35: o deus ex machina; a “história monumental” como a perfeita para o supra-homem, ou aquele com ânsia de ser clássico. Uma “estrutura do herói” muito antes do nazismo de Campbell.
44: bricolage. Lévi-Strauss devia ser um fóssil vivo com seu hábito exclusivo de releituras de cartas.
50: o novo amigo do homem moderno, a irracionalidade
51: o descompasso entre teoria e prática
52: o “sentido não-histórico” dos gregos; forma vs. conteúdo; gregos são auto-suficientes. Não são colonizadores; o fosso bem antes: “aumentamos, até a insensibilidade com relação à barbárie, o perigoso abismo que separa o conteúdo da forma.”
54: só um povo tão sério quanto os teutônicos poderia provocar tanto riso; quando uma sociedade importa seu vestuário de outras, ela é decadente. A despeito de muitos pensarem em vias públicas, a realidade é que não entendemos o conceito de clima tropical!
61: Dom Quixote
63: “Faça o que eu digo…”
65: quando o didatismo apaga a “hierarquia filosófica” e cada “sistema” e cada indivíduo de qualquer época e país se torna tão relevante quanto os milhares de outros. Nivela-se, para se ter idéia, um pré-socrático e um medieval, um grande poeta torna-se tão prosaico quanto e tão parecido com um filólogo ou um jurista. É como um almanaque isométrico, ou ainda um álbum de figurinhas sem protagonistas ou estrelas de brilho mais intenso. Meras curiosidades, afinal ninguém está certo sozinho, o que mais parece dizer que se trata de uma coleção de erros ou de adultos engraçados que tinham vidas pacatas e que se preocupavam mais com o invisível que com que tipo de roupa saíam à rua.
66: o problema da crítica; história crítica.
69: a “justiça”
78: para o passado—oráculos.
87: sobre a divisão do trabalho
97: Hegel e a Ideologia Alemã
99: “A moral é, p.ex., ofendida por ver que um Rafael tenha tido de morrer aos 36 anos.”; a cena da idolatria ao bode.
100: ponte para alguma coisa; a ironia pós-moderna.
107: São estas as páginas seguidas mais hilárias desse homem! “a partir de amanhã, o tempo não existirá mais e todos os jornais deixarão de circular”
109: “da ausência de toda diversidade entre o homem e o animal—doutrinas que tenho por verdadeiras, mas por mortais” presente eterno, egoísmo, felicidade
116: para todos e ninguém
O primeiro parágrafo já toca nos animais! A tentativa de diálogo entre um homem e um animal: “Isso acontece porque esqueço sempre o que pretendo responder”, assim o animal gostaria de se justificar às súplicas do homem que fala sozinho, se não esquecesse o que tinha em mente um segundo depois… Mas… como pode então o cão latir pelo seu dono (tutor)? O animal = a criança.
“a natureza mais poderosa e mais formidável”
Todos os enunciados já estão aqui; aliás, poder-se-ia dizer que ele sempre foi assim, que ele não visava a nada, não perseguia o rabo de nenhuma cobra (Ivan!): “A negação do homem supra-histórico [estrutural] não vê a salvação no desenvolvimento, mas, pelo contrário, considera que o mundo acabou e atingiu seu fim em cada momento particular.” Em outras palavras, vencemos o niilismo extremo.
“No fundo, o que foi possível outrora não poderia se reproduzir uma segunda vez, a menos que os pitagóricos tivessem razão em acreditar que uma mesma constelação dos corpos celestes produzisse até nos mínimos detalhes os mesmos acontecimentos na terra, de modo que quando as estrelas ocuparem a mesma posição uma com relação às outras, um estóico se uniria a um epicurista, César seria assassinado e, de novo, em outras condições, Colombo descobriria a América.”
Perigo de hipertrofia de qualquer uma das 3 categorias de história.
“O crítico sem angústia, o antiquado sem compaixão, aquele que conhece o sublime sem poder realizar o sublime: essas são plantas que se tornaram estranhas a seu solo nativo e que, por causa disso, degeneraram e se transformaram em joio.”
Utiliza expressões que se consagrariam em títulos de obras posteriores.
História antiquada: a monumental tornada linear, uniforme, homogênea; ou seja, os personagens e costumes possuindo o mesmo valor.
A França como uma referência cultural “menos degradada”. Em busca da unidade superior.
“É assim que [o grande homem] abandona a alegria divina de criador (…) para ficar oprimido sob a profunda compreensão de seu destino. E acaba o curso da vida como iniciado solitário, como sábio saturado. Esse é o espetáculo mais doloroso que se possa ver. (…) É necessário que essa cisão entre o ser íntimo e o exterior desapareça sob os golpes do martelo da angústia. (…) É preciso que expresse o que compreendeu, que o defenda (…) Essa necessidade violenta produzirá um dia a ação vigorosa.”
Como se deve ler o suicídio de Werther: “Seja homem e não me siga!”
“Por que devemos ouvir incessantemente a hipérbole das hipérboles, a palavra universo, quando cada um só deveria sinceramente falar do homem?”
“Mede o que sabes do nível do que podes”
Exatamente a assunção da vítima das três categorias do fazer-história: “este tratado, com sua crítica imoderada, com o verdor de sua humanidade, com seus saltos freqüentes da ironia ao cinismo, do orgulho ao ceticismo, mostra muito bem, não gostaria de escondê-lo, que carrega a marca moderna, o caráter da personalidade fraca.” “É necessário ser jovem para compreender esse protesto”
Anotações de cunho pessoal:
Síndrome dos jogos de futebol (dos livros eu até entendo): por que eles são tão bons para pensar na vida?
Talvez eu precise, mais do que a colega tuiteira a meu lado, dotar a vida de plurissentidos numa taxa que assustaria o estranho ao ninho.
Ilhas de despreocupação no inferno.
Nunca mais vou deixar de olhar aquela pequena conversa com o Marco Antônio depois da aula como um marco divisor.
“Um dia a menos para a vida passar” é um pensamento idiota.
“O autor é recorrentemente referido como Pseudo-Xenofonte, principalmente na bibliografia francesa, italiana e espanhola. A tradição anglo-saxônica designa-o com o qualificativo de Velho Oligarca (Old Oligarch), que se tornou famoso; essa designação, no entanto, não contribui para o debate, já que não podemos inferir com certeza a idade ou a identidade do autor.”
O AUTOR DA CONSTITUIÇÃO DOS ATENIENSES
“A única voz contrária a esta tese na Antiguidade é a de Demétrio de Magnésia, historiador contemporâneo de Cícero, citado por Diógenes Laércio 2.57, no capítulo sobre a vida de Xenofonte. Nesta controversa passagem, a autoria da Constituição dos Atenienses e da Constituição dos Lacedemônios é posta em dúvida.”
“É ponto pacífico entre os filólogos modernos que o estilo de X diverge em quase tudo do de Xenofonte. Bowersock 1968 461 abre a introdução de sua edição ao texto, caracterizando-o como tantalizingly inept, para em seguida adicionar repetitive e awkward à lista dos seus traços estilísticos. Em contrapartida, Xenofonte é visto como um mestre da prosa ática, de linguagem refinada e clara.”
“Xenofonte, o Velho, foi membro do círculo socrático e é referido poucas vezes em obras conhecidas, como possivelmente em D.L. 2.59. Este personagem é conhecido por ter caído do cavalo e ter sido salvo por Sócrates durante a batalha de Délio (D. L. 2.22-23). Normalmente é confundido com o historiador Xenofonte, não só por este episódio da queda, mas também por ser indicado como o autor dos Hellenika. Sua idade, sua aproximação com os círculos filosóficos de Atenas e o fato de usar o mesmo nome são os argumentos positivos para a determinação de Xenofonte, o Velho, como autor da Constituição dos Atenienses.
Xenofonte de Melite, filho de Eurípides, foi um nobre que ocupou a hiparquia em 446 a.C. e a estrategia em 440 a.C., tendo morrido em batalha como estratego em 429 a.C. durante a campanha na Bótica (Thuc. 2.79). A coincidência do nome e o fato de este Xenofonte ter sido tanto estratego como hiparco são os grandes argumentos para o aceitar como autor da obra, pois, em 1.3, X afirma que a hiparquia e a estrategia são as únicas posições que ainda eram ocupadas somente pela classe alta.”
“Tucídides, o autor da História da Guerra do Peloponeso, aparece como uma hipótese pela semelhança dos temas abordados. A longa explanação sobre o poder naval de Atenas nos discursos atribuídos a Péricles guarda semelhança com a descrição do império naval na Constituição dos Atenienses.”
“A mais célebre destas comparações é a do capítulo 1.11, entre o direito de um espartano de surrar um escravo, seja ele sua propriedade ou não, e a atitude dos Atenienses de não aplicar castigos físicos aos escravos.”
“Há de se reter em mente que o autor é provavelmente um oligarca, que possivelmente ocupou uma função militar (estrategia, hiparquia ou trierarquia), que dividiu com Tucídides opiniões em voga na época, conviveu com círculos sofistas e, provavelmente, estava incluído nas conversações dos oligarcas que tramaram o golpe de 411 a.C. e o dos trinta tiranos de 404 a.C.”
“podemos afirmar, com bastante segurança, que o autor é um Ateniense, pois utiliza a primeira pessoa diversas vezes quando refere-se a esse povo”
“Contudo, Pseudo-Xenofonte abre exceções e refere-se aos Atenienses na terceira pessoa, quando explicita sua desaprovação com relação a uma decisão por eles tomada, como, por exemplo (1.1): Quanto à forma de governo dos Atenienses, que escolheram este tipo de constituição, eu não a aprovo.”
“mas, quando, por exemplo, a frota ateniense é citada, observamos uma aproximação do autor, pelo uso da primeira pessoa, como nesta frase: Exatamente destes materiais são feitos os meus navios (2.11).”
“Frisch 1942 187 sugere que o autor está fora da Ática no momento de composição da obra, que foi exilado ou banido, e se dirige a oligarcas de outra cidade. A argumentação de Frisch baseia-se no uso excessivo da palavra autothi que indica um distanciamento; o nome ‘Atenas’ é constantemente substituído por autothi ao invés de enthade. A tradução seria, então, ‘lá’ e não ‘aqui’ como se esperava de alguém que escreve dentro da cidade de Atenas.”
“Se detesta o fato de o povo ter poder de decisão, por outro lado exalta o poder da armada democrática. Como conciliar este paradoxo?”
“A teoria do diálogo como gênero do texto nunca foi levada a sério, porém a base de sua argumentação é mantida. De fato, existem duas vozes em enorme contraste.”
“por um lado, o Velho Oligarca é extremamente apegado às suas convicções morais, que o aproximam da nobreza e da oligarquia, provavelmente pela sua história de vida; mas, por outro, é fascinado pela magnitude bélica que a democracia pode oferecer, através de sua pujante marinha.”
“É um homem culto, frequenta os círculos intelectuais e está familiarizado com as ideias dos sofistas, apesar de não ser um deles.”
A DATA DA CONSTITUIÇÃO DOS ATENIENSES
“Para todos os efeitos, consideramos que o texto foi escrito entre 431 e 424 a.C., concordando com as argumentações de Ste Croix 1972 309 e Marr e Rhodes 2008 6.”
“A única possibilidade de o texto não ter sido escrito durante o século V a.C. é a de termos em mãos um exercício de escola ou uma reconstituição histórica da Atenas do tempo de Péricles, tese defendida por Belot 1880.”
“Pseudo-Xenofonte descreve uma Atenas soberana nos mares, que desfruta de um sistema democrático estável e pujante. O que nos leva a acreditar que o opúsculo foi escrito antes da derrota naval na Sícilia (413 a.C) e depois da transferência da maior parte dos poderes do Areópago para a assembleia e para o conselho.”
“o Velho Oligarca refere algumas práticas imperialistas atenienses, tais como a perseguição às elites das cidades aliadas e o pagamento dos tributos em dinheiro ao invés do fornecimento de serviço militar. Esta mudança de comportamento da hegemônica Atenas é observada, principalmente, depois de 454 a.C., quando o tesouro da Liga de Delos é transferido para o seu território e as cidades aliadas deixam de fornecer apoio militar e passam a pagar seus impostos em dinheiro.”
“Por fim, se esta ou qualquer data antes de 420 a.C. for correta, podemos afirmar que este é o mais antigo exemplar de prosa ática e o primeiro dedicado a uma crítica do sistema democrático (Marr e Rhodes 2008 6).”
A NATUREZA DA CONSTITUIÇÃO DOS ATENIENSES
“A única certeza sobre a forma da Constituição dos Atenienses é a de que não se trata de poesia por não obedecer a um esquema métrico. De resto, estamos no campo das especulações. O enigmático texto pode corresponder a uma carta pessoal, um discurso público, um texto recreativo para ser lido em grupos pequenos, um tratado argumentativo político, um tratado teórico sobre guerra e até mesmo um diálogo. Há uma longa discussão sobre as propriedades estilísticas do texto que continua em aberto.”
“Kirchhoff 1874 acreditava que o tratado estava demasiadamente fragmentado para ser lido como um texto completo, como por exemplo os parágrafos 1.13, sobre as casas de banho e palestras, e 2.9, sobre os sacrifícios e festivais, que parecem completamente deslocados dentro do contexto em que ocorrem (Frisch 1942 42); mas a partir da edição de Kalinka 1913, as dúvidas sobre a unicidade da obra foram postas de lado e hoje o texto é entendido como uma unidade, mesmo que apresente problemas de conexão entre os tópicos.”
“Roscher 1841, pioneiro da crítica moderna do tratado, acreditava estar diante de um relatório feito ao governo espartano, que explicava o sistema político ateniense. Belot 1880 considerava o texto uma carta pessoal de Xenofonte ao rei Agesilau, com o objetivo de levar ao rei espartano informações sobre a marinha e o sistema político atenienses. As duas hipóteses podem ser refutadas pelo argumento defendido por Frisch 1942 e que encontra aceitação entre a maioria dos críticos da obra. Para o autor dinamarquês, o texto tem um caráter oral muito bem marcado.”
“Distinguem-se as Politeiai escritas na Grécia dos séculos V e IV a.C em três grupos: filosófico, científico e político. A República de Platão e os livros 6 e 7 da Política de Aristóteles são os melhores exemplos de Constituições filosóficas, pois tratam a questão da disputa entre as constituições de maneira utópica e idealizada. A Constituição dos Atenienses de Aristóteles é a melhor representante do tipo científico, já que trabalha com uma suposta imparcialidade e analisa diacronicamente as instituições políticas de Atenas. O último tipo abarca obras como os discursos de Péricles, especialmente a oração fúnebre, onde Tucídides recria o discurso do estratego ateniense enfatizando o modelo político democrático e os efeitos concretos na vida política e militar de Atenas decorrentes deste modelo. O texto que estudamos certamente pertence ao último tipo.”
“Diferentemente da obra homônima de Aristóteles, Pseudo-Xenofonte não está interessado em analisar sistematicamente a transição das sucessivas formas de governo de Atenas, nem o seu mecanismo de funcionamento.”
“Pseudo-Xenofonte não tem interesse no futuro e na sobrevivência da sua obra. Fala do presente e tem intenção de influenciar o contexto em que vive. Seus escritos, provavelmente, não teriam sobrevivido se não tivessem sido, por algum motivo, adicionados ao corpus de Xenofonte.”
“Como também não tem preocupações artísticas, como Eurípides e Aristófanes, que contribuíram igualmente para o debate sobre os diferentes tipos de constituição, não necessita de esconder as palavras na boca de personagens. O Velho Oligarca não precisa ser sutil, não precisa emocionar sua plateia, nem produzir um espetáculo. Está livre para ir direto ao ponto.”
“A escrita de Politeiai passou a ser um gênero literário. Foram atribuídas à escola de Aristóteles 158 Politeiai, todas perdidas, exceto a mais célebre, a Constituição dos Atenienses. Crítias também escreveu, em verso, diversas Politeiai, tendo chegado a nós alguns fragmentos das Constituição dos Atenienses, Constituição dos Lacedemônios e Constituição dos Tessálios. Xenofonte deu o seu contributo ao gênero das Constituições e escreveu a Constituição dos Lacedemônios, obra na qual relata o modo de vida, sistema militar e organização política dos Espartanos.”
“o nome do tratado deve ter sido estabelecido posteriormente”
“O teatro trágico de Eurípides e cômico de Aristófanes dialogam com esta pequena obra em termos de vocabulário político e de conteúdo. Além deles, Heródoto 3.80-83 também divide o mesmo interesse político ao narrar a discussão dos nobres persas sobre a melhor forma de constituição. Procederemos a uma série de breves comparações, com o objetivo de evidenciar as divergências e convergências das obras citadas até agora com o opúsculo de Pseudo-Xenofonte.”
“Megabizo, o defensor da oligarquia no debate de Heródoto, certamente poderia fazer parte do clube de aliados políticos de Pseudo-Xenofonte. Eles dividem a mesma visão moral: existem pessoas melhores que outras e são elas que devem estar no poder. Servem-se dos mesmos argumentos para diminuir seus adversários – a falta de utilidade e a ignorância do povo. Diferenciam-se por questões práticas. Megabizo lança um voraz ataque à democracia e Pseudo-Xenofonte trabalha a possibilidade de se viver bem numa democracia. A diferença é que o Velho Oligarca tem uma democracia concreta para basear suas críticas positivas, enquanto que Megabizo raciocina apenas no plano das ideias.
O último a falar é Dario, vencedor do debate e defensor da monarquia. O futuro rei dos Persas deslegitima a oligarquia e a democracia usando um só argumento: os homens tendem a polemizar-se uns contra os outros, e desta disputa pelo primeiro lugar nascem discórdias que farão, eventualmente, com que retornem ao estado de monarquia. Pseudo-Xenofonte nada tem a dizer sobre a monarquia, pois não está interessado em debates teóricos; e, como sua realidade exige uma reflexão sobre o posicionamento político de oligarcas dentro de uma democracia, a monarquia parece uma alternativa distante demais para ser discutida neste pequeno texto.”
CONSTITUIÇÃO DOS ATENIENSES
“1.1. Quanto à forma de governo dos Atenienses, que escolheram este tipo de constituição, eu não a aprovo pela seguinte razão: aqueles que a escolheram optaram por privilegiar a ralé ao invés da elite. Eis por que a não aprovo. Mas já que decidiram desta maneira, pretendo demonstrar como eles conseguem preservar a sua constituição e resolver os restantes assuntos de Estado, mesmo recebendo a crítica dos outros gregos.”
(*) “No caso da strategia existiam dez vagas a serem preenchidas. Cada candidato apresentava-se e, em seguida, era submetido à aprovação dos membros da assembleia. Caso o candidato contasse com a aprovação da maioria, era incluído entre os dez strategoi. Se os dez postos já estivessem ocupados e outro candidato se apresentasse, o novo postulante deveria apontar contra qual dos strategoi entraria no pleito. Estabelecidos os dois candidatos, eles eram submetidos à escolha da assembleia novamente (Hansen 1993 272-273).”
“1.5. Em qualquer parte do mundo, a classe alta opõe-se à democracia. Nas camadas superiores há pouca desordem e injustiça e existe a preocupação com a preservação da boa moral, enquanto que entre o povo reina a ignorância, a desordem e a perversidade; a pobreza faz com que se cometam atos censuráveis, sendo a falta de educação e a ignorância de alguns o resultado da falta de dinheiro.”
“Se fossem os da elite a falar e a legislar, seria excelente para os do nível deles, mas mau para os membros do povo. Atualmente, porém, qualquer um da ralé que queira pode levantar-se e usar da palavra para defender os seus interesses e os do seu grupo.”
“1.8. A cidade pode não ser a ideal por praticar estas regras, mas a democracia está mais protegida desta maneira. Pois o povo não deseja um governo que o escravize, por melhor que ele seja. O que o povo deseja é ser livre e comandar, pouco importa se o governo for ruim”
“1.9. Mas se é um bom governo que procuras, verás, em primeiro lugar, os mais hábeis estabelecendo as leis no seu próprio interesse; daí resulta que os membros da elite castigarão os da ralé e decidirão sobre os assuntos da cidade, sem permitirem que os desequilibrados decidam, falem ou sequer tomem parte na assembleia. Em virtude destas medidas, que são excelentes, o povo sucumbiria rapidamente à escravidão.”
“1.10. Quanto aos escravos e aos metecos, [estrangeiros] tamanha é a impunidade em Atenas que lá não é permitido castigá-los fisicamente e o escravo não te dá passagem. Vou explicar por que existe este costume local: se fosse legítimo o homem livre bater no escravo, no meteco ou no liberto, corria-se o risco permanente de surrar um Ateniense, acreditando tratar-se de um escravo; é que lá o povo não se veste melhor do que os escravos e metecos e sua aparência também em nada é melhor.
1.11. Se há quem se surpreenda com o fato de que lá é concedido aos escravos viver uma vida confortável e até, em alguns casos, em grande estilo, devo dizer que também esta prática segue claramente um propósito. Pois onde quer que haja um poderio naval é necessário, por razões financeiras, depender dos escravos: pode assim receber-se parte dos rendimentos auferidos e lucrar com a sua alforria. Onde os escravos são ricos, não há condições que meu escravo tenha medo de ti.”
“A cidade precisa dos metecos por suas diversas competências e para a manutenção da frota. Por este motivo agimos com razão ao darmos liberdade de expressão aos metecos.”
“1.13. Em Atenas, o povo considera fora de moda os que praticam exercícios físicos e música, não por entender estas atividades como de mau gosto, mas porque ele mesmo não tem condições de praticá-las. Quanto aos encargos públicos da coregia, dos concursos atléticos e do apetrechamento das trirremes, é sabido que são os ricos que asseguram os coros, organizam as competições desportivas e equipam as trirremes, mas é o povo quem toma parte no coro ou nas competições atléticas e quem tripula as embarcações. O povo entende que deve ser pago por cantar, correr, dançar e tripular os navios, de forma a enriquecer cada vez mais e os ricos ficarem cada vez mais pobres. Nos tribunais preocupam-se mais em acumular vantagens para si do que com a justiça propriamente dita.”
“os Atenienses navegam por aí em permanentes denúncias; odeiam a elite, dentro do princípio de que quem comanda é necessariamente odiado pelos comandados. Ora se os ricos e a elite têm força nas cidades, o império do povo de Atenas durará pouquíssimo tempo. Por esta razão privam a elite dos seus direitos políticos, confiscam-lhes o dinheiro, exilam-nos, matam-nos, enquanto intercedem a favor da ralé. A elite ateniense socorre a elite das cidades aliadas, por perceber que é no seu próprio interesse que protege os membros da classe alta das outras cidades.”
“1.19. Ademais, por causa das possessões em terras estrangeiras e das funções públicas que exercem no exterior, os Atenienses e seus escravos aprendem, sem se dar conta, a manejar o remo. Afinal, um homem que navega com frequência acaba por aprender a usar o remo, assim como seu escravo, além de se familiarizar com os termos náuticos.”
“2.1. A infantaria pesada ateniense, que não tem uma boa reputação, foi estabelecida da seguinte forma: eles sabem que sua infantaria é inferior em número e força à de seus inimigos, mas sabem também que é mais poderosa que a de seus aliados pagadores de impostos. Consideram, então, que o poder da infantaria é suficiente enquanto forem superiores aos seus aliados.”
“2.3. Das cidades continentais sob o domínio de Atenas, as maiores são controladas pelo medo e as menores por pura necessidade, pois não existe cidade que não precise importar ou exportar produtos, e para tal é necessário haver o consentimento dos senhores do mar.
2.4. Ademais, é permitido aos talassocratas fazer o que os donos da terra só ocasionalmente conseguem: devastar a terra dos mais poderosos; pois lhes é possível navegar junto à costa onde há poucos ou nenhum inimigo e, caso sejam atacados, podem embarcar e zarpar. Quem realiza tal manobra enfrenta menos dificuldades do que quem envia auxílio usando a infantaria.”
“2.7. Se se considerar também os assuntos de menor importância, em primeiro lugar, os Atenienses, em razão do domínio marítimo, misturaram-se com outros povos e descobriram produtos de consumo variados, pois o que há de especialidades na Sícilia ou na Itália, no Chipre ou no Egito, na Lídia ou no Ponto, no Peloponeso ou seja onde for, tudo isso acaba reunido em um só lugar, em virtude do império marítimo.
2.8. Mais ainda, por ouvirem todos os dialetos, acabaram por adotar características de uns e de outros. Enquanto que os outros Gregos, em grande parte, conservam o seu próprio dialeto, modo de vida e maneira de vestir, os Atenienses usam uma mistura de tudo quanto é grego e bárbaro.”
(*) “Um exemplo da influência estrangeira, em termos de moda seguida pelos Atenienses nobres, é o abandono das túnicas de linho em favor de uma vestimenta mais modesta e a utilização de cabelos longos presos, seguindo a tendência espartana (Thuc. 1.6.3).”
“a cidade realiza muitos sacrifícios, à custa do erário público, mas é o povo que aproveita os banquetes, dividindo entre si as partes dos animais sacrificados”
“Nenhuma outra cidade possui estes dois tipos de produtos: não há na mesma cidade madeira e linho. A cidade que é rica em linho está implantada em território plano e sem madeira, do mesmo modo que da mesma cidade não vêm cobre e ferro, nem há duas ou três destas matérias-primas em uma mesma cidade, mas uma encontra-se em uma cidade e outra em outra.”
“2.13. Mais ainda: junto de toda costa continental há um promontório ou uma ilha posicionada de frente para terra firme ou um estreito, sendo assim possível aos senhores do mar [por mais que residentes também em terra firme] atracar em um destes lugares e pilhar os moradores do continente.”
“Quando algo mau acontece em decorrência das políticas do povo, logo culpam um punhado de homens como oposicionistas, pelos resultados catastróficos das suas políticas. Pelo contrário, se o resultado é positivo, atribuem a si mesmos os méritos.”
“poucos são os pobres e populares a sofrer ataques nas comédias, e quando o são é por terem o perfil de fofoqueiros ou por tentarem tirar vantagem do povo. Nesse caso, o povo não se incomoda em vê-los ridicularizados pela comédia.”
“2.19. Afirmo, então, que o povo ateniense sabe exatamente quais são os cidadãos de bem e quais os de índole duvidosa; apesar disso prefere idolatrar os que são mais convenientes e úteis aos seus interesses, mesmo que sejam de índole duvidosa; o povo tende a odiar os cidadãos de bem, pois não acredita que a excelência inata destes homens possa trazer algum benefício para si, pelo contrário, acredita que será danosa.”
“2.20. Pessoalmente, perdoo o povo pela democracia, pois todos os que procuram o melhor para si devem ser perdoados. Por outro lado, aquele que não pertence ao povo e no entanto escolheu fazer sua vida política numa cidade democrática e não numa oligárquica, assumiu uma atitude irregular, com a consciência de que, para uma pessoa de má índole, é mais fácil passar desapercebido em uma cidade democrática do que numa oligárquica.”
“por vezes nem o Conselho nem a Assembleia chegam a uma conclusão sobre os assuntos de um particular, mesmo que ele tenha esperado durante um ano. Mas isto acontece em Atenas unicamente pelo excesso de processos, porque não é possível deliberar-se sobre todos os casos e despachá-los.”
“3.3. Ouve-se dizer: se alguém for ao Conselho ou à Assembleia com dinheiro na mão, tem o seu processo tramitado. Eu concordo que muito se resolve em Atenas com dinheiro e mais ainda resolver-se-ia se mais dinheiro fosse gasto. Mas a verdade é que a cidade não conseguiria despachar todos os assuntos encaminhados nem se dessem aos conselheiros e membros da Assembleia todo o ouro e a prata do mundo.”
(*) “Os processos privados (dikas) e públicos (graphas) distinguem-se por terem acusadores diferentes. Enquanto que nos processos privados o acusador tem de ser obrigatoriamente a pessoa lesada, nos processos públicos qualquer cidadão pode assumir o papel de acusador. O processo de Sócrates, por exemplo, foi um processo público. A prestação de contas (euthyna) era a avaliação oficial que a Assembleia fazia de cada funcionário público ao término de seu mandato (Varona 2009 128-130).”
(*) “As Targélias, festival em honra de Apolo, aconteciam no sétimo dia do mês que leva seu nome (thargelion – entre maio e junho). Possuíam uma relação estreita com a fertilidade. Era durante este festival que se procedia também à purificação da cidade: dois homens eram alimentados às custas da cidade e logo em seguida eram expulsos, simbolizando a eliminação do mal em Atenas (Simon 1983 76-79). As Panateneias eram celebradas anualmente em honra de Atenas durante o hekatombaion (entre julho e agosto). É considerado o festival mais importante de Atenas e era composto por uma vigília, procedida por uma corrida noturna de tochas; o dia seguinte iniciava com uma grande procissão com a finalidade de levar à deusa o peplos; realizava-se então uma hecatombe e, em último lugar, tinham lugar as competições, destacando-se os concursos de música, regatas, corridas de carro e as provas atléticas (Rocha Pereira 2006 350-355).”
(*) “A composição dos júris em Atenas seguia um processo complexo e ao mesmo tempo prático. Para ser apto ao cargo, o voluntário deveria ter pelo menos trinta anos e ser cidadão. Do universo de voluntários, eram selecionados, por meio da sorte, seis mil juízes por ano; estes compunham a eliaia, termo que designava tradicionalmente a própria Assembleia dos cidadãos e depois passou a referir-se somente ao conjunto dos jurados. A partir do grupo dos seis mil, eram formados, aleatoriamente (através de um complexo processo descrito por Arist. Ath. 63-67), os pequenos tribunais deliberativos. Um tribunal contava, normalmente, com um grupo que variava de quinhentos a dois mil jurados, dependendo da importância do caso em questão. O pagamento pelo serviço de jurado, instituído por Péricles (Arist. Ath. 27.3), era de dois óbolos por dia, e depois foi aumentado para três óbolos diários, por influência de Cléon (MacDowell 1978 33-40).”
“3.8. Ademais, é preciso ter em conta que os Atenienses têm de organizar festivais, durante os quais os julgamentos ficam suspensos, e organizam o dobro de festivais que as outras cidades. E estou apenas a considerar os equivalentes aos que a cidade organiza, e que são pouquíssimos. Nestas circunstâncias entendo que não há outra forma de lidar com os negócios públicos em Atenas se não da maneira como eles o fazem nos dias de hoje. Exceto por algum detalhe que possa ser suprimido ou adicionado, mas não é possível mudar muito sem afetar a democracia.”
“3.12. Há quem pense que nenhuma outra cidade promove tanto a cassação injusta dos direitos de cidadão. Eu, por minha parte, sustento entretanto que são poucos os que são cassados injustamente, embora haja alguns.”
GLOSSÁRIO:
cleruco: “Cidadão que, na antiga Grécia, recebia um lote de terreno em um país conquistado e comumente para lá emigrava sem perda da cidadania.”
talassocracia: “Estado cujo poder reside especialmente no domínio marítimo.”
“Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu em casa às quatro e quinze da tarde. Havia mais de vinte anos que isso acontecia.”
“Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos que o julgavam esquisito e misantropo. Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a única desafeição que merecera, fora a do doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia admitir que Quaresma tivesse livros: ‘Se não era formado, para quê? Pedantismo!’”
– Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, com posição, respeitável, como você é, andar metido com esse seresteiro, um quase capadócio—não é bonito!
– Mas você está muito enganada, mana. É preconceito supor-se que todo homem que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ela pede. Nós é que temos abandonado o gênero, mas ele já esteve em honra, em Lisboa, no século passado, com o Padre Caldas, que teve um auditório de fidalgas. Beckford, um inglês notável, muito o elogia.
“Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza! Lá estavam Hans Staden, o Jean de Léry, o Saint-Hilaire, o Martius, o Príncipe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o Agassiz, Couto de Magalhães e se se encontravam também Darwin, Freycinet, Cook, Bougainville e até o famoso Pigafetta, cronista da viagem de Magalhães, é porque todos esses últimos viajantes tocavam no Brasil, resumida ou amplamente.”
“Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da Pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar, foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa.”
“Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha predileção por esta ou aquela parte de seu país, tanto assim que aquilo que o fazia vibrar de paixão não eram só os pampas do Sul com o seu gado, não era o café de São Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a beleza da Guanabara, não era a altura da Paulo Afonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o ímpeto de Andrade Neves — era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro.”
“Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este rival do ‘seu’ rio que ele mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava agitado e malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do Nilo.”
“Todas as manhãs, antes que a ‘Aurora, com seus dedos rosados abrisse caminho ao louro Febo’, ele se atracava até ao almoço com o Montoya, Arte y diccionario de la lengua guaraní ó más bien tupí, e estudava o jargão caboclo com afinco e paixão.”
“e quando não tinha descoberta a trazer, entrava pela corografia, contava o curso dos rios, a sua extensão navegável, os melhoramentos insignificantes de que careciam para se prestarem a um franco percurso da foz às nascentes. Ele amava sobremodo os rios; as montanhas lhe eram indiferentes. Pequenas talvez…”
“Este Quaresma! Que cacete! Pensa que somos meninos de tico-tico… Arre! Não tem outra conversa”
“Porque o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo dia jantar e almoço, muito feijão, muita carne-seca, muito ensopado — aí, julga ela, é que está a pedra de toque da nobreza, da alta linha, da distinção.”
“Ricardo, depois de ser poeta e o cantor dessa curiosa aristocracia, extravasou e passou à cidade, propriamente. A sua fama já chegava a São Cristóvão e em breve (ele o esperava) Botafogo convidá-lo-ia, pois os jornais já falavam no seu nome e discutiam o alcance de sua obra e da sua poética…”
“Como em tudo o mais, o major era em jardinagem essencialmente nacional. Nada de rosas, de crisântemos, de magnólias — flores exóticas; as nossas terras tinham outras mais belas, mais expressivas, mais olentes, como aquelas que ele tinha ali.”
– Oh! Por Deus, minha senhora! Eu só canto as minhas. O Bilac — conhecem? – quis fazer-me uma modinha, eu não aceitei; você não entende de violão, ‘Seu’ Bilac.
“Nada entendia de guerras, de estratégia, de tática ou de história militar; a sua sabedoria a tal respeito estava reduzida às batalhas do Paraguai, para ele a maior e a mais extraordinária guerra de todos os tempos.”
“Que é um dentista? perguntava ele de si para si. Um cidadão semiformado, uma espécie de barbeiro. Preferia um oficial, tinha montepio e meio soldo; mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito, e ele acedeu.”
– Nem se podia esperar outra coisa, disse o doutor Florêncio. Aqueles livros, aquela mania de leitura…
– Pra que ele lia tanto? indagou Caldas.
– Telha de menos, disse Florêncio.
Genelício atalhou com autoridade:
– Ele não era formado, para que meter-se em livros?
– É verdade, fez Florêncio.
– Isto de livros é bom para os sábios, para os doutores, observou Sigismundo.
– Devia até ser proibido, disse Genelício, a quem não possuísse um título “acadêmico” ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não acham?
– Decerto, disse Albernaz.
– Decerto, fez Caldas.
“O primeiro fato surpreendeu, mas vieram outros e outros, de forma que o que pareceu no começo uma extravagância, uma pequena mania, se apresentou logo em insânia declarada.”
“A brusca popularidade de Quaresma, o seu sucesso e nomeada efêmera irritaram os seus colegas e superiores. Já se viu! dizia o secretário. Este tolo dirigir-se ao Congresso e propor alguma coisa! Pretensioso! O diretor, ao passar pela secretaria, olhava-o de soslaio e sentia que o regulamento não cogitasse do caso para lhe infligir uma censura. O colega arquivista era o menos terrível, mas chamou-o logo de doido.”
“Não era a primeira vez que ela vinha ali. Mais de uma dezena já subira aquela larga escada de pedra, com grupos de mármores de Lisboa de um lado e do outro, a Caridade e Nossa Senhora da Piedade; penetrara por aquele pórtico de colunas dóricas, atravessara o átrio ladrilhado, deixando à esquerda e à direita, Pinel e Esquirol, meditando sobre o angustioso mistério da loucura; subira outra escada encerada cuidadosamente e fora ter com o padrinho lá em cima, triste e absorvido no seu sonho e na sua mania. Seu pai a trazia às vezes, aos domingos, quando vinha cumprir o piedoso dever de amizade, visitando Quaresma. Há quanto tempo estava ele ali? Ela não se lembrava ao certo; uns três ou quatro meses, se tanto. Só o nome da casa metia medo. O hospício!”
“A saúde não depende dela e há muitos que parecem até adquirir mais força de vida, prolongar a existência, quando ela se evola não se sabe por que orifício do corpo e para onde.”
“Com o seu padrinho, como fora? A princípio, aquele requerimento… Mas que era aquilo? Um capricho, uma fantasia, coisa sem importância, uma idéia de velho sem conseqüência. Depois, aquele ofício? Não tinha importância, uma simples distração, coisa que acontece a cada passo… E enfim? A loucura declarada, a torva e irônica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra, que nos rebaixa… Enfim, a loucura declarada, a exaltação do eu, a mania de não sair, de se dizer perseguido, de imaginar como inimigos, os amigos, os melhores. Como fora doloroso aquilo! A primeira fase do seu delírio, aquela agitação desordenada, aquele falar sem nexo, sem acordo com que se realizava fora dele e com os atos passados, um falar que não se sabia donde vinha, donde saía, de que ponto do seu ser tomava nascimento!”
“Como é fácil na vida tudo ruir! Aquele homem pautado, regrado, honesto, com emprego seguro, tinha uma aparência inabalável; entretanto bastou um grãozinho de sandice…”
“No bonde vinham outros visitantes e todos não tardaram em saltar no portão do manicômio. Como em todas as portas dos nossos infernos sociais, havia de toda gente, de várias condições, nascimentos e fortunas. Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a moléstia passam também a sua rasoura pelas distinções que inventamos.”
“É um trabalho árduo, esse de liquidar uma aposentadoria, como se diz na gíria burocrática. Aposentado o sujeito, solenemente por um decreto, a coisa corre uma dezena de repartições e funcionários para ser ultimada. Nada há mais grave do que a gravidade com que o empregado nos diz; ainda estou fazendo o cálculo; e a coisa demora um mês, mais até, como se se tratasse de mecânica celeste.”
“De resto, ele agora sofria particularmente — sofria na sua glória, produto de um lento e seguido trabalho de anos. É que aparecera um crioulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar força e já era citado ao lado do seu. Aborrecia-se com o rival, por dois fatos: primeiro: pelo sujeito ser preto; e segundo: por causa das suas teorias. Não é que ele tivesse ojeriza particular aos pretos. O que ele via no fato de haver um preto famoso tocar violão, era que tal coisa ia diminuir ainda mais o prestígio do instrumento.”
“Sem hábito de leitura e de conversa, sem atividade doméstica qualquer, ela passava os dias deitada, sentada, a girar em torno de um mesmo pensamento: não casar. Era-lhe doce chorar.”
“Não havia três meses que viera habitar aquela casa, naquele ermo lugar, a duas horas do Rio, por estrada de ferro, após ter passado seis meses no hospício da Praia das Saudades. Saíra curado? Quem sabe lá? Parecia; não delirava e os seus gestos e propósitos eram de homem comum embora, sob tal aparência, se pudesse sempre crer que não se lhe despedira de todo, já não se dirá a loucura, mas o sonho que cevara durante tantos anos”
“Embora nunca tivesse sido alegre, a sua fisionomia apresentava mais desgosto que antes, muito abatimento moral, e foi para levantar o ânimo que se recolheu àquela risonha casa de roça, onde se dedicava a modestas culturas.”
“Como é que toda a gente queria ser empregado público, apodrecer numa banca, sofrer na sua independência e no seu orgulho? Como é que se preferia viver em casas apertadas, sem ar, sem luz, respirar um ambiente epidêmico, sustentar-se de maus alimentos, quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz, farta, livre, alegre e saudável? E era agora que ele chegava a essa conclusão, depois de ter sofrido a miséria da cidade e o emasculamento da repartição pública, durante tanto tempo!”
“Encomendou livros nacionais, franceses, portugueses; comprou termômetros, barômetros, pluviômetros, higrômetros, anemômetros. Vieram estes e foram arrumados e colocados convenientemente.”
“A irmã, mais velha que ele, não partilhava aquele seu entusiasmo pelas coisas da roça. Considerava-o silenciosa, e, se viera viver com ele, não foi senão pelo hábito de acompanhá-lo. Decerto, ela o estimava, mas não o compreendia. Não chegava a entender nem os seus gestos nem a sua agitação interna. Por que não seguira ele o caminho dos outros? Não se formara e se fizera deputado? Era tão bonito… Andar com livros, anos e anos, para não ser nada, que doideira!”
“Estava tirando sardinha com mão de gato… Aquilo devia ser um ambicioso matreiro; era preciso cortar as asas daquele ‘estrangeiro’, que vinha não se sabe donde!”
“Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa coisa em matéria de edificação da cidade. A topografia do local, caprichosamente montuosa, influiu decerto para tal aspecto, mais influíram, porém, os azares das construções. Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado.”
“Num trecho, há casas amontoadas umas sobre outras numa angústia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva.”
“Não há nos nossos subúrbios coisa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades européias, com as suas vilas de ar repousado e satisfeito, as suas estradas e ruas macadamizadas e cuidadas, nem mesmo se encontram aqueles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque os nossos, se os há, são em geral pobres, feios e desleixados.”
“Olhe, major: eu gosto muito de violão, mesmo dedico a minha vida ao seu levantamento moral e intelectual, entretanto, se amanhã o presidente dissesse: ‘Seu Ricardo, você vai ser deputado’, o senhor pensa que eu não aceitava, sabendo perfeitamente que não podia mais desferir os trenos do instrumento?”
ALINHADO COM MONTEIRO LOBATO RECLAMANDO DO CABOCLO:“Havendo tanto barro, tanta água, por que as casas não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquele sapê sinistro e aquele ‘sopapo’ que deixava ver a trama de varas, como o esqueleto de um doente. Por que, ao redor dessas casas, não havia culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão fácil, trabalho de horas? E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um carneiro. Por quê? Mesmo nas fazendas, o espetáculo não era mais animador. Todas soturnas, baixas, quase sem o pomar olente e a horta suculenta. A não ser o café e um milharal, aqui e ali, ela não pôde ver outra lavoura, outra indústria agrícola. Não podia ser preguiça só ou indolência. Para o seu gasto, para uso próprio, o homem tem sempre energia para trabalhar. As populações mais acusadas de preguiça, trabalham relativamente. Na África, na Índia, na Cochinchina, em toda parte, os casais, as famílias, as tribos, plantam um pouco, algumas coisas para eles. Seria a terra? Que seria? E todas essas questões desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e também a sua piedade e simpatia por aqueles párias, maltrapilhos, mal alojados, talvez com fome, sorumbáticos!… § Pensou em ser homem. Se o fosse passaria ali e em outras localidades meses e anos, indagaria, observaria e com certeza havia de encontrar o motivo e o remédio. Aquilo era uma situação do camponês da Idade Média e começo da nossa: era o famoso animal de La Bruyère que tinha face humana e voz articulada…”
– Terra não é nossa… E “frumiga”?… Nós não “tem” ferramenta… isso é bom para italiano ou “alamão”, que governo dá tudo… Governo não gosta de nós…
“Em nome do Marechal Floriano, qualquer oficial, ou mesmo cidadão, sem função pública alguma, prendia e ai de quem caía na prisão, lá ficava esquecido, sofrendo angustiosos suplícios de uma imaginação dominicana. Os funcionários disputavam-se em bajulação, em servilismo… Era um terror, um terror baço, sem coragem, sangrento, às ocultas, sem grandeza, sem desculpa, sem razão e sem responsabilidades…”
O FASCISMO EXISTE EM TODAS AS ÉPOCAS: “Os militares estavam contentes, especialmente os pequenos, os alferes, os tenentes e os capitães. Para a maioria a satisfação vinha da convicção de que iam estender a sua autoridade sobre o pelotão e a companhia, a todo esse rebanho de civis; mas, em outros muitos havia sentimento mais puro, desinteresse e sinceridade. Eram os adeptos desse nefasto e hipócrita positivismo, um pedantismo tirânico, limitado e estreito, que justificava todas as violências, todos os assassínios, todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição necessária, lá diz ele, ao progresso e também ao advento do regime normal, a religião da humanidade, a adoração do grão-fetiche, com fanhosas músicas de cornetins e versos detestáveis, o paraíso enfim, com inscrições em escritura fonética e eleitos calçados com sapatos de sola de borracha!…”
“A matemática do positivismo foi sempre um puro falatório que, naqueles tempos, amedrontava toda gente. Havia mesmo quem estivesse convencido que a matemática tinha sido feita e criada para o positivismo, como se a Bíblia tivesse sido criada unicamente para a Igreja Católica e não também para a Anglicana.”
“O sono não tardava a vir ao fim da quinta página… Isso era o diabo! Deu em procurar os livros da mulher. Eram romances franceses, Goncourt, Anatole France, Daudet, Maupassant, que o faziam dormir da mesma maneira que os tratados. Ele não compreendia a grandeza daquelas análises, daquelas descrições, o interesse e o valor delas, revelando a todos, à sociedade, a vida, os sentimentos, as dores daqueles personagens, um mundo!”
“A simpatia dos desinteressados, da população inteira era pelos insurgentes. Não só isso sempre acontece em toda parte, como particularmente, no Brasil, devido a múltiplos fatores, há de ser assim normalmente.
Os governos, com os seus inevitáveis processos de violência e hipocrisias, ficam alheados da simpatia dos que acreditam nele; e demais, esquecidos de sua vital impotência e inutilidade, levam a prometer o que não podem fazer, de forma a criar desesperados, que pedem sempre mudanças e mudanças.”
FLORIANO O MOLENGÃO: “O seu entusiasmo por aquele ídolo político era forte, sincero e desinteressado. Tinha-o na conta de enérgico, de fino e supervidente, tenaz e conhecedor das necessidades do país, manhoso talvez um pouco, uma espécie de Luís XI forrado de um Bismarck. Entretanto, não era assim. Com uma ausência total de qualidades intelectuais, havia no caráter do Marechal Floriano uma qualidade predominante: tibieza de ânimo, e no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça comum, essa preguiça de nós todos; era uma preguiça mórbida, como que uma pobreza de irrigação nervosa, provinda de uma insuficiente quantidade de fluido no seu organismo. Pelos lugares que passou, tornou-se notável pela indolência e desamor às obrigações dos seus cargos.”
“Quem conhece a atividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão, de um Filipe II, de um Guilherme I, da Alemanha, em geral de todos os grandes homens de Estado, não compreende o descaso florianesco pela expedição de ordens, explicações aos subalternos, de suas vontades, de suas vistas.”
“A sua preguiça, a sua tibieza de ânimo e o seu amor fervoroso pelo lar deram em resultado esse ‘homem-talvez’ que, refratado nas necessidades mentais e sociais dos homens do tempo, foi transformado em estadista, em Richelieu e pôde resistir a uma séria revolta com mais teimosia que vigor, obtendo vidas, dinheiro e despertando até entusiasmo e fanatismo.”
“Não há dinheiro no Tesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação, assim como se faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais água.”
– Eu sirvo sim, sim, mas dêem-me o meu violão.
Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados:
– Restituam o violão ao cabo Ricardo!
“Alugavam-se binóculos e tanto os velhos como as moças, os rapazes como as velhas, seguiam o bombardeio como uma representação de teatro”
<A IDADE MÉDIA FOI O AUGE DA CIVILIZAÇÃO>: “Se a gente diz: ‘No tempo de Clotário, ele próprio, com suas mãos, atacou fogo na palhoça em que encerrava o seu filho Crame mais a mulher deste e filhos’ — o positivista objeta: ‘Ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente da igreja’. ‘São Luís’, diremos logo nós, ‘quis executar um senhor feudal porque mandou enforcar três crianças que tinham morto um coelho nas suas matas’. Objeta o fiel: ‘Você não sabe que a nossa Idade Média vai até o aparecimento da Divina Comédia? São Luís já era a decadência’… Citam-se as epidemias de moléstias nervosas, a miséria dos campônios, as ladroagens a mão armada dos barões, as alucinações do milênio, as cruéis matanças que Carlos Magno fez aos saxões; eles respondem: uma hora que ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente moral da igreja; outra que ele já tinha desaparecido.”
“O casamento já não é mais amor, não é maternidade, não é nada disso: é simplesmente casamento, uma coisa vazia, sem fundamento nem na nossa natureza nem nas nossas necessidades.”
“Parece que nem um dos grandes países oprimidos, a Polônia, a Irlanda, a Índia apresentará o aspecto cataléptico do nosso interior. Tudo aí dorme, cochila, parece morto; naqueles há revolta, há fuga para o sonho; no nosso… Oh!… dorme-se…”
“Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem… Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada… O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas coisas de tupi, do folk-lore, das suas tentativas agrícolas… Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!”
DICIONÁRIO
bacurau: “[Brasil] Nome comum de várias aves noturnas da América tropical.”
“Es verdad que no faltan las alegres imposturas, como por ejemplo aquella que eliminó de las estadísticas entre 250.000 y 300.000 desocupados de un solo golpe… al borrar a los que trabajan por lo menos 78 horas mensuales, es decir, menos de dos semanas y sin estabilidad.”
“Pero aún hoy se pretende que lo social y económico están regidos por las transacciones realizadas a partir del trabajo cuando éste ha dejado de existir. Las consecuencias de este desfasaje son crueles. Se trata y se juzga a los sin trabajo, víctimas de esa desaparición, en función de los criterios propios de la época en que abundaban los puestos de trabajo. Despojados de empleo, se los culpa por ello, se los engaña y tranquiliza con promesas falsas que anuncian el retorno próximo de la abundancia, la mejoría rápida de la coyuntura afectada por los contratiempos.”
“La vergüenza debería cotizarse en la Bolsa: es un factor importante de las ganancias.”
“Caras de bebés de otros continentes, de tiempos de hambre, bebés con cara de viejo o de Auschwitz, acunados en las privaciones, el sufrimiento, la agonía brusca, y que parecen saber, haber aprendido de un solo golpe toda nuestra Historia, más sabios que cualquiera sobre la ciencia de los siglos, como si hubieran experimentado todo, conocido todo acerca del mundo que los expulsa.”
“¿Será posible semejante ‘contrariedad’ en una sociedad tan poco ingenua, tan informada, dotada de refinados aparatos críticos, filosas ciencias sociales, y una acentuada afición por el análisis de su propia historia? Pero por eso mismo, por saturación, cinismo, desengaño, a veces por convicción, frecuentemente por negligencia, ¿no está poco dispuesta a emplear la mirada penetrante; no ha perdido la lucidez de reconocer que la necesidad apremiante exige actuar con lucidez?”
“La indiferencia casi siempre es mayoritaria y desenfrenada. Ahora bien, a su manera estos últimos años fueron los campeones de la inconsciencia pacífica frente a la instauración de una dominación absoluta; campeones de la Historia disimulada, de los avances imperceptibles, de la desatención general. Una desatención tan grande que ni siquiera fue registrada. Este desentendimiento, esta falta de observación, fueron obtenidos sin duda mediante estrategias sigilosas, obstinadas, que introdujeron lentamente sus caballos de Troya y supieron sustentarse tan bien sobre aquello que propagaban —la falta de vigilancia—, que fueron y siguen siendo imperceptibles, y por ello tanto más eficaces.”
“Es un régimen nuevo, pero regresivo: un retorno a las concepciones de un siglo diecinueve del que se eliminó el factor ‘trabajo’. ¡Espantoso!”
INVESTIGAÇÃO DA MENTE HUMANA & FUNDAMENTOS DO SENSO COMUM – Tradução de Rafael de Araújo Aguiar, Brasília, 2022-2024.
A inspiração do Todo-Poderoso deu-lhes o entendimento. – Jó
ÍNDICE
CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO
Seção 1ª. A importância da matéria e como investigá-la [SEC11]
Seção 2ª. Os obstáculos para nosso conhecimento da mente [SEC12]
Seção 3ª. O presente estado desta especialidade da filosofia. Descartes, Malebranche e Locke [SEC13]
Seção 4ª. Em defesa destes filósofos [SEC14]
Seção 5ª. O Bispo Berkeley – O Tratado da Natureza Humana – Do ceticismo [SEC15]
Seção 6ª. Do Tratado da Natureza Humana [SEC16]
Seção 7ª. Que o sistema de todos esses autores é idêntico e conduz ao ceticismo [SEC17]
Seção 8ª. Não devemos desistir das investigações [SEC18]
CAPÍTULO 2. O OLFATO
Seção 1ª. Ordem da investigação. Organização do sentido do olfato. [SEC21]
Seção 2ª. O olfato abstrato (a sensação) [SEC22]
Seção 3ª. Sensação e memória: Princípios naturais da crença [SEC23]
Seção 4ª. Juízo e crença em alguns casos precedem a apreensão simples. [SEC24]
Seção 5ª. Duas teorias da natureza da crença refutadas. Conclusões derivadas. [SEC25]
Seção 6ª. Em defesa de absurdidades metafísicas. Sensações sem senciência como conseqüência da Teoria das Idéias. Conclusões acerca desta estranha opinião [SEC26]
Seção 7ª. A concepção e a crença num ser senciente ou na mente é sugerida por nossa própria constituição; A noção que há das relações nem sempre é adquirida mediante a comparação entre idéias relacionadas. [SEC27]
Seção 8ª. Existe uma qualidade ou virtude dos corpos chamada olfato. Como ela está conectada, na imaginação, à sensação. [SEC28]
Seção 9ª. Existe um princípio da condição humana do qual derivam a noção do olfato e outras virtudes ou causas naturais. [SEC29]
Seção 10ª. Durante a sensação a mente é ativa ou passiva? [SEC210]
CAPÍTULO 3. O PALADAR [SEC3]
CAPÍTULO 4. A AUDIÇÃO
Seção 1ª. A variedade dos sons. Seu lugar e distância aprendidos pelo costume, sem o uso da razão [SEC41]
Seção 2ª. A linguagem natural [SEC42]
CAPÍTULO 5. O TATO
Seção 1ª. O quente e o frio [SEC51]
Seção 2ª. O duro e o flácido [SEC52]
Seção 3ª. Os signos naturais [SEC53]
Seção 4ª. O árido e outras qualidades primárias [SEC54]—
Seção 5ª. A extensão [SEC55]
Seção 6ª. A extensão (cont.) [SEC56]
Seção 7ª. A existência de um mundo material [SEC57]
Seção 8ª. Os sistemas dos filósofos que concernem aos sentidos [SEC58]
CAPÍTULO 6. A VISÃO
Seção 1ª. A excelência e dignidade desta faculdade [SEC61]
Seção 2ª. A vista não descobre quase nada que o cego não possa compreender. A razão disso [SEC62]
Seção 3ª. A aparência visível dos objetos [SEC63]
Seção 4ª. A cor é uma qualidade dos corpos, não uma sensação da mente [SEC64]
Seção 5ª. Uma inferência baseada no precedente [SEC65]
Seção 6ª. De que nenhuma de nossas sensações é similar às qualidades dos corpos [SEC66]
Seção 7ª. A figura visível e a extensão [SEC67]
Seção 8ª. Algumas questões que concernem a figuras respondidas [SEC68]
Seção 9ª. A geometria do visível [SEC69]
Seção 10ª. O movimento paralelo dos olhos [SEC610]
Seção 11. Sobre vermos objetos eretos através de imagens invertidas [SEC611]
Seção 12. Continuação do anterior [SEC612]
Seção 13. A unidade dos objetos vistos por dois olhos [SEC613]
Seção 14. As leis da visão nos animais [SEC614]
Seção 15. A visão periférica/O estrabismo considerado hipoteticamente [SEC615]
Seção 17. O efeito do hábito sobre a unidade da visão [SEC617]
Seção 18. As considerações do Dr. Porterfield sobre a visão una e a visão dupla [SEC618]
Seção 19. A Teoria do Dr. Briggs e a conjetura de Isaac Newton na matéria [SEC619]
Seção 20. Da percepção em geral [SEC620]
Seção 21. O processo da natureza na percepção [SEC621]
Seção 22. Dos sinais pelos quais aprendemos a perceber a distância mediante a vista [SEC622]
Seção 23. Dos signos em outras percepções adquiridas [SEC623]
Seção 24. A analogia entre a percepção e o crédito que damos ao testemunho humano [SEC624]
CAPÍTULO 7. CONCLUSÃO
Reflexões acerca da opinião dos filósofos sobre o assunto [SEC7]
CARTA AO HONORÁVEL SR. JAMES, CONDE DE FINDLATER E SEAFIELD, REITOR DA UNIVERSIDADE DE OLD ABERDEEN
SENHOR,
Embora eu reconheça que existem coisas novas e de suma importância nesta Investigação, não é senão de forma timorata que me resolvi a publicá-la. O tema já foi esboçado por homens de grande penetração e gênio: pois quem não haveria de situar Descartes, Malebranche, Locke, Berkeley e Hume nesta categoria? Uma perspectiva sobre o entendimento humano tão distinta daquela que eles manifestaram será, sem dúvida, condenada sem exame, como produto de atitude vã e temerária.
Mas eu espero que ao menos algumas almas cândidas e seletas, capazes de vigiar as operações da própria mente, deliberem acerca do que está aqui exposto antes de passarem uma sentença. A essas eu apelo, como únicos juízes competentes. Se pessoas assim constituídas desaprovarem a iniciativa, significa provavelmente que estou equivocado, e me disponho a mudar de opinião para melhor. Se elas aprovarem, a maioria, então, cederá a sua autoridade, como sempre sucede.
Por mais contrárias que sejam minhas noções em relação às dos escritores que mencionei, suas especulações me foram de grande utilidade, e até parecem apontar a trilha que segui: como o Senhor sabe, o mérito de descobertas úteis muitas vezes não cabe a seus autores propriamente ditos, mas a quem plantou as sementes, para seus sucedâneos as colherem.
Eu admito, Senhor, que jamais pensei em pôr em dúvida os princípios a respeito do entendimento humano popularmente reconhecidos, até a publicação do Tratado da Natureza Humana¹ em 1739. O engenhoso autor deste tratado erigiu, sobre os princípios de Locke, que não era um cético, um sistema de ceticismo que não deixa margem para a crença em nada a não ser no seu contrário. Seu raciocínio me parece justo. Havia a necessidade, portanto, de duvidar dos princípios que o fundaram, ou então de admitir suas conclusões.
¹ David Hume, A Treatise of Human Nature: Being an Attempt to Introduce the Experimental Method of Reasoning into Moral Subjects. (N.T.)
Mas pode qualquer mente engenhosa admitir esse sistema cético sem relutância? Eu não poderia, Senhor: persuado-me de que o ceticismo absoluto não é mais destrutivo para a fé do cristão do que para o saber filosófico, e para a prudência de um homem de entendimento vulgar. Estou convencido de que o injusto vive pela fé tanto quanto o justo; mas, se toda crença pudesse ser posta de lado, a piedade, o patriotismo, a amizade, a afeição parental e a virtude privada pareceriam ridículos tanto quanto um cavaleiro andante. Também creio que a busca do prazer, da ambição e da avareza devem, como as boas virtudes, escorar-se na crença.
O trabalhador trabalha o dia inteiro com a crença de que receberá seu dinheiro à noite;¹ se não cresse, não trabalharia. Poderíamos aventar que mesmo o autor desse sistema cético elaborou-o na esperança de que ele fosse lido e considerado. Acredito mesmo que redigiu-o pensando que seria útil à humanidade; e quem haverá de dizer que não poderá sê-lo? Concebo o trabalho do investigador cético como esse inspetor das frestas do nosso falho sistema de conhecimento. Ele repara essas rachaduras do edifício social, que se torna mais sólido.
¹ Numa economia em que o trabalhador recebia por horas trabalhadas. (N.T.)
Seguindo minha própria inclinação, me entreguei a um sério exame dos princípios sobre os quais se assenta esse ceticismo; e não fiquei pouco surpreso ao descobrir que todo este ceticismo está baseado numa hipótese antiga, acolhida por filósofos de todos os tempos, que não passa de uma hipótese. Que hipótese? De que nada é percebido senão o que é produzido em nossa mente. De que não percebemos as coisas tal como são no exterior, mas apenas as imagens das coisas impressas em nosso interior, que recebem o nome de idéias.
Se isso é verdade, quer seja, a existência destas idéias na minha mente, não posso inferir a existência de nada mais. Minhas impressões são as únicas existências que posso conhecer ou conceber. E elas são seres tão passageiros e transitórios que no fundo elas não existem senão enquanto estou delas consciente. Sendo assim, de acordo com esta hipótese, o universo inteiro que me cerca, corpos e espíritos, sol, lua, estrelas, Terra, amigos e relacionamentos, tudo, sem exceção, que imaginei tendo existência permanente, independentes do meu pensar, se dissolve instantaneamente.
E, como o infundado fabrico de uma visão,
Não deixam nem uma pegada.
Não considerei razoável, Senhor, admitir uma hipótese, baseada na autoridade dos filósofos, que a meu ver subverte toda a filosofia, a religião e a virtude, até todo o senso comum. Constatando, pois, que todos os sistemas de entendimento humano foram erigidos sobre esta hipótese, resolvi começar do zero neste campo, sem partir de uma primeira hipótese.
O que agora apresento humildemente é o fruto desta pesquisa, dedicada aos cinco sentidos. Nela eu nada mais fiz do que dar grande atenção a minhas operações mentais, havendo me expressado com toda a perspicácia de que sou capaz, o que creio possa ser obtido por qualquer um que fizer o mesmo. As produções do espírito requerem um gênio que estão acima da compreensão vulgar; mas os tesouros do conhecimento estão enterrados profundamente para todos os homens, e podem ser escavados por todos os indivíduos que trabalharem com paciência, sem para tal necessitar-se de poderes sobrenaturais. Os experimentos requeridos neste tipo de investigação eram-me adequados, já que não exigiam recursos para além de tempo e atenção, o que tinha de sobra. A condição da carreira acadêmica, desinteressada e sem ambições materiais; as obrigações de minha profissão, que me obrigam a dar preleções sobre essa temática à juventude; e uma inclinação precoce a especulações do gênero – tudo isso colaborou, sem falsa modéstia de minha parte, para que eu fosse um homem a dar uma atenção especial aos pequenos detalhes, fundamentais nesta investigação.
Meus pensamentos sobre estas questões já existiam em papel para uso de meus alunos; depois estes escritos foram submetidos ao escrutínio duma sociedade privada de filosofia,¹ à qual também pertenço. Tive o prazer de que meus trabalhos fossem perscrutados inclusive pelo Senhor. A amizade desta comunidade filosófica é um grande estímulo para mim, sua opinião é também muito importante. Creio que a recepção a meus escritos e sua crítica, positiva ou negativa, contrabalançando minha timidez e reserva, foram fundamentais para me convencer a expor minhas conclusões ao grande público.
¹ Uma aberração social. (N.T.)
Se, com isso, puder justificar o senso comum e as faculdades racionais em face dessas sutilezas céticas, que nessa idade nos corroem; se eu puder iluminar um pouco mais nosso acabamento divino enquanto homens; honrando o Seu respeito pelas artes e ciências, bem como por tudo que possa fazer progredir a humanidade e fazer avançar nosso país; não tenho receio de submeter minhas investigações a sua aprovação, que nada mais são que a conseqüência de minha indústria em minha vocação. Seu dedicado servidor,
Thomas Reid
INVESTIGAÇÃO DA MENTE HUMANA
CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO
SEÇÃO 1ª. A IMPORTÂNCIA DA MATÉRIA E COMO INVESTIGÁ-LA [SEC11]
O fabrico da mente humana é curioso e maravilhoso, tanto quanto o do corpo humano. As faculdades da primeira não estão adaptadas ao mundo com menos sabedoria do que os órgãos do segundo. Pelo contrário: temos motivos para pensar a sabedoria da mente como inclusive mais elevada. O Divino Arquiteto nela empregou mais sabedoria e habilidade do que no resto de nossa estrutura. É, portanto, um nobilíssimo objeto de pesquisa, não só em si mesma como considerando sua influência sobre outros ramos da ciência.
Nas artes e ciências, mesmo as mais distantes da abstração pura, a mente ainda é fundamental e imprescindível. Quão melhor pudermos entender sua natureza, suas funções, defeitos e desordens, melhor saberemos empregá-la. Já nas artes mais nobres, a mente é inclusive o próprio objeto envolvido na operação. O pintor, o poeta, o ator, o orador, o moralista e o homem de Estado no fundo nada fazem senão trabalhar sobre a mente; e os melhores são os que melhor sabem fazê-lo.
Os homens sábios concordam, ou ao menos deveriam concordar, que só há um caminho rumo ao conhecimento das obras da natureza: observação e experimentação. Devido a nossa constituição inerente, temos fortes inclinações a generalizar baseados em fatos particulares, e essas generalizações são por sua vez utilizadas por nós para produzir outros efeitos particulares passíveis de observação. Esse proceder do entendimento é comum a toda criatura humana no cotidiano. E é o único por meio do qual qualquer descoberta em filosofia pode ser feita.
O homem que primeiro descobriu que a baixa temperatura congela a água, e que a alta temperatura a evapora, atuava pelos mesmos princípios, usava os mesmos métodos de Newton quando este enunciou as leis da gravitação e as propriedades da luz. Suas regulae philosophandi¹ são máximas do senso comum, praticadas todos os dias ao redor de todo o mundo. Aquele que filosofa por outras regras, seja sobre a realidade material ou mental, incorre em erro.
¹ “Régua do fazer-filosófico”, aquilo que deve nortear o pensamento filosófico. (N.T.)
Conjeturas e teorias são nossas filhas, e jamais se parecerão com aquilo que Deus criou a sua imagem e semelhança. A justa interpretação da natureza é a única filosofia, ortodoxa, evidente. Tudo o que adicionarmos a essa interpretação por nossa própria conta é apócrifo e não tem autoridade.
Todas as nossas curiosas teorias sobre a formação da Terra, a geração dos animais, a origem do mal natural e moral, sempre que se excedem e vão além de uma justa indução dos fatos, são tolice e vaidade, tanto quanto os vórtices de Descartes¹ ou os Archaeus de Paracelso.² Talvez a filosofia da mente não tenha sido menos adulterada que a filosofia sobre as coisas visíveis. A teoria das idéias é muito antiga, e foi recebida universalmente.
¹ Ou teoria dos fluidos de Descartes. Não se relaciona com suas pesquisas matemáticas, mas são de ordem astrofísica. (N.T.)
² Conceitos usados na alquimia para atribuir entidade vital à matéria inanimada. (N.T.)
Tudo aquilo que sabemos do nosso corpo se deve à dissecção anatômica e à observação, e deve ser, analogamente, por uma analogia da mente que podemos descobrir suas virtudes e princípios.
SEÇÃO 2ª. OS OBSTÁCULOS PARA NOSSO CONHECIMENTO DA MENTE[SEC12]
Deve ser reconhecido, porém, que esse segundo tipo de anatomia é mais difícil que o primeiro. Sendo assim, não deve parecer estranho que a humanidade nela tenha feito menos progressos. Captar com precisão as operações de nossas mentes, e tomá-las como objeto do próprio pensamento, não seria fácil nem para o sujeito mais contemplativo; para o grosso da humanidade, então, é tarefa quase que impossível.
Um anatomista que teve excelentes oportunidades terá examinado com os próprios olhos, e com uma exatidão comparável à melhor das vistas, corpos de diferentes idades, sexos e condições. Aquilo que é defeituoso, obscuro ou aberrante num corpo pode ser discernido com clareza, e em estado mais perfeito, em outro. Mas o anatomista da mente não pode se dar ao mesmo luxo. Só sua própria mente é que pode ser examinada com qualquer grau decente de veracidade e exaustão. Este é o único objeto a que ele tem acesso em seu estudo. Mediante evidências externas, é verdade, ele poderá coletar e comparar as operações de outras mentes; essas evidências são, porém, ambíguas no melhor dos casos. Precisam ser interpretadas de acordo com o que o anatomista percebe em si mesmo.
De tal maneira que se um filósofo pudesse delinear para nós, distintiva e metodicamente, todas as operações do princípio do pensamento inerentes a ele, o que, aliás, homem algum foi jamais capaz de realizar, tudo isso ainda seria apenas a anatomia de um só sujeito. Decerto que dita anatomia seria deficiente e errônea se aplicada à natureza humana em geral. Com meramente um bocado de reflexão podemos nos satisfazer da opinião de que a diferença entre as nossas mentes é maior do que aquela que podemos verificar entre as mentes de quaisquer animais da mesma espécie que tomemos como exemplo.
Dentre todos os múltiplos poderes e faculdades por nós possuídos, parece haver alguns que a natureza plantou e formou sozinha, como que deixando de fora qualquer participação da indústria humana. Falo dos poderes que temos em comum com os selvagens, necessários à preservação do indivíduo ou a continuidade da espécie. Há outros poderes, não obstante, cujas sementes foram apenas plantadas pela natureza em nossa mente, legando seu cultivo à própria cultura do homem. E é mediante este cultivo que somos capazes de todos os aperfeiçoamentos do intelecto, do gosto e da moral, que exaltam e dignificam a condição humana. A negligência ou perversão desse cultivo, por outro lado, transforma aquelas sementes em degeneração e corrupção.
O animal bípede que come o que a natureza oferece apenas conforme o que seu paladar e apetite ditam, e satisfaz sua sede na fonte cristalina, que propaga seu gênero sempre que a ocasião e a luxúria permitam, repele ferimentos e se alterna entre labores e o repouso é, como uma árvore na floresta, puramente integrante do processo do crescimento natural. Mas essa mesma criatura selvagem teve desde sempre consigo as sementes do lógico, do homem de gosto refinado, do orador, do político, do virtuoso, do santo. Sementes que, embora presentes, por falta de estímulo do ambiente, podem permanecer latentes indefinidamente, quase nunca percebidas pelo indivíduo que a conserva ou pelos seus mais próximos.
O degrau mais baixo da vida social trará à tona alguns desses princípios que ficam ocultos no estado puramente selvagem. Conforme o ser humano se exercita no campo da cultura, ajudado pelas companhias certas, pelos hábitos convenientes, compondo uma pequena parte, uma elite, graças a seu vigor congênito ou a uma conformação mais feliz do ambiente, desenvolve as sementes antes dormentes. Seres menos privilegiados integrantes deste mesmo princípio de civilização decairão até mesmo em relação a seus dons naturais, embora sobrevivam e gerem descendentes. Um terceiro grupo, ainda menos competente, pode mesmo se ver obstruído de tal maneira que vem a perecer, mutilado pelas contradições da natureza e da cultura incipiente.
Esse quadro faz da condição humana algo tão variegado e multiforme para os indivíduos que, dos pontos de vista intelectual e moral, há espaço para todo tipo de existência no gradiente que vai do mais rústico e simplório ao mais elaborado e complexo, como ir-se-ia do inferno ao céu. Essa diversidade prodigiosa torna extremamente difícil a descoberta dos princípios comuns a toda a espécie.
A linguagem dos filósofos, no que cocerne às faculdades originais da mente, está tão adaptada ao sistema vigente que não é adequada para expressar nenhum outro; como um terno que serve ao homem que o encomendou, e torna-o mais belo, mas que ficaria muito estranho ou mesmo cômico em outro sujeito, ainda que este último em tese nada devesse ao primeiro em termos de compelição e proporções dos membros. É quase impossível inovar na atual disciplina da filosofia da mente e suas operações sem empregar para isso um vocabulário e fraseado inédito, ou dotar de sentido inusitado as expressões antigas. Uma liberdade que, mesmo sendo tão necessária, cria preconceitos e mal-entendidos. Talvez só com o tempo essas descrições obtenham autorização e sanção sociais. Inovações na língua, como na religião e no governo, são sempre suscetíveis da desconfiança e aversão da maioria, até que por fim o costume as torne não só familiares mas mesmo o novo padrão.
Se as percepções e inclinações originais da mente aparecessem descontaminadas de todas as influências externas, exatamente como as recebemos da mãe-natureza, aquele mais acostumado à reflexão enfrentaria menos dificuldades ao tentar traçá-las. Antes do ato da reflexão as percepções e os movimentos da mente já nos aparecem tão sobrepostos uns em relação aos outros, tão compostos e descompostos pelas ações do cotidiano, modificados por associações e abstrações, que é difícil dizer quais eram os movimentos originais da mente.¹ A mente poderia ser comparada ao apotecário ou químico, cujos materiais são fornecidos pela própria natureza, mas que em sua arte sintetiza-os, modifica-os, dissolve-os, evapora-os e sublima-os de tal sorte que a aparência do produto obtido mal deixa pistas dos ingredientes utilizados. Só os melhores apotecários e químicos poderiam listar as matérias-primas. Reverter o produto obtido por experimentos à forma original é, então, impossível. Esse trabalho da mente não é realizado via razão madura, atos deliberados, algo que possamos rememorar ou recuperar. Tudo acontece escorado nos instintos, hábitos adquiridos, associações mil e outros princípios ainda, que operam muito antes de possuirmos a razão propriamente dita. É especialmente laborioso para a mente se debruçar sobre si mesma a fim de analisar as próprias pegadas e vestígios, desvendando suas próprias operações remotas quando já raciocinava e agia, mas ainda não refletia.
¹ O autor busca o que não há: palavras para expressar o que não pode ser expressado. Hoje o filósofo já se curou de procurar estas quiméricas coisas em si da mente. (N.T.)
Se pudéssemos mesmo obter uma história completa e bem-definida de tudo que se passa na mente de uma só criança, do começo de seus dias, desde as primeiras sensações, até seu amadurecimento e a fase do uso da razão; como suas faculdades ainda em desenvolvimento se puseram a trabalhar em primeiro lugar, e como esse trabalho evoluiu a ponto de gerar diversas noções, opiniões e sentimentos que guardamos dentro de nós mesmos; se pudéssemos fazê-lo, tal achado seria um tesouro da história natural, capaz de jogar mais luz sobre as faculdades humanas do que todos os sistemas morais criados até hoje unidos. É em vão que se aspira a tal evento. A natureza não nos concedeu esse poder. A reflexão, único instrumento de que dispomos para discernir os poderes da própria mente, advém muito tarde para que pudesse observar o progresso natural, entender a própria infância com a perfeição requerida.
Este é um tema, portanto, que jamais será abordado de maneira cuidadosa ou aplicada demais. Todo homem, abarrotado dos preconceitos da educação, da moda e da filosofia, fica assim obrigado a desfiar as próprias noções e opiniões, até encontrar os princípios mais simples e originais de sua constituição, relato que só pode ser produzido pelo próprio autor do relato, uma razão a mais para dele desconfiarmos. Eu chamaria essa investigação da verdadeira análise das faculdades humanas; e até que cumpramos essa tarefa é vão falar em qualquer sistema da mente. Por sistema, entendo: uma enumeração exaustiva dos poderes e leis originais de nossa constituição, e uma explicação dela derivada para os múltiplos fenômenos da condição humana.
Êxito, numa investigação tal, não é algo humanamente solicitável. Talvez seja possível, entretanto, com precaução e humildade, evitar ao menos erros e ilusões crassos. O labirinto pode ser o mais intrincado, e o barbante o mais delicado, de modo que ninguém consegue percorrer todas as alas do calabouço e viver para contar. Paramos, porém, onde já não podemos avançar um milímetro a mais. Marcamos posição para os exploradores das gerações seguintes, reafirmando o terreno já conquistado, em vez de pôr tudo a perder precipitadamente. Quem sabe quão mais ágeis não serão os olhos de nossos descendentes, aptos a distinguir linhas para nós invisíveis?
É o gênio, e não a falta do gênio, que adultera a filosofia, multiplicando os erros e as falsas teorias. A imaginação criativa desdenha o trabalho mais modesto e tosco de fazer a terraplanagem da fundação. É preciso antes remover muitos detritos, transportar muitos materiais: estas ações tidas como mais servis são delegadas aos burros de carga da ciência. A mente superior desenha a planta que quer atingir ao final de tudo. A invenção abastece de materiais os trechos mais carentes da obra. A moda do tempo adiciona as cores e os ornamentos. O trabalho direto deleita os olhos, e não deseja mais do que uma boa e sólida fundação. O trabalho direto do homem parece até competir com o relógio da natureza. Até, evidentemente, o arquiteto implodir a edificação, convertendo-a em ruínas. E o processo recomeça… Felizmente, para a idade presente, os erigidores de castelos andam a se envolver mais em romances que na filosofia. O romance é, sem dúvida, sua verdadeira província, essas regiões em que o desabrochar das fantasias é mais legítimo. Em filosofia, ceder aos caprichos é agir de modo espúrio.
SEÇÃO 3ª. O PRESENTE ESTADO DESTA ESPECIALIDADE DA FILOSOFIA. DESCARTES, MALEBRANCHE E LOCKE. [SEC13]
Que nossa filosofia da mente e suas faculdades está ainda num estado muito precário pode ser conjeturado, e com razão, mesmo por aqueles que nunca a examinaram detidamente. Há qualquer princípio, relativo à mente, fixado com a mesma perspicácia e nitidez, que se equipare aos princípios da mecânica, da astronomia ou da ótica? – Essas são realmente ciências fundadas nas leis da natureza universalmente obteníveis. O que é descoberto nelas não mais é objeto de disputa: tempos futuros poderão acrescentar a essas leis, mas, até que o curso da natureza seja modificado, o que já foi estabelecido não pode ser alterado. Porém, assim que voltamos nossa atenção para dentro, e considerados o fenômeno dos pensamentos, opiniões e percepções humanos, e tentamos relacioná-los com as leis gerais e os primeiros princípios de nossa constituição, imediatamente nos envolvemos em perplexidade e trevas. – E se o senso comum ou os princípios da educação não forem teimosos, há grandes chances de terminarmos num ceticismo absoluto.
Descartes, nada achando estabelecido nessa parte da filosofia, a fim de lançar-lhe pela primeira vez as bases profundas, decidiu não acreditar em sua própria existência até que pudesse justificá-la muito bem. Ele talvez tenha sido o primeiro a tomar essa resolução: mas pudera ele atingir seu propósito, e realmente tornar-se difidente de sua existência (para além da retórica), seu caso teria se tornado deplorável, e impossível de ser sanado mediante a razão ou a filosofia. Um homem teórico que descrê de sua própria existência está tão inapto para o diálogo e o debate quanto um homem que acreditasse ser feito de vidro. Não é impossível que desordens na constituição humana produzam tais casos extravagantes; porém a cura jamais viria mediante raciocínios. Descartes quer nos fazer crer que escapou de seu delírio pelo argumento lógico Cogito, ergo sum. Mas é evidente que ele jamais escapou de nenhum delírio e conservou a razão desde o princípio, nunca duvidando seriamente de sua própria existência. Ele já o toma como implícito em seu argumento, e nada prova. Eu penso, diz ele, dessa forma eu sou: e não é ainda o uso da boa razão dizer eu estou dormindo, por isso mesmo eu sou? Ou eu não estou fazendo nada, portanto eu sou? Se um corpo se move, sem dúvida ele existe; mas se está em repouso, ainda assim deve existir.
Talvez Descartes não tenha desejado assumir sua própria existência por este entimema, e sim assumir a existência do pensamento; e com isso inferir desta existência do pensamento a existência da mente ou do objeto do pensar. Mas por que ele não provou a existência de seu pensamento? A consciência o avaliza, poder-se-ia dizer. Mas quem é o comprovador da consciência? Pode qualquer homem provar que sua consciência está isenta de traí-lo? Nenhum homem o pode: nem podemos dar uma justificativa melhor para acreditar nela do que que cada homem, enquanto em posse da razão, está determinado pela constituição de sua natureza a dar crédito implícito a ela, a rir ou ter piedade do homem que duvida de seu testemunho. E não está todo homem em seu juízo perfeito, cada um tão determinado quanto os outros em considerar sua própria existência fiada em sua própria consciência?
A outra proposição assumida neste argumento, a de que o pensamento não pode ser sem uma mente ou um sujeito, está sujeita à mesma objeção: não que isso necessite de evidência; mas esta evidência não é mais pura nem imediata que a da própria proposição que deve ser provada por esta evidência mesma! Enfim, reunindo todas essas proposições em conjunto, – eu penso, – eu sou consciente, – tudo que pensa existe, – eu existo, – não está óbvio que todo homem sóbrio nutriria a mesma opinião acerca do homem que seriamente duvidou de qualquer uma delas? E se um desses homens fosse o amigo pessoal deste homem teórico que duvida seriamente, não ansiaria ele pela sua cura, prescrevendo-lhe ou arranjando quem lhe prescreva um bom regime físico e dietético, isto é, o cultivo da saúde, em detrimento de metafísica e lógica?
Todavia, supondo tudo como provado, i.e., que meu pensamento e minha consciência tem de ter um sujeito, e conseguintemente que eu existo, como sei eu que toda essa cadeia de pensamentos que eu rememoro pertence a um sujeito, e que o eu desse momento é o mesmo eu individual de ontem ou de antanho?
Descartes nunca pensou em começar essa dúvida: mas Locke o fez; e, a fim de resolvê-la, determina, de forma grave, que a identidade pessoal consiste em consciência; se você tem consciência de que fez algo há um ano, essa consciência torna-o a exata pessoa que o fez. E no entanto consciência do passado não pode significar nada além de uma lembrança de que eu o fiz. O princípio de Locke é, portanto, que a identidade consiste em lembranças e memórias; e conseguintemente um homem perde sua identidade pessoal quanto a tudo aquilo que ele esquece.
Nem são essas as duas únicas ocasiões em que nossa filosofia da mente parece ter sido muito prolífica em suscitar dúvidas, e igualmente infeliz em respondê-las.
Descartes, Malebranche e Locke empregaram todos eles seu gênio e habilidade em provar a existência de um mundo material; e o provaram muito mal. Mortais parcos de entendimento acreditam, sem dúvida, que há um sol, uma lua e as estrelas; uma terra, na qual habitamos; um país, amigos e relações, que desfrutamos; pedaços de terra, casas e objetos movíveis, que possuímos. Mas filósofos, apiedando-se da credulidade do vulgo, estão determinados a perder a fé no que está fundado na razão. Eles se empenham em refletir em razões para a crença nas coisas, nas coisas em que toda a humanidade sempre acreditou, sem no entanto serem capazes de dar nenhuma razão! Esperar-se-ia, num empreendimento tão importante, que a prova não fosse árdua: mas é a coisa mais difícil em todo o mundo! Esses três homens, de toda a boa-fé, fracassaram, munidos de todas as riquezas da filosofia, em estabelecer um argumento propício a convencer um homem capaz de reflexão de que a existência de qualquer coisa depende deste argumento lançado. Admirável Filosofia! filha da luz! parente da sabedoria e conhecimento! se verdadeiramente és ela! se és ela, certamente tu ainda não pousaste na mente humana, nem abençoaste-nos com teus raios o bastante para dissipar a “escuridão visível” das faculdades humanas, nem perturbaste este repouso e segurança que os melhores dos mortais usufruem, esses que nunca se aproximaram de teu altar nem sentiram tua influência! Mas se tu não tens o poder de dissipar essas nuvens e fantasmas que tu mesma descobriste ou criaste, fora com estes raios malignos e miseráveis! Eu desprezo a Filosofia e renuncio sua guia: deixa minha alma morar no Senso Comum.
SEÇÃO 4ª. EM DEFESA DESTES FILÓSOFOS [SEC14]
Mas em vez de desprezar a aurora, devemos esperar que a luz se intensifique! Em vez de culpar os filósofos que mencionei pelos defeitos e manchas de seus sistemas, devemos honrar sua memória, como a dos primeiros descobridores da região da filosofia anteriormente inexplorada; e, não importa quão estultos e imperfeitos sejam esses sistemas, eles abriram caminho para futuras descobertas, e dividirão, com justiça, o crédito por elas com seus sucedâneos. A poeira e os destroços que eles removeram, acumulada em todos os séculos de Escolástica, é quase infinita. Graças a eles estamos na boa senda, a da experiência e reflexão acurada. Eles nos ensinaram a evitar as ciladas da ambigüidade e da fraca razão de tantas palavras, tendo falado e pensado nessa matéria com uma distinção e perspicácia sem precedentes. As verdades a serem reveladas, que eles não alcançaram, a detecção dos erros em que eles involuntariamente se enredaram, serão também obra sua.
Deve ser observado que as deficiências da filosofia da mente, que foi exposta ao desprezo e ao ridículo de homens sensíveis, derivam principalmente disso: – que os devotos dessa filosofia, imbuídos de um preconceito natural, tentaram estender em demasia sua jurisdição além de seus justos limites, denominando-a falsamente Senso Comum. Mas sem saber esses devotos já declinaram essa jurisdição; porque eles desdenham o processo da razão e perdem assim qualquer autoridade; muito cheios de si, eles não pediam a ajuda da razão nem temiam seus ataques!
Neste torneio injusto entre Senso Comum e Filosofia, a última sairá sempre desonrada e derrotada; nem pode ela dar o troco um dia antes que essa rivalidade inútil seja descartada. Chega de intromissões; devemos promover uma cordial amizade entre ambos. O Senso Comum nada tem da Filosofia, nem nunca precisou de seu auxílio. Mas, por outro lado, a Filosofia (se me permitem mudar a metáfora) não tem nenhuma outra raiz que não sejam os princípios do Senso Comum. Ela nasce do Senso Comum, e cresce e se revigora graças a ele. Separada dessa raiz, seca-se a seiva, resseca-se a árvore do conhecimento e a Filosofia morre a apodrece.
Os filósofos da última geração, que evoquei, não se preocuparam com a preservação dessa união nem distinguiram a necessidade dessa subordinação; ao menos, não o bastante para os interesses da própria Filosofia. Mas os filósofos do presente, esses já declararam abertamente guerra ao Senso Comum, na expectativa de conquistar completamente seus domínios, substituindo tudo por Filosofia; uma ação não menos audaciosa e vã do que a dos titãs que tentaram destronar o temível Zeus.
SEÇÃO 5ª. O BISPO BERKELEY – O TRATADO DA NATUREZA HUMANA – DO CETICISMO[SEC15]
O tempo presente não produziu dois homens mais afiados e preparados no campo da filosofia da mente que o Bispo de Cloyne e o autor do Tratado da Natureza Humana. O primeiro, inimigo do ceticismo, com seu zelo religioso e moral, atingiu os seguintes resultados: não há mundo material; não há nada na natureza senão espíritos e idéias; a crença em substâncias materiais e em idéias abstratas são as causas principais de todos os erros filosóficos, e aliás de todas as infidelidades e heresias religiosas. Seus argumentos são fundados nos princípios legados por Descartes, Malebranche e Locke, e isso de uma maneira muito superficial.
A opinião dos juízes mais capazes parece ser a de que nenhum deles foi nem pode ser refutado. O bispo provou, de acordo consigo, mediante argumentos incontestáveis, aquilo em que nenhum homem reflexivo pode dar fé.
O segundo procede pelos mesmos princípios, mas estende-os ao máximo; e, como o bispo tinha desfeito o mundo material, esse autor, justificando-se da mesma forma, também dissolve esse mundo dos espíritos, e não deixa nada na natureza senão idéias e impressões, sem qualquer sujeito no qual essas possam ser imprimidas.
Há qualquer tensão ou irritabilidade neste autor, que logo na introdução de seu principal trabalho promete, seriamente, um sistema completo das ciências, e sobre uma fundação completamente nova, a da natureza humana; isso quando o intuito de toda a obra é mostrar que não há natureza humana nem ciência neste mundo. Talvez seja desarrazoado reclamar dessa conduta num autor, se ele nem acredita na própria existência nem na do leitor. Sendo assim, ele não teria a intenção de desapontar ninguém nem rir da credulidade dos outros. Continuo, porém, sem poder conceber que o autor do Tratado da Natureza Humana, em seu ceticismo, necessite de contemporizações quando se o critica abertamente. Pois devo contrastar seu trabalho com seu aspecto inusitado: ele crê, contra seus princípios, que deva ser lido e que deva conservar sua identidade pessoal até o momento de colher os frutos de sua investigação – que atingiu o acme metafísico –, em forma de honra e reputação. Ele confessa ingenuamente, até, que só na mais completa solidão e afastado dos homens ele consegue concordar com sua própria filosofia; a sociedade, como a luz do dia, dissipa a escuridão e a neblina do ceticismo e fá-lo regressar ao Bom Senso. Não soube de nada em sua vida privada, tampouco, que pudesse demonstrar ser ela um exemplo do ceticismo por ele mesmo pregado. Porque se seus amigos desconfiarem que isso possa vir a se passar, tenho certeza de que terão caridade e nunca o deixarão desacompanhado.
Pirro de Élis, o pai do ceticismo, me parece, levou uma vida de um perfeito cético, muito mais condizente com a doutrina que seus discípulos: conforme o que sabemos, Antígono de Caristo, citado em Diógenes Laércio, atesta que Pirro fazia exatamente o que e como dizia para os outros fazerem. Diz-se que se uma carroça estiava prestes a atropelá-lo ou um cachorro a mordê-lo, ou se ele se abeirava de um precipício, ele não se movia um milímetro no sentido de escapar do perigo e seguia seu curso, não confiando em seus sentidos. Afortunadamente, para ele, Pirro tinha escravos e alunos que não eram tão céticos quanto o mestre que tomavam conta de si. E assim ele pôde viver até os 90 anos.
É provável que o Tratado da Natureza Humana não tenha sido escrito em companhia; e não obstante ele contém indícios manifestos de que o autor descansava na fé do vulgo, e é raro enxergar nele um caráter cético contínuo que perdure por mais de meia dúzia de páginas sem concessões.
É dessa mesma forma que um dia o grande Pirro esqueceu seus próprios princípios, e diz-se que, uma vez, pôs-se tão furioso com seu cozinheiro e o gosto da comida que, de garfo (e, preso ao garfo, o pedaço de carne) em mãos, perseguiu-o até o mercado.
É peremptória a filosofia que, sem cerimônia, rejeita princípios que governam irresistivelmente a conduta do homem no cotidiano; princípios aos quais deve retornar o filósofo, após tão cuidadosamente refutá-los. Estes princípios de que falo são mais antigos e possuem mais autoridade que a Filosofia: ela deles emana, não o contrário. Se por um acaso a Filosofia pudesse levar a melhor, estaria se condenando à morte. Nenhuma sutileza ou engenhoso filosófico é competente o bastante para essa proeza, entretanto (destronar o Senso Comum). Seria como se um mecânico buscasse mover a Terra inteira de lugar por meio de um axis in peritrochio.¹ Ou se um matemático pretendesse demonstrar que umas primeiras quantidades, verificadas iguais a umas segundas, e estas segundas a umas terceiras, que essas primeiras quantidades não fossem também iguais às terceiras.
¹ Expressão para designar “a roda e o eixo”, um par de objetos que compõe uma das “máquinas simples” a ilustrar os princípios básicos da mecânica arquimediana ou clássica, que explica como, por exemplo, com economia de força, dirigida da maneira correta, através de alguns objetos e cálculos como angulações ou distâncias entre eles, pode-se levantar ou mover grandes pesos impossíveis para um indivíduo com o mero uso da força bruta. Não é por outra razão que, com um simples macaco hidráulico e uma haste de ferro (eixo) em ‘L’ com pontas que respeitem encaixes na roda conforme a funcionalidade dos parafusos, roscas, etc., e o treinamento adequado, qualquer pessoa capaz de conduzir um veículo também será capaz de trocar o pneumático, procedimento que requer a suspensão do carro (potencialmente mais de 1T, ou seja, mais de 10x grande parte da população) a fim de liberar a rotação manual da roda em plano inclinado para a remoção do pneu velho e reposição do pneu novo, exercendo a força de torque. Sobre a clássica e imorredoura frase “Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo”, realmente, considerando a Terra a roda, precisaríamos “apenas” de uma super-alavanca e de nos situarmos num ponto de apoio longínquo o suficiente para alterar seus movimentos (fora do sistema solar seria um bom começo…). Nosso ponto de apoio sendo a própria Terra, isto (querer, a sério, mover o planeta mediante a aplicação dos princípios da mecânica) é um dos absurdos clássicos da Lógica. Este é o tamanho da absurdidade do ceticismo moderno para Reid, pois é impossível aplicá-lo à vida.
Zenão se esforçou por demonstrar a impossibilidade do movimento; Hobbes, que não havia diferença entre o certo e o errado; e esse autor, que não se deve acreditar nos nossos sentidos, em nossa memória, nem mesmo em provas empíricas. Tal filosofia é apenas ridícula, inclusive para aqueles que não conseguem detectar sua falácia. Não pode lhe seguir outra tendência senão a exibição da solércia do sofista, e o preço é muito caro: desgraçar a natureza e a razão humana, e fazer da humanidade Yahoos.¹
¹ Raça fictícia do livro As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Os Yahoos têm a mesma aparência de seres humanos (Homo sapiens), porém seu intelecto e cultura não ultrapassa os dos primatas, sendo incapazes da linguagem.
SEÇÃO 6ª. DO TRATADO DA NATUREZA HUMANA[SEC16]
“Há outros preconceitos contra este sistema da natureza humana que, mesmo numa visão generalista, podem tornar alguém dele desconfiado.
Descartes, Hobbes e esse autor cada um nos deu um sistema da natureza humana; uma missão vasta demais para um homem apenas, não importa quão genial e formidável. Há razões certeiras para crer que muitas partes da natureza humana foram negligenciadas por eles; e que outras foram simplificadas e distorcidas, para costurar os pontos cegos e completar o sistema. Cristóvão Colombo ou Sebastian Cabot poderiam com igual justiça ter-nos fornecido um mapa completo da América.¹
¹ Como primeiros descobridores e navegadores modernos do continente, eles não conheceram todos os seus contornos – nos deram um mapa incompleto da América.
Há um caráter e um estilo próprio às obras da natureza, nunca captável nas suas melhores imitações. Esse caráter e esse estilo parecem estar ausentes nos sistemas da natureza humana que eu mencionei, e particularmente no último. Pode-se ver uma marionete executar os mais vastos gestos e movimentos, que impressionam os observadores principiantes; mas, observando-se mais de perto, e isolando cada operação, nossa admiração logo cessa; isso porque passamos a compreender a arte do mestre titereiro. Como a marionete é diferente daquilo que representa! Quão pobre, comparada com o corpo humano, cujas estruturas, quão mais desvendamos, mais maravilhosas se nos tornam, e mais cônscios de nossa ignorância! O mecanismo da mente seria tão facilmente compreensível, sendo o do corpo tão complicado? E não obstante, através deste sistema três leis de associação, acrescidas de algumas impressões originais, explicam todo o mecanismo do sentido, da imaginação, da memória, da crença e de todas as ações e paixões da mente! É este o homem que a natureza produziu? Suspeito que não seja assim tão simples olhar os bastidores da própria natureza. É uma marionete, decerto, ideada por um aprendiz da natureza muito seguro de si, seguro de que é o seu melhor mímico. À luz de vela, é uma marionete tolerável; mas, à luz do dia, e analisada em suas porções, parecerá um homem feito com argamassa e espátula. Quanto mais sabemos de outras partes da natureza, mais com ela simpatizamos, mais a aprovamos. O pouco que conheço do sistema planetário, da Terra que habitamos, dos minerais, vegetais e animais, do meu próprio corpo e das leis obteníveis neste setor do universo abrem à minha mente cenas graciosas e grandiosas, e contribui igualmente para meu contentamento e minha sensação de poder. Mas quando olho por dentro e considero a mente em si mesma, que me faz capaz de todos esses prospectos e apreensões; se ela for mesmo o que o Tratado da Natureza Humana propõe, descubro que caí do cavalo e saí de meu castelo encantado, pois era tudo espectros e aparições. Envergonho-me intimamente por pensar como me deixei iludir: estou com vergonha de minha organização, e não posso me impedir de contender com meu destino. É este teu passatempo, ó Natureza, encher tua tola criatura de artimanhas, depois despir-lhe a máscara e mostrá-la a si própria como fôra trapaceada? Se esta é a filosofia da natureza humana, minha alma não adentra em seus segredos. Encontramos de fato a proibida Árvore do Conhecimento! Mal provo de seu fruto e vejo-me nu e despido de tudo o mais, isto é, até meu eu! Eu vejo a mim e a toda a estrutura da natureza chafurdarem em idéias fugidias, que, como os átomos de Epicuro, dançam em torno do vazio.
SEÇÃO 7ª. QUE O SISTEMA DE TODOS ESSES AUTORES É IDÊNTICO E CONDUZ AO CETICISMO[SEC17]
Mas e se eu objetar que todas essas profundas disquisições nos primeiros princípios da natureza humana deveriam conduzir, natural e necessariamente, seu investigador direto ao abismo do ceticismo? Não deveríamos julgar racionalmente levando em conta o que aconteceu? Descartes mal principiara a cavar nessa mina e o ceticismo já estava à espreita para devorá-lo. Ele fez o que pôde para afastá-lo. Malebranche e Locke, que cavaram ainda mais fundo, acharam a dificuldade de lidar com esse inimigo ainda mais elevada; mas eles laboraram com honestidade. Berkeley, que deu prosseguimento ao trabalho, desesperando de poder concluí-lo, utilizou de um expediente: ao renunciar ao mundo material, que pensou poder preservar sem dano, e até mesmo com lucro, esperava, por uma partição inexpugnável, preservar também o mundo espiritual. Ai de nós! O Tratado da Natureza Humana arruinou arbitrariamente todo o empreendimento da repartição, e inundou esta mina em novo dilúvio.
Esses fatos, que não se pode negar, nos dão motivos para temer que o sistema cartesiano do entendimento humano, que eu devo pedir a vênia de chamar aqui de sistema ideal, e que, com alguns melhoramentos de seus discípulos é agora recebido, tinha alguns defeitos originais. Que o ceticismo está nele embutido, e nele pegou carona, parece consensual. Exumando a fundação do sistema ideal, portanto, a fim de estudar suas fundações, o material empregado na obra, damos um primeiro passo a fim de encontrar e erigir qualquer fundamento sólido e útil de conhecimento na matéria.
SEÇÃO 8ª. NÃO DEVEMOS DESISTIR DAS INVESTIGAÇÕES[SEC18]
Deveríamos desistir, porque Descartes e seus sucedâneos falharam? De maneira alguma. Essa pusilanimidade seria injuriosa conosco mesmos e injuriosa para com a verdade. Descobertas proveitosas são às vezes o efeito do gênio superior, mas com ainda mais freqüência são o resultado acidental de circunstâncias felizes. Um viajante prudente pode errar o caminho, e andar longo tempo pela pior estrada sem o saber; e, embora a estrada seja boa e sempre convidativa para ele, pois onde há estrada há avanço, se não se der conta do erro ele pode prosseguir muitos quilômetros sem suspeitas, cada vez mais longe do destino almejado, e até sendo seguido por outros viajantes menos experientes. Quando a estrada termina, porém, no abismo, mesmo os menos ajuizados dos viajantes conseguem perceber de imediato o erro anterior, sendo mais fácil recuar e retraçar seus passos pela boa senda.
No entre-tempo, essa parte não-exitosa da filosofia produziu efeitos, muitos deles desencorajadores para novos exploradores da mente; mas, se um erro foi cometido na estrada antes disso, era uma conseqüência previsível que erros desembocassem em efeitos indesejados. Só o tempo e escolhas melhores poderão remediar a situação. Homens sensíveis, jamais céticos nos problemas do dia-a-dia, são aqueles aptos para tratar com soberano desprezo tudo que tenha sido dito ultimamente ou está para ser dito em filosofia da mente. – É metafísica, eles dizem: quem tem isso em mente? Deixe que os sofistas e escolásticos se embrenhem em suas próprias teias-de-aranha. Estou decidido a crer na minha própria existência, e na existência de outras coisas, sem vacilar. E não hesitarei em dizer que fria é a neve e doce o mel, não importa o que digam aqueles. Que sejam tolos ou que queiram me fazer passar por tolo, mas não dou crédito a quem argumenta que devo prescindir de minha razão e de meus sentidos na investigação.
Confesso que não sei dizer o que um cético redarguiria a isso, não me antecipo nesse tocante; nem a quais argumentos os críticos recorrerão para refutar qualquer coisa que eu encontre. Não devemos nos engessar porque a sofística atravessa nosso caminho; tudo que os sofistas merecem é o desprezo. Ou não há verdade alguma nas faculdades humanas… e por que então debatemos?
Sendo assim, qualquer homem que se veja neste beco sem-saída metafísico, não refletindo numa saída, ora, que recorra a sua bravura e corte os nós desta corda ou teia-de-aranha que não pode afrouxar pela sutileza ou paciência. Que maldiga a metafísica e dissuada seus colegas de serem metafísicos! Porque se eu alguma vez pisei em pântanos e brejos, falsamente conduzido por ignis fatuss,¹ o que posso fazer senão recuar e avisar os demais sobre o que vivi? Se a Filosofia se contradiz, engana seus devotos, depriva-os de todo objeto digno de investigação, deixe que ela vaga de volta para as regiões infernais de onde deve ter partido sua versão prototípica.
¹ Fogos fátuos.
Mas estaríamos seguros de que essa donzela é do partido dos céticos? Não poderia ser que trilharam para longe do caminho da Filosofia? Por um acaso um gênio nunca fez com que seus próprios sonhos passassem por oráculos divinos? Condenaremos a Filosofia sem direito de antes ouvi-la? Não seria razoável. Já encontrei na filosofia uma companheira agradável em outras matérias, uma conselheira confiável, uma amiga do Senso Comum, e alguém capaz de melhorar a humanidade. Esse crédito que ela amealhou lhe dá ainda o direito de se corresponder comigo, e de que eu nela confie, ao menos até que esbarrasse com provas infalíveis de sua infidelidade!
CAPÍTULO 2. O OLFATO
SEÇÃO 1ª. ORDEM DA INVESTIGAÇÃO. ORGANIZAÇÃO DO SENTIDO DO OLFATO. [SEC21]
É de tal maneira difícil desvendar as operações do entendimento humano e reduzi-las a seus primeiros princípios que não podemos esperar o sucesso senão começando do mais simples, e prosseguindo passo a passo, com cuidado, ao mais e mais complexo. Os cinco sentidos externos, por essa mesma razão, devem ser considerados primeiro na análise das faculdades humanas. E a mesma lógica deve estabelecer uma hierarquia dentro mesmo destes cinco sentidos, não cabendo a precedência ao mais nobre ou mais útil, e sim ao mais simples. Deve ser eleito o sentido cujos objetos estão em menor risco de ser apreendidos por outras coisas senão aquilo que são.¹
¹ Cheiros.
É nesse sentido que nossa análise das sensações deve ser levada adiante, com muito mais facilidade e distinção, na seguinte ordem: olfato, paladar, audição, toque e, por último, a visão.
A filosofia natural nos informa que todo corpo animal e vegetal, e provavelmente todo outro corpo, enquanto exposta ao ar, está continuamente emanando eflúvios extremamente sutis, não só enquanto em estado vital e durante o crescimento, mas também nos estados de fermentação e putrefação. Essas partículas voláteis provavelmente repelem-se umas às outras, espalhando-se no ar, até atingirem outros corpos com que possam ter alguma afinidade química, com os quais interagem, unindo-se em novos compostos. Todo o aroma das plantas e outros corpos é causado por essas partes voláteis e é cheirado tanto quanto perpassa o ar: a acuidade do sentido do olfato em alguns animais nos mostra que esses eflúvios viajam grandes distâncias e são inconcebivelmente sutis.
Se, como alguns químicos colocam, toda espécie de corpo tem um spiritus rectus,¹ ou seja, uma espécie de alma, que é causa do cheiro e de todas as virtudes específicas daquele corpo, e que, sendo extremamente volátil, flutua pelo ar em busca de receptáculos apropriados, isso eu não estou aqui para discutir. Esta, como outras teorias, é mais produto da imaginação do que da justa indução. Mas que todos os corpos são cheirados via eflúvios que eles emitem, e que são sugados pelas narinas junto com o ar, disso não há dúvida. Há uma aparência manifesta de algum intuito ou interesse no posicionamento desse órgão do cheiro ou olfato no interior deste canal, mediante o qual o ar atravessa continuamente, no processo de inspiração e expiração.
¹ A tradução literal seria “espírito fixo”.
A anatomia nos diz que a membrana pituitaria¹ e os nervos olfatórios, que estão distribuídos por partes vilosas² da membrana, são os órgãos destinados pela sabedoria da natureza para este sentido. Sendo assim, quando um corpo não emite eflúvios, ou quando os eflúvios não penetram o nariz, ou quando a membrana pituitária ou os nervos olfatórios por algum motivo não podem executar seu trabalho, não pode ser sentido o cheiro.
¹ Relativo ao muco ou tecido mucoso.
² Recobertas de pêlo.
E apesar disso, é evidente que nem os órgãos do cheiro, nem o meio, nem qualquer movimento excitado na membrana acima mencionada que possamos conceber, ou no nervo ou ‘espírito’ animal, guardam semelhança com a sensação do ato de cheirar; nem essa sensação em si mesma poderia nos levar a uma apreensão imediata dos nervos, da alma animal ou dos eflúvios.
SEÇÃO 2ª. O OLFATO ABSTRATO (A SENSAÇÃO) [SEC22]
Havendo estabelecido essas premissas com respeito ao meio e ao órgão desse sentido, agora devemos prestar atenção àquilo de que a mente está consciente quando cheiramos uma rosa ou um lírio.¹ E como a linguagem não nos brinda com outro nome para essa sensação, contentar-nos-emos em chamá-la de cheiro ou odor, mas tomando o cuidado de excluir do significado, a partir daqui, tudo que não seja a sensação em si, até terminarmos de analisar o olfato de maneira abstrata.
¹ Flor também chamada copo-de-leite dada sua brancura.
Suponha uma pessoa que nunca usou deste sentido antes; ao recebê-lo pela primeira vez, e cheirar uma rosa, pode este indivíduo perceber qualquer similitude ou acordo entre o cheiro e a rosa? ou entre aquele e qualquer outro objeto? Decerto que não. O indivíduo se sentirá afetado de uma forma nova, sem saber por quê. Exatamente como o homem que sente alguma dor ou prazer anteriormente desconhecido, ele estará consciente que ele não é a própria causa da sensação; mas não conseguirá, pela natureza da coisa, determinar se ela é causada por um corpo ou espírito, por algo perto ou por algo à distância. Não há verossimilhança a nada mais, nada que permitira uma comparação. O indivíduo não concluirá nada a respeito, a não ser que realmente há uma causa qualquer desconhecida da sensação.
É evidentemente ridículo associar ao cheiro uma imagem, cor, extensão ou qualquer outra qualidade dos corpos. Não é possível conceder um lugar ou espaço à sensação, mais do que poderíamos atribuir um espaço à melancolia ou algria: a existência da sensação se dá quando se cheira, e em nenhum outro instante. Parece, tudo indica, uma afecção ou ‘sentimento mental’ simples e original, inexplicável e indescritível. É de fato impossível que esta sensação seja um corpo: é sensação; e sensação é justamente algo numa senciência.
Diferentes odores possuem diferentes graus de força e fraqueza, ou de ‘pervasividade’. Maioria pode ser classificada em agradáveis ou desagradáveis; e freqüentemente os agradáveis, quando fracos, são desagradáveis uma vez que se apresentem fortes. Quando comparamos diferentes aromas em conjunto, percebemos quase nada de ‘igual’ ou ‘contrário’ entre um aroma e outro. Não podemos traçar relações entre aromas, eles são ‘únicos’. São coisas tão simples que é quase impossível dividi-los entre genera e species.¹ Quase todos os nomes que lhes concedemos são particulares; como ‘cheiro da rosa, ou da jasmim. Concedo que há nomes gerais: doce, fedorento, de mofo, pútrido, cadavérico, aromático. Alguns parecem refrescar e animar a mente, outros mortificá-la, deprimi-la.
¹ Classificações elementares da biologia.
SEÇÃO 3ª. SENSAÇÃO E MEMÓRIA: PRINCÍPIOS NATURAIS DA CRENÇA. [SEC23]
Até aqui consideramos a sensação abstratamente. Agora comparemos a sensação abstrata com outras coisas com que ela pareça guardar alguma relação. Primeiro nos cabe comparar essa sensação com a memória e a imaginação.
Posso pensar no cheiro da rosa quando não cheiro a rosa; e é possível que quando penso nisso não haja por perto nem rosa nem cheiro algum que esteja sentindo. Mas quando cheiro efetivamente a rosa, estou necessariamente determinado a crer que a sensação existe. Isto é comum a todas as sensações, i.e., que elas não podem existir senão ao ser ‘percebidas’; o que nos leva a ‘não poderiam ser percebidas se não existissem’. Eu poderia com a mesma facilidade duvidar de minha própria existência e da existência de minhas sensações. Mesmo esses filósofos profundos que se esforçaram por refutar a própria existência ainda deixaram o campo das sensações intacto dentro de si, sem um objeto, preferindo-o em detrimento de negar, com a própria negação de si mesmos, a realidade da existência de suas sensações.
Aqui então uma sensação, um odor, por exemplo, pode ser apresentada à mente de 3 formas diferentes: pode ser cheirado, pode ser rememorado, pode ser imaginado ou objeto da reflexão. No primeiro caso, está necessariamente acompanhada, a sensação do odor, de uma crença ou fé na sua existência presente; no segundo, vem necessariamente acompanhada de uma crença na sua existência passada; e no último, nada há de crença, mas sim do que os lógicos denominam uma apreensão simples.
Por que a sensação deveria nos compelir a dar fé na existência imediata da coisa, a memória, na existência passada; e a imaginação em nada? Aposto que nenhum filósofo pode atinar com as respostas. O máximo que podemos dizer é que essa é a natureza dessas operações: são simples e originais, e atos inexplicáveis da mente.
Suponha que uma vez, e tão-só uma vez, eu cheirara uma tuberosa numa sala, em que ela crescia num vaso, e produzia um ótimo perfume. No dia seguinte eu conto o que vi e cheirei. Quando me auto-observo para constatar o que se passa na minha mente neste caso, me parece evidente que a coisa que vi ontem, e a fragrância que respirei, são agora objetos imediatos de minha mente no momento em que me recordo do episódio. Posso ainda imaginar este vaso e flor transportados para a sala onde estou sentado agora, e portanto que a tuberosa emana o mesmo cheiro. Aqui também me parece que a coisa individual que eu vi e cheirei é objeto de minha imaginação.
Filósofos dizem que o objeto imediato de minha memória e imaginação, neste caso, não é a sensação passada, mas uma idéia dela, uma imagem, fantasma, ou espécies de odores que eu cheirara: que essa idéia agora existe em minha mente ou em meu aparelho sensório. A mente, contemplando esta idéia, a considera a representação do que passou, ou do que pode existir; a mente chama esta representação de memória ou imaginação, recordação. Essa é a doutrina da filosofia ideal; não passaremos um juízo sobre esta doutrina nesta altura. Não percamos o precioso fio de raciocínio. Prestando detida atenção, a memória me parece ter coisas do passado, mas não idéias do presente, como objetos. Examinando mais de perto esse sistema de idéias que constitui a memória, nos recordamos de que nenhuma prova sólida da existência de idéias foi jamais aduzida. Idéias são meras ficções ou hipóteses, inventadas para resolver o enigma dos fenômenos do entendimento humano; idéias não são o suficiente para resolver este enigma; essa hipótese das idéias ou imagens das coisas em nossa mente, ou no aparelho sensório é afim aos múltiplos paradoxos tão chocantes ao senso comum, afim ao ceticismo que desgraça nossa filosofia da mente e que nos trouxe, em primeiro lugar, à condição de sermos alvos do ridículo e do desprezo de homens sensíveis ou prudentes.
Nesse ínterim, peço vênia para pensar com o vulgo que, quando lembro o cheiro da tuberosa, toda sensação que senti ontem, e que não mais prevalece (não mais existe), é o objeto imediato de minha memória. Quando imagino as coisas de outrora presentes, a sensação ela mesma, não sua representação, não seria o objeto imediato de minha imaginação? Mas se o objeto de minha sensação, a memória e a imaginação forem neste caso o mesmo, ainda assim esses atos ou operações da mente são tão diferentes e tão facilmente distinguíveis quanto cheiro, gosto e som! Estou consciente de uma diferença de tipo entre sensação e memória, e entre ambas e minha imaginação. Reitero que a sensação me obriga a crer na existência presente do cheiro, e a memória me obriga a crer na existência passada desse cheiro. Há um odor, é o testemunho imediato do sentido; houve ou havia um cheiro, é o testemunho imediato da memória. Se você me pergunta: por que você acredita que o cheiro existe?, eu não posso dar outra resposta a não ser que eu cheiro, estou sentindo o cheiro. E se você me perguntar: por que você acredita que o cheiro existiu ontem?, a única resposta é porque eu lembro do cheiro que eu senti.
Sensação e memória, portanto, são operações mentais simples, originais e perfeitamente distintas, e ambas, a sensação e a memória, são princípios originais da crença. A Imaginação, esta é distinta de ambas, pois não é um princípio da crença. Sensação implica existência presente do objeto; memória, existência passada; porém, imaginação é uma operação da mente que vê o objeto desnudo, sem implicar na fé na existência do mesmo, ou na sua não-existência. Isto é o que as escolas denominam apreensão simples.
SEÇÃO 4ª. JUÍZO E CRENÇA EM ALGUNS CASOS PRECEDEM A APREENSÃO SIMPLES. [SEC24]
Mas eis que nos deparamos com o sistema ideal, que bloqueia nossa passagem. Ele ensina que a primeira operação da mente sobre suas idéias é a apreensão simples, a concepção mais crua de alguma coisa, sem crença embutida. Só depois de termos adquirido mais apreensões simples, via comparação, percebemos acordos e desacordos entre estas apreensões. Estas percepções de acordos e desacordos seria o que chamamos de crença, juízo, conhecimento. O problema é que toda essa sistemática é fictícia, arbitrária, sem fundamento natural: a sensação deve vir primeiro que a memória e a imaginação; se isto é verdade, estaria pressuposto que a apreensão, acompanhada de crença e conhecimento, viria antes da apreensão simples, ao menos dentro do escopo que agora estudamos. Em vez de dizer ingenuamente que crença e conhecimento advêm da comparação entre apreensões simples, deveríamos afirmar que a apreensão simples é desempenhada decidindo sobre e analisando um juízo original e natural. E é com operações mentais, neste caso, como é com os corpos naturais, que se compoem de elementos e princípios simples. A natureza não exibe esses elementos em separado, para que nós os unifiquemos; ela os exibe misturados e compostos em corpos concretos, e é só via arte¹ e análise química que decompomos os elementos.
¹ No sentido de experiência acumulada, não da intuição estética.
SEÇÃO 5ª. DUAS TEORIAS DA NATUREZA DA CRENÇA REFUTADAS. CONCLUSÕES DERIVADAS. [SEC25]
O que é exatamente essa crença ou conhecimento que acompanha a sensação e a memória? Todo homem sabe o que é, mas nenhum ainda o definiu. Algum homem aspira a definir a sensação, a fim de definir o que é a consciência? Afortunadamente, ninguém incorre nesse erro. Se nenhum filósofo tentou até hoje definir e explicar a crença, alguns paradoxos filosóficos – mais incríveis que qualquer um nascido das superstições mais abjetas ou do entusiasmo mais frenético – jamais viram a luz. Desse tipo decerto é aquela descoberta moderna da filosofia ideal, de que a sensação, a memória, a crença e a imaginação – provado que se relacionam ao mesmo objeto – são apenas diferentes graus de força e vivacidade da ‘idéia’. Suponhamos a idéia como sendo a de um estado futuro post mortem. Um homem tem nele plena convicção; outro é agnóstico (possui um grau fraco e diáfano da idéia). Suponha agora uma terceira pessoa que acredita firmemente que não haja tal estado. Estará sua idéia num grau extremamente fraco da escala ou, pelo contrário, no grau mais poderoso? Se é um estágio fraco da idéia que move este terceiro homem, então há de haver uma crença poderosa, em que a idéia é fraca; se é um estágio poderoso da idéia, então a crença num futuro estado da alma e a crença de que não haja tal estado devem ser uma e a mesma. O mesmo argumento usado para provar que a fé sugere tão-só idéias consolidadas de um objeto, em vez da apreensão simples, pode ser usado, portanto, para dizer que a fé em Zeus seria mais poderosa, inerentemente, do que uma indiferença qualquer do sujeito frente a um objeto (a postura do agnóstico). O que diríamos então do ódio? Usando esta escala hipotética, seria um grau do amor ou um grau de indiferença? Se devêramos dizer que no amor há algo mais que uma idéia, p.ex., que é uma afecção da mente; não poderíamos dizer com igual razão que na fé ou convicção há algo mais que uma idéia, p.ex., uma persuasão ou assentimento da mente?
Talvez cheguemos à conclusão de que é tão ridículo tentar lutar contra esta opinião quanto defendê-la! De fato, se um homem insiste que um círculo, um quadrado e um triângulo diferem somente em magnitude, e não em figura, acredito que ele não encontraria nem apoiadores nem debatedores, isto é, refutadores. E no entanto não me soa menos chocante ao senso comum insistir que sensação, memória e imaginação diferem somente em grau, e não em tipo ou qualidade. Sei, ilustrativamente, que se diz que no delírio ou no sonho os sujeitos estão sujeitos a trocar uma pela outra. Mas disso tornar-se-ia necessário que em vigília e em estado saudável de consciência não distinguíssimos uma da outra? Como um homem vem a saber que não delira? Não posso afirmá-lo;¹ nem como um homem sabe que existe! Mas se um homem, no cotidiano, duvida seriamente se está ou não em crise de delírio, a probabilidade maior é que ele realmente esteja delirando, e é hora de consultar um médico – e não um professor de lógica!
¹ A famosa fala confuciana: “Como sabemos que não estamos sonhando com a realidade?”.
Já descrevi a noção lockeana de crença ou conhecimento: ele sustenta que essa não é senão a percepção do acordo ou desacordo com as idéias; e isso ele considera uma descoberta importantíssima.
Teremos ainda a oportunidade de examinar mais minuciosamente esse grande princípio da filosofia do senhor Locke, e de demonstrar que com efeito se trata de um dos principais pilares do ceticismo moderno, muito embora contra a vontade do autor. De imediato, consideremos apenas o quanto este princípio adere à causa da crença que estamos estudando. Poderá este princípio iluminar o caso? Creio que a sensação que sinto existe; e que a sensação de que me lembro não existe agora, mas existiu ontem. Aqui, de acordo com o sistema de Locke, eu comparo a idéia de uma sensação com as idéias das existências passada e presente. Numa ocasião essa idéia está de acordo com a idéia da existência presente, mas em desacordo com a idéia da existência pretérita; na segunda ocasião, o inverso. São idéias caprichosas e que estão o tempo todo trocando amizades e inimizades! E não estou preparado para entender como funcionam esses caprichos… Quando digo que uma sensação existe, penso que entendo claramente aquilo que quero expressar. Mas aquele que quer tornar a expressão ainda mais clara afirma que há uma concórdia entre a idéia dessa sensação e a idéia da existência! Isso são trevas, não luzes. Circunlóquios obscuros. Concluo, portanto, que a crença que acompanha a sensação e a memória é um simples ato mental, que carece de definição. E assim será com as demais sensações: ver e ouvir jamais poderão ser definidos a ponto de ver e ouvir serem entendidos por quem não vê ou ouve. Para quem vê e para quem ouve, tanto faz uma definição: ela não tornará o visto ou o ouvido ‘mais claro’ para si. Todo homem com crenças e artigos de fé (e seria uma grande curiosidade depararmo-nos com um homem isento de crenças!) sabe perfeitamente o que uma crença é, mas nunca a definirá nem explicará a contento. Concluso, ainda, que sensação, memória e imaginação, mesmo debruçadas sobre o mesmo objeto, são operações de uma natureza bastante distinta, perfeitamente distinguíveis para qualquer homem sóbrio e em sua razão. Um homem que corre perigo de trocar umas pelas outras está ele mesmo em grande perigo e deve ser considerado com grande piedade. O que quer que este homem espere encontrar em termos de consolação, deverá se dirigir a outra coisa fora da metafísica e da lógica! Concluo, indo além, que pertence à condição humana o ato de acreditar na existência presente das nossas sensações e na existência passada daquilo que a memória é capaz de recordar tanto quanto o ato de achar 4 como resposta de de 2². A evidência dos sentidos, a evidência da memória e a evidência da relação necessária entre as coisas¹ são todas evidências distintas e originais inerentes a nossa constituição. Nenhuma dessas evidências depende da outra ou pode ser por elas esclarecida. Debater contra isso seria absurdo. Não, debater a favor delas é ainda absurdo, tautológico!² São princípios primordiais. São princípios não da razão, mas do próprio senso comum.³
¹ Quase chega à Crítica da Razão Pura de Kant. Sentir implica o espaço, a memória implica o tempo e em terceiro lugar vem o princípio da causalidade; eis o tripé do a priori epistemológico kantiano.
² Daí serem faculdades hoje chamadas a priori, que precedem nossa experiência.
³ Da razão pura, na nomenclatura de Immanuel Kant. O que Reid chama de razão neste contexto ainda é a razão empírica dos britânicos e/ou a razão abstrata dos franceses cartesianos antes do “kantismo” filosófico elaborar a síntese e encerrar o debate.
SEÇÃO 6ª. EM DEFESA DOS ABSURDOS EM METAFÍSICA. SENSAÇÃO SEM SUJEITO, UMA CONSEQÜÊNCIA DA TEORIA DAS IDÉIAS. OUTRAS CONSEQÜÊNCIAS DESSA ESTRANHA OPINIÃO. [SEC26]
Havendo considerado a relação existente entre a sensação do cheiro e a lembrança e a imaginação dele, prossigo, agora, com a relação do olfato com a mente, ou princípio senciente. É certo que nenhum homem pode conceber ou crer na existência do cheirar sem uma consciência, ou algo que tenha o poder de cheirar, o que chamamos simplesmente sensação, operação ou sentimento. Se for solicitada uma prova da asserção anterior, no entanto, confesso que ela não existe. Querer provar o olfato ou a sensação seria tão absurdo quanto negá-los.
Tudo isso poderia ser afirmado sem escusar o leitor antes da publicação do Tratado da Natureza Humana. Porque até este evento não sei de indivíduo algum que pensara em pôr em dúvida aquele princípio, ou em dar para sua crença uma justificação racional. Que os seres pensantes fosse de natureza etérea ou ígnea, material ou imaterial, tudo isso andava em disputa; mas pensar numa operação executada por um ser ou outro havia sido sempre prestabelecido, um princípio que não admitia dúvida.
Desde que Hume, no entanto, que é sem dúvida um dos metafísicos mais agudos jamais produzidos, tratou este princípio como um preconceito vulgar, e sustentou que a mente é só uma sucessão de idéias e impressões sem qualquer objeto, isto mudou. Sua opinião, embora contrária às apreensões comuns da humanidade, merece respeito. Peço portanto que nem esta nem outras noções metafísicas correlatas sejam pejorativamente tratadas como absurdos ou contra-sensos. Não significa, por ser uma opinião minoritária, nenhuma depreciação desses autores. Seu procedimento não se deve à falta de entendimento, mas de um excesso de refino: os raciocínios que conduzem a suas hipóteses iluminam a matéria de modo inédito e são sinais de verdadeiro gênio e penetração. As premissas expiam a conclusão.
Se há determinados princípios, como creio ser o caso, em que a constituição de nossa natureza nos leva a crer, e que normalmente, por necessidade, devemos tomar como inatos no sentido do cotidiano, sem por isso poder explicar sua causa –– se há esse tipo de princípios, são eles o que batizamos de princípios do senso comum. Aquilo que se apresenta como manifestamente contrário aos princípios do senso comum são naturalmente considerados por nós como absurdos.
Se nossa mente formula a abstração “A sensação e o pensamento podem existir sem a senciência”, e estabelece esta formulação na filosofia como uma verdade, isto não se deve ao acaso. Com efeito, e não ironizo, o atingimento desta formulação são a mais incrível descoberta de toda nossa história intelectual. A doutrina das idéias que nós recebemos da Antiguidade é o princípio-base que torna possível este conhecimento por dedução (em vez de indução). Em dado momento seria necessário chegar a esta conseqüência, dada a premissa. Que tenha demorado muitos séculos é chocante – mas é provável que não fosse assim se a repugnância e contrariedade que sente nossa apreensão cotidiana não retardassem bastante seu estabelecimento. É de fato uma conclusão que exige um grau incomum de intrepidez filosófica. É um princípio fundamental de um sistema ideal: Todo objeto do pensamento deve ser uma impressão, ou uma idéia, isto é, uma cópia mais tênue de uma impressão precedente. Este princípio fundamental é tão universalmente validado que o autor acima citado¹ não necessitou, ainda que todo seu sistema fosse decorrente dele, erigido sobre ele, provar seu ponto. Este ponto fixo, este princípio básico, sobre o qual Hume erige seu maquinário metafísico, é o suficiente, ao fim, para tornar céu e terra, corpo e espírito convolutos. Em minha apreensão indutiva, este ponto fixo não gera tamanha conseqüência à toa ou devido a qualquer tipo de erro. É uma revolução lógica do espírito humano. Porque se impressões e idéias são os únicos objetos do pensamento, faz sentido que céu e terra, corpo e espírito, e tudo o mais, devam ser considerados unicamente como impressões e idéias, ou seriam ainda pior, palavras sem qualquer significado. Tal noção, em que pese tão estranha, está intimamente conectada com a validade da doutrina das idéias – neste ponto, ou admitimos as conclusões que tal doutrina nos preme a tomar ou então questionamos toda a doutrina.
¹ Aqui fala-se de David Hume, mas não devemos esquecer que a doutrina das idéias provém de Platão.
As idéias parecem conter algo em sua natureza que não coaduna bem com outras existências. Sua primeira aparição na filosofia se deu por meio de imagens ou símbolos um tanto simplórios das coisas. São imagens tão tíbias que não têm – ou tinham – qualquer caráter ofensivo; ao contrário, serviam admiravelmente bem ao progresso do pensar, em particular como instrumentos da filosofia na descrição das operações do entendimento humano. Desde que, porém, o homem começou a raciocinar mais clara e distintamente, as idéias foram de grau em grau suplantando seus constituintes (as coisas), tomando o lugar de tudo, subsumindo sua existência, menos a das próprias idéias. Em primeiro lugar, foram descartadas as qualidades secundárias dos corpos. Isto significa: o fogo não é quente, a neve não é fria, o mel não é doce: o calor, o frio, o som, a cor, o gosto e o olfato nada são senão idéias, impressões. O Bispo de Berkeley tomou um passo adiante, encontrando, racionalmente, seguindo o mesmo princípio, outrossim, a formulação de extensão, solidez, espaço, figura e corpo como idéias – em suma, que nada há na natureza a não ser idéias e espíritos. Mas o triunfo das idéias foi finalmente declarado pelo Tratado da Natureza Huamana, que contesta, finalmente, a co-primazia dos espíritos na fórmula. Apenas idéias (impressões) têm existência no cosmo. O que se daria se, coexistentes apenas umas com as outras, as idéias, finalmente soberanas, passassem a predar agora umas às outras, num canibalismo figurado, deixando a natureza órfã de existência em absoluto? Isso deixaria a filosofia em grave perigo. Seria o fim das investigações.¹
¹ Engenhoso parágrafo de Reid, parecendo antecipar, ao menos em seus contornos, a crise da razão que se concretizaria e ultimaria somente cem anos depois, quando já não seria mais possível fugir da questão do niilismo metodológico.
Isso, porém, seria uma questão para adiante. Até o presente os filósofos reconhecem a existência das impressões e idéias. Reconhecem determinadas leis da atração, ou regras de precedência, de acordo com as quais as idéias e impressões variam em forma e sucedem-se entre si. Mas que devam pertencer à mente, como objetos ou propriedades de um senhor, isso não admitem. As idéias são tão livres e autônomas quanto os pássaros no vôo, ou os átomos de Epicuro sem obstáculos em sua trajetória. Nos permitamos considerar as idéias como películas ou membranas das coisas com auxílio do sistema de Epicuro.
Principio hoc dico, rerum simulacra vagari,
Multa modis multis, in cunctas undique parteis
Tenuia, quae facile inter se junguntur in auris,
Obvia cum veniunt.¹ – LUCRÉCIO²
¹ —No princípio, diz-se, as imagens vagaram,
De todos os modos, em todas as direções
Sendo que a tendência era eventualmente
Se reunirem umas com as outras.
²
Ou as idéias antes lembrariam os espécimes inteligíveis de Aristóteles após serem projetados do objeto, mas antes de atingirem o intelecto passivo? Mas por que gastamos nosso tempo com comparações, se não há nada na natureza a não ser idéias? Eis toda a decoração do universo; principiando na existência, ou fora dela, sem causa; combinando-se em parcelas (receptáculos?), que o vulgo chama de mentes; sucedendo umas às outras segundo leis imutáveis, sem tempo, lugar ou autor destas leis mesmas.
E contudo essas idéias auto-existentes e independentes parecem tristes, carentes e capengas, se deixadas ao relento em meio ao universo das coisas. Parece que as idéias nunca estiveram em pior estado. Descartes, Malebranche e Locke, como utilizavam muitas e muito as idéias, tratavam-nas bem, hospedando-as nos melhores aposentos. Com efeito, a residência das idéias, para estes senhores, era ou a glândula pineal ou o puro intelecto ou até a mente divina. Estas idéias também eram vestidas e revestidas de bons trajes e ofícios, cabendo a elas representar as coisas, prestando-lhes a máxima dignidade e caráter. Mas o Tratado da Natureza Humana, muito embora deva sua existência a toda essa nobreza das idéias prévias, foi muito ingrato com todas. Pensou ser grato concedendo-lhes essa liberdade absoluta, essa existência independente. Órfãs, por assim dizer, sem um lar aconchegante como antes, desamparadas no caótico mundo das ruas, sem amizades nem conexões, sem mesmo trapos para cobrir a própria nudez – queem sabe se não irão todas essas idéias, na nova condição, perecer, graças ao próprio zelo de seus novos defensores zelosos, os últimos filósofos?
E no entanto trata-se da mais maravilhosa descoberta, a de que pensamento e idéias existam independentemente do ser: uma grande descoberta com conseqüências difíceis de mensurar por esses mortais iludidos, que raciocinam na senda comum. Sempre estivemos inclinados a imaginar que um pensamento tem um pensador, que o amor possui amante e amado, e a traição, traídos e traidores. Hoje, entretanto, apercebemo-nos de que era um erro histórico. Pode haver traição sem traidores, amor sem amantes, leis sem legisladores, até punição sem punidos, sucessão sem tempo e movimento sem objetos que se movem, aliás, nem falar em espaço no qual se movam; ou, analogamente, se as idéias forem quem ama, quem sofre, quem trai – aí então é desejável que o autor desta descoberta complementasse seu trabalho, informando-nos se, nesse caso, idéias podem dialogar entre si, se podem assumir obrigações morais ou relações de gratidão; fazer promessas, ingressar em associações, assinar tratados, cumpri-los ou quebrá-los, e com isso ser passíveis de punição. Se um rol de idéias pactua, outro rol pode desebedecê-las, uma terceira categoria ser eleita como bode expiatório, e assim por diante. Não há qualquer razão para atribuir justiça inata a este sistema.
Mas para mim parecia natural que o Tratado da Natureza Humana necessitava um Autor, não se escrevendo sozinho. E não um qualquer, um muito engenhoso. Claro que foi apenas uma suposição imatura e afoita: o Tratado é o resultado da concórdia entre idéias livres, que se associam e atraem de acorod com o próprio senso de independência individual.
Depois de tudo, este curioso sistema não calha muito com o atual estado da natureza humana, analisando mais densamente. Claro que alguns espíritos eleitos, muito acima do senso comum, muito refinados, ainda poderão tirar proveito do Tratado em larga medida. Porém, ainda resta minha restrição de que mesmo estas almas só podem ingressar no sistema nas horas mais prazeiteiras e ociosas, sendo vedado se aventurar no reino das idéias independentes em horas menos especulativas. Condescender em lidar de novo com a raça humana e as coisas materiais, digo, conversar com um amigo, um companheiro, um compatriota, um cidadão, é desmanchar este sistema ideal. O senso comum, como corrente irresistível, retoma o controle e arrasta a todos, sem exceção. Apesar de todo seu isolamento e suas reservas, os filósofos também crêem que existem, e crêem na existêm das coisas que os rodeiam.
O que é muito positivo, por sinal: assim o restante da humanidade não os considera indivíduos doentes, podendo estes sujeitos levar uma vida normal. Assim como Platão exigia certas qualificações para a entrada em sua Academia, os proponentes desta filosofia ideal devem providenciar o mesmo, por prudência, admitindo em seu círculo somente aqueles que sabem diferenciar aquilo que pensam de si quando estão sozinhos ou quando estão acompanhados. Em suma, que só sejam admitidos filósofos que saibam que seus princípios não funcionam na prática. Esta filosofia é como um passatempo que um homem cultive em seu tempo recluso; que até um homem nada virtuoso cultive, em seclusão, sem prejuízo social. Sem prejuízo para a própria reputação. Mas se ele exibe esses princípios na igreja, no comércio, nas inter-relações, no jogo de cartas, seu herdeiro imediato não deverá pestanejar em evitar a mácula convocando de pronto um júri, a fim de interditá-lo.
SEÇÃO 7ª. A CONCEPÇÃO E A CRENÇA NUM SER SENCIENTE OU NA MENTE É SUGERIDA POR NOSSA PRÓPRIA CONSTITUIÇÃO; A NOÇÃO QUE HÁ DAS RELAÇÕES NEM SEMPRE É ADQUIRIDA MEDIANTE A COMPARAÇÃO ENTRE IDÉIAS RELACIONADAS. [SEC27]
Deixando de lado, portanto, essa filosofia àqueles que têm predisposição a ela e a utilizam com discrição num “exercício de quarto”, devemos ainda indagar como o restante da humanidade, e os próprios céticos quando não em estado solitário, veio a adquirir e cultivar tão forte e irresistível fé: a fé de que o pensamento tem de ter um objeto, e ser ato também de um sujeito: como todo homem crê em si como sendo algo distinto de suas próprias idéias e impressões; algo, por assim dizer, que continua sendo o mesmo ‘si’ idêntico mesmo quando suas idéias e impressões mudam. É impossível traçar a origem dessa opinião na história: em qualquer língua o designativo em primeira pessoa existe desde os primeiros vestígios de sua existência. Todas as nações creram até hoje no eu. Todas as constituições e governos, bem como todas as transações cotidianas da vida, supõem o eu.
Não é menos impossível ao próprio sujeito tentar lembrar-se desde quando ele veio a ter essa noção de si; nossas memórias mais antigas já estão associadas a uma consciência de si próprio, tão claramente quanto era claro que existíamos, e que reconhecíamos a existência de outros objetos externos. Numa palavra, de modo tão conciso e que não aceita exceções como 1 + 1 = 2. É uma opinião que a priori antecede todo raciocínio, e mesmo experiência e instrução; é especulação minha, mas é o mais provável, porque seria difícil nos inculcar algo tão poderoso mais tarde, se já não fosse nosso. É um fato inegável que, via pensamento ou sensação, toda a humanidade, constante e invariavelmente, desde a aurora da consciência, infere um poder ou faculdade do pensamento, e junto com ela uma mente ou ser permanente a que esta faculdade pertence; é fato inegável que nós adscrevemos invariavelmente todos os tipos de sensação e pensamento de que temos consciência a uma mente individual ou self.
Mas sobre quais regras lógicas fazemos essas inferências é impossível demonstrar; até mesmo nossas sensações e nosso pensamento vigentes, que são capazes de se referir a uma noção ou conceito de mente ou faculdade, são igualmente incapazes de nos brindar com a explicação de como eles mesmos são disso capazes! A faculdade do olfato é algo bem distinto da sensação de cheirar por si mesma; pois a faculdade continuará mesmo que percamos a sensação (supondo que estamos apenas descansando de usá-la ou num ambiente inodoro). E a mente não é diferente, nesse aspecto de perseverança, que a faculdade. Ela é a própria faculdade da faculdade, i.e., o que a faculdade é para a sensação, a mente é para a faculdade. A mente segue a mesma ainda que por algum evento percamos, por exemplo, a faculdade do olfato. A sensação nos sugere uma faculdade e uma mente; e não apenas uma noção de ambas, mas até cria, acredito, a fé na ou certeza de sua existência. Embora seja impossível avaliar o que afirmo racionalmente e estabelecer qualquer conexão, mais fugaz ou diáfana que seja, entre tal sensação e certeza.
O que podemos dizer, então? Ou referidas inferências que tiramos das sensações (a existência da mente, os poderes das faculdades que lhe pertencem) são prejuízos da filosofia ou da educação, meras ficções da… mente, o que um homem prudente deve logo descartar, como se se tratasse de crença em fadas, pois já seria imputar má-fé ao próprio objeto aqui investigado… Ou referidas inferências são juízos da natureza, juízos obtidos não ao comparar idéias, captando concórdias e discórdias entre elas, mas imediatamente inspiradas pela nossa própria constituição.¹
¹ Reid prefigura Kant claramente. Comparemos a possível data em que ambos publicaram primeiro suas afirmativas neste sentido: Reid neste tratado e Kant em Crítica da Razão Pura. (…) Isso é o máximo que podemos sacar de conclusões num debate sobre pioneirismo em filosofia. Ignoro, na história das idéias, quais fatores foram mais decisivos para Kant ser ilustríssimo e Reid quase uma curiosidade de pé de página (que ainda teve a sorte de ser citado por Arthur Schopenhauer numa obra muito conhecida, ao que devo meu próprio conhecimento de sua existência). Kant tem suas deficiências palpáveis de estilo e escrita; mas o mesmo pode ser censurado a Reid, que é bem menos direto do que a modorra do assunto parece exigir; mas falo da perspectiva de um filósofo do séc. XXI já “farto de ouvir falar” nestes “primórdios” da concepção dos a priori da (a)percepção humana. Provavelmente este assunto delicado, à época, requeria todo esse cuidado dos dois autores, quiçá até mais.
Considerando que a resposta é o segundo caso, será impossível abandonar estas concepções, então sirvamo-nos delas! Se pudéssemos, mediante uma obstinação reiterada, atirar fora esses princípios naturais, seria até uma atitude anti-filosófica, mas apenas abdicar à loucura. Cabe aos céticos se explicarem diante de sua confusão precipitada, e não a nós, que seguimos a natureza milenar das coisas.
Faz parte da doutrina filosófica que herdamos o conhecimento de que nossas noções das relações só podem ser obtidas comparando idéias relacionadas; mas, no presente caso, pareço haver encontrado uma instância excepcional. Não é através das noções de mente e sensação que alcançamos a relação de uma delas com a coisa ou substratum¹ e a relação da outra com um ato ou operação. É todo o contrário: uma das coisas comparadas, quer seja, a sensação, sugere de antemão tanto o correlato quanto a própria relação!
¹
Peço que me permitam a utilização das palavras ligadas a sugestão aqui. Sugerir, no caso acima. Desconheço expressão melhor para exprimir um poder da mente que por tanto tempo parece ter passado desapercebido pelos mais distintos filósofos. Muito do que somos capazes de operar com a mente, que não é nem impressão nem idéia, é também atribuível a esse poder de sugestão. Muitos princípios originários da crença, por sinal.¹
¹ Revisemos o verbo sugerir no dicionário português: insinuar; lembrar; inspirar; fazer nascer no espírito; promover. Sem dúvida Reid foi muito feliz na escolha da palavra.
Todos nós sabemos que um certo tipo de som nos sugere imediatamente, ou sugere antes à mente, uma carruagem atravessando a rua. E não só essa sugestão alimenta poderosa e rapidamente nossa imaginação como a crença, a crença de que uma carruagem está passando. Idéias não chegaram a ser comparadas. Não há aqui uma reflexão interna que leve em conta harmonias e discordâncias, nada do tipo. É uma crença; nasce como crença. Não há como comparar, tampouco, a carruagem com o som dos cavalos e das rodas da carruagem em contato com o asfalto. Tal analogia entre duas idéias, ou, na verdade, uma idéia e uma sensação, é impossível.
Esta sugestão em específico não é natural e original; é o resultado da da experiência e do hábito. Alguém que nunca ouviu este som antes, não conhece o veículo e nunca visitou a cidade correria sério risco de ser atropelado, pois o som não necessariamente lhe sugeriria algum perigo ou nada pesado em particular se deslocando em velocidade. Porém, acredito que haja sugestões naturais neste mundo. Uma delas eu citei: que a sensação nos sugere a noção da existência imediata, e a crença de que o que percebemos ou sentimos agora existe agora. Que a memória sugira a noção de uma existência passada e a crença de que lembramos ter vivido e tido um tempo passado nós mesmos; e que nossas sensações e pensamentos sugiram a noção de uma mente, e a crença em sua existência, e de imediato sua relação com os pensamentos, tudo isso é mera conseqüência natural do já dito.
Algum princípio natural do tipo, que nos sugere um começo do existir, ou mudanças na natureza, nos sugere a noção de causa e nos compele à fé em sua existência (causas existem). Antes de encerrar o capítulo, devo assinalar que, no devido tempo, discorreremos sobre a sugestão que nos dá o sentido do toque ou tato: mediante algumas sensações no contato com objetos ou corpos, devido à nossa constituição inata, ficam-nos sugeridos desde já aspectos como extensão, solidez e até movimento, que não são simples sensação, muito embora os filósofos têm-nos confundido com sensações até aqui. Não encerramos o tópico do olfato, entretanto.
SEÇÃO 8ª. EXISTE UMA QUALIDADE OU VIRTUDE DOS CORPOS CHAMADA OLFATO. COMO ELA ESTÁ CONECTADA, NA IMAGINAÇÃO, À SENSAÇÃO. [SEC28]
Por enquanto consideramos o cheiro como significando uma sensação, sentimento ou impressão impingidos na mente; nesse sentido, só pode ser mesmo numa mente, num ser senciente. Mas é evidente que a humanidade dá o nome de cheiro muito mais amiúde a algo que se concebe como meramente externo, ou seja, qualidade dos corpos: entende-se com esse discurso que cheiro está como que “separado” da mente. O homem, com efeito, não sente dificuldades ou constrangimento em conceber o ar perfumado com odores aromáticos nos desertos da Arábia, ou em qualquer ilha desabitada, sem a presença de mentes ou criaturas sencientes para cheirá-los. Do mais eminente filósofo ao trabalhador mais humilde, esse trabalho de concepção será igualmente fácil e estará igualmente presente. Não há ninguém convencido do contrário. Há cheiros lá fora, sendo sentidos ou não.
Mas, já que tocamos no filósofo, suponhamos um encontro deste trabalhador dotado de senso comum com um filósofo moderno, no sentido mais pejorativo do termo. Suponhamos que o trabalhador muito respeita a sabedoria do filósofo e lhe pergunta: O que é o cheiro das plantas? O filósofo então dirá: Não há cheiro das plantas, nem em nada mais, o cheiro está só na mente; é impossível que haja cheiro fora da mente; tudo isso já foi demonstrado pela filosofia moderna. O homem de senso comum irá, sem dúvida, achar que foi vítima dum gracejo; mas se por um acaso interpretar que o filósofo falou a sério, sua próxima conclusão, então, será que ele ficou louco. Ou que a filosofia, como a magia, transforma o homem noutra coisa, condu-lo a outro mundo, concede-lhe poderes inimagináveis para o homem de senso comum. É então que o senso comum e a filosofia se divorciam para sempre. Mas a quem devemos culpar? Em minha opinião, o filósofo. Porque se ele entende por cheiro o que todo o resto da humanidade aprecia como cheiro, ele realmente ficou louco. Mas se ele concede um significado diferente à palavra cheiro, sem no entanto avisar disso a coletividade que o rodeia, ele abusa da linguagem, e desgraça com isso a filosofia, sem chegar um centímetro mais perto da verdade – como um homem que trocasse as palavras filha e vaca e tentasse provar ao vizinho que sua vaca é sua filha, e sua filha sua vaca.
Acredito não haver muito mais sabedoria em muitos desses paradoxos da filosofia idealista, que, para homens no pleno uso da razão, não passam de patentes absurdos, com a diferença de que os adeptos destes absurdos tentam convencer os leigos de que se tratam de profundas descobertas. De minha parte eu delibero seguir a rota ditada pelo senso comum, e não sair deste caminho seguro senão em caso de absoluta necessidade. Agindo assim, chego à conclusão de que há realmente na rosa ou no lírio algo que o vulgo chama de cheiro, e que continua a existir mesmo quando não é cheirado. Devo seguir investigando o objeto. Como adquirimos dele a noção? Qual é a relação dessa qualidade ou virtude do olfato com a sensação do olfato, que anteriormente nos vimos obrigado a chamar pelo mesmo nome, embora sejam duas coisas distintas, pela falta de um outro nome adequado.
Imaginemos uma pessoa que começa a exercitar o sentido do cheiro: um pouco só de experiência irá ensinar-lhe que o nariz é o órgão deste sentido, e que o ar, ou algo no ar, é seu meio. Adquirindo mais experiência, perceberá que quando uma rosa está próxima ela tem certa sensação; quando a rosa é retirada ou removida, a sensação é suspensa. A pessoa obrigatoriamente estabelece uma conexão entre a rosa e a dita sensação. A rosa é considerada como a causa, a ocasião, ou antecedente da sensação; a sensação como um efeito ou conseqüência da presença da rosa; ambas estão associadas na mente, e constantemente aparecem indissociadas na imaginação.
Mas há algo que merece nosso reparo: embora a sensação pareça mais intimamente rligada à mente enquanto seu sujeito, e ao nariz enquanto seu órgão, nenhuma dessas conexões opera tão poderosamente sobre a imaginação quanto sua conexão com a própria rosa, sua concomitante. A razão para isso parece residir na maior generalidade da conexão das coisas ou sensações com a mente, que não ‘sabe’ bem separar outros tipos de cheiros, i.e., não sabe como compará-los, o mesmo valendo para gostos, sons e outras sensações. A relação da sensação com o órgão é também ‘geral’, e não distingue de outros cheiros – mas a conexão com a rosa é especial e constante. Doravante, rosa e sensação se tornam inseparáveis, por assim dizer, na imaginação, assim como não pensamos, praticamente, no trovão sem pensar no relâmpago, no objeto congelado sem pensar no frio.
SEÇÃO 9ª. EXISTE UM PRINCÍPIO DA CONDIÇÃO HUMANA DO QUAL DERIVAM A NOÇÃO DO OLFATO E OUTRAS VIRTUDES OU CAUSAS NATURAIS. [SEC29]
Para ilustrar melhor como concebemos uma qualidade ou virtude na rosa, que vimos a chamar de cheiro, e o que o cheiro é, é necessário observar que a mente começa muito precocemente a buscar por princípios que dirijam-na no exercício de seus poderes. O cheiro da rosa é determinada afecção ou sentimento da mente; como não é constante, mas vem e vai, o que queremos saber é quando e onde devemos esperar pela sua presença; ficamos inquietos até acharmos algo que, estando perto, nos traz consigo este sentimento determinado e que, como dito mais acima, estando longe, arranca de nós este mesmo sentimento. A isso denominamos causa. Não no sentido mais filosófico do termo, é verdade: não que o sentimento fosse produzido de fato pela causa, mas no sentido popular do termo. A mente está satisfeita se há o estabelecimento de uma conjunção constante entre um e outro (objeto e sentimento). Estas causas nada mais são que leis da natureza. Tendo verificado que o cheiro da rosa está constantemente aferrado à rosa, a mente se tranqüiliza, sem se perguntar se essa conjunção, verificada, testada, se deve a uma eficiência real ou não. Pois adentrando a investigação filosófica, não concerne à vida humana cotidiana. Mas toda descoberta de conjunção constante é, em realidade, muito importante na vida, e deixa grande impressão na mente.
Desejamos tão ardentemente encontrar tudo que acontece dentro de nossas observações em conexão com outros objetos, atribuindo causas ou ocasiões de fenômenos ou efeitos, que estamos aptos a imaginar conexões até precárias, quase sem fundamento: essa debilidade é mais marcante na mente ignorante, que menos conhece das reais conexões estabelecidas na natureza. Um homem se depara com um acidente inesperado num dado dia do ano; desconhecendo qualquer outra causa para sua atribulação, está o homem disposto a conceber que este mesmo dia do calendário é a possível causa da ocorrência de azares, eventos ruins. E se no ano seguinte, no mesmo dia do mês lhe sucede outro evento indesejável, talvez, melhor ainda, não já no ano seguinte, mas vários anos depois, pensa, se guardou bem na memória, poder confirmar a conexão (neste caso uma superstição atrelada a um simples número, e um nome associado ao número, se se quiser). Lembro, muitos anos atrás, de um boi importado a este país, tão grande e pesado que as pessoas percorriam enormes distâncias para vê-lo. Aconteceu que, meses depois, uma fatalidade incomum afetou várias mulheres durante o parto. Dois eventos insólitos seguidos um do outro deixaram a suspeita na mente das pessoas de uma conexão oculta, e fizeram nascer a opinião, entre os habitantes do campo, de que o boi branco era a causa dos problemas de parto.
Malgradas a tolice e ridicularia desta opinião, ela nasceu da mesma raiz da condição humana da qual toda a filosofia também brota, da mente. Da mente e de seu aflitivo desejo de encontrar relações lógicas entre as coisas, uma inclinação natural, original e incontrolável de crer que fatos que viemos a observar no passado, e aos quais atribuímos conexões, voltarão a se repetir. Presságios, portentos, sorte ou azar, quiromancia,¹ astrologia e inúmeras outras artes da adivinhação, além da interpretação de sonhos, falsas hipóteses e sistemas, e mesmo verdadeiros princípios da filosofia da natureza foram erigidos sobre a mesma fundação da constituição humana. E os casos são fechados após apenas algumas poucas observaçoes, em grande parte; noutra, por insistência e indução num grau suficiente, os casos são solucionados de maneira propícia.
Como é unicamente a experiência que descobre essas conexões entre causas naturais e seus efeitos, sem inquirir além atribuímos à causa alguma noção vaga e indistinta de um poder ou virtude para produzir efeitos esperados. Em muitas instâncias da vida não se vê necessidade de distinguir causa e efeito por nomes diferentes. Tão próximos na imaginação, embora tão distintos se considerados em separado, dois nomes vêm a ser conhecidos por um só. No discurso diário, o nome vencedor é o do objeto que mais nos chama a atenção. Isso ocasiona a ambigüidade de inúmeras palavras que, tendo uma mesma causa em muitas línguas, nunca é percebida pelos filósofos. – Alguns exemplos ajudarão a confirmar o que foi dito até aqui.
¹ Leitura do destino pelas linhas das mãos.
Magnetismo significa tanto a atração do ferro pelo ímã quanto a qualidade ou poder do ímã de em geral causar essa atração. E se fosse perguntado: é uma qualidade do ferro ou do ímã?, talvez a resposta fosse hesitante e confusa. Mas um pouco de reflexão sobre o tema descortina que concebemos um poder no ímã como causa, e o movimento do ferro como o efeito. E mesmo o ferro, sem mais, sendo atraído e a faculdade dos ímas (ferro oxidado, magneto) de atrair ferros não-magnetizados sendo duas coisas bem particulares, tendemos a chamar ambas as coisas de magnetismo.¹ O mesmo pode ser dito da gravitação, que às vezes significa a tendência dos corpos em direção ao centro da terra, às vezes o poder de atratividade da terra, que consideramos como a causa verdadeira do fenômeno.² A mesma ambigüidade está presente em alguns dos escritos de Sir Isaac Newton, e em suas definições mesmo. O próprio pai da gravitação universal! Em 3 de suas definições ele detalha claramente o que entende por quantidade absoluta, por quantidade acelerativa³ e por quantidade motriz da força centrípeta. Na primeira das três definições, a força centrípeta é posta como a causa, o que concebemos como o poder no centro do corpo, ou do corpo central, num sistema com vários corpos; nas duas definições seguintes, a mesma palavra é considerada efeito desta causa no ato de produzir a velocidade ou ao produzir o movimento direcionado ao centro.4
¹ Em minha opinião o primeiro exemplo escolhido é péssimo! Mas o autor não estaria em maus lençóis se vivesse para ver o intenso fenômeno dos mesmerizadores, i.e., da proliferação dos estudos sobre o magnetismo animal – por falta de palavras, começamos a empregar o mesmo termo do mundo mineral para relações de sugestão provocadas por um hipnotizador típico do século XIX.
² Novamente um péssimo exemplo. Talvez para seu leitor fizesse algum sentido, mas do época em que estamos não podemos considerar essas falsas equivalências como torpes ou ingênuas.
³ O uso é tão ruim que a palavra sequer se encontra dicionarizada em português.
4 Não tive o privilégio de ler Newton até o momento. Não posso dizer se Reid se expressou mal, não entendeu as leis de Newton ou simplesmente voltou a escolher um mal exemplo (Newton pode efetivamente ter se expressado de uma maneira pouco inteligível ao leigo, de forma que hoje um aluno esteja mais bem-informado em física lendo intérpretes do que Newton queria dizer do que lendo o próprio Newton!).
Calor designa uma sensação, frio sem contrário. Mas calor significa também uma qualidade ou estado dos corpos, sem um “contrário”, mas apenas diferenças de grau. […]¹ E quando o homem doente sente que o alimento é ruim mesmo que ontem tenha comido a mesma coisa e o gosto era bom, ele sabe que nenhuma propriedade foi alterada no gosto, mas na sua sensação do gosto.
¹ Em defesa de Reid, aqui o exemplo é melhor. Não se trata de analisar o mesmo fenômeno científico de duas perspectivas (falsamente) bem dicotômicas, mas de constatar que falamos de calor no dia a dia, embora calor seja também um conceito da física moderna. Neste caso, porém, creio que não inventar uma nova palavra seja uma economia com vantagens: o discurso vulgar não interfere no discurso acadêmico, e vice-versa. Nunca vi alguém se descabelar por não entender de qual calor se está falando, mesmo numa aula de física do ciclo básico! Um trecho do parágrafo foi suprimido porque contém noções tão óbvias sobre frio e calor de líquidos como a água e do corpo que achei desnecessário e até pejorativo incluir na tradução – ao mesmo tempo em que tanto honra o “homem de senso comum” em sua obra, Reid parece subestimar bastante sua intelecção, proclamando-o incapaz das associações mais banais. Veja que no exemplo seguinte Reid não comete o mesmo erro! Não vejo necessidade, no entanto, de se criar uma palavra diferente para designar a sensação do gosto para se contrapor à… virtude do gosto? A sensação do gosto do gosto propriamente dito, numa palavra. ‘Sensação’ já faz a discriminação técnica necessária mesmo ao filosofar.
O vulgo é comumente premido pelo filósofo a pensar no absurdo do cheiro da rosa sendo algo igual à sensação do cheirar.¹ Mas eu penso sem justeza; porque eles sequer tão os mesmos epítetos a ambos.² Nem pensam de maneira análoga para ambos (o cheirar e o cheiro). O que é o cheiro da rosa? É a qualidade ou virtude da rosa; ou de algo que provém dela, que percebemos pelo sentido do olfato. E isso é quanto sabemos do assunto. Mas o que é o olfato, então? É um ato mental; mas nunca é imaginado como uma qualidade da mente.³ De novo, a sensação do cheiro é concebida como inferindo necessariamente uma mente, ou ser senciente. Mas cheiro da rosa nada infere! Dizemos: Esse corpo tem um cheiro doce; isso fede. Mas não dizemos: Essa mente cheira algo doce, e essa algo que fede.4 Destarte, o cheiro da rosa e a sensação que ele causa não são concebidos, mesmo pelo vulgo, como coisas do mesmo gênero, embora compartilhem o nome.4
¹ Como Reid exagera!
² Exatamente!
³ Como não, se já se concede que seja um ato mental segundo o filósofo?
4 Extrapolação.
Do dito, podemos aprender que o cheiro da rosa significa duas coisas. Primeiro, Uma sensação, que não pode ter existência quando não é percebido (o cheiro), e só pode ocorrer em um ser senciente, ou mente. Segundo, Significa algum poder, qualidade ou virtude, na rosa, ou nos eflúvios provenientes da rosa, que tem uma existência permanente, independente da mente, e que devido à constituição da natureza produz em nós a sensação. Pela constituição original de nossa natureza, somos levados a acreditar, duplamente: que há uma causa permanente da sensação, projetada para ir em sua procura (a mente, através do nariz); e que a experiência nos conduz a depositar essa causa na rosa. Os nomes de todos os cheiros, gostos, sons, e também do frio e do calor, possuem a mesma ambigüidade em todas as línguas.¹ O que merece nossa atenção é que esses nomes são raramente usados na linguagem cotidiana para se referir às sensações. Quase sempre esses nomes denotam as qualidades externas que são indicadas pelas sensações.² A causa desta situação eu reputo como sendo que nossas sensações têm diferentes graus de força. Algumas delas são tão vívidas e imediatas, predominantes, enfim, que nos mergulham sem esforço no prazer, ou então no desconforto. Quando este é o caso, somos compelidos a prestar atenção à sensação ela mesma, e torná-la objeto do pensamento e do discurso. Damos-lhe um nome específico que nada indica a não ser a própria sensação. Nestes casos mais favoráveis, e somente nestes, admitimos de imediato que a coisa referenciada pelo nome está apenas na mente, e não no exterior. Estamos falando dos vários tipos de medos, mal-estares e graus da fome ou outros apetites, devidamente substantivados. Mas, onde as sensações não são tão interessantes a ponto de exigir de nossa parte que se tornem objeto imediato do pensar, nossa constituição nos leva a considerá-las o signo de algo externo, que está afinal sempre associado à sensação. Descobrindo o que a sensação indica, damo-lhe um nome: a sensação, esta sensação geral, sem um nome propício, que se torna acessória do sentido que ela evoca, e subsume sob seu nome. O nome (da sensação) pode até ser aplicado à sensação (sensação do cheiro), mas o mais comum é atribuí-lo diretamente ao objeto visível provocador da sensação. As sensações do cheiro, sabor, sons e cores são infinitamente mais importantes como signos ou indicadores do que como sensações em si, predominantes; como as palavras de um idioma, em que não dedicamos novos nomes provocados pelo som, mas nos atemos ao sentido da audição.³
¹ Isso seria um indício para ter fé na língua, não para culpar os filósofos de incompetência.
² O esforço para superar Hume parece interminável e incalculável, vendo-se como Reid se prolonga em circunlóquios relativamente simples (da nossa perspectiva) que são apenas sintomas de uma ingênua compreensão, até sua geração, de questões epistemológicas e fenomenológicas bem-resolvidas mais tarde.
³ Para uma exposição sem solavancos recomendo minha versão abreviada!
SEÇÃO 10ª. DURANTE A SENSAÇÃO A MENTE É ATIVA OU PASSIVA? [SEC210]
Uma dúvida remanesce: no ato de cheirar e no desempenho de outras sensações, é a mente passiva ou ativa? Essa parece uma pergunta sobre palavras, ou ao menos marginal. Mas se sua resposta nos levar mais acuradamente às operações da mente do que estamos acostumados a fazer, não será perda de tempo nem de esforços. Creio que a opinião dos filósofos contemporâneos seja que a sensação é passivamente sentida na mente. E isso é em tal grau verdadeiro que não podemos chegar às sensações por mera força de vontade; na outra mão, parece impossível evitar sentir a sensação quando o objeto é apresentado. Ao mesmo tempo ainda, parece verdadeiro que, na proporção em que a atenção está mais ou menos focada na sensação, ou totalmente dela alheada, a sensação é mais ou menos percebido e relembrada. Todos sabem que uma dor muito intensa pode ser aliviada por exemplo por um fator surpresa, ou muitas coisas que passam a ocupar a atividade mental. Engajados numa conversa, pode ser que nem escutemos as badaladas do relógio; pelo menos não lembramos de imediato termos escutado nada. O ruído e o tumulto de uma grande cidade comerciante não é sequer ouvido ou sentido por quem nela nasceu e a ela está acostumado todos os dias. Os turistas, entretanto, de locais mais remotos, logo se sentirão impactados. Se há alguma sensação que o cérebro possa sentir de maneira puramente passiva, não chegarei a tal extemo. Tudo o que posso dizer é que estamos cônscios de conceder em algum grau a atenção necessária a toda sensação de que recordamos, remota ou recente.
Sem dúvida que, onde o impulso é forte e incomum, é difícil distrair a atenção, como é difícil não acabar chorando sofrendo uma dor atroz, ou não tremer testemunhando uma rápida escalada do pavor. Mas quanto se pode atingir essa dissolução da atenção dependendo da firme resolução mental e do caráter da pessoa, e treinamente, não é fácil determinar. Embora os peripatéticos¹ não possuíssem razões para supor pólos passivos e ativos do intelecto, já que a atenção pode ser designada como uma to de vontade, eles chegaram, ao meu ver, o mais próximo da verdade nesta questão até hoje, ao defender que a mente sempre se desdobra simultaneamente em ativa e passiva diante da sensação. Os modernos julgam de outra forma. Sensação, imaginação, memória e juízo foram considerados pelo vulgo, em todas as idades, atos mentais. A maneira como são expressos em todas as línguas o evidencia. Quando a mente é muito exercida nestas atividades, dizemos, logicamente, que a mente se encontra bastante ativa; mas quando se trata apenas de impressões, como a filosofia idealista nos conduziria a concluir, diríamos, em tal caso, que a mente é demasiado passiva e recipiente: creio que nenhum homem atribuiria grande atividade ao papel sobre o qual escrevo, só porque ele recebe uma variedade de caracteres, manchas e impressões, sobre sua superfície.
¹ Seguidores de Aristóteles.
A relação da sensação do olfato com a memória e sua imaginação, e com a mente e o objeto que emana cheiro, é comum a todas as nossas sensações, e a todas as operações da mente: a relação que ela estabelece com a vontade é comum àquela com as faculdades do entendimento. E a relação estabelecida com essa qualidade ou virtude dos corpos que o olfato indica é comum com a relação estabelecida pelo paladar, pela audição, pela vista da cor, pelo calor e pelo frio: o que foi dito deste sentido pode ser sem problemas aplicado a vários de nossos sentidos, sem falar das operações mentais. Este é meu momento de escusa por me delongar no tópico do olfato.
CAPÍTULO 3. O PALADAR [SEC3]
Quase tudo quanto foi dito sobre o sentido do olfato pode ser replicado para o gosto e a audição, evitando assim uma tediosa repetição em nosso tratado.
É até provável que tudo quanto afeta o paladar é em algum grau solúvel na saliva. Não é concebível como qualquer coisa poderia entrar de imediato, e de seu próprio acordo, como é na realidade, nos poros da língua, palato e as fauces, a menos que houvesse alguma afinidade química ao licor com o qual esses poros estão sempre repletos. Seria realmente uma falta de economia da natureza se assim não fosse, pois se dá ao trabalho de produzir sempre essa espécie de solução nos seres dotados do paladar. E não investigamos até hoje os atributos da saliva o suficiente. Nos cães há uma grande capacidade médica e restaurativa na própria saliva. E não só os cães. Quanto a nós, é muito mais central a subserviência do órgão como um todo ao paladar e à digestão.
É de suma importância o órgão que guarda a entrada do canal alimentar, como foi dito que o nariz era o órgão perfeito para a entrada da respiração e dos cheiros, sendo este canal na verdade interconectado e útil para o caso da respiração bucal. Que tudo que entre no estômago de certa forma passa pelo escrutínio tanto do paladar quanto indiretamente pelo do olfato parece ser uma característica da evolução de nossa espécie, porque o que não é saudável provavelmente nos sabe mal e nos cheira mal. Os homens selvagens não têm sequer outra maneira de selecionar alimentos. O mesmo para os animais mais desenvolvidos. É muito provável aliás que o olfato e o paladar, sem ser viciados pela luxúria e os maus hábitos, nos ajudariam muito mais hoje do que são capazes de ajudar. Muitas vezes especiarias exóticas passam pelo nosso auto-controle, e enfrentamos problemas após o consumo. Isso se deve ao excessivo refino da arte da culinária, usando conhecimentos adquiridos da química e da farmácia para ludibriar nossos sentidos. Todos sabem que colocar pimenta numa comida pouco aprazível facilita sua ingestão. Isso demonstra que estamos vivendo de forma desnaturada na sociedade civilizada.
Podemos reconhecer a mudança no estado de corpos mais facilmente mediante estes dois sentidos que quaisquer outros. Imagine-se quanto há no mercado, nos restaurantes, na taverna, no apotecário e nos _chemist’s shops_ que reconhecemos como sendo aquilo que exibem etiquetado ou como sendo tal e tal coisa, justamente porque não podem nos enganar quanto à natureza da coisa? É impressionante também quão especializado pode se tornar o paladar, ou o olfato. Isso varia individualmente. Isaac Newton tentou distinguir a magnitude de partículas transparentes pela cor visível de seus corpos opacos:¹ e quem sabe que novas luzes a filosofia natural ainda poderá receber de qualidades secundárias, quando bem examinadas?
¹ Trecho que absolutamente não entendi. O que é de conhecimento comum é que Goethe corrigiu Newton no campo da teoria das cores.
Alguns gostos e cheiros estimulam os nervos e elevam o espírito. Mas essa elevação artificial é, pelas leis da natureza, seguida de uma depressão, que só o tempo cura, ou pela repetição do estímulo.¹ Pelo uso corriqueiro dessas coisas, criamos apetite por elas, o que muito lembra uma força natural.² É assim que a gente adquire o gosto pelo rapé, tabaco, licores fortes, láudano, etc.
¹ Sem querer, Reid resumiu o consumo de narcóticos!
² Não o estímulo artificial, mas a obtenção da excitação naturalmente.
A natureza parece industriosa em ter delimitado limites claros para prazeres e desprazeres compatíveis com estes nossos dois sentidos “inferiores” ou “mais vitais por assim dizer. Seus limites são particularmente estreitos. Não há cheiro incrivelmente desagradável que possamos tolerar, muito menos converter por hábito em algo agradável. Nem nada que seja agradável que não perca seu impacto com a assiduidade com que se nos é oferecido. E o prazer e o desprazer são automaticamente seguidos de seus contrários: a supressão do odor ou gosto desagradável causa alívio, etc. A divina alegoria de Sócrates pode ser aqui citada: embora contrários em sua natureza, Dor e Prazer, olhando cada qual um vetor oposto, Zeus atou-os de tal maneira para permanecerem juntos que aquele que se apossar de um(a), levará consigo o(a) outro(a).
Parece adequado dizer que um gosto não é menos diferente de outro gosto da mesma forma que a relação dos cheiros entre si. Eis uma questão: como cheiros vêm a constituir-se um genus, e os gostos outro? Qual é a distinção genérica entre ambos? Seria só a distinção do nariz e do palato realmente? Ou, mais abstratamente, não haveria algo nas sensações mesmas, algo sempre comum entre os aromas, algo sempre comum entre os gostos? Me parece que a resposta está mais para a última hipótese referida. A natureza disfarça detrás de uma simplicidade singela (nariz e boca, a grosso modo) uma multitude de complexidades sutis.
A missão do filósofo é ver a questão de forma mais abstrata. Um número de sensações, ou de qualquer coisa individualmente contável, que é perfeitamente simples e ‘puro’ (que não consideramos algo composto de outras duas unidades menores), parece irredutível aos genera e species. Indivíduos devem poder ter espaço para a individualidade e a diferenciação no mesmo gênero. Ao mesmo tempo, há os traços comuns que categorizam-no sem dúvida como membro de toda uma espécie. O mesmo, me aventuro a dizer, ocorre com species de um mesmo genus. Se não há aí uma entremescla de cheiros com gostos, deixarei para os metafísicos.
Fato é que as sensações provocadas por cheiros e gostos admitem tal infinidade de variantes ou modificações internas que nenhum idioma delas dá conta. Se um homem fosse avaliar 500 vinhos, dificilmente encontraria 2 exatamente idênticos em gosto. O mesmo para queijos, etc. Mas de 500 diferentes gostos de queijo e vinho, mal podemos diferenciar 20 com palavras, o que nos ajuda rudimentariamente a separar as sensações provocadas em nosso palato e descrevem, da melhor maneira que conseguimos, qual é o gosto, a alguém que não provou.
O doutor Nehemiah Grew, laborioso e judicioso naturalista, em discurso na Royal Society, 1675, se esforçou por demonstrar que existem pelo menos 16 gostos simples diferentes entre si, que ele enumerou. Quantos “gostos compósitos” a natureza não faria de dois, três, quatro ou mais desses gostos simples quando misturados? É preciso um cálculo matemático para apreender o quanto isso fala sobre a multiplicidade possível dos gostos. Além disso, todo gosto tem graus de intensidade. Muitos, outras variedades: em alguns artigos o gosto é mais rapidamente percebido, em outros essa sensação vem mais devagar. Às vezes a sensação perdura por mais tempo, em outros é mais passageira. Alguns gostos parecem ser ondulantes, cíclicos, vêm e vão; outros são constantes. As várias partes do órgão gustativo, os lábios, a ponta da língua, o fundo da língua, as fauces, a uvula, e a garganta, podem ser diferentemente afetadas por um gosto ou outro. Aromas, avaliados com o mesmo nível de detalhes, dariam o mesmo tanto que descrever.
CAPÍTULO 4. A AUDIÇÃO
SEÇÃO 1ª. A VARIEDADE DOS SONS. SEU LUGAR E DISTÂNCIA APRENDIDOS PELO COSTUME, SEM O USO DA RAZÃO [SEC41]
Os sons têm provavelmente mais variedade de modificações que gostos e odores; quando muito, variedade equivalente. Primeiro, os sons diferem em tom. O ouvido é capaz de perceber 400 ou 500 variações de tom no som, e provavelmente o mesmo número de graus de intensidade. Combinando apenas estes, numa estimativa modesta, temos pelo menos 20 mil sons simples, diferenciando-se por tom ou intensidade (força, volume). Isso se considerarmos os tons de forma pura, perfeita. Mas o tom perfeito só se propaga nas melhores condições espaciais. As ondas do tom precisam ser de igual duração e extensão, seguindo-se uma à outra em regularidade irretocável. Toda ondulação tem de ser feita do avanço e recolhimento de inumeráveis partículas da elasticidade do ar, seu meio propagador, com movimentos todos uniformes em direção, força e tempo. Então podemos facilmente conceber uma prodigiosa variedade de um mesmo tom, provenientes da simples irregularidade com que ele é propagado, ocasionado pela constituição, figura, situação ou maneira de atingir o corpo sonoro. O vento, por exemplo, modifica o tom, como objetos no caminho da onda. E de acordo com a própria constituição orgânica do órgão auditivo a impressão pode ser diferente.
A flauta, o violino, o oboé, a corneta francesa podem inclusive tocar o mesmo tom, facilmente distinguível, mas cada instrumento produz seu som. Vinte vozes humanas soando a mesma nota, e com a mesma força, ainda produzirão um som distinto. A mesma voz, retendo suas próprias idiossincrasias, é incrivelmente elástica, e não falo do canto: condições como saúde ou doença, juventude ou idade, magreza ou adiposidade, bom ou mau humor. As mesmas palavras pronunciadas por estrangeiros e nativos, ou melhor ainda, por pessoas de diferentes províncias de um mesmo povo, são facilmente distinguíveis.
Uma tão magnânima diferenciação nas sensações do cheiro, do gosto e do som não parece à toa. São todas sinais que usamos para conhecer e classificar as coisas a nossa volta. E nada mais previsível que a variedade dos signos devessem em algum grau corresponder à variedade das coisas por eles significadas.
Começamos a aprender a distinguir o lugar e a natureza das coisas pelo seu som. Tal som vem da rua, este da sala sobre mim; esta foi uma batida em minha porta; estes são passos de uma pessoa subindo as escadas; tudo isso parece ser fruto da experiência. Talvez aprendamos o que seja acima e abaixo, esquerda e direita, e a medir distâncias com mais competência, muito por conta das propriedades do som. Ninguém sabe ao nascer diferenciar um bumbo do badalar de um sino, ou do miado de um gato. A natureza é frugal em suas operações, e não gastaria energias excessivas nos concedendo toda esta habilidade inicialmente, se em poucos anos seremos capazes de assimilá-la.
A imaginação conecta todas essas impressões díspares com uma incrível rapidez. Posso entender que passa uma carruagem de imediato ao ouvi-la, sem raciocinar. Não há aqui premissas, inferências e conclusões lógicas. É efeito de um princípio inato de nossa constituição, compartilhado aliás com os animais mais desenvolvidos.
Sendo pelo ouvir que percebemos a harmonia e a melodia, e conseqüentemente pelo ouvir crônico que aprendemos a apreciar a arte da música; pareceria que entre perceber simples barulhos e chegar à apreciação de uma arte aí viria uma diferença tão grande que exigiria uma faculdade especial, o ouvido musical. Ocorre que há muitos graus de ouvidos musicais. Não devemos chamar os mais aptos a diferenciar tons de possuidores de uma faculdade exclusiva, que transcenda o simples sentido da audição, que é simplesmente mais ou menos acurada.
SEÇÃO 2ª. A LINGUAGEM NATURAL [SEC42]
Um dos propósitos mais nobres do som é indubitavelmente a linguagem. Sem esta última, a humanidade não existiria, por não poder se encontrar acima da animalidade. A linguagem costuma ser considerada puramente como invenção dos homens, que por natureza não seriam mais mudos que os próprios animais; e não obstante, graças a seu engenho e razão, mediante signos artificiais para se referir a pensamentos e propósitos, lograram estabelecer consensos. Mas a origem da língua merece ser investigada mais cuidadosamente, não só porque tal investigação é importante para o aperfeiçoamento da própria língua como porque, na atual matéria ela pode nos ajudar a desvendar alguns princípios primários da condição humana.
Por linguagem ou língua compreendo todos os signos que a humanidade utiliza a fim de se comunicar entre si: comunicar pensamentos e intenções, desejos e objetivos. Estes signos podem ser divididos em dois: aqueles sem sentido, a não ser o que é convencionalmente atrelado a ele (sentido arbitrário), i.e., signos artificiais; aqueles que, antes de qualquer consenso ou acordo, possuíam já um significado que todo homem é capaz de compreender a priori. A linguagem considerada artificialmente difere portanto da linguagem considerada naturalmente.¹
¹ Sabemos hoje que Reid se encontra completamente equivocado e que todos os signos lingüísticos são arbitrários.
Com base nessas predefinições, creio ser demonstrável que se a humanidade não tivesse uma língua natural jamais teria podido alcançar a linguagem artificial por conta própria (razão e engenho). Toda invenção supõe um acordo prévio para fixar sentidos a um número determinado de signos. Sendo assim, deve haver concórdia antes dos signos artificiais serem postos. Mas não pode haver concórdia sem ditos signos! Destarte, tem de haver uma língua natural prévia a toda língua artificial inventada.¹
¹ Discurso completamente tautológico e inaceitável.
Fosse a língua invenção humana tanto quanto o são a escrita e a imprensa¹ países inteiros serão silenciosos como as bestas. Aliás, mesmo tais bestas possuem certos sinais naturais por meio dos quais expressam seus próprios pensamentos, afetos e desejos,² e compreendem os de outros indivíduos. Um pinto, assim que sai do ovo, entende que alguns sons de sua mãe significam aqui há comida, já outros cuidado, perigo. Um cão ou um cavalo compreende, naturalmente, quando uma voz humana é-lhe amigável e quando é ameaçadora. Mas feras, tanto quanto sabemos, não possuem noção de contratos ou convenções, nem de obrigações morais. Onde a natureza negou essas noções, é impossível adquiri-las por arte, como se fôra possível a um homem cego adquirir a sensação das cores. Alguns animais possuem a sensibilidade da honra ou desgraça;³ ressentem-se e são gratos. Mas nenhum – tanto quanto sabemos – pode fazer uma promessa, colocar em jogo sua fé, porque sua constituição não permite que saibam o que é uma promessa ou no que consiste a fé. Se a humanidade não tivesse essas noções pela própria natureza, e sinais naturais para comunicá-las, pouco importaria nossa inteligência ou artimanha: não seríamos capazes de inventar a linguagem.
¹ Aqui o autor entra em contradição: a escrita é linguagem. Se a escrita é invenção humana, não há por que não considerar a oralidade invenção humana, cronologicamente anterior ou não.
² Palavras que não servem ao animal, i.e., não podem ser aplicadas ao reino animal.
³ Reid delira.
Os elementos dessa linguagem natural da humanidade, ou signos que expressam naturalmente nosso pensar, podem, penso, ser reduzidos a três tipos: modulações de voz, gestos e personalidades.¹ Mediante esse trio, dois selvagens ou então dois estranhos que não compreendem um o idioma do outro podem chegar a um entendimento. É possível perguntar, negar, afirmar, ameaçar, suplicar; traficar (comerciar), pactuar e fazer juramento de fé. Tudo isso está afiançado por relatos históricos indubitáveis.²
¹ Modulações de voz são parte de estudos mais amplos de acústica, e não necessariamente comportam palavras, portanto a acústica dos animais pode coexistir com a humana sem contradição com o fato de os animais serem incapazes da linguagem e de não haver “linguagem natural”. Gestos tampouco são linguagem nesse sentido, necessariamente. É necessário saber separar o que constitui cultura e o que é instintivo. Libras é uma linguagem; reflexos de espanto ou júbilo (do tipo cru, como após beber água ou comer estando sedento ou faminto), não. Sobre a inclusão da palavra feature, que escolhi traduzir por personalidade, mal tenho o que falar, tamanho o constrangimento da noção! Feature no sentido de feições seria ainda mais rústico, e seria o equivalente a dizer que qualquer animal usa a linguagem porque possui feições!
² Gostaria muito de saber quais!
Os signos artificiais aparecem apenas paulatinamente a fim de aperfeiçoar a linguagem e acompanhar o aumento da sabedoria do homem. As articulações da voz parecem, de todos os signos, os mais apropriados para a linguagem artificial.¹ Um homem que anda demais de carroça perde o uso de suas pernas; um que usasse apenas a parte artificial da linguagem atrofiaria sua parte natural. Os idiotas retêm, em proporção, muito mais dos elementos naturais que os cultivados, e isso por pura necessidade. É por isso que os povos ágrafos e animais também usam mais da natureza que da artificialidade. A força e a energia da linguagem são quase todas derivadas de suas condições naturais, não daquelas acrescidas pela civilização. Quão menos vigorosa e enérgica a língua, menos expressiva e persuasiva, e mais inútil. Escrever é muito menos persuasivo que ler, e ler é muito menos persuasivo que falar sem apenas repetir um livro; falar sem as modulações adequadas (naturais), sem força e sem variação, é frígido e parece ser expressar uma língua morta; mas mais expressiva ainda é a linguagem que, modulando a voz corretamente, e utilizando a força das cordas vocais, não se esquece do apoio dos olhos e músculos faciais. É aí, nesse sumo da perfeição natural, repleta de energia, que conseguimos aliar a ação à linguagem.
¹ Essa frase não faz sentido.
Onde a linguagem é natural ela será o desempenho (a ação, o exercício) não só do aparelho vocal e dos pulmões como de todos os músculos do corpo. Vide como os imbecis e os selvagens se contorcem, são mais expressivos, e podem aprender e ensinar coisas com mais facilidade.¹
¹ Argumento embaraçoso e ofensivo. Imagino que Reid pense que os italianos dominaram o mundo na Antiguidade porque possuíam mais expressividade lingüística – que pena para os europeus que os asiáticos falam mais com o corpo que eles! Nota-se a grande contradição: Reid precisa evocar os homens com intelecto prejudicado e os animais a fim de justificar a superioridade de um elemento cultural. Mas é lógico e “natural” pensar que Reid toma esse caminho, quando pensamos que ele combate o ceticismo filosófico com todas as forças, entendendo o ceticismo como o aumento do refino e incitador do divórcio entre natureza e razão.
Significar não é o mesmo que expressar. A parte artificial das línguas falam ao entendimento, como caracteres algébricos também o fazem, mas não às paixões, afeições e à vontades; esse é seu defeito.
Seria igualmente fácil demonstrar¹ que a elaborada arte do músico, do pintor, do ator, do orador, tanto quanto são capazes de expressão, embora exijam um gosto delicado, um bom julgamento e discernimento, e muito estudo e prática, nada são senão linguagens naturais.² Carregamos todas essas coisas conosco desde o sempre, mas as desaprendemos devido ao desuso de sua energia natural a utilizá-las em seu máximo potencial, restando apenas carapaças vazias.
¹ Até agora não houve demonstração de nada sobre a linguagem, apenas a exposição de uma tese com palavras (signos artificiais)!
² É o ápice da imbecilidade: chamar as artes (música, pintura, oratória) de linguagem natural!
Que sejam abolidos os usos de sons articulados e da escrita por um século, e todo homem será pintor, ator e orador. Não quero dizer com isso que tal expediente seja praticável.¹ Mesmo se fôra, creio que as desvantagens superariam as vantagens.² Significa que, como o homem é conduzido pela natureza e pela necessidade a estar sempre em comunhão com os outros homens, ele usará de todo expediente de que puder lançar mão a fim de ser compreendido. Quero dizer que essa compreensão jamais advirá do uso exclusivo da parte artificial da língua. Aquele que compreender perfeitamente o uso natural dos signos será o melhor juiz possível nas artes expressivas.
¹ Seria irônico, já que essa exortação foi feita num livro…
² Reid cai de repente em si.
CAPÍTULO 5. O TATO
SEÇÃO 1ª. O QUENTE E O FRIO [SEC51]
Os sentidos que até o presente consideramos são simples e uniformes, cada um exibindo só um tipo de sensação, indicando portanto apenas uma qualidade dos corpos. Pelo ouvido percebemos sons, e nada mais; pelo palato, gostos; e pelo nariz, odores. Essas qualidades são todas de uma mesma ordem, qualidades secundárias por assim dizer: pelo toque, não obstante, percebemos muito mais do que uma qualidade, e dos mais diferentes tipos. As principais, dir-se-ia, são o calor e o frio, a dureza e a flacidez, aridez e fluidez, figura, solidez, movimento e extensão. Consideremo-las em ordem.
Sobre o calor e o frio, ou o quente e o frio, ou o quente e o gelado, estas são também qualidades secundárias, da mesma ordem do cheiro, gosto ou som. O que foi dito do cheiro pode ser dito para ambos estes opostos por analogia. A palavra quente e a palavra frio têm cada uma dois significados distintos: algumas vezes representam sensações da mente, sem existência palpável, a não ser como abstração da mente senciente; mas com mais freqüência nos referimos às qualidades físicas da temperatura dos corpos, reguladas por leis naturais. Sentimos temperaturas mais elevadas ou mais baixas do que nossa própria pele. Estamos tão habituados a sentir estes extremos que é até difícil falar de tais coisas como sensações exteriores. E no entanto o calor e o frio existiriam sem que estivéssemos em contato com os corpos que assim qualificamos.
O quente e o frio são facilmente reconhecíveis, pois não podem ser nada diferente do que se entende por quente e frio por qualquer ser humano. Mas as qualidades nos corpos que chamamos de calor e frio são desconhecidas. São apenas concebidas por nós, sem que tenhamos idéia da causa. O senso comum impõe essa noção. O termômetro sempre terá uma medida, estando ali uma pessoa com tato ou não.
É trabalho dos filósofos investigar, via experimentação e indução, que calor ou frio há nos corpos. E se o calor é um elemento específico difundido na natureza, acumulado em especial nos corpos chamados quentes (que reúnem mais calor) e menos concentrado nos espaços que chamamos de frios (que reúnem menos calor). Ou então se o calor é alguma espécie de vibração das partes de um corpo aquecido. Ou – é ainda papel do filósofo – se preocupar em responder se quente e frio são qualidades opostas, como as sensações nos parecem ser, ou se só o calor é uma qualidade, e o frio seu negativo. Essas questões são da província da filosofia. O senso comum nada diz a favor ou contra nenhum parecer.¹
¹ Trecho extremamente ingênuo e redundante da obra, e ao mesmo tempo revelando uma confusão epistemológica inaceitável para leitores de nosso período: esse não é o papel do filósofo, é o papel do físico. Os últimos filósofos que realmente trataram do conceito de calor da forma como aqui se explicita foram os pré-socráticos! Acontece que na Inglaterra de Reid confundiam alhos com bugalhos: para eles Bacon era um filósofo, pois estudava aspectos da física. Ora, Bacon era filósofo, mas foi principalmente um cientista, e seus resultados nas ciências naturais não importam à metafísica em sentido nobre.
Mas qualquer que seja a natureza dessa qualidade dos corpos que chamamos de calor, o que com certeza sabemos é que esse tal calor, abstrato, não pode nunca coincidir com a sensação do quente. Sensação e qualidade nunca se identificam. Seria o mesmo dizer que a dor da doença da gota equivale a um quadrado ou um triângulo. O homem mediano sabe que a sensação do calor não está dentro do fogo. Ele só imagina ou concebe que há alguma propriedade do fogo que faz com que ele e outros seres senciente sintam calor ao se aproximarem. E no entanto como a linguagem mesmo evidencia, calor no sentido metafísico e calor no sentido cotidiano são usados indistintamente. Mas quente nunca poderia ser a qualidade metafísica, sendo apenas um grau diferente do frio.¹
¹ Não foi minha intenção fazer um trocadilho, ausente no original, com “grau de temperatura”, embora funcione na frase. Falo de grau no sentido de gradação, qualidades aproximadas que podem ser medidas, portanto não consistindo em qualidades diferentes uma da outra (o que por si só, usando o senso comum, já elimina o que Reid diz acima que seria papel do filósofo investigar: se frio e quente são duas qualidades opostas ou não; não há controvérsia a esse respeito, isso é uma infantilidade).
SEÇÃO 2ª. O DURO E O FLÁCIDO [SEC52]
Consideremos agora a dureza e a maciez. Estão são qualidades dos corpos que podemos sentir com convicção.
Quando as partes de um corpo aderem tão firmemente que não podem ser facilmente modificadas em seu aspecto, chamamos o corpo de duro; quando essas partes são facilmente movíveis, macio ou mole ou flácido. Toda a humanidade concorda facilmente com essas premissas. São sensações diferentes de quaisquer outras sensações. Eram qualidades antes de serem percebidas pelo toque, e persistem depois de cessar o contato.
Algo nos comunica, no nosso sentido do tato, que um corpo é mais ou menos duro, mais ou menos flácido. Essa sensação de dureza ou rigidez é facilmente evocada ao se pressionar uma mão, p.ex., contra uma mesa, mesmo abstraindo-se do que a mesa é feita. Mas uma coisa é a sensação e outra prestar bastante atenção na sensação e refletir sobre ela. A primeira se produz com a maior das facilidades; a última, até determinar-se, p.ex., um coeficiente de rigidez, pode vir a ser sumamente complicada.
Estamos tão habituados a usar a sensação como um signo, e dele passar imediatamente ao significado de dureza, que parece até que o conceito nunca foi objeto do pensar, seja do vulgo, seja dos filósofos.¹ Não existe um nome diferente (da sensação) em nenhuma língua. E não há sensação mais distinta ou freqüente! Mas é raro passá-lo em revista durante toda a vida.
Há casos mais extremos: quando a dureza se faz sentir de modo violento, causando dor; então a natureza chama o indivíduo para o fenômeno, mas consideramo-lo ‘mera sensação’, atributo do ser senciente. Se um homem choca sua cabeça fortemente contra um pilar, tanto se lhe dá se é uma dureza provocada pela pedra ou por outra matéria: só o que lhe importa é a dor suscitada.
Mas o mesmo homem, roçando delicadamente seu rosto contra o pilar, poderá se concentrar em ‘sentir a pedra’. Ele não sentirá a dor mental, mas a textura na pele. Não são sensações em ambos os casos? Mas isto é a natureza se comunicando por símbolos.² …³
¹ Reid não cansa de exagerar.
² Péssima maneira de se expressar!
³ Devido à banalidade do conteúdo no restante do parágrafo (e outros parágrafos, ainda), decidi omitir por completo uma tradução.
Não deveríamos concluir (dada a duplicidade da palavra rigidez) que o conhecimento das faculdades humanas se encontra ainda na infância?¹
¹ O mesmo argumento é aduzido sempre, à exaustão. E daí que a língua só tem uma palavra para ambos – inerentemente, isso não significa que ‘os filósofos’ não compreendem o conceito de rigidez – apenas que não é útil inventar uma palavra para ele, pois o conceito de rigidez é único, tanto quanto a sensação da rigidez! Infelizmente o livro se torna imensamente previsível, pois Reid, i.e., a mente de Reid, é fácil de ler, interpretar e adivinhar em suas intenções.
Quando alguém aprende uma língua, se concentra no som. Quando alguém já domina uma língua, concentra-se diretamente no significado do que é expresso. Se é assim, devemos nos tornar novamente crianças se queremos ser filósofos.
…
Acreditamos no conceito de dureza, e isso com base na sensação de dureza. Mas como se deu esse salto? Mas é uma idéia de sensação ou reflexão? Não podemos concordar com nenhum dos dois preliminarmente. É uma sensação sem semelhança com qualquer outra sensação. Então, a origem dessa idéia de dureza, uma das mais distintas que nós temas, não deve ser achada em todos os nossos circuitos nervosos.
Mas como então chegamos ao conceito de dureza? A qualidade do corpo precisa existir para que haja uma sensação que lhe corresponda. Mesmo o autor do Tratado da Natureza Humana, em que pese não haver razão para sua crença, e haver muitos argumentos contra ela, não pôde defini-la a contento em seus momentos mais especulativos e solitários.¹
¹ Ou eu “cansei” do autor ou ele perdeu o fio de raciocínio e já não consegue desenvolver qualquer coisa apreciável ou digna de tradução, daí as reticências que seguem.
…
SEÇÃO III. Dos signos naturais
Como com os signos artificiais, os da linguagem, por exemplo, em que não há verossimilhança necessária entre o signo e a coisa significada, com os signos naturais sucede que não há qualquer conexão necessária entre estes e a natureza das coisas. A palavra ouro nada tem de parecido com a substância ouro. Só se evoca o que se evoca com a palavra ouro pela força do hábito. Dessa forma é que uma sensação do toque sugere dureza, embora não haja semelhança entre a dureza, tanto quanto podemos senti-la, conceito, e dureza sensação.¹ … O que é tudo que sabemos de mecânica, astronomia e ótica, senão conexões estabelecidas pela natureza e descobertas mediante a experiência ou a observação, e suas conseqüências dedutíveis? Todo nosso conhecimento em agricultura, jardinagem, química e medicina está erigido sobre a mesma fundação. … O que chamamos de causa devia ser chamado de signos naturais, e o que chamamos de efeitos, de coisas significadas. As causas não têm eficiência ou causalidade, tanto quanto podemos saber. Tudo o que podemos afirmar é que a natureza estabeleceu uma constante conjunção entre as causas e as coisas chamadas de efeitos das causas. E deu à condição humana a disposição de observar essas conexões.
¹ O autor estabelece o inconcebível. Que uma pedra seja dura é coisa bem diferente de ouro ou gold designar um metal ou elemento químico! A dureza certamente não poderá ser encontrada na água… Hábito milenar arredio algum mudaria essa verdade elementar!
…
… Destarte, … a dureza deve ser considerada como um princípio original da natureza humana,¹ até que achemos um outro princípio geral que venha a explicá-lo.
¹ Tal qual uma sensação?!?
SEÇÃO IV. Da dureza e outras qualidades primárias
…¹ Se qualquer homem dissesse que a dureza dos corpos é uma dada vibração de outras partes, ou que é um dado eflúvio emitido pelos corpos que afeta nosso toque na maneira como devemos sentir, tal hipótese chocaria o senso comum? sim, porque sabemos que o corpo é duro uma vez que as partes do corpo aderem fortemente, não devido à emissão de eflúvio ou porque vibre.
¹ Primeiro Reid compara a dureza às cores e ao calor, o que para nós, em nosso século, torna o fim do parágrafo risível, uma vez que cores e calor são de fato ondas de energia.
…
SEÇÃO V. Da extensão
Doravante vou apenas destacar, em inglês, o de importância.
“The theory of ideas, like the Trojan horse, had a specious appearance both of innocence and beauty; but if those philosophers had known that it carried in its belly death and destruction to all science and common sense, they would not have broken down their walls to give it admittance.”
THE ESSENTIAL VEDANTA: A New Source Book of Advaita Vedānta – Eliot Deutsch & Rohit Dalvi // Um esforço por compreender os ensinamentos éticos hindus e de crítica do cristianismo via herança da filosofia continental.
“We are concerned in short to understand Advaita Vedānta both in terms of cultural history and philosophy.”
“We have not included in this work any material from the neo-Vedānta that has developed in India in recent decades (e.g., Vivekananda, Aurobindo, Radhakrishnan) as the literature of this movement, having been written in English, is readily accessible.”
PART I.
BACKGROUND IN TRADITION: THE THREE DEPARTURES
“Vedānta means in the first place the ‘Conclusion of the Veda’ in the double sense that the Veda has come to an end here and that it has come to a conclusion. This final portion of the Veda comprises principally the Upanishads, which form the last tier in the monument we call the Veda.
In the second place, Vedānta is an abbreviation of Vedāntamīmāmsā, or the ‘Enquiry into the Vedānta’—the name of the most interesting, most influential, and most diverse of the philosophical traditions of Hindu India. Its very name implies a program: it is a tradition which intends to base itself on the Vedānta in the primary sense, the Upanishads.”
“Classical Vedānta recognizes 3 ‘points of departure’ (prasthānatraya) for its philosophy; that is to say that all Vedānta true to its name accepts the authority of three texts, or sets of texts, which authenticate its conclusions. There is, then, first the set of Upanishadic texts; further, the text of the Bhagavadgītā; and finally, the text of the Brahmasūtras. Each adds a new dimension to the others.
It is clear, therefore, that any investigation into Vedānta must be preceded by an enquiry into its traditional sources. These sources may appear to be difficult and at times indeed abstruse; but they set up the problems to which Vedānta addresses itself and which it intends to resolve through its commentaries on these sources.
The basic works of the founders of the different Vedānta schools present themselves as commentaries on the traditional sources; while most of their works are original to a high degree and often seem to owe little more to the admitted sources than an inspiration, nevertheless the philosophers themselves in all honesty present themselves as commentators only.”
“We shall briefly sketch the 3 Departures under the headings of ‘Revelation’, ‘Recollection’, and ‘System.’”
1.1 REVELATION
“If we are to form a proper understanding of the meaning and scope of ‘Revelation’, we do well to forget at once the implications of the term in the Mediterranean religions, Judaism, Christianity, and Islam. Strictly speaking, ‘revelation’ is a misnomer, since ultimately there is no revealer. The Sanskrit term for it is śruti, literally ‘the hearing’, which means an erudition acquired by listening to the instruction of a teacher. This instruction itself had been transmitted to the teacher through an uninterrupted series of teachers that stretches to the beginning of creation.
Revelation, therefore, is by no means God’s word—because, paradoxically, if it were to derive from a divine person, its credibility would be impugned. (…) It is axiomatic that revelation is infallible, and this infallibility can be defended only if it is authorless.”
“For some of the Mīmāmsā (or orthodox, exegetical) thinkers who have addressed themselves to this problem, the world is beginningless and the assumption of a creator is both problematic and unnecessary.” A resposta está tão no presente quanto em qualquer passado. Implicações para a filosofia continental: Dasein.
“And even if a beginning of the world is assumed, as in later Hindu thought when it is held that the universe goes through a pulsating rhythm of origination, existence, and dissolution, it is also held that at the dawn of a new world the revelation reappears to the vision of the seers, who once more begin the transmission.”
“Revelation (…) lays down first and foremost what is our dharma, our duty. This duty is more precisely defined as a set of acts which either must be done continuously (nitya), or occasionally (naimittika), or to satisfy a specific wish (kāmya).”
“Orthodox consensus recognizes 3 fundamental means of knowledge (…) Of these means (pramānas), (1) sensory perception (pratyaksa) holds the first place, for it is through perception that the world is evident to us. Built upon perception is (2) inference (anumāna), in which a present perception combines with a series of past perceptions to offer us a conclusion about a fact which is not perceptibly evident. (…) (3) Revelation is authoritative only about matters to which neither perception nor inference gives us access”
“the orthodox Exegetes would reject most of the Bible as Revelation: most of it they would classify as itihāsa or purāna, ‘stories about things past’, describing events which were accessible to perception and hence require only the authority of perception; but, for example, the chapters dealing with the Law in Deuteronomy would be considered Revelation in the true sense, since here rules are laid down and results are set forth which escape human perception and inference.
Led by this principle, the Exegetes classified Revelation under 3 basic rubrics, ‘injunction’ (vidhi or niyoga, including prohibition or nisedha), ‘discussion’ (arthavāda), and ‘spell’ (mantra). Spells comprise the mass of formulae, metric or in prose, which were employed at the execution of the rites. Discussion comprises all the texts which describe, glorify, or condemn matters pertaining to rites. Injunction comprises all the statements, direct or indirect, which lay down that certain rites or acts must be done or must not be done.
The stock example is svargakāmo jyotistomena yajeta, ‘he who wishes for heaven should sacrifice with the soma sacrifice’. It is in such statements that the authority of Revelation finally resides. It enjoins an action (offering up a sacrifice), the nature of which escapes human invention, for a purpose (heaven) whose existence neither perception nor inference could have acknowledged, upon a person (the sacrificer) who stands qualified for this action on the basis of the injunction. Declarations [mantras?] which accompany the description of the sacrifice, e.g., ‘the sacrificial pole is the sun’, while strictly speaking untrue and carrying no authority, have a derivative authority insofar as they are subsidiary to and supportive of the injunction, and may be condemnatory or laudatory of facts connected with the rite laid down in the injunction (e.g., the sacrificial pole is compared to the sun in a laudatory fashion for its central function at the rite). The spells accompanying the festive celebration of the rite have their secondary, even tertiary, significance only within the context of the rite laid down in the injunction.”
“the Four Vedas as we call them, the Veda of the hymns (rk), the formulae (yajus), the chants (sāma), and the incantations (atharva), are almost entirely under the rubric of ‘spell’. The large disquisitions of the Brāhmanas are almost entirely ‘discussion’, except for the scattered injunctions in them; and the same largely holds for the 3rd layer of texts, the Āranyakas. Generally speaking, Vedānta will go along with this view.
It is, however, with the last layer of text (the Vedānta or the Upanisads) that Exegetes and Vedāntins come to a parting of ways. For the Exegetes the Upanisads are in no way an exception to the rules that govern the Revelation as a whole. Nothing much is enjoined in them nor do they embody marked spells. In fact, they are fundamentally ‘discussion’, specifically discussion of the self; and such discussion certainly has a place in the exegetical scheme of things, for this self is none other than the personal agent of the rites and this agent no doubt deserves as much discussion as, say, the sacrificial pole.
Basically therefore the Exegetes find the Revelation solely, and fully, authoritative when it lays down the Law on what actions have to be undertaken by what persons under what circumstances for which purposes. Vedānta accepts this, but only for that portion of Revelation which bears on ritual acts, the karmakānda. But to relegate the portion dealing with knowledge, the jñānakānda, to the same ritual context is unacceptable.”
“The consensus of the Vedānta is that in the Upanisads significant and authoritative statements are made concerning the nature of Brahman. § From the foregoing it will have become clear that very little of the Revelation literature preceding the Upanisads was of systematic interest
to the Vedāntins. For example, Śamkara quotes less than 20 verses from the entire Rgveda in his commentary on the Brahmasūtras, about 14 lines from the largest Brāhmana of them all, the Śatapatha Brāhmana, but no less than 34 verses from the Mundaka Upanisad, a fairly minor and short Upanisad.”
Rgveda X, 129
“Among the hymns of the Rgveda that are clearly philosophical both in character and influence none is more important than the Hymn of Creation. This hymn exhibits a clear monistic or non-dualistic concern, an account of creation that gives special attention to the role of desire, and a kind of skeptical or agnostic attitude concerning man’s (and even god’s) knowledge of creation. The following translation is from A.A. Macdonell, n.d.
Non-being then existed not nor being:
There was no air, nor sky that is beyond it.
What was concealed? Wherein? In whose protection?
And was there deep unfathomable water?
Death then existed not nor life immortal;
Of neither night nor day was any token.
By its inherent force the One breathed windless:
No other thing than that beyond existed.
Darkness there was at first by darkness hidden;
Without distinctive marks, this all was water.
That which, becoming, by the void was covered,
That One by force of heat came into being.
Desire entered the One in the beginning:
It was the earliest seed, of thought the product.
The sages searching in their hearts with wisdom,
Found out the bond of being in non-being.
Their ray extended light across the darkness:
But was the One above or was it under?
Creative force was there, and fertile power:
Below was energy, above was impulse.
Who knows for certain? Who shall here declare it?
Whence was it born, and whence came this creation?
The gods were born after this world’s creation:
Then who can know from whence it has arisen?
None knoweth whence creation has arisen;
And whether he has or has not produced it:
He who surveys it in the highest heaven,
He only knows, or haply he may know not.”
Chāndogya Upanisad VI
“This text portion, which comprises the entire sixth chapter of the Chāndogya Upanisad, is no doubt the most influential of the entire corpus of the Upanisads.”
“It lays down for Vedānta that creation is not ex nihilo, that the phenomenal world is produced out of a preexistent cause. This cause is the substantial or material cause (upādāna), which, by the example of the clay and its clay products (section 1), provides the authority for the tenet that the phenomenal world is non-different from its cause.” “the Existent (sat) referred to is no other than Brahman” “Thus this text presents us with the basic problem of Vedānta, the relation between the plural, complex, changing phenomenal world and the Brahman in which it substantially subsists.”
“It teaches that <You are That,> and thus, for Vedānta, lays down that there is an identity (however to be understood)¹ between the Brahman and the individual self. This makes the text one of the <great statements> (mahāvākya) for Śamkara, who reads in it the ultimate denial of any difference between the consciousness of the individual self and the consciousness that is Brahman.”
¹ “whether this non-difference signifies a complete non-dualism (Śamkara), a difference-non-difference (Bhāskara),a or a non-difference in a differentiated supreme (Rāmānuja).”b
a Dialética hegeliana. Este é o famoso matemático/lógico a que somos traumaticamente introduzidos na quinta série.
b Essencialmente o que se pergunta é uma coisa só: Eu também sou Brahma. Mas o que isso quer dizer de fato (e esta será a maior preocupação de todos os textos sagrados)?
Em suma, a criação é um processo voluntário e deliberado. O Cristianismo particularmente apresenta uma criação ex nihilo, ao mesmo tempo em que acusa o credo hindu de recair na mesma “falha” (que eles o considerem de voz própria uma falha já diz muita coisa).
“The text is presented in a new translation by J.A.B. van Buitenen. It differs in many instances from previous translations which, he believes, have been unduly influenced by the interpretation of Śamkara. For example in section 4, the repeated <fireness has departed from fire,><sunness has departed from sun,> <moonness has departed from moon,> <lightningness has departed from lightning> do not signify that there is in reality no fire, sun, moon, and lightning, but rather that these 4 entities, which previously had been considered irreducible principles, can be further analyzed into compounds of the Three Colors or Elements that Uddālaka sets up.”
“Since a source book should avoid presenting sources in a controversial manner, the reader is urged to consult, e.g., Franklin Edgerton’s translation in Beginnings of Indian Philosophy, Hume’s in Thirteen Principal Upanisads, Radhakrishnan’s in The Principal Upanisads, to quote the more accessible ones, for further reference.”
“At the age of 12 he went to a teacher and after having studied all the Vedas, he returned at the age of 24, haughty, proud of his learning and conceited.
…
‘Śvetaketu, now that you are so haughty, proud of your learning and conceited, did you chance to ask for that Instruction by which the unrevealed becomes revealed, the unthought thought, the unknown known?’
…
‘…Creating is seizing with Speech, the Name is Satyam, namely clay.
…
Creating is seizing with Speech, the Name is Satyam, namely copper.
…
Creating is seizing with Speech, the Name is Satyam, namely iron.’
‘Certainly my honorable teachers did not know this. For if they had known, how could they have failed to tell me? Sir, you yourself must tell me!’
‘So I will, my son,’ he said.
…
‘The Existent was here in the beginning, my son, alone and without a second. On this there are some who say, The Nonexistent was here in the beginning, alone and without a second. From that Nonexistent sprang the Existent.’
…
‘How could what exists spring from what does not exist? On the contrary, my son, the Existent was here in the beginning, alone and without a second.’
…
‘I may be much, let me multiply.’
…
‘Of these beings indeed there are 3 ways of being born: it is born from an egg, it is born from a live being, it is born from a plant.’
…
[3:4 PRINCÍPIO DA REALIDADE QUATERNÁRIA – O UNO QUE TRIPLICA E AINDA SE CONSERVA (3 + 1), SENDO O TRIPLO UNO AO MESMO TEMPO – FILOSOFIA CONTINENTAL OCIDENTAL: AS 3 DIMENSÕES + A VONTADE, INVISÍVEL, REGEDORA.]
‘I will make each one of them triple. This deity created separate names-and-forms by entering entirely into these 3 deities with the living soul.’
…
‘The red color of fire is the Color of Fire, the white that of Water, the black that of Food. Thus fireness has departed from fire.Creating is seizing with Speech, the Name is Satyam,namely the Three Colors.
The red color of the sun is the Color of Fire, the white that of Water, the black that of Food. Thus sunness has departed from the sun.Creating is seizing with Speech, the Name is Satyam,namely the Three Colors.
The red color of the moon is the Color of Fire, the white that of Water, the black that of Food. Thus moonness has departed from the moon.Creating is seizing with Speech, the Name is Satyam,namely the Three Colors.
The red color of lightning is the Color of Fire, the white that of Water, the black that of Food. Thus lightningness has departed from lightning.Creating is seizing with Speech, the Name is Satyam, namely the Three Colors.’
[A luz é diferente: dela emana o Único, não importa o objeto emissor, não importa o objeto refletor. Fogo, sol, lua, relâmpago. Sangue é a cor da vida, acorde fundamental do homem.]
…
‘Now no one can quote us anything that is unrevealed, unthought, unknown,’
…
‘If something was more or less red, they knew it for the Color of Fire; if it was more or less white, they knew it for the Color of Water; if it was more or less black, they knew it for the Color of Food.
[calor/energia, líquido e vida em si]
If something was not quite known, they knew it for a combination of these 3 deities. Now learn from me, my son, how these 3 deities each become triple on reaching the person.
The food that is eaten is divided into 3: the most solid element becomes excrement, the middle one flesh, the finest one mind.
The water that is drunk is divided into 3: the most solid element becomes urine, the middle one blood, the finest one breath.
The fire that is consumed is divided into 3: the most solid element becomes bone, the middle one marrow, the finest one speech.’
[Fez-se vento, palavra e consciência.]
…
‘Man consists of 16 parts, my son. Do not eat for 15 days. Drink water as you please. The breath will not be destroyed if one drinks, as it consists in Water.’
He did not eat for 15 days. Then he came back to him. ‘What should I say, sir?’
‘Lines from the Rgveda, the Yajurveda and the Sāmaveda, my son.’
‘They do not come back to me, sir.’
…
‘Eat. Afterwards you will learn from me.’
…
‘Just as one ember, the size of a firefly, that remains of a big piled-up fire will blaze up when it is stacked with straw and the fire will burn high thereafter with this ember, so, my son, one of your 16 parts remained. It was stacked with food and it blazed forth, and with it you now remember the Vedas. For the mind consists in Food, my son, the breath in Water, speech in Fire.’ This he learnt from him, from him.
…
‘When a man literally sleeps, then he has merged with Existent. … that is why they say that he sleeps. For he has entered the self.’
…
‘the breath is the perch [residência] of the mind, my son.’
…
‘water is food leader’
…
‘fire is water leader’
…
‘the fire is root’
…
‘All creatures are rooted in the Existent.’
…
‘Of this man when he dies, my son, the speech merges in the breath, the breath in the Fire, the Fire in the supreme deity. That indeed is the very fineness by which all this is ensouled, it is the true one, it is the soul. YOU ARE THAT, Śvetaketu.’
…
‘Just as the bees prepare honey by collecting the juices of all manner of trees and bring the juice to one unity, and just as the juices no longer distinctly know that the one hails from this tree, the other from that one, likewise, my son, when all these creatures have merged with the Existent they do not know, realizing only that they have merged with the Existent.’
…
‘The rivers of the east, my son, flow eastward, the rivers of the west flow westward. From ocean they merge into ocean, it becomes the same ocean. Just as they then no longer know that they are this river or that one, just so all these creatures, my son, know no more, realizing only when having come to the Existent that they have come to the Existent. Whatever they are here on earth, tiger, lion, wolf, boar, worm, fly, gnat or mosquito, they become that.’
…
‘If a man would strike this big tree at the root, my son, it would bleed but stay alive. If he struck it at the middle, it would bleed but stay alive. If he struck it at the top, it would bleed but stay alive. Being entirely permeated by the living soul, it stands there happily drinking its food.
If this life leaves one branch, it withers. If it leaves another branch, it withers. If it leaves a third branch, it withers. If it leaves the whole tree, the whole tree withers. Know that it is in this same way, my son, that this very body dies when deserted by this life, but this life itself does not die.’
[O receptáculo passageiro morre, mas a vida mesma não.]
…
‘Bring me a banyan fruit.’
‘Here it is, sir.’
‘Split it.’
‘It is split, sir.’
‘What do you see inside it?’
‘A number of rather fine seeds, sir.’
‘Well, split one of them.’
‘It is split, sir.’
‘What do you see inside it?’
‘Nothing, sir.’
…
‘This very fineness that you no longer can make out, it is by virtue of this fineness that this banyan tree stands so big. Believe me, my son. It is this very fineness which ensouls all this world, it is the true one, it is the soul….’
…
‘Throw this salt in the water, and sit with me on the morrow.’
…
‘Well, bring me the salt that you threw in the water last night.’
He looked for it, but could not find it as it was dissolved.
‘Well, taste the water on this side.—How does it taste?’
‘Salty.’
‘Taste it in the middle.—How does it taste?’
‘Salty.’
‘Taste it at the other end.—How does it taste?’
‘Salty.’
‘Take a mouthful and sit with me.’ …
‘It is always the same.’
… ‘You cannot make out what exists in it, yet it is there.…’
…
‘Suppose they brought a man from the Gandhāra country, blindfolded, and let him loose in an uninhabited place beyond. The man, brought out and let loose with his blindfold on, would be turned around, to the east, north, west, and south.
Then someone would take off his blindfold and tell him, Gandhāra is that way, go that way. Being a wise man and clever, he would ask his way from village to village and thus reach Gandhāra. Thus in this world a man who has a teacher knows from him, So long will it take until I am free, then I shall reach it.’
…
‘When a man is dying, his relatives crowd around him: Do you recognize me? Do you recognize me? As long as his speech has not merged in his mind, [become oneself again – somos o desdobramento e o desbordamento]his mind in his breath, his breath in Fire, and Fire in the supreme deity, he does recognize.
But when his speech has merged in the mind, the mind in the breath, the breath in Fire, and Fire in the supreme deity, he no longer recognizes.…’
…
‘They bring in a man with his hands tied, my son: He has stolen, he has committed a robbery. Heat the ax for him! If he is the criminal, he will make himself untrue. His protests being untrue, and covering himself with untruth, he seizes the heated ax. He is burnt, and then killed.
“If he is not the criminal, he makes himself true by this very fact. His protests being true, and covering himself with truth, he seizes the heated ax. He is not burnt, and then set free.’ [o conceito de ser libertado deveria ser o de ser queimado e assassinado]
…
This he knew from him, from him.”
(Este capítulo está numerado em 16 partes.)
Chāndogya Upanisad V, 3-10
“Here Śvetaketu, almost always the incompletely instructed pupil, complains to his father that he is unable to answer the riddles posed by a baron (ksatriya). This text, along with one closely related in the Brhadāranyaka Upanisad, presents the fullest account of the doctrine of transmigration, which on the whole is rather understated in the Upanisads.”
“The text is further remarkable in that it presents this doctrine as special knowledge of the ksatriya class. This has given rise to the hypothesis that there was a lively ambience of philosophy among the barons from which the brahmins were excluded.”
“Śvetaketu, the grandson of Aruna, went to the assembly of the Pañcālas. Pravāhana Jaivali said to him, ‘Boy, has your father instructed you?’
‘He has, sir.’
‘Then do you know where the creatures go from here?’
‘No, sir.’
‘Do you know the bifurcation of the two paths, the Way of the Gods and the Way of the Ancestors?’ [paralelo com Parmênides]
‘No, sir.’
‘Do you know why the world beyond does not fill up?’
‘No, sir.’
‘Do you know how the water in the 5th oblation becomes known as man?’
‘Not at all, sir.’
‘Then how do you call yourself instructed? How could one call oneself instructed if he does not know the answers?’
…
‘To be sure, your reverence told me, without having instructed me, that you had instructed me! Five questions did that accursed baron ask me, and I could not resolve a single one of them!’
‘The way you have stated them, my son, I do not know any one of them. If I had known the answers, why would I not have told you?’
…
‘Keep your human wealth, king! Relate to me the discourse which you mentioned before the boy!’
The king was cornered. He ordered him, ‘Stay a while.’ He said, ‘This wisdom, as you state it to me, Gautama, has never before you gone to the brahmins. That is why the rule in all the worlds belongs to the baronage.’
…
‘The world beyond, Gautama, is a fire. Of it the sun is the kindling, the rays the smoke, the glow the day, the embers the moon, the sparks the constellations.
In this fire the gods offer up faith; from the oblation springs King Soma.
The monsoon, [clima de chuvas intermitentes de verão – implica no firmamento, abaixo apenas da morada ígnea dos deuses] Gautama, is a fire. Of it the wind is the kindling, the cloud the smoke, the lightning the glow, the thunderbolt the embers, the hail stones the sparks.
In this fire the gods offer up King Soma. From this oblation springs the rain.
The earth, Gautama, is a fire. Of it the year is the kindling, space the smoke, night the glow, the compass points the embers, the intermediate points the sparks.
In this fire the gods offer up the rain. From this oblation springs food.
Man, Gautama, is a fire. Of him speech [falo] is the kindling, breath the smoke, the tongue the glow, the eye the embers, the ear the sparks.
In this fire the gods offer up food. From this oblation springs the seed.
Woman, Gautama, is a fire. Of her the womb is the kindling, the proposition the smoke, the vagina the glow, intercourse the embers, pleasure the sparks.
In this fire the gods offer up the seed. From this oblation springs the child.
Thus in the 5th oblation water becomes known as man. The embryo, enveloped by its membrane, lies inside for 10 months, or however long, then it is born.
Once born he lives for as long as he has life. When he has died his appointed death, people carry him from here to the fire, from which he had come forth and was born.
They who know it thus and in the forest devote themselves to faith and austerity, they go into the fire’s glow, from the glow to day, from day to the fortnight of waxing moon, and from that fortnight to the 6 months when the sun goes the northern course. From these months to the year, from the year to the sun, from the sun to the moon, from the moon to lightning. [?]There is a person who is not human; he conducts them to Brahman. This is the Way of the Gods as described. [Faetonte-Aqueronte-Caronte-Carente-Cura-do-ente…]
Now those who in the village devote themselves to rites and charity, they go into the fire’s smoke, from the smoke to night, from night to the other fortnight, from the other fortnight to the 6 months when the sun goes the southern course.They do not reach the year.
From the months they go to the world of the ancestors, from that world to space, from space to the moon: he is the King Soma, it is the food of the gods, the gods eat it.
There they stay out the remainder, then they return by the same way, namely to space, from space to wind. Having become wind, they become smoke. Having become smoke, they become mist. [zzz]
Having become mist, they become the cloud, and having become the cloud, they rain forth.They are born on earth as barley and rice, herbs and trees.From thence escape is indeed difficult.If a person eats that food and then ejaculates his semen, then one becomes once more.[um brâmane é um repetente]
They who in this world[forest or city] have been of pleasant deeds, the expectation is that they attain to pleasant wombs, of a brahmin, or a baron, or a clansman. But if they have been of putrid deeds, the expectation is that they attain to putrid wombs, of a dog, or a swine, or an outcaste.
[Essa é uma versão pobre e a-filosófica da doutrina da transmigração.]
But by neither of these paths go the lowly creatures that again and again come back.[the third way is a no-way] That is the third level, that of: Be Born! Die!Therefore the world beyond does not fill up. Hence one should watch out. There is this verse:
The thief of gold, the drinker of wine,
The corruptor of his teacher’s bed, a brahmin-killer,
Those four fall, and so the fifth who consorts with them.
If one does know these 5 fires, then one is not smeared with evil, even though consorting with them. Clean, pure, and of auspicious domain becomes he who knows it thus, who knows it thus.’” A salvação do brâmane me parece assaz fácil!
Taittirīya Upanisad II, 1–8
“It outlines, even though in primitive terms, a hierarchy of the person—5 ‘sheaths’ (kośa) of increasing interiority.”
“This is his head, this his right side, this his other side, this his trunk, this his tail, his foundation.” O homem tem 5 partes físicas, e uma delas é a cauda?!
“2. From food arise the creatures, whichsoever live on earth, and through food alone do they live, and to it they return in the end. Of all elements, food indeed is the best, hence it is called the best medicine. They forsooth attain to all food who contemplate on Brahman as food. From food are the creatures born, and once born they grow through food. It is eaten and eats the creatures, hence it is called food.”
“The prāna is its head, the vyāna its right side, the apāna its left side, space the trunk, earth its tail, its foundation.” O rabo do homem é a terra, é o chão, é o solo, a base. Ele não pode voar (seu rabo não regride).
4. “Faith is its head, order the right side, truth the other side, discipline the trunk, mahas the tail, the foundation.”
5. “Happiness is its head, joy its right side, rapture its other side, bliss its trunk, Brahman its tail, its foundation.”
“6. Nonexistent becomes he when he knows Brahman as nonexistent. When he knows that Brahman exists, they know him by that to exist.” Interessante.
“7. In the beginning the Nonexistent was here, from it was born the existent. It made itself into a self, that is why it is called well-made. That which is well-made is the sap[seiva, vida]. For upon attaining to this sap one becomes blissful. For who would breathe in and breathe out if there were no bliss in his space?”
O oitavo parágrafo (críptico): Brahma é a Morte?
Katha Upanisad
“[this book] sets forth a state of bliss to be had through an intense concentration of consciousness and, finally, a surpassing state of joy and liberation.
The text, given here in its entirety, is a translation of Patrick Olivelle”
“So he asked his father: ‘Father, to whom will you give me?’ He repeated it for a second time, and again for a third time. His father yelled at him: ‘I’ll give you to Death!’”
“A mortal man ripens like grain,
And like grain he is born again.”
“You, O Death are studying,
the fire altar that leads to heaven;
Explain that to me, a man who has faith;
People who are in heaven enjoy the immortal state—
It is this I choose with my second wish.”
“(Death)
I shall explain to you—
and heed this teaching of mine, O Naciketas,
you who understands the fire altar that leads
to heaven, to the attainment of an endless world,
and is its very foundation.
Know that it lies hidden, in the Cave of the heart.”
“Choose your third wish, O Naciketas.
There is this doubt about a man who is dead.
‘He exists,’ say some, others, ‘He exists not.’
I want to know this, so please teach me.
This is the third of my wishes.
(Death)
As to this even the gods of old had doubts,
for it’s hard to understand, it’s a subtle doctrine.
Make, Naciketas, another wish.
Do not press me! Release me from this.
(Naciketas)
As to this, we’re told, even the gods had doubts,
and you say, O Death, it’s hard to understand.
But another like you I can’t find to explain it;
and there is no other wish that is equal to it.
(Death)
Choose sons and grandsons who’d live a hundred years!
Plenty of livestock and elephants, horses and gold!
Choose as your domain a wide expanse of earth!
And you yourself live as many autumns as you wish!”
Resposta fraca
“And if you would think this an equal wish—
You may choose wealth together with a long life;
Achieve prominence, Naciketas, in this wide world;
And I will make you enjoy your desires at will.
You may ask freely for all those desires,
hard to obtain in this mortal world;
Look at these lovely girls, with chariots and lutes,
girls of this sort are unobtainable by men—
I’ll give them to you; you’ll have them wait on you;
But about death don’t ask me, Naciketas.”
Outrossim, a sedução do diabo no deserto (Novo Testamento).
“(Naciketas)
Since the passing days of a mortal, O Death,
sap here the energy of all the senses;
And even a full life is but a trifle;
So keep your horses, your songs and dances!
*
With wealth you cannot make a man content;
Will we get to keep wealth, when we have seen you?
And we get to live only as long as you allow!
So, this alone is the wish that I’d like to choose.
*
What mortal man with insight,
who has met those that do not die or grow old,¹
himself growing old in this wretched and lowly place,
looking at its beauties, its pleasures and joys,
would delight in a long life?”
¹ Seria uma interessante parábola, se existissem tais deuses ou vampiros! Ou, conforme veremos adiante, Naciketas fala dos sábios, em sentido puramente alegórico.
“The point on which they have great doubts—
what happens at that great transit—
tell me that, O Death!
This is my wish, probing the mystery deep,
Naciketas wishes for nothing
other than that.”
Didn’t anybody say that to you: Careful what you wish?
UMA CRÔNICA DE DOIS IRMÃOS:
“(Death)
The good is one thing, the gratifying[prazeres] is another;
their goals are different, both bind a man.
Good things await him who picks the good;
By choosing the gratifying, one misses one’s goal.
*
Both the good and the gratifying
present themselves to a man;
The wise assess them, note their difference;
And choose the good over the gratifying;
But the fool chooses the gratifying
rather than what is beneficial.
*
…
This disk of gold, where many a man founders,
You have not accepted as a thing of wealth.
*
Far apart and widely different are these two:
Ignorance [prazer] and what’s known as knowledge. [o bem]
I take Naciketas as one yearning for knowledge;
The many desires do not confound you.
*
Wallowing in ignorance, but calling themselves wise,
Thinking themselves learned the fools go around,
staggering about like a group of blind men,
led by a blind man who is himself blind. [um homem cego é mesmo cego!]
*
This transit lies hidden from a careless fool,
who is deluded by the delusion of wealth.
Thinking ‘This is the world; there is no other’,
he falls into my power again and again.”
Creio que ninguém ainda entendeu o verdadeiro sentido do texto. Em vermelho: o hedonista ou materialista pensa “não há outro mundo, só este, carpe diem, etc.”. Mas é só este quem morre. O outro mundo é neste mundo mesmo, invisível, habitado somente pelos sábios. Eles nunca morrem.Apud Sócrates-Platão-…
“Many do not get to hear of that transit;
and even when they hear,
many don’t comprehend it.
Rare is the man who teaches it,
Lucky is the man who grasps it;
Rare is the man who knows it,
Lucky is the man who is taught it.”
Mais más concepções: não se ouve a verdade muito amiúde; quando se a escuta, se a ignora como se ela nunca fôra proferida. Isto é Zaratustra livro I, cena da praça e do mercado. Não é raro o homem que ensina a sabedoria: tantos quantos são estes professores (os sábios, a.k.a. virtuosos), uma vez na vida eles acreditam poder ensinar – esse é seu erro; a virtude não pode ser ensinada. Portanto, só quem sábio se torna, sábio já era. Torna-te aquilo que tu és. Raro é o homem assim constituído. Sortudo é quem nasceu nessa condição, pois só assim “lhe foi ensinado” o conteúdo: por si mesmo.
“Though one may think a lot, it is difficult to grasp,
when it is taught by an inferior man.
Yet one cannot gain access to it,
unless someone teaches it.
For it is smaller than the size of the atom,
a thing beyond the realm of reason.”
Não existe o guru. Quantas vezes ter-se-á de dizê-lo? Quantos murros em ponta de faca? O final, porém, é adequado: a vontade ou Idéia é menor que qualquer pedaço de matéria, o que o século XX chama de partículas sub-atômicas fundamentais. Não é deste mundo, é do outro mundo vivenciado neste mundo pelos privilegiados de nascença (se há algo do mito brâmane que sobrevive é esse fatalismo: ou se nasce sábio e bom, ou se nasce ignorante e mau). E é vontade ou Idéia, esses nomes “estranhos”, embora familiares no léxico (mas quase nunca sabem seu significado!), porque não é razão, está além da razão. Quem disse que o sábio o é em virtude da razão?! Quem disse que a Idéia de Platão ou a virtude são alcançadas pela inteligência? Somente pelo instinto, pela inclinação natural em vê-las e senti-las, em sê-las (com isso que chamam de Brahma).
“One can’t grasp this notion by argumentation;¹
Yet it’s easy to grasp when taught by another.²
You’re truly steadfast dear boy,
you have grasped it!
Would that we have, Naciketas,
One like you to question us.”²
¹ A dialética esvaziada de um Aristóteles, o Racional.
² O outro é sempre si mesmo, sempre a ressalva em relação aos textos sagrados hindus, que ainda não tinham a consciência da origem da sabedoria, talvez a única vantagem oferecida pela filosofia ocidental sobre o maior trabalho, a maior sabedoria, embora inconsciente, trazida pelo Oriente, e que hibernou por tanto tempo, entre nós e até eles próprios, os professores do Veda! Us também não existe. Quem formula as perguntas e também as respostas naquele que não pode ser igualado (Platão)? Ele mesmo. A Morte neste Upanishad não é uma fraude, um espírito trickster, mas, pelo contrário, o alter ego de Naciketas: este é um diálogo, a maiêutica do sábio. Quem preside é ele mesmo, mediante suas reminiscências. Outra frase célebre: Dai a César o que é de César, significa: dai a este mundo o que quer este mundo: a humildade, a labuta, um mal-disfarçado senso de superioridade (porque os tolos, em sua maior parte, crêem na sua modéstia e na sua inferioridade, não se pode usar a sabedoria para angariar vantagens no jogo temporal). Assim quitais vossas dívidas com eles. Nosso eterno sofrimento, a eterna convivência com os eternos anões. O preço de nosso paraíso, no outro mundo que é aqui, sem testemunhas senão nossos poucos iguais. Jesus Cristo, o incompreendido. Ao mesmo tempo que não iniciou, o Juízo já terminou e está acontecendo. Acontece. Todo ele é a existência. A existência é uma criação escatológica.
“What you call a treasure, I know to be transient;”
tesouro transcendental
“Therefore I have built the fire altar of Naciketas,
and by things eternal I have gained the eternal.”
Jogando minha alma na aposta eu consegui meu objetivo: a eternidade. O outro mundo neste mundo. O presente do presente, o único tempo real. A única felicidade tangível. Sem necessidade de nenhuma providência; pois já estava lá, sempre esteve.
“[Já não importa quem fala, é o Um e o Mesmo]
The primeval one who is hard to perceive,
wrapped in mystery hidden in the cave,¹
residing within the impenetrable depth—
Regarding him as god,² an insight
gained by inner contemplation,³
both sorrow and joy the wise abandon.”4
¹ E quem é que começa a vida preso à caverna, no mito (ou inclusive na historiografia “séria” – como se o mito não o fosse –: homem das cavernas)? O homem. Não é que o homem busque o sol que é a Iluminação ou instrumento necessário para iluminar aquilo que não se vê. Ou em outras palavras: aquilo que não se vê a descoberto é a si mesmo. O homem não se sabe homem, não sabe o que é, precisa do sol para entender que é o que tanto procurava. O mistério da vida é o mistério do homem diante do espelho. O eu, o maior enigma. O mundo dos homens, normalmente entendido como tão despido de significado quanto “o mundo de um deus desconhecido”, ou “de um deus que morreu”. O Mito da Caverna inverte a mitologia grega em geral: não estamos destinados a nos tornar sombras, mas somos sombras que eventualmente se incorporam e ganham volume, densidade, matéria, substância, cor, tangibilidade, vida.
² Na minha interpretação é o exato oposto: sem a companhia de ninguém, e deixado à própria sorte no fundo da caverna, em sua cela do Ser, o homem não pode atingir a hubris nem a auto-afirmação: divino é o estado mais difícil. O Um sem o Outro é prosaico.
³ Isso só pode ser exato depois da própria jornada, da odisséia, do retorno diferente ao mesmo lugar do princípio.
4 Como resultado inevitável da viagem exitosa. Quem tem o presente seria por definição feliz, como quer o hindu. Porém, em face do conhecimento da eternidade neste mundo (o outro mundo), sensações transitórias perdem o significado: o que é tristeza, o que é alegria sem contraste ou interrupção, sem-fim? Nada.
“When a mortal has heard it, understood it;
when he has drawn it out;
and grasped this subtle point of doctrine,
he rejoices, for he has found
something in which he could rejoice.
To him I consider my house
to be open, Naciketas.”
A liberação é saber que fora de todo o possível, fora do eterno presente, só fora, e só para quem está consciente do presente, no impossível (pois não existe esse fora), finalmente é concedido o direito de morrer. Não há transição. Só há transição na eternidade do presente e da ação. Mas o que é bênção para nós é maldição para quem tem medo da morte ou esperança eterna num outro mundo que não seja deste mundo. Eles já vivem neste outro mundo que desejam: eles são objetos, não são homens. O tempo corre para eles. Estão condenados a jamais morrer, porque para eles a vida é uma morte contínua.
Veja que o próprio compilador, ou tradutor, está confuso quanto à identidade de quem fala (como eu disse, não importa, é a mesma pessoa!):
“Seeking which people live student lives”
Buscando quais pessoas vivem vidas de estudante. O estudante dos Vedas é a figura perfeita dos Vedas. Não só dos Vedas: da existência mesma, das Idéias de Platão e da vontade de Nietzsche. O professor dos Vedas é só um artifício didático: ele é outro estudante, o daimon guia do bom caminho. Nunca cessamos de aprender, e de nos tornar mais sábios, mas não existe a Idéia do sábio: a idéia, a busca da sabedoria. A imagem perfeita. Tão perfeita que poderíamos nos perguntar se essa imagem não é a Idéia mesma. A imagem é a Idéia sobre a Idéia. A Idéia é a imagem da Idéia. A Idéia voltada para si mesma, a Idéia ao espelho. A sabedoria socrática. Esse é o infinito, pois não termina ou conclui, e é ao mesmo tempo um estado em perpétuo movimento. Um estado não-estado. Um movimento não-movimentado. A imagem das imagens.
A vontade, palavra do século XIX para o mesmo: deliberações sobre as entrelinhas de Platão, o contínuo debate da Idéia. Não menos perfeito que a Idéia, por não ser exatamente uma poesia da maiêutica (e quem disse que os aforismos não o são?), pois pressupõe a Idéia, já que não é debate estático. E é ao mesmo tempo estanque, porque não evadiu o bom caminho da Idéia. O invisível vivido pelo estudante (mestre).
OM é tudo, é vontade e é Idéia. Vibração contínua. Sempre há um ponto cego para o sábio, mas é ele que indica o bom caminho. Há sempre um mistério residual. Dádiva negativa do presente. Tê-lo em forma viva e depois querer tê-lo no mundo material para auferir vantagens é o mesmo que dele abdicar, cair na tentação sensualista da Morte na proposta ao estudante, do diabo a Jesus no deserto, da glória mundana. Uma confirmação empírica da Idéia desvaneceria a Idéia, descaracterizando seu ar incomunicável, indemonstrável, autorreferente e exclusivista, entrada para poucos e seletos. Ouvem-se as palavras Idéia, vontade e OM, mas, como disse a Morte acima, os habitantes deste mundo que esperam o outro mundo, sem saber que ele é este mesmo, não escutam. Escutam as palavras, mas não as compreendem. E escutar é compreender desde que o homem é homem. Escutar a mais bela melodia e não entender sua beleza? Quem não riria dessa “sabedoria” e deste pragmatismo dos tolos? Num mundo em que existem bem e mal, quem se dá bem, se dá mal. Assim poderíamos traduzir as palavras mais próximas a nosso tempo “muito além do bem e do mal”: o bem vigente não é o bem de Platão. Daí a razão da reviravolta que não é reviravolta (filosofia extrema de combate ao niilismo): contorceram tanto as palavras que já é necessário desfazer mal-entendidos a fim de se afirmar a mesma coisa de dois milênios atrás. O que já foi OM, e o que hoje não é entendido pelos exegetas hindus do OM, voltará a ser o mesmo OM originário, etc. Credo quia absurdum est?
“When, indeed, one knows this syllable,
He obtains his every wish.”
Sorte que nós não somos muito exigentes, e não pedimos desejos absurdos (com o perdão do trocadilho com o final do texto acima). Para nós tudo é possível, mas nem tudo é permitido (por nós mesmos), se pudermos incluir Dostoievsky na conversa, porque somos virtuosos e nossos desejos nada têm a ver com as fábulas dos adoentados morais, os sequiosos do outro mundo, materialistas incuráveis, a imaginar gênios que lhes concedam todo tipo de coisa inesgotável neste mundo; quando este mundo mesmo é esgotável (pelo menos para eles, pela forma como eles esperam saciar sua sede neste mundo, ainda contando com um outro!), que desejo logo não daria sede-de-mais aos pedintes? Esses mendicantes querem ganhar na mega-sena; os poucos que logram continuam sendo mendicantes, não há escapatória.
“And when one knows this support,
he rejoices in Brahman’s world.”
Brahman’s world = Brahman’s word
Outro mundo = Idéia, vontade, OM, presente eterno, vida do sábio
“The wise one—
he is not born, he does not die;
he has not come from anywhere;
He is the unborn and eternal, primeval and everlasting.
And he is not killed, when the body is killed.
(The dialogue between Naciketas and Death appears to end here.)”
Com minha ajuda, vocês certamente perceberam, o único mistério que subjaz é salutar para a compreensão do texto (o ponto cego do sábio). Então, modéstia à parte, não haveria nem mais que dizer – hora perfeita para encerrar o trabalho de parto (maiêutica do sábio). O Katha Upanishad não encerra aqui, porém; a narração objetiva, fora de qualquer diálogo, dá continuidade aos ensinamentos.
“If the killer thinks that he kills;
If the killed thinks that he is killed;
Both of them fail to understand.
He neither kills, nor is he killed.”
Caim não matou ninguém, apenas passou por tolo! Abel vive ainda. A natureza se feriu. Mas a natureza é imortal.
“Finer than the finest, larger than the largest,
is the self (Ātman)¹ that lies here hidden
in the heart of a living being.
Without desires and free from sorrow,
a man perceives by the creator’s grace
the grandeur of the self.”
¹ Provável etimologia de nossa palavra “alma”.
“Sitting down, he roams afar.
Lying down, he goes everywhere.¹
The god ceaselessly exulting—
Who, besides me, is able to know?”
¹ Uma das características do homem pós-moderno esvaziado de sentido é viajar (territorialmente falando mesmo) sempre que pode. À procura de algo que nunca encontra. Sempre em movimento – mas ironicamente sempre estagnado no mesmo lugar – tentando fugir inadequadamente de sua sombra. A viagem talvez seja uma característica indispensável do ser humano. Mas é possível atingir a Idéia, ou o presente eterno, nunca saindo de sua província, como é possível errar como o judeu amaldiçoado sem qualquer conseqüência. Ulisses seria um bom exemplo daquele que viaja e sai do lugar ao mesmo tempo. O turista do capitalismo tardio, no entanto, apenas repete tudo que sabe fazer enquanto erradicado na província, necessitando, não obstante, de novas vistas na janela e de uma gorda fatura no cartão de crédito – suas provas empíricas de que ele viveu. Que bebeu a mesma Heineken vendida em sua vizinhança além-mar…
“When he perceives this immense, all-pervading self,
as bodiless within bodies,
as stable within unstable beings—
A wise man ceases to grieve.
This self cannot be grasped,
by teachings or by intelligence,
or even by great learning.
Only the man he [the self] chooses can grasp him,
Whose body this self chooses as his own.”
Aqui, estranhamente, cai a exigência de um guru, de um mestre para o estudante do Veda, e a auto-eleição fatídica que comentei acima fica sancionada.
“Not a man who has not quit his evil ways;
Nor a man who is not calm or composed;
Nor even a man who is without a tranquil mind;
Could ever secure it by his mere wit.”
Nenhum religioso com segundas intenções. A “frieza” do sábio não é a frieza do erudito, tão reparada e criticada em nossos tempos. O sábio não é um erudito. Erudito é o filisteu da cultura de massas. Sócrates é o anti-filisteu clássico. A frieza do sábio não é a incapacidade de se comover, mas a impassibilidade com que entende a inevitabilidade do funcionamento do princípio da Teoria das Idéias, da Vontade de Potência, do Om. Queira ele ou não, queira seu ego ou não, estas são Verdades que ele compreende como verdadeiras, e por isso as aceita (com impassibilidade, sinônimo circunstancial de frieza). Doravante, este é o “eleito”, de mente tranqüila, calmo e composto. Não levemos essa exigência longe demais: quem duvida que um Sócrates apaixonado por Alcibíades, que um Nietzsche compondo os livros mais destrutivos da cultura filistéia, não cumprem o requisito desta compostura exigida? Um homem calmo não vive em fúria, mas pode demonstrar fúria – caso contrário não seria um homem que os hindus estariam procurando, mas um embotado qualquer, já incapaz da ira.
A conhecida mente fervilhante do artista tampouco é uma vedação: suscetível às mudanças no mundo e crente nesta vida (e não somente em outra) ele sabe se isolar em seu próprio espaço, concentrado (o outro mundo neste mundo), onde não tem igual (Rafaello Sanzio, Miquelângelo, etc.). Acima de tudo ele pode contemplar sua situação no mundo com a mesma objetividade de um deus, de um filósofo (como dito acima) e de alguém que está desinteressado de lucros mundanos (o que os demasiado espertos são incapazes de compreender – “se eu tivesse seu talento, eu faria acontecer, eu seria muito maior, estaria no topo do mundo” – se um pequeno ou medíocre tivesse o talento do talentoso, ele não “faria acontecer”, porque então ele não seria apenas um esperto sem sabedoria e não pensaria como pensa o sem-talentos).
“For whom the Brahmin and the Kshatriya
are both like a dish of boiled rice;
and death is like the sprinkled sauce;
Who truly knows where he is?”
Quem senão essa super-alma qualificada, este que incorporou Brahman, para ver até mesmo a casta superior indiana como um mero equivalente inanimado da classe dos guerreiros que não estudam os Vedas? A morte é um fenômeno como outro qualquer, um tempero que aumenta o gosto da comida. E quem anseia pelo outro mundo, o que quer com isso? Quer escapar da morte como quem desmaia e acorda bem-tratado pelos outros, anestesiado, fugidodas pesadas implicações. Isso pelo menos quando ele está anormalmente convicto do outro mundo. Na maioria do tempo essas pessoas sentem a própria insignificância e banalidade, e tremem diante da simples palavra morte, como que pressentem que estão erradas e falam da boca para fora.
“They call these two ‘Shadow’ and ‘Light’,
The two who have entered—
the one into the cave of the heart,
the other into the highest region beyond,
both drinking the truth
in the world of rites rightly performed.”
A semelhança com o Mito da Caverna ou princípios como os recitados no mazdeísmo são óbvios.
“the imperishable, the highest Brahman,
the farthest shore
for those who wish to cross the danger.”
Decerto “as margens mais afastadas” não são um batismo ritual indiferente e vazio, “feito por fazer”, “herança dos costumes dos pais”, incompreendido em “seus mistérios”, realizado mais por medo que por qualquer outro sentimento, extremas unções, confissões e idas semanais à igreja, “para não ir para o inferno”. Não, essa odisséia não é para almas covardes que recorrem a atalhos inofensivos gravados nas pedras! Quem pode nos dizer, num país cristão, que já não estava impregnado de todas essas ridicularias desde que se entendeu por indivíduo? Porque, claro, podiam significar nada, mas há sempre um parente ou conhecido para dizer: “Antes de tal coisa, fazer 3 ave-marias e rezar 10 pais-nossos, se não funciona, ao menos não prejudica”. E assim assimilamos costumes que não podemos chamar de imbecis, porque só consideramos imbecil aquilo que podemos compreender, para avaliar; isso é menos que imbecil, é apenas um mistério herdado, automático, parte de nosso “arrumar a cama – escovar os dentes – etc.”. Não se pode jogar essas coisas fora sem substituí-las por algo melhor, dir-se-ia. O algo melhor é a verdade do conhecimento sagrado inconsciente hindu, que finalmente se tornou acessível a nós após séculos de filosofia ocidental. Não que possamos encarnar em qualquer outro a função de guru; o ritual de ascensão do ignoto herdado ao autoesclarecimento é sempre individualmente doloroso. Por isso os materialistas (hedonistas que se dizem espiritualistas!), seguros do outro mundo, são incapazes de efetuar essa transmutação.
“Know the self as a rider in a chariot,
and the body, as simply the chariot.
Know the intellect as the charioteer,
and the mind, as simply the reins.”
Uma imensa sabedoria condensada e destilada em 4 versos. Seria incapaz de enumerar a série de referências que enxergo em nosso saber ocidental ao ler somente as duas primeiras linhas: já a figura da carroça que ascende ao saber está presente na mitologia grega, na própria alusão ao deus-sol e seus servos. Hélio e Faetonte são pai e filho e contudo com o passar das gerações já se confundem num só ente. A carroça voadora deveria descrever a parábola do percurso do sol durante as 12 horas do dia (depois ele submerge e passa por debaixo dos oceanos, voltando ao leste). Mas Faetonte já é associado, a dado momento, à própria carruagem (o eu-controlado da figura poética acima). É ele, esse deus, na forma humana, qualquer que seja o nome, o único apto a conduzir a carroça sem se queimar (ou desviar do percurso correto). Desdobramentos, ainda helênicos, são perceptíveis na estória de Ícaro e seu malfadado vôo, nos escritos de Parmênides sobre o Um, no daimon de Sócrates (o self mais profundo, que conduz a ele próprio, o indivíduo histórico), que o orienta até em sonhos musicais na véspera de beber a cicuta (que ele não tema, aliás, o oposto: que ele celebre e comemore a vida no momento do estar-morrendo).
Essa voz interior passa, mais explícita ou menos explícita, pelos textos de todos os principais pensadores, até aterrissar nas investigações sobre o inconsciente, o novo nome para o daimon, nosso verdadeiro senhor. O que é um espírito-livre senão o escravo de si mesmo, ou melhor, aquele bom discípulo de si mesmo, que sabe dominar seus impulsos (ou assiste, enquanto impulsos cegos, a este domínio que vem aparentemente de fora, mas que é ele mesmo?), malgrado seu, e sabe ouvir os conselhos da sua verdadeira personalidade, desconhecida em seu todo até pela própria vida consciente do indivíduo? É o homem ético e abnegado que vê os filisteus de cima, meras manchas topográficas – esses filisteus que se julgam alpinistas de elite!
E ainda nem falei da metade final! O intelecto é o cocheiro. Que intelecto – depois que a duras penas aprendemos a desconfiar desse intelecto lato sensu desde Aristóteles até Kant? Decerto não é o intelecto cartesiano, o intelecto dos ceticistas dogmáticos, o intelecto dos Iluministas franceses, dos ateístas franceses – cristãos amargurados! –, o intelecto dos cabeças-de-vento do séc. XIX tão criticados por Nietzsche, a raça dos eruditos alemães! Não é o intelecto dos românticos que sucederam a Hegel, nem do próprio Hegel, o Aristóteles de nossa era. Mas um Goethe, que se equilibrou entre o Romantismo moderno e a serendipidade dos antigos, este está acima do gradiente que criticamos aqui! Dele que é o Fausto, já antigo e do folclore, mas que de sua pena é o mais célebre – mais um Jesus Cristo depenado por seu daimon errado. Mefistófeles é só um agente externo, a sociedade, o gênio da lâmpada dos que querem vencer na vida ganhando na mega-sena, não o demônio interior verdadeiro do sábio. E o ícone intelectual que ainda subsiste para nós na terceira década do séc. XXI – a fraude chamada Sigmund Freud, este compartimentador do inconsciente, que transformou num mapa ou num cubículo as forças incompreensíveis e virtualmente ilimitadas que nos regem – fariseu dos fariseus, pois como judeu esclarecido este homem sabia ser um filisteu, e continuou interpretando seu papel jocoso por maldade e ganho pessoal. O ápice do racionalismo deletério – o Descartes pós-descoberta explícita do daimon, pela primeira vez, desde Sócrates-Platão. E quantos séculos ele não terá retardado o estado das coisas? Não decerto para os poucos privilegiados, que vêem por trás da opacidade de sua pseudanálise, que enxergam por detrás dessas paredes (pontos cegos do indivíduo médio).
E as correntes de pensamento continuaram, na segunda metade do século XX, errando em pontos fundamentais, aprisionando esse self hindu. Marxistas desfiguradores do princípio maiêutico-dialético provisoriamente resgatado no XIX… Não faltava mais nada! A filosofia continental se fecha e vive de comentadores dos clássicos – talvez devêssemos comemorar. Já sabiam os últimos clássicos e já sabem os melhores comentadores que as próximas respostas úteis (úteis para nós, os anti-utilitários) devêm do Oriente, que, contrariando a projeção geológica de que os continentes africano e americano à deriva estariam se aproximando coisa de 10cm por ano, parece estar vindo a nosso encontro a galope… Portanto, para arrematar: o self hindu não é esse tipo de intelecto, só para deixar claro!
A mente simplesmente como os freios (rédeas). No sentido do poema a mente me parece apenas essa faculdade consciente dos eleitos que efetuam a boa jornada. A mente de Dédalo, o pai do imprudente Ícaro, a prudência altruísta, sem ambições solares, mas orgulhosa o suficiente para não recair em abismos.
“The senses, they say, are the horses,
and sense[d?] objects are the paths around them;
He who is linked to the body (Ātman), senses, and mind,
the wise proclaim as the one who enjoys.”
Quem é este que encontrou a eternidade verdadeira no único mundo possível senão “the one who enjoys”? Que momento há para gargalhar se não o presente? É verdade que a carruagem segue um percurso, mas não estamos atrás de nenhum destino particular. Como Ulisses, apesar das aparências, também não estava. Sobre cavalos, poderia até citar David Lynch, para quem, em Twin Peaks, o cavalo branco era o símbolo da morte próxima e também do vício, representado pelo hábito cocainômano da protagonista (uma protagonista que morre antes mesmo da série começar, eis uma quebra de normas!), nas duas primeiras temporadas apresentado de forma mais sugestiva, vaga, anedótica e espaçada. Na terceira temporada, no entanto, ganhamos também um poema sobre eles, os cavalos brancos, que nos brindam com muito mais associações, ou pelo menos com um termômetro para julgar as sugestões das primeiras temporadas: …The horse is the white in the eyes/ and dark within, (mais alusão ao yin-yang) embora eu tenha omitido a primeira metade desta outra quadra (!), para não me estender com conteúdo não-relacionado aos Vedas (se é que existe um que não o seja). Novamente o contraste entre o preto e o branco, a luz e as trevas, elementos da odisséia, dialética que leva à verdade. Mas, cavalo branco ou não, alado ou não, essa charrete mitológica também tem o seu, ou os seus. Embora pareça pouco funcional, podemos dizer que são 5, os cinco cavalos são os 5 sentidos. Cinco cavalos que puxam servilmente a carruagem (você). Se a vacuidade emocional dos filisteus de nosso tempo é uma imagem de cortar o coração, (!) não nos enganemos: os sentidos, raiz dos sentimentos, não são desprezíveis para o sábio – acontece que aqui eles têm tratamento pejorativo, sem dúvida. Os cavalos ou os pégasos cavalgam ou flutuam por uma estrada ou por um arco imaginário no firmamento. A estrada do Um de Parmênides. A mente precisa subordinar os cavalos: o cavalo que olha é na verdade cego; o cavalo orelhudo é na verdade surdo; o cavalo frenético e suscetível tem na verdade a epiderme dormente; o cavalo narigudo não tem faro; e o cavalo linguarudo nem saberia se ingere capim ou torrões de açúcar. Sem uma coordenação estes cinco não são nada. E para quem sabe coordená-los, veja, eles são tudo! A via de acesso ao nosso outro mundo, que está aqui. Uma via insuficiente por si só, mas indispensável para a alma. Há quem ache que o presente são os próprios sentidos. Rematados tolos. Eles são a paradoxal via para o invisível, o que eles percebem são apenas os objetos e os contornos da estrada para o presente.
Acaba de me chamar a atenção o fato de que, consultando o dicionário, obtive que “obscuro” é um antônimo de presente. E acima se contrapôs a parte do olho que enxerga, a retina, à brancura dos cavalos, prenúncio de armadilha. Pois o que não seria essa fala na boca de um dos agentes do Black Lodge de David Lynch, nesse contexto de cavalgar por uma senda necessariamente perigosa, senão uma grave advertência sobre a mais próxima vizinhança entre o enxergar bem e o viver com um antolho nos olhos? E eu que achei que já havia secado este poço (esta é a hora dos fãs de Twin Peaks mais ligados rirem bastante)!
“When a man lacks understanding,
and his mind is never controlled;
His senses do not obey him,
as bad horses, a charioteer.”
Apenas um lembrete, já que tudo isso já foi bem-comentado e o trecho é simples: o cocheiro (o daimon, o Ātman) é muito mais que a mente. É evidente que esta não é apenas uma enumeração paralela de uma hierarquia dupla, é mais complexo que isso. [De modo simples: cocheiro/o inconsciente (guia maior) > homem/vida consciente/carruagem > mente/corpo/intelecção > cavalos/sentidos (guias menores).] Maus cavalos não impossibilitam o sucesso da viagem (zero cavalos sim); uma mente em frangalhos, um corpo lasso e a estupidez (tudo junto conotando uma carroça em pedaços), sim.
“When a man lacks understanding,
is unmindful and always impure;
He does not reach that final step,
but gets on the round of rebirth.”
Renascer tem quase sempre conotações positivas. Não aqui, seja para o hinduísmo conforme os exegetas hindus seja para mim, que me arrisco a uma interpretação ainda alhures, conectada a um outro mundo no aqui e agora. Nada pode ser pior do que o renascimento contínuo neste contexto. É o mesmo que ensinar a doutrina do eterno retorno para os fracos em Assim Falou Zaratustra. A bênção de uma “vida” eterna não é nada no colo de mortos-vivos. A sua odisséia não é completada, é só uma grande tortura sem-sentido. OM omento presente não tem um último degrau, mas o último degrau é necessário para os sentidos do homem (sua parte menos importante).
RESUMO DO CREDO HINDU SEGUNDO RAFAEL DE ARAÚJO AGUIAR (LEMBRANDO QUE UM LIMITE MÁXIMO – QUE CHAMAMOS DE DEUS – QUE NÃO SAIBA RIR DE SI É INÚTIL, TANTO EXISTINDO COMO APENAS ALMEJANDO EXISTIR, DÁ NO MESMO):
No que os intérpretes (todos os já consultados por mim, pelo menos) do hinduísmo e eu discrepamos é: para eles, sair da roda da existência é a libertação. Eu acredito que os Vedas genuinamente pregam, no lugar, o seguinte:
Om. Quando se diz que sair da roda da existência é a libertação, está-se dizendo isso para os tolos; pois são os tolos que lêem ensinamentos nos livros e sempre os absorvem da pior forma. Desta feita, não proibiremos a leitura aos tolos, mas nos certificaremos que eles sempre retirarão deste manancial de sabedoria a interpretação mais literal e espúria possível: para eles, escapar da roda da existência via santidade é a libertação suprema. Isto não é Brahman, mas seria pecaminoso contra a própria vida ensinar a verdadeira religião para aqueles que não a merecem. O texto está redigido de forma que os merecedores de absorvê-la saberão interpretar nosso único credo a contento. A libertação é oni-presente e inevitável, sempre esteve aqui e agora e sempre estará para o leitor puro e consciente (aquele que aspira à sabedoria na vida). Isto é Brahma. Não há reencarnações, esse é apenas um dogma regulador para os hOMens mais vis. O dOM da vida é único e especial, pois a morte não é o que se entende vulgarmente pela morte: ela não encerra nada. O presente é eterno. A realidade é una. Não há progressos, regressos, ciclos ou aléns. O fato de indivíduos nascerem e morrerem confunde as massas, porque quem se crê indivíduo tenta se colocar no lugar de outro indivíduo, no que sempre falhará até os mínimos detalhes. É preciso entender que a existência não é algo linear sobre o qual o tempo – condição de possibilidade da própria existência, mas apenas uma de suas engrenagens – tenha qualquer poder. O tempo só funciona de acordo cOM o próprio desígnio inerente do que se chama realidade ou existência. Ele, o tempo, serve a e é inseparável da vida mesma. E a individualidade, o nascer e perecer são elementos, fundamentos da existência. Não significa que os indivíduos crus sejam Brahman (a existência mesma). Mas estão equipados para entender Brahman e se tornar Brahman. Pois Brahman pensou em tudo desde o sempre, já que o tempo é apenas uma engrenagem sua e ‘sempre’ é apenas uma palavra vazia fora da percepção dos hOMens, ligada às grandes limitações dos sentidos. Início e fim só existem para os indivíduos que são tolos. Brahman só pode ser usufruído pelo que chamam de presente. A vida dos tolos é um eterno sofrer, e o que é mais irônico: um sofrer baseado em algo que não existe – sua dilaceração, sua aniquilação, sua morte. O pavor do fim. Pois eles não sabem que são eternos, e isso gera a contradição muito lógica de que eles sofrem eternamente devido mesmo a esta ignorância, que em certa medida é obra deles próprios, pois eles também são Brahman, em crisálida. A forma de reestabelecer a harmonia e a ressonância cOM Brahman, o real, é, cOMpreendendo o real, efetivá-lo (sendo real, vivendo o presente, isto é, a eternidade). Esta condição carece de sofrimento penoso; o que (os tolos) chamam de sofrimento, na vida de quem entendeu Brahman é apenas atividade e saúde, a plena realização do Brahman, separado em indivíduos apenas formalmente, para apreciação dos eternamente tolos, tolo Brahman brincalhão (a verdade é que cada um que cOMpreende Brahman é Brahman, e Brahman é indivisível)! Por que nós, Brahman, dar-nos-íamos ao trabalho de escrever de forma tão límpida para nós mesmos, Brahman, o que é Brahman, se Brahman (os tolos, agora, os Brahman não-despertos e necessários ao Brahman) ainda assim não irá entender, da mesma forma que lendo poesia e enigmas? Pois este ensinamento carece da possibilidade de ser entendido pela mera literalidade e baixeza vital. É preciso ler mais do que palavras, porque Brahman é mais do que palavras. O “inferno” de Brahman é que Brahman é tudo, e a tolice é parte indissociável deste único e melhor dos mundos, o sempre-existente. O inferno de Brahman é Brahman, mas Brahman não se importa, o que é, aliás, muito natural e desejável. Brahman é o mais vil e o mais alto, e nunca se pára de cair e nunca se pára de subir segundo o axiOMa inquebrantável de Brahman, o Um ou Ser ou Ente. Brahman é perfeito e não quer se liberar de Brahman. E nem poderia se assim desejasse. Om.
Digo que Brahman em algum momento através de mim achou de bom tom ser mais literal, para satisfazer Sua vontade (e a minha), quebrando as regras num sentido e duma forma infinitesimal que não descaracteriza Brahman, num limiar bastante desprezível do que os tolos chamam de tempo-espaço que eu traduziria em palavras como sendo minha vida, os anos que eu vivo (da perspectiva de uma terceira pessoa)¹ nos lugares que eu vivo em torno de quem eu vivo (meus amigos, coetâneos e leitores).
¹ O que é a terceira pessoa (tanto do ponto de vista metafísico quanto do ponto de vista gramatical de todas as línguas)? É a junção fictícia das duas primeiras pessoas. Eu sou a terceira pessoa de vocês; vocês são a terceira pessoa para mim. E no entanto a primeira pessoa sou eu (vocês, isoladamente) e a segunda pessoa são vocês em conjunto (eu e os outros, para vocês, individualmente).
“When a man’s mind is his reins,
intellect, his charioteer;
He reaches the end of the road,
That highest step of Vishnu.”
Com esse trecho não vou gastar saliva. Irei apenas traduzi-lo para o formato da prosa familiar a nossa cultura, omitindo as palavras desnecessárias para a compreensão total (não faz sentido, na tríade homem-mente-intelecto, pelo menos nessa tradução em inglês, conservar mind e intellect; só man já é mais do que o bastante):
“When a man (…) is (…) his charioteer, he reaches the end of the road, that highest step of Vishnu.”
“Higher than the senses are their objects;
Higher than sense[d?] objects is the mind;
Higher than the mind is the intellect;
Higher than the intellect is the immense self;”
“Mais elevados que os sentidos são as coisas que percebemos por via dos sentidos, o mundo visível; [Que eu citei acima, na hierarquização simplificada, como intelecção – esta parte do mundo visível não fazendo referência ao próprio sujeito, e para sermos sujeitos está implicado que tem de haver o binômio sujeito-objeto, pode ser omitida, inclusive porque a mente, como veremos abaixo, interpreta automatica-mente todas as percepções dos 5 sentidos, integrando-as, e não se pode falar de mundo visível (veja como nos expressamos sempre hiper-valorizando os olhos!)/sentido sem que haja a mente do ator dotando este mundo de sentido (bússola das sensações).]
Mais elevada que o mundo visível é a mente;
Mais elevado que a mente é o intelecto; [Aqui sinto que nosso pensar ocidental entra em colisão com o vocabulário hindu – ou será problema da tradução para o inglês? –, pois mente e intelecto estão indissociados de acordo com nossa maneira de representar a ambos. A terceira linha, como a segunda linha, devem ser omitidas numa tradução explicativa superior.]
Mais elevado que o intelecto é o imenso self.”
Para melhorar, destarte:
“Mais elevada que os sentidos é a consciência;
Mais elevado que a consciência é o inconsciente.”
(mundo animal < mundo humano < mundo divino [somos divinos!]) (*) O mais irônico, se seguíssemos o ‘roteiro’ do Veda seria que posicionaríamos o mundo mineral acima do animal, i.e., o mundo visível, os objetos, as coisas, a estrada que os cavalos percorrem como sendo mais importantes até que nosso tato, audição, visão, olfato e paladar, o que é absurdo, pois não vivemos em subserviência aos objetos, e sim o contrário: somos nós que os criamos graças a nossa condição de seres vivos, por assim dizer.
A palavra que mais pode gerar confusão na tradução aperfeiçoada acima é a última. O inconsciente é o sábio que mora em nós sem que possamos ou devamos cobrar aluguel. Na verdade é ele que nos sustenta, em grau ainda mais surpreendente que a consciência sustenta os meros instintos. Porém, o INCONSCIENTE sofreu muitas malversações nos últimos tempos. Não temos palavra melhor para caracterizar “o verdadeiro senhor da consciência”, mas infelizmente a psicanálise poluiu imensamente essa palavra, para não falar das (más) psiquiatrias, psicologias e filosofias (jamais leiam Von Hartmann, um homem que interpretou Schopenhauer da pior maneira possível e teve grande influência sobre os ‘apreciadores da filosofia’). É preciso decantar e esterilizar a palavra para reutilizá-la, não temos escolha, e na verdade não devíamos nos subjugar a algumas poucas gerações de tolos, ou teríamos de reinventar nomes para quase todas as coisas. Mesmo assim, para iniciar esse processo e a revalorização do termo inconsciente, bem-descrito no Veda como imenso, muito mais abrangente que a consciência (como o oceano perante uma piscina), vindo a ser em última instância tão importante que pode ser igualado a Brahman, já que qualquer entidade separada de nós e portanto de nossa instância mais elevada seria apenas criar quimeras e fábulas que só multiplicariam as complicações, quando sabemos que o que o hinduísmo diz é que somos Brahman, ao contrário do cristianismo, que estabelece um Deus infinitamente inacessível ao homem, tão inacessível que se tornou a religião favorita do niilista ocidental,¹ quer dizer, maioria da população, que é niilista sem o saber… Em suma, quero dizer que de uma forma ou de outra, se quisermos respeitar o credo hindu, devemos equiparar a noção “despoluída” de inconsciente ao Todo desta querida religião. Seja falando simplesmente inconsciente, seja empregando, se se quiser, o termo inconsciente coletivo de Jung.
¹ Podemos até dizer que quanto mais crente se é, mais ateu! Só uma religião tão mesquinha seria capaz de provocar a morte teórica de deus, gerando tamanho estrago civilizacional que os filósofos tiveram de interferir nos negócios dos padrecos!
Por outro lado, se ainda assim o leitor fizer questões de sinônimos, como mais acima, para me referir a ‘inconsciente’, recorreria a:
BRAHMAN = OM = INCONSCIENTE (COLETIVO) (Filosofia, Psicologia, Jung) = UM (Parmênides) = DAIMON (Sócrates) = Idéia (Platão)¹ = MUNDO (vulgar) = OUTRO MUNDO (Filosofia Ocidental)² = VONTADE DE POTÊNCIA ou VONTADE NÃO-UNA ou VONTADE NÃO-LIVRE (Nietzsche)³ = VIDA DO SÁBIO (hinduísmo e outros sistemas) = ETERNIDADE ou PRESENTE ETERNO4
¹ Como Sócrates não escreveu, estamos autorizados a referir o daimon socrático ao próprio gênio de Platão: tão “egoísta” que criou dois nomes para Brahman ou aquilo que há de mais sagrado!
² Emprego aqui o Outro Mundo no sentido “recuperado” que já demonstrei, em relação ao Além da maioria das religiões: o Outro Mundo é o mundo das Idéias de Platão, localizado na alma do sábio, e portanto neste mundo mesmo, no presente, aqui e agora. Esse é o tesouro máximo do hinduísmo: uma religião de massa que não nega o amor à vida e não incita à hipocrisia e à mentira, prometendo recompensas num futuro indefinido. O que é do sábio sempre foi, é e será do sábio. A eternidade já foi alcançada. Desde pelo menos Schopenhauer ou Kierkegaard (admito que Kant é um caso talvez especial; já Hegel acreditava apenas num canhestro progresso da História, sem entender que o presente já havia trazido todas as evoluções que ele só podia atribuir ao futuro da Europa), após o longo e sombrio hiato entre Platão e o mundo moderno (quase ainda ontem!), chegando ao trabalho de autores definitivamente afirmadores de um e somente um mundo, este aqui, como Husserl, Heidegger, os existencialistas, praticamente todos os filósofos dignos do século passado e deste, o Outro Mundo dos fanáticos religiosos e dos Escolásticos – considerados filósofos apenas nominalmente, meros escribas de patrões temporais (a Igreja) – foi abandonado em prol de uma nomenclatura despida de conotações deletérias, fraudulentas e niilistas: o Outro Mundo de que falo, sinônimo da nova Zeitgeist de retorno ao Oriente, é o Outro Mundo que eu interpreto estar exposto nos Vedas: o mundo do sábio que chegou à realização de que a eternidade é o presente. O reencantamento do mundo; por isso também incluo a palavra mundo, porque é no mundo que vivemos, e em nenhum outro, em que tudo é possível. Este mundo é o Um.
³ O termo “vontade de potência” gera confusão. Primeiro porque faz parte do espólio de Nietzsche, que provavelmente teria mudado a expressão antes de publicá-la ou pelo menos não a elegeria como título de sua próxima obra. Segundo, por culpa do estudante filisteu de filosofia, que tende a associar “potência” (que já é uma adaptação à tradução portuguesa de “poder” na tentativa de evitar ambigüidades e enganos!) com o conceito de poder/monopólio da violência do Estado na Política, e em decorrência a doutrinas absolutamente anti-nietzscheanas como “sobrevivência do mais forte aplicada à Ciência Política”, nazifascismo, psicologias de auto-ajuda (como se se tratasse aqui de uma ‘força de vontade’ individual tendente ao infinito, calcada na imaginação desconexa da materialidade do mundo!), etc. A terceira problemática, e que quis evidenciar empregando sinônimos como VONTADE NÃO-UNA e VONTADE NÃO-LIVRE, é a falsa equiparação que se faz entre a Vontade schopenhauriana e a Vontade propriamente nietzscheana. Como Nietzsche é influenciado por Schopenhauer, muitos filósofos até razoavelmente competentes podem cair na cilada de não enxergarem onde está uma linha de ruptura definitiva do primeiro pensador com este último. E é importante tocar no assunto, já que Schopenhauer teria cunhado o termo Vontade justamente influenciado, por sua vez, por suas leituras orientalistas vinculadas ao hinduísmo! Há aqui, pelo que se vê, uma espécie de mal-entendidos em cascata. Desfaçamos esse nó górdio de vez! Se eu estiver certo e Schopenhauer errado (e uma coisa é decorrente da outra, pois temos pontos de vista divergentes), o que Schopenhauer entendeu dos Vedas e particularmente do budismo que se desenvolveu a partir da Índia, é exatamente a leitura leiga, ou a leitura tola e literal, da ascensão rumo à Verdade bramânica. Isso porque para Schopenhauer a doutrina budista é um quietivo da vontade. Sua Vontade, em letra maiúscula, é a entidade metafísica que rege secretamente todos os fenômenos do mundo visível e observável (que ele chamará de Representação). O mundo da representação de Schopenhauer se assemelha muito ao Samskara, o inferno hindu, em que não há um propósito para a existência. Aí entra a volição individual do homem: ao se aperceber da futilidade deste mundo (e percebendo, no caso de Schopenhauer – este um grande mérito seu) que não existe um outro mundo, tudo que resta ao indivíduo informado, ou ao sábio, é negar a vontade, com letra minúscula, o outro mundo que existe neste mundo. Ora, mero produto de um mundo sobre o qual ele não tem o menor controle, o asceta budista ao menos se empenha em emascular sua vontade, ou seja, a parcela dessa grande e única Vontade que configura seus instintos e portanto seu impulso vital, tratando, em primeiro lugar, de se guardar de gerar prole (instinto da reprodução e perpetuação da vida); em segundo lugar – e não cabe aqui citar o suicídio, pois Schopenhauer sabe que não há fuga da existência, ele fala de uma mortificação da vontade individual a despeito de que no mundo aparente nada mude – de refugiar-se na ascese espiritual, descartando o quanto puder traços de egoísmo, evitando agir sobre este mundo que não tende a nada e é só uma sucessão indefinida de acontecimentos vãos e sem valor. Uma forma de conseguir reduzir sua vontade virtualmente a zero (além de escrever um tratado filosófico sobre isso), para Schopenhauer, é que o sábio se dedique a refugiar-se na arte; principalmente na Música. Schopenhauer vê na música o elemento fenomênico (sensível) mais próximo da inacessível Vontade cega regedora do universo. Através dela o ser humano pode perpassar pelo circuito de todas as emoções, e ao mesmo tempo não viver, isto é, limitar-se a sentir paixões sem qualquer conseqüência prática ou interferência no mundo exterior. Para Schopenhauer todo grande artista é um negador da vida, um budista mascarado. Discordo frontalmente desse ponto de vista. Como eu acredito no Veda como uma alegoria que quer significar exatamente o oposto – a valorização do presente e da vida –, é necessário pontuar: minha principal influência filosófica é Nietzsche, e sua vontade opera em contraposição máxima ao “niilismo passivo” schopenhaueriano. Nietzsche quer restaurar as condições do grande homem, da grande cultura, da grande civilização, algo que o Ocidente não é mais capaz de proporcionar. Daí se explica que a filosofia oriental tenha, por tabela, exercido impacto proeminente no pensar de Nietzsche. Sua vontade é não-una porque diferentemente da Vontade indivisível, “em bloco”, de Schopenhauer, Nietzsche enxerga esse elemento metafísico como sendo manifestações completamente aleatórias e independentes entre si, de modo que o que realmente há não é uma tirania da Vontade sobre este mundo material, mas a presença de vontades dispersas, cada uma unilateral, procurando exercer seu “ponto de vista” sobre as demais, e conseguintemente sobre o mundo material. Esta vontade que “não é livre” (são palavras do próprio Nietzsche), ou todas essas porções infinitesimais de vontade, só sabe uma coisa: ser aquilo que ela é; forçar seu caminho, chegar a seus últimos limites; e os últimos limites são as outras vontades. Essas vontades não são entes abstratos absolutos, quer seja, não existem desde sempre e para sempre, consideradas individualmente. Conforme o jogo de forças, que seria apenas o espelho do jogo de forças do mundo material (daí ser possível a Nietzsche descrever uma vontade que pode ser apenas nomeada por hipótese, lembrando que os sentidos, guiados pela intelecção, no homem sábio, são a via para a Verdade, exatamente como nos Vedas, e exatamente como em todo e qualquer grande filósofo; esta é uma lei), vontades antes autônomas podem se ver reagrupadas (talvez uma vontade mais poderosa englobou ou absorveu outra, vencida), como um “tecido de vontade” pode se desmembrar em múltiplas vontades com novos vetores e potencialidades… Esse jogo não termina, pois jamais houve nem haverá um vencedor. É uma “guerra democrática”, já que uma só vontade jamais se tornará soberana (a Vontade no sistema schopenhaueriano é tirânica, soberana, pois não há oposição dela consigo mesma). Não só a vida é regida pela vontade, mas ela é evidentemente seu campo de atuação primordial. Cada instinto nosso pode ser interpretado como a manifestação aparente de uma vontade. Isso explicaria, o que Schopenhauer deixou em aberto, por que num mesmo indivíduo tantas volições contraditórias precisam combater entre si para se manifestar, num jogo de sucessões intermináveis. Podemos ter uma personalidade definida e coerente, mas basta lembrar que essa é só nossa vida consciente. Por debaixo do pano “n” vontades lutam para fazerem-se valer, partindo do inconsciente até serem traduzidas no reino visível ou “mundo das aparências”. Acontece que a contraposição ao mundo das aparências, onde atuam as vontades, não é outro reino senão o ideal, o fictício, forjado principalmente pelas grandes religiões do passado do homem. O Cristianismo, o próprio Budismo são inimigos do homem que encontrou a Verdade na revelação do mundo como vontades em eterno conflito. Nietzsche reconhece que esta é a vida e ela não deveria ser diferente do que é no presente; necessariamente o que torna o homem burguês decadente haverá de ser vencido um dia, por novos valores, novas vontades, novas potências. Embora tudo nasça, se desenvolva, atinja um auge, decline e finalmente morra, o fato de as vontades se entrechocarem o tempo todo, de a realidade da Vontade de Potência ser “estar sempre em contradição consigo mesma”, ambos os fatos são o fundamento da existência, e isto é o que há de constante neste grande pensamento. Exatamente como nos Vedas. Por esse lado, Nietzsche parece ser o inimigo de um credo que buscaria a ascese suprema, a libertação, a evasão do ciclo de reencarnações, a fusão com Brahman. Mas tudo depende de se Nietzsche – que não foi explícito nesse tocante – entendeu os Vedas dessa forma ou se “empatou” com minha conclusão: os Vedas foram, até hoje, mal-interpretados. Eles são um hino à vida, coincidentes com a filosofia nietzscheana. E o que é mais espantoso é que Nietzsche, que tanto se bateu com Platão, pode (pode! não sabemos bem o que ele deixou de declarar deliberadamente – coisa de filósofos!) não ter percebido que a dialética-maiêutica de Platão, sua teoria das reminiscências e das Idéias, tudo aquilo que o alemão parece ter associado, a princípio, à negação da vida em prol de “meras conjeturas servíveis apenas num Além-mundo”, é no fundo uma filosofia gêmea a sua! São duas aproximações que redundam nas mesmas conclusões. O primeiro e maior filósofo do Ocidente encontra em Nietzsche seu acabamento, e o acabamento da filosofia ocidental como um todo, como são muitos os que o afirmam. Ou podemos considerar Nietzsche um iniciador, e Platão o responsável pelo acabamento? Não faz diferença, quando a filosofia (a busca pela sabedoria) é atemporal e não tem fim ou começo. As filosofias mais sábias e honestas tenderão a chegar às mesmas conclusões, por mais que seus métodos e termos-chaves pareçam tão distintos e antípodas – esse pseudo-antagonismo não resiste a uma análise mais detida, não são filosofias ou fés, mas a Fé, a Filosofia Verdadeira. E não é um império dual, mas um triunvirato, se eu estiver certo: o hinduísmo corrobora, antes mesmo da História do Ocidente devir, estes dois maiores filósofos, o alfa e o ômega da historiografia da disciplina; nossos legítimos contemporâneos. Nietzsche declarou que Heráclito podia ter enunciado seu eterno retorno. Talvez seja o ponto cego inerente a cada filósofo que ele não tenha visto algo tão evidente para nós: Parmênides e Platão são os legítimos filósofos do eterno retorno da Antiguidade. A teoria das reminiscências é muito afim ao karma hindu e à proposta ética de Nietzsche para passarmos esta semelhança por alto. De onde quer que se parta, o Um parmenídeo, a Idéia platônica, o daimon socrático, a vontade de potência ou o privilégio da fusão do sábio com o verdadeiro invisível dos livros sagrados da Índia, a rota percorrida parece exatamente a mesma.
Para uma explicação mais detalhada das vontades em N. e S., recomendo meu post dedicado à filosofia de Schopenhauer (HISTÓRIA DAS IDÉIAS 3) ou ainda meu livro VONTADE DE INTERPRETAÇÕES (à venda em https://clubedeautores.com.br/livro/vontade-de-interpretacoes-2). E sim, o título do meu livro foi escolhido sarcasticamente, muito em virtude das distorções voluntárias ou não de exegetas quanto ao termo vontade de potência!
4 1) Eternidade é a palavra mais fácil a que atribuir autor: pode ser determinada como de uso vulgar desde os tempos mais imemoriais;
2) Esta nota de rodapé existe em razão do segundo termo, seu equivalente, se bem que, ao mesmo tempo, enfatizador da obviedade de que em havendo eternidade só pode haver uma eternidade presente. Isso porque não nos interessa aqui considerar a divisão tripartite do tempo entre passado, atualidade e futuro, o que seria jogar pela janela toda essa interpretação, julgo eu, em alto nível dos Vedanta, e aliás regressar às noções cavernícolas de tempo para Isaac Newton, sendo que Immanuel Kant destroçou pouco depois qualquer possibilidade desse “tempo em linha reta de jardim de infância” ter qualquer validade acadêmica séria. Como não sou Arnold Schwarzenegger me recuso a retornar ao jardim de infância, ainda que seja para dar aulas que gerem mais polêmica que o tira no filme! Afinal de contas, se quiséssemos falar de pseudo-eternidades (conceitos vulgares a-filosóficos) poderíamos partir para análises historiográficas de como não fazemos rigorosamente idéia de quantos anos há para trás ou para frente no universo, debate aliás absurdo e completamente improdutivo que é uma obsessão quase sexual e do subgênero sado-masoquista (uma parafilia) desses “especialistas sem espírito” (Weber) chamados físicos modernos, que falam com pompa e autoridade sobre asneiras como “big bang ou singularidade” (o ‘Adão e Eva’ dos filisteus™), “universo antes do universo existir, (!) previamente ao início do tempo, (!!) sob a forma de um ponto de densidade infinita (!!!)” ou ainda como “uma suposta idade atual do universo na casa dos 13 ponto sei lá quantos bilhões de anos”… Tampouco me interessa, aliás, tampouco interessa a qualquer habitante do planeta Terra, para sermos francos, quantos bilhões de anos o sol demorará para “queimar”, “explodir” ou “simplesmente se apagar”, primeiro porque no ritmo do capitalismo a Terra queimará “sem ajuda” antes, muito, muito antes; segundo porque não está provado– já que os cientistas amam de paixão esta palavra –, mesmo assumindo a absurdidade da hipótese de um universo com início-meio-fim proposta por físicos que quebra as próprias leis da física,(*) que não poderia haver uma – na falta de termo melhor, e de empréstimo da astronomia – precessão das condições de ‘sobrevivência’ do sistema solar, para começo de conversa, quando eventos teoricamente prováveis em escala de bilhões de anos segundo nossos melhores matemáticos, estatísticos, físicos e químicos não poderiam ser descartados por inumeráveis fatos intervenientes no decorrer de todo esse tempo (5 bilhões de anos de vida restantes para nosso Astro-Rei!) no próprio reino da ciência estritamente acadêmica, ainda mais levando em conta que não há disciplina que não sofra grandes revoluções de paradigmas em um módico intervalo de décadas! Para se ter idéia, se preservássemos todas as condições de realização do Campeonato Brasileiro de Futebol numa estufa, dando vida eterna aos jogadores, dentro de bilhões de anos até o Coritiba, atual equipe de várzea, viria a ser campeã dos pontos corridos um sem-número de vezes com até 100% de aproveitamento em alguma das ocasiões!!! Bilhões de anos é uma quantidade de tempo imensurável. Tudo e qualquer coisa acontece num “período” tão vasto (é tão vasto que ouso dizer que nenhuma mente humana foi formatada para conceber quão verdadeiramente vasta é a quantidade de 1 milhão de anos, de modo que se multiplicarmos isso por mil podemos ter certeza de que todos os lobos do planeta terão sido extintos pelo mero apetite de uma única criança chamada Chapeuzinho Vermelho).
Para chegarmos direto ao ponto (que não é um ponto de densidade infinita que estourará, devido a uma maldosa singularidade, justo na sua cara, fique tranqüilo!), avancemos. Obviamente não fui eu quem cunhou a expressão PRESENTE ETERNO, mas no momento eu não saberia dizer quem foi o primeiro a utilizá-la, e no sentido aqui proposto. Tenho razoável confiança de que Nietzsche chegou a utilizar este binômio; de qualquer forma, não sendo o caso, foi ele quem influenciou autores do séc. XX a forjá-lo neste sentido que tenho em mente, se for mesmo verdade que já não o tomaram de empréstimo. Mas suspeito que antes de Nietzsche esta expressão, para um sentido parecido em Metafísica, já estava em voga. Ainda preciso pesquisar a respeito.
(*) DESABAFO EM CAPS LOCK
ME DIGAM EM QUE HOSPÍCIO JÁ SE VIU TAMANHA LOUCURA! MAS FALAR NISSO EM TEMPOS DE IVERMECTINA PARA TRATAMENTO DA COVID, EU SEI, CHEGA A SER UMA BLASFÊMIA, PORQUE DESCREDIBILIZA A CIÊNCIA ESTABELECIDA, EMBORA “ISSO” QUE OS FÍSICOS CHAMAM DE “TEORIA DO BIG BANG” PASSE LONGE DE SER MÉTODO E DE SER CIÊNCIA, MOLE OU DURA! ACONTECE QUE UM DIA, A LONGO, PRAZO, ISSO DEVERÁ SER ENDEREÇADO E DISCUTIDO, ENTÃO EU ARREMESSO A PRIMEIRA PEDRA SEM PUDOR E SEM MEDO – CIENTE DO MEU LEGADO – DE SER CHAMADO POR ALGUM CABEÇA-DE-BOI DE negacionista, MINHA CONTRA-DEFINIÇÃO POR EXCELÊNCIA! PORQUE, INFELIZMENTE, QUEM TEM VOZ NESSE DEBATE ATUALMENTE E QUE ATAQUE A TEORIA DEMENTE DO BIG BANG É OU CRIACIONISTA (COMO SE INVENTAR COISAS TÃO ESTAPAFÚRDIAS COMO UM PONTO DE DENSIDADE INFINITA PARA EXPLICAR A ORIGEM DA EXISTÊNCIA NÃO FOSSE DEIXAR OS COMUNS DOS MORTAIS DE CABELO EM PÉ, LOUCOS PARA ENTRAREM NUMA IGREJA E PEDIREM SOCORRO A UM PASTOR!) OU TERRAPLANISTA, OU SEJA, ESCÓRIA DA ESCÓRIA, AINDA MAIS DEMENTES QUE OS “FÍSICOS CONTEMPORÂNEOS”…
* * *
Mas ainda não acabou a hierarquia do texto sagrado! A ele devemos regressar:
“Higher than the immense self is the unmanifest;
Higher than the unmanifest is the person;
Higher than the person there’s nothing at all.
That is the goal, that’s the highest state.”
Acontece que eu equalizei o immense self ou inconsciente a todo o imanifestável, como foi visto exaustivamente acima! O Nada. Quase consigo acreditar que esses trechos dos Vedas sofreram interpolação de fanáticos de época posterior. Olhando dessa maneira, parece que os vaticínios de Schopenhauer fariam todo o sentido! Mas não percamos de vista que o Veda é um poema e não deve ser mal-interpretado. Tendemos a ler o “nada” deste escrito tão antigo como o nada da filosofia contemporânea, o que é um erro. Claro que não posso justificar em mil anos a segunda linha. Persons, se estivermos falando de individualidades, consciências, já ficaram muito abaixo na hierarquia. Por isso a diferença no matiz dos verdes: quanto mais escuro, mais censurável. Se acima do inconsciente ou, que seja!, daquilo-que-não-pode-ser-manifestado, só há o nada, ou não há nada, não significa que o último passo já foi dado? E não foi isso que foi dito no verso sobre Vishnu mais acima? A meta é chegar à realização do presente como a felicidade máxima: mais que isso é impossível, é absurdo. A pergunta pode até ser colocada: Existe outro degrau? Mas a resposta invariável é: Não.
“Hidden in all the beings,
this self is not visibly displayed.
Yet, people of keen vision see him,
with eminent and sharp minds.”
Pode até mesmo ser que o “nada” se refira apenas aos tolos. Sabemos que o invisível que o sábio vê no topo de todas as coisas do mundo, do único mundo, é Brahman, são as vibrações do Om. É o self no sentido hinduísta. E por que voltariam a citar “this self”quando, supostamente, a hierarquia ainda “subiu mais”, citando “unmanifest”depois, e “persons”(sic)? Porque os quatro versos de “Higher than the immense self…” a “…that’s the highest state.”são de importância relativa quase nula se compararmos a tudo o que precede e sucede!
“A razor’s sharp edge is hard to cross—
that, poets say, is the difficulty of the path.”
E no entanto não basta ensinar, como eu já disse. A jornada não pode ser ensinada. Quantos tolos não existem para cada Platão? Quantos puderam entender Platão? Quantos especialistas em Platão (oximoro) me dirão que estou correto sobre Platão? A eternidade não é uma descoberta no estilo Eureka!. Posso enunciá-la quantas vezes quiser. Alguém a terá mesmo obtido, na forma como descrevi? Eu mesmo, vivo no presente sem me autoenganar, em minha potencialidade máxima, isto é, na potencialidade máxima que cabe ao homem? Sobre isso, Bíblias demais já foram escritas para que incorramos nas mesmas e repisadas fraudes… Fechando o parágrafo com uma piadinha: desde Gutenberg, nenhuma bíblia foi escrita. Os copistas perderam o emprego!
“It has no sound or touch,
no appearance, taste, or smell;
It is without beginning or end,
undecaying and eternal;
When a man perceives it,
fixed and beyond the immense,
He is freed from the jaws of death.
*
The wise man who hears or tells
the tale of Naciketas,
an ancient tale told by Death,
will rejoice in Brahman’s world.”
Quem senão a Morte (o Nada, pois nada está acima de Brahman) poderia contar o antigo conto (tale também pode ser traduzido como história ou conversa – o que é muito revelador sobre Platão e o método dialógico)?
“If a man, pure and devout, proclaims this great secret
in a gathering of Brahmins,
or during a meal for the dead,
it will lead him to eternal life!”
“He who was born before heat,
who before the waters was born,
who has seen through living beings—
Entering the cave of the heart,
(one sees) him abiding there.
So, indeed, is that!
She who comes into being with breath,
Aditi, who embodies divinity,
who was born through living beings—
Entering the cave of the heart,
(one sees) her abiding there.
So, indeed, is that!”
“Whatever is down here, the same is over there;
and what is over there is replicated down here.
From death to death he goes, who sees
Here any kind of diversity.
With your mind alone you must understand it—
there is here no diversity at all!
From death to death he goes, who sees
here any kind of diversity.
A person the size of a thumb
resides within the body (Ātman);
The lord of what was and what will be—
From him he does not hide himself.
So, indeed, is that!
The person the size of a thumb
is like a fire free of smoke;
The lord of what was and what will be;
the same today and tomorrow.
So, indeed, is that!
As the rain that falls on rugged terrain,
runs hither and thither along the mountain slopes;
So a man who regards the laws as distinct,
runs hither and thither after those very laws.”
“…
Seated in the truth, seated in heaven;
Born from the water, born from cows,
Born from the truth, born from rocks;
The great truth!
The out-breath he conducts upward,
the in-breath he drives backward;
All the gods worship him,
the Dwarf seated in the middle.”
Atman, o inconsciente.
“When this embodied self dwelling in the body
comes unglued and is freed from the body—
what then is here left behind?
So, indeed, is that!
Not by the out-breath, not by the in-breath,
does any mortal live;
By another do people live, on which those two depend.
Come, I’ll tell you this secret and eternal
formulation of truth (Brahman);
And what happens to the self (Ātman), Gautama,
when it encounters death.”
“This person, creating every desire,
who lies awake within those who sleep;
That alone is the Pure! That is Brahman!
That alone is called the Immortal!
On it all the worlds rest;
beyond it no one can ever pass.
So, indeed, is that!
As the single fire, entering living beings,
adapts its appearance to match that of each;
So the single self within every being,
Adapts its appearance to match that of each;
yet remains quite distinct.”
“As the sun, the eye of the whole world,
is not stained by visual faults external to it;
So the single self within every being,
Is not stained by the suffering of the world,
Being quite distinct from it.
The one controller, the self within every being,
who makes manifold his single appearance;
The wise who perceive him as abiding within themselves,
they alone, not others, enjoy eternal happiness.”
“‘This is that’—so they think, although
the highest bliss can’t be described.
But how should I perceive it?
Does it shine?
Or does it radiate?
There the sun does not shine,
nor the moon and stars;
There lightning does not shine,
Of this common fire need we speak!
Him alone, as he shines, do all things reflect;
This whole world radiates with his light.
“Its roots above, its branches below,
this is the eternal banyan tree [Vata Vruksham].¹
That alone is the Bright! That is Brahman!
¹ Figueira-de-bengala. O paralelo da Yggdrasil.
(*) “This Pattachitra painting, meaning a painting done on a dried palm leaf called patta, depicts this eternal banyan tree as the largest of all, portraying its superiority and immortality. Around it, we can find animals, birds and other life forms flourishing in abundance while the waters flow in all their purity.” artisanscrest.in
(*) “A figueira-de-bengala (Ficus benghalensis) ou baniano é uma espécie de figueira endêmica do Bangladesh, Índia e Sri Lanka. Em sânscrito o seu nome é Vatavrkscha ou WataWrkscha. No português de Goa eram conhecidos como árvores da gralha (em concani: vôdd). A figueira-de-bengala produz raízes aéreas delgadas que crescem até atingir o solo, começando então a engrossar até formarem troncos indistinguíveis do tronco principal. Deste modo, podem crescer até ocuparem vários hectares.” pt.wikipedia.org
“O que acontece para a árvore, acontece também para o homem. Quanto mais deseja elevar-se para as alturas e para a luz, mais vigorosamente enterra suas raízes para baixo, para o horrendo e profundo: para o mal.”
Nietzsche
“The fear of it makes the fire burn;
The fear of it makes the sun shine;
The fear of it makes them run—
Indra and Wind,
And Death, the fifth.”
Quem é them? Todos os animais? Todos os homens isentos do imortal?
ENCORE
“Higher than the senses is the mind;
Higher than the mind is the essence;
Higher than the essence is the immense self;
Higher than the immense is the unmanifest.
Higher than the unmanifest is the person,
pervading all and without any marks.
…”
“When the five perceptions are stilled,
together with the mind,
And not even reason bestirs itself; [se agita]
They call it the highest state.
When senses are firmly reined in,
that is Yoga,so people think.
From distractions a man is then free,
for Yoga is the coming-into-being,
as well as the ceasing-to-be.”
Minha hipótese é a de que a verdade mais elevada foi vulgarizada como uma prática que não guarda a mínima relação com a original – a yoga deteriorada da contemporaneidade, das madames da alta sociedade. Mas “so people think” dá o que pensar! Os tolos pensam que yoga, o estado inabalável, é apenas o controle ascético dos 5 sentidos, uma etapa das mais baixas…
“One hundred and one, the veins of the heart.
One of them runs up to the crown of the head.”
“A person the size of a thumb in the body (Ātman),
always resides within the hearts of men;
One should draw him out of the body with determination,”
É isso que eu não consigo entender. Por que expulsar o daimon do coração? Este é seu lugar.
“Then, after Naciketas received this body of knowledge,
and the entire set of yogic rules taught by Death,
He attained Brahman; he became free from aging and death;
so will others who know this teaching about the self.”
Brhadāranyaka Upanisad II, 4, 5
“This Upanishadic passage consists of a dialogue between Yājñavalkya, who is the principal teacher in the Brhadāranyaka Upanisad, and his wife Maitreyī. Yājñavalkya ‘is about to depart this place’ and instructs Maitreyī on the nature of the eternal Ātman. The text given here is a translation of Patrick Olivelle from The Early Upanishads.”
“One holds a husband dear, you see, not out of love for the husband; rather, it is out of love for oneself (Ātman) that one holds a husband dear. One holds a wife dear not out of love for the wife; rather, it is out of love for oneself that one holds a wife dear. One holds children dear not out of love for the children; rather, it is out of love for oneself that one holds children dear. One holds wealth dear not out of love for wealth; rather, it is out of love for oneself that one holds wealth dear. One holds the priestly power dear not out of love for priestly power; rather, it is out of love for oneself that one holds the priestly power dear. One holds the royal power dear not out of love for the royal power; rather, it is out of love for oneself that one holds the royal power dear. One holds the worlds dear not out of love for the worlds; rather, it is out of love for oneself that one holds the worlds dear. One holds the gods dear not out of love for the gods; rather, it is out of love for oneself that one holds the gods dear. One holds beings dear not out of love for beings; rather, it is out of love for oneself that one holds beings dear. One holds the Whole dear not out of love for the Whole; rather, it is out of love for oneself that one holds the Whole dear.”
…so I say, after death there is no awareness.”
“By what means can one perceive him by means of whom one perceives this whole world? Look—by what means can one perceive the perceiver?”
Brhadāranyaka Upanisad III, 7
“This Upanisadic passage is a favorite of Rāmānuja. It once more introduces Uddālaka Gautama, now as challenger of Yājñavalkya who is the principal teacher in the Brhadāranyaka Upanisad as Uddālaka is in the Chāndogya.”
“The Unseen Seer; the Unheard Hearer; the Unthought Thinker; the Unknown Knower. There is no other Seer; there is no other Hearer; there is no other Thinker; there is no other Knower. This is thy Self, the immortal inner controller. Whatever is other than this is evil.—Then Uddālaka son of Aruna subsided.”
Brhadāranyaka Upanisad III, 8
“It culminates in the famous description of Brahman as ‘Not, Not’ (neti neti), perhaps the most succinct statement of the unqualified supreme as held by Śankara.”
Brhadāranyaka Upanisad IV, 2, 3, 4
“He said: This person in the right eye is called Indha (the kindler). He, who is Indha, is called Indra, cryptically as it were; for the gods may be said to love the cryptic and dislike the obvious.
Now this that has the form of a person in the left eye is his consort, Virāj(queen or majesty). The concert of these two is this space within the heart. Their food is this mass of blood within the heart. Their covering is this net-like thing within the heart. Their path, which is traversable, is this channel which goes upward from the heart.
He (the Self, union of Indha and Virāj) has these channels called Hitā, as fine as a hair split in 1000 parts.”
“Of this same person, the eastern vital powers are the eastern quarter, the southern vital powers are the southern quarter, the western vital powers are the western quarter, the northern vital powers are the northern quarter, the upward vital powers are the zenith, the downward vital powers are the nadir; all his vital powers are all the quarters.
This is the Self that is not, not.”
O resto é metafísica barata, estou decepcionado.
“Now as this dream-state is an approach to the other-world state, entering on this approach, he sees both the evils of this world’s state and the joys of the other world’s state. When this Spirit dreams, he takes material from this world with all its contents, and cutting it down himself, building it up himself, by his own radiance, by his own light, he dreams. Under these circumstances his own self serves as light to man (Spirit, purusa) here.”
“It is simply consciousness (samjñāna, which must mean or include the prāna and the several prāmas) that follows along with it”Depois de dizer que os sentidos desfalecem após a partida da alma individual do corpo e a Unificação, diz-se, imbecilmente, que apenas a consciência ou o vulgar sexto sentido é o que permanece como entidade autônoma!!! Do ponto de vista filosófico pouco se nos dá a reencarnação, no que não toca o fenômeno da reminiscência durante nossa consciência humana…
“So far one who is desirous. Now one who no longer desires. He who is desireless, who is without desire, who desires (only) the Self, who has attained his desires—from him the vital powers (of the body) do not mount upward; they are collected together right in him. Being just the Brahman, unto the Brahman he (the Soul) arrives.”
Ó, QUE GRANDE AMEAÇA! “Into blind darkness enter they who are devoted to not-coming-into-being (who believe in no rebirth); into what seems even greater darkness than that, those who take delight in coming-into-being (who crave rebirth, further existence).
Those worlds are called the demons’ worlds; they are enveloped in blind darkness. Ignorant, foolish folk enter into them after death”
“By the mind alone must it be understood, that there is nothing manifold in this world. Death after death attains he who thinks he sees manifoldness in this world.”
“it is the unborn, great, constant Self, free from impurity, higher than the ether.”
“it is the dyke that holds apart these worlds, lest they should crash together”
HIPOCRISIA MONÁSTICA: “Therefore those brāhmanas of old, learned and wise, desired no offspring, thinking: What shall we do with offspring, we who possess this Self, this (equivalent of the) Heavenly World (which is the traditional object of begetting sons)?—Abandoning both the desire for sons and the desire for possessions and the desire for heaven, they wandered forth a-begging. For the desire for sons is the same as the desire for possessions, and the desire for possessions is the same as the desire for heaven; for both are nothing but desires.”
“This is that great unborn Self, ageless, deathless, fearless, immortal—the Brahman. You have attained fearlessness, O Janaka!”
1.2 RECOLLECTION
“No Revelation is enough, and all Revelation is too plentiful. Every tradition that bases itself on revealed truth makes its selection, and in the end it is often no more than a few handfuls of assertions that finally constitute the scriptural foundation of a faith. At the same time, however great be the guidance of scripture in matters of high truth and ultimate destiny, it frequently is insufficient to guide the conduct of the believer”
“Islam has formed a large collection of hadīth, traditions concerning Muhammad’s reactions and responses to problems and questions that were not completely provided for by the Qur’ān. Likewise Indian religion has added to the monument of śruti the hostel of smrti.”
“We have seen that Revelation, which is beginningless and authorless, came to the vision of the seers at the dawn of creation. The seers thereupon started an uninterrupted transmission to a series of pupils that stretches until today. At the same time these seers conducted themselves in certain ways: in the first place their conduct was in accordance with the dictates of the Vedas, but they observed also customs and practices not explicitly mentioned in the Vedas. Such behavior they also transmitted to their pupils and it is such behavior, not explicitly Vedic but inferable from the Vedas, which is deemed smrti”
“for instance the smrti of Manu—here the word practically approaches the notion of a book of law. The usage was extended to any work that dealt with the dharma, and indeed hardly any work from early Sanskrit literature does not qualify as such.” “the smrtis of Manu and Yājñavalkya are authoritative, but the smrti of the Buddha, for instance, is not.”
“While Vedānta accepts as a matter of course the authority of a number of smrtis, it gives first place to one text, the Bhagavadgītā, thus bowing to the popularity the text had acquired.”
“The Gītā is in many respects very dissimilar to the Upanisads. There is first the fact that it forms part of the huge epic of the Mahābhārata, which gives it a very different tone.”
“Although there are some discontinuities in it, it presents itself as, and largely is, a continuous discourse which is more extensive than any such in the Upanisads.”
“The Gītā is a dialogue. It is a dialogue, formally, between the warrior Arjuna who, when finally faced with a family war in which he finds close relatives, friends, and gurus drawn up against him and his party, has second thoughts and refuses to engage in the battle. But beyond that it is a dialogue, sometimes approaching a debate, between diverging attitudes concerning and methods toward the attainment of release (moksa). § Transmigration, still muted in the Upanisads, is now completely axiomatic.”
“The Gītā can be placed roughly about the beginning of the Christian era, within a margin of two centuries, and the authors must have seen the appeal of the soteriologies both of the ‘heterodox’ traditions of Buddhism and Jainism and of the more ‘orthodox’ ones of Sākhya and Yoga.”
“This ethics of duty has been transcended by a different, seemingly incompatible ethics of release, which demands that man quit acting at all and rise ‘beyond the good and evil’ of being of this world.”
“Formally, Arjuna’s dilemma is to choose between conflicting dharmas: as a warrior his dharma is to fight a just war; as a man of honor, facing on the battlefield his kinsmen and betters, this war, however just, is unjust and against dharma since it attacks the family, the basic unit of dharma ethics”
“While apparently forbearing to judge between the Way of the Task (karma-yoga) and the Way of the Insight (jñāna-yoga), Krsna’s emphasis is very strongly on the Task, and he offers the solution that the Task, if accomplished without attachment to its reward, leads equally to an escape from bondage as does the Way of the Insight, which harbors its own hypocrisies.”
O LADO VONTADE DE POTÊNCIA DA SABEDORIA HINDU: “There is the strand that holds the world so lightly that it can conceive of release only as the utter negation of it, and the only way to be pursued is that which leads to the liberating insight into the absolute otherness of the Brahman; this is exemplified by Śamkara. There remains the strand that dharma must not be ignored, that the world must be kept together, and if indeed the insight in Brahman’s nature is necessary, this nature cannot be absolutely other than this world. There must be a continuity between this and that as there must be between living in this world and fulfilling one’s task, and the insight that liberates from bondage; this is exemplified by Bhāskara. And finally there is the strand which holds that the very purpose of Vedānta is to explicate and glorify God and that both task and insight come together and are sublimated in devotion; this is exemplified by Rāmānuja.
It may well be this universalism of the Gītā which gave rise to its popularity, which in turn demanded that Vedānta, whose intentions became more and more universal, deal with it. It is in no way a systematic treatise, although it has a greater inner cohesion than the Upanisads.”
THE BHAGAVADGĪTĀ
“My limbs collapse, my mouth dries up, there is trembling in my body and my hair stands on end;
The bow Gandiva slips from my hand and my skin also is burning;
I am not able to stand still, my mind is whirling.
And I see evil portents, O Krsna, and I foresee no good in slaying my own kinsmen in the fight.
I do not desire victory, O Krsna, nor kingdom, nor pleasure. Of what use is kingdom to us, O Krsna, of what use pleasure or life?
Those for whose sake we desire kingdom, pleasures and happiness, they are arrayed here in battle, having renounced their lives and riches. Teachers, fathers, sons, and also grandfathers; uncles, fathers-in-law, grandsons, brothers-in-law and other kinsmen;
These I do not wish to kill, though they kill me, O Krsna”
“In the ruin of a family, its immemorial laws perish; and when the laws perish, the whole family is overcome by lawlessness.”
“…and mixture of the caste arises.”
“their ancestors fall, deprived of their offerings of rice and water.”
“Thou grievest for those thou shouldst not grieve for, and yet thou speakest words that sound like wisdom. Wise men do not mourn for the dead or for the living.
Never was there a time when I did not exist, nor thou, nor these rulers of men; nor will there ever be a time hereafter when we shall all cease to be.”
“The sage is not bewildered by this.
Contacts with the objects of the senses, O Arjuna, give rise to cold and heat, pleasure and pain. They come and go, they are impermanent; endure them, O Arjuna.”
“Of non-being there is no coming to be; of being there is no ceasing to be.”
“Therefore fight, O Arjuna!
He who thinks that this soul is a slayer, and he who thinks that this soul is slain; both of them are ignorant. This soul neither slays nor is slain.”
“Just as a man casts off worn-out clothes and takes on others that are new, so the embodied soul casts off worn-out bodies and takes on others that are new.”
“As much use as there is for a pond when there is everywhere a flood, so much is there in all the Vedas for a brahmin who understands.
In action only hast thou a right and never in its fruits. Let not thy motive be the fruits of action; nor let thy attachment be to inaction.”
“remaining even-minded in success and failure; for serenity of mind is called yoga.
Mere action is far inferior to the discipline of intelligence, O Arjuna. Seek refuge in intelligence; pitiful are those whose motive is the fruit of action.”
“…for yoga is skill in action.”
“When thy intelligence shall cross the tangle of delusion, then thou shalt become indifferent to what shall be heard and to what has been heard in the Veda.
When thy intelligence, which is now perplexed by the Vedic texts, shall stand immovable and be fixed in concentration, then shalt thou attain yoga.”
PROTOPRAXIS: “In this world, O Arjuna, a twofold path has been taught before by Me; the path of knowledge (jñāna-yoga) for men of discrimination (sāmkhyas) and the path of works (karma-yoga) for men of action (yogins).”
“Everyone is made to act helplessly by the gunas born of prakrti.
He who controls his organs of action, but dwells in his mind on the objects of the senses; that man is deluded and is called a hypocrite.
But he who controls the senses by the mind, O Arjuna, and, without attachment, engages the organs of action in karma-yoga, he excels.”
“Perform thy allotted work, for action is superior to inaction; even the maintenance of thy body cannot be accomplished without action.
This world is in bondage to karma, unless karma is performed for the sake of sacrifice. [sentença mais incompreensível]”
“There is nothing in the three worlds, O Arjuna, to be done by Me, nor anything unobtained that needs to be obtained; yet I continue in action.
For if I, unwearied, were not always in action, O Arjuna, men everywhere would follow my example.
If I did not perform action, these worlds would be destroyed, and I should be the author of confusion and would destroy these people.
As the ignorant act with attachment to their work, O Arjuna, so the wise man should act but without attachment, desiring to maintain the order of the world.”
“But he who is deluded by egoism thinks, ‘I am the doer.’”
“the gunas … act upon the gunas”
“Surrendering all actions to Me, with thy consciousness fixed on the supreme Self, being free from desire and selfishness, fight freed from thy sorrow.”
“As fire is covered by smoke, as a mirror by dust, and as an embryo is enveloped by the womb, so this knowledge is covered by that passion (wrath).”
“Although unborn, although My self is imperishable, although I am Lord of all beings, yet establishing Myself in My own material nature, I come into being by My own mysterious power (māyā).”
“What is action? What is inaction? About this even the wise are confused. Therefore I will declare to thee what action is, knowing which thou shalt be freed from evil.
One must understand the nature of action, and one must understand the nature of wrong action, and one must understand the nature of inaction: hard to understand is the way of action.
He who sees inaction in action and action in inaction, he is wise among men; he does all actions harmoniously.”
“Having abandoned attachment to the fruits of action, always content and independent, he does nothing even though he is engaged in action.”
“…performing action with the body alone, he commits no sin.”
“He who is content with what comes by chance, who has passed beyond the pairs of opposites, who is free from jealousy and is indifferent to success and failure, even when he is acting he is not bound.”
“The action of a man … who performs action as a sacrifice, is completely dissolved.”
“As the fire which is kindled makes its fuel into ashes, O Arjuna, so the fire of knowledge makes all actions into ashes.
There is no purifier in this world equal to wisdom. He who is perfected in yoga finds it in the self in the course of time.”
“But the ignorant man who is without faith and of a doubting nature perishes. For the doubting self, there is not this world, nor the next, nor happiness.
Actions do not bind him who has renounced actions in yoga, who has cast away doubt by knowledge, who possesses himself, O Arjuna.”
“Renunciation of works and the unselfish performance of works (karma-yoga) both lead to the highest happiness. But of these two the unselfish performance of works is better than the renunciation of works.” Surpreendente do ponto de vista védico.
“He who neither hates nor desires should be known as the eternal renouncer; free from the pairs of opposites, O Arjuna, he is easily released from bondage.
Children, not the wise, speak of renunciation and yoga as separate; for he who is well established in one obtains the fruit of both.”
“Renunciation, O Arjuna, is difficult to attain without yoga. The sage who is disciplined in yoga soon goes to Brahman.”
“Sages look equally on a brahmin endowed with knowledge and breeding, or on a cow, an elephant, and even a dog and an outcaste.”
“One should not rejoice when obtaining the pleasant, nor be agitated when obtaining the unpleasant. Unbewildered, with firm intelligence, the knower of Brahman is established in Brahman.”
“The enjoyments which are born of contacts with objects are only sources of sorrow. These have a beginning and end, O Arjuna; the wise man does not rejoice in them.”
“Among thousands of men perchance one strives for perfection, and of those who strive and are successful, perhaps one knows Me in essence.
This is My divided 8-fold nature: earth, water, fire, wind, ether, mind, intellect and self-consciousness.”
“Learn that all beings arise from this higher and lower nature of Mine. I am the origin of the whole world and also its dissolution.”
“The foolish think of Me, the unmanifest, as having only come into manifestation; not knowing My higher nature which is immutable and supreme.”
“My Self, which is the source of beings, sustains all beings but does not rest in them.”
“And these actions do not bind Me, O Arjuna; I am seated as one who is indifferent, unattached to these actions.”
“The worshipers of the gods go to the gods; the worshipers of the ancestors go to the ancestors; sacrificers of the spirits go to the spirits; and those who sacrifice to Me come to Me.”
“I am equal to all beings, there is none hateful nor dear to Me. But those who worship Me with devotion, they are in Me and I am in them.
Even if a man of very evil conduct worships Me with undivided devotion, he too must be considered righteous, for he has resolved rightly.”
“If Thou thinkest that it can be seen by me, O Lord, then reveal Thy immortal Self to me, O Lord of Yoga! [Arjuna]
The Blessed Lord said:
Behold, O Arjuna, My forms, by hundreds and by thousands, manifold and divine, of various colors and shapes.
Behold the Ādityas, the Vasus, the Rudras, the two Aśvins, and also the Maruts. Behold, O Arjuna, many marvels not seen before.
…
But thou canst not see Me with thine own eye. I give thee a divine eye. Behold My divine yoga.”
“Of many mouths and eyes, of many marvelous visions, of many divine ornaments, of many uplifted weapons; Wearing divine garlands and garments with divine perfumes and ointments, full of all wonders, radiant, infinite, His face is turned everywhere.” Nada plasticamente aprazível pode derivar dessa descrição adescritiva.
“I see all the gods in Thy body, O God, and also the various kinds of beings: Brahmā, the Lord, seated on the lotus seat, and all the sages and divine serpents.”
“The Rudras, the Ādityas, the Vasus, the Sādhyas, the Viśvedevas, the two Aśvins, the Maruts and the Ushmapās, and the hosts of Gandharvas,
Yakshas, Ashuras, and perfected ones all gaze at Thee in amazement.”
“my inmost self is shaken and I find no strength or peace, O Vishnu!” O banquete canibal de Meruem.
“Some are seen with pulverized heads, stuck between Thy teeth. As the many water currents of rivers race headlong to the ocean, so these heroes of the world of men enter into Thy flaming mouths. As moths swiftly enter a blazing fire and perish there, so these creatures swiftly enter Thy mouths and perish.”
“I wish to know Thee, the primal one; for I do not understand Thy ways.” Já não viste o bastante, mortal?
“Time am I, the world destroyer, matured, come forth to subdue the worlds here. Even without thee, all the warriors arrayed in the opposing
armies shall cease to be.”
“Conquering thy enemies, enjoy a prosperous kingdom. By Me they have already been slain. Be thou the mere instrument, O Arjuna.”
“Be not distressed, fight! Thou shalt conquer thy enemies in battle.” Heitor já havia sido destruído pelo decreto olímpico, mas isso não significa que Aquiles tivesse o direito de pular fora de seu dever instrumental.
“It is right, O Krshnha, [a transliteração desse nome sem os acentos nas consoantes é complicada] that the world rejoices and is pleased by Thy fame. Ogres flee in terror in all directions, and all the hosts of perfected ones bow down before Thee.”
“O Great One, who art greater than Brahmā, the primal creator?” “Thou art being and non-being, and that which is beyond both.” Leu, Sartre?
“And whatever disrespect I showed Thee for the sake of jesting, whether at play, on the bed, seated or at meals, whether alone or in the company of others, O sinless one, I pray forgiveness from Thee, the boundless one.”
“Having seen what was never seen before, I am glad, but my mind is distraught with fear. Show me, O Lord, that other form of Thine; O Lord of gods, be gracious, O refuge of the world.
I wish to see Thee as before with Thy crown, mace and disk in hand. Be that four-armed form, O thousand-armed one of universal form!”
“Not by the Vedas, by sacrifices or study, not by gifts, nor ritual, nor severe austerities can I, in such a form, be seen in the world of men by any other but thee, O Arjuna.” O google se tornou o deus dos deuses.
“The Great One, having become again the gracious form, comforted him in his fear. (…) Even the gods are constantly desiring the sight of this form.”
“He who does My work, who regards Me as his goal, who is devoted to Me, who is free from attachment and is free from enmity to all beings, he comes to Me, O Arjuna. (XI, complete)”
MAS TODAS AS ESTRADAS SÃO POSSÍVEIS: “Those who, fixing their mind on Me, worship Me with complete discipline and with supreme faith, them I consider to be the most learned in yoga.”
But those who worship the Imperishable, the Undefinable, the Unmanifested, the Omnipresent, the Unthinkable, the Immovable, the Unchanging, the Constant,
And have restrained all their senses, and are equal-minded and rejoice in the welfare of all beings—they also obtain Me.
The difficulty of those whose minds are fixed on the Unmanifested is much greater; the goal of the Unmanifested is hard for the embodied to attain.” Mas Arjuna é um guerreiro, que só acredita vendo.
“This body, O Arjuna, is called the field, and he who knows this is called the knower of the field by those who know him.”
“Hear from Me briefly what the field is, what its nature is, what its modifications are, whence it comes, who he (the knower of the field) is and what his powers are.
This has been sung by the seers in many ways; in various hymns distinctly and also in the well-reasoned and definite words of the aphorisms about Brahman.
The gross elements, the I-sense, the intellect and also the unmanifested, the ten senses and one (the mind) and the five objects of the senses;
Desire, hatred, pleasure, pain, the organism, intelligence and firmness; this, briefly described, is the field together with its modifications. (XIII, 1–6)”
“It is the beginningless supreme Brahman who is called neither being nor non-being.”
“Appearing to have the qualities of all the senses, and yet free from all the senses; unattached and yet supporting all;”
“Know that both prakrhti and purusha are beginningless; and know also that modifications and the gunhas are born of prakrhti.
Prakrhti is said to be the cause of the generation of causes and agents, and purusha is said to be the cause of the experience of pleasure and pain.
The purusha abiding in prakrhti experiences the gunhas born of prakrhti.”
“He who knows the purusha and prakrhti together with its gunhas, though in whatever state he may exist, he is not born again.” Entregou-se ao anel. Aqui eu defendo a equivalência da doutrina do eterno retorno da filosofia ocidental e o bramanismo revelado. A vontade de existir perpetuamente é a vontade de que tudo seja, e a aceitação da finitude do tempo individual, portanto não há contradição, sequer lógica. Esse é o non plus ultra do conhecimento ativo e ético. Aquele que atingiu esse estágio, esse Platão, esse platô, não necessita mais se apoiar na metempsicose. Tornou-se consciente da metempsicose, o “intuito original”, por assim dizer. Tudo lhe é indiferente agora.
intermezzo
Eu não esperava menos, é lógico. Que eu fosse o primeiro a ligar os pontos seria muito pretensioso, antinatural! Rapidamente googlando achei alguém que já atingiu a mesma conclusão: “This theory is finally compared with the Western idealist and realist conceptions of consciousness, intentionality and subject-object duality. The nondualism of the Indian systems, is argued, represents a possible resolution of the ontological and epistemological problems of Western philosophy.”Final da sinopse de artigo de Michele Cossellu. (academia.edu)
fim do intermezzo
“He who sees the supreme Lord abiding equally in all beings, not perishing when they perish, he truly sees. (XIII, 19–27)”
“Since I transcend the perishable and am higher even than the imperishable, I am renowned in the world and in the Vedas as the highest
Spirit.”
“Thus the most secret doctrine has been spoken by Me, O sinless one. … (XV, 16–20)”
“Better is one’s own dharma, though imperfect, than the dharma of another, well performed.” “One should not abandon his natural-born action, O Arjuna, even if it be faulty, for all undertakings are clouded with faults as fire by smoke.”Torna-te aquilo que tu és, conhecendo-te no processo. Fusão de extremos.
“If, centered in egotism, thou thinkest <I will not fight>, vain is this thy resolution; prakrhti will compel thee.” Eu não serei é impossível.
“The Lord abides in the hearts of all beings, O Arjuna, causing all beings to revolve by His power as if they were mounted on a machine.”
“Thus the wisdom, more secret than all secrets, has been declared to thee by Me. Having considered it fully, do as thou choosest. (XVIII, 45–63)”
Um papo um tanto exaustivo antes de uma grande batalha, no entanto! Ainda bem que não passa de alegoria sobre saber viver e saber morrer!
1.3 SYSTEM
“In brahministic usage, the word sūtra has a rather different meaning than it acquired among the Buddhists. With the latter it became a general word for a doctrinaire disquisition, sometimes of considerable length, in which a body of doctrine was explicated in full detail. But in its orthodox use the word denotes something quite sui generis. It means primarily ‘thread’—the word is distantly related to our verb to sew. A thread, however, only has a provisional existence of its own; its purpose is to be sewn or woven into a cloth. It is this clothout-of-threads that covers the System.”
“Exposition is already saying too much; indication would be closer. Parsimony of statement is pushed to the extreme; a common witticism has it that an author of sūtras takes greater delight in the saving of a vowel than in the birth of a son.”
“Originally, it proceeded without the aid of books; education declined their use. When, later, Śankara looks for an illustration of the relation between the semi-real world and the supreme, he quotes the relation between the written word and the spoken word. The written book is but a crutch for the scholar, a sign of defective learning or failing memory: there need be no intermediary for the learned man between the possession of erudition and the vocal expression of it. Knowledge is verbal, not typographical, and the teacher makes certain that the pupil is word-perfect.”
“The Upanisads are but the second part of the Veda, the crowning part no doubt, but essentially sequential. Vedānta is therefore also known as the uttaramīmāmsā, the ‘Second Enquiry’, presupposing a First Enquiry into the First Part of the Veda.”
“In the Brahmasūtras the Chāndogya Upanisad holds the central place, followed by the Brhadāranyaka Upanisad and the Taittirīya Upanisad.” “The next stratum is that of the early metrical Upanisads of which the most important ones are the Katha and Śvetāśvatara”
“The [following] text is divided into 4 lessons, each with 4 quarters. Each quarter is subdivided into a number of topic sections, which may cover a group of sūtras, but also a single one.”
“TOPIC: I (1). Brahman is the object of the study of Vedānta.”
“III (11–12). The two beings of Ka. Up. 1. 3. 1 are Brahman and the individual soul.”
“VIII (24–25). The Thumb-sized Person of Ka. Up. 2. 4. 12 is not the individual soul but Brahman itself.”
“I (1–2). Sāmkhya may not quote smti against Vedānta.
II (3). Neither may Yoga quote its smti against Vedānta.”
“V (13). It is not true that this makes Brahman subject to experience and thus to karman.”
“XI (32–33). Brahman has no motivation in creating the world.
XII (34–36). As Brahman creates with a view to the souls’ karman it cannot be imputed with partiality and cruelty.”
“2. 2. 1–45
I (1–10). Arguments against the Sāmkhyans.
II (11–17). Arguments against the Vaiśe
ikas.
III (18–27). Arguments against the Buddhist Realists.
IV (28–32). Arguments against the Buddhist Idealists.
V (33–36). Arguments against the Jainas.
VI (37–41). Arguments against theists maintaining that God is only the efficient cause.
VII (42–45). Arguments against the Pāñcarātra.
“IV–VI (8; 9–12; 13). Breath is derived from Brahman; it is different from wind and the faculties, and it is atomic.”
“On the whole it is assumed that when Śamkara and Bhāskara agree on a topic, that view is traditionally held. If Bhāskara and Rāmānuja agree, and if Śamkara’s difference is prompted by his particular division of reality, the former view is probably more original. But this list of topics does not aim at more than to give the reader at least some table of contents of the Brahmasūtras.”
PART II.
PHILOSOPHICAL AND CULTURAL BACKGROUND
2.1 (chapter 4). EARLY HISTORY AND CULTURAL VALUES OF VEDANTA
“In philosophy as well as religion we find a guruparamparā, a succession of gurus: the sūtra is the guru of the commentary. The guru is not merely a predecessor in the same field whose views might become antiquated and open to revision; he is an ancestor, worthy of a veneration inspired by faith. If he had not occurred, the discipline would not have existed at all, or the line of transmission would have been interrupted and the lineage of learning expired.”
“It is also clear that the meaning of the word ‘Vedānta’ cannot have the same precision in the history of Indian philosophy as such names as ‘Mīmāmsā’ and ‘Logic’. It is a name like ‘Buddhism’, which combines under one general concern and faith a variety of philosophies. The common ground that we are trying to discover is likely to be a similar one of faith and concern.
Whatever else the Mahābhārata and the Purānas were intended to do, what they did was notice the variety of beliefs and cults of popular culture and eventually to organize them in the catholic totality which we usually call Hinduism. This word is hard to define. Hinduism is not a church, nor a theology, nor entirely an agglomeration of popular lore and mores, but something in between. It has two foci, social behavior and the worship of Gods. It is Brahministic insofar as brahmins have come to be regarded as the guides to this social conduct and as the priests of this worship.”
“In a civilization where North and South were separated by a language barrier, Sanskrit served as the bridge. In a land where the loyalties were on a less than subcontinental scale and limited by region, language, and village dialect, Sanskrit permitted the part to participate in a thus grown whole. Among a people differentiated into a large number of castes, the brahmin belonged to the only universal class, and the prime instrument of this class in maintaining its universality and that of its culture was Sanskrit.”
“The local god was no other than Visnu, the Visnu grew thereby; and Visnu was no other than the local god, whose respectability was now assured.”
“It was in Southern India where this consciously Brahminic culture, interacting with Hindu culture and powerful enough to counteract heterodoxy, had its broadest base. And it was from there that all the major philosophies of Vedānta were to come forth.”
2.2 COMMON PHILOSOPHICAL PROBLEMS
(…)
2.3 CRITICISMS OF RIVAL SYSTEMS
“The first system following the Sutras which Samkara attacks is the Samkhya. This is one of the oldest and most important systems of Indian thought. According to tradition it was formulated by one Kapila in the seventh century B.C.E.” “Its description of evolution is generally accepted by (i.e., is incorporated into) Vedanta, but not its metaphysical basis or its spiritual interpretation.”
“The Vedanta argument against the Samkhya is essentially a ‘theistic’ criticism of a naturalistic world view. Although, as we will see later, Samkara rejects the ultimacy of any theistic position, he is appealing to such a position in his critique of the Samkhya.”
“Such people might therefore think that those systems with their abstruse arguments were propounded by omniscient sages, and might on that account have faith in them. For this reason we must endeavor to demonstrate their intrinsic worthlessness….”
Geralmente proposições bem ingênuas, protofilosóficas…
“The next system which the Sutras and Sakara criticize is the Vaisesika. The main text of this school is the Vaisesika Sutra which was compiled in the first century C.E. and is ascribed to one Kanada. The Vaisesika is a realistic and pluralistic system of cosmology and physics. It emphasizes an ‘atomic’ theory of matter and a classification of all objects in the universe into six categories (padarthas).”
“In its account of the creation of the world the Vaisesika maintains that the primal atoms combine first in dyads and then in molecules; the creative act (which follows regularly upon the state of universal destruction, pralaya) always has reference to the totality of merit and demerit (adrsta, the ‘unseen’ principle) acquired by individual souls in previous lives.”
“Following his criticisms of the Samkhya and the Vaisesika, Samkara attacks the ‘non-orthodox’ tradition of Buddhism—and here one is confronted with several special problems. Adhering apparently to traditional Hindu classifications, Samkara divides Buddhism into three types: the ‘realists’ (sarvastitvavadins), the ‘idealists’ (vijñanavadins), and the ‘nihilists’ (sunyavadins); and he treats these Buddhist schools with a notable lack of sympathetic insight into their spiritual dimensions. Now few, if any, Buddhist scholars would classify the entire Buddhist tradition on its philosophical side, from Buddha through the rise and development of the Theravada and Mahayana schools, in this simple threefold manner, and many would take great exception to the characterization of sunyavada, the ‘theory of the void’ associated primarily with the Madhyamika school of Nagarjuna, as mere ‘nihilism’.
The problem of understanding the Vedantic treatment of Buddhism is further compounded by the fact that Samkara himself was called a crypto-Buddhist by other Vedantins (viz., Bhaskara), who meant by this that much of Samkara’s metaphysics, especially his analysis of the world as maya, was taken from Buddhist sources. In any event a close relationship between the Mahayana schools and Vedanta did exist with the latter borrowing some of the dialectical techniques, if not the specific doctrines, of the former.”
“Moreover, Buddha by propounding the three mutually contradictory systems, teaching respectively the reality of the external world, the reality of ideas only, and general nothingness, has himself made it clear either that he was a man given to make incoherent assertions, or else that hatred of all beings induced him to propound absurd doctrines by accepting which they would become thoroughly confused.”
“Following his sharp criticism of Buddhism Samkara turns his attention to the philosophical-religious tradition of Jainism. Jainism has a long history in India. It maintains that its basic teachings are eternal, however, and that they are revealed in various periods of the world’s evolution—with Mahavira, a contemporary of Buddha, being regarded as the last prophet (tirthankara) to espouse the creed.
The word ‘Jainism’ comes from jina or ‘conqueror’—one who achieves enlightenment through the conquest of everything within oneself that stands in the way of it. On its religious side Jainism lays great stress on the doctrine of ahimsa or ‘non-injury’ to any living creature. Being essentially a-theistic Jainism emphasizes that perfection is obtained only through self-effort: to be a jina is entirely up to oneself. At one time Jainism was immensely influential, being a strong competitor of Buddhism in many parts of India. Today there are only approximately a million and a half Jainas in India.”
“According to the Jainas, all affirmations or negations about something are true only within certain restricted frameworks: nothing can be affirmed with absolute certainty. Every object of experience appears to us with various qualities (those that it possesses and those that it lacks—e.g., a rose may be said to be red, not-blue, not-yellow, etc.) and in various relations to other objects and can be grasped, apprehended, or understood by us only from a certain number of ‘standpoints’ or nayas.”
“This leads the Jainas to formulate a kind of perspectival epistemology and a relativistic ordering of judgments. Since various, and from different standpoints contradictory, characteristics may be assigned to an object, any judgment about an object may be true in one sense or from one standpoint and false in another sense” Também chamados gimnosofistas.
“The Sutras and Samkara now turn to those theories which affirm that God is only the operative or efficient cause of the world and not the material cause as well—with special mention of the Nyaya system.”
“But as with Jainism, the most important contributions of the Nyaya to Indian philosophy are not metaphysical or theological, rather they are epistemological and logical. The Nyaya system articulated the various means of knowledge (the pramanas) which, although some times added to, are accepted by the other orthodox systems; it codified a model of ‘inference’ and set forth criteria for testing the validity of a rational argument. This model of correct reasoning was accepted, with minor qualifications, by all Vedantic schools.”
“The last system which the Brahmasutras and Samkara take up for criticism is not so much a philosophical system (a darsana) in the Indian sense of the term as it is a popular religious movement which is supported by a ‘cosmology’. Samkara refers to it as ‘the doctrine of the Bhagavatas’.
The Bhagavata movement was a religious cult which developed during the late Vedic period and was non-Brahmanic, and possibly non-aryan, in origin. It worshipped a transcendent deity, Vasudeva, and believed that salvation could be obtained through fervent devotion (bhakti) to Him.”
“On its theological side the so-called Bhagavatas incorporated the ancient philosophy known as the Pañcaratra (whose origin is obscure), which had worked out an elaborate theory of the levels (vyuhas) of the divine nature. These are identified with Vasudeva and members of his family and also with some of the categories of the Samkhya system.”
PART III.
SOURCES OF ADVAITA VEDANTA
3.1 (chapter 7). GAUDAPADA
“The dates of Gaudapada’s life are not known and the question has even been raised as to whether such a person lived at all. But if tradition is correct in maintaining that he was literally Samkara’s paramaguru then he must have lived no earlier than the seventh century.”
“The main doctrine that Gaudapada puts forth is called ajativada—the theory of no-origination. According to ajativada the entire world of duality is merely an appearance: nothing ever really comes into being, for nothing other than Brahman really exists—the whole world is an illusion like a dream. At times Gaudapada blurs the distinction between waking and dream consciousness, a distinction which Samkara later insists upon, and suggests that the whole of our waking experience is exactly the same as an illusory and insubstantial dream.”
“II, 11. (Objector’s question). If in both states the objects are unreal, who is it that perceives these objects? Who is it that imagines them?
II, 12. The self-luminous Self (Atman) imagines Itself through Itself by the power of its own illusion. It is itself the cognizer of objects.”
“II, 32. There is no dissolution and no creation, no one in bondage and no one who is striving for or who is desirous of liberation, and there is no one who is liberated. This is the absolute truth.”
“III, 48. No individual is born, for there is nothing to cause (its birth). This (Brahman) is that highest truth—where nothing is born.”
3.2 SAMKARA
(…)
3.3 SURESVARA
“This dispute about the locus of ignorance is central to the doctrinal divisions between the two main sub-schools of Advaita—the Bhamati (represented by thinkers such as Vacaspati Misra, Amalananda, etc.) and the Vivarana (represented by thinkers such as Padmapada, Sarvajñatman, Prakasatman, etc.).”
3.4 MANDANA MISRA
(…)
3.5 PADMAPADA
(…)
3.6 VACASPATI MISRA
(…)
3.7 SARVAJÑATMAN
(…)
3.8 VIMUKTATMAN
(…)
3.9 VIDYARANYA
(…)
3.10 MADHUSUDANA SARASVATI
(…)
3.11 SRIHARSA
(…)
3.12 SADAMAMDA
(…)
3.13 DHARMARAJA
(…)
3.14 APPAYA DIKSITA
(…)
4. SUMMARY
“The world is a manifestation of Isvara; it is brought forth and it is reabsorbed in recurring cycles. The world is without an absolute beginning in time.”
“Isvara does not give rise to the world from any motive or purpose. Creation is lila, play or sport. It is a spontaneous release of energy for its own sake”
“From the standpoint of Reality, though, there is no creation and there is no creator god. The effect is really only an apparent manifestation of the cause (vivarta); in reality, there is only Brahman.”
“The supreme value towards which all human effort should finally be directed is moksa—release from samsara, from the cycle of ceaseless birth and death and rebirth. On its positive side moksa means perfect insight and self-determination.”
“Moksa is not something that is attained, rather it is an already existing state of one’s being that needs to be realized as such.”
21: sobre as mulheres insinuantes, em vestes tropicais para climas frios. Dormir nu, ao sereno: tem-se de estar serenado.
22: “Quando a mulher possui virtudes masculinas, não há quem resista a ela; quando não possui virtudes masculinas, é ela que não resiste.”
23-4: os intrigantes 4 casos de consciência. Sobre o apartamento e a misantropia. Como somos sui generis.
29: da feiúra de Sócrates
36: “monótono-teísmo”
39: “Temo que jamais nos livraremos de Deus, porquanto acreditamos ainda na gramática…”
41-2: espécie de resumo da ópera (cronologia das obras de N.). Meio-dia.
45: o problema do aniquilamento
46: nas entrelinhas: o que é perfeito quer…
50: o problema do “homem mais forte do mundo” que morreu centenário, agora entendido sob o prisma nutricional correto: ele recomendava que se comessem vegetais para se viver longamente; porém ele comia vegetais unicamente porque seu metabolismo era mais lento. Suicídio intelectual em nossa época: dieta pobre em proteínas. Ver citação abaixo.
58: “somos um pedaço de destino.”
60: o “animal louro”
61: “Como o Novo Testamento é pobre ao lado do Manu, como cheira mal!”
66: sempre o bordão “A Alemanha, a Alemanha acima de tudo.”; o problema dos jovens filósofos beberrões. Strauss entre eles.
71: a importância da digestão dos pensamentos (sozinho e em grupo)
76: muitas escritoras que utilizavam pseudônimos masculinos
81: músculos e música
84: a astúcia como artifício do fraco; a diferença entre o psicólogo e o político.
93: receita de Júlio César para o corpo: “grandes caminhadas, estilo de vida o mais simples possível, permanência ininterrupta ao ar livre [contradiz o preceito nietzschiano das ‘grandes galerias ao abrigo do sol e da chuva’], fadigas contínuas.”
94: quando o “ideal” é o real
95: as farinhas do mesmo saco sacristão
97: saber morrer
99: crítica a suas minguadas resenhas em jornais
103: incompreensível fé na Mãe-Rússia!
109: “Dostoievski, o único psicólogo, diga-se de passagem, de quem aprendi alguma coisa.”
117: palestra “no antiquário” (complemento a Ecce Homo): Salústio, Horácio, Fontenelle, Tucídides.
118: de como o “ser grego” está absolutamente fora da meta (impossível ser clássico na modernidade…). Romanos: os perfeitos intermediários entre as duas culturas. Extrema dualidade em relação a Platão.
O livro das frases mais célebres.
“O que não me faz morrer me torna mais forte.”
“Sem música a vida seria um erro”
“com a dialética, a plebe chega ao alto”
“Um sábio de nossos [e fala de um tempo que hoje soa ainda clássico, pasmacento] dias, com seu consumo de força nervosa, se fosse submetido ao regime de Cornaro, arruinaria sua saúde completamente.” Diria que até os genuínos Cornaros morrem cedo na era do fast food.
“Toda educação superior não pertence senão às exceções: é preciso ser privilegiado para ter direito a um privilégio tão superior. Todas as coisas grandes e belas não podem jamais ser um bem comum: pulchrum est paucorum hominum (o belo é de poucos homens). O que é que ocasiona o rebaixamento da cultura alemã? O fato da ‘educação superior’ não ser mais um privilégio—o democratismo da ‘cultura’ tornada obrigatória, comum.”
“Que não se cometa a infantilidade de me objetar Rafael ou qualquer cristão homeopático do século XIX. Rafael dizia sim, Rafael criava a afirmação, logo Rafael não era um cristão…”
“Não temos em mãos um meio que possa nos impedir de nascer: mas podemos reparar essa falta—pois às vezes é uma falta. O fato de suprimir-se é o mais estimável de todos os atos: quase dá direito a viver…”
“Meu conceito de gênio (…) histórica e fisiologicamente, sua condição primeira é sempre a longa espera de sua vinda, uma preparação, um arqueamento sobre si mesmo—isto é, que durante muito tempo não se tenha produzido nenhuma explosão. Quando a tensão na massa se tornou muito grande, a mais fortuita irritação basta para recorrer no mundo ao ‘gênio’, à ‘ação’, ao grande destino. Que importam então o meio, a época, o ‘espírito do século’, a ‘opinião pública’! (…) a esterilidade os segue passo a passo. O grande homem é um final; a grande época, o Renascimento, por exemplo, é um final. (…) Esse é o agradecimento da humanidade: entende seus benfeitores em sentido contrário [como tiranos da moral, déspotas de si mesmos, quando tudo o que fazem é involuntário].”
“Aproximam-se tempos—posso assegurar—em que o sacerdote será considerado como o ser mais baixo, mais mentiroso e mais indecente, como nosso chandala (…) Catilina—a forma preexistente de todo César.” Precisamos nós, os imoralistas, odiar o mundo antes de perdoá-lo.
“O progresso na minha opinião—Também eu falo de um ‘retorno à natureza’, [vis à vis Rousseau e Goethe], embora não se trate propriamente de um retorno para trás, mas uma caminhada para frente e para o alto, para a natureza sublime, livre e mesmo terrível, que brinca, que tem o direito de brincar com os grandes destinos. (…) Napoleão foi um exemplo desse ‘retorno à natureza’ como o entendo (…) Mas Rousseau (…) Esse aborto que acampou no umbral dos nossos tempos, também ele queria o ‘retorno à natureza’ – (…) aonde queria realmente chegar? – Odeio ainda Rousseau na revolução que é a expressão histórica desse ser de duas caras, idealista e canalha. (…) Só conheço um que a sentiu como deveria ser sentida, com aversão—Goethe…”
“seria desconhecer os grandes homens se estes forem considerados sob a perspectiva miserável de uma utilidade pública.”
“meu orgulho é dizer em dez frases o que qualquer outro diz num volume—o que outro não diz num volume…” “Ofereci à humanidade o livro mais profundo que ela possui, meu Zaratustra”
Anotações de cunho pessoal:
Vulgar Display of Power seria uma bela denominação para as coisas do mundo.
“The leading thread of this book will be the notion of energeia. In contradistinction to the existing literature, this book does not limit itself to an analysis of Hegel’s lectures or even to a general discussion of energeia; rather, this notion will serve as a guide to show how the idea of a self-referential activity operates in the details of Hegel’s interpretation of Aristotle as well as in particular contents of Hegel’s own thinking on subjectivity.
Energeia, usually rendered in English as ‘actuality’ after the Latin translation ‘actus’, is by and large translated by Hegel as Tätigkeit (activity) or as Wirklichkeit (actuality), even though in the context of single works he will prefer different words (e.g., in the Philosophy of Spirit and the Logic Aktuosität, actuosity, while in the Phenomenology a closely related notion is that of Entwicklung, development). However he translates it, though, he invariably means the same, an actualization of a potency originally immanent in the subject of the process or movement. Hegel interprets energeia as the self-referential activity that he finds at work in its several manifestations: from the self-grounding of essence to the Concept, from the teleological process to natural life, from the essence of man to the forms of knowing and acting down to its most obviously free and self-determining dimension, absolute thinking that has itself as its object.”
“In the words of the Nicomachean Ethics, we can say that spirit’s energeia is its own eudaimonia (happiness), its activity is its own flourishing.”
“Back with a vengeance, Schelling poked sarcasm at Hegel’s absolute as a God who knew no Sabbath. Hegel’s God is an eternal incessant activity and not a simple final cause like Aristotle’s.”
“The comparison between Hegel and Aristotle, continues Schelling, could only be established by some ignorant people in Germany.”
“Heidegger’s thesis that energeia is being-at-work should be understood literally to refer to the world of production, poiêsis.” “By this interpretation, Heidegger suppresses any sense of finality from energeia: actus is a faulty translation just because it suggests an actualization, not to say a self-actualization, which is absent from Aristotle’s understanding of energeia.”
“For one thing, it may well be far-fetched to read into Aristotle the existentialist idea that in his life man projects his most proper finite possibilities in a groundless void. Yet how one can make sense of the Ethics without taking action as a self-determination, an actualization of one’s potentialities with respect to the kind of life one chooses, is hard to see”
“While in movement a process is subordinated to its end, and reaching the end is the conclusion of the process that is thus extinguished, in energeia (I find it difficult not to translate it here as ‘activity’) time does not bring any new content.”
“For Solon (Eth.nic. I 10), happiness is of a past (for us too, by and large: take Proust’s immemorial past); you have to step out of happiness to judge it. For Aristotle instead the happiness of a good life spans through a lifetime; it is the exercise of a permanent possession, not a movement that ceases once it reaches its end; it is a being, not a search, an actuality and not a result.”
1. THE HISTORY OF PHILOSOPHY AND ITS PLACE WITHIN THE SYSTEM
“Lang ist
die Zeit, es ereignet sich aber
Das Wahre
Longo é
o tempo, como se não sucedesse
a verdade”
Hölderlin
“The material we still read today is the result of Michelet’s compilation of these sources, along with notes taken by students who attended Hegel’s lectures in Berlin.”
“Michelet, who was in the habit of disposing manuscripts after their publication by entrusting them to people often unrelated to the edition of Hegel’s works, is not only responsible for the loss of the precious Jena notebook. To the eyes of the 20th-century scholar, he is also responsible for the hasty publication of an edition that satisfies none of the fundamental philological criteria any work should have of which the supposed author never had a chance to print a single page.”
“Reading Lasson’s or Hoffmeister’s criticisms of Michelet’s work, one hardly imagines he could have done worse.”
“I wish to add that before the unanimity with which everybody who writes on the Lectures finds it indispensable to be pitiless with Michelet, I believe that the first edition, for all its limitations, is an unparalleled and rich text, a more concise exposition than the more ‘readable’ second version. Besides, Michelet could still use the Jena notebook and other now lost sources. His edition is therefore still indispensable for the Hegel student.”
“The history of philosophy as we still practice it today is heavily influenced by Hegel; it did not exist before him. It was neither a recognized discipline in the university curriculum nor an established genre. There were, to be sure, several histories of philosophy; but a philosophical treatment of the history of philosophy was never practiced, let alone theorized.”
(*) “Bodei argues that this relation between eternity and time is inspired by Saint Paul’s notion of aiôn mellon (‘Zeit’, 1984: 92). If so, this seems to me to make the clash between eschatology and parousia of the eternal – the ‘kingdom of God’ made present and manifest here according to the gospels – even more paradoxical.”
“Hegel’s confrontation with Aristotle and more generally with classical metaphysics after the modern revolution – that is, after the reduction of knowledge to legality, first of the world, then of reason – compels us to face the problem of the meaning of a revitalization of Greek philosophy in a radically changed context.”
“This also means that we should put in question the implicit assumption present both in Hegel and in Heidegger, the thesis of a basic continuity, interpreted, respectively, as the progressive revelation of reason to itself or the progressive oblivion of origin and reification of ontological difference.”
“Every rigorous historiography must question what Hegel says about past philosophies and verify their presence and actual importance in Hegel’s thought, over and above the judgments we find in the Lectures.”
“we can say that not only are all claims of Heraclitus present in the Science of Logic, but also those of Plato, Plotinus, Spinoza, and Kant. And most of all those of Aristotle.”
“Aristotle does not appear as a shape of consciousness in the Phenomenology of Spirit (as do skepticism or stoicism for example), or as a position of thought with regard to objectivity in the ‘Preliminary Concept’ of the Encyclopædia.”
“Marcuse say[s] that ‘Hegel simply reinterpreted the basic categories of Aristotle’s Metaphysics and did not invent new ones.’”
“Greek philosophy (a disconcertingly loose umbrella that for Hegel spans a language more than a period, extending from the Presocratics to late Neoplatonism, from Greek colonies to Athens and Alexandria) starts from the assumption that thought is being. Bacon, Böhme, and Descartes, whom Hegel considers the first ‘Christian-German’ philosophers (sic: even here, despite appearances, the designation does not cover a geographical area or a language), began with the opposition between thinking and being”
“the principle of Dilthey’s hermeneutics, that we must understand an author better than he understood himself, is already somehow at work in the idea of completion shared by Aristotle and Hegel.”
“The medieval idea of seeing farther thanks to the possibility of standing on the shoulders of giants,¹ or the Renaissance idea of a dialogue with the classics, is as far from both as is scholarly accuracy.”
¹ Sempre achei esse pensamento cretino.
“The notion that history is a decline from an original beginning, and not progress, was standard in Greek mythology, but often appears also in the Platonic dialogues. In Hegel’s age a picture of the history of philosophy as negative development from an original revelation (often found in oriental religion), a decline from a mythological unity between nature and spirit, is a guiding theme for many historians inspired by the later Schelling, such as Rixner and Ast, and is a tenet of the philosophy of history of Romantics such as F. Schlegel, Windischmann, Görres, and Novalis.”
Crer que Aristóteles só pode ter entendido a filosofia de seu mestre perfeitamente, afinal conviveu com ele 20 anos, é bem estúpido. “This is not so nearly as incomprehensible as Heidegger’s claim that we must go through Aristotle to understand Plato, like going from the clear to the obscure, because ‘what Aristotle said is what Plato placed at his disposal, only it is said more radically and developed more scientifically.’ See Heidegger, Sophistes” Hahaha! Heidegger sempre ordena que se leia filósofos numa sucessão pré-determinada, programa obviamente furado.
“As Hegel says in the Aesthetics, ‘if we have not read Aristophanes we hardly know how man can have fun.’”
“Hegel himself warned us against identifying the system of truth itself with the specific order of the Encyclopædia.”
Enciclopedistas franceses vs. Enciclopedistas românticos germanos
“In his Encyclopædia of Philosophical Sciences, Hegel contrasts a scientific or philosophical encyclopædia with an ordinary encyclopædia. While the latter takes the empirical disciplines as it finds them in ordinary life, and groups them together according to affinities and similarities, the former is the science of the necessary connection of sciences. The positive or ordinary encyclopædia derives its scientific status from the sciences it brings together, while a philosophical encyclopædia is science, in that it forms the conceptual order and relations among the sciences as well as demonstrates how their principles first arise.”
Entre as exclusões da “enciclopédia científica” estão a filologia, a geografia, a medicina, a lei de impostos e a história.
“Once Hegel shifted, after 1805, his understanding of logic to include metaphysics as a theory of the absolute in relation to which ‘life’ and ‘knowing’ were no longer external, he needed an introduction to the speculative standpoint of the logic. The Phenomenology of Spirit was written with the purpose of satisfying such a need.”
“In Nürnberg, Hegel again changed his approach. Spirit is treated as erscheinend, appearing, and as in and for itself; this leads Hegel to the gradual reelaboration of the material from the earlier Phenomenology of Spirit, and the reduction of its systematic scope to its first section, and to the genesis of the mature philosophy of spirit.
The Phenomenology of Spirit no longer acts as an introduction to the system. We are not carried to the Absolute through the stages of consciousness thinking itself. Now the decision to think purely, the freedom to abstract from everything, is sufficient for us to enter the system. The Phenomenology of Spirit, in many respects Hegel’s most impressive work, is later reinterpreted by Hegel as an introduction to pure thinking, [wtf] the overcoming of all oppositions of consciousness and all presuppositions external to thinking.”
“And, most importantly, if the Science of Logic is Hegel’s scientific masterpiece, and the only part of the system he developed fully in print, what is the relation between the logic and the other two parts of the system, and between the Idea and spirit?”
“The absolute Idea, which at the end of the logic shows to have ruled and generated the entire logical movement, can be the object of philosophical consideration in itself, thus be considered formally, or, alternatively, it can be considered in its embodiment in finite natural or spiritual forms. It can, in Hegel’s metaphor, be considered, respectively, as the concept of God (WL 2: 572–3, SL 842–4) or as the objectivity of God. Absolute spirit is just the stage at which the two are thought together as one truth.”
“By investigating all thought in the synthetic unity of apperception Kant brings about the new principle; by reducing all knowledge to a phenomenality against which the in-itself stands opposed, as the truth we will never reach, Kant prevents his great discovery from being effective.”
“Historically speaking, first you need care for truth and trust in reason (religion is one of the paramount cases of such a trust to be made true and validated by philosophy), then you find the determinate universals thanks to observational reason or empirical sciences, then you comprehend determinate universals as particular moments of thought, and finally you comprehend the universal as one logical form, among others, of thought thinking itself.”
“Hegel passes over centuries of meditation on the continuity between animals and man and holds the Aristotelian as well as Christian view that reason distinguishes man from animals. As for Aquinas, an animal cannot think inasmuch as it cannot say ‘I’, cannot reflect on itself; everything is for it a singularity in sensation.” Resta a aplicação do a priori kantiano ao animal: a apercepção de um tempo e espaço que são não-humanos, e ausência de princípio de causalidade, ou também um princípio de causalidade inumano?!
“Aristophanes’s picture of love as an infinite striving for an impossible completion would be a perfect example of what Hegel means here by dialectic and finitude.” “Thought is the only exception to the contradictory, finite nature of all that is.”
(*) “Diotima’s criticism of Aristophanes (Symp. 205d 10–206a 1) marks the difference between the ancient Platonic-Aristotelian and the modern understanding of strive.” A virtude em si, a fixidez da excelência de caráter, como o fim do processo para Platão-Aristóteles.
“If we take it as the first stage and express it in a proposition or first principle, we turn it into something finite and posited by reflection, which still has to prove itself against that to which it stands in opposition (Fichte).” Lógica = verdade; lógica = lógica; redundância. Fichte conhecido como o idealista da finitude (eu = eu). A mesma carência cartesiana do moto “penso logo existo”, que deveria ser “penso (em algo)”.
“In the doctrine of synthetic a priori judgments, Kant had sketched the true theory of the identity-in-difference of universal and particular, of subject and predicate. But since he began with empirical intuition, stressing its absolute alterity to thought, he could not proceed to the unity of that which he had severed. If Kant had thought through the relation between intuition and concept, he would have understood the relation between universal and particular – he would have grasped the immanence of thought.”
“All forms of finite knowing and acting must be ascribed to the originary synthetic unity of apperception interpreted as absolute self-consciousness or infinite reason.”
“According to many recent interpretations, Hegel has offered the final critique of metaphysics. I think this is true”
“Kant is the Robespierre of thought and religion that Heine took him to be. The Critique of Pure Reason is indeed a fatal blow to metaphysics, but only that form of metaphysics that Kant knew and criticized, the Wolffian”
“We can have synthetic a priori judgments in metaphysics, simply given that such judgments have a different sense than they did for Kant. Metaphysics as a science is possible insofar as it is logic, the logic of productive thought. We cannot separate metaphysics from logic, critique from speculation, negativity from rationality, analytic from dialectic. The logic must deal with all thought-determinations, including that which Kant had isolated as the objects of metaphysica specialis. And, most importantly, it has to be a theory of pure thought – unlike Kant’s subjective idealism, which had as its object finite thought and an empirical logic that derived categories from the forms of judgment.”
Ser o Kant de Wolff e Hume, ser o Hegel de Kant, ser o Marx de Hegel e o Nietzsche de Schopenhauer. Refutar como deve ser refutado.
“As is well known, it is to Andronicus that we owe the title of Metaphysics. Andronicus organized Aristotle’s writings – both those found in the Metaphysics and those forming the corpus at large – in an order that, if not systematic in Hegel’s sense, was certainly more systematic than anything Aristotle had known.”
“Another move of incalculable consequences is Andronicus’s isolation of the logical works in an Organon. Now Aristotle suddenly becomes the founder of logic as an instrumental and independent discipline, a status it did not have for Aristotle. With Porphyry the Aristotelian logic was adopted in the Neoplatonic curriculum as a requirement before students moved on to the study of the Platonic dialogues and the theology of the One found in the Parmenides and Timaeus. As Sorabji puts it, it is no wonder that Boethius in the early 6th century, like the early Augustine, did not distinguish between Neoplatonism and Christianity.”
(*) “The word sustêma does actually appear in both Plato’s dialogues and Aristotle, but Jaeger is right that the connotation familiar to us today is a hellenistic novelty.”
“Neither Aristotle nor Hegel understood physics as a science that leaves all philosophical questions to speculation. Aristotle does not write that first philosophy should come before physics, as if it borrowed principles from a higher science. Nor does he write that the distinction between first for us and first by nature explains how we move from physics to first philosophy, since the distinction in priority is internal to all disciplines. Physics is for him a science investigating ta prota kai tas archas tas protas (Phys. I 1, 184a 10–15), the first beings and principles of sensible substances subject to change”
“Since change is eternal and presupposes an eternal mover which will turn out to be a pure, immaterial substance within a physical analysis of motion, physics reduces itself to secondary wisdom and gives way to theology. There is no metaphysical consideration which reduces physics to its less universal role”
INVERSÃO COMPLETADA SOMENTE EM MARX: “As is well known, the dramatic change in mankind’s relation to nature at the beginning of modernity goes hand in hand with the redefinition of science and of philosophy. We can summarize this shift in the reversal of the Thomistic motto operari sequitur esse (work follows being). While for Aristotle the world of production was subordinate to practice, thus to the realm of freedom, and production could not pretend to change nature but at best to imitate it, for modernity art becomes instrumental to mankind’s liberation from nature.”
“In Hegel, as Riedel puts it, there is a reflexive connection between work and the worker that is absent from the Aristotelian notion of poiêsis”
“Work is formative precisely because we objectify our will in a product that will be consigned to externality and lead a life of its own, independent and beyond the power of its originator.”
“Proclus and Plotinus do not say how the procession from the One is to take place; they express in imaginative and enthusiastic language the true understanding of the Absolute, but they miss the full-fledged notion of negativity and infinite subjectivity.”
Plotino, Enéadas
“Despite Plotinus’s paganism and Proclus’s criticism of the creation of the world, which the Christian Philoponus later attacked, the conciliation between Neoplatonism and Christianity was widespread soon after Proclus’s death.”
“just as in Hegel metaphysics is indistinguishable from the logic of a philosophy of spirit, for Plotinus metaphysics is an absolute, nonfinite form of psychology.”
“A ocasião para Kant escrever o presente opúsculo foi o concurso aberto pela Academia Real das Ciências de Berlim, em Janeiro de 1788, a propósito desta pergunta (originalmente formulada em francês): Quais são os progressos reais da metafísica na Alemanha desde a época de Leibniz e de Wolff?”
“Kant iniciou a sua resposta possivelmente no começo de 1793, mas nunca chegou a terminá-la e dela restam-nos apenas projectos soltos e todos com a marca do inacabado.” “não obstante o seu estado fragmentário, lampejam os profundos vislumbres sobre o conhecimento humano”
“A tradução baseia-se no texto que Rink publicou depois da morte de Kant em 1804”
“O carácter lacunoso do original, com pensamentos interrompidos, frases incompletas, borrões, etc., ressente-se necessariamente na trasladação para português; a maior preocupação foi ser fiel ao original, que está muito longe de primar pelo literário”
ARTUR MORÃO
PRIMEIRO MANUSCRITO
PREFÁCIO
“Pouco progresso nela se realizou desde os tempos de Aristóteles.”
“Ora, no tocante à ontologia, tem méritos incontestáveis o famoso Wolff pela clareza e precisão na análise daquela faculdade, mas não quanto à extensão do seu conhecimento, porque a matéria estava esgotada.”
“Há, pois, três estádios que a filosofia devia percorrer em vista da metafísica. O primeiro era o estádio do dogmatismo; o segundo, o do cepticismo; o terceiro, o do criticismo da razão pura.” “Depois de cobertos os dois primeiros, o estado da metafísica pode manter-se oscilante ao longo de muitas gerações, saltando de uma confiança ilimitada da razão em si mesma para a suspeita ilimitada e, de novo, desta para aquela.”
36-7: o projeto judaico, a longa trajetória da escravidão até o poder (o poder escravo) (Páginas cheias para o anti-semita que quisesse deturpar… Ou acusar N. falsamente.)
40: dizer-sim e dizer-não. O sim que sobrepuja todos os nãos.
41: o “sabbat”, repouso do ressentido com a vida
42: o nobre que explode—ele não suporta estocar rancor!; Mirabeau
46: nazismo
47: niilismo. “Estamos cansados do homem”
49: o erro do átomo
51: para Homero, a vingança é mais doce que o mel
52: o portal do Paraíso; Dante; Tomás de Aquino e a catarse dos “absolvidos”.
56: os judeus ganham a guerra do milênio, ou duomilinar
57: a última vitória do espírito clássico-romano sobre o espírito judeo-moderno: Napoleão Bonaparte.
59: a interdisciplinaridade sonhada pelo autor; prescrições para a filosofia do futuro.
65: o ser que promete
70: livre-arbítrio debaixo dos escombros do martelador
73: este é o livro que mais cita os livros anteriores de Nietzsche; o Dom Quixote tornou-se menos cômico e mais cruel com o tempo (Processo Civilizatório).
75: sobre o hedonismo; sobre o querer testemunhas para si.
76: a festa e o divino
77: a origem da palavra homem
78: a verdadeira origem da justiça; o verdadeiro e imoral conceito de justiça.
81: personalidade reativa/vingativa como indício de fraqueza
84: o problema da causa e finalidade
85: supra-homem; ataque a Darwin.
90: o mundo inocente; Spinoza.
94: anti-Hobbes
95: “instinto de liberdade” ou simplesmente “vontade de poder”
99: a “segunda inocência” do ateu
100: zerando as contas do niilismo
110: antes querer o nada a não querer
118: sexualidade e arte – caráter de Rafael; “a roda de Ixion está imóvel”, tirado de Schopenhauer.
120: filósofos ilustres e seu celibato; “Um filósofo casado é motivo de comédia”.
121: Buda e o lar com a família como “local de impureza”; a retirada para o deserto.
122: desfecho da elucidação do paradoxo do asceta
124: o filósofo e sua mania noturna; “o instinto maternal”.
125: a velha polêmica—sexo “antes da grande partida” atrapalha?; a incipiente fisiologia da estética.
127: a teia-de-aranha de Deus
129: “todo aquele que constrói um ‘novo céu’ encontrou a força em seu próprio inferno…”
136: niilismo como o casamento do desgosto e da compaixão
137: “onanistas morais”
145: “a aberração dos vegetarianos”
146: a “concepção pan-indiana” de ascese
158: ranking nietzscheano das doenças européias: 1. o ideal ascético; 2. o álcool; 3. a sífilis.
162: a subordinação da ciência moderna ao ideal cristão, formulada da maneira mais clara. O mesmo dir-se-ia do Estado. Tudo se afunila para o Um.
164: Karamázov, Ivan
166: Arte e arte
167: a tábua de Copérnico
168: Tolstoi
169: “regime alimentar exclusivamente composto de jornais, política, cerveja e música de Wagner acrescido daquilo que é o pressuposto dessa dieta”
“o esquecimento ativo (…) espécie de porteiro vigilante encarregado de manter a ordem psíquica, a tranqüilidade, a etiqueta” Meu porteiro está em sono profundo.
“Sem crueldade, não há festa”
Um dos livros mais cifrados e ruminantes do filósofo, embora possua parágrafos extensos. Mas posso dizer que 4 anos de noites mal-dormidas já são o suficiente para chegar à clarividência de todos os problemas…
Há dois tipos de ateu: o ateu passivo e o ateu honesto; o ateu cristão e o ateu transmutador!
“Eu não posso carregar o mundo nas costas; não suporto carregar sequer dois destinos.”
Esse será doravante o livro que eu mandarei ler primeiro àquele que me solicitar que eu o introduza a Nietzsche.
“oh amigos desconhecidos! (porque não conheço ainda a nenhum amigo) (…) A vontade de verdade, uma vez que seja consciente de si mesma, será a morte do mal: é o espetáculo grandioso reservado aos dois próximos séculos da história européia; espetáculo terrível entre os terríveis, mas talvez fecundo de magníficas esperanças.”
Anotações de cunho pessoal:
Posso te dizer uma coisa: não há nada como dormir… Nada. Essa capacidade prodigiosa de estar em novos e excitantes contextos despreocupadamente, em aparente—e para a consciência é suficiente o aparente—dissociação com o passado. Por isso sair, aventurar-se pelo desconhecido, embebedar-se ou mesmo perder-se na melodia de uma música também é imprescindível, inigualável. Sociólogo: o invejado ápice da consciência alerta. Ligada em todos os movimentos e em todos os rastros. Viva-se com uma herança dessas! Viva-se DENTRO DE CASA desse modo! Viva-se onisciente mas nihil-potente! Insuportável… Me deparo com esse tipo de trecho em minhas mensagens grafadas a cada janeiro. E o relógio me faz pensar que foi um exagero.
A cada hora, a direção da minha angústia aponta para algo diferente… Eu só não consigo esquecer meu caráter de “personalidade indesejada” em certo grau.
E por que toda essa maldita “conspiração”? Parece que estou sempre lendo uma página feita para que eu a lesse exatamente nesse dia… Sentir-se especial… Mas não grandioso: o maior dos vermes amargos. MEU paradoxo: só posso me enfraquecer ao promover a única queixa possível contra o enfraquecimento; é assim que funciono. Aquela máquina que todos no escritório se perguntam: “Quando é que finalmente vai quebrar?”. Do que me adianta todo o enternecimento post mortem?
Genealogia, genealogia, genealogia… Como é insalubre a profissão do escavador!
Minha maior desvantagem: além de escutar tudo que uma natureza excepcional precisa aprender a escutar, eu tenho que escutar tudo que um homem comum precisa escutar (porque a maior parte do tempo eu não me revelo!)—e isso é o mais ofensivo! Como se eu fosse mesmo aquele estagiário-padrão, aquele aluno que precisa de orientações, o eterno-subalterno! E eu ainda tenho que ouvir a minha própria consciência… prensada!
Pessoas morrendo—pessoas morrindo
Rimos de céu, inferno, gárgulas e Jesus.
O bebê é o que mais chora, o velho é o que mais ri.
“PEIRCE, O que é o pragmatismo.Em: PEIRCE, Semiótica. DEWEY, The development of American pragmatism.Em: RUNES, D.D. (org.) Living schools of philosophy.”
II. A OCUPAÇÃO DO ESPAÇO PSICOLÓGICO
“Os vitalistas tomam partido: são a favor da ‘vida’ e contra a razão.” “a inteligência conceitual deve ser substituída pela intuição, pela apreensão imediata da natureza ‘naturante’ [capaz de autocriação] das coisas” “mística da vivência autêntica” “No lugar do interesse tecnológico domina aqui o interesse estético” “a obra da decrepitude de W. Reich (…) a terapia gestáltica e outras técnicas corporais”
“Os estruturalismos são de fato reações anti-românticas de índole tendencialmente cientificista, enquanto a fenomenologia é um dos coroamentos da tradição filosófica racionalista, iluminista e, portanto, anti-romântica.” “as três matrizes se inscrevem n…a problemática da expressão.”
“O problema de difícil solução para o historicismo ideográfico é o do método.”
“operacionalização de uma antecipação de compreensão.”
“círculo hermenêutico”
“A grande preocupação dos estruturalismos é a de elaborar métodos e técnicas de interpretação que conquistem o mesmo grau de segurança e objetividade que o obtido pelas ciências da natureza.”
“estruturas profundas da vida simbólica”
“Finalmente, encontramos na fenomenologia uma tentativa de superação tanto do cientificismo como do historicismo.”
DESDE KANT, O TEMPO ESTÁ EM NÓS: “A legitimação naturalista do conhecimento – como ocorre no empirismo – é inadequada porque as formas do mundo se apresentar à consciência não são oriundas da própria experiência, senão que a precedem e estabelecem suas condições de possibilidade.”
“É necessário supor, para não cair no ceticismo, que todo conhecimento ou juízo empírico retire sua certeza de uma estrutura cognitiva apriorística que defina as formas, as categorias e os mecanismos da cognição de acordo com os quais as evidências possam se constituir e validar.”
“O fundamento deve ser procurado do lado da consciência pura, do sujeito transcendental que determina as condições de existência para a consciência de todos os objetos da vida espiritual.”
“A fenomenologia (ciência eidética)”—por causa do “de”: consciência (de algo). Consciência disso e daquilo…
Eidética no dicionário: “[Filosofia] Pertencente à essência abstrata das coisas, dos sentidos idealizados, por oposição ao que existe realmente.” Ironicamente, o que existe realmente é somente a essência abstrata das coisas.
“Significado de Noese
substantivo feminino
[Filosofia] Na fenomenologia, aspecto subjetivo da vivência, constituído por todos os atos tendentes a apreender o objeto: o pensamento, a percepção, a imaginação etc.”
“Não podemos admitir a completa irredutibilidade das épocas” Bem como seu inverso (estruturalismo).
O paradoxo de todo historicismo é negar-se à época que lhe sucede. “Em outras palavras, o ceticismo seria a conseqüência direta do relativismo radical historicista.”
“A fenomenologia da consciência transcendental, confluindo com outras tradições filosóficas, e literárias, está na origem dos existencialismos, cujas repercussões no pensamento psicológico são mais profundas que as diretamente provenientes da filosofia fenomenológica.”
“A antropologia fenomenológica existencialista dá o quadro de referências (os elementos e a norma, o ‘modelo’ de sujeito) que será investigado pelas ciências humanas empíricas.”
“o que há de mais subjetivo, i.e., o projeto”
“ideologias pararreligiosas”
“Se nada me prende e minha vida é meu projeto, a solução é minha e para mim.”
“retraimento do sujeito sobre si mesmo numa inflação inconseqüente da subjetividade”
“Do behaviorismo tosco de J.B. Watson ao sofisticado de B.F. Skinner, à Psicanálise e a toda a obra de Jean Piaget reflete-se a mesma intenção.”
“grandes tentativas de síntese, gestaltismo.”
“psicologia social… recentemente … Harré e Hecord” + S. Koch + Nuttin + Howarth “senso comum”
Harré, Making social psychology scientific. Em: GILMOUR, DUCK (org.), The development of social psychology, 1980.
KOCH, Psicologia e ciências humanas. Em: GADAMER, VOGLER (org.), Nova antropologia, 1977.
NUTTIN, O comportamento humano: o homem e seu mundo fenomenal. EM: GADAMER, VOGLER (org.) op. cit.
“Este texto de Nuttin é extremamente claro e penetrante. O que, somado ao seu fácil acesso ao leitor brasileiro, o torna uma indicação obrigatória para leitura”
HOWARTH, The structures of effective psychology. Em: CHAPMAN, JONES (org.) Models of man, 1980.
Wundt naturalmente listado como impressionante pioneiro do ecletismo epistemológico maduro e atual.
(*) “A irrelevância dos objetos e resultados de grande parte da pesquisa básica em psicologia é um dos principais alvos de seus detratores.” “função crítica da irrelevância” “O leigo acaba vendo no difícil de entender [hermético] um sinal de profunda sabedoria e alta ciência. Para uma boa aparência de cientificidade, quanto mais irrelevante melhor.”
(*) “A duplicidade e a complexidade do projeto de Wundt, durante muito tempo confundido com o de E.B. Titchener, vem sendo recentemente o tema de vários trabalhos, entre os quais se recomendam: BLUMENTAHL, A reappraisal of Wilhelm Wundt, American psychologist, 1975. … DANZIGER, The positivist repudiation of Wundt, Journal of the History of the Behavioral Sciences, 1979. LEAHEY, The mistaken mirror: on Wundt’s and Titchener’s psychologies, Journal of the History of the Behavioral Sciences, 1981.”
III. MATRIZ NOMOTÉTICA E QUANTIFICADORA
BACON: “A emergência da ‘metodologia científica’ corresponde exatamente a um estágio em que a auto-reflexão das práticas produtivas já permite que a estrutura do trabalho seja posta a serviço da produção e validação de conhecimentos. As idéias de caráter preditivo chamar-se-ão hipóteses, e suas origens serão atribuídas a processos denominados indução, abdução ou invenção; as práticas produtivas serão os procedimentos de observação controlada e, em especial, os procedimentos experimentais de teste; o resultado obtido será confrontado com o resultado esperado – que, na medida do possível, deve ser rigorosamente [palavra que não combina] deduzido das hipóteses iniciais; a finalidade deste processo é a de, com base neste confronto, aceitar ou refutar as hipóteses.”
“O positivismo foi concebido e desenvolvido não pelos filósofos do séc. XIII mas pelos astrônomos gregos que, tendo elaborado e aperfeiçoado o método do pensamento científico – observação, teoria hipotética, dedução e, finalmente, verificação por novas observações –, encontraram-se na incapacidade de penetrar no mistério dos movimentos verdadeiros dos corpos celestes e que, conseqüentemente, limitaram suas ambições à salvação dos fenômenos, isto é, a um tratamento puramente formal dos dados da observação. Tratamento que lhes permitia previsões válidas, mas cujo preço era a aceitação de um divórcio definitivo entre a teoria matemática e a realidade subjacente”KOYRÉ, Les étapes de la cosmologie scientifique. + Do mundo fechado ao universo infinito
“As hipóteses descritivas e explicativas, como pretendem representar a essência dos fenômenos naturais, devem convergir para um sistema e, de preferência, ser dedutíveis de alguns poucos axiomas – o que foi finalmente alcançado no séc. XVIII por Isaac Newton.”
“Quando as grandes conquistas da física moderna, nos sécs. XIX e XX, revelaram-se como meras hipóteses que exigiam correções radicais, abateu-se sobre a comunidade um certo descrédito diante da atitude realista que vê nas funções matemáticas expressões objetivas da ordem natural. Reanimaram-se, então, as posições instrumentalistas”
“Em momento algum, todavia, deixou de progredir a matematização da física e o distanciamento entre a experiência científica e a experiência leiga.”
“A química enterrou definitivamente a alquimia quando Lavoisier – versado em lógica, matemática, física e astronomia – trouxe para a nova ciência o espírito de exatidão, da mensuração e da análise experimental. Os estudos biológicos, a partir da fisiologia, diretamente tributária da mecânica e da química, e dos empreendimentos taxonômicos de Lineu, também avançaram na direção da biologia científica.”
“o cálculo de probabilidades e os procedimentos estatísticos em geral que, no campo das ciências não-exatas, asseguram a ligação entre o domínio empírico – marcado por uma certa margem de variabilidade intrínseca – e o domínio racional.”
“A possibilidade de submeter os fenômenos psíquicos aos procedimentos matemáticos, de forma a criar-se uma psicologia empírica, foi expressamente negada por Kant com a alegação de que estes fenômenos não se prestavam à análise e à observação e só tinham uma dimensão, a temporal, quando a mensuração de um processo exige duas dimensões, a temporal e a espacial. Não obstante, o projeto de uma psicometria apareceu já no séc. XVIII na obra do filósofo alemão Christian Wolff, que esperava desta nova ciência a mensuração dos graus de prazer e desprazer, perfeição e imperfeição, certeza e incerteza.”
“o mesmo fizeram outros autores como De Maupertuis, Buck, Mendelssohn, Ploucquet, Mérian e Lambert. (…) Nenhum deles, porém, dedicou ao tema mais que algumas páginas marginais de suas obras de matemáticos, filósofos e naturalistas. No séc. XVIII apenas Hagen, Krüger e Körber trataram com mais detalhe do assunto.”
“a psicofísica de Weber e Fechner … Ebbinghaus”
“O modelo de Herbart se propõe a representar a estática e a dinâmica dos processos mentais a partir da idéia de conflito entre representações (todos os fenômenos, conscientes ou inconscientes, são denominados representações).”
“Hoje a construção de modelos matemáticos e lógicos não encontra a resistência que a partir do final do séc. XIX o positivismo opôs à pretensão de apreender os mecanismos, indo além das leis empíricas. Ainda assim, a prática da construção de modelos é apenas um dos momentos do procedimento científico, momento aliás subordinado ao de teste: a partir de um modelo devem-se atribuir valores plausíveis às variáveis quantitativas nele implicadas para em seguida – freqüentemente através de simulação computadorizada em que se variam parametricamente estes valores – deduzir os comportamentos do modelo nas diferentes condições programadas. Finalmente, confrontam-se os comportamentos do modelo com os do organismo nele representado. Convém assinalar que dificilmente o comportamento do modelo será idêntico ao do seu original, o que conduzirá a um processo infinito de ajuste com a introdução de novas variáveis e/ou com a postulação de novas relações funcionais entre elas. A psicologia matemática de Herbart carece completamente desta possibilidade de autocorreção”“É necessário que se mencione, a propósito, a semelhança entre o modelo de Herbart e o que veio a ser proposto por Freud.”
“a dinâmica herbartiana é puramente mecanicista e a análise se orienta para a identificação das relações de causalidade eficiente; já na dinâmica freudiana há presença da intencionalidade.” Conversão para as ciências humanas, para nunca sair da preferência – tão prejudicial! – dos cientistas sociais…
“O estudo dos limiares diferenciais – diferenças apenas perceptíveis – foi a área pioneira na concretização do ideal de quantificação em psicologia.”
“dR/R=C, em que R é o estímulo-padrão com o que os outros devem ser comparados, dR é o incremento mínimo de R para que a diferença seja percebida, e C é uma constante.”
“S=ClogR, em que S é a sensação, R o estímulo e C uma constante a ser obtida empiricamente. Esta função descreve os desvios sistemáticos da subjetividade em relação às mudanças do mundo exterior”
“O estudo experimental das sensações permaneceu na segunda metade do séc. XIX e continua até hoje uma área de pesquisa muito ativa e rigorosa, aonde (sic) a matriz nomotética e quantificadora tem produzido alguns de seus melhores resultados.”
“Com freqüência esta psicologia das diferenças individuais – ou psicologia diferencial – [McKeen Cattel, Galton, Binet, Thorndike] estava claramente empenhada em tarefas práticas no âmbito da escola, da indústria e da burocracia civil e militar, classificando a situando os sujeitos em escalas numéricas de acordo com medidas de inteligência geral, capacidades cognitivas específicas, velocidade de aprendizagem e desempenho de diferentes tipos de tarefas.”
“não arrefeceu em momento algum o impulso nomotético e quantificador.”
GARRET, Grandes experimentos da psicologia, 1979.
IV. MATRIZ ATOMICISTA E MECANICISTA
“A física do impetus ao final da Idade Média havia crescido a ponto de desalojar a física de Aristóteles, explicando em termos de impulso impresso também os movimentos ‘naturais’.”
“A lei da inércia [de Galileu] atribui o mesmo valor e as mesmas propriedades ao repouso e ao movimento e libera este último da dependência de qualquer motor externo.”
“Na química a análise elementar foi uma constante desde os trabalhos pioneiros de Priestley e Cavendish até a sistematização de Lavoisier. A subdivisão dos elementos em átomos progrediu no século XIX sob a direção de Dalton e Mendeleiev.”
“a química é testemunha das transformações de qualidade produzidas por diferenças estruturais. Contudo, ao final do século passado, ainda era o procedimento analítico da química, e não seus resultados[,] que punham em questão o atomicismo físico, que servia de guia e exemplo para as demais ciências, entre as quais a psicologia.”
“Os estudos de Pavlov, principalmente, são a contraparte fisiologizante e mais rigorosa dos estudos experimentais da associação iniciados por Ebbinghaus.”
“Não se pode assim concordar com a idéia, amplamente divulgada, que associa o behaviorismo, fundamentalmente, ao mecanicismo e ao atomicismo. De qualquer forma, a sobrevivência de vestígios elementaristas e mecanicistas na psicologia behaviorista exigirá que no próximo capítulo uma atenção especial seja dada às combinações das duas matrizes.”
V. MATRIZ FUNCIONALISTA E ORGANICISTA NA PSICOLOGIA AMERICANA
“A referência inicial e obrigatória é a chamada psicologia funcional8 que se desenvolveu nos EUA no final do século XIX e início do XX. Representantes notáveis desta corrente são J. Dewey (1859-1952), J. Angell (1869-1949), J.M. Baldwin (1861-1934) e, como grande precursor, William James (1842-1910).”
“O estudo do comportamento animal com o objetivo de ‘conhecer o desenvolvimento da vida mental na escala filogenética e buscar a origem da inteligência humana’, tal como se expressa Thorndike em 1898, foi iniciada por Darwin e continuada por Romanes (1848-1894), Morgan (1852-1936), Thorndike (1874-1949) e Jennings (1868-1947), para ficar apenas com os pioneiros.”
“Dois autores modernos assumiram integralmente, embora de formas muito diversas, o legado funcionalista: E.C. Tolman (1886-1959) e B.F. Skinner (1904-[1990]).”
“Tolman, além de condensar e elevar a um nível superior todo o movimento da psicologia funcional, antecipou o movimento cognitivista americano.”
“A solução mais original, contudo, foi elaborada por Skinner e batizada por ele de behaviorismo radical. Não me proponho aqui dar conta do conjunto desta obra que, pela extraordinária riqueza e penetração, é uma das mais notáveis realizações intelectuais da nossa época.”
VI. MATRIZ FUNCIONALISTA E ORGANICISTA NA PSICOLOGIA EUROPÉIA, NA PSICANÁLISE E NA PSICOSSOCIOLOGIA
“Na obra de Jean Piaget—um dos mais completos, consistentes e articulados representantes da matriz funcionalista e organicista em psicologia—ficam dissolvidos os limites entre filosofia, psicologia e biologia, mas serão os métodos e conceitos da última que dominarão ao longo de toda a sua fecundíssima carreira.”
“<A psicanálise é uma ciência natural—o que mais poderia ser?>, diz Fraud em 1925.”
VII. SUBMATRIZES AMBIENTALISTA E NATIVISTA NA PSICOLOGIA
(…)
VIII. MATRIZ VITALISTA E NATURISTA
“Talvez seja necessário novamente esclarecer que não há relações diretas entre Bergson e os autores que serão nomeados neste capítulo. Na filosofia bergsoniana estão reunidos, isto sim, temas e atitudes que caracterizam muito do senso comum psicológico e que se encontram dispersos em várias orientações, escolas e seitas contemporâneas. Nenhuma delas, todavia, pode ser apresentada como uma ‘psicologia bergsoniana’ e em muitas há também vestígios de outras matrizes.”
IX. MATRIZES COMPREENSIVAS: HISTORICISMO IDIOGRÁFICO E SEUS IMPASSES
“Hegel e Marx, cujas contribuições para o desenvolvimento da psicologia e das demais ciências empíricas foram negligenciáveis”
“esta maneira dissecadora de lidar com a natureza provavelmente não atrai o leigo. Eu argúo que esta maneira pode ser inadequada mesmo para os iniciados e que, talvez, haja lugar para um outro método, um que não ataque a natureza dissecando e particularizando, mas a mostre viva e operante, manifestando se em sua totalidade em cada parte do seu ser.” Goethe
“… devo-lhe confidenciar que estou muito perto de descobrir o segredo da criação e organização das plantas… A Urpflanze é a mais extraordinária criatura do mundo; a própria natureza a invejará. A partir deste modelo será possível inventar plantas ad infinitum e todas serão consistentes, isto é, todas poderiam existir, ainda que de fato não existam; elas não seriam meros sonhos ou sombras poéticas ou figuradas, mas possuiriam uma verdade interna e uma necessidade.” Goethe a Herder
“A verdade é uma revelação que emerge no ponto em que o mundo interno do homem encontra a realidade externa”
“Os românticos opõem-se fundamentalmente a todo revolucionarismo progressista que pretenda subverter a ordem natural da sociedade, rompendo com suas origens e tradições. A filosofia de Schelling condensa toda a temática romântica, e todas as soluções românticas e anti-racionalistas numa grande cosmovisão e numa teoria do conhecimento. Schelling constrói uma filosofia da totalidade, que é aí dotada de um movimento próprio, criativo e autônomo no qual o espírito, através da intuição, reconhece sua própria atividade criadora. O motor deste movimento é o conflito.”
“a natureza desta totalidade (organismo, comunidade, nação, espírito popular, ou que outro nome receba) é tal que não a subordina às leis da sobrevivência e da adaptação, antes exibindo um caráter essencialmente produtor e criativo.”
“O romantismo, de fato, é antes de tudo uma filosofia da expressão, da representação simbólica. Assim, enquanto a intuição de Bergson se move numa imediaticidade natural que visa unir o sujeito à vida pré-simbólica, dissolver o indivíduo no élan vital, a intuição romântica procura apreender a imediaticidade simbólica estabelecendo uma relação empática entre formas expressivas e comunicativas. Ora, esta apreensão imediata de uma forma expressiva, esta compreensão dos símbolos exige um esforço intelectual desconhecido tanto de Bergson como de todas as matrizes cientificistas: o esforço de interpretação.”
“A preocupação em definir uma metodologia para as ciências morais manifestou-se durante todo o séc. XIX, sobressaindo as contribuições de Schleiermacher para a arte da compreensão—a hermenêutica—aplicada à filosofia e à teologia e as de historiadores como Ranke e Droysen. Foi, entretanto, o filósofo Wilhelm Dilthey (1833-1911) quem se propôs a desempenhar em relação às ciências morais o papel que Kant havia representado no âmbito das ciências naturais do séc. XVIII”
“A preocupação com a verdade não costuma ser muito acentuada em vários arraiais psicológicos, e, desta maneira, variantes do discurso diltheyano aparecem com freqüência na psicologia clínica. Os chamados humanistas, p.ex., usam e abusam desta terminologia (compreensão, significado, etc.), reduzindo quase sempre estes conceitos ao nível de Bergson, ao vitalismo pré-crítico.”
“A afirmação de Spranger de haver encontrado as leis universais da produção e da interpretação do sentido não encontrou muito eco no desenvolvimento posterior da psicologia.”
(*) “Convém, talvez, assinalar que embora use o termo com esta acepção ampla e acompanhe os autores em muitos pontos da análise, não encampo o enfoque pessimista, aterrorizante e algo obscurantista de Horkheimer e Adorno.” HAHAHA
HELLER, E. The Disinherited mind
(*) “Acerca da ideologia política romântica, ver ROMANO, R. Conservadorismo romântico. Origem do totalitarismo. São Paulo, Brasiliense, 1981.”
X. MATRIZES COMPREENSIVAS: OS ESTRUTURALISMOS
“A grande dificuldade era encontrar para estas ciências critérios positivos cuja aplicação discriminasse o verdadeiro do falso. Os estruturalismos nasceram no contexto desta problemática e formam o conjunto de soluções mais rigoroso, do ponto de vista metodológico. As totalidades simbólicas são submetidas a uma investigação imanente que as objetiviza e desprende tanto das conexões subjetivas, que as constituíram (intenções comunicativas), como das que as interpretam (intenções compreensivas). A neutralização do sujeito caracteriza o ideal científico dos estruturalismos e os coloca como uma espécie de positivismo das ciências humanas.”
“Há assim dois níveis de organização: um, empírico, em que a organização aparece nas interconexões das ocorrências do mundo fenomenal, nas formas que se oferecem à consciência; um outro, teórico e construído (jamais vivenciado) em que a organização se manifesta no processo de dotação de forma e sentido. E a este nível – profundo e inconsciente – que se voltam preferencialmente os estruturalismos, ainda quando, como ocorre na psicologia da gestalt, as formas fenomenais da vivência espontânea dão o fio da meada para a investigação científica.”
“Nas origens da matriz estruturalista encontramos movimentos intelectuais que no final do século XIX e no início do XX revolucionaram a psicologia, a teoria da literatura e a lingüística. No campo da psicologia foi a chamada psicologia da forma, ou da gestalt, que ofereceu a mais consistente alternativa européia à velha psicologia elementarista, associacionista e introspeccionista (nos EUA coube ao funcionalismo e ao behaviorismo esta missão).”
“Ampliando ainda mais o foco de suas preocupações, o gestaltismo se projetou como uma filosofia geral das ciências e como uma fundamentação da ética e da estética. Grande parte desta imensa contribuição foi sistematizada nos Princípios da psicologia da gestalt, redigidos por K. Koffka(1886-1941) na década de 30. Outros nomes de primeiro plano são os do pioneiro Max Wertheimer (1880-1943), o de Wolfgang Koehler (1887-1949) e o de Kurt Lewin (1890-1947).”
“O dado básico da psicologia da forma é a experiência imediata. Só que, ao contrário de Wundt, ao invés de dissecar esta experiência para identificar as suas unidades mínimas e, em seguida, reconstituir os fenômenos complexos, tratava-se para os gestaltistas, antes de mais nada, de descrever e compreender os fenômenos que espontaneamente se ofereciam na experiência dos sujeitos e dos seus observadores.”
“Os psicólogos da forma, contudo, estão convencidos de que é possível superar o nível da pura compreensão e elaborar leis gerais explicativas.”
“Enquanto a noção de forma contemplada pelos gestaltistas exerceu notável influência sobre a teoria das artes plásticas, simultaneamente desenvolvia-se na Rússia uma teoria da literatura também formalista e estruturalista. Para os formalistas russos colocava-se a tarefa de proceder a uma leitura das obras literárias que, pondo de parte o psicologismo e o sociologismo, visasse a obra mesma de maneira a captar nela, não as intenções do autor ou o efeito das pressões sociais, mas a sua estrutura imanente e os seus procedimentos constitutivos.”
(*) “Uma ótima apresentação e crítica do gestaltismo é encontrada em MERLEAU-PONTY, M. A estrutura do comportamento. Belo Horizonte, Inter livros, 1975.”
XI. MATRIZ FENOMENOLÓGICA E EXISTENCIALISTA
(…)
XII. CONSIDERAÇÕES FINAIS E PERSPECTIVAS
“Este livro nasceu das aulas que dava na disciplina História da psicologia. Convinha, então, no término do semestre, justificar o porquê de, no final das contas, não ter oferecido nada que parecesse com a história da psicologia. Tenho para mim que história da psicologia, como talvez também a de outras disciplinas que visam a vida em sociedade, não se pode nortear pelos modelos disponíveis de historiografia das ciências naturais. No conjunto da disciplina não encontramos, seja a acumulação regular de fatos e teorias, seja as revisões radicais e revolucionárias dos paradigmas dominantes, seja o confronto crítico de enfoques alternativos em condições de testes cruciais.”
“A scientific title has been chosen, and technical terms are used throughout the book in order to exclude the lay reader. For the same reason certain portions are written in Latin.”
PREFACE TO THE TWELFTH EDITION
“The number of technical terms has been increased, and the Latin language is more frequently made use of than in former editions.” Esse K.E. é um sarro!
PUBLISHER’S PREFACE
“When he was attacked by the fatal illness which carried him off, the manuscript was all ready for the printer.”
I. FRAGMENTS OF A SYSTEM OF PSYCHOLOGY OF SEXUAL LIFE
“Sexual intercourse is done openly, and man and woman are not ashamed of their nakedness. The savage races, e.g., Australasians, Polynesians, Malays of the Philippines are still in this stage (vide Ploss).” Livro ultrapassado antropologicamente falando para 1933.
“it was not the feeling of shame which suggested the garment, but the garment engendered shame. The desire to make themselves more attractive originated the habit among men and women to cover their nakedness.”
“The history of Japan furnishes a striking proof that this high grade of civilization [para o autor, judeus, egípcios, gregos e teutões] is often the last stage of moral development, for in that country to within 20 years ago prostitution was not considered to impair in any way the social status of the future wife.”
“The tradition that woman was created from the rib of the sleeping man (see Genesis) is one of the causes of delay in this direction, for after the fall she is told ‘thy will shall be subject to man’. According to the Old Testament, woman is responsible for the fall of man, and this became the corner-stone of Christian teaching.” Não tente culpar os judeus!
“It is a remarkable fact that the gospels (barring divorce, Matt, 19:9) contain not a word in favour of woman. The clemency shown towards the adulteress and the penitent Magdalen do not affect the position of woman in general. The epistles of St. Paul definitely insist that no change can be permitted in the position of woman.” Muito astuto de sua parte constatar!
“We are certainly far beyond sodomitic idolatry, the public life, legislation and religious exercises of ancient Greece, not to speak of the worship of Phallus and Priapus in vogue among the Athenians and Babylonians, or the Bacchanalian feasts of the Romans and the privileged position held by the courtesans of those days.”
“The episodes of moral decay always coincide with the progression of effeminacy, lewdness and luxuriance of the nations.” //Os episódios de decadência da moral sempre coincidem com a progressão da queda da mesma moral.
“It is a remarkable fact that among savages and half-civilised races sexual intemperance is not observed (except among the Aleutians and the Oriental and Nama-Hottentot women who practise masturbation).” Sempre as exceções! Mas masturbação como intemperança…
Se o primeiro amor é o que tende à idealização, meu primeiro amor é esse que devoto à minha terapeuta?
“Love when weak is frequently turned away from its real object into different channels, such as voluptuous poetry, bizarre aesthetics, or religion. In the latter case it readily falls a prey to mysticism, fanaticism, sectarianism or religious mania.” É verdade. Desde que sou costumeiramente rejeitado meus poemas são melhores, e mais cáusticos e bisonhos.
“History shows that great (states)men have often been the slaves of women in consequence of the neuropathic conditions of their constitution.”
“It shows a masterly psychological knowledge of human nature that the Roman Catholic Church enjoins celibacy upon its priests in order to emancipate them from sensuality, and to concentrate their entire activity in the pursuit of their calling.”
“The unfaithfulness of the wife, as compared with that of the husband, is morally of much wider bearing, and should always meet with severer punishment at the hands of the law.”Contradiz a afirmação anterior de que a mulher atingiu a igualdade no matrimônio!
Fetiche realmente deriva do português feitiço (fetisso). “Max Müller deriva a palavra fetiche etimologicamente de factício.”
“an infatuation is produced which appears incomprehensible or silly to others. Thus it happens that the devoted lover who worships and invests his love with qualities which in reality do not exist, is looked upon by others simply as mad.”
“From it springs the particular choice for slender or plump forms, for blondes or brunettes, for particular form or colour of the eyes, tone of the voice, odour of the hair or body (even artificial perfume), shape of the hand, foot or ear, etc., which constitute the individual charm, the first link in a complicated chain of mental processes, all converging in that one focus, love”
“Normal love appears to us as a symphony of tones of all kinds. It is roused by the most varied agencies. It is, so to speak, polytheistic. Fetichism recognizes only the tone-colour of a single instrument; it issues forth from a single motive; it is monotheistic.”
Max Dessoir
“How carefully the mother looks after her little daughter’s hair! What an important part the hairdresser plays! The falling out of the hair causes despair to many a young lady.”
“The successful actor, musician, or vocal artiste, the circus rider, the athlete, and even the criminal, often fascinate the bread and butter miss as well as the maturer woman. At any rate women rave over them, and inundate them with love letters.”
PARA SEMPRE INCOMPREENSÍVEL: “The hair of man, especially the beard, the emblem of virility, the secondary symbol of generative power—is a predominant fetich with woman. In the measure in which women bestow special care upon the cultivation of their hair, men who seek to attract and please women, cultivate the elegant growth of the beard, and especially that of the moustache.”
“The author has thus far not succeeded in obtaining facts with regard to pathological fetichism in woman.”
II. PHYSIOLOGICAL FACTS
“It is worthy of remark that girls who live in cities develop about a year earlier than girls living in the country, and that the larger the town the earlier, ceteris paribus, the development takes place.”
“an experiment by Mantegazza (‘Hygiene of Love’), who removed the eyes of rabbits and found that the defect constituted no obstacle to procreation, shows how important in animals the olfactory sense is for the vita sexualis.”
“In man, physiologically, the only ‘hyperaesthetic’ zone is the glans penis and perhaps the skin of the external genitals. Under pathological conditions the anus may become a ‘hyperaesthetic’ area.”
III. ANTHROPOLOGICAL FACTS
Fatos médicos, não antropológicos qua antropologia em si.
“It is a remarkable fact that Gynecomasty only occurs in neurotically degenerated families” LITERATURA MÉDICA ATUAL: “Ginecomastia é o crescimento benigno do tecido glandular mamário em homens, causado por um desequilíbrio hormonal entre estrogênio e testosterona. Pode ser resultado de fatores fisiológicos (como puberdade e envelhecimento), uso de medicamentos, doenças ou obesidade (neste caso, chamada pseudoginecomastia).” Ou seja, apenas a causa “doenças” era assinalada no tempo de Krafft-Ebing.
IV. GENERAL PATHOLOGY
“Among modern novelists who deal with the subject of sexual perversion the French are most preeminent, viz. Zola.”
“A third possibility is hyperaesthesia of the urethra, by virtue of which the escaping semen induces an immediate and excessive reflex action of the ejaculation centre. In such cases simple proximity to the female genitals may be sufficient to induce ejaculation (ante portam).”
“Zambaco (‘L’Encéphale,’ 1882, Hr. 1, 2) tells the disgusting story of two sisters affected with premature and perverse sexual desire. The elder, R., masturbated at the age of seven, practised lewdness with boys, stole wherever she could, seduced her four-year-old sister into masturbation, and at the age of ten was given up to the practice of the most revolting vices. Even ferrum candem ad clitoridem [ferro candente no clitóris… tratamento corriqueiro da época?!?] had no effect in overcoming the practice, and she masturbated with the cassock of a priest while he was exhorting her to reformation.”
“Quum senex libidinosus germanam suam filiam aemulatione motus necaret et adspeetu pectoris scissi puellae moribundae delectaretur.”
“No doubt Swift’s, the great satirist, was a case of anaesthesia sexualis. Adolf Stern says in his biography of Swift (‘Aus dem 18. Jahrhundert; Biographische Bilder und Skizzen,’ Leipzig, 1874): ‘It seems that he was totally devoid of the sensual elements of love; his candid cynicism, found in many of his letters, is almost definite proof of this. Whoever properly grasps certain passages in Gulliver’s Travels, and especially the account which Swift gives of the marriage and progeny of the Houyhnhorses, the noble steeds of the last chapters, can scarcely doubt that this great satirist abhorred marriage, and never felt the impulse which draws the sexes together.’ Practically speaking, the enigmatical side of Swift’s character, and several of his works, viz., Diary to Stella and Gulliver’s Travels, can only be understood if Swift is considered sexually anaesthetic.” Que reducionismo imbecil!
“Such psycho-sexual extravagances have been but little probed scientifically, though they are of great importance for the criminal forum since the individual so affected can scarcely be held mentally responsible. It is fortunate for society and for the criminal doctor, who is called upon to make the diagnosis, that these cases, in which irresistible hypersensuality leads to the gravest and indisputably pathological sexual aberrations, are only encountered in that category of human beings whom we class among the degenerates infected with hereditary taint.” “This pathological sexuality is a dreadful scourge for its victim, for he is in constant danger of violating the laws of the state and of morality, of losing his honor, his freedom and even his life.”
“Besides these graver manifestations of pathological sexuality we find also milder and more numerous gradations of hypersexuality, to the lowest of which, perhaps, belong those individuals who, impecunious though they be whilst sexually potent, move in the better classes of society and have no other aim in life than to gratify their sexual desires. These are not afflicted with a pathological sexual condition, know to control themselves in a measure, observe the acknowledged rules of decency, do not compromise themselves, but allow no opportunity to pass by without utilizing it to the utmost. Another grade are the apron-hunters, the Don Juans, whose whole existence is an endless chain of sensual enjoyment and whose blunted moral sense does not keep them from seduction, adultery and even incest.”
“He worried her with his jealous behaviour, but he himself soon after the marriage seduced his wife’s sister, an innocent girl, and had a child by her. In 1873 he took mother and child to his home. He now had two women, but gave preference to the sister-in-law, which the wife tolerated as a lesser evil. As years went by his libido increased, though his potency decreased. He often resorted to masturbation even immediately after coitus, and without in the least minding the presence of the women. Since 1892 he committed immoral acts with a girl of 16 years, who was his ward, i.e., puellam coagere solebat, ut eum masturbaret. He even tried to force her at the point of a revolver to have coitus with him. The same attempts he made on his own illegitimate child, so that both often had to be protected from him. At the clinic he was quiet and well-behaved. His excuse was hypersexuality. He acknowledged the wrongfulness of his actions, but said he could not help himself. The frigidity of the wife had forced him to commit adultery.”
Sexo oral na mulher considerado como ultrajante.
“This pathological love of married women for other men is a phenomenon in the domain of psychopathia sexualis which sadly stands in need of scientific explanation.” O machismo, evidentemente. Incluindo o caso de Anna Karenina.
“Whilst the pathological conditions lasted, absolute indifference, even hatred, prevailed towards husband and children, and an utter want of understanding the bearings and consequences of the scandalous behaviour, jeopardizing the honour and dignity of wife and family, were noticeable. It is remarkable that in all these cases the husband and relatives had come to the conclusion that the condition was caused by psychopathia, even before they had obtained expert opinion.” Já que o que define o ser-louca é tão-só a vontade dos homens.
“particularly the circumstance that the unfortunate woman was not omnium virorum mulier, but only the mistress of one man, establishes a distinct difference from nymphomania.”
“The perverse sexual acts resulting from paraesthesia are of the greatest importance clinically, socially, and forensically ; and, therefore, they must hero receive careful consideration; all aesthetic and moral disgust must be overcome.”
“Sade was so cynical that he actually sought to idealise his cruel lasciviousness and to be the apostle of a theory based upon it. He became so bad (among other things he made an invited company of ladies and gentlemen erotic by causing to be served to them chocolate bonbons which contained cantharides) that he was committed to the insane asylum at Charenton. During the revolution of 1790 he escaped. Then he wrote obscene novels filled with lust, cruelty and the most lascivious scenes. When Bonaparte became Consul, Sade made him a present of his novels, magnificently bound. The Consul had the works destroyed and the author committed to Charenton again, where he died at the age of 64. Sade was inexhaustible in his lascivious publications, which were markedly intended for advertisement. Fortunately it is difficult to-day to obtain copies. Extant are: Histoire de Justine, 4 vols.; Histoire de Juliette, 6 vols.; Philosophie dans le boudoir, 1805. Interesting is Sade’s biography by J. Janin, 1835.”
“An officer in Vienna informed me that men, by means of large sums of money, induce prostitutes to suffer ut illi viri in ora earum spuerent et faeces et urinas in ora explerent.”
“A man was accustomed to go, on a certain day once a month, to an inamorata and cut her ‘fringe’. This gave him the greatest pleasure. Ha made no other demands on the girl.”
“A man in Vienna regularly visited several prostitutes only to lather their faces and then to remove the lather with a razor, as if he were shaving them. He never hurt the girls, but became sexually excited and ejaculated during the procedure.”
“the widespread legend of the vampires (*) The legend if especially spread throughout the Balkan peninsula. Among the modern Greeks it has its origin in the myth of the lamiae and marmolykes—blood-sucking women. Goethe made use of this in his Bride of Corinth. The verses referring to vampirism, suck thy heart’s blood, etc., can be thoroughly understood only when compared with their ancient sources.”
(*) “The gifted Henry von Kleist, who was beyond doubt mentally abnormal, gives a masterly portrayal of complete feminine sadism in his Penthesilea. In scene XXII, Kleist describes his heroine pursuing Achilles in the fire of love, and when he is betrayed into her hands, she tears him with lustful, murderous fury into pieces, and sets her dogs on him” “Did I kiss him to death? No. Did I not kiss him? Torn in pieces? Then it was a mistake; kissing rhymes with biting, and one who loves with the whole heart might easily mistake the one for the other.”
“During recent years, facts have been advanced which prove that Sacher-Masoch was not only the poet of Masochism, but that he himself was afflicted with this anomaly. Although these proofs were communicated to me without restriction, I refrain from giving them to the public.”
“Baudelaire came of an insane and eccentric family. From his youth he was psychically abnormal. His vita sexualis was decidedly abnormal. He had love-affairs with ugly, repulsive women—negresses, dwarfs, giantesses. (…) The enthusiasm for the naked foot also appears in one of his fiercely feverish poems as the equivalent of sexual indulgence. He said women were animals who had to be shut up, beaten and fed well.”
“Zola has a masochistic scene in his Nana, also in Eugène Rougon. The ‘decadent’ literature of recent times in France and Germany often has for a theme sadism and masochism.”
(*) “However, against the theory that foot- and shoe-fetichism is a manifestation of (latent) masochism, Dr. Moll raises the objection that it is still unexplained why the fetichist so often prefers boots with high heels, to boots and shoes of a particular kind—buttoned or laced.”
“The religious enthusiast, Antoinette Bouvignon de la Porte, used to mix with her food excreta in order to mortify herself.” “This impulse to disgusting acts might well be named Coprolagnia.”
Krafft-Ebing defende que o fenômeno da cavalaria e da extrema dedicação a uma dama é o fenômeno en masse do masoquismo na Baixa Idade Média. E esse mesmo relacionamento submisso à donzela, idealizado, seria apenas transferência das antigas regras de vassalagem política.
(*) “A man, X., becomes intensely excited sexually whenever he sees a woman with the hair in a braid; loose hair, no matter how beautiful, cannot produce this effect.”
(*) “The fact that the partly veiled form is often more charming than when it is perfectly nude is, as far as object goes, similar, but quite different psychically. This depends upon the effect of contrast and expectation, which are common phenomena, and in no sense pathological.”
(*) “Those who hold to the opinion that the origin of homo-sexual feelings and instinct is found to be exclusively in defective education and other psychological influences are entirely in error. (…) The natural disposition is the determining condition; not education and other accidental circumstances, like seduction.”
“The first definite communications concerning this enigmatical phenomenon of Nature are made by Casper, who classes it with pederasty, but makes the pertinent remark that this anomaly is, in most cases, congenital, and, at the same time, to be regarded as a mental hermaphroditism.”
“Ulrichs wrote [1860!!!] that there were male individuals that felt like woman toward men (anima muliebris in corpore virile inclusa). He called these people urnings, and demanded nothing less than the legal and social recognition of this sexual love of the urnings as congenital and, therefore, as right; and the permission of marriage among them.”
“Almost invariably the existence of temporary or lasting neurasthenia may be proved.” Gays que procuravam um médico no começo do século XX deviam estar mesmo estressados, ora bolas!
“In the majority of cases, psychical anomalies (brilliant endowment in art, especially music, poetry, etc., by the side of bad intellectual powers [?] or original eccentricity) are present”
“One of the most peculiar explanations is advanced by Schopenhauer, who seriously contends that nature seeks to prevent old men from begetting children, since experience teaches that these never turn out good. For this purpose nature in her wisdom has turned the sexual instinct in old men toward their own sex!”
“The oldest urning romance is probably that published by Petronius at Rome, under the Empire, under the title Satyricon.”
Baseada nos perfis dos militares brasileiros publicados pela Revista VEJA, mortos no terremoto haitiano do começo de 2010:
Rafael de Araújo Aguiar, de 21 anos, soldado, Brasília-DF. Mais jovem de toda a expedição de paz, Rafael também era o único que provinha da capital do país e de uma família de classe média alta, que em tese não deseja para os filhos uma carreira militar que principie na base (postos como o de soldado em detrimento de exames que podem qualificar alguém já para as patentes de sargento ou tenente). Seus pais são civis. Seu falecido avô, pai de sua mãe, havia se reformado pela Marinha. Amigos não sabem como ele foi parar na América Central ao certo, já que Rafael sempre havia manifestado repúdio pelas rígidas hierarquia e disciplina do Colégio Militar, onde havia estudado por 4 anos e meio, além de manifestar especial interesse por autores da filosofia e escritores clássicos e ser conhecido na cena punk e metaleira local como assíduo freqüentador de concertos de bandas com letras anti-militaristas e por ostentar uma invejável cabeleira. Por fim, era muito míope e havia sido dispensado do serviço militar obrigatório. Algo no ano de 2009 o fez mudar de idéia: provavelmente necessitava com urgência de renda própria para realizar seus planos. Não constam informações de que estivesse comprometido; havia trancado o curso de sociologia no quarto semestre e rumado sem mais explicações ao Haiti, ao ser aprovado em novo teste físico no quartel. Os mais próximos alegam que tal decisão foi o ápice de uma tendência crescente de se afastar das outras pessoas e de emudecer cada vez mais sua personalidade comunicativa.
“Mais uma vez, os fãs tornaram-se ratos escondidos pelos cantos. À medida que o metal sofria à vista do público, o Metallica fazia pouco para ajudar a contornar a situação. Por anos eles puseram o mundo do heavy metal em primeiro lugar, mas agora pulando irreconhecivelmente na frente dos holofotes em toda cerimônia de premiação ou sessão de vídeo, a banda viajou com os grupos alternativos Hole e Veruca Salt em setembro de 1995 para tocar em um festival patrocinado pela cerveja Molson Ice na vila ártica de Tuktoyaktuk. A banda que havia se recusado por mais de sete anos a até mesmo fazer um videoclipe estava agora aceitando eventos promocionais.”
“I put my cock into the carcass
My climax can wait no longer
Expectorate my seed of hate
Onto her mutilated corpse”
“‘Eu não usei cuecas nos últimos quinze anos’, Lars Ulrich contou à Melody Maker, ‘mas nove meses atrás decidi que não iria mais usar jeans novamente. Porque como eu não sou circuncidado, diferente da maioria dos norte-americanos, haveria uma quantidade considerável de urina espalhada pela minha calça cara por causa do consumo excessivo de álcool. Então minha esposa sugeriu que eu usasse cuecas para que eu não mijasse nas minhas lindas e caras calças de estilistas famosos o tempo todo.’”
“‘O Metallica pode fazer o que quiser agora’, disse Shawn Crahan, do Slipknot. ‘Eles venceram. Eles conquistaram o direito de fazer o que quiserem hoje em dia.’”
“Zombification ejaculation over mutilation
On the Mother’s body hacked into pieces
The sludges from my cock gives her life once again
Sewing the remains of the child deep within her”
“She’s already dead, I masturbate with her severed head
My lubrication, her decomposition
Spending my life molesting dead children”
“Conforme seus cabelos lentamente voltavam a crescer, o Metallica redescobria sua origem metal. Para a turnê norte-americana de 1997, prepararam um show com um palco sofisticado que representava a realidade maliciosa na qual a banda então vivia. Inspirados no dramático acidente com James Hetfield em Montreal, todas as noites, na metade do show, uma parte falsa da iluminação explodia, para deixar a figura de um técnico em chamas balançando pelos ares, preso por um cabo de segurança. Para dar seqüência ao tema de destruição já iniciado, torres de iluminação caíam até uma posição predeterminada, e roadies corriam para apagar o fogo. O técnico de iluminação era levado em uma maca para uma ambulância que estava à espera ao lado do palco, enquanto a mesa de som lançava loops de ruídos de estática. § Com o equipamento supostamente destruído, os membros da banda fingiam então buscar uma solução para a catástrofe. Reuniam-se em um canto remoto do palco onde havia apenas dois conjuntos de guitarra e amplificador e algumas lâmpadas que pendiam do teto, e rapidamente improvisavam um medley ‘caseiro’ de ‘Four horsemen’ e outras músicas antigas de Kill ‘em all. Devagar, o operador de som reforçava até um volume digno de estádio. Foi um evento extraordinário que brincava com desastres para contar a hoje lendária origem da banda. Com logística mais complexa do que qualquer palco gigantesco do Iron Maiden nos anos 80, a produção foi genialidade pura do Metallica e fingiu zombar das convenções do rock, até mesmo ao entregar-se de corpo e alma a elas. Naturalmente, a empresa de efeitos especiais recebeu o prêmio Designer do Ano da revista Stagecraft industry.”
FISSURAS E INTEGRIDADE NO MUNDO DA MÚSICA
Ou: Em busca do riff perdido atrás do arco-íris captável somente através dos ouvidos
As bandas e os gêneros floresciam e morriam, florescem e ainda morrem, rápido demais. As brechas deixadas por colossos como Black Sabbath e Metallica na incompletude e periferia de cada álbum, e nos hiatos entre as gravações, e nas inevitáveis negações perpetradas pelas escolhas (afirmações) naturais, talvez tudo isso se desenrole por décadas e não se tenha perdido uma (várias) oportunidade(s) para sempre. Não são os próprios músicos que vivenciaram os atalhos geniais de suas obras-primas que devem chegar lá, mas o legado vivo por eles plantado. Um gigante veterano tateando atrás de seu novo melhor álbum de todos os tempos não passa de comédia?
“To the majority of English readers the name of that strange and forceful personality, Romain Rolland, is known only through his magnificent, intimate record of an artist’s life and aspirations, embracing ten volumes, Jean-Christophe.”
“In 1895 (at the age of 29) we find him awarded the coveted Grand Prix of the Académie Française for his work Histoire de l’Opéra en Europe avant Lulli et Scarlatti, and in the same year he sustained, before the faculty of the Sorbonne—where he now occupies the chair of musical criticism—a remarkable dissertation on The Origin of the Modern Lyrical Drama—his thesis for the Doctorate.”
“The essay on Berlioz, in the present volume, reveals a true insight into the personality of this unfortunate and great artist, and removes any false misconceptions which unsympathetic and superficial handling may have engendered.”
“I do not think it is an exaggeration to assert that the majority of listeners at a high-class concert or recital are absolutely bored. How can it be otherwise, when the composers represented are mere names to them? Why should the general public appreciate a Bach fugue, an intricate symphony or a piece of chamber-music? Do we professional musicians appreciate the technique of a wonderful piece of sculpture, of an equally wonderful feat of engineering or even of a miraculous surgical operation? It may be argued that an analogy between sculpture, engineering, surgery and music is absurd, because the three former do not appeal to the masses in the same manner as music does. Precisely: it is because of this universal appeal on the part of music that the public should be educated to listen to good music; that they should be given, in a general way, a chance to acquaint themselves with the laws underlying the ‘Beautiful in Music’ and should be shown the demands which a right appreciation of the Art makes upon the Intellect and the Emotions.”
BERLIOZ
“No clouds hide his mind and its creations, which, unlike Wagner’s, need no initiation to be understood; they seem to have no hidden meaning, no subtle mystery; one is instantly their friend or their enemy, for the first impression is a lasting one.”
“Above all, one must not make the mistake of contrasting Berlioz with Wagner, either by sacrificing Berlioz to that Germanic Odin, or by forcibly trying to reconcile one to the other. For there are some who condemn Berlioz in the name of Wagner’s theories; and others who, not liking the sacrifice, seek to make him a forerunner of Wagner, or kind of elder brother, whose mission was to clear a way and prepare a road for a genius greater than his own. Nothing is falser. To understand Berlioz one must shake off the hypnotic influence of Bayreuth. Though Wagner may have learnt something from Berlioz, the two composers have nothing in common; their genius and their art are absolutely opposed; each one has ploughed his furrow in a different field.”
“Critics of this kind do not think favourably of Berlioz’s dramatic and descriptive symphonies. How should they appreciate the boldest musical achievement of the nineteenth century?”
“I doubt if Berlioz would have obtained any consideration at all from lovers of classical music in France if he had not found allies in that country of classical music, Germany”
“The dramatic symphony that he created flourished in its German form under Liszt; the most eminent German composer of to-day, Richard Strauss, came under his influence; and Felix Weingartner, who with Charles Malherbe edited Berlioz’s complete works, was bold enough to write, ‘In spite of Wagner and Liszt, we should not be where we are if Berlioz had not lived.’”
“But here is a new danger. Though it is natural that Germany, more musical than France, should recognise the grandeur and originality of Berlioz’s music before France, it is doubtful whether the German nature could ever fully understand a soul so French in its essence.” Curioso que antes do séc. XX os franceses estivessem atrás dos alemães na música!
“Wagner said over the tomb of Weber, ‘England does you justice, France admires you, but only Germany loves you; you are of her own being, a glorious day of her life, a warm drop of her blood, a part of her heart….’”
“Passion, bitterness, caprice, wounded pride—these have more influence with him than the serious things of life.”
“Wagner was really his own best friend, his own most trusty champion; and his was the guiding hand that led one through the thick forest and over the rugged crags of his work.
Not only do you get no help from Berlioz in this way, but he is the first to lead you astray and wander with you in the paths of error.”
“And compare this Virgilian affection with Wagner’s sensual raptures. Does it mean that Berlioz could not love as well as Wagner? We only know that Berlioz’s life was made up of love and its torments. The theme of a touching passage in the Introduction of the Symphonie fantastique has been recently identified by M. Julien Tiersot, in his interesting book, with a romance composed by Berlioz at the age of 12, when he loved a girl of 18 ‘with large eyes and pink shoes’—Estelle, Stella mentis, Stella matutina. These words—perhaps the saddest he ever wrote—might serve as an emblem of his life, a life that was a prey to love and melancholy, doomed to wringing of the heart and awful loneliness; a life lived in a hollow world, among worries that chilled the blood; a life that was distasteful and had no solace to offer him in its end.”
“Who does not know his passion for Henrietta Smithson? It was a sad story. He fell in love with an English actress who played Juliet (Was it she or Juliet whom he loved?). He caught but a glance of her, and it was all over with him. He cried out, ‘Ah, I am lost!’ He desired her; she repulsed him. He lived in a delirium of suffering and passion; he wandered about for days and nights like a madman, up and down Paris and its neighbourhood, without purpose or rest or relief, until sleep overcame him wherever it found him—among the sheaves in a field near Villejuif, in a meadow near Sceaux, on the bank of the frozen Seine near Neuilly, in the snow, and once on a table in the Café Cardinal, where he slept for five hours, to the great alarm of the waiters, who thought he was dead. Meanwhile, he was told slanderous gossip about Henrietta, which he readily believed. Then he despised her, and dishonoured her publicly in his Symphonie fantastique, paying homage in his bitter resentment to Camille Moke, a pianist, to whom he lost his heart without delay.
After a time Henrietta reappeared. She had now lost her youth and her power; her beauty was waning, and she was in debt. Berlioz’s passion was at once rekindled. This time Henrietta accepted his advances. He made alterations in his symphony, and offered it to her in homage of his love. He won her, and married her, with 14,000 francs debt. He had captured his dream—Juliet! Ophelia! What was she really? A charming Englishwoman, cold, loyal, and sober-minded, who understood nothing of his passion; and who, from the time she became his wife, loved him jealously and sincerely, and thought to confine him within the narrow world of domestic life. But his affections became restive, and he lost his heart to a Spanish actress (it was always an actress, a virtuoso, or a part) and left poor Ophelia, and went off with Marie Recio, the Inès of Favorite, the page of Comte Ory—a practical, hardheaded woman, an indifferent singer with a mania for singing.”
“So the one he really loved, and who always loved him, remained alone, without friends, in Paris, where she was a stranger. She drooped in silence and pined slowly away, bedridden, paralysed, and unable to speak during 8 years of suffering. Berlioz suffered too, for he loved her still and was torn with pity”
“When 35 years old he had achieved glory; and Paganini proclaimed him Beethoven’s successor. What more could he want?”
“He had the Damnation de Faust performed; no one came to it, and he was ruined. Things went better in Russia; but the manager who brought him to England became bankrupt. He was haunted by thoughts of rents and doctors’ bills.”
“If I begin this bit, I shall have to write the whole symphony. It will be a big thing, and I shall have to spend 3 or 4 months over it. That means I shall write no more articles and earn no money. And when the symphony is finished I shall not be able to resist the temptation of having it copied (which will mean an expense of 1,000 or 1,200 francs), and then of having it played. I shall give a concert, and the receipts will barely cover half the cost. I shall lose what I have not got; the poor invalid will lack necessities; and I shall be able to pay neither my personal expenses nor my son’s fees when he goes on board ship…. These thoughts made me shudder, and I threw down my pen, saying, ‘Bah! tomorrow I shall have forgotten the symphony.’ The next night I heard the allegro clearly, and seemed to see it written down. I was filled with feverish agitation; I sang the theme; I was going to get up… but the reflections of the day before restrained me; I steeled myself against the temptation, and clung to the thought of forgetting it. At last I went to sleep; and the next day, on waking, all remembrance of it had, indeed, gone for ever.”
“That page makes one shudder. Suicide is less distressing. Neither Beethoven nor Wagner suffered such tortures. What would Wagner have done on a like occasion? He would have written the symphony without doubt—and he would have been right.”
“He knew that Mendelssohn, whom he loved and esteemed, and who styled himself his ‘good friend’, despised him and did not recognise his genius. The large-hearted Schumann, who was, with the exception of Liszt, the only person who intuitively felt his greatness, admitted that he used sometimes to wonder if he ought to be looked upon as ‘a genius or a musical adventurer.’
Wagner, who treated his symphonies with scorn before he had even read them, who certainly understood his genius, and who deliberately ignored him, threw himself into Berlioz’s arms when he met him in London in 1855. ‘He embraced him with fervour, and wept; and hardly had he left him when The Musical World published passages from his book, Oper und Drama, where he pulls Berlioz to pieces mercilessly.’”
“He presented himself three times at the Academy, and was beaten the first time by Onslow, the second time by Clapisson, and the third time he conquered by a majority of one vote against Panseron, Vogel, Leborne, and others, including, as always, Gounod. (…) He died before he had seenLes Troyens played in its entirety, though it was one of the noblest works of the French lyric theatre that had been composed since the death of Gluck.”
“I have no faith…. I hate all philosophy and everything that resembles it, whether religious or otherwise…. I am as incapable of making a medicine of faith as of having faith in medicine.”
“Everything passes. Space and time consume beauty, youth, love, glory, genius. Human life is nothing; death is no better. Worlds are born and die like ourselves. All is nothing. Yes, yes, yes! All is nothing…. To love or hate, enjoy or suffer, admire or sneer, live or die—what does it matter? There is nothing in greatness or littleness, beauty or ugliness. Eternity is indifferent; indifference is eternal.”
“You make me laugh with your old words about a mission to fulfil. What a missionary! But there is in me an inexplicable mechanism which works in spite of all arguments; and I let it work because I cannot stop it. What disgusts me most is the certainty that beauty does not exist for the majority of these human monkeys.”
“The unsolvable enigma of the world, the existence of evil and pain, the fierce madness of mankind, and the stupid cruelty that it inflicts hourly and everywhere on the most inoffensive beings and on itself—all this has reduced me to the state of unhappy and forlorn resignation of a scorpion surrounded by live coals. The most I can do is not to wound myself with my own dart.”
“Do you remember Herod’s sleepless nights in L’Enfance du Christ, or Faust’s soliloquy, or the anguish of Cassandra, or the burial of Juliette?—through all this you will find the whispered fear of annihilation. The wretched man was haunted by this fear”
“My favourite walk, especially when it is raining, really raining in torrents, is the cemetery of Montmartre, which is near my house. I often go there; there is much that draws me to it. The day before yesterday I passed two hours in the cemetery; I found a comfortable seat on a costly tomb, and I went to sleep…. Paris is to me a cemetery and her pavements are tomb-stones. Everywhere are memories of friends or enemies that are dead…. I do nothing but suffer unceasing pain and unspeakable weariness. I wonder night and day if I shall die in great pain or with little of it—I am not foolish enough to hope to die without any pain at all. Why are we not dead?”
“His music is like these mournful words; it is perhaps even more terrible, more gloomy, for it breathes death.”
“I should die in this hell of a Paris if she did not allow me to write to her, and if from time to time I had not letters from her.”
“When one’s hair is white one must leave dreams—even those of friendship…. Of what use is it to form ties which, though they hold to-day, may break to-morrow?” Stelle
“It is a striking example of the difference that may exist between genius and greatness—for the two words are not synonymous. When one speaks of greatness, one speaks of greatness of soul, nobility of character, firmness of will, and, above all, balance of mind. I can understand how people deny the existence of these qualities in Berlioz; but to deny his musical genius, or to cavil about his wonderful power—and that is what they do daily in Paris—is lamentable and ridiculous.”
“When I have named Beethoven, Mozart, Bach, Händel, and Wagner, I do not know who else is superior to Berlioz; I do not even know who is his equal.”
“Those who know his writings know how he was simply possessed and exhausted by his musical emotions. They were really fits of ecstasy or convulsions. At first ‘there was feverish excitement; the veins beat violently and tears flowed freely. Then came spasmodic contractions of the muscles, total numbness of the feet and hands, and partial paralysis of the nerves of sight and hearing; he saw nothing, heard nothing; he was giddy and half faint.’ And in the case of music that displeased him, he suffered, on the contrary, from ‘a painful sense of bodily disquiet and even from nausea.’”
“His family opposed the idea of his becoming a musician; and until he was 22 or 23 years old his weak will sulkily gave way to their wishes. In obedience to his father he began his studies in medicine at Paris. One evening he heard Les Danaïdes of Salieri. It came upon him like a thunderclap. He ran to the Conservatoire library and read Gluck’s scores.”
“And that revolution was effected alone, without a model, without a guide. What could he have heard beyond the operas of Gluck and Spontini while he was at the Conservatoire? (…) of Beethoven’s compositions he had only heard an andante.
Truly, he is a miracle and the most startling phenomenon in the history of 19th century music. (…) Who does not see what a poor figure the young Wagner cut at that time, working away in laborious and self-satisfied mediocrity? But Wagner soon made up for lost ground; for he knew what he wanted, and he wanted it obstinately.
The zenith of Berlioz’s genius was reached, when he was 35 years old, with the Requiem and Roméo. They are his two most important works, and are two works about which one may feel very differently. For my part, I am very fond of the one, and I dislike the other; but both of them open up two great new roads in art, and both are placed like two gigantic arches on the triumphal way of the revolution that Berlioz started.”
“Life had conquered him. It was not that he had lost any of his artistic mastery; on the contrary, his compositions became more and more finished; and nothing in his earlier work attained the pure beauty of some of the pages of L’Enfance du Christ (1850-4), or of Les Troyens (1855-63). But he was losing his power; and his intense feeling, his revolutionary ideas, and his inspiration (which in his youth had taken the place of the confidence he lacked) were failing him.”
“He groped his way hesitatingly and unsteadily; he hardly understood what he was doing. He admired the more mediocre pages of his work: the scene of the Laocoon, the finale of the last act of the Les Troyens à Troie, the last scene with Aeneas in Les Troyens à Carthage.”
“At the same hour of his old age the soul of Wagner sustained its glorious flight; and, having conquered everything, it achieved a supreme victory in renouncing everything for its faith. And the divine songs of Parsifal resounded as in a splendid temple, and replied to the cries of the suffering Amfortas by the blessed words: ‘Selig in Glauben! Selig in Liebe!’” Nietzsche diz que abandonou Wagner, mas a verdade é que Wagner também executou sua viragem…
“His instrumental colouring, so intoxicating and exciting, his extraordinary discoveries concerning timbre, his inventions of new nuances (as in the famous combining of flutes and trombones in the Hostias et preces of the Requiem, and the curious use of the harmonics of violins and harps), and his huge and nebulous orchestra—all this lends itself to the most subtle expression of thought.”
“But how much less rich and complex is Weber’s music, in spite of its nervous brilliance and dreaming poetry.”
“By carefully comparing the effect produced with the means used to produce it, I learned the hidden bond which unites musical expression to the special art of instrumentation; but no one put me in the way of this. The study of the methods of the three modern masters, Beethoven, Weber, and Spontini, the impartial examination of the traditions of instrumentation and of little-used forms and combinations, conversations with virtuosi, and the effects I made them try on their different instruments, together with a little instinct, did the rest for me.”
“No musician, with the exception of Beethoven, has loved Nature so profoundly.”
“In Les Troyens à Carthage, the fragrance of the Aeneid is shed over the night of love, and we see the luminous sky and hear the murmur of the sea. Some of his melodies are like statues, or the pure lines of Athenian friezes, or the noble gesture of beautiful Italian girls, or the undulating profile of the Albanian hills filled with divine laughter. He has done more than felt and translated into music the beauty of the Mediterranean—he has created beings worthy of a Greek tragedy. His Cassandre alone would suffice to rank him among the greatest tragic poets that music has ever known. And Cassandre is a worthy sister of Wagner’s Brünnhilde; but she has the advantage of coming of a nobler race, and of having a lofty restraint of spirit and action that Sophocles himself would have loved.”
“It is quite easy for others to convince themselves that, without even limiting me to take a very short melody as the theme of a composition—as the greatest musicians have often done—I have always endeavoured to put a wealth of melody into my compositions. One may, of course, dispute the worth of these melodies, their distinction, originality, or charm—it is not for me to judge them—but to deny their existence is either unfair or foolish.”
“And Heinrich Heine had a keen perception of Berlioz’s originality when he called him ‘a colossal nightingale, a lark the size of an eagle.’”
“We are all enslaved by the musical tradition of the past. For generations we have been so accustomed to carry this yoke that we scarcely notice it. And in consequence of Germany’s monopoly of music since the end of the eighteenth century, musical traditions—which had been chiefly Italian in the two preceding centuries—now became almost entirely German. We think in German forms: the plan of phrases, their development, their balance, and all the rhetoric of music and the grammar of composition comes to us from foreign thought, slowly elaborated by German masters. That domination has never been more complete or more heavy since Wagner’s victory. Then reigned over the world this great German period—a scaly monster with a thousand arms, whose grasp was so extensive that it included pages, scenes, acts, and whole dramas in its embrace. We cannot say that French writers have ever tried to write in the style of Goethe or Schiller; but French composers have tried and are still trying to write music after the manner of German musicians.
Why be astonished at it? Let us face the matter plainly. In music we have not, so to speak, any masters of French style. All our greatest composers are foreigners. The founder of the first school of French opera, Lulli, was Florentine; the founder of the second school, Gluck, was German; the two founders of the third school were Rossini, an Italian, and Meyerbeer, a German; the creators of opéra-comique were Duni, an Italian, and Gretry, a Belgian; Franck, who revolutionised our modern school of opera, was also Belgian. These men brought with them a style peculiar to their race; or else they tried to found, as Gluck did, an ‘international’ style, by which they effaced the more individual characteristics of the French spirit. The most French of all these styles is the opéra-comique, the work of two foreigners, but owing much more to the opéra bouffe than is generally admitted, and, in any case, representing France very insufficiently.”
“Before Berlioz’s time there was really only one master of the first rank who made a great effort to liberate French music: it was Rameau; and, despite his genius, he was conquered by Italian art.”
“As most men speak more than they think, even thought itself became Germanised; and it was difficult then to discover, through this traditional insincerity, the true and spontaneous form of French musical thought.”
“He did not know Bach. Happy ignorance! (…) There are men like Brahms who have been, nearly all their life, but reflections of the past. Berlioz never sought to be anything but himself.”
“Modern music is like the classic Andromeda, naked and divinely beautiful. She is chained to a rock on the shores of a vast sea, and awaits the victorious Perseus who shall loose her bonds and break in pieces the chimera called Routine.”Me pergunto o que os compositores clássicos achariam da música moderna – seja a erudita ou a popular.
“Berlioz protested vigorously against Gluck’s impious theory and Wagner’s ‘crime’ in making music the slave of speech. Music is the highest poetry and knows no master. It was for Berlioz, therefore, continually to increase the power of expression in pure music.”
“The first argument, maintained by Wagner, is that music cannot really express action without the help of speech and gesture. It is in the name of this opinion that so many people condemn a priori Berlioz’s Roméo.”
“if only they would see the anomalies of the Bayreuth show.”
“When music wishes to depict the drama, it is not real action which is reflected in it, it is the ideal action transfigured by the spirit, and perceptible only to the inner vision. The worst foolishness is to present two visions—one for the eyes and one for the spirit. Nearly always they kill each other.” O que teriam achado do videoclipe?
“Beethoven was always trying to translate into music the depths of his heart, the subtleties of his spirit, which are not to be explained clearly by words, but which are as definite as words—in fact, more definite; for a word, being an abstract thing, sums up many experiences and comprehends many different meanings. Music is a hundred times more expressive and exact than speech; and it is not only her right to express particular emotions and subjects, it is her duty. If that duty is not fulfilled, the result is not music—it is nothing at all.”
“Do not let us say: Music can…. Music cannot express such-and-such a thing. Let us say rather, If genius pleases, everything is possible; and if music so wishes, she may be painting and poetry to-morrow.”
“On his journey to Italy he travelled from Marseilles to Livourne with Mazzinian conspirators, who were going to take part in the insurrection of Modena and Bologna. Whether he was conscious of it or not, he was the musician of revolutions”
“The Marche de Rakoczy is less an Hungarian march than the music for a revolutionary fight”
“How do such works come to be neglected by our Republic? How is it they have not a place in our public life? Why are they not part of our great ceremonies? That is what one would wonderingly ask oneself if one had not seen, for the last century, the indifference of the State to Art. What might not Berlioz have done if the means had been given him, or if his works had found a place in the fêtes of the Revolution?”
“Will that revolution still be accomplished? Perhaps; but it has suffered half a century’s delay. Berlioz bitterly calculated that people would begin to understand him about the year 1940.”
WAGNER: “SIEGFRIED”
“It was almost impossible to seize the connection of the ideas on account of the poor acoustics of the room, the bad arrangement of the orchestra, and the unskilled players—all of which served to break up the musical design and spoil the harmony of its colouring. Passages that should have been made prominent were slurred over, and others were distorted by faulty time or want of precision. Even to-day, when our orchestras are seasoned by years of study, I should often be unable to follow Wagner’s thought throughout a whole scene if I did not happen to know the score, for the outline of a melody is often smothered by the accompaniment, and so its sentiment is lost.”
“That epic poem of the Niebelungen was once like a forest in our dreams, where strange and awful beings flashed before our vision and then vanished. Later on, when we had explored all its paths, we discovered that order and reason reigned in the midst of this apparent jungle; and when we came to know the least wrinkle on the faces of its inhabitants, the confusion and emotion of other days no longer filled us.”
“I sometimes think of poor Nietzsche and his passion for destroying the things he loved, and how he sought in others the decadence that was really in himself. He tried to embody this decadence in Wagner, and, led away by his flights of fancy and his mania for paradox (which would be laughable if one did not remember that his whims were not hatched in hours of happiness), he denied Wagner his most obvious qualities—his vigour, his determination, his unity, his logic, and his power of progress. He amused himself by comparing Wagner’s style with that of Goncourt, by making him—with amusing irony—a great miniaturist painter, a poet of half-tones, a musician of affectations and melancholy, so delicate and effeminate in style that ‘after him all other musicians seemed too robust.’” “The amusing part is that this piece of wit has been taken seriously by certain arbiters of elegance, who are only too happy to be able to run counter to any current opinion, whatever it may be.”
“And it is true he has been applauded, patronised, and monopolised for a quarter of a century by all the decadents of art and literature. Scarcely anyone has seen in him a vigorous musician and a classic writer, or has recognised him as Beethoven’s direct successor, the inheritor of his heroic and pastoral genius, of his epic inspirations and battlefield rhythms, of his Napoleonic phrases and atmosphere of stirring trumpet-calls.”
“Beethoven would perhaps have disliked Tristan, but would have loved Siegfried”
“A man of action is rarely pleased with stimulating works of art. Borgia and Sforza patronised Leonardo. The strong, full-blooded men of the seventeenth century; the apoplectic court at Versailles (where Fagon’s lancet played so necessary a part); the generals and ministers who harassed the Protestants and burned the Palatinate—all these loved pastorales. Napoleon wept at a reading of Paul et Virginie [Bernardin de Saint-Pierre], and delighted in the pallid music of Paesiello. A man wearied by an over-active life seeks repose in art; a man who lives a narrow, commonplace life seeks energy in art. A great artist writes a gay work when he is sad, and a sad work when he is gay, almost in spite of himself.”
“On 14 June, 1848, in a famous speech to the National Democratic Association, Wagner violently attacked the organisation of society itself, and demanded both the abolition of money and the extinction of what was left of the aristocracy.”
“Herr Chamberlain himself quotes the account of a witness who saw him, in May, 1849, distributing revolutionary pamphlets to the troops who were besieging Dresden. It was a miracle that he was not arrested and shot.”
“Errors and enthusiasms are an integral part of life, and one must not ignore them in a man’s biography under the pretext that he regretted them 20 or 30 years later, for they have, nevertheless, helped to guide his actions and impressed his imagination.”
“In 1848, Wagner was not yet thinking of a Tetralogy, but of an heroic opera in three acts called Siegfried’s Tod, in which the fatal power of gold was to be symbolised in the treasure of the Niebelungen; and Siegfried was to represent ‘a socialist redeemer come down to earth to abolish the reign of Capital.’ As the rough draft developed, Wagner went up the stream of his hero’s life. He dreamed of his childhood, of his conquest of the treasure, of the awakening of Brünnhilde; and in 1851 he wrote the poem of Der Junge Siegfried. Siegfried and Brünnhilde represent the humanity of the future, the new era that should be realised when the earth was set free from the yoke of gold. Then Wagner went farther back still, to the sources of the legend itself, and Wotan appeared, the symbol of our time, a man such as you or I—in contrast to Siegfried, man as he ought to be, and one day will be.”
“Finally Wagner conceived the Twilight of the Gods, the fall of the Valhalla—our present system of society—and the birth of a regenerated humanity.”
“My health is not good, and my nerves are in a state of increasing weakness. My life, lived entirely in the imagination and without sufficient action, tires me so, that I can only work with frequent breaks and long intervals of rest; otherwise I pay the penalty with long and painful suffering…. I am very lonely. I often wish for death. § While I work I forget my troubles; but the moment I rest they come flocking about me, and I am very miserable. What a splendid life is an artist’s!”
“Then he discovered Schopenhauer, whose philosophy only helped to confirm and crystallise his instinctive pessimism. In the spring of 1855 he went to London to give concerts; but he was ill there, and this fresh contact with the world only served to annoy him further.”
“Siegfried was not finished until 5 February, 1871, at the end of the Franco-Prussian war—that is fourteen years later, after several interruptions.”
“Do you know the amusing account Tolstoy gave of a performance of Siegfried? I will quote it from his book, What is Art?—
‘When I arrived, an actor in tight-fitting breeches was seated before an object that was meant to represent an anvil. He wore a wig and false beard; his white and manicured hands had nothing of the workman about them; and his easy air, prominent belly, and flabby muscles readily betrayed the actor. With an absurd hammer he struck—as no one else would ever strike—a fantastic-looking sword-blade. One guessed he was a dwarf, because when he walked he bent his legs at the knees. He cried out a great deal, and opened his mouth in a queer fashion. The orchestra also emitted peculiar noises like several beginnings that had nothing to do with one another. Then another actor appeared with a horn in his belt, leading a man dressed up as a bear, who walked on all-fours. He let loose the bear on the dwarf, who ran away, but forgot to bend his knees this time. The actor with the human face represented the hero, Siegfried. He cried out for a long time, and the dwarf replied in the same way. Then a traveller arrived—the god Wotan. He had a wig, too; and, settling himself down with his spear, in a silly attitude, he told Mimi all about things he already knew, but of which the audience was ignorant. Then Siegfried seized some bits that were supposed to represent pieces of a sword, and sang:
<Heaho, heaho, hoho! Hoho, hoho, hoho, hoho! Hoheo, haho, haheo, hoho!> And that was the end of the first act. It was all so artificial and stupid that I had great difficulty in sitting it out. But my friends begged me to stay, and assured me that the second act would be better.’”
“The dragon was represented by two men clothed in a green skin with some scales stuck about it. At one end of the skin they wagged a tail, and at the other end they opened a crocodile’s mouth, out of which came fire. The dragon, which ought to have been a frightful beast—and perhaps he would have frightened children about five years old—said a few words in a bass voice.”
“I was annoyed to see 3,000 people round about me, listening submissively to this absurdity and dutifully admiring it.”
“If Nietzsche had to go out of his way not to understand Wagner, it is natural, on the other hand, that Wagner should be a closed book to Tolstoy; it would be almost surprising if it were otherwise. Each one has his own part to play, and has no need to change it.”
“I will only add that the dragon’s failure to be terrifying was not Wagner’s fault, for he never attempted to depict a terrifying dragon. He gave it quite clearly, and of his own choice, a comic character. Both the text and the music make Fafner a sort of ogre, a simple creature, but, above all, a grotesque one.”
“I know that this is not the opinion of most of Wagner’s admirers; but, with the exception of a few pages of sublime beauty, I have never altogether liked the love scenes at the end of Siegfried and at the beginning of Götterdämmerung. I find their style rather pompous and declamatory; and their almost excessive refinement makes them border upon dulness.”
WAGNER: “TRISTAN”
“I know quite well the kind of musical trash I produce…. Believe me, it is no good expecting me to do anything decent.”
CAMILLE SAINT-SAËNS
“No artist has troubled so little about the public, or been more indifferent to criticism whether popular or expert.”
“the child does not breathe music as, in a way, he breathes the atmosphere of literature and oratory; and although nearly everyone in France has an instinctive feeling for beautiful writing, only a very few people care for beautiful music”
“As he grew older he soaked himself in the music of Bach and Händel, and was able to compose at will after the manner of Rossini, Verdi, Schumann, and Wagner. He has written excellent music in all styles—the Grecian style, and that of the sixteenth, seventeenth, and eighteenth centuries. His compositions are of every kind: masses, grand operas, light operas, cantatas, symphonies, symphonic poems; music for the orchestra, the organ, the piano, the voice, and chamber music. He is the learned editor of Gluck and Rameau; and is thus not only an artist, but an artist who can talk about his art.”
“Pedantry is the plague of German art, and the greatest men have not escaped it. I am not speaking of Brahms, who was ravaged with it, but of delightful geniuses like Schumann, or of powerful ones like Bach.”
“The performance of works by Bach and Händel to-day is an idle amusement, … [and those who wish to revive their art are like] people who would live in an old mansion that has been uninhabited for centuries.”
“His mind is so comprehensive that he has written books on philosophy, on the theatre, on classical painting, as well as scientific essays, volumes of verse, and even plays.” Quem de tudo sabe, nada sabe.
“It is his eager, restless spirit that makes him rush about the world writing Breton and Auvergnian rhapsodies, Persian songs, Algerian suites, Portuguese barcarolles, Danish, Russian, or Arabian caprices, souvenirs of Italy, African fantasias, and Egyptian concertos; and, in the same way, he roams through the ages, writing Greek tragedies, dance music of the sixteenth and seventeenth centuries, and preludes and fugues of the eighteenth.”
“From a purely musical point of view there is some resemblance between M. Saint-Saëns and Mendelssohn. In both of them we find the same intellectual restraint, the same balance preserved among the heterogeneous elements of their work. These elements are not common to both of them, because the time, the country, and the surroundings in which they lived are not the same; and there is also a great difference in their characters. Mendelssohn is more ingenuous and religious; M. Saint-Saëns is more of a dilettante and more sensuous. They are not so much kindred spirits by their science as good company by a common purity of taste, a sense of rhythm, and a genius for method, which gave all they wrote a neo-classic character.”
“his masterpiece, the Symphonie avec orgue”
“Beside the frenzied outpourings of Richard Strauss, who flounders uncertainly between mud and debris and genius, the Latin art of Saint-Saëns rises up calm and ironical.”
VINCENT D’INDY
“He has published selections of folk-songs with critical notes, essays on Beethoven’s predecessors, a history of Musical Composition, and debates and lectures. This fine intellectual culture is not, however, the most remarkable of M. d’Indy’s characteristics, though it may have been the most remarked. Other musicians share this culture with him; and his real distinction lies in his moral and almost religious qualities, and it is this side of him that gives him an unusual interest for us among other contemporary artists.”
D’Indy, Schola Cantorum“This book seems to be of the Middle Ages by reason of a sort of scholastic spirit of abstraction and classification.”
CATOLICUZÃO: “Händel’s oratorios are spoken of as ‘chilling, and, frankly speaking, tedious.’ Bach himself escapes with this qualification: ‘If he is great, it is not because of, but in spite of the dogmatic and parching spirit of the Reformation.’”
“His [Franck, mestre de D’Indy] religious faith did not disturb his mind, for he did not measure men and their works by its rules; and he would have been incapable of putting together a history of art according to the Bible. This great Catholic had at times a very pagan soul; and he could enjoy without a qualm the musical dilettantism of Renan and the sonorous nihilism of Leconte de Lisle. There were no limits to his vast sympathies. He did not attempt to criticise the thing he loved—understanding was already in his heart.”
“Nothing helps one to grasp the essence of M. d’Indy’s personality more than his last dramatic work. His personality shows itself plainly in all his compositions, but nowhere is it more evident than in L’Étranger.”
“A man has not always the same kind of talent in other arts that he has in the art which he has made his own—I am speaking not only of his technical skill, but of his temperament as well. Delacroix was of the Romantic school in painting, but in literature his style was Classic. We have all known artists who were revolutionaries in their own sphere, but conservative and behind the times in their opinions about other branches of art.”
“He readily shares Tolstoy’s scorn, which he sometimes quotes, of the foolishness of art for art’s sake.”
RICHARD STRAUSS
“I should like to try to sketch here the strange and arresting personality of the man who in Germany is considered the inheritor of Wagner’s genius—the man who has had the audacity to write, after Beethoven, an Heroic Symphony, and to imagine himself the hero. § Richard Strauss is 34 years old.”
“I had been brought up on strictly classical lines; I had lived entirely on Haydn, Mozart, and Beethoven, and had just been studying Mendelssohn, Chopin, Schumann, and Brahms. It is to Ritter alone I am indebted for my knowledge of Liszt and Wagner; it was he who showed me the importance of the writings and works of these two masters in the history of art. It was he who by years of lessons and kindly counsel made me a musician of the future (Zukunftsmusiker), and set my feet on a road where now I can walk unaided and alone. It was he also who initiated me in Schopenhauer’s philosophy.”
“The second influence, that of the South, dates from April, 1886, and seems to have left an indelible impression upon Strauss. He visited Rome and Naples for the first time, and came back with a symphonic fantasia called Aus Italien. In the spring of 1892, after a sharp attack of pneumonia, he travelled for a year and a half in Greece, Egypt, and Sicily. The tranquillity of these favoured countries filled him with never-ending regret. The North has depressed him since then, ‘the eternal grey of the North and its phantom shadows without a sun.’ When I saw him at Charlottenburg, one chilly April day, he told me with a sigh that he could compose nothing in winter, and that he longed for the warmth and light of Italy. His music is infected by that longing; and it makes one feel how his spirit suffers in the gloom of Germany, and ever yearns for the colours, the laughter, and the joy of the South.”
“When one talks of heroes one is thinking of drama. Dramatic art is everywhere in Strauss’s music, even in works that seem least adapted to it, such as his Lieder and compositions of pure music. It is most evident in his symphonic poems, which are the most important part of his work. These poems are: Wanderers Sturmlied (1885),Aus Italien (1886), Macbeth (1887), Don Juan (1888), Tod und Verklärung (1889), Guntram (1892-93), Till Eulenspiegel (1894), Also sprach Zarathustra (1895), Don Quixote (1897), and Heldenleben (1898).”
“Tod und Verklärung (‘Death and Transfiguration,’ op. 24) marks considerable progress in Strauss’s thought and style. It is still one of the most stirring of Strauss’s works, and the one that is conceived with the most perfect unity. It was inspired by a poem of Alexander Ritter’s, and I will give you an idea of its subject.”
“The realism of the subject in the hallucinations of the dying man, the shiverings of fever, the throbbing of the veins, and the despairing agony, is transfigured by the purity of the form in which it is cast. It is realism after the manner of the symphony in C minor, where Beethoven argues with Destiny.”
“It is true it is the summit of one period of his life, containing the essence of all that is best in it; but Heldenleben marks the second period, and is its corner-stone. How the force and fulness of his feeling has grown since that first period! But he has never re-found the delicate and melodious purity of soul and youthful grace of his earlier work”
“Guntram was the cause of bitter disappointment to its author. He did not succeed in getting it produced at Munich, for the orchestra and singers declared that the music could not be performed. It is even said that they got an eminent critic to draw up a formal document, which they sent to Strauss, certifying that Guntram was not meant to be sung. The chief difficulty was the length of the principal part, which took up by itself, in its musings and discourses, the equivalent of an act and a half. Some of its monologues, like the song in the second act, last half an hour on end. Nevertheless, Guntram was performed at Weimar on 16 May, 1894. A little while afterwards Strauss married the singer who played Freihild, Pauline de Ahna, who had also created Elizabeth in Tannhäuser at Bayreuth, and who has since devoted herself to the interpretation of her husband’s Lieder.”
“Strauss protests his own liberty in the face of Nietzsche’s. He wishes to represent the different stages of development that a free spirit passes through in order to arrive at that of Super-man. These ideas are purely personal, and are not part of some system of philosophy.” “And the dance dies away and is lost in ethereal regions, and Zarathustra is lost to sight while dancing in distant worlds. But if he has solved the riddle of the universe for himself, he has not solved it for other men; and so, in contrast to the confident knowledge which fills the music, we get the sad note of interrogation at the end.” Não é uma música para tocar numa Odisséia…
“As for the boldness of his conceptions, I need hardly remind those who heard the poem at the Cirque d’été of the intricate ‘Fugue of Knowledge,’ the trills of the wood wind and the trumpets that voice Zarathustra’s laugh, the dance of the universe, and the audacity of the conclusion which, in the key of B major, finishes up with a note of interrogation, in C natural, repeated three times.”
“Don Quixote of 1897, fantastische Variationen uber ein Thema ritterlichen Charakters (‘Don Quixote, fantastic variations on a theme of knightly character’), op. 35; and that symphony marks, I think, the extreme point to which programme music may be carried. In no other work does Strauss give better proof of his prodigious cleverness, intelligence, and wit; and I say sincerely that there is not a work where so much force is expended with so great a loss for the sake of a game and a musical joke which lasts 45 minutes, and has given the author, the executants, and the public a good deal of tiring work. These symphonic poems are most difficult to play on account of the complexity, the independence, and the fantastic caprices of the different parts.”
“—the most splendid battle that has ever been painted in music. At its first performance in Germany I saw people tremble as they listened to it, and some rose up suddenly and made violent gestures quite unconsciously.”
“His orchestra is not less composite. It is not a compact and serried mass like Wagner’s Macedonian phalanxes; it is parcelled out and as divided as possible. Each part aims at independence and works as it thinks best, without apparently troubling about the other parts. Sometimes it seems, as it did when reading Berlioz, that the execution must result in incoherence, and weaken the effect. But somehow the result is very satisfying.”
“Strauss’s art, one of the most literary and descriptive in existence, is strongly distinguished from others of the same kind by the solidarity of its musical fabric, in which one feels the true musician—a musician brought up on the great masters, and a classic in spite of everything.”
“His restlessness seems to come from Schumann, his religious feeling from Mendelssohn, his voluptuousness from Gounod or the Italian masters, his passion from Wagner.”
“There are germs of morbidity in Germany to-day, a frenzy of pride, a belief in self, and a scorn for others that recalls France in the seventeenth century.”
“All genius is raving mad if it comes to that; but Beethoven’s madness concentrated itself in himself, and imagined things for his own enjoyment. The genius of many contemporary German artists is an aggressive thing, and is characterised by its destructive antagonism. The idealist who ‘possesses the world’ is liable to dizziness. He was made to rule over an interior world. The splendour of the exterior images that he is called upon to govern dazzles him; and, like Caesar, he goes astray.”
“What is all this fury leading to? What does this heroism aspire to? This force of will, bitter and strained, grows faint when it has reached its goal, or even before that. It does not know what to do with its victory. It disdains it, does not believe in it, or grows tired of it.”
“And this is how the work of Richard Strauss appears to me up to the present. Guntram kills Duke Robert, and immediately lets fall his sword. The frenzied laugh of Zarathustra ends in an avowal of discouraged impotence. The delirious passion of Don Juan dies away in nothingness. Don Quixote when dying forswears his illusions. Even the Hero himself admits the futility of his work, and seeks oblivion in an indifferent Nature. Nietzsche, speaking of the artists of our time, laughs at ‘those Tantaluses of the will, rebels and enemies of laws, who come, broken in spirit, and fall at the foot of the cross of Christ.’”
“It was not thus that Beethoven overcame his sorrows. Sad adagios make their lament in the middle of his symphonies, but a note of joy and triumph is always sounded at the end. His work is the triumph of a conquered hero; that of Strauss is the defeat of a conquering hero. This irresoluteness of the will can be still more clearly seen in contemporary German literature, and in particular in the author of Die versunkene Glocke [Gerhart Hauptman].”
“In this lies the undying worm of German thought—I am speaking of the thought of the choice few who enlighten the present and anticipate the future. I see an heroic people, intoxicated by its triumphs, by its great riches, by its numbers, by its force, which clasps the world in its great arms and subjugates it, and then stops, fatigued by its conquest, and asks: ‘Why have I conquered?’” Por que eu produzi duas guerras mundiais? E atira na própria cabeça.
HUGO WOLF
“The more one learns of the history of great artists, the more one is struck by the immense amount of sadness their lives enclose. Not only are they subjected to the trials and disappointments of ordinary life—which affect them more cruelly through their greater sensitiveness—but their surroundings are like a desert, because they are twenty, thirty, fifty, or even hundreds of years in advance of their contemporaries; and they are often condemned to despairing efforts, not to conquer the world, but to live.”
“But what shall be said of those who die little by little, who outlive themselves, and watch the slow decay of their souls? § Such was the fate of Hugo Wolf, whose tragic destiny has assured him a place apart in the hell of great musicians.”
“in Styria they were fond of playing the old Italian operas of Rossini, Bellini, and Donizetti. Later on, Wolf used to like to think that he had a few drops of Latin blood in his veins; and all his life he had a predilection for the great French musicians.”
“His father naturally did not want him to take up music as a profession; and he had the same struggles that Berlioz had. Finally he succeeded in getting permission from his family to go to Vienna, and he entered the Conservatoire there in 1875. But he was not any the happier for it, and at the end of two years he was sent away for being unruly.”
“It was necessary that this boy of 17 should find some means of earning a livelihood and be able to instruct himself at the same time. After his expulsion from the Conservatoire he attended no other school; he taught himself. And he taught himself wonderfully; but at what a cost! The suffering he went through from that time until he was 30, the enormous amount of energy he had to expend in order to live and cultivate the fine spirit of poetry that was within him—all this effort and toil was, without doubt, the cause of his unhappy death.”
“He had a great admiration for Goethe, and was infatuated by Heinrich von Kleist, whom he rather resembles both in his gifts and in his life; he was an enthusiast about Grillparzer and Hebbelat a time when they were but little appreciated; and he was one of the first Germans to discover the worth of Mörike, whom, later on, he made popular in Germany.”
“like Berlioz, he got most of his education from the libraries, and spent months in reading the scores of the great masters.”
“But of all these influences, the strongest was that of Wagner. Wagner came to Vienna in 1875 to conduct Tannhäuser and Lohengrin. There was then among the younger people a fever of enthusiasm similar to that which Werther had caused a century before.”
“He taught music to little children of seven and eight years old; but he was a poor teacher, and found giving lessons was a martyrdom. The money he earned hardly served to feed him, and he only ate once a day—Heaven knows how.”
“In 1884 he succeeded in getting a post as musical critic. But on what a paper! It was the Salonblatt—a mundane journal filled with articles on sport and fashion news. One would have said that this little barbarian was put there for a wager.”
“It was not that he disliked or had any prejudice against Brahms; he took a delight in some of his works, especially his chamber music, but he found fault with his symphonies and was shocked by the carelessness of the declamation in his Lieder and, in general, could not bear his want of originality and power, and found him lacking in joy and fulness of life.”Brahms era o Bukowski dos compositores clássicos—Muito abaixo de todos os outros?
“For all that was retrograde in music in Vienna, and all that was the enemy of liberty and progress in art and criticism, was giving Brahms its detestable support by gathering itself about him and spreading his fame abroad”
“An orchestral society in Vienna gave Wolf’s Penthesilea a trial reading; and it was rehearsed, in disregard of all good taste, amid shouts of laughter. When it was finished, the conductor said: ‘Gentlemen, I ask your pardon for having allowed this piece to be played to the end; but I wanted to know what manner of man it is that dares to write such things about the master, Brahms.’”
“He was now 27 years old, and had as yet published nothing. The years of 1887 and 1888 were the most critical ones of his life. In 1887 he lost his father whom he loved so much, and that loss, like so many of his other misfortunes, gave fresh impulse to his energies. The same year, a generous friend called Eckstein published his first collection of Lieder. Wolf up to that time had been smothered, but this publication stirred the life in him, and was the means of unloosing his genius.”
“It is now seven o’clock in the evening, and I am so happy—oh, happier than the happiest of kings. Another new Lied! If you could hear what is going on in my heart!… the devil would carry you away with pleasure!…
Another two new Lieder! There is one that sounds so horribly strange that it frightens me. There is nothing like it in existence. Heaven help the unfortunate people who will one day hear it!…
If you could only hear the last Lied I have just composed you would only have one desire left—to die…. Your happy, happy Wolf.”
“What I write now, I write for the future…. Since Schubert and Schumann there has been nothing like it!”
“The history of Wolf is one of the most extraordinary in the history of art, and gives one a better glimpse of the mysteries of genius than most histories do.
Let us make a little résumé. Wolf at 28 had written practically nothing. From 1888 to 1890 he wrote, one after another, in a kind of fever, 53 Mörike Lieder, 51 Goethe Lieder, 44 Spanish Lieder, 17 Eichendorff Lieder, 12 Keller Lieder, and the first Italian Lieder—that is about 200 Lieder, each one having its own admirable individuality.
And then the music stops. The spring has dried up. Wolf in great anguish wrote despairing letters to his friends.”
“For the last four months I have been suffering from a sort of mental consumption, which makes me very seriously think of quitting this world for ever…. Only those who truly live should live at all. I have been for some time like one who is dead. I only wish it were an apparent death; but I am really dead and buried; though the power to control my body gives me a seeming life. It is my inmost, my only desire, that the flesh may quickly follow the spirit that has already passed. (…) All the comforts that a man could wish for are here to make my life happy—peace, solitude, beautiful scenery, invigorating air, and everything that could suit the tastes of a hermit like myself. And yet—and yet, my friend, I am the most miserable creature on earth. Everything around me breathes peace and happiness, everything throbs with life and fulfils its functions…. I alone, oh God!… I alone live like a beast that is deaf and senseless. Even reading hardly serves to distract me now, though I bury myself in books in my despair. As for composition, that is finished; I can no longer bring to mind the meaning of a harmony or a melody, and I almost begin to doubt if the compositions that bear my name are really mine. Good God! what is the use of all this fame?”
“Heaven gives a man complete genius or no genius at all. Hell has given me everything by halves.”
“One may imagine the tortures that this solitary man suffered. His only happiness was in creation, and he saw his life cease, without any apparent cause, for years together, and his genius come and go, and return for an instant, and then go again. Each time he must have anxiously wondered if it had gone forever, or how long it would be before it came back again.”
“I firmly believe that it is all over with me…. I could as well speak Chinese as compose anything. It is horrible…. What I suffer from this inaction I cannot tell you. I should like to hang myself.”
“This letter—and it is not the only one—recalls the melancholy stoicism of Beethoven’s letters, and shows us sorrows that even the unhappy Beethoven did not know. And yet how can we tell? Perhaps Beethoven, too, suffered similar anguish in the sad days that followed 1815, before the last sonatas, the Missa Solemnis, and the Ninth Symphony had awaked to life in him.”
“In a fortnight he had written 50 pages of the pianoforte score, as well as the motifs for the whole work, and the music of half the first act.
Then madness came. On 20 September he was seized while he was working at the great recitative of Manuel Venegas in the first act.”
“When Schott, the publisher, sent him in October, 1895, his royalties for the editions of his Lieder of Mörike, Goethe, Eichendorff, Keller, Spanish poetry, and the first volume of Italian poetry, their total for 5 years came to 86 marks and 35 pfennigs! And Schott calmly added that he had not expected so good a result. So it was Wolf’s friends, and especially Hugo Faisst, who not only saved him from misery by their unobtrusive and often secret generosity, but spared him the horror of destitution in his last misfortunes.”
“Such was his life, cut short at 37 years of age—for one cannot count the 5 years of complete madness. There are not many examples in the art world of so terrible a fate. Nietzsche’s misfortune is nowhere beside this, for Nietzsche’s madness was, to a certain extent, productive, and caused his genius to flash out in a way that it never would have done if his mind had been balanced and his health perfect.”
“He used to have the poetry he wished to translate read over to him several times, or in the evening he would read it aloud to himself. If he felt very stirred by it he lived apart with it, and thought about it, and soaked himself in its atmosphere; then he went to sleep, and the next morning he was able to write the Lied straight away.”
“Wolf never chose commonplace poems for his music—which is more than can be said of Schubert or Schumann. He did not use anything written by contemporary poets, although he was in sympathy with some of them, such as Liliencron, who hoped very much to be translated into music by him. But he could not do it”
“No one has better expressed the anguish of a troubled and despairing soul, such as we find in the old harp-player in Wilhelm Meister, or the splendid nihility of certain poems of Michelangelo.”
“Wolf has set to music a quarter of Mörike’s poems, he has brought Mörike into his own, and given him one of the first places among German poets.”
“Menschen waren wir ja auch,
Froh und traurig, so wie Ihr.
Und nun sind wir leblos hier,
Sind nur Erde, wie Ihr sehet.”
DON LORENZO PEROSI
“Are we really witnessing the return of its spring? Is it the incoming of some great tide of melody, which will wash away the gloom and doubt of our life to-day? As I was reading the oratorios of this young priest of Piedmont, I thought I heard, far away, the song of the children of old Greece”
“The abbé Perosi, the precentor of St. Mark’s chapel at Venice and the director of the Sistine chapel, is 26 years old.“
“there are sometimes traces of bad taste in the music and reminiscences of the classics—all of which are the sins of youth, which age will certainly cure.” Os clássicos estavam passados de moda? Que ironia!
“…indeed, sadness could not have been carried farther even by Bach, and the same serenity of mind runs through its despair.”
“His style is made up of all styles, and ranges from the Gregorian chant to the most modern modulations. All available materials are used in this work. This is an Italian characteristic. Gabriel d’Annunzio threw into his melting-pot the Renaissance, the Italian painters, music, the writers of the North, Tolstoy, Dostoïevsky, Maeterlinck, and our French writers, and out of it he drew his wonderful poems. So Don Perosi, in his compositions, welds together the Gregorian chant, the musical style of the contrapuntists of the fifteenth and sixteenth centuries, Palestrina, Roland de Lassus, Gabrieli, Carissimi, Schütz, Bach, Händel, Gounod, Wagner—I was going to say César Franck, but Don Perosi told me that he hardly knew this composer at all, though his style bears some resemblance to Franck’s.”
“Can we not tear ourselves away from that romantic suffering in music which was begun by Beethoven? After a century of battles, of revolutions, and of political and social strife, whose pain has found its reflection in art, let us begin to build a new city of art, where men may gather together in brotherly love for the same ideal.” Coitadinho do Rolland, escrevendo pouco antes da I Guerra Mundial!
FRENCH AND GERMAN MUSIC
“I know no one but Franck in the last century, unless it is Beethoven, who has possessed in so high a degree the virtue of being himself and speaking only the truth without thought of his public. Never before has religious faith been expressed with such sincerity. Franck is the only musician besides Bach who has really seen the Christ, and who can make other people see him too. I would even venture to say that his Christ is simpler than Bach’s; for Bach’s thoughts are often led away by the interest of developing his subject, by certain habits of composition, and by repetitions and clever devices, which weaken his strength. In Franck’s music we get Christ’s speech itself, unadorned and in all its living force.”
“There is no doubt, said Henri Lichtenberger, who sat by me at the concert, our music is beginning to bore the Germans.”
“Charpentier is, of all living French musicians, the most liked in Germany; he is indeed the only one who is popular with artists and the general public alike. Shall I say that the sincere pleasure they take in his orchestration and the gay life of his subjects is enhanced a little by a slight disdain for French frivolity—wälschen Tand?”
“I am not speaking of the general public only, The German public of to-day are devotees of Brahms and Wagner, and everything of theirs seems good to them; they have no discrimination, and, while they applaud Wagner and encore Brahms, they are, in their hearts, not only frivolous, but sentimental and gross. The most striking thing about this public is their cult of power since Wagner’s death. When listening to the end of Die Meistersinger I felt how the haughty music of the great march reflected the spirit of this military nation of shop-keepers, bursting with rude health and complacent pride.
The most remarkable thing of all is that German artists are gradually losing the power of understanding their own splendid classics and, in particular, Beethoven. Strauss, who is very shrewd and knows exactly his own limitations, does not willingly enter Beethoven’s domain, though he feels his spirit in a much more living way than any of the other German Kapellmeister.”
“No; we can no longer hear Beethoven and Mozart in Germany to-day, we can only hear Mahler and Strauss. Well, let it be so. We will resign ourselves. The past is past. Let us leave Beethoven and Mozart, and speak of Mahler and Strauss.”
“When I conceive a great musical painting (ein grosses musikalisches Gemälde), says Mahler, there always comes a moment when I feel forced to employ speech (das Wort) as an aid to the realisation of my musical conception.”
“Mahler’s case is really rather curious. When one studies his works one feels convinced that he is one of those rare types in modern Germany—an egoist who feels with sincerity. Perhaps his emotions and his ideas do not succeed in expressing themselves in a really sincere and personal way; for they reach us through a cloud of reminiscences and an atmosphere of classicism. I cannot help thinking that Mahler’s position as director of the Opera, and his consequent saturation in the music that his calling condemns him to study, is the cause of this. There is nothing more fatal to a creative spirit than too much reading, above all when it does not read of its own free will, but is forced to absorb an excessive amount of nourishment, the larger part of which is indigestible.”“Mahler will only be Mahler when he is able to leave his administrative work, shut up his scores, retire within himself, and wait patiently until he has become himself again—if it is not too late. § His Fifth Symphony, which he conducted at Strasburg, convinced me, more than all his other works, of the urgent necessity of adopting this course. In this composition he has not allowed himself the use of the choruses, which were one of the chief attractions of his preceding symphonies.”
—“To begin with, this symphony is excessively long—it lasts an hour and a half—though there is no apparent justification for its proportions. It aims at being colossal, and mainly achieves emptiness. The motifs are more than familiar. After a funeral march of commonplace character and boisterous movement, where Beethoven seems to be taking lessons from Mendelssohn, there comes a scherzo, or rather a Viennese waltz, where Chabrier gives old Bach a helping hand. The adagietto has a rather sweet sentimentality. The rondo at the end is presented rather like an idea of Franck’s, and is the best part of the composition.” “Through all the work runs a mixture of pedantic stiffness and incoherence; it moves along in a desultory way, and suffers from abrupt checks in the course of its development and from superfluous ideas that break in for no reason at all, with the result that the whole hangs fire. § Above all, I fear Mahler has been sadly hypnotised by ideas about power—ideas that are getting to the head of all German artists to-day. He seems to have an undecided mind, and to combine sadness and irony with weakness and impatience, to be a Viennese musician striving after Wagnerian grandeur.”
“I do not see, said Strauss, why I should not compose a symphony about myself; I find myself quite as interesting as Napoleon or Alexander.”
“German music in general is showing some grave symptoms. I will not dwell on its neurasthenia, for it is passing through a crisis which will teach it wisdom; but I fear, nevertheless, that this excessive nervous excitement will be followed by torpor. What is really disquieting is that, in spite of all the talent that still abounds, Germany is fast losing her chief musical endowments. Her melodic charm has nearly disappeared. One could search the music of Strauss, Mahler, or Hugo Wolf, without finding a melody of any real value, or of any true originality, outside its application to a text, or a literary idea, and its harmonic development. And besides that, German music is daily losing its intimate spirit; there are still traces of this spirit in Wolf, thanks to his exceptionally unhappy life; but there is very little of it in Mahler, in spite of all his efforts to concentrate his mind on himself; and there is hardly any at all in Strauss, although he is the most interesting of the three composers. German musicians have no longer any depth.
I have said that I attribute this fact to the detestable influence of the theatre, to which nearly all these artists are attached as Kapellmeister, or directors of opera. To this they owe the melodramatic character of their music, even though it is on the surface only—music written for show, and aiming chiefly at effect.”
More baneful even than the influence of the theatre is the influence of success. These musicians have nowadays too many facilities for having their music played. A work is played almost before it is finished, and the musician has no time to live with his work in solitude and silence.”
“And with all this a musician grows soon contented with himself, and comes to believe any favourable opinion about his work. What a difference from Beethoven, who, all his life, was hammering out the same subjects, and putting his melodies on the anvil twenty times before they reached their final form. That is where Mahler is so lacking.”
“And, lastly, I want to speak of the greatest danger of all that menaces music in Germany; there is too much music in Germany. This is not a paradox. There is no worse misfortune for art than a super-abundance of it. The music is drowning the musicians. Festival succeeds festival: the day after the Strasburg festival there was to be a Bach festival at Eisenach; and then, at the end of the week, a Beethoven festival at Bonn. Such a plethora of concerts, theatres, choral societies, and chamber-music societies, absorbs the whole life of the musician. When has he time to be alone to listen to the music that sings within him? This senseless flood of music invades the sanctuaries of his soul, weakens its power, and destroys its sacred solitude and the treasures of its thought.”
CLAUDE DEBUSSY
PELLÉAS ET MÉLISANDE
“The cause of the artistic success of Pelléas et Mélisande is of a more specially French character, and marks a reaction that is at once legitimate, natural, and inevitable; I would even say it is vital—a reaction of French genius against foreign art, and especially against Wagnerian art and its awkward representatives in France.”
“And, as if he wished to accentuate this antagonism, the author of Pelléas et Mélisande is now writing a Tristan, whose plot is taken from an old French poem, the text of which has been recently brought to light by M. Bédier. In its calm and lofty strain it is a wonderful contrast to Wagner’s savage and pedantic, though sublime poem.”
“We demand that an equal balance shall be kept between poetry and music; and if their equilibrium must be a little upset, we should prefer that poetry was not the loser, as its utterance is more conscious and rational. That was Gluck’s aim; and because he realised it so well he gained a reputation among the French public which nothing will destroy.”
“Debussy’s system, on the contrary, is, so to speak, a sort of classic impressionism—an impressionism that is refined, harmonious, and calm; that moves along in musical pictures, each of which corresponds to a subtle and fleeting moment of the soul’s life; and the painting is done by clever little strokes put in with a soft and delicate touch.”
“Mozart shared the same thought: ‘Music,’ he said, ‘even in the most terrible situations, ought never to offend the ear; it should charm it even there; and, in short, always remain music.’”
“A man is not a great artist because he makes use of unresolved sevenths and ninths, consecutive major thirds and ninths, and harmonic progressions based on a scale of whole tones; one is only an artist when one makes them say something.”
“Anyone who lives in foreign parts and is curious to know what France is like and understand her genius should study Pelléas et Mélisande as they would study Racine’s Bérénice.”
“The France of Rabelais, Molière, Diderot, and in music, we will say—for want of better names—the France of Berlioz and Bizet. To tell the truth, that is the France I prefer.”
THE AWAKENING: A SKETCH OF THE MUSICAL MOVEMENT IN PARIS SINCE 1870
“The nature of Paris is so complex and unstable that one feels it is presumptuous to try to define it. It is a city so highly-strung, so ingrained with fickleness, and so changeable in its tastes, that a book that truly describes it at the moment it is written is no longer accurate by the time it is published. And then, there is not only one Paris; there are two or three Parises—fashionable Paris, middle-class Paris, intellectual Paris, vulgar Paris—all living side by side, but intermingling very little.”
“For the nations that have the strongest artistic traditions are not necessarily those that are likely to develop a new art. To do that one must have a virgin soil and spirits untrammelled by a heritage from the past.” (Viena fim de século)
“Certainly there are races more gifted in music than others; but often the seeming differences of race are really the differences of time; and a nation appears great or little in its art according to what period of its history we consider. England was a musical nation until the Revolution of 1688; France was the greatest musical nation in the sixteenth century; and the recent publications of M. Henry Expert have given us a glimpse of the originality and perfection of the Franco-Belgian art during the Renaissance.”
“This incredible weakening of musical feeling in France, from 1840 to 1870, is nowhere better shown than in its romantic and realistic writers, for whom music was an hermetically sealed door. All these artists were ‘visuels’, for whom music was only a noise. Hugo is supposed to have said that Germany’s inferiority was measured by its superiority in music.”
“In 1890, César Franck died in Paris. Belgian by birth and temperament, and French in feeling and by musical education, he had remained outside the Wagnerian movement in his own serene and fecund solitude. To his intellectual greatness and the charm his personal genius held for the little band of friends who knew and revered him he added the authority of his knowledge. Unconsciously he brought back to us the soul of Sebastian Bach, with its infinite richness and depth; and through this he found himself the head of a school (without having wished it) and the greatest teacher of contemporary French music.”
“It may seem astonishing that such works should have found a place at the Opéra-Comique and not at the Opera. But if two musical theatres of different kinds exist, one of which pretends to have the monopoly of great art, while the other with a simpler and more intimate character seeks only to please, it is always the latter that has a better chance of development and of making new discoveries; for the first is oppressed by traditions that become ever stiffer and more pedantic, while the other with its simplicity and lack of pretension is able to accommodate itself to any manner of life.”
“Mozart’s opere buffe have more of truth and life in them than his opere serie; and there is as much dramatic power in an opéra-comique like Carmen as in all the repertory of grand Opera to-day.”
“A French composer who was foolish enough to venture on to the ground of instrumental music had no other means of getting his works performed than by himself arranging a concert for them. Such was Berlioz’s case; for he had to gather together an orchestra and hire a room each time he wished to get a hearing for his great symphonies. The financial result was often disastrous”
“the Russians—Mussorgski, Borodine, Rimsky-Korsakow, Liadow, and Glazounow”
“In every country, but especially in those countries that are least musical, a virtuoso profits by public favour, often to the detriment of the work he is performing; for what is most liked in music is the musician. The virtuoso—whose importance must not be underrated, and who is worthy of honour when he is a reverential and sympathetic interpreter of genius—has too often taken a lamentable part, especially in Latin countries, in the degrading of musical taste; for empty virtuosity makes a desert of art. The fashion of inept fantasias and acrobatic variations has, it is true, gone by; but of late years virtuosity has returned in an offensive way, and, sheltering itself under the solemn classical name of ‘concertos’, it usurped a place of rather exaggerated importance in symphony concerts, and especially in M. Chevillard’s concerts—a place which Lamoureux would never have given it.”
“They have revived Monteverde’s Orfeo and his Incoronazione di Poppea, which had been forgotten these three centuries”
“But the thing was brought about with some difficulty; for among these serious people music did not count as a serious study. Music was thought of as an agreeable art, a social accomplishment, and the idea of making it the subject of scientific teaching must have been received with some amusement. Even up to the present time, general histories of Art have refused to accord music a place, so little was thought of it; and other arts were indignant at being mentioned in the same breath with it.”
“This was a difficult task, for in France art has always had an aristocratic character; and it was a task in which neither the State nor musicians were very interested. The Republic still continued to regard music as something outside the people. There had even been opposition shown during the last thirty years towards any attempt at popular musical education.”
“The folk-song had practically disappeared, and was not yet ready for re-birth; for the populace, even more readily than the cultured people, are inclined to blush at anything which suggests ‘popularity’.”
“With a people that has ancient musical traditions, as Germany has, music is the vehicle for the words and impresses them in the heart; but in France’s case it is truer to say that the words have brought the music of Händel and Beethoven into the hearts of French school-children.”
“A very decided reaction against foreign music has been shown since the time of the Universal Exhibition of 1900. This movement is not unconnected, consciously or unconsciously, with the nationalist train of thought, which was stirred up in France, and especially in Paris, somewhere about the same time. But it is also a natural development in the evolution of music.”
FOOTNOTES
“His Mémoires as a whole is one of the most delightful books ever written by an artist. Wagner was a greater poet, but as a prose writer Berlioz is infinitely superior.”
“I have only blank walls before my windows. On the side of the street a pug dog has been barking for an hour, a parrot screaming, and a parroqueet imitating the chirp of sparrows. On the side of the yard the washerwomen are singing, and another parroqueet cries incessantly, ‘Shoulder arrms!’ How long the day is!” B.
“M. Camille Saint-Saëns wrote in his Portraits et Souvenirs, 1900: ‘Whoever reads Berlioz’s scores before hearing them played can have no real idea of their effect. The instruments appear to be arranged in defiance of all common sense; and it would seem, to use professional slang, that cela ne dut pas sonner, but cela sonne wonderfully. If we find here and there obscurities of style, they do not appear in the orchestra; light streams into it and plays there as in the facets of a diamond.’”
“I was so ignorant of the mechanism of certain instruments, that after having written the solo in D flat for the trombone in the Introduction of Les Francs-Juges, I feared it would be terribly difficult to play. So I went, very anxious, to one of the trombonists of the Opera orchestra. He looked at the passage and reassured me. ‘The key of D flat is,’ he said, ‘one of the pleasantest for that instrument; and you can count on a splendid effect for that passage’”
“The chief characteristics of my music are passionate expression, inward warmth, rhythmic in pulses, and unforeseen effects. When I speak of passionate expression, I mean an expression that desperately strives to reproduce the inward feeling of its subject, even when the theme is contrary to passion, and deals with gentle emotions or the deepest calm. It is this kind of expression that may be found in L’Enfance du Christ, and, above all, in the scene of Le Ciel in the Damnation de Faust and in the Sanctus of the Requiem”
“I am not speaking of the Franco-Flemish masters at the end of the sixteenth century: of Jannequin, Costeley, Claude le Jeune, or Mauduit, recently discovered by M. Henry Expert, who are possessed of so original a flavour, and have yet remained almost entirely unknown from their own time to ours.”
“The best way to find out the musical characteristics of a nation is to study its folk-songs. If only someone would devote himself to the study of French folk-song (and there is no lack of material), people would realise perhaps how much it differs from German folk-song, and how the temperament of the French race shows itself there as being sweeter and freer, more vigorous and more expressive.”
“What will then remain of actual art? Perhaps Berlioz will be its sole representative. Not having studied the pianoforte, he had an instinctive aversion to counterpoint. He is in this respect the opposite of Wagner, who was the embodiment of counterpoint, and drew the utmost he could from its laws” Saint-Saëns
“Jacques Passy notes that with Berlioz the most frequent phrases consist of twelve, sixteen, eighteen, or twenty bars. With Wagner, phrases of eight bars are rare, those of four more common, those of two still more so, while those of one bar are most frequent of all”
“One must also take into account the musicians of the French revolution: Mehul, Gossec, Cherubini, and Lesueur, whose works, though they may not equal their intentions, are not without grandeur, and often disclose the intuition of a new and noble and popular art.”
“Berlioz’s music makes me think of gigantic kinds of extinct animals, of fabulous empires…. Babylon, the hanging gardens of Semiramis, the wonders of Nineveh, the daring buildings of Mizraim.” Heine
“Berlioz never ceased to inveigh against the Revolution of 1848—which should have had his sympathies. Instead of finding material, like Wagner, in the excitement of that time for impassioned compositions, he worked at L’Enfance du Christ. He affected absolute indifference—he who was so little made for indifference. He approved the State’s action, and despised its visionary hopes.”
“Bizet was the last genius to discover a new beauty” Nietzsche
“I do not attach very much importance to the courageous, though not always very intelligent movement of the Universités Populaires, where since 1886 a collection of amateurs, of fashionable people and artists, meet to make themselves heard, and pretend to initiate the people into what are sometimes the most complicated and aristocratic works of a classic or decadent art. While honouring this propaganda— whose ardour has now abated somewhat—one must say that it has shown more good will than common-sense. The people do not need amusing, still less should they be bored; what they need is to learn something about music. This is not always easy; for it is not noisy deeds we want, but patience and self-sacrifice. Good intentions are not enough. One knows the final failure of the Conservatoire populaire de Mimi Pinson, started by Gustave Charpentier, for giving musical education to the work-girls of Paris.”
“It is hardly necessary to mention the curious attraction that some of our musicians are beginning to feel for the art of civilisations that are quite opposed to those of the West. Slowly and quietly the spirit of the Far East is insinuating itself into European music.”
“O Conselheiro Vale morreu às 7 horas da noite de 25 de abril de 1859.”
“A reputação dos homens amorosos parece se muito com o juro do dinheiro: alcançado certo capital, ele próprio se multiplica e avulta.”
“A idéia de que Helena podia repartir o coração com outra pessoa desconsolava-o, ao mesmo tempo que o irritava. A razão de semelhante exclusivismo não a explicou ele, nem tentou investigá-la; sentiu-lhe somente os efeitos, e ficou ali sem saber que faria. Duas vezes saiu da janela para ir ter com a irmã, mas recuou de ambas, refletindo que a curiosidade pareceria impolidez, se não era talvez tirania.”
“A beleza dolorida é dos mais patéticos espetáculos que a natureza e a fortuna podem oferecer à contemplação do homem. Helena torcia-se no leito como se todos os ventos do infortúnio se houvessem desencadeado sobre ela. Em vão tentava abafar os soluços, cravando os dentes no travesseiro. Gemia, entrecortava o pranto com exclamações soltas, enrolava no pescoço os cabelos deslaçados pela violência da aflição, buscando na morte o mais pronto dos remédios. Colérica, rompeu com as mãos o corpinho do vestido; e o jovem seio, livre de sua casta prisão, pôde à larga desafogar-se dos suspiros que o enchiam. Chorou muito; chorou todas as lágrimas poupadas durante aqueles meses plácidos e felizes, leite da alma com que fez calar a pouco e pouco os vagidos de sua dor.”
“uma hora longa, longa, longa, como só as tem o relógio da aflição e da esperança.”
“Naquele homem cético, moderado e taciturno, havia uma paixão verdadeira, exclusiva e ardente: era a filha. Camargo adorava Eugênia: era a sua religião. Concentrara esforços e pensamentos em fazê-la feliz, e para o alcançar não duvidaria empregar, se necessário fosse, a violência, a perfídia e a dissimulação. Nem antes nem depois sentira igual sentimento; não amou a mulher; casou porque o matrimônio é uma condição de gravidade. O maior amigo que teve foi o conselheiro do Vale; mas essa mesma amizade que o ligara ao pai de Estácio, nunca recebera a contraprova do sacrifício”
“Era a ternura do egoísta; amava-se na própria obra. Caprichosa, rebelde, superficial, Eugênia não teve a fortuna de ver emendados os defeitos; antes foi a educação que lhos deu.”
“Se o marido de Eugênia se confinasse no repouso doméstico, entre a horta e a álgebra, a ambição de Camargo padeceria imenso. Vimo-lo apresentar a Estácio a maçã política; recusada a princípio, foi-lhe de novo apresentada, e finalmente aceita com a noiva. Esta dupla vitória foi o momento máximo da vida do médico.”
“a máxima de que todo o homem pode, com esforço, chegar ao mesmo brilhante resultado, há de sempre parecer uma grande verdade à pessoa que estiver trinchando um peru… Pois não é assim; há exceções. Nas coisas deste mundo não é tão livre o homem, como supõe, e uma coisa, a que uns chamam mau fado, outros concurso de circunstâncias, e que nós batizamos com o genuíno nome brasileiro de caiporismo, impede a alguns ver o fruto de seus mais hercúleos esforços.”
“Eram dez horas, e o sol aquecia; ele não deu pelo sol nem pelo tempo. Semelhante
ao transviado florentino, achava-se no meio de uma selva escura, a igual distância da estrada reta, — diritta via — e da fatal porta, onde temia ser despojado de todas as esperanças. Nada sabia, nada conjeturava; eram tudo novas dúvidas e oscilações.”
“Poder-se-ia atribuir àquela criatura de dezessete anos corrupção e hipocrisia?”
“há sonhos que deviam acabar na realidade do outro século.”
GLOSSÁRIO:
caiporismo: má sorte sem fim
transunto: retrato fiel, imagem
voltarete: “Jogo entre três parceiros que recebem, cada um, nove cartas.”
27: esquecendo um problema através de outro – uma dupla escada, como a criança que pulula na areia quente e reveza os pezinhos para não se queimar—e consegue!
42: vocação de professor; a tragédia e a comédia, a vida sem riso; o mar.
48: não procede a crítica de “nostálgico da Grécia e Roma antigas”; para um esboço da teoria das emoções.
49: ser vegan ou não ser; “A dialética do casamento e de amizade já foi exposta?”.
56: a necessidade de um novo amor; interpretação/interpenetração dos sonhos.
62: a espada de dois gumes chamada “vida de atleta”; lição de economia para a Alemanha; o CONTRAPONTO do que se diz nos Fragmentos Finais acerca da “tirania de si mesmo”—aquele que não souber desligar suas virtudes não vai aproveitar as glórias da vida: chutar o pau da barraca depois de erguê-la.
68: a China macha e a frustração feminina do continente Europa
78: minha autêntica alma de trabalhador; tratado acerca do inevitável tédio existencial dos bons.
83: em alto e bom som, o valor da vida
104: Aristóteles e seu erro
105: Wagner
106: gregos x franceses
110: a “previsão do futuro”, o caráter premonitório-semiótico da Música; Apolo e suas profecias auto-realizadoras.
111: para uma lição sobre a antevisão denominada Futurismo
112: Fausto e Manfredo na mesma frase; “Ah! Quem nos contará a história completa dos narcóticos?—É quase a história da ‘cultura’ inteira, a chamada cultura superior!”
119: Stendhal
120: Shakespeare e Brutus
121: Schopenhauer, o grande
131: o militarismo e a música alemãs; a história da língua para a história do povo (Holocausto).
132: o assombro do rádio
138: Eleatas, os primeiros (?) idealistas. Talvez os primeiros utilitaristas (porque esta palavra sempre define “os enganados”), os primeiros dialéticos (é óbvio!) e os primeiros céticos.
142: 1ª citação de “instinto de rebanho”
149: o louco e a lanterna e o assassinato de Deus; mas muito mais!
160: o fraco vegetariano
167: para quem deseja descansar
168: misantropia como produto do excesso de amor ao homem (estômago empanturrado que arrota e já não engole mais nada)—depois de um período de faquir (de blasé), é hora de recarregar as baterias. Cuidado com a afobação da churrascaria!
172: sobre como deixar que os amigos indesejados se esvaiam
174: da minha benevolência
180: animais e sua opinião sobre os animais-homens
204: o positivismo nietzscheano
206: no limbo entre a estrutura e a história
219: os animais e a sintonia climática
239: do peso mais pesado
256: “nossa qualidade de animais domésticos”
257: Jesus e São Paulo contra os romanos
258: para fundar um novo dogma
260: sistema consciente como rebanho; seu “em si”: o eterno inconsciente.
263: a contradição, fraqueza e incipiência das ciências humanas: “querer tomar por objeto elementos que não são estranhos beira a contradição e o absurdo…”
265: Nietzsche como arquiteto e engenheiro; a ponte.
276: o animal e seu isolamento à véspera da morte—como se diz que ele não possui uma biografia?
278: a misteriosa “idade clássica da guerra”
288-9, 296: epicureus
299: “pequena política”
300: Tímon, grego, modelo de misantropia
“retorna-se [da doença] mais criança e, ao mesmo tempo, cem vezes mais refinado do que nunca se havia sido antes.”
Receita (complementar a Anselm Strauss): “adorar a aparência, acreditar na forma, nos sons, nas palavras, em todo o Olimpo da aparência! Esses Gregos eram superficiais—por profundidade!”
“está bem de saúde aquele que esqueceu”
“A escrita, é verdade, não está realmente nítida—
Que importa! Quem é que lê o que escrevo?”
“mesmo a mais bela paisagem onde vivemos mais de três meses deixa de nos agradar e qualquer margem distante excita nossa cobiça.”
“Quando um homem se encontra no meio de sua agitação, exposto à ressaca em que projetos e contra-projetos se misturam, acontece-lhe às vezes ver deslizar perto dele seres de quem inveja a felicidade e o afastamento—são as mulheres.”
“Não estaremos errando como num nada infinito? O vazio não nos persegue com seu hálito? Não faz mais frio?”
“Agora não são mais os argumentos, é nosso gosto que decide contra o cristianismo.”
“a inflexibilidade é uma virtude de outra época que aquela da honestidade”
“É preciso não querer fazer mais que o próprio pai—ficaríamos doentes.”
“Não gosto dos homens que, para obter um efeito, são obrigados a explodir como bombas”
“Pais e filhos se poupam mais entre eles do que mães e filhas entre elas.”
Quanto ao animal doméstico: “Que bicho estranho é esse que sempre tem o que comer? Ele cuida de mim mas eu não colaboro com nada… ou serei eu seu frágil rei? Ele desaparece muitas vezes. Rei ou prisioneiro?”
“A graciosa besta humana tem a aparência de perder cada vez seu bom humor quando se põe a pensar bem; ela se torna ‘séria’! E ‘em toda parte onde há riso e alegria, o pensamento não vale nada’: esse é o preconceito dessa besta séria contra toda ‘gaia ciência’. Pois bem! Mostremos que se trata de um preconceito.”
“Um dano é raramente um dano por mais de uma hora”
“Coloca, entre ti e hoje, pelo menos a espessura de três séculos.”
“o que há de mais risível que colocar ‘o homem e o mundo’ lado a lado, que sublime presunção não confere esse ‘e’ que os separa!”
“Schopenhauer, como filósofo, foi o primeiro ateu convicto e inflexível que tivemos, nós alemães: esse é o segredo de sua hostilidade para com Hegel.”
“a pergunta de Schopenhauer: ‘A existência tem, portanto, um sentido?’
Esta pergunta vai exigir séculos antes de poder ser simplesmente compreendida de maneira exaustiva e em todas as suas profundezas.”
Epicuro: enaltecido por N. Uma elevação dionisíaca bipolar.
Estóicos: troçados por N. Mais próximo do blasé. Indiferença como fuga da vida? Coisa de velhaco?
Como era de se esperar, este quinto livro adicionado em 1887 é o mais ácido e rancoroso.
A beleza personificada em discursos—todos os mitos desfeitos sobre os objetivos de tal filosofia: “Nós, filhos do futuro, como poderíamos estar em nossa casa ainda hoje! Somos hostis a todo ideal que ainda pudesse encontrar um refúgio (…) Nada ‘conservamos’, não queremos regressar a nenhum passado, não somos ‘liberais’ em absoluto, não trabalhamos para o ‘progresso’, não temos necessidade de tapar os ouvidos para não ouvir as sereias do futuro cantar na praça pública.—O que elas cantam, ‘Igualdade de direitos!’, ‘Sociedade livre!’, ‘Nem senhores nem escravos!’, isso não nos atrai!—na verdade, não achamos de forma alguma desejável que o reino da justiça chegue e que a paz seja instaurada na terra (porque esse reino seria forçosamente o reino da mediocracia e da chinesice) (…) nos contamos a nós mesmos entre os conquistadores, refletimos na necessidade de uma nova ordem e também de uma nova escravidão—pois, para todo reforço, para toda elevação do tipo ‘homem’, é necessária uma nova espécie de escravidão.—Aí está porque não nos sentimos bem numa época que gosta de reivindicar a honra de ser a mais humana, a mais caridosa, a mais justa que alguma vez já existiu debaixo do sol!”
“Não somos humanitários; nunca nos permitiríamos falar de nosso ‘amor pela humanidade’—nós não somos suficientemente comediantes para isso!” “Não gostamos da humanidade; mas, por outro lado, estamos bem longe de ser muito ‘alemães’—no sentido atual da palavra ‘alemão’—para podermos ser os porta-vozes do nacionalismo e do ódio das raças, para podermos nos regozijar com os males nacionais do coração e com o envenenamento do sangue, que fazem com que na Europa um povo levante barricadas contra o outro, como se uma quarentena os separasse.”
“herdeiros de vários milhares de anos de espírito europeu; como tais, saídos do cristianismo e a ele hostis, porque precisamente saímos de sua escola, porque nossos ancestrais eram cristãos de uma lealdade sem igual que, por sua fé, teriam sacrificado os bens, o sangue, sua condição e sua pátria. (…) O sim escondido em vocês é mais forte do que todos os nãos e todos os talvez de que vocês sofrem com sua época: e se lhes for necessário partir para o mar, vocês, emigrantes, empenhem-se em ter também—uma fé!…”
“Da humanidade! Já houve alguma vez velha mais horrível entre todas as horríveis velhas?—(a menos que seja a ‘verdade’: uma questão para os filósofos.)”
Anotações de cunho pessoal:
Poeta, o bom Pinóquio
HIPÓTESE MALDOSA Imagine se nós tivéssemos de desaparecer após completarmos nossa grande missão?
O que explica o além grego?
Às vezes só do que precisamos é uma pequena pausa para reordenar as palavras—e encontrar vocábulos melhores antes de ceder aos primeiros impulsos.
“O organismo é uma melodia que se canta, diz Merleau-Ponty citando o biólogo Uexküll.”
“Não conheço ninguém que, havendo pertencido à confraria dos scholars, tenha rompido com ela de forma mais radical que Nietzsche. Nenhum dos seus livros seria aceito em nossas universidades sequer como tese de mestrado, muito embora seja possível escrever teses eruditas sobre eles, bastando, para isso, que o estilo selvagem de Nietzsche seja moído e ‘interpretado’ pela linguagem ortodoxa. Referindo-se à sua experiência, ele diz o seguinte: ‘Enquanto eu dormia, um carneiro comeu o meu diploma – comeu e disse, Zaratustra deixou de ser um scholar. Disse-o e se foi trotando, equiarrogantemente. Isso foi uma criança que me contou. Gosto de me assentar aqui onde as crianças brincam, ao lado da parede em ruínas, entre os espinhos e as papoulas vermelhas. Para as crianças eu sou ainda um sábio, e também para os espinhos e as papoulas vermelhas’ [FN II (II), p. 654, Assim falou Zaratustra].”
“Uma sinfonia está para o compositor assim como o sistema está para o filósofo: um gigantesco esforço para dizer um universo. Schumann preferia, em vez disso, pequenas visões, miniaturas, quase haikais, quadros, aparições.”
“As crianças não aprendem saberes sobre a linguagem. Elas simplesmente aprendem a falar. Já nós, adultos, que vamos às escolas de língua para aprender uma língua estrangeira, e aprendemos a língua através dos saberes, nunca falamos a outra língua direito, temos de pensar, falamos com sotaque, e erramos a todo momento, a despeito de sabermos as regras da gramática: somos a centopeia que não consegue andar…”
“A experiência do prazer, tão boa, sempre nos coloca diante de um vazio. A teologia de santo Agostinho se constrói sobre esse vazio que se segue ao prazer. Depois de esgotado o prazer, existe, na alma, a nostalgia por algo indefinível. Que indefinível é esse que, se encontrado, nos traria a alegria? Estou pronto a concordar com o santo: um indefinível que, se encontrado, me traria alegria, eu o adoraria como deus, a ele entregaria a minha vida.” O para-quê, que Alves confunde com hedonismo ou tartufismo.
“As variações agradam tanto porque elas são o espelho da alma. Quando a alma gosta de uma coisa, ela quer que ela seja repetida, indefinidamente. Ela quer repetir o poema que a emocionou, o abraço, a comida, o perfume, a ideia, o pôr do sol, a paisagem.”
“Lênin confessava ter muito medo da sonata Appassionata, de Beethoven. Felizmente (ou infelizmente, tudo depende do ponto de vista), no tempo dele ainda não havia CDs. Para que a música fosse ouvida era preciso que alguém a tocasse. Eu já ouvi Beethoven muito mais vezes que ele mesmo. Não tenho informações históricas sobre se Lênin tinha uma ‘victrola’ (palavra que, aprendi faz poucos dias, se deriva de RCA Victor…) para ouvir a música.”
“Um texto sobre o prazer e a alegria há de ser prazeroso e alegre. Um texto científico sobre o prazer seria o mesmo que tocar uma sonata para piano, de Mozart, numa máquina de escrever. A ciência não é instrumento para se tocar prazer e alegria.”
“Trata-se, geralmente, de escritos antigos, embora o método filológico também possa prestar-se a interpretação de documentos contemporâneos.” “Se a filologia se aplica a problemas verdadeiramente lingüísticos, como a fonética, a morfologia, a sintaxe ou a semântica, é apenas para assegurar uma interpretação exata.”
PRIMEIRA PARTE
A INSTITUIÇÃO DISCURSIVA
1. A CENA ENUNCIATIVA
OS ESTÓICOS COMO AGENTES DA PEQUENA-BURGUESIA (IRONIA): “Reatualiza-se (…) a velha metáfora estóica, segundo a qual a sociedade seria um vasto teatro onde um papel seria atribuído a cada um.”
(*) “A proxêmica propõe-se analisar as relações espaciais e o modo como os sujeitos utilizam-se do espaço para produzir significação.”
“muitos trabalhos de inspiração pragmática repousam sobre as ‘intenções’ de falantes cuja consciência seria transparente e a identidade estável, ultrapassando os diversos ‘papéis’ que desempenham.”
“pragmática textual alemã”
“A redução das condições de produção do discurso às variáveis sócio-psicológicas da situação de comunicação, a importância das interpretações psicologizantes […] inspiradas na sociologia interacional (E. Goffman) são específicas da abordagem pragmática. Trata-se, do ponto de vista da AD, de uma perspectiva que se inclina a apagar a relação com o real da língua e com o real da história, com a base lingüística constitutiva de todo fato discursivo e com os efeitos de conjuntura em uma formação social determinada.”
“Uma tal concepção opõe-se a qualquer concepção ‘retórica’: aquela que coloca dois indivíduos face a face e lhes propõe um repertório de ‘atitudes’, de ‘estratégias’ destinadas a atingir esta ou aquela finalidade consciente. Na realidade, para a AD, não é possível definir nenhuma exterioridade entre os sujeitos e seus discursos.”
“Admitiu-se, com freqüência e de forma tácita, que os quadros da enunciação apenas duplicavam uma realidade anterior e exterior, que eram a ‘máscara’, o lugar da dissimulação de planos, de interesses inconfessáveis.”
“‘Estamos em um terreno onde a relação social é, desde o início, linguagem.’ Mas como pensar, a seu modo, a ordem do discurso, ao mesmo tempo que remete a posições não-discursivas, não os ‘reflete’ exatamente?” “É preciso admitir que a ‘encenação’ não é uma máscara do ‘real’, mas uma de suas formas, estando este real investido pelo discurso. Aliás, se fosse diferente, a AD não teria razão de existir, ela seria apenas um anexo da sociologia ou da historia, totalmente dedicada a mostrar como as conjunturas se traduzem em enunciados.”
sujeito lingüístico
sujeito genérico
sujeito da formação discursiva
“não é possível ler um poema dadaísta em uma reunião do Conselho de Ministros”, mas certamente é possível ler uma ata ministerial numa reunião dadaísta.
“por uma virada lógica, o depoimento ‘autêntico’ transforma-se em um texto que parece proceder diretamente de um romance de Céline:
…Sabe-se que é preciso colocar uma cavilha à esquerda, uma cavilha à direita. A gente xinga a chave inglesa quando não funciona. Praguejamos contra nós mesmos, quando nos ferimos, mesmo que não sejamos culpados. Os montes são mal-feitos, mas é assim mesmo.
…Quando a gente passa 8 horas calado, tem tanta coisa a dizer que não consegue mais falar, que as palavras, elas chegam todas juntas à boca.”
“segundo o humanismo devoto, as práticas de sociabilidade mundana podem ser sublimadas através da literatura piedosa porque Deus governa a sociedade em todos os seus aspectos.”
(*) “No séc. XVIII, os homens da nobreza trajavam ‘culottes’, espécie de calções que iam até os joelhos, enquanto os homens do povo, que usavam calças comuns, passaram a identificar-se como os ‘sans-culottes’, os que não usavam ‘calções’.”
“Na língua, a ‘deixis’ define as coordenadas espaço-temporais implicadas em um ato de enunciação, ou seja, o conjunto de referências articuladas pelo triângulo.
EU <–> TU —- AQUI—-AGORA”
(Pois isto me parece um quadrilátero!)
análise da deixis discursiva:
“discurso escolar da III República”
locutor discursivo: III Rep.
destinatário discursivo: aluno cidadão III Rep.
cronografia: III Rep.(1870-1940)
topografia: III Rep. da FRANÇA
“discurso da Frente Nacional”
locutor discursivo: “as forças sadias da nação” “o Ocidente”
cronografia: “o processo de decadência intelectual, moral e física em que estamos engajados” “o Ocidente”
topografia: “a França” “a Europa Cristã” “o Ocidente”
“deixis fundadora”
locução fundadora
cronografia fundadora
topografia fundadora
“O discurso jansenista, p.ex., supõe uma deixis discursiva referente à corrupção que o humanismo pagão da Renascença impôs à Igreja, enquanto sua deixis fundadora é a Igreja dos primeiros tempos. Seu locutor discursivo, a comunidade de Port Royal, coincide, nos textos, com a locução fundadora, a da primeira comunidade cristã de Jerusalém.”
“ethé [ethos] … as propriedades que os oradores se conferiam implicitamente, através de sua maneira de dizer: não o que diziam a propósito deles mesmos, mas o que revelavam pelo próprio modo de se expressarem.”
phronesis: moderação
arete: verdadeiro, “cínico”
“O interesse manifestado nestes últimos anos pela oralidade, pelo ritmo, pela entonação, etc., apresenta-se como um retorno daquilo que o estruturalismo havia marginalizado através de suas exclusões epistemológicas.”
2. UMA “PRÁTICA DISCURSIVA”
“A noção de ‘prática discursiva’ integra, pois, estes dois elementos: por um lado, a formação discursiva, por outro, o que chamaremos de comunidade discursiva, isto é, o grupo ou a organização de grupos no interior dos quais são produzidos, gerados os textos que dependem da formação discursiva.”
“Enquanto a AD procura munir-se de uma teoria da discursividade, desinteressando-se pelas comunidades que constituem seu correlato, a sociologia da produção científica investiga os fundamentos institucionais, ignorando, muito freqüentemente, a dimensão textual.”
SEGUNDA PARTE
A HETEROGENEIDADE
1. A HETEROGENEIDADE MOSTRADA
“há polifonia quando é possível distinguir em uma enunciação dois tipos de personagens, os enunciadores e os locutores.”
“se assino um formulário preparado pela Administração, o eu do locutor deste texto sou eu mesmo”
“L é definido como o responsável pela enunciação e considerado apenas em função desta propriedade, enquanto lambda é uma pessoa que pode possuir outras propriedades além dessa.”
“Na autocrítica, p.ex., L afirma-se ao desvalorizar lambda.”
“Os ‘enunciadores’ são seres cujas vozes estão presentes na enunciação sem que se lhes possa, entretanto, atribuir palavras precisas; efetivamente, eles não falam, mas a enunciação permite expressar seu ponto de vista.” “O fenômeno da ironia poderia ser descrito nestes termos.”
“marca de distanciamento”
“As Provinciales,(*) p.ex., supõem uma distinção entre o falante (o autor, Pascal) e o locutor (o Amigo do Provincial, o personagem que diz eu)
(*) As Provinciales consistem em um conjunto de 18 cartas de Pascal, inicialmente publicadas anonimamente. Elas atacavam os jesuítas e a moral excessivamente indulgente dos casuístas, ao mesmo tempo que assumiam a defesa dos jansenistas de Port-Royal.”