomarmos o ponto de vista protestante!!
“Con ello se abandona el desarrollo de los conceptos que forman la doctrina del cristianismo basada en la idea y obtenida a través de ella, para volver a la modalidad de su primera manifestación (…) de tal modo que hoy [NA ALEMANHA] sólo se considera como base del cristianismo lo que las fuentes narran acerca de su primera manifestación.”
“Claro está que, cuando del espíritu se trata, será necesario ver qué clase de espíritu es, pues los espíritus no son todos iguales, ni mucho menos.” HAHAHAHA!
“Se encuentra lo que se busca” HM
“Casi podría decirse que, de este modo, se ha querido hacer de la Biblia una especie de molde: el uno encuentra en ella esto y el otro aquello, y es que lo firme pierde en seguida su firmeza cuando se lo enfoca con espíritu subjetivo.”
Jesus, o primeiro teleólogo da Terra.
“Los gnósticos eran, pues, contrarios a la Iglesia de Occidente y ésta, al igual que Plotino y los neoplatónicos, combatió muchas veces y desde distintos puntos de vista al gnosticismo, precisamente porque estas doctrinas se atenían exclusivamente a lo general, concebían la representación bajo la forma de la capacidad imaginativa y oponían estas representaciones al Cristo encarnado (Χριστὸςἐνσαρκί).”
“Esta alma prisionera es llamada también por Manes el «hijo del hombre», o sea del hombre primigenio, del hombre celestial, de Adán Cadmón.” Prisioneira da matéria. Da carne e do pecado.
“los seres luminosos prisioneros hubieron de elevarse del ciclo de la metempsicosis a la unión directa y restaurada con el reino de la luz.” Tudo isso está na bíblia? Mas então temos que ter olhos de águia para ler essa porra e tirar algum proveito!
“Los arrianos consideran a Cristo como un hombre, lo exaltan al plano de una naturaleza superior, pero sin ver en Él un momento de Dios, un momento del Espíritu mismo. Es cierto que los arrianos no van tan allá como los socinianos, quienes ven en Cristo simplemente a un hombre extraordinario, a un maestro, etc., razón por la cual esta secta no formaba parte de la Iglesia, sino que se hallaba aún dentro del paganismo.” A descrição que se faz da crença arriana já dá a impressão de que eles afirmam isso que os socinianos afirmam… Bom, tanto faz, todos esses sectários eram queimados na fogueira igual nos tempos inquisitoriais! Eu sou a metempsicose destes meus pais azarados…
“De este modo, la Iglesia se halla gobernada por el Espíritu para poder atenerse a las determinaciones de la idea, pero siempre de un modo histórico. Tal es la filosofía de los Padres de la Iglesia” Em outras palabras: os Padres da Igreja estavam certos até serem abandonados pelo Espírito, que se alojou em Luteros e Calvinos! Pra onde ele foi? Onde está agora?!
“y no puede imaginase nada más torpe que la aspiración o el anhelo de algunos modernos de retrotraer la Iglesia a su forma primitiva.” Quem te viu, quem te vê! Já se olhou no espelho?
“Lo judaico se halla formado desde el primer momento por este sentimiento de su propia nulidad: es una miseria, una vileza, en que no hay nada que tenga vida y conciencia. Este punto concreto cobrará más tarde, en su tiempo, valor histórico-universal; y en este elemento de la nada de la realidad se eleva el universo entero, partiendo precisamente de este principio, al reino del pensamiento, en cuanto que aquella nada se trueca en lo positivo reconciliado.”
“sólo el nórdico ser-dentro-de-sí constituye el principio inmediato de esta nueva conciencia del mundo.” “Es como si tratase de apagar el sol para alumbrarse con bujías y arreglarse simplemente con imágenes; se reconcilia simplemente en sí, en su interior, y no para la conciencia: para la conciencia de sí existe solamente un mundo malo, pecaminoso.” “El Espíritu del Mundo había confiado a las naciones germánicas la misión de desarrollar el embrión, convirtiéndolo en la forma del hombre pensante.” Isso adquire cada vez mais os ares de uma saga d’Os Cavaleiros do Zodíaco em Asgard…
“Digamos, en líneas generales, algo acerca de estos fenómenos que no es posible calificar ciertamente de agradables.” Fala do mundo-verdade divorciado.
“La filosofía, al igual que las ciencias y las artes, obligadas a enmudecer en el Occidente bajo el imperio de los bárbaros germánicos, van a refugiarse entre los árabes, donde acusan un espléndido florecimiento; y de aquí refluyen luego al Occidente.” A solução mundial deveria consistir em vedar qualquer trânsito e comunicação entre ocidente e oriente. Cultural ou de ogivas nucleares. Tudo que for cultura ocidental e bomba atômica fica do lado do Tio Sam. A nós, orientalistas, nossos nirvanas sutis, mil odores de rosas que aprendemos a distinguir… E então chega-se à Unidade do Mundo verdadeira, já que o Ocidente – para lá – é só um além, nem é mais mundo…
“Dentro de este período habremos de estudiar primeramente, por tanto, la filosofía oriental, y en segundo lugar, la filosofía occidental; es decir, primero la filosofía de los árabes y después la filosofía escolástica. Los escolásticos son los principales personajes de este período en que ahora entramos: la escolástica es la filosofía europea de la Europa medieval. La tercera fase nos revela la disolución de los resultados establecidos por la filosofía escolástica”
SECCIÓN PRIMERA:
LA FILOSOFÍA DE LOS ÁRABES
“En Siria, que era un reino griego, en las ciudades de Antioquía y especialmente en las de Berito y Edesa, funcionaban importantes centros de enseñanza; de este modo, los sirios vinieron a ser el puente entre los árabes y la filosofía griega. El sirio era lengua popular incluso en Bagdad.”
“Una descripción especial de la filosofía árabe ofrece poco interés y, por otra parte, resultaría superflua, ya que lo fundamental de ella es común también a la filosofía escolástica.”
“Este panteísmo o, si se quiere, spinozismo es, así, la concepción general de los poetas, historiadores y filósofos orientales.”
“Por tanto, la actividad de Dios se representa como algo perfectamente irracional. Esta negatividad abstracta, combinada con lo uno que permanece, es uno de los conceptos fundamentales de la manera oriental de concebir el universo.”
“Alfarabi (…) De él se cuenta que había leído 40x el tratado Del oído, de Aristóteles, y 200x su Retórica, sin llegar a cansarse nunca; se ve que tenía un buen estómago.”
“Durante mucho tiempo, los occidentales no conocieron otra cosa de Aristóteles que estas retraducciones de sus obras y las traducciones de los comentarios de los árabes en torno a ellas.”
“Tras los árabes vienen los filósofos judíos, entre los que se destaca Moisés Maimónides. Maimónides nació en Córdoba de España el año 1131 (año del mundo de 4891 y, según otros, el 4895) y vivió en Egipto.” “En la filosofía de estos autores penetra, en gran parte, lo cabalístico en la astrología, la geomancia, etc.; en cambio, en las obras de Maimónides se toma como base la historia, lo mismo que en los escritos de los Padres de la Iglesia; el método seguido es el de una metafísica rigurosamente abstracta, entrelazada, al modo de los escritos de Filón, con los libros mosaicos y su explicación.”
SECCIÓN SEGUNDA:
LA FILOSOFÍA ESCOLÁSTICA
Primeiro grande equívoco: veremos que H. sequer cita Cidade de Deus.
“De categoriis, atribuidos a San Agustín (…) es una paráfrasis de la obra de Aristóteles sobre las categorías.”
“La filosofía escolástica presenta, en su conjunto, una apariencia unicolor. En vano se han esforzado hasta ahora algunos autores en introducir algunas diferencias y gradaciones en la dominación de esta teología, durante el período que va desde el siglo VIII y hasta desde el VI hasta casi el XVI. La filosofía escolástica, al igual que la arábiga, se desarrolla al margen del tiempo y, aunque así no fuera, la naturaleza misma de la cosa no permite clasificarla en diversos sistemas o manifestaciones, sino simplemente dar una caracterización y una indicación fundamental de los momentos que acusa realmente en la trayectoria del pensamiento.
Esta filosofía no es interesante por su contenido, ya que no es posible detenerse en él. No es en rigor tal filosofía; este nombre designa aquí en realidad más bien una manera general que un sistema, si es que cabe hablar, propiamente, de sistemas filosóficos. La escolástica no es una doctrina fija, al modo como lo es, por ejemplo, la filosofía platónica o la escéptica, sino un nombre muy vago, muy impreciso, que agrupa las diversas corrientes filosóficas producidas en el seno del cristianismo durante casi un milenio.”
“El estudio de la filosofía escolástica es difícil, ya por el lenguaje mismo. Las expresiones empleadas por los escolásticos son evidentemente un latín bárbaro; sin embargo, ésta no es una falta imputable a los escolásticos mismos, sino más bien a la cultura latina de su tiempo. El latín es indudablemente un instrumento de expresión poco adecuado para estas categorías filosóficas, ya que los criterios de la nueva dirección espiritual sólo podían ser expresados por medio del lenguaje a costa de violentarlo; el bello latín ciceroniano no se presta tampoco para hundirse en profundas especulaciones. Pues bien, a nadie se le puede pedir que conozca directamente esta filosofía de la Edad Media, tan extensa y voluminosa como pobre y aterradora por el modo como se hallan escritas las obras que la contienen.
Poseemos aún muchas obras de los grandes escolásticos, obras casi todas ellas muy extensas y prolijas, lo que hace de su estudio una faena nada fácil; además, estas obras son más formales cuanto más posteriores. Los escolásticos no se limitaron, ni mucho menos, a escribir compendios; las obras de Duns Escoto, por ejemplo, forman 12 infolios y las de Tomás de Aquino 18. Se encuentran extractos de ellas en diversos lugares.”
“Kramer, su continuación de la Historia universal de Bossuet, en los 2 últimos volúmenes”
“El nombre de escolasticismo proviene del hecho de que, desde los tiempos de Carlomagno, se daba el nombre de scholasticus, en las grandes escuelas anejas a las grandes iglesias-catedrales y a los monasterios importantes, al canónigo a quien estaba encomendada la inspección de los profesores (informatores) y que probablemente pronunciaba también, personalmente, lecciones acerca de la ciencia más importante de la época, que era la teología.”
“la teología es, en rigor, la ciencia de los conceptos doctrinales que todo cristiano, sea campesino o lo que fuere, debe abrigar. A veces, con frecuencia, la cientificidad de la teología se cifra en el contenido histórico externo, en lo crítico: en el hecho, por ejemplo, de que existan tantos o cuantos códices del Nuevo Testamento, en que estos códices aparezcan escritos sobre pergamino, sobre tela o sobre papel, en que presenten el tipo uncial de escritura, procedente de tal o cual siglo, etc.; y además en lo que se refiere a la historia de los judíos, a la historia de los papas, de los obispos y Padres de la Iglesia, a lo ocurrido en los concilios y asambleas eclesiásticas, etc.” “El tema esencial y único de la teología, como teoría de lo divino, es la naturaleza de Dios; y este contenido es, por su naturaleza, esencialmente especulativo, por lo cual los teólogos que de él se ocupen tienen que ser necesariamente filósofos.”
“La naturaleza, aquí, ya no es lo bueno, sino solamente lo negativo; la conciencia de sí, el pensamiento del hombre, su «sí mismo» puro: todo esto ocupa una posición puramente negativa, dentro del cristianismo.” “En esta ausencia de la racionalidad de lo real o de la racionalidad que tiene su realidad en la existencia misma consistía la barbarie de un pensamiento como éste, que se aferraba a otro mundo y se empeñaba en no poseer el concepto de la razón, es decir, el concepto de que la certeza de sí mismo es toda la verdad.”
“De aquí que los escolásticos se hayan hecho célebres por sus interminables distinciones. En función de estas determinaciones por medio del concepto abstracto seguía imperando la filosofía aristotélica, pero no en toda su extensión, sino solamente en la parte recogida en el Organon, y tanto en cuanto a sus leyes del pensamiento como en lo tocante a los conceptos metafísicos, a las categorías.”
“Así como los sofistas griegos, en función de la realidad, daban vueltas y más vueltas a los conceptos abstractos, los escolásticos hacían lo mismo en función de su mundo intelectual. § La forma general de la filosofía escolástica consiste, pues, en sentar una tesis, en alegar una serie de objeciones contra ella y en ir refutando estas objeciones por medio de distinciones y contra-silogismos. El escolasticismo, por tanto, no separa la filosofía de la teología”
“los individuos cristianos, en el mundo, eran simplemente mártires o renunciaban a él. Pero la Iglesia acabó imponiéndose; los emperadores romanos de Oriente y Occidente se hicieron cristianos y la Iglesia conquistó, así, una existencia pública y una autoridad sin menoscabo, que acabó influyendo extraordinariamente sobre las cosas del mundo.”
“Vemos a pueblos que dominaron en una etapa anterior, vemos a un mundo perteneciente ya al pasado, pero que ha legado, como patrimonio vivo, su lengua, sus artes y sus ciencias; y sobre el suelo de esta cultura extraña a ellas se asientan las nuevas naciones, que aparecen así ante la historia, en el momento mismo de nacer, con una vida rota y precaria. Esta historia no nos revela, pues, la trayectoria de una nación que se desarrolle a base de sí misma, sino la de una nación que parte, en cierto modo, de su propia negación y que nace llevando esta contradicción en su entraña y con la misión de asimilársela o superarla.”
“Por eso, aun habiendo llegado a triunfar el cristianismo como Iglesia lo mismo en el mundo romano que en el bizantino, nos encontramos con que ninguno de estos 2 mundos fue capaz de desarrollar en su seno la nueva religión y de crear un nuevo mundo a base de este principio. La razón de ello está en que en ambos existía ya, cuando el cristianismo apareció, un carácter fijo y plasmado: costumbres, leyes, estado jurídico, organización del Estado (si es que a aquello se le puede llamar organización), estructura política, dotes y habilidades, arte, ciencia, cultura espiritual: todo se hallaba ya hecho. Y la naturaleza del espíritu lleva inherente, por el contrario, el que este mundo así formado se engendre de su propio seno y el que esta creación se desarrolle por la fuerza de la reacción, por medio de la asimilación de lo que le precede. De aquí que los nuevos conquistadores se asentasen e hiciesen fuertes sobre un terreno extraño, llegando a imponerse a él; pero, al mismo tiempo, caían bajo el poder de un nuevo espíritu a cuya imposición no podían escapar. Dominadores por una parte, convirtiéronse en dominados por lo espiritual, ya que se mantuvieron en una actitud pasiva ante estas fuerzas.”
“se enciende así en estos bárbaros un tormento infinito, una pasión interminable, que hace de ellos figuras parecidas a la de Cristo crucificado. Fue esta la lucha que los bárbaros vencedores tuvieron que afrontar” “La cultura arranca, aquí, de la más monstruosa contradicción, que se ve obligada a resolver. Pero estos tormentos son los del purgatorio, pues el ser atormentado es el espíritu y no un animal: y el espíritu no muere, sino que emerge de su tumba.” “Lo general consiste, pues, en la contradicción en la que lo uno sólo puede imponerse y conquistar el poder mediante la sumisión de lo otro, pero una contradicción que lleva ya dentro de sí el principio para poder resolverse, el cual no es otro que el imperio del espíritu; por eso, la trayectoria que aquí se abre tiende, en efecto, a que el espíritu se imponga como la reconciliación.” Esse módulo do curso de H. é puro engodo.
“Así, en la revolución francesa vemos cómo se abre paso el postulado del imperio del pensamiento abstracto: a él deben ajustarse la organización del Estado y las leyes y él, el pensamiento abstracto, debe servir de unión entre los hombres.” Estar falando disso antes de sequer mencionar Descartes significa que não tinha o que dizer!
“Las doctrinas de la religión cristiana ocupan así, igualmente, la posición de algo ajeno a nosotros, de algo perteneciente a un determinado tiempo y en torno a lo cual se han esforzado aquellos hombres. Lo de que la idea es concreta en y para sí y guarda, en cuanto espíritu, una relación de contradicción con el sujeto ha desaparecido y se manifiesta sólo como algo pasado. En este sentido, lo que hemos dicho acerca del principio del concepto de la doctrina cristiana y lo que aún diremos con respecto a los escolásticos sólo ofrece interés desde el punto de vista señalado por nosotros, en que la idea interesa en su determinación concreta”
LA SANTA IGLESIA: “Todas las pasiones, el afán de poder, la codicia, la violencia, el engaño, el robo, el asesinato, la envidia, el odio: todos estos vicios de la brutalidad arraigarán en ella, pasando a formar parte integrante de su régimen.”
“Por eso vemos cómo los más valerosos y nobles emperadores son excomulgados y anatematizados por los papas, los cardenales, los legados pontificios y hasta por los arzobispos y los obispos, sin que esté en sus manos sustraerse a la acción de este otro poder exterior, siendo siempre los vencidos y los obligados a ceder.”
“vemos, de una parte, cómo la religión, en este estado de cosas, sólo presenta su faz verdaderamente noble y bella en unos cuantos individuos aislados, que son precisamente aquellos espíritus que han muerto para el mundo y se separan de él para retraerse a un pequeño círculo de hombres y vivir allí entregados a los afanes religiosos”
“Los individuos caen de un extremo en otro, del extremo del más brutal desenfreno y barbarie, de la obstinación y la terquedad, en el extremo de la renuncia a todo, del triunfo sobre todos los apetitos, etc.” “Ningún ejemplo más patente de esto que decimos que el del ejército de las Cruzadas. Estos soldados de la Cruz se pusieron en marcha atraídos por los fines más nobles y más sagrados, pero en el transcurso de su expedición se dejaron arrastrar a todas las pasiones humanas, siendo precisamente los jefes los que daban el ejemplo; imposible describir los extremos de violencia y brutalidad a que llegaron aquellas gentes. Después de haber conducido la expedición del modo más irracional que imaginarse pueda, absurdamente, habiendo sacrificado sin necesidad alguna a miles de hombres, llegaron por fin a las puertas de Jerusalén. Fue un espectáculo muy bello el de aquellos hombres que, a la vista de la ciudad sagrada, se entregaron devotamente a la oración y a la penitencia, sintiendo desgarrarse sus corazones, tocando el suelo con la frente y dando toda clase de pruebas de piedad y de unción. Pero esto no fue más que un momento después de largos meses de locuras, de necedades, de vilezas y de horrores, que fueron sembrando el camino de la Cruzada. Sintiéndose animados por un entusiasmo y una valentía sin límites, toman por asalto la ciudad santa y la conquistan; y, una vez dentro, se bañan en ríos de sangre, dan pruebas de una crueldad infinita y de una furia verdaderamente bestial. Y nuevamente sobreviene una reacción de arrepentimiento y penitencia; se postran de hinojos, sintiéndose reconciliados con Dios, y en seguida se entregan de nuevo a todas las mezquindades e infamias de las más míseras pasiones; del egoísmo y de la envidia, de la codicia y la avaricia: dan rienda suelta a toda su lujuria y echan a perder así la conquista lograda por su heroísmo. La explicación de todo esto está en que el principio sólo vivía en ellos, en su interior, como principio abstracto, sin que llegara a conformar espiritualmente la realidad del hombre.”
ABOLIÇÃO DA HÓSTIA: “Lutero cambió este rito: mantuvo en la llamada Cena el punto místico consistente en que el sujeto reciba dentro de sí lo divino, pero afirmando que esto sólo es divino en cuanto se disfrute en esta espiritualidad subjetiva de la fe y deje de ser un objeto externo.”
“Pero en la Iglesia de la Edad Media y en la Iglesia católica en general la hostia es adorada también como un objeto puramente externo, de tal modo que cuando una hostia consagrada sea devorada por un ratón deberá adorarse a éste y a sus excrementos” HAHAHAHA!
“Pues a la brutalidad y al espantoso salvajismo de esos pueblos sólo podía oponerse la servidumbre, llevándose a cabo la educación por esta vía. Bajo este yugo sirve la humanidad; no tuvo más remedio que pasar por esta cruel disciplina para elevar al plano del espíritu a las naciones germánicas.” “También los hindúes se hallan sujetos a esta servidumbre, pero ellos están irremisiblemente perdidos, sujetos a la naturaleza, identificados con la naturaleza, pero contrarios a ella de suyo.”
“Generalmente, se hace arrancar la filosofía escolástica de la figura de Juan Escoto Erigena, que floreció hacia el año 860 y que no debe confundirse con Duns Escoto, que es posterior. No ha sido posible determinar con certeza la patria de Erigena: no se sabe si nació en Escocia o en Irlanda, pues si el nombre de Escoto es característico del primer país el de Erigena señala hacia el segundo. Es el primer pensador con quien se inicia ahora una verdadera filosofía, basada principalmente en las ideas de los neoplatónicos.”
“En Escoto, la teología no aparece aún basada en la exégesis y la autoridad de los Padres de la Iglesia; por eso la Iglesia rechazó muchas veces sus obras. Así, un concilio eclesiástico en Lyon puso el veto a las doctrinas de Erigena, diciendo: «Han llegado a nosotros las obras de un hombre charlatán y jactancioso que disputa acerca de la Providencia divina y la predestinación de una manera humana o, según él mismo se vanagloria, con argumentos filosóficos, sin apoyarse en las Sagradas Escrituras ni invocar la autoridad de los Padres de la Iglesia, sino atreviérndose a defender sus doctrinas por sí mismo y a fundamentarlas en sus propias leyes, sin someterse a los libros divinos ni a la autoridad de los Padres.» (Buleo)
De aquí que ya Escoto Erigena dijese: «La verdadera filosofía es la verdadera religión, y la verdadera religión la verdadera filosofía.»” É desses despeitados que eu gosto!
“Anselmo. Se trata de una figura muy honrada y prestigiosa entre quienes creen que las doctrinas de la Iglesia deben ser demostradas también en el campo del pensamiento. Nació en Aosta (Piamonte) hacia 1034, profesó como fraile en Bec, en 1060 y ya en 1093 lo vemos convertido en arzobispo de Cantorbery; murió en 1109. (Tennemann)”
“El cristiano debe llegar a la razón por la fe, y no a la fe por la razón; y menos aún si no acierta a comprender que la fe debe ser su punto de partida. Si acierta a penetrar en el conocimiento, se alegrará con ello; en otro caso, no hará sino adorar.”Grande BUESTA!
“Nos referimos a la llamada prueba ontológica de la existencia de Dios, establecida por Anselmo y que tan famoso había de hacerle. Esta prueba era mencionada hasta los tiempos de Kant en la serie de las pruebas, y lo es todavía hoy por parte de quienes no han llegado a situarse aún en el punto de vista kantiano.” “Sin embargo, mientras que hasta él se consideraba a Dios como el ser absoluto, atribuyéndosele lo general como un predicado, con Anselmo comienza la trayectoria contraria: la del ser como predicado, en que la idea absoluta empieza estableciéndose como el sujeto, pero como el sujeto del pensamiento.”
“Kant, por el contrario, combate y rechaza la prueba anselmiana de la existencia de Dios —y el mundo entero ha acabado siguiendo sus huellas, en esto— por partir de la premisa de que la unidad del ser y el pensar es lo más perfecto.” “Por tanto, a la prueba que Kant critica y que, por su modo de ser, sigue siendo usual todavía hoy, sólo le falta una cosa: esta conciencia de la unidad del pensar y el ser en lo infinito, la cual tiene necesariamente que constituir el punto de partida.”
“Pedro Abelardo [s]e hizo famoso por su erudición, pero alcanzó todavía mayor celebridad en el mundo sentimental por sus amores con Eloísa y las vicisitudes de su vida. (Tiedemann)”
“Como Bolonia para los juristas, París era, en aquel tiempo, el centro de las ciencias y de los estudios para los teólogos, la sede de la teología filosofante de la época. Abelardo llegó a ver en su aula más de mil oyentes. La ciencia teológica y las especulaciones filosóficas en torno a ella era, en Francia (como la jurisprudencia en Italia), un momento fundamental de extraordinaria importancia para el desarrollo espiritual del país y que, hasta ahora, no ha sido tenido en cuenta como se merece.”
“Al establecerse en 1270, en la universidad de París, la separación de las 4 facultades, desglosando la filosofía de la teología, se ordenó a los maestros universitarios, al mismo tiempo, que se abstuvieran de poner en tela de juicio o de someter a sus disputas los principios teológicos de la fe.”
“la teología se convierte en un sistema científico.” “Pedro Lombardo. Los hombres que llevaron a cabo esta obra fueron, en primer lugar, Pedro de Novara, en Lombardía, que vivió a mediados del siglo XII y a quien podemos considerar como el fundador de este método (…) Pedro Lombardo levantó un edificio sistemático de teología escolástica que se mantuvo en pie durante varios siglos, sirviendo de fundamento a la dogmática de la Iglesia.”
“Pedro Lombardo compiló las determinaciones fundamentales de la doctrina eclesiástica tomándolas de los concilios y los Padres de la Iglesia, y añadiendo una serie de preguntas y discusiones sutiles en torno a circunstancias particulares que ocupaban a la escuela y eran, por aquel entonces, objeto de polémicas y disputas. Él mismo se ocupaba de dar respuesta a estas preguntas, pero oponiendo otros fundamentos en contrario; y sus respuestas dejan, con frecuencia, la cosa envuelta en las nubes de lo problemático, sin disipar las dudas, en realidad.” “Estos doctores a que nos referimos gozaban de gran autoridad, celebraban sínodos, criticaban y condenaban como heréticas éstas y aquellas doctrinas, éstos y aquellos libros, etc., en dichos sínodos o en la Sorbona, una sociedad que, integrada por doctores de éstos, funcionaba en la universidad de París.”
“El segundo de los autores de este grupo, tan famoso por lo menos como Pedro Lombardo, es Tomás de Aquino, descendiente de la familia condal de los Aquinos y que nació en 1224, en el castillo paterno de Roccasecca, del reino de Ñapóles. Ingresó en la orden de los dominicos y murió en 1274, durante un viaje para asistir a un concilio en Lyon. Poseía un conocimiento extensísimo de la teología y de Aristóteles y se le conocía con los nombres de Doctor angelicus y Doctor communis, considerándosele como a un segundo San Agustín.” “compuso también una Summa theologica(es decir, un estudio sistemático), que le dio una fama extraordinaria, al igual que sus otros escritos, convirtiéndose en un libro fundamental de toda la teología escolástica.” “Tomás de Aquino formula también preguntas, respuestas y dudas y señala el punto en torno al cual gira la solución de los problemas. En lo fundamental, la teología escolástica se dedica, desde entonces, a citar la Summa del Aquinatense.”
“Juan Duns Escoto. El tercero de los pensadores a que nos referíamos más arriba, famoso por haber desarrollado de un modo formal la teología filosófica, es Duns Escoto, llamado el Doctor subtilis, miembro de la orden franciscana; había nacido en Dunston, condado de Northumberland, y llegó a tener, sucesivamente, hasta 30 mil oyentes. Se trasladó a París en 1304 y en 1308 cambió su residencia a Colonia, como doctor de la nueva universidad fundada allí. Fue recibido con gran solemnidad, pero murió en esta ciudad, a poco de instalarse en ella, de un ataque de apoplejía, sin embargo, según se refiere, fue enterrado vivo. Dícese que vivió solamente 34 años, según otros 43 y según algunos 63, pues no se conoce el año de su nacimiento.
Escribió algunos comentarios sobre el Magister sententiarum [Anselmo] que le valieron fama de sutilísimo pensador; comienza por la prueba de la necesidad de una revelación sobrenatural frente a la simple luz de la razón. Se le llegó a llamar, por razón de su sutileza, el deus inter philosophos.”
“Llamábanse Quodlibeta a las colecciones de estudios mezclados sobre diversos temas sueltos, examinados por el procedimiento corriente de la disputa, que consiste en hablar acerca de todo, sin ningún orden sistemático y sin llegar a construir ningún todo armónico; los otros escribían, por el contrario, summas, es decir, estudios sistemáticos. El latín de Duns Escoto es muy bárbaro, pero se presta bastante bien para la claridad filosófica”El Doctor Mescolanza
“Debemos señalar ahora una tercera tendencia, nacida de la circunstancia histórica puramente externa de que, a fines del siglo XII y comienzos del XIII, los teólogos occidentales empezaron a adquirir, de un modo más general, a través de las traducciones del arábigo al latín, el conocimiento de las obras de Aristóteles y de sus comentadores griegos y árabes, obras y comentarios que, a partir de ahora, utilizan desde muchos puntos de vista y comentan a su vez. La adoración, la admiración por Aristóteles y el prestigio de este pensador antiguo llegan ahora a su punto culminante.”
“España, bajo los árabes, conoció un florecimiento extraordinario de las ciencias, y la universidad de Córdoba, sobre todo, se convirtió en el centro de la erudición de aquel tiempo; muchos estudiosos del Occidente hacían el viaje a aquella ciudad española”
“La lógica y la metafísica aristotélicas fueron desarrolladas ahora hasta el máximo, en interminables distinciones, y reducidas a peculiares formas intelectivas silogísticas, que servían principalmente de base para el tratamiento de las materias estudiadas; esto contribuyó a que se acentuase todavía más la sutileza dialéctica, al paso que lo verdaderamente especulativo de Aristóteles era relegado a último plano por el espíritu de la exterioridad, que era también, por tanto, el de la ausencia de razón.”
“Es cierto que, al principio, cuando aparecieron las obras de Aristóteles, la Iglesia opuso cierta resistencia; en un sínodo eclesiástico celebrado en París en 1209 fue prohibida la lectura de la Metafísica y la Física, así como de los extractos de estas obras, y toda lectura y explicación en torno a ellas.” “Pero más tarde, en 1366, nos encontramos con una manifestación de la tendencia contraria: con 2 cardenales que ordenan que nadie pueda llegar a ser magister sin haber estudiado los libros prescritos de Aristóteles, entre los que figura la Metafísica, y haber demostrado la capacidad necesaria para explicarlos.”
«Alberto dejó de ser un asno para convertirse rápidamente en un filósofo, y con la misma rapidez se convirtió de filósofo en asno.» Entre su ciencia se incluía especialmente la magia, pues, a pesar de ser completamente extraña a la verdadera escolástica, la cual se mantenía de espaldas a la naturaleza, Alberto Magno se ocupaba de las cosas naturales e inventó, entre otras cosas, una máquina parlante que infundía pavor a su discípulo Tomás de Aquino, quien intentó, incluso, destruirla, viendo en ella la mano del diablo.”
“Entre los estoicos clasificaba Alberto, con un criterio ciertamente original, a pensadores como Espeusipo, Platón, Sócrates y Pitágoras. Estas anécdotas nos dan una idea bastante aproximada de cuál era el estado de la cultura en aquella época.”
“Un cuarto aspecto que debe ser tenido en cuenta aquí es un punto de vista fundamental que interesó mucho a la Edad Media: el del peculiar problema filosófico cifrado en la polémica entre realistas y nominalistas y que llena casi toda la época del escolasticismo. En términos generales, podemos decir que esta disputa versa en torno a la antítesis metafísica de lo general y lo individual. Preocupó a la filosofía escolástica por espacio de varios siglos, y ello, hay que reconocerlo, honra mucho a estos pensadores. Se distingue entre los antiguos y los nuevos nominalistas y realistas, pero la historia de los realistas y los nominalistas es, por lo demás, bastante oscura”
“El primer nominalista es Roscelino; y el famoso Abelardo, aunque aparezca como adversario suyo, puede ser considerado igualmente como nominalista. Roscelino escribió también en contra de la Trinidad y fue condenado por herético en una asamblea eclesiástica celebrada en Soissons en 1092; pero ya para aquel entonces era muy poca su influencia.
Trátase de lo general en términos absolutos (universale), del género, de la esencia de las cosas, de lo que Platón llamaba la idea, por ejemplo: el ser, la humanidad, el animal. Los sucesores de Platón afirmaban el ser de estos universales; aislando luego esto, se llegaba también, por ejemplo, al concepto o a la cualidad de mesa, como algo real.”
“Pues bien, la disputa entre realistas y nominalistas giraba en torno a si estos universales eran, en efecto, algo real, algo en y para sí al margen del sujeto pensante e independientemente de las cosas aisladas existentes, de tal modo que existiesen en éstas independientemente de la individualidad de la cosa y de un modo sustantivo los unos con respecto a los otros, o si, por el contrario, lo universal era algo puramente nominal, algo que sólo existía en la representación subjetiva, un ente del pensamiento y nada más. § Quienes afirmaban que los universales eran, fuera del sujeto pensante y aparte de las cosas aisladas, un algo real y existente y que la esencia de las cosas era simplemente la idea, recibían el nombre de realistas, en una acepción que era, en rigor, la inversa de lo que hoy llamamos realismo.” “En cambio, los otros, los nominalistas o formalistas, afirmaban que los géneros, los universales, eran simples nombres, algo puramente formal, meras representaciones para nosotros, generalizaciones subjetivas nada más, un producto del espíritu pensante; según ellos, sólo lo individual era lo real.” “Contra esta afirmación se alegan razones por las que se ve hasta qué extremos de ridículo se llevaba a veces la polémica y cómo ésta giraba, en gran parte, en torno a las concepciones del cristianismo. Así vemos que Abelardo reprocha a Roscelino el que éste afirme que ninguna cosa tiene partes y que sólo las palabras que designan las cosas son divisibles. De donde Abelardo deduce que, según Roscelino, Cristo no ingirió una parte real del pez asado, sino solamente una parte de las palabras «pez asado»”
“Gualterio de Montagne. Este filósofo (f. 1174) tendía a la combinación de lo individual y lo general: lo general, según él, tiene que ser individual, los universales tienen que aparecer unidos a los individuos, en cuanto a la esencia. Más tarde, ambos partidos se hicieron célebres bajo los nombres de tomistas, por el dominico Tomás de Aquino, y escotistas, por el franciscano Juan Duns Escoto.”
Suarez, Disputationes metaphysicae
“La antítesis entre idealistas y realistas había surgido, sin duda alguna, ya muy temprano, pero sólo fue puesta de nuevo a la orden del día y desarrollada en el plano del interés general después de Abelardo, gracias al fraile franciscano Guillermo de Occam, de la aldea de este nombre, en el condado de Surrey (Inglaterra), conocido como el Doctor invincibilis, que florece en los primeros años del siglo XIV, sin que haya sido posible averiguar su año de nacimiento.”
“La disputa entre nominalistas y realistas toma ahora caracteres de gran violencia y encono; todavía se conserva una cátedra que hubo de ser separada por un tabique de madera del sitio ocupado por el contrincante, para evitar que los adversarios, en el furor de la discusión, se fuesen a las manos.”
“Además, las guerras intestinas que tenían dividida a Francia hacían que la política se insinuase también en las relaciones entre las órdenes monásticas, lo cual contribuía a acrecentar la importancia de esta disputa, avivada por los celos enconados de las partes contendientes. Occam y su orden apoyaban con la mayor energía las pretensiones de los príncipes, por ejemplo las del rey de Francia y las del emperador de Alemania Luis de Baviera, como lo hicieron en una reunión de su orden celebrada en 1322 y en otras partes, contra las extralimitaciones del papa. De Guillermo se cuenta que dijo una vez al emperador: «Defiéndeme tú con la espada, que yo te defenderé con la pluma.»”
“En 1340 se dictó este veto: «Ningún maestro deberá atreverse a declarar falsa cualquier tesis conocida de un escritor acerca del cual lea, ni de por sí ni en cuanto a su tenor literal, sino que deberá reconocerla o distinguir entre el sentido verdadero y el sentido falso que en ella se encierra, ya que de otro modo nos expondríamos a la peligrosa consecuencia de que también las verdades de la Biblia pudieran ser rechazadas del mismo modo. Ningún maestro debe afirmar que ninguna tesis pueda dejar margen a distinciones o ser investigada a fondo.»”
“Occam fue excomulgado en 1328 y murió en Munich, en 1343.” Sempre uma distinção no meu álbum.
“Tennemann (t. VIII, secc. 2, p. 864) dice, a este propósito: «Una consecuencia de esta teoría fue el dar completamente de lado, como inútil, al principio de individuación, que tantos quebraderos de cabeza había costado a los escolásticos.»”
HEGEL NÃO É, ESSENCIALMENTE (EM SI!) 1 FARSANTE, MAS 3 FARSANTES!“Pero como la religión cristiana es la religión revelada, tenemos que Dios, por una parte, no es ya lo inabordable, lo inefable, un algo recóndito, cerrado, sino que los distintos grados de lo que brota de él son su misma manifestación y lo Trino, por tanto, lo revelado, de tal modo que las tríadas y lo Uno no son algo distinto, sino que precisamente estas 3 personas distintas en Dios son los mismo y lo Uno, es decir, algo que es para lo otro, algo relativo de suyo.”
“Buridán. Filósofo nominalista, que se inclina del lado de los deterministas (…) muere de hambre por no saber por cuál de los 2 lados decidirse.” ¿?!! AHAHAHA
“Además, esta dialéctica puramente formal hace gala de una gran inventiva en la creación, para su tratamiento, de objetos, problemas y cuestiones carentes de todo interés religioso y filosófico.” A succubus realmente transa com o dorminhoco ou não?, etc.
“Cabe, pues, afirmar que los escolásticos, de una parte, tratan de un modo profundo el concepto de la doctrina de la Iglesia, pero, por otra parte, lo secularizan por medio de relaciones externas totalmente inadecuadas, por donde se manifiesta aquí el peor de los sentidos que puede tener lo secular.” “Este aspecto fue captado por los escolásticos y tratado por ellos con una dialéctica finita; y en este aspecto habrá de hacerse, más tarde, hincapié para poner en ridículo incansablemente las doctrinas del escolasticismo. Aduciremos algunos ejemplos de este aspecto a que nos referimos.”
“Así, vemos que Julián, Arzobispo de Toledo, trata de encontrar con la mayor seriedad, como si de ello dependiese la salvación del género humano, la respuesta a preguntas que parten de una premisa disparatada, incurriendo en una micrología por el estilo de la de los filólogos cuando se ponen a investigar los acentos, los metros y la división de los versos griegos. Tenemos, por ejemplo, una de estas preguntas acerca de los muertos. La doctrina de la Iglesia afirma que el hombre resucitará, pero si se añade que resucitará con el mismo cuerpo que tuvo, se entra en pleno mundo de los sentidos. He aquí algunas de las indagaciones hechas por los escolásticos en torno a la referida pregunta: «¿A qué edad resucitarán los muertos? ¿De niños, de jóvenes, de hombres adultos o de ancianos? ¿Y en qué forma? ¿Con qué constitución física? ¿Los flacos recobrarán su cuerpo de flacos y los gordos su cuerpo de gordos? ¿Persistirá en la otra vida la diferencia de sexos? ¿Recobrarán los muertos, al resucitar, la cantidad de uñas y de pelo que perdieron en esta vida?».”
“una verdadera manía discutidora.” “La filosofía escolástica es, pues, exactamente lo contrario de la ciencia intelectiva empírica, que se caracteriza por una curiosidad proyectada simplemente sobre los hechos, sin relación alguna con el concepto.”
“Pascasio Roberto compuso dos volúmenes con el título De partu beatae virginis, acerca de los cuales se escribió y disputó mucho. Llegó a hablarse, incluso, de un partero, y se formularon una serie de preguntas en las que hoy no se nos ocurriría ni siquiera pensar, a menos de querer entrar en los dominios de lo inconveniente.” A buceta da virgem era rosadinha?
“He aquí otras preguntas formuladas por Pedro Lombardo: «¿Puede Dios saber más de lo que sabe?», como si, con respecto a Dios, pudiera distinguirse entre potencia y acto. «¿Puede Dios en todo tiempo todo lo que ha podido? ¿Dónde estaban los ángeles después de su creación? ¿Han existido siempre ángeles?»”
“«¿Qué edad tenía Adán cuando fue creado? ¿Por qué fue formada Eva de la costilla del hombre y no de otra parte cualquiera de su cuerpo? ¿Y por qué mientras el hombre dormía, y no estando despierto? ¿Por qué no se unió la primera pareja en el paraíso terrenal? ¿Cómo se habrían perpetuado los hombres, si no hubiesen pecado? Los niños en el paraíso, ¿habrían nacido con los miembros ya perfectamente desarrollados y con el pleno uso de los sentidos? ¿Por qué se convirtió en hombre el Hijo y no el Padre o el Espíritu Santo?» Isso que dá jejuar demais!
“«¿Podrían existir en Cristo varias filiaciones (filiationes)? ¿Cabría afirmar que Dios Padre odia al Hijo? ¿Habría sido posible también suponer a Dios como mujer? ¿Habría podido Dios ocultarse en el cuerpo del demonio? ¿Habría podido revelarse en forma de asno o de calabaza [abóbora!]? ¿Y de qué modo habría predicado la calabaza? ¿Cómo habría obrado milagros? ¿Cómo se la habría crucificado?»Erasmo, ironicamente
Parece que H. nunca leu nenhum desses autores diretamente, mas só em citações dos historiadores da filosofia que ele tanto criticou no Vol. I!
“Lo fundamental es saber que los escolásticos tomaban las cosas divinas como los bárbaros, reduciéndolas a criterios y relaciones propios de los sentidos. Una rigidez de concepción informada totalmente por los sentidos y estas formas totalmente externas de lo material se ven trasplantadas, así, a lo puramente espiritual, con lo cual esto aparece totalmente secularizado; es algo parecido a lo que hace Hans Sachs, cuando convierte la historia sagrada en la crónica local de Nuremberg.”
“En estas exposiciones, como en la Biblia cuando habla de la cólera de Dios, de la historia de la creación, de que Dios ha hecho esto y aquello, vemos a Dios como a un ser humano, de carne y hueso. Y es cierto que a Dios no se le debe concebir como algo totalmente extraño a nosotros e inabordable, sino que hay que acercarse a él con el ánimo y con el corazón; pero una cosa es esto y otra cosa muy distinta introducirlo en los dominios del pensamiento y tomar en serio su conocimiento. Lo contrario a esto es aducir argumenta pro y contra, pues estos argumentos no resuelven nada ni ayudan en lo más mínimo; tampoco en cuanto premisas que son solamente determinaciones sensibles y finitas y que dan, por tanto, pie a infinitas distinciones. Esta barbarie intelectiva es completamente irracional; es algo así como si se quisiera adornar a los cerdos con collares de perlas. Lo Uno es la idea de la religión cristiana y, además, la filosofía del noble Aristóteles; no era posible haber pisoteado ambas cosas en el lodo más de lo que aquí se hace, ni los cristianos podían haber hecho caer más bajo su idea espiritual.”
“Los místicos no participan tan de cerca ni tan de lleno en las disputas, las argumentaciones y las pruebas de los demás escolásticos, y procuran atenerse con la mayor pureza posible a la doctrina de la Iglesia y a la contemplación filosófica. Son, en parte, hombres piadosos y sutiles, que siguieron filosofando al modo de los neoplatónicos, como antes de ellos lo hiciera ya Escoto Erigena. Encontramos en ellos auténtica filosofía, aunque se presente bajo el nombre de misticismo; es una filosofía íntima y recatada, que guarda una gran semejanza con el spinozismo. Estos pensadores derivan, además, su ética, su religiosidad, de las verdaderas emociones, y en este sentido formulan sus consideraciones, sus preceptos, etc.”
“Rogerio Bacon. Estudió principalmente cuestiones de física, pero sin llegar a alcanzar gran influencia; inventó la pólvora, el espejo y los anteojos de larga vista; murió en 1294.” É correto listá-lo como escolástico? Ou místico mesmo? Porque parece ter sido o ser humano ocidental mais útil daquele milênio…
wiki: “21st century re-evaluations emphasise that Bacon was essentially a medieval thinker, with much of his ‘experimental’ knowledge obtained from books in the scholastic tradition. He was, however, partially responsible for a revision of the medieval university curriculum, which saw the addition of optics to the traditional quadrivium.” “Although gunpowder was first invented and described in China, Bacon was the first in Europe to record its formula.”
O Bacon antes do Bacon (Rogério x Francisco)!
“Raimundo Lulio. Llamado el Doctor illuminatus, llegó a ser muy famoso, sobre todo por el arte de pensar compuesto por él y al que dio el nombre de Ars magna. Nació en Mallorca, en 1234, y fue uno de esos hombres excéntricos e impulsivos que se meten en todo. Tenía marcada afición por la alquimia y un gran entusiasmo por las ciencias en general, así como una imaginación fogosa e inquieta. Llevó una juventud disipada y entregada a los placeres y las diversiones; más tarde, se retiró a un yermo y tuvo allí muchas visiones de Jesucristo. Llevado de su agitado temperamento, sintióse acuciado por el deseo de contribuir a la difusión de la doctrina cristiana entre los mahometanos de Asia y África, consagrando su vida a esta misión; para ello aprendió el árabe, viajó por toda Europa y Asia y buscó el apoyo del papa y de todos los monarcas de Europa, sin abandonar por ello el cultivo de su arte. Fue perseguido y hubo de soportar incontables penalidades, aventuras, peligros de muerte, prisiones y malos tratos. Vivió durante largo tiempo en París, a comienzos del siglo XIV, y compuso cerca de 400 escritos. Al cabo de una vida extraordinariamente agitada, murió venerado como santo y mártir, el año 1315, a consecuencia de los malos tratos sufridos en África. (Rixner, Lehrbuch der Geschichte der Philosophie; Tennemann)”
“Raimundo Lulio es, pues, un pensador sistemático, aunque al mismo tiempo mecánico. Dejó trazada una tabla en círculos en los que se hallan inscritos triángulos cortados por otros círculos. Dentro de estos círculos ordenaba las determinaciones conceptuales, con pretensiones exhaustivas; una parte de los círculos es inmóvil, la otra tiene movimiento. Vemos, en efecto, 6 círculos, 2 de los cuales indican los sujetos, 3 los predicados y el 6º las posibles preguntas.”
“el escolasticismo, visto en conjunto, es una bárbara filosofía del entendimiento sin ningún contenido real, una filosofía que no suscita en nosotros ningún interés verdadero y a la que, desde luego, no podemos retornar.”
“La escolástica es ese extravío total del entendimiento escueto y seco en las rugosidades de la naturaleza nórdico-germánica. Ante nosotros se abren 2 mundos: el reino de la vida y el reino de la muerte. El reino intelectual, reino externo y situado en lo alto, aunque en la representación, se convierte de ese modo, aun siendo por su naturaleza algo puramente especulativo, en algo intelectivo y sensibilizado; pero no como en el arte, sino, por el contrario, como una relación de la realidad común.”
“Es cierto que la existencia de la Iglesia, como el gobierno de Cristo sobre la tierra, se halla en un plano más elevado que la existencia exterior que con ella se enfrenta, pues la religión tiene necesariamente que imperar sobre lo temporal, y la sumisión del poder temporal convierte a la Iglesia en una teocracia.”
“¿Para qué todo esto? Lo tenemos a nuestra espalda como un pasado, por sí mismo inútil para nosotros. Pero de nada sirve llamar a la Edad Media una época bárbara. Es, en realidad, un tipo muy peculiar de barbarie, no una barbarie espontánea y tosca, sino una barbarie a la que se llega por la vía del pensamiento, convirtiendo a la idea absoluta y a la suprema cultura en barbarie; lo que es, de una parte, la forma más atroz de ésta y de la perversión y, de otra parte, el punto infinito de que mana una más alta reconciliación.”
“Un algo pensado cuyo contenido es el pensamiento mismo consiste precisamente en eso, en determinarse como ser. Tal es la intimidad, que es algo más que la consecuencia necesaria de las premisas de que se parte; pero aquí no es la naturaleza del pensamiento y del ser el objeto de la investigación, sino que se da por supuesto sencillamente lo que éstos son.”
“Lo especulativo se halla presente, en Aristóteles, por el hecho de que tal pensamiento no se confía a la reflexión por sí misma, sino que tiene continuamente ante sí la naturaleza concreta del objeto; esta naturaleza es el concepto de la cosa, y esta esencia especulativa de la cosa el espíritu rector que no deja en libertad a las determinaciones reflexivas por sí mismas.
Pero los escolásticos plasman de un modo fijo las determinaciones intelectivas abstractas, siempre inadecuadas a su materia absoluta, y, al mismo tiempo, toman todos los ejemplos de la vida como materia; y como lo concreto contradice a su manera de pensar, sólo pueden retener estas determinaciones intelectivas por medio de precisiones, reservas y limitaciones, lo que los hace embrollarse en una serie interminable de distinciones, las cuales se mantienen también en el terreno de lo concreto y sólo de este modo salen a flote.
En estos manejos de la escolástica no hay, pues, ni asomo de sano sentido común; éste no debe mostrarse contrario a la especulación como tal, pero sí debe manifestarse en contra de todo lo que sea reflexión carente de base, en cuanto que encierra un substrato y una regla para las determinaciones intelectivas abstractas.”
“La representación fija del mundo suprasensible, con sus ángeles, etc., era una materia que los escolásticos siguieron elaborando sin el menor juicio, de un modo bárbaro y con un entendimiento finito, enriqueciéndola y considerándola con los criterios finitos propios de este entendimiento. No existe en el pensamiento mismo ningún principio inmanente, sino que el entendimiento de los escolásticos recibe en sus manos una metafísica ya acabada, sin la necesidad de su proyección sobre lo concreto; esta metafísica fue muerta y sus partes descoyuntadas sin espíritu alguno. Podría decirse de los escolásticos que filosofaban sin representación, es decir, sin un algo concreto, convertían en sujetos el esse reale, el esse formale, el esse objetivum, la quidditas (τὸτίἦνεἶναι).”
“En el caso de la manzana del paraíso, la inteligencia se pregunta a qué clase de manzanas pertenece.” HAHAHAHA
“Entre los eruditos, manifestóse abiertamente la ignorancia acerca de lo racional, una ausencia de espíritu total y monstruosa; y esta misma ignorancia monstruosa y total se revelaba también en los demás, en los monjes. Esta corrupción del conocimiento hacía de la transición un cambio; y mientras que el cielo, lo divino, se degradaba de este modo, se levantaba sobre lo temporal la sublimidad y la superioridad espiritual de lo eclesiástico.” “Del mismo modo, la Iglesia existente, esta existencia del cielo sobre la tierra, veíase nivelada sobre el mismo plano de lo mundanal al abrazar el camino de la riqueza y de la posesión de territorios; de este modo, suprimíase la distinción entre los 2 poderes, pero no de un modo racional para la Iglesia, sino, al mismo tiempo, de un modo indignante, que supone una corrupción: era evidentemente una realidad, pero la realidad más bárbara y más cruel. Pues el Estado, el gobierno, el derecho, la propiedad, el orden civil: todo esto es lo religioso, en forma de diferencias racionales, es decir, de leyes fijas por sí mismas. La vigencia de los miembros, de los estamentos, de las secciones, sus distintas ocupaciones, las fases y los grados del mal, lo mismo que los del bien, representan una manifestación bajo la forma de la finitud, de la realidad, de la existencia de la voluntad subjetiva, mientras que lo religioso sólo se presenta bajo la forma de lo infinito.”
HEGEL PISTOLA: “El mal y sus penas se convierten ahora en algo infinito, y las opiniones discrepantes son castigadas incluso con la muerte, como ocurre con la herejía y con la heterodoxia contra las determinaciones más abstractas y más vacuas de una dogmática interminable. En el seno de la Iglesia se dan cita las costumbres más reprobables y las peores pasiones, la arbitrariedad desenfrenada, la voluptuosidad, la venalidad, la ociosidad, la codicia, los vicios más diversos, precisamente por no tropezar con el freno de ninguna ley; y en ella se instaura y prevalece el criterio de la dominación. (…) Esta ruina del mundo suprasensible, como representada en el conocer y como Iglesia presente, es la que necesariamente tenía que expulsar al hombre de semejante templo, es decir, del seno de lo más sagrado convertido en algo mundanal y finito.”
“Impaciente por la realidad que echa de menos y por la carencia de lo sagrado, la cristiandad se echa a buscar la cabeza que le falta; no es otro, en efecto, el móvil determinante de las Cruzadas. La cristiandad busca la presencia exterior de Cristo en la tierra de Canaán, busca sus huellas, el monte en que oró y padeció, su tumba; conquista el Santo Sepulcro. Lo que se representa como algo real lo conquista también, en efecto, como algo real; pero la tumba es solamente eso, una tumba: lo único que encuentra es el Santo Sepulcro, que además le es arrebatado después.«Pero no le dejarás en su tumba, pues no quieres que un santo se pudra en su sepulcro.»” “Aquellos lugares sagrados, él Monte de los Olivos, el Jordán, Nazaret, como el presente sensible y exterior del espacio sin la presencia del tiempo, no son sino algo pasado, un simple recuerdo y no una contemplación del presente inmediato; lo único que los cruzados encontraron fue su pérdida, su tumba en este presente. Siendo como eran bárbaros, no buscaban lo general, la posición universal de Siria y de Egipto, este centro de la tierra, los nexos de unión para la libertad del comercio, como había de hacerlo Bonaparte, [¡!] cuando ya la humanidad hubo recobrado su razón.”
“En cuanto que sus actos, sus fines y sus intereses, se convierten en algo jurídico y, por tanto, en algo general, el presente se torna racional.” “fundándose una independencia que no es ya meramente egoísta.” “Es cierto que el orden ahora vigente es el sistema feudal, con su secuela, la servidumbre de la gleba, pero todo dentro de él es, sin embargo, algo jurídicamente establecido. Y el derecho tiene su raíz en la libertad, por ser en ella donde el individuo cobra existencia y es reconocido como tal, aunque aquí aparezcan todavía convertidas en propiedad privada relaciones pertenecientes en realidad al Estado. § La monarquía feudal, que ahora se rebela contra el principio de la ausencia del «sí mismo» de la Iglesia determina los derechos esenciales del hombre, es verdad, con arreglo al nacimiento; pero los estamentos de la sociedad feudal no son castas, como en la India, sino que en la jerarquía eclesiástica cualquiera podía ascender desde las más bajas capas hasta los puestos más elevados. Por lo demás, también bajo el sistema feudal fueron manifestándose paulatinamente un derecho, un orden civil y una libertad amparada por la ley. En Italia y Alemania conquistaron su estatuto jurídico una serie de ciudades como repúblicas urbanas, siendo reconocidas por los poderes eclesiástico y temporal; la riqueza hizo su aparición en los Países Bajos, en Florencia y en las ciudades imperiales del Rin. Poco a poco y por estos caminos, los países empezaron a salir del régimen feudal, y una manifestación de ello la tenemos en los mismos capitani. Y también puede ser considerado como un levantamiento de la ausencia de «sí mismo» del espíritu el hecho de que la lengua de esta época se convierta en lingua volgare, por ejemplo en la Divina Comedia de Dante.” Hegel confunde atrozmente história puramente externa e filosofia…
THE LEAP OF THE CAT: “Mientras que la Iglesia creía hallarse antes en posesión de la verdad divina, ahora el régimen temporal, al cobrar dentro de sí orden y derecho y brotar de la dura disciplina del servicio, creíase fundado por Dios y, por tanto, considera presente en él lo divino y teníase por autorizado para manifestarse contra lo divino en la Iglesia, opuesto exclusivamente a todo lo laico.” “El poder de la Iglesia aparecía ahora como la tosquedad de la Iglesia, ya que no trataba de manifestarse en la realidad misma, sino de ser fuerte en el mundo del espíritu. Y surgía inmediatamente en la mundanidad la conciencia del llenarse los conceptos abstractos con la realidad del presente, de tal modo que éste dejaba de ser algo nulo de suyo, para adquirir también verdad.”
“Las artes llevan consigo el que el hombre cree a partir de sí mismo lo divino; y como aquellos artistas eran lo suficientemente piadosos para abrazar como principio la ausencia de su «sí mismo», eran ellos los que con su capacidad subjetiva creaban estas representaciones. Con esto guarda una estrecha relación el que lo mundanal tenga dentro de sí la conciencia de ser tan legítimo como para retener las determinaciones basadas en la libertad subjetiva. En la industria, el individuo se ve obligado a atenerse a su propia actividad” “Así volvió el espíritu a sí mismo; así se recobró, y contempló como sus propias manos su propia razón.”
SECCIÓN TERCERA:
EL RENACIMIENTO DE LAS CIENCIAS
“De aquí arrancan todas las aspiraciones e invenciones, de aquí parten el descubrimiento de América y de una ruta hacia las Indias orientales; y así se despertó principalmente el amor por las llamadas ciencias paganas de la antigüedad, ya que los eruditos de la época vuelven sus ojos a las obras de los antiguos, convertidas ahora en objeto de estudio, como studia humaniora, estudios en que el hombre es reconocido en su propio interés y en su propia actividad. Estos estudios, aunque aparezcan a primera vista como lo opuesto a lo divino, son más bien de suyo lo divino, pero lo divino que vive en la realidad del espíritu.”
“De este modo, se generalizó la creencia de que el entendimiento podía reputar falso algo que la Iglesia afirmase como verdadero; y fue un paso de gran importancia éste que dio el entendimiento, al concebirse así, aun a trueque de encontrarse en oposición con todo lo positivo.”
“El Occidente, por medio de las Cruzadas, e Italia en particular por medio del comercio mantenían frecuente trato con los griegos, aunque sin relaciones diplomáticas muy asiduas. Del Oriente vinieron, incluso, las leyes romanas, hasta que fue descubierto por casualidad un códice del Corpus iuris. Y el Occidente volvió a entrar en contacto con el Oriente griego, sobre todo, cuando la desdichada caída del imperio bizantino obligó a los más nobles y relevantes griegos a buscar refugio en Italia.” “Sería hacer demasiado honor a los monjes si aceptamos que fueron ellos quienes conservaron para nosotros los textos de la antigüedad; estas obras, por lo menos las griegas, vinieron de Constantinopla; las latinas conserváronse naturalmente en Occidente.”
“Pomponacio [ao dizer simplesmente que a alma não é imortal] hubo de comparecer ante la Inquisición a responder de sus opiniones, aunque la protección que algunos cardenales le dispensaban le puso a cubierto de toda ulterior persecución. Había además muchos otros aristotélicos puros, y estas doctrinas se difundieron más tarde, sobre todo, entre los protestantes.”
“Uno de los que más contribuyeron a la difusión de Platón en el Occidente fue el cardenal Bessarion de Trebisonda, que había sido Patriarca de Constantinopla. (Brucker)
Ficino, que nació en Florencia en 1433 y murió en 1499, se distinguió como traductor de Platón; fue él principalmente quien dio a conocer nuevamente la filosofía neoplatónica posterior a Proclo y a Plotino. Ficino escribió además una teología platónica.
Uno de los Médicis de Florencia, Cosme II, llegó incluso a fundar en el siglo XV una Academia platónica en aquella ciudad. Los miembros más relevantes de esta familia de los Médicis, los dos Cosmes, Lorenzo, León X y Clemente VII protegieron mucho el cultivo de las ciencias y las artes y atrajeron a sus cortes a los sabios clásicos griegos.”
“Más tarde, fue resucitada la atomística epicúrea, principalmente por Gassendi contra Descartes, y de ella se conserva todavía en la física moderna la teoría de las moléculas.”
“Reuchlin propúsose desarrollar de nuevo la auténtica filosofía pitagórica; pero todo aparece en él revuelto y turbio. En Alemania preparábase una orden imperial encaminada a destruir, como se había hecho en España, todos los libros hebraicos; hay que reconocer a Reuchlin el mérito de haber impedido que esta obra de destrucción fuese llevada a cabo. La total ausencia de diccionarios entorpecía tanto el estudio del griego, que Reuchlin tuvo que trasladarse a Viena para aprender allí esta lengua de labios de un griego de nacimiento.”
“Todas estas filosofías eran cultivadas al lado de la fe eclesiástica y sin detrimento de ésta, pero no a la manera de los antiguos: surge así una abundante literatura que abarca una gran cantidad de nombres de filósofos, pero que pasa sin dejar huellas y que carece, desde luego, de la lozanía que sólo puede dar la originalidad y la profundidad de los elevados principios; y es que no se trata en rigor de una verdadera filosofía; por eso no es necesario que entremos en más detalles acerca de ella.”
“También experimenta su renacimiento, en esta época, la manera ciceroniana de filosofar: es una filosofía eminentemente popular y superficial, sin ningún valor especulativo, pero que tiene, por lo menos, por lo que a la cultura general se refiere, el interés y la importancia de que el hombre en ella habla inspirándose en sí mismo como un todo, en su experiencia interior y exterior y en su presente, en general.” “Y a pesar de que la plétora de escritos filosóficos de esta clase, por ejemplo muchos de los de Erasmo, han caído en el olvido y tienen poco valor, no puede negarse que hicieron mucho bien después de la sequedad escolástica y de todos sus devaneos y abstracciones carentes de toda base” “También Petrarca escribía tomándose como fuente a sí mismo, sus estados de ánimo, como hombre pensante.”
“El hombre sólo puede considerarse verdaderamente dueño de aquellos pensamientos que aparecen expresados en su lengua propia. Lutero y Melanchthon desecharon todo lo escolástico, tomando como pauta de juicio la Biblia, la fe, el ánimo del hombre. Melanchthon aporta una fría filosofía popular en la que el hombre quiere hacer acto de presencia y que, por tanto, contrasta enormemente con el seco y muerto escolasticismo.” “Muchos individuos se ven privados ahora del contenido, del objeto que venía siendo el punto de apoyo y el fundamento de su conciencia: de la fe de sus mayores. Por eso, al lado de aquellas serenas manifestaciones del renacimiento de la filosofía antigua, nos encontramos ahora, por otra parte, con muchas personalidades en las que se trasluce de un modo bastante violento el fogoso deseo de llegar a conocer por medio del pensamiento lo más profundo y lo concreto, aunque oscurecido y tergiversado por interminables fantasías, por una imaginación las más de las veces desbordada y calenturienta y por el afán de penetrar en los arcanos de la astrología, la geomancia y otros conocimientos misteriosos por el estilo.” “Las vicisitudes de su vida lo mismo que el contenido de sus obras, las cuales llenan con frecuencia muchos y grandes infolios, son el resultado de esta inseguridad de su modo de ser, del desgarramiento y la sublevación de su interior contra la existencia real a que se ven sujetos y del afán de encontrar en ella un fundamento firme.”
“Las figuras más notables de este grupo a que nos referimos son las de Cardano, Giordano Bruno, Vanini, Campanella y Petrus Ramus; todos ellos son representantes del carácter de su época, de esta fase de transición, y caen ya dentro del período de la Reforma.”
“[Cardano] mismo se encargó de trazar la historia de su vida y su carácter en un libro titulado De vita propria, en el que confiesa sus errores y sus defectos con la mayor dureza y sinceridad con que un hombre pueda hacerlo.” “Era el suyo un temperamento turbulento, que lo mismo fermentaba profundamente dentro de sí que estallaba en violentas explosiones y del modo más contradictorio; también su interior padecía de un tremendo desgarramiento. He aquí, extractada de su obra, la pintura de su carácter, trazada por él mismo: «La naturaleza me ha dotado de un espíritu filosófico y apto para el cultivo de las ciencias, soy ingenioso, elegante, decoroso, sensual, expeditivo, piadoso, fiel, amigo de la sabiduría, reflexivo, emprendedor, afanoso de saber, servicial, entusiasta, cavilador e inventivo, todo lo he aprendido por mí mismo, ardo en deseos de ver milagros, soy taimado, astuto, amargado, iniciado en el misterio, sobrio, trabajador, descuidado, charlatán, siento desprecio por la religión, soy vengativo, envidioso, triste, pérfido, traicionero, me gustan la magia y los encantamientos, me siento desdichado, soy cruel con los míos, retraído, antipático, severo, adivino, celoso, chismoso y amigo de pullas, calumniador, complaciente y voluble: tales son las grandes contradicciones de mi carácter y de mis costumbres.»”
“las turbiedades alejandrinas y cabalísticas alternan aquí con observaciones que acreditan una gran finura psicológica y una gran lucidez y claridad.”
“Giordano Bruno fue uno de aquellos espíritus inquietos y atormentados a quienes vemos repudiar intrépidamente toda la autoridad y la fe de la Iglesia católica. En estos últimos tiempos, su recuerdo ha sido refrescado por Jacobi (Obras Completas, t. IV, secc. 2, pp. 5-46), en la edición de sus cartas sobre Spinoza, que añadió a un extracto de una obra de éste. Jacobi logró llamar, muy especialmente, la atención hacia este pensador al afirmar que la suma de su doctrina es la esencia del spinozismo y la cifra y compendio del panteísmo; este paralelismo dio a Giordano Bruno una fama que es evidentemente superior a sus verdaderos méritos. § Giordano Bruno tenía un temperamento más sereno y apacible que Cardano, pero tampoco él llegó a encontrar quietud sobre la tierra.” “Abandonó el suelo de Italia donde, siendo fraile dominico, se había permitido amargas observaciones acerca de ciertos dogmas católicos, por ejemplo el de la Transubstanciación y el de la Inmaculada Concepción de María y a propósito de la crasa ignorancia y la viciosa conducta de los frailes. Vivió luego en Ginebra, en 1582, pero se enemistó también con Calvino y con Beza, llegando a hacérsele imposible la convivencia con ellos; de allí pasó a otras ciudades francesas, entre ellas Lyon, y seguidamente se instaló en París, donde en 1585 se manifestó solemnemente en contra de los aristotélicos, sustentando según una costumbre muy extendida en la época —para que sirviesen de base a una discusión pública— una serie de tesis filosóficas dirigidas principalmente contra Aristóteles.” “En Helmstedt fue acogido con gran favor, en 1589, por los duques de Braunschweig-Lüneburg; de allí pasó a Francfort del Meno, donde dio a la imprenta algunas de sus obras. § Su vida fue como vemos la de un profesor y escritor ambulante, de incansable peregrinar. Por último retornó a Italia en 1592 y vivió durante algún tiempo en Padua sin que nadie le molestase, hasta que a la postre fue sorprendido por la Inquisición en Venecia, recluido en la cárcel y trasladado luego a Roma, donde en el año 1600, después de haberse negado a retractarse, fue condenado a morir en la hoguera como hereje; algunos testigos presenciales de su muerte, por ejemplo Scioppio, informan que soportó con gran fortaleza y serenidad la muerte por el fuego. § Las obras de Giordano Bruno fueron declaradas heréticas y ateas tanto por los católicos como por los protestantes y, por esta razón, quemadas, destruidas y mantenidas en secreto. Es, por ello, muy difícil encontrarlas reunidas, aunque la mayoría de ellas se hallan en la biblioteca de la universidad de Gotinga” “Dondequiera que se detenía por algún tiempo pronunciaba conferencias y componía y editaba obras; por eso es tan difícil llegar a reunir sus escritos completos. § Esto explica también el que muchas de sus obras se repitan en cuanto al contenido, aunque lo presenten bajo diversa forma. Y es natural que quien trabajaba de este modo no llegase nunca a desarrollar debidamente su pensamiento. El carácter fundamental que muchas de sus obras presentan es justo, de una parte, el que responde al hermoso entusiasmo de un alma noble que siente palpitar dentro de sí el espíritu y que sabe que la unidad de su ser y de todo ser constituye la vida íntegra del pensamiento. Hay algo de báquico en el modo como aborda los problemas esta profunda conciencia, que se desborda para convertirse en el verdadero objeto de sus especulaciones y expresar así su riqueza. (…) cuando no ha alcanzado aún esta formación científica, pasa continuamente de unas formas a otras, sin acertar a ordenarlas convenientemente.” “fanatismo místico”
“El universo es, pues, como un animal infinito en el que todo vive y se mueve de las maneras más diversas. La inteligencia formal no se distingue así en nada de la causa final (del concepto de fin, de la entelequia o el principio inmóvil de Aristóteles); pero asimismo hay que ver en ella probablemente una inteligencia eficiente (causa efficiens), una causa intermedia, precisamente la que produce aquellos resultados.”
“Si la materia fuese simplemente la potencia indeterminada, ¿cómo sería posible llegar a lo determinado? Esta simplicidad de la materia no es de suyo sino un momento de la forma; por tanto, al tratar de sustraer la materia a la forma, se la establece, al mismo tiempo, como una determinación de la forma misma, lo que equivale a establecer también y al mismo tiempo lo otro.”
“Se representa el principio primigenio, lo que en otra parte llama la forma, bajo el concepto de lo más pequeño que es, al mismo tiempo, lo más grande, de lo uno que es, al propio tiempo, todo; el universo es este uno en todo. En el universo, dice este pensador, el cuerpo no se distingue del punto, ni el centro de la periferia, lo finito no se diferencia de lo infinito ni lo más grande de lo más pequeño. Todo es, aquí, centro o, dicho en otros términos, el centro del universo se halla en todas partes y en todo. Los antiguos expresaban esto diciendo que el padre de los dioses moraba esencialmente en todos y cada uno de los puntos del universo.”
“La unidad de lo contrapuesto es explicada de este modo: la diferencia entre las sombras no es nunca verdadera pugna o contradicción. En el mismo concepto se encierran y conocen los contrarios, lo bello y lo feo, lo conveniente y lo inconveniente, lo perfecto y lo imperfecto, lo bueno y lo malo. Lo imperfecto, lo malo, lo feo, no descansan sobre ideas especiales propias; a estos conceptos se los conoce en otros, y no en uno peculiar suyo, que no es nada. Pues este algo peculiar es el no-ser en el ser, el d-efecto en el efecto. La inteligencia primera es la primera luz; derrama su luz desde lo más recóndito hasta lo más externo y la luz vuelve a condensarse desde lo más externo en sí misma. Toda esencia puede captar, con arreglo a su capacidad, algo de esta luz.” “Esta luz pura de las cosas es precisamente su cognoscibilidad, que parte de la inteligencia primera y se orienta hacia ella; lo que no es no puede ser conocido.” “Por medio de la idea que vive en la inteligencia se comprenden siempre las cosas mejor que por medio de la forma de las cosas naturales en sí mismas, precisamente porque esto es lo más material: pero la más alta comprensión se logra por medio de la idea del objeto tal y como vive en la inteligencia divina.” “Ahora bien, el arte de Giordano Bruno consiste en determinar el esquema general de la forma que todo lo comprende bajo sí y en poner de manifiesto cómo sus momentos se expresan en las diferentes órbitas de la existencia.” “La unidad es lo que sirve de hilo de reducción; y Giordano Bruno, al distinguir el mundo natural y el mundo metafísico, trata de establecer el sistema de aquellas determinaciones para poner de manifiesto, al mismo tiempo, cómo se manifiesta aquí de un modo natural lo que de otro modo se revela como lo pensado.”
“Este arte del pensamiento interior y de la organización exterior con arreglo a él, y viceversa, arte que el alma humana posee, es puesto por Giordano Bruno en estrecha relación con el arte de la naturaleza del universo y con la acción del principio absoluto del universo en general, con arreglo a lo cual todo se forma y se plasma: es una forma única que se desarrolla; es el mismo principio universal que se plasma en los metales, las plantas y los animales y que en el hombre piensa y organiza fuera de sí, aunque se exprese, en sus efectos, de modo infinitamente diverso en el universo todo. Por consiguiente, es uno y el mismo desarrollo de uno y el mismo principio el que se proyecta sobre el interior y el exterior.”
“Hasta aquí todo va bien en conjunto; es la ejecución del mismo esquema en todas direcciones. Y no cabe duda de que es digno de los mayores respetos este intento de exponer el sistema lógico del artista interior, del pensamiento productivo, de tal modo que a él correspondan las formas de la naturaleza exterior. Pero, a pesar de todo, las determinaciones del pensamiento, aun siendo de indiscutible grandeza el modo de proceder de Giordano Bruno, no pierden aquí su carácter superficial, el carácter de tipos inertes, muertos, como el de los esquemas de la filosofía natural de los tiempos modernos, ya que este pensador se limita a enumerar los momentos y las contradicciones del esquema, como los filósofos de la naturaleza desarrollan en cada esfera, considerándola como algo absoluto, la tríada. Giordano Bruno junta al buen tuntún los momentos más determinados; y cuando trata de expresarlos por medio de figuras y clasificaciones, todo es confusión. Las 12 formas que le sirven de base no son formas derivadas y reducidas a unidad en un gran sistema único, ni aparece tampoco como algo derivado la multiplicación de las formas posteriores. Giordano Bruno escribió diversas obras acerca de esto (De sigillis), y la exposición que hace de este punto varía en todas ellas; las cosas se manifiestan en forma de letras y de signos que corresponden a un pensamiento.” O mesmo problema do rodopio sem achar a saída dos conceitos finais nietzschianos para Heidegger: eterno retorno, super-homem, transmutação de todos os valores, vontade de potência.
EM CIMA DO MURO: “Vanini, como antes de él hicieran ya Pomponacio y otros opone la razón a la fe y a la doctrina de la Iglesia. Sin embargo, al probar por medio de la razón tales o cuales dogmas contradictorios con la doctrina cristiana, hacían constantemente protestas —como, andando el tiempo, y ya entre los reformados, haría Bayle— de que sus convicciones estaban sometidas en un todo a lo que la Iglesia enseñaba; o bien aducían todos los fundamentos y argumentos en contra de los dogmas teológicos como otras tantas dificultades y refutaciones insolubles puestas por la razón y que ellos, por su parte, sometían también gustosos a los dictados de la fe. Bayle dice, por ejemplo, en su Dictionnaire crítico, donde pasa revista a muchas ideas filosóficas, bajo la voz «Maniqueos», que la afirmación de que existen 2 principios no puede ser refutada, pero que esta opinión debe ser sometida a la autoridad de la Iglesia.” Em que pese tal postura, Vanini morreu na fogueira.
“Pero además la Iglesia, al proceder así, caía en la peregrina contradicción de condenar a Vanini porque, aun no encontrando las doctrinas eclesiásticas conformes a razón, se sometía a ellas; por donde parecía exigir, y lo hacía valer por la fuerza de las hogueras inquisitoriales, no que sus doctrinas estuviesen por encima de la razón, sino que fuesen conformes a ella y la razón no tuviese más tarea formal que el hacer comprensible el contenido de la teología. La irritabilidad de la Iglesia peca de inconsecuencia y la arrastra a profundas contradicciones. Empezó reconociendo, es verdad, que la razón era incapaz de captar la verdad revelada, siendo por tanto indiferente como tal razón y hallándose las objeciones que de ella partiesen expuestas a verse refutadas y pulverizadas por sí mismas. Pero al no admitir, a partir de un determinado momento, que la contradicción entre la razón y la fe fuese tomada en serio y al condenar, precisamente por ello, a Vanini por ateísmo, venía a reconocer implícitamente que la doctrina de la Iglesia no podía contradecir a la razón, pero exigiendo al mismo tiempo que la razón fuese sometida a la Iglesia.”
“Quienes, desde los antiguos hasta Voltaire, están considerados como enemigos del cristianismo y como ateos, hacen hincapié especialmente en las representaciones de orden externo. El empeño en atenerse literalmente a ellas conduce sin remedio a toda una serie de contradicciones.”
“Los profesores reales, por ejemplo, habían mantenido en un Collège una controversia con los teólogos de la Sorbona sobre si debía pronunciarse quidam, quisquis, quoniam, o kidam, kiskis, koniam, y esta polémica tomó un sesgo tan violento que dio lugar a un proceso ante el parlamento, porque los doctores habían decidido retirar sus prebendas a un clérigo por defender la pronunciación de quisquis.”
“Por último, Ramus logró una cátedra pública, siendo designado profesor en París, pero en varias ocasiones tuvo que abandonar este puesto en la enseñanza, por ser hugonote, al producirse disturbios intestinos en el país en torno a la cuestión religiosa; una de las veces hubo de viajar por Alemania. En la Noche de San Bartolomé, en 1572, pereció también Ramus a manos de sus enemigos” Que tempos merdões…
“Ramus despertó un interés vivísimo con sus ataques, sobre todo contra la dialéctica aristotélica anterior, y contribuyó mucho a simplificar el formalismo de las reglas dialécticas. Ganó gran fama sobre todo por haber combatido tenazmente la lógica escolástica, erigiendo frente a ella una lógica nueva: la lógica rameana; esta polémica tuvo tan grande y profunda repercusión, que hasta en las historias de la literatura alemana aparecen mencionados los partidos de los ramistas, los antirramistas y los semirramistas.”
“Los esfuerzos de hombres [Montaigne, Charron, Maquiavel] como éstos pertenecen evidentemente al campo de la filosofía en la medida en que extraen sus pensamientos de su conciencia, del círculo de la experiencia humana, de la observación de lo que sucede en el mundo y en el corazón del hombre. Es una filosofía de la vida, en la que se captan y exponen estos resultados de la experiencia; y sus resultados son en parte entretenidos y en parte instructivos.” “Pero no hacen girar sus investigaciones en torno al gran problema que interesa a la filosofía, ni razonan a base del pensamiento: por eso no pueden ser incluidos propiamente en la historia de la filosofía, sino que pertenecen más bien al panorama de la cultura general y se mueven dentro del marco del sano sentido común.” “El hombre vuelve ahora a mirar a su corazón y hace valer una vez más las razones de él: la esencia de las relaciones entre el individuo y la esencia absoluta se ve centrada de nuevo en el corazón, en el entendimiento y en la fe del propio individuo. Y aunque el corazón del hombre se halle todavía dividido, esta división, este conflicto, este anhelo es ya un desdoblamiento del hombre mismo”
“Otra consecuencia de ello es la abolición de las oraciones en una lengua extranjera y el cultivo de las ciencias mediante el vehículo de este idioma extraño. El hombre es un elemento productor, creador, en el lenguaje: es ésta la primera exterioridad de que el hombre se reviste, la más simple forma de la existencia de que cobra conciencia; lo que el hombre se representa se lo representa también interiormente como hablado. Pues bien, esta primera forma aparece como algo roto y extraño cuando el hombre se ve obligado a expresar o sentir en una lengua extraña lo que toca a su supremo interés.”
“La orientación fundamental que trae consigo la Reforma es el momento abstracto del ser dentro de sí del espíritu, del ser libre, del adentrarse en sí mismo; precisamente esta libertad es la vida misma del espíritu que lo lleva a replegarse sobre sí, con su contenido determinado, que aparece como otra cosa, mientras que el espíritu carece de libertad cuando deja subsistir dentro de sí esta alteridad como algo extraño a él, bien como algo no-asimilado, bien como algo muerto.”
TERCERA PARTE:
LA FILOSOFÍA MODERNA
INTRODUCCIÓN
“Es un prejuicio pensar que la Reforma sólo trajo como resultado el separar del seno de la Iglesia católica a una parte de los cristianos: Lutero contribuyó también, muy eficazmente, a la reforma de la Iglesia católica misma, cuya corrupción está patentizada por sus propios documentos y por los mensajes de los emperadores y el Imperio al papa” Difícil imaginar que mesmo no tempo de Hegel (muito depois da própria Reforma!) alguém ainda não soubesse disso…
“El principio de la reconciliación interior del espíritu, que era ya en sí la idea del cristianismo, se alejaba, pues, de nuevo y aparecía ahora como un desgarrón exterior e irreconciliable: un ejemplo más de la lentitud con que el Espíritu del Mundo se sobrepone a esta exterioridad.”
“Con la invención de la pólvora desaparece la lucha animada por la cólera individual.”HAHAHAA!
“El hombre descubre América, sus tesoros y sus pueblos, descubre la naturaleza, se descubre a sí mismo; la navegación es, ahora, el romanticismo superior del comercio.”sus tesoros y sus pueblos… Interessante!
“La Iglesia perdió así todo poder contra él, pues el principio de la Iglesia residía, en verdad, en el espíritu mismo, y no en la ausencia de éste.”
“A Igreja perdeu assim todo o poder contra ele, pois o princípio da Igreja residia, na realidade, no espírito mesmo, e não em sua ausência.” Quando foi que comecei a ler um livro de HISTÓRIA DA RELIGIÃO mesmo?!?
“El otro lado del problema es que lo eterno, que es verdadero en y para sí, sea también conocido y comprendido por el mismo corazón puro; el espíritu propio se apropia para sí lo eterno. Tal es la fe luterana, simple y escueta, sin el aditamento de las obras, como se las llamaba. Nada tiene valor sino dentro del corazón, y no como cosa.”
INTERIORIZAÇÃO DO NIILISMO: “Dios sólo reside, por tanto, en el espíritu, no en el más allá, sino en lo más propio y más recóndito del individuo.”
“El pensamiento conquista así su independencia, con lo cual abandonamos su unidad con la teología; se separa de ésta, como ya entre los griegos se había separado de la mitología, de la religión popular, para buscar de nuevo estas formas al final, en la época alejandrina, tratando de llenar las ideas mitológicas con la forma del pensamiento. Pero permanece por ello el nexo en sí: la teología no es otra cosa que la filosofía, ya que ésta piensa sobre sus problemas.”
“Por tanto, cuando el pensamiento se manifiesta como una fuerza propia e independiente, nos separamos de la teología; estudiaremos, sin embargo, una figura en la que la teología y la filosofía forman aún una unidad. Nos referimos a Jacob Böhme, en quien el espíritu, aun moviéndose en su terreno propio y privativo, se halla encuadrado en parte dentro del mundo finito y natural, y en parte dentro del mundo interior, que es primordialmente el mundo cristiano.”
“La primera dirección, o sea el realismo, es la experiencia. Filosofar es aquí o tiene como determinación fundamental el pensar por cuenta propia para asimilarse lo presente, [AS COISAS] como aquello en que reside la verdad y en que puede, por tanto, llegar a ser conocida; todo lo especulativo se achata para ser reducido a experiencia. Este algo presente que sirve de pauta es la naturaleza existente, externa, y la actividad espiritual en cuanto mundo político y actividad subjetiva. El camino hacia la verdad, para esta filosofía, consiste en partir de esta premisa, pero sin detenerse en su realidad externa y aislada, sino remontándose a lo general. [A IDÉIA]” H. insinua que falará imparcialmente da corrente que lhe é oposta; em poucos parágrafos estará refutando toda esta modalidade do pensar.
AQUILO CONTRA QUEM STEPHEN HAWKING FALAVA, E NÃO <FILÓSOFOS> NO TERMO ATUAL (ele estava 300 anos defasado): “la ciencia de la naturaleza sólo llega hasta la fase de la reflexión. Esta senda de la física experimental se llamó y sigue llamándose todavía hoy filosofía, como nos lo revelan los Principia philosophiae naturalisde Newton” “lo que hoy llaman los franceses sciences exactes.” “Aquí no es la idea misma, en su infinitud, el objeto del conocimiento” “las leyes de Keplero” “En la filosofía escolástica, por el contrario, era como si al hombre le hubiesen sacado los ojos, y todo lo que en aquel tiempo se discutía acerca de la naturaleza partía de una serie de premisas abstrusas.” Mais detalhes dessa fase da evolução espiritual e epistemológica em https://seclusao.art.blog/2021/08/05/o-que-aristoteles-e-stephen-hawking-tem-em-comum-um-pouco-sobre-a-contenda-edipiana-fisica-x-metafisica-mal-entendidos-comuns-entre-uma-e-outra-do-ponto-de-vista-filosofico-passando-por-figuras-il/.
“En segundo lugar, se observaba lo espiritual tal y como, en su realización, forma el mundo espiritual de los Estados, con el fin de inquirir así por la experiencia cuáles eran los derechos de unos individuos con respecto a otros y frente al príncipe, y cuáles los de unos Estados para con otros.” A ciência exato-política, por assim dizer.
“Antes (…) lo que a los reyes les era lícito y lo que les estaba vedado se tomaba de la historia de Saúl y de David; los derechos y prerrogativas de los sacerdotes tenían como fuente la historia de Samuel; en una palabra, el Antiguo Testamento era la fuente de todos los principios del derecho público, y todavía hoy vemos cómo en todas las bulas de los papas se refuerzan con referencias al Antiguo Testamento los ordenamientos de la Iglesia.”
“Fueron compuestos, de este modo, libros que todavía hoy se citan con cierta frecuencia en el parlamento inglés.”
“A segunda direção, o idealismo, parte sempre do interior; para ele, tudo reside no pensamento e o espírito mesmo é todo o conteúdo.¹ Aqui se toma por objeto da filosofia a idéia mesma, isto é, trata-se de pensá-la, a fim de chegar, partindo dela, ao determinado. [AS COISAS] O que ali [no realismo] extrai-se da experiência, extrai-se aqui do pensamento a priori, ou bem capta-se também o determinado, só que não para reduzi-lo ao geral, senão que para <reduzi-lo> à IDÉIA.”
¹ Tem razão, Hegel: tudo sempre parte do interior: do pensamento! Até mesmo “o espírito” é uma criação do eu.
Grifos em laranja: H. deixa claro – realismo e idealismo não são dois rios ou duas vias de mão única. Não há simetria. O realismo certamente só pode confluir num sentido – do particular (dados imediatos, que não deixam por isso de ser mentais), pois são fenômenos, para AS IDÉIAS; e ainda assim não A IDÉIA, isto é, a mais elevada de todas, o ABSOLUTO. Para H., a investigação empírica só funciona para descobrir leis da física ou uma ou outra lei política ou princípio ou axioma do Direito. Mas o idealismo conflui nos dois sentidos, é muito mais perfeito. Pelo pensamento (o único) se acessam as coisas; pelas coisas – o particular – se chega ao geral, ao pensamento do absoluto (A IDÉIA). Em síntese, a experiência é limitada, embora seja humana e, de qualquer forma, melhor do que a abstração vácua (escolástica). Veja que há “geral” e “geral” em H.: gerais e gerais; uns são apenas conceitos (o limite do realismo), outros são apenas uma fase intermediária do idealismo. O geral está sempre em contraposição ao determinado, que é o fenômeno puro, poder-se-ia dizer, carente da generalização sistemática – mas tem-se de perguntar: em qual contexto? De qual geral se está falando? Sempre que se ler H. isto tem sua importância.
1.1. As coisas são sempre meio, nunca fim.
1.2. Os fins, se determinados pela experiência, são apenas meios para os fins absolutos ideais.
“Sin embargo, ambas direcciones vienen a converger en un punto común, ya que también la experiencia, por su parte, se esfuerza por derivar de las observaciones, principios y leyes generales; y a su vez el pensamiento, partiendo de lo general abstracto, necesita darse un contenido determinado, por donde lo apriorístico y lo aposteriorístico no forman dos campos absolutamente deslindados. En Francia, logró imponerse más bien lo general abstracto; en Inglaterra prevaleció, por el contrario, en general, el criterio de la experiencia, que todavía hoy goza de gran predicamento en aquel país; Alemania, en cambio, tomó como punto de partida la idea concreta, el interior del hombre, pleno de ánimo y espíritu.” Nonsense. Hegel quer dizer que em seu país se está no melhor dos mundos; que em sua filosofia se está no verdadeiro. No mais verdadeiro que os outros verdadeiros. O difícil para Hegel é ir além do a priori kantiano, que é um tipo muito especial de a priori, mais elevado que o a priori francês, se podemos assim dizer. Aqui não é o lugar para tratar do criticismo kantiano, que é, efetivamente, a síntese correta, e antes mesmo de Hegel aparecer. Hegel tem de recorrer a um suposto Espírito do Mundo para pretender estar um grau acima de Kant em objetividade. Uma objetividade divina (em si!)! Alega que não só a representação mental, mas o mundo como matéria viva, o em si kantiano, não-partícipe da experiência, é sinônimo com sua representação mental, mas se, e somente se, souber-se “rastreá-lo”, “sentir seu cheiro”, que é o que ele faz em seu Historicismo. Isso, no entanto, é o vulgar e depreciativo de sua filosofia. O em si só pode ser em si enquanto for inessencial no sentido hegeliano, i.e., o que se chama a partir de Schopenhauer de vontade, e que a terminologia existencialista abandonará, mas continuará usando implicitamente. O que é inessencial não tem “agenda própria”, não tem fim em vista, teleologia, apenas é, com-o-homem.
“Ahora bien, la conciliación buscada y que se cree poder lograr también en el reino del pensamiento es el interés general de la ciencia. Esa conciliación se realiza en sí, pues el saber se considera capacitado para llevar a cabo este conocimiento de la conciliación dentro de sí. Por tanto, los sistemas filosóficos no son otra cosa que otras tantas modalidades de esta unidad absoluta, de tal modo que sólo en la unidad concreta de aquellas contraposiciones reside la verdad.”
“La segunda fase es la de la conciliación metafísica; y es realmente aquí donde, con Descartes, comienza la filosofía de la época moderna como pensamiento abstracto.”
Descartes resumido como SUSPENSÃO ACEITAÇÃO.
Pseudo-suspensão, já que depois todo o fenomênico é automaticamente aceito, pois provém de Deus em última instância, i.e., provém imediatamente de mim, da consciência pensante, e Deus não pode dotar meu intelecto de um erro ou de uma fraude metafísica.
E no entanto isto já é suficiente, para H., para adentrar-se a modernidade: “Y así se plantea el problema de cómo es o puede ser el pensamiento idéntico a lo objetivo. Con ello, se destaca por sí mismo y se convierte en objeto lo interior, lo que sirve de base a esta metafísica; estamos ya plenamente dentro de la moderna filosofía.” “ahora los pensadores viven en condiciones completamente distintas de aquellas en que vivieron los filósofos de los tiempos antiguos”
“De aquí que en Grecia y en Roma los filósofos viviesen de un modo muy propio y peculiar, rodeándose en lo externo de aquel ambiente y de aquellas condiciones de vida que mejor cuadraban a su ciencia y que más dignas parecían de ella; procuraban mantenerse, como particulares, independientes y al margen de las relaciones de la vida social, y en tal sentido podría comparárselos a los monjes, que renuncian a los bienes temporales.
En la Edad Media, la filosofía corre principalmente a cargo de clérigos y doctores en teología. En el período de transición, los filósofos libran una dura lucha interior consigo mismos y luchan exteriormente contra las circunstancias, debatiéndose en la vida en medio de grandes y agitadas vicisitudes.
Muy distinto es el panorama de la época moderna, donde no nos encontramos ya con individuos-filósofos que formen una clase aparte. Las murallas que los separaban del resto de la sociedad han caído por tierra; los filósofos ahora no son monjes, sino que viven dentro del mundo, asociados a él, y tomando parte, de un modo o de otro, en las actividades comunes. Viven sujetos a las condiciones de la vida civil, ocupando puestos o desempeñando cargos públicos; y cuando son simples particulares, su posición no los aísla tampoco del resto de la sociedad. Viven entregados al presente, al mundo, entrelazados con la marcha y el desarrollo de éste, y sólo se dedican a la filosofía por añadidura, como un lujo y una superabundancia.” Silêncio, pois Hegel está descobrindo as condições do modo de produção capitalista! Não há poços destapados no meio da cidade onde possamos tropeçar e cair por acidente…
“En efecto, en la época moderna vemos cómo, al reconciliarse el principio mundanal consigo mismo, se aquieta y encauza dentro del orden el mundo exterior: las relaciones mundanales, las clases y los estamentos, las maneras de vivir, se constituyen y organizan de un modo natural y racional. Va formándose una cohesión general e inteligente, con lo cual también la individualidad adquiere una posición distinta dentro de la sociedad, perdiendo aquella vigorosa personalidad plástica de los antiguos.” É tudo uma máquina sorridente e animada após Lutero ter traduzido a Bíblia, correto? Durkheim seria a apoteose e fim dessa maneira de pensar.
“Debido a que el poder objetivo de las circunstancias es inmenso y, por ello mismo, la modalidad necesaria —según la cual soy en ellas— se ha convertido en algo indiferente para mí, por ello también se convierte en indiferente la personalidad y la vida individual.” “El mundo moderno es este poder esencial de la cohesión y, dentro de él, es sencillamente necesario para el individuo formar parte de esa cohesión general, en lo que a la vida exterior se refiere; hoy los hombres sólo pueden vivir en común dentro de su sociedad y de su clase, y la única excepción a esta regla la tenemos en Spinoza.”
“La clase de los filósofos no se halla aún organizada, como la de los monjes. Los dedicados a la enseñanza y a la vida universitaria lo están ya un poco; pero incluso esta clase se ve obligada a hundirse en las normas cotidianas de las relaciones sociales, ya que la entrada en ella es algo regulado exteriormente. Lo esencial es que el filósofo se mantenga fiel a su fin.”
SECCIÓN PRIMERA:
SE ANUNCIA LA FILOSOFÍA MODERNA
“Los 2 primeros filósofos que hemos de considerar aquí son [o segundo e mais relevante] Bacon, y Böhme, dos individualidades tan absolutamente dispares como lo son sus filosofías.”
“Bacon (…) a quien suele citarse, por ello mismo, como el caudillo de toda esa filosofía de la experiencia con cuyas frasecillas se gusta todavía hoy de adornar cierta clase de obras.” Hahaha!
“La filosofía baconiana es, pues, en términos generales, una especie de filosofía basada en la observación de la naturaleza exterior y espiritual del hombre, de sus inclinaciones, sus apetitos y sus determinaciones jurídicas y racionales; partiendo de aquí, se llega a conclusiones y se descubre o se trata de descubrir las ideas y las leyes generales que rigen en este campo de problemas. Bacon dio completamente de lado a la filosofía escolástica, la repudió como enemigo que era de razonar a base de abstracciones completamente remotas, cerrando en cambio los ojos a lo que se tiene delante de los ojos. Su punto de vista es el de los fenómenos revelados por los sentidos, [y no por la Iglesia!] tal y como se aparecen ante el hombre culto y cómo éste reflexiona en torno a ellos; punto de vista conforme al principio de aceptar lo temporal y lo finito como tal.”
“a la edad aproximada de 19 años escribió una obra acerca del estado de Europa (De statu Europae). Se unió en su juventud al conde de Essex, favorito de la reina Isabel, gracias a cuya protección pronto mejoró de situación material —hay que tener en cuenta que, como segundón que era, no se había beneficiado en lo más mínimo con el patrimonio paterno, el cual correspondía íntegro al primogénito—, haciendo grandes y rápidos progresos.” “se le acusa, en efecto, de haberse dejado seducir por los enemigos de Essex para acusarlo públicamente de alta traición cuando el favorito cayó en desgracia.” “Y, aun ocupando puestos tan altos y de tan gran responsabilidad, no tenía inconveniente en entregarse a la intriga y en incurrir en actos de la más burda venalidad. Esto hizo que atrajese sobre sí él descontento del pueblo y de los grandes, hasta que, al cabo, fue acusado judicialmente, viéndose su proceso ante el parlamento. Fue condenado a pagar una multa de 4000 libras esterlinas y encarcelado en la Torre de Londres, su nombre fue borrado de la lista de los pares. Durante el proceso y su encarcelamiento, dio pruebas de una increíble debilidad de carácter.” História já muito conhecida. Mas é interessante ‘relê-la’ sob novos olhos (os de H.).
“No tardó, sin embargo, en ser excarcelado, dándose por anulado su proceso, gracias al odio todavía mayor que existía contra el rey y contra el ministerio de Buckingham, bajo cuyo gobierno había desempeñado aquellos cargos y por creérsele víctima de él, ya que tuvo la suerte de que el gobierno del duque cayese antes y de que su jefe se viese abandonado y perseguido por quienes, siendo gobernante, le secundaran. Fue, pues, esta circunstancia —la de que sus perseguidores se hiciesen odiar por su labor de gobernantes tanto como él— la que más que su propia inocencia contribuyó a atenuar un poco el desprecio y el odio concitados contra Bacon.” “Durante el resto de su vida no salió ya de la oscuridad y de la miseria, viéndose obligado a mendigar del rey algún socorro y dedicando el resto de sus días al cultivo de las ciencias, hasta que murió en el año 1626. (Buhle; Brucker)
El nombre de Bacon es ensalzado siempre como el del pensador que descubrió en la experiencia la verdadera fuente del conocimiento, y no puede negarse que es, en rigor, el guía y el representante más caracterizado de lo que en Inglaterra se llama filosofía, una filosofía a la que los ingleses no aciertan a sobreponerse. Parecen ser, en Europa, a la verdad, el pueblo que vive entregado por entero al entendimiento de la realidad, como los tenderos y los artesanos viven entregados, dentro del Estado, a cuanto se refiere a la materia, y lo que les guía y gobierna es el tomar como objeto de sus pensamientos la realidad y no la razón.
Bacon realizó, sin duda alguna, una obra muy meritoria al señalar cómo es necesario tener en cuenta los fenómenos naturales exteriores e interiores; pero su nombre aparece rodeado de mayor fama que la que sus méritos inmediatos permiten reconocerle. La época misma y la manera de razonar de los ingleses revelan la tendencia general a partir de hechos y a juzgar con arreglo a ellos; y como realmente fue Bacon quien proclamó esta dirección y como, además, hace falta siempre un guía y un fundador a quien poner al frente de una manera, se le coloca en este puesto, como si, en efecto, hubiese encauzado él el conocimiento por estos derroteros de la filosofía experimental.”
“Con toda la corrupción de su carácter, era un hombre de espíritu y de gran sagacidad, indudablemente, pero no poseía la capacidad necesaria para razonar con arreglo a pensamientos generales y a conceptos. No encontramos en él una consideración metódica y científica de los problemas, sino solamente los razonamientos exteriores propios de un hombre de mundo como Bacon era. El conocimiento del mundo lo poseía innegablemente en el más alto grado”
«Emite casi siempre sus juicios ex cathedra; y cuando intenta explicarlos, recurre más bien a metáforas, a ilustraciones y a agudas comparaciones que a una argumentación directa y adecuada. El razonamiento general es una de las condiciones esenciales de toda filosofía; pues bien, la ausencia de esta cualidad es sorprendente en las obras de Bacon.»The Quarterly Review, 1817
“Limítase a examinar el presente y a hacer consideraciones en torno a él, a poner de relieve y dejar prevalecer los fenómenos de la realidad; contempla con los ojos bien abiertos lo existente, concentrando en ello la mirada como en lo primordial y honrando y reconociendo, por encima de todo, esta manera de ver el mundo.” “Y es en realidad este aspecto metódico de sus consideraciones lo único que hace de Bacon una figura relevante y digna de figurar en la historia de las ciencias y de la filosofía; este principio del conocimiento metódico fue, al mismo tiempo, el que le valió la gran influencia que llegó a tener en su época, haciendo que las gentes se fijasen en los defectos de que las ciencias adolecían, tanto en cuanto a su método como en cuanto a su contenido.” “Y no cabe duda de que la época moderna tiene el gran mérito de haber estimulado o creado este conocimiento, pues lo que los antiguos sabían y decían acerca de esto no puede ser más pobre.”
“Es cierto que cuando se trata de una ciencia acabada, la idea debe partir de sí misma, pues la ciencia como tal no puede arrancar nunca de lo empírico. Pero, para que la ciencia llegue a existir, hace falta el tránsito de lo individual y lo particular a lo general, una actividad que se proyecte sobre la materia empírica dada y reaccione contra ella y la transforme. El postulado del conocimiento a priori, como si la idea construyese a partir de sí misma, sólo es por tanto un reconstruir, ni más ni menos que la sensibilidad lo hace en la religión en general. Sin el desarrollo de las ciencias de la experiencia jamás habría podido la filosofía llegar más allá de donde había llegado entre los antiguos. La totalidad de la idea de por sí es la ciencia acabada; lo otro es el comienzo, la marcha de su nacimiento.”
“Para que pudiese existir, por ejemplo, la historia de la filosofía de los tiempos modernos era necesario que existiese, entre otras cosas, la historia de la filosofía en general, la trayectoria de la filosofía a lo largo de tantos miles de años; el espíritu hubo de recorrer este largo camino para estar en condiciones de poder producir aquella filosofía. En la conciencia, adopta la posición de rechazar o destruir este largo puente que hay detrás de ella, como si se desenvolviese libremente en su éter, sin encontrar la menor resistencia dentro de este medio; pero otra cosa muy distinta es obtener este éter y este desenvolvimiento en él. No debemos perder de vista, en modo alguno, que la filosofía jamás habría llegado a existir sin esta trayectoria anterior; pues el espíritu es esencialmente la elaboración como de algo distinto.”Não tem nada a ver com o espírito, mas H. não deixa de ter razão.
“Bacon hízose famoso con 2 obras. Su mérito principal consiste, primeramente, en haber construido en su obra De augmentis scientiarum una enciclopedia sistemática de las ciencias, intento este que necesariamente tenía que causar gran sensación entre las gentes de su tiempo. No deja de tener su importancia, y grande, el tener ante la vista este panorama sistemático, ordenado, del conjunto de las ciencias, en que nadie, hasta entonces, había pensado.”
“Bacon clasifica las ciencias con arreglo a las facultades de la memoria, de la fantasía y de la razón, distinguiendo estas 3 clases de materias” Poesia e arte são ciências fantasiosas. Quão bizarro isso nos soa hoje.
“Estas divisiones, siguiendo el método favorito de la época, se subdividen a su vez, lo que le permite a Bacon incluir en su clasificación todas las demás ciencias, pero hay que reconocer que sus resultados distan mucho de ser satisfactorios. Forman parte de la historia, según él, las obras de Dios, o sean la historia sagrada, la profética y la eclesiástica; las obras de los hombres, que incluyen la historia en general y la historia de la literatura; las obras de la naturaleza, etc.”
“En la Cosmética, al hablar de los afeites, dice: «Es, en verdad, extraño que las leyes civiles y eclesiásticas hayan tardado tanto tiempo en prestar atención a esos malos hábitos de los cosméticos; en la Biblia leemos que Jezabel usaba afeites, pero no así Ester ni Judit».”
“Pero, en realidad, la clasificación de las ciencias es lo menos importante en la obra De augmentis scientiarum. Lo que da su valor a esta obra y le asegura el éxito es la crítica y la profusión de observaciones instructivas, cosa que tanto se echaba de menos por aquel entonces en los diversos géneros de conocimientos y disciplinas, sobre todo en lo tocante al problema de saber hasta qué punto debía considerarse vicioso e ineficaz el método que venía empleándose y en el que los conceptos escolástico-aristotélicos eran urdidos por el entendimiento como si se tratase de realidades.”
“El segundo aspecto que caracteriza la filosofía de Bacon es que, en su segunda obra, en su Organon, trata de desarrollar prolijamente un nuevo método acerca del saber; y es esto precisamente lo que con mayor frecuencia se invoca, todavía hoy, en apoyo de su fama. Bacon se manifiesta polémicamente en contra del método escolástico hasta entonces imperante y que consistía en saber deduciendo, es decir, contra las formas silogísticas. Llama a este método anticipationes naturae, pues consiste, nos dice, en arrancar de supuestos, definiciones y conceptos hipotéticos, es decir, de abstracciones escolásticas y en seguir razonando a partir de ahí, sin fijarse para nada en lo que sucede en la realidad.”
«La dialéctica en nada ayuda al descubrimiento de las artes; muchas artes han sido descubiertas por obra del azar.»
“Contra este método deductivo polemiza calurosamente Bacon, pero no contra el método en general, es decir, no contra el concepto del mismo (concepto que Bacon no posee), sino contra el modo como se manejaba, contra aquella clase de deducciones escolásticas que procedían tomando como base un contenido hipotético.”
“En realidad, aunque no lo supiese ni se diese cuenta de ello, Bacon empujaba hacia esta confusión en cuanto al contenido. Pues, aunque en rigor rechazase la deducción de un modo general y sólo admitiese las conclusiones inductivas, no cabe duda de que él mismo incurre, inconscientemente, en deducciones. En parte, todos aquellos héroes de la experiencia que siguiendo a Bacon han puesto en práctica sus postulados y que creen llegar al conocimiento puro de la cosa por la vía de la observación, el experimento y la experiencia, lo que hacen es proceder sin ninguna clase de conclusiones ni conceptos, comprendiendo y concluyendo tanto peor cuanto más creen no tener nada que ver con los conceptos, y, además, no se remontan nunca del plano de la inducción hasta el conocimiento inmanente y verdadero. Por tanto, cuando Bacon contrapone la inducción al silogismo formula una contraposición puramente formal; toda inducción es, al mismo tiempo, una deducción, cosa que ya sabía también Aristóteles.” Toda observação é ideológica. Mas é possível construir novas ideologias mediante observações.
O “AVÔ” DA FENOMENOLOGIA: “Este momento del ahora y el aquí es el que se revela así, en general, a la conciencia de sí. Pero las experiencias, los experimentos, las observaciones no saben lo que en realidad hacen, no saben que el único interés que se toman por las cosas es precisamente la certeza inconsciente interior de la razón de encontrarse en la realidad misma; y las observaciones y los experimentos tienden, en efecto, cuando están certeramente orientados, a la conclusión de que lo único objetivo es el concepto. A los experimentos se les escapa de entre las manos lo particular sensible y se convierte en algo general; el ejemplo más conocido es el de la electricidad positiva y negativa, en cuanto que es eso: positiva y negativa.” Nem sei do que ele está falando (eletricidade + ou -). Provavelmente da escolha arbitrária do vetor, pois obviamente a natureza em si não depõe e positividade ou negatividade de algo, a não ser pelo nada!
“El otro defecto formal en que incurren todos los empíricos consiste en creer que se atienen exclusivamente a la experiencia; no se dan cuenta de que, al asimilarse estas percepciones, entran ya en el campo de la metafísica. El hombre nunca permanece, ni puede permanecer aunque quiera, en el campo de lo particular. Busca siempre lo general, y lo general son siempre los pensamientos, aunque éstos no sean conceptos.” “la fuerza es algo general, no perceptible; los empíricos se entregan a estas determinaciones sin el menor atisbo de crítica, de un modo inconsciente.”
“Y en su Historia natural ofrece recetas en toda forma para fabricar oro y realizar muchos milagros.” Hahaha! Tinha que aprender com Plínio!
“Como vemos, Bacon no se sitúa aún, ni mucho menos, en el punto de vista racional de la investigación de la naturaleza, sino que se deja llevar todavía por las más burdas supersticiones, por una falsa magia, etc. Todo esto aparece expuesto, en conjunto, de un modo intelectivo, con lo cual se mantiene dentro del marco de las ideas de su tiempo.”
«Es inútil investigar las causas finales; esta investigación es incluso perjudicial para las ciencias y sólo tiene interés en el campo de la moral.»
“Bacon está en lo cierto al oponerse a esta investigación basada en causas finales, cuando se trata de finalidades puramente externas, y el propio Kant distingue, con mucha razón, esas finalidades externas de las internas.”
“Quien actúa en nombre de la colectividad, del Estado, un general por ejemplo, en caso de guerra, no tiene por qué respetar al individuo como tal, sino que éste, aun siendo un fin en sí, es para estos efectos un fin puramente relativo. Es este fin en sí, no como algo exclusivo y contrapuesto a todo lo demás, sino solamente en cuanto su esencia es el concepto general.”
“Cuando estudiemos la filosofía de Locke, tendremos ocasión de referirnos de nuevo a este método empírico de los ingleses.”
“Este Jacob Böhme había caído en el olvido desde hacía mucho tiempo y pasaba por ser, cuando de él se hablaba, un pietista fanático y soñador; su público fue reduciéndose por obra, sobre todo, de la Ilustración. Leibniz le tenía todavía en alta estima; pero es sobre todo en estos últimos tiempos cuando vuelve a reconocerse toda su profundidad y a enaltecerse la obra de este pensador. No cabe duda de que no era merecedor de aquel desprecio en que se le llegó a tener, pero tampoco creemos que merezca tantos honores como se le han querido tributar.”
“Desde este punto de vista, hay que reconocer que Böhme, como filósofo, es un perfecto bárbaro; trátase, sin embargo, de un hombre que, con toda su tosquedad de exposición, posee un corazón concreto y profundo. Lo malo es que por no tener un método ni seguir un orden resulta difícil llegar a formarse una idea clara de su filosofía.”
“en su libro De signatura rerumse aclara y contiene bastante bien esta impresión [prostrações extáticas de vários dias, ou ver objetos reluzentes, ou a própria luz, de forma intensa e inexplicável] grabada en él”
“Sus obras son muy solicitadas por los holandeses, razón por la cual la mayoría de sus ediciones aparecieron en Amsterdam, habiendo sido reimpresas en Hamburgo. Su primer escrito es la Aurora, al que siguen muchos otros; el titulado De los tres principios y otro que lleva por título De la triple vida del hombre figuran entre los más notables. Böhme era un lector infatigable de la Biblia. No sabemos de otras lecturas suyas. Pero gran cantidad de pasajes de sus obras revelan que leía mucho, principalmente, sin duda alguna, obras de mística, de teosofía y de alquimia, entre las que podemos estar seguros de que figurarían las de Teofrasto Paracelso Bombast von Hohenheim, filósofo de parecido calibre, aunque más confuso que Böhme y sin la profundidad de espíritu de éste.” Vai me desculpar, H., mas Giordano Bruno é muito mais moderno que esse Böhme – isso foi xenofobia sua!
“Pero como Böhme no posee el concepto y se halla tan rezagado en cuanto a la formación del espíritu, resulta que esto se traduce en una espantosa y angustiosa batalla de su ánimo y de su conciencia con el lenguaje; y el contenido de esta batalla es la más profunda idea de Dios, que se esfuerza por unir y enlazar las más absolutas contradicciones, pero no por unirlas y enlazarlas para la razón pensante.” Dá a impressão de ser o Kierkegaard do pré-hegelianismo, como Kierk. foi o Böhme do pós-hegel..
“Así como Próspero, en el drama de Shakespeare —en La Tormenta—, amenaza a Ariel con hendir un nudoso roble y aprisionarle en él por mil años, así el gran espíritu de Böhme se halla aprisionado en el duro y nudoso roble de lo sensible, en la dura prisión de las representaciones, sin poder alcanzar la libre exposición de la idea.”
“nos equivocaríamos en nuestro trabajo si tratáramos de encontrar en Böhme, a todo trance, un desarrollo consecuente de sus ideas, sobre todo en tanto que trascienden.” Os loucos também podem figurar na história da filosofia, por que não?
“Con el tormento, trata Böhme de expresar lo absoluto, es decir, justo la negatividad consciente de sí y sentida, lo negativo referente a sí mismo, que es, por ello, afirmación absoluta. En torno a este punto giran, en efecto, todo el esfuerzo y toda la preocupación de Böhme”
“Trátase evidentemente tan sólo de una tergiversación muy propia de zapatero de portal del nombre sal nitri, salitre (que en austríaco aún se sigue llamando hoy «salnitre»), es decir, sal neutra, la esencia neutral y verdaderamente general.”
SECCIÓN SEGUNDA:
EL PERÍODO DEL ENTENDIMIENTO PENSANTE
Esta seção será desproporcional, respondendo por de 40 a 50% de todo o conteúdo de relevo deste volume; portanto, bastante mais extensa que qualquer outra seção de capítulo do livro III.
“Con Cartesio entramos, en rigor, desde la escuela neoplatónica y lo que guarda relación con ella, en una filosofía propia e independiente, que sabe que procede sustantivamente de la razón y que la conciencia de sí es un momento esencial de la verdad.”
“Aquí, ya podemos (…) gritar, al fin (…) ¡tierra!”
“El alemán, sobre todo, cuanto más servil en un sentido más desenfrenado se muestra en otro; la limitación y la falta de medida, el afán de la originalidad, es el ángel satánico que nos azota con sus alas.” Bela caracterização do nazismo!
“Este recomenzar de la filosofía, en esta época, explica por qué las viejas historias de la filosofía del siglo XVII, la de Stanley por ejemplo, sólo tratan de la filosofía de los griegos y los romanos, terminando con el advenimiento del cristianismo, como si para ellas no existiese, a partir de entonces, ninguna filosofía, por considerarla, en realidad, innecesaria, ya que la teología filosófica de la Edad Media no tenía como principio el pensamiento libre, que parte de sí mismo.”
“Este [primer] período nos revela como principales figuras a Descartes y Spinoza y, al lado de ellas, las de Malebranche, Locke, Leibniz y Wolff. La otra forma es la del escepticismo y el criticismo contra el entendimiento pensante [esse suposto primeiro período moderno], contra la metafísica como tal y contra lo que hay de general en el empirismo: al llegar aquí, examinaremos las modalidades de estas corrientes filosóficas entre los escoceses, los alemanes y los franceses; los materialistas franceses retornan, más tarde, a la metafísica.”
“Lo primero es la metafísica espontánea, pero también exenta de crítica: Descartes y Spinoza, que implantan la unidad del ser y el pensar. Lo segundo es Locke, quien trata de la contraposición misma, considerando la idea metafísica de la experiencia (…) La mónada de Leibniz, es, en tercer lugar, la totalidad de la concepción del mundo.”
“La filosofía spinozista, en segundo lugar, se comporta con respecto a la filosofía de Cartesio solamente como si se tratase de su consecuente desarrollo; el método es lo fundamental. Una forma que aparece al lado del spinozismo y que constituye también un desarrollo completo del cartesianismo es, en tercer lugar, el modo como Malebranche se representa esta filosofía.”
“René Descartes es un héroe del pensamiento, que aborda de nuevo la empresa desde el principio y reconstruye la filosofía sobre los cimientos puestos ahora de nuevo al descubierto al cabo de mil años.” Exagero da porra!
“su importancia estriba principalmente en haber sabido exponer su pensamiento de un modo simple y sencillo y, al mismo tiempo, popular, relegando a segundo plano toda premisa del pensamiento popular mismo, partiendo de tesis completamente simples y reduciendo el contenido a los pensamientos o a la extensión y el ser, con lo que, en cierto modo, enfrenta el pensamiento con esta su antítesis. Este pensamiento simple se presenta bajo la forma del entendimiento determinado y claro, razón por la cual no se le puede llamar un pensamiento especulativo, una razón especulativa. Cartesio parte de determinaciones fijas, firmes, pero solamente del pensamiento; es la manera de su tiempo. Lo que los franceses llaman ciencias exactas, ciencias del entendimiento determinado, tiene justo en esta época su punto de partida. La filosofía y la ciencia exacta no se hallan separadas todavía; la separación de una y otra habrá de producirse más tarde.”
“poco después, en 1619, el primero de la guerra de los Treinta años, entró como voluntario en las tropas bávaras y tomó parte en varias campañas bajo el mando de Tilly. Muchos hombres abrazaron la carrera de soldado por no encontrar satisfacción en el cultivo de las ciencias; pero éste entró en la profesión de las armas, no por desamor a las ciencias, sino porque las amaba demasiado y las tenía en muy alta estima.” ¿??
“Estuvo también en la batalla de Praga, en la que Federico, el del Palatinado, perdió la corona de Bohemia. Nuestro filósofo, a quien no podía agradar el espectáculo de aquellas salvajes escenas, abandonó en 1621 el servicio militar, emprendiendo varios viajes por el territorio del resto de Alemania primero, y luego por Polonia, Prusia, Suiza, Italia y Francia. Después se retiró a Holanda, a donde lo invitaba la gran libertad de que gozaba este país, decidido a llevar a cabo allí sus designios; en Holanda vivió pacíficamente desde 1629 a 1644, período durante el cual compuso y editó la mayoría de sus obras, defendiéndolas contra los repetidos ataques desencadenados contra ellas, principalmente por parte del clero. Por último, la reina Cristina de Suecia lo llamó a su corte de Estocolmo, que era el centro de reunión de los más famosos eruditos de la época; y allí murió Descartes en el año 1650. (Brucker; Tennemann)”
“Entre sus obras filosóficas, aquellas que contienen los fundamentos se distinguen, sobre todo, por un rasgo muy popular en su modo de exponer, que las hace muy gratas y recomendables a quien se inicia en el estudio. Este filósofo procede, en ellas, al abordar los problemas, de un modo muy sencillo e infantil, como si fuese narrando sus pensamientos uno detrás de otro, sin complicación alguna. El profesor Cousin de París ha reeditado recientemente las obras de Cartesio, en una colección de 11 volúmenes enoctavo; la mayoría de ellos los ocupan las cartas sobre temas y problemas de física.”
“Entre sus descubrimientos se cuentan varios métodos fundamentales gracias a los cuales pudieron obtenerse más tarde brillantísimos resultados en las matemáticas superiores.” Outra superestimação // o desenvolvimento paralelo das matemáticas por outros autores dessa época foi bem intenso.
“…Como tampoco tienen ningún interés para nosotros sus aplicaciones de la metafísica a ciertos problemas eclesiásticos, a determinadas investigaciones especiales, etc.”
“en la filosofía de Descartes hay que distinguir entre lo que tiene un interés general para nosotros y lo que no lo tiene: lo primero es la trayectoria de sus pensamientos mismos; lo segundo, el modo como estos pensamientos se formulan y derivan. No debemos, sin embargo, considerar la trayectoria del pensamiento cartesiano como un método consecuentemente probatorio; trátase evidentemente de un profundo desarrollo interior, pero que se manifiesta de un modo ingenuo. (…) poco es lo que en conjunto cabe decir acerca de su filosofía.”
“Descartes hace, pues, de este levantamiento de todas las determinaciones mismas el postulado primordial de la filosofía. Sin embargo, esta primeva tesis cartesiana no encierra, ni mucho menos, el sentido del escepticismo, el cual no persigue otra meta que la duda misma, el detenerse en esta actitud de indecisión del espíritu, por creer que éste encuentra en ello su libertad.”
“los sentidos nos engañan frecuentemente, y la prudencia nos aconseja no confiar en aquello que nos haya engañado siquiera sea una sola vez (…) y al que duda no se le revela ninguna señal, ningún indicio que le permita distinguir con seguridad la vigilia del sueño.” O segundo é anacrônico.
“Y esto nos lleva a dudar de todo lo demás, incluso de los axiomas matemáticos”
“Descartes busca algo cierto y verdadero en sí, algo que no sea simplemente verdadero, a la manera como lo es el objeto de la fe sin saber, ni sea tampoco esa certeza sensible y también escéptica carente de verdad. Toda la filosofía anterior a Descartes llevaba la tara de presuponer algo como verdadero y, en parte, como ocurría con la filosofía neoplatónica, con la de atribuir la forma de la ciencia no a su esencia misma, o la de no analizar los elementos de ella.”
“sería contradictorio pensar que no existe aquello que piensa.” Principia philosophiae, parte I, §§ 7 s.
“Descartes arranca, como hará más tarde Fichte, del Yo como lo sencillamente cierto; yo sé que algo se representa en mí. Con ello, la filosofía entra de golpe en un campo totalmente nuevo y se sitúa en un punto de vista completamente distinto, pues se desplaza a la esfera de la subjetividad. Se abandona la premisa de la religión y se busca solamente la prueba, y no el contenido absoluto, el cual desaparece ante la subjetividad abstractamente infinita.” “la existencia de un determinado contenido es justo aquello de que debe dudarse, pues no existe nada firme.”
“En esta tesis se ve, de una parte, un silogismo, como si del pensamiento se dedujese el ser. Kant razona, en especial, contra este mecanismo silogístico, alegando que en el pensamiento no se contiene el ser, pues éste es algo distinto del pensar. Y esto es cierto, pero no lo es menos que ambos son inseparables, es decir, que existe entre ellos, a pesar de todo, una identidad; su unidad no es destruida ni menoscabada por su diversidad.” “El propio Descartes lo dice: «No es en modo alguno un silogismo, pues para ello tendría que formularse así la premisa mayor: todo lo que piensa existe», después de lo cual vendría la subsunción en la menor, como conclusión: «luego yo existo». Con ello se levantaría justo la inmediatidad que la proposición lleva consigo.”
“Para que haya un silogismo tiene que haber 3 términos; aquí, concretamente, tendría que haber un 3º que sirviese de mediador, de eslabón entre el pensar y el ser; pero este 3º término no existe. El «luego» o «por tanto» que enlaza ambos lados no es el «luego» o el «por tanto» de un silogismo; la conexión entre el ser y el pensar se establece sólo de un modo inmediato. Esta certeza es, por consiguiente, el prius; todas las demás proposiciones vienen después.”penso existo – um pleonasmo, redundância, tautologia, auto-referência e nada mais. Não no sentido de deboche do que é. A auto-referência por excelência, além do mais. O “ponto zero” do plano cartesiano, de onde parte todo o pensamento metafísico moderno.
“en el ser no hay que representarse tampoco, ni mucho menos, un contenido concreto; por donde es la misma identidad inmediata la que constituye también el pensamiento. (…) la inmediatidad es una determinación unilateral; el pensamiento no contiene esta determinación solamente, sino también la de servir de mediador consigo mismo: la inmediatidad existe precisamente por el hecho de que el mediar es, al mismo tiempo, levantar la mediación.” eu penso eu existo; (eu) (eu); yo = yo; a rigor, não existe sequer o “”, elemento relacional, que designa ou conota MEDIAÇÃO, já que é uma Imediação. penso-existo. ser-pensamento. É o principio de individuação de Aristóteles em seu grau máximo formulado da forma mais sintética. Esta imediação não contempla, ainda, o inconsciente enquanto tal (é o ser no aqui e agora, mas não o Ser total).
“Por tanto, Descartes no se preocupa de seguir demostrando esta identidad del ser y el pensar, que constituye sin disputa la idea más interesante de los tiempos modernos, sino que se remite única y exclusivamente a la conciencia y la coloca momentáneamente a la cabeza. Y es que Descartes no siente todavía, en modo alguno, la necesidad de desarrollar las diferencias contenidas en el «yo pienso»; será Fichte quien, andando el tiempo, proceda a derivar todas las determinaciones partiendo de esta cúspide de la certeza absoluta.” Mas suas derivações são totalmente inúteis.
“Contra Descartes se han alegado también otras proposiciones. Gassendi, por ejemplo, formula esta objeción: Ludificor, ergo sum: Soy juguete de mi conciencia, luego existo; en realidad: luego, soy juguete de mi conciencia. Y el propio Descartes comprende perfectamente que esta objeción merece ser tenida en cuenta; pero la refuta él mismo, diciendo que sólo debe hacerse hincapié en el Yo, no en el resto del contenido. Sólo el ser es idéntico al pensamiento puro, no el contenido del ser, sea el que fuere.” Gassendi é bobo. Trata-se de solipsismo ingênuo de sua parte.
“como con frecuencia sucede en sueños, puedo creer que veo o que me paseo a pesar de que no abro siquiera los ojos ni me muevo del sitio”A rigor, pensa-se no sonho, o que enfraquece o discurso cartesiano. Ainda que em simulacro, há uma certeza na representação onírica de que se pensa, pois apesar de não ser em vigília o ato é efetivamente levado a cabo, idêntico ao pensar.
“Decir «en sueños» es una modalidad de razonamiento empírico; por lo demás, nada hay que objetar contra esta argumentación. En el querer, ver, oír, etc., va implícito también el pensamiento; sería absurdo creer que el alma guarda, por decirlo así, la facultad de pensar en un bolsillo especial y la de ver, querer, etc., en otro. Sin embargo, cuando digo: veo, me paseo, en ello va implícito de una parte, mi conciencia, el Yo y, por tanto, el pensamiento; pero, por otra parte, va también implícito en ello el querer, el ver, el oír, el pasear y, con ello, por tanto, una modificación ulterior del contenido. Y precisamente esta modificación es la que me impide afirmar: Me paseo, luego existo; pues puedo abstraerme de la tal modificación, puesto que no es ya el pensamiento general. Hay que mirar, pues, solamente a la conciencia pura contenida en este Yo concreto. Sólo cuando destaco que existo en ella como un ser pensante, sólo entonces tengo delante el ser puro, pues el ser sólo va unido a lo general.”
“Puedo dudar de todo lo demás, de la existencia de las cosas físicas, de mi propio cuerpo; o bien, esta certeza no lleva en sí misma la nota de lo inmediato. Pues el yo es precisamente la certeza misma, que en lo demás es solamente predicado; mi cuerpo es cierto para mí, pero no es la certeza misma.” “Lo real, dice, es una sustancia, y el alma la sustancia pensante”
«Ahora bien, la evidencia de todo se basa en que lo veamos tan claro y tan nítido como aquella certeza misma, y en que, por tanto, de tal modo dependa de este principio y coincida con él, que si quisiéramos dudar de ello tengamos que dudar también de este principio»
“Lo tercero es, por tanto, el tránsito de esta certeza a la verdad, a lo determinado; también este tránsito presenta en Descartes un carácter simplista, y con ello se ofrece a nuestra consideración, por vez primera, la metafísica cartesiana.” “Ahora bien, la verdad de todo saber descansa sobre la prueba de la existencia de Dios.”Podemos resumir as meditações cartesianas como uma tentativa mal-sucedida (mas corajosa) de resgatar a alegoria da caverna de Platão; obviamente, o que este magnânimo pensador consegue de modo completo numa fábula auto-contida, Descarte mal e mal consegue em uma frase, ou seja, não consegue sustentar por mais do que 3 palavras, com o mesmo poder, o tipo de raciocínio-em-direção-à-essência. O fato de haver um Deus monoteísta a que se deve remeter todos os achados atrapalha bastante…
“En efecto, el triángulo no tiene nada de cierto, ya que la extensión no se da en la certeza inmediata de mí mismo.”
“mientras no se pruebe y se reconozca la existencia de Dios, existe la posibilidad de que nos equivoquemos, por no poder saber si nuestra naturaleza será realmente propensa al error” Caso em que deveríamos ter de buscar novos valores…
“La perfección lleva también consigo, en efecto, la determinación de la existencia, ya que no puede decirse que la representación de algo inexistente sea perfecta. Ahí tenemos, pues, la unidad del pensar y el ser y la prueba ontológica de la existencia de Dios”
Implicações de se remeter a algo externo (neste caso um Deus): “en el Yo va contenido el ser como la certeza inmediata de una alteridad, del no-Yo opuesto al Yo. § «Ninguna cosa o ninguna perfección de una cosa que exista realmente actu puede tener como causa de su existencia la nada. Pues si de la nada pudiese predicarse algo, podría predicarse también el pensamiento: diría por tanto que, puesto que pienso, no soy.»”
«los grados de la realidad que percibimos en las ideas no existen en las ideas mismas, en cuanto se las considera simplemente como modalidades del pensamiento, sino en la medida en que la una representa una sustancia y la otra solamente un modo de ella; en una palabra, en cuanto que se las considera como representaciones de cosas» Spinoza
“aquí no se da en la forma de Dios ninguna otra representación que la contenida en el cogito, ergo sum, en la que el ser y el pensar aparecen inseparablemente unidos, sólo que ahora bajo la forma de una representación que poseo en mí. El contenido de esta representación, el Omnipotente, el Omnisciente, etc., son predicados que se manifiestan después; el contenido mismo es el contenido de la idea, vinculado con la existencia. Vemos así cómo estas determinaciones se suceden unas a otras de un modo puramente empírico y que, por tanto, no prueba filosóficamente nada: un ejemplo de cómo en la metafísica apriorística se procede a base de premisas de representaciones y de cómo éstas son pensadas, ni más ni menos que empíricamente se procede a base de ensayos, observaciones y experiencias.”
A suprema ironia é que o que prova ontologicamente o eu e a outridade neste caso é o princípio <NIHIL EX NIHILO>, quando na era cristã, justamente, tudo depende desse motto. Ter-se-ia que imaginar uma sociedade (a Atenas clássica?) que não crê em genealogia ou escatologia e que fundamenta sua filosofia no Nada!
RECAÍDA NA ESCOLÁSTICA:“Viene, en cuarto lugar, esta afirmación de Descartes: «Lo que nos es revelado acerca de Dios debemos creerlo aunque no lo comprendamos. Y no es de extrañarse de que, siendo nosotros seres finitos, lo que hay de infinito en la naturaleza de Dios sea inconcebible para nosotros, se halle por encima de nuestra comprensión.»”
“Todo esto aparece relatado de un modo extraordinariamente sencillo, pero no por ello deja de ser algo indeterminado, formal y carente de profundidad; no se hace sino afirmar que las cosas son precisamente así, y no de otro modo. La trayectoria de Descartes es simplemente la trayectoria del entendimiento claro. La certeza es para él lo primero; de ella no se deriva necesariamente ningún contenido, ni un contenido en general, ni menos aún su objetividad como distinta de la subjetividad interior del Yo. Nos encontramos, pues, de una parte, con la contraposición entre el conocer subjetivo y la realidad y, de otra parte, con su inseparable vinculación.” “la prueba de esta unidad descansa única y exclusivamente en decir que descubrimos en nosotros la idea de lo más perfecto” “Una objeción en contra de esta identidad, objeción ya antigua y también kantiana, es ésta: que del concepto de la más perfecta esencia no se desprende más de lo que se halla entrelazado en los pensamientos existencia y esencia perfectísima, pero no fuera del pensamiento.”
“Descartes concibe el ser en el sentido absolutamente positivo, sin llegar al concepto de que es lo negativo de la conciencia de sí: ahora bien, el ser simple, establecido como lo negativo de la conciencia de sí, es la extensión; por eso Descartes niega a Dios el atributo de la extensión, se atiene a esta separación, y enlaza el universo, la materia, con Dios como el creador, causa de ella, formulando el certero pensamiento de que la conservación de la materia es una creación continua, en cuanto que la creación se establece de un modo separado, como actividad.” “la materia, las sustancias extensas, se enfrentan a las sustancias pensantes, que son simples; por cuanto el universo ha sido creado por Dios, no podría ser tan perfecto como su causa. En realidad, el efecto es más imperfecto que la causa, puesto que es algo que se establece, aunque nos atengamos al concepto puramente intelectivo de la causa. La extensión es, por tanto, según Descartes, lo más imperfecto: pero, como imperfectas que son, las sustancias extensas no pueden existir y persistir por sí mismas o a través de su concepto; necesitan, pues, en todo momento de la asistencia de Dios para su conservación”
“Descartes da definiciones de estos pensamientos, lo mismo que Aristóteles indaga las categorías. Pero, así como antes establecía como fundamento que no se debía partir de premisa alguna, ahora toma las nociones a que pasa como algo con que se encuentra en nuestra conciencia. Define la sustancia así: «Entiendo por sustancia, simplemente, una cosa (rem) que no necesita de ninguna otra para existir; y esa sustancia que no necesita de ninguna otra cosa sólo puede ser una, a saber: Dios.»”
“Descartes pretende pensar siempre, y no hacer otra cosa; ahora bien, la resistencia, el color, etc., no los piensa, sino que se limita a captarlos como cualidades sensibles.” “La extensión y el movimiento son los conceptos fundamentales de la física mecánica; son lo que es la verdad del mundo de los cuerpos. Descartes ve flotar vagamente ante él la idealidad y se halla muy por encima de la realidad de las cualidades sensibles, pero no pasa a la particularización de esta idealidad. Se detiene, pues, en el mundo de la mecánica en sentido estricto.” “En los organismos vivos, la digestión, etc., no son sino efectos mecánicos de esa clase, que tienen como principios la quietud y el movimiento. Vemos, pues, aquí el fundamento y el origen de la filosofía mecánica; sin embargo, una visión más a fondo nos dice que esto es insuficiente, poco satisfactorio, que la materia y el movimiento no bastan para explicar la vida.”
“En esta filosofía predomina, por tanto, el tratamiento pensante de lo empírico; y es éste justo el modo como se manifiestan los filósofos de esta época. En Descartes y otros, la filosofía tenía aún la significación indeterminada de conocer por medio del pensamiento, la reflexión, el razonamiento. El conocimiento especulativo, las deducciones a partir del concepto, la evolución libre e independiente de la cosa misma serán introducidos más tarde por obra de Fichte; por tanto, en Descartes no aparecen separados aún lo que hoy llamamos conocimiento filosófico y el conocimiento científico de otra clase. Por aquel entonces, incluíanse en la filosofía todas las ciencias humanas; por eso nos encontramos con que en la metafísica cartesiana se mezclan y confunden del modo más simplista las reflexiones y los razonamientos completamente empíricos nacidos de razones, de experiencias, de hechos, de fenómenos, sin que tengamos la sensación de estar asistiendo a algo especulativo.”
“Para Spinoza, el alma y el cuerpo, el pensamiento y el ser, dejan de ser cosas especiales, cada una de ellas para sí. Por tanto Spinoza, como judío que es, levanta [suspende] totalmente el dualismo [corpo-alma, e mediação do Deus cristão, como veremos na seqüência da explicação de H.] que lleva consigo el sistema cartesiano. Como judío que es, decimos, pues la profunda unidad de su filosofía, tal y como a través de él se manifiesta en Europa, la concepción del espíritu, de lo infinito y lo finito, como idéntico en Dios, sin ver en éste un tercer término, es en realidad un eco del pensamiento oriental. Con Spinoza penetra por vez primera en la mentalidad europea la concepción oriental de la identidad absoluta y más concretamente se incorpora directamente a la filosofía europea, cartesiana.”
“Este pensador descendía de una familia de judíos portugueses, y nació en Amsterdam en el año 1632, recibiendo el nombre de Baruch, que más tarde cambió en el de Benedicto. Recibió en sus años mozos las enseñanzas de los rabinos de la sinagoga a que pertenecía, pero pronto entró en conflicto con ellos, furiosos de que se declarase en contra de las quimeras talmúdicas. Se mantuvo por algún tiempo apartado de la sinagoga; pero los rabinos, temerosos de que su ejemplo pudiese traer malas consecuencias a su iglesia, le ofrecieron mil florines de estipendio anual si se prestaba a seguir asistiendo a la sinagoga, sin plantear ninguna clase de conflictos. Benedicto rechazó el ofrecimiento y las persecuciones de los rabinos contra él llegaron a enconarse tanto, que incluso maquinaron el plan de quitarlo de en medio, atentando contra su vida.
Habiendo logrado a duras penas escapar de los espadachines que habían de darle muerte, se separó formalmente de la iglesia judaica, aunque sin abrazar la religión cristiana. Se dedicó preferentemente al cultivo del latín y al estudio de la filosofía cartesiana. Más tarde, se trasladó a la villa de Rynsburg, cerca de Leiden, donde vivió desde 1664, respetado por muchos amigos, pero entregado por entero a la quietud y al aislamiento, primero en Voorburg, aldea cercana a La Haya, y más tarde en esta misma ciudad, ganándose la vida con un trabajo manual, consistente en la preparación de cristales para fines ópticos.
No es extraño que le interesase especialmente la luz, que es, en la materia, la identidad absoluta misma, base de la concepción oriental. Aunque tenía amigos ricos y poderosos protectores, entre los que figuraban algunos generales, vivió siempre pobremente, habiendo rechazado en varias ocasiones grandes regalos que le fueron ofrecidos. Se negó también a ser instituido heredero de Simón de Vries, empeñado en dejarle todos sus bienes, y sólo aceptó de él una pensión anual de 300 florines; renunció también, en beneficio de sus hermanas, a la parte que le correspondía de la herencia paterna. El Gran Elector del Palatinado, Carlos Luis, hombre de una nobleza extraordinaria y libre de los prejuicios de su tiempo, le invitó a desempeñar una cátedra en Heidelberg, con libertad absoluta para enseñar y escribir, ya que «el príncipe estaba seguro de que no abusaría de ella para atacar a la religión públicamente establecida». Pero Spinoza (según sabemos por sus cartas impresas) rechazó la oferta con buenas razones, por «no saber dentro de qué límites habría de encerrarse aquella libertad filosófica a que se ponía como condición el no atacar la religión públicamente establecida». Permaneció, pues, en Holanda, país extraordinariamente interesante para la cultural general, el primero que dio en Europa un ejemplo de tolerancia, brindando a muchos hombres un refugio de libertad de pensamiento; pues aunque los teólogos holandeses adoptasen, a veces, una actitud furiosa contra algunos pensadores, por ejemplo contra Bekker (v. Brucker), o se mostrasen, por ejemplo, en el caso de Voetius, rabiosos contra la filosofía cartesiana, lo cierto es que esta actitud no se traducía nunca en las consecuencias a que habría conducido en cualquier otro país.”
Já que estamos falando aqui de alguém de vida beata, cabe ressaltar que Pascal não é citado uma única vez nessa deficiente História da Filosofia de Hegel!
“Un clérigo protestante llamado Colerus, aunque da muestras de una furiosa enemistad contra él en la biografía que escribió de Spinoza, ofrece por otra parte noticias muy exactas y afectuosas acerca de sus condiciones de vida, dice que, al morir, sólo dejó unos 200 táleros, cuenta las deudas que tenía, etc. El buen predicador se escandaliza a propósito de una cuenta encontrada entre los papeles del muerto, en la que su barbero reclamaba del «bienaventurado» señor Spinoza el pago de sus estipendios atrasados, y escribe las siguientes palabras, a modo de comentario: «A buen seguro que si el barbero hubiese sabido qué clase de pájaro era Spinoza, no le habría llamado bienaventurado.»”
“El primer escrito de Spinoza que encontramos entre sus obras lleva por título: Principios de Cartesio, probados por el método geométrico. Más tarde, escribió su Tractatus theologico-politicusque le valió gran celebridad. En efecto, si había sido grande el odio que había concitado contra sí por parte de los rabinos, este tratado atrajo ahora sobre su cabeza un odio aún mayor por parte de los teólogos cristianos, principalmente de los protestantes. Figura en él la teoría de la inspiración, un estudio crítico de los libros mosaicos y otras cosas por el estilo, expuestas sobre todo desde el punto de vista de que estas leyes se limitan al pueblo judío. En esta obra de Spinoza encontramos ya todas las disquisiciones críticas de los teólogos cristianos acerca de estos problemas y que tienden generalmente a demostrar que estos libros fueron redactados más tarde de lo que se piensa y que son, en parte al menos, posteriores al cautiverio babilónico, doctrina que constituye un capítulo fundamental para los teólogos protestantes y con la que los modernos se dan gran importancia y tratan de brillar sobre los antiguos.
Pero lo que mayores odios atrajo sobre Spinoza fue su filosofía misma, que examinaremos aquí más de cerca, partiendo de su Ética. Descartes no dio a conocer ética alguna, la obra filosófica fundamental de Spinoza es precisamente una Ética, publicada después de su muerte por Luis Mayer, un médico, que había sido el amigo más íntimo del autor.
La Ética de Spinoza consta de 5 partes. La primera trata de Dios (De Deo). Se exponen en ella algunas ideas metafísicas generales que implican el conocimiento de Dios y de la naturaleza. La segunda parte trata de la naturaleza y del origen del espíritu (De natura et origine mentis). Spinoza no expone aquí, en modo alguno, una filosofía de la naturaleza, los problemas de la extensión y el movimiento, sino que pasa inmediatamente de Dios a la filosofía del espíritu, al aspecto ético; y lo referente al conocimiento, al espíritu inteligente, figura en la primera parte, en los principios del conocimiento humano. El tercer libro de la Ética trata del origen y la naturaleza de los afectos (De origine et natura affectuum). El cuarto, de las fuerzas de ellos o de la servidumbre humana (De servitute humana seu de affectuum viribus). Finalmente, el libro quinto se ocupa del poder del entendimiento, del pensamiento o de la libertad humana (De potentia intellectus seu de libertate humana).”
“La sustancia cartesiana probablemente encierra, como idea, el ser mismo en su concepto; pero es solamente el ser como ser abstracto, no el ser en cuanto ser real o en cuanto extensión. En Descartes, la corporeidad y el Yo pensante son esencias independientes por sí mismas; esta independencia de los dos extremos es levantada en el spinozismo, al convertirse en momentos de la Esencia absoluta y única. Vemos que lo que importa, en esta expresión, es el concebir el ser como la unidad de lo contradictorio; el interés fundamental reside en no hacer caso omiso de la contradicción y darla de lado, sino en reducirla y disolverla. Y en cuanto que aquí el ser y el pensar no forman ya una contraposición como las abstracciones de lo finito y lo infinito o el límite y lo ilimitado, el ser es concebido ahora, de un modo más determinado aún, como extensión; pues, en su abstracción, sólo sería en rigor el mismo retorno a sí, la misma identidad simple consigo mismo que es el pensamiento. Por tanto, el pensar puro de Spinoza no es lo general espontáneo de Platón, sino lo que se conoce al mismo tiempo con la contraposición absoluta del concepto y el ser.” “pero no es la verdad entera; para serlo, habría que concebirla como algo activo de suyo, como algo vivo, con lo cual se la determinaría ya como espíritu. Pero, la sustancia spinozista es solamente la determinación general y, por tanto, la determinación abstracta del espíritu; cierto es que podría decirse que este pensamiento es la base de toda concepción verdadera, pero no como el fundamento que permanece firme de un modo absoluto, sino como la unidad abstracta que es el espíritu dentro de sí.”
“Hay que reconocer que el pensamiento no tuvo más remedio que colocarse en el punto de vista del spinozismo; ser spinozista es el punto de partida esencial de toda filosofía.Pues cuando se comienza a filosofar, el alma tiene que empezar bañándose en este éter de la sustancia una, en el que naufraga todo lo que venía teniéndose por verdad. Esta negación de todo lo particular a que necesariamente tiene que llegar todo filósofo es la liberación del espíritu y la base absoluta sobre que éste descansa. La diferencia entre nuestro punto de vista y el de los filósofos eléatas sólo estriba en que el cristianismo hace que exista en el mundo moderno la individualidad absolutamente concreta dentro del espíritu.”
“lo grandioso del modo de pensar de Spinoza consiste en poder renunciar a todo lo determinado, a todo lo particular, para situarse solamente ante lo Uno, para prestar atención solamente a esto.”
“La primera definición de Spinoza es la de la causa de sí misno. Dice: «Por causa de sí (causam sui) entiendo aquello cuya esencia implica la existencia, o sea, aquello que sólo puede concebirse como existente.» La unidad del pensamiento general y de la existencia se establece, como se ve, desde el primer momento; y en torno a esta unidad habrá de girar continuamente todo. Esto de la causa de sí mismo es una expresión importante, pues mientras nos imaginamos que el efecto es lo opuesto a la causa, la causa de sí mismo es aquella causa que, al actuar y separar lo otro, sólo se produce, al mismo tiempo, a sí mismo, por lo tanto, al producirse, levanta esta distinción. El establecerse a sí mismo como si fuese otro es el contraste y, al mismo tiempo, la negación de esta pérdida; estamos ante un concepto totalmente especulativo, más aún, ante un concepto fundamental en toda especulación.”
“esta otra cosa tiene que ser del mismo género, pues las cosas que se limitan, para poder limitarse, tienen que entrar en contacto y, por tanto, guardar una relación entre sí, es decir, ser cosas de la misma clase, descansar sobre la misma base, pertenecer a una esfera común. Tal es el lado afirmativo del límite.
«Según esto, el pensamiento es limitado por otro pensamiento, el cuerpo por otro cuerpo; pero el pensamiento no es limitado por un cuerpo, ni el cuerpo por un pensamiento.»
Ya lo veíamos en Descartes: el pensamiento es totalidad para sí, y lo mismo la extensión, sin que tengan nada de común ni mantengan relaciones mutuas de ninguna clase; no se limitan el uno al otro, sino que cada cual forma un todo cerrado de suyo.”
«Por sustancia entiendo aquello que es en sí y se concibe por sí; es decir, aquello cuyo concepto no necesita del concepto de otra cosa para formarse (a quo formari debeat) de otro modo sería algo finito, accidental. Lo que necesita de otra cosa para ser concebido no es algo independiente, sino que depende de esta otra cosa.»
«Por atributo entiendo aquello que el entendimiento percibe como lo que constituye la esencia de la sustancia» “Y no cabe duda de que es ésta una gran determinación; el atributo es evidentemente una determinabilidad, pero una determinabilidad que sigue siendo, al mismo tiempo, totalidad. Y Spinoza, como Descartes, sólo admite 2 determinabilidades de éstas: el pensamiento y la extensión. (…) Cada uno de estos 2 modos de consideración, la extensión y el pensamiento, contiene indudablemente el contenido íntegro de la sustancia, pero solamente bajo una forma que hace entrar en ello también el entendimiento; precisamente por ello son ambos lados idénticos en sí, infinitos.”
“La quinta definición se refiere al tercer elemento de la sustancia, al modo. «Por modo entiendo las afecciones de la sustancia o sea aquello que es en otra cosa por medio de la cual es también concebido.» Por tanto, la sustancia se concibe por sí misma; el atributo no es lo concebido por sí mismo, sino que guarda relación con el entendimiento conceptual, pero en tanto éste concibe la esencia; finalmente, el modo es lo no concebido como la esencia, sino por otra cosa y en ella.”
“son 3 momentos muy importantes y corresponden a lo que nosotros, de un modo más preciso, distinguimos como lo general, lo particular y lo individual. Pero no debemos enfocarlos de un modo formal, sino en su sentido verdadero y concreto: lo general concreto es la sustancia, lo particular concreto el género concreto”
“Como vemos, Spinoza va descendiendo, pues el modo es la fase más baja de todas; el defecto de este filósofo estriba en que concibe lo 3º solamente como modo, como la individualidad mala. La verdadera individualidad, la subjetividad, no es solamente un alejamiento de lo general, lo determinado puro y simple, sino que es, al mismo tiempo, como algo determinado pura y simplemente, lo que es para sí, lo que se determina solamente a sí mismo. De este modo, lo individual, lo subjetivo es justo el retorno a lo general; al ser lo que es consigo mismo es también de suyo lo general. El retorno consiste simplemente en ser en sí mismo lo general; pero a este retorno no llega Spinoza.”
“En el mismo sentido distingue Spinoza, en la carta 29 (Opera, 1.1, pp. 526-532) lo infinito de la imaginación de lo infinito del pensamiento (intellectus), de lo realmente (actu) infinito. La mayoría de los hombres, cuando tratan de elevarse sobre la realidad, sólo llegan al primero, que es el infinito malo,¹ como cuando se dice: «y así sucesivamente, hasta el infinito»: por ejemplo, la infinitud del espacio entre un astro y otro, o el del tiempo. Lo mismo ocurre con las series infinitas del número en las matemáticas. Cuando un quebrado se representa como quebrado decimal, es imperfecto; V7 [¿?] expresa por el contrario el infinito verdadero, no es por tanto una expresión imperfecta, aunque el contenido sea, en este caso, ciertamente limitado. Lo infinito malo se suele tener presente cuando se habla de infinitud; y por muy superior que la consideremos, no es, en realidad, nada presente, y trasciende solamente a lo negativo, sin ser actu.”
¹ Esses conceitos hegelianos e ficar identificando-os em filósofos prévios são duas coisas que não levam a nada!
“Spinoza llama a la infinitud filosófica, a lo que es infinito actu, la afirmación absoluta de sí mismo. Y es absolutamente exacto. Lo que ocurre es que habría podido expresarlo mejor, diciendo: «Es la negación de la negación.»”
“en Spinoza existe, pues, la infinitud verdadera. Pero sin que él tenga conciencia alguna de ello, sin que reconozca este concepto como un concepto absoluto, ni lo exprese, por tanto, como momento de la esencia misma, pues ese concepto cae aquí fuera de la esencia para entrar en el pensamiento de ella.” Essa crítica enviesada já está me cansando…
«Dios es causa inmanente, pero no transitiva (transiens) de todas las cosas», es decir, externa. Su esencia y su existencia son lo mismo, a saber: la verdad. Una cosa que ha sido determinada a obrar algo, ha sido necesariamente determinada por Dios, ya que Dios es la causa: y siendo ese su destino, no puede carecer de determinación. En la naturaleza no hay nada contingente. La voluntad no es una causa libre, sino solamente necesaria, solamente un modo; esto quiere decir que se halla determinado por otro. Dios no obra con arreglo a causas finales (sub ratione boni). Quienes lo afirman, parecen estatuir al lado de Dios algo que no depende de Dios y hacia lo que Dios mira en sus actos, como hacia un fin. Así concebido el problema, Dios no sería una causa libre, sino que se hallaría sometido a lo fatal. E igualmente insostenible es querer someterlo todo a la arbitrariedad, es decir, a una voluntad indiferente de Dios.”Ética – os trechos em vermelho são muito importantes, pois mostram que Spinoza não está submetido a nenhuma teleologia, i.e., historicismo, hegelianismo…
«La natura naturans es Dios considerado en cuanto causa libre, en tanto que es en sí y concebido por sí, o aquellos atributos de la sustancia que expresan la esencia eterna e infinita. Por natura naturata entiendo todo lo que se sigue de la necesidad de la naturaleza de Dios o de cada uno de los atributos de Dios, todos los modos de los atributos divinos, en cuanto considerados como cosas que son en Dios y que sin Dios no pueden ser ni ser concebidas.»É., prop. XXIX
“El desarrollo de su pensamiento es extraordinariamente sencillo o, mejor dicho, no es desarrollo alguno; arranca directamente del espíritu.”
“O desenvolvimento de seu pensamento é extraordinariamente simples ou, melhor dizendo, não é desenvolvimento algum; arranca diretamente do espírito.” Algo mais específico eu deixarei para evidenciar quando ler a Ética em si.
“Bayle (que no tiene la menor noción de lo especulativo, aunque, como sutil dialéctico que era, impulsara el razonamiento pensante en torno a determinados temas) ridiculiza la creencia de que todo contenido especial es solamente una modificación de Dios, al deducir de ahí que Dios, modificado en forma de turco y de austríaco, hace la guerra consigo mismo.” Dicionário desarrazoado.
“Las cosas individuales brotan de Dios de un modo eterno e infinito (es decir, al mismo tiempo y de una vez), no de un modo transitorio, finito y perecedero; se desintegran simplemente al engendrarse y destruirse mutuamente, pero permaneciendo inmutables en su existencia eterna. Todas las cosas individuales se presuponen mutuamente y ninguna puede pensarse sin la otra: es decir, forman en su conjunto un todo indivisible; se reúnen en una cosa simplemente indivisible, infinita y que no existe ni puede existir de otro modo.”
“Ya sólo nos resta hablar de la moral de Spinoza; pero esto es precisamente lo fundamental de su doctrina. El principio en que descansa no es otro sino el de que el espíritu finito es moral en tanto tiene la idea verdadera; es decir, cuando endereza su conocimiento y su voluntad hacia Dios, pues la verdad consiste exclusivamente en el conocimiento de Dios. Puede decirse, en este sentido, que no existe moral más alta que ésta, la cual sólo postula una idea clara de Dios.”
«El matricidio de Nerón, en cuanto contenía algo positivo, no era un crimen. El mismo acto material cometió Orestes, animado por la misma intención de matar a su madre, y, sin embargo, no fue acusado de ningún acto criminal» Lo afirmativo es la voluntad, la idea, el acto de Nerón. «¿En qué consiste, pues, la maldad neroniana? Simplemente, en la ingratitud, en la falta de caridad, en la desobediencia. Y es evidente que nada de esto expresa una esencia, por lo cual Dios no pudo ser causa de ello, aunque fuese evidentemente la causa del acto y las intenciones de Nerón.»”
“Es, pues, falso el reproche que se le hace a Spinoza cuando se dice que su filosofía mata la moral; lejos de ello, se llega por este camino filosófico al elevado resultado de que todo lo que se recibe a través de los sentidos es solamente limitación, de que sólo existe una verdadera sustancia y de que la libertad del hombre consiste en levantar la mirada hacia esta sustancia una y ajustarse, en sus intenciones y en su voluntad, a este Uno eterno.”
“Quienes atacan a Spinoza hacen como si les importase mucho Dios; pero a estos adversarios no les preocupa realmente Dios, sino algo finito: el problema gira, para ellos, en torno a sí mismos.” Este homem ser acusado de ateísmo (Jacobi & al.) é sacanagem mesmo!
“La necesidad filosófica consiste, pues, en captar la unidad de estas diferencias, de tal modo que la diferencia no se deje a un lado, sino que brote eternamente de la sustancia, sin cristalizar y petrificarse en forma de dualismo. Spinoza se remonta por encima de este dualismo; y lo mismo hace la religión, si sabemos trocar las representaciones en pensamientos. El ateísmo de la primera actitud, en que los hombres consideran como lo supremo el libre arbitrio, su vanidad, las cesas finitas de la naturaleza, haciendo del universo algo perenne en la representación, no es el punto de vista de Spinoza, para quien Dios es la Sustancia una y el universo, por el contrario, solamente la afección o el modo de esta sustancia.”
“Spinoza afirma que lo que se llama universo no existe en modo alguno, pues sólo es una forma de Dios y no algo en y para sí. El universo no posee una realidad verdadera, sino que todo esto se lanza al abismo de una identidad única. Nada es, pues, en la realidad finita: ésta no posee verdad alguna; para Spinoza, solamente Dios es.” H. chama isso de acosmismo (meu deus, quanta expressão feia nesse trabalho!).
“Por tanto, quienes pintan a nuestro filósofo con tan negros colores no tratan de mantener en pie precisamente a Dios, sino lo finito, lo temporal; le echan en cara a Spinoza, en realidad, su propia anulación y la del mundo.” Porque ele disse que tudo era vaidade, em termos filosóficos, já está!
“El sistema spinozista es el del panteísmo y el monoteísmo absolutos, elevados al plano del pensamiento. El spinozismo dista, pues, mucho de ser un ateísmo en el sentido corriente de la palabra; pero sí lo es en el sentido de que en él no se concibe a Dios como espíritu. Pero en este mismo sentido podríamos acusar de ateísmo a muchos teólogos que sólo llaman a Dios el Ser supremo, omnipotente, etc., que no quieren reconocer, en realidad, a Dios y sólo reconocen como verdadero lo finito; y las doctrinas de éstos son bastante más peligrosas que las de Spinoza.” Um livro interessante para quem está no seminário (me refiro a este de H., mas não nego que a Ética de Spinoza, pelas citações já lidas, também deva sê-lo bastante!).
Reclama dos diagraminhas geométricos de Spinoza em meio à Ética:“Ya Descartes partía de que las proposiciones filosóficas deben poder tratarse y demostrarse matemáticamente y poseer la misma evidencia que las verdades matemáticas. Se considera el método matemático como el mejor de todos por su evidencia, y es natural que al renacer la ciencia como algo independiente recurra primeramente a esta forma, que le muestra un ejemplo tan brillante. Sin embargo, trátase de una forma inadecuada para un contenido especulativo y que sólo tiene razón de ser tratándose de ciencias finitas del entendimiento.” “El conocimiento matemático representa la prueba sobre el objeto existente como tal, pero no, en modo alguno, como concebido; carece en absoluto de concepto, siendo así que el contenido de la filosofía es justo el concepto y lo concebido.” “La matemática, en sus proposiciones verdaderas acerca de un todo, recurre al procedimiento de demostrar las proposiciones también a la inversa, privándolas con ello de esta determinabilidad, al conferir ambas cosas a cada parte. Las proposiciones verdaderas pueden considerarse, por tanto, como definiciones; y la inversión es la prueba del lenguaje corriente. Sin embargo, la filosofía no puede valerse propiamente de este recurso, ya que el sujeto con respecto al cual prueba algo no es de suyo otra cosa que el concepto o lo general, y la forma de la proposición, por tanto, algo completamente superfluo y, por consiguiente, torcido.”
“En estos últimos tiempos, ha sostenido Jacobi (Werke, t. IV, secc. 1, pp. 217-223) que toda demostración, todo conocimiento científico conduce al spinozismo, el cual es, según él, el único modo consecuente de pensar; y precisamente por eso, porque conduce a esa fuente, es por lo que no puede servir, [¡!] sino solamente el saber inmediato.” Esse Jacobi é um tapado!
“La trayectoria seguida por Spinoza es, pues, indudablemente certera; sin embargo, la proposición individual es falsa, ya que sólo expresa uno de los lados de la negación. El entendimiento tiene determinaciones que no se contradicen; no puede hacer frente a la contradicción.”
“El pensamiento, para él, tiene solamente la significación de lo general, no la de la conciencia de sí. Es esta falla la que, de una parte, ha hecho que se rebelara con tanta fuerza contra el sistema spinozista la idea de la libertad del sujeto, ya que en él desaparece el ser para sí de la conciencia humana, la llamada libertad, es decir, precisamente la abstracción del ser para sí, levantando también con ello a Dios como algo distinto de la naturaleza y de la conciencia humana, o sea como algo en sí, en lo absoluto; pues el hombre tiene la conciencia de la libertad, de lo espiritual, que es lo negativo de lo corporal, la conciencia de que es precisamente en lo opuesto a lo corporal donde es lo que verdaderamente es.” A vontade não-livre pré-morte de Deus, diria com certeza Nie.
“Y tampoco Dios es aquí el Espíritu, porque no es el Dios Trino y Uno.”
“Por consiguiente, de una parte, se concibe el defecto del spinozismo como la falta de correspondencia con la realidad; de otra parte, se debe ver en él una manera superior, de tal modo que se conciba la sustancia spinozista simplemente como la idea totalmente en abstracto, pero no en su vivacidad.” O que psicólogos do séc. XX ainda se esforçam por provar (e.g. Skinner).
“lo negativo, en Spinoza, existe solamente como la nada, ya que en lo absoluto no se da modo alguno”
“Y así como Spinoza se limitaba a considerar estas representaciones, ya que lo más alto, para él, era su desaparición en la Sustancia una, Locke se detiene a investigar cómo nacen estas representaciones[filósofo especializado no para-si] y Leibniz, por su parte, contrapone a Spinoza la pluralidad infinita de los individuos, si bien todas sus mónadas tienen como esencia fundamental la mónada una[filósofo especializado no em-si]. Ambas filosofías surgen, pues, como reacción contra las unilateralidades spinozistas, puestas de manifiesto aquí.” Podemos dizer que Spinoza foi o maior filósofo do ser em-si-e-para-si até seu tempo (obviamente estou excluindo Platão). Até mesmo Hegel – que é nosso antípoda tantas vezes – teria de concordar.
“La filosofía de Malebranche tiene exactamente el mismo contenido del spinozismo, pero expuesto bajo otra forma, bajo una forma más piadosa, más teológica. Y es esta forma la que le impide encontrar la contradicción descubierta por Spinoza y lo que explica, al mismo tiempo, por qué Malebranche no ha sido acusado, como Spinoza, de ateísmo.”
“Por casualidad, pasando un día por delante de una tienda de libros, vio la obra de Descartes De homine; la adquirió, la leyó, y le apasionó tanto, que sintió al leerla que le palpitaba con gran fuerza el corazón, viéndose obligado a interrumpir la lectura. Fue esto lo que decidió su carrera, inclinándole resueltamente al cultivo de la filosofía. (Buhle)”
“Su obra fundamental lleva por título De la recherche de la verité. Una parte de ella es completamente metafísica, pero la parte más importante tiene un contenido totalmente empírico”
«Porque vemos en Dios todas las cosas», BLABLABLABLABLABLABLÁ…
“El catecismo dice: «Dios está en todas partes»: si desarrollamos este don de la omnipresencia, vemos que nos conduce al spinozismo; y, sin embargo, los teólogos hablan en contra del sistema de identidad y ponen el grito en el cielo contra el panteísmo.”
“En Locke, lo primero es lo individual, a base de lo cual se forma lo general; en Malebranche, por el contrario, la idea general es lo primero en el hombre.”
“Fuera de esto, se encuentran toda una serie de vacuas letanías acerca de Dios y un catecismo para niños de 8 años acerca de la bondad, la justicia, la omnipresencia divinas y el orden moral del universo; los teólogos no han pasado de aquí en su vida entera.”
“De Locke arrancará después una ancha trayectoria, sobre todo de filósofos ingleses, que adoptarán formas distintas, pero manteniéndose fieles al mismo principio; esta manera acaba convirtiéndose, así, en una concepción general y se hace pasar además por filosofía, aunque el verdadero objeto de la filosofía no se encuentre aquí.” “Consideradas las cosas de tal modo que el concepto tenga una realidad objetiva para la conciencia, no cabe duda de que la experiencia es un momento necesario de la totalidad; pero tal y como este pensamiento aparece en Locke, es decir, como la pretensión de que la verdad es deducida de la experiencia y la percepción sensible, es el peor de los pensamientos”
“Ahora bien, estas necesidades sólo se dan a conocer de un modo imperfecto en la filosofía de Locke y de Leibniz; lo general, común a ambos filósofos, consiste en erigir en principio, por oposición a Spinoza y Malebranche, lo particular, la determinabilidad finita y lo individual. En Spinoza y Malebranche es la sustancia o lo general lo verdadero, lo único que es, lo eterno, lo que es en y para sí, sin origen, aquello de que las cosas particulares no son sino modificaciones, comprendidas por medio de la sustancia.”
“La tendencia general de la conciencia es ahora, por el contrario, poner de manifiesto la diferencia y aferrarse a ella: en parte, para determinarse a sí misma libremente frente a su objeto, el ser, la naturaleza y Dios; y, en parte, para descubrir en esta contraposición la unidad y hacerla surgir de ella.” “Al llegar a Locke, este principio empieza a enfrentarse en filosofía a aquella identidad rígida e indistinta de la sustancia de Spinoza de tal modo que ahora lo más importante de todo, lo fundamental es, por el contrario, lo sensorial, lo limitado, lo inmediatamente existente. Locke se mantiene enteramente en esa fase vulgar de la conciencia que consiste en creer que lo verdadero y lo real son los objetos que se hallan fuera de nosotros. Por tanto, Locke no concibe lo finito como una negatividad absoluta, es decir, en su infinitud; con esto nos encontraremos solamente al llegar a Leibniz. En efecto, éste establece, en un sentido elevado, la individualidad, lo distinto, como algo que es para sí, y además carente de objeto, como un verdadero ser; es decir, no como algo finito y, sin embargo, distinto, de tal modo que cada mónada es de suyo una totalidad.”
“John Locke nació en Wrington (Inglaterra) en 1632. Estudió en Oxford por su cuenta la filosofía cartesiana, dando de lado a la filosofía escolástica que era la que todavía se profesaba en la enseñanza. Abrazó la carrera de la medicina, aunque sin llegar a ejercerla, en realidad, por razón de su debilidad física.” “podía vivir en la casa del conde y tener cubiertas sus necesidades de vida, sin necesidad de dedicarse a la práctica de la medicina. Más tarde, al ser nombrado Shaftesbury Lord canciller de Inglaterra, designó a Locke para un cargo, del que se vio privado en seguida, al producirse un cambio de ministerio. § En 1675, temeroso de padecer de tuberculosis, se trasladó a Montpellier para restablecer su salud. Al ocupar de nuevo el ministerio su protector, volvió a ser nombrado para el cargo que antes ocupara, pero no tardó en verse otra vez separado de él, al sobrevenir un nuevo cambio de gabinete, y hubo incluso de huir de Inglaterra.” “Locke, en vista de ello, se trasladó a Holanda, que era por entonces el país donde encontraban asilo y protección cuantos se veían en el trance de huir de las persecuciones políticas o religiosas de otros gobiernos y donde habían ido reuniéndose, en aquellos años, los hombres más famosos y más liberales de Europa.” “Después de la revolución de 1688, al subir al trono de Inglaterra Guillermo de Orange, regresó en unión de éste a su país. Fue designado comisario del Comercio y las Colonias en el nuevo gobierno, publicó su famosa obra sobre el entendimiento humano y, por último, retirado de los negocios públicos por razón de su débil salud, vivió en las casas de campo de algunos grandes ingleses, hasta el 28 de octubre de 1704, en que murió, a la edad de 73 años. (Buhle)”
“La filosofía de Locke goza de gran estimación; sigue siendo todavía hoy en conjunto la filosofía de los ingleses y los franceses y, hasta cierto punto, también la de los alemanes. Su pensamiento central, formulado en pocas palabras, es éste: de una parte, que la verdad, el conocimiento, descansa sobre la experiencia y la observación; de otra parte, se prescriben el análisis y la abstracción de las determinaciones generales como vía de conocimiento; es, si se quiere, un empirismo metafisizante, y no es otro el camino corriente que se sigue en las ciencias.”
DA GENEALOGIA DAS IDÉIAS: “Locke trata, pues, de satisfacer una necesidad verdaderamente sentida. No se le puede negar el mérito de haber abandonado el camino de las simples definiciones, de las que los demás arrancaban, para intentar una deducción de los conceptos generales, esforzándose, por ejemplo, en poner de manifiesto cómo la sustancialidad nace subjetivamente de los objetos.” “Ahora, estas definiciones aparecen como un resultado y no como una proclamación oracular, aunque el modo como esta legitimación se establece no sea, por cierto, el más adecuado. En efecto, el interés es puramente subjetivo y de carácter más bien psicológico, en cuanto que Locke se limita a describir el camino del espíritu que se manifiesta; pues lo que a él le preocupa principalmente es derivar, en nuestro conocimiento, las representaciones generales o las ideas, como él las llama, y el origen de ellas, partiendo de lo exterior e interiormente perceptible.”
“Es verdad que también Malebranche se pregunta cómo llega el hombre a sus representaciones, lo que parece dar a entender que existe en él el mismo interés que en Locke. Pero, de una parte, este aspecto psicológico en Malebranche es solamente lo posterior; y, de otra parte, lo primario para él es lo general, es Dios; mientras que Locke arranca precisamente de las percepciones singulares, para remontarse, partiendo de ellas, a los conceptos y a Dios.”
“Todo hombre sabe ciertamente que, cuando su conciencia se desarrolla empíricamente, arranca siempre de sensaciones, de estados totalmente concretos, y que sólo más tarde aparecen las representaciones generales, que guardan con lo concreto de las sensaciones la conexión de hallarse contenidas en ello. El espacio, por ejemplo, se revela a la conciencia después de lo espacial, el género después de los individuos; y es actividad de mi conciencia, y solamente de ella, el disociar lo general de lo particular de las representaciones, las sensaciones, etc. Es cierto que el sentimiento, la sensación, es lo más bajo, la modalidad animal del espíritu; pero el espíritu, en cuanto pensamiento, aspira a transformar a su modo las sensaciones.”
“Kant le pone a Locke, con razón, el reparo de que la fuente de las representaciones generales no es precisamente lo individual, sino el entendimiento. Por lo que se refiere a los pensamientos de Locke, vistos más de cerca, no pueden ser más sencillos. Locke considera que el entendimiento es solamente la conciencia y algo dentro de ella, y sólo reconoce el en sí en cuanto se contiene en ella.”
“La filosofía de Locke va dirigida principalmente contra Descartes, quien, al igual que Platón, había hablado de ideas innatas. (…) discute, pues, en el libro primero de su obra las llamadas ideas innatas, tanto las teóricas como las prácticas, es decir, las ideas generales, que son en y para sí y que, al mismo tiempo, se conciben como si formasen parte del espíritu de un modo natural.” “Locke concibe, pues, el alma como una tabula rasa, vacía de todo contenido y que va llenándose con lo que llamamos experiencia.”
“si es el uso de la razón el que les ayuda a descubrir esos principios y el que, en realidad, los descubre, no se tratará de principios innatos. La razón consiste, a lo que parece, en descubrir verdades desconocidas partiendo de principios ya conocidos. ¿Por qué ha de ser necesario el empleo de la razón para descubrir unos principios pretendidamente innatos?”
“el desarrollo que se opera en la conciencia es algo distinto de la determinación racional en sí; y en este sentido hay que reconocer que la expresión de «ideas innatas» es completamente desacertada. «Es en los niños y en las personas incultas, por no estar deformados por la educación, donde mejor debieran darse estas ideas.» Locke añade todavía algunas razones de esta clase, especialmente de orden práctico: la divergencia que se advierte entre las ideas morales, la existencia de gentes malas y crueles, que no tienen conciencia moral, etc.”
“En el libro segundo, Locke pasa al origen de las ideas y trata de poner de manifiesto su formación, partiendo de la experiencia; en esto se concentra su esfuerzo fundamental. Pero este aspecto positivo, que opone a aquella derivación del interior del hombre, resulta igualmente torcido, ya que sólo toma los conceptos de fuera, reteniendo, por tanto, el ser para otro y desconociendo totalmente el en sí.”
“Ante todo, por lo que a la cosa misma se refiere es exacto, desde luego, que el hombre arranca de la experiencia cuando trata de formarse algún pensamiento. En todo anda la experiencia, no sólo en lo sensible, sino también en lo que «determina y mueve mi espíritu». Es, pues, indudable que la conciencia toma todas sus representaciones y todos sus conceptos de la experiencia y en ella; pero se trata de saber qué ha de entenderse por experiencia. Ordinariamente, cuando se habla así, no se tiene concepto alguno de lo que la experiencia es; se habla de ella como de algo perfectamente conocido. Ahora bien, la experiencia no es otra cosa que la forma de la objetividad; cuando decimos que algo se halla en la conciencia queremos decir que ese algo tiene forma objetiva para ella, que la conciencia lo experimenta, que lo contempla como algo objetivo. Experiencia quiere decir, aquí, saber inmediato, percepción: es decir, yo mismo debo poseer eso, y ser; y la conciencia acerca de lo que poseo y soy es justo la experiencia.” “Lo racional es, es decir, es como un ente para la conciencia, que ésta experimenta; necesita ser visto, oído, existir o haber existido como un fenómeno del universo.” “Y es de todo punto indiferente que se tome esto como algo experimentado, como una serie de conceptos de experiencia, si podemos expresarnos así, o de representaciones, o que se vea en esa serie una serie de pensamientos, es decir, de algo que es en sí.”
“Ahora bien, el trabajo del entendimiento consiste en sacar de varias llamadas ideas simples una cierta cantidad de ideas nuevas mediante la elaboración de aquellos elementos recibidos, por la vía de la comparación, la distinción y la contraposición y, finalmente, por la de la disociación o la abstracción, y así nacen los conceptos generales; nacen así, por ejemplo, los conceptos de espacio y tiempo, de existencia, unidad y diferencia, de potencia, causa y efecto, de libertad y necesidad.” “Ahora bien, Locke cifraba la esencia del entendimiento solamente en la actividad formal que consiste en formar nuevas determinaciones a base de las representaciones simples obtenidas a través de la percepción, mediante la comparación y la combinación de varias en una; el entendimiento es la aprehensión de las sensaciones abstractas contenidas en los objetos.” “Ahora bien, ¿cómo obtiene el entendimiento, partiendo de las representaciones simples de la experiencia, otras más complejas? Locke explica esto a la luz de lo particular; sin embargo, este extraer determinaciones generales a base de percepciones concretas no dice absolutamente nada, es algo extraordinariamente trivial, fastidioso y, además, muy prolijo; algo completamente formal, una vacua tautología. Así, por ejemplo, la representación general de espacio, nos dice, se forma en nosotros partiendo de la percepción de la distancia entre los cuerpos a través de la vista y el tacto. (…) la distancia misma es ya espacialidad, lo que quiere decir que el entendimiento saca la determinación del espacio mismo.” Um Piaget das cavernas.
“La idea de sustancia (que Locke toma en peor sentido que Spinoza), idea compleja, procede del hecho de que percibimos con frecuencia, juntas, ideas simples tales como la idea de azul, la idea de algo pesado, etc. Nos representamos esta yuxtaposición como algo que sustenta por igual aquellas ideas simples, en lo que estas ideas existen, etc.] Así deduce Locke también el concepto general de potencia. Y por la misma vía deriva, a continuación, las determinaciones de libertad y necesidad, de causa y efecto.” Tudo o que Kant resolve em um enunciado este senhor tem de debulhar mal e mal em páginas e páginas…
“Bien podemos afirmar que no cabe concebir nada más superficial que esta derivación de las ideas.” “Al hablar del espacio, por ejemplo, confiesa Locke que no sabe lo que es en sí. Este llamado análisis lockeano de las representaciones complejas y su llamada explicación de las mismas lograron encontrar una acogida general por razón de su claridad y su nitidez poco comunes. Pues, ¿cabe nada más claro que decir que el concepto de tiempo proviene de que percibimos el tiempo y el concepto de espacio de que vemos el espacio? Los franceses, sobre todo, lo aceptaron en seguida y lo desarrollaron; su Idéologie no contiene, en realidad, otra cosa.”
“Es algo así como si Locke pretendiera demostrar que el bien no es en sí porque haya muchachos malos, o que en la naturaleza no se da el círculo en y para sí, porque el contorno de un árbol, por ejemplo, no sea perfectamente circular, o porque el círculo dibujado por mí no sea exactamente un círculo geométrico.”
“Además, el sostener que los géneros no son nada en sí, que lo general no constituye la esencia de la naturaleza, que su ser en sí no es lo pensado, equivale a afirmar que no conocemos la esencia real: es la letanía repetida desde entonces hasta la saciedad:
Ningún espíritu creado puede conocer la estructura íntima de la naturaleza,
hasta llegar a la concepción de que el ser para otro, la percepción, no es algo en sí, concepción que no penetra hasta el lado positivo, en que el en sí es lo general. Locke, llevado de este apremio del ser para otro, queda muy rezagado en la naturaleza del conocimiento, mucho más rezagado, incluso, que Platón.” Incluso que Tales, que cualquier sofista!
“Y también es curioso que Locke, apoyándose en el sentido común, luche contra los principios generales o los axiomas, por ejemplo, el de que A = A, es decir, el de que cuando algo es A no puede ser B. Estas proposiciones, nos dice, son superfluas o de una utilidad insignificante o nula, pues nadie ha sido todavía capaz de construir una ciencia sobre el principio de la contradicción. Partiendo de estos principios, lo mismo puede probarse lo verdadero que lo falso; son, simplemente, tautologías.”
NASCIMENTO DA FILOSOFIA ANALÍTICA: “Tal es la filosofía de Locke, en la que no se contiene el menor atisbo de lo especulativo. En ella se trata de satisfacer por la vía empírica el interés de la filosofía, que consiste en conocer la verdad.”
“Con el método seguido por Locke cambia totalmente, a partir de ahora o en este aspecto el punto de vista de la filosofía; el interés se circunscribe a la forma del tránsito de lo objetivo o de las sensaciones aisladas a la forma de representaciones. Ya en Spinoza y Malebranche nos encontrábamos ciertamente, como determinación fundamental, con esta actitud del pensamiento orientada hacia el conocimiento de lo intuido, es decir, de lo relativo, y asimismo con la pregunta, ¿qué relación existe entre lo uno y lo otro? Pero se la contestaba y se la enfocaba en el sentido de que sólo esta relación era lo interesante, y esta relación misma, como sustancia absoluta, era en ellos la identidad, lo verdadero, Dios; ella, y no las cosas relacionadas. El interés allí no recaía sobre estas cosas; no eran estas cosas relacionadas”
“Platón investigó lo infinito y lo finito, el ser y lo determinado, etc., y dijo que ninguna de estas antítesis era, por sí misma, la verdad; sólo lo eran, para él, en cuanto se establecían como idénticas, viniese de donde viniera la verdad de este contenido. De nada sirve saber si ese contenido proviene del entendimiento o de la experiencia; lo que se pregunta, lo que interesa es únicamente esto: ¿es verdad por sí mismo?” Mas os ingleses não são tão sutis… Para eles basta que custe ‘x’ shellings…
“El interés del contenido en y para sí desaparece totalmente en esta posición, con lo cual se pierde totalmente de vista la finalidad de la filosofía. Por el contrario, allí donde el pensamiento es algo concreto por naturaleza, donde el pensamiento y lo general aparecen identificados con lo extenso, carece de todo interés e incluso de sentido el preguntarse cuál es la relación entre ambos, que el pensamiento ha desdoblado. ¿Cómo supera el pensamiento las dificultades que él mismo se ha creado? En Locke, no se crea ni se despierta ninguna. Y para que pueda satisfacerse la necesidad de reconciliación, es necesario que se empiece por sentir el dolor del desdoblamiento.” Na filosofia continental, filosofa-se com a dor (digo, ela é sintoma, ou pode ser sintoma, de que se está filosofando, efetivamente); na filosofia britânica, filosofa-se com o tédio, l’ennui.
“La filosofía de Locke es evidentemente una filosofía fácilmente comprensible, pero precisamente por ello una filosofía popular, a la que se une toda la filosofía inglesa tal y como es todavía hoy; es el modo preferente de esa actitud pensante a que se da el nombre de filosofía, la forma que se abre paso en la ciencia que nace por aquel entonces en toda Europa.” “las ciencias en general, y en particular las ciencias empíricas, deben su origen precisamente a esta trayectoria del pensamiento. A derivar experiencias de las observaciones es a lo que llaman los ingleses, desde esta época, filosofar; y este punto de vista ha prevalecido, unilateralmente, en las ciencias físicas y en las ciencias jurídico-políticas. Los ingleses llaman, en general, filosofía a una serie de principios generales acerca de la economía del Estado, como hoy el principio del librecambio, y en general a los que descansan sobre la experiencia pensante, a los conocimientos de lo que, dentro de este círculo, se revela como necesario y útil.” “y así, Newton está considerado entre los ingleses como el filósofo por excelencia.”
“Así surgió entre los ingleses la ciencia política racional,¹ por haber sido la peculiar constitución vigente en este país la que orientó a esta ciencia, de un modo singular y antes que ninguna otra lo hiciera, hacia la reflexión acerca de las relaciones jurídicas interiores del Estado. Hobbes² debe citarse a este respecto. Esta manera de razonar parte del espíritu presente, del propio interior o exterior, en cuanto que los sentimientos que nosotros abrigamos, las experiencias que se dan directamente dentro de nosotros, sirven de fundamento para este método. Pues bien, esta filosofía del pensamiento razonante se ha convertido hoy en la manera general de filosofar y de ella ha brotado toda la revolución operada en cuanto a la posición del espíritu.”
¹ Ciência política anti-platônica
² E aqui é dado todo o espaço que Thomas Hobbes merece na filosofia continental: um pé de página! Infelizmente, H. voltará a tratar dele mais abaixo…
“Hugo Grocio, por la misma época de Locke, se dedicó a estudiar el derecho de los pueblos; y también en él se manifiesta esta manera de pensar a que acabamos de referirnos, puesto que procede a establecer combinaciones totalmente empíricas de las relaciones entre los pueblos, unidas a razonamientos de tipo también empírico.” “Su obra principal, De jure belli et pacis, fue compuesta en 1625; hoy ya casi nadie la lee, pero llegó a ejercer una influencia extraordinaria. En ella expone Grocio históricamente y apoyándose, en parte, en pasajes del Antiguo Testamento, cómo los pueblos se comportan los unos con los otros en las relaciones de la guerra y de la paz y cuáles son las normas que entre ellos se siguen. Como ejemplo de la manera empírica de razonar de este pensador, pondremos el siguiente: a los prisioneros, dice Grocio, no se les debe dar muerte, pues la finalidad que se persigue es desarmar al enemigo y, conseguido esto, no hay por qué ensañarse derramando más sangre, etc. § Este método empírico trajo como consecuencia evidentemente que se revelasen a la conciencia principios generales racionales e intelectivos acerca de las relaciones entre los pueblos, que estos principios fuesen reconocidos y que se los hiciese más o menos aceptables. Nos encontramos, así, con la proclamación de principios tales como, por ejemplo, la legitimidad del poder real; pues el pensamiento del autor se proyecta sobre todo. Sus pruebas y sus deducciones no nos satisfacen; pero no por ello debemos desconocer lo que por este camino se logró, a saber: el establecimiento de principios que encuentran su confirmación definitiva en los objetos mismos, en el espíritu y en los pensamientos.”
“por lo que se refiere a la filosofía del Estado y su derecho (philosophia civilis), dice Hobbes que no es anterior a su libro De cive.” “Pero en él no hay, en realidad, nada de especulativo, nada que pueda llamarse propiamente filosófico; y menos aún en Hugo Grocio. § Con anterioridad, se proclamaban ideales o se invocaba la autoridad de la Sagrada Escritura o del derecho positivo; Hobbes, por el contrario, se esfuerza en reducir la comunidad del Estado y la naturaleza del poder político a principios que se hallan dentro de nosotros mismos y que reconocemos como propios. [Ao contrario: ele cita a bíblia DEMAIS!] Surgen así 2 principios contrapuestos. El 1º es el de la obediencia pasiva de los súbditos y la autoridad divina del regente, cuya voluntad es ley absoluta y se halla de suyo sustraída a toda otra ley. § Y esto se expone en relación estrecha con la religión y se prueba con ejemplos tomados del Antiguo Testamento, de la historia de Saúl y David, etc.” Ilegível hoje!
“Es cierto que Hobbes afirma también la obediencia pasiva y la arbitrariedad absoluta del poder real; pero, al propio tiempo, intenta derivar de determinaciones generales los principios del poder monárquico, etc. Sus concepciones son superficiales y de tipo empírico; pero los fundamentos que alega y las proposiciones que desarrolla tienen un carácter original, en cuanto que se inspiran en las necesidades naturales del hombre.” “Hobbes afirma: «El origen de toda sociedad civil hay que buscarlo en el temor mutuo de todos»; esto no pasa de ser, en realidad, un fenómeno que se le revela a la conciencia.” “Hobbes alega, en apoyo de esto, una razón bastante curiosa, y es que «cualquiera puede matar al otro», es decir, ejercer sobre él la violencia extrema.”
“Cudworth hizo el intento de revivir en Inglaterra la filosofía de Platón, pero por medio de demostraciones a la manera de las que encontrábamos en Descartes y de una seca metafísica intelectiva.” “También el de Clarke, con sus pruebas de la existencia de Dios, es un nombre famoso. Y, por este estilo, podríamos enumerar toda una serie de filósofos ingleses, de los que nos creemos autorizados a prescindir por completo, toda vez que Clarke, Wollaston y otros se mueven dentro de las formas de una metafísica intelectiva perfectamente vulgar.”
COMENTÁRIO GERAL SOBRE A SUPERFICIALIDADE DOS INGLESES: “La sociabilidad, por ejemplo, es un momento que encontramos en la experiencia, ya que el hombre obtiene de la sociedad múltiples beneficios. Ahora bien, ¿en qué se basa la necesidad del Estado, de la sociedad? En una inclinación social. Ésta es la causa, exactamente lo mismo que en lo físico se efectúa siempre este tipo de traducción formal. La necesidad de una existencia, por ejemplo la de los fenómenos de la electricidad, encuentra su fundamentación en una causa que los produce; es simplemente la forma de la reducción de lo exterior a lo interior, del ente a lo pensado, lo cual se representa, sin embargo, a su vez, como un ente” A conta quem paga somos nós, dos séculos XX e XXI, herdeiros da Colônia inglesa nas Américas. Do mais vil imperialismo que já grassou neste so-called planet. Se Hegel soubesse que o Espírito do Mundo reuniria a Terra numa Aldeia Global com estes ‘capitães’, teria reformulado seu sistema ainda em vida.
“En la lucha sostenida por afirmar por sí mismas las relaciones jurídicas dentro del Estado y fundar una organización judicial se ha manifestado, mezclándose esencialmente en ello, la reflexión del pensamiento; y, lo mismo que veíamos en Hugo Grocio, Pufendorf convierte en principio un impulso humano, un instinto, a saber: el instinto de sociabilidad, etc.” Só o fato de que me formei sociólogo sem sequer ouvir falar nisso demonstra sua total irrelevância para o pensamento.
“Newton fue indudablemente quien más contribuyó a la difusión de la filosofía de Locke o de la manera inglesa de filosofar, en general, y en particular a su aplicación a todas las ciencias físicas. Su lema era: «¡Física, guárdate de la metafísica!», lo que viene a decir, sobre poco más o menos: ¡ciencia, guárdate del pensamiento!” HAHAHAHAHA!
“[N.] levó la ciencia al punto de vista de la reflexión y proclamó las leyes de las fuerzas en vez de proclamar las leyes de los fenómenos.” “y tanto en la física como en la teoría de los coloresrecogió observaciones malas y llegó a conclusiones todavía peores.” Sobretudo na teoria das cores, que só foi arrematada a contento pelo “de humanas” Goethe!
“Además, Newton es un pensador tan bárbaro por lo que a los conceptos se refiere, que le ocurría lo mismo que a aquel otro inglés que se asombraba y se alegraba extraordinariamente al saber que se había pasado toda la vida hablando en prosa, sin conocer que estaba dotado de este talento. Newton, en cambio, como los físicos, no llegó a saberlo nunca, no llegó a darse cuenta de que, cuando creía manejar simplemente cosas físicas, pensaba y manejaba conceptos; en este sentido, viene a ser la antítesis de Böhme, quien manejaba las cosas sensibles como si fuesen conceptos, y se adueñaba perfectamente de su realidad y la dominaba gracias a la fuerza de su espíritu, mientras que Newton, procediendo a la inversa, operaba con los conceptos como con cosas sensibles y los tomaba en sus manos como suelen tomarse la piedra o la madera.” “Al comienzo de las obras de ciencias físicas se nos habla, por ejemplo, de la fuerza de la inercia, de la fuerza de aceleración, de las moléculas, de la fuerza centrípeta y centrífuga, como de firmes determinaciones existentes; es decir, que se nos ofrecen como los primeros rudimentos los que debieran ser los resultados finales de la reflexión.”
“¿Por qué no hacen estas ciencias mayores progresos? La causa de ello está sencillamente en que no saben operar con conceptos, sino que toman estas determinaciones y laboran a base de ellas, sin sentido ni entendimiento. Por eso en la óptica de Newton, por ejemplo, vemos que las conclusiones a que se llega a base de experiencias son algo tan alejado de la verdad, tan carente de conceptos que, presentándosenos como el ejemplo más grandioso de cómo se debe llegar a conocer la naturaleza por medio de experimentos y de conclusiones sacadas de ellos, debiera considerarse más bien como ejemplo de cómo no debiera experimentarse ni razonarse, de cómo no se debería tratar de conocer las cosas.
La naturaleza misma se encarga de refutar esa deplorable manera de experimentar, pues la naturaleza es algo mucho más excelente que lo que esos míseros experimentos nos dicen de ella: ella misma y el continuo experimentar dan el mejor mentís a esos falsos métodos. Y así, vemos que de los espléndidos descubrimientos newtonianos en materia de óptica sólo queda en pie uno: la división de la luz en 7 colores: en parte, porque lo que se ventila aquí es el concepto del todo y de las partes, y también por una empedernida cerrazón ante lo contrapuesto.”Já dediquei até um post sobre isso. Mas uma última palavra: creio que um dia diremos, esquecendo Cristo, e nos lembrando de Isaac Newton somente para esquecê-lo (lembrarmo-nos constantemente de conservá-lo esquecido): ANO XXX DEPOIS DE NÃO-NEWTON (ex: 272 d.¬N., para assinalar que não vivemos mais no mundo ocidental ou na modernidade que conhecemos. Obviamente meus tetranetos já serão caveiras até lá. Mas já vivemos em algum ano a.d¬N., se serve de consolo!
“Leibniz, que en otro sentido es la antítesis de Newton, es también claramente, en lo filosófico, la antítesis de Locke y su empirismo, y de Spinoza.” “Leibniz integra exteriormente a Spinoza mediante su principio de la individuación.” “Gottfried Wilhelm (barón de) Leibniz nació en 1646, en Leipzig, donde su padre era profesor de filosofía.” Deve ser o único filósofo da história filho de um filósofo!
“Poco después, trabó conocimiento en Nuremberg con una sociedad de alquimistas, dejándose iniciar en esta clase de estudios y manipulaciones; hizo extractos de obras sobre alquimia y ahondó en los arcanos de esta oscura ciencia.” Às vezes Leibniz só o fez pra “comer mulheres”, nós somos muito apressados em julgar!
“Todas estas ocupaciones, tan diversas y tan dispares, no fueron obstáculo para que descubriera, en 1677, el cálculo diferencial, a propósito de lo cual se vio arrastrado a una disputa con Newton, en la que, por cierto, mantuvieron una actitud poco noble tanto éste como la Sociedad de Ciencias de Londres. Los ingleses, que propendían a atribuírselo todo y eran bastante injustos con los demás, sostenían que el verdadero inventor de este cálculo era Newton. Sin embargo, los Principia newtonianos vieron la luz con posterioridad al descubrimiento de Leibniz, y en una nota a la primera edición, que más tarde desapareció, se hace un elogio del filósofo alemán.” ‘Obscenidades’ que não deveriam estar num livro hegeliano de história da filosofia, digo, do Espírito do Mundo. A verdade é que este assunto, além disso, mesmo para uma historiografia da matemática, seria controverso e haveria necessidade de abordá-lo em mais parágrafos: ao que tudo indica, Newton já possuía o conhecimento do cálculo diferencial (não se descobre algo assim, o termo correto seria inventar), porém tinha o hábito de publicar apenas muito vagarosamente, após reunir mais material e ‘sentir a recepção’ das idéias na comunidade matemática, ao passo que outros autores como René Descartes e o próprio Leibniz publicavam imediatamente após concluírem artigos e teses, sem constrangimento em se autocontradizerem ou desmentirem de seguida. Aqui o patriotismo de H. foi provavelmente em vão, apesar de estar certo quanto ao caráter protecionista dos ingleses! Ler https://seclusao.art.blog/2021/05/26/historia-da-matematica-uma-visao-critica-desfazendo-mitos-e-lendas-tatiana-roque-2012/.
“publicó obras muy importantes de historia. Murió en Hannover el año 1716, a los 70 de edad. (La Vie de Mr. Leibnizpor el caballero de Jaucourt; Brucker)”
“no encontramos ningún tratado de conjunto, ninguna obra sistemática revisada o desarrollada por él.” Talvez por isso também não tenha chegado a lê-lo até hoje. A diferença que uma obra clássica não faz em filosofia…
“La obra que presenta, tal vez, apariencias de tal, su Théodicée, la más famosa entre el público, es una obra popular, escrita para la reina Sofía Carlota en contra de Bayle y en la que nuestro filósofo se esfuerza por rehuir todo lo especulativo. (…) posteriormente, se burlaron de Wolff, quien había tomado este libro muy en serio” “Nosotros no alcanzamos ya a gustar plenamente la Teodicea de Leibniz, en la que se trata de justificar a Dios por los males de este mundo.” Hmmm, agora me deu vontade de lê-la.
„Buhle (Geschichte der neuern Philosophie, t. IV, secc. 1, p. 131) dice, refiriéndose a Leibniz: «Su filosofía no es tanto el producto de una especulación original, libre e independiente, como el resultado del examen de antiguos —y nuevos— sistemas, un eclecticismo cuyos defectos trataba de subsanar, este pensador, de un modo peculiar. Es una elaboración incoherente de la filosofía en forma de cartas.»” “De este modo, la filosofía leibniziana parece menos un sistema filosófico que una hipótesis sobre la esencia del universo y concretamente acerca del modo como ésta debe determinarse” “De aquí que la filosofía leibniziana parezca ser una serie de afirmaciones arbitrarias formuladas por este filósofo y empalmadas las unas con las otras, algo así como una novela metafísica; y no llegamos a apreciarla en su verdadero valor hasta que no vemos qué es lo que con ello ha querido evitar Leibniz.”
“el nombre de mónadas, expresión empleada ya por los pitagóricos.”
«La sustancia es una cosa capaz de actividad; es simple o compleja, pero las complejas no pueden existir sin las simples. Las mónadas son sustancias simples.» L., Principes de la nature et de la grâce
“Ahora bien, estas mónadas de que hablamos no son algo simple y abstracto de suyo, como los átomos vacíos de Epicuro, los cuales, por ser lo indeterminado de suyo, sólo pueden recibir y reciben su determinación, cualquiera que ella sea, de su agregación. Las mónadas son, por el contrario, formas sustanciales, expresión excelente, [ô!] tomada de la terminología de los escolásticos” “son las entelequias de Aristóteles concebidas como actividad pura, sean cuales fueren las formas que en ellas se manifiesten”
«Estas mónadas no tienen existencia material o extensión, ni nacen tampoco o perecen de un modo natural, sino que sólo pueden comenzar por un acto de creación de Dios y terminar por vía de destrucción.»
“Ahora bien, la palabra «creación» es conocida en la terminología religiosa; pero es un término vacío, sacado de la representación: para que llegue a ser un pensamiento y tenga significado filosófico, es necesario determinarlo con mucha mayor precisión.”
«Precisamente porque son sustancias simples, las mónadas no son modificadas por otras en su esencia interior; no se establece entre ellas ninguna conexión causal.»
«Pero estas mónadas necesitan tener, al mismo tiempo, en sí mismas, ciertas cualidades, ciertas determinaciones, acciones internas, por las que se distingan de otras. No pueden existir dos cosas iguales, pues si existiesen, no serían ya 2 cosas distintas, sino una y la misma cosa.» Principia philosophiae
“Para estas cosas sensibles el principio no tiene interés alguno: es, prima facie, indiferente que existan o no 2 cosas iguales entre sí; puede tratarse siempre de una distinción en cuanto al espacio.Es éste un sentido superficial, que no nos interesa en lo más mínimo. El sentido profundo es otro, a saber: el de que cada cosa es en sí misma algo determinado, algo que en sí misma se distingue de las demás.” “La distinción debe serlo en ella misma; no debe revelarse simplemente a nuestra comparación, sino que el sujeto debe encontrar la diferencia como su determinación propia; dicho en otros términos, la determinación debe ser inmanente al individuo. No somos nosotros los que distinguimos a la fiera por sus garras, sino que es ella la que se distingue esencialmente a sí misma por este atributo, la que se defiende y sostiene mediante él. Si 2 cosas sólo se distinguen por ser 2, cada una de ellas es una; el que sean 2 no representa en sí una relación diferencial, sino que lo fundamental es la diferencia determinada en sí.”
«Pero la determinabilidad y el cambio que ello lleva consigo representan un principio interno, que es en sí; es una pluralidad de modificaciones, de relaciones con las esencias que las rodean, pero una pluralidad que permanece encerrada en lo simple. Ahora bien, una determinabilidad y un cambio de este tipo, que permanecen y se desarrollan así en la esencia misma, no son otra cosa que una percepción[representação]»
“Es ésta, sin duda, una determinación muy importante; en la sustancia misma va implícita la negatividad, la determinabilidad, sin renunciar a lo que tiene de simple y de ser dentro de sí. Y, penetrando más a fondo en la cosa, vemos que va implícito en ella ese idealismo que consiste en que lo simple sea un algo distinto en sí mismo, algo que conserva su unidad a despecho de sus cambios y permanece en la simplicidad, como, por ejemplo, yo o mi espíritu. En mí hay muchas representaciones, una gran riqueza de pensamientos; y, sin embargo, pese a esta diferenciabilidad, soy yo, es decir, una unidad. Es la idealidad en que lo distinto se levanta a la par y se determina como la unidad; las mónadas se distinguen, pues, por medio de modificaciones en ellas mismas, pero no por medio de determinaciones externas. Estas determinaciones que van implícitas en las mónadas se contienen en ellas de un modo ideal; esta idealidad en la mónada forma un todo en sí misma, por donde estas distinciones no son sino representaciones. Tal es la diferencia absoluta a que se da el nombre de concepto; lo que en la mera representación se desdobla aparece aquí unido.” “la actividad es la diferenciabilidad dentro de la unidad, y en esto y no en otra cosa consiste la verdadera diferencia.”
«La actividad del principio interior, por medio de la cual avanza de una percepción a otra, es una apetencia (apetitus)»
“a las percepciones de la conciencia las llama Leibniz apercepciones.” O vocabulário da filosofia vai enriquecendo, mas com isso não se garante que enriqueça a filosofia mesma. Apercepção, que em Kant é um termo incognoscível (o que não compromete compreendê-lo), significa, pois, originalmente: a representação conceituável (pensável). O que é mais que pura aparência, embora decorra evidentemente do fenômeno.
NUNCA ESCAPAREIS DE PLATÃO:“La diferencia entre las mónadas puramente representativas y las mónadas conscientes de sí la cifra Leibniz en una diferencia de grado declaridad.”
“Ahora bien, cuando pone de manifiesto, en forma de ejemplos, la existencia de representaciones sin conciencia, se remite al estado de desvanecimiento o de sueño, en que el hombre es una simple mónada” Ora, eu não posso – e se pudesse seria inútil e tedioso – descrever em literatura cada rachadura das paredes de minha casa. Abstração do homem como indivíduo (e aliás pela 1ª vez como indivíduo, já que o indivíduo de que falamos na linguagem corrente é quase sempre, em realidade, um divíduo, complexo, para si e não em si), não obstante, é um ganho enorme em termos filosóficos. Significa abstrair todo o mundo – toda a representação e a situação que carrego comigo – num outro absolutamente ‘insignificante’, do ponto de vista universal. Toda a filosofia de Rafael com suas riquíssimas implicações como uma mônada.
“La materia no es otra cosa que su capacidad pasiva. Esta capacidad pasiva constituye, precisamente, la oscuridad de las representaciones o un aturdimiento que no conduce a la distinción, a la apetencia o a la actividad.” As rachaduras na parede, repito. A filosofia analítica in a nutshell? Mas por estar numa casca de noz já se tornou um continente – cof, cof…
Leibniz, De anima brutorum– o ruim de L. é que para apreender sua filosofia como um todo provavelmente terei de recorrer a suas Obras completas!
“Los cuerpos como tales cuerpos son conglomerados de mónadas; son agregaciones a las que no podemos llamar sustancias, del mismo modo que no podemos dar este nombre a un rebaño de ovejas. La continuidad de ellas es una ordenación o una extensión, pero el espacio no es nada en sí; tiene ser solamente en un otro, es una unidad que nuestro entendimiento infunde a aquel conglomerado. (Système nouveau de la nature et de la communication des substances;Nouveaux essais sur l’entendement humain[obra estritamente para refutação do lockismo, de cunho não-obrigatório])»
“L. determina y distingue 3 clases de mónadas: las inorgánicas, las orgánicas y las conscientes”
“Son inorgánicos aquellos cuerpos que no poseen una unidad interior, cuyos momentos sólo se hallan unidos por el espacio o exteriormente; no hay en ellos una entelequia o una mónada que predomine sobre las demás.” “Son inorgánicos aquellos cuerpos que no poseen una unidad interior, cuyos momentos sólo se hallan unidos por el espacio o exteriormente; no hay en ellos una entelequia o una mónada que predomine sobre las demás.” “Una fase superior del ser son los cuerpos vivos y animados, en los que una mónada predomina sobre las demás. El cuerpo unido con la mónada —del cual la mónada una es la entelequia o el alma— es llamado, en unión de esta alma, un ser vivo, un animal. [dotado de alma]” “Si Leibniz no se hubiese servido de la palabra «predominar» y hubiese desarrollado con mayor precisión este concepto, tendríamos que esta mónada abarcante levantaría a las otras y las reduciría a algo puramente negativo; el ser en sí de las otras mónadas o el principio del ser absoluto de estos puntos o individuos habría desaparecido.”
GLOSSÁRIO KANTIANO:«Estas verdades eternas descansan sobre 2 principios: uno es el de la contradicción, otro el de la razón suficiente.»
“El primero es la unidad, expresada inútilmente como un principio, la distinción de lo que no puede distinguirse, el A = A” «El principio de la razón consiste en que todo tiene su fundamento» “La verdad necesaria tiene que tener así su fundamento en ella misma, de tal modo que se la encuentre por medio del análisis, es decir, precisamente por medio de aquel principio de la identidad. El análisis es, en efecto, la representación predilecta que lo reduce todo a conceptos y principios simples: una reducción que destruye su relación y que es, por tanto, en realidad, un tránsito a lo opuesto, pero sin tener la conciencia de ello, y que, por tanto, excluye el concepto, pues sólo retiene todo lo que es opuesto en su identidad consigo mismo. Esto de razón suficiente parece ser un pleonasmo; sin embargo, Leibniz entendía por ello fines y causas finales (causae finales), cuya distinción con respecto al nexo causal o a su causa eficiente pone aquí de manifiesto.” Homo, aquele que pode agir em ato e em potência (para si e em si).
SOBRE O CLICHÊ <VIVEMOS NO MELHOR DOS MUNDOS POSSÍVEIS>:“No cabe duda de que es posible, en general, afirmar esto; sin embargo, esta perfección de que se habla no representa un pensamiento determinado, sino una expresión mala, popular, y una cháchara acerca de una posibilidad representativa o imaginativa;Voltaire se ha burlado ingeniosamente de esta manera de pensar.”
“Hay que decir, además, que la razón suficiente se refiere a la representación de las mónadas. Los principios de las cosas son las mónadas, cada una de las cuales es para sí, sin influir para nada en las demás. Ahora bien, si la mónada de las mónadas, Dios, es la sustancia absoluta y las diversas mónadas individuales son obra de su voluntad, desaparece la sustancialidad de ellas. Nos vemos situados, así, ante una contradicción que permanece de suyo insoluble: es la contradicción entre la mónada sustancial una y las muchas mónadas sueltas, que se presentan como sustantivas e independientes por el mero hecho de que su esencia consiste en no guardar relación las unas con las otras.” “Lo que hay de grande en Leibniz es esta intelectualidad de las representaciones, aunque Leibniz no haya sabido desarrollarla debidamente; por esta razón, es esta intelectualidad, al mismo tiempo, una pluralidad infinita que conserva su independencia absoluta, ya que esta intelectualidad no ha sabido superar la unidad. Leibniz no ha sabido sintetizar en la unidad la separación en el concepto que va hasta la dimisión de sí mismo, hasta el manifestarse bajo la apariencia de una sustantividad distinta. La coordinación de estos 2 momentos, de la trayectoria de las representaciones y de la trayectoria de las cosas externas, manifestándose mutuamente como causa y efecto, no sabe Leibniz relacionarlas en y para sí; por eso deja que se desdoblen, a pesar de que cada una de estas 2 trayectorias se mantiene pasiva con respecto a la otra. Es cierto que, vista la cosa más de cerca, las considera a las 2 formando una unidad; pero, al mismo tiempo, su actividad no existe según él para sí.”
“La palabra «Dios» es, por tanto, el recurso que se emplea para llegar a una unidad que es solamente una unidad pensada, pues no se indica cómo de esta unidad emerge lo múltiple. Por consiguiente, Dios desempeña en la filosofía moderna un papel mucho más importante que en la antigua, ya que ahora constituye un postulado fundamental el comprender la antítesis absoluta del pensar y el ser.” “Dios viene a ser, por tanto, algo así como el arroyo al que van a fluir todas las contradicciones; y eso, una colección popular, es la Teodicea leibniziana.”
“Directamente enlazada a la de Leibniz aparece la filosofía de Wolff, que no es, en rigor, sino una sistematización pedantesca del pensamiento leibniziano, razón por la cual se la conoce también con el nombre de filosofía de Leibniz-Wolff.
Wolff hízose famoso en el cultivo de las matemáticas y también por su filosofía, que llegó a dominar en Alemania durante bastante tiempo. En Wolff, como el maestro del entendimiento, nos encontramos con un desarrollo sistemático de la materia filosófica existente de las representaciones humanas en general. Por tanto, Wolff tiene grandes e inmortales méritos, principalmente por su obra de cultivador de la inteligencia de los alemanes, y se le puede considerar, ante todo, como maestro de este pueblo. Puede afirmarse que Wolff fue el primero que aclimató la filosofía en Alemania.”Uau!
ELOGIAR OFENDENDO, OU CRITICAR ENALTECENDO? “Comparten también esta fama otras 2 figuras: Tschirnhausen y Thomasius, sobre todo por el hecho de haber escrito sobre filosofía en alemán. Sin embargo, poco, muy poco es lo que podríamos decir acerca de la filosofía de estos 2 pensadores, en cuanto a su contenido, pues no es, en rigor, otra cosa que lo que se llama la sana razón: esa superficialidad y esa vacua generalidad con que nos encontramos siempre allí donde empieza a levantar su vuelo el pensamiento. La generalidad del pensamiento satisface, en estos casos, porque todo se contiene en ella como en un refrán, que, a fuerza de ser muy general, carece de todo contenido determinado.” “Esta filosofía acaba convirtiéndose, como filosofía intelectiva, en parte de la cultura general: el pensamiento determinado, intelectivo, se erige aquí en principio fundamental y se extiende por toda la órbita de los objetos que caen dentro del campo del saber. Wolff definió para Alemania, y aun de un modo más general, el mundo de la conciencia, como respecto de su tiempo podríamos afirmar de Aristóteles.” “Aquella filosofía sustancial y espiritualmente superior con que nos encontrábamos en Böhme y que revestía en este pensador una forma propia y todavía bárbara se ha extinguido por completo y ha desaparecido, sin dejar el menor rastro; hasta su mismo lenguaje cae en el más completo olvido.”
“He aquí lo más notable de la vida de Christian Wolff: nació en Breslau, en 1679, era hijo de un panadero, empezó estudiando teología, pasó luego al estudio de la filosofía, y en 1707 obtuvo una cátedra de matemáticas y filosofía en la universidad de Halle. Aquí, fue víctima de las más viles asechanzas por parte de los teólogos pietistas, especialmente de Lange. La gente piadosa no se fiaba de la obra del entendimiento; sabía que si ésta era verdadera se remontaría necesariamente a un contenido de naturaleza especulativa, que habría de trascender, por tanto, del campo del entendimiento.
Los adversarios, en vista de que no conseguían nada con los ataques escritos, recurrieron a las intrigas. Hicieron creer al rey Federico Guillermo I, padre de Federico II, un rey bárbaro preocupado solamente en cosas de soldados y de milicia, que el determinismo de Wolff suprimía el libre arbitrio humano, por lo cual, según su filosofía, habría que entender que los soldados que desertaban del ejército no obraban por su libre voluntad, sino obligados por una especial institución divina (por la armonía preestablecida) y que si esta doctrina llegaba a difundirse entre los soldados podría ser extraordinariamente peligrosa para el Estado. El rey, montando en cólera, extendió inmediatamente una orden de gabinete en que se conminaba a Wolff para que, en un plazo de 48 horas, abandonase la ciudad de Halle y los estados prusianos, si no quería verse castigado con la horca.” “el piadoso Franke dio gracias a Dios, de rodillas, en una iglesia, por haber alejado de allí a aquel hombre. Pero no habría de durarles mucho la alegría a los pietistas. Wolff habíase trasladado a Kassel, y poco después fue nombrado primer profesor en la Facultad de Filosofía de Marburgo; por los mismos días, fue honrado con los nombramientos de miembro de las Academias de Ciencias de Londres, París y Estocolmo, y el zar Pedro I lo designó vicepresidente de la Academia de San Petersburgo, recién fundada. Recibió, además, una invitación para trasladarse a Rusia, que declinó, siéndole adjudicado, no obstante, un sueldo honorífico. El Gran Elector de Baviera le concedió un título de barón y se vio, en una palabra, cargado de honores materiales, que entonces sobre todo (y también ahora) realzaban mucho la personalidad de las gentes a los ojos del gran público y que eran demasiado grandes para no producir sensación también en Berlín.
En vista de ello, se nombró en la capital de Prusia una comisión encargada de dictaminar acerca de la filosofía de Wolff (ya que a ésta no había sido posible expulsarla, como al filósofo).” HAHAHAHAHAHA!!!
“El dictamen emitido fue absolutorio para ella, es decir, declaró que no envolvía ningún peligro para la religión”
“Federico Guillermo dirigió al filósofo una carta muy honrosa para él, llamándolo a reintegrarse a su cátedra, pero la invitación fue rehusada por Wolff, quien no se fiaba demasiado de las intenciones del rey y sus consejeros. Federico II, inmediatamente después de subir al trono, en 1740, reiteró la invitación en términos muy elogiosos (Lange había muerto hacía ya bastante tiempo), y esta vez fue escuchada. Wolff fue designado vicecanciller de la universidad; su fama, sin embargo, se había disipado y, poco a poco, su aula quedó vacía. Murió en 1754. (Buhle; Rixner; Tiedemann)” HAHAHA!
“Una gran parte de sus obras fueron escritas por Wolff en su lengua natal, mientras que Leibniz había escrito casi todas las suyas en latín y en francés. Es éste un detalle muy importante, pues sólo puede decirse que una ciencia pertenece verdaderamente a un pueblo cuando éste la posee en su propia lengua, y en ninguna es esto tan necesario como en la filosofía.”“cuando se dice, por ejemplo, Bestimmtheit en vez de «determinatio», Wesen por «essentia», etc., el pensamiento existe de un modo inmediato para la conciencia y puede decirse que estos conceptos pasan a formar parte sustancial de ella, como cosa propia y no ya como algo extraño.” “ha sido aceptado que, cuando se escribe en latín, se puede ser simple, pero es asombroso lo que con el pretexto de escribir en latín se han permitido decir.” HAHAHA – não era para exagerar muito no sentido contrário!
“Los títulos de las obras de Wolff, redactadas en alemán, son todos de este tenor: Vernünftige Gedanken von den Kräften des menschlichen Verstandes und ihrem richtigen Gebrauche in der Erkenntniss der Wahrheit [«Pensamientos racionales sobre las fuerzas del entendimiento humano y de su certero empleo para el conocimiento de la verdad»] (Halle, 1712, 8.º); Vernünftige Gedanken von Gott, der Welt und die Seele des Menschen, auch allen Dingen überhaupt [«Pensamientos racionales sobre Dios, el mundo y el alma humana, así como sobre todas las cosas en general»] (Francfort y Leipzig, 1719); Von der Menschen Thun und Lassen [«Sobre las acciones y omisiones del hombre»] (Halle, 1720); Von dem gesellschaftlichen Leben [«Sobre la vida social»] (Halle, 1721); Von den Wirkungen der Natur [«Sobre las acciones de la naturaleza»] (Halle, 1723), etc. Este pensador escribió en alemán y en latín acerca de todas las partes de la filosofía, incluyendo la economía, hasta el número de 23 gruesos volúmenes en latín; en total, 40 volúmenes en cuarto. Aparte de esto, sus obras matemáticas, que forman muchos volúmenes del mismo formato. En sus estudios, aplicó de un modo general el cálculo diferencial e integral de Leibniz.”
“En Spinoza, por el contrario, no encontramos más contenido que la sustancia absoluta y el constante retorno a ella. Los grandes méritos que hay que reconocerle a Wolff en cuanto a la educación intelectiva de Alemania, que ahora se revela como algo totalmente aparte, sin la menor relación con anteriores concepciones metafísicas más profundas, guardan igual proporción con la sequedad y la ausencia interior de contenido en que se hunde, al llegar a Wolff, la filosofía, que este pensador divide en sus disciplinas formales, por medio de determinaciones intelectivas y mediante el empleo pedantesco del método geométrico, a la par que entroniza, conjuntamente con los filósofos ingleses, el dogmatismo de la metafísica intelectiva, es decir, un filosofar que determina y eleva a tónica general lo absoluto y lo racional por medio de determinaciones conceptuales y relaciones que se excluyen entre sí, por ejemplo lo uno y lo múltiple o lo simple y lo complejo, lo finito y lo infinito, la relación causal, etc.
Wolff desplaza totalmente y de un modo meticuloso la filosofía escolástico-aristotélica y convierte la filosofía en una ciencia general que pertenece a la nación alemana. Por lo demás, implanta en la filosofía la clasificación sistemática y adecuada en disciplinas, que todavía sigue rigiendo hoy con una cierta autoridad.”
“En la matemática, que abarca 4 pequeños volúmenes, trata también Wolff de la arquitectura y el arte de la guerra. En la arquitectura formula, por ejemplo, el siguiente principio: «Las ventanas deben ser capaces para dos personas». Y expone también como problema y solución la necesidad de que toda casa tenga su retrete. Pero el mejor ejemplo es el que nos ofrece su arte de la guerra. Dice así el «cuarto principio: El acercamiento a una fortificación debe hacerse más y más costoso al enemigo a medida que va aproximándose a ella». Y, en vez de decir: porque el peligro va haciéndose cada vez mayor, lo que también es trivial, viene la siguiente «prueba: Cuanto más se acerca el enemigo a la fortificación, mayor es el peligro. Y cuanto mayor es el peligro, más resistencia hay que ofrecerle, para anular sus ataques y librarse del peligro todo lo posible. Por tanto, cuanto más se acerque el enemigo a la fortificación, más caro debe costarle», etc.” HAHAHAHAHAAHAHAHA!!!!
“Por su contenido, la filosofía de Wolff es ya de suyo una filosofía popular, aunque en lo tocante a la forma prevalezca todavía en ella el pensamiento. Esta filosofía se mantiene en pie e impera hasta llegar a Kant. Baumgarten, Crusius, Moses Mendelssohn no hicieron otra cosa que elaborar, cada uno por su cuenta, la filosofía wolffiana; el último de los pensadores citados filosofó en una forma popular y llena de buen gusto.” “la metafísica había quedado reducida a lo más diluido y se la había hecho descender a un nivel de insuperable vacuidad, sin dejar en ella un solo hilo firme. Mendelssohn se tenía y era tenido por el más grande de los filósofos, y sus amigos lo colmaban de elogios. Sin embargo, sus Morgenstunden [«Horas matinales»] no son otra cosa que la seca filosofía wolffiana, por mucho que sus admiradores se empeñen en buscar en estas ásperas abstracciones una luminosa forma platónica.”
“A esta filosofía antigua podemos retornar constantemente, comprendiéndola y reconociéndola; es una filosofía satisfactoria, situada en su propia fase de evolución, un punto central concreto que da satisfacción a la misión del pensamiento, tal y como se la enfoca. En cambio, esta metafísica moderna a que nos estamos refiriendo no hace otra cosa que desarrollar los antagonismos hasta convertirlos en contradicciones absolutas. Es cierto que se nos indica la solución absoluta de ellas, Dios, pero solamente como una solución abstracta, situada en el más allá; en el más acá, quedan en pie todas las contradicciones, sin resolver en cuanto a su contenido.”“Sólo en Él como Espíritu y Espíritu Uno y Trino se contiene esta contraposición de sí mismo y del Otro, del Hijo, y, con ello, la solución de este antagonismo; esta idea concreta de Dios como la razón no aparece asimilada aún por la filosofía a que nos venimos refiriendo.” PORRA, HEGEL – ASSIM NÃO, FILHO!
“Entre los antiguos, la razón (λόγος), como el ser en sí y para sí de la conciencia, sólo cobraba la existencia etérea y formal del lenguaje. Aquí, en cambio, cobra ya la certeza de la sustancia ente; de aquí, en Descartes, la unidad del concepto y el ser y en Spinoza, asimismo, la realidad general. La manifestación del concepto del movimiento de los pensamientos fijos en ellos mismos consiste en que el movimiento, que sólo se presenta como método al margen de su objeto, se revele en sí mismo, o en que la conciencia de sí llegue al pensamiento.”
PELO VISTO A INHACA MENTAL DA SANTÍSSIMA TRINDADE INVADIU, NO SISTEMA HEGELIANO, OS ESTADOS-NAÇÕES TAMBÉM:“Estos 3 aspectos aparecen repartidos, a su vez, como hasta aquí, entre las 3 naciones que cuentan en el mundo de la cultura. Los ingleses destacan la forma empírica, la forma totalmente finita del concepto; los franceses, la forma del mismo en cuanto haciendo tanteos en todo, estableciéndose en su realidad, levantando todas las determinaciones y, por tanto, como conciencia de sí pura, ilimitada, general; finalmente, los alemanes ponen de relieve el ir a sí de este ser dentro de sí, es decir, el pensamiento del concepto absoluto.”
ÍCARO TEM DE SUBIR E BAIXAR EM SEU VÔO PARA NÃO SE ESTREPAR: “La decadencia del pensamiento hasta llegar a la filosofía kantiana se revela, pues, en las corrientes que ahora se yerguen en contra de aquella metafísica y a las que podemos dar el nombre de filosofía popular general, empirismo reflexivo y el cual se convierte, a su vez, más o menos, en una metafísica, así como, a la inversa, aquella metafísica, al desplegarse en una serie de ciencias especiales, se trueca en empirismo. Contra aquellas contradicciones de la metafísica, contra los artificios de la síntesis metafísica, contra la asistencia de Dios y la armonía preestablecida, el mejor de los mundos, etc., contra este entendimiento puramente artificioso, se afirman ahora y se enderezan, en efecto, principios fijos e inmanentes al espíritu acerca de lo que el corazón del hombre culto siente, intuye y venera. Y frente a la solución que se nos ofrece en el más allá, en Dios, estos principios concretos de contenido fijo representan una reconciliación y una independencia en el más acá, un punto de apoyo intelectivo, sacado de lo que se ha llamado, en general, el sano sentido común.”
“También los indios, que adoran a una vaca, que abandonan o matan a los niños recién nacidos y cometen toda suerte de crueldades, los egipcios, que tributan culto a un pájaro, al buey Apis, etc., y los turcos, tienen eso que llamamos sano sentido común. Pero el sano sentido común y el sentimiento natural de los brutales turcos, cuando se toman como pauta, conducen a principios aborrecibles.”
“Tal es, por tanto, la fisonomía que presenta la filosofía del siglo XVIII.Son 3, en general, los aspectos que tenemos que examinar aquí: el primero, lo representa Hume; el segundo, la filosofía de los escoceses; el tercero, la filosofía francesa. Hume es un filósofo escéptico; la filosofía escocesa es la reacción en su contra; la filosofía francesa tiene un apéndice de apagada forma en el pensamiento de la Ilustración alemana, nombre que se da a aquel conjunto de manifestaciones de la filosofía de nuestra nación que se salen de los marcos de la metafísica wolffiana.”
“Como no es posible ir concretamente más allá del Dios metafísico, nos encontramos con que Locke basa su contenido filosófico sobre la experiencia. Pero Hume pone de manifiesto que el empirismo no puede conducir al pensamiento a ninguna posición fija, ya que niega todo lo general.” “El pensamiento, en general, es el ser idéntico a sí mismo simple y general, pero como el movimiento negativo, por medio del cual se levanta lo determinado. Este movimiento del ser para sí es ahora momento esencial del pensamiento mismo, mientras que, hasta ahora, existía fuera de él; y, al concebirse así, como movimiento en sí mismo, el pensamiento es conciencia de sí, y lo es, primeramente, de un modo formal, como conciencia de sí individual. Esta forma es la que presenta en el escepticismo, pero con la diferencia con respecto al escepticismo de los antiguos de que ahora se toma por base la certeza de la realidad, mientras que en los antiguos, por el contrario, el escepticismo era el retorno a la conciencia individual, de tal modo que ésta no era la verdad o que no proclamaba su resultado ni adquiría, por tanto, una significación positiva.” “el escepticismo reviste, aquí, la forma del idealismo, es decir, proclama como realidad y como verdad la conciencia de sí o la certeza de sí misma. La forma peor de este idealismo consiste en que la conciencia de sí, como conciencia de sí individual o formal, no pase de decir: todos los objetos son representaciones nuestras. Este idealismo subjetivo es el que encontramos en Berkeley; y otro giro de él se nos presenta en Hume.”
“George Berkeley nació el año 1684 en Kilcrin, cerca de Thomastown, en el condado de Kilkenny (Irlanda), y murió en 1754, siendo obispo de una diócesis inglesa. Escribió la Theory of vision, 1709, el Treatise concerning the principles of human knowledge, 1710, y Three Dialogues between Hylas and Philonous, 1713. Sus obras completas vieron la luz en Londres, en 1784, formando 2 volúmenes en cuarto.”
“Todos los objetos del conocimiento humano son ideas —como, lo expresa Berkeley, coincidiendo con Locke— que brotan bien de las impresiones de los sentidos exteriores, bien de percepciones de los estados y las actividades interiores del espíritu, o, finalmente, aquellas que se forman por medio de la memoria y de la imaginación, a través de la separación y la nueva unión de las mismas. La asociación de diversas percepciones de los sentidos se nos aparece como una cosa especial, como ocurre, por ejemplo, con la sensación del color, del gusto, del olor, de la figura, etc., pues por colores, olores, sonidos, etc., entendemos siempre solamente lo percibido.”
“Es cierto que Locke distinguía, por ejemplo, la extensión y el movimiento como cualidades fundamentales, es decir, como cualidades pertenecientes a los objetos en sí. Pero Berkeley advierte perfectamente bien la inconsecuencia de este aspecto según el cual lo grande y lo pequeño, lo rápido y lo lento no rigen más que como algo puramente relativo; por tanto, para que la extensión y el movimiento sean en sí no pueden ser ni grande ni pequeña la primera, ni rápido o lento el segundo, es decir, no pueden ser en modo alguno, ya que estas determinaciones se hallan implícitas en el concepto mismo de tales cualidades.”
“una percepción que no se da en quien se la representa no es nada, es una contradicción inmediata. No puede existir, por tanto, una sustancia que no podamos representarnos, que no podamos percibir y que sea el sustrato de las percepciones y las representaciones.”
“No obstante, permanece siempre en pie una relación de lo otro con nosotros mismos; estas sensaciones no se desarrollan partiendo de nosotros, como cree Leibniz, sino que se determinan por medio de otra cosa. Cuando Leibniz habla de una evolución dentro de la mónada no hace más que pronunciar una frase vacía de sentido” “Por tanto, cada cosa individual se halla determinada por otra, no por nosotros; y es indiferente lo que esta cosa exterior sea, ya que es siempre algo contingente.”
LA MULETA DE SIEMPRE: “La necesidad de las representaciones se halla, sin embargo, en contradicción directa con este ser dentro de sí mismo del que se representa, pues el ser dentro de sí es la libertad del sujeto de las representaciones, el cual no las engendra con libertad, desde el momento en que tienen para él la forma y la determinación de lo otro. Tampoco Berkeley enfoca el idealismo en este sentido subjetivo, sino que dice que son solamente los espíritus los que se comunican (lo otro no hace más que representarse a sí mismo); por tanto, es solamente Dios quien crea semejantes representaciones”
“Semejante idealismo trata solamente la contraposición entre la conciencia y su objeto y deja, por lo demás, perfectamente intacto el despliegue de las representaciones y los antagonismos del contenido empírico y múltiple. Y si ahora se pregunta qué es lo que hay de verdad en estas percepciones y representaciones, como antes en las cosas, no obtendremos respuesta alguna. Es casi indiferente que se tenga una concepción de cosas o de percepciones, siempre y cuando que la conciencia de sí permanezca llena de cosas finitas; esta conciencia de sí recibe el contenido del modo corriente y tiene la estructura habitual. No hará, en su individualidad, sino dar vueltas y más vueltas en las representaciones de una existencia perfectamente empírica, sin llegar, por lo demás, a conocer ni a comprender nada del contenido; dicho de otro modo: en este idealismo formal, no tiene la razón ningún contenido peculiar.”
“Lo único interesante, en este punto, es saber que estas investigaciones, por este camino, van a parar principalmente al problema del espacio y se debaten en torno a la cuestión de si la representación de la distancia, etc., en una palabra, todas las representaciones que se refieren al espacio, las obtenemos a través de la vista o por medio del tacto. El espacio es, en efecto, ese algo general sensible, ese algo general que se da en la individualidad misma y que en la consideración empírica de la dispersión empírica invita y conduce al pensamiento (pues es él mismo el pensamiento) y que induce precisamente a confusión a estas percepciones sensibles y a este razonar en torno a ellas y que, en rigor, teniendo como tiene aquí un pensamiento objetivo, conduciría a pensar o a tener un pensamiento, pero que no acaba de ver claro, por la sencilla razón de que no le preocupan el pensamiento ni el concepto, ni puede arribar sencillamente a la conciencia de la esencia; no piensa nada, en efecto, como un pensamiento, sino que lo piensa todo como algo externo, ajeno al pensamiento.” Me faz lembrar das concepções psicogenéticas do desenvolvimento cognitivo do bebê, e.g., no piagetismo.
“Debemos exponer a continuación el escepticismo de Hume, que ha adquirido mayor notoriedad histórica de la que en sí merece; lo importante en él, desde el punto de vista histórico, consiste en que Kantarranca en realidad de esta doctrina para construir su propia filosofía.”
O HOMEM-ESCADA: “Devemos expor, na seqüência, o ceticismo de Hume, que adquiriu maior notoriedade histórica do que em si merece; o importante nele, do ponto de vista histórico, consiste em que Kant arranca, em realidade, desta doutrina a fim de construir sua própria filosofia.” Ver meu capítulo anterior da HISTÓRIA DAS IDÉIAS, https://seclusao.art.blog/2021/05/13/historia-das-ideias-introducao-a-epistemologia-hume-kantiana/.
“Hume es más famoso como historiador que por sus obras filosóficas. Escribió A Treatise of human nature (3 vols., 1739, traducido al alemán por Jacob, Halle, 1790, 8º), y además Essays and Treatises on several subjects, en 2 vols. (Vol. I containing Essays moral, political and literary, 1.ed, Edimburgo, 1742; Vol. II containing an Enquiry concerning human understanding, que no es sino una refundición del Treatise, 1.ed, Londres, 1748, 8º). En sus Ensayos, los que más fama le dieron como filósofo, trata una serie de problemas filosóficos a la manera de un hombre de mundo cultivado y dotado de la capacidad de pensar, pero no con una coordinación verdaderamente filosófica, ni tampoco con la extensión que realmente habrían podido llegar a adquirir sus pensamientos; en algunos de estos estudios, se limita realmente a destacar sólo algunos aspectos especiales, sin desarrollarlos en su totalidad.”
“Lo fundamental de su filosofía puede exponerse en pocas palabras. Parte directamente del punto de vista filosófico de Locke-Bacon, según el cual nuestros conceptos se derivan de la experiencia; y su escepticismo recae, asimismo, sobre el idealismo berkeleyano.” “en Hume, se depura y se manifiesta con mayor nitidez la contraposición entre lo sensible y lo general, desde el momento en que determina lo primero como carente de generalidad. Berkeley no entraba a distinguir si en sus sensaciones existía o no una necesaria concatenación. Antes, la experiencia era una mezcla de ellas.” “Con esto, Hume pone la piedra de remate al lockeanismo, al llamar consecuentemente la atención hacia el hecho de que, manteniendo este punto de vista, si bien la experiencia es la base de lo que se sabe y la percepción misma contiene cuanto acaece, en la experiencia no se contienen, a pesar de ello, ni nos son dadas las determinaciones de la generalidad y la necesidad.” “Hume, al concebir la necesidad, la unidad de lo contrapuesto, de un modo enteramente subjetivo, cifrándola en el hábito, desciende tanto en la escala del pensamiento, que no cabe más.” “Por eso Hume considera este tipo de generalidad, al igual que la necesidad, más bien como algo puramente subjetivo, no como algo que exista objetivamente, pues el hábito es justo una generalidad subjetiva de este tipo.” “Todo se manifiesta, pues, bajo la forma de un ser irracional y no pensado” “lo que ocurre es que, en Kant, esta fuente presenta una forma completamente distinta a la que tiene entre los escoceses. En efecto, esta fuente interior e independiente, tal como los escoceses la conciben, no es el pensamiento, la razón como tal, sino que el contenido que mana de esta fuente interior tiene un carácter más concreto y reclama también una materia exterior de experiencia.” “Y este lado del entendimiento razonante se orienta, fundamentalmente, hacia lo ético y la política, ciencias que llegan a adquirir gran desarrollo gracias a los filósofos alemanes, a los franceses, y muy especialmente a los escoceses.” “trátase, en efecto, de obras escritas a la manera de Cicerón y del Insitum est a natura, proclamado por éste”
“Thomas Reid nació en 1704 y murió siendo profesor en Glasgow en 1796. (Rixner)”
“James Beattie nació en 1735, fue profesor de ética en Edimburgo y Aberdeen y murió en 1803.”
“En este mismo grupo de pensadores podemos incluir también a Dugald Stewart, Eduard Search, Ferguson y Hutcheson, que escribieron en su mayoría acerca de ética. También el economista Adam Smith puede ser considerado, en este sentido, como filósofo, y es el más conocido de todos ellos. § Esta filosofía escocesa pasa por ser ahora, en Alemania, algo nuevo. Es una filosofía popular que, de una parte, ostenta el gran título de indagar en el hombre, en la conciencia humana, la fuente de lo que debe tener validez general para él, la inmanencia de lo que debe tener valor para el hombre. El contenido es, al mismo tiempo, un contenido concreto; es, en este sentido, algo opuesto a la verdadera metafísica, al vagar en torno a determinaciones abstractas del entendimiento.” “todos ellos buscan, en efecto, una filosofía apriorística, pero no por vía especulativa.”
“En los últimos tiempos, esta filosofía escocesa se ha extendido a Francia; el profesor Royer-Collard, actual presidente de la segunda Cámara, y su discípulo Jouffroy, se basan en ella para llegar, a través de los hechos de la conciencia, por medio del razonamiento cultivado y de la experiencia, a desarrollos más amplios. § Con esto se enlaza también lo que los franceses llaman ideólogía;¹ trátase de una metafísica abstracta, en cuanto que se reduce a una enumeración y un análisis de las más simples determinaciones del pensamiento.”
¹ Nenhuma relação com o conceito atual (marxista) de ideologia.
NA TERRA DE COMTE…: “Pasamos ahora a la filosofía francesa; su relación con la metafísica es ésta: mientras que el hombre lego se halla en contra de sí mismo en cuanto metafísico, esa filosofía acaba con el estado de los legos, en política, en religión y en filosofía.”
“entre los ingleses nos encontrábamos con este idealismo: bien sea como algo formal, como la simple traducción general del ser al ser para otro, es decir, en el ser percibido, o como el en sí de este ser percibido, como instintos, impulsos, hábitos, etc., como fuerzas ciegas y determinadas: el retorno a la conciencia de sí, que se manifiesta, a su vez, como cosa natural. En aquel primer idealismo, toda la finitud, el despliegue de los fenómenos y las sensaciones, y también de los pensamientos y de los conceptos fijos determinados, permanecen lo mismo que en la conciencia no-filosófica. § El escepticismo de Hume hace que todo lo general se hunda y se disuelva en los hábitos y en los instintos: ese escepticismo es, dicho de otro modo, una simple yuxtaposición del mundo de los fenómenos; pero estos elementos simples, estos instintos, impulsos y fuerzas son asimismo una existencia de la conciencia de sí carente de espíritu, inmóvil y determinada. § La filosofía francesa es más viva, más dinámica, más ingeniosa; es, mejor dicho, lo ingenioso mismo.”
“Todas estas formas, el en sí real del mundo real y el en sí del mundo suprasensible, se levantan por tanto, aquí, en este espíritu consciente de sí mismo. Éste no se atiene a las representaciones tal y como son, no les concede validez ni las acepta como verdaderas, no las venera como independientes y libres al margen de la conciencia de sí, sino que habla ingeniosamente de ellas; es decir, es la conciencia de sí, por su actividad, la que hace algo de ellas, algo que es además distinto de aquello por que directamente se tienen, y sólo es la actitud ingeniosa, precisamente esta formación y este movimiento a través de su conciencia de sí, lo que vale y suscita su interés. Es el carácter del concepto en su realidad; y sólo vale lo que constituye la esencia misma de esta conciencia de sí que todo lo ve y lo comprende.”
“Esta esencia vacía es para nosotros, en general, el pensamiento puro, lo que los franceses llaman el être suprème, o se representa objetivamente como algo que es, como algo que aparece frente a la conciencia, como la materia.” “Es el concepto que se presenta en una actitud puramente destructiva, que no se desarrolla de nuevo a base de esta materia o de este pensamiento puro, de esta pura sustancialidad. Vemos, pues, manifestarse libremente aquí el llamado materialismo y ateísmo, como resultado necesario de la pura conciencia de sí comprensiva.” “Sólo queda en pie la esencia presente y real, pues la conciencia de sí sólo reconoce el en sí como algo que existe para ella como conciencia de sí, en la que ella se sabe, por tanto, real: la materia, como aquello en que puede ensancharse y realizarse en la pluralidad, la naturaleza. En el presente, tengo la conciencia de mi realidad; y, consecuentemente, la conciencia de sí se encuentra a sí misma como materia, el alma como algo material, las representaciones como movimientos y cambios en el órgano interior del cerebro, que siguen a las impresiones externas de los sentidos.” Ultrapassado? Talvez. Mas sempre que relembramos esta etapa do pensamentos, nos excitamos, como por exemplo diante das ingênuas questiúnculas de Descartes. Ah, França!
“Un modo del ser de la materia es, por tanto, el pensamiento. En este objeto se plasma, en rigor y en su conjunto, como lo último, la sustancia una spinozista, paralelamente a la cual discurre el materialismo francés como naturalismo; pero, mientras que en Spinoza tenemos y preencontramos esta categoría, aquí aparece como el resultado de la abstracción del entendimiento que parte del empirismo.”
“La otra forma de la Ilustración es, por el contrario, aquella en que la esencia absoluta se establece como un más allá de la conciencia de sí, como algo que no es conocido en absoluto por ella misma, por su en sí. Este más allá ostenta el nombre vacuo de Dios. Pues de cualquier modo que se determine a Dios, desaparecerán todas las determinaciones; será igual a x, lo simplemente desconocido. Por eso esta concepción no se llama ya ateísmo, en primer lugar, porque emplea todavía aquel nombre vacuo y que nada dice, y en segundo lugar, porque expresa las necesarias relaciones de la conciencia de sí, los deberes, etc., no como necesarias en y para sí, sino como necesarias por la relación con otra cosa, es decir, con una incógnita, si bien es cierto que la única relación positiva que cabe establecer con una incógnita es la de levantarse como algo individual. Y no es la materia, ya que este algo simple y vacío se determina negativamente, como algo que no es para la conciencia de sí. Y con ello acaece lo mismo, pues la materia es lo general, el ser para sí representado como levantado. Pero la verdadera reflexión sobre aquella incógnita consiste, asimismo, en que justo para la conciencia de sí sea como la negación de ella misma, es decir, la materia, la realidad y el presente; es algo negativo para mí, y esto es su concepto.”
“una serie de palabras aburridas que no ayuda a comprender nada” HAHAHAHA
“Hay que vivir conforme a la naturaleza, se predica” …e é claro que menos de 2 linhas depois já está metendo a lasca em Rousseau!
“En una palabra, sólo lo negativo es interesante; y de esta filosofía francesa positiva no cabe ni hablar. Pero aquel mismo aspecto negativo pertenece más bien, en rigor, al campo de la cultura, que aquí no nos interesa; y a él pertenece también la filosofía de la Ilustración.”Mas é demasiado interessante, H.! Você dever-nos-ia ter brindado com uma HISTÓRIA GERAL DA CULTURA também!
“Lo admirable de las obras filosóficas francesas importantes desde este punto de vista es esta energía y esta fuerza asombrosas del concepto frente a la existencia, frente a la fe, frente a todo el poder de la autoridad consagrada a lo largo de milenios. Es notable, de una parte, el carácter del sentimiento de la más profunda rebelión contra todos esos poderes vigentes que representan una esencia extraña para la conciencia de sí, la cual trata de ser sin aquello en que no se encuentra a sí misma; es una certeza de la verdad de la razón que se enfrenta con todo el mundo intelectual alejado de ella y que está segura de su destrucción. El ateísmo francés, el materialismo y el intelectualismo de los franceses ha destruido todos los prejuicios y triunfado sobre las premisas y valideces huérfanas de concepto de lo positivo en la religión y socializado en los hábitos, en las costumbres, en las opiniones, en las determinaciones jurídicas y morales y en las instituciones civiles; con las armas del sentido común y de una ingeniosa seriedad, no con declamaciones frívolas, el pensamiento se vuelve aquí contra el estado universal vigente en el orden legal, contra la organización del Estado, contra la administración de justicia, el régimen de gobierno y la autoridad política, y también contra el arte.”
“así, surge la aspiración de concebir lo absoluto como algo presente y, al mismo tiempo, como algo pensado y como unidad absoluta; aspiración que, al negar el concepto de fin, tanto en el campo de lo natural y, por tanto, el concepto de la vida, como en lo espiritual, es decir, el concepto del espíritu y de la libertad, sólo conduce a la concepción abstracta de una naturaleza indeterminada de suyo, de la sensación, del mecanismo, del egoísmo y de la utilidad.” Nada de mal nisso!
“los ingleses, por el contrario, parten de una realidad concreta, del edificio informe de su constitución; lo mismo que sus escritores, que no se remontan tampoco al plano de los principios generales. Lo que Lutero sólo inició en la esfera del ánimo y del sentimiento —la libertad del espíritu, que inconsciente de su raíz simple no se capta a sí misma, pero que es ya lo general, ante lo que desaparece todo contenido de pensamientos llenos de sí mismos—, estas determinaciones y estos pensamientos generales han sido proclamados por los franceses, quienes se atienen a ellos: principios generales y, a saber, como la convicción del individuo en él mismo.
La libertad se convierte en estado universal, se enlaza con la historia universal y hace época en ella; es la libertad concreta del espíritu, una generalidad concreta, son principios acerca de lo concreto los que ahora pasan a ocupar el lugar de la metafísica abstracta de Descartes. En los alemanes nos encontramos con vacilaciones; encima, pretenden explicarlas y no consiguen con ello más que aportar un fenómeno y una particularidad verdaderamente miserables. Los franceses parten del pensamiento de la generalidad, la libertad alemana de conciencia parte de la conciencia moral (…) unos y otros se encuentran o siguen el mismo derrotero: lo que ocurre es que los franceses, sin conciencia en cierto modo, parecen despacharlo todo y retener sistemáticamente un determinado pensamiento: el sistema fisiocrático; los alemanes, por su parte, tratan de tener la espalda cubierta, para examinar, partiendo de la conciencia, si les es lícito proceder así. Los franceses luchan contra el concepto especulativo con el espíritu, los alemanes con el entendimiento. Los franceses dan pruebas de una profunda necesidad filosófica omnicomprensiva y llena de vitalidad —en contraste con los ingleses y los escoceses, e incluso con los alemanes— una concepción general y concreta del todo, con una independencia total, tanto con respecto a toda autoridad como en lo que se refiere a toda metafísica abstracta. El método que para ello se sigue es éste: desarrollar las cosas partiendo del ánimo, de la representación; es una gran intuición que tiene siempre ante los ojos el todo y procura conservarlo y obtenerlo.
Este sano sentido común, esta sana razón, con su contenido, sacado del pecho humano, del sentimiento natural del hombre, se dirige ahora contra el aspecto religioso en una serie de momentos diferentes: de una parte y en primer lugar, como filosofía francesa, contra la religión católica, contra las trabas de la superstición y de la jerarquía; de otra parte, en una forma tenue, como Ilustración alemana, contra la religión protestante, en cuanto tiene un contenido recibido, en general, de la revelación, de la determinación eclesiástica. Una de las corrientes se dirige contra la forma de la autoridad en general, la otra contra el contenido.”
“El entendimiento aplica, así, su pauta al contenido religioso y lo declara nulo; y del mismo modo procede contra una filosofía concreta. Lo que ahora queda en pie de la religión, en muchas teologías, de un modo muy general, es lo que se llama teísmo, la fe en general; es el mismo contenido con el que nos encontramos en el mahometismo. Pero en esta dirección del entendimiento razonante contra la religión se avanza también hasta el materialismo, el ateísmo y el naturalismo. Debemos tener cuidado con la determinación conceptual del ateísmo, pues es una cosa muy corriente el que se acuse de carencia de religión o incluso de ateísmo a todo individuo cuyas ideas acerca de Dios difieren de las que otros profesan.”
“[O Emílio, ou da Educação¹ de Rousseau] es toda ella una exposición del teísmo, tal como lo podemos encontrar en los teólogos alemanes. Y así, la metafísica francesa discurre paralela no sólo a Spinoza, sino también a la metafísica alemana de Wolff.”
¹ Já postado no X-TudoTudo, o “pai” do Seclusão. Será republicado tão logo seja possível!
“Otros franceses, en cambio, avanzan expresamente hasta desembocar en el naturalismo; entre ellos citaremos especialmente a Mirabeau, autor del Système de la Nature.(*)
(*) Esta obra se le atribuyó efectivamente, pero fue escrita por Hollbach [E.].”
“Tres aspectos podemos, pues, distinguir en lo que se ha llamado la filosofía francesa, representada por Voltaire, Montesquieu, Rousseau, d’Alembert y Diderot, y en lo que más tarde aparece en Alemania como Ilustración y que ha sido motejado también de ateísmo: primero, su aspecto negativo, que es el que más se le echa en cara; segundo, el aspecto positivo; tercero, el aspecto filosófico, metafísico.”
“También a este aspecto negativo hay que hacerle justicia, como a todo; lo que hay en él de sustancial es el ataque del instinto racional contra un estado de degeneración, más aún, de mentira general y completa, por ejemplo, contra lo positivo de una religión fosilizada. Nosotros llamamos religión a la fe firme, a la convicción de Dios; si ello es o no la fe en la doctrina cristiana, es algo de que hacemos más o menos abstracción. Pero este ataque contra lo religioso debemos concebirlo muy de otro modo; este aspecto positivo de la religión es el aspecto negativo de la razón.
El estado religioso, con su poder y su magnificencia, con la corrupción de las costumbres, con la codicia, la sed de honores, la crápula, para las que se pide, sin embargo, reverencia y acatamiento: toda esta contradicción que existía en la realidad debe tenerse bien presente si se quiere comprender el sentimiento de rebelión que se apoderó de estos escritores.” Atualíssimo!
“La filosofía francesa iba dirigida también, por eso, contra el Estado; atacó los prejuicios y la superstición y principalmente la corrupción de la sociedad burguesa, de las costumbres de las cortes y de los funcionarios del gobierno, captó lo malo, lo ridículo, lo vil y expuso toda la hipocresía y los poderes injustos a la risa, al desprecio, al odio del mundo, moviendo así al espíritu y al corazón a indiferencia con respecto a los ídolos del mundo y haciendo que el sentimiento y el ánimo se rebelasen contra ellos. Las viejas instituciones, para las que ya no había cabida en el sentimiento desarrollado de una libertad y una humanidad conscientes de sí mismas y que, por lo demás, descansaban sobre los sentimientos mutuos y sobre la ceguera y la falta de autonomía de la conciencia, que habían dejado ya de corresponder al espíritu que las había instaurado y que ahora, con la nueva cultura científica desarrollada, se pretendía que también la razón respetara como algo sagrado y justo: todo este formalismo fue derribado por aquellos filósofos.
Sus ataques estaban escritos en parte con razonamientos, en parte con ingenio, en parte con el sano sentido común, y no iban dirigidos contra lo que nosotros llamamos religión; lejos de ello, esta religión quedaba al margen de tales ataques y se la recomendaba con la más bella elocuencia. Este aspecto sólo se comportaba, pues, demoledoramente contra lo que ya estaba destruido de suyo. Es muy fácil echarles en cara a los franceses sus ataques contra la religión y contra el Estado. Pero bueno será que nos hagamos una idea del horrible estado en que se hallaba la sociedad francesa, de la miseria y la infamia reinantes en Francia, para comprender el verdadero mérito de estos ataques. La hipocresía, la beatería, la tiranía, rabiosa por verse despojada de su botín, la pobreza de espíritu, pueden acusar a los filósofos franceses de atacar a la religión, al Estado y las costumbres. Pero ¡qué religión era la que ellos atacaban! No era, ni mucho menos, la religión purificada por Lutero, sino la más vil de las supersticiones, el clericalismo, la necedad, las más depravadas intenciones y, sobre todo, aquellos derroches de riqueza y aquella orgía de bienes materiales, en contraste con la escandalosa miseria general. ¡Y qué Estado era aquél! El más ciego despotismo de los ministros y de sus cortesanos y sus ayudas de cámara; un ejército inmenso de pequeños tiranos y de haraganes para quienes el derecho divino consistía en poder saquear los ingresos del Estado y el sudor del pueblo. La desvergüenza, el desafuero llegaban a extremos increíbles; la infamia de las costumbres estaba a tono con la infamia de las instituciones. Es el imperio del desafuero de los individuos en el campo de la vida civil y de la vida política; es también el desafuero en lo tocante a la conciencia, al pensamiento.
Por lo que se refiere a la vida práctica del Estado, estos escritores no pensaban ni remotamente en una revolución; sólo deseaban y predicaban la necesidad de reformas, pero reformas fundamentalmente subjetivas: que el gobierno pusiera coto a los abusos y colocara al frente de los ministerios a hombres honrados. Esto era lo positivo de que ellos hablaban, lo que sostenían que debiera hacerse: preconizaban la necesidad de dar al príncipe una buena educación, de que los nobles fuesen ahorrativos [sóbrios, ESCLARECIDOS, que coisa, hehe!], etc.
La revolución francesa fue impuesta por la intransigencia irreductible de los prejuicios y principalmente por la soberbia, por la avaricia, por la carencia absoluta de inteligencia. Aquellos filósofos sólo podían tener una idea general de cómo debían ser las cosas, pero sin que estuviera en sus manos señalar el modo de conseguirlo. Era al gobierno a quien competía implantar las instituciones y las mejoras necesarias en una forma concreta; sin embargo, no supo hacerlo. Todo lo que los filósofos proclamaban y afirmaban frente a aquel estado de cruel desintegración era, en general, que los hombres no debían seguir siendo legos, ni en lo tocante a la religión ni en lo referente al derecho; que en la religión no debía imperar una jerarquía, un número cerrado y escogido de sacerdotes, ni tampoco en lo jurídico una casta aparte (ni un estamento jurídico) que monopolizase el conocimiento de lo justo y lo injusto y acaparase las normas de lo eterno, lo divino, lo verdadero y lo justo y amparándose en ello ordenase y mandase a los demás hombres, sino que la razón humana tenía derecho a dar su asentimiento y a pronunciar su juicio.”
“Tratar a los bárbaros como legos está dentro del orden, pues eso son, en efecto, los bárbaros; pero ninguna dureza mayor ni más intolerable que tratar como legos a hombres pensantes. Aquellos hombres defendieron heroicamente, con su gran genio, con calor, con fuego, con espíritu y con valentía, este gran derecho humano de la libertad subjetiva”
“De aquí el fanatismo del pensamiento abstracto que en estos pensadores se manifiesta. Nosotros, los alemanes, mantenemos, en primer lugar, una actitud pasiva ante lo existente, lo soportamos; y, en segundo lugar, cuando lo existente se viene abajo o es derribado, nos comportamos también pasivamente: son otros los que lo derriban, nosotros nos cruzamos de brazos, dejamos que otros realicen la faena.” O nazismo foi sem dúvida uma afrancezação tardia e deturpadíssima dos teutos.
“A esta corriente cultural se unió también, en Alemania, Federico II, raro ejemplo para su época. Por Alemania habíanse extendido las costumbres cortesanas de Francia, sus óperas, sus jardines, sus trajes, pero no la filosofía francesa; sin embargo, bajo la forma del espíritu, del ingenio, penetró mucho de aquella filosofía en este mundo de la alta sociedad, sirviendo para ahuyentar bastantes cosas malas y bárbaras. Federico II, sin haber sido educado en los tristes y melancólicos salmos, sin aprender de memoria todos los días un par de ellos, sin la metafísica y la lógica bárbaras de Wolff (pues en la Alemania de su tiempo no podía encontrar sino a Gellert), conocía los grandes, aunque formales y abstractos, principios de la religión y el Estado y procuraba gobernar a tono con ellos.” Não estranho mais tanto assim a crença de H. na divina providência…
“Pero en el seno de su pueblo no se sentía ninguna otra necesidad, y no puede exigirse que un rey fuese el reformador, el revolucionario de un pueblo en que nadie se levantaba a pedir ni siquiera el funcionamiento de las cortes o que el público tuviera libre acceso a los tribunales de justicia. Este rey introdujo lo que respondía a una necesidad sentida, la tolerancia religiosa, una legislación, la reforma de la administración de justicia, un régimen de ahorro en los gastos públicos; de aquel miserable derecho alemán, o lo que se conocía con ese nombre, no quedó en sus Estados ni el menor rastro.”
“Es una necedad que la beatería y el falso germanismo combatan ahora la memoria de este rey y traten de empequeñecer e incluso de explicar por motivos de vanidad y hasta de maldad esta gran figura, que ha dejado en la historia una obra tan extraordinaria. El germanismo debe ser, ante todo, algo racional.”
“Es cierto que el contenido afirmativo de esta filosofía no puede satisfacer las exigencias de un examen concienzudo. Una determinación fundamental en lo que se enseñaba son, como en los filósofos escoceses y como entre nosotros mismos, premisas hechas a partir del sentimiento originario del derecho que todo hombre lleva dentro de sí: como, por ejemplo, la benevolencia y las inclinaciones sociales, que deben desarrollarse.”
“Es admirable, en realidad, ver proclamadas verdades bajo la forma de pensamientos generales, que es infinitamente importante que sean los prejuicios del hombre: que el hombre abrigue en su corazón el sentimiento del derecho, del amor al prójimo; que la religión, la fe, no le sea impuesta; que existan el talento, la virtud, la verdadera nobleza, etc.”
“Estos impulsos se consideran como simples impulsos naturales; son pues, algo indeterminado, que tiene su limitación solamente como un momento del todo. En lo tocante al conocimiento, se encuentran pensamientos muy abstractos —siempre, claro está, tan buenos y tan ingeniosos como los nuestros— que debieran, por su contenido, ser pensamientos concretos y también lo eran, pero concebidos de un modo tan superficial que no tardaron en demostrar su insuficiencia con respecto a lo que de ellos se trataba de deducir.”
“Una obra de esta clase es el Système de la Nature, el libro principal de un alemán, el barón de Hollbach, escrito en París, ciudad que era el centro de todos aquellos filósofos. Montesquieu, d’Alembert, Rousseau vivieron durante algún tiempo en el círculo de Hollbach; y, aunque todos ellos se rebelaban contra lo existente, por lo demás existían entre estos pensadores diferencias bastante acusadas. El Système de la Nature es un libro más bien aburrido, que no hace sino dar vueltas y más vueltas a las mismas representaciones generales; se ve que no está escrito por un francés, pues le falta la vivacidad y su exposición es gris y apagada.”
“Es algo así como lo que Aristóteles decía de Jenófanes; también este pensador mira al vacío, es decir, al ser. Para Hollbach, todo es movimiento, la materia se mueve a sí misma: la cerveza fermenta y el ánimo se mueve en las pasiones.”
“Este algo concreto recibió el nombre de razón, por la que los más nobles de estos hombres combatieron con el mayor entusiasmo y el mayor calor.” Mas se esta razão era o puro negativo, cabe a pergunta: é o Emílio um garoto niilista?
“Existe el impulso absoluto de encontrar dentro de sí, es decir, en el espíritu humano, un compás inmanente. Para el espíritu humano, es apremiante y necesario descubrir este punto fijo en que poder apoyarse, si es que ha de existir dentro de sí, si es que ha de ser libre, por lo menos, dentro de su mundo.”
“Así, Montesquieu, en su hermoso libro L’esprit des lois,¹ del que Voltaire dijo que era un esprit sur les lois, contempla a los pueblos desde el grandioso punto de vista que consiste en considerar como una totalidad su constitución política, su religión, en una palabra, todo lo que se encuentra dentro de un Estado.”
¹ Tema central do meu próximo livro como autor.
“Es esto, en efecto, lo que Rousseau decía, de una parte, acerca del Estado. Se planteaba el problema de su legitimidad absoluta y preguntaba: ¿cuál es el fundamento del Estado? Y concibe, de una parte, el derecho de la dominación y la obligatoriedad, la relación de ordenación, la de gobernar y ser gobernado, diciendo que descansa históricamente sobre la violencia, sobre la coacción, sobre la conquista, la propiedad privada, etc.
Pero Rousseau erige en principio de esta legitimidad la voluntad libre, y contesta, sin fijarse para nada en el derecho positivo de los Estados, a la pregunta más arriba formulada, diciendo que el hombre se halla dotado de una voluntad libre en cuanto que «la libertad es lo cualitativo del hombre. Renunciar a su voluntad equivaldría a renunciar a su condición humana. Cuando el hombre renuncia a ser libre renuncia, por tanto, a los derechos del hombre, e incluso a sus deberes.»”
“El hombre es libre, y tal es sin duda la naturaleza sustancial del hombre, naturaleza que no sólo no es abandonada o sacrificada dentro del Estado, sino que, por el contrario, se constituye precisamente dentro de él. La libertad de la naturaleza, el don de la libertad no es la libertad real, pues es el Estado y sólo él quien realiza la libertad.” Não me responsabilizo pelos pensamentos de Roussegel.
“La voluntad general no debe considerarse como integrada por un conjunto de voluntades expresamente individuales, de tal modo que éstas conserven su carácter absoluto; de otro modo, resultaría exacta la afirmación de que «allí donde la minoría tiene que obedecer a la mayoría, no existe libertad».”
H. diz: apesar de Hume muito ter contribuído, a verdadeira transição da filosofia carente-moderna ao Kantismo (a filosofia moderna verdadeira que começa, não isso de cartesianismo!) se dá mesmo é com Rousseau. Ele é a ponte entre a Inglaterra e a Alemanha, (!) nada de Canal da Mancha! E sim, eu sei que Hume não é inglês…
“Los alemanes son como abejas, dispuestos siempre a hacer justicia a todas las naciones: ropavejeros a quienes todo les parece bueno y que trafican con todo y a todo le sacan provecho. Todo aquello, tomado de naciones extranjeras, había perdido la ingeniosa vivacidad, la originalidad y la energía que llevaba a los franceses a olvidar el contenido por dar demasiada importancia a la forma. Los alemanes, quienes, procediendo honradamente, entraron a fondo y de un modo minucioso en el problema, esforzándose por sustituir el ingenio y la vivacidad por fundamentos racionales, puesto que la vivacidad y el ingenio nada prueban, en rigor, acabaron teniendo entre sus manos, por este camino, un contenido tan vacuo, que difícilmente podría imaginarse nada más fastidioso que este meticuloso tratamiento del problema, como el que encontramos, por ejemplo, en Eberhard, Tetens, etc.
Otros, como Nicolai, Sulzer y algunos más, entreteníanse también en filosofar principalmente en torno al gusto y a las bellas artes, por entender que también los alemanes debían poseer una literatura bella y un arte propios. Pero, con ello, sólo conseguían caer en la más extrema indigencia de lo estético —Lessing ha llamado a esto una charlatanería superficial—, del mismo modo que, en conjunto, los poemas de Gellert, de Weisse y de Lessing se hunden, no mucho menos, en la última indigencia de la poesía.”
“Los puntos de vista de las sensaciones agradables o desagradables eran considerados por los filósofos de aquel tiempo como un criterio esencial e inapelable. Pondremos un ejemplo de este modo de filosofar, tomado de Nicolai, quien aduce, a este propósito, un diálogo que tuvo con Mendelssohn: el tema del diálogo es el goce sugerido por los asuntos trágicos y despertado, al parecer, incluso a través de las sensaciones desagradables plasmadas en una tragedia.”
“Por otra parte, la eternidad de las penas del infierno, la bienaventuranza de los paganos y la contraposición entre la rectitud de conducta y la propiedad eran también temas filosóficos que daban mucho que hacer a los alemanes, mientras que los franceses se preocupaban menos por ellos.”
CRISE NEO-ESCOLÁSTICA? “así se alegaba en contra de la Trinidad el argumento de que 1 no puede nunca ser 3; en contra del pecado original, el que cada cual tiene que cargar por sí mismo con sus culpas y responder de sus actos, como autor que es de ellos; contra la redención, el que nadie puede descargarse en otro de sus culpas y del castigo correspondiente; contra la remisión de los pecados, el que no es posible que lo sucedido se haga desaparecer; y, en general, se ponía de manifiesto la incompatibilidad de la naturaleza humana con la divina. De una parte, nos encontramos con el sano sentido común, con la experiencia, con los hechos de la conciencia; de otra parte, vemos tomar vuelos aquí a aquella metafísica wolffiana del entendimiento seco y muerto”
“hasta que Kant imprimió un nuevo impulso vital, en Alemania, a la filosofía, puesta ya en marcha en el resto de Europa.”
VUELTAS Y MÁS VUELTAS: “Cuanto más se encierra dentro de sí la razón humana más se aparta de Dios, más se amplía el campo de lo finito. La razón es lo uno y el todo y es, a la par, la totalidad de lo finito; este comportamiento de la razón es un saber finito y el saber de lo finito. El problema, una vez estatuido este algo concreto (y no las abstracciones metafísicas), consiste en saber cómo se desarrolla dentro de sí; consiste además en saber cómo recobra la objetividad o levanta [suspende] su subjetividad; es decir, cómo puede recobrarse a Dios por medio del pensamiento, cómo es posible llegar de nuevo a lo que al comienzo de este período se consideraba y reconocía como lo único verdadero. § Esto es lo que habremos de considerar en el período final en el que entramos, al tratar de Kant, de Fichte y de Schelling.”
SECCIÓN TERCERA:
LA NOVÍSIMA FILOSOFÍA ALEMANA
“En esta gran época de la historia universal, cuya esencia más íntima reside en la filosofía de la historia, [¡mí filosofía!] sólo toman parte 2 pueblos, el alemán y el francés, a pesar de la contraposición que entre ellos existe o, mejor dicho, precisamente por razón de ella. Las demás naciones no participan interiormente de este movimiento; participan, sí, en lo político, tanto sus gobiernos como los pueblos mismos.”
THE NAP O’… (THE)…LIÓN: “En Alemania este principio irrumpe como pensamiento, como espíritu, como concepto; en Francia, en la realidad. Por el contrario, en Alemania, lo que de la realidad se manifiesta aparece como una presión violenta de circunstancias de orden externo y una reacción contra ella.”
“La misión de la novísima filosofía alemana consiste en tomar ahora como objeto y en comprender la unidad del pensamiento y el ser, que es la idea central de toda filosofía; es decir, en captar lo más recóndito de la necesidad, el concepto.”
Schelling será a Musa inspiradora de H.. Mas calma que lá chegamos!
DE NOVO ESSE CHATO! “Jacobi se enfrenta así a este postulado del pensamiento, y su pensamiento filosófico central, visto en uno de sus aspectos, es el de que todo camino de demostración conduce al fatalismo, al ateísmo y al spinozismo, representándose, por tanto, a Dios como un algo derivado, que reposa sobre otro fundamento, pues el comprender una cosa significa poner de manifiesto su dependencia con respecto a otra.”
“Por tanto, el concepto de la posibilidad de la existencia de la naturaleza sería el concepto de un comienzo o un origen absoluto de la naturaleza; sería el concepto de lo incondicionado mismo, en cuanto no es la condición incondicionada de la naturaleza no-naturalmente articulada, es decir, desarticulada para nosotros. Ahora bien, para que sea posible un concepto de este algo incondicionado e inarticulado —y, por consiguiente, extranatural—, es necesario que lo incondicionado deje de serlo, que reciba condiciones; y lo absolutamente necesario tiene que comenzar a convertirse en lo posible, para que pueda construirse.» Jacobi, Briefe über die Lehre des Spinoza, apéndice VII
“La fe, en sentido teológico, es fe en algo, en lo que enseña la doctrina. Es, pues, en cierto modo, un fraude el que se comete cuando se nos habla aquí de fe y de revelación, dándosenos a entender qué se trata de fe y revelación en sentido teológico, ya que aquí el sentido pretendidamente filosófico es completamente distinto, por mucha apariencia devota que se le quiera dar. § Tal es el punto de vista de Jacobi, y aunque tanto los filósofos como los teólogos digan muchas cosas en contra de él, no cabe duda de que ha sido recibido y propagado de muy buen grado.” HAHAHA. Com efeito, o juízo de H. sobre J. é tão similar ao de Schopenhauer nos volumes finais d’O Mundo que me pergunto se Sch. não tirou sua opinião dessa mesma obra!
“Se reconoce evidentemente que nadie puede hacer un zapato no siendo zapatero, aunque tenga la medida, que es el pie, y tenga también manos. En cambio, tratándose de filosofía, el saber inmediato tiene la creencia de que cualquiera, por el mero hecho de pensar, es un filósofo y puede opinar en materia de filosofía.”
“La forma última a que la filosofía desciende en Jacobi es ésta: la de que la inmediatidad se conciba como lo absoluto, revela la ausencia de toda crítica, de toda lógica.” Curioso: jamais li Fichte, mas imaginava que isso seria sua sinopse…
“El propio espíritu debe dar testimonio al espíritu de que Dios es el espíritu; el contenido debe ser el verdadero. Pero esto no se comprueba porque se me revele a mí, porque a mí se me asegure.” E com esse delírio que é um recuo escolástico, mas que H. pensa que é seu passo a mais, chegamos à conclusão de que ele e Kant são como água e óleo, pois K. é opaco a H..
“Kant retorna al punto de vista de Sócrates: nos encontramos en él con la libertad del sujeto, como en los estoicos; pero el problema, en lo tocante al contenido, se plantea aquí en un plano más alto. Ahora se postula para el pensamiento la infinita determinación hacia lo concreto, la realización a base de la regla de lo perfecto; dicho de otro modo, se postula que el contenido mismo sea la idea, concebida como unidad del concepto y la realidad.” “El punto de vista de la filosofía kantiana consiste, primeramente, en que el pensamiento puede llegar, por la vía del razonamiento, a concebirse no como algo contingente, sino como algo absoluto de suyo. En lo finito y en cohesión con ello se eleva un punto de vista absoluto, que es como el eslabón intermedio, como el lazo de unión entre lo finito y lo que lo eleva al plano de lo infinito.” “toda autoridad tiene que imponerse por la sola vía del pensamiento.” “al ser el pensamiento subjetivo, se le niega capacidad para conocer lo que es en y para sí.” “Por otra parte, Kant infiere la existencia de Dios, viendo en Él una hipótesis de que se vale para la explicación, un postulado de la razón práctica. Pero, desde este mismo punto de vista, un astrónomo francés daba al emperador Napoleón esta respuesta: Je n’ai pas eu besoin de cette hypothèse. Lo que hay de verdad en la filosofía kantiana es, según esto, el reconocimiento de la libertad. Ya Rousseau veía en la libertad lo absoluto: Kant profesa el mismo principio, sólo que más bien desde el punto de vista teórico.”
“Immanuel Kant nació en Königsberg en 1724; estudió inicialmente teología, y en 1755 abrazó la carrera académica. Fue designado profesor de lógica en 1770, y murió en la misma ciudad de Königsberg en 1804, el 12 de febrero, casi de 80 años. No llegó a salir nunca de su ciudad natal.”
“aquello para lo que todo debía ser es el hombre, la conciencia de sí, pero como todos los hombres en general.”
“La filosofía kantiana es teóricamente la Ilustración elevada al plano metódico, basada en la tesis de que el hombre no puede conocer ninguna verdad, sino solamente los fenómenos” “Esta filosofía pone punto final a la metafísica intelectiva, en cuanto dogmatismo objetivo (…) descartando el problema de lo que es verdad en y para sí. Su estudio se hace difícil por la extensión, la prolijidad y la peculiar terminología en que esta filosofía aparece expuesta. Sin embargo, esta extensión tiene, a su vez, la ventaja de que a fuerza de repetirse, se asimila uno las tesis fundamentales, evitando que éstas se pierdan de vista.”
“El sentido general de la filosofía kantiana es en efecto el que, como el autor reconoce en seguida, determinaciones como la de la generalidad y la de la necesidad no nos son ofrecidas por la percepción misma, como ya había señalado Hume en contra de Locke. Pero mientras que Hume se manifiesta, de un modo general, contra la generalidad y la necesidad de las categorías, y Jacobi contra su carácter finito, Kant sólo se muestra contrario a su objetividad, en el sentido de que existan en las mismas cosas externas, si bien las afirma como objetivas en el sentido de lo general y lo necesario, según demuestran los ejemplos de las matemáticas y las ciencias naturales.”
“deben darse a priori, es decir, en la razón misma, en el pensamiento como razón consciente de sí; su fuente es el sujeto, es el yo en mi conciencia de mí mismo. Tal es la tesis fundamental, muy simple como se ve, de la filosofía kantiana.
En segundo lugar la filosofía de Kant se llama también filosofía crítica, en cuanto que se propone como fin, nos dice su autor, el ser una crítica de la facultad de conocimiento; antes del conocimiento es necesario investigar, en efecto, la capacidad para conocer. (…) sería difícil decir cómo es posible conocer sin conocer, intentar apoderarse de la verdad antes de la verdad misma.”
“Sin embargo, como el principio kantiano de la razón era un principio puramente formal y sus sucesores, partiendo de la razón, no podían ir más allá, a pesar de lo cual la ética debía conservar un contenido, nos encontramos con que Fries y otros vuelven a ser hedonistas, aunque se guarden mucho de llamarse así.
En tercer lugar en lo tocante a la relación existente entre las categorías y la materia que la experiencia nos ofrece, ésta consiste, según Kant, en las determinaciones subjetivas del pensamiento, por ejemplo, en la de causa y efecto, determinaciones que son por sí mismas el punto de apoyo para anudar las diferencias de aquella materia.”
“Se llaman juicios las combinaciones de determinaciones del pensamiento, tales como sujeto y predicado. Los juicios sintéticos a priori no son otra cosa que la conexión de lo contrapuesto por sí mismo o el concepto absoluto, es decir, relaciones de determinaciones distintas que no son dadas por la experiencia, sino por el pensamiento, tales como las de causa y efecto, etc. Asimismo son un lazo de unión el espacio y el tiempo, que existen a priori, es decir, en la conciencia de sí.”
“Conviene por tanto, distinguir cuidadosamente entre lo trascendente y lo trascendental. Matemática trascendente es aquella en que se emplea principalmente la determinación de lo infinito: en esta esfera de la matemática se dice, por ejemplo, que el círculo está formado por un número infinito de líneas rectas; la periferia se representa como recta: al representarnos, así, lo curvo como recto, trascendemos de la determinación geométrica: se trata, por tanto, de una matemática trascendente. Por el contrario, Kant determina la filosofía trascendental viendo en ella, no una filosofía que trasciende con las categorías su esfera, sino una filosofía que pone de manifiesto, en el pensamiento subjetivo, en la conciencia, las fuentes de lo que puede ser trascendente.” “No nos proponemos, por tanto, considerar las determinaciones en su sentido objetivo, sino en la medida en que el pensamiento es la fuente de tales relaciones sintéticas; lo necesario y general adquiere aquí, por tanto, la significación de residir en la capacidad humana de conocimiento.”
“Pero Kant distingue de esta facultad humana de conocimiento el en sí, la cosa en sí; de tal modo que aquella generalidad y aquella necesidad son solamente, al mismo tiempo, una condición subjetiva del conocer, pero sin que la razón llegue, con su generalidad y su necesidad, al conocimiento de la verdad misma.” “Si la razón pretende ser algo para sí, extraer la verdad de sí misma, será una razón trascendente, se remontará por sobre la experiencia” “será la unidad y la regla para lo múltiple sensible.” “La crítica de la razón consiste, por tanto, no en conocer los objetos, sino el conocimiento y los principios de éste, sus límites y su extensión, para que no sean excesivos. Esto es lo más general, que en seguida pasamos a desarrollar en sus diversas partes.”
“vemos que Kant, en la Crítica de la razón pura, aborda el problema psicológicamente, es decir, históricamente, al describir las etapas fundamentales de la conciencia teórica. La primera facultad es la sensibilidad en general; la segunda, el entendimiento; la tercera la razón. (…) lo enfoca de un modo puramente empírico, sin desarrollarlo partiendo del concepto y sin proceder con arreglo a un criterio de necesidad.” E isso é o limite!
“Al enjuiciamiento de esto lo llama Kant estética trascendental. Hoy, llamamos estética al conocimiento de lo bello.” Péssimo nome, evidentemente.
“Pero Kant da este nombre a la teoría de la intuición vista por el lado de su generalidad, es decir, atendiendo a lo que se refiere al sujeto. La intuición, dice Kant, es el conocimiento de un objeto que nos es dado por los sentidos. La sensibilidad es la capacidad del hombre para ser afectado por medio de impresiones externas. Ahora bien, en la intuición se encuentra, según Kant, un contenido muy diverso, con arreglo al cual se pueden distinguir las sensaciones en exteriores, tales como las de rojo, color, dureza, etc., e internas, tales como las de lo justo, la cólera, el amor, el miedo, lo agradable, lo religioso.” “Pero en este algo sensible se contiene también un algo sensible general, ya que, como tal, no pertenece al campo de las sensaciones, en cuanto inmediatamente determinadas; esta otra cosa, en esta materia, es la determinación de espacio y tiempo, que son, por sí mismos, vacíos.” “El espacio y el tiempo son, por tanto, intuiciones puras, es decir, abstractas: intuiciones en las que ponemos el contenido de las diversas sensaciones fuera de nosotros, bien en el tiempo, fluyendo unas después de otras, bien en el espacio como separadas unas al lado de otras.”
“Claro está que ahora todo se llama intuición, incluso el pensamiento, la conciencia;Dios, a pesar de pertenecer sólo al pensamiento, puede captarse también por medio de la intuición, por medio de la llamada conciencia inmediata.”O que há que resetar do kantismo é a parte em verde.
«El espacio es una representación necesaria, que sirve de fundamento a todas las intuiciones externas. El espacio y el tiempo son representaciones a priori, toda vez que no es posible representarse las cosas fuera del tiempo y el espacio. El tiempo sirve necesariamente de base a todos los fenómenos.»
“Kant, sin embargo, se representa la cosa sobre poco más o menos así: existen fuera de nosotros cosas en sí, pero sin tiempo y sin espacio; viene luego la conciencia, que tiene ya en sí misma el tiempo y el espacio, como la posibilidad de la experiencia, del mismo modo que, por ejemplo, para comer, empezamos por tener boca y dientes, etc., como condiciones previas para realizar esta operación. Las cosas que comemos no tienen boca ni dientes; pues bien, lo que el comer es a las cosas es a ellas el tiempo y el espacio; como las cosas se sitúan, para ser comidas, en la boca y entre los dientes, así también en el espacio y en el tiempo.” “El espacio y el tiempo no son particularmente determinaciones del pensamiento cuando no sugieren pensamiento alguno; pero sí son un concepto; siempre y cuando que nos formemos un concepto de ellos.”
“El análisis trascendental nos dice, además, que esta representación de espacio y tiempo encierra proposiciones sintéticas a priori, relacionadas con la conciencia de su necesidad. Estas proposiciones sintéticas son, por ejemplo, la de que el espacio tiene 3 dimensiones, o la definición de la línea recta, según la cual es el camino más corto entre 2 puntos; o también la afirmación de que 5 + 7 = 12. Sin embargo, todas estas proposiciones tienen un carácter muy analítico. No obstante, Kant sostiene, en primer lugar, que estas tesis no proceden de la experiencia o, para expresarnos mejor, que no son una percepción fortuita aislada; lo cual es exacto, pues se trata de una percepción general y necesaria.
En segundo lugar, afirma Kant que las obtenemos de la intuición pura, no por medio del entendimiento o del concepto. Kant no resume ambas cosas; sin embargo, este resumen está implícito en el hecho de que tales tesis son inmediatamente ciertas precisamente en la intuición.” “Ante este modo de concebir, surge el problema de cómo consigue el ánimo llegar a tener precisamente estas formas. Pero a la filosofía kantiana no se le ocurre ni siquiera preguntarse cuál es la naturaleza del tiempo y el espacio. La pregunta de qué son el espacio y el tiempo no significa para ella cuál sea su concepto, sino el si son cosas externas o algo que existe simplemente en el ánimo.”
“La segunda facultad, el entendimiento, es algo completamente distinto de la sensibilidad; ésta es la receptividad, mientras que Kant —empleando una expresión de la filosofía leibniziana— llama espontaneidad en general al pensamiento.”
«los pensamientos sin contenido son vacíos, las intuiciones sin conceptos son ciegas»
“O bien se trata de una facultad de carácter especial; y solamente cuando acaecen ambas cosas, es decir, cuando los sentidos suministran la materia y el entendimiento ha combinado con ella sus pensamientos, brota el conocimiento. Los pensamientos del entendimiento como tal son, por consiguiente, pensamientos limitados, pensamientos de lo finito.
Ahora bien, la lógica, en cuanto lógica trascendental, establece asimismo los conceptos que el entendimiento encuentra a priori en él mismo y por medio de los cuales piensa los objetos completamente a priori. Los pensamientos tienen esta forma: son la función sintetizadora a través de la cual lo múltiple se reduce a unidad. Esta unidad soy yo, es la apercepción trascendental, el apercibir puro de la conciencia de sí, yo = yo; el yo debe «acompañar» a todas nuestras representaciones.” Recordando: percepção: sensação pura e simples; apercepção: sensação que é mais geral que a anterior, embora siga sendo imediata, e que não é conceitual por assim dizer, dado nosso próprio nível de exigência do que deva ser um conceito. Isto é: não só as rachaduras da parede do meu quarto, mas o tempo e o espaço: estas são apercepções. Diferente da qualidade da mesa na qual apóio agora meus cotovelos, a umidade de meus cachos agora que acabei de sair de um banho, o ruído ambiente… Espaço e tempo são de onde emanam todos esses fenômenos, e eu apenas acabo de abstrair o que é a extensão territorial e a dinâmica da sucessão em duas palavras específicas; porém não posso manusear tempo e espaço como um relógio e dizer mais do que isso sem incorrer em besteirol; esse é meu limite. Posso fazer poesia sobre espaço e tempo, mas continuará sendo uma determinação fundamental que determina meu próprio ânimo e o limite do que posso expressar nesta poesia.
“Es una exposición bárbara.” HAHAHAAHAHAAHAHAHAHAHAHAHA!!!
“el apercibir es el determinar en general, la actividad por medio de la cual traduzco a mi conciencia simple un contenido empírico, mientras que el percibir se llama más bien sensación o representación.”
“Esto es una gran conciencia, un conocimiento importante: lo que el pensamiento produce es la unidad; y, de este modo, se produce a sí mismo, pues es lo uno. En Kant, sin embargo, no aparece expresado con tanta precisión esto de que yo soy lo uno y, en cuanto sujeto pensante, lo que lo simplifica todo. La unidad puede ser llamada también relación; pues, en cuanto se presupone un algo múltiple y este algo permanece como múltiple en uno de sus aspectos, mientras que en el otro se establece como uno, tenemos una relación.”
“juicios generales, particulares y singulares; afirmativos, negativos, indefinidos; categóricos, hipotéticos, disyuntivos; asertóricos, problemáticos y apodícticos. Pues bien, destacando estas especiales modalidades de relación, obtenemos las formas puras del entendimiento.”
“Existen, por tanto, según Kant, 12 categorías fundamentales, divididas en 4 clases; y no deja de ser curioso, y además meritorio, que cada género esté formado, a su vez, por una tríada.”
Ahora bien… Poderemos seguir fazendo uma pseudometafísica só reformulando essas categorias ad infinitum… Pouco importa seu número, seus nomes… Pelo menos pouco importa segundo o que o indivíduo quer com o mundo e com a vida – que esteja claro!
“4) La cuarta clase son las categorías de la modalidad, de la relación de lo objetivo sobre nuestro pensamiento: posibilidad, existencia (realidad) y necesidad. La posibilidad debiera ser lo segundo; pero, con arreglo al pensamiento abstracto, la representación vacía es lo primero.” Aqui H. não deixa claro se é ele que está superinterpretando e julgando ou se está apenas expondo ipsis literis.
“La triplicidad, esta vieja forma de los pitagóricos, de los neoplatónicos y de la religión cristiana, aunque aquí sólo se presente como un esquema puramente externo, esconde dentro de sí la forma absoluta, el concepto.” Sempre os limites do principio da não-contradição…
“Pero, en cuanto Kant dice que una representación puede determinarse en mí como accidental, como causa, efecto, unidad, pluralidad, etc., tenemos ya en ello toda la metafísica del entendimiento. Kant además no deriva estas categorías, y aun cuando le parecen imperfectas, dice que las otras se derivan de éstas.”
“tampoco deduce el tiempo y el espacio, sino que los toma, asimismo, de la experiencia; es, como se ve, un método totalmente antifilosófico, injustificado.”¿??
Aporia… Ah, poria… algo mais?! Limite fenomênico. Limite-se, fenomênico! KNOW HOW TO LIE – LIE & REST. Já deuS.
“La materia de la percepción perteneciente a la sensibilidad o a la intuición no es dejada en la determinación de lo singular y lo inmediato, sino que yo actúo en contra de ello por cuanto que la relaciono por medio de las categorías y la elevo al plano de los géneros generales, de las leyes naturales, etc. Así planteada la cosa, es fácil resolver el problema de qué se halla en un plano superior, si la sensibilidad llena o el concepto. En efecto, no se perciben directamente las leyes del cielo, sino que lo que se percibe directamente es tan sólo el desplazamiento de los astros. Sólo cuando se retiene este algo directamente percibido y se reduce a determinaciones generales del pensamiento, surge la experiencia, la cual está llamada a ser válida en todo tiempo.”
“Kant llega, sin embargo, partiendo de aquí, al resultado de que la experiencia sólo capta fenómenos y de que a través del conocimiento, obtenido por la experiencia, no conocemos las cosas tal y como son en sí sino solamente en forma de leyes de la intuición y de la sensibilidad.” “Ni lo uno ni lo otro es, por tanto, algo en sí, ni ambas cosas juntas son el conocimiento, sino que éste conoce solamente los fenómenos; curiosa, singular contradicción.”
“es el esquematismo del entendimiento puro, la imaginación trascendental, lo que determina la intuición pura, con arreglo a la categoría, formando así el tránsito a la experiencia.” É muito nome pra muita UNIDADE SEMELHANTE!
“El enlace de este algo doble es, a su vez, una de las páginas más bellas de la filosofía kantiana, en la que se unen la sensibilidad pura y el entendimiento puro, predicados anteriormente como términos absolutamente antagónicos. Se contiene aquí un entendimiento intuitivo o una intuición intelectiva; pero no es así como lo entiende Kant, quien no junta estos pensamientos: no comprende que unifica, de este modo, ambas partes integrantes del conocimiento, expresando con ello el en sí del mismo.” O mais engraçado dos grandes filósofos é que avançam precursoramente dizendo aquilo que nem eles mesmos entendem, para que em seguida alguém o interprete corretamente (e por sua vez cometa mais erros parecidos lá na frente)! Se isso não é intuição transcendental da mais enraizada e incontestável eu não sei o que é!
“pero en Kant el entendimiento pensante y la sensibilidad son factores especiales, que sólo se combinan de un modo externo, superficial, como un pedazo de madera y un hueso atados con una cuerda.”
“En cuanto que todo gira aquí en torno a nuestras determinaciones y no a la cosa en sí, a lo verdaderamente objetivo, la filosofía kantiana recibe el nombre de idealismo. Pero, con este motivo, Kant se detiene a refutar el idealismo empírico o material, en los siguientes términos (Crítica de la razón pura, pp. 200 s.): «Yo tengo conciencia de mi existencia como determinada en el tiempo. Pero toda determinación en el tiempo presupone algo permanente en la percepción. Y este algo permanente no puede ser (una intuición) en mí.»” ¡!!
“O bien tengo la conciencia de mi existencia como de una conciencia empírica, determinable solamente en relación a algo que se halla fuera de mí; es decir, tengo la conciencia de un algo exterior.” ¡!!
“También cabría decir esto a la inversa: tengo la conciencia de las cosas externas como de cosas determinadas en el tiempo y cambiantes; éstas presuponen, por tanto, algo permanente, algo que no se halla en ellas, sino fuera de ellas. Y este algo soy yo, el fundamento transcendental de su generalidad y necesidad, de su ser en sí, la unidad de la conciencia de sí. Y así lo concibe, en otra ocasión, el propio Kant (Crítica de la razón pura, p. 101); por tanto, estos momentos se confunden y entremezclan, ya que lo permanente mismo es una categoría.”
“El idealismo, considerado en el sentido de que nada existe como singular fuera de mi propia conciencia singular, o la refutación del mismo, en el sentido de que existen también cosas singulares fuera de mi propia conciencia, es por consiguiente tan malo en un caso como en el otro. Aquél es el idealismo de Berkeley, en el que sólo se habla de la conciencia de sí como de algo singular, o en el que el mundo de la conciencia de sí aparece ni más ni menos que como una multitud de representaciones limitadas, sensibles y singulares, tan carentes de verdad como si fuesen llamadas cosas. La verdad o la falta de verdad no está en que sean cosas o representaciones, sino en el carácter limitado y contingente de ella, según que sean representaciones o cosas.”
“Pero, en Kant, el sujeto cognoscente no llega, en rigor, a la razón, sino que permanece, a su vez, como la conciencia de sí singular en cuanto tal, contrapuesta a la general. En realidad, en lo que hemos visto sólo se describe la conciencia de sí empírica, finita, que necesita una materia traída de fuera, es decir, que es limitada. No se pregunta si estos conocimientos son o no verdaderos en y para sí, con arreglo a su contenido; todo el conocimiento se mantiene dentro de la subjetividad y, al otro lado, se halla, como algo exterior, la cosa en sí.”
“En tercer lugar viene, en Kant, la razón, a la que llega, también por el camino psicológico, partiendo del entendimiento: sigue hurgando, [remexendo] en efecto, en el saco del alma, para ver qué facultades encuentra todavía en él, y la casualidad le depara el encuentro de la razón. Pero la búsqueda sería también buena aunque no la hubiese descubierto, lo mismo que para los físicos es de todo punto indiferente el que, por ejemplo, exista o no el magnetismo.”
«Todo nuestro conocimiento comienza por los sentidos, pasa de ahí al entendimiento y termina en la razón, sin que haya en nosotros nada más alto para elaborar la materia de la intuición y reducirla a la suprema unidad del pensamiento.»
“La razón es, por tanto, según Kant, la facultad para conocer a partir de principios, es decir, para conocer lo particular en lo general, por medio de conceptos; el entendimiento, por el contrario, llega a lo particular por la vía de la intuición. Pero las propias categorías son algo particular. El principio de la razón en general es, según Kant, lo general, en cuanto que encuentra lo incondicionado para el conocimiento condicionado del entendimiento. El entendimiento es, para él, por tanto, el pensamiento en condiciones finitas; la razón, por el contrario, el pensamiento que hace de lo incondicionado su objeto. Desde entonces, la terminología filosófica acostumbra a distinguir entre el entendimiento y la razón, distinción con que no nos encontramos en los filósofos antiguos. El producto de la razón es, según Kant, la idea—expresión platónica—; por idea entiende Kant lo incondicionado, lo infinito. Es una gran frase ésta de que la razón produce ideas; pero en Kant la idea es solamente lo general abstracto, lo indeterminado.” E se Platão concorda com Kant, como ficamos, H.?
“Ahora bien, este algo incondicionado debe captarse de un modo concreto, y en eso reside precisamente la principal dificultad. En efecto, el conocer lo incondicionado significa determinarlo y derivar las determinaciones de ello. Mucho se ha escrito y hablado acerca del conocer, sin definirlo. Pero en filosofía de lo que se trata es de llegar a conocer lo que se da por supuesto como conocido.” “Todo depende, sin embargo, del modo como se considere el mundo; ahora bien, para Kant la experiencia, la consideración del mundo, no significa otra cosa sino que aquí nos encontramos, supongamos, con un candelabro y más allá con una bolsa de tabaco. Es exacto, no cabe duda, que lo infinito no se da en el mundo de la percepción sensible; y, dando por supuesto que lo que sabemos sea experiencia, un sintetizar los pensamientos y las materias de la sensibilidad, es evidente que no podremos llegar a conocer lo infinito en el sentido de llegar a tener una percepción sensible de ello. Pero tampoco ha de exigirse para la verificación de lo infinito una percepción sensible”
“una de las importantes determinaciones de la filosofía kantiana consiste en ver que lo infinito, en cuanto se determina por categorías, se pierde en contradicciones. Ahora bien, aunque la razón, dice Kant, se convierte en transcendente mediante el establecimiento de estas contradicciones, implica siempre, sin embargo, el postulado de reducir a lo infinito la percepción, la experiencia, el conocimiento intelectivo. Y esta combinación de lo infinito, de lo incondicionado, con lo finito, con lo condicionado del conocimiento intelectivo, o incluso con la percepción, sería, desde este punto de vista, lo sumamente concreto.”
“Pues bien, el modo como Kant aborda estas ideas es un modo derivado, a su vez, de la experiencia, de la lógica formal, según la cual existen diversas formas de razonamiento. Existiendo, nos dice Kant, 3 formas de silogismos, los categóricos, los hipotéticos y los disyuntivos, lo incondicional tiene que ser también de 3 clases:«La primera es lo incondicionado de la síntesis categórica en un sujeto.» La síntesis es lo concreto; pero la expresión es de doble sentido, ya que expresa una combinación externa de cosas independientes. «En segundo lugar, tenemos lo incondicionado de la síntesis hipotética de los miembros en una sola serie; y, en tercer lugar, lo incondicionado de la síntesis disyuntiva de las partes en un sistema.»
La primera combinación, expresada como objeto de la razón o idea trascendental, la hacemos cuando nos representamos «el sujeto pensante»; lo segundo «es el conjunto de todos los fenómenos, el universo»; lo tercero, «la cosa que encierra la suprema condición de la posibilidad de cuanto puede pensarse, la esencia de todas las esencias», es decir, Dios. El problema, reducido a su más aguda expresión, podría formularse ahora así: si la razón puede llevar estos objetos a la realidad o si éstos, por el contrario, quedan encerrados en el pensamiento subjetivo. Pues bien, la razón, según Kant, no es capaz de dar realidad a sus ideas —de otro modo, sería una razón trascendente, que volaría por encima de las cosas—, sino que produce solamente paralogismos, antinomias y un ideal sin realidad.”
«El paralogismo es un razonamiento falso en cuanto a la forma.»
“¿es el Yo, lo pensante, una sustancia, un alma, una cosa anímica? Más adelante, se pregunta, asimismo, si es algo permanente, inmaterial, incorruptible, personal, inmortal, y algo que mantenga una comunidad real con los cuerpos. La falsedad del razonamiento consiste en que la idea racional necesaria de la unidad del sujeto trascendental se predique como una cosa, pues sólo así se convierte en sustancia lo que hay de permanente en ella. De otro modo, me encontraría a mí evidentemente como algo permanente en mi pensamiento; pero solamente en la conciencia perceptiva y no fuera de ella. El Yo es, por tanto, el sujeto vacío, trascendental, de nuestros pensamientos, que sólo por medio de sus pensamientos es conocido; pero sin que, partiendo de aquí, podamos llegar a formarnos ni el más leve concepto de lo que es en sí. (Es ésta una distinción harto repelente, pues el pensamiento no es otra cosa que el en sí.) No podemos predicar de él ningún ser, pues el pensamiento es una mera forma, y no obtenemos la representación de la esencia pensante por una experiencia externa, sino simplemente por la conciencia de sí, es decir, porque no podemos tomar en la mano el Yo, no podemos verlo, olerlo, etc. Sabemos perfectamente bien, sin duda, que el Yo es el sujeto; pero, si nos remontamos por encima de la conciencia de sí y decimos que es sustancia, vamos más allá de lo que tenemos derecho a ir. El Yo no puede, por tanto, dar al sujeto ninguna realidad.
Aquí vemos a Kant caer en contradicción con la barbarie de las ideas que refuta y la barbarie de sus propias ideas, las cuales no se salen del marco de las refutadas. Tiene, en primer lugar, toda la razón cuando afirma que el Yo no es una cosa anímica, un algo permanente y muerto, dotado de existencia sensible; y, en realidad, si hubiese de ser una cosa común y corriente, tendría que caer también, necesariamente, dentro del campo de la experiencia; en segundo lugar, Kant no sostiene lo contrario de esto, a saber, que el Yo, como este pensar lo general o pensarse a sí, tenga en sí mismo la verdadera realidad que exige como modo objetivo, sino que no sale de la representación de la realidad según la cual ésta consiste en ser una existencia sensible, en vista de lo cual, como el Yo no se da en ninguna experiencia externa, no es real. (…) dicho de otro modo: Kant sólo concibe la conciencia de sí, pura y simplemente, como algo sensible.” Ao exportar o em si, K. recai para trás até de Descartes com sua certeza!
“Viene luego, en segundo lugar, la antinomia, es decir, la contradicción de la idea racional de lo incondicionado, aplicada al universo para representarlo como un conjunto íntegro de condiciones. En efecto, en los fenómenos dados la razón exige la integridad absoluta de las condiciones de su posibilidad, en tanto formen una serie, de tal modo que el universo mismo es algo incondicionado.
Ahora bien, si esta perfección se predica como algo que es, se representa solamente una antinomia, y la razón aparece simplemente como una razón dialéctica; es decir, descubrimos en este objeto, por cualquier parte que lo contemplemos, una perfecta contradicción. Pues los fenómenos son un contenido finito y el universo una cohesión de cosas limitadas; y si este contenido es pensado por la razón, es decir, subsumido bajo lo incondicional y lo ilimitado, estaremos ante 2 determinaciones, lo finito y lo infinito, contradictorias entre sí.”
“Kant (Crítica de la razón pura, p. 320) señala aquí 4 contradicciones, lo que es demasiado poco; [HAHAHA!] en efecto, todo concepto entraña sus antinomias ya que no es un concepto simple, sino concreto, lo cual quiere decir que encierra determinaciones distintas, que son, a su vez, términos contrapuestos.”
PRIMEIRA ANTINOMIA KANTIANA:«Tesis: el mundo tiene un principio y un fin en el tiempo y se halla limitado en el espacio. Antítesis: No tiene principio ni fin en el tiempo, ni tampoco límites en el espacio.»
“El mundo es, como universo, la totalidad; es, por tanto, una idea general y, en este sentido, ilimitada. Pero la perfección de la síntesis en el desarrollo del tiempo y del espacio no es otra cosa que un primer comienzo del espacio y el tiempo. Si, por tanto, aplicamos al mundo, para conocerlo, las categorías de lo limitado y lo ilimitado, caeremos en contradicciones, ya que estas categorías no pueden ser predicadas de las cosas en sí.”
“La cuarta antinomia [a segunda e a terceira são irrelevantes e triviais para listar aqui] se basa en lo siguiente: de una parte, la totalidad se consuma en la libertad, como un primer principio del hacer, o en una esencia absolutamente necesaria, como la causa del universo, quedando rota así la continuidad; pero frente a aquella libertad aparece, de otra parte, la necesidad de la continuidad con arreglo a las condiciones de las causas y los efectos, y frente a la esencia necesaria el hecho de que todo es contingente. Por tanto, de una parte se afirma la necesidad absoluta del mundo condicionado: «El mundo supone un ser absolutamente necesario.» Lo contrario a esto es: «No existe un ser absolutamente necesario, ni como parte del mundo ni fuera de él.»”
“La necesidad de estas contradicciones es justo el lado interesante que Kant (Crítica de la razón pura, p. 324) trae a nuestra conciencia, ya que según la metafísica común y corriente si lo uno rige hay que dar lo otro por refutado. Sin embargo, lo que hay de importante en esta afirmación de Kant va dirigido contra su intención. Pues aunque es cierto que Kant (Crítica de la razón pura, pp. 385 s.) disuelve estas antinomias, las disuelve solamente en el peculiar sentido del idealismo trascendental, que no niega o pone en duda la existencia de las cosas exteriores, sino que «permite que las cosas sean intuidas en el espacio y en el tiempo» (para lo que no se necesita contar con ninguna autorización); pero para él «el espacio y el tiempo no son, en sí mismos, tales cosas (por lo cual) no existen fuera de nuestro ánimo»; es decir, que todas estas determinaciones de principio en el tiempo, etc., no corresponden a las cosas, al en sí del mundo mismo de los fenómenos, que existe para sí fuera de nuestro pensamiento subjetivo.” Sim, são mera retórica kantiana, que ‘inventa’ uma antinomia, i.e., uma possibilidade de refutação de seu sistema, que apenas jogará aos leões, porque seu sistema já nasce irrefutável. A lógica usada em cada uma é a antiga (pré-criticismo), e a síntese é a lógica a partir de Kant. É um artifício que infla muito a espessura da Crítica da Razão Pura.
GENEALOGIA DA RESPONSABILIDADE: “O bien, este idealismo trascendental deja en pie la contradicción, sólo que el en sí no es tan contradictorio, sino que esta contradicción tiene su fuente única y exclusivamente en nuestro pensamiento. Sigue, pues, en pie, en nuestro ánimo, la misma antinomia; y si antes era Dios lo que asumía en su seno todas las contradicciones, ahora es la conciencia de sí.”
“no debemos, por tanto, preocuparnos de sus contradicciones, toda vez que el Yo puede soportarlas. Kant, sin embargo, muestra aquí demasiada ternura por las cosas: sería lástima que éstas se contradijesen. Pero el que el espíritu, lo más alto de todo, sea la contradicción, en nada perjudica.” HAHAHAHA
“La verdadera disolución recaería sobre el contenido de que las categorías no encierran en sí verdad alguna, y tampoco lo incondicionado de la razón, sino solamente la unidad de ambos como cosas concretas.”
“Al llegar aquí, Kant considera la prueba de la existencia de Dios, ya que se pregunta si a este ideal se le puede atribuir realidad.”
“Anselmo, Descartes y Spinoza dan el paso hacia el ser; y todos ellos admiten, a este propósito, la unidad del ser y del pensamiento. Pero Kant (Crítica de la razón pura, pp. 458-466) dice: a este ideal de la razón no se le puede atribuir tampoco ninguna realidad: no hay transición del concepto al ser.”
«Para llegar a la existencia, tenemos que salirnos del marco del concepto. Tratándose de objetos del pensamiento puro, no constituye un medio el conocer su existencia, ya que ésta tenía necesariamente que conocerse a priori; pero nuestra conciencia de toda existencia pertenece íntegramente al campo de la experiencia.»
“Es decir, que Kant no llega a establecer justo aquella síntesis del concepto y del ser, o sea a comprender la existencia, a establecerla como un concepto; la existencia sigue siendo para él sencillamente otra cosa que el concepto.” Não chegou aos existencialistas.
“La afirmación de que 100 táleros posibles son algo distinto a 100 táleros reales envuelve un pensamiento popular muy extendido, como el de que no es posible pasar del concepto al ser, pues no por imaginarme la existencia de 100 táleros los tengo en mi poder. Pero lo mismo podríamos decir, en el mismo sentido popular: dejemos a un lado esa figuración, pues se trata simplemente de eso; dicho de otro modo, lo que nos imaginamos es falso, los 100 táleros que nos representamos son, pura y simplemente, una ficción. El aferrarnos a ellos es, por tanto, una malsana figuración, que nada vale; quien se deja llevar de tales figuraciones y deseos, es un hombre fatuo. Tener 100 táleros es tener 100 táleros reales; así, pues, quien los necesite deberá poner manos a la obra para adquirirlos, para llegar a poseerlos; es decir, no deberá contentarse con aquella figuración, sino pasar por encima de ella.”
“Ningún hombre es tan necio como aquella filosofía: cuando siente hambre, no se contenta con imaginarse la comida, sino que hace lo posible por ingerirla, saciando el hambre. Toda actividad es una representación que no es aún, pero que es subjetivamente levantada.”
“Nenhum homem é tão néscio como aquela filosofia: quando sente fome, não se contenta com imaginar-se a comida, senão que faz o possível para ingeri-la, saciando sua fome. Toda atividade é uma representação que não é ainda, mas que é subjetivamente suspensa/sublimada.”
“Este «buscar agua en el desierto» por medio de la lógica corriente, es lo que se llama filosofar; es algo así como Isacar, el asno huesudo, al que no hay manera de hacer moverse del sitio (Génesis, 49:14). Estas gentes dicen: no servimos para nada, y en vista de que no servimos para nada, no servimos ni queremos servir. Pero, es una falsa modestia y una falsa humildad cristiana esto de querer ser buenos a fuerza de no servir para nada; en realidad, este reconocimiento de la propia nulidad es una especie de soberbia interior y una gran complacencia con uno mismo. En gracia a la verdadera humildad, el hombre no debe entregarse a su nulidad, sino elevarse por encima de ella, mediante la captación de lo divino.”
“Las ideas de la razón no pueden verse confirmadas por la experiencia, ni encontrar en ésta su corroboración; cuando se determinan por medio de categorías, surgen las contradicciones. Cuando la idea ha de determinarse simplemente como algo que es, no es otra cosa que el concepto; y de ello se distingue siempre el ser de lo existente. Ahora bien, este resultado, tan extraordinariamente importante en lo tocante a los conocimientos intelectivos, no lleva a Kant, en lo que a la razón se refiere, sino a la afirmación de que ésta no encierra, por sí misma, otra cosa que la unidad formal para la sistematización metódica de los conocimientos intelectivos. Se retiene el pensamiento abstracto en su totalidad; se dice que el intelecto sólo puede establecer orden en las cosas, pero que este orden no es nada en y para sí, sino algo puramente subjetivo. Sólo le queda, pues, a la razón la forma de su pura identidad consigo misma, y ésta sólo sirve para una cosa: para ordenar las múltiples leyes y relaciones intelectivas, las clases, los tipos y los géneros con que se encuentra el entendimiento.”
“Hay que reconocer, sin embargo, el gran mérito de los Principios metafísicas de la ciencia natural («Metaphysische Anfangsgründe der Naturwissenschaft») al llamar la atención hacia un comienzo de una filosofía de la naturaleza, consistente en que la física emplee, sin detenerse a investigarlas más a fondo, determinaciones del pensamiento que constituyen las bases esenciales de sus objetos. La densidad, por ejemplo, es considerada por ella como una cantidad desigual, como un simple quantum en el espacio; Kant, en cambio, ve en ella un grado en la acción de llenar el espacio, es decir, la considera como energía, como intensidad de la acción. [Prevê a necessidade do dinamismo da Física no sentido daquela do século XX, antimecanicista.] Por eso exige (pp. 65-68) que la materia se construya a base de fuerzas y actividades, no a base de átomos; [sentido hoje obsoleto, diante do ‘novo átomo’ dual dos físicos] punto de vista que sigue compartiendo plenamente Schelling.” “Kant se esfuerza en poner de manifiesto los conceptos y principios fundamentales de esta ciencia, dando pie con ello para una llamada teoría dinámica de la naturaleza.”
“Die Religion innerhalb der blossen Vernunft[«La religión dentro de los límites de la razón pura»] es también una obra en que se señalan las doctrinas de la fe como aspectos de la razón, ni más ni menos que se hace en la naturaleza. De este modo, Kant, en la dogmática positiva de la religión con la que había dado al traste la Ilustración, trae al recuerdo las ideas de la razón: el significado racional y, sobre todo, moral que tienen los llamados dogmas de la religión, por ejemplo, el dogma del pecado original. Modo de proceder mucho más racional que el de la Ilustración, la cual se avergüenza de hablar de ello.”
“A la inteligencia hay que añadir, en la filosofía kantiana, en segundo lugar, lo práctico, la naturaleza de la voluntad y de lo que constituye su principio: es lo que estudia la Crítica de la razón práctica, en la que Kant hace suya la determinación rousseauniana de que la voluntad es libre en y para sí. Kant concibe la razón teórica de tal modo, que, al referirse a un objeto, este objeto le debe ser dado; pero, a partir del momento en que se lo da a sí misma, carece el objeto de verdad y la razón no cobra, en este conocimiento, su propia independencia. Sólo es independiente de suyo, por el contrario, como razón práctica; en cuanto ser moral, el hombre es libre, se halla colocado por encima de toda ley natural y de todo fenómeno. Del mismo modo que la razón teórica presentaba categorías, diferencias apriorísticas, la razón práctica tiene la ley moral en general, cuyas determinaciones más precisas son los conceptos de deber y derecho, de lo lícito y lo ilícito; y, en este punto, la razón rechaza toda materia dada, de la que en el plano teórico, en cambio, no puede prescindir.”
“Desde este punto de vista, la conciencia de sí mismo es su propia esencia, mientras que la razón teórica tenía otra, distinta: concretamente, en el primer caso el Yo es, en su carácter individual, esencia inmediata, generalidad, objetividad; la subjetividad tiende, en segundo lugar, a la realidad, pero no a la realidad sensible, a la que antes encontrábamos, sino que aquí la razón se hace pasar por lo real. Aquí, es el concepto el que tiene la conciencia de su defectuosidad, cosa que no debiera tener la razón teórica, ya que el concepto tiene que seguir siendo tal concepto. Se impone, pues, aquí el punto de vista de lo absoluto, ya que el hombre encierra en su pecho algo infinito. Tal es lo que hay de satisfactorio en la filosofía kantiana: el cifrar lo verdadero por lo menos en el ánimo del hombre, por lo cual sólo reconozco lo que se halla en armonía con mi propia determinación.”
“Deste ponto de vista, a consciência de si mesmo é sua própria essência, enquanto que a razão teórica tinha outra, distinta: concretamente, no primeiro caso o Eu é, em seu caráter individual, essência imediata, generalidade, objetividade; a subjetividade tende, em segundo lugar, à realidade, mas não à realidade sensível, a que antes encontrávamos, senão que, aqui, a razão faz-se passar pelo real. Aqui, é o conceito aquele que tem a consciência de sua defeituosidade, coisa que não devia ter a razão teórica, já que o conceito tem de seguir sendo tal conceito. Impõe-se, então, aqui, o ponto de vista do absoluto, já que o homem encerra em seu peito algo infinito. Tal é o que há de satisfatório na filosofia kantiana: ela cifra o verdadeiro ao menos no ânimo do homem, só mediante o qual reconheço aquilo que se acha em harmonia com minha própria determinação.”Obviamente seria o livro mais adorado pelo protestante Hegel! Matou o Sol Absoluto de Platão no peito e saiu jogando – fintando dialeticamente – no time da Metafísica (talvez contra o Entendimento Pensante Futebol Clube) para marcar um GOOOLAÇO… Infelizmente para Hegel, não aposentaram a camisa 10 após sua morte, porque a despeito de toda sua autopresunção ele não era Pelé e as próximas gerações ofuscaram-no…
“Kant divide la voluntad en una capacidad de apetencia inferior y superior; y esta manera de expresarse no tiene nada de torpe.”
“Kant divide a vontade em uma capacidade de apetência inferior e superior; e esta maneira de se expressar nada tem de torpe.” Obviamente o tem!
“Ahora bien, todo ethos de la conducta descansa sobre la intención de que la presida la conciencia de la ley y en gracia a la ley misma, el respeto a la ley y a sí misma, como lo único que pueda hacer al hombre feliz.”
“Una de las determinaciones extraordinariamente importantes de la filosofía kantiana es la de que debe reducirse a sí misma lo que la conciencia de sí considera como la esencia, la ley y el en sí. Según que el hombre persiga este o aquel fin, según que enjuicie de éste o el otro modo el mundo o la historia, ¿qué debe reputar como su fin último? Para la voluntad, no existe otro fin que el sacado de ella misma, el fin de su libertad.” A brecha perfeita para o Historicismo hegeliano: uma mal-formulada ética laico-cristã!
“La propiedad es aquí la premisa de que se parte; pero lo mismo podría ocurrir que esta determinación desapareciese en cuyo caso no se daría contradicción alguna en el robo: no existiendo la propiedad, no hay por qué respetarla. Tal es el defecto de que adolece el principio kantiano-fichteano: se trata de un principio puramente formal; el frío deber es el último hueso no-digerido que queda en el estómago, la revelación entregada a la razón.”
“Esta unidad es postulada, el hombre debe ser moral; pero no se pasa del deber ser, y todo queda reducido a esta cháchara sobre lo ético.”
“Sólo puede existir lucha cuando la voluntad sensible no se ajusta todavía a la voluntad general. El resultado es, por tanto, que la meta de la voluntad moral sólo pueda alcanzarse en el progreso infinito; sobre esto basa Kant (Crítica de la razón práctica, pp. 219-223) el postulado de la inmortalidad del alma, como el progreso infinito del sujeto en su ethos, puesto que el propio ethos es algo imperfecto y tiene necesariamente que progresar hacia lo infinito.” Urgh!
“La voluntad tiene frente a sí el mundo entero, el todo de la sensibilidad, y, sin embargo, la razón tiende hacia la unidad de la naturaleza y de la ley moral, como la idea del bien que es el fin último del mundo. Pero como se trata de algo puramente formal, es decir, de algo carente de contenido por sí mismo, se enfrenta a los instintos y las inclinaciones de una naturaleza subjetiva y de una naturaleza independiente exterior. Kant (Crítica de la razón práctica, pp. 198-200) unifica la contradicción de ambos factores en la idea del supremo bien, en el cual la naturaleza es ya adecuada a la voluntad racional y la dicha se armoniza con la virtud. Coincidencia ésta que no es, en rigor, lo que interesa aquí, aunque en ello consista la realidad práctica.” “Aquella unificación sigue siendo, por tanto, un más allá, un pensamiento que no se da en la realidad, sino que simplemente debe ser. Kant (Crítica de la razón práctica, pp. 205-209) se deja llevar, así, íntegramente de la cháchara de quienes dicen que en este mundo a los virtuosos les va muchas veces mal y a los viciosos bien, etc., y postula, más en detalle, la existencia de Dios como la esencia, la causalidad por medio de la cual se produce esta armonía, en función tanto de la representación de lo que hay de sagrado en la ley moral como en la naturaleza, pero también simplemente, con arreglo al progreso infinito y en función del fin racional que se trata de realizar; postulado este que, al igual que el de la inmortalidad del alma, deja subsistir la contradicción, tal y como es, limitándose a proclamar el deber ser abstracto de su disolución.” “Kant aduce, como vemos, ciertas maneras populares de expresarse: se trata de que el mal sea vencido, y de que sea, al mismo tiempo, poco.” “La realidad del Dios creador de la armonía es también una realidad carente de conciencia; es asumida por la conciencia en gracia a la armonía, a la manera como los niños se asustan unos a otros con un fantoche. La función en gracia a la cual se admite la existencia de Dios, con objeto de infundir mayor respeto a la ley moral mediante la idea de un legislador divino, se halla en contradicción con el postulado de que el ethos consiste justo en que la ley sea respetada pura y exclusivamente en gracia a ella misma.”
“A los hombres les resulta difícil creer que la razón sea real; sin embargo, no hay nada real más que la razón, que es el poder absoluto.”
“Nos queda todavía por examinar el tercer aspecto de la filosofía kantiana, el de la Crítica del juicio, en el que se nos presenta el postulado de lo concreto, según el cual la idea de aquella unidad no se establece como un más allá sino como algo presente. Es este un aspecto de especial importancia. Dice Kant que el entendimiento establece leyes en lo teórico, y produce categorías, pero que éstas no pasan de ser determinaciones puramente generales, al margen de las cuales queda lo particular (la otra parte integrante de todo conocimiento).”
«Y como el concepto de un objeto, siempre y cuando que encierre, al mismo tiempo, el fundamento de la realidad de este objeto, se llama el fin, y la coincidencia de una cosa con aquella estructura de las cosas que sólo es posible con arreglo a fines se llama la finalidad de la forma de las mismas, tenemos que el principio del juicio, en relación con la forma de las cosas de la naturaleza bajo leyes empíricas, es la finalidad de la naturaleza (…) Es decir, que la naturaleza se concibe, a través de este concepto, como si un entendimiento encerrase el fundamento de la unidad de lo múltiple de sus leyes empíricas.»
RESUMO DA ARTE: “Fin es el concepto inmanente, no la forma externa y la abstracción con respecto a un material que le sirve de base, sino que la penetra; de tal modo que todo lo particular es determinado, a su vez, por este algo general. Este fin es, según Kant, el entendimiento: es cierto que las leyes intelectivas que tiene en el conocimiento dejan aún indeterminado lo objetivo, pero como este algo múltiple necesita llevar dentro de sí mismo una conexión, contingente, sin embargo, para la visión humana, «necesariamente el juicio tiene que aceptar como principio para su propio uso el que lo contingente para nosotros encierra una unidad en la relación de lo múltiple con una experiencia posible en sí, unidad no cognoscible para nosotros, pero no por ello impensable»”
“Este principio del juicio reflexionantelleva dentro de sí una doble finalidad, la formal y la material; por tanto, el juicio puede ser de 2 clases, estético o teleológico, el primero de los cuales se refiere a la finalidad subjetiva y el segundo a la finalidad objetiva, lógica. Existen, según esto, dos objetos del juicio: lo bello en las obras de arte y los productos naturales de la vida orgánica, que nos representan la unidad del concepto de naturaleza y del concepto de libertad.”
«lo agradable y lo desagradable es algo subjetivo, algo que no puede ser elemento de conocimiento. El objeto sólo posee finalidad cuando su representación está directamente unida al sentimiento de lo agradable; y esta representación es una representación estética. La aprehensión de las formas en la imaginación no puede producirse nunca sin que el juicio reflexionante, aun sin intención de hacerlo, las compare, al menos, con su facultad de relacionar las intuiciones con los conceptos. Ahora bien, si, en esta comparación, la imaginación lleva al entendimiento, como facultad de formación de conceptos, por medio de una representación dada, despertando con ello un sentimiento de placer, no cabe duda de que el objeto deberá considerarse, en estas condiciones, como final para el juicio reflexionante. Desde el punto de vista estético tal juicio versa sobre la finalidad del objeto, que no se basa en ningún concepto actual del objeto y que no crea tampoco ningún concepto de él. Un objeto cuya forma (no lo que hay de material en su representación, como sensación) es juzgada como fundamento del placer que la representación de semejante objeto causa es un objeto bello»
“Lo sublime es la tendencia a representarse por medio de los sentidos una idea, en lo que, al mismo tiempo, se representa la inadecuación, la imposibilidad de concebir la idea por medio de los sentidos. Aquí en el juicio estético, vemos la unidad inmediata de lo general y lo particular, pues lo bello es justo esta unidad inmediata ajena a todo concepto. Pero como Kant la sitúa en el sujeto, es algo limitado; y, desde el punto de vista estético, algo que ocupa un plano más bajo, por cuanto no es la unidad concebida.”
“El otro modo de la coincidencia es, en la finalidad objetiva y material, la consideración teleológica de la naturaleza, según la cual se intuye en los productos orgánicos naturales la unidad inmediata del concepto y la realidad como una unidad objetiva: el fin de la naturaleza, que contiene lo particular en lo general y el género dentro de lo particular.” Essa parte do livro é tão supérflua que nem me lembrava dela!
“El fin de la naturaleza debe buscarse, por tanto, en la materia, en cuanto se trate de un producto natural interiormente organizado, «en el que todo es fin y, al mismo tiempo, alternativamente, medio»” H. está adorando muito tudo isso – se é que não aprendeu daí mesmo. Se bem que é verdade o que afirma logo na seqüência: “Tal es el concepto aristotélico; es lo infinito que se remonta a sí mismo, la idea.”
“Kant se expresa así acerca de esto: ‘no encontraríamos diferencia alguna entre el mecanismo de la naturaleza y la técnica de la naturaleza, es decir, el enlace final en ella, si nuestro entendimiento no fuese de tal índole que tiene que pasar de lo general a lo particular, si nuestro juicio no puede emitir juicios determinantes sin tener una ley general en que aquellos juicios puedan subsumirse’.” “Entra así en la filosofía kantiana la representación de lo concreto, según la cual el concepto general determina lo particular. Pero como Kant sólo enfoca estas ideas en su determinación subjetiva, como pensamientos normativos para el juicio, con lo que nada que sea en sí puede postularse, tenemos que vuelve a destacar el lado del concepto, aunque proclame también la unidad del concepto y la realidad; no trata, por tanto, de levantar [suspender] su límite, en el momento en que lo establece como tal límite. Tal es la contradicción constante de la filosofía kantiana” Mas querer extrair um absoluto da Estética é o cume da canalhice, H.!
“En el arte es, pues, evidentemente, el mismo modo sensible el que nos suministra la representación de la idea; realidad e idealidad se dan aquí directamente en una unidad.”
“Es cierto que Kant se acerca expresamente a la representación de un entendimiento intuitivo, el cual, al dar leyes generales, determina asimismo lo particular; es ésta una determinación profunda, lo verdaderamente concreto, la realidad determinada por el concepto inmanente o, como dice Spinoza, la idea adecuada. En efecto, como «del conocimiento forma parte también la intuición y la facultad de una espontaneidad completa en la intuición sería una facultad de conocimiento específicamente distinta y completamente independiente de aquélla y, por tanto, un entendimiento en el sentido más general de la palabra; cabe concebir también un entendimiento intuitivo que no pase de lo general a lo particular y de esto a lo individual por medio de conceptos, en el que no nos encontremos con lo contingente de la cohesión de la naturaleza en sus productos con arreglo a leyes particulares y que tan difícil hace al nuestro el reducir a unidad de conocimiento lo que hay de múltiple en ella».” “A Kant, sin embargo, no se le ocurre pensar que este «intellectus archetypus» es la verdadera idea del entendimiento. Es curioso que tenga esta idea de lo intuitivo, pero sin llegar a saber por qué esta idea no puede ser verdadera, o sabiendo simplemente que es porque nuestro entendimiento está formado de otro modo, es decir, de tal modo que «pasa de lo analítico-general a lo particular».” Não seja rabugento – pelo menos ele fechou sua trilogia crítica da forma mais digna de todas, atribuindo à arte o que é da arte!
“¡Triste época para la verdad, en la que desaparece toda metafísica y sólo prevalece una filosofía que no es tal!”
PROCEDE A RESUMIR COMO ENTENDE A F. KANTIANA: “Tenemos, por tanto, en primer lugar, un postulado de consecuencia, en el que los pensamientos particulares sean producidos y justificados por la necesidad, en virtud de aquella primera unidad del Yo. En segundo lugar, el pensamiento se ha expandido por el mundo, se ha adherido a todo, lo investiga todo, lleva a todo sus formas, lo sistematiza todo; de tal modo, que es necesario proceder ya con arreglo a sus determinaciones y no con arreglo a un simple sentimiento, a la rutina o al sentido práctico, a esa inmensa inconsciencia de los llamados hombres prácticos. Y así, tanto en la teología como en los gobiernos y en sus legislaciones, en lo tocante al fin del Estado, a las industrias y a la mecánica, es necesario proceder, ahora, ateniéndose exclusivamente a determinaciones generales, es decir, es necesario proceder de un modo racional, y empezamos a oír hablar de la explotación racional de una fábrica de cerveza, de una ladrillera, etc.”
“Fichte produjo una gran inquietud en su época; y su filosofía es el acabamiento y, principalmente, una exposición más consecuente de la filosofía kantiana. No va más allá del contenido fundamental de la filosofía de Kant, y en un principio tampoco él considera su filosofía más que como un desarrollo sistemático de la de Kant. Fuera de ésta y de la de Schelling, no existen otras filosofías. Los demás atrapan de éstas lo que pueden y se debaten y entretienen con ello.” E apesar disso começa a citar figurões inúteis na seqüência.
“Así, en la Alemania de entonces hubo muchas filosofías, como las de Reinhold, Krug, Bouterwek, Fries, Schulze, etc.; pero, en ellas no se revela otra cosa que una extrema limitación llena de jactancia: una mescolanza de pensamientos e ideas rebañados aquí y allá y de hechos que encuentra uno dentro de sí mismo. Pero sus pensamientos están tomados todos ellos de Fichte, Kant o Schelling, en la medida en que podemos encontrar allí alguna clase de pensamientos; o bien se introduce en ellas alguna pequeña modificación, la cual no consiste, por lo general, en otra cosa sino en que los grandes principios se presenten con una gran pobreza y el que los puntos vivos aparezcan muertos”
“Johann Gottlieb Fichte nació en Rammenau, cerca de Bischoffswerda (en la alta Lusacia) el 19 de mayo de 1762, estudió en la universidad de Jena y fue, durante algún tiempo, preceptor en Suiza. Escribió un estudio sobre la religión, que lleva por título Versuch einer Kritik aller Offenbarung [«Ensayo de una crítica de toda revelación»], compuesto todo él con la terminología kantiana, hasta el punto de que llegó a considerarse esta obra como salida de la pluma de Kant.” HAHAHA!
“En 1793, fue llamado por Goethe a Jena para desempeñar la cátedra de filosofía, a la cual hubo de renunciar, sin embargo, en 1799, a consecuencia de un incidente desagradable provocado por su ensayo Über den Grund unseres Glaubens an eine göttliche Weltregierung [«Sobre el fundamento de nuestra creencia en una providencia divina»]. Fichte editaba en Jena un periódico, en el que se publicó un artículo de uno de los colaboradores de la revista, tildado de ateo. Fichte habría podido guardar silencio, pero en vez de hacerlo presentó aquel ensayo suyo como introducción al otro.” “Fichte, al abandonar su cátedra, ejerció durante algún tiempo como docente privado en la universidad de Berlín; en 1805 fue nombrado profesor en Erlangen y en 1809 obtuvo una cátedra en Berlín, donde murió el 27 de enero de 1814.”
“En lo que se considera como la filosofía de Fichte, hay que distinguir entre su verdadera filosofía especulativa, que procede de un modo estrictamente consecuente y es poco conocida, y su filosofía popular, de la que forman parte las conferencias pronunciadas por él en Berlín ante un público diverso, por ejemplo el escrito que lleva por título Vom seligen Leben [«De la vida beata»].¹ Esta filosofía —que es la única que conocen, por lo general, los que se llaman fichteanos— contiene mucho de edificante y conmovedor; son discursos muy convincentes para el sentimiento religioso de las gentes cultas. Sin embargo, en una historia de la filosofía no pueden ser tomadas en consideración estas obras, por muy grande que sea el valor que deba atribuirse a su contenido. Este contenido necesita desarrollarse especulativamente, y el pensador a que nos estamos refiriendo sólo hace esto en sus primeras obras filosóficas.(*)
[¹ Não que seu lado mais sério seja grande coisa…]
(*) Las obras póstumas de Fichte, que no vieron la luz hasta después de muerto Hegel, demuestran, sin embargo, que Fichte, en sus lecciones de la Universidad de Berlín, desarrolló científicamente [e que quer isso dizer? que escreveu mais empolado?] también este punto de vista transformado de su filosofía; el primer paso en este sentido lo dio ya Fichte en 1810, en el folleto que lleva por título Die Wissenschaftslehre in ihrem allgemeinen Umrisse [«La teoría de la ciencia en sus contornos generales»] (V. Michelet, Geschichte der letzten Systeme der Philosophie [«Historia de los últimos sistemas filosóficos»] parte I, pp. 441 s.) [M.].”
“Aquel defecto de la filosofía kantiana a que más arriba nos referíamos: el de la inconsecuencia inconsciente que hace que su sistema carezca, en conjunto, de unidad especulativa, fue superado en la filosofía de Fichte. Fichte hace hincapié en la forma absoluta; la forma absoluta es, en él, el ser para sí absoluto, la negatividad absoluta, no lo individual, sino el concepto de la individualidad y, por tanto, el concepto de la realidad; la filosofía de Fichte es así el desarrollo de la forma dentro de sí. En ella se establece el Yo como principio absoluto, de tal modo que de él, que es al mismo tiempo la certeza inmediata de sí mismo, es necesario derivar todo el contenido del universo, representándoselo como un producto. La razón es de suyo, por tanto, según Fichte, síntesis del concepto y de la realidad. Pero enfoca este mismo principio de un modo unilateral, solamente en uno de sus lados: es subjetivo por naturaleza y lleva implícita una contraposición; y la realización de la misma es un desarrollarse en la finitud, un volver la vista hacia lo precedente. Por otra parte, la forma de la exposición presenta la incomodidad y hasta la torpeza de ponernos siempre ante los ojos el Yo empírico, lo cual es absurdo y delata el punto de vista adoptado por este pensador.” “Se trata, de este modo, de un pensar puro; dicho de otro modo: el Yo es el verdadero juicio sintético a priori, como Kant lo llamara.”“No existe por doquier otra cosa que el Yo; y el Yo existe simplemente porque existe: lo que existe existe solamente en el Yo y para el Yo.”“La filosofía de Fichte tiene el gran mérito de haber proclamado que la filosofía debe ser una ciencia basada en un principio supremo, del que se deriven necesariamente todas las determinaciones. Lo importante es esta unidad del principio y el intento de desarrollar, partiendo de él y de un modo científicamente consecuente, todo el contenido de la conciencia o, dicho en los términos entonces usuales, de construir a partir de él todo el universo.” “Por tanto, Fichte no procede narrativamente —como lo hacía Kant—, arrancando del Yo, sino que va más allá, intentando realizar, a partir del Yo, una construcción de las determinaciones del saber. Es necesario desarrollar en todo su alcance el saber del universo entero y, además, este saber debe ser consecuencia del desarrollo de las determinaciones”
“Así, pues, mientras que Kant establece el conocer, Fichte se apoya sobre el saber. Fichte expresa la misión de la filosofía diciendo que es la teoría del saber; el saber general constituye tanto el objeto como el punto de partida de la filosofía. La conciencia sabe, en eso consiste su naturaleza; la finalidad del conocimiento filosófico es el saber de este saber. Por eso Fichte (Begriff der Wissenschaftslehre [«Concepto de la teoría de la ciencia»] p. 18) llama a su filosofía la teoría de la ciencia, la ciencia del saber. En efecto la conciencia corriente, como Yo activo, encuentra esto y lo otro, no se ocupa de sí misma, sino de otros objetos e intereses; pero la necesidad de que yo produzca determinaciones y cuáles sean éstas, por ejemplo las de causa y efecto, va más allá de mi conciencia; las produzco instintivamente y no puedo quedar detrás de mi conciencia. Sin embargo, cuando filosofo tomo por objeto mi propia conciencia habitual, al sentar en ésta una categoría pura: sé lo que hace mi Yo y sorprendo, de este modo, a mi conciencia habitual. Por tanto, Fichte determina la filosofía como la conciencia artificial, como la conciencia sobre la conciencia.” E que novidade há nisso?
“Por consiguiente, Fichte comienza, lo mismo que Descartes, diciendo: pienso, luego existo; y se remite expresamente a esta tesis cartesiana. El ser del Yo no es un ser muerto sino un ser concreto: pero el ser supremo es el pensamiento. De este modo, el Yo, como la actividad para sí del pensamiento, es el saber, aunque se trate solamente de un saber abstracto, ya que en sus comienzos no puede ser de otro modo. Al mismo tiempo, Fichte arranca de esta certeza absoluta con necesidades y postulados completamente distintos, pues de este Yo debe derivarse no sólo el ser, sino también el sistema ulterior del pensamiento.”
“Ahora bien, Fichte analiza el Yo en tres principios, partiendo de los cuales debe desarrollarse toda la ciencia.”
“El primer principio debe ser un principio simple, en el que se identifiquen el predicado y el sujeto; pues si estos dos términos fuesen desiguales, necesariamente habría que probar por medio de un tercer término la relación entre ellos”
“Este principio es, en primer lugar, un principio abstracto y defectuoso, ya que en él no se expresa todavía una diferencia, o solamente se expresa una diferencia formal, y todo principio debe encerrar un contenido: se distinguen dentro de él evidentemente un sujeto y un predicado, pero solamente para nosotros, que reflexionamos acerca de ello; es decir, precisamente en él mismo se advierte la falta de toda diferencia y, por tanto, de un verdadero contenido. En segundo lugar, este principio es evidentemente la certeza inmediata de la conciencia de sí; sin embargo, la conciencia de sí es, al mismo tiempo, conciencia, y en ella posee asimismo la certeza de que existen otras cosas con las cuales se enfrenta. En tercer lugar, aquel principio no encierra en sí la verdad precisamente porque la certeza de sí mismo que posee el Yo no tiene ninguna objetividad, no lleva en sí la forma del contenido distinto, o se enfrenta precisamente a la conciencia de lo otro.”
“Ahora bien, para que se añada una determinación, es decir, un contenido y una diferencia, es necesario según Fichte establecer un segundo principio, incondicionado en cuanto a la forma, pero condicionado en cuanto al contenido, puesto que no corresponde al Yo. Este segundo principio, colocado por debajo del primero, se formula así: «Yo enfrento al Yo un no-Yo.»Con lo cual se proclama justo algo distinto de la conciencia de sí absoluta.”“Con la misma razón podría afirmarse que se trata de un principio independiente, a causa de este contenido, ya que lo que hay de negativo en él es algo absoluto, y que se trata, asimismo, a la inversa, de un principio independiente, por razón de la forma de la contraposición, la cual no puede derivarse de lo primero.” zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
“Fichte emplea una expresión muy feliz, correcta y consecuente. Se ha tratado de presentar esto del Yo y del no-Yo como algo ridículo en muchos aspectos. Es una expresión nueva, por eso a nosotros, los alemanes, se nos antoja curiosa y peregrina. Pero los franceses hablan de Moi y de Non-Moi, sin que ello les cause risa.” Mais nova que a avó do H.
“A los 2 anteriores se añade un tercer principio, en el que se establece esta distribución entre el Yo y el no-Yo: el principio sintético, el principio del fundamento, incondicionado con arreglo al contenido, mientras que el segundo lo era con arreglo a la forma. Este tercer principio consiste, en efecto, en la determinación de los dos primeros entre sí, de tal modo que, en él, el Yo limita el no-Yo. «El Yo y el no-Yo son establecidos conjuntamente por el Yo y en él, como limitables entre sí; es decir, de tal modo que la realidad del uno levanta la realidad del otro.»”“En rigor, los 2 principios anteriores no contenían aún nada de esta síntesis. Ya este primer establecimiento de 3 principios anula la inmanencia científica.”
“Es aquí principalmente donde se espera ver a Fichte poner de manifiesto el retorno de la alteridad a la conciencia de sí absoluta. Sin embargo, este retorno no llega a producirse” Que perda de tempo do caray, já dizia Schopenhauer.
“La filosofía de Fichte representa una importante línea divisoria en la manifestación externa de la filosofía. De este filósofo y de su manera de filosofar proceden el pensamiento abstracto, la deducción y la construcción. La filosofía de Fichte operó, pues, una revolución en el pensamiento alemán.” “De ella se ocupaban las gentes de negocios y los hombres de Estado; ahora, al llegar al confuso idealismo de la filosofía kantiana, sintieron que les caían las alas. Ya con Kant comienza, pues, a manifestarse la separación entre la filosofía y esta manera común y corriente de la conciencia; sólo se generaliza el resultado de que lo absoluto no puede ser conocido.” “Con la filosofía de Fichte, la conciencia común se aparta todavía más de la filosofía y se despide también de lo especulativo.” Se esse era o sentido da <revolução no pensamento alemão> descrita acima, ou seja, pura ironia, emito meu mea culpa por destacar o trecho em verde.
“La opinión del público se vio fortalecida por la filosofía de Kant y de Jacobi y aceptó utiliter que el conocimiento de Dios era un conocimiento inmediato que el hombre adquiría por sí mismo sin necesidad de estudiar, siendo, por tanto, la filosofía una actividad superflua.”
“Esta primera forma, la de la ironía, tiene como exponente a Friedrich von Schlegel. Aquí, el sujeto se sabe dentro de sí como lo absoluto, y todo lo demás es vano para él; todas las determinaciones que se forma acerca de lo recto y de lo bueno, las destruye de nuevo. Puede fingirlo todo; pero da pruebas solamente de vanidad, de hipocresía y de insolencia. La ironía conoce su maestría sobre todo contenido; no toma en serio nada y juega con todas las formas.” “El desesperar del pensamiento, de la verdad y de la objetividad que es en y para sí, así como la incapacidad de darse una firmeza y una autonomía condujo a un espíritu noble a confiarse a su sensibilidad y a buscar en la religión algo sólido e inconmovible; este algo sólido e inconmovible, esta satisfacción interior en general lo procuran las emociones religiosas. Este anhelo de algo firme condujo a varios a la religiosidad positiva, al catolicismo, los echó en brazos de la superstición y de la milagrería, para encontrar un punto de apoyo firme allí donde la subjetividad interior sentía que todo vacilaba. Estos espíritus tratan de aferrarse con toda la fuerza del ánimo a algo positivo, de agachar la cabeza ante lo positivo, de echarse en los brazos de lo externo, y se sienten interiormente obligados a ello.”
“Pero el peor de los cuadros es aquél en que el artista se muestra a sí mismo; la originalidad consiste en producir algo que sea perfectamente general. La chifladura de quienes se empeñan en pensar por cuenta propia consiste en que cada uno de ellos produzca cosas más absurdas que los demás.” Está descrevendo o modernismo?
A FLOR AZUL: “La subjetividad consiste en la ausencia de algo fijo, pero en forma de impulso en esta dirección, conservando de este modo su carácter de anhelo. Este anhelo propio de un alma bella lo encontramos en las obras de Novalis. (…) La extravagancia de la subjetividad se convierte frecuentemente en demencia”
“Friedrich Wilhelm Joseph Schelling nació en Leonberg (Würrtemberg) el 27 de enero de 1775 y estudió en las universidades de Leipzig y Jena, donde entró en estrecho contacto con Fichte. Es, desde 1807, secretario de la Academia de Artes Plásticas de Munich. No podemos hablar como se debe acerca de su vida y exponer los rasgos completos de ésta, puesto que todavía vive. (…) No podemos indicar todavía ninguna obra suya definitiva en que su filosofía aparezca expuesta del modo más acabado.” Vai entender por que deu tanta importância ao homem, então…
“Sólo más tarde —en relación con los escritos de Herder y Kielmeyer, en los que se habla (como en Eschenmayer de potencias) de sensibilidad, irritabilidad y reproducción, y de sus leyes, por ejemplo de que cuanto mayor es la sensibilidad menor es la irritabilidad, etc.—, concibe Schelling la naturaleza en categorías del pensamiento, haciendo intentos generales más determinados de desarrollo científico; fueron en realidad las obras de aquellos autores quienes le permitieron el comenzar la suya tan joven.” “no va más allá que la filosofía del derecho de Kant y la obra Zum ewigen Frieden [«Para la paz perpetua»], de este autor.” “esto hace que se lance a buscar distintas formas y terminologías nuevas, originales, sin llegar nunca a poner en pie un todo completo y terminado.” “La filosofía de Schelling debe considerarse como sujeta todavía a un proceso de evolución, sin que haya dado aún frutos maduros [Michelet informa que isto foi pronunciado nas aulas de 1805-6]”
“Por tanto, en cuanto que el supuesto inmediato de la filosofía es que los individuos tienen la intuición inmediata de esta identidad de lo subjetivo y lo objetivo, esto da a la filosofía de Schelling la apariencia de que su condición exige a los individuos un talento artístico especial, el genio o un estado especial de ánimo, de que es en general algo fortuito, que sólo se da en los hijos de la fortuna.”
“Schelling ha alcanzado menos popularidad aún que Fichte, pues lo concreto es, por su naturaleza, algo especulativo.” Tu foste o mais famoso de todos, então és um charlatão?
DECIDA-SE! “Y así, vemos cómo en Schelling sale de nuevo a la superficie la forma especulativa y cómo la filosofía se convierte así de nuevo en algo propio y peculiar; el principio de la filosofía, el pensamiento racional en sí cobra la forma del pensamiento. De este modo, en la filosofía de Schelling el contenido, la verdad, se convierte nuevamente en lo fundamental, al contrario de lo que ocurría en la filosofía kantiana, en que el interés se expresaba en particular de tal modo que debía investigarse el conocimiento subjetivo.”
ISSO É APENAS KANT FALANDO DO ESPAÇO-TEMPO: “La referencia del Yo a sí mismo y al impulso infinito son inseparables. De otra parte, se dice: «el Yo sólo es limitado en cuanto es ilimitado»; este límite es, por tanto, necesario para poder remontarse por encima de él. Esta contradicción, que existe, permanece aunque el Yo limite siempre al no-Yo. «Ambas actividades, la actividad limitable, real y objetiva que trasciende al infinito, y la actividad limitante, ideal, se presuponen mutuamente. El idealismo se refleja simplemente sobre la una, el realismo sobre la otra, pero el idealismo trascendental se refleja sobre ambas».” “El Yo no es aquí algo unilateral frente a lo otro: es la identidad de lo inconsciente y lo consciente, pero no una identidad cuyo fundamento resida en el Yo mismo.”
«¿de qué modo es posible volver a hacer objetiva esta intuición, es decir, cómo es posible poner fuera de duda que no descansa en un engaño subjetivo, desde el momento en que no existe una objetividad general de aquella intuición, reconocida por todos los hombres?» «La objetividad de la intuición intelectual es el arte. Sólo la obra de arte refleja ante nosotros lo que de otro modo no podría reflejarse: aquel algo absolutamente idéntico que se separa ya en el Yo.»Correto, mas isso é só tradução de Kant III.
“La suprema objetividad lograda por el sujeto, la suprema identidad de lo subjetivo y lo objetivo, es lo que Schelling llama imaginación.”
“Sin embargo, cuando Platón habla de esta intuición del alma, que se ha liberado de todo conocimiento finito, empírico o reflexivo, y cuando los neoplatónicos hablan del arrobamiento del pensar, en el que el conocimiento es el conocer inmediato de lo absoluto, hay que tener en cuenta una diferencia esencial, y es que con el conocimiento platónico de lo general o de su intelectualidad, en la que se levanta toda contradicción, como una contradicción real, se ha socializado la dialéctica, es decir, la necesidad comprendida del levantamiento de estas contradicciones; que Platón no comienza por esto, sino que existe en él el movimiento, en el que esas contradicciones se levantan. Lo absoluto debe concebirse también como este movimiento de propio levantamiento; sólo esto puede considerarse como un conocimiento real y como el conocimiento de lo absoluto.”
“La cohesión activa es el magnetismo, considerándose el universo material como un imán infinito. El proceso magnético es la diferencia en la indiferencia y la indiferencia en la diferencia; es por tanto la identidad absoluta, como tal. El punto de indiferencia del imán es el ni-ni (Weder-Noch) y el tanto esto como aquello (Sowohl-Als auch); potencialmente, los polos son la misma esencia, sólo que situados bajo factores contrapuestos.” Filosofia da natureza completamente inócua.
“«El establecimiento de la totalidad dinámica se traduce inmediatamente en la incorporación de la luz al producto. La expresión del producto total es, por tanto, la luz, combinada con la fuerza de la gravedad; el establecimiento de la totalidad relativa de toda la potencia hace que la fuerza de la gravedad se rebaje a una simple forma del ser de la identidad absoluta.» Tal es la tercera potencia (A³) del organismo.”
“No es nuestro propósito, aquí, entrar en los detalles de la filosofía de Schelling, ni tampoco exponer los lados de ella que puedan ser considerados poco satisfactorios. Este sistema es la última forma interesante y verdadera de la filosofía que nos hemos propuesto examinar.” Não? O que foi que você fez por incansáveis páginas então? Tem MAIS groselha?
“Lo mismo ocurrió, hace unos 25 años, con el arte poético: la genialidad se adueñó de él, poniéndose a poetizar de un modo ciego, llevada por el entusiasmo poético, como el tiro que sale de la pistola. ¿Y cuáles fueron los frutos de ello? Eran, unas veces, simples locuras y, cuando no se trataba de una obra de locos, una prosa tan simplista, que el contenido era demasiado malo para prosa. Otro tanto acontece con estas filosofías. [dos schellinguianos] Lo que no es en ellas una necia mescolanza de punto de indiferencia y polaridad, del hidrógeno, lo santo, lo eterno, etc., son pensamientos tan triviales que duda uno si los ha comprendido bien, de una parte por la desvergonzada arrogancia con que se exponen y, de otra parte, porque abriga uno la esperanza de que nadie se atreva a decir cosas tan triviales. Y, del mismo modo que estos filósofos de la naturaleza olvidan el concepto y se comportan de un modo completamente antiespiritual, olvidan también el espíritu.”
Bad ending!
CONCLUSIÓN
“La filosofía es, de este modo, la verdadera teodicea frente a la religión, al arte y a sus sensaciones: la conciliación del espíritu, y concretamente de aquel espíritu que ha sabido captarse en su libertad y en la riqueza de su realidad.
Hasta aquí ha llegado el Espíritu del Mundo, cada fase ha encontrado su forma propia en el verdadero sistema de la filosofía: nada se ha perdido, todos los principios se han conservado, en cuanto que la última filosofía es la totalidad de las formas. Esta idea concreta es el resultado de los esfuerzos del espíritu a lo largo de casi dos mil quinientos años del más serio de los trabajos, objetivarse a sí mismo, llegar a conocerse:
Tantae molis erat, se ipsam cognoscere mentem.”
“esto explica por qué ninguna filosofía va más allá que su propio tiempo. Que las determinaciones del pensamiento encerraban esta importancia es ya un conocimiento ulterior, que se sale del marco de la historia de la filosofía. Estos conceptos son la más simple revelación del Espíritu del Mundo: y ella, en su forma concreta, es la historia.” “son necesariamente una filosofía que evoluciona, la revelación de Dios, tal y como se sabe a sí mismo.” Essa apologia do real é um saco, a cretinice mais insípida, o formalismo mais chão!
“Toda la anterior historia universal en general y en particular la historia de la filosofía es la exposición de esta lucha, que ahora parece llegar a su meta” AMÉM!
“(Las lecciones de este curso se terminaron [demasiado tarde!] el 22 de marzo de 1817; el 14 de marzo de 1818; el 12 de agosto de 1819; el 23 de marzo de 1821; el 30 de marzo de 1824; el 28 de marzo de 1828 y el 26 de marzo de 1830.)”
Não posso acreditar que maioria desses capítulos pós-introdutórios derive de anotações dos alunos. É impossível imaginar que alguém se submetesse à mais maçante das operações, ao puro escravagismo de reter esse denodo dialético de patifarias infinita no finito! O terceiro volume, o da filosofia “moderna”, é o ápice do nada filosófico, uma completa perda de tempo. Fique feliz o leitor, que leu apenas ¼ do conteúdo do livro graças ao meu resumo condescendente!
“Se nos atemos exclusivamente ao fato de que o eu é aquele que estabelece, teremos o mau idealismo dos tempos modernos; nos tempos antigos os pensadores não se aferravam ao fato de se o pensado fôra ou não baseado num eu.”
“O conceito é, cabalmente, esta transitoriedade fluente de Heráclito, este movimento, esta causticidade (corrosão, decomposição) a que nada pode resistir. O conceito, que se encontra a si mesmo, se encontra como o poder absoluto perante o qual tudo desaparece; com ele se fluidifica todo o existente, tudo o que se tinha por firme e sólido. O que se reputava firme – trate-se da firmeza do ser natural ou da firmeza de determinados conceitos, princípios, costumes e leis – vacila e perde sua estabilidade. Como algo geral, estes princípios, etc., são também, indubitavelmente, parte do conceito [o conceito é parte do conceito], mas sua generalidade não é mais que sua forma; seu conteúdo impõe-se como algo determinado, em movimento. Este movimento vemo-lo manifestar-se nos chamados sofistas”
“O nome sofista se o deram eles mesmos, como mestres de sabedoria, mestres que se propunham a tornar sábios quem quer que eles ensinassem. O sofista é o antípoda do erudito moderno (…) que se preocupa em descobrir um novo verme ou inseto (reter o conhecimento para si).” “o comum dos mortais, quando suas essências, que ele crê firmes, começam a vacilar, se indigna; e o conceito, formado nesta sua realização perante as verdades vulgares e correntes, atrai sobre si o ódio e os insultos.” “Aqui apreciaremos o lado positivo da sofistaria”
“Chamamos cultura, de fato, precisamente o conceito aplicado na realidade, contanto que não se manifeste puramente em sua abstração, senão em unidade com o conteúdo múltiplo de todas as representações.”
“A cultura assim entendida (no sentido moderno de ilustração) se converte na finalidade geral do ensino; por isso é que surgiu, de contínuo, uma vastidão de mestres de sofística.” Novos pais da Grécia, em sucessão aos poetas e rapsodos. Pitágoras esclarecidos.
Toda nova classe de grande homem tem de começar sendo peregrina? Poetas, médicos e professores diletantes, todos itinerantes…
COMO FAZER AMIGOS E INFLUENCIAR PESSOAS: “La elocuencia, que apela a la cólera y a las pasiones de los hombres para conseguir algo, enseña la reducción de las circunstancias a estos poderes. (…) Esto presupone, naturalmente, la existencia de un régimen político democrático, en que los ciudadanos sean los llamados a decidir.”
“Esto es también, en efecto, lo que se propone la Tópica¹ de Aristóteles, al señalar las categorías o criterios que es necesario tener presentes para aprender a hablar.”
¹ Retórica?
“el Protágoras de Platón nos traza un cuadro bastante completo.”
“Para el hombre inculto resulta incómodo tener trato con estos hombres que saben abordar y exponer fácilmente todos los aspectos de un problema. Los franceses tienen el don de saber expresarse, aunque nosotros, los alemanes, los llamemos por ello charlatanes.” “cuando se aprende francés, no es solamente para hablar este idioma, sino para adquirir a través de él la cultura francesa.”
“Y, en efecto, cuando uno se propone estudiar filosofía, tampoco sabe, por el momento, lo que la filosofía es, pues si lo supiera, no necesitaría estudiarla.”
“Yo siempre he creído que la virtud política no es susceptible de ser enseñada” Sócrates apud Pl. Prot.
DÉJÀ VU GENÉTICO:E Hermes (por procuração de Zeus) infundiu o pudor…
“Cuando alguien se hace pasar por un maestro en el arte de la flauta sin poseer experiencia alguna acerca de ello, se le tiene, con razón, por loco. No sucede así, en cambio, en lo tocante a la justicia”
“Em todo ato, por mau que seja, vai implícito um ponto de vista essencial em si: basta com destacar este ponto de vista para que o ato fique desculpado e defendido.” “desde Adão, tudo o que se fez de mau no mundo já foi justificado com boas razões.”
“lo mismo que, hace unos 50 años, la enseñanza fundamental del pueblo, entre nosotros, consistía aún en la historia sagrada y una serie de sentencias y pasajes de la Biblia.”
Não confiar muito, já que detalhes biográficos procedem de Diógenes Laércio: “Protágoras siguió la misma suerte de Anaxágoras, al ser desterrado más tarde de Atenas. La causa de esta condena fue un escrito suyo, que comenzaba así: ‘Acerca de los dioses, no sabría decir si existen o no, pues hay muchas cosas que impiden este conocimiento, tanto la oscuridad del asunto mismo como la vida del hombre, que es tan breve.’ Este libro fue quemado en Atenas, por orden del Estado; fue, por lo menos en cuanto sabemos, la primera obra con la que sucedió esto.”
“El principio de Protágoras, si se le da el verdadero sentido que tiene, es una gran frase, pero es, al mismo tiempo, una frase equívoca, pues la medida de las cosas puede ser el hombre indeterminado y multifacético, cada hombre según su particularidad específica, este hombre fortuito; pero puede tratarse también de que la razón consciente de sí misma que hay en el hombre, de que el hombre concebido como naturaleza racional y sustancialidad general, sea medida absoluta.” A este respeito, ver a elucidação de Hannah Arendt, procurando por Protágoras na busca:https://seclusao.art.blog/2018/04/26/a-condicao-humana/.
“Dios, el Bien platónico, es, en primer lugar, un producto del pensamiento; pero, en segundo lugar, es también en y para sí. En cuanto que sólo reconozco como ente, fijo y eterno aquello que es, en cuanto a su contenido, lo general, tenemos que ese algo es, tal y como ha sido asentado por mí, al mismo tiempo, como lo objetivo en sí, algo que yo no siento.”
O ANTI-KANT: “Deus, o Bem platônico, é, em primeiro lugar, um produto do pensamento; (SUBJETIVO, SENSÍVEL) porém, em segundo lugar, é também em e para si (SUBJETIVO e OBJETIVO). Ora: 1) Eu somente reconheço (POSSO PENSAR) o ente (fixo e eterno, ESSÊNCIA OBJETIVA) enquanto aquilo que é geral em seu conteúdo. 2) Esse geral em seu conteúdo é também o objetivo em si, (ESSENCIAL) algo que eu não sinto.”
O MONÓLOGO-DIÁLOGO ILUSTRADO
Kant: O conceito é pensável porque é antes de tudo sensível…
Hegel: O conceito é sensível porque é antes de tudo pensável!!!
Kant & Hegel: O conceito só pode ser pensado porque é essência-e-aparência!
Kant: Sim, finalmente estamos de acordo em alguma coisa!…
Hegel: No que mais poderíamos concordar?
Kant: Hm, deixe-me ver… Se eu fosse você, acho que me aprazeria me exprimir assim: o não-conceito não pode ser pensado, pois ou é só essência ou é só aparência.
Hegel: Com efeito! E você, Kant, escreve frases tais quais: o não-conceito pode ser sentido quando é só aparência; o não-conceito não pode ser sentido quando é só essência (sua coisa-em-si!). Ou seja, o conceito é sentido como não-conceito (apenas como aparência)…
Kant: Ficamos bons na arte de invertermos os papéis! E assim você concluiria, Hegel: a essência pura é inacessível enquanto não integrar um conceito.
Falsa comparação entre Protágoras e Kant. Falsa porque resulta em detrimento do Kantismo.
“Vemos en Protágoras una gran reflexión; concretamente, es la reflexión sobre la conciencia la que cobra conciencia en Protágoras. Pero esto no es sino la forma del fenómeno, recogida y desarrollada por los escépticos posteriores. El fenómeno, la apariencia, no es el ser sensible, sino que, al establecer esto como lo que aparece, establezco, al mismo tiempo, su no ser. Ahora bien, la tesis de que ‘lo que es es solamente para la conciencia’, o bien: ‘la verdad de todas las cosas es la manifestación de estas cosas para la conciencia y en ella’, parece contradecirse por completo a sí misma. Parece, en efecto, que en ella va implícita, al mismo tiempo, la afirmación opuesta: de una parte, la de que nada es en sí tal y como aparece y, de otra parte, la de que todo es verdaderamente tal y como aparece.”
“Vemos em Protágoras uma grande reflexão; concretamente, é a reflexão sobre a consciência aquilo que cobra consciência em Protágoras (seu pensamento único). Mas isto não é senão a forma do fenômeno, retomada e desenvolvida pelos céticos posteriores. O fenômeno, a aparência, não é o ser sensível, senão que, ao estabelecer isto como aquilo que aparece, estabeleço, ao mesmo tempo, seu não-ser.A tese de que ‘o que é, é somente para a consciência’, ou esta outra: ‘a verdade de todas as coisas é a manifestação destas coisas na e para a consciência’, parece contradizer-se por completo a si mesma. Parece, de fato, que nela vai implícita, simultaneamente, a afirmação exatamente oposta: por um lado, nada é em si como aparece e, por outro, tudo é verdadeiramente assim como aparece.”
Refutação de Hegel: A aparência é o ser sensível, o ser mesmo. O que é não é de forma alguma o mesmo para o outro. Essência e aparência coincidem no sujeito. Porém, cada sujeito é um mundo fenomênico à parte. Portanto, como Protágoras não considera o absoluto, seu raciocínio é impecável.
“O momento da consciência, que Protágoras põe de manifesto e segundo o qual o geral desenvolvido traz implícito o momento negativo do ser-para-outro, deve ser afirmado também como um momento necessário”
“El fuerte de este pensador [Górgias] era la dialéctica de la elocuencia; sin embargo, se destacaba por su dialéctica pura, que giraba en torno a las categorías absolutamente generales del ser y el no-ser y se apartaba, por tanto, de la manera de los sofistas.”
“Gorgias sostiene, de una parte, una polémica certera contra el realismo absoluto, que, al representarse una cosa, cree poseer la cosa misma, cuando se trata, en realidad, de algo puramente relativo. Pero, por otra parte, se deja llevar al idealismo malo de los tiempos modernos, con arreglo al cual lo pensado es siempre simplemente subjetivo, es decir, no es el ente mismo, ya que el pensamiento convierte el ente en algo pensado.” “De este modo, la dialéctica de Gorgias se aferra a esta distinción exactamente lo mismo que, andando el tiempo, habrá de volver a manifestarse en Kant; claro está que quien se aferre a esta distinción, jamás podrá llegar al conocimiento de lo que es.”
“Esta libertad [socrática], que se cifra en el postulado de que la consciencia, en todo lo que piense, debe hallarse sencillamente presente y cabe sí(*)
(*) Hemos traducido bei sich selbst como ‘cabe sí’ a fin de distinguirlo del in sich, tan usado por Hegel.”Mas não distingue um do outro. Por si mesmo e em si (mesmo) são rigorosamente a mesma coisa. Filigranas lingüísticas capazes de convulsionar um Schopenhauer! Cabe sí é só mais um sinônimo que os tradutores preciosistas usam no lugar de de suyo.
“Nos tempos modernos muito se fala do saber imediato e da fé, mas não se deve crer que seu conteúdo, quer dizer, Deus,¹ o bem, a justiça, etc., tenha como fonte exclusivamente os sentimentos e a imaginação, pois é, em realidade, algo puramente espiritual, quer dizer, um conteúdo procedente do pensamento.” Hegel é o mais grosseiro dos maus leitores de Kant!
¹ Vazio; ex nihilo, regressão a antes mesmo de Tales de Mileto!
“[O passo dado por Sócrates] é, de fato, o verdadeiro, a unidade do subjetivo e do objetivo na terminologia moderna; diferente do ideal kantiano, que não é senão um fenômeno, que não é objetivo em si mesmo.”
O PROBLEMA DA ÉTICA DIVINA
Partamos de duas premissas: 1) o homem é burro, isto é, vil demais para criar-se uma ética. 2) o homem é sábio, isto é, virtuoso o bastante para criar-se uma ética. Ponto de vista da religião monoteísta: o homem só pode ser burro demais, do contrário não haveria religiões nem necessidade de religiões. Deus precisa ensinar a ética ao homem, eis o fundamento e o fim último da crença. Porém, se o homem é burro demais para criar-se uma ética, ele também é vil demais para aprender uma ética, incapaz que é de entender os desígnios de deus. Não está à altura de uma ética divina para os homens.
Posto que sabemos o que é ética, ela deve ser atingível. Posto que há religiões, é seguro dizer que via de regra prescinde-se de ética. Posto que há religiões há muito tempo, porém, e sua presença milenar não demonstra a aquisição da virtude pela humanidade como um todo, conclui-se que: poucos notáveis são virtuosos, a maioria é tola. Alguns notáveis assumiram papéis de pregadores, profetas, sacerdotes religiosos. Alguns notáveis seguiram o caminho da autoformação. A grande massa se subdivide igualmente entre os dois caminhos. Muitos crêem-se éticos (sábios) sem sê-lo. Sábios autointitulados, intitulados pela comunidade laica ou sancionados por aqueles que controlam os dogmas espirituais. Se a virtude fosse passível de se ensinar, não só Deus como os sábios ensiná-la-iam.
As gerações da humanidade repetem a proporção entre sábios e tolos. Desde sempre, para sempre. De qualquer modo, apenas uma pimenta para a discussão: não é possível conhecer-se a si mesmo. O sábio não se conhece; vive sempre na berlinda entre uma pretensa sabedoria e a estultícia. O muito burro vive na vaidade, crendo-se sábio. Ao notar esse comportamento dos muito estultos, o sábio aprende que ter certeza sobre sua própria sabedoria é um indício pouco auspicioso. Ele sempre oscila entre considerar-se um hipócrita ou um tolo, não importa como conduza sua vida, e a reputação que obtém entre “os outros homens”. Sua vida é uma comédia, pois só é possível agir com ética inconscientemente. Os autointitulados tolos podem ser considerados uma multitude de coisas: sábios (e portanto suscetíveis de ser tolos debaixo do véu), hipócritas que desejariam o status da sabedoria empregando uma falsa modéstia para enganar os homens, um espírito que conhece suas limitações; mas não muda o fato de que todas essas possibilidades não são dignas de crédito. Não se confia no tolo só porque ele assume sua tolice. E o parâmetro para o sábio, por mais que sábios existam, não é deste mundo. Permanece como mistério insondável da existência. Como num jogo de pega-pega entre a cabeça e a cauda, aporia.
* * *
Esculpir bebês para parir estátuas.
“Los atenienses anteriores a Sócrates eran hombres Morales, pero no éticos, pues practicaban lo que había de racional en sus relaciones sin saber que eran, en verdad, hombres buenos.” “este modo [socrático] de conducirse ha vuelto a cobrar vida, modernamente, con la filosofía kantiana, que es ética.”
“Conta-se que um ateniense chamado Críton ajudou Sócrates a cobrir os seus gastos para que pudesse ser iniciado pelos mestres em todas as artes.” Nem Soc. foi um self-made man às antigas!
A ironia socrática não é o método socrático, mas o destino inelutável e externo do filósofo: jovem soldado, serviu três vezes. Três vezes regressou triunfante do Peloponeso, e ao cumprir regiamente seu dever para com sua pátria, ajudou a consumar o desfecho da cultura grega. Da própria cultura, da cultura socrático-platônica, modelo dos modelos de homem.
“Os generais recompensaram a façanha de Sócrates com uma coroa, que era o prêmio dos valentes; mas ele se negou a recebê-la, negociando com êxito sua entrega a Alcibíades, de quem salvara a vida em Potidéia.”
“nós propendemos a ver nas virtudes, como realmente são hoje, antes aspectos dos dotes ou do temperamento do homem, ou a revesti-las sob a forma do genérico e necessário; em Sócrates, no entanto, não apresentam a forma dos bons costumes, do temperamento do homem ou de uma necessidade qualquer, senão a forma de uma determinação independente. É sabido que a fisionomia de Sócrates indicava um temperamento dominado pelas paixões feias e baixas, que seu espírito soube refrear e governar, como ele mesmo nos diz em algum lugar.” Além de tudo que aqui afirma, tece depois que o belo é o santo e o sábio — mas que doutrina esta do Romantismo europeu!! Hegel, horroroso, não podia dominar nada e seria, de acordo consigo mesmo, um grande mandrião! Porém, Sócrates nunca afirmou que conseguiu voluntariamente contrariar sua má natureza; o fato de ele ser feio e de Alcebíades ser belo nada tem que ver com ambos os temperamentos. Lição primária, na qual sou obrigado a reprovar o aluno extravagante Hegel.
“Esta classe de trato social que chamamos de ‘o ócio dos atenienses’ só era possível graças às características especiais da vida da polis, em que a maioria dos trabalhos que hoje realiza um cidadão livre de qualquer país – ainda que falemos de um burguês e não só dos empregados – era efetuada, então, por meio de escravos, já que se consideravam como indignos dos homens livres. Não era proibido ao cidadão livre ateniense ser artesão, mas mesmo os artesãos dispunham de escravos, seus ajudantes de ofício.”
“Es ésta la famosa ironía socrática, que no es sino un modo especial de comportarse en el trato de persona a persona, es decir, una forma subjetiva de la dialéctica únicamente, en tanto que la verdadera dialéctica versa siempre sobre los fundamentos de la cosa misma.”
“Hace 10 años, un famoso teólogo sentó 90 tesis sobre la razón, tesis que encierran problemas muy interesantes, pero que no han dado resultado alguno, a pesar de haberse discutido mucho en torno a ellas, ya que, mientras el uno se situaba en el punto de vista de la fe, el otro argumentaba desde el punto de vista de la razón, y cada cual se mantenía aferrado a su criterio propio, sin que fuese posible saber qué era lo que entendían el uno por fe y el otro por razón.”
“Los personajes encargados de formular las respuestas en los diálogos de Sócrates son semejantes a títeres, ya que sólo contestan a aquellas preguntas formuladas de tal modo que facilitan notablemente la respuesta y excluyen toda arbitrariedad propia.”
“Os personagens encarregados de formular as respostas nos diálogos de Sócrates são semelhantes a títeres, já que só respondem àquelas perguntas formuladas de tal modo que facilitam notavelmente a contra-resposta socrática e excluem toda arbitrariedade própria.”
“Para nosotros, que estamos acostumbrados a representarnos lo abstracto y que desde la temprana juventud nos educamos en torno a principios generales, el método socrático de la llamada condescendencia, con su locuacidad, resulta a menudo cansado, aburrido y tedioso.”
“Para nós, que estamos acostumados a nos representar o abstrato e que desde a tenra juventude nos educamos em torno de princípios gerais, o método socrático da chamada condescendência, com sua loquacidade, resulta o mais das vezes, cansativo, aborrecido, tedioso.”
“¿Cómo puedes ponerte a indagar lo que afirmas que no sabes? ¿Cómo puedes sentir apetencia de lo que no conoces? Y si por casualidad das con ello, ¿cómo puedes saber que es realmente lo que buscas, si confiesas que no lo sabes?”
“tudo se encontra já no espírito do homem, ainda que pareça que este tenha de aprender tudo de fora.”
“Ahora bien, esto es solamente uno de los lados, en el que Sócrates hace caso omiso de todo lo que sea contradicción y presenta como contenido afirmativo las leyes, es decir, el derecho, tal y como cada cual se lo representa. Ahora bien, si preguntamos cuáles son estas leyes, veremos que son precisamente aquellas que rigen, tal y como se hallan presentes en el Estado y en la representación de las gentes y que, llegado el momento, son levantadas [suspensas] como algo determinado, lo que quiere decir que no son absolutas.” O que ainda é melhor que afirmar numa Filosofia do Direito que o Estado da monarquia constitucional é o non plus ultra do Espírito!
“Vemos, assim, como um signo infeliz do desconcerto, como os grandes favoritos de Sócrates, os dotados de atitudes mais geniais, p.ex. um Alcibíades, este gênio da frivolidade, para quem o povo de Atenas nada era senão um brinquedo, e Crítias, o mais eficiente dos Trinta Tiranos, desempenham mais tarde, em sua pátria, um papel que os leva a ser julgados, o primeiro como inimigo e traidor de seus concidadãos, o segundo como opressor e tirano de seu povo. Ambas as figuras viveram se ajustando ao princípio do conhecimento subjetivo, e arrojaram, assim, má luz sobre Sócrates; através delas revela-se como o princípio socrático, ao assumir uma forma distinta, levou a vida grega à ruína. (Xenofonte, Memorabilia, cap. 2)”
“O demônio de Sócrates é (…) a individualidade do espírito” Belo sinônimo para inconsciente!
“O general, antes de dar uma batalha devia ater-se, para tomar uma decisão, ao que lhe dissessem as entranhas dos animais sacrificados, como com tanta freqüência o vemos na Anábase de Xenofonte; e Pausânias se atormenta um dia inteiro, antes de dar a ordem de lançar-se ao combate. (Heródoto)”
“no fim das contas os oráculos são sempre necessários ali onde o homem não se considera ainda tão livre e independente em seu foro íntimo que se sinta capaz de adotar suas determinações a partir de si mesmo, como nós o fazemos. É a esta liberdade subjetiva, que os gregos ainda não conheciam, que queremos nos referir quando falamos, atualmente, de liberdade” “Isso de responder pelo que fazemos, de buscar nos atos do indivíduo sua própria inspiração pessoal, é algo próprio dos tempos modernos”
“quem se casa com uma mulher formosa não sabe se isso consumará sua felicidade ou será, ao contrário, fonte de pena e aflição; nem quem tem parentes poderosos no Estado pode saber se não será isso precisamente o que implique, um dia, o ver-se desterrado. (…) E para Sócrates este oráculo [sacrifícios, o vôo das aves, etc.] era seu demônio interior.” Xenofonte
“o demônio socrático ocupa um lugar intermediário entre o lugar externo do oráculo e o lugar puramente interior do espírito; é interior, mas distinto da vontade humana e ainda menos preponderante que a inteligência e as deliberações do indivíduo Sócrates.”
TEMPOS DE MESMERISMO: “com efeito, em Sócrates parece que se dava, já, expressamente, algo disso que chamamos estado magnético (…) o mesmo estado do êxtase epiléptico ou da catalepsia [catatonia, histeria, hipnose, etc.].”
Hegel é ainda muito primitivo no tocante ao julgamento de Sócrates.
“A aparição da comédia aristofânica é, por si mesma, um ingrediente tão essencial ao povo ateniense e Aristófanes uma figura tão necessária no panorama de Atenas quanto a do augusto Péricles, a do frívolo Alcibíades, a do divino Sófocles e a do ético Sócrates, pois ele forma parte, também, das estrelas deste firmamento.”
“Nossa seriedade germânica não compreende como Aristófanes podia representar personagens que representavam, por sua vez, homens de carne e osso da nação ateniense, chamando-os pelos seus nomes reais, a fim de pô-los em ridículo, e sobretudo um homem tão austero e honrado como Sócrates.”
“um povo que sabe rir de si” “essa certeza diáfana de si mesmo”
“devemos admirar a profundidade de Aristófanes em ver o lado negativo da dialética socrática e destacá-lo com cores tão enérgicas.”
“Sócrates foi condenado à morte por se negar a reconhecer a competência e soberania do povo sobre um acusado.”
“A [acusação da] perversão da juventude consistia em fazê-la vacilar com respeito ao dotado de vigência imediata.”
As duas Apologias. Falta-me ler a de Xen..
“Ninguém jamais viu ou ouviu Sócrates fazer ou dizer qualquer coisa ímpia ou contrária à religião, pois jamais pôs-se ele a investigar acerca da natureza do universo, como tantos outros, dedicados a indagar como havia nascido o que os sofistas chamam de o mundo.” X.
A esta primeira parte da defesa os juízes se mostraram descontentes, ou por não darem credibilidade ao dito por Sócrates ou por inveja (o crer que Sócrates era um favorito dos deuses) (a bibliografia é Xen.). O argumento de que o piedoso aceita Jesus, mas não um segundo Jesus (qualquer um no presente que se proclame Jesus): “Por que ele e não outro?”
“Además, para los griegos aquellas revelaciones tenían que revestir necesariamente un determinado modo de ser, pues existían oráculos que podríamos llamar oficiales (no subjetivos), como la pitonisa, los árboles sagrados, etc. Por eso, cuando la revelación cobra cuerpo en este algo particular y concreto que es el ciudadano corriente, se la considera como algo increíble y falso; el demonio socrático era, en realidad, una modalidad distinta de la que hasta entonces venía rigiendo en la religión griega.” “Sócrates es, de este modo, el héroe que proclama, para desplazar al dios délfico, el principio de que el hombre debe mirar dentro de sí para saber qué es lo verdadero.”
“Anito le había tomado animadversión a Sócrates porque éste le había dicho que el hijo de un hombre prestigioso como él no debía consagrarse al oficio de la tenería, sino a una profesión digna de un hombre libre. Anito mismo era curtidor de oficio y, aunque estos trabajos corriesen, por regla general, a cargo de esclavos, no eran, en sí, nada denigrante; la expresión de Sócrates no era justa, por ello; aunque ya hemos visto (supra, p. 50) que este juicio encajaba perfectamente dentro del espíritu y la mentalidad de los griegos. Sócrates añade que ha trabado conocimiento con este hijo de Anito y que no ha descubierto en él ninguna cualidad mala; profetiza, sin embargo, que no se mantendrá fiel a este trabajo servil a que su padre se empeña en sujetarlo. Y como no tiene a su lado ninguna persona razonable que se ocupe de él, se dejará llevar de malas apetencias y llegará muy lejos por los caminos de la ociosidad y la disipación. Jenofonte añade por su cuenta que la predicción de Sócrates se confirmó al pie de la letra, pues el joven de referencia se entregó a la bebida y se pasaba los días y las noches emborrachándose, habiéndose convertido en un hombre completamente indigno. Cosa perfectamente comprensible, ya que un hombre que se considera (con razón o sin ella) apto para llegar a ser algo mejor de lo que es y que se siente descontento en su interior con el estado de cosas dentro del que vive, pero sin poder alcanzar otro mejor, se ve arrastrado por este disgusto consigo mismo a la mediocridad, primero, y luego a la maldad, por el camino que tantas veces arruina a los hombres. La profecía de Sócrates es, por esto, perfectamente natural.”
“Anito havia tomado aversão a Sócrates porque este lhe havia dito que o filho de um homem prestigioso como ele não devia se consagrar ao ofício do curtume, mas a uma profissão digna de um homem livre. O próprio Anito era curtidor e, ainda que de uso esses trabalhos corressem a cargo de escravos, essa não era uma vocação degradante em si; a expressão de Sócrates não seria justa; em que pese termos visto também que este juízo encaixava-se perfeitamente no espírito e na mentalidade gregos. Sócrates acrescenta que travou conhecimento com este filho de Anito e que não descobriu nele nenhuma má qualidade; profetiza, entretanto, que não se manterá fiel a este trabalho servil em que seu pai se empenha tanto em sujeitá-lo. E como não tem a seu lado nenhuma pessoa razoável para dele se ocupar, deixar-se-á levar por más apetências e chegará muito longe nos caminhos do ócio e da dissipação. Xenofonte acrescenta que a predição de Sócrates se confirmou ao pé da letra, pois o jovem se entregou ao álcool e passava dia e noite embebedando-se, havendo-se convertido num homem completamente indigno. Coisa perfeitamente compreensível, já que um homem que se considera (com ou sem razão) apto a ser algo melhor do que é e que se sente descontente em seu interior com o estado de coisas no qual vive, sem poder contudo alcançar outro melhor, vê-se arrastado por este desgosto consigo mesmo à mediocridade, primeiro, e logo à maldade, pelo caminho que tantas vezes arruína os homens. A profecia de Sócrates é, portanto, perfeitamente natural.”
“Los hijos deben tener la sensación de formar una unidad con sus padres, siendo ésta la primera relación moral inmediata; todo educador debe respetarla, mantenerla pura y desarrollar la sensación de esta unidad.”
“Os filhos devem ter a sensação de formar uma unidade com seus pais, sendo esta a primeira relação moral imediata; todo educador deve respeitá-la, mantê-la pura e desenvolver a sensação desta unidade.”
“Ahora bien, para referirnos al ejemplo de Sócrates, todo parece indicar que éste, con sus ingerencias, inducía a los jóvenes a un sentimiento de descontento con la situación en que vivían. Es posible que el hijo de Anito no se sintiera, en general, atraído por el trabajo; pero una cosa es esto y otra muy distinta que esta sensación de descontento cobre conciencia de sí misma y se vea confirmada por la autoridad de un hombre como Sócrates.”
“Tudo parece indicar que Sócrates, com suas ingerências, induzia os jovens a um sentimento de descontentamento com a situação em que viviam. É possível que o filho de Anito não se sentisse, em geral, atraído pelo trabalho; mas isto é uma coisa, e outra muito distinta que esta sensação de descontentamento cobre consciência de si mesma e se veja confirmada pela autoridade de um homem como Sócrates.”
“Dentro de nuestras leyes, el primer punto de la acusación, el referente a la adivinación, sería inadmisible, como se ha visto, por ejemplo, en el caso de Cagliostro; esta clase de actos eran perseguidos en otro tiempo por la Inquisición.”
“Dentro de nossas leis, o primeiro ponto da acusação, o referente à adivinhação, seria inadmissível, como já se viu, p.ex., no caso de Cagliostro; esta classe de atos era perseguida em outro tempo pela Inquisição.”
A <ESCLARECIDA> EUROPA DE HEGEL:“Sin embargo, si un profesor desde la cátedra o un predicador desde el púlpito atacase, por ejemplo, a una determinada religión, no cabe duda de que el gobierno se daría por enterado y tendría perfecto derecho a intervenir, por grande que fuese el clamor que su intervención levantara.”
“Se um professor de cátedra ou um predicador do púlpito atacasse, p.ex., uma determinada religião, não resta dúvida de que o governo se daria por inteirado e teria o perfeito direito de intervir, por maior que fosse o clamor que sua intervenção gerasse.”
“Según las leyes atenienses, el acusado, después de ser declarado culpable por los heliastas, como hoy en Inglaterra ante el tribunal del jurado, tenía derecho a oponer a la pena propuesta por el acusador una contrapropuesta de pena, que representaba una atenuación, sin ser una apelación formal; era ésta, sin duda, una excelente institución del derecho procesal ateniense, que acredita un gran sentido de humanidad. No se trataba de la pena en general, sino de la tasación, de la clase de pena que había de imponerse; el fallo de los jueces había decidido ya que Sócrates era culpable y, por tanto, merecedor de una pena. Ahora bien, el hecho de que se dejara al culpable un margen de libertad para fijar o proponer la pena que consideraba justa, no quiere decir que su propuesta pudiera ser arbitraria, sino, por el contrario, adecuada al delito ya reconocido, bien con el carácter de multa o de pena corporal (Meier y Schönemann, Der Attische Process). El hecho de que el culpable o declarado tal se constituyese en juez de sí mismo implicaba ya de suyo que se sometía al fallo del tribunal y reconocía su culpa. Pues bien, Sócrates se negó a señalar para sí una pena, que habría podido consistir en una multa o en el destierro, lo que le permitía optar entre esta pena o la de muerte, que los acusadores proponían.”
“Segundo as leis atenienses, o acusado, depois de ser declarado culpado pelos heliastas, como hoje na Inglaterra perante o tribunal do júri, tinha direito a opor à pena proposta pelo acusador uma contraproposta de pena, que representava uma atenuação, sem ser uma apelação formal; era esta, sem dúvida, uma excelente instituição do direito processual ateniense, que transmite um grande sentimento de humanidade. Não se trata da pena em geral, senão da apreciação da classe de pena que dever-se-ia impor; a sentença dos juízes já havia decidido que Sócrates era culpado e, assim, merecedor de uma pena. O fato de que se deixava ao culpado uma margem de liberdade para fixar ou propor a pena que considerasse justa não quer dizer que sua proposta pudesse ser arbitrária, mas, ao contrário, devia ser adequada ao delito já reconhecido, fosse sob o caráter de multa ou de pena corporal. O fato de que o culpado ou assim declarado se constituísse em juiz de si implicava por si só que se submetia à sentença do tribunal e reconhecia sua culpa. Pois bem: Sócrates se negou a escolher uma pena, que teria consistido ou em multa ou no desterro, o que permitia, na prática, que o réu optasse, inclusive, entre o banimento e a pena de morte, que os acusadores propuseram.”
Enfatuadas casuísticas de H….
“Un verdadero Estado no puede tolerar en su seno, por ejemplo, a gentes como los cuáqueros, los anabaptistas, etc., que desconocen y rechazan determinados derechos del Estado, como es el de la defensa de la patria. Esta miserable libertad de pensar y creer lo que a cada cual le parezca mejor no puede admitirse, como tampoco el que cada cual se acoja a la conciencia de su deber.”
“Um verdadeiro Estado não pode tolerar em seu seio, p.ex., gentes como os quakers, os anabatistas, etc., que desconhecem e rechaçam determinados direitos do Estado, como é o da defesa da pátria. Esta miserável liberdade de pensar e crer o que a cada qual lhe pareça melhor não se pode admitir, nem tampouco que cada qual se refugie na consciência de seu dever.”
“De un hombre como Sócrates no podía esperarse otra actitud que la de marchar hacia la muerte del modo más sereno y más varonil. El relato que Platón nos hace de las bellas escenas de las últimas horas de su maestro, aunque no haya en él, por su contenido, nada de extraordinario, quedará para siempre como la imagen grandiosa y el relato ejemplar de un hecho noble.”
“De um homem como Sócrates não se podia esperar outra atitude senão a de marchar em direção à morte do modo mais sereno e varonil. O relato que Platão nos faz das belas cenas das últimas horas de seu mestre, ainda que nada haja nesse conteúdo de extraordinário, ficará para sempre como a imagem grandiosa e o relato exemplar de um fato nobre.”
“os heróis aparecem como a violência que infringe a lei.”
“Os atenienses se arrependeram, mais tarde, da condenação de Sócrates e castigaram a seus acusadores, a uns com a morte e a outros com o desterro. Pois era uma lei ateniense que quem formulava uma acusação se submetia, se a denúncia resultasse falsa, à mesma pena que em caso contrário sofreria o delinqüente. Este é o último ato do drama.”
Sócrates foi condenado à morte porque descobriu o inconsciente. 2200 anos depois um austríaco fraudulento vai criar uma associação internacional para enganar a civilização dizendo que ele descobriu o inconsciente!
“O inocente que se vê condenado é, simplesmente, um néscio; por isso são absurdas e insubstanciais essas tragédias em que se enfrentam tiranos e vítimas inocentes, pois não são senão contingências vazias.”
“A consecuencia del proceso y la muerte de Sócrates, el puñado de sus amigos y discípulos huyó de Atenas a Megara; entre ellos, Platón. Euclides, que residía allí, se hizo cargo, en la medida de lo posible, de los fugitivos. (Laercio) Al levantarse el fallo dictado contra Sócrates y castigarse a sus acusadores, parte de los socráticos retornó a Atenas y las cosas recobraron su equilibrio. La influencia de Sócrates fue vastísima y determinante en el mundo del pensamiento; y no hay mérito comparable en un maestro al de lograr tan grande influjo y ejercer tal sugestión.”
“Una parte de ellos se mantuvo absolutamente fiel a la manera inmediata de Sócrates, sin pasar de ahí. Tal es el caso de una serie de amigos suyos que, en la medida en que fueron escritores, se contentaron con componer diálogos a la manera socrática, bien registrando con la mayor fidelidad histórica posible los sostenidos por ellos mismos con el maestro o los escuchados a otros, bien elaborando estos diálogos a su modo, pero absteniéndose, por lo demás, de toda clase de investigaciones especulativas y manteniéndose, en lo que a su conducta práctica se refiere, firmes y fieles a los deberes de su clase y situación y llevando, así, una vida tranquila y apacible. El más famoso y destacado, entre ellos, es Jenofonte. Pero hubo muchos otros que se dedicaron a escribir diálogos socráticos. Las fuentes mencionan los nombres de Esquines, algunos de cuyos diálogos han llegado a nosotros, Fedón, Antístenes y otros, entre ellos el de un zapatero llamado Simón‘en cuya taller solía entrar Sócrates a platicar y que más tarde se dedicó a registrar por escrito sus charlas con el maestro’. Los títulos de sus diálogos, así como los de los otros socráticos que dejaron escritas obras de esta clase, aparecen citados en Diógenes Laercio (II, 122 s., 60 s., 105; VI, 15-18). Sin embargo, estas obras no tienen más que un interés puramente literario”
“A verdade e a essência não são o mesmo; a verdade é a essência pensada, enquanto que a essência é o em si simples.” “A consciência de si mesmo se manifesta nestes, [no conhecer e no saber] de uma parte, como o ser para si e, de outra parte, como o ser: uma vez consciente desta diferença, retorna dela à unidade de ambos. Esta unidade, o resultado, é o sabido, o consciente, o verdadeiro.”
“Los socráticos que presentan un valor peculiar pueden agruparse, según esto, en 3 escuelas: la primera es la de los megáricos, al frente de la cual se halla Euclides de Megara; la segunda, la de los cirenaicos; la tercera, la de los cínicos. Ya el mismo hecho de que difieran considerablemente entre sí las doctrinas de estas 3 escuelas socráticas indica claramente que Sócrates, maestro e inspirador de las 3, no llegó a tener un sistema positivo.” “El principio de los cirenaicos se desarrolla más tarde, de un modo científico, en el epicureísmo y el de los cínicos es desarrollado por los estoicos.”
“Este Euclides, que no debe confundirse con el matemático del mismo nombre, es aquel de quien se cuenta que, reinando una gran tirantez de relaciones entre Atenas y su patria, Megara, en los momentos de mayor hostilidad se deslizaba en la ciudad de Atenas disfrazado de mujer y exponiéndose a ser condenado a muerte, sólo por el gusto de escuchar a Sócrates y estar cerca de él. Parece que este Euclides, pese a su manera de discutir y hasta en sus disputas mismas, era el más pacífico de los hombres. Cuéntase que, en una discusión, su contrincante se excitó tanto, que exclamó, en un arrebato de indignación: ‘¡Que me caiga muerto si no me vengo de ti!’. Y que Euclides replicó, con la mayor tranquilidad del mundo: ‘!Y yo me caiga muerto si no soy capaz de aplacar tu cólera con la dulzura de mis palabras, para que sigas amándome como hasta aquí!’”
“Se han conservado muchas anécdotas acerca del arte de discutir de estos pensadores, por las cuales vemos que lo que a nosotros nos parecen bromas eran, para ellos, problemas muy serios.”
“Algunos de los innumerables giros a que aquellos pensadores se entregaban para embrollar la conciencia en las categorías han llegado hasta nosotros con sus nombres; son, principalmente, los sofismas cuya invención se atribuye a Eubúlides de Mileto, discípulo de Euclides.”
“la seriedad alemana destierra todo lo que sean juegos de vocablos como vanos entretenimientos ingeniosos.” Até os anglófonos têm um Joyce, vocês não! Mas o que dizer de quem nunca possuiu nem de longe um Shakespeare?
“Para ellos, [os gregos em geral, não só os megáricos] en los casos de antagonismo entre la palabra y la cosa, debía darse preferencia a la palabra; las cosas no expresadas son, en rigor, cosas irracionales, ya que lo racional existe solamente como lenguaje.
En los Elencos sofísticos de Aristóteles encontramos muchos ejemplos de éstos, tomados de los antiguos sofistas y de los erísticos [sinónimo de megáricos], así como las soluciones correspondientes.”
“También en Platón encontramos juegos de palabras y frases de doble sentido de éstas, empleados con el fin de ridiculizar a los sofistas y poner de manifiesto en qué nimiedades paraban su atención. Pero los erísticos fueron aún más allá por este camino, llegando incluso a convertirse, como Diodoro, en una especie de bufones de las cortes, por ejemplo en la de los Tolomeos”
“— ¿Quién es eso?
— Es Corisco.
— ¿Pero Corisco no es del género masculino?
— Sí.
— Eso es del género neutro, de modo que eso no puede ser Corisco” Aristóteles, De soph. elench., cap. 14
“En otro lugar, desarrolla Aristóteles el argumento de ‘tienes por padre un perro’, lo que vale tanto como decir que tú mismo eres un perro; argumento que Platón, como veíamos más arriba atribuye a un sofista.” A.k.a., formalmente a mãe pode chamar o filho de ‘filho da puta’, não vemos nenhum óbice a isso (ela continuará íntegra, o filho será reputado mau caráter, etc.).
“En la invención de juegos sutiles de éstos fueron verdaderamente inagotables los griegos de aquel tiempo y de una época posterior. Cuando estudiemos los escépticos, veremos cómo se desarrolla en ellos y se eleva a un punto superior el lado dialéctico.”
“He aquí otra anécdota que se cuenta de Estilpón, en el mismo sentido. ‘Estaba platicando con Crates, un cínico, e interrumpió la plática para comprar pescado. Crates, su interlocutor, le dijo: ¿Cómo, abandonas el discurso?(en el sentido en que, en la vida corriente, nos reímos o pensamos que es incapaz quien, al parecer, no sabe replicar a lo que se le dice, considerando el discurso como algo tan importante, que se considera mejor contestar algo, lo que sea, que guardar silencio, es decir, dejar sin respuesta una pregunta.) A lo que contestó Estilpón: Nada de eso, no abandono el discurso, sino que te abandono a tí, pues el discurso queda, pero el pescado se vende.’”
“yo soy algo mentado, [já mencionado] y no puedo precisarme a mí mismo.”
“Si preguntamos: ¿quién está ahí?, la respuesta rezará: yo, todos los yos.”
“Tengo ahora tantos años; pero este ahora de que hablo no es solamente éste, sino que son todos los ahoras.”
“Ahora tengo 35 años, y ahora vivimos en el año 1805 del nacimiento de Cristo; ambos momentos se determinan solamente entre sí, pero la totalidad aparece indeterminada. Que ahora hayan transcurrido 1805 años desde el nacimiento de Cristo es una verdad que pronto carecerá de sentido; y la determinabilidad del ahora tiene un antes y un después de determinaciones sin principio ni fin.” Tenho a idade de Cristo e vivo agora no ano 2021 de seu nascimento. Mais de 200 anos desde que Hegel dava suas aulas…
Nunca tinha ouvido falar de Estilpo.
“En efecto, si hombre y bueno o caballo y carrera fuesen uno y lo mismo, no podría decirse que el pan y la medicina son buenos o que el león y el perro corren” Plutarco
“Pero, ¿acaso algún hombre ha vivido peor a causa de esto? ¿Quién que escuche estas palabras no se dará cuenta de que se trata simplemente de un culto juego de ingenio?” Eu, que me ponho a ler isso!
“Los cirenaicos toman su nombre de Aristipo de Cirene, en África, que fue el fundador y jefe de esta escuela.” “Los cirenaicos expresaban con ello su especial subjetividad, y lo mismo hacían los cínicos; ambas escuelas persiguen, por tanto, en el fondo, una y la misma finalidad: la libertad y la independencia del individuo.” “Fue el primer socrático que cobró dinero por sus enseñanzas; fiel a este criterio, había enviado dinero a Sócrates para pagarle lo que había aprendido de él, pero sin que Sócrates lo aceptase.”
“En Aristipo [o jovem, discípulo de Sócrates e do primeiro Aristipo], lo más importante es su carácter, su personalidad; los rasgos que de él se han conservado corresponden más bien a su tipo de vida que a sus doctrinas”
“Cuando se nos dice que alguien hace del placer su principio, tenemos inmediatamente la impresión de que ese hombre es, en el disfrute del placer, un hombre dependiente y el placer, por tanto, contrario al principio de la libertad. Pero no es así como debemos representarnos ni la escuela cirenaica ni la escuela epicúrea, que mantienen, en conjunto, el mismo principio. Pues, por sí misma, bien podemos afirmar que la determinación del placer es un principio opuesto a la filosofía; pero, en cuanto que se hace de la formación del pensamiento la única condición bajo la que puede alcanzarse el placer, se mantiene a salvo la completa libertad del espíritu, ya que es inseparable de la formación de éste.”
“Aristipo gozó, dice de él Diógenes [Laércio], del placer del presente, sin preocuparse de lo que no formaba parte de éste; sabía acomodarse a todas las situaciones, se encontraba bien en todas las circunstancias, lo mismo en las cortes de los reyes que en las más míseras condiciones de vida. Cuéntase que Platón le dijo una vez: sólo tú eres capaz de vestir lo mismo la púrpura que los andrajos.Pasó algún tiempo en la corte de Dionisio, donde gozaba de grandes simpatías, pero dando pruebas de una independencia cada día mayor; por eso Diógenes el Cínico le daba el nombre del ‘perro real’.” HAHAHA
“Como una persona que quería confiarle la educación de su hijo encontrara demasiado elevada la suma de 50 dracmas que le pedía por sus enseñanzas y le dijera que con ese dinero podía comprar un esclavo, Aristipo le replicó: Hazlo, y así tendrás 2 esclavos, en vez de 1. Un día, le preguntó Sócrates: ¿de dónde tienes tanto dinero? A lo que replicó Aristipo: ¿y de dónde tienes tú tan poco? A una hetaira que le anunció que iba a tener un hijo de él, le contestó con estas palabras: es tan poco seguro que sea mío, como si, atravesando por un seto [uma cerca] de espinas, aseguraras saber cuál espina te ha picado.”
“Habiéndole escupido Dionisio, lo soportó pacientemente y, a quienes le censuraban por ello, les dijo: si los pescadores dejan que les moje el mar para pescar unos cuantos pececillos, ¿cómo no voy a mojarme yo para pescar esta ballena? Como quiera que Dionisio lo invitara a elegir una hetaira entre 3, se quedó con las 3, diciendo que hasta Paris había arrostrado grandes riesgos por elegir de 3 una, pero al llegar al dintel de la casa, las dejó marchar a las 3.”
“Se cuenta que llegó a pagar 50 dracmas (cerca de 20 florines) por una perdiz. A alguien que se burlaba de él, le preguntó: ¿no la habrías comprado tú por un óbolo? Sí, le contestó el otro, a lo que replicó Aristipo: pues bien, para mí 50 dracmas valen lo mismo. En una travesía al África, vio que a su esclavo se le hacía demasiado duro cargar con una determinada cantidad de dinero, y le dijo: arroja lo que te sobre y transporta solamente lo que puedas.”
“A quienes, dedicándose al cultivo de otras ciencias, descuidaban la filosofía, los comparaba Aristipo a los pretendientes de Penélope en la Odisea, que podían llegar a poseer a Melanto y a las demás criadas, pero que jamás se adueñaron de la reina.”
“Entramos con ello en un campo en el que 2 clases de determinaciones constituyen el interés fundamental en torno al cual giran las muchas escuelas socráticas que se forman, con excepción de las de Platón y Aristóteles, y principalmente las de los estoicos, los neoacadémicos, etc. (…) Y surge así la noción del sabio: lo que el sabio hace, lo que el sabio es, etc.”
SÉCULOS JOGADOS FORA: “Esta retórica acerca del sabio como ideal es muy general entre los estoicos, los epicúreos, etc., pero carece de sentido. Pues no se trata del hombre sabio, sino de la sabiduría del universo, de la razón real.” Talvez alguns homens devessem permanecer apenas nos jogos de linguagem!
“Entre los cirenaicos de un período posterior hay que citar, en primer lugar, a Teodoro, quien se hizo célebre al negar la existencia de los dioses, lo que le valió el ser desterrado de Atenas. Ahora bien, este dato no tiene, en realidad, mayor interés, ni entraña tampoco ninguna significación especulativa, pues los dioses positivos cuya existencia negaba Teodoro no son tampoco, en cuanto tales, objeto de la razón especulativa.”
“La rareza, la novedad o la saciedad del placer engendra en algunos placer, en otros fastidio o malestar. La pobreza y la riqueza no influyen para nada en lo agradable o lo desagradable, pues no vemos que los ricos gocen más o mejor que los pobres. También son indiferentes, en cuanto a ese resultado, la esclavitud y la libertad, la nobleza o falta de nobleza del nacimiento, la fama o la carencia de ella. Sólo al necio le importa vivir, al sabio le es indiferente”Heguesías, espécie de elo perdido entre os cirenaicos, cínicos e estóicos.
“El sabio obra solamente en gracia a sí mismo; no considera igualmente digno de él a ningún otro. Por grandes que sean los beneficios que de otros reciba, nunca podrán igualarse a los que a sí mismo se debe.” (Estes trechos são paráfrases de Laércio)
“Cuéntase que a Heguesías, que vivía en la ciudad de Alejandría, le fue prohibida la enseñanza por el Tolomeo que a la sazón ocupaba el trono, porque inculcaba a sus oyentes una indiferencia y un fastidio de la vida tan grandes que muchos de ellos se la quitaban.”
“La amistad no debe cultivarse solamente por el provecho que pueda reportar, sino en gracia a la benevolencia a que ello conduzca; y, por amor hacia el amigo, deben aceptarse también las cargas y las molestias consiguientes”Aniceris
CÍCERO O REI DO POP: “la doctrina de los cirenaicos decae y se convierte más y más en una doctrina popular. Es éste, pues, el segundo viraje que se advierte en la trayectoria de la escuela cirenaica, ya que el primero consistió en saltar el principio mismo. Surge así un tipo de filosofía moral que más tarde predominará también en Cicerón y en los peripatéticos de su tiempo; no se conserva ya interés alguno en lo tocante a la consecuencia del pensamiento.”
“Poco es lo que hay que decir acerca de los cínicos, ya que no imprimieron gran desarrollo a la filosofía ni supieron crear tampoco un sistema de las ciencias; fue más tarde cuando los estoicos se encargaron de elevar sus proposiciones a una disciplina filosófica.”
“En este sentido, los cínicos se enfrentan, a primera vista, con los cirenaicos, pues mientras que éstos consideran el sentimiento como principio, aunque ampliado en términos de generalidad y de perfecta libertad en cuanto que tiene que ser determinado por el pensamiento, aquéllos arrancan de la libertad e independencia completas como determinación del hombre. Sin embargo, como esto es, en realidad, la misma indiferencia de la conciencia de sí mismo que Heguesías proclamara como la esencia, tenemos que los extremos del pensamiento cínico y del cirenaico se levantan por obra de su propia consecuencia, convirtiéndose en fases de transición del mismo pensamiento.”
“La actitud negativa ante eso es, aquí, lo determinante, y este mismo antagonismo entre los cínicos y los cirenaicos lo veremos manifestarse, más tarde, entre los estoicos y los epicúreos.” “La escuela cínica no reviste importancia científica alguna; constituye solamente un momento histórico que tiene que darse necesariamente en la conciencia de lo general, a saber: el momento que consiste en que la conciencia, en su individualidad, se sepa libre de toda dependencia con respecto a las cosas y al disfrute.”
“El primer cínico fue Antístenes, ateniense y amigo de Sócrates. Vivía en Atenas y enseñaba en un gimnasio llamado el Cinosargo; a este pensador se le conocía por el nombre del Simple Perro.” Os cínicos têm alguma fixação pelos cães!
“La virtud se basta a sí misma y sólo necesita una cosa: la fuerza de carácter de un Sócrates. El bien es bello y el mal feo. La virtud consiste en obras y no necesita de muchas razones ni de doctrinas. El destino del hombre es llevar una vida virtuosa. El sabio se contenta consigo mismo, pues posee cuanto los demás parecen poseer. Le basta con su propia virtud; tiene por casa el mundo entero. Si no le rodea la fama, esto debe considerarse más bien como un beneficio que como un mal.” De novo a fonte é Laércio
“Es, de nuevo, la aburrida retórica acerca del sabio, que más tarde recibirá nuevo incremento, hasta el fastidio, con los estoicos y los epicúreos. En este ideal, en que se trata del destino del sujeto, se considera como el camino hacia su consecución la mayor simplificación posible de sus necesidades.”
“Antístenes es todavía una figura noble dentro del campo de la filosofía cínica. Pero no están ya lejos de ella la tosquedad, la vulgaridad de la conducta, el impudor que caracterizarán a los cínicos de una época posterior.”
“La indumentaria del cínico era extraordinariamente sobria: un grueso garrote de olivo silvestre, un manteo agujereado y lleno de remiendos sin más ropa debajo y que, por las noches, hacía además de cama, un saco de mendigo para guardar los víveres más indispensables y un vaso para beber agua: tal era, sobre poco más o menos, el atuendo de los cínicos.” Se Laércio erra ou mente, nunca ficaremos sabendo como eram realmente os cínicos…
“ya Sócrates considerara como una manifestación de vanidad la buscada pobreza de los cínicos en el vestir. ‘Como Antístenes pusiera al descubierto uno de los agujeros de su manteo, Sócrates le dijo estas palabras: <por el agujero de tu manteo veo tu vanidad.>’”
“El corte de mi levita se halla determinado por la moda, pero de ello se encarga el sastre; no es misión mía meterme a inventar en esta materia, pues hay, gracias a Dios, otros que lo hagan.”
“Se le llamaba ‘el perro’, lo mismo que él había llamado a Aristipo ‘el perro real’, pues a Diógenes le ocurría con los muchachos de la calle lo mismo que a Aristipo con los reyes.”
“Sabido es que arrojó para siempre el vaso, cuando vio a un muchacho beber en las manos.”
“Este filósofo rondaba por todas partes, viviendo a la ventura: en las calles y plazas de Atenas, en un tonel; ordinariamente, pasaba el tiempo e instalábase a dormir en la Stoa de Júpiter, en Atenas, diciendo que los atenienses le habían construido una magnífica residencia.”
“Antístenes y Diógenes vivieron en Atenas, y sólo podían existir allí. Pero, en general, para que haya cultura es necesario que el espíritu se oriente hacia la más grande variedad de necesidades y de modos de satisfacerlas. Las necesidades se han multiplicado mucho en los tiempos modernos, y esto hace que las necesidades generales se dividan en muchas necesidades especiales y en muchos modos especiales de satisfacerlas; esto forma parte también de las actividades del entendimiento, entre las cuales encuentra cabida el lujo.”
“Lo único que de Diógenes podemos referir son anécdotas. En un viaje por mar a Egina cayó en poder de los piratas, quienes decidieron venderlo como esclavo en Creta. Preguntado acerca de lo que sabía hacer, contestó: ‘mandar sobre hombres’ y pidió al heraldo que pregonase: ¿quién quiere comprar amo? Lo compró un tal Jeníades de Corinto, cuyos hijos recibieron sus enseñanzas.”
“Diógenes estaba, un día, lavando una col [couve] cuando acertó a pasar por delante de él Aristipo, y le gritó a éste: si supieses lavar tú mismo la col, como yo lo hago, no andarías corriendo detrás de los reyes.”
“Cuando le daban una paliza, [surra] lo que debía ocurrir con harta frecuencia, a juzgar por las muchas anécdotas que acerca de ello circulaban, se ponía grandes parches sobre las heridas y escribía encima los nombres de los agresores, para exponerlos de este modo a la censura de todos. Cuando los muchachos de la calle le rodeaban y le decían, para irritarlo: ‘tenemos miedo a que nos muerdas’, les replicaba: ‘no tengáis cuidado, pues los perros no comen acelgas.’ En una comida, uno de los comensales se dedicó a arrojarle huesos, como a los perros; entonces, el filósofo se fue hacia él, levantó la pierna y lo meó, como un can.”
“Antístenes y Diógenes eran, como hemos visto, hombres de espíritu muy cultivado. Los cínicos que vienen después producen también indignación por sus extremos de desenfado; no son, por lo demás, sino repugnantes mendigos a quienes produce indecible satisfacción irritar a los demás con sus desvergüenzas. No hay para qué tenerlos en cuenta en una historia de la filosofía, y merecen en el pleno sentido de la palabra el nombre de ‘perros’ que en tiempos se dio a esta escuela filosófica, pues el perro, esta bestia desvergonzada, caracteriza plenamente su modo de ser.”Parte talvez mais inútil, mas a mais engraçada do livro!
“Era tío suyo, hermano de su madre por línea paterna, aquel famoso Critias, que había mantenido también trato con Sócrates durante largo tiempo y que era, sin duda alguna, el más inteligente, el más espiritual y, por tanto, el más peligroso y el más odiado de los Treinta Tiranos de Atenas. Los antiguos suelen citar el nombre de Critias al lado de los del cirenaico Teodoro y de Diágoras de Melos, entre los de los que negaban a los dioses (…) A un hombre como Platón, nacido en el seno de tan noble familia, no podían faltarle los medios necesarios para su educación. Recibió de los más prestigiosos sofistas de su tiempo una enseñanza que desarrolló en él todas las aptitudes que cumplían a un ateniense. El nombre de Platón lo recibió más tarde, de su maestro; su familia le había dado el de Aristocles.”
“Después de ahondar en el estudio de la filosofía, perdió el interés por la poesía y los negocios públicos y los abandonó totalmente para dedicarse por entero a las ciencias. Cumplió con sus deberes militares como ateniense; al igual que Sócrates, se dice que tomó parte en 3campañas.”
“La Academia era un bosquecillo o paseo consagrado al héroe Academo, en el cual se levantaba un gimnasio. Pero el verdadero héroe de la Academia acabó siendo Platón, quien desplazó el antiguo significado del nombre de este lugar y oscureció al héroe a quien estaba consagrado, haciendo que pasara a la posteridad bajo la égida y la gloria del suyo propio.”
“El tirano de Siracusa era uno de esos hombres mediocres que aunque, en su medianía, aspiren a la gloria y a los honores, no llegan a ser nunca profundos ni son capaces de nada serio, sino que aparentan, simplemente, serlo y carecen de toda firmeza de carácter; un querer y no poder, como esos personajes que la ironía moderna lleva a la escena, que creen ser virtuosos y excelentes y que no son, a la verdad, más que bribones. Una relación como la que Platón se proponía era irrealizable, pues sólo las medianías se dejan guiar por otros, pero, al mismo tiempo que dan pie para la realización de tales planes, los llevan siempre al fracaso.”
“Platón abandonó, pues, la corte de Siracusa; sin embargo, después de la separación ambos sintieron la necesidad de volver a verse. Dionisio llamó de nuevo a su corte al filósofo, pues no podía hacerse a la idea de no haber sabido ganarlo por entero para sí; encontraba insoportable, sobre todo, el hecho de que Platón no quisiera abandonar la amistad de Dión. Platón cedió a las instancias tanto de su propia familia y de Dión, como, principalmente, a las de Arquitas y otros pitagóricos de Tarento, a quienes había recurrido Dionisio y que se interesaban por lograr una reconciliación entre el tirano, Dión y Platón; salieron, incluso, garantes de su seguridad y libertad, decidiendo, así, al filósofo a ponerse de nuevo en viaje. § Dionisio no podía soportar ni la presencia ni la ausencia de Platón, y no cabe duda de que la primera le producía embarazo.”
“En nuestro tiempo, en estos últimos 30 años, se han redactado también muchas constituciones nuevas; es ésta una tarea fácil de realizar para quien se halle habituado a esta clase de trabajos. Sin embargo, el talento teórico no basta para redactar una constitución viable, pues los que las hacen no son los individuos, sino algo espiritual, algo divino, que se realiza a través de la historia.”
“Platón vivió honrado en todas partes, sobre todo en Atenas, hasta el primer año de la 108ª Olimpíada (348 a.C.). Murió el día en que cumplía años, en un banquete de bodas, a los 81 de edad.”
“esta filosofía ha sido concebida en cada época de distinto modo y ha sufrido, sobre todo, las ingerencias y tergiversaciones de manos muy torpes en los tiempos modernos, que no han tenido inconveniente en introducir en estos escritos sus propias concepciones, incapaces de captar espiritualmente lo espiritual, o considerando como lo más esencial y más notable de la filosofía platónica lo que, en realidad, no pertenece al campo de la filosofía, sino al modo de pensar o de representarse las cosas; pero, en rigor, es el desconocimiento de la filosofía lo que entorpece la comprensión de la filosofía platónica.”Que ironia, já que Hegel põe Platão abaixo de Aristóteles e não reconhece sua verdadeira grandeza!
“Hacer de él algo insuperable, como el punto de vista en que nosotros mismos deberíamos situarnos, es una de las debilidadespropias de nuestro tiempo.” Basta substituir debilidades por forças ou qualidades e vemos o quanto H. acertaria em cheio! A roda do tempo não perdoa, e hoje gostaríamos de poder ter ao menos a força de suportar esse pensamento: usar Platão como uma estrela-guia. O pós-modernismo é fraco demais, mas tem, melhor que a época de Hegel, esse arrependimento vivo no lugar da hipocrisia etnocêntrica.
“Así como en pedagogía algunos aspiran a educar al hombre para precaverlo contra el mundo, es decir, para que se encierre en un círculo aparte —por ejemplo, en un despacho, o viva idílicamente plantando y cultivando habas—, en el que no sepa nada de lo que pasa en el mundo ni tome conocimiento de él, así también en la filosofía se ha retornado a la fe religiosa y a la filosofía platónica.
Estaría justificado el tratar de retornar a Platón para volver a aprender de él (la idea de la filosofía especulativa); pero es una tontería expresarse en términos tan hermosos, a gusto y antojo del que escribe, acerca de la belleza y la excelencia de estos escritos.”
“Sobre todo, las disquisiciones literarias del señor Schleiermacher, [justo as que Luisa Buarque recomendou] los sondeos críticos que se hacen para averiguar si estos o los otros diálogos secundarios son auténticos o apócrifos (pues acerca de los principales apenas dejan lugar a dudas los testimonios de los autores antiguos), son absolutamente superfluos en filosofía y nacen, en realidad, de ese espíritu hipercrítico tan característico de nuestra época.”
DESCONSTRUINDO O MITO DOS <DOIS PLATÕES>: “Para comunicar algo puramente externo no se necesita mucho, pero para transmitir a otro una idea hace falta habilidad, y ésta es siempre algo esotérico; por eso los filósofos no son ni pueden ser nunca simplemente exotéricos. Estas no pasan de ser nociones puramente superficiales.”
“La filosofía no es, pues, algo individual, como una obra de arte; y tampoco de ésta puede decirse que lo sea nunca en absoluto, pues también el artista recibe de otros y desarrolla por cuenta propia, al ejercerlas, las aptitudes artísticas. La invención del artista, su inspiración, es el pensamiento de su todo y la inteligente aplicación de los medios con que se encuentra, ya preparados; los motivos directos de inspiración y las verdaderas invenciones pueden ser infinitos.”
“La forma externa incluye, en primer lugar, la escenografía y el elemento dramático. Platón sitúa sus diálogos en un ambiente de realidad, en lo tocante al medio en que se desenvuelven y a los personajes que en ellos intervienen, y toma siempre como punto de partida un motivo individual, que reúne a los personajes y da un carácter de verosimilitud muy agradable y abierto a sus coloquios. El personaje principal, en estos diálogos, es Sócrates; entre los demás interlocutores aparecen muchas primeras figuras conocidas de nosotros, tales como Agatón, Zenón, Aristófanes, etc. El autor nos sitúa, además, en un lugar concreto: el Fedro (p. 229 Steph., p. 6 Bekk.) se desarrolla a la sombra de un plátano junto a las claras aguas del Iliso, que Sócrates y Fedro cruzan; otros diálogos tienen por escenario los pórticos de los gimnasios, la Academia, la sala en que se celebra un banquete. Mediante el recurso de no intervenir nunca personalmente, poniendo siempre sus pensamientos en boca de otros personajes, Platón logra suprimir totalmente en sus diálogos lo que pudiera haber en ellos de tesis, de elemento dogmático. Tampoco aparece en los diálogos platónicos un sujeto encargado de narrar, como en la historia de Tucídides o en los poemas de Homero. Jenofonte
aparece, a veces, en persona y, a veces, deja traslucir claramente su intención de justificar por medio de ejemplos la doctrina y la vida de Sócrates. En Platón, por el contrario, todo es absolutamente objetivo y plástico, y le vemos desplegar un gran arte para evitar todo lo que sea puramente expositivo, desplazándolo a veces, incluso, a la tercera o cuarta persona.”
“Pero esta urbanidad no debe confundirse con el temor a herir susceptibilidades, sino que lleva consigo, por el contrario, una gran valentía y una gran franqueza, y es esto precisamente lo que constituye el encanto de los diálogos platónicos.”
“Ocurre aquí como en el repaso del catecismo: las respuestas están establecidas de antemano, sin el menor margen de sorpresa, pues el autor hace que los personajes contesten como él cree que deben contestar. Y las preguntas suelen estar formuladas en un tono tan perfilado, tan tajante, que sólo pueden contestarse en términos muy simples; y en esto estriba precisamente la grandeza y la belleza de este arte literario del diálogo, que es, al mismo tiempo, lo que lo hace aparecer tan sencillo.”
A época de Hegel não tinha os pré-requisitos para entender a Idéia.
A CRÍTICA QUE VIROU ELOGIO: “Sin embargo, en los conceptos platónicos puros no aparece superada la representación como tal: o bien no se dice que estos conceptos sean su esencia, o no son, para Platón, otra cosa que una representación, y no algo esencial”
“El concepto adulto no necesita ya apoyarse en el mito.”
SOBRE O ‘GOVERNO DOS FILÓSOFOS’ (OU RUDIMENTOS DE UMA CIÊNCIA POLÍTICA AINDA NÃO INICIADA EM 2021):“Y Platón pone en boca de Glaucón la siguiente réplica: ‘Has pronunciado, ¡oh Sócrates!, palabras tales y has expresado cosas, que necesariamente debes suponer que una muchedumbre de hombres, y no malos, están dispuestos a arrojar sus mantos y echar mano de la primera arma que tengan a su alcance para marchar en filas cerradas contra tí; y, como no consigas aplacarlos con razones, te aseguro que lo pagarás muy caro.’ (libro V).
Platón proclama aquí, pura y simplemente, la necesidad de unificar la filosofía y el gobierno. Puede considerarse, sin duda, como una gran arrogancia esto de postular que se confíe a los filósofos el gobierno de los Estados, pues una cosa es el terreno de la historia y otra cosa muy distinta el terreno de la filosofía. Es cierto que en la historia debe manifestarse la idea como el poder absoluto; dicho en otras palabras: Dios gobierna el universo. Pero la historia es la idea realizada por la vía natural, no con la conciencia de la idea. Es verdad que se obra con arreglo a los pensamientos generales del derecho, de la moral, de lo grato a Dios; pero no hay que olvidar tampoco que, en sus actos, el sujeto busca también, como tal, la consecución de sus particulares fines. La realización de la idea se lleva a cabo, por tanto, mediante una mezcla de pensamientos y conceptos con fines inmediatos y particulares, de tal modo que esa realización sólo se produce, de una parte, mediante el pensamiento y, de otra parte, a través de las circunstancias, de los actos humanos, en cuanto medios. Con frecuencia, estos medios parecen ser contrarios a la idea, pero esto no perjudica en nada a su realización, pues todos aquellos fines determinados y concretos no son sino los medios empleados para producir la idea, ya que ésta es el poder absoluto. Por tanto, la idea acaba realizándose en el mundo, quiérase o no;pero para ello no hace falta que los gobernantes obren movidos por una idea.
Sin embargo, para poder juzgar el postulado platónico de que los regentes de los pueblos deben ser filósofos hay que tener en cuenta, indudablemente, qué hay que entender por filosofía en sentido platónico, y en general, en el sentido de aquel tiempo. (…) la filosofía platónica es, por tanto, la conciencia de lo verdadero y justo, en y para sí, la conciencia y la vigencia de fines generales dentro del Estado.”
COMO SEMPRE, PORÉM, HEGEL TIRA 10 NOS PROLEGÔMENOS E UM 0 NOS FINALMENTES:“Ahora bien, a lo largo de toda la historia, a partir de las grandes migraciones de los pueblos, en que la religión cristiana se convirtió en la religión universal, no ha habido otra preocupación que la de implantar en la realidad el reino de lo suprasensible, el reino de lo que empezó existiendo solamente para sí, este algo general y verdadero en y para sí, y la de determinar la realidad con arreglo a ello.”
ESCRAVO DA ADMINISTRAÇÃO GERMÂNICA: “Un ejemplo de lo que, en su tiempo, podía hacer un filósofo en el trono lo tenemos en Marco Aurelio; lo único que ha quedado de él en la historia son actos de carácter privado, y no puede decirse que el imperio romano haya ganado nada con el gobierno de este emperador. Federico II, en cambio, ha sido llamado con razón el rey-filósofo.”
“Y si se le sacara de la caverna, quedaría cegado por la luz del sol y, deslumbrado con tanta claridad, no podría ver las cosas que llamamos reales y odiaría a quien le hubiese arrastrado hasta la luz, como se odia a quien nos ha arrebatado la verdad, deparándonos en cambio sólo dolor y pena.”Ao invés de mero joguete de uma má consciência (como é levado a crer freqüentes vezes em seus primeiros encontros com o absurdo e o tragicômico, principalmente na infância, adolescência e juventude), o filósofo é o único que vive verdadeiramente. Quantos milhares de seres humanos eu já não conheço com alguma certidão que vivem apenas nas aparências mais foscas?
“Hay hombres que gustan de mirar y escuchar, que aman las bellas voces y las formas y colores bellos y todo lo formado por ellos, pero cuyo pensamiento es incapaz de ver y amar lo que hay de bello en la naturaleza.”
“¿Qué es la vida para el hombre que, aun reputando las cosas por bellas, no es capaz de captar la belleza misma ni de seguir a quien quiera iniciarle en el conocimiento de ella? ¿Una realidad o un sueño? Fíjate bien. ¿Qué es soñar? ¿No es, ya se duerma o se esté despierto, tomar la imagen de una cosa por la cosa misma?”
“La obra iniciada por Sócrates fue llevada a cabo por Platón, quien sólo reconoce como esencial lo general, la idea, lo bueno. Mediante la exposición de sus ideas, Platón puso al descubierto el mundo intelectual, pero sin ver en él un mundo situado más allá de la realidad, en el cielo, en un lugar distinto, sino el mundo real, del mismo modo que Leucipo había acercado lo ideal a la realidad, sin colocarlo—metafísicamente—detrás de la naturaleza. La esencia de la teoría de las ideas ha de buscarse, por tanto, en la concepción de que lo verdadero no es lo que existe para nuestros sentidos, sino que el verdadero y único ser del mundo está en lo determinado de suyo, en lo general en y para sí: el mundo intelectual es, por tanto, lo verdadero, lo digno de ser conocido, lo eterno, lo divino en y para sí. Las diferencias no son esenciales, sino simplemente transitorias; sin embargo, lo que Platón llama absoluto es, al mismo tiempo, como algo único e idéntico consigo mismo, algo concreto de suyo, en cuanto que es un movimiento que retorna a sí mismo y que permanece eternamente cabe sí. Y el amor por las ideas es lo que Platón llama entusiasmo.” Um lugar aqui mesmo, no mundo das aparências, em que os sábios podem conferenciar entre si, sem medo de estarem falando com espectros (solipsistas em alucinação): o termo médio em que os privilegiados realmente se entendem, porque a natureza do saber é Una.
“El segundo error con que nos encontramos, en lo tocante a las ideas, consiste, no en situarlas fuera de nuestra conciencia, sino en considerarlas como ideales necesarios para nuestra razón, pero cuyos productos ni tienen realidad ahora, ni pueden llegar a adquirirla nunca.” Aí já depende, meu caro Hegel: do que estamos falando? De simples ‘discussões triviais entre filósofos’ (sobre um mundo-verdade e um mundo das aparências)a – o que é relativamente simples de imaginar que se possa ter cotidianamente, pois muitos são os filósofos, embora sejam minoria, e qualquer filósofo concebe esta distinção bem, ou não seria, por definição, filósofo –; ou do Bem e da Justiça? Porque estes seriam sóis, realmente meras figuras de linguagem, inobteníveis a não ser que estejamos falando de seres muito crédulos e supersticiosos, pasme, maioria deles filósofos!
a Quem está acostumado com a refutação nietzschiana de um mundo-verdade pode ter ficado confuso com este parágrafo – mas alto lá! Um mundo-verdade cristalizado e eterno na acepção chinfrim de frades, é a isto que Nie. objetava! (‘Chega deste Bem, unilateral, estilizado! Para esta concepção ultrapassada, ofereço uma nova discussão, que vá além deste bem e deste mal, mal condicionado por esta visão de bem tão limitada, mal que está prestes a se tornar universal no meio acadêmico ocidental! Só assim é que poderemos recomeçar com coisas sérias! Os idiotas saturaram o nosso meio, o nosso mundo-verdade vivo, precisamos recolher o lixo – são 23:59, mas amanhã é um novo dia!’ – Esta é uma paráfrase bem realista de um Nie. mais direto ainda do que estamos acostumados a ler, se explicando para quem tiver olhos e ouvidos.) Mas o mundo-verdade exclusivo da mentalidade dos filósofos (dos filósofos verdadeiros, palavra tão desvalorizada com o tempo!) nada tem de ossificado e estável – simplesmente porque é orgânico e cambiante enquanto o filósofo vive individualmente e enquanto a raça dos filósofos vive coletivamente, jamais sendo igual a si mesmo – isso! –, um mundo-verdade riacho heraclítico! Uma verdadeira imagem do inferno para o ante-filósofo, um quadro expressionista, tolices e nada mais (estou falando novamente daquele que não tem acesso ao privilégio, o prisioneiro da caverna de Platão). Exemplo:Posso discutir com o Pablo (outro esclarecido) sobre o ser-do-ente e o ser-aí, mas nunca poderemos propor uma síntese da condição humana ou um propósito para a existência – essa faculdade está além de qualquer evento da existência, de qualquer conciliábulo entre os grandes filósofos da História mesmo que se pudessem reunir num auditório além do tempo. De tal encontro nada sairia além do que sói acontecer nas noitadas de bar das gentes mais simples. Mas Hegel imaginou que continha esta sementinha em suas mãos, quanta candura! O girassol escolhido pelo Espírito do Mundo – perfume dos perfumes, essência das essências!‘Não pedi para nascer no lugar e no tempo certos, mas nasci…’, seria mais ou menos o que ele teria a dizer a respeito de tão imensa (e grata, para ele mesmo) coincidência… O primeiro falastrão europeu a poder dizê-lo, bem como o último!
Parafraseando Górgias, ainda que fosse possível combinar entre alguns entes um propósito para a existência, este acordo simplesmente não seria fechado nem posto em prática! Mas a verdade é que faltam inclusive as condições de possibilidade dessa suposta negociação – mesmo que houvesse um ente em algum ponto capaz de levantar um propósito universal (o que já seria absurdo), ele sequer saberia como formulá-lo em sua mente; e se, mais incrível ainda, houvesse dois desses seres, separados por várias gerações e milhares de quilômetros, e mesmo se eles pudessem conversar fluentemente num mesmo idioma numa representação miraculosa em que coabitariam o mesmo universo, digo, o mesmo cômodo, e poderiam até se tocar, conversar por alguns instantes –– mesmo assim, ainda assim, esses dois seres acabariam apenas gastando saliva, quem sabe brigando feio, indo às vias de fato! Supondo que se concedesse ainda o fato de ambos estarem munidos da idéia perfeita e entrarem em harmonia absoluta entre si, ainda assim eles se esfumariam de sua sala metafísica logo após este evento único da ‘pós-História universal hegeliana’ e não poderiam contar as novas para a humanidade – QUE PENA! Não estava na lista das coisas que as Parcas coseriam, definitivamente… Não, o jogo do filosofar é infinito, e Platão o sabia.
A forma ansiosa do filósofo é como ele se apresenta externamente, no mundo das aparências. O “ser” do filósofo é o anti-ansioso por excelência: ele não quer se apressar a um fim, a conclusões, ele aproveita as raquetadas do jogo! Legislador ou não (de toda forma no capitalismo é impossível), o filósofo sempre foi e sempre será pelo menos o que hoje se convenciona chamar de artista em sua arte do filosofar… É sem dúvida um jogo que se joga a sua maneira, mas essa maneira, essas regras, são idênticas para todo filósofo sério, que joga. E ainda há espaço de sobra para idiossincrasias nesses torneios e nessas justas: Roger Federer, Nadal, Sampras, Rod Laver, Borg, John McEnroe, todos eles tinham suas técnicas e estilos bem diferentes, embora compartilhassem um mesmo fim enquanto dentro da quadra… Como tenista metafísico, Hegel é um menino mimado que perde para o paredão, seu único adversário. Como poderia ele superar Platão só de boca, sem experimentar jogar contra ele? O engraçado é que os piores filósofos foram os únicos que tiveram match points. Todos perderam, entretanto…
É preciso imaginar um jogo de reflexão cansativo, mas em que a massagem poderia nos restituir à partida, sem que jamais abandonássemos o confronto… Seria este o Sísifo contente que Camus figurou?! E mesmo ele passou o jogo inteiro pensando que o principal era definir se desistia ou não…
Falando em existencialistas, esse podia muito bem ser o parágrafo que inspirou Sartre a intitular sua magnum opus: “La opinión[quando, na história da metafísica, a metafísica essencial começa a ficar chata, e o tenista prefere se desconectar do jogo, dar uma viajada, i.e., dar maior peso às aparências] es, por tanto, lo intermedio entre la ignorancia y la ciencia [o impossível] y su contenido una mezcla del ser y la nada.” Chamemos esse tênis espiritual de LIMBOBOL! Seria, para continuar nesta alegoria que acabo de inventar, como se alguém da arquibancada se levantasse e desafiasse um tenista profissional – e para calamidade de todos conseguisse fazer frente a ele, por um set inteiro! Filosofar com opiniões… Uma tarde (Zeitgeist) bem atípica, daquelas de que se poderá dizer: há tempo e lugar para tudo nesse mundo ao menos uma vez…
Pensamento único como lobby único do jogador! Você pode até ter e tentar outros, mas é aquele que o levará mais longe, e entrará para a história como sua marca registrada…
“el Menón, donde afirma (pp. 81, 84 Steph.; pp. 349, 355-356 Bekk.) que, en rigor, no puede aprenderse nada, sino que el aprender es siempre, simplemente, recordar lo que ya sabíamos, sin que la perplejidad en que la conciencia se ve sea otra cosa que el excitante para ello.”
HEGEL NÃO ENTENDEU QUE A REMINISCÊNCIA É OUTRA FIGURA DE LINGUAGEM PLATÔNICA (de todo modo, não seria tabula rasa, mas tabula funda, assim como a intelecção em Kant): “Esta relación puramente externa, en que el alma aparece como tabula rasa, algo así como el proceso de vida, en que se representa el crecimiento por incorporación de nuevas partículas, es algo muerto y no cuadra a la naturaleza del espíritu, que es subjetividad, unidad, ser cabe sí [Beisich-Sein] y permanencia.”
“el aprender es este movimiento, en el que no se incorpora a él nada extraño sino que es su propia esencia la que cobra ser para él o se eleva a su conciencia.”
“Claro está que la palabra ‘recuerdo’(*) es, en un sentido, una expresión poco afortunada:¹ concretamente, en el sentido en que alude a la reproducción de una representación que se ha tenido ya en otro tiempo.²
(*) “Hegel analiza aquí el término Erinnerung, que sí tiene el origen que él le atribuye, [o 2º sentido, após o 1º sentido evidenciado nesta passagem, o de mergulhar em si mesmo] implícito también en el prefijo ‘re’ del término castellano [E.].”
¹ É uma expressão muito afortunada, H.!
² Implicações ‘reminiscência – eterno retorno’. Não existe um Espírito que começou ex nihilo e ainda não se desenvolveu completamente. O mundo já é perfeito e tudo é ‘sabido’ no fenômeno, não importa se no ‘passado’ ou no ‘futuro’, já que o tempo em si não existe (apenas para o indivíduo em questão). Só que o indivíduo não é o filósofo, i.e., é só o recipiente carnal do conhecimento filosófico, objetivo, uno.
“Sin embargo, no puede negarse que, en Platón, la palabra ‘recuerdo’ presenta con frecuencia el primero de los dos sentidos, o sea el sentido empírico. Ello se debe a que Platón expone, a veces, por vía de representación y de un modo mítico el verdadero concepto de que la conciencia es, en sí misma, el contenido del saber, por donde se presenta precisamente aquí la confusión entre la representación y el concepto a que nos referíamos antes.”
“El esclavo hace, simplemente, que la conciencia brote de su interior, como si se limitara a recordar algo que ya sabía y que había olvidado.
Ahora bien, cuando Platón llama recuerdo a este hecho de que la ciencia brote de la conciencia, va implícito en ello el criterio de que este saber tiene que haber existido realmente, alguna vez, en esta conciencia, es decir, de que la conciencia concreta tiene por contenido este saber no solamente en sí, por su esencia, sino también en cuanto tal conciencia concreta, y no como conciencia general. Pero este momento de lo concreto forma simplemente parte de la representación, y el recuerdo no es pensamiento, pues el recuerdo se refiere al hombre como a un éste sensible, no de un modo general.” Hegel se atém a detalhes técnicos de zero importância. E é surpreendente que leve tão a sério o signo lingüístico nesta ocasião, quando constatamos o que escreveu na Enciclopédia (ver post anterior estrelando Derrida)…
“Representa, por tanto, aquel ser en sí del espíritu bajo la forma de un ser antes en el tiempo, como si lo verdadero hubiese existido ya para nosotros en un tiempo anterior. Pero, al mismo tiempo, hay que advertir que Platón no presenta esto como una doctrina filosófica, sino bajo la forma de una leyenda recibida por él de algunos sacerdotes y sacerdotisas, es decir, de gentes que conocen lo que es lo divino.”
“Este mito se desarrolla de un modo brillante en otros diálogos. Es siempre, evidentemente, el mismo sentido usual del recuerdo, según el cual el espíritu del hombre ha visto en el pasado lo que ahora se revela a su conciencia como algo verdadero, que es en y para sí. Pero, aquí, Platón se esfuerza fundamentalmente en demostrar, mediante esta tesis de la reminiscencia, que el espíritu, el alma, el pensamiento son libres en y para sí; y esto, entre los antiguos y principalmente en la representación platónica, guarda una relación directa con lo que nosotros llamamos la inmortalidad del alma.”
“En el Fedro (p. 245 Steph.; p. 38 Bekk.) habla Platón de esto, para demostrar que el eros es una divina locura que nos ha sido dada para nuestra mayor dicha. Trátase de un entusiasmo que entraña una poderosa orientación hacia la idea, tan fuerte que lo domina todo: pero no entusiasmo del pecho y de la sensación, no una intuición, sino una conciencia y un saber de lo ideal.”
“Para Platón la inmortalidad del alma se halla directa e indisolublemente relacionada con el hecho de que el alma es, de suyo, [cabe sí!] lo pensante; por donde el pensamiento no es una cualidad del alma, sino su sustancia. Ocurre como con el cuerpo, en que la gravedad no es tampoco una cualidad, sino su sustancia: así como el cuerpo deja de existir si se le quita la gravedad, el alma ya no existe cuando cesa en ella el pensamiento.” “Así, la inmortalidad no tiene, en Platón, el interés que tiene para nosotros desde un punto de vista religioso (…) en él, se halla relacionada más bien con la naturaleza del pensamiento, con esta libertad interior del mismo”
“Se parece el alma a una fuerza nacida en dos: en un tronco de alígeros caballos y en un cochero.”
“Un alma total tiene a su cuidado todo lo inanimado, hace la ronda en todo el cielo y nace en diversas partes con diversas formas visibles. Cuando está en forma perfecta y alada, marcha por las alturas y gobierna todo el universo; mas cuando se le caen las alas, va atraída hasta que se apodere de ella algo sólido. Ahí pone casa, toma térreo cuerpo que parecerá moverse a sí mismo en virtud de la fuerza del alma; a este conjunto total de alma y cuerpo compacto se le dio el nombre de viviente y recibió el apelativo de mortal.”
HEGEL MUTILA PLATÃO PARA SEUS PROPÓSITOS (no self-service, escolhe apenas o que gosta, não o que seria nutritivo): “Es ésta una gran definición de Dios, una gran idea, que no es, por lo demás, otra cosa sino la definición de los tiempos modernos: la identidad de lo subjetivo y lo objetivo, la inseparabilidad de lo ideal y lo real, es decir, concretamente, del alma y el cuerpo.”
“Ahora bien, al caer en este estado, el alma conserva un recuerdo de lo que ha visto, y cuando contempla algo bello, justo, etc., se deja arrebatar por el entusiasmo. Las alas recobran su fuerza, y el alma, sobre todo la del filósofo, se acuerda de su estado anterior, en el que no contempló simplemente algo bello, algo justo, etc., sino la belleza y la justicia misma.”
“Pero cuando Platón habla de la ciencia como de un recuerdo, lo hace con la conciencia expresa de que esto no pasa de ser símiles y metáforas; no como los teólogos, quienes tomaban muy en serio la pregunta de si el alma habría tenido una existencia anterior a su nacimiento, y dónde. (…) ni se refiere tampoco a una caída de un estado perfecto, como si el hombre hubiese de considerar esta vida como una prisión, etc., sino que lo que Platón expresa como lo verdadero es que la conciencia es en él mismo, en la razón, la esencia y la vida divinas, que el hombre la contempla y conoce en el pensamiento puro y que este conocimiento es, precisamente, esta misma estancia y este mismo movimiento divinos.”
“Lo que en el Fedro aparece nítidamente deslindado como mito y como verdad, no aparece del mismo modo en el Fedón, el famoso diálogo en que Platón hace hablar a Sócrates de la inmortalidad del alma. Siempre se ha considerado como algo verdaderamente admirable el hecho de que Platón anude esta investigación a la historia de la muerte de Sócrates.”
“al hombre que va a morir es al que mejor que a nadie le cuadra ocuparse de sí mismo en vez de pensar acerca de lo general, de esta certeza de sí mismo, como de un éste concreto, en vez de ocuparse de la verdad. Por eso, aquí vemos cómo se separan menos que en parte alguna los caminos de la representación y del concepto; sin embargo, la representación con que aquí nos encontramos dista mucho de descender hasta ese nivel de tosquedad en que se representa el alma como una cosa y en que se pregunta, como si se tratara, en efecto, de una cosa, por su duración o su existencia.”
“una armonía que escuchamos no es otra cosa que un algo general, un algo simple, formado por la unidad de elementos distintos; pero esta armonía se halla vinculada a una cosa sensible y desaparece con ella, como la música de la lira al desaparecer este instrumento.(…) La armonía sensible presenta, además, distintos grados de afinación y, en cambio, la armonía del alma no revela ninguna diferencia cuantitativa.”
“Por lo que se refiere ahora a la educación y formación del alma, es éste un punto que guarda relación con lo anterior. Es necesario, sin embargo, no concebir el idealismo de Platón como un idealismo subjetivo, como aquel idealismo malo que, sin duda, se presenta en los tiempos modernos, como si el hombre no fuese capaz de aprender nada ni fuese determinado exteriormente, sino que todas las representaciones emanasen del sujeto.”H. pensa que está se referindo a Kant, mas não está.
Sobre o conteúdo do parágrafo acima referente unicamente à formação do filósofo em Platão: há um Estado em que essa formação é facilitada, mas esse Estado nunca aconteceu historicamente (e não estamos aqui repetindo Platão, afirmando que até sua Atenas isso não ocorrera – estamos dizendo que nenhum Estado-nação moderno o logrou). A República de Platão é este Estado.
“Esta noción, según la cual el saber viene íntegramente de fuera, aparece sostenida en los tiempos modernos por ciertos filósofos empíricos completamente abstractos y toscos, quienes han afirmado que todo lo que el hombre sabe de lo divino lo sabe por obra de la educación y del hábito y que el espíritu no es, por tanto, sino una posibilidad totalmente indeterminada. El punto extremo de esto es la doctrina de la revelación, según la cual todo es infundido desde fuera.” Já aqui H. fala de forma tão áspera que só posso imaginar que se refira aos ingleses e escoceses, e não a Kant, sem sequer dar-se ao trabalho de citar nomes!
AUTOJUSTIFICATIVA DE H. SE DECLARAR UM CALVINISTA: “En la religión protestante, no existe esta tosca noción, por lo menos de este modo abstracto; la fe requiere aquí, esencialmente, el testimonio del espíritu, es decir, que el espíritu subjetivo individual, en y para sí, contenga y establezca de suyo esta determinación, que sólo se le inculca bajo la forma de un algo exteriormente dado.”
DE VOLTA AO VII DA REPÚBLICA:“La razón enseña que en cada cual vive la capacidad inmanente de su alma y el órgano por medio del cual aprende. En efecto, como si el ojo sólo fuese capaz de volverse de las sombras a la luz con todo el cuerpo, así debe volverse el hombre con todo el alma de lo que acaece hacia el ser, hasta que sea capaz de resistirlo y contemplar la suprema claridad del ser.”
“El equívoco está en que un contenido no es el verdadero por el mero hecho de que se incorpore a nuestro sentimiento. Por eso, la gran enseñanza de Platón consiste en sostener que el contenido sólo se llena a través del pensamiento, puesto que es lo general, que sólo puede captarse mediante la actividad del pensamiento. Este contenido general es precisamente lo que Platón determina como la idea.” Feuerbach se sentiria devastado caso H. fosse vivo e o rebatesse com este parágrafo.
“La otra especie, [la de lo pensado en el alma misma] es aquélla en que el alma parte de una hipótesis y recorre el camino hasta un principio libre de toda hipótesis, sin necesitar de las imágenes como en el primer caso y procediendo únicamente mediante las ideas mismas”
“Aquellas figuras que los geómetras dibujan y describen y que se reproducen también ya en su sombra ya en las aguas, las emplean como otras tantas imágenes y tratan de conocer por ellas los originales, que sólo pueden ser vistos por medio de la inteligencia.”
mundo verdade, mundo-vedado.
Acima da ciência baconiana, o axioma; acima do axioma, a ontologia sábia.
Conhecimento que necessite e possa ser provado é um degrau muito inferior quando o assunto é Primeira Filosofia. Quando notamos a importância que os geômetras gregos tinham para Platão, notamos por que a matemática não pode ser considerada uma ciência moderna, embora seja o protótipo para todos os campos empíricos da atualidade. Além das formas e figuras abstratas, entretanto, jaz o que só aqueles capacitados para explorar o mundo-verdade podem acessar. É por isto que a comunicação do filósofo, do saber, não existe, a rigor, com os mortais (aprendizes); eles só podem se comunicar entre si, e quem queira se comunicar com eles deve se elevar. O legado deles é meramente para almas gêmeas, nunca para ‘o populacho’. Eles não enriquecem o mundo, quer dizer, pelo menos não diretamente.
ESCADA DO MUNDO-VERDADE À PURA REPRESENTAÇÃO:“— Comprendo algo, pero no lo bastante. Me parece que quieres afirmar que el conocimiento que de los seres inteligibles se adquiere por la dialéctica es más claro que el que se adquiere por medio de aquellas ciencias para las cuales las hipótesis son principios y están obligadas a valerse de la inteligencia y no de los sentidos, pero, como especulan a partir de supuestos y no se elevan hasta el principio absoluto, parece que no se da en ellas el pensamiento que se daría si se tratase de entes pensados según un principio. Me parece que llamas intelectivo al modo de proceder de la geometría y de las ciencias afines a ella, y de tal modo que ocupa un lugar intermedio entre la razón y la representación.
— Has comprendido perfectamente mi pensamiento. Con arreglo a estas 4 distinciones, indicaré ahora cuáles son las 4 maneras de comportarse del alma: el pensamiento comprensivo tiende a lo supremo; la inteligencia a lo segundo; lo tercero se llama fe [onde estaria o método científico moderno no nosso esquema], la última es el saber figurado [la opinión]. Ordénalas según su mayor o menor evidencia, según que sus objetos participen más o menos de la verdad.”
“Los antiguos daban a la lógica el nombre de dialéctica, cuya incorporación atribuyen expresamente a Platón los antiguos historiadores de la filosofía. No se trata de una dialéctica como la que vimos más arriba, al tratar de los sofistas, que sirva para embrollar todas las representaciones, sino que esta primera rama de la filosofía platónica es la dialéctica que se mueve a través de conceptos puros”
Engraçado como até agora As Leis não estão nem en passant no escopo das lições de H.! P.S.: E realmente ficaram de fora, como se fosse obra não-canônica!
“El Timeo completábase con el Critias en el sentido de que mientras el primero trataba del origen especulativo del hombre y de la naturaleza, el Critias pretendía ofrecer la historia ideal de la formación del hombre, una historia filosófica del género humano, que era lo que aspiraba a ser la historia antigua de los atenienses, tal y como se conservaba entre los egipcios; pero sólo la primera parte de este diálogo ha llegado a nosotros. Si a La República y el Timeo añadimos el Parménides, tenemos en estos diálogos juntos, en realidad, todo el cuerpo de la filosofía platónica.”
PREVENÇÕES CONTRA O NIILISMO (Emergindo do reino das sombras): “Por eso Platón, en su República VII, aconseja que los ciudadanos sólo sean admitidos a la dialéctica a los 30 años cumplidos, ya que alguno podría convertir por su medio en algo ignominioso las cosas bellas escuchadas a los maestros.”
DEPOIS QUE O PUPILO JÁ SE ACOSTUMOU À CLARIDADE: “Lo general se determina, por tanto, como aquello en que se disuelven y se han disuelto ya las contradicciones y, por tanto, como lo concreto de suyo; por donde este levantamiento [suspensão] de las contradicciones es lo afirmativo.”
“Esta dialéctica especulativa, que arranca de él, es, por tanto, lo más interesante, pero también lo más difícil en las obras de Platón; es, así, lo que generalmente no se llega a conocer cuando se estudian las obras de este autor.” Especulativo é um nome horrível que está manchado, para um processo tão nobre!
SAPO NO TENNEMANN: “Apenas puede concebirse mayor ausencia de espíritu en un historiador de la filosofía, que el no ver, tratándose de una figura tan gigantesca como ésta, sino lo que concuerde con el modo de ver de quien hace la historia.”
“La grandeza verdaderamente especulativa de Platón, aquello por lo que hace época en la historia de la filosofía y, por tanto, en la historia universal, consiste en haber determinado y precisado lo que es la idea: este conocimiento estaba llamado, en efecto, a ser, a la vuelta de algunos siglos, el elemento fundamental en la fermentación de la historia universal y en la nueva estructuración del espíritu humano.”
CONSTRUÇÃO DO MUNDO-VERDADE NO SEIO DO MUNDO DAS APARÊNCIAS:“[Platão,] en general, concibe lo absoluto como la unidad del ser y el no-ser en el devenir, según dice Heráclito, como la unidad de lo uno y lo múltiple. Además, Platón incorpora a la dialéctica objetiva de Heráclito la dialéctica eleática, que consiste en la acción exterior del sujeto encaminada a poner de manifiesto la contradicción, de tal modo que la mutabilidad externade las cosas es sustituida ahora por su trueque interior en sí mismas, es decir, en sus ideas, que son, aquí, sus categorías.” “Los sofistas limítanse a considerar lo fenoménico, cuya sede es la opinión: también ellos toman, pues, como base evidentemente pensamientos, pero no los pensamientos puros o lo que es en y para sí. § Es éste uno de los motivos que hacen que algunos salgan insatisfechos del estudio de las obras platónicas. Cuando comienza uno a leer uno de estos diálogos, encuentra en esta manera libre de expresarse de Platón bellas escenas naturales, una maravillosa introducción que promete guiarnos a la filosofía —a la más alta de todas, a la filosofía platónica— a través de praderas cubiertas de flores. Descubrimos aquí cosas sublimes, cosa de la que gusta siempre mucho la juventud; pero esta primera impresión no tarda en desaparecer.”Hahaha, estranha coincidência com a crítica que Platão põe na boca de Sócrates sobre o nous de Anaxágoras!
“al llegar al campo de lo verdaderamente dialéctico y especulativo, el lector tiene que marchar por ásperos y empinados senderos, dejándose pinchar por las espinas de la metafísica.”
“De las más profundas investigaciones dialécticas, Platón pasa de nuevo a las representaciones y las imágenes, a la pintura de escenas en que aparecen dialogando unos cuantos hombres sutiles e ingeniosos: tal, por ejemplo, en el Fedón, modernizado por Mendelssohn y convertido en metafísica wolffiana; el comienzo y el final de este diálogo son hermosísimos, sublimes, mientras que en el cuerpo central impera la dialéctica.”
AH, O AGRIDOCE!“Así, pues, para recorrer los diálogos de Platón tienen que darse estados de espíritu muy heterogéneos y quien se entregue al estudio de ellos debe dar pruebas de una gran independencia de espíritu ante los diversos intereses. Quien lea estos diálogos movido exclusivamente por el interés de la especulación, pasará por alto lo que pasa por ser lo más bello; en cambio, quien proceda tan sólo por el interés de elevarse a lo sublime, por motivos edificantes, etc., omitirá lo especulativo, como algo inadecuado a su interés. Le ocurre a uno como a aquel joven de la Biblia que había hecho esto y lo otro y que preguntaba a Cristo qué debía hacer para seguirle. Pero, cuando el Señor le ordenó: despréndete de tus cosas y entrégalas a los pobres, el joven se retiró triste y cariacontecido, pues no era aquello lo que él había creído que debía hacer. Lo mismo les ha ocurrido a muchos con la filosofía: se han dedicado a estudiar a Fries¹ y Dios sabe a quién más. Sienten el pecho rebosante de lo verdadero, lo bueno y lo bello, querrían conocerlo y poder contemplar lo que debe hacer el hombre; pero de lo que su pecho está rebosante es sólo de buena voluntad.”
“cuando Platón habla de la justicia, de lo bello, de lo bueno o de lo verdadero, no muestra sus orígenes; esas ideas no aparecen como una conclusión, sino como una premisa directamente establecida.” Com efeito, Platão é tão à frente de seu tempo que hoje só podemos entendê-lo usando filósofos modernos de prefácio!
“los diálogos (…) más difíciles de todos: nos referimos al Sofista, al Filebo y, sobre todo, al Parménides. [e não esqueça do Timeu]” “La condensación de las contradicciones en la unidad y la proclamación de esta unidad no aparecen en el Parménides, el cual llega, por tanto, al igual que aquellos otros diálogos, a un resultado más bien negativo. En cambio, esta unidad aparece proclamada claramente en el Sofista y también en el Filebo. § No obstante, la verdadera dialéctica, tal como queda esbozada, se contiene en el Parménides, la más famosa de las obras maestras de la dialéctica platónica.”
“PARMÉNIDES: Observo que tú, al igual que Aristóteles, te ejercitas, platicando, en determinar dónde reside la naturaleza de lo bello, de lo justo, de lo bueno y de cada una de estas ideas. Este intento tuyo es bello y divino. Pero procura extenderte y ejercitarte más aún en estos al parecer inútiles juegos de palabras, como las gentes los llaman, mientras seas aún joven, pues de otro modo se te escapará la verdad.
SÓCRATES: ¿En qué consiste esta clase de ejercicios?
PARMÉNIDES: Me gustó ya de ti el que dijeses antes que no se debía uno detener en el examen de lo sensible y de sus ilusiones, sino fijarse en aquello que sólo capta el pensamiento, lo único que es.”
“en el devenir se contienen en inseparable unidad el ser y el no ser; y, sin embargo, aparecen aquí, al mismo tiempo, como cosas distintas, pues el devenir sólo existe cuando lo uno se trueca en lo otro.”
O UM É A LUZ (ONDA E PARTÍCULA): “no devir se contêm em inseparável unidade o ser e não-ser; e, no entanto, aparecem aqui, ao mesmo tempo, como coisas distintas, pois o devir só existe quando o um permuta com o outro.”
Hegel se embaralha metendo Deus no bagulho do Um!
O único espelho do mundo é o mundo mesmo.
Portanto, desça do púlpito e volte ao mundo-verdade verdadeiro!
Perceba o que deixaste para trás na primeira olhada abstrato-panorâmica do cenário!
“Platón refuta, de este modo, de una parte lo sensible y, de otra parte, las ideas mismas.”
“La primera de estas concepciones es la que más tarde se llamará materialismo, a saber: que lo sustancial no es otra cosa que lo corporal y que sólo tiene realidad lo que puede tocarse con las manos, como los árboles y las piedras.” “Lo segundo contra lo que se manifiesta Platón es la dialéctica de los eléatas y su tesis (…) sólo el ser es; el no ser no es, en absoluto.” H. o diz porque não compreendeu Parmênides.
“En el Filebo investiga Platón la naturaleza del placer. El problema principal que aquí se plantea es el de la antítesis entre lo infinito y lo finito, o entre lo ilimitado y lo limitativo.” “Lo infinito es lo carente de forma; la forma libre como actividad es lo finito, que encuentra en lo infinito la materia para realizarse. De este modo, Platón determina el placer de los sentidos como lo ilimitado, que no se determina; sólo la razón es la determinación activa.”
“Platón maneja, pues, 4 determinaciones: la 1ª es lo ilimitado, lo indeterminado; la 2ª lo limitado, la medida, la proporción, de que forma parte la sabiduría; la 3ª, la mezcla de las 2 anteriores, el producto; la 4ª, la causa. Ésta es, en sí misma, la unidad de lo distinto, la subjetividad, el poder sobre las contradicciones, lo que tiene la fuerza para soportar las contradicciones dentro de sí; sólo lo espiritual tiene esta fuerza para soportar dentro de sí la contradicción, la suprema antítesis: lo corporal débil perece tan pronto se ve abordado por otro factor más fuerte.”Este é realmente o diálogo mais truncado de ler, dentre os não-matemáticos!
“Cuando Platón habla, en estos términos, de lo bello y lo bueno, se trata de ideas concretas; o, mejor dicho, de una idea solamente. Pero, para llegar a estas ideas concretas, hay todavía un gran trecho que recorrer, si arrancamos de abstracciones tales como el ser, el no-ser, la unidad, la pluralidad. Ahora bien, aunque Platón no desarrolle estos pensamientos abstractos, devanando la madeja [o emaranhado] más y más hasta llegar a la belleza, la verdad y la moralidad, ya en el conocimiento de aquellas determinaciones abstractas se contienen, por lo menos, el criterio y la fuente de lo concreto. § El Filebo nos ofrece, pues, esta transición a lo concreto, al exponerse aquí el principio de la sensación, el principio del placer.” Esclarecimentos paupérrimos de sua parte, H.. Aposto que encontrá-los-ei aperfeiçoados nos comentários de minha própria tradução ao Filebo de janeiro do ano passado! Cf. https://seclusao.art.blog/2020/01/07/filebo-ou-dos-prazeres-da-inteligencia-e-do-bem/
“Mucho fue lo que Platón tomó de los pitagóricos, aunque no sea posible discernir hoy, exactamente, cuánto pertenece a sus predecesores y cuánto fue puesto por él de su propia cosecha. Ya hubimos de observar que el Timeo es, en rigor, la refundición de una obra compuesta por un pitagórico. Es cierto que algunos intérpretes excesivamente agudos han dicho que este diálogo es sólo un extracto hecho por un pitagórico de una obra más extensa de Platón; pero la primera hipótesis es la más probable. § El Timeo ha sido considerado siempre como el más difícil y oscuro de los diálogos platónicos. Sus dificultades y oscuridades estriban, en parte, en la mescolanza externa, ya observada, del conocer comprensivo y el representarse, y en seguida veremos cómo se mezclan en el diálogo los números pitagóricos” “lo que en seguida llama nuestra atención es que Platón interrumpa varias veces el hilo de su exposición y, a veces, parezca volver atrás y empezar de nuevo por el principio. Esto ha movido a ciertos críticos, por ejemplo al mismo Augusto Wolf y a otros que no saben abordar el problema filosóficamente, a ver en el Timeo un conglomerado y una compilación de fragmentos o de varias obras distintas, compaginadas tan sólo desde un punto de vista externo, o donde aparecen incorporados a la obra platónica muchos elementos extraños.” “Sin embargo, aunque la ilación de la obra no sea muy metódica (y el propio Platón da, de vez en cuando, disculpas al lector por estas complicaciones), hemos de ver, en su conjunto, cómo el desarrollo del tema sigue, aquí, un curso necesario y cuál es el profundo fundamento interior que impone, varias veces, el retorno al punto de partida.”
AFUNDA DO NADA NA TEOLOGIA / A FUNDA NO NADA DA TEOLOGIA (Prepare-se para imergir na floresta amazônica de citações verdes por um tempo)!“Eso de que Dios no conoce la envidia es, evidentemente, un pensamiento grande, bello, verdadero y candoroso.” “El pensamiento platónico, en este punto, raya a mayor altura que la concepción de la mayoría de los pensadores modernos, quienes, al decir que Dios es un Dios abscóndito, un Dios no revelado, del cual, por tanto, no es posible saber nada, atribuyen también a la divinidad el atributo de la envidia.” “Pero esta humildad es un crimen y un pecado contra el Espíritu Santo.”
“‘Como el universo había de ser corpóreo, visible y tangible, y sin fuego no es posible ver nada, ni sin algo sólido, sin tierra, no es posible tocar nada, Dios creó antes de nada el fuego y la tierra.’ Véase de qué modo tan simplista introduce Platón estos extremos de lo sólido y lo animado. ‘Pero dos cosas solas no pueden unirse sin una tercera, sino que tiene que existir un nexo entre ellas que las mantenga en cohesión’—es ésta una de las expresiones puras de Platón—; ‘ahora bien, el más bello de los nexos es aquel que se convierte en suprema unidad a sí mismo y, con él, a lo que mantiene unido.’ Es éste un juicio muy profundo, en el que va implícito el concepto; el nexo es lo subjetivo, lo individual, el poder que trasciende sobre lo otro y se identifica con ello.”Ok, me lembrem depois que nunca mais devo usar H. como guia de leitura novamente! De fato, H. emulará esse estilo por toda sua obra clássica que publicou em vida…
“Al convertirse la del centro en la primera y en la última y la última y la primera, a su vez, ambas en centrales, tendremos que todas ellas son necesariamente la misma; ahora bien, si se convierten en la misma, todas ellas serán una.” Ok, hora de ir para o quarto!
“Esta dirección de que Platón parte es una conclusión que conocemos de la lógica; se presenta bajo la forma de un silogismo corriente, pero en el que se contiene, por lo menos externamente, toda la racionalidad de la idea.”
HEGELICES & CABALAGENS, CABALICES & HEGELAGENS:“Es ilícito,¹ por tanto, hablar mal de la conclusión y no reconocerla como la forma absoluta suprema;² en cambio, hay razón para rechazar la conclusión intelectiva.³”
¹ E vai fazer o quê, me prender?
² Esse é o tipo de coisa que fazia de H. um priápico de primeira linha!
³ H. sempre refuta (simplesmente alega que é ilícito) tudo aquilo que não pode acoplar a seu sisteminha ESTATAL…
ZZZZZZZ: “Es así como los Padres de la Iglesia descubren en Platón la idea de la Trinidad, que se esfuerzan en captar por medio del pensamiento y en probarla; en realidad, la verdad responde, en Platón, a la misma determinación que la Trinidad. Pero, desde Platón, estas formas permanecieron baldías por espacio de 2 mil años, pues no se incorporaron a la religión cristiana como pensamientos; más aún, se las vio como nociones recibidas sin razón alguna, hasta que en estos últimos tiempos se ha comenzado a comprender que en estas determinaciones se encierra un concepto y que de este modo es posible llegar a conocer la naturaleza y el espíritu.” “y el número 4, que aquí aparece, es un número fundamental en la naturaleza.”
“Podríamos, pues, poner de manifiesto en estas representaciones la confusión en que Platón incurre; pero no es eso lo que interesa aquí, sino simplemente hacer ver qué es lo que él reputa como lo verdadero.” Sí, pues lo que interesa acá es refrendar mi punto de vista!
“Cuando nosotros decimos: ‘Dios, lo absoluto, es la identidad de lo idéntico y de lo no idéntico’, hay quien pone el grito en el cielo clamando ¡barbarie!, ¡escolasticismo! Gentes que hablan en este tono tan despectivo son capaces de poner por las nubes a Platón; y, sin embargo, éste determina del mismo modo lo verdadero.”
“Dios, mezclando lo idéntico y lo otro con la esencia y haciendo de los tres uno, divide de nuevo este todo en partes, en tantas como juzga conveniente.”
“Ahora bien, el modo de clasificación de esta subjetividad contiene los famosos números platónicos, cuyos orígenes han de buscarse, sin duda alguna, en los pitagóricos, en torno a los cuales han desplegado grandes esfuerzos los pensadores antiguos y los modernos e incluso el propio Keplero, en su Harmonía mundi, pero sin que nadie llegase a comprenderlos exactamente.” Convenhamos: nem os pitagóricos entendiam a si mesmos, trabalho inútil aqui!
“El estudio más a fondo que acerca de él poseemos es el de Böckh, Über die Bildung der Weltseele im Timäos des Platón, que figura en el tomo tercero de las investigaciones de Daub y Creuzer (pp. 66ss ).” NÃO, OBRIGADO.
“pasamos por alto, aquí, cómo determina las figuras de los elementos y las combinaciones de los triángulos” Agradecido!
“Se ha querido hacer de Platón el santo patrono de los estados de entusiasmo y arrobamiento; pero ello es, como vemos, completamente falso.” Platão atribui as adivinhações e as profecias apenas à parte ‘má’ do organismo, a jocosa, a excretória, particularmente o fígado, na anatomia de seu tempo; daí a fascinação da consulta às vísceras de animais, entre os antigos, e, em todos os tempos, a fascinação pelos padrões aleatórios e gesltálticos (mais propriamente falta de qualquer padrão) das borras do café, etc.
(RE)VOLTANDO À REPÚBLICA: “y reconocía y proclamaba que la naturaleza moral (la libre voluntad en su carácter racional) sólo podía llegar a imponer sus derechos y cobrar realidad dentro de un verdadero pueblo.” O qual ainda não presenciamos na Terra.
Obviamente, aqui começa a exposição a dos erros de H. a olho nu, confundindo eternamente cultura e natureza, principalmente o estado de natureza ou direito natural, concepções arbitrárias e no entanto universais no tempo de H.. Naturalizando (fetichizando, Marx) o Estado jurídico-moderno, imaginando a natureza enquanto oposto da cultura letrada e filistéia exatamente como esse puro arbitrário e negativo pertencente aos primórdios do homem (sempre uma inferência nesses autores, sem qualquer base) que em realidade já vemos hoje como o próprio jogo de forças inútil e paralisante dos Estados-nações. H. serve no máximo como cura de um ultra-romantismo desenvolvido após a leitura descuidada de Rousseau, mas sua Teoria do Estado chega a ser tão fabulosa quanto qualquer outra meta-narrativa antitética do período.
“Estamos acostumbrados a partir de la ficción de un estado natural, el cual no es, en realidad, un estado del espíritu, de la voluntad racional, sino de los animales entre sí. Por eso Hobbes observaba, con razón, que el verdadero estado de naturaleza es la guerra de todos contra todos.”Como pode demonstrar tamanha lucidez ao mesmo tempo em que diz que o que vê (um número 4 gigantesco!) é tudo menos aquilo que vê (um 5 indesmentível)?!? Pois é isso que Hegel faz nessa passagem: reconhece que o estado natural é mero folclore, mas dá razão ao folclorista Hobbes! Animais não vivem em guerra; a cadeia alimentar não pode ser comparada ao instituto-cultura humano(a) do conflito organizado. Essa analogia é desastrosa. Nada há de qualitativamente diferente entre o homem pré-histórico e nós. A estrondosa ingenuidade hegeliana se torna mais palpável quando se percebe seus 2 componentes principais: um biologismo rústico aplicado a um humanismo muito mal-concebido e distorcido (excessivamente confiante no Direito, no direito burguês, que é o mesmo que cria a ilusão do indivíduo livre, que ele tanto ataca como concepção desviante da legitimidade coletiva do Estado!), posto que estruturado à imagem e semelhança daquele primeiro, ainda que, nas piruetas sucessivamente negadoras do ‘Espírito’, pareça sua brilhante correção, i.e., o contrário.
“Por eso se ha formulado acerca de La República de Platón el juicio de que su autor traza en ella el llamado ideal de una constitución política, que queda luego como un sobrenombre proverbial, en el sentido de que esta concepción no pasa de ser una quimera, que puede, sin duda, pensarse y que sería también, tal como Platón la describe, excelente y verdadera, e incluso realizable, pero sólo a condición de que los hombres fuesen excelentes, como tal vez puedan serlo en la luna, pero no como son los de la tierra, con respecto a los cuales es irrealizable.” Esse juízo de H. é correto: realmente é assim que a República é vista genericamente; e claro está que não pode ser chamado de um tratado político (empírico), muito menos ainda de uma projeção de um ESTADO IDEAL! Esse é, porém, um preconceito entranhado demais para se desfazer a essa altura. Enxergá-lo como um tratado ético do e para o filósofo, sem para isso tocar em nada que seja do Estado, é o mais raro entre nós.
HEGEL MIRAVA NOUTRO ALVO QUANDO ACERTOU COM A DESCRIÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA ATUAIS:“Aunque este tipo de hombre se dé en los monjes o en los cuáqueros o en otras gentes piadosas por el estilo, un puñado de hombres de éstos jamás sumará un pueblo, del mismo modo que los piojos o las plantas parasitarias no pueden existir por sí solos, sino solamente adheridos a un cuerpo orgánico. Si tales gentes constituyeran un pueblo, se acabarían esa mansedumbre de cordero, esa vanidad que no sabe ocuparse más que de la propia persona y del cuidado de ella, teniendo siempre delante la imagen y la conciencia de su propia bondad.”
“Por consiguiente, La República de Platón sería una quimera, no porque la humanidad no fuese demasiado buena para ella, sino porque esta bondad de los hombres sería excesivamente mala para ese ideal.” “La superficie de lo moral, la conducta de los hombres, deja mucho que desear, mucho en ella podría ser mejor; los hombres serán siempre viciosos y corrompidos, pero eso no es la idea.” “Lo temporal, lo perecedero, existe, indudablemente, y no cabe duda de que puede ser fuente de grandes problemas y dificultades; pero, a pesar de ello, no se trata de una verdadera realidad, como no lo son tampoco la particularidad del sujeto, sus deseos y sus inclinaciones.”
“Por lo que a esta observación se refiere, debe tenerse presente la diferencia que más arriba señalábamos, [incrivelmente parece que não foi uma total perda de tempo toda aquela exposição do Timeu!] al tratar de la filosofía platónica de la naturaleza: el mundo eterno, como el Dios bienaventurado en sí, es la realidad, no en el más allá, no en la otra vida, sino en el mundo presente considerado en su verdad, y no del modo que se ofrece a los sentidos de quienes lo ven, lo escuchan, etc. Si consideramos así el contenido de la idea platónica, veremos que Platón expone, en realidad, la moralidad de los griegos en su modo sustancial, pues es la vida del Estado griego¹ y no otra lo que forma el verdadero contenido de La República de Platón. Platón no es hombre que se pierda en teorías y principios abstractos; su espíritu verdadero sabe reconocer y exponer lo verdadero.”
¹ Só um ligeiro corretivo: a vida dos espartanos, no máximo.
“Nadie puede saltar por encima de su tiempo; el espíritu de su tiempo es también su espíritu; pero de lo que se trata es de reconocerlo con arreglo a su contenido.”
“Los hombres no permanecen tal y como son, sino que cambian, se hacen de otro modo: y lo mismo acontece con sus constituciones; se trata de saber cuál es la verdadera constitución que se debe dar a un pueblo, como se trata, en otro orden de cosas, de saber cuál es la verdadera ciencia de la matemática u otra cualquiera, y no de si los niños o los muchachos deben poseer ahora esta ciencia, ya que antes de nada es necesario educarlos para que sean capaces de asimilársela.
Así, pues, el pueblo histórico hace surgir siempre la verdadera constitución, la que cuadra a sus necesidades. Con el transcurso del tiempo todo pueblo tiene que someter su constitución vigente a los cambios necesarios para ponerla cada vez más a tono con la verdadera.”
“Cuando el en sí, que la constitución le presenta como verdadero, ya no es verdad, cuando son distintos su conciencia o el concepto y su realidad, el espíritu del pueblo se convierte en una esencia desgarrada y dividida. Pueden, entonces, ocurrir 2 cosas: o que el pueblo rompa, con una explosión interior y más poderosa, este derecho que se empeña en seguir rigiendo o que vaya modificando, tranquila y lentamente, el derecho, la ley vigente, cuando dejan de corresponder a la verdadera costumbre, cuando el espíritu se sale ya de sus marcos. O bien que no tenga la inteligencia y la fuerza necesarios para ello, sino que siga ateniéndose a la ley inferior, o que otro pueblo haya alcanzado una constitución superior, haciéndose con ello un pueblo mejor, en cuyo caso aquél dejará de ser un pueblo y tendrá, necesariamente, que sucumbir ante éste.” Torçamos para que o Brasil (um não-povo) seja anexado por um povo melhor! Aqui temos que relativizar qualquer implicação de “destino manifesto” do historicismo hegeliano…
“las instituciones desaparecen, se pierden, no se sabe cómo: cada cual se resigna a la suerte de ver cómo se pierden sus derechos. Y el gobierno debe saber cuándo ha llegado ese momento; si, ignorando lo que es la verdad, se aferra a las instituciones temporales, si toma bajo su protección lo que rige de un modo no esencial frente a lo esencial (y lo que esto es va implícito en la idea), llegará un momento en que caerá bajo los embates incontenibles del espíritu, y la desintegración del gobierno hace que se desintegre el propio pueblo: surge un nuevo gobierno, o bien se imponen el gobierno anterior y lo no esencial.”
“La determinación que se enfrenta a esta actitud sustancial de los individuos ante la costumbre es la libre voluntad subjetiva de los individuos, la ética, es decir, el que los individuos no obren movidos del respeto y el temor a las instituciones del Estado, de la patria, sino por su propia convicción, adoptando una decisión, después de haber meditado éticamente, y obrando en consecuencia.”
“Pues bien, Platón supo captar y concebir el verdadero espíritu de su mundo y desarrollarlo con arreglo al preciso criterio de hacer imposible este nuevo principio en su República. Platón abraza, pues, un punto de vista sustancial, en cuanto toma como base lo sustancial de su tiempo; sin embargo, ese punto de vista sólo es relativamente sustancial, ya que es solamente un punto de vista griego y el principio posterior es conscientemente postergado.” Indefinidamente.
“Platón no predica moral; limítase a poner de relieve cómo lo moral arraigado en las costumbres vive y se mueve dentro de sí mismo; pone de manifiesto, por tanto, sus funciones, sus entrañas.”
“Enumera 3 estamentos: a) el de los gobernantes, los sabios, los instruidos; b) el de los guerreros; c) el de los que se dedican a satisfacer las necesidades, o sean los agricultores y los artesanos.”
“Al primer estamento da también Platón el nombre de los guardianes; son los estadistas, de formación esencialmente filosófica, los depositarios y poseedores de la verdadera ciencia; los guerreros aparecen a su lado como ejercicio [exército?], pero de tal modo que no se separen el estamento civil y el militar, sino que ambos aparezcan unidos, siendo los guardianes los más antiguos.” Raro caso em que um militar se torna algo melhor no futuro, e não o contrário, pois bate continência ao seu superior!
“En seguida, Platón pasa a exponer una serie de normas de detalle, algunas de ellas bastante mezquinas y de las que habría sido mejor que hubiese prescindido: así, por ejemplo, establece incluso títulos especiales para el primer estamento, habla de cómo deben comportarse las amas, etc.”Ora, Hegel! Mas este é o espírito grego – o que você queria que ele descrevesse? Comércio exterior? Vida monacal? Também não sei sobre a Prússia dos 1700, mas até para o proto-feminista Platão as amas deveriam ser educadas como qualquer outro cidadão!
DAS QUATRO VIRTUDES
A primeira virtude da República, obviamente: a sabedoria, monopólio da minoria no píncaro da formação estratificada.
“La segunda virtud es la valentía, que es, según la define Platón, la firmeza en la afirmación de las opiniones justas y conformes a la ley, sin dejarse llevar de ninguna clase de temores y sin que el fuerte ánimo vacile por las sugestiones de los apetitos o los placeres. Esta virtud es la que corresponde al estamento de los guerreros.” Fecho do Laques, que havia chegado apenas a uma conclusão negativa, no senso hegeliano.
“la templenza [ou terceira virtude] (…) es, además, en rigor, la virtud propia del tercer estamento, del que tiene por cometido satisfacer las necesidades materiales y realizar el trabajo necesario para ello, si bien a primera vista no parece ser la virtud propia de este estamento.” “Pues bien, el trabajo es precisamente este momento de la actividad limitada a lo individual, pero que se retrotrae a lo general y tiende a ello. Por tanto, aunque también esta virtud sea general, tiene su campo especial de acción en el tercer estamento, en el cual sólo debe reinar, de momento, la armonía, aun cuando no se manifieste en él la armonía absoluta que los demás estamentos llevan de suyo.”
“La cuarta y última virtud es la justicia, en torno a la cual gira todo desde un principio. En el Estado, esta virtud consiste (como honradez) en que cada uno se preocupe solamente de una cosa, que se refiere al Estado, para lo que le haga especialmente apto su naturaleza, de tal modo que cada cual se dedique, no a muchas cosas, sino a las que a él le competen: jóvenes y viejos, muchachos y mujeres, libres y esclavos, artesanos, autoridades y gobernados.” “es ella, la justicia, la que infunde a las otras 3, a la templanza, a la valentía y a la sabiduría la fuerza necesaria para que existan y puedan mantenerse.” Sabedoria não é nada sem valentia. Valentia não é nada sem temperança. E temperança não é nada sem justiça.
“De donde se deduce, en segundo lugar, que Platón no entiende por justicia precisamente el derecho de propiedad, como suele entenderse en la jurisprudencia, sino el estado en que el espíritu, en su totalidad, impone su derecho como la existencia de su libertad.”
“Donde se deduz, em 2º lugar, que Platão não entende por justiça precisamente o direito de propriedade, como sói se entender na jurisprudência, senão o estado em que o espírito, em sua totalidade, impõe seu direito como a existência de sua liberdade.”
“Es cierto que también en él nos encontramos con leyes acerca de la propiedad, de la policía, etc.; ‘pero no vale la pena prescribir leyes acerca de esto a hombres bellos y nobles’. Y, en realidad, ¿cómo descubrir leyes divinas acerca de esto allí donde la materia no contiene en sí más que contingencias?”
No momento em que é preciso começar a ensinar que não se devem cometer homicídios, já não há nobreza e justiça no coração dos homens. No momento em que se codificam as horas de lazer e as vestimentas, já nada há. Nem mesmo merece-se o qualificativo de escravo nessa situação.
“¿no se inflama inmediatamente su cólera y no se pone al lado de lo que cree ser justo? Y por más hambre, frío o cualquier otro mal trato que haya de padecer, todo lo padece y no cesa en sus nobles esfuerzos hasta que ha obtenido satisfacción o ha encontrado la muerte, o la razón, siempre presente en nosotros, le ha apaciguado como un pastor tranquiliza a su perro.”
“La cólera corresponde al estamento de los valientes defensores del Estado: cuando éstos, para defender la razón del Estado, echan mano de las armas, la cólera asiste a la razón, siempre y cuando que no se halle corrompida por una mala educación.”
“Tal es, pues, el modo como Platón presenta la disposición del conjunto; el modo como la desarrolla es, simplemente, un detalle carente de interés.”
“¿cómo consigue Platón que cada cual haga su propio ser del asunto que le está destinado y que este asunto se convierta en la actividad y la voluntad morales de los individuos todos; que cada cual abrace, con arreglo a la templanza, el puesto que le corresponde?
Lo fundamental es educar a los individuos para ello. Platón aspira a producir esta costumbre directamente en los individuos y sobre todo en los guardianes, cuya formación es, por tanto, la parte más importante y la base de todo. Estando encomendado a los guardianes precisamente el cuidado de producir esta costumbre mediante la conservación de las leyes, éstas deben preocuparse también, muy especialmente, de la educación de los gobernantes, así como de la de los guerreros. En cambio, al Estado no le preocupa gran cosa lo que ocurra en el estamento de la industria, ‘pues no es ninguna desgracia para el Estado el que los zapateros remendones sean malos y corrompidos y sólo aparenten lo que debieran ser, en realidad’.”
* * *
“En aquel tiempo se empezaba ya, en efecto, a tomar en serio lo relacionado con la fe en Júpiter y en las historias homéricas”
“En una determinada fase de la formación del hombre son inocuas las fábulas infantiles; pero cuando se trata de hacer de ellas la base de la verdad de lo moral, de tomarlas por leyes actuales —como ocurre en los escritos de los israelitas, en el Antiguo Testamento, en la exterminación de los pueblos como pauta del derecho de gentes, en las innumerables infamias cometidas por David, el hombre de Dios, y en las crueldades que el sacerdocio perpetra y hace valer a través de Samuel contra Saúl—, entonces, ha llegado el momento de reducir esas fábulas al papel de algo pasado, de rebajarlas al nivel de algo puramente histórico.”
“Em uma determinada fase da formação do homem são inócuas as fábulas infantis; mas quando se trata de fazer delas a base da verdade do moral, de tomá-las por leis atuais – como ocorre nos escritos dos israelitas, no Antigo Testamento, na exterminação dos povos como pauta do direito das gentes, nas inumeráveis infâmias cometidas por Davi, o homem de Deus, e nas crueldades que o sacerdócio perpetra e faz valer através de Samuel contra Saul –, aí então é chegado o momento de reduzir essas fábulas ao papel de algo passado, de rebaixá-las ao nível de algo puramente histórico.”
“Las costumbres no deben ser independientes de las instituciones; es decir, las instituciones no deben dirigirse simplemente a las costumbres por medio de establecimientos educativos, de la religión, etc. Las instituciones deben considerarse como lo primordial, como aquello que hace nacer las costumbres, ya que éstas no son sino el modo como cobran las instituciones una existencia subjetiva. El propio Platón da a entender hasta qué punto espera encontrar contradictores. Y todavía hoy se suele encontrar como defecto suyo el de ser demasiado idealista: sin embargo, si algún defecto cabe encontrarle es, cabalmente, el de no ser lo bastante idealista.” O que Hegel quer dizer é: Platão tem consciência de que nenhum Estado subsiste historicamente desta forma pela eternidade; há um apogeu, e há uma decadência, por mais que se tente preservar os costumes mediante as instituições, e as instituições espelhadas nos costumes.
“así, se limita a considerar cuál es la mejor organización del Estado, sin preocuparse en lo más mínimo de la individualidad subjetiva.”
“Platón no permite al individuo elegir un estamento, cosa que para nosotros es un postulado inseparable de la libertad. No es, sin embargo, el nacimiento lo que separa entre sí los estamentos y destina a ellos a los individuos: cada cual es examinado por los regentes del Estado, como los más viejos del primer estamento, que son los encargados de educar a los individuos y, según sus dotes y aptitudes naturales, aquéllos se encargan de hacer la selección y clasificación correspondiente, asignando a cada individuo al estamento que, a su juicio, le corresponda. (Rep. III)”
“Como no sirves para nada mejor, te dedicarás a la profesión de artesano.” (guardião)
“Me dedicaré a estudiar.” (pensamento – e liberdade subjetiva – moderno(a))
SEMPRE ESSA PATACOADA LIBERALÓIDE:“No se nos dice, sin embargo, cómo en el desarrollo de la industria tendrán los hombres un incentivo que los mueva a desplegar sus actividades si se les priva de toda esperanza de llegar a adquirir una propiedad privada, toda vez que el hecho de ser una persona activa y laboriosa lleva ya implícita mi aptitud para adquirir propiedad.”
“Por la misma razón, declara Platón abolido, por último, el matrimonio, por ser una unión en que una persona de un sexo se entrega a otra del sexo contrario en permanente vinculación, y ésta a aquélla, incluso al margen de las relaciones puramente naturales. Platón no permite que en su Estado se manifieste la vida familiar—peculiar institución en que la familia es considerada como un todo—, pues la familia no es sino la personalidad ampliada”
“Platón (…) hace que el Estado arrebate a las madres sus hijos inmediatamente después de nacer, los reúna en un establecimiento especial, los nutra por medio de amas salidas de entre las madres que acaban de dar a luz, y los someta a una educación común, de tal modo que ninguna madre pueda reconocer a su propio hijo.”
“La mujer, cuyo destino esencial es la vida de familia, carece aquí de este terreno natural para desenvolverse. Resultado de ello, en La República platónica, es que, al ser abolida la familia y no pertenecer las mujeres a la casa, éstas dejen de ser personas privadas y se vean enteramente equiparadas al hombre como el individuo general dentro del Estado.”
SIM & NÃO: “Lo opuesto al principio platónico es el principio de la libre y consciente voluntad del individuo, principio que más tarde habría de colocarse a la cabeza con Rousseau, y según el cual la libre voluntad del individuo como tal, su afirmación, es algo necesario.”
“lo que es bello en lo sensible es precisamente espiritual. Tal es, en efecto, su idea estética, como su idea en general. Así como la esencia y la verdad de lo que se manifiesta es la idea en general, así también la verdad de lo bello en sus manifestaciones es, precisamente, esta idea.”
“Pero este algo general no conserva tampoco la forma de la generalidad, sino que lo general es el contenido que tiene como forma el modo sensible; y en esto precisamente estriba la determinación de lo bello. En la ciencia, lo general asume de nuevo la forma de lo general o del concepto; lo bello, en cambio, se presenta como una cosa real o como una representación en forma de lenguaje, qué es el modo en que lo real vive en el espíritu. La naturaleza, la esencia y el contenido de lo bello sólo pueden ser conocidos y enjuiciados por la razón, pues se trata del mismo contenido que tiene la filosofía. Pero, como la razón en lo bello [o a priori] se manifiesta también de un modo real, [no fenômeno] tenemos que también lo bello cae bajo el prisma del conocimiento. [sensibilidade]”Só repisa Kant e Schopenhauer com palavras do seu sistema, ou seja, está correto aqui!
“Con lo dicho, queda expuesto el contenido fundamental de la filosofía platónica. El punto de vista de Platón es éste: en primer lugar, aparece la forma fortuita del diálogo, en el que aparecen hablando unos cuantos hombres nobles y libres, sin otro interés que el de la vida espiritual de la teoría; en segundo lugar, a medida que van ahondando en el contenido, descubren los más profundos conceptos y los más bellos pensamientos, como piedras preciosas con que se tropezase, no digamos en un desierto, pero sí, desde luego, en un camino seco y pedregoso; en tercer lugar, no encontraremos aquí ninguna conexión sistemática, aunque todo emane y fluya de un solo interés”Hegel ainda nos dá mais duas etapas, mas elas não nos interessam.
“Nos separamos, con esto, de Platón, a quien abandona uno, en verdad, de mala gana. Al pasar a su discípulo Aristóteles nos gana aún más la preocupación de tener que ser demasiado prolijos, pues no en vano se trata de uno de los más ricos y profundos genios científicos que jamás hayan existido: un hombre que nunca ha podido ser igualado.”
“Tendremos, por fuerza, que limitarnos a dar una noción general de su filosofía y señalar solamente, de un modo especial, hasta qué punto su filosofía desarrolló y llevó adelante la obra iniciada por el principio platónico, tanto en lo tocante a la profundidad de las ideas como en lo que se refiere a su extensión”
“Sin embargo, aunque el sistema de Aristóteles no aparezca como desarrollado en sus partes partiendo del concepto mismo, sino que las partes se presentan las unas al lado de las otras, no cabe duda de que forman una totalidad de filosofía esencialmente especulativa.” E aí está seu maior defeito, que culmina em você.
“Una razón para ser prolijo, tratándose de Aristóteles, la tenemos en que ningún otro filósofo ha sido objeto de tanta injusticia por parte de las tradiciones totalmente huérfanas de pensamiento que se mantuvieron al margen de su filosofía y que todavía se hallan a la orden del día hoy, a pesar de haber sido este pensador, durante largos siglos, el maestro de todos los filósofos.” “Y, mientras que a Platón se le lee mucho, el tesoro de la obra aristotélica permaneció poco menos que ignorado a lo largo de los siglos, hasta llegar a los tiempos más recientes, reinando en torno a él los más falsos prejuicios.” Totalmente ao revés! A Escolástica só bebeu de Aristóteles; Platão era um anexo turvo para todo um milênio!
“Es, por ejemplo, una opinión muy generalizada la de que la filosofía aristotélica y la platónica se enfrentan y oponen la una a la otra, concibiéndose ésta como basada en el idealismo y aquélla, por el contrario, como construida sobre el realismo, el realismo más trillado y trivial.” Opinião generalizada corretíssima!
“en Aristóteles, el alma es una tabula rasa, que recibe pasivamente sus determinaciones del mundo exterior: la filosofía aristotélica es, por tanto, empirismo, un lockeanismo”
“A los 17 años de edad, se trasladó Aristóteles a Atenas, donde permaneció por espacio de 20, en contacto con Platón. Tuvo, pues, la más propicia de las ocasiones para poder estudiar la filosofía platónica en sus propias fuentes. No importa que alguien diga que no acertó a entenderla”
“Hermias, príncipe independiente, fue sojuzgado por un sátrapa persa, siguiendo la suerte de tantos otros príncipes absolutos y de tantas repúblicas griegas del Asia Menor; y no paró ahí su mala fortuna, pues fue enviado en calidad de prisionero a Jerjes, quien, sin más contemplaciones, lo mandó crucificar. Para no exponerse a una suerte semejante, Aristóteles huyó de aquellas tierras en unión de Pitias, una hija de Hermias, a la que hizo su esposa, refugiándose en Mitilene, donde vivió durante algún tiempo. Erigió a Hermias una estatua en Delfos, cuya inscripción ha llegado a nosotros; de ella se deduce que el desventurado príncipe cayó en poder de los persas por alevosía y a traición.”
“Has de saber que he tenido un hijo; y doy gracias a los dioses, no tanto porque me lo hayan dado como porque lo hayan hecho nacer en esta época en que tú vives. Pues confío en que tus cuidados y tu sabiduría harán que sea digno de mí y de su futuro reino.”
“en aquella corte, Aristóteles llegó a gozar del más alto de los favores y el respeto de Filipo, el monarca, y Olimpia, su consorte.”
“Alejandro, cuando en medio de sus conquistas y hallándose ya muy dentro del Asia, se enteró de que Aristóteles había dado a conocer en obras especulativas (metafísicas) la parte acroamática [¿?] de su filosofía, le envió una carta reconviniéndole por dar a conocer al pueblo vulgar los frutos de los trabajos y las investigaciones de ambos; a lo que Aristóteles replicó que, a pesar de haberlos dado a conocer, esos resultados seguirían tan desconocidos como antes. (Aulo Gelio)”
[¿?] Refere-se ao mito – já comentado na seção sobre Platão – de que haja uma vertente esotérica (de elite, filosófica, propriamente dita) e outra popular ou vulgar de Aristóteles, em que a gente comum pudesse lê-lo e entendê-lo. A acromática seria esta “filosofia” vulgar (exotérica) para iniciantes. Talvez a origem do termo seja a constatação pejorativa de que esses trechos são sem cor e sem vida, inertes, desbotados? Hahaha! (acromatia: aquilo que não tem cor)
“Lo que en la educación de este personaje puede ser atribuido a la enseñanza filosófica de Aristóteles es el haber sabido libertar interiormente sus talentos naturales, la peculiar grandeza de las dotes de su espíritu, elevándolas a un plano de completa independencia consciente de sí misma, como lo vemos comprobado mejor que por nada por sus propios fines y sus propios hechos. Alejandro alcanzó, en efecto, esa absoluta certeza de sí mismo que sólo da la intrepidez infinita de pensamiento y la independencia del espíritu con respecto a los planes especiales, pequeños y limitados para remontarse a la finalidad perfectamente general que lo animaba: la ambición de organizar el mundo en una vida y en un intercambio comunes y colectivos, mediante la fundación de Estados sustraídos a la individualidad contingente y fortuita.
Alejandro puso en práctica, de este modo, el plan que ya concibiera su padre sin haber podido llegar a realizarlo: el de colocarse a la cabeza de los griegos para vengar a Europa en el Asia y someter el Asia a Grecia; de tal modo que, así como al comienzo de la historia de Grecia los griegos habían marchado unidos en la guerra contra Troya, esta unión sirviese ahora de final y de remate al verdadero mundo helénico.” Tem certeza que os motivos de Filipe e Alexandre eram tão coletivos e étnicos e, o que é pior, alheios à própria dinastia? Seria único na História do Mundo, efetivamente.
“Alejandro vengaba con ello, al propio tiempo, la perfidia y la crueldad cometidas por los persas contra Hermias, el amigo de Aristóteles. Pero, además, el monarca macedonio expandía la cultura griega por las tierras del Asia, en un intento para elevar al plano del mundo griego aquella trama salvaje, puramente negativa y desintegrada de la más alta tosquedad, aquel conjunto de países hundidos en la apatía, la negación y la decadencia.”É bom não FORÇAR tanto, ó tetravô da Antropologia!
“Es verdad que las conquistas de Alejandro no quedaron dentro de su familia, de su propia dinastía, pero sí se incorporaron permanentemente a Grecia. Alejandro no instauró un vasto imperio asegurado para su propia familia, pero sí fundó el imperio del pueblo griego sobre el Asia, pues gracias a él la cultura y la ciencia griegas echaron raíces en aquellas tierras. Los reinos griegos del Asia Menor y principalmente Egipto, fueron durante siglos centros de ciencia, y los resultados de esto se extendieron, probablemente, hasta la India y la China.”
“Fue el reino sirio, que se extendía hasta muy dentro del Asia, hasta lindar con un reino griego en la Bactriana, el que, gracias a las colonias griegas allí establecidas, hizo llegar hasta el corazón de Asia y hasta la China los pocos conocimientos científicos que se han conservado allí como una tradición, aunque sin procrear. Los chinos son, por ejemplo, tan torpes que no han sido capaces de crear un calendario y parecen ser, de suyo, reacios a todo concepto.”
“En el oriente, el nombre de Alejandro tiene todavía hoy un brillo divino, como Ispandro o Dul-k-ar-nein, que quiere decir el hombre de los dos cuernos: no en vano la imagen del Júpiter Ammón es un antiguo héroe oriental. No está excluida, pues, la posibilidad de que los reyes macedonios, haciéndose descender de ciertos linajes de héroes de la antigua India, reivindicasen para sí los derechos de soberanía sobre aquellas tierras, que es lo que explica también la difusión del Dionysos tracio por los parajes de la India.” Isso é mito, H., e você tinha prometido deixar mitografia de fora de sua história espiritual da Filosofia!
SUPERESTIMA ARISTÓTELES A PONTO DE CONCEBÊ-LO COMO MASTERMIND POR TRÁS DAS AÇÕES DE ALEJANDRO:“primero visitó y consultó el oráculo de los amonitas (hoy, Siwa), procediendo luego a destruir el reino persa e incendiando Persépolis, la vieja enemiga de la teología india, para vengarse así de todas las tropelías cometidas por Darío contra los hindúes y sus hermanos de religión.”
“todavía hoy adoran los hindúes al Dalai-Lama, y en la concepción de aquellos pueblos no existe tanta distancia entre Dios y el hombre.” Um tanto superficial, mas, sim, prossiga…
“no en vano un Demetrio Falereo y otros habrían de ser adorados poco después, en Atenas, como dioses.”
E O QUE O ESPÍRITO DO MUNDO GANHA COM ESSA VINGANÇA GELADA DE ICEBERG ANTÁRTICO?“es lo más probable que los budistas no le interesasen a Alejandro en lo más mínimo; por lo menos, en su expedición india no hay muchos indicios de ello; por otra parte, la destrucción de Persépolis se halla suficientemente justificada como venganza griega por la destrucción de los templos llevada a cabo por Jerjes en su invasión de Grecia, sobre todo en Atenas.”
A DUPLA PERFEITA – DR. JEKYLL AND MR. HYDE? “Lo mismo que en los tiempos modernos conocemos ejemplos de guerreros que en sus campañas piensan en el arte y la ciencia, Alejandro tomó las medidas necesarias para que los nuevos animales y plantas encontrados en el Asia le fuesen enviados a Aristóteles, bien en forma de ejemplares, bien por medio de dibujos y descripciones.”
“Después de haber partido Alejandro para su expedición al Asia, Aristóteles regresó a Atenas y se estableció como profesor público en el Liceo, un lugar que Pericles había mandado acondicionar para la instrucción de los reclutas. Este lugar constaba de un templo consagrado a Apolo Liceos y de paseos sombreados por árboles y adornados con fuentes y columnatas.” Tudo isso já foi muito repisado, mas é muito bom reler mesmo assim (piada enviada pelo internauta Heráclito!).
“A la muerte de Alejandro, se desencadenó una tormenta que, al parecer, venía formándose contra él desde antes y que sólo el miedo a su protector había impedido que estallase: el filósofo fue acusado y perseguido por el delito de impiedad. Los detalles de esto aparecen relatados de diferente modo según las diversas versiones; entre otros datos, encontramos en las fuentes el de que le fueron imputados, como fundamentos de la acusación, su himno a Hermias y la inscripción colocada en la estatua erigida en honor de este príncipe. [estranho que a inscrição tenha sido preservada, portanto.] Al ver la tormenta que sobre él se cernía, Aristóteles huyó a la ciudad de Calcis, en Eubea, el actual Negroponto, para no dar a los atenienses, según sus propias palabras, ocasión de atentar por 2ª vez contra la filosofía. Allí murió al año siguiente, a los 63 años de edad” Moral da História: todo mecenas fervoroso é eterno enquanto dura.
“Diógenes Laercio (V, 21-27) cita un número crecidísimo de obras de Aristóteles, aunque sus títulos no siempre indican las obras a que corresponden y que han llegado a nosotros, ya que los títulos de éstas son, a veces, completamente distintos. Diógenes enumera 445.270 líneas; si contamos 10 mil líneas por alfabeto, esto nos daría 44 alfabetos, pero lo que se ha conservado no pasa de 10, de modo que sólo tenemos una cuarta parte.” Já disse para não dar muito crédito a Laércio?
“La suerte de los manuscritos aristotélicos aparece descrita de tal modo, que podría fácilmente llegarse a la conclusión de que es punto menos que imposible el llegar a tener uno de los escritos del Estagirita en un texto auténtico y sin corrupciones.” O Espírito não quis imortalizá-lo como quis a Platão!
ARISTOTELISMOS: “Por lo que se refiere a las otras formas de la filosofía aristotélica, vemos, en segundo lugar, que en la época de Cicerón, principalmente bajo el nombre de filosofía peripatética, asume más bien la forma de una filosofía popular proyectada principalmente sobre problemas de historia natural y de moral”
“Una tercera forma de la filosofía aristotélica la tenemos en la filosofía altamente especulativa de la época alejandrina, conocida también con los nombres de filosofía neopitagórica o neoplatónica, aunque debería llamarse también, con idéntica razón, filosofía neoaristotélica. Otra acepción fundamental, la cuarta, es la que la expresión filosofía aristotélica cobra en la Edad Media, cuando un conocimiento impreciso hace que sea denominada ‘filosofía aristotélica’ lo que no era, en realidad, sino la filosofía escolástica.”
“Al hacerse más conocidas las obras de Aristóteles en el Occidente se formó una quinta filosofía aristotélica opuesta, en parte, a la escolástica: al final de la época del escolasticismo y con la restauración de las ciencias, pues sólo después de la Reforma se remontaron los estudiosos, en rigor, a las fuentes mismas de Aristóteles. La sexta acepción de la filosofía aristotélica la tenemos en las novísimas ideas y concepciones torcidas acerca de ella, tal y como las encontramos, por ejemplo, en Tennemann, intérprete dotado de un espíritu filosófico demasiado pobre para poder penetrar en la filosofía de Aristóteles.” Nesse ritmo, erá que já não chegamos ao nono Aristóteles?
“Tiene ante sí la intuición en su integridad y plenitud, y nada pasa por alto, por muy vulgar que ello sea.” Deveríamos criar o termo endução para explicar os casos de indução e dedução (ou endo-ção, de fora) indistintos (raciocínios perfeitos que são ambos e nenhum, não são de dentro nem de fora, apenas são).
“Resulta fatigoso, a veces, seguirle en estas simples enumeraciones, que se desarrollan sin ninguna necesidad y en las que la serie de las acepciones o los significados parece concebirse solamente en cuanto a su esencia, que se presenta como común, y no en cuanto a sus determinabilidades, es decir, solamente en lo externo. Sin embargo, esta manera de proceder representa, de una parte, una enumeración lo más completa posible de los momentos de una cosa y, de otra parte, incita al investigador a buscar y encontrar por cuenta propia la necesidad.”
ORA, ORA, SE NÃO É DEUS!“Al enfocar todos los momentos contenidos en la representación, como si formasen una unidad, no prescinde de ninguna determinabilidad, no se atiene primero a una determinación y luego a otra, sino que las afronta todas a un tiempo, mientras que la reflexión intelectiva, que tiene como regla la identidad, sólo puede salir adelante con ella por la sencilla razón de que, al afirmar una determinación, olvida la otra y prescinde de ella.” Infelizmente, ainda que fosse verdade, precisamos de novos deuses e novas verdades…
“Y es que el empirismo de Aristóteles es un empirismo total, pues le lleva de nuevo, constantemente, a la especulación; podemos, pues, decir que, como empírico consumado, es, al mismo tiempo, un empírico pensante.”Já vimos esse movimento se consumar umas 300x na História, estou nauseado…
Conceptos como cáscaras vacías del Ser.
“Y si se tomase verdaderamente en serio el estudio de la filosofía, nada habría más digno que explicar desde la cátedra las doctrinas de Aristóteles, pues no hay entre los filósofos antiguos ninguno que tanto merezca la pena de ser estudiado como éste.”
“Y, así como decimos que es hombre libre aquel que es en gracia a sí mismo y no en gracia a otro, así también podemos decir que la filosofía es la única ciencia libre, ya que es la única que existe en gracia a sí misma, como el conocimiento del conocimiento.”
“Su tarea cotidiana versa sobre lo que es, lo mismo que la labor de un profesor es su curso semestral; y aunque para ello recorra toda la masa del mundo de las representaciones, sólo parece buscar lo verdadero en lo particular, sólo parece reconocer una serie de verdades particulares.”
“Lo que a Aristóteles le preocupa, fundamentalmente, es descubrir la determinación de lo que es esta sustancia (ousia) [essência, em-si, ser] (Metaf. VII, 1).”
“Aristóteles distingue, más de cerca, dos formas fundamentales: la de la potencia y la del acto.” GROSSO MODO, podemos dizer que a fonte de toda a concepção da síntese hegeliana está aqui, conforme destaque no Vol. I: essência e aparência, racional e real, em-si e para-si. Importante frisar que o segundo, embora o fenômeno não seja o principal de Hegel, posto que seu “deus”, por assim dizer, é a Razão, é importantíssimo como esteio da essência compreendida no mundo antigo como enteléquia e hoje como teleologia ou ciência dos fins. Devemos entender o fenômeno nesse mais nobre sentido, em que participa da dialética da enteléquia, para não gerar mais dúvida, como o nível de realidade consumada ou efetiva, ou seja, em que o Espírito exerce toda sua potência, no que Hegel chama de O CONCRETO ELEVADO A CONCEITO (e Aristóteles de substantia, mas ambos são o mesmo); e no que eu chamaria de ‘fenômeno sagrado’, se posso ‘blasfemar’ o vocabulário hegeliano e neologizar à minha maneira e à minha conveniência para facilitar meu trabalho e a compreensão que o leitor deve ter de Hegel ao fim desta excursão.
Curiosamente, Hegel é o acme do Idealismo e seu centro nevrálgico é o concreto ou empírico. Na filosofia subsecutiva, que teve de reparar seus pontos de vista, temos o império da Fenomenologia, em que o centro tem de ser a própria potência ou vontade (a substância pós-moderna), que havia sido menosprezada como provocadora última da realidade. Fazendo uma última simplificação, podemos assinalar a filosofia pós-platônica e pré-marxnietzscheana como excessivamente preocupada com o começo e o fim; e as filosofias DE PLATÃO SOMENTE NA ANTIGUIDADE INTEIRA e de Marx e Nietzsche EM DIANTE como aquelas atentas ao devir. Não preciso, espero, ter de ressalvar que a genealogia e a teleologia continuam sendo tratados dentro da fenomenologia do séc. XX em diante e que o devir já era “conhecido” e tratado até mesmo pelos insofisticados pré-socráticos. O que eu quis dizer é que o eixo de preocupação de primeira plana sofreu uma inversão quase simétrica em termos do que é o objeto da filosofia. Numa sentença, regressamos a Platão e reiniciamos de onde ele havia parado, com alguns conselhos muito úteis achados no caminho do calvário que antecedeu nossa chegada ao deserto chamado fim do milênio. (!!!)
INFINITO É O FENÔMENO (A AÇÃO):“cuando decimos: la esencia, no establecemos todavía con ello la actividad, pues la esencia es solamente el en sí, la potencia, sin forma infinita.”
“Por tanto, mientras que lo predominante, en Platón, es el principio afirmativo, la idea, como algo sólo idéntico consigo mismo en lo abstracto, en Aristóteles predomina el momento de la negatividad, pero no como cambio, ni tampoco como la nada, sino como distinción, como determinación, destacado por él en cuanto tal. Este principio de la individuación, no en el sentido de una subjetividad contingente, particular, sino en el sentido de la subjetividad pura, es característico de Aristóteles.” O principium individuationis como o erro do milênio ou, antes, dos últimos três milênios.
“El devenir de Heráclito es una determinación certera y esencial; pero el cambio carece todavía de la determinación de la identidad consigo mismo, de la firmeza de la generalidad. El río cambia constantemente, pero se mantiene también perenne y tiene, más aún, una existencia general.¹ De donde se deduce inmediatamente que Aristóteles (Metaf. IV, 3-6) polemiza principalmente contra Heráclito y otros cuando dice que el ser y el no-ser no son uno y lo mismo, fundamentando así aquella famosa tesis de la contradicción de que un hombre no es al mismo tiempo un barco.”Hahaha?!
¹ Quando Nietzsche diz que Heráclito poderia ter enunciado o eterno retorno, o que quer dizer é: faltava-lhe a condição subjetiva para afirmar a figura de linguagem do rio (o eterno, a essência) como aquilo que também se desdobra sobre si mesmo em fenômeno, repetindo-se como aparência e transitoriedade finita (além das águas deste rio, o próprio rio, que no fim de contas é apenas um subterfúgio para se referir ao universo).
“Se ve inmediatamente que Aristóteles no comprende el ser o el no-ser puro, esta abstracción que no es, esencialmente, sino la transición de lo uno a lo otro, sino que entiende por lo que es, esencialmente, la sustancia, la idea, la razón, pero al mismo tiempo como fin que mueve.”
TUDO ISSO PARA DIZER <PRESENTE>: “Pero el punto supremo es más bien aquel en que se unen la potencia, la actividad y la entelequia: la sustancia absoluta, que Aristóteles (Metaf. XII, 6-7; IX, 8) determina, en general, diciendo que es lo inmóvil en y para sí, pero que, al mismo tiempo, infunde movimiento y cuya esencia es actividad pura, sin tener materia. Pues la materia como tal es lo pasivo, aquello en que se opera el cambio y que, por tanto, no se identifica simplemente con la actividad pura de esta sustancia.”
PRESENTE ETERNO (Conceito escolástico influenciado por Arist.): “Dios es la sustancia [ponto de encontro] en cuya potencia va también implícito, como algo inseparable, el acto; en ella, la potencia no se distingue de la forma, ya que produce a partir de sí misma sus determinaciones de contenido.” Aristóteles cria que a Idéia de Platão estava situada fora do tempo, portanto do presente, do movimento e da realidade; por isso achava ter reparado Platão. Tão ingênuo quanto parece! Nível de argumentação: “Meu absoluto é melhor que o seu! Crê em Deus-Pai!”.
“Debe considerarse como la verdadera esencia, prosigue Aristóteles (Metaf. XII, 7) lo que se mueve en sí mismo, lo que ‘se mueve en círculo; y esto no debe buscarse solamente en la razón pensante [principium cognoscendi], sino también en el hecho’. (…) Como lo igual a sí mismo y como algo visible, esta esencia absoluta es ‘el cielo eterno’; 2 dos modos de representación de lo absoluto son, por tanto, la razón pensante y el cielo eterno.” Formulação superingênua do eterno retorno.
CURIOSA NOTA DE RODAPÉ, DEMONSTRANDO QUE AS AULAS DE HEGEL ERAM PESADAS, INSOSSAS E CONFUSAS, E QUE O FORMATO FINAL DO LIVRO É MAIS LEVE DEVIDO À INTERFERÊNCIA DOS DISCÍPULOS:(*) “Como esta explicación hegeliana del famoso pasaje de Aristóteles tiene en su favor el testimonio de tantas autoridades, el editor no puede seguir aquí, como tantas otras veces en el transcurso de estas Lecciones, la norma establecida por la sociedad de amigos de Hegel a cuyo cargo corre la edición de sus obras, que es la de corregir tácitamente los errores e inexactitudes que hayan podido deslizarse en la exposición del autor. Es evidente, de todos modos, que Aristóteles habla de 3 sustancias: de un mundo sublunar, que mueve el firmamento; del firmamento mismo, como el centro, que es a la par el motor y lo movido, y de Dios, como el motor inmóvil.” Frase original de Hegel, para contrastar: “El cielo es algo movido y es también, al mismo tiempo, algo que mueve. Y siendo, así, lo esférico algo a la par moviente y movido, tiene que haber necesariamente un centro que mueva, pero sea de suyo inmóvil y, al mismo tiempo, eterno y una sustancia y la energía” Suas sentenças não são pontuadas, e vai elencando sinónimos após as conjunções de ligação como se enriquecesse a exposição (por si inócua) acrescentar mais nomes e sinônimos ao que já tinha nome (Deus), e aumentando a barafunda do que é, pois que estas coisas são também outras coisas: enfim, que o primum mobile ou deus aristotélico é também ETERNO (Qual a definição de eternidade? Há algum deus que seja mortal ou limitado?), é também SUBSTÂNCIA (Qual a definição de substância? Por que não é redundante ser Deus e substância ao mesmo tempo?), é também ENERGIA (Qual é a definição de energia? Por que não é redundante ser Deus, substância e energia tudo ao mesmo tempo? No que deus ficaria pior se fosse retirado algum desses sinônimos arbitrários?)!… Uma absoluta perda de tempo – e energia!
Deus como uma rodinha de skate.
“Por tanto, según Aristóteles, el concepto, principium cognoscendi, es también el motor, el principium essendi; lo proclama como Dios y señala su relación con la conciencia individual.”Revolucionário – só que não!
Me parece incrível, fabuloso até, que nem Ar. nem H. tenham percebido que só estão reescrevendo Platão sem o mesmo talento literário (ou percebem-no, mas fazem disso, dessa redação tecnicista, seu cínico ganha-pão): “Este sistema dura eternamente. ‘Pero a nosotros [como individuos] sólo por un breve tiempo nos está reservada una residencia en él que es la más excelente que apetecer podamos.’” E ainda mais: o “filósofo da ação” (Ar., segundo a introdução de H.) é o mais contemplativo de todos!“el pensamiento es fin último y absoluto para sí mismo.”
“El momento fundamental de la filosofía aristotélica consiste, por tanto, en que la energía del pensamiento y lo pensado objetivo sean una y la misma cosa” Ironia: Aristóteles cobra o por quê do Bem, p.ex., de Platão e Leucipo, mas tampouco dá o seu por quêenergético. Não que seja um defeito seu; a energia é a mera referência de uma força física, e portanto um não-conceito, filosoficamente falando; o simples infundamentado e inessencial sobre o qual não se deve falar. O que pega mal é a hipocrisia do Estagirita: o parco entendimento dos outros (hipercrítica que exerce sobre o próprio mestre) e a excessiva indulgência em relação a si mesmo (a própria filosofia não é depurada e desenvolvida como seu lado crítico da tradição nos faz pensar). Nesse sentido ele é o pai ancestral de filósofos como Deleuze!
BLÁ, BLÁ, BLÁ… “En nuestro lenguaje, designamos lo absoluto, lo verdadero, como la unidad de lo subjetivo y lo objetivo que, por tanto, no es lo uno ni lo otro, aun siendo ambas cosas a la vez; pues bien, Aristóteles se debatió con estas formas especulativas, que aún hoy siguen siendo las más profundas, y las expresó con la mayor claridad. (…) Unidad es, por tanto, una expresión mala, antifilosófica, y la verdadera filosofía no es el sistema de la identidad, sino que su principio ha de buscarse en una unidad que es actividad, movimiento, repulsión y, en la distinción, algo idéntico a: sí mismo.” Tudo isso nos mostra que, se queremos derrubar Hegel de vez, devemos levar também tudo de aristotélico a pique!
“el pensamiento divino tiene necesariamente que pensarse a sí mismo (puesto que es la más excelente de las cosas)”
Último abacate que vou postar. Pularei e eximirei o leitor de qualquer outro trecho degradante desse oceano de obviedades mixurucas!
“La primera obra de Aristóteles sobre la materia es la Teoría física o de los principios, en 8 libros. Versa esta obra sobre el concepto de la naturaleza en general, sobre el movimiento y sobre el espacio y el tiempo, como debe de ser.”
“Entre las obras relacionadas con la anatomía figuran sus tratados Sobre los órganos motores de los animales y Sobre las partes de los animales. Se refieren a la fisiología las siguientes obras: De la generación de los animales y Sobre el movimiento común de los animales. En seguida, Aristóteles pasa a tratar de la diferencia entre la juventud, y la vejez, entre el sueño y la vigilia y habla de la respiración, de los sueños, de la brevedad y la longitud de la vida, etc., materias todas de las que trata, en parte, de un modo empírico y, en parte, en un sentido más bien especulativo. Finalmente, escribe una Historia de los animales, pero no sólo como una historia natural en general, sino también como un estudio general de los animales, una especie de anatomía anatómico-fisiológica, si se quiere. Se le atribuye, asimismo, una obra de botánica titulada Sobre las plantas.”
“Este pensamiento, añade Aristóteles, fue formulado preferentemente por Empédocles, quien presenta los primeros orígenes como un mundo de las más variadas monstruosidades, por ejemplo, animales con forma de toro y cabeza humana, las cuales, sin embargo, no podían conservarse, sino que perecieron todas, porque no estaban destinadas originariamente a perpetuarse, hasta que, por último, fueron reuniéndose los elementos con arreglo a un fin: y así, sin necesidad de recurrir a los fabulosos monstruos de los antiguos, nosotros mismos conocemos una serie de especies animales que se han extinguido por la sencilla razón de que no podían perpetuarse. También la actual filosofía de la naturaleza emplea la expresión de ‘surgir’ (que implica un desarrollo ajeno a todo pensamiento). Es una idea a que puede fácilmente verse conducida la filosofía de la naturaleza la de que los primeros productos de la naturaleza son a manera de intentos, de los cuales sólo pueden prevalecer aquellos que demuestren responder a un fin.”
“de una parte, por obra de una filosofía mecánica que basa todo en la presión, el impulso, las combinaciones químicas, las fuerzas, es decir, en relaciones de orden externo, inmanentes sin duda a la naturaleza, pero que no parecen emanar de la naturaleza de los cuerpos, sino que son un aditamento extraño a ella, como el color en un líquido; de otra parte, bajo el influjo de una física teológica que establece como causas los pensamientos de una inteligencia exterior al mundo. Fue la filosofía kantiana la que hizo revivir entre nosotros aquel concepto, por lo menos para lo orgánico, enjuiciando por tanto lo vivo como un fin de sí mismo.” “El hecho de que la época más reciente haya traído de nuevo al recuerdo lo racional acerca de esto no es, pues, otra cosa que la justificación de la idea aristotélica.”
“Aristóteles (Física IV, 6-7) pasa a hablar del espacio vacío, antiguo problema, que todavía no ha sido resuelto satisfactoriamente por los físicos de hoy. Si estudiasen a Aristóteles, sabrían a qué atenerse; pero, al parecer, es como si para ellos no existieran en el mundo ni el pensamiento en general ni Aristóteles en particular. ‘El vacío, según la manera corriente de pensar de los hombres, es un espacio en que no existe ningún cuerpo; y, como para ellos lo corpóreo es lo existente, llaman espacio vacío a aquel en que no existe absolutamente nada. La hipótesis de un espacio vacío tiene su razón de ser principalmente de una parte en que se considera el vacío’ —lo negativo de un modo existente— ‘como necesario para el movimiento, ya que los cuerpos no pueden moverse en el espacio lleno’ y, por consiguiente, allí donde se muevan no tiene que haber nada. ‘El otro argumento en favor del vacío se encuentra en la compresión de los cuerpos, en que las partes penetran en los poros vacíos.’“
INTUIÇÃO DA LEI DA INÉRCIA: “En efecto, demuestra de una parte que el vacío anula más bien el movimiento y que equivaldría, por consiguiente, a una quietud general: es la total indiferencia con respecto al sentido en que se mueve más o menos algo; en el vacío quedan suprimidas todas las diferencias. Es la pura negación: ni objetos ni diferencias; por tanto, no hay razón alguna para permanecer quietos ni para seguir adelante. Ahora bien, los cuerpos se hallan en movimiento y, además, como cuerpos distintos los unos de los otros: tienen pues una relación positiva y no simplemente una relación con la nada.”
“La diferencia de velocidad guarda la misma proporción con la diversidad del peso específico del medio, aire o agua, de tal modo que cuando el medio es la mitad menos denso aumenta la velocidad al doble.”
“Por lo que se refiere al otro caso, o sea a la diferencia entre lo pesado y lo ligero, que se aprecia en los cuerpos mismos, tenemos que aquello se mueve más ligeramente que esto a través del mismo espacio; ‘pero esta diferencia se da solamente en el espacio lleno, pues el cuerpo pesado separa más rápidamente lo lleno, gracias a su fuerza’. Esta concepción es absolutamente exacta y va dirigida principalmente contra una serie de representaciones que hacen estragos en nuestra física. Estas representaciones[fenômeno observável] acerca del movimiento igual de lo pesado y lo ligero, como las que se refieren a la gravedad pura, [una] al peso puro, a la materia pura, etc., son una abstracción, como si se tratase de cosas iguales en sí y diferentes solamente por la resistencia casual del aire. [múltipla]¹” Aristóteles não tem ‘culpa’ alguma de não conhecer a aceleração da gravidade em uma mesma pressão atmosférica, mas Hegel não deveria ignorar Newton! Lembrando que nesta parte não se procede exatamente à história da filosofia, mas da própria física…
¹ Hegel confunde os reinos da aparência e da essência, como se a essência fosse figurada na própria representação! Mas, apesar do modo oblíquo que elegeu para se expressar, Hegel não colide aqui com o modelo da física experimental (contra o que ele mesmo pensa): o que ele quis dizer é simplesmente que não existe o vácuo perfeito, então, na prática, se um bloco compacto de uma liga metálica muito pesada, digamos, de 1 tonelada, cai retilineamente por um abismo ao lado de uma pessoa de 80kg, por mais que essa pessoa seja maior que o bloco e possua ‘mais superfície’ (sofrendo a resistência do vento oposto em uma área maior que a do bloco), não significa que ambos chegariam ao fim do abismo – que deveria ser profundo o suficiente – simultaneamente (após o fim da aceleração da gravidade e o começo da trajetória em que ambos cairiam a 10m/s, uniformemente), pois a resistência do ar ainda seria maior contra o bloco de metal, mais ‘pesada’, anulando sua massa gravitacional. Um tubo de ensaio em que o vácuo perfeito fosse possível seria contraditório com o célebre modelo das ‘quedas idênticas’ porque aí já nem haveria possibilidade de queda dos corpos, apenas repouso.
“Cuando el agua se convierte en aire, gana en extensión; pero la materia sigue siendo la misma, sin que a ella se sume ninguna otra cosa distinta: lo que ocurre es que lo que antes era en potencia lo es ahora en acto.” Também é incrível como o mundo moderno levou tantos séculos para chegar ao mesmo entendimento formal. Dito isto, Arist. continua péssimo metafísico; mas exímio cientista natural!
“Aristóteles, por el contrario, concibe esto en un sentido totalmente dinámico, claro está que no con el significado que hoy suele darse a la palabra ‘dinámico’, es decir, como una mayor intensidad o un grado mayor, sino que se refiere a la intensidad certeramente como una posibilidad general.”
O ponto euclidiano como patas de uma aranha em eterno debate descoordenado.
SEMPRE ESBARRAM EM KANT (TEMPO E ESPAÇO SÃO AS MODALIDADES SINE QUA NON DA REPRESENTAÇÃO): “cuando colocan el vacío antes del principio de la generación, esto no es otra cosa que lo quieto, lo igual a sí, es decir, la materia eterna, establecida ya, por tanto, antes de la generación; pues no hacen honor a su palabra cuando dicen que antes de la generación sólo existe la nada.”
“Este éter parece ser la materia eterna, pero que no aparece expresado de un modo tan claro, sino que parece detenerse como el cielo en nuestras representaciones: y, en general, es aquí donde empieza a revelarse más y más la yuxtaposición.”
“Acerca de esto, hay que hacer notar que, aunque estas determinaciones fundamentales sean muy poco exhaustivas, Aristóteles va, sin embargo, mucho más allá que los modernos, ya que no profesaba este concepto de los elementos que se hace valer en los tiempos actuales, según el cual el elemento, como algo simple, está llamado a permanecer. Ahora bien, semejante determinabilidad simple del ser es una abstracción y no tiene ninguna realidad, ya que entonces no sería susceptible de movimiento ni cambio alguno; el elemento mismo debe tener realidad; está, por tanto, sujeto a disolución como la unidad de lo contrapuesto.”
“He ahí por qué se pasan de listos quienes nos reprochan el que incluyamos entre los elementos el agua, el aire, etc. Ni siquiera bajo el nombre de ‘neutralidad’ han llegado los físicos modernos a una generalidad concebida como unidad, como la que Aristóteles atribuye a los elementos; en realidad, el hidrógeno, cuando se combina con una base, no sigue existiendo como tal, según a veces se afirma, dentro de la nueva combinación.” É verdade que o modo descritivo moderno é pobre, mas H. se esforça além do aceitável para encimar Arist. sobre a física moderna, vendo em sua física algo mais do que é.
“De hecho, en la Meteorología pasa Aristóteles a estudiar el proceso general de la naturaleza. Pero, en este punto, llegamos con él al límite. Aquí, en el proceso de la naturaleza, la determinación simple como tal —esta manera de la determinación progresiva— deja de regir y pierde todo su interés.” “El fenómeno sensible empieza a cobrar primacía aquí, pues lo empírico presenta precisamente la naturaleza del distinto modo de dispersarse. El fenómeno empírico va escapándose así del pensamiento, el cual sólo registra por doquier el cuño de la toma de posesión, pero sin poder ya penetrarlo por sí mismo, puesto que retrocede del campo de lo ideal, donde aún existían el tiempo, el espacio y el movimiento.”
“En cuanto a la contraparte de la filosofía de la naturaleza, o sea la filosofía del espíritu, encontramos señalada también en Aristóteles, en una serie de obras que citaremos, la diferencia entre las diversas ciencias especiales.
En primer lugar, sus 3 libros Sobre el alma estudian la naturaleza general abstracta del alma, principalmente a modo de refutación, aunque tratan también, de un modo más difícil y especulativo, de su naturaleza en sí misma; no de su ser, sino de la determinada manera y posibilidad de su efectividad, en lo que consiste, según Aristóteles, su ser y su esencia.”
“Finalmente, nos lega, con su Política, una exposición de las constituciones esenciales de los Estados y de los diversos tipos de constitución, que va examinando por el método empírico” Atingindo, por sinal, péssimos resultados.
“De una parte, [hoje,] la cólera, por ejemplo, se considera como un deseo de venganza o como algo por el estilo; de otra parte, como una irritación de la sangre del corazón o del calor dentro del hombre. Aquél es el punto de vista racional, éste el punto de vista material ante la cólera. Es algo así como si, de una parte, se definiese la casa como un abrigo contra el viento, la lluvia y otros accidentes y, de otra parte, como una construcción hecha de madera y de piedras: el primer criterio busca, en efecto, la determinación y la forma, o sea el fin de la cosa; el segundo, su materia y su necesidad.”
“El alma es la sustancia como forma del cuerpo orgánico físico, que tiene vida en potencia, pero su sustancia es efectividad, y concretamente, la acción de un cuerpo así [es decir, animado].”
“No porque el alma sea la forma se debe preguntar si el alma y el cuerpo forman una unidad, del mismo modo que no se pregunta si forman una unidad la cera y su forma, ni si la materia y sus formas, en general, forman una unidad.”
“En efecto, si consideramos el alma y el cuerpo como una unidad, al modo de una casa, formada por una multitud de partes, o como la cosa y sus cualidades, el sujeto y el predicado, etc., seguiremos la senda del materialismo, en que ambos elementos son considerados como cosas. Semejante identidad constituye una determinación completamente abstracta y, por tanto, superficial y vacía, que no puede predicarse, ya que la forma y la materia no tienen el mismo rango de dignidad en lo que al ser se refiere; la identidad verdaderamente digna solo puede concebirse como tal entelequia.
Sólo cabe, pues, preguntarse si la actividad forma una unidad con su órgano; y nuestra idea es, desde luego, que esa pregunta debe ser contestada afirmativamente.”
ROLA UMA BRIGUINHA ENTRE EDITORES, TRADUTORES E DEMAIS ENVOLVIDOS NA EXECUÇÃO DA OBRA ATRAVÉS DAS NOTAS DE RODAPÉ:“El alma es la sustancia, pero sólo en cuanto al concepto; pero esto no es sino la forma sustancial(*) de semejante cuerpo.
(*) El editor se ha creído autorizado a introducir aquí esta traducción, usual entre los escolásticos y recogida por Leibniz (Cfr. Michelet, Examen critique).” HAHAHA!
“Por consiguiente, a la pregunta de ¿cuál es la sustancia del ojo?, ¿son acaso los nervios, los humores, las membranas, esa sustancia?, contesta Aristóteles: por el contrario; la visión misma es la sustancia; aquellas materias no son sino un vacuo nombre.”
“la vida vegetal es el concepto de lo orgánico.”
Ó! EUREKA! “En efecto, es de todo punto indiferente el que nos encontremos determinados subjetiva u objetivamente” Mas isso Platão já o sabia!
“Es cierto que la mónada leibniziana parece ser una representación opuesta a ésta, en cuanto que toda mónada, todo punto de mi dedo, como átomo o individuo, es un universo entero en el que todo se desarrolla dentro de sí mismo, sin relación con otras mónadas.”
“Es un falso idealismo el que sostiene que la pasividad y la espontaneidad del espíritu dependen de que la determinabilidad dada sea interior o exterior” “…al modo como lo entiende Fichte, quien considera ya parte suya la chaqueta que viste, por el mero hecho de vestirla, o simplemente por considerarla.” Hahaha!
“quien tiene la facultad de oír no siempre oye”
“Existen dos palabras para expresar el oír y el resonar, pero no así para expresar el ver; el ver es la actividad del que ve, pero la actividad del color carece de nombre.” Ouvi sem escutar, escutei distintamente suas palavras sem nada ouvir.
“En lo corpóreo, por tanto, se contraponen entre sí la materia, como potencia, y la forma externa, como acto; pero el alma es, por el contrario, la potencia general misma, sin materia, porque su esencia es la efectividad.”
RESERVATÓRIO: “El pensamiento se convierte en entendimiento pasivo, es decir, en algo objetivo; y así se aclara ahora hasta qué punto es el nihil est in intellectu, quod non fuerit in sensu el sentido de la filosofía de Aristóteles.” Não pode ser pensado aquilo que não foi sentido Não pode ser pensado aquilo que não foi pensado. Tudo que foi pensado foi sentido, etc., etc.. E implicações com os trechos destacados por Derrida na Enciclopédia.
“Es, como se ve, una actitud altamente idealista; a pesar de lo cual hay quienes se empeñan en ver en Aristóteles un pensador empírico.” Duro é pensar que elogiam Fraud tanto tempo depois dizendo a mesma coisa (‘ele é empírico!’).
“El término técnico para expresar esto es la conocida tabula rasa, con la que nos encontramos dondequiera que se habla de Aristóteles: Aristóteles quiere decir, según quienes así interpretan su pensamiento, que el espíritu es como una hoja en blanco sobre la cual se escribe acerca de los objetos exteriores, lo que vale tanto como decir que el pensamiento viene de fuera. Pues bien, eso es cabalmente lo contrario de lo que Aristóteles sostiene. La representación, en vez de atenerse al concepto, concibe estos símiles fortuitos como si expresaran la cosa misma. Sin embargo, Aristóteles no pretende, ni mucho menos, que este símil se tome en todo su alcance, al pie de la letra: el entendimiento no es, ni mucho menos, una cosa, ni tiene la pasividad de una tablilla de cera sobre la que se escriba; el entendimiento es la efectividad misma, que no está, como en el caso de la tablilla de cera para escribir, fuera de ella. El símil se limita, por tanto, a indicar que el alma sólo tiene un contenido en cuanto realmente se piense. Cuando dice que el alma es este libro en blanco quiere decir, por tanto, que lo es todo en sí, pero que no es de suyo esta totalidad; lo mismo que, en potencia, un libro lo contiene todo, pero en acto no contiene nada antes de estar escrito. La actividad real, y sólo ella, es lo verdadero”
“O termo técnico para expressar isto é a conhecida tabula rasa, com que nos encontramos onde quer se fale de Aristóteles: Aristóteles quer dizer, segundo quem assim interpreta seu pensar, que o espírito é como uma folha em branco sobre a qual se escreve acerca dos objetos exteriores, o que vale tanto quanto dizer que o pensamento vem de fora. Pois bem, isso é cabalmente o contrário do que Aristóteles sustenta. A representação, em vez de se ater ao conceito, concebe estes símiles fortuitos como se expressassem a coisa mesma. Contudo, Aristóteles não pretende, na outra mão, que este símile seja tomado em todo o seu alcance, ao pé da letra: o entendimento não é tampouco uma coisa, nem tem a passividade de uma tabuleta de cera sobre a qual se escreva; o entendimento é a efetividade (realidade) mesma, não está, como no caso da tábua de cera que serve para escrever, fora do real. O símile se limita, portanto, a indicar que a alma só tem um conteúdo enquanto realmente se pensa. Quando diz que a alma é este livro em branco, Aristóteles quer dizer, por conseguinte, que ela é tudo em si, mas que não é para si mesma esta totalidade; o mesmo que, em potência, um livro contém tudo, mas em ato não contém nada antes de estar escrito. A atividade real, e somente ela, é o verdadeiro.”
“El séptimo y octavo capítulo se dedican a explicar ciertas tesis de los capítulos cuarto y quinto; comienzan recapitulando las tesis en cuestión y parecen glosas de un comentador. ‘El alma —dice Aristóteles (De anima, III, 8)— es, en cierto modo, todo lo que es. Pues lo que es es una de dos cosas: lo sentido o lo pensado. La ciencia misma es, en cierto modo, lo sabido, y la sensación lo sentido. Ahora bien, estas cosas sabidas y sentidas son o bien ellas mismas o bien las formas. La ciencia y la sensación no son las cosas mismas (la piedra no se halla en el alma), sino su forma; por donde el alma es como la mano. Ésta es el instrumento de los instrumentos: el entendimiento, por su parte, es la forma de las formas, y la sensación la forma de lo sensible.’”
“O 7º e o 8º capítulos se dedicam a explicar certas teses dos capítulos 4 e 5; começam recapitulando as teses em questão à guisa de glosa de um comentador. ‘A alma – diz Aristóteles em De Anima, vol. III, c. 8 – é, de certo modo, tudo o que é. Pois o que é é uma de duas coisas: o sentido ou o pensado. A ciência mesma é, de certa forma, o sabido, e a sensação o sentido. Ora, estas coisas sabidas e sentidas são ou bem elas mesmas, ou bem as formas. A ciência e a sensação não são as coisas mesmas (a pedra não se acha na alma), senão sua forma; daí que a alma é como a mão. Esta é o instrumento dos instrumentos: o entendimento, por sua vez, é a FORMA DAS FORMAS, e a sensação a forma do sensível.’”
“deste modo, Ar. não é realista” Às vezes H. devia apenas citar e calar o bico – assim não tinha chance de falar tanta asneira!
A PONTA DO NARIZ E ARISTÓTELES (ALMA VII):“O entendimento pensa o abstrato como se a conformação do nariz não fosse a conformação do nariz, inseparável da carne, senão algo vazio.”
“‘quem nada sente, nada aprende nem nada entende; se conhece algo, necessariamente tem que conhecê-lo também como representação, pois as representações são como as sensações, só que sem matéria. Pois bem, e em que se distinguem os pensamentos originários das representações? Ou bem não são inclusive os outros pensamentos nenhuma classe de representação, mesmo que sempre impliquem uma representação?’ Como aquilo que segue no livro não responde estas perguntas, isso parece ser mais uma indicação de que estes fragmentos têm origem apenas posterior.”
QUANTA AFETAÇÃO!“Esta identidade do subjetivo e do objetivo, que existe no entendimento ativo, enquanto que as coisas e os estados finitos do espírito são o separado de ambos, já que neles o entendimento só existe em potência, representa o cume mais alto a que pode chegar a especulação, e Aristóteles retorna assim a seus princípios metafísicos, nos quais chamava à razão que se pensa a si mesma o pensamento absoluto, o entendimento divino ou o espírito no plano do absoluto.”
“Tres grandes obras éticas se han conservado de Aristóteles: la Ética Nicomaquea, en 10 libros, la Gran Ética, en 2 libros, y la Ética Eudemia, en 7 libros; la última se refiere más bien a las virtudes especiales, mientras que las 2 primeras contienen, preferentemente, investigaciones generales en torno a los principios.
Así como lo mejor que poseemos acerca de los problemas de psicología, hasta estos últimos tiempos, es lo que hemos recibido de Aristóteles, es también excelente lo que nos ha legado acerca de la voluntad real, la libertad, acerca de las determinaciones ulteriores de la imputación, la intención, etc. Lo que ocurre es que hay que imponerse el trabajo de estudiarlo y conocerlo, traduciéndolo a nuestro propio modo de hablar y de pensar, lo que naturalmente no es fácil. También aquí, como en lo físico, procede Aristóteles analizando uno tras otro, del modo más concienzudo y verdadero, los diversos momentos que se dan en la voluntad: el propósito, la resolución, el obrar voluntario o forzado, el obrar por ignorancia, la culpa, la imputabilidad, etc. No hemos de detenernos en este estudio, de carácter más bien psicológico”
“Aristóteles no se da por satisfecho con la idea platónica del bien, por ser solamente lo general, sino que plantea el problema de su determinabilidad.” Problema dele.
“Cuando el conocimiento es malo o incluso inexistente, pero el corazón, a pesar de ello, se comporta bien, podrá según Aristóteles existir bondad, pero no virtud, ya que falta el fundamento, o sea la razón, sin el que la virtud no puede existir.” Sempre traduzir conhecimento na Ética de Aristóteles como sabedoria no sentido schopenhaueriano, para facilitar. E coração como o verdadeiro ethos contemporâneo. O mito do burro bom (na verdade ele pode ser no máximo inofensivo). Falo em Schopenhauer, porque ambos são concordes neste aspecto. Já eu descartaria a existência de um burro bom, ou dum inteligente mau.
“De ahí que Aristóteles, según veíamos, censure a Sócrates por cifrar la virtud exclusivamente en el conocimiento.” Naturalmente, pois não entendeu Sócrates. Aristóteles endeusou (literalmente!) a Razão, mas não entendeu tampouco a razão socrático-platônica: não significa usar o pensamento ou acumular informações. Significa ser sábio. Logicamente, o sábio socrático é virtuoso. Não existe inteligência, para Sócrates, dissociada de caráter! Arist. entende que aquele que possui a ciência filosófica alcançaria como por milagre noções éticas. É muito fácil estereotipar esse entendimento, dizendo que para Sócrates a virtude era uma iluminação individual. Mas esta não é a correta leitura da doutrina platônica. A ocorrência moderna que chamamos de “erudito” que na verdade não passa de velhaco não refuta ‘a ingenuidade socrática’: ele é um erudito, pois que seja, porquanto querem chamá-lo de erudito, ou permitem que se chame a si de erudito; isto não importa para nós. Ele é um hipócrita que nada tem que ver com a figura do sábio. Tampouco pode-se chegar a essa condição por esforço. Daí a força atual que conserva a metáfora da reminiscência em Platão. Outro exemplo: um político maquiavélico é tolo, pois não compreende que tudo é vaidade. No tomo I eu fui mais específico a este respeito.
“Por consiguiente, en la virtud, en cuanto ésta tiende a la realización y es atributo del individuo, no puede decirse que sea la razón el principio único, sino que es la inclinación el elemento propulsor, concreto, el que precisamente en lo práctico y en el sujeto tiende a la realización.” Hegel descreve apropriadamente Arist.. O grifo verde se destina a criticar a compreensão aristotélica da moral: ele decompõe a conduta ética em teórica e prática. Sua delimitação ética é sem dúvida a que norteia a disciplina Ética moderna. Porém, isso é um mal, um retrocesso em relação a Platão. Nietzsche foi o primeiro filósofo a apontar tal erro. A virtude é um atributo inato do indivíduo. Não se pode realizar a virtude quando é-se dela carente, daí a ilusão de que alguém dotado da capacidade teórica (todo homem) de ser virtuoso falha na execução (só executa a virtude aquele que nasceu virtuoso e sábio). Ter conhecimento teórico da virtude e não aplicá-lo na prática é o mesmo que dizer que é-se meio-virtuoso, virtuoso incompleto. Ora, ou é-se virtuoso ou não se o é. É redundante falar em virtude não-realizada, por isso Aristóteles discorda de Platão – pois crê que vale a pena falar desse tipo de meia-virtude. A razão é o princípio único, porém não a razão aristotélica. Isso faz com que Aristóteles tenha de recorrer à ‘inclinação’ como elemento propulsor. Essa inclinação é inata à razão corretamente compreendida no platonismo, e não existe tal decomposição em 2 palavras ou conceitos, em que um se subordina aleatoriamente ao outro. Assim, não é que a Ética seja uma disciplina voltada à prática; ela é teórico-prática, uma unidade, desde o início. Mas o homem moderno não enxerga a validade do teórico, preferindo expulsá-lo do campo ético.
“aunque se haya censurado como algo muy insuficiente e indeterminado al hecho de que Aristóteles determine la virtud más bien como una diferencia de grado, hay que reconocer que esto es algo que va implícito en la naturaleza misma de la cosa. La virtud, y más que ninguna otra la virtud determinada, entra en una órbita en que ocupa un lugar lo cuantitativo; el pensamiento aquí no permanece ya cabe sí como tal, siendo indeterminado el límite cuantitativo.” Essa definição é satisfatória no mundo dos moralistas e autores de auto-ajuda, no mundo dos comuns e plebeus. Para um filósofo, é um achado muito aquém do desejável.
“Aristóteles dábase cuenta, más o menos claramente, de que la sustancia positiva, la necesaria organización y realización del espíritu práctico es el Estado, que es realizado por medio de la actividad subjetiva de tal modo que ésta encuentra en él su determinación. Por eso también Aristóteles ve en la filosofía política toda la filosofía práctica y el fin del Estado como la felicidad general.” De novo, o mesmo erro. Não existe política apenas prática. A ciência política moderna é Aristóteles desenvolvido: é o que temos, mas não é ciência nem um conhecimento sobre política, ainda.
“Aunque el supremo bien es el mismo para el individuo que para el Estado en su conjunto, parece que es, desde luego, más grande y más digno el conquistar y conservar ese bien para un Estado; cierto que es ya meritorio el conquistarlo para un individuo, pero es más bello y más divino el hacerlo para todo un pueblo y para Estados enteros. Pues bien, la ciencia práctica aspira a eso y forma, por tanto, en cierto modo, parte de la política.” Ética a Nicômaco, citação que cai como uma luva para Hegel.
“Pero quien es incapaz de vivir en sociedad o no necesita de ella por considerarse independiente y superior, sólo puede ser una de 2 cosas: o un animal salvaje o un dios.”
“[e]l principio moderno, según el cual la voluntad particular del individuo se erige, como lo absoluto, en el punto de partida; [a revolução francesa] y así, todos contribuyen, por medio de la emisión de sus sufragios, a decidir lo que ha de regir como ley, estableciendo la comunidad sobre estas bases. En Aristóteles, por el contrario, como en Platón, el Estado¹ es el prius, lo sustancial, lo fundamental, pues su fin es el más alto de todos, desde el punto de vista de lo práctico.”²
¹ Essa generalização de H. pode custar muito caro em mal-entendidos: “Estado” significa coisas diferentes para Platão, Aristóteles e para o próprio Hegel.
² O leitor fica tentado a se perguntar: se o princípio moderno é o individual e o princípio antigo é o coletivo, qual deve prevalecer, qual é o melhor? A resposta curta e grossa é: nenhum. Não podemos mais defender uma Teoria do Estado, nem tampouco continuar com os pressupostos do Liberalismo, que institui o Homooeconomicus atomizado, um inútil político.
“Ningún país como Grecia abundaba tanto en múltiples constituciones como en cambios dentro de cada una de ellas en un solo Estado, a pesar de lo cual los griegos no llegaron a conocer en ningún momento ese derecho abstracto de los Estados modernos que aísla al individuo, lo deja hacer como tal y, sin embargo, los mantiene en cohesión a todos como un espíritu invisible, de tal modo que en ninguno se dé ya ni la conciencia ni la actividad con vistas al conjunto, sino que cada cual actúa para el todo, sin saber cómo, tan sólo en la medida en que se le reconoce esencialmente como persona y en que sólo se preocupa de la protección de su individualidad. Es una actividad dividida, de la que cada uno sólo tiene en sus manos un fragmento: del mismo modo que, en una fábrica, nadie forma un todo, sino solamente una parte y no posee las demás habilidades necesarias, ya que solamente algunos determinan la cohesión del conjunto.” Trecho fundamental para a funda(menta)ção do Marxismo.
“La libertad burguesa, en este sentido, consiste precisamente en la carencia de lo general, en el principio del aislamiento; pero esta libertad constituye un momento necesario que los antiguos Estados no conocían” É como dizer que Diógenes o Cínico era uma existência necessária – quase uma confissão de mesianismo!
“sólo ahora se hace posible la consistencia interior y la indestructible generalidad, real y consolidada en sus partes.” O Estado moderno é realmente muito consistente – como exemplifica muito bem a arbitrariedade racional-legal chamada Israel –; só esperamos que não seja exatamente indestrutível! Felizmente, entretanto, Hegel não perde muitas páginas comentando a Política.
“Al otro lado de la filosofía del espíritu se halla la ciencia aristotélica del pensamiento abstracto, la lógica, que aún nos queda por examinar, ciencia venerada por espacio de siglos y de milenios con la misma fuerza con que hoy se la desprecia. Aristóteles está considerado como el padre de la lógica: sus obras sobre esta materia son la fuente y el tratado de los estudios lógicos de todos los tiempos, que no eran, en parte, otra cosa que desarrollos especiales de los principios sentados por el Estagirita, lo que necesariamente hacía de ellos proyecciones secas, opacas, imperfectas y puramente formales; todavía en los tiempos más recientes habría de decir Kant que la lógica era, desde Aristóteles, como la geometría pura desde Euclides, una ciencia acabada que había venido manteniéndose hasta nuestros días sin experimentar el más pequeño mejoramiento científico ni enriquecerse con ninguna aportación nueva.”
“Así como en la historia natural se examinan y describen los animales, por ejemplo, el unicornio, el mamut, esta o aquella clase de escarabajos o de moluscos, etc., Aristóteles traza también, en cierto modo, la descripción natural de estas formas espirituales del pensamiento; pero, en estas deducciones de unas cosas a otras, Aristóteles se limita a exponer y precisar el pensamiento en su aplicación finita: su lógica es, por tanto, una historia natural del pensamiento finito.” “hay que reconocer que esta conciencia es verdaderamente admirable, y más admirable aún el desarrollo de esta conciencia; y esta lógica, por tanto, una obra que hace honor en el más alto grado a la profundidad de espíritu de su inventor y a su gran capacidad de abstracción.”
“Las categorías, de las que trata la primera de estas 5 obras, son las determinaciones generales, lo que se predica del ser: tanto lo que hoy llamamos conceptos intelectivos como las cualidades simples de las cosas. Podríamos llamar a esto una ontología, una parte de la metafísica; estas determinaciones aparecen también, por tanto, en la metafísica aristotélica.” Diz-se, ademais, que a parte das categorias na Lógica arist. está incompleta.
“Los conceptos determinados se predican con unión o sin unión: así por ejemplo, cabe decir: el hombre vence, el buey anda, o bien: el hombre, el buey, vencer, andar.”
As determinações da lógica aristotélicas já foram há muito tempo absorvidas por todos os que filosofam. Quatro noções básicas (abaixo) são o gênero, o geral, o particular e o individual.
“El concepto es una realidad lógica y, por tanto, algo en sí puramente pensado, es decir, posible. En el juicio, postula el concepto A como un sujeto real y combina con él a otro algo real, como concepto B; se trata de que B sea el concepto y de que A se halle dotado de ser con respecto a él, pero B es solamente el concepto más general. En el silogismo, trata de imitarse la necesidad: ya en el juicio se contiene la síntesis de un concepto y un deber ser: en el silogismo se trata de dar a esa síntesis la forma de la necesidad, equiparando ambos términos contrapuestos dentro de un tercero como a través del término medio de la razón, por ejemplo en el justo medio de la virtud. La premisa mayor expresa un ser lógico, la menor una posibilidad lógica, pues Cayo es, para la lógica, un algo simplemente posible; la conclusión sirve de lazo de unión entre ambos términos.”
EXPLICAÇÃO CONTIDA NA DEFINIÇÃO DE GÊNERO: “O conceito é uma realidade lógica e, portanto, algo em si puramente pensado, i.e., possível. No juízo, postula-se o conceito A como um sujeito real e se o combina com outro algo real, como conceito B; trata-se de que B seja o conceito e de que A se ache dotado de ser com respeito àquele, mas B é somente o conceito mais geral. No silogismo, trata-se de imitar a necessidade: ao passo que no juízo contém-se a síntese de um conceito e um dever-ser, no silogismo dá-se a tal síntese a forma da necessidade, equiparando ambos os termos contrapostos dentre de um terceiro como através do termo-médio da razão, p.ex. no justo meio da virtude. A premissa maior expressa um ser lógico, a menor uma possibilidade lógica, uma vez que Caio é, para a lógica, um algo simplesmente possível; a conclusão serve de laço de união entre ambos os termos.” Parece muito mais difícil do que é pela explicação.
Há um problema com a Lógica aristotélica quando avaliada por Hegel, pois falta-lhe a noção do Absoluto, presente na lógica hegeliana. Por isso, o “geral” em Ar. é uma determinação “pobre”, aquém do “geral moderno”, ou geral em H. Veja abaixo:
O GERAL: Aquilo que não é nem ser em si (essência, potência, abstrato) sem ser para si (aparência, ato, concreto).
O PARTICULAR: O concreto, partícipe do geral, a aparência que o sujeito pode nomear como momento seu. O predicado determinado-com-referência-a. Poderíamos dizer que se houvesse a reflexão sobre a reflexão nesse processo, seria o Absoluto hegeliano (o ser em e para si); mas aqui não há este desdobrar e retornar a si mesmo da consciência individual, então o processo é incompleto.
O INDIVIDUAL: A aparência pura (fenômeno, representação). O predicado indeterminado. Chamado, em outro tópico do livro, de categoria da substância. Como é mera ação cega, um nível abaixo da concretude, mal é conceito.
Enfim, ‘memorizar’ essas sutilezas a nada leva, senão que o raciocínio filosófico e o pensamento lógico se formam naturalmente no filósofo. O acrescer o tempo todo homônimos só confunde a cabeça dos neófitos.
“La segunda obra es la que versa sobre la interpretación”
Provavelmente o que hoje ensina-se como RACIOCÍNIO LÓGICO propriamente dito. Proposições, verdade ou falsidade (inferência e juízo do contéudo que se contradiz).
“Forman la tercera parte los libros analíticos, que son 2 obras, los primeros y los posteriores: [¿?] tratan con bastante detalle de la prueba y de los silogismos.”
“La cuarta obra es la llamada Tópicos, que trata de los lugares (topoi)” “Esta parte de la lógica aristotélica fue desarrollada por Cicerón [¡!] y Giordano Bruno.” “Ahora bien, esto, según Aristóteles, forma parte de la dialéctica, que él llama un instrumento para descubrir proposiciones y conclusiones, partiendo de lo probable.” “Y distingue también los silogismos dialécticos y probatorios de los retóricos y de toda clase de medios de persuasión, incluyendo entre los retóricos la inducción.”
“Finalmente, la quinta obra es la llamada Refutaciones sofísticas o De los giros, en la que, en el desarrollo inconsciente del pensamiento en sus categorías, por lo que se refiere a la parte material de las representaciones, cae en constantes contradicciones consigo mismo.” “los que más se distinguieron en el estudio de estas contradicciones fueron los megáricos”
“Pues, por muy árida y carente de contenido que pueda parecernos la enumeración de las distintas clases de juicios y silogismos y sus múltiples entrelazamientos y camino poco adecuado para llegar a la verdad, no es posible levantar, por vía de contradicción, otra ciencia frente a ésta. Si, por ejemplo, se considera como una aspiración legítima y digna llegar a conocer, en la entomología erudita, la indecible cantidad de animales que existen, por ejemplo, las 167 especies de cuclillos, diferenciadas a veces solamente por un mechoncito de plumas en la cabeza, una miserable especie nueva de musgo dentro del miserable género musgo, un insecto, una hormiga, una chinche, etc., no cabe duda de que es mucho más importante conocer las diversas modalidades del movimiento del pensar.”Bom ponto, H.! Mas a Lógica aristotélica não deixará de ser chata por isso!
“su defecto no consiste, por tanto, en que sean simplemente formas, sino por el contrario en que carecen de forma y en que hay en ellas demasiado contenido.” Em vez de o Estagirita, o Enciclopédico como epíteto!
“A pesar de que esta lógica de lo finito es, por naturaleza, muy poco especulativa, no hay más remedio que conocerla, pues la encontramos por todas partes en las relaciones de lo finito. Hay muchas ciencias, conocimientos, etc., que no conocen ni aplican más formas del pensamiento que estas formas del pensar finito, que en realidad constituyen el método general de las ciencias finitas. Las matemáticas, por ejemplo, son un proceso constante de deducciones; y la jurisprudencia consiste en la subsunción de lo particular bajo lo general, en la unión de estos dos aspectos.
Dentro de estas relaciones de determinaciones finitas, el silogismo es indudablemente por la trinidad de sus términos, la totalidad de estas determinaciones, razón por la cual ha sido llamado por Kant (Crítica de la razón pura, p. 261) el silogismo racional” Os doidos entendem-se entre si. H. e K. seriam amissíssimos se contemporâneos, com toda a certeza. Acontece que quando Hegel entrava na idade para filosofar, Kant já era um octogenário.
“La lógica de Aristóteles, al igual que toda su filosofía, necesita esencialmente ser sometida a esta refundición, para que la serie de sus determinaciones pueda reducirse a un todo sistemático necesario: no a un todo sistemático en que todas las partes aparecen exactamente clasificadas, sin olvidar ninguna, y colocadas por su orden debido, sino a un todo orgánico vivo, en que cada parte valga como parte y sólo el todo, como tal, tenga verdad.”
“Y con lo dicho ponemos fin a nuestro resumen de la filosofía aristotélica, de la que no es fácil por cierto desprenderse, pues cuanto más entra uno en detalles de ella más interesante resulta y más cohesión encuentra uno en los temas.” “Esto hace que no podamos decir gran cosa de los discípulos de Aristóteles, ni de Teofrasto ni de muchos otros (por ejemplo, de Dicearco de Mesina), el más famoso de los cuales fue Estratón de Lampsaco, sucesor de Teofrasto.”
“El triunfo celebrado al renacer las ciencias por el hecho de que la filosofía aristotélica fuese desplazada de las escuelas, de las ciencias y principalmente de la teología, como la filosofía sobre la esencia absoluta, tiene este doble aspecto: de una parte, el de que lo que se desplazaba no era tanto la filosofía aristotélica como el principio de la ciencia teológica basado en ella y con arreglo al cual la primera verdad es una verdad dada, revelada, una premisa sentada de una vez por todas, dotada de fuerza y de razón y en torno a la cual se mueven de un lado para otro, solamente de un modo superficial, la razón y el pensamiento.” “Pero otro de los aspectos de este triunfo fue el triunfo de la vulgaridad, que se emancipó del concepto y sacudió el yugo del pensamiento. Antes se hablaba mucho, como sigue hablándose aún hoy, de las sutilezas escolásticas de Aristóteles; cree haberse encontrado en este nombre un derecho para ahorrarse las molestias de la abstracción y huir del concepto, entregándose a las sensaciones de la vista y del oído y a lo que se llama sano sentido común.” “los escarabajos, las especies de aves, se distinguen hoy con la misma sutileza con que en otros tiempos los conceptos y los pensamientos. Si una especie de pájaros tiene el plumaje rojo o verde, tal o cual forma de cola, etc., son sutilezas con las que es más fácil encontrarse hoy que con las distinciones que afectan al pensamiento” Mas pensé bem: se os alemães tivessem se atido à ornitologia não teríamos tido duas guerras mundiais…
“El defecto de la filosofía aristotélica estriba en que —después de haberse elevado, por medio de ella, la multiplicidad de los fenómenos al plano del concepto y de haberse descompuesto éste en una serie de conceptos determinados— no se hizo valer la unidad del concepto que la unificaba de un modo absoluto: y esto es precisamente lo que habrán de llevar a cabo los tiempos posteriores.” Tempos posteriores, leia-se: eu.
“Pero la unidad como concepto, la unidad general y negativa en sí, el tiempo como tiempo, absolutamente cumplido y en su cumplimiento como unidad, es la conciencia pura de sí mismo.”
“Ponemos fin, así, a la primera sección de la filosofía griega para pasar en seguida al segundo período de ella.” “La necesidad inmediata, lo inmediatamente necesario, tiene que contenerse en aquello que la filosofía había llegado a ser con Platón y Aristóteles.”
A FRANÇA COMO O ANTÍDOTO DA SISTEMOFILIA HEGELIANA: “así también, los franceses llaman a lo dogmático systématique y dan el nombre de systéme a aquel conjunto de representaciones en el que todas tienen que emanar consecuentemente de una determinación; y por eso también systématique es, para ellos, sinónimo de unilateral.”
“Y si en el estudio de este primer período nos hemos detenido demasiado, podremos recobrar el espacio en el examen del segundo, en el que ya no tenemos para qué extendernos tanto.”
SECCIÓN SEGUNDA:
SEGUNDO PERÍODO: EL DOGMATISMO Y EL ESCEPTICISMO
“Dentro del funesto mundo romano, se borra con mano áspera todo lo que había de bello y de noble en la individualidad espiritual. En este estado de divorcio del mundo, en que el hombre se ve empujado a su interior, esfuérzase en buscar por la vía de lo abstracto la unidad y la satisfacción que ya no acierta a encontrar en el mundo. Por eso precisamente el mundo romano es el mundo de la abstracción, en el que se extiende una fría dominación sobre el mundo culto. Las individualidades vivas de los espíritus de los pueblos se ven reprimidas y son asesinadas; un poder extraño viene a pesar, como lo general abstracto, sobre el individuo.”
“No cabe duda de que el mundo romano dio vida a un patriotismo formal y a sus virtudes correspondientes, así como a un sistema de derecho muy desarrollado; pero de una muerte así no podía surgir una filosofía especulativa, sino solamente buenos abogados y la moral de un Tácito. Por eso estas filosofías, con excepción del estoicismo, se manifestaron entre los romanos en oposición con su antigua fe supersticiosa; y en general la filosofía pasa a ocupar ahora el lugar de la religión.”
“la imperturbabilidad y la igualdad del espíritu consigo mismo, al que nada hace sufrir, ni la alegría ni el dolor, y que no se halla determinado por ningún otro nexo, es el punto de vista común y la meta común de todas estas filosofías”
“El fundador de la escuela estoica es un Zenón que no debe confundirse con el de Elea: Zenón, de Cirio, ciudad de la isla de Chipre, que nació alrededor de la 109ª Olimpíada. Su padre era comerciante y en sus viajes comerciales le llevó de Atenas —que era y habría de seguir siendo durante mucho tiempo la sede de la filosofía y de gran número de filósofos— algunos libros, compuestos principalmente por los socráticos, lo que despertó en aquel joven el afán y el amor por la ciencia.”
“Zenón visitó en Atenas a varias clases de socráticos, principalmente a Jenócrates, figura de la escuela platónica que había llegado a hacerse muy famoso por el rigor de sus costumbres y por la gran seriedad de su conducta, habiendo sido sometido a pruebas semejantes a las que se vio sometido San Francisco de Asís, saliendo también triunfante de ellas.” “La filosofía estaba considerada entonces como un asunto de la vida, y de la vida en su totalidad; no era una enseñanza que se cursase en tantas o cuantas lecciones, para pasar en seguida, corriendo, a otra materia.” “hasta que por último actuó por cuenta propia como maestro en un pórtico o stoa, decorada con la colección de pinturas de Polígnoto, y de aquí tomó su escuela el nombre de escuela estoica.”
“Por su cultivo de la ciencia, hízose más célebre que Cleanto [discípulo de Zenão de Círio] su discípulo Crisipo de Cilicia, que nació en la Ol. 125,1 (280 a.C.), quien vivía también en Atenas y fue seguramente el que más hizo por el desarrollo y la difusión de la filosofía estoica en todos sus aspectos. Le hizo famoso, sobre todo, su lógica y su dialéctica, hasta el punto de que se llegara a decir: si los dioses se dedicasen a la dialéctica, no se valdrían para ello de otra que de la de Crisipo. Sus contemporáneos admiraban también su laboriosidad como escritor; el número de sus obras ascendía en efecto, como indica Diógenes Laercio, a la cifra de 750. Cuéntase de él, en relación con esto, que escribía unas 500 líneas diarias. Sin embargo, la manera de componer sus escritos neutraliza bastante todo lo que tenía de admirable esta laboriosidad como escritor y revela que la mayoría de sus obras eran simples compilaciones o repeticiones. Escribía con frecuencia acerca de los mismos temas; llevaba al papel todo lo que se le ocurría y fue acumulando así una multitud de noticias y testimonios; copiaba a veces libros casi enteros de otros, y alguien llegó a decir, juzgando su obra, que si se le quitara todo lo que en ella pertenecía a otros, apenas quedaría más que el papel en blanco. Claro está que este juicio es bastante exagerado, como lo revelan las muchas citas de los estoicos, en las que Crisipo figura siempre a la cabeza, utilizándose en ellas, de preferencia, sus definiciones y explicaciones. Pero sus obras, de las que Diógenes Laercio trae una copiosa lista, se han perdido en su totalidad para nosotros; podemos, sin embargo, asegurar que desarrolló principalmente la lógica estoica. Si es de lamentar que no se conservasen algunas de sus mejores obras, tal vez sea una suerte que no se conservaran todas; pero, puestos a elegir entre todas o ninguna, nos veríamos en duro trance.” Hahahaha!
TODOS OS DIÓGENES DO MUNDO SÃO FILÓSOFOS GREGOS: “Después de él, se destacó Diógenes de Seleucia, en Babilonia, con quien debió de aprender dialéctica Carneades, el famoso académico. Diógenes es también una figura notable por haber sido enviado como embajador ateniense a Roma en tiempo de Catón el Mayor, en la Ol. 156,2 (156 a.C.), en unión de este mismo Carneades y de Critolao, un pensador peripatético; esta embajada empezó a iniciar a los romanos, en la misma Roma, en los estudios de la filosofía, la dialéctica y la elocuencia griegas, a través de las conferencias explicadas allí por los citados embajadores-filósofos.”
“Más tarde, vemos cómo la filosofía estoica pasa a manos de los propios romanos; es decir, se convierte en la filosofía de muchos romanos, pero sin que esta filosofía salga, con ello, ganando mucho como ciencia: por el contrario, con Séneca y los estoicos posteriores, Epicteto yAntonino [Marco Aurélio], pierde en realidad todo su interés especulativo para convertirse en una doctrina más bien retórica y parenética, que no hay por qué incluir en la historia de la filosofía, como no habría por qué incluir en ella tampoco los sermones de nuestros días.”
“A base de sus lecciones compuso Arriano las prolijas Dissertationes Epicteteae, que aún poseemos, y el compendio del estoicismo. (Aulo Gélio,Noites Áticas)
Del emperador Marco Aurelio Antonino, que reinó primero (de 161 a 169 d.C.) junto con Lucio Aurelio Vero y luego (de 169 a 180) solo, habiendo conducido la guerra contra los marcomanos, poseemos todavía sus Pensamientos, en 12 libros, en los que se habla continuamente a sí mismo; pero estas meditaciones no tienen ningún carácter especulativo, sino que son simples exhortaciones, por ejemplo, la de que el hombre debe formarse en todas las virtudes.”
“Por lo que se refiere a la filosofía de los estoicos, éstos la dividían claramente en 3 partes con las que ya nos encontrábamos anteriormente y que seguirán siendo, en general, las mismas: primero, la lógica; segundo, la física o filosofía de la naturaleza; y, tercero, la ética, la filosofía del espíritu, principalmente desde el punto de vista práctico.”
“Su filosofía es panteísmo. Pero toda filosofía es, en rigor, panteísta, ya que pone de manifiesto que el concepto racional existe en el universo.”
“Nada acaece en el mundo sin ti, ¡oh demonio!, ni en el polo etéreo del cielo, ni en el mar, fuera de lo que los malos hacen por su propia falta de entendimiento. Pero tú sabes también enderezar lo torcido, ordenar lo desordenado y convertir lo hostil en amistoso. Pues así has sabido armonizarlo todo en unidad, lo bueno y lo malo, de tal modo que sólo existe en todo un concepto (logos), que siempre existe y del que huyen los malos entre los mortales. ¡Desgraciados aquellos que, clamando siempre por la posesión de lo bueno, no comprenden la ley general de Dios ni dan oídos a aquel a quien si escuchasen con la razón les haría llevar una vida buena!” Cleanto apud Estobeu, Éclogas
“Heráclito y el estoicismo conciben, pues, certeramente este proceso como un proceso general y eterno. La idea se adocena ya en Cicerón, quien ve falsamente, detrás de este pensamiento, la combustión del universo en el tiempo y el fin del mundo, lo cual tiene ya un sentido completamente distinto.” “para los estoicos todo es devenir.”
“La simiente que hace nacer algo racional es ella misma racional. El universo hace brotar la simiente de lo racional y es, por tanto, racional de suyo”
“sólo los estoicos de la primera época tenían en su filosofía una parte física; los posteriores desdeñaban totalmente la física para atenerse exclusivamente a la lógica y a la moral.” Movimento correto.
“Los estoicos se atienen, pues, a la representación general según la cual todo lo individual se halla encuadrado en un concepto y éste, a su vez, en un concepto general que es el universo mismo.”
“Ahora bien, el que unas veces los dioses hagan conocer a los hombres el futuro e intervengan y otras veces se abstengan de ello es una inconsecuencia, es decir, algo incomprensible; pero en esta incomprensibilidad, precisamente, en este elemento irracional, estriba el triunfo del modo religioso usual de concebir. Por eso, toda la superstición de los romanos encontraba en los estoicos sus más firmes patronos; los estoicos toman bajo su tutela y justifican toda la superstición de los romanos.”
“La mera representación por sí misma era, según ellos, una figuración, a la que Crisipo daba el nombre de cambio.”
“esta retórica en torno al sabio sólo tiene su fundamento en la indeterminabilidad de los criterios, que no permite avanzar hasta llegar a la determinación del contenido.”
“la razón se encarga en el hombre de convertir en una obra de arte lo que en el animal sólo es un instinto.”
“La virtud es predicada de un modo enérgico, estimulante, edificante; pero no se nos ofrecen las determinaciones necesarias para saber en qué consiste esta ley general de la virtud.”
“Un acto bueno que no fuese útil no sería tal acto, ni tendría realidad. Lo inútil en sí de lo bueno es su abstracción, como la negación o la ausencia de la realidad. No sólo se puede, sino que se debe tener la conciencia de la utilidad, pues es verdad que lo bueno sabe siempre, además, ser útil. La utilidad quiere decir simplemente que se abriga una conciencia de los propios actos. Si esta conciencia es censurable, aún lo es en mayor medida saber mucho de la bondad de sus actos y considerarlos menos desde el punto de vista de la necesidad” Tudo derivação da perseguição da Idéia de Platão…
“Por tanto, este comportarse-exclusivamente-con-arreglo-a-la-razón entraña, visto más de cerca, la concentración abstracta del hombre dentro de sí mismo, que lleva consigo la conciencia de lo verdadero, renunciando con ello a todo lo que guarde relación con los impulsos inmediatos, las sensaciones, etc.” “satisfacerse en sí mismo y no en algo exteriormente condicionado.” “Los escritos de Séneca y Marco Aurelio contienen mucho de verdad en este sentido, y pueden servir de eficaz punto de apoyo al hombre que no haya sido capaz de remontarse aún a una convicción superior.” “Quien siente apetencia de gloria para después de su muerte no se da cuenta de que cuantos a él puedan recordarle están sujetos también a morir y también los que a ellos les sigan, hasta que toda memoria se borre con estos hombres que, admirándolo, están llamados a desaparecer.” “Es en este criterio de la independencia y la libertad interiores abstractas del carácter mismo donde radica precisamente la fuerza que caracterizaba a los estoicos” “Aquella libertad que los estoicos atribuyen al hombre no carece de relación con otra cosa; se halla más bien supeditado [subordinado] a ella, y en este aspecto reside precisamente la felicidad. Mi independencia no es más que uno de los lados, al que no corresponde, por tanto, por ello sólo, el otro lado, el lado especial de mi existencia.” “el ethos contiene esencialmente mi convicción subjetiva de que lo que hago se halla a tono con las determinaciones racionales de la voluntad, con los deberes generales.” “Los estoicos dicen, en este respecto: sólo debe buscarse la virtud, pues la virtud lleva aparejada siempre, por sí misma, la felicidad. Y esta felicidad es la verdadera, la inconmovible, aunque al hombre pueda ocurrirle cualquier otra desdicha.”
“Lo grande de la filosofía estoica es, por tanto, que nada puede hacer flaquear la voluntad si se mantiene firme de este modo, que todo lo que no sea esto se mantiene fuera de ella, ya que ni siquiera el alejamiento del dolor puede ser considerado como un fin. Los estoicos viéronse expuestos a las burlas de las gentes por decir que el dolor no era ningún mal. Claro está que, al decir esto, no querían referirse, ni mucho menos, a los dolores de muelas o a otros dolores físicos por el estilo. El hombre se halla necesariamente expuesto a esta clase de dolores; pero una cosa son estos dolores y otra cosa distinta la desdicha.” “Es, pues, totalmente exacto que los sufrimientos, los dolores, etc., no son ningún mal que pueda venir a perturbar la igualdad conmigo mismo, mi libertad; en cuanto me siento en consonancia conmigo mismo, me hallo por encima de todas esas cosas y, aun cuando las sienta, no abren dentro de mí ninguna separación. Esta unidad interior conmigo mismo, en cuanto sentida, es la felicidad; la cual no se ve destruida ni perturbada por causas de orden exterior.”
“Otra contraposición es la que se da dentro de la virtud misma. Por cuanto que se debe tomar como pauta de la conducta la ley general de la razón certera, es como si no existiera, en rigor, ninguna determinación fija; pues todo deber es siempre un contenido particular, aunque se lo pueda concebir bajo una forma general, pero sin que esto modifique para nada el contenido.” “en cuanto que no puede establecerse un criterio último y decisivo acerca de lo que puede llamarse bueno, sino que el principio carece de determinación, la última decisión corresponde al sujeto.” “En efecto, desde Sócrates ya había dejado de ser la instancia inapelable de lo justo en Atenas la costumbre; con los estoicos desaparece, por tanto, toda determinación exterior, y lo decisivo sólo puede situarse en el sujeto como tal, que es de suyo el que en última instancia determina, en cuanto conciencia.”
“En efecto, si los estoicos se remontaran sobre el simple concepto del obrar al servicio del fin que es en sí y penetraran en el conocimiento del contenido, no necesitarían expresar esto como un sujeto. La propia conservación racional del hombre es, para ellos, la virtud.” “La realidad moral consiste precisamente en esto, en ser; pues del mismo modo que la naturaleza es un sistema permanente y ente, también lo espiritual tiene que ser eso: un mundo objetivo. Pero a esta realidad no llegaron los estoicos. Y este pensamiento podría expresarse también así: su realidad moral es sólo el modo, un ideal y no una realidad” A.k.a. Platão, principalmente n’O Banquete e no Fédon. Afinal, quem nunca foi queimado dentro dum cavalo de madeira nem cortou a própria jugular a mando do imperador nem tomou de livre e espontânea vontade a cicuta após ser condenado na assembléia ateniense nada pode discorrer sobre essas três consumações: não pode dizer que morrer queimado vivo é em si pior ou melhor do que infligir-se um corte ou tomar veneno, ou mesmo que ser banido de sua polis. O sábio resigna-se ao seu fado, e é só.
“debe luchar, en efecto, contra la individualidad de su existencia o ser indiferente a ella, y también contra la consonancia y la falta de consonancia con lo individual, así como ser capaz de renunciar a la felicidad o sentirse libre de ella, suponiendo que la posea; pues de lo que se trata es simplemente de la consonancia consigo mismo como con algo general.” “Ahora bien, si podemos llamar a esta felicidad la felicidad verdadera, para distinguirla de la otra, esto quiere decir solamente una cosa: que la palabra felicidad es poco acertada.” “La tendencia a la felicidad, a los goces espirituales, y las chácharas en torno a las excelencias de los goces de la ciencia y el arte, etc., son, por consiguiente, algo vacuo, pues la cosa misma de que aquí se trata no presenta ya, en efecto, la forma del disfrute o, mejor dicho, supera incluso esa representación.” “La más alta idea de Aristóteles, el pensamiento del pensamiento, se conserva también en el estoicismo, pero de tal modo que aquello no aparece aquí aislado, como parece estarlo en Aristóteles, con otras cosas al lado de ello, sino que es lo único.” “Por tanto, la descripción del ideal, por parte de los estoicos, es una retórica general y, por ello mismo, carente de interés; o solamente es notable en ella lo negativo.”
“Vemos proclamada aquí la autonomía y la autocracia del sabio, quien, obligado a seguir tan sólo los dictados de la razón, se declara libre del deber de ajustarse a todas las leyes determinadas que rigen y que no puedan invocar en su apoyo un fundamento racional o parezcan descansar más bien sobre el temor natural o sobre el instinto.” “si a primera vista el incesto, la pederastia, la antropofagia, etc., sólo parecen estar vedadas por el instinto natural del hombre, es lo cierto que tampoco pueden mantenerse ante el foro de la razón.”
H. começa a especular, p.ex., se estaria vivendo estoicamente um estóico que declarasse que é irracional, em que pese de certa forma natural, respeitar a propriedade privada, para polemizar com os apologistas do ideal estóico (já que isso não parece ter importância alguma no estoicismo concreto ou histórico): “Tratar de justificar por medio de un fundamento semejante contenido es, por tanto, confundir el conocimiento de las cosas en detalle con el conocimiento de toda la realidad; es la superficialidad del conocimiento que se niega a reconocer algo por no reconocerlo desde tal o cual punto de vista o en tal o cual aspecto, y única y exclusivamente porque sólo indaga y conoce las razones inmediatas, sin que pueda saber si existen también otros aspectos y otras razones.”
O ETHOS DO ESTOICISMO MADURO OU TARDIO: “Llegan a deducciones basadas en circunstancias, en conexiones, en consecuencias, descubriendo así contradicciones o contraposiciones: así proceden Marco Aurelio y Séneca, con gran ingenio y de un modo edificante.”
“soy yo, entonces, quien hago surgir estas razones sabias y buenas. No son las razones mismas la cosa, lo objetivo, sino que son obra de mi libre voluntad, de mi capricho, algo de que me valgo yo para justificar ante mí mismo mis nobles intenciones” Para o sábio, isto faz sentido e é seu mundo – para a maioria massacrante da população, não.
“En el propio Séneca encontramos más lastre y hojarasca de reflexiones morales que verdadera solidez: y así, vemos que se le echan en cara, de una parte, sus riquezas y el lujo de su vida, siendo verdad que Nerón le había regalado riquezas inmensas; del mismo modo que, por otra parte, podría reprochársele su discípulo, Nerón, quien también pronunciaba discursos morales, redactados para él por Séneca.
Esta manera de razonar es a veces brillante, como en Séneca: encontramos en él muchas cosas estimulantes y fortalecedoras para el ánimo, ingeniosas antítesis, retórica; pero estos discursos morales nos producen, al mismo tiempo, frío y fastidio. Se siente uno estimulado, pero con frecuencia insatisfecho: muchos de estos razonamientos podrían ser calificados de sofísticos; y, aunque no haya más remedio que reconocer en ellos la sutileza de las distinciones y las opiniones honradas, el fondo del convencimiento resulta siempre un tanto defectuoso.”
CRÍTICA DA CRÍTICA DA RAZÃO PRÁTICA: “En segundo lugar, el punto de vista estoico lleva implícito el principio superior, aunque negativo y formal, de que lo pensado es, simplemente por serlo, un fin y algo bueno, por lo cual en esta forma del pensamiento abstracto, lo mismo que en el principio kantiano del deber, se contiene ya aquello en que el hombre basa y tiene necesariamente que basar el fundamento de su conciencia de sí mismo, de tal modo que no tiene por qué tener en cuenta ni perseguir, de suyo, nada que ofrezca otro contenido, cualquiera que él sea.”
“La firmeza formal del espíritu que se abstrae de todo no plantea ante nosotros ninguna evolución de principios objetivos, sino un sujeto que se mantiene en pie en esta inmutabilidad y en esta indiferencia, no ciega, sino querida; y en esto consiste la infinitud de la conciencia de sí mismo.” “La fuerza de la repulsa a la existencia es grande y la energía de esta actitud negativa, sublime.” “Por eso, al desaparecer la existencia política y la realidad moral de Grecia y cuando más tarde tampoco el imperio romano pudo encontrar satisfacción en el presente, este mundo se replegó hacia sí mismo, buscando dentro de sí lo justo y lo moral que había desaparecido ya de la vida general exterior. § Platón proclamó el ideal de una república, es decir, de una vida racional de los hombres dentro del Estado, pues esta vigencia del derecho, la moralidad y la costumbre era, para él, lo fundamental, lo que forma el lado de la realidad de lo racional; y sólo por medio de este estado racional del mundo podía, según él, existir la armonía de lo exterior y lo interior, en este sentido concreto.” Você superestima a esperança platônica de que teríamos o Estado do sábio, que fosse um programa para seguir, ainda que não fosse uma utopia no sentido de Thomas More. Como o próprio H. determinou no lugar certo, tratava-se de uma “Esparta melhorada”, concebível, ao menos, no mundo grego, antes do ocaso completo de Atenas. Ainda assim, não há nada de histórico na República. É realmente muito mais um subterfúgio para imaginar onde e quando um autoeducado sábio poderia viver para sua máxima plenitude, ao lado de outros raros como ele.
TUDO SÃO CASOS ISOLADOS:“En lo tocante a la moral, a la fuerza de la buena voluntad, no es posible leer nada mejor que lo escrito por Marco Aurelio en sus meditaciones acerca de sí mismo. Este hombre reinaba sobre toda la tierra entonces conocida y cultivada, habiéndose comportado también noble y rectamente como particular. Sin embargo, este emperador filosófico no hizo cambiar en lo más mínimo el estado del imperio romano; y su sucesor, hombre de carácter totalmente distinto, no se sentía obligado por nada a poner trabas a un estado tan malo como el que radicaba en su propia maldad y arbitrariedad.”
“En la medida en que yo puedo hablar de derecho, debo decir que no he sido capaz de encontrar en el derecho romano nada que guarde alguna relación con el pensamiento, con la filosofía, con el concepto. Podríamos, sí, llamar filósofos a los juristas romanos si entendiéramos por pensamiento lógico la consecuencia intelectiva; pero ésta la encontramos también en el señor Hugo,(*) quien, sin embargo, no creemos que tenga la pretensión de pasar por filósofo.
(*) Hegel se refiere a Gustav von Hugo (1764-1844), jurista alemán que fue el fundador de la escuela histórica del derecho, continuada y desarrollada por Savigny [E.].”
“Así como los estoicos no centraban en las necesidades sino en la razón general el principio de los cínicos, según el cual el hombre debía limitarse a la simple naturaleza, Epicuro eleva también al plano del pensamiento el principio de que el placer constituye un fin, buscando lo placentero en un algo general, determinado por el pensamiento. Ahora bien, aunque con ello se asimile la doctrina de los cirenaicos, llevándola a un alto grado de cientificidad, ya de suyo se comprende, desde el momento en que el ser sentido rige como lo verdadero, que con ello se supera de un modo general la necesidad del concepto, todo se dispersa sin ningún interés especulativo y, en realidad, las cosas se degradan hasta el punto de vista del sano sentido común.”
“Sus padres eran pobres; su padre, Neocles, era maestro de escuela de aldea y su madre, Querestrata, se dedicaba a las artes de la brujería, es decir, ganaba algún dinero, como muchas mujeres de Tracia y de Tesalia, con fórmulas de encantamiento y hechicería, muy usuales en aquella época. Su padre —y con él Epicuro— emigró con una colonia ateniense a Samos, pero también allí hubo de seguir dedicándose a la enseñanza de los niños, ya que el pedazo de tierra de que disponía para su cultivo no le bastaba para cubrir las necesidades de la familia.” “dedicóse principalmente al estudio de la filosofía de Demócrito. Mantuvo además trato personal con algunos de los filósofos de aquel tiempo, tales como Jenócrates, el platónico, y Teofrasto, el discípulo de Aristóteles. A los 12 años leía en unión de su maestro a Hesíodo, el que lo hace nacer todo del caos, lo cual no dejó de influir seguramente en sus propias concepciones filosóficas. Por lo demás, se llamó siempre un autodidacta, en el sentido de que había producido su filosofía por sí solo, sin ayuda de nadie; pero sin que de ello deba deducirse, en modo alguno, que no siguió las enseñanzas de otros filósofos ni estudió tampoco los escritos de otros pensadores.”
O JARDIM DAS DELÍCIAS ERUDITAS: “Epicuro empezó actuando como profesor de su propia filosofía en Lesbos (Mitilene) y más tarde en Lampsaco, en el Asia Menor, aunque sin llegar a reunir muchos oyentes. Después de haber pasado allí varios años, a los 36 de edad aproximadamente, regresó a Atenas, es decir, al verdadero centro de la filosofía y, al poco tiempo, adquirió un jardín, donde vivía entre sus discípulos, dedicado a la enseñanza.
A pesar de la debilidad de su cuerpo, que le tenía sujeto a un sillón, sin permitirle levantarse de él durante varios años, llevaba un régimen de vida absolutamente regular y de una frugalidad extraordinaria, consagrándose por entero y sin ningún otro negocio ni ocupación alguna al cultivo de la ciencia. El mismo Cicerón, a pesar de lo insulsamente que habla de él, reconoce que era, desde luego, un amigo fiel y cariñoso, y añade que nadie podría negar que era un hombre bueno y dulce, amante del prójimo.”
“Probablemente no habrá habido maestro tan querido y venerado por sus discípulos como Epicuro; era tan grande la intimidad de su convivencia, que concibieron el propósito de reunir sus bienes para seguir viviendo en permanente comunidad, como en una especie de Liga pitagórica. Sin embargo, el propio Epicuro les prohibió que lo hiciesen, por entender que ya esto mismo representaba cierta desconfianza en cuanto a su mutua buena voluntad y porque entre quienes abrigaban o podían abrigar recelos de este género era difícil que reinasen la amistad, la unión y la lealtad mutua.
Después de su muerte, sus discípulos veneraron fiel y constantemente su memoria; lucían su imagen por todas partes en anillos y en copas, y era tal la fidelidad que profesaban a las doctrinas de su maestro que se tenía entre ellos por una especie de transgresión el tratar de modificarlas en lo más mínimo (a diferencia de lo que ocurría con los estoicos, que laboraban incesantemente por desarrollar las doctrinas de su fundador), por lo que su escuela era una especie de Estado amurallado en lo tocante a la doctrina.”
“la ausencia de pensamiento se ve siempre trastornada por el concepto” Muito do que acontece com o Marxismo, p.ex.
“la actividad filosófica de Epicuro consiste precisamente en volverse de espaldas al concepto, que es lo que trastorna y embrolla lo sensible.”
“sólo un tal Metrodoro parece que llegó a desarrollar algunos aspectos de ella. Dícese también, en elogio de la filosofía de Epicuro, que este Metrodoro fue el único discípulo del maestro que se pasó al campo de Carneades; fuera de este caso, el epicureísmo sobrepuja a todas las demás filosofías por su sucesión ininterrumpida de doctrina y persistencia, ya que todas las demás desaparecieron o sufrieron interrupciones, mientras que ella se mantuvo constantemente en pie, sin sufrir cambios.”
“Los hombres pueden convertirse en castrados, pero los castrados jamás vuelven a ser hombres.”Arcesilao
“Epicuro escribió a lo largo de su vida una enorme cantidad de obras, pudiendo considerársele como un autor aún más fecundo que Crisipo, pues aunque éste rivalizó con él como escritor, hay que descontar de su obra lo que tomó de otros. Dícese que el número de sus obras llegó a sumar 300. Estas obras no han llegado a nosotros, y a la verdad que no hay por qué lamentarlo. Lejos de ello, debemos dar gracias a Dios de que no se hayan conservado; los filólogos, por lo menos, habrían pasado grandes fatigas con ellas.
La fuente principal para el conocimiento de Epicuro es todo el libro décimo de Diógenes Laercio; pero, a pesar de la prolijidad con que habla de este pensador, esta fuente no puede ser más vacua; [¡!] evidentemente, la doctrina de Epicuro mismo debe haber sido mejor; conocemos por fortuna lo bastante acerca de él para poder enjuiciarlo en conjunto. Es mucho lo que acerca de la filosofía de Epicuro nos dicen Cicerón, Sexto Empírico y Séneca, y tan certeras son sus exposiciones, que el fragmento de una obra del propio Epicuro descubierta hace algunos años en Herculano y que Orelli ha incluido en su edición napolitana (Epicuri Fragmentalibri II et XI, De natura, illustr. Orellius, Leipzig, 1818) no ha venido en realidad a decirnos nada nuevo”
“Por lo que se refiere a la filosofía de Epicuro, no debemos ver en ella, en realidad, la afirmación de un sistema de conceptos, sino, por oposición a ello, la afirmación de un sistema de representaciones”
“Lo que es en rigor una lógica es lo que Epicuro llama canónica, es decir, el conjunto de cánones en que expone los criterios de la verdad, con vistas a lo teórico, así como las sensaciones en general, y en seguida como las representaciones o anticipaciones”
“La sensación carece de fundamento, [p]ues no es movida por sí misma, ni aunque sea movida por otro factor, puede quitar ni añadir nada” “Ni una sensación extraña puede enjuiciar a otra extraña, pues debemos tomarlas en cuenta todas. Tampoco el pensamiento puede criticar las sensaciones, pues todo pensamiento depende, a su vez, de la sensación” “Y así, todos los pensamientos han tenido como punto de partida las sensaciones, tanto con arreglo al carácter casual de su nacimiento como en cuanto a la relación, a la semejanza y a la combinación; a lo cual contribuye también algo el pensamiento” “También las figuraciones de la locura o del sueño son verdaderas, puesto que mueven al hombre, y nada que mueve es inexistente.”
“lo que veo u oigo, la intuición sensible en general contiene lo que es; todo lo sensiblemente intuido es algo por sí mismo, lo uno no contradice a lo otro, sino que todas estas sensaciones rigen las unas al lado de las otras y son indiferentes entre sí. Para el pensamiento mismo, estas cosas intuidas son la materia y el contenido, en cuanto que aquél se sirve siempre, a su vez, de las imágenes de estas cosas.”
“La representación es, en cierto modo, el concepto, la opinión certera, el pensamiento o el pensamiento implícito general; es, en efecto, la reminiscencia de lo que frecuentemente acaece.” “A través de esta repetición, la sensación se convierte en mí en una representación permanente que se corrobora; tal es el firme fundamento de todo lo que tenemos por verdad.”
“Toda cosa recibe su evidencia por medio del nombre que primeramente recibe.”
“Es aquella anuencia con que nos encontrábamos en los estoicos como el asentimiento que el pensamiento daba a un contenido; sin embargo, el pensamiento que reconoce la cosa como algo suyo y lo incorpora a sí no pasa de ser en los estoicos algo puramente formal. En Epicuro, en cambio, también la unidad de la representación del objeto consigo misma se halla presente en la conciencia como un recuerdo, pero este recuerdo tiene como punto de partida lo sensible; la imagen, la representación, es el asentimiento prestado a una sensación.” “El nombre es ciertamente algo general, pertenece al pensamiento, hace de lo múltiple una cosa simple, es incluso lo más ideal que cabe concebir: pero de tal modo que su significación y su contenido son lo sensible y no deben valer como este algo simple, sino como lo sensible. La cual nos lleva, no al saber, sino a la opinión.” “La opinión es, en efecto, una representación como aplicación de la misma en cuanto ya tenida, es decir, una aplicación del tipo a un objeto presente, que se investiga para ver si la representación de él coincide con él o no.” Opinião como representação fundamentada. Isto é: representação pura é apresentação. Opinião é que é re-presentação. Que são as estrelas, o firmamento? Uma apresentação à qual damos fé em virtude de nossas representações terrenas. Uma quase opinião.
“Tales son los puntos fundamentales de la canónica de Epicuro, la pauta general para la verdad; es tan simple que no puede haber nada más simple, pero es también muy abstracta. Son representaciones psicológicas corrientes, justas en su conjunto, pero completamente superficiales; es sencillamente la mecánica de la representación desde el punto de vista de las primeras manifestaciones de la percepción.” Acontece que a filosofia voltará a essa ‘simplicidade’ depois da derrocada do Idealismo universalista.
“Hoy hasta los escépticos hablan de los hechos de la conciencia; claro está que lo que ellos nos dicen no va tampoco más allá que la canónica epicúrea que acabamos de exponer.” Céticos: menos céticos que os cínicos; cínicos: mais cínicos que os céticos.
“De la superficie de las cosas —dice en primer lugar Epicuro— arranca un constante fluir que la sensación no percibe y que es muy sutil; y ocurre así porque, por razón del cumplimiento opuesto, la cosa misma retiene firmemente durante largo tiempo esta misma ordenación y disposición de los átomos; y el movimiento de estas superficies que se desprenden es extraordinariamente rápido en el aire, ya que no es necesario que lo desprendido tenga una profundidad.”
“Epicuro opta por el criterio más fácil y que sigue siendo hoy el criterio usual y corriente de la verdad, en tanto no se ve: el de que lo que nos representamos no se halla en contradicción con lo que vemos u oímos.”
“Jamás podría corroborarse la verdad ni la semejanza de las representaciones que llegan a nosotros en imágenes o en sueños o de otro modo cualquiera, si no existiese algo sobre lo que, en cierto modo, proyectamos nuestras percepciones. (…) Por tanto, según Epicuro, el error sólo es un desplazamiento de las imágenes dentro de nosotros mismos, desplazamiento que no nace del movimiento de las sensaciones, sino más bien del hecho de que entorpecemos su acción por medio de un movimiento iniciado dentro de nosotros mismos”
“A estos escasos y pobres pasajes, expuestos en parte de un modo oscuro o torpemente extractados por Diógenes Laercio,¹ se reduce la teoría epicúrea del conocimiento; difícilmente podría concebirse otra más pobre.”
¹ Quase um Karnal da época.
“en cuanto que Epicuro considera las cosas, según acabamos de ver, como llenas de multitud de átomos, tenemos que el pensamiento es el otro momento además de los átomos, lo vacío, los poros, lo que permite poner un dique a esta riada [enxurrada] de los átomos.” “apartamos la vista de algo, es decir, que interrumpimos precisamente este fluir.” Princípio da individuação e coerência – ou viver tornar-se-ia impossível. Um filósofo do momento presente.
“Los átomos, en cuanto tales, deben permanecer indeterminados; pero los atomistas viéronse arrastrados a la inconsecuencia de atribuirles cualidades” Surpreendentemente contemporâneo.
“Toda cualidad se halla expuesta a cambio; pero los átomos no cambian. En toda disolución de lo compuesto tiene que haber necesariamente algo que permanezca firme e indisoluble, que no cambie a lo que no es ni de la nada al ser. Este algo inmutable es, por tanto, algunos cuerpos y figuraciones. Las cualidades representan cierta relación de los átomos entre sí.”
“Todas las formas específicas, todos los objetos, la luz, el color, etc., e incluso el alma, no son otra cosa que una cierta ordenación de estos átomos. Así lo ha dicho también Locke; y todavía hoy afirma la física que la base de las cosas la forman las moléculas ordenadas de cierto modo dentro del espacio.” Locke só é citado por H. da forma mais detratora!
“El pensamiento es en el hombre precisamente lo que los átomos y el vacío son en las cosas, a saber: su interior, es decir, el átomo y el vacío forman parte justo del movimiento del pensar o son para éste como las cosas son en sí. El movimiento del pensar corresponde, pues, a los átomos del alma, de tal modo que en ello se opera al mismo tiempo una interrupción frente a los átomos que afluyen desde el exterior. No puede, por consiguiente, verse en ello nada más que el principio general de lo positivo y lo negativo; esto quiere decir que también el pensamiento lleva consigo un principio negativo, que es el momento de la interrupción.Este fundamento del sistema epicúreo, al seguirse aplicando a las diferencias de las cosas y al desarrollarse, es lo más arbitrario y, por tanto, lo más aburrido que imaginarse pueda.” Falou o filósofo interessantíssimo de ler!
ERRADO NÃO ESTÁ! “Aparte de distintas figuras, los átomos tienen también distinto movimiento, debido concretamente a su gravedad que es su afecto fundamental; pero este movimiento difiere algo, en su dirección, de la línea recta. En efecto, Epicuro les atribuye un movimiento curvilíneo, ya que de otro modo no podrían entrechocarse. Esto hace nacer una serie innumerable de aglutinaciones y conformaciones especiales; y éstas son las cosas.”
“La transición a la manifestación concreta de los cuerpos, o bien no aparece para nada en Epicuro, o bien lo que nos dice acerca de ella es de la más extrema pobreza.” Ou bem é inútil perder tempo com o inefável.
A birra-mor de H. com o epicurismo é que seu sistema não pode ser teleologizado! “consecuente con esto, Epicuro se declara inmediatamente en contra de la existencia de un fin último general del universo y de toda relación de fin en general, como, por ejemplo, de la finalidad de lo orgánico en sí mismo, así como también es contrario a las representaciones teleológicas de la sabiduría de un creador del universo, de su gobierno del mundo, etc.; y su actitud en esto no puede ser más lógica consigo misma, ya que en su concepción queda eliminada toda unidad, cualquiera que sea el modo como ésta se represente, ya como fin de la naturaleza en ella misma, ya como un fin que, aun residiendo en otra cosa, se hace valer en la naturaleza; en los estoicos, por el contrario, encontramos este punto de vista teleológico y, además, muy desarrollado.”
“inconsecuencia que es la primera y la única de Epicuro y la de todos los empíricos.”
“a partir de lo conocido podemos deducir lo desconocido.” Que é o homem?, teria perguntado Drácula. E ele mesmo respondeu, sem aguardar seu estupefato interlocutor, mero humano que não filosofava: É alguém incapaz de seguir Hegel! É alguém que prefere seguir pelas sendas de Epicuro e Kant para conhecer a natureza e aquilo que excede à natureza! E Drácula estava correto em seu juízo sobrenatural, i.e., de semideus que refletia nessas coisas…
Grosso modo, podemos ainda dizer: Hegel é aquele para quem o desconhecido é aquilo que podemos deduzir do conhecido – nenhum descalabro maior!
“es en realidad el mismo principio que sigue rigiendo hoy en la ciencia natural común y corriente.”Só bastaria, aliás, mais tato aos físicos quânticos: se não imaginassem demais, deduziriam coisas mais fidedignas e modestas, longe de buracos de minhoca e que-tais…
“Se llega, así, a la noción de representaciones, de leyes y fuerzas generales, tales como la electricidad y el magnetismo, las cuales se aplican después a los objetos y actividades no susceptibles de ser directamente percibidos por nosotros. Así, por ejemplo, sabemos de la existencia de los nervios y de su interdependencia con el cerebro; y decimos que las sensaciones, etc., se transmiten desde la punta del dedo, supongamos, hasta el cerebro mismo. (…) La anatomía puede descubrirnos los nervios, pero no su modo de actuar; pues bien, no hay sino representarse éste por analogía con otros fenómenos, por ejemplo, con las vibraciones de una cuerda tensa, equiparando a ellas las vibraciones de los nervios hasta llegar a los centros cerebrales. O como en el conocido fenómeno que se observa, sobre todo, en una serie de bolas de billar colocadas muy juntas las unas a las otras, en que la última de la fila avanza cuando se empuja la primera, mientras que las intermedias, cada una de las cuales impulsa a la que le sigue, parece que apenas se mueven; no hay, pues, sino imaginarse los nervios como formados por bolitas pequeñísimas, invisibles aun a través de la más poderosa lente de aumento, la última de las cuales salta al contacto con ella y toca el alma. Del mismo modo, la luz se concibe como una serie de hilos o rayos, como vibraciones del éter o como bolitas etéreas que chocan las unas con las otras. [¡!]”Espantosamente, H. sabia muito bem no que o epicurismo repercutia em nossa epistemologia atual – mas decidia jogar tudo no lixo, enquanto se trata de hegelianismo decantado de ‘impurezas indesejáveis’. Se soubeste descrever a luz antes do séc. XX, este é um sinal de que acertaste!
“Hay que advertir que, en esta clase de explicaciones, Epicuro es expresamente muy liberal, equitativo y tolerante, puesto que dice que las diversas representaciones que se formen en nosotros con relación a los objetos sensibles —todas ellas, por muchas que sean— pueden ser aplicadas a lo que no podemos observar directamente por nosotros mismos; que no puede afirmarse un solo modo como el acertado, sino que puede llegarse al resultado que se busca por muchos caminos.”
“El rayo puede explicarse por medio de toda una serie de posibles representaciones, por ejemplo1 por medio del frotamiento y la colisión de las nubes, que producen la figuración del fuego y provocan el rayo.” “Es exactamente el mismo método a que recurren nuestros físicos, todavía hoy, para explicar cómo se produce la chispa eléctrica en las nubes, al chocar entre sí. En efecto, como tanto en el rayo como en la electricidad se observa una chispa, se toma este elemento común como base para llegar a conclusiones acerca de la analogía entre ambos fenómenos, afirmándose que también el rayo es un fenómeno eléctrico. Ahora bien, las nubes no son cuerpos duros, y la humedad, lejos de producir la electricidad, lo que hace es dispersarla; por eso estas chácharas de los físicos de hoy son en realidad tan vacuas como la representación de Epicuro.” Tá bom, Hegel, doutor em física fenomenológica (física do mundo experimental)!
“Podemos elegir uno de estos procedimientos y rechazar los otros, sin pararnos a pensar lo que al hombre le es posible conocer y lo que no está al alcance de su conocimiento, empeñándonos, por tanto, en conocer lo imposible.”
“Se ha atacado y querido poner en ridículo este método de Epicuro; pero no es por esta razón por lo que hay que avergonzarse de él, ni los físicos modernos tienen derecho a repudiarlo, por otra parte, pues lo que Epicuro dice no desmerece en nada de lo que sostienen los modernos investigadores de la naturaleza. Además, en Epicuro se da la atenuante de que obra con la conciencia limpia, puesto que la ausencia de testimonios de los sentidos le autoriza, según cree, a atenerse a las analogías. Y tampoco, como veíamos, toma la cosa muy en serio, desde el momento en que dice que unos admiten una posibilidad y otros otra: él admira la sutileza de los demás y no trata de imponer a la fuerza la explicación propia; las cosas, nos dice, pueden ocurrir así o de otro modo.”
“Ahora bien, si la física consiste o se cree que consiste en atenerse, de una parte, a la experiencia inmediata y, de otra parte, en aquello que no cae dentro de la experiencia directa, en la aplicación de lo primero a base de la analogía con lo que la experiencia no revela, no cabe duda de que Epicuro puede ser considerado, si no como el iniciador, por lo menos como el principal representante de este método, y concretamente como el pensador que sostiene que en ello consiste realmente el conocer.”
“El a priori es, en Aristóteles por ejemplo, algo excelente, pero no basta, porque se echa de menos en ello el lado de su articulación y cohesión con la observación y la experiencia.”
“Esta reducción de lo particular a lo general es el descubrimiento de las leyes, de las fuerzas naturales, etc. Cabe pues afirmar, sin miedo a equivocarse, que Epicuro es el inventor de la ciencia empírica de la naturaleza, de la psicología empírica.Por oposición a los fines de los estoicos y a los conceptos intelectivos, la experiencia es el presente sensible: de una parte, nos encontramos con la inteligencia abstracta limitada, sin verdad de suyo y, por tanto, sin presente ni realidad de la naturaleza; de otra parte, con este sentido de la naturaleza, más verdadero que aquellas simples hipótesis.
Los mismos efectos producidos en el mundo moderno por la aparición del conocimiento de las leyes de la naturaleza, etc., los produjo la filosofía epicúrea en su tiempo y dentro de su círculo, en tanto iba dirigida contra todo lo que fuese invención fantástica y arbitraria de causas.” “Y el método de Epicuro, sobre todo, iba enderezado, por su tendencia, contra las supersticiones absurdas de la astrología, etc., cuya manera no se apoya tampoco en nada racional”
“La filosofía epicúrea dio al traste con todas aquellas creencias supersticiosas en torno al vuelo de las aves en un sentido o en otro, a la significación de la liebre que cruzaba el camino, a la inspección de las entrañas de los animales, a la alegría o la tristeza de las gallinas, etc.” Agora entendo melhor a acusação de ateísmo e heresia a E.!
“la física de Epicuro es desde luego contraria a todo esto, ya que se mantiene, en lo tocante a lo finito, dentro del círculo de lo finito, admitiendo solamente causas finitas; pues las mentes ilustradas lo son precisamente por no salirse jamás del campo de lo finito. El entronque con otras cosas finitas, con condiciones que son, a su vez, algo condicionado, se busca y procura encontrarse sin salirse de ese campo”
“Para que el hombre pueda librarse de la superstición, Epicuro predica también especialmente la ciencia física, por ser ésta a su juicio la que libra al hombre de todas las opiniones y creencias que más lo inquietan y perturban: de las creencias acerca de los dioses, de sus castigos y, principalmente, de la muerte.”
“Sin embargo, mi juicio es, y lo digo en parte contra muchos de mis compatriotas, que los preceptos morales de Epicuro prescriben al hombre, cuando se los examina con cuidado, una conducta sagrada y justa, e incluso triste. Pues, si bien se mira, el placer de Epicuro se reduce a algo muy pequeño y muy pobre, y apenas es posible decir lo mesurado y seco que es. La misma ley que nosotros prescribimos para la virtud es la que él traza para el placer: exige que el placer se ajuste a la naturaleza, y esto reduce el placer a límites muy estrechos. ¿Qué quiere decir esto? Quien llame feliz a una vida podrida, llena de fango y licenciosa, buscará en Epicuro una buena autoridad al servicio de una cosa mala; y cuando, dejándose fascinar por brillantes nombres, se dirija hacia los sitios en que oye elogiar lo agradable, no se entregará precisamente a los placeres que Epicuro predica, sino a los que él mismo apetece. Lo que ocurre es que esos hombres entregados al vicio sólo tratan de encubrir su propia maldad con el manto de la filosofía y de dar a sus libertinajes y desenfrenos un pretexto y una salida. Y así, ni siquiera a la juventud le es lícito tomar vuelos en este sentido mediante el procedimiento de dar un honroso título a lo que no es más que un inadmisible desmadejamiento.”Sêneca, o “honrado adversario”!
“No existe, pues, ninguna diferencia esencial entre el tipo de vida del estoico y el del verdadero epicúreo que se ajuste a las normas y a los preceptos de su maestro. § Sin embargo, aunque a primera vista parezca que ya los cirenaicos proclamaban el mismo principio moral que más tarde habían de preconizar los epicúreos, Diógenes Laercio (X, 139, 136-137) se encarga de señalar la diferencia en los siguientes términos:¹ los cirenaicos proponíanse como fin más bien el placer como algo concreto, mientras que Epicuro lo predica como un medio, en cuanto que afirma como placer la ausencia de dolor, sin admitir ningún estado intermedio.” Talvez Nietzsche tenha compreendido mal o epicurismo e o estoicismo. Bom, não é impossível: julgo que compreendeu mal Parmênides, ao não alçá-lo à altura de um Heráclito… Ausência de dor não é um critério nobre, supra-hominídeo.
¹ Finalmente uma contribuição conceitual de Laércio!
“Además, los cirenaicos tenían los dolores del cuerpo como peores que los del alma, mientras que el punto de vista de Epicuro era el contrario.”Dor física é bom demais! No pain, no g…
“Los dioses existen, y el conocimiento de ellos es evidente; no son, sin embargo, como las gentes suelen creer. El impío, por tanto, no es el que niega los dioses del vulgo, sino quien se empeña en atribuirles las opiniones del vulgo.” Epicuro, um dos fragmentos preservados
“Los hombres deben tributar honores a los dioses por razón de la excelencia de su naturaleza y de su dicha, pero no para obtener de ellos nada especial, ni buscando este o el otro beneficio.” Aqui não aceitamos cegos, mancos nem leprosos!
“En relación con esto se halla también la circunstancia de que Epicuro asigne a los dioses el espacio vacío, los intersticios del universo como morada, donde no se hallan expuestos, según él, a las lluvias, a los vientos, a la nieve ni a otros accidentes de esta clase”
“Epicuro quiere que el hombre se forme una noción exacta de la muerte, para que ésta no turbe su tranquilidad. (…) ‘En seguida, acostúmbrate a pensar que la muerte no debe preocuparnos en lo más mínimo, pues todo lo bueno y lo malo reside en las sensaciones, y la muerte es el despojo de toda sensación. De aquí que el pensamiento certero de que la muerte no nos afecta haga del carácter mortal de la vida una fuente de goce, ya que este pensamiento nos aparta de la infinitud y del ansia de la inmortalidad. Pues nada hay de temible en la vida para quien ha llegado verdaderamente a conocer que el no vivir no tiene nada de temible.’” Famoso trecho que, creio, Sartre citou n’O Ser e o Nada e eu cheguei a anotar num papelito que guardava na carteira, coisa de 10 anos atrás – até as chuvas brasilienses esfarelarem o pobre material!
“La satisfacción la consideramos como un bien, no simplemente para optar por lo más pequeño, como los cínicos, sino para darnos por contentos, aunque no obtengamos lo mucho: a sabiendas de que quienes logran el mayor disfrute de lo abundante son los que no lo necesitan y que lo natural es fácil de poseer, mientras que lo vacío resulta difícil de adquirir.”
“Por tanto, cuando hacemos del placer el fin del hombre, no nos referimos a los placeres orgiásticos, como a veces se entiende falsamente, sino a un estado en que el hombre no sufre padecimientos físicos ni nada que inquiete su espíritu.”
“Es preferible ser desgraciado con arreglo a la razón que feliz en contra de ella, pues vale más que el hombre enjuicie certeramente sus actos a que sea favorecido por la suerte.”
“Lo que ocurre es que la exposición epicúrea del sabio, en Diógenes Laercio (X, 117-121), tiene un carácter de mayor mansedumbre; el sabio aquí se atiene más a las leyes establecidas, a diferencia del sabio estoico, a quien no se le da un ardite de ellas. El sabio epicúreo es menos terco que el estoico, pues mientras que éste parte del pensamiento de la autarquía, que, negándose, se comporta activamente, los epicúreos, por el contrario, arrancan del pensamiento del ser, que deja mayor margen a la realidad y no proyecta esta actividad hacia el exterior, sino que busca más bien la quietud interior, la cual no se adquiere por el embotamiento, sino por medio de la más alta formación del espíritu.”
“El escepticismo representa, en verdad, el levantamiento de las dos unilateralidades que han sido puestas de relieve más arriba; pero este algo negativo sigue siendo negativo en él, y no sabe trocarse en algo afirmativo.”
“O ceticismo representa, na verdade, a suspensão das duas unilateralidades que pusemos em relevo acima; só que este algo negativo segue sendo negativo dentro desta escola, e não sabe permutar-se em positivo.”
“Frente al dogmatismo estoico y epicúreo, aparece en primer lugar la Nueva Academia, continuación de la Academia platónica, ya que los sucesores de Platón suelen clasificarse en tres grupos: la Academia antigua, la media y la nueva; algunos autores admiten además una cuarta Academia e incluso una quinta.” VIROU PASSEIO!
“La fundación de la Academia media se atribuye a Arcesilao, mientras que la nueva gira en torno a los pensamientos de Carneades; pero esta distinción no significa nada.” “El escepticismo incluye a aquellas 2 figuras entre los filósofos escépticos, pero llamándolos los académicos, con lo cual hacen resaltar una distinción con respecto a la pureza del escepticismo que en realidad es puramente formal y quiere decir poco” “Vemos, pues, que en lo tocante a lo positivo Arcesilao no avanza gran cosa en general, y dice lo mismo que los estoicos; lo único que cambia es la forma, en cuanto que Arcesilao llama simplemente bien razonado o verosímil lo que los estoicos expresan como verdad.”
“El conocimiento, que es un momento necesario en la formación de los pueblos, aparece así como pecado original y corrupción.”
“son aproximadamente las mismas fases con que nos encontramos en Wolff, cuando habla de la representación clara, distinta y adecuada.” Talvez nem valha a pena tocar nesse Wolff. Os neoacadêmicos são fraquíssimos!
“Ahora bien, si llevamos este punto de vista de los académicos a sus últimas consecuencias, la conclusión a que llegamos es que sencillamente todo existe sólo para la conciencia, con lo cual desaparece la forma de un ser en general, y también el saber de lo que es, en cuanto forma; lo cual no es otra cosa que el escepticismo.” “El escepticismo corona la concepción de la subjetividad de todo saber, al sustituir en términos generales el ser del saber por la expresión de la apariencia.”
ADOLESCÊNCIA DA FILOSOFIA (OU DO ESPÍRITO EM H.) – GÓRGIAS II: “En todos los tiempos, y todavía hoy, ha sido considerado como el más temible adversario de la filosofía, teniéndolo incluso por invencible, en cuanto el arte que consiste en disolver todo lo determinado, demostrando su nulidad; tal parece, en efecto, como si se lo reputase incontrovertible y como si la diferencia entre las convicciones estribase solamente en saber si el individuo optaba por esta actitud o por una filosofía positiva y dogmática.” “No hay más remedio que reconocer, en verdad, la invencibilidad del escepticismo, aunque sólo desde el punto de vista subjetivo con respecto al individuo, que puede adoptar evidentemente la actitud del hombre que no quiere saber nada de la filosofía y que sólo afirma lo negativo. El escepticismo parece ser, de este modo, algo a lo que uno tiene que rendirse, y tiene uno la sensación de que es inútil tratar de rescatar de esta actitud a quien decide echarse en sus brazos, mientras que los otros pueden aferrarse tranquilamente a su filosofía por la sencilla razón de que se vuelven de espaldas al escepticismo sin querer saber nada de él, en la imposibilidad de hacerle frente para refutarlo.”
“Claro está que quien se empeñe en ser simplemente un escéptico jamás se dará por vencido ni se verá reducido a las posiciones de la filosofía positiva,(*) del mismo modo que no es posible echar a andar a quien sufre parálisis de todos sus miembros.
(*) (…) al mismo tiempo, esta expresión, tal como Hegel la emplea, con su doble acepción, no tiene absolutamente nada que ver, por supuesto, con ese positivismo que tantos vuelos está tomando en los últimos tiempos y que, por huir de la necesidad del conocimiento pensante, cae a la postre en los brazos de la revelación y de la simple fe, aunque se adorne con el nombre de pensamiento libre [M.].” Uma nota de rodapé que hoje é supérflua – sim, já sabíamos.
Seria o niilismo apenas um subconjunto do hegelianismo? A exportação lenta e gradualíssima de um mal da intelligentsia ao “povão”? A história desse espraiamento?
BATALHA DO “MAS!” CONTRA O “MAS…”: “La filosofía positiva puede tener la conciencia de que lleva dentro de sí misma la negación del escepticismo, de que éste, por tanto, no se contrapone a ella, ni existe fuera de ella, sino que es simplemente un momento suyo; pero de tal modo que esta filosofía encierra dentro de sí lo negativo en su verdad, cosa que no hace el escepticismo.”
“el escepticismo se comporta solamente como un entendimiento abstracto. Desconoce que también esta negación es de suyo un determinado contenido afirmativo, puesto que es, en cuanto negación de la negación, la negatividad referida a sí misma y, más precisamente, la afirmación infinita.”
“Hay que distinguir, además, entre el escepticismo antiguo y el nuevo escepticismo; a nosotros aquí sólo nos interesa el primero: sólo él presenta una naturaleza verdadera y profunda, puesto que el nuevo es más bien epicureísmo. [¿?] Así, en estos últimos tiempos, Schulze viene predicando en Gotinga su escepticismo y ha escrito un libro titulado Enesidemo, para de este modo compararse con este escéptico, interpretando además en otras obras el escepticismo contra las doctrinas de Leibniz y Kant.” “Éste y otros autores toman como base de su concepción la creencia de que se debe tener por verdad el ser sensible, lo que la conciencia sensible nos entrega, dudando en cambio de todo lo demás. Lo que opinamos es lo último, los hechos de la conciencia.” Algo me diz que estamos todos em Schulze no momento…
“El nuevo escepticismo se dirige solamente contra el pensamiento, contra el concepto y la idea y, por tanto, contra lo filosófico superior; deja, pues, que la realidad de las cosas subsista intacta e indubitada, y afirma solamente que partiendo de ella no es posible deducir nada en cuanto al pensamiento.” Quiçá minha primeira compreensão ao ler a Dialética do Esclarecimento… Muito jovem ainda!
“El escepticismo moderno es la subjetividad y la vanidad de la conciencia, evidentemente insuperable, pero no para la ciencia y la verdad, sino solamente para aquélla, para la misma subjetividad.” Não sejais cético; sede ético!
“Por tanto, aunque por una parte se diga que la verdad es solamente la convicción de los otros y, de otra parte, se ensalce también la propia convicción, que al igual que aquélla no pasa de ser un ‘solamente’, no hay manera de sacar a este sujeto de lo que es a la par su soberbia y su humildad. Y así, el resultado del escepticismo antiguo es simplemente la subjetividad del saber; pero este resultado descansa sobre la anulación pensante y desarrollada de todo lo que pasa por ser verdadero y válido, haciendo de este modo que todo sea inconstante.”
“La duda, sin embargo, no es sino la incerteza, la indecisión, la irresolución, el pensamiento que se opone a algo válido. Dudar, dubitare, viene de duos, 2: es un ir y venir entre dos cosas o varias, ninguna de las cuales acaba de satisfacernos, aunque necesariamente tenemos que decidirnos por la una o por la otra.” “Esto presupone un profundo interés por un contenido y el anhelo espiritual de que este contenido sea consolidado en sí mismo o no lo sea, ya que el espíritu necesita encontrar la quietud de un modo o de otro. Estas dudas no tienen más remedio que ser expresadas por los pensadores finos y sagaces; son, sin embargo, simple vanidad, ganas de torturarse, o bien responden a un desmadejamiento [vertigem, decadência, neste caso] que no conduce a nada.”
CONSUMISMO E CETICISMO ABSOLUTO: Falta de ética
O consumismo é o ceticismo individual levado a modo de produção. Mero deixar-passar hesitante robótico. Hiato indefinido de cultura e humanidade. Recesso da História. Se o momento pode ser procrastinado por meio de simulações, há de haver uma pane da engrenagem de simulação, da matriz simulacional. Do motor que emite todos os simulacros, a simulação das simulações. Há de vir, porém são séculos de filme mudo enquanto isso…
NADA MAIS ANTI-HISTÓRICO DO QUE UMA HISTÓRIA BEM CONTADA!“Los escépticos tratan de demostrar históricamente su actitud y afirman que ya Homero abrazaba el escepticismo, por cuanto que habla de las mismas cosas en sentidos opuestos.”
“La historia del llamado escepticismo se inicia de ordinario con Pirrón, a quien se considera como el fundador de esta tendencia, y de él proceden también los nombres de pirronismo y pirronianos.” “Por lo que se refiere a la vida de Pirrón, la contemplamos con el mismo escepticismo que su doctrina, pues lo que acerca de ella sabemos no presenta la menor cohesión y es muy poco seguro.” Hahaha! Pitágoras Segundo…
“Finalmente, se cuenta de él que acompañó a Alejandro Magno en su expedición al Asia, donde al parecer se dedicó intensamente al estudio de los magos y los brahmanes. Dícese que Alejandro lo mandó ejecutar por haber exigido la muerte de un sátrapa persa y que perdió la vida de este modo a la edad de 90 años. Suponiendo que todo esto sea cierto y teniendo en cuenta que Alejandro pasó en el Asia unos 12 o 14 años, resultaría que Pirrón emprendió este viaje en el séquito del monarca macedonio cuando contaba 78 años, o incluso más.” “Como Pirrón afirmaba, entre otras cosas, que la realidad de las cosas sensibles no encerraba verdad alguna, se cuenta de él, por ejemplo, que en la calle no se retiraba para dejar pasar a los carruajes, los caballos y demás objetos que venían frente a él y que marchaba directamente contra las paredes, perfectamente convencido de la falta de realidad de las percepciones sensibles, teniendo sus amigos y las gentes que le rodeaban que retirarlo de los peligros en que de este modo se colocaba, con gran riesgo de su vida.” O verdadeiro Pirro seria apenas um ator pornô (seu estoicismo estaria em que desprezaria as dores provocadas pela sífilis!)…
Talvez o maior livro de meta-dados que se pudesse escrever fosse uma biografia de Diógenes Laércio! Fonte: Diog. Laér.
Os maiores rivais dos escépticos eram os assépticos, pois gostavam de ter uma discussão muito limpa!…
“para que el escepticismo aparezca con la dignidad propia de la filosofía es necesario que él mismo se desarrolle en su aspecto filosófico; y esto fue, en efecto, lo que hizo Enesidemo.”
6º “EMPÍRICO” ERA CÉTICO, GRANDE TIRADA! “Sexto vivió y enseñó aproximadamente a mediados del siglo II d.C.. (Brucker) Sus obras se dividen en 2 partes: 1) Sus Pyrrhoniae Hypotyposes, en 3 libros, nos ofrecen, en cierto modo, una exposición general del escepticismo en su conjunto; 2) de sus libros Adversus Mathematicos—es decir, contra la ciencia en general y especialmente contra los geómetras, aritméticos, gramáticos, músicos, lógicos, físicos y éticos—, que forman 11 en total, hay 6 dirigidos realmente contra los matemáticos, pues los 5 restantes se dedican a polemizar contra los filósofos.”
“Quien busca un objeto tiene o bien que encontrarlo o bien negar que pueda encontrarse, o bien seguir buscándolo. Otro tanto acontece con las investigaciones filosóficas: unos afirman haber encontrado lo verdadero; otros niegan que sea posible llegar a captarlo; los terceros, por fin, perseveran en su búsqueda. Los primeros, tales como Aristóteles, Epicuro, los estoicos y otros, son los llamados dogmáticos; quienes afirman la imposibilidad de llegar a captar la verdad son los académicos; los escépticos siguen buscando. Existen, pues, 3 filosofías: la dogmática, la académica y la escéptica.” Neste conceito Platão é o rei dos céticos, e com Razão!
“El escéptico no dogmatiza, sino que se limita a asentir involuntariamente a las afecciones a que se ve forzado por las representaciones; así, por ejemplo, cuando siente calor o frío, no dirá que no parece sentir frío o calor. Si se nos pregunta si el sujeto es tal y como aparece, reconocemos la apariencia, pero no nos ponemos a investigar la cosa aparente, sino solamente el predicado que de lo aparente se dice. Por tanto, el que algo sea dulce sólo lo investigamos con respecto al concepto; pero esto no es lo que aparece, sino lo que se predica de lo aparente. Pero, cuando nos ponemos a investigar directamente sobre lo aparente, no lo hacemos para destruir lo aparente, sino para refutar la precipitación de los dogmáticos.” “Por consiguiente, en todas las tesis escépticas debemos tener presente que no afirmamos en modo alguno que esas tesis sean verdaderas, puesto que decimos que pueden destruirse a sí mismas, puesto que se hallan limitadas por aquello de que se predican.”
É essencial que saibas que a essência não existe!
“El principio eficiente del escepticismo es la esperanza de la imperturbabilidad.” É como dar-se por vencedor hoje de todas as tribulações do amanhã. O amanhã já foi, mas que importa ser um perdedor?
Tens que ter um prato de comida preferido, uma banda favorita e, claro, hobbies, ou serás só um vento mau!
“Contra el concepto como concepto, es decir, contra el concepto absoluto, no se dirige para nada el escepticismo; el concepto absoluto es más bien su arma, aunque el escepticismo no tenga conciencia de ello.”
“Así, pues, aunque el escepticismo se expresa siempre en el sentido de que todo es pura apariencia, los escépticos van más allá que los partidarios del moderno idealismo puramente formal, pues se enfrentan con el contenido y muestran cómo todo contenido es un contenido sentido o un contenido pensado, teniendo por tanto algo contrapuesto. Así, pues, ponen de manifiesto la contradicción que se encierra en el contenido mismo, de tal modo que de todo lo que se predica cabe predicar, al mismo tiempo, lo contrario; tal es lo objetivo del escepticismo en su apariencia, lo que hace que no sea un idealismo subjetivo.”
OS 15 GIROS OU TROPOS DOS CÉTICOS (MANUAL DO MUNDO DAS APARÊNCIAS), OU OS 5 GIROS QUE REALMENTE IMPORTAM.
A) DO SUBJETIVO
1. Nada é, pois reina o múltiplo. Cada animal enxerga diferente dos demais. Protoperspectivismo e as cores para si, jamais em si. (juiz: o animal)
2. Cada indivíduo é diferente dos demais homens. Sentimos sempre singularmente. Nem mesmo o veneno é algo objetivo e universal, pois alguns podem sobreviver ou não sentir os seus efeitos. Nunca houve nem haverá uma só religião sobre a terra. Bem como filosofia(s)… A falha do ceticismo em ser hegemônico provaria a tese! (juiz: o homem)
Não que seja necessário, mas neste ponto H. joga objeções: “Por muy distintos que los sistemas filosóficos puedan ser, jamás serán tan distintos como lo blanco y lo dulce, lo verde y lo áspero”; se fossem tão díspares entre si, não seria possível reuni-los num subcampo do saber e escrever uma História da Filosofia coerente, etc.
3. Os sentidos discordam entre si. A vista engana o tato e vice-versa. (juiz: os sentidos do homem; os vários homens unilaterais na unidade chamada homem, no qual, claro os céticos não acreditam!)
4. O mesmo nunca é o mesmo para o mesmo: um homem recebe algo diferente conforme se movimenta, está em repouso, dorme, está irado, está com medo, está sereno, é jovem, é velho, etc. (juiz: os humores e estados do homem, o homem-no-tempo)
5. O grande é relativo, o pequeno é relativo. Sempre há uma posição em que o grande se torna nanico e o nanico se torna gigantesco. O mesmo para claridade e escuridão. “La contradicción más conocida es la que se refiere a la rotación del sol en torno a la tierra o de la tierra alrededor del sol.” (juiz: o homem-no-espaço)
6. (mais como 1.2) Não há pureza, apenas misturas num devir. (juiz: o ‘suposto’ Um? A própria aparência? Ou antes ‘a relação’)
7. (mais como 4.2) O mesmo não é o mesmo (excluindo a consciência ou o ‘para o mesmo’: areiavidro, etc. A verdade do vinho é ao mesmo tempo a confiança e a completa impotência, conforme se tome 2 goles ou 2 garrafas. (juiz: o objeto, ou a relação, seja de qualidade ou quantidade.)
8. A direita e a esquerda sempre variarão. Não é possível se colocar no lugar do outro. “La relatividad en general lo es en relación con lo que se supone ser absoluto, pues la relación misma es una relación consigo mismo y no con otra cosa.” Traduzindo, tudo é relativo; aliás, até o relativo é relativo. O absoluto existe sob a forma intangível da relatividade ubíqua. Tudo é para si, mas não sabemos o que é para si. (juiz: a relação ou o princípio de causalidade, fechando as 3 categorias kantianas da apercepção imediata: tempo, espaço, causa.)
9. (mais como 4.3) Mesmo que todos os pontos anteriores não existissem, um dia, uma hora, um momento tudo se modifica. O contingente é uma constante, mas a constância em si é contingente. (juiz: homem-no-tempo ou a relação)
10. (mais como 4.4 ou 4.3.2!) A ciência jurídica é diferente em cada ponto da terra e varia sempre no mesmo ponto da terra. Tudo é arbitrariedade e absurdo. Combinação com os pontos 5º, 8º e 9º, para sermos kantianos mais uma vez. (juiz: o homem-no-tempo, o homem-no-espaço, a relação e o princípio de causalidade ao mesmo tempo; grosso modo, os “costumes” enquanto objeto, i.e. a cultura panoramicamente falando.)
“Por razón de su simpleza, nosotros no estamos acostumbrados a dar gran importancia a esta manera de proceder [com os 10 primeiros tropos ou giros da razão] ni a atenernos a ella, pero no cabe duda de que son absolutamente certeros en lo que tienen de reacción contra el dogmatismo del sentido común.”
PRÓ-NOME: “Por tanto, el sentido de estos tropos conserva todavía su vigencia. Si se trata de fundamentar por medio de un sentimiento la fe o el derecho, este sentimiento se da en mí, pero siempre puede haber otro que diga: ‘en mí no se da esto’.”
B) DO OBJETIVO
11. As opiniões divergem. Não as ‘opiniões’ (sensações) animais nem as opiniões do simples ‘homem’. Mas as opiniões dos sábios! O argumento poderia ser resumido da forma seguinte: “Se fosse possível um consenso filosófico e uma filosofia universal, este consenso e esta universalidade já teriam sido alcançados.” – espécie de extensão do argumento 2. Implicações, se não se refuta o ponto: Hegel tenta a Síntese Suprema; falha; Nietzsche, a Escola Crítica & os pós-modernos insistem em acusar o erro. Ainda estamos recolhendo os cacos e estilhaços em que a Filosofia Continental se partiu então. De fato só o ceticismo chega a sua meta em cada geração.
12. O axioma da queda no progresso infinito. Cada afirmação necessita um princípio ou axioma; cada princípio ou axioma necessita de uma nova fundação; que necessita de um novo dogma assentador, etc. Um sério inimigo do Idealismo Romântico; mas Kant, p.ex., parece nada sofrer com este tipo de refutação!
13. “Zagallo”: Nenhum juiz é isento para julgar o que quer que seja, pois só ocupa um lugar relativo, e portanto errado de acordo com todo outro juiz. Com efeito é um argumento muito sagaz contra patriotas de última ocasião e/ou numerólogos maníacos! Falando mais sério, significa que nem mesmo se se admitisse em geral que Platão é ‘o filósofo’ e encontrou a Verdade, por exemplo, até isto é recusado pelos céticos.
14. Este argumento é engenhoso porque parece uma refutação cética contra os próprios argumentos 11-12-13: Existe sim este Absoluto do qual derivam todas as causas. Ex: Euclides. Ou seja, é possível aceitar um princípio sem prova. Mas o hic salta é: o cético se beneficiaria da mesma regra. Significa parar de remar e aceitar que tudo é água. A opinião do sábio aplanada, nivelada à opinião vulgar. (Argumento engenhoso, porém já desesperado.)
15. Prova circular. Variante do tropo décimo segundo, mas em que em vez de derivar-se de axioma em axioma em linha reta ao infinito, deriva-se em um círculo vicioso. Situação do viajante no tempo e do destino inalterável: tudo é a causa de tudo, nada é a causa de nada. A e B se sobredeterminam. Aporia. É um infinito-no-finito.
Esses últimos 5 pontos seriam os Elementos ou a Bíblia dos Céticos. Atemporais e independentes de demonstrações no mundo fenomênico.
De modo que os adversários de Sexto Empírico se vêem forçosamente na situação do ladrão que perdeu já antes de empreender sua fuga, pois não conseguem abstrair até que ponto vai a malícia e a antecipação do daimon de seu rival, o captor:
Supondo que o ladrão antecipasse que, na única via que pode usar para fazer a travessia, o amontoado de moitas estranhamente situado sobre a grama ou a estrada na verdade ocultam um insidioso alçapão, e pule para a esquerda ou para a direita, rente ao muro, para tentar atravessar pelo estreito umbral que lhe resta, eis que descobre que o umbral era a verdadeira armadilha, pois aciona uma corrente que o prende ou então uma bigorna que cai do céu em sua cabeça; não que a moita realmente não cobrisse um buraco, mas ela servia apenas para dar confiança ao suposto astuto ladrão e forçá-lo ao xeque-mate (distração antecipada). Uma amarelinha maldosa em que o jogador já perdeu antes de começar.
“Para el criticismo, que no conoce en sí alguno, nada absoluto, todo saber sobre lo que es en sí como tal es dogmatismo, cuando en realidad es él el más furioso de los dogmatismos, en cuanto que asegura que el Yo, la unidad de la conciencia de sí mismo, opuesta al ser, es en y para sí y que al margen de ella queda el en sí, como dos factores que no pueden, en absoluto, coincidir.”
O engraçado é que Hegel vê em Kant tudo que nós não vemos: uma repulsão extrema ao Absoluto. Quando o que mais se critica na epistemologia kantiana é seguir se referindo ao que não existe como se existisse! Ou seja: Hegel tacha Kant de radical; nós de carola! Ainda era possível ir além.
“Honra al escepticismo el haber llegado a adquirir esta conciencia acerca de lo negativo, concibiendo las formas de lo negativo de este modo determinado.” Em si o ceticismo está correto – era uma piada!! Cof, cof… A evolução final do sofista, o SUPERSOFISTA.
“Sexto Empírico, por ejemplo, va repasando de un modo concreto las distintas ciencias con una gran fuerza de abstracción y revelando en todas sus determinaciones los otros aspectos de ellas. Así, se opone a las determinaciones de las matemáticas, y no exteriormente, sino dentro de sí; ataca, por ejemplo (Adv. Math. III, 20-22), la afirmación de quienes sostienen que hay un punto, una línea, un espacio, una superficie, etc.”
SPOILER: Quem é o super-herói que salva o dia? A NEGAÇÃO DA NEGAÇÃO.
“Si, no obstante, el escepticismo se atreve a enfrentarse con este algo propiamente especulativo, no podrá atentar contra él en nada; su procedimiento contra lo racional consiste, pues, en general en hacer de ello algo determinado, introduciendo en ello una determinación finita del pensamiento o un concepto de relación al que se atiene, pero que no reside, ni mucho menos, en lo infinito, argumentando luego contra él; es decir, consiste en concebirlo de un modo falso, refutándolo así. O bien arma él mismo a lo infinito con las uñas con que ha de arañarlo.” The dog that bites the hand that feeds.
“Hoy hasta lo especulativo se convierte en algo tosco; puede uno atenerse a la palabra y, sin embargo, aparece invertida la cosa, al despojarse a lo especulativo de la identidad de lo determinado.” Convenhamos que não teria graça refutar Max Stirner pela lógica.
“Ahora bien, el saber de lo especulativo requiere, además de la disyuntiva, un tercer término; es un tanto esto como lo otroyun ni esto ni lo otro.”
Um todo, ou o Um, não é só Um, embora não seja dois. É que o Um é a negação de si. Neste sentido é que H. prefacia sua história com a estranha terminologia “o Um se (des)dobra”, a consciência, o filosofar, se duplica sobre si mesmo(a). O todo é sempre o todo em relação consigo. A consciência é sempre a consciência de si mesma (consciência x consciência, onde ‘x’ é o terceiro termo ou a ‘relação’ – relação-com-a-consciência é uma contradição ou insuficiência, pois só pode haver relação-com-a-consciência-e-a-consciência, desdobramento ensimesmado). Toda consciência necessariamente se nega, porém necessariamente apenas para se afirmar no fim do processo.“El comprenderse a sí misma de la razón es precisamente el modo como el todo comprende todas sus partes, cuando se lo enfoca en su verdadero sentido especulativo, y sólo en este sentido puede hablarse aquí de esta relación.”
Começam a subir os créditos da segunda parte da trilogia, deixando todos os asistentes decepcionados no escurinho do cinema: “Con esto, creemos haber dicho ya bastante acerca de la esencia científica del escepticismo y con ello hemos puesto fin a la sección segunda de la historia de la filosofía griega.”
“El escepticismo pertenece, por tanto, al período de decadencia de la filosofía y del mundo.” A Roma nossa de todos os dias. O Protestantismo da Filosofia procrastina a morte da Filosofia, para o mal de todos… Rola-se a dívida especulativa (duplo sentido desdobrado, arrotado e peidado em si mesmo saindo como suor pelos poros respirados em seqüência)…
A única a existir. Produzida pelo desacordo, temporário, de menor ou maior duração, entre nosso corpo e uma nova maneira de pensar que adquirimos com a idade, i.e., no nosso devir: não o por que existimos ou não deveríamos existir? mas algo totalmente mais simplório e cabível, menos melodramático: por que esta é minha vida, e não a do que trabalha somente porque quer, do que não trabalha porque não precisa, ou do que tem um emprego em que se auto-realiza? Do que possui a mulher mais bela e condizente com seu temperamento, etc.? Porque no fundo esta é a única questão metafísica, que não pode ser resolvida, a menos que esse desacordo alma-corpo, FALSO, finalmente passe, de alguma forma. Eu só posso ser eu, e não aceitaria ser outra coisa. Na saúde ou na doença, minha saúde e minha doença, em minhas restrições, em minha miopia literal, que o vulgo não consegue suportar ou preferiria qualquer coisa a ter de hospedar… Só a pergunta: por que eles são tão tolos? faz algum sentido, provisório. O avesso por que não correspondo às expectativas deles? é tão absurdo quanto qualquer credo espírita ou imaginar-me fora do meu próprio corpo: este, único mundo, sou eu. Uma férdade, fusão última de verdade e fé. Porque não existe, nem nas leis materiais, algo diferente do que aquilo a que me dedico e aquilo que sofro. Acostumar-se a isso é tautologia e jogo de palavras.
“A razão, as leis, etc., são algo abstrato, mas o racional, como algo que se realiza, é reconhecido por nós como necessário, e por isso não damos grande importância a tais leis gerais.” Hegel
“A física aristotélica é o que os físicos de hoje chamariam metafísica da natureza, pois nossos físicos só nos falam do que viram e dos finos e delicados instrumentos que construíram, mas não do que pensaram.” Hegel
“Se aquilo que investigo é uma causa situada no mesmo campo do condicionado e dou Deus como resposta, digo mais do que me proponho a dizer, ainda que esta resposta sirva para tudo, já que a causa de tudo é, evidentemente, Deus; mas o que eu me proponho é a descobrir o entroncamento determinado entre os fenômenos que investigo. Por outro lado, neste campo já o próprio conceito é algo de superior; este ponto de vista superior com que nos encontramos em filósofos anteriores[os pré-socráticos, para quem Física e Metafísica eram uma só e a mesma coisa, e que se interessavam por especular sobre as causas primeiras da criação do mundo] aparece completamente abandonado por Epicuro[séculos IV e III a.C.], já que este pensador, ao voltar as costas à superstição, desdenha também de outras conexões fundadas por si mesmas e pelo reino das idéias em sua totalidade.”
Hegel, acusando Epicuro de não ser um filósofo, mas sim um físico (com efeito, o pai da física moderna – e essa atribuição é justíssima). É que Hegel estava mais interessado no suprassensível (ou em uma de suas modalidades, a Metafísica). Podemos igualmente dizer que físicos que especulam sobre Deus se comportam como Hegels no tempo e no campo errados – desrespeitam, assim, o legado de seu mentor indireto, Epicuro.
IMPORTANTES DISTINÇÕES PRÉVIAS À LEITURA:
Filosofia, Filosofia Continental, Primeira Filosofia ou Metafísica: tudo isso são palavras para uma mesma coisa. São hoje consideradas ou uma visão clássica da filosofia, aquela que nasceu primeiro, ou um de seus campos atuais, o tronco principal de que emanam as inúmeras ramificações contemporâneas.
filosofia, em inicial minúscula, servirá aqui para eu me referir à: 1) filosofia como um todo, quando quiser falar ao mesmo tempo da filosofia antiga e da filosofia do tempo presente; 2) filosofia como praticada pelo menos a partir de Descartes (século XVII), não sendo Metafísica propriamente dita, ou seja, uma filosofia secundária, menos importante.
Irei me referir à Física, em letra maiúscula, quando falar especificamente da Física clássica (que aprendemos na escola), e à física, em minúscula, no sentido mais lato de qualquer física, ou então da física atual, a partir da relatividade geral e especial de Einstein (iniciadas no ano de 1905).
Um último dado preliminar: a Física moderna nasceu como um dos ramos da Filosofia Primeira, a filosofia da natureza, na época epicuréia. Como nem todos conhecem Epicuro, vale também dizer: Aristóteles, que dedicou vários livros ao que ele já chamava de Física, exerceu grande influência sobre Epicuro e poderia sem escândalo dividir a honra de “Pai da Física” com este.
* * *
Nas três passagens acima, que traduzi de Hegel (séculos XVIII e XIX) em suas Lições sobre a História da Filosofia, o autor alemão fala da nulidade da importância dos conceitos de forças da natureza (como a gravidade ou o eletromagnetismo) para a Filosofia, tanto na Metafísica de Aristóteles, o primeiro a realmente abordar o assunto (forças físicas) de um modo que ainda repercute na modernidade, quanto em si mesmo (e passando, entre um e outro, por toda tentativa séria de filosofar, em verdade). Ambas as disciplinas, a Filosofia e a Física, já estiveram bem-delimitadas uma em relação à outra, coexistindo mais ou menos harmoniosamente por séculos. Mas o que acontece hoje com a física e a Metafísica, que mais do que nunca as pessoas parecem confundir e permutar o tempo todo?
Poderíamos facilmente ilustrar esse mal-entendido grosseiro, tão típico de nossos dias, citando aqueles que tentam filosofar através da física, chegando a resultados risíveis de ambos os lados. Einstein e Stephen Hawking, por exemplo: eles não chegam à compreensão do que seja Metafísica em nenhum de seus trabalhos ou declarações em que se aventuraram fora da física (ainda que não tenham chegado a saber disso). Nem avançaram um milímetro que fosse no conhecimento da física através dessas excursões em relação ao seu ofício cotidiano, por mais que tenham imaginado que abandonar por um instante os experimentos e os cálculos matemáticos e aventar hipóteses sem fundamento fosse de algum modo enriquecer o conhecimento científico da humanidade e arejar as próprias cabeças um pouquinho.
Sim, estes senhores, para não falar em outros, se puseram a teorizar e especular de rédea solta, sem muito compromisso nem método, sem medo também de esbarrar no terreiro dos vizinhos… Mas que tem de mal nisso? Deixem os cientistas se divertirem em seu tempo livre – afinal, não é essa a idéia que se faz do filósofo metafísico? A de alguém que viaja na maionese, sem critério, sem rigor, sem acabrunhamentos e tensões, num passatempo tão leve e arbitrário que nos parece incrível que alguns seres humanos sejam até mesmo pagos para isso?! Seria grave que físicos dessem seu juízo acerca “dessas coisas”, ou pelo menos tão grave quanto quando um filósofo desavisado desembestasse por um laboratório de ciência empírica de ponta, a ele cem por cento estranho, tentando resolver problemas complicados de verdade, como os físicos? Será que procede essa caricatura da Metafísica?
Primeiro, voltemos aos físicos Einstein e Stephen Hawking. O primeiro deles afirmou que “não faz sentido que a matéria ou energia subatômica apresente comportamentos aleatórios ou irracionais (como descobriu a física quântica de seu tempo), pois Deus não joga dados” – e por isso ganhou pôsters, flashes e louvores. Trocou cartas com Sigmund Freud, um “especialista nas forças morais do inconsciente humano” sobre a paz mundial e o fim das guerras em plena década de 1940. Sigmund Freud, chamado de Pai da Psicanálise e Descobridor do Inconsciente, que por sinal se tornou um dos maiores, senão o maior, ícones dentre os pensadores do século XX. Hoje muito mais que nos anos 50 discute-se seriamente seu status. A palavra inconsciente, (re)descobriu-se, é imemorial nas línguas conhecidas; e até mesmo o sentido particular de parte oculta da consciência no homem foi sendo (re)descoberto em autores cada vez mais recuados, até mesmo em Homero ou Sófocles, por exemplo. Mas, para ficarmos apenas com aqueles que entraram em bastantes detalhes técnicos a respeito, temos Platão, que até escreveu um livro sobre as vontades inconscientes de seu mestre Sócrates reveladas à própria consciência em sonhos à véspera de sua morte! Acontece que no princípio do século XX se dizia que Freud desvendou pela primeira vez o mecanismo dos sonhos; nunca antes na História um homem atribuíra significado racional às representações oníricas! Mitos à parte, estamos nos afastando cada vez mais do mundo real, perdão, da celeuma entre físicos e metafísicos, que é o tema do ensaio. Enfim, podemos dizer que Einstein recebeu crédito exagerado por contribuições um tanto pobres no assunto “divagações metafísicas”, ou pelo menos o que ele mesmo e os jornais chamariam de Metafísica. Tampouco é nosso objetivo incluir a religião na discussão, então deixemos o Deus de Albert Einstein que nunca jogou RPG de lado até onde pudermos e comentemos um pouco sobre o outro sujeito, Hawking.
Uma das personalidades mais conhecidas deste século tão eclético que nos deixou há 20 anos (o século, não o cientista, que morreu mais recentemente), Hawking era, paradoxalmente, um daqueles de quem se poderia dizer que “ninguém sabe direito o que ele faz”; mas todos diziam, ao mesmo tempo, sem constrangimento: “O que ele faz é ótimo; ele é como nenhum outro nisso que faz!”. Autor de alguns livros best-sellers para leigos como O Universo numa casca de noz e Uma breve história do tempo, este senhor – conhecido por ter vivido quase toda sua vida de contribuição à ciência hardcore confinado à cadeira de rodas, em luta contra uma doença degenerativa, e retratado comicamente com voz de robô e um QI astronômico (com o perdão do trocadilho) no inconfundível tom de pele amarelo (em mais de um episódio!) d’Os Simpsons – resolveu se arriscar até além de seu antecessor e colega de profissão Einstein: afirmou textualmente que “os filósofos deviam abandonar suas investigações sobre o universo e conceitos complexos como o tempo e o espaço, que a física de hoje demonstrou serem muito mais complexos que a percepção cotidiana permite julgar, relegando este tipo de conhecimento profundo exclusivamente aos verdadeiros especialistas”.
Não é irônico que a mãe da Física seja assim (re)tratada pela nova física (a do século XX)? Não diria irônico, socrático e mordaz, mas trágico: numa reedição de folhetim do Édipo-Rei de Sófocles, desta vez transgênero para ser mais inclusivo e combinar com a pós-modernidade! Eis o enredo: A tirânica e esclerosada Rainha Sofia, que em seus anos áureos havia dado a luz a sua filha Neon Physis, vê-se agora vítima de um assassinato a sangue frio perpetrado pela própria princesa, que quer ascender ao trono, já madura o suficiente para expor suas justas razões e executar o ato sangrento que estava prescrito como bula de remédio nas estrelas (ato desta vez deliberado, ao contrário da cena na peça grega, em que Édipo ignorava a identidade de seu pai; talvez o único homem da peça revisitada seja, aliás, um acelerador de partículas, que podia fazer a voz do Coro; e não há nenhum sexo, afinal estamos falando de físicos e filósofos). A física não precisa mais de sua mãe, ela apenas tolheria suas possibilidades infinitas!
Hawking declamou muitas outras besteiras, mas não só contra os filósofos: no próprio reino da física. E tantas que eu jamais sonharia enumerá-las todas num só artigo: disse que provavelmente depois da explosão final do universo tudo voltaria a acontecer ao contrário, como uma fita rebobinando, e depois desdisse o que disse; escreveu que deve haver túneis por aí chamados buracos de minhoca que possibilitem viagens no tempo; calculou que há umas 22, 23, talvez menos, talvez mais, mas dificilmente mais do que umas 28 ou 29 dimensões enroladas, além das 4 em que vivemos (comprimento, largura, altura e tempo)… Recomendo que googlem se quiserem saber de mais dessas curiosidades mórbidas que figurariam tranqüilamente num excelente episódio de Arquivo X. Enquanto ainda temos estômago, entretanto, deveríamos nos perguntar: como ele chegou à exatidão-nem-tão-exata-assim destas “20 e poucas dimensões invisíveis e indetectáveis”? Ele não questionou a origem de dados observados, instrumentos de mensuração, os limites atuais dos milagres detectáveis em seu laboratório? Afinal, ele ainda deveria basear suas hipóteses superiores à mundana mente filosofal em ocorrências do mundo real, traduzíveis em certos números registrados por sofisticados equipamentos, e em posteriores e exaustivas equações que trabalham a conjugação de vários desses números, de forma dinâmica e sem dúvida bastante nuançada, mas… – nem é exatamente essa a questão aqui! Stephen Hawking foi um grande profissional em sua área (física teórica) apesar das saídas de tom, e até um brilhante matemático (eis aí duas especialidades, um flagra de proto-polimatismo!), e não queremos insinuar que tenha enganado dolosamente toda a comunidade científica (e leiga) ao longo de todos esses anos, como sem dúvida fez Freud. Hawking enganava-se a si mesmo quando dizia mais do que os dados permitiam…
Só o que eu queria é relembrar como algumas figuras pitorescas são tratadas por meios de comunicação de massa como “grandes filósofos” sem que a própria imprensa e seus receptores parem para pensar direito no que é que está sendo veiculado! O que sabemos do status cult ou lendário destes neo-gurus midiáticos que vêm das ciências exatas mais criptografadas ao leigo é que a palavra “sábio” ainda dá conta de resumir este fenômeno. E eles não são chamados apenas de físicos sábios, senão de sábios no sentido antigo, mais amplo e nobre da expressão, abarcando em suas mentes supostos conhecimentos completos acerca de toda a existência, ou pelo menos de muitas das ciências reunidas. Esse tratamento é, aliás, inevitável, haja vista que não há filósofos – no verdadeiro sentido da palavra – no jornalismo, nem no público leitor ou expectador da imprensa popular. Falamos aqui do leitor que participa, se engaja, aceita. Não se trata de que metafísicos não assistam TV, não leiam reportagens bobinhas. Não critiquem quando lhes dá na telha, ou finjam aprovação tácita, indiferença, ou incompreensão o tempo todo. Não, todos possuem reações demasiado humanas. Mas se eles realmente fossem o público visado, certas empresas estariam com sérios problemas financeiros. O metafísico está entre nós, ele vê o que nós vemos, ele reage!… Mas metafisicamente falando, será que ele está mesmo presente na discussão? Ou ele deixa que estas coisas o atravessem, e passa adiante, igualmente despercebido por todos nós?
A rigor, gênios, cunhados corretamente e no sentido de polivalente e imensamente sábios, não podem mais existir desde um certo consenso no meio erudito de que tornou-se impossível, de um tempo para cá, o surgimento de novos polímatas. Eu citei “proto-polimatismo” há dois parágrafos. O que viria a ser isso? Polimatia é o domínio de vários campos do conhecimento simultaneamente pelo mesmo sujeito. As duas principais razões para eles terem sido extintos como os dinossauros seriam: a) o afastamento cada vez maior e mais acelerado entre ciências exatas e humanas; e b) o enorme volume de informação, metodologias e técnicas acumulado em cada macroesfera do saber, o que veio a tornar quase impraticável a competência simultânea em, digamos, 2 ou 3 sub-áreas ou especialidades de uma mesma profissão, quem dirá de outras. Um bom exemplo: um doutor em sociologia da arte está virtualmente fadado a pesquisar só em sociologia da arte sua carreira inteira, o que seria bastante eclético até, se considerarmos que poderíamos estar falando de um doutor em sociologia da arte renascentista exclusivamente devotado a Dante e Petrarca!
Algum debate há se Von Humboldt – contemporâneo da Revolução Francesa – foi um gênio, talvez uma palavra um pouco forte para usar sem reservas. Mas decerto ele foi um polímata com todas as letras, que é um “gênio atenuado”. Leonardo da Vinci, p.ex., é um gênio de fato, canonizado pela historiografia. Viveu mais de 200 anos antes de Humboldt. Desnecessário demonstrar que, se polímatas não mais existem, gênios também não passam de artigos de museu para nós. Já era algo raro além da conta até o Renascimento italiano! Einstein e Stephen Hawking – olha eles de novo! – definitivamente não pertencem a esse panteão sagrado: são tipos completamente diferentes de ocorrências individuais muito mais inofensivas (proeminentes apenas no seu único campo de origem), cuja fama histriônica, em comparação com os gênios (quando essa palavra não tinha sido completamente corrompida) só se justifica por vivermos numa sociedade da informação e da popularização de clichês e do besteirol com selo de credibilidade.
Houve já, para não dizer que se trata de uma crítica assimétrica e parcial de um filósofo analisando essa dicotomia, filósofos que tentaram devorar a Física por meio da filosofia, despindo-a de qualquer propósito ou função num mundo conhecível sob diferentes formas: o positivismo comteano é o melhor exemplo que poderíamos encontrar. Hoje ninguém em condições aceitáveis de saúde mental lê Auguste Comte a sério (virou curiosidade pitoresca, entretenimento excêntrico).
Via de regra, o que se estuda do fenômeno (realidade observável) do ponto de vista da Filosofia (a quem não interessa o como nem o quê) não tem qualquer relação com as leis da Física, assim como o que se estuda na física que não tenha a ver com a realidade observável (matéria escura ou fenômenos que a física não compreende até o momento) não passa de pseudometafísica até se fundamentar descritivamente. Não há o instrumental para responder a perguntas tais quais por quê? e para quê? em larga escala na disciplina. “Como é?” Pode-se responder por que um lápis cai da mesa na velocidade e na trajetória em que cai quando projetado por uma força determinada, sem dúvida. Mas nada se tem a dizer sobre o relojoeiro deste mundo mecânico (a causa primeira). Existe o modelo, fundamento e completo, mas nada fora dele. A Física aceita-se como cápsula do real: por contrato, não pode exceder esses limites e continuar sendo chamada de Física, fora da cápsula.
O achatamento do debate e a autocensura gradual neste terreno epistemológico (discutir o que a Física está destinada a responder ou não, o que estou fazendo aqui) levam, inclusive, à falsa convicção, por parte, digamos, de colegiais, de que só há duas possibilidades para descrever a chamada causa primeira: ou o Big Bang ou o Gênese bíblico. Pré-formatam todo o horizonte cósmico-cognitivo do indivíduo. Ou mecânica ou fé na revelação. Enunciar que um deles é apenas um modelo teórico implicaria em ser um retrógrado fundamentalista religioso; negar a Criação divina, por outro lado, implicaria em defender a tese de homens de jaleco que fazem o que ninguém na vida cotidiana compreende ao certo… Percebe onde eu quero chegar?
Não se trata meramente de “não invadir espaços” entre um campo e outro, e que filósofos e físicos devam “saber se respeitar”, mas do enraizamento de um estereótipo, que acaba por contaminar até mesmo grandes físicos ou metafísicos. Cria-se a ilusão de que um dos lados pode acessar a causa primeira sem qualquer ajuda externa. Como disse, vou deixar a religião de lado neste ensaio. Quanto à Física, ela jamais se propôs a responder aos para quê? fundamentais. Alguns físicos (cada vez mais deles) se esquecem disso! Passam a estudar de forma completamente outra (desautorizados pelo método) todas as coisas que um campo tende a especificar em sua definição precisa como seu interesse (usam o método da Física fora do que o próprio método da Física prescreve que deveria ser estudado, transgridem sua ética, violam um tabu). Trocando em miúdos, usam o método objetivo criado a duras penas por várias gerações como bem entendem (física freestyle, sem Leis da Física)!
A rigor, a Física e a Metafísica são investigações que não guardam, desde a Antiguidade, qualquer analogia entre si, porém estarão sempre em justaposição e invadindo uma o terreno da outra, se por “terreno alheio” considerarmos “a realidade observável e as hipóteses de fundo dessa mesma realidade”. Para explicar de forma mais simples (ou não!): o físico pode pensar que raciocina de forma puramente “científica” ou “exata” sobre o espaço (seu objeto de estudo) mas, se houver um resquício de vício que seja em sua noção, interpretará que um filósofo que raciocine sobre o espaço estará invadindo sua competência. Ora, sobre o que o filósofo poderia raciocinar se “tudo” é espaço? No mesmo sentido, quando um físico elabora hipóteses baseado em implicações indiretas do estudo do espaço, é fácil dar uma de Hawking e avançar para especulações que não tem nada de metódicas – o filósofo teria o direito de chamá-lo de desavisado invasivo, porque também tece hipóteses cuja base só pode ser a realidade observável. Então o que o físico hipotetizaria, se tudo além da simples aparência se baseia em abstrações?!
Resumindo, o “espaço” faz parte tanto da Física quanto da Filosofia; e o “não-espaço” é divagado pela Física em sua metodologia limitada, tanto quanto é o cerne ancestral da Metafísica, mas, entendendo-se bem, o tempo e o espaço da filosofia não têm qualquer relação com o espaço-tempo físico. O difícil é “entender bem”! As abstrações da ciência física acerca do que jaz além do mundo observável também não guardam qualquer relação com o conceito de essência na Filosofia. Teorias sobre forças unificadoras das equações da física ou da origem dos buracos negros, ou hipóteses que ensaiem a comprovação ou a refutação da termodinâmica, e suas implicações,¹ são apenas metateorias da física, que não são desautorizadas nem autorizadas pela Filosofia.
¹ Propositalmente não desci às ilustrações mais imbecis e charlatãs: entre aquelas divulgações de avanços na física – que em realidade eu atribuo mais aos departamentos de física legitimamente incompetentes ou ‘colunas de fofoca’ da imprensa de divulgação científica marrom, e isento o pesquisador individual do papelão – consideras rainhas da comédia, a ganhar repercussão em manchetes sensacionalistas, incluo as habituais (acho que já li 3 vezes em 10 anos coisas assim) “descobertas sem precedentes da última semana” como: “Nosso Prof. Dr. X. de Harvard (ou Oxford?) chegou ao veredicto de que ‘o tempo não existe’!”; “Veja como o Instituto de Física de Bruxelas descobriu que o universo roda exatamente como um filme!”… Ora, os físicos quânticos são muito ingênuos: desde o começo dos tempos se afirma que o tempo não existe! É tempo de parar com esses passatempos!
Ao mesmo tempo, a Filosofia séria não se mete a cálculos de Física e, se ultimamente se embrenha em paradoxos da física quântica¹ e da química contemporânea, ela o faz tão-somente da perspectiva de sua própria agenda. Qualquer um que transgrida esses limites em seu ofício de origem será censurado pelos especialistas atentos do “outro lado” (acusado de fazer pseudofísica ou pseudometafísica), ou, felizmente e o mais das vezes, pelos próprios colegas de disciplina. Só não entendo como ainda hoje vejo tão poucos físicos levantando a voz contra Stephen Hawking! Quem sabe com o tempo…
¹ Nem tudo é descascamento e destruição de reputações: esta nota de rodapé vai em homenagem a alguns dos grandes físicos recentes que souberam derivar, com dignidade e brilhantismo, conclusões filosóficas de suas descobertas experimentais, como Werner Heisenberg, Max Planck e Erwin Schrödinger! Só não esperem que eles respondam qual é o sentido da vida!
O escritor francês Alfred Jarry, morto aos 34 anos em 1907, cunhou o termo patafísica. Ele corresponde estranhamente bem ao estereótipo que se tem da Metafísica nos séculos XX e XXI: patafisicar é viajar na maionese, sem peso na consciência nem troca de jaleco, a “ciência das soluções imaginárias”, com ou sem conotações políticas, inclusive! Todos nós estamos convidados a patafisicar sem medo nem contra-indicações! Alguns usam o tubo, eu uso o ensaio, poderia dizer um reencarnado Jarry. A Metafísica, ao contrário, ainda que muitos leigos “não saibam o que os metafísicos façam” segue como um importante terreno de estudo e discussão da condição humana e dos ingredientes fundamentais desta: ética, estética, e a própria crítica do sentido da filosofia.
Sem dúvida o dano colateral causado por físicos pseudofilosóficos é relativo: nenhum estrago sensível, apenas certa erosão cultural após grande acumulação de besteiróis isolados. Que fique bem claro, porém: filósofos também não conseguiriam produzir nem detonar nenhuma bomba nuclear ao meterem o nariz longe de sua própria seara – jogo empatado, no fim de contas! O mundo não vai girar melhor nem se comportar diferente amanhã, a grama do vizinho não estará mais cinza ou mais vivaz por conta dessas intromissões, ou ao cessarem essas intromissões. Mas, graças a esse texto, quem não sabia, agora soube: deuses físicos jogam dados, sim senhor; deuses metafísicos? há que perguntar-lhes primeiro!; enrolar ou desdobrar dimensões conceituais é coisa para especialistas (hegelianos e afins); físico não é chefe de seção no “IML dos cadáveres epistemológicos”, decidindo quem ou o quê morreu e distribuindo competências ao deus-dará à sociedade inteira; e, por fim, você soube também – ou relembrou – que Freud foi uma fraude.
Mas e quanto à pergunta inaugural – esqueci-me de a responder? O que Aristóteles e Stephen Hawking têm em comum? Eles não têm nada – era só um título bonito e chamativo.
“en la actualidad faltan traducciones españolas integras, directas y correctas de algunas de las obras absolutamente capitales de la historia universal de la filosofía: sea totalmente, por no haberse hecho nunca, sea prácticamente, por no ser las hechas asequibles ya en el comercio, ni siquiera en todas las bibliotecas donde debieran serlo.”
“La serie se inicia con la presente traducción de las Lecciones sobre la historia de la filosofía de Hegel, a la que seguirán (…) Locke (…) y Spinoza (…)”
“el Dr. Wenceslao Roces es bien conocido por el público culto en todo el mundo de habla española como especialista en la traducción de obras alemanas, habiendo merecido su labor el público elogio agradecido del propio e ilustre autor de la obra original en un caso como el de la Paideia de Werner Jaeger”
José Gaos
ADVERTENCIA SOBRE LA PRESENTE EDICIÓN
“por tratarse de una obra que no fue escrita por el propio Hegel, sino redactada por Michelet a partir de algunos papeles manuscritos y de los apuntes de clase de sus alumnos, fueron surgiendo, al avanzar el trabajo, diversos problemas.” “a pesar de todo esto, la forma que Michelet dio a la Historia de la filosofía de H. es, hasta ahora, la única y de ella se han servido los alemanes por más de un siglo.”
“Es indiscutible la superioridad de la edición crítica de Johannes Hoffmeister sobre la de Michelet, pero por desgracia esta edición quedó incompleta, pues según la propia casa editorial presenta dificultades tan especiales que no puede precisarse en qué fecha aparecerán los otros volúmenes.”
“Michelet (…) aspiraba a entregar un texto que pareciera haber sido escrito de una sola tirada por el autor; en tanto que Hoffmeister, comprendiendo que las libertades de un discípulo directo – como lo fue Michelet – no pueden justificarse en nadie más y considerando que las diferencias entre las distintas versiones (Hoffmeister dispuso de un nuevo material que le permitió obtener un texto completo de 4 cursos) son tan grandes que no permiten la unión, intenta dar todo el texto hegeliano en el orden en que fue expuesto, sin que se pierda una sola línea. [Sinceramente, já achei o texto tão repetitivo da forma como foi editado que não consigo conceber o tédio desta versão mais integral!]
Hemos de reconocer también que la mayor parte de los errores que Hoffmeister señala a la edición de Michelet son reales. (…) es posible ver claramente que hay capítulos muy poco preparados en los que pueden apreciarse grandes lagunas, p.ej., en la parte dedicada a la filosofía medieval. Si éste es o no un defecto de la exposición hegeliana o si se debe a una mala reelaboración de Michelet, es cosa difícil de decidir y más difícil aún de remediar sin contar con los originales necesarios.” “en la cita de textos kantianos encontré varios errores”
“Por lo que respecta a Platón, la traducción usada como base – pues Hegel lo parafrasea también – fue la de García Bacca y en aquellos casos en que el diálogo citado no estuviera traducido por él, la versión castellana es el resultado de un cotejo entre el texto griego, la versión alemana y las españolas que hubiera disponibles.”
“El lector advertirá, además, que a veces aparece en el cuerpo de una cita una explicación encerrada entre corchetes; esta explicación es, desde luego, de Hegel y le di esta forma a fin de facilitar na lectura.” Como é muito comum que eu intervenha nas aspas do Seclusão com []’s também, reservo-me ao direito de fazê-lo em português, quando for o caso; se o texto entre colchetes estiver em espanhol, o autor é Hegel, na tradução.
“La Historia (…) no deja de ser una de las grandes hazañas del pensamiento alemán y, hasta ahora, la obra máxima sobre historia de la filosofía; la 1ª que hizo justicia a las filosofías precedentes al considerarlas como momentos necesarios en una y la misma evolución: la del Espíritu.”
Elsa Cecilia Frost (ed.)
PRÓLOGO DEL EDITOR A LA 1ª EDICIÓN
“Hegel dio en total 9 cursos sobre esta materia en las distintas universidades en las que trabajó. La 1ª vez durante el invierno de 1805-6 en Jena; las 2 ocasiones siguientes en Heidelberg durante los semestres de invierno de 16-17 y 17-18; las 6 restantes en esta universidad (Berlín) en el verano de 1819 y en los semestres de invierno de 1820-1, 23-4, 25-6,27-8 y 29-30. Había empezado sus cursos de invierno (entre ellos el 10º de historia de la filosofía) el 10 de noviembre de 1831, habiendo dado ya 2 clases sobre historia de la filosofía con gran fluidez y amenidad, cuando fue alcanzado por la muerte.
De todos estos años sólo poseemos el cuaderno de Jena, en cuarto, escrito de su puño y letra y revisado casi totalmente por lo que se refiere al estilo; en aquella época no se atrevía aún a confiar sus lecciones a la memoria.” “Todas las adiciones hechas en los cursos posteriores están, en parte, escritas o esbozadas al margen del cuaderno de Jena o del resumen, y en parte en una serie de hojas sueltas que añadió a éstos.”
Alguns dos cadernos de alunos utilizados: Kampe, von Griesheim, Michelet (editor).
“Las fuentes para la Introducción, en particular, además de los apuntes de clase, son una parte muy lograda del manuscrito de Hegel, parte en cuarto y parte en folio, escrita casi toda en Berlín, salvo una pequeña parte escrita en Heidelberg.” “Hegel reelaboraba siempre más las introducciones de sus cursos que estos mismos.”
“La exposición de la filosofía oriental, tomada de los apuntes de clase, se complementa con una rica serie de colecciones y recopilaciones de obras francesas e inglesas sobre el Oriente en general. Hegel solía llevar las obras correspondientes, anotadas brevemente al margen, a su cátedra, para basar su exposición en ellas, traduciendo directamente en parte y, en parte, intercalando sus observaciones y juicios.”
SÓ LENDO PRA CRER! “Su forma escrita sólo rara vez es difícil y a menudo bella. En general, podemos decir que estas lecciones sorprenden con frecuencia por la pureza de su forma, en la que podemos ver la certeza y claridad con que se presentaba el pensamiento en el espíritu del autor”
“se encuentra en el cuaderno de Jena la que yo he llamado en otro lugar la primera terminología de Hegel, comprendiendo bajo este título tanto esta terminología propiamente dicha como la transición a la de laFenomenología, frente a la terminología más lograda de los años posteriores.” Espero que a Ciência da Lógica seja mais fácil de ler…
“las conocidas anomalías y anacolutos de la forma hegeliana.”
“Hegel dio siempre cinco horas semanales sobre historia de la filosofía, número de horas que aumentaba siempre al final del curso—lo que hacía también, pero en menor medida, en las otras materias—, como se desprende, entre otras cosas, de sus observaciones manuscritas al final del cuaderno.”
“Hegel acostumbraba decir que a los demás se les había facilitado el estudio de Aristóteles, en tanto que para él fue muy difícil, pues había tenido que usar la ilegible edición de Basilea, sin traducción latina, y extraer así el significado profundo de Aristóteles. Sin embargo, fue precisamente él quien volvió a llamar la atención sobre esta profundidad y quien descubrió y corrigió la ignorancia y las malas interpretaciones de quienes deseaban pasar por sutiles eruditos.”
CRÍTICA DOS FILOSOFASTROS CONTEMPORÂNEOS DE HEGEL: “el absurdo intento de destacar en tal forma a Anaximandro que se le ha llegado a colocar después de Heráclito, como si su pensamiento fuese más maduro que el de éste.” “Así, cuando Hegel no considera a Heráclito entre los primeros jonios, sino que lo coloca después de los pitagóricos y los eléatas, no se encuentra en la cúspide de la erudición de nuestros días que ha decidido qué lugar le corresponde a Heráclito de acuerdo con relaciones puramente superficiales.” Porém Hegel comete o erro de superestimar, p.ex., Anaxágorasem relação ao mesmo Heráclito.
Me chamou a atenção, no índice, a completa ausência de Parmênides. Hegel o situou entre os eleatas, mas felizmente soube dar-lhe destaque.
“Pero ¿acaso no es este carácter intermedio lo peculiar de todas las conferencias impresas, aun cuando sean publicadas por el propio autor?” “Solamente en manos de su autor podían haberse convertido estas Lecciones en un verdadero libro, como la Filosofía del derecho.” “¿Acaso no se formó así una gran parte de la obra del viejo Aristóteles, sin que a nadie se le haya ocurrido disputar la veracidad del contenido?” “En mi posterior escrito premiado, Examen critique de l’ouvrage d’Aristote intitulé Metaphysique, lo he demostrado suficientemente.” “¿Acaso no tenemos varias versiones suyas de la Ética? Bien pudiera ser que Nicómaco y Eudemo fueran los nombres de quienes copiaron e hicieron públicas 2 de estas versiones.”
<MAL DE EDSON>: “Entre otras causas, esta Historia de la filosofía de Hegel conservó el carácter de conferencia por la falta de tiempo del autor, que tuvo que ser mucho más breve al final del curso que al principio. Así, a partir de Aristóteles, cuya exposición, a juzgar por las anotaciones del cuaderno, entraba en la 2ª mitad del semestre (lo que no es tan desproporcionado como parece a primera vista), no se extendía ya tanto.En especial el último período, a partir de Kant, se encuentra expuesto con mucha brevedad, sobre todo en los cursos posteriores en los que una introducción muy desarrollada y la exposición de la filosofía oriental se llevaban la mayor parte del tiempo. [Suspeito! Talvez H. não se sentisse à vontade discorrendo sobre Kant!]
Esto me dio ocasión de preparar, inmediatamente después de la edición completa de estas Lecciones, una historia de los últimos sistemas filosóficos en Alemania, de Kant a Hegel, que debe añadirse a ellas.” E há algum (que valha o meu tempo)? Cf. Geschichte der letzten Systeme der Philosophie in Deutschland von Kant bis Hegel
Karl Ludwig Michelet
PRÓLOGO DEL EDITOR A LA 2ª EDICIÓN
“Con frecuencia cambié algunas frases o pasajes de lugar y di otro orden a los temas, suprimí algunos períodos largos y algunas repeticiones o, cuando menos, traté de acortarlos. Y, por último, metí las notas al pie de página dentro del texto mismo—como parece más correcto—, ya fueran ulteriores reflexiones aforísticas o citas de los filósofos tratados; de este modo sólo se conservaron como notas las anotaciones imprescindibles del editor, que se refieren a la redacción, y las citas o referencias muy largas que entorpecerían la lectura del texto.”
DISCURSO INAUGURAL – Pronunciado en la Universidad de Heidelberg, el 28 de octubre de 1816
“El Espíritu del Mundo, ocupado en demasía con esa realidad, no podía replegarse hacia adentro y concentrarse en sí mismo. Pero ahora que esta corriente de la realidad ha encontrado un dique, que la nación alemana ha sabido irse modelando sobre la tosca materia, que ha salvado su nacionalidad, raíz y fundamento de toda vida viva, tenemos razones para confiar en que, al lado del Estado, en que se concentraba hasta hace poco todo el interés, se levante también la Iglesia; que, al lado del reino de la tierra, hacia el que se encauzaban hasta ahora todos los pensamientos y todos los esfuerzos, vuelva a pensarse también en el reino de Dios; dicho en otros términos, que, al lado del interés político y de otros intereses vinculados a la mezquina realidad, florezca de nuevo la ciencia, el mundo racional y libre del espíritu.
La historia de la filosofía nos revelará cómo en los otros países de Europa en los que con tanto celo y prestigio se cultivan las ciencias y la formación del entendimiento, la filosofía, excepción hecha del nombre, decae y desaparece para quedar convertida tan sólo en un recuerdo, en una vaga idea, y únicamente se conserva como una peculiaridad característica de la nación alemana. La naturaleza nos ha asignado la alta misión de ser los guardianes de este fuego sagrado” “como el Espíritu del Mundo cultivó y salvaguardó en la nación judaica una conciencia superior a la de otros pueblos, para que pudiera surgir de ella, convertido en un nuevo Espíritu. § La nación alemana ha logrado llegar hoy, en general, a un grado tal de seriedad y de elevación de conciencia, que ante nosotros sólo pueden valer ya las ideas y lo que demuestre sus títulos de legitimidad ante el foro de la razón; y va acercándose más y más la hora del Estado prusiano basado en la inteligencia.” Não é assim que se conquistam 4 Copas do Mundo, amado Hegel!
“Nosotros, los hombres de la generación que se ha desarrollado bajo el embate de los tiempos, podemos considerar dichosos a quienes, como a vosotros, ha tocado vivir su juventud en estos días en que podéis consagraros por entero a la ciencia y a la verdad.”
O CREPÚSCULO DO OTIMISMO:“La esencia del universo, al principio cerrada y oculta, no encierra fuerza capaz de resistir al valor de un espíritu dispuesto a conocerla: no tiene más remedio que ponerse de manifiesto ante él y desplegar ante sus ojos, para satisfacción y disfrute suyo, sus profundidades y sus riquezas.”
“en efecto, de la historia de la filosofía se extrae, ante todo, una prueba muy clara de la nulidad de esta ciencia.”
“Y así, según la idea que se tenga de lo que es el Estado, puede muy bien ocurrir que un lector no descubra en la historia política de un país absolutamente nada de lo que busca en ella.”
“En efecto, cuando se trata de pensamientos, sobre todo de pensamientos especulativos, el comprender es algo muy distinto del captar simplemente el sentido gramatical de las palabras, asimilándolo indudablemente, pero sin pasar de la región de las representaciones.” “Por eso abundan las historias de la filosofía, compuestas de numerosos volúmenes y hasta, si se quiere, llenas de erudición y en las que, sin embargo, brilla por su ausencia el conocimiento de la materia misma sobre la que versan.”
“En esta Introducción habrá de darse por supuesto, igualmente, el concepto de filosofía, o sea el del objeto sobre el que versa su historia. Pero al mismo tiempo ocurre, en su conjunto, con esta Introducción—que habrá de circunscribirse a la historia de la filosofía—lo que ocurre con la filosofía misma según acabamos de decir. Lo que en esta Introducción pueda decirse, más que algo que podamos sentar de antemano, será algo que sólo el estudio de la historia misma pueda probar y justificar.”
INTRODUCCIÓN A LA HISTORIA DE LA FILOSOFÍA
“lejos de ello, aquí las creaciones son tanto mejores cuanto menos imputables son, por sus méritos o su responsabilidad, al individuo, cuanto más corresponden al pensamiento libre, al carácter general del hombre como tal hombre, cuanto más se ve tras ellas, como sujeto creador, al pensamiento mismo, que no es patrimonio exclusivo de nadie.” Pouco importa. O método socrático é universal, mas foi um homem chamado Sócrates que o pariu. Alexandre o Grande tem tanto de pessoal quanto tinha Sócrates: era um homem, um tipo de homem, uma síntese especial de vários indivíduos, historicamente marcada – e por isso atemporal.
Herder, Ideas para la filosofía de la historia de la humanidad
“El espíritu universal no se está quieto; y es este espíritu universal lo que nos interesa examinar aquí. Puede ocurrir que en una nación cualquiera permanezcan estacionarios la cultura, el arte, la ciencia, el patrimonio espiritual en su conjunto; tal parece ser, por ejemplo, el caso de los chinos, quienes probablemente se hallen hoy, en todo, como hace 2 mil años.”
“Por donde lo que cada generación crea en el campo de la ciencia y de la producción espiritual es una herencia acumulada por los esfuerzos de todo el mundo anterior, un santuario en el que todas las generaciones humanas han ido colgando, con alegría y gratitud, cuanto les ha sido útil en la vida, lo que han ido arrancando a las profundidades de la naturaleza y del espíritu.” Só mesmo a idéia de filogênese da psicanálise consegue ser mais tacanha do que esse evolucionismo-atavismo megalomaníaco cultural!
“el curso de la historia no nos revela precisamente el devenir de cosas extrañas a nosotros, sino nuestro propio devenir, el devenir de nuestra propia ciencia.”
“Es un viejo prejuicio el de que lo que distingue al hombre del animal es el pensamiento; pero nos atendremos a esto.” “la historia que tenemos ante nosotros es la historia de la búsqueda del pensamiento por el pensamiento mismo.” “Estas manifestaciones del pensamiento en las que éste se encuentra a sí mismo, son las filosofías; y la cadena de estos descubrimientos, de los que parte el pensamiento a descubrirse a sí mismo, es la obra de 3500 años.” Milenarismo 2.0.
“los árboles no nos dejarán ver el bosque, las filosofías nos impedirán ver la filosofía.”
“esta concepción no puede satisfacernos ni siquiera en lo que se refiere a la historia política; ya en ella reconocemos, o intuimos por lo menos, un entronque necesario entre los diversos acaecimientos, que hace que éstos ocupen un lugar especial, en relación con una meta o con un fin, adquiriendo con ello su verdadera significación.”
DA INTUIÇÃO À INSTITUIÇÃO:“Desde luego, la religión y los pensamientos contenidos en ella o que giran en torno a ella, principalmente, el que adopta la forma de mitología, se hallan ya por su materia—como por su forma los demás desenvolvimientos de las ciencias, sus pensamientos acerca del Estado, los deberes, las leyes, etc.—, tan cerca de la filosofía, que tal parece como si fuesen una prolongación más o menos vaga de la historia de la ciencia filosófica, como si la historia de la filosofía estuviese obligada a tomar en consideración todos estos pensamientos.”
A) CONCEPTO DE LA HISTORIA DE LA FILOSOFÍA
“Y si partimos de la premisa de que la verdad es eterna, ¿cómo incluirla en la órbita de lo pasajero, cómo relatar su historia? Y, por el contrario, si tiene una historia y la historia consiste en exponer ante nosotros una serie de formas pasadas de conocimiento, ¿cómo encontrar en ella la verdad, es decir, algo que no es nunca pasado, pues no pasa?”
“El cristianismo tiene una historia que se refiere a su difusión, a las vicisitudes por que pasaron sus creyentes, etc.; al convertir su existencia en una Iglesia, ésta es, a su vez, una existencia exterior del cristianismo, la cual, al verse enclavada en los más diversos contactos con el tiempo, presenta múltiples vicisitudes y tiene, esencialmente, su historia propia. Tampoco la doctrina cristiana, por sí misma, carece, naturalmente, de historia; pero ésta alcanza pronto y de un modo necesario su desarrollo y se plasma en la forma determinada que le corresponde. Y esta antigua profesión de fe ha regido en todo tiempo, y debe seguir rigiendo todavía hoy, sin cambio alguno, como la verdad, aunque su vigencia no fuese ya más que una apariencia sin sustancia y las palabras hubiesen quedado reducidas a una fórmula vacua pronunciada por nuestros labios. Ahora bien, el contenido ulterior de la historia de esta doctrina lleva consigo dos cosas: de una parte, las múltiples adiciones y aberraciones de aquella verdad fija; de otra, la lucha contra estas aberraciones y la purificación del fundamento perenne, eliminando de él las adiciones superpuestas y volviendo a su original simplicidad.
Una historia externa como la de la religión la tienen también las otras ciencias, incluyendo la filosofía.”
“¿cómo explicarse que, siendo la filosofía la doctrina de la verdad absoluta, se circunscriba a un número tan reducido de individuos, a determinados pueblos, a ciertas épocas; del mismo modo que, con respecto al cristianismo—o sea, a la verdad bajo una forma mucho más general—, se ha planteado la dificultad de si no será una contradicción en sí que esta religión haya aparecido tan tarde en el tiempo y haya permanecido durante tantos siglos, y todavía permanezca en la actualidad, limitada a determinados pueblos? Pero este problema y otros por el estilo son ya demasiado especiales como para depender solamente de la contradicción general a que veníamos refiriéndonos; sólo cuando hayamos entrado más de lleno en la naturaleza peculiar del conocimiento filosófico, podremos referirnos más a fondo a los aspectos que guardan mayor relación con la existencia exterior”
“En una ciencia como la matemática, la historia, por lo que al contenido se refiere, se limita, preferentemente, a la grata tarea de registrar una serie de ampliaciones; y la geometría elemental, por ejemplo, puede considerarse como una realidad ahistórica en la extensión que Euclides supo darle.”
“quienes creen poder exteriorizar un juicio más a fondo, llaman a esta historia una galería de las necedades o, por lo menos, de los extravíos del hombre que se adentra en el pensamiento y en los conceptos puros. Este punto de vista no sólo lo expresan quienes confiesan su ignorancia en materia de filosofía (la confiesan, puesto que esta ignorancia no es, según la concepción corriente, obstáculo para emitir un juicio acerca de lo que es la filosofía; por el contrario, todo el mundo se cree autorizado a dar su juicio acerca del valor y la esencia de ella, sin saber absolutamente nada de lo que es), sino también algunos de los que escriben o han escrito acerca de la historia de la filosofía. Esta historia, convertida así en un relato de diversas opiniones, no pasa de ser, concebida de este modo, materia de ociosa curiosidad o, si se quiere, de erudición.” Ex: Diógenes Laércio.
“¿Puede haber algo más inútil que conocer una serie de simples opiniones? Semejante conocimiento es de todo punto indiferente.”
“una opinión es un pensamiento mío, no un pensamiento general, que es en y para sí.”
“no existen opiniones filosóficas.”
“Esta llamada razón, de una parte, combatía la fe religiosa en nombre y en virtud de la razón pensante, pero, al mismo tiempo, se volvió en contra de la razón misma y se convirtió en enemiga de la verdadera razón; afirma en contra de ésta los derechos de la intuición interior, del sentimiento, convirtiendo con ello lo subjetivo en pauta de lo válido e imponiendo, de este modo, la fuerza de la propia convicción, tal y como cada cual se la puede llegar a formar, en sí y a partir de sí, en su propia subjetividad. Pues bien, estas convicciones propias no son otra cosa que las opiniones, convertidas así en el supremo criterio del hombre.”
“Es frecuente también ver que la teología se cultiva históricamente, atribuyendo a la ciencia teológica el interés de conocer las distintas opiniones, y uno de los primeros frutos de este conocimiento consiste en honrar y respetar todas las opiniones, considerándolas como algo de lo que no se tiene por qué dar cuentas a nadie, sino solamente a sí mismo.”
“La antítesis entre la opinión y la verdad, que de un modo tan nítido se destaca ahora, se trasluce ya en las nociones de la época socrático-platónica, época de desintegración de la vida griega, en la antítesis platónica entre la opinión (doxa) y la ciencia (episteme). Es la misma contraposición con la que nos encontramos en el período de decadencia de la vida pública y política de Roma bajo Augusto y en los tiempos siguientes, en que hacen estragos el epicureísmo y la indiferencia ante la filosofía. Es el sentido en que Pilato replica a Cristo, cuando Éste le dice que ha venido al mundo para proclamar la verdad: ‘¿Qué es la verdad?’. Lo que vale tanto como decir: ‘Este concepto de la verdad es un concepto convencional acerca del cual estamos al cabo de la calle; hoy, sabemos ya más, sabemos que ya no hay para qué hablar de conocer la verdad; eso se ha quedado atrás.’” Bom insight.
“En cuanto a la afirmación de que no es posible, conocer la verdad, nos encontraremos con ella en la historia misma de la filosofía, donde tendremos ocasión de examinarla con cierto cuidado. Aquí, sólo diremos que quienes, por ejemplo Tennemann, parten de esta premisa, harían mucho mejor, evidentemente, en no ocuparse para nada de filosofía, pues toda opinión afirma y pretende, aunque sea sin razón, poseer la verdad.”
“En efecto, ante el espectáculo de tan múltiples opiniones, de tan numerosos y diversos sistemas filosóficos, se siente uno arrastrado por la confusión, sin encontrar un punto firme de apoyo para sustraerse a ella. Vemos cómo, en torno a las grandes materias por las que se ve solicitado el hombre y cuyo conocimiento trata de suministrar la filosofía, los más grandes espíritus yerran, puesto que han sido refutados o contradichos por otros. ‘¿Y si esto ocurre a tan insignes espíritus, cómo puedo, ego homuncio, tener la pretensión de decidir tales problemas?’
Esta conclusión, que se extrae de la gran diversidad de los sistemas filosóficos, es considerada como dañina, pero representa, al mismo tiempo, una ventaja subjetiva.” “…Todas aseguran que son las verdaderas, todas indican signos y criterios distintos por medio de los cuales se ha de reconocer la verdad; por eso, el pensamiento sobrio y sereno tiene que sentir, por fuerza, grandes escrúpulos antes de decidirse por una.
Éste es el interés mayor a que debe servir la historia de la filosofía.”
Uma premissa correta, porém impossível de ser praticada – sem severos danos – durante a era sistemática. Heidegger teria algo a dizer sobre isso…
Todos queriam ser Hegel.
Todos queriam estar depois de Hegel.
Não, todos queriam estar depois deste sujeito pós-hegeliano!
Eis o pau que não matará nenhuma cobra
Nem mostrará o instrumento homicida a ninguém!
Quem chegar por último…
Morre nauseado e solteiro.
“Cicerón (De natura deorum, I, 8ss.) nos ofrece una historia, extraordinariamente superficial, de los pensamientos filosóficos acerca de Dios, inspirada precisamente en esa intención. Es cierto que la pone en labios de un epicúreo, pero sin que él mismo sepa decirnos nada mejor, lo que indica que las nociones expuestas por su personaje son las suyas propias.” Não diga! Logo Cícero, este EXCELSO filósofo?!
“El epicúreo dice que no ha sido posible llegar a un concepto determinado. La prueba de que son vanos los esfuerzos de la filosofía se desarrolla en seguida a base de una concepción genérica superficial de la historia de la filosofía misma: el resultado de esta historia no es otro que la aparición de los más diversos y dispares pensamientos de las múltiples filosofías, contrapuestas las unas a las otras y que se contradicen y refutan entre sí.”
“Según esto, la historia de la filosofía no sería otra cosa que un campo de batalla cubierto de cadáveres, un reino no ya solamente de individuos muertos, físicamente caducos, sino también de sistemas refutados, espiritualmente liquidados, cada uno de los cuales mata y entierra al que le precede.”
“Por lo que se refiere a este tópico de la sobriedad del pensamiento, sabemos por la sobriedad de la experiencia diaria que, cuando estamos en ayunas, nos sentimos al mismo tiempo, o poco después, hambrientos. Sin embargo, ese pensamiento sobrio tiene el talento y la habilidad de no sentirse impulsado al hambre, a la apetencia, sino, por el contrario, saciado y satisfecho.”
“Pero la vida física, como la vida del espíritu, no se da por satisfecha con la sobriedad, sino que es, esencialmente, impulso, acicate, siente hambre y sed de verdad, de conocimiento de la verdad, pugna por aplacarlas y no se da por satisfecha, por alimentada, con reflexiones del género de ésta a que nos estamos refiriendo.”
“Es menester que comprendamos que esta variedad entre las muchas filosofías no sólo no perjudica a la filosofía misma—a la posibilidad de la filosofía—, sino que, por el contrario, es y ha sido siempre algo sencillamente necesario para la existencia de la propia ciencia filosófica, algo esencial a ella.”
SE NO VINHO ESTÁ A VERDADE, OFEREÇO MEIA TAÇA: “Las hazañas de que nos habla la historia de la filosofía no tienen nada de aventuras, del mismo modo que la historia universal no es algo puramente romántico.”
Dom Quixote tem uma história. Não existe um Dom Quixote que se olvide.
Filósofos não tem o direito de censurar seus amigos por esquecerem que ele existe! Esse é um problema muito pessoal…
“lo más esencial de todo es conocer que la verdad única no es solamente un pensamiento simple, vacuo, sino un pensamiento determinado de suyo.”
CUIDADO COM SEUS ARTIGOS DE FÉ DE ÉPOCA:“Más aún, podríamos, incluso, resumir lo que aquí interesa en el solo criterio de la evolución, pues si acertamos a ver claro en él, todo lo demás se desprenderá y deducirá por sí mismo.”
Seu erro consistiu em imaginar-se mais qualificado que Platão. Hierarquia entre IDÉIA-CONCEITO:“El producto del pensamiento es lo pensado en general; pero el pensamiento es todavía algo formal, el concepto es ya el pensamiento más determinado y la idea, finalmente, el pensamiento en su totalidad y determinado como el ser en y para sí. Por consiguiente, la idea es lo verdadero y solamente lo verdadero; la naturaleza de la idea consiste, esencialmente, en desenvolverse y en llegar a comprenderse solamente por obra de la evolución, en llegar a ser lo que es.”A IDÉIA NÃO EXISTE – ERA UMA METÁFORA. CONSELHO SÉRIO: Eis porque não se deve levar a filosofia tão a sério! O alemão: sujeito sem senso de humor. Destarte: Incompleto.
Reflexões inadvertidas devido ao Zeitgeist.
“La ciencia de la lógica es la encargada de explicar ampliamente estos conceptos.” (Evolução, concreto & outros)
ponto nevrálgico do hegelianismo:
“la posibilidad [o] (…) ser en sí” ESSENTIA
“la realidad (entelequia) [o] ser para sí” IN CONCRETO
“Cuando decimos, por ejemplo, que el hombre es un ser racional por naturaleza, la razón vive en él solamente en potencia, como una posibilidad, en embrión” “Pero, en cuanto que el niño sólo posee la capacidad o la posibilidad real de la razón, es lo mismo que si no tuviese razón alguna; ésta no existe aún en él, puesto que no puede hacer aún nada racional ni posee una conciencia racional. Sólo a partir del momento en que lo que el hombre es en sí deviene para él, en que, por tanto, la razón pasa a ser una razón para sí; sólo a partir de entonces puede decirse que el hombre cobra realidad en una dirección cualquiera, que es un ser realmente racional, que vive para la razón.”
Elucidação da frase da Fenomenologia“todo real é racional”:
Todo ser-para-si é ser-em-si, porém nem todo ser-em-si é ser-para-si. Toda aparência (ato) é essência (realização de potência). Mas a essência não está em todas as fases (faces) da aparência.
O real de Hegel não é real. A razão de Hegel é onipresente (o deus operando a máquina). Todo acontecer é deus, mas deus é algo mais que a soma dos aconteceres.
Fases de curto-circuito da verdade.
Tudo tem um propósito, o resto é garmonbozia.
O real é uma parte pequena do meu feudo. O contrato ideal.
INÍCIO DA TRADUÇÃO DE ALGUNS PARÁGRAFOS
“Lo que es en sí necesariamente tiene que convertirse en objeto para el hombre, que cobrar conciencia en él; de este modo, deviene para el hombre.”
“O que é possível (essencial) tem de se converter por necessidade em objeto para o homem, tem de cobrar consciência nele; dessa forma, devém (aparece) para o homem.”
Hegel é um teleólogo. O mundo se revela com uma epifania. A própria realidade (fenômeno) é epifenômeno. O mundo é mero sintoma do Espírito.
“mediante la objetivación de este ser en sí, el hombre se convierte en ser para sí, se duplica, se conserva, no se convierte en otro.”
“mediante a objetivação deste ser em si (o que é possível), o homem se converte em ser para si (real), se duplica, se conserva, não se converte em outro.”
Se desdobra, realiza o que é em essência, não é estranho ao homem mesmo atingindo algo de diferente ou pioneiro em sua vida: o filósofo tem de ser homem; nem todo homem é filósofo; todo filósofo nasce homem e devém filósofo eventualmente. Agora ele é filósofo e homem.
“en el pensamiento sólo el pensamiento es objeto, la racionalidad produce lo racional y su objeto propio es la razón.”
“no pensamento só o pensamento é objeto, a racionalidade produz o racional e seu objeto próprio é a razão.”
No pensamento, só o pensamento pode ser pensado, se pensar. Mesmidade. REAL.
A razão é o pensamento do Espírito. Ele se pensa através da racionalidade. POSSÍVEL.
“Que el pensamiento puede degenerar también en lo irracional es una consecuencia ulterior, en la que no tenemos por qué entrar aquí.”
“Que o pensamento também pode degenerar no irracional é uma conseqüência ulterior, na qual não temos por que entrar aqui.”
“Ahora bien, si el hombre, que es en sí un ser racional, no parece poder ir más allá después de convertirse en un ser racional para sí, ya que el ser en sí sólo se ha conservado, la diferencia es, sin embargo, inmensa; no se desprende de aquí ningún contenido nuevo, pero esta forma del ser para sí implica una diferencia muy grande.”
“Ora, se o homem, que é essencialmente um ser racional, não parece poder ir mais além após se converter em ser racional para si (efetivamente), já que ele não mudou de natureza (não se duplicou), conservando a essência, a diferença é, não obstante, imensa (do filósofo ao leigo); não se depreende daqui nenhum conteúdo novo, mas esta forma do ser para si (reflexivo) implica uma diferença enorme.”
“Sobre esta diferencia descansa toda la que se aprecia en los desarrollos de la historia universal. Sólo así puede explicarse por qué, siendo todos los hombres racionales por naturaleza y estribando lo que hay de formal en esta racionalidad precisamente en el hecho de ser libres, ha existido en muchos pueblos, y en parte todavía sigue existiendo, la esclavitud, sin que los pueblos considerasen esto como algo intolerable.”
“Sobre esta diferença descansa toda diferença que se aprecia nos desenvolvimentos da história universal. Só aí se pode explicar por quê, sendo todos os homens racionais por natureza e estribando o que há de formal nesta racionalidade precisamente no fato de serem livres, existiu em muitos povos, e em parte segue existindo, a escravidão, sem que os povos a considerassem intolerável.”
Hegel parte do princípio que o senhor, a casta que escraviza, é constituída originalmente de filósofos? Ou bem que o escravo submisso é mais como um animal?
“A única diferença que se aprecia entre os povos da África e da Ásia, de uma parte, e de outra os gregos, os romanos e o mundo moderno, consiste em que estes sabem por que são livres, enquanto que aqueles o são sem saber que o são e, portanto, sem existir como povos livres. E isto representa uma mudança imensa quanto à condição. O conhecer e o aprender, a ciência e mesmo a ação não perseguem, em seu conjunto, nada senão extrair de si mesmo o que é interno ou em si (essencial), convertendo-o em algo objetivo (fenomênico).”
“La razón de este brotar a la existencia es que el embrión no puede resistirse a dejar de ser un ser en sí, pues siente el impulso de desarrollarse, por ser la viviente contradicción de lo que solamente es en sí y no debe serlo. Pero este salir fuera de sí se traza una meta y la más alta culminación de ella, el final predeterminado, es el fruto; es decir, la producción de la semilla, el retorno al estado primero. El embrión sólo aspira a producirse a sí mismo, a desdoblar lo que vive en él, para luego retornar a sí mismo y a la unidad de que partió. Claro está que en las cosas de la naturaleza se da el caso de que el sujeto, por donde se comienza, y lo existente, lo que pone punto final—allí la simiente, aquí el fruto—son dos individuos distintos; la duplicación se traduce en el resultado aparente de desdoblarse en dos individuos, que son, sin embargo, en cuanto al contenido se refiere, uno y lo mismo.”
“A razão deste brotar à existência é que o embrião não pode resistir a deixar de ser um ser em si, pois sente o impulso de desenvolver-se, por ser a contradição vivente do que somente é em si e não deve sê-lo. Mas este sair fora de si se traça uma meta e a mais alta culminação dela, o final predeterminado, é o fruto; isto é, a produção da semente, o retorno ao estado primeiro. O embrião só aspira a se produzir a si mesmo, a desdobrar o que vive nele, para logo retornar a si mesmo e à unidade de que partira. Claro está que nas coisas da natureza se dá o caso de que o sujeito, por onde se começa, e o existente, o que põe ponto final – ali a semente, aqui o fruto – são dois indivíduos distintos; a duplicação se traduz no resultado aparente de desdobrar-se em dois indivíduos, que são, sem embargo, quanto ao conteúdo, um e o mesmo.”
“Otra cosa acontece en el mundo del espíritu. El espíritu es conciencia y, por tanto, libre de que en él coincidan el principio y el fin. Como el embrión en la naturaleza, también el espíritu, después de haberse hecho otro, retorna a su unidad; pero lo que es en sí deviene para el espíritu y deviene, por consiguiente, para sí mismo. En cambio, el fruto y la nueva simiente contenida en él, no devienen para el primer embrión, sino solamente para nosotros”
“Outra coisa acontece no mundo do espírito. O espírito é consciência e, portanto, livre de que nele coincidam o princípio e o fim. Como o embrião na natureza, também o espírito, depois de ter-se feito outro, retorna a sua unidade; mas o que é em si devém para o espírito e devém, por conseguinte, para si mesmo. Já o fruto e a nova semente contida nele não devêm para o 1º embrião, mas somente para nós”
“Aquello para lo que lo otro es, es lo mismo que lo otro; sólo así puede ocurrir que el espíritu viva consigo mismo al vivir en el otro. La evolución del espíritu consiste, por tanto, en que, en él, el salir fuera y el desdoblarse sean, al mismo tiempo, un volver a sí.”
“Aquilo para o que o outro é, é o mesmo que o outro; só assim pode ocorrer que o espírito viva consigo mesmo ao viver no outro. A evolução do espírito consiste, portanto, em que, nele, o sair e desdobrar-se sejam, ao mesmo tempo, um voltar a si.”
“Todo lo que acaece en el cielo y en la tierra —lo que acaece eternamente—, la vida de Dios y todo lo que sucede en el tiempo, tiende solamente hacia un fin: que el espíritu se conozca a sí mismo, que se haga objeto para sí mismo, que se encuentre, devenga para sí mismo, que confluya consigo mismo; empieza siendo duplicación, enajenación, pero sólo para encontrarse a sí mismo, para poder retornar a sí.”
“Tudo o que acontece no céu e na terra – o que acontece eternamente –, a vida de Deus e tudo o que sucede no tempo, tende somente a um fim: que o espírito se conheça a si mesmo, que se faça objeto para si mesmo, que se encontre, devenha para si mesmo, que conflua consigo mesmo; começa sendo duplicação, alienação, mas só para se encontrar a si mesmo, para poder retornar a si.”
Muito bonito, porém sem fundamento. Ou melhor dizendo, irreal.
“en todo lo que no sea el pensamiento no conquista el espíritu esta libertad.”
“em tudo que não seja pensamento, não conquista o espírito esta liberdade.”
“cuando intuimos, cuando sentimos, estamos determinados, no somos libres; sólo lo somos cuando adquirimos la conciencia de estas sensaciones.”
“quando intuímos, quando sentimos, estamos determinados, não somos livres; só o somos quando adquirimos a consciência destas sensações.”
“Sólo en el plano del pensamiento desaparece, se evapora todo lo extraño, el espíritu, aquí, es absolutamente libre. Con lo cual queda proclamado, al mismo tiempo, el interés de la idea, de la filosofía.”
“Só no plano do pensamento desaparece, se evapora todo o estranho, o espírito, aqui, é absolutamente livre. Com o quê fica proclamado, ao mesmo tempo, o interesse da idéia, da filosofia.”
“¿qué evoluciona?, ¿qué es el contenido absoluto? Nos representamos la evolución como una actividad formal sin contenido. Pues bien, la acción no tiene otra determinación que la actividad y ésta determina ya la naturaleza general del contenido. El ser en sí y el ser para sí son los momentos de la actividad; en la acción se encierran, por consiguiente, estos dos momentos distintos. La acción es, así, una unidad esencial; y esta unidad de lo distinto es precisamente lo concreto. No sólo se concreta la acción; también lo es el ser en sí, el sujeto de la actividad de la que ésta arranca.”
“o quê evolui?, qual é o conteúdo absoluto? Nos representamos a evolução como uma atividade formal sem conteúdo. Pois bem, a ação não tem outra determinação que a atividade e esta determina já a natureza geral do conteúdo. O ser em si e o ser para si são os momentos da atividade; na ação se encerram, por conseguinte, estes dois momentos distintos. A ação é, assim, uma unidade essencial; e esta unidade do distinto é precisamente o concreto. Não só se concreta a ação; também é concreto o ser em si, o sujeito da atividade de quem esta parte.”
“La trayectoria de la evolución es también el contenido, la idea misma, la cual consiste precisamente en que tengamos lo mismo y lo otro y en que ambas cosas sean una sola, que es la tercera, en cuanto que lo uno es en lo otro consigo mismo y no fuera de sí.”
“A trajetória da evolução é também o conteúdo, a idéia mesma, a qual consiste precisamente em que tenhamos o mesmo e o outro e em que ambas as coisas sejam uma só, que é a terceira, enquanto que o um é no outro consigo mesmo e não fora de si.”
“Es un prejuicio corriente creer que la ciencia filosófica sólo maneja abstracciones, vacuas generalidades; que, por el contrario, la intuición, la conciencia empírica de nosotros mismos, el sentimiento de nosotros mismos y el sentimiento de la vida, es lo concreto de suyo, el reino determinado de suyo.”
O ÚLTIMO CONTRA-ATAQUE DO OBJETIVISMO: “É um preconceito corrente crer que a ciência filosófica só maneja abstrações, vácuas generalidades; (ou então,) pelo contrário, que a intuição, a consciência empírica de nós mesmos, o sentimento de nós mesmos e o sentimento da vida, são seu (terreno) concreto, seu reino determinado.”
Eis um exemplo da péssima escrita de Hegel. Havia a possibilidade de traduzir “concreto por si só”, “reino determinado por si só”, mas isso aumenta o nonsense do parágrafo e não é fundamental neste caso. Preferi manter a sintaxe mais óbvia ao leitor: remetendo o objeto ao sujeito inicial da frase. Se se quer que o pronome da terceira pessoa do singular “seu” se refira a algo, tem de ser, pelo contexto, a “ciência filosófica”. A segunda metade da frase, após o sinal de ponto-e-vírgula, consiste naturalmente na enumeração de elementos do método hume-kantiano (empirismo, ceticismo, criticismo subjetivistas), tudo aquilo a que Hegel faz dura oposição. O conhecimento mais elevado, para ele, só pode ser mediado pelo Espírito. Como Kant era o maior nome da filosofia na juventude de Hegel, era sobre ele que se deveria centrar o ataque. Expressões como “abstrações, vácuas generalidades” já resumem numa carapuça todo o objetivismo incompetente anterior a Hegel (e Kant). Quanto ao postulado da apercepção imediata de Kant, o “real adversário”, nas linhas seguintes Hegel proporá sua síntese, “sua versão” (antípoda) do a priori sintético daquele filósofo.
A luta transcendental e absoluta do século moderno! No corner esquerdo, pesando 70kg, o conceito é uma espécie de intuição X no corner direito, pesando 154,324 libras, a intuição é uma espécie de conceito! Valendo o cinturão do Continente (até o fim do século pelo menos…)!
“Pero, de suyo, la idea es algo esencialmente concreto, puesto que es la unidad de distintas determinaciones. En esto es en lo que el conocimiento racional se distingue del conocimiento
puramente intelectivo; y la tarea del filosofar, a diferencia del entendimiento, consiste precisamente en demostrar que la verdad, la idea, no se cifra en vacuas generalidades, sino en un algo general que es, de suyo, lo particular, lo determinado. Cuando la verdad es abstracta, no es tal verdad. ”
REBOLANDO ENTRE <INDUÇÃO> E <MATERIALISMO>: “Por si só, a idéia é algo essencialmente concreto, posto que é a unidade de distintas determinações. Nisto é que o conhecimento racional se distingue do conhecimento puramente intelectivo; e a tarefa do filosofar, diferente do (mero) entendimento, consiste precisamente em demonstrar que a verdade, a idéia, não se (de)cifra via vácuas generalidades, mas via algo geral que é, de per se, o particular, o determinado. Quando a verdade é abstrata, não é tal verdade.”
“sólo la reflexión del entendimiento es teoría abstracta, no verdadera, exacta solamente en la cabeza y, entre otras cosas, no práctica; la filosofía huye de lo abstracto como de su gran enemigo y nos hace retornar a lo concreto.”
“sozinha, a reflexão do entendimento (?) é teoria abstrata, não-verdadeira, exata somente na cabeça, e, entre outras coisas, não-prática; a filosofia foge do abstrato como de seu grande inimigo e faz-nos retornar ao concreto.”
O que K. escreveu não é filosofia! O que eu escrevo o é!
“Si combinamos el concepto de lo concreto con el de la evolución, obtenemos el movimiento de lo concreto. Como el ser en sí es ya concreto de suyo y nosotros no establecemos más que lo que ya existe en sí, resulta que sólo se añade la nueva forma de que aparezca ahora como algo distinto lo que ya antes estaba contenido en lo uno originario.”
“Se combinamos o conceito do concreto com o da evolução, obtemos o movimento do concreto. (?) Como o ser em si é já concreto por si e nós não estabelecemos mais que o que já existe em si, resulta que só se acrescenta a nova forma, sob a qual aparece agora como algo distinto o que já antes estava contido no um originário.”
“Si la idea fuese abstracta no sería otra cosa que la suprema Esencia, [suprema coisa-em-si] de la que ninguna otra cosa cabe decir; pero semejante Dios no es sino un producto del entendimiento del mundo moderno. La verdad es, por el contrario, movimiento, proceso y, dentro de él, quietud; la diferencia, allí donde existe, tiende siempre a desaparecer, produciendo así la unidad total y concreta.”
“‘La materia tiene que ser una de dos cosas: o un todo continuo o formada por puntos’, se dice; y, sin embargo, vemos cómo obedece a los dos criterios.” O inteligente expresso de forma que hoje nos soa burra: o ponto é uma convenção abstrata; porém se se dissera ‘a matéria enquanto onda (contínua) ou a matéria enquanto partícula (reduzida a elementos distinguíveis)’, como na Física do séc. XX, aí teria acertado em cheio. Visionário, portanto.
Aqui Hegel faz o Kantismo (quando diz “o entendimento”, inferior ao saber, ao verdadeiro pensar) consistir num jogo de eleição estereotipado entre sim/não, ‘isto ou aquilo’, generaliza a Crítica como uma mera retórica ou erudição binária, escrava do PRINCÍPIO DA NÃO-CONTRADIÇÃO, enquanto arroga ao seu sistema Espiritual a supremacia por comportar dentro de si o sim e o não em simultâneo (a síntese totalizante).
“Este movimiento encierra, por ser concreto, una serie de evoluciones que debemos representarnos, no como una línea recta que se remonta hacia el infinito abstracto, sino como una circunferencia que tiende, como tal, a volver sobre sí misma y que tiene como periferia una multitud de circunferencias que forman, en conjunto, una gran sucesión de evoluciones que vuelven hacia sí mismas.”
“Este movimento (evolucionário) encerra, por ser concreto, uma série de evoluções que devemos representar-nos, não como uma linha reta que remonta ao infinito abstrato, mas como uma circunferência que tende, como tal, a voltar sobre si mesma e que tem como periferia uma multitude de circunferências que formam, em conjunto, uma grande sucessão de evoluções que voltam sobre si mesmas.”
“La extensión en cuanto evolución no es dispersión ni disgregación; es también cohesión, tanto más vigorosa e intensiva cuanto más rica y amplia sea la extensión de lo coherente.”
“A extensão enquanto evolução não é dispersão nem desagregação; é também coesão, tanto mais vigorosa e intensiva quanto mais rica e ampla seja a extensão do coerente.”
Me pergunto de onde ele tirou essas coisas… Muito provavelmente de João (Apocalipse)!
“Es cierto, sin embargo, que, en un aspecto, la sucesión histórica en el tiempo se distingue de la sucesión en la ordenación de los conceptos; pero no nos detendremos a examinar aquí, de cerca, qué aspecto es ése, pues ello nos desviaría demasiado de nuestro fin.” Gostaria de saber como raios você compararia alhos e bugalhos.
“Quien estudia la historia de la física, de la matemática, etc., traba al mismo tiempo conocimiento con la física y la matemática mismas.”
“Cuando digo que existo, de un modo inmediato, existo solamente como organismo vivo; en cuanto espíritu, sólo existo en la medida en que me conozco.”
“Quando digo que existo, de um modo imediato, existo somente como organismo vivo; enquanto espírito, só existo na medida em que me conheço.”
“Ahora bien, una de las modalidades de la exterioridad es el tiempo, forma que ha de ser explicada de cerca tanto en la filosofía de la naturaleza como en la del espíritu finito.”
“Pois bem, uma das modalidades da exterioridade é o tempo, forma que será explicada de perto na filosofia da natureza como na do espírito finito.”
“a filosofia pura aparece no pensamento como uma existência que progride no tempo.”
“Podría decirse que la forma es indiferente y lo fundamental el contenido, la idea; y se cree hacer una concesión muy equitativa cuando se dice que las distintas filosofías contienen todas ellas la idea, aunque bajo diversas formas, dando a entender que estas formas son algo puramente fortuito. Sin embargo, tienen importancia, pues estas formas no son otra cosa que las diferencias originarias de la idea misma, que sólo en ellas es lo que es; son, pues, esenciales a ella y constituyen, en realidad, el contenido mismo de la idea, el cual, al desdoblarse, se convierte en forma.”
“Poder-se-ia dizer que a forma é indiferente e o fundamental é o conteúdo, a idéia; e crê-se fazer uma concessão muito equitativa quando se diz que as distintas filosofias contêm todas elas a idéia, ainda que sob diversas formas, dando a entender que estas formas são algo puramente fortuito. Não obstante, têm importância, pois estas formas não são nada além das diferenças originárias da idéia mesma, que só nelas é o que é; são, pois, essenciais a ela e constituem, em realidade, o conteúdo mesmo da idéia, o qual, ao se desdobrar, se converte em forma.”
“Necessariamente tem que se produzir o destino destas determinações, o qual consiste, precisamente, em que se enlacem e somem todas elas, descendendo assim ao nível de simples momentos. A modalidade em que cada momento se estabelecia como algo próprio e independente se vê, por sua vez, suspensa (no sentido físico e topográfico e no sentido legal do adjetivo); após a expansão vem a contração – a unidade de que todos aqueles momentos partiram. E este terceiro termo só pode ser, por sua vez, o começo de uma nova evolução. Poder-se-ia pensar que este processo se desenvolve ao infinito; mas não é assim; pois também ele tem uma meta absoluta, que mais tarde saberemos qual é; têm que se produzir, contudo, muitas viragens antes de que o espírito cobre sua liberdade, ao adquirir a consciência de si mesmo.” Mero messianismo travestido.
“A grande premissa, a de que também no mundo seguiram as coisas um curso racional, o que dá verdadeiro interesse à história da filosofia, não é outra coisa senão a fé na Providência, unicamente que noutra forma.” Ao menos o reconhece (que não passa de um messias imanente).
“Quem, nos acontecimentos que se produzem no campo do espírito, nas filosofias, só veja contingências, não leva a sério a fé num governo divino do universo e tudo que diga sobre isso não passará de simples palavreado.”
ESPÍRITO, O ENROLÃO: “não há dúvida de que para quem medite à primeira vista acerca do problema pode parecer surpreendente a duração do tempo, assim como a magnitude dos espaços de que nos fala a astronomia. Porém, no tocante à lentidão do Espírito do Mundo, há de se ter em conta que ele não necessita se apressar – ‘mil anos são para Ti tanto quanto um único dia’ –; tem tempo de sobra, precisamente porque vive à margem do tempo, porque é eterno. Os efêmeros seres que vivem da noite à manhã não dispõem de tempo bastante para realizar tantos de seus fins. Quem é que não morre antes de haver cumprido tudo aquilo a que se propunha? O Espírito do Mundo não só dispõe de tempo bastante: não é somente tempo o que se tem de investir na aquisição de um conceito; custa, ademais, muitas outras coisas. Tampouco lhe preocupa que tenha de empregar tantas e tantas gerações humanas até chegar a cobrar consciência de si mesmo, que tenha de percorrer um caminho extraordinariamente longo de nascimentos e mortes; é rico o bastante para se permitir essas jactâncias, promove sua obra de forma perdulária e dispõe de nações e indivíduos em abundância para utilizar em seus fins. Diz-se, se é uma informação exata, (!!) ainda que trivial, que a natureza chega a sua meta pelo caminho mais curto. Em compensação, o caminho do espírito é o caminho da mediação e do rodeio; o tempo, o esforço, a dilapidação, são critérios da vida finita que para nada nos interessam aqui. E não devemos nos sentir impacientes tampouco, ao ver que tais ou quais desígnios concretos não se realizam no instante mesmo, que tal ou qual coisa não é já realidade; na história universal os progressos se realizam lentamente.”
É tempo de um cochilo, pois.
“O contingente deve ser abandonado às portas da filosofia.” “uma filosofia que não apresente uma forma absoluta, idêntica a seu conteúdo, tem necessariamente de passar, não pode permanecer, porque sua forma não é a verdadeira.” “toda filosofia foi necessária e segue sendo, portanto” “Os princípios se mantêm; a novíssima filosofia não é senão o resultado de todos os princípios precedentes; neste sentido, pode-se dizer que nenhuma filosofia foi jamais refutada. O que foi refutado não se tratava de princípio algum, tão-só a pretensão de que este princípio fosse a determinação última e absoluta.”
“as determinações de Descartes são de tão gênero que bastam para explicar o mecanismo, mas nada mais; a exposição das outras concepções do universo, p.ex. as da natureza vegetal e animal, é, neste filósofo, insuficiente e, portanto, carente de interesse.”
“o Timeu de Platão contém uma filosofia da natureza cujo desenvolvimento é muito pobre, inclusive empiricamente, pois seu princípio não é suficiente para levar a nada; e os insights porventura penetrantes, que não estão ausentes, não se devem exatamente ao princípio.” Análise atomizada.
“Poderia pensar-se que o primeiro é o concreto, que a criança, p.ex., é mais concreta que o homem, quem imaginamos que é mais limitado, que não vive esta totalidade, senão uma vida mais abstrata.” “Devemos, pois, distinguir o natural concreto do concreto do pensamento, que, por sua vez, é pobre em sensibilidade.”
“as primeiras filosofias são as mais pobres e mais abstratas de todas”
“Já se perguntou, p.ex., se a filosofia de Tales de Mileto deve ser considerada, em rigor, teísmo ou ateísmo, se este filósofo da antiguidade afirmava a existência de um Deus pessoal ou simplesmente uma essência geral e impessoal.” Anacronismo, de fato.
“Não se trata, como à primeira vista poder-se-ia pensar, de uma atitude de soberba da filosofia de nosso tempo” Não, que isso – imagina, meu caro, imagina!
“na grande História da filosofia de Bruckner (parte I) cita-se uma série de 30, 40, até 100 filosofemas postos na boca de Tales e de outros e dos quais nem um só pensamento se encontrou historicamente nestes homens: teses, acompanhadas mesmo de citações e de raciocínios de igual cariz, entre os que em vão nos esforçaremos por descobrir qualquer índice genuíno. O procedimento seguido por Bruckner consiste em adornar qualquer filosofema de um pensador antigo de todas as conseqüências e premissas que, segundo as concepções da metafísica wolffiana, deveriam ser as premissas e conseqüências daquele filosofema, citando o que não passa de pura invenção com a mesma espontaneidade de como se tratasse de um fato histórico comprovado. Atribui-se a Tales o apotegma Ex nihilo fit nihil, sob a justificativa de que o pensador de Mileto diz que a água é eterna! Nada indica que Tales tenha dado tal salto.
Também o senhor professor Ritter, cuja História da filosofia jônica é resultado de um paciente estudo e que, em geral, procura não atribuir aos pensadores pensamentos estranhos, imputa a Tales mais do que talvez se possa imputar-lhe historicamente: ‘Daí devermos considerar, num todo, como dinâmica a concepção da natureza que encontramos em Tales. Este pensador concebia o universo ao modo de um animal vivo que o abarcava por completo e que nascera de um embrião, como todos os animais, e, como todos eles, igualmente, era parcialmente feito de água. A concepção fundamental do universo, em Tales, é portanto a de um todo vivo que se desenvolvera de um embrião e que, como os animais, sustenta-se por meio de uma alimentação adequada a sua natureza’” (!!)
“Aristóteles não afiança esta citação, tampouco qualquer outro dentre os antigos.”
Como se poderia pensar que se poderia pensar exatamente o que Tales pensou?! Tendo uma auto-estima de mil Budas, talvez, ou nem assim!
Eu escrevo que Hegel escreveu que Aristóteles escreveu que Tales disse (escreveu, por suposto, mas este escrito não sobreviveu) que o princípio (não no sentido de começo mas de importância) de todas as coisas era a água. Ironicamente qualquer manuscrito único, por mais importante que fosse, não poderia dar notícias ao futuro se fosse umedecido.
“Para começo de conversa parece que o primeiro a cunhar a palavra equivalente a princípio fora Anaximandro, posterior a Tales. A não ser que estejamos falando do sentido de começo no tempo deste termo. Porém, Tales jamais enuncia o conceito de causa; mal poderia, portanto, enunciar o de causa primeira.” Biblicamente e até darwinianamente falando, entretanto, Tales é irretocável!
“Existem, ainda hoje, povos inteiros que não conhecem até agora esse conceito, pois para a ele chegar é necessário um grau muito alto de evolução.”
Um elo entre um nada e outro nada ainda menor.
“hoje já não podem haver platônicos, aristotélicos, estóicos ou epicuristas; querer ressuscitar estas filosofias equivaleria a fazer regredir a uma etapa anterior ao espírito mais desenvolvido, mais imerso em si.” Não deviam. Mas não poder é um pouco de autoritarismo, você não acha?!
Deve ser quase impossível conceber a tormenta mental que explicar o período medieval devia provocar nos evolucionistas!
“Marsilio Ficino era platônico; Cosme de Médicis chegou inclusive a fundar uma Academia de filosofia platônica, dotada de professores, à cabeça dos quais estava Ficino. Haviam também aristotélicos puros, como Pomponazzi; Gassendi reviveu mais tarde a filosofia epicuréia, ao filosofar como um epicurista em torno dos problemas da física; Lipsius tratava de ser um estóico, e assim por diante.”
“pensava-se que era impossível que o cristianismo chegasse a desenvolver uma filosofia própria” (!!!) O mais cretino é imaginar que pudesse.
“Analogamente, pessoas cultas de nossa sociedade aconselham-nos a voltar aos costumes e ao modo de pensar dos selvagens dos bosques da América do Norte; e Fichte (Las características de la edad contemporánea) recomenda a religião de Melquisedeque como a mais pura e mais simples de todas, à qual seria o ideal voltarmo-nos hoje.”
“Em Platão não se encontra uma solução filosófica definitiva para os problemas referentes à natureza da liberdade, à origem do bem e do mal, à Providência.” Quem está sendo anacrônico agora?
B) RELACIÓN ENTRE LA FILOSOFÍA Y LOS DEMÁS CAMPOS
“esta exposición debe eliminar de su seno todo lo que sea historia externa de la época, para recordar solamente el carácter general del pueblo y del tiempo y el estado general de cosas. En realidad, la historia de la filosofía revela ya, de suyo, este carácter y, además, en su grado supremo; guarda la más íntima relación con él, y la forma determinada de la filosofía correspondiente a una época no es más que un lado, un momento de él.”
“Esta conexión, [filosofia e história] esencial, presenta 2 lados. El 1º es el propiamente histórico; el 2º, el que se refiere (…) a las relaciones entre la filosofía y la religión, etc.; [improcedente: num estudo de história da filosofia, investigar relações da filosofia com a religião do seu tempo não tem primazia, e estas relações poderiam ser apuradas residualmente no 1º lado, o puramente histórico] lo que nos ayudará, al mismo tiempo, a determinar con mayor precisión lo que la filosofía es.”
A velha teoria civilização-cultura: sempre que a primeira se funda a segunda ainda mal começou a se consolidar. Quando a última está em seu auge, a civilização já está em decadência. E é só em períodos de efervescência cultural e, portanto, ruína civilizacional, que um povo filosofa. Sócrates-Platão-Aristóteles e o mundo heleno em desagregação; São Tomás e o mundo pós-Império Romano do Ocidente sem esteio, ao mesmo tempo em que o Estado-moderno está na pré-História; Schopenhauer, Nietzsche e a desagregação da civilização ocidental, ou pelo menos da Europa como protagonista; a Escola Crítica e a falência do Socialismo Real; os franceses loucos anos 60 e avante em plena inércia pós-modernista… Curiosamente, Hegel não parece participar de um desses momentos, mas está integrado na Prússia fortalecendo-se nacionalmente. Não há cultura, há apenas filisteus (Hegel admite-o). Sempre que é necessário, nessa época, citar a cosmovisão de um grande homem, recorrem a Goethe, que foi da geração anterior.
A avant-garde do Nada. A retaguarda do império.
“Los filósofos griegos manteníanse al margen de los negocios del estado y el pueblo los tildaba de ociosos, por haberse retirado de la realidad al mundo del pensamiento.” “La filosofía jonia surge al sobrevenir la decadencia de los estados jónicos en el Asia Menor.” “En Roma, la filosofía no empieza a difundirse hasta que no se hunde la auténtica vida romana, la de la República, bajo el despotismo de los emperadores”
“Las ciencias naturales reciben en Inglaterra el nombre de filosofía. Y hay una Revista filosófica inglesa, dirigida por Thomson, en que se publican estudios sobre química, agricultura, abonos, economía e industria” “Los ingleses dan el nombre de ‘instrumentos filosóficos’ a los que son, en realidad, instrumentos puramente físicos, como el barómetro y el termómetro. Y llaman, asimismo, filosofía a teorías como, principalmente, la moral y las ciencias morales, derivadas de los sentimientos del corazón humano o de la experiencia; y también, finalmente, a las teorías y los principios relacionados con la economía política.” Um erro fatal que seria sentido em todo o mundo!
“Esta mescolanza de filosofía y cultura general se presenta con cierta frecuencia en el período inicial de la cultura.”
“Así, ya en los comienzos mismos de la filosofía griega aparecen los Siete Sabios y los filósofos jonios.”
“Los monarcas, considerados como los ungidos del Señor, en el sentido de los reyes de Judea, recibían su poder de Dios y, como la autoridad emanaba de lo alto, sólo a Dios tenían que dar cuenta de sus actos.”
“Federico Schlegel dio nueva vida a este apodo de la filosofía, queriendo significar con ello que su misión no consistía en tratar de problemas superiores a los del mundo, por ejemplo los de la religión; y encontró muchos que lo siguieran por este camino.”
“Lo que la filosofía tiene de común con el arte y, principalmente, con la religión son los problemas absolutamente generales que constituyen su contenido”
“De aquí que debamos, por encima de todo, enfocar la religión lo mismo que enfocamos la filosofía, es decir, conocerla y reconocerla como racional, puesto que es obra de la razón que se revela, su producto más alto y más conforme a razón. Son, por tanto, nociones absurdas las de quienes creen que los sacerdotes inventan las religiones para defraudar al pueblo y en provecho propio, etc.; es algo tan superficial como equivocado ver en la religión el producto de la arbitrariedad o del engaño.”
“Y es también una leyenda propagada por doquier la de que Pitágoras, por ejemplo, sacó su filosofía de la India y el Egipto: es muy antigua la fama de la sabiduría de estos pueblos, en la que se considera también implícita la filosofía.”
“¿cómo se distingue la filosofía de la teología, el saber de la religión, o más concretamente, de la religión en cuanto conciencia?”
“la pobreza mental de los indios antiguos y modernos, que siguen adorando como seres divinos a las vacas y a los monos”
“el arte se convierte en el maestro de los pueblos, como en Homero y Hesíodo, quienes, según Herodoto (II, 53), ‘crearon la teogonía de los griegos’, al convertir en imágenes y representaciones claras y firmes toda una serie de nociones y tradiciones confusas, conservadas y reunidas como fuese, en consonancia con el espíritu de su pueblo.”
Curiosamente já antecipa a principal crítica anti-hegeliana de Feuerbach: “Ahora bien, aunque en la verdadera religión se haya revelado y se revele el pensamiento infinito, el espíritu absoluto, el vaso en que se vierte es el corazón, la conciencia representativa y la inteligencia de lo finito. La religión no sólo se dirige a toda modalidad de cultura—‘el Evangelio se predica a los pobres’—, sino que, como religión, debe ir dirigida expresamente al corazón y al ánimo, penetrar en la esfera de la subjetividad y, con ello, en el campo de las representaciones finitas.”
Dá sempre a impressão, lendo Hegel falar do “entendimento” e da religião, que para ele Kant não passava de um Padre…
“El carácter de la religión positiva se cifra en que sus verdades existen, sin que se sepa de dónde provienen; por lo cual su contenido es un algo dado superior a la razón y situado más allá de ella.”
“lo mismo que los griegos veneraban a Ceres y a Triptolemo por haber traído a los hombres la agricultura y el matrimonio, los pueblos guardan gratitud a Moisés y Mahoma.”
“Si Cristo sólo fuese, para los cristianos, un maestro al modo de Pitágoras, de Sócrates o de Cristóbal Colón, no tendríamos ante nosotros un contenido divino general, una revelación o una doctrina acerca de la naturaleza de Dios, que es, cabalmente, lo que nos interesa aquí.”
“El hombre tiene que abrazar una religión; cabe, pues, preguntarse: ¿cuál es el fundamento de su fe? La religión cristiana contesta: el testimonio del espíritu acerca de este contenido. Cristo les echa en cara a los fariseos el que pidan milagros”
“Esta presencia del espíritu percibido es lo que se llama fe, pero no es una fe histórica; nosotros, los luteranos—pues yo lo soy y quiero seguirlo siendo—poseemos solamente aquella fe originaria. Esta unidad no es la sustancia al modo de Spinoza, sino la sustancia cognoscente de la conciencia de sí, en su actitud finita ante lo general. Todo lo que se dice acerca de los límites del pensamiento humano es algo puramente superficial; conocer a Dios: tal es la finalidad única de la religión.”
AUTOGÊNESE DA BÍBLIA:“El espíritu se engendra a sí mismo, al atestiguarse; sólo existe en cuanto que se engendra, se atestigua y se revela o manifiesta.”
“La esencia es, de suyo, un contenido esencial, no lo carente de contenido, lo indeterminado”
“A essência é um conteúdo essencial, não o carente de conteúdo, o indeterminado”
Não só mataram Deus como transaram com seu cadáver.
“la filosofía es justificada por la devoción y por el culto y se limita a hacer lo mismo que éstos hacen.”
“La filosofía, al pensar su objeto, tiene la ventaja de que las dos fases de la conciencia religiosa, que en la religión representan momentos distintos, forman en el pensamiento filosófico una unidad.”
“Por eso la filosofía empieza presentándose a nosotros vinculada y prisionera dentro del círculo del paganismo griego; más tarde, apoyándose en sí misma, se enfrenta a la religión popular y asume una actitud hostil, hasta que logra comprender su contenido y reconocerse en él.”
FILOPÊNDULO: Na época de Hegel o ateísmo estava “datado”. Dataria de novo logo depois o teísmo.
“sabemos que las últimas palabras de Sócrates fueron para suplicar a sus amigos que sacrificasen un gallo a Esculapio, deseo que se avenía muy mal, por cierto, con los pensamientos sostenidos por Sócrates acerca de la esencia de Dios y, principalmente, acerca de la ética. Platón predica apasionadamente contra los poetas y sus dioses.” O Sócrates “do galo” é Platão.
“Por misterios se entiende, en una interpretación superficial, lo misterioso, lo que, como tal, no puede llegar a ser conocido. Sin embargo, en los misterios eleusinos no había nada desconocido; todos los atenienses estaban iniciados en ellos; el único que no quiso estarlo fue Sócrates. Sólo se prohibía darlos a conocer a los no atenienses, y algunos de sus fieles fueron acusados de este delito. No debía hablarse de ellos, por tratarse de algo sagrado.” “En la religión cristiana se da el nombre de misterios a los dogmas, es decir, a lo que se sabe acerca de la naturaleza de Dios. No se trata tampoco de nada misterioso, todos los fieles de esta religión lo conocen, y es precisamente ello lo que los distingue de los de otras religiones; por tanto, tampoco aquí significa el misterio algo desconocido, pues todos los cristianos se hallan iniciados en él.” Misterioso é macumbeiro!
“El entendimiento no capta lo especulativo, que es precisamente lo concreto”
“La filosofía es opuesta, en cambio, al llamado racionalismo de la moderna teología, el cual no se quita de los labios la razón, a pesar de lo cual no es más que seco entendimiento; lo único que en él se descubre de razón es el momento del pensar por sí mismo, pero sin que esto pase de ser un pensamiento puramente abstracto. Cuando el entendimiento que no llega a captar las verdades de la religión se llama, como en el Siglo de las Luces, razón y se quiere hacer pasar por señor y dueño, se equivoca. El racionalismo es lo opuesto a la filosofía, por el contenido y por la forma, pues vacía el contenido, despuebla el cielo y lo degrada todo a relaciones finitas; y su forma es un razonar no libre, no un comprender.”Até a luz enjoa, não é, obscuro e tétrico Hegel?
“las puertas de la razón son más fuertes que las puertas del infierno, no para prevalecer contra la Iglesia, sino para conciliarse con ella. La filosofía, en cuanto pensamiento comprensivo de este contenido, tiene, en lo tocante a las creencias de la religión, la ventaja de que comprende ambas cosas: está en condiciones de comprender a la religión, del mismo modo que comprende al racionalismo y al supranaturalismo, y se comprende también a sí misma.”
“La mitología puede ser estudiada desde el punto de vista del arte, etc.; pero el espíritu pensante debe esforzarse en descubrir el contenido sustancial, el pensamiento, el filosofema implícitamente contenido en ella; del mismo modo que descubre la razón en el seno de la naturaleza.”
“Este modo de tratar la mitología es combatido y condenado por otros, quienes sostienen que se la debe abordar solamente de un modo histórico y que es contrario al criterio histórico tratar de deslizar dentro de un mito un filosofema que los antiguos no pusieron en él, o derivarlo a la fuerza de tal mito. Y no cabe duda de que esto es, por una parte, absolutamente verdadero, y no es otro, por cierto, el punto de vista en que se sitúa Creuzer(*) y en que se situaban los alejandrinos que se ocupaban de estas cosas.
(*) [Michelet] Georg Friedrich Creuzer (1771-1858), filólogo y arqueólogo. Es conocido, principalmente, por su obra Symbolik und Mythologie der alten Völker, besonders der Griechen, en la que sostiene que la mitología de Homero y Hesíodo proviene, a través de los pelasgos, de una fuente oriental y es el resto conocido de una antigua revelación.”
“Sin embargo, lo mitológico debe quedar excluido de nuestra historia de la filosofía. La razón de ello está en que la filosofía, tal como nosotros la concebimos, no versa precisamente sobre los filosofemas, es decir, sobre pensamientos que sólo de un modo implícito se contienen en una exposición, sino sobre pensamientos explícitos, expresados, y solamente en la medida en que lo son; es decir, solamente en la medida en que el contenido de la religión se revela a la conciencia bajo la forma del pensamiento”
“Zoroastro presenta esto de un modo excelente: uno de los principios (Ormuz) es el de la luz, el otro (Ahrimán) el de las tinieblas, y el centro entre ambos lo ocupa Mitra, al que por ello dan los persas el nombre de mediador.” Plutarco
“No actúa de mediador entre Ormuz y Ahrimán a la manera de un pacificador, dejando subsistentes ambas fuerzas; no participa del bien y del mal, como un lamentable ser híbrido, sino que se coloca resueltamente del lado de Ormuz y pelea con él contra el mal. Ahrimán es llamado, a veces, el hijo primogénito de la luz, pero sólo Ormuz permaneció en ella. Al ser creado el mundo visible, Ormuz se encargó de tender sobre la tierra, en su incomprensible reino luminoso, la firme bóveda del cielo, circundada todavía, por la parte de arriba, por la primera luz primigenia. En el centro de la tierra está la montaña Albordi, tan alta, que alcanza la luz primigenia. El reino luminoso de Ormuz campea sin que nada lo empañe sobre la firme bóveda celeste y en lo alto de la montaña Albordi; campeó también sobre la tierra hasta llegar a la tercera época de ella. Dentro de ella, Ahrimán, cuyo reino de la noche se hallaba hasta ahora escondido debajo de la tierra, extiende sus dominios al mundo de Ormuz y reina conjuntamente con él. El espacio que separa al cielo de la tierra se divide por mitades entre la luz y la noche. Como Ormuz, hasta ahora, sólo gobernaba sobre un reino de espíritus de la luz, Ahrimán gobernaba solamente sobre un reino de espíritus tenebrosos; pero ahora, al extender su reino, Ahrimán opone a la creación luminosa de la tierra una creación de la tierra tenebrosa. Se contraponen, así, desde este momento, dos mundos, un mundo puro y bueno y otro impuro y malo, y esta contraposición se extiende a través de toda la naturaleza.
En lo alto del Albordi, Ormuz crea a Mitra como mediador para la tierra; el fin de la creación del mundo físico no es otro que el de volver a su punto de partida, a la esencia, desviada de su creador, hacerla de nuevo buena y desterrar así, para siempre, el mal.” Toda a sua filosofia jaz no Zend-Avesta, ó Hegel!
“lo único que, desde este punto de vista, puede interesarnos y parecernos digno de ser tenido en cuenta es el carácter general de este dualismo que lleva consigo, necesariamente, el concepto, pues éste es, justo en sí, directamente lo contrario de sí mismo, y en el otro la unidad de éste consigo mismo” “Como de los dos principios solamente el principio de la luz es, en rigor, la esencia y el principio de las tinieblas la nada, tenemos que el principio de la luz coincide, a su vez, con Mitra, llamado anteriormente el Ser Supremo.” “Estos criterios se hallan mucho más cerca del pensamiento, no son simples imágenes; sin embargo, tampoco estos mitos tienen nada que ver con la filosofía.”
“Y lo mismo ocurre, sobre poco más o menos, entre los fenicios, con la cosmogonía de Sancuniaton. Estos fragmentos, con que nos encontramos en Eusebio (Praepar. Evang., I, 10), están tomados de una traducción de Sancuniaton hecha del fenicio al griego por el gramático Filón de Biblos; este Filón, que vivió en tiempo de Vespasiano, atribuye a Sancuniaton una extrema ancianidad.”
O ar engravidou o caos e engendrou uma matéria viscosa, que levava em si o germe da vida, forças naturais e as sementes dos animais. A mistura da matéria viscosa e do caos fez com que se separassem todos os elementos. As partes de fogo se elevaram e se tornaram as estrelas (o que é muito mais sábio que nossa visão até Ptolomeu de que as estrelas são pontos frios de luz). As estrelas em interação com o ar produziram as nuvens. A terra foi fecundada. Da terra e da água, formando matéria putrefata, a substância viscosa fez nascerem os animais, ainda imperfeitos e sem sentidos. Mas estes deram a luz a descendentes mais perfeitos que eles mesmos, dotados de sentidos. Foi a explosão do trovão na tormenta que deu vida aos primeiros animais, que estavam dormentes, envolvidos em suas cascas ou sementes. Para mais sobre a mitologia fenícia, cf. Sanchuniathonis Fragmenta ed. Rich. Cumberland, Londres, 1720.
“Los fragmentos de Beroso, referentes a los caldeos, fueron reunidos, a base de las obras de Josefo, Sincelo y Eusebio, por Escalígero, bajo el título de Beroisi Chaldaica, como apéndice a su obra De emendatione temporum, y figuran íntegros en la ‘Biblioteca Griega’ de Fabricio (t. XIV, pp. 175-211). Beroso vivió en tiempo de Alejandro, fue, al parecer, sacerdote de Bel [Baal; Belus em latim; originalmente significava Senhor em acádio] y debió de sacar sus datos de los archivos del templo de Babilonia.”
“El dios originario era Bel, la diosa Omoroca [el mar]; pero había además otros dioses. Bel cortó por el medio a Omoroca para formar con sus partes el cielo y la tierra. Después de ello, se cortó a sí mismo la cabeza, y de las gotas de su divina sangre nació el género humano. Después de crear al hombre, Bel ahuyentó a las tinieblas, separó el cielo de la tierra y dio al mundo su forma natural. Pareciéndole que ciertas regiones de la tierra no se hallaban bastante pobladas, obligó a otro dios a hacer lo mismo que él, y de la sangre de este otro dios nacieron nuevos hombres y otras especies animales. Los hombres, al principio, vivían como salvajes, sin la menor cultura, hasta que vino un monstruo [al que Beroso llama Oannes], que los enseñó y los educó en la humanidad. Este monstruo salió, para ello, del mar, con la aurora, y al ponerse el sol volvió a perderse entre las olas.” Beroso
“Es cierto que a Platón se le ensalza no pocas veces por razón de sus mitos, y se dice que da pruebas, con ello, de un genio superior al de la generalidad de los filósofos. Se entiende, al decir eso, que los mitos de Platón están por encima de la manera abstracta de expresarse; y no cabe duda de que este pensador se expresa con gran belleza.” No geral, entretanto, Hegel não compreende bem Platão.
“Así, por ejemplo, puede decirse que la eternidad es un círculo, una serpiente que se muerde la cola; esto no pasa de ser una imagen, y el espíritu no necesita valerse de semejantes símbolos.” Pelo contrário, idiota: é muito diferente afirmar que o universo é infinito e eterno simplesmente ou compará-lo à cobra que se digere a si mesma, a Ouroboros: significa que há um fim e uma genealogia determinados, que podem, no entanto, ser qualquer ponto do círculo, e que o caminho do círculo não deixa por isso de ser infinito. Isso traz conseqüências extremamente importantes para a consideração do conceito de causa e efeito na filosofia. Atende ao requisito fundamental de todo filosofar numa só imagem, também: o Um no múltiplo e o múltiplo no Um. Ao contrário do Espírito, a Vontade se alimenta de si mesma, ferindo-se mortalmente, condição sine qua non de sua própria perpetuidade canibal. O Espírito não tem carne, nada sofre ao se desenrolar, entrar em sínteses e voltar a si mesmo; é morto, não é a ‘vida viva’ (Hegel) – ao contrário de Ouroboros, que sente cada etapa da eterna criação/destruição na carne. Quem mata, morre, quem morre mata e participam ambos da dança e do jogo inelutável. Todo lixo é luxo e todo luxo é lixo a seu tempo.
“Del mismo modo que los francmasones manejan símbolos considerados como una profunda sabiduría —profunda al modo de un pozo al que no se le ve el fondo—, el hombre se inclina fácilmente a considerar profundo lo oculto, como si por debajo de ello hubiese algo verdaderamente profundo.” Ao chato, o abismo não parece profundo.
“Se habla también de la filosofía de los chinos, del foï, que consiste en expresar los pensamientos por medio de números. Sin embargo, también ellos explican sus símbolos, con lo cual ponen de manifiesto la determinación.”
“en la religión india, sobre todo, estos pensamientos aparecen clara y manifiestamente expresados, pero entre los indios todo se presenta mezclado y revuelto.”
“Es bien conocida la imagen del fénix, que ha llegado a nosotros desde el Oriente.”
“En la religión griega, nos encontramos con la determinación conceptual de la ‘eterna necesidad’; es ésta una relación absoluta, sencillamente general.”
“También en los Padres de la Iglesia y los escolásticos, y no sólo en la religión india, encontramos profundos pensamientos especulativos acerca de la naturaleza de Dios mismo. En la historia de la dogmática es de esencial interés conocer esta clase de pensamientos, pero en la historia de la filosofía no tienen cabida. Sin embargo, los escolásticos deberán ser tenidos más en cuenta que la patrística.” [¿?] “estos pensamientos [dos Padres da igreja, i.e., do Novo Testamento até antes de Agostinho] descansan sobre una premisa y no sobre el pensamiento mismo; no son, en consecuencia, verdadera filosofía, es decir, el pensamiento en sí mismo, sino que sirven a una representación de la que se parte como de algo establecido, ya sea para refutar a otras representaciones y otros filosofemas, ya sea para defender filosóficamente, en contra de ellos, la propia doctrina religiosa, de tal modo que el pensamiento no se reconoce y expresa como lo último, como la culminación absoluta del contenido, como el pensamiento que interiormente se determina a sí mismo.” “Y lo mismo ocurre con los escolásticos: tampoco en ellos se construye el pensamiento a base del pensamiento mismo, sino con vistas a las premisas de que parte, aunque aquí tenga ya más base propia que en los Padres de la Iglesia; pero sin llegar a enfrentarse nunca con la doctrina de ésta”
Sobre a FILOSOFIA POPULAR. Eu consideraria, a priori, 3 grandes figuras deste fenômeno: Diógenes Laércio (conforme mais acima), Cícero e Montaigne. Aristóteles está meio enquadrado aqui.
“En las obras de un Pascal, principalmente en sus Pensées, descubrimos los más profundos atisbos. § Pero esta filosofía lleva adherido aún el defecto de que lo último a que apela (como vemos también en estos últimos tiempos) es que estos pensamientos han sido inculcados en el hombre por la naturaleza; en Cicerón abunda esto.” “Cicerón habla frecuentemente del consensus gentium; el modo moderno prescinde más o menos de esta invocación, ya que se trata de que el sujeto descanse sobre sí mismo.” “En la filosofía popular, la fuente es el corazón, son los impulsos, las dotes, es nuestro ser natural, mi sentimiento del derecho, de Dios; el contenido se presenta aquí bajo una forma que es simplemente natural.” Temos aí, pois, Feuerbach!
“El verdadero punto de arranque de la filosofía debe buscarse allí donde lo absoluto no existe ya como representación y donde el pensamiento libre no piensa simplemente lo absoluto, sino que capta la idea de ello; es decir, allí donde el pensamiento capta como pensamiento el ser (que puede ser también el pensamiento mismo), conocido por él como la esencia de las cosas, como la totalidad absoluta y la esencia inmanente de todo, aunque no sea, por lo demás, más que un ser exterior.” “Este criterio general, el del pensamiento que se piensa a sí mismo, es una determinabilidad abstracta; es el comienzo de la filosofía, el cual es, a su vez, un algo histórico, la forma concreta de un pueblo, cuyo principio se cifra en lo que acabamos de decir.”
Se não fôramos capazes de dizer por nós próprios que só os gregos foram filósofos, esta afirmação seria verdadeira. Como podemos enunciá-lo, deve ser possível a nós o filosofar.
Nem todo humanismo é uma filosofia, mas toda filosofia é um humanismo.
A PEDRA CHINESA: “Por razón de esta conexión general de la libertad política con la libertad de pensamiento, la filosofía sólo aparece en la historia allí donde y en la medida en que se crean constituciones libres. Como el espíritu sólo necesita separarse de su voluntad natural y de su hundirse natural en la materia cuando pretende filosofar, no puede hacerlo todavía bajo la forma con que comienza el Espíritu del Mundo y que precede a la fase de aquella separación. Esta fase de la unidad del espíritu con la naturaleza, fase que, como inmediata que es, no es el estado verdadero y perfecto, es la esencia oriental en general; por eso la filosofía no comienza hasta llegar al mundo griego.”
“en cambio, cuando un pueblo quiere lo moral, cuando se rige por leyes de derecho, su voluntad descansa ya sobre el carácter de lo general.”
“Por eso sólo existe, en esos pueblos, el estado del señor y el del siervo, y dentro de esta órbita del despotismo, es el miedo la categoría gobernante en general.”
“El hombre que vive bajo el miedo y el que domina por el miedo a otros hombres ocupan, ambos, la misma fase; la diferencia no es otra que la mayor energía de la voluntad, la cual puede tender a sacrificar todo lo finito a un fin especial.” “de la pasividad de la voluntad, como esclavitud, se pasa en la práctica a la energía de la voluntad, pero sin que tampoco ésta sea otra cosa que arbitrariedad. También en la religión nos encontramos con el imperio absoluto de los sentidos en forma de culto religioso y, como reacción contra esto, se da asimismo, entre los orientales, la evasión a la más vacua de las abstracciones como infinito, la sublimidad de la renuncia a todo, principalmente entre los indios, quienes por medio del tormento se remontan a la abstracción más íntima; hay hindúes que se pasan 10 años seguidos mirándose fijamente a la punta de la nariz, alimentados por los circunstantes, sin ningún otro contenido espiritual que el de la abstracción consciente, cuyo contenido es, por tanto, totalmente finito. No es éste, por tanto, el terreno en que puede brotar la libertad.” Curioso como o abaixo-de-zero de Hegel é o fim-final para Schopenhauer, a liberdade fenomênica perante uma agora-tida-como-tirânica Vontade!
“Es cierto que el espíritu nace en el Oriente, pero de tal modo que el sujeto, aquí, no existe todavía como persona, sino en lo sustancial objetivo, que en parte se representa de un modo suprasensible y en parte también de un modo más bien material, como algo negativo y que tiende a desaparecer.” Porém, se o Espírito deverá retornar a si mesmo…
“El sujeto oriental tiene, de este modo, la ventaja de la independencia, ya que nada hay fijo; la vaguedad que caracteriza la sustancia de los orientales hace que su carácter pueda ser igualmente indeterminado, libre e independiente. Lo que es para nosotros el derecho y la moralidad lo es también allí, en el Estado, pero de un modo sustancial, natural, patriarcal, no en forma de libertad subjetiva.” R.I.P. Filosofia alemã 1932
“Antes, se exageraba la importancia de la sabiduría india, aunque sin saber qué había detrás de eso; ahora sí lo sabemos, y tenemos razones para afirmar que no es, si nos atenemos al carácter general, una sabiduría filosófica.” A força do pêndulo não perdoa ninguém: como moda, o hinduísmo vai e volta na Europa…
“Dormir, vivir, ser funcionarios: no consiste en esto nuestro ser esencial, pero sí consiste en no ser esclavos; esto ha cobrado la significación de un ser natural.”
“En Grecia vemos florecer la libertad real, aunque prisionera todavía, al mismo tiempo, de una determinada forma y con una clara limitación, puesto que en Grecia existían aún esclavos y los estados griegos se hallaban condicionados por la institución de la esclavitud.”No superexigente molde hegeliano, a dialética do senhor-escravo nunca tem fim.
INGENUIDADE ILIMITADA:“en el Oriente sólo es libre un individuo, el déspota; en Grecia, son libres algunos individuos; en el mundo germánico, rige la norma de que todos sean libres, es decir, de que el hombre sea libre como tal.”
“En Grecia, donde rige una norma particular, son libres los atenienses y los espartanos, pero no lo son, en cambio, los mesenios ni los ilotas. Hay que ver dónde reside el fundamento de este ‘algunos’; en él se encierran ciertas modificaciones particulares de la concepción griega que debemos examinar con vistas a la historia de la filosofía.” A Europa espoliou para sempre a possibilidade das Américas, da África e da Oceania filosofarem.
C) DIVISIÓN, FUENTES Y MÉTODO DE LA HISTORIA DE LA FILOSOFÍA
“En general, sólo cabe distinguir, en rigor, 2 épocas de la historia de la filosofía: la filosofía griega y la filosofía germánica, división equivalente a la que se establece entre el arte antiguo y el arte moderno. La filosofía germánica es la filosofía dentro del cristianismo, en la medida en que éste pertenece a las naciones germánicas, es decir, a los pueblos cristianos de Europa pertenecientes al mundo de la ciencia y que forman, en su conjunto, la cultura germánica, pues Italia, España, Francia, Inglaterra, etc., han recibido a través de las naciones germánicas una nueva fisonomía. El helenismo penetra también en el mundo romano, y así debe enfocarse la filosofía dentro del marco de este mundo. Los romanos no produjeron una verdadera filosofía, del mismo modo que no tuvieron nunca verdaderos poetas. No hicieron otra cosa que recibir e imitar, aunque, con frecuencia, muy ingeniosamente; su misma religión procede de la griega y lo que en ella hay de propio y peculiar no la acerca a la filosofía y al arte, sino que es, por el contrario, antifilosófico y antiartístico.”
“El mundo griego desarrolló el pensamiento hasta llegar a la idea; el mundo cristiano-germánico, por el contrario, concibe el pensamiento como espíritu; idea y espíritu son, por tanto, los criterios diferenciales. Más precisamente, esta trayectoria estriba en lo siguiente. En tanto que lo general todavía indeterminado e inmediato, Dios, el ser, el pensamiento objetivo que, celosamente, no deja que nada coexista con él, es la base sustancial de toda filosofía, base que no cambia, sino que se adentra más y más profundamente en sí misma y se manifiesta y cobra conciencia a través de este desarrollo de las determinaciones, podemos señalar el carácter especial del desarrollo en el primer período de la filosofía diciendo que este desarrollo es una libre manifestación de las determinaciones, las figuraciones y las cualidades abstractas, por la sencilla razón de que, en sí, lo contiene ya todo.
La segunda fase sobre este fundamento general es la síntesis de estas determinaciones que así se desprenden en una unidad ideal, concreta, al modo de la subjetividad.” “con el nous de Anaxágoras y, más aún, con Sócrates comienza, de este modo, una totalidad subjetiva en que el pensamiento se capta a sí mismo y la actividad pensante es el fundamento.”
“La tercera fase consiste en que esta totalidad primeramente abstracta, al ser realizada mediante el pensamiento activo, determinante, diferencial, se establezca a sí misma en sus criterios diferenciados, que forman parte de ella en cuanto determinaciones ideales.”
“Las formas completamente generales de la contraposición son lo general y lo particular; o, en otra forma, el pensamiento como tal y la realidad exterior, la sensación, la percepción. El concepto es la identidad de lo general y lo particular” “La unidad se establece, por tanto, en ambas formas, y los momentos abstractos sólo pueden cumplirse por medio de esta unidad misma; nos encontramos, pues, con que aquí las mismas diferencias se ven elevadas a un sistema de totalidad y se enfrentan como la filosofía estoica y la epicúrea.”
“Lo general absolutamente concreto es, ahora, el espíritu; lo particular absolutamente concreto, la naturaleza: en el estoicismo se desarrolla el pensamiento puro hasta llegar a la totalidad; cuando el otro aspecto se convierte en espíritu y el ser natural, la sensación, en totalidad, tenemos el epicureísmo. Toda determinación se desarrolla hasta la totalidad del pensamiento; y, según el modo de espontaneidad de estas esferas, estos principios aparecen como 2 sistemas de filosofía independientes por sí mismos que pugnan y chocan el uno con el otro.”
“Lo superior es la unión de estas diferencias. Puede ocurrir esto bajo la forma de la destrucción, como en el escepticismo; pero lo superior es lo afirmativo, la idea puesta en relación con el concepto. Así, pues, si el concepto es lo general, que además se determina a sí mismo, pero sin perder su unidad en la idealidad y la transparencia de sus determinaciones que no cobran sustantividad, y lo ulterior es, por el contrario, la realidad del concepto, en el que las mismas diferencias se elevan al plano de totalidades, la cuarta fase consiste en la unificación de la idea, en la que todas estas diferencias, en cuanto totalidades, se esfuman, al mismo tiempo, en la unidad concreta del concepto.”
“El mundo griego progresó hasta llegar a esta idea, desarrollando para ello un mundo intelectual ideal; fue esto lo que hizo la filosofía alejandrina, con la que la filosofía griega llega a término y realiza su destino.”
PÉSSIMA METÁFORA:“La fase ulterior consiste en que, mientras dejamos que se convierta de nuevo en superficie cada una de las líneas que cierran el triángulo, cada una de ellas se desarrolle para formar la totalidad del triángulo, la figura total de que forma parte; tal es la realización del todo en los lados, como se nos revela en el escepticismo o en el estoicismo.” “la determinación espacial perfecta, que representa una duplicación del triángulo; pero este ejemplo ya no sirve, desde el momento en que el triángulo que tomamos como base queda fuera de la pirámide.”
“El remate de la filosofía griega en el neoplatonismo es el reino perfecto del pensamiento, de la bienaventuranza, un mundo de los ideales con existencia propia, pero irreal, ya que el todo sólo se halla, en absoluto, en el elemento de la generalidad.”
“Es decir, los dos triángulos que se hallan en la parte de arriba y en la parte de abajo del prisma no deben ser dos como duplicados, sino que deben formar una unidad entrelazada; o, dicho de otro modo, con el cuerpo nace la diferencia entre el centro y el resto de la periferia corporal.”
“La idea es, entonces, esta totalidad, y la idea consciente de sí misma algo esencialmente distinto de la sustancialidad”
“A través de esta subjetividad y de esta unidad negativa, a través de esta negatividad absoluta, el ideal, ahora, no es objeto solamente para nosotros, sino para sí mismo; este principio se inicia con el mundo cristiano.”
<BÁRBARO!>:“Dios es conocido como espíritu que se duplica por sí mismo, pero que, al mismo tiempo, levanta esta diferencia, para adquirir, en ella, el ser en y para sí. La misión del mundo consiste, siempre, en reconciliarse con el espíritu, en llegar a conocerse en él, y esta misión es conferida al mundo germánico.”
HEGEL’S PREACHING: “En la religión cristiana, este principio vive más bien como sentimiento y como representación: lleva implícito el destino del hombre como llamado a gozar de la eterna bienaventuranza, como objeto de la gracia y la caridad divinas, del interés divino, es decir, como dotado de un valor infinito en cuanto hombre; y se precisa, dicho principio, en el dogma de la unidad de la naturaleza divina y humana revelado por Cristo a los hombres, según el cual la idea subjetiva y objetiva, el hombre y Dios, forman una unidad.”
“Vemos por ello que las representaciones religiosas y la especulación no se hallan tan alejadas entre sí como suele pensarse; y hago referencia a estas nociones para que no nos avergoncemos de seguir dándoles, a pesar de todo, oídos, aunque estemos ya muy por encima de ellas, para que no nos avergoncemos de nuestros antepasados cristianos, que con tanto respeto las escuchaban.” Desculpe, mas eu me envergonho sim.
“Esta contraposición, cuyos extremos aparecen agudizados, concebida en su más general significación es la contraposición entre el pensar y el ser, entre la individualidad y la sustancialidad, de tal modo que, dentro del sujeto mismo, su libertad se mueva nuevamente dentro del círculo de la necesidad; es la contraposición entre sujeto y objeto, entre naturaleza y espíritu, en cuanto que éste, como algo finito, se contrapone a la naturaleza.”
“Es cierto que nos encontramos con ciertas fases de la filosofía griega que parecen situarse ya en el mismo punto de vista de las filosofías cristianas, como ocurre, por ejemplo, con la filosofía sofística, la neoacadémica y la escéptica, cuando proclaman la doctrina de que no es posible llegar al conocimiento de la verdad: esta doctrina parece, en efecto, coincidir con las modernas filosofías de la subjetividad en que todas las determinaciones del pensamiento tienen un carácter puramente subjetivo, sin que sea posible emitir fallo alguno sobre la objetividad.”
“Los filósofos antiguos no sentían semejante nostalgia, sino, por el contrario, una perfecta satisfacción y quietud dentro de aquella certeza que les llevaba a ver un conocimiento en lo que no era más que una apariencia.”
¡PUES VIVA EL CANDOR! “El candor de la filosofía antigua, que hacía pasar lo aparente por la esfera total, alejaba en aquellos pensadores toda duda acerca del pensamiento de lo objetivo.”
“la fe en sentido eclesiástico o la fe en el sentido moderno, que consiste en rechazar la razón para dar oídas a una revelación interior a que se da el nombre de certeza o intuición inmediata, de un sentimiento descubierto en uno mismo.”
Quando você desenvolve uma dialética só para poder ser autocontraditório à vontade (e se masturbar para o número 3): “La historia de la filosofía se divide, pues, en 3 períodos: el de la filosofía griega, el de la filosofía del período intermedio y el de la filosofía de la época moderna.”
“Primer período. Va desde Tales de Mileto, alrededor del año 600 a.C., hasta el florecimiento de la filosofía neoplatónica mediante Plotino en el siglo III d.C., y su desarrollo y prosecución por Proclo, en el siglo V, hasta la desaparición de toda filosofía. La filosofía neoplatónica pasa luego al cristianismo, y muchas filosofías cristianas tienen por única base esta filosofía. Este período abarca unos mil años, cuyo final coincide con las grandes migraciones de los pueblos y con la desaparición del Imperio romano.
Segundo período. Es el período de la Edad Media. Pertenecen a él los escolásticos e, históricamente, hay que mencionar también dentro de él a los árabes y los judíos, si bien esta filosofía se desarrolla, principalmente, dentro de la Iglesia; se trata de un período que abarca más de mil años.
Tercer período. La filosofía de los tiempos modernos sólo se manifiesta por sí misma después de la guerra de los Treinta años, con Bacon, Jacob Böhme y Descartes; este último comienza con la distinción del cogito, ergo sum. Trátase de un período de un par de siglos; por tanto, esta filosofía es todavía algo nuevo.”
“El nombre de historia tiene, en efecto, un doble sentido: expresa, de una parte, los hechos y acontecimientos mismos y, de otra parte, estos mismos hechos y acontecimientos convertidos ya en representaciones y con destino a la representación.
En cambio, en la historia de la filosofía no sirven de fuente los historiadores, sino que tenemos ante nosotros los hechos mismos, y son éstos, o sean las obras filosóficas mismas, las verdaderas fuentes; quien quiera estudiar seriamente la historia de la filosofía no tiene más remedio que ir directamente a estas fuentes.”
“Con respecto a muchos filósofos es inexcusablemente necesario, ciertamente, referirse a sus obras mismas; pero hay ciertos períodos cuyas fuentes no han llegado a nosotros, como ocurre, por ejemplo, con la filosofía griega más antigua, y en los que, por consiguiente, no tenemos más remedio que recurrir a los historiadores y a otros escritores.”
“La mayor parte de los escolásticos dejaron escritas obras en 16, 24 y hasta 26 volúmenes infolio; para llegar a su conocimiento, no hay más remedio que apoyarse en el trabajo que otros han realizado. Hay, además, muchas obras filosóficas rarísimas y muy difíciles de conseguir. Algunos filósofos sólo tienen, en gran parte, un interés histórico y literario y esto nos autoriza a recurrir, para estudiarlos, a las colecciones en que se han recogido sus doctrinas.”
“cuando Tennemann incurre en este defecto, su obra es casi inservible. Su tergiversación de Aristóteles, por ejemplo, es tan grande, que Tennemann casi le hace decir lo contrario de lo que en realidad pensaba este filósofo, de tal modo que si queremos formarnos un concepto más o menos certero de la filosofía aristotélica no tenemos más que pensar lo contrario de lo que este autor dice de ella; [HAHAHAHA!] no obstante, Tennemann es tan sincero, tan honrado, que coloca los pasajes de Aristóteles al pie de su texto, lo que hace que, no pocas veces, se contradigan el original y la traducción. Tennemann opina que es esencial que el historiador de la filosofía no tenga una filosofía propia y se jacta, por lo que a él se refiere, de ello; pero en el fondo también él tiene su sistema, que es el de la filosofía crítica. Este historiador de la filosofía alaba a los filósofos, su estudio, su genio, pero termina, en realidad, censurando a todos los que incurren en la falta de no ser todavía filósofos kantianos, de no haber investigado aún la fuente del conocimiento; lo cual da, sobre poco más o menos, el resultado de que la verdad no es cognoscible.”
“Herodoto y Tucídides, como hombres libres, dejan que el mundo objetivo marche libremente, sin añadir nada de su cosecha ni avocar ante su tribunal, para enjuiciarlos, los actos de los hombres. Y, sin embargo, también en la historia política se desliza muy pronto un fin por parte del historiador. Para Tito Livio, lo fundamental es la dominación romana, su expansión, el desarrollo de la constitución, etc.; en su Historia, vemos a Roma crecer, defenderse y ejercer su imperio.”
LA FILOSOFÍA ORIENTAL
“Así como entre los griegos se habla de Urano, de Cronos—es decir, del Tiempo, pero ya individualizado—, entre los persas existe una deidad llamada Zervana Acarena, pero es el Tiempo ilimitado.” “De aquí que, en los orientales, no encontremos más que un entendimiento seco, una simple enumeración de determinaciones, una lógica al modo de la vieja lógica wolffiana.”
“La gran cultura de estos pueblos se refiere a la religión, a la ciencia, a la administración pública, a la constitución del Estado, a la poesía, a la técnica de las artes, al comercio, etc. Pero, cuando comparamos las instituciones jurídicas y la organización del Estado en China con la de cualquier país europeo, vemos que esta comparación sólo puede referirse al aspecto formal, pues el contenido es muy dispar.”
“Otro tanto acontece cuando se compara la poesía india con la europea; no cabe duda de que, considerada como un simple juego de la fantasía, la poesía india es extraordinariamente brillante, rica y desarrollada, como la que más; pero en la poesía importa, también, el contenido y es necesario tomarlo en serio. Pues bien, ni siquiera tomamos en serio los poemas de Homero, por eso no podría surgir en nuestros países una poesía de este tipo.”
“Lo primero que hay que registrar, entre los chinos, es la doctrina de Con-fut-see [Confucio], que vivió unos 500 años antes de Cristo, doctrina que causó gran sensación en la época de Leibniz y que es, en rigor, una ética. Confucio comentó, además, las antiguas obras maestras tradicionales de los chinos, principalmente las de carácter histórico. Fue, sin embargo, su desarrollo de la doctrina moral lo que le valió su mayor fama, y es la más respetada autoridad de los chinos.” “el De officiis de Cicerón, manual de pláticas morales, contiene más cosas, y mejores, que todos los libros de Confucio.”
“Una segunda circunstancia que conviene tener presente es que los chinos se ocuparon también de pensamientos abstractos, de categorías puras. Servíales de base para ello el antiguo libro llamado Yi-King [I-Ching] o Libro de los Principios; esta obra contiene la sabiduría de los chinos y su origen se atribuye a Fohi.” “Lo fundamental es que se le atribuye la invención de una tabla con ciertos signos o figuras (Ho-tu), que el autor decía haber visto sobre el lomo de un dragón, al emerger éste del río.”
“Las 2 figuras fundamentales están representadas por una raya horizontal (yang) y por una línea quebrada en dos, que suman la longitud de la primera (yin): la primera simboliza lo perfecto, el padre, lo masculino, la unidad, como en los pitagóricos, la afirmación; la segunda, lo imperfecto, la madre, lo femenino, la dualidad, la negación. Estos signos son objeto de una gran veneración, como principios de las cosas.”
“En una fase ulterior, se combinan estas rayas en grupos de 3, y surge así una serie de 8 figuras, a que se da el nombre de kua” “Indicaremos el significado simbólico de estos 8 kua, para que se vea cuán superficial es. El primer signo, que agrupa al gran yang y el yang, es el cielo (tien), el éter, que penetra y lo envuelve todo. El cielo es, para los chinos, lo más alto de todo, lo supremo; entre los misioneros, se discute interminablemente si se debe dar el nombre de tien, o no, al Dios cristiano. El segundo signo es el agua pura (tui), el tercero el fuego puro (li), el cuarto el trueno (tschin), el quinto el viento (siun), el sexto el agua corriente (kan), el séptimo la montaña (ken) y el octavo la tierra (kuen).”
“En el Chu-king nos encontramos también con un capítulo sobre la sabiduría china en el que aparecen los 5 elementos de los que sale todo: el fuego, el agua, la madera, el metal y la tierra, revueltos en abigarrada mescolanza y que, precisamente por ello, no podemos considerar tampoco como verdaderos principios.”
“Existe, además, una secta especial, taoísmo, cuyos adeptos no son mandarines ni pertenecen a la religión del Estado, ni tampoco budistas, según la religión del Lama. El fundador de esta filosofía y del sistema de vida íntimamente relacionado con ella fué Lao-Tsé (que nació a fines del siglo VII a.C.)”
“Del propio Lao-Tsé decían sus adeptos que era Buda en persona, es decir, el mismo Dios que seguía viviendo en figura de hombre. Todavía poseemos su obra principal, que ha sido traducida en Viena, donde yo he tenido ocasión de leerla. He aquí uno de sus principales pasajes, citado con frecuencia: ‘Sin nombre, Tao es el principio del cielo y de la tierra; con nombre, es la madre del universo. El hombre con pasiones sólo la ve en su estado imperfecto; quien quiera conocerla, tiene que curarse de todas las pasiones.’”
“La lectura de este pasaje trae al recuerdo, naturalmente, a Jahweh y el nombre real africano Juba, y también el de Jovis. Este J-hi-wei o J-H-W significa también, al parecer, algo así como el abismo absoluto o la nada: lo supremo, el origen de todas las cosas es, para los chinos, la nada, el vacío, lo totalmente indeterminado, lo general abstracto, a que se da también el nombre de Tao o la razón.”
“Así como antes se sentía cierta complacencia en atribuir una gran antigüedad a la sabiduría india y en tributarle una gran veneración, el conocimiento de las grandes obras astronómicas de los indios ha revelado ahora cuán poco rigor hay en las grandes cifras que en ellas se manejan. No cabe imaginar nada más confuso, nada más imperfecto que la cronología de los indios; ningún pueblo cultivado en la astronomía, en la matemática, etc., ha dado muestras de tanta incapacidad para la historia: los antiguos indios no son capaces de encontrar, en ella, el menor punto de apoyo, la menor conexión.” “Los hindúes manejan, en su cronología, series de reyes y cantidades inmensas de nombres; pero todo es muy vago.”
“Sabemos que la antiquísima fama de este país había penetrado profundamente hasta los griegos; y sabemos también que éstos conocían a los gimnosofistas, hombres entregados como nadie a la devoción, consagrados a una vida contemplativa, abstraídos de la vida exterior y que, viviendo y peregrinando en hordas, renunciaban, como los cínicos, a todas las necesidades materiales.”
“del mismo modo que sus libros religiosos, los Vedas, sirven también de fundamento general para su filosofía.” “Estos libros sagrados están formados por partes procedentes de las más diversas épocas; muchas de ellas datan de tiempos remotísimos; otras, en cambio, proceden de una época posterior, como ocurre, por ejemplo, con la que se refiere al rito de Vishnú. Los Vedas sirven, incluso, de base a la filosofía atea de los hindúes; también los ateos tienen sus dioses y toman muy en cuenta las doctrinas de los Vedas.”
Às premissas, mas sem pressa.
“La mitología presenta el aspecto especial de la encarnación, de la individualización, de la que podría pensarse que era contraria a lo general y a la modalidad de la idea propia de la filosofía; sin embargo, esta encarnación no es tomada al pie de la letra, casi todo se considera como tal y lo que parece determinarse como individualidad desaparece en seguida entre el humo de lo general.”
“Hace poco tiempo que hemos llegado a adquirir un conocimiento preciso de la filosofía india; antes, entendíamos por tal, en conjunto, las representaciones de carácter religioso, pero en estos últimos tiempos se han descubierto obras verdaderamente filosóficas. Colebrooke, [mesma fonte de Schopenhauer] sobre todo, nos ha dado a conocer los extractos de 2 obras filosóficas hindúes, que es, en realidad, lo primero que sabemos acerca de esta filosofía.” “Schlegel fue uno de los primeros alemanes que se ocuparon de la filosofía hindú; sin embargo, sus esfuerzos no fueron muy fructíferos, en este sentido, pues sus lecturas sobre la materia apenas si pasaron del índice del Ramayana.”
“La parte esencialmente ortodoxa no tiene otra finalidad que la de facilitar la explicación de los Vedas o deducir del texto de estos libros fundamentales una psicología más sutil. Este sistema recibe el nombre de Mimansa, y se citan 2 escuelas adscritas a él. Difieren de él otros sistemas, 2 de los cuales, los principales, se llaman Samk’hya y Nyaya: el primero de éstos se divide, a su vez, en 2 partes, las cuales, sin embargo, sólo difieren entre sí en cuanto a la forma; el Nyaya es especialmente complicado, desarrolla principalmente las reglas del razonamiento y podría compararse a la Lógica de Aristóteles. Colebrooke nos ofrece extractos de estos 2 sistemas, y nos dice que existen muchas obras antiguas acerca de ellos y que abundan los versus memoriales en torno a estos 2 sistemas filosóficos.”
“Los Vedas dicen: ‘Lo que ha de conocerse es el alma, la cual debe separarse de la naturaleza, para que no retorne’; es decir, hay que librarla de la metempsicosis y, por tanto, de la corporeidad, con lo cual no volverá a albergarse en otro cuerpo, después de la muerte.” “Indra, por ejemplo, el dios del cielo visible, se halla, según ellos, en un plano mucho más bajo que el alma cuando ha alcanzado este estado de vida contemplativa; muchos miles de Indras, se nos dice, han perecido, mientras que el alma se halla sustraída a todo cambio.”
“El sistema Samk’hya se divide en 3 partes: el modo del conocer, el objeto del conocimiento y la forma determinada del conocimiento de los principios.”
“Hay, en esta idea, algo de nuestro ideal, de nuestro ser en sí: del mismo modo que la flor se contiene ya en la simiente de un modo ideal, pero no de un modo activo y real; la expresión empleada para expresar esto es la de lingam, la fuerza procreadora, la capacidad de acción de lo natural, que los hindúes tienen siempre en alta estima.”
“Los primeros 8 órdenes ostentan nombres que aparecen en la mitología india: Brahma, Prajapatis, Indra, etc.; son tanto dioses como semidioses, y el propio Brahma se representa aquí como una criatura. Los 5 órdenes inferiores son los animales: los cuadrúpedos forman 2 clases, las aves la 3ª, los reptiles, los peces y los insectos la 4ª; y la 5ª las plantas y la naturaleza inorgánica.”
“Se mencionan 62 determinaciones entorpecedoras: 8 clases de error; otras tantas de opiniones o engaños; 10 clases de pasiones, que representan el punto extremo del engaño; 18 de odio o tenebrosidad, y otras tantas de pena. En este punto, se nos revela un método seguido más bien por vías empírico-psicológicas.” 8 + 8 + 10 + 18 + 18 = 62
DE NOVO A TARA PELO TRÊS: “Es curioso que entre dentro de la conciencia observadora de los hindúes el que lo verdadero, que es en y para sí, contiene tres determinaciones y que el concepto de la idea encierra, para ser completo, 3 momentos. Esta alta conciencia de la trinidad, con que nos encontramos también en Platón y en otros pensadores, se pierde luego en la región de la contemplación pensante y se conserva solamente en la religión, pero como un más allá; el entendimiento va a sus alcances y lo considera como un absurdo, hasta que viene Kant y allana el camino hacia su conocimiento.” “En las concepciones religiosas de los Vedas, en que estas cualidades reciben también el nombre de trimurti, se habla de ellas como de modificaciones sucesivas: ‘primeramente, todo era tinieblas, hasta que recibió la orden de transformarse, revistiendo así la modalidad del impulso, de la acción (foulness), y por último reviste, por orden de Brahma, la forma de la bondad.’”
“La Yoga-sastra cita, en uno de sus 4 capítulos, multitud de prácticas por medio de las cuales es posible adquirir tal poder: por ejemplo, profundas meditaciones, acompañadas de la retención del aliento y la paralización de los sentidos, a la par que se conserva inalterablemente una postura prescrita. El adepto logra, por medio de estas prácticas, el conocimiento de todo lo pasado y de todo lo futuro; adquiere el poder de descubrir los pensamientos de los otros; se siente dotado de la fuerza del elefante, de la bravura del león, de la rapidez del viento; puede volar en el aire, nadar en el agua, sumergirse en la tierra; es capaz de abarcar con la mirada, en un instante, todos los mundos y de realizar muchas otras hazañas portentosas. Pero el modo más rápido de alcanzar la beatitud por medio de la profunda contemplación consiste en aquella forma de devoción de musitar continuamente el nombre místico de Dios, Om.” Colebrooke
“Mientras que en el sistema teísta se admite la existencia de Iswara, el supremo gobernante del universo, como un alma o un espíritu distinto de las demás almas, en el Samk’hya ateo Kapila niega la existencia de este Iswara, creador del mundo, y la niega con voluntad consciente (by volition), alegando que no hay ninguna prueba de la existencia de Dios; que la percepción no la revela, ni es posible llegar tampoco a esa conclusión por el razonamiento.”
“los efectos son, según ellos, más bien eductos que productos”
“Una consecuencia obligada de ella es la de la eternidad del mundo, pues la tesis de que de la nada no sale nada, recordada también, a este propósito, por Colebrooke, contradice a la creación del mundo partiendo de la nada, según nuestra concepción religiosa.”
“La naturaleza, aunque inanimada, cumple la misión de preparar al alma para liberarse, del mismo modo que la función de la leche—sustancia carente de sensaciones— tiene por función alimentar al ternerillo.”
“Por tanto, el alma, según la concepción de los hindúes, ya no tiene nada que ver con el cuerpo, y su relación con él es, por consiguiente, superflua.”
“La filosofía de Gautama y Kanada forman una unidad. La filosofía de Gautama se llama Nyaya (razonante), la de Kanada Vaiseshika (particular). La primera es una especie de dialéctica, peculiarmente desarrollada; la segunda, en cambio, se ocupa de la física, es decir, de los objetos particulares o sensibles.”
“Ningún campo de la ciencia o la literatura ha atraído tanto la atención de los hindúes como el Nyaya, y fruto de estos estudios es la innumerable cantidad de obras en torno a estos problemas, entre las que figuran trabajos de muy famosos eruditos.” “el lenguaje se considera como algo que le ha sido revelado al hombre.” “Gautama aduce aquí 16 puntos, entre los que se destacan como los principales la prueba, la evidencia [lo formal] y aquello que se trata de demostrar; los demás puntos son simplemente subsidiarios y accesorios, como elementos que contribuyen al conocimiento y la certeza de la verdad. El Nyaya coincide con las demás escuelas psicológicas en que promete la dicha, la excelencia final y la liberación de todo mal como recompensa por el conocimiento perfecto de los principios profesados por ella, es decir, como recompensa de la verdad, entendiendo por tal la convicción acerca de la eterna existencia del alma, como algo separable del cuerpo.”
“El primer punto fundamental, o sea la evidencia de la prueba, presenta 4 modalidades: la primera es la percepción; la segunda la deducción (inference), la cual puede ser de 3 modos: del efecto a la causa, de la causa al efecto o por analogía; el tercer tipo de evidencia es la comparación; el cuarto la seguridad, que abarca tanto la tradición como la revelación. Estos diversos tipos de prueba aparecen muy desarrollados, tanto en el antiguo tratado que se le atribuye a Gautama como por innumerables comentadores.”
“La pupila no es, dicen estos pensadores, el órgano de la visión, ni el oído el órgano de la audición, sino que el órgano de la vista es el rayo luminoso que parte del ojo y se proyecta sobre el objeto, y el órgano del oído el éter, que en la caja auditiva se comunica con el objeto escuchado por medio del éter intermedio. Aquel rayo luminoso es, por lo general, invisible, exactamente lo mismo que una luz es invisible bajo el sol de mediodía y, en cambio, se deja ver en otras circunstancias. El órgano del gusto es algo acuoso, como la saliva, y así sucesivamente.
Algo parecido a lo que aquí se dice de la visión es lo que dice Platón en el T¡meo; y en el estudio de Schultz que figura en la Morfología de Goethe encontramos interesantes observaciones acerca del fósforo en el ojo. [¿?] Ejemplos de hombres que han podido ver en medio de las sombras de la noche, lo que prueba que es su ojo el que ilumina el objeto, los tenemos a montones; claro está que, para que este fenómeno se dé, tienen que concurrir circunstancias especiales.” HAHAHAHA
“Los elementos fundamentales de las sustancias materiales son concebidos por Kanada como átomos originarios, que se combinan luego para formar cuerpos complejos; este autor afirma la eternidad de los átomos, a propósito de lo cual aduce muchas cosas acerca de la combinación de los átomos, entre las cuales aparece también el polvillo del sol.”
“La tercera categoría es la de la acción; la cuarta, la de la comunidad; la quinta, la de la diferencia; la sexta, la de la agregación (aggregation), la última que señala Kanada, pues otros autores añaden, además, como séptima cualidad, la de la negación.”
“El desarrollo del razonamiento es igual al de nuestros silogismos; pero de tal modo que lo que se trata de demostrar figura a la cabeza.”
SOU HINDU: “La sustancialidad intelectual es lo contrario de la reflexión, del entendimiento, de la individualidad subjetiva de los europeos. Para nosotros, es importante el que yo quiera, sepa, crea, opine algo, basándome para ello en las razones que yo tenga para ello, con arreglo a mi propia y personal voluntad; a esto le concedemos nosotros un inmenso valor. La sustancialidad intelectual es el extremo opuesto a esto, en el que desaparece toda la subjetividad del yo: para ésta, todo lo objetivo se ha convertido en algo vano, no existe para ella verdad objetiva, deberes ni derechos objetivos; por donde la vanidad subjetiva es lo único que queda en pie.”
PRIMERA PARTE:(*)
LA FILOSOFÍA GRIEGA
(*) A organização desse livro é bizarra: estamos quase na metade do tomo (exatamente 42% do PDF) e agora é que escapamos da Introdução. Ou, na verdade, a Filosofia Oriental era o 1º capítulo, pós-introdução; mas seu caráter absolutamente subsidiário para Hegel relega os sistemas chinês-hindu a ser “menos que um capítulo”, uma espécie de pré-História ou aquecimento filosófico. O irônico é que o tamanho da exposição garante que ele “perca” uma aula de seu precioso curso fornecendo detalhes do que ele julga ser apenas abstração ou intelecção inócuas, posto que não tomam por objetivo o pensamento!
INTRODUCCIÓN A LA FILOSOFÍA GRIEGA(*)
(*) E lá vamos nós a outra introdução maciça!
“El nombre de Grecia tiene para el europeo culto, sobre todo para el alemán, una resonancia familiar. Los europeos han recibido su religión, las concepciones del más allá, de lo remoto, no de Grecia, sino de más lejos, del Oriente y, concretamente, de Siria. Pero las concepciones del más acá, de lo presente, la ciencia y el arte, lo que satisface, dignifica y adorna nuestra vida espiritual, tuvo como punto de partida a Grecia, bien directamente, bien indirectamente, a través de los romanos.”
“La densidad germánica necesitó pasar, para disciplinarse, por la dura escuela de la Iglesia y el derecho romanos; sólo de este modo se ablandó el carácter europeo y se capacitó para la libertad.”
“Dejemos a la Iglesia y a la jurisprudencia su latín y su romanismo. Nuestra ciencia superior, libre y filosófica, como nuestro arte libre y bello, y el gusto y el amor por una y por otro, sabemos que tienen sus raíces en la vida griega y que derivan de ella su espíritu. Y si nos fuese lícito sentir alguna nostalgia, sería la de haber vivido en aquella tierra y en aquel tiempo.”
“La trayectoria y el despliegue del pensamiento se manifiestan en los griegos partiendo de sus elementos protoriginarios; y, para comprender su filosofía, podemos permanecer dentro de ellos mismos, sin necesidad de buscar ninguna otra clase de motivos externos.”
“Los griegos parten de una premisa histórica, por la misma razón por la que han brotado de sí mismos; y esta premisa histórica, concebida a través del pensamiento, es la de la sustancialidad oriental de la unidad natural del espíritu y la naturaleza.”
“Los griegos ocupan el bello punto intermedio entre ambas posiciones extremas, que es el centro de la belleza por ser, al mismo tiempo, algo natural y algo espiritual, pero de tal modo que la espiritualidad es y sigue siendo, en él, el sujeto dominante, determinante.”
“La riqueza del mundo griego consiste solamente en una muchedumbre infinita de detalles bellos, agradables y graciosos, en esta alegría de todo lo que sea existencia; lo más grande, entre los griegos, son las individualidades, estos virtuosos del arte, de la poesía, de la canción, de la ciencia, de la honestidad, de la virtud.”
“‘De tus pasiones has sacado, ¡oh hombre! la materia para tus dioses’, dice un antiguo; los orientales, en cambio, principalmente los indios, los sacaron de los elementos naturales, de las fuerzas y las formas de la naturaleza”
“Por lo que se refiere al estado histórico externo de Grecia en esta época, diremos que los comienzos de la filosofía griega caen en el siglo VI antes del nacimiento de Cristo, en tiempo de Ciro, en la época del ocaso de los estados jónicos libres del Asia Menor. En el momento en que desaparece este hermoso mundo, que había logrado conquistar por sí mismo un elevado nivel de cultura, surge la filosofía. Creso y los lidios fueron los primeros que pusieron en peligro la libertad de los jonios; pero fue, más tarde, la dominación persa la que la destruyó totalmente, obligando a la mayoría de los habitantes a abandonar aquellas tierras y a fundar colonias, sobre todo en la parte occidental.
Y, al mismo tiempo que se hundían las ciudades jónicas, la otra Grecia dejaba de ser gobernada por las dinastías de los antiguos príncipes; habían desaparecido los Pelópidas y los otros linajes regios, extranjeros en su mayoría. Grecia había establecido, en parte, múltiples contactos con el exterior y, en parte, esforzábase por encontrar un vínculo social dentro de sí misma; la vida patriarcal había pasado a la historia, y en muchos estados sentíase la necesidad de constituirse libremente, con arreglo a normas e instituciones legales.” Aqui é-se forçado a perguntar: que conceito de patriarcado era esse dos alemães, para julgar que justamente quando o homem se distancia mais e mais do matriarcado e sedimenta o patriarcado ele estaria fugindo do que era patriarcal?!
“Vemos aparecer muchos individuos que no gobiernan ya a sus conciudadanos por virtud de su linaje, de su nacimiento, sino que son honrados y enaltecidos por los méritos de su talento, de su imaginación, de su ciencia. Estos individuos ocupan diferentes puestos de superioridad con respecto a sus conciudadanos. Unas veces, son consejeros, aunque sus buenos consejos no siempre sean seguidos por los demás; otras veces, se ven odiados y despreciados por sus conciudadanos y obligados a retirarse de la actuación pública; otras veces, se erigen en violentos, aunque no crueles, dominadores de sus conciudadanos, y otras, finalmente, en legisladores de la libertad. § A esta categoría de hombres que acabamos de caracterizar pertenecen los llamados siete sabios, a quienes en estos últimos tiempos se tiende a excluir de la historia de la filosofía.”
“Los nombres de los siete sabios varían, según los casos; generalmente, se indican los de Tales, Solón, Periandro, Cleóbulo, Quilón, Bías y Pitaco. Hermipo, en Diógenes Laercio (I, 42) señala 17, entre los cuales seleccionan otros autores 7, de diversos modos, según sus preferencias. Según el propio Diógenes Laercio (I, 42), ya un autor antiguo, Dicearco, mencionaba solamente 4 a quienes los antiguos incluían unánimemente entre los 7: Tales, Bías, Pitaco y Solón. Otros nombres que también aparecen, de vez en cuando, son los de Misón, Anacarsis, Acusilao, Epiménides, Ferécides, etc.”
“eran hombres prácticos, peto no en el sentido en que esta palabra suele interpretarse entre nosotros, que tendemos a considerar la actividad práctica como una rama especial de la administración del Estado, de la industria, de la economía, etc.” “No eran estadistas al modo de las grandes personalidades griegas de que nos habla la historia, un Milcíades, un Temístocles, un Pericles, un Demóstenes, sino estadistas de una época en que se trataba de la salvación y el establecimiento, de la ordenación y la organización y hasta diríamos que de la instauración de la vida del Estado, o, por lo menos, de la instauración de situaciones regidas por la ley.”
“la fama de Solón, en este respecto, sólo es compartida por la de un Moisés, un Licurgo, un Zaleuco, un Numa, etc. En los pueblos germánicos no encontramos ninguna figura que llegara a disfrutar de esta fama, como legislador de su pueblo. Y, en nuestros días, ya no puede haber legisladores; las instituciones legales y las condiciones jurídicas de vida han sido establecidas ya de antiguo, y lo poco que los legisladores y las asambleas legislativas pueden hacer es, si acaso, ampliar algún que otro detalle o promulgar normas complementarias muy poco importantes.”
“Y, sin embargo, tampoco Solón ni Licurgo hicieron otra cosa que reducir a la forma de la conciencia, uno el espíritu jónico y otro el carácter dórico que tenían ante sí y que no era sino algo existente en sí, contrarrestando por medio de leyes reales los desastrosos males de la desintegración. Solón no fue, ni mucho menos, un estadista perfecto, como lo demuestra el curso mismo de su historia: una constitución como la que permitió a Pisístrato erigirse en tirano en vida del propio Solón, lo que quiere decir que era, de suyo, tan poco vigorosa y tan poco orgánica que no tenía fuerzas para oponerse a su propio derrocamiento (¿con qué poderes?), adolecía, evidentemente, de un defecto intrínseco.”
“Nada ilustra mejor la conducta de los llamados tiranos que las relaciones entre Solón y Pisístrato.” “La ley, como norma general, se le antojaba al individuo, y se le sigue antojando hoy, como una violencia, sobre todo cuando no ve la ley o no la comprende; se le antojaba así al pueblo todo, primero, y luego solamente al individuo; y fue, como sigue siendo hoy, necesario empezar haciendo violencia al individuo hasta que llega a comprender, hasta que ve en la ley su propia ley y deja de ver en ella algo extraño e impuesto desde fuera. § La mayoría de los legisladores y organizadores de los Estados asumieron la obra de hacer a los pueblos, por sí mismos, esta violencia, convirtiéndose en tiranos. Y cuando no lo eran ellos mismos, tenían que encargarse de hacerlo otros individuos, realizando esa obra dentro de sus Estados, por tratarse de algo necesario, inevitable. Según las noticias de Diógenes Laercio (I, 48-50), vemos a Solón, a quien sus amigos aconsejaban que se adueñase del poder, ya que el pueblo se agrupaba en torno a él y habría visto de buen grado que se hiciese cargo de la tiranía, rechazar esta misión y evitar, además, que otro la asumiera, cuando Pisístrato empezó a serle sospechoso por ello. En efecto, cuando se dio cuenta de cuáles eran las intenciones de Pisístrato, se presentó en la asamblea del pueblo armado de escudo y lanza, lo que ya por aquel entonces era algo extraordinario (pues Tucídides, I, 6, indica que los griegos y los bárbaros se distinguían, entre otras cosas, en que los griegos, y sobre todo los atenienses, jamás tomaban las armas en tiempo de paz), y anunció al pueblo lo que Pisístrato se proponía.”
“¡Hombres de Atenas! Soy más sabio que algunos y más valiente que otros. Soy más sabio que quienes no se dan cuenta del fraude de Pisístrato y más valiente que quienes, dándose cuenta de él, callan por miedo.
Al no lograr nada, abandonó Atenas.”
É sempre assim mesmo!
“Ni soy el único que entre los griegos se haya apoderado de la tiranía ni, al hacerlo, me he adueñado de algo que no me pertenezca, pues pertenezco al linaje de Codro. No he hecho, pues, más que rescatar para mí lo que los atenienses habían jurado conservar a Codro y a sus descendientes, arrebatándoselo después. Por lo demás, no cometo ninguna injusticia contra los dioses ni contra los hombres, sino que, ateniéndome a las leyes que tú, Solón, has dado a los atenienses, procuro que se mantengan dentro de las normas de una vida civil.” Pisístrato apud D. Laércio
“Lo mismo hace, agrega, su hijo Hipias.”
“Cada ateniense entrega el diezmo de sus ingresos, pero no para mí, sino para contribuir a las costas de los banquetes, rituales públicos, al sostenimiento de la comunidad y para el caso de una guerra. No te guardo rencor por haber descubierto mis designios, pues sé que lo hiciste movido más bien por amor al pueblo que por odio contra mí, y porque no sabías tampoco cómo había de regentar yo el gobierno; pues si lo hubieses sabido, te habrías avenido a ello y no habrías huido…”
“Solón, en la respuesta que Diógenes (I, 66-67) recoge, dice que ‘no abriga ningún resentimiento personal contra Pisístrato, a quien tendría que llamar el mejor de los tiranos; pero que no cree que deba regresar (a Atenas)’.”
“El gobierno de Pisístrato, sin embargo, acostumbró a los atenienses a las leyes de Solón y convirtió estas leyes en costumbres; de tal modo que este hábito, una vez impuesto, hizo superflua la tiranía y los hijos de Pisístrato fueron expulsados de la ciudad, y a partir de entonces la Constitución solónica rigió por su propia virtud, sin la ayuda de la fuerza.”
“Y lo que aparece desdoblado en las figuras de Solón y Pisístrato lo vemos reunido, en Corinto, en la figura de Periandro y en Mitilene en la de Pitaco. § Lo anterior creemos que basta, por lo que se refiere a las vicisitudes externas de la vida de los Siete Sabios. Éstos son también famosos por la sabiduría de las sentencias que de ellos se han conservado, a pesar de que a nosotros nos parezcan, en parte, muy superficiales y trilladas. Ello se debe a que nuestra reflexión se halla ya familiarizada con las tesis generales, del mismo modo que en las sentencias de Salomón hay mucho que se nos antoja hoy superficial y hasta vulgar. Pero no debemos perder de vista lo que significa el haber exteriorizado por vez primera estas tesis generales bajo una forma general.”
“Una de las más famosas sentencias de los Siete Sabios es la que se atribuye a Solón en su plática con Creso, que Herodoto (I, 30-33) relata, según su estilo propio, muy prolijamente y que puede resumirse así: ‘Que nadie puede considerarse feliz antes de su muerte.’” Nem Deus escapa!
“antes de la filosofía kantiana, la ética tenía como base, en efecto, el eudemonismo, la aspiración a la felicidad.” E depois de Kant não? Após ler a Crítica da Razão Prática é realmente o que você pensa??
“El eudemonismo implica la felicidad como un estado para toda la vida y representa una totalidad de disfrute que es algo general y da una norma para los goces sueltos, que no se entrega al placer momentáneo, sino que sabe tener a raya los apetitos y no pierde nunca de vista la pauta general.” Você resumiu o correto entendimento do epicurismo!
“Comparado con la filosofía india, el eudemonismo es, cabalmente, lo contrario a ésta. En ella, el destino del hombre es la liberación del alma de lo corporal, la abstracción perfecta, el alma como algo que vive exclusivamente para sí.” Cabe ainda o questionamento: no Ocidente pós-moderno, o que devemos buscar prioritariamente, sendo na prática impossível qualquer um dos dois de forma autêntica? A fuga ascética ou esse contentamento no sereno fenomênico?
“En el estudio de la filosofía griega, debemos distinguir, concretamente, 3 períodos principales: el primero va de Tales de Mileto a Aristóteles; el segundo comprende la filosofía griega en el mundo romano; el tercero es el de la filosofía neoplatónica.” Na realidade, após Platão já podemos dizer que não há filosofia grega.
SECCIÓN PRIMERA:
PRIMER PERÍODO: DE TALES A ARISTÓTELES
“Dentro de este primer período establecemos, a su vez, 3 subdivisiones” Chega de esqueminhas e divisões tripartites mal-feitas, irmão!
“Platón gastó mucho dinero en procurarse las obras de los filósofos antiguos y, dado el estudio profundo que de ellos hizo, sus citas revisten gran importancia.”
“Y aunque una sutileza que pretende ser erudita habla en contra de Aristóteles y pretende que éste no supo comprender certeramente a Platón, podemos objetar a esto que tal vez nadie le conociera mejor que él, ya que fue, personalmente, discípulo suyo y porque la profundidad de su espíritu concienzudo nos garantiza la fidelidad de su pensamiento.” Um filósofo que subestima Platão NÃO é um filósofo.
“Sexto Empírico, un escéptico de la última época, tiene importancia como fuente, por sus escritos titulados Hypotyposis Pyrrhonicae y Adversus Mathematicos. Y como, en cuanto escéptico, combate en parte las filosofías dogmáticas y en parte cita a otras filosofías como testimonios en favor del escepticismo (por lo que la mayor parte de sus obras está llena de doctrinas de otros filósofos), tenemos en él la fuente más fecunda para la historia de la filosofía antigua, y a través de él han llegado a nosotros muchos valiosos fragmentos.” Isso é bem dúbio. Confiramos!
“El libro de Diógenes Laercio (De vitis etc. Philosophorum, libri X, ed. Meibom,c. notis Menagii, Amsterdam, 1692) es una importante compilación; sin embargo, muchas veces cita a sus testigos sin mucha crítica. A este autor no es posible reconocerle espíritu filosófico; generalmente, se limita a manejar unas cuantas anécdotas malas y puramente externas; se le puede utilizar en lo referente a las vidas de los filósofos y, de vez en cuando, para sus filosofemas.”
“Finalmente, debemos citar a Simplicio, griego de Cilicia que vivió bajo el reinado de Justiniano, a mediados del siglo VI, el más erudito y sutil de los comentadores griegos de Aristóteles, del que existen aún varias obras inéditas y al que debemos algunas cosas meritorias.”
“Según Tucídides (I, 2 y 12), las colonias jonias del Asia Menor y de las islas del archipiélago procedían, en su mayor parte, de Atenas, pues los atenienses viéronse obligados a emigrar a aquellas tierras a causa de la superpoblación del Ática.” Para alguém que leva em conta só o Espírito, demonstra preocupação excessiva com o externo!
“En el Asia Menor y también, en parte, en las islas del archipiélago, surgen las figuras de Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Leucipo, Demócrito, Anaxágoras y Diógenes de Creta. En las tierras helenizadas de Italia aparecen las de Pitágoras, natural de Samos, pero que vivió en Italia, Jenófanes, Parménides, Zenón y Empédocles; y en Italia vivieron también algunos sofistas. Anaxágoras es el primer filósofo que se desplaza a Atenas.”
ESQUEMATISMO ABORRECEDOR:“Habremos de examinar de cerca y por separado los siguientes puntos: 1) los jonios: Tales, Anaximandro, Anaxímenes; 2) Pitágoras y los pitagóricos; 3) los eléatas: Jenófanes, Parménides, etc.; 4) Heráclito; 5) Empédocles, Leucipo y Demócrito; 6) Anaxágoras.”
“De la filosofía jónica antigua sólo ha llegado a nosotros una media docena de pasajes; es éste, por tanto, un estudio fácil.” “cuanto menos se sabe de una cosa mayor erudición se puede desplegar acerca de ella.” Um tanto autocriticobiográfico, não, Hegel?!
OS PEDREIROS E O CIMENTO FRESCO: “La gente suele reírse de cosas por el estilo, y tiene la ventaja de que los filósofos no puedan pagarle en la misma moneda; pero no se dan cuenta de que los filósofos se ríen, a su vez, de quienes no pueden caer en una zanja por la sencilla razón de que están metidos siempre en ella, sin acertar a levantar los ojos para mirar hacia arriba.”
“frente a los demás elementos, el agua presenta la determinabilidad de lo que carece de forma, de lo simple, mientras que la tierra es la continuidad, el aire el elemento de todo cambio y el fuego lo que cambia de suyo absolutamente. Así, pues, si la necesidad de la unidad nos obliga a reconocer un algo general en las cosas particulares, fácilmente se nos ofrece el agua, aunque tenga también el inconveniente de ser una cosa particular, como lo unitario, tanto por su neutralidad como porque tiene, al mismo tiempo, una materialidad más fuerte que el aire.” “La tesis de Tales es, pues, filosofía de la naturaleza, puesto que esta esencia general se determina como algo real y, por tanto, lo absoluto como unidad del pensamiento y del ser.”
“Es necesario que lo que ha de ser un principio verdadero no presente una forma unilateral, particular, sino que la diferencia ha de tener, de suyo, un carácter general, mientras que aquellos principios no son otra cosa que formas especiales. El hecho de que lo absoluto sea algo que se determina a sí mismo es ya algo concreto; esto es la actividad y la alta conciencia de sí mismo del principio espiritual a través de la cual la forma se eleva a un plano que le permite ser la forma absoluta, la totalidad de la forma.”
“Tiedemann (t. I, p. 38) cita, además, otras autoridades, y dice que fueron autores de una época posterior quienes atribuyeron a Tales esta distinción.”
“La diferencia en lo tocante al concepto no tiene ningún significado físico, sino que las diferencias o el simple desdoblamiento de la forma en las 2 partes de su contraposición son precisamente las que deben considerarse como las diferencias generales del concepto. Por eso también no se debe atribuir un significado sensible a las materias, es decir, a las determinabilidades, como cuando se dice, más concretamente, que el agua diluida se convierte en aire, el aire diluido en éter ígneo y el agua condensada en limo, primero, y luego en tierra; y, por consiguiente, que el aire es la evaporación de la primera agua, el éter la evaporación del aire, la tierra y el limo la sedimentación del agua.”
Diógenes Laércio e Plutarco só servem para confundir as gerações futuras. São ilegíveis hoje!
“De Anaximandro [O filósofo da Dinâmica] se cuenta que vivió en la isla de Samos, bajo el tirano Polícrates, a cuya protección se acogieron también Pitágoras y Anacreonte. Temistio (en Brucker, t. I, p. 478) refiere de él que fue el primero que recogió por escrito sus pensamientos filosóficos, pero esto mismo se cuenta de otros pensadores, por ejemplo de Ferécides, que era anterior a Anaximandro.” “se dice que compuso, además, una especie de carta geográfica, representando el perímetro de la tierra y el mar. Se le atribuyen, asimismo, otros inventos matemáticos, por ejemplo el de un reloj de sol construido por él en Lacedemonia, el de algunos instrumentos para medir el curso del sol y determinar el equinoccio y el de una esfera armilar.”
“De lo uno, o sea de lo infinito, elimina Anaximandro los antagonismos que lleva dentro, lo mismo que Empédocles y Anaxágoras: por donde, aunque en esta mezcla todo se halle completo, todo es, al mismo tiempo, indeterminado”
“Ese algo es infinito en cuanto a la magnitud, pero no en cuanto al número; y en esto, Anaximandro se distingue de Anaxágoras, de Empédocles y de los otros atomistas, quienes postulan la discreción absoluta de lo infinito, mientras que Anaximandro estatuye su absoluta continuidad. (Simplicio)”
“Ahora bien, el progreso en cuanto a la determinación del principio como la totalidad infinita estriba en que, aquí, la esencia absoluta no es algo simple, sino una generalidad que equivale a la negación de lo finito. Al mismo tiempo, desde el punto de vista material, Anaximandro supera la concreción del elemento agua: su principio objetivo no presenta ningún carácter material y se lo puede considerar como un pensamiento; por lo demás, se comprende claramente que Anaximandro no pudo tener presente otra cosa que la materia misma, la materia en general. (Estobeo)” “la materia, determinada como algo infinito, consiste en el movimiento que establece las determinabilidades y en que desaparecen, a su vez, los desdoblamientos. En esto debe verse el verdadero ser infinito, y no en la ausencia negativa de límites. Pero esta generalidad y esta negatividad de lo finito es solamente nuestro movimiento”
“Por lo que se refiere al criterio concreto de cómo lo infinito determina, en su desdoblamiento, lo antagónico, Anaximandro parece compartir con Tales la determinación de la diferencia cuantitativa de la condensación y la dilución. Los autores posteriores designan el proceso de eliminación del seno de lo infinito como una generación, y dicen que Anaximandro hace al hombre nacer de un pez, pasar del agua a la tierra (Plutarco). Este criterio de la generación se presenta también recientemente como una simple sucesión en el tiempo; es una forma con la que se cree, frecuentemente, decir cosas brillantes”
“De lo infinito se separaron infinitas esferas celestes y mundos infinitos; pero estos mundos llevan su ruina dentro de sí, ya que sólo existen por medio de una continua eliminación.” Eusebio
“Mientras que los antiguos colocaban a las estrellas en nuestra atmósfera y hacían que el sol brotase más bien de la tierra, nosotros, por el contrario, hacemos del sol la esencia y el lugar de nacimiento de la tierra y ponemos a las estrellas en una relación directa con nosotros, haciéndolas brillar para nosotros mismos, como los dioses de Epicuro. [¿?]”
“Nos queda todavía por hablar de Anaxímenes, que apareció entre la 55ª y la 58ª Ol. (560-548 a.C.), natural también de Mileto y contemporáneo y amigo de Anaximandro.” Seria esse o começo do procedimento acadêmico <me cita que eu te cito>?
O JOGO DE PETECA DOS ANTIGOS: “Donde Anaximandro. colocaba la materia indeterminada, pone Anaxímenes, de nuevo, un elemento natural determinado, es decir, restablece lo absoluto en una forma real, que ahora, en vez del agua de Tales, es el aire.” “el aire tiene, al mismo tiempo, la ventaja de poseer una mayor ausencia de forma: tiene menos de cuerpo que el agua, pues no lo vemos, sino que nos damos cuenta solamente de sus movimientos.” Chegamos mais perto do vácuo e, com isso, do nada.
“Anaxímenes señala muy bien la naturaleza de su esencia a la luz del alma, con lo que, en cierto modo, viene a poner de manifiesto el tránsito de la filosofía de la naturaleza a la filosofía de la conciencia o la aparición de la modalidad objetiva de la esencia primigenia.” “el alma es este medio general, una multitud de representaciones que desaparecen y se manifiestan sin que cesen esta unidad y esta continuidad; es tanto activa como pasiva, hace que las representaciones se dispersen de su unidad y se levanten y se hagan presentes en su infinitud, de tal manera que el significado negativo y positivo coinciden. Esta naturaleza de la esencia primigenia es proclamada más precisamente y no sólo a modo de un símil por Anaxágoras, discípulo de Anaxímenes.”
“Asimismo aparecen citados entre los filósofos jonios un Diógenes de Apolonia,¹ un Hípaso y un Arquelao; pero lo único que de ellos conocemos son sus nombres y su adscripción a tal o cual principio.”
¹ Primeira citação deste que é, dentre os 4 filósofos/historiadores chamadas Diógenes e que se conhecem, do mundo antigo, o mais obscuro de todos. Do quarteto, o cínico é o mais célebre (ele é citado mais abaixo).
“Pero ninguno—dice Aristóteles (Metafísica, I, 8)—señala como principio la tierra, por considerarla como el más complejo de los elementos.”
“Es cierto que la materia misma es inmaterial, como esta reflexión en la conciencia; pero aquéllos no saben que lo que ellos proclaman es una esencia de la conciencia.”
“Esta crítica sigue siendo valedera todavía hoy, cuando lo absoluto se concibe como una sustancia rígida. Aristóteles dice que a base de la materia como tal, a base del agua como algo que no se mueve a sí mismo, no es posible llegar a comprender el cambio como tal; y reprocha, concretamente, a los filósofos antiguos el no haber investigado el principio del movimiento, que es el que inmediatamente hay que indagar. Se echa totalmente de menos, en esta concepción, el fin remoto y, en general, el criterio de la actividad”
“Hesíodo dice que la tierra fue el primer elemento corpóreo, lo que indica cuán antigua y verdaderamente popular es esta concepción.” Arist.
ADENTRA EM CENA O PERSONAGEM MAIS CRÍPTICO E MISTERIOSO: “Los neopitagóricos de tiempos posteriores escribieron muchas y extensas biografías de Pitágoras, extendiéndose con gran prolijidad en lo tocante a la Liga pitagórica; pero hay que proceder con gran prudencia, no dando crédito como históricas a estas noticias, muchas veces desfiguradas. La vida de Pitágoras se presenta ante nosotros, en la historia, a través de las representaciones de los primeros siglos posteriores al nacimiento de Cristo, más o menos en el mismo estilo en que es relatada la vida del propio Jesucristo, sobre el terreno de la realidad vulgar y no en una atmósfera poética, como una mezcla de muchas fábulas maravillosas y llenas de aventuras, como una trama híbrida de representaciones orientales y occidentales.” “Su figura aparece ante nosotros adornada con todas las cualidades de la magia, como una mezcla de dotes naturales y sobrenaturales, como un revoltijo misterioso de turbias y confusas representaciones imaginativas y de sueños absurdos propios de cerebros trastornados.
Y tan tergiversada como la historia de su vida llega a nosotros su filosofía, con la que aparecen mezcladas y revueltas todas las turbias cavilaciones del confusionismo y el alegorismo cristianos. La incorporación de Platón al mundo cristiano presenta, en cambio, un carácter muy nítido y totalmente distinto.”
“Así considerada, la filosofía pitagórica, vista a través de las noticias que de ella recibimos, puede ser reputada, asimismo, como un engendro oscuro e inseguro de cerebros turbios y vacuos. Pero, afortunadamente, [será?] conocemos el lado teórico-especulativo de ella, y lo conocemos a través de las obras de Aristóteles y Sexto Empírico, quienes se ocuparon mucho de esta filosofía. Y aunque los pitagóricos de una época posterior insulten a Aristóteles por la exposición que hace del pitagorismo, no cabe duda de que aquel gran pensador está muy por encima de este griterío”
“Pero, en primer lugar, no ha llegado a nosotros ninguna obra de Pitágoras y, en segundo lugar, es dudoso que llegara realmente a escribir alguna” Às vezes era só uma pegadinha de estudantes, e deram o nome de Pitágoras a um burro que era o mascote oficial da seita!
“Diógenes Laercio (VIII, 1-3, 45) nos dice que floreció alrededor de la 60ª Olimpíada (540 a.C.): su nacimiento se sitúa, generalmente, en la 49ª o 50ª Olimpíada (584 a.C.), aunque Larcher, en Tennemann (t. I, pp. 413-414) lo coloca bastante antes, en la 43ª Olimpíada (43, 1, es decir, en el año 608 a.C.)”
“Este Zalmoxis [pai de Pitágoras, o primeiro troll] se hizo construir, al parecer, una morada subterránea, en la que se sustrajo a las miradas de sus súbditos, reapareciendo al cabo de 4 años, (Porfirio) con lo cual hizo que los getas creyeran en la inmortalidad.”
“Los relatos de otros viajes al interior del Asia, a las tierras de los magos persas y de los indios, parecen tener un carácter completamente fabuloso, aunque los viajes eran considerados en aquel entonces, igual que ahora, como un medio de procurarse cultura. Y como Pitágoras viajaba con propósitos científicos, se cuenta de él que se hizo iniciar en casi todos los misterios de los griegos y los bárbaros y que fue recibido, asimismo, en la orden o la casta de los sacerdotes egipcios.” HAHAHAHAHA – O PAN-POLITEÍSTA
COM O PERDÃO DO TROCADILHO ÀS AVESSAS, MAS O ITALIANO É MUITO CRENTE!“En efecto, los milagros que cuentan de Pitágoras se asemejan mucho, en parte al menos, a los del Nuevo Testamento, con la notoria intención de mejorarlos; y hay que reconocer que, muchos de ellos, se acreditan por su mal gusto.”
“Aseguran que Pitágoras produjo una impresión tan poderosa y general sobre los espíritus de los itálicos, que todas las ciudades, siguiendo sus consejos, se prestaron a corregir sus costumbres licenciosas y corrompidas, y los tiranos depusieron voluntariamente su poder o fueron desalojados de él. Y estos biógrafos incurren en errores e inexactitudes históricos tan burdos como el de convertir a Carondas y Zaleuco en discípulos de Pitágoras, a pesar de haber vivido mucho tiempo antes que éste”
Me deparei com um parágrafo em que Hegel de repente solta, quase literalmente: seguir a última moda do vestuário (“as normas externas do igual e do geral”) é (o) racional, a propósito de uma certa fama dândi de Pitágoras!
“Los miembros de la orden eran sometidos a una educación especial y se establecía entre ellos una división en la que se separaban los exotéricos de los esotéricos: los segundos estaban ya iniciados en los más altos principios de la ciencia y también en las actividades políticas, ya que los planes políticos no eran ajenos a la sociedad pitagórica; los primeros tenían que pasar por un noviciado que duraba 5 años.”
HEGEL ON EDUCATION:“En general, podemos afirmar que este deber de abstenerse de charlatanerías es condición esencial de toda formación espiritual y de todo aprendizaje; es necesario empezar por saber asimilarse los pensamientos de otros, renunciando de momento a tener ideas propias. Suele decirse que la inteligencia se desarrolla por medio de preguntas, objecciones y respuestas, etc.; en realidad, no se desarrolla así, sino que se exterioriza de este modo. [A ‘má-fé’ da postura do estudante atento em Sartre!] La interioridad del hombre se adquiere y desarrolla a través de la formación; por el hecho de que el hombre se atenga silenciosamente a sí mismo, no se empobrecen sus pensamientos ni se amortigua la vivacidad de su espíritu.”
“Por lo demás, no existían, entonces, ciencias de ninguna clase, ni una filosofía, ni una matemática, ni una jurisprudencia, ni ciencia alguna, sino solamente tesis y conocimientos sueltos. Las enseñanzas de la época versaban solamente sobre cómo se debían manejar las armas, sobre tales o cuales filosofemas, sobre la música, sobre el modo de cantar los poemas de Homero o Hesíodo, los cantos en versos de tres pies, etc., o en torno a otras artes; enseñanza organizada de un modo muy distinto. § Por eso, cuando se dice que Pitágoras introdujo la enseñanza de las ciencias en un pueblo científicamente inculto, pero nada romo, sino, por el contrario, extraordinariamente despierto, naturalmente culto y muy comunicativo, como eran los griegos, habría que señalar las circunstancias externas de esta enseñanza”
“Esto obligaba a Pitágoras a recurrir a una forma especial, pues era la primera vez que un maestro, en Grecia, aspiraba a una totalidad, a inculcar a sus discípulos un nuevo principio mediante la educación de la inteligencia, del ánimo y de la voluntad. Por eso, esta convivencia no abarcaba solamente el lado de la enseñanza y del adiestramiento en las capacidades y aptitudes exteriores, sino también el referente a la formación moral del hombre práctico. Ahora bien, todo lo que se refiere a lo moral, mejor dicho siempre y cuando que se conciba conscientemente en este sentido, parece algo formal o se convierte efectivamente en algo formal, pues lo formal es algo general que se enfrenta al individuo. Así le parece, especialmente, a quien compara lo general con lo particular y reflexiona conscientemente acerca de uno y otro; pero esta diferencia desaparece para quien vive dentro de ello, para aquel que hace de ello una costumbre.”
“En primer lugar, se nos dice que vestían todos del mismo modo, túnicas blancas de lino, como Pitágoras. Sus actos se ajustaban a un determinado reglamento o plan de distribución del tiempo, en que cada hora tenía su trabajo marcado: por la mañana temprano, inmediatamente después de levantarse, debían evocar rápidamente lo que habían hecho el día anterior, ya que esto se halla estrechamente entrelazado a las tareas del nuevo día; esta reflexión acerca de sí mismos o este examen de conciencia era también tarea vespertina: al atardecer, los alumnos debían recapacitar acerca de lo hecho durante el día y reflexionar si habían obrado mal o bien.”
“al parecer, los alimentos principales de los pitagóricos eran la miel y el pan y la bebida predilecta y casi única el agua; todo parece indicar que no probaban la carne, abstinencia esta que se pone en relación con la teoría de la transmigración de las almas; y entre los alimentos vegetales establecían también algunas distinciones, absteniéndose, por ejemplo, de comer judías. [vagem] El respeto que sentían por esta planta hacíales objeto de burlas, pero sabemos que, al ser destruida la Liga pitagórica, varios miembros de ella, perseguidos, prefirieron dejarse matar antes que pisotear un plantío de judías. (Porfirio; Jámblico; Diógenes Laercio)”
“Dícese que Pitágoras suscitó las envidias de los poderosos y fue acusado de tener segundas intenciones; no podía admitirse que los miembros de su sociedad no perteneciesen por entero a la ciudad de que formaban parte, sino a otra especie de ciudad creada en el seno de ella.” Poxa, por que não tentou uma PPP (parceria público-privada)?
“en Egipto y en Asia, el aislamiento y la influencia de la casta sacerdotal eran lo natural, pero un país como la libre Grecia se avenía mal con este régimen oriental de castas.”
“Dentro de la vida colectiva del Estado griego no pueden surgir o mantenerse individuos o grupos aparte, que profesen principios especiales y, mucho menos, misterios propios, que se diferencien de los demás por su modo exterior de vivir o por su modo de vestir, pues el Estado helénico es una asociación abierta y común, que se cifra precisamente en la comunidad de los principios y del régimen de vida”
“Pero lo fundamental, para nosotros, es la filosofía pitagórica, no tanto la del propio Pitágoras como la de los pitagóricos, tal como se expresan Aristóteles y Sexto; claro está que hay que distinguir entre ambas cosas, y el cotejo de lo que pasa por ser la doctrina pitagórica revela inmediatamente una serie de diferencias y discrepancias, con las que nos encontraremos en su momento.” Me parece mais difícil determinar um Pitágoras histórico do que um Sócrates histórico… Há casos em que menor número de fontes é salutar, na contra-mão do senso comum; ainda mais quando dentre os poucos indivíduos encarregados de perfilar Sócrates temos Platão e Xenofonte; ainda que tenham distorcido ou caricaturado alguns pontos, estão longe de ser fanáticos. Platão, ao menos, tem uma agenda própria, o que permite certo nível de isenção e distanciamento em relação ao outrora mestre.
“La historia nos habla de muchos continuadores de Pitágoras, como Alcmeón y Filolao, que introdujeron nuevos criterios en la doctrina de su maestro; y en muchas otras exposiciones resaltan los rasgos de lo simple, lo no desenvuelto, comparadas con otras ulteriores y más desarrolladas, en las que el pensamiento se manifiesta ya de un modo más claro y poderoso. No es necesario, sin embargo, que entremos a analizar lo que hay de histórico en estas diferencias, sino que bastará con que examinemos la filosofía pitagórica en su conjunto. Asimismo, debemos prescindir de lo que procede, manifiestamente, de los neoplatónicos y los neopitagóricos; para ello, disponemos de fuentes anteriores a este período, sobre todo las detalladas exposiciones con que nos encontramos en Aristóteles y en Sexto.” O método é o mesmo de Littré em relação a Hipócrates.
“A primera vista, tiene que parecernos, por fuerza, sorprendente la audacia de semejante afirmación, por la que se echa por tierra de golpe todo lo que viene considerándose como verdadero y esencial, anulándose de pronto la esencia sensible, para convertirla, sencillamente, en la esencia del pensamiento. La esencia es expresada, aquí, como algo ajeno a los sentidos, y se proclama como sustancia y ser verdadero algo completamente heterogéneo con respecto a lo sensible, a lo que suele considerarse como esencial. Pero por esta vía, precisamente, se establece la necesidad tanto de convertir en concepto el número mismo como de representar el movimiento de su unidad con el ente, ya que el número no se nos presenta como algo que forma una unidad inmediata con el concepto.”
“Este sistema de enseñanza por medio de los números, por tratarse de la primera filosofía, acabó desapareciendo por los misterios que encierra; más tarde, Platón, Espeusipo, Aristóteles y otros arrebataron sus frutos a los pitagóricos por medio de aplicaciones más fáciles.”Moderato
“Los números aritméticos corresponden a determinaciones del pensamiento, ya que el número tiene por elemento y principio la unidad, y ésta es una categoría del ser para sí, de lo que es, por tanto, idéntico consigo mismo y que, por ello, excluye de su seno a todo lo demás y es indiferente ante ello.”
“el concepto en su más alta exterioridad, en la modalidad de lo cuantitativo, de la diferencia indiferente; la unidad abriga, en ese sentido, tanto el principio del pensamiento como el de la materialidad o la determinación de lo sensible.” “en el número 3, por ejemplo, hay siempre tres unidades, cada una de las cuales es independiente con respecto a las otras dos; y en esto reside lo defectuoso y lo misterioso.”
“Ahora bien, ¿cómo dieron en la ocurrencia de considerar los números como la esencia primigenia o como los conceptos absolutos? Nos lo indica con cierta precisión lo que Aristóteles dice acerca de esto en su Metafísica (I, 5), si bien se expresa aquí de un modo resumido, remitiéndose a lo que acerca de esto dice en otro lugar (Metaf. I, 9; v. infra, p. 196): ‘Creían ver en los números una semejanza mayor con lo que es y lo que acaece que en el fuego, el agua y la tierra, ya que la justicia constituye una cierta cualidad de los números, y lo mismo el alma, el entendimiento, otra la oportunidad, y así sucesivamente. Y como, además, veían en los números las cualidades y las proporciones de las cosas, lo armónico, y los consideraban como lo primordial en todas las cosas de la naturaleza, acabaron considerándolos como los elementos de todo y al cielo, en su conjunto, como armonía y número.’”
“Según Heráclito, todo lo sensible fluye, razón por la cual no puede haber una ciencia de lo sensible; de esta convicción nació la teoría de las ideas. Sócrates fue el primero que determinó lo general por medio de inducciones; antes, los pitagóricos tocaron solamente unas cuantas cosas, reduciendo sus conceptos a números: por ejemplo, el concepto de la oportunidad,¹ el del derecho, el del matrimonio, etc.” Metafísica XIII
¹ Em números? Jogo do bicho? Hahaha…
“La primera determinación es la unidad en general, la segunda la dualidad o la contraposición. Es extraordinariamente importante reducir la infinita variedad de las formas y determinaciones de lo finito a sus pensamientos generales como a los principios más simples de toda determinación; no se trata, aquí, de diferencias de las cosas entre sí, sino de diferencias esenciales y generales de suyo. Los objetos empíricos se distinguen por su forma externa: este trozo de papel se distingue por ella de otro trozo de papel, los colores por sus matices, los hombres por sus diferencias de temperamento, de individualidad. Pero estas determinaciones no representan diferencias esenciales; podrán ser esenciales en cuanto a determinadas particularidades de estas cosas, pero estas particularidades absolutamente determinadas no representan una existencia esencial en y para sí; solamente lo general es lo sustancial, lo que se mantiene a sí mismo.”
“Las determinaciones generales se descubren y establecen solamente a base de un procedimiento totalmente dogmático; son, por ello, determinaciones secas, desligadas de todo proceso, no dialécticas, sino inertes.”
“Todos los números entran de suyo en el concepto de la unidad, pues la dualidad es una dualidad, la trinidad una trinidad y el número 10 un grupo de números. Esto movió a Pitágoras a ver en la unidad el principio de todas las cosas, viendo en cada una de ellas, por participar de este concepto, una unidad.” Sexto E.
“Esta curiosa relación de la unidad totalmente abstracta con la existencia concreta de las cosas es lo que los pitagóricos expresan con el término de imitación.”
“Fueron ellos quienes determinaron y precisaron, aunque de un modo inadecuado, los conceptos abstractos y simples, ofreciendo en su tabla de las categorías una mezcla de contraposiciones de la representación y del concepto, sin ninguna deducción ulterior.”
“Lo especulativo se manifiesta, aquí, como especulativo; quien no conozca lo especulativo jamás podrá comprender que mediante la expresión de conceptos tan simples se proclame la esencia absoluta. Lo uno, lo múltiple, lo igual, lo desigual, el más, el menos, son momentos triviales, vacíos, secos; a quien se halle habituado a verlo todo a través de representaciones, a quien no sepa remontarse de la esencia sensible al pensamiento, no le parecerá que en sus relaciones se hallen comprendidas la esencia absoluta, la riqueza y la organización tanto del mundo de la naturaleza como del mundo del espíritu”
“Este concepto simple y esencial de la realidad es la exaltación al plano del pensamiento, pero no como una evasión de lo real, sino expresando lo real mismo en su esencia.” Ó, grandes pitagóricos! Deixaram os hindus comendo poeira!… E no entanto muitos ascetas vivem de menos do que isso…
“De 2 decimos que son ambos, pero no todos; para que podamos decir todos, tiene que haber 3.” Arist.
“…Si así lo haces,
Te guiará por la senda de la virtud divina. Lo juro
Por Aquel que ha infundido a nuestro espíritu el tetraktis
En cuyo seno se hallan las fuentes y las raíces de la eterna naturaleza.”
Poema de um neófito Empédocles, antes de abandonar o pitagorismo
“El número divino sigue desarrollándose,
Hasta que de la santidad no consagrada del Uno
Llega al divino Cuatro, que engendra a la madre de Todo,
A la que concibe el Todo, la antigua frontera del Todo,
Infatigable e inagotable; a ésta se la llama el sagrado Diez.” Proclo
“Es cierto que existen también diferencias cualitativas, por ejemplo entre los tonos del metal y las cuerdas de tripa, entre las voces humanas y los instrumentos de viento; pero la verdadera relación musical entre los diversos tonos de un mismo instrumento, sobre lo que descansa la armonía, es, indudablemente, una relación numérica.
Partiendo de aquí, los pitagóricos entran en ulteriores desarrollos de la teoría musical, en los que no hemos de seguirlos. La ley apriorística del desarrollo y la necesidad del movimiento en las relaciones numéricas es algo que permanece completamente en la sombra y en lo que sólo pueden andar a tientas los cerebros turbios: por todas partes se vislumbran los conceptos y las consonancias superficiales entre ellos, pero para esfumarse de nuevo.”
“ya en tiempo de Cicerón se habían convertido en algo proverbial por su oscuridad, y es muy poco lo que en ellos podamos considerar como verdaderamente antiguo.”
“Así como consideraban el número 10 como el número perfecto, como la suma y compendio de toda la naturaleza de los números, decían que eran también 10 las esferas que se movían en el cielo, y no siendo visibles más que 9, inventaban, para que fueran 10, la llamada antitierra.”Metafísica
“Estas 10 esferas de que habla Aristóteles son: la Vía Láctea o las estrellas fijas, los 7 astros conocidos entonces, todos ellos, como planetas: Saturno, Júpiter, Marte, Venus, Mercurio, el sol y la luna y, por último, en noveno lugar, la tierra; la 10ª era, pues, la ‘antitierra’”
“Los pitagóricos colocaban en el centro el fuego y veían en la tierra una estrella que se movía circularmente en torno a aquel fuego central” De coelo, II
“un gran coral armónico del universo.” Bolas do meu pau de ábaco sonoro…
“Se apunta aquí la idea de un sistema del universo; para nosotros, sólo el sistema solar es racional, mientras que a las demás estrellas no se les puede reconocer dignidad alguna.”
“habituados a sus sones como el herrero a su martilleo”
“conocemos, a través de Keplero, las leyes, la excentricidad y cómo se relacionan entre sí las distancias y los tiempos de la rotación; pero todavía las matemáticas no han sido capaces de determinar la ley de desarrollo con arreglo a la cual se determinan estos intervalos.” “la astronomía no ha podido descubrir todavía en ello una serie consecuente, racional; lejos de ello, mira con desprecio a la exposición regular de esa serie, que es por sí misma un punto extraordinariamente importante, que no debe ser abandonado.”
CAPACHO DOS GUILHERMES:“Hoy se pretende, por el contrario, mantener la educación libre del espíritu de la época; pero el hombre no puede sustraerse a este supremo poder del Estado, sino que se halla, por mucho que trate de aislarse, sometido inconscientemente a esto general.”
“un formalismo parecido, en cierto modo, a los esquemas de la electricidad, el magnetismo, el galvanismo, la condensación y la expansión, lo masculino y lo femenino, en que algunos quieren basarlo, hoy, todo: una determinabilidad puramente vacua, cuando de lo que se trata o debe tratarse es de lo real.” Por supuesto: del Estado!
ELEATAS: “Encontramos aquí el punto de arranque de la dialéctica, o sea de lo que constituye precisamente el movimiento puro del pensamiento en conceptos: y, con ello, el comienzo de la contraposición del pensamiento frente al fenómeno o al ser sensible, de lo que es en sí frente al ser para otro de este en sí: y en la esencia objetiva, la contradicción que en sí mismo entraña y que es la verdadera dialéctica.”
“La determinación del ser es, para nosotros, algo conocido y trivial”
“Inmóvil es lo que no es, pues en ello no se da otra cosa alguna, ni se convierte tampoco en ninguna otra cosa; sólo lo vario es móvil, pues para ello hace falta que lo uno se mueva hacia lo otro.”
“Jamás nació ni nacerá varón alguno
que conozca de vista cierta lo que yo digo
sobre los dioses y sobre las cosas todas;
porque, aunque acierte a declarar las cosas
de la más perfecta manera,
él, en verdad, nada sabe de vista.
Todas las cosas ya por el contrario
Con Opinión están prendidas.”
Citação de Sexto, provavelmente corruptela de Parmênides.
“Uno de los datos más importantes que de su vida conocemos es el viaje que hizo con Zenón a Atenas, donde Platón los presenta, en uno de sus diálogos, conversando con Sócrates.” E tomas tal poema como a verdade absoluta? Pois acertaste em cheio: nada mais sensato!
“Conviene advertir que Platón, cuando habla concretamente de la escuela de los eléatas, no se refiere nunca a Jenófanes, sino solamente a Meliso y Parménides. Por lo demás, al asignar a Parménides el papel principal del diálogo que lleva por título su nombre, poniendo en boca de este pensador eleático la más sublime dialéctica, Platón obra movido por consideraciones que no son de este lugar.” Que lugar?
“El primer fragmento largo que encontramos en Sexto (Adv. Math. VII, 111) es una introducción alegórica a su poesía sobre la naturaleza. Esta introducción tiene un tono mayestático, nos revela la manera literaria de aquel tiempo y denota, en su conjunto, un alma enérgica y violenta, que lucha con la esencia, en un formidable esfuerzo por captarla y proclamarla.”
“la verdadera filosofía comienza, en rigor, con Parménides.”Pouco cito Parmênides aqui, em que pese ser O MAIS IMPORTANTE DOS PRÉ-SOCRÁTICOS, por já ter publicado no blog posts dedicados ao autor.
Zenão era supervalorado pela filosofia e historiografia da época de Hegel.
“Las circunstancias de la conducta final del filósofo, que fueron las de una violenta y colérica reacción de los sentidos, aparecen relatadas de diversos modos. Se dice que, haciendo ademán de querer decir algo al oído al tirano, le mordió en la oreja, sin soltarlo, hasta que los demás le dieron muerte.” “Otros relatos dan la versión de que, al ser sometido a los más espantosos martirios después de aquella respuesta, se amputó la lengua de una dentellada y se la escupió a la cara al tirano, como para decirle que no conseguiría arrancarle una sola palabra, después de lo cual se dice que su cuerpo fue aplastado en un mortero.”
“[he] escrito esto más bien contra quienes tratan de ridiculizar la tesis de Parménides, poniendo de manifiesto qué ridículos y contradicciones se desprenden contra ellos mismos de su afirmación; combato, por tanto, a aquellos que predican el ser de lo múltiple, para demostrar que, partiendo de aquí, se llega a consecuencias mucho más disparatadas que arrancando de la proposición de Parménides.”
AO MENOS H. SOUBE PENSAR O <PARADOXO>: “Cuando Aristóteles dice que Zenón negaba el movimiento porque éste encerraba una contradicción interna, no debe interpretarse esto en el sentido de que el movimiento no sea en absoluto.” “el movimiento tiene certeza sensible, tan cierto como que hay elefantes: en este sentido, no podía ocurrírsele a Zenón negar el movimiento.” “Desde este punto de vista deben interpretarse las proposiciones de Zenón, y no como objeciones contra la realidad del movimiento, aunque a primera vista parezcan eso, sino como una manera necesaria de determinar el movimiento y cómo se debe proceder para ello.”
“Es sabido con qué sencillez refutaba estas pruebas de la contradicción del movimiento Diógenes de Sinope, el cínico: se levantaba sin decir una palabra y se ponía a pasearse silenciosamente de arriba abajo, refutando así semejantes argumentaciones con hechos.”
“Vemos aquí ante nosotros lo infinito malo o la manifestación pura, cuya esencia simple pone de relieve la filosofía como concepto general, manifestarse en primer lugar desarrollado en su contradicción, y a su historia adquirir la conciencia de esta contradicción; el movimiento, esta misma manifestación pura, aparece como algo pensado, puesto con arreglo a su esencia, a saber: en lo que lo diferencia de la pura identidad consigo mismo y de la pura negatividad, del punto frente a la continuidad. Para nosotros, no envuelve contradicción alguna en la representación el que el aquí del espacio o el ahora del tiempo se establezcan como una continuidad y una longitud; pero su concepto es algo contradictorio consigo mismo.”
“o ponto é o puro ser para si (pura aparência)”
“Al decir ‘hasta el infinito’, nos representamos un más allá, fuera de nuestra representación, al que no es posible llegar. Trátase, indudablemente, de un trascender sin fin, infinito, pero presente en el concepto: un trascender de una determinabilidad contrapuesta a otra, de la continuidad a la negatividad, de la negatividad a la continuidad, pero ambas se hallan ante nosotros.”
“Bayle (tomo IV, art. Zénon, nota E), dice, refiriéndose a la respuesta [refutação] de Aristóteles que es pitoyable.”
“En eso consiste precisamente lo infinito: en que ninguno de sus momentos tiene realidad.”
“Lo representado como tal o en cuanto imagen de la representación no es una cosa; no tiene ser alguno, ni es tampoco la nada.” “La división del espacio como ser dividido no es absoluta puntualidad, ni la continuidad pura lo indiviso e indivisible; del mismo modo, el tiempo no es la negatividad o puntualidad pura, sino que es también continuidad.”
“el movimiento mismo no es otra cosa que esta unidad real en la contraposición y el desdoblamiento de ambos momentos en esta unidad.”
“Se concede como indiscutible que no hay más remedio que llegar a la mitad; pero, con ello, se ha concedido todo lo que se postula, es decir, el no llegar, pues una vez dicho aquello, es como si se dijera infinidad de veces.” “en la hipótesis de la mitad va ya implícita la interrupción de la continuidad.” “La continuidad se atomiza en lo contrario de ella, en la cantidad indeterminada”
“el moverse quiere decir encontrarse en este lugar y no encontrarse en él, es decir, encontrarse en los 2 lugares al mismo tiempo; es la continuidad del espacio y del tiempo, sin la cual el movimiento no sería posible.”
“tanto da que, dentro del espacio absoluto, el ojo se mueva o se esté quieto.”
“las antinomias de Kant no son otra cosa que lo ya expresado aquí por Zenón.”
“el contenido de la conciencia sólo es un fenómeno, nada verdadero”
“¿Acaso no valéis vosotros más que los gorriones?”
“Abandonamos aquí la escuela eleática, que se continúa en Leucipo y, de otra parte, con los sofistas, quienes hacen extensivos a toda la realidad los conceptos de los eléatas y señalan la actitud que la conciencia adopta ante ella, mientras que aquél, como continuador tardío del concepto en su abstracción, adopta una actitud física frente a la conciencia.”
“Dejando a un lado a los jonios, quienes aún no concebían lo absoluto como pensamiento, y a los pitagóricos, nos encontramos con el ser puro de los eléatas y con la dialéctica, que destruye y supera todas las relaciones finitas: para los eléatas, el pensamiento es el proceso de tales fenómenos, el mundo en sí mismo lo que se manifiesta y sólo el ser puro lo verdadero. La dialéctica de Zenón capta, pues, las determinaciones que van implícitas en el mismo contenido; pero puede ser llamada también dialéctica subjetiva en cuanto que corre a cargo del sujeto pensante y en cuanto que lo uno, sin este movimiento de la dialéctica, no es más que intensidad abstracta.”
O OCIDENTAL OBSCURO COM RETINTOS ORIENTAIS: “Heráclito, por su parte, concibe lo absoluto mismo como este proceso de la dialéctica.”
“El progreso necesario realizado por Heráclito consiste en haber pasado del ser como primer pensamiento inmediato a la determinación del devenir, como el segundo”
“Divisamos, por fin, tierra; no hay, en Heráclito, una sola proposición que nosotros no hayamos procurado recoger en nuestra Lógica.”
“con él comienza la separación y el retraimiento del filósofo de los negocios públicos y los intereses de la patria, para entregarse por entero, en una vida de soledad, a la filosofía.”
“Bien merecido les estaría a los efesios en la edad adulta ahorcarse y abandonar a los niños la ciudad, a ellos que han expulsado a Hermodoro, el varón más eficaz de los suyos, diciendo: ‘no haya entre nosotros ninguno más eficaz; si lo hay, que sea en otra parte y entre otros’” Heráclito apud Cicerón, Diógenes Laercio
“Sus conciudadanos lo invitaron a participar en los negocios públicos de la ciudad, pero él se negó a hacerlo, por no aprobar su constitución, sus leyes ni su gobierno.” Diógenes
“La única obra compuesta por este filósofo y que, según nos informa Diógenes (IX, 12 y 6), llevaba por título, según unos, Las musas y, según otros, Sobre la naturaleza, fue depositada por él en el templo de la Diana de Éfeso. Parece que esta obra existía aún en tiempos posteriores; los fragmentos que han llegado a nosotros aparecen reunidos en la Poësis philosophica de Stephanus (pp. 129 ss.).” “Creuzer nos había hecho concebir la esperanza de estudiar a este filósofo con mayor sentido crítico y un conocimiento más a fondo de su lenguaje, a base de una colección de textos más completa, tomada principalmente de los gramáticos; pero, habiendo encomendado este trabajo, por falta de tiempo, a un erudito joven, que fue sorprendido por la muerte, el estudio proyectado no ha llegado al público. Semejantes colecciones suelen ser demasiado prolijas; contienen una gran masa de erudición, y es más fácil, por lo general, escribirlas que leerlas.”
“Pero esto de escribir oscuro deliberadamente no sería más que una necedad; es, sin embargo, simplemente la necedad del propio Cicerón, que trata de imputarla al filósofo de Éfeso.”
“No hay manera de saber cuándo una palabra pertenece a la oración anterior o a la posterior.” Aristóteles, Ret. III, 5.
“Sin embargo, lo que hay de oscuro en esta filosofía se debe, principalmente, a que se expresa en ella un pensamiento profundo, especulativo; el concepto, la idea, se escapan al entendimiento, no pueden ser captadas por él; en cambio, la matemática la comprende con gran facilidad.”
“En Heráclito vemos ahora la consumación de la conciencia anterior, el perfeccionamiento de la idea hasta la totalidad, que es el comienzo de la filosofía, en cuanto que este comienzo proclama la esencia de la idea, el concepto de lo infinito, del ser en y para sí, como lo que es, a saber: como la unidad de lo contrapuesto. De Heráclito data la idea permanente, que es la misma en todos los filósofos hasta nuestros días”
“Gran pensamiento este de pasar del ser al devenir, aun cuando, por ser la primera unidad de determinaciones opuestas, sea todavía un pensamiento abstracto. Aquí, estas determinaciones aparecen como algo inquieto y llevan consigo, por tanto, el principio de la vida, con lo cual queda superada la falta de movimiento que Aristóteles ponía de relieve en las filosofías anteriores, y el movimiento mismo se eleva a principio. Por tanto, esta filosofía no se proyecta sobre el pasado, su principio es esencial y por eso figura en nuestra Lógica al comienzo, inmediatamente después del ser y de la nada.”
“El entendimiento aísla tanto al ser como al no ser como verdaderos y válidos; la razón, por el contrario, conoce al uno en el otro, ve al otro contenido en el uno. Si no tomamos la representación del ente lleno, vemos que el ser puro es el pensamiento simple, en el que se niega todo lo determinado, lo absolutamente negativo; la nada, en cambio, es lo mismo, precisamente este algo igual a sí mismo.”
“O entendimento isola tanto o ser como o não-ser como (conteúdos) verdadeiros e válidos; a razão, ao contrário, conhece o um no outro, vê o outro contido no um. Se não tomamos a representação do ente cheio (pleno), vemos que o ser puro é o pensamento simples, no qual se nega todo o determinado, o absolutamente negativo; o nada, em compensação, é o mesmo, precisamente este algo igual a si mesmo.”
“Estamos ante el tránsito absoluto a lo opuesto, al que Zenón no llegó, puesto que se detuvo en la tesis de que ‘de la nada no se genera nada’; en cambio, en Heráclito el momento de la negatividad es inmanente, y en torno a ello gira el concepto de toda la filosofía.”
“Estamos diante do trânsito absoluto ao oposto, ao que Zenão não chegou, posto que se deteve na tese de que ‘do nada não se gera nada’; em Heráclito o momento da negatividade é imanente, e em torno dele gira o conceito de toda a filosofia.”
“O contrário reside no mesmo, e assim, p.ex., o mel é doce e amargo.”
“o infinito morto é uma abstração ruim, comparada com esta profundidade com que nos encontramos em Heráclito.”
EU VEJO POR TRÁS DE TUA ASTÚCIA DE MAIA, H.! “La subjetividad, por ejemplo, es lo otro con respecto a la objetividad y no con respecto a un pedazo de papel, supongamos, lo cual sería absurdo”
“claro está que esto resulta siempre difícil y oscuro para el entendimiento, que tiende a considerar por sí mismo y separadamente el ser y el no ser, lo subjetivo y lo objetivo, lo real y lo ideal.” Premissa ensaboada.
“además de esta forma general en que expresa su principio, sabe dar a su idea una forma más real, más natural; de aquí que, a veces, se le incluya todavía entre los pensadores de la escuela jónica de filósofos de la naturaleza.”
“o tempo é o não-ser imediatamente no ser e o ser imediatamente no não-ser” “No tempo não é o passado nem o futuro, senão que o agora: e isto é precisamente para não ser como algo já passado; e este não ser permuta também em ser, enquanto futuro.”
FIERCE FIRE: “El fuego es el tiempo físico, la movilidad absoluta, la disolución absoluta de lo existente: la destrucción de lo otro, pero también de sí mismo; y así, podemos comprender por qué Heráclito, partiendo de su determinación fundamental, afirma con toda consecuencia el fuego como el concepto del proceso.” “he aquí por qué Heráclito emplea también, para designar este proceso, la palabra precisa de evaporación, aunque la expresión más exacta sería la de tránsito.”
“Así, pues, en la hostilidad entre los hombres se impone uno como independiente frente a los demás, o es para sí, se realiza en general; en cambio, la armonía y la paz es el hundirse del ser para sí en la indiferenciabilidad o en la no-realidad. Todo es trinidad y, al mismo tiempo, sin embargo, unidad esencial” Na hora de tirar um 10, Hegel viaja.
“Tenemos, pues, ante nosotros, en general, una metamorfosis del fuego. Pero estas expresiones orientales, figuradas, no deben tomarse, tal como Heráclito las emplea, en un sentido directo, toscamente sensorial, como si estos cambios se manifestasen a la percepción externa, sino que forman la naturaleza de estos elementos, con arreglo a la cual la tierra crea eternamente su sol y sus cometas.”
“Este mundo, el mismo para todos, no lo hizo ninguno de los dioses ni de los hombres, sino que ha sido eternamente y es y será un fuego eternamente viviente, que se enciende según medidas y se apaga según medidas.”apudClemente de Alexandria, Stromata
La extinción del alma, del fuego en el agua, la combustión que se convierte en producto aparece falsamente explicada por algunos, por ejemplo por Diógenes Laercio, Eusebio y Tennemann como una combustión del universo. Pero nos parece que es más bien una figura de la fantasía lo que Heráclito dice, según se nos cuenta, de un incendio del universo, de que el mundo habrá de convertirse en fuego al cabo de cierto tiempo (…) A la luz de los pasajes más concretos, (Estobeo) podemos afirmar que Heráclito no se refiere, en realidad, a este incendio del universo, sino más bien a esta continua combustión como el proceso del devenir de la amistad, la vida general y el proceso general del universo.”
“Nos detendremos un momento en este punto, ya que con esto se expresa, de un modo general, todo concepto de la consideración especulativa de la naturaleza.” “Es falso ver en lo especulativo algo que sólo existe en el pensamiento o en el interior de nosotros, no se sabe dónde.”
SOBRE O EMPIRISMO FÍSICO-QUÍMICO: “Como ocurre siempre que se expresan los resultados de la percepción y la experiencia, cuando el hombre los proclama, hay en ellos un concepto; concepto que no es posible descartar, sino que se mantiene siempre en la conciencia, con un tinte de generalidad y de verdad. La esencia no es, precisamente, otra cosa que el concepto; pero este concepto sólo se revela como concepto absoluto a la razón formada, y no cuando, como aquí sucede, permanece prisionero dentro de una determinabilidad.” A seguir, polêmicas de experimentos de época, ininteligíveis para nós hoje: “los higrómetros, botellas llenas de aire que se hacen descender de las regiones altas por medio de un globo, no lo revelan [ao hidrogênio] como existente. Y, del mismo modo, el agua cristalizada no se les manifiesta como agua, sino ya convertida, transformada en tierra”
“Es cierto que Heráclito dice que todo fluye, que nada persiste, que sólo lo uno permanece; pero esto no es sino el concepto de la unidad que solamente existe en la contraposición, no de la que se refleja en sí misma. Este uno, en su unidad con el movimiento de los individuos, es el género o el concepto simple en su infinitud como pensamiento; como tal, habrá de determinarse aún la idea, tal como volveremos a encontrarla en el nous de Anaxágoras. Lo general es la unidad simple inmediata en la contraposición, que retorna a sí misma como proceso de lo diferenciado; pero también esto se encuentra en Heráclito: esta unidad en la contraposición es lo que él llama destino o necesidad. Y el concepto de la necesidad consiste precisamente en esto: en que la determinabilidad constituye la esencia de lo que es como algo individual, pero refiriéndose cabalmente, a través de ello, a lo opuesto: la absoluta ‘relación que pasa a través del ser del todo’.”
“Sólo nos resta, ahora, examinar qué relación guarda, según Heráclito, esta esencia con la conciencia. La filosofía heracliteana presenta, en su conjunto, la modalidad de una filosofía natural, en cuanto que el principio, aunque lógico, es concebido como el proceso general de la naturaleza.”
“Es un modo hermoso, espontáneo, infantil, de expresar la verdad en términos verdaderos. Se presenta aquí por vez primera lo general y la unidad de la esencia de la conciencia y del objeto, y la necesidad de la objetividad.” “El verdadero ser no es este ser inmediato, sino la mediación absoluta, el ser concebido, el pensamiento.” Aqui se diluem as fronteiras do que é Heráclito e do que é superinterpretação à la Hegel.
“Sexto aduce en los siguientes términos la determinación de este criterio: ‘Todo lo que nos rodea es, de suyo (a juicio de Heráclito), lógico y racional’, pero no por ello dotado de conciencia. ‘Cuando nos asimilamos por la inspiración esa esencia general, nos convertimos en seres racionales; pero sólo despiertos lo somos, pues cuando estamos dormidos eso queda sepultado en el olvido’.”
O EGRESSO DA CAVERNA DE PLATÃO:“En el hombre despierto, en cambio, el entendimiento, mirando hacia más allá por los caminos del sentimiento como por ventanas y entrelazado con lo que lo rodea, se halla sostenido por una fuerza lógica.”
“muchos viven como si tuviesen su propio entendimiento; sin embargo, el entendimiento no es otra cosa que la interpretación (la conciencia), el modo de la ordenación del todo.” “El hombre suele inclinarse a creer que, cuando piensa algo, debe ser algo especial, propio; pero esto es un error.”
“Podemos decir de Heráclito algo parecido a lo que se cuenta que dijo Sócrates [acerca do próprio Her.]: lo que de él se ha conservado es magnífico; en cuanto a lo que no ha llegado a nosotros, hay que suponer que nos parecería igualmente magnífico, si lo conociéramos.”
“A la par con Empédocles, estudiaremos las figuras de Leucipo y Demócrito, en las que se revela la idealidad de lo sensible y, al mismo tiempo, la determinabilidad general o la transición a lo general.”
“Leucipo es anterior a Demócrito, y éste no hace sino continuar y perfeccionar la obra iniciada por aquél, pero sin que sea fácil discernir históricamente su parte original dentro de ella. Las fuentes nos dicen, ciertamente, que se limitó a desarrollar los pensamientos de Leucipo, y algo se ha conservado de su obra, pero sin que nos sea posible hacer ninguna cita literal o precisa de pasajes suyos.”
“Diógenes (IX, 35s.) dice que Demócrito gastó su crecida fortuna en sus viajes a Egipto y a los países del interior del Oriente; pero esto es bastante inverosímil. Su patrimonio aparece tasado en unos 100 talentos, y si suponemos que un talento ático valía de 1,000 a 1,200 táleros, es evidente que, con aquella fortuna, habría podido pasarse la vida viajando.”
“Lo lleno tiene como principio el átomo: lo absoluto, lo que es en y para sí es, pues, el átomo y lo vacío; es ésta una determinación de gran importancia, sin duda, pero insuficiente. No es en los átomos, por ejemplo en los que nos representamos flotantes en el aire, donde reside, exclusivamente, el principio, sino que es igualmente necesaria la nada que entre ellos existe; tal es, pues, la primera manifestación del sistema atomístico.”
“es Leucipo quien introduce la determinación del ser para sí [aparência].”
“Así concebido, el principio atomístico no ha sido superado, ni puede serlo, sino que permanece para siempre; el ser para sí tiene que presentarse necesariamente en toda filosofía lógica como un momento esencial, aunque no como momento último.” Para quem ainda tinha dúvidas, essa é uma História da Filosofia Hegeliana (todos os autores que me influenciaram) e não uma história da filosofia…
“Por consiguiente, si el desarrollo de la filosofía en la historia ha de corresponder al desarrollo de la lógica, necesariamente tendrá que haber en ésta pasajes que en el desarrollo histórico desaparezcan. Si, por ejemplo, quisiéramos erigir la existencia en principio, esa existencia sería lo que nosotros tenemos en la conciencia: existen cosas, estas cosas son finitas y se hallan relacionadas entre sí; pero esto no pasa de ser una categoría de nuestra conciencia sin pensamiento, de la apariencia.”
“Como negación de la alteridad, que es, a su vez, negación contra mí, el ser para sí es negación de la negación y, por tanto, afirmación; y ésta es, según la llamo yo, la negatividad absoluta, en la que se contiene, sin duda, cierta mediación, pero una mediación que está ya también levantada.”
“Como negação da alteridade, que é, por sua vez, negação contra mim, o ser-para-si é negação da negação e, portanto, afirmação; e esta é, segundo eu a batizo, a negatividade absoluta, a qual contém, sem dúvida, certa mediação, mas uma mediação que está já, também, suspensa.”
“O princípio do um é um princípio totalmente ideal, pertence por inteiro ao mundo do pensamento, e assim seria ainda que quisera afirmar-se que os átomos existem. O átomo pode ser concebido num sentido material, mas é, apesar disso, algo não-sensível, puramente intelectual. (…) Mas os átomos de Leucipo não são as molécules, as partículas de que nos fala a física.” “O um não pode ser visto nem apreciado mediante retortas nem aparatos de medição, já que se trata de uma abstração do pensamento; o que se mostra é sempre matéria condensada. E, ainda assim, é um esforço vão o daqueles que, hoje, com a ajuda do microscópio, tratam de escrutar o interior do orgânico, a alma, e de descobri-lo por meio da vista e do tato. O princípio do um é, pois, um princípio totalmente ideal, mas não no sentido de que só exista no pensamento, na cabeça, e sim no sentido de que o pensamento é a verdadeira essência das coisas. Assim o entendia também Leucipo; destarte sua filosofia não tem absolutamente nada de empírica.”
“Dentro da esfera do Estado, pode manifestar-se o ponto de vista de que a vontade individual, enquanto átomo, é o absoluto; tais são, no fundo, as novas teorias sobre o Estado, que se fazem valer também na prática.” Trecho inócuo seguido de uma crítica ao Contrato Social.
“Portanto, os átomos, inclusive quando aparecem unidos no que chamamos coisas, acham-se separados entre si pelo vazio, que é, para eles, algo puramente negativo e estranho; quer dizer, sua relação não se dá neles mesmo, mas é algo distinto do que eles são. Este vazio, o negativo diante do afirmativo, é também o princípio do movimento dos átomos; estes vêem-se solicitados, digamos assim, pelo vazio, a preencherem-no e negarem-no.”
“elementos puramente independentes aparecem unidos a outros igualmente independentes, sem perder sua independência, o que quer dizer que se trata de uma união simplesmente mecânica.”
“E, no entanto, não nos é lícito acrescentar a isto tudo o que a imaginação dos tempos modernos acrescenta às vezes, a saber: que o universo foi, em tempos remotos, algo assim como um caos, um vazio cheio de átomos, que logo se uniram e ordenaram para dar nascimento a este mundo em que vivemos; hoje e sempre, o ser-em-si (a essência) é e segue sendo o vazio e o cheio.”
Aristóteles (e, quase, por isso Hegel) considera o finalista Anaxágoras o primeiro filósofo “profissional”, comparado ao amadorismo anterior.
“La unidad retorna a sí misma, como algo general, de la contraposición; al contrario de lo que ocurre en la síntesis de Empédocles, en que lo contrapuesto todavía separado y para sí, y no el pensamiento mismo, es el ser; aquí, en cambio, el pensamiento es, como proceso puro y libre de suyo, lo general que se determina a sí mismo, sin distinguirse del pensamiento consciente.”
“Aristóteles dice que Anaxágoras fue el primero que expresó la determinación de la esencia absoluta como entendimiento.” Hegel é apenas “o” Aristóteles moderno.
“Con él vemos a la filosofía instalada en la verdadera Grecia, que hasta entonces no había tenido filosofía alguna, y, concretamente, en Atenas” Perfeito para o seu sistema de “razão da História”…
“Durante este período fijan su residencia en Atenas los artistas más prestigiosos y los más famosos filósofos y sofistas, una pléyade de luminarias de las artes y las ciencias, como Ésquilo, Sófocles, Aristófanes, Tucídides, Diógenes de Apolonia, Protágoras, Anaxágoras y otros talentos oriundos del Asia Menor. Estaba por aquel entonces al frente del estado ateniense Pericles, quien lo elevó a su máximo esplendor. Anaxágoras, aunque vivió todavía en este período de máximo florecimiento de la vida ateniense y griega, toca ya a los años de decadencia o, por mejor decir, de tránsito a la decadencia, a la muerte de la hermosa vida de Atenas.”
Mérito de Atenas para H.: ciência e belas-artes; a filosofia.
Mérito de Esparta para H.: subsumir as individualidades na idéia de Estado.
“Un pueblo en que imperaba una unidad tan recia y tan firme, en el que la voluntad del individuo había desaparecido totalmente en rigor, representaba por fuerza una cohesión insuperable; así se explica que Lacedemonia se pusiera a la cabeza de los griegos y conquistase la hegemonía de Grecia, como llegaron a alcanzarla los argivos en tiempo de Troya. Es éste, sin duda, un gran principio, sin el que no puede existir ningún verdadero Estado, pero que entre los lacedemonios no llegó a perder nunca su unilateralidad.”
“En Lacedemonia, la personalidad propia y peculiar llegó a pasar a tal punto a segundo plano, que el individuo no podía vivir, bajo ningún concepto, entregado a su libre desarrollo ni a las manifestaciones de su personalidad; allí no se reconocía la individualidad ni, por tanto, se la coordinaba o armonizaba con los fines generales del Estado. Esta abolición del derecho de la subjetividad, que a su modo proclama también La República de Platón, llegaba muy lejos entre los lacedemonios.”
“Así como la individualidad que se separa de lo general cae en la impotencia y perece, tampoco puede mantenerse en pie lo unilateralmente general, la costumbre de la individualidad.” Obviamente, para H., a Prússia era a síntese de Esparta-Atenas.
TOLO AQUELE QUE LIGA AVANÇO E FILOSOFIA AO PODER DO COMÉRCIO: “cada familia conservaba inalienablemente sus bienes hereditarios, y la prohibición de toda clase de dinero en sentido estricto y de cambios y negocios cerraba el paso a la posibilidad de las desigualdades de la riqueza”
Sua brutalidade é música para meus ouvidos.
“En una organización racional, se dan todos los momentos de la idea; si el hígado se aislase como bilis, no funcionaría por ello ni más ni menos que antes, pero, en cambio, se aislaría como un órgano hostil a la economía vital del organismo.”
VACILANTE: “Gracias a ello, pudo alumbrar, al plasmar el genio libremente sus concepciones, las grandes obras de arte de las artes plásticas y las obras inmortales de la poesía y la historia. El principio de la subjetividad no había revestido aún, por tanto, la forma en que lo particular, como tal, queda en libertad y confiado a su propio albedrío y en que también su contenido adquiere una particularidad subjetiva y propia, por lo menos a diferencia de la base general, de la moralidad general, de la religión general y de las leyes generales.”
“Pero fue Pericles quien tuvo la dicha de ser el primero dentro del Estado, en este pueblo noble, libre y culto de los atenienses; y esta circunstancia le confiere en la valoración de la individualidad un rango tan alto como pocos hombres han llegado a alcanzar. De cuanto hay de grande entre los hombres, nada más grande que el poder sobre la voluntad de los hombres que tienen una voluntad, pues la individualidad que disfruta de este poder tiene que ser necesariamente, para llegar a alcanzarlo, la más general y la más viva de todas; pocos mortales hay ya, suponiendo que haya alguno, dignos de gozar esta suerte.”
“Poco después, la individualidad se desmanda, su vitalidad se deja arrastrar al extremo, pues el Estado no se halla aún organizado como tal, independientemente y de suyo.” É a vida! Ou, antes, diria: é a polis!…
“en que el espíritu no vive en cuanto concepto, como en nuestros Estados.”
“Más importante que esto es el dato de que, más tarde, Anaxágoras, como ocurriría, andando el tiempo, a Sócrates y a muchos otros filósofos, fue acusado de despreciar a los dioses adorados por el pueblo; es el antagonismo de la prosa del entendimiento contra la concepción poético-religiosa de la vida.”
“existe también en la naturaleza, cierto es, como esencia objetiva, pero no de un modo puro y para sí, sino llevando consigo como inmediato un algo particular.”
INSTINTO X VONTADE: “Como alma, lo que se mueve a sí mismo es sólo algo inmediatamente individual, mientras que el nous, como algo simple, es lo general.”
“con el nous aparece el para qué, la determinación del fin” Um para quê órfão.
“El nous no es, por tanto, una esencia pensante exterior que organice el universo; concebirlo así, equivaldría a echar a perder por completo el pensamiento de Anaxágoras y privarlo de todo interés filosófico.” O nous é o daimondeus que está em nós.
“una llamada esencia pensante ha dejado de ser un pensamiento, para convertirse en un sujeto.”
BASTARIA, NO LUGAR, FAZER UMA METAFÍSICA DA OBRA DE ARTE: “El fin empieza siendo, en cuanto yo lo tengo, mi propia representación, la cual es para sí y cuya realización depende de mi voluntad; cuando lo pongo en práctica, debo procurar, sí no soy muy torpe, que el objeto producido sea conforme al fin y no contenga otra cosa que no sea él.”
“Descontento con que mi fin sea puramente subjetivo, mi actividad consiste en curarlo de este defecto, convirtiéndolo en un fin objetivo.”
OS SECRETOS DESÍGNIOS DO NADA: “Así, por ejemplo, en la idea de que Dios, por su sabiduría, gobierna el universo con arreglo a fines, el fin se establece para sí en una esencia representativa, sabia. Pero lo general del fin consiste en que, siendo una determinación fija para sí, que domina la existencia, el fin sea lo verdadero, el alma de una cosa. Lo bueno encuentra su contenido en el fin mismo, de tal modo que, actuando con este contenido y después de manifestarse al exterior, no brote ningún otro contenido sino el que ya existía con anterioridad.” Seu fim era procurar seu conceito de fim perfeito, a Idéia – o que não logrou H…
“El ejemplo más importante de esto nos lo ofrece la vida misma. La vida es movida por impulsos, y estos impulsos son sus fines; pero, en cuanto algo vivo simplemente, no tiene la menor noción de estos fines, los cuales son, simplemente, determinaciones primarias e inmediatas, fijas. El animal labora para satisfacer estos impulsos, es decir, para cumplir el fin; se comporta ante las cosas exteriores mecánicamente, unas veces, y otras veces químicamente. Pero la relación de su actividad no es algo puramente mecánico o químico; el producto es más bien el animal mismo, el cual sólo se produce a sí mismo como fin de sí mismo en su actividad en cuanto que destruye e invierte aquellas relaciones mecánicas o químicas.” “La propia conservación es un producir constante, en el que no nace nada nuevo, sino que sólo renace, continuamente, lo viejo; es un constante retorno de la actividad a sí misma, encaminada a su propia producción.” Marx saberia retirar de tudo isso conseqüências melhores…
“Los predicados señalados más arriba que Anaxágoras atribuye al nous son, por tanto, indudablemente, predicados que pueden enunciarse, pero que, por sí mismos, no pasan tampoco de ser simples predicados unilaterales.”
“Las homeomerías aparecen más claramente cuando las comparamos con las ideas de Leucipo, Demócrito y otros filósofos. Esta materia o lo absoluto como esencia objetiva lo encontramos ya en Leucipo y en Demócrito, lo mismo que en Empédocles, con tal claridad que los átomos simples—en Empédocles los 4 elementos, en aquellos otros dos pensadores un número infinito de ellos— sólo se concebían como distintos en cuanto a la forma, y de su síntesis, de sus combinaciones, surgían las cosas existentes.”
“Anaxágoras, por el contrario, establece como materias simples lo formado por partes iguales, por ejemplo la carne, los huesos, etc.; en cambio, las cosas como el agua y el fuego son una mezcla de estos elementos originarios.” Ar.
“El principio era, para Anaxágoras, el mismo que para los eléatas: ‘Lo igual se genera solamente de lo igual; no es posible un tránsito a lo opuesto, ni es posible tampoco la unión de los contrarios.’
Por eso, todo cambio es, para Anaxágoras, solamente una separación y una unión de lo igual, pues el cambio como verdadero cambio sería, en realidad, un devenir partiendo de la nada de sí mismo.”
“El primero admite un cambio de estos estados, el segundo solamente una aparición que sólo se da una vez.” Aristóteles (Empédocles X Anaxágoras)
“De aquí que Anaxágoras diga, según Aristóteles (De gen. anim. I, 18): ‘La carne se convierte, mediante la nutrición, en carne’. La digestión no es, desde este punto de vista, otra cosa que la absorción de lo homogéneo y la eliminación de lo heterogéneo y, por tanto, toda nutrición y todo crecimiento no son verdadera asimilación, sino solamente incremento, desde el momento en que todas las vísceras del animal extraen sus partículas de las distintas hierbas, de los distintos cuerpos, etc. de que el animal se alimenta. La muerte es, por el contrario, la eliminación de lo igual y la mezcla con lo heterogéneo. La actividad del nous, considerada como eliminación de lo homogéneo de entre el caos y como unión de lo homogéneo, así como la disolución o desintegración de este algo homogéneo, es, ciertamente, algo simple y relacionado consigo mismo, pero también algo puramente formal y carente, por tanto, de contenido.”
“La química dice: para saber lo que son real y verdaderamente la carne, la madera, la piedra, etc., es necesario descomponerlos en sus elementos simples, los cuales son los componentes últimos a que es posible reducir esos cuerpos. Además, reconoce que hay muchas cosas que sólo son relativamente simples, y así, por ejemplo, el platino está formado por 3 y hasta por 4 metales. También el agua y el aire han sido considerados durante mucho tiempo como cuerpos simples, hasta que ha venido la química a analizarlos y descomponerlos.”
“El en sí [a essência] no es, para él, ciertamente, un verdadero ser sensible; las homeomerías son lo no sensible, es decir, lo que no puede verse, oírse, etc. Es la máxima exaltación de los físicos vulgares por encima del ser sensible hasta el plano de lo no sensible, como lo meramente negativo del ser para nosotros [do ser como aparência]; pero lo positivo consiste en que la propia esencia que es sea lo general. [se a essência coincidisse com a aparência]”
“El vous no es, así, más que lo que une y lo que separa, lo diacosmizante.”
“por muy fácilmente que las homeomerías de Anaxágoras puedan mover a confusión, no cabe duda de que debe mantenerse en pie la determinación fundamental.”
“En ninguna otra parte se ha explicado con mayor detalle que el vous de Anaxágoras no pasó nunca de ser algo puramente formal que en el conocido pasaje del Fedón de Platón que tanto interés encierra en cuanto a la filosofía de Anaxágoras. En este diálogo de Platón, Sócrates indica del modo más claro y preciso qué es lo importante para ambos, en qué consiste para ellos lo absoluto y por qué el principio de Anaxágoras no podía satisfacerles.”
“Platón presenta a Sócrates en su prisión, una hora antes de su muerte, y le hace hablar prolijamente acerca de sus relaciones con Anaxágoras:
‘Oyendo leer a alguien en un libro, que dijo ser de Anaxágoras, que la inteligencia es la regla y causa de todos los seres, quedé encantado; me pareció admirable que la inteligencia fuera la causa de todo, porque pensé que si ella había dispuesto todas las cosas las habría arreglado del mejor modo. Si alguien, pues, quiere saber la causa de alguna cosa, lo que hace que nazca y perezca, debe buscar la mejor manera de que aquélla pueda ser. (…) Y me pareció que de este principio se deducía que la única cosa que el hombre debe buscar, tanto por él como por los otros, es lo mejor y más perfecto, porque en cuanto lo haya encontrado conocerá necesariamente lo que es lo peor, ya que para lo uno y lo otro no hay más que una ciencia. Reflexionando así, sentía una alegría muy grande por haber encontrado en Anaxágoras un maestro que me explicaría, según yo deseaba, la causa de cuanto es y que, después de haberme dicho, por ejemplo, si la tierra es redonda o plana, me explicaría la causa y la necesidad de que sea como es y me diría qué es aquí lo mejor y por qué lo es. Y también si creía que está en el centro del universo, y esperaba me dijera por qué es mejor que estuviera allí. Y, después de haber recibido de él todas estas aclaraciones, estaba dispuesto a no buscar jamás otra clase de causa. Me proponía también interrogarle acerca del sol, de la luna y de las demás estrellas, a fin de conocer las razones de sus revoluciones, de sus movimientos y de todo lo que les sucede, y sobre todo, para saber por qué es lo mejor que cada uno de ellos haga lo que hace. Porque no podía imaginar que, después de haber dicho que la inteligencia había dispuesto las cosas, pudiera darme otra causa de su disposición sino ésta: que aquello era lo mejor. Y me lisonjeaba de que, después de haber asignado esta causa en general y en particular a todo, me haría conocer en qué consiste lo bueno de cada cosa en particular y lo bueno de todas ellas en común. Por mucho que me hubiesen prometido, no habría dado mis esperanzas a cambio. Cogí, pues, estos libros con el mayor interés y empecé su lectura lo más pronto que me fue posible, para saber cuanto antes lo bueno y lo malo de todas las cosas; mas no tardé en perder la ilusión de tales esperanzas, porque desde que hube adelantado un poco en la lectura, vi un hombre que en nada hacía intervenir la inteligencia, que no daba razón alguna del orden de las cosas, y que, en cambio, sustituía al intelecto por el aire, el fuego, el agua y otras cosas igualmente disparatadas.’”
“chama-se, pois, fim ao que se produz a si mesmo e que já em seu devir é como um ente em si.”
“El género se enfrenta a sí mismo como lo individual y lo general; de este modo, el género se realiza en lo vivo a través del antagonismo entre los sexos, cuya esencia es, sin embargo, el género común.”
“O gênero se enfrenta a si mesmo como o individual e o geral; deste modo, o gênero se realiza no vivo através do antagonismo entre os sexos, cuja essência é, porém, o gênero comum.”
“El fin de la procreación es el levantamiento de la individualidad del ser”
“O fim da procriação é a suspensão da individualidade do ser”
“Pues toda idea es un círculo cerrado y perfecto, pero cuya perfección es, asimismo, un tránsito a otro círculo: un torbellino cuyo centro, al que retorna, se encuentra directamente en la periferia de un círculo superior que lo devora. Así y sólo así, llegamos a la determinación de un fin último del universo, como inmanente a él.”
“Pois toda idéia é um círculo fechado e perfeito, mas cuja perfeição é, ainda assim, um trânsito a outro círculo: um torvelinho cujo centro, ao que retorna, se encontra diretamente na periferia de um círculo superior que o devora. Assim, e somente assim, chegamos à determinação de um fim último do universo, como imanente a ele.”
“todo mundo sabe do geral; mas não o sabe enquanto essência.”
“é até aqui, e somente até aqui aonde chega a concepção comum de nossos dias. [o sensível indeterminado negativo, o absoluto carente de predicado ou absoluto relativo]”
“Con este descubrimiento del pensamiento ponemos fin a la sección primera de nuestra historia, y entramos en el segundo período de ella.”
“El espíritu no tiene ya por qué buscar la esencia fuera de él, sino dentro de sí mismo, pues lo que parecía algo extraño se revela ahora como pensamiento, es decir, la conciencia tiene esta esencia en sí misma.”
“O espírito não tem já por que buscar a essência fora de si, senão dentro de si mesmo, pois o que parecia algo estranho se revela agora como pensamento, quer dizer, a consciência tem esta essência em si mesma.”
“Esta evolución de lo general, en la que la esencia se pasa por entero al lado de la conciencia, la encontraremos en la tan denostada filosofía de los sofistas; podemos enfocar esto en el sentido de que es aquí donde se desarrolla la naturaleza negativa de lo general.”
“Esta evolução do geral, em que a essência passa por inteiro para o lado da consciência, encontrá-la-emos na tão criticada (e com razão) filosofia dos sofistas; podemos enfocar isto no sentido de que é aqui onde se desenvolve a natureza negativa do geral (o sensível determinado negativo, para usar a nomenclatura da citação anterior).”
“In his ‘Überwindung der Metaphysik durch logische Analyse der Sprache’ (1931), Carnap chooses, as examples of metaphysical nonsense, certain sentences from Heidegger’s Was ist Metaphysik? (Heidegger, 1969). This has not normally been taken as a serious encounter with Heidegger’s thought. I wish to argue, on the contrary, that Carnap indeed has a serious understanding and criticism of Heidegger. To this end I will show, first, that both Heidegger and Carnap are reacting against Husserl’s philosophical system, in similar ways and for similar reasons. And I will claim, furthermore, that Carnap understands this, and that he therefore criticizes Heidegger for carrying out their common project incorrectly.”
“Husserl solves certain problems in Kant’s theoretical philosophy by in effect reconstituting pre-Kantian metaphysics within the framework of Kantian epistemology. This horrified them, and for exactly the reason it would have horrified Kant: because, namely, it meant shoring up the theoretical philosophy’s demonstration of the possibility of science at the expense of the practical philosophy’s demonstration of the possibility of freedom. Each, in response, put forward a new and improved version of the original Kantian strategy: a new explanation of how science is possible which would once and for all rule out the return of traditional metaphysics, and thereby once and for all protect the possibility of ethics.”
“Metaphysics is, in a sense, simply the special science of the most prior sphere—i.e., ‘first philosophy’.” “Metaphysical knowledge, finally, because it is transcendental knowledge, is also knowledge of the possibility of science: of each special science individually, and of science in general as a unified whole.”
“Kant, as is well known, comes to this traditional system as an all-destroyer. The objects of our knowledge, he says, must be given to us in intuition. But we human beings have only sensible, not intellectual, intuition. Hence the objects of theoretical knowledge may be physical (objects of outer sense) or psychological (objects of inner sense), but they cannot be noumenal (purely intelligible).”
“Phenomenal beings, in other words, are transcendentally ideal: the form of our cognitive faculties is for them the principle and cause of being as such. Thus we can have the part of metaphysics which concerns itself with nature (with the metaphysical principles and causes—Anfangsgründe— of natural science). But this metaphysics is based, ultimately, on showing the possibility of an objective consciousness (of an object for us), rather than the possibility of an object per se (an sich), and it therefore is not based on and does not form a part of a more general discipline which could claim the proud name of an ontology—a discipline which would know the first principles and causes of all beings in general.”
“human freedom (…) is at least thinkable without contradiction.”
“We can take Kant’s procedure as paradigmatic of what it means to ‘overcome’ metaphysics.”
“Kant’s successors, however, mostly agreed that his solution leaves something to be desired, in two respects. First, the idea of an in-principle unknowable realm of Dinge an sich seemed to them absurd. Second, metaphysics of nature is allegedly possible for us because it is concerned merely with the form of our own cognitive faculties. But what are these ‘faculties’, and why doesn’t our knowledge of them itself require justification?
Husserl is one of many philosophers who face this post-Kantian problem situation. Like many of them, he tries to solve both the above problems at once by in some way identifying our knowledge about our own faculties with our understanding of the way appearances depend on Dinge an sich. His strategy is distinctive, however, in that he literally restores a sphere of necessary, supersensible being as the subject matter of first philosophy.” “It follows that the principles and causes of all beings as such are the states of pure consciousness (Erlebnisse) in which such intentional interpretations take place. Phenomenology, the science of essence in the region of pure consciousness, is therefore the one science by which all special sciences are unified and by which their possibility is absolutely demonstrated, i.e. by which they are ‘absolutely grounded’.”
“Husserl, 1956 (Erste Philosophie) is based on the manuscript of Husserl’s lectures in Freiburg during the Winter semester of 1923/24 (see the editor’s introduction, p. xii). It was published only posthumously, but it is very likely that Carnap was exposed to some of it, since he was living near Freiburg at the time and attended Husserl’s advanced seminars on phenomenology there during 1924 and 1925 (Schuhmann, 1977, 281). Heidegger at this time was already in Marburg, but was still in close contact with Husserl and presumably also familiar with his ongoing projects.”
“As Kant himself would have predicted, however, this solution to the problems in his theoretical philosophy plays havoc with the basis of the practical philosophy. Husserl does allow for an objective science of ethics: just as mere things (bloße Sachen) gain objective existence by being rationally posited on the basis of an interpretation of sense data, so too can things be objectively valuable, or actions objectively desirable, insofar as they are rationally so posited on the basis of emotional and volitional data (§85, p. 173; §117, p. 244). By this very analogy, however, it is clear that ethics so understood is just another special science, albeit of spirit (Geist), rather than of nature. By means of this science I can understand human beings (including my own self when I regard myself as a human being) as subject to duties which possibly go against their inclinations. But human beings are not thereby free in the strict Kantian sense of being autonomous.”
NÃO DIFERE MUITO DE FICHTE: “the pure ego occupies the place reserved for God in traditional metaphysics, its freedom is divine, rather than human; its motives (if any) cannot be on a par with human inclinations or ethical principles.”
“Husserl’s system, in other words, saves the theoretical philosophy (and thus heads off the threat of theoretical skepticism) only by giving up on what Kant thought of as its primary purpose: namely, to show that the possibility of science does not contradict the possibility of freedom. From a Kantian point of view, then, the emergence of Husserl’s system is a sign that metaphysics must still be overcome.”
“what constitutes a responsible and therefore clear and significant use of language?” “Their obscurity, in other words, is largely essential to their positions.”
“At this point we may feel a tendency to giggle. The transition either from ‘Nothing grounds and unifies the sciences’ or from ‘Science studies beings, and beyond that nothing’ to ‘How stands it with this nothing?’ sounds suspiciously like a joke. It sounds, in fact, like a particular kind of joke—a pun, or a related type of wordplay.”
“Heidegger’s method, even if it succeeds, doesn’t lead to a relaxed sense of being once again at home with our own language, but rather produces (as, in a way, does a pun) a sense of our alienation from it (of our distance from its true meaning).”
“What threatens, in Angst, to sink into insignificance, is not any particular being or region of beings, but all beings as a whole. And it is this general threat of insignificance which makes science possible: without it, there could not be the ‘beyond that, nothing’ of the theoretical attitude, by which a being is encountered merely as itself, rather than as valuable or significant for us”
“Whereas for Kant, in other words, the limitation of metaphysics was at the same time a limitation of science, for Heidegger, metaphysics is limited, but science is not. Science will answer every question we have about beings. It follows that we were wrong to think of metaphysics as a kind of science or theoretical discipline which is ‘about’ nothing in the sense of having nothing as its subject matter. Since the nothing is not a being, metaphysics, which is about nothing, is not a science.”
“In Sein und Zeit, Heidegger seems so clearly, and at such length, to treat of practical issues, that that book has often been mistaken for a moralizing book of (‘existentialist’) ethics. Here in Was ist Metaphysik? he is much briefer, but the nature and standpoint of the ethical concern is clearer. The overcoming of metaphysics is necessary to establish the very possibility of freedom, thus of morality, for a being like us”
“Sichhineinhalten is a (very unusual) verb which means literally ‘to hold oneself out into’.”
(com-)portar-se (dentro do = no) exterior
alienar-se é ser
“That metaphysics is about nothing means: that the possibility and unity of science is demonstrated only in Dasein’s encounter with its own un-faculty [inessencialidade], with its own possible inability to take up a Haltung [o ser-aí não pode jogar-se para for a de si] (in which, as Heidegger puts it, it finds that it sich an nichts halten kann): that is, with its own possible insignificance to itself. But to know oneself as possibly insignificant to oneself is at the same time to know oneself as ultimately responsible for one’s own significance. Knowing ourselves as finite, as beings among beings, we also know ourselves as having a finite interest, in pursuit of which we have already spoken carelessly (have taken no responsibility for our word).” “What metaphysics offers is not a theory, but a demand, and the demand itself is the demonstration of our freedom” “our own language, our own self-legislation as rational (i.e., speaking) beings; to abide by ourselves out into the nothing; to comply with our own finite nature.”
I’m o(w)n my (o)w(n).
I am an owl.
I, a man, oh!
Se Nietzsche é metafísico, Husserl parece um escritor de fábulas (o estereótipo do filósofo sistemático elevado à última potência).
“Is our knowledge of space analytic, synthetic a priori, or empirical? Carnap answers, in effect: it depends on what you mean by ‘space’.”
“Our knowledge of ‘formal space’, Carnap says, is analytic, i.e. derives from ‘formal ontology in Husserl’s sense’, but our knowledge of the ‘intuitive space’ in which sensible objects are necessarily found is synthetic a priori, i.e. material-essential (and here again he mentions Husserl explicitly)”
“Carnap’s initial realm of the ‘autopsychological’ clearly corresponds (as he explicitly points out, 1974, §64, p. 86) to Husserl’s region of pure consciousness” Então pra que se dar ao trabalho? ‘O conceito não é meu, mas estou dando um novo nome…’ Tsc.
the objectification of thi(n)g(h)s
“Theoretically speaking, although every level of the constitutional system defines a new type of object (in Russell’s sense), these types are equivalent to Husserl’s formal (syntactic) categories” Russell é o homônimo mais idiota de todos os tempos – ou o idiota mais homônimo de todos os tempos (e ESPAÇOS)?
“Logic is therefore a dangerous ally for Carnap, as it is for Heidegger. Unless he is careful, an appeal to logic may end up being an appeal to Husserlian phenomenology, after all—or rather: constitution theory, which is supposed to use logic to demonstrate the unity of the sciences, may itself end up being (a branch of) phenomenology.”
“Logical analysis, according to him, can only be a project of translating one language into another one: into a logically correct language, which, though stricter, is not deeper (or more ‘primordial’: cf. Der Raum, 65). Thus logical analysis can purify our language of (practical) error, but it can never reveal more about its structure than does ordinary (‘surface’) grammar. This will be important to keep in mind in what follows (and may also help throw light on the differences between Carnap and Wittgenstein).”
“Dörpfeld [avô de Carnap], a follower of Herbart (i.e., a certain kind of quasi-Kantian), claimed that both orthodox and liberal theology had made the same mistake, thanks to lingering Scholasticism and ‘Spinozan-Schellingian-Hegelian metaphysics’: the mistake of subordinating ethics to dogmatics (see his 1895).” Uau. Finalmente algo de valia.
“Carnap’s statement that ‘the future belongs to our attitude’, similarly, is ‘outside the borders of theory’: it is no theoretical prediction, but a choice of fundamental deportment, or, to say it carefully, a statement of Kantian rational faith. Even more carefully: of Nietzschean rational faith. For the point is that we, we scientific philosophers, are philosophers of the future. That Nietzsche’s ambiguous talk about ‘philosophers of the future’ is aimed at securing our (untimely) autonomy in the present is most explicit in its earliest form (see Nietzsche, 1981, 226–7), but it is clear enough in later versions, as well. (The general idea is: we give ourselves a law by assigning to ourselves the task of producing our own masters.)”
“Whatever else one may say about Quine’s understanding, or lack thereof, of Carnap, he seems to have understood very well what was, for Carnap, the most important point: that language is both an ordinary empirical object and the object of autonomous choice.”
“Language is indeed flexible; linguistic innovation is indeed possible. If we knew nothing about Heidegger’s linguistic methods, it would certainly be hard to rule out that that is what he intends here, and if we supposed that Carnap knows nothing about those methods, then it would be hard to defend him against the charge that he is reading Heidegger ‘uncharitably’. In reality, however, nothing could be more uncharitable than to defend Heidegger’s use of ‘nothing’ here as a linguistic innovation.[Ora, o nada só pode significar nada neste contexto, não existe sinônimo ou substituto.] As we have seen, Heidegger’s method rests precisely on showing us what our language already says. So, whatever role there might be for linguistic innovation in philosophy generally, Carnap and Heidegger are (rightly or wrongly) in agreement that it does not crop up here.”
“[Heidegger] implicit point is that Husserl goes astray by using the term [phenomenology] without accountability to those original Greek meanings—i.e., by using it in a linguistically innovative manner; by taking advantage of the fact that language, in the mouth of das Man, so easily accommodates new terms and definitions.”
“like it or not, Heidegger has in fact placed a limit on the reach of science: he has himself ‘come to the determination that his questions and answers are not unitable with the mode of thinking of science’ (Carnap, 1931, 232). And it is due to that mistake that he remains, as Carnap says, merely one of ‘the numerous metaphysicians of the present or the past’ (229 n. 1)—rather, that is, than becoming, as he might have, a rare philosopher of the future.”
“First, it is a criticism to which, as I understand it, Heidegger seriously and repeatedly responded. Second, it is a criticism which finds echoes in later members of Heidegger’s own, Continental, philosophical tradition (e.g. in Levinas). This, I think, is enough to establish what I set out to here: not an attack on or defense of either Carnap or Heidegger, but simply a case for taking the one as a serious reader of the other.”
Edição do texto grego, tradução e comentários por Fernando Santoro (UFRJ)
Projeto OUSIA
2009
PREFÁCIO
“Parm. (Pm.) inaugura a Filosofia como Ontologia. Por isso, é o filósofo que lança, em palavras e pensamentos, as bases que sempre voltarão a servir de questionamento ao longo de toda a metafísica ocidental.”
“Platão (Pt.) vai dedicar ao Poema 2 dos seus mais importantes diálogos, o Sofista e Parmênides (…) ainda vai citá-lo em outros 2, o Banquete e o Teeteto. Aristóteles (A.), por sua vez, dedica à discussão com o Eleata o 1º livro de sua Física, para ter condições de falar da Natureza como princípio de movimento; também discutirá suas palavras na demonstração de teses metafísicas como o princípio de não-contradição, entre outros.”
“Mais de 30 autores antigos citaram Pm. em mais de 40 diferentes obras. Os fragmentos mais extensos são os mais recentes, sobretudo os de Sexto Empírico, em sua obra contra o dogmatismo (Adversus Mathematicos) (…) Simplício explica que, devido à raridade da obra em seu tempo, precisaria citá-la de forma mais extensa, para que seu comentário fosse compreendido.”
“Data de 1526 a 1ª publicação do Poema Da Natureza. Supostamente, foi retraduzida a partir da versão latina de Guilherme de Moerbecke (séc. XIII). A 1ª ed. com preocupações filológicas data de 1573, empreendida por Henri Estienne, buscando recolher a obra dos primeiros filósofos: Poesis Philosophica (…) A reconstituição do Poema é continuada por Joseph J. Scaliger (…) seu texto foi encontrado por Néstor Cordero em 1980, na Biblioteca da Univ. de Leyde. (…) Somente em 1835, temos a 1ª reconstituição com os 19 fragmentos considerados autênticos, feita por S. Karsten. (…) A obra de Karsten foi o ponto de partida para as versões publicadas por Hermann Diels, desde 1897 até a última ed. dos Fragmente der Vorsokratiker, em 1951, sob Kranz (DK.) (…) Esta é a versão considerada <ortodoxa> por todos os estudiosos e editores do Poema, desde o séc. XX. (…) Coxon (1986) também teria reconstituído o texto grego a partir da consulta de diversos manuscritos, mas seu cuidado filológico é bastante contestado.” “O texto original é um objeto, para nós, tão perdido quanto o paraíso de Adão.” “Um texto como o de Pm. já não pode aspirar a uma identidade única” “Qual é o texto verdadeiro desse pensamento originário sobre a Verdade? Parece uma armadilha armada propositadamente pela História da Filosofia”
“Quem é esta Deusa? Heidegger propõe que seja a própria Verdade”
B11 (1-4):
“…como Terra e Sol e ainda Lua
e também Éter agregador e Láctea celeste e Olimpo
extremo e ainda força quente dos astros impeliram-se
para vir a ser.”
B12 (1-6):
“Umas são mais estreitas, repletas de fogo sem mistura,
outras, face àquelas, de noite; ao lado jorra um lote de flama;
no meio destas <há> uma divindade, que tudo dirige:
pois de tudo governa o terrível parto e a cópula,
enviando a fêmea para unir-se ao macho e de volta
o macho à fêmea.”
B13:
“De todos os deuses que concebeu, Amor foi o primeiro.”
B14:
“Brilho noturno de luz alheia vagando entorno à Terra.(*)
(*) Plutarco diz que Pm. designa a natureza da Lua. Dos mais belos versos gregos, Mourelatos faz uma análise de suas anfibologias. A palavra <phôs>, <luz>, tem um homônimo que significa <homem>; conforme este homônimo, existe a fórmula homérica <allótrios phós>, que significa <um estranho>.”
B18 (frag. 4-6):
“…, se as potências lutam na mistura seminal,
então não fazem uma unidade no corpo misturado e, furiosas,
“A. chamou os que 1º se espantaram com o mundo de theológoi, <os que falam de deuses>, em seguida, oriundos do mesmo espanto, o filósofo apresentou os physiológoi, <os que falam da natureza>.”
“Quem sabe não foi justamente para reforçar suas interpretações alegóricas sobre a poesia que fala dos deuses que os gramáticos alexandrinos inventaram essa distinção entre minúsculas e MAIÚSCULAS.”
“Pelo tratamento próximo, pela descrição antropomórfica, pela retratação dos crimes humanos nos deuses é que os filósofos vão querer expulsar dos concursos e das cidades, a bastonadas, estes Homeros, e também Arquílocos e outros quantos. Mas o povo, ainda por muito tempo, iria tomar as dores dos poetas, mandando ao exílio e condenado (sic) à cicuta aqueles novos porta-vozes da verdade.” “O Sócrates d’As Nuvens é a síntese cômica desses novos homens altivos e irreverentes à tradição. O prenúncio do livre-pensador laico da modernidade.” “Aristófanes percebe o declínio do Sol, a passagem de uma era em que os deuses dominavam o quotidiano dos homens e assumiam a imagem das forças constituidoras do real, para uma era em que o homem começa a erigir o discurso conceitual para falar também das forças do real como natureza autônoma.
No Poema de Pm., estamos num desses lugares textuais, em que ganha clareza a transição da teogonia mítica para a ontologia filosófica; a transição da celebração dos deuses em suas gestas para os conceitos em sua determinação.”
“terão esses nomes o estatuto de conceitos abstratos ou lhes daremos as maiúsculas iniciais, com que caracterizamos hoje a condição personificada de deuses? Optamos, na tradução, pelas maiúsculas, mesmo anacrônicas, para realçar estes nomes” “Nem sempre, porém, usamos as traduções ortodoxas, como em nossa tradução de moîra por Partida em vez de Destino, porque sempre buscamos um nome que expressasse um sentido integrado a uma interpretação total do Poema – princípio 1º da arte hermenêutica.”
“A proximidade entre ser e dever ser, na expressão da indicação do caminho da verdade, é um traço decisivo do Poema. (…) Thémis, Norma, é a expressão de uma ordem primordial, de uma lei fundada na postulação divina. Não se trata de uma lei convencionada pelos homens, mas uma prescrição transcendente do que deve ser e do que é conforme à ordem dos deuses. (…) Sem dúvida, ainda é a tragédia Antígona de Sófocles a melhor exposição da diferença entre a lei divina dos laços de sangue e a lei proclamada pela palavra do governante. (…) Se fôra abrir mão de valores estéticos para uma tradução puramente conceitual, em vez de Norma, diria Imposição. Os homens podem agir conforme ou não a esta imposição primordial, isto lhes confere boa ou má partida no desempenho da vida.”
“Providência [Oh, Robin Crusoe!] e Envio também são nomes aproximados para a Moîra.” “É preciso compreender que a Moîra não é essencialmente a determinação incontornável de um desfecho, como se todo o traçado de uma vida já estivesse predestinado em seu desígnio. Não, nenhuma Moîra é a consumação prévia do que está por vir. A Moîra é incontornável sim, e nem os deuses podem fugir aos seus limites, mas estes limites definem um campo do possível do qual não se pode escapar (…) Os limites da Moîra são os limites essenciais do ente”
DESTINO-PARTIDA:
Você já chegou, mas não partiu.
Enquanto isso, joga e se joga.
“A Moîra tem como representação a experiência concreta do lote de terra próprio, a parte que cabe a cada um neste mundo. Depois que Zeus e os deuses olímpicos vencem a guerra contra os Titãs, vem a hora da partilha.”
“O nome ‘Moîra’ significa a ‘parte’ móros, que fazemos ressoar no nome ‘Partida’. A partida é, de um lado, a parte separada de cada um, seu lote; por outro lado, é o momento da separação: o parto, a individuação – neste sentido, é também o envio à vigência e à vida, o início. (…) E, de certo modo, é o momento da despedida, em que é superada cada etapa da uma viagem (sic).”
“Depois do discurso da Deusa acerca da Verdade, as descrições tendem claramente a um discurso sobre a natureza, não há sagas nem gestas como na Teogonia de Hesíodo” “Conhecerás a natureza do Éter e também todos os sinais que há no Éter” “Nestes poucos e curtos fragmentos temos o testemunho de uma visão astronômica resplendente e flamejante do Éter, do Olimpo, do Céu, da Via Láctea, do Sol, da Lua, da Terra.”
Nietzsche – Da Retórica (tradução de T.C. Cunha) – obra misteriosa?!
VARIAÇÕES DO VERBO EIMÍ
“Talvez, uma das principais contribuições dos gregos na fundação do conhecimento como filosofia tenha sido a elaboração de um questionamento universal por meio da tematização de um único verbo em algumas modalidades específicas de conjugação. Todos sabemos que este verbo fundamental é o verbo eimí, que traduzimos usualmente pelo verbo ser em conjugações que gostaríamos que fossem mais ou menos equivalentes. Assim, temos a questão central da chamada <Filosofia Primeira> nomeada, desde o séc XVII, a partir deste verbo: é a Ontologia, ao pé da letra: o desdobramento compreensivo – a palavra – do ente, ‘ente’ que é, gramaticalmente, o particípio presente do verbo ser e, filosoficamente: a visada mais universalizante sobre a realidade. Visada determinada justamente pelo sentido que se dá a este verbo ser e ao seu particípio ente.
Acontece que o verbo grego eimí e seus sucessores nas línguas ocidentais, justamente por serem o lugar desta visada universalizante, carregam em suas costas séculos de metafísica a torná-los cada vez mais abstratos e mais vazios semanticamente, a ponto de toda sua significação vir a restringir-se a uma mera função copulativa entre sujeito e predicado. O verbo grego, contudo, tem uma gama de articulações modais, espectuais (sic) e relacionais de uma variedade e riqueza tais que não podem deixar de ser significativas, gama que ultrapassa o alcance da quase totalidade de suas traduções em línguas modernas. A ontologia grega, desenvolvida como questionamento fundamental da realidade e sua relação com o pensamento e a linguagem, soube explorar diversas dessas riquezas significativas e realçá-las de modo extraordinário (…)
Um dos mais ricos estudos sobre as variações do verbo ‘ser’ em grego (o verbo eimí) foi empreendido por Charles Kahn e publicado em 1973, The verb ‘Be’ in Ancient Greek [O verbo grego ‘ser’ e o conceito de ser], uma análise meticulosa dos vários usos do verbo eimí em Homero. Os estudos de Kahn sobre o verbo ‘ser’ incluem ainda numerosos artigos, vários deles traduzidos para o português e editados nos Cadernos de Tradução da PUC-RJ, em 1997, entre os quais ‘Ser em Parmênides e Platão’, originalmente publicado em 1988. Kahn explorou de modo sistemático a variedade das funções sintáticas do verbo eimí e elaborou uma classificação funcional dos seus usos extremamente útil para toda abordagem do problema do <ser> que se apóie em observações e considerações lingüísticas. Ainda que cheguemos a conclusões radicalmente diferentes e até mesmo opostas no que diz respeito ao sentido essencial e às interpretações genealógicas, as suas categorias aspectuais e modais nos serão indispensáveis.”
particípio ón(estado/ente)
“à força de uma língua não exprimir um problema, esse fica velado ou parece irrisório ou mesmo falso.”
Está provado que o verbo sein é mais filosófico!
“É no mínimo curioso que Pm., o filósofo da unidade do Ser, 2º todos os manuais de História da Filosofia, seja o autor de um texto exemplar para mostrar as variações no aspecto sintático da linguagem que gestam, no séc. V a.C., o padrão ocidental de conhecimento. Não obstante, encontrarmos no seu Poema, pelo menos 4 modos distintos do verbo eimí. Espantosamente, não estão esses modos dispersos no texto, mas em situações bem demarcáveis, como em etapas de uma especial transformação. Será possível encontrar uma unidade que suporte a transformação dessas diferenças? É precisamente esse problema que gostaríamos de investigar neste estudo introdutório sobre a diversidade sintática de eimí no P. de Pm..”
“O acompanhamento da passagem pelos diversos momentos dá-nos a impressão ilusória de que é o próprio verbo que está sofrendo transformações, mas o sistema verbal de eimí ‘ser’ ao tempo de Pm. já é um conjunto sincrônico em suas possibilidades. Contudo, há um sentido em que é mais apropriado pensar numa transformação diacrônica.”
“Quando Júlio César quis condensar sua rápida vitória sobre Farnaces, no Bósforo, usou 3 verbos dissilábicos no pretérito perfeito, coordenados assindeticamente apenas pela posição sucessiva e por vírgulas: <Veni, vidi, vici.> (há, também, uma sub-articulação tônica <ve-vi-vi>, da vogal fechada <e> até a mais fechada <i>, (sic) isto confere uma forma – literalmente – mais pungente à frase, mais dinâmica, como um dardo sonoro). São 3 ações sucessivas que resumem a campanha do general: vim – empreendi, vi – analisei, venci – derrotei. Não faz, sentido usar o verbo ser – não estão sendo articulados atributos de um sujeito. Se J.C. atribuísse os predicados a si e não a suas ações, a frase ficaria assim: <Imperator sui, et videns et victor>, <sou um empreendedor, um homem de visão, um vencedor>. Seria um vaidoso, não um chefe militar. Teria escrito um auto-retrato e não uma narrativa épica como o De Bello Gallico. A narrativa de ações prescinde muito facilmente do verbo ‘ser’, ao passo que explora toda a gama dos verbos transitivos e de significado dinâmico.”
“Somente a descrição do portal introduz uma imagem mais estática.”
(1) “Articulado com o advérbio de lugar aí, lá, o verbo ‘ser’ marca que em tal lugar estão situadas, estão presentes e permanecem firmes as portas dos cursos da Noite e do Dia. Kahn denomina essa classe de usos de valor <locativo-existencial>. Este sentido 1º do verbo ser, sentido de existência e presença, aparece em várias línguas ocidentais associado a um advérbio de lugar: esser-ci, da-sein, y-être. ´como se <existir> fosse originalmente percebido como <ter lugar no mundo>.”
(2) “Enquanto a narrativa tende a ser mimética, o discurso pretende ser efetivo, prático.”
“Lingüisticamente, a diferença entre narrativa e discurso aparece sobretudo nos modos verbais e nas pessoas envolvidas na ação verbal. O modo por excelência da narrativa é o indicativo, que retrata o acontecimento. A terceira pessoa – que pode ser todo o mundo fora da relação emissor-receptor – é a que mais aparece.
No Proêmio, são usados o presente e o aoristo do indicativo – os tempos por excelência da narrativa. A pessoa verbal mais usada é a terceira – isto, apesar de a personagem que mais aparece ser o próprio narrador! O narrador, em vez de aparecer como sujeito dos verbos, aparece quase sempre como objeto direto ou, no máximo, como um sujeito de um verbo na voz passiva (vs. 4).”
“No discurso, por outro lado, aparecem os demais modos verbais: optativo, subjuntivo, imperativo etc. (…) As principais pessoas usadas são a primeira (eu – nós), para desejos, pedidos, preces; e a segunda (tu – vós), para orientações, persuasões, comandos”
“A verdade, como a fala da Deusa, justamente por abrir-se de forma discursiva, revela um tom prescritivo, prático e ético. Não é à toa que os caminhos que levam até a entrega da lição verdadeira são promovidos por Thémis (Norma, Lei divina) e Díke (Justiça)”
“Este infinitivo usado para completar expressões modais é chamado por Chantraine de infinitivo <completivo>; nessas expressões, os verbos que o precedem são auxiliares modais de necessidade, possibilidade e outras modulações do real e das intenções sobre o real.”
“presença dos pronomes pessoais sujeitos, fato que, no grego, só acontece para marcar uma ênfase na presença, na diferença e na relação interpessoal:
(…)
Pois bem, agora vou eu falar, e tu, presta atenção ouvindo a palavra.”
“Poderíamos antever até mesmo os primeiros passos para chegar à estrutura discursiva dos Diálogos de Pl., onde o conhecimento é tratado na interlocução viva das personagens, se não fosse aqui somente a Deusa quem fala e o homem quem apenas escuta.”
“para o viajante iluminado, a transposição da ação primeira de narrador para a seguinte de ouvinte já insinua a atitude de <philía amorosa> do filósofo ante a verdade e o conhecimento, do filósofo como amante atento e obediante ao saber”
“São a pensar”
(3) “fórmula exortativa equivalente a <é preciso que…>” “Os caminhos não <existem> simplesmente e estão <disponíveis>, mas <devem> ser pensados!”
“Há um deslocamento do peso semântico para a força sintática, esta se torna mais concreta enquanto aquele tende a se abstrair.”
“Estamos no campo de um discurso que não tem uma sintaxe normativa a obedecer, que está a falar de coisas novas, de um modo que também acaba por ser inaudito”
“Wrublewski:
<…necessariamente não ser é.>
Bornheim:
<…o não-ser é necessário> [neSERsário]
Cavalcante de Souza:
<…e portanto…é preciso não ser.>
Mourão:
<…ser proibido>
Trindade Santos:
<…não é para não ser
…tem de não ser>”
“A tradução de Wrublewski como também a de Bornheim conferem às sentenças aquela frieza tautológica de que fala Nie. em seu comentário sobre o caráter de Pm..”
“Mourão (…) é paráfrase (…) Cavalcante de Souza introduz um sentido de inferência lógica (…) A tradução de Trindade Santos é a única que atenta para o tom exortativo da deusa.”
“onde está o verbo enunciativo? A maioria das traduções tende a acrescentar este verbo nos versos em que ele não existe”
“Estamos, de fato, diante de um momento decisivo para a instauração da ontologia, em que as formas do verbo eimí estão se mostrando em uma intensidade de possibilidades realmente ímpar.”
“pois o mesmo é pensar e ser”
“O mesmo é a pensar e portanto ser”
“denn dasselbe ist Denken und Sein”
O mesmo está-aí para ser pensado
“O infinitivo grego, por não declinar, deixa bastante aberto o campo de possibilidades”
“a sintaxe do Poema é sempre originariamenteprovedora de espanto e perplexidade”
“o que queremos observar é como o contexto discursivo vai deslocando o sentido primeiro existencial do verbo eimí ‘ser’, passando por sua forma auxiliar na construção modal, até possibilitar a estrutura da proposição categorial, como aquela que se tornará a forma do dizer verdadeiro” “toda análise frmal da sintaxe de uma fala é sempre tardia e dependente dos desempenhos efetivos da linguagem.”
“O sujeito da frase torna-se um objeto, a ação verbal desaparece numa função de cópula, o predicado torna-se simplesmente um atributo. E assim chegamos à objetividade inerte da proposição <S é P>.” “A forma semelhante entre o <é> exortativo e o <é> categorial trai uma relação íntima entre os 2 – relação, provavelmente, de parentesco em 1º grau.”
“A identidade entre ser e pensar não é um dado simples, mas o valor, o peso e até o critério do caminho verdadeiro.” “hoje estamos, cartesianamente, imersos na dúvida e preocupados em justificar o conhecimento e a verdade, enquanto para os primeiros filósofos muito mais estranho e preocupante não era o conhecimento do real e verdadeiro, mas a possibilidade indevida de dizer o não ser e o falso. Como algum dizer do ente pode dizer o não ente? Toda a tradição ático-eleata, de Pm. até seus sucessores mais <traidores>, como Górgias, Pl. e A. vão debruçar-se sobre este problema.”
“As coisas que, embora <ausentes>, estão, <no entanto, presentes firmemente em pensamento> não estão em certo aí, quando se afastam do ser; mas não estar aí simplesmente é, no entanto, revelado como um já sempre estar aí”
“Isto que nós chamamos de predicados ou categorias, a Deusa do Poema chama de <sinais>”
“O caminho da Verdade mostra o real.” < < < MENTIRA! A verdade é uma coquette…
“A. é bastante coerente ao designar as múltiplas formas de dizer o ente com o termo ‘categoria’ kategoría. O que é uma categoria no uso coloquial da língua grega no tempo de Pm.? É uma acusação. A palavra ‘categoria’ é a realização, no grego coloquial clássico do séc. V, da ação de acusar: kategoreîn, feita por um promotor acusador: ho kategorós.”
“Outro texto não por acaso igualmente exemplar é o diálogo Parmênides, entre outros de Pl.. Aliás, os diálogos de Pl. são um campo fertilíssimo para colher as mais diversas formas de linguagem tratadas com o maior refinamento. É por esta sua riqueza, ainda que para depreciá-la, que Nie. o chamou de filósofo de <caráter misto>. Dir-se-ia que Pl. quis competir, sempre à altura, com todos os demais gregos, em todas as possibilidades da palavra, em todos os seus gêneros – evidentemente, com sucesso.”
“Este uso presencial ou existencial, associado a um advérbio de lugar, não traz apenas o verbo eimí (ser), mas também o verbo ékho (ter), e seus correlatos em outras línguas. Daí expressões como <y avoir> no francês ou <i há> [!] no português arcaico. ‘Ser’ e ‘ter’, neste uso, são, de modo equivalente, verbos de estado. Cf. Benveniste, É., Problèmes de linguistique générale, 1966.”
“<der eine Weg, dass IST ist und dass Nichtsein nicht ist, […], der andere aber, dass NICHT IST ist und dass Nichtsein erforderlich ist> 28, B, 2 (DK)”
“[…] la première – comment il est et qu’il n’est pas possible qu’il ne soit pas […] La seconde, à savoir qu’il n’est pas et que le non-être est nécessaire […]” Beaufret, 1996