JEROME, OR DEATH IN THE LIFE OF THE OBSESSIONAL

“Our knowledge begins with a story – a bit simplistic, a bit stupid, of the kind we hear from the couch or read in the paper.

It concerns an analyst of great renown, who hour after hour is generous enough to receive and to listen to his illustrious clients. One day he was a little weary and did not get up from his easy chair. A charming secretary, used to this, ushered each patient out at the end of his session. It was 5 o’clock, and the obsessional who was lying there was speaking a great deal. When the session was over, the patient, particularly satisfied with himself, concluded with these words: <l think this has been a good session.> Then, echoing the words habitually spoken by the analyst, he added, <We are going to leave things there.> He looked at the therapist, who appeared to be colder than usual; he seemed to be asleep. But no, he was very pale, really cold. The patient was concerned and summoned the secretary, who became agitated. They called a colleague, who ran right over, listened, and said that the analyst had died three hours earlier.”

“Since its invention, I think that all the patients in the world have learned it or have reinvented it and told it as though it were theirs”

“What is principally in question is a desire to murder, desire to murder the father, that is to say, to bring about a death.” “identificação com a pessoa morta”

“O famoso provérbio, <Pensar em algo como se fosse a morte> (que quer dizer que não se deve pensar nesse algo em absoluto).” Pense na consciência morta de um elefante rosa.

“Even today there are those who believe in the death drive only in the same way that they believed in Santa Claus, in reverence to the fancy and the obstinacy of the old man.” Thankfully!

“he was 12 or 13 and had found an old revolver. There was a discussion at dinner, a dispute with his father, who broke down in tears. That day Jerome swore to himself never to oppose his father for the rest of his life.”

“he had for a long time desired to have a mummy. Moreover, Egyptian history interests him, as does anything else that can clarify the problem of origins. Jerome likes family trees and grand historical syntheses. He wants to know precisely of what lineage he is the final term, the result. He regrets not having a gallery of ancestors whose portraits he can see, so why not Ramses II, who is the mummy.”

“I want for once to be up to date; I want to liquidate all the files that have piled up on the left side of my desk, finally to be able to breathe. When I succeed, anxiety grabs me and I have to find another unfinished task quickly. I exhaust myself in catching up on my lateness, the work that I undertake ought already to have been finished. I have no free time; there are no Sundays for me.

Whether or not it is a question of identification, it is certain that Jerome wishes he were already dead, and especially that he lives as though he were already dead.

He is the end of a line, he cannot have children, he is the finish, the conclusion, already ended; there is no future for him, and the life that remains is already filled with tasks to accomplish, files to classify, affairs to liquidate, problems to bring up to date. On his trips everything is paid in advance. The only time he feels himself alive is at night in his car, when he discovers in the opening created by his headlights a road that promises new and mortal perils… a little like analysis.”

os dados já foram todos lançados

quântico migo babe

Um homem que não encontra seus óculos, pode muito bem ser porque já os tenha encontrado; já os esteja usando; há muito, muito tempo; tanto que já nem se lembra mais.

“l am like a blind man who wants to know what he will see before he gets his sight back.”

“the obsessional structure can be conceived of as the repeated refusal of the possibility of one’s own death.”

“Our unconscious does not believe in the possibility of its own death.” Freud

“Certainly, everyone knows that the mummy, in the dictionary of dreams, can also signify <penis> and can evoke the image of the bandaged organ of a late circumcision.”

“I think you can see that while Isabelle speaks of her sexuality, Jerome speaks of his existence. This is the way that J . Lacan has defined the questions of the hysteric and the obsessional neurotic.”

Freud – lnhibitions, Symptoms and Anxiety

“Jerome is convinced that his death will not arrest clock time, and that is what matters for him. He has a truly spatialized time that kepps life suspended or framed. (…) And I am convinced that this spatialization of time, this freezing of becoming, is in part the work of the death drive.”

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A DIALÉTICA DA FÉ EM KIERKEGAARD – Marieta Pinho (tese de mestrado)

“O fracasso dos sistemas, o paradoxo e o absurdo, o desespero e a angústia, o abandono do homo naturalis e o compromisso do homo christianus, o sentido do risco e o drama do indivíduo, o valor exclusivo da subjetividade e a incerteza absoluta do <objetivo>: eis os temas de Kierkegaard que, depois, ao lado de certos princípios estabelecidos por outros filósofos, como Nietzsche e Husserl, viriam a ter ressonâncias imprevistas no contexto das novas doutrinas existenciais. <Suas teses passaram a explanar-se num clima que já não é o clima kierkegaardiano>” (JOLIVET, 1961, p. 31).

“Na obra O Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor, Kierkegaard mostra aos seus leitores, com precisão e coerência, um roteiro da evolução do seu pensamento <como num drama em que a sucessão das cenas e dos atos obedece a um plano rigorosamente definido> (KIERKEGAARD, 2002, p.12). Ele mesmo declara que sua obra tem como objetivo precípuo o tornar-se cristão.”

O Corsário – Semanário político, essencialmente liberal, fundado por Meir Aaron Goldschmidt. Ele agredia o regime absolutista, o partido conservador, a censura e tudo quanto em si tivesse o menor sabor reacionário. Goldschmidt era um jovem admirador de Sören Kierkegaard, cuja genialidade logo reconhecera. Poeta, novelista e escritor satírico, poucos contemporâneos livraram-se de suas críticas. Um incidente marcou a vida de Kierkegaard, pois Goldschmidt usou tanto da caricatura como da sátira pessoal, em represália a críticas de Kierkegaard ao jornal. Kierkegaard ficou profundamente abalado, ao ser exposto em situações ridículas e difamatórias aos olhos do povo (MINISTERIO DE RELACIONES EXTERIORES DE DINAMARCA. Peter P. Rohde. Tradução: Daniel Kraemer/Vibeke Pentz-Möler, s/d).”

“A autoria pseudonímica adota principalmente um tipo existencial cujo modelo é o esteta romântico alemão – o dândi irônico, cuja maior preocupação é evitar o tédio e manter um interesse intelectual pela vida e os prazeres sensuais. Ironicamente, o esteta é consumido pela melancolia, considerando sua maior felicidade a própria infelicidade.”

“a ironia funciona como confinium, uma área limítrofe entre a estética e o ético.”

“A categoria <Indivíduo>, eminentemente kierkegaardiana, constitui a categoria cristã por excelência, que designa ao mesmo tempo o <Único e cada um de nós>. (KIERKEGAARD, 2002, p. 13).”

“O cristianismo pede-nos para amar o nosso próximo, isto é, cada homem, não nos manda amar a multidão, caminho que conduz sempre ao poder temporal e a todas as baixezas da lisonja e da falta de compromisso.”

IRONIA AO IRONISTA (A.K.A. DEUS JOGA RPG): “Kierkegaard renuncia publicar o Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor e crê que <a providência guiou esta decisão> (KIERKEGAARD, 2002, p. 18). Somente em 1859, quatro anos após a sua morte, o seu irmão, Peter Christian, bispo de Aalborg, promove a edição do que ele decidira guardar.”

“Sócrates, que, diante da multidão chamada a julgá-lo, recusa defender-se e silencia.”

Oehlenschläger – Aladim ou a Lâmpada Maravilhosa

“Durante o período do seu noivado com Regina Olsen, Kierkegaard ocupou-se em escrever a sua dissertação do mestrado em filosofia, <O conceito de ironia constantemente referido a Sócrates>, de 1841, que mais tarde a Universidade de Copenhague passou a reconhecer como tese de doutorado, em 1854.

Como usualmente as dissertações acadêmicas tinham de ser escritas e defendidas em latim, Kierkegaard pediu autorização ao rei para escrever a sua em dinamarquês. Só em parte foi atendido, sendo-lhe permitido escrever em dinamarquês, com a condição de condensar o trabalho em uma série de teses em latim, para defendê-las publicamente, também em latim, antes de ser-lhe concedido o grau. Logo após a defesa de sua dissertação, Kierkegaard desfez seu compromisso de noivado.

Empreendeu, então, a primeira das quatro viagens a Berlim – suas únicas viagens ao estrangeiro, sem contar uma breve passagem pela Suécia. Durante essa primeira estada em Berlim, Kierkegaard escreveu a maior parte do primeiro volume de <Ou, Ou – Um fragmento de vida>, de 1843, embora muito do segundo volume já estivesse pronto.”

“A Heiberg era creditada a introdução da filosofia de Hegel na Dinamarca, apesar de algumas conferências sobre Hegel já terem sido feitas pelo filósofo norueguês Henrik Steffens, entre outros. Não obstante, o fato de Heiberg ter publicado trabalhos de Hegel acelerou esta aceitação no curso principal da vida intelectual dinamarquesa.

Pelo fim dos anos de 1830, o hegelianismo já penetrava a filosofia, a teologia e a estética de Copenhague. Isto, obviamente, engendrou alguma resistência, incluindo a dos professores de filosofia de Kierkegaard, F. C. Sibbern e Paul Martin Möller. H. L. Martensen, professor de teologia da Universidade de Copenhague e depois Bispo Primaz da Igreja do povo dinamarquês, apenas cinco anos mais velho que Kierkegaard, estava firmemente estabelecido no grupo literário de Heiberg e antecipou um dos mais caros projetos literários de Kierkegaard – uma análise da figura de Fausto

Em suas revistas, como parte de sua prática em tornar-se um escritor, Kierkegaard ficara fascinado por três grandes figuras literárias da Idade Média, que, em sua concepção, encarnavam um alcance completo dos tipos estéticos modernos. Essas figuras eram Don Juan, Fausto e o Judeu Errante, encarnando, respectivamente, a sensualidade, a dúvida e o desespero.”

“A liberdade da imprensa tinha sido severamente corroída pelo estatuto do Rei Frederico VI, em 1799, e foi ameaçada com total censura pela legislação de 1834. Em 1835, para combater essa possibilidade, formou-se uma associação em prol do uso correto da liberdade de imprensa.”

“A primeira afirmação de Andersen (1805-1879)(*) era que o gênio precisava ser nutrido, ser ajudado, pois podia sucumbir às circunstâncias e desaparecer sem nenhum traço. Já Kierkegaard, discordava disso fortemente, dizendo que a centelha do gênio nunca poderia ser extinta, mas somente aumentada pela adversidade.”

(*) “Um dos mais célebres autores de contos infantis de todo o mundo, como O patinho feio, O soldadinho de chumbo

“Com efeito, o significado de ironia que perpassa o pensamento dos filósofos Sócrates e Platão vem do grego eironeia, cujo sentido de interrogação servia como método de discussão consistente em fingir-se desconhecer o assunto e fazer a interrogação, procurando obter do adversário uma resposta contraditória, para então ridicularizá-lo.”

“A dissertação O conceito de Ironia constantemente referido a Sócrates foi escrita por Kierkegaard quando ainda jovem, com menos de trinta anos, já apresentando uma inteligência brilhante e medindo forças com o grande mestre Hegel, admirado e respeitado como professor. Nessa dissertação, coloca-se em relevo <a grande abertura da obra kierkegaardiana, inaugurada com um mergulho em Platão e em Hegel, resumindo dez anos de investigação sobre Sócrates e Platão, Kant, Fichte, Solger e Hegel> (KIERKEGAARD, 2005, p. 10).”

“como toda filosofia inicia pela dúvida, assim também inicia pela ironia toda vida que se chamará digna do homem”

“A investigação conduz à concepção de Sócrates por seus contemporâneos Xenofonte, Platão e Aristófanes. Ele nos diz que Xenofonte compreendeu mal Sócrates, por ater-se ao que nele é exterior e imediato. Já Platão e Aristófanes percorreram o caminho externo para atingir aquela <infinitude que é incomensurável com os múltiplos acontecimentos de sua vida> (KIERKEGAARD, 2005a, p. 27).”

“Não há vestígio da ironia no Sócrates de Xenofonte, mas a sofística que, segundo ele, <é precisamente o duelo infindável do conhecimento com o fenômeno, a serviço do egoísmo> (KIERKEGAARD, 2005a, p. 35), não pode conduzir a uma vitória, porque o fenômeno voltaria a levantar-se tão logo fosse abatido.”

“o pensamento só se compreende a si mesmo, quando é assumido no ser do outro”

“Em <O Banquete> e <Fédon>, encontramos tudo aquilo que Sócrates diz aos amigos nos últimos dias e o que lhe aconteceu, e apresentando, por isso, um caráter histórico.”

“o negativo segundo Hegel é um momento necessário no próprio pensamento, é uma determinação ad intra (para dentro) e em Platão o negativo se torna visível e é colocado, fora do objeto no sujeito interrogante”

“lá onde a investigação deveria começar, ela termina. O amor é nostalgia, busca, não é nenhuma determinação.”

“um resultado negativo precisa sempre ser um resultado, um resultado negativo em seu estado mais puro e sem mistura só a ironia é que pode proporcionar [sobre Protágoras]

“Em Sócrates e Platão encontramos uma diferença essencial: para um, o conversar era necessário, enquanto para o outro, não se dialoga, não mais se conversa e também a ironia desaparece.”

“foi com a categoria o <Indivíduo> que os pseudônimos visaram, no seu tempo, o Sistema, quando tudo na Dinamarca era invariavelmente Sistema”

 

“Diferentemente de Comte, Feuerbach e Marx, em que surgia o conceito genérico de homem, e a pessoa humana não passava de uma abstração, convertendo-se naquilo em que cada indivíduo se devia dissolver e transformar. Kierkegaard opõe-se a todas as escamoteações da pessoa humana (…) K. sentia que o caráter sagrado da pessoa humana cedo seria considerado uma noção extinta por sistemas filosófico-políticos. Sua principal preocupação, por conseguinte, era realçar que o fundamento do caráter sagrado da pessoa é, antes, a relação desta com Deus.”

<A existência jamais poderá ser apreendida a não ser sob a forma de uma história>, como Kierkegaard repetia, ou, segundo a expressão de Heidegger, <como temporalidade> (JOLIVET, 1961, p. 19).”

“Somente mais de um século após sua morte, surge, em Paris, o filósofo Jean-Paul Sartre, que desperta para <o problema da existência> com suas características – alienação, angústia, absurdo – diretamente ligado ao pensamento de Kierkegaard. Sartre ressalta ser o desespero parte da condição humana, como já havia afirmado K. em sua obra <Doença Mortal> (1849)

“O que distingue Kierkegaard de Hegel é a importância atribuída ao Indivíduo como eixo condutor do seu pensamento, pois o importante não é tanto conhecer a verdade, mas viver uma ideia concreta que seja para o Indivíduo o ideal de uma existência vivida. Contudo, o desafio do pensamento de K. será a ousadia de sermos Indivíduo; isso, no entanto, apesar do esforço e da responsabilidade, só será possível diante de Deus.”

“os grandes mestres do Idealismo alemão, sobretudo Kant, Fichte e Schelling. A arquitetura e a escritura do texto [de Hegel] surpreendem por não serem uma meditação no estilo cartesiano, nem uma construção medida e rigorosa como a <Crítica da Razão Pura>, nem tampouco um tratado didático como a <Doutrina da Ciência>, de Fichte.”

MINIBIOGRAFIA DE H.: Aos 13 conheceu Schelling e Hölderlin no seminário. Aos 23, desistiu da carreira. Passou algum tempo sendo preceptor de aristocratas, até assumir a cadeira de Fichte em Berlim.

“o saber filosófico voltou a buscar o absoluto, próprio da religião, e a religião voltou a procurar a racionalidade, própria do saber filosófico, como havia sucedido no apogeu da Idade Média.”

“A visão concreta da realidade é, portanto, o exato oposto do pensamento analítico, que recorta as partes do todo ao qual elas pertencem, tornando-as, nessa operação mecânica, completamente ininteligíveis” (COMPARATO, 2006, p. 307).

“E o Espírito Absoluto é por si arte; para si, religião revelada (Cristianismo); em si e para si, a filosofia. A religião é parte do Espírito Absoluto, na medida em que ela possui o objeto Absoluto. Todavia, ela não possui a forma absoluta que, na concepção de Hegel, é o conceito.”

“sendo assim a Fenomenologia a dedução do conceito da Ciência pura”

“De Fichte a Hegel, os artífices dos grandes sistemas do Idealismo alemão tomam sobre si a tarefa preliminar de superação do dualismo entre Natureza e Liberdade implicado nas premissas kantianas, que o próprio Kant tentara atenuar na Crítica do Juízo, mas sem questionar seus fundamentos críticos.”

As Obras Completas de Fichte, em oito volumes, foram primeiramente editadas por seu filho I. H. Fichte (Berlim, 1845-1846). O pensamento de Fichte, seja em sua dimensão especulativa, seja sobretudo em sua dimensão ético-política, é objeto atualmente de renovado interesse, alimentado pela edição crítica das suas obras e pela produção de muitos estudiosos.”

“Friedrich W. J. Schelling (1775-1854), nascido em Leonberg, filósofo mestre do idealismo alemão. Professor em Iena, entrou em conflito com Fichte e discordou frontalmente de Hegel.”

“O Eu fichtiano termina por abranger assim o horizonte universal do Ser, o que leva o filósofo a pensá-lo cada vez mais como um Eu supraindividual e, finalmente, a assumir como ponto de partida do Sistema o próprio Absoluto ou Deus” (VAZ, 2002, p. 369).

WIKIFriedrich Heinrich Jacobi (25 January 1743 – 10 March 1819) was an influential German philosopherliterary figuresocialite [ui!], and the younger brother of poet Johann Georg Jacobi. He is notable for popularizing the term nihilism (coined by Obereit in 1787) and promoting it as the prime fault of Enlightenment thought particularly in the philosophical systems of Baruch SpinozaImmanuel KantJohann Fichte and Friedrich Schelling.

“Na vida de Kierkegaard, duas figuras são dominantes: seu pai Michael Pedersen e Regina Olsen, “a que amava e não conseguiu tomar por esposa em conseqüência do sentimento de culpa e de melancolia de que se tornou vítima” (GILES, 1975, p. 6).

Sofrendo a forte influência da dominação paterna em sua formação cristã, desenvolveu um temperamento tristonho, oprimido pelo escrúpulo do pecado e dos temas relativos à sexualidade. Viveu em um ambiente impregnado de uma religiosidade sombria, envolta em um clima de maldição que pesava sobre a consciência paterna e que lhe fôra transmitida por herança.”

“o hegelianismo significava um retrocesso em direção ao paganismo, vendo na evolução do mundo o resultado de um processo lógico, como aquele que chamava dialético e necessário, do qual o cristianismo seria apenas um elo sem muita importância. Se o sistema de Hegel fosse anticristão, não teria causado tanta indignação a Kierkegaard, mas precisamente por aceitar o cristianismo e incluí-lo como um componente a mais, Kierkegaard considerou-o muito perigoso. Por essa razão, em 1846, ele publicou uma obra com o curioso título <Post-Scriptum não-científico concludente às Migalhas Filosóficas>, em que desafia o sistema de Hegel.”

“a existência é uma tensão em direção não a uma totalidade pensada, mas, sim, em direção ao Individuo, categoria essencial da existência” Giles

“Compreender que Hegel elaborou o conceito filosófico de Absoluto e assimilou a crítica filosófica pós-cartesiana às determinações metafísicas do Absoluto, conservando a pretensão da metafísica clássica de conhecer a coisa-em-si, é o empenho que Marcelo F. de Aquino nos propõe. O conceito filosófico de Absoluto, segundo Hegel, repousa no conceito de espírito, e <o Espírito é saber absoluto na dimensão fenomenológica, é ideia absoluta na dimensão lógica e é espírito absoluto na dimensão noológica> (AQUINO, 2002, p. 178).”

ETERNAL ECHOES OF A REMORSELESS MIND: Se o mundo fosse atingir um fim…Hegel aborda o Espírito Absoluto, assinalando a necessidade de se ultrapassar dialeticamente o plano da História universal, que é o momento mais alto atingido pela dialética do Espírito Objetivo.”

Apoteose não passa de após-tese.

Mais furada que a bola da criança travessa.

Decadêndia?

9…8…7…POW, POW, TUMMM…

Assistência!

RÁ! tchim

<fato absoluto só pode ser um equívoco, uma distração do filósofo, já que um fato não pode ser absoluto, e se é o absoluto não se reduzirá jamais ao fático> (VALLS, 2003, p. 241).”

Migalhas Filosóficas (1844 [um ano por si só marcante!]): a obra anti-sistemas na Filosofia [assinado por Clímacus] Fragmentos de uma mosca

“Se aquele fato é um fato absoluto, então seria uma contradição que o tempo pudesse diferenciar a relação dos homens para com aquele fato, pois o que é essencialmente diferençável no tempo eo ipso não pode ser absoluto, pois daí seguiria ser o absoluto um casus na vida, um status relativo a outras coisas. Mas o fato absoluto é também ao mesmo tempo um fato histórico. O fato absoluto é um fato histórico e, como tal, objeto da fé.” (KIERKEGAARD, 2008, p. 142)

“Podemos considerar que em Migalhas Filosóficas está desenvolvida a idéia kierkegaardiana de paradoxo, já insinuada em Temor e Tremor, de 1843, significando que o eterno pode aparecer no tempo, coisa inconcebível para todo cérebro humano: a questão não é compreender o paradoxo, mas estar diante dele.”

epicúreo telefone do hotel usado para pedir vinho e fatias de torta de chocolate gelada

“O conceito de Angústia (1844), e O Desespero Humano (1849) – talvez as duas obras mais difíceis de Kierkegaard” “a angústia como a situação-limite, o desespero ou a enfermidade mortal.” “brusca comoção existencial.” periferia da transmutação – eixo quebrado

“O homem estético vive como expulso de si mesmo, confundido com o exterior e prisioneiro de seus instintos, de suas funções, de seus hábitos, de sua relação, do mundo que o distrai. Esse homem imediato vive sua existência no estado imediato da vida, ou <estádio estético>, entendido como conceito de imediatez. Já o homem relacional vive a relação ou o estágio ético que supera o estético, como bem demonstrou Kierkegaard no desenvolvimento dos estádios”

“poeta de la existencia personal, el primer filósofo poeta existencial, y ello sin haber escrito un solo verso.” (CAÑAS, 2003, p. 16)

“Em Temor e Tremor, o homem relacional será o Cavaleiro da fé”

DE SEDUTOR A SETA

“Nesse método dialético de Kierkegaard, os estádios não toleram mediação ou síntese, como em Hegel, e somente pelo <salto> será possível atingir o estádio seguinte”

Minhas 3 amantes, Vertigem, Náusea e Angústia. Há ainda a quarta, Melancolia. Monotonia-tédio, o caso-trans.

ME SINTO COMO UM ELÉTRON ESPERANDO A PROMOÇÃO A UMA CASA MAIS PERIFÉRICA E UMA “EXISTÊNCIA” MAIS CENTRÍFUGA: “Ainda que toda pessoa esteja instalada em um dos modos ou estádios da vida, em cada etapa de sua existência sempre será possível ascender de um nível a outro, conservando e assumindo o positivo [próton] do nível anterior, como um Aufhebung existencial, dando a entender que o ético e o religioso não anulam o estético”

 

Ab surdo

até o surdo

tem vez

manancial ancestral da humanidade: não ao humanitarismo

“a denúncia de Kierkegaard, ao longo de sua vida, contra o cristianismo luterano oficial de sua época, que a seu ver permanecia no estádio estético.”

“contra Deus estamos sempre errados.”

Cuidado para não dar tantos saltos que você nunca possa testar as novas molas do seu tênis. Impacto: necessário.

“A fé cristã – se possível precisá-la – é esse mergulhar no paradoxo que é a imanência do transcendente.”

“a angústia <ex-siste>. O desespero <in-siste> (RICOEUR, 1996, p. 20-21).”

Para compreendermos <O Desespero Humano ou A Doença mortal> é necessário ler primeiramente Temor e Tremor, ensaio que coloca o significado do pecado e da fé para além da ética.” Projeto de relê-lo.

O ANTI-FREUD: “Sofrer um mal desses coloca-nos acima do animal, progresso que nos distingue muito mais do que o caminhar de pé, sinal da nossa verticalidade infinita ou da nossa espiritualidade sublime (KIERKEGAARD, 2004, p, 21).”

“Por outro lado, quanto ao cristão e ao homem natural, a vantagem coloca-se no fato de termos consciência do desespero e de podermos superá-lo, o que mais uma vez nos distingue do animal.”

Muito Além do Câncer ou dos Rótulos de Cigarro do Ministério da Saúde

“O maior paradoxo do pensamento é querer descobrir algo que ele próprio não possa pensar” (KIERKEGAARD, 2008, p. 62)

CADA TÍTERE NO SEU PALCO: “A lógica de que o Deus eterno, infinito, transcendente, podia simultaneamente encarnar-se como um ser humano finito no tempo, para morrer na cruz, constitui uma ofensa à razão. De acordo com Clímacus, essa ideia é absurda demais para que os homens a tenham inventado, donde a conclusão de que só poderia advir de uma origem transcendente. A fim de que os homens encontrem a verdade transcendente, eterna, outra que não seja através da memória, a condição para a recepção daquela verdade deve também vir de fora. Não pode haver ascensão desta verdade pela razão e lógica, contrariando Hegel, que tenta demonstrar que a ciência universal filosófica revelaria por fim <o Absoluto>.”

Repetição, 1843.

In Vino Veritas, 1845.

“Embora Kierkegaard entenda que o desespero seja universal, ele afirma que cada indivíduo é responsável por seu próprio desespero.”

“Se a síntese não estivesse na correta relação, o desespero seria ontológico e não seria desespero.”

“O objeto da angústia é o nada, por isso ela difere do temor, que tem um objeto fixo.” “A angústia assemelha-se à sensação que experimentamos diante de um abismo, como algo que repele e atrai, ao mesmo tempo.”

“quando, ao querer o espírito instituir a síntese [corpo e alma], a liberdade mergulha o olhar no abismo das suas possibilidades e se agarra à finitude para não cair”

Preciso urgentemente me atualizar sobre velharias…

Posso, sem pressa, me dar ao luxo de esquecer das novidades e desligar o aparelho quando passa o telejornal noturno…

“A angústia descreve a nossa caminhada até o abismo, mas não pode explicar o salto em si.”

“há uma correspondência entre a sensualidade e a angústia. (…) a situação de Eva como derivada de Adão, condição essa que a faz acumular mais sensualidade e, consequentemente, mais angústia.”

Kierkegaard “inaugura uma nova era de pensamento, depois

do idealismo alemão: a era da pós-filosofia” (RICOEUR, 1996, p. 30).

“Com Hegel o discurso filosófico aparentemente se completara, mas logo depois ressurge, encorajado pelos ataques de Kierkegaard, Marx e Nietzsche contra o idealismo. Essas três grandes tendências surgem no pensamento moderno e representam o fim da filosofia: o indivíduo isolado diante de Deus, a realização da filosofia como práxis revolucionária, a transmutação de valores e o niilismo europeu.”

        Paul Ricoeur coloca dúvidas sobre a que devemos o fim da filosofia e se houve realmente um fim. Para ele, os pensadores Kierkegaard, Nietzsche e Marx são modernos e pertencem à era de Hegel; dessa forma, uma nova leitura de Kierkegaard requer uma nova leitura de Fichte, Schelling e do próprio Hegel. Sobre Kierkegaard ele diz: <não somos mais constrangidos a separar seu destino do destino do idealismo alemão e a torná-lo tributário do existencialismo>” (RICOEUR, 1996, p. 32).” “O dândi de Copenhague, o estranho noivo de Régine, o celibatário com o aguilhão na carne, o insuportável censor do bispo Mynster, a dolorosa vítima do Corsário, o agonizante do hospital público – nenhum desses personagens pode ser repetido nem mesmo corretamente compreendido” (RICOEUR, 1996, p. 32)

“Paul Ricoeur, ao sugerir que se dê maior atenção a Fichte e Schelling para uma nova leitura de Kierkegaard, baseia-se em algumas premissas. No tocante ao primeiro, leva em conta a distinção fichtiana entre ato e fato para uma teoria da ação, uma ética que não se reduza a uma simples teoria do dever. A estrutura da problemática fichtiana determina o campo onde a experiência kierkegaardiana pode ser inserida.

O <idealismo> alemão, representado também por Schelling, enfocou o problema da realidade enfatizando que a distinção entre ideal e real é, ela mesma, puramente ideal. <O problema não é mais emocional, patético, vale dizer poético: é o problema filosófico da realidade finita> (RICOEUR, 1996, p. 38)”

“Na visão dos adeptos de Hegel, Kierkegaard poderia ser situado como parte do sistema hegeliano e o seu discurso como proveniente de uma <consciência infeliz> colocado em posição menor, <nem sequer no final, mas no início da Fenomenologia do Espírito> (RICOEUR, 1996, p. 39)”

“Para Hegel, toda filosofia que recorre à oposição entre o céu e a terra, entre Deus e o mundo, entre transcendência e imanência é ainda uma visão ética do mundo e deve ser superada: nesse sentido, o <diante de Deus> de Kierkegaard procede ainda da visão ética do mundo e deve ser superado; o pensador hegeliano acrescentará a essa crítica um reconhecimento: se Kierkegaard supera sua própria visão ética do mundo, é porque introduz uma nova idéia, a de contemporaneidade entre aquele que crê e o Cristo; mas é uma relação poética que põe em curto-circuito o discurso; ela só poderia ser pensada como interiorização do <diante de Deus> pela qual a filosofia da transcendência é superada numa filosofia do amor; mas se esta última pode ainda ser dita, ela deve também ser pensada” (RICOEUR, 1996, p. 41)

“Nessa vertigem a liberdade soçobra. Eis até aonde chega a psicologia.”

“o pecado se autopressupõe não antes de ser instaurado (o que corresponderia a uma predestinação), mas desde que o foi” K.

Angústia Zero & Angústia Crescente Infinita

 

“Para Kierkegaard, Temor e Tremor (Frygt og baeven), a obra que ele mais estimava e considerava suficiente para torná-lo um imortal, era a manifestação da visão trágica do cristianismo e a recusa em aceitar uma religião como prolongamento da ética (Kant), ou como uma das expressões do espírito Absoluto, conforme entendia Hegel.”

<Estádios no caminho da vida>, uma grande produção literária e, talvez, o melhor expoente do pensamento kierkegaardiano, além de ser uma das obras-primas da literatura dinamarquesa.”

“Enquanto a reminiscência platônica fundava o conhecimento segundo a essência, privilegiando sempre o passado anterior, o cristianismo favorece o futuro, a abertura ao incógnito que é a fé.”

“A ironia é a zona-limite entre o estético e o ético; o humor, a zona-limite entre o ético e o religioso”

“A idéia de dividir a evolução histórica ou o desenvolvimento humano individual em estágios é uma característica muito comum na história da filosofia. Kierkegaard empregou pela primeira vez esse conceito de estágios, basicamente no nível histórico, em sua tese de 1841, O conceito de Ironia constantemente referido a Sócrates. Mais tarde, entretanto, ele concluiu que os estágios históricos poderiam ser todos combinados num único, que chamou de <estágio estético>.”

“Para seus contemporâneos, era estranho que o estágio mais baixo, o estético, pudesse incluir mesmo <as mais importantes conquistas intelectuais> (GOUVÊA, 2000, p. 212).”

“Sua vida não tem <continuidade>, faltam-lhe estabilidade e objetivo, ele muda de rumo conforme o humor ou as circunstâncias” “a pessoa pode ser ponderada, calculista e agir muitas vezes com um espírito puramente <experimental>. (…) preservando a possibilidade de desistir caso se entedie ou se canse” “ocorrem crises na consciência estética que reclamam a adoção de uma nova forma de vida”

“um <eu ideal>, que é <o retrato da imagem segundo a qual ele quer se formar>”

“[Temor e Tremor é] ou uma peça autocontraditória e irracionalista que gira em volta de um raciocínio circular, ou uma sofisticada polêmica contra racionalistas e também contra irracionalistas; os primeiros por ter posto muita fé na razão e por terem compreendido mal a natureza da fé cristã; e os outros por terem posto muito pouco valor na razão, e por também terem compreendido mal a fé cristã (GOUVÊA, 2002, p.69).”

“Kierkegaard tem um estilo próprio de escrever. Seus escritos não partem de premissas cuidadosamente formuladas para se chegar a conclusões definitivas. Há um contraste evidente não apenas com os métodos adotados pelos teóricos sistemáticos, mas também com o modo de fazer filosofia dos autores de orientação empirista, como Locke e Berkeley.”

[São João Clímaco] Johannes Clímacus ou João das Escadas, João Clímax, ou ainda como prefere Patrick Gardiner, João Alpinista. Estas seriam as possíveis traduções para Johannes Clímacus. O fato é que Sören Kierkegaard toma emprestado este nome de um autor místico medieval, que teria escrito a obra A Escada da Ascensão Divina [favoritos].

“Existe uma expressão proveniente da reflexão kierkegaardiana, <cristicidade> ou <crístico>, usada pelos alemães e que vai aparecer em Nietzsche, expressão que está muito além do significado de cristianismo e de cristandade.”

“Reduzir o ser-cristão à cristandade é inaceitável”

O livro-texto de uma época.

marca-texto melhor que marca-testa.

“As técnicas literárias de Kierkegaard apoiavam-se em recursos desenvolvidos no romantismo alemão e faziam dele um devedor de Goethe, em cujo personagem Wilhelm Meister se inspirou para nomear o heterônimo Juiz Vilhelm.”

* * *

ANEXO

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega:

“Numa primeira tentativa, a frota helênica não conseguiu chegar a Tróada, porque, dispersados por tremenda borrasca, os chefes aqueus tiveram de regressar a seus respectivos reinos. […] Oito anos depois reuniram-se novamente em Áulis, cidade e porto da Beócia, de onde partiriam para vingar a afronta a Menelau.

O mar, todavia, repentinamente se tornou inacessível aos navegantes, mercê de uma estranha calmaria. Consultado o adivinho Calcas, este explicou que o fenômeno se devia à cólera da irascível Ártemis, porque Agamenon, numa caçada, tendo matado uma corça, afirmara que nem a deusa o faria melhor que ele […] A única maneira de apaziguar a deusa e ter ventos favoráveis, prognosticara Calcas, era sacrificar-lhe Ifigênia, filha mais velha dos reis de Micenas.”

Eurípides – Ifigênia em Áulide

“Uma mensagem mentirosa foi mandada à esposa (Clitemnestra): que enviasse Ifigênia a Áulis para desposar Aquiles, o mais renomado dos heróis aqueus. Aguardavam-na, todavia, as núpcias da morte…”

O PESSIMISMO DE ARTHUR SCHOPENHAUER

OS ENSAIOS DE ARTHUR SCHOPENHAUER;

ESTUDOS SOBRE O PESSIMISMO

Uma seleção criteriosa dos melhores trechos, traduzidos do Inglês para o Português por Rafael “Cila” de Araújo Aguiar, para que outras pessoas venham a ter contato com esta supina filosofia. Com comentários de próprio cunho em verde, quando sem relação direta com a obra mesma, ou na mesma cor do texto, entre colchetes ou como nota de parágrafo, quando diretamente relacionados.

Uma não-pequena parte do tormento da existência reside nisso, que o Tempo está continuamente nos pressionando, nunca nos deixando respirar, mas sempre a nos perseguir, como um capataz com um chicote. Se em algum momento o Tempo <dá um tempo>, só pode ser quando estamos entregues à miséria do tédio.”

Na juventude precoce, quando contemplamos nossa vida por vir, somos como crianças no teatro antes da cortina levantar, ali sentadas eufóricas e na expectativa pelo começo da peça. É uma bênção que não saibamos o que realmente vai acontecer. Pudéssemos antevê-lo, há ocasiões em que crianças seriam vistas como prisioneiros sem culpa, condenados, não à morte, mas à vida, e ainda plenamente ignorantes do que suas sentenças significam. E no entanto todo homem quer chegar à velhice; em outras palavras, um estado da vida do qual talvez se diga: <Está ruim hoje, e vai estar pior amanhã; e assim vai até o pior dos dias.>”

ainda que as coisas para você tenham dado razoavelmente certo, quanto mais você viver mais claramente você vai sentir que, em geral, a vida é um desapontamento, melhor ainda, uma fraude.”

Aquele que vive o bastante para ver duas ou três gerações é como um homem que senta algum tempo à tenda do feiticeiro durante a feira, e testemunha a performance duas ou três vezes em sucessão. Os truques foram feitos para ser vistos só uma vez; e quando não são mais novidade e deixam de enganar, seu efeito está findo.”

o homem culto desenvolve sua suscetibilidade à felicidade e à miséria num grau tal que, num só instante, ele é transportado a um estado de deleite que pode inclusive se mostrar fatal, e, já em outro, às profundezas do desespero e suicídio.”

honra e vergonha; para ser mais direto, o que ele pensa sobre a opinião que outras pessoas têm dele. Sob milhares de formas, amiúde bem estranhas, isso se torna o objeto de quase todos os esforços que ele produz que não tenham suas raízes no prazer ou dor físicos.”

O tédio é uma forma de sofrimento desconhecida aos brutos de qualquer espécie em seu estado natural”

So what if… to love is to suffer?

quanto mais ansiamos por algo, menos satisfação achamos quando a coisa acontece”

É justamente esse modo característico como o bruto se abandona inteiramente ao momento presente que tanto contribui para o contentamento que tiramos de nossos animais domésticos.” No presente não estou neste avião – estou dormindo; meditando na terça-feira trabalhando na segunda usando o cartão para despesas emeuroem2019

O pássaro que foi feito tal que perambula sobre metade do mundo, o homem o confina ao espaço de 30cm³” “E quando eu vejo como o homem maltrata o cachorro, seu melhor amigo; como ele aprisiona esse animal inteligente com correntes, eu sinto a maior das simpatias pela indignação ardente e bruta contra seu mestre.

Devemos ver adiante como ao tomar um ponto de vista muito distante é possível justificar os sofrimentos da humanidade. Mas essa justificação não funciona para os animais, cujos sofrimentos, enquanto que em grande medida trazidos pelo homem, são amiúde consideráveis mesmo nossa agência estando à parte.” Nenhum Hegel com cara de cavalo invertera sua condição invariável de escravos.

a vontade de viver, que subsiste em todo o mundo dos fenômenos, deve, no caso dos animais, satisfazer sua fome insaciável alimentando-se de si mesma. Isso ela faz formando uma gradação de fenômenos, cada um dos quais existe às expensas de outro. Eu mostrei, no entanto, que a capacidade para sofrer é menor em animais do que no homem. Qualquer explanação adicional que pudesse ser dada para seu destino seria de natureza hipotética, se é que não mítica em caráter; então eu devo deixar o leitor especular sobre a matéria por si mesmo.

Brahma teria criado o mundo por causa de uma queda ou erro; e para se redimir de sua tolice, ele está destinado a permanecer nele até conseguir sua própria redenção. Como um conto da origem das coisas, isso é admirável! De acordo com as doutrinas do Budismo, o mundo veio a ser graças a um inexplicável desequilíbrio na calma paradisíaca do Nirvana, esse estado abençoado obtido pela expiação, que durou tão longo tempo

Subseqüentemente, por uma série de erros morais, o mundo foi ficando gradualmente pior e pior – o que é verdadeiro também dos ângulos da Física – até assumir o aspecto deprimente que o reveste hoje. Excelente! Os Gregos viam o mundo e os deuses como o trabalho de uma inescrutável necessidade. Uma explicação tolerável: podemos nos contentar com ela até termos uma melhor. Mais uma vez, Ormuzd e Ahriman são poderes rivais, continuamente em guerra. Nada mal. Mas que um deus como Jeová tenha criado esse mundo de miséria e pesar, por puro capricho, e porque ele se comprouve em fazê-lo, e tenha aplaudido o feito em louvor da própria obra, e declarado que tudo era muito bom – esse relato não vai colar! Em sua explanação da origem do mundo, o Judaísmo é inferior a qualquer outra forma de doutrina religiosa professada por uma nação civilizada; e é positivamente devido a essa crença que ele é o único credo sem traços da fé na imortalidade da alma.”

duas coisas nos impedem de considerar o mundo uma obra perfeita de um ser simultaneamente onipotente, onisciente e infinitamente benévolo: 1) a miséria que abunda em todo lugar; 2) a óbvia imperfeição de sua criatura mais elevada, o homem, que é uma paródia do que devera ser. (…) ver o mundo como o produto de nossas próprias malfeitorias; logo, como algo que jamais deveria ter sido. De acordo com a primeira hipótese, formula-se uma acusação amarga contra o Criador, alimentando, assim, tão-só o sarcasmo; conquanto, de acordo com a segunda, auto-impomo-nos uma severa lição de humildade, voltamo-nos contra nossa própria vontade. Ambas as hipóteses nos ensinam que, como as crianças de uma libertina, já vimos ao mundo esmagados pelo peso do pecado; e é apenas por ter de suportar a cada segundo esse imenso peso que nossa existência é tão miserável, e que seu fim é a morte.”

Igualmente, a única coisa que me reconcilia com o Velho Testamento é a estória da Queda. Ao meu ver, é a única verdade metafísica neste livro, ainda que apareça sob a forma de alegoria. Não me parece haver melhor explanação de nossa existência que a de que ela é o resultado de um passo em falso, pecado cuja parcela estamos pagando. Não posso me eximir de recomendar ao leitor reflexivo um tratado popular, mas ao mesmo tempo profundo, na matéria, de Claudius[*], que manifesta a espiritualidade essencialmente pessimista do Cristianismo. Ele se intitula: Amaldiçoado é o chão para o teu bem [Cursed is the ground for thy sake].

[*] Nota do Tradutor Inglês – Matthias Claudius (1740-1815), poeta popular, e amigo de Klopstock, Herder e Leasing [Lessing?]. Ele editava as Wandsbecker Bote, em cuja quarta parte foi publicado o ensaio mencionado acima. Ele geralmente escrevia sob o pseudônimo de Asmus, e Schopenhauer costuma se referir a ele por esse nome.

Entre a ética dos Gregos e a ética dos Hindus, há um contraste evidente. No primeiro caso (com a exceção, confesse-se, de Platão), o objeto da ética é possibilitar a um homem levar uma vida feliz; no segundo, é libertá-lo e redimi-lo da vida como um todo – como é diretamente declarado logo nas primeiras palavras do Sankhya Karika [escrito que está entre as raízes do Budismo contemporâneo – seu suposto autor é o sábio Krishna].”

O contraste que o Novo Testamento apresenta quando comparado ao Antigo Testamento, de acordo com a visão eclesiástica do problema, é apenas aquele existente entre meu sistema ético e a filosofia moral da Europa. O Antigo Testamento apresenta o homem como sob o domínio da Lei, através da qual, entretanto, não há redenção. O Novo Testamento declara a Lei como algo que falhou, liberta o homem de seu jugo[*], e em prol dele prega o reino da graça, a ser ganho pela fé, amor ao próximo e o inteiro sacrifício do eu. Essa é a passagem da redenção do mal do mundo. O espírito do Novo Testamento é indubitavelmente o asceticismo, muito embora seus protestantes e racionalistas distorçam-no para exprimir seus propósitos. O asceticismo é a negação da vontade de viver; e a transição do Antigo ao Novo Testamento, do domínio da Lei ao da Fé, da justificação por obras à redenção pelo Mediador, do domínio do pecado e da morte à vida eterna em Cristo, significa, quando tomamos seu significado real, a transição das virtudes meramente morais à negação da vontade de viver. Minha filosofia (…) é realmente una com o espírito do Novo Testamento, enquanto todos os outros sistemas estão assentados no espírito do Antigo; isto é, tanto teórica quanto praticamente, seu resultado é o Judaísmo – teísmo despótico e nada mais. Nesse sentido, então, minha doutrina deveria ser chamada a única verdadeira filosofia cristã – em que pese soe esta afirmação tão paradoxal para pessoas que consideram só a superfície das coisas no lugar de penetrar na matéria de coração.”

[*] Veja Romanos VII; Gálatas II e III.

Entre os Padres Cristãos, Orígenes, com louvável coragem, assumiu essa visão[*], que é adiante justificada por algumas teorias objetivas da vida. Eu me refiro, não à minha filosofia somente, mas à sabedoria de todas as eras, como expressa no Bramanismo e no Budismo, e nos ditos dos filósofos gregos tais quais Empédocles e Pitágoras; ou ainda por Cícero, em sua observação de que os sábios de outrora soíam ensinar que nós vimos ao mundo para pagar a pena de crimes cometidos em outro estado da existência – uma doutrina que faz parte da iniciação nos mistérios[**]. E Vanini – que seus contemporâneos queimaram, achando-o mais fácil do que refutá-lo – diz o mesmo de forma bastante convincente. O homem, ele diz, está tão repleto de todos os tipos de miséria que, não fosse repugnante à religião cristã, eu deveria me aventurar a afirmar que se espíritos malignos existem de fato, eles se transfiguraram em humanos e estão agora expiando seus pecados[***].

[*] Cf. Santo Agostinho, Cidade de Deus, 50:11:23.

[**] Cf. Fragmenta de philosophia.

[***] Cf. De admirandis naturae arcanis; diálogo 50; p. 35.”

tudo é como devera ser, num mundo em que cada um de nós cumpre a pena da existência em sua maneira toda particular. Entre os males de uma colônia penal está a sociedade daqueles que a formaram; e se o leitor é digno de melhor companhia, não necessitará de palavras minhas para lembrá-lo aquilo que ele deve suportar no presente. Se ele tem uma alma superior à média, ou se é um homem de gênio, sentir-se-á ocasionalmente como algum nobre prisioneiro de Estado, condenado a trabalhar nas galés com os criminosos comuns; e ele seguirá seu exemplo e tentará se isolar ao máximo.”

Perdão é a palavra para tudo! [Pardon’s the word to all!][*] Quaisquer que sejam as asneiras cometidas pelos homens, sejam quais forem suas fraquezas e vícios, exercitemos a tolerância; recordando que quando essas faltas aparecem nos outros, são as nossas asneiras e os nossos vícios que nós enxergamos. São os defeitos da humanidade, à qual pertencemos; cujas falhas, uma e todas juntas, nós dividimos; sim, mesmo essas falhas que reverberamos tão indignados, só porque ainda não apareceram em nós mesmos. São falhas que não residem na superfície.

[*] <Cymbeline>, Ato V, Seção V.”

De fato, a convicção de que o mundo e o homem são algo que não deveriam ter existido é dum tipo que nos enche de indulgência um para com o outro. Aliás, desse ponto de vista, podíamos muito bem considerar que a forma adequada de se dirigir a alguém seria, não Monsieur, Sir, mein Herr, Senhor, mas my fellow-sufferer, Socî malorum, compagnon de misères, meu companheiro sofredor!”

acima de tudo a coisa mais necessária na vida – a tolerância, a paciência, a consideração, e o amor ao próximo, dos quais todos estão igualmente carentes, e os quais, portanto, todo homem deve ao seu conviva.”

* * *

O tempo é aquilo em que todas as coisas vão embora; é meramente a forma sob a qual a vontade de viver – a coisa-em-si e portanto imperecível – se revelou um esforço em vão”

Aquilo que foi não existe mais; existe tão pouco quanto aquilo que nunca foi. Mas de tudo o que existe você deve dizer, no instante seguinte, que aquilo já foi. Daí que algo de suma importância agora já passado é inferior a qualquer insignificância vigente, já que a última é uma realidade, e é comparável ao primeiro como algo se compara ao nada.

Um homem se acha, para seu grande espanto, de repente existindo, depois de milhares e milhares de anos de não-existência: ele vive uma pequenitude; e depois, de novo, vem um período igualmente longo em que ele deve deixar de existir. O coração se rebela contra isso, e sente que não pode ser verdade. O intelecto mais cru não pode especular neste assunto sem ter um pressentimento de que o Tempo é algo ideal em sua própria natureza. Essa idealidade do Tempo e Espaço é a chave para qualquer verdadeiro sistema de metafísica; porque subsidia uma outra ordem das coisas da qual não suspeitaríamos estando simplesmente no puro domínio da natureza. Essa é a razão de Kant ser tão grandioso.”

nas profundezas mais profundas de nosso ser estamos secretamente conscientes de nosso naco na inextinguível primavera da eternidade, de modo que sempre podemos esperar achar vida nova.

Considerações do naipe desta acima, com efeito, nos levam a aderir à crença de que a maior sabedoria consiste em fazer do saboreio do presente o supremo objetivo da vida; porque essa é a única realidade, tudo o mais sendo meramente o teatro do pensamento. Por outro lado, tal postura poderia ainda ser chamada de a maior das tolices: uma vez que aquilo que no momento seguinte já não existe mais, e desaparece sem volta, como um sonho, nunca poderia ser levado a sério.”

Somos como um homem correndo ladeira abaixo, que não pode se manter sobre as próprias pernas a não ser que continue correndo, e vai inevitavelmente cair se parar” “como um acrobata sobre a corda – em um mundo tal, a felicidade é inconcebível.” “E depois, dá na mesma se ele foi feliz ou miserável”

POR TRÁS DO TRAMPOLIM

embora estejamos sempre vivendo na expectativa de coisas melhores, ao mesmo tempo não nos arrependemos com menos freqüência, almejando apenas ter o passado de volta. Olhamos para o presente como algo a ser sofrido enquanto tiver que durar, presente que serve unicamente de rota até nosso objetivo final” “O primeiro objetivo é ganhar algo; o segundo, banir o sentimento de que esse algo foi ganho; doutra forma, tornar-se-ia um peso.”

ECLÉTICO VAZIO: “o que é o tédio, senão a sensação da vacuidade da vida?”

O anseio pelo que é estranho e incomum – uma tendência inata e inerradicável da natureza humana – mostra o quão agradecidos estamos por qualquer interrupção do curso natural das coisas, que é sempre tão tedioso.”

Quão ridículo tudo parece! É como uma gota d’água vista ao microscópio; uma simples gota fervilhante com infusoria [vida primitiva; celenterados]; ou um pontinho de queijo cheio de ácaros invisíveis a olho nu. Como rimos quando eles perambulam agitados, chocando-se uns contra os outros, num espaço tão reduzido!”

* * *

Até onde eu sei, ninguém a não ser os devotos de religiões monoteístas, isto é, judias, olha para o suicídio como um crime. Isso é ainda mais surpreendente quando nem no Antigo nem no Novo Testamento há qualquer proibição ou desaprovação positiva do ato; tanto que professores religiosos são obrigados a basear sua condenação do suicídio em dogmas filosóficos de seu próprio punho.”

Eles nos dizem que o suicídio é o maior exemplo de covardia; que só um louco poderia cometê-lo; e outras insipidezes de correlato calibre; ou então fazem aquela observação disparatada de que o suicídio é errado; quando é bem óbvio que não há nada no mundo com mais autoridade sobre sua vida que o próprio sujeito.

O suicídio, como eu afirmei, é reputado um crime; e um crime que, especialmente sob a intolerância vulgar prevalecente na Inglaterra, é seguido por um enterro ignominioso e o confisco da propriedade do falecido; por essa razão, num caso de suicídio, o júri quase certamente conclui pelo veredito da insanidade.”

Pense na impressão causada pela notícia de que um conhecido seu cometeu o crime, vamos dizer, de assassinato ou roubo, ou que foi culpado por algum ato de crueldade ou engodo; compare agora com seus sentimentos quando ouve que ele conheceu uma morte voluntária. Ao passo que no primeiro caso um vivo sentido de indignação e de extremo ressentimento irá desabrochar, e que você irá clamar em alto e bom som por punição ou vingança, no segundo caso você será abatido pelo pesar e a simpatia; e embrenhada em seus pensamentos estará a admiração pela sua coragem, ao invés da desaprovação moral que logo sucede a uma má ação.”

O principal dos remédios para uma mente aturdida é a sensação de que, entre as bênçãos que a Natureza concede ao homem, nenhuma há maior do que uma morte oportuna; e o melhor de tudo é que qualquer um pode se a proporcionar.” Plínio – História Natural, cap. 28; §1.

Nem a Deus tudo é possível; porque a ele não cabe se matar, mesmo que quisesse morrer e, mesmo em meio a todas as misérias de nossa vida mundana, esse é o maior presente que ele nos deu.” Plínio – História Natural, cap. 2; §1.

Em Massilia e na ilha de Ceos, o homem que pudesse dar razões válidas para abandonar a própria vida recebia uma taça de cicuta do magistrado; tudo isso era feito em público.” Cf. Valerius Maximus, Heráclides Pôntico e Estrabão.

O homem bom deve fugir da vida quando suas desgraças se tornarem demasiadas; o homem mau, também, quando se tornar muito próspero.” Estobeu

E encontramos que os Estóicos elogiavam o suicídio como uma ação nobre e heróica, como centenas de passagens nos mostram”

Como é bem sabido, os hindus enxergam o suicídio como um ato religioso, especialmente quando vem sob a forma da auto-imolação das viúvas; mas também quando consiste em jogar-se debaixo das rodas da charrete do deus na Jamanta, ou ser devorado por crocodilos no Ganges, ou afogar-se nos tanques sagrados nos templos, e assim por diante.”

Em O Órfão da China (L’Orphelin de la Chine)[*], uma celebrada peça chinesa, quase todos os personagens nobres se suicidam; sem o menor indício em lugar nenhum, ou qualquer impressão causada no expectador, do cometimento de um crime. Nos nossos próprios teatros é igual – Palmira, por exemplo, em Mahomet, ou Mortimer em Maria Stuart, Othello, a Condessa Terzky[**]. É o monólogo de Hamlet a meditação de um criminoso?

[*] Tradução francesa de Saint Julien, 1834.

[**] N.T.I. – Palmira: escrava na peça Maomé de Goethe; Mortimer: um pretendente amoroso de Mary, que realiza a façanha de resgatá-la em Maria Stuart de Schiller. Condessa Terzky: uma das protagonistas de A Morte de Wallenstein [fecho de uma trilogia também de Schiller].”

Hume escreveu um Ensaio sobre o Suicídio[*], mas a obra não atraiu atenções até depois da morte do autor, quando foi imediatamente suprimida, devido à abominável tirania eclesiástica e à escandalosa intolerância preponderantes na Inglaterra de outrora; pouquíssimas cópias, desde então, foram vendidas, sob total segredo e a preços elevados.

[*] Essays on Suicide and the Immortality of the Soul [Ensaios sobre o Suicídio e a Imortalidade da Alma], do velho David Hume, Basiléia, 1799, ed. James Decker.”

Ver meu tratado, denominado Dos Fundamentos da Moral.”

A poupa mais entranhada das verdades do Cristianismo, o seu mais profundo ensinamento, é que o sofrimento – a Cruz – é o verdadeiro fim e objetivo da vida. É por isso que o Cristianismo condena o suicídio, por frustrar esse fim; ao mesmo tempo, o mundo antigo, tomando um ponto de vista menos elevado, aprovava o suicídio, aliás, honrava-o mesmo[*]. Mas se tiver de ser enumerada uma razão válida contra o suicídio, ela envolve o reconhecimento do asceticismo; ou seja, ela é válida somente sob um ponto de referência ético muito mais elevado do que qualquer um jamais adotado pelos filósofos morais da Europa. Se abandonarmos estes cumes, não há qualquer sustentabilidade, moralmente falando, para a condenação do suicídio. A energia e o zelo extraordinários com os quais o clero das religiões monásticas ataca o suicídio não são ancorados seja por qualquer passagem da Bíblia seja por qualquer consideração de peso; a ponto de que parece haver alguma razão secreta para sua contenda. Não seria essa – que a desistência voluntária da vida é um péssimo cumprimento àquele que disse que todas as coisas eram maravilhosas? Se assim for, eis outro exemplo do crasso otimismo dessas religiões, – revelado ao condenarem o suicídio antes que ele mesmo pudesse condená-las.

[*] N.T.I. – Schopenhauer se refere ao parágrafo 69 do primeiro volume de O Mundo como Vontade e Representação, onde o leitor se deparará com o mesmo argumento defendido de forma mais pormenorizada. De acordo com Schopenhauer, a liberdade moral – a maior meta ética – só poderia ser adquirida pela via da negação da vontade de viver. Mas longe de se apresentar como uma negação, o suicídio é uma asserção enfática dessa vontade. Porque a negação consiste em fugir dos prazeres, e não dos sofrimentos da vida. Quando um homem destrói sua existência como um indivíduo, não está de forma alguma destruindo sua vontade de viver. Ao contrário, ele até gostaria de continuar a viver se pudesse vir a fazê-lo com auto-satisfação, se pudesse asseverar sua vontade contra o poder da circunstância; mas a circunstância é forte demais para ele.

Será geralmente aceito que, assim que os horrores da vida tiverem atingido o ponto em que ultrapassam os horrores da morte, um homem aceitará pôr fim a sua vida. Mas os terrores da morte oferecem considerável resistência; pairam como uma sentinela diante do portão que conduz para fora desse mundo. Talvez que não existisse homem vivo que não tivesse já colocado um fim a sua vida, se esse fim tivesse puramente um caráter negativo, uma parada súbita da existência. Há algo de positivo nele; é a destruição do corpo; e um homem estremece diante dessa possibilidade, porque seu corpo é a manifestação da vontade de viver.

Entretanto, a luta com esta sentinela é, via de regra, menos difícil do que poderia parecer de uma distância ainda muito longa, principalmente em decorrência do antagonismo entre os males do corpo e os males da mente. Se estamos em grande dor corporal, ou a dor perdura por um longo período, tornamo-nos indiferentes a outros problemas; tudo no que pensamos é em melhorar. Da mesma forma, grande sofrimento mental nos torna insensíveis à dor física; desprezamo-la; aliás, se esta ultrapassar a outra, até distrai nossos pensamentos, e a saudamos como uma pausa bem-vinda ao nosso sofrimento mental. É essa sensação que torna o suicídio fácil; a dor corporal que o acompanha perde toda significância aos olhos daquele torturado por um excesso de conturbação mental. Isso é especialmente evidente no caso daqueles levados ao suicídio por um mau-humor puramente mórbido e exagerado. Nenhum esforço especial para superar seus sentimentos é necessário, nem precisam essas pessoas de incentivo para se decidirem; assim que o protetor delas encarregado se ausenta por poucos minutos, dão rapidamente cabo da vida.

Quando, num sonho pavoroso e horripilante, atingimos o ápice do terror, automaticamente despertamos; isso basta para banir todas as formas hediondas que nasceram da noite. E a vida é um sonho”

O suicídio também deve ser contemplado como um experimento – uma questão que o homem coloca à Natureza, tentando forçá-la a responder.”

* * *

IMORTALIDADE: UM DIÁLOGO

N.T.I. – A palavra imortalidade – Unsterblichkeit – não consta do original; nem encontraria lugar, em sua forma usual, no vocabulário de Schopenhauer. A palavra por ele usada é Unzerstörbarkeit – indestructibility, indestrutibilidade. Mas preferi imortalidade, já que esta palavra está intimamente associada com a matéria tratada neste pequeno debate.”

[Abaixo, alguns trechos significativos da paródia de diálogo platônico entre dois doutrinários, Trasímaco e Filaletes. Note-se que em nenhum dos trechos significativos assinalados temos a citação da palavra imortal ou indestrutível ou qualquer uma de suas derivações.]

TRASÍMACO. (…) “Mas basta dessa ladainha kantiana: está antiquada e não se aplica às idéias modernas. Ultimamente tivemos incríveis linhagens de espíritos eminentes na metrópole chamada Pensamento Alemão—”

TRASÍMACO. “O imponente Schleiermacher, por exemplo, e aquele intelecto gigantesco, Hegel; e a essa hora da razão abandonamos todos esses disparates. Diria, inclusive, que estamos tão além deles que não podemos nem mais agüentar voltar a essas coisas.” (…)

FILALETES. (…) “Seu verdadeiro eu não conhece nem tempo, nem começo, nem fim, nem os limites de qualquer indivíduo dado. (…) Isso é o que eu quis dizer quando disse que depois da morte você seria tudo e nada. (…) Você vê o que acontece quando tentamos transportar o transcendental para os limites do conhecimento imanente.” (…)

FILALETES. (…) “Quando você está morto, tanto faz 3 meses no mundo da consciência, ou 10 mil anos. Num caso como noutro, trata-se afinal de contas de acreditar na resposta que lhe dão quando você desperta.” (…)

FILALETES. “Pense no que você está fazendo! Quando você insiste nesse eu, eu, eu quero existir, não é você sozinho que fala assim. Tudo o repete, absolutamente tudo com o traço mais vago de consciência. Segue daí que esse desejo seu é só a parte de você que não é individual – a parte que é comum a todas as coisas sem distinção. É o grito, não do indivíduo, mas da existência em si mesma; é o elemento intrínseco em tudo que existe, aliás, é a causa de qualquer existência. Esse desejo clama por, então é satisfeito por, nada menos que a existência em geral – não qualquer existência individual definida. Não! não é seu objetivo. Parece ser somente porque esse desejo – essa Vontade – alcança consciência só no individual, e por isso parece estar relacionada apenas com o indivíduo. (…) se ele refletir, poderá quebrar os grilhões e se libertar (…) De tudo que discutimos fica claro que a individualidade não é uma forma de perfeição, mas, ao contrário, de limitação; livrar-se dela não é uma perda, e sim um ganho. Não perca mais seu tempo com o problema. Depois da completa compreensão do quê você é, o que é realmente sua existência, a saber, a vontade universal de viver, tudo o mais se torna infantil, o sumo do ridículo!”

TRASÍMACO. “Você é que é infantil e o sumo do ridículo, como todos os filósofos! e se um homem da minha idade se deixa levar por 15 minutos por uns papos tolos como estes, a única razão é que isso me diverte, ajuda a passar o tempo. Tenho mais o que fazer, então adeus.”

* * *

Há uma propriedade inconsciente na forma como, em todas as línguas européias, a palavra pessoa [person] é comumente usada para denotar um ser humano. O real significado de persona é uma máscara, como as que os atores estavam acostumados a vestir no palco antigo; e é bem verdade que ninguém se mostra como realmente é, mas veste sua máscara e encena suas partes. De fato, o todo de nossos arranjos sociais poderia ser comparado a uma perpétua comédia; e é por isso que um homem que valha alguma coisa considera a sociedade tão insípida, enquanto um tonto se sente em casa ao estar nela.”

a razão é um excelente freio em momentos nos quais nos sentimos possuídos por paixões instintuais, um impulso de ira, algum desejo ávido, qualquer coisa que nos levasse a cometer loucuras de que depois nos arrependeríamos.”

POR QUE DESPREZAR É UMA CONTRADIÇÃO EM TERMOS

O ódio vem do coração; o desprezo da cabeça; e nenhum dos dois sentimentos está basicamente sob nosso controle. Não podemos modificar nosso coração; seu núcleo é determinado por motivos, estímulos; e nossa cabeça lida com fatos objetivos, e a eles aplicamos regras imutáveis. Dado indivíduo é a união toda única de um coração particular com uma cabeça particular.

Ódio e desprezo são diametralmente opostos e mutuamente exclusivos. Não são poucos os casos em que o ódio a alguém radica na forçosa estima por suas qualidades. Além do mais, se um homem decide odiar todas as miseráveis criaturas que encontra pela frente, não terá muita energia para mais nada; no lugar, ele poderia desprezar cada uma, uma e todas, com a maior facilidade. O autêntico e genuíno desprezo é tão-somente o inverso do autêntico e genuíno orgulho; mantém-se quase sempre quieto e não emite sinais de sua existência. Porque se um homem mostra que o despreza, ele deixa entrever o quanto se preocupa com o outro, ele quer que ao menos seja visto quão pouco você é apreciado; seu sentimento é ditado pelo ódio, que não pode conviver com o desprezo real. Ao contrário, se for genuíno, esse desprezo é simplesmente a convicção de que o objeto desprezado é um homem sem qualquer valor. Desprezo não é incompatível com indulgência e tratamento gentil, e, visando à própria paz e segurança, aqueles não deveriam ser omitidos; prevenirá irritação; lembrando que não há ninguém incapaz de prejudicar, se devidamente provocado. O problema é que se esse desprezo puro, frio e sincero se revelar uma vez que seja, será confrontado com o mais truculento ódio; já que a pessoa desprezada não está na posição de enfrentar o desprezo com suas próprias armas [um desprezo superior, que seria invisível].”

Melancolia é uma coisa bem diferente de mau-humor, e das duas, não é a mais distante de um temperamento alegre e contente. A melancolia atrai, enquanto o mau-humor repele.

A hipocondria é uma espécie de tormento que não só nos faz cruzar desarrazoadamente com as coisas do presente; não só nos enche de ansiedade infundada no relativo a desgraças futuras que partem inteiramente de nossa imaginação; mas leva, ainda, a uma não-merecida auto-censura pelo que fizemos no passado.

A hipocondria se mostra numa perpétua caça atrás de coisas que vexem e importunem, tratando em seguida de ruminar sobre elas [consolo: ter sempre falsas esperanças também seria uma merda!]. A causa disso é um descontentamento mórbido inato, freqüentemente coexistindo com um temperamento naturalmente incansável. Na forma extrema, esse descontentamento e essa incansabilidade levam ao suicídio.

Por que é que comum é uma expressão que designa desprezo? e que incomum, extraordinário, distinguido, denotam aprovação? Por que tudo que é comum é desprezível?

Comum em seu significado original denota aquilo que é peculiar a todos os homens, i.e., compartilhado igualmente por toda a espécie, e conseqüentemente uma parte inerente de sua natureza. De acordo, se um indivíduo não possui qualidades além daquelas que se atribui à humanidade em geral, ele é um homem comum. Ordinário é uma palavra ainda mais modesta, e se refere ao caráter intelectual; enquanto comum tem aplicação eminentemente moral.

Que valor pode ter uma criatura que não é uma vírgula diferente de milhões de seus semelhantes? Milhões, digo eu? uma infinitude de criaturas que, século após século, numa torrente sem-fim, a Natureza envia borbulhando de suas fontes inesgotáveis; tão generosa com elas quanto o ferreiro com as faíscas inúteis que saltam de sua bigorna.

É obviamente acertado que uma criatura que não tem qualidades a não ser as da espécie deveria se limitar a levar uma existência inteiramente confinada aos limites da espécie, e a viver uma vida condicionada por esses limites.

(…) ao passo que um animal inferior não possui nada a mais do que o caráter genérico de sua espécie, o homem é o único animal que pode reivindicar possui um caráter individual. Mas na maioria deles esse caráter individual é muito pouco, quase nada (…) eles são de um caráter trivial, cotidiano, comum, e existem aos milhares. Você pode dizer de antemão o que eles vão dizer e fazer[*]. Eles não têm carimbo ou marca especiais que os distingam; são como bens manufaturados, todos advindos de um mesmo tecido.

[*] Nota do Tradutor para o Português (eu, Rafael C.!) – O tipo Th.-Ne. Com efeito, até as fotos no Instagram são plenamente previsíveis!

(…) Qualquer coisa que é elevada ou grandiosa ou nobre deve, pois, por sua própria natureza, manter-se sozinha num mundo em que nenhuma expressão pode retratar melhor o que é baixo e desprezível como a que eu citei no início do capítulo, de uso universal: comum.”

o que coloca um sobre o outro e cria diferenças entre homem e homem é o intelecto e o conhecimento; portanto, em qualquer manifestação do eu deveríamos, tanto quanto possível, dar vazão puramente ao intelecto; afinal, como vimos, a vontade é a parte comum a todos nós. Toda exibição violenta da vontade é comum e vulgar; em outros termos, ela nos reduz ao nível da espécie, e nos torna mero tipo, exemplar, amostra; nisso, estamos mostrando apenas o caráter da espécie. Qualquer rompante de fúria não passa de algo comum – qualquer demonstração desenfreada de júbilo, ou ódio, ou medo – em suma, toda forma de emoção (…)

Ao ser complacentes com emoções desse tipo violento, os maiores gênios se rebaixam ao mesmo nível do mais vulgar filho da terra. Contrariamente, se um homem deseja ser absolutamente incomum, ou seja, grande, ele nunca deve permitir que sua consciência seja dominada pelo movimento de sua vontade, não importa o quanto seja premido a isso. Por exemplo, ele deve ser capaz de observar que outras pessoas são mal-intencionadas quanto a ele, sem sentir qualquer ódio por elas ele mesmo; não há nenhum indício mais seguro de uma mente grandiosa do que sua recusa a dar importância a expressões incômodas e insultuosas, atribuindo-as aliás, como essa mente atribui incontáveis outros erros, ao conhecimento deficitário do interlocutor, sem sentir nada em decorrência de sua observação. Esse é o sentido daquele comentário de [Baltasar] Gracián, de que nada é mais indigno dum homem que deixar que vejam que ele é umo maior desdouro de um homem é dar mostras de que é homem[*].

[*] N.T.P. – Preferi traduzir a própria citação do original, que estava em Espanhol, também em itálico, uma vez que não corresponde literalmente à tradução de Schopenhauer imediatamente anterior.

(…) os trabalhos dos escritores trágicos franceses, que não vislumbram nada além da delineação das paixões; e ao deixarem-se cair por um momento num tipo de pathos vaporoso que os torna ridículos, e incorrerem num outro em chistes epigramáticos, tentam esconder a vulgaridade de seu discurso. (…) o verdadeiro sentimento trágico, do qual, de fato, os franceses não têm a menor noção. (…) a natureza italiana, embora em muitos respeitos tão diferente da alemã, compartilha com ela sua apreciação pelo que é profundo, sério e verdadeiro na Arte (…)

O elemento nobre, ou seja, incomum, no drama – o que nele é sublime – não é atingido a menos que o intelecto seja posto para trabalhar, em oposição à vontade; até o intelecto sobrevoar livremente todos esses movimentos apaixonados da vontade, e subjugá-los a sua contemplação. Shakespeare, em particular, mostra que esse é o método geral, sobretudo no Hamlet. E só quando o intelecto emerge ao ponto em que a vaidade de qualquer esforço é manifesta, e a vontade procede a um ato de auto-anulação, é que o drama é trágico na verdadeira acepção da palavra”

todo homem que quer atingir alguma coisa, seja na vida prática, na literatura, ou na arte, deve seguir as regras sem conhecê-las.”

Homens de grande capacidade acharão, em regra, a companhia de pessoas muito estúpidas preferível àquela do homem médio; pela mesma razão que o tirano e as massas e o avô e os netos são aliados naturais.”

Que o homem comum está centrado inteiramente no prazer e bem-estar físico não é provado só pelo seu modo de vida e as coisas que diz, mas essa verdade se mostra também no jeito como olha, na expressão de sua fisiognomonia, seus passos e gestos [(So-) Ma(-rria)niac (, flor do dia!)]. Tudo nele[a] grita: in terram prona [terra de ninguém]!

Não é a ele, é só às naturezas mais nobres e bem-dotadas – homens que realmente pensam e percebem os seus arredores, e formam espécimes excepcionais da humanidade – que as linhas seguintes se aplicam:

Os homini sublime dedit coelumque tueri Jussit et erectos ad sidera tollere vultus.” [“Deus deu ao homem uma postura ereta para investigar os céus e contemplar as estrelas” – Ovídio – Metamorfoses]

Ninguém conhece a própria capacidade para agir e sofrer que guarda dentro de si mesmo, até algo vir e despertar sua atividade (…) Quando a água é tão fria como o gelo, não se faz idéia do calor latente nela contido.”

Por que é que, a despeito de todos os espelhos do mundo, ninguém sabe como realmente é e aparenta ser?

Um homem poderia lembrar o rosto de um amigo, mas não o próprio. Aqui, pois, jaz uma dificuldade inicial na aplicação da máxima, Conhece-te a ti mesmo. [A frase é atribuída a 11 filósofos gregos diferentes.]

Isso se atribui, em parte, sem dúvida, à impossibilidade dum homem se ver refletido exceto com o rosto voltado rigorosamente para a superfície de vidro, e desde que em perfeita imobilidade; porquanto nesta postura a expressão dos olhos, que conta tanto, e dá todo o caráter à face, está quase toda perdida. (…) Um homem não pode olhar seu próprio reflexo como se a pessoa apresentada ali fosse um estranho a ele; todavia, isso seria necessário se se quisesse tomar uma visão objetiva. (…) algo advindo de sua própria natureza egotística cochicha: lembre-se que não é estranho nenhum, é você mesmo para quem você está olhando; e isso opera como um noli me tangere[*], e o previne de tomar uma visão objetiva.”

[*] N.T.P. – “Não me segures” ou “Não me detenhas”, conforme a tradução do Novo Testamento, João 20:17, Cristo a Madalena depois de ressuscitar.

Conforme a energia mental de um homem é exortada ou relaxada, a vida parecerá a ele ou curta demais, e petulante, e passageira, a ponto de nada poder suceder que merecesse sua consideração ou desgaste emocional; daí ele concluir que nada realmente importa, prazer ou riquezas, ou mesmo fama, e que qualquer que tenha sido o fracasso de um homem, ele não perdeu muito – ou, partindo para o lado oposto, a vida parecerá tão longa, tão relevante, tão integral e minuciosa, tão momentosa e cheia de dificuldades, que temos de mergulhar nela com toda nossa alma se quisermos obter um naco de seus bens, ter certeza de ser recompensado e concretizar nossos planos. Essa última é a visão imanente e mais comum da vida (…) A primeira é a visão transcendente, mais bem-expressa pela citação ovídica non est tanti [não é pra tanto] (…) Essa condição da mente é proporcionada pelo intelecto tomando a rédea da consciência, quando, liberta do serviço da vontade, esta consciência analisa o fenômeno da vida objetivamente (…)

Um homem é grande ou pequeno conforme ele se incline para a primeira ou a segunda dessas perspectivas.

Pessoas dotadas de brilhantes habilidades desvalorizam o ato de admitir seus erros e fraquezas, ou de deixar os outros os perceberem. Eles consideram esses mesmos erros algo pelo que já pagaram devidamente; e ao invés de simularem que esses defeitos são uma desgraça para eles, vêem-nos como honrosos. Isso é especialmente verdadeiro quando os erros são visíveis sempre acompanhados de suas maiores qualidades – conditiones sine quibus non [sem um, sem o outro, se um vem, o outro também!] – ou, como George Sand dizia, les défausts de ses vertus [os defeitos de suas virtudes].

Contrariamente, há pessoas de bom caráter e capacidade intelectual irreprochável que, longe de admitir suas poucas debilidades, escondem-nas com zelo, e se mostram bastante sensíveis a qualquer sugestão de sua existência; e isso porque todo seu mérito consiste em ser livres de erros e fraquezas. Se essas pessoas forem flagradas cometendo alguma falha, sua reputação decai de imediato.”

Nas pessoas de habilidade moderada, a modéstia é mera honestidade; mas nos de grande talento, hipocrisia.”

Não freqüentar o teatro é como fazer a toalete sem um espelho[*]. Mas é ainda pior tomar uma decisão sem consultar um amigo. Porque um homem pode ter o juízo mais perfeito em outros assuntos, e ainda assim se precipitar quando se trata de si mesmo”

[*] N.T.P. – Essa frase envelheceu tanto de um século e meio para cá que eu diria, para recontextualizá-la: Não ir ao cinema é como sair com os amigos e não tirar selfies.

deve ser admitido que muitos homens têm um grau de existência pelo menos 10x mais elevado que outros – em outras palavras, existem 10x mais. (…)

(no norte da Europa a ansiedade produzida pelos meses de inverno torna as pessoas mais pensativas e portanto reflexivas) (…)

Os homens comuns nunca refletem sobre sua vida como um todo interconectado, quanto mais sobre a existência em geral; até certa medida, pode-se dizer que existem sem realmente saber disso. [Dg.] (…) Observe o pobre[, e como ele é o feliz inconsciente]. § Depois, passando por esse tipo de homem, considere, em seguida, o mercador, sóbrio e sensato (…) § Depois olhe para o homem culto, que investiga, quem sabe, a história do passado. Ele terá chegado ao ponto em que um homem se torna consciente da existência como um todo, enxerga além do período de sua própria vida, além de seus próprios interesses, meditando acerca do curso inteiro da história do mundo. § Por fim, dê uma olhada no poeta e no filósofo, em quem a reflexão atingiu tal dimensão que, ao invés de estar inclinado à investigação de fenômenos particulares, ele paira absorto diante da existência ela mesma, essa grande esfinge, e faz disso seu problema. (…) Se, portanto, o grau de consciência é o grau de realidade, esse homem, dir-se-á, existe mais do que tudo, existe mais que os demais, e fará sentido e terá um significado descrevê-lo assim.

Entre os dois extremos aqui esboçados, e os seus estágios intermediários, cada leitor saberá achar o seu lugar.”

Schopenhauer rules. Over nothing, but he rules.

Um inglês, por exemplo, considera um insulto mortal dizerem que ele não é um gentleman; ou, pior ainda, que ele é um mentiroso; um francês terá o mesmo sentimento ao ser chamado de covarde, e um alemão se você chamá-lo de estúpido.

(…) sentimos que a imaginação é ativa na exata proporção em que nossos sentidos não são excitados por objetos externos. Um longo período de solidão, ou na prisão ou numa ala de hospital; quietude, crepúsculo, escuridão – são essas as coisas que produzem a atividade mental; e sob sua influência a imaginação cresce espontaneamente. Por outro lado, quando uma grande quantidade de materiais é apresentada às nossas faculdades de observação, como acontece numa viagem, ou no vaivém do mundo, ou, ainda, por oposição, à luz do dia, a imaginação é pueril, e, por mais que se a convoque, ela se recusa a tornar-se ativa, como se entendesse que não é a hora mais indicada.

(…) A fantasia é alimentada praticamente do mesmo jeito que o corpo, que é menos capaz de qualquer trabalho e prefere não fazer nada no exato momento em que recebe sua comida, que tem que digerir.[*]

[*] N.T.P.Reflexões pessoais: O tédio e a falta de brinquedos; infância-adolescência-madurez: de expectador a criador de games, RPGs, canções e obras. Televisão só serve pra isso: pra desligar nossa tevê interna. A festa é o dia do lixo do artista. Pé na jaca da sociedade. O diplomata é o tipo do eterno-passivo. Artista de caravana: será tão artista assim? Nada mais movimentado do que o gabinete do escritor… Guarda noturno e seus fantasmas… Quão mais doente, mais filósofo. Certamente o celibatário Kant nunca precisou pedir mais tempo ou espaço para alguém! Flor sobrecar-regada. Hoje não vou à academia, porque ontem filosofei a noite toda. Gandaia da gaia-ciência. Uma nota ao pé-de-página (pede mas não dou) da partitura: você não pode errar do samba desses versos a cadência.

Devido a um processo de contradição, a distância no espaço faz as coisas parecerem pequenas, e conseqüentemente livres de defeitos. É por isso que uma paisagem parece tão melhor num espelho contraído ou numa camera obscura, do que na realidade. O mesmo efeito é produzido pela distância no tempo.”

nossa memória de alegrias e tristezas é sempre imperfeita, e se torna um problema de indiferença para nós assim que elas acabam. Explica-se, assim, a vaidade da tentativa, que fazemos às vezes, de reviver os prazeres e as dores do passado. (…) a vontade, como tal, é desprovida de memória, que é função do intelecto”

uma boa imaginação deixa mais fácil aprender línguas; já que com seu auxílio a nova palavra é de uma vez incorporada ao objeto referente; ao passo que, sem imaginação, é colocada puramente em paralelo com a palavra equivalente na língua-mãe.

Mnemônicos deviam não somente ser a arte de guardar coisas indiretamente na memória através de trocadilhos explícitos ou tiradas; deviam ser aplicados a uma teoria sistemática da memória, e explicar seus diversos atributos com referência tanto a sua natureza real quanto à relação desses atributos uns com os outros.”

Não podemos atribuir nenhuma razão nem explicar o porquê de esse momento em especial, dentre tantos milhares de momentos parecidos, ser rememorado. Parece mais uma questão de acaso, tanto quanto quando alguns meros espécimes duma espécie animal agora extinta são descobertos nas camadas de uma rocha; ou quando, ao abrir um livro, nos deparamos com um inseto acidentalmente esmagado pelas folhas. Memórias desse tipo são sempre doces e prazerosas.”

Acontece ocasionalmente, sem razão em particular, que cenas há muito esquecidas se iluminam de súbito na memória. Isso pode ser atribuído em muitos casos à intervenção de odores de difícil percepção, que acompanhavam essas cenas e agora ressurgem idênticos. É muito sabido que o sentido do olfato é excepcionalmente eficaz no despertar de memórias, e em geral não se requer muito esforço para a partir de uma só lembrança trazer à baila toda uma cadeia de idéias.” Se bem se comece a ficar louco pelos tímpanos…

enquanto a intoxicação aperfeiçoa a memória do que passou, atrofia nossa capacidade de recuperar o presente.”

Os homens necessitam de algum tipo de atividade externa quando são inativos interiormente. Contrariamente, quando são interiormente ativos, não consideram ser arrastados para fora de si mesmos; na verdade os atrapalharia e impediria sua cadeia de pensamentos duma forma que amiúde é desastrosa para eles.”

Os animais inferiores nunca riem, sozinhos ou em companhia. Myson, o misantropo, foi certa vez surpreendido por uma dessas pessoas enquanto ria sozinho. Por que você ri? ele foi perguntado; não há ninguém com você! É exatamente por isso que estou rindo, respondeu Myson.”

a gesticulação tem alguma analogia com a lógica e a gramática, uma vez que tem a ver com a forma, ao invés de com o conteúdo da conversação [D*** o eloqüente], mas, na outra mão, aquela é distinguível destas por ser mais moral do que intelectual; em outras palavras, reflete os movimentos da vontade. Como acompanhamento de uma conversação, é o baixo de uma melodia; e se, como na música, ela se mantiver condizente com o progresso do soprano, intensificará o efeito.

(…) qualquer que seja o assunto, com uma recorrência da forma, o mesmo gesto é inevitavelmente repetido. Então se acontecer de eu ver – da minha janela, digamos – duas pessoas tendo uma vívida conversação, sem poder pescar uma palavra sequer, eu poderei, não obstante, compreender a natureza geral do diálogo perfeitamente bem; melhor dizendo, o tipo de coisa que está sendo dita e a forma que ela exibe. (…)

Os ingleses nutrem um desprezo peculiar pelos gestos, considerando-os vulgares e indignos. Isso me parece um preconceito tolo de sua parte, e o resultado de tamanha rigidez nas coisas.”

* * *

após um longo caminho [escolar] de aprendizagem e leituras, entramos no mundo em nossa mocidade, parte com uma ignorância desafetada das coisas, parte com noções equívocas sobre elas; é aí que nossa conduta saboreia ora uma ansiedade nervosa, ora uma confiança infundada. A razão é simples: nossa cabeça está prenhe de conceitos que nos empenhamos em aplicar ao real, procedimento que quase nunca surte o efeito desejado. Esse é o resultado quando se age na direção oposta ao desenvolvimento natural da mente, tratando de fazê-la obter primeiro as idéias gerais, depois as observações particulares. (…) Os pontos de vista equivocados na vida, que nascem de uma falsa aplicação dos conceitos, têm de ser, em seguida, corrigidos por longos anos da experiência; e não-raro esses pontos de vista acabam mesmo sendo inteiramente corrigidos. Eis a razão de tão poucos homens cultos possuírem o senso comum num grau semelhante ao de pessoas sem qualquer instrução.” Dedicado ao Imperativista Categórico Luan.

Ninguém pode olhar dentro de sua própria cabeça sem observar que foi só depois de atingir uma idade muito madura, e em alguns casos quando menos se esperava, que se chegou a um entendimento correto ou a uma visão clara de tantos problemas da vida, que, afinal, não eram assim tão difíceis ou complicados.”

um cuidado especial teria de ser tomado para prevenir as crianças de usar palavras sem claramente entender seu significado e aplicação. A tendência fatal em se satisfazer com palavras ao invés de tentando entender as coisas – a tendência a aprender as frases por decoreba, de modo que sirvam de refúgio em tempos de necessidade, é uma regra, mesmo para a infância”

preconceitos, que ao cabo se tornam idéias fixas.”

Ao invés de nos apressarmos em depositar livros, e livros tão-só, em suas mãos, deveríamos familiarizar os jovens, passo a passo, com as coisas

Desaprender o mal foi a resposta que, de acordo com Diógenes Laércio, Antístenes deu, quando perguntado qual o ramo do conhecimento mais necessário; podemos entender o que ele quis dizer.

Nenhuma criança abaixo dos 15 deveria receber instrução em assuntos que podem ser o veículo de sério erro, como a filosofia, a religião, ou qualquer outro ramo do conhecimento em que seja necessário adotar pontos de vista abrangentes; porque noções equivocadas assimiladas desde cedo podem com freqüência ser arrancadas fora, mas de todas as faculdades intelectuais o julgamento é a última a chegar à maturidade. A criança deveria dedicar sua atenção ou a matérias em que o erro não é de fato possível, como na matemática, ou àquelas em que errar não representa perigo, como nas línguas, ciências naturais, história e assim por diante.

Em compensação, a memória deveria ser bastante usada na infância, visto que é nessa fase da vida que ela se mostra mais forte e tenaz. Acontece que a escolha das coisas com que a memória deverá se comprometer nessa idade deve ser a mais cuidadosa e previdente possível; já que lições no tempo da infância jamais são esquecidas.”

O conhecimento que derivamos de nossa própria observação é usualmente distinto daquele que adquirimos através de idéias abstratas; aquele vem de forma natural, esse do que outras pessoas nos dizem e da seqüência da instrução que recebemos, seja ela boa ou má. O resultado é que na juventude há geralmente muito pouca concordância ou correspondência entre nossas idéias abstratas, que são meras frases em nossa cabeça, e o autêntico conhecimento que tenhamos obtido graças a nossa própria observação. (…)

Essa maturidade ou perfeição do conhecimento é algo relativamente independente de outro tipo de perfeição, que pode ser de um grau alto ou baixo – estou falando da perfeição a que um homem pode conduzir suas faculdades individuais; ela é mensurada não por qualquer correspondência entre os dois tipos de conhecimento, mas pelo grau de intensidade que cada tipo obtém.”

Na aquisição do conhecimento do mundo, é enquanto é-se um novato, expressamente na infância ou adolescência, que as primeiras e mais difíceis lições são-nos imputadas; mas acontece quase sempre de mesmo em anos tardios haver ainda um bom naco que aprender.

O estudo já é difícil o bastante por si mesmo; mas a dificuldade é duplicada pelos romances, que representam um estado de coisas na vida e no mundo que simplesmente não existe. A juventude é crédula, e aceita esses pontos de vista, que depois se tornam parte e parcela da mente; em vez de uma condição de ignorância meramente negativa, você tem o erro positivo – um tecido inteiro de falsas noções para começar; numa data vindoura, esse tecido virá de fato a arruinar o próprio aprendizado pela experiência, e erigirá construções defeituosas nas lições que ela puder ensinar. (…) expectativas foram alimentadas que jamais serão atingidas. Isso geralmente produz uma influência nefasta por toda uma vida. Nesse respeito, aqueles cuja juventude não lhes permitiu a leitura de romances – esses que trabalham com suas mãos e por aí vai – estão uma posição de decidida vantagem. São poucos os romances para os quais essa repreensão não pode ser dirigida – que aliás têm um efeito o contrário ao mau. Primeiro de tudo, para exemplificar, Gil Blas, e os demais trabalhos de Le Sage [Alain-René Lesage – o sábio?] (ou, melhor ainda, seus hispânicos originais); além dele, The Vicar of Wakefield [Oliver Goldsmith], e, até certo ponto, os romances de Sir Walter Scott. Dom Quixote poderia ser visto como uma exibição satírica dos erros aos quais venho me referindo.”

* * *

[Victor-Joseph Étienne de] Jouy: Sem mulheres, o começo de nossa vida seria desamparado; o meio, despido de prazer; e o final, sem consolo.

Mulheres são feitas para ser as enfermeiras e professoras de nossa tenra infância pelo fato de serem elas mesmas infantis, frívolas e inconseqüentes.”

Com as donzelas a Natureza parece ter tido em mente o que, na linguagem do drama, se chama um efeito de choque; por poucos anos ela as dota com tal riqueza de beleza e as enche do dom do charme, às custas de todo o resto de suas vidas; assim, durante esses anos elas talvez cativem a fantasia de algum homem num grau o bastante para que ele se apresse em garantir seu honorável cuidado e sustento, de um jeito ou de outro, enquanto viverem – um passo para o qual não pareceria haver garantias suficientes se só a razão governasse seus pensamentos.”

exatamente como a formiga-fêmea, depois da fecundação, perde suas asas, que se tornam então supérfluas, aliás, um perigo para o negócio do acasalamento; ao dar a luz a uma ou duas crianças, uma mulher geralmente perde sua beleza; provavelmente por razões similares.

Encontramos que jovenzinhas, em seus corações, vêem os afazeres domésticos ou o trabalho sob qualquer aspecto como de importância secundária, senão como mera pilhéria. O único assunto que clama sua atenção mais sincera é o amor, o que inclui a conquista e qualquer coisa com ela relacionada – vestidos, danças, etc.

Quanto mais uma coisa é nobre e perfeita, mais tarde e mais devagar essa coisa aparece na maturidade do sujeito. Dificilmente um homem atinge a maturidade de seus poderes de raciocínio e de suas faculdades mentais antes da idade de 28; uma mulher, dos 18. (…) Esse é o porquê de as mulheres permanecerem crianças o resto de suas vidas; nunca vendo nada a não ser o que está realmente próximo delas, apegando-se ao momento presente, tomando a aparência por realidade, e preferindo bagatelas a problemas de primeira importância. É em virtude de sua faculdade de raciocinar que o homem não vive apenas no presente, como o bruto, mas percebe em redor de si e considera o passado e o futuro; e essa é a origem da prudência, bem como daquele zelo e ansiedade que tantas pessoas exibem. (…) é assim que as coisas que estão ausentes, ou passaram, ou estão por vir, têm muito menos efeito sobre as mulheres que sobre os homens. Esta é a razão por que as mulheres estão mais inclinadas à extravagância, e às vezes levam essa inclinação a extremos que beiram a loucura [M*******]. Em seu íntimo, as mulheres acham que é papel do homem ganhar dinheiro e o seu gastá-lo. – se possível durante a vida do marido, mas, em última instância, após sua morte. O próprio fato de o marido dar-lhes parte de seus ganhos para a administração do lar reforça essa crença.”

Não é de forma alguma uma má idéia consultar mulheres sobre grandes dificuldades, como os alemães costumavam fazer em tempos antanhos; porque sua maneira de ver as coisas é consideravelmente divergente do nosso, principalmente pelo fato de elas preferirem adotar o caminho mais curto até suas metas, e, em geral, fitar a vista no que está logo à frente; enquanto que nós, via de regra, vemos muito além, ignorando o que está imediatamente diante do nariz. Nesses casos, conselhos femininos nos trazem de volta a uma perspectiva acertada, recuperando-nos a visão simples e aproximada dos problemas.

As mulheres são decididamente mais sóbrias em seus julgamentos do que nós; (…) caso nossas paixões sejam despertadas, tendemos a ver tudo de maneira exagerada, ou então imaginar o que não existe.

As debilidades de suas faculdades racionais explicam, ainda, por que as mulheres exibem mais simpatia pelos desafortunados, tratando-os com mais afabilidade e interesse; e esse é ainda o motivo de, em contrapartida, vermos as mulheres serem inferiores ao homem no tocante à justiça, sendo menos honoráveis e conscienciosas[*].

[*] A esse respeito, elas podem ser comparadas a um organismo animal que contém um fígado mas não uma vesícula biliar. Deixe-me referenciar o que relatei no meu tratado Sobre os Fundamentos da Moral, §17.

Destarte, será concluído que o defeito fundamental do caráter feminil é que ele não possui senso de justiça. (…) Elas são dependentes, não da força, mas do artifício; vem daí sua capacidade instintiva para a artimanha, e sua tendência inerradicável para contar mentiras. Assim como leões são providos de garras e presas, e elefantes e javalis estão dotados de dentes enormes, touros com chifres, e alguns moluscos com nuvens de fluido preto, assim também a Natureza equipou as mulheres, para sua defesa e proteção, com as artes da dissimulação. (…) a dissimulação é inata na mulher, e uma qualidade presente tanto na estúpida quanto na esperta. (…) Donde: uma mulher perfeitamente confiável e não dada à dissimulação é talvez uma impossibilidade, e justamente por isso ela é tão célere para enxergar a dissimulação nas outras, a ponto de ser tolice tentar a mesma tática contra ela. (…) O perjúrio numa côrte de justiça é muito mais amiúde cometido por mulheres que por homens. Deveria ser, inclusive, questionado se as mulheres poderiam fazer juramento! De tempos em tempos acham-se casos repetidos, em todo lugar, de senhoras, que não passam necessidade alguma, que subtraem itens de prateleiras no mercado quando ninguém está olhando, ausentando-se rapidamente em seguida.

A regra inata que governa a conduta das mulheres, embora secreta e jamais formulada, ou melhor, inconsciente em seu funcionamento, é essa: Estamos justificadas ao ludibriar aqueles que pensam que têm o direito de dominar a espécie ao dedicar pouca atenção ao individual, isto é, a nós. A constituição, por conseguinte o bem-estar, da espécie foram depositados em nossas mãos e atribuídos aos nossos cuidados, através do controle que adquirimos da próxima geração, que vem de nosso ventre; deixem-nos cumprir nossas obrigações escrupulosamente. Mas as mulheres não possuem o conhecimento abstrato desse princípio-mor; estão conscientes dele apenas como fato concreto; e elas não possuem outro método de dar expressão a ele do que seu modo de agir quando a oportunidade surge. Sua consciência não as incomoda tanto quanto pensamos; porque nos recessos mais escuros de seu coração elas estão cientes de que ao falharem em suas obrigações para com o indivíduo, elas estão cumprindo sua missão perante a espécie, o que é infinitamente superior.

(…) Essa característica dota sua vida e seu ser de uma certa frivolidade; a inclinação geral de seu caráter está para uma direção fundamentalmente diferente do do homem; e é isso que produz aquela discórdia na vida em casal que é tão freqüente, quase o estado normal.

O sentimento natural entre os homens é mera indiferença, mas entre as mulheres é de fato inimizade. A razão é aquele ciúme recíproco – odium figulinum – que, no caso dos homens, não excede os confins de suas ocupações particulares; com as mulheres, ele envolve todo o sexo; pois elas só têm um objetivo na vida. Até mesmo quando cruzam na rua, as mulheres se vêem como Guelfos e Gibelinos. E é um fato patente que quando duas mulheres são apresentadas uma a outra agem com mais constrangimento e dissimulação do que dois homens na mesma situação; advém daí o caráter ridículo de uma troca de comprimentos entre duas mulheres. Além do mais, enquanto um homem vai, como regra geral, preservar sempre um certo nível de consideração e humanidade ao se dirigir a outros, mesmo àqueles em posição tremendamente baixa, é intolerável ver o modo arrogante e desdenhoso como uma dama de sociedade se porta frente uma fêmea de mais baixa extração (e eu sequer estou falando de uma sua serviçal) (…) enquanto que uma centena de considerações importam para nós, no caso mulher-mulher só uma consideração é feita: com que homem se deram bem (…)

É só o homem cujo intelecto foi obscurecido por seus impulsos sexuais que poderia dar o nome de o belo sexo a essa raça nanica, de ombros estreitos, quadris largos e pernas curtas, uma vez que toda a beleza do sexo está ligada a este impulso. Em vez de chamarmo-las de bonitas, haveria mais precisão em descrever mulheres como o sexo antiestético. Nem por meio de música, poesia ou quadro algum fazem elas verdadeiramente sentido ou têm elas suscetibilidade; é mera zombaria se elas têm a pretensão de fazê-lo ou tê-la em seus esforços para agradar. Como resultado, elas são incapazes de mostrar um interesse puramente objetivo no que quer que seja. Um homem tenta adquirir maestria direta sobre as coisas, ou ao compreendê-las ou subjugando-as a sua vontade. Mas a mulher está sempre e em todo canto limitada à maestria indireta das coisas, isto é, pelo homem (…) até Rousseau declarou: As mulheres não demonstram, em regra, amor por nenhuma arte; elas não aprendem nenhuma; e não possuem gênio. [Na Carta a d’Alembert, nota 20.]

Ninguém que veja um pouco abaixo da superfície pode deixar de notar o mesmo. Basta observar como as mulheres prestam atenção a um concerto, à ópera ou a uma peça – a simplicidade infantil com que insistem em papagaiar mesmo durante as melhores passagens das maiores obras-primas. Se é verdade que os Gregos excluíam totalmente a mulher dos teatros, estavam certos ao fazê-lo; de qualquer lugar você iria poder escutar as falas do palco. Nos nossos dias seria mais proveitoso, no lugar de dizer Que a vossa mulher esteja calada na igreja[*], Que a vossa mulher esteja calada na peça! Poderia estar assim escrito em letras grandes nas cortinas!

[*] N.T.P. – Cf. o igualitário Apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 14:34.

E não se pode esperar nada a mais das mulheres se se considerar que as mais distinguidas intelectuais dentre todo este sexo jamais chegaram a produzir qualquer obra de respeito, genuína e original; nem regalaram o mundo com qualquer trabalho de valor permanente em qualquer esfera. Isso é especialmente notável na Pintura, em que a maestria da técnica está ao alcance de suas mãos ao menos tanto quanto está das nossas – percebe-se que elas são diligentes em cultivar esse talento; e mesmo assim não há nenhum quadro ou imagem de que possam jactar-se; não é questão de técnica, mas deficiência no juízo objetivo, indispensável na Pintura. O ponto de vista subjetivo é o seu limite.

(…) Mas, além do mais, é só por elas serem umas filistéias que a sociedade moderna, onde elas tomam a liderança e escolhem o tom, vai tão mal. O dito de Napoleão – que as mulheres não possuem pedigree – deveria ser adotado como o ponto de referência para determinar o lugar da mulher na sociedade; e, sobre suas demais qualidades, Chamfort[*] bem observa: Elas são feitas para barganhar com nossas fraquezas e tolices, mas não com nossa razão. As afinidades que existem entre elas e os homens são tão profundas quanto a pele, e não penetram a mente ou os sentimentos ou o caráter. Elas formam o sexus sequior – o segundo sexo, inferior em qualquer respeito ao primeiro; suas fragilidades deviam ser tratadas com consideração; já mostrar-lhes grande reverência é extremamente ridículo, e inclusive nos rebaixa a seus próprios olhos. (…)

[*] Conselhos e Máximas

Essa é precisamente a visão que os antigos tinham da mulher, e a visão que os povos orientais conservam até hoje; e seu julgamento acerca da posição que cabe à mulher é muito mais correto que o nosso, nós e nossas noções francesas arcaicas de galanteria e nosso sistema ilógico de reverência – esse produto-mor da estupidez teutônico-cristã. Essas noções serviram apenas para tornar a mulher mais arrogante e autoritária; ao ponto de sermos lembrados ocasionalmente dos macacos sagrados de Benares, que ao estarem conscientes de sua santidade e posição inviolável acham que podem fazer exatamente o que entenderem.

(…) É apenas por existirem pessoas como as ladies da Europa que as mulheres de classes mais baixas, a grande maioria do sexo, são muito mais infelizes do que seriam no Oriente.”

Lord Byron diz: Observação sobre o estado das mulheres sob os gregos antigos – conveniente o bastante. Estado presente, um reminiscente do barbarismo da cavalaria e da era feudal – artificial e inatural. (…) [recomenda-se-lhes] que não leiam poesia nem política – nada a não ser livros devotos e culinários. Música – desenho – dança – também um pouco de jardinagem e lavragem aqui e ali.

Quando a lei equiparou os direitos de homens e mulheres, devia ter presenteado as últimas com um intelecto masculino. Mas o fato é que, na exata proporção em que as honras e privilégios concedidos pela nova lei excedem o que a natureza dotou, há uma diminuição no número de mulheres que realmente participa desses mesmos privilégios; e todas as restantes são excluídas de seus direitos naturais no mesmo montante que é dado a umas poucas escolhidas, muito além de seu merecimento.”

Enquanto em nações polígamas toda mulher é sustentada, onde a monogamia prevalece o número de mulheres casadas é limitado; e uma larga margem de mulheres fica sem qualquer suporte: nas classes altas, vegetam como solteironas inúteis, e nas baixas sucumbem ao trabalho pesado, para o qual não nasceram; ou quem sabe se tornam filles de joie [garotas de programa][*], cuja vida é tão destituída de prazer quanto o é de honra.”

[*] N.T.P. – Literalmente, o termo para prostitutas corrente em toda a Europa na época de Schopenhauer teria de ser traduzido, do Francês, como “filhas (ou servas) do prazer”, dando ensejo ao comentário irônico na seqüência.

Apenas em Londres existem 80.000 prostitutas.”

não há qualquer boa razão para um homem cuja esposa sofre de doença crônica ou esterilidade, ou que se tornou gradativamente velha demais para ele, não tomar uma segunda.”

N.T.I. – Em troca de desistirem da poligamia, os Mormons ganharam uma colônia na América.”

a condição humana é tal que prestamos atenção à opinião dos outros numa proporção totalmente descabida para com seu real valor.”

É inútil argumentar contra a poligamia; ela deve ser assumida como existente de facto em todo canto, e a única questão é como deveria ser regulada. Onde há, então, monogamistas reais? Todos nós vivemos, em algum grau, por algum tempo, e aliás maioria de nós sempre, em poligamia. Uma vez que todo homem necessita de várias mulheres, nada há de mais justo que permitir-lhe, aliás, obrigá-lo mesmo, o acesso a muitas mulheres.”

Na Índia não há mulher independente; de acordo com a lei de Manu [Cap. V, v.148], ela deve permanecer sob o controle de seu pai, seu marido, seu irmão ou seu filho.”

O primeiro amor da mãe por sua cria é, seja nos animais inferiores ou no homem, de um caráter puramente instintivo, então ele acaba quando a criança já não é mais fisicamente indefesa. Depois desse primeiro amor, um outro baseado no hábito e na razão aflorará; mas esse segundo amor amiúde não aparece, sobretudo quando a mãe não ama o pai. O amor do pai pela sua criança é de uma ordem diferente, e mais propício a continuar; porque tem seu fundamento no fato de reconhecer-se a si mesmo na criança; ou seja, seu amor por ela é metafísico de origem.

Em quase todas as nações, dos mundos antigo ou moderno, até entre os Hotentotes[*], a propriedade é herdada apenas pelos descendentes masculinos; é só na Europa que uma ruptura se deu; mas atenção: não dentro da nobreza.

[*] Leroy – Lettres philosophiques sur l’intelligence et la perfectibilité des animaux, avec quelques lettres sur l’homme, p. 298.”

Entre os homens, a vaidade com freqüência conduz a vantagens imateriais, como intelecto, aprendizado, coragem.”

* * *

A demonstração superabundante de vitalidade, que toma a forma de bater, martelar e rolar as coisas por aí, constituiu-se para mim um tormento diário durante toda a minha vida. Há pessoas, é bem verdade – aliás, um grande número de pessoas –, que riem dessas coisas, porque não são sensíveis ao barulho; mas são as mesmas pessoas que também não são sensíveis a argumentos, pensamentos, à poesia, ou à arte; numa palavra, a qualquer tipo de influência intelectual. A razão é que o tecido de seus cérebros é de uma qualidade áspera e inferior. Já para os intelectuais, o barulho é uma tortura. Nas biografias de quase todos os maiores escritores, ou onde quer que seja que suas notas pessoais fiquem registradas, eu encontro reclamações sobre o barulho; no caso de Kant, por exemplo, e Goethe, Lichtenberg, Jean Paul; e se acontece de qualquer escritor omitir a exprimir-se dessa maneira, é unicamente por falta de oportunidade.”

um grande intelecto afunda até o nível de um ordinário, assim que interrompido e assaltado, sua atenção distraída e repelida do objeto em questão; sua superioridade depende de seu poder de concentração – de trazer toda sua força para se escorar num só tema, da mesma forma que um espelho côncavo coleta num só ponto todos os raios de luz que incidem sobre si. A interrupção barulhenta é um incômodo para essa concentração. Eis por que mentes distinguidas sempre demonstraram um excessivo desgosto pela perturbação sob qualquer aspecto, como algo que surge de súbito e arranca-lhes seu pensar. (…) A gente ordinária não sucumbe a nada do tipo. A mais sensível e inteligente das nações européias não foge à regra, Não interromperás! sendo seu décimo primeiro mandamento. (…) Mas é óbvio: onde nada há para interromper, o barulho não será particularmente doloroso. (…) Tudo o que sinto é um contínuo crescimento no trabalho do pensar – como se estivesse tentando caminhar com um peso nos pés. (…) O mais indesculpável e o mais desgraçado dos barulhos é o estalar de chicotes – uma coisa verdadeiramente infernal quando é desempenhado nas estreitas e reverberantes ruas de uma cidade. Eu denuncio esse estalar como algo que faz da vida pacata impossível; aborta todo pensamento tranqüilo. Que o estalar de chicotes seja permitido em qualquer circunstância me parece demonstrar da forma mais prístina como a natureza da humanidade é tão insensível e disparatada. (…) Toda vez que esse barulho é produzido, deve irritar uma centena de pessoas que estão concentradas nalgum negócio, não interessa o quão trivial ele seja (…) Nenhum som, por mais estridente, penetra de forma tão aguda os recôncavos do cérebro como esse maldito estalar de chicotes; você sente a ferroada do açoite diretamente dentro da cabeça”

Marteladas, o latido de cães, e o choro de crianças são horríveis de ouvir; mas o único e genuíno assassino de pensamentos como tal é o estalar do chicote (…) Esse maldito estalar de chicotes não só é desnecessário, como inútil mesmo. (…) O cavalo não acelera nem um pouco por causa dele. A maior demonstração disso é que o cocheiro precisa chicoteá-lo sem parar, e mesmo assim ele segue devagar o seu trote de sempre. (…) Supondo, no entanto, que fosse absolutamente necessário estalar o chicote a fim de manter o cavalo ciente de que deve manter um ritmo, um centésimo do barulho que escutamos já seria o suficiente. É um fato bem-conhecido que, em termos de visão e audição, os animais são ultra-sensíveis aos menores sinais; eles estão alertas para coisas que escassamente percebemos. Canários e cães treinados são a prova. (…) Que tamanha infâmia seja tolerada na cidade é um pedaço de barbárie e iniqüidade, ainda mais quando uma simples notificação policial podia resolver o problema, obrigando cada chicote a ter um nó em sua extremidade. (…) Um sujeito que cavalga pelos becos e vielas duma cidade com um cavalo de aluguel ou de carga improdutivo, e que continua a fustigá-lo por várias jardas com toda a força, mereceria aqui e ali ser desmontado e levar umas 5 boas varadas com um pau.

Todos os filantropos do mundo, todos os legisladores, num encontro para advogar e decretar a total abolição da punição corporal, não poderiam jamais me persuadir do contrário! (…) O corpo de um homem e as suas necessidades são agora, em toda parte, tratados com uma terna indulgência. É a mente pensadora, pois então, a única que nunca obterá a menor medida de consideração ou proteção, isso para não falar de respeito? (…) Quantos pensamentos grandes e esplêndidos, gostaria eu de saber, foram perdidos pelo mundo graças ao estalar de chicotes?”

Torçamos agora para que as mais inteligentes e refinadas das nações tomem uma iniciativa na matéria, e que enfim os alemães copiem o exemplo[*].

[*] De acordo com uma notícia veiculada pela Sociedade para a Proteção dos Animais de Munique, o chicoteamento supérfluo e o estalar de chicotes foram, em dezembro de 1858, positivamente proibidos em Nuremberg.”

Quem não se perturba enquanto lê ou pensa, é simplesmente porque não lê nem pensa; só fuma, o que é o substitutivo contemporâneo do pensar. A tolerância geral a ruídos desnecessários – as batidas de portas, por exemplo, coisa mal-educada e chula – é evidência direta de que os hábitos mentais em voga são o torpor e a vacuidade.”

Recomendo uma epístola poética in terzo rimo do famoso pintor Bronzino, intitulada De’ Romori: a Messer Luca Martini. Ela dá uma descrição detalhada da tortura a que as pessoas se submetem diante dos vários barulhos de uma pequena cidade italiana. Escrita num estilo tragicômico, é deleitante! A epístola poderá ser encontrada em Opere burlesche del Berni, Aretino et altri, Vol. II, p. 258

* * *

Há alguns panoramas realmente bonitos no mundo, mas as figuras humanas neles são pobres, e seria melhor não contemplá-los.”

A mosca devia ser empregada como o símbolo da impertinência e audácia; enquanto todos os demais animais evitam o homem mais do que qualquer coisa, e disparam em retirada mesmo antes dele se achegar, a mosca pousa sobre o seu nariz.”

Dois chineses peregrinando pela Europa foram ao teatro pela primeira vez. Um deles não fez nada a não ser estudar todo o maquinário, e teve êxito em entender como ele funcionava. O outro tentou compreender o significado da peça a despeito de sua ignorância da língua. Aqui você tem o Astrônomo e o Filósofo.”

Enquanto criança, enquanto jovem, amiúde mesmo como um adulto, aliás, sua vida toda, ele segue acompanhado de seus amigos, parecendo-se com eles e assemelhando ser tão desimportante quanto cada um deles. Deixe-o sozinho; ele não irá morrer. O tempo virá e trará aqueles que sabem como valorizá-lo.”

O homem que sobe num balão não sente como se ascendesse; ele só observa a terra afundando debaixo de si.

Há um mistério que só esses que dele sentem a verdade irão entender.”

Bebemos intensamente da beleza das obras antes de entrarmos na vida nós mesmos; e quando, depois disso, comparecemos pessoalmente para testemunhar os trabalhos da Natureza, o verniz se foi: os artistas abusarem dele e aproveitamos dele cedo demais. É assim que o mundo com tanta freqüência parece tão duro e desprovido de charme, repulsivo, inclusive. (…) não deveríamos ter pinturas acabadas, poemas perfeitos”

mayance

A Catedral de Mayence [gravura] é tão coberta pelas casas que foram construídas ao seu redor que não há nenhum ponto do qual se possa observá-la inteira. Isso é simbólico de toda coisa grande ou bela no mundo. Deveria existir por si mesma, mas antes que decorra muito tempo é desapropriada, usada para fins estranhos. Pessoas vêm de todos os cantos desejando encontrar apoio e acolhimento; mas há obstáculos no caminho que estragam seus efeitos.”

Todo herói é um Sansão. Os homens fortes sucumbem à intriga dos fracos e inúmeros; e se no final ele perde a paciência, esmaga ambos, os outros e a si. Ou então ele é como Gulliver em Lilliput, soterrado por um número enorme de homens pequenos.”

O DILEMA DO OURIÇO

Do mesmo jeito que a necessidade do social leva todos os porcos-espinhos humanos a se aproximarem, repelem-se no instante seguinte, devido às muitas qualidades indesejáveis e espinhosas de suas naturezas. A distância moderada que finalmente descobrem ser a única condição tolerável de intercurso é o código da polidez e das boas-maneiras; e aqueles que o transgridem são asperamente censurados – na frase inglesa – to keep their distance [a manter a distância]. (…) Um homem que tenha algum calor interno prefere permanecer do lado de fora, onde ele não vai espetar outras pessoas nem ser espetado.”

A produção industrial de Tânatos: a construção de modelos de corpo e de sexualidade e sua relação com o consumo à luz da última Teoria das Pulsões – Guilherme di Angellis da Silva Alves (mestrado em Comunicação)

 

“O nascimento da sexualidade tem a ver com a dissociação do objeto sexual do objeto da função vital, separando a necessidade do desejo, que é um fluxo psíquico de retorno da experiência de satisfação.”

“O tabu da menstruação seria derivado do recalque orgânico, uma <defesa contra uma fase do desenvolvimento que foi superada>.” “A educação é definida por Freud como sendo fundamentalmente um processo de recalcamento dos estímulos sexuais olfativos anteriores à bipedia.”

“A excitação sexual se torna contínua e não mais cíclica. Essa mudança diz respeito à passagem do funcionamento instintivo para o pulsional, determinante para o desenvolvimento da cultura. A instituição da família, que representa o início da civilização humana, não seria possível sem esta mudança do instinto para a pulsão, definida por Freud como força constante.”

“É na perspectiva do desejo que se pode falar em angústia. Lacan nos ensina que esta é o melhor remédio para aquele, pois reintroduz a referência à falta originária da estrutura. A angústia, diz Lacan, é um afeto – e um afeto que não engana, já que possui relação estrutural com o que constitui o sujeito, isto é, a falta, a incompletude.”

T&T: “O violento pai primevo fôra sem dúvida o modelo de cada um do grupo de irmãos: e, pelo ato de devorá-lo, realizavam a identificação com ele, cada um deles adquirindo uma parte de sua força. A refeição totêmica, que é talvez o mais antigo festival da humanidade, seria assim uma repetição e uma comemoração desse ato memorável e criminoso, que foi o começo de tantas coisas: da organização social, das restrições morais e da religião.”

“Para ilustrar essa assertiva, há um mito grego que diz que Afrodite e Ares tiveram vários filhos, entre eles Eros, deus do amor. Diferente dos outros filhos do casal, Eros não crescia. Era um bebê pequeno, frágil, rosado, de asas transparentes e covinhas no rosto. Preocupada com a saúde do filho, Afrodite consultou Têmis, deusa guardiã da lei, que respondeu que seu filho era assim porque o Amor não podia crescer sem Paixão.”

“O amor se atém à passagem do que cessa de não se escrever para o que não cessa de se escrever. É nessa região de intercessão entre os regimes simbólico e imaginário que o amor se inscreve, e, sendo assim, o amor é essencialmente produção de sentido. Por isso, o amor é não só produtor de um discurso fragmentado, porque infinitizado, como também constitui um legítimo estilo literário, a correspondência amorosa: o amor exige reciprocidade, exige correspondência, o que leva Lacan a afirmar que <amar é querer ser amado>”

“Cada uma das três artes gregas de conduta – a Dietética, a Econômica e a Erótica – propõem modelos específicos de comportamento em relação ao sexo. A Dietética trata da temperança por meio do uso moderado dos atos de prazeres, chamado pelos gregos de aphrodisia – os atos de Afrodite. O exercício dessa moderação exigia um cuidado com os momentos específicos em que esses atos deveriam ser praticados, manifestando preocupação com a sobrevivência do indivíduo e com a manutenção da espécie. Já a Econômica não dizia respeito ao uso comedido e oportuno dos atos de prazer, mas à manutenção, por parte do marido, da estrutura hierárquica dentro de sua casa. O problema a ser apreendido neste campo é como assegurar o privilégio e o poder que o homem mantém em relação à esposa e aos escravos. O marido deve temer qualquer excesso e praticar o domínio de si sobre os outros para garantir essa permanência. Por fim, o cuidado solicitado pela Erótica diz respeito à virilidade do adolescente e ao seu status futuro de homem livre. Não se trata apenas do homem ser senhor do seu prazer, mas de compreender de que maneiras ele pode dar lugar à liberdade do outro no domínio que exerce sobre si mesmo. No pensamento grego clássico, a relação com os rapazes é o núcleo mais delicado e ativo de reflexão e elaboração.”

“A exigência de moderação e austeridade não se apresenta como lei a qual todos deveriam se submeter. Está mais para um princípio de conduta para aqueles que querem dar à existência uma forma mais elevada.” “O amor não era compartilhado com as mulheres, mas entre seus iguais. Já a relação sexual era sempre feita com o homem ocupando o papal ativo, que representava seu caráter dominante sobre os demais. O papel ativo é um princípio norteador dessa moral, demonstrado especialmente na pederastia, a relação de amor e de aprendizado entre o erasta e o erômano, o amante e o amado, o homem livre e o rapaz em formação. O excesso e a passividade são, para o homem grego, as duas principais formas de imoralidade.”

“A temperança é a palavra-chave. A maneira como se considerava esses atos, os questionamentos que são feitos, os regimes a serem adotados, tudo tinha como norte esse princípio. Não se trata de não ter desejos, portanto, mas de não deixar que esses desejos impeçam os homens de serem senhores de si.”

“É somente a esposa que pode dar filhos legítimos e garantir a continuidade da instituição familiar. Dessa forma, a relação entre os esposos não tinha outra função diferente da de produzir uma descendência. Toda a atividade sexual das mulheres deve se situar dentro da relação conjugal, o marido como parceiro exclusivo. Elas se encontram sempre a seu poder. Em caso de adultério, as sanções são tanto de ordem privada como pública. Já o homem tem por obrigação respeitar uma mulher casada ou que está sob a guarda paterna, mas a ofensa nestes casos é voltada ao homem que detém o controle da mulher.”

“A aphrodisia em relação aos rapazes constitui, para o pensamento grego, objeto de grande inquietação. Não há uma oposição excludente entre amar alguém de seu próprio sexo e amar alguém do sexo oposto. As linhas que demarcavam a sexualidade não eram tão radicais assim. Do ponto de vista da moral, a oposição entre o homem temperante, senhor de si, e aquele que se entregava desmedidamente aos prazeres era muito mais grave.” “o desejo que visa o próprio ato e que se realiza ao acaso poderia ser destinado tanto às mulheres quanto aos rapazes, mas o amor mais nobre e mais racional só é direcionado aos homens.” “Havia o encanto da conquista, do cortejo, da juventude, da beleza, do exercício do poder. Mas ao mesmo tempo em que os rapazes eram objetos de desejo, também eram homens livres em formação, daí a necessidade de formá-los. Além de uma relação de desejo, a pederastia tinha um papel pedagógico importante”

“havia um desprezo pelos jovens que cediam facilmente ou que se demonstravam muito interessados, os homens efeminados eram desqualificados etc.” “Com o rapaz, o cortejo se dava em espaços públicos, às vistas de todos. Além disso, o jovem era livre para escolher o amante que quisesse, o que fortalecia os jogos de conquista. À medida que os jovens amadureciam, as relações deixavam de ser tornar interessantes.”

“Podia-se até atribuir aos rapazes a forma mais elevada de amor, mas a abstenção também era solicitava para que se pudesse preservar o valor espiritual da relação. Essa idade de transição, tão frágil, era uma oportunidade para provar seu valor, se formar, se medir. Quem aceitasse o papel passivo na relação podia perder seus direitos de cidadão. Após esse período de formação, ele estava apto a constituir família e exercer a sua condição de domínio sobre outros.”

FORMAÇÃO DO CARÁTER E A HORA DE PASSAR O BASTÃO: “entre um homem e um rapaz, que estão em posição de independência recíproca, e entre os quais não existe constrição institucional, mas um jogo aberto (com preferência, escolha, liberdade de movimento, desfecho incerto), o princípio de regulação das condutas deve ser buscado na própria relação, na natureza do movimento que os leva um para o outro, e da afeição que os liga reciprocamente.” “as jovens mulheres é que posteriormente passam a ter tais cuidados, proteções e cortejos”

desprezar o desprazer, dás o que prezar?

“a imagem do jovem quadro sobrecarregado de tarefas e responsabilidades é estranha ao espírito grego, como lhe são estranhas as virtudes positivas que o mundo industrial inclui nas palavras produtividade e rendimento. Na ética do grego de outrora, a guerra é um meio de aquisição muito mais defensável do que o comércio.” Amouretti

“A educação era constituída da alfabetização básica e da aritmética, do ensino da música e da educação física.”

“Um senhor poderia fazer sexo com um escravo, desde que ocupasse o papel ativo na relação. A postura dominante era realmente o fundamental, independente do tipo de relação.”

FLERTANDO COM O PERIGO: NAS CERCANIAS DA TOCA DA RAPOSA: “a abordagem de um erastes (o parceiro ativo e mais velho) era um meio pelo qual um rapaz jovem podia sentir-se querido e valorizado por si mesmo. (…) O amor de uma mulher, membro dependente da sociedade, talvez não fosse tão valoroso quanto o de um homem, em especial se fosse mais velho, rico, bonito e influente. Mesmo assim, o eromenos (o rapaz que o erastes tentava conquistar) só chegava até certo ponto. Permitir a penetração anal era, para um grego, ser tratado como uma mulher e, portanto, uma humilhação degradante. É interessante notar que os cidadãos atenienses eram privados da cidadania, se condenados por prostituição masculina. Em Atenas, tal atividade podia ser deixada com segurança à prática dos não-atenienses.” Jones

“É importante salientar que a arte grega demorou até o século IV a.C para representar a figura feminina também como ideal de beleza.”

“o conceito de cidadania era restrito apenas aos homens que tivessem mães e pais atenienses. (…) Quando o marido trazia amigos para jantar em sua casa, a mulher e os filhos se retiravam. Cabia a elas todo o serviço doméstico. Não tinham direitos à educação formal e nem podiam participar da política. Seus atributos deveriam ser a castidade, a obediência, o conhecimento das tarefas domésticas e a economia dos gastos.”

“O homem podia repudiar a esposa sem qualquer motivo. Isto era direito legal; a mulher só podia fazê-lo em casos de provocação extrema por parte do marido. Alguns direitos à mulher autorizavam-na a freqüentar o teatro e o festival destinado às mulheres. Contudo, para os homens ela continuava a ser apenas gyne – portadora dos filhos.” CABRAL, Juçara.

“Havia o dildo, um objeto no formato do pênis que era esculpido em madeira, que era lubrificado em azeite para ser usado pelas mulheres para se satisfazerem sexualmente. A homossexualidade feminina é bem documentada, talvez num misto de sexualidade reprimida e sentimento de solidariedade entre elas.”

Se a mulher era tão “objetal”, como uma só conseguiu desencadear a Guerra de Tróia?

O penetra, o superior das festas.

“O fim dessa moral romana é claro: a subordinação da pessoa à cidade, que necessitava de habitantes dispostos a se sacrificar por ela nas guerras.”

“Este desejo de glória, de renome eterno, é sem dúvida a vingança do indivíduo que a sociedade reprimia, em vida, de mil maneiras: magistrado, não podia prosseguir a sua obra para além de um ano, chefe militar, se não tinha a sorte de obter qualquer vitória decisiva durante o seu comando, cabia ao sucessor a colheita dos louros. É perante a morte que volta a ser ele próprio, que a vida adquire valor exemplar na medida em que respeitou a disciplina em todas as suas formas: virtus, pietas e fides.” Grimal

“Na Grécia, os (…) esportes eram um exercício com um fim em si, uma arte. Em Roma, essa prática de ginástica pura foi ignorada. Os exercícios dos jovens eram uma preparação para a guerra, sem arte, sem preocupação estética.”

“As mulheres tinham uma paixão tão exagerada pelo luxo a ponto de alguns historiadores terem atribuído a isso o declínio do império, devido ao enorme gasto com importações. Elas se contentavam com isso frente ao fato de não terem direitos plenos e de ficarem basicamente restritas ao lar.”

“A forma mais comum do matrimônio era a de usus, que só tornava a união legal depois de um ano de convivência. Enquanto isso, a mulher continuava pertencendo ao pai. Essa espécie de estágio probatório era benéfica aos dois cônjuges. Outro tipo de matrimônio era o coemptio, em que se comprava a mulher pagando em dinheiro ao pai da noiva.

           O exagero prevalecia entre os homens livres. Era uma forma de se extrapolar a repressão e as exigências da vida pública, cheia de moralidades e demandas por virtude e severidade. Se na vida pública, havia uma série de restrições, no sexo tudo era permitido.

           <O conto do romano casto, corrompido pelos ‘maus vizinhos’ – os gregos – realmente é um conto. Deleitar-se em fartura de comida, de bebida e orgias não significa ‘viver à grega’, pois alugar, comprar mulheres e viver entregue aos prazeres era costume comum entre os romanos.> Cabral

           Gregos e romanos consideravam a prostituição uma peça importante na ordem social. Garantia a segurança das mulheres casadas e era vista como uma necessidade à higiene pública. Contando que os homens e as mulheres que se prostituíssem não fossem de nascimento livre, tudo era permitido, como comprar, alugar, raptar. Até as crianças que fossem escravas poderiam servir para a prostituição.”

“As orgias [de] que os romanos participavam – e que contavam com pessoas de todas as classes – ajudavam a diminuir [a] tensão da severidade que era exigida. Tudo era feito com muito exagero e[,] além do sexo, havia comida e principalmente muita bebida. Terminava com vômitos; como que para limpar a alma e se preparar novamente para as obrigações da vida pública.”

“Os novos tempos de recessão exigiam que o comportamento dos romanos também se modificasse. Antes epicuristas, os romanos passaram adotar uma moral mais austera, mais exigente. Já não se podia mais esbanjar luxo e exagero na vida social e na vida sexual. O estoicismo grego ganhava forças ao privilegiar a negação dos prazeres mundanos. Em tempos de pobreza e recessão, até a economia dos corpos se faz necessária.” Estoicismo compulsório não é estoicismo.

“Dentre as diversas religiões que sobreviviam clandestinamente em Roma, o imperador Constantino viu no cristianismo a que mais se adequava ao novo modelo econômico, que agora exigia temperança em todos os aspectos da vida.”

“A imposição das leis do Estado eram substituídas pelas ameaças do inferno e pela promessa de uma vida eterna e feliz.” Cabral

“O cristianismo não introduziu um pensamento novo. Seu grande feito foi ter dado ar sacro e metafísico a um moral que já existia, mas sob a forma pagã. Ele nasce como um socialismo primitivo, para confortar pobres e oprimidos em sua pobreza e opressão.”

João Crisóstomo e Metódi[c]o admitiam que, se os casais limitassem as carícias e a paixão, teriam chances de salvação eterna. Era consenso de toda a igreja a permissão de um só casamento, pois diziam os padres: o segundo será considerado adultério, o terceiro, fornicação[,] e o quarto, ignóbil” Cabral

A vergonha está abaixo do pecado. E eu pensando que as vergonhas eram o próprio pecado!

“O verdadeiro prazer está no mundo metafísico.”

“Santo Agostinho havia afirmado que o sexo precisava ser feito de forma pura e sem prazer para não ser pecaminoso.”

“As classes médias começavam a substituir a aristocracia na estrutura do poder.” ???

“As mulheres da era vitoriana, período compreendido entre 1840 e 1900, eram seres apáticos e de uma moralidade exagerada. O desconhecimento do próprio corpo era sinal de pureza.”

“no espaço social, como no coração de cada moradia, um único lugar de sexualidade reconhecida, mas utilitário e fecundo: o quarto dos pais. Ao que sobra só resta encobrir-se; o decoro das atitudes esconde os corpos, a decência das palavras limpa os discursos” Foucault

fecundidade do cu

“O exagero da moralidade chegava ao ponto de se proibir consultas ginecológicas a não ser em extrema necessidade.”

“Com a transformação das esposas em guardiãs da moralidade, os homens apelavam para a prostituição, que cresceu vertiginosamente no período vitoriano. Não demorou muito para uma onda de doenças venéreas invadir novamente o mundo cristão – como havia acontecido no século XV. Com medo da infecção em massa, os governos adotaram diversas medidas para coibir a prostituição. Os maridos tiveram de voltar ao lar matrimonial.”

“Com o estudo do mundo antigo, é possível perceber que não foi por falta de capacidade técnica que o desenvolvimento da indústria se deu muito aquém do possível. Ramos cita Tales de Mileto, que desviou o curso do rio Halys, Eupalinos, que escavou um túnel de um quilômetro de comprimento na montanha de Castro, e muitos outros.”

“Vale lembrar que a etimologia da palavra trabalho é tripalium, três paus, um instrumento que subjugava escravos e animais e os forçava a produzir.”

“Os monges passam a adotar em sua vida monástica uma série de procedimentos de rotina, de sistematização, de aumento da produção e de investimento científico na agricultura, na pecuária, na botânica. Desse período surge uma série de importantes invenções para a agricultura e para a economia, como a luneta, a roda dentada, os óculos, o moinho hidráulico, o moinho de vento e tantas outras.”

“É no mosteiro medieval que as categorias de tempo e de espaço se modificam radicalmente, o relógio e o sino – elementos fundamentais no período industrial – os novos reguladores. Lá, as horas canônicas são disciplinadas pela mecânica do tempo, com as atividades sempre realizadas em intervalos regulares. Ramos destaca que é dentro da etapa medieval que transcorre uma história secreta da revolução industrial.”

“Entre as invenções mais importantes no período anterior à Primeira Guerra estão a luz incandescente, o cinema, a aviação, os raios-X, a psicanálise, a física quântica. Esses inventos proporcionaram um admirável mundo novo. O homem realiza o sonho de Ícaro, se comunica a distância, guarda o som em uma caixa de cera, vê a fotografia em movimento.

           Mas talvez a mais revolucionária e impactante invenção tenha sido o automóvel. Ele é mais que um meio de transporte: origina um novo mercado e reestrutura a organização do trabalho, modifica as bases econômicas e sociais e dá origem a novos comportamentos e costumes. No início, sua produção era artesanal e escassa, até o desenvolvimento do modelo T da Ford, em 1908, marco da história automobilística. É um veículo barato, seguro, simples de dirigir e que funcionava a base de qualquer produto que produzisse combustão. (…) Ford queria adaptar a organização do trabalho ao processo reverso de se abater e desmantelar o animal.”

“Só depois que as mulheres começarem a navegar pelo oceano e empurrar o arado; quando elas gostarem de ser acossadas e cercadas por todos os tipos de homem nas vias públicas do comércio e do mundo dos negócios; quando elas amarem a traição e o torvelinho da política; quando elas amarem a devassidão do campo de luta, o fumo dos ribombos e o sangue da batalha, mais do que amam os afetos e as alegrias do lar e da família, então será tempo de falarmos sobre as tornarmos eleitoras.” George H. Williams, senador norte-americano, 1866

“O Brasil teve sua primeira eleitora em 1927 e sua primeira prefeita em 1928, na cidade de Lajes, Rio Grande do Norte.”

“Foi Hollywood, desde os dias em que sua popularidade se disseminou – nos anos 20 – até a televisão solapar sua influência nos anos 50, que da maneira mais consistente, conscienciosa e na moda, sustentou a imagem do casamento como o objetivo natural da mulher, a culminação romântica de sua vida. Muitas mensagens foram vendidas ao público, antes e desde então, mas nunca nenhuma o foi tão efetivamente como a mensagem hollywoodiana do glamour, romance e casamento. Muito depois que a <mulher moderna> se libertou das idéias e hábitos de sua avó vitoriana, Hollywood continua a condicioná-la à crença de que o lugar e o destino da mulher estavam no lar. Não porque, como no passado, inexistissem opções para ela, mas porque essa mulher estava atada lá, pelo mágico poder do amor.” Tannahill

“O folhetim no lugar do romance, o teatro de revista no lugar do teatro”

“Surge entre os veículos de comunicação, por exemplo, o pennypress, jornal de custo irrisório, que contém notícias sobre celebridades, escândalos com homens públicos, tragédias, folhetins e faits divers. Ele não tem por objetivo informar a população acerca dos temas mais relevantes, e sim de divertir, entreter.”

“A primeira exibição feita pelos irmãos Lumière em dezembro de 1895 choca os presentes, que veem não só a descoberta científica, mas a capacidade que ela tem para espantar e surpreender.” “O cinema diverte multidões a preços baixíssimos (no século XX, ao menos) e proporciona um distanciamento da realidade. (…) Ele se projeta no outro para que não lembre de si, e no dia seguinte retorne ao trabalho – seja uma fábrica ou uma repartição pública – bem disposto.”

OS IRRECONCILIÁVEIS BENJAMIN E ADORNO: “Divertir-se significa concordar; (…) significa sempre: não ter de pensar, esquecer a dor, inclusive quando ela é mostrada. Em sua base está a impotência. Com efeito, é uma fuga: não, como se pretende, fuga da terrível realidade, mas do último pensamento de resistência que a realidade ainda pode ter deixado.” T.A. apud Wolf

Squizo-jazz of a lost soul

“Como uma droga, o prazer que advém da fuga, da diversão, vicia. Em uma estrutura social em que o tempo livre se torna cada vez mais escasso, o divertimento acaba por se tornar uma necessidade fisiológica.”

Cazuza de Massa

“Importante ressaltar que tanto na publicidade voltada para o público masculino quanto na direcionada às mulheres, é o corpo feminino que é erotizado. No primeiro caso, numa incitação da libido; no segundo, uma incitação nascisística e identificatória.”

O SUZANAVIEIRISMO: “O que conta, diz Morin, não é mais a experiência acumulada, mas a adesão ao movimento.”

“Historicamente, ela [a devoção ao belo] acelera o vir-a-ser, ele mesmo acelerado, de uma civilização. Sociologicamente, ela contribui para o rejuvenescimento da sociedade. Antropologicamente, ela verifica a lei do retardamento contínuo do bolk [termo pejorativo para designar pessoa velha e ultrapassada, caretona, ou o ato de vomitar voluntariamente, se em verbo – “to bolk”], prolongando a infância e a juventude junto ao adulto. Metafisicamente, ela é um protesto ilimitado contra o mal irremediável da velhice” Morin

“É do período pós-guerra o baby-boom, a reafirmação do papel histórico de parideira, só que desta vez com adjetivos como rainha do lar, dona de casa. Foi só na década de 60 que as mulheres começaram a perceber que a conquista do voto foi apenas simbólica.”

“No lugar da eterna alegria, havia tédio, tédio infindável.”

“Os relatórios de Alfred Kinsey mostravam que 40% dos homens eram infiéis e que 70% tinham visitado prostitutas [??]. Além disso, um sexto dos homens do campo já havia tido relações zoofílicas.”

“Nos Estados Unidos de 65, havia um divórcio para cada quatro casamentos. Em 77, um divórcio para cada dois casamentos.”

O que é uma pequena e maleável ética que se veste todo dia antes de sair à rua? Uma etiqueta.

“O final de semana é redentor. Todo feriado é santo, na medida em que salva a existência de uma morte por asfixia.”

“Foi-se o tempo da temperança. Dá-se ao consumo um valor instintivo. Ao conseguir atribuir esse valor, o consumo vira consumismo, uma necessidade do corpo que precisa ser saciada, tal a angústia que se cria quando não a alimentamos”

SAFETY COURSE

A linha de chegada é muito chata, me deixe enrolar nesta corrida circular sem ineditismos ou saídas do script.

* * *

A metodologia é o cerne da chatice. Trabalho achatado na clínica de Pasteur.

“A palavra revista vem do inglês magazine, de origem árabe, cujo significado é depósito de mercadorias. Foi no inglês que a palavra adquiriu o significado de <publicação periódica, de caráter literário, contendo leituras amenas e instrutivas, e adornada de estampas>.” NIMER, Miguel. Influências Orientais na Língua Portuguesa: os vocábulos árabes, arabizados, persas e turcos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005.

“Em 1937, é lançada a revista Marie-Claire. Com um preço popular e uma tiragem de 800 mil exemplares, a revista introduz às classes menos abastadas os tratamentos cosméticos e os cuidados com moda e comportamento. Esses processos são interrompidos durante a segunda guerra, mas retornam logo após, acompanhando e estruturando as mudanças sociais. A Marie-Claire é publicada em mais de 30 edições internacionais, cada uma seguindo um modelo diferente, de acordo com a cultura do país. No Brasil, é publicada desde 1991.

“Na Itália, a imprensa feminina é o segmento mais sólido da indústria cultural. Em alguns casos, a publicidade chega a significar mais de metade do conteúdo das revistas. Entre 53 e 63, o número chega ao triplo na relação publicidade/reportagens. Além disso, nota-se um oligopólio na produção desses conteúdos, já que quatro empresas controlam ¾ da produção editorial.”

“O primeiro periódico brasileiro voltado ao público feminino foi a revista Espelho Diamantino, editada no Rio de Janeiro em 1827. Editada por homens, versava sobre literatura, política, arte e moda. Ainda nessa época de imprensa artenasal (sic!), surgiram as revistas Espelho das Brasileiras, de 1831, Jornal das Senhoras, de 1852, a primeira publicação a conter artigos de cunho feminista. Em 1875, aparece o periódico O Sexo Feminino, que contava com 800 assinaturas, feito considerável para a época. A revista possuía um olhar crítico sobre a dominação masculina através do casamento, contendo vários artigos que manifestavam apoio ao divórcio e à maior participação das mulheres no mercado de trabalho.”

Capricho, de 1952, é a revista feminina mais antiga ainda em circulação. Com suas fotonovelas, chegou a vender 500 mil exemplares por mês. Em 61, surge Cláudia. Em 1973, a editora Abril lança a revista Nova, a primeira publicação feminina a abordar temas mais polêmicos, como sexo, relacionamento e vida profissional.”

“Já Men’s Health surge nos Estados Unidos em 1987, com a proposta de criar um estilo de vida para os homens, com matérias sobre fitness, nutrição, moda e sexualidade. No Brasil, a primeira publicação de Men’s Health é de maio de 2006. Apesar de existirem no mercado diversas outras revistas voltadas ao público masculino, Men’s Health é a primeira que aborda temas que se relacionam diretamente com o conteúdo das revistas femininas, marcando uma nova etapa na construção do ideal de masculino e feminino.”

“Para as mulheres, o cuidado com o corpo antecede a exigência de um bom desempenho sexual e de se afirmar por meio dele. Para os homens, o desempenho estético do corpo é que é mais recente. Ambas as publicações reforçam e dão mais ênfase aos elementos menos consolidados nesse ideal de masculinidade hegemônica e de feminilidade enfatizada, o que explica por que em Nova o sexo é o tema mais recorrente e em Men’s Health é o cuidado com o corpo.” “Enquanto em Nova o tom autoritário prevalece, em Men’s Health ele é muito mais fraternal. A revista se propondo, como define no site e em vários de seus editoriais, a ser um mentor disposto a liberar todo o potencial do leitor.” “A ansiedade preenche o espaço entre a imagem vista no espelho e na capa da revista, e ela é um excelente motivador, pois as respostas (aparentes) para as inseguranças dos leitores também estão impressas nas mesmas revistas.”

Repetitio ad infinitum!

“Não é na depressão que devemos pensar aqui, mas na afanise, no ascetismo, na anorexia de viver. É este o verdadeiro sentido de Além do princípio do prazer. A metáfora do retorno à matéria inanimada é mais forte que se pensa, pois esta petrificação do Eu visa a anestesia e a inércia na morte psíquica. É apenas uma aporia, mas é uma que permite compreender o objetivo e o sentido do narcisismo de morte” Green

“o homem enfermo retira suas catexias libidinais de volta para seu próprio ego, e as põe para fora novamente quando se recupera.” Freud – A História do Movimento Psicanalítico

“o narcisismo primário estaria do lado deste aquém do recalcamento, do lado de um mundo não-ordenado, ilimitado, onde o Eu se confundiria com o cosmo de onde decorre sua qualificação ego-cósmica. Ora, como dissemos, a característica do narcisismo primário absoluto é a procura de um nível zero da excitação.” Stephen Hawking e o Bilhete de Suicídio do Universo (Alergia a Nozes)

“A inveja do objeto alcança seu ápice quando se supõe que este goza sem conflito. O pênis narcisista projetado (não importa qual sexo) é aquele que pode gozar sem inibição, sem culpa e sem vergonha.” Green

“Green faz o retrato de Narciso e é quase impossível separá-lo dos olimpianos de Morin.”

Torna-te quem tu és? Conhece-te a ti mesmo? Que nada: sê feliz! “Ontologicamente, o modelo da capa é a representação da realização de todos os desejos e do fim de todas as angústias, o que para as revistas se resume em pilares de posse e de consumo. Isso representa, na verdade, o instinto de morte, é Tânatos sendo produzido em escala industrial. Vende-se a solução para angústias e necessidades ontológicas, impossíveis, portanto, de serem solucionadas. A indústria cultural faz isso em essência, mudando apenas as máscaras que a encobrem. É esta a sua metafísica: é a salvação que está em jogo, que é prometida, mas ela não precisa mais esperar a morte para redimir seus crentes. Ela se encontra aqui na Terra, em valores individuais, precários e transitórios. Mas a redenção só existe para quem acredita que precisa ser redimido – e é por isso que o mal-estar exerce um papel tão fundamental na construção desses modelos de comportamento.”

“Surge a repulsa do próprio corpo e do próprio ser. O próximo passo seria a esperança.”

Algumas citações são repercutidas 2, 3 vezes. No total, temos 220 páginas. Custa tão barato iludir e tornar-se um mestre?

SCHOPENHAUER POR THOMAS MANN: O Panóptico da Perseguida de Pandora

“O tempo, segundo uma bela fórmula de Platão, é a imagem móvel da eternidade.”

“Com efeito, conceber o mundo como uma fantasmagoria multicolor e móvel de imagens que deixam transparecer a Idéia, o Espírito, é atitude eminentemente artística, que, por assim dizer, de pronto restitui o artista a si mesmo.”

“O símbolo da lua, este emblema cósmico de toda mediação, é próprio da arte.”

“Nietzsche, o discípulo de Schopenhauer, que renegou seu mestre em espírito, escreveu sobre ele estes versos:

O que ele ensinou não mais existe. O que ele viveu permanece de pé. Contemplai-o, pois! Nada pôde submetê-lo.

“Tôdas as vezes que Schopenhauer evoca o sofrimento do mundo, a lamentável angústia e a fúria de viver das múltiplas encarnações do querer (ele trata disso freqüentemente e com minúcias), sua já excepcional eloqüência e seu gênio de escritor atingem os cimos mais resplandecentes e mais gélidos de sua perfeição.”

“nós regozijamos por nos sentirmos vingados pelo verbo grandioso.”

“todos os males oriundos da contradição interna da vontade surgem da boceta de Pandora”

A seita que dói mais. Mas deu isso. Deu nisso e naquilo e naqueloutro. Escravo do pelourinho chamado negra vida.

“para um desejo satisfeito, dez ao menos restam insatisfeitos.”

“erro que não foi ainda”

“a esmola que, dada ao mendigo, prolonga sua lamentável existência de hoje para amanhã.”

transpiro literalmente por dias mais secos e felizes.

“Perseguir, evitar, recear a infelicidade, procurar avidamente o gôzo – tudo se assemelha”

Os 50 tonéis de cinzas

Tântalo faz como tântalo fez. De que vale rômulo ninar sobre isso, vaquinha?

A soleira da humanidade (Lei de Lúcia): “o suicídio é absurdo e imoral, pois nada conserta” “O sentido da vida é a morte, Rafael.”

“É o estado sem dor que Epicuro celebrava como o maior dos bens e como condição dos deuses; nesse instante, nós nos libertamos da necessidade desprezível de querer, celebramos o sabbat dos trabalhos forçados da vontade, a roda de Íxion pára.”

“Goethe fala complacentemente de <méritos inatos>, o que é uma reunião de palavras deveras absurda do duplo ponto de vista da lógica e da moral. Porque o <mérito> é inteiramente e por natureza um conceito moral, e o que é inato, como a beleza, a inteligência, a distinção, o talento, ou, conferindo-lhe o valor do destino, a felicidade, nada disso, logicamente, pode ser mérito.”

O VÉU DE MAIA: “feliz ou infeliz, cada um sempre recebe apenas o que lhe é devido.” “Diferença e injustiça não são mais do que as conseqüências que a multiplicidade no seio do tempo e do espaço implica”

“O que, ao mesmo tempo, tu fazes de mau, o mal que cometes, tua revolta contra a injustiça da vida, e também a inveja, a aspiração e o desejo, a tua cobiça do mundo, tudo isso provém da ilusão da multiplicidade, deste erro, que tu não és o mundo e o mundo não é tu. Sim, tudo isso vem desta diferença entre <eu> e <tu>, que não é mais que uma ilusão, a ilusão de Maia. Vem daí igualmente teu medo da morte.”

“Crês que, à tua morte, este resto do mundo continuará a existir, ao passo que tu – horrível pensamento! – não existirás mais.”

“ter o sentimento de que por tudo e em todos os seres não há mais que uma só e mesma vontade é o começo e a essência de toda ética.” “A resolução que, chegado a tal compreensão, toma um homem é a da renúncia, da resignação, da suprema impassibilidade. Nele se realiza a passagem da virtude para o nobre paradoxo da ascese, um grande paradoxo, na verdade; porque acontece então que uma individuação da vontade renega o ser que nela aparece e que se exprime por seu corpo, que seus atos desmentem sua aparência e entram em luta aberta com ela.”

Seria um paradoxo afirmar que a concepção cronológica das coisas é um anacronismo?

“<O que determina a hierarquia é a aptidão para sofrer profundamente> – escreveu Nietzsche, seguindo sem reserva e até o fim o aristocratismo do sofrimento de Schopenhauer, doutrina segundo a qual a vocação do homem e do gênio, sua mais alta distinção e seu enobrecimento, é o sofrimento.”

re(t)ificação da existência

o mundo é rei ou res

o crescimento geni(t)al

das vel(h)as

“tudo o que ele escreveu durante os 72 anos de sua vida, não foram mais que peças de confirmação obstinadamente reunidas, arrimos de reforço [à obra]: <O mundo como vontade e representação>”

“o sexo perturba diabolicamente a contemplação pura e o conhecimento renega o sexo”

“na medida em que tende para uma objetividade apolínea, esta concepção do espírito e da arte se encontra com a de Goethe, apresenta caráter clássico. Mas seu extremismo e seu ascetismo são nitidamente românticos, tomada esta palavra em sentido oposto ao do gosto de Goethe, que conhecemos melhor por suas atitudes a respeito de Kleist.”

CURTINDO O ETERNO RETORNO ADOIDADO: “a forma de espírito de Schopenhauer, a sensibilidade e o ardor excessivos de seu gênio, cujo dualismo é caricatural, são menos românticos que modernos; desejaria dizer muito com esta designação, mas relacionando-a totalmente com uma alma moderna, cujo calvário [DIC – cruel sofrimento moral] só é bastante visível neste século entre Goethe e Nietzsche [o século XIX em que viveu Sch. ou o século XX de Mann, numa meridiana emocional entre esses 2 escritores?].”

AZEDO 8, PICANTE E ALTISSONANTE OITAVA, ACRE 88

O sensual que não sabe dançar

O bom pai inimaginável

O pornógrafo pouco afeito a pornografias

Extremoso em sua temperança e auto-cobrança

Pagando os boletos da vida em parcelas de centavos

Sentai-vos, e escutai-me,

Ardem esses hematomas da alma!

Massacrante massa crente arde no inferno de mármore de sua gasosa crença espirituosa,

ardente sem saber, pendente de crer,

nalgo sólido só lido não sentido,

sem auto-crítica real ter tido.

“Schopenhauer: mais moderno, mais doloroso, mais complicado que Goethe, mas muito mais <clássicos>, robusto, são que Nietzsche”

Eu 2008: clássico

não são sãos

são carecas

“o paradoxo de sua prosa clássica e clara, que revela o mais profundo, o mais noturno abismo”

THE QUEEN OF SHEBA AND HER ONLY SON MENYELEK (KEBRA NAGAST)

Translated by Wallis Budge

And He drove him out of the Garden, because of his apostasy through the sin of the Serpent and the plotting of the Devil. And at that sorrowful moment Cain was born, and when Adam saw that the face of Cain was ill-tempered and his appearance evil he was sad. And then Abel was born, and when Adam saw that his appearance was good and his face good-tempered he said, <This is my son, the heir of my kingdom.> (…) Cain was envious, first because of the words of his father; and secondly, because of his sister with the beautiful face, who was born with him and who had been given unto Abel, even as God commanded them to multiply and fill the earth – now the face of the sister who had been born with Abel resembled that of Cain [quantos gêmeos cruzados nesta historieta!], and their father had transferred the two sisters when giving them in marriage; – and thirdly, because when the two brothers offered up sacrifice, God accepted the offering of Abel and rejected the offering of Cain. (…) And having killed his brother, Cain fell into a state of trembling and horrible fright, and he was repulsed by his father and his Lord. And then Seth was born, and Adam looked upon him and said, <Now hath God shown compassion upon me, and He hath given unto me the light of my face. In sorrowful remembrance I will console myself (?) with him. The name of him that shall slay my heir shall be blotted out, even to his ninth generation.Que espécie de livro não é entendido nem pelos próprios tradutores? E então, não eram nem 4, nem 7, mas 9 gerações?

the sons of Cain ate, drank and danced, and they played upon stringed instruments, and sang lewd songs thereto, and they worked uncleanness without law, without measure, and without rule.” E eles introduziram a semente do burro na égua, e a mula nasceu, o que Deus não comandou. E no meio de todas essas coisas, o homem se poluiu com o homem, e a mulher trabalhou com a mulher na coisa abominável.

Segundo o Segundo Pacto que Deus fez com Noé, após o Dilúvio, não haveria novo Dilúvio, mas nascera aí a distinção Outono-Primavera, Primavera-Outono.

Though heaven and earth pass away My word shall not pass away.”

Deus, o Bipolar

Deus criou Zion; o útero de Maria criou Deus.

Canaã, o neto de Noé, quebrou o pacto, e não Shem (seu pai). “And in later days God took vengeance upon the sons of Canaan, and made the sons of Shem to inherit their country.”

And they slaughtered their sons and their daughters to the devils” Que ironia.

Abraão é o nono descendente de Canaã. Seu pai se chamava Terah.

Numa chuva de fiel, no meu colo cai herético, pecado e ignomínia.

And I will bring down the Tabernacle of My Convenant upon the earth 7 generations after thee”

Antes havia para onde viajar e se tornar rei. Hoje o Oeste já foi desvelado e é só repetição.

Isaque e Jacó são irrelevantes na “historiografia”.

Gênesis 35:22-27: “Quando Israel habitava naquela terra, foi Rúben e deitou-se com Bila, concubina de seu pai; e Israel o soube. Eram doze os filhos de Jacó: Os filhos de Léia: Rúben o primogênito de Jacó, depois Simeão, Levi, Judá, Issacar e Zebulom; os filhos de Raquel: José e Benjamim; os filhos de Bila, serva de Raquel: Dã e Naftali; os filhos de Zilpa, serva de Léia: Gade e Aser. Estes são os filhos de Jacó, que lhe nasceram em Padã-Arã. Jacó veio a seu pai Isaque, a Manre, a Quiriate-Arba, onde peregrinaram Abraão e Isaque” Não se dão 1000 anos de perdão para quem torna corno aquele que corneou?

Judá viria da raiz etíope da palavra, que quer dizer “ladrão”. “and although he [Rubem] was the firstborn son the kingdom was rent from him. And his younger brother reigned, and he was called Judah because of this.”

and He opened to them salvation. And he spake with them from the pillar of cloud

And again he saith by the mouth of the Holy Ghost, <And My habitation is here, for I have chosen it.>”

The Emperor of Rôm [Constantinopla] is the son of Solomon, and the Emperor of Ethiopia is the firstborn and eldest son of Solomon.”

Mt. 12:42//Lc. 11:31: “A rainha do sul se levantará no juízo com esta geração, e a condenará; porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. E eis aqui quem é maior do que Salomão.”

Now in the days of Solomon the King gold was as common as bronze, and silver as lead, and bronze and lead and iron were as abundant as the grass of the fields and the reeds of the desert and cedarwood was also abundant.”

for wisdom is far better than treasure of gold and silver, and wisdom is the best of everything that hath been created on the earth. Now unto what under the heavens shall wisdom be compared? It is sweeter than honey, and it maketh one to rejoice more than wine, and it illumineth more than the sun, and it is to be loved more than precious stones. And it fatteneth more than oil, and it satisfieth more than dainty meats, and it giveth more renown than thousands of gold and silver. (…) it is a teacher of those who are learned, and it is a consoler of those who are discreet and prudent, and it giveth fame to those who seek after it. (…) no man can filch [surrupiar] it from his heart. That which fools heap up the wise consume.” Queen Mâkedâ, um dos nomes da Rainha do Sabá ou dos Sabeus [diferente da Etiópia – note como as versões conflituam o tempo todo], que quer dizer “Not thus”, “Não assim”, “Não deste modo”, assinalando a mudança do politeísmo e paganismo primitivo à Verdadeira Religião (cof, cof).

So she made ready to set out. And 797 camels were loaded, and mules and asses innumerable were loaded, and she set out on her journey and followed her road without pause, and her heart had confidence in God.”

And thou, although thou dost not know the God is Israel, hast this wisdom which thou hast made to grow in thine heart”

And this speech of mine springeth not from myself, but I give utterance only to what He maketh me to utter.”

I am a man and dust and ashes, who tomorrow will become worms and corruption, and yet at this moment I appear like one who will never die.”

As is his death is my death; and as is his life is my life. Yet this man is stronger to work than I am”

We worship the sun according as our fathers have taught us to do, because we say that the sun is the king of the gods; some worship stones, and some worship wood, and some worship carved figures, and some worship images of gold and silver. And we worship the sun, for he cooked our food, and moreover, he illumned the darkness, and removed fear; we call him <Our King>, and we call him <Our Creator>, and we worship him as our god; for no man had told us that beside him there is another god. But we have heard that there is with you, Israel, another God Whom we do not know”

No one can chide Him, for He is the Lord of the Universe, and there is no one who can say unto Him, <What hast Thou done?>”

(and it was not only human beings who came to him, but the wild animals and the birds used to come to him and hearken unto his voice, and hold converse with him)”

A woman of such splendid beauty had come to me from the ends of the earth! What do I know? Will God give me seed in her?”

I Rs. 11:1-2: “Ora, o rei Salomão amou muitas mulheres estrangeiras, além da filha de Faraó: moabitas, amonitas, edomitas, sidônias e hetéias, das nações de que o Senhor dissera aos filhos de Israel: Não ireis para elas, nem elas virão para vós; doutra maneira perverterão o vosso coração para seguirdes os seus deuses. A estas se apegou Salomão, levado pelo amor.”

A diferença das partes não altera o produto: “And he had 400 queens and 600 concubines. Now this which he did was not for fornication, but as a result of the wise intent that God had given unto him, and his remembering that God had said unto Abraham, <I will make thy seed like the stars of heaven for number, and like the sand of the sea.> And Solomon said in his heart, <What do I know? Peradventure God will give me ten children from each one of these women. My children shall inherit the cities of the enemy, and shall destroy those who worship idols.>”

to those after Christ, it was given to live with one woman under the law of marriage. And the Apostles laid down for them an ordinance: <as concerning Solomon no law had been laid down for him in respect of women, and no blame can be imputed to him in respect of marrying many wives. But for those who believe, the law and the command have been given that they shall not marry many wives, even as Paul saith, ‘Those who marry many wives seek their own punishment. He who marrieth one wife hath no sin.’ [I Corinthians, VII]>”

Lv. 18:18: “E não tomarás uma mulher juntamente com sua irmã, durante a vida desta, para tornar-lha rival, descobrindo a sua nudez ao lado da outra.”

And they destroyed His light and cast themselves upon Him and they set a guard over His tomb wherein they had cast Him. And He came forth where they did not look for Him, and illumined the whole world, more especially the First Sea and the Last Sea, Ethiopia and Rôm. And He paid no heed whatsoever to Israel, and He ascended His former throne.”

And he gave her whatsoever she wished, everything on which great store was set in the country of Ethiopia, and camels and wagons, 6000 in number, which were laden with beautiful things of the most desirable kind, and wagons wherein loads were carried over the desert, and a vessel wherein one could travel over the sea, and a vessel wherein one could traverse the air (or winds) [!], which Solomon had made by the wisdom that God had given unto him.

and she brought forth a man child, and she gave it to the nurse with great pride and delight.” “And the child grew and she called his name Bayna-Lehkem. And the child reached the age of 12 years, and he asked his friends among the boys who were being educated with him, and said unto them, <Who is my father?> And they said unto him, <Solomon the King.> And he went to the Queen his mother, and said unto her, <O Queen, make me to know who is my father.> And the Queen spake unto him angrily, wishing to frighten him so that he might not desire to go, <Why dost thou ask me about thy father? I am thy father and thy mother; seek not to know any more.> (…) And a second time, and a third time he asked her, and he importuned her to tell him. One day, she told him, <His country is far away, and the road thither is very difficult; wouldst thou not rather be here?> And the youth Bayna-Lehkem was handsome, and his whole body and his members, and the bearing of his shoulders resembled those of King Solomon his father, and his eyes, and his legs, and his whole gait [porte] resembled those of Solomon the King.”

At. 8:26-39: “Mas um anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Levanta-te, e vai em direção do sul pelo caminho que desce de Jerusalém a Gaza, o qual está deserto. E levantou-se e foi; e eis que um etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace [Mâkedâ], rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todos os seus tesouros e tinha ido a Jerusalém para adorar, regressava e, sentado no seu carro, lia o profeta Isaías. Disse o Espírito a Filipe: Chega-te e ajunta-te a esse carro. E correndo Filipe, ouviu que lia o profeta Isaías, e disse: Entendes, porventura, o que estás lendo? Ele respondeu: Pois como poderei entender, se alguém não me ensinar? e rogou a Filipe que subisse e com ele se sentasse. Ora, a passagem da Escritura que estava lendo era esta: Foi levado como a ovelha ao matadouro, e, como está mudo o cordeiro diante do que o tosquia, assim ele não abre a sua boca. Na sua humilhação foi tirado o seu julgamento; quem contará a sua geração? porque a sua vida é tirada da terra. Respondendo o eunuco a Filipe, disse: Rogo-te, de quem diz isto o profeta? de si mesmo, ou de algum outro? Então Filipe tomou a palavra e, começando por esta escritura, anunciou-lhe Jesus. E indo eles caminhando, chegaram a um lugar onde havia água, e disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que eu seja batizado? [E disse Felipe: é lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.] mandou parar o carro, e desceram ambos à água, tanto Filipe como o eunuco, e Filipe o batizou. Quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou a Filipe, e não o viu mais o eunuco, que jubiloso seguia o seu caminho.”

His eyes are gladsome, like unto those of a man who hath drunk wine” “in those days Solomon had no children, except a boy who was 7 years old and whose name was Îyôrbe’âm (Rehoboam).”

[De 1000 esposas, Deus só lhe deu] 3 filhos. Seu filho mais velho era o Rei da Etiópia, o filho da Rainha da Etiópia, e era o primogênito daquele com que Deus falou profeticamente, <Deus jurou perante Davi o justo, e não se arrepende, ‘Do fruto do teu corpo eu vou fazer sentar de novo em teu trono’>”

I Co. 1:20-31: “Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o questionador deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste? Visto como na sabedoria de Deus o mundo pela sua sabedoria não conheceu a Deus, aprouve a Deus salvar pela loucura da pregação os que crêem. Pois, enquanto os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria, nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos, mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte que os homens. Ora, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Pelo contrário, Deus escolheu as coisas confundir os sábios; e Deus escolheu as coisas fracas do mundo para confundir as fortes; e Deus escolheu as coisas ignóbeis do mundo, e as desprezadas, e as que não são, para reduzir a nada as que são; para que nenhum mortal se glorie na presença de Deus. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção; para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.”

Besides travailing with him and suckling him, what else had a woman to do with a son? A daughter belonged to the mother, and a boy to the father. God cursed Eve, saying, <Bring forth children in anguish and with sorrow of heart, and after thy bringing forth shall take place thy return to thy husband. As for this my son, I will not give him to the Queen, but I will make him king over Israel.”

For no man hated the place where he was born, and everyone loved the things of his native country.”

Since thou speakest in this wise, according to the law I myself am not the son of my father David, for he took the wife of another man whom he caused to be slain in battle, and he begot me by her; but God is compassionate and He had forgiven him. Who is wickeder and more foolish than men? and who is as compassionate and as wise as God? God had made me of my father, and thee had He made of me, according to His Will. And as for thee, O my son, thou fearer of our Lord God, do not violence to the face of thy father, so that in times to come thou mayest not meet with violence from him that shall go forth from thy loins, and that thy seed may prosper upon the earth. My son Rehoboam is a boy 6 years old, and thou art my firstborn son, and thou hast come to reign, and to lift up the spear of him that begot thee. Behold, I have been reigning for 29 years, and thy mother came to me in the 7th year of my kingdom; and please God, He shall make me to attain to the span of the days of my father. And when I shall be gathered to my fathers, thou shalt sit upon my throne, and thou shalt reign in my stead, and the elders of Israel shall love thee exceedingly; and I will make a marriage for thee, and I will give thee as many queens and concubines as thou desirest. And thou shalt be blessed in this land of inheritance with the blessing that God gave unto our fathers, even as He covenanted with Noah His servant, and with Abraham His friend, and the righteous men their descendants after them down to David my father. Thou seest me, a weak man, upon the throne of my fathers, and thou shalt be like myself after me, and thou shalt judge nations without number, and families that cannot be counted.” “Now Balt.âsôr, the King of Rôm, wished that I would give my son to his daughter, and to make him with his daughter king over the whole country of Rôm. For besides her he had no other child, and he had sworn that he will only make king a man who is of the seed of David my father. And if we rule there we shall be 3 kings. And Rehoboam shall reign here over Israel. For thus said the prophecy of David my father <The seed of Solomon shall become 3 heads of kingdoms upon the earth.>”

It is meet and right that thy dominion of Ethiopia shall be from the River of Egypt to the west of the sun (i.e., to the setting sun); blessed be thy seed upon the earth – and from Shoa to the east of India”

I the Lord thy God am a jealous God. I am He Who visited the sin of the father on the children to the third and fourth generation of those who hate Me, and I perform mercy to a thousand, to ten thousand generations of those who love Me and keep My commandments.” “Observa o dia do Sabá e santifica-o, assim como o Senhor teu Deus comandou. Por seis dias deves fazer o teu trabalho, e no sétimo dia, o Sabá do Senhor teu Deus, tu não deves fazer trabalho algum, nem tu mesmo, nem teu filho, nem tua filha, nem teu burro nem tua mula, nem qualquer besta, nem o estranho que mora contigo. Porque em seis dias Deus fez os céus e a terra, e o mar e tudo que neles se encontra, e descansou no sétimo dia, e por isso Deus abençoou este sétimo dia e o declarou livre de todo trabalho.”

uncover the shame”: eufemismo para dar umazinha

descobrir as pudendas (Cláudia Ohanas!)!

And they cursed the King secretly and reviled him because he had seized their sons against their will.”

Os primogênitos “extraditados” pela Vontade do Senhor planejaram o roubo do Tabernáculo para levá-lo consigo à Etiópia. A paródia do seqüestro de Helena: “I would offer up a sacrifice to the holy city Jerusalem, and to my Lady Zion, the holy and heavenly Tabernacle of the Law of God.” “And had it not been that God willed it Zion could not have been taken away forthwith.”

and they were then even as they were when God slew the firstborn of Egypt.” “the dogs howled, and the asses screamed, and all those who were left there mingled their tears together.” “From this moment our glory had passed away, and our kingdom had been carried off unto a strange people who know not God, even as the prophet said, <The people who have not sought Me have found Me.>” “I will turn My face away from thee because thou hast treated My offerings with contempt, and hast preferred thy sons to Me.”

the sons of the warriors of Israel saw that they had come in one day a distance of thirteen days’ march, and that they were not tired, or hungry, or thirsty, neither man nor beast”

the plan the pan the pun the pen the pin the spoon of God, oh, Majesty, Have you Forgotten?

Esse, o filho de um profeta, será ele enumerado entre os profetas?”

And there was joy to the Sea of Eritrea, and to the people of Ethiopia, who went forth to the sea and rejoiced exceedingly, and with a greater joy than did Israel when they came out of Egypt.”

Verily the sun that appeared unto me long ago when I was sleeping with the Queen of Ethiopia was the symbol of the holy Zion.”

and they were swifter than the eagles that are in the sky”

And thou, O King, whose wisdom had no counterpart under the heavens, why hast thou given away the Tabernacle of the Law of the Lord thy God, which thy fathers kept pure for thee?”

Os lamentos salomônicos (os antípodas dos Cânticos?): “Our name was honoured, to-day it is nothing. Woe be unto us!”

E quando os Filisteus guerrearam com Saul o Rei, Saul foi sobrepujado e morreu com Jônâthân seu filho. E aqueles de seus filhos que restaram quiseram levar o Tabernáculo (Sião), ao saberem que seu pai e irmão mais velho estavam mortos. (…) Mas era impossível levar Sião embora sem que ela quisesse e Deus quisesse.” “quando seu pai [Davi] reinou com justeza sobre Israel ele a levou da cidade de Samaria e trouxe a arca para Jerusalém, dançando sobre seus pés diante dela, batendo palmas por conta de sua imensa alegria”

And Solomon lived for eleven years after the taking away of Zion from him, and then his heart turned aside from the love of God, and he forgot his wisdom, through his excessive love of women. And he loved very greatly the daughter of Pharaoh, the king of Egypt, whose name was Mâkshârâ, and he brought her into the house wich he had made; and there were figures of the sun, moon, and stars in the roof thereof, and it was illumined by night as brightly as by day. Its beams were made os brass, and its roof of silver (…) and its floor was of blocks of sapphire stone and sardius.” “And she multiplied her sacrifices, and her worship, and her folly, according to the stupidity of the Egyptians” “and she spoke to him with honeyed words, and with the tender speech of women, and with the sweet smile that accompanied the presentment of an evil deed, and with the turning of the face and the assumption of a look of good intent, and with the noddling of the head. With actions of this kind she caused his heart to turn away from his good intent, and she enticed him to the evil of her work, wishing to drag him down into the folly of the foolish service of idols through carelessness. And as the deep sea drawed down into its depths the man who cannot swim, until the water overwhelmed him and destroyed his life, even so did that woman wish to submerge Solomon the King.”

Thy son had carried away thy Lady Zion, thy son whom thou hast begotten, who springed from an alien people into which God had not commanded you to marry, that is to say, from an Ethiopian woman, who is not of thy colour, and is not akin to thy country, and who is, moreover, black.”

And thy kin is her kin, for ye are all the children of Ham. And God, having destroyed of the seed of Ham 7 kings, had made us to inherit this city, that we and our seed after us may dwell therein for ever. And as concerning Zion, the will of God had been performed, and He had given her unto them so that they may worship her. And as for me, I will neither sacrifice to nor worship thine idols, and I will not perform thy wish.” “Who was wiser than Solomon? yet he was seduced by a woman. Who was more righteous than David? yet he was seduced by a woman. Who was stronger than Samson? yet he was seduced by a woman. Who was handsomer than ‘Amnôn? yet he was seduced by Tamar the daughter of David his father. And Adam was the first creation of God, yet he was seduced by Eve his wife. And through that seduction death was created for every created thing.”

Come now, and consider, which was the greater of the two, the sin of his father David or the sin of his son Solomon? David caused Uriah to be slain in battle by means of a plan of deceit so that he might take his wife Bêrsâbêh (Bathsheba), the mother of Solomon; and he repented, and God had compassion on him, And when he was dying he advised his son Solomon, saying, <Kill Joab as he killed ‘Amêr (Abner), and kill Shimei because he cursed me>; and he performed the will of his father and slew them after the death of David his father. And Solomon killed no one except his brother when he wished to marry the Samênâwât, a sulamita, the wife of his father David whose name was ‘Abîs (Abishag).”

De acordo com a interpretação da profecia, o nome Salomão significava na língua secreta <Cristo>. E como Salomão construiu a casa de Deus, Cristo encarnou em Seu Corpo e consubstanciou a Igreja. E quando Ele disse aos Judeus, <Deitem abaixo esta casa, e em 3 dias eu a erguerei novamente> [João 2:19], Ele estava falando da casa que era Seu Corpo. E como Salomão multiplicou mulheres de povos forasteiros devido a sua beleza e charme, e o desejo o consumiu, assim mesmo Cristo reuniu rebanhos de gentios que não conheciam a Lei, mas que acreditavam Nele. E não havia incircuncisos para Ele, nenhum pagão; e não havia escravo, e nenhum judeu, e nenhum servo e nenhum homem livre [Gálatas 3:28]; Ele os juntou todos em Seu reino celeste através de Sua Carne e Sangue. E no Cântico dos Cânticos o próprio Salomão cantou e disse, <Há 60 homens poderosos em torno da cama de Salomão, todos treinados na guerra e possuindo espadas, cada homem com sua espada à destra> [Cânticos 3:7-8]. O número de 60 indicava o número dos Patriarcas virtuosos, e dos Profetas, e dos Apóstolos, e dos Mártires, e dos Crentes, e dos Santos, e dos Monges que resistiram aos pensamentos maus e à guerra de Satã. E a palavra <espada> é, sendo analisada, a palavra das Escrituras. A palavra do Senhor corta com sua lâmina afiada, e desta mesma maneira as Escrituras também cortam dos corações dos homens os perigos causados pelos sonhos fantasiosos da madrugada. E as palavras <cama de Salomão> são, se analisadas, a Igreja de Cristo.”

Elias e Eliseu sabiam a verdade, e inscreveram os pecados de Salomão no Livro dos Reis para envergonhar os Judeus, que são cegos de coração e os inimigos da virtude.”

Salomão, Rei e Profeta, nos legou 4 livros de profecias” Viveu 60 anos, 20 a menos que seu pai Davi.

Mas a tolice de Deus é mais sábia que a sabedoria dos homens, e Ele te deu apenas 3 filhos: um que levou-lhe a glória para uma terra desconhecida, estabelecendo a morada do Senhor na Etiópia; outro que é coxo do pé, que deverá sentar em teu trono para os de Israel, o filho da raça de tua raça de Tarbâna, da casa de Judá; e por último aquele que é filho de uma mulher grega, uma faxineira, que nos últimos dias destruirá Roboão e toda sua linhagem de Israel; e toda essa terra será dele, porque ele acredita n’Aquele que virá, o Salvador. Mas a tribo de Roboão, e daqueles que restaram em Israel, O crucificará, Àquele que há de vir, o Redentor, e sua memória deverá ser extirpada da terra. Porque eles tramarão um plano que não poderão concluir, e Ele se zangará com eles e obliterará a sua memória.”

Salomão sofrerá no Seol até seu Filho ir buscá-lo. “E como Moisés afogou o Faraó com os egípcios no Mar da Eritréia, também o Salvador afogará Satanás e seus demônios no Seol; porque o mar é para ser tido pelo Seol, e o Faraó por Satanás, e suas hostes egípcias pelos demônios.” “E como Josué massacrou os Reis de Canaã, o Salvador massacrará as sete cabeças de ‘Iblîs.”

Davi seria um sétimo filho, segundo o Kebra Nagast original. Mas uma nota de rodapé desmente: foi o oitavo. E Salomão o sexto.

Conclui-se do conceito de Seol dos hebreus e deste K.N. que o Inferno já deveria ter sido destruído e todos nós redimidos… Aforismo de sabedoria condensada (supercondensação estilo Big Bang): Se a História tivesse de ter um fim, Pôncio Pilatos seria seu Autor… Esse fato de per se comprova a existência do Inconsciente. Território iníquo inato da maldade.

a madeira da Cruz, o terceiro meio de salvação que deverá ser enviado à terra” A ficção que ficou mais embolada que Star Wars… A Pérola [?!?], Sião – a mesa – e a Cruz… E depois virá a linhagem dos Belmondo…

E se eu virar pó, não ficarei triste, porque pó não tem sentimento!

<Meu Senhor, está a vinda do Salvador de que falaste próxima ou distante?>

<Ele virá em 3 ou 30 gerações da tua linhagem e da tua semente vai salvá-lo.>”

Deus responde em módulo ou variação estatística.

O primeiro Schopenhauer: “Of what use are we who are men? We are created in vain, and after a little time we become as if we had never been created.” “O quê então? Multiplicar a fala é sem propósito, e a nobreza da estatura é destruída, e a força dos reis é pulverizada (…) Depois de 3 gerações de nossas crianças, não há quem lembre nosso nome.”

They called Rehoboam <King of Judah>, and they called the King of Samaria <King of Israel>. And of the generations of Rehoboam, from Rehoboam to ‘Îyâkêm (Joachim) were 41 generations.”

And the name of Esau’s kingdom was called, according to his name of contempt, <Edom>, for the interpretation of <Edom> is <lentiles>”

Como Salomão o sábio disse, <Há 3 coisas que são difíceis para minha mente, e a quarta delas eu não posso conceber: – O rastro da águia nos céus, a trilha da serpente na rocha, a trilha do navio no mar.> E a quarta coisa de que ele falava concernia à mulher má, que, tento traído seu marido, e se lavado, sentava como uma santa que nada tinha feito de errado, e jurava falsamente.”

A lenda do nascimento de Nabucodonosor: a criança fruto de um adultério; mas, aparentemente destinado a ser jogado no rio ao nascer, o filho bastardo de um mercador acaba sendo criado em berço real. Nabudonosor significa pelos auspícios do pássaro. “ele era extremamente arrogante e costumava dizer <Eu faço o sol brilhar no céu>; e idolatrava ídolos.”

Ló, não se vire depois de sair da cidade, não volte as costas se não quiser morrer”, disse o Anjo do Senhor. Mas a esposa de Ló se virou, e virou sal. Isso foi antes de Ló se recolher às montanhas como eremita e enrabar suas filhas.

E Noé estava bêbado e nu perante sua mulher e filhos, e amaldiçoou seu filho quando este riu-lhe; e o ter dormido com sua filha não foi reconhecido como pecado de Ló, uma vez que ele o fez inconscientemente, embriagado.”

E então Dalîlâ (Delilah) concebeu de Sansão, e enquanto ela estava grávida Sansão morreu com os Filisteus; e Dalila deu a luz a um filho que chamou <Menahem>, que quer dizer <semente do homem forte>.”

Dalila e sua irmã Maksâbâ, ambas viúvas, eram belas, e se amavam muito. E seu amor não era como o amor de irmãs, mas como o da mãe pelo filho, e do filho pela mãe. E viveram juntas. Maksâbâ foi a única sobrevivente do massacre de Sansão, e por isso reinou sobre os Filisteus.” Seus filhos cresceram juntos como irmãos, mas o filho de Sansão, o caçula, assassinou o Rei dos Filisteus, aos 15.

Eu ouvi dizer que os hábitos dos egípcios são sem-lei, e que eles vivem em idolatria e fornicação. E quando te virem, vão tramar contra mim, e me matar por causa da excelência de tua bela forma; porque entre eles não há quem se compare a ti. Para que salves minha vida, fala por favor, se acontecer de perguntarem-te coisas sobre mim, <Sou a irmã dele>, e então quem sabe os estranhos pouparão minha alma da morte.” Abraão

A serva Hagar, que não devia se comparar à ama, foi presente do Faraó a Abraão, depois que ele se borrou com o poder do Anjo vingador!

Ismael, o bastardo, que significa “Deus ouviu minhas preces”.

Ishmael tinha 14 anos antes de Isaac nascer. E Deus disse a Abraão, <O que Sara falou por ciúmes é verdade; deserde a serva com seu filho Ishmael. Deixe que Ishmael viva perante Mim, e farei dele uma grande nação, e ele deverá possuir 12 nações e reinar sobre todas elas. Mas eu vou estabelecer Meu Pacto com Isaac Meu servo, o filho de Sara, que será com todas as nações da Terra.>” El Hayek realmente gosta de aproveitar apenas o estritamente conveniente de suas queridas histórias…

And therefore the children of Ishmael became kings over Tereb, and over Kebet, and over Nôbâ, and Sôba, and Kuergue, and Kîfî, and Mâkâ and Môrnâ, and Fînkânâ, and Arsîbânâ, and Libâ, and Mase’a, for they were the seed of Shem. And Isaac reigned over Judah and over Amôrêwôn, and over Kêtêwôn, and Îyabûsêwôn, and Fêrzêwôn, and Eêwêwôn, and Kêkêdewôn, and Rômyâ, and Ansôkyâ (Antiochia), and Sôryâ (Syria), and Armenia, and Felesteêm (Palestine), And Ethiopia, and Edom, and Philistia, and Îyôâb, and Amalek, and Phrygia, and Babylon, and Yônânest, and Ebrâyast. For as God sware He gave all kingdoms to the seed of Shem, and an exalted throne and dominion to the seed of Shem, even as his father Noah, by the word of God, blessed his son Shem, saying, <Be lord to thy brethren and reign over them.>”

And the Queen said unto her nobles: <Speak ye now, and swear ye by the heavenly Zion that ye will not make women queens or set them upon the throne of the kingdom of Ethiopia, and that no one except the male seed of David, the son of Solomon the King, shall ever reign over Ethiopia, and that ye will never make women queens.[!]>” “E se depois desse dia for achado qualquer homem que observe todos os seus costumes antigos, sua casa será pilhada, e ele e sua esposa e suas crianças deverão ser condenados.”

And thus the eastern boundary of the kingdom of the King of Ethiopia is the beginning of the city of Gâzâ in the land of Judah, that is, Jerusalem; and its boundary is the Lake of Jericho, and it passed on by the coast of its sea to Lêbâ and Sâbâ; and its boundary goes down to Bîsîs and ‘Asnêt; and its boundary is the Sea of the Blacks and Naked Men [?], and goes up Mount Kêbêrênêyôn into the Sea of Darkness, that is to say, the place where the sun setted and its boundary extended to Fênê’êl and Lasîfâlâ and its borders are the lands near the Garden (Paradise)”

David waged war wheresoever he pleased; no man conquered him, on the contrary, whosoever attacked him was conquered. (…) This I found among the manuscripts of the Church of Sophia in Rôm/Constantinople.”

He performed many miracles, some of which are written down and some of which are not, even as said John the Evangelist, the son of Zebedee”

Moses spake unto God and said, <Shew me Thy Face.> And God said unto Moses, <No one can look upon My Face and live, but only as in a mirror. Turn thy face to the west and thou shalt see in the rock the mirroring of My Face.> And when Moses saw the shadow of the Face of God, his own face shone with a brightness which was 7x brighter than the sun, and the light was so strong that the children of Israel could not look upon his face except through a veil. And thereupon he saw that they did not desire to look upon the Face of God”

E quando Abraão levou seu filho Isaque ao Monte Carmelo, Deus enviou do paraíso um carneiro para a redenção de Isaque. (…) Abraão deve ser entendido como Deus o Pai, e Isaque como um símbolo de Cristo o Filho.”

And the daughters of Cain with whom the angels had companied conceived, but they were unable to bring forth their children, and they died. And of the children who were in their wombs, some died, and some came forth; having split open the bellies of their mothers they came forth by their navels. And when they were grown up and reached man’s estate they became giants, whose height reached unto the clouds”

I was with Daniel in the den, and I was with Jonah in the belly of the great fish, and I was with Joseph in the pit, and I was with Jeremiah in the well fed from the lake. I stand under the deepest deep so that the mountains may not sink down under the waters”

A estranha autobiografia: “Wearied and miserable, they made Him sad when they rejected Him and hated Him; but strong and glorious, what could sadden Him when they brought false charges against Him? For He Himself knew His Godhead, and He knew His glory, and He new Himself.”

And in it is the throne of the Most High, which is surrounded with fire, and 4 beasts bear it in their place, which is the 6th heaven. And a throne goeth up to the 7th heaven, the habitation of the Father”

O que aconteceria se Abraão fosse contemporâneo de Jesus Cristo e testemunha na praça do Gólgota? Aliás, suponha que Abraão fosse José de Jesus…

Tirando a narrativa salomônica, esse livro é um desperdício de tempo!

Sealed in the cavewomb

Ano 409 do Perdão (nosso séc. XIV). Amém.

Prefácio-Posfácio (Colofão)

The first summary of the contents of the K.N. was published by Bruce as far back as 1813”

Nenhum livro religioso faz a apologia do tempo presente nem é best-seller imediato.

when Nectanebus II, the last native king of Egypt, fled from Egypt he went to Macedon, where he established himself as a magician. Here he became acquainted with Queen Olympias, who wished to find out from him if her husband, Philip, intended to put her away. An intimacy sprang up between Nectanebus and Olympias, and he appeared to the queen one night in the form of the god Amen of Libya, arrayed in all the attributes of the god, and begot Alexander the Great. Tradition transferred the horns of Amen to Alexander, and ancient Arab writers call Alexander <Dhu’l-Karnên>, i.e. <provided with two horns>, a title that translates exactly one of the titles of Amen, <Sept abui>.”

The Tabernacle of the Law had much in common with the arks or divine tabernacles of the Babylonians and Egyptians, which formed the places of abode of figures of gods or their most characteristic emblems.” “The Ark of the Law which Menyelek [David Son or Grandson] covered and stole from the Temple of Jerusalem was probably a copy of that made by Moses, and to all intents and purposes it was a rectangular box, made of hard wood plated with gold, and measuring about 4ft. long, 2ft. 6inc. wide, and 2ft. 6in. deep. It was provided with a cover upon which rested the Mercy seat and figures of the Cherubim.”

Apologies: “A full discussion of every portion of the work, with extracts giving the original texts of the authorities used and quoted by Isaac [o copista ou inspirado a escrever o Kebra Nagast], would fill another volume, and the cost of printing, paper, and binding is now so great that the idea of producing such a book has been abandoned.”

Os portugueses foram os primeiros europeus a descobrir o Kebra Nagast, no século XVI. Destaca-se o papel dos jesuítas, os historiadores mais capacitados do período.

Primeira versão integral do texto: Abhandlungen der Königlich Bayerischen Akademie, Munich, 1909.

Ester ou Judite quebraram a seqüência de reis homens da semente de Salomão, na historiografia oficial.

reference may be made here to a series of chapters which try to prove that the kings of the Moabites, Philistines, Egyptians, Persians, Babylonians and the Byzantines, are of Semitic origin. The fantastic legends which the author invented or reproduced contain much falsified history and bad philology, but it would be interesting to know their source and their author; these chapters seem to suggest that he was a Semite, probably a Jew.”

And when the mother of this Queen was with child of her she saw a fat and handsome-looking goat, and she looked upon him with greedy desire, and said, <How handsome the beast is! And how handsome its feet are!> And she longed for it after the manner of women who are with child. And when the afore-mentioned daughter was fashioned completely in the womb of her mother, she had onefoot like the foot of a man and another like the foot of a goat. (…) she did not want to marry any man because of her malformed foot; and she continued in her virginity until she began to reign.” Depois Salomão teria curado sua perna sem dificuldades e a revertido à forma natural (antropomórfica). Ou não seria uma mulher (ainda mais rainha) uma loba em pele de cordeira? PIN-PON! Versão alcorânica menos lisonjeira: “Jalâl ad-Dîn says that Solomon thought of marrying Balkîs [Makeda], but could not bring himself to do so because of the hair on her feet and legs. The devils who were always in attendance on Soloom removed the hair by the use of some infernal depilatory, but it is doubtful if even then Solomon married her.”

12-04-17

I

 

DESCRIÇÃO

Deitado na cama dos meus pais. Namorada ou moça bonita qualquer ao lado (não consigo identificar). Eu estou deitado na cama, na posição da minha mãe. Já a outra pessoa está ou de pé ou sentada, mas do lado direito, fora da cama. Um DVD do Metallica toca na TV.

Deitado na cama dos meus pais, só que do lado esquerdo, onde ficaria o meu pai, o Aloísio, meu melhor amigo de infância, hoje mero borrão. Nós cantamos junto com o James Hetfield, mas a voz dele sai idêntica; a minha não. Além disso, eu hesito, erro e esqueço alguns trechos das letras.

COMENTÁRIOS

Ele se deu – ele se dá – na vida melhor que eu. Mas quem? O Aloísio, ou o meu pai?

O Aloísio foi a pessoa que me apresentou ao Metallica, quando eu tinha 13 anos e ele 14. Recentemente ele se casou. Em breve eu me casarei. No casamento dele, uma mini-orquestra tocou Nothing Else Matters do “Black Album” ou álbum epônimo; creio que ainda seja a banda favorita dele, mas não somos mais pessoas íntimas, então nem tenho interesse em perguntar-lhe ou saber a resposta. Essa música é uma das mais populares da banda, embora muitos “fãs conservadores” do Metallica a detestem. Posso dizer que os gostos musicais do Aloísio e o meu destoam completamente, e que esse é um dos raros pontos de convergência (o Metallica está entre minhas 3 bandas favoritas). Já passei pela fase xiita de odiar tal música; hoje, gosto de todas as fases, e aprendi a apreciar bastante a melancolia passada pelo solo principal, realmente parece que entro na canção. Todavia, mesmo com toda minha evolução pessoal na relação com a banda, ainda estou mais para a apreciação da década de 80 do Metallica (fase áurea endeusada pelos fãs conservadores) e dos momentos mais underground e menos radiofônicos do grupo (o que inclui, paradoxalmente, os 2 últimos trabalhos, mais pesados do que nunca, com faixas de 8 ou 9 minutos que jamais tocariam na programação de uma rádio sem cortes) do que para um fã como o Aloísio (certa vez, ele me disse que a faixa favorita dele era The Outlaw Torn, do contestado Load; e vale lembrar que ele não gosta de nada no heavy metal fora o próprio Metallica).

Assim como nos gostos musicais, na vida eu e o Aloísio não podíamos ser pólos mais opostos. Ele se tornou tudo que eu mais abomino. No entanto, há um componente indisfarçável de inveja na posição que ele ocupa: tendo feito aulas de música e de canto, tendo tido uma banda e sendo um “jovem popular”, ele também cantou em seu casamento; coisa que eu não seria capaz de fazer no meu. Se tornou um advogado, funcionário público, que anda de carrão, pertence literalmente à nata de Brasília. Embora eu quisesse ter sua condição financeira (e esse desejo é retrospectivo: seus pais sempre lhe deram tudo, e eu cresci convivendo com a sovinice do meu pai; ele tinha todos os brinquedos que eu apenas sonhava em ter), confesso que se o preço fosse necessariamente se tornar alguém padrão como ele, não pagaria preço tão alto: a supressão dos traços mais benquistos por mim de minha personalidade. Contestatória, criativa, para resumir em dois termos. O Aloísio é apenas um burguesinho alienado, fã auto-declarado de Jair Bolsonaro e católico que se orgulha da sua educação moral e de suas origens insípidas e medianas (o típico casal pouco inteligente do Plano Piloto, que mima e blinda os filhos). Outra coisa que me deixa fulo com os caminhos que o Destino toma: eu sempre amei o futebol; já trabalhei como jornalista esportivo, sempre escrevi muito sobre o assunto, colecionei figurinhas, vi muitos programas de mesa-redonda na TV, já vi até 55 dos 64 jogos de uma Copa do Mundo (a de 2006)! Mas sou péssimo jogador. O Aloísio tinha um talento para a coisa, e sempre esteve vários e vários degraus acima de mim, tanto que me surpreende que ele não tenha mesmo tentado ou conseguido seguir essa carreira profissional.

Meu pai é outra pessoa que eu tenho, na minha concepção de mundo e de vida, como um contra-exemplo absoluto, alguém que não devo seguir sob nenhum pretexto, em nenhum aspecto, alguém que se possível deve ser invertido ao invés de copiado. Funcionário público aposentado; com talento para o comércio e a administração de empresas. Nasceu no interior do Ceará. Pode-se dizer que ganhou bem a vida, materialmente. Por golpe do destino, trabalhamos no mesmo órgão do governo: ele foi concursado da CAPES no cargo de Analista em C&T entre 79 e 2002. Eu sou atualmente Analista em C&T da CAPES desde 05/2014; depois de ter fracassado nas minhas duas primeiras escolhas profissionais (jornalista; professor).

Certa feita meu pai me perguntou o que eu estava lendo. Era o ano de 2008. Eu estava no segundo semestre do curso de Ciências Sociais. Respondi: Max Weber. Uma leitura muito prazerosa. Ele declarou que aquilo seria a última coisa que ele leria por gosto. Que na Administração foi obrigado a degluti-lo, mas que felizmente esses anos já se haviam passado. E é verdade: somos pessoas antônimas. De certa forma, ele e o Aloísio representam o sucesso material e mundano que eu penso que nunca atingirei. Como funcionário público que detesta suas funções, que não tem muito talento para nada aplicado ou pragmático, enfim, lucrativo, e escritor ainda-não-lido-por-quase-ninguém… Acho que a representação onírica “I” condensa toda essa celeuma muito bem.

II

 

DESCRIÇÃO
Leio um grosso volume, um livro que parece um fascículo de enciclopédia, de capa-dura cor vinho. A ordem é a mesma do mangá: da direita para a esquerda. Parecem listas de recomendação de outras pessoas em termos de livros e CDs de música, mas eu não reconheço um item sequer! Leio o perfil biográfico das pessoas que estão indicando as obras: uma é uma mulher de 38 anos, outra uma adolescente de 16. Intercalados com essas informações, em algumas das páginas, anúncios de jogos de videogame, que me permitem classificar a impressão desse livro no tempo. Uma das propagandas é sobre Starcraft I, edição digital/remasterizada (não lembro). Meu irmão chega em casa e me impede de terminar a leitura. É tarde da noite e eu quero que pensem que estou dormindo. Corro para o banheiro do quarto de empregada com o livro em mãos e me tranco.

CURIOSIDADE PITORESCA
Nunca joguei Starcraft, mas um dos primeiros que joguei foi o Warcraft II, jogo da mesma produtora, a Blizzard, de ambientação medieval e fantástica ao invés de espacial e futurista, como a de Starcraft. Seja como for, Starcraft é um jogo de real-time strategy bastante conhecido dos PCs (e alguns outros consoles). Sua primeira aparição foi na segunda metade dos anos 90. Dei uma googlada e, que coisa!, soube agora que lançarão um Starcraft Remastered esse ano (2017)!

III

 

DESCRIÇÃO

Enquanto urino, percebo que não é mais o meu banheiro. Estou morando no Guará. Esta é a casa do meu tio Nilo, dos meus primos André e Adriano. Parece estar tudo em obras. Não tem piso, azulejo, nada, e o plano é reclinado. Eu lembro com alguma nostalgia: há muito tempo costumava ter nojo desse lugar; agora ele é natural para mim.

Antes que eu termine de urinar aparece um gato branco com manchas marrons ou beges, estranho, deformado. Cara feia, alongado, “torto”, fisicamente absurdo. Pego um cabo de vassoura para enxotá-lo de minha casa (agora o banheiro não é mais um cômodo minúsculo, e parece haver muitos outros aposentos, que em nada lembram minha casa), mas me falta força na mão (sonho muitas vezes que quero socar alguém, e o soco não sai forte – nunca briguei na vida real). O gato é mais rápido do que eu. Há outro bichano, todo branco, mas na perseguição ao primeiro acabo ignorando-o.

COMENTÁRIOS

Meu tio Nilo é pobre. Significa que eu sou pobre agora? Que estou preparado para a pobreza? Meu poder aquisitivo não é o mesmo do meu pai. Ainda moro com ele, mas minha mudança está próxima. Será que é alguma apreensão nesse sentido? Atualmente estou sufocado por gastos [só na releitura percebi a semelhança fonética], principalmente de ordem médica, e tenho insegurança quanto a poder juntar dinheiro daqui para frente. Sobretudo, como detesto meu trabalho, tenho insegurança sobre meu próprio sustento, e o de minha futura família, devido ao meu quadro clínico.

Sobre o gato, ou bichos de estimação ou animais: não está claro o que eles simbolizam para mim, dada a frequência com que aparecem nos meus sonhos. Nunca tive gato ou cachorro. Conheço muitas pessoas que têm gato, que veneram gatos [o Aloísio venera gastos]. A Brenda, minha noiva, não é uma delas. Inclusive, ela tem alergia a pêlo de gato. No entanto, uma vez um gato de rua entrou na casa dela e pareceu se afeiçoar a todos os presentes (só queria comida, no fundo). A amiga da Brenda, Fernanda, tem um gato esquisito, o Nelson, que na verdade é do sexo feminino. Era semelhante ao gato branco de manchas marrons do sonho. Mais do que representar minha superioridade diante de alguém (certamente eu não conseguiria humilhar o Aloísio ou o meu pai num sonho, pois eles têm algo que eu queria ter, por mais que os despreze) – pois o gato não tem como se defender de mim –, uma hipótese que eu avento é: simplesmente vejo fotos e gifs de gatinhos demais ao longo do dia na Internet!