O FASCISMO ETERNO (Discurso de Umberto Eco em 1995) ou: CUIDADO COM OS LIBERAIS: Manual antifascista ILUSTRADO adaptado à realidade brasileira!

“O fascismo eterno foi uma conferência pronunciada em inglês num simpósio organizado pelos departamentos de Italiano e Francês da Columbia University em 25 de abril¹ de 1995, para celebrar a libertação da Europa. Foi publicada depois, em 22 de junho de 1995, na The New York Review of Books e traduzida para a Rivista dei Libri de julho-agosto do mesmo ano, como ‘Totalitarismo fuzzy e Ur-Fascismo’ (versão que só difere desta que publico aqui por alguns leves ajustes formais). Contudo, é importante lembrar que o texto foi pensado para um público de estudantes americanos e que a conferência ocorreu naqueles dias em que a América havia sido sacudida pelo atentado de Oklahoma e pela descoberta do fato (nem um pouco secreto, aliás) de que existiam organizações militares de extrema direita nos Estados Unidos” “Além disso, o fato do discurso ser dirigido a jovens americanos explica a presença de informações e esclarecimentos quase didáticos sobre acontecimentos que um leitor italiano conheceria, assim como citações de Roosevelt, alusões ao antifascismo americano e repetidas referências ao encontro entre europeus e americanos nos dias da libertação.”

¹ Boatos de que é o dia internacional de combate ao fascismo em honra a meu nascimento!

“Em 1942, aos 10 anos de idade, ganhei o primeiro prêmio nos Ludi Juveniles (um concurso com livre participação obrigatória para jovens fascistas italianos — vale dizer, para todos os jovens italianos). Tinha trabalhado com virtuosismo retórico sobre o tema: ‘Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?’ Minha resposta foi afirmativa. Eu era um garoto esperto.” Mais nobres que os bolsonaristas: aqui eles queriam sobreviver mil anos metralhando petralhas, em vez de “morrendo por sua causa”…

“Passei dois dos meus primeiros anos entre SS, fascistas e partigiani da Resistência, que atiravam uns contra os outros, e aprendi assim a esquivar-me das balas. Nada mal como exercício. § Em abril de 1945, a Resistência tomou Milão. Dois dias depois, os partigiani chegaram à pequena cidade em que eu vivia. Foi um momento de alegria.”

“Alguns dias depois vi os primeiros soldados americanos. Eram afro-americanos. O primeiro ianque que encontrei era um negro, Joseph, que me apresentou às delícias de Dick Tracy e Ferdinando Buscapé. Seus gibis eram coloridos e tinham um cheiro bom.”

“ganhei do capitão Muddy o meu primeiro chiclete e passei o dia inteiro mascando. De noite, colocava o chiclete em um copo d’água para que estivesse fresco no dia seguinte.” História muito parecida com a do Lula.

“Nos meses seguintes, descobri que a Resistência não era apenas um fenômeno local, mas europeu. Aprendi palavras novas e excitantes como réseau, maquis [bunker ou simplesmente porão], armée secrète, Rote Kapelle, ‘gueto de Varsóvia’. Vi as primeiras fotos do Holocausto e assim, antes mesmo de conhecer a palavra, conheci seu significado. Descobri que havíamos sido libertados.”

“Era motivo de orgulho saber que nós, europeus, não tínhamos esperado passivamente pela libertação. Creio que também não era irrelevante, para os jovens americanos que derramaram seu sangue pela nossa liberdade, saber que atrás das linhas havia europeus que já estavam pagando seu débito.” Nós também somos sobreviventes de um genocida, como diria o Professor José do Portal do José.

“Hoje, na Itália, tem gente que diz que a Resistência é um mito comunista. É verdade que os comunistas exploraram a Resistência como uma propriedade pessoal, pois realmente tiveram um papel primordial no movimento; mas lembro-me dos partigiani com bandeiras de diversas cores.”

“Franchi era o meu herói. Ele (cujo verdadeiro nome era Edgardo Sogno) era um monarquista tão anticomunista que, depois da guerra, se uniu a um grupo de extrema direita e foi acusado até de ter participado de um golpe de Estado reacionário. Mas que importa? Sogno ainda é o sonho da minha infância. A libertação foi um empreendimento comum de gente das mais diversas bandeiras.”

OS <CHEGA DE POLARIZAÇÃO> COMEDORES DE MASSA: “Hoje, na Itália, tem gente que diz que a guerra de libertação foi um trágico período de divisão, e que precisamos agora de uma reconciliação nacional. E que a lembrança daqueles anos terríveis deveria ser reprimida. Mas a repressão provoca neurose.” Terminando, à la mode, em pizza, com Supremo, com Centrão, com Rede Globo, com Silvio Berlusconi (vade retro!), com tudo!

“Posso até admitir que Eichmann acreditava sinceramente em sua missão, mas não posso dizer: ‘Ok, pode voltar e fazer tudo de novo.’”

ESTAMOS AQUI PARA RECORDAR O QUE ACONTECEU E PARA DECLARAR SOLENEMENTE QUE “ELES” NÃO PODEM REPETIR O QUE FIZERAM. MAS QUEM SÃO “ELES”?

“mesmo preocupado com os vários movimentos neonazistas ativos aqui e ali na Europa, inclusive na Rússia, não penso que o nazismo, em sua forma original, esteja ressurgindo como movimento capaz de mobilizar uma nação inteira.” Que sirva de lição que 20 anos mudam muita coisa!

“Existe, então, outro fantasma que ronda a Europa (sem falar das outras partes do mundo)? Ionesco disse certa feita que ‘somente as palavras contam, o resto é falatório’. Muitas vezes, os hábitos linguísticos são sintomas importantes de sentimentos não-expressos.”

“Quem reler Por quem os sinos dobram, de Hemingway, vai descobrir que Robert Jordan identifica seus inimigos como os fascistas, mesmo quando está pensando nos falangistas espanhóis.”

“Durante os anos de McCarthy, os americanos que tinham participado da Guerra Civil Espanhola eram chamados de ‘antifascistas prematuros’ — entendendo com isso que combater Hitler nos anos 1940 era um dever moral de todo bom americano, mas combater Franco cedo demais, nos anos 1930, era suspeito. Por que uma expressão como ‘fascist pig’ era usada pelos radicais americanos até para indicar um policial que não aprovava aquilo que eles costumavam fumar? Por que não diziam: ‘porco cagoulard’, ‘porco falangista’, ‘porco ustaše’, ‘porco Ante Pavelic’, ‘porco Quisling’, ‘porco nazista’?”

“Mein Kampf é o manifesto completo de um programa político. O nazismo tinha uma teoria do racismo e do arianismo, uma noção precisa da entartete Kunst, a ‘arte degenerada’”

O NOVO GOSPEL: A BANCADA DA BALA: “Ao contrário do que se pensa comumente, o fascismo italiano não tinha uma filosofia própria. O artigo sobre o fascismo assinado por Mussolini para a Enciclopédia Treccani foi escrito ou inspirou-se fundamentalmente em Giovanni Gentile, mas refletia uma noção hegeliana tardia do ‘Estado ético absoluto’, que Mussolini nunca realizou completamente. Mussolini não tinha qualquer filosofia: tinha apenas uma retórica. Começou como ateu militante, para em seguida assinar a concordata com a Igreja e confraternizar com os bispos que benziam os galhardetes fascistas.”

O artigo que só existe na cabeça desse tipo sui generis de esquizofrênico. Peço vênia para rebaixar o nobre status da doença esquizofrenia ao estabelecer a analogia!

CLOWNESCO: “Pode-se dizer que o fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita que dominou um país europeu e que, em seguida, todos os movimentos análogos encontraram uma espécie de arquétipo comum no regime de Mussolini. O fascismo italiano foi o primeiro a criar uma liturgia militar, um folclore e até mesmo um modo de vestir — conseguindo mais sucesso no exterior que Armani, Benetton ou Versace. Foi somente nos anos 1930 que surgiram movimentos fascistas na Inglaterra, com Mosley, e na Letônia, Estônia, Lituânia, Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Grécia, Iugoslávia, Espanha, Portugal, Noruega e até na América do Sul, para não falar da Alemanha.”

O FASCISMO ITALIANO CONVENCEU MUITOS LÍDERES LIBERAIS EUROPEUS DE QUE O NOVO REGIME ESTAVA REALIZANDO INTERESSANTES REFORMAS SOCIAIS, CAPAZES DE FORNECER UMA ALTERNATIVA MODERADAMENTE REVOLUCIONÁRIA À AMEAÇA COMUNISTA.

“Contudo, a prioridade histórica não me parece ser razão suficiente para explicar por que a palavra ‘fascismo’ se transformou numa sinédoque, uma denominação pars pro toto [parte pelo todo] para os mais diversos movimentos totalitários. Não adianta dizer que o fascismo continha em si todos os elementos dos totalitarismos sucessivos ‘em estado quintessencial’, por assim dizer. Ao contrário, o fascismo não possuía nenhuma quintessência e nem sequer uma só essência. O fascismo era um totalitarismo fuzzy.(*)

(*) Usado atualmente em lógica para designar conjuntos ‘esfumados’, de contornos imprecisos, o termo fuzzy poderia ser traduzido como ‘confuso’, ‘impreciso’, ‘desfocado’.”

Imagens de esquerdaonline.com.br e wikipédia

A HISTÓRIA SE REPETE COMO FARSA – 2018-2022 d.C.: Santíssima Trindade dos anos malignos: King Nothing (Espírito Nefando, “d. Pedro III” que não quer desencarnar do mundo material, um representante da família real que se resignou a concorrer a cargo público numa democracia de massas); o Todo-Poderoso Pai da Mala-Cheia, que passava recibos de “condenações ao inferno” a todos os inimigos (e são muitos!), apesar de não ter nenhuma chave da transcendência; e a paródia do Messias da Juventude: assim como o bom discípulo de Jesus de Nazaré “largou tudo para peregrinar com o mestre”, Monarca, O Ancap, fugiu da escola e largou os estudos formais para viver de fake news e proselitismo da ignorância diante de um público-consumidor imbecilizado por anos de mídia sem regulação. Três eras se encontrando numa só: charretes representando o séc. XIX; o televangelismo (era analógica dos MCM); e o podcast sem freio moral (era digital).

É POSSÍVEL CONCEBER UM MOVIMENTO TOTALITÁRIO QUE CONSIGA REUNIR MONARQUIA E [CONTRA]REVOLUÇÃO, EXÉRCITO REAL E MILÍCIA PESSOAL DE MUSSOLINI [DE JAÍRES], OS PRIVILÉGIOS CONCEDIDOS À IGREJA E UMA EDUCAÇÃO ESTATAL QUE EXALTAVA A VIOLÊNCIA E O LIVRE MERCADO [+ ANARQUISMO E SISTEMA JUDICIÁRIO]?

O AGRO É A INQUISIÇÃO: “O partido fascista nasceu proclamando sua nova ordem revolucionária, mas era financiado pelos proprietários rurais mais conservadores, que esperavam uma contrarrevolução. O fascismo do começo era republicano e sobreviveu durante 20 anos proclamando sua lealdade à família real, [a diferença é que Orléans & Bragança XXI = SISTEMA BANCÁRIO] permitindo que um ‘duce’ [capitão terrorista] puxasse as cordinhas de um ‘rei’ [procuradores da realeza do Financismo: Paulo Guedes e Arthur Lira], a quem ofereceu até o título de ‘imperador’ [plenipotenciários no Executivo e no Legislativo].”

“Existiu apenas uma arquitetura nazista, apenas uma arte nazista. Se o arquiteto nazista era Albert Speer, não havia lugar para Mies van der Rohe. (…) Ao contrário, arquitetos fascistas certamente existiram, mas ao lado de seus pseudocoliseus surgiram também os novos edifícios inspirados no moderno racionalismo de Gropius.”

CRITÉRIOS IGUAIS PARA NOMEAÇÕES, AQUI E ACOLÁ (“Se odeias algo, toma conta!”): “Quando o fascismo se identificou com o Império Romano e redescobriu as tradições rurais, Marinetti (que proclamava que um automóvel era mais belo que a Vitória de Samotrácia¹ e queria até mesmo matar o luar) foi nomeado membro da Accademia d’Italia, que tinha pelo luar grande respeito.”

¹ Ponto mais vil da percepção estética do Homo sapiens.

“Gramsci foi mantido na prisão até a morte, Matteotti e os irmãos Rosselli foram assassinados, a liberdade de imprensa foi suspensa, os sindicatos desmantelados, os dissidentes políticos confinados em ilhas remotas, o Poder Legislativo se transformou em pura ficção e o Executivo (que controlava o Judiciário, assim como a mídia [nossa sorte foi isso não ter ocorrido por inteiro no Brasil]) promulgava diretamente as novas leis, [sem necessidade de saquear o Orçamento com o Bolsolão, p.ex.] entre as quais a da defesa da raça (apoio formal italiano ao Holocausto). [no nosso caso, o gado nelore que batia continência à bandeira americana, isso quando não havia completa e indisfarçada louvação à K.K.K. e ao Nazismo]”

OLAVISTAS X MILITARES X CENTRÃO NEOPENTECOSTAL: “A imagem incoerente que descrevi não era devido à tolerância: era um exemplo de desconjuntamento político e ideológico.”

“Acontece com a noção de ‘fascismo’ aquilo que, segundo Wittgenstein, acontece com a noção de ‘jogo’. Um jogo pode ser ou não competitivo, pode envolver uma ou mais pessoas, pode exigir alguma habilidade particular ou nenhuma, pode envolver dinheiro ou não. Os jogos são uma série de atividades diversas que apresentam apenas alguma ‘semelhança de família’.” Já haviam aparecido na exposição Deus e Pátria, faltava a perna manca da família patriarcal.

Descomplicada exposição teórica de como tudo pôde acontecer no Brasil: ODIAR O PT era a argamassa que “juntava todo o lumpenproletariado” assaz heterogêneo dos reacionários tupiniquins.

“Tirem do fascismo o imperialismo e teremos Franco ou Salazar; tirem o colonialismo e teremos o fascismo balcânico. Acrescentem ao fascismo italiano um anticapitalismo radical (que nunca fascinou Mussolini) e teremos Ezra Pound. Acrescentem o culto da mitologia celta e o misticismo do Graal (completamente estranho ao fascismo oficial) e teremos um dos mais respeitados gurus fascistas, Julius Evola.

A despeito dessa confusão, considero possível indicar uma lista de características típicas daquilo que eu gostaria de chamar de Ur-Fascismo, ou ‘fascismo eterno’. Tais características não podem ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista.”

1. A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. (…) É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincretistas, ocultos. A mais importante fonte teórica da nova direita italiana, Julius Evola, misturava o Graal com os Protocolos dos Sábios de Sião, a alquimia com o Sacro Império Romano. O próprio fato de que, para demonstrar sua abertura mental, a direita italiana tenha recentemente ampliado seu ideário acrescentando De Maistre, Guénon e Gramsci é uma prova evidente de sincretismo. § Quem percorrer as prateleiras das livrarias americanas que trazem a indicação ‘New Age’ encontrará até mesmo Santo Agostinho, o qual, que eu saiba, não era fascista. Mas o próprio fato de juntar Santo Agostinho e Stonehenge, [monumento pré-histórico inglês: acabou virando ícone das bruxas ou religiões neo-pagãs do tipo wicca ou o revivalismo do druidismo] isto é um sintoma de Ur-Fascismo.

2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. [TERRAPLANISMO, ANTI-ABORTO, ANTI-VACINA E PELA VOLTA DO CASAMENTO EM QUE SÓ O MARIDO PODE CHIFRAR A ESPOSA, DENTRE OUTRAS TENDÊNCIAS ARCANAS DEGENERADAS…] O iluminismo e a idade da razão eram vistos como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como ‘irracionalismo’. [Esqueceram-se no entanto de que a cultura helênica, nossa Mãe, é homossexual e politeísta]

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si e, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. [BRAVATAS – COM DIREITO A RECUOS DE VOLTA PARA AS ‘4 LINHAS’ NO DIA SEGUINTE – DE PRESIDENTES CONTRA SEUS INIMIGOS – BASICAMENTE TODOS OS BRASILEIROS INTERESSADOS NO FUTURO – COM DIFICULDADE PALPÁVEL DE TRAQUEJO, EM PALANQUES ARTIFICIAIS (COM PÚBLICO COMPRADO); exposição de tanques de 1920 capazes de poluir a China inteira apenas passeando pela Esplanada dos Ministérios de Brasília como forma da autoglorificação das Forças Armadas; quebras de placas homenageando vereadoras pró-periferia na véspera de eleições, etc.]”

PENSAR É UMA FORMA DE CASTRAÇÃO. POR ISSO, A CULTURA É SUSPEITA NA MEDIDA EM QUE É IDENTIFICADA COM ATITUDES CRÍTICAS.

“‘As universidades são um ninho de comunistas’: a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo.”

“4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição.” O lema da bandeira nacional sempre foi fascista: ordem e progresso. QUESTIONAR ou teorizar que sejam princípios contrários leva à forca.

5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso utilizando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.” E xenófobo (como Eco não esquecerá de colocar na seqüência): argentinos, venezuelanos, cubanos, chineses são inimigos mortais.

“6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social.” Empregos ruins, falta de amigos, ausência de oportunidades de transar…

“Isso explica por que uma das características típicas dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, [pleonasmo] desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política [ascensão do maior Partido Trabalhista do Cone-Sul], assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. [direitos das empregadas domésticas, população freqüentando aeroportos e o sistema universitário…]”

“7. Para os que se veem privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo país.” “obsessão da conspiração” “os judeus são, em geral, o melhor objetivo porque oferecem a vantagem de estar, ao mesmo tempo, dentro e fora. [Daí que o sionismo seja uma forma velada de antissemitismo: que eles estejam apenas em SEU Estado; para isso seu Estado foi criado, para que a diáspora parasse de incomodar ‘cidadãos de bem’ nativos de outras partes!] Na América, o último exemplo de obsessão pela conspiração foi o livro The New World Order, de Pat Robertson.”

“8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo.” O poder nuclear de um pequeno país como a Coréia do Norte, para não dizer da ex-União Soviética; o gigantismo irrefreável – e, para aumentar a dor, capitalista – da China contemporânea. Inveja também do sistema educacional, da medicina e do esporte escolar e de elite cubanos.

“Quando eu era criança, ensinavam-me que os ingleses eram o ‘povo das 5 refeições’: comiam mais frequentemente que os italianos, pobres, mas sóbrios.” Curiosamente, a plataforma que reelegeu Lula foi garantir que o brasileiro voltaria a comer o número necessário de vezes por dia!

“Os judeus são ricos e ajudam-se uns aos outros graças a uma rede secreta de assistência mútua.” Basta trocar judeus por globalistas. Para quem vive em conspirações, deve ser fácil imaginar até uma conspiração sigilosa e onipresente de todas as mulheres contra os homens. Ou de todos os transexuais contra os ‘normais’, mesmo contra qualquer lógica ou plausibilidade (população feminina muito grande para manter uma sociedade secreta; minorias muito desarticuladas, pequenas e desprotegidas para estarem na ofensiva contra o próprio opressor).

“SEEEEEEEELVAAAAAAA!”: “Os adeptos precisam, contudo, ser convencidos de que podem derrotar o inimigo. Assim, graças a um contínuo deslocamento de registro retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais. Os fascismos estão condenados a perder suas guerras,¹ pois são constitucionalmente incapazes de avaliar com objetividade a força do inimigo.” Dado importantíssimo.

¹ Nesse sentido, podemos chamar os Estados Unidos da América de belicamente fascistas desde a Guerra do Vietnã.

“9. Para o Ur-Fascismo, não há luta pela vida, mas antes ‘vida para a luta’. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente.” Preferem ir para a Ucrânia e morrer do que permanecerem num país tropical abençado por… Jeová que não!

SÓ MAIS 72h…: “Complexo de Armagedom: a partir do momento em que os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final, depois da qual o movimento assumirá o controle do mundo.” E ‘do mundo’ neste caso nem sequer é exagero: havia grande fé na imponderável volta de Donald Trump, ‘o amiguinho’ internacional.

“Esta solução final implica uma sucessiva era de paz, uma idade de ouro que contestaria o princípio da guerra permanente. Nenhum líder fascista conseguiu resolver essa contradição.” Muito se objeta a doutrina comunista não esclarecer o período da superação das contradições, autodissolução do Estado burguês e fim das classes, mas pouco se analisa este defeito da extrema direita no espelho. Síndrome de Constantino (do foragido, não do imperador).

“10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática.” Até as ralés são capazes de elitismo.

“Todos os cidadãos pertencem ao melhor povo do mundo, os membros do partido são os melhores cidadãos, todo cidadão pode (ou deve) tornar-se membro do partido.” Ou ter uma arma.

“qualquer líder subordinado despreza seus subalternos e, por sua vez, cada um deles despreza os seus subordinados. Tudo isso reforça o sentido de elitismo de massa.” Protagonismo do AJUDANTE-DE-ORDENS. Ninguém é o último vassalo: há sempre alguém inferior.

“11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói.” O maluco Ivan Rejane.

“Este culto do heroísmo é estreitamente ligado ao culto da morte: não é por acaso que o mote dos falangistas era: ‘!Viva la muerte!’” “O herói Ur-Fascista espera impacientemente pela morte. Note-se, porém, que sua impaciência provoca com maior frequência a morte dos outros.”

Com tamanha obsessão por sexo anal, sexo homoafetivo e, em geral entre os bolsonaristas, estupros de vulneráveis em idade na qual ainda não ovulam, é difícil imaginar como Olavo de Carvalho conseguiu gerar prole, inclusive uma “fraquejada” (palavras de seu maior fã).

“12. Como tanto a guerra permanente quanto o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem de seu machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas)” “Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói Ur-Fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico: seus jogos de guerra se devem a uma invidia penis permanente.” Também é a origem secreta do racismo.

Muita vontade de se engajar em discussões, porém muito pouca paciência e energia para as mesmas: qualquer jogo é “complicado” para fracassados natos. Imagem: reddit.

“13. O Ur-Fascismo baseia-se em um ‘populismo qualitativo’. Em uma democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). [Daí a ojeriza às eleições, misturadas com conspirações de fraude de escala global e descrédito de qualquer estatística como mortes pela Covid.] Para o Ur-Fascismo, os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos, e ‘o povo’ é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime ‘a vontade comum’.” Quando o indivíduo, cadastro de pessoa física, finalmente acossado pela polícia do regime democrático posteriormente reinstalado devido a seu rol de crimes, percebe que não é o povo, seu isolamento é ainda mais funesto (costumeiramente na cadeia, i.e., isolamento tanto metafórico quanto literal).

“Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder se apresenta como seu intérprete.” Um idiota tartamudo representando a falta de qualquer mensagem clara: faz sentido.

“Em virtude de seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo deve opor-se aos ‘pútridos’ governos parlamentares.”

“14. (…) Todos os textos escolares nazistas ou fascistas se baseavam em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico.” Fim da enumeração. O bolsonarismo se sagrou campeão, com 14/14 pontos possíveis!

“Seria muito confortável para nós se alguém surgisse na boca de cena do mundo para dizer: ‘Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas-negras desfilem outra vez pelas praças italianas!’ Infelizmente, a vida não é fácil assim! O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. [Por R$0,20, por exemplo.]” Neonazismo: não precisarão reabrir Auschwitz, porque Auschwitz “nunca existiu” conforme a ‘confiável’ historiografia da borracha nazi. No sul do país a saudação nazista, em muitos locais, tem a mesma aceitação de um ‘olá’. Tem-se confiança na impunidade ou forte crença em que Deus não deixará ‘comunistas’ punirem ‘pessoas de bem, seguidoras de tradições (de menos de 100 anos de idade)’, mesmo no ‘regime inimigo’ (democracia do Estado de Direito).

“Ouso dizer que, se a democracia americana parasse de progredir como uma força viva, buscando dia e noite melhorar, por meios pacíficos, as condições de nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria em nosso país”

Roosevelt – Pax americana como a teoria da conspiração mais doidivanas de todos os tempos.

A “praça” é nossa (do povo), mas desde 2013 ela vinha sendo ocupada por rematados idiotas.

Praxódia Branca dos Olhos Vermelhos, famosa carta subversiva do clandestino jogo de cards Yu-Gi-Oh!, proibido em 177 países.¹

¹ ATENÇÃO: Aviso de ironia.

Fonte: terra.com.br

Os porcos confundiram “suíça” com “suína” e tentaram dar no pé, mas foram interceptados a tempo pelos revolucionários, em tempos de reocupação da praça pública, liberação e regresso da paz.

[REPRISE] O QUE É PÓS-MODERNO? – Jair Ferreira dos Santos, 1987. Thrice is the charm, so roll the dice, it won’t harm.

Originalmente publicado em 16 de setembro de 2009.

“mescla de purpurina com circuito integrado (…) Um bem? Um mal? Quem viver verá.”

CONTRACAPA

– E quantos ainda vivem? E quantos não estão cegos?

índice

1. VEM COMIGO QUE NO CAMINHO EU EXPLICO

2. DO BOOM AO BLIT AO BLIP

Inclui wikia sobre John Barth

3. DO SACROSSANTO NÃO AO ZERO PATAFÍSICO

4. ANARTISTAS EM NULIVERSO [MYTHBUSTING!!]

Inclui wikia sobre o dadá Rudolf Schwarzkogler

5. ADEUS ÀS ILUSÕES

6. A MASSA FRIA COM NARCISO NO TRONO

7. DEMÔNIO TERMINAL E ANJO ANUNCIADOR

1. VEM COMIGO QUE NO CAMINHO EU EXPLICO

Menos coisas do que parece mudaram desde os anos 80: o U2 ainda faz um estrondoso sucesso e tenho um computador a minha frente. Qual a razão? O autor é um visionário ou a História está desacelerando? A fase crítica, a da elaboração do manifesto, teria passado? Agora havemos de ver mais VIDA do que MORTE?

O PRINCÍPIO DO SCAT: “A câmera adaptada ao vídeo filmou vocês enquanto faziam amor. Será o pornô que animará a próxima vez.” Sintomático dos ingleses, segundo Latour; sintomático dos franceses que fedem à bosta, segundo Henfil.

Alternativa diferente das anteriores: o Brasil sentiu isso mais tarde – o escritor captou as tendências descritas somente no Primeiro Mundo. É só pensar nas manifestações pró-aborto: nosso espectro é defasado. E agora a moda é o do contra… Retroação. (2023)

“Na cama, um sentimento de vazio e irrealidade se instala em você.”

ACIMA DO BEM E DO MAL: “Por que o niilismo voltou à boca dos filósofos?” Mas quando é que saiu desde a década de 1880?!

Digamos que o dia agitado do urbanóide retratado equivalha a meu ciclo semanal… (2009, quando morava com os pais, que ‘funcionavam’ num ciclo com esta duração)

“Nenhuma revolta. Entre a apatia e a satisfação, você dorme” É necessário morrer (dormir) mil vezes… O outro lado da moeda – em relação ao niilismo clássico – é oco.

“A fábrica suja, feia, foi o templo moderno; o shopping, feérico em luzes e cores, é o altar pós-moderno” Já foi-se o tempo.

“Os modernistas (vejam Picasso) complicaram a arte por levá-la demasiado a sério. Os pós-modernistas querem rir levianamente de tudo.” Querer não é poder.

A CRIANÇA RADIOSA vs. O ANDRÓIDE MELANCÓLICO: “o fantasma pós-moderno (…) A rigor, nada tem a ver com o Brasil, embora já se assista a um trailer desse filme por aqui”

É preciso sofrer para enxergar algum sentido. Nós, brasileiros, fomos tetracampeões em sofrimento recentemente.

(2009) Quando me torno forte e apólogo do devir, logo surgem vaidades econômicas dos pais, amigos paralisantes, universidade estressante e malditos insetos que não tratam de cessar – combinação explosiva. O clima neste deserto já está há um ano insuportável (quase dois! – 2010), e qualquer retiro imaginável é apenas para lugares piores. Não calculo a possibilidade dessa luta não dar em nada. Meu sonho é centrífugo à realidade jovem do celular-câmera-Orkut-baladas-funcionalismo. Eu quero apenas duas coisas: colchão velho¹ e distância (paradigma do conhaque e da atmosfera puída e calada). As fases passam (C. e reclamação na mesa)… O pior de todos os infernos sem dúvida é o Inferno Tecnológico. Ou o deserto do real a-tecnológico involuntário. Ridiculerói na Terra da Música.

¹ (P.S. 2023) Alergia a ácaros torna este velho ‘mandamento’ proibitivo hoje!

DO TRAILER (TEASER!) AO LONGA: O que é não fugir, Jesus? O que é não consumir, Lúcia? O que é não tratar do cabelo no salão, Nadir? O que é ter um pobre na família, Aguiares? O que é não sair de casa no sábado, Eduardo? Todos estamos no mesmo barco – inclusive eco-chatos e maconheiros, não é, G.B.? Você sai muito de casa e toma muito suquinho? O quanto isso o elevou? Ao anonimato num jardim malpodado!

(O ruim de anotar as coisas é que a gente lembra das coisas! Inconscientemente, já havíamos nos vingado há muito tempo…)

“preferimos o (…) simulacro ao real. E por quê? Porque desde a perspectiva renascentista até a televisão, que pega o fato ao vivo, a cultura ocidental foi uma corrida em busca do simulacro perfeito da realidade.” “Simular por imagens como na TV, que dá o mundo acontecendo, significa apagar a diferença entre real e imaginário, ser e aparência. Fica apenas o simulacro passando por real. Mas o simulacro, tal qual a fotografia a cores, embeleza; intensifica o real. Ele fabrica um hiper-real, espetacular, um real mais interessante que a própria realidade.” Quebra da tela da TV definitiva (resolução maior que a de qualquer olho humano) e multipolaridade, o caminho.

“Sua superfície é enorme, lustrosa, sedutora (…) O Danone verdadeiro é um alimento mixuruca.”

2. DO BOOM AO BIT AO BLIP

John Barth, The Floating Opera

______, Giles, o Menino Bode

______, Once Upon a Time: A Floating Opera

______, The Literature of Exhaustion, 1967 // “Barth has since insisted that he was merely making clear that a particular stage in history was passing, and pointing to possible directions from there. He later (1980) wrote a follow-up essay, The Literature of Replenishment, to clarify the point.” Curiosamente, Barth e (Roland) BarthES possuem trabalhos teóricos correlatos e coetâneos!

wiki: “Despite Barth’s influence on postmodern literature in America, his influence and publicity have decreased since his novels were published.”

“Barth began his career with The Floating Opera and The End of the Road, two short realist novels that deal wittily with controversial topics, suicide and abortion respectively. They are straightforward realistic tales; as Barth later remarked, they ‘didn’t know they were novels’. § The Sot-Weed Factor (1960) was initially intended as the completing novel of a trilogy comprising his first 2 ‘realist’ novels, but, as a consequence of Barth’s maturation as a writer, it developed into a different project.”

“Barth’s next novel, Giles Goat-Boy (about 800 pages), is a speculative fiction based on the conceit of the university as universe. Giles, a boy raised as a goat, discovers his humanity and becomes a savior in a story presented as a computer tape given to Barth, who denied that it was his work.”

“The short story collection Lost in the Funhouse (1968) and the novella collection Chimera (1972) are even more metafictional than their 2 predecessors, foregrounding the writing process and presenting achievements such as a 7-deep nested quotation. Chimera shared the U.S. National Book Award for Fiction.”

“The Floating Opera is a novel by American writer John Barth, first published in 1956 and significantly revised in 1967. Barth’s first published work, the existentialist and nihilist story is a first-person account of a day when protagonist Todd Andrews contemplates suicide. § Critics and Barth himself often pair The Floating Opera with Barth’s next novel, The End of the Road (1958); both were written in 1955, and they are available together in a one-volume edition. Both are philosophical novels; The End of the Road continues with the conclusions made about absolute values by the protagonist of The Floating Opera, and takes these ideas ‘to the end of the road’.”

EDITOR OU AÇOUGUEIRO? “After a string of publisher rejections, Appleton-Century-Crofts agreed to publish The Floating Opera in 1956, but stipulated it ‘conclude on a less nihilist note’; Barth complied and altered the ending. (…) Barth made a number of changes to the text for a revised edition from Anchor Books in 1967, including restoration of the original ending.”

“Giles Goat-Boy (1966) is the 4th novel by American writer John Barth. It is a metafictional comic novel in which the universe is portrayed as a university campus in an elaborate allegory of both the hero’s journey and the Cold War. Its title character is a human boy raised as a goat, who comes to believe he is the Grand Tutor, the predicted Messiah. The book was a surprise best-seller for the previously obscure Barth, and in the 1960s had a cult status.”

Nathalie Sarraute (1900-1999), Portrait of a Man Unknown (Portrait d’un inconnu)

______, L’Ère du soupçon, 1956 (enssaio)

______, Tropismes

3. DO SACROSSANTO NÃO AO ZERO PATAFÍSICO

John Fowles, A Mulher do Tenente Francês

Donald Barthelme (1931-1989), Snow White (1967)

_____, Me and Miss Mandible (conto)

_____, The Joker’s Greatest Triumph (c.)

_____, The Balloon (c.)

4. ANARTISTAS EM NULIVERSO [MYTHBUSTING!!]

EM NOME DA ARTE: O caso que sempre recordo, mas nunca sei dizer o nome do suicida: Rudolf Schwarzkogler (1940-69), vienês, precursor da arte performática, se matou em uma exibição apoteótica em 1969.

wiki: “He was born the son of a doctor who killed himself near Dubinniskij-Stalingrad after a serious war injury in which he lost both legs. In 1951 Schwarzkogler’s mother moved with her son to Lienz, where she married the sculptor Erich Unterweger. In 1954 he moved back to Vienna to live with his paternal grandmother and in 1956 to live with his other grandmother in Vienna. He continued to attend high school and in 1956 the federal trade school for one year.

In 1960, he met Hermann Nitsch, who had graduated from the ‘Graphische’ in 1958, and became friends with him. The following year he left graphic arts without a degree and worked in the summer as a student trainee for C.F. Boehringer und Soehne GmbH in Mannheim. In October he enrolled at the Academy of Applied Arts Vienna, but only attended it briefly. He was drafted into the military. He worked as a graphic artist and took part in campaigns by Viennese actionists such as Otto Muehl and Hermann Nitsch. Shortly afterwards he started his own actions.

Schwarzkogler devoted himself entirely to free art from 1965 and quit his job. He started out with horse betting and was interested in winning systems. In 1968 he took part in film projects. In 1969, he died after falling from the window of his apartment. He was buried at the Vienna Central Cemetery.” Ou não contaram a história direito (em alguma das fontes) ou a verdadeira história suicida era unicamente a de seu pai…

“The enduring themes of Schwarzkogler’s works involved experience of pain and mutilation, often in an incongruous clinical context, such as 3rd Aktion (1965) in which a patient’s head swathed in bandages is being pierced by what appears to be a corkscrew, producing a bloodstain under the bandages. They reflect a message of despair at the disappointments and hurtfulness of the world.”

“His first and most famous action was performed on February 6, 1965, titled Wedding: Schwarzkogler shows a private ritual with religious, shamanistic and alchemical elements at a table covered with a white tablecloth, on which there are dead fish, a dead chicken, various animal organs, eggs, colored liquids, a knife and scissors.”

FAQUIR EUNUCH NEWS? “Chris Burden once remarked that a 1970s Newsweek article, which had mentioned himself and Schwarzkogler, had misreported that Schwarzkogler had died by slicing off his penis during a performance. (…) The castration theme in some of them — for example, in Aktion 2 he posed with a sliced open fish covering his groin — have additionally fueled this myth. Additionally, the protagonist of the Aktion in which the cutting of a penis was simulated was not Schwarzkogler himself, but his friend and model, the renowned photographer Heinz Cibulka. When Schwarzkogler died, the series of performances had long been concluded. He was found beneath a window from which he had fallen, seemingly the victim of an accident. His death generated speculations and further myths.”

Castro a sociedade e mato o Ocidente, teria dito o ditador cubano.

Kurt Vonnegut, Cat’s Cradle (já recomendado em minha resenha de Symphony of The Night).

Robert Coover, The Public Burning

Robe-Grillet, La Maison de Rendez-Vous (Encontro em Hong Kong)

Italo Calvino, Cosmicomics

______, Se um viajante numa noite de inverno… (roleplaying game)

Günter Grass, O Tambor

______, O Linguado

NACIONAIS

Osman Lins, Avalovara

Ivan Ângelo, A Festa

Rubem Fonseca, O Cobrador

Victor Giudice, Bolero

Sérgio Sant’Anna, O Concerto de João Gilberto no RJ

CINEMA

Paris-Texas, Salve-se Quem Puder

5. ADEUS ÀS ILUSÕES

“Nietzsche entrou em (sic) moda nos anos 70 [na verdade dir-se-ia que na Europa entrou em moda nos 1900 e decaiu antes dos 1960!] e continua no hit-parade”

“A pós-modernidade é o momento em que tais valores [fim, unidade, verdade], ainda atentos e fortes durante a modernidade industrial, entram em decadência acelerada. Se isso vai dar ou não na transvaloração, no supra-homem, é outro papo.” O ‘velho’ papo: a) falta de conhecimento do método; b) imaturidade dos meios de produção.

“Esse profeta, que pensava durante longas caminhadas, usaria hoje um walk-man sem som para melhor enxergar na confusão de nossa época.” Datado E adiantado.

Lyotard, A Condição Pós-moderna

(leitura atrasada!)

6. A MASSA FRIA COM NARCISO NO TRONO

Madonna como a criança radiosa.

“A melancolia, sentimento frio, é o último grau da apatia – a doença da vontade – prevista por Nie. para o homem ocidental quando ele fosse o andróide programado pela tecnociência” A melancolia ainda está muito longe de ser o non plus ultra de alguma coisa séria…

(2009) Woody Allen é o arquétipo do melancólico.

(2023) E do pedófilo.

7. DEMÔNIO TERMINAL E ANJO ANUNCIADOR

Alvin & Heidi Toffler, A Terceira onda Revolutionary Wealth, 2006. (atualização tardia) – desconfiar: sociologia norte-americana

Muniz Sodré, A Máquina de Narciso: Televisão, indivíduo e poder no Brasil, 4ed., 2001.

Umberto Eco (1932-2016), Viagem na irrealidade cotidiana, 1984. (arquivo da anna, inglês)

______, O fascismo eterno, 1997 (2018, trad. de Eliana Aguiar, Record). (exemplar impresso baratinho – 50p. – na Amazon)

Baudrillard, À sombra das maiorias silenciosas

[REPRISE] ANCESTRALIDADE EM CLASSE

Originalmente publicado em 17 de setembro de 2009.

Quando chegamos ao cume do tédio advêm algumas vontades esquisitas. À parte aquela de fuga do momento (estar em uma sala abafada, quase imóvel, a bunda doendo machucada pelo caráter tosco da carteira, exposição mecânica, dialética vã e vazia), quando o corpo se resigna e decerto se conforta com um tempo eterno (sempre foi assim!), começo a preparar tarefas, realizáveis sem sair do meu lugar. Exemplos: contar o número de pessoas alojadas, pensar detidamente sobre meu sábado, o que todas elas farão imediatamente ao ganharem a liberdade, do que meu corpo precisa, como ele se conforma agora, o deslocamento de cada sujeira da minha unha… Quando lerei os textos exigidos? O que o Douglas pensaria dessas elucubrações? É uma modalidade de estetização, um bricolage absurdo, abundante, num tal meio escasso – como seu maquinário faz nos sub-enredos (nas tramas em cascata) dos sonhos! Para quem o Thiago estava ligando? Será apenas para espantar o sono? Estou concretizando a meta minimalista de converter em narrativa cada momento (insight Pedro V.): essa vida de aluno, haverá algo tão agradável-no-melancólico para mim? Pareço um matusalém das salas de aula, sou um barbudo grisalho cheio de artimanhas. Quantas horas! Cada coçada de nariz, essa sensação de não estar em nenhum tempo, dissociado de pretéritos e destinos… Vício no ócio, não há outra explicação. E em expelir sangue (negro).¹ Salas semi-desertas e de “fim de curso”: panorama parecido com meu parto do Andarilho T…²

¹ (P.S. 2023:) Trata-se da cor da tinta da caneta.

² (P.S. 2023:) Conto iniciado em 2004. Retrabalhado e publicado em 2012 e novamente em 2016. Talvez venha a figurar na série CILA OU CARIBDE.

ESPERTEZA, INTELIGÊNCIA E SABEDORIA: DO SABER QUE NADA SABE

Muito se fala sobre esperteza, inteligência e sabedoria. O povo é bom em apreender imediatamente qualidades, mas ruim em definir conceitos.

A esperteza está associada à imediatidade da memória e ao egoísmo. Seu contrário é a lerdeza.

A inteligência, ao acúmulo da memória, tendente à paralisia se o uso da memória se aproxima do máximo, como com uma caixa de e-mail e seu espaço de armazenamento cada vez mais curto sem a manutenção do usuário. Tendem também a inteligência e seu constante cultivo a uma espécie de desinteresse, embora existam outras (espécies de desinteresse). Seu oposto é a burrice clássica.

Esperteza e inteligência são termos relativamente intercambiáveis no uso do dia a dia, e esse fato não é acidental. Há um pressentimento de que alguém é “um dos dois”, mas não ambos em conjunto. É até quase impossível ser inteligente sendo esperto. Ou ser esperto sendo inteligente, graças à natureza de “depósito da memória” da faculdade da inteligência. Do ângulo da mundanidade, o esperto e o inteligente são como água e óleo. A sabedoria é transcendental e ainda não entrou na conversa.

É que do sábio e da sabedoria nada se pode afirmar. A sabedoria é tão instável e flutuante quanto o humor e, para todos os efeitos, todo homem é instável de humor, caso essa simples analogia não tenha bastado para estabelecê-lo diante do leitor. Estamos em uma aporia. Precisaremos da ajuda de um filósofo consagrado neste momento:

“SÓ SEI QUE NADA SEI” (Sócrates) nunca foi uma afirmação irônica ou falsa modéstia. Sempre significou no seu mais profundo aquilo que diz literalmente (em modo alongado, para melhor compreensão), quer seja, “Cheguei a saber o que vem a ser a sabedoria, mas me é impossível determinar se sou ou não sábio, exatamente em virtude da própria descoberta, visto que nenhum homem neste mundo pode dizê-lo e ter esperança de atingir a verdade da questão. Pode ter a mais plena convicção de ser sábio e no entanto estar errado. Normalmente está, quando tem certeza. Somente o que se pode afirmar é: sou ‘mais sábio’ do que era outrora; e quem haveria de afirmar que é ‘menos sábio’? É bem possível (a situação de se tornar menos sábio ao longo do tempo), mas o ego não admitiria, seria uma chaga profunda. Talvez possamos dizer que nosso ego nunca é sábio. Enfim, sou mais sábio do que já fui antes, mas quão mais sábio me torno mais vejo o quanto sou ignorante, e posso prever uma situação em que sou dez vezes mais sábio que agora, e teria dez vezes mais dúvidas sobre minha própria sabedoria, pois me sentirei, neste caso, o possuidor do décuplo da ignorância. Portanto, como posso dizer, se as coisas são assim, que isto – meu eu atual – é a detenção da sabedoria? Decerto que ANTES não era sábio, se é que agora o sou; aí termina todo meu conhecimento.”

É isso que significa a transcendentalidade da sabedoria. Ela é indeterminável por discursos mundanos. Pela nossa capacidade de observação empírica. Não só nunca poderemos avaliar se somos sábios como nenhum homem poderá emitir este juízo sobre qualquer de seus semelhantes.

Também salta aos olhos que a ética é matéria transcendental, assunto para a metafísica. É por isso que seguirá para sempre indeterminada, porque o ser-ético depende sempre do contexto. O “SOU BOM?” e o “SOU SÁBIO?” caminham de mãos dadas.

Há uma imensidão de espertos, mas pode-se, sem dúvida, ser lerdo, burro e ignorante (este último o contrário de sábio), tudo ao mesmo tempo. Nem água, nem óleo. O esperto costuma ser arrogante e depreciar a esperteza alheia. Uma conduta demasiado inesperta.

Ao sábio, figura intangível, tanto se lhe dá: se é lerdo ou atento, precavido ou desprotegido, se tem a cabeça ‘cheia’ ou ‘vazia’, se é o cume do egoísmo ou o cume do heroísmo altruísta. Isso são valores humanos, inúteis no reino da sabedoria, e é por isso que, se um sábio houver, ele ainda assim não passa de um homem, porque chega o instante em que estes valores lhe são muito caros; todo desprezo é afetação ou estratégia conscientemente temporária. Sempre voltamos ao mesmo lugar. Talvez essa seja a tragédia do sábio, que sendo cotidiana e se repetindo ad nauseam se torna por fim uma comédia: ele deve ser o mais esperto e inteligente que jamais vimos, mesmo sem querer sê-lo! Está sempre correndo de e atrás de si mesmo. E o homem – qualquer homem – pode ele ficar parado?

‌O próprio Sócrates, na opinião de muitos homens, tinha a pior das mulheres. Mas talvez fosse a melhor, a que mais lhe convinha. Dela mesmo, podemos dizer que não fosse sábia? Assumindo que tudo que a historiografia machista nos deixou seja fidedigno, ainda assim ela foi casada com o homem que em seu tempo era considerado pelos outros homens (ou pelo menos pelos cidadãos atenienses) o mais sábio. Quem mais podia se jactar de tamanha sorte? A isto aceito a objeção de que com família é como com dinheiro: nem esperteza, nem inteligência, nem sabedoria atuam, é questão de sorte. Mas o que resta saber é se no caso de Xantipa o único móvel, a única causa, em sua biografia, para ter se tornado a esposa de Sócrates foi mesmo a sorte.

No entanto, Sócrates, além de cunhar a frase definidora da sabedoria (ou melhor: definidora da indefinibilidade prática da sabedoria, no limiar mais mestiço entre ignorância e saber jamais registrado), e de ter tido uma “esposa interessante” (porque gera muito debate entre os estudiosos até hoje) conforme a historiografia (e devemos suspeitar do fato de que Platão, o maior biógrafo ou romancista de Sócrates, jamais se preocupara com esta personagem), completou sua vida do modo lendário que mais depõe a favor da hipótese de que Sócrates era um sábio (como mártir ou inaugurador de religiões ou doutrinas): se não podemos afirmar quem foi sábio e ter certeza de acertar, podemos dizer que quem tem medo da morte¹ não pode ser um sábio (e veja: para complicar, até para isso, para o morrer, existe a capacidade do simulacro; que homem de aspecto valente diante do cadafalso podemos dizer com certeza que não está no fundo apenas representando um papel? que covarde não nos poderia estar secretamente pregando uma peça, talvez pregando uma peça até a si mesmo?).

¹ Afirmação arbitrária? Se a morte é justamente incompreensível para nós, inevitável e uma incógnita que define nosso modo ético de ser, como capítulo importante da vida! Como o sábio teria medo da morte, este acontecimento sem testemunhos, se forçosamente ignora este fenômeno como todos os ainda vivos, e se a sabedoria é justamente ter consciência perfeita de sua imensa ignorância? Se ‘tanto se lhe dá’ isso como aquilo, como dito acima?

Nenhuma flecha mergulha com mais ímpeto rumo a seu alvo do que o sábio rumo à morte, esta é a única certeza. Que ele será bem-sucedido no mergulho, disso tampouco podemos falar, não podemos cravar nada! Sócrates foi soldado na guerra e viveu por sete décadas. Não morreu uma morte precoce de Alexandre Magno, como não morreu uma morte tísica de poeta romântico.

DICCIONARIO DA LINGUA TUPY CHAMADA LINGUA GERAL DOS INDIGENAS DO BRAZIL POR A. GONÇALVES DIAS

Livreiro de S.M. O Imperador do Brazil, 1858.

PREFACIO

“Appliquei-me pois a esse estudo, e com quanto não fosse minha intenção demorar-me nisso muito, achei-me no fim de algum tempo com grande numero de notas, algumas das quaes me não parecerão sem importância; mas essas notas, na confusão em que eu as tinha, de nenhum proveito serião para outros, e para mim mesmo de bem pouco me servião. Foi-me por tanto preciso organisal-as, e, concluido o trabalho da coordenação, me achei com o dicionário, que agora dou á estampa.

Tomei por baze o vocabulario, que o autor da <Poranduba Maranhense>accrescentou ao seo trabalho, valendo-me da Grammatica do Padre Figueira, do Diccionario Braziliano, publicado por um anonymo em Lisboa, no anno de 1795, de um Manuscripto com que deparei na Bibliotheca Publica do Rio de Janeiro, e cujo titulo me esquece agora, de outro Diccionario, tambem manuscripto, da Bibliotheca da Academia Real das Sciencias, de Lisboa, e de 4 dos cadernos que acompanharão as remessas do nosso distincto e infatigavel naturalista – Alexandre Rodrigues Ferreira, durante a sua commissão scientifica pelo Amasonas nos annos de 1785, 86 e 87.”

“É ainda este o motivo por que, com quanto reconheça a justeza das observações que me fez o Dr. PETERS, professor na Universidade de Berlim, não posso, por em quanto, seguir o seo conselho – de dar aos caracteres do nosso alphabeto o valor phonico, que vai sendo hoje em dia admittido para as linguas não escriptas, de modo que taes sons podessem com mais facilidade ser reprodusidos por todos, que não somente por aquelles que conhecem o portuguez.”

* * *

A.

A – vogal, I. antepõe-se a certos verbos servindo em logar de pronome = xe = a primeira pessoa, agente do verbo ou oração. Não se dis: Xe juca, mas A-jucá, eu mato. Faz nas outras pessoas: ere, o, ya, oro, pe, o. Emprega-se em todos os tempos do indicativo, optativo e permissivo; mas nos do conjunctivo, imperativo e infinitivo antepõe-se-lhe um T. Neste caso se deverá dizer ta ou por eufonia tai. II. No fim da palavra ou oração dá-lhe mais força e sôa como ã. Ex. A-ço-ã, eis me vou. III.membri virilis caput.

AAGNI, de nenhuma maneira (contração – vide abaixo).

AÁN, não. É difícil precisar-se o sentido de cada um dos compostos deste adverbio: seguem-se exemplos.

AÁN ANGAI, de nenhuma maneira.

AÁN DE, mas não foi; não é assim.

AÁN GATU TENHÉ, de nenhuma maneira. [parece que os índios daqui gostavam de negar em absoluto!]

AÁN I, isso nunca.

AÁN IREÃ, não é assim (só para o gênero masculino como sujeito da frase)

AÁN IRI, não é assim (só para o gênero feminino como sujeito da frase)

AB, destituído de significado de forma isolada. Na conjugação verbal, adquire sentido de ação. Ex: A-ybyra-ab, córto madeira.

ABÁ, I. creatura, pessoa, nação, familia forra. Quem? Qual? II. desinência dos nomes que se derivam dos verbos ativos e neutros, e exprimem o lugar, tempo, modo ou instrumento com que alguma coisa se faz Estes nomes em aba provêm de alguns dos verbos, que acabam em e, i, o, u, e de todos os que acabam em ng. A-u, comer, faz – g-u-ába, monháng, fazer, faz monhángába.

ABÁ ANGAI, tirano.

ABÁ ANGAIPABA OÇU ETÉ, tirano terrível.

ABÁ ANGATURAMA, homem bom.

ABÁ CAAPORA, mateiro, travesso.

ABÁETÉ, homem ajuizado. É também o nome do rio que desagua no de S. Francisco, onde em 1792 se achou um dos maiores diamantes conhecidos.

[Significação atual: homem experiente, calejado; feioso, repelente.]

ABÁ IBA, namorado, noivo.

ABÁ ITAJUBARA, homem rico, homem de ouro.

ABÁ TAPUYA, inimigo.

ABÁ TUPAN MOETÊÇÁRA, devoto.

ÁBA, cabelo.

ÁBA COARACY, cabelos do sol.

ÁBA CÚU, cabelo penteado.

ÁBA IATYCA, cabelo curto.

ÁBA MOROTINGA, cabelo branco.

ÁBA PECU, cabelo comprido.

ÁBA PIXUNA, cabelo preto.

ÁBA PYRANGA, cabelo ruivo.

ABATIJÊ, milho.

ABATIXI MEAPÉ, broa.

ABATIXI PIRÓCA, descascar o milho.

ABICUY AÍB, pentear mal (no sentido de “aspirar algo com más intenções”, sentido caduco de “pentear” em Português); o AÍB – advérbio – é a partícula que qualifica a ação do agente moralmente. Não equivale a “aspirar algo de modo ruim”, ou seja, incompetentemente, mas literalmente aspirar de modo malévolo.

ABICUY-ABICUY-AUB, aspirar com grande afã.

ÁCA, corno.

ÁCA ÇUÇÚAPÁRA, corno de veado.

ÁCA I, corninho.

ACÁ, interjeição de dor. Homens também usam ai; já as mulheres, acaigoê.

ACAJÁ, cajazeiro(a).

ACAJU, cajueiro.

ACAJU ACAI PIRAÇÓBA, chuvas de agosto e setembro, que destroam as flores do caju.

ACAJU ETÁ, ano, idade. (Os índios guardavam cada ano uma castanha de caju para registro do tempo, ou pelo menos da quantidade de anos vivida por um indivíduo.)

AÇÁMO, espirro. (ÇAMO = espirrar) Possuem conjugações de gerúndio, subjuntivo, subjuntivo pretérito, particípio presente e passado, etc…

ACARÁ, I. ave (espécie de garça = goratinga, Guiratinga) da qual soíam extrair penas para seus adornos e que se alimentavam principalmente de mariscos. II. e também, um peixe, com várias sub-espécies tais quais assu, tinga e pixuna.

Atualmente, consta somente como peixe, em Zoologia; sinônimo de acarajé; e ainda algodão ardente comestível usado em rituais do candomblé.

AÇÓ COICÉ COICÉ, antes de anteontem.

ACOÁUB EY’MA OÇU, idiota.

ACAUÁN, ave mata-cobras. Faz-se antídoto de picada de cobra com o farelo dos ovos desta espécie. Plumagem cinza, vermelha, marrom, preta e branca. Apresenta um canto bem peculiar (tudo indica que o nome deriva de uma onomatopéia). Mais detalhes em https://en.wikipedia.org/wiki/Laughing_falcon.

ACUTY, cotia ou cutia, espécie de capivara de pequeno porte. Significa, na nomenclatura indígena, “animal cauteloso”.

ACUTY BÓIA, cobra predadora da cotia.

AÊ,I. pronome ele. II. verbos dizer, e variação de ver, querer, poder, ter e haver. “A syllaba mo faz imperfeito o verbo, ou esteja antes ou depois delle. Ex: Aeibe-o-ço-bo-mo.”

AÊ AÊ, eles.

AÊ BOÊ, e por falar nisso…

AÊ ETÁ, eles, elas.

AÊ RAMÊ VÊ CATU, simultaneamente.

AÊ, RIRÊ, aí então, após o quê, etc.

AÊ RIRÊ MIRIM, logo em seguida.

AÊ TENHÉ, idem.

AIBÉ, conjunção e. = AIPO

AÉPE, aí.

AERÉME, então. “Ajunta-se aos verbos, denotando o preterito imperfeito. Á-juca aeréme, eu matava então.”

AETENHE, em vão.

AEYBÊ, também.

AGOÉRA, usado para compor o pretérito mais-que-perfeito. Ex: Juca-agoéra, “que matara” ou “havia matado”, para narrar uma ação anterior a uma outra também no passado.

AGUAÇÁ, AGUAÇÁBA, amante.

AGUACÁBÓRA, traição.

AI, I. interjeição de dor masculina. II. eu, usado para determinados verbos.

AICOBÊ, haver, viver, existir.

AIXÊ, tia paterna (de ambos os gêneros para x sobrinhx). Na nossa taxonomia moderna, além de irmã do pai, podia tratar-se também de prima sua (filha de tia).

AIXÔ, sogra, porém só usada para o genro (masculino).

AKYRÁR, abortar.

AMÁNA, chuva.

AMÁNA OPYC, chuviscar.

AMANAJÊ, fofoqueiro.

AMBYRA, morto.

AMO, “desinência dos gerúndios e supinos. Xe maenduar-amo, lembrando-me eu, para me lembrar. Fazem o gerúndio em amo os verbos acabados em í ou ú, e todos os do pronome xe. Ex: Xe angaturam faz xe angaturam-amo. Negam-se todos estes, interpondo-se a dicção eym antes de amo. Xe angaturam-eym-amo.”

AMOTAREY’MA, odiar.

AMÚ, irmã ou prima da esposa.

ANÁMA, parente.

ANDIRÁ, morcego.

ÁNGA, alma, consciência.

ANGATURÁMA MOANGA, hipócrita.

ANHÁNGA, fantasma.

APIÁBA, macho (homem ou animal).

APUÁM, bola, redondo.

AR, nascer.

ARA, I. dia, hora, ocasião, tempo. II. mundo.

ARA CATU, oportunidade, bonança (kairos)

ARA CUÎPE, meio-dia

ARA JABÊ JABÊ, ordinariamente.

ARA RANGABA, relógio.

ÁRA, “partícula pospositiva, a que de ordinário se junta um -ç-: no fim dos verbos indica a pessoa que na atualidade exercita a sua significação, p.ex.: Capy’c, pentear: Capyçara, o que penteia atualmente. A língua tupi é tão rica destas partículas que julgamos conveniente apresentar aqui um quadro das mais importantes, ainda que as tenhamos de repetir em seus lugares. Ora, junta-se-lhe um -b-, se o verbo acaba em vogal, ou mudando-se-lhe a desinência por eufonia. O que tem por costume exercer a significação do verbo. Icapyc’ ora ou melhor Capy-bóra, o que atualmente é penteador. Aba (junta-se-lhe um -c-) indica o lugar, o tempo, o modo, o instrumento com que se exercita o agente: Capycaba. Çara óera, a pessoa que já penteou, Çar’ amboéra, a pessoa que estava para ser penteador: o penteador que houvera de ser; mas não foi. Çar’ ama, o penteador digno de ser. Bor-oéra, a pessoa que usou do ofício, ou teve o costume; mas já não usa ou tem. Denota grande exercício no passado. Bor’ amboera, a pessoa que tinha por costume ou ofício pentear, ou o que esteve para ser penteador no tempo passado, mas acabou não sendo. Bor’ ama, a pessoa que atualmente usa do hábito de pentear, e que continuará a usar. Cab oéra, o lugar, o tempo, o modo, o instrumento com que no tempo passado se penteou. Cab-timboéra, o lugar o tempo, o modo, o instrumento com que no tempo passado se havia de pentear, mas acabou não se penteando. Cab-âma, o lugar, o tempo, o modo, o instrumento com que atualmente se penteia, e com os quais ainda no futuro se penteará. Escusado será repetir que estas partículas são pospositivas: nos exemplos que damos, subentendemos sempre o verbo -Capuy’c.”

ARAÇARY, ave, de cor verde-escura, cabeça e pescoço negros, peito e ventre loiros.

ARAPACÚ, pica-pau.

ARÁRA, arara.

ARARÚNA, arara preta.

ARARYCA, espécie de papagaio.

ARAVARÍ, sardinha.

AREBÊ, barata.

ARÚ, sapo.

ATANGAPÉMA, espada.

AVERÁNA, asma.

AY’G, preguiça (animal): “difícil de apanhar-se quando foge [!!]: a grande volta-se às vezes com furor contra os que a perseguem; as pequenas mergulham no fundo dos lagos e lagoas atrás de algum sustento.

B.

BÊ, também

BEBÊ, voar

BO, “I. para: partícula pospositiva do dativo. Quase não se faz sentir na pronunciação, e emprega-se ordinariamente com os pronomes pessoais. – Ixebo, Indebo, Iandebo, Orebo, Penhobo, para mim, para ti, etc. II. Sílaba que tomam os verbos acabados em a, e, o, na formação dos gerúndios. Juca-bo, a matar, para matar. Mondo-bo, e assim os mais. III. Significa também extensão de lugares, ou a continuação de alguma ação. Ex: A-ço caa bo, vou pelos matos. A-lo óca bo, vou pelas casas. Aico-xe-r-amuya reco bo, vivo pelos costumes de meus avós.”

BORA, “desinência dos nomes verbais, exprimindo que a pessoa exercita a significação do verbo com muita continuação, hábito ou gosto. Assim, enquanto Canhem-bára exprime o que anda fugido ou por acaso, ou por essa vez somente, – Canhem-bóra exprime o fujão, o que tem por costume andar fugido. Daqui se concluirá que muitos verbos não podem admitir semelhantes desinências.”

BOYA, cobra: “na composição precede ao adjetivo, pospõe-se ao substantivo. Acuty-boya, Arara-boya, Currurú-boia, etc., covras de cutia, de arara, de sapo.”

BRÃ, em vão. “Observamos que é tão raro nesta língua o encontro de duas consoantes de qualquer natureza que sejam que não hesitamos em dar por suspeita a ortografia desta e das demais palavras em que aparecem.”

BUBÚI, boiar

Ç.

“I. Todos os nomes que começam por ç, quando são relativos, conservam o mesmo ç. Ex: Çaba, a penugem ou pena miúda do pássaro, significa igualmente: sua pena. II. Todos os nomes, começados por t, quando se põem relativamente, mudam o t em ç. Ex: Tetê, corpo. Ç-’etê, seu corpo.”

ÇAÇÁO, passar, atravessar

ÇACÊME, gritar

ÇAÍNHA, dente

ÇAJÚCA, nervo

ÇAPUCÁIA, árvore; fruto; galinha.

ÇAPY, queimar

ÇAPYÁ, testículos

ÇAPYÁ JÓCA, castrar

ÇARONÇÁBA, esperança

ÇAUÇUB, amar

ÇAUÇUPÁRA, amante

ÇAYR, riscar

ÇÓ, ir

ÇÓBA, rosto

ÇÓBA CY, carrancudo

ÇÓBA CY OICÔ, estar triste

ÇÓBA JUBA, pálido

ÇÓBA OÇÚ, severidade

ÇÓBA PECANGA, maçã do rosto

ÇÓBA PETÉCA, bofetada. Ou puytéca.

ÇÓBA RANGÁBA, máscara

ÇOBAIXÁRA, opor

ÇOBAIXÁRA NHÉENGÀ, replicar

ÇOBAIXÁRA TURUÇÚ PORÝB, maior parte

ÇOBAKÊ, perto

ÇOBAKÊ GOÁRA, vizinho

ÇOBAÝ, Portugal

ÇOBAYÂ, rabo

ÇOBAYÂ ACÝCA, derrabado!

ÇOBAYÁNA, inimigo

ÇOBAYGOÁRA, português; vinho europeu.

ÇOÇÁNGA, sofrer, estar doente.

ÇOÇÓCA, socar, calcar

ÇOKENDÁ, tapar

ÇOKENDABÓCA, desaferrolhar

ÇOKENDAPÁBA, rolha, tampa

ÇÓO, caça, carne, animal

ÇÓO PAPÁO, quinta-feira (?)

CÓO PIRÉRA, couro

ÇOPE, roça

ÇOPIÂ, ovo

ÇOPIÂ TACÁCA, clara

ÇOPIÂ TAGUÁ, gema

ÇORÝB, alegre, folgazão

ÇUAÇÚ, veado. “O nosso célebre naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira diz que os índios chamavam Suhà assu a todo veado, por terem a cabeça comprida e testa grande, a que (acrescenta ele) os índios chamam Suhà assù. Parece, contudo, que essa palavra tem outra etimologia. Seria de çúu, mastigar: çúu assu vale tanto quanto ruminante. Os índios chamavam ÇUÁÇÚ-MERIN o filho da caça.”

ÇUAÇÚ ANHÁNGA, “veado diabo, cuja carne não presta para quem padece de sífilis ou sezões [febres]. Não lhe aparece mais que a extremidade das pontas dos chifres [detrás da vegetação].”

ÇUAÇÚ CAATÍNGA, mato ralo

ÇUAÇÚ MÉ, cabra

ÇUCUREJÚ, cobra d’água

ÇUGUÝ, azul

ÇUGUÍ-JÓCA, sangrar

ÇUÎ, de, do, da

CUPÈ, ao, aos, às, à, a

ÇUPÍ ÇABA OCOMEÉNG OAÊ, testemunha

ÇUPÍ RUPÍ, com toda certeza

ÇUPIÇABA, verdade

ÇUPÝR, levantar, carregar

ÇUÚ, morder, mastigar

ÇUÚ ÇÁRA, roedor

ÇUÚ ÇUÚ, roer

C.

CAÁ, mato

CAÁ KOÉNE RENDABA, horta

CAÁ MONDÓ, caçar

CAÁ MONDOÇÁRA, caçador

CAÁ POÁM, ilha

CAÁ PÓRA, que mora no mato. “Caapóra, segundo o vulgo, é uma miniatura de gente, que anda com as varas de caitetús, montando no maior de todos eles. Mau agouro quando se o encontra. Daqui vem o chamar caipora ao homem a quem tudo sai ao revés (azarado).”

CAÁ PYÍR, cortar o mato

CAÁ PYRÁNGA, folha vermelha para tintura

CAÁ RETÉ(Ê), mata virgem

CAÁ TINGA

CAÁ VÛ, ou

CAÁO, cagar

CAAPÁBA, urinol

CAAPIÎM, erva baixa

CAÁRIMÁ, farinha de mandioca

CAARÚCA, tarde

CAARÚCA RAMÊ, de tarde

CÁBA, vespa; abelha; gordura; manteiga.

CÁCA, tá bom, então tá!

CACOÁU, velho

CAÉM, sarar

CAGÍCA, veia

CAGÍCA OÇU, artéria

CAÎ, queimada

CAICOÁRA, bicho que dá doença

CÁMA, seios femininos

CÁMA JACUÍÇÁBA, lençol, cobertor

CÁMA PIRÉRA, peitos caídos

CÁMA PUÁM, peitos redondos

CÁMA RENDÁBA, leito

CAMBY’, leite

CAMBY’ ANTÁN, queijo

CAMBY’ ÇÁRA, ama-de-leite

CAMBY’ JÓCA, tirar leite

CAMBY’ VÛ, mamar

CANAPIÂ, quadril

CANCÁN, “ave, espécie de falcão: habita em lugares pouco freqüentados, e com voz estrídula anuncia a chegada de alguém.”

CANDÚR, corcunda (substantivo)

CANEÓN, atribular-se

CANGOÉRA, osso

CANHÉME, sumir

CAPIXÁBA, espécie de macaco

CAPIUÁRA, o animal que vive em meio ao capim. “Os índios peruanos usavam seus dentes como brincos”

CARANHÁ, coçar

CARAPANÁ, mosquito do Rio Branco

CARAIBÊBÊ, anjo

CARAIBÊBÊ KOÉRA, diabo

CARIBOCA, mestiço

CARUÁRA, corrimento vaginal

CARÚC, urinar

CARÚCA, urina

CARÝBA, branco, português

CATÍNGA, fedor

CATU, bom

CAÚ, beber; vinho. = CAUÍM

CAUÇÁBA, bebedeira

CAUÍM ÇÁI, vinagre

CAUÍM MEENGABA, taverna

CAUÎM TATÁ, aguardente

CÊ, saber ou partícula “não sei”

CEBUI, minhoca

CEBUI PEBA, sanguessuga

CEÇÁ, olho

CEÇÁ ACANHÉMO, cegar

CEÇÁ ARÍBO GOÁRA, pálpebra

CEÇÁ EPIRAR OÇÚ OAÉ, olhos arregalados

CEÇÁ ETÊ, astúcia; vista aguçada.

CEÇA EÝMA, cego

CEÇÁ EÝMA NUNGÁRA OATÁ, andar de olhos fechados

CEÇÁ IAPÁRA, vesgo

CEÇÁ IAPIRÁR IRUNAMO OMAÉM, olhar de esguelha

CEÇÁ POMYM, pestanejar

CEÇÁ PUNGÁ, terçol

CEÇÁ PYÇÔ, vista

CEÇÁ RAÝNHA, menina-dos-olhos

CEÇÁ ROÁ, óculos (!!!)

CEÇÁ RY, lágrimas

CEÇÁ RY ÇURURÚ, chorar

CEÇÁ TEPY TEPY, olhos afundados, encovados

CECÁR, procurar

CECATEÝMA, avarento

CECATEÝMA RUPÎ MERIM, poupar

CECÊ, portanto

CECÔ, aparência

CECÔ BEBÊ ÇÁBA, ressurreição

CECÝ, doer

CEÉM, doce

CEÉM OAÊ, diz-se da comida que está doce

CEEMBÚCA, comida salgada

CEGY, mudar

CEICOÁRA, cu

CEICOÁRA EPÁNGA ACÉMO, hemorróida

CEICOÁRA MOTÁCA, bate-cu (!!!)

CEÎYA, multidão, rebanho

CEJAR, abandonar

CEJUÇÚ, as plêiades no céu noturno

CEKY, atrair, puxar

Namby reky, puxar pelas orelhas

CEKY CÉMO, cercar

CEKYJÊ, ter medo

CEMEMBOÊ, discípulo

CEMIMOTÁRA, liberdade, consentimento

CEMIMOTÁRA RUPÎ, à vontade

CEMIMOTÁRA RUPÎ OICÔ, dono de si mesmo

CEMIMOTÁRA RUPÎ NHÔTE, a torto e a direito

CEMIRICÔ RAUÇUPÁRA, amigo da esposa

CEMIRICÔ POTOÇABA, noivo

CÉMO, nascer

CEMÔ YGARA ÇUÍ, desembarcar da canoa

CEMÔ IXUPÊ, ocorrer

CENDÚ, escutar

CENDY, baba; arder; luz.

CENDY OANE, acender

CENDY PÚCA, reluzir

CENEMBY, camaleão

CENÓI, chamar

CENONDÉ ETÊ, muito tempo atrás

CENONDÉ GOÁRA ETÁ, antepassados

CENONDÉ MIRIM, pouco antes, ainda agora

CENONDÉ RANHÊ ENÓNG, preferir

CENONDÉ ÚRE, antecipar-se

CEPIÁCA, ver

CEPIÁCA NHÓTE, deixar passar

CEPOTY, intestinos

CEPUÎ, borrifar

CEPUÎ RÁBA, regador

CEPÝ, preço

CEPÝ NONG, avaliar

CEPÝ OÇÚ EÝMA EPIRIMÁN, regatear

CÉRA, nome

CÉRA ÁRPE GOÉRA, sobrenome

CERAKOÊNA, fama

CERAÝMA, pagão (!!!)

CERÉB, lamber

CEREBYRA, irmão mais novo

CEREVÍRA, nádegas

CERÓC, batizar

CETÁ(Ê), muito

CETÊ, corpo humano

CETÚNA, cheirar

CETÝMA, perna

CETÝMA IAPÁRA, aleijado

CEÍYA, mulato

CEIJÝRA, tia, tia-prima

CIC, todos

CINOÁBA, barba

CIPÓ, raiz

COAMEÉNG, mostrar

COARACY, sol

COARACY ÇACU, calma

COARACY OMANÔ, eclipse

COARACY PYAÇÁBA, chapéu

COARACY RANGÁBA, relógio

COARACY RENDY, réstia

COATIÇÁBA, letra ou gravura

COATIÁRA, escritor ou pintor

COATIÁR, escrever, pintar

COAÚB, conhecer

COAÚB MORANDÚBA, quais são as novidades?

COAÚB UCÁR MORANDÚBA, descobrir o segredo

COCICÓI, eis aqui

COCINHEÝME GOÁRA, muito antigo

COÉMA, manhã

COÉMA PIRÁ PIRANGA, aurora

COICÉ, ontem

COITÉ, finalmente

COMENDÁ, feijão

COÓ, animal

COPÊ, costas

COPÊ RUPÎ, pelas costas, com falsidade, escondido

CORÓCA, velha senil

COYR, agora

COYR REIRÊ, doravante

CRICRI, gavião comedor de galinhas

CUATÍ(M), de cuá (cintura) e tim (nariz), pois este animal dorme com o focinho na cintura.

CUNHÃ, mulher ou fêmea de qualquer animal

CUNHÃ ÇAPIXÁRA MÉENGARA, fofoqueira

CUNHÃ COARAEÝMA, donzela

CUNHÃ IMÉNA MOMOXICÁRA, adúltera

CUNHÃ MEMBYRA, sobrinho(a)

CUNHÃ MÊNA, parente por afinidade

CUNHÃ MENDAÇÁRA, casada

CUNHÃ MENDAÇAREYMA, solteira

CUNHÃ NUNGÁRA, afeminadamente

CUNHÃ RAPIXÁRA, afeminado

CUNHÃ RUPIÁRA, amigo de mulheres

CUNHÃ TÊM, rapariga (em que sentido?)

CUPÚ, árvore de que se tira bebida fresca

CURUCÁBA, garganta

CURUCÁBA OJEKENDÁO, pigarro

CURUMÎM, menino

CURUPIRA

CURURÚ, sapo negro, cujo leite cega

CURURÚ BOIA, cobra comedora de sapos

CURURÚC, rosnar

CYG, mãe

E.

I. tu; II. ele(a) (em algumas conjugações de verbo no presente)

EAGOÉRA, dizer

EÁMAE, não (das mulheres)

ECATÚPE, nu

ECUPÊ, traição

EÉM, sim

EIKÊ, entrar

EMAACY, doença

EMBIÁRA, caça, pesca

ENGANÁNE, tentar (no sentido de pecado)

ENÓI, pôr

EPÉBA, pus

ERÉ CATU, alto lá!

EUKYÎ, cunhada da mulher

G.

“Letra pouco usada no começo das palavras, e a razão é porque as que deverão começar por ge, gi se escrevem com j; as de go e gu confundem-se ou talvez se escrevem com k; e em ga não sei de nenhuma palavra puramente indígena que assim comece. Todavia, admitimos a ortografia portuguesa para alguns vocábulos mais em uso.”

GAMBÁ

GAPUIA “(de origem incerta), vocábulo de São Paulo usado entre pescadores. A Gapuia consiste em atravessar-se o Igarapé com aninga e tojuco encostado em paus cravados no fundo, para que não passe toda a água; depois toma-se o peixe à mão ou, se há muita água, bate-se timbó. = MACUOCA.”

GIA, rã (somente no Maranhão)

GIBOIA

GIQUITAIA, formiga miúda e vermelha, cuja mordida necessita do fogo para efetuar a cura (uso somente no Pará).

GIRÁO, casa ou terraço feito sobre forquilhas; serve de canteiro, paiol ou ventilador.

GOAÇU, grande

GOAIMIM, mulher velha

GOAINIM UIRAPÁRA, arco da velha

GOARA, nativo de qualquer lugar

GOARABÁ, peixe-boi

GOARAPIRÁNGA, barreira

GOATAÇÁBA, jornada

GOATAÇARA, viandante, peregrino

GOÉNE, vomitar

GOÉR-EYMA, “partícula negativa do mais-que-perfeito do infinitivo: emprega-se em vez de eyma-goera. Juca-goér-eyma, não ter morto, que não matei, ou não matara.”

GUÁBO, “desinência do gerúndio dos verbos de artigo, acabados em –o puro, cujo o se transforma em guabo. Ex: Ai xoô, çoguabo. – E assim também nos verbos acabados em u puro: A-û, guabo. Aixuú, çúguabo.”

GUAJÁ, caranguejo marítimo da Paraíba do Norte.

GUAJÁ JÁRAS, índios do Maranhão

GUAJAJARA-Î, madeira

GUARÁ, “ave: nasce branca, torna-se preta e por fim de um encarnado vivíssimo.”

GUARANÁ, cipó

GUARARAPÉBA, viola

GUE & GUI, “sinal de vocativo, empregado só pelos homens. Escusado será dizer que estes raramente se empregam com substantivos acabados em vogal com acento na penúltima. Ex: Xe-rub-guê, ‘ó meu pai’.”

GUE (sozinho)

I. “Os verbos que depois do artigo A imediatamente tiverem alguma destas 4 sílabas: ra, re, ro, ru, entremeterão seja sílaba gue entre o artigo e a tal sílaba; mas isto apenas na 3ª pessoa. Ex: Araço, eu levo. Ere-raco, tu levas. O-gue-raço, ele leva. – Areco, eu tenho. Ere-reco. O-gue-reco.

II. Se os tais verbos se tornam absolutos com a dicção poro, neste caso tomam a partícula gue, nem só nas terceiras, mas em todas as pessoas. Ex: A-poro-gue-raço, levo gente. A-poro-gue-reco, tenho gente. Todavia, as duas primeiras letras da partícula podem, nestes casos, desaparecer na composição, dizendo ao invés A-poro-e-raço.”

GUI (sozinho), “primeira pessoa do gerúndio dos verbos do pronome xe. Ex: Gui Paca, acordando eu. Gui-tû, vindo eu.

GUIRÁ, ave

GUIRÁ OÇU, gavião

GUIRÁ PEPÔ, asa de pássaro

GUIRÁ REPOTY, erva de passarinho

GUIRA REÎYA, bando de pássaros

GUIRA RECÊ, debaixo. = GUIRÎ, GUÝRPE

GY, machado

I.

I.

“I. É a terceira pessoa do singular e plural do pronome Xe, ele, eles.

II. Vale como o pronome possessivo ‘seu’, ‘sua’, ‘seus’, ‘suas’. Ex: Cyg, mãe; I-x-ig, sua mãe ou ‘a mãe deles’. I-cô, sua roça. Estes ex. podem igualmente significar: ele ou eles têm mãe, roça, etc.

III. No começo dos cverbos, faz vezes de relativo. Ex: A-ço, ir. I-xó, a sua ida, o seu ir.

IV. Partícula negativa, que se acrescenta aos verbos, quando estão precedidos de n-d. Ex: A-juca, eu mato. N-d-juca-î, não mato.

V. No fim dos nomes substantivos, vale como diminutivo. EX: Comandá, fava. Comandá-î, favinha. Neste caso se pode também escrever î ou im. Ex: Mitánga, menino. Pitanga-î (sic?), menino muito pequeno.

VI. No fim dos cerbos significa fazer-se a coisa sem imposição estranha, assim como sem muita força de vontade da parte do agente. Ex: Ai-monhang-î, faço por fazer, por me recrear, e sem que ninguém me constranja a isso. A-cepiac-î, vejo e não impeço, ou vejo por me divertir. A-cepiac-î nde angaipàba, vejo a tua ruindade, e não me entendeo contigo, nem te repreendo.

VII. Muitas vezes se mete, com o artigo a que se refere, entre o artigo e o verbo e de tudo se forma um só verbo ativo. Ex: Ai-co-monhang xe-r-uba, faço a roça de meu pai, ou literalmente A [eu] i ou y [sua] co [roça] monhang [faço] xeruba (em acusativo paciente) [a meu pai]. Assim também A-y-acang-oc boia, corto a cabeça à cobra ou antes – eu sua cabeça córto à cobra.

VIII. É uma preposição (ou posposição) quando vem junta com os nomes de parte ou lugar; de ordinário com os advérbios de lugar. Ex: nde cuá î (o mesmo que se dicéssemos nde cuá recê), à tua ilharga. Ybyr-î, ao longo. Guir-î, debaixo. Çoba-î, da banda d’além.”

IÁ.

“I. interjeição: (…) bem-feito!

II. Junto com os verbos neutros, significa costume na ação. Ex: Açó iá (ou yá), costumo ir. Ajunta-se-lhe freqüentes vezes a sílaba bi. Ex: Xe-poro-nupã-i bi, costumo açoitar muito.

III. Também se emprega com os verbos que significam comer e beber, e nestes casos se lhe pode acrescentar a sílaba ra. Ex: Jorî ûi yára goábo. Vem comer farinha.

IV. Conjunção: do mesmo modo.

V. Primeira pessoa do plural do pronome A, nós.

IÁBA, as coisas que dizem

IABÁ ETÊ, arrogante

IABÁ ETÊ ÇÁBA, arrogância

IABÊ, conjunção: igualmente. = IABÊNHÊ

IAÇOARAMONAÊ, e

IAÇOARAMONAEMO, já que não

IAÊ = YAÊ, verbo: nós dizemos

IAÊTENHÊ, em vão

IA-IABO, para dizermos

IAMURÚ. I. bem-feito!; II. cueyira (fruto).

IÁNDE, “I. 1ª pessoa do plural do pronome Xe: nós e vós, todos sem exceção; II. pronome possessivo, nosso, nossa. Iande có, nossa roça. Este exemplo significaria igualmente roça.

IANDEBO, para nós todos

IANONDÉ, “posposição: antes, primeiro que. Um ex. dará melhor a entender qual é a força desta expressão. Xe-çoyamondé, antes que eu vá (e hei de ir, decerto).”

IAPÁRA, torto, vesgo.

IAPYCÔN, língua

IARA = JARA = YARA, senhor, dono.

IARÁ, palmeira

IATYR ATYR, abundantemente

IBA, quadril

IBÁKE, céu

IBÁKE TINGA, nuvem

IBAKÉPE OÇÓ, salvação

IBAKÉPE TURYBA, glória, paraíso.

IBÝ, TERRA

IBÝ COARA, cova, mina.

IBÝ COARA OÇU IBY APITERPE MÁME PITUNA OÇÚ OICO NHINHÊ TAÝNA ETÁ ANGA CERAÝMA OAÊ ETÁ RENDÁBA. Limbo ou seio de Abraão. (!)

IBÝ CUÎ, praia

IBÝ MÁME OPOBINHÊ MBAÊ OJEMONHANG, fertilidade

IBÝ OCA, parede

IBÝ PEBA, terra plana

IBÝ RETÊ, terra firme

IBÝ RYRY, terremoto (por que haveria essa palavra se, como dizem os incautos, não houvesse terremoto no Brasil?)

IBÝ TYRA, serra

IBYTU, vento, arroto

IBYTU AYBA, vento de trovoada

IBYTU BABÓCA, redemoinho

IBYTU RANA, nevoeiro

IBYTY GOÁYA, vale

ICÔ, “este, esta, isto (e também) eis aqui, eis que. Ex: A-jur-icô. Eis que me vou. Ai-monhang-icô, eis que já faço.

ICÓ (A-ICÓ), estar ou ter de ser.”

ICURÉ, anta

IÊ = YÊ, “I. partícula que serve para tornar passivos os verbos transitivos. Ex: A-juca, eu mato. A-ye-juca, eu me mato. II. Jê, recíproco.”

IGAÇÁBA, louça

IICÁBA, palavra

IIPÊ, um

IKÊ, aqui

IKÊ CECOI, aqui está

IMBOÉ, ensinar

IN, estar deitado

INDE = NDE, tu, do pronome Xê ou Ixê

IPÉBA, chato

IPY = YPÝ, primeira origem

IQUE, entrar

I’RAXO, interjeição de espanto

IRÓN, vê só?!

IRUNÁMO GÓARA, parceiro

ITÁ BUBUI, pedrapomes

ITÁ JÚBA, dinheiro, ouro

ITÁ JÚBA JÁRA, homem rico

ITÁ JÚBA RÁNA, ouro falso

ITÁ OCA, parede de pedra

ITÁ PEBA, chapa de ferro

ITÁ PO MONDÉ, algemas

ITÁ PUPÊ JAPY, apedrejar

ITÁ RETÊ, aço

ITÁ TUPAN ÇUÎ OCÉMO OAÊ, raio

ITÁ TYBA, pedregal

ITÁ XÁMA, corrente (de ferro)

ITÁ YRYRY, concha

ITYCÁRA, pescador

ITYKÉRA, lixo

IXÊ = XÊ, eu. Só pessoas podem ser referidas como um eu no Tupi. – Nde ou Indé, tu – Y, ele – Yande ou Iande e Ore, nós – Pé, vós – Y, eles.

IXÊ AÊ, sou, estou

IXÊ ETÊ, eu mesmo

J.

JÁ. “I. supino do verbo A-é, dizer. Gui-ja-bo, dizendo eu; II. calcanhar.”

JABÊ (IABÊ) (JAVÊ), basta!

JABÊ JABÊ, cada um

JABÊ IPÓ, como deve ser

JABÊ NHÓTE, de graça

JABÊ TENHÊ, nem mais, nem menos

JABÊ TURUÇÚ PORYB, cada vez mais

JABICÁBA, desigualdade

JABICÁBA RUPÎ, sem aviso, sem pensar, inadvertidamente

JABOTIM, jabuti

JABURÚ, ave ribeirinha

JABY, errar, faltar

JABYBÚRA, arraia

JÁCA

JACAMÎM, ave própria para adestrar

JACANHÉMO, pasmar, titubear; terror, espanto.

JACÁO, pelejar. Jacá-jacáo: arrazoar.

JACARANDÁ

JACARÉ

JACARÉ IHÚA, árvore grande que servia para construir canoas

JACARÔA!, poça d’água

JACARÔÁ MIRIM, charco

JACARÔA OÇÚ, lago

JACEON (A-JACEÕ), chorar

JACÍNA, espécie de borboleta

JACOAÚB ETÊ, ladino, sagaz

JACOAÚB EYMA, néscio

JACÚ, ave

JAÇÚ OAÊ, canhoto

JACUMAÝBA, piloto

JACY, lua, mês

JACY ÇOBA JEARÓCA, lua minguante

JACY ÇOBA OÇU, lua cheia

JACY JEMOTURUÇÚ, lua crescente

JACY PEÇAÇÚ, lua nova

JACY TATA, estrela

JAGOÁRA, cão; onça.

JAGOÁRA KIÝBA, pulga

JAGOÁRA OATÁ CEMIÁRA, o cão que manca

JAJÚRA MONDÓCA, degolar

JAKIBÁNA, cigarra

JAMÎM, espremer

JAMÎMA RUPÎ, sorrateiramente

JAMOTAREYMA, ódio

JAMOTAREYMA RUPÎ, odiosamente

JAMOTÍNGA, entrudo (carnaval indígena)

JAMOTÍNGA ARA, dia de entrudo

JANDÊ IARA JESU CHRISTO YBÝ AIQUÉRA ETÁ, discípulos de Cristo

JANDÊ MBAÊ, coisa nossa

JANDÊ PAYA IPÝ, Adão

JANDÊ PAYA ADÁO RENDABA QUERA, paraíso terrestre

JANDÊ RAMÚYA, antepassados

JANDÊ REÇÁ ÇÁBA, pestanas

JANDI, azeite

JANDI CARAÝBA, crisma; extrema unção.

JANDÚ, aranha

JANDÚ KEÇÁBA, teia de aranha

JAPABÓCA, partida (de ida)

JAPEGOÁ, centopeia

JAPÎ, atirar

JAPÎ APIXÁBA, pedrada

JAPI JAPI, apedrejar

JAPÎ MOCÁBA, dar tiro de espingarda

JAPINÓN, onda

JAPINÓN OÇÚ, maresia

JAPIXÁ, ferir

JAPIXÁBA, ferida

JÁRA, dono, amo, senhor, senhora

JATIMÁ TIMÁN, andar em círculos, rodear

JATIÚCA, carrapato

JATIÚM, mosca muito irritante

JATOBÁ

JÊ, “segunda pessoa do plural do presente do indicativo do verbo A-é, e assim também do imperativo. Pe-jê: Dizei, ou vós dizeis.”

JEAUÇUPABA, amor honesto

JEBÝC, esganar

JEBYR, repetir, voltar

JECOÁU, apresentar-se

JECOAÚB, aparecer aquele ou aquilo que estava perdido

JECOAÚB ETÊ, ladino

JECOACU OÇÚ, quaresma

JECOACÚB, jejum, jejuar

JECOACÚBA, sexta-feira

JECYRÓN, pôr-se em fila

JEGOARÚ, ter nojo

JEJUMÎNE, ocultar-se

JEJYBÝCA, enforcar-se

JEKYCÎ, caldo

JEKYI, definhando, morrendo

JEMÁNE, coisa velha

JEMBAACÝ, ter fome

JEMEMOTÁRA, vontade, concupiscência

JEMOÁ MONDÉ, vestir-se

JEMOÁCÁNGA YBA, endurecer-se

JEMOAÇÚCA, tomar banho

JEMOAPÚNG, tratar-se

JEMOAÝB, corromper-se

JEMOAÝB PORYB, piorar

JEMOCAMÁRAR, amigar-se

JEMOCAMÁRAR JEBYR, fazer as pazes

JEMOCANÉON, fadigar-se, afligir-se

JEMOCANHÉMO, desperdiçar-se

JEMOÇARÁI, brincar

JEMOÇARÁITÁBA, jogo

JEMOÇARÁITÁRA, jogador

JEMOÇARÁYA, galhofa

JEMOÇARÁYA RUPÎ, galhofeiramente

JEMOCURUÇÁ, persignar-se

JEMOKYÁ, sujar-se

JEMOMBEÚ ÇÁBA, confissão

JEMOMBÓRE IXUÎ, divórcio

JEMOMENDAR, casar

JEMOMOXÍ, envergonhar-se

JEMONDYÁRA, menstruação

JEMONGETÁ, conversar

JEMONHARÓN, ficar bravo

JEMOPOTYR, florescer

JEMOPYÁ-YBA, apaixonar-se; enfadar-se. (!)

JEMOPYTÚNE, anoitecer, escurecer (fechar o tempo)

JEMOROIÇÁNG, esfriar

JEMOTAÇÁBA, pancada

JEMOTAGUÁ, amadurecer (fruto)

JEMOTAIGOÁRA, alforria

JEMOTÁRA, vontade

JEMOTY JOBAÊ, envelhecer

JEMÚ, flechar

JEMUÇÁRA, flecheiro

JENÓNG, deitar

JEPÁRA PARÁBO, várias coisas e cores

JEPÊ, um, uma

JEPÊ YÎ, uma vez

JEPENHÔ OAÊ, único

JEPOÇANÓNG, curar

JEPOCOAÇÁBA, junta, ligamento

JEPOCOAÚB, acostumar-se

JEPÓI, alimentar

JEPOTAR, chegar. Uso restrito, apenas na sentença: Jepotar ygára, chegar de canoa.

JEPYÁ MONGETÂ, refletir

JEPYÁ MONGETAÇÁBA, meditação

JEPYÁ ROJEBYR, arrepender-se

JEPYÁBA, lenha

JEPÝCA, vingar

JEPYCÝCA, abraçar

JEPYCYRÓN, apadrinhar-se

JEPYPÚCA, e

JEPYPÝCA, naufrágio

JEPYRYPÁNE, negociar

JEQUÎ, armadilha para apanhar peixe

JERAGOIA, mentir

JERAGOIA OAÊ, falsário

JERAGOIA PUPÊ OACEMO, convencer

JERAGOIA RUPI TUPAN RERA OCENÓI, jurar em falso

JERÉO, despojar-se

JEROBIAR ETÊ CECÊ, vangloriar-se

JEROTÎM, ignomínia

JERÚ, papagaio = PARAGOAI

JERUBIAÇABA, fidelidade

JERUBIAR, confiar ou confiar demais (ser presunçoso)

JETYCA, batata

JEUPYR, subir, trepar

JEZUS CHRISTO RERÚ BIAÇÁBA, fé católica

JICÁ, coisa quebrada

JICÁ JICÁ, quebrar

JICAÇÁBA, rachadura

JIJÊ, afastar

JIMBOÊ, estudar, aprender, ensinar, rezar (quase tudo vinculado à educação)

JIMBOÊ PAPÉRA PUPÊ, ler

JIMBOEÇÁBA, doutrina, lição, reza, oração. Jimboeçába catu pupê ojemoturuçú: bem-educado.

JIMBOEÇÁRA, mestre

JIRÁO, jirau

JÓCA, desentupir

JOCAIÇÁRA, ocupante

JOCOAI, ocupar

JOCYB, limpar esfregando

JOCYB ANGA, purificar a alma

JOJÓCA, soluçar

JOMÁNA, abraço

JOMBYÂ, buzina

JOMÎMA RUPÎ, secretamente

JOMINEÇÁBA, segredo

JORÁO, soltar, desembaraçar

JÓBE, chamar alguém

JORI, “segunda pessoa, singular e plural, do imperativo do verbo: A-jur. Vem tu, vinde vós.

JOTOÎM, acotovelar

JOTÝME, semear, enterrar

JOTÝE JEBYRE, replantar

JU. “I. partícula pospositiva do vocativo, empregado pelas mulheres. Xe-cyg-ju, ó minha mãe! II. espinho”

JU TYBA, espinhal

JUB, deitado

JUCÁ, matar

JUCÁ-ÇÁRA, matador

JUCÁ-CÝ, pirraça

JUCÂNE, transbordar

JUÇÁRA, “comichão, coceira, frieira. No Maranhão, fruto de uma palmeira.”

JUCÝB ÁNGA, descarregar a consciência

JUÎ, rã

JUKÝRA, sal

JUMAM, braço

JUNDUHI, aranha matadora de plantas

JUR, vir

JURARÁ, cágado, tartaruga. “No tempo em que Alexandre Rodrigues visitou o Pará, era a manteiga dos ovos de tartaruga uma das indústrias mais usadas em certas estações. Eis como ele descreve este processo: ‘Juntam-se aos montes nas praias os ovos que se descobrem nelas; se se quer que funda mais a manteiga, deixa-se fermentar de 4 a 5 dias, mas então ela sai rançosa e com mau cheiro. Se os ovos de preparam ainda frescos, são logo metidos numa canoa, que de propósito está reservada para isso, e vão pisando-os a pés nus, como em Portugal se faz com as uvas. Sobre os ovos pisados lançam água, a qual depois de mexida e encorpada, deixa sobrenadar o óleo: com a mesma água dissolve-se grande parte da clara: as cuias (e de preferência as válvulas das conchas) são as colheres com que tiram o óleo de cima d’água, empurrando-o para dentro dos tachos. Após, vai a manteiga ao fogo, esfria-se-a em panelões à parte, e deles transporta-se-a aos potes. Esta manteiga serve para temperar ou comer, fritar peixe, de combustível para a luz doméstica, ou calafetar as canoas (para evitar vazamentos).”

JUREMA, árvore

JURÚ, boca

JURÚ AYBA, maldizente

JURÚ CANHÉMO, emudecer

JURÚ CUY, tagarela

JURÚ GUÉRA, bobajada

JURÚ JERAGOÁYA RUPÎ OAÊ, adulador

JURÚ JYB, ato de cortesia

JURÚ NÊME, mau hálito

JURÚ OÇÚ, boca-suja

JURÚ PITUGÉME, bafo

JURUCÊ, aquele que tem o falar afável

JURUPÁRI, demônio; na mitologia tupi, espécie de macaco.

JURUPÁRI ENGANANE ÇÁBA, tentação

JURUPÁRI KIBÁBA, centopeia

JURUPÁRI RATÁ (TATÁ), inferno

JURUPÁRI RATÁ PÓRA, habitante dos infernos

JURUPÁRI REMI MONHÁNGA, diabrura

JURUPÁRA REPOTI, enxofre

JURUPIXUNA, macaco de boca preta

JURURÊ, pedir, mendigar, suplicar. Pitybonçaba ojururê, pedir ajuda.

JURURÊ RURÊ CATU, pedir humildemente

JURURÊÇÁRA, pidão

JUTAÝ. “Fruto desagradável, e contudo os índios os comem. Desta árvore se colhe a resina chamada Jutay-cica, ou goma copal, com que envernizam a louça. (…) A casca também serve para confeccionar canoas.”

JURUTI, pomba

JYBA APÁRA, maneta

JYBA BABACA, e (!)

JYBA BÓC, danças, bodas

JYBA KITAM, cotovelo

JYBA PECÁNGA, ombro

JYBA RAJÝCA, pulso, veia.

JYBÝCA, engasgar comendo

JYBYCÁBA, forca

K.

KEBYRA, “irmão ou primo da mulher; indica ao mesmo tempo que este parente é o mais moço, não só a respeito dela, mas também em relação a todos os demais irmãos.”

KÉR, dormir

KÉR AÝBA, pesadelo

KERIRIM, silêncio, tristeza

Xe-kiriri, estou triste

KIÝBA, piolho

KYÂ ÇÁBA, nódoa

KYBÁBA, pente

KYÇÁBA, rede de dormir

KYCÊ, faca

KYCÊ APÁRA, foice

KYCÊ GUASSÚ, facão, cutelo.

KYINHA, pimenta

KYINHA AVÎ, pimenta malagueta

KYINHA ÇOBAIGOÁRA, pimenta do reino

KYRÂ OICO, estar gordo

KYTAM, verruga

KYTINGÓCA ÁNGA, confessar (purificar a alma) (malditos jesuítas!)

M.

MÃ. “partícula pospositiva com que exprimimos desejos ou saudades. A-ço-mo Tupan pyri mã. Oh! quem fôra para Deus. Xe-cyg-mã. Oh! minha mãe. Com esta partícula juntam-se estas outras, temo, mey, mey-mo; e desta maneira forma-se o optativo dos verbos.”

MÁ ÁRA ÇUÎ VÊ CATU, desde quando?

MÁ ÁRA PUPÊ, a que horas?

MÁ ÁRA ÇUÎ, donde? de onde vem?

MÁ MARANDÚBA, que vai?

MÁ MBAÊ, que coisa?

MÁ RUPÎ, por onde?

MAÊ TACÓ = MAÊ TEPE = MAÊ TERÁNHE, Ora, vede agora!

MAÉM, olhar

MAÉM ETÊ, encarar

MAENDUAÇÁBA, lembrança, pensamento.

MAENDUAR JEBYR, recordar

MAIRYGOÁRA, cidadão

MAITACÁ, papagaio que destrói os campos de milho

MÁME, onde?

MÁME COARACY’ OCANHEMO, ocidente

MÁME NHÓTE, algum lugar

MÁME TÁ, aonde

MAMETÉI, muito bem!

MANACÁ (somente Pará), flor e apelido da moça mais bonita da tribo.

MANIÇOBA, folha da mandioca

MANIPOEIRA, a água que a mandioca destila = TUCUPIM

MANÔ, morrer

MANÔ AYBA, desmaio

MARÁAR, definhar

MARÁCA. “I. Instrumento das solenidades religiosas dos índios: cascavel. II. Árvore de fruto que nasce pela terra firme, que se diz semelhante a uma espécie da crescentia de Lineu. III. Por ampliação do sentido direto da palavra, dá-se hoje este nome a um chocalho feito de lata e cheio de pedrinhas, que serve de brinquedo.”

MARACÁJÁ, gato do mato

MARACANA’, papagaio amarelo

MARACATIM, “navio, embarcação grande [não se refere ao do homem branco]. Era o nome que os índios davam a suas embarcações de guerra, as quais tinham na proa um maracá, que eles faziam tocar quando acometiam.”

MARACÁYMBÁRA, feiticeira

MARACUJÁ

MARAMONHANG, guerra

MARÍCA, barriga

MAYA, mãe

MAYA ARÝA, avó da mãe

MAYA RAMÛYA, avô da mãe

MAY-TINGA, ama

MBAACY, adoecer

MBAACY AYBA OÇU, peste

MBAACY JEBYRE, recidiva da doença

MBAACY OJEPECÝCA OAÊ, doença contagiosa

MBAÊ, coisa

MBAÊ ACY ACY OAÊ, homem muito doente

MBAÊ AYBA, malefício

MBAÊ BUPIÁRA, antídoto

MBAÊ ÇÁÇY’ OAÊ, veneno

MBAÊ CURUTÉM NHÓTE OÇAÇÁO OAÊ, vaidade

MBAÊ ETÁ, bens

MBAÊ PUXI, adultério

MBAÊ PUXÍ RECÊ ENHEÉNG, falar leviandades

MBAÊ RÁMA RECÊ TA, para quê?

MBAÊ REPIACA, visão

MBAÊ RETUNA, olfato

MBAÊ TAÎ OÇU, coisa apimentada

MBAÊ UÇABA RENDÁBA, refeitório

MBAÊ UÚ, refeição

MBÂE UÝ ETÊ, gula

ME. “I. na (preposição); II. partícula que se acrescenta aos verbos acabados em ditongo, para formar o conjuntivo: A-cai faz Cai-me.”

MEAPÉ, pão

MEAPÉ ANTAM, biscoito

MEAUÇÚBA, escravo

MEÉNG, dar

MEENGABA, dádiva

MEGOÉ, pouco

MEMBY, flauta

MEMBYRA AMÔ, enteado (filho da mulher)

MEMBYRA ANGÁBA, afilhado (da mulher)

MEMBYRA CU, enteada (filha da mulher)

MEMBYRA RERÚ, sogra (mãe da mulher)

MEMBYRA TY, nora (irmã do irmão, para a mulher)

MEMBYRAR, parir

MÉME. “partícula que significa ‘o mesmo’, da mesma maneira, ou sempre. A-çó méme, eu sempre vou.”

MENDAÇÁBA, casamento

MENDAR, casar

MENDUBA, sogro da mulher (pai do homem)

MENDY, sogra da mulher

MEOÁM, lesão, defeito

MEREBA, chaga

MEREBA AYBA, bexigas

MERÚ, mosca

MI, partícula que se antepõe aos verbos ativos para formação dos particípios passivos

MIKYRA, nádegas

MIMBABO, gado

MIMÓI, cozinhar

MINGÁU

MINÔ, fornicar

MINONÇÁRA, fornicador

MIRÁ, gente

MIRÁ REÇÁPE, publicamente

MIRÁ RECO RUPÍ, popularmente

MIRÁ REIYA OPUÁME, rebuliço

MIRÎM

MIRÎM NHÓTE, um nada

MIRÎM PURYB, pouco menos

MIRYBA, Bárbara, nome de mulher

MISSA MONHÁNG, celebrar missa

MISSA PYTUNA, natal

MITÁNGA, criança

MITÁNGA RECÊ, meninice

MITYMA, planta

MIXÍRA, assadura

MIXIRE, assar

MO. “I. posposição empregada com os verbos tornados passivos em virtude das partículas –nhe ou –ye, antes das quais se coloca a tal partícula: mó-. A-yê-apîn: tosquiar-se. Ai-mo-yê apîn Pedro Diogo çupe, faço com que Pedro seja tosquiado por Diogo. II. Dos verbos neutros do pronome xe se fazem verbos ativos com o pronome ai, e logo a sílaba mo. Xe angaturám, sou bom. Ai-mo angaturám, faço bem a alguém. Se o tal verbo tem a letra r, depois do pronome xe perde-se a sobredita composição. Xe ropar, eu me perco. Ai-mo-opar, faço com que outro se perca. III. Serve também esta partícula para tornar ativos os verbos neutros do pronome a, metendo-se a partícula entre o pronome e o verbo. A-poám, levanto. Ai-mo poám, faço levantar a alguém ou alguma coisa. A-in, estou parado. Ai-mo­ in, assento alguma coisa. IV. Acrescenta-se também aos verbos acabados em mo ou no para formação do gerúndio. Ai-amô, molhar, Amô-mo. Ai-manô – Gui manô-mo. V. Também se acrescenta para formação do gerúndio aos verbos acabados em ~ nas letras a, e, o. Ai-nupã faz: nupâmo. VI. Partícula pospositiva do imperfeito do permissivo. A-jucá-mo, eu matara ou mataria. VII. Empregada pospostiviamente com substantivos significa ‘em vez, em lugar de…’ Tuba-mo. Em vez, em lugar de pai.”

MOACY’, doente

MOACY-ÇÁBA, mágoa

MOACY-ÇÁBA OJEPIACA RECÊ MBAÊ, inveja

MOAGOAÇÁBA, amancebar-se (relação indíg[en]a)

MOANG, MOÁNGA. “Significa coisa fictícia ou imaginada, e nada mais que isso. Os seguintes exemplos explicarão melhor o sentido desta proposição, que vem do verbo acima. A-ço-moang, finjo que vou, ou vou baldadamente. A-caá mondo moáng, fui à caça debalde, sem proveito.”

MOANTAMÇÁBA, parapeito

MOAPAR, aleijar

MOAPY, tocar

MOAPYR, somar, acumular

MOÁR TATÁ, fazer fogo

MOATÚCA, encolher, encurtar

MOAUG-Ê, consumar

MOAUGUÉRA AYBA, malicioso

MOAÝB, corromper, deflorar

MOAÝB ÇAÎNHA, estragar os dentes

MOBABÓC, moer a cana

MOBYR, quantos?

MOBYR EY’, quantas vezes?

MOBYR HORA, que horas são?

MOBYR NHÓTE, alguns

MOBYRIÔN, muitos

MOÇABAIPOR, embebedar totalmente

MOÇÁC, arrancar

MOÇÁÇÁO, atravessar

MOÇAÎ, azedar

MOÇAIMBÊ, afiar (instrumento cortante)

MOÇÁNGÁB, assinalar, marcar, medir, pesar, demarcar.

MOÇAPÝR, três

MOÇARAY, escarnecer, brincar, galantear, zombar, triunfar.

MOÇARAY GUÉRA, bobo

MOÇARAYA RUPÎ, na brincadeira

MOÇARAYA RUPÎ NHÔTE ONHEENG, dizer besteiras

MOÇARAYTÁRA, folgazão, descontraído

MOÇÁ ÇUÍ, pólvora

MOCABA, espingarda

MOCABA MEMBYRA, e

MOCABA MERIM, pistola

MOCABA OÇÚ, peça de artilharia

MOCABA RAÝNA, munição, chumbo, bala

MOCABA REAPÚ, tiro

MOCAJÚBA, “o fruto chamado em algumas partes de côco de catarro” (!)

MOCAMBY, amamentar

MOCANEÓN, cansar

MOCANHÉMO, assolar, assustar alguém

MOCANTÎM, fazer bico

MOCAÓCA MIRIM, presídio

MOCAÓCA OÇÚ, fortaleza

MOCATÚ, curar

MOCAÚ, embebedar totalmente

MOCEAQUÉNE, perfumar

MOCEÉM, adoçar

MOCEKYJÊ ÇÁBA, espantalho

MOCEKYJÊ KYJÊ, ameaçar

MOCÊM, salgar, estender

MOCEMO, pronunciar

MOCEMO CECÔ QUÉRA ÇUÎ, absolver, isentar

MOCENDY, iluminar

MOCERAKÉNE AÝBA, infamar

MOCERAKÉNE CATU, honrar

MOCERÁNE, vencer, desprezar

MOCÍMO, jogar fora

MOCOCÁBA, gasto

MOCOCÁO, desperdiçar

MOCOCÁOÇÁRA, gastador

MOCOCOBIAR, compensar

MOCOCOI, derrubar (fruta)

MOCOÉNE, dar bom dia

MOCÓI, dois

MOCÓI VÊ, ambos, tanto um como outro

MOCÓNE, engolir

MOCORORÔ, (Maranhão) aloa (?) de arroz; (Ceará) suco de caju femrmentado.

MOCORUY, ralar

MOÇORYB TAMARACÁ, tocar o sino, badalar

MOCOTÓ, sapo grande preto dos lados

MOCUBÊ CATÚ, mandar lembrança

MOCUÎ ÇÁRA, moedor

MOÇUPÍ, justificar

MOÇUPÍ ENHÉENG, cumprir a palavra

MOCURUÇÁ, cruzar

MOETÊ, venerar, solenizar

MOETEÇÁBA, veneração

MOETEÇÁRA, devoto

MOGOAÇÚ, subir de preço

MOGOAÇUÇÁBA, exagero

MOGOAPÁBA, coador

MOGYB, abaixar

MOJACÉON, fazer chorar

MOJAÓCA, separar, dividir

MOJAÓÇÁBA, apartamento

MOJAR, aproximar duas coisas

MOJAR CECÊ, ligar duas coisas antes cortadas

MOJAR CURUCÁ CECÊ, crucificar

MOJATICÔ, pendurar

MOJATICÔÇÁBA, dependurar

MOJATINONG, balançar

MOJEAIBYC, abater

MOJECIAR, acamar, empilhar

MOJECIRÓN, enfileirar

MOJECUAPÁBA, revelação

MOJECUAÚB CUPÎ ÇÁBA, verificar a veracidade

MOJEGOARÚ, causar nojo

MOJEMOMBEÚ, confessar

MOJEMONHÁNG, gerar

MOJENDIRÓN, amuar

MOJÊNÓNG, deitar

MOJÊPÊOÇÚ, incorporar

MOJÊPOCOAÚB, domesticar

MOJERERAGOAY, desmentir

MOJOJABÊ, emparelhar

MOKATÁC, abanar

MOKÉCA = Pokéca. Embrulho. “Hoje significa um guisado de peixe. Na frase vulgar, estar de moqueca é estar de pé dormente, sem se importar com coisa alguma.

MOKYÂ, ofuscar

MOKYTÁM, atar, dar nó

MOMÃ. “I. Partícula que se acrescenta ao presente do optativo, quer se afirme ou negue. Ex: A-juca-momã. Oxalá mate eu! Na-juca-i xoéte momã, oxalá não matara eu ou não matasse. II. Também se acrescenta ao futuro do mesmo modo: Na-juca-i xoe momã! Praza a Deus que eu não mate!”

MOMAENDUAR, fazer lembrar

MOMBÁO CATÚ, aperfeiçoar

MOMBEÚ, dizer, relatar

MOMBEÝ AYBA, culpar

MOMBEÚ CATU, explicar, recomendar

MOMBEÚ CATU CECÊ, louvar

MOMBEÚ TUPÁNA NHÉENGA, evangelizar

MOMBYCA, furar

MOMEMBÉCA, enfraquecer

MOMORIAUÇÚBA, empobrecer

MOMOROTINGA, branquear

MOMOXÎ, adulterar, descompor

MOMOXÎ NHÉENGA PUPÊ, xingar

MOMOXIÇÁRA, injuriador. Cunhã iména momoxicára, mulher adúltera.

MONÁNE, misturar

MONDÁ, furtar

MONDABÓRA, ladrão

MONDAÇÁBA, furto

MONDAR, imputar, acusar

MONDÉ PÓRA, preso

MONGATIRÓN TEMBIÚ, temperar comida

MONG-ER, fazer outrem dormir

MONG-ER AYBA, má dicção

MONG-ETÁ ÇÁBA, prática

MONGUBA-Î, árvore, madeira

MONHÁNG, fazer, tirar do nada, fabricar

MONHANGÁBA, fábrica

MONHERUNDÍC, quatro

MONOXI, irmãos gêmeos

MOPÉ, aplanar o caminho

MOPEÇAÇÚ, renovar

MOPEÇAÇÚ JEBYRE, reformar

MOPECÚ ÁBA, espaçar

MOPERÉBE, ferir

MOPOÂME ABÁ RECÊ, amotinar

MOPOKERÝC, fazer cócegas

MOPÔPECYCA, pegar na mão, enganchar

MOPORÁNG, adornar

MOPORARÁ, atormentar

MOPOTOPÁO, irritar

MOPOTUÚ, aliviar

MOPOTUÚ TUGUÎ, estancar o sangue

MOPÚ, enxotar

MOPUCÁ, fazer rir

MOPYÂ CATU ABA PUPÊ, fazer a vontade

MOPYÂ CATU TAÍNA MERIM, acalentar bebê

MOPYPYC, remar de leve

MOPYRANTÁM OAÊ, coisa importante

MOPYTÁ, agasalhar, deter

MOPYTUBA, acanhar

MOPYTÚNE, dar boa noite

MOPYXÚNE, vestir-se de preto

MOPYXÚNE CERÁNE, ofuscar

MORANDUB, avisar

MORANDUBA, embaixada

MORANDUBA AÝBA, queixa

MORAUÇÚB, ter compaixão

MORAUÇÚB EYMA, impiedade

MORAUÇÚBA, caridade, misericórdia

MORAUKY, serviço, trabalho

MORAUKY MOÇAPYR, quarta-feira

MORAUKY MOCOI, terça-feira

MORAUKY OÇÚ, tráfego

MORAUKY PY, segunda-feira

MORAUKYÇÁRA, trabalhador, jornaleiro (!)

MOREAUÇÚBA, pobreza, tirania

MOREPOTÁRA, luxúria

MOREPY, salário

MORERÚ, deixar de molho

MORO, gente

MORORYB, alegrar

MOROTINGA, coisa branca

MOROYÇÁNG, esfriar

MOROXÁBA, prostituta (já em desuso na época de Gonçalves Dias)

MOROXÁBA, MOROBIXABA-OCÚ, general (faz todo o sentido!)

MORYÇÁBA, carícias

MORYPÁRA, amante

MOTAPY, afundar

MOTATAC, amassar

MOTECÔCOAÚB, doutrinar

MOTEKYR, destilar

MOTEKIROÇÁBA, alambique

MOTEMÚNG, sacudir

MOTENING, secar, torrar

MOTERYCÉMO, abarrotar

MOTICÁM, enxugar

MOTÎM, envergonhar alguém

MOTUMÚNE, escarrar

MOTURUCÚ, criar, cultivar

MOTUTY, cortiça

MOTUÚ ÁRA, domingo, dia santo

MOTUÚNE, lambuzar

MOTYC-Û, fazer líquido

MOTYJOBAÊ, envelhecer

MOXACÎ, trancar, aferrolhar

MOYRA CURUÇÁ, rosário

MU, irmão, primo do homem

MUACIKÉRA, meio-irmão do homem

MUNDÉ TINTA PUPÊ, tingir

MUNGA, nascida

MURIÇOCA

MURUCÚ, arma indígena de pau

MURUCUTUTÚ, ave acinzentada de olhos amarelos

MURÚ-MURÚ, palmeira

MURURÚ, nenúfar

MUTÁ MUTÁ, escada

MUTÚCA, mosca grande, cuja picada faz sangrar

MYRA, espécie de pão

N.

N, ND. “Negação do verbo. Lê-se a este respeito na Gramática de Figueira: ‘Para

[Interrompido neste ponto, 60% do dicionário percorrido.]

1,001 NIGHTS Ou: O Alcorão bem-escrito

 

“It was this unhappy secret, said Schahzenan, which removed my despondency; as so amiable a man as my brother conld not secure to himself the possession of a woman, it convinced me that the whole sex were contaminated, and that it would be idle in me any longer to bewail so common a misfortune.”

“Fool, to think that jealousy and restraint can preserve a mistress: notwithstanding thy vigilance, I find by these rings, every one of which I have received from a different gallant, that I have had fourscore and eighteen lovers since I have been in thy power.”

“Every night now saw a new bride conducted to the sultan’s bed, and every morning beheld her a victim to his jealousy: the consternation was universal; there was no parent who had a young and beautiful daughter, but trembled for her life; and the sultan, instead of receiving, as before, the blessings of his people, became the object of their execrations.”

“The implicit obedience which good Mussulmans owe to the commander of the Faithful, had as yet restrained the inhabitants of Bagdad from rebellion, nor had they taken any measure to preserve their children from so new a calamity; when the beauteous and accomplished Scheherazade, daughter of the grand vizier, undertook to deliver them from it, by becoming the destined bride. Her father was astonished when she declared her design. He used every argument and entreaty to persuade her from it; and agreeably to the custom of the East, he endeavored to enforce his reasoning by the following apologue”

“A pretty fellow, truly, replied the cock, is this master of ours, who cannot manage one wife, when I govern 50! Let him take a good crab-stick, and use it properly, I will engage she will soon dismiss her impertinent curiosity. The honest farmer took the hint; his wife returned to her duty; and you, my daughter, if treated in the same manner, would no doubt be as conformable to my desires, and forego só desperate an experiment.”

“When Scheherazade was introduced to the sultan, he was struck with her beauty and modest sensibility. Perceiving her in tears, he for a moment forgot his barbarous resolution, and endeavored to comfort her. The lovely sultaness, pleased to see she had made an impression on his savage heart, seized that moment to request that her sister, Dinarzade, might be admitted to her next morning, an hour before day, to take her last farewell. The sultan readily complied; and notice being sent to her sister accordingly, the charming Scheherazade suffered herself to be conducted to the fatal couch, and became the devoted bride to the cruel Schahriar.

At the appointed hour, Dinarzade was admitted to the nuptial chamber; when she made the strange request, that in the little time which remained, before they were to part forever, the sultaness wTould relate to her one of those many entertaining stories she had read. The sultan, wondering at so singular a request, consented, at the desire of his bride, and even expressed a wish to hear stories which must be singular, indeed, to be asked for at such a moment. Scheherazade, encouraged by this wish, began thus…”

“The desire of posterity induced me to buy a slave, by whom I shortly had a son. I still lived in great harmony with my wife, who always treated the slave kindly, and appeared to be very fond of my boy. Some years after his birth, I was obliged to go a long iouruey, and on my return, my wife told me that my son and my slave were both dead. I lamented their loss very much; but the feast of Bairam approaching, I thought it my duty to overcome my sorrow, and prepare for the holy festival.”

“He took me to his own habitation, and introduced me to his daughter, by her I was informed that during my journey, my wife had learned the black art; and by that means had transformed my slave into the cow we had unfortunately slaughtered the day before; and my son into the calf which had so narrowly escaped”

“But not doubting my informer was able to restore my son, as she had the skill to discover his situation, I very earnestly besought her assistance. <On two conditions, replied she, I will restore him. First, that you give him me for a husband and secondly, that you permit me to punish as she deserves, the wicked enchantress who has transformed him.> I consented; she then pronounced certain words, and sprinkling my son with water, he resumed his shape. He joyfully married his fair benefactress, who changed my wicked wife into the hind you see here.”

“Prince of genii, said the second old man, these dogs and myself are brothers. On the death of our father we divided the substance among us, and each received a thousand sequins. One of my brothers resolved to travel, laid out his money in goods suited to the country he intended to visit, and departed. After a year’s absence he returned in great distress, having lost all his effects. Meantime, by industry, I had acquired an additional thousand sequins, which I readily gave him. My other brother, not disheartened by the ill success of the first, pursued the same measures; very shortly he also returned entirely ruined. To him also I gave another thousand sequins; we then agreed to remain at home, and pursue our business carefully, without seeking further adventures.

Some years afterward, both my brothers besought me to join with them in a trading voyage. Their importunity prevailed. I disposed of my stock, which now produced 6,000 sequins, half of which I buried in a corner of the house, and gave each of my brothers a thousand of the remainder. We arrived safely at our destined port, where we sold our adventures to good profit.”

“My wife proved to be possessed of so many good qualities that I became every day more fond of her. My unworthy brothers, envying my superior good fortune, seized us both while asleep, and threw us into the sea.” “My wife was a fairy; she conveyed me home, and conducted the vessel which had my goods on board, safe into port. Before I knew of its arrival, two black dogs came crouching to me in the most submissive manner. These, said the fairy, are your brothers. Thus is their wickedness requited; and it is one part of their punishment, that in this degraded state they must look for support and protection to the brother they so basely betrayed.”

“The genie thought these adventures so singular, that he remitted the punishment of the merchant, and disappeared; and the merchant, after suitably thanking his benefactors, returned home again with joy to his family.

The sultan was delighted with these stories. He requested Scheherazade to proceed next night to another; and going into the divan, the vizier, his family, the court, and the people in general, were overjoyed to find that he gave no orders to put the beautiful sultaness to death.”

“Solomon, Solomon, the great prophet! exclaimed the genie, pardon, pardon, pardon; I never more will oppose your will!; The fisherman hearing this took courage, and said, Thou proud spirit, what is it thou talkest of it is eighteen hundred years ago since the prophet Solomon died! Tell me your history, and how you came to be shut up in that vessel.“

“I am one of those rebellious spirits who opposed themselves to the will of Heaven. The other genii owned Solomon the great prophet, and submitted to him. Sacar and I only resisted. That potent monarch caused me to be seized and brought by force before his throne! when, as I daringly persisted in my disobedience, he shut me up in this copper vessel; and that

I might not escape, he himself stamped his seal, with the great name of God engraven on it, upon this leaden cover, and ordered it to be cast into the midst of the sea.

During the first century of my imprisonment, I swore that if any one would deliver me I would make him immensely rich. During the second, I vowed that I would open all the treasures of the earth to any one who should set me free. In the third, 1 promised to make my deliverer a mighty prince, and to be always his attendant spirit. Many centuries passed over, and I continually increased my promises to him who should render me so essential a service; but all in vain; no one was so lucky as to find the coffer, and by opening it, to obtain the rewards I had bound myself to bestow. At last, enraged and tired with so long a confinement, I vowed that if any one should set me at liberty, I would kill him without mercy; therefore, as you have this day delivered me, prepare yourself to die.”

“I cannot believe, said the fisherman, that you were really confined in that vessel; it will not hold one of your feet. I adjure you, therefore, by the oath you have taken, to enter into it again, that I may be convinced, and acquit you, before I die, of ingratitude and murder.”

“The fisherman instantly shut down the cover; Now, genie, it is thy turn to entreat in vain. I will return thee to the sea whence I took thee, and will erect a monument to caution other fishermen if they chance to meet with thee, that they may be aware of such a wicked genie as thou art, who has sworn to kill thy deliverer! The genie endeavored with his utmost force to get out of the vessel again; but the seal of Solomon restrained him. Dissembling, therefore, his anger, he addressed the fisherman in a more pleasant tone; begged him once more to remove the cover, and promised to reward him to his full satisfaction. Thou art a traitor, replied the fisherman, and I should deserve to lose my life, if I was so foolish as to trust thee. No doubt you would use me as the Grecian king did his physician Douban. ‘T is a story I have a mind to tell thee, before I return thee to the faithless element in which I found thee.”

“The Grecian king was a very weak prince, easily irritated, and tyrannical in his disposition. His former favorites envied Douban, and seized every opportunity to excite distrust of him in the royal breast. He is become, said they, next in dignity and power to yourself; as he cured you in a manner so simple, may he not also, by methods as unsuspected, cut off your majesty; who alone stands between him and the throne.

For a long time the Grecian king repelled these insinuations. Were I to listen to you, said he to his courtiers, I should be like a certain man who had a faithful parrot, who reported to him the incontinence of his wife during his absence. The wife, enraged at the tell-tale, contrived a method of destroying the credit of the bird, and being revenged at the same time. Accordingly, when her husband went another journey, she caused a slave to scatter water over the cage all night, in the manner of rain, while others produced the appearance of thunder and lightning. The next day, when the husband returned, the parrot complained of having been exposed all night to the fury of a continual storm. As the master knew the weather had been exceedingly fine, be hastily concluded that his bird was false, and in resentment put it to death; but the future ill conduct of his wife too soon proved to him his parrot’s truth and his own rashness.”

“Douban, astonished at so fatal a denunciation, solicited earnestly for mercy, but in vain.”

“The king obeyed, but finding the leaves stick together, he put his finger to his mouth and wetted it to separate them. When he came to the sixth leaf, he said, <Physician, there is nothing written here!><Turn over leaf by leaf,> said the head, <till you come to the writing.> The king continued to turn over the leaves, putting his finger continually to his mouth, till the poison with which each leaf was impregnated took effect. The head, perceiving that the king had but few moments to live, exclaimed, <Tyrant, you are justly punished!> Having said this, its eyes closed, and it remained without life. The king also, in a short time, fell down and expired.”

“My good friend, replied the genie, remember, revenge is forbidden; do not treat me as Imama did Atteca. How was that? asked the fisherman.Ho! replied the genie, do you think I can tell stories in this confinement? Let me out, and I will tell you as many as you please. No, said the fisherman, I will not let you out; on the contrary, I will this moment cast you back into the sea. Hear me, I charge thee, exclaimed the genie, if thou wilt deliver me, I swear, in the most solemn manner, that I will not hurt thee: on the contrary, I will teach thee how to become as rich as thou desirest to be.”

“The four islands which I reigned over, are become the four hills you passed; my capital city is changed to a pond; and my people are turned into fishes, of various colors: the Mussulmans being white; the Persians, who adore fire, red; the Christians, blue; and the Jews, yellow. This I learned from her rage and reproaches; for she is not satisfied with the evils I now suffer, but every day she comes here, and gratifies her malice by invectives, and even by blows, which I have no power to resist.”

“He then laid aside his upper garment, and having blackened his hands, face, and neck, and taken his scimitar with him, he lay down on the bed in the same posture in which he had found the black.”

“you know the company of women without men is as dull as the company of men without women. Besides, the Bagdad proverb is allowed to be a good one, which says: One is never well at table, except there be four in company.”

“They sat down to their repast together. After they had eaten a little, Amine took a cup, tilled out wine, and drank first herself, according to the custom of the Arabians; she then filled the cup for her sisters, and last for the porter, who, as he received it, kissed her hand, and, before he drank, sung a song to this purpose: <That as the wind brings along with it the sweet scent of the perfumed places through which it passes, so the wine he was going to drink, coming from her fair hand, received a more exquisite taste than what it had of itself.>”

“One condition you must carefully observe: that whatsoever we do in your presence, you take heed not to inquire the reason of, nor presume to dive into the motive of our actions. That you may perceive this is an invariable rule with us, rise up, and read what is written over our gate, and then you may stay.”

“The caliph Haroun Alraschid was accustomed to walk abroad in disguise very often by night, accompanied by Giafar, his grand vizier, and Mesrour, chief of the eunuchs, to inspect into the order of the city, and see that the duty of the magistrates was properly executed. Passing by the palace of the ladies, he heard the sound of music and jollity; and chose to inquire into the reason of it. The vizier represented to him that it was not yet an unlawful hour, and that by disturbing their mirth, in that disguise, he would probably expose himself to insult; but the impatient caliph put an end to his remonstrances, by ordering him to knock loudly at the gate. On Safie appearing, Giafar represented to her that they were Maussol merchants, strangers in Bagdad, who having rambled a considerable way from their khan (or inn) were at a loss to find it; they therefore besought from their hospitality the favor of passing the night under their protection.

The ladies, having already admitted the calendars, made no hesitation to receive also these pretended merchants. The customary caution of the family was given to them, which they promised to observe; the diversions were resumed; the calendars arose and danced after their manner, and every one endeavored to contribute to the pleasure of the company.”

“When the caliph was first introduced he was struck with the beauty and elegant manners of the ladies; the singular appearance of the calendars, all young men of polite address, and all blind of the right eye, had exceedingly engaged his attention. He was astonished at the conduct of Zobeide, in so severely whipping the two bitches, and afterward crying with them; wiping away their tears, and kissing them, though such animals are considered by the Mussulman religion as unclean; and the sight of Amine’s bosom excited his highest indignation against the person who had so cruelly abused her. Yet he still suffered himself to be restrained by the conditions imposed on him and his companions. While he was meditating on these extraordinary events, he overheard the calendars expressing to each, other their wonder also.”

“Madam, these gentlemen desire you will acquaint them why you wept over your two bitches, after you had whipped them; and how that lady’s bosom, who fainted lately, became so full of scars.

Zobeide, turning to the caliph and the rest of the company, with an air of indignation asked if they had ordered the porter to make that request. On their acknowledging that they bad, she said: Before we gave you the protection of our house, you were each separately cautioned, not to speak of things which did not concern you, lest you should hear of that which would not please you; take therefore the just punishment of your impertinence and ingratitude.

As she spoke, she gave three hard knocks with her foot, and clapping her hands as often, cried, Come quick. A door immediately flew open, and seven strong slaves with scimitars in their hands, rushed in. Every one seized a man, threw him on the ground, and prepared to cut off his head. The frightened porter exclaimed aloud: For Heaven’s sake do not punish me for the crimes of others! I am innocent; they are to blame; alas! Continued he, crying, How happy were we before these blind calendars came; they are the cause of this misfortune; there is no town in the world but falls to ruin, wherever these inauspicious follows come!

The caliph, alarmed at his situation, was about to discover himeelf, when Zobeide, who, notwithstanding her anger, could scarce refrain from laughing aloud at the lamentation of the porter, thus addressed herself to them all: Your unworthy conduct convinces me that you are common fellows of no credit in your own countries. If, however, you have anything to say before you pay the penalty of your folly, we will hear you.’ At these words, one of the calendars lifted up his head, and declared that he and his brother calendars were princes, and had passed through such wonderful adventures, that, were they told, would recommend them to her pity and forgiveness.

Zobeide, having consulted with her sisters, said: Relate, then, those events which you speak of: if they are indeed singular, they may perhaps soften our resentment. The slaves then suffered them to rise, and the calendar who had thus far prevailed with the affronted lady to suspend their resentment, began his story.”

“After a few days’ repose, he told me that I could render him an important service: but before he could explain himself, he must exact a solemn oath, that I would never discover what he should employ me to do, nor any measure he should take in consequence of that service. I had the greatest affection for my cousin, and doubted not but his whole conduct was regulated by virtue and honor. I made no scruple, therefore, to take the oath he required; on which he requested me to go in the evening to the gardens which were set apart for the women of the seraglio: If you are seen, said he, no one will venture to question you; and when a lady joins you, all I desire of you is, to conduct her as she shall direct you, and to keep my secret.”

“When I waas a boy, I was shooting at a bird with a cross-bow, the ball unfortunately hit the vizier and put out one of his eyes. I made every apology in my power, yet he never forgave me; and now, when I was brought into his presence, he ran at me in a rage, and pulled out my right eye. But not daring to put me to death in the capital, lest he should excite an insurrection among the people, he sent me to a distant part of the country, under the care of his most trusty adherents, who had orders to destroy me.”

“a criminal passion had arisen between the prince and that lady, who was his sister; he had in vain exerted the authority of a father and of a sovereign, to restrain these unworthy children; before he began his late tour, he had given an absolute order, that the prince should not be permitted to approach the women’s apartment. The wretch, continued the unhappy father, has rendered vain all my precautions. It is plain he built these subterraneous apartments for a retreat, and made use of your friendship to obtain the miserable partner of his iniquity; but God, who would not suffer such an abomination, has justly punished them both.”

“I was a long time inconsolable; but time and necessity have accustomed me to receive the hateful genie. He visits me every 10thday. If I wish to see him at any other time, I touch the talisman you see there, and he presently appears. He will not be here these 5 days; if you choose to pass them with me, I will endeavor to entertain you according to your quality and merit. I embraced her proposal with the greatest joy.”

“Let him come; I swear I will extirpate all the genii in the world, and him first; and for this talisman, I will break it.”

“the fumes of the wine did not suffer me to hearken to her. I gave the talisman a violent kick with my foot, and broke it all to pieces.”

“Was I sure, said he, that she had put a greater affront on me than in conversing with thee, thou also shouldst die; but I will be content with transforming thee into a dog, ape, lion, or bird: take thy choice.”

“I will have patience till you tell me that story, replied the genie, but think not to escape unpunished.”

“<Sir, replied the princess, the ape that you have by you is a young prince, transformed by enchantment. I have learned the 70 rules of magic, whence I know, at first sight, all persons who are enchanted, and how they became so.> <Have you power, also, said the sultan, to dispel the charm?> <I have,> replied the princess. <Do so then immediately, I entreat you, said the sultan; I interest myself exceedingly in this prince’s fortune; if you can restore him, I will make him my vizier, and he shall marry you.>”

“When she had finished the circle she placed herself in the centre of it, where she began adjurations, and repeated verses out of the Alcoran. The air insensibly grew dark; all at once the genie appeared in the shape of a lion of a frightful size.

Wretch, said the princess to him, darest thou present thyself in that shape, thinking to frighten me? And thou, replied the lion, art thou not afraid to break the treaty which was so solemnly made between us? but thou shalt quickly have thy reward. At these words he opened his terrible jaws and ran at her to devour her; but she leaped backward, pulled out one of her hairs, and by pronouncing three or four words, changed herself into a sharp sword, and cut the lion in two.

The lion vanished, and a scorpion appeared in his room. The princess became a serpent, and fought the scorpion, who, finding himself worsted, took the shape of an eagle, and flew away. The serpent also took the same shape and pursued him, so that we lost sight of them both. Some time after the ground opened, and there eame forth a cat, with her hair standing upright, and making a fearful mewing; a black wolf followed her close, and gave her no time to rest. The cat thus hard beset, changed herself into a worm and, a pomegranate lying by the side of the canal, the worm pierced it in an instant and hid itself; but the pomegranate immediately swelled as big as a gourd [abóbora], and presently burst into several pieces. The wolf became a cock, and picked up the seeds of the pomegranate; when he could find no more, he came toward us. as if he would ask us whether he had left any. There was one lying at the brink of the canal, which we perceiving, pointed it out to the cock, which ran speedily toward it; just as he was going to pick it up, the seed rolled into the river, and became a little fish. The cock jumped into the river, and was turned into a pike, which pursued the small fish. They continued both under water about two hours, and we began to wonder what had become of them, when, on a sudden, we heard such terrible cries as made us tremble, and presently we saw the princess and the genie all in flames. They threw flashes of fire at each other so fiercely, that we apprehended chat the palace would be consumed; but we soon had more reason to be alarmed, for the genie, having got loose from the princess, came to the gallery and blew flames on us. The princess flew to our relief and beat away the genie; but in that momentary attack the sultan’s face was dreadfully scorched, the eunuch was stifled, and a spark entering my right eye it became blind. We expected nothing but death, when we heard a cry of Victory! victory! The princess appeared in her natural shape, but the genie was reduced to a heap of ashes.”

“Sir, I have got the victory over the genie, but it is a victory that costs me dear, as I have but a few moments to live. This would not have been had I perceived the last of the pomegranate seeds, and swallowed it as I did the others. That oversight obliged me to have recourse to fire, and to fight with those mighty arms, as I did, between heaven and earth, in your presence. I have conquered and reduced the genie to ashes; but the fire pierced me also during the terrible combat, and I find I cannot escape death.”

“Rejected, banished, thrown off by all the world, I caused my beard and eyebrows to be shaved and set off for Bagdad; lamenting more for the two unfortunate princesses than for my own wretchedness.”

“The day following I renewed my inquiries in so earnest a manner, that one of them, in behalf of the rest, said: It is out of friendship to you, prince, that we have withheld from you the information you wish; but if you continue to demand it, we are not at liberty to refuse you. Know, however, that you will lose your right eye by gratifying your dangerous curiosity; and that when that misfortune hath befallen you, you cannot remain with us, as our number is complete, and no addition can be made to it.”

“The roc is a white bird of enormous size and of such strength, that it takes elephants from the plains to the tops of the mountains, where he feeds on them.” Esta ave está até nos diários de Marco Polo!

“This, continued she, will wholly depend upon yourself; here are the keys of 100 doors which you will find in the adjoining courts. These we are obliged to leave with you. You will find abundance of curious things within 99 of these doors to gratify and amuse you, which you may enjoy in safety; but if you open the golden door, we shall never see you again. And it is this fear lest you should be overcome by an indiscreet curiosity, that gives us so much disturbance.”

“all that is beautiful in nature, or elegant in art was there, in the highest perfection and abundance. The wealth, as well in jewels as in gold, was incredible. This immense display of everything valuable and curious was so extensive, that 39 days were passed by the time I had explored the 99 apartments I was allowed to visit.”

“I got up much troubled with the misfortune I had brought upon myself; I found the castle was the same from which the roc had carried me, and presently met the 10 gentlemen, who were not at all surprised to see me, as every one of them had passed through the same adventure. After condoling with me, and lamenting that it was not permitted them to add me to their number, they directed me to seek the court of Bagdad, where I would meet him that would decide my destiny. Accordingly I put on this dress; and arrived here this evening.”

“Early in the morning, I heard the voice of a man reading the Alcoran, in the same tone it is read in our mosques. I arose immediately, and following the voice, I fonnd it came from an oratory, which had, as usual, a niche, that showed Avhere we must turn to say our prayers. A comely young man was sitting on a carpet reading the Alcoran with great devotion. Being curious to know why he was the only living creature in the town, I entered the oratory, and standing upright before the niche, praised God aloud for having favored us with so happy a voyage.

The young man closed his Alcoran, and coming to me, desired to know whence I came. I acquainted him; on which he proceed, ed to tell me that the city was the metropolis of a kingdom governed by his father; that the king and all his subjects were magi, worshippers of fire, and of Nardoun, the ancient king of the giants, who rebelled against God: <Though I was born, continued he, of idolatrous parents, it was my good fortune to have a woman-governess, who was a strict observer of the Mohammedan religion. She taught me Arabic from the Alcoran; by her I was instructed in the true religion, which I would never afterward renounce. (…) This voice was heard three years successively, but no one regarded it. At the end of the last year, all the inhabitants were in an instant changed into stone, every one in the posture he happened to be then in. I alone was preserved; and I natter myself, madam, that you are sent here to deliver me from a solitary life, which I must own is very irksome to me.>”

“The young prince proved the most amiable and agreeable of men, He solicited me very earnestly to become his wife, which I projnised on our arrival here. But my sisters had each become enamored with him: this declaration of his reduced them to despair. Envy and jealousy took possession of their breasts, and in the night they threw us both overboard.”

“<I am, said she, the serpent, Whom you so lately delivered from my mortal enemy; in return for that service, with the assistance of other fairies, my companions, I have already conveyed the valuable lading of your vessel to your store-houses in Bagdad; and to punish the cruelty and in gratitude of your sisters, I have transformed them into these two bitches.> Having said this, she took them under one arm and me under the other, and in an instant set us down in my house. Before she left me, she said: <If you would not share the fate of your wicked sisters, I command you in the name of him who governs the sea, that you every night give each of them 100 lashes with a rod.> I am obliged to obey this severe order, but my resentment having long since subsided, your majesty saw with what reluctance I comply with it.

Zobeide having finished her story, Amine rose to satisfy the inquiries of the Caliph.”

“My new husband exacted a promise from me that I would not speak co or be seen by any man but himself.”

“The merchant told her he would not sell them for money, but if I would permit him to kiss my cheek, he would present me with them. I directed the nurse to reprehend him for his audacity; but instead of obeying me, she remonstrated in his favor. As I was much pleased with the stuffs, which the merchant would not let me have on any other terms, I foolishly consented.

The old woman and the slaves stood up, that no one should see it; I put by my veil; but instead of a kiss, the merchant bit me till the blood came.”

“When dinner was over, Sindbad began to converse with the porter; and calling him brother, after the manner of the Arabians, when they are familiar with one another, he asked him what it was he had said awhile ago in the street? for Sindbad had chanced to overhear his murmurings.”

“We had not long landed, when, on a sudden, the island trembled, and shook us terribly. The people on board saw our situation, aud called out to us to re-embark directly, as what we had taken for an island, was only the back of a prodigious fish. The nimblest of us got into the sloop, others jumped into the sea, and swam toward the vessel. For my part, I was still on the back of the fish when it dived into the sea. I got hold of a piece of timber which we had brought, to make a fire with, and by this assistance was preserved from sinking, but found it impossible to recover the ship.”

(*) “Degial, with the Mohammedans, is the same as Antichrist with us. They have a tradition that he will appear about the end of the world, and conquer all the earth, except Mecca, Medina, Tarsus, and Jerusalem, which are to be preserved by angels, whom he shall set round them.”

“I disposed of my merchandise to the value of 10,000 sequins. (*) I then bought slaves of both sexes, built me a fine house, resolving to forget the miseries I had suffered, and enjoy myself.”

(*) “The Turkish sequin is about 2 dollars.” Como podemos ver pela continuação do parágrafo, é bastante provável que a cotação desta edição do livro está defasada. Quiçá seja 10 ou 50x mais.

“I had no intention of venturing the sea again; but I soon grew weary, and ashamed of an inactive life.”

ourobouros

Sinbad, a águia e a serpente. Ouroboros?

“The rhinoceros fights with the elephant, runs his horn into his belly, and carries him off upon his head; but the blood and fat of the elephant run into his eyes, and make him blind. He falls to the ground, and what is very astonishing, the roc carries them both away in her claws, to be meat for her young ones.”

“An innumerable multitude of little frightful savages covered all over with red hair, came swimming about us. They were not more than 2 feet high, but seemed uncommonly strong and nimble.”

“He was a tremendous black giant, as high as a tall palm-tree, with only one eye in the middle of his forehead, which looked as red as a burning coal; his teeth and nails were long and sharp, and his mouth resembled that of a horse. The sight of so frightful a figure rendered us immovable with horror. After surveying us for some time, he took me up by the nape of the neck, and felt my body as a butcher would his sheep. Finding me very thin, he Bet rne down and took up another; at last, laying hands on our captain, who was fat, he thrust a long spit through him, and kindling a fire, he roasted and ate him. After which he retired to an adjoining room, where he slept, and snored all night like thunder. In the morning he got up, went out, and left us in his dwelling.”

“Accordingly, when we heard him snore, ten of the boldest of us took each a spit, and making the points red hot in the embers of the fire where he had roasted our friends, we thrust them all at once into his eye, and blinded him. He awoke in great agonies, and making a frightful outcry, he felt about, in hopes of sacrificing us to his fury: but we took care to be out of his reach; and finding he sought for us in vain, he groped for the gate, and went out howling dreadfully.”

“Day had scarcely appeared, when we found it necessary to put to sea with all possible haste; for we saw the blinded giant coming toward us, led by two others of his own species, as large and terrible as himself.”

“By this time my name became celebrated as a bold navigator, and fortunate merchant. My vanity was so highly gratified by these distinctions, that I determined to support my claim to them by undertaking another voyage.”

“We embarked, and got under way with all diligence; but we scarce had weighed anchor, when we saw the male and female rocs appear at a distance, like two large clouds. When they approached their egg and found it broken, the noise they made was tremendous.”

“You fell, said they, into the hands of the Old Man of the Sea, and are the only one that ever escaped strangling by him; as he never left any he had once mastered till their strength was exhausted, when he failed not to destroy them.”

“During this time, I made a pilgrimage to the place where Adam was confined after his banishment from paradise. The island was called Serendib; it is exceedingly pleasant and fertile. The people were hospitable, and so just that lawsuits are unknown among them. The magnificence of the palace, and the splendor of their prince, when he appears in public, are truly admirable. On this occasion, the king has a throne fixed on the back of an elephant: before him an officer carries a golden lance in his hand, and behind the throne there is another who supports a column of gold; the guard amount to a thousand men, all clad in silk and cloth of gold. While the king is on his march, the officer who carries the lance, cries out, occasionally, <Behold the great monarch; the potent and redoubtable sultan of the Indies; whose palace is covered with an 100,000 rubies, and who possesses 20,000 crowns, enriched with diamonds; behold the crowned monarch; greater than the greatest of princes!> After which the officer who is behind, cries out, <This monarch, so great, so powerful, must die, must die, must die!> The officer who is before replies, <Praise be to him who liveth forever!>”

“I had now determined to go no more to sea. My wealth was unbounded, my reputation established, my curiosity amply gratified, and my years began to require rest; so that I thought only of enjoying the fruit of my former toils and dangers. But the caliph sending for me, told me he had resolved to answer the letter of the king of Serendib, and to return him a present of equal value to that which I had brought him, and that he had fixed on me to be the bearer of it.”

“For two months I continued to kill an elephant every day, sometimes from one tree, sometimes from another. One morning, while I was looking out for them, I perceived they did not cross the forest as usual, but came in great numbers directly toward the tree where I was. Their approach alarmed me so much that my bow and arrows fell out of my hand; and my terror greatly increased, when one of the largest of them wound his trunk round the body of the tree in which I was, and pulled so strong that he soon tore it up by the roots, and threw it on the ground. As I was falling with the tree, I gave myself up for lost; but the elephant, wheu I reached the earth, took me up gently, and placed me on his back. He then went at the head of his companions into the heart of the forest, when stopping suddenly, he took hold of me with his trunk, and set me down on the ground. Immediately he and all his companions retired and left me.”

“We buy slaves here solely for the purpose of procuring us ivory; and notwithstanding all our care, the elephants every year kill a great many of them. You have been preserved most marvellously from their fury. Think not that by restoring you to freedom, I suppose you sufficiently rewarded: when I procure you a vessel to convey you home, you will find me more substantially grateful.”

“I purchased three apples, at a great price, which was all the gardener could spare me; and returned in 15 days to Bagdad, much pleased with my success. But when I came home, my wife’s desire for them had passed away. She accepted them, notwithstanding, very kindly, and though she continued sick, she did not cease to be affectionate.”

“I asked him hastily how he came by it. <‘Tis a present, replied he, smiling, from my mistress: I have just been to visit her, and on taking leave, she gave me this apple, which is one of three which her kind husband has been as far as Balsora to obtain for her.>”

“I demanded where the other was. My wife answered me coldly, <I know not what has become of it.> Transported with rage and jealousy, I drew my dagger, and instantly stabbed her.”

“Though I did not regret having slain her, I dreaded the consequences of the act. I divided the body therefore into quarters, and packed them up in a trunk, which, as soon as it was dark, I threw into the river. When I returned home, I found the eldest of my children sitting at my gate, crying; on my asking the reason, <Father, said he, I took away this morning, unknown to my mother, one of the apples you brough to her: as I was playing with it, a tall, black slave, who was going by, snatched it from me; and though I told him how far you had been to fetch it to my mother, he would not restore it. Do not, my dear father, tell my mother of it, lest she should grieve and become worse.>

My son’s discourse overwhelmed me with the most insupportable anguish. I found I had been betrayed by the fatal lie of a vile slave into an enormous crime. At this juncture, my uncle arrived to pay a visit to me and his daughter. I concealed nothing from him; and the good old man, instead of loading me with reproaches, admitted my apology, and joined with me in lamenting the loss we had both sustained, through my rashness and the villany of the rascally black. We were yet mingling our tears, when we heard that the body was found, and that your majesty’s displeasure was raised against your faithful vizier, because the murderer was undiscovered. I resolved, therefore, to submit myself to your royal justice, the decree of which however severe, I shall not presume to murmur at.”

“The story cf the unfortunate young man excited the pity of the caliph; and his indignation was turned against the slave, who had been the cause of so great a calamity.”

“How is it possible, complained he, to find out this slave in a city where there are such a number of blacks? I will not attempt such so fruitless an inquiry, but will resign myself to my fate.”

“The afflicted vizier took her in his arms to salute her, when perceiving something bulky in her bosom, asked her what it was. <My dear father, said she, it is an apple, which I have just bought of our slave Rahan, for two sequins.>

“He inquired where he was, and was astonished when told he was at the gates of Damascus. <Sure, you mock me, exclaimed he; when I lay down to sleep, I was at Cairo.> The bystanders laughing still more, he increased their vociferous ridicule by declaring he had passed the preceding day at Balsora.”

“Is that the reason, exclaimed Bedreddin, that I have been treated so severely; have my goods been destroyed, myself made a prisoner, and led away many days’ journey from my home, am I now to be be put to a cruel death; and all this for not putting pepper into a cream-tart? Are these the actions of Mussulmans, of persons professing probity and justice? Never was man used so barbivrously; cursed be all cream-tarts, and the hour in which I learned to make them.”

“The recollection of what he had passed through for so many years; was too strong to be overcome by the idea of its having been a dream.”

“In the capital of China there lived a tailor named Mustapha who with difficulty earned a maintenance for himself, his wife, and son, whose name was Aladdin.

The boy, though of a sprightly turn and gool natural understanding, was careless and idle. As he grew ap his laziness increased, he was continually loitering among blackguards in the street; nor could Mustapha by any means prevail with him to apply himself to some employment by which he might learn to get his bread.” “Mustapha, finding him incorrigible, was so much afflicted, that his grief brought on a fit of sickness which cost him his life.” Realmente um garoto abençoado…

“Aladdin, being no longer restrained by his father, indulged his indolence to the utmost. He was not ashamed, though 15 years old, to be supported by his mother’s labor, yet ceased to pay her the respect and duty of a son.”

“Aladdin did not want sense though he hated work”

“Aladdin and his mother were by these means completely deceived. They never doubted but the man who heaped so many favors upon them was really their near relation, and blessed Providence for their good fortune in being found out by him.”

“Though I have opened this cave, I am forbidden to enter it; that honor is permitted only to you. Go down boldly then. You will find at the bottom of these steps, three great halls, in each of which you will see a large number of coffers full of gold and silver. Be sure you do not meddle with them; nor must you suffer your very clothes to touch the walls. If you do, you will instantly perish. When you are through these halls, you will come to a garden. Here you will be perfectly safe, and may handle anything you see. At the further end of it, you will find a lamp, burning in a niche. Take that lamp down, throw away the wick, pour out the liquor, and put the lamp in your bosom to bring to me.”

“Nothing could be further from the intention of the magician than to deliver Aladdin from the cave. He had found by his books that there was such a lamp concealed in a subterraneous abode in. China, which would render the possessor more powerful than any prince in the world; but as he was not permitted to enter the place himself, he resolved therefore to seduce some friendless boy to fetch him the wonderful talisman, and having gained it, to shut up the cave, and leave him to his fate. When Aladdin therefore called out for his assistance, he called as loudly for the lamp. The young man would have readily given it to him, if he had not buried it in his bosom by the quantity of jewels he had put over it; and being ashamed to own that, he entreated his supposed uncle to help him out, and he would deliver it to him immediately.”

“He set off immediately for his own country, taking care not to return to the city, lest he should be questioned respecting his pretended nephew.”

“Immediately an enormous genie rose out of the earth, with a torch in his hand, which illuminated the cave as though the sun had shone in it, and said to him, <What wouldst thou? I am ready to obey thee as thy slave, while thou wearest that ring; I, and the other slaves of the ring.>”

“What wouldst thou? I am ready to obey thee as thy slave; the slave of all those who hold that lamp in their hands; I and the other slaves of the lamp.”

“When all the money was spent, Aladdin had recourse again to the lamp, and the genie supplied the table with another silver basin and the same number of covered plates equally well filled.”

“<You go often, said he, to that Jew, who is the greatest cheat among his brethren; if you deal with him, he will certainly defraud you. Aladdin produced his plate, which the goldsmith weighed, and counted him down 60 pieces of gold for it. The young man thanked the honest shopkeeper, to whom he afterward sold the other plates and the basin.”

“But though he found himself possessed of immense wealth, yet he persisted in living privately, even humbly; devoting his whole time to the improvement of his understanding.”

“Till now he had never seen any woman’s face but his mother’s. He supposed, therefore, that all women vere like her, and thought of them with indifference. But the instant he saw the princess, who was exceedingly lovely, he felt emotions he had till then been a stranger to. When she had entered the inner doors, he returned home, pensive, yet delighted. He passed the evening in melancholy and silence, and the night in indulging the starts of a restless and disturbed imagination.”

“Three months indeed seemed an age; but as he had never hoped to succeed without infinitely more difficulty, his joy was unbounded.”

“He beckoned the old woman to him, and told her he was ready to give the princess to her son, provided he sent him 40 basins of massy gold, full of the same kind of stones she had given him before; each basin to be carried by a black slave, led by a young and handsome white slave, all of them magnificently dressed. <Go, said he, and tell him on these conditions I am ready to receive him as my son-in-law.>”

“When he had bathed, he was quite a different man from what he had been before. His skin was clear, his complexion improved, and his whole body lightsome and easy. The genie clothed him with a most magnificent habit, and conveyed him home, where he found a number of attendants ready to wait on him and his mother to the palace.”

“He was so altered that his former companions did not know him; for such were the effects of the lamp, that those who possessed it acquired by degrees perfections both of mind and person, which qualified them for the high fortune, the right use of it advanced them to.”

“You must believe his riches are inexhaustible; and he thus shows us what can be done by money.”

“But no situation in human life is exempt from misfortune. Several years after these events, the African magician who had undesignedly been the instrument of Aladdin’s good fortune, chanced to recollect him, and resolved to know if he had perished in the cave. He cast figures, and formed a horoscope, by which he found that Aladdin had escaped, lived splendidly, was rich, had married a princess, and was very much honored and respected.”

“The natural malignity of the magician became tenfold on this discovery. He burst out in a rage, saying, Has this wretched tailor’s son discovered the virtue of the lamp? does he whom I despised and devoted to death enjoy the fruit of my labor and study? He shall not long do so. He immediately prepared for a journey; and setting off next day, travelled till he arrived again at the capital of China.”

“the magician having obtained the prize he sought, returned with it, rejoicing, to his khan.”

“These remarks of the vizier kindled tlie sultan’s rage against Aladdin. Where is that impostor, that vile wretch? Exclaimed the sultan. Bring him before me, and let his head pay the price for his wicked delusions.”

“Aladdin was stripped, bound, and kneeling to receive the fatal stroke, when an accident happened, which obliged the sultan reluctantly to suspend his fate.”

“The sultan was terrified. He ordered Aladdin to be unbound, and bad the chiaoux proclaim he had pardoned him This satLsiicd the people, who presently dispersed.”

“I beseech your majesty, replied Aladdin, to give me 40 days to search for my dear princess; if at the end of that time I am unsuccessful, I do solemnly swear I will return, and deliver myself into your hands.

– Begone, then, answered the sultan; but know, that if you break this oath, you shall not escape my resentment. My rage shall pursue you, if you do not produce my daughter, in whatever part of the world you may vainly attempt to hide yourself.”

“In her cup was the powder procured by Aladdin. Wine being poured out. the princess told the magician, that in China, it was the custom for lovers to exchange cups, and at the same time, held out her cup to him. He eagerly made the exchange; and putting the cup he had received from her to his lips, he drank a little of the wine, and immediately expired.”

“The sultan embraced Aladdin, and they forgave each other. The dead body of the magician was thrown upon a dunghill; and the whole city rejoiced at the safe return of Aladdin aid the princess.

The happiness of Aladdin was not yet secured. Though the magician was dead, he had left a brother as wicked, and as powerful as himself. It was the custom of these brethren to inform themselves by their art, once a year, where each other was. and whether either of them stood in need of the other’s assistance.”

“Among other things he often heard of one Fatima, a holy woman, who resided in a hermitage near the city, and used now and then to come to it. Her piety was everywhere spoken of. They even, declared that she had the power of working miracles; and particularly that she never failed to cure any person who had the headache, by putting her hand on them.” “Being thus completely able to pass for Fatima, he, without the least regard to his oath, strangled her, and threw her into a cistern.”

“I am not, replied the magician, a judge of these fine things; but I think if a roc’s egg was hung up in the midst of the dome, the whole would be complete. There is one on the top of Mount Caucasus; and the architect who built your palace can procure it for you.”

“Wretch! Is it not enough that I and my companions have done so much for thee, but thou must command me to bring my master, and hang him up in thy hall? It is well for thee that thou art riot the author of this ungrateful request. Know, then, that the deviser of it is the brother of the African magician.”

3 MIL DESEJOS TÊM SEMPRE UM FIM: “After these words, the genie, snatching the lamp from Aladdin’s hand, disappeared.”

“Though Aladdin was much grieved for the loss of his lamp, yet he consoled himself, as by the death of the magician his peace was secured. He succeeded some years afterward to the throne of China, on which he reigned with his princess to a good old age, and left behind him a numerous posterity.”

“he that had not seen Egypt, hath not seen the greatest sight in the world.”

“He was a long time opening his case, and preparing his razors; when, instead of proceeding to shave me, he took out an astrolabe, and went very gravely out of the room to the middle of the yard to take the height of the sun. Returning with the same gravity, he said, Sir, you will be pleased to know that this day is Friday, the 18th of the mouth Safar, and that the conjunction of Mars and Mercury signifies you cannot choose a better time than this very day and this very hour for being shaved. But this conjunction is also ominous to you. You will this day be in great danger, not indeed of losing your life, but of an inconvenience which will attend you as long as you live.”

“– Do you think I am a common shaver ? You sent for a barber only; but besides having in me the best barber in Bagdad, you have also an experienced physician, a very profound chemist, an infallible astrologer, a finished grammarian, a complete orator, a subtile logician, an admirable mathematician and historian; besides, I know all parts of philosophy. I am a poet, an architect, and excel in all the sciences. Your late father, my very good friend, whose memory I revere, held me in the highest esteem. I am—

– Prithee, peace, thou endless babbler, and do the business I sent for you to do.”

“I wonder, sir, you will not avoid those transports of rage, which come only from the devil. Besides, you ought to have more respect for a man of my age, knowledge, and many virtues. You have an engagement at noon; why, it now wants at least three hours of that time. Again he laid down his razor, and took up his astrolabe, leaving me half shaved, to go and see what time of day it was.”

“A few days after the departure of the caliph, a strange whim seized the young lady. She had a desire to see the city; and besought Fatima to take her with her the next time she went thither. Fatima, little apprehending any bad consequence, fondly consented, and apprized the merchant, that on an appointed day, the caliph’s favorite would come in private to view the city and intended to repose at his house.”

“The intention of viewing the city was at an end. Schemselnihar, new to love, indulged sensations so delightful, and thought only how she might make herself agreeable to Aboulhassen: who, on his part, became entirely enamored. They remained together till evening, and parted with inexpressible reluctance on both sides.

New ideas now took possession of Schemselnihar, among which none so often arose as an abhorrence of marriage with the caliph. She devoted herself to her beloved Aboulhassen; and though she saw no probability of being united to him, yet she determined to encourage that hope. The indulgent Fatima reasoned with her against so improper an attachment, but misled by her fondness for the princess, she repeatedly permitted interviews between the two lovers at the house of Ebn Thaher. The merchant, also, though he pointed out to the prince the folly and danger of his pursuit, was yet weak enough to promote the meetings of the young couple.”

“In this terrestrial paradise the love-sick Schemselnihar received her equally enamored Aboulhassen, unmindful of her engagement with the commander of the faithful, whom she now began to think of with terror and abhorrence; nor did the prince suffer the fear of future evils, or of present danger, to damp the delight he felt at being received with so much distinction by the object of his vows.”

“They plighted vows of unceasing constancy, and seemed, by seizing the present moment to snatch those joys from the power of fortune before a fatal interruption should put an end to them forever.”

“Opposite Ebn Thaher’s house there lived a jeweller who, having little business to employ him, bestowed much of his attention on his neighbors. Shrewd, artful, and avaricious, he sought to turn everything to his own advantage, and having a pleasant carriage, which hid his vices, he was but too often successful.”

“Ebn Thaher, leaving Bagdad abruptly, confirmed this sagacious fellow in his opinion, that the prince had dared to intrigue in the harem of the caliph; and that the amour was carried on by Fatima and the merchant.”

“He concluded the lovers would pay more liberally for his assistance in carrying on their amour than the caliph would for a disagreeable piece of intelligence.”

“For some time, by means of the zeal and activity of the new emissary, a regular correspondence took place between Aboulhassen and the princess. The avarice of the jeweller was gratified beyond his hopes; he scrupled, therefore, no danger to oblige his benefactors. Matters could not remain long in this undecided situation. Schemselnihar daily grew better; and the caliph who had been much afflicted at her illness, began to congratulate her on her recovery. The preparations for the royal marriage were no longer suspended; and to prevent its taking place the lovers resolved on elopement.”

“The jeweller now found himself in a very distressed situation. Deprived of the great riches he had obtained by his intrigues; his patron dead; his hopes annihilated; an exile from his country, his avaricious spirit still remained; and he determined to hazard new dangers, in hopes of recovering what he had lost. He knew the banditti had engaged to restore what they had taken from his house; and he was not without hope that it might have been delivered to his family. The prince of Persia had a mother, who inherited his vast wealth, and he was willing to believe that she would reward his attachment to her son. On these considerations, he revealed to his host the rank of the deceased, and engaged him to deposit the body for a short time in a neighboring mosque; and, after staying a few months at Anbar, he ventured to return to Bagdad.”

“I alone am to blame in this affair; I ought to have considered that, in marriage, age and youth agree but ill together. I love you, Schemselnihar, continued the generous prince, and ever shall; but in future it shall be like the love of a father, not a husband. I will myself give you to Aboulhaseen; send him word of the good fortune that awaits him.

(…) She sunk into the arms of the caliph and expired.”

“Fatima, having finished her narrative, was informed by the jewellerof the death of Aboulhassen; and they joined to pay the tributeof tears to the memory of these unfortunate lovers. In the morningFatima waited on the caliph, and obtained his permission tointer the body of the prince of Persia in the same tomb with hisbeloved mistress. The mercenary jeweller was the only victim ofthe caliph’s displeasure, who was so displeased with his conduct, that he confiscated the remainder of his effects, and banished himfrom his dominions.”

“Carnaralzaman had about him something more than indifference for women he heard, therefore, this desire of his father with great concern. He put it off at first by pleading youth, and desiring time. After waiting a whole year, Schahzaman, finding no disposition in his son to obey him, desired the mother of the prince to reason with him on the subject. Camaralzaman had ever behaved with the utmost duty and affection to her, and the king hoped much from her influence over him to procure a willing obedience to his commands.”

“Maimoune, the fairy, soon after met a genie, named Danhasch; be was one of those geniiwho rebelled against god. The great Solomon had obliged Maimoune to conform.”

“Whatever aversion, sir, said he, I formerly had to woman, this young lady has charmed me to such a degree, that I am ready to receive her as the best gift you can bestow on me.”

MEIA-VOLTA NO ORIENTE EM QUASE 80 SEMANAS… “They then set off for the capital of China, where, after travelling near 12 months, they arrived in perfect safety.”

“Camaralzaman was exceedingly grieved when he saw the bird fly away with the talisman. He blamed severely his idle curiosity, by which he had lost a treasure so valued by the princess. The bird having got her prize, pitched upon the ground not far off, with the talisman in her mouth; the prince drew near, in hopes she would drop it; but as he approached, she took wing and pitched again farther off. Camaralzaman followed her and the bird, having swallowed the talisman, took a small flight faither still. The prince hoped to kill her with a stone; and as she flew but a little way at a cime, he became more and more eager in pursuing her. Thus the bird led him from hill to valley, and from valley to hill all day; and instead of perching at night on a bush, where he might probably have taken her, she roosted on a high tree, safe from his pursuit. The prince, grieved at the misfortunes of the day, would have returned to his camp, but alas! he thought of it too late. Whither shall he go? which way return? how will he be able to trace back his steps over mountains and valleys never trod before? Darkness and fatigue alike prevented him. Besides, how durst he appear before his princess without her talisman? Overwhelmed with these distressing thoughts, he sat down at the foot of a tree, and sleep gave him a short respite from his affliction.

He awoke the next morning before the bird had left the tree; and, as soon as he saw her on the wing, followed her. He continued to do so the whole day, with no better success than he had had the day before, eating nothing but herbs and fruits, which he picked as he walked. For ten days he pursued the mischievous bird, sleeping every night under the tree where she roosted. On the eleventh day, he drew near to a great city, and the bird flying over the walls, he saw her no more.”

“The gardener told him it would be impossible for him to return home by land, as his way lay through so many barbarous nations. There is, continued he, a ship sails from this port once a year to the Isle of Ebene; whence you may easily convey yourself to Khaledan, but that ship sailed only a few days ago; it will of course be near a year before you will have that opportunity.”

“The princess Badoura accepted the invitation, and was receivedby Armanos with much hospitality. The king was greatly pleasedwith the supposed Camaralzaman. He contrived every means ofamusing him to prevent his departure; and at length frankly offeredto give him his only daughter, Haiatalnefous, to wife, and to placethe crown of Ebene on his head, which old age had made too burdensomefor his own.

Badoura was much perplexed by this offer, which she dreadedalike to accept or reject. The inconveniences attending her becomingthe husband of the princess of Ebene were obvious; yetif she refused, she had everything to apprehend from the anger ofthe king, in whose power she was, and who no doubt would resentthe indignity. Nor durst she discover her sex, as she was unprotected by Camaralzaman, uncertain of his fate, and at such a distancefrom her father’s kingdom. She resolved, therefore, to throwherself on the generosity of the princess. She accepted the king’soffer with great apparent joy; and having given a probable reason for herconduct to such of her attendants as thought her Camaralzaman, and cautioned the few of her women who knew the secretto be faithful and silent, she prepared herself to be the bridegroomof Haiatalnefous.”

“If the prince of Khaledan is living, it cannot be longbefore he will arrive here, on his way home and should you thinkhim as amiable as I do, I will consent that he shall be your husband,as well as mine, which you know is agreeably to the laws ofthe prophet. If, on the other hand, he is no more, I shall continueby your kindness, in safety here, till I can acquaint my royalfather with my situation.”

“From this time the most perfect friendship took place betweenthe two princesses; and Badoura became every day moreesteemed by Armanos and his people, conducting the affairs ofthe kingdom with great ability and success.

While these things passed in tho island of Ebene, Camaralzamanremained with his friendly gardener, impatiently waiting forthe time when he should be able to set forward in search of hisbeloved Badoura,”

“While he was reposinghimself under a tuft of trees, indulging his melancholyreflections, he was disturbed by two birds fighting, and making agreat noise very near him. In a little time one of them fell downdead, and the victorious bird flew away.

In a short time two other birds came, and pitched themselvesone at the head and the other at the feet of the dead bird. Afterseeming to express much concern, they dug a grave with theirtalons, and interred the defunct. This done, they flew away; butreturned in a few minutes, bringing with them the victor bird, oneholding a wing in her beak and the other a leg, the prisoner all thewhile screaming most piteously, and struggling to escape. Theycarried him to the grave of the dead bird, where they put him todeath; and tearing him to pieces with their beaks, they strewedhis remains about the place where they had buried his antagonist.

When the two avenging birds had flown away, Camaralzamandrew near the spot, and, looking on the dismembered carcase, hesaw something red hanging out of it. He took it up, and found itwas his beloved Badoura’s talisman. Nothing could exceed thejoy he felt on this happy event.He had no doubt but it was apresage of a speedy meeting with his lovely princess. He triumphedover the mischievous bird who had been the cause of hismisfortunes, and rejoiced at the vengeance which had overtakenhim, in the perpetration of a new enormity against one of his ownspecies.”

“In the morning Badoura sent a message to Armanos, desiringto see him. He came immediately, and finding in the inner palacea strange lady and the lord treasurer (whose presence in thoseapartments was unlawful), was at a loss what to say. Sittingdown, he asked where the king was; to which Badoura replied,Yesterday, my lord, I was king; but now am contented to beonly princess of China, and to acknowledge that prince for myhusband.”

“The next year each of the princesses brought forth a son. Theprince, of whom Badoura was delivered, was named Amgrad(most glorious). The son of Haiatalnefous was called Assad (most happy). Their birth increased the friendship of their royal parents,and greatly heightened the satisfaction of the venerableking Armanos.

King Camaralzaman lived many years happily with his queensBadoura and Haiatalnefous. He had the delight to find his twosons, as they grew up, become very accomplished princes, andvery dutiful children. The most cordial friendship subsisted betweenthe two queens; and the princes having the same tutors,the same officers, the same amusements, seemed also to have the same soul, the most perfect fraternal affection binding them toeach other.”

“The young princes had attainedthe age of eighteen, and the king was past the meridian of life,when he took a fancy to indulge himself with the privilege theprophet allows, and married two other wives. The ladies wereyoung and of exquisite beauty; but besides beauty they possessed nodesirable quality. Camaralzaman was so infatuated that he treatedhis two respectable queens with neglect, and attached himself tohis new wives with a fondness bordering on dotage. Far from returning this ridiculous passion, they turned their thoughts to otherobjects. The manly graces of the two young princes engagedtheir attention; and they contrived to let them know that theirvisits might be secret, and would not be unwelcome.

Amgrad and Assad had too much filial piety to receive this invitationwith patience. They rejected the offer with abhorrence,and even punished the slave severely who brought the billets.From this moment the new queens vowed their destruction. Inthe state of the king’s mind this was not difficult to effect. Theyceased not to insinuate that the young men were disgusted onbehalf of their mothers, and had ambitious designs of their own.These hints were dropped, as if given with reluctance, and extortedfrom them them through concern for the king’s safety.

By these arts Camaralzaman was led to consider his sons as hismost dangerous enemies. He would have publicly put them todeath, but that he dreaded their popularity. He directed them,therefore, to go to a distant place on the frontiers of the kingdom,pretending that their studies were interrupted by the bustle ofthe capital. An emir, of the name of Gieudar, with a few attendants,were ordered to escort them, and the princes, whose obedienceto the commands of their father was implicit, set out accordingly.When they arrived at an extensive and uncultivated forest, Giendarleft his retinue on the borders, and led the princes a considerable waywithin it, where he produced an order from the king to put themboth to death; they submitted without murmuring to this crueldecree: a contest only arose between them who should be firstsacrificed to their father’s caprice. This affecting dispute was carriedon with so much tenderness, as quite melted the emir. Atthis instant a lion jumped out of the thicket and made at Giendar, who, in his fright, dropped his scimitar and fled.”

“Devout adorers offire, this is a fortunate day for us. This young Mussulman will bean acceptable sacrifice to our divinity. Gazban,continued he,addressing himself to the black slave,do you take him and preparehim, by proper chastisement for the holy festival; and letmy daughters, Bostava and Cavama, regulate his diet, that he maybe fit to be offered up when the next ship departs for the blue seaand the fiery mountain.”

“Once a day Bostava and Cavama attended him with the coarsestfood; and as he was chained hands and feet, they fed him. Allthe time they reproached and mortified him. by every insult andbarbarity in their power. While they thus obeyed their father,and performed as they supposed an acceptable service to theirdeity, Cavama gratified a furious and malignant zeal; but Bostavawas of a more gentle nature, and whenever she could, with safetyto herself, she did him kind offices.”

“This city iscalled the city of Magicians, because the most of the inhabitantsare of that description. They are all adorers of fire, and bear amortal hatred to the true believers. They dare not assault us of thatfaith, who are inhabitants of the city; but if a stranger Mussulmanfalls into their hands, he is seldom heard of more. Do not, however,give way to fruitless grief, you shall live with me till you havelearned the customs of the place, and then you will be in perfectsafety.”

“While they were thus engaged, news came that another armystill more numerous drew near. This was led by Gaiour, king ofChina. I come, saidhe to Amgrad, in search of my daughterBadoura, whom I gave in marriage many years ago to Camaralzaman,son of Schazaman. king of Khaledan. I have heard nothingof them for a long time. I therefore have left my kingdom,thus attended, to find them out.”

“A great dust was now seen to rise opposite another quarter ofthe town. The princes immediately rode thither, and found itwas Camaralzaman, their father, at the head of a third army. He had been so afflicted for the loss of his sons, that at last the emirGiendar ventured to tell him that hehad spared their lives, andthat they had set forward for the city of the Magicians.”

“A fourth army approached the city. The venerable Schahzamancame thus attended, in search of Camaralzaman: the later prince was overcome withshame and grief on hearing this account: he reproached himself with his long neglect of the goodold king, who yet retained so much affection for him as to disregardthe fatigue and perils of a long and uncertain journey to findhim out.The king of Khaledan readily forgave him, and after afew days repose at the city of the Magicians (during which timeAssad espoused the queen Margiana), the princes set out for theirrespective territories, and Amgrad, at the request of the king ofthe Magicians, who was very old, ascended the throne of that empire,which he filled with great ability, distinguishing himselfparticularly by his zeal in exterminating the worship of fire, andestablishing the Mohammedan religion throughout his dominions.”

“Zinchi, the king of Balsora, held that crown as tributary to the caliphs of Arabia. The vassalage was so complete, that the latter considered the sovereigns of Balsora as accountable to them for every minute regulation in their government; they were frequently, reprimanded, and sometimes dethroned, when their conduct did not please the commander of the faithful.”

“and Zinchi being of an indolent disposition, divided the office of grand vizier between his two favorites, Khacan and Saouy, both men good of abilities, but of very opposite characters.”

“The vizier had an only son, named Noureddin, a forward youth of good parts and handsome person, of whom his mother was so fond, that she still continued to allow him the liberty of the women’s apartments, though the time of shutting him out was several years past. Noureddin no sooner saw the beautiful Selima, than he became a captive to her charms. Though he knew his father had purchased her for the king, yet he resolved to run all hazards rather than not secure her to himself; nor did the fair Persian see Noureddin with indifference. Whatever honor or splendor she might hope from being the king’s mistress, she would gladly have renounced them to pass her life with the son of the vizier.”

“He concealed himself in the women’s apartments, till Selima returned to her chamber, and his mother went to the bath. He then visited the fair Persian; and having dismissed her attendants, boldly told her that his father had altered his intention, and instead of presenting her to the king had given her to him. The lovely slave wished this to be true, and was not therefore disposed to doubt it.

Khacan was equally enraged and distressed, when he heard of the violation his sou had committed. Besides being disappointed in presenting so beautiful a slave to his master, he was terrified lest his enemy Saouy, should come to a knowledge of an affair, by which he might effect his destruction. He ordered the merchants to renew their search, declaring that the fair Persian by no means answered his expectation he frequently complained to the king of the many difficulties he found in executing his commission; in short, he managed the business with so much address, that Zinchi insensibly forgot it; and though Saouy got some imperfect information of the transaction, yet Khacan was so much in the king’s favor, that he was afraid to speak of it.”

“he resolved to give her to Noureddin, if he would promise not to look upon her as a slave, but as a wife. He stipulated also with the young man that he would never be divorced from her, much less sell her. With these conditions Noureddin joyfully complied; and the peace of the vizier’s household was restored.

Very soon after these events, Khacan was seized with a dangerous illness, which soon put an end to his life.”

“he dissipated his fortune with an incredible profusion.” “In vain the fair Selima (whom he continued to love with undiminished ardor) gently remonstrated with him on his too abundant generosity; in vain

his careful steward hinted to him, that such excess wronld soon empty a royal treasury.”

“Whenever his steward came to lay before him a state of his disbursements, he always put him aside with a jest, or drove him away with anger.”

“Of all that mass of wealth that came into your possession a year ago, the few pieces in my hand are the whole remainder; your entertainments therefore must be at an end, or you must provide me with a fresh supply.”

“He determined at length to borrow a certain sum from each of his companions, with which he would go to some other city, and commence merchant. As there was not one among them who had not received tenfold more from his bounty than he meant to ask, he would not suffer the idea of a refusal to disturb him. Having thus settled a plan for his future conduct, his mind became more calm, and he withdrew to Selima’s apartment, to whom he related his situation and intention.

The day following, he set out to visit his dear and devoted friends; but was so unfortunate as not to find any of them at home. One, indeed, convinced him he was not abroad; for he heard him direct his slave to say he was not at home, adding, <whenever that extravagant fellow comes here, give him the same answer.>

Noureddin was equally enraged and ashamed. He was giving way to despair, when the fair Persian advised him to dismiss his household, sell his slaves and furniture, and try if he could not raise money enough from them to carry his plan into execution. Noureddin embraced this prudent council; but even in this commendable scheme he was disappointed. Being obliged to sell, his goods did not fetch him half their value; and a fit of sickness, the consequence of his vexation and former irregularities, held him so long, that, on his recovery, he found the whole produce of the sale was expended.”

“I am your slave; you have a right to dispose of me; and how much soever I shall suffer from such an event, I advise you to sell me; and I heartily wish you may not lose much of the sum your father gave for me.”

“Not only his love for the fair Persian revolted at such an idea, but the remembrance of his promise to his father never to part with her, rose in his mind, and made him think of such a measure with additional regret. But invincible necessity must be submitted to. He led her, with inexpressible reluctance, to the market where women slaves are exposed for sale, and applied to a crier, named Hagi Hassan, to sell her.”

“My masters, everything that is round is not a nut; everything that is long is not a fig; all that is red is not flesh; and all egga are not freeh. You have seen and bought, no doubt, many slaves in your time: but you never saw one comparable to her I have now to sell. Follow me, and see her; and then name the price I ought to cry her at.”

“It was a privilege the merchants of Balsora enjoyed, that no person should see a slave till they had offered the most they chose to give. After which any person might see her; and if the stranger offered more money than the highest bidder among the merchants, he was declared the purchaser.”

“If anything could have aggravated Noureddin’s affliction, it was that Saouy should become possessed of the fair Persian. The sting of this circumstance made him quite inattentive to the low price for which she was to be sold. <I swear to you, I would sooner die than part with my slave for ten times the sum, to that enemy of our family; help me, I entreat you, good Hagi, to the means of escaping this last of misfortunes.>

<You must conduct yourself in this manner, or the vizier will insist upon his bargain. When I am about to present her to him, you must catch her by the arm before he touches her. You will then give her two or three blows, and tell her that although her bad temper made you swear that you would expose her to the indignity of being cried in the market, yet it is not your intent to sell her. Pull her then again toward you. and lead her away.>”

“He called him by the most reproachful names, and riding up to the fair Persian he attempted to seize her. Noureddin wanted not this provocation to exasperate him against the vizier, he pulled him off his horse, rolled him in the kennel, and pummelled his head against the stones, till he had almost killed him. After which he conducted the fair Persian home again.”

“He presented himself immediately before the king, all bloody and dirty as he was, and besought justice. On being ordered to say on what account, he reminded the king of tfie commission he had formerly given to Khacan. <I saw by accident to-day, a most beautiful slave, which the profligate Noureddin was about to sell. I had no doubt but she was the slave Khacan had bought for your majesty; and would have reclaimed her for you it was for this attempt that Noureddin has treated me thus cruelly.>”

“Noureddin and Selima hastened toward the river, where they found a vessel on the point of sailing; they embarked without inquiring whither she was bound, and after a short and pleasant voyage arrived safely at Bagdad.”

“When they had supped, Noureddin dropped a hint that some wine would not be unacceptable; at which Ibrahim started, and said <Heaven defend me from keeping wine in my house, or going to a place where it is sold! such a man as I am, who have been 4 times on a pilgrimage to Mecca, must have renounced wine forever.>”

“While Ibrahim was gone, it occurred to Noureddin that all this aversion to wine was but hypocrisy, and that his host would drink his cup as heartily as he could. To try this, he instructed Selima how to act; and when the wine came, he filled three cups, and offered one to Ibrahim. The old man started back, as if with horror, on which Noureddin drank the cup, and the fair Persian presented the scheik with a slice of apple, which he received with great pleasure.”

“Ibrahim for a little time resisted; but overcome with her beauty, he complied. Soon after, he drank a second cup with very little opposition. He received a third from Selima without murmur: and the fourth, he helped himself to. Noureddin seeing this, burst out a laughing, saying, <Ha! Ibrahim, you are caught; is this the way in which you abstain from wine?>; Ibrahim, warmed with what he had drauk, and loving wine, threw aside his reserve, joined in the laugh, and sat down very cordially with his guests to finish the bottle.”

“As the caliph was retiring to bed, it chanced that he opened his casement [batente], and seeing the illumination, he inquired of Giafar the cause of it, in a manner sufficiently expressive of his displeasure. The vizier had a particular friendship for Scheik Ibrahim. To shield him from the anger of the caliph, Giafar invented a tale that the scheik had applied to him for leave to celebrate a religious ceremony in the pavilion, in company with the ministers of his mosque. The vizier, to secure his friend, said so much upon the subject that he excited the curiosity of the caliph; who, instead of going to rest, ordered the disguises to be brought, in which he and Giafar used to go about the city, and made him and Mesrour, with the other slaves about him, go with him to the pavilion.”

“On their arrival, they found the door of the hall partly open; and the caliph approaching, was surprised to see a young man and woman of such extraordinary beauty. He was also much displeased to see Ibrahim, whom he had always considered as a grave, steady man, now drinking wine, and carousing to excess. <Are these the ministers of the mosque you told me of?>”

“He reproached her as the cause of all his misfortunes. The caliph was astonished at what had passed; and while the fair Persian retired to a sofa to vent her grief, he requested Noureddin to relate his story.”

“He wrote an order to Zinchi to abdicate his throne, and place Noureddiu on it. He also added a set form of words in the margin of the letter, which denoted his insisting on punctual and immediate obedience. This he put into Noureddin’s hands, and advised him to return with it to Balsora. <I am not unknown, we were school-fellows: though this letter is given you by a person so obscure, yet, depend upon it, when the king receives it, he will do you justice.>”

“A ridiculous ecene now took place between the drunken Ibrahim and the supposed fisherman. <You have been well paid for your paltry fish by that prodigal,> said Ibrahim, u but I shall not suffer you to keep all he has given you. I am content to divide the money with you; but the beautiful slave I will keep entirely to myself.> The caliph refused him in a laughing answer, which so enraged Ibrahim, that he withdrew in haste to fetch a cane to chastise the insolent Kerim.

As soon as Ibrahim had left the hall, the caliph gave a signal for his attendants to enter. They instantly took away the fisherman’s garb, and dressed him in the royal robes; and when Ibrahim returned, staggering and muttering curses and threatenings against the unreasonable fisherman, he was amazed to find in his room the caliph, attended by his principal ofiicers.”

“Noureddin had time enough during his voyage to reflect on the danger he exposed himself to by returning to Balsora; but his situation was so deplorable that he became almost indifferent to the consequence.”

“What signifies dying the day after the death of one’s enemy?”

“The caliph would have despatched Noureddin to take possession of the throne of Balsora; but he declared that the many calamities he had met with in that city, had made it hateful to him: the caliph, therefore, after a severe reprimand, permitted Zinchi to reassume his government; and restoring Selima to Noureddin he gave him a handsome appointment in his palace.”

“My name is Gulnare, of the sea. My father was one of the most potent princes of the ocean. At his death he left his kingdom in profound peace to my brother Saleh; and I lived happily in his court, under the protection of my royal mother, who was daughter of another puissant monarch of the sea.”

“In the present miserable condition of our affairs, said he, ‘ I see no probability of matching you to any of the princes of the sea; I would therefore wish you to marry one of the princes of the earth. Your beauty surpasses anything they ever saw; and a very small part of the little wealth we have left would be an inconceivable treasure to the greatest of them.”

“As soon as they had left me, I gave a spring from the bottom of the sea to the island of the moon. It would be tedious if I was to relate to your majesty the many distressing consequences of this rash step. One disaster followed another, the usual and just punishmeut of indiscretion and disobedience, till I became at length a slave, and fell into your hands.”

“Mirza sent immediately for the proper officers, and publicly espoused the beautiful Gulnare, causing her to be proclaimed queen of Persia, in the most solemn manner all over the kingdom.”

“I have often heard that the sea was peopled, but I ever considered it as a fable, not believing it was possible for human beings to walk up and down, and live entirely in the water.”

“Sir, replied the queen, we can walk at the bottom of the sea with as much ease as you do on land, and breathe in the water as you do in the air, yet it never wets our clothes. Our faculties in general are more perfect than yours. Our vulgar language is the same that was engraven upon the seal of Solomon, the Son of David.

The water does not obstruct the opening and shutting of our eyes. Our sight is sharp and piercing, and can discern any object in the deepest sea as distinctly as upon land. We have the same succession of times and seasons as you have, and enjoy the light of the same planets in as great a perfection. As the sea is much larger than the earth, so we have many more kingdoms, all of which have great cities, well peopled; and there are the same varieties of manners and customs among us, as there are among the nations of the earth.”

“We have gold, as you have; but the diamonds and pearls which are in most estimation with you would scarcely be worn by the lowest order of our people. We have an incredible agility in transporting ourselves where we please, in an instant; so that we have no occasion for carriages or horses, yet we use both for splendor on public occasions.”

“The king started at this proposal. <I should rejoice to receive your relations; but how can they know where you are, unless you leave me to go in search of them? That I cannot hear to think of.> <Sir, replied Gulnare, with a smile, if I have your permission to send for them, I need not stir from this room. They will be here in a very short time.>.”

“Presently the sea appeared disturbed, and in a short time opened, when a tall, handsome young man, with whiskers of a sea-green color, appeared on the surface; a little behind him was one lady, advanced in years, attended by five beautiful young ones.”

“Mirza expressed himself much satisfied at their arrival, but frankly owned he durst not trust himself near people who breathed forth fire so terribly. Gulnare, laughing, told him that those flames would cease when they saw him and were only a token of their unwillingness to sit down to table without him.”

“Children born of parents who are not both inhabitants of the sea, have only a few moments occurring once during their early infancy, in which the privilege of descending into the regions of the water can be imparted to them. While I was playing with my nephew, I perceived those precious moments (soon to pass away) were arrived without losing them to explain myself to you, I pronounced the mysterious words which were engraven on the seal of the great Solomon, the son of David, and, taking the prince with me into the sea, I completed the necessary rites. Beder [lua cheia em árabe] will now be able, when he pleases, to plunge into the sea, and traverse the vast empires it contains at its bottom.”

“As Beder grew up, he appeared to be a prince of great hopes. His temper was benevolent; his talents brilliant; and they were early called into exercise. While he was yet a youth, disease bore heavily on Mirza, and he became desirous to withdraw himself from the fatigues of royalty. He resigned, therefore, his crown to his son; and though he survived that event but a short time, yet he had the satisfaction to see the prince conduct himself with great ability, and to be treated by him with the most perfect respect and duty.”

“Saleh continued the conversation, and told the queen that there was a princess of the sea, who far surpassed all others in beauty, whom he earnestly wished to be the wife of Beder, but that very considerable difficulties lay in the way of obtaining her fur him.” “She is the most beautiful and accomplished princess that ever was seen on the earth or in the waters. But as her father is insupportably proud, looking upon all others as his inferiors, it is not likely he will readily agree to the alliance.”’

“But when she found he was the nephew of king Saleh, and the cause of the insult her father had received, and of her own fright andgrtef, she soon entertained very different sentiments respecting him. She gave way to the dictates of fury and revenge, which yet she had art enough to conceal. She suffered such expressions of favor toward him to escape her, seeminglv in her confusion, that the fond prince was enraptured; and by reaching forth his hand to seize that of the princess, he put himself in her power. She pushed him back, and spit at him, saying, <Wretch, quit the form of a man, and take that of a white bird with a red bill and feet>.” “Carry him now, said the revengeful Giauhara to one of her attendants, to yonder solitary rock, and let him remain there, without food or water, till he perishes.” “By virtue of the holy and mysterious words I have pronounced, resume the form in which thou wast created.”

“This city is called the city of enchantments; it is governed by a queen, named Labe, who is one of the most charming and most wicked of her sex; inconstant, cruel, treacherous, and a sorceress. All those animals were once young men, strangers like you, whom she has transformed by her diabolical art. She has regular patrols who go about the avenues of the city, and seize all strangers, either coming in or going out of it. They are carried before the queen, and if she fancies either of them, he is clothed in magnificent apparel, treated as a prince, caressed by the queen, who gives him such proofs of affection as to make him conclude she loves him entirely. This happiness is not permitted to last long; for within 40 days he is sure to lose the human shape and become a brute.”

“<I understand you very well, replied the queen, and swear to you by the fire and the light, and by whatsoever is sacred in my religion, that neither you nor he shall have cause to repent your compliance with my desire.> She then ordered a horse to be brought for the prince, as richly caparisoned as her own, and caused him to be placed at her left hand. As he was mounting, she asked Abdallah what was the name of his nephew; and being told Beder (the full moon), her majesty replied, <Sure it was a mistake; he ought to have been called Shems (the sun)>.”

“For 39 days Beder abandoned himself to these enervating pleasures; but in the evening of the last of these days, he chanced to observe the queen mix a powder in a cup of wine, which she afterward presented to him. His suspicions were at once awakened. He contrived to change the cup unobserved; and by that means avoided drinking the potion, though he knew not for what purpose it was administered. The powder was intended to promote sleep; and when Beder and the queen retired to rest, the prince, whose mind was much disturbed, aided the deception unwittingly, by pretending to fall asleep immediately, in order to avoid conversation. Labe arose, not doubting but that her powder had taken the designed effect, proceeded to her incantations; Beder all the time observing her with the most anxious solicitude.”

“Abominable sorceress, quit the form of a woman, which thy crimes so much dishonor, and become a mare.”

“The old man had been witness of all that had passed. <Son, said he to Beder, it is necessary you should know one thing, which I find you are ignorant of. It is not permitted in this city for any one to tell a lie, on pain of death. As you have made a bargain with this old woman, you must not refuse to take her money and deliver your mare, or you will expose yourself to certain destruction.>”

“The old woman then taking up some water that ran in the street, threw it in the mare’s face, saying, <Daughter, quit that beastly form, and reassume thine own>. The queen was immediately restored, and Beder was so terrified when he saw her, that he was unable to attempt to escape.

The old woman was the mother of Queen Labe, and had instructed her in all her magic. As soon as she had embraced her daughter, she caused a genie to arise, who, taking Beder on one shoulder, and the old woman with Queen Labe on the other, he transported them in a few minutes to the palace of the queen in the city of enchantments. When they arrived, Labe, amidst many execratious, transformed the prince into a vile owl, and delivered him to one of her attendants, with orders to shut him up in a cage, and keep him without food till he perished.””

“Saleh assembled his troops, and called to his assistance the genii, his allies, who appeared with their numerous armies. Gulnare joined them, and they all lifted themselves up in the air, and soon poured down on the palace and the city of enchantments, where the magic queen, her mother, and all the other adorers of fire, were put to death. Beder was again restored to his proper form; and Abdallah, being placed on the throne of Labe, received for his queen the attendant who had preserved him and Beder.”

“My name, said she, is Fetnah, which signifies a storm, and was given me because it was predicted at my birth, that the sight of me would occasion many calamities. I was, very early in my life, introduced into the palace of the caliph, who was so taken with me, that he presented me this veil; and had before now added me to the number of his wives, had not his presence been required to quell an insurrection in a distant part of his dominions. The partiality of the caliph raised me many enemies; the chief of whom is Zobeide, his first wife, and for a long time his favorite.”

“Fetnah could not bear that Zobeide should triumph in the success of her barbarous arts. Without considering the consequences to herself or her protector, she determined to lay before the caliph the wickedness of that princess. She requested Ganem to inquire if the commander of the faithful was returned, and whether any notice was taken of her supposed death.

Ganem conducted these inquiries with great dexterity. He learnt that immediately after her having been disposed of in the burial-place, a report of her death had been industriously spread all over the city: that Zobeide had celebrated her obsequies with great pomp, and had erected a mausoleum to receive the body, where lighted candles were perpetually burning, and every ceremony performed which custom had appointed for the illustrious dead.”

“Go to, let us take revenge on the false woman, and on that bold youth who affronts me.”

“At least, said the humbled prince, I will meet that awful appeal, with having made every reparation in my power; I will cause his pardon to be published throughout my dominions, and will amply repay his losses. This is due to his innocence, and to compensate for the miseries I have caused Mm apd his family to suffer, I will give you to him for a wife, and make him wealthy beyond his hopes.”

“He gave Fetnah with his own hand to her deserving lover. He dismissed Zobeide from his throne, and banished her his presence, to punish her cruelty and treachery; in her room, he received to his arms the lovely Alcolomb [Ganem’s sister], whose beauty was adorned with good qualities still more estimable.”

“The king called all the astrologers of the kingdom to calculate the infant’s nativity. They found he would live long, and be very brave; but that all his courage would be little enough to support him through certain difficulties that threatened him. The king was not dismayed at this prediction. <My son, said he, is not to be pitied, since he will be brave. It is fit that princes should have a taste of misfortune; adversity tries virtue, and thence they become the fitter to reign.>

As Zeyn grew up, he discovered a very good disposition; and by the care of his father, acquired every accomplishment. He had nearly attained the age of manhood, when the good old king fell sick and died.”

“We are now, said he, approaching the dreadful place where the 9th statue is kept, and shall very soon come to a lake. When we draw near the banks of it, you will see a boat approach, which is enchanted, and belongs to the king of the genii. We shall be taken into this boat, and ferried over the lake; but you must be careful not to express the least fear at the sight of the waterman, however hideous he may be, nor must you utter a single word while we are embarked, or the boat will instantly sink.”

“the island was shaken by an earthquake, such as Asrayel is to cause on the day of judgment.”

“<My son, I loved your father and have no less kindness for you. The statues you found were presented to him by me; and I promised him to receive you into my protection. I caused him to write, a few days before he died, that which you read on the piece of white satin. I appeared to you in your dreams as an old man and have been the cause of all that hath happened to you. I intend to give you what you seek, if you prove worthy of it; and the test must be this. You must engage on your oath to find out a maid in her 15th year, who has never known man, or desired to do so. She must be perfectly beautiful; and you so much master of yourself, as not even to wish to deprive me of her, but you must yourself conduct her hither.>

Prince Zeyn took without hesitation the oath that was required of him. <But, sir, said he, how shall I know when I have met with such a maid ?> <It is true, replied the king of the genii, that knowledge is above the sons of Adam. Take therefore this looking-glass ; if, on the maid looking at it, it appears sullied, it will be a certain sign that she has not been always undefiled, or, at least, that she has wished to cease being so. You have now a certain criterion. Be diligent in your search, and forget not the oath you have taken; but fulfil it, as becomes a man of honor.>”

“Zeyn, thus disappointed, resolved to seek elsewhere for that I purity which was not to be found in Cairo. He travelled to Bagdad, attended by Morabec; and as he wished to be much known, to forward his inquiries, took a handsome palace, and lived in splendor.”

“Zeyn did not listen to this advice with his usual complacency. Morabec found him strangely balancing whether he should keep his engagement with that king or conduct his charming bride to Balsora in defiance of him. In vain Morabec pleaded the value of the 9th statue, which would reward his fidelity: in vain he described the power of the king, and cautioned the prince to dread the consequence of his disobedience. The charms of the lovely virgin had taken too full possession of his heart for him to be allured by avarice, or intimidated by danger; and the thought of sacrificing her to a genie, oppressed him with grief and indignation.”

“I am, said he, fully satisfied with your behavior. Return to your dominions; and when you enter the subterraneous room, where the eight statues are, you shall find the 9th, which I promised you.”

“but how great was their wonder, when, instead of a diamond statue, they found on the ninth pedestal a most beautiful virgin, whom the prince knew to be the same he had conducted to the island of the genii. Before they could recover their surprise, a loud clap of thunder shook the palace, and the king of the genii appeared before them.”

“The ladies obeyed; but Abon Hassan [o homem que virou califa por um dia] perceiving that out of respect they did not eat, helped them himself, and urged them in the most obliging terms. When they had dined, he asked their names, which they told him were White Neck, Coral Lips, Fair Face, Sunshine, Heart’s Delight, Sweet Looks, and Sugar Cane. To every lady he returned handsome compliments, wittily adapted to her name.

After dinner, the eunuchs brought perfumed water in a golden bowl; and when Abon Hassan had washed. Mesrour, who never left him, conducted him to another hall, where he was received by seven ladies more beautiful than the former. Seven other bands began a new concert, while the imaginary caliph took part of a rich dessert of- sweetmeats, and the choicest fruits. This over, he was led to a third hall more magnificent than the other two; it was lighted up with a profusion of wax lights, in golden branches; and he was received here by seven other ladies, of still superior beauty, who conducted him to a table set out with large silver flagons full of the choicest wines, and crystal glasses placed by them.

Till this time, Abon Hassan had drank nothing but water, agreeable to the custom of Bagdad, where from the highest to the lowest, they never drink anything strong till evening; it being accounted scandalous in the highest degree for any one to be drunk in the daytime. When he placed himself at the table, he desired the seven ladies to sit down with him; and having asked their names, which were Cluster of Pearls, Morning Star, Chain of Hearts, Daylight, Bright Eyes, Fine Shape, and Silver Tongue; he called upon each in turn to bring him a glass of wine, and as each lady presented it, he said a variety of witty and gallant things to her.”

“It was late the next morning before the powder ceased to operate. But at length the sleeper awakened, and looking round the room, was surprised to find himself in so different a situation. He called aloud for Cluster of Pearls, Morning Star, Coral Lips, and the other ladies, as he could recollect them. His mother hearing his voice, came in and said, ‘Son, what would you have; who are those you are calling for?’; Abon Hassan, raising himself up, looked haughtily at his mother, and said. ‘Good woman! who is it you call your son?’ ‘You, to be sure’, replied his mother; ‘are you not Abon Hassan, my son? Have you slept till you have forgot me and yourself too?’ ‘I, your son!’ answered Hassan; you are mad! I am not Abon Hassan, but the commander of the faithful.’”

“‘Heaven preserve you from the power of Satan, my dear son!’ replied she; ‘some evil genius surely possesses you. Don’t you see you are in your own room? Recollect yourself seriously, and drive away these fancies from your imagination.’ At these words Hassan became more transported with fury; he leaped from the sofa, seized a cane and running to his mother, ‘Cursed sorceress’, said he, ‘tell me instantly by what means you have conveyed me from my palace to this room.’” “He caned her severely; asking her, between every stroke, if she would yet own he was commander of the faithful; to which she continued to reply he was her beloved son.”

“For three weeks the unfortunate Hassan received daily correction from the hand of his severe keeper, who never failed to remind him that he was not commander of the faithful. His mother came every day to see him; but whenever she appeared in his eight, he reproached and execrated her as the cause of all his sufferings.”

“they of Moussol are not so well convinced that the devil is the cause of troublesome dreams as we are at Bagdad.”

“I am fallen into the same fatal dream that happened to me a month ago; and must expect again the discipline of the mad-house. He was a wicked man whom I entertained last night; he is the cause of this illusion, and of all the miseries I must undergo. The base wretch promised to shut the door after him, and did not do it, and the devil has come in. and filled my head with this cursed dream again. Mayest thou be confounded, Satan, and crushed under some mountain.”

“I opened the box, and asked him the use of the pomatum. ‘It possesses’, said he, ‘when applied by me, very opposite and wonderful qualities. If I anoint your left eye with it, you will see all the treasures contained in the bowels of the earth; if I apply it to your right eye, you will become blind.’”

“Your majesty, no doubt, knows that goules are wandering demons, who generally resort to decayed buildings, whence they rush on people passing by, kill them, and eat their flesh; and that in want of prey, they will go by night into the burying-grounds and feed upon the dead bodies.

I was exceedingly shocked to see my wife with this goule. They dug up a body which had been buried that day, and the goule cutting the flesh into slices, they ate together. I was too far off to hear their discourse, which no doubt was as horrid as their feast.”

“I had no sooner uttered these words than she flew in a rage, her face became distorted, her eyes were ready to start from her head ; she even foamed with passion. Frightened at her appearance, I sat immovable. In the midst of the most horrid execrations, she threw some water in my face, and added, ‘Receive the reward of thy impertinent curiosity.’ I instantly became a dog.”

“Saadi asserted that setting idleness and vice out of the question, any man possessing a moderate sum of money to begin the world with, must infallibly grow rich. While Saad contended that accident often prevented, and often promoted, the success of human affairs.”

“I had been used, as most poor people do, when I had a little money, to put it in the foldings of my turban.”

“In a town in Persia, there lived two brothers, called Cassim and Ali Baba. Their father had left the little substance he had between them but they were not equally fortunate. Cassim married a wife who had a large fortune; and became a wealthy and considerable merchant. Ali Baba married a woman as poor as himself. His whole substance consisted of three asses, which he used to drive to a neighboring forest, and loaded with wood, which he sold in the town, earning thereby a hard maintenance for his family.

One day when Ali Baba was in the forest, and had just cut wood enough to load his asses, he saw at a distance a cloud of dust which seemed to approach toward him. He observed it attentively, and distinguished a large body of horsemen. As they drew near he began to apprehend they might be thieves; he therefore climbed a tree, from whence he could sec all that passed, without being discovered.”

“They were in fact a gang of banditti, who made that place their rendez-vous.”

“Sesame (which is a kind of corn), open! Immediately a door opened in an adjoining rock when the captain and his troop went in; and the door shut again.”

“Ali Baba stayed in the tree as long as he could see the least trace of the dust they raised. He then descended, and presently found out the door, and, remembering the words the captain had used, he said, Open, Sesame! when the door flew wide open.”

“He found in the cavern a great store of rich merchandise, and such an immense quantity of gold and silver as convinced him that the cavern must have been the repository of robbers for several generations.”

“When Ali Baba’s wife found the bags were full of money, she was alarmed fearing lest their poverty should have betrayed him to rob somebody. He pacified her, by relating the story of his good fortune. He then emptied the bags on the floor, which raised such a heap of gold as delighted her. Ali Baba charged her to be prudent and secret. He resolved to bury most of his treasure, arid to emerge from his apparent poverty by degrees; but his wife disappointed his prudent purpose. In the playfulness of her fancy, she would count the gold; but finding that business likely to be very tedious, resolved to measure it. She went, therefore, to Cassim’s house, who lived just by, to borrow a small measure.”

“As he drew near the rook, he was much shocked to see blood spilled at the door. When he had pronounced the words, and the cavern became open, he was still more affected at seeing tho quarters of Cassim hung up on each side.”

“Ali Baba received his treacherous guest with the hospitality becoming a good Mussulman.”

“Morgiana soon concluded who these men were. She hastily called up another slave, named Abdallah, and bringing several jars of oil into the kitchen, they heated a part of it boiling hot. This she poured into one of the jars, by that means killing the thief that was concealed in it. She did so till she had destroyed all the seven-and-thirty thieves, when she put out her fire and went to bed.”

“The captain suffered several weeks to pass by before he set about the scheme he had planned for the destruction of his enemy. By this means he hoped Ali Baba’s vengeance would relax, arid he himself should be more cool in his measures. He passed much of his time in the town, where he learned that Cassim; s son, now adopted by Ali Baba, had a very considerable shop.”

“Ali Baba received, with due gratitude, this further instance of Morgiana’s attachment; and Cassim was so pleased with her spirit and good sense, that he took her to wife. The whole treasure in the cavern became now safely the property of Ali Baba. He taught his son the secret, which he handed down to posterity; and using this good fortune with moderation, they lived in great honor, serving the chief offices of the city.”

“You are a rogue, said he. and ought to be hanged. The children put an end to their play, by clapping their hands with a great deal of joy, and seizing the criminal to carry him to execution.”

“An examination of the quality and age of the fruit now took place: everything which had passed among the children, in their play, was repeated, seriously, before the caliph, in the divan. The treachery of Noureddin was apparent, when the child, instead of ordering him to be hanged, looked up to the caliph, and said ‘Commander of the faithful, this is not play; it is your majesty that must condemn him to death, and not me, though I did it last night among my comrades’.”

“On the Nevrouz, that is to say, the new day, which is the first of the year, and the beginning of the spring, there is an ancient and solemn least observed through all Persia, which has continued from the time of idolatry; nor could the pure religion of our holy prophet prevail over that heathenish custom. Superstitious ceremonies, mixed with public rejoicings, mark the Nevrouz, which is celebrated in every town and village in that extensive kingdom.”

(…) [Interrompi a leitura e as anotações aos 70% da obra.]

VOCABULÁRIO

dervise (arcaico) ou dervixe (port.): muçulmano eremita, mendicante

hind: corça, feminino de veado

pastry-cook: confeiteiro

[REPRISE] [3-em-1] Hoje foi um grande dia. / E o tempo passou, e eu realmente voltei… / E 1, e 2, e 3…K.O.!

Originalmente postado em 2 de setembro de 2009

Hoje foi um grande dia. Nesta quarta-feira, que já acordei confundindo com uma sexta, com azia no estômago devido a um rodízio de pizzas na noite pregressa, aconteceram muitas coisas, embora eu ainda esteja no meio de seu curso (16:28)! Os “três mandamentos” inusitados e provocativos logo abaixo são apenas uma amostra das iluminações e bons augúrios que me foram permitidos desde seis e meia da manhã quando fui rudemente despertado até esta calorenta parte da tarde.

Não sem relação com toda essa riqueza acontecimental, decidi aprecer de novo no blog em tempo recorde. Aqui, abro as portas mais uma vez para o túnel do tempo da minhoca-autor:

(…)

E o tempo passou, e eu realmente voltei… E vou continuar voltando, mas comunico-vos que não nomearei mais artigos com o título TRANSCENDER. Apenas os que me compreendem menos mal adivinharão o porquê e não me interessa falar em vão para os outros. Não obstante, o que deve mudar é apenas isso: sempre escrevo, e como não há verdadeiras revoluções em nossas vidas, apenas explosões aparentes, serei sempre o mesmo, mesmo tendo mudado tanto, e o “projeto” continua, embora tácito… É difícil eu me arrepender de alguma coisa… Ah, como é bom aliviar as costas de um peso tenebroso!

E UM, E DOIS, E TRÊS… NOCAUTE!

UM

Sabe qual é a definição vulgar de trágico? Que o homem sabe que vai morrer. Sabe o que é ainda mais trágico? Que, sendo a única criatura que detém esse conhecimento, o homem é também o único que sabe rir.

DOIS

Desconfie dos moralistas.

TRÊS

Deus já não se sustém – nem como hipótese.

[REPRISE] NÃO ERA PRA CASAR

Originalmente postado em 29 de agosto de 2009

“Perder-se”: outra grande temática de reflexão, além d’“o retorno”! Excitação, adrenalina… Aventura: Valparaíso, Ingá, rodoviárias e ônibus. Longa noite: paradeiro inaudito. A vida como RPG. Ditadura do relógio em segundo plano. Caminho de leituras e afazeres até uma monografia: não outra que não um labirinto! Minhocão, subsolo, reentrâncias, números e siglas… Sagas em miniatura. Agora vejo essa tendência em tudo: na ebriedade, na Música, no futebol… Todo Link tem seu confortável domicílio perto de uma Sagrada Deku Tree, mas qual seria a graça se não explorasse? A vida sempre foi um JOGO! Com desespero e feridas reais, fica mais difícil de empunhar a espada sem pensar três vezes no que irá acontecer a seguir. Sair com febre: Guará e seus conjuntos, a casa do B. e a volta para casa – alguma dúvida do que é que eu queria? Com certeza não era dançar funk, beber cerveja ou transar com a irmã da R.! O fio de Ariadne não seria, aliás, o mouse? Redes de amigos, comunhões e desventuras – o risco de se danar, olhar para trás e não poder voltar… Autoconservação COINCIDE com automutilação.

Cadê seus instintos? Mulher, a víbora (no bom sentido): quase me faz pisar na Igreja. Por que me apaixonei por você e não por outra? Porque o pré-requisito fundamental mais importante até agora não escrevi: PERDER-SE COMIGO NO LAR DO MINOTAURO! Você foi minha Salomé, “não era pra casar”!

Estou na minha idade épica… Depois serei um daqueles velhos muito consultados? Frio na barriga, o maior dos imperativos por enquanto! Brasília de repente está em silêncio, silêncio que cheira a INTERROGAÇÃO. O que eu quero para o meu Messias? Por que tempestade dissipa?

Para suprimir o pornô… O pornô é terrível por causa da ânsia que provoca. Daí se vê que é bem uma coisa do estômago. Não tem coisa mais sem-graça que a mulher rendida, despida, em quem (na qual, objetal!) somente se enfia! Sempre achei o semi-nu, o decote, a fuga e a intriga mais espetaculares. Aquele momento intermediário no qual somos mais felizes. Omissão feminina. Desbravamento masculino – 1ª VEZ: E. se recusa a ir embora na noite escura, mas não se convida explicitamente a ficar, espera meus movimentos, logo vai me dar, sem me dar nada!…

RPG, leia-se: transportar as neuras convulsivas cerebrais para o plano da ação. Não é que os sistemas caprichem nos cenários e na física e esqueçam da psique das personagens. É que o ocidental travado tem o cérebro inchado e é enfermo do pé! Renasça, ó beleza automática! Hiei, meu alter ego lutador! Depois que se cumpriu uma missão colossal, uma tarefa muito laboriosa, o que resta? Ora, nada nunca foi de ninguém. O amor a um ser humano, uma jóia, uma pedra preciosa, a estima popular, tudo é passageiro. Mas é suficiente o seguinte: gana de algo mais, uma curiosidade que persiste… Gastar até o último cêntimo da sua centelha…

QUIMERA – Suriman Carreira (ed. Clube de Autores) – recenseado.

INSPIRADOS X APÓCRIFOS: “Nos primórdios do cristianismo eram 315 evangelhos, mas a Igreja admitiu apenas 4 (os já conhecidos, que formam o Novo Testamento). Isto ocorreu no concílio de Nicéia, aos 325 d.C., 1º concílio ecumênico da Igreja, convocado pelo imperador Constantino. Trezentos bispos, homens comuns, mas sedentos de poder, reuniram-se como se fossem detentores da verdade e decidiram que apenas os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João eram verdadeiros.”

“A princípio, os hebreus respaldaram-se apenas na mitologia sumeriana (…) posteriormente sincretizaram [sua mitologia] com o zoroastrismo persa, absorvendo principalmente o dualismo e a escatologia zoroástrica, durante o cativeiro da Babilônia. Ao se fazer um estudo comparativo, constata-se a intensa influência das mitologias mesopotâmicas e do zoroastrismo nas escrituras hebraicas e, por conseguinte, na Bíblia”

“As passagens bíblicas existentes no Gênesis, inerentes à criação do mundo, refletem claramente a intensa influência do épico da criação Enuma Elish. (…) Enuma Elish é o mito babilônio da Criação, descoberto por Austen Henry Layard, em 1849 (de forma fragmentada em tábuas de argila), nas ruínas da biblioteca de Assurbanipal, em Nínive (Mossul, Iraque), e publicado por George Smith, em 1876.”

“O livro mais antigo da Bíblia é o de Jó, datando entre 500 a 400 a.C.”

“não há lógica em Deus referir-se a Ele mesmo no plural para dizer que criará o homem à Sua imagem e semelhança.”

“Edom significa vermelho, segundo nome de Esaú, irmão gêmeo de Jacó, considerado o pai dos edomitas; a terra dos edomitas”

O ARQUÉTIPO DAS BRUXAS

Lilith laylah, layl (noite, hebraico); lil (vento/ar) + lulti (lascívia, sumério); lulu (libertinagem, sumério)

“A exclusão de Lilith do texto bíblico ocorreu de maneira gradual, e bem anteriormente à tradução da versão Vulgata (…) feita por São Jerônimo, em latim, usada pela I. Católica durante muitos séculos e fonte de diversas traduções das quais derivam as Bíblias atuais). Roberto Sicuteri, autor do livro Lilith, a Lua Negra, confirma que é na época da transposição da versão jeovística da Bíblia (séc. X a.C.)¹ para a versão sacerdotal (587-538 a.C.) que a lenda de Lilith teria sido eliminada, entretanto, ainda restam pequenos resquícios desta tradição em fragmentos deste texto, à exemplo (sic) do Livro de Isaías.”

¹ Não bate com a datação do Livro de Jó dada acima.

“Lilith também é um demônio feminino da mitologia babilônica (…) que habitava lugares desertos. A Cabala faz referência à (sic) Lilith como a 1ª mulher de Adão, mas, em outro trecho, também é tida como a serpente que induziu Eva a comer o fruto proibido (Patai 81:455f).”

EVA POTRANQUINHA DO SENHOR: “Lilith não aceitava ficar por baixo nas relações sexuais e Adão recusava-se em inverter as posições. Isto foi o estopim para desencadear uma grande altercação entre o casal primordial, à qual (sic) gerou uma imensa indisposição, que culminou na separação.”

“…onde se tornou a noiva de Samael/Asmodeus/Leviatã, o senhor das forças do mal do sitra achra (‘outro lado’…) (…) um dos príncipes de Lúcifer” “Lilith acasala-se (sic) com os demônios, parindo cem (…) diariamente, cujos machos são denominados Lilim, ou Liliotes, ou Linilins, e as fêmeas Liliths (o termo Lilim aparece no Targum Jerushalami, a bênção sacerdotal dos Números 6:26”

“Lilith [em esculturas babilônicas] ostenta um tipo de gorro ou chapéu escalonado, adornado com enfeites laterais e um disco solar no topo, caracterizando-a como uma deusa (e não como um demônio)”

“Lilith aparece também no épico babilônico de Gilgamesh (o lendário rei sumério), em aproximadamente 2 mil a.C., como uma prostituta vampira que era incapaz de procriar e cujos seios estavam secos.” “Muitos acreditam também que há uma relação entre Lilith e Inanna, deusa suméria da guerra, da fertilidade e do prazer sexual.” “Em seus templos [de Inanna] se praticava a prostituição sagrada e suas sacerdotisas eram conhecidas como Nu-gig.” “Também não é incomum que se confunda Lilith com Ishtar ou até mesmo com Ísis, pela ligação destas com a morte. Vale dizer que as deusas Inanna dos sumérios, Asterote dos filisteus, Ísis dos egípcios, Ishtar dos acádios e posteriormente dos babilônios, Astarte dos fenícios e Ostara (Easter), a deusa da fertilidade e da primavera na mitologia nórdica, são cognatas.”

“Quando a lua nova chegava, costumava-se dizer que a deusa estava com as regras.” Literalmente? Genealogia do termo regras para se referir ao mênstruo na faculdade de legislar sobre…?

“Entre 3 mil e 2,5 mil a.C., quando os sumerianos passaram a ter contatos com culturas patriarcais, ocorre a passagem da concepção religiosa matriarcal para a patriarcal, então os templos dedicados à deusa foram postos abaixo e as práticas sexuais foram reprimidas e se tornaram parte da sombra, o poder da mulher foi identificado com o mal e o demônio (mas o politeísmo foi mantido, diga-se de passagem).” “A deusa passou a ser denominada como <a Grande Abominação>” “A deusa de Israel chamava-se Asherah (ou Aserá), esposa de Yahweh. Para a maioria das pessoas que lêem a Bíblia, a idéia de um único Deus de Israel, Yahweh, parece ser clara. No entanto, descobertas arqueológicas das últimas décadas vêm demonstrando que nem sempre foi assim.” Vou explicar ao longo das passagens por que esse “cientificismo” do autor depõe contra ele, e não a favor.

“Pesquisas destacam [fonte???] a época do profeta Elias como o período histórico em que se começa a falar da exclusividade do Deus de Israel, principalmente no embate com o deus Baal e no processo de sincretismo, onde Yahweh incorpora as características de Baal.” Interessante.

“processo de diabolização de outras divindades”

“Num primeiro momento, a divindade Yahweh teria sido um elemento religioso que veio de fora do contexto cananeu. Nesta época, possivelmente era o Deus El que ocupava o trono do panteão divino.”

“Haroldo Reimer aponta 5 fases do desenvolvimento do monoteísmo no Antigo Israel, a saber: a 1ª fase seria marcada pelo sincretismo entre El e Yahweh, no qual El é uma divindade cananéia cujas características são de Criador da terra e pai dos deuses (analogamente, o sumeriano deus Apsu também era o progenitor dos deuses, diga-se de passagem); a 2ª fase, por volta do séc. IX a.C., seria marcada pelos conflitos com o deus Baal. Baal era filho de El, cuja característica principal era a fertilidade; [nenhum deus pode ser eunuco!] a 3ª fase estaria na ênfase da adoração exclusiva de Yahweh. O profeta Oséias, no séc. VIII a.C., equipara a idolatria à adoração de outras divindades. [?] Neste período, acontece a reforma de Ezequias (II Reis 18:4), que mostra a remoção dos lugares altos e a destruição da serpente de bronze, Neustã. Reforma legitimada legalmente através do Código da Aliança (Êx. 20:22-23 e 29); A 4ª fase remete à época de dominação assíria, com a reforma de Josias (II Reis 22 e 23), justificada legalmente pelo Código Deuteronômico, englobando uma série de medidas visando a (sic) exclusividade de Yahweh e sua centralidade em Jerusalém. (…) A 5ª fase seria marcada pelo monoteísmo absoluto e estaria relacionada com o período do exílio. Gên. 1 afirma o poder criacional de Yahweh diante do domínio babilônico ancorado na fidelidade à divindade Marduk (a influência da mitologia babilônica).”

“Conforme a pesquisadora Monika Ottermann, que traça o panorama da presença da deusa em Israel, da Idade do Bronze à Idade do Ferro, no Oriente Médio, datando a Idade do Bronze Médio entre 1800 a 1500 a.C., a representação da deusa é caracterizada como ‘Deusa-Nua’, destacando o triângulo púbico, emergindo também representações em forma de ramos ou pequenas árvores estilizadas, combinação que vem a ser denominada ‘Deusa-Árvore’. Os ramos, árvore ou pequenas árvores, brotando com suas raízes no triângulo púbico, simboliza a busca pela vida (…) (vale dizer que o hexagrama judaico, conhecido como estrela de Davi, símbolo do Estado de Israel, é formado por 2 triângulos opostos e sobrepostos” Ou seja: SEXO!

“Vários selos ou impressões de selos que associam símbolos astrais com árvores estilizadas foram encontrados na Palestina e na Transjordânia, o que reforça interpretações sobre a existência de um culto à deusa Asherah ao lado de Yahweh.”

“No âmbito da mitologia grega, Lilith é associada à deusa Hécate – analogamente, <a mulher escarlate> do Apocalipse –, uma deusa que guarda as portas do inferno montada em um enorme cão de 3 cabeças”

“Sol Invictus (Sol Invicto, em latim [não diga!]), também conhecido pelo nome completo, Deus Sol Invicto, era um título religioso aplicado a 3 divindades distintas durante o Império Romano tardio.” Mitra Marte

Correção: Não se trata do império romano tardio, posto que muito anterior à cristianização.

“Mitra significava amigo no idioma falado na Índia védica. Já no persa avéstico, tinha o significado de contrato. Atualmente, usa-se esta última semasiologia,¹ e existem diversas grafias para Mitra: Mihr [amor], Meher, Meitros, etc.”

¹ “Linguística Estudo semântico que consiste em partir do signo linguístico para a determinação do conceito (por opos. a onomasiologia).”

onomasiologia: “Estudo semântico que consiste em buscar, a partir do conceito, os signos linguísticos, a expressão que lhe corresponde (por opos. a semasiologia).”

“A deusa Anahita (Anihata, Anahira) era uma virgem imaculada, era a mãe de Mitra, era considerada a mãe de deus e a deidade feminina do fogo, dentro do panteão de deuses avésticos.”

“Mitra (…) foi despojado de sua soberania e todos os seus poderes e atributos foram atribuídos a Ahura-Mazda.”

HaShatan HaSatan Satã

A Síndrome de Estocolmo aplicada em grande escala a um povo se chama Síndrome Babilônica.

“Os soldados macedônios, com suas esposas e filhos persas, levaram o culto [de] Mitra à Macedônia e à Grécia.”

Mitrídates, o Grande – 120 a 63 a.C., o último persa de sua estirpe, derrotado por Roma em 66. Chamado em Montesquieu, Espírito das Leis (Jean Melville) de Mitríades.

“Na época, existiam 2 escolas rabínicas. Cada uma com pontos de vista diferentes. Uma seguia os ensinamentos de Hilel, o ancião, e a outra os ensinamentos de Shamai. Beit Hilel e Beit Shamai eram os nomes das escolas. Hilel e Shamai foram 2 renomados eruditos judeus. Hilel era uma pessoa amável, simples, próxima às camadas mais modestas da sociedade, e suas máximas breves refletem sua generosidade, piedade e amor à humanidade. Shamai era extremamente íntegro e mais rígido e irascível. Yeshua deve ter estudado na escola de Hilel.”

“Aquele que tenta engrandecer seu nome o destrói; aquele que não aumenta seu conhecimento o diminui; e aquele que não estuda, merece morrer.”

Hilel

“Conta-se que [quem conta?], quando Herodes apareceu na sala do Sinédrio, rodeado pela guarda real, totalmente armados, (sic) o silêncio reinava. Podia-se sentir o sentimento (sic) de intimidação naquela sala, quando, (sic) apenas Shamai, sem medo, levantou-se para falar contra ele.”

“Em suma, a escola Beit Hilel pendia ao judaísmo essênio, que era mais uma filosofia de vida do que uma religião. Já a escola Beit Shamai tinha um perfil notoriamente farisaico, o que a aproximava do judaísmo dominante.” A história do farisaísmo e a história da religião se confundem.

“Em função de Sua Missão neste orbe, os pais de Yeshua foram previamente selecionados em razão de seus genes, [Genes? Deus veio do século XX numa máquina do tempo, como uma espécie de John Connor?] conduta moral e, obviamente, evolução espiritual.”

O CARPINTEIRO QUE NÃO CARPIA, POIS TINHA MUITOS LIVROS QUE LER: “Certamente, Yeshua estudou o hinduísmo, o zoroastrismo, o budismo, filosofias, mitologias e crenças gregas, egípcias, etc. Tudo isso, Ele (sic) deve ter feito durante os Seus (sic) anos de vida oculta.”

“A Igreja Católica não aceita Jesus como rabino porque um rabino deve ser casado, principalmente no séc. I, e isto vai contra o celibato. Outras questões: se Jesus fôra casado, quem fôra a Sua (sic) esposa? Maria Madalena? Jesus teve filhos? A vida do Mestre é um mistério total. Ele mesmo não deixara nada escrito por razões óbvias. [?] O importante era Sua Mensagem. (sic) Ele não tencionava criar religião alguma.” Ora, se o importante era sua mensagem, ele deveria ter deixado escritos. Mas se ele não pretendia deixar escritos, por razões óbvias, tampouco poderia esperar semear alguma coisa, religião ou não! Paroxismo.

“O libertador que os sacerdotes esperavam era diferente. Esperavam um messias que entrasse em conluio com eles, ocupasse o trono de Davi e promovesse a união do povo de Israel para deflagrar uma insurreição contra Roma”

“Estar na fé implica o indivíduo freqüentar assiduamente o templo ou igreja, participar dos rituais, ler e crer na bíblia e nas pregações, sem duvidar de nada.”

“Trechos que foram criados pelos antigos líderes judaicos-hebreus (muito antes de Cristo) para sustentar o judaísmo, que os mantinha na opulência e no poder, p.ex.: ‘Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida’ (Malaquias 3:10)”

FILHOS DE LEVI QUERIA DIZER O CENTRÃO DE ARTHUR LIRA? “Aos filhos de Levi, dei todos os dízimos em Israel por herança, pelo serviço que prestam, serviço da tenda da congregação. E nunca mais os filhos de Israel [os populares] se chegarão à tenda da congregação, para que não levem sobre si o pecado e morram. Mas os levitas farão o serviço da tenda da congregação e responderão por suas faltas; estatuto perpétuo é este para todas as vossas gerações. [Porém, quando o dízimo é secreto, não há apuração de faltas] E não terão eles nenhuma herança no meio dos filhos de Israel. [não terão trabalho honesto, viverão do roubo do povo] Porque os dízimos dos filhos de Israel, que apresentam ao Senhor em oferta, dei-os por herança aos levitas…” Números 18:21-23 – Números, esse pessoal gosta muito de númeRo$!

“No entanto, nada do que alguém dedicar irremissivelmente ao Senhor, de tudo o que tem, seja homem, ou animal, ou campo da sua herança, se poderá vender, nem resgatar; toda coisa assim consagrada será santíssima ao Senhor” Levítico 27:28 Extremamente ambíguo!

MERCADORES DA FÉ: “Os atuais finórios de Deus utilizam muito os supracitados versículos do capítulo 18 do livro de Números para se colocarem na mesma posição dos levitas judeus, transferindo a eles uma incumbência textualmente aplicada tão-somente aos levitas, mas literalmente incabível aos missionários da cristandade, pois não encontra respaldo no Novo Testamento” “A isto se deu o nome de teologia da prosperidade, principal característica das religiões neopentecostais.”

“a cultura sumeriana formou a hebraica.” Nomeadamente a doutrina do povo eleito.

“Os Evangelhos Sinóticos foram escritos por volta dos anos 50. O evangelho de João foi escrito aproximadamente no ano 90, portanto, apesar de serem cópias de cópias de outras cópias, assim como o de João também, os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas são mais confiáveis do que o de João, por serem mais contemporâneos a Jesus, ou seja, estão mais próximos do Jesus histórico na linha temporal.”

NÃO EXISTE IGREJA SEM FÉ, MAS EXISTE FÉ SEM IGREJA: “Dentre os Evangelhos Sinóticos, somente Marcos 16:16 menciona a salvação apenas pela fé, entretanto, a maioria dos estudiosos bíblicos afirma que Marcos 16:16 é um versículo espúrio no evangelho segundo Marcos, pois destoa totalmente dos demais escritos atribuídos ao evangelista e, principalmente, porque o trecho em questão não consta nos primeiros manuscritos do evangelho de Marcos.”

MANUAL DE COMO SER ANTICRISTÃO NO SÉCULO XXI

Suriman ataca da forma errada: expondo contradições entre escritos bíblicos. Mas eu diria que se não houvesse qualquer contradição esse grande livro (ou livro grande) seria muito menos amado! Não é expondo contradições que se combaterá os cristãos de todos os tempos e lugares. Uma estratégia melhor seria, p.ex., denunciar o livro sagrado como muito estreito e linear. Um Deus onisciente e onipresente deveria poder ser capaz de mais nuances, matizes, perspectivas e contradições – as que vemos são muito poucas, mambembes, astutas no pior sentido de pobreza argumentativa, quase que evidenciam um pragmatismo, uma racionalidade temporã, de mercadores da fé, um livro ESCRITO ATRAVÉS DE DEUS por mãos humanas que nada tem de divino, é chão e abjeto, parece um manual de economia! Por isso é que é uma fraude, e esse Deus não existe ou foi incrivelmente traído pelos descendentes de seus profetas e sacerdotes, que conseguiram apagar todos os traços do Evangelho Original e até calar a boca de seu Filho, que Era Ele Mesmo. Ou seja, um deus fraco; e deuses não são fracos. Ou apenas um Deus satânico – mas cuidado, isso é muito popular entre os cristãos que hoje já não sentem necessidade sequer de simular o ascetismo! Pois Ele quer o mal; e nosso objetivo não é mais atacar o livro, que o deixa claro, mas, com poder político, não deixar qualquer traço ou tolerância dessas práticas más!

“Paulo encoraja a soberba e a megalomania, elitizando o cristianismo, fazendo um jogo perigoso, que fomenta discriminações, preconceitos, discórdias e até pelejas, opondo-se ao amor universal pregado por Jesus, e contrariando outros trechos que afirmam que Deus não faz acepção de pessoas, como, p.ex., em Romanos 2:11, que é uma epístola dele mesmo, por sinal.”

“No hinduísmo, um avatar é uma manifestação corporal de um ser imortal, por vezes até do Ser Supremo. Deriva do sânscrito Avatara, que significa <descida>, normalmente denotando (sic – conotando) uma religião das encarnações de Vishnu (tais como Krishna), que muitos hinduístas reverenciam como divindade.”

“A 1ª semelhança encontrada pelos tradutores das tábuas em escrita cuneiforme é a mais impressionante. Foi a mola propulsora de toda a discussão sobre a veracidade dos textos bíblicos, pois a descrição do dilúvio não só é a mais bem-conservada tábua de toda a epopéia, mas a mais rica em detalhes e semelhanças com a descrição no Gênesis. Além do quê, outras narrativas do dilúvio foram encontradas em forma de poemas isolados e com outros personagens, como as tábuas de Atra-Hasis, a Epopéia de Erra, os textos do rei Ziusudra (Utnapishtim).”

“Ea (deus da água doce e da sabedoria, patrono das artes e protetor da humanidade na mitologia acadiana e babilônica; denominado Enki na mitologia suméria) avisa Utnapishtim em um sonho das intenções de Enlil e orienta-o a como sobreviver à catástrofe que estaria por vir [extinção do homem?]: <põe abaixo tua casa e constrói um barco….>”

“Eu carreguei o interior da nave com tudo o que eu tinha de ouro e de coisas vivas. Minha família, meus parentes, os animais do campo – os domesticados e os selvagens – e todos os artesãos.” O que seria do mundo sem os artesãos! Até o detalhe do corvo que foi solto e encontrou, finalmente, terra firme após 6 dias de dilúvio foi copiado pelo VT de Gilgamesh!

“Enlil, furioso com Ea por ter permitido que um humano sobrevivesse e conhece[sse] o segredo dos deuses, viu-se sem alternativa que não a de transformar Utnapishtim em um imortal, para que sua maldição de que nenhum mortal sobrevivesse se completasse.”

Gilgamesh então mergulha no oceano e obtém a planta da juventude eterna. Mas não se alimenta dela a tempo, decidindo levá-la consigo para Uruk e compartilhá-la com os anciãos do povo. “Gilgamesh é surpreendido por uma serpente marinha que lhe rouba a flor, perdendo para sempre o segredo da imortalidade”

fruto – serpente – mortalidade (terra)

fruto – serpente – imortalidade (água)

“Gilgamesh então ficou desolado e abatido, pois além de fracassar em sua missão perdera para sempre o irmão Enkidu, restando-lhe apenas, melancolicamente, esperar o dia de sua morte chegar.”

O Mito de Dilmum (o casal divino Enki e Nintu).

“Os sumérios foram, provavelmente, os primeiros a habitar o sul da Mesopotâmia. A região foi ocupada em 5 mil a.C. (…) ali [se] constru[íram] as primeiras cidades de que a humanidade tem conhecimento, como Ur, Uruk e Lagash. As cidades foram erigidas sobre colinas.”

“No início do 2º milênio a.C. a região da Mesop. constitui-se em um grande e unificado império que tinha como centro administrativo a cidade da Babilônia, situada nas margens do rio Eufrates. Os amoritas, povos semitas provenientes da Arábia, edificaram o Primeiro Império Babilônico. Este povo é conhecido também como <antigos babilônicos>, o que os diferencia dos caldeus, fundadores do II Império Bab., denominados NEOBABILÔNICOS.”

“De origem semita, os assírios viviam do pastoreio e habitavam as margens do rio Tigre.” “conquistaram (…) o Egito. O centro adm. do império assírio era Nínive.”

“os [também semitas] caldeus foram os principais responsáveis pela derrota dos assírios e pela organização do novo império babil. Nabucodonosor foi o soberano mais conhecido dos caldeus. (…) governou por 60 anos e após sua morte os persas dominaram o novo imp. bab.” Ao todo, em somente 7 décadas construíram os lendários Jardins Suspensos e a Torre de Babel.

Uma etnia tão fratricida realmente precisava inventar um Deus vingador-Deus do amor (no fim é indiferente, desde que unisse as “tribos”). Para o leigo que lê a bíblia, entretanto, monarcas como Nabucodonosor passam como governantes dos gentios, cem por cento pagãos, sem qualquer relação com a árvore genealógica hebraica.

Apesar de matemática, astronomia e medicina altamente desenvolvidas, a principal realização cultural dos sumérios foi a escrita fonética. “Quem decifrou a escrita cuneiforme foi Henry C. Rawlinson.”

“Anterior ao Código de Hamurabi [por muito tempo considerada a lei mais antiga da humanidade] tem-se o o Cód. de Ur-Nammu, descoberto em 1952 pelo assiriólogo (…) Samuel Noah Kromer.”

“Sargão I é o 1º monarca da história a manter um exército de prontidão.”

“Apesar de terem preservado a maior parte da cultura suméria, os amoritas introduziram seu idioma semítico, um ancestral do hebreu na região” Neste idioma é escrita a Epopéia gilgameshiana.

“1750 a.C.: (…) os cassitas, um povo não-semítico, conquista a maior parte da Mesop.”

“o historiador e lingüista Zecharia Sitchin, especialista em traduções de tabletes cuneiformes, revela que[,] para os sumérios e babilônios os Anunnaki eram, literalmente, astronautas extraterrestres que aterrissaram na região onde se situa o Iraque, há aproximadamente 450 mil anos, em missão de mineração, que se estendeu do Oriente-Médio à África.” Eridu, considerada a cidade mais antiga do mundo, teria sido fundada por esses curiosos E.T.s! “…com o objetivo de obter ouro em quantidade suficiente para sanar os problemas no ecossistema de seu planeta natal, Nibiru.” Ah, o homem! Por que um povo capaz de se teletransportar precisaria de OURO?! Péssima base literária!

“Segundo os sumérios, o trab. de mineração ficou comprometido por rebilões entre os Anunnaki, o que levou Enki e Ninti, brilhantes cientistas, a interferir no ritmo evolutivo do tipo humanóide simiesco que habitava o planeta. Através de experiências de engenharia genética, foi obtido o protótipo do Homo sapiens, chamado pelos sum. de Adapa/Adamu.” E daqui pra frente só piora! Mas como série estilo Arquivo X seria sensacional!

“a cada 3600 anos [curiosamente coincidindo com o sistema matemático sexagesimal babilônico, que coisa!] o planeta Nibiru completa um período orbital em torno do Sol [qual sol?] e, durante sua aproximação da Terra, diversos cataclismos se sucedem. Os Anunnaki então aproveitariam essa <janela cósmica> para retornarem à Terra.” Prefiro o lore de One Piece!

“Nibiru/Marduk, 10º planeta (tendo Plutão como 9º) do sistema solar ou talvez o 6º ou 7º planeta da estrela anã-marrom que seria a suposta irmã gêmea do nosso Sol.” U-A-U!

“Nibiru é um planeta do s.s. citado no poema Enuma Elish (Batalha Celeste)¹ e associado ao deus Marduk (…) Os sumérios descreviam nosso sistema solar como um conjunto de 12 corpos celestes significativos” Claro que também corresponderia ao sistema duodecimal criado para a medição do tempo!

¹ Narração da criação do planeta Terra por Marduk.

“Marduk (…) era filho de uma relação incestuosa entre Enki e Ninhursag. Foi pai de Dumuzi (o bíblico Tamuz), correspondente ao deus egípcio Osíris. Sua consorte era Sarpanitu.” “foi o vencedor do monstro Tiamat, que personifica o caos primordial; divide-o em 2 partes, com as quais forma o céu e a terra.”

“Intertestamentário é o período de tempo que abrange 400 anos entre 397 e 6 a.C.. Trata-se do período situado entre o V. e o N. Testamento.” Hiato Malaquias-Mateus.

“De acordo com o Livro dos Jubileus, Sete casou-se com sua irmã mais jovem Azura e teve vários filhos, entre os quais Enos. [que não sofria de azia]” “É importante esclarecer que Sete é também o nome de um personagem jaredita do Livro de Éter (um dos livros que compõem o Livro de Mórmon). § Alguns estudiosos do séc. XIX identificam Sete com Shitti, um epíteto do deus Marduque”

“Algumas religiões e crenças, culturalmente atrasadas, encorajam seus seguidores à prática do suicídio.” São tantas coisas erradas na frase que mal saberia por onde começar…

“Eostre, Ostara ou Ostera é a deusa da fertilidade e do renascimento na mitologia anglo-saxã, na mitologia nórdica e mitologia germânica. A primavera, lebres e ovos coloridos eram os símbolos da fertilidade e renovação a ela associados.” Páscoa vem do latim pache, passagem, originalmente transição entre estações (fim do inverno no hemisfério norte). Mas também “Deusa da Aurora” no Alto Alemão ou simplesmente sol nascente em outras raízes anglo-saxãs.

“Eos, Deusa do Amanhecer na mitologia grega.” // Astarte // Ishtar

“Varuna é um deus indiano da criação. Possivelmente é a mais augusta divindade do panteão védico.” “Varuna tentou impedir o nascimento de Indra, mas foi impossível” Varuna foi então rebaixado de Zeus hindu para mero deus da noite e dos oceanos. Nenhum olimpo é uma liga, i.e., há sempre rebaixamento e ascensão de semi-deuses e heróis correndo por fora!

“A principal coletânea da mitologia persa é o Shahnameh de Ferdowsi, escrito há mil anos. A obra de Ferdowsi tem por base as histórias e personagens do zoroastrismo e do masdeísmo, não apenas o Avesta, mas também o Bundahishn e o Denkard. Segundo a crença, o sexo era predominante, assim como o amor verdadeiro. [?!] O primeiro beijo (…) era fundamental…” Bem, continua sendo entre nós… “Já a 1ª relação sexual deveria ser presenciada pelos pais.” Isto sim está fora da cartilha!

“A mitologia persa é ao mesmo tempo muito próxima e diferente da mitologia hindu. Elas são próximas, porque os iranianos são um povo indo-europeu cuja língua tem grande semelhança com o sânscrito e foram um povo que estabeleceu constantes relações com os arianos da Índia. E são diferentes, pois a religião dos antigos persas adquiriu um aspecto mais moral que mitológico.”

“Ahura Mazda é o criador de outras 6 ou 7 divindades supremas, os Amesha Spenta, que reinam, cada um, sobre uma parte da criação”

Subordinados dos Amesha Spenta:

I. Mitra, o mestre do espaço livre;

II. Tistrya, o deus das trovoadas;

III. Verethraghna, o deus da vitória;

IV. Os Izeds.

“Angra Mainyu perdeu sua identidade zoroastrista e masdeísta original na posterior literatura persa, sendo finalmente descrito como um Dev ou div, celestial ou radiante [um gigante com o corpo manchado e 2 chifres].”

“Somente após a reforma religiosa de Zaratustra o termo dev foi associado com demônios. Mesmo assim os persas que habitavam a região ao sul do mar Cáspio continuaram a adorar os devs e resistiram à pressão para aceitar o zoroastrismo e as lendas em torno dos devs sobreviveram até os dias atuais. P.ex., a lenda do Dev-e Sepid (Dev branco) de Mazandaran.”

“A personagem mais importante nos épicos persas é Rostam. Sua contraparte é Zahhak, um símbolo do despotismo que foi finalmente derrotado por Kaveh, que liderou um levante popular contra ele.” “A serpente, como em muitas outras mitologias, representava o mal” “os pássaros, em especial, eram sinal de boa sorte.”

“Peri (avéstico Pairika), considerada uma mulher bonita porém má na mitologia mais antiga, tornou-se gradualmente menos má e mais bonita até transformar-se em um símbolo de beleza no período islâmico similar aos houri – espécie de anjos – do Paraíso. Entretanto, outra mulher má, Patiareh, atualmente simboliza a prostituição.”

“a reconstrução da história da Índia Védica é baseada no estudo dos Vedas (…) associado às informações arqueológicas.” “muito do que se sabe da época é baseado no Rig Veda – o mais antigo texto sânscrito escrito e preservado. Acredita-se que estas e outras narrativas épicas, como o Ramayana e o Mahabharata, se originam neste período, a partir da tradição oral” “era de mistura cultural. A cultura ariana foi aos poucos se mesclando à cultura indiana local. A partir de 200 a.C. este processo se completou e o que conhecemos como cultura indiana tomou sua forma geral.”

“A ordem social reflete a presença dos árias [brâmanes] no poder e, com isso, a supremacia dos sacerdotes [sempre um mal!] se consolidou no sistema de castas.” Em breve, THE LAWS OF MANU no Seclusão.

“Os chamados impuros ou párias não pertenciam a nenhuma casta [<quinta casta>]. Eram nascidos de uma união de pessoas de castas diferentes [superficial: não procede – apenas se forem provindos de união não-sancionada – e desde que um brâmane tenha pelo menos 4 esposas a 4ª pode até ser uma Sudra] ou de expulsos de suas castas por terem violado as leis. Não podiam viver nas cidades, ler os livros sagrados [falso: nem mesmo os shatriya podem ler o Veda!] e banhar-se nas águas do Ganges.”

Ahura Mazda deriva de ashura, senhor, deus menor hindu. E no entanto os outros deuses são devas, que na etimologia seriam aproximados de dev, demônio. Ou seja: Índia e Zoroastrismo são essencialmente opostos (pode-se dizer que uma religião é a outra de ponta-cabeça). E no entanto estas duas religiões são um contraste absoluto com as noções hebraicas – formando-se um triângulo de oposição entre macro-religiões, a dos judeus a mais contrária e refratária às outras crenças.

Sempre imaginei que Maniqueísmo e Mazdeísmo ou Masdeísmo (o Zoroastrismo, enfim) fossem sinônimos. O que não quadra é a informação seguinte: “Maniqueísmo, filosofia religiosa sincrética e dualística ensinada pelo profeta persa Mani (ou Manes), combinando elementos do Zoroastrismo, Cristianismo e Gnosticismo” O mais curioso é que Mani é muito próximo de Manu, autor de um dos códigos de lei mais antigos, inscrito no hinduísmo e obedecendo aos Vedas. E manes também é uma nomenclatura para determinada classe de divindades importantes na ritualística bramânica.

Zoroastrismo (doutrina mais pura) > Masdeísmo (refundação “decadente”)

“Ísis, a deusa do amor e da mágica, tornou-se a deusa-mãe do Egito.” E ainda: médica, casamenteira (inscrito em amor e magia) e incentivadora da agricultura, patrona da harmonia e das festas, além de governante no sentido sócio-político, ao lado de seu marido Osíris. Podemos portanto chamá-la sem equívoco de Deusa da Cultura Egípcia, ou Embaixadora do Egito enquanto civilização. Teria originado o Rio Nilo. Por diversos acontecimentos da mitologia, é associada à árvore do tamarindo. Por último, Ísis também é a deusa da Morte ou da transição da vida terrena para a próxima vida, tendo criado o ritual do embalsamento.

MITOS & ARQUÉTIPOS

Nas odisséias de Ísis e inúmeros outros deuses de outras mitologias há sempre uma cena arquetípica: a deusa (sempre uma mulher), disfarçada, se torna ama de um príncipe recém-nascido, filho do rei do local. A ele se afeiçoa e deseja presenteá-lo com a imortalidade mediante um ritual que, visto pelos olhos de um leigo, parece um homicídio hediondo, geralmente envolvendo as labaredas do fogo. Sempre, no momento de ser consumada a imortalidade, o ritual é interrompido por alguma testemunha do palácio e o príncipe nunca obtém a imortalidade. A estória de Zigfried e Aquiles é uma variante deste arquétipo, excluindo elementos como “príncipe ainda bebê” e a ama, que se converte noutra figura feminina, como a mãe de Aquiles, que o segura pelos calcanhares e o banha em águas que concedem a imortalidade – dando-lhe uma imortalidade parcial ou condicionada, destinada a ser vencida quando um guerreiro atinge seu ponto fraco, única parte mortal do corpo, o calcanhar-de-Aquiles.

No mito de Osíris há outra alusão a um ser assexuado ou hermafrodita, tema de inúmeros mitos, como o de Platão n’O Banquete, conotando uma suposta perfeição ou transcendência em relação à condição limitada dos dois sexos, fundindo todas as suas qualidades num ser Uno. Osíris fôra retalhado em inúmeros pedaços e pelos dons de Ísis e sua irmã voltou à vida, com todas as suas partes reconectadas, exceto a genitália, que havia sido devorada por um peixe do Nilo. Nasce o ser perfeito e assexual – e o que eu comentei acima de “nenhum deus pode ser hermafrodita”, cai por terra!

Hórus é o filho de Ísis e Osíris. Como a ressurreição de Osíris pôde ser apenas temporária, já que ele possuía o corpo mas sua alma já havia partido, Hórus foi concebido numa “atípica lua-de-mel” entre Ísis e o deus morto-vivo, que finalmente foi embalsamado e partiu de maneira pacífica ao Outro Mundo. Tal circunstância torna Hórus divindade dual, tanto da Vida quanto da Morte, e sua aparência reflete sua capacidade espiritual: meio-homem, meio-falcão.

Set, deus-cobra, arqui-inimigo de Hórus, Osíris e Ísis, entrou em combate com o filho do casal: este embate entre falcão e serpente é outro arquétipo. Nietzsche utiliza tal simbologia em seu próprio Zaratustra (o que podemos considerar o mesmo que: a superação de todas as religiões monoteístas após a morte de Deus, ainda que usando velhos nomes e velhos símbolos), em que Zaratustra é secundado por dois discípulos, uma serpente e um falcão [na verdade, águia], falantes. Como Zaratustra anuncia aquilo que virá muito além do bem e do mal, a serpente e o falcão não são mais, respectivamente, representantes nem do mal nem do bem.

Sobre Ísis (bom tropo para usar em um RPG): “Suas habilidades mágicas melhoraram muito quando ela tirou proveito da velhice de Rá a fim de enganá-lo, fazendo-o revelar seu nome e, assim, dando a ela acesso a um pouco de seu poder.”

A VIRGEM MARIA EGÍPCIA: “Do morto e castrado Osíris, Ísis extraiu por conta própria a semente viva. E muitas vezes foi retratada em pinturas ou esculturas com o divino filho, Hórus, sobre o joelho.”

“Osíris mandava no mundo dos mortos, seu falo perdido para sempre nas águas do Nilo, onde dele corria um fluxo interminável de sêmen, fertilizando os extraordinários campos do Egito todos os anos quando o rio transbordava.” “Osíris, o deus do sangue, julgava o malfeitor olhando dentro do coração do mesmo.” Isso não o impediu de cair numa simplória armadilha de Set.

“Bellenus é o deus celta do Sol.” “Era um dos principais deuses da mitologia celta, mas era uma divindade mais regional, adorada principalmente no norte da Itália e na costa mediterrânea da Gália.”

“Na antiga religião, antes da Igreja destruir este culto e transformá-lo no que se conhece como <bruxaria>, os camponeses iam para os bosques de carvalhos à noite e acendiam enormes fogueiras para a deusa, o que tornou esta festividade conhecida como As Fogueiras de Beltane.” Origem de nossa festa junina, cristianizada.

“Mabon (pronuncia-se mêibon) é também conhecido como Equinócio de Outono ou Lar da Colheita ou Festival da Segunda Colheita. Dia sagrado no paganismo, em especial na religião wicca. (…) corresponde a (…) 20 de março no hemisfério sul e (…) 22 de setembro no hemisfério norte”

“o ano-novo pagão (Samhain – pronuncia-se sou-en)” etimologia: samh, verão + fuin, fim. “É uma época de quilíbrio, onde o dia e a noite têm a mesma duração.”

“O nome Mabon veio de um deus celta (também conhecido como Angus), o deus do amor.”

“Lughnasadh (pronuncia-se lusaná) é também conhecido como Lammas ou Festival da Primeira Colheita. (…) Celebrado dia 2 de fevereiro no hemisfério sul”

“O nome lusaná tem suas raízes em uma festa agrícola típica dos célticos. (…) em honra ao deus (…) do Sol: Lugh”

“Já o nome Lammas significa <A Massa de Lugh>, que representa o alimento (geralmente pão ou bolo ou qualquer outra massa) feito com grãos, que representam a colheita”

“coven (grupo de bruxos)” ui ui ui!

Mani: a deusa brasileira da mandioca, alva como a lua!

“grande parte da tradição do Halloween, do dia de todos os santos e do dia dos finados pode ser associada ao Samhain.” “Alguns autores acham que não existe nenhuma evidência que relacione o Samhain com o culto dos mortos e que esta crença se popularizou no séc. XIX.” “Era também a época em que o Sidhe (nome celta para duende) deixava antever o outro mundo.” Origem ainda do espantalho ou do Jack o’Lantern.

MITO <TEBAIDO> (+1 ARQUÉTIPO PARA A LISTA…): “A religião mitraica dos magos tem uma lenda como a maçonaria. [?] É a seguinte: Mitra (Luz) (…) nasceu da <rocha generativa>, [a pedra do gênesis de Raul Seixas?] debaixo da sombra de uma árvore sagrada. Uns pastores foram testemunhas (…) Viram-no sair da rocha, com a cabeça adornada (…) armado de um cutelo e levando uma tocha para iluminar as trevas” Pedra do tempo; quem tem teto de vidro que atire o primeiro dente!

“Os pontos em comum entre a mitologia maga e a vida de Cristo segundo os evangelhos saltam à vista.” Com toda a certeza.

“O mitraísmo – religião da moda no Império Romano – cultuava Mitra e a supracitada mitologia não poderia ficar de fora. Provavelmente os líderes da embrionária Igreja Católica optaram pela absorção da mitologia dos magos, amalgamando-a com a história de Jesus para adaptar o cristianismo às crenças romanas e, deste modo, torná-lo aprazível aos mitraístas, facilitando a conversão.”

“Na tentativa de consolidar a totalidade do Imp. Romano sob o seu domínio, Licínio o Breve [imperador da banda oriental] marchou contra Constantino. Como parte de seu esforço para ganhar a lealdade de suas legiões, L. dispensou o exército e o serviço civil da política de tolerância do Edito de Milão, [que cessou a perseguição aos cristãos] permitindo-lhes sua expulsão. Alguns perderam propriedades e outros a vida. § Constantino venceu a guerra em 324 d.C.”

“Em relação ao Antigo Testamento, o problema só foi definitivamente resolvido em 1546 (no Concílio de Trento), sendo incluídos o Livro da Sabedoria, atribuído a Salomão, o Eclesiastes ou Sirac, as Odes de Salomão, o Tobit ou Livro de Tobias, os Livros dos Macabeus e ainda outros.”

LINHA DO TEMPO (somente inseri os mais relevantes)

ANO – nº romano do Concílio – local – principais resultados

325 – IV – Nicéia – Apostasia do Arianismo; Fundação da Igreja Católica.

432 – VI – Éfeso – Apostasia do Nestorianismo.

451 – VII – Calcedônia – Apostasia do Monofisitismo.

553 – VIII – Constantinopla – Apostasia do resiliente Nestorianismo!

681 – IX – Constantinopla – Apostasia do Monotelitismo.

767 – X – Nicéia – permite a veneração de imagens [destruição do cristianismo primitivo, na opinião de muitos protestantes…]

(Entre 867 e 1064 – incontáveis cismas, mas o principal, entre a Romana e a Ortodoxa.)

869 – XI – Constantinopla – primeira trégua provisória Ocid. x Or.

1123 – XII – Latrão – Apostasia do Valdensismo e Albigensismo.

1139 – XIII Latrão – idem [!]

(Seguiriam mais dois em Latrão para o mesmo fim, o segundo em 1215 – XV Concílio.)

Daqui em diante não importa o número, os concílios são cada vez mais estapafúrdios, se já não o eram o bastante…

1431 – Concílio da Reforma (Basiléia, Ferrara, Florenza e Lausana)

1517 – real surgimento das Igrejas Protestantes (conclusão do processo de cisma iniciado quase um século antes). (Trento)

1545 – Contra-Reforma (Trento)

1870 – A grande besteira e heresia da infalibilidade papal, que duraria muito pouco tempo para uma religião milenar! (Vaticano)

1962 – “Concílio da modernização”, para fisgar os beatlemaníacos e afins!

“O judaísmo era para ser uma filosofia de vida e não uma religião (assim como o cristianismo deveria[, e o hinduísmo logrou]).”

RECAPITULAÇÃO:

  • Essênios: judeus mais ortodoxos (anti-fariseus).

  • A partir dos cismas com os essênios, tudo é história política.

  • Os essênios eram vegetarianos e nunca sacrificaram animais a Javé. Não havia quase nenhuma lei religiosa entre eles.

“Os hebreus (<descendentes do patriarca bíblico Éber>) é o nome dado ao povo que viveu na região do Oriente Médio a partir do II milênio a.C., e que daria origem aos povos semitas como os árabes e os israelitas, antepassados históricos e espirituais dos atuais judeus e muçulmanos.” “Os hebreus permaneceram por 3 séculos na Palestina, até a ocorrência de uma violenta seca que abalou a região.” Não me admira inventarem a estória de Noé depois de tamanho trauma.

No regresso à Palestina, após a escravidão egípcia e a morte de Moisés, assim era a demografia (principais etnias):

  • hebreus

  • cananeus

  • filisteus

Começa o Estado judeu.

A teoria de que os altos impostos derrubaram o reinado de Salomão (ancaps aprovam!).

Dominação assíria-babilônica da etnia já dividida em dois reinos (patética decadência).

Alexandre, o Grande bem que tentou mais uma vez separar o que jamais deveria ter sido novamente reunido (judeus e Palestina), mas depois de sua morte o ciclo seguiria…

“palestinos, descedentes dos antigos filisteus” Gostaria de saber como essa palavra foi virar uma crítica da erudição acadêmica!

Suriman destaca os versículos sobre holocausto animal: Gênesis 8; Êxodo 18; Êxodo 29; Levítico 1, Levítico 4; Levítico 4; Números 6; Números 7; Números 8.

Espírito Santo, do hebraico Ruach Ha Kodesh. Suriman defende que a única razão d’<O> Espírito Santo (seria apenas ‘um espírito santo’) ter adquirido tamanha importância no credo cristão se deveu a um erro de tradução de Jerônimo. Depois cita o mesmo fenômeno como “jogada de mestre por parte da Igreja”. Ou é jogada de mestre ou é erro não-intencional de um tradutor honesto! Nem a Igreja é tão “inteligente” nem Jerônimo, patrono dos tradutores, era tão burro.

CITANDO O MIDRASH: “o Espírito Santo foi concebido como sendo por vezes um homem e outras uma mulher.” Aí está a drag queen do “pastor” André (indo pra) Vala***.

O Talmude também “enche” o saco com “aparições” do Espírito Santo ao longo da ZZZzzzhis…, perdão, da zzzhistória.

“qualquer um que ensine a Torah em público partilha do E.S.” Virou um diplominha à la Direito pelo UniCEUB. Hahaha!

“A visão judaica retrata, na idiossincrasia deles, a sintonia com o PAI e, conseqüentemente, com o Cosmo.” Quem é esse PAI, e esse Cosmo?! Qual a religião do autor?! Não me diga que é espírita?

EQUAÇÃO DA FÉ

(Torah + Neviim + Ctuvim) = Tanach = Antigo Testamento

“hoje a maior parte dos estudiosos são unânimes [ou são unânimes ou são a maior parte… os dois não dá!] em concordar que Moisés não é o autor do texto que possuímos” Ó!

Talmude = Torá oral (que virou livro, duh)

Torah = Pentateuco, para todos os efeitos

Chumash (os 5): Bereshit, Shemot, Vayicra, Bamidbar, Devarim

“O conteúdo do Tanakh é equivalente ao A.T., porém com outra divisão.”

Neviim = livros dos profetas, juízes, reis, etc. (História de Israel, haha)

Ctuvim = resíduo salomônico, Jó, Eclesiastes, Crônicas (senta que lá vem MAIS história…) etc.

“Maomé não escreveu o Alcorão.” U-a-u!!!

Sufismo (os hereges místicos do maometismo, necessários, conforme toda religião monoteísta ensina): desdobramento em Cabala e Gnose.

POEMA DO ASSIM

ZAratustra: início e fim, A a Z.

choro-riso-choro

dança-reza-dança

sim-sala-bim

coisa ZAntiga ZAgora voltam às modaz.

Zaratustra se perguntava na infância: quem estipulou o valor dos valores?

“Zaratustra, nascido de uma virgem…” Porra, variem um pouco o arquétipo!!!

“Dos 20 aos 30, Z. viveu quase sempre isolado, habitando no alto de uma montanha, em cavernas sagradas.” “Em outros relatos, teria ido ao deserto, onde fôra tentado pelo diabo…” Dá até preguiça de digitar

“Após 7 anos de solidão completa…” Ué, não eram 10?

“Em dez anos de pregação (30-40 anos) teve somente um crente: seu primo.”

“Ninguém o escutava. Ninguém o entendia.”

É preciso aprender a colher desprezo onde esperas carinho! Depois garfas esses malditos – tudo tem sua hora…

“Com 40 anos realizou milagres…” Poxa vida, até então era só um homem comum. Plot twist nota zero!

“Aos 77 anos ele teria morrido assassinado enquanto rezava no templo”

“Em seu sentido mais abrangente, o gnosticismo significa <a crença na salvação pelo conhecimento> (Joan O’Grady).”

COSMOVISÃO DUALISTA

A tentativa de conciliar Jeová, o deus mau, com o do Novo Testamento.

Principais “patronos”: Marcião (marcionismo); Valentim (valentinismo ou valencionismo), Nestor (nestorianismo). Nenhum desses escapou de ser perseguido pela igreja…

Aeons, Pleroma, Demiurgo, décimo terceiro aeon, …

Pelo menos reconhece-se que a era cristã é decadente!

“Os escritos joaninos são do final do 1º séc., quando nasceu o gnosticismo.” O mais ‘malvado’ dos escritores do NT.

Um rip-off do hinduísmo, em minha modesta expertise… Tanto que a maneira como os gnósticos se expressam é muito similar à minha interpretação dos Vedas: “Assim, os primeiros cristãos sabiam que 2 tipos de pessoas se achegariam ao cristianismo, um tipo sem o toque pneumático [e que tal torque? haha], e, portanto, incapaz de aproximar-se da salvação pelo conhecimento e pela sabedoria dos Mistérios, mas possuindo apenas capacidade de assimilar pela fé o lado superficial da Lei; o outro tipo, tocado pelo dom pneumático, pela centalha-espírito, que possuiria plena capacidade de assimilar os conhecimentos e a sabedoria dos Mistérios divinos e descer ao nível do profundo e espiritual da Lei, podendo gozar de completa iluminação e redenção.” Trecho de Orígenes, De Principiis

Trocando em miúdos, há duas religiões neste mundo: a dos superiores e a dos inferiores. Ou o que é mais: há a existência esotérica (Filosofia transcendental) e a exotérica (tudo o mais, filosofia ou qualquer outra coisa). “Outro patamar”… O princípio ecumênico do brâmane “em toda cultura posterior”…

Aspectos esotéricos da doutrina de Cristo: mais esotéricos do que a própria ortodoxia; mais ortodoxos do que os (maus) ortodoxos! Ver ainda mais sobre: naasenos ou ofitas; perates; sethianos; docéticos; carpocráticos; basilidianos (Basílio).

(mais conhecidos em negrito) “Com o passar do tempo, os herdeiros da tradição gnóstica e maniqueísta foram mudando de nome. Podemos indicar o aparecimento dos seguintes grupos: entre os sécs. III e IX: Euchites, Magistri Comacini, Artífices Dionisianos, Nestorianos (DV), e Eutychianos; no séc. X: Paulicianos e Bogomilos; no séc. XI: Cátharos, Patarini, Cavaleiros de Rodes, Cavaleiros de Malta, Místicos Escolásticos; [!!!] no séc. XII: Albigenses, Cavaleiros Templários, Hermetistas; no séc. XIII: a Fraternidade dos Winklers, os Beghards e Beguinen, os Irmãos do Livre Espírito, os Lollards, e os Trovadores; no séc. XIV: os Hesychastas, os Amigos de Deus, os Rosa-cruzes (Johann Valentin Andrea), os Fraticelli; no séc. XV: os Fraters Lucis, a Academia Platônica, a Sociedade Alquímica, a Sociedade da Trolha [!], os Irmãos da Boêmia (Unitas Fratrum); no séc. XVI: A Ordem de Cristo (derivada dos Templários), os Filósofos do Fogo, a Militia Crucífera Evangélica e os Ministérios dos Mestres Herméticos; no séc. XVII: os Irmãos Asiáticos (Irmãos Iniciados de São João Evangelista da Ásia), a Academia di Secreti e os Quietistas; no séc. XVIII: os Martinistas;no séc. XIX: a Sociedade Teosófica.” Teosofia é uma palavra que cheira mal…

Paulicianos como alguns dos mais persistentes e perseguidos dentre todos…

“Pouco material chegou até os dias de hoje; a maioria dos personagens e suas doutrinas só pôde ser conhecida por meio dos criticos do gnosticismo. A maior polêmica contra os gnósticos apareceu no período patrístico [proto-Escolástica], com os escritos apologéticos de Irineu (130-200), Tertuliano (160-225)¹ e Hipólito (170-236).”

¹ Um dos primeiros posts do Seclusão: https://seclusao.art.blog/2017/01/30/patience-tertullian/.

“Por isso a descoberta da Biblioteca de Nag Hammadi em 1945 foi de suma importância, visto que seu conteúdo é eminentemente gnóstico. O achado impulsionou as pesquisas sobre o assunto na 2ª metade do XX. Estes manuscritos totalizavam 52 textos, em 13 códices de papiro, escritos em copta. (…) 3 obras pertencentes ao Corpus Hermeticum [Códice Askew, Códice Bruce e Códice de Berlim] e 1 tradução parcial da República de Platão.”

“No séc. XX, Jung pesquisou profundamente as doutrinas gnósticas, inclusive ajudando no trabalho de organização da Biblioteca de Nag Hammadi, e fez uma ligação entre os mitos gnósticos e os arquétipos do inconsciente coletivo. Escreve[u] o livro Sete sermões aos mortos sob o pseudônimo de Basilides de Alexandria, onde coloca a sua visão gnóstica em 7 textos no formato dos evangelhos.” Não sabia disso! Googlando, só encontrei um documento de 11 páginas…

Ironicamente, a-gnósticos assume uma conotação extremamente pejorativa se levarmos os gnósticos em consideração!

“Nesse ramo não existe clero nem sistema de graus, sendo uma metodologia de trabalho interior.” Mas só faltava mesmo essa! Chega de clero em tudo e qualquer coisa, até nas doutrinas anticlericais!

“A magia hermética passou por um renascimento no séc. XIX europeu, quando foi praticada por nomes como os envolvidos na Ordem Hermética do Amanhecer Dourado [haha] e Eliphas Levi. No séc. XX foi estudada por Franz Bardon.”

Nem tudo que é hermético é hermético (haha).

Caibalion, livro-síntese do hermetismo do século XIX.

9 9 9

“O que está em cima é como o que está embaixo. E o que está embaixo é como o que está em cima.”

…God is satan deep below, satan is God high above

In the end it’s all the same…

Mercyful Fate, 9

6 6 6

“Muitos historiadores consideram os Vedas os textos sobreviventes mais antigos.” Coincidência ou destino? Não há começo ou fim para a sabedoria. A vida seria um erro sem… os Vedas?!

O autor nada sabe sobre o bramanismo. Mero conhecimento linear de wikipedia!

* * *

Pode-se chamar de tradição algo que sequer monta a 70 anos (‘religião’ wicca)? Vários artigos ainda em uso do capitalismo (valor transcendental = 0) têm mais tradição do que isto!

“Os dados que temos nos mostram que a maioria dos wiccanos dos dias de hoje são solitários, i.e., não participam de nenhum coven.” Hahaha! Incel ideology.

O tal do Perispírito encerra com chave de bosta a obra (engano meu, ainda havia muitas páginas desgostosas, vide abaixo). O mais chucro sobre esse “pessoal” é que eles querem transformar suas crenças sobre reencarnação e plano astral em ciência, i.e., ficam buscando sem descanso uma ratificação empírica. O cúmulo da idiotia. Assim como Nietzsche afirma que o sono é o parente mais próximo da morte, aquele que não pára de falar sobre reencarnação é o mais covarde dos acovardados diante da morte. Fale de vida ou da própria morte, ou então não fale nada – falar em reencarnar é atestar sua insignificância e falta de propósito corrente (tudo o que importa valorar).

Volto a afirmar, se já não o fiz neste blog: numa hierarquia das religiões, eu sempre posicionarei o Espiritismo no degrau mais baixo de todos. A degradação da degradação de uma degradação de uma crença original. A pior das quimeras.

Pergunto-me, aliás, quanto do texto foi redigido efetivamente pelo autor e o quanto não foi recortado diretamente de enciclopédias públicas virtuais… 70% do livro são platitudes… Como eu retirei o equivalente a 30 páginas de meras “platitudes”? Ora, um dos meus hobbies confessos é acumular conhecimentos “chatos”, superficiais, bidimensionais, sou um leitor habitual da Wikipédia, é claro! Mas afora as curios, não há qualquer valor metafísico nestas páginas!

“Algumas fontes [dentro da sua cabeça] afirmam que Platão ensinava a reencarnação aos seus iniciados e a metempsicose aos leigos.”

Atenção, ainda há algumas páginas para exibição das tendências sádicas do autor!

“No Liber Sententiarum Inquisitiones (Livro das Sentenças da Inquisição) o padre dominicano Bernardo Gui (Bernardus Guidonis, 1261-1331) descreveu vários métodos para obter confissões dos acusados, inclusive o enfraquecimento das forças físicas do prisioneiro.”

“Roda do despedaçamento: uma roda onde o acusado era amarrado na parte externa. … Dama-de-Ferro … a 1ª ref. confiável de uma execução com a D-F data de 14/08/1515. A vítima era um falsificador de moedas”

“Berço de Judas: peça metálica em forma de pirâmide sustentada por hastes. A vítima, sustentada por correntes, é colocada ‘sentada’ sobre a ponta da pirâmide. O afrouxamento gradual ou brusco da corrente manejada pelo executor fazia com que o peso do corpo pressionasse e ferisse o ânus, a vagina, o cóccix ou o saco escrotal.”

“Potro … Na legislação espanhola havia uma lei que regulamentava um nº máx. de 5 voltas na manivela para que, caso a vítima fosse considerada inocente, não sofresse seqüelas irreversíveis. Mesmo assim, era comum que os carrascos, incitados pelos interrogadores, excedessem muito esse limite e a vítima tivesse a carne e os ossos esmagados.” Nem Hitler pensaria em criar um Código Penal dos Campos de Concentração. Talvez estejamos aqui diante do ápice da maldade humana…

“A decapitação pela espada, por exigir uma técnica apurada do executor e ser mais suave que outros métodos, era, geralmente, reservada aos nobres.” Como filosofar com a espada!

“O cadáver ficava exposto até que se desintegrasse.” Alguma dúvida de por que a Peste Negra quase exterminou o “píncaro da civilização” dos sujismundos europeus?

“Cremação … Para garantir que morresse queimada e não asfixiada pela fumaça, a vítima era vestida com uma camisola embebida em enxofre” A banalidade do mal.

“Hoje a Igreja ainda pode emitir um admonitum: uma advertência para o fiel, em determinados casos. É o atual modus agendi da Igreja para declarar que uma obra literária é nociva à fé. Parece inverossímil, mas o caso citado a seguir é contemporâneo (final do séc. XX). Este absurdo medieval aconteceu com o frei Leonardo Boff, um teólogo militante dos direitos humanos desde 1972. Cada livro que ele publicava era objeto de análise do Santo Ofício. Trata-se de fato recente. Ele sentou na mesma cadeira na qual sentaram Galileu Galilei e Giordano Bruno, entre outros. Lugar no qual eram e continuam sendo julgados os inquiridos, no Palácio do Vaticano, onde está tudo exatamente como antes, inclusiva [na arquitetura] a famosa Sala de Torturas.”

“FREI BETTO: [O processo] até piorou, porque atualmente, depois do estabelecimento da infalibilidade do papa, nenhum réu pode ter direito à defesa; não se pode partir do princípio de que a autoridade eclesiástica errou. (…)

BOFF: (…)

FREI BETTO: Não pode pedir perdão?

BOFF: Não.

BETTO: Não pode se defender, constituir advogado…

BOFF: Não pode. Aliás, existe advogado, mas você não conhece. Você tem um adv. chamado advocatus pro autore, que não conhece, que com os cardeais faz o adv. do diabo, toma a minha defesa, mas não pode conversar comigo.

BETTO: Você pode falar ali?

BOFF: Não, só responder. E você (…) não sabe quem são os acusadores. Só conhece algumas perguntas; o cardeal é que tem todo o material, extenso, que é o documentário dele.”

AUTOR OTIMISTA! “Não obstante, graças à era da informação, aos poucos as pessoas estão se libertando desses grilhões e passando a pensar por conta própria, sem medo de questionar e nem de pesquisar.” “Só permanece na ignorância quem quer.” Kardecismo liberal: nojento! Com certeza apóia o homeschooling… Mirar diretamente o sol é o mesmo que a cegueira, senhor. Isso que eu chamo de tunnel vision: mesmo pessoas obscurantistas se crêem iluminadores em nossos tempos mesquinhos…

BLIOGRAFIA (alguns livros que me parecerem interessantes da seção final…)

4 livros de Kardec, malíssimo, malíssimo sinal!…

…

É, nenhuma das leituras me pareceu fundamental! Vade retro.

HISTÓRIA DAS IDÉIAS 4: HINDUÍSMO & FILOSOFIA OCIDENTAL: Um esboço

Esse artigo (contendo também anotações fragmentárias) visa a integrar os conhecimentos transmitidos pelos Vedas-Upanishads (livros sagrados hindus) com o conhecimento em Primeira filosofia (Metafísica no sentido estrito ou Filosofia Continental, abarcando autores de Platão (séc. IV a.C.) ao pós-estruturalismo francês dos anos 1960). O post poderá ser lido em conjunto com outros da categoria Religião e da subcategoria Hinduísmo já presentes no Seclusão e indexados no menu. Usarei The Roots of Vedanta, de Sudhakshina Rangaswami, como bibliografia principal para as citações dos textos védicos (traduzidos por mim do inglês quando necessário).

Os Upanishads (revelações comentadas) são a cabeça e os Vedas em si são o tronco da visão e conhecimento hindus; a correta leitura dos Upanishads, portanto, pode ser considerada a aquisição da consumação da sabedoria transmitida pelos textos sagrados antigos da Índia. Mal comparando, os Upanishads seriam como os textos dos Escolásticos sobre o Antigo e o Novo Testamentos (Santo Agostinho e São Tomás de Aquino como os principais); mas o paralelo cessa quando se entende que, para o praticante da religião hindu, os Upanishads são de quase tão remota origem quanto os Vedas e, apesar de reconhecidamente escritos por mãos humanas, de indivíduos considerados “gurus”, são tratados como texto sagrado, indispensável para compreender a elaborada natureza dos Vedas. Isso faz com que os Upanishads gozem de uma autoridade que a Cidade de Deus ou a Suma Teológica jamais gozaram no Ocidente, mesmo em face da Igreja Romana.

O fato fundamental dos escritos Upanishads é que eles reconhecem a característica de arbitrariedade e às vezes insuficiência da língua para transmitir idéias, compreensão básica da Lingüística moderna e o esteio principal de toda a bibliografia, por exemplo, de Ludwig Wittgenstein. Como a linguagem, a partir de determinado ponto, se torna inadequada para articular a experiência em sua essência, os sábios antigos do Oriente utilizaram o recurso da exposição de mitos e símbolos como alegorias de seus ensinamentos (paralelo com Platão), chegando mesmo à utilização de conceitos puramente negativos (Hegel), necessários para abordar as intuições que levam ao Absoluto.

Os Upanishads são a primeira fonte direta (śruti prasthāna) do oriental para a cognição da Realidade Absoluta. Há mais de cem Upanishads, de forma que o que se realiza aqui é apenas um esboço de introdução ao tema. Os dez Upanishads comentados pelo sábio Sankara são considerados os Upanishads clássicos ou mais importantes, aqueles que se deve tentar ler, caso não haja tempo para a leitura de todo o catálogo dos Upanishads. Os Upanishads, desde o início, não pretendem ser uma descrição literal ou hiper-concentrada de saberes, dogmas ou revelações, como a Bíblia. Dessa forma, não está organizado em versículos, mas em capítulos de prosa como os livros técnicos ou de ficção ocidental modernos em sua quase totalidade, aproximando-nos do olhar védico. O importante será a compreensão holística de todo o conteúdo ali apresentado, e não debruçar-se sobre uma sentença, procurando o significado de um vocábulo como aforismo ou sentença para a vida. O que interessa é a compreensão global pelo adepto. Fenômeno similar se dá com o estudante de filosofia, que adquire conhecimento aos poucos consultando os vários autores de primeira grandeza, para só então partir para os de segunda ou terceira grandeza, buscando conhecimentos mais específicos. Tampouco há uma ordem preestabelecida para a leitura: pode-se começar por qualquer Veda ou Upanishad. O aprendizado é cumulativo, cíclico e recursivo.

Afora o próprio binômio Vedas-Upanishads, o texto da literatura mais importante para Sankara, a maior autoridade sobre o assunto, é o épico Bhagavad Gita. É como se na Ilíada e Odisséia homéricas estivessem comprimidos toda a doutrina de Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Kierkegaard, Leibniz, Spinosa, Pascal, dentre outros. O Bhagavad consegue resumir os principais preceitos dos Upanishads e pode ser uma primeira leitura iniciática, ou uma leitura posterior, de reforço dos ensinamentos védicos.

A forma de trabalho da linha dos Upanishads é diametralmente oposta à do Bhagavad Gita, mas ambos atingem a mesma meta: os primeiros enfatizam a renúncia e meditação em Brahma como a disciplina espiritual que conduz à liberação; o segundo, poema-diálogo, ensina a trilha da ação desinteressada neste mundo, a prática do karma-yoga, evoluindo gradativamente ao mais espiritualizado inana-yoga, que pode incluir ou não a devoção a um deus antropomorfizado (objetivo do bhakti-yoga), abrindo, tanto quanto os Upanishads, o caminho para a liberação sem a prática da renúncia ascética. Alguns dos temas deste parágrafo são complexos e foram utilizadas expressões diretamente retiradas dos próprios textos sagrados. Por isso, entraremos em explicações mais detalhadas adiante, “quebrando” os vários temas em seções:

A trilha da ação desinteressada

Em última instância, a prática do karma-yoga equivale a princípios ocidentais como o enunciado de Friedrich Nietzsche “como filosofar com o martelo”. Em Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche, escritor alemão do séc. XIX, expõe seu “método destrutivo do pensamento”. Destrutivo não deve ser entendido de forma pejorativa. Como na frase acima “chegando mesmo à utilização de conceitos puramente negativos”, o “pensar destrutivo” nada mais é do que lutar contra preconcepções potencialmente nocivas adquiridas involuntariamente durante o processo normal de educação do ser humano. Através da aplicação do pensamento crítico sobre os valores herdados pelo homem ocidental, Nietzsche pretende pôr em questão algumas afirmações tidas como verdade que não passam, no sentido da filosofia, de “puras aparências”. Filosofar a marteladas nada tem de violento, ou mesmo de atividade corporal voltada ao mundo material em si: é, traduzida em outras palavras, a função do filósofo. Porém, Nietzsche escreve em um tempo que já carrega uma grande herança da Filosofia, diferente de quando Platão escreveu. Por isso, para ele, é fundamental desconfiar e reler os filósofos do passado, analisando-os filosoficamente, a fim de não acabar criando castelos de areia, isto é: a desvinculação do pensador a noções antigas e erradas deve ser priorizada em relação a “criar novos conteúdos deônticos (princípios éticos para a convivência humana)”. Ele estava aplicando o karma-yoga sem o saber. O karma-yoga é a meditação oriental que ensina a iniciar o caminho da renúncia das ilusões materiais.

Através dos fenômenos, experiências e aparências chegamos enfim àquilo que não é passível de ser pronunciado com suficiência de sentido (a Idéia de Platão conforme exposta n’A República). Quer dizer, o ioga é visto por grande parte dos ocidentais como um mero exercício de relaxamento, equivalente à passividade e inação. Esta é a “aparência enganosa” do ioga e do iogue (praticante). O próprio termo “praticante” levaria à conclusão imediatamente contrária, no entanto: ele pratica, ele age, o ioga é ação – contradição de sentido com a visão exotérica ocidental (vulgar, depreciativa) sobre o ioga. Ação que sufoca a ação através do controle da respiração.

Depois de compreender o ioga como ação, entretanto, é hora de compreender o ioga num nível ainda mais esotérico (de disciplina verdadeira): não como ação comum, mas como ações das ações. Esta assim num sentido novo é tanto oposta à inação ou renúncia conhecidas do público em geral como à ação comum do cotidiano. O que se faz aqui é exatamente o proceder dinâmico da filosofia de Georg Hegel, se tivermos que pensar não mais em Platão, mas no primeiro filósofo moderno de importância que podemos usar para nos auxiliar na compreensão do hinduísmo. Não é que o hinduísmo deva ser necessariamente analisado filosoficamente, nem a filosofia moderna “superada” ou sentida religiosamente pelo guru capacitado por Brahma, mas há essa constatação intermédia: as duas vias são o Um e o Mesmo. Tese (popular, concepções mundanas) – antítese (começo crítico do aprendizado de “filosofar com o martelo” ou do karma-yoga) – síntese (consumação, sabedoria efetiva, inana-yoga ou o conceito da Idéia de Platão em seu sentido mais elaborado).

A trajetória da compreensão pelo sujeito aspirante ao saber de que o mundo das experiências é nosso meio (nossa técnica) para alcançar o Absoluto: assim também pode ser resumido o karma-yoga. E alcançar o Absoluto no sentido carma-iogue é: compreender que participo de um destino em perfeita harmonia com todo o universo, me fundo com ele. A expressão karma, muito mal-utilizada no Ocidente, deve ser interpretada pelo estudante dos Vedas como destino, mas não na concepção clássica e fatídica de destino. Trata-se do destino sentido não como um peso ou castigo infligido ao indivíduo (compreensão popular de “carma”), mas como a leveza de espírito para a prática da ação responsável. O eterno retorno de Nietzsche buscava a mesma conclusão ética. O saber é sempre recursivo. Estou explicando estas mesmas equivalências pela terceira ou quarta vez no Seclusão Anagógica. Mas isso é uma virtude, não um defeito: a sabedoria é esse ir e vir pelos mesmos pensamentos, até solidificar o conhecimento adquirido. Eu aprendo enquanto ensino; não importa de onde parti, nem onde chego; percorro círculos; não importa se o leitor me lê pela primeira vez agora ou acessa esse texto depois de ler outras explicações anteriores (ou futuras). Ele se junta ao círculo seleto, aprende e também ensina.

A devoção a um deus antropomorfizado (bhakti-yoga)

“O caminho da devoção a uma forma pessoal de Deus abre as portas da liberação mesmo para aqueles incapazes de renunciar ao mundo (inquilinos do mundo).” Esta é uma citação de Sankara nos Upanishads. Ter fé numa entidade divina (religião significa re-ligare, entrar em fusão com) é uma das formas disponíveis para atingir a liberação védica, mesmo sem a disciplina espiritual mais rogorosa dos Upanishads, como ensina o Bhagavad Gita. Ao que se renuncia quando se diz “aqueles incapazes de renunciar”? Ao mundo? Sim e não. Sim no sentido das aparência enganosas, não no sentido de que não se renuncia à vida neste mundo, contanto que a vida neste mundo esteja ligada à busca da verdade mais profunda (o Absoluto). Há que prestar atenção na palavra inquilino. Nossa casa é o mundo, mas não somos os proprietários: estamos de passagem, utilizando uma vida cedida por empréstimo num todo maior.

Apesar da semelhança à primeira vista entre o bakthi-yoga e as religiões ou monoteísmos ocidentais, que são baseadas no culto a um Deus pessoal, a primeira vantagem do hinduísmo sobre o credo cristão (sempre citarei o Cristianismo pela sua maior popularidade e aderência no Ocidente, mas a rigor me refiro a todas as religiões de massa por metonímia) é que o hinduísmo não é um ateísmo, não é um monoteísmo e não é um politeísmo, apesar de ser todos os três ao mesmo tempo (aparências divergem das idéias). O caminho da devoção seria interpretado como “oração” ou “reza” no Ocidente. Está no limiar do que seria a passividade – ajoelhar-se, entregar-se, pedir socorro, etc. – e do que seria a atividade – executar um rito por volição própria, aliar-se ao seu deus, ser ativo na transformação do mundo ao se encontrar apto a transformá-lo, encarnando, representando ou se manifestando como, sendo carne e estando presente no mundo material, a vontade divina neste mundo –.

Em outros termos: ajoelhar-se (símbolo da submissão) e performar são sinônimos. Entregar-se, desistir, dar por encerrado, transferir a responsabilidade, ser o forjador de uma aliança, puxar para si a responsabilidade, iniciar a resolução de um problema concreto são também sinônimos. Pedir socorro e socorrer, ser o agente de alguém, representar algo maior do que a si mesmo são sinônimos. É natural vulgarmente separar todo fenômeno em “ação” ou “renúncia”, inação, como se viu na explicação introdutória sobre o ioga. Porém, as fronteiras entre essas categorizações arbitrárias são enganosas.

Indo além: renunciar ao mundo, seria uma ação ou uma desistência? O discípulo de Cristo, que no ato de se tornar discípulo distribui todas as suas riquezas para peregrinar com Cristo, não age? Aquele que renuncia ao mundo, não desiste da vida, se entrega, se anula? Ambas as perspectivas estão corretas. Covardia ou coragem? O debate ou simpósio entre ambas as alternativas seria eterno e inconclusivo. Há aqueles formatados para o que o mundo chama de ação; há aqueles formatados para o que o mundo chama de inação. Todos são, não obstante, homens, e muito mais parecidos em essência do que revelam as simples aparências. Assim como o ioga pode ser ação, inação, o que é ação e inação e o que não é ação nem inação ao mesmo tempo, o mesmo se aplica à intervenção militante no mundo. Cristo é reconhecido por qualquer cristão, do papa ao mais tímido e “ignorante” dos fiéis, tanto como aquele que disse: “Dai a César o que é de César, meu reino não está neste mundo”; como aquele que militou fervorosamente (veja o advérbio), com bastante ênfase e barulho, no seio do judaísmo: curar os doentes, ensinar a verdade, acusar os fariseus, destruir ídolos, arregimentar um exército de apóstolos. Portanto, tanto o reacionário político quanto o comunista clássico da guerra de guerrilha poderão dizer, com acerto, tanto que:

a) Cristo era, mesmo que de carne, Deus ou o Espírito Santo (mistério triplo, imagens que não correspondem às idéias), a manifestação ativo-passiva (tanto faz) de Deus, o Único, na Terra, com “destino selado”, ao mesmo tempo que dirigente autônomo das próprias ações, para o cumprimento final da Palavra e do Evento. Em última instância, a apologia mais completa de tudo que aconteceu, acontece e acontecerá. O pregador da doutrina de que “não importa o Estado, nos preparemos para o outro, o verdadeiro Reino”.

b) Cristo foi o comunista consumado. Revolucionário, transformador, ativista-modelo para a humanidade póstuma. Mártir, lutou por um futuro melhor para seus camaradas, derramando sangue para que seus filhos pudessem sorrir, viver a vida, sem carregar nenhuma cruz. Um libertador das condições materiais opressoras, desafiador de César e do templo dos hipócritas, instaurador de boas-novas, de uma nova verdade, de novos valores. O mundo se divide em dois, afinal – como negá-lo? Antes de Cristo e depois de Cristo; pelo menos pode-se generalizar dessa forma contanto que não levemos em conta a Ásia. (Curiosamente, de onde vêm os três reis magos? Do Oriente. Folclore popular que se integra com o que existe no Novo Testamento.)

Renunciar ao mundo não é nem uma ação nem uma renúncia, no sentido vulgar. Cristo não foi nem um corajoso herói nem um herege tumultuador e covarde. Ecce homo: Eis o homem. Cristo foi um homem. A única unidade entre esses pólos fictícios que traçamos é nossa própria condição e convivência no mesmo planeta.

A esse ponto, já ficou muito claro, após uma exposição tão numerosa em exemplos, que não importa a estrada, a esotérica (erudita) ou a exotérica (popular), a crença num panteão, num Deus único e supremo, o panteísmo ou o ceticismo extremos, o acolhimento do budismo ou do ateísmo clássico no seio da modernidade pós-Revolução Francesa (a negação do Deus cristão, que após Jesus Cristo, para os fiéis, nada quer dizer para o indivíduo senão “condenar-se ao inferno”)… Todos os caminhos levam ao mesmo caminho, ao mesmo ponto de chegada. É claro – no hinduísmo, a religião mais antiga e perfeita, completada, este caminho é explicado, e desde o Bhagavad Gita foi ensinado o método mais econômico para percorrê-lo.

Seja pela compreensão e estudo aplicado dos Vedas em alto nível de abstração, seja pela crença popular nos avatares de Brahman, o hinduísmo permite o ecumenismo: quem desejar segui-lo poderá atingir o mesmo efeito (em última instância, a fusão com Brahman, a renúncia ao mundo ou a completa inserção no mundo, no real, conforme o próprio indivíduo interprete e descreva o próprio credo). A velha polêmica (tão recente, se comparada com todo o sistema hindu!) entre Calvino e Lutero sobre a salvação via fé ou via obras é uma bobagem, uma dialética de boteco entre os dois mais importantes cristãos da Europa do período reformista.

Para voltarmos ao hinduísmo: As portas da liberação são abertas, sem olhar a quem. O ser humano é um inquilino no mundo. Ou antes: o corpo é o inquilino da alma, que é Brahman. As aparências estão de passagem no seio do Absoluto, que as contém e retém e é o dono do espaço que elas ocupam. Toda morada é temporária, por isso a expressão inquilino: nosso corpo não é o dono do imóvel. O homem é, apesar de tudo, nômade, no sentido espiritual, mesmo o mais sedentário: ele chegou e irá partir. Enquanto mero indivíduo, é um ser provisório.

Pensando na expressão inglesa usada no Upanishad traduzido naquela língua, o house-holder, o chefe de família ou dono do seu lar, no sentido empregado na frase, é o meu inquilino, é o corpo e não a alma. Como posso estar tão certo, pois, de traduzir desta maneira? No próprio inglês haveria um termo muito mais inequívoco para descrever um house-holder que não é apenas um sujeito de ocasião (um inquilino, que mora no mundo apenas de aluguel, no sentido cotidiano). Este termo é o landlord, “aquele que aluga para os outros”. O único landlord num sentido metafísico (e quem é Senhor da terra é Senhor do tempo e de tudo que ambos contêm) é Brahma. Mesmo Vishnu e os outros deuses-avatares da hierarquia hindu, e abaixo deles os sábios inspirados que escreveram, sistematizaram e interpretaram os Vedas numa linha sucessória, são apenas manifestações de aluguel, procuradores (no sentido jurídico daquele que representa) do Um. A explicação, pelo menos para mim, é muito mais intelectiva, simples, que o mistério da Santíssima Trindade, e nem por isso o hinduísmo deixa de ser uma religião, isto é, vira apenas um sistema de regras e saberes secular (por não conter mistérios que não podem ser revelados). Toda religião tem seus mistérios, é um sine qua non (condição de existência de uma religião). Os do Cristianismo, entretanto, podem e devem no mais longo prazo levar à vertigem, à estupefação e a uma incompreensão completa e duradoura.

O hinduísmo, pelo contrário, é explícito e honesto: enquanto alguém que não crê em Cristo é sempre alguém que não crê no Deus-Pai (e vice-versa) conforme o cânone cristão, um hindu poderá dizer: eu só acredito neste mundo, no meu lar e em minha família; isso não “interessa” a Brahman (trilha da ação desinteressada). Caso siga sua crença aparentemente simplória da maneira correta, este hindu (consciente ou inconsciente de sê-lo) entenderá eventualmente que tudo (sua casa, sua família, seu mundo) é real, e que, no entanto e apesar disso, tudo isso é Brahman, oriundo de Brahman. Não crer no ‘divino’ ou crer demasiado no ‘divino’ são uma e a mesma coisa para o hinduísmo: seja um indivíduo como Platão, seja um venerador público de Vishnu, seja um venerador secreto de Indra, seja um ‘venerador’ ou venerador de Brahma… (Quem põe as aspas? Responde-se à pergunta mais adiante.) Se ele sabe quem é Brahma, as portas estão abertas para ele. Brahma é apenas uma palavra.

A evolução transcendental ao inana-yoga: estar-com-Brahman

Quem acredita em Brahma como um colega-acima-dos-outros, que vive em relação com eles, sendo um outro para eles, diferente, como por exemplo Zeus para os outros deuses gregos ou o general para seu exército, é um herege, herege no sentido absoluto do bramanismo (hinduísmo), pois não é isto que Brahma é (malversação das escrituras). E no entanto, Platão, que viveu sob a religião ateniense, e não hindu, onde Zeus presidia, onde Zeus como primeiro-acima-dos-outros-deuses era a única norma sancionada, e pré-requisito da conservação da cidadania na polis (cidade-Estado de Atenas), sem nunca negar explicitamente a mitologia grega, chegou à Verdade, “apenas” trocando as palavras.

Aquele que jejua hipocritamente, ritualiza apenas teatralmente e diviniza ou amaldiçoa erradamente (não chega a Brahman embora pareça ser do credo de Brahman; amaldiçoa em verdade o mundo, que é Brahman, enquanto alega que o faz por Brahman, não entendendo o vínculo entre aparência e Verdade), esse alguém não compreendeu Brahman, então não importa que seja um devoto no sentido clássico ou popular (um asceta que se conduz de modo perfeito no exterior). Pois este que desrespeita tanto a casa em que mora de aluguel quanto as portas da libertação da frase traduzida acima, a única verdade é que se encontra fora da doutrina hindu, condenado à eterna imanência. E este que respeita sua moradia passageira e conduz-se às portas de Brahman, é Um com Brahman. E é impossível desrespeitar a casa (alegoria para o mundo material) respeitando o que é mais importante que o material ao mesmo tempo (pois a “casa” é a via de acesso ao que é invisível, a senda espiritual), como é uma situação impossível desprezar as portas da liberação, a Idéia, ao passo que respeita concomitantemente as aparências. (Respeitar as aparências não é ser materialista – é tratar aparências como aparências! Respeitar é entender.) Não! Não existe distinção final ou factual entre corpo e alma, entre casa e portas supremas, do ângulo hindu: ou se está com Brahman, ou não se está com Brahman, de corpo e de alma.

Estar-com-Brahman é um conceito, portanto não pode ser determinado por um observador externo, o mais zeloso: não é uma opinião, não é aparência. O conceito é Idéia. Que segundo os outros homens alguém esteja ou não com Brahman, e pratique ou não o bramanismo, isto é indiferente no tocante à vida deste homem determinado (e à resposta para a pergunta: ele está com Brahman?). Pois as aparências enganam, e enganam todos os observadores do sensível sem exceção. Enganam até quando enganam ou “não enganam”: o asceta hipócrita, o asceta legítimo, o homem conhecido por seus pares como mau, o homem conhecido por seus pares como bom, todos estes são aparência, mas quem haverá de dizer se correspondem ou não em essência? Quem determina com infalibilidade a hipocrisia? Quem está acima do conceito de legitimidade, de bem e de mal? Quem no mundo das aparências não é apenas joguete dessas noções humanas, demasiado humanas? Quem será o juiz temporal da transcendentalidade de um ser?

O cristianismo cavou a própria cova quando erigiu a Igreja, matéria-carne que proclama o monopólio do espírito. É a infância do ser humano em forma institucional: comete os erros mais fundamentais a respeito das aparências e do caminho ao mundo-verdade. E quando a religião definhava e foi reformada, os juízes saíram das igrejas e se instalaram por todo o mundo debaixo do céu, como câmeras de vigilância de um panóptico da Torre de Babel, tão onipotentes quanto inúteis, pois os reformadores, tanto quanto os iniciadores, não reconheceram o mesmo princípio universal exposto pelos Vedas: não há juízo temporal da transcendentalidade alheia. Não se julga do sagrado (verdadeiro) com opinião (aparência). Ninguém nega boas intenções onde há. Ninguém nega má-fé onde há. Mas no caso do Ocidente as boas intenções dos tradutores, disseminadores e pastores, “democratas do espírito”, geraram o mesmo mal-entendido que a má-fé pura: povoou-se o mundo de sacerdotes, em vez de eliminá-los, tal qual o bramanismo, que já nasceu onisciente e infalível por um simples motivo: é uma religião sem sacerdotes, que proíbe o sacerdócio sobre os outros. É por isso que a origem dos Vedas é tão remota que só pode ser falada em termos de fábulas, mitos e lendas, pois o que já não fosse transcendental a partir de sua estada-no-mundo não poderia gerar transcendência. Indivíduos não autorizam (no sentido tanto de autorização quanto de serem os autores) religiões.

A impossibilidade da divinização do indivíduo e de provar o sagrado: Por que o Ocidente precisa do Oriente

O mundano só existe “em-transcendência”, não é possível tratar uma Revelação como aparência, experiência derivada dos cinco sentidos – mesmo os eventos geradores ou supostamente geradores de transcendência que se localizem após a pré-história (i.e., numa cronologia humana consciente) são fabulosos: Cristo existiu? Onde ele foi crucificado? Qual era sua aparência (ironia tríplice)? Quem hoje tem parentesco mais próximo com ele? Ele ressuscitou? Por que ele ressuscitou em segredo diante de seus mais próximos e de Maria Madalena, e não diante de toda a cidade, de toda a colônia, de toda a civilização romana (a mesma pergunta da crônica esportiva: por que ele não calou os críticos?)? Por que milagres não são fatos científicos (ambos são conceitos mutuamente contraditórios)? Por que cada apóstolo conta um evento de forma diferente, tendo Cristo no mesmo instante pronunciado algo distinto conforme a testemunha?

Porque não seria fato gerador de uma religião de massa nada que não suscitasse tantas perguntas sem resposta! Somente havendo tantas dúvidas sobre a identidade ou mesmo a existência de Cristo é que foi possível tornar fascículos sabidamente escritos pelos homens chamados X., Y., Z. e K., depois reunidos necessariamente em uma outra geração por outro homem que jamais conheceu Cristo a não ser por relatos, Paulo, ele mesmo santificado (num tempo em que santificavam pessoas apenas após a morte; é constrangedor ter de incluir essas ressalvas entre parênteses!), somente por toda essa via errática é que o Cristianismo pôde nascer como uma fé (fora da História, embora ‘na’ cronologia histórica). Tudo isso apenas gerará pano para manga enquanto coserem-se hábitos, surgirem panos com manchas misteriosas para movimentar discussões vãs e enquanto átomos não puderem ser fotografados.

Um exemplo de por que não há novas religiões a partir da modernidade, nem pode haver: Napoleão Bonaparte gerou partidários, admiradores e fanáticos, mas não uma religião. Quem sabe em outro milênio uma figura tornada finalmente mitológica chamada Napoleão, de quem pouco se sabe de concreto, venha a inspirar um novo credo transcendental, o Napoleonismo! Não, porém, enquanto houver uma foto de Napoleão ou o sentido de fotografia não recair novamente no mitológico (esquecimento da técnica fotográfica, tratamento da evidência da imagem como produção sobrenatural). Insisto sobre o sentido de ‘fotografia’ como ícone moderno da palavra chamada ‘prova’ e do método científico, consistente em ‘provar uma série de fenômenos’, visto que pretendo voltar ao assunto no próximo subtítulo.

Mas isso – a divinização no sentido autêntico de Napoleão – seria impossível para a França que tanto sabe sobre ele, para o Ocidente inteiro agora, historiograficamente informado sobre o indivíduo Napoleão Bonaparte, objeto de inúmeros tratados políticos e biografias científicas. O pior tirano imaginável sobre a Terra não poderia fundar uma religião à força e ser bem-sucedido; mas uma miríade infinita de tiranos de esquina poderia se perpetuar no poder firmemente falando em nome do deus estabelecido – o que evidencia a diferença infinita entre a esfera do transcendente (Brahman) e o poder terrenal (mundo de César). De fato, o Ocidente se tornou tão desconfiado que a própria noção de Deus em sua cultura vive no fio da navalha, e seguirá se complicando cada vez mais, enquanto o Ocidente for Ocidente, e não uma cultura nova e reoxigenada, alimentada pelo intercâmbio cultural com o Oriente, o único lugar do universo que hoje pode ressuscitar o sagrado da outra metade do globo mortificada e anestesiada, mundanizada.

Aplicação do anteriormente estabelecido às contradições da ciência pós-moderna (reino da não-filosofia)

“…enquanto átomos não puderem ser fotogrados”: retomaremos este trecho como um exemplo prosaico da transcendentalidade de todo o mundano fora do próprio tema religioso: é fisicamente impossível, e isto foi declarado pela própria Física, que o principal objeto de estudo da ciência chamada Física seja fotografado, ou, de forma ainda mais astuciosa podemos dizer, no lugar de fotografado: comprovado (requisito mínimo da cientificização de um conhecimento, qualquer que seja ele). Este fracasso é a razão precípua de dizermos que “as ciências exatas estão em crise”, e de essa crise ser administrada – e sem dúvida ao longo de muitos séculos ainda por vir continuará sendo administrada, o que significa “adiada”, ou “não-resolvida” – desde há não muito tempo pelo inteligente expediente da troca da denominação “exatas” por “naturais”, o que certamente dissipa ao menos parcialmente o constrangimento, o escândalo e a sangria mais explícitos que ocorreriam, tendo em vista a denominação antiga (o que é exato pode ser totalmente definido, sem lacunas), caso contrastassem diariamente o termo exato ou hard com a patente inexatidão atual do conhecimento técnico Esta inexatidão não decorre de erro ou incompetência. Este “fracasso” não é, do ângulo científico, um fracasso: ele é conseqüência natural e direta do grande sucesso da aplicação do método científico por um par de séculos. A inexatidão das ciências naturais é conseqüência inevitável de seu enorme e vertiginoso progresso.

Nos tempos áureos da ciência moderna a “tradutibilidade” dos conhecimentos tecnológicos era ampla. Todo o conteúdo das ciências clássicas está bem-explicado em livros-textos escolares atuais. Porém, os novos conhecimentos derivados do método científico em crise, no que chamo de decadência da ciência moderna ou sua fase pós-moderna, não são comunicáveis ao grande público com a mesma facilidade, pois os dados não são mais o que costumavam ser, e é preciso refundar o conceito de lógica (hoje tributário de Aristóteles, i.e., lógica formal, mas não a única lógica passível de existir) para acomodar resultados de observações e experimentos, vd. física quântica. E é exatamente por isso que as pessoas leigas ficam cada vez mais insatisfeitas com os resultados divulgados como conquistas das ciências, e que cientistas não dão entrevistas em grandes jornais, porque há uma longa cadeia de pessoas que precisa processar e filtrar a informação emanada pelas maiores autoridades em determinado assunto, reformatando a informação para que ela seja recebida pelo grande público em palavras – finalmente para ele – compreensíveis. Talvez os últimos eventos a capitalizarem grande parte da atenção mundial (sem necessidade de conhecimento técnico sobre fabricação de foguetes ou as propriedades dos átomos instáveis usados em bombas nucleares, seja por parte dos jornalistas e comunicadores ou do cidadão comum) tenham sido a criação da bomba atômica e a aterrissagem do homem na Lua.

A quem se pergunta, “compreensíveis” acima significa, no sentido mais sincero possível, que, na verdade, nada de significativo está sendo dito ou veiculado, e talvez devêssemos agradecer por isso, se pensarmos exclusivamente na preservação de nossa saúde mental em uma sociedade tão complexa, e se desprezarmos o outro lado da questão e que é a pior parte de tudo isso, ou seja, que evidências socialmente verificáveis não cessam de indicar que um público necessariamente cada dia mais ignorante passará a exibir comportamentos negacionistas de manada mais e mais aleatórios, ridículos e perigosos – sem que se conheça por ora o limite macabro desta “torção cognitivo-coletiva” –, recusando-se um grande número de indivíduos, por exemplo, para nos restringirmos à época atual e não sucumbirmos à tristeza tentando prever o que virá a seguir, a tomar vacinas que facilmente previnem doenças graves e que são muito transmissíveis, a ponto de que os próprios cientistas de “médio escalão” poderão estar mais e mais sujeitos a esta mesma lei (da involução cognitiva pari passu à evolução do compartimento das ciências em múltiplos e pequeníssimos nichos mais e mais “intraduzíveis” ao cidadão comum), havendo alguns que, não por charlatanismo nem qualquer intenção de ganho pessoal, repercutem os mesmos discursos de manada, genuinamente convencidos por ele, até que num dia não muito distante os físicos, biomédicos e bacteriologistas mais especializados em seus sub-sub-sub-ramos (previsão:) venham a se encontrar mais isolados de qualquer contato humano que K., o agrimensor do livro O Castelo, ponto em que já não haverá possibilidade de retorno (fratura do campo científico como jamais se viu, mesmo durante a sofrida transição da opulenta Idade Antiga para a fervilhante Idade Moderna). Corre-se o risco do turismo espacial se tornar realidade simultaneamente a quebras de recordes para a resposta ‘sim’ em enquetes como “você acredita que vive num mundo que tem o formato de um tabuleiro?” (obviamente que até lá a palavra usada não será tabuleiro, pois esse termo tão complicado terá caído em desuso), e o risco conseqüente de que esse contraste absurdo nada cause em termos de convívio social, pois cidadãos dos espectros mais afastados coexistirão harmoniosamente dentro de suas culturas e subculturas (cada qual enterrado e cem por cento esterilizado em sua própria bolha inexpugnável, chamando tudo o mais de falso e conspiratório, já incapaz, porém, de se incomodar de verdade com isso, apenas reproduzindo comportamentos automáticos como dizer no elevador que “parece que vai chover” ao negar a eficácia de vacinas). Essa situação não mudará caso estejamos falando de colegas de trabalho, roommates ou parentes próximos ou ainda marido e mulher situados em campos extremos e opostos (imagine o casal: um é funcionário de agência espacial e outra uma atleta que vem se preparando para a expedição de exploração das cachoeiras infinitas das bordas do tabuleiro terrestre).

Recuando um pouco, tudo isso é a razão precípua, ainda, da filosofia ser a mãe de todas as ciências mas de forma nenhuma nem sequer uma meia-ciência (ou seja, um título honorífico), porque ela fala do transcendental, que o mundo moderno aprendeu a considerar não só inecessário como até mesmo inexistente ou indesejável caso existisse, em vez de vital. Dada a própria natureza indeterminável do objeto teórico ‘átomo’, vulgar “menor partícula da matéria”, que na verdade nem é matéria, podemos dizer que toda a decadência do saber transcendental no Ocidente é, ironicamente, uma questão de lógica da mais rapace ou degradada.

Por outro lado, que se pense na implicação do átomo como partícula dual é já um sintoma de que mundo das aparências (a matéria, o real, o perceptível) e a verdade invisível que rege sobre ele (ser duas coisas ao mesmo tempo, cientificamente validado) estão se aproximando, e não se afastando inequivocamente. Somos matéria; somos átomos, sem dúvida. O átomo é um (excelente) modelo, não pode ser provado, significando que nós mesmos, que sabemos que existimos enquanto aparência, átomos que somos, pressentimos que somos, embora também átomo e matéria, algo mais, que não conseguimos definir com palavras, i.e., opera-se uma crescente necessidade de revitalização do transcendental, muito lenta e imperceptível para os desatentos, mas cujo mecanismo é similar ao desenvolvimento da Filosofia Continental e à doutrina contida nos Vedas-Upanishads.

Trocando em miúdos, em uma sociedade em que todos andam com uma câmera no bolso, capaz de registrar “coisas” instantaneamente, a fim de convencer os ausentes de coisas improváveis (via sentidos), desconfiamos da própria realidade dos entes, da própria acepção das palavras prova, coisa e fotografia. Duvidamos do que está aí, presente, e por uma questão até de sobrevivência cada indivíduo-coisa se vê, embora não veja (a realidade imaterial), obrigado a perguntar por sua própria essência e considerar o que não está aí para nenhum dos cinco sentidos, procurando um sentido metafísico para sua existência e presença, um caminho que seja, diferente do caminho das coisas (método científico, experimental ou positivista, o caminho não-filosófico ou irreligioso e o modo completamente mundano da existência).

Conclusão da tese: hinduísmo e filosofia continental como duas versões da Verdade revelada

E no entanto, a despeito da superioridade metafísica do hinduísmo, percebida tautologicamente apenas pelos próprios adeptos do hinduísmo, o mundo segue seu curso histórico sem nenhuma modificação fundamental até agora quanto à dimensão de alcance e prevalência das grandes religiões. A despeito da fraude autodemonstrada da religião cristã, a humanidade está e é livre para ter sacerdotes. Se no Oriente, por hipótese, o povo viesse a desejar de forma inédita o sacerdócio em nossos moldes, haveria o sacerdócio! Haveria a hipocrisia, e, aliás, há a hipocrisia entre “hindus” como há dentro de qualquer outro credo (e como os outros credos apresentam seus Platões, brâmanes inconscientes, i.,e., os praticantes honestos).

O que se pode afirmar, percorrendo a História, entretanto, é que o hinduísmo prevalece internamente imutável – sem necessidade de um movimento ou clamor popular por uma reforma nas práticas e nos escritos dos Vedas –, uma vez que como ele é e como ele está, ele conduz à Idéia, à Verdade, a Brahman. Já os pressupostos das religiões monoteístas que conhecemos não resistem a uma análise bramânica ou filosófica pós-moderna, i.e., o próprio Ocidente veio a negar sua religião (suas religiões) em tempos relativamente recentes. No Oriente, semelhante acontecimento ‘mundano’ não teve lugar. Nele, filosofia e religião são Um só. Entre nós verificamos dolorosamente o contrário, e a dor é mútua e equivalente: a dos Escolásticos (quando a religião se dizia a própria filosofia, hoje extintos) e a dos sábios laicos, em voga, momento definidor em que a filosofia emancipou-se e após caminhar certo tempo com as próprias pernas descobriu sobre a calamidade da morte de Deus – Nietzsche em Gaia-Ciência – e sobre a inevitabilidade do transcendental da condição humana – O Mundo como Vontade & Representação, Assim Falou Zaratustra –, logo, tragicamente, no momento em que via essa mesma transcendentalidade escorrer pelo ralo – o Ser e Tempo de Heidegger, etc. –, cenário este que, a filosofia pós-moderna o sabe, inviabiliza a própria continuidade da filosofia e, destarte, da vida.

Esse texto foi um retrabalho das anotações feitas durante a leitura do livro indicado no primeiro parágrafo, Rangaswami, The Roots of Vedantha, e a síntese e principais aspas desta obra serão publicados posteriormente no Seclusão.

[REPRISE+ACRÉSCIMOS] #TRANSCENDER18 O ESPÓLIO DE F. NIETZSCHE, OU AS QUEIXAS DE RAFAEL, OU 19 DIAS DE SABEDORIA, OU AINDA: JOGANDO LIMBOBOL.

Originalmente postado em 11 de agosto de 2009. Com adaptações e ampliações para constar no Seclusão.

“A partir de um sistema de forças determinadas (…) não pode resultar um NÚMERO INCONTÁVEL de situações.” O eterno retorno. O fim é já o começo. Não existe morte. consultar a página da “nova concepção de mundo” do Der Wille zur Macht (“número máximo de combinações”, “dado”, etc.). Este dado ainda será melhor trabalhado no parágrafo abaixo subtitulado O PARADOXO DA PEDRA NO RIO DE HERÁCLITO.

O que implica – ou, antes, o que determinou – a moda de fim de séc. XIX chamada espiritismo-kardecismo? Que não há o indivíduo, tudo são impulsos nervosos. Buckle¹ (não falo do cinto sem fivela) e sua nova-velha doutrina da imortalidade da alma. Mas ei! A moeda maussiana (Marcel Mauss), o hau, é ela mesma espiritismo. Ele sempre esteve em voga entre os ágrafos. Os mortos nunca evadem nosso plano: melhor dizendo, eles nunca morrem.

¹ Trata-se de Henry Thomas Buckle (1821-1862), historiador de segunda linha. Trecho esclarecedor da wikia: “On 1 April 1859, Buckle’s mother died. Shortly after, under the influence of this ‘crushing and desolating affliction’, he added an argument for immortality to a review he was writing of J.S. Mill’s Essay on Liberty. Buckle’s argument was not based on theologians ‘with their books, their dogmas, their traditions, their rituals, their records, and their other perishable contrivances’ [claro, porque só o que nós inventamos é eterno!]. Rather he based his argument on ‘the universality of the affections; the yearning of every mind to care for something out of itself’. Buckle asserted ‘it is in the need of loving and of being loved, that the highest instincts of our nature are first revealed’. As if reflecting on his mother’s death, Buckle continued that ‘as long as we are with those whom we love …, we rejoice. But when <the enemy (death)> approaches, when the very signs of life are mute … and there lies before us nought save the shell and husk of what we loved too well, then truly, if we believed the separation were final … the best of us would succumb,(*) but for the deep conviction that all is not really over, we have a forecast of another and a higher state’. Thus, Buckle concludes, ‘it is, then, to that sense of immortality with which the affections inspire us, that I would appeal for the best proof of the reality of a future life’. § He also said, ‘If immortality be untrue it matters little if anything else be true or not.’”

(*) Na minha opinião, não passa de um garotinho da mamãe necessitando de uma justificativa para viver. E vê-se que não viveu muito (sem ela)! Ele era um grande enxadrista. E todos sabem que enxadristas são burros socialmente. A mesma ingenuidade pueril, a mesma má-fé intelectual de um Miguel de Unamuno… “Já que assim eu quero, TEM de ser!” A filosofia não aceita esse tipo de egomania – mas como poetas decerto seriam ótimos!

Mais uma curiosidade, na mesma página, o perfeito contraponto dessa patifaria toda: “The paranoid narrator of Fyodor Dostoevsky’s Notes From Underground discusses Buckle’s theories: ‘Why, to maintain this theory of the regeneration of mankind by means of the pursuit of his own is to my mind almost the same thing . . . as to affirm, for instance, following Buckle, that through civilisation mankind becomes softer, and consequently less blood-thirsty and less fitted for warfare. Logically it does seem to follow from his arguments. But man has such a predilection for systems and abstract deductions that he is ready to distort the truth intentionally, he is ready to deny the evidence of his senses only to justify his logic. I take this example because it is the most glaring instance of it. Only look about you: blood is being spilt in streams, and in the merriest way, as though it were champagne. Take the whole of the 19th century in which Buckle lived. Take Napoleon—the Great and also the present one. Take North America—the eternal union (an ironic reference to the ongoing American Civil War). Take the farce of Schleswig-Holstein. . . . And what is it that civilisation softens in us? The only gain of civilisation for mankind is the greater capacity for variety of sensations—and absolutely nothing more.’”

Descobri que eu não guardo os elogios que me fazem.

“A imensa expectativa quanto às relações sexuais estraga nas mulheres o olho para todas as outras perspectivas” Incel Nietzsche?

“O estilo deve ser adequado em vista de uma pessoa bem-determinada, com a qual tu queiras te comunicar” Ora, se não estou tendo isso AGORA! A questão é: UM ou vários? Pode ser VOCÊ?! Como que um eu acima de mim, embora quase intragável de tão platônico. Mas você não é uma pedra fixa…

(Na escrita) O oral antes do escrito (CRUCIAL): “Porque ao escritor FALTAM muitos MEIOS do conferencista” – eis o que procurava! É benquisto explorar entonações, gestos, meras interjeições, que afinal no falar são tudo! (2023: Grande conselho para a estilística – sempre modificamos o texto final ao lê-lo em voz alta. Itálicos, negritos, sublinhados também ajudam, além da pontuação. Não me recordo onde o li, mas um autor disse que excesso de grifos num texto era comportamento aparentado à loucura – o escritor é um louco, tem de ter sintomas neuróticos, ou não desempenha direito seu ofício!)

Devo escrever frases mais curtas. Porque sou muito RETICENTE no oral (não vá confundir – isto é, vindo de alguém quem teria muito a dizer e não pode). Meus textos técnicos (resenhas filosóficas ou de games, p.ex.) possuem períodos mais longos, com mais interpolações. A técnica não está errada, faz parte do meio e da comunicação profissional desejada. Meus textos literários, no entanto, seguem a lei dos períodos curtos e significativos (lei da condensação).

“O perigo do sábio está em se apaixonar pela irracionalidade.”

O sábio deve apenas namorá-la, não casar.

“eu menosprezo mais o louvor do que a crítica”

Aquele que é mau está bem com o mundo. Como se pode ser feio e defeituoso e não ser mau? Eu não sou feio ou defeituoso, mas tenho um cálice de dignidade que beira o transbordamento. Eu gosto de ir ao Conjunto Nacional comprar cuecas e jeans (hábitos de filósofos para quem sair na rua já é se aventurar)…

EU E O OFÍCIO DE LER

“O que mais gostamos de fazer gostaríamos que fosse considerado como o que acaba sendo o mais difícil para nós”

Inclusive eu gosto mais de ler do que escrever, tomando o aforismo como exato!

“Nós fazemos também na vigília o que fazemos no sonho”

Jogamos o jogo da vida, nos perdemos, nos pomos furiosos com pessoas (o que tem acontecido ultimamente nas madrugadas… 2023)

“Os criativos são os mais odiados”

“De tempos em tempos é preciso deixar suas virtudes dormirem”

Agradecer nossas maiores falhas! Exemplos antigos, da década retrasada: A desobediência militar; o Pinho-Sol que me obrigaram a ingerir (não, me desafiaram a ingerir) na festa de calouros das ciências sociais/UnB (e eu joguei o jogo do desafio, e ri por dentro enquanto os mesmos que mais haviam “botado pilha” eram os mais desesperados em me fazer vomitar o pequeno gole dado, não, provavelmente, por se preocuparem com minha saúde, mas com punições posteriores de que pudessem ser vítimas). O porre da M. (quando somos imaturos, bebemos, ofendemos nossa ex-namorada ou objeto amoroso e depois nos arrependemos). Os ciúmes doentios dos primeiros relacionamentos. Nunca ter trabalhado. (Tenho imensas saudades dessa virtude anotada em 2009! A verdade é que já havia trabalhado, mas sem receber dinheiro em troca! Um “uber driver primitivo”: cansado e desmonetizado! Redações porcas de jornais, agências incubadoras cheias de publicitários playboys, a reencenação de Mad Man, Brasília, séc. XXI… E ainda tinha de pagar a passagem de ônibus…)

Por outro lado, virtudes que nunca desliguei, pois não são do meu feitio: nunca traí.

Dois medíocres não se entendem (tampouco um sábio e um medíocre). (2009: Mário como figura-síntese do que se deve evitar como interlocutor. Thomas: outro que escuta mal, talvez faça bem falar-lhe qualquer coisa, assim que nos livramos dos mais chatos.) (2023: R.K.)

Proveito próprio + paixão = egoísmo. Ora, eu sou a pessoa que merece o meu amor! Não sou pobre em amor! E isso custa caro, se se entende o trocadilho.

“Tudo o que é longamente pensado se torna problemático”

“Quem quer se tornar um líder dos humanos precisa querer ser por eles considerado um BOM tempo como o seu inimigo mais perigoso” Na política contemporânea isso cai como uma luva, do Brasil à China, passando pela Europa (que agora abraça o fascismo em bases mais duradouras do que nunca). Há até aqueles líderes que são odiados a vida inteira e adquirem seu novo status apenas post mortem (Che Guevara, Fidel Castro, Stalin…).

Outra grande característica minha: detesto ser (romanticamente) amado. Jamais rastejei quando foi assim. Veja: quando foi algo centrípeto unilateral (não-correspondido, ainda que interessante), não lembro de ter movido uma palha – desprezei, mesmo. É que é raro. O homem de hoje sente-se impelido, forçado, obrigado a embarcar, a ceder, não tem vontade própria.

“Jesus de Nazaré queria ser o aniquilador da moral” – trágico.

“Ver as naturezas trágicas e ainda conseguir rir é divino” – “Como podes rir dormindo?”

DO MISTERIOSO AFORISMO TRAGICÔMICO PÓSTUMO DE NIETZSCHE:

Do macaco de si mesmo

“Em torno do herói tudo se torna tragédia; em torno do semi-deus – tudo sátira”

Por muito tempo, mesmo depois da publicação deste post em 2009, eu meditei sobre esse aforismo, que não tinha entendido. Podemos evocar a famosa frase de Marx para nos ajudar a explicar. Mas eu ainda diria mais: a) nosso mundo não tem mais heróis, não tem mais o caráter heróico; tem, sim, a necessidade antropológica mesmo, do homem superar o homem; antes que substituir o deus morto seja uma realidade, o grau máximo que pode ser descrito é uma figura, a do semi-deus. Ele é um Zaratustra que aprendeu a rir de si mesmo. Tragédias são coisas do passado. Não há lugar para Édipos na atualidade; b) pode ser apenas um comentário psicológico, despido de qualquer historicidade, e por isso nem Marx se aplica: depende da seriedade do próprio personagem, e com que gravidade ele enxerga a própria biografia. Mas por que “semi-deus”? Num mundo em que deus está morto, ter sido herói, ser um sábio, já é estar semi-morto. Não vale muita coisa. Quem deixou de ser herói e com isso não se tornou um vilão, não degenerou completamente… ainda tem o aspecto exterior de um bufão. E onde já se viu palhaço triste? Menos Pierrots, mais respeito ao nosso passado que nos trouxe aqui, mas nunca em excesso… Nunca se tornar prisioneiro dos nossos (bons) feitos… Nem temos saúde para bancar de novo os Dons Quixotes, ainda que isso fosse possível! Resta reconhecer que hoje somos diferentes, menos rijos, mas que não podemos e nem queremos apagar nosso passado, mais ou menos distante… Ele ainda mora em nós. Antes, que eu tivesse um pai tirano era questão de vida ou morte. Hoje, sobrevivente, independente, ainda psicologicamente afetado pela experiência, e com ele ainda vivo, tudo é muito cômico e risível. Como pode e pôde uma pedra tão enxuta num sapato tão largo (ou o sapato era firme e apertado, o que impedia o seixo de rolar e atrapalhar? Sim, bufões usam sapatões maiores que os próprios pés!) me causar tantos problemas num nível tão fundamental? Como pôde a mais inferior das criaturas se interpor entre mim e o sol (Diógenes)? Mas nem era imperador – e daí que fosse? De todo jeito não lhe resta solução senão sair do caminho, nem que fosse para vir atrás de briga… E com o tempo toda coroa… vira areia. Quanto mais tempo bloqueou minha luz solar, mais se queimou. E pra quê, se tive meu banho caloroso do mesmo jeito? É verdade que ele, este pai, é o “macaco de Zaratustra”: gostaria de ser eu. Hoje é ele que me imita, sem saber o que ou como imita. Mas ele quer fazer o dono, o original, ficar bravo. E se a indignação for só uma máscara da gargalhada, e se o macaco é que está enfezado por dentro? Sim, sinto pânico, mas essa é a parte doentia da árvore genealógica, o orgânico que atingiu seu limite. Até ele, porém, é uma atuação, em último grau. É sempre material para ressurgir. Toda podridão pode ser cinzas para uma fênix. E macaco não é fênix. O ruim de dar azo pra macaco é que é um bicho muito folgado, por isso, mesmo descontraídos, precisamos manter meia-distância. Quem é mais triste? O macaco ignorado ou o macaco perseguido (letalmente perseguido)? O esgar dos dois por debaixo da máscara deve ser o mesmo. Talvez o macaco seja, então, nosso espelho? Com ele é o inverso, ele viveu a paródia e agora tudo termina em tragédia? Macaco com capa. Versão completa deste texto em https://seclusao.art.blog/2023/06/26/do-misterioso-aforismo-tragicomico-postumo-de-nietzsche-o-macaco-de-si-mesmo/.

“A dança é a prova da verdade”

“Mais um século de jornais – e todas as palavras vão feder”

“Pensar no suicídio é um consolo muito forte. Com isso se consegue passar bem a ‘má-noite’” Não é à toa que este costumava ser meu livro de cabeceira nos meus 20-21 anos…

“Nossos suicidas difamam o suicídio, – não o contrário.” A constatação mais sensível já levantada no quesito.

“Demora muito até que se morra pela segunda vez”

“Agora é primeiro pelo eco que os acontecimentos adquirem ‘grandeza’ – o eco dos jornais”

“Corre um falso dito: ‘quem não salva a si mesmo, como pode ele salvar os outros?’. Se tenho a chave para as tuas cadeias, por que a tua fechadura e a minha teriam de ser a mesma?” Existe um crítico de Nietzsche chamado Dr. Flávio Kothe, meu contemporâneo e vizinho (UnB), que escreveu exatamente isso, se não nestas palavras, neste sentido: como pode N. salvar os outros, se não salvou nem a si mesmo? A primeira tarefa do bom crítico é saber ler seu criticado.

“O que inventa (o conhecedor), o que intermedeia (o artista), o que simplifica (o apaixonado).”

Nós, homens-da-meia-noite. O homem do eternamente retornável, do meio-dia. Para nós tudo é escuro. Demanda-se um novo – e primeiro – Iluminismo. Uma religião sem secular (até hoje exclusividade dos mais decantados esoterismos). Uma religião sem o secular, e além do mais de massa. Seria factível? Dentro de quantos milênios? Pergunta boba e retórica.

“Ascetismo do espírito como PREPARAÇÃO PARA CRIAR. EMPOBRECIMENTO intencional dos instintos criativos.”

“A todo efeito segue-se um efeito – essa crença na causalidade tem sua sede no mais forte dos instintos, o da vingança” Ainda não escapamos da Física, para fundar uma Metafísica que valha esse nome.

“Não se confunda: atores ficam arrasados à falta de elogios.”

“O ceticismo em relação a todos os valores morais é um sintoma de que uma nova tábua de valores está se formando.”

“Para a mulher, há apenas um ponto de honra: ela precisa acreditar que mais ama do que é amada. Depois desse ponto principia de imediato a prostituição.”

“Os utilistaristas são burros” (Pode parecer simples, mas demorei muitos anos para ler esta frase na literatura. E que eu não tenha lido mais cedo só pode ser indício de burrice generalizada. Ou se conforma a um aforismo de N. mais adiante: quando há uma verdade sabida por todos, todos a “esquecem”…)

O verdadeiro póstumo não é combatido, mas ignorado.

“A paixão de duas pessoas uma pela outra – isso são em todos os casos duas paixões e com diferentes curvas picos velocidades: suas linhas podem se CRUZAR, nada mais.” Creio que Barthes citou esse aforismo (Fragmentos del Discurso Amoroso, já resenhado no seclusão).

CONTRA A ALFABETIZAÇÃO UNIVERSAL: “Que qualquer um possa aprender a ler e leia, com o tempo isso deixa em ruínas não só os escritores, como até os espíritos em geral” A corretude desse aforismo será posta à prova na nova era do “alfabetismo visual compulsório”, em que o analfabetismo gráfico é quase que uma complementaridade necessária.

“Ter ENTENDIDO um filósofo e estar CONVENCIDO sobre ele.” Platão, Nie., Marx e alguns pelo caminho…

“Não vos deixeis enganar! Os povos mais antigos são agora os mais cansados! Eles não têm mais energia suficiente para a preguiça!” Grifos meus: perfeito se se refere aos europeus; porém julgo um grande erro se o juízo for sobre os asiáticos. Nenhum “povo” que cria e cultiva o budismo tem menos do que uns bons milênios pela frente…

Meta na falta de metas. Como não perder a firmeza? I.e., como não perder a meta de vista (até encontrá-la)? Um olhar para o futuro que justifica o passado. Mas é como se houvesse uma perda aí. Se não acontecesse esse futuro, todos nós estaríamos numa condenação eterna? Os mortos hoje foram em vão, não se pode dizer que antes de se cumprir o destino haja qualquer anel. Ou pode-se? Tanto faz? E se sim, tanto faz, então por quê?

“regressão à animalidade”

“Não precisais temer o fluxo das coisas: esse rio flui de volta para dentro de si: ele não foge de si apenas duas vezes.¹ § Todo ‘era’ há de ser novamente um ‘é’. Todo vindouro morde o pretérito no rabo.”

O PARADOXO DA PEDRA NO RIO DE HERÁCLITO

¹ Ambigüidade na tradução: em duas ocasiões ele cessa de fugir de si mesmo ou ele foge bem mais vezes (e por que dizer duas vezes neste caso)? A fluência do rio é a angústia humana (encarado como aspecto negativo do Ser: ‘temer’). Fluir de volta para dentro de si é harmonizar-se, ainda que temporariamente no tempo (linguajar voluntariamente heideggeriano). É atingir a essência (o Ser) no próprio devir. Ora, que ele sempre foge é um lugar-comum. Ele foge infinitamente de si mesmo. O que Nietzsche é celebrado por haver ensinado pela primeira vez na modernidade? Que o rio retorna. O rio retorna infinitas vezes, é o modo de dizer, é verdade. Mas para o indivíduo, para o filósofo, para o ser vivo: quantas vezes? Minha opção é pela primeira semântica da tradução. Se o rio pára de fluir e se reencontra Uno consigo duas vezes, só pode ser em dois momentos: no nascimento e na morte. Porém para nós não faz diferença: é uma vez, na interseção dos dois. Há angústia pelo fluir do rio, não pela morte. Tanto quanto não pode haver angústia por haver nascido, se esse é o total do ser e ele nunca foi, por exemplo, pedra. E, supondo que tivesse sido, ainda carregar a sabedoria de ser pedra (novo absurdo) dentro de si. Nem a pedra nem o homem têm por que angustiar-se, jamais. Ainda assim, o homem se angustia. É só uma constatação. A pedra mais desesperada do universo não sentiria o menor átimo de ansiedade. O homem no mais remoto dos Shangri-Las e nirvanas ainda sofreria, se angustiaria, bastante. É nosso modo de existir. Por que se angustiar “ao quadrado” com isso? Mesmo que existisse a cura, o homem a preteriria, pois preferiria continuar sendo homem. Versão completa deste parágrafo em https://seclusao.art.blog/2023/06/26/o-paradoxo-da-pedra-no-rio-de-heraclito-mais-um-aforismo-de-nietzsche/.

“Surgimento do amor: – amor como decorrência da moral”

algo supremo parece se esfacelar em banal num mundo atomizado – o erótico é a demonstração par excellence. E o amor vai buscar esse “algo unificado” novamente, ao mesmo tempo instalando o embrião de uma sucessora divisão…

Se você está para frente demais no tempo você não está para trás? Ou no mesmo lugar? Talvez fosse sensato reconhecer que o Cristianismo, como trecho do anel, é uma espécie qualquer de redenção que deveria ser um objetivo pelo qual lutar – mas e então? Nietzsche acaso é um fraco, moribundo, débil? Tudo é “logo”, tudo é “o supra-homem”! Para o diabo com essa conversa!! NOVA GUINADA? Não, só fantasmas apolíneos. Maldito deus-homem! Meu destino é praguejá-lo (a despeito de sê-lo).

“Ninguém vem a mim. E eu mesmo – eu fui a todos e CHEGUEI A NINGUÉM.”

Se todos os mundos fracassam igual, por que Nietzsche seria melhor do que Platão? [Evidente.] Não existe máquina do tempo porque o universo é a própria máquina do tempo (frase recorrente nas minhas anotações do período 2009).

CADERNO DO NIILISTA. UM DIA COMO OUTRO QUALQUER, MAS ELE DENOTA CANSAÇO.

O que é que eu ganho por antecipar um detalhe ou outro da roda que ainda não beijou o asfalto nessa rotação? O que é que a pergunta ganha sendo sibilada 400 bilhões de vezes?! O mito do moto perpétuo e aliás qualquer mito… Tudo verdade, uma idade ancestral e/ou onipresente. Por que, no entanto, as coisas não são melhores e eu não posso viver como nos meus sonhos? Será um período excruciante excepcional? Só não quero morrer sem ter feito vingar esta esperança – e não quero ler esta palavra “esperança” de mãos sujas…

Falta honestidade para admitir: o Cristianismo se apresentava como método para dispor igualmente o fatigado espírito humano de metas supremas, e o que é endeusado hoje como tragédia podia ser a fonte de todas as noções de pecado e talvez necessitasse da racionalização. Talvez Apolo àquela altura fosse sinônimo de dignidade. Talvez? Ah, a quem estou querendo enganar? O devir é MAU. Porque de onde estou só posso pensar nessa palavra. Minha missãozinha tola é ser alguém que colabora com dois séculos que aí vêm para, em troca, não viver a vida de seu presente (visto que nasci antes do meu tempo, estou adiantado em relação a minha época), sua única vida.

Descobrir que se se fosse mais como as pessoas por aqui são eu seria igualmente nobre e transgressor, pois superaria os trágicos! Rá, quão sórdido… Basta meu auto-objetivo de sair daqui, eventualmente matando alguém, escrevendo coisas que chamo de arte, e mantendo minha linha máxima de consumo lá embaixo – para, sabe-se lá, morrer de dor de dente!

Ah, se todos os mitos pegam! Meu guia será minha vergonha. Ler o horóscopo não rende mais vexame – falar com acadêmicos sim!

“Essa é uma razão contrária, e eu te sou grato. Agora me rebata, porém, ainda a razão contrária, amigo!”

* * *

“Com orgulho se venera quando não se consegue ser ídolo”

“Todo ser humano é uma causa criativa do acontecimento, um primum mobile com um movimento original”

“Quando Deus entendeu a si mesmo, ele gerou a si mesmo e a sua antítese” (*)

“Com ombros firmes, ele está escorado contra o nada e onde há espaço, aí há estar, há ser.”

“O homem se define por ficar de pé, como o supermacaco, imagem do último homem, que é o eterno.”

“Esses querem jogar dados e aqueles querem calcular e contar e aqueloutros querem ver sempre ondas e danças das ondas – eles chamam isso de ciência e ficam suando em cima disso. Mas são crianças que querem o seu jogo. E, realmente, é uma bela brincadeira de criança, mas um pouco de risada não prejudicaria o jogo” “Há muito a calcular no mundo: mas calcular o próprio mundo – isso é enfadonho.”

(*) “A antítese do ser-acima-do-humano é o último ser humano: fabriquei este junto com aquele” Como o diabo de nós próprios, este “ser-mais” é atemporal. Coexistência e rivalidade necessárias.

“História: evolução das finalidades no tempo.”

O ANTI-DARWIN: “O inverso, de que tudo até nós é decadência, também é demonstrável (…) até agora a natureza VAI A PIQUE.”

“A liberdade da vontade é mais bem-demonstrada como causa e efeito (a rigor, causa-efeito é apenas uma seqüência popular).” A liberdade da vontade só existe em Schopenhauer. Não é a vontade nietzscheana.

“Sentido do casamento: um filho que represente um tipo mais elevado que os pais” “eles precisam te desprezar quando tu vais mais longe do que eles – eles não entendem o acima-de-si” Lei inconteste. Até eu posso ser dela vítima, quem sabe? Posso, como autor, imaginar que minha prole regride no anel, e na verdade ela avança! Incompreensíveis para mim. “Tu suspiras por amor – mas não, tu precisas aprender a suportar desprezo.”¹ Meu doutorado em engolir sapos. Ou não engolir nada, não vomitar nada. Publicamente.

A cavalo concebido se olham, sim, os dentes!

O paradoxo de José na sociedade do trabalho: agrilhoar-se para libertar-se!

¹ desprezar, v. trans. dir.

1. Troçar de.

2. Subestimar.

3. Ignorar.

Eis as acepções clássicas do verbo português, quando ele não se aplica no reflexivo (desprezar-se). De uma forma ou de outra, ambos os meus pais se alternam nisto. E se ao menos fosse um só, meu sofrimento estaria reduzido menos que à metade! Bom, N. também teve 2 estorvos na família íntima – em realidade, eu me enquadro mais num três-contra-um, se contar o irmão mais velho!

A dor mais pungente: toda vez arrepender-se de se abrir.

Nada entre um imprestável e um prestável: aí está a contraposição do ser, Sartre!

Tenho 4 pais. Seria um erro cósmico que não houvesse um pregador cristão quase debaixo do meu teto, afinal não há nada menos aparentado conosco que nossos pais batismais. (2009)

Um ano torna caducos muitos sonhos e ridiculariza muitos pesadelos. (2023)

“Minha orientação para a Arte: não mais continuar poetando onde estão as fronteiras! Mas o futuro dos humanos! Muitas IMAGENS precisam estar aí de acordo com as quais se possa VIVER!” Talvez N. estivesse recuando da terminologia metafísica do supra-homem neste esboço?

“O grande MEIO-TERMO: a decisão sobre querer-viver e querer-morrer”: provavelmente um aforismo que foi plagiado pela integralidade da filosofia de Albert Camus, o supervalorado!

“A decisão. É preciso haver inúmeras vítimas. Uma tentativa.” Muito simples usar este aforismo para malversá-lo, como fez sua irmã. Não se referia a nenhum evento histórico do século XX.

“Ainda a mais doce das mulheres tem sabor amargo”

“É preciso proteger o mal como se precisa proteger o mato. É verdade que pelo rareamento e pela destruição das matas a Terra ficou mais aquecida –” e muito boazinha.

“O nojo pela sujeira pode ser tão grande que nos impede de nos limparmos”

“Buscar conhecimento é um desejo e uma ânsia (…) Não há nenhuma forma de conhecimento que não seja antes um refazer”

“Esses são meus inimigos: querem derrubar tudo e não reconstruir a si mesmos. Dizem: ‘nada disso tem valor’ – e eles mesmos não querem gerar nenhum valor.”

“O animal nada sabe do seu si-mesmo”

“Temos de ser um ESPELHO do ser: somos Deus em miniatura”

P. 202, af. 263: sobre o aumento da expectativa de vida e o paradigma estreito da medicina moderna.

Af. 267: “Há muitos que não sabem nada melhor sobre a Terra do que ficar na cama com uma mulher. O que sabem estes da felicidade!”

Às vezes o que é enxergado como crepúsculo é apenas o preâmbulo do sol de meio-dia.

“Os judeus estragados pelo aprisionamento egípcio” O paradoxo: essa ‘paganização forçada’ foi que resultou no Cristianismo e na adulteração das práticas do judaísmo antigo, apenas nas entrelinhas do Antigo Testamento, quando não completamente invisíveis, práticas e preceitos esses contidos, pelo menos, no Talmude, disponível para nossa investigação contemporânea.

“Odeia-se mais aquele que nos seduz de volta a percepções sobre as quais nos tornamos vitoriosos com extrema dificuldade” Eu já fui um liberal de tipo PSDBista. Odeio liberais. Odeio os ‘social-democratas’ (falsa esquerda, quinta-coluna). Eu já fui um ateu militante (na pré-adolescência, é verdade). Odeio esses ateus mais cristãos que os cristãos (leia-se: mais anticristãos que os anticristãos!). Odeio quem ama a sociologia. Odeio os hedonistas. Odeio metaleiros. Odeio são-paulinos. Odeio otakus. Odeio “gamers”. Odeio os que levam o trabalho a sério demais e adoecem por isso. Adoro aqueles que sabem ser anti-monoteístas, stalinistas, maoístas, fidelistas, chavistas, putinistas, aqueles que sabem usar a sociologia como anti-sociologia, para o verdadeiro progresso da sociedade (no sentido oposto a Comte-Durkheim), aqueles que sabem ouvir heavy metal, assistir e falar de futebol, apreciar jogos de videogame e desenhos japoneses sem parecerem completos imbecis infantilizados e extremistas desnorteados. Com efeito, odeio hoje todo e qualquer colega dos tempos de escola (avatares de todas estas categorias reunidas). Eles não acompanham o ritmo da dança. A classe média insossa do DF, minha grande nêmese. Já fui o mais insosso dos sem-sal, hoje sou um tempero exótico da Índia.

LUTAS, RODAS DENTADAS ATRITANDO, SENTIDOS OPOSTOS CRIANDO HISTÓRIA: “Quando Hegel encontra Heráclito”

Há duas Histórias completamente diferentes, que a disciplina não costuma diferenciar: a História das Intenções e a História dos Fatos.

O ideal de liberdade: quando fatalismo vira uma razão suficiente kantiana.

“somente as naturezas ordinárias podem ver no Estado o instrumento da desforra”

“A era dos reis acabou, pois os povos não são mais dignos deles” Usado no Zaratustra

“Moral como mímica dos afetos”

A música CONFESSA o afeto, muito ao contrário da escrita, que é tão diferente da modalidade oral. Nisso ao menos Schopenhauer tinha razão…

“quanto mais as religiões forem morrendo, tanto mais SANGRENTO E VISÍVEL há de se tornar esse combate” – auxílio da mass media: “Estamos no início!” Resta saber onde termina o início…

A conhecida teoria do Hamlet como a grande obra frustrada de Shakespeare: redundância ou inefabilidade do estado de não-ser. Não-relacionado com a morte (ao contrário). Hamlet disse o tempo todo sim, sobretudo quando decidiu morrer herói. Não ser seria não virar tema de um drama, nada fazer.

“O quanto nós vivemos mais no BEM-ESTAR que nossos antepassados revela-se no fato de que a dor isolada é tão MAIS FORTEMENTE sentida do que o prazer isolado” – e, sendo assim, tem-se o poderoso estímulo que findará por sepultar a própria sociedade do bem-estar (nada a ver com o Estado social, mas com o modo de vida ocidental consumista).

“o ódio e o nojo ao estranho são do mesmo tamanho que o prazer consigo” Eu me amo, eu me amo, não posso mais viver sem mim… O turista contumaz: o tipo que se odeia.

Pragmatismo vs. heroísmo: a diferença entre o inteligente e o sábio: não se importar em ser prejudicado.

“aparece como a aspiração máxima do ser humano tornar-se UNO com o mais poderoso que existe.” <Poderoso> pode estar um tanto mal-empregado aqui, mas isto, esta aspiração, é Brahman.

“que nós tomemos o mais próximo [o sistema nervoso consciente] como o mais importante é justamente o velho preconceito – Portanto, reaprender!”

“Toda essa ânsia pelo imorredouro é conseqüência da insatisfação”

“Os nossos ‘ricos’ – esses são os mais pobres! A finalidade autêntica de toda riqueza é esquecer!”

“‘Endeusamento da natureza’ – isso é conseqüência de pobreza, vergonha, medo, idiotice!”

“Eu quero não ser entendido por longo tempo”

O que Nietzsche diria do homem na Lua?

“Luto com o dragão do futuro: e vós, pequenos, tereis de lutar com minhocas”

A vida é uma tragédia para aquele que sente, e é uma comédia para aquele que pensa. O semi-deus já sentiu muito, hoje sente menos, pensa mais no que sentiu. Pensa e ri de coisas ardidas e ardilosas do próprio ontem.

“Todos aqueles que produzem criativamente [o semi-deus] procuram novas linguagens: ficaram cansados de uma fina língua desgastada: tempo demais o espírito andou sobre tais solas.”

“Dos judeus, tirar-lhes o dinheiro e dar-lhes outra direção.”

O que são as “sete solidões”? Acredito que se refira a alguma passagem da Gaia-Ciência ou mesmo d’Aurora.

“ponho a mão no fogo pelo próximo milênio”

“Vivo como que em outras épocas: minha altitude me dá trânsito com solitários e ignorados de todas as épocas” MEU AMIGO NIETZSCHE

“muralhas destruídas”: um enigmático pré-requisito da formação do supra-homem… Deleuze & Guattari entenderam errado a expressão!

“Mostrar a ‘metafísica da metafísica’!”

ANTI-FORBES: “Os seres humanos mais influentes do mundo são os mais escondidos”

“Cultura é apenas uma fina película de maçã sobre um caos efervescente” (e civilização uma parte finíssima ainda mais insignificante dessa mesma película)

“Mais cultura!” = MAIS CAOS! necessariamente

“Opiniões públicas – preguiças privadas”

“Corre-se maior perigo de ser atropelado quando se acaba de escapar de um carro”

“O discípulo de um mártir sofre mais que o mártir” Mesmo que lute apenas com minhocas. Isso não é uma depreciação do seu valor como discípulo.

“Quando não se tem um bom pai, então é preciso se arranjar um”

Rafael de Araújo Lula da Silva

“Não se sente a monotonia quando nunca se aprendeu a trabalhar para valer” Os hedonistas não sabem o que é tédio, embora passem a vida fugindo, entediados… Talvez persigam uma ocupação, e erram na escolha dos meios…

“Alguns homens choraram o rapto das suas mulheres; muitos, que ninguém as quisesse raptar.”

“O fantasista nega a verdade diante de si; o mentiroso, só diante de outros” Retifico uma convicção minha: meus pais não são uns mentirosos, são uns fantasistas!

“Os seguidores de um grande homem costumam se deixar ofuscar para melhor poderem entoar os seus louvores; pobres pássaros canoros!” Muito melhor as aspas que sua mera atualização. Sou apenas o pedreiro deste magnífico engenheiro. E mais além: “É preciso saber obscurecer a própria luz para se livrar das moscas e dos fãs” O Ocidental Obscuro bem o sabe. A persona do Ocidental Obscuro, adotada por mim em textos a partir dessa época (2009) surge nominalmente pela primeira vez no blog aqui. É inclusive provável que o livro Cila ou Caribde Vol. II conte com este subtítulo. (Não prevejo seu lançamento para antes de 2024.)

Eu refundei a maldade.

É preciso saber colher os louros da fama e da vitória, como do ostracismo e da derrota.

Os direitos humanos no sentido não-bolsonarizado do termo recrudescem a cretinice da modernidade.

O que pode ser pior do que uma cidade repleta de pedintes? Uma cidade repleta de cristãos.

“Uma boa sentença é dura demais até para o dente do tempo”

“A maior doadora de esmolas é a covardia”

“Para o amigo do estilo rebuscado, o estilo solto é uma tortura para os ouvidos” Y vai-se ver ça!

“É preciso acabar com os mendigos, pois a gente se incomoda lhes dando e se incomoda não lhes dando”

Indigesta sociedade, que se cansou de descansar. O dispéptico chato da mesa.

O que é a fome? É o produto da digestão! Mas a digestão ocorre – com fome ou não!

Conhecer certos efeitos inesperados de um desejo não resolve a equação (mesmo que a psicanálise estivesse certa, ela seria como uma face dum dado de 6 lados, irrelevante, incompleta, incapaz): há sempre outros efeitos adversos ignotos.

Herói: aquele que se faz passar por ridículo para salvar a humanidade. Logo, ele é o semi-deus dos outros, o herói apenas de si mesmo. Revolta e herói: duas palavras que não sabem andar divorciadas.

“Aquilo que todos sabem, por todos é esquecido”

“imortalidade é apenas uma metáfora”

O que é 1? A falha fundamental. Brahman precisa do herói, de se dividir em carrascos, vítimas, heróis, anti-heróis, etc. Quem morre também se sacrifica por si mesmo. Para que possa nascer na mesma vida.

Queres a paz? Toma a paz! Neste “toma” já está implícita a guerra – é uma ordem unilateral.

Quem é Pana?

(*) “Na mitologia inuit Pana era a divindade que cuidava das almas no submundo (Adlivun) antes que elas reencarnassem.”

“Visível deve se tornar o mundo ainda no menor de tudo: então vós pensais estar ENTENDENDO: essa é a bobagem do olho”

“Nada é mais claro do que um falso delírio sobre bem e mal!

‘O homem bom é impossível: na própria vida o não-bem é delírio e injustiça. E essa seria a última vontade voltada para a bondade: negar toda a vida!’

Com o vosso bem e mal, vós vos magoastes a vida, cansastes a vossa vontade; e vossa própria apreciação era o sinal da vontade declinante, que busca a morte.”

“A onda rugiu ao passar: a criança chora porque ela arrastou consigo o seu brinquedo para o abismo. Mas a mesma onda joga-lhe cem outros brinquedos na alva areia. Portanto, não choreis por mim, meus irmãos, por eu estar passando!”

“A flor quer a semente”

Trechos que parecem ser os finais, usados nos livros mais conhecidos, na verdade são esboços modificados. Não se sabe aliás se são mesmo rascunhos preteridos, versões alternativas igualmente válidas ou mesmo versões melhoradas e que pretendia ainda publicar em bloco.

A famosa frase de Aristóteles sobre a raiva: Sem raiva não se vence nada.

Constantes da minha inconstante vida (2009-2023): rompimentos interpessoais (dolorosos, mas positivos, a despeito da solidão que se segue – brinquedos são sempre devolvidos pelas ondas, como diz Zaratustra), doenças (não-graves, renitentes) que me atacam sobretudo em períodos de ócio (feriadões, férias – sintoma de que trabalho duro), sonhos com essas figuras passadas (às vezes a separação não foi um rompimento, apenas parte dos desencontros da vida). Exemplos: Liz, Antonielle, Tavares o Corinthiano. Pessoas com quem gostaria de falar de novo – mas sinceramente me decepcionariam, porque, francamente, quase ninguém vê o que quase ninguém vê (velhos ou novos ou novos velhos amigos…). Amigos de internet tão importantes por uns anos que depois… já nem sei quem são apenas pelo nome… Como se nunca houvessem existido! Uma outra constante: as únicas aulas que dou são por escrito, e não-remuneradas.

“Meta: formação mais elevada de todo o CORPO e não só do cérebro!” Uma grande arte mais individual do que imaginam os atletas, nutricionistas, médicos, vaidosos em geral e personal trainers…

“História dos seres humanos mais elevados” Isso vem sendo toda a seara historiográfica, Nietzsche, pode ficar tranqüilo…

O ferido sempre se irrita consigo mesmo – esse é o poder da dialética trágica: ele estará MAIS FORTE da próxima vez.

VERDADE SOBRE O CARÁTER RESSENTIDO DO DIREITO MODERNO: “O prejudicador é compensado – é a forma mais antiga, não a intencionalidade hostil. A indignação surge por se ter sido prejudicado, portanto em função do êxito do inimigo, não em função da hostilidade. É a sensação do vencido – a ânsia de vingança: não a sensação de que tenha ocorrido uma injustiça.” Quase ininteligível para qualquer jurista, pois não se fala aqui a língua deles. E o que é um filósofo do direito senão um filósofo – o contrário de um jurista?!

À p. 340 a tese de que a justiça deveria exilar mais e prender menos.

“A relação suprema continua sendo a do sujeito criador com o seu material: essa é a última forma de arrogância e supremacia.”

“Arrependimento: isso é vingança contra si mesmo”

“Quando o ouro tilinta, a puta pisca os olhos. E há mais putas do que moedas de ouro. Quem é venal, esse chamo de puta. E há mais venais que moedas de ouro!”

“Desprezo a vida supremamente: e eu amo a vida ao máximo: não há nisso nenhum contra-senso – nenhuma contradição”

A ARENA DO POLITEÍSMO

“Com os deuses, há muito já se está no fim: eles todos morreram – de rir.

Isso ocorreu quando começou a rodar o dito mais ateu já vindo de um deus – o dito: tu não deverás ter nenhum outro deus além de mim: uma velha barba iracunda de Deus esqueceu portanto a si.

Tão pobre jamais fôra um deus em seu ciúme a ponto de impor: ‘tu não deverás ter nenhum outro deus além de mim!’

E todos os deuses riram então e se sacudiram nas cadeiras e exclamaram: ‘Não será justamente divino que haja deuses, mas nenhum Deus único?’”

Jeová, nesse conto nada barroco, é o herói, grave e auto-imolado(r). Zeus, Indra, Odin & cia. os semi-deuses (ironia de nomenclatura). Nosso mundo é invertido: conosco, os homens ocidentais, os últimos são os primeiros: o Deus cristão inaugura esse mundo; mas também morre primeiro. Morre de descrença em si mesmo, do que nenhum mortal morre (esse é nosso inferno, nosso nada, aliás). Assim como o semi-deus… – esse é imune aos efeitos colaterais da risada, i.e., não se engasga com azeitonas, vive rindo, ri vivendo. Aprendeu com a história e com o mito. E nossa risada é nosso néctar (riqueza útil). Não é irônico que o Deus que curava aleijados no mercado não soubesse dançar?

“Odeia-se mais aquele que nos seduz de volta a percepções sobre as quais nos tornamos vitoriosos com extrema dificuldade” Nietzsche. A seguir, um pouco sobre mim.

Eu já fui um liberal de tipo PSDBista. Odeio liberais. Odeio os ‘social-democratas’ (falsa esquerda, quinta-coluna). Eu já fui um ateu militante (na pré-adolescência, é verdade). Odeio esses ateus mais cristãos que os cristãos (leia-se: mais anticristãos que os anticristãos!). Odeio quem ama a sociologia. Odeio os hedonistas. Odeio metaleiros. Odeio são-paulinos. Odeio otakus. Odeio “gamers”. Odeio os que levam o trabalho a sério demais e adoecem por isso. Adoro aqueles que sabem ser anti-monoteístas, stalinistas, maoístas, fidelistas, chavistas, putinistas, aqueles que sabem usar a sociologia como anti-sociologia, para o verdadeiro progresso da sociedade (no sentido oposto a Comte-Durkheim), aqueles que sabem ouvir heavy metal, assistir e falar de futebol, apreciar jogos de videogame e desenhos japoneses sem parecerem completos imbecis infantilizados e extremistas desnorteados. Com efeito, odeio hoje todo e qualquer colega dos tempos de escola (avatares de todas estas categorias reunidas). Eles não acompanham o ritmo da dança. A classe média insossa do DF, minha grande nêmese. Já fui o mais insosso dos sem-sal, hoje sou um tempero exótico da Índia.

O PARADOXO DA PEDRA NO RIO DE HERÁCLITO (mais um aforismo de Nietzsche)

“Não precisais temer o fluxo das coisas: esse rio flui de volta para dentro de si: ele não foge de si apenas duas vezes.

Todo ‘era’ há de ser novamente um ‘é’. Todo vindouro morde o pretérito no rabo.”

ANÁLISE

Ambigüidade na tradução: em duas ocasiões o rio cessa de fugir de si mesmo ou ele foge bem mais vezes (e por que dizer duas vezes neste caso?)? A fluência do rio é a angústia humana (encarado como aspecto negativo do Ser: ‘temer’). Fluir de volta para dentro de si é harmonizar-se, ainda que temporariamente no tempo (linguajar voluntariamente heideggeriano). É atingir a essência (o Ser) no próprio devir. Ora, que o rio sempre está a fugir é um lugar-comum. Ele foge infinitamente de si mesmo. O que Nietzsche é celebrado por haver ensinado pela primeira vez na modernidade (canção já antiga)? Que o rio retorna. O rio deságua todo em seu próprio olho d’água ou manancial depois de as águas terem submergido por um tempo no subterrâneo, até voltar ao transcurso habitual do leito (metáfora para vida, pois é na cama, lugar de repouso e paz, também do sono, vizinho da morte, que a vida é gerada). E retorna infinitas vezes; é só modo de dizer, é verdade. Mas para o indivíduo, para o filósofo, para o ser vivo: quantas vezes? Minha opção é pela primeira semântica da tradução. Se o rio pára de fluir e se reencontra Uno consigo duas vezes, só pode ser em dois momentos: no nascimento e na morte. Porém para nós não faz diferença: é uma vez, na interseção dos dois. Há angústia pelo fluir do rio, não pela morte (um rio não morre, o rio da eternidade nunca seca, a existência nunca deixa de existir, este é seu modo, o da insistência do ser). Tanto quanto não pode haver angústia por haver nascido (a não ser para psicanalistas, que deviam todos estar em manicômios), se esse é o total do ser, e ele nunca foi (um não-ser), por exemplo, pedra. E, supondo que tivesse sido, (não pode) ainda carregar a sabedoria de ser pedra (novo absurdo, meramente expressável porém inconcebível) dentro de si. Nem a pedra no leito do rio nem o homem, o rio, com efeito, têm por que angustiar-se, jamais. Ainda assim, o homem se angustia. É só uma constatação. A pedra mais desesperada do universo não sentiria o menor átimo de ansiedade. O homem no mais remoto dos Shangri-Las e nirvanas ainda sofreria, se angustiaria, bastante. É nosso modo de existir. Por que se angustiar “ao quadrado” com o fato de que a angústia é inevitável? Ainda poder-se-ia dizer que este é o modo de existir do homem, ou ao menos do filósofo! Mesmo que existisse a cura, não obstante, o homem a preteriria, pois preferiria continuar sendo homem.

DO MISTERIOSO AFORISMO TRAGICÔMICO PÓSTUMO DE NIETZSCHE: O MACACO DE SI MESMO

“Em torno do herói tudo se torna tragédia; em torno do semi-deus – tudo sátira”

Por muito tempo meditei sobre esse aforismo, que não tinha entendido quando li a primeira vez, em 2009. Podemos evocar a famosa frase de Marx para nos ajudar a explicar seu significado. Mas eu ainda diria mais:

a) nosso mundo não tem mais heróis, não tem mais o caráter heróico; tem, sim, a necessidade, antropológica mesmo, do homem superar o homem; antes que substituir o deus morto seja uma realidade, o grau máximo que pode ser descrito é uma figura, a do semi-deus. Ele é um Zaratustra que aprendeu a rir de si mesmo. Tragédias são coisa do passado. Não há lugar para Édipos na atualidade;

b) pode ser apenas um comentário psicológico, despido de qualquer historicidade, e por isso nem Marx pode ajudar: depende da seriedade do próprio personagem (leitor), e com que gravidade ele enxerga a própria biografia. Mas por que “semi-deus”? Num mundo em que deus está morto, ter sido herói, ser um sábio, já é estar semi-morto. Não vale muita coisa. Quem deixou de ser herói e com isso não se tornou um vilão (recorro a mais uma frase famosa, provavelmente apenas uma re-citação de autor antigo, mas que, ao contrário da sentença marxiana, é apenas uma falácia), não degenerou completamente… ainda tem o aspecto exterior de um bufão. E onde já se viu palhaço triste? Menos Pierrots, mais respeito ao nosso passado que nos trouxe aqui, mas nunca em excesso… Nunca se tornar prisioneiro dos nossos (bons) feitos… Nem temos saúde para bancar de novo os Dons Quixotes, ainda que isso fosse possível! Resta reconhecer que hoje somos diferentes, menos rijos, mas que não podemos e nem queremos apagar nosso passado, mais ou menos distante… Ele ainda mora em nós.

Exemplo pessoal: antes, que eu tivesse um pai tirano era questão de vida ou morte. Hoje, sobrevivente, independente, ainda psicologicamente afetado pela experiência, e com o tirano ainda vivo, tudo é muito cômico e risível. Como pode e pôde uma pedra tão enxuta num sapato tão largo (ou o sapato era firme e apertado, o que impedia o seixo de rolar e atrapalhar? Sim, bufões usam sapatões maiores que os próprios pés!) me causar tantos problemas num nível tão fundamental? Como pôde a mais inferior das criaturas se interpor entre mim e o sol? Mas nem era imperador – e daí que fosse? De todo jeito não lhe resta solução senão sair do caminho, nem que fosse para vir atrás de briga… E, com o tempo, toda(o) coroa… vira areia. Quanto mais tempo bloqueou minha luz solar montado em seus cavalos chamados Prepotência, mais queimou as costas (uma singela inversão de Dédalo, o pai sábio, e Ícaro, o filho imprudente). E pra quê, se tive meu banho caloroso do mesmo jeito? É verdade que ele, este pai, é o “macaco de Zaratustra”: gostaria de ser eu. Hoje é ele que me imita, sem saber o que ou como imita. Mas ele quer fazer o dono, o original, ficar bravo, perder a sombra (posto que à sombra não há sua sombra). E se a indignação for só uma máscara da gargalhada, e se o macaco é que está enfezado por dentro? Sim, sinto pânico, mas essa é a parte doentia da árvore genealógica, o orgânico que atingiu seu limite. Até ele, porém, é uma atuação, em último grau. É sempre material para ressurgir.

Toda podridão pode ser cinzas para uma fênix. E macaco não é fênix. O ruim de dar azo pra macaco é que é um bicho muito folgado, por isso, mesmo descontraídos, precisamos manter meia-distância. Quem é mais triste? O macaco ignorado ou o macaco perseguido (letalmente perseguido)? O esgar dos dois por debaixo da máscara deve ser o mesmo. Talvez o macaco seja, então, nosso espelho? Com ele é o inverso, ele viveu a paródia e agora tudo termina em tragédia? Macaco com capa. Macaco capado. Bucéfalo empacado diante de Diógenes.

O sentido final da hipótese b), portanto, é que devemos vencer nosso próprio macaco, o macaco de Zaratustra, etapa e desafio obrigatórios a fim de avançarmos enquanto projetos conscientes de sermos além-homens. E esse passo exige encarar o humor com seriedade e leveza, não amargura; e desafiar a tragédia que ameaça nos aniquilar como se ríssemos de uma boa piada.

TRÊS FRAGMENTOS DE JOSÉ SARAMAGO

“teólogos afirmam, embora não por estas exatas palavras, que a maior dificuldade para chegar a viver razoavelmente no inferno é o cheiro que lá há”

“quando é que é necessário matar? Quando já está morto o que ainda é vivo”

“Os vossos soldados devem ter sido dos últimos a cegar, toda a gente está cega. Toda a gente, a cidade toda, o país.”

[REPRISE] #TRANSCENDER17 HEIDEGGER’S HEGEL’S PHENOMENOLOGY OF SPIRIT

Originalmente de agosto de 2009. Comentários atuais em azul.

A construção do sistema hegeliano – primeiramente, o autor necessitou recorrer ao fenômeno para dar suporte à continuidade de sua filosofia central (a Ciência e limites do conhecimento). Postumamente, deprecia o acontecimento e o relega a sub-seções em uma nova versão do sistema, doravante guiado pelo Espírito e pela Lógica (lógica hegeliano-dialética, de verniz aristotélico, em contraposição a Platão, ou, como preferir, “englobando-o”). O universo só pode surgir do Absoluto, mas é o material e explícito responsável por legitimá-lo como tal – o Universo é como o paradigma ególatra do homem que para fazer-se precisa ser reconhecido pelos outros. Nisso estaria o mistério do universo de se auto-desvelar “fingindo” ser outro para contemplar-se a si mesmo. Eu sou deus. Eu encerro o absoluto em meu caráter fugidio. Não devo me voltar para o universo em busca da Verdade: se ele sou eu, ela reside em mim, em meu devir. Aliás, ela o é. (Isso é exatamente o que Sartre dirá na introdução de sua Magnum opus.)

O problema do “saber absoluto” em Hegel e a constatação de que o Ser e a Verdade são quadros atemporais, desejo de fim e de morte, está no limite lógico do Ocidente e naturalmente antecede o devir nietzscheano. Hegel é o último grande herdeiro de Platão. (20-06-2023 Discordo desse ponto de vista. Já havia editado acima: Onde se lê “(lógica hegeliano-dialética, de verniz aristotélico, em contraposição a Platão, ou, como preferir, ‘englobando-o’)”, em 2009 se lia “lógica hegeliano-dialética, em oposição a Platão e Aristóteles, ou, como preferir, ‘compreendendo’ os dois)”. Catorze anos de leitura em filosofia mudaram minha exegese de Hegel. E não só de Hegel: Platão e Aristóteles são inconciliáveis.)

O século XX oferece um panorama engraçado: Camus insinua que o problema central da Filosofia deve ser “julgar se se deve viver”. Já Heidegger insinua que a grande questão é “o que é o ser”. Uma Filosofia da Morte que quer a vida e uma Filosofia do ser que deseja a morte! (20-06-2023 Leviano de minha parte tendo lido Heidegger muito pouco tipificá-lo assim com tamanha segurança.)

É banal discutir se a Filosofia é ou não Ciência. Ela existe meta-isso, além. Trata dos problemas da existência. Nietzsche é tachado de anti-filósofo por ser “Imoralista” e romper com os clássicos (na aparência). Sem embargo, seu trabalho sem dúvida é Filosofia Clássica. Talvez o problema seja a atual condição precária da disciplina…

O conhecimento absoluto é um espelho que quer ser olhado. Quem pode olhar? O discurso, o relativo, a própria “soma rumo ao supremo”. A História seria o movimento de auto-descoberta culminando na satisfação plenipotente do espírito. Para mim, tanto faz (volta ao primeiro tópico).

A consciência progride, por experiência, até a auto-consciência (20-06-2023 Esclarecimento: já há necessariamente auto-consciência na consciência – em Hegel –, que é consciência-de, e consciência-de-si, mas a didática exige uma exposição em etapas, gradual); esta por sua vez aspira imperfeitamente ao absoluto (os existencialistas apontariam um erro grosseiro aqui: não existe consciência que não seja consciência-de-si – como dito nos parênteses anteriores o eu de 2009 foi precipitado em não reconhecer que já havia a resposta a essa crítica dos existencialistas já em Hegel) dizendo-se isso mesmo (que é relativa, sabendo, pois, do que sabe)/ é um movimento de “absolvição”, de chegada ao espírito, o absoluto. O fenômeno é o espírito materializado. (20-06-2023 O espírito é o fenômeno teorizado.)

“A aparência formal pura do absoluto é a contradição”

“A fenomenologia do espírito é o genuíno e total aparecimento do espírito”

(Hegel e Heidegger são o Pai e o Filho: o Espírito Santo são os problemas para se fazerem entender; escrita embotada.) (20-06-2023 – haha!)

Os três primeiros capítulos são dedicados a esclarecer o jogo de linguagem por trás do título original da publicação mais conhecida de Hegel, Ciência da Fenomenologia do Espírito.

“O conhecimento absoluto é conhecimento e vontade ao mesmo tempo”

Atenção: as fenomenologias hegeliana e husserliana não batem. Apesar de todos os elogios e louvores de Heidegger a Hursserl, seu mestre, em Ser e Tempo. (Husserl é considerado uma “escola à parte” por Sartre, e assim deve ser lido.)

Hegel não deve ser interpretado, aqui, como um introdutor à filosofia: seu livro busca o “oposto” (uma escatologia filosófica), se pudéssemos assinalar de modo extremo, uma vez que lida de forma definitiva com o problema ocidental da possibilidade do conhecimento (uma potente auto-apresentação da senhora Razão – ele é o filósofo que pergunta já possuindo as respostas), inscrevendo-se no cume do Idealismo Alemão (curioso Heidegger tipificá-lo após criticar rótulos).

É, complementarmente, a espiral derradeira da escola racional, duramente golpeada, na seqüência pelo materialismo histórico e pelo irracionalismo nietzscheano.

“Em Filosofia, inexistem predecessores ou sucessores de um trabalho¹ (…) todo verdadeiro filósofo é contemporâneo dos outros filósofos”

¹ Talvez a frase mais conhecida de Heidegger.

Frase famosa e funesta. Quer dizer que Hegel nem mestre alternativo algum envelhece, e que sua doutrina é só uma doutrina. Uma vida que não se chama Georg Friedrich Hegel precisa de mais que uma doutrina.

Enxergo necessariamente o devir (20-06-2023 Quis dizer: filosofia do futuro) quando leio as intenções de Hegel (“o fim é o começo”).

Eu sou o Evangelho! “Deus” é a própria vontade do todo que em seus frangalhos se define, assim como a ausência de deus. Deus é e não é. Ou sou eu ou sou deus. Sou eu. Deus perde a relevância. Ou eu sou Deus. SINTO, LOGO EXISTO. EXISTO, LOGO SOU DEUS.

WEBER – Fragmento e comentários

Baseado em anotações de 11 de agosto de 2019.

1. A OBJETIVIDADE DO CONHECIMENTO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS

“O historiador moderno de espírito relativista sente a necessidade de obter os padrões dos seus juízos a partir da ‘própria matéria’ do seu estudo. [método científico auto-justificador] E o atrativo estético desse procedimento constantemente o incita a esquecer a linha que separa o ‘tipo ideal’ [instrumento simplificador que se sabe simplificador] e o ‘ideal’, [descrição não-fidedigna], donde esta situação intermediária que, por um lado, não pode reprimir o juízo de valor, e que por outro tende a declinar a responsabilidade dos seus juízos.” O fazer-ciência pós-moderno: acredita-se no que se quer; referenda-se o subjetivismo descontrolado do pesquisador. No fundo é apenas uma questão de tato: ou se o tem ou não se o tem.

O tipo-ideal foi cunhado como solução empírica para o problema do relativismo de todo discurso e de todo conceito. Porém não consegue escapar do estatuto do metafísico. O fazer-sociológico, mesmo o compreensivo, é Metafísica. Marx empreendeu a dialética trágica, o super-empirismo, o principal rival da escola compreensiva. Hoje podemos afirmar: os tipos-ideais são mais perecíveis que as leis econômicas d’O Capital.

2. AS CAUSAS SOCIAIS DO DECLÍNIO DA CULTURA ANTIGA

A inadmissibilidade moderna da escravocracia.

A idade média como transição entre a comunhão mágica e a degenerescência (individualização, liberalização).

O dilema do Império Romano: impasse entre recrutamento para o exército ou serviço remunerado no campo. O Estado precisava de dinheiro para custeio do exército e no campo o pagamento era diretamente em bens. Ou havia falta de comida, ou havia deficiência de segurança nas fronteiras. Então os bárbaros começam a ser contratados – as forças militares se tornam milícias. O comércio decai. Buraco-negro desmantelador: Roma como grande fisco não se pagava, ao mesmo tempo que empobrecia a periferia. Incapaz de gerar riqueza.

O KATHA UPANISHAD E SUA ANTECIPAÇÃO DAS ÚLTIMAS CONSEQÜÊNCIAS DA FILOSOFIA OCIDENTAL

Este é um estudo que intenta a interpretação do livro Katha, um Upanishad (livro sagrado hindu), por meio da Filosofia Ocidental. As conclusões a que chego são que o Katha Upanishad corrobora os achados dos principais filósofos de nossa própria cultura, ou, antes, dado que o Katha é mais antigo que as contribuições de Platão e de todos os seus sucessores, são os achados da Metafísica Continental ou Primeira Filosofia que corroboram estes trechos da religião-filosofia oriental do Hinduísmo como autênticos e acertados (documentos que chegam ao que convencionamos como a Verdade em sentido filosófico). Não defendo, com essa tese, que Platão e os demais em seu conjunto foram influenciados pelo Katha; ao contrário: em geral, nossos autores chegaram às mesmas conclusões, porém de forma autônoma e independente, o que fortaleceria minha interpretação deste livro sagrado. Em verdade, apenas os últimos filósofos importantes a se considerar puderam ler os Upanishads, como Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche e Heidegger. Antes do século XIX nenhum filósofo de monta havia tido acesso a boas traduções destes livros, bem como o conhecimento do Ocidente sobre o hinduísmo era meramente fragmentário. Foram utilizadas citações do Katha na tradução inglesa de Patrick Olivelle, orientalista contemporâneo (os textos hindus estão sempre em itálico).

“So he asked his father: ‘Father, to whom will you give me?’ He repeated it for a second time, and again for a third time. His father yelled at him: ‘I’ll give you to Death!’”


“A mortal man ripens like grain,

And like grain he is born again.”


“You, O Death are studying,

the fire altar that leads to heaven;

Explain that to me, a man who has faith;

People who are in heaven enjoy the immortal state—

It is this I choose with my second wish.”


 

“(Death)

I shall explain to you—

and heed this teaching of mine, O Naciketas,

you who understands the fire altar that leads

to heaven, to the attainment of an endless world,

and is its very foundation.

Know that it lies hidden, in the Cave of the heart.”


(Death)

“Choose your third wish, O Naciketas.

* 

(Naciketas)

There is this doubt about a man who is dead.

‘He exists,’ say some, others, ‘He exists not.’

I want to know this, so please teach me.

This is the third of my wishes.

*

(Death)

As to this even the gods of old had doubts,

for it’s hard to understand, it’s a subtle doctrine.

Make, Naciketas, another wish.

Do not press me! Release me from this.

*

(Naciketas)

As to this, we’re told, even the gods had doubts,

and you say, O Death, it’s hard to understand.

But another like you I can’t find to explain it;

and there is no other wish that is equal to it.

*

(Death)

Choose sons and grandsons who’d live a hundred years!

Plenty of livestock and elephants, horses and gold!

Choose as your domain a wide expanse of earth!

And you yourself live as many autumns as you wish!”


Resposta fraca da Morte nesta alegoria, evidentemente não comprada pelo filósofo e crente (aprendiz dos Vedas e Upanishads) Naciketas. Mas a Morte (pense em Mefistófeles aqui) não desiste:


“And if you would think this an equal wish—

You may choose wealth together with a long life;

Achieve prominence, Naciketas, in this wide world;

And I will make you enjoy your desires at will.

*

You may ask freely for all those desires,

hard to obtain in this mortal world;

Look at these lovely girls, with chariots and lutes,

girls of this sort are unobtainable by men—

I’ll give them to you; you’ll have them wait on you;

But about death don’t ask me, Naciketas.”


Outrossim, a sedução do diabo no deserto (Novo Testamento).


“(Naciketas)

Since the passing days of a mortal, O Death,

sap here the energy of all the senses;

And even a full life is but a trifle;

So keep your horses, your songs and dances!

*

With wealth you cannot make a man content;

Will we get to keep wealth, when we have seen you?

And we get to live only as long as you allow!

So, this alone is the wish that I’d like to choose.

*

What mortal man with insight,

who has met those that do not die or grow old,¹

himself growing old in this wretched and lowly place,

looking at its beauties, its pleasures and joys,

would delight in a long life?”

¹ Seria uma interessante parábola, se existissem tais deuses ou vampiros! Ou, conforme veremos adiante, Naciketas fala dos sábios, em sentido puramente alegórico.


 

“The point on which they have great doubts—

what happens at that great transit—

tell me that, O Death!

This is my wish, probing the mystery deep,

Naciketas wishes for nothing

other than that.”


“(Death)

The good is one thing, the gratifying [prazeres] is another;

their goals are different, both bind a man.

Good things await him who picks the good;

By choosing the gratifying, one misses one’s goal.

*

Both the good and the gratifying

present themselves to a man;

The wise assess them, note their difference;

And choose the good over the gratifying;

But the fool chooses the gratifying

rather than what is beneficial.

*

…

This disk of gold, where many a man founders,

You have not accepted as a thing of wealth.

*

Far apart and widely different are these two:

Ignorance [prazer] and what’s known as knowledge. [o bem]

I take Naciketas as one yearning for knowledge;

The many desires do not confound you.

*

Wallowing in ignorance, but calling themselves wise,

Thinking themselves learned the fools go around,

staggering about like a group of blind men,

led by a blind man who is himself blind. [um homem cego é mesmo cego!]

*

This transit lies hidden from a careless fool,

who is deluded by the delusion of wealth.

Thinking ‘This is the world; there is no other’,

he falls into my power again and again.”

Creio que ninguém ainda entendeu o verdadeiro sentido do texto. Em vermelho: o hedonista ou materialista pensa “não há outro mundo, só este, carpe diem, etc.”. Mas é só este quem morre. O outro mundo é neste mundo mesmo, invisível, habitado somente pelos sábios. Eles nunca morrem. Apud Sócrates-Platão-…


“Many do not get to hear of that transit;

and even when they hear,

many don’t comprehend it.

Rare is the man who teaches it,

Lucky is the man who grasps it;

Rare is the man who knows it,

Lucky is the man who is taught it.”

Mais más concepções: não se ouve a verdade muito amiúde; quando se a escuta, se a ignora como se ela nunca fôra proferida. Isto é Zaratustra livro I, cena da praça e do mercado. Não é raro o homem que ensina a sabedoria: tantos quantos são estes professores (os sábios, a.k.a. virtuosos), uma vez na vida eles acreditam poder ensinar – esse é seu erro; a virtude não pode ser ensinada. Portanto, só quem sábio se torna, sábio já era. Torna-te aquilo que tu és. Raro é o homem assim constituído. Sortudo é quem nasceu nessa condição, pois só assim “lhe foi ensinado” o conteúdo: por si mesmo.


“Though one may think a lot, it is difficult to grasp,

when it is taught by an inferior man.

Yet one cannot gain access to it,

unless someone teaches it.

For it is smaller than the size of the atom,

a thing beyond the realm of reason.”

Não existe o guru. Quantas vezes ter-se-á de dizê-lo? Quantos murros em ponta de faca? O final, porém, é adequado: a vontade ou Idéia é menor que qualquer pedaço de matéria, o que o século XX chama de partículas sub-atômicas fundamentais. Não é deste mundo, é do outro mundo vivenciado neste mundo pelos privilegiados de nascença (se há algo do mito brâmane que sobrevive é esse fatalismo: ou se nasce sábio e bom, ou se nasce ignorante e mau). E é vontade ou Idéia, esses nomes “estranhos”, embora familiares no léxico (mas quase nunca sabem seu significado!), porque não é razão, está além da razão. Quem disse que o sábio o é em virtude da razão?! Quem disse que a Idéia de Platão ou a virtude são alcançadas pela inteligência? Somente pelo instinto, pela inclinação natural em vê-las e senti-las, em sê-las (com isso que chamam de Brahma).


“One can’t grasp this notion by argumentation;¹

Yet it’s easy to grasp when taught by another.²

You’re truly steadfast dear boy,

you have grasped it!

Would that we have, Naciketas,

One like you to question us.”²

¹ A dialética esvaziada de um Aristóteles, o Racional.

² O outro é sempre si mesmo, sempre a ressalva em relação aos textos sagrados hindus, que ainda não tinham a consciência da origem da sabedoria, talvez a única vantagem oferecida pela filosofia ocidental sobre o maior trabalho, a maior sabedoria, embora inconsciente, trazida pelo Oriente, e que hibernou por tanto tempo, entre nós e até eles próprios, os professores do Veda! Us também não existe. Quem formula as perguntas e também as respostas naquele que não pode ser igualado (Platão)? Ele mesmo. A Morte neste Upanishad não é uma fraude, um espírito trickster, mas, pelo contrário, o alter ego de Naciketas: este é um diálogo, a maiêutica do sábio. Quem preside é ele mesmo, mediante suas reminiscências. Outra frase célebre: Dai a César o que é de César, significa: dai a este mundo o que quer este mundo: a humildade, a labuta, um mal-disfarçado senso de superioridade (porque os tolos, em sua maior parte, crêem na sua modéstia e na sua inferioridade, não se pode usar a sabedoria para angariar vantagens no jogo temporal). Assim quitais vossas dívidas com eles. Nosso eterno sofrimento, a eterna convivência com os eternos anões. O preço de nosso paraíso, no outro mundo que é aqui, sem testemunhas senão nossos poucos iguais. Jesus Cristo, o incompreendido. Ao mesmo tempo que não iniciou, o Juízo já terminou e está acontecendo. Acontece. Todo ele é a existência. A existência é uma criação escatológica.


“What you call a treasure, I know to be transient;”

tesouro transcendental


“Therefore I have built the fire altar of Naciketas,

and by things eternal I have gained the eternal.”

Jogando minha alma na aposta eu consegui meu objetivo: a eternidade. O outro mundo neste mundo. O presente do presente, o único tempo real. A única felicidade tangível. Sem necessidade de nenhuma providência; pois já estava lá, sempre esteve.


“[Já não importa quem fala, é o Um e o Mesmo]

The primeval one who is hard to perceive,

wrapped in mystery hidden in the cave,¹

residing within the impenetrable depth—

Regarding him as god,² an insight

gained by inner contemplation,³

both sorrow and joy the wise abandon.”4

¹ E quem é que começa a vida preso à caverna, no mito (ou inclusive na historiografia “séria” – como se o mito não o fosse –: homem das cavernas)? O homem. Não é que o homem busque o sol que é a Iluminação ou instrumento necessário para iluminar aquilo que não se vê. Ou em outras palavras: aquilo que não se vê a descoberto é a si mesmo. O homem não se sabe homem, não sabe o que é, precisa do sol para entender que é o que tanto procurava. O mistério da vida é o mistério do homem diante do espelho. O eu, o maior enigma. O mundo dos homens, normalmente entendido como tão despido de significado quanto “o mundo de um deus desconhecido”, ou “de um deus que morreu”. O Mito da Caverna inverte a mitologia grega em geral: não estamos destinados a nos tornar sombras, mas somos sombras que eventualmente se incorporam e ganham volume, densidade, matéria, substância, cor, tangibilidade, vida.

² Na minha interpretação é o exato oposto: sem a companhia de ninguém, e deixado à própria sorte no fundo da caverna, em sua cela do Ser, o homem não pode atingir a hubris nem a auto-afirmação: divino é o estado mais difícil. o Um sem o Outro é prosaico.

³ Isso só pode ser exato depois da própria jornada, da odisséia, do retorno diferente ao mesmo lugar do princípio.

4 Como resultado inevitável da viagem exitosa. Quem tem o presente seria por definição feliz, como quer o hindu. Porém, em face do conhecimento da eternidade neste mundo (o outro mundo), sensações transitórias perdem o significado: o que é tristeza, o que é alegria sem contraste ou interrupção, sem-fim? Nada.


 

“When a mortal has heard it, understood it;

when he has drawn it out;

and grasped this subtle point of doctrine,

he rejoices, for he has found

something in which he could rejoice.

To him I consider my house

to be open, Naciketas.”

A liberação é saber que fora de todo o possível, fora do eterno presente, só fora, e só para quem está consciente do presente, no impossível (pois não existe esse fora), finalmente é concedido o direito de morrer. Não há transição. Só há transição na eternidade do presente e da ação. Mas o que é bênção para nós é maldição para quem tem medo da morte ou esperança eterna num outro mundo que não seja deste mundo. Eles já vivem neste outro mundo que desejam: eles são objetos, não são homens. O tempo corre para eles. Estão condenados a jamais morrer, porque para eles a vida é uma morte contínua.

Veja que o próprio compilador, ou tradutor, está confuso quanto à identidade de quem fala (como eu disse, não importa, é a mesma pessoa!):

“Seeking which people live student lives”

 

Buscando quais pessoas vivem vidas de estudante. O estudante dos Vedas é a figura perfeita dos Vedas. Não só dos Vedas: da existência mesma, das Idéias de Platão e da vontade de Nietzsche. O professor dos Vedas é só um artifício didático: ele é outro estudante, o daimon guia do bom caminho. Nunca cessamos de aprender, e de nos tornar mais sábios, mas não existe a Idéia do sábio: a idéia, a busca da sabedoria. A imagem perfeita. Tão perfeita que poderíamos nos perguntar se essa imagem não é a Idéia mesma. A imagem é a Idéia sobre a Idéia. A Idéia é a imagem da Idéia. A Idéia voltada para si mesma, a Idéia ao espelho. A sabedoria socrática. Esse é o infinito, pois não termina ou conclui, e é ao mesmo tempo um estado em perpétuo movimento. Um estado não-estado. Um movimento não-movimentado. A imagem das imagens.

 

A vontade, palavra do século XIX para o mesmo: deliberações sobre as entrelinhas de Platão, o contínuo debate da Idéia. Não menos perfeito que a Idéia, por não ser exatamente uma poesia da maiêutica (e quem disse que os aforismos não o são?), pois pressupõe a Idéia, já que não é debate estático. E é ao mesmo tempo estanque, porque não evadiu o bom caminho da Idéia. O invisível vivido pelo estudante (mestre).

 

OM é tudo, é vontade e é Idéia. Vibração contínua. Sempre há um ponto cego para o sábio, mas é ele que indica o bom caminho. Há sempre um mistério residual. Dádiva negativa do presente. Tê-lo em forma viva e depois querer tê-lo no mundo material para auferir vantagens é o mesmo que dele abdicar, cair na tentação sensualista da Morte na proposta ao estudante, do diabo a Jesus no deserto, da glória mundana. Uma confirmação empírica da Idéia desvaneceria a Idéia, descaracterizando seu ar incomunicável, indemonstrável, autorreferente e exclusivista, entrada para poucos e seletos. Ouvem-se as palavras Idéia, vontade e OM, mas, como disse a Morte acima, os habitantes deste mundo que esperam o outro mundo, sem saber que ele é este mesmo, não escutam. Escutam as palavras, mas não as compreendem. E escutar é compreender desde que o homem é homem. Escutar a mais bela melodia e não entender sua beleza? Quem não riria dessa “sabedoria” e deste pragmatismo dos tolos? Num mundo em que existem bem e mal, quem se dá bem, se dá mal. Assim poderíamos traduzir as palavras mais próximas a nosso tempo “muito além do bem e do mal”: o bem vigente não é o bem de Platão. Daí a razão da reviravolta que não é reviravolta (filosofia extrema de combate ao niilismo): contorceram tanto as palavras que já é necessário desfazer mal-entendidos a fim de se afirmar a mesma coisa de dois milênios atrás. O que já foi OM, e o que hoje não é entendido pelos exegetas hindus do OM, voltará a ser o mesmo OM originário, etc. Credo quia absurdum est?


“When, indeed, one knows this syllable,

He obtains his every wish.”

Sorte que nós não somos muito exigentes, e não pedimos desejos absurdos (com o perdão do trocadilho com o final do texto acima). Para nós tudo é possível, mas nem tudo é permitido (por nós mesmos), se pudermos incluir Dostoievsky na conversa, porque somos virtuosos e nossos desejos nada têm a ver com as fábulas dos adoentados morais, os sequiosos do outro mundo, materialistas incuráveis, a imaginar gênios que lhes concedam todo tipo de coisa inesgotável neste mundo; quando este mundo mesmo é esgotável (pelo menos para eles, pela forma como eles esperam saciar sua sede neste mundo, ainda contando com um outro!), que desejo logo não daria sede-de-mais aos pedintes? Esses mendicantes querem ganhar na mega-sena; os poucos que logram continuam sendo mendicantes, não há escapatória.


“And when one knows this support,

he rejoices in Brahman’s world.”

Brahman’s world = Brahman’s word

Outro mundo = Idéia, vontade, OM, presente eterno, vida do sábio


“The wise one—

he is not born, he does not die;

he has not come from anywhere;

He is the unborn and eternal, primeval and everlasting.

And he is not killed, when the body is killed.

(The dialogue between Naciketas and Death appears to end here.)”

Com minha ajuda, vocês certamente perceberam, o único mistério que subjaz é salutar para a compreensão do texto (o ponto cego do sábio). Então, modestia à parte, não haveria nem mais que dizer – hora perfeita para encerrar o trabalho de parto (maiêutica do sábio). O Katha Upanishad não encerra aqui, porém; a narração objetiva, fora de qualquer diálogo, dá continuidade aos ensinamentos.


“If the killer thinks that he kills;

If the killed thinks that he is killed;

Both of them fail to understand.

He neither kills, nor is he killed.”

Caim não matou ninguém, apenas passou por tolo! Abel vive ainda. A natureza se feriu. Mas a natureza é imortal.


“Finer than the finest, larger than the largest,

is the self (Ātman)¹ that lies here hidden

in the heart of a living being.

Without desires and free from sorrow,

a man perceives by the creator’s grace

the grandeur of the self.”

¹ Provável etimologia de nossa palavra “alma”.


“Sitting down, he roams afar.

Lying down, he goes everywhere.¹

The god ceaselessly exulting—

Who, besides me, is able to know?”

¹ Uma das características do homem pós-moderno esvaziado de sentido é viajar (territorialmente falando mesmo) sempre que pode. À procura de algo que nunca encontra. Sempre em movimento – mas ironicamente sempre estagnado no mesmo lugar – tentando fugir inadequadamente de sua sombra. A viagem talvez seja uma característica indispensável do ser humano. Mas é possível atingir a Idéia, ou o presente eterno, nunca saindo de sua província, como é possível errar como o judeu amaldiçoado sem qualquer conseqüência. Ulisses seria um bom exemplo daquele que viaja e sai do lugar ao mesmo tempo. O turista do capitalismo tardio, no entanto, apenas repete tudo que sabe fazer enquanto erradicado na província, necessitando, não obstante, de novas vistas na janela e de uma gorda fatura no cartão de crédito – suas provas empíricas de que ele viveu. Que bebeu a mesma Heineken vendida em sua vizinhança além-mar…


“When he perceives this immense, all-pervading self,

as bodiless within bodies,

as stable within unstable beings—

A wise man ceases to grieve.

*

This self cannot be grasped,

by teachings or by intelligence,

or even by great learning.

Only the man he [the self] chooses can grasp him,

Whose body this self chooses as his own.”

Aqui, estranhamente, cai a exigência de um guru, de um mestre para o estudante do Veda, e a auto-eleição fatídica que comentei acima fica sancionada.


“Not a man who has not quit his evil ways;

Nor a man who is not calm or composed;

Nor even a man who is without a tranquil mind;

Could ever secure it by his mere wit.”

Nenhum religioso com segundas intenções. A “frieza” do sábio não é a frieza do erudito, tão reparada e criticada em nossos tempos. O sábio não é um erudito. Erudito é o filisteu da cultura de massas. Sócrates é o anti-filisteu clássico. A frieza do sábio não é a incapacidade de se comover, mas a impassibilidade com que entende a inevitabilidade do funcionamento do princípio da Teoria das Idéias, da Vontade de Potência, do Om. Queira ele ou não, queira seu ego ou não, estas são Verdades que ele compreende como verdadeiras, e por isso as aceita (com impassibilidade, sinônimo circunstancial de frieza). Doravante, este é o “eleito”, de mente tranqüila, calmo e composto. Não levemos essa exigência longe demais: quem duvida que um Sócrates apaixonado por Alcibíades, que um Nietzsche compondo os livros mais destrutivos da cultura filistéia, não cumprem o requisito desta compostura exigida? Um homem calmo não vive em fúria, mas pode demonstrar fúria – caso contrário não seria um homem que os hindus estariam procurando, mas um embotado qualquer, já incapaz da ira.

A conhecida mente fervilhante do artista tampouco é uma vedação: suscetível às mudanças no mundo e crente nesta vida (e não somente em outra) ele sabe se isolar em seu próprio espaço, concentrado (o outro mundo neste mundo), onde não tem igual (Rafaello Sanzio, Miquelângelo, etc.). Acima de tudo ele pode contemplar sua situação no mundo com a mesma objetividade de um deus, de um filósofo (como dito acima) e de alguém que está desinteressado de lucros mundanos (o que os demasiado espertos são incapazes de compreender – “se eu tivesse seu talento, eu faria acontecer, eu seria muito maior, estaria no topo do mundo” – se um pequeno ou medíocre tivesse o talento do talentoso, ele não “faria acontecer”, porque então ele não seria apenas um esperto sem sabedoria e não pensaria como pensa o sem-talentos).


“For whom the Brahmin and the Kshatriya

are both like a dish of boiled rice;

and death is like the sprinkled sauce;

Who truly knows where he is?”

Quem senão essa super-alma qualificada, este que incorporou Brahman, para ver até mesmo a casta superior indiana como um mero equivalente inanimado da classe dos guerreiros que não estudam os Vedas? A morte é um fenômeno como outro qualquer, um tempero que aumenta o gosto da comida. E quem anseia pelo outro mundo, o que quer com isso? Quer escapar da morte como quem desmaia e acorda bem-tratado pelos outros, anestesiado, fugido das pesadas implicações. Isso pelo menos quando ele está anormalmente convicto do outro mundo. Na maioria do tempo essas pessoas sentem a própria insignificância e banalidade, e tremem diante da simples palavra morte, como que pressentem que estão erradas e falam da boca para fora.


“They call these two ‘Shadow’ and ‘Light’,

The two who have entered—

the one into the cave of the heart,

the other into the highest region beyond,

both drinking the truth

in the world of rites rightly performed.”

A semelhança com o Mito da Caverna ou princípios como os recitados no mazdeísmo são óbvios.


“the imperishable, the highest Brahman,

the farthest shore

for those who wish to cross the danger.”

Decerto “as margens mais afastadas” não são um batismo ritual indiferente e vazio, “feito por fazer”, “herança dos costumes dos pais”, incompreendido em “seus mistérios”, realizado mais por medo que por qualquer outro sentimento, extremas unções, confissões e idas semanais à igreja, “para não ir para o inferno”. Não, essa odisséia não é para almas covardes que recorrem a atalhos inofensivos gravados nas pedras! Quem pode nos dizer, num país cristão, que já não estava impregnado de todas essas ridicularias desde que se entendeu por indivíduo? Porque, claro, podiam significar nada, mas há sempre um parente ou conhecido para dizer: “Antes de tal coisa, fazer 3 ave-marias e rezar 10 pais-nossos, se não funciona, ao menos não prejudica”. E assim assimilamos costumes que não podemos chamar de imbecis, porque só consideramos imbecil aquilo que podemos compreender, para avaliar; isso é menos que imbecil, é apenas um mistério herdado, automático, parte de nosso “arrumar a cama – escovar os dentes – etc.”. Não se pode jogar essas coisas fora sem substituí-las por algo melhor, dir-se-ia. O algo melhor é a verdade do conhecimento sagrado inconsciente hindu, que finalmente se tornou acessível a nós após séculos de filosofia ocidental. Não que possamos encarnar em qualquer outro a função de guru; o ritual de ascensão do ignoto herdado ao autoesclarecimento é sempre individualmente doloroso. Por isso os materialistas (hedonistas que se dizem espiritualistas!), seguros do outro mundo, são incapazes de efetuar essa transmutação.


“Know the self as a rider in a chariot,

and the body, as simply the chariot.

Know the intellect as the charioteer,

and the mind, as simply the reins.”

Uma imensa sabedoria condensada e destilada em 4 versos. Seria incapaz de enumerar a série de referências que enxergo em nosso saber ocidental ao ler somente as duas primeiras linhas: já a figura da carroça que ascende ao saber está presente na mitologia grega, na própria alusão ao deus-sol e seus servos. Hélio e Faetonte são pai e filho e contudo com o passar das gerações já se confundem num só ente. A carroça voadora deveria descrever a parábola do percurso do sol durante as 12 horas do dia (depois ele submerge e passa por debaixo dos oceanos, voltando ao leste). Mas Faetonte já é associado, a dado momento, à própria carruagem (o eu-controlado da figura poética acima). É ele, esse deus, na forma humana, qualquer que seja o nome, o único apto a conduzir a carroça sem se queimar (ou desviar do percurso correto). Desdobramentos, ainda helênicos, são perceptíveis na estória de Ícaro e seu malfadado vôo, nos escritos de Parmênides sobre o Um, no daimon de Sócrates (o self mais profundo, que conduz a ele próprio, o indivíduo histórico), que o orienta até em sonhos musicais na véspera de beber a cicuta (que ele não tema, aliás, o oposto: que ele celebre e comemore a vida no momento do estar-morrendo).

Essa voz interior passa, mais explícita ou menos explícita, pelos textos de todos os principais pensadores, até aterrissar nas investigações sobre o inconsciente, o novo nome para o daimon, nosso verdadeiro senhor. O que é um espírito-livre senão o escravo de si mesmo, ou melhor, aquele bom discípulo de si mesmo, que sabe dominar seus impulsos (ou assiste, enquanto impulsos cegos, a este domínio que vem aparentemente de fora, mas que é ele mesmo?), malgrado seu, e sabe ouvir os conselhos da sua verdadeira personalidade, desconhecida em seu todo até pela própria vida consciente do indivíduo? É o homem ético e abnegado que vê os filisteus de cima, meras manchas topográficas – esses filisteus que se julgam alpinistas de elite!

E ainda nem falei da metade final! O intelecto é o cocheiro. Que intelecto – depois que a duras penas aprendemos a desconfiar desse intelecto lato sensu desde Aristóteles até Kant? Decerto não é o intelecto cartesiano, o intelecto dos ceticistas dogmáticos, o intelecto dos Iluministas franceses, dos ateístas franceses – cristãos amargurados! –, o intelecto dos cabeças de vento do séc. XIX tão criticados por Nietzsche, a raça dos eruditos alemães! Não é o intelecto dos românticos que sucederam a Hegel, nem do próprio Hegel, o Aristóteles de nossa era. Mas um Goethe, que se equilibrou entre o Romantismo moderno e a serendipidade dos antigos, este está acima do gradiente que criticamos aqui! Dele que é o Fausto, já antigo e do folclore, mas que de sua pena é o mais célebre – mais um Jesus Cristo depenado por seu daimon errado. Mefistófeles é só um agente externo, a sociedade, o gênio da lâmpada dos que querem vencer na vida ganhando na mega-sena, não o demônio interior verdadeiro do sábio. E o ícone intelectual que ainda subsiste para nós na terceira década do séc. XXI – a fraude chamada Sigmund Freud, este compartimentador do inconsciente, que transformou num mapa ou num cubículo as forças incompreensíveis e virtualmente ilimitadas que nos regem – fariseu dos fariseus, pois como judeu esclarecido este homem sabia ser um filisteu, e continuou interpretando seu papel jocoso por maldade e ganho pessoal. O ápice do racionalismo deletério – o Descartes pós-descoberta explícita do daimon, pela primeira vez, desde Sócrates-Platão. E quantos séculos ele não terá retardado o estado das coisas? Não decerto para os poucos privilegiados, que vêem por trás da opacidade de sua pseudanálise, que enxergam por detrás dessas paredes (pontos cegos do indivíduo médio).

E as correntes de pensamento continuaram, na segunda metade do século XX, errando em pontos fundamentais, aprisionando esse self hindu. Marxistas desfiguradores do princípio maiêutico-dialético provisoriamente resgatado no XIX… Não faltava mais nada! A filosofia continental se fecha e vive de comentadores dos clássicos – talvez devêssemos comemorar. Já sabiam os últimos clássicos e já sabem os melhores comentadores que as próximas respostas úteis (úteis para nós, os anti-utilitários) devêm do Oriente, que, contrariando a projeção geológica de que os continentes africano e americano à deriva estariam se aproximando coisa de 10cm por ano, parece estar vindo a nosso encontro a galope… Portanto, para arrematar: o self hindu não é esse tipo de intelecto, só para deixar claro!

A mente simplesmente como os freios (rédeas). No sentido do poema a mente me parece apenas essa faculdade consciente dos eleitos que efetuam a boa jornada. A mente de Dédalo, o pai do imprudente Ícaro, a prudência altruísta, sem ambições solares, mas orgulhosa o suficiente para não recair em abismos.


 

“The senses, they say, are the horses,

and sense[d?] objects are the paths around them;

He who is linked to the body (Ātman), senses, and mind,

the wise proclaim as the one who enjoys.”

Quem é este que encontrou a eternidade verdadeira no único mundo possível senão “the one who enjoys”? Que momento há para gargalhar se não o presente? É verdade que a carruagem segue um percurso, mas não estamos atrás de nenhum destino particular. Como Ulisses, apesar das aparências, também não estava. Sobre cavalos, poderia até citar David Lynch, para quem, em Twin Peaks, o cavalo branco era o símbolo da morte próxima e também do vício, representado pelo hábito cocainômano da protagonista (uma protagonista que morre antes mesmo da série começar, eis uma quebra de normas!), nas duas primeiras temporadas apresentado de forma mais sugestiva, vaga, anedótica e espaçada. Na terceira temporada, no entanto, ganhamos também um poema sobre eles, os cavalos brancos, que nos brindam com muito mais associações, ou pelo menos com um termômetro para julgar as sugestões das primeiras temporadas: …The horse is the white in the eyes / and dark within, embora eu tenha omitido a primeira metade desta outra quadra (!), para não me estender com conteúdo não-relacionado aos Vedas (se é que existe um que não o seja). Novamente o contraste entre o preto e o branco, a luz e as trevas, elementos da odisséia, dialética que leva à verdade. Mas, cavalo branco ou não, alado ou não, essa charrete mitológica também tem o seu, ou os seus. Embora pareça pouco funcional, podemos dizer que são 5, os cinco cavalos são os 5 sentidos. Cinco cavalos que puxam servilmente a carruagem (você). Se a vacuidade emocional dos filisteus de nosso tempo é uma imagem de cortar o coração, (!) não nos enganemos: os sentidos, raiz dos sentimentos, não são desprezíveis para o sábio – acontece que aqui eles têm tratamento pejorativo, sem dúvida. Os cavalos ou os pégasos cavalgam ou flutuam por uma estrada ou por um arco imaginário no firmamento. A estrada do Um de Parmênides. A mente precisa subordinar os cavalos: o cavalo que olha é na verdade cego; o cavalo orelhudo é na verdade surdo; o cavalo frenético e suscetível tem na verdade a epiderme dormente; o cavalo narigudo não tem faro; e o cavalo linguarudo nem saberia se ingere capim ou torrões de açúcar. Sem uma coordenação estes cinco não são nada. E para quem sabe coordená-los, veja, eles são tudo! A via de acesso ao nosso outro mundo, que está aqui. Uma via insuficiente por si só, mas indispensável para a alma. Há quem ache que o presente são os próprios sentidos. Rematados tolos. Eles são a paradoxal via para o invisível, o que eles percebem são apenas os objetos e os contornos da estrada para o presente.

Acaba de me chamar a atenção o fato de que, consultando o dicionário, obtive que “obscuro” é um antônimo de presente. E acima se contrapôs a parte do olho que enxerga, a retina, à brancura dos cavalos, prenúncio de armadilha. Pois o que não seria essa fala na boca de um dos agentes do Black Lodge de David Lynch, nesse contexto de cavalgar por uma senda necessariamente perigosa, senão uma grave advertência sobre a mais próxima vizinhança entre o enxergar bem e o viver com um antolho nos olhos? E eu que achei que já havia secado este poço (esta é a hora dos fãs de Twin Peaks mais ligados rirem bastante)!


“When a man lacks understanding,

and his mind is never controlled;

His senses do not obey him,

as bad horses, a charioteer.”

 

Apenas um lembrete, já que tudo isso já foi bem-comentado e o trecho é simples: o cocheiro (o daimon, o Ātman) é muito mais que a mente. É evidente que esta não é apenas uma enumeração paralela de uma hierarquia dupla, é mais complexo que isso. [De modo simples: cocheiro/o inconsciente (guia maior) > homem/vida consciente/carruagem > mente/corpo/intelecção > cavalos/sentidos (guias menores).] Maus cavalos não impossibilitam o sucesso da viagem (zero cavalos sim); uma mente em frangalhos, um corpo lasso e a estupidez (tudo junto conotando uma carroça em pedaços), sim.


“When a man lacks understanding,

is unmindful and always impure;

He does not reach that final step,

but gets on the round of rebirth.”

Renascer tem quase sempre conotações positivas. Não aqui, seja para o hinduísmo conforme os exegetas hindus seja para mim, que me arrisco a uma interpretação ainda alhures, conectada a um outro mundo no aqui e agora. Nada pode ser pior do que o renascimento contínuo neste contexto. É o mesmo que ensinar a doutrina do eterno retorno para os fracos em Assim Falou Zaratustra. A bênção de uma “vida” eterna não é nada no colo de mortos-vivos. A sua odisséia não é completada, é só uma grande tortura sem-sentido. OM omento presente não tem um último degrau, mas o último degrau é necessário para os sentidos do homem (sua parte menos importante).


RESUMO DO CREDO HINDU SEGUNDO RAFAEL DE ARAÚJO AGUIAR (LEMBRANDO QUE UM LIMITE MÁXIMO – QUE CHAMAMOS DE DEUS – QUE NÃO SAIBA RIR DE SI É INÚTIL, TANTO EXISTINDO COMO APENAS ALMEJANDO EXISTIR, DÁ NO MESMO):

No que os intérpretes (todos os já consultados por mim, pelo menos) do hinduísmo e eu discrepamos é: para eles, sair da roda da existência é a libertação. Eu acredito que os Vedas genuinamente pregam, no lugar, o seguinte:

Om. Quando se diz que sair da roda da existência é a libertação, está-se dizendo isso para os tolos; pois são os tolos que lêem ensinamentos nos livros e sempre os absorvem da pior forma. Desta feita, não proibiremos a leitura aos tolos, mas nos certificaremos que eles sempre retirarão deste manancial de sabedoria a interpretação mais literal e espúria possível: para eles, escapar da roda da existência via santidade é a libertação suprema. Isto não é Brahman, mas seria pecaminoso contra a própria vida ensinar a verdadeira religião para aqueles que não a merecem. O texto está redigido de forma que os merecedores de absorvê-la saberão interpretar nosso único credo a contento. A libertação é oni-presente e inevitável, sempre esteve aqui e agora e sempre estará para o leitor puro e consciente (aquele que aspira à sabedoria na vida). Isto é Brahma. Não há reencarnações, esse é apenas um dogma regulador para os hOMens mais vis. O dOM da vida é único e especial, pois a morte não é o que se entende vulgarmente pela morte: ela não encerra nada. O presente é eterno. A realidade é una. Não há progressos, regressos, ciclos ou aléns. O fato de indivíduos nascerem e morrerem confunde as massas, porque quem se crê indivíduo tenta se colocar no lugar de outro indivíduo, no que sempre falhará até os mínimos detalhes. É preciso entender que a existência não é algo linear sobre o qual o tempo – condição de possibilidade da própria existência, mas apenas uma de suas engrenagens – tenha qualquer poder. O tempo só funciona de acordo cOM o próprio desígnio inerente do que se chama realidade ou existência. Ele, o tempo, serve a e é inseparável da vida mesma. E a individualidade, o nascer e perecer são elementos, fundamentos da existência. Não significa que os indivíduos crus sejam Brahman (a existência mesma). Mas estão equipados para entender Brahman e se tornar Brahman. Pois Brahman pensou em tudo desde o sempre, já que o tempo é apenas uma engrenagem sua e ‘sempre’ é apenas uma palavra vazia fora da percepção dos hOMens, ligada às grandes limitações dos sentidos. Início e fim só existem para os indivíduos que são tolos. Brahman só pode ser usufruído pelo que chamam de presente. A vida dos tolos é um eterno sofrer, e o que é mais irônico: um sofrer baseado em algo que não existe – sua dilaceração, sua aniquilação, sua morte. O pavor do fim. Pois eles não sabem que são eternos, e isso gera a contradição muito lógica de que eles sofrem eternamente devido mesmo a esta ignorância, que em certa medida é obra deles próprios, pois eles também são Brahman, em crisálida. A forma de reestabelecer a harmonia e a ressonância cOM Brahman, o real, é, cOMpreendendo o real, efetivá-lo (sendo real, vivendo o presente, isto é, a eternidade). Esta condição carece de sofrimento penoso; o que (os tolos) chamam de sofrimento, na vida de quem entendeu Brahman é apenas atividade e saúde, a plena realização do Brahman, separado em indivíduos apenas formalmente, para apreciação dos eternamente tolos, tolo Brahman brincalhão (a verdade é que cada um que cOMpreende Brahman é Brahman, e Brahman é indivisível)! Por que nós, Brahman, dar-nos-íamos ao trabalho de escrever de forma tão límpida para nós mesmos, Brahman, o que é Brahman, se Brahman (os tolos, agora, os Brahman não-despertos e necessários ao Brahman) ainda assim não irá entender, da mesma forma que lendo poesia e enigmas? Pois este ensinamento carece da possibilidade de ser entendido pela mera literalidade e baixeza vital. É preciso ler mais do que palavras, porque Brahman é mais do que palavras. O “inferno” de Brahman é que Brahman é tudo, e a tolice é parte indissociável deste único e melhor dos mundos, o sempre-existente. O inferno de Brahman é Brahman, mas Brahman não se importa, o que é, aliás, muito natural e desejável. Brahman é o mais vil e o mais alto, e nunca se pára de cair e nunca se pára de subir segundo o axiOMa inquebrantável de Brahman, o Um ou Ser ou Ente. Brahman é perfeito e não quer se liberar de Brahman. E nem poderia se assim desejasse. Om.

Digo que Brahman em algum momento através de mim achou de bom tom ser mais literal, para satisfazer Sua vontade (e a minha), quebrando as regras num sentido e duma forma infinitesimal que não descaracteriza Brahman, num limiar bastante desprezível do que os tolos chamam de tempo-espaço que eu traduziria em palavras como sendo minha vida, os anos que eu vivo (da perspectiva de uma terceira pessoa)¹ nos lugares que eu vivo em torno de quem eu vivo (meus amigos, coetâneos e leitores).

¹ O que é a terceira pessoa (tanto do ponto de vista metafísico quanto do ponto de vista gramatical de todas as línguas)? É a junção fictícia das duas primeiras pessoas. Eu sou a terceira pessoa de vocês; vocês são a terceira pessoa para mim. E no entanto a primeira pessoa sou eu (vocês, isoladamente) e a segunda pessoa são vocês em conjunto (eu e os outros, para vocês, individualmente).


“When a man’s mind is his reins,

intellect, his charioteer;

He reaches the end of the road,

That highest step of Vishnu.”

Com esse trecho não vou gastar saliva. Irei apenas traduzi-lo para o formato da prosa familiar a nossa cultura, omitindo as palavras desnecessárias para a compreensão total (não faz sentido, na tríade homem-mente-intelecto, pelo menos nessa tradução em inglês, conservar mind e intellect; só man já é mais do que o bastante):

“When a man (…) is (…) his charioteer, he reaches the end of the road, that highest step of Vishnu.”


“Higher than the senses are their objects;

Higher than sense[d?] objects is the mind;

Higher than the mind is the intellect;

Higher than the intellect is the immense self;”

“Mais elevados que os sentidos são as coisas que percebemos por via dos sentidos, o mundo visível; [Que eu citei acima, na hierarquização simplificada, como intelecção – esta parte do mundo visível não fazendo referência ao próprio sujeito, e para sermos sujeitos está implicado que tem de haver o binômio sujeito-objeto, pode ser omitida, inclusive porque a mente, como veremos abaixo, interpreta automatica-mente todas as percepções dos 5 sentidos, integrando-as, e não se pode falar de mundo visível (veja como nos expressamos sempre hiper-valorizando os olhos!)/sentido sem que haja a mente do ator dotando este mundo de sentido (bússola das sensações).]

Mais elevada que o mundo visível é a mente;

Mais elevado que a mente é o intelecto; [Aqui sinto que nosso pensar ocidental entra em colisão com o vocabulário hindu – ou será problema da tradução para o inglês? –, pois mente e intelecto estão indissociados de acordo com nossa maneira de representar a ambos. A terceira linha, como a segunda linha, devem ser omitidas numa tradução explicativa superior.]

Mais elevado que o intelecto é o imenso self.”

Para melhorar, destarte:

“Mais elevada que os sentidos é a consciência;

Mais elevado que a consciência é o inconsciente.”

(mundo animal < mundo humano < mundo divino [somos divinos!]) (*) O mais irônico, se seguíssemos o ‘roteiro’ do Veda seria que posicionaríamos o mundo mineral acima do animal, i.e., o mundo visível, os objetos, as coisas, a estrada que os cavalos percorrem como sendo mais importantes até que nosso tato, audição, visão, olfato e paladar, o que é absurdo, pois não vivemos em subserviência aos objetos, e sim o contrário: somos nós que os criamos graças a nossa condição de seres vivos, por assim dizer.

A palavra que mais pode gerar confusão na tradução aperfeiçoada acima é a última. O inconsciente é o sábio que mora em nós sem que possamos ou devamos cobrar aluguel. Na verdade é ele que nos sustenta, em grau ainda mais surpreendente que a consciência sustenta os meros instintos. Porém, o INCONSCIENTE sofreu muitas malversações nos últimos tempos. Não temos palavra melhor para caracterizar “o verdadeiro senhor da consciência”, mas infelizmente a psicanálise poluiu imensamente essa palavra, para não falar das (más) psiquiatrias, psicologias e filosofias (jamais leiam Von Hartmann, um homem que interpretou Schopenhauer da pior maneira possível e teve grande influência sobre os ‘apreciadores da filosofia’). É preciso decantar e esterilizar a palavra para reutilizá-la, não temos escolha, e na verdade não devíamos nos subjugar a algumas poucas gerações de tolos, ou teríamos de reinventar nomes para quase todas as coisas. Mesmo assim, para iniciar esse processo e a revalorização do termo inconsciente, bem-descrito no Veda como imenso, muito mais abrangente que a consciência (como o oceano perante uma piscina), vindo a ser em última instância tão importante que pode ser igualado a Brahman, já que qualquer entidade separada de nós e portanto de nossa instância mais elevada seria apenas criar quimeras e fábulas que só multiplicariam as complicações, quando sabemos que o que o hinduísmo diz é que somos Brahman, ao contrário do cristianismo, que estabelece um Deus infinitamente inacessível ao homem, tão inacessível que se tornou a religião favorita do niilista ocidental,¹ quer dizer, maioria da população, que é niilista sem o saber… Em suma, quero dizer que de uma forma ou de outra, se quisermos respeitar o credo hindu, devemos equiparar a noção “despoluída” de inconsciente ao Todo desta querida religião. Seja falando simplesmente inconsciente, seja empregando, se se quiser, o termo inconsciente coletivo de Jung.

¹ Podemos até dizer que quanto mais crente se é, mais ateu! Só uma religião tão mesquinha seria capaz de provocar a morte teórica de deus, gerando tamanho estrago civilizacional que os filósofos tiveram de interferir nos negócios dos padrecos!

Por outro lado, se ainda assim o leitor fizer questões de sinônimos, como mais acima, para me referir a ‘inconsciente’, recorreria a:

BRAHMAN = OM = INCONSCIENTE (COLETIVO) (Filosofia, Psicologia, Jung) = UM (Parmênides) = DAIMON (Sócrates) = Idéia (Platão)¹ = MUNDO (vulgar) = OUTRO MUNDO (Filosofia Ocidental)² = VONTADE DE POTÊNCIA ou VONTADE NÃO-UNA ou VONTADE NÃO-LIVRE (Nietzsche)³ = VIDA DO SÁBIO (hinduísmo e outros sistemas) = ETERNIDADE ou PRESENTE ETERNO4

¹ Como Sócrates não escreveu, estamos autorizados a referir o daimon socrático ao próprio gênio de Platão: tão “egoísta” que criou dois nomes para Brahman ou aquilo que há de mais sagrado!

² Emprego aqui o Outro Mundo no sentido “recuperado” que já demonstrei, em relação ao Além da maioria das religiões: o Outro Mundo é o mundo das Idéias de Platão, localizado na alma do sábio, e portanto neste mundo mesmo, no presente, aqui e agora. Esse é o tesouro máximo do hinduísmo: uma religião de massa que não nega o amor à vida e não incita à hipocrisia e à mentira, prometendo recompensas num futuro indefinido. O que é do sábio sempre foi, é e será do sábio. A eternidade já foi alcançada. Desde pelo menos Schopenhauer ou Kierkegaard (admito que Kant é um caso talvez especial; já Hegel acreditava apenas num canhestro progresso da História, sem entender que o presente já havia trazido todas as evoluções que ele só podia atribuir ao futuro da Europa), após o longo e sombrio hiato entre Platão e o mundo moderno (quase ainda ontem!), chegando ao trabalho de autores definitivamente afirmadores de um e somente um mundo, este aqui, como Husserl, Heidegger, os existencialistas, praticamente todos os filósofos dignos do século passado e deste, o Outro Mundo dos fanáticos religiosos e dos Escolásticos – considerados filósofos apenas nominalmente, meros escribas de patrões temporais (a Igreja) – foi abandonado em prol de uma nomenclatura despida de conotações deletérias, fraudulentas e niilistas: o Outro Mundo de que falo, sinônimo da nova Zeitgeist de retorno ao Oriente, é o Outro Mundo que eu interpreto estar exposto nos Vedas: o mundo do sábio que chegou à realização de que a eternidade é o presente. O reencantamento do mundo; por isso também incluo a palavra mundo, porque é no mundo que vivemos, e em nenhum outro, em que tudo é possível. Este mundo é o Um.

³ O termo “vontade de potência” gera confusão. Primeiro porque faz parte do espólio de Nietzsche, que provavelmente teria mudado a expressão antes de publicá-la ou pelo menos não a elegeria como título de sua próxima obra. Segundo, por culpa do estudante filisteu de filosofia, que tende a associar “potência” (que já é uma adaptação à tradução portuguesa de “poder” na tentativa de evitar ambigüidades e enganos!) com o conceito de poder/monopólio da violência do Estado na Política, e em decorrência a doutrinas absolutamente anti-nietzscheanas como “sobrevivência do mais forte aplicada à Ciência Política”, nazifascismo, psicologias de auto-ajuda (como se se tratasse aqui de uma ‘força de vontade’ individual tendente ao infinito, calcada na imaginação desconexa da materialidade do mundo!), etc. A terceira problemática, e que quis evidenciar empregando sinônimos como VONTADE NÃO-UNA e VONTADE NÃO-LIVRE, é a falsa equiparação que se faz entre a Vontade schopenhauriana e a Vontade propriamente nietzscheana. Como Nietzsche é influenciado por Schopenhauer, muitos filósofos até razoavelmente competentes podem cair na cilada de não enxergarem onde está uma linha de ruptura definitiva do primeiro pensador com este último. E é importante tocar no assunto, já que Schopenhauer teria cunhado o termo Vontade justamente influenciado, por sua vez, por suas leituras orientalistas vinculadas ao hinduísmo! Há aqui, pelo que se vê, uma espécie de mal-entendidos em cascata. Desfaçamos esse nó górdio de vez! Se eu estiver certo e Schopenhauer errado (e uma coisa é decorrente da outra, pois temos pontos de vista divergentes), o que Schopenhauer entendeu dos Vedas e particularmente do budismo que se desenvolveu a partir da Índia, é exatamente a leitura leiga, ou a leitura tola e literal, da ascensão rumo à Verdade bramânica. Isso porque para Schopenhauer a doutrina budista é um quietivo da vontade. Sua Vontade, em letra maiúscula, é a entidade metafísica que rege secretamente todos os fenômenos do mundo visível e observável (que ele chamará de Representação). O mundo da representação de Schopenhauer se assemelha muito ao Samsara, o inferno hindu, em que não há um propósito para a existência. Aí entra a volição individual do homem: ao se aperceber da futilidade deste mundo (e percebendo, no caso de Schopenhauer – este um grande mérito seu) que não existe um outro mundo, tudo que resta ao indivíduo informado, ou ao sábio, é negar a vontade, com letra minúscula, o outro mundo que existe neste mundo. Ora, mero produto de um mundo sobre o qual ele não tem o menor controle, o asceta budista ao menos se empenha em emascular sua vontade, ou seja, a parcela dessa grande e única Vontade que configura seus instintos e portanto seu impulso vital, tratando, em primeiro lugar, de se guardar de gerar prole (instinto da reprodução e perpetuação da vida); em segundo lugar – e não cabe aqui citar o suicídio, pois Schopenhauer sabe que não há fuga da existência, ele fala de uma mortificação da vontade individual a despeito de que no mundo aparente nada mude – de refugiar-se na ascese espiritual, descartando o quanto puder traços de egoísmo, evitando agir sobre este mundo que não tende a nada e é só uma sucessão indefinida de acontecimentos vãos e sem valor. Uma forma de conseguir reduzir sua vontade virtualmente a zero (além de escrever um tratado filosófico sobre isso), para Schopenhauer, é que o sábio se dedique a refugiar-se na arte; principalmente na Música. Schopenhauer vê na música o elemento fenomênico (sensível) mais próximo da inacessível Vontade cega regedora do universo. Através dela o ser humano pode perpassar pelo circuito de todas as emoções, e ao mesmo tempo não viver, isto é, limitar-se a sentir paixões sem qualquer conseqüência prática ou interferência no mundo exterior. Para Schopenhauer todo grande artista é um negador da vida, um budista mascarado. Discordo frontalmente desse ponto de vista. Como eu acredito no Veda como uma alegoria que quer significar exatamente o oposto – a valorização do presente e da vida –, é necessário pontuar: minha principal influência filosófica é Nietzsche, e sua vontade opera em contraposição máxima ao “niilismo passivo” schopenhaueriano. Nietzsche quer restaurar as condições do grande homem, da grande cultura, da grande civilização, algo que o Ocidente não é mais capaz de proporcionar. Daí se explica que a filosofia oriental tenha, por tabela, exercido impacto proeminente no pensar de Nietzsche. Sua vontade é não-una porque diferentemente da Vontade indivisível, “em bloco”, de Schopenhauer, Nietzsche enxerga esse elemento metafísico como sendo manifestações completamente aleatórias e independentes entre si, de modo que o que realmente há não é uma tirania da Vontade sobre este mundo material, mas a presença de vontades dispersas, cada uma unilateral, procurando exercer seu “ponto de vista” sobre as demais, e conseguintemente sobre o mundo material. Esta vontade que “não é livre” (são palavras do próprio Nietzsche), ou todas essas porções infinitesimais de vontade, só sabe uma coisa: ser aquilo que ela é; forçar seu caminho, chegar a seus últimos limites; e os últimos limites são as outras vontades. Essas vontades não são entes abstratos absolutos, quer seja, não existem desde sempre e para sempre, consideradas individualmente. Conforme o jogo de forças, que seria apenas o espelho do jogo de forças do mundo material (daí ser possível a Nietzsche descrever uma vontade que pode ser apenas nomeada por hipótese, lembrando que os sentidos, guiados pela intelecção, no homem sábio, são a via para a Verdade, exatamente como nos Vedas, e exatamente como em todo e qualquer grande filósofo; esta é uma lei), vontades antes autônomas podem se ver reagrupadas (talvez uma vontade mais poderosa englobou ou absorveu outra, vencida), como um “tecido de vontade” pode se desmembrar em múltiplas vontades com novos vetores e potencialidades… Esse jogo não termina, pois jamais houve nem haverá um vencedor. É uma “guerra democrática”, já que uma só vontade jamais se tornará soberana (a Vontade no sistema schopenhaueriano é tirânica, soberana, pois não há oposição dela consigo mesma). Não só a vida é regida pela vontade, mas ela é evidentemente seu campo de atuação primordial. Cada instinto nosso pode ser interpretado como a manifestação aparente de uma vontade. Isso explicaria, o que Schopenhauer deixou em aberto, por que num mesmo indivíduo tantas volições contraditórias precisam combater entre si para se manifestar, num jogo de sucessões intermináveis. Podemos ter uma personalidade definida e coerente, mas basta lembrar que essa é só nossa vida consciente. Por debaixo do pano “n” vontades lutam para fazerem-se valer, partindo do inconsciente até serem traduzidas no reino visível ou “mundo das aparências”. Acontece que a contraposição ao mundo das aparências, onde atuam as vontades, não é outro reino senão o ideal, o fictício, forjado principalmente pelas grandes religiões do passado do homem. O Cristianismo, o próprio Budismo são inimigos do homem que encontrou a Verdade na revelação do mundo como vontades em eterno conflito. Nietzsche reconhece que esta é a vida e ela não deveria ser diferente do que é no presente; necessariamente o que torna o homem burguês decadente haverá de ser vencido um dia, por novos valores, novas vontades, novas potências. Embora tudo nasça, se desenvolva, atinja um auge, decline e finalmente morra, o fato de as vontades se entrechocarem o tempo todo, de a realidade da Vontade de Potência ser “estar sempre em contradição consigo mesma”, ambos os fatos são o fundamento da existência, e isto é o que há de constante neste grande pensamento. Exatamente como nos Vedas. Por esse lado, Nietzsche parece ser o inimigo de um credo que buscaria a ascese suprema, a libertação, a evasão do ciclo de reencarnações, a fusão com Brahman. Mas tudo depende de se Nietzsche – que não foi explícito nesse tocante – entendeu os Vedas dessa forma ou se “empatou” com minha conclusão: os Vedas foram, até hoje, mal-interpretados. Eles são um hino à vida, coincidentes com a filosofia nietzscheana. E o que é mais espantoso é que Nietzsche, que tanto se bateu com Platão, pode (pode! não sabemos bem o que ele deixou de declarar deliberadamente – coisa de filósofos!) não ter percebido que a dialética-maiêutica de Platão, sua teoria das reminiscências e das Idéias, tudo aquilo que o alemão parece ter associado, a princípio, à negação da vida em prol de “meras conjeturas servíveis apenas num Além-mundo”, é no fundo uma filosofia gêmea a sua! São duas aproximações que redundam nas mesmas conclusões. O primeiro e maior filósofo do Ocidente encontra em Nietzsche seu acabamento, e o acabamento da filosocia ocidental como um todo, como são muitos os que o afirmam. Ou podemos considerar Nietzsche um iniciador, e Platão o responsável pelo acabamento? Não faz diferença, quando a filosofia (a busca pela sabedoria) é atemporal e não tem fim ou começo. As filosofias mais sábias e honestas tenderão a chegar às mesmas conclusões, por mais que seus métodos e termos-chaves pareçam tão distintos e antípodas – esse pseudo-antagonismo não resiste a uma análise mais detida, não são filosofias ou fés, mas a Fé, a Filosofia Verdadeira. E não é um império dual, mas um triunvirato, se eu estiver certo: o hinduísmo corrobora, antes mesmo da História do Ocidente devir, estes dois maiores filósofos, o alfa e o ômega da historiografia da disciplina; nossos legítimos contemporâneos. Nietzsche declarou que Heráclito podia ter enunciado seu eterno retorno. Talvez seja o ponto cego inerente a cada filósofo que ele não tenha visto algo tão evidente para nós: Parmênides e Platão são os legítimos filósofos do eterno retorno da Antiguidade. A teoria das reminiscências é muito afim ao karma hindu e à proposta ética de Nietzsche para passarmos esta semelhança por alto. De onde quer que se parta, o Um parmenídeo, a Idéia platônica, o daimon socrático, a vontade de potência ou o privilégio da fusão do sábio com o verdadeiro invisível dos livros sagrados da Índia, a rota percorrida parece exatamente a mesma.

Para uma explicação mais detalhada das vontades em N. e S., recomendo meu post dedicado à filosofia de Schopenhauer (HISTÓRIA DAS IDÉIAS 3) ou ainda meu livro VONTADE DE INTERPRETAÇÕES (à venda em https://clubedeautores.com.br/livro/vontade-de-interpretacoes-2). E sim, o título do meu livro foi escolhido sarcasticamente, muito em virtude das distorções voluntárias ou não de exegetas quanto ao termo vontade de potência!

4 1) Eternidade é a palavra mais fácil a que atribuir autor: pode ser determinada como de uso vulgar desde os tempos mais imemoriais;

2) Esta nota de rodapé existe em razão do segundo termo, seu equivalente, se bem que, ao mesmo tempo, enfatizador da obviedade de que em havendo eternidade só pode haver uma eternidade presente. Isso porque não nos interessa aqui considerar a divisão tripartite do tempo entre passado, atualidade e futuro, o que seria jogar pela janela toda essa interpretação, julgo eu, em alto nível dos Vedanta, e aliás regressar às noções cavernícolas de tempo para Isaac Newton, sendo que Immanuel Kant destroçou pouco depois qualquer possibilidade desse “tempo em linha reta de jardim de infância” ter qualquer validade acadêmica séria. Como não sou Arnold Schwarzenegger me recuso a retornar ao jardim de infância, ainda que seja para dar aulas que gerem mais polêmica que o tira no filme! Afinal de contas, se quiséssemos falar de pseudo-eternidades (conceitos vulgares a-filosóficos) poderíamos partir para análises historiográficas de como não fazemos rigorosamente idéia de quantos anos há para trás ou para frente no universo, debate aliás absurdo e completamente improdutivo que é uma obsessão quase sexual e do subgênero sado-masoquista (uma parafilia) desses “especialistas sem espírito” (Weber) chamados físicos modernos, que falam com pompa e autoridade sobre asneiras como “big bang ou singularidade” (o ‘Adão e Eva’ dos filisteus™), “universo antes do universo existir, (!) previamente ao início do tempo, (!!) sob a forma de um ponto de densidade infinita (!!!)” ou ainda como “uma suposta idade atual do universo na casa dos 13 ponto sei lá quantos bilhões de anos”… Tampouco me interessa, aliás, tampouco interessa a qualquer habitante do planeta Terra, para sermos francos, quantos bilhões de anos o sol demorará para “queimar”, “explodir” ou “simplesmente se apagar”, primeiro porque no ritmo do capitalismo a Terra queimará “sem ajuda” antes, muito, muito antes; segundo porque não está provado – já que os cientistas amam de paixão esta palavra –, mesmo assumindo a absurdidade da hipótese de um universo com início-meio-fim proposta por físicos que quebra as próprias leis da física,(*) que não poderia haver uma – na falta de termo melhor, e de empréstimo da astronomia – precessão das condições de ‘sobrevivência’ do sistema solar, para começo de conversa, quando eventos teoricamente prováveis em escala de bilhões de anos segundo nossos melhores matemáticos, estatísticos, físicos e químicos não poderiam ser descartados por inumeráveis fatos intervenientes no decorrer de todo esse tempo (5 bilhões de anos de vida restantes para nosso Astro-Rei!) no próprio reino da ciência estritamente acadêmica, ainda mais levando em conta que não há disciplina que não sofra grandes revoluções de paradigmas em um módico intervalo de décadas! Para se ter idéia, se preservássemos todas as condições de realização do Campeonato Brasileiro de Futebol numa estufa, dando vida eterna aos jogadores, dentro de bilhões de anos até o Coritiba, atual equipe de várzea, viria a ser campeã dos pontos corridos um sem-número de vezes com até 100% de aproveitamento em alguma das ocasiões!!! Bilhões de anos é uma quantidade de tempo imensurável. Tudo e qualquer coisa acontece num “período” tão vasto (é tão vasto que ouso dizer que nenhuma mente humana foi formatada para conceber quão verdadeiramente vasta é a quantidade de 1 milhão de anos, de modo que se multiplicarmos isso por mil podemos ter certeza de que todos os lobos do planeta terão sido extintos pelo mero apetite de uma única criança chamada Chapeuzinho Vermelho).

Para chegarmos direto ao ponto (que não é um ponto de densidade infinita que estourará, devido a uma maldosa singularidade, justo na sua cara, fique tranqüilo!), avancemos. Obviamente não fui eu quem cunhou a expressão PRESENTE ETERNO, mas no momento eu não saberia dizer quem foi o primeiro a utilizá-la, e no sentido aqui proposto. Tenho razoável confiança de que Nietzsche chegou a utilizar este binômio; de qualquer forma, não sendo o caso, foi ele quem influenciou autores do séc. XX a forjá-lo neste sentido que tenho em mente, se for mesmo verdade que já não o tomaram de empréstimo. Mas suspeito que antes de Nietzsche esta expressão, para um sentido parecido em Metafísica, já estava em voga. Ainda preciso pesquisar a respeito.

(*) DESABAFO EM CAPS LOCK

ME DIGAM EM QUE HOSPÍCIO JÁ SE VIU TAMANHA LOUCURA! MAS FALAR NISSO EM TEMPOS DE IVERMECTINA PARA TRATAMENTO DA COVID, EU SEI, CHEGA A SER UMA BLASFÊMIA, PORQUE DESCREDIBILIZA A CIÊNCIA ESTABELECIDA, EMBORA “ISSO” QUE OS FÍSICOS CHAMAM DE “TEORIA DO BIG BANG” PASSE LONGE DE SER MÉTODO E DE SER CIÊNCIA, MOLE OU DURA! ACONTECE QUE UM DIA, A LONGO, PRAZO, ISSO DEVERÁ SER ENDEREÇADO E DISCUTIDO, ENTÃO EU ARREMESSO A PRIMEIRA PEDRA SEM PUDOR E SEM MEDO – CIENTE DO MEU LEGADO – DE SER CHAMADO POR ALGUM CABEÇA-DE-BOI DE negacionista, MINHA CONTRA-DEFINIÇÃO POR EXCELÊNCIA! PORQUE, INFELIZMENTE, QUEM TEM VOZ NESSE DEBATE ATUALMENTE E QUE ATAQUE A TEORIA DEMENTE DO BIG BANG É OU CRIACIONISTA (COMO SE INVENTAR COISAS TÃO ESTAPAFÚRDIAS COMO UM PONTO DE DENSIDADE INFINITA PARA EXPLICAR A ORIGEM DA EXISTÊNCIA NÃO FOSSE DEIXAR OS COMUNS DOS MORTAIS DE CABELO EM PÉ, LOUCOS PARA ENTRAREM NUMA IGREJA E PEDIREM SOCORRO A UM PASTOR!) OU TERRAPLANISTA, OU SEJA, ESCÓRIA DA ESCÓRIA, AINDA MAIS DEMENTES QUE OS “FÍSICOS CONTEMPORÂNEOS”…

* * *

Mas ainda não acabou a hierarquia do texto sagrado! A ele devemos regressar:

“Higher than the immense self is the unmanifest;

Higher than the unmanifest is the person;

Higher than the person there’s nothing at all.

That is the goal, that’s the highest state.”

Acontece que eu equalizei o immense self ou inconsciente a todo o imanifestável, como foi visto exaustivamente acima! O Nada. Quase consigo acreditar que esses trechos dos Vedas sofreram interpolação de fanáticos de época posterior. Olhando dessa maneira, parece que os vaticínios de Schopenhauer fariam todo o sentido! Mas não percamos de vista que o Veda é um poema e não deve ser mal-interpretado. Tendemos a ler o “nada” deste escrito tão antigo como o nada da filosofia contemporânea, o que é um erro. Claro que não posso justificar em mil anos a segunda linha. Persons, se estivermos falando de individualidades, consciências, já ficaram muito abaixo na hierarquia. Por isso a diferença no matiz dos verdes: quanto mais escuro, mais censurável. Se acima do inconsciente ou, que seja!, daquilo-que-não-pode-ser-manifestado, só há o nada, ou não há nada, não significa que o último passo já foi dado? E não foi isso que foi dito no verso sobre Vishnu mais acima? A meta é chegar à realização do presente como a felicidade máxima: mais que isso é impossível, é absurdo. A pergunta pode até ser colocada: Existe outro degrau? Mas a resposta invariável é: Não.


“Hidden in all the beings,

this self is not visibly displayed.

Yet, people of keen vision see him,

with eminent and sharp minds.”

Pode até mesmo ser que o “nada” se refira apenas aos tolos. Sabemos que o invisível que o sábio vê no topo de todas as coisas do mundo, do único mundo, é Brahman, são as vibrações do Om. É o self no sentido hinduísta. E por que voltariam a citar “this self” quando, supostamente, a hierarquia ainda “subiu mais”, citando “unmanifest” depois, e “persons” (sic)? Porque os quatro versos de “Higher than the immense self…” a “…that’s the highest state.” são de importância relativa quase nula se compararmos a tudo o que precede e sucede!


“A razor’s sharp edge is hard to cross—

that, poets say, is the difficulty of the path.”

E no entanto não basta ensinar, como eu já disse. A jornada não pode ser ensinada. Quantos tolos não existem para cada Platão? Quantos puderam entender Platão? Quantos especialistas em Platão (oxímoro) me dirão que estou correto sobre Platão? A eternidade não é uma descoberta no estilo Eureka!. Posso enunciá-la quantas vezes quiser. Alguém a terá mesmo obtido, na forma como descrevi? Eu mesmo, vivo no presente sem me autoenganar, em minha potencialidade máxima, isto é, na potencialidade máxima que cabe ao homem? Sobre isso, Bíblias demais já foram escritas para que incorramos nas mesmas e repisadas fraudes… Fechando o parágrafo com uma piadinha: desde Gutenberg, nenhuma bíblia foi escrita. Os copistas perderam o emprego!


“It has no sound or touch,

no appearance, taste, or smell;

It is without beginning or end,

undecaying and eternal;

When a man perceives it,

fixed and beyond the immense,

He is freed from the jaws of death.

*

The wise man who hears or tells

the tale of Naciketas,

an ancient tale told by Death,

will rejoice in Brahman’s world.”

Quem senão a Morte (o Nada, pois nada está acima de Brahman) poderia contar o antigo conto (tale também pode ser traduzido como história ou conversa – o que é muito revelador sobre Platão e o método dialógico)?


“If a man, pure and devout, proclaims this great secret

in a gathering of Brahmins,

or during a meal for the dead,

it will lead him to eternal life!”

E assim termina o monumental capítulo do Upanishad chamado Katha, ou pelo menos a parte que mais nos interessa.

CURIOSIDADES PITORESCAS SOBRE BANDAS PITORESCAS

MINIBIOGRAFIAS DE ALGUMAS BANDAS OU ARTISTAS QUE ACUMULEI EM MEUS “RODOPIOS SONOROS” ULTIMAMENTE…

“Renewed interest in Johnson’s work and life led to a burst of scholarship starting in the 1960s. Much of what is known about him was reconstructed by researchers such as Gayle Dean Wardlow and Bruce Conforth, especially in their 2019 award-winning biography of Johnson: Up Jumped the Devil: The Real Life of Robert Johnson (Chicago Review Press).” “Marc Meyers, of the Wall Street Journal, wrote that ‘His Stop Breakin’ Down Blues from 1937 is so far ahead of its time that the song could easily have been a rock demo cut in 1954.”

“Raven are an English heavy metal band, formed in 1974 by the Gallagher brothers, bassist and vocalist John and guitarist Mark. They have released 14 studio albums to date, and had a hit with the single On and On. Often referred to as athletic rock, the band gained notoriety as part of the early-to-mid 1980s NWOBHM and is considered to be an influence and inspiration on development of the thrash metal genre, including bands such as ‘the big four’ (Metallica, Slayer, Megadeth and Anthrax), as well as others like Testament, Exodus, Overkill, Kreator, Sodom, Onslaught, Death Angel, Flotsam and Jetsam, Coroner, Annihilator, and Razor. Raven are also notable for headlining Metallica’s first-ever national tour in 1983.”

“Diamanda Gálas (born August 29, 1955) is a Greek American musician and visual artist. Her commitment to addressing social issues and her involvement in collective action has made her concentrate on themes as diverse as the AIDS epidemic, mental illness, despair, loss of dignity, as well as political injustice, historical revisionism and war crimes, among much else. Galás has attracted the attention of the press particularly for her voice – a soprano sfogato – and written accounts that describe her work as original and thought-provoking and refer to her as ‘capable of the most unnerving vocal terror’, an ‘aesthetic revolutionary’, ‘a mourner for the world’s victims’ and ‘an envoy of risk, honesty and commitment’.

(…)

Her first solo album, The Litanies of Satan (1982), was also an operatic work. It included only 2 compositions: a 12-minute piece entitled Wild Women with Steak-Knives, which was described by Galás in the album notes as tragedy-grotesque deriving from her work Eyes Without Blood, and another lengthy composition, Litanies of Satan, an adaptation to music of a section from Charles Baudelaire’s poem Les Fleurs du Mal.”

“Tangerine Dream are considered pioneers of the early days of electronica. Their work with the electronic music Ohr label produced albums that had a pivotal role in the development of the German musical scene known as kosmische (‘cosmic’). Their Virgin Years, so called because of their association with Virgin Records, produced albums that further explored synthesizers and sequencers, including the UK top 20 albums Phaedra (1974) and Rubycon (1975).”

“Cliff Richard (born Harry Rodger Webb; 14 October 1940) is an English singer, musician, actor, and philanthropist who holds both British and Barbadian citizenship. He has sold more than 250 million records worldwide, making him one of the best-selling music artists of all time. He has total sales of over 21.5 million singles in the United Kingdom and is the 3rd-top-selling artist in UK Singles Chart history, behind the Beatles and Elvis Presley.”

“Front 242 is a Belgian electronic music group that came into prominence during the 1980s. Pioneering the style they called electronic body music, they are a profound influence on the electronic and industrial music genres.”

“Klaus Schulze (born 4 August 1947) is a German electronic music pioneer, composer and musician. He also used the alias Richard Wahnfried. He was briefly a member of the Krautrock bands Tangerine Dream, Ash Ra Tempel, and The Cosmic Jokers before launching a solo career consisting of more than 60 albums released across five decades.” W o w !

“English Dogs were a British hardcore punk band that began life in the early eighties. Two versions of the band co-exist, the punk and metal crossover band featuring original drummer Andrew ‘Pinch’ Pinching and second-era members Graham ‘Gizz’ Butt and Adie Bailey; and a purely punk-based one featuring original vocalist Pete ‘Wakey’ Wakefield.”

“Snap! is a German Eurodance group formed in 1989 by producers Michael Münzing and Luca Anzilotti. The act has been through a number of line-up changes over the years”

“Technotronic was a Belgian electronic music project formed in 1988 by Jo Bogaert, who originally gained popularity in Europe as a solo artist with various New Beat projects, including the Acts of Madmen and Nux Nemo.”

“Amen is an American hardcore punk band formed in Los Angeles, California in 1994. The band was founded by front man and singer Casey Chaos and combines elements of punk rock, hardcore, and heavy metal. Amen has released 4 studio albums [and] 1 live album”

“Public Image Ltd (abbreviated as PiL) are an English post-punk band formed by singer John Lydon, guitarist Keith Levene, bassist Jah Wobble, and drummer Jim Walker in 1978. The group’s personnel has changed frequently over the years; Lydon has been the sole constant member. Following his departure from the Sex Pistols in January 1978, Lydon sought a more experimental ‘anti-rock’ project and formed PiL”

“Apoptygma Berzerk (/əˈpɒptɪɡmə/; commonly abbreviated to APB or APOP) is a Norwegian musical group. They have achieved success with a brand of synthpop, and ballads backed with electronic rhythms, commonly known within the scene and referring to themselves as ‘futurepop’. Apoptygma Berzerk has over 30 releases and won awards and Top 10 spots in Germany and Scandinavia. Apoptygma Berzerk has toured Europe, North America, South America, Israel and Australia with bands such as VNV Nation, Beborn Beton, Icon of Coil and Unheilig.”

“Magnum are an English hard rock band. They were formed in Birmingham¹ by Tony Clarkin (guitar, songwriter) and Bob Catley (vocals) in order to appear as the resident band at the Rum Runner nightclub in the city. Magnum have undergone several changes in personnel over the years; however, the core of Catley and Clarkin remain. Magnum’s most significant early success was Chase the Dragon in 1982, which reached number 17 in the UK Albums Chart. It included several songs that would become mainstays of the band’s live set, notably Soldier of the Line, Sacred Hour² and The Spirit. The band’s 1986 album Vigilante represented a further move towards the mainstream before the band achieved their commercial peak in 1988 when they entered the UK Top Ten for the first time with the album Wings of Heaven, which reached number five and featured 3 Top 40 singles, Days of No Trust, Start Talking Love and It Must Have Been Love.” Deve ser um Def Leppard da vida agora!

¹ Uma vez que a banda é de 1972, digamos que foram “colegas de ambiente” do Black Sabbath! Ainda estão ativos…

² O motivo para esta banda ter sido citada no livro de Dayal Petterson – de onde acabei retirando quase todas essas referências (as minibiografias são da Wikipédia) – é que essa faixa foi plagiada pelo 1º tecladista do Dimmu Borgir!

“Modest Petrovich Mussorgsky; 21 March (O.S. 9 March) 1839 – 28 March (O.S. 16 March) 1881) was a Russian composer, one of the group known as ‘The Five’. He was an innovator of Russian music in the Romantic period. He strove to achieve a uniquely Russian musical identity, often in deliberate defiance of the established conventions of Western music.”

“Dead Can Dance is an Australian music duo from Melbourne. Currently composed of Lisa Gerrard and Brendan Perry, the group formed in 1981 and relocated to London the following year. Australian music historian Ian McFarlane described Dead Can Dance’s style as ‘constructed soundscapes of mesmerising grandeur and solemn beauty; African polyrhythms, Gaelic folk, Gregorian chant, Middle Eastern music, mantras, and art rock’.

Having disbanded in 1998, they reunited briefly in 2005 for a world tour and reformed in 2011 when they released and toured a new album, Anastasis. They released a new album in 2018 called Dionysus and are touring again as of mid-2019.”

“Enya Patricia Brennan (born 17 May 1961) is an Irish singer, songwriter, record producer and musician. Born into a musical family and raised in the Irish-speaking area of Gweedore in County Donegal, Enya began her music career when she joined her family’s Celtic folk band Clannad in 1980 on keyboards and backing vocals. She left in 1982 with their manager and producer Nicky Ryan to pursue a solo career, with Ryan’s wife Roma Ryan as her lyricist. Enya developed her sound over the following 4 years with multitracked vocals and keyboards with elements of new age, Celtic, classical, church, and folk music. She has sung in 10 languages.” “Enya is Ireland’s best-selling solo artist and 2nd-best-selling artist behind U2, [urgh!] with a discography that has sold 26.5 million certified albums in the United States and ~75 million records worldwide, making her one of the best-selling music artists of all time. A Day Without Rain (2000) remains the best-selling new-age album, with an estimated 16 million copies sold worldwide. Enya has won awards including 7 World Music Awards, 4 Grammy Awards for Best New Age Album, and an Ivor Novello Award. She was nominated for an Academy Award and a Golden Globe Award for May It Be, written for The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring (2001).” [!]

“Loreena Isabel Irene McKennitt (born February 17, 1957) is a Canadian singer-songwriter, multi-instrumentalist, and composer who writes, records and performs world music with Celtic and Middle Eastern influences. McKennitt is known for her refined and clear soprano vocals. She has sold more than 14 million records worldwide.”

“Folque is a Norwegian folk rock band founded in 1973 by Morten Bing, Jørn Jensen, Eilif Amundsen, Lisa Helljesen, Espen Løvstad, Trond Øverland, and Trond Villa. In 1972 a subset of the band was initially named «Brød & Vin» (Bread & wine), they changed the name to Folque in the spring of 1973 after adding members and traditional instruments to the ensemble. The band was dissolved in 1984, but reunited in 1994 and in 2004 for playing live. Folque is re-established in 2014 with Lisa Helljesen as lead singer.

Their musical style is linked to Malicorne in France and to Steeleye Span in the UK. Most of the discography is difficult to find, as only the first 3 albums [out of 10!] were re-released on CD.”

“Massive Attack are an English electronic band formed in 1988 in Bristol by Robert ‘3D’ Del Naja, Adrian ‘Tricky’ Thaws, Andrew ‘Mushroom’ Vowles and Grant ‘Daddy G’ Marshall.”

“John Zorn (born September 2, 1953) is an American composer, conductor, saxophonist, arranger, multi-instrumentalist, producer and dedicated improviser that deliberately resists category. Zorn’s avant-garde and experimental approaches to composition and improvisation are inclusive of jazz, rock, hardcore, classical, contemporary, surf, metal, soundtrack, ambient, and world music.”

“Faster Pussycat is an American rock band from Los Angeles, California, formed in 1985 by vocalist Taime Downe, guitarists Brent Muscat and Greg Steele and bassist Kelly Nickels. The group has since gone through numerous lineup changes leaving Downe as the only constant member. They broke up in 1993, but reformed in 2001. Faster Pussycat has released 4 studio albums to date (…) They were one of the most successful hard rock bands of the late 1980s and early 1990s, having sold over two million records worldwide.”

“Yann Tiersen (born 23 June 1970) is a French musician and composer. His musical career is split between studio recordings, music collaborations and film soundtracks songwriting. His music incorporates a large variety of classical and contemporary instruments, primarily the electric guitar, the piano, synthesisers and the violin, but also folkoric instruments like the melodica, xylophone, toy piano, harpsichord, piano accordion or even typewriter.”

“Ataraxia is an Italian neoclassical dark wave band founded in 1985. Frontlined by singer Francesca Nicoli, it combines modern technology with archaic instrumentation. The lyrical themes are frequently drawn from nature and ancient cultures.”

“The Chameleons were an English post-punk band formed in Middleton, Greater Manchester, England, in 1981. The band consisted of singer and bassist Mark Burgess, guitarists Reg Smithies and Dave Fielding, and drummer John Lever.”

“Ride are an English rock band formed in Oxford in 1988. The band consists of Andy Bell, Mark Gardener, Laurence ‘Loz’ Colbert, and Steve Queralt. The band were initially part of the ‘shoegazing’ scene that emerged in England during the early 90s. Following the break-up of the band in 1996, members moved on to various other projects, most notably Bell who became the bassist for Oasis.”

“Mono (stylised as MONO) is a Japanese instrumental band, formed in 1999 in Tokyo. The band consists of Takaakira ‘Taka’ Goto (electric guitar, glockenspiel), Hideki ‘Yoda’ Suematsu (electric guitar, glockenspiel), Dahm Majuri Cipolla (drums), and Tamaki Kunishi (bass guitar, electric guitar, piano, glockenspiel).”

“Godspeed You! Black Emperor (sometimes abbreviated to GY!BE) is a Canadian experimental music collective which originated in Montreal, Quebec in 1994. The group releases recordings through Constellation, an independent record label also located in Montreal. After the release of their debut album in 1997, the group toured regularly from 1998 to 2003. Their second album, 2000’s Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven, received great critical acclaim and has been named as one of the best albums of the decade.”

“Swans are an American experimental rock band formed in 1982 by singer, songwriter and multi-instrumentalist, Michael Gira. One of few acts to emerge from the New York City-based no wave scene and stay intact into the next decade, Swans have become recognized for an ever-changing sound, exploring genres such as noise rock, post-punk, industrial and post-rock.”

“Of the Wand & the Moon (stylized as :Of the Wand & the Moon:) is the neofolk/experimental project of Danish musician Kim Larsen and various guest contributors.”