[REPRISE] NÃO ERA PRA CASAR

Originalmente postado em 29 de agosto de 2009

“Perder-se”: outra grande temática de reflexão, além d’“o retorno”! Excitação, adrenalina… Aventura: Valparaíso, Ingá, rodoviárias e ônibus. Longa noite: paradeiro inaudito. A vida como RPG. Ditadura do relógio em segundo plano. Caminho de leituras e afazeres até uma monografia: não outra que não um labirinto! Minhocão, subsolo, reentrâncias, números e siglas… Sagas em miniatura. Agora vejo essa tendência em tudo: na ebriedade, na Música, no futebol… Todo Link tem seu confortável domicílio perto de uma Sagrada Deku Tree, mas qual seria a graça se não explorasse? A vida sempre foi um JOGO! Com desespero e feridas reais, fica mais difícil de empunhar a espada sem pensar três vezes no que irá acontecer a seguir. Sair com febre: Guará e seus conjuntos, a casa do B. e a volta para casa – alguma dúvida do que é que eu queria? Com certeza não era dançar funk, beber cerveja ou transar com a irmã da R.! O fio de Ariadne não seria, aliás, o mouse? Redes de amigos, comunhões e desventuras – o risco de se danar, olhar para trás e não poder voltar… Autoconservação COINCIDE com automutilação.

Cadê seus instintos? Mulher, a víbora (no bom sentido): quase me faz pisar na Igreja. Por que me apaixonei por você e não por outra? Porque o pré-requisito fundamental mais importante até agora não escrevi: PERDER-SE COMIGO NO LAR DO MINOTAURO! Você foi minha Salomé, “não era pra casar”!

Estou na minha idade épica… Depois serei um daqueles velhos muito consultados? Frio na barriga, o maior dos imperativos por enquanto! Brasília de repente está em silêncio, silêncio que cheira a INTERROGAÇÃO. O que eu quero para o meu Messias? Por que tempestade dissipa?

Para suprimir o pornô… O pornô é terrível por causa da ânsia que provoca. Daí se vê que é bem uma coisa do estômago. Não tem coisa mais sem-graça que a mulher rendida, despida, em quem (na qual, objetal!) somente se enfia! Sempre achei o semi-nu, o decote, a fuga e a intriga mais espetaculares. Aquele momento intermediário no qual somos mais felizes. Omissão feminina. Desbravamento masculino – 1ª VEZ: E. se recusa a ir embora na noite escura, mas não se convida explicitamente a ficar, espera meus movimentos, logo vai me dar, sem me dar nada!…

RPG, leia-se: transportar as neuras convulsivas cerebrais para o plano da ação. Não é que os sistemas caprichem nos cenários e na física e esqueçam da psique das personagens. É que o ocidental travado tem o cérebro inchado e é enfermo do pé! Renasça, ó beleza automática! Hiei, meu alter ego lutador! Depois que se cumpriu uma missão colossal, uma tarefa muito laboriosa, o que resta? Ora, nada nunca foi de ninguém. O amor a um ser humano, uma jóia, uma pedra preciosa, a estima popular, tudo é passageiro. Mas é suficiente o seguinte: gana de algo mais, uma curiosidade que persiste… Gastar até o último cêntimo da sua centelha…

QUIMERA – Suriman Carreira (ed. Clube de Autores) – recenseado.

INSPIRADOS X APÓCRIFOS: “Nos primórdios do cristianismo eram 315 evangelhos, mas a Igreja admitiu apenas 4 (os já conhecidos, que formam o Novo Testamento). Isto ocorreu no concílio de Nicéia, aos 325 d.C., 1º concílio ecumênico da Igreja, convocado pelo imperador Constantino. Trezentos bispos, homens comuns, mas sedentos de poder, reuniram-se como se fossem detentores da verdade e decidiram que apenas os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João eram verdadeiros.”

A princípio, os hebreus respaldaram-se apenas na mitologia sumeriana (…) posteriormente sincretizaram [sua mitologia] com o zoroastrismo persa, absorvendo principalmente o dualismo e a escatologia zoroástrica, durante o cativeiro da Babilônia. Ao se fazer um estudo comparativo, constata-se a intensa influência das mitologias mesopotâmicas e do zoroastrismo nas escrituras hebraicas e, por conseguinte, na Bíblia”

As passagens bíblicas existentes no Gênesis, inerentes à criação do mundo, refletem claramente a intensa influência do épico da criação Enuma Elish. (…) Enuma Elish é o mito babilônio da Criação, descoberto por Austen Henry Layard, em 1849 (de forma fragmentada em tábuas de argila), nas ruínas da biblioteca de Assurbanipal, em Nínive (Mossul, Iraque), e publicado por George Smith, em 1876.”

O livro mais antigo da Bíblia é o de Jó, datando entre 500 a 400 a.C.”

não há lógica em Deus referir-se a Ele mesmo no plural para dizer que criará o homem à Sua imagem e semelhança.”

Edom significa vermelho, segundo nome de Esaú, irmão gêmeo de Jacó, considerado o pai dos edomitas; a terra dos edomitas”

O ARQUÉTIPO DAS BRUXAS

Lilith laylah, layl (noite, hebraico); lil (vento/ar) + lulti (lascívia, sumério); lulu (libertinagem, sumério)

A exclusão de Lilith do texto bíblico ocorreu de maneira gradual, e bem anteriormente à tradução da versão Vulgata (…) feita por São Jerônimo, em latim, usada pela I. Católica durante muitos séculos e fonte de diversas traduções das quais derivam as Bíblias atuais). Roberto Sicuteri, autor do livro Lilith, a Lua Negra, confirma que é na época da transposição da versão jeovística da Bíblia (séc. X a.C.)¹ para a versão sacerdotal (587-538 a.C.) que a lenda de Lilith teria sido eliminada, entretanto, ainda restam pequenos resquícios desta tradição em fragmentos deste texto, à exemplo (sic) do Livro de Isaías.”

¹ Não bate com a datação do Livro de Jó dada acima.

Lilith também é um demônio feminino da mitologia babilônica (…) que habitava lugares desertos. A Cabala faz referência à (sic) Lilith como a 1ª mulher de Adão, mas, em outro trecho, também é tida como a serpente que induziu Eva a comer o fruto proibido (Patai 81:455f).”

EVA POTRANQUINHA DO SENHOR: “Lilith não aceitava ficar por baixo nas relações sexuais e Adão recusava-se em inverter as posições. Isto foi o estopim para desencadear uma grande altercação entre o casal primordial, à qual (sic) gerou uma imensa indisposição, que culminou na separação.”

…onde se tornou a noiva de Samael/Asmodeus/Leviatã, o senhor das forças do mal do sitra achra (‘outro lado’…) (…) um dos príncipes de Lúcifer” “Lilith acasala-se (sic) com os demônios, parindo cem (…) diariamente, cujos machos são denominados Lilim, ou Liliotes, ou Linilins, e as fêmeas Liliths (o termo Lilim aparece no Targum Jerushalami, a bênção sacerdotal dos Números 6:26

Lilith [em esculturas babilônicas] ostenta um tipo de gorro ou chapéu escalonado, adornado com enfeites laterais e um disco solar no topo, caracterizando-a como uma deusa (e não como um demônio)”

Lilith aparece também no épico babilônico de Gilgamesh (o lendário rei sumério), em aproximadamente 2 mil a.C., como uma prostituta vampira que era incapaz de procriar e cujos seios estavam secos.” “Muitos acreditam também que há uma relação entre Lilith e Inanna, deusa suméria da guerra, da fertilidade e do prazer sexual.” “Em seus templos [de Inanna] se praticava a prostituição sagrada e suas sacerdotisas eram conhecidas como Nu-gig.” “Também não é incomum que se confunda Lilith com Ishtar ou até mesmo com Ísis, pela ligação destas com a morte. Vale dizer que as deusas Inanna dos sumérios, Asterote dos filisteus, Ísis dos egípcios, Ishtar dos acádios e posteriormente dos babilônios, Astarte dos fenícios e Ostara (Easter), a deusa da fertilidade e da primavera na mitologia nórdica, são cognatas.”

Quando a lua nova chegava, costumava-se dizer que a deusa estava com as regras.” Literalmente? Genealogia do termo regras para se referir ao mênstruo na faculdade de legislar sobre…?

Entre 3 mil e 2,5 mil a.C., quando os sumerianos passaram a ter contatos com culturas patriarcais, ocorre a passagem da concepção religiosa matriarcal para a patriarcal, então os templos dedicados à deusa foram postos abaixo e as práticas sexuais foram reprimidas e se tornaram parte da sombra, o poder da mulher foi identificado com o mal e o demônio (mas o politeísmo foi mantido, diga-se de passagem).” “A deusa passou a ser denominada como <a Grande Abominação>” “A deusa de Israel chamava-se Asherah (ou Aserá), esposa de Yahweh. Para a maioria das pessoas que lêem a Bíblia, a idéia de um único Deus de Israel, Yahweh, parece ser clara. No entanto, descobertas arqueológicas das últimas décadas vêm demonstrando que nem sempre foi assim.” Vou explicar ao longo das passagens por que esse “cientificismo” do autor depõe contra ele, e não a favor.

Pesquisas destacam [fonte???] a época do profeta Elias como o período histórico em que se começa a falar da exclusividade do Deus de Israel, principalmente no embate com o deus Baal e no processo de sincretismo, onde Yahweh incorpora as características de Baal.” Interessante.

processo de diabolização de outras divindades”

Num primeiro momento, a divindade Yahweh teria sido um elemento religioso que veio de fora do contexto cananeu. Nesta época, possivelmente era o Deus El que ocupava o trono do panteão divino.”

Haroldo Reimer aponta 5 fases do desenvolvimento do monoteísmo no Antigo Israel, a saber: a 1ª fase seria marcada pelo sincretismo entre El e Yahweh, no qual El é uma divindade cananéia cujas características são de Criador da terra e pai dos deuses (analogamente, o sumeriano deus Apsu também era o progenitor dos deuses, diga-se de passagem); a 2ª fase, por volta do séc. IX a.C., seria marcada pelos conflitos com o deus Baal. Baal era filho de El, cuja característica principal era a fertilidade; [nenhum deus pode ser eunuco!] a 3ª fase estaria na ênfase da adoração exclusiva de Yahweh. O profeta Oséias, no séc. VIII a.C., equipara a idolatria à adoração de outras divindades. [?] Neste período, acontece a reforma de Ezequias (II Reis 18:4), que mostra a remoção dos lugares altos e a destruição da serpente de bronze, Neustã. Reforma legitimada legalmente através do Código da Aliança (Êx. 20:22-23 e 29); A 4ª fase remete à época de dominação assíria, com a reforma de Josias (II Reis 22 e 23), justificada legalmente pelo Código Deuteronômico, englobando uma série de medidas visando a (sic) exclusividade de Yahweh e sua centralidade em Jerusalém. (…) A 5ª fase seria marcada pelo monoteísmo absoluto e estaria relacionada com o período do exílio. Gên. 1 afirma o poder criacional de Yahweh diante do domínio babilônico ancorado na fidelidade à divindade Marduk (a influência da mitologia babilônica).”

Conforme a pesquisadora Monika Ottermann, que traça o panorama da presença da deusa em Israel, da Idade do Bronze à Idade do Ferro, no Oriente Médio, datando a Idade do Bronze Médio entre 1800 a 1500 a.C., a representação da deusa é caracterizada como ‘Deusa-Nua’, destacando o triângulo púbico, emergindo também representações em forma de ramos ou pequenas árvores estilizadas, combinação que vem a ser denominada ‘Deusa-Árvore’. Os ramos, árvore ou pequenas árvores, brotando com suas raízes no triângulo púbico, simboliza a busca pela vida (…) (vale dizer que o hexagrama judaico, conhecido como estrela de Davi, símbolo do Estado de Israel, é formado por 2 triângulos opostos e sobrepostos” Ou seja: SEXO!

Vários selos ou impressões de selos que associam símbolos astrais com árvores estilizadas foram encontrados na Palestina e na Transjordânia, o que reforça interpretações sobre a existência de um culto à deusa Asherah ao lado de Yahweh.”

No âmbito da mitologia grega, Lilith é associada à deusa Hécate – analogamente, <a mulher escarlate> do Apocalipse –, uma deusa que guarda as portas do inferno montada em um enorme cão de 3 cabeças”

Sol Invictus (Sol Invicto, em latim [não diga!]), também conhecido pelo nome completo, Deus Sol Invicto, era um título religioso aplicado a 3 divindades distintas durante o Império Romano tardio.” Mitra Marte

Correção: Não se trata do império romano tardio, posto que muito anterior à cristianização.

Mitra significava amigo no idioma falado na Índia védica. Já no persa avéstico, tinha o significado de contrato. Atualmente, usa-se esta última semasiologia,¹ e existem diversas grafias para Mitra: Mihr [amor], Meher, Meitros, etc.

¹ “Linguística Estudo semântico que consiste em partir do signo linguístico para a determinação do conceito (por opos. a onomasiologia).”

onomasiologia: “Estudo semântico que consiste em buscar, a partir do conceito, os signos linguísticos, a expressão que lhe corresponde (por opos. a semasiologia).”

A deusa Anahita (Anihata, Anahira) era uma virgem imaculada, era a mãe de Mitra, era considerada a mãe de deus e a deidade feminina do fogo, dentro do panteão de deuses avésticos.”

Mitra (…) foi despojado de sua soberania e todos os seus poderes e atributos foram atribuídos a Ahura-Mazda.”

HaShatan HaSatan Satã

A Síndrome de Estocolmo aplicada em grande escala a um povo se chama Síndrome Babilônica.

Os soldados macedônios, com suas esposas e filhos persas, levaram o culto [de] Mitra à Macedônia e à Grécia.”

Mitrídates, o Grande – 120 a 63 a.C., o último persa de sua estirpe, derrotado por Roma em 66. Chamado em Montesquieu, Espírito das Leis (Jean Melville) de Mitríades.

Na época, existiam 2 escolas rabínicas. Cada uma com pontos de vista diferentes. Uma seguia os ensinamentos de Hilel, o ancião, e a outra os ensinamentos de Shamai. Beit Hilel e Beit Shamai eram os nomes das escolas. Hilel e Shamai foram 2 renomados eruditos judeus. Hilel era uma pessoa amável, simples, próxima às camadas mais modestas da sociedade, e suas máximas breves refletem sua generosidade, piedade e amor à humanidade. Shamai era extremamente íntegro e mais rígido e irascível. Yeshua deve ter estudado na escola de Hilel.”

Aquele que tenta engrandecer seu nome o destrói; aquele que não aumenta seu conhecimento o diminui; e aquele que não estuda, merece morrer.”

Hilel

Conta-se que [quem conta?], quando Herodes apareceu na sala do Sinédrio, rodeado pela guarda real, totalmente armados, (sic) o silêncio reinava. Podia-se sentir o sentimento (sic) de intimidação naquela sala, quando, (sic) apenas Shamai, sem medo, levantou-se para falar contra ele.”

Em suma, a escola Beit Hilel pendia ao judaísmo essênio, que era mais uma filosofia de vida do que uma religião. Já a escola Beit Shamai tinha um perfil notoriamente farisaico, o que a aproximava do judaísmo dominante.” A história do farisaísmo e a história da religião se confundem.

Em função de Sua Missão neste orbe, os pais de Yeshua foram previamente selecionados em razão de seus genes, [Genes? Deus veio do século XX numa máquina do tempo, como uma espécie de John Connor?] conduta moral e, obviamente, evolução espiritual.”

O CARPINTEIRO QUE NÃO CARPIA, POIS TINHA MUITOS LIVROS QUE LER: “Certamente, Yeshua estudou o hinduísmo, o zoroastrismo, o budismo, filosofias, mitologias e crenças gregas, egípcias, etc. Tudo isso, Ele (sic) deve ter feito durante os Seus (sic) anos de vida oculta.”

A Igreja Católica não aceita Jesus como rabino porque um rabino deve ser casado, principalmente no séc. I, e isto vai contra o celibato. Outras questões: se Jesus fôra casado, quem fôra a Sua (sic) esposa? Maria Madalena? Jesus teve filhos? A vida do Mestre é um mistério total. Ele mesmo não deixara nada escrito por razões óbvias. [?] O importante era Sua Mensagem. (sic) Ele não tencionava criar religião alguma.” Ora, se o importante era sua mensagem, ele deveria ter deixado escritos. Mas se ele não pretendia deixar escritos, por razões óbvias, tampouco poderia esperar semear alguma coisa, religião ou não! Paroxismo.

O libertador que os sacerdotes esperavam era diferente. Esperavam um messias que entrasse em conluio com eles, ocupasse o trono de Davi e promovesse a união do povo de Israel para deflagrar uma insurreição contra Roma”

Estar na fé implica o indivíduo freqüentar assiduamente o templo ou igreja, participar dos rituais, ler e crer na bíblia e nas pregações, sem duvidar de nada.”

Trechos que foram criados pelos antigos líderes judaicos-hebreus (muito antes de Cristo) para sustentar o judaísmo, que os mantinha na opulência e no poder, p.ex.: ‘Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida’ (Malaquias 3:10)”

FILHOS DE LEVI QUERIA DIZER O CENTRÃO DE ARTHUR LIRA? “Aos filhos de Levi, dei todos os dízimos em Israel por herança, pelo serviço que prestam, serviço da tenda da congregação. E nunca mais os filhos de Israel [os populares] se chegarão à tenda da congregação, para que não levem sobre si o pecado e morram. Mas os levitas farão o serviço da tenda da congregação e responderão por suas faltas; estatuto perpétuo é este para todas as vossas gerações. [Porém, quando o dízimo é secreto, não há apuração de faltas] E não terão eles nenhuma herança no meio dos filhos de Israel. [não terão trabalho honesto, viverão do roubo do povo] Porque os dízimos dos filhos de Israel, que apresentam ao Senhor em oferta, dei-os por herança aos levitas…” Números 18:21-23 – Números, esse pessoal gosta muito de númeRo$!

No entanto, nada do que alguém dedicar irremissivelmente ao Senhor, de tudo o que tem, seja homem, ou animal, ou campo da sua herança, se poderá vender, nem resgatar; toda coisa assim consagrada será santíssima ao Senhor” Levítico 27:28 Extremamente ambíguo!

MERCADORES DA FÉ: “Os atuais finórios de Deus utilizam muito os supracitados versículos do capítulo 18 do livro de Números para se colocarem na mesma posição dos levitas judeus, transferindo a eles uma incumbência textualmente aplicada tão-somente aos levitas, mas literalmente incabível aos missionários da cristandade, pois não encontra respaldo no Novo Testamento” “A isto se deu o nome de teologia da prosperidade, principal característica das religiões neopentecostais.”

a cultura sumeriana formou a hebraica.” Nomeadamente a doutrina do povo eleito.

Os Evangelhos Sinóticos foram escritos por volta dos anos 50. O evangelho de João foi escrito aproximadamente no ano 90, portanto, apesar de serem cópias de cópias de outras cópias, assim como o de João também, os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas são mais confiáveis do que o de João, por serem mais contemporâneos a Jesus, ou seja, estão mais próximos do Jesus histórico na linha temporal.”

NÃO EXISTE IGREJA SEM FÉ, MAS EXISTE FÉ SEM IGREJA: “Dentre os Evangelhos Sinóticos, somente Marcos 16:16 menciona a salvação apenas pela fé, entretanto, a maioria dos estudiosos bíblicos afirma que Marcos 16:16 é um versículo espúrio no evangelho segundo Marcos, pois destoa totalmente dos demais escritos atribuídos ao evangelista e, principalmente, porque o trecho em questão não consta nos primeiros manuscritos do evangelho de Marcos.”

MANUAL DE COMO SER ANTICRISTÃO NO SÉCULO XXI

Suriman ataca da forma errada: expondo contradições entre escritos bíblicos. Mas eu diria que se não houvesse qualquer contradição esse grande livro (ou livro grande) seria muito menos amado! Não é expondo contradições que se combaterá os cristãos de todos os tempos e lugares. Uma estratégia melhor seria, p.ex., denunciar o livro sagrado como muito estreito e linear. Um Deus onisciente e onipresente deveria poder ser capaz de mais nuances, matizes, perspectivas e contradições – as que vemos são muito poucas, mambembes, astutas no pior sentido de pobreza argumentativa, quase que evidenciam um pragmatismo, uma racionalidade temporã, de mercadores da fé, um livro ESCRITO ATRAVÉS DE DEUS por mãos humanas que nada tem de divino, é chão e abjeto, parece um manual de economia! Por isso é que é uma fraude, e esse Deus não existe ou foi incrivelmente traído pelos descendentes de seus profetas e sacerdotes, que conseguiram apagar todos os traços do Evangelho Original e até calar a boca de seu Filho, que Era Ele Mesmo. Ou seja, um deus fraco; e deuses não são fracos. Ou apenas um Deus satânico – mas cuidado, isso é muito popular entre os cristãos que hoje já não sentem necessidade sequer de simular o ascetismo! Pois Ele quer o mal; e nosso objetivo não é mais atacar o livro, que o deixa claro, mas, com poder político, não deixar qualquer traço ou tolerância dessas práticas más!

Paulo encoraja a soberba e a megalomania, elitizando o cristianismo, fazendo um jogo perigoso, que fomenta discriminações, preconceitos, discórdias e até pelejas, opondo-se ao amor universal pregado por Jesus, e contrariando outros trechos que afirmam que Deus não faz acepção de pessoas, como, p.ex., em Romanos 2:11, que é uma epístola dele mesmo, por sinal.”

No hinduísmo, um avatar é uma manifestação corporal de um ser imortal, por vezes até do Ser Supremo. Deriva do sânscrito Avatara, que significa <descida>, normalmente denotando (sic – conotando) uma religião das encarnações de Vishnu (tais como Krishna), que muitos hinduístas reverenciam como divindade.”

A 1ª semelhança encontrada pelos tradutores das tábuas em escrita cuneiforme é a mais impressionante. Foi a mola propulsora de toda a discussão sobre a veracidade dos textos bíblicos, pois a descrição do dilúvio não só é a mais bem-conservada tábua de toda a epopéia, mas a mais rica em detalhes e semelhanças com a descrição no Gênesis. Além do quê, outras narrativas do dilúvio foram encontradas em forma de poemas isolados e com outros personagens, como as tábuas de Atra-Hasis, a Epopéia de Erra, os textos do rei Ziusudra (Utnapishtim).”

Ea (deus da água doce e da sabedoria, patrono das artes e protetor da humanidade na mitologia acadiana e babilônica; denominado Enki na mitologia suméria) avisa Utnapishtim em um sonho das intenções de Enlil e orienta-o a como sobreviver à catástrofe que estaria por vir [extinção do homem?]: <põe abaixo tua casa e constrói um barco….>

Eu carreguei o interior da nave com tudo o que eu tinha de ouro e de coisas vivas. Minha família, meus parentes, os animais do campo – os domesticados e os selvagens – e todos os artesãos.” O que seria do mundo sem os artesãos! Até o detalhe do corvo que foi solto e encontrou, finalmente, terra firme após 6 dias de dilúvio foi copiado pelo VT de Gilgamesh!

Enlil, furioso com Ea por ter permitido que um humano sobrevivesse e conhece[sse] o segredo dos deuses, viu-se sem alternativa que não a de transformar Utnapishtim em um imortal, para que sua maldição de que nenhum mortal sobrevivesse se completasse.”

Gilgamesh então mergulha no oceano e obtém a planta da juventude eterna. Mas não se alimenta dela a tempo, decidindo levá-la consigo para Uruk e compartilhá-la com os anciãos do povo. “Gilgamesh é surpreendido por uma serpente marinha que lhe rouba a flor, perdendo para sempre o segredo da imortalidade”

fruto – serpente – mortalidade (terra)

fruto – serpente – imortalidade (água)

Gilgamesh então ficou desolado e abatido, pois além de fracassar em sua missão perdera para sempre o irmão Enkidu, restando-lhe apenas, melancolicamente, esperar o dia de sua morte chegar.”

O Mito de Dilmum (o casal divino Enki e Nintu).

Os sumérios foram, provavelmente, os primeiros a habitar o sul da Mesopotâmia. A região foi ocupada em 5 mil a.C. (…) ali [se] constru[íram] as primeiras cidades de que a humanidade tem conhecimento, como Ur, Uruk e Lagash. As cidades foram erigidas sobre colinas.”

No início do 2º milênio a.C. a região da Mesop. constitui-se em um grande e unificado império que tinha como centro administrativo a cidade da Babilônia, situada nas margens do rio Eufrates. Os amoritas, povos semitas provenientes da Arábia, edificaram o Primeiro Império Babilônico. Este povo é conhecido também como <antigos babilônicos>, o que os diferencia dos caldeus, fundadores do II Império Bab., denominados NEOBABILÔNICOS.”

De origem semita, os assírios viviam do pastoreio e habitavam as margens do rio Tigre.” “conquistaram (…) o Egito. O centro adm. do império assírio era Nínive.”

os [também semitas] caldeus foram os principais responsáveis pela derrota dos assírios e pela organização do novo império babil. Nabucodonosor foi o soberano mais conhecido dos caldeus. (…) governou por 60 anos e após sua morte os persas dominaram o novo imp. bab.” Ao todo, em somente 7 décadas construíram os lendários Jardins Suspensos e a Torre de Babel.

Uma etnia tão fratricida realmente precisava inventar um Deus vingador-Deus do amor (no fim é indiferente, desde que unisse as “tribos”). Para o leigo que lê a bíblia, entretanto, monarcas como Nabucodonosor passam como governantes dos gentios, cem por cento pagãos, sem qualquer relação com a árvore genealógica hebraica.

Apesar de matemática, astronomia e medicina altamente desenvolvidas, a principal realização cultural dos sumérios foi a escrita fonética. “Quem decifrou a escrita cuneiforme foi Henry C. Rawlinson.”

Anterior ao Código de Hamurabi [por muito tempo considerada a lei mais antiga da humanidade] tem-se o o Cód. de Ur-Nammu, descoberto em 1952 pelo assiriólogo (…) Samuel Noah Kromer.”

Sargão I é o 1º monarca da história a manter um exército de prontidão.”

Apesar de terem preservado a maior parte da cultura suméria, os amoritas introduziram seu idioma semítico, um ancestral do hebreu na região” Neste idioma é escrita a Epopéia gilgameshiana.

1750 a.C.: (…) os cassitas, um povo não-semítico, conquista a maior parte da Mesop.”

o historiador e lingüista Zecharia Sitchin, especialista em traduções de tabletes cuneiformes, revela que[,] para os sumérios e babilônios os Anunnaki eram, literalmente, astronautas extraterrestres que aterrissaram na região onde se situa o Iraque, há aproximadamente 450 mil anos, em missão de mineração, que se estendeu do Oriente-Médio à África.” Eridu, considerada a cidade mais antiga do mundo, teria sido fundada por esses curiosos E.T.s! “…com o objetivo de obter ouro em quantidade suficiente para sanar os problemas no ecossistema de seu planeta natal, Nibiru.” Ah, o homem! Por que um povo capaz de se teletransportar precisaria de OURO?! Péssima base literária!

Segundo os sumérios, o trab. de mineração ficou comprometido por rebilões entre os Anunnaki, o que levou Enki e Ninti, brilhantes cientistas, a interferir no ritmo evolutivo do tipo humanóide simiesco que habitava o planeta. Através de experiências de engenharia genética, foi obtido o protótipo do Homo sapiens, chamado pelos sum. de Adapa/Adamu.” E daqui pra frente só piora! Mas como série estilo Arquivo X seria sensacional!

a cada 3600 anos [curiosamente coincidindo com o sistema matemático sexagesimal babilônico, que coisa!] o planeta Nibiru completa um período orbital em torno do Sol [qual sol?] e, durante sua aproximação da Terra, diversos cataclismos se sucedem. Os Anunnaki então aproveitariam essa <janela cósmica> para retornarem à Terra.” Prefiro o lore de One Piece!

Nibiru/Marduk, 10º planeta (tendo Plutão como 9º) do sistema solar ou talvez o 6º ou 7º planeta da estrela anã-marrom que seria a suposta irmã gêmea do nosso Sol.” U-A-U!

Nibiru é um planeta do s.s. citado no poema Enuma Elish (Batalha Celeste)¹ e associado ao deus Marduk (…) Os sumérios descreviam nosso sistema solar como um conjunto de 12 corpos celestes significativos” Claro que também corresponderia ao sistema duodecimal criado para a medição do tempo!

¹ Narração da criação do planeta Terra por Marduk.

Marduk (…) era filho de uma relação incestuosa entre Enki e Ninhursag. Foi pai de Dumuzi (o bíblico Tamuz), correspondente ao deus egípcio Osíris. Sua consorte era Sarpanitu.” “foi o vencedor do monstro Tiamat, que personifica o caos primordial; divide-o em 2 partes, com as quais forma o céu e a terra.”

Intertestamentário é o período de tempo que abrange 400 anos entre 397 e 6 a.C.. Trata-se do período situado entre o V. e o N. Testamento.” Hiato Malaquias-Mateus.

De acordo com o Livro dos Jubileus, Sete casou-se com sua irmã mais jovem Azura e teve vários filhos, entre os quais Enos. [que não sofria de azia]” “É importante esclarecer que Sete é também o nome de um personagem jaredita do Livro de Éter (um dos livros que compõem o Livro de Mórmon). § Alguns estudiosos do séc. XIX identificam Sete com Shitti, um epíteto do deus Marduque”

Algumas religiões e crenças, culturalmente atrasadas, encorajam seus seguidores à prática do suicídio.” São tantas coisas erradas na frase que mal saberia por onde começar…

Eostre, Ostara ou Ostera é a deusa da fertilidade e do renascimento na mitologia anglo-saxã, na mitologia nórdica e mitologia germânica. A primavera, lebres e ovos coloridos eram os símbolos da fertilidade e renovação a ela associados.” Páscoa vem do latim pache, passagem, originalmente transição entre estações (fim do inverno no hemisfério norte). Mas também “Deusa da Aurora” no Alto Alemão ou simplesmente sol nascente em outras raízes anglo-saxãs.

Eos, Deusa do Amanhecer na mitologia grega.” // Astarte // Ishtar

Varuna é um deus indiano da criação. Possivelmente é a mais augusta divindade do panteão védico.” “Varuna tentou impedir o nascimento de Indra, mas foi impossível” Varuna foi então rebaixado de Zeus hindu para mero deus da noite e dos oceanos. Nenhum olimpo é uma liga, i.e., há sempre rebaixamento e ascensão de semi-deuses e heróis correndo por fora!

A principal coletânea da mitologia persa é o Shahnameh de Ferdowsi, escrito há mil anos. A obra de Ferdowsi tem por base as histórias e personagens do zoroastrismo e do masdeísmo, não apenas o Avesta, mas também o Bundahishn e o Denkard. Segundo a crença, o sexo era predominante, assim como o amor verdadeiro. [?!] O primeiro beijo (…) era fundamental…” Bem, continua sendo entre nós… “Já a 1ª relação sexual deveria ser presenciada pelos pais.” Isto sim está fora da cartilha!

A mitologia persa é ao mesmo tempo muito próxima e diferente da mitologia hindu. Elas são próximas, porque os iranianos são um povo indo-europeu cuja língua tem grande semelhança com o sânscrito e foram um povo que estabeleceu constantes relações com os arianos da Índia. E são diferentes, pois a religião dos antigos persas adquiriu um aspecto mais moral que mitológico.”

Ahura Mazda é o criador de outras 6 ou 7 divindades supremas, os Amesha Spenta, que reinam, cada um, sobre uma parte da criação”

Subordinados dos Amesha Spenta:

I. Mitra, o mestre do espaço livre;

II. Tistrya, o deus das trovoadas;

III. Verethraghna, o deus da vitória;

IV. Os Izeds.

Angra Mainyu perdeu sua identidade zoroastrista e masdeísta original na posterior literatura persa, sendo finalmente descrito como um Dev ou div, celestial ou radiante [um gigante com o corpo manchado e 2 chifres].”

Somente após a reforma religiosa de Zaratustra o termo dev foi associado com demônios. Mesmo assim os persas que habitavam a região ao sul do mar Cáspio continuaram a adorar os devs e resistiram à pressão para aceitar o zoroastrismo e as lendas em torno dos devs sobreviveram até os dias atuais. P.ex., a lenda do Dev-e Sepid (Dev branco) de Mazandaran.”

A personagem mais importante nos épicos persas é Rostam. Sua contraparte é Zahhak, um símbolo do despotismo que foi finalmente derrotado por Kaveh, que liderou um levante popular contra ele.” “A serpente, como em muitas outras mitologias, representava o mal” “os pássaros, em especial, eram sinal de boa sorte.”

Peri (avéstico Pairika), considerada uma mulher bonita porém má na mitologia mais antiga, tornou-se gradualmente menos má e mais bonita até transformar-se em um símbolo de beleza no período islâmico similar aos houri – espécie de anjos – do Paraíso. Entretanto, outra mulher má, Patiareh, atualmente simboliza a prostituição.”

a reconstrução da história da Índia Védica é baseada no estudo dos Vedas (…) associado às informações arqueológicas.” “muito do que se sabe da época é baseado no Rig Veda – o mais antigo texto sânscrito escrito e preservado. Acredita-se que estas e outras narrativas épicas, como o Ramayana e o Mahabharata, se originam neste período, a partir da tradição oral” era de mistura cultural. A cultura ariana foi aos poucos se mesclando à cultura indiana local. A partir de 200 a.C. este processo se completou e o que conhecemos como cultura indiana tomou sua forma geral.”

A ordem social reflete a presença dos árias [brâmanes] no poder e, com isso, a supremacia dos sacerdotes [sempre um mal!] se consolidou no sistema de castas.” Em breve, THE LAWS OF MANU no Seclusão.

Os chamados impuros ou párias não pertenciam a nenhuma casta [<quinta casta>]. Eram nascidos de uma união de pessoas de castas diferentes [superficial: não procede – apenas se forem provindos de união não-sancionada – e desde que um brâmane tenha pelo menos 4 esposas a 4ª pode até ser uma Sudra] ou de expulsos de suas castas por terem violado as leis. Não podiam viver nas cidades, ler os livros sagrados [falso: nem mesmo os shatriya podem ler o Veda!] e banhar-se nas águas do Ganges.”

Ahura Mazda deriva de ashura, senhor, deus menor hindu. E no entanto os outros deuses são devas, que na etimologia seriam aproximados de dev, demônio. Ou seja: Índia e Zoroastrismo são essencialmente opostos (pode-se dizer que uma religião é a outra de ponta-cabeça). E no entanto estas duas religiões são um contraste absoluto com as noções hebraicas – formando-se um triângulo de oposição entre macro-religiões, a dos judeus a mais contrária e refratária às outras crenças.

Sempre imaginei que Maniqueísmo e Mazdeísmo ou Masdeísmo (o Zoroastrismo, enfim) fossem sinônimos. O que não quadra é a informação seguinte: “Maniqueísmo, filosofia religiosa sincrética e dualística ensinada pelo profeta persa Mani (ou Manes), combinando elementos do Zoroastrismo, Cristianismo e Gnosticismo” O mais curioso é que Mani é muito próximo de Manu, autor de um dos códigos de lei mais antigos, inscrito no hinduísmo e obedecendo aos Vedas. E manes também é uma nomenclatura para determinada classe de divindades importantes na ritualística bramânica.

Zoroastrismo (doutrina mais pura) > Masdeísmo (refundação “decadente”)

Ísis, a deusa do amor e da mágica, tornou-se a deusa-mãe do Egito.” E ainda: médica, casamenteira (inscrito em amor e magia) e incentivadora da agricultura, patrona da harmonia e das festas, além de governante no sentido sócio-político, ao lado de seu marido Osíris. Podemos portanto chamá-la sem equívoco de Deusa da Cultura Egípcia, ou Embaixadora do Egito enquanto civilização. Teria originado o Rio Nilo. Por diversos acontecimentos da mitologia, é associada à árvore do tamarindo. Por último, Ísis também é a deusa da Morte ou da transição da vida terrena para a próxima vida, tendo criado o ritual do embalsamento.

MITOS & ARQUÉTIPOS

Nas odisséias de Ísis e inúmeros outros deuses de outras mitologias há sempre uma cena arquetípica: a deusa (sempre uma mulher), disfarçada, se torna ama de um príncipe recém-nascido, filho do rei do local. A ele se afeiçoa e deseja presenteá-lo com a imortalidade mediante um ritual que, visto pelos olhos de um leigo, parece um homicídio hediondo, geralmente envolvendo as labaredas do fogo. Sempre, no momento de ser consumada a imortalidade, o ritual é interrompido por alguma testemunha do palácio e o príncipe nunca obtém a imortalidade. A estória de Zigfried e Aquiles é uma variante deste arquétipo, excluindo elementos como “príncipe ainda bebê” e a ama, que se converte noutra figura feminina, como a mãe de Aquiles, que o segura pelos calcanhares e o banha em águas que concedem a imortalidade – dando-lhe uma imortalidade parcial ou condicionada, destinada a ser vencida quando um guerreiro atinge seu ponto fraco, única parte mortal do corpo, o calcanhar-de-Aquiles.

No mito de Osíris há outra alusão a um ser assexuado ou hermafrodita, tema de inúmeros mitos, como o de Platão n’O Banquete, conotando uma suposta perfeição ou transcendência em relação à condição limitada dos dois sexos, fundindo todas as suas qualidades num ser Uno. Osíris fôra retalhado em inúmeros pedaços e pelos dons de Ísis e sua irmã voltou à vida, com todas as suas partes reconectadas, exceto a genitália, que havia sido devorada por um peixe do Nilo. Nasce o ser perfeito e assexual – e o que eu comentei acima de “nenhum deus pode ser hermafrodita”, cai por terra!

Hórus é o filho de Ísis e Osíris. Como a ressurreição de Osíris pôde ser apenas temporária, já que ele possuía o corpo mas sua alma já havia partido, Hórus foi concebido numa “atípica lua-de-mel” entre Ísis e o deus morto-vivo, que finalmente foi embalsamado e partiu de maneira pacífica ao Outro Mundo. Tal circunstância torna Hórus divindade dual, tanto da Vida quanto da Morte, e sua aparência reflete sua capacidade espiritual: meio-homem, meio-falcão.

Set, deus-cobra, arqui-inimigo de Hórus, Osíris e Ísis, entrou em combate com o filho do casal: este embate entre falcão e serpente é outro arquétipo. Nietzsche utiliza tal simbologia em seu próprio Zaratustra (o que podemos considerar o mesmo que: a superação de todas as religiões monoteístas após a morte de Deus, ainda que usando velhos nomes e velhos símbolos), em que Zaratustra é secundado por dois discípulos, uma serpente e um falcão [na verdade, águia], falantes. Como Zaratustra anuncia aquilo que virá muito além do bem e do mal, a serpente e o falcão não são mais, respectivamente, representantes nem do mal nem do bem.

Sobre Ísis (bom tropo para usar em um RPG): “Suas habilidades mágicas melhoraram muito quando ela tirou proveito da velhice de a fim de enganá-lo, fazendo-o revelar seu nome e, assim, dando a ela acesso a um pouco de seu poder.”

A VIRGEM MARIA EGÍPCIA: “Do morto e castrado Osíris, Ísis extraiu por conta própria a semente viva. E muitas vezes foi retratada em pinturas ou esculturas com o divino filho, Hórus, sobre o joelho.”

Osíris mandava no mundo dos mortos, seu falo perdido para sempre nas águas do Nilo, onde dele corria um fluxo interminável de sêmen, fertilizando os extraordinários campos do Egito todos os anos quando o rio transbordava.” “Osíris, o deus do sangue, julgava o malfeitor olhando dentro do coração do mesmo.” Isso não o impediu de cair numa simplória armadilha de Set.

Bellenus é o deus celta do Sol.” “Era um dos principais deuses da mitologia celta, mas era uma divindade mais regional, adorada principalmente no norte da Itália e na costa mediterrânea da Gália.”

Na antiga religião, antes da Igreja destruir este culto e transformá-lo no que se conhece como <bruxaria>, os camponeses iam para os bosques de carvalhos à noite e acendiam enormes fogueiras para a deusa, o que tornou esta festividade conhecida como As Fogueiras de Beltane.” Origem de nossa festa junina, cristianizada.

Mabon (pronuncia-se mêibon) é também conhecido como Equinócio de Outono ou Lar da Colheita ou Festival da Segunda Colheita. Dia sagrado no paganismo, em especial na religião wicca. (…) corresponde a (…) 20 de março no hemisfério sul e (…) 22 de setembro no hemisfério norte”

o ano-novo pagão (Samhain – pronuncia-se sou-en)” etimologia: samh, verão + fuin, fim. “É uma época de quilíbrio, onde o dia e a noite têm a mesma duração.”

O nome Mabon veio de um deus celta (também conhecido como Angus), o deus do amor.”

Lughnasadh (pronuncia-se lusaná) é também conhecido como Lammas ou Festival da Primeira Colheita. (…) Celebrado dia 2 de fevereiro no hemisfério sul”

O nome lusaná tem suas raízes em uma festa agrícola típica dos célticos. (…) em honra ao deus (…) do Sol: Lugh

Já o nome Lammas significa <A Massa de Lugh>, que representa o alimento (geralmente pão ou bolo ou qualquer outra massa) feito com grãos, que representam a colheita”

coven (grupo de bruxos)” ui ui ui!

Mani: a deusa brasileira da mandioca, alva como a lua!

grande parte da tradição do Halloween, do dia de todos os santos e do dia dos finados pode ser associada ao Samhain.” “Alguns autores acham que não existe nenhuma evidência que relacione o Samhain com o culto dos mortos e que esta crença se popularizou no séc. XIX.” “Era também a época em que o Sidhe (nome celta para duende) deixava antever o outro mundo.” Origem ainda do espantalho ou do Jack o’Lantern.

MITO <TEBAIDO> (+1 ARQUÉTIPO PARA A LISTA…): “A religião mitraica dos magos tem uma lenda como a maçonaria. [?] É a seguinte: Mitra (Luz) (…) nasceu da <rocha generativa>, [a pedra do gênesis de Raul Seixas?] debaixo da sombra de uma árvore sagrada. Uns pastores foram testemunhas (…) Viram-no sair da rocha, com a cabeça adornada (…) armado de um cutelo e levando uma tocha para iluminar as trevas” Pedra do tempo; quem tem teto de vidro que atire o primeiro dente!

Os pontos em comum entre a mitologia maga e a vida de Cristo segundo os evangelhos saltam à vista.” Com toda a certeza.

O mitraísmo – religião da moda no Império Romano – cultuava Mitra e a supracitada mitologia não poderia ficar de fora. Provavelmente os líderes da embrionária Igreja Católica optaram pela absorção da mitologia dos magos, amalgamando-a com a história de Jesus para adaptar o cristianismo às crenças romanas e, deste modo, torná-lo aprazível aos mitraístas, facilitando a conversão.”

Na tentativa de consolidar a totalidade do Imp. Romano sob o seu domínio, Licínio o Breve [imperador da banda oriental] marchou contra Constantino. Como parte de seu esforço para ganhar a lealdade de suas legiões, L. dispensou o exército e o serviço civil da política de tolerância do Edito de Milão, [que cessou a perseguição aos cristãos] permitindo-lhes sua expulsão. Alguns perderam propriedades e outros a vida. § Constantino venceu a guerra em 324 d.C.”

Em relação ao Antigo Testamento, o problema só foi definitivamente resolvido em 1546 (no Concílio de Trento), sendo incluídos o Livro da Sabedoria, atribuído a Salomão, o Eclesiastes ou Sirac, as Odes de Salomão, o Tobit ou Livro de Tobias, os Livros dos Macabeus e ainda outros.”

LINHA DO TEMPO (somente inseri os mais relevantes)

ANO – nº romano do Concílio – local – principais resultados

325 – IV – Nicéia – Apostasia do Arianismo; Fundação da Igreja Católica.

432 – VI – Éfeso – Apostasia do Nestorianismo.

451 – VII – Calcedônia – Apostasia do Monofisitismo.

553 – VIII – Constantinopla – Apostasia do resiliente Nestorianismo!

681 – IX – Constantinopla – Apostasia do Monotelitismo.

767 – X – Nicéia – permite a veneração de imagens [destruição do cristianismo primitivo, na opinião de muitos protestantes…]

(Entre 867 e 1064 – incontáveis cismas, mas o principal, entre a Romana e a Ortodoxa.)

869 – XI – Constantinopla – primeira trégua provisória Ocid. x Or.

1123 – XII – Latrão – Apostasia do Valdensismo e Albigensismo.

1139 – XIII Latrão – idem [!]

(Seguiriam mais dois em Latrão para o mesmo fim, o segundo em 1215 – XV Concílio.)

Daqui em diante não importa o número, os concílios são cada vez mais estapafúrdios, se já não o eram o bastante…

1431 – Concílio da Reforma (Basiléia, Ferrara, Florenza e Lausana)

1517 – real surgimento das Igrejas Protestantes (conclusão do processo de cisma iniciado quase um século antes). (Trento)

1545 – Contra-Reforma (Trento)

1870 – A grande besteira e heresia da infalibilidade papal, que duraria muito pouco tempo para uma religião milenar! (Vaticano)

1962 – “Concílio da modernização”, para fisgar os beatlemaníacos e afins!

O judaísmo era para ser uma filosofia de vida e não uma religião (assim como o cristianismo deveria[, e o hinduísmo logrou]).”

RECAPITULAÇÃO:

  • Essênios: judeus mais ortodoxos (anti-fariseus).

  • A partir dos cismas com os essênios, tudo é história política.

  • Os essênios eram vegetarianos e nunca sacrificaram animais a Javé. Não havia quase nenhuma lei religiosa entre eles.

Os hebreus (<descendentes do patriarca bíblico Éber>) é o nome dado ao povo que viveu na região do Oriente Médio a partir do II milênio a.C., e que daria origem aos povos semitas como os árabes e os israelitas, antepassados históricos e espirituais dos atuais judeus e muçulmanos.” “Os hebreus permaneceram por 3 séculos na Palestina, até a ocorrência de uma violenta seca que abalou a região.” Não me admira inventarem a estória de Noé depois de tamanho trauma.

No regresso à Palestina, após a escravidão egípcia e a morte de Moisés, assim era a demografia (principais etnias):

  • hebreus

  • cananeus

  • filisteus

Começa o Estado judeu.

A teoria de que os altos impostos derrubaram o reinado de Salomão (ancaps aprovam!).

Dominação assíria-babilônica da etnia já dividida em dois reinos (patética decadência).

Alexandre, o Grande bem que tentou mais uma vez separar o que jamais deveria ter sido novamente reunido (judeus e Palestina), mas depois de sua morte o ciclo seguiria…

palestinos, descedentes dos antigos filisteusGostaria de saber como essa palavra foi virar uma crítica da erudição acadêmica!

Suriman destaca os versículos sobre holocausto animal: Gênesis 8; Êxodo 18; Êxodo 29; Levítico 1, Levítico 4; Levítico 4; Números 6; Números 7; Números 8.

Espírito Santo, do hebraico Ruach Ha Kodesh. Suriman defende que a única razão d’<O> Espírito Santo (seria apenas ‘um espírito santo’) ter adquirido tamanha importância no credo cristão se deveu a um erro de tradução de Jerônimo. Depois cita o mesmo fenômeno como “jogada de mestre por parte da Igreja”. Ou é jogada de mestre ou é erro não-intencional de um tradutor honesto! Nem a Igreja é tão “inteligente” nem Jerônimo, patrono dos tradutores, era tão burro.

CITANDO O MIDRASH: “o Espírito Santo foi concebido como sendo por vezes um homem e outras uma mulher.” Aí está a drag queen do “pastor” André (indo pra) Vala***.

O Talmude também “enche” o saco com “aparições” do Espírito Santo ao longo da ZZZzzzhis…, perdão, da zzzhistória.

qualquer um que ensine a Torah em público partilha do E.S.” Virou um diplominha à la Direito pelo UniCEUB. Hahaha!

A visão judaica retrata, na idiossincrasia deles, a sintonia com o PAI e, conseqüentemente, com o Cosmo.” Quem é esse PAI, e esse Cosmo?! Qual a religião do autor?! Não me diga que é espírita?

EQUAÇÃO DA FÉ

(Torah + Neviim + Ctuvim) = Tanach = Antigo Testamento

hoje a maior parte dos estudiosos são unânimes [ou são unânimes ou são a maior parte… os dois não dá!] em concordar que Moisés não é o autor do texto que possuímos” Ó!

Talmude = Torá oral (que virou livro, duh)

Torah = Pentateuco, para todos os efeitos

Chumash (os 5): Bereshit, Shemot, Vayicra, Bamidbar, Devarim

O conteúdo do Tanakh é equivalente ao A.T., porém com outra divisão.”

Neviim = livros dos profetas, juízes, reis, etc. (História de Israel, haha)

Ctuvim = resíduo salomônico, Jó, Eclesiastes, Crônicas (senta que lá vem MAIS história…) etc.

Maomé não escreveu o Alcorão.” U-a-u!!!

Sufismo (os hereges místicos do maometismo, necessários, conforme toda religião monoteísta ensina): desdobramento em Cabala e Gnose.

POEMA DO ASSIM

ZAratustra: início e fim, A a Z.

choro-riso-choro

dança-reza-dança

sim-sala-bim

coisa ZAntiga ZAgora voltam às modaz.

Zaratustra se perguntava na infância: quem estipulou o valor dos valores?

Zaratustra, nascido de uma virgem…” Porra, variem um pouco o arquétipo!!!

Dos 20 aos 30, Z. viveu quase sempre isolado, habitando no alto de uma montanha, em cavernas sagradas.” “Em outros relatos, teria ido ao deserto, onde fôra tentado pelo diabo…” Dá até preguiça de digitar

Após 7 anos de solidão completa…” Ué, não eram 10?

Em dez anos de pregação (30-40 anos) teve somente um crente: seu primo.”

Ninguém o escutava. Ninguém o entendia.”

É preciso aprender a colher desprezo onde esperas carinho! Depois garfas esses malditos – tudo tem sua hora…

Com 40 anos realizou milagres…” Poxa vida, até então era só um homem comum. Plot twist nota zero!

Aos 77 anos ele teria morrido assassinado enquanto rezava no templo”

Em seu sentido mais abrangente, o gnosticismo significa <a crença na salvação pelo conhecimento> (Joan O’Grady).”

COSMOVISÃO DUALISTA

A tentativa de conciliar Jeová, o deus mau, com o do Novo Testamento.

Principais “patronos”: Marcião (marcionismo); Valentim (valentinismo ou valencionismo), Nestor (nestorianismo). Nenhum desses escapou de ser perseguido pela igreja…

Aeons, Pleroma, Demiurgo, décimo terceiro aeon, …

Pelo menos reconhece-se que a era cristã é decadente!

Os escritos joaninos são do final do 1º séc., quando nasceu o gnosticismo.” O mais ‘malvado’ dos escritores do NT.

Um rip-off do hinduísmo, em minha modesta expertise… Tanto que a maneira como os gnósticos se expressam é muito similar à minha interpretação dos Vedas: “Assim, os primeiros cristãos sabiam que 2 tipos de pessoas se achegariam ao cristianismo, um tipo sem o toque pneumático [e que tal torque? haha], e, portanto, incapaz de aproximar-se da salvação pelo conhecimento e pela sabedoria dos Mistérios, mas possuindo apenas capacidade de assimilar pela fé o lado superficial da Lei; o outro tipo, tocado pelo dom pneumático, pela centalha-espírito, que possuiria plena capacidade de assimilar os conhecimentos e a sabedoria dos Mistérios divinos e descer ao nível do profundo e espiritual da Lei, podendo gozar de completa iluminação e redenção.” Trecho de Orígenes, De Principiis

Trocando em miúdos, há duas religiões neste mundo: a dos superiores e a dos inferiores. Ou o que é mais: há a existência esotérica (Filosofia transcendental) e a exotérica (tudo o mais, filosofia ou qualquer outra coisa). “Outro patamar”… O princípio ecumênico do brâmane “em toda cultura posterior”…

Aspectos esotéricos da doutrina de Cristo: mais esotéricos do que a própria ortodoxia; mais ortodoxos do que os (maus) ortodoxos! Ver ainda mais sobre: naasenos ou ofitas; perates; sethianos; docéticos; carpocráticos; basilidianos (Basílio).

(mais conhecidos em negrito) “Com o passar do tempo, os herdeiros da tradição gnóstica e maniqueísta foram mudando de nome. Podemos indicar o aparecimento dos seguintes grupos: entre os sécs. III e IX: Euchites, Magistri Comacini, Artífices Dionisianos, Nestorianos (DV), e Eutychianos; no séc. X: Paulicianos e Bogomilos; no séc. XI: Cátharos, Patarini, Cavaleiros de Rodes, Cavaleiros de Malta, Místicos Escolásticos; [!!!] no séc. XII: Albigenses, Cavaleiros Templários, Hermetistas; no séc. XIII: a Fraternidade dos Winklers, os Beghards e Beguinen, os Irmãos do Livre Espírito, os Lollards, e os Trovadores; no séc. XIV: os Hesychastas, os Amigos de Deus, os Rosa-cruzes (Johann Valentin Andrea), os Fraticelli; no séc. XV: os Fraters Lucis, a Academia Platônica, a Sociedade Alquímica, a Sociedade da Trolha [!], os Irmãos da Boêmia (Unitas Fratrum); no séc. XVI: A Ordem de Cristo (derivada dos Templários), os Filósofos do Fogo, a Militia Crucífera Evangélica e os Ministérios dos Mestres Herméticos; no séc. XVII: os Irmãos Asiáticos (Irmãos Iniciados de São João Evangelista da Ásia), a Academia di Secreti e os Quietistas; no séc. XVIII: os Martinistas;no séc. XIX: a Sociedade Teosófica.” Teosofia é uma palavra que cheira mal…

Paulicianos como alguns dos mais persistentes e perseguidos dentre todos…

Pouco material chegou até os dias de hoje; a maioria dos personagens e suas doutrinas só pôde ser conhecida por meio dos criticos do gnosticismo. A maior polêmica contra os gnósticos apareceu no período patrístico [proto-Escolástica], com os escritos apologéticos de Irineu (130-200), Tertuliano (160-225)¹ e Hipólito (170-236).”

¹ Um dos primeiros posts do Seclusão: https://seclusao.art.blog/2017/01/30/patience-tertullian/.

Por isso a descoberta da Biblioteca de Nag Hammadi em 1945 foi de suma importância, visto que seu conteúdo é eminentemente gnóstico. O achado impulsionou as pesquisas sobre o assunto na 2ª metade do XX. Estes manuscritos totalizavam 52 textos, em 13 códices de papiro, escritos em copta. (…) 3 obras pertencentes ao Corpus Hermeticum [Códice Askew, Códice Bruce e Códice de Berlim] e 1 tradução parcial da República de Platão.”

No séc. XX, Jung pesquisou profundamente as doutrinas gnósticas, inclusive ajudando no trabalho de organização da Biblioteca de Nag Hammadi, e fez uma ligação entre os mitos gnósticos e os arquétipos do inconsciente coletivo. Escreve[u] o livro Sete sermões aos mortos sob o pseudônimo de Basilides de Alexandria, onde coloca a sua visão gnóstica em 7 textos no formato dos evangelhos.” Não sabia disso! Googlando, só encontrei um documento de 11 páginas…

Ironicamente, a-gnósticos assume uma conotação extremamente pejorativa se levarmos os gnósticos em consideração!

Nesse ramo não existe clero nem sistema de graus, sendo uma metodologia de trabalho interior.” Mas só faltava mesmo essa! Chega de clero em tudo e qualquer coisa, até nas doutrinas anticlericais!

A magia hermética passou por um renascimento no séc. XIX europeu, quando foi praticada por nomes como os envolvidos na Ordem Hermética do Amanhecer Dourado [haha] e Eliphas Levi. No séc. XX foi estudada por Franz Bardon.”

Nem tudo que é hermético é hermético (haha).

Caibalion, livro-síntese do hermetismo do século XIX.

9 9 9

O que está em cima é como o que está embaixo. E o que está embaixo é como o que está em cima.”

…God is satan deep below, satan is God high above

In the end it’s all the same…

Mercyful Fate, 9

6 6 6

Muitos historiadores consideram os Vedas os textos sobreviventes mais antigos.” Coincidência ou destino? Não há começo ou fim para a sabedoria. A vida seria um erro sem… os Vedas?!

O autor nada sabe sobre o bramanismo. Mero conhecimento linear de wikipedia!

* * *

Pode-se chamar de tradição algo que sequer monta a 70 anos (‘religião’ wicca)? Vários artigos ainda em uso do capitalismo (valor transcendental = 0) têm mais tradição do que isto!

Os dados que temos nos mostram que a maioria dos wiccanos dos dias de hoje são solitários, i.e., não participam de nenhum coven.” Hahaha! Incel ideology.

O tal do Perispírito encerra com chave de bosta a obra (engano meu, ainda havia muitas páginas desgostosas, vide abaixo). O mais chucro sobre esse “pessoal” é que eles querem transformar suas crenças sobre reencarnação e plano astral em ciência, i.e., ficam buscando sem descanso uma ratificação empírica. O cúmulo da idiotia. Assim como Nietzsche afirma que o sono é o parente mais próximo da morte, aquele que não pára de falar sobre reencarnação é o mais covarde dos acovardados diante da morte. Fale de vida ou da própria morte, ou então não fale nada – falar em reencarnar é atestar sua insignificância e falta de propósito corrente (tudo o que importa valorar).

Volto a afirmar, se já não o fiz neste blog: numa hierarquia das religiões, eu sempre posicionarei o Espiritismo no degrau mais baixo de todos. A degradação da degradação de uma degradação de uma crença original. A pior das quimeras.

Pergunto-me, aliás, quanto do texto foi redigido efetivamente pelo autor e o quanto não foi recortado diretamente de enciclopédias públicas virtuais… 70% do livro são platitudes… Como eu retirei o equivalente a 30 páginas de meras “platitudes”? Ora, um dos meus hobbies confessos é acumular conhecimentos “chatos”, superficiais, bidimensionais, sou um leitor habitual da Wikipédia, é claro! Mas afora as curios, não há qualquer valor metafísico nestas páginas!

Algumas fontes [dentro da sua cabeça] afirmam que Platão ensinava a reencarnação aos seus iniciados e a metempsicose aos leigos.”

Atenção, ainda há algumas páginas para exibição das tendências sádicas do autor!

No Liber Sententiarum Inquisitiones (Livro das Sentenças da Inquisição) o padre dominicano Bernardo Gui (Bernardus Guidonis, 1261-1331) descreveu vários métodos para obter confissões dos acusados, inclusive o enfraquecimento das forças físicas do prisioneiro.”

Roda do despedaçamento: uma roda onde o acusado era amarrado na parte externa. … Dama-de-Ferro … a 1ª ref. confiável de uma execução com a D-F data de 14/08/1515. A vítima era um falsificador de moedas”

Berço de Judas: peça metálica em forma de pirâmide sustentada por hastes. A vítima, sustentada por correntes, é colocada ‘sentada’ sobre a ponta da pirâmide. O afrouxamento gradual ou brusco da corrente manejada pelo executor fazia com que o peso do corpo pressionasse e ferisse o ânus, a vagina, o cóccix ou o saco escrotal.”

Potro … Na legislação espanhola havia uma lei que regulamentava um nº máx. de 5 voltas na manivela para que, caso a vítima fosse considerada inocente, não sofresse seqüelas irreversíveis. Mesmo assim, era comum que os carrascos, incitados pelos interrogadores, excedessem muito esse limite e a vítima tivesse a carne e os ossos esmagados.” Nem Hitler pensaria em criar um Código Penal dos Campos de Concentração. Talvez estejamos aqui diante do ápice da maldade humana…

A decapitação pela espada, por exigir uma técnica apurada do executor e ser mais suave que outros métodos, era, geralmente, reservada aos nobres.” Como filosofar com a espada!

O cadáver ficava exposto até que se desintegrasse.” Alguma dúvida de por que a Peste Negra quase exterminou o “píncaro da civilização” dos sujismundos europeus?

Cremação … Para garantir que morresse queimada e não asfixiada pela fumaça, a vítima era vestida com uma camisola embebida em enxofre” A banalidade do mal.

Hoje a Igreja ainda pode emitir um admonitum: uma advertência para o fiel, em determinados casos. É o atual modus agendi da Igreja para declarar que uma obra literária é nociva à fé. Parece inverossímil, mas o caso citado a seguir é contemporâneo (final do séc. XX). Este absurdo medieval aconteceu com o frei Leonardo Boff, um teólogo militante dos direitos humanos desde 1972. Cada livro que ele publicava era objeto de análise do Santo Ofício. Trata-se de fato recente. Ele sentou na mesma cadeira na qual sentaram Galileu Galilei e Giordano Bruno, entre outros. Lugar no qual eram e continuam sendo julgados os inquiridos, no Palácio do Vaticano, onde está tudo exatamente como antes, inclusiva [na arquitetura] a famosa Sala de Torturas.”

FREI BETTO: [O processo] até piorou, porque atualmente, depois do estabelecimento da infalibilidade do papa, nenhum réu pode ter direito à defesa; não se pode partir do princípio de que a autoridade eclesiástica errou. (…)

BOFF: (…)

FREI BETTO: Não pode pedir perdão?

BOFF: Não.

BETTO: Não pode se defender, constituir advogado…

BOFF: Não pode. Aliás, existe advogado, mas você não conhece. Você tem um adv. chamado advocatus pro autore, que não conhece, que com os cardeais faz o adv. do diabo, toma a minha defesa, mas não pode conversar comigo.

BETTO: Você pode falar ali?

BOFF: Não, só responder. E você (…) não sabe quem são os acusadores. Só conhece algumas perguntas; o cardeal é que tem todo o material, extenso, que é o documentário dele.”

AUTOR OTIMISTA! “Não obstante, graças à era da informação, aos poucos as pessoas estão se libertando desses grilhões e passando a pensar por conta própria, sem medo de questionar e nem de pesquisar.” “Só permanece na ignorância quem quer.” Kardecismo liberal: nojento! Com certeza apóia o homeschooling… Mirar diretamente o sol é o mesmo que a cegueira, senhor. Isso que eu chamo de tunnel vision: mesmo pessoas obscurantistas se crêem iluminadores em nossos tempos mesquinhos…

BLIOGRAFIA (alguns livros que me parecerem interessantes da seção final…)

4 livros de Kardec, malíssimo, malíssimo sinal!…

É, nenhuma das leituras me pareceu fundamental! Vade retro.

HISTÓRIA DAS IDÉIAS 4: HINDUÍSMO & FILOSOFIA OCIDENTAL: Um esboço

Esse artigo (contendo também anotações fragmentárias) visa a integrar os conhecimentos transmitidos pelos Vedas-Upanishads (livros sagrados hindus) com o conhecimento em Primeira filosofia (Metafísica no sentido estrito ou Filosofia Continental, abarcando autores de Platão (séc. IV a.C.) ao pós-estruturalismo francês dos anos 1960). O post poderá ser lido em conjunto com outros da categoria Religião e da subcategoria Hinduísmo já presentes no Seclusão e indexados no menu. Usarei The Roots of Vedanta, de Sudhakshina Rangaswami, como bibliografia principal para as citações dos textos védicos (traduzidos por mim do inglês quando necessário).

Os Upanishads (revelações comentadas) são a cabeça e os Vedas em si são o tronco da visão e conhecimento hindus; a correta leitura dos Upanishads, portanto, pode ser considerada a aquisição da consumação da sabedoria transmitida pelos textos sagrados antigos da Índia. Mal comparando, os Upanishads seriam como os textos dos Escolásticos sobre o Antigo e o Novo Testamentos (Santo Agostinho e São Tomás de Aquino como os principais); mas o paralelo cessa quando se entende que, para o praticante da religião hindu, os Upanishads são de quase tão remota origem quanto os Vedas e, apesar de reconhecidamente escritos por mãos humanas, de indivíduos considerados “gurus”, são tratados como texto sagrado, indispensável para compreender a elaborada natureza dos Vedas. Isso faz com que os Upanishads gozem de uma autoridade que a Cidade de Deus ou a Suma Teológica jamais gozaram no Ocidente, mesmo em face da Igreja Romana.

O fato fundamental dos escritos Upanishads é que eles reconhecem a característica de arbitrariedade e às vezes insuficiência da língua para transmitir idéias, compreensão básica da Lingüística moderna e o esteio principal de toda a bibliografia, por exemplo, de Ludwig Wittgenstein. Como a linguagem, a partir de determinado ponto, se torna inadequada para articular a experiência em sua essência, os sábios antigos do Oriente utilizaram o recurso da exposição de mitos e símbolos como alegorias de seus ensinamentos (paralelo com Platão), chegando mesmo à utilização de conceitos puramente negativos (Hegel), necessários para abordar as intuições que levam ao Absoluto.

Os Upanishads são a primeira fonte direta (śruti prasthāna) do oriental para a cognição da Realidade Absoluta. Há mais de cem Upanishads, de forma que o que se realiza aqui é apenas um esboço de introdução ao tema. Os dez Upanishads comentados pelo sábio Sankara são considerados os Upanishads clássicos ou mais importantes, aqueles que se deve tentar ler, caso não haja tempo para a leitura de todo o catálogo dos Upanishads. Os Upanishads, desde o início, não pretendem ser uma descrição literal ou hiper-concentrada de saberes, dogmas ou revelações, como a Bíblia. Dessa forma, não está organizado em versículos, mas em capítulos de prosa como os livros técnicos ou de ficção ocidental modernos em sua quase totalidade, aproximando-nos do olhar védico. O importante será a compreensão holística de todo o conteúdo ali apresentado, e não debruçar-se sobre uma sentença, procurando o significado de um vocábulo como aforismo ou sentença para a vida. O que interessa é a compreensão global pelo adepto. Fenômeno similar se dá com o estudante de filosofia, que adquire conhecimento aos poucos consultando os vários autores de primeira grandeza, para só então partir para os de segunda ou terceira grandeza, buscando conhecimentos mais específicos. Tampouco há uma ordem preestabelecida para a leitura: pode-se começar por qualquer Veda ou Upanishad. O aprendizado é cumulativo, cíclico e recursivo.

Afora o próprio binômio Vedas-Upanishads, o texto da literatura mais importante para Sankara, a maior autoridade sobre o assunto, é o épico Bhagavad Gita. É como se na Ilíada e Odisséia homéricas estivessem comprimidos toda a doutrina de Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Kierkegaard, Leibniz, Spinosa, Pascal, dentre outros. O Bhagavad consegue resumir os principais preceitos dos Upanishads e pode ser uma primeira leitura iniciática, ou uma leitura posterior, de reforço dos ensinamentos védicos.

A forma de trabalho da linha dos Upanishads é diametralmente oposta à do Bhagavad Gita, mas ambos atingem a mesma meta: os primeiros enfatizam a renúncia e meditação em Brahma como a disciplina espiritual que conduz à liberação; o segundo, poema-diálogo, ensina a trilha da ação desinteressada neste mundo, a prática do karma-yoga, evoluindo gradativamente ao mais espiritualizado inana-yoga, que pode incluir ou não a devoção a um deus antropomorfizado (objetivo do bhakti-yoga), abrindo, tanto quanto os Upanishads, o caminho para a liberação sem a prática da renúncia ascética. Alguns dos temas deste parágrafo são complexos e foram utilizadas expressões diretamente retiradas dos próprios textos sagrados. Por isso, entraremos em explicações mais detalhadas adiante, “quebrando” os vários temas em seções:

A trilha da ação desinteressada

Em última instância, a prática do karma-yoga equivale a princípios ocidentais como o enunciado de Friedrich Nietzsche “como filosofar com o martelo”. Em Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche, escritor alemão do séc. XIX, expõe seu “método destrutivo do pensamento”. Destrutivo não deve ser entendido de forma pejorativa. Como na frase acima “chegando mesmo à utilização de conceitos puramente negativos, o “pensar destrutivo” nada mais é do que lutar contra preconcepções potencialmente nocivas adquiridas involuntariamente durante o processo normal de educação do ser humano. Através da aplicação do pensamento crítico sobre os valores herdados pelo homem ocidental, Nietzsche pretende pôr em questão algumas afirmações tidas como verdade que não passam, no sentido da filosofia, de “puras aparências”. Filosofar a marteladas nada tem de violento, ou mesmo de atividade corporal voltada ao mundo material em si: é, traduzida em outras palavras, a função do filósofo. Porém, Nietzsche escreve em um tempo que já carrega uma grande herança da Filosofia, diferente de quando Platão escreveu. Por isso, para ele, é fundamental desconfiar e reler os filósofos do passado, analisando-os filosoficamente, a fim de não acabar criando castelos de areia, isto é: a desvinculação do pensador a noções antigas e erradas deve ser priorizada em relação a “criar novos conteúdos deônticos (princípios éticos para a convivência humana)”. Ele estava aplicando o karma-yoga sem o saber. O karma-yoga é a meditação oriental que ensina a iniciar o caminho da renúncia das ilusões materiais.

Através dos fenômenos, experiências e aparências chegamos enfim àquilo que não é passível de ser pronunciado com suficiência de sentido (a Idéia de Platão conforme exposta n’A República). Quer dizer, o ioga é visto por grande parte dos ocidentais como um mero exercício de relaxamento, equivalente à passividade e inação. Esta é a “aparência enganosa” do ioga e do iogue (praticante). O próprio termo “praticante” levaria à conclusão imediatamente contrária, no entanto: ele pratica, ele age, o ioga é ação – contradição de sentido com a visão exotérica ocidental (vulgar, depreciativa) sobre o ioga. Ação que sufoca a ação através do controle da respiração.

Depois de compreender o ioga como ação, entretanto, é hora de compreender o ioga num nível ainda mais esotérico (de disciplina verdadeira): não como ação comum, mas como ações das ações. Esta assim num sentido novo é tanto oposta à inação ou renúncia conhecidas do público em geral como à ação comum do cotidiano. O que se faz aqui é exatamente o proceder dinâmico da filosofia de Georg Hegel, se tivermos que pensar não mais em Platão, mas no primeiro filósofo moderno de importância que podemos usar para nos auxiliar na compreensão do hinduísmo. Não é que o hinduísmo deva ser necessariamente analisado filosoficamente, nem a filosofia moderna “superada” ou sentida religiosamente pelo guru capacitado por Brahma, mas há essa constatação intermédia: as duas vias são o Um e o Mesmo. Tese (popular, concepções mundanas) – antítese (começo crítico do aprendizado de “filosofar com o martelo” ou do karma-yoga) – síntese (consumação, sabedoria efetiva, inana-yoga ou o conceito da Idéia de Platão em seu sentido mais elaborado).

A trajetória da compreensão pelo sujeito aspirante ao saber de que o mundo das experiências é nosso meio (nossa técnica) para alcançar o Absoluto: assim também pode ser resumido o karma-yoga. E alcançar o Absoluto no sentido carma-iogue é: compreender que participo de um destino em perfeita harmonia com todo o universo, me fundo com ele. A expressão karma, muito mal-utilizada no Ocidente, deve ser interpretada pelo estudante dos Vedas como destino, mas não na concepção clássica e fatídica de destino. Trata-se do destino sentido não como um peso ou castigo infligido ao indivíduo (compreensão popular de “carma”), mas como a leveza de espírito para a prática da ação responsável. O eterno retorno de Nietzsche buscava a mesma conclusão ética. O saber é sempre recursivo. Estou explicando estas mesmas equivalências pela terceira ou quarta vez no Seclusão Anagógica. Mas isso é uma virtude, não um defeito: a sabedoria é esse ir e vir pelos mesmos pensamentos, até solidificar o conhecimento adquirido. Eu aprendo enquanto ensino; não importa de onde parti, nem onde chego; percorro círculos; não importa se o leitor me lê pela primeira vez agora ou acessa esse texto depois de ler outras explicações anteriores (ou futuras). Ele se junta ao círculo seleto, aprende e também ensina.

A devoção a um deus antropomorfizado (bhakti-yoga)

“O caminho da devoção a uma forma pessoal de Deus abre as portas da liberação mesmo para aqueles incapazes de renunciar ao mundo (inquilinos do mundo).” Esta é uma citação de Sankara nos Upanishads. Ter fé numa entidade divina (religião significa re-ligare, entrar em fusão com) é uma das formas disponíveis para atingir a liberação védica, mesmo sem a disciplina espiritual mais rogorosa dos Upanishads, como ensina o Bhagavad Gita. Ao que se renuncia quando se diz “aqueles incapazes de renunciar”? Ao mundo? Sim e não. Sim no sentido das aparência enganosas, não no sentido de que não se renuncia à vida neste mundo, contanto que a vida neste mundo esteja ligada à busca da verdade mais profunda (o Absoluto). Há que prestar atenção na palavra inquilino. Nossa casa é o mundo, mas não somos os proprietários: estamos de passagem, utilizando uma vida cedida por empréstimo num todo maior.

Apesar da semelhança à primeira vista entre o bakthi-yoga e as religiões ou monoteísmos ocidentais, que são baseadas no culto a um Deus pessoal, a primeira vantagem do hinduísmo sobre o credo cristão (sempre citarei o Cristianismo pela sua maior popularidade e aderência no Ocidente, mas a rigor me refiro a todas as religiões de massa por metonímia) é que o hinduísmo não é um ateísmo, não é um monoteísmo e não é um politeísmo, apesar de ser todos os três ao mesmo tempo (aparências divergem das idéias). O caminho da devoção seria interpretado como “oração” ou “reza” no Ocidente. Está no limiar do que seria a passividade – ajoelhar-se, entregar-se, pedir socorro, etc. – e do que seria a atividade – executar um rito por volição própria, aliar-se ao seu deus, ser ativo na transformação do mundo ao se encontrar apto a transformá-lo, encarnando, representando ou se manifestando como, sendo carne e estando presente no mundo material, a vontade divina neste mundo –.

Em outros termos: ajoelhar-se (símbolo da submissão) e performar são sinônimos. Entregar-se, desistir, dar por encerrado, transferir a responsabilidade, ser o forjador de uma aliança, puxar para si a responsabilidade, iniciar a resolução de um problema concreto são também sinônimos. Pedir socorro e socorrer, ser o agente de alguém, representar algo maior do que a si mesmo são sinônimos. É natural vulgarmente separar todo fenômeno em “ação” ou “renúncia”, inação, como se viu na explicação introdutória sobre o ioga. Porém, as fronteiras entre essas categorizações arbitrárias são enganosas.

Indo além: renunciar ao mundo, seria uma ação ou uma desistência? O discípulo de Cristo, que no ato de se tornar discípulo distribui todas as suas riquezas para peregrinar com Cristo, não age? Aquele que renuncia ao mundo, não desiste da vida, se entrega, se anula? Ambas as perspectivas estão corretas. Covardia ou coragem? O debate ou simpósio entre ambas as alternativas seria eterno e inconclusivo. Há aqueles formatados para o que o mundo chama de ação; há aqueles formatados para o que o mundo chama de inação. Todos são, não obstante, homens, e muito mais parecidos em essência do que revelam as simples aparências. Assim como o ioga pode ser ação, inação, o que é ação e inação e o que não é ação nem inação ao mesmo tempo, o mesmo se aplica à intervenção militante no mundo. Cristo é reconhecido por qualquer cristão, do papa ao mais tímido e “ignorante” dos fiéis, tanto como aquele que disse: “Dai a César o que é de César, meu reino não está neste mundo”; como aquele que militou fervorosamente (veja o advérbio), com bastante ênfase e barulho, no seio do judaísmo: curar os doentes, ensinar a verdade, acusar os fariseus, destruir ídolos, arregimentar um exército de apóstolos. Portanto, tanto o reacionário político quanto o comunista clássico da guerra de guerrilha poderão dizer, com acerto, tanto que:

a) Cristo era, mesmo que de carne, Deus ou o Espírito Santo (mistério triplo, imagens que não correspondem às idéias), a manifestação ativo-passiva (tanto faz) de Deus, o Único, na Terra, com “destino selado”, ao mesmo tempo que dirigente autônomo das próprias ações, para o cumprimento final da Palavra e do Evento. Em última instância, a apologia mais completa de tudo que aconteceu, acontece e acontecerá. O pregador da doutrina de que “não importa o Estado, nos preparemos para o outro, o verdadeiro Reino”.

b) Cristo foi o comunista consumado. Revolucionário, transformador, ativista-modelo para a humanidade póstuma. Mártir, lutou por um futuro melhor para seus camaradas, derramando sangue para que seus filhos pudessem sorrir, viver a vida, sem carregar nenhuma cruz. Um libertador das condições materiais opressoras, desafiador de César e do templo dos hipócritas, instaurador de boas-novas, de uma nova verdade, de novos valores. O mundo se divide em dois, afinal – como negá-lo? Antes de Cristo e depois de Cristo; pelo menos pode-se generalizar dessa forma contanto que não levemos em conta a Ásia. (Curiosamente, de onde vêm os três reis magos? Do Oriente. Folclore popular que se integra com o que existe no Novo Testamento.)

Renunciar ao mundo não é nem uma ação nem uma renúncia, no sentido vulgar. Cristo não foi nem um corajoso herói nem um herege tumultuador e covarde. Ecce homo: Eis o homem. Cristo foi um homem. A única unidade entre esses pólos fictícios que traçamos é nossa própria condição e convivência no mesmo planeta.

A esse ponto, já ficou muito claro, após uma exposição tão numerosa em exemplos, que não importa a estrada, a esotérica (erudita) ou a exotérica (popular), a crença num panteão, num Deus único e supremo, o panteísmo ou o ceticismo extremos, o acolhimento do budismo ou do ateísmo clássico no seio da modernidade pós-Revolução Francesa (a negação do Deus cristão, que após Jesus Cristo, para os fiéis, nada quer dizer para o indivíduo senão “condenar-se ao inferno”)… Todos os caminhos levam ao mesmo caminho, ao mesmo ponto de chegada. É claro – no hinduísmo, a religião mais antiga e perfeita, completada, este caminho é explicado, e desde o Bhagavad Gita foi ensinado o método mais econômico para percorrê-lo.

Seja pela compreensão e estudo aplicado dos Vedas em alto nível de abstração, seja pela crença popular nos avatares de Brahman, o hinduísmo permite o ecumenismo: quem desejar segui-lo poderá atingir o mesmo efeito (em última instância, a fusão com Brahman, a renúncia ao mundo ou a completa inserção no mundo, no real, conforme o próprio indivíduo interprete e descreva o próprio credo). A velha polêmica (tão recente, se comparada com todo o sistema hindu!) entre Calvino e Lutero sobre a salvação via fé ou via obras é uma bobagem, uma dialética de boteco entre os dois mais importantes cristãos da Europa do período reformista.

Para voltarmos ao hinduísmo: As portas da liberação são abertas, sem olhar a quem. O ser humano é um inquilino no mundo. Ou antes: o corpo é o inquilino da alma, que é Brahman. As aparências estão de passagem no seio do Absoluto, que as contém e retém e é o dono do espaço que elas ocupam. Toda morada é temporária, por isso a expressão inquilino: nosso corpo não é o dono do imóvel. O homem é, apesar de tudo, nômade, no sentido espiritual, mesmo o mais sedentário: ele chegou e irá partir. Enquanto mero indivíduo, é um ser provisório.

Pensando na expressão inglesa usada no Upanishad traduzido naquela língua, o house-holder, o chefe de família ou dono do seu lar, no sentido empregado na frase, é o meu inquilino, é o corpo e não a alma. Como posso estar tão certo, pois, de traduzir desta maneira? No próprio inglês haveria um termo muito mais inequívoco para descrever um house-holder que não é apenas um sujeito de ocasião (um inquilino, que mora no mundo apenas de aluguel, no sentido cotidiano). Este termo é o landlord, “aquele que aluga para os outros”. O único landlord num sentido metafísico (e quem é Senhor da terra é Senhor do tempo e de tudo que ambos contêm) é Brahma. Mesmo Vishnu e os outros deuses-avatares da hierarquia hindu, e abaixo deles os sábios inspirados que escreveram, sistematizaram e interpretaram os Vedas numa linha sucessória, são apenas manifestações de aluguel, procuradores (no sentido jurídico daquele que representa) do Um. A explicação, pelo menos para mim, é muito mais intelectiva, simples, que o mistério da Santíssima Trindade, e nem por isso o hinduísmo deixa de ser uma religião, isto é, vira apenas um sistema de regras e saberes secular (por não conter mistérios que não podem ser revelados). Toda religião tem seus mistérios, é um sine qua non (condição de existência de uma religião). Os do Cristianismo, entretanto, podem e devem no mais longo prazo levar à vertigem, à estupefação e a uma incompreensão completa e duradoura.

O hinduísmo, pelo contrário, é explícito e honesto: enquanto alguém que não crê em Cristo é sempre alguém que não crê no Deus-Pai (e vice-versa) conforme o cânone cristão, um hindu poderá dizer: eu só acredito neste mundo, no meu lar e em minha família; isso não “interessa” a Brahman (trilha da ação desinteressada). Caso siga sua crença aparentemente simplória da maneira correta, este hindu (consciente ou inconsciente de sê-lo) entenderá eventualmente que tudo (sua casa, sua família, seu mundo) é real, e que, no entanto e apesar disso, tudo isso é Brahman, oriundo de Brahman. Não crer no ‘divino’ ou crer demasiado no ‘divino’ são uma e a mesma coisa para o hinduísmo: seja um indivíduo como Platão, seja um venerador público de Vishnu, seja um venerador secreto de Indra, seja um ‘venerador’ ou venerador de Brahma… (Quem põe as aspas? Responde-se à pergunta mais adiante.) Se ele sabe quem é Brahma, as portas estão abertas para ele. Brahma é apenas uma palavra.

A evolução transcendental ao inana-yoga: estar-com-Brahman

Quem acredita em Brahma como um colega-acima-dos-outros, que vive em relação com eles, sendo um outro para eles, diferente, como por exemplo Zeus para os outros deuses gregos ou o general para seu exército, é um herege, herege no sentido absoluto do bramanismo (hinduísmo), pois não é isto que Brahma é (malversação das escrituras). E no entanto, Platão, que viveu sob a religião ateniense, e não hindu, onde Zeus presidia, onde Zeus como primeiro-acima-dos-outros-deuses era a única norma sancionada, e pré-requisito da conservação da cidadania na polis (cidade-Estado de Atenas), sem nunca negar explicitamente a mitologia grega, chegou à Verdade, “apenas” trocando as palavras.

Aquele que jejua hipocritamente, ritualiza apenas teatralmente e diviniza ou amaldiçoa erradamente (não chega a Brahman embora pareça ser do credo de Brahman; amaldiçoa em verdade o mundo, que é Brahman, enquanto alega que o faz por Brahman, não entendendo o vínculo entre aparência e Verdade), esse alguém não compreendeu Brahman, então não importa que seja um devoto no sentido clássico ou popular (um asceta que se conduz de modo perfeito no exterior). Pois este que desrespeita tanto a casa em que mora de aluguel quanto as portas da libertação da frase traduzida acima, a única verdade é que se encontra fora da doutrina hindu, condenado à eterna imanência. E este que respeita sua moradia passageira e conduz-se às portas de Brahman, é Um com Brahman. E é impossível desrespeitar a casa (alegoria para o mundo material) respeitando o que é mais importante que o material ao mesmo tempo (pois a “casa” é a via de acesso ao que é invisível, a senda espiritual), como é uma situação impossível desprezar as portas da liberação, a Idéia, ao passo que respeita concomitantemente as aparências. (Respeitar as aparências não é ser materialista – é tratar aparências como aparências! Respeitar é entender.) Não! Não existe distinção final ou factual entre corpo e alma, entre casa e portas supremas, do ângulo hindu: ou se está com Brahman, ou não se está com Brahman, de corpo e de alma.

Estar-com-Brahman é um conceito, portanto não pode ser determinado por um observador externo, o mais zeloso: não é uma opinião, não é aparência. O conceito é Idéia. Que segundo os outros homens alguém esteja ou não com Brahman, e pratique ou não o bramanismo, isto é indiferente no tocante à vida deste homem determinado (e à resposta para a pergunta: ele está com Brahman?). Pois as aparências enganam, e enganam todos os observadores do sensível sem exceção. Enganam até quando enganam ou “não enganam”: o asceta hipócrita, o asceta legítimo, o homem conhecido por seus pares como mau, o homem conhecido por seus pares como bom, todos estes são aparência, mas quem haverá de dizer se correspondem ou não em essência? Quem determina com infalibilidade a hipocrisia? Quem está acima do conceito de legitimidade, de bem e de mal? Quem no mundo das aparências não é apenas joguete dessas noções humanas, demasiado humanas? Quem será o juiz temporal da transcendentalidade de um ser?

O cristianismo cavou a própria cova quando erigiu a Igreja, matéria-carne que proclama o monopólio do espírito. É a infância do ser humano em forma institucional: comete os erros mais fundamentais a respeito das aparências e do caminho ao mundo-verdade. E quando a religião definhava e foi reformada, os juízes saíram das igrejas e se instalaram por todo o mundo debaixo do céu, como câmeras de vigilância de um panóptico da Torre de Babel, tão onipotentes quanto inúteis, pois os reformadores, tanto quanto os iniciadores, não reconheceram o mesmo princípio universal exposto pelos Vedas: não há juízo temporal da transcendentalidade alheia. Não se julga do sagrado (verdadeiro) com opinião (aparência). Ninguém nega boas intenções onde há. Ninguém nega má-fé onde há. Mas no caso do Ocidente as boas intenções dos tradutores, disseminadores e pastores, “democratas do espírito”, geraram o mesmo mal-entendido que a má-fé pura: povoou-se o mundo de sacerdotes, em vez de eliminá-los, tal qual o bramanismo, que já nasceu onisciente e infalível por um simples motivo: é uma religião sem sacerdotes, que proíbe o sacerdócio sobre os outros. É por isso que a origem dos Vedas é tão remota que só pode ser falada em termos de fábulas, mitos e lendas, pois o que já não fosse transcendental a partir de sua estada-no-mundo não poderia gerar transcendência. Indivíduos não autorizam (no sentido tanto de autorização quanto de serem os autores) religiões.

A impossibilidade da divinização do indivíduo e de provar o sagrado: Por que o Ocidente precisa do Oriente

O mundano só existe “em-transcendência”, não é possível tratar uma Revelação como aparência, experiência derivada dos cinco sentidos – mesmo os eventos geradores ou supostamente geradores de transcendência que se localizem após a pré-história (i.e., numa cronologia humana consciente) são fabulosos: Cristo existiu? Onde ele foi crucificado? Qual era sua aparência (ironia tríplice)? Quem hoje tem parentesco mais próximo com ele? Ele ressuscitou? Por que ele ressuscitou em segredo diante de seus mais próximos e de Maria Madalena, e não diante de toda a cidade, de toda a colônia, de toda a civilização romana (a mesma pergunta da crônica esportiva: por que ele não calou os críticos?)? Por que milagres não são fatos científicos (ambos são conceitos mutuamente contraditórios)? Por que cada apóstolo conta um evento de forma diferente, tendo Cristo no mesmo instante pronunciado algo distinto conforme a testemunha?

Porque não seria fato gerador de uma religião de massa nada que não suscitasse tantas perguntas sem resposta! Somente havendo tantas dúvidas sobre a identidade ou mesmo a existência de Cristo é que foi possível tornar fascículos sabidamente escritos pelos homens chamados X., Y., Z. e K., depois reunidos necessariamente em uma outra geração por outro homem que jamais conheceu Cristo a não ser por relatos, Paulo, ele mesmo santificado (num tempo em que santificavam pessoas apenas após a morte; é constrangedor ter de incluir essas ressalvas entre parênteses!), somente por toda essa via errática é que o Cristianismo pôde nascer como uma fé (fora da História, embora ‘na’ cronologia histórica). Tudo isso apenas gerará pano para manga enquanto coserem-se hábitos, surgirem panos com manchas misteriosas para movimentar discussões vãs e enquanto átomos não puderem ser fotografados.

Um exemplo de por que não há novas religiões a partir da modernidade, nem pode haver: Napoleão Bonaparte gerou partidários, admiradores e fanáticos, mas não uma religião. Quem sabe em outro milênio uma figura tornada finalmente mitológica chamada Napoleão, de quem pouco se sabe de concreto, venha a inspirar um novo credo transcendental, o Napoleonismo! Não, porém, enquanto houver uma foto de Napoleão ou o sentido de fotografia não recair novamente no mitológico (esquecimento da técnica fotográfica, tratamento da evidência da imagem como produção sobrenatural). Insisto sobre o sentido de ‘fotografia’ como ícone moderno da palavra chamada ‘prova’ e do método científico, consistente em ‘provar uma série de fenômenos’, visto que pretendo voltar ao assunto no próximo subtítulo.

Mas isso – a divinização no sentido autêntico de Napoleão – seria impossível para a França que tanto sabe sobre ele, para o Ocidente inteiro agora, historiograficamente informado sobre o indivíduo Napoleão Bonaparte, objeto de inúmeros tratados políticos e biografias científicas. O pior tirano imaginável sobre a Terra não poderia fundar uma religião à força e ser bem-sucedido; mas uma miríade infinita de tiranos de esquina poderia se perpetuar no poder firmemente falando em nome do deus estabelecido – o que evidencia a diferença infinita entre a esfera do transcendente (Brahman) e o poder terrenal (mundo de César). De fato, o Ocidente se tornou tão desconfiado que a própria noção de Deus em sua cultura vive no fio da navalha, e seguirá se complicando cada vez mais, enquanto o Ocidente for Ocidente, e não uma cultura nova e reoxigenada, alimentada pelo intercâmbio cultural com o Oriente, o único lugar do universo que hoje pode ressuscitar o sagrado da outra metade do globo mortificada e anestesiada, mundanizada.

Aplicação do anteriormente estabelecido às contradições da ciência pós-moderna (reino da não-filosofia)

…enquanto átomos não puderem ser fotogrados”: retomaremos este trecho como um exemplo prosaico da transcendentalidade de todo o mundano fora do próprio tema religioso: é fisicamente impossível, e isto foi declarado pela própria Física, que o principal objeto de estudo da ciência chamada Física seja fotografado, ou, de forma ainda mais astuciosa podemos dizer, no lugar de fotografado: comprovado (requisito mínimo da cientificização de um conhecimento, qualquer que seja ele). Este fracasso é a razão precípua de dizermos que “as ciências exatas estão em crise”, e de essa crise ser administrada – e sem dúvida ao longo de muitos séculos ainda por vir continuará sendo administrada, o que significa “adiada”, ou “não-resolvida” – desde há não muito tempo pelo inteligente expediente da troca da denominação “exatas” por “naturais”, o que certamente dissipa ao menos parcialmente o constrangimento, o escândalo e a sangria mais explícitos que ocorreriam, tendo em vista a denominação antiga (o que é exato pode ser totalmente definido, sem lacunas), caso contrastassem diariamente o termo exato ou hard com a patente inexatidão atual do conhecimento técnico Esta inexatidão não decorre de erro ou incompetência. Este “fracasso” não é, do ângulo científico, um fracasso: ele é conseqüência natural e direta do grande sucesso da aplicação do método científico por um par de séculos. A inexatidão das ciências naturais é conseqüência inevitável de seu enorme e vertiginoso progresso.

Nos tempos áureos da ciência moderna a “tradutibilidade” dos conhecimentos tecnológicos era ampla. Todo o conteúdo das ciências clássicas está bem-explicado em livros-textos escolares atuais. Porém, os novos conhecimentos derivados do método científico em crise, no que chamo de decadência da ciência moderna ou sua fase pós-moderna, não são comunicáveis ao grande público com a mesma facilidade, pois os dados não são mais o que costumavam ser, e é preciso refundar o conceito de lógica (hoje tributário de Aristóteles, i.e., lógica formal, mas não a única lógica passível de existir) para acomodar resultados de observações e experimentos, vd. física quântica. E é exatamente por isso que as pessoas leigas ficam cada vez mais insatisfeitas com os resultados divulgados como conquistas das ciências, e que cientistas não dão entrevistas em grandes jornais, porque há uma longa cadeia de pessoas que precisa processar e filtrar a informação emanada pelas maiores autoridades em determinado assunto, reformatando a informação para que ela seja recebida pelo grande público em palavras – finalmente para ele – compreensíveis. Talvez os últimos eventos a capitalizarem grande parte da atenção mundial (sem necessidade de conhecimento técnico sobre fabricação de foguetes ou as propriedades dos átomos instáveis usados em bombas nucleares, seja por parte dos jornalistas e comunicadores ou do cidadão comum) tenham sido a criação da bomba atômica e a aterrissagem do homem na Lua.

A quem se pergunta, “compreensíveis” acima significa, no sentido mais sincero possível, que, na verdade, nada de significativo está sendo dito ou veiculado, e talvez devêssemos agradecer por isso, se pensarmos exclusivamente na preservação de nossa saúde mental em uma sociedade tão complexa, e se desprezarmos o outro lado da questão e que é a pior parte de tudo isso, ou seja, que evidências socialmente verificáveis não cessam de indicar que um público necessariamente cada dia mais ignorante passará a exibir comportamentos negacionistas de manada mais e mais aleatórios, ridículos e perigosos – sem que se conheça por ora o limite macabro desta “torção cognitivo-coletiva” –, recusando-se um grande número de indivíduos, por exemplo, para nos restringirmos à época atual e não sucumbirmos à tristeza tentando prever o que virá a seguir, a tomar vacinas que facilmente previnem doenças graves e que são muito transmissíveis, a ponto de que os próprios cientistas de “médio escalão” poderão estar mais e mais sujeitos a esta mesma lei (da involução cognitiva pari passu à evolução do compartimento das ciências em múltiplos e pequeníssimos nichos mais e mais “intraduzíveis” ao cidadão comum), havendo alguns que, não por charlatanismo nem qualquer intenção de ganho pessoal, repercutem os mesmos discursos de manada, genuinamente convencidos por ele, até que num dia não muito distante os físicos, biomédicos e bacteriologistas mais especializados em seus sub-sub-sub-ramos (previsão:) venham a se encontrar mais isolados de qualquer contato humano que K., o agrimensor do livro O Castelo, ponto em que já não haverá possibilidade de retorno (fratura do campo científico como jamais se viu, mesmo durante a sofrida transição da opulenta Idade Antiga para a fervilhante Idade Moderna). Corre-se o risco do turismo espacial se tornar realidade simultaneamente a quebras de recordes para a resposta ‘sim’ em enquetes como “você acredita que vive num mundo que tem o formato de um tabuleiro?” (obviamente que até lá a palavra usada não será tabuleiro, pois esse termo tão complicado terá caído em desuso), e o risco conseqüente de que esse contraste absurdo nada cause em termos de convívio social, pois cidadãos dos espectros mais afastados coexistirão harmoniosamente dentro de suas culturas e subculturas (cada qual enterrado e cem por cento esterilizado em sua própria bolha inexpugnável, chamando tudo o mais de falso e conspiratório, já incapaz, porém, de se incomodar de verdade com isso, apenas reproduzindo comportamentos automáticos como dizer no elevador que “parece que vai chover” ao negar a eficácia de vacinas). Essa situação não mudará caso estejamos falando de colegas de trabalho, roommates ou parentes próximos ou ainda marido e mulher situados em campos extremos e opostos (imagine o casal: um é funcionário de agência espacial e outra uma atleta que vem se preparando para a expedição de exploração das cachoeiras infinitas das bordas do tabuleiro terrestre).

Recuando um pouco, tudo isso é a razão precípua, ainda, da filosofia ser a mãe de todas as ciências mas de forma nenhuma nem sequer uma meia-ciência (ou seja, um título honorífico), porque ela fala do transcendental, que o mundo moderno aprendeu a considerar não só inecessário como até mesmo inexistente ou indesejável caso existisse, em vez de vital. Dada a própria natureza indeterminável do objeto teórico ‘átomo’, vulgar “menor partícula da matéria”, que na verdade nem é matéria, podemos dizer que toda a decadência do saber transcendental no Ocidente é, ironicamente, uma questão de lógica da mais rapace ou degradada.

Por outro lado, que se pense na implicação do átomo como partícula dual é já um sintoma de que mundo das aparências (a matéria, o real, o perceptível) e a verdade invisível que rege sobre ele (ser duas coisas ao mesmo tempo, cientificamente validado) estão se aproximando, e não se afastando inequivocamente. Somos matéria; somos átomos, sem dúvida. O átomo é um (excelente) modelo, não pode ser provado, significando que nós mesmos, que sabemos que existimos enquanto aparência, átomos que somos, pressentimos que somos, embora também átomo e matéria, algo mais, que não conseguimos definir com palavras, i.e., opera-se uma crescente necessidade de revitalização do transcendental, muito lenta e imperceptível para os desatentos, mas cujo mecanismo é similar ao desenvolvimento da Filosofia Continental e à doutrina contida nos Vedas-Upanishads.

Trocando em miúdos, em uma sociedade em que todos andam com uma câmera no bolso, capaz de registrar “coisas” instantaneamente, a fim de convencer os ausentes de coisas improváveis (via sentidos), desconfiamos da própria realidade dos entes, da própria acepção das palavras prova, coisa e fotografia. Duvidamos do que está aí, presente, e por uma questão até de sobrevivência cada indivíduo-coisa se vê, embora não veja (a realidade imaterial), obrigado a perguntar por sua própria essência e considerar o que não está aí para nenhum dos cinco sentidos, procurando um sentido metafísico para sua existência e presença, um caminho que seja, diferente do caminho das coisas (método científico, experimental ou positivista, o caminho não-filosófico ou irreligioso e o modo completamente mundano da existência).

Conclusão da tese: hinduísmo e filosofia continental como duas versões da Verdade revelada

E no entanto, a despeito da superioridade metafísica do hinduísmo, percebida tautologicamente apenas pelos próprios adeptos do hinduísmo, o mundo segue seu curso histórico sem nenhuma modificação fundamental até agora quanto à dimensão de alcance e prevalência das grandes religiões. A despeito da fraude autodemonstrada da religião cristã, a humanidade está e é livre para ter sacerdotes. Se no Oriente, por hipótese, o povo viesse a desejar de forma inédita o sacerdócio em nossos moldes, haveria o sacerdócio! Haveria a hipocrisia, e, aliás, há a hipocrisia entre “hindus” como há dentro de qualquer outro credo (e como os outros credos apresentam seus Platões, brâmanes inconscientes, i.,e., os praticantes honestos).

O que se pode afirmar, percorrendo a História, entretanto, é que o hinduísmo prevalece internamente imutável – sem necessidade de um movimento ou clamor popular por uma reforma nas práticas e nos escritos dos Vedas –, uma vez que como ele é e como ele está, ele conduz à Idéia, à Verdade, a Brahman. Já os pressupostos das religiões monoteístas que conhecemos não resistem a uma análise bramânica ou filosófica pós-moderna, i.e., o próprio Ocidente veio a negar sua religião (suas religiões) em tempos relativamente recentes. No Oriente, semelhante acontecimento ‘mundano’ não teve lugar. Nele, filosofia e religião são Um só. Entre nós verificamos dolorosamente o contrário, e a dor é mútua e equivalente: a dos Escolásticos (quando a religião se dizia a própria filosofia, hoje extintos) e a dos sábios laicos, em voga, momento definidor em que a filosofia emancipou-se e após caminhar certo tempo com as próprias pernas descobriu sobre a calamidade da morte de Deus – Nietzsche em Gaia-Ciência – e sobre a inevitabilidade do transcendental da condição humanaO Mundo como Vontade & Representação, Assim Falou Zaratustra –, logo, tragicamente, no momento em que via essa mesma transcendentalidade escorrer pelo ralo – o Ser e Tempo de Heidegger, etc. –, cenário este que, a filosofia pós-moderna o sabe, inviabiliza a própria continuidade da filosofia e, destarte, da vida.

Esse texto foi um retrabalho das anotações feitas durante a leitura do livro indicado no primeiro parágrafo, Rangaswami, The Roots of Vedantha, e a síntese e principais aspas desta obra serão publicados posteriormente no Seclusão.

[REPRISE+ACRÉSCIMOS] #TRANSCENDER18 O ESPÓLIO DE F. NIETZSCHE, OU AS QUEIXAS DE RAFAEL, OU 19 DIAS DE SABEDORIA, OU AINDA: JOGANDO LIMBOBOL.

Originalmente postado em 11 de agosto de 2009. Com adaptações e ampliações para constar no Seclusão.

A partir de um sistema de forças determinadas (…) não pode resultar um NÚMERO INCONTÁVEL de situações.” O eterno retorno. O fim é já o começo. Não existe morte. consultar a página da “nova concepção de mundo” do Der Wille zur Macht (“número máximo de combinações”, “dado”, etc.). Este dado ainda será melhor trabalhado no parágrafo abaixo subtitulado O PARADOXO DA PEDRA NO RIO DE HERÁCLITO.

O que implica – ou, antes, o que determinou – a moda de fim de séc. XIX chamada espiritismo-kardecismo? Que não há o indivíduo, tudo são impulsos nervosos. Buckle¹ (não falo do cinto sem fivela) e sua nova-velha doutrina da imortalidade da alma. Mas ei! A moeda maussiana (Marcel Mauss), o hau, é ela mesma espiritismo. Ele sempre esteve em voga entre os ágrafos. Os mortos nunca evadem nosso plano: melhor dizendo, eles nunca morrem.

¹ Trata-se de Henry Thomas Buckle (1821-1862), historiador de segunda linha. Trecho esclarecedor da wikia: “On 1 April 1859, Buckle’s mother died. Shortly after, under the influence of this ‘crushing and desolating affliction’, he added an argument for immortality to a review he was writing of J.S. Mill’s Essay on Liberty. Buckle’s argument was not based on theologians ‘with their books, their dogmas, their traditions, their rituals, their records, and their other perishable contrivances’ [claro, porque só o que nós inventamos é eterno!]. Rather he based his argument on ‘the universality of the affections; the yearning of every mind to care for something out of itself’. Buckle asserted ‘it is in the need of loving and of being loved, that the highest instincts of our nature are first revealed’. As if reflecting on his mother’s death, Buckle continued that ‘as long as we are with those whom we love …, we rejoice. But when <the enemy (death)> approaches, when the very signs of life are mute … and there lies before us nought save the shell and husk of what we loved too well, then truly, if we believed the separation were final … the best of us would succumb,(*) but for the deep conviction that all is not really over, we have a forecast of another and a higher state’. Thus, Buckle concludes, ‘it is, then, to that sense of immortality with which the affections inspire us, that I would appeal for the best proof of the reality of a future life’. § He also said, ‘If immortality be untrue it matters little if anything else be true or not.’

(*) Na minha opinião, não passa de um garotinho da mamãe necessitando de uma justificativa para viver. E vê-se que não viveu muito (sem ela)! Ele era um grande enxadrista. E todos sabem que enxadristas são burros socialmente. A mesma ingenuidade pueril, a mesma má-fé intelectual de um Miguel de Unamuno… “Já que assim eu quero, TEM de ser!” A filosofia não aceita esse tipo de egomania – mas como poetas decerto seriam ótimos!

Mais uma curiosidade, na mesma página, o perfeito contraponto dessa patifaria toda: “The paranoid narrator of Fyodor Dostoevsky’s Notes From Underground discusses Buckle’s theories: ‘Why, to maintain this theory of the regeneration of mankind by means of the pursuit of his own is to my mind almost the same thing . . . as to affirm, for instance, following Buckle, that through civilisation mankind becomes softer, and consequently less blood-thirsty and less fitted for warfare. Logically it does seem to follow from his arguments. But man has such a predilection for systems and abstract deductions that he is ready to distort the truth intentionally, he is ready to deny the evidence of his senses only to justify his logic. I take this example because it is the most glaring instance of it. Only look about you: blood is being spilt in streams, and in the merriest way, as though it were champagne. Take the whole of the 19th century in which Buckle lived. Take Napoleon—the Great and also the present one. Take North America—the eternal union (an ironic reference to the ongoing American Civil War). Take the farce of Schleswig-Holstein. . . . And what is it that civilisation softens in us? The only gain of civilisation for mankind is the greater capacity for variety of sensations—and absolutely nothing more.’

Descobri que eu não guardo os elogios que me fazem.

A imensa expectativa quanto às relações sexuais estraga nas mulheres o olho para todas as outras perspectivas” Incel Nietzsche?

O estilo deve ser adequado em vista de uma pessoa bem-determinada, com a qual tu queiras te comunicar” Ora, se não estou tendo isso AGORA! A questão é: UM ou vários? Pode ser VOCÊ?! Como que um eu acima de mim, embora quase intragável de tão platônico. Mas você não é uma pedra fixa…

(Na escrita) O oral antes do escrito (CRUCIAL): “Porque ao escritor FALTAM muitos MEIOS do conferencista” – eis o que procurava! É benquisto explorar entonações, gestos, meras interjeições, que afinal no falar são tudo! (2023: Grande conselho para a estilística – sempre modificamos o texto final ao lê-lo em voz alta. Itálicos, negritos, sublinhados também ajudam, além da pontuação. Não me recordo onde o li, mas um autor disse que excesso de grifos num texto era comportamento aparentado à loucura – o escritor é um louco, tem de ter sintomas neuróticos, ou não desempenha direito seu ofício!)

Devo escrever frases mais curtas. Porque sou muito RETICENTE no oral (não vá confundir – isto é, vindo de alguém quem teria muito a dizer e não pode). Meus textos técnicos (resenhas filosóficas ou de games, p.ex.) possuem períodos mais longos, com mais interpolações. A técnica não está errada, faz parte do meio e da comunicação profissional desejada. Meus textos literários, no entanto, seguem a lei dos períodos curtos e significativos (lei da condensação).

O perigo do sábio está em se apaixonar pela irracionalidade.”

O sábio deve apenas namorá-la, não casar.

eu menosprezo mais o louvor do que a crítica”

Aquele que é mau está bem com o mundo. Como se pode ser feio e defeituoso e não ser mau? Eu não sou feio ou defeituoso, mas tenho um cálice de dignidade que beira o transbordamento. Eu gosto de ir ao Conjunto Nacional comprar cuecas e jeans (hábitos de filósofos para quem sair na rua já é se aventurar)…

EU E O OFÍCIO DE LER

O que mais gostamos de fazer gostaríamos que fosse considerado como o que acaba sendo o mais difícil para nós”

Inclusive eu gosto mais de ler do que escrever, tomando o aforismo como exato!

Nós fazemos também na vigília o que fazemos no sonho”

Jogamos o jogo da vida, nos perdemos, nos pomos furiosos com pessoas (o que tem acontecido ultimamente nas madrugadas… 2023)

Os criativos são os mais odiados”

De tempos em tempos é preciso deixar suas virtudes dormirem”

Agradecer nossas maiores falhas! Exemplos antigos, da década retrasada: A desobediência militar; o Pinho-Sol que me obrigaram a ingerir (não, me desafiaram a ingerir) na festa de calouros das ciências sociais/UnB (e eu joguei o jogo do desafio, e ri por dentro enquanto os mesmos que mais haviam “botado pilha” eram os mais desesperados em me fazer vomitar o pequeno gole dado, não, provavelmente, por se preocuparem com minha saúde, mas com punições posteriores de que pudessem ser vítimas). O porre da M. (quando somos imaturos, bebemos, ofendemos nossa ex-namorada ou objeto amoroso e depois nos arrependemos). Os ciúmes doentios dos primeiros relacionamentos. Nunca ter trabalhado. (Tenho imensas saudades dessa virtude anotada em 2009! A verdade é que já havia trabalhado, mas sem receber dinheiro em troca! Um “uber driver primitivo”: cansado e desmonetizado! Redações porcas de jornais, agências incubadoras cheias de publicitários playboys, a reencenação de Mad Man, Brasília, séc. XXI… E ainda tinha de pagar a passagem de ônibus…)

Por outro lado, virtudes que nunca desliguei, pois não são do meu feitio: nunca traí.

Dois medíocres não se entendem (tampouco um sábio e um medíocre). (2009: Mário como figura-síntese do que se deve evitar como interlocutor. Thomas: outro que escuta mal, talvez faça bem falar-lhe qualquer coisa, assim que nos livramos dos mais chatos.) (2023: R.K.)

Proveito próprio + paixão = egoísmo. Ora, eu sou a pessoa que merece o meu amor! Não sou pobre em amor! E isso custa caro, se se entende o trocadilho.

Tudo o que é longamente pensado se torna problemático”

Quem quer se tornar um líder dos humanos precisa querer ser por eles considerado um BOM tempo como o seu inimigo mais perigosoNa política contemporânea isso cai como uma luva, do Brasil à China, passando pela Europa (que agora abraça o fascismo em bases mais duradouras do que nunca). Há até aqueles líderes que são odiados a vida inteira e adquirem seu novo status apenas post mortem (Che Guevara, Fidel Castro, Stalin…).

Outra grande característica minha: detesto ser (romanticamente) amado. Jamais rastejei quando foi assim. Veja: quando foi algo centrípeto unilateral (não-correspondido, ainda que interessante), não lembro de ter movido uma palha – desprezei, mesmo. É que é raro. O homem de hoje sente-se impelido, forçado, obrigado a embarcar, a ceder, não tem vontade própria.

Jesus de Nazaré queria ser o aniquilador da moral” – trágico.

Ver as naturezas trágicas e ainda conseguir rir é divino” “Como podes rir dormindo?”

DO MISTERIOSO AFORISMO TRAGICÔMICO PÓSTUMO DE NIETZSCHE:

Do macaco de si mesmo

Em torno do herói tudo se torna tragédia; em torno do semi-deus – tudo sátira”

Por muito tempo, mesmo depois da publicação deste post em 2009, eu meditei sobre esse aforismo, que não tinha entendido. Podemos evocar a famosa frase de Marx para nos ajudar a explicar. Mas eu ainda diria mais: a) nosso mundo não tem mais heróis, não tem mais o caráter heróico; tem, sim, a necessidade antropológica mesmo, do homem superar o homem; antes que substituir o deus morto seja uma realidade, o grau máximo que pode ser descrito é uma figura, a do semi-deus. Ele é um Zaratustra que aprendeu a rir de si mesmo. Tragédias são coisas do passado. Não há lugar para Édipos na atualidade; b) pode ser apenas um comentário psicológico, despido de qualquer historicidade, e por isso nem Marx se aplica: depende da seriedade do próprio personagem, e com que gravidade ele enxerga a própria biografia. Mas por que “semi-deus”? Num mundo em que deus está morto, ter sido herói, ser um sábio, já é estar semi-morto. Não vale muita coisa. Quem deixou de ser herói e com isso não se tornou um vilão, não degenerou completamente… ainda tem o aspecto exterior de um bufão. E onde já se viu palhaço triste? Menos Pierrots, mais respeito ao nosso passado que nos trouxe aqui, mas nunca em excesso… Nunca se tornar prisioneiro dos nossos (bons) feitos… Nem temos saúde para bancar de novo os Dons Quixotes, ainda que isso fosse possível! Resta reconhecer que hoje somos diferentes, menos rijos, mas que não podemos e nem queremos apagar nosso passado, mais ou menos distante… Ele ainda mora em nós. Antes, que eu tivesse um pai tirano era questão de vida ou morte. Hoje, sobrevivente, independente, ainda psicologicamente afetado pela experiência, e com ele ainda vivo, tudo é muito cômico e risível. Como pode e pôde uma pedra tão enxuta num sapato tão largo (ou o sapato era firme e apertado, o que impedia o seixo de rolar e atrapalhar? Sim, bufões usam sapatões maiores que os próprios pés!) me causar tantos problemas num nível tão fundamental? Como pôde a mais inferior das criaturas se interpor entre mim e o sol (Diógenes)? Mas nem era imperador – e daí que fosse? De todo jeito não lhe resta solução senão sair do caminho, nem que fosse para vir atrás de briga… E com o tempo toda coroa… vira areia. Quanto mais tempo bloqueou minha luz solar, mais se queimou. E pra quê, se tive meu banho caloroso do mesmo jeito? É verdade que ele, este pai, é o “macaco de Zaratustra”: gostaria de ser eu. Hoje é ele que me imita, sem saber o que ou como imita. Mas ele quer fazer o dono, o original, ficar bravo. E se a indignação for só uma máscara da gargalhada, e se o macaco é que está enfezado por dentro? Sim, sinto pânico, mas essa é a parte doentia da árvore genealógica, o orgânico que atingiu seu limite. Até ele, porém, é uma atuação, em último grau. É sempre material para ressurgir. Toda podridão pode ser cinzas para uma fênix. E macaco não é fênix. O ruim de dar azo pra macaco é que é um bicho muito folgado, por isso, mesmo descontraídos, precisamos manter meia-distância. Quem é mais triste? O macaco ignorado ou o macaco perseguido (letalmente perseguido)? O esgar dos dois por debaixo da máscara deve ser o mesmo. Talvez o macaco seja, então, nosso espelho? Com ele é o inverso, ele viveu a paródia e agora tudo termina em tragédia? Macaco com capa. Versão completa deste texto em https://seclusao.art.blog/2023/06/26/do-misterioso-aforismo-tragicomico-postumo-de-nietzsche-o-macaco-de-si-mesmo/.

A dança é a prova da verdade”

Mais um século de jornais – e todas as palavras vão feder”

Pensar no suicídio é um consolo muito forte. Com isso se consegue passar bem a ‘má-noite’” Não é à toa que este costumava ser meu livro de cabeceira nos meus 20-21 anos…

Nossos suicidas difamam o suicídio, – não o contrário.” A constatação mais sensível já levantada no quesito.

Demora muito até que se morra pela segunda vez”

Agora é primeiro pelo eco que os acontecimentos adquirem ‘grandeza’ – o eco dos jornais”

Corre um falso dito: ‘quem não salva a si mesmo, como pode ele salvar os outros?’. Se tenho a chave para as tuas cadeias, por que a tua fechadura e a minha teriam de ser a mesma?” Existe um crítico de Nietzsche chamado Dr. Flávio Kothe, meu contemporâneo e vizinho (UnB), que escreveu exatamente isso, se não nestas palavras, neste sentido: como pode N. salvar os outros, se não salvou nem a si mesmo? A primeira tarefa do bom crítico é saber ler seu criticado.

O que inventa (o conhecedor), o que intermedeia (o artista), o que simplifica (o apaixonado).”

Nós, homens-da-meia-noite. O homem do eternamente retornável, do meio-dia. Para nós tudo é escuro. Demanda-se um novo – e primeiro – Iluminismo. Uma religião sem secular (até hoje exclusividade dos mais decantados esoterismos). Uma religião sem o secular, e além do mais de massa. Seria factível? Dentro de quantos milênios? Pergunta boba e retórica.

Ascetismo do espírito como PREPARAÇÃO PARA CRIAR. EMPOBRECIMENTO intencional dos instintos criativos.”

A todo efeito segue-se um efeito – essa crença na causalidade tem sua sede no mais forte dos instintos, o da vingança” Ainda não escapamos da Física, para fundar uma Metafísica que valha esse nome.

Não se confunda: atores ficam arrasados à falta de elogios.”

O ceticismo em relação a todos os valores morais é um sintoma de que uma nova tábua de valores está se formando.”

Para a mulher, há apenas um ponto de honra: ela precisa acreditar que mais ama do que é amada. Depois desse ponto principia de imediato a prostituição.”

Os utilistaristas são burros” (Pode parecer simples, mas demorei muitos anos para ler esta frase na literatura. E que eu não tenha lido mais cedo só pode ser indício de burrice generalizada. Ou se conforma a um aforismo de N. mais adiante: quando há uma verdade sabida por todos, todos a “esquecem”…)

O verdadeiro póstumo não é combatido, mas ignorado.

A paixão de duas pessoas uma pela outra – isso são em todos os casos duas paixões e com diferentes curvas picos velocidades: suas linhas podem se CRUZAR, nada mais.” Creio que Barthes citou esse aforismo (Fragmentos del Discurso Amoroso, já resenhado no seclusão).

CONTRA A ALFABETIZAÇÃO UNIVERSAL: “Que qualquer um possa aprender a ler e leia, com o tempo isso deixa em ruínas não só os escritores, como até os espíritos em geral” A corretude desse aforismo será posta à prova na nova era do “alfabetismo visual compulsório”, em que o analfabetismo gráfico é quase que uma complementaridade necessária.

Ter ENTENDIDO um filósofo e estar CONVENCIDO sobre ele.” Platão, Nie., Marx e alguns pelo caminho…

Não vos deixeis enganar! Os povos mais antigos são agora os mais cansados! Eles não têm mais energia suficiente para a preguiça!” Grifos meus: perfeito se se refere aos europeus; porém julgo um grande erro se o juízo for sobre os asiáticos. Nenhum “povo” que cria e cultiva o budismo tem menos do que uns bons milênios pela frente…

Meta na falta de metas. Como não perder a firmeza? I.e., como não perder a meta de vista (até encontrá-la)? Um olhar para o futuro que justifica o passado. Mas é como se houvesse uma perda aí. Se não acontecesse esse futuro, todos nós estaríamos numa condenação eterna? Os mortos hoje foram em vão, não se pode dizer que antes de se cumprir o destino haja qualquer anel. Ou pode-se? Tanto faz? E se sim, tanto faz, então por quê?

regressão à animalidade”

Não precisais temer o fluxo das coisas: esse rio flui de volta para dentro de si: ele não foge de si apenas duas vezes.¹ § Todo ‘era’ há de ser novamente um ‘é’. Todo vindouro morde o pretérito no rabo.”

O PARADOXO DA PEDRA NO RIO DE HERÁCLITO

¹ Ambigüidade na tradução: em duas ocasiões ele cessa de fugir de si mesmo ou ele foge bem mais vezes (e por que dizer duas vezes neste caso)? A fluência do rio é a angústia humana (encarado como aspecto negativo do Ser: ‘temer’). Fluir de volta para dentro de si é harmonizar-se, ainda que temporariamente no tempo (linguajar voluntariamente heideggeriano). É atingir a essência (o Ser) no próprio devir. Ora, que ele sempre foge é um lugar-comum. Ele foge infinitamente de si mesmo. O que Nietzsche é celebrado por haver ensinado pela primeira vez na modernidade? Que o rio retorna. O rio retorna infinitas vezes, é o modo de dizer, é verdade. Mas para o indivíduo, para o filósofo, para o ser vivo: quantas vezes? Minha opção é pela primeira semântica da tradução. Se o rio pára de fluir e se reencontra Uno consigo duas vezes, só pode ser em dois momentos: no nascimento e na morte. Porém para nós não faz diferença: é uma vez, na interseção dos dois. Há angústia pelo fluir do rio, não pela morte. Tanto quanto não pode haver angústia por haver nascido, se esse é o total do ser e ele nunca foi, por exemplo, pedra. E, supondo que tivesse sido, ainda carregar a sabedoria de ser pedra (novo absurdo) dentro de si. Nem a pedra nem o homem têm por que angustiar-se, jamais. Ainda assim, o homem se angustia. É só uma constatação. A pedra mais desesperada do universo não sentiria o menor átimo de ansiedade. O homem no mais remoto dos Shangri-Las e nirvanas ainda sofreria, se angustiaria, bastante. É nosso modo de existir. Por que se angustiar “ao quadrado” com isso? Mesmo que existisse a cura, o homem a preteriria, pois preferiria continuar sendo homem. Versão completa deste parágrafo em https://seclusao.art.blog/2023/06/26/o-paradoxo-da-pedra-no-rio-de-heraclito-mais-um-aforismo-de-nietzsche/.

Surgimento do amor: – amor como decorrência da moral”

algo supremo parece se esfacelar em banal num mundo atomizado – o erótico é a demonstração par excellence. E o amor vai buscar esse “algo unificado” novamente, ao mesmo tempo instalando o embrião de uma sucessora divisão…

Se você está para frente demais no tempo você não está para trás? Ou no mesmo lugar? Talvez fosse sensato reconhecer que o Cristianismo, como trecho do anel, é uma espécie qualquer de redenção que deveria ser um objetivo pelo qual lutar – mas e então? Nietzsche acaso é um fraco, moribundo, débil? Tudo é “logo”, tudo é “o supra-homem”! Para o diabo com essa conversa!! NOVA GUINADA? Não, só fantasmas apolíneos. Maldito deus-homem! Meu destino é praguejá-lo (a despeito de sê-lo).

Ninguém vem a mim. E eu mesmo – eu fui a todos e CHEGUEI A NINGUÉM.”

Se todos os mundos fracassam igual, por que Nietzsche seria melhor do que Platão? [Evidente.] Não existe máquina do tempo porque o universo é a própria máquina do tempo (frase recorrente nas minhas anotações do período 2009).

CADERNO DO NIILISTA. UM DIA COMO OUTRO QUALQUER, MAS ELE DENOTA CANSAÇO.

O que é que eu ganho por antecipar um detalhe ou outro da roda que ainda não beijou o asfalto nessa rotação? O que é que a pergunta ganha sendo sibilada 400 bilhões de vezes?! O mito do moto perpétuo e aliás qualquer mito… Tudo verdade, uma idade ancestral e/ou onipresente. Por que, no entanto, as coisas não são melhores e eu não posso viver como nos meus sonhos? Será um período excruciante excepcional? Só não quero morrer sem ter feito vingar esta esperança – e não quero ler esta palavra “esperança” de mãos sujas…

Falta honestidade para admitir: o Cristianismo se apresentava como método para dispor igualmente o fatigado espírito humano de metas supremas, e o que é endeusado hoje como tragédia podia ser a fonte de todas as noções de pecado e talvez necessitasse da racionalização. Talvez Apolo àquela altura fosse sinônimo de dignidade. Talvez? Ah, a quem estou querendo enganar? O devir é MAU. Porque de onde estou só posso pensar nessa palavra. Minha missãozinha tola é ser alguém que colabora com dois séculos que aí vêm para, em troca, não viver a vida de seu presente (visto que nasci antes do meu tempo, estou adiantado em relação a minha época), sua única vida.

Descobrir que se se fosse mais como as pessoas por aqui são eu seria igualmente nobre e transgressor, pois superaria os trágicos! Rá, quão sórdido… Basta meu auto-objetivo de sair daqui, eventualmente matando alguém, escrevendo coisas que chamo de arte, e mantendo minha linha máxima de consumo lá embaixo – para, sabe-se lá, morrer de dor de dente!

Ah, se todos os mitos pegam! Meu guia será minha vergonha. Ler o horóscopo não rende mais vexame – falar com acadêmicos sim!

Essa é uma razão contrária, e eu te sou grato. Agora me rebata, porém, ainda a razão contrária, amigo!”

* * *

Com orgulho se venera quando não se consegue ser ídolo”

Todo ser humano é uma causa criativa do acontecimento, um primum mobile com um movimento original”

Quando Deus entendeu a si mesmo, ele gerou a si mesmo e a sua antítese” (*)

Com ombros firmes, ele está escorado contra o nada e onde há espaço, aí há estar, há ser.”

O homem se define por ficar de pé, como o supermacaco, imagem do último homem, que é o eterno.”

Esses querem jogar dados e aqueles querem calcular e contar e aqueloutros querem ver sempre ondas e danças das ondas – eles chamam isso de ciência e ficam suando em cima disso. Mas são crianças que querem o seu jogo. E, realmente, é uma bela brincadeira de criança, mas um pouco de risada não prejudicaria o jogo” “Há muito a calcular no mundo: mas calcular o próprio mundo – isso é enfadonho.”

(*) “A antítese do ser-acima-do-humano é o último ser humano: fabriquei este junto com aquele” Como o diabo de nós próprios, este “ser-mais” é atemporal. Coexistência e rivalidade necessárias.

História: evolução das finalidades no tempo.”

O ANTI-DARWIN: “O inverso, de que tudo até nós é decadência, também é demonstrável (…) até agora a natureza VAI A PIQUE.”

A liberdade da vontade é mais bem-demonstrada como causa e efeito (a rigor, causa-efeito é apenas uma seqüência popular).” A liberdade da vontade só existe em Schopenhauer. Não é a vontade nietzscheana.

Sentido do casamento: um filho que represente um tipo mais elevado que os pais” “eles precisam te desprezar quando tu vais mais longe do que eles – eles não entendem o acima-de-si” Lei inconteste. Até eu posso ser dela vítima, quem sabe? Posso, como autor, imaginar que minha prole regride no anel, e na verdade ela avança! Incompreensíveis para mim. “Tu suspiras por amor – mas não, tu precisas aprender a suportar desprezo.”¹ Meu doutorado em engolir sapos. Ou não engolir nada, não vomitar nada. Publicamente.

A cavalo concebido se olham, sim, os dentes!

O paradoxo de José na sociedade do trabalho: agrilhoar-se para libertar-se!

¹ desprezar, v. trans. dir.

1. Troçar de.

2. Subestimar.

3. Ignorar.

Eis as acepções clássicas do verbo português, quando ele não se aplica no reflexivo (desprezar-se). De uma forma ou de outra, ambos os meus pais se alternam nisto. E se ao menos fosse um só, meu sofrimento estaria reduzido menos que à metade! Bom, N. também teve 2 estorvos na família íntima – em realidade, eu me enquadro mais num três-contra-um, se contar o irmão mais velho!

A dor mais pungente: toda vez arrepender-se de se abrir.

Nada entre um imprestável e um prestável: aí está a contraposição do ser, Sartre!

Tenho 4 pais. Seria um erro cósmico que não houvesse um pregador cristão quase debaixo do meu teto, afinal não há nada menos aparentado conosco que nossos pais batismais. (2009)

Um ano torna caducos muitos sonhos e ridiculariza muitos pesadelos. (2023)

Minha orientação para a Arte: não mais continuar poetando onde estão as fronteiras! Mas o futuro dos humanos! Muitas IMAGENS precisam estar aí de acordo com as quais se possa VIVER!” Talvez N. estivesse recuando da terminologia metafísica do supra-homem neste esboço?

O grande MEIO-TERMO: a decisão sobre querer-viver e querer-morrer”: provavelmente um aforismo que foi plagiado pela integralidade da filosofia de Albert Camus, o supervalorado!

A decisão. É preciso haver inúmeras vítimas. Uma tentativa.” Muito simples usar este aforismo para malversá-lo, como fez sua irmã. Não se referia a nenhum evento histórico do século XX.

Ainda a mais doce das mulheres tem sabor amargo”

É preciso proteger o mal como se precisa proteger o mato. É verdade que pelo rareamento e pela destruição das matas a Terra ficou mais aquecida –” e muito boazinha.

O nojo pela sujeira pode ser tão grande que nos impede de nos limparmos”

Buscar conhecimento é um desejo e uma ânsia (…) Não há nenhuma forma de conhecimento que não seja antes um refazer

Esses são meus inimigos: querem derrubar tudo e não reconstruir a si mesmos. Dizem: ‘nada disso tem valor’e eles mesmos não querem gerar nenhum valor.”

O animal nada sabe do seu si-mesmo”

Temos de ser um ESPELHO do ser: somos Deus em miniatura”

P. 202, af. 263: sobre o aumento da expectativa de vida e o paradigma estreito da medicina moderna.

Af. 267: “Há muitos que não sabem nada melhor sobre a Terra do que ficar na cama com uma mulher. O que sabem estes da felicidade!”

Às vezes o que é enxergado como crepúsculo é apenas o preâmbulo do sol de meio-dia.

Os judeus estragados pelo aprisionamento egípcio” O paradoxo: essa ‘paganização forçada’ foi que resultou no Cristianismo e na adulteração das práticas do judaísmo antigo, apenas nas entrelinhas do Antigo Testamento, quando não completamente invisíveis, práticas e preceitos esses contidos, pelo menos, no Talmude, disponível para nossa investigação contemporânea.

Odeia-se mais aquele que nos seduz de volta a percepções sobre as quais nos tornamos vitoriosos com extrema dificuldade” Eu já fui um liberal de tipo PSDBista. Odeio liberais. Odeio os ‘social-democratas’ (falsa esquerda, quinta-coluna). Eu já fui um ateu militante (na pré-adolescência, é verdade). Odeio esses ateus mais cristãos que os cristãos (leia-se: mais anticristãos que os anticristãos!). Odeio quem ama a sociologia. Odeio os hedonistas. Odeio metaleiros. Odeio são-paulinos. Odeio otakus. Odeio “gamers”. Odeio os que levam o trabalho a sério demais e adoecem por isso. Adoro aqueles que sabem ser anti-monoteístas, stalinistas, maoístas, fidelistas, chavistas, putinistas, aqueles que sabem usar a sociologia como anti-sociologia, para o verdadeiro progresso da sociedade (no sentido oposto a Comte-Durkheim), aqueles que sabem ouvir heavy metal, assistir e falar de futebol, apreciar jogos de videogame e desenhos japoneses sem parecerem completos imbecis infantilizados e extremistas desnorteados. Com efeito, odeio hoje todo e qualquer colega dos tempos de escola (avatares de todas estas categorias reunidas). Eles não acompanham o ritmo da dança. A classe média insossa do DF, minha grande nêmese. Já fui o mais insosso dos sem-sal, hoje sou um tempero exótico da Índia.

LUTAS, RODAS DENTADAS ATRITANDO, SENTIDOS OPOSTOS CRIANDO HISTÓRIA: “Quando Hegel encontra Heráclito”

Há duas Histórias completamente diferentes, que a disciplina não costuma diferenciar: a História das Intenções e a História dos Fatos.

O ideal de liberdade: quando fatalismo vira uma razão suficiente kantiana.

somente as naturezas ordinárias podem ver no Estado o instrumento da desforra

A era dos reis acabou, pois os povos não são mais dignos deles” Usado no Zaratustra

Moral como mímica dos afetos

A música CONFESSA o afeto, muito ao contrário da escrita, que é tão diferente da modalidade oral. Nisso ao menos Schopenhauer tinha razão…

quanto mais as religiões forem morrendo, tanto mais SANGRENTO E VISÍVEL há de se tornar esse combate” – auxílio da mass media: “Estamos no início!” Resta saber onde termina o início…

A conhecida teoria do Hamlet como a grande obra frustrada de Shakespeare: redundância ou inefabilidade do estado de não-ser. Não-relacionado com a morte (ao contrário). Hamlet disse o tempo todo sim, sobretudo quando decidiu morrer herói. Não ser seria não virar tema de um drama, nada fazer.

O quanto nós vivemos mais no BEM-ESTAR que nossos antepassados revela-se no fato de que a dor isolada é tão MAIS FORTEMENTE sentida do que o prazer isolado” – e, sendo assim, tem-se o poderoso estímulo que findará por sepultar a própria sociedade do bem-estar (nada a ver com o Estado social, mas com o modo de vida ocidental consumista).

o ódio e o nojo ao estranho são do mesmo tamanho que o prazer consigo” Eu me amo, eu me amo, não posso mais viver sem mim… O turista contumaz: o tipo que se odeia.

Pragmatismo vs. heroísmo: a diferença entre o inteligente e o sábio: não se importar em ser prejudicado.

aparece como a aspiração máxima do ser humano tornar-se UNO com o mais poderoso que existe.<Poderoso> pode estar um tanto mal-empregado aqui, mas isto, esta aspiração, é Brahman.

que nós tomemos o mais próximo [o sistema nervoso consciente] como o mais importante é justamente o velho preconceito – Portanto, reaprender!”

Toda essa ânsia pelo imorredouro é conseqüência da insatisfação”

Os nossos ‘ricos’ – esses são os mais pobres! A finalidade autêntica de toda riqueza é esquecer!”

Endeusamento da natureza’ – isso é conseqüência de pobreza, vergonha, medo, idiotice!”

Eu quero não ser entendido por longo tempo”

O que Nietzsche diria do homem na Lua?

Luto com o dragão do futuro: e vós, pequenos, tereis de lutar com minhocas”

A vida é uma tragédia para aquele que sente, e é uma comédia para aquele que pensa. O semi-deus já sentiu muito, hoje sente menos, pensa mais no que sentiu. Pensa e ri de coisas ardidas e ardilosas do próprio ontem.

Todos aqueles que produzem criativamente [o semi-deus] procuram novas linguagens: ficaram cansados de uma fina língua desgastada: tempo demais o espírito andou sobre tais solas.”

Dos judeus, tirar-lhes o dinheiro e dar-lhes outra direção.”

O que são as “sete solidões”? Acredito que se refira a alguma passagem da Gaia-Ciência ou mesmo d’Aurora.

ponho a mão no fogo pelo próximo milênio”

Vivo como que em outras épocas: minha altitude me dá trânsito com solitários e ignorados de todas as épocasMEU AMIGO NIETZSCHE

muralhas destruídas”: um enigmático pré-requisito da formação do supra-homem… Deleuze & Guattari entenderam errado a expressão!

Mostrar a ‘metafísica da metafísica’!”

ANTI-FORBES: “Os seres humanos mais influentes do mundo são os mais escondidos”

Cultura é apenas uma fina película de maçã sobre um caos efervescente” (e civilização uma parte finíssima ainda mais insignificante dessa mesma película)

Mais cultura!” = MAIS CAOS! necessariamente

Opiniões públicas – preguiças privadas”

Corre-se maior perigo de ser atropelado quando se acaba de escapar de um carro”

O discípulo de um mártir sofre mais que o mártir” Mesmo que lute apenas com minhocas. Isso não é uma depreciação do seu valor como discípulo.

Quando não se tem um bom pai, então é preciso se arranjar um”

Rafael de Araújo Lula da Silva

Não se sente a monotonia quando nunca se aprendeu a trabalhar para valer” Os hedonistas não sabem o que é tédio, embora passem a vida fugindo, entediados… Talvez persigam uma ocupação, e erram na escolha dos meios…

Alguns homens choraram o rapto das suas mulheres; muitos, que ninguém as quisesse raptar.”

O fantasista nega a verdade diante de si; o mentiroso, só diante de outrosRetifico uma convicção minha: meus pais não são uns mentirosos, são uns fantasistas!

Os seguidores de um grande homem costumam se deixar ofuscar para melhor poderem entoar os seus louvores; pobres pássaros canoros!” Muito melhor as aspas que sua mera atualização. Sou apenas o pedreiro deste magnífico engenheiro. E mais além: “É preciso saber obscurecer a própria luz para se livrar das moscas e dos fãs” O Ocidental Obscuro bem o sabe. A persona do Ocidental Obscuro, adotada por mim em textos a partir dessa época (2009) surge nominalmente pela primeira vez no blog aqui. É inclusive provável que o livro Cila ou Caribde Vol. II conte com este subtítulo. (Não prevejo seu lançamento para antes de 2024.)

Eu refundei a maldade.

É preciso saber colher os louros da fama e da vitória, como do ostracismo e da derrota.

Os direitos humanos no sentido não-bolsonarizado do termo recrudescem a cretinice da modernidade.

O que pode ser pior do que uma cidade repleta de pedintes? Uma cidade repleta de cristãos.

Uma boa sentença é dura demais até para o dente do tempo”

A maior doadora de esmolas é a covardia”

Para o amigo do estilo rebuscado, o estilo solto é uma tortura para os ouvidos” Y vai-se ver ça!

É preciso acabar com os mendigos, pois a gente se incomoda lhes dando e se incomoda não lhes dando”

Indigesta sociedade, que se cansou de descansar. O dispéptico chato da mesa.

O que é a fome? É o produto da digestão! Mas a digestão ocorre – com fome ou não!

Conhecer certos efeitos inesperados de um desejo não resolve a equação (mesmo que a psicanálise estivesse certa, ela seria como uma face dum dado de 6 lados, irrelevante, incompleta, incapaz): há sempre outros efeitos adversos ignotos.

Herói: aquele que se faz passar por ridículo para salvar a humanidade. Logo, ele é o semi-deus dos outros, o herói apenas de si mesmo. Revolta e herói: duas palavras que não sabem andar divorciadas.

Aquilo que todos sabem, por todos é esquecido”

imortalidade é apenas uma metáfora”

O que é 1? A falha fundamental. Brahman precisa do herói, de se dividir em carrascos, vítimas, heróis, anti-heróis, etc. Quem morre também se sacrifica por si mesmo. Para que possa nascer na mesma vida.

Queres a paz? Toma a paz! Neste “toma” já está implícita a guerra – é uma ordem unilateral.

Quem é Pana?

(*) “Na mitologia inuit Pana era a divindade que cuidava das almas no submundo (Adlivun) antes que elas reencarnassem.”

Visível deve se tornar o mundo ainda no menor de tudo: então vós pensais estar ENTENDENDO: essa é a bobagem do olho”

Nada é mais claro do que um falso delírio sobre bem e mal!

O homem bom é impossível: na própria vida o não-bem é delírio e injustiça. E essa seria a última vontade voltada para a bondade: negar toda a vida!’

Com o vosso bem e mal, vós vos magoastes a vida, cansastes a vossa vontade; e vossa própria apreciação era o sinal da vontade declinante, que busca a morte.”

A onda rugiu ao passar: a criança chora porque ela arrastou consigo o seu brinquedo para o abismo. Mas a mesma onda joga-lhe cem outros brinquedos na alva areia. Portanto, não choreis por mim, meus irmãos, por eu estar passando!”

A flor quer a semente”

Trechos que parecem ser os finais, usados nos livros mais conhecidos, na verdade são esboços modificados. Não se sabe aliás se são mesmo rascunhos preteridos, versões alternativas igualmente válidas ou mesmo versões melhoradas e que pretendia ainda publicar em bloco.

A famosa frase de Aristóteles sobre a raiva: Sem raiva não se vence nada.

Constantes da minha inconstante vida (2009-2023): rompimentos interpessoais (dolorosos, mas positivos, a despeito da solidão que se segue – brinquedos são sempre devolvidos pelas ondas, como diz Zaratustra), doenças (não-graves, renitentes) que me atacam sobretudo em períodos de ócio (feriadões, férias – sintoma de que trabalho duro), sonhos com essas figuras passadas (às vezes a separação não foi um rompimento, apenas parte dos desencontros da vida). Exemplos: Liz, Antonielle, Tavares o Corinthiano. Pessoas com quem gostaria de falar de novo – mas sinceramente me decepcionariam, porque, francamente, quase ninguém vê o que quase ninguém vê (velhos ou novos ou novos velhos amigos…). Amigos de internet tão importantes por uns anos que depois… já nem sei quem são apenas pelo nome… Como se nunca houvessem existido! Uma outra constante: as únicas aulas que dou são por escrito, e não-remuneradas.

Meta: formação mais elevada de todo o CORPO e não só do cérebro!” Uma grande arte mais individual do que imaginam os atletas, nutricionistas, médicos, vaidosos em geral e personal trainers

História dos seres humanos mais elevados” Isso vem sendo toda a seara historiográfica, Nietzsche, pode ficar tranqüilo…

O ferido sempre se irrita consigo mesmo – esse é o poder da dialética trágica: ele estará MAIS FORTE da próxima vez.

VERDADE SOBRE O CARÁTER RESSENTIDO DO DIREITO MODERNO: “O prejudicador é compensado – é a forma mais antiga, não a intencionalidade hostil. A indignação surge por se ter sido prejudicado, portanto em função do êxito do inimigo, não em função da hostilidade. É a sensação do vencido – a ânsia de vingança: não a sensação de que tenha ocorrido uma injustiça.” Quase ininteligível para qualquer jurista, pois não se fala aqui a língua deles. E o que é um filósofo do direito senão um filósofo – o contrário de um jurista?!

À p. 340 a tese de que a justiça deveria exilar mais e prender menos.

A relação suprema continua sendo a do sujeito criador com o seu material: essa é a última forma de arrogância e supremacia.”

Arrependimento: isso é vingança contra si mesmo”

Quando o ouro tilinta, a puta pisca os olhos. E há mais putas do que moedas de ouro. Quem é venal, esse chamo de puta. E há mais venais que moedas de ouro!”

Desprezo a vida supremamente: e eu amo a vida ao máximo: não há nisso nenhum contra-senso – nenhuma contradição”

A ARENA DO POLITEÍSMO

Com os deuses, há muito já se está no fim: eles todos morreram – de rir.

Isso ocorreu quando começou a rodar o dito mais ateu já vindo de um deus – o dito: tu não deverás ter nenhum outro deus além de mim: uma velha barba iracunda de Deus esqueceu portanto a si.

Tão pobre jamais fôra um deus em seu ciúme a ponto de impor: ‘tu não deverás ter nenhum outro deus além de mim!’

E todos os deuses riram então e se sacudiram nas cadeiras e exclamaram: ‘Não será justamente divino que haja deuses, mas nenhum Deus único?’

Jeová, nesse conto nada barroco, é o herói, grave e auto-imolado(r). Zeus, Indra, Odin & cia. os semi-deuses (ironia de nomenclatura). Nosso mundo é invertido: conosco, os homens ocidentais, os últimos são os primeiros: o Deus cristão inaugura esse mundo; mas também morre primeiro. Morre de descrença em si mesmo, do que nenhum mortal morre (esse é nosso inferno, nosso nada, aliás). Assim como o semi-deus… – esse é imune aos efeitos colaterais da risada, i.e., não se engasga com azeitonas, vive rindo, ri vivendo. Aprendeu com a história e com o mito. E nossa risada é nosso néctar (riqueza útil). Não é irônico que o Deus que curava aleijados no mercado não soubesse dançar?

“Odeia-se mais aquele que nos seduz de volta a percepções sobre as quais nos tornamos vitoriosos com extrema dificuldade” Nietzsche. A seguir, um pouco sobre mim.

Eu já fui um liberal de tipo PSDBista. Odeio liberais. Odeio os ‘social-democratas’ (falsa esquerda, quinta-coluna). Eu já fui um ateu militante (na pré-adolescência, é verdade). Odeio esses ateus mais cristãos que os cristãos (leia-se: mais anticristãos que os anticristãos!). Odeio quem ama a sociologia. Odeio os hedonistas. Odeio metaleiros. Odeio são-paulinos. Odeio otakus. Odeio “gamers”. Odeio os que levam o trabalho a sério demais e adoecem por isso. Adoro aqueles que sabem ser anti-monoteístas, stalinistas, maoístas, fidelistas, chavistas, putinistas, aqueles que sabem usar a sociologia como anti-sociologia, para o verdadeiro progresso da sociedade (no sentido oposto a Comte-Durkheim), aqueles que sabem ouvir heavy metal, assistir e falar de futebol, apreciar jogos de videogame e desenhos japoneses sem parecerem completos imbecis infantilizados e extremistas desnorteados. Com efeito, odeio hoje todo e qualquer colega dos tempos de escola (avatares de todas estas categorias reunidas). Eles não acompanham o ritmo da dança. A classe média insossa do DF, minha grande nêmese. Já fui o mais insosso dos sem-sal, hoje sou um tempero exótico da Índia.

O PARADOXO DA PEDRA NO RIO DE HERÁCLITO (mais um aforismo de Nietzsche)

“Não precisais temer o fluxo das coisas: esse rio flui de volta para dentro de si: ele não foge de si apenas duas vezes.

Todo ‘era’ há de ser novamente um ‘é’. Todo vindouro morde o pretérito no rabo.”

ANÁLISE

Ambigüidade na tradução: em duas ocasiões o rio cessa de fugir de si mesmo ou ele foge bem mais vezes (e por que dizer duas vezes neste caso?)? A fluência do rio é a angústia humana (encarado como aspecto negativo do Ser: ‘temer’). Fluir de volta para dentro de si é harmonizar-se, ainda que temporariamente no tempo (linguajar voluntariamente heideggeriano). É atingir a essência (o Ser) no próprio devir. Ora, que o rio sempre está a fugir é um lugar-comum. Ele foge infinitamente de si mesmo. O que Nietzsche é celebrado por haver ensinado pela primeira vez na modernidade (canção já antiga)? Que o rio retorna. O rio deságua todo em seu próprio olho d’água ou manancial depois de as águas terem submergido por um tempo no subterrâneo, até voltar ao transcurso habitual do leito (metáfora para vida, pois é na cama, lugar de repouso e paz, também do sono, vizinho da morte, que a vida é gerada). E retorna infinitas vezes; é só modo de dizer, é verdade. Mas para o indivíduo, para o filósofo, para o ser vivo: quantas vezes? Minha opção é pela primeira semântica da tradução. Se o rio pára de fluir e se reencontra Uno consigo duas vezes, só pode ser em dois momentos: no nascimento e na morte. Porém para nós não faz diferença: é uma vez, na interseção dos dois. Há angústia pelo fluir do rio, não pela morte (um rio não morre, o rio da eternidade nunca seca, a existência nunca deixa de existir, este é seu modo, o da insistência do ser). Tanto quanto não pode haver angústia por haver nascido (a não ser para psicanalistas, que deviam todos estar em manicômios), se esse é o total do ser, e ele nunca foi (um não-ser), por exemplo, pedra. E, supondo que tivesse sido, (não pode) ainda carregar a sabedoria de ser pedra (novo absurdo, meramente expressável porém inconcebível) dentro de si. Nem a pedra no leito do rio nem o homem, o rio, com efeito, têm por que angustiar-se, jamais. Ainda assim, o homem se angustia. É só uma constatação. A pedra mais desesperada do universo não sentiria o menor átimo de ansiedade. O homem no mais remoto dos Shangri-Las e nirvanas ainda sofreria, se angustiaria, bastante. É nosso modo de existir. Por que se angustiar “ao quadrado” com o fato de que a angústia é inevitável? Ainda poder-se-ia dizer que este é o modo de existir do homem, ou ao menos do filósofo! Mesmo que existisse a cura, não obstante, o homem a preteriria, pois preferiria continuar sendo homem.

DO MISTERIOSO AFORISMO TRAGICÔMICO PÓSTUMO DE NIETZSCHE: O MACACO DE SI MESMO

“Em torno do herói tudo se torna tragédia; em torno do semi-deus – tudo sátira”

Por muito tempo meditei sobre esse aforismo, que não tinha entendido quando li a primeira vez, em 2009. Podemos evocar a famosa frase de Marx para nos ajudar a explicar seu significado. Mas eu ainda diria mais:

a) nosso mundo não tem mais heróis, não tem mais o caráter heróico; tem, sim, a necessidade, antropológica mesmo, do homem superar o homem; antes que substituir o deus morto seja uma realidade, o grau máximo que pode ser descrito é uma figura, a do semi-deus. Ele é um Zaratustra que aprendeu a rir de si mesmo. Tragédias são coisa do passado. Não há lugar para Édipos na atualidade;

b) pode ser apenas um comentário psicológico, despido de qualquer historicidade, e por isso nem Marx pode ajudar: depende da seriedade do próprio personagem (leitor), e com que gravidade ele enxerga a própria biografia. Mas por que “semi-deus”? Num mundo em que deus está morto, ter sido herói, ser um sábio, já é estar semi-morto. Não vale muita coisa. Quem deixou de ser herói e com isso não se tornou um vilão (recorro a mais uma frase famosa, provavelmente apenas uma re-citação de autor antigo, mas que, ao contrário da sentença marxiana, é apenas uma falácia), não degenerou completamente… ainda tem o aspecto exterior de um bufão. E onde já se viu palhaço triste? Menos Pierrots, mais respeito ao nosso passado que nos trouxe aqui, mas nunca em excesso… Nunca se tornar prisioneiro dos nossos (bons) feitos… Nem temos saúde para bancar de novo os Dons Quixotes, ainda que isso fosse possível! Resta reconhecer que hoje somos diferentes, menos rijos, mas que não podemos e nem queremos apagar nosso passado, mais ou menos distante… Ele ainda mora em nós.

Exemplo pessoal: antes, que eu tivesse um pai tirano era questão de vida ou morte. Hoje, sobrevivente, independente, ainda psicologicamente afetado pela experiência, e com o tirano ainda vivo, tudo é muito cômico e risível. Como pode e pôde uma pedra tão enxuta num sapato tão largo (ou o sapato era firme e apertado, o que impedia o seixo de rolar e atrapalhar? Sim, bufões usam sapatões maiores que os próprios pés!) me causar tantos problemas num nível tão fundamental? Como pôde a mais inferior das criaturas se interpor entre mim e o sol? Mas nem era imperador – e daí que fosse? De todo jeito não lhe resta solução senão sair do caminho, nem que fosse para vir atrás de briga… E, com o tempo, toda(o) coroa… vira areia. Quanto mais tempo bloqueou minha luz solar montado em seus cavalos chamados Prepotência, mais queimou as costas (uma singela inversão de Dédalo, o pai sábio, e Ícaro, o filho imprudente). E pra quê, se tive meu banho caloroso do mesmo jeito? É verdade que ele, este pai, é o “macaco de Zaratustra”: gostaria de ser eu. Hoje é ele que me imita, sem saber o que ou como imita. Mas ele quer fazer o dono, o original, ficar bravo, perder a sombra (posto que à sombra não há sua sombra). E se a indignação for só uma máscara da gargalhada, e se o macaco é que está enfezado por dentro? Sim, sinto pânico, mas essa é a parte doentia da árvore genealógica, o orgânico que atingiu seu limite. Até ele, porém, é uma atuação, em último grau. É sempre material para ressurgir.

Toda podridão pode ser cinzas para uma fênix. E macaco não é fênix. O ruim de dar azo pra macaco é que é um bicho muito folgado, por isso, mesmo descontraídos, precisamos manter meia-distância. Quem é mais triste? O macaco ignorado ou o macaco perseguido (letalmente perseguido)? O esgar dos dois por debaixo da máscara deve ser o mesmo. Talvez o macaco seja, então, nosso espelho? Com ele é o inverso, ele viveu a paródia e agora tudo termina em tragédia? Macaco com capa. Macaco capado. Bucéfalo empacado diante de Diógenes.

O sentido final da hipótese b), portanto, é que devemos vencer nosso próprio macaco, o macaco de Zaratustra, etapa e desafio obrigatórios a fim de avançarmos enquanto projetos conscientes de sermos além-homens. E esse passo exige encarar o humor com seriedade e leveza, não amargura; e desafiar a tragédia que ameaça nos aniquilar como se ríssemos de uma boa piada.

TRÊS FRAGMENTOS DE JOSÉ SARAMAGO

“teólogos afirmam, embora não por estas exatas palavras, que a maior dificuldade para chegar a viver razoavelmente no inferno é o cheiro que lá há”

“quando é que é necessário matar? Quando já está morto o que ainda é vivo”

“Os vossos soldados devem ter sido dos últimos a cegar, toda a gente está cega. Toda a gente, a cidade toda, o país.”

[REPRISE] #TRANSCENDER17 HEIDEGGER’S HEGEL’S PHENOMENOLOGY OF SPIRIT

Originalmente de agosto de 2009. Comentários atuais em azul.

A construção do sistema hegeliano – primeiramente, o autor necessitou recorrer ao fenômeno para dar suporte à continuidade de sua filosofia central (a Ciência e limites do conhecimento). Postumamente, deprecia o acontecimento e o relega a sub-seções em uma nova versão do sistema, doravante guiado pelo Espírito e pela Lógica (lógica hegeliano-dialética, de verniz aristotélico, em contraposição a Platão, ou, como preferir, “englobando-o”). O universo só pode surgir do Absoluto, mas é o material e explícito responsável por legitimá-lo como tal – o Universo é como o paradigma ególatra do homem que para fazer-se precisa ser reconhecido pelos outros. Nisso estaria o mistério do universo de se auto-desvelar “fingindo” ser outro para contemplar-se a si mesmo. Eu sou deus. Eu encerro o absoluto em meu caráter fugidio. Não devo me voltar para o universo em busca da Verdade: se ele sou eu, ela reside em mim, em meu devir. Aliás, ela o é. (Isso é exatamente o que Sartre dirá na introdução de sua Magnum opus.)

O problema do “saber absoluto” em Hegel e a constatação de que o Ser e a Verdade são quadros atemporais, desejo de fim e de morte, está no limite lógico do Ocidente e naturalmente antecede o devir nietzscheano. Hegel é o último grande herdeiro de Platão. (20-06-2023 Discordo desse ponto de vista. Já havia editado acima: Onde se lê “(lógica hegeliano-dialética, de verniz aristotélico, em contraposição a Platão, ou, como preferir, ‘englobando-o’)”, em 2009 se lia “lógica hegeliano-dialética, em oposição a Platão e Aristóteles, ou, como preferir, ‘compreendendo’ os dois)”. Catorze anos de leitura em filosofia mudaram minha exegese de Hegel. E não só de Hegel: Platão e Aristóteles são inconciliáveis.)

O século XX oferece um panorama engraçado: Camus insinua que o problema central da Filosofia deve ser “julgar se se deve viver”. Já Heidegger insinua que a grande questão é “o que é o ser”. Uma Filosofia da Morte que quer a vida e uma Filosofia do ser que deseja a morte! (20-06-2023 Leviano de minha parte tendo lido Heidegger muito pouco tipificá-lo assim com tamanha segurança.)

É banal discutir se a Filosofia é ou não Ciência. Ela existe meta-isso, além. Trata dos problemas da existência. Nietzsche é tachado de anti-filósofo por ser “Imoralista” e romper com os clássicos (na aparência). Sem embargo, seu trabalho sem dúvida é Filosofia Clássica. Talvez o problema seja a atual condição precária da disciplina…

O conhecimento absoluto é um espelho que quer ser olhado. Quem pode olhar? O discurso, o relativo, a própria “soma rumo ao supremo”. A História seria o movimento de auto-descoberta culminando na satisfação plenipotente do espírito. Para mim, tanto faz (volta ao primeiro tópico).

A consciência progride, por experiência, até a auto-consciência (20-06-2023 Esclarecimento: já há necessariamente auto-consciência na consciência – em Hegel –, que é consciência-de, e consciência-de-si, mas a didática exige uma exposição em etapas, gradual); esta por sua vez aspira imperfeitamente ao absoluto (os existencialistas apontariam um erro grosseiro aqui: não existe consciência que não seja consciência-de-si – como dito nos parênteses anteriores o eu de 2009 foi precipitado em não reconhecer que já havia a resposta a essa crítica dos existencialistas já em Hegel) dizendo-se isso mesmo (que é relativa, sabendo, pois, do que sabe)/ é um movimento de “absolvição”, de chegada ao espírito, o absoluto. O fenômeno é o espírito materializado. (20-06-2023 O espírito é o fenômeno teorizado.)

“A aparência formal pura do absoluto é a contradição”

“A fenomenologia do espírito é o genuíno e total aparecimento do espírito”

(Hegel e Heidegger são o Pai e o Filho: o Espírito Santo são os problemas para se fazerem entender; escrita embotada.) (20-06-2023 – haha!)

Os três primeiros capítulos são dedicados a esclarecer o jogo de linguagem por trás do título original da publicação mais conhecida de Hegel, Ciência da Fenomenologia do Espírito.

“O conhecimento absoluto é conhecimento e vontade ao mesmo tempo”

Atenção: as fenomenologias hegeliana e husserliana não batem. Apesar de todos os elogios e louvores de Heidegger a Hursserl, seu mestre, em Ser e Tempo. (Husserl é considerado uma “escola à parte” por Sartre, e assim deve ser lido.)

Hegel não deve ser interpretado, aqui, como um introdutor à filosofia: seu livro busca o “oposto” (uma escatologia filosófica), se pudéssemos assinalar de modo extremo, uma vez que lida de forma definitiva com o problema ocidental da possibilidade do conhecimento (uma potente auto-apresentação da senhora Razão – ele é o filósofo que pergunta já possuindo as respostas), inscrevendo-se no cume do Idealismo Alemão (curioso Heidegger tipificá-lo após criticar rótulos).

É, complementarmente, a espiral derradeira da escola racional, duramente golpeada, na seqüência pelo materialismo histórico e pelo irracionalismo nietzscheano.

“Em Filosofia, inexistem predecessores ou sucessores de um trabalho¹ (…) todo verdadeiro filósofo é contemporâneo dos outros filósofos”

¹ Talvez a frase mais conhecida de Heidegger.

Frase famosa e funesta. Quer dizer que Hegel nem mestre alternativo algum envelhece, e que sua doutrina é só uma doutrina. Uma vida que não se chama Georg Friedrich Hegel precisa de mais que uma doutrina.

Enxergo necessariamente o devir (20-06-2023 Quis dizer: filosofia do futuro) quando leio as intenções de Hegel (“o fim é o começo”).

Eu sou o Evangelho! “Deus” é a própria vontade do todo que em seus frangalhos se define, assim como a ausência de deus. Deus é e não é. Ou sou eu ou sou deus. Sou eu. Deus perde a relevância. Ou eu sou Deus. SINTO, LOGO EXISTO. EXISTO, LOGO SOU DEUS.

WEBER – Fragmento e comentários

Baseado em anotações de 11 de agosto de 2019.

1. A OBJETIVIDADE DO CONHECIMENTO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS

O historiador moderno de espírito relativista sente a necessidade de obter os padrões dos seus juízos a partir da ‘própria matéria’ do seu estudo. [método científico auto-justificador] E o atrativo estético desse procedimento constantemente o incita a esquecer a linha que separa o ‘tipo ideal’ [instrumento simplificador que se sabe simplificador] e o ‘ideal’, [descrição não-fidedigna], donde esta situação intermediária que, por um lado, não pode reprimir o juízo de valor, e que por outro tende a declinar a responsabilidade dos seus juízos.” O fazer-ciência pós-moderno: acredita-se no que se quer; referenda-se o subjetivismo descontrolado do pesquisador. No fundo é apenas uma questão de tato: ou se o tem ou não se o tem.

O tipo-ideal foi cunhado como solução empírica para o problema do relativismo de todo discurso e de todo conceito. Porém não consegue escapar do estatuto do metafísico. O fazer-sociológico, mesmo o compreensivo, é Metafísica. Marx empreendeu a dialética trágica, o super-empirismo, o principal rival da escola compreensiva. Hoje podemos afirmar: os tipos-ideais são mais perecíveis que as leis econômicas d’O Capital.

2. AS CAUSAS SOCIAIS DO DECLÍNIO DA CULTURA ANTIGA

A inadmissibilidade moderna da escravocracia.

A idade média como transição entre a comunhão mágica e a degenerescência (individualização, liberalização).

O dilema do Império Romano: impasse entre recrutamento para o exército ou serviço remunerado no campo. O Estado precisava de dinheiro para custeio do exército e no campo o pagamento era diretamente em bens. Ou havia falta de comida, ou havia deficiência de segurança nas fronteiras. Então os bárbaros começam a ser contratados – as forças militares se tornam milícias. O comércio decai. Buraco-negro desmantelador: Roma como grande fisco não se pagava, ao mesmo tempo que empobrecia a periferia. Incapaz de gerar riqueza.

O KATHA UPANISHAD E SUA ANTECIPAÇÃO DAS ÚLTIMAS CONSEQÜÊNCIAS DA FILOSOFIA OCIDENTAL

Este é um estudo que intenta a interpretação do livro Katha, um Upanishad (livro sagrado hindu), por meio da Filosofia Ocidental. As conclusões a que chego são que o Katha Upanishad corrobora os achados dos principais filósofos de nossa própria cultura, ou, antes, dado que o Katha é mais antigo que as contribuições de Platão e de todos os seus sucessores, são os achados da Metafísica Continental ou Primeira Filosofia que corroboram estes trechos da religião-filosofia oriental do Hinduísmo como autênticos e acertados (documentos que chegam ao que convencionamos como a Verdade em sentido filosófico). Não defendo, com essa tese, que Platão e os demais em seu conjunto foram influenciados pelo Katha; ao contrário: em geral, nossos autores chegaram às mesmas conclusões, porém de forma autônoma e independente, o que fortaleceria minha interpretação deste livro sagrado. Em verdade, apenas os últimos filósofos importantes a se considerar puderam ler os Upanishads, como Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche e Heidegger. Antes do século XIX nenhum filósofo de monta havia tido acesso a boas traduções destes livros, bem como o conhecimento do Ocidente sobre o hinduísmo era meramente fragmentário. Foram utilizadas citações do Katha na tradução inglesa de Patrick Olivelle, orientalista contemporâneo (os textos hindus estão sempre em itálico).

“So he asked his father: ‘Father, to whom will you give me?’ He repeated it for a second time, and again for a third time. His father yelled at him: ‘I’ll give you to Death!’”


“A mortal man ripens like grain,

And like grain he is born again.”


“You, O Death are studying,

the fire altar that leads to heaven;

Explain that to me, a man who has faith;

People who are in heaven enjoy the immortal state—

It is this I choose with my second wish.”


 

“(Death)

I shall explain to you—

and heed this teaching of mine, O Naciketas,

you who understands the fire altar that leads

to heaven, to the attainment of an endless world,

and is its very foundation.

Know that it lies hidden, in the Cave of the heart.”


(Death)

“Choose your third wish, O Naciketas.

(Naciketas)

There is this doubt about a man who is dead.

‘He exists,’ say some, others, ‘He exists not.’

I want to know this, so please teach me.

This is the third of my wishes.

*

(Death)

As to this even the gods of old had doubts,

for it’s hard to understand, it’s a subtle doctrine.

Make, Naciketas, another wish.

Do not press me! Release me from this.

*

(Naciketas)

As to this, we’re told, even the gods had doubts,

and you say, O Death, it’s hard to understand.

But another like you I can’t find to explain it;

and there is no other wish that is equal to it.

*

(Death)

Choose sons and grandsons who’d live a hundred years!

Plenty of livestock and elephants, horses and gold!

Choose as your domain a wide expanse of earth!

And you yourself live as many autumns as you wish!”


Resposta fraca da Morte nesta alegoria, evidentemente não comprada pelo filósofo e crente (aprendiz dos Vedas e Upanishads) Naciketas. Mas a Morte (pense em Mefistófeles aqui) não desiste:


“And if you would think this an equal wish—

You may choose wealth together with a long life;

Achieve prominence, Naciketas, in this wide world;

And I will make you enjoy your desires at will.

*

You may ask freely for all those desires,

hard to obtain in this mortal world;

Look at these lovely girls, with chariots and lutes,

girls of this sort are unobtainable by men—

I’ll give them to you; you’ll have them wait on you;

But about death don’t ask me, Naciketas.”


Outrossim, a sedução do diabo no deserto (Novo Testamento).


“(Naciketas)

Since the passing days of a mortal, O Death,

sap here the energy of all the senses;

And even a full life is but a trifle;

So keep your horses, your songs and dances!

*

With wealth you cannot make a man content;

Will we get to keep wealth, when we have seen you?

And we get to live only as long as you allow!

So, this alone is the wish that I’d like to choose.

*

What mortal man with insight,

who has met those that do not die or grow old,¹

himself growing old in this wretched and lowly place,

looking at its beauties, its pleasures and joys,

would delight in a long life?”

¹ Seria uma interessante parábola, se existissem tais deuses ou vampiros! Ou, conforme veremos adiante, Naciketas fala dos sábios, em sentido puramente alegórico.


 

“The point on which they have great doubts—

what happens at that great transit—

tell me that, O Death!

This is my wish, probing the mystery deep,

Naciketas wishes for nothing

other than that.”


“(Death)

The good is one thing, the gratifying [prazeres] is another;

their goals are different, both bind a man.

Good things await him who picks the good;

By choosing the gratifying, one misses one’s goal.

*

Both the good and the gratifying

present themselves to a man;

The wise assess them, note their difference;

And choose the good over the gratifying;

But the fool chooses the gratifying

rather than what is beneficial.

*

This disk of gold, where many a man founders,

You have not accepted as a thing of wealth.

*

Far apart and widely different are these two:

Ignorance [prazer] and what’s known as knowledge. [o bem]

I take Naciketas as one yearning for knowledge;

The many desires do not confound you.

*

Wallowing in ignorance, but calling themselves wise,

Thinking themselves learned the fools go around,

staggering about like a group of blind men,

led by a blind man who is himself blind. [um homem cego é mesmo cego!]

*

This transit lies hidden from a careless fool,

who is deluded by the delusion of wealth.

Thinking ‘This is the world; there is no other’,

he falls into my power again and again.”

Creio que ninguém ainda entendeu o verdadeiro sentido do texto. Em vermelho: o hedonista ou materialista pensa “não há outro mundo, só este, carpe diem, etc.”. Mas é só este quem morre. O outro mundo é neste mundo mesmo, invisível, habitado somente pelos sábios. Eles nunca morrem. Apud Sócrates-Platão-…


“Many do not get to hear of that transit;

and even when they hear,

many don’t comprehend it.

Rare is the man who teaches it,

Lucky is the man who grasps it;

Rare is the man who knows it,

Lucky is the man who is taught it.”

Mais más concepções: não se ouve a verdade muito amiúde; quando se a escuta, se a ignora como se ela nunca fôra proferida. Isto é Zaratustra livro I, cena da praça e do mercado. Não é raro o homem que ensina a sabedoria: tantos quantos são estes professores (os sábios, a.k.a. virtuosos), uma vez na vida eles acreditam poder ensinar – esse é seu erro; a virtude não pode ser ensinada. Portanto, só quem sábio se torna, sábio já era. Torna-te aquilo que tu és. Raro é o homem assim constituído. Sortudo é quem nasceu nessa condição, pois só assim “lhe foi ensinado” o conteúdo: por si mesmo.


“Though one may think a lot, it is difficult to grasp,

when it is taught by an inferior man.

Yet one cannot gain access to it,

unless someone teaches it.

For it is smaller than the size of the atom,

a thing beyond the realm of reason.”

Não existe o guru. Quantas vezes ter-se-á de dizê-lo? Quantos murros em ponta de faca? O final, porém, é adequado: a vontade ou Idéia é menor que qualquer pedaço de matéria, o que o século XX chama de partículas sub-atômicas fundamentais. Não é deste mundo, é do outro mundo vivenciado neste mundo pelos privilegiados de nascença (se há algo do mito brâmane que sobrevive é esse fatalismo: ou se nasce sábio e bom, ou se nasce ignorante e mau). E é vontade ou Idéia, esses nomes “estranhos”, embora familiares no léxico (mas quase nunca sabem seu significado!), porque não é razão, está além da razão. Quem disse que o sábio o é em virtude da razão?! Quem disse que a Idéia de Platão ou a virtude são alcançadas pela inteligência? Somente pelo instinto, pela inclinação natural em vê-las e senti-las, em sê-las (com isso que chamam de Brahma).


“One can’t grasp this notion by argumentation;¹

Yet it’s easy to grasp when taught by another

You’re truly steadfast dear boy,

you have grasped it!

Would that we have, Naciketas,

One like you to question us.”²

¹ A dialética esvaziada de um Aristóteles, o Racional.

² O outro é sempre si mesmo, sempre a ressalva em relação aos textos sagrados hindus, que ainda não tinham a consciência da origem da sabedoria, talvez a única vantagem oferecida pela filosofia ocidental sobre o maior trabalho, a maior sabedoria, embora inconsciente, trazida pelo Oriente, e que hibernou por tanto tempo, entre nós e até eles próprios, os professores do Veda! Us também não existe. Quem formula as perguntas e também as respostas naquele que não pode ser igualado (Platão)? Ele mesmo. A Morte neste Upanishad não é uma fraude, um espírito trickster, mas, pelo contrário, o alter ego de Naciketas: este é um diálogo, a maiêutica do sábio. Quem preside é ele mesmo, mediante suas reminiscências. Outra frase célebre: Dai a César o que é de César, significa: dai a este mundo o que quer este mundo: a humildade, a labuta, um mal-disfarçado senso de superioridade (porque os tolos, em sua maior parte, crêem na sua modéstia e na sua inferioridade, não se pode usar a sabedoria para angariar vantagens no jogo temporal). Assim quitais vossas dívidas com eles. Nosso eterno sofrimento, a eterna convivência com os eternos anões. O preço de nosso paraíso, no outro mundo que é aqui, sem testemunhas senão nossos poucos iguais. Jesus Cristo, o incompreendido. Ao mesmo tempo que não iniciou, o Juízo já terminou e está acontecendo. Acontece. Todo ele é a existência. A existência é uma criação escatológica.


“What you call a treasure, I know to be transient;”

tesouro transcendental


“Therefore I have built the fire altar of Naciketas,

and by things eternal I have gained the eternal.”

Jogando minha alma na aposta eu consegui meu objetivo: a eternidade. O outro mundo neste mundo. O presente do presente, o único tempo real. A única felicidade tangível. Sem necessidade de nenhuma providência; pois já estava lá, sempre esteve.


“[Já não importa quem fala, é o Um e o Mesmo]

The primeval one who is hard to perceive,

wrapped in mystery hidden in the cave,¹

residing within the impenetrable depth

Regarding him as god,² an insight

gained by inner contemplation,³

both sorrow and joy the wise abandon.”4

¹ E quem é que começa a vida preso à caverna, no mito (ou inclusive na historiografia “séria” – como se o mito não o fosse –: homem das cavernas)? O homem. Não é que o homem busque o sol que é a Iluminação ou instrumento necessário para iluminar aquilo que não se vê. Ou em outras palavras: aquilo que não se vê a descoberto é a si mesmo. O homem não se sabe homem, não sabe o que é, precisa do sol para entender que é o que tanto procurava. O mistério da vida é o mistério do homem diante do espelho. O eu, o maior enigma. O mundo dos homens, normalmente entendido como tão despido de significado quanto “o mundo de um deus desconhecido”, ou “de um deus que morreu”. O Mito da Caverna inverte a mitologia grega em geral: não estamos destinados a nos tornar sombras, mas somos sombras que eventualmente se incorporam e ganham volume, densidade, matéria, substância, cor, tangibilidade, vida.

² Na minha interpretação é o exato oposto: sem a companhia de ninguém, e deixado à própria sorte no fundo da caverna, em sua cela do Ser, o homem não pode atingir a hubris nem a auto-afirmação: divino é o estado mais difícil. o Um sem o Outro é prosaico.

³ Isso só pode ser exato depois da própria jornada, da odisséia, do retorno diferente ao mesmo lugar do princípio.

4 Como resultado inevitável da viagem exitosa. Quem tem o presente seria por definição feliz, como quer o hindu. Porém, em face do conhecimento da eternidade neste mundo (o outro mundo), sensações transitórias perdem o significado: o que é tristeza, o que é alegria sem contraste ou interrupção, sem-fim? Nada.


 

“When a mortal has heard it, understood it;

when he has drawn it out;

and grasped this subtle point of doctrine,

he rejoices, for he has found

something in which he could rejoice.

To him I consider my house

to be open, Naciketas.”

A liberação é saber que fora de todo o possível, fora do eterno presente, só fora, e só para quem está consciente do presente, no impossível (pois não existe esse fora), finalmente é concedido o direito de morrer. Não há transição. Só há transição na eternidade do presente e da ação. Mas o que é bênção para nós é maldição para quem tem medo da morte ou esperança eterna num outro mundo que não seja deste mundo. Eles já vivem neste outro mundo que desejam: eles são objetos, não são homens. O tempo corre para eles. Estão condenados a jamais morrer, porque para eles a vida é uma morte contínua.

Veja que o próprio compilador, ou tradutor, está confuso quanto à identidade de quem fala (como eu disse, não importa, é a mesma pessoa!):

“Seeking which people live student lives”

 

Buscando quais pessoas vivem vidas de estudante. O estudante dos Vedas é a figura perfeita dos Vedas. Não só dos Vedas: da existência mesma, das Idéias de Platão e da vontade de Nietzsche. O professor dos Vedas é só um artifício didático: ele é outro estudante, o daimon guia do bom caminho. Nunca cessamos de aprender, e de nos tornar mais sábios, mas não existe a Idéia do sábio: a idéia, a busca da sabedoria. A imagem perfeita. Tão perfeita que poderíamos nos perguntar se essa imagem não é a Idéia mesma. A imagem é a Idéia sobre a Idéia. A Idéia é a imagem da Idéia. A Idéia voltada para si mesma, a Idéia ao espelho. A sabedoria socrática. Esse é o infinito, pois não termina ou conclui, e é ao mesmo tempo um estado em perpétuo movimento. Um estado não-estado. Um movimento não-movimentado. A imagem das imagens.

 

A vontade, palavra do século XIX para o mesmo: deliberações sobre as entrelinhas de Platão, o contínuo debate da Idéia. Não menos perfeito que a Idéia, por não ser exatamente uma poesia da maiêutica (e quem disse que os aforismos não o são?), pois pressupõe a Idéia, já que não é debate estático. E é ao mesmo tempo estanque, porque não evadiu o bom caminho da Idéia. O invisível vivido pelo estudante (mestre).

 

OM é tudo, é vontade e é Idéia. Vibração contínua. Sempre há um ponto cego para o sábio, mas é ele que indica o bom caminho. Há sempre um mistério residual. Dádiva negativa do presente. Tê-lo em forma viva e depois querer tê-lo no mundo material para auferir vantagens é o mesmo que dele abdicar, cair na tentação sensualista da Morte na proposta ao estudante, do diabo a Jesus no deserto, da glória mundana. Uma confirmação empírica da Idéia desvaneceria a Idéia, descaracterizando seu ar incomunicável, indemonstrável, autorreferente e exclusivista, entrada para poucos e seletos. Ouvem-se as palavras Idéia, vontade e OM, mas, como disse a Morte acima, os habitantes deste mundo que esperam o outro mundo, sem saber que ele é este mesmo, não escutam. Escutam as palavras, mas não as compreendem. E escutar é compreender desde que o homem é homem. Escutar a mais bela melodia e não entender sua beleza? Quem não riria dessa “sabedoria” e deste pragmatismo dos tolos? Num mundo em que existem bem e mal, quem se dá bem, se dá mal. Assim poderíamos traduzir as palavras mais próximas a nosso tempo “muito além do bem e do mal”: o bem vigente não é o bem de Platão. Daí a razão da reviravolta que não é reviravolta (filosofia extrema de combate ao niilismo): contorceram tanto as palavras que já é necessário desfazer mal-entendidos a fim de se afirmar a mesma coisa de dois milênios atrás. O que já foi OM, e o que hoje não é entendido pelos exegetas hindus do OM, voltará a ser o mesmo OM originário, etc. Credo quia absurdum est?


“When, indeed, one knows this syllable,

He obtains his every wish.”

Sorte que nós não somos muito exigentes, e não pedimos desejos absurdos (com o perdão do trocadilho com o final do texto acima). Para nós tudo é possível, mas nem tudo é permitido (por nós mesmos), se pudermos incluir Dostoievsky na conversa, porque somos virtuosos e nossos desejos nada têm a ver com as fábulas dos adoentados morais, os sequiosos do outro mundo, materialistas incuráveis, a imaginar gênios que lhes concedam todo tipo de coisa inesgotável neste mundo; quando este mundo mesmo é esgotável (pelo menos para eles, pela forma como eles esperam saciar sua sede neste mundo, ainda contando com um outro!), que desejo logo não daria sede-de-mais aos pedintes? Esses mendicantes querem ganhar na mega-sena; os poucos que logram continuam sendo mendicantes, não há escapatória.


“And when one knows this support,

he rejoices in Brahman’s world.”

Brahman’s world = Brahman’s word

Outro mundo = Idéia, vontade, OM, presente eterno, vida do sábio


“The wise one—

he is not born, he does not die;

he has not come from anywhere;

He is the unborn and eternal, primeval and everlasting.

And he is not killed, when the body is killed.

(The dialogue between Naciketas and Death appears to end here.)”

Com minha ajuda, vocês certamente perceberam, o único mistério que subjaz é salutar para a compreensão do texto (o ponto cego do sábio). Então, modestia à parte, não haveria nem mais que dizer – hora perfeita para encerrar o trabalho de parto (maiêutica do sábio). O Katha Upanishad não encerra aqui, porém; a narração objetiva, fora de qualquer diálogo, dá continuidade aos ensinamentos.


“If the killer thinks that he kills;

If the killed thinks that he is killed;

Both of them fail to understand.

He neither kills, nor is he killed.”

Caim não matou ninguém, apenas passou por tolo! Abel vive ainda. A natureza se feriu. Mas a natureza é imortal.


“Finer than the finest, larger than the largest,

is the self (Ātman)¹ that lies here hidden

in the heart of a living being.

Without desires and free from sorrow,

a man perceives by the creator’s grace

the grandeur of the self.”

¹ Provável etimologia de nossa palavra “alma”.


“Sitting down, he roams afar.

Lying down, he goes everywhere.¹

The god ceaselessly exulting—

Who, besides me, is able to know?”

¹ Uma das características do homem pós-moderno esvaziado de sentido é viajar (territorialmente falando mesmo) sempre que pode. À procura de algo que nunca encontra. Sempre em movimento – mas ironicamente sempre estagnado no mesmo lugar – tentando fugir inadequadamente de sua sombra. A viagem talvez seja uma característica indispensável do ser humano. Mas é possível atingir a Idéia, ou o presente eterno, nunca saindo de sua província, como é possível errar como o judeu amaldiçoado sem qualquer conseqüência. Ulisses seria um bom exemplo daquele que viaja e sai do lugar ao mesmo tempo. O turista do capitalismo tardio, no entanto, apenas repete tudo que sabe fazer enquanto erradicado na província, necessitando, não obstante, de novas vistas na janela e de uma gorda fatura no cartão de crédito – suas provas empíricas de que ele viveu. Que bebeu a mesma Heineken vendida em sua vizinhança além-mar…


“When he perceives this immense, all-pervading self,

as bodiless within bodies,

as stable within unstable beings—

A wise man ceases to grieve.

*

This self cannot be grasped,

by teachings or by intelligence,

or even by great learning.

Only the man he [the self] chooses can grasp him,

Whose body this self chooses as his own.”

Aqui, estranhamente, cai a exigência de um guru, de um mestre para o estudante do Veda, e a auto-eleição fatídica que comentei acima fica sancionada.


“Not a man who has not quit his evil ways;

Nor a man who is not calm or composed;

Nor even a man who is without a tranquil mind;

Could ever secure it by his mere wit.”

Nenhum religioso com segundas intenções. A “frieza” do sábio não é a frieza do erudito, tão reparada e criticada em nossos tempos. O sábio não é um erudito. Erudito é o filisteu da cultura de massas. Sócrates é o anti-filisteu clássico. A frieza do sábio não é a incapacidade de se comover, mas a impassibilidade com que entende a inevitabilidade do funcionamento do princípio da Teoria das Idéias, da Vontade de Potência, do Om. Queira ele ou não, queira seu ego ou não, estas são Verdades que ele compreende como verdadeiras, e por isso as aceita (com impassibilidade, sinônimo circunstancial de frieza). Doravante, este é o “eleito”, de mente tranqüila, calmo e composto. Não levemos essa exigência longe demais: quem duvida que um Sócrates apaixonado por Alcibíades, que um Nietzsche compondo os livros mais destrutivos da cultura filistéia, não cumprem o requisito desta compostura exigida? Um homem calmo não vive em fúria, mas pode demonstrar fúria – caso contrário não seria um homem que os hindus estariam procurando, mas um embotado qualquer, já incapaz da ira.

A conhecida mente fervilhante do artista tampouco é uma vedação: suscetível às mudanças no mundo e crente nesta vida (e não somente em outra) ele sabe se isolar em seu próprio espaço, concentrado (o outro mundo neste mundo), onde não tem igual (Rafaello Sanzio, Miquelângelo, etc.). Acima de tudo ele pode contemplar sua situação no mundo com a mesma objetividade de um deus, de um filósofo (como dito acima) e de alguém que está desinteressado de lucros mundanos (o que os demasiado espertos são incapazes de compreender – “se eu tivesse seu talento, eu faria acontecer, eu seria muito maior, estaria no topo do mundo” – se um pequeno ou medíocre tivesse o talento do talentoso, ele não “faria acontecer”, porque então ele não seria apenas um esperto sem sabedoria e não pensaria como pensa o sem-talentos).


“For whom the Brahmin and the Kshatriya

are both like a dish of boiled rice;

and death is like the sprinkled sauce;

Who truly knows where he is?”

Quem senão essa super-alma qualificada, este que incorporou Brahman, para ver até mesmo a casta superior indiana como um mero equivalente inanimado da classe dos guerreiros que não estudam os Vedas? A morte é um fenômeno como outro qualquer, um tempero que aumenta o gosto da comida. E quem anseia pelo outro mundo, o que quer com isso? Quer escapar da morte como quem desmaia e acorda bem-tratado pelos outros, anestesiado, fugido das pesadas implicações. Isso pelo menos quando ele está anormalmente convicto do outro mundo. Na maioria do tempo essas pessoas sentem a própria insignificância e banalidade, e tremem diante da simples palavra morte, como que pressentem que estão erradas e falam da boca para fora.


“They call these two ‘Shadow’ and ‘Light’,

The two who have entered—

the one into the cave of the heart,

the other into the highest region beyond,

both drinking the truth

in the world of rites rightly performed.”

A semelhança com o Mito da Caverna ou princípios como os recitados no mazdeísmo são óbvios.


“the imperishable, the highest Brahman,

the farthest shore

for those who wish to cross the danger.”

Decerto “as margens mais afastadas” não são um batismo ritual indiferente e vazio, “feito por fazer”, “herança dos costumes dos pais”, incompreendido em “seus mistérios”, realizado mais por medo que por qualquer outro sentimento, extremas unções, confissões e idas semanais à igreja, “para não ir para o inferno”. Não, essa odisséia não é para almas covardes que recorrem a atalhos inofensivos gravados nas pedras! Quem pode nos dizer, num país cristão, que já não estava impregnado de todas essas ridicularias desde que se entendeu por indivíduo? Porque, claro, podiam significar nada, mas há sempre um parente ou conhecido para dizer: “Antes de tal coisa, fazer 3 ave-marias e rezar 10 pais-nossos, se não funciona, ao menos não prejudica”. E assim assimilamos costumes que não podemos chamar de imbecis, porque só consideramos imbecil aquilo que podemos compreender, para avaliar; isso é menos que imbecil, é apenas um mistério herdado, automático, parte de nosso “arrumar a cama – escovar os dentes – etc.”. Não se pode jogar essas coisas fora sem substituí-las por algo melhor, dir-se-ia. O algo melhor é a verdade do conhecimento sagrado inconsciente hindu, que finalmente se tornou acessível a nós após séculos de filosofia ocidental. Não que possamos encarnar em qualquer outro a função de guru; o ritual de ascensão do ignoto herdado ao autoesclarecimento é sempre individualmente doloroso. Por isso os materialistas (hedonistas que se dizem espiritualistas!), seguros do outro mundo, são incapazes de efetuar essa transmutação.


“Know the self as a rider in a chariot,

and the body, as simply the chariot.

Know the intellect as the charioteer,

and the mind, as simply the reins.”

Uma imensa sabedoria condensada e destilada em 4 versos. Seria incapaz de enumerar a série de referências que enxergo em nosso saber ocidental ao ler somente as duas primeiras linhas: já a figura da carroça que ascende ao saber está presente na mitologia grega, na própria alusão ao deus-sol e seus servos. Hélio e Faetonte são pai e filho e contudo com o passar das gerações já se confundem num só ente. A carroça voadora deveria descrever a parábola do percurso do sol durante as 12 horas do dia (depois ele submerge e passa por debaixo dos oceanos, voltando ao leste). Mas Faetonte já é associado, a dado momento, à própria carruagem (o eu-controlado da figura poética acima). É ele, esse deus, na forma humana, qualquer que seja o nome, o único apto a conduzir a carroça sem se queimar (ou desviar do percurso correto). Desdobramentos, ainda helênicos, são perceptíveis na estória de Ícaro e seu malfadado vôo, nos escritos de Parmênides sobre o Um, no daimon de Sócrates (o self mais profundo, que conduz a ele próprio, o indivíduo histórico), que o orienta até em sonhos musicais na véspera de beber a cicuta (que ele não tema, aliás, o oposto: que ele celebre e comemore a vida no momento do estar-morrendo).

Essa voz interior passa, mais explícita ou menos explícita, pelos textos de todos os principais pensadores, até aterrissar nas investigações sobre o inconsciente, o novo nome para o daimon, nosso verdadeiro senhor. O que é um espírito-livre senão o escravo de si mesmo, ou melhor, aquele bom discípulo de si mesmo, que sabe dominar seus impulsos (ou assiste, enquanto impulsos cegos, a este domínio que vem aparentemente de fora, mas que é ele mesmo?), malgrado seu, e sabe ouvir os conselhos da sua verdadeira personalidade, desconhecida em seu todo até pela própria vida consciente do indivíduo? É o homem ético e abnegado que vê os filisteus de cima, meras manchas topográficas – esses filisteus que se julgam alpinistas de elite!

E ainda nem falei da metade final! O intelecto é o cocheiro. Que intelecto – depois que a duras penas aprendemos a desconfiar desse intelecto lato sensu desde Aristóteles até Kant? Decerto não é o intelecto cartesiano, o intelecto dos ceticistas dogmáticos, o intelecto dos Iluministas franceses, dos ateístas franceses – cristãos amargurados! –, o intelecto dos cabeças de vento do séc. XIX tão criticados por Nietzsche, a raça dos eruditos alemães! Não é o intelecto dos românticos que sucederam a Hegel, nem do próprio Hegel, o Aristóteles de nossa era. Mas um Goethe, que se equilibrou entre o Romantismo moderno e a serendipidade dos antigos, este está acima do gradiente que criticamos aqui! Dele que é o Fausto, já antigo e do folclore, mas que de sua pena é o mais célebre – mais um Jesus Cristo depenado por seu daimon errado. Mefistófeles é só um agente externo, a sociedade, o gênio da lâmpada dos que querem vencer na vida ganhando na mega-sena, não o demônio interior verdadeiro do sábio. E o ícone intelectual que ainda subsiste para nós na terceira década do séc. XXI – a fraude chamada Sigmund Freud, este compartimentador do inconsciente, que transformou num mapa ou num cubículo as forças incompreensíveis e virtualmente ilimitadas que nos regem – fariseu dos fariseus, pois como judeu esclarecido este homem sabia ser um filisteu, e continuou interpretando seu papel jocoso por maldade e ganho pessoal. O ápice do racionalismo deletério – o Descartes pós-descoberta explícita do daimon, pela primeira vez, desde Sócrates-Platão. E quantos séculos ele não terá retardado o estado das coisas? Não decerto para os poucos privilegiados, que vêem por trás da opacidade de sua pseudanálise, que enxergam por detrás dessas paredes (pontos cegos do indivíduo médio).

E as correntes de pensamento continuaram, na segunda metade do século XX, errando em pontos fundamentais, aprisionando esse self hindu. Marxistas desfiguradores do princípio maiêutico-dialético provisoriamente resgatado no XIX… Não faltava mais nada! A filosofia continental se fecha e vive de comentadores dos clássicos – talvez devêssemos comemorar. Já sabiam os últimos clássicos e já sabem os melhores comentadores que as próximas respostas úteis (úteis para nós, os anti-utilitários) devêm do Oriente, que, contrariando a projeção geológica de que os continentes africano e americano à deriva estariam se aproximando coisa de 10cm por ano, parece estar vindo a nosso encontro a galope… Portanto, para arrematar: o self hindu não é esse tipo de intelecto, só para deixar claro!

A mente simplesmente como os freios (rédeas). No sentido do poema a mente me parece apenas essa faculdade consciente dos eleitos que efetuam a boa jornada. A mente de Dédalo, o pai do imprudente Ícaro, a prudência altruísta, sem ambições solares, mas orgulhosa o suficiente para não recair em abismos.


 

“The senses, they say, are the horses,

and sense[d?] objects are the paths around them;

He who is linked to the body (Ātman), senses, and mind,

the wise proclaim as the one who enjoys.”

Quem é este que encontrou a eternidade verdadeira no único mundo possível senão “the one who enjoys”? Que momento há para gargalhar se não o presente? É verdade que a carruagem segue um percurso, mas não estamos atrás de nenhum destino particular. Como Ulisses, apesar das aparências, também não estava. Sobre cavalos, poderia até citar David Lynch, para quem, em Twin Peaks, o cavalo branco era o símbolo da morte próxima e também do vício, representado pelo hábito cocainômano da protagonista (uma protagonista que morre antes mesmo da série começar, eis uma quebra de normas!), nas duas primeiras temporadas apresentado de forma mais sugestiva, vaga, anedótica e espaçada. Na terceira temporada, no entanto, ganhamos também um poema sobre eles, os cavalos brancos, que nos brindam com muito mais associações, ou pelo menos com um termômetro para julgar as sugestões das primeiras temporadas: …The horse is the white in the eyes / and dark within, embora eu tenha omitido a primeira metade desta outra quadra (!), para não me estender com conteúdo não-relacionado aos Vedas (se é que existe um que não o seja). Novamente o contraste entre o preto e o branco, a luz e as trevas, elementos da odisséia, dialética que leva à verdade. Mas, cavalo branco ou não, alado ou não, essa charrete mitológica também tem o seu, ou os seus. Embora pareça pouco funcional, podemos dizer que são 5, os cinco cavalos são os 5 sentidos. Cinco cavalos que puxam servilmente a carruagem (você). Se a vacuidade emocional dos filisteus de nosso tempo é uma imagem de cortar o coração, (!) não nos enganemos: os sentidos, raiz dos sentimentos, não são desprezíveis para o sábio – acontece que aqui eles têm tratamento pejorativo, sem dúvida. Os cavalos ou os pégasos cavalgam ou flutuam por uma estrada ou por um arco imaginário no firmamento. A estrada do Um de Parmênides. A mente precisa subordinar os cavalos: o cavalo que olha é na verdade cego; o cavalo orelhudo é na verdade surdo; o cavalo frenético e suscetível tem na verdade a epiderme dormente; o cavalo narigudo não tem faro; e o cavalo linguarudo nem saberia se ingere capim ou torrões de açúcar. Sem uma coordenação estes cinco não são nada. E para quem sabe coordená-los, veja, eles são tudo! A via de acesso ao nosso outro mundo, que está aqui. Uma via insuficiente por si só, mas indispensável para a alma. Há quem ache que o presente são os próprios sentidos. Rematados tolos. Eles são a paradoxal via para o invisível, o que eles percebem são apenas os objetos e os contornos da estrada para o presente.

Acaba de me chamar a atenção o fato de que, consultando o dicionário, obtive que “obscuro” é um antônimo de presente. E acima se contrapôs a parte do olho que enxerga, a retina, à brancura dos cavalos, prenúncio de armadilha. Pois o que não seria essa fala na boca de um dos agentes do Black Lodge de David Lynch, nesse contexto de cavalgar por uma senda necessariamente perigosa, senão uma grave advertência sobre a mais próxima vizinhança entre o enxergar bem e o viver com um antolho nos olhos? E eu que achei que já havia secado este poço (esta é a hora dos fãs de Twin Peaks mais ligados rirem bastante)!


“When a man lacks understanding,

and his mind is never controlled;

His senses do not obey him,

as bad horses, a charioteer.”

 

Apenas um lembrete, já que tudo isso já foi bem-comentado e o trecho é simples: o cocheiro (o daimon, o Ātman) é muito mais que a mente. É evidente que esta não é apenas uma enumeração paralela de uma hierarquia dupla, é mais complexo que isso. [De modo simples: cocheiro/o inconsciente (guia maior) > homem/vida consciente/carruagem > mente/corpo/intelecção > cavalos/sentidos (guias menores).] Maus cavalos não impossibilitam o sucesso da viagem (zero cavalos sim); uma mente em frangalhos, um corpo lasso e a estupidez (tudo junto conotando uma carroça em pedaços), sim.


“When a man lacks understanding,

is unmindful and always impure;

He does not reach that final step,

but gets on the round of rebirth.”

Renascer tem quase sempre conotações positivas. Não aqui, seja para o hinduísmo conforme os exegetas hindus seja para mim, que me arrisco a uma interpretação ainda alhures, conectada a um outro mundo no aqui e agora. Nada pode ser pior do que o renascimento contínuo neste contexto. É o mesmo que ensinar a doutrina do eterno retorno para os fracos em Assim Falou Zaratustra. A bênção de uma “vida” eterna não é nada no colo de mortos-vivos. A sua odisséia não é completada, é só uma grande tortura sem-sentido. OM omento presente não tem um último degrau, mas o último degrau é necessário para os sentidos do homem (sua parte menos importante).


RESUMO DO CREDO HINDU SEGUNDO RAFAEL DE ARAÚJO AGUIAR (LEMBRANDO QUE UM LIMITE MÁXIMO – QUE CHAMAMOS DE DEUS – QUE NÃO SAIBA RIR DE SI É INÚTIL, TANTO EXISTINDO COMO APENAS ALMEJANDO EXISTIR, DÁ NO MESMO):

No que os intérpretes (todos os já consultados por mim, pelo menos) do hinduísmo e eu discrepamos é: para eles, sair da roda da existência é a libertação. Eu acredito que os Vedas genuinamente pregam, no lugar, o seguinte:

Om. Quando se diz que sair da roda da existência é a libertação, está-se dizendo isso para os tolos; pois são os tolos que lêem ensinamentos nos livros e sempre os absorvem da pior forma. Desta feita, não proibiremos a leitura aos tolos, mas nos certificaremos que eles sempre retirarão deste manancial de sabedoria a interpretação mais literal e espúria possível: para eles, escapar da roda da existência via santidade é a libertação suprema. Isto não é Brahman, mas seria pecaminoso contra a própria vida ensinar a verdadeira religião para aqueles que não a merecem. O texto está redigido de forma que os merecedores de absorvê-la saberão interpretar nosso único credo a contento. A libertação é oni-presente e inevitável, sempre esteve aqui e agora e sempre estará para o leitor puro e consciente (aquele que aspira à sabedoria na vida). Isto é Brahma. Não há reencarnações, esse é apenas um dogma regulador para os hOMens mais vis. O dOM da vida é único e especial, pois a morte não é o que se entende vulgarmente pela morte: ela não encerra nada. O presente é eterno. A realidade é una. Não há progressos, regressos, ciclos ou aléns. O fato de indivíduos nascerem e morrerem confunde as massas, porque quem se crê indivíduo tenta se colocar no lugar de outro indivíduo, no que sempre falhará até os mínimos detalhes. É preciso entender que a existência não é algo linear sobre o qual o tempo – condição de possibilidade da própria existência, mas apenas uma de suas engrenagens – tenha qualquer poder. O tempo só funciona de acordo cOM o próprio desígnio inerente do que se chama realidade ou existência. Ele, o tempo, serve a e é inseparável da vida mesma. E a individualidade, o nascer e perecer são elementos, fundamentos da existência. Não significa que os indivíduos crus sejam Brahman (a existência mesma). Mas estão equipados para entender Brahman e se tornar Brahman. Pois Brahman pensou em tudo desde o sempre, já que o tempo é apenas uma engrenagem sua e ‘sempre’ é apenas uma palavra vazia fora da percepção dos hOMens, ligada às grandes limitações dos sentidos. Início e fim só existem para os indivíduos que são tolos. Brahman só pode ser usufruído pelo que chamam de presente. A vida dos tolos é um eterno sofrer, e o que é mais irônico: um sofrer baseado em algo que não existe – sua dilaceração, sua aniquilação, sua morte. O pavor do fim. Pois eles não sabem que são eternos, e isso gera a contradição muito lógica de que eles sofrem eternamente devido mesmo a esta ignorância, que em certa medida é obra deles próprios, pois eles também são Brahman, em crisálida. A forma de reestabelecer a harmonia e a ressonância cOM Brahman, o real, é, cOMpreendendo o real, efetivá-lo (sendo real, vivendo o presente, isto é, a eternidade). Esta condição carece de sofrimento penoso; o que (os tolos) chamam de sofrimento, na vida de quem entendeu Brahman é apenas atividade e saúde, a plena realização do Brahman, separado em indivíduos apenas formalmente, para apreciação dos eternamente tolos, tolo Brahman brincalhão (a verdade é que cada um que cOMpreende Brahman é Brahman, e Brahman é indivisível)! Por que nós, Brahman, dar-nos-íamos ao trabalho de escrever de forma tão límpida para nós mesmos, Brahman, o que é Brahman, se Brahman (os tolos, agora, os Brahman não-despertos e necessários ao Brahman) ainda assim não irá entender, da mesma forma que lendo poesia e enigmas? Pois este ensinamento carece da possibilidade de ser entendido pela mera literalidade e baixeza vital. É preciso ler mais do que palavras, porque Brahman é mais do que palavras. O “inferno” de Brahman é que Brahman é tudo, e a tolice é parte indissociável deste único e melhor dos mundos, o sempre-existente. O inferno de Brahman é Brahman, mas Brahman não se importa, o que é, aliás, muito natural e desejável. Brahman é o mais vil e o mais alto, e nunca se pára de cair e nunca se pára de subir segundo o axiOMa inquebrantável de Brahman, o Um ou Ser ou Ente. Brahman é perfeito e não quer se liberar de Brahman. E nem poderia se assim desejasse. Om.

Digo que Brahman em algum momento através de mim achou de bom tom ser mais literal, para satisfazer Sua vontade (e a minha), quebrando as regras num sentido e duma forma infinitesimal que não descaracteriza Brahman, num limiar bastante desprezível do que os tolos chamam de tempo-espaço que eu traduziria em palavras como sendo minha vida, os anos que eu vivo (da perspectiva de uma terceira pessoa)¹ nos lugares que eu vivo em torno de quem eu vivo (meus amigos, coetâneos e leitores).

¹ O que é a terceira pessoa (tanto do ponto de vista metafísico quanto do ponto de vista gramatical de todas as línguas)? É a junção fictícia das duas primeiras pessoas. Eu sou a terceira pessoa de vocês; vocês são a terceira pessoa para mim. E no entanto a primeira pessoa sou eu (vocês, isoladamente) e a segunda pessoa são vocês em conjunto (eu e os outros, para vocês, individualmente).


“When a man’s mind is his reins,

intellect, his charioteer;

He reaches the end of the road,

That highest step of Vishnu.”

Com esse trecho não vou gastar saliva. Irei apenas traduzi-lo para o formato da prosa familiar a nossa cultura, omitindo as palavras desnecessárias para a compreensão total (não faz sentido, na tríade homem-mente-intelecto, pelo menos nessa tradução em inglês, conservar mind e intellect; só man já é mais do que o bastante):

“When a man (…) is (…) his charioteer, he reaches the end of the road, that highest step of Vishnu.”


“Higher than the senses are their objects;

Higher than sense[d?] objects is the mind;

Higher than the mind is the intellect;

Higher than the intellect is the immense self;”

“Mais elevados que os sentidos são as coisas que percebemos por via dos sentidos, o mundo visível; [Que eu citei acima, na hierarquização simplificada, como intelecção – esta parte do mundo visível não fazendo referência ao próprio sujeito, e para sermos sujeitos está implicado que tem de haver o binômio sujeito-objeto, pode ser omitida, inclusive porque a mente, como veremos abaixo, interpreta automatica-mente todas as percepções dos 5 sentidos, integrando-as, e não se pode falar de mundo visível (veja como nos expressamos sempre hiper-valorizando os olhos!)/sentido sem que haja a mente do ator dotando este mundo de sentido (bússola das sensações).]

Mais elevada que o mundo visível é a mente;

Mais elevado que a mente é o intelecto; [Aqui sinto que nosso pensar ocidental entra em colisão com o vocabulário hindu – ou será problema da tradução para o inglês? –, pois mente e intelecto estão indissociados de acordo com nossa maneira de representar a ambos. A terceira linha, como a segunda linha, devem ser omitidas numa tradução explicativa superior.]

Mais elevado que o intelecto é o imenso self.”

Para melhorar, destarte:

“Mais elevada que os sentidos é a consciência;

Mais elevado que a consciência é o inconsciente.”

(mundo animal < mundo humano < mundo divino [somos divinos!]) (*) O mais irônico, se seguíssemos o ‘roteiro’ do Veda seria que posicionaríamos o mundo mineral acima do animal, i.e., o mundo visível, os objetos, as coisas, a estrada que os cavalos percorrem como sendo mais importantes até que nosso tato, audição, visão, olfato e paladar, o que é absurdo, pois não vivemos em subserviência aos objetos, e sim o contrário: somos nós que os criamos graças a nossa condição de seres vivos, por assim dizer.

A palavra que mais pode gerar confusão na tradução aperfeiçoada acima é a última. O inconsciente é o sábio que mora em nós sem que possamos ou devamos cobrar aluguel. Na verdade é ele que nos sustenta, em grau ainda mais surpreendente que a consciência sustenta os meros instintos. Porém, o INCONSCIENTE sofreu muitas malversações nos últimos tempos. Não temos palavra melhor para caracterizar “o verdadeiro senhor da consciência”, mas infelizmente a psicanálise poluiu imensamente essa palavra, para não falar das (más) psiquiatrias, psicologias e filosofias (jamais leiam Von Hartmann, um homem que interpretou Schopenhauer da pior maneira possível e teve grande influência sobre os ‘apreciadores da filosofia’). É preciso decantar e esterilizar a palavra para reutilizá-la, não temos escolha, e na verdade não devíamos nos subjugar a algumas poucas gerações de tolos, ou teríamos de reinventar nomes para quase todas as coisas. Mesmo assim, para iniciar esse processo e a revalorização do termo inconsciente, bem-descrito no Veda como imenso, muito mais abrangente que a consciência (como o oceano perante uma piscina), vindo a ser em última instância tão importante que pode ser igualado a Brahman, já que qualquer entidade separada de nós e portanto de nossa instância mais elevada seria apenas criar quimeras e fábulas que só multiplicariam as complicações, quando sabemos que o que o hinduísmo diz é que somos Brahman, ao contrário do cristianismo, que estabelece um Deus infinitamente inacessível ao homem, tão inacessível que se tornou a religião favorita do niilista ocidental,¹ quer dizer, maioria da população, que é niilista sem o saber… Em suma, quero dizer que de uma forma ou de outra, se quisermos respeitar o credo hindu, devemos equiparar a noção “despoluída” de inconsciente ao Todo desta querida religião. Seja falando simplesmente inconsciente, seja empregando, se se quiser, o termo inconsciente coletivo de Jung.

¹ Podemos até dizer que quanto mais crente se é, mais ateu! Só uma religião tão mesquinha seria capaz de provocar a morte teórica de deus, gerando tamanho estrago civilizacional que os filósofos tiveram de interferir nos negócios dos padrecos!

Por outro lado, se ainda assim o leitor fizer questões de sinônimos, como mais acima, para me referir a ‘inconsciente’, recorreria a:

BRAHMAN = OM = INCONSCIENTE (COLETIVO) (Filosofia, Psicologia, Jung) = UM (Parmênides) = DAIMON (Sócrates) = Idéia (Platão)¹ = MUNDO (vulgar) = OUTRO MUNDO (Filosofia Ocidental)² = VONTADE DE POTÊNCIA ou VONTADE NÃO-UNA ou VONTADE NÃO-LIVRE (Nietzsche)³ = VIDA DO SÁBIO (hinduísmo e outros sistemas) = ETERNIDADE ou PRESENTE ETERNO4

¹ Como Sócrates não escreveu, estamos autorizados a referir o daimon socrático ao próprio gênio de Platão: tão “egoísta” que criou dois nomes para Brahman ou aquilo que há de mais sagrado!

² Emprego aqui o Outro Mundo no sentido “recuperado” que já demonstrei, em relação ao Além da maioria das religiões: o Outro Mundo é o mundo das Idéias de Platão, localizado na alma do sábio, e portanto neste mundo mesmo, no presente, aqui e agora. Esse é o tesouro máximo do hinduísmo: uma religião de massa que não nega o amor à vida e não incita à hipocrisia e à mentira, prometendo recompensas num futuro indefinido. O que é do sábio sempre foi, é e será do sábio. A eternidade já foi alcançada. Desde pelo menos Schopenhauer ou Kierkegaard (admito que Kant é um caso talvez especial; já Hegel acreditava apenas num canhestro progresso da História, sem entender que o presente já havia trazido todas as evoluções que ele só podia atribuir ao futuro da Europa), após o longo e sombrio hiato entre Platão e o mundo moderno (quase ainda ontem!), chegando ao trabalho de autores definitivamente afirmadores de um e somente um mundo, este aqui, como Husserl, Heidegger, os existencialistas, praticamente todos os filósofos dignos do século passado e deste, o Outro Mundo dos fanáticos religiosos e dos Escolásticos – considerados filósofos apenas nominalmente, meros escribas de patrões temporais (a Igreja) – foi abandonado em prol de uma nomenclatura despida de conotações deletérias, fraudulentas e niilistas: o Outro Mundo de que falo, sinônimo da nova Zeitgeist de retorno ao Oriente, é o Outro Mundo que eu interpreto estar exposto nos Vedas: o mundo do sábio que chegou à realização de que a eternidade é o presente. O reencantamento do mundo; por isso também incluo a palavra mundo, porque é no mundo que vivemos, e em nenhum outro, em que tudo é possível. Este mundo é o Um.

³ O termo “vontade de potência” gera confusão. Primeiro porque faz parte do espólio de Nietzsche, que provavelmente teria mudado a expressão antes de publicá-la ou pelo menos não a elegeria como título de sua próxima obra. Segundo, por culpa do estudante filisteu de filosofia, que tende a associar “potência” (que já é uma adaptação à tradução portuguesa de “poder” na tentativa de evitar ambigüidades e enganos!) com o conceito de poder/monopólio da violência do Estado na Política, e em decorrência a doutrinas absolutamente anti-nietzscheanas como “sobrevivência do mais forte aplicada à Ciência Política”, nazifascismo, psicologias de auto-ajuda (como se se tratasse aqui de uma ‘força de vontade’ individual tendente ao infinito, calcada na imaginação desconexa da materialidade do mundo!), etc. A terceira problemática, e que quis evidenciar empregando sinônimos como VONTADE NÃO-UNA e VONTADE NÃO-LIVRE, é a falsa equiparação que se faz entre a Vontade schopenhauriana e a Vontade propriamente nietzscheana. Como Nietzsche é influenciado por Schopenhauer, muitos filósofos até razoavelmente competentes podem cair na cilada de não enxergarem onde está uma linha de ruptura definitiva do primeiro pensador com este último. E é importante tocar no assunto, já que Schopenhauer teria cunhado o termo Vontade justamente influenciado, por sua vez, por suas leituras orientalistas vinculadas ao hinduísmo! Há aqui, pelo que se vê, uma espécie de mal-entendidos em cascata. Desfaçamos esse nó górdio de vez! Se eu estiver certo e Schopenhauer errado (e uma coisa é decorrente da outra, pois temos pontos de vista divergentes), o que Schopenhauer entendeu dos Vedas e particularmente do budismo que se desenvolveu a partir da Índia, é exatamente a leitura leiga, ou a leitura tola e literal, da ascensão rumo à Verdade bramânica. Isso porque para Schopenhauer a doutrina budista é um quietivo da vontade. Sua Vontade, em letra maiúscula, é a entidade metafísica que rege secretamente todos os fenômenos do mundo visível e observável (que ele chamará de Representação). O mundo da representação de Schopenhauer se assemelha muito ao Samsara, o inferno hindu, em que não há um propósito para a existência. Aí entra a volição individual do homem: ao se aperceber da futilidade deste mundo (e percebendo, no caso de Schopenhauer – este um grande mérito seu) que não existe um outro mundo, tudo que resta ao indivíduo informado, ou ao sábio, é negar a vontade, com letra minúscula, o outro mundo que existe neste mundo. Ora, mero produto de um mundo sobre o qual ele não tem o menor controle, o asceta budista ao menos se empenha em emascular sua vontade, ou seja, a parcela dessa grande e única Vontade que configura seus instintos e portanto seu impulso vital, tratando, em primeiro lugar, de se guardar de gerar prole (instinto da reprodução e perpetuação da vida); em segundo lugar – e não cabe aqui citar o suicídio, pois Schopenhauer sabe que não há fuga da existência, ele fala de uma mortificação da vontade individual a despeito de que no mundo aparente nada mude – de refugiar-se na ascese espiritual, descartando o quanto puder traços de egoísmo, evitando agir sobre este mundo que não tende a nada e é só uma sucessão indefinida de acontecimentos vãos e sem valor. Uma forma de conseguir reduzir sua vontade virtualmente a zero (além de escrever um tratado filosófico sobre isso), para Schopenhauer, é que o sábio se dedique a refugiar-se na arte; principalmente na Música. Schopenhauer vê na música o elemento fenomênico (sensível) mais próximo da inacessível Vontade cega regedora do universo. Através dela o ser humano pode perpassar pelo circuito de todas as emoções, e ao mesmo tempo não viver, isto é, limitar-se a sentir paixões sem qualquer conseqüência prática ou interferência no mundo exterior. Para Schopenhauer todo grande artista é um negador da vida, um budista mascarado. Discordo frontalmente desse ponto de vista. Como eu acredito no Veda como uma alegoria que quer significar exatamente o oposto – a valorização do presente e da vida –, é necessário pontuar: minha principal influência filosófica é Nietzsche, e sua vontade opera em contraposição máxima ao “niilismo passivo” schopenhaueriano. Nietzsche quer restaurar as condições do grande homem, da grande cultura, da grande civilização, algo que o Ocidente não é mais capaz de proporcionar. Daí se explica que a filosofia oriental tenha, por tabela, exercido impacto proeminente no pensar de Nietzsche. Sua vontade é não-una porque diferentemente da Vontade indivisível, “em bloco”, de Schopenhauer, Nietzsche enxerga esse elemento metafísico como sendo manifestações completamente aleatórias e independentes entre si, de modo que o que realmente há não é uma tirania da Vontade sobre este mundo material, mas a presença de vontades dispersas, cada uma unilateral, procurando exercer seu “ponto de vista” sobre as demais, e conseguintemente sobre o mundo material. Esta vontade que “não é livre” (são palavras do próprio Nietzsche), ou todas essas porções infinitesimais de vontade, só sabe uma coisa: ser aquilo que ela é; forçar seu caminho, chegar a seus últimos limites; e os últimos limites são as outras vontades. Essas vontades não são entes abstratos absolutos, quer seja, não existem desde sempre e para sempre, consideradas individualmente. Conforme o jogo de forças, que seria apenas o espelho do jogo de forças do mundo material (daí ser possível a Nietzsche descrever uma vontade que pode ser apenas nomeada por hipótese, lembrando que os sentidos, guiados pela intelecção, no homem sábio, são a via para a Verdade, exatamente como nos Vedas, e exatamente como em todo e qualquer grande filósofo; esta é uma lei), vontades antes autônomas podem se ver reagrupadas (talvez uma vontade mais poderosa englobou ou absorveu outra, vencida), como um “tecido de vontade” pode se desmembrar em múltiplas vontades com novos vetores e potencialidades… Esse jogo não termina, pois jamais houve nem haverá um vencedor. É uma “guerra democrática”, já que uma só vontade jamais se tornará soberana (a Vontade no sistema schopenhaueriano é tirânica, soberana, pois não há oposição dela consigo mesma). Não só a vida é regida pela vontade, mas ela é evidentemente seu campo de atuação primordial. Cada instinto nosso pode ser interpretado como a manifestação aparente de uma vontade. Isso explicaria, o que Schopenhauer deixou em aberto, por que num mesmo indivíduo tantas volições contraditórias precisam combater entre si para se manifestar, num jogo de sucessões intermináveis. Podemos ter uma personalidade definida e coerente, mas basta lembrar que essa é só nossa vida consciente. Por debaixo do pano “n” vontades lutam para fazerem-se valer, partindo do inconsciente até serem traduzidas no reino visível ou “mundo das aparências”. Acontece que a contraposição ao mundo das aparências, onde atuam as vontades, não é outro reino senão o ideal, o fictício, forjado principalmente pelas grandes religiões do passado do homem. O Cristianismo, o próprio Budismo são inimigos do homem que encontrou a Verdade na revelação do mundo como vontades em eterno conflito. Nietzsche reconhece que esta é a vida e ela não deveria ser diferente do que é no presente; necessariamente o que torna o homem burguês decadente haverá de ser vencido um dia, por novos valores, novas vontades, novas potências. Embora tudo nasça, se desenvolva, atinja um auge, decline e finalmente morra, o fato de as vontades se entrechocarem o tempo todo, de a realidade da Vontade de Potência ser “estar sempre em contradição consigo mesma”, ambos os fatos são o fundamento da existência, e isto é o que há de constante neste grande pensamento. Exatamente como nos Vedas. Por esse lado, Nietzsche parece ser o inimigo de um credo que buscaria a ascese suprema, a libertação, a evasão do ciclo de reencarnações, a fusão com Brahman. Mas tudo depende de se Nietzsche – que não foi explícito nesse tocante – entendeu os Vedas dessa forma ou se “empatou” com minha conclusão: os Vedas foram, até hoje, mal-interpretados. Eles são um hino à vida, coincidentes com a filosofia nietzscheana. E o que é mais espantoso é que Nietzsche, que tanto se bateu com Platão, pode (pode! não sabemos bem o que ele deixou de declarar deliberadamente – coisa de filósofos!) não ter percebido que a dialética-maiêutica de Platão, sua teoria das reminiscências e das Idéias, tudo aquilo que o alemão parece ter associado, a princípio, à negação da vida em prol de “meras conjeturas servíveis apenas num Além-mundo”, é no fundo uma filosofia gêmea a sua! São duas aproximações que redundam nas mesmas conclusões. O primeiro e maior filósofo do Ocidente encontra em Nietzsche seu acabamento, e o acabamento da filosocia ocidental como um todo, como são muitos os que o afirmam. Ou podemos considerar Nietzsche um iniciador, e Platão o responsável pelo acabamento? Não faz diferença, quando a filosofia (a busca pela sabedoria) é atemporal e não tem fim ou começo. As filosofias mais sábias e honestas tenderão a chegar às mesmas conclusões, por mais que seus métodos e termos-chaves pareçam tão distintos e antípodas – esse pseudo-antagonismo não resiste a uma análise mais detida, não são filosofias ou fés, mas a Fé, a Filosofia Verdadeira. E não é um império dual, mas um triunvirato, se eu estiver certo: o hinduísmo corrobora, antes mesmo da História do Ocidente devir, estes dois maiores filósofos, o alfa e o ômega da historiografia da disciplina; nossos legítimos contemporâneos. Nietzsche declarou que Heráclito podia ter enunciado seu eterno retorno. Talvez seja o ponto cego inerente a cada filósofo que ele não tenha visto algo tão evidente para nós: Parmênides e Platão são os legítimos filósofos do eterno retorno da Antiguidade. A teoria das reminiscências é muito afim ao karma hindu e à proposta ética de Nietzsche para passarmos esta semelhança por alto. De onde quer que se parta, o Um parmenídeo, a Idéia platônica, o daimon socrático, a vontade de potência ou o privilégio da fusão do sábio com o verdadeiro invisível dos livros sagrados da Índia, a rota percorrida parece exatamente a mesma.

Para uma explicação mais detalhada das vontades em N. e S., recomendo meu post dedicado à filosofia de Schopenhauer (HISTÓRIA DAS IDÉIAS 3) ou ainda meu livro VONTADE DE INTERPRETAÇÕES (à venda em https://clubedeautores.com.br/livro/vontade-de-interpretacoes-2). E sim, o título do meu livro foi escolhido sarcasticamente, muito em virtude das distorções voluntárias ou não de exegetas quanto ao termo vontade de potência!

4 1) Eternidade é a palavra mais fácil a que atribuir autor: pode ser determinada como de uso vulgar desde os tempos mais imemoriais;

2) Esta nota de rodapé existe em razão do segundo termo, seu equivalente, se bem que, ao mesmo tempo, enfatizador da obviedade de que em havendo eternidade só pode haver uma eternidade presente. Isso porque não nos interessa aqui considerar a divisão tripartite do tempo entre passado, atualidade e futuro, o que seria jogar pela janela toda essa interpretação, julgo eu, em alto nível dos Vedanta, e aliás regressar às noções cavernícolas de tempo para Isaac Newton, sendo que Immanuel Kant destroçou pouco depois qualquer possibilidade desse “tempo em linha reta de jardim de infância” ter qualquer validade acadêmica séria. Como não sou Arnold Schwarzenegger me recuso a retornar ao jardim de infância, ainda que seja para dar aulas que gerem mais polêmica que o tira no filme! Afinal de contas, se quiséssemos falar de pseudo-eternidades (conceitos vulgares a-filosóficos) poderíamos partir para análises historiográficas de como não fazemos rigorosamente idéia de quantos anos há para trás ou para frente no universo, debate aliás absurdo e completamente improdutivo que é uma obsessão quase sexual e do subgênero sado-masoquista (uma parafilia) desses “especialistas sem espírito” (Weber) chamados físicos modernos, que falam com pompa e autoridade sobre asneiras como “big bang ou singularidade” (o ‘Adão e Eva’ dos filisteus™), “universo antes do universo existir, (!) previamente ao início do tempo, (!!) sob a forma de um ponto de densidade infinita (!!!)” ou ainda como “uma suposta idade atual do universo na casa dos 13 ponto sei lá quantos bilhões de anos”… Tampouco me interessa, aliás, tampouco interessa a qualquer habitante do planeta Terra, para sermos francos, quantos bilhões de anos o sol demorará para “queimar”, “explodir” ou “simplesmente se apagar”, primeiro porque no ritmo do capitalismo a Terra queimará “sem ajuda” antes, muito, muito antes; segundo porque não está provado – já que os cientistas amam de paixão esta palavra –, mesmo assumindo a absurdidade da hipótese de um universo com início-meio-fim proposta por físicos que quebra as próprias leis da física,(*) que não poderia haver uma – na falta de termo melhor, e de empréstimo da astronomiaprecessão das condições de ‘sobrevivência’ do sistema solar, para começo de conversa, quando eventos teoricamente prováveis em escala de bilhões de anos segundo nossos melhores matemáticos, estatísticos, físicos e químicos não poderiam ser descartados por inumeráveis fatos intervenientes no decorrer de todo esse tempo (5 bilhões de anos de vida restantes para nosso Astro-Rei!) no próprio reino da ciência estritamente acadêmica, ainda mais levando em conta que não há disciplina que não sofra grandes revoluções de paradigmas em um módico intervalo de décadas! Para se ter idéia, se preservássemos todas as condições de realização do Campeonato Brasileiro de Futebol numa estufa, dando vida eterna aos jogadores, dentro de bilhões de anos até o Coritiba, atual equipe de várzea, viria a ser campeã dos pontos corridos um sem-número de vezes com até 100% de aproveitamento em alguma das ocasiões!!! Bilhões de anos é uma quantidade de tempo imensurável. Tudo e qualquer coisa acontece num “período” tão vasto (é tão vasto que ouso dizer que nenhuma mente humana foi formatada para conceber quão verdadeiramente vasta é a quantidade de 1 milhão de anos, de modo que se multiplicarmos isso por mil podemos ter certeza de que todos os lobos do planeta terão sido extintos pelo mero apetite de uma única criança chamada Chapeuzinho Vermelho).

Para chegarmos direto ao ponto (que não é um ponto de densidade infinita que estourará, devido a uma maldosa singularidade, justo na sua cara, fique tranqüilo!), avancemos. Obviamente não fui eu quem cunhou a expressão PRESENTE ETERNO, mas no momento eu não saberia dizer quem foi o primeiro a utilizá-la, e no sentido aqui proposto. Tenho razoável confiança de que Nietzsche chegou a utilizar este binômio; de qualquer forma, não sendo o caso, foi ele quem influenciou autores do séc. XX a forjá-lo neste sentido que tenho em mente, se for mesmo verdade que já não o tomaram de empréstimo. Mas suspeito que antes de Nietzsche esta expressão, para um sentido parecido em Metafísica, já estava em voga. Ainda preciso pesquisar a respeito.

(*) DESABAFO EM CAPS LOCK

ME DIGAM EM QUE HOSPÍCIO JÁ SE VIU TAMANHA LOUCURA! MAS FALAR NISSO EM TEMPOS DE IVERMECTINA PARA TRATAMENTO DA COVID, EU SEI, CHEGA A SER UMA BLASFÊMIA, PORQUE DESCREDIBILIZA A CIÊNCIA ESTABELECIDA, EMBORA “ISSO” QUE OS FÍSICOS CHAMAM DE “TEORIA DO BIG BANG” PASSE LONGE DE SER MÉTODO E DE SER CIÊNCIA, MOLE OU DURA! ACONTECE QUE UM DIA, A LONGO, PRAZO, ISSO DEVERÁ SER ENDEREÇADO E DISCUTIDO, ENTÃO EU ARREMESSO A PRIMEIRA PEDRA SEM PUDOR E SEM MEDO – CIENTE DO MEU LEGADO – DE SER CHAMADO POR ALGUM CABEÇA-DE-BOI DE negacionista, MINHA CONTRA-DEFINIÇÃO POR EXCELÊNCIA! PORQUE, INFELIZMENTE, QUEM TEM VOZ NESSE DEBATE ATUALMENTE E QUE ATAQUE A TEORIA DEMENTE DO BIG BANG É OU CRIACIONISTA (COMO SE INVENTAR COISAS TÃO ESTAPAFÚRDIAS COMO UM PONTO DE DENSIDADE INFINITA PARA EXPLICAR A ORIGEM DA EXISTÊNCIA NÃO FOSSE DEIXAR OS COMUNS DOS MORTAIS DE CABELO EM PÉ, LOUCOS PARA ENTRAREM NUMA IGREJA E PEDIREM SOCORRO A UM PASTOR!) OU TERRAPLANISTA, OU SEJA, ESCÓRIA DA ESCÓRIA, AINDA MAIS DEMENTES QUE OS “FÍSICOS CONTEMPORÂNEOS”…

* * *

Mas ainda não acabou a hierarquia do texto sagrado! A ele devemos regressar:

“Higher than the immense self is the unmanifest;

Higher than the unmanifest is the person;

Higher than the person there’s nothing at all.

That is the goal, that’s the highest state.”

Acontece que eu equalizei o immense self ou inconsciente a todo o imanifestável, como foi visto exaustivamente acima! O Nada. Quase consigo acreditar que esses trechos dos Vedas sofreram interpolação de fanáticos de época posterior. Olhando dessa maneira, parece que os vaticínios de Schopenhauer fariam todo o sentido! Mas não percamos de vista que o Veda é um poema e não deve ser mal-interpretado. Tendemos a ler o “nada” deste escrito tão antigo como o nada da filosofia contemporânea, o que é um erro. Claro que não posso justificar em mil anos a segunda linha. Persons, se estivermos falando de individualidades, consciências, já ficaram muito abaixo na hierarquia. Por isso a diferença no matiz dos verdes: quanto mais escuro, mais censurável. Se acima do inconsciente ou, que seja!, daquilo-que-não-pode-ser-manifestado, só há o nada, ou não há nada, não significa que o último passo já foi dado? E não foi isso que foi dito no verso sobre Vishnu mais acima? A meta é chegar à realização do presente como a felicidade máxima: mais que isso é impossível, é absurdo. A pergunta pode até ser colocada: Existe outro degrau? Mas a resposta invariável é: Não.


“Hidden in all the beings,

this self is not visibly displayed.

Yet, people of keen vision see him,

with eminent and sharp minds.”

Pode até mesmo ser que o “nada” se refira apenas aos tolos. Sabemos que o invisível que o sábio vê no topo de todas as coisas do mundo, do único mundo, é Brahman, são as vibrações do Om. É o self no sentido hinduísta. E por que voltariam a citar “this self” quando, supostamente, a hierarquia ainda “subiu mais”, citando “unmanifest” depois, e “persons” (sic)? Porque os quatro versos de “Higher than the immense self…” a “…that’s the highest state.” são de importância relativa quase nula se compararmos a tudo o que precede e sucede!


“A razor’s sharp edge is hard to cross—

that, poets say, is the difficulty of the path.”

E no entanto não basta ensinar, como eu já disse. A jornada não pode ser ensinada. Quantos tolos não existem para cada Platão? Quantos puderam entender Platão? Quantos especialistas em Platão (oxímoro) me dirão que estou correto sobre Platão? A eternidade não é uma descoberta no estilo Eureka!. Posso enunciá-la quantas vezes quiser. Alguém a terá mesmo obtido, na forma como descrevi? Eu mesmo, vivo no presente sem me autoenganar, em minha potencialidade máxima, isto é, na potencialidade máxima que cabe ao homem? Sobre isso, Bíblias demais já foram escritas para que incorramos nas mesmas e repisadas fraudes… Fechando o parágrafo com uma piadinha: desde Gutenberg, nenhuma bíblia foi escrita. Os copistas perderam o emprego!


“It has no sound or touch,

no appearance, taste, or smell;

It is without beginning or end,

undecaying and eternal;

When a man perceives it,

fixed and beyond the immense,

He is freed from the jaws of death.

*

The wise man who hears or tells

the tale of Naciketas,

an ancient tale told by Death,

will rejoice in Brahman’s world.”

Quem senão a Morte (o Nada, pois nada está acima de Brahman) poderia contar o antigo conto (tale também pode ser traduzido como história ou conversa – o que é muito revelador sobre Platão e o método dialógico)?


“If a man, pure and devout, proclaims this great secret

in a gathering of Brahmins,

or during a meal for the dead,

it will lead him to eternal life!”

E assim termina o monumental capítulo do Upanishad chamado Katha, ou pelo menos a parte que mais nos interessa.

CURIOSIDADES PITORESCAS SOBRE BANDAS PITORESCAS

MINIBIOGRAFIAS DE ALGUMAS BANDAS OU ARTISTAS QUE ACUMULEI EM MEUS “RODOPIOS SONOROS” ULTIMAMENTE…

Renewed interest in Johnson’s work and life led to a burst of scholarship starting in the 1960s. Much of what is known about him was reconstructed by researchers such as Gayle Dean Wardlow and Bruce Conforth, especially in their 2019 award-winning biography of Johnson: Up Jumped the Devil: The Real Life of Robert Johnson (Chicago Review Press).” “Marc Meyers, of the Wall Street Journal, wrote that ‘His Stop Breakin’ Down Blues from 1937 is so far ahead of its time that the song could easily have been a rock demo cut in 1954.”

Raven are an English heavy metal band, formed in 1974 by the Gallagher brothers, bassist and vocalist John and guitarist Mark. They have released 14 studio albums to date, and had a hit with the single On and On. Often referred to as athletic rock, the band gained notoriety as part of the early-to-mid 1980s NWOBHM and is considered to be an influence and inspiration on development of the thrash metal genre, including bands such as ‘the big four’ (Metallica, Slayer, Megadeth and Anthrax), as well as others like Testament, Exodus, Overkill, Kreator, Sodom, Onslaught, Death Angel, Flotsam and Jetsam, Coroner, Annihilator, and Razor. Raven are also notable for headlining Metallica’s first-ever national tour in 1983.”

Diamanda Gálas (born August 29, 1955) is a Greek American musician and visual artist. Her commitment to addressing social issues and her involvement in collective action has made her concentrate on themes as diverse as the AIDS epidemic, mental illness, despair, loss of dignity, as well as political injustice, historical revisionism and war crimes, among much else. Galás has attracted the attention of the press particularly for her voice – a soprano sfogato – and written accounts that describe her work as original and thought-provoking and refer to her as ‘capable of the most unnerving vocal terror’, an ‘aesthetic revolutionary’, ‘a mourner for the world’s victims’ and ‘an envoy of risk, honesty and commitment’.

(…)

Her first solo album, The Litanies of Satan (1982), was also an operatic work. It included only 2 compositions: a 12-minute piece entitled Wild Women with Steak-Knives, which was described by Galás in the album notes as tragedy-grotesque deriving from her work Eyes Without Blood, and another lengthy composition, Litanies of Satan, an adaptation to music of a section from Charles Baudelaire’s poem Les Fleurs du Mal.”

Tangerine Dream are considered pioneers of the early days of electronica. Their work with the electronic music Ohr label produced albums that had a pivotal role in the development of the German musical scene known as kosmische (‘cosmic’). Their Virgin Years, so called because of their association with Virgin Records, produced albums that further explored synthesizers and sequencers, including the UK top 20 albums Phaedra (1974) and Rubycon (1975).”

Cliff Richard (born Harry Rodger Webb; 14 October 1940) is an English singer, musician, actor, and philanthropist who holds both British and Barbadian citizenship. He has sold more than 250 million records worldwide, making him one of the best-selling music artists of all time. He has total sales of over 21.5 million singles in the United Kingdom and is the 3rd-top-selling artist in UK Singles Chart history, behind the Beatles and Elvis Presley.”

Front 242 is a Belgian electronic music group that came into prominence during the 1980s. Pioneering the style they called electronic body music, they are a profound influence on the electronic and industrial music genres.”

Klaus Schulze (born 4 August 1947) is a German electronic music pioneer, composer and musician. He also used the alias Richard Wahnfried. He was briefly a member of the Krautrock bands Tangerine Dream, Ash Ra Tempel, and The Cosmic Jokers before launching a solo career consisting of more than 60 albums released across five decades.” W o w !

English Dogs were a British hardcore punk band that began life in the early eighties. Two versions of the band co-exist, the punk and metal crossover band featuring original drummer Andrew ‘Pinch’ Pinching and second-era members Graham ‘Gizz’ Butt and Adie Bailey; and a purely punk-based one featuring original vocalist Pete ‘Wakey’ Wakefield.”

Snap! is a German Eurodance group formed in 1989 by producers Michael Münzing and Luca Anzilotti. The act has been through a number of line-up changes over the years”

Technotronic was a Belgian electronic music project formed in 1988 by Jo Bogaert, who originally gained popularity in Europe as a solo artist with various New Beat projects, including the Acts of Madmen and Nux Nemo.”

Amen is an American hardcore punk band formed in Los Angeles, California in 1994. The band was founded by front man and singer Casey Chaos and combines elements of punk rock, hardcore, and heavy metal. Amen has released 4 studio albums [and] 1 live album”

Public Image Ltd (abbreviated as PiL) are an English post-punk band formed by singer John Lydon, guitarist Keith Levene, bassist Jah Wobble, and drummer Jim Walker in 1978. The group’s personnel has changed frequently over the years; Lydon has been the sole constant member. Following his departure from the Sex Pistols in January 1978, Lydon sought a more experimental ‘anti-rock’ project and formed PiL”

Apoptygma Berzerk (/əˈpɒptɪɡmə/; commonly abbreviated to APB or APOP) is a Norwegian musical group. They have achieved success with a brand of synthpop, and ballads backed with electronic rhythms, commonly known within the scene and referring to themselves as ‘futurepop’. Apoptygma Berzerk has over 30 releases and won awards and Top 10 spots in Germany and Scandinavia. Apoptygma Berzerk has toured Europe, North America, South America, Israel and Australia with bands such as VNV Nation, Beborn Beton, Icon of Coil and Unheilig.”

Magnum are an English hard rock band. They were formed in Birmingham¹ by Tony Clarkin (guitar, songwriter) and Bob Catley (vocals) in order to appear as the resident band at the Rum Runner nightclub in the city. Magnum have undergone several changes in personnel over the years; however, the core of Catley and Clarkin remain. Magnum’s most significant early success was Chase the Dragon in 1982, which reached number 17 in the UK Albums Chart. It included several songs that would become mainstays of the band’s live set, notably Soldier of the Line, Sacred Hour² and The Spirit. The band’s 1986 album Vigilante represented a further move towards the mainstream before the band achieved their commercial peak in 1988 when they entered the UK Top Ten for the first time with the album Wings of Heaven, which reached number five and featured 3 Top 40 singles, Days of No Trust, Start Talking Love and It Must Have Been Love.” Deve ser um Def Leppard da vida agora!

¹ Uma vez que a banda é de 1972, digamos que foram “colegas de ambiente” do Black Sabbath! Ainda estão ativos…

² O motivo para esta banda ter sido citada no livro de Dayal Petterson – de onde acabei retirando quase todas essas referências (as minibiografias são da Wikipédia) – é que essa faixa foi plagiada pelo 1º tecladista do Dimmu Borgir!

Modest Petrovich Mussorgsky; 21 March (O.S. 9 March) 1839 – 28 March (O.S. 16 March) 1881) was a Russian composer, one of the group known as ‘The Five’. He was an innovator of Russian music in the Romantic period. He strove to achieve a uniquely Russian musical identity, often in deliberate defiance of the established conventions of Western music.”

Dead Can Dance is an Australian music duo from Melbourne. Currently composed of Lisa Gerrard and Brendan Perry, the group formed in 1981 and relocated to London the following year. Australian music historian Ian McFarlane described Dead Can Dance’s style as ‘constructed soundscapes of mesmerising grandeur and solemn beauty; African polyrhythms, Gaelic folk, Gregorian chant, Middle Eastern music, mantras, and art rock’.

Having disbanded in 1998, they reunited briefly in 2005 for a world tour and reformed in 2011 when they released and toured a new album, Anastasis. They released a new album in 2018 called Dionysus and are touring again as of mid-2019.”

Enya Patricia Brennan (born 17 May 1961) is an Irish singer, songwriter, record producer and musician. Born into a musical family and raised in the Irish-speaking area of Gweedore in County Donegal, Enya began her music career when she joined her family’s Celtic folk band Clannad in 1980 on keyboards and backing vocals. She left in 1982 with their manager and producer Nicky Ryan to pursue a solo career, with Ryan’s wife Roma Ryan as her lyricist. Enya developed her sound over the following 4 years with multitracked vocals and keyboards with elements of new age, Celtic, classical, church, and folk music. She has sung in 10 languages.” “Enya is Ireland’s best-selling solo artist and 2nd-best-selling artist behind U2, [urgh!] with a discography that has sold 26.5 million certified albums in the United States and ~75 million records worldwide, making her one of the best-selling music artists of all time. A Day Without Rain (2000) remains the best-selling new-age album, with an estimated 16 million copies sold worldwide. Enya has won awards including 7 World Music Awards, 4 Grammy Awards for Best New Age Album, and an Ivor Novello Award. She was nominated for an Academy Award and a Golden Globe Award for May It Be, written for The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring (2001).” [!]

Loreena Isabel Irene McKennitt (born February 17, 1957) is a Canadian singer-songwriter, multi-instrumentalist, and composer who writes, records and performs world music with Celtic and Middle Eastern influences. McKennitt is known for her refined and clear soprano vocals. She has sold more than 14 million records worldwide.”

Folque is a Norwegian folk rock band founded in 1973 by Morten Bing, Jørn Jensen, Eilif Amundsen, Lisa Helljesen, Espen Løvstad, Trond Øverland, and Trond Villa. In 1972 a subset of the band was initially named «Brød & Vin» (Bread & wine), they changed the name to Folque in the spring of 1973 after adding members and traditional instruments to the ensemble. The band was dissolved in 1984, but reunited in 1994 and in 2004 for playing live. Folque is re-established in 2014 with Lisa Helljesen as lead singer.

Their musical style is linked to Malicorne in France and to Steeleye Span in the UK. Most of the discography is difficult to find, as only the first 3 albums [out of 10!] were re-released on CD.”

Massive Attack are an English electronic band formed in 1988 in Bristol by Robert ‘3D’ Del Naja, Adrian ‘Tricky’ Thaws, Andrew ‘Mushroom’ Vowles and Grant ‘Daddy G’ Marshall.”

John Zorn (born September 2, 1953) is an American composer, conductor, saxophonist, arranger, multi-instrumentalist, producer and dedicated improviser that deliberately resists category. Zorn’s avant-garde and experimental approaches to composition and improvisation are inclusive of jazz, rock, hardcore, classical, contemporary, surf, metal, soundtrack, ambient, and world music.”

Faster Pussycat is an American rock band from Los Angeles, California, formed in 1985 by vocalist Taime Downe, guitarists Brent Muscat and Greg Steele and bassist Kelly Nickels. The group has since gone through numerous lineup changes leaving Downe as the only constant member. They broke up in 1993, but reformed in 2001. Faster Pussycat has released 4 studio albums to date (…) They were one of the most successful hard rock bands of the late 1980s and early 1990s, having sold over two million records worldwide.”

Yann Tiersen (born 23 June 1970) is a French musician and composer. His musical career is split between studio recordings, music collaborations and film soundtracks songwriting. His music incorporates a large variety of classical and contemporary instruments, primarily the electric guitar, the piano, synthesisers and the violin, but also folkoric instruments like the melodica, xylophone, toy piano, harpsichord, piano accordion or even typewriter.”

Ataraxia is an Italian neoclassical dark wave band founded in 1985. Frontlined by singer Francesca Nicoli, it combines modern technology with archaic instrumentation. The lyrical themes are frequently drawn from nature and ancient cultures.”

The Chameleons were an English post-punk band formed in Middleton, Greater Manchester, England, in 1981. The band consisted of singer and bassist Mark Burgess, guitarists Reg Smithies and Dave Fielding, and drummer John Lever.”

Ride are an English rock band formed in Oxford in 1988. The band consists of Andy Bell, Mark Gardener, Laurence ‘Loz’ Colbert, and Steve Queralt. The band were initially part of the ‘shoegazing’ scene that emerged in England during the early 90s. Following the break-up of the band in 1996, members moved on to various other projects, most notably Bell who became the bassist for Oasis.”

Mono (stylised as MONO) is a Japanese instrumental band, formed in 1999 in Tokyo. The band consists of Takaakira ‘Taka’ Goto (electric guitar, glockenspiel), Hideki ‘Yoda’ Suematsu (electric guitar, glockenspiel), Dahm Majuri Cipolla (drums), and Tamaki Kunishi (bass guitar, electric guitar, piano, glockenspiel).”

Godspeed You! Black Emperor (sometimes abbreviated to GY!BE) is a Canadian experimental music collective which originated in Montreal, Quebec in 1994. The group releases recordings through Constellation, an independent record label also located in Montreal. After the release of their debut album in 1997, the group toured regularly from 1998 to 2003. Their second album, 2000’s Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven, received great critical acclaim and has been named as one of the best albums of the decade.”

Swans are an American experimental rock band formed in 1982 by singer, songwriter and multi-instrumentalist, Michael Gira. One of few acts to emerge from the New York City-based no wave scene and stay intact into the next decade, Swans have become recognized for an ever-changing sound, exploring genres such as noise rock, post-punk, industrial and post-rock.”

Of the Wand & the Moon (stylized as :Of the Wand & the Moon:) is the neofolk/experimental project of Danish musician Kim Larsen and various guest contributors.”

INTRODUCTION TO VEDANTA: Understanding the Fundamental Problem // INTRODUÇÃO AO VEDANTA: Mais próximo à filosofia ocidental do que se imagina. – Swami Dayananda, 1997.

This book is based on the opening talks given by Swami Dayananda at the start of a 3-year course in November 1979, at Piercy, California. The first text studied at this course was Tattvabodha, a simple textbook of definitions, comprising an outline of Vedanta. (…) Barbara Thornton compiled, abridged and edited the talks.”

1. AS BUSCAS HUMANAS

Os purushartha buscados pelo purusha

(Os 4 bens supremos buscados pelo homem.)

dharma ética

artha segurança (‘bem’, ‘felicidade’ ou ‘paz’ na filosofia ocidental)

kama princípio do hedonismo

moksha liberação

Artha e kama pertencem ao reino animal. A parte mais primitiva e ancestral do socius e os instintos mais básicos. Apenas o dharma e o moksa constituem buscas do homem, indivíduo, na acepção mais nobre da palavra. O homem, ou o animal super-ansioso.

Kama ou Mercúrio

Tempo condiciona o desejo [desejo stricto sensu]. Espaço condiciona o desejo. Individualidade condiciona o desejo.” Quase podemos dizer que o princípio mercurial foi enunciado no Ocidente por Kant. Seguem-se considerações no reino da Estética.

Artha ou Especificidades do homem

Sendo artha e kama as metas mais volúveis para o indivíduo, que se guia por valores mutantes, a cultura ou civilização é uma forma de tornar estes valores mais estáveis, estabelecendo um valor dos valores (prisão consensual ou condicionada).

As normas que controlam o livre-arbítrio se chamam karma.

Aqui iniciam as considerações sobre a subordinação do prazer e da segurança à ética. A primeira constatação do homem ético é: o próximo também vive (é purusha) e busca os bens supremos (purushartha). Não posso usá-lo como escada para minha auto-realização.

A fonte da ética

Se nenhum sistema ético ou ética idiossincrática é perfeito(a), há sistemas éticos que constituem medianas sociais exigentes e boas o suficiente para serem seguidas quase universalmente. A ética que deriva de escrituras sagradas de natureza remota no tempo, chamada de código religioso, é chamada no hinduísmo de dharma. Dharma estão acima de karma, porém karma é uma forma básica do dharma. O dharma é secular (deste mundo). O material de onde deriva pode ter qualquer status (secular ou sacro).

Interpretação de imperativos éticos, Falibilidade do homem e da astúcia: Lei e virtude como meios para um fim ou fim em si

Do valor destrutivo da Verdade, o imperativo ético mais difícil.

Da não-obrigatoriedade do cumprimento de tabus (vocação especial do sacerdote ou asceta), parte sagrada ou tradicional dos imperativos éticos.

O Dharma

O dharma é um misto de imperativos éticos seculares (senso comum) e fórmulas consagradas nos Vedas, com interdições e recomendações específicas para o seguidor do livro.

O que no Ocidente se costuma chamar de karma, sem conhecimento oriental, é justamente um princípio do dharma verdadeiro: o de que toda ação apresenta conseqüências, a curto, médio e longo prazo, boas ou ruins. O karma está falsamente associado, na cabeça do ocidental leigo, ao destino inexorável.

Punya é a boa ação cujos frutos podem ser imediatamente notados e colhidos. A própria prática da boa ação pode ser automatizada ou introjetada individualmente como um prazer.

Papa é a má ação cujos frutos podem ser imediatamente notados e colhidos. O Ocidente associa a expressão a pecar (e curiosamente não associa nada a punya). Papa tem a ver com a ocorrência de um futuro indesejado.

A árvore purushartha

Dharma está na copa da árvore dos purushartha, liderando em importância. Até agora a árvore parece um triângulo ou uma divisão tripartite. Foram citados apenas 3 dos bens supremos buscados. Isso tem uma motivação ulterior.

Moksha na verdade está além do dharma, mas na vida da maioria absoluta dos seres humanos não desempenha qualquer papel. Veremos adiante o quanto eu me oponho a essa “tese”… É possível levar uma vida prazenteira, feliz, confortável e mesmo ética, legítima e não-destrutiva para os outros; mas o dharma, sendo secular, possui limites bastante claros. É o limite dos bens supremos temporais. A partir de então fala-se em moksha, o que já é abstrato ou mais-que-abstrato, já que a ética é em si abstrata: supra-sensível.

Quando o corpo se torna uma prisão: Do belo & Para além da individualidade

O que Platão quer dizer com a metempsicose? A roda dos desejos.

Que tudo esteja no seu devido lugar é evidenciado pelo desejo de que nada fôra diferente do que as circunstâncias do momento.”

A vida inteira como este momento.

Todo ser humano tem a memória de já ter vivido um momento de moksha. Há correntes e há cavernas.

2. A QUESTÃO FUNDAMENTAL

A fonte do erro

Estar no meio do caminho é sempre pior que fora do caminho, para não dizer “no caminho certo”. Melhorando a analogia, saber de algo pela metade é sempre pior do que nada saber.

A auto-avaliação da inadequação

(…) Começa a adquirir um ar inopinado de auto-ajuda barata!

A busca pela perfeição via mudança

(…) Descrição modorrenta da vida do pequeno-burguês.

Valores pessoais determinam os tipos de mudança

(…)

Atitude quanto a mudanças

(…)

Ganho por mudanças pressupõe perdas

(…)

Volubilidade do prazer

(…)

Reconhecimento do problema

(…)

Análise da experiência

Finalmente algum conteúdo não-facilmente apreensível pelos adultos de 20 anos típicos (idiotas profusos): “A pessoa madura atinge o desapego (nirveda). Discerne que o incriado (infinito) não pode ser produzido pela ação.” Literalmente nenhum cristão é capaz de entender a segunda frase. O mundo enquanto mundo só tem sentido para o cristão porque é um mundo criado, com um Autor; derivado de uma Ação todo-poderosa daquele que é nossa imagem e semelhança elevadas à enésima potência.

Nesse momento o não-experimentado-o-bastante cai na tentação de contrariar a própria descoberta, e crer-se diferente só porque “descobriu” o tal “infinito”. E esse erro está sendo premeditado neste tópico pelo próprio autor! Quanto mais sabedoria, mais humildade, não é possível entender esse incriado e superar a ação, modo fundamental do homem! Em outros termos, o autor está confundindo o leitor leigo, não orientando-o bem.

A inadequação é centrada em si mesmo

Dos males o menor: essa interpretação pelo menos já desautoriza a conduta do convertido fanático que “vende todas as suas coisas” e parte seguindo Jesus… Nada ter e tudo ter são essencialmente idênticos.

O livro conceitua brahmanah como “pessoa madura”, descartando todo o racismo inevitável nos textos sagrados hindus. Não estou dizendo que não deveria fazê-lo, mas passa de largo que na literatura, e durante milênios, essa não foi uma possibilidade: ou se era da casta ariana ou os arcanos lhe estavam vedados!

He recognizes that what he really wants is a drastic change in himself, not a situational change.” Não! Como dito, o autor cai na precipitação (diria, cai no precipício) de piorar o erro, após citar o aforismo do incriado!

Noção de adequação: a norma para se auto-avaliar

A exposição retroagiu de novo para contemplar os babacas na casa dos 20. Exemplo: “One cannot consider something as bad unless one knows what is good. There is no dissatisfaction if there is no norm for satisfaction.”

“…Therefore one struggles for security and pleasure” O idiota continua querendo. O não-brâmane! Porque a noção de adequação é mais uma falsificação das aparências.

A busca direta pela liberdade a partir da inadequação

Moksha como a “senda” que leva à adequação (falso!). Mumukshu, quem busca a libertação. De nada adianta, porém, abrir um terceiro olho se ele também é cego!

Mumukshus e hedonistas: demasiado parecidos, demasiado pequenos olhados à distância, demasiado humanos…

E neste ponto, falta dharma, a ética, único campo genuíno das relações humanas (nirveda nirvana)… Mas foram 29 páginas circulares e silogísticas até aqui, num livro de apenas 120!

3. A BUSCA MADURA

A solução fútil

Resumo do capítulo anterior.

A experiência da adequação

Mais um pouco de resumo, i.e., tratamento infantil do conceito de ataraxia dos gregos antigos.

Alegria e inadequação não podem existir em mim no mesmo instante.”

Falácia. O alegre pode se sentir inadequado (o ganhador da mega-sena, que “tem tudo”, mas sabe que não tem “o que mais precisa”). Ou seu inverso, o infeliz que se sente adequado: segue a moral dos melhores, é ético, vive porém com pessoas corrompidas e inferiores. Vive da melhor maneira, mas seus vizinhos, sua sociedade, fá-lo um rematado infeliz.

Distinguindo conhecimento e experiência

Mais colocações óbvias.

Mais falácias:

  1. Experiences can be contradictory.”

Talvez falar em falácia seja exagero, mas é uma meia-afirmação inútil: experiências são, inerentemente, sempre contraditórias umas com as outras. Não é questão de possibilidade, é uma certeza inexorável.

  1. Knowledge cannot be contradicted.”

O conhecimento é apenas um raciocínio qualquer. Tanto quanto as experiências, os conhecimentos se contradizem o tempo todo. Mesmo se conhecimento = Verdade absoluta, há várias “verdades absolutas”, mais cedo ou mais tarde a filosofia e a observação da vida diária chegam a essa conclusão. E não há árbitro capaz de decidir pela preeminência de uma verdade absoluta sobre as outras. Aporia.

Parece um livro-texto furreca de psicologia dos anos 60: (p. 33) “Any given set of perceptual impressions gained from experience may or may not conform to knowledge. To qualify as knowledge they must pass the test of inquiry.” O que, uma junta de especialistas, banca monográfica?! Haha.

The questions are: Is the experience of a sun that rises in the east and sets in the west fact or not? Is this observation true? What about the polar sun that can be seen traveling in a circle? How does this observation correspond with fact?”

Knowledge: With respect to the earth the sun is stationary, neither rising nor setting nor moving in a circle” Então o conhecimento são os universais!

After inquiry and analysis, the contradictions are resolved in a true understanding” Desde que num tema já exaurido pela ciência da época.

The experiences were only mithya, apparent”

Investigação da natureza do si mesmo: atma-vicara

O sol, comparado a um si mesmo, é fixo, absoluto, mera coisa. Podemos dizer que temos um conhecimento objetivo sobre o sol. E, ao lado dessa afirmação, podemos dizer que ninguém tem um conhecimento objetivo sobre qualquer outro alguém (ao sujeito não é dado conhecer o sujeito). Sobre adequação ou inadequação de alguém. Como o Homo sapiens é primeiramente um animal crítico, dir-se-ia que “até Alexandre o Grande tinha suas inadequações”, mas que nos confins da Terra acharemos um “perfeito inadequado”. Por mais que queiramos, Bolsonaro, p.ex., ainda é costumeiramente adequado, até endeusado (absolutizado!) por muitos “seres humanos” (não-brâmanes)…

A investigação necessária para resolver a questão particular da auto-adequação é chamada atma-vicara. Atma significando ‘eu’ ou si mesmo, e vicara atendendo por pesquisa, inquérito, investigação.”

O tópico deve ser mantido em aberto.” Ó!

O que se tenta aqui não é resolver uma equação de segundo grau, rapazes, é um pouco mais complexo que isso!

Análise da busca pela adequação

Repetição.

A busca pela adequação é universal e não está em poder de ninguém desistir”

Repetição (cita mumukshu duas vezes, nada conclui).

A natureza da realização

Mudança de situação, mudança de lugar, passagem do tempo são relevantes somente para aquilo que é limitado.” Bom, aqui pelo menos refuta-se o além cristão. Não há redenção à morte (futuro temporal máximo do ponto de vista individual).

A conquista do já-realizado

(…)

Liberdade da inadequação: uma meta já consumada

The first 3 human goals, dharma, artha, kama, the ethical pursuit of sec…” Grave erro. Quando foi que o ser humano incipiente buscou ética? Jamais!

Inquiry into the nature of adequacy shows that this is the only category in which we can put moksha.” Desisto desse livro.

A busca madura

Grosso modo, podemos reduzir o dito à p. 43 como: “sou burro, doravante busco conhecimento”. Nada que Sócrates-Platão não tenham ensinado com palavras muito mais poéticas.

An informed mumukshu is called a jimasu Mas o mumukshu já não era “informado” (maduro)?

mumu… busca liberdade

jima… busca conhecimento

Many examples can be found in almost all religions of severe, painful, and sometimes strange practices undertaken for the sake of deliverance from limitation.” (mumu) Muitas, inclusive o próprio asceta hindu. O Código de Manu está inteiramente informado, para usar um trocadilho, desses casos.

A progressiva decadência (auto-retirada do mundo da ação) do homem…

This inquiry into the self which leads to discovery of the nature of oneself is called Vedanta.” Charlatanismo. Não o Vedanta, mas esta palestra.

4. IGNORÂNCIA E CONHECIMENTO

Vejam os subtítulos de mais este capítulo inecessário e “circular”, para “pegar leve”:

Todos nascem ignorantes

A desfolhação da ignorância

Conexões: sambandha

Objetos são conhecidos via percepção

Os meios para conhecer devem ser adequados

Inferências são baseadas na percepção

Conhecimento intelectual é conhecimento inferencial

O conhecimento é incriado [Platão já esteve aqui, etc., etc.]

Conhecimento válido

Percepção é inútil para o auto-conhecimento

A necessidade do auto-conhecimento

Os meios de obtenção do auto-conhecimento

Para o auto-conhecimento, procure um guru qualificado [mero esquema de pirâmide milenar]

Conhecimento indireto e direto via palavras

As palavras do guru dão o conhecimento direto do si mesmo

Chuva de lugares comuns. Creio, por bem, que devamos parar por aqui! Aquele que necessita de um guru não pode “ser salvo”, muito menos “salvar-se a si mesmo”…

RESOLUTION ON CERTAIN QUESTIONS IN THE HISTORY OF OUR PARTY SINCE THE FOUNDING OF THE PEOPLE’S REPUBLIC OF CHINA (Adopted by the 6th Plenary Session of the 11th Central Committee of the Communist Party of China on June 27, 1981)

At a time of national crisis of unparalleled gravity when the Japanese imperialists were intensifying their aggression against China, the Central Committee of the Party headed by Comrade Mao Zedong decided on and carried out the correct policy of forming an anti-Japanese national united front. Our Party led the students’ movement of December 9, 1935 and organized the powerful mass struggle to demand an end to the civil war and resistance against Japan so as to save the nation. The Xi’an Incident organized by Generals Zhang Xueliang and Yang Hucheng on December 12, 1936 and its peaceful settlement which our Party promoted played a crucial historical role in bringing about renewed co-operation between the Kuomintang and the Communist Party and in achieving national unity for resistance against Japanese aggression. During the war of resistance, the ruling clique of the Kuomintang continued to oppose the Communist Party and the people and was passive in resisting Japan. As a result, the Kuomintang suffered defeat after defeat in front operations against the Japanese invaders. Our Party persevered in the policy of maintaining its independence and initiative within the united front, closely relied on the masses of the people, conducted guerrilla warfare behind enemy lines and set up many anti-Japanese base areas. The Eighth Route Army and the New Fourth Army — the reorganized Red Army — grew rapidly and became the mainstay in the war of resistance. The Northeast Anti-Japanese United Army sustained its operations amid formidable difficulties. Diverse forms of anti-Japanese struggle were unfolded on a broad scale in areas occupied by Japan or controlled by the Kuomintang. Consequently, the Chinese people were able to hold out in the war for eight long years and win final victory, in co-operation with the people of the Soviet Union and other countries in the anti-fascist war.

During the anti-Japanese war, the Party conducted a rectification movement, a movement of Marxist education. Launched in 1942, it was a tremendous success. It was on this basis that the Enlarged Seventh Plenary Session of the Sixth Central Committee of the Party in 1945 adopted the Resolution on Certain Questions in the History of Our Party and soon afterwards the Party’s Seventh National Congress was convened.”

After the conclusion of the War of Resistance Against Japan, the Chiang Kai-shek government, with the aid of U.S. imperialism, flagrantly launched an all-out civil war, disregarding the just demand of our Party and the people of the whole country for peace and democracy. With the whole-hearted support of the people in all the Liberated Areas, with the powerful backing of the students’ and workers’ movements and the struggles of the people of various strata in the Kuomintang areas and with the active co-operation of the democratic parties and non-party democrats, our Party led the People’s Liberation Army in fighting the three-year War of Liberation and, after the Liaoxi-Shenyang, Beiping-Tianjin and Huai-Hai campaigns and the successful crossing of the Changjiang (Yangtse) River, in wiping out a total of 8,000,000 Chiang Kai-shek troops. The end result was the overthrow of the reactionary Kuomintang government and the establishment of the great People’s Republic of China. The Chinese people had stood up.”

Victory in the Chinese revolution was won under the guidance of Marxism-Leninism. Our Party had creatively applied the basic principles of Marxism-Leninism and integrated them with the concrete practice of the Chinese revolution. In this way, the great system of Mao Zedong Thought carne into being and the correct path to victory for the Chinese revolution was charted. This is a major contribution to the development of Marxism-Leninism.”

The Chinese revolution was victorious mainly because we relied on a people’s army led by the Party, an army of a completely new type and enjoying flesh-and-blood ties with the people, to defeat a formidable enemy through protracted people’s war. Without such an army, it would have been impossible to achieve the liberation of our people and the independence of our country.

The Chinese revolution had the support of the revolutionary forces in other countries at every stage, a fact which the Chinese people will never forget. Yet it must be said that, fundamentally, victory in the Chinese revolution was won because the Chinese Communist Party adhered to the principle of independence and self-reliance and depended on the efforts of the whole Chinese people, whatever their nationality, after they underwent untold hardships and surmounted innumerable difficulties and obstacles together.”

While changing the balance of forces in world politics, the people’s victory in so large a country having nearly one-quarter of the world’s population has inspired the people in countries similarly subjected to imperialist and colonialist exploitation and oppression with heightened confidence in their forward march. The triumph of the Chinese revolution is the most important political event since World War II and has exerted a profound and far-reaching impact on the international situation and the development of the people’s struggle throughout the world.”

Our Party and people would have had to grope in the dark much longer had it not been for Comrade Mao Zedong, who more than once rescued the Chinese revolution from grave danger, and for the Central Committee of the Party which was headed by him and which charted the firm, correct political course for the whole Party, the whole people and the people’s army. Just as the Communist Party of China is recognized as the central force leading the entire people forward, so Comrade Mao Zedong is recognized as the great leader of the Chinese Communist Party and the whole Chinese people, and Mao Zedong Thought, which came into being through the collective struggle of the Party and the people, is recognized as the guiding ideology of the Party. This is the inevitable outcome of the twenty-eight years of historical development preceding the founding of the People’s Republic of China.”

The establishment of the socialist system represents the greatest and most profound social change in Chinese history and is the foundation for the country’s future progress and development.”

We have established and consolidated the people’s democratic dictatorship led by the working class and based on the worker-peasant alliance, namely, the dictatorship of the proletariat. It is a new type of state power, unknown in Chinese history, in which the people are the masters of their own house. It constitutes the fundamental guarantee for the building of a modern socialist country, prosperous and powerful, democratic and culturally advanced.

We have achieved and consolidated nationwide unification of the country, with the exception of Taiwan and other islands, and have thus put an end to the state of disunity characteristic of old China. We have achieved and consolidated the great unity of the people of all nationalities and have forged and expanded a socialist relationship of equality and mutual help among the more than fifty nationalities. And we have achieved and consolidated the great unity of the workers, peasants, intellectuals and people of other strata and have strengthened and expanded the broad united front which is led by the Chinese Communist Party in full co-operation with the patriotic democratic parties and people’s organizations, and comprises all socialist working people and all patriots who support socialism and patriots who stand for the unification of the motherland, including our compatriots in Taiwan, Xianggang (Hong Kong) and Aomen (Macao) and Chinese citizens overseas.”

We have built and developed a socialist economy and have in the main completed the socialist transformation of the private ownership of the means of production into public ownership and put into practice the principle of ‘to each according to his work’. The system of exploitation of man by man has been eliminated, and exploiters no longer exist as classes since the overwhelming majority have been remoulded and now live by their own labour.

Compared with 1952 when economic rehabilitation was completed, fixed industrial assets, calculated on the basis of their original price, were more than 27 times greater in 1980, exceeding 410,000 million yuan; the output of cotton yarn was 4.5 times greater, reaching 2,930,000 tonnes; that of coal 9.4 times, reaching 620 million tonnes; that of electricity 41 times, exceeding 300,900 million KWH; and the output of crude oil exceeded 105,000,000 tonnes and that of steel 37 million tonnes; the output value of the engineering industry was 54 times greater, exceeding 127,000 million yuan. A number of new industrial bases have been built in our east hinterland and the regions inhabited by our minority nationalities. National defence industry started from scratch and is being gradually built up. Much has been done in the prospecting of natural resources. There has been a tremendous growth in railway, highway, water and air transport and post and telecommunications.”

Flooding by big rivers such as the Changjiang (Yangtse), Huanghe (Yellow River), Huaihe, Haihe, Zhujiang (Pearl River), Liaohe and Songhuajiang has been brought under initial control. In our rural areas, where farm machinery, chemical fertilizers and electricity were practically non-existent before liberation, there is now a big increase in the number of agriculture-related tractors and irrigation and drainage equipment and in the quantity of chemical fertilizers applied, and the amount of electricity consumed is 7.5 times that generated in the whole country in the early years of liberation. In 1980, the total output of grain was nearly double that in 1952 and that of cotton more than double. Despite the excessive rate of growth in our population, which is now nearly a billion, we have succeeded in basically meeting the needs of our people in food and clothing by our own efforts.”

Considerable progress has been made in education, science, culture, public health and physical culture. In 1980, enrolment in the various kinds of full-time schools totalled 204 million, 3.7 times the number in 1952. In the past thirty-two years, the institutions of higher education and vocational schools have turned out nearly 9 million graduates with specialized knowledge or skills. Our achievements in nuclear technology, man-made satellites, rocketry, etc. represent substantial advances in the field of science and technology. In literature and art, large numbers of fine works have appeared to cater for the needs of the people and socialism. With the participation of the masses, sports have developed vigorously, and records have been chalked up in quite a few events. Epidemic diseases with their high mortality rates have been eliminated or largely eliminated, the health of the rural and urban populations has greatly improved, and average life expectancy is now much higher.”

Internationally, we have steadfastly pursued an independent socialist foreign policy, advocated and upheld the Five Principles of Peaceful Coexistence, entered into diplomatic relations with 124 countries and promoted trade and economic and cultural exchanges with still more countries and regions. Our country’s place in the United Nations and the Security Council has been restored to us. Adhering to proletarian internationalism, we are playing an increasingly influential and active role in international affairs by enhancing our friendship with the people of other countries, by supporting and assisting the oppressed nations in their cause of liberation, the newly independent countries in their national construction and the people of various countries in their just struggles, and by staunchly opposing imperialism, hegemonism, colonialism and racism in defence of world peace. All of which has served to create favourable international conditions for our socialist construction and contributes to the development of a world situation favourable to the people everywhere.

New China has not been in existence for very long, and our successes are still preliminary. Our Party has made mistakes owing to its meagre experience in leading the cause of socialism and subjective errors in the Party leadership’s analysis of the situation and its understanding of Chinese conditions. Before the ‘cultural revolution’ there were mistakes of enlarging the scope of class struggle and of impetuosity and rashness in economic construction. Later, there was the comprehensive, long-drawn-out and grave blunder of the ‘cultural revolution’. All these errors prevented us from scoring the greater achievements of which we should have been capable. It is impermissible to overlook or whitewash mistakes, which in itself would be a mistake and would give rise to more and worse mistakes. But after all, our achievements in the past 32 years are the main thing. It would be a no less serious error to overlook or deny our achievements or our successful experiences in scoring these achievements. These achievements and successful experiences of ours are the product of the creative application of Marxism-Leninism by our Party and people, the manifestation of the superiority of the socialist system and the base from which the entire Party and people will continue to advance. ‘Uphold truth and rectify error’ — this is the basic stand of dialectical materialism our Party must take. It was by taking this stand that we laved our cause from danger and defeat and won victory in the past. By taking the same stand, we will certainly win still greater victories in the future.”

The Seven Years of Basic Completion of the Socialist Transformation

From the inception of the People’s Republic of China in October 1949 to 1956, our Party led the whole people in gradually realizing the transition from new democracy to socialism, rapidly rehabilitating the country’s economy, undertaking planned economic construction and in the main accomplishing the socialist transformation of the private ownership of the means of production in most of the country. The guidelines and basic policies defined by the Party in this historical period were correct and led to brilliant successes.

In the first 3 years of the People’s Republic, we cleared the mainland of bandits and the remnant armed forces of the Kuomintang reactionaries, peacefully liberated Tibet, established people’s governments at all levels throughout the country, confiscated bureaucrat-capitalist enterprises and transformed them into state-owned socialist enterprises, unified the country’s financial and economic work, stabilized commodity prices, carried out agrarian reform in the new liberated areas, suppressed counter-revolutionaries, and unfolded the movements against the ‘three evils’ of corruption; waste and bureaucracy and against the ‘five evils’ of bribery, tax evasion, theft of state property, cheating on government contracts and stealing of economic information, the latter being a movement to beat back the attack mounted by the bourgeoisie. (…) We effectively transformed the educational, scientific and cultural institutions of old China. While successfully carrying out the complex and difficult task of social reform and simultaneously undertaking the great war to resist U.S. aggression and aid Korea, protect our homes and defend the country, we rapidly rehabilitated the country’s economy which had been devastated in old China. By the end of 1952, the country’s industrial and agricultural production had attained record levels.

On the proposal of Comrade Mao Zedong in 1952, the Central Committee of the Party advanced the general line for the transition period, which was to realize the country’s socialist industrialization and socialist transformation of agriculture, handicrafts and capitalist industry and commerce step by step over a fairly long period of time. This general line was a reflection of historical necessity.”

With nationwide victory in the new-democratic revolution and completion of the agrarian reform, the contradiction between the working class and the bourgeoisie and between the socialist road and the capitalist road became the principal internal contradiction. The country needed a certain expansion of capitalist industry and commerce which were beneficial to its economy and to the people’s livelihood. But in the course of their expansion, things detrimental to the national economy and the people’s livelihood were bound to emerge. Consequently, a struggle between restriction and opposition to restriction was inevitable. The conflict of interests became increasingly apparent between capitalist enterprises on the one hand and the economic policies of the state, the socialist state-owned economy, the workers and staff in these capitalist enterprises and the people as a whole on the other. An integrated series of necessary measures and steps, such as the fight against speculation and profiteering, the readjustment and restructuring of industry and commerce, the movement against the ‘five evils’, workers’ supervision of production and state monopoly of the purchase and marketing of grain and cotton, were bound to gradually bring backward, anarchic, lopsided and profit-oriented capitalist industry and commerce into the orbit of socialist transformation.

Among the individual peasants, and particularly the poor and lower-middle peasants who had just acquired land in the agrarian reform but lacked other means of production, there was a genuine desire for mutual aid and co-operation in order to avoid borrowing at usurious rates and even mortgaging or selling their land again with consequent polarization, and in order to expand production, undertake water conservancy projects, ward off natural calamities and make use of farm machinery and new techniques. The progress of industrialization, while demanding agricultural products in ever increasing quantities, would provide stronger and stronger support for the technical transformation of agriculture, and this also constituted a motive force behind the transformation of individual into co-operative farming.”

In dealing with capitalist industry and commerce, we devised a whole series of transitional forms of state capitalism from lower to higher levels, such as the placing of state orders with private enterprises for the processing of materials or the manufacture of goods, state monopoly of the purchase and marketing of the products of private enterprise, the marketing of products of state-owned enterprises by private shops, and joint state-private ownership of individual enterprises or enterprises of a whole trade, and we eventually realized the peaceful redemption of the bourgeoisie, a possibility envisaged by Marx and Lenin. In dealing with individual farming, we devised transitional forms of co-operation, proceeding from temporary or all-the-year-round mutual-aid teams, to elementary agricultural producers’ co-operatives of a semi-socialist nature and then to advanced agricultural producers’ co-operatives of a fully socialist nature, always adhering to the principles of voluntariness and mutual benefit, demonstration through advanced examples, and extension of state help. Similar methods were used in transforming individual handicraft industries. In the course of such transformation, the state-capitalist and co-operative economies displayed their unmistakable superiority. By 1956, the socialist transformation of the private ownership of the means of production had been largely completed in most regions. But there had been shortcomings and errors. From the summer of 1955 onwards, we were over-hasty in pressing on with agricultural co-operation and the transformation of private handicraft and commercial establishments; we were far from meticulous, the changes were too fast, and we did our work in a somewhat summary, stereotyped manner, leaving open a number of questions for a long time. Following the basic completion of the transformation of capitalist industry and commerce in 1956, we failed to do a proper job in employing and handling some of the former industrialists and businessmen. But on the whole, it was definitely a historic victory for us to have effected, and to have effected fairly smoothly, so difficult, complex and profound a social change in so vast a country with its several hundred million people, a change, moreover, which promoted the growth of industry, agriculture and the economy as a whole.

In economic construction under the First Five-Year Plan (1953-57), we likewise scored major successes through our own efforts and with the assistance of the Soviet Union and other friendly countries. A number of basic industries, essential for the country’s industrialization and yet very weak in the past, were built up. Between 1953 and 1956, the average annual increases in the total value of industrial and agricultural output were 19.6 and 4.8 per cent respectively. Economic growth was quite fast, with satisfactory economic results, and the key economic sectors were well-balanced. The market prospered, prices were stable. The people’s livelihood improved perceptibly. In April 1956, Comrade Mao Zedong made his speech On the Ten Major Relationships, in which he initially summed up our experiences in socialist construction and set forth the task of exploring a way of building socialism suited to the specific conditions of our country.

The First National People’s Congress was convened in September 1954, and it enacted the Constitution of the People’s Republic of China. In March 1955, a national conference of the Party reviewed the major struggle against the plots of the careerists Gao Gang and Rao Shushi to split the Party and usurp supreme power in the Party and the state; in this way it strengthened Party unity. In January 1956, the Central Committee of the Party called a conference on the question of the intellectuals. Subsequently, the policy of ‘letting a hundred flowers blossom and a hundred schools of thought contend’ was advanced. These measures spelled out the correct policy regarding intellectuals and the work in education, science and culture and thus brought about a significant advance in these fields. Owing to the Party’s correct policies, fine style of work and the consequent high prestige it enjoyed among the people, the vast numbers of cadres, masses, youth and intellectuals earnestly studied Marxism-Leninism and Mao Zedong Thought and participated enthusiastically in revolutionary and construction activities under the leadership of the Party, so that a healthy and virile revolutionary morality prevailed throughout the country.

The Eighth National Congress of the Party held in September 1956 was very successful. The congress declared that the socialist system had been basically established in China; that while we must strive to liberate Taiwan, thoroughly complete socialist transformation, ultimately eliminate the system of exploitation and continue to wipe out the remnant forces of counter-revolution, the principal contradiction within the country was no longer the contradiction between the working class and the bourgeoisie but between the demand of the people for rapid economic and cultural development and the existing state of our economy and culture which fell short of the needs of the people; that the chief task confronting the whole nation was to concentrate all efforts on developing the productive forces, industrializing the country and gradually meeting the people’s incessantly growing material and cultural needs; and that although class struggle still existed and the people’s democratic dictatorship had to be further strengthened, the basic task of the dictatorship was now to protect and develop the productive forces in the context of the new relations of production. The congress adhered to the principle put forward by the Central Committee of the Party in May 1956, the principle of opposing both conservatism and rash advance in economic construction, that is, of making steady progress by striking an over-all balance. It emphasized the problem of the building of the Party in office and the need to uphold democratic centralism and collective leadership, oppose the personality cult, promote democracy within the Party and among the people and strengthen the Party’s ties with the masses. The line laid down by the Eighth National Congress of the Party was correct and it charted the path for the development of the cause of socialism and for Party building in the new period.”

Ten Years of Initially Building Socialism in All Spheres

In the ten years preceding the ‘cultural revolution’ we achieved very big successes despite serious setbacks. By 1966, the value of fixed industrial assets, calculated on the basis of their original price, was 4 times greater than in 1956. The output of such major industrial products as cotton yarn, coal, electricity, crude oil, steel and mechanical equipment all recorded impressive increases. Beginning in 1965, China became self-sufficient in petroleum. New industries such as the electronic and petrochemical industries were established one after another. The distribution of industry over the country became better balanced. Capital construction in agriculture and its technical transformation began on a massive scale and yielded better and better results. Both the number of tractors for farming and the quantity of chemical fertilizers applied increased over 7 times and rural consumption of electricity 71 times. The number of graduates from institutions of higher education was 4.9 times that of the previous seven years. Educational work was improved markedly through consolidation. Scientific research and technological work, too, produced notable results.”

While leading the work of correcting the errors in the Great Leap Forward and the movement to organize people’s communes, Comrade Mao Zedong pointed out that there must be no expropriation of the peasants; that a given stage of social development should not be skipped; that equalitarianism must be opposed; that we must stress commodity production, observe the law of value and strike an over-all balance in economic planning; and that economic plans must be arranged with the priority proceeding from agriculture to light industry and then to heavy industry. Comrade Liu Shaoqi said that a variety of means of production could be put into circulation as commodities and that there should be a double-track system for labour as well as for education in socialist society.”

In the course of this decade, there were serious faults and errors in the guidelines of the Party’s work, which developed through twists and turns.

Nineteen fifty-seven was one of the years that saw the best results in economic work since the founding of the People’s Republic owing to the conscientious implementation of the correct line formulated at the Eighth National Congress of the Party. To start a rectification campaign throughout the Party in that year and urge the masses to offer criticisms and suggestions were normal steps in developing socialist democracy. In the rectification campaign a handful of bourgeois Rightists seized the opportunity to advocate what they called ‘speaking out and airing views in a big way’ and to mount a wild attack against the Party and the nascent socialist system in an attempt to replace the leadership of the Communist Party. It was therefore entirely correct and necessary to launch a resolute counter-attack. But the scope of this struggle was made far too broad and a number of intellectuals, patriotic people and Party cadres were unjustifiably labelled ‘Rightists’, with unfortunate consequences.”

Left’ errors, characterized by excessive targets, the issuing of arbitrary directions, boastfulness and the stirring up of a ‘communist wind’, spread unchecked throughout the country. This was due to our lack of experience in socialist construction and inadequate understanding of the laws of economic development and of the basic economic conditions in China. More important, it was due to the fact that Comrade Mao Zedong and many leading comrades, both at the centre and in the localities, had become smug about their successes, were impatient for quick results and overestimated the role of man’s subjective will and efforts. After the general line was formulated, the Great Leap Forward and the movement for rural people’s communes were initiated without careful investigation and study and without prior experimentation. From the end of 1958 to the early stage of the Lushan Meeting of the Political Bureau of the Party’s Central Committee in July 1959, Comrade Mao Zedong and the Central Committee led the whole Party in energetically rectifying the errors which had already been recognized. However, in the later part of the meeting, he erred in initiating criticism of Comrade Peng Dehuai and then in launching a Party-wide struggle against ‘Right opportunism’. The resolution passed by the Eighth Plenary Session of the Eighth Central Committee of the Party concerning the so-called anti-Party group of Peng Dehuai, Huang Kecheng, Zhang Wentian and Zhou Xiaozhou was entirely wrong. Politically, this struggle gravely undermined inner-Party democracy from the central level down to the grass roots; economically, it cut short the process of the rectification of ‘Left’ errors, thus prolonging their influence. It was mainly due to the errors of the Great Leap Forward and of the struggle against ‘Right opportunism’ together with a succession of natural calamities and the perfidious scrapping of contracts by the Soviet Government that our economy encountered serious difficulties between 1959 and 1961, which caused serious losses to our country and people.”

A majority of the comrades who had been unjustifiably criticized during the campaign against ‘Right opportunism’ were rehabilitated before or after the conference. In addition, most of the ‘Rightists’ had their label removed. Thanks to these economic and political measures, the national economy recovered and developed fairly smoothly between 1962 and 1966.

Nevertheless, ‘Left’ errors in the principles guiding economic work were not only not eradicated, but actually grew in the spheres of politics, ideology and culture. At the Tenth Plenary Session of the Party’s Eighth Central Committee in September 1962, Comrade Mao Zedong widened and absolutized the class struggle, which exists only within certain limits in socialist society, and carried forward the viewpoint he had advanced after the anti-Rightist struggle in 1957 that the contradiction between the proletariat and the bourgeoisie remained the principal contradiction in our society. He went a step further and asserted that, throughout the historical period of socialism, the bourgeoisie would continue to exist and would attempt a comeback and become the source of revisionism inside the Party. The socialist education movement unfolded between 1963 and 1965 in some rural areas and at the grass-roots level in a small number of cities did help to some extent to improve the cadres’ style of work and economic management. But, in the course of the movement, problems differing in nature were all treated as forms of class struggle or its reflections inside the Party. As a result, quite a number of the cadres at the grassroots level were unjustly dealt with in the latter half of 1964, and early in 1965 the erroneous thesis was advanced that the main target of the movement should be ‘those Party persons in power taking the capitalist road’. In the ideological sphere, a number of literary and art works and schools of thought and a number of representative personages in artistic, literary and academic circles were subjected to unwarranted, inordinate political criticism. And there was an increasingly serious ‘Left’ deviation on the question of intellectuals and on the question of education, science and culture. These errors eventually culminated in the ‘cultural revolution’, but they had not yet become dominant.”

They overcame difficulties at home, stood up to the pressure of the Soviet leading clique and repaid all the debts owed to the Soviet Union, which were chiefly incurred through purchasing Soviet arms during the movement to resist U.S. aggression and aid Korea. In addition, they did what they could to support the revolutionary struggles of the people of many countries and assist them in their economic construction.”

All the successes in these ten years were achieved under the collective leadership of the Central Committee of the Party headed by Comrade Mao Zedong. Likewise, responsibility for the errors committed in the work of this period rested with the same collective leadership. Although Comrade Mao Zedong must be held chiefly responsible, we cannot lay the blame for all those errors on him alone. During this period, his theoretical and practical mistakes concerning class struggle in a socialist society became increasingly serious, his personal arbitrariness gradually undermined democratic centralism in Party life and the personality cult grew graver and graver. The Central Committee of the Party failed to rectify these mistakes in good time. Careerists like Lin Biao, Jiang Qing and Kang Sheng, harbouring ulterior motives, made use of these errors and inflated them. This led to the inauguration of the ‘cultural revolution’.”

The Decade of the ‘Cultural Revolution’

The ‘cultural revolution’, which lasted from May 1966 to October 1976, was responsible for the most severe setback and the heaviest losses suffered by the Party, the state and the people since the founding of the People’s Republic. It was initiated and led by Comrade Mao Zedong. His principal theses were that many representatives of the bourgeoisie and counter-revolutionary revisionists had sneaked into the Party, the government, the army and cultural circles, and leadership in a fairly large majority of organizations and departments was no longer in the hands of Marxists and the people; that Party persons in power taking the capitalist road had formed a bourgeois headquarters inside the Central Committee which pursued a revisionist political and organizational line and had agents in all provinces, municipalities and autonomous regions, as well as in all central departments; that since the forms of struggle adopted in the past had not been able to solve this problem, the power usurped by the capitalist-roaders could be recaptured only by carrying out a great cultural revolution, by openly and fully mobilizing the broad masses from the bottom up to expose these sinister phenomena; and that the cultural revolution was in fact a great political revolution in which one class would overthrow another, a revolution that would have to be waged time and again. These theses appeared mainly in the May 16 Circular, which served as the programmatic document of the ‘cultural revolution’, and in the political report to the Ninth National Congress of the Party in April 1969. They were incorporated into a general theory — the ‘theory of continued revolution under the dictatorship of the proletariat’¹ — which then took on a specific meaning. These erroneous ‘Left’ theses, upon which Comrade Mao Zedong based himself in initiating the ‘cultural revolution’, were obviously inconsistent with the system of Mao Zedong Thought, which is the integration of the universal principles of Marxism-Leninism with the concrete practice of the Chinese revolution. These theses must be clearly distinguished from Mao Zedong Thought. As for Lin Biao, Jiang Qing and others, who were placed in important positions by Comrade Mao Zedong, the matter is of an entirely different nature. They rigged up two counter-revolutionary cliques in an attempt to seize supreme power and, taking advantage of Comrade Mao Zedong’s errors, committed many crimes behind his back, bringing disaster to the country and the people. As their counter-revolutionary crimes have been fully exposed, this resolution will not go into them at any length.”

¹ Anos de trotskização do regime.

The history of the ‘cultural revolution’ has proved that Comrade Mao Zedong’s principal theses for initiating this revolution conformed neither to Marxism, Leninism nor to Chinese reality. They represent an entirely erroneous appraisal of the prevailing class relations and political situation in the Party and state.”

Many things denounced as revisionist or capitalist during the ‘cultural revolution’ were actually Marxist and socialist principles, many of which had been set forth or supported by Comrade Mao Zedong himself. The ‘cultural revolution’ negated many of the correct principles, policies and achievements of the 17 years after the founding of the People’s Republic. In fact, it negated much of the work of the Central Committee of the Party and the People’s Government, including Comrade Mao Zedong’s own contribution. It negated the arduous struggles the entire people had conducted in socialist construction.”

The so-called bourgeois headquarters inside the Party headed by Liu Shaoqi and Deng Xiaoping simply did not exist. Irrefutable facts have proved that labelling Comrade Liu Shaoqi a ‘renegade, hidden traitor and stab’ was nothing but a frame-up by Lin Biao, Jiang Qing and their followers. The political conclusion concerning Comrade Liu Shaoqi drawn by the Twelfth Plenary Session of the Eighth Central Committee of the Party and the disciplinary measure it meted out to him were both utterly wrong. The criticism of the so-called reactionary academic authorities in the ‘cultural revolution’ during which many capable and accomplished intellectuals were attacked and persecuted also badly muddled up the distinction between the people and the enemy.”

After the movement started, Party organizations at different levels were attacked and became partially or wholly paralysed, the Party’s leading cadres at various levels were subjected to criticism and struggle, inner-Party life came to a standstill, and many activists and large numbers of the basic masses whom the Party has long relied on were rejected.”

Many people were assailed either more or less severely for this very reason. Such a state of affairs could not but provide openings to be exploited by opportunists, careerists and conspirators, not a few of whom were escalated to high or even key positions.”

Of course, it was essential to take proper account of certain undesirable phenomena that undoubtedly existed in Party and state organisms and to remove them by correct measures in conformity with the Constitution, the laws and the Party Constitution. But on no account should the theories and methods of the ‘cultural revolution’ have been applied. Under socialist conditions, there is no economic or political basis for carrying out a great political revolution in which ‘one class overthrows another’. It decidedly could not come up with any constructive programme, but could only bring grave disorder, damage and retrogression in its train. History has shown that the ‘cultural revolution’ initiated by a leader labouring under a misapprehension and capitalized on by counter-revolutionary cliques, led to domestic turmoil and brought catastrophe to the Party, the state and the whole people.”

1) From the initiation of the ‘cultural revolution’ to the Ninth National Congress of the Party in April 1969. The convening of the enlarged Political Bureau meeting of the Central Committee of the Party in May 1966 and the Eleventh Plenary Session of the Eighth Central Committee in August of that year marked the launching of the ‘cultural revolution’ on a full scale.

In fact, Comrade Mao Zedong’s personal leadership characterized by ‘Left’ errors took the place of the collective leadership of the Central Committee, and the cult of Comrade Mao Zedong was frenziedly pushed to an extreme. Lin Biao, Jiang Qing, Kang Sheng, Zhang Chunqiao and others, acting chiefly in the name of the ‘Cultural Revolution Group’, exploited the situation to incite people to ‘overthrow everything and wage full-scale civil war’. Around February 1967, at various meetings, Tan Zhenlin, Chen Yi, Ye Jianying, Li Fuchun, Li Xiannian, Xu Xiangqian, Nie Rongzhen and other Political Bureau members and leading comrades of the Military Commission of the Central Committee sharply criticized the mistakes of the ‘cultural revolution’. This was labelled the ‘February adverse current’, and they were attacked and repressed.”

2) From the Ninth National Congress of the Party to its Tenth National Congress in August 1973.” “During the criticism and repudiation of Lin Biao in 1972, he correctly proposed criticism of the ultra-Left trend of thought. In fact, this was an extension of the correct proposals put forward around February 1967 by many leading comrades of the Central Committee who had called for the correction of the errors of the ‘cultural revolution’. Comrade Mao Zedong, however, erroneously held that the task was still to oppose the ‘ultra-Right’. The Tenth Congress of the Party perpetuated the ‘Left’ errors of the Ninth Congress and made Wang Hongwen a vice-chairman of the Party. Jiang Qing, Zhang Chunqiao, Yao Wenyuan and Wang Hongwen formed a Gang of Four inside the Political Bureau of the Central Committee, thus strengthening the influence of the counter-revolutionary Jiang Qing clique.”

3) From the Tenth Congress of the Party to October 1976. Early in 1974 Jiang Qing, Wang Hongwen and others launched a campaign to ‘criticize Lin Biao and Confucius’.”

When he found that Jiang Qing and the others were turning it to their advantage in order to seize power, he [Mao] severely criticized them. He declared that they had formed a ‘gang of four’ and pointed out that Jiang Qing harboured the wild ambition of making herself chairman of the Central Committee and ‘forming a cabinet’ by political manipulation. In 1975, when Comrade Zhou Enlai was seriously ill, Comrade Deng Xiaoping, with the support of Comrade Mao Zedong, took charge of the day-to-day work of the Central Committee. He convened an enlarged meeting of the Military Commission of the Central Committee and several other important meetings with a view to solving problems in industry, agriculture, transport and science and technology, and began to straighten out the work in many fields so that the situation took an obvious turn for the better. However, Comrade Mao Zedong could not bear to accept systematic correction of the errors of the ‘cultural revolution’ by Comrade Deng Xiaoping and triggered the movement to ‘criticize Deng and counter the Right deviationist trend to reverse correct verdicts’, once again plunging the nation into turmoil. In January of that year, Comrade Zhou Enlai passed away.” Teria Zedong vivido em senilidade seus últimos anos? O que é lenda e o que é veraz em todo esse comunicado oficial? O herói vive tempo suficiente apenas para arruinar-se perante a opinião pública (paradoxo da eternidade de Alexandre e Júlio César)?

The Political Bureau of the Central Committee and Comrade Mao Zedong wrongly assessed the nature of the Tian An Men Incident and dismissed Comrade Deng Xiaoping from all his posts inside and outside the Party. As soon as Comrade Mao Zedong passed away in September 1976, the counterrevolutionary Jiang Qing clique stepped up its plot to seize supreme Party and state leadership.”

Chief responsibility for the grave ‘Left’ error of the ‘cultural revolution’, an error comprehensive in magnitude and protracted in duration, does indeed lie with Comrade Mao Zedong. But after all it was the error of a great proletarian revolutionary. Comrade Mao Zedong paid constant attention to overcoming shortcomings in the life of the Party and state. In his later years, however, far from making a correct analysis of many problems, he confused right and wrong and the people with the enemy during the ‘cultural revolution’.”

While making serious mistakes, he repeatedly urged the whole Party to study the works of Marx, Engels and Lenin conscientiously and imagined that his theory and practice were Marxist and that they were essential for the consolidation of the dictatorship of the proletariat. Herein lies his tragedy. While persisting in the comprehensive error of the ‘cultural revolution’, he checked and rectified some of its specific mistakes, protected some leading Party cadres and non-Party public figures and enabled some leading cadres to return to important leading posts.”

The foundation of China’s socialist system remained intact and it was possible to continue socialist economic construction. Our country remained united and exerted a significant influence on international affairs. All these important facts are inseparable from the great role played by Comrade Mao Zedong. For these reasons, and particularly for his vital contributions to the cause of the revolution over the years, the Chinese people have always regarded Comrade Mao Zedong as their respected and beloved great leader and teacher.”

Party and state leaders such as Comrades Liu Shaoqi, Peng Dehuai, He Long and Tao Zhu and all other Party and non-Party comrades who were persecuted to death in the ‘cultural revolution’ will live for ever in the memories of the Chinese people.”

hydrogen bomb tests were successfully undertaken and man-made satellites successfully launched and retrieved; and new hybrid strains of long-grained rice were developed and popularized. Despite the domestic turmoil, the People’s Liberation Army bravely defended the security of the motherland.” “Needless to say, none of these successes can be attributed in any way to the ‘cultural revolution’, without which we would have scored far greater achievements for our cause.”

In addition to the above-mentioned immediate cause of Comrade Mao Zedong’s mistake in leadership, there are complex social and historical causes underlying the ‘cultural revolution’ which dragged on for as long as a decade. The main causes are as follows:

1) The history of the socialist movement is not long and that of the socialist countries even shorter. Some of the laws governing the development of socialist society are relatively clear, but many more remain to be explored. Our Party had long existed in circumstances of war and fierce class struggle. It was not fully prepared, either ideologically or in terms of scientific study, for the swift advent of the new-born socialist society and for socialist construction on a national scale. The scientific works of Marx, Engels, Lenin and Stalin are our guide to action, but can in no way provide ready-made answers to the problems we may encounter in our socialist cause. Even after the basic completion of socialist transformation, given the guiding ideology, we were liable, owing to the historical circumstances in which our Party grew, to continue to regard issues unrelated to class struggle as its manifestations when observing and handling new contradictions and problems which cropped up in the political, economic, cultural and other spheres in the course of the development of socialist society.” 1) A luta de classes permanecerá em qualquer nação do globo até a verdadeira derrocada do Imperialismo Americano; 2) Resta saber se a China como país mais capitalista seguirá sendo anti-imperialista e socialista, não apenas nominalmente (tal contradição, “mais capitalista e mais socialista ao mesmo tempo”, não é espantosa, ainda mais tendo em vista a literatura marxista a esse respeito, mais do que ampla).

For instance, it was thought that equal right, which reflects the exchange of equal amounts of labour and is applicable to the distribution of the means of consumption in socialist society, or ‘bourgeois right’ as it was designated by Marx,¹ should be restricted and criticized, and so the principle of ‘to each according to his work’ and that of material interest should be restricted and criticized; that small production would continue to engender capitalism and the bourgeoisie daily and hourly on a large scale even after the basic completion of socialist transformation, and so a series of ‘Left’ economic policies and policies on class struggle in urban and rural areas were formulated; and that all ideological differences inside the Party were reflections of class struggle in society, and so frequent and acute inner-Party struggles were conducted.”

¹ Posses individuais x posse dos meios de produção

Furthermore, Soviet leaders started a polemic between China and the Soviet Union, and turned the arguments between the two Parties on matters of principle into a conflict between the two nations, bringing enormous pressure to bear upon China politically, economically and militarily. So we were forced to wage a just struggle against the big-nation chauvinism of the Soviet Union. In these circumstances, a campaign to prevent and combat revisionism inside the country was launched, which spread the error of broadening the scope of class struggle in the Party, so that normal differences among comrades inside the Party came to be regarded as manifestations of the revisionist line or of the struggle between the two lines. This resulted in growing tension in inner-Party relations.”

2) Comrade Mao Zedong’s prestige reached a peak and he began to get arrogant at the very time when the Party was confronted with the new task of shifting the focus of its work to socialist construction, a task for which the utmost caution was required. He gradually divorced himself from practice and from the masses, acted more and more arbitrarily and subjectively, and increasingly put himself above the Central Committee of the Party.”

This state of affairs took shape only gradually and the Central Committee of the Party should be held partly responsible. From the Marxist viewpoint, this complex phenomenon was the product of given historical conditions. Blaming this on only one person or on only a handful of people will not provide a deep lesson for the whole Party or enable it to find practical ways to change the situation. In the communist movement, leaders play quite an important role. This has been borne out by history time and again and leaves no room for doubt. However, certain grievous deviations, which occurred in the history of the international communist movement owing to the failure to handle the relationship between the Party and its leader correctly, had an adverse effect on our Party, too. Feudalism in China has had a very long history. Our Party fought in the firmest and most thoroughgoing way against it, and particularly against the feudal system of land ownership and the landlords and local tyrants, and fostered a fine tradition of democracy in the anti-feudal struggle. But it remains difficult to eliminate the evil ideological and political influence of centuries of feudal autocracy. And for various historical reasons, we failed to institutionalize and legalize inner-Party democracy and democracy in the political and social life of the country, or we drew up the relevant laws but they lacked due authority. This meant that conditions were present for the over-concentration of Party power in individuals and for the development of arbitrary individual rule and the personality cult in the Party.”

Great Turning Point in History

To carry out the principle of emancipating the mind properly, the Party reiterated in good time the 4 fundamental principles of upholding the socialist road, the people’s democratic dictatorship (i.e., the dictatorship of the proletariat), the leadership of the Communist Party, and Marxism-Leninism and Mao Zedong Thought. It reaffirmed the principle that neither democracy nor centralism can be practised at each other’s expense and pointed out the basic fact that, although the exploiters had been eliminated as classes, class struggle continues to exist within certain limits.”

4) Large numbers of unjust, false and wrong cases were re-examined and their verdicts reversed. Cases in which people had been wrongly labelled bourgeois Rightists were also corrected. Announcements were made to the effect that former businessmen and industrialists, having undergone remoulding, are now working people; that small tradespeople, pedlars and handicraftsmen, who were originally labourers, have been differentiated from businessmen and industrialists who were members of the bourgeoisie; and that the status of the vast majority of former landlords and rich peasants, who have become working people through remoulding, has been re-defined. These measures have appropriately resolved many contradictions inside the Party and among the people.”

The system according to which deputies to the people’s congresses at and below the county level are directly elected by the voters is now universally practised. Collective leadership and democratic centralism are being perfected in Party and state organizations. The powers of local and primary organizations are steadily being extended. The so-called right to ‘speak out, air views and hold debates in a big way and write big-character posters’ [dazibao], which actually obstructs the promotion of socialist democracy, was deleted from the Constitution.” “A number of important laws, decrees and regulations have been reinstated, enacted or enforced, including the Criminal Law and the Law of Criminal Procedure which had never been drawn up since the founding of the People’s Republic. The work of the judicial, procuratorial and public security departments has improved and telling blows have been dealt at all types of criminals guilty of serious offences.”

The Party’s mass media have also contributed immensely in this respect. The Party has decided to put an end to the virtually lifelong tenure of leading cadres, change the over-concentration of power and, on the basis of revolutionization, gradually reduce the average age of the leading cadres at all levels and raise their level of education and professional competence, and has initiated this process. With the reshuffling of the leading personnel of the State Council and the division of labour between Party and government organizations, the work of the central and local governments has improved.”

Comrade Mao Zedong’s Historical Role and Mao Zedong Thought

The Chinese Communists, with Comrade Mao Zedong as their chief-representative, made a theoretical synthesis of China’s unique experience in its protracted revolution in accordance with the basic principles of Marxism-Leninism. This synthesis constituted a scientific system of guidelines befitting China’s conditions, and it is this synthesis which is Mao Zedong Thought, the product of the integration of the universal principles of Marxism-Leninism with the concrete practice of the Chinese revolution. Making revolution in a large Eastern semi-colonial, semi-feudal country is bound to meet with many special, complicated problems which cannot be solved by reciting the general principles of Marxism-Leninism or by copying foreign experience in every detail. The erroneous tendency of making Marxism a dogma and deifying Comintern resolutions and the experience of the Soviet Union prevailed in the international communist movement and in our Party mainly in the late 1920s and early 1930s, and this tendency pushed the Chinese revolution to the brink of total failure. It was in the course of combating this wrong tendency and making a profound summary of our historical experience in this respect that Mao Zedong Thought took shape and developed. It was systematized and extended in a variety of fields and reached maturity in the latter part of the Agrarian Revolutionary War and the War of Resistance Against Japan, and it was further developed during the War of Liberation and after the founding of the People’s Republic of China.”

Mao Zedong Thought is wide-ranging in content. It is an original theory which has enriched and developed Marxism-Leninism in the following respects:

1) On the new-democratic revolution. (…) a revolution against imperialism, feudalism and bureaucrat-capitalism waged by the masses of the people on the basis of the worker-peasant alliance under the leadership of the proletariat. His main works on this subject include: Analysis of the Classes in Chinese Society, Report on an Investigation of the Peasant Movement in Hunan, A Single Spark Can Start a Prairie Fire, Introducing ‘The Communist’, On New Democracy, On Coalition Government and The Present Situation and Our Tasks. The basic points of this theory are:

i) China’s bourgeoisie consisted of two sections, the big bourgeoisie (that is, the comprador bourgeoisie, or the bureaucrat-bourgeoisie) which was dependent on imperialism, and the national bourgeoisie which had revolutionary leanings but wavered. The proletariat should endeavour to get the national bourgeoisie to join in the united front under its leadership and in special circumstances to include even part of the big bourgeoisie in the united front, so as to isolate the main enemy to the greatest possible extent. When forming a united front with the bourgeoisie, the proletariat must preserve its own independence and pursue the policy of ‘unity, struggle, unity through struggle’; when forced to split with the bourgeoisie, chiefly the big bourgeoisie, it should have the courage and ability to wage a resolute armed struggle against the big bourgeoisie, while continuing to win the sympathy of the national bourgeoisie or keep it neutral.

ii) Since there was no bourgeois democracy in China and the reactionary ruling classes enforced their terroristic dictatorship over the people by armed force, the revolution could not but essentially take the form of protracted armed struggle. China’s armed struggle was a revolutionary war led by the proletariat with the peasants as the principal force. The peasantry was the most reliable ally of the proletariat. Through its vanguard, it was possible and necessary for the proletariat, with its progressive ideology and its sense of organization and discipline, to raise the political consciousness of the peasant masses, establish rural base areas, wage a protracted revolutionary war and build up and expand the revolutionary forces. Comrade Mao Zedong pointed out that ‘the united front and armed struggle are the 2 basic weapons for defeating the enemy’.”

2) On the socialist revolution and socialist construction. (…) By putting forward the thesis that the combination of democracy for the people and dictatorship over the reactionaries constitutes the people’s democratic dictatorship, Comrade Mao Zedong enriched the Marxist-Leninist theory of the dictatorship of the proletariat. After the establishment of the socialist system, Comrade Mao Zedong pointed out that, under socialism, the people had the same fundamental interests, but that all kinds of contradictions still existed among them, and that contradictions between the enemy and the people and contradictions among the people should be strictly distinguished from each other and correctly handled. He proposed that among the people we should follow a set of correct policies. (…) Moreover, he stressed that the workers were the masters of their enterprises and that cadres must take part in physical labour and workers in management, that irrational rules and regulations must be reformed and that the three-in-one combination of technical personnel, workers and cadres must be effected. (…) Comrade Mao Zedong concerning the socialist revolution and socialist construction are mainly contained in such major works as Report to the Second Plenary Session of the Seventh Central Committee of the Communist Party of China, On the People’s Democratic Dictatorship, On the Ten Major Relationships, On the Correct Handling of Contradictions Among the People and Talk at an Enlarged Work Conference Convened by the Central Committee of the Communist Party of China.

3) On the building of the revolutionary army and military strategy. (…) he advanced the Three Main Rules of Discipline and the Eight Points for Attention and stressed the practice of political, economic and military democracy and the principles of the unity of officers and soldiers, the unity of army and people and the disintegration of the enemy forces, thus formulating by way of summation a set of policies and methods concerning political work in the army. In his military writings such as On Correcting Mistaken Ideas in the Party, Problems of Strategy in China’s Revolutionary War, Problems of Strategy in Guerrilla War Against Japan, On Protracted War and Problems of War and Strategy, Comrade Mao Zedong summed up the experience of China’s protracted revolutionary wars and advanced the comprehensive concept of building a people’s army and of building rural base areas and waging people’s war by employing the people’s army as the main force and relying on the masses. Raising guerrilla war to the strategic plane, he maintained that guerrilla warfare and mobile warfare of a guerrilla character would for a long time be the main forms of operation in China’s revolutionary wars. He explained that it would be necessary to effect an appropriate change in military strategy simultaneously with the changing balance of forces between the enemy and ourselves and with the progress of the war. He worked out a set of strategies and tactics for the revolutionary army to wage people’s war in conditions when the enemy was strong and we were weak. These strategies and tactics include fighting a protracted war strategically and campaigns and battles of quick decision, turning strategic inferiority into superiority in campaigns and battles and concentrating a superior force to destroy the enemy forces one by one.”

After the founding of the People’s Republic, he put forward the important guideline that we must strengthen our national defence and build modern revolutionary armed forces (including the navy, the air force and technical branches) and develop modern defence technology (including the making of nuclear weapons for self-defence).”

4) On policy and tactics. (…) He pointed out that policy and tactics were the life of the Party, that they were both the starting-point and the end-result of all the practical activities of a revolutionary party and that the Party must formulate its policies in the light of the existing political situation, class relations, actual circumstances and the changes in them, combining principle and flexibility. (…) He pointed out among other things: that, under changing subjective and objective conditions, a weak revolutionary force could ultimately defeat a strong reactionary force; that we should despise the enemy strategically and take him seriously tactically; that we should keep our eyes on the main target of struggle and not hit out in all directions; that we should differentiate between and disintegrate our enemies, and adopt the tactic of making use of contradictions, winning over the many, opposing the few and crushing our enemies one by one; that in areas under reactionary rule, we should combine legal and illegal struggle and, organizationally, adopt the policy of assigning picked cadres to work underground; that, as for members of the defeated reactionary classes and reactionary elements, we should give them a chance to earn a living and to become working people living by their own labour, so long as they did not rebel or create trouble; and that the proletariat and its party must fulfill two conditions in order to exercise leadership over their allies: (a) Lead their followers in waging resolute struggles against the common enemy and achieving victories; (b) Bring material benefits to their followers or at least avoid damaging their interests and at the same time give them political education.” Current Problems of Tactics in the Anti-Japanese United Front, On Policy, Conclusions on the Repulse of the Second Anti-Communist Onslaught, On Some Important Problems of the Party’s Present Policy, Don’t Hit Out in All Directions, On the Question of Whether Imperialism and All Reactionaries Are Real Tigers.

5) On ideological and political work and cultural work. (…) intellectuals should identify themselves with the workers and peasants and (…) they should acquire the proletarian world outlook by studying Marxism-Leninism, by studying society and through practical work. He pointed out that ‘this question of <for whom?> is fundamental; it is a question of principle and stressed that we should serve the people whole-heartedly, be highly responsible in revolutionary work, wage arduous struggle and fear no sacrifice.” The Orientation of the Youth Movement, Recruit Large Numbers of Intellectuals, Talks at the Yan’an Forum of Literature and Art, In Memory of Norman Bethune, Serve the People, The Foolish Old Man Who Removed the Mountains.

6) On Party building. (…) Combat Liberalism, The Role of the Chinese Communist Party in the National War, Reform Our Study, Rectify the Party’s Style of Work, Oppose Stereotyped Party Writing, Our Study and the Current Situation, On Strengthening the Party Committee System and Methods of Work of Party Committees. (…)

MAIS MAO: Oppose Book Worship, On Practice, On Contradiction, Preface and Postscript to ‘Rural Surveys’, Some Questions Concerning Methods of Leadership, Where Do Correct Ideas Come From?

The proletarian revolution is an internationalist cause which calls for the mutual support of the proletariats of different countries. But for the cause to triumph, each proletariat should primarily base itself on its own country’s realities, rely on the efforts of its own masses and revolutionary fortes, integrate the universal principles of Marxism-Leninism with the concrete practice of its own revolution and thus achieve victory. Comrade Mao Zedong always stressed that our policy should rest on our own strength and that we should find our own road of advance in accordance with our own conditions.”

Of course, China’s revolution and national construction are not and cannot be carried on in isolation from the rest of the world. It is always necessary for us to try to win foreign aid and, in particular, to learn all that is advanced and beneficial from other countries. The closed-door policy, blind opposition to everything foreign and any theory or practice of great-nation chauvinism are all entirely wrong. At the same time, although China is still comparatively backward economically and culturally, we must maintain our own national dignity and confidence, and there must be no slavishness or submissiveness in any form in dealing with big, powerful or rich countries. Under the leadership of the Party and Comrade Mao Zedong, no matter what difficulty we encountered, we never wavered, whether before or after the founding of New China, in our determination to remain independent and self-reliant and, we never submitted to any pressure from outside; we showed the dauntless and heroic spirit of the Chinese Communist Party and the Chinese people. We stand for the peaceful co-existence of the people of all countries and their mutual assistance on an equal footing. While upholding our own independence, we respect other people’s right to independence. The road of revolution and construction suited to the characteristics of a country has to be explored, decided on and blazed by its own people. No one has the right to impose his views on others.¹ Only under these conditions can there be genuine internationalism. Otherwise, there can only be hegemonismWe will always adhere to this principled stand in our international relations.”

¹ Forte cláusula anti-Europa e Estados Unidos da América (não está na potencialidade dessas civilizações modificarem seu modo agressivo de existência).

² Mundo atual.

Mao Zedong Thought is the valuable spiritual asset of our Party. It will be our guide to action for a long time to come. The Party leaders and the large group of cadres nurtured by Marxism-Leninism and Mao Zedong Thought were the backbone fortes in winning great victories for our cause; they are and will remain our treasured mainstay in the cause of socialist modernization. While many of Comrade Mao Zedong’s important works were written during the periods of new-democratic revolution and of socialist transformation, we must still constantly study them. This is not only because one cannot cut the past off from the present and failure to understand the past will hamper our understanding of present-day problems, but also because many of the basic theories, principles and scientific approaches set forth in these works are of universal significance and provide us with invaluable guidance now and will continue to do so in the future. Therefore, we must continue to uphold Mao Zedong Thought, study it in earnest and apply its stand, viewpoint and method in studying the new situation and solving the new problems arising in the course of practice. Mao Zedong Thought has added much that is new to the treasure-house of Marxist-Leninist theory. We must combine our study of the scientific works of Comrade Mao Zedong with that of the scientific writings of Marx, Engels, Lenin and Stalin. It is entirely wrong to try to negate the scientific value of Mao Zedong Thought and to deny its guiding role in our revolution and construction just because Comrade Mao Zedong made mistakes in his later years. And it is likewise entirely wrong to adopt a dogmatic attitude towards the sayings of Comrade Mao Zedong, to regard whatever he said as the immutable truth which must be mechanically applied everywhere, and to be unwilling to admit honestly that he made mistakes in his later years, and even try to stick to them in our new activities. Both these attitudes fail to make a distinction between Mao Zedong Thought — a scientific theory formed and tested over a long period of time — and the mistakes Comrade Mao Zedong made in his later years. And it is absolutely necessary that this distinction should be made. We must treasure all the positive experience obtained in the course of integrating the universal principles of Marxism-Leninism with the concrete practice of China’s revolution and construction over 50 years or so, apply and carry forward this experience in our new work and enrich and develop Party theory with new principles and new conclusions corresponding to reality, so as to ensure the continued progress of our cause along the scientific course of Marxism-Leninism and Mao Zedong Thought.”

Unite and Strive to Build a Powerful, Modern Socialist China

The objective of our Party’s struggle in the new historical period is to turn China step by step into a powerful socialist country with modern agriculture, industry, national defence and science and technology and with a high level of democracy and culture. We must also accomplish the great cause of reunification of the country by getting Taiwan to return to the embrace of the motherland.” Previsão (de minha responsabilidade): em algum momento no séc. XXI os Estados Unidos usarão a questão da autonomia relativa de Taiwan para algum tipo de enfrentamento militar – indireto, frio, morno… Quente e direto é impossível, doutra forma a vida na Terra terá um fim. Partindo do pressuposto metafísico de que se o mundo fosse chegar a um fim, esse fim já teria sido atingido “no século do átimo, da fissão e da fusão nucleares”, não será uma guerra total. É sabido que os EUA já tentaram encetar essa crise logo após estabelecer mundialmente a Guerra contra a Rússia Via Ucrânia (como deve ser chamada), conflito que já existia mas tinha interesse apenas regional até 2021; mas claramente falharam em seus melhores prognósticos, e falo aqui de um acirramento muito mais grave das tensões entre China e Taiwan. Mas a minha previsão é que ao tentar sabotar a ascensão chinesa via Taiwan os EUA tragicamente acelerarão o processo de reunificação do território, e a submissão de Taiwan ao PCCh, que invariavelmente ocorreria mesmo que uma nação imperialista estrangeira não interviesse. Esse documento, de 1981, deixa claro que a reintegração é um objetivo inegociável da política chinesa.

Socialism and socialism alone can save China. This is the unalterable conclusion drawn by all our people from their own experience over the past century or so; it likewise constitutes our fundamental historical experience in the thirty-two years since the founding of our People’s Republic. Although our socialist system is still in its early phase of development, China has undoubtedly established a socialist system and entered the stage of socialist society. Any view denying this basic fact is wrong. Under socialism, we have achieved successes which were absolutely impossible in old China. This is a preliminary and at the same time convincing manifestation of the superiority of the socialist system.

The fact that we have been and are able to overcome all kinds of difficulties through our own efforts testifies to its great vitality. Of course, our system will have to undergo a long process of development before it can be perfected. Given the premise that we uphold the basic system of socialism, therefore, we must strive to reform those specific features which are not in keeping with the expansion of the productive fortes and the interests of the people, and to staunchly combat all activities detrimental to socialism. With the development of our cause, the immense superiority of socialism will become more and more apparent.”

Without the leadership of such a party, without the flesh-and-blood ties it has formed with the masses through protracted struggles and without its painstaking and effective work among the people and the high prestige it consequently enjoys, our country — for a variety of reasons, both internal and external — would inexorably fall apart and the future of our nation and people would inexorably be forfeited. The Party leadership cannot be exempt from mistakes, but there is no doubt that it can correct them by relying on the close unity between the Party and the people, and in no case should one use the Party’s mistakes as a pretext for weakening, breaking away from or even sabotaging its leadership. (…) We must resolutely overcome the many shortcomings that still exist in our Party’s style of thinking and work, in its system of organization and leadership and in its contacts with the masses. So long as we earnestly uphold and constantly improve Party leadership, our Party will definitely be better able to undertake the tremendous tasks entrusted to it by history.”

After socialist transformation was fundamentally completed, the principal contradiction our country has had to resolve is that between the growing material and cultural needs of the people and the backwardness of social production. It was imperative that the focus of Party and government work be shifted to socialist modernization centring on economic construction and that the people’s material and cultural life be gradually improved by means of an immense expansion of the productive forces. In the final analysis, the mistake we made in the past was that we failed to persevere in making this strategic shift. What is more, the preposterous view opposing the so-called ‘theory of the unique importance of productive forces’, a view diametrically opposed to historical materialism, was put forward during the ‘cultural revolution’. We must never deviate from this focus, except in the event of large-scale invasion by a foreign enemy (and even then it will still be necessary to carry on such economic construction as wartime conditions require and permit). ll our Party work must be subordinated to and serve this central task — economic construction. All our Party cadres, and particularly those in economic departments, must diligently study economic theory and economic practice as well as science and technology.”

We must keep in mind the fundamental fact that China’s economy and culture are still relatively backward. At the same time, we must keep in mind such favourable domestic and international conditions as the achievements we have already stored and the experience we have gained in our economic construction and the expansion of economic and technological exchanges with foreign countries, and we must make full use of these favourable conditions. We must oppose both impetuosity and passivity.”

The state economy and the collective economy are the basic forms of the Chinese economy. The working people’s individual economy within certain prescribed limits is a necessary complement to public economy. (…) It is necessary to have planned economy and at the same time give play to the supplementary, regulatory role of the market on the basis of public ownership. We must strive to promote commodity production and exchange on a socialist basis. There is no rigid pattern for the development of the socialist relations of production. At every stage our task is to create those specific forms of the relations of production that correspond to the needs of the growing productive forces and facilitate their continued advance.”

Class struggle no longer constitutes the principal contradiction after the exploiters have been eliminated as classes. However, owing to certain domestic factors and influences from abroad, class struggle will continue to exist within certain limits for a long time to come and may even grow acute under certain conditions. It is necessary to oppose both the view that the scope of class struggle must be enlarged and the view that it has died out. It is imperative to maintain a high level of vigilance and conduct effective struggle against all those who are hostile to socialism and try to sabotage it in the political, economic, ideological and cultural fields and in community life. We must correctly understand that there are diverse social contradictions in Chinese society which do not fall within the scope of class struggle and that methods other than class struggle must be used for their appropriate resolution. Otherwise, social stability and unity will be jeopardized. We must unswervingly unite all forces that can be united with and consolidate and expand the patriotic united front.”

It is essential to consolidate the people’s democratic dictatorship, improve our Constitution and laws and ensure their strict observance and inviolability. We must turn the socialist legal system into a powerful instrument for protecting the rights of the people, ensuring order in production, work and other activities, punishing criminals and cracking down on the disruptive activities of class enemies. The kind of chaotic situation that [was] obtained in the ‘cultural revolution’ must never be allowed to happen again in any sphere.”

Life under socialism must attain a high ethical and cultural level. We must firmly eradicate such gross fallacies as the denigration of education, science and culture and discrimination against intellectuals, fallacies which had long existed and found extreme expression during the ‘cultural revolution’; we must strive to raise the status and expand the role of education, science and culture in our drive for modernization. We unequivocally affirm that, together with the workers and peasants, the intellectuals are a force to rely on in the cause of socialism and that it is impossible to carry out socialist construction without culture and the intellectuals. It is imperative for the whole Party to engage in a more diligent study of Marxist theories, of the past and present in China and abroad, and of the different branches of the natural and social sciences. We must strengthen and improve ideological and political work and educate the people and youth in the Marxist world outlook and communist morality; we must persistently carry out the educational policy which calls for an all-round development morally, intellectually and physically, for being both red and expert, for integration of the intellectuals with the workers and peasants and the combination of mental and physical labour; and we must counter the influence of decadent bourgeois ideology and the decadent remnants of feudal ideology, overcome the influence of petty-bourgeois ideology and foster the patriotism which puts the interests of the motherland, above everything else, in the modernization of our national defence. The building up of national defence must be in keeping with the building up of the economy. The People’s Liberation Army should strengthen its military training, political work, logistic service and study of military science and further raise its combat effectiveness so as gradually to become a still more powerful modern revolutionary army. It is necessary to restore and carry forward the fine tradition of unity inside the army, between the army and the government and between the army and the people. The building of the people’s militia must also be further strengthened.

PARÁGRAFO PERFEITO: The improvement and promotion of socialist relations among our various nationalities and the strengthening of national unity are of profound significance to our multinational country. In the past, particularly during the ‘cultural revolution’, we made a grave mistake on the question of nationalities, the mistake of widening the scope of class struggle, and we wronged a large number of cadres and masses of the minority nationalities. In our work among them, we did not show due respect for their right to autonomy. We must never forget this lesson. We must have a clear understanding that relations among our nationalities today are, in the main, relations among the working people of the various nationalities. It is necessary to adhere to their regional autonomy and enact laws and regulations to ensure this autonomy and their decision-making power in applying Party and government policies according to the actual conditions in their regions. We must take effective measures to assist economic and cultural development in regions inhabited by minority nationalities, actively train and promote cadres from among them and resolutely oppose all words and deeds undermining national unity and equality. It is imperative to continue to implement the policy of freedom of religious belief. To uphold the 4 fundamental principles does not mean that religious believers should renounce their faith but that they must not engage in propaganda against Marxism-Leninism and Mao Zedong Thought and that they must not interfere with politics and education in their religious activities.”

In our external relations, we must continue to oppose imperialism, hegemonism, colonialism and racism, and safeguard world peace. We must actively promote relations and economic and cultural exchanges with other countries on the basis of the Five Principles of Peaceful Coexistence. We must uphold proletarian internationalism and support the cause of the liberation of oppressed nations, the national construction of newly independent countries and the just struggles of the peoples everywhere.”

We must carry out the Marxist principle of the exercise of collective Party leadership by leaders who have emerged from mass struggles and who combine political integrity with professional competence, and we must prohibit the personality cult in any form. It is imperative to uphold the prestige of Party leaders and at the same time ensure that their activities come under the supervision of the Party and the people. We must have a high degree of centralism based on a high degree of democracy and insist that the minority is subordinate to the majority, the individual to the organization, the lower to the higher level and the entire membership to the Central Committee. The style of work of a political party in power is a matter that determines its very existence. Party organizations at all levels and all Party cadres must go deep among the masses, plunge themselves into practical struggle, remain modest and prudent, share weal and woe with the masses and firmly overcome bureaucratism. We must properly wield the weapon of criticism and self-criticism, overcome erroneous ideas that deviate from the Party’s correct principles, uproot factionalism, oppose anarchism and ultra-individualism and eradicate such unhealthy tendencies as the practice of seeking perks and privileges. We must consolidate the Party organization, purify the Party ranks and weed out degenerate elements who oppress and bully the people. In exercising leadership over state affairs and work in the economic and cultural fields as well as in community life, the Party must correctly handle its relations with other organizations, ensure by every means the effective functioning of the organs of state power and administrative, judicial and economic and cultural organizations and see to it that trade unions, the Youth League, the Women’s Federation, the Science and Technology Association, the Federation of Literary and Art Circles and other mass organizations carry out their work responsibly and on their own initiative.”

EXILAR TROTSKY A CADA GERAÇÃO, DE NOVO E DE NOVO (contra o dogma ou falácia liberal do “socialismo dos pobres”, que ignora os avanços técnicos): “In firmly correcting the mistake of the so-called ‘continued revolution under the dictatorship of the proletariat’, a slogan which was advanced during the ‘cultural revolution’ and which called for the overthrow of one class by another, we absolutely do not mean that the tasks of the revolution have been accomplished and that there is no need to carry on revolutionary struggles with determination. Socialism aims not just at eliminating all systems of exploitation and all exploiting classes but also at greatly expanding the productive forces, improving and developing the socialist relations of production and the superstructure and, on this basis, gradually eliminating all class differences and all major social distinctions and inequalities which are chiefly due to the inadequate development of the productive forces until communism is finally realized. This is a great revolution, unprecedented in human history. Our present endeavour to build a modern socialist China constitutes but one stage of this great revolution. Differing from the revolutions before the overthrow of the system of exploitation, this revolution is carried out not through fierce class confrontation and conflict, but through the strength of the socialist system itself, under leadership, step by step and in an orderly way. This revolution which has entered the period of peaceful development is more profound and arduous than any previous revolution and will not only take a very long historical period to accomplish but also demand many generations of unswerving and disciplined hard work and heroic sacrifice. In this historical period of peaceful development, revolution can never be plain sailing. There are still overt and covert enemies and other saboteurs who watch for opportunities to create trouble. We must maintain high revolutionary vigilance and be ready at all times to come out boldly to safeguard the interests of the revolution. In this new historical period, the whole membership of the Chinese Communist Party and the whole people must never cease to cherish lofty revolutionary ideals, maintain a dynamic revolutionary fighting spirit and carry China’s great socialist revolution and socialist construction through to the end.

This session calls upon the whole Party, the whole army and the people of all nationalities to act under the great banner of Marxism-Leninism and Mao Zedong Thought, closely rally around the Central Committee of the Party, preserve the spirit of the legendary Foolish Old Man who removed mountains and work together as one in defiance of all difficulties so as to turn China step by step into a powerful modern socialist country which is highly democratic and highly cultured. Our goal must be attained! Our goal unquestionably can be attained!”

HENFIL NA CHINA (antes da Coca-Cola): releitura, 14 anos depois.

Postado originalmente em 10 de agosto de 2009 no extinto xtudotudo6.zip.net sob o título “TRANSCENDER-15”. Adaptado e atualizado.

18ª edição, 1987.

P. 13: “Eu ia me perguntando: qual é o objetivo da Europa? Revolucionar o mundo? Não mais. A busca da felicidade? Nenhum traço. Justiça social? Não me consta. L’amour? Nenhum indício. Então, para que vive a Europa? Para consumir até perder o sabor e aí precisar experimentar as próprias fezes como forma de excitar os sentidos anestesiados? Parti de Paris numa terça-feira, 19 de julho, sentindo cheiro de cocô. Tudo limpo. Sem mosquito. Mas tava lá o cheiro de cocô espiritual. Mas que fazem palácios, jardins e igrejas lindos, fazem.”

Ao contrário do governo brasileiro, o chinês preserva cada um dos traços culturais das etnias minoritárias.

P. 47: “Saio da França, chego na China e vejo o cocô adubando grande parte da agricultura chinesa. O cocô aqui trabalha duro em vez de ficar em orgias alienadas como na Europa.”

Notas engraçadas (ok, quase todas): o vaso chinês e o ato “de cócoras e sem encostar”: não é para o Henfil!

A China não se afigurava então como eminente poluidora!

Há sempre a briga pela maior produtividade – ainda que travestida ou “infantilizada”. Criam-se a tristeza e a fadiga típicas de sociedades industriais terceirizadas – não há escape, tudo integra a religião do progresso!

Henfil apareceu em um momento marcante para 900 milhões de pessoas: o relaxamento do regime, a Revolução Cultural.¹ Aspectos inflexíveis começavam a se liquefazer. 1977: faz um ano que Mao morreu. Quer-se escapar do revisionismo (ortodoxia à la Stalin) do Bando dos Quatro,² de dentro do qual a viúva de Tsé-tung³ exala seu fel.

¹ “Mao declared the Revolution over in 1969, but the Revolution’s active phase would last until at least 1971, when Lin Biao,a accused of a botched coup against Mao, fled and died in a plane crash. In 1972, the Gang of Four [vide ²] rose to power and the Cultural Revolution continued until Mao’s death and the arrest of the Gang of Four in 1976.” https://en.wikipedia.org/wiki/Cultural_Revolution

aLin Biao (Chinese: 林彪; 5 December 1907 – 13 September 1971) was a Chinese politician and Marshal of the People’s Republic of China who was pivotal in the Communist victory during the Chinese Civil War, especially in Northeast China from 1946 to 1949. Lin was the general who commanded the decisive Liaoshen and Pingjin Campaigns, in which he co-led the Manchurian Field Army to victory and led the People’s Liberation Army into Beijing. He crossed the Yangtze River in 1949, decisively defeated the Kuomintang and took control of the coastal provinces in Southeast China. He ranked 3rd among the Ten Marshals. Zhu De and Peng Dehuai were considered senior to Lin, and Lin ranked directly ahead of He Long and Liu Bocheng.” “Lin became more active in politics when named one of the co-serving Vice Chairmen of the Chinese Communist Party in 1958. He held the 3 responsibilities of Vice Premier, Vice Chairman and Minister of National Defense from 1959 onwards. To date, Lin is the longest serving Minister of National Defense of the People’s Republic of China. Lin became instrumental in creating the foundations for Mao Zedong’s cult of personality in the early 1960s, and was rewarded for his service in the Cultural Revolution by being named Mao’s designated successor as the sole Vice Chairman of the Chinese Communist Party, from 1966 until his death. § Lin died on 13 September 1971, when a Hawker Siddeley Trident he was aboard crashed in Öndörkhaan in Mongolia. The exact events of this incident have been a source of speculation ever since.” “Since the late 1970s, Lin and the wife of Mao, Jiang Qing, [vide ³] (along with the other members of the Gang of Four) have been labeled the 2 major ‘counter-revolutionary forces’ of the Cultural Revolution, receiving official blame from the Chinese government for the worst excesses of that period.” “The findings of Lin’s attempt to contact the Kuomintang supported earlier rumors from inside China that Lin was secretly negotiating with Chiang’s government in order to restore the Kuomintang government in mainland China in return for a high position in the new government. The claims of Lin’s contact with the Kuomintang have never been formally confirmed nor denied by either the governments in Beijing or Taipei.”

² “The Gang of Four (simplified Chinese: 四人帮; traditional Chinese: 四人幫; pinyin: Sì rén bāng) was a Maoist political faction composed of 4 Chinese Communist Party (CCP) officials. They came to prominence during the Cultural Revolution (1966–1976) and were later charged with a series of treasonous crimes. The gang’s leading figure was Jiang Qing (Mao Zedong’s last wife). The other members were Zhang Chunqiao, Yao Wenyuan, and Wang Hongwen.”

³ Jiang Qing (19 March 1914 – 14 May 1991), also known as Madame Mao, was a Chinese communist revolutionary, actress, and major political figure during the Cultural Revolution (1966–1976). She was the 4th wife of Mao Zedong, the Chairman of the Communist Party and Paramount leader of China. She used the stage name Lan Ping (藍蘋) during her acting career (which ended in 1938), and was known by many other names. Jiang was best known for playing a major role in the Cultural Revolution and for forming the radical political alliance known as the ‘Gang of Four’.” “At the height of the Cultural Revolution, Jiang held significant influence in the affairs of state, particularly in the realm of culture and the arts, and was idolized in propaganda posters as the ‘Great Flagbearer of the Proletarian Revolution’. In 1969, Jiang gained a seat on the Politburo. Before Mao’s death, the Gang of Four controlled many of China’s political institutions, including the media and propaganda. However, Jiang, deriving most of her political legitimacy from Mao, often found herself at odds with other top leaders. § Mao’s death in 1976 dealt a significant blow to Jiang’s political fortunes. She was arrested in October 1976 by Hua Guofengb and his allies, and was subsequently condemned by party authorities. Since then, Jiang has been officially branded as having been part of the ‘Lin Biao and Jiang Qing Counter-Revolutionary Cliques’ (林彪江青反革命集), to which most of the blame for the damage and devastation caused by the Cultural Revolution was assigned. Though she was initially sentenced to death, her sentence was commuted to life imprisonment in 1983. After being released for medical treatment, Jiang died by suicide in May 1991.”

b “In the struggle between Hua Guofeng’s and Deng Xiaoping’s followers, a new term emerged, pointing to Hua’s 4 closest collaborators, Wang Dongxing, Wu De, Ji Dengkui and Chen Xilian. In 1980, they were charged with ‘grave errors’ in the struggle against the Gang of Four and demoted from the Political Bureau to mere Central Committee membership.”

Jiang Qing

Quotations from Chairman Mao Tse-tung, 1964. “The most popular versions were printed in small sizes that could be easily carried and were bound in bright red covers, thus commonly becoming known internationally as the ‘Little Red Book’.”

Resolution on Certain Questions in the History of Our Party since the Founding of the People’s Republic of China, 1981. Vd. em

https://digitalarchive.wilsoncenter.org/document/resolution-certain-questions-history-our-party-founding-peoples-republic-china

(*) “The Five Black Categories (Chinese: 黑五; pinyin: Hēiwǔlèi) were classifications of political identity defined during the period of the Chinese Cultural Revolution (1966–1976) in the People’s Republic of China by Mao Zedong, who ordained that people in these groups should be considered enemies of the Revolution. The groups were:

Landlords (地主; dìzhǔ)

Rich farmers (; fùnóng)

Counter-revolutionaries (反革命; fǎngémìng)

Bad influencers (‘bad elements’) (坏分子; huàifènzǐ)

Right-wingers (右派; yòupài)” https://en.wikipedia.org/wiki/Five_Black_Categories

(*) “During the Cultural Revolution the Nine Black Categories were landlords, rich farmers, anti-revolutionaries, bad influences, right-wingers, traitors, spies, capitalist roaders and intellectuals. While often attributed to Mao Zedong, in 1977 Deng Xiaoping argued that it was the Gang of Four who came up with the phrase and that Mao himself saw intellectuals as having some value in society.” https://en.wikipedia.org/wiki/Stinking_Old_Ninth

* * *

P. 88: a excelente idéia dos feriados rotativos!

P. 92: “A China jamais, é o que sinto aqui, partirá para uma invasão no exterior. O perigo amarelo não existe.” Brilhante vislumbre à la dialética de Arrighi. Associação geo-econômica onde a expansão política é desprezada (anti-imperialismo): o que importa é a consolidação interna. Mais: “Nenhum outro povo é citado em nada, a não ser os russos que deverão (eles repetem isso toda hora) invadir a China mais dia menos dia”. A União Soviética é um gêmeo americano (para os líderes chineses de então). Os japoneses, outros. “Mas o que são 20, 30, 100 anos de comunismo para um homem de 20 mil anos? Minutos, talvez.”

Picles, capítulo das pp. 91-4: reflexões interessantíssimas e contraste com o american way. Gostaria de saber se todos lá, hoje (2009), ainda lêem o discutem saborosamente Marx…

P. 93: “Não há advogados na China.”

P. 94: os chineses tentavam a reforma urbana de Dahl, esvaziando as cidades e dispersando seu povo.

Corroborando Simmel (p. 100): “não há prostituição de forma alguma. Não fique em dúvidas. Há prostituição entre os índios?”. Para Henfil, o “problema sexual” chinês não é nenhum problema! Nós, os ocidentais, é que somos peritos em fundar dilemas insolúveis por meio de contrastes anti-naturais.

P. 113, sobre a punição ideológica: “O crime na China, realmente, não compensa.”

Como estão hoje os abrigos subterrâneos, as réplicas impecáveis de Pequim a 4, 8, 15m do piso das cidades? R (já em 2009): Esvaziados, mas conservados para o turismo.

Júlio Verne, As Atribulações de um Chinês na China

https://www.amazon.com.br/Atribula%C3%A7%C3%B5es-Chin%C3%AAs-China-Viagens-Maravilhosas-ebook/dp/B00H8CD1OU

Dazibaos, os fanzines chineses. “Longas seqüências de discussão eram postadas e apreciadas nos muros, como ocorre nas comunidades virtuais de hoje. (…) Em 1978, um dos mais importantes documentos da história chinesa, chamado A quinta modernização, foi um Dazibao. Ele proclamava a democracia como o último dos elementos necessários ao completo sucesso da revolução chinesa. Foi copiado e distribuído por todo o país, sob os auspícios do governo.” Em http://sinografia.blogspot.com/2011/04/o-que-e-dazibao.html#:~:text=Traduzindo%20literalmente%20do%20chin%C3%AAs%2C%20%C3%A9,feito%20artesanalmente%20ou%20a%20m%C3%A3o.

Inflação e impostos congelados. Como a China mudaria em três (duas) [2009] décadas!

A China de Mao é o lugar (extinto) onde a auto-suficiência está acima de tudo.

P. 156: “Sincera, cândida, ingênua, simples e comovente. As 5 palavras que mais usei para definir tudo na China.”

P. 163: “É bom saber que, ao contrário da Rússia e do Ocidente cristão, não se usa o choque elétrico na China.”

P. 164: “Nunca vi nada mais ‘católico’ que a China Comunista”

Quem É. U. A.nti-Cristo?

A diferença entre Stalin e Mao, ou entre a União Soviética e a China, era que o chinês era camponês, e o russo, burocrata alienado do povo e imerso nas relações de poder.

Cabelos longos na China: remetem à época imperial.

P. 204: “Talvez, na hora do pau, os camponeses resistam à tão temida ocupação estrangeira, mas os operários de fábricas como a de relógios vão é se identificar com os invasores estrangeiros. Eles já se identificam no comportamento. Dois autômatos, sejam eles chineses ou suíços, se beijam, sim senhor.”

P. 213: a “universidade parlamento”.

O pouco contato que eles têm pode ter ajudado a construção de um socialismo puro, mas poderá, no futuro, criar grandes danos quando o ‘civilizado’ chegar com suas gripes. Esta pureza chinesa não preocupa?” Terrível prenúncio da Covid!

A propaganda (não falo aqui da mídia – aliás, também da mídia!) ideológica – desde Pequim – é terrível, asfixiante [como tem de ser. P.S. 2023]. Talvez fosse, mas Henfil a sublinha na reta final do livro, quando está em Shangai. À página 225 explica o porquê: são seus anticorpos burgueses e a saudade da pátria entrando em ação!

P. 229: premonição sobre a poluição e a capacidade produtiva crescentes – competitividade e burocracia são males necessários na guerra do Capital.

P. 235: os camponeses cozinham com “biogás”: o próprio cocô vaporizado!

P. 247: fica evidente como está enraizada a noção de progresso, mesmo em culturas tão diferentes… A vontade para se atingir um fim, qualquer que ele seja…

P. 254: não pode haver arte medíocre.

Pp. 268-0: famílias que viviam em barcos e eram proibidas de aportar nas margens do rio! Os “favelados aquáticos”.

A terceira idade na China é uma fase digna da vida.

Cantão (Guangzhou), um bolsão de miséria: ainda que estejam extintos os tais “favelados aquosos”…

Atualização: “…the capital and largest city of Guangdong province in southern China. Located on the Pearl River about 120 km north-northwest of Hong Kong and 145 km north of Macau, Guangzhou has a history of over 2,200 years and was a major terminus of the maritime Silk Road; it continues to serve as a major port and transportation hub as well as being one of China’s 3 largest cities. … For a long time, the only Chinese port accessible to most foreign traders, Guangzhou was captured by the British during the First Opium War. No longer enjoying a monopoly after the war, it lost trade to other ports such as Hong Kong and Shanghai, but continued to serve as a major trans-shipment port. Due to a high urban population and large volumes of port traffic, Guangzhou is classified as a Large-Port Megacity, the largest type of port-city in the world. … Guangzhou is at the heart of the Guangdong–Hong Kong–Macau Greater Bay Area, the most-populous built-up metropolitan area in the world, which extends into the neighboring cities of Foshan, Dongguan, Zhongshan, Shenzhen and part of Jiangmen, Huizhou, Zhuhai and Macau, forming the largest urban agglomeration on Earth with approximately 65 million residents and part of the Pearl River Delta Economic Zone. … In the late 1990s and early 2000s, nationals of sub-Saharan Africa who had initially settled in the Middle East and Southeast Asia moved in unprecedented numbers to Guangzhou in response to the 1997/98 Asian financial crisis. The domestic migrant population from other provinces of China in Guangzhou was 40% of the city’s total population in 2008. Guangzhou has one of the most expensive real estate markets in China. … For 3 consecutive years (2013–2015), Forbes ranked Guangzhou as the best commercial city in mainland China. Guangzhou is highly ranked as an Alpha- (global first-tier) city together with San Francisco and Stockholm. It is a leading financial centre in the Asia-Pacific region and ranks 21st globally in the 2020 Global Financial Centres Index. As an important international city, Guangzhou has hosted numerous international and national sporting events, the most notable being the 2010 Asian Games, the 2010 Asian Para Games, and the 2019 FIBA Basketball World Cup. The city hosts 65 foreign representatives, making it the 3rd major city to host more foreign representatives than any other city in China after Beijing and Shanghai. As of 2020, Guangzhou ranks 10th in the world and 5th in China (after Beijing, Shanghai, Hong Kong and Shenzhen) for the number of billionaire residents by the Hurun Global Rich List. … and is home to many of China’s most prestigious universities, including Sun Yat-sen University, South China University of Technology, Jinan University, South China Normal University, South China Agricultural University, Guangzhou University, Southern Medical University, Guangdong University of Technology, Guangzhou Medical University, Guangzhou University of Chinese Medicine. … The English name ‘Canton’ derived from Portuguese Cantão or Cidade de Cantão, a blend of dialectical pronunciations of Guangdong (e.g., Cantonese Gwong2-dung1). Although it originally and chiefly applied to the walled city, it was occasionally conflated with Guangdong by some authors.” “Amid the closing months before total Communist victory, Guangzhou briefly served as the capital of the Republican government. Guangzhou was captured on 14 October 1949. Amid a massive exodus to Hong Kong and Macau, defeated Nationalist forces blew up the Haizhu Bridge across the Pearl River in retreat. The Cultural Revolution had a large effect on the city, with much of its temples, churches and other monuments destroyed during this chaotic period. § The People’s Republic of China initiated building projects including new housing on the banks of the Pearl River to adjust the city’s boat people to life on land. Since the 1980s, the city’s close proximity to Hong Kong and Shenzhen and its ties to overseas Chinese made it one of the first beneficiaries of China’s opening up under Deng Xiaoping. Beneficial tax reforms in the 1990s also helped the city’s industrialization and economic development.” https://en.wikipedia.org/wiki/Guangzhou

O banco que não é banco: vigia para que não ocorra o ciclo D-M-D’ (lucro).

Gostaria de saber em que pé anda a autonomia das comunas e lavouras camponesas na China das Olimpíadas! (2009)

P. 301: “É impossível utilizar a Rússia”

[ MILÉSIMO POST DO SECLUSÃO ANAGÓGICA ] THE ILLUSION OF THE END – Jean Baudrillard, 1994 (altamente comentado) [ #1000 ]

14/10/16 a 06/11/16

English translation from French by Chris Turner. Tradução do inglês ao português por mim.

history has become impossible because telling (recitatium) is, by definition, the possible recurrence of a sequence of meanings.”

No event can withstand being beamed across the whole planet.” “to pursue the same train of thought: no sexuality can withstand being liberated, no culture can withstand bein hyped, no truth can withstand being verified, etc.”

Matter shows the passing of time. To put it more precisely, time at the surface of a very dense body seems to be going in slow motion. Beyond a certain limit, time stops and the wavelenght becomes infinite.”

Qual seria o sentido de crianças nascendo mesmo após meu nascimento? I.e., do ponto de vista do combate ao niilismo. Porque se, para mim, mesmo os adultos são bebês gigantes com idéias de ter filhos e netos, trancados no ciclo da esterilidade, cuja trilha sonora é um grito estridente duma criança levada que ralou o joelho no parque… O tempo está estacionado na vaga dos deficientes.

Deep down, one cannot even speak of the end of history here, since history will not have time to catch up with its own end. Its effects are accelerating, but its meaning is slowing inexorably.”

Há uma terceira hipótese (…) o efeito estereofônico. Nós somos todos obcecados por alta fidelidade, pela qualidade da ‘reprodução’ musical. Nos consoles de nossos estéreos, abastecidos de tuners, amplificadores e microfones, misturamos, ajustamos, multiplicamos faixas em busca da batida perfeita. Isso ainda é música? Onde está o limite da alta fidelidade além do qual a música desaparece enquanto tal?” “ela desaparece em seu próprio efeito especial.” “É o êxtase e o fim da musicalidade.”

that famous feedback effect, which is produced in acoustics by a source and a receiver being too close together”

a short-circuit between cause and effect like that between the object and the experimenting subject in the microphysics” Re-re-re-re-re:RE:FWD:ENC-re-remaster of Reality

Cada bebê recria a sua Matrix. E só atinge o real em retrospecto. A revolução é mera nostalgia e arrependimento – e se?

We shall never get back to pre-stereo music (except by an additional technical simulation effect)”

Quem se recusa a esperar, espera do mesmo jeito.

Quem espera ardorosamente, na verdade faz tudo menos esperar.

Qual é a sua importante resolução?

800×600.

Baudrillard, o eterno canalha indiscordável. O autor da fascinação. Odiamo-lo, mas sempre concordamos com ele. Queremos profundamente que ele não esteja certo, mas pressentimos que está. A pobreza, recorrência e esterilidade – deliberada? Haha, qual a diferença? – de seu discurso nos resume, nos explica. Não podemos sequer simular que o superamos, ele é onipresente. Ele não foi o primeiro discurso branco (white noise, white text, white logos) intentado, mas é o primeiro consumado. Seria uma contradição dizer que é uma singularidade histórica? Ele desafia a máxima do “é possível ser filósofo a qualquer tempo”; estabelece-se como o último. Ou o primeiro de nós. Se ainda é possível não ser um Baudrillard, nascemos na época errada. É possível iniciar de forma diferente, mas ele é a conseqüência inelutável. Quando se tornar velho não será viável refutá-lo, porque então não terá o mesmo sentido a palavra “contradição”.

on edge – that is, both overexcited and indifferent”

Keith Beaumont, Alfred Jarry: A Critical and Biographical Study

A ARTE DA DETERRÊNCIA: Empurrando as revoluções com a barriga. Temos ainda muita gordura petrolífera para queimar. Deterrence is a very peculiar form of action: it is what causes something not to take place.

Marvel apresenta: O Homem que Congelou a Roda da História

Teria Alexandre realmente feito história? Historicamente feito realidade? Ponha um grande homem na frente de uma criança de 3 anos e veja-o convertido subitamente num pateta universal.

Kant, O Pataphýsico do Meião

Teleologia das 4 Patafísicas

Fenomenologia Ubuana

Patafísica Concreta

Patafisicismo Histórico-Dialético Positivista

Catecismo Patafísico

Patafisiquismo Empírico

Tu não vales meia metafa – BQT Somewhere

½ ½ ½ 3 legs

3 lags of a

2nd Messiah

A patafísica de Cristo final lapada na rachada

Os Fundamentos da Patafísica Moderna – Novo A Mosca?

apenas subtítulo… A Mosca Filosófica & Outras Estórias…

FM & Outras Estações

Neminhanamoradamelevasério

A Música Patofúsica

A liquidação da Patafísica

a $1,99

Morrenvenenado

Jarry, Exploits and Opinions of Dr. Faustroll

Veículo Cerebral Só Visível no Invisível Mapa Mental do Gênio

A Patafísica Antológica – Recipiente Líq. II – The Fly…And Other Detritus

O EXPERIMENTO ANTICAPES

ASSINE A PESTIÇÃO POR UMA VIDA

já com 0 assinaturas!

O universo é insetocêntrico.

A mariposa gira ao redor do Sol, desse Galileu Copo&Nico, o cientista com Asas – mas não seria o inverso, ó vôo relativo?

Os homens sobrevoam sua cabeça estacionária cheia de merda, tenho a certeza.

A cabana sobrevoa sua banana

A mucama voasub sua cruz

A Multiplicidade Concreta das Bolhas Atômicas

A Guerra Quente Nua que Há – Que Continua

A decência da Subida ao Vácuo

A Meridionauta Contra o Austronato

Eu não me recordo do título do meu livro;

Eu não me livro do título que recordo.

A força anormal que contrapõe a anti-gravidade.

D-Sire

Resided on The (D) Resistance

Past Tense

Nowadays Tranquility

Rope you find the hope

Todo Rousseau tem o seu Locke-fechadura.

Todo rousse tem o seu au mericano.

Pp. 18-9: “escape the heavy form, the gravity of ‘desire’, conceived as positive attraction, by the much more subtle eccentricity of seduction (…) the last gasp escape from the body of molecules that are much too light [not dark!]

Pope’s eye beholding the espinafrican. SPIN NACH(E)

O africano giratório

seclusion of reality

SECLUSÃO ANAGÓGICA – ótimo título em termos de oferta e demanda se é que mentende. (22/10/16, momento em que escolhi o título do blog.)

If, by some strange revolution, we set off in the opposite direction and turn inwards into this dimension of the past, then we can no longer represent that something to ourselves. The beam of memory bends, and makes every event a black hole.”

Depois da Ciência Histórica, na velocidade de alguns Hegels, a Probabilidade. Depois da Ciência Probabilística, no ridículo espaço de uns 15min, o link jornalístico sem maquiagem.

Como artistas, não nos sobra nem a energia para terminar nosso quadro.

Celebration and commemoration are themselves merely the soft form of necrophagous cannibalism, [necromicrophysics] the homeopathic form of murder by easy stages. This is the work of the heirs whose ressentiment towards the deceased is boundless. (…) complete works, the publication of the tiniest of unpublished fragments (…) active age of ressentiment

Um jogo quântico de RPG em que jogar o dado é banal.

A aristocracia celebra sua própria queda, porque só a aristocracia celebra. Mais, só a aristocracia cai.

We eliminate St.-Just from the Dictionnaire de la Révolution. ‘Overrated rhetoric’, says François Furet, perfect historian of the repentance of the Terror and the glory.”

the centenary of a death. With Rimbaud, Van Gogh and Nietzsche, 1991 will have been exceptional in terms of vile acts of desecration.”

If the left were a species, and culture obeyed the laws of natural selection, it would have disappeared long ago.” Fortunately for us, we are zombies.

Ficarei cego e exorcizado após tudo ter lido. Até um Diogo, um Ueslei, sangue do meu sangue, reprovaria incêndios bibliotecários… Alexandria, o pecado do sapato de ponta fina.

HELLCICLAGEM O Incinerador de Sonhos, que levará junto alguns resíduos. Velocidade Alucinante do Sereno

Preguiça, o Primeiro Não-Pecado dos Meus-Filhos

P. 24: “The century is becoming intellectual today just as it became bourgeois a century ago.”

the word ‘burgeois’ – which now exposes only the person who uses it to ridicule”

The little trick of placing the nude from Manet’s Déjeuner sur l’herbe opposite Cézanne’s Card Players, as one might put an admiral’s hat on a monkey, is nothing more than the advertising-style irony currently engulfing the world of art.” The Facebookians

É como se a história estivesse pilhando em meio ao seu próprio lixo em busca da redenção lixosa.”

Onde jogaremos o Marxismo, que vem a ser aliás o pai dos lixos da história? (Ainda há alguma justiça aqui, já que as mesmas pessoas que geraram o lixo caíram dentro da lixeira.) Conclusão: se não há mais lixos históricos, é porque a história propriamente dita se tornou um lixo.

Quando o gelo congela, todo o excremento emerge à superfície. Então, quando a dialética congelou, todos os dejetos sagrados da dialética vieram à tona.”

O PROBLEMA DA ECONOMIA DOS RESTOS OU DO RESTO: “ideologias defuntas, utopias abandonadas, conceitos mortos e idéias possibilizadas, que continuam a poluir nosso espaço mental. A recusa histórico-intelectual cria um problema ainda mais sério que os restos industriais. Quem vai nos livrar da sedimentação de séculos de estupidez? (…) O imperativo ecológico é que todos os resíduos devem ser reciclados.”

O Corpo Que Bóia, Inanimado, na Lagoa Rodrigo de Freitas, hitchcockian classic.

Ionesco, Amédée, ou Comment s’en Débarrasser (peça)

Um velho nostálgico conta o quê? Vintage!

Democracy itself (a proliferating form, the lowest common denominator of all our liberal west common societies); this planetary democracy of the Rights of Man, is to real freedom what Disneyland is to the imaginary.”

O que foi superplantado está sob a terra.

sóbrio elefante e a tartaruga de meia-idade

Onde estão os fragmentos póstumos resultantes da exumação do cadáver do Baudrillard?

History has only wrenched itself from cyclical time to fall into the order of the recyclable.”

A China e sua burocracia de dragões fossilizada é logo ali!

the problem of liberty quite simply cannot be posed here any longer. In the West, freedom – the Idea of Freedom – has died a natural death: In the East it was murdered, but there is no such thing as the perfect crime.”

Philippe Alfonsi, Au nom de la science (livro sobre a ‘memória d’água’!)

glasnost? it is almost a post-modern remake of our original version of modernity (…) all the positive and negative signs combined: not just human rights, but crimes, catastrophes and accidents which are all joyously increasing in the ex-USSR since the liberalization of the regime.” “The irony of the situation is such that it will perhaps be us who are one day forced to rescue the historical memory of Stalinism, while the countries of Eastern Europe will no longer remember the phenomenon.”

We are in the process of wiping out the entire 20th century, effacing all the signs of the Cold Wars one by one, perhaps even all trace of the Second World War and of all the political or ideological revolutions of the 20th century. The reunification of Germany is inevitable (…) a rewriting which is going to take up a large part of the last 10 years of the century. At the rate we are going we shall soon be back at the Holy Roman Empire.”

Restoration, regression, rehabilitation, revival of the old frontiers, of the old differences, of particularities, of religions – and even resipiscence [re-sapiência] in the sphere of morals.”

Ecstasy and beatification should not be confused.”

the astonishing pre-eminence in the media of the figure of the Pope, who travels the whole world (even the Islamic Sahel!) blessing all forms of crossbreeding and repentance, while ensuing that durable forms of voluntary servitude are in place.”

we are witnessing the striking illustration of what Hegel calls ‘the life moving within itself, of that which is dead’ [Das sich in sich selbst bewegende Leben des Totes.].”

the strange ease with which all the communist regions collapsed: they had only to be touched for them to realize that they no longer existed. It was like a cartoon, where the tightropewalker, teetering over the abyss, suddenly sees his rope is gone and immediately falls, passing without transition from the imaginary to the real (this the basic mechanism of cartoons).”

Freud saw very well those strange attractors that are condensation, displacement, ellipsis and reversibility. Forms, not values. And recent events have to be seen in terms of a theory of forms, rather than any kind of theory based on relations of force. The communist systems did not succumb to an external enemy, nor even to an internal one (had that been the case, they would have resisted), but to their own inertia; taking advantage of the opportunity, as it were, to disappear (perhaps they were weary of existing.)” “Now, this form of superconductivity of events is a marvellous one, like the form of the joke

The non-existence of governmental power is, admittedly, less visible in the West, on account of its great dilution and the transparency which enables it to survive. In the East, it was opaque and highly concentrated, to the point that, as with an unstable crystal, only an extra little dose was needed for it to liquefy.”

Behind the apparent victory of the West, it is clear, on the contrary, that the strategic initiative came from the East, not by aggression this time, but by disintegration, by a kind of offensive self-liquidation, catching the whole of the West unaware. By force of circumstance, which may have equated with a perception of his own weakness, Gorbachev was able to take this strategic tack of disarmament, the real deconstruction of his own bloc, and thereby of the entire world order. This was, in a way, dying communism’s witty parting shot

Let us beware of the naïve vision of a frozen history suddenly awakening and automatically heading once again, like a turtle, for the sea (for democracy).” “The East gobbling up the West by blackmailing it with poverty and human rights.”

Chernobyl whose radioactive cloud prefigured the collapse of the wall and the progressive contamination of the Western world. Bush may well disarm in the pretence of having won the Cold War, but it is the USSR and Gorbachev who invented the real bombe à depression, the surest one, the one which turns its own depression into a bomb.”

German¹ would describe this kind of transcendent high spirits, of historical rejoicing in sudden change, as Übermut. [além-coragem; super-ânimo]You have the Mut, you have the guts.

¹ Pode se referir a:

a) Aleksei Yuryevich German (Russian: Алексей Юрьевич Герман, IPA: [ɐlʲɪkˈsʲej ˈjʉrʲjɪvʲɪdʑ ˈɡʲermən]; 20 July 1938 21 February 2013) was a Russian film director and screenwriter. In a career spanning five decades of filmmaking, German completed 6 feature films,(*) noted for his stark pessimism, long, serpentine sequence shots, black and white cinematography, overbearing sound design and acute observations of Stalinist Russia.

(*) 1967 – Sedmoy sputnik (The Seventh Companion)

1971 – Proverka na dorogakh (Trial on the Road)

1976 – Dvadtsat dney bez voyny (Twenty Days Without War)

1984 – Moy drug Ivan Lapshin (My Friend Ivan Lapshin)

1998 – Khrustalyov, mashinu! (Khrustalyov, My Car!)

2013 – Trudno byt’ bogom (Hard to Be a God) (original title History of the Arkanar Massacre)“Trial on the Road (1971) is the film that made Alexei German famous. It was banned for 15 years and was shelved by the Ministry of Culture of the Soviet Union until its release (1986) during the Gorbachev era.”

b) Yuri Pavlovich German: “His best-known work, Ivan Lapshin (1937), was a police novel in a provincial setting whose main theme was the integration of criminals into society through order and labor. In this sense it resembles old bandit tales in which outlaws are reintegrated into society by colluding with the authorities. The novel incorporates a vision of collectivity (the policemen live in a commune), rationalism, culture, and social tranquility unperturbed by the black discord of crime. For good measure, Lapshin acts as mentor to his junior colleague. All of this is captured, with a twist, in the brilliant film version, My Friend, Ivan Lapshin made by the author’s son, Alexei German in the 1980s.”

c) Lindsey Ann German (born 1951) is a British left-wing political activist. A founding member and convenor of the British anti-war organisation Stop the War Coalition, she was formerly a member of the Socialist Workers Party, sitting on its central committee and editor of its magazine, Socialist Review.” Obras que Baudrillard pudesse ter lido até escrever Illusion of The End: Sex, class, and socialism (1989); Why we need a revolutionary party (1989).

Evil takes advantage of transparency (Glasnost).” eviral

it shows through in all things when they lose their image, when they no longer offer any substance, when they become both immanent and elusive from an excess of fluidity and luminosity.”

não será mais a violência da Idéia, mas o vírus da queda da imunidade.”

A communism that dissolves itself is [in!] a successful communism.”

what’s after the God of the social?

O doente que não pára de enfraquecer; sem morrer. Adoecendo até as raias do absurdo. Já é um ser-doença, com um espectro de homem como parasita. Alergia assintomática. Inatestável. Imanente ao mundo dos desespecializados. Chiclete da alma. Mago do trouxa. Olhando-se no espelho? Rachaduras nos 4) encantos.

Dissidents cannot bear a thaw. [o descongelamento] They have to die, or else become president (WalesaHavel²), in a sort of bitter revenge which, at any event, marks their death as dissidents” Lula, Mandela… Se o Lula não se tornou o establishment (não foi engolido pela Globo após um, dois, três mandatos, etc.), podemos nos considerar felizes por isso: morrerá para se eternizar como um dissidente do espectro progressista, sempiterno ícone desse projeto de país de meio-milênio!

¹ Presidente da Polônia nos anos 90.

² Caso curioso, porque foi presidente da República Tcheca, novo país, mas eleito tanto pelos cidadãos da Rep. Tcheca quanto pelos da Eslováquia, ex-território. Morreu em 2011.

They whose strength was in silence (or censorship) are condemned to speak and be devoured by speech.” Andrei Sakharov;¹ Zinoviev.

¹ Físico nuclear que depois virou ativista pró-desarmamento – quantas camadas de ironia não há nessa sinopse? Obviamente o Ocidente vai laureá-lo com o Nobel da Paz em 1975, como não! E depois distribuir um outro prêmio anual com seu nome, como se faz sempre com heróis advindos da Cortina de Ferro (fabricados à la Tio Sam).

Cioran: history is dying for want of paradoxes

ThirdWorld War”

For the human and ideological failure of communism by no means compromises its potency and virulence as an anthropological model. (…) stratégie du pire imposed on everyone as the last immune defense.”

It would be the opposite of Orwell’s prediction (strangely, he has not been mentioned of late, though the collapse of Big Brother ought to have been celebrated for the record, if only for the irony of the date Orwell set for the onset of totalitarianism which turned out to be roughly that of its collapse). Even more ironic is that we are threatened by the democratic rewriting of history: the very images of Stalin and Lenin went away, streets and cities renamed, statues scattered, soon none of all that will have existed.”

Eliminating the planet’s blackspots [ironia africana] as we might eliminate spots from a face: cosmetic surgery elevated to the level of the political, and to Olympic performance levels.”

A zona única chamada Infernéu, o Além-agora.

Fusion always turns into confusion, contact into contamination.” “networks transmit viruses even faster than information”

It is Dracula against Snow White (the Dracula myth is gathering strength all around as the Faustian and Promethean myths fade).” “The danger is to feed them too quickly, since this kills them.”

We had never seen anything like this before – the strongest State and largest army in the world fainting right away.” “What should have been a source of universal rejoicing passed off almost without interest – a sign of the nullity of the age.” “The end of empires means the unrestricted reign of slave micro-systems.” “The energy of the corpse is recycled, just as Jarry had dead man pedalling”

even the recognition of death, the intuition of that death (of the political) is impossible, since it would reintroduce a fatal virus into the virtual immortality of the transpolitical. [os mini-Estados condenados eternamente à imanência] There is the same problem with freedom: a non-violent, consensual, ecological micro-servitude, [a Gaia] which is everywhere the successor to the totalitarian oppression. [‘Seu porco estalinista, jogue esta casca de banana no lixo, seu genocida das futuras gerações!’]Incrível que eu o tenha digitado em 25/10/16, insuspeito do genocídio (nada ecológico, é claro) que se aproximava… No momento em que digito este trecho para publicação no Seclusão, 0h15 de 6 de maio de 2023, uso máscara, uma KN95, porque sou terrivelmente alérgico a ácaros e estou remexendo em papéis velhos, onde anotei estas aspas de Baudrillard… É como reviver aqueles meses de agonia… um pouco. Comentando também sobre Stalin, quando ele definitivamente volta à baila significa: a História voltou a andar. Des-revisionismo em ação.

É preciso desistir de algo a fim de verdadeiramente alcançá-lo. (Só os grandes homens entenderão.)

O fato de Marx ter errado o vencedor não depõe contra a exatidão da análise marxista de forma alguma, só acrescenta a ironia objetiva que faltava. O destino cuidou do assunto. Foi como se um gênio mau [evil genie] tivesse substituído um pelo outro – o comunismo pelo capitalismo – no último momento.” “Uma admirável divisão do trabalho: o Capital realizou a tarefa do Comunismo e este morreu no lugar do Capital. Mas isso pode facilmente revirar.” “Mas isso também é parte da ironia da história: a inversão do propósito final – a ilusão final.”

O Capital canibalizou toda a energia negativa, a da história e a do trabalho, numa – literalmente – operação sarcástica (…) O que vemos diante de nós é o triunfo paródico da sociedade sem classes (…) o cozinheiro [chef] se torna chefe de Estado, ou quase (já vimos pior desde que Lenin proferiu este seu velho sonho). (…) de qualquer forma, quando o Estado deixa de ser Estado, o cozinheiro deixa de ser cozinheiro. Como Brecht disse, o fato da cerveja não ser mais cerveja é harmoniosamente compensado pelo fato do cigarro não ser mais cigarro também. Logo, a ordem irônica está salva.”

Gorbachev is giving up Marxism! Fantastic! But what does <giving up> mean? Can you give up Marxism in the way you give up tobacco or alcohol? Can you give up your father and mother? Can you give up God? In its time, the Church has come close to giving up the Devil or the Immaculate Conception, but this has not occurred. Renunciation is the symmetrical and opposite movement to faith – as absurd and useless. If things exist, there is no use believing in them. If they do not exist, there is no use renouncing them.” “What if one day the West too were to renounce capitalism?” « Et si un jour l’Occident était forcé de ressusciter le marxisme, qui fait quand même partie du patrimoine, que diable (le Diable aussi d’ailleurs) ! »

« desimulation » pela primeira vez no autor (p. 54).

virtual is what puts and end to all negativity”

The highest pressure of news corresponds to the lowest pressure of events and reality [le réel].”

only information has sovereign rights, since it controls the right to existence.”

Vingança pela quietude da alma.

There is no worse mistake than taking the real for the real and, in that sense, the very excess of media illusion plays a vital disillusioning role. In this way news could be said to undo its own spell by its effects.” “Television and the media world render reality [le réel] dissuasive, were it not already so.”

soaking up the sulky sucking

Saddam, who will in the end have been nothing but that fairground dummy you shot at from point-blank range, had to be saved.” Anedota: Baudrillard morreu 3 meses após Hussein.

A TV é imunizadora.” E as redes sociais são ataques à imunidade. A predominância das redes sobre a televisão é irreversível e natural.

the most odious Realpolitik: the Shi’ites, the Kurds, the calculated survival of Saddam…”

The Stoics contest the very self-evidence of pain, when the body’s confusion is at its height. Here, we must contest the very self-evidence of war, when the confusion of the real is at its height.”

In a little time it will be possible to read La guerre du Golfe n’a pas eu lieu [1991] as a science-fiction novel (…) Like Borges’ chronicling of cultures which never existed.” “Anyhow, the book has fallen – quite logically – into the same black hole as the war.” É este humor buraco negro que tanto admiro no meu ídolo Jean Baudrillard. Somos escritores-gêmeos. Não o digo para prodigalizar meu talento, mas nosso temperamento e falsa auto-depreciação são idênticos – talvez eu não saiba, mas modelei os meus nos dele, pois meu primeiro contato com sua obra foi ao redor de sua morte, quando eu chegava a meus 20.

It was the simulacrum of Helen that was at the heart of the Trojan War. The Egyptian priests had held on to the original (we do not know what became of it) when she set out again with Paris for Troy.” “the universal form of beauty is as unreal as gold the universal form of all commodities.”

P. 66: “Dianismo” [conceito meu, Princess Diana]: o demagogismo do discurso de ajuda ao próximo, sobretudo às crianças sem pais (pais = dinheiro) do famélico Quarto Mundo. Carência alheia como atalho covarde para a fama. Espetacularização do indigentismo.

…AND REPENTANCE FOR ALL

Laras Crofts nos escombros de outras sociedades…

Lúcia Maria no Lixão com Grafites Residuais na Ilha dos Porcos-Subomens

Sebastiões Salgados, Uni-Vos!

Como é doce o som da fome e do caos!

Há CPFs e CNPJs que vivem só de “denúncia anônima”.

annihibalism

The sacrifices we offer in return are laughable (a tornado or two, a few tiny holocausts on the roads, the odd financial sacrifice)”

the demographic catastrophe, a veritable epidemic which we deplore each day in pictures.”

One day it will be the Whites themselves that will give up their whiteness.”

Because it is unable to escape it, humanity will pretend to be the author of its destiny.”

Uma memória hipertélica que armazena todas as informações num estado constante de recuperabilidade instantânea, excluindo qualquer trabalho de luto, qualquer resolução do passado. O Inconsciente é já algo desse tipo. Ele não conhece passado nem esquecimento, não é arcaico nem arqueológico. Ele é, ao contrário, um perpétuo presente, uma instantaneidade de todos os eventos físicos, que aparecem em sua superfície em uma contínua, potencial passagem ao ato. Paradoxalmente, por conta desse zeloso esforço para trazer de volta à tona, de uma maneira forçada, o que nós mesmos nem lembramos mais, vivemos num mundo tanto sem memória como sem esquecimento. Isso é como o céu – ou o inferno – deve ser: o reconhecimento maciço, a cada momento, de todos os padrões de nossa vida. A imortalidade penitente e penitenciária, a imortalidade carcerária de uma memória implacável.”

75: ainda sobre as Lascaux “simulacra” caves.

Quando confrontados com as pinturas nas cavernas, os povos do século XVIII não podiam acreditar nelas. Eles as viam como uma mistificação criada por libertinos para ridicularizar a Bíblia (dizia-se que as cavernas haviam sido pintadas para fazer com que os outros acreditassem numa humanidade ante-cristã).”

Assim como com aqueles objetos de que Freud fala, que, por estarem o mais próximos dos órgãos sexuais femininos, fazem o seu papel durante as alucinações sexuais, fetichizamos fósseis e relíquias porque eles são o que há de mais parecido com nossa origem perdida e são-nos substitutos de uma possível origem.

Secretamente, preferimos não ser mais confrontados com o original. Tudo que queremos é o copyright.”

OS HUMANO-BACTÉRIAS: “Será que o total do futuro vai se exaurir nessa síntese artificial do passado? Quem sabe aonde este gigantesco movimento retrógrado poderá nos levar? Seria ele uma fase efêmera em nossa pós-história, e, conseqüentemente, um fenômeno cultural, ou será um desenvolvimento de significância ainda mais profunda, relacionando-se com o destino da espécie, ou até além, com oscilações de um tipo cósmico? (Com o girino, logo que o ápice da sexuação é atingido, há involução rumo a formas mais precoces de reprodução. Estaria o ser humano reinventando a clonagem biológica no ponto final de uma história sexuada?)”

Somos sou a última singularidade

logo serei inconfundível com o protótipo de último homem, que não poderá mais se reproduzir.

Que espécie de quadro irá se mover sozinho?

Estrelas continuarão estourando?

Idealization always goes with abjection, just as charity always goes with destitution.”

A natureza vira coisa (modernidade) para depois virar sujeito (pós-modernidade) (mau sinal): não há outro; há apenas sujeitos – e, logo, logo, só sujeitos sem objetos.”

Biosphere 2, o primeiro “zoológico humano”, Arizona. Status: fracassado.

https://en.wikipedia.org/wiki/Biosphere_2

Especially during the first year, the 8 inhabitants reported continual hunger. Calculations indicated that Biosphere 2’s farm was amongst the highest producing in the world <exceeding by more than 5x that of the most efficient agrarian communities of Indonesia, southern China, and Bangladesh’.” Ou é mentira ou realmente os americanos são obesos incuráveis…

They consumed the same low-calorie, nutrient-dense diet that Roy Walford had studied in his research on extending lifespan through diet.” Mas faltou carne.

The oxygen inside the facility, which began at 20.9%, fell at a steady pace and after 16 months was down to 14.5%. This is equivalent to the oxygen availability at an elevation of 4,080 metres (13,390 ft). Since some biospherians were starting to have symptoms like sleep apnea and fatigue, Walford and the medical team decided to boost oxygen with injections in January and August 1993.”

After Biosphere 2’s first mission, extensive research and system improvements were undertaken, including sealing concrete to prevent the uptake of carbon dioxide. The second mission began on March 6, 1994, with an announced run of 10 months.”

On April 1, 1994, a severe dispute within the management team led to the ousting of the on-site management by federal marshals serving a restraining order, and financier Ed Bass hired Steve Bannon, then-manager of the Bannon & Co. investment banking team from Beverly Hills, California, to run Space Biospheres Ventures.”

At 3 a.m. on April 5, 1994, Abigail Alling and Mark Van Thillo, members of the first crew, allegedly vandalized the project from outside, opening one double-airlock door and 3 single door emergency exits, leaving them open for about 15 minutes. Five panes of glass were also broken. Alling later told the Chicago Tribune that she ‘considered the Biosphere to be in an emergency state … In no way was it sabotage. It was my responsibility.’ About 10% of the Biosphere’s air was exchanged with the outside during this time, according to systems analyst Donella Meadows, who received a communication from Alling saying that she and Van Thillo judged it their ethical duty to give those inside the choice of continuing with the drastically changed human experiment or leaving, as they didn’t know what the crew had been told of the new situation.”

Mission 2 was ended prematurely on September 6, 1994. No further total system science has emerged from Biosphere 2 as the facility was changed by Columbia University from a closed ecological system to a ‘flow-through’ system where CO2 could be manipulated at desired levels. § Steve Bannon left Biosphere 2 after 2 years, but his departure was marked by an ‘abuse of process’ civil lawsuit filed against Space Biosphere Ventures by the former crew members who had broken in. Leading managers of Biosphere 2 from the original founding group stated both abusive behaviour by Bannon and others, and that the bankers’ actual goal was to destroy the experiment. During a 1996 trial, Bannon testified that he had called one of the plaintiffs, Abigail Alling, a ‘self-centered, deluded young woman’ and a ‘bimbo’. He also testified that when the woman submitted a 5-page complaint outlining safety problems at the site, he promised to shove the complaint ‘down her throat’. Bannon attributed this to ‘hard feelings and broken dreams’.”

Os fascistas estragam tudo que tocam. Descrição de Baudrillard agora: “Outside Tucson, in Arizona, right in the middle of the desert, a geodesic glass and metal structure accommodating all the planet’s climates in miniature, where 8 human beings (4 men & 4 women, of course) are to live self-sufficiently, in a closed circuit, for 2 years, in order – since we are not able to change our lives – to explore the conditions for our survival.”

Man is also a scorpion, just as the Bororo are arara(*) and, left to himself in an expurgated universe, he becomes, himself, a scorpion.

(*) Arara is a name of Tupi origin for a bird of the genus Ara which includes the macaws (French: aras).”

Secretamos significados como o escorpião secreta seus venenos.

Segredamos significados como o escorpião secreta seus venenos.

Homem, o grande cretino.

That is the terroristic dream of the transparency of good, which very quickly ends in its opposite, the transparency of evil. § We must not reconcile ourselves with nature.”

espaço siderreal – certamente não são Adão e Eva ressuscitando: “The elimination of all sexual reproduction: it is forbidden to reproduce in Biosphere 2; even contamination from life [le vivant] is dangerous; sexuality may spoil the experiment. Sexual difference functions only as a formal, statiscal variable [não podiam furunfar nem com camisinha?! condomnados ao celibato!] (…) if anyone drops out, a person of the same sex is substituted.” “glass coffin” coma cosmético

O GRAU 1 BILHÃO DA ESCRITURA – O SUPER-U****I – o maior filósofo se torna o mais inconseqüente dos títulos.

Como pode alguém ofender alguém de blasé a sério? Que se acredite que se ofenda alguém que nunca se ofende é um atestado de desespero.

Nada a temer em temer o nada.

God, for his part, if he exists, does not believe in his existence, but he allows the subject to believe in it, and to believe he [god] believes in it, or [the subject] not to believe that – but not to believe he [god] does not believe in it (Stavrogin [personagem dostoievekiano, Os Demônios]).” Genial!

RESUMO LÓGICO DAS IMPLICAÇÕES DO EMPOLADO RACIOCÍNIO DE STAVROGIN E O SENTIDO DE “TUDO É PERMITIDO” NA OBRA DE DOSTOIEVSKY

1. Deus existe; Deus não acredita na própria existência; Deus permite que o homem acredite na existência de deus ou não, mas não na segunda verdade fundamental.

1.1 O homem acredita na existência de deus.

1.1.1 O homem acredita que deus acredita na própria existência.

1.1.2 O homem acredita que deus não acredita na própria existência.

1.2. O homem não acredita na existência de deus.

1.2.1 O homem acredita que deus, se existisse, acreditaria na própria existência.

1.2.2 O homem acredita que deus, se existisse, não acreditaria na própria existência.

2. Deus não existe.

2.1 O homem acredita na existência de deus.

2.1.1 O homem acredita que deus acredita na própria existência.

2.1.2 O homem acredita que deus não acredita na própria existência. Este homem na verdade é um grande ateu, pois um deus que não acredita na própria existência seria pior que a não-existência de um deus.

2.2. O homem não acredita na existência de deus.

2.2.1 O homem acredita que deus, se existisse, acreditaria na própria existência.

2.2.2 O homem acredita que deus, se existisse, não acreditaria na própria existência. Este homem é, finalmente, um grande ateu, o único ateu em sentido estrito, pois um deus que não acreditasse na própria existência, pensa ele, não deveria sequer ser pensável. Seria pior e mais absurdo que a não-existência de um deus, seria como uma confissão de não-onipotência por parte deste suposto deus.

2 conclusões:

a) As possibilidades éticas são maiores sem Deus (tudo é permitido).

b) Seria possível provar a inexistência de deus (jamais a existência)¹ ao se encontrar um só indivíduo que acredita que deus² não acredita em si próprio. É o caso do personagem da novela niilista de Dostoievsky. Seu niilismo absoluto, sua negação ultimada da realidade, não se escora no ingênuo fato de que não acredite num deus, mas que para ele, como um homem uma vez fanático e que pensou a idéia de Deus até as suas últimas conseqüências, esse deus se tornou impossível. Na percepção alcançada por Stavrogin, todos os casos são iguais, apenas ele e homens análogos a ele, um novo homem, são um outro: se Deus existe, quem acredita nele ou não são iguais; se Deus não existe, e Deus não existe, pois Stavrogin recebeu essa iluminação e nova sabedoria, ateus e crentes que acreditam que deus acredita em si próprio são iguais (inofensivos); mas ateus e crentes que acreditam que deus não acredita(ria) em si próprio, estes são niilistas radicais, os únicos ateus na verdadeira acepção da palavra. Igor Karamazov (outro romance) se questiona: Tudo é permitido?, mas Stavrogin responde, em Os Demônios.

¹ Pois todos os indivíduos precisariam respeitar as vedações em 1.1 e 1.2. Mas mesmo que todos na Terra em dado dia as respeitassem, não quereria dizer que jamais um indivíduo no passado as respeitou; e nem que nunca haverá de nascer um indivíduo que não as respeite.

² O deus existente, para o crente, ou inclusive apenas uma abstração, a hipótese de deus, de um deus que não acreditasse em si mesmo, para o não-crente.

Não exageremos a importância deste raciocínio lógico elaborado, no entanto: não podemos provar crenças (talvez apenas a nossa própria, e ainda assim podemos desconfiar de que às vezes mentimos para nós mesmos).

P. 94: “Todos esses corpos de pensamento [Stirner e seu individualismo soberano, Marx e a luta coletivista na História, Nietzsche, seu Übermensch e a transvaloração de todos os valores demasiado humanos] tiveram profundas conseqüências para o mundo – nenhum se converteu em realidade.

um <além> que não é aquele da religião, mas um <além> do humano que permanece dentro e com o humano (…) uma ilusão talvez, mas uma ilusão superior.” “Contrariamente à ilusão transcendental das religiões, o jogo das aparências é supra-humano”

Se a história tivesse um fim, esse fim já teria sido alcançado… Um dia me arrependerei dos meus atuais prognósticos e escreverei o livro HEIDEGGER ESTAVA CERTO? A tecnologia nos comeu sem volta. Quem dera Baudrillard estivesse errado…

O que atualmente toma o lugar da transmutação é a transcrição da Idéia em uma operação técnica (…) O que mostra que Nietzsche, por um lado, estava certo: a raça humana, deixada a si mesma, com efeito só sabe se reduplicar e destruir.”

fetichismo técnico (…), meramente a paródia da aceitação do seu destino, através de uma manipulação biológica que é meramente a caricatura da transvaloração dos valores.” “Desnecessário dizer, essa transvaloração de valores de que Nietzsche fala não teve lugar, exceto precisamente no sentido oposto – não para além, mas deste lado, aquém, do bem e do mal

Não mais uma fetichização de divindades, grandes idéias ou narrativas, mas de diferenças mínimas e de partículas. (…) As fronteiras entre o humano e o inumano estão desvanecendo, de fato, mas essa perda de nitidez se dá numa espiral rumo ao sub-humano (…) Verklärung des Untermenschen. Transfiguração do sub-homem.”

Essa reabsorção da metáfora da vida na metástase da sobrevivência é efetuada por uma progressiva redução ao menor denominador comum.”

Paradoxalmente, é a irrupção da biologia, i.e., da ciência da vida, que marca essa irrupção do não-vivo (…) Bem como a irrupção da psicologia marca o fim da transcendência da alma e sua suplantação por uma desconstrução analítica do mundo interior. Bem como a irrupção da ciência anatômica marca o fim do corpo e da morte como metáforas e suas entradas em cena como realidade e fatalidade biológicas.”

Podemos ainda falar do inconsciente, dado o prospecto do homem vindo a ser definido geneticamente? Mesmo a imortalidade do inconsciente, tão cara a Freud, está sob séria ameaça.”

RELEMBRE DEDÊ (TESE, vide mais abaixo): “Não mais imortal em termos de alma, que já desapareceu, nem mesmo em termos de corpo, que está para desaparecer, mas em termos de fórmula, imortal em termos de código.”

The trend in physics itself is towards the reduction of this interstitial void. It is the dream of that science to render matter totally concrete, to wrest all its energy from it by impelling it to limit-densities, densities artificial and monstrous.” Como congelar a luz, o novo absurdo alquímico.

From within, a culture is immortal; it seems to approach its end in an asymptotic curve. It has, in fact, already disappeared. The elevation of a value to universality is a prelude to its becoming transparent, which itself is a prelude to its disappearance.”

the single-handed ocean crossings, which are our modern equivalent of climbing Annapurna, [pico da cadeia de montanhas do Himalaya (circa 8000m); escalado pela primeira vez em 1950] are posthumous fantasies.”

Peter Schlemihl had at least sold his shadow to the devil; ours we have simply lost.” “The atomic shadow, the only one left to us: not the sun’s shadow, nor even the shadows of Plato’s cave, but the shadow of the absent irradiated body, the delineation of the subject’s annihilation, of the disappearance of the original.”

Alain Ehrenberg, La fatrigue d’être soi

the hero of subjectivity, of breaking with the old, of free will and Stirner’s radical singularity, is well and truly dead.” “This is the age of the daily invention of new particles. (…) freedom is merely the statistical end-product of impacts between singularities and no longer, therefore, in any sense a philosophical problem.”

His [the individual of today] only aim is the technical appropriation of the self. He is a convert to the sacrificial religion of performance, efficiency, stress and time-pressure – a much fiercer liturgy than that of production – total mortification and unremitting sacrifice to the divinities of data [l’information], total exploitation of oneself by oneself, the ultimate in alienation. § No religion has ever demanded as much of the individual as such, and it might be said that radical individualism is the very form of religious fundamentalism.” “By comparison, with this voluntary holocaust, [do sujeito atomizado liberal] this escalation of sacrifice, the so-called return of religion which we pretend to fear – these occasional upsurges of religiosity or traditional fundamentalism – is negligible. It merely conceals the fundamental integrism of this consensual society (…) Religious effects are taken too seriously in their religious dimension and not seriously enough as effects, that is, as making the true process.” “each one reviving for itself, in its micro-universe, the now useless totalitarianism of the whole.”

LIVRES COMO PEIXES NÃO-CONSTRANGIDOS EM SEUS AQUÁRIOS: “Liberty operates in a field that is limited and transcendent, in the symbolic space of the subject, where he is conformed with his own finality, his own destiny, whereas liberation operates in a potentially unlimited space. It is a quasi-physical process (…) That is why liberty is a critical form, whereas liberation is a potentially catastrophic form. The former confronts the subject with his own alienation and its overcoming. The other leads to metastases, chain reactions, the disconnection of the subject. Liberation is the effective realization of the metaphor of liberty and, in this sense, it is also its end. (…) Not the free subject any longer, but the liberal individual. (…) From liberty to liberation, from liberation to liberalization. The extreme point of highest dilution, minimal intensity” “And, in the process, the concept of alienation disappears. This new, cloned, metastatic, interactive individual is not alienated any longer, but self-identical. He no longer differs from himself and is, therefore, indifferent to himself. This indifference to oneself is at the heart of the more general problem of the indifference of institutions or of the political, etc., to themselves § The indifference of time: the non-distance between points in time, the promiscuity of points in time, the instantaneousness of real time. Boredom. § The indifference of space: the televisual, remote-controlled contiguity and contamination of all points in space, which leaves you nowhere. § Political indifference: the superimposition, the proliferation of all opinions in a single media continuum. § Sexual indifference: indistinguishability and substitution of sexes as a necessary consequence of the modern theory of sex as difference.” “this identitary individual lives on the hymning and hallucinating of difference, employing to that end all the devices for simulating the other.” Certamente Baudrillard ganharia o rótulo de fascista e transfóbico pela parte “amorosa” (inofensiva, cripto-neoliberal) da esquerda de hoje. A parte <<<revolucionária>>> (com o perdão da sobreposição das aspas) da esquerda e do <<<progressismo>>>.

ESQUEÇA DEDÊ (ANTÍTESE, vide acima): “This identity syndrome has a particular form of madness specific to it. To the <free> individual, the divided subject, there corresponds the vertical madness of yesteryear: psychical madness, the transcendent madness of the schizophrenic (…) [but] horizontal madness (…) [is] autism.”

Trecho de BAUDRILLARD, Jean. The Illusion of The End (1994) e, a seguir, especulações e desdobramentos meus sobre a figura do autista que devora o seu duplo e absorve seu irmão gêmeo, seja na vida real ou na ficção, com ou sem êxito:

[Not anymore] the delirium of the schizophrenic [personalidade cindida] but of the isophrenic, [idêntico tão-só a si mesmo] without shadow, other, transcendence or image (…) the autist who has devoured his double and absorbed his twin brother¹ (being a twin is, conversely, a form of autism à deux). (…) deprived of hereditary otherness, affected with hereditary sterility, they have no other destiny than desperately to seek out an otherness by eliminating all the Others one by one (whereas <vertical> madness [o tipo antigo da loucura, a família da esquizofrenia, formas arquetípicas do <desejo> de Gilles Deleuze & Guattari] suffered, by contrast, from a dizzying excess of otherness). The problem of Frankenstein, for example, is that he has no Other and craves otherness. This is the problem of racism.”

¹ The Black-Zamasu Syndrome! a Ou a Era Messi?b

O ANTES & DEPOIS DO “PERSONAGEM DUPLICADO” ZAMASU

a Black & Zamasu: dois lados de uma mesma moeda: Dois personagens de mangá/anime que são, no enredo, a mesma pessoa, porém provindos de universos alternativos (o que seria muito demorado explicar em suas minúcias), “um deles” mortal, um tanto impulsivo e dotado de um corpo “ágil e perfeito” (em que residiria essa agilidade e perfeição será deslindado a seguir – este mortal de que falo é chamado de “Goku Black” pelos demais personagens da trama), “outro deles” imortal, possuidor de extensos conhecimentos sobre o universo e não obstante dotado de um corpo um tanto menos versátil que o de sua contraparte espelhada (este é Zamasu, a identidade ‘original’ do ‘falso duo’). “Ambos” formam um par astuto e eficiente, pode-se dizer que “se completam” de forma platônica.

A solução final encontrada pelo(s) personagem(ns) desdobrado(s) Black-Zamasu na sua tentativa de cumprir o ambicioso propósito que persegue(m) com afinco na estória – o singelo plano da extinção da humanidade não só na Terra como em todo o universo (Ningen Zero Keikaku,(*) ‘Plano Zero Humanos’), e com humanos, nesta narrativa, não entender apenas criaturas antropomórficas, os terráqueos, mas todos os seres que a filosofia existencialista classificaria como conscientes de que um dia irão morrer dada “sua natureza meramente finita, recalcitrante e imperfeita, de pecadores natos, enfim”, como diria o vilão ou a dupla de vilões em questão –, envolve a precipitada decisão de “fundir-se consigo mesmo”, acarretando a transformação de duas entidades em uma.

(*) Acho divertida a inadvertida – cacofonia intencional – coincidência acústica que a transposição da obra para o português acaba gerando: ningen, sendo o japonês para ‘humano’, corresponde exatamente à idéia que Black-Zamasu tem/têm do homem: um zé(ro)-ninguém.

Este Narciso que conseguiu mergulhar no espelho d’água e não se afogar, este Fausto do universo ficcional de Dragon Ball, após vender a alma para chegar aonde quer, percebe tarde demais que o “diabo” (neste caso ele mesmo) o ludibriou na barganha, ao constatar que, uma vez fundido com sua cara-metade, sua principal vantagem tática na trama até aquele momento é, como num simples passe de mágica, desfeita: seu senso de cooperação com um Outro (ainda que esse outro fosse apenas ele desdobrado), sua sincronia e trabalho em equipe ideais na paciente execução de um projeto maquiavélico, acabam dando lugar a uma criatura “semi-imortal e auto-suficiente”. Ora, só que não existe a semi-imortalidade (algo intrinsecamente inútil, inferior à imortalidade) nem uma auto-suficiência genuína.

A sutil tragédia desta estória, nem sempre capturada pelo leitor/espectador, está em que a fim de chegar tão longe em seus planos diabólicos Zamasu teve de roubar o corpo do artista-marcial “perfeito”, Goku, o protagonista, que encarna o próprio sentido do humano arquetípico, cheio de defeitos, carências e tolas expectativas, dotado de uma fé cega e ingênua no futuro a despeito da certeza da morte e até de uma certa dose de despeito pelo conceito de divindade (justamente o que nos torna cônscios de nossa capacidade inerente de nos corrigirmos e nos superarmos diversas vezes ao longo de nossa curta vida), conjunto de características tão abominado pelo mesmo Zamasu. A parte “humana” de Zamasu, Goku Black, ao ser incorporada ao próprio Zamasu original, constituindo a partir daí um corpo só, desestabiliza seu Ser Eterno. Seu novo invólucro, em vez de onipotente, se revela uma falsificação, um embuste. Zamasu, o Uno, não dispõe mais da vida eterna.

E este nem é o pior de seus problemas após a fusão: logo se evidencia que, contra os humanos – raça que aprende com os erros e enquanto não perece ousa tentar outra vez, mesmo sem ter idéia do desfecho, de se seus esforços serão inúteis ou não, entregando, de qualquer maneira, tudo de si –, a própria habilidade de Zamasu, da parte do Goku Black em Zamasu, que ele tomou emprestada do corpo mortal de Goku quando uma de suas metades se transformara em Black no passado, a habilidade do contínuo e incessante auto-aperfeiçoamento pessoal, não passa de uma cópia barata da versão dos humanos autênticos dessa mesma habilidade. Zamasu, principalmente agora que contaminou sua antiga parte “humana” (parte que, reitera-se, era um mal necessário para que ele sobressaísse no combate) com traços divinos (e não o contrário: em Zamasu, é o humano que decai graças a sua metade deus, e não o inverso!), não possui a vontade e a determinação necessárias que lhe possibilitariam, em última instância, ultrapassar seus próprios limites.

Ao escolher se fundir consigo próprio, Zamasu apenas antecipou o fim do combate: se tornou um adversário facilmente vencível, incapaz de acompanhar o ritmo das proezas dos rivais e de compreender o ethos do inimigo. (Em sua cabeça, devia se perguntar: Por que eles lutam comigo, em intensa solidariedade uns com os outros o tempo todo, mesmo quando se acham em nítida desvantagem na correlação de forças? E por que eles não desistem nunca de realizar o impossível? O que faz criaturas tão frágeis e insignificantes se comportarem de maneira tão absurda e ao mesmo tempo exibirem uma invejável serenidade no olhar? Que impulso é esse que os move, que nem mesmo um deus como eu entende?!) O resultado final icônico do embate é que Black-Zamasu termina cortado em dois por um dos humanos que o antagonizam. Seu corpo imortal tinha o dom da auto-regeneração, mas sozinho não poderia vencer os humanos super-poderosos da trama fantástica. Quando se fundiu consigo mesmo, seu novo corpo semi-imortal foi aos poucos se deformando e perdendo aquela capacidade restauradora, embora ele calculasse que o ganho de poder resultante da fusão decidiria a guerra a seu favor.

Aquilo que fôra cortado pela espada de um humilde ser humano (a espada, apenas uma espada como qualquer outra, nada mais é do que o símbolo da inquebrantável perseverança dos mortais) não era bem a carne de Zamasu, a dizer verdade, mas seu espírito, sua própria essência, e este profundo ferimento metafísico se mostrou uma chaga incurável.

A evolução tremendamente satisfatória (em sua ascensão e queda) do multifacetado e secretamente atormentado Zamasu – esse Prometeu negativo, esse deus presunçoso e anti-socrático, que “não sabia que nada sabia” –, e seu estratagema cínico de forjar uma hipócrita aliança com seu duplo ou Doppelgänger, um duplo que ao mesmo tempo que imitava os seres humanos teria de ser seu principal instrumento para finalmente extingui-los, tornam este personagem, de longe, no melhor antagonista jamais apresentado por esta série shounen de lutinhas acéfalas, em que normalmente imperam a superficialidade mais boçal e os velhos clichês maniqueístas.

OBS: Deve haver uma mística ligação entre Jean Baudrillard e Dragon Ball, pois não é a primeira vez que eu associo a ambos – e ser mais distintos um do outro é impossível! – em posts do Seclusão (aqui vai a pista de uma possível explicação racional: novamente o assunto abordado se refere à ‘síndrome de deus’ de que padece o animal homem em todas as culturas conhecidas)!

Vide o contexto completo da primeira “analogia” entre aspas de Baudrillard e personagens de Dragon Ball em https://seclusao.art.blog/2021/12/20/ss-em-3-atos/.

b Lional “La Pulga” Messi: O conhecido jogador de futebol foi tachado por muitos “entendidos” de “autista” nos seus anos iniciais de carreira porque ‘se comunicava’ e ‘atuava’ de forma supostamente bizarra e muito diferente da habitual, tanto nos gramados quanto na vida privada. Diferente até de outros gênios do passado, principalmente do ícone-mor argentino, o extremamente sociável e integrado com o seu povo, extrovertido e burlesco Diego Maradona, que por muitos anos foi uma sombra na trajetória de Messi.

Vemos, num dégradé perfeito, como Lionel Messi foi se tornando, com a idade, cada vez mais e mais maradônico, seja porque assim quisemos passar a enxergar após começarmos a prestar mais atenção ou porque o meia-atacante foi se tornando, sem afetação, de modo orgânico e natural, grande e irreverente tal qual seu ídolo de infância, não só através de suas quebras rotineiras de recordes e a técnica cada vez mais precisa e apurada, como também pela maturidade com que aprendeu a chamar toda a responsabilidade e estrelato para si, aglutinando os companheiros pelo bem maior da equipe e confrontando com personalidade e malemolência os críticos e adversários, cada vez mais estupefatos e rendidos.

Messi soube se desdobrar, enquanto se movimentava como uma flecha durante os jogos, separou o Messi indivíduo comum do Messi lendário, o cidadão do mago protagonista de espetáculos, se situou num ângulo favorável, numa distância confortável, diante do espelho em que se punha a observar seu próprio Outro, que na verdade são duas coisas distintas, seus dois Outros – 1) o seu futuro como será contado pela História, que só pode ser decidido por ele mesmo; 2) e aquela antiga sombra ou reflexo pertencente ao passado, que mais parecia um destino inexorável a pesar como uma bigorna sobre as suas costas, ele, Diego Armando Maradona. Por muito tempo, no entanto, pensaram, e talvez Messi tenha pensado, que seus dois Outros eram um só: Messi é Maradona; mas se Messi não tem uma Copa, então Messi não é Maradona… então,a na realidade, Messi não é ninguém… Não!… Messi será Maradona!… contanto que… Entende-se onde quero chegar.

Os anos profissionais de um jogador de futebol passam muito mais depressa que nossa já efêmera vida. E, para Messi, sua trajetória como jogador, o capítulo mais importante de sua biografia, culminou com a decretação oficial de sua “santidade atlética”, a atribuição sem direito a controvérsia de seu status de craque atemporal, diante de toda a imprensa e da atual geração de torcedores do esporte mais popular do planeta, após a apoteótica exibição na final da Copa do Mundo de 2022, no momento em que erguia a Taça Fifa. Hoje, mesmo antes da aposentadoria, Messi já é apontado (e não apo-se-ntado, leia bem!) – e por não poucos, talvez pelos mesmos que antes tentavam explicar suas performances sobrenaturais apelando para diagnósticos clínicos! – como “melhor que Maradona” enquanto jogador e “tão influente e carismático quanto Dieguito” fora das quatro linhas, façanha notável, outrora até impensável, quando nos damos conta de que na Argentina Diego Maradona é venerado como um deus…

* * *

O MAL SOMÁTICO DA HUMANIDADE: “everything is already there, everything has already taken place. § We are thus immortal survivors, since the second existence is without end. It has no end because the end is already the beginnin.” “The process of de-humanization is complete and the clear effect of this phenomenon is that we no longer possess the psychical, ethical and spiritual resources which would enable us to realize this fact (Romain Gary).”¹

¹ wikia: “Romain Gary, 1914–1980, also known by the pen name Émile Ajar, was a French novelist, diplomat, film director, and World War II aviator. He is the only author to have won the Prix Goncourt under two names. He is considered a major writer of French literature of the second half of the 20th century.” “In a memoir published in 1981, Gary’s nephew Paul Pavlowitch claimed that Gary also produced several works under the pseudonym Émile Ajar. Gary recruited Pavlowitch to portray Ajar in public appearances, allowing Gary to remain unknown as the true producer of the Ajar works, and thus enabling him to win the 1975 Goncourt Prize, a second win in violation of the prize’s usual rules.” chad move here!

R.G., Les Racines du ciel

Our systems are thus doubly chaotic: they operate both by exponential stability and instability.”

A DIALÉTICA DO REJUVENESCIMENTO: “Sensitivity to initial conditions should not be confused with fate or predestination.” “In predestination, the end is there before the beginning and every effort to move away from the end brings that end closer. [Édipo Rei, etc.]

Meteorology is chaotic; it is not a figure of destiny.”

the destiny of simulation which one may, in effect, read as a form of catastrophe of reality, this dizzyng whirl of the model, the virtual and simulation carrying us further and further from the initial conditions of the real world

Chaos is a parody of any metaphysics of destiny. It is not even an avatar of such a metaphysics. The poetry of initial conditions fascinates us today, now that we no longer possess a vision of final conditionsO Ragnarok é sempre só um Big Bang.

Destiny is the ecstatic figure of necessity. Chaos is merely the metastatic figure of Chance. [a contingência se espalhando como um câncer]

the hidden order of strange attractors” “Condemned to an intense metabolism” “They are condemned, precisely, to the epidemic, to the endless excrescences of the fractal [vertigo] and not to the reversibility and perfect resolution of the fateful [fatal]. We know only the signs of catastrophe now.” Não é como um eterno retorno com sentido, mas apenas um loop de arcade game de Atari…

“…definitive doom, which we could at least consume as spectacle. Just imagine the extraordinary good luck of the generation which would have the end of the world to itself.” “we came too late for the beginning.”

You live too fast, you live too soon. Apoteozzy

Ó TESOURA AMIGA!

CORTO EU A LINHA PELUDA?

April of the pigs

O universo é como um ano-novo.

history itself has become interminable. when we speak of the <end of history>, the <end of the political>, the <end of the social>, the <end of ideologies>, none of this is true. The worse of it all is precisely that there will be no end to anything, and all these things will continue to unfold slowly, tediously, recurrently, in that hysteresis of everything which, like nails and hair, continues to grow after death.”

homepathic end, an end distilled into all the various metastases of the refusal of death.”

This revival of vanished forms, this attempt to escape the apocalypse of the virtual, is an utopian desire, the last of our utopian desires.” Nada será como antes.

the illusion of the end of that book

can we not imagine that, in history itself, previous states never disappeared, but present themselves again in succession, as it were, taking advantage of the weakness or excessive complexity of the present structures?”

The reabilitation of old frontiers, the old structures, the old elites will never have the same meaning. If, one day, the aristocracy or royalty recover their old position, they will, nonetheless, be <post-modern>.”

Magic Country, Future World, Gothic, Hollywood itself reconstructed 50 years on in Florida, the whole of the past and the future revisited as living simulation. Walt Disney is the true hero of deep-freezing, with his utopian hope of awakening one day in the future, in a better world. But that is where the irony bites: he had not foreseen that reality and history would turn right around. And he, who expected to wake up in the year 2100, might well, following out his own fairytale scenario, awaken in 1730 or the world of the Pharaohs or any one of his primal scenes.”

Communism will have had no historical end; it will have been sold off, knocked down like useless stock.”

The sales used to come after the feast days but now they precede them. It’s the same with our century”

This is like the parable of the Russian cosmonaut forgotten in space, with no one to welcome him, no one to bring him back – the sole particle of Soviet territory ironically overflying a deterritorialized Russia. Whereas on Earth everything has changed, he becomes pratically immortal and continues to circle like the gods, like the stars, like nuclear waste.”

Nostalgia had beauty because it retained within it the presentiment of what has taken place and could take place again. It was as beautiful for never being satisfied, as was utopia for never being achieved.”

the literal manifestness of the end”

We are, then, unable to dream of a past or future state of things. Things are in a state which is literally definitive (…) deprived of its end. Now, the feeling which goes with a definitive state, even a paradisiac one – is melancholic.”

there remains the completely improbable and, no doubt, unverifiable hypothesis of a poetic reversibility of events, more or less the only evidence for which is the existence of the same possibility in language.”

Canetti diz que a vingança é supérflua; torna-se desnecessária devido à inexorável reversibilidade das coisas.”

It isn’t just terrorists who repent. Intellectuals showed them the way, the Sartreans and others having been in the van of repentence from the 50s onwards.”

Arte total = arte mais fraca

If nothing exists now but effects, we are in a state of total illusion (which is also that of poetic language). If the effect is in the cause or the beginning in the end, then the catastrophe is behind us. This reversing of the sign of catastrophe is the exceptional privilege of our age. It liberates us from any future catastrophe and any responsibility in that regard. The end of all anticipatory psychoses, all panic, all remorse! The lost object is behind us. We are free of the Last Judgement.” Lost Judgement

INVERSÃO CONTRA FIM: “Anastrophe versus catastrophe”

Might we not transpose language games on to social and historical phenomena: anagrams, acrostics, spoonerisms, rhyme, strophe and cata-strophe [a estrofe que transtorna]?”

In these times of a retroversion of history, the palindrome,¹ that poetic, rigorous form of palinode,² could serve as a grille de lecture (might it not perhaps be necessary to replace Paul Virilio’s dromology³ with a palindromology?). And the anagram, that detailed process of ravelling, that sort of poetic and non-linear convulsion of language”

¹ Frase idêntica num sentido ou noutro, como a famosa SOCORRAM-ME SUBI NO ÔNIBUS EM MARROCOS.

² Re-citação de outro trecho do mesmo autor ou poema (quando muito grande), dentro do próprio poema.

³ A ciência da velocidade. Tão rápido que assa a virilha.

pure materiality of time” “The illusion of our history opens on to the greatly more radical illusion of the world. VdP, fim da exposição inicial sobre o niilismo.

we no longer have the choice of advancing, of persevering in the present destruction, or of retreating – but only of facing up to [reconhecer, aceitar, lidar com] this radical illusion.”

Voltar é impossível. Déjà vu em extinção. E dar um passo dianteiro kantiano ainda mais difícil,

Irreverente realidade do irreal.

Presente terno,

Uma música que não sai do refrão.

That’s what life means, said a Brazilian singer and composer…

GLOSSÁRIO:

fallow: terra deixada em descanso no sistema de cultivo rotativo (também conhecida como “pousio”)

lorry: caminhão-de-lixo

[PREVIEW DO PRÓXIMO POST] Como uma discussão sobre o autismo e o conceito de Doppelgänger em Jean Baudrillard me levou a entrar em detalhes sobre o melhor vilão de Dragon Ball e a carreira do Messi… Parece uma dupla loucura, mas não é!

Trecho de BAUDRILLARD, Jean. The Illusion of The End (1994), seguido de especulações e desdobramentos meus acerca da figura do autista que devora o seu duplo e absorve seu irmão gêmeo, seja na vida real ou na ficção, com ou sem êxito:

 

[Not anymore] the delirium of the schizophrenic [personalidade cindida] but of the isophrenic, [idêntico tão-só a si mesmo] without shadow, other, transcendence or image (…) the autist who has devoured his double and absorbed his twin brother¹ (being a twin is, conversely, a form of autism à deux). (…) deprived of hereditary otherness, affected with hereditary sterility, they have no other destiny than desperately to seek out an otherness by eliminating all the Others one by one (whereas <vertical> madness [o tipo antigo da loucura, a família da esquizofrenia, formas arquetípicas do <desejo> de Gilles Deleuze & Guattari] suffered, by contrast, from a dizzying excess of otherness). The problem of Frankenstein, for example, is that he has no Other and craves otherness. This is the problem of racism.”

¹ The Black-Zamasu Syndrome! a Ou a Era Messi?b

O ANTES & DEPOIS DO “PERSONAGEM DUPLICADO” ZAMASU

a Black & Zamasu: dois lados de uma mesma moeda: Dois personagens de mangá/anime que são, no enredo, a mesma pessoa, porém provindos de universos alternativos (o que seria muito demorado explicar em suas minúcias), “um deles” mortal, um tanto impulsivo e dotado de um corpo “ágil e perfeito” (em que residiria essa agilidade e perfeição será deslindado a seguir – este mortal de que falo é chamado de “Goku Black” pelos demais personagens da trama), “outro deles” imortal, possuidor de extensos conhecimentos sobre o universo e não obstante dotado de um corpo um tanto menos versátil que o de sua contraparte espelhada (este é Zamasu, a identidade ‘original’ do ‘falso duo’). “Ambos” formam um par astuto e eficiente, pode-se dizer que “se completam” de forma platônica.

A solução final encontrada pelo(s) personagem(ns) desdobrado(s) Black-Zamasu na sua tentativa de cumprir o ambicioso propósito que persegue(m) com afinco na estória – o singelo plano da extinção da humanidade não só na Terra como em todo o universo (Ningen Zero Keikaku,(*) ‘Plano Zero Humanos’), e com humanos, nesta narrativa, não entender apenas criaturas antropomórficas, os terráqueos, mas todos os seres que a filosofia existencialista classificaria como conscientes de que um dia irão morrer dada “sua natureza meramente finita, recalcitrante e imperfeita, de pecadores natos, enfim”, como diria o vilão ou a dupla de vilões em questão –, envolve a precipitada decisão de “fundir-se consigo mesmo, acarretando a transformação de duas entidades em uma.

(*) Acho divertida a inadvertida – cacofonia intencional – coincidência acústica que a transposição da obra para o português acaba gerando: ningen, sendo o japonês para ‘humano’, corresponde exatamente à idéia que Black-Zamasu tem/têm do homem: um zé(ro)-ninguém.

Este Narciso que conseguiu mergulhar no espelho d’água e não se afogar, este Fausto do universo ficcional de Dragon Ball, após vender a alma para chegar aonde quer, percebe tarde demais que o “diabo” (neste caso ele mesmo) o ludibriou na barganha, ao constatar que, uma vez fundido com sua cara-metade, sua principal vantagem tática na trama até aquele momento é, como num simples passe de mágica, desfeita: seu senso de cooperação com um Outro (ainda que esse outro fosse apenas ele desdobrado), sua sincronia e trabalho em equipe ideais na paciente execução de um projeto maquiavélico, acabam dando lugar a uma criatura “semi-imortal e auto-suficiente”. Ora, só que não existe a semi-imortalidade (algo intrinsecamente inútil, inferior à imortalidade) nem uma auto-suficiência genuína.

A sutil tragédia desta estória, nem sempre capturada pelo leitor/espectador, está em que a fim de chegar tão longe em seus planos diabólicos Zamasu teve de roubar o corpo do artista-marcial “perfeito”, Goku, o protagonista, que encarna o próprio sentido do humano arquetípico, cheio de defeitos, carências e tolas expectativas, dotado de uma fé cega e ingênua no futuro a despeito da certeza da morte e até de uma certa dose de despeito pelo conceito de divindade (justamente o que nos torna cônscios de nossa capacidade inerente de nos corrigirmos e nos superarmos diversas vezes ao longo de nossa curta vida), conjunto de características tão abominado pelo mesmo Zamasu. A parte “humana” de Zamasu, Goku Black, ao ser incorporada ao próprio Zamasu original, constituindo a partir daí um corpo , desestabiliza seu Ser Eterno. Seu novo invólucro, em vez de onipotente, se revela uma falsificação, um embuste. Zamasu, o Uno, não dispõe mais da vida eterna.

E este nem é o pior de seus problemas após a fusão: logo se evidencia que, contra os humanos – raça que aprende com os erros e enquanto não perece ousa tentar outra vez, mesmo sem ter idéia do desfecho, de se seus esforços serão inúteis ou não, entregando, de qualquer maneira, tudo de si –, a própria habilidade de Zamasu, da parte do Goku Black em Zamasu, que ele tomou emprestada do corpo mortal de Goku quando uma de suas metades se transformara em Black no passado, a habilidade do contínuo e incessante auto-aperfeiçoamento pessoal, não passa de uma cópia barata da versão dos humanos autênticos dessa mesma habilidade. Zamasu, principalmente agora que contaminou sua antiga parte “humana” (parte que, reitera-se, era um mal necessário para que ele sobressaísse no combate) com traços divinos (e não o contrário: em Zamasu, é o humano que decai graças a sua metade deus, e não o inverso!), não possui a vontade e a determinação necessárias que lhe possibilitariam, em última instância, ultrapassar seus próprios limites.

Ao escolher se fundir consigo próprio, Zamasu apenas antecipou o fim do combate: se tornou um adversário facilmente vencível, incapaz de acompanhar o ritmo das proezas dos rivais e de compreender o ethos do inimigo. (Em sua cabeça, devia se perguntar: Por que eles lutam comigo, em intensa solidariedade uns com os outros o tempo todo, mesmo quando se acham em nítida desvantagem na correlação de forças? E por que eles não desistem nunca de realizar o impossível? O que faz criaturas tão frágeis e insignificantes se comportarem de maneira tão absurda e ao mesmo tempo exibirem uma invejável serenidade no olhar? Que impulso é esse que os move, que nem mesmo um deus como eu entende?!) O resultado final icônico do embate é que Black-Zamasu termina cortado em dois por um dos humanos que o antagonizam. Seu corpo imortal tinha o dom da auto-regeneração, mas sozinho não poderia vencer os humanos super-poderosos da trama fantástica. Quando se fundiu consigo mesmo, seu novo corpo semi-imortal foi aos poucos se deformando e perdendo aquela capacidade restauradora, embora ele calculasse que o ganho de poder resultante da fusão decidiria a guerra a seu favor.

Aquilo que fôra cortado pela espada de um humilde ser humano (a espada, apenas uma espada como qualquer outra, nada mais é do que o símbolo da inquebrantável perseverança dos mortais) não era bem a carne de Zamasu, a dizer verdade, mas seu espírito, sua própria essência, e este profundo ferimento metafísico se mostrou uma chaga incurável.

A evolução tremendamente satisfatória (em sua ascensão e queda) do multifacetado e secretamente atormentado Zamasu – esse Prometeu negativo, esse deus presunçoso e anti-socrático, que “não sabia que nada sabia” –, e seu estratagema cínico de forjar uma hipócrita aliança com seu duplo ou Doppelgänger, um duplo que ao mesmo tempo que imitava os seres humanos teria de ser seu principal instrumento para finalmente extingui-los, tornam este personagem, de longe, no melhor antagonista jamais apresentado por esta série shounen de lutinhas acéfalas, em que normalmente imperam a superficialidade mais boçal e os velhos clichês maniqueístas.

OBS: Deve haver uma mística ligação entre Jean Baudrillard e Dragon Ball, pois não é a primeira vez que eu associo a ambos – e ser mais distintos um do outro é impossível! – em posts do Seclusão (aqui vai a pista de uma possível explicação racional: novamente o assunto abordado se refere à ‘síndrome de deus’ de que padece o animal homem em todas as culturas conhecidas)!

Vide o contexto completo da primeira “analogia” entre aspas de Baudrillard e personagens de Dragon Ball em https://seclusao.art.blog/2021/12/20/ss-em-3-atos/.

b Lional “La Pulga” Messi: O conhecido jogador de futebol foi tachado por muitos “entendidos” de “autista” nos seus anos iniciais de carreira porque ‘se comunicava’ e ‘atuava’ de forma supostamente bizarra e muito diferente da habitual, tanto nos gramados quanto na vida privada. Diferente até de outros gênios do passado, principalmente do ícone-mor argentino, o extremamente sociável e integrado com o seu povo, extrovertido e burlesco Diego Maradona, que por muitos anos foi uma sombra na trajetória de Messi.

Vemos, num dégradé perfeito, como Lionel Messi foi se tornando, com a idade, cada vez mais e mais maradônico, seja porque assim quisemos passar a enxergar após começarmos a prestar mais atenção ou porque o meia-atacante foi se tornando, sem afetação, de modo orgânico e natural, grande e irreverente tal qual seu ídolo de infância, não só através de suas quebras rotineiras de recordes e a técnica cada vez mais precisa e apurada, como também pela maturidade com que aprendeu a chamar toda a responsabilidade e estrelato para si, aglutinando os companheiros pelo bem maior da equipe e confrontando com personalidade e malemolência os críticos e adversários, cada vez mais estupefatos e rendidos.

Messi soube se desdobrar, enquanto se movimentava como uma flecha durante os jogos, separou o Messi indivíduo comum do Messi lendário, o cidadão do mago protagonista de espetáculos, se situou num ângulo favorável, numa distância confortável, diante do espelho em que se punha a observar seu próprio Outro, que na verdade são duas coisas distintas, seus dois Outros – 1) o seu futuro como será contado pela História, que só pode ser decidido por ele mesmo; 2) e aquela antiga sombra ou reflexo pertencente ao passado, que mais parecia um destino inexorável a pesar como uma bigorna sobre as suas costas, ele, Diego Armando Maradona. Por muito tempo, no entanto, pensaram, e talvez Messi tenha pensado, que seus dois Outros eram um só: Messi é Maradona; mas se Messi não tem uma Copa, então Messi não é Maradona… então,a na realidade, Messi não é ninguém… Não!… Messi será Maradona!… contanto que… Entende-se onde quero chegar.

Os anos profissionais de um jogador de futebol passam muito mais depressa que nossa já efêmera vida. E, para Messi, sua trajetória como jogador, o capítulo mais importante de sua biografia, culminou com a decretação oficial de sua “santidade atlética”, a atribuição sem direito a controvérsia de seu status de craque atemporal, diante de toda a imprensa e da atual geração de torcedores do esporte mais popular do planeta, após a apoteótica exibição na final da Copa do Mundo de 2022, no momento em que erguia a Taça Fifa. Hoje, mesmo antes da aposentadoria, Messi já é apontado (e não aposentado, leia bem!) – e por não poucos, talvez pelos mesmos que antes tentavam explicar suas performances sobrenaturais apelando para diagnósticos clínicos! – como “melhor que Maradona” enquanto jogador e “tão influente e carismático quanto Dieguito” fora das quatro linhas, façanha notável, outrora até impensável, quando nos damos conta de que na Argentina Diego Maradona é venerado como um deus…

RESUMO LÓGICO DAS IMPLICAÇÕES DO EMPOLADO RACIOCÍNIO DE STAVROGIN E O SENTIDO DE “TUDO É PERMITIDO” NA OBRA DE DOSTOIEVSKY

God, for his part, if he exists, does not believe in his existence, but he allows the subject to believe in it, and to believe he [god] believes in it, or [the subject] not to believe that – but not to believe he [god] does not believe in it

Stavrogin, de Os Demônios, o psicólogo de Deus

  1. Deus existe; Deus não acredita na própria existência; Deus permite que o homem acredite na existência de deus ou não, mas não na segunda verdade fundamental.

1.1 O homem acredita na existência de deus.

1.1.1 O homem acredita que deus acredita na própria existência.

1.1.2 O homem acredita que deus não acredita na própria existência.

1.2. O homem não acredita na existência de deus.

1.2.1  O homem acredita que deus, se existisse, acreditaria na própria existência.

1.2.2 O homem acredita que deus, se existisse, não acreditaria na própria existência.

  1. Deus não existe.

2.1 O homem acredita na existência de deus.

2.1.1 O homem acredita que deus acredita na própria existência.

2.1.2 O homem acredita que deus não acredita na própria existência. Este homem na verdade é um grande ateu, pois um deus que não acredita na própria existência seria pior que a não-existência de um deus.

2.2. O homem não acredita na existência de deus.

2.2.1  O homem acredita que deus, se existisse, acreditaria na própria existência.

2.2.2 O homem acredita que deus, se existisse, não acreditaria na própria existência. Este homem é, finalmente, um grande ateu, o único ateu em sentido estrito, pois um deus que não acreditasse na própria existência, pensa ele, não deveria sequer ser pensável. Seria pior e mais absurdo que a não-existência de um deus, seria como uma confissão de não-onipotência por parte deste suposto deus.

2 conclusões:

  1. a) As possibilidades éticas são maiores sem Deus (tudo é permitido).
  2. b) Seria possível provar a inexistência de deus (jamais a existência)¹ ao se encontrar um só indivíduo que acredita que deus² não acredita em si próprio. É o caso do personagem da novela niilista de Dostoievsky. Seu niilismo absoluto, sua negação ultimada da realidade, não se escora no ingênuo fato de que não acredite num deus, mas que para ele, como um homem uma vez fanático e que pensou a idéia de Deus até as suas últimas conseqüências, esse deus se tornou impossível. Na percepção alcançada por Stavrogin, todos os casos são iguais, apenas ele e homens análogos a ele, um novo homem, são um outro: se Deus existe, quem acredita nele ou não são iguais; se Deus não existe, e Deus não existe, pois Stavrogin recebeu essa iluminação e nova sabedoria, ateus e crentes que acreditam que deus acredita em si próprio são iguais (inofensivos); mas ateus e crentes que acreditam que deus não acredita(ria) em si próprio, estes são niilistas radicais, os únicos ateus na verdadeira acepção da palavra. Igor Karamazov (outro romance) se questiona: Tudo é permitido?, mas Stavrogin responde, em Os Demônios.

¹ Pois todos os indivíduos precisariam respeitar as vedações em 1.1 e 1.2. Mas mesmo que todos na Terra em dado dia as respeitassem, não quereria dizer que jamais um indivíduo no passado as respeitou; e nem que nunca haverá de nascer um indivíduo que não as respeite.

² O deus existente, para o crente, ou inclusive apenas uma abstração, a hipótese de deus, de um deus que não acreditasse em si mesmo, para o não-crente.

Não exageremos a importância deste raciocínio lógico elaborado, no entanto: não podemos provar crenças (talvez apenas a nossa própria, e ainda assim podemos desconfiar de que às vezes mentimos para nós mesmos).