DEPOIS DE DESLIGAR O VIDEOGAME…: O Supercompêndio de Final Fantasy VIII

O artigo mais compreensivo e doidivanas existente em português sobre o storytelling do oitavo jogo canônico da principal franquia da Square Enix,

contendo (além de tudo sobre Squall, Rinoa e Ultimecia) mitologia grega, história do feminismo e barroco italiano, JoJo’s Bizarre Adventure, filmes de Hollywood sobre viagem no tempo (deixando De Volta Para O Futuro de fora), a série LOST, metafísica do século XX, satanismo, David Lynch, AKIRA (o mangá) e ainda outras referências externas! Resumindo, uma viagem imperdível.

obs: Uma versão com o review-base (resenha de videogame típica) precedendo este artigo mais denso e menos voltado à gameplay do jogo está disponível em https://rafazardly.com/2023/12/19/final-fantasy-8-ps-al/. Para quem prefere ler em “dark mode”, é uma boa sugestão clicar!

ÍNDICE

(use os termos entre colchetes, incluindo os colchetes, para navegar com facilidade)

[CRO] CRONOLOGIA DO MUNDO DE SQUAL & RINOA (Pré-História)

[ZER] A PARTIR DE SQUALL NA ENFERMARIA (MARCO ZERO)

[INT] INTERPRETAÇÃO & SIMBOLOGIA

[REL] SOMEWHERE IN TIME: O RELÓGIO E A MOEDA

[SUP] “O plano supremo de Squall/Laguna”

[+Q] MAIS QUESTÕES DE TRADUÇÃO

[FON] SOBRE “FONTES OFICIAIS EXTRA-MÍDIA”

[REC] Recomendações literárias

[CON] CONCLUSÃO: O que acontece só acontece uma vez

[UNC] UNCANNY VALLEY (Faixa bônus): Manifesto anti-Akira Toriyama

Há quem diga que a plot de um jogo só serve para o jogo, durante o jogo, mesmo na comunidade mais story-driven da indústria dos games, a dos RPGistas. Eu tendo a estar no time oposto, e essa análise é dedicada àqueles que, como eu, adoram discutir teorias e conexões, fora do Jogo de Interpretação de Papéis ou Role Playing Game, porque tanto quanto eu odeio (nós odiamos) o junction system euadoro (nós adoramos) o storytelling de Final Fantasy VIII – e a estória de FF8 é sua saving grace!

Primeiro uma leve ambientação e resumo do universo retratado, para não jogar as coisas na cara do leitor parecendo socos do Mike Tyson no auge diante de um desafiante despreparado:

Neste mundo os continentes de Balamb, Galbadia, Esthar e Trabia são os principais marcos geográficos. O planeta possui uma lua, que possui vida e comprovadamente faz parte da história do planeta, e não apenas de sua mitologia, como em nossa Terra: de séculos em séculos, monstros lunares aparecem no planeta, caídos ou arremessados do satélite, em fenômenos agourentos conhecidos Choros da Lua. Existe um monumento chamado Pilar de Cristal que desde a Antiguidade os homens associam à lua. Controlá-lo por meio da técnica talvez seja a forma de estabelecer uma paz duradoura contra essas invasões periódicas…

[CRO]

CRONOLOGIA DO MUNDO DE SQUALL & RINOA

Cem anos antes do enredo do jogo, um Moon Cry devasta Centra (pense nesta terra abolida num desastre como nossa Atlântida), onde os primeiros povoados terrestres se originaram (agora pense em Centra como nossa Pangéia). Este século representa o declínio do Império de Dollet e a ascensão, até os dias contemporâneos, dos galbadianos, que só têm um rival de relevo, Esthar. Deling – exatamente como Alexandria, inspirando-se num nome próprio – é a capital atual de Galbadia.

47 a.S.e. (47 anos antes de Squall na enfermaria, ou “o marco zero”): Laguna Loire nasce. Um cientista chamado Odine inicia um programa para prevenir Choros da Lua futuros. Pela primeira vez os avanços tecnológicos parecem indicar uma chance de sucesso na tentativa.

20 a 25 a.S.e.: Neste mundo que a própria Terra do século XXI consideraria “futurista”, elementos de magia coexistem com as conquistas da ciência e do domínio humano sobre a natureza. —Pela primeira vez na história registrada, Adel, uma feiticeira, toma o controle político de toda uma região, em Esthar. Adel não age de vontade própria. Acontece a Sorceress War entre o Império de Galbadia e as forças de Esthar. Laguna, Kiros e Ward – um trio que se tornaria tão mitológico quanto Aquiles, Hércules e Enéias neste nosso universo – participam da guerra defendendo Galbadia.

Durante a guerra, Laguna se apaixona por Julia, uma pianista. É um amor correspondido, mas Laguna precisa voltar ao front. Ambos prometem se casar no futuro.¹ Esthar se prepara para achar a sucessora de Adel, com o beneplácito da própria, que sente que pode ser vencida ou então quer produzir algum tipo de distração em grande escala – e encontra-se Ellone, ainda uma criança, em Winhill. Ellone não é capturada, mas é tornada órfã de pai e mãe quando militares tentam levá-la. Uma mulher chamada Raine adota Ellone poucos dias depois do incidente. Ellone não é uma criança destinada a ser uma feiticeira qualquer. Ao mesmo tempo parece mais fraca e mais forte que uma “feiticeira-padrão”, daí o interesse dos pesquisadores e estrategistas de Esthar na garota…

¹ As coisas galoparam rápido demais de uma ambientação nível Guerra nas Estrelas a algo mais similar a Tolstoi! Diria que essa transição se deu na velocidade da l… mas seria um clichê rematado.

19 a.S.e.: Laguna, Kiros e Ward se aventuram na cratera da antiga civilização de Centra, são encurralados, sobrevivem após pular de uma grande altura em direção ao mar revolto, mas acabam separados. Laguna pára em Winhill, onde é resgatado e tratado de seus ferimentos pela altruísta Raine. Depois disso, assim como Ellone, passa a viver em sua casa.

Crendo Laguna morto, Julia compõe um tributo a sua finada alma-gêmea, a canção Eyes on Me, um grande sucesso de crítica nos meios eruditos, e acaba se casando com o general de Galbadia Sr. Caraway.

O Pilar de Cristal, rebatizado Pandora Lunática, é extraído da cratera e levado a Esthar para investigações mais exaustivas pelo doutor Odine, uma espécie de Oppenheimer deste universo.

18 a.S.e.: Adaptado a uma nova vida, convertido em padrasto de Ellone, Laguna engravida Raine. Entretanto, Ellone desaparece ao mesmo tempo, e é um elemento-chave para a conclusão da Guerra da Feiticeira. Os responsáveis foram os mesmos perseguidores de 6 meses antes: soldados de Esthar que reincursaram em Winhill. Laguna parte em busca de sua enteada.

Ellone é o receptáculo de magia mais poderoso existente no planeta, e apenas a arqui-vilã do jogo – ainda atuando por trás das cortinas – o sabe neste momento. Mesmo que não desconfiem nem de metade do potencial de Ellone, não significa que não a considerem um indivíduo ou material valiosíssimo…

Galbadia segue sua sanha expansionista e ocupa Timber. Nasce Rinoa Heartilly, filha de Julia e do general Caraway, na província de Timber, nesta mesma cidade.

Alguns meses depois, Laguna encontra um orfanato mais ou menos próximo de Winhill administrado por Edea, a Matrona, que dedica sua vida a abrigar órfãos, mas não encontra informações sobre o paradeiro de Ellone. Ele resolve se reunir com a dupla de amigos do passado, Kiros e Ward, para melhorar as chances de sucesso da busca. Provavelmente a única maneira será deduzindo que Ellone se encontra bem-guardada em Esthar, a “hipótese B”, e invadir o covil do inimigo confiando no palpite. Raine, não mais de 9 meses tendo decorrido após a ausência de Laguna, finalmente dá a luz a Squall Leonhart.

O “trio Laguna” chega a Lunatic Pandora. Os padrões cerebrais de Ellone são cuidadosamente estudados pelos meios tecnológicos de que dispõe o império. São os primeiros passos para a criação de uma máquina do tempo.

Cresce o movimento de resistência a Adel; Laguna se destaca como líder revolucionário. Um exército de guerrilheiros resgata Ellone e Laguna se sobressai como combatente do lado vencedor da guerra. Os poderes de Adel são selados com a ajuda dos dados das pesquisas do doutor Odine, figura extremamente ambígua, que afinal pesquisava Ellone a mando de Adel para benefício próprio. Em vez de matá-la, os terráqueos a enviam em criogenia direto para o espaço sideral mediante um veículo chamado Ragnarok, supostamente para que outra mulher jamais herde seus poderes e reinicie imediatamente a guerra (sendo impossível matar uma feiticeira ou o espírito de uma feiticeira, que voltaria instantaneamente a encarnar noutra mulher).

Laguna, obtendo mais do que aquilo que procurava, se torna presidente da nova Esthar – mas cumpre a promessa original e devolve sua enteada à mãe. Ele, porém, não volta a Raine, nem toma qualquer iniciativa no sentido de trazê-la para perto de si. Esthar acaba isolada do resto do mundo para preservar o segredo da “arma destruidora”, o cadáver suspenso de Adel. Um campo de força evita que o resto dos continentes interfira com as ondas de rádio do exército local, que monitora a nave Ragnarok e o próprio mausoléu.

16-14 a.S.e.: Raine morre e Squall e Ellone são enviados para um orfanato, o mesmo orfanato de Edea. Zell, Quistis, Irvine, Selphie e Seifer são outras crianças do orfanato. Desde muito jovens desponta uma estranha inimizade entre Squall e Seifer.

13 a.S.e.: Ultimecia, uma entidade potencialmente extra-terrena, feiticeira das feiticeiras, e Squall, adulto, surgem na linha do tempo após a descompressão temporal, um pós-evento cataclísmico ainda não-explicado, em visita ao orfanato de Edea. Ultimecia está agonizando, mas não pode morrer enquanto, conforme a tradição do poder único das feiticeiras, não retransmitir seus poderes para outro receptáculo do sexo feminino. Seguindo Squall ela acaba se deparando com a candidatura perfeita, Edea, que se torna assim sua sucessora, voluntariamente, evitando que Ellone ou outra das crianças, como Quistis ou Selphie, se tornasse a nova feiticeira e futura nêmese do universo inteiro. Squall Leonhart estabelece ele mesmo as condições para a repetição cíclica de todos os eventos temporais, anulando causas e efeitos e consumando o plano que formulara semanas antes em sua própria linha do tempo (no futuro), explicando que Edea deve participar de um complot envolvendo Balamb Garden e o recrutamento de SeeDs (citados pela primeira vez na cronologia deste mundo). Ultimecia (ou seu corpo) desaparece após a transmissão do poder. Squall adulto abandona este tempo após coexistir por alguns segundos com sua encarnação mais jovem, um garotinho de 4 ou 5 anos.

Edea não pode se manter com os poderes de Ultimecia sem perder a personalidade, o que não sucede de maneira instantânea, sendo um fenômeno de caráter imprevisível, conhecido pela tradição deste mundo, que sempre combateu as feiticeiras nas diferentes eras. Dessa forma, ela se prepara para os eventos do futuro como pode, ao lado de seu marido Cid, com quem compartilha a verdade insólita. Com ajuda financeira das tribos de Shumi – amigos de Laguna –, Cid funda três academias militares, todas conectadas à história oculta de Centra e Esthar.

Os SeeDs Brancos de Elite são criados, principalmente para proteger Ellone, conduzindo-a a lugares remotos e incertos, pois ela ainda é procurada por cientistas como objeto de estudo anti-feitiçaria. O pequeno Squall, da linha temporal linear, pensa que sua meia-irmã mais velha “o abandonou”, quando a verdade é que ela foi removida do orfanato à força.

Julia Heartilly morre num acidente de carro (o que é bastante irônico, tendo-se em conta o sobrenome de seu marido). Rinoa é uma criança infeliz em sua relação com o general seu pai, CAR-AWAY!

12 a.S.e.: Termina a construção dos Gardens. Jovens podem voluntariamente se inscrever para tentar se tornar “black” SeeDs, mercenários de elite cuja missão oficial é servir para a paz em conflitos que emerjam em todo o globo. Os jovens de orfanatos são o público preferencial dos Gardens assim que atingem certa idade. Cid é o reitor de Balamb Garden.

11-1 a.S.e.: O treinamento com o(a)s Guardian Forces causa amnésia nas crianças, que esquecem que já tiveram vínculos entre si. Selphie e Irvine são enviados para outros Gardens: Trabia e Galbadia, respectivamente.

Edea é possuída pelo espírito de Ultimecia em definitivo, perdendo a consciência, e rapidamente se torna uma figura que comanda Galbadia dos bastidores. Galbadia atual, como a Esthar de décadas anteriores, que contava com os poderes adicionais de Adel, é a maior potência militar do mundo.

Rinoa se rebela contra seu status aristocrático e adere a um movimento revolucionário de Timber que luta contra o imperialismo de Galbadia. No verão do último ano antes do confronto entre Squall e Seifer que levaria o primeiro à enfermaria e causaria cicatrizes em ambos os rostos, Rinoa e Seifer têm um “caso de verão”.

[ZER]

A partir de Squall na enfermaria

(MARCO ZERO DE FINAL FANTASY VIII)…

Squall vê Ellone através da janela da enfermaria, sem reconhecê-la. Esse é o dia do teste para novos recrutas da SeeD e da obtenção do GF da caverna de fogo, Ifrit, em que Squall é supervisionado por Quistis. No teste, o trio designado como “equipe B” é Squall, Zell e Seifer, este último como capitão. Quistis Trepe deve garantir a segurança dos alunos em qualquer episódio extremo, mas não pode intervir em suas ações de modo a modificar a avaliação da performance no teste. Trata-se de uma ação militar genuína, e não de um ambiente simulado. O local é a cidade-ilha de Dollet, ex-potência militar, que foi recém-invadida pelas forças de Galbadia. Selphie, da outra base, desempenhando o papel de mensageira entre células, encontra o trio no meio da missão e se junta à equipe durante o fogo cruzado. Ao mesmo tempo, Seifer deserta sua função de líder. Os três que guardam os comandos da missão obtêm com êxito seu grau SeeD; Seifer fracassa devido à insubordinação. Quistis é “rebaixada” da função de instrutora da Garden para “mera” soldada SeeD, por não ter sabido lidar com o comportamento arbitrário de Seifer, que pôs todos em risco. Ex-instrutora de Squall, ela é apenas 1 ano mais velha e tem a mesma idade de Rinoa – é a pessoa mais jovem a ter sido aprovada num exame da SeeD, um talento militar nato.

No baile de graduação, Squall e Rinoa se conhecem e dançam casualmente. Ellone é vista na mesma noite dentro do campus por Squall e Quistis, fugindo de monstros, mas sua identidade seguia um completo mistério. A primeira missão do protagonista Squall pela SeeD é como líder da célula composta ademais por Zell e Selphie, agora integrada a Balamb. Eles devem dar apoio ao grupo paramilitar Forest Owls, de Timber, que tentará seqüestrar o presidente de Galbadia em sua visita ao distrito revoltoso. Os três desmaiam no trem de ida.

Todos experimentam um “sonho coletivo” com visões do passado remoto: eles vêem as vidas de Laguna, Kiros e Ward. O flashback acaba no encontro entre Laguna e Julia, relatado na cronologia pré-jogo.

Finalmente o trio, agora acordado, é oficialmente introduzido a Rinoa, da resistência, a “chefe” extra-oficial da missão, apesar de sua expertise militar quase zero, já que a SeeD funciona como uma empresa e ela é, pelo menos pensa-se, a cliente e financiadora deste trabalho. Após o bem-sucedido seqüestro do presidente, descobre-se que ele era um mero duplo, cuja verdadeira identidade é um monstro morto-vivo plantado para assassinar a célula SeeD. Alguém vazou a informação de que tentariam cometer o seqüestro. As ordens recebidas por Squall e os outros são que a SeeD deve apoiar os “corujas-rebeldes” até que Galbadia seja expulsa de Timber, por força de contrato.

O verdadeiro presidente Deling – pelo menos por enquanto – está fazendo um pronunciamento ao vivo na TV. Rinoa comanda a segunda tentativa de seqüestro da autoridade, no local. Antes que a célula SeeD pudesse agir, Seifer interfere, ele mesmo tomando o presidente como refém. Seifer se tornou o principal subordinado da feiticeira Edea, a própria relações públicas e embaixadora de Galbadia para a paz, quem planeja tomar Timber e conseqüentemente Galbadia num coup d’état! Mas a natureza da ação de Seifer não é entendida pelos demais.

Quistis também estava presente na transmissão, por algum motivo, aparentemente enganada por Seifer Almasy. Na confusão da missão de infiltração, Zell deixa escapar que o trio que deveria permanecer incógnito é de Balamb Garden. O tumulto se generaliza, com Deling prometendo vingança caso ajam contra sua integridade. Nesse momento Rinoa revela seu passado com Seifer, e que nutre certa idolatria por ele. Depois que Seifer estabelece as condições da soltura do refém, Edea faz sua aparição triunfal, cancelando a cerimônia. O restante da milícia de resistência é derrotado. Rinoa solicita ser escoltada para um lugar seguro onde agirão à paisana. Squall e Rinoa chegam ao pub de uma simpática senhora. Watts e Zone, da milícia dos corujas, conseguem passagens para os SeeDs evadirem Timber e se dirigirem ao Galbadia Garden.

Quando desembarcam do trem, na travessia montanhosa, Squall, Zell e Quistis – dessa vez a última no lugar de Selphie – desmaiam e têm outra experiência de sonho coletivo… Laguna, Kiros e Ward continuam seu enredo. Eles estão em trabalho de escavação em Centra, como já descrito na linha do tempo. Esthar parece ter descoberto sobre a existência e a importância do Pilar de Cristal, estrutura que se encontra em suas fronteiras. Isolando-o magicamente, seria criada a posteriori a fortaleza de Lunatic Pandora, a caixa inexpugnável. Laguna, Kiros e Ward quase se perdem nos túneis e seqüências de lances de escada, mas sobrevivem ao assédio dos soldados de Esthar. O fim da linha é a borda dum penhasco que dá para a costa. Quando Laguna se perde de seus asseclas, os SeeDs despertam de seu “sonho lúcido”.

O grupo do presente chega a Galbadia. Quistis se separa neste momento para realizar suas próprias investigações. Os outros se reúnem numa conferência. Quistis descobre que Seifer aceitou o papel de bode expiatório para acobertar o incidente de Timber, então pensa que ele está do lado certo. Balamb Garden será publicamente isentada de culpa no episódio. No entanto, a pena para Seifer será a capital. Rajin e Fujin, dois estudantes de Garden e os melhores asseclas e amigos de Seifer, encontram o grupo dos personagens controláveis. Eles trazem novas ordens de Cid. O grupo decide resgatar Seifer da morte certa, pois ainda acreditam que Seifer é um legítimo balambgardian, sem entender o contexto de sua intervenção no seqüestro de Deling – ainda que um não-SeeD não pudesse se envolver militarmente no mundo como Seifer o fez.

Com a relação normalizada entre as bases Garden, o grupo é protocolarmente recebido em Galbadia pelo diretor Martine, hierarquicamente subordinado de Cid. É neste momento que o SeeD Irvine Kinneas é incorporado à equipe do protagonista. A próxima missão é bem direta: o homicídio da usurpadora Edea “Temer”, perpetradora do autogolpe de Galbadia. Irvine é apresentado como um especialista em atentados letais, sendo um atirador à distância. O grupo se dirige novamente a Deling City.

Uma side quest interrompe a missão do grupo, na Tumba do Rei Desconhecido. Squall e os outros devem achar um estudante desaparecido, porque os habitantes locais ainda não confiam nos SeeDs. Dois poderosos Guardians são obtidos pelo grupo nessa exploração colateral. Depois de cumprir a missão o grupo recebe o passe do General Caraway, pai de Rinoa, para a destinação final. Squall descobre a filiação do anfitrião com sua cliente. Foi ele quem contratou a célula SeeD para o ataque desde o começo – Rinoa era só uma intermediária, agindo por procuração. Edea realizará um desfile pela cidade em celebração a sua ascensão ao poder. Será a noite da execução planejada. O sexteto se divide em 2 trios. Um deles servirá de distração enquanto o outro cumprirá o serviço.

Depois de conflitos internos, Rinoa abandona o grupo, por ordem de Quistis, mostrando desconforto e potencialmente ciúmes da filha de Caraway e afetos não-resolvidos por Squall. A missão segue com um trio e uma dupla (a dupla de assassinato sendo Squall e Irvine). Rinoa, no entanto, não deixa de cumprir sua parte como loba solitária, chegando ao cômodo de Edea primeiro. A feiticeira possuída mata o presidente Deling em público e se declara formalmente a líder de Galbadia. Imobiliza Rinoa facilmente. Irvine e Squall salvam a vida de Rinoa no último instante, matando dois Iguion que, fundidos, geram um novo Guardião, chamado Carbuncle.

O grupo ainda não havia entendido de que lado Seifer estava no jogo de forças, e se deparam, por fim, com evidências de sua escolha por servir a Edea. Em tese o plano funciona, Edea cai na armadilha do grupo e Irvine acerta a feiticeira fatalmente. Mas a magia de Edea repele o tiro. Squall tem de combatê-la frente a frente, não sem antes acertar as contas com Seifer, a quem deixa inconsciente no campo de batalha. O embate parece um tanto artificial. Edea não parece tão forte, mas, quando mais dois SeeDs chegam para ajudar, notam que a feitceira vem sendo evasiva e ardilosa. Ela acaba escapando e confundindo o grupo, mas não antes de uma cena de impacto que encerra o primeiro compact disc da história: uma estalactite perfura o peito de Squall e ele cai de grande altura, desmaiado.

Novamente um flashback onírico de Laguna. Nesse episódio ele é o protetor de Winhill. Brinca com Ellone, que parece ter 3 ou 4 anos à altura. Kiros intervém e Laguna, tendo sua vida familiar interrompida, adquire conhecimento dos incidentes em Centra, no qual o trio havia se separado e perdido contato. Isso havia sido apenas 6 meses atrás. Ward escapou mas perdeu a voz. Laguna também descobre sobre a carreira musical de Julia e seu recente matrimônio. O ex-prometido de madame Heartilly não parece ressentir sua presente situação, no entanto.

Zell acorda numa cela ao lado de Rinoa, Selphie e Quistis. Ele impersonava Ward no sonho coletivo e reconhece que está no presídio do Distrito D, onde W. passou a ser um carcereiro após o incidente de Centra (explicando seu nome, talvez?). Squall também está no mesmo presídio, mas confinado numa cela particular, que se move como um elevador pelo complexo. Atado, Squall é provocado por Seifer, e uma sessão de tortura está prestes a iniciar. Guardas nocauteiam Zell e seqüestram Rinoa. Na câmara, Seifer quer respostas de Squall sobre o verdadeiro propósito da SeeD. Squall permanece calado.

Seifer tenta sua última carta na manga: Edea teria ordenado um ataque de mísseis simultâneo a Balamb e Trabia Gardens. Os sobreviventes deveriam ser caçados e mortos por Seifer. Seifer, sem mais tempo para o mudo e resiliente Squall, abandona o aposento. Porém, ele é torturado por outros guardas; continua a desconversar com besteirol, mantendo as informações da SeeD protegidas. Enquanto isso, Selphie e Quistis simulam estar doentes para conseguir escapar de seus confinamentos. Zell, acordado, usa seu conhecimento inconsciente do local para achar as armas que lhes haviam sido depostas. Wedge e Biggs, dois soldados falastrões e atrapalhados, reaparecem após o fracasso em Dollet, relutantes em enfrentar a SeeD novamente.

Finalmente o grupo chega a Squall e o liberta. Uma criatura amistosa (uma quimera mágica) que acompanha o grupo desde a cela, um Moomba, como que uma paródia de Red XIII de Final Fantasy VII, emite suas primeiras palavras ao encontrar o líder do time controlável: “La…gu…na!”. Rinoa reentra em cena acompanhada de Irvine. Com essa nova ajuda os fugitivos conseguem escapar do presídio pelo topo (os primeiros andares estão inundados após um alerta de segurança ter submergido parte da prisão).

No deserto que circunda o Distrito D, o grupo se reúne em paz após algum intervalo e discute o próximo passo. É óbvio que os mísseis precisam ser interceptados. Irvine ouviu dizer que não irão bombardear Balamb de imediato, como Seifer dissera com convicção ou apenas como um blefe, mas que Trabia não tem como ser salva a essa altura. Squall decide voltar a Balamb para iniciar uma contra-rebelião. O sexteto se divide novamente: com exceção do líder, de Irvine e Rinoa os demais vão direto à base de onde provêm os mísseis.

Na missão do grupo de Selphie, apesar do sucesso final, no momento de explodir a base eles são envolvidos em uma batalha imprevista e o tempo se esgota. Aparentemente foi uma missão de sacrifício, e a base vai pelos ares, com os corpos dos SeeDs ainda em seu perímetro. A verdade última, porém, é que eles conseguiram refúgio dentro de armaduras blindadas. Squall e companheiros também são exitosos em sua missão.

O grupo, então, reunido, descobre que Edea é ou era a esposa de Cid. Cid conta sobre o passado dos jovens, que vão recuperando suas memórias afetadas pelos Guardiães, mas ainda não satisfatoriamente. Ellone, a meia-irmã de Squall, que ele pensava tê-lo abandonado, finalmente é revelada como uma importante componente da Garden. Squall se dá conta, ao reencontrá-la, que ela era a menininha do sonho de Laguna, o que ajuda a reconstruir mais de suas próprias lembranças. Ellone revela seus poderes especiais, aquém aos de uma feiticeira típica, mas ao mesmo tempo exclusivos e cobiçados até pelas próprias feiticeiras: todo esse tempo ela tem feito os SeeDs entrarem em estado inconsciente a fim de mostrar o passado, fazendo-os revivê-lo diretamente, quem sabe até alterá-lo. Squall, por exemplo, sempre assumia o corpo e a consciência de Laguna, mas os resultados eram sempre os mesmos. É Laguna uma duplicata de Squall, além de seu pai biológico? Os White SeeDs, os seguranças particulares de Ellone, chegam ao local com novas ordens para deslocá-la e os dois irmãos tão maltratados pelo destino se despedem mais uma vez.

A próxima paragem do jogador é Fisherman’s Horizon, quase uma utopia neste mundo, em que os refugiados das inúmeras guerras entre Esthar e Galbadia podiam viver em paz. Oportuna ou inoportunamente, o exército de Galbadia invade o lugar justo quando Squall e seus companheiros estão presentes. Finalmente o trio da base explodida se reencontra com o trio mandado a Balamb. Os relacionamentos e a moral do grupo são o enfoque do próximo arco, com Rinoa e Squall se desenhando mais e mais como um casal. Selphie está deprimida, Irvine tenta seduzi-la mas não é correspondido. Squall, no auge de seus 17 anos, é nomeado por Cid o novo comandante supremo da SeeD. Carreira um tanto meteórica até para um universo ficcional! Todo esse senso de responsabilidade – de alguém que viveu atos heróicos do próprio pai, ainda que em sonho, tendo agência própria nos eventos! – parece estar quebrando Leonhart por dentro. Para completar, ele ainda não conseguiu cicatrizar toda a história do falso abandono de sua infância, tendo sido obrigado a se separar de Ellone antes de se habituar de novo a sua presença.

Numa visita a Trabia, em que Selphie se despede de seus amigos mortos e ajuda a cuidar dos feridos sobreviventes, algumas das cenas mais icônicas do jogo dão lugar. Enquanto espairecem numa quadra de basquete, lembranças são engatilhadas no grupo inteiro por uma súbita fala de Irvine, para a qual a revelação de que Edea era casada com Cid servia de pequeno foreshadowing: todos eram companheiros órfãos no passado e sempre reconheceram Edea como sua mãe adotiva. Irvine parece ter lembrado primeiro dos episódios porque Galbadia Garden passou a usar o poder dos Guardiães apenas muito recentemente; assim como Selphie foi a segunda a ter suas lembranças ressuscitadas. A situação de desconforto de Irvine desde que se juntou ao grupo é explicada, mas parece significar que ele errou o tiro de propósito ou sabia que Edea reagiria a tempo a sua tentativa de execução no atentado em Deling. Como Rinoa não era uma das crianças, ela se sente muito sozinha nesse segmento, como que rejeitada ou ostracizada pelo grupo, uma estranha no ninho.

Em meio a uma nova batalha com as tropas galbadianas, Rinoa solicita o anel de Squall – um memento de família – por intermédio de Zell, pois tem vergonha quando pensa que se pedir o anel a Squall diretamente todos pensarão que os dois estão oficialmente comprometidos – até diante de Squall esse pensamento causa embaraço a Rinoa. Zell obtém o anel emprestado jogando conversa fora, mas durante o conflito não consegue entregá-lo a Rinoa de imediato. Quando Zell finalmente repassa o anel, algumas cenas depois, um tremor sucede. Os dois Gardens estão em franca guerra total. Escusado é relatar ao leitor não-jogador a essa altura do campeonato (dado o fator sci-fi do enredo e a importância maior dada aos afetos na storyline) que as bases Garden são secretamente enormes veículos com auto-propulsão que podem se deslocar pelo espaço aéreo, e esta é uma destas loucas batalhas quase sem regras no mundo conhecido da física, lembrando mais uma franquia de George Lucas que qualquer momento prévio em FF!

Rinoa fica dependurada em estruturas inclinadas prestes a ceder. Squall pede a Zell que resolva a situação, pois precisa proteger a vida das crianças e adolescentes nas salas de aula ao mesmo tempo. No fim, envolvido em outra batalha aérea, é Squall quem salva Rinoa. Os SeeDs invadem o subterrâneo (ou o porão da nave) de Galbadia Garden, onde está a sala de controle dos motores do veículo-escola. Seifer acaba mais uma vez derrotado e perde sua função de co-vilão na estória, pelo menos até o confronto final no Pilar. Agora é Edea quem antagoniza diretamente com os jovens na esperada revanche…

Edea não se segura neste segundo confronto (como se o resquício de lembrança que lhe restava tivesse sido apagado por Ultimecia), ainda não-conclusivo, embora o grupo de jovens tenha conseguido extrair-lhe o poderoso GF Alexander. Em lugar da vitória esperada, no entanto, o tempo congela. Sem poder se mover, mas ainda consciente, Squall assiste uma Rinoa hipnotizada claudicando em direção a Seifer. Ela se inclina em direção ao pé do ouvido do arqui-rival e ex-amante e conta-lhe algum segredo vital para a estória. A reação de Seifer é se reerguer, mesmo muito ferido, e empreender sua fuga. Edea é envolvida numa explosão de luzes. O “campo congelado” desvanesce e Edea parece tão confundida quanto o grupo com o que se passa. Aparentando genuína alegria e nostalgia, ela cumprimenta todos aqueles a quem tentara matar segundos atrás, ao demonstrar reconhecer por fim suas fisionomias, fisionomias que agora suscitam-lhe emoções verdadeiras. Não é mais a Edea possuída de antes, mas a antiga matrona do orfanato. Todos retornam a Balamb em paz, mas o preço colateral é que Rinoa está em coma desde que agiu da forma mais estranha no campo de batalha.

Edea explica que estava sob o controle de Ultimecia, a última (pun) feiticeira, a verdadeira raiz dos problemas deste mundo. O objetivo da trágica Ultimecia¹ após ser rejeitada pelo corpo de Edea é ressuscitar a feiticeira Adel das guerras passadas, ou antes tomar seu corpo que está em crisálida. Como o estado de Rinoa preocupa, decidem ir atrás de Ellone, que pode conhecer um método de trazê-la de volta.

¹ Criatura nascida no futuro e que viaja ao passado (reza o lore, que por não compreendê-la ora também atribui-lhe genealogia alienígena), se for – e é – uma criatura cultivada, aprendeu que foi derrotada no passado, lugar em que desembarca buscando a onipotência e a vitória. Diferentemente de nós, que estudamos a História para jamais repeti-la, conscientes de que não existe nem existirá máquina do tempo, Ultimecia pertence a um universo em que viagens temporais são uma realidade – e por isso todo seu esforço é apenas seu destino sisífico. Mas é durante essa jornada que ela entende seu verdadeiro propósito (não era tornar-se deus ou vencer, no sentido clássico e binário), e que ele se cumpriu… Continue a leitura!

Os sentimentos represados de Squall finalmente jorram, e ele mais do que nunca sente a necessidade de se comunicar com Rinoa, ironicamente agora que ela não pode escutá-lo. Squall desfalece e recai em seus sonhos interativos produzidos pela mágica de Ellone… A diferença dessa vez é que antes de recobrar a consciência Squall, em estado de sonho lúcido, consegue trocar palavras com Ellone. Ele também observa passivamente uma cena de Laguna conversando com Edea sobre Ellone. Posteriormente Squall descobre que o paradeiro atual de sua meia-irmã é Esthar.

Squall está afundado em solilóquios e paralisado pela melancolia. O mundo para ele não interessa, não corre perigo. Ele só consegue pensar em Rinoa. Quando a nave da Garden aterrissa em Fisherman’s Horizon, Squall leva o corpo estático e inerte de sua musa nas costas, segue a pé pelo comprido trilho do trem. Seus pensamentos, dessa vez declarados em voz alta, giram em torno dessa questão tão paradóxica: o pouquíssimo tempo que tiveram juntos modificou-o por completo; e agora, justo agora que ele o compreende, não tem acesso a suas palavras, a sua risada… Admite perante uma Rinoa surda que tinha um exterior de ouriço para esconder o fato de que ele se importa muito com os outros, e com o que os outros acham de si; para esconder que ele é só uma pessoa insegura e que precisa incondicionalmente dos seus amigos.

Chegando ao fim da estrada de trilho, já na estação da desolada Esthar, Squall surpreende-se ao ver que todos os seus amigos estavam já a sua espera. Para eles era senso comum aparecer para ajudar Rinoa a recuperar a consciência e encontrar Ellone. E ainda mais fantástico: Edea também acompanha os SeeDs. Com auxílio de sua poderosa mágica, quem poderá dizer que a missão não será cumprida? Abadon, o guardião morto-vivo, é aniquilado por Edea às margens do Grande Lago Salgado. Eles encontram uma passagem subterrânea e um terminal de computador que revelam que há um sistema de camuflagem para deixar a capital de Esthar invisível. Depois de desabilitar essa medida de segurança, finalmente penetram na cidade inimiga. Assim que entram, porém, Squall desmaia…

…Laguna é um prisioneiro trabalhando no laboratório de Lunatic Pandora. Depois de salvar outro escravo, um Moomba, Laguna é interpelado por outros homens da resistência contra Adel, que aclamam-no seu novo líder. Eles precisam fugir e retaliar a feiticeira. Laguna heroicamente chama a atenção dos guardas enquanto o Moomba e outros rebeldes conseguem evadir. Kiros e Ward vêm ao encontro de Laguna. Eles resolvem fazer uma parada no laboratório de Odine e recebem a informação de que Ellone lá se encontra, sendo objeto de pesquisas e experimentos. Laguna ameaça Odine até o cientista se acovardar e contar tudo que ainda ocultava. Ellone estava, na verdade, em outro laboratório, também comandado por Odine, o principal da rede de laboratórios dos estharianos. O padrasto acha então sua querida enteada. Quando se abraçam, Squall acorda…

Os membros da SeeD são escoltados até o palácio presidencial. Edea quer se livrar definitivamente da maldição de Ultimecia, se isso for possível (como ela ainda possui poderes, não está descartada a hipótese da consciência de Ultimecia voltar). Odine, o cientista quase-maluco obrigatório em todo enredo futurista “de segunda prateleira”, deve ter algumas respostas. Ele realmente propõe uma solução, e ela é até bem simples. Squall, não obstante, não quer saber de conversa e demanda incontinenti o paradeiro exato de Ellone, espelhando a cena de anos atrás. Odine, cheio de si, diz que arranjará tudo. O que eles querem está em East Esthar.

Explica-se a Squall que curar Rinoa exigirá que ele e Ellone levem-na a uma base lunar, o lugar mais avançado em tecnologia de que dispõem os habitantes do planeta, para que mais dados sejam coletados e entenda-se o coma que a medicina comum não sabe tratar. Zell declara seu desejo de permanecer e ser o guarda-costas de Edea, agora que sente de novo afeição por sua mãe adotiva. Squall faz uma dupla com Selphie. Eles fazem essa incrível viagem: Squall, Selphie e o corpo passivo de Rinoa, sendo lançados para fora da órbita, até o satélite. Depois que eles partem, Angelo, o cachorrinho de Rinoa, começa a desenvolver sintomas de loucura.

No laboratório de Odine causa pavor a informação de que os galbadianos invadiram Pandora e agora estão no controle da estrutura. Zell e os dois PCs que estão consigo vão investigar. Enquanto avançavam pelo interior do cristal gigante, são violentamente expelidos, sugados pelo topo da estrutura e jogados novamente em Esthar. O complexo de Pandora se move, e seu paradeiro é também a lua. Edea, quase inconsciente, só consegue repetir, murmurando: Lunar Cry, Lu…nar Cr…yyy… O choro da lua, lágrimas da lua. Os demais não sabem o que isso significa. Algo terrível se avizinha.

Squall posiciona Rinoa num leito dentro do laboratório médico da estação lunar. Ele sai para explorar as imediações. Ele e Selphie vêem, ao longe, a tumba de Adel flutuando no vácuo, selada desde o fim da guerra. O presidente de Esthar está ele mesmo de perto guardando o túmulo, prevenindo que alguém apareça para desfazer os selos (não é revelada sua identidade). Na sala de controle, o grupo é apresentado aos monstros que vivem na superfície lunar! Ellone estava esse tempo todo escondida e sendo protegida nesta estação. Squall pede sua ajuda para tirar seu grande amor do estado de coma. Depois de algumas palavras que tentam consolar o coração de seu querido meio-irmão, Ellone explica que seus poderes de viagem temporal não são irrestritos: ela não pode mudar o passado e salvar Rinoa, principalmente porque não a conhece ainda.

O coma de Rinoa muda de fase: em vez da inércia, ela se torna alguém como que em hipnose ou sonambulismo, percorre os corredores, seu corpo se torna diáfano e começa a desaparecer e reaparecer alternativamente, mas ao mesmo tempo sua existência parece se estender a outros locais e tempos. Ela não pode ver ou escutar aqueles que estão ao seu redor na lua. Quando Squall tenta abraçá-la, é intensamente repelido pela “aura” rebelde que a circunda. Ele apenas a segue até a sala de controle. Rinoa desativa facilmente a primeira camada de selos que protegiam a tumba de Adel, depois torna a estação inoperante e em conseqüência a lua fica sem comunicação com o planeta. Ela se dirige aos vestiários e se veste com uma roupa de astronauta. Consegue evadir pelos dutos de ventilação. Squall continua a segui-la, mas não pôde fazer nada contra as ações daninhas de Rinoa. Quando ela sai da atmosfera lunar e se encontra em pleno espaço sideral, tudo o que Squall pode fazer é assistir horrorizado o corpo estranho flutuante – ele se aproxima da tumba desguarnecida de Adel e quebra um a um os selos mágicos reminiscentes, como se fossem meras armadilhas de rato. A única alternativa de Squall, sem outra veste adequada para a exploração espacial ou um cabo comprido o suficiente que o mantenha atrelado à estação, é usar um dos pods, pequenos veículos, que comportam três assentos, ao lado de Selphie e Ellone, para se aproximar da tumba e tentar prevenir a catástrofe maior que se desenha.

Ao mesmo tempo, uma horda de monstros nasce, como se plantas fossem, da superfície lunar, e se dirigem ao planeta. É isso que os humanos e principalmente a informada e previdente Edea chamava em seus murmúrios de Choro da Lua, outra hecatombe desastrosa e simultânea com as ações comatosas de Rinoa, ambos atuando em sincronia para causar a destruição do espaço-tempo como se o conhece. Depois de “cumprir seus desígnios” como um peão sem vontade própria num tabuleiro que excede todas as individualidades em luta, liberando o cadáver de Adel do selamento mágico, Rinoa é repelida da tumba e reconquista o estado consciente.

No pod, Squall e Ellone, observando a curta distância, tentam entender o que se passou com Rinoa. Squall tem uma experiência mística: vê a vida de Rinoa através da perspectiva de outras pessoas com quem ela convivera, por exemplo quando convenceu Irvine a voltar à Prisão do Deserto para resgatar o time SeeD sob custódia de Seifer e Edea, mas também o momento em que Zell confidenciava com Rinoa sobre fazer uma cópia do anel de Squall, o Griever, a fim de que ela tivesse sempre consigo um item que remetesse a Squall.¹ Ellone também participa desse estranho fenômeno e enxerga o momento da derrota de Edea, enquanto possuída por Ultimecia. Ela compreende o que se passou com Rinoa esse tempo todo a partir do coma: a essência de Ultimecia saltara de Edea para Rinoa, e agora de Rinoa para o corpo libertado de Adel. Ela foi um instrumento passivo do grande plano da entidade para assumir o controle da existência. Rinoa podia ser esse vaso comunicante porque desde sempre tinha o que era necessário para ser uma feiticeira, e todos ignoravam o fato. Fosse ele conhecido, a White SeeD também protegeria Rinoa, como fez com Ellone todos esses anos. Rinoa não terá como voltar à base e morrerá à deriva no espaço vazio, pois perdeu sua utilidade e é, para Ultimecia, agora, apenas uma casca.

¹ Esse detalhe é muito importante para entender o enredo do jogo que não é contado diretamente, i.e., fica nas entrelinhas (continue a leitura).

O som não se propaga no vácuo, mas Squall tenta chegar a Rinoa pelos poderes de Ellone. Ele sente que a temperatura corporal de Rinoa está em rápida queda e seu suprimento de oxigênio perto do fim. Eventualmente, ela faz sua última inalação com o tanque de oxigênio da roupa de astronauta, que garantia meia hora de fôlego. Ela fecha os olhos e o corpo deixa de responder. Os dois anéis que Rinoa estava usando, por cima da veste tecnológica (!!), o original de Squall (que ele deixou com seu corpo comatoso) e a réplica combinada com Zell, presos ao seu pescoço por uma corrente, quebram o elo e partem em direção ao próprio Squall. Miraculosamente, a voz de Squall parece reverberar agora, na mente de Rinoa, que ainda não expirou. O amor é mesmo afrodisíaco, amigos, até para os pulmões em situações críticas como esta! Rinoa se recorda (só agora!) que tem um tanque de oxigênio reserva na roupa e restaura a respiração, por pelo menos 5 minutos…

…Squall sabe que não poderá trazer Rinoa de volta nesse pequeno intervalo, mas não deixa de sentir que sua própria vida renasce ao perceber que Rinoa voltou a respirar normalmente graças ao segundo tanque. Ele decide se desplugar do pod num traje espacial (por conveniências da plot, havia um dentro do pod, sem o cabo!) e abraçar Rinoa, num último adeus, a ela e ao mundo. Ambos morrerão sem oxigênio e a à deriva. Decidiu-se, no meio do breu, da mesma forma como a nada se decidia enquanto habitava o planeta e fugia das responsabilidades e escolhas significativas… Seu último ato cimenta sua maturidade. Dessa vez nenhum novo tanque de oxigênio poderá salvá-los, será o fim do casal. Mas justo neste instante crucial uma das espaçonaves Ragnarok (utilizadas na última guerra) aparecem em órbita, prestes a cruzar com os pombinhos em sua trajetória errática pelo cosmo escuro. Eles conseguem ingressar no veículo. Parece que se despedirão em grande estilo em uma próxima oportunidade: ainda não era chegada a hora!… O mundo ainda precisa de ambos, além de um ao outro…

Ao verificarem que o interior da nave é respirável, desvestem suas “armaduras protetoras” e podem conversar com as roupas convencionais que usavam na estação há alguns momentos. Não demora muito até que percebam que a nave está sendo observada e perseguida por alienígenas chamados Progators. São adversários formidáveis, mas Rinoa parece conservar seus conhecimentos em magia, exatamente como Edea após perder a essência de Ultimecia. A sincronicidade do casal, ademais, é fator decisivo para obliterar as ameaças. Dirigindo a nave, ambos voltam seguros à lua. Já é hora, no entanto, de outra viagem mais importante: retornar a Esthar, onde a outra metade do cataclisma (o choro lunar) estava em curso…

Enquanto não chegam ao destino, sentam-se e conversam, sem inimigos para interromper o momento privilegiado. Squall parece ter se retraído novamente em sua concha de adolescente-problema, e não responde mais com afeição aos gestos explícitos de Rinoa, que senta em seu colo e o envolve em um terno amplexo. Eles não se beijam, nem Squall declara seu amor, aquele mesmo amor que ele declarara a uma Rinoa em coma, despersonalizada. Parece que o maior problema de Squall Leonhart é que tudo esteja finalmente bem! Há pessoas assim no mundo… De toda forma, com algum esforço, Squall começa a conversar. O tema escolhido é sua infância conturbada – isso demonstra que ele já pode se abrir mais do que no começo da aventura, ainda que continue sendo-lhe dorido. Squall desabafa sobre como, sem saber nada sobre seus pais e após ter pensado que sua única parente o abandonou cedo na vida, ele finalmente se sentiu menos sozinho no orfanato. Mas ele nunca superou de verdade a ausência de Ellone, e como um porco-espinho evitava se abrir, com receio de se machucar na mesma intensidade outra vez. Rinoa, esta pessoa colada a seu corpo, foi a pessoa responsável por curar sua resistência, por enferrujar as dobradiças dessa pesada porta de uma escotilha de memórias amargas… Rinoa é bem mais direta: diz que se sente a pessoa mais confortável do universo estando abraçada com a pessoa que ama e em quem aprendeu a depositar confiança incondicional, a despeito de saber que é terrivelmente difícil tratar com essa mesma pessoa em termos diretos e francos; e essa pessoa, Squall, sabe como poucos deixar a cabeça de uma garota zonza, esse é sem dúvida seu pior defeito – agora Rinoa o expressou abertamente ao amado.

A beleza do momento é interrompida pela população de Esthar, quando a nave aterrissa, que temia justamente o que está prestes a acontecer: uma Rinoa viva e de volta ao planeta, a pior das ameaças, visto que já entenderam a relação estabelecida entre Rinoa e Ultimecia, mesmo que Rinoa não tenha dado seu consentimento a nada.

Rinoa se entrega voluntariamente, admitindo que agora, depois de suas últimas experiências, possui os poderes de uma temível feiticeira. Ela está em pânico sobre o futuro e se pudesse escolher só gostaria de reviver os efêmeros instantes que lhe restam ao lado de Squall, como esta cena tão familiar e inofensiva no assento da nave… Squall admite que está apaixonado (ele é um pouco lento, o leitor talvez tenha diagnosticado neste ponto da trama!) no momento do pouso da nave Ragnarok, e se sente em completa confusão sobre que atitude tomar, porque para ele existe Rinoa e existe o mundo, e ele não sabe, talvez, como fazer os dois interagirem de forma sadia ou natural. Ao mesmo tempo que não pode deixar Esthar com Rinoa (“Deixa Esthar!”), ele não toma nenhuma ação, assiste sua amada ser conduzida pelas tropas do império, a fim de ser selada, como fôra Adel no passado. Rinoa tenta devolver o anel original de Squall. Ele, de modo frio e em completa contradição com o turbilhão de sentimentos que o domina, diz que está tudo bem que o objeto fique com ela, e ambos se despedem num tom triste. Mas é neste momento em que parece ter covardemente desistido de tudo que Squall divisa um plano tão genial quanto diabólico para virar a mesa, num átimo, e num golpe napoleônico de seu inconsciente relutante.¹ Então ele se deixa vencer pela apatia aparente e retorna à nave para sofrer seu luto.

¹ Essa é minha interpretação do enredo – o tal plano será explicado abaixo!

Os demais SeeDs reúnem-se com Squall. Selphie está inteira, e feliz de ver que seu líder também sobreviveu à viagem no pod. Ela quer saber o contexto da situação, o paradeiro de Rinoa, etc. Interrompendo este diálogo os demais surgem excitados, descrevendo como Edea enfim se livrou de seus poderes (em prol de Rinoa, é o que eles ainda não sabem); tudo sobre Lunatic Pandora… Squall parece não estar presente em toda a cena, pois escuta e não escuta ao mesmo tempo. Com um extremo último esforço ele “descongela” e solta a língua: Rinoa é a nova feiticeira e será selada. Os outros têm sua atmosfera de ânimo e otimismo esmagada num instante. Não podiam ter adivinhado esse desdobramento, muito menos a apatia de Squall diante do acontecido. Justo de Squall, o mais interessado em Rinoa. Quistis tenta acordá-lo com palavras duras: Você é um idiota, por acaso? Por que você deixaria que levassem Rinoa?! Como que se esquecendo de que ele tem um plano muito maior em execução (pois agora não se trata mais de individualidades, está tudo conectado) que não necessita, e até exige, que nenhuma intervenção (pois ela “já aconteceu”) seja realizada, ele “volta a si”, reinterpretando seu personagem: Squall se arrepende de ter se rendido, de não ter convencido Rinoa a resistir, e quer se juntar aos demais para salvá-la – missão impossível e inócua, já que Rinoa é a feiticeira e sempre precarizará o balanço da paz deste mundo. Selphie também retoma o otimismo que sempre lhe soou característico, principalmente quando exagerado: é o seu jeitinho. Ela assume como que a postura de líder interina do grupo, mostrando-se mais vivaz que o próprio líder literal Squall, e os SeeDs partem rumo ao Memorial da Feiticeira, lugar da cerimônia de selamento mágico.

O resgate foi mais simples do que se poderia prever. Rinoa cai nos braços de Squall. Alguns guardas sobreviventes tentam evitar que a tropa escape, mas neste momento o próprio Laguna intervém, embora incógnito aos demais. Rinoa pede para ser levada até o orfanato, ironicamente ela, a única que não cresceu com todos os demais, porque gostaria de passar um tempo sozinha. Squall e Rinoa conversam deitados sobre um lindo tapete de flores. Rinoa sabe que está, e estará, em perpétuo risco: poderão seqüestrá-la ou ela simplesmente pode se tornar de repente maligna. Squall responde, tirando confiança de sabe-se lá onde (eu sei: do plano que ele divisou em silêncio, e do qual não só ele mas inúmeras entidades participam, em conciliábulo), que nada disso terá lugar, que mesmo que tivesse de encarar o resto do mundo ele permaneceria a seu lado irremediavelmente, sendo seu cavaleiro branco, mesmo se ela se tornasse o maior inimigo da humanidade. (Mesma frase que usou, sem qualquer veracidade de conteúdo, no primeiro encontro com Rinoa, quando ela era apenas uma cliente de novos recrutas da SeeD – mesma frase que Seifer pronunciou ao se filiar à Edea maligna, apenas repetindo maquinalmente um diálogo dum filme… gravado por Laguna… As conexões começam a despontar aos borbotões e apenas os mais indispostos para com a Square não enxergam um grande esforço de unidade na obra a essa altura.) Eles selam uma promessa: se Squall se sentir perdido, ela sempre poderá encontrá-lo neste campo florido; ele deve vir a este jardim e aguardá-la, se ela já não estiver. Desnecessário dizer que Rinoa não sairá do local por nada no mundo, metaforicamente falando.

Os demais chegam ao campo e interrompem as juras dos pombinhos: interceptaram uma mensagem de rádio de Esthar. Kiros e Ward precisam que eles regressem com urgência. As peças do quebra-cabeça vão se encaixando fenomenalmente apesar do qüiproquó tecnológico clichê! Todos os personagens dos discos anteriores estão ressurgindo no epílogo da estória, e os flashbacks adquirem total pertinência. Edea, ao se despedir do grupo, conta a seus antigos rebentos adotivos como seus poderes foram herdados 13 anos atrás após o selamento de Adel, e por uma segunda feiticeira anônima, para prevenir que seus poderes terminassem em qualquer outra criança, que não teriam culpa ou escolha – ela, pelo menos, era uma adulta e tinha uma resolução. A moraleja do relato de Edea é, para Squall: ela atravessou um período de incalculável sofrimento, mas se sua mente não sucumbiu foi porque existiam pessoas em seu entorno que amavam-na. Squall deve agüentar e lutar ao lado de Rinoa, mesmo que essa decisão reflita em tragédia para outros. É necessário prestar atenção em falas aparentemente absurdas, com pequenas minúcias, como essa, para entender que todos estão participando do plano de Squall, involuntariamente. Ninguém se perguntou que feiticeira misteriosa visitou Edea no orfanato: havia questões mais prementes com que se preocupar!

Aqui todos se reúnem com o Presidente Laguna, cara a cara, a primeira vez no jogo. Laguna era a personalidade que – inutilmente, pelo visto – se mantinha na lua guardando o túmulo de Adel, o líder da república popular de Esthar. Squall está incrédulo, mas ao mesmo tempo deixa-se levar, está de guarda propositalmente baixa, sabe que Laguna “é de confiança” (como jamais saberia, há alguns dias). Aliás, ele é Laguna também. A informação é de que Adel, a original, confinou-se em Lunatic Pandora e Ultimecia tomou posse de seu corpo. Porém, Adel está fraca, e o que falta para Ultimecia lograr seu plano de compressão do tempo é revitalizar os poderes adelianos. Essa parte Squall ouviu com muita atenção e entendeu sem precisar pedir qualquer esclarecimento adicional. Ultimecia tem um último trunfo para garantir que o corpo de Adel receba o máximo de poder: ela precisa possuir Ellone para viajar ao passado, etapa 1 do seu plano de Compressão do Espaço e do Tempo: partindo do ponto mais remoto, achatará todo o passado, fundindo-o com o presente e o futuro a fim de consumar a coexistência absoluta do Todo consigo mesmo(a) (condição do presente eterno). E para chegar a esse resultado perfeito, ela conta com uma máquian do tempo que ainda será desenvolvida no futuro baseada no padrão cerebral único de Ellone. O único porém de toda essa maquinação bizarra (com o perdão dos infinitos trocadilhos possíveis: máquina, maquinação, Maquiavel…) é que ela necessita de Ellone agora como o gatilho do fenômeno final e definitivo. Ninguém sabe por que ela quer realizar a compressão do tempo (apenas quem participa do plano de Squall num nível mais consciente, que anteciparemos agora: Laguna, Edea, Julia, Rinoa, a própria Ellone… – mas isso não é dito em voz alta, no jogo, nunca). A “máquina do tempo” é apenas um objeto que recebeu/receberá junction da magia temporal (Time magic) exclusiva de Ellone, respeitando o cânone e as regras de poder criadas para o jogo. E Ellone precisa levar Ultimecia para o passado porque no passado Ultimecia possuirá/possuiu, em seqüência, Adel, Edea, Rinoa… e por último novamente Adel, embora não faça diferença “quem é”, mas por que é cada indivíduo em cada momento.

Laguna, ciente de que os SeeDs não aceitariam partir numa missão suicida a menos que houvesse bons motivos para tal (exceto, claro, Squall), e podendo contar para isso com a erudição de Odine, diz que a única maneira de matar Ultimecia (A etimologia do nome da maga é clara: a máquina definitiva, ultimate mech; essa é a razão para ela pronunciar ‘k’ no lugar de ‘c’: seu nome deve ser entendido, nem que apenas conceitualmente, como Ultimekia, como pronunciaríamos se fosse escrito Ultimechia, não permitindo, esta interpretação, outro significado para a segunda metade de sua denominação)¹ é justamente caindo na armadilha de permitir a compressão temporal. O corpo verdadeiro de Ultimecia, que precisa ser destruído, se encontra apenas no futuro remoto, época em que ela nasceu. É óbvio que para que todos viajem ao futuro será preciso “pegar carona” na compressão temporal, que é em si uma viagem no tempo (e muito mais). Podemos dizer, a propósito, que toda viagem no tempo é apenas uma modalidade de compressão temporal, a magia mais poderosa neste universo. Só o que o grupo pode esperar fazer é matar o corpo de Adel antes que ele acorde como Ultimecia em Pandora, forçando Ultimecia a possuir Rinoa, o único receptáculo disponível após a extinção de Adel. [ (Já que Ellone é como que ‘outro caso’, na verdade uma outra metade do ‘combustível’ mágico de que Ultimecia necessita a fim de comprimir o tempo, e agora Edea não possui mais as condições de ressuscitar seus poderes, além de estar longe de Pandora durante a missão, tornando Rinoa o último alvo útil possível, com efeito.) Essa seria a armadilha para Ultimecia, barganhar com o mais valioso (para Squall)…

¹ NOTA SOBRE DISCUSSÕES (SAUDÁVEIS) EM TRADUÇÃO! Incluirei aqui, por questão de modéstia, hipóteses externas acerca da etimologia da palavra Ultimecia. Senta que lá vem estória…

Na mitologia gregaa houve um rei chamado Mausolus, cuja esposa e portanto rainha – que incidentalmente era, err, sua irmã – se chamava Artemisia. Quando Mausolus morreu, a dor que se apoderou de sua irmã-consorte foi tão pungente que a teria levado à loucura e à megalomania: ela resolveu consagrar a seu amor o maior túmulo jamais construído, na obra que a imortalizaria, gesto mais importante de sua existência. Durante a construção do mausoléu por seus subordinados, Artemisia era vista até mesmo bebendo todos os dias água ou o que mais lhe aprouvesse com o acréscimo, a cada oportunidade, na taça, de um naco das cinzas do corpo de seu cremado marido (detalhe insólito). (a nota de rodapé é grande e continua no próximo parágrafo, não esmoreça!)

[a Observação de cunho histórico ou pseudo-histórico: a teoria do lingüista-fã se refere a Mausolus e Artemísia como figuras legendárias, e nisso estou em completa concórdia – outras fontes consideram Mausolus uma figura que existiu realmente, como rei da Cária (Ásia Menor) no séc. IV a.C., que não era uma polis grega, mas parte do (nascente) Império Persa. Um dos motivos para meu ceticismo em relação à existência fática dessa biografia é que seu nome só existe em grego, o que validaria seu construto ser apenas uma fábula. Para a hipótese de ser uma figura histórica, que sempre há e não tenho o poder de invalidar, não concordo que o casamento ser um incesto seria um contra-argumento forte, tendo em vista que é um tabu verificado universalmente, mesmo que o conceito de irmão ou irmã dependa em última instância de regras locais: conjetura-se, dentre os que identificam o casal como monarcas verdadeiros do passado antigo, que este fôra um casamento meramente simbólico, i.e., arranjado. Isto é apoiado pelo fato de que não há registros de descendência (filhos entre ambos); a informação também fortalece a teoria de que teria sido apenas uma formalidade para a preservação do poder, como se verificou ou ter-se-ia verificado (sendo um casal que de fato existiu) posteriormente à morte de Mausolus, visto que Artemísia conservou o título de rainha, Artemísia II para ser ‘historicamente’ exato, até vir a falecer e a transmissão do trono recair para irmãs de sangue desta Artemísia. O que considero mais absurdo é que um tal monumento, comparável a um prédio – não a uma pirâmide egípcia, este sim um mausoléu milenar! –, só foi escavado no séc. XIX e mesmo assim só foram encontrados alguns poucos destroços. Fosse essa construção mais palpável, mais influente, teria sido mais citada ao longo da História…]

A construção teria durado de 3 a 4 anos, e talvez Artemisia tenha morrido antes de ver sua inauguração consumada. Mas o que importa para nós, neste artigo de Final Fantasy VIII que resolveu adentrar terreno estrangeiro (rs) e opinar sobre questões filo-arqueo-etimo-lógicas, é que Artemisia terminou como uma louca, mas louca e devorada de paixão (veja que na fábula isso cai melhor do que no relato historiográfico – acreditem comigo que é só um mito grego!), o que dá matizes muito mais belos a sua demência de fim de vida. O mausoléu não só era uma edificação considerável (de dezenas de metros, quase um cubo) como era adornada nos 4 extremos por homens e cavalos de mármore, o que unia os esforços dos melhores arquitetos e engenheiros com os melhores artistas plásticos disponíveis à côrte. Usuários da língua portuguesa (a absoluta totalidade de quem me lê agora, a menos que estejam usando uma ferramenta de tradução, o que não recomendo, pois deve desfigurar meu estilo!) já se deram conta que mausoléu decorre do nome deste rei (mausoleiona em grego), e que esta apaixonada esposa, apaixonada até a morte, é a figura de relevo aqui: ocorre que Ultimecia vem a ser uma transliteração válida do inglês para o japonês em katakana para Artemisia. ‘A’ e ‘U’ são usados indiferentemente na maioria das sílabas, assim como ‘I’ e ‘R’, como pares com pronúncia parecida em japonês. O spell de Ultimecia chamado Ultima foi inclusive transliterado oficialmente em inglês para Atma e Altima (erros reparados em atualizações do script). Até ‘E’ e ‘I’ são intercambiáveis, para ser sincero (o japonês é fascinante – infelizmente eu não conheço nada na língua mais do que qualquer otaku levemente interessado…). Por fim, (quanto não me custou essa generosa nota para a fluidez do meu já truncado relato do enredo!!!!) ‘C’ é uma solução de transliteração (não a melhor, lógico, mas vê-se que pode ter ocorrido) para o ‘S’ de Artemisia. De todo modo, o –shi– mais comum da língua oriental foi preservado na pronunciação final: A-ru-ti-mi-shi-a. Aqui, para quem não tem nenhuma familiaridade com o japonês, pode-se estar pronunciando tanto Ultimecia quanto Artemisia, isso é inegável. O que eu nego é que essa seja a etimologia de Ultimecia – mas há quem compre esta hipótese, e eu a citei para vocês!

[a Squall Leonhart… Curioso derivar o sobrenome de um JAZIGO, exclamariam alguns fãs desconfiados…]

Os defensores dessa curiosa possibilidade alegam que estátuas presentes nas quinas do castelo de Ultimecia in-game são provas em favor da gênese do nome. O telhado de ambas as construções (a descrita pelos mitólogos/arqueólogos e a do game) também compartilham similitudes desconcertantes. Antecipando o que discutiremos somente mais tarde, a conexão com Rinoa aqui é que assim como Artemisia ela lamentaria profundamente (grieved, griever) a morte de Squall e a impossibilidade do reencontro no campo de flores, se o jogo tivesse apresentado este cenário (ela com certeza se tornaria insana como a Artemisia mítica!).

Mais uma analogia que não consigo decidir se é forçada ou simplesmente evidente demais para meu próprio gosto (o que enfraquece minha teoria da ÚLTIMA MÁQUINA descrita acima, nem que apenas um pouco!): Mausolus e Artemisia eram irmãos. Rinoa e Squall… bom, aí é que está! Não é possível um casal sem nenhum traço incestuoso estar mais próximo do parentesco de irmãos do que estes dois, propositalmente, de acordo com o cuidadoso enredo da Square: o pai de Squall, Laguna, e a mãe de Rinoa, Julia, foram um par romântico, o primeiro da estória, em ordem cronológica, e por circunstâncias do acaso ou do destino não terminaram juntos. Mas a cria de cada um voltou a se reunir – talvez uma teoria digna de ser deslindada num Banquete à la Platão, durante a fala de Aristófanes (o retorno ao ser circular perfeito). Mas fiquemos por aqui quanto a isso… Curiosidade adicional: em algumas traduções européias (Alemanha e Itália), Ultimecia foi REALMENTE transliterada (assumidamente um erro) como Artimesia, quase lá!

INTERMEZZO DA NOTA!— Avalio a qualidade ou probabilidade desta teoria abaixo:

COMENTÁRIO (SEMI-)FINAL: Essa etimologia é mais fraca e improvável que a minha, como fui deixando claro enquanto a explicava em letras douradas – mas é digno de interesse saber que quanto maior validade ela tiver mais provável é a hipótese de que Squall morre no final do primeiro CD após o ataque de sua mãe adotiva Edea (Ultimecia em última instância), e portanto todo o plano de compressão do tempo seria de Rinoa/Julia no lugar de Squall/Laguna como protagonistas do jogo (um prejuízo que eu estaria disposto a aceitar, ainda mais tendo em vista que esta é uma teoria fan made muito popular até hoje, e, como dizem, debunked, refutada, oficialmente – volto a chamar a atenção para a estranheza de uma possível etimologia do sobrenome de Squall estar ligada a ‘mausoléu’)! De qualquer modo, o crucial (que a motivação de todos os embates é um amor inesquecível que quer perdurar no tempo) não é demolido, pelo contrário, neste segundo caso é até reforçado! Ou seja: mesmo se eu sair perdendo, eu saio ganhando – péssimo dia para meus haters!

Dito isso, e ainda na nota de rodapé anterior, outra possível etimologia de Ultimecia apontada é… Artemisia Gentileschi (1593-1656(?)), esta sim 100% confirmada como figura histórica e não apenas mitológica, pintora barroca, uma das poucas figuras femininas da época a se destacar na mesma arte de Caravaggio. Reabilitada muito tempo depois de sua vida graças a (novidade!) uma cultura extremamente patriarcal, um longa-metragem sobre Artemisia Gentileschi foi lançado em 1997, curiosamente bem a tempo para se tornar fonte de inspiração para o enredo de Final Fantasy VIII. Apesar de ser prematuro dizer que este filme ou o conhecimento da vida da pintora tenham chegado aos “quartéis” da Square (não há declarações atestando o fato), é de bom grado lembrar que FF8 possui uma das plots mais voltadas ao Ocidente de toda a franquia…

Gentileschi sofreu bastante durante sua vida, pode-se dizer que foi uma “vítima cruel do destino”. Por causa de um estupro, esteve fadada a morar em diferentes lugares, e ter sua arte validada pelo “homem branco europeu”, inclusive o italiano – seu compatriota –, apenas mais de três séculos e meio após sua morte, sendo generoso. Todo esse contexto não é estranho às circunstâncias da aparição de Ultimecia, que é um acontecimento profetizado no enredo de Final Fantasy VIII, e ambíguo ao extremo: o combate a Ultimecia, no passado, é provavelmente o que mais alimentou o ódio a seu nome e à linha sucessória das feiticeiras, fazendo com que sua aparição no futuro sofresse o impacto desse próprio ódio fanático [FON]. Mais um caso clássico em que o combate a um mal é o próprio responsável por sua produção (cânone do gênero tragédia), embora com o acréscimo do cenário de “viagem no tempo” e embaralhamento das concepções tradicionais de causa-efeito (imaginem um Édipo que conheceu, por artes mágicas, uma versão mais jovem de sua mãe… urgh! isso nos repugna até num nível meramente estético)… Retroativamente, as ações de Ultimecia, aparentemente tirânicas e absolutistas, podem ser “justificadas” e defensores de suas ações podem alegar que ela agia em legítima defesa quando tentou criar sua compressão temporal na geração de Laguna, Squall, Rinoa & os outros… ou pelo menos seria um caso de vendetta, diferente da própria Kaguya de Naruto, que eu citei no review principal, que apenas se tornou uma entidade senil incapaz de cultivar ternura por seus filhos…

Mais elementos dentro do jogo para apoiar esta terceira proposta etimológica contida nesta matéria: muitos quadros ou pinturas adornam os corredores do castelo de Ultimecia pré-confronto final.

Quarta teoria: Ultimecia viria a ser apenas uma simples derivação de Artemis, deusa da lua – a lua é um importante elemento da estória de Final Fantasy VIII. Mas isso é tudo.

Uma teoria que mal classifico como teoria, pois não merece a designação de uma quinta teoria no mesmo extrato, embora soe interessante: Ultimecia parece ‘paramecia’. Paramécio em português é um protozoário, organismo unicelular, potencial origem de toda a vida na Terra, sendo a idéia de “retorno ao Uno” algo comparável ao plano de Ultimecia. Ok, o charme por trás desta última hipótese (não a hipótese em si, muito arbitrária para meu senso seletivo) “me comprou” e “seduziu”, me fez torcer um pouco pela sua plausibilidade… ainda mais vindo da Square dos anos 90 (que criou o roteiro mitocondrial de Parasite Eve, que fez um então pré-adolescente como eu ter interesse por biologia celular ainda no ensino fundamental, não pouca coisa!)… mas isso ainda não explica tão bem a idiossincrasia do ‘k’ nos diálogos tão bem quanto minha assertiva, dentre outras desvantagens resultantes em abandonar minha proposição quase invencível!

—FIM DA EXAUSTIVA NOTA SOBRE AS POTENCIALIDADES (E PERIGOS) DAS TRADUÇÕES!—

Já que deixamos o assunto principal de lado por demasiados parágrafos, reprisemos a última frase do roteiro, em que havíamos sido (auto)interrompidos pelo meu interesse excessivo nas opiniões dos outros: Essa seria a armadilha para Ultimecia, barganhar com o mais valioso (para Squall)… E continuemos a partir daqui:

Ao mesmo tempo…¹ O importante é que o grupo possui Ellone, que poderá enviar Ultirinoa ou Rinomecia ao passado mais remoto no invólucro de outra feiticeira, talvez Adel, talvez Edea, condição que Ultimecia acredita ser o sine qua non de sua operação-compressão,² ] uma vez que Rinoa é uma jovem sem experiência, possivelmente sem o mesmo poder máximo manipulável por Adel. Dessa forma, Ultimecia teria de escapar do corpo de Rinoa, salvando sua vida (o que ainda deixa alguns de nós no escuro sobre… — em poucas palavras, …para onde iria Ultimecia, que é imortal e ficaria sem receptáculos… e cujo corpo ainda não apareceu… ??? Os mais intrépidos, entretanto, já entenderam onde os nós se atam em todo esse imbróglio fantástico! Este é o plano público e oficial, mas Laguna e Squall sabem que Rinoa não é periférica para Ultimecia (nem no sentido de ser “o que acabou sobrando no banquete das feiticeiras”), e talvez não seja inferior a Adel em poder, de forma que matar Adel só se justifica para que Ultimecia use especificamente Rinoa! É até incrível como o resto do bando conseguiu engolir o plano tão facilmente, sem um olhar crítico, sem uma objeção sequer… Mas lembre-se: o grupo reflete o inconsciente e o estado de ânimo de Squall, e só irá contrapô-lo severamente quando for para reuni-lo com Rinoa.

¹ Seria inútil se aprofundar agora – comentaremos mais tarde!

² Este evento cancela qualquer relação de causa e efeito no mundo do jogo, já que agora todo outro evento anterior ou posterior pode ser considerado com igual justiça a causa primeira do devir universal. Mais detalhes a seguir! Repare, no entanto, que toda essa explicação de Laguna/Odine é supérflua e até mentirosa, pois há um desnecessário prolongamento do combate e da invasão de Pandora quando se inserem as condições impostas entre colchetes (os colchetes amarelos em negrito), sendo que sem realizar essas etapas o desfecho seria exatamente o mesmo: Rinoa tem de ser possuída por Ultimecia, não importa quando (literalmente)! Até porque… tomando-se como pressuposto que as feiticeiras são imortais (o que fica subentendido o jogo inteiro)… Adel não poderia ser morta e a missão seria um fracasso se não houvesse a presença de Rinoa em Pandora!! Entendeu agora por que Ultirinoa e Rinomecia, dois neologismos improvisados meus, passam a fazer cada vez mais sentido conforme a plot se agrava, i.e., vai chegando a seu clímax?!

Como o próprio Squall Leonhart, ninguém hesitaria em sacrificar o mundo a Ultimecia, desde que pudesse salvar o casal… Segundo o plano, Ellone deveria trazer todos da equipe ao presente neste instante da batalha (quando Ultimecia voltasse a residir na íntegra em Rinoa), ao passo que Ultimecia//Rinoa seria arremessada a contragosto para o futuro (ou se auto-lançaria, dependendo do quanto ela tem consciência de que sua compressão do tempo deixa as noções de passado-presente-futuro indiferentes…) – mas neste momento não importaria essa dicotomia (ou tricotomia, verdadeira raspagem!) por mais do que poucos segundos, afinal todos os tempos estariam rapidamente se fundindo num só. É nesta etapa (início da compressão, vulgo apocalipse irrevogável) que Ultimecia deve ser morta, pois antes, em toda a estória, ela só estivera e estará usando o corpo de outra feiticeira.¹ Outro ponto-chave do plano: para sobreviver neste ‘mundo’ [ZA UARUDO!!!] (o da compressão absoluta do tempo), será necessário focar mentalmente num lugar único, em que todos se sintam reunidos e ‘existindo verdadeiramente’, seres-no-mundo-e-com-os-outros-seres, como diria um Heidegger (não o de Final Fantasy VII!)

ZA UARUDO (este artigo está muito é zoado!)

¹ Será? Se eu fosse Selphie, Zell ou Quistis teria muitos motivos para duvidar de Laguna e Odine: Como vocês, por quase duas décadas enterrados em Esthar, adquiriram todos esses conhecimentos transcendentais?! É muito conveniente que – a nova dimensão achatada – Ultimecia possa obter duas, e não apenas uma vantagem (o que se torna uma desvantagem, desde que o time SeeD possa finalmente matá-la, i.e., ela perde a imortalidade ao estar na iminência de concretizar seu processo de tornar-se deus, o que não faz sentido do ângulo da batalha militar!): 1. recuperar seu corpo original (mais poderoso); 2. arrematar a junction da magia supercompressora de Ellone (que, graças à perda da imortalidade, a “enfraquece”)! Jornada à procura do rolo compressor perfeito!… Assim deveria ser o subtítulo de Final Fantasy VIII… Rolo compressor: sim, isso foi uma JoJo Reference… É conveniente demais para a própria Ultimecia cair como um patinho nesse plano, deixando Rinoa livre… Talvez porque ela queira?! Talvez porque ela seja Rinoa Heartilly? Inútil falar disso agora, continue lendo!

² Muito conveniente. Normalmente diríamos que é para que o enredo “feche”. Questão de plot armor. Mas lembre-se que os pré-requisitos são todos idênticos às condições para sobrevivência da relação Squall//Rinoa. Além disso, numa nota extra, lembre-se que durante o retorno de Squall e Rinoa da lua, na Ragnarok, ainda faltava atar o conceito de ser-no-mundo com o de ser-com (leitores de Martin Heidegger entenderão!).

O grupo prosseguindo à missão, os primeiros adversários em Pandora são Biggs e Wedge. (Alívio cômico bastante necessário a essa altura, após tantas convoluções – senão no game, no meu artigo!) Ellone vinha sendo mantida refém por ninguém menos do que Seifer na fortaleza. Um personagem que perdeu relevância na estória e já não é mais do que um figurante – um inimigo a mais. Como punição por seus atos megalomaníacos, Seifer é abandonado por seus dois principais asseclas dos tempos da Garden, Raijin e Fujin, que tinham-no apoiado diretamente ou ao menos tentado suavizar seus malfeitos até ali. Num covarde e irônico “ato final”, Seifer toma posse de Rinoa (a reunião do casal que estava fadada ao fracasso, como contraponto da relação idílica desenvolvida por Rinoa e o protagonista), i.e., toma-a sob custódia física, para que Rinoa seja verdadeira e espiritualmente possuída por, no momento, Adel (Ultimecia-Adel), conduzindo-a ao corpo de sua “mestra”. A “fusão” se consuma.

O grupo batalha contra uma Adel rediviva, mostrando que a primeira etapa do plano havia falhado – ou que ela era apenas um decoy de Laguna/Squall… No fim, Seifer fez algo redundante que só fazia parte do plano desde o início. Adel se converte num monstro e Rinoa se encontra atada a seu centro, como uma espécie de Cristo crucificado, anexo do próprio monstro. Se os SeeDs atingissem Adel indiscriminadamente, matariam sua companheira. Os poderes de feiticeira de Rinoa vão sendo sugados conforme a batalha anda e desanda. Mas Adel é definitivamente derrotada no presente e Rinoa escapa ilesa, embora debilitada. Ellone e Laguna, também em Pandora, colocam o plano na segunda marcha. Neste momento os guerreiros encontram-se no passado, graças aos poderes de Ellone. Depois que a mágica é revertida e Rinoa devolvida ao tempo presente, Ellone e Laguna deixam Pandora (convenientemente!), Laguna não se esquecendo de declarar, por último, que é crucial que os SeeDs sigam seu conselho de pouco antes: foquem nos sentimentos que unem o grupo, o amor e a amizade (o campo florido do orfanato, em essência, o local e o tempo eternos deste grupo de pessoas, o símbolo da união de ‘todos em um’).

Sub-repticiamente o grupo encontra-se caindo no vácuo, fora da realidade material estável. Imagens e memórias de todos os tempos são projetadas dentro de espécies de bolhas que circundam o éter (a-)temporal. Uma versão distorcida da música do baile em que Squall e Rinoa dançaram no primeiro encontro ecoa. Agora todos estão submersos na água, talvez a água primordial dos tempos. Rinoa se angustia, temendo deixar de existir nesse ínterim. Squall segura-a pelo pulso e transmite palavras de conforto.¹

¹ Essencialmente o mesmo papel desempenhado por Tifa em relação a Cloud no Final Fantasy pregresso.

Os seis voltam a se reunir num cômodo banhado em intensa e cegante luz branca. É a sala de Edea no Palácio Presidencial em Deling City, outro ponto-chave de sua trajetória enquanto grupo que ia paulatinamente se entrosando. Explorando o recinto, Edea em pessoa surge, começa a rodar por todo o perímetro, e multiplica-se em uma miríade de projeções de si mesma. Mas é Edea? Ou são figuras com o aspecto de Edea? Em seguida, reunifica-se sob a aparência de uma mulher com um robe vermelho não-característico das culturas hodiernas do planeta. Significaria que é uma manifestação de sua versão feiticeira que não pertence a este tempo? Ou é Ultimecia?! Onde está Rinoa? O grupo tem de lutar contra essas representações, que não parecem se identificar com a Edea real, e nem com Ultimecia (?). O confronto é mais duro e dura mais tempo – fora do tempo, se é possível dizê-lo – do que os invasores de Pandora poderiam imaginar…

A luta prossegue com mutações de cenário. Winhill, Balamb Garden, Trabia Snowfield…, mas após algumas mutações todos os cenários vão derretendo e se distorcendo. Paredes se convertem no chão, prédios se contorcem e fundem-se em massas de concreto liquefeitas, umas chocando-se gravitacionalmente contra as outras. O céu e a terra começam a se fundir.¹

¹ Alusão ao mito grego da criação: está refeito o abraço entre Gaia e Urano; Zeus, o soberano atual (do presente que não é superimposto por passado e futuro), garantidor da ordem, não exerce mais poder sobre o mundo!

Depois desse show de horrores os personagens controláveis, os “mocinhos da estória”, parecem estar além do futuro e do passado, no próprio centro do processo de compressão temporal: Ultimecia aparece sob a forma de um dragão. Será seu corpo genuíno? Após outra difícil batalha, o entorno se acalma por um tempo (fora do tempo), e o grupo tem um descanso da refrega. Eles se encontram reunidos no campo florido do orfanato. Há uma praia não muito longe, e eles caminham até ela: ali jazem os corpos dos SeeDs do futuro que morreram combatendo Ultimecia no passado (de Ultimecia!), horripilantemente decompostos, trucidados. De repente os SeeDs do presente, os heróis da história e a esperança ainda viva, não estão mais numa praia, mas dentro de um castelo maciço. O verdadeiro corpo de Ultimecia reside neste castelo. Blá, blá, blá… A este ponto a vertigem dos guerreiros batalhando em ambiente tão hostil e ilógico deve ter também atingido o leitor e jogador!

Quase todo o mundo conhecido foi sufocado por um miasma branco, supressor da vida. Por algum motivo, a nave Ragnarok e todos alojados na estação móvel de Balamb permanecem inviolados, sugados pela magia da compressão temporal. Neste mundo comprimido não é possível usar magia, da qual os guerreiros da SeeD se tornaram extremamente dependentes ao longo de sua hiperbólica jornada.

Em sua primeira forma, Ultimecia parece uma mulher elegante, como todas as feiticeiras já retratadas no jogo, muito bem-vestida e manifestando uma aura intensa, sem dúvida a mesma de Rinoa no incidente lunar, mas muito mais potencializada. Ainda assim, o inimigo se assemelha a um humano. A segunda forma de Ultimecia, após ser castigada pelos ataques físicos da trupe, é revelada utilizando seu Guardian Force todo-poderoso, Griever. Trata-se de uma espécie de quimera ou leão alado. Porém, o terceiro estágio da batalha se dá quando o GF e Ultimecia se fundem. Mesmo quando ela sofre danos e tem de ejetar o Griever, morto, uma quarta manifestação ocorre: ela mesma agora tem semelhança com um anjo bíblico da tradição descritiva semítica. O fim de Ultimecia após uma encarniçada troca de golpes “no reino do nada e do tudo sintetizados”? Rinoa é uma das seis combatentes, o que significa que não pode mais usar magia. No entanto, terá ocorrido a alguém do grupo que o corpo de Ultimecia era imortal… Ou melhor dizendo, que a essência de Ultimecia era imortal e que se seu corpo, em qualquer dos estágios enfrentados, deixasse de existir, ela forçosamente reencarnaria em Rinoa?!

Aparentemente ninguém sabia do fato, a não ser Squall, pois procedem ao golpe final: e ao desaparecer, o corpo de Ultimecia se converte numa explosão de luz saturada. Ultimecia deixa Squall & companhia num vazio branco. Eles começam a se concentrar, como incitados por Laguna. Squall se encontra sozinho, apartado dos demais, na representação visual do jogo, num vazio negro. (FF7 tribute, de novo!) Squall vê-se enquanto garoto no orfanato, 13 anos atrás, ao lado de Edea, mas algo está fora de compasso ou de ritmo. Pois o Squall adulto está lá também – é ele, com seus próprios olhos, que vê sua versão menor e sua antiga mãe adotiva; não é uma ilusão ou memória de um “terceiro olho” divino… Isso significa que há um hospedeiro para Ultimecia diferente de Rinoa agora…

Não só isso, como Edea – que pede para o pequeno Squall se afastar – e Squall Leonhart, o líder da SeeD que “veio do futuro”, são visitados por ninguém menos que Ultimecia, agonizante, em seu aspecto feminil, antropomórfico: Ultimecia lamenta não poder desaparecer, por ser imortal, e ter de levar adiante sua vontade. Essas palavras parecem reverberar de modo significativo em seus dois ouvintes. Aquela Edea não entende as circunstâncias tanto quanto aquele Squall, mas ela sabe instintivamente o que fazer: recebe, de bom grado, os poderes de Ultimecia para que seu corpo original finalmente pereça. Essa é a identidade da criatura que forneceu os poderes a Edea desde o princípio, que ela não quis revelar ao grupo no diálogo passado, e o plano de Squall desde há muito – porque já havia acontecido, e voltaria a acontecer, eis o time loop da trama. Depois de recuperar as memórias da infância, o Squall adulto sabia que, quando menino, seu eu mais velho o visitou um dia no orfanato, e então uma feiticeira apareceu. Isso era o suficiente para o Squall maduro concluir, após sua vitória sobre a Edea maligna, que ele mesmo havia atraído Ultimecia para que Edea, sua mãe adotiva, se tornasse… Ultimecia… no futuro, i.e., no passado. No rio congelado do destino. O Squall adulto, vendo a transfusão do poder e a “morte” de Ultimecia (que nunca morre), ouve daquela Edea da encruzilhada dos tempos a pergunta decisiva: Quem é você, jovem? Ainda havia trabalho a fazer. Ele responde que é o mesmo Squall Leonhart que com ela estava no jardim há pouco, só que 13 anos envelhecido, vindo de batalhas nos confins do tempo-espaço. Edea acredita na resposta. Squall acrescenta que Edea deve fundar a SeeD com base nas bases do Garden para “garantir o futuro” de todos. Edea também demonstra compreender a “necessidade” desse projeto ser executado¹ – mas logo diz que a presença de Squall ali é anti-natural e que ele deve desaparecer, se souber como fazê-lo. Com efeito é o que acontece, e Squall, o SeeD de 17 anos, não está mais no jardim florido de Edea, a jovem matrona, após alguns meros instantes.

¹ Mas como? Edea possui algum tipo de presciência ou precognição? Buraco do roteiro? Eu responderia “não” a ambas as questões. Na verdade às duas últimas. E quanto à primeira, como: Lembrem-se que Adel foi derrotada na Guerra da Feiticeira antes do começo da estória do jogo em si. Em tese, seu “cadáver” inane – à espera de uma transfusão dos poderes mágicos para outra feiticeira, que viria a ser Ultimecia – ficou selado no espaço, essa é a explicação explícita do jogo para os períodos de paz antes de Squall entrar em cena. Sem embargo, há um mistério aí, e creio que os desenvolvedores colocaram Adel na plot como uma solução de continuidade para esse problema das “transfusões”, além do papel que ela poderia desempenhar a contento no epílogo do game (ao fundir-se com Rinoa, dir-se-ia que Adel reabsorveu todo seu potencial em Lunatic Pandora, na penúltima batalha do jogo – depois Ultimecia faria o mesmo com Adel –; dessa forma não há nenhuma contradição com o fato de que havia 3 ‘feiticeiras em potencial’ no mesmo lugar, porque era sempre apenas 1 que atuava a cada momento), sem falar que Adel serve para justificar a existência de Laguna no jogo (Squall redobrado no próprio passado precisava que seu pai tivesse uma antagonista, como ele teve Ultimecia, assim como precisava que ele tivesse um par amoroso, como ele teve Rinoa, e as duas condições foram preenchidas): como quem “acorda” (embora não ‘completamente’) os poderes de Adel é Rinoa, com os poderes de Edea, que ganhou os poderes de Ultimecia graças ao time loop promovido por Squall… e sempre há apenas “uma feiticeira ativa de cada vez” (nunca 2 ou 0), ou pelo menos é estranho imaginar que entre o aprisionamento de Adel e a aparição de Ultimecia na realidade quando Squall tinha 4 anos não houvesse mais magia no mundo de FF8, sendo necessário, logicamente, que Adel passasse seus poderes antes de que alguém com poderes a libertasse (devolvesse seus poderes) para que ela passasse seus poderes… a conclusão mais pertinente com o enredo de FF8, sem estragar a narrativa, é imaginar que em Esthar ninguém sabia que não é possível deixar uma feiticeira inconsciente sem seus poderes (Rinoa comatosa ERA uma feiticeira) – ou ela vive empoderada e consciente, ou ela transfere os poderes e desaparece, não existindo uma solução intermediária ou terceira via. Destarte, o que aconteceu foi que os poderes migraram para alguém mais, sem conhecimento de ninguém… Edea recebeu os poderes de Adel no momento do suposto selamento bem-sucedido… Isso a tornava consciente de como funcionam os poderes de uma maga, tanto que ela aceita receber os poderes de Ultimecia para: 1) deixá-la partir em paz; 2) não “infectar” uma criança, comprometendo o futuro de uma pessoa ou menina-mulher inocente. Com Edea ativa desde a derrota de Adel na guerra, a sucessão dos poderes das feiticeiras não se quebra em momento algum da plot, e o time loop de Squall serve a dois propósitos em vez de três, isto é: 1) Ultimecia perde seu corpo originário; 2) Edea se torna a “nova Ultimecia”; 3) mas ele não torna Edea uma feiticeira, pois ela já era uma (há uma grande diferença entre se tornar uma – simples – feiticeira e virar hospedeira de Ultimecia, “a” maior feiticeira)! Em última instância, poder-se-ia dizer que os poderes de Adel se tornaram “redundantes” enquanto residiram em Edea, pois sua consciência maligna jamais despertou no outro corpo, e depois Ultimecia passou a preponderar em Edea; só que se Adel não tivesse passado sua essência mágica para Edea no momento em que a passou, Ultimecia não teria podido controlar Edea para controlar Rinoa para controlar a libertação (promover a ressurreição, seria um termo mais exato) de Adel, que nem precisaria ser ‘libertada’ caso realmente ainda possuísse poderes… e Adel os veio a receber de volta DE EDEA E NÃO DE RINOA (reversão da transfusão originária) quando foi libertada da prisão sideral, isto é, REVIVIDA como feiticeira (a única explicação possível é que estivesse todo este hiato morta e não só ‘dormente’)… e Ultimecia sequer teria como engatilhar a compressão temporal depois… Isso ainda explicaria por que Edea reteve seus GFs de forma consciente após ser derrotada por Rinoa, que entrou imediatamente em coma herdando seus poderes… até Adel sair de seu confinamento com ajuda da “primeira” metade dos poderes originais de Ultimecia (enquanto a “segunda” metade de ditos poderes seguiu com Rinoa até a batalha final – pois R. utilizou estes poderes contra os alienígenas no espaço, lutando ao lado de Squall –, i.e., até essa metade se reincorporar a Adel/Ultimecia), momento em que Edea voltou a ser uma “mulher normal”. Talvez Edea seja a única feiticeira que perde poderes sem ter seu corpo desintegrado OU ENTRAR EM COMA (como Adel e Rinoa)… simplesmente porque chegou a ter o poder de duas feiticeiras durante um curto período em sua vida?! No máximo, podemos admitir que duas feiticeiras coexistem com poderes “pela metade”, e não que duas feiticeiras completas existem simultaneamente. E outra implicação razoável parece ser que, seja com Rinoa, seja com Edea, só é possível usar GFs – verdadeiramente mágicos, não os artificialmente mágicos dos outros personagens – sem estar sob o controle de Ultimecia, a maga mais poderosa, se os poderes estiverem limitados à metade e divididos na atual era (Rinoa/Adel por um tempo; Edea/Rinoa por um tempo). Quando usou os GFs em capacidade máxima, sem dividir seu poder com mais ninguém, Edea era “escrava da consciência de Ultimecia”; o mesmo aconteceu com Adel no passado. Outra possibilidade, para espelhar o estado de saúde de Adel (clinicamente morta!): enquanto estava em coma e não respondia sonambulicamente a Ultimecia, Rinoa também estava… morta?! Honestamente, minha cabeça vai explodir, e não é devido a nenhuma magia… paro minhas especulações por aqui!

Epílogo do romance

Squall, de volta a um lugar e um tempo indeterminado, resquício, talvez, da compressão, agora testemunha Rinoa, que corre. O céu está tempestuoso. Rinoa descobre seu amante, a quem procurava em desespero, e grita por ele, a face úmida. Squall sente-se fraco, teme perder a consciência e não conseguir retornar… quando uma pena branca cai, e Squall a segura (mais um tributo a FF7). O céu se torna límpido e Rinoa e Squall estão de volta ao campo florido

A seqüência cinemática que segue poderia ser o futuro linear dos personagens, como poderia ser a compressão temporal de Ultimecia, inevitável, afinal, indistinguível que é da própria introdução: Rajin, Fujin e Seifer se divertem numa pescaria. Por que Seifer não estaria preso depois de todos os seus atos genocidas? Em Winhill vemos Laguna diante da lápide de Raine, mãe biológica de Squall e adotiva de Ellone. Ela foi enterrada com um anel que ele lhe deu de presente. Selphie é a cinegrafista de uma festinha privada dos vencedores, em Balamb. Irvine, Zell e Quistis participam, naturalmente. Na sacada, Rinoa e Squall se encaram de frente, em postura de amantes. Rinoa aponta, com seu índice direito na vertical, uma estrela cadente. Squall observa o astro, abraça e beija sua alma-gêmea. Balamb Garden, em modo vôo, circula rumo ao infinito.

FINIS.

[INT] INTERPRETAÇÃO & SIMBOLOGIA

[REL]

SOMEWHERE IN TIME: O RELÓGIO E A MOEDA:

o(s) anel(anéis) e o negro vazio fora do orfanato

Eis que Final Fantasy VIII flertou esse tempo todo com uma referência ocidental como chave para decodificar seu complexo enredo! O filme Somewhere in Time, de 1980!  

Como já ficou claro para alguns à leitura da sinopse mais acima, certos elementos podem ser interpretados seja contrastando várias “deixas” internas do enredo e ligando os pontos – isso nunca será uma ciência exata –, seja recorrendo a obras e referências externas. Para nossa sorte, os japoneses são muito bons nisso: em consumir cultura ocidental e usar em suas próprias obras. Final Fantasy VIII é absolutamente hollywoodiano. Tenho convicção, sem precisar pesquisar o catálogo de filmes vistos pelo principal game developer do título da Square, que este foi um dos longas que ele assistiu e tomou como inspiração para seu RPG/romance interativo (boatos de que para Squall & Rinoa a sigla RPG significa o seguinte: Romance: Perigoso Gostar!). Caso o jogador não esteja acostumado a “sair da casinha” da linearidade dum enredo, talvez este artigo seja o melhor achado a fim de apreciar tudo que FF8 pode oferecer. Até porque quando se fala em ficção científica a envolver viagem no tempo noções básicas de linearidade devem ser colocadas em suspenso, no éter da fé!

Somewhere in Time (localizado como Em Algum Lugar do Passado), de Jeannot Szwarc, do primeiro ano da década de 80, é um cult classic das short novels de amor e do cinema fantástico em simultâneo. Com menos de 2 horas de duração, seu enredo gira em torno de um casal improvável unido por uma viagem no tempo que não cria linhas temporais paralelas, fechando-se em círculo, o modo clássico e perfeito da viagem temporal, anulando causa e efeito e evitando paradoxos conceituais. Argolas costumam representar essa faceta: o círculo é a própria perfeição na geometria. Em Final Fantasy VIII o símbolo máximo do amor eterno entre Rinoa e Squall é um anel, uma esfera perfeita, tirante que é oca. No filme, esse aspecto é bem-representado por um relógio, mas não um relógio qualquer: um relógio de bolso, daqueles atados a correntes e de dar corda, sempre perfeitamente redondos. Um relógio de ouro, cujo valor real, por debaixo dos quilates, é inestimável.

A introdução de um objeto na narrativa pode ser considerada o aspecto central; podemos dizer que o casal não é o protagonista. Este filme é a “história de um objeto”, circulado por humanos e seus dramas. Desde que o relógio é entregue por uma das duas pessoas romanticamente envolvidas à outra (o que acontece de forma espelhada e dual no filme – e em FF8 também, com o anel, ainda que com a ajuda de Zell), em tempos diferentes de suas trajetórias pessoais, é impossível determinar “de onde veio o objeto” e “qual seu destinatário final”: o relógio, como presente (e não é à toa que o substantivo para dom, graça, oferenda que se dá sem pedir nada em troca, seja a mesma palavra para significar o momento em que se vive, antítese de passado e futuro), e as circunstâncias em torno dele, sempre existiram, tal e qual, sem modificação, reiterando-se indefinida e infinitamente, chancelando todos os outros eventos do antes e depois deste universo. O relógio de Somewhere in Time é o anel de Squall Leonhart, como já frisado.

Antes de continuar, devo dizer que o próprio filme não é um script original: foi inspirado num livro, https://en.wikipedia.org/wiki/Bid_Time_Return, que depois até mudou de nome graças ao sucesso (apenas póstumo) do longa-metragem. As diferenças entre ambos são marginais, de maneira que podemos nos concentrar na obra audiovisual, até por ser a mídia mais próxima de um videogame.

Christopher Reeve (sim, o Superman clássico) e Jane Seymour, além de serem os atores deste conto, também se apaixonaram e tiveram um caso na época das filmagens – quão “a vida imita a arte” ou “a vida é a própria obra de arte” isso não é?! Procedamos a um resumo mais direto:

Reeve (Richard Collier), um roteirista de peças de teatro (ou escritor, como preferir) recebe das mãos de uma velha, na 1a cena, o místico objeto. A interação entre ambos é curta, e ele sai sem entender nada. Ela diz “Volte a mim”, come back to me, depositando o relógio na mão do moçoilo e galã. Os amigos de Collier pensam se tratar de um trote ou de um truque de mágica fajuto de uma lunática ou tarada qualquer… Collier não compra essa “saída fácil” para o enigma… Mas a vida segue adiante.

Collier, já 8 anos mais velho, hospedado no Grand Hotel (Michigan) a trabalho, se torna obcecado por uma fotografia de uma bela atriz, visivelmente jovem quando ele ainda sequer era nascido, ou seja, inencontrável para ele agora. Uma coisa a se notar é que Collier está sofrendo de bloqueio criativo. Ele não está conseguindo se comunicar ou achar sentido no que faz, o que o aproxima muito do personagem Squall, o protagonista “mudo” ou “com problemas para interagir, aceitar-se e mesclar-se com os outros a sua volta”. Artistas são mesmo criaturas ensimesmadas, então é uma boa escolha que um protagonista de RPG se baseie em um, embora sua única arte genuína – falando de Squall – seja a militar, a da empunhadura de uma espada-pistola! A obsessão pelo retrato se torna tamanha, e o desdém pelo presente (não o relógio, mas sua condição vigente) tão intenso, que Collier, consultando um misterioso professor, aprende e põe em prática um método de autossugestão que, afiança-se, poderia fazê-lo voltar no tempo. Ele quer conhecer a mulher do retrato, pela qual já está perdidamente apaixonado. Estranhamente, confirmando sua hipótese neurótica, Collier verifica que está num livro de presença do arquivo do hotel, isto é, sua caligrafia está! Significa que ele realmente se hospedou no Grand Hotel na mesma época de sua beldade 2D (ótima deixa para debatermos sobre jovens libidinalmente insatisfeitos e inexperientes que terminam por se apaixonar por ícones 2D – estou falando de otakus apaixonados por waifus, meros desenhos! quem sabe depois…).

Seja como for, a plot exigia que o milagre da viagem temporal se realizasse, com a ajuda do relógio, algumas vestes muito démodé e um mantra, doentiamente repetido: usando esses 3 recursos, Collier consegue acordar no Grand Hotel em 1912, muitas décadas antes de seu presente. Ele logo trava conhecimento com Seymour (Elise McKenna), que vem a ser a idosa que regalou-lhe o relógio e endereçou-lhe aquelas misteriosas palavras (se você ainda não tinha concluído isso, estava muito distraído lendo o texto!). Ela está na flor da idade, vive seu auge. Como sempre num roteiro do tipo, existe um Seifer, e seu nome é William Fawcett Robinson, mas seus ciúmes são meramente gananciosos – ele é o agente da atriz, não um interesse amoroso (ou ele foi rejeitado muito tempo atrás por ela, vá saber!). O ator que interpreta este homem mais velho é Christopher Plummer. Por algum motivo metafísico jamais deixado claro, esse empresário sabe que uma paixão devastadora encerrará precocemente a carreira de sua agenciada (Pitonisa? Uma Edea maligna?), então se devota a ser a pedra no sapato de ambos. Parece que em meio a suas preocupações – que não tinham como ser substanciadas antes da aparição de Collier – Fawcett acaba dando com a língua nos dentes, expediente trágico (erro necessário) que serve de combustível e ajuda a tapar eventuais incoerências da estória: ele havia informado a atriz, em algum momento de seu passado, que ela devia tomar muito cuidado com um homem predestinado a roubar seu coração e arruinar sua carreira. Talvez McKenna estivesse em franco ennui de sua carreira como atriz, “pedindo aos céus” que a profecia se realizasse, tanto que no primeiro encontro entre os dois, ela, sem mais, lança-lhe na cara a enigmática pergunta:

– Você é ele?

(Não está descartado que ela tivesse apenas um intenso senso de humor, e vontade de espetar seu empresário!)

Estou rindo agora ao recordar que essa frase foi muito usada num determinado ponto da narrativa de LOST, a série por excelência quando o tema é viagem ou loop temporal perfeita(o). Para quem não faz idéia do que estou falando…

Só faltou uma música desconfortável de suspense começar a tocar na hora, em Somewhere in Time, e a pergunta ser sucedida por outra:

– O que um homem das neves disse para o outro?

Bom, mas essa especulação lostiana me desviou muito da rota (defeito congênito meu, meu leitor assíduo sabe bem)… Ainda poderemos nos achar?!…

O que podemos perceber, não sem malícia, pelo menos nós o público masculino, é que as mulheres são os maiores enigmas: entram e saem de nossas vidas com as frases mais incompreensíveis… Podemos até dizer que o amor é o mundo governado pelas feiticeiras… Nós somos meras marionetes em suas mãos, no fim das contas! Rinoa diz vários disparates a Squall quando o conhece, para não fugir à regra…

* * *

Antes de prosseguir com o relato do que acontece, uma de suas maiores forças, e que justifica a superioridade do meio escolhido (a telona), é a trilha sonora. Com efeito, pode-se dizer que a trilha sonora de Somewhere in Time fez mais sucesso que o próprio filme. O mesmo eu poderia dizer de Final Fantasy VIII, sob risco de parecer leviano e herege ao verdadeiro fã. SiT usou composições de John Barry, um grande profissional da área, que, diz-se, estava em seu auge, como McKenna. O pianista Roger Williams tocou algumas das canções. O tema mais evocado desta peça de entretenimento que não dura mais do que 100 minutos é uma sem direitos autorais, felizmente: uma interpretação de uma interpretação de um movimento de música clássica, i.e., Sergei Rachmaninoff tocando sua Rapsódia, uma revisitação de Paganini, a obra do compositor russo de número 43. Há versões de mais de 20min, mas eis o recorte “mais condensado” que pude achar no YouTube para sua low-attention span appreciation:

Essa música tem importância central na sugestão hipnótica usada pelo viajante do tempo. Sem Paganini, sem retorno a 1912! Era também assaz conveniente que a governanta ou responsável pelo espólio da recém-falecida atriz, Elise, na década de 1970 isto é, possuísse até o objeto dos objetos no inventário: um livro sobre viagens no tempo! Foi através dele que Collier obteve contato com o professor que lhe deu as dicas finais de como fazer para se deslocar ao passado – embora o autor do livro tenha descrido da própria teoria, tornando-se um velho cético e arrependido com o passar dos anos. Talvez ele não tivesse por que voltar – quem amar… Este é o Professor Finney, o excêntrico clichê, presença quase-garantida em todo enredo sobre viagem no tempo. FF8 não foge à regra, retratando os pesquisadores de Esthar, dentre os quais o professor Odine. Pelo menos não é um cara tão odiento quanto o Hojo de Final Fantasy VII!

Voltando à parte do filme transcorrida em 1912, curiosamente agora é o rapagão que tem de correr atrás da donzela: na abertura do filme o procedimento era invertido. Demoram algumas cenas até Collier conquistar as atenções da bela Elise. Ela se encontra em plena turnê de sua peça mais recente – há um palco no Grand Hotel. Sedimentando a relação no plano espiritual e iniciando e encetando o loop temporal, Collier devolve (ou dá?) o relógio que recebera da idosa Elise a… Elise.

Falta apenas a consumação de carne desse amor transgeracional. Como não estamos ainda nem com uma hora de filme, é preciso esperar mais atribulações do mundo exterior até que os protaginistas finalmente façam por merecer essa recompensa das recompensas (é como estar lendo uma peça de Shakespeare com todos os pressupostos lançados, mas sabendo que ainda está no Segundo Ato!).

Fawcett, vendo que os dois teimavam em se encontrar as suas costas, maquina um plano: a turnê seguirá, mas em outro local. Collier será devidamente aprisionado contra sua vontade e tornado inconsciente num dos aposentos deste enorme hotel, remoto e bem-escolhido o suficiente para que nenhum funcionário acabe descobrindo o ato criminoso cedo demais (que aposentos, o leitor se pergunta? justo a estrebaria, um lugar factível já que estamos em 1912!). Elise, mais esperta, maquina também sua permanência no hotel sem que seus agentes e a companhia de teatro se dessem conta a tempo.

Finalmente ambos têm suas “núpcias” neste ínterim, quando o herói da estória, uma vez liberto do cativeiro, descobre que ainda podia reencontrar sua dama no Grand Hotel. Ambos, após a primeira – e, spoiler, última – transa, prometem se casar. Seria o fim da carreira dramática de Elise (naqueles tempos machistas), e obviamente o fim, pelo menos nos anos 1970, da carreira de escritor de peças de Collier! Mas o destino queria que a união do casal fosse breve, mais ou menos como acontece com Squall e Rinoa (não perca de vista que o mote de fundo ainda é um Final Fantasy!).

Acontece que Collier escolheu um terno até antigo demais para viajar no tempo – antigo até para os padrões de 1912. Elise diz que ele precisa de roupas mais adequadas para que a cerimônia de casamento fosse prestamente arranjada. Eis que Richard Collier, prestes a se desvencilhar das vestes com que regressou quase 70 anos no tempo, tateia um objeto redondo num dos bolsos de sua calça e o retira para ceder à curiosidade de examiná-lo: é uma moeda. Uma moeda com a inscrição “cunhada em 1979”. Instantaneamente a realidade começa a desmoronar. O som da voz de Elise vai ficando mais distante, e Collier acorda no Grand Hotel… em 1980. Este foi o único erro de Collier em seu procedimento meticuloso, o único objeto que lembrou a sua consciência que ele não pertencia àquele tempo, era um ser estranho. Um item maldito no seu inventário. Ele tenta regressar no tempo utilizando os mesmos métodos auto-hipnóticos, porém sem sucesso. Collier não consegue se recuperar da tragédia, e morre de fome e sede nas instalações do hotel em que esteve destinado a conhecer o amor de sua vida (em que consumou este amor incríveis setenta anos atrás, ou seriam apenas alguns dias?!): primeiro por um retrato sépia, depois em conjunção carnal, e depois fazendo uma promessa que nunca pôde realizar… Provavelmente aquele também fôra o fim da meteórica carreira de uma inconsolável Elise, “cumprindo-se a profecia”. Mas ela tinha a moeda de 1979 que provava que seu parceiro era um viajante do tempo e o relógio de bolso, afinal – e com base nesses restos, ela visitaria o jovem, quando ele tivesse idade suficiente, para arrematar a outra parte (a boa parte) do destino, e repetir a cena que já estava escrita desde sempre. Ela, como atriz, saberia encenar muito bem…

Embora não tenhamos um perfeito equivalente à moeda em FF8, o que torna o filme uma obra das mais interessantes que já assisti, aquilo que faz as vezes de “elemento que traz à tona o desespero” a Squall Leonhart é sua própria amnésia (no começo) e depois o vazio literal do limbo da compressão temporal: enquanto seus amigos viajavam no tempo-espaço sobre um fundo imaculado e branco, o fundo de Squall na mesma cena era completamente negro, aspecto ressaltado na sinopse. Quando os jovens não conseguem mentalizar (sugestão auto-hipnótica) o campo florido (soma de todas as cores?) em que deviam se reunir a fim de viverem felizes para sempre, significa que eles estão flutuando à deriva no espaço mais ermo, na solidão eterna e incontornável (o que também torna a cena “cosmonáutica” entre Squall e Rinoa, em retrospecto, milhares de vezes mais bela e significativa, já que o espaço é escuro, tirando as estrelas).

* * *

[SUP]

Agora que terminamos a comparação entre Em Algum Lugar do Passado e Final Fantasy 8, podemos explicar “o plano supremo de Squall/Laguna” revisitando os trechos negritados em vermelho no relato cronológico do enredo, mais acima (mas tenho certeza que muita gente já pegou o espírito – eu mesmo não podia me conter, enxertando minha própria interpretação apenas prometida para depois com cada vez mais notas de rodapé tão malucas quanto compridas!):

“Seus pensamentos, dessa vez declarados em voz alta, giram em torno dessa questão tão paradóxica: o pouquíssimo tempo que tiveram juntos modificou-o por completo; e agora, justo agora que ele o compreende, não tem acesso a suas palavras, a sua risada…” Nessa frase, a brevidade, em par com a anômala intensidade, do amor do casal é matéria comum a ambas as obras, o filme de 1980 e o jogo de 1999. Squall, quando se depara com Rinoa em coma, sente-se tão devastado quanto Collier quando volta a sua linha do tempo original, pois saiu de seu “sonho idílico” e redespertou na mais dura realidade, embora em ambos os casos ainda houvesse esperança de “retornar” (seja Rinoa à consciência seja a consciência do autor ao começo do século XX).

A origem do anel do Griever é muito confusa para jogadores estreantes, mas logo se torna claro que ele é um “presente do futuro” de Squall para si mesmo e nunca teve uma origem propriamente dita definida (basta ler fóruns como https://www.reddit.com/r/FinalFantasyVIII/comments/eweri4/we_know_griever_is_a_thing_squall_invented/). É, obviamente, no nível mais superficial, uma espécie de souvenir familiar – mas se Squall nem lembra que teve um dia uma família! Ao mesmo tempo, a tradução significa “aquele que se lamenta, que está em luto”. Em terceiro lugar, pode-se dizer ou que a arma do jogo foi pensada tomando como base o design do anel ou justamente vice-versa. Em quarto lugar, a importância do Griever é tamanha que ele vem a ser o Guardião mais importante do jogo. E embora o anel cumpra o papel alocado ao relógio no filme, um dos ataques do GF Griever é justamente “roubar a mágica e desperdiçá-la no espaço-tempo”, isto é, uma função bastante similar à da “moeda do futuro” – o Griever é um símbolo ambíguo, que tanto traz a maior felicidade como a maior desgraça, dependendo do momento narrativo. Curiosidade: a música-tema do confronto contra Ultimecia no estágio 3 (fundida com Griever) se chama Maybe I’m a Lion, óbvio chiste com Maybe I’m a Leo (Deep Purple).

“Os dois anéis que Rinoa estava usando, por cima da veste tecnológica (!!), o original de Squall (que ele deixou com seu corpo comatoso) e a réplica combinada com Zell, presos ao seu pescoço por uma corrente, quebram o elo e partem em direção ao próprio Squall. Miraculosamente, a voz de Squall parece reverberar agora, na mente de Rinoa, que ainda não expirou. O amor é mesmo afrodisíaco, amigos, até para os pulmões em situações críticas como esta!”: temos aqui, antes do fim de Final Fantasy VIII, o que seria um happy ending para a tragédia amorosa de Somewhere in Time.

“Ela está em pânico sobre o futuro e se pudesse escolher só gostaria de reviver os efêmeros instantes que lhe restam ao lado de Squall.” Neste momento Ultimecia e Rinoa se fundem, como entidades e personagens: querem exatamente a mesma coisa, a compressão do tempo. E Squall não é menos inocente quando declara que destruiria toda a realidade no entorno do casal desde que pudesse protegê-la – e proteger sua vontade última, que é a mesma que a dele.

“Rinoa tenta devolver o anel original de Squall. Ele, de modo frio e em completa contradição com o turbilhão de sentimentos que o domina, diz que está tudo bem que o objeto fique com ela, e ambos se despedem num tom triste.”: já esta cena é uma inversão daquela que inaugura Somewhere in Time: é como se Collier recusasse o presente – um estúpido relógio antigo! – de uma velha louca que ele não faz idéia de quem seja… o que seria a atitude mais natural, se pensarmos bem… Mas Squall já havia declarado todo o seu amor e traçado seu plano – aceitar a vitória de Ultimecia, o que torna essa cena ainda mais bizarra e angustiante.

“Como que se esquecendo de que ele tem um plano muito maior em execução … que não necessita, e até exige, que nenhuma intervenção (pois ela ‘já aconteceu’) seja realizada, ele ‘volta a si’”: O que já havia acontecido é que o Squall adulto havia efetuado o time loop com Ultimecia para integrar sua versão jovem e Edea ao “plano maior” das coisas. O Squall da linha temporal presente ainda estaria por fazer “sua parte” na empreitada, mas o Squall criança tinha lembranças do evento, e depois de recuperar as brechas de memória apagadas pelos GFs e de vivenciar seu romance com Rinoa o Squall de 17 anos pós-visita à lua já sabia perfeitamente o que (não) fazer – meramente deixar a corrente do destino fluir… Exatamente como Elise no filme.

“Eles selam uma promessa: se Squall se sentir perdido, ela sempre poderá encontrá-lo neste campo florido; ele deve vir a este jardim e aguardá-la, se ela já não estiver.”: o “Volte a mim” em Final Fantasy VIII. O campo florido é onde tudo se deu/dá: o Grand Hotel/o orfanato … em 1912/na compressão do espaço-tempo.

Tecendo outras comparações, poderíamos dizer que a própria Ellone é “o relógio” em FF8. Analogamente, sobre a identidade Ultimecia=Rinoa, teoria que eu nem chamo de “teoria”, mas apenas de “realidade nua”, e pela qual serei criticado pelo fã obstinado, me resta objetar, a fim de me tornar mais claro: não é que Ultimecia e Rinoa sejam a mesma pessoa (em essência, são!), mas Ultimecia poderia ser a velha de Somewhere in Time: apenas o agente (mais) onisciente de todo o time loop, agindo “em causa própria”, porém de maneira altruísta, pois ao mesmo tempo em que ela não colherá diretamente frutos de sua ação (no presente), ela “já os colheu” no passado, quando viveu a relação amorosa com Collie (Squall). Rinoa é só a versão jovem de Elise, ingênua, sem pecados, porém envolvida assim mesmo na “tragédia” da unha do pé à raiz dos cabelos. Ultimecia perdeu tudo – mas ao se fundir com Rinoa percebeu que existia uma causa que valia a pena, e que significava afinal de contas sua compressão temporal inconceituável: um casal que se reencontrava e revivia seu amor em loop eterno… Ela sentiu a força e o poder desse amor ao sincronizar sua mente com a de Rinoa. A própria Edea, por tabela, também tem uma clara intuição do valor desse amor estampado na logomarca do jogo! Laguna e Julia Heartilly, por procuração, após terem vivido “o mesmo amor”, só que frustrado, e Ellone, que vasculhou todas as memórias dos envolvidos na trama, idem.

“Ao desaparecer numa explosão de luz saturada”: essa descrição “luminosa” é um dos meus argumentos-chave para defender que “Ultimecia venceu”, isto é, Ultimecia não era uma vilã (observe que o mesmo acontece com Ultimecia no fim do jogo e com Edea, no fim de seu “ciclo mau”, as duas que são as diferentes faces da mesma moeda, uma recebendo o poder da outra após explodir em luz… já que Rinoa É Ultimecia!). Seifer, que surge confrontando Squall na abertura, poderia ser entendido como o verdadeiro vilão da trama, se é necessário possuir-se um (quem seria o vilão de Oedipux-Rex?): representa a masculinidade tóxica dentro de Squall, que não cederia diante dos impulsos do amor; parece fortaleza de espírito, mas é sua insegurança encarnada, obstinação tola; e essas “segurança e prepotência” exteriorizadas o tempo todo por Seifer quase matam Squall já antes de o jogo começar… Ele põe verdadeiramente em perigo todo o loopLuz saturada, embora seja sinônimo de algo divino ou bom em quase todas as religiões e mitologias, também se associa a Lúcifer, mas o próprio culto a Lúcifer tem origens santas, e o cristianismo paulino é que demonizou esta veneração (que era muito aceita entre leitores do Talmud). Booom, esse é um papo para outro local! N.B.: É numa explosão de luz saturada que todo o tempo linear é abolido também em LOST!

“O Squall adulto … ouve daquela Edea da encruzilhada dos tempos a pergunta decisiva: Quem é você, jovem?”: A enorme semelhança com a linha “Você é ele?” é até desconcertante!

“Laguna diante da lápide de Raine, mãe biológica de Squall e adotiva de Ellone. Ela foi enterrada com um anel que ele lhe deu de presente.”: Outra instância do “presente que nunca é novo”: Laguna iniciou tudo; mas Laguna só tem o anel por causa das ações do Squall maduro. (É necessário lembrar, se o jogador veterano que me lê se mostra recalcitrante neste momento, que o Griever é produto da imaginação de Squall, e foi criado por Ultimecia graças a isso, tornando-se uma criatura mitológica que se cristalizou em realidade no universo do jogo. Logo, qualquer um poderia vir a cunhar anéis ou medalhões com um Griever, ou incluí-lo num jogo de cartas, como se faz efetivamente entre os habitantes no universo de FF8… Estando o indivíduo no futuro ou no passado, essa informação chegará ao receptáculo infalivelmente. Laguna pode ter recebido a idéia do anel de qualquer pessoa, até de alguém posterior ao nascimento de Ultimecia, desde que o time loop tenha possibilitado que Laguna viesse a conhecer o símbolo.)

Por fim, “Rinoa aponta, com seu índice direito na vertical, uma estrela cadente.” é uma conhecida reiteração de uma pose com a mão que Rinoa executa já durante o baile de formatura dos cadetes SeeD, e que Ultimecia/Edea também executará em suas performances teatrais. Além disso, vinculo esse gesto, especialmente no fim do jogo (a seqüência da realização da compressão temporal), ao fato de que “vencemos na derrota” ou de que “vencer era perder e perder era vencer” serem falas perfeitamente possíveis de ser ditas pelos personagens do jogo, tendo em vista que Rinoa aponta para o céu escuro, mas querendo indicar (com seu dedo indicador) um objeto claro. “No final, todos os sofrimentos valeram a pena por este momento”, seria mais ou menos o que ela queria dizer. Quando ela entrou em coma, ela aprendeu a ser como Squall e apenas pensar nas coisas que deveria dizer (ok, essa última frase foi só uma piada de última hora).

* * *

[+Q]

MAIS QUESTÕES DE TRADUÇÃO

(Prolongamento da “super-nota-de-rodapé”)

Rinoa: “Se eu voltar a ser controlada por Ultimecia… A SeeD me mata, certo? E você é a SeeD, Squall… A espada de Squall perfurará meu coração…… Eu acho que tudo bem se for você, Squall. Ninguém mais. Squall, se isso de fato acontecer…”

Ultimecia “queria ver Squall de novo”. Todas as aspas aqui selecionadas são para lembrar dessa motivação e fortalecer “nossa teoria”. Poderia Ultimecia ter perdido a memória do que queria simplesmente por ser a maior conjuradora de Guardiães que a História já viu?!

Rinoa: “Eu não quero o futuro. Eu quero o presente pausado. Só quero ficar aqui com você…”

Outra grande “coincidência” é que por milhares de anos o castelo de Ultimecia estava ancorado acima… justamente do campo de flores do orfanato!

Embora não seja muito agradável nem desejoso “usar outras referências” externas à própria obra (Final Fantasy VIII; ver tópico seguinte), a terceira fala vem do projeto Dissidia Final Fantasy, o spin-off de luta envolvendo os protagonistas e antagonistas da série.¹ É uma fala curta, mas muito significativa, a meus olhos!

¹  WIKIA (adaptado): “Dissidia Final Fantasy (ディシディア ファイナルファンタジー Dishidia Fainaru Fantajī) é um jogo eletrônico de luta com elementos de RPG de ação, desenvolvido e publicado pela Square Enix exclusivamente para o PlayStation Portable como parte das comemorações dos 20 anos da série Final Fantasy. Ele foi lançado em 18 de dezembro de 2008 no Japão, em 25 de agosto de 2009 na América do Norte e em setembro em outros territórios. § O jogo possui personagens desde o primeiro título da série e se centra em um grande conflito entre Cosmos, a deusa da harmonia, e Chaos, o deus da discórdia. Os dois convocam diversos guerreiros para lutarem ao seu lado em sua 13ª guerra [que específico!]. O jogador controla Rubicante Charger, com Quistis e Neon ou 10 guerreiros escolhidos por Cosmos, que são os protagonistas dos 10 primeiros jogos principais da série Final Fantasy. A versão internacional e norte-americana também dá acesso a outras funcionalidades como um modo arcade. (…) Dissidia foi bem recebido crítica e comercialmente, vendendo mais de um milhão de cópias mundialmente. Uma sequência chamada Dissidia 012 Final Fantasy foi lançada em 2011”

“Vamos dançar?”

Ultimecia, a Squall

(original: Shall we dance?)

É claro que a ambigüidade com o primeiro encontro entre Squall e Rinoa e a analogia entre a dança (e o acasalamento!) e a guerra, supremo instante do confronto entre duas metades que se opõem e ao mesmo tempo se complementam e tornam-se um a razão de ser do outro (ser-com-os-homens…) é altamente voluntário por parte dos mentores da insidiosa Square Enix! Não me levem a mal, eu gosto que uma companhia seja insidiosa com sua fan base!

[FON]

SOBRE “FONTES OFICIAIS EXTRA-MÍDIA”

&

UMA PITADA DO CARÁTER DE ULTIMECIA

Temos que ter muito cuidado com o uso de qualquer declaração exterior ao jogo que se diz “oficial” para interpretar uma obra: a rigor, a única fonte oficial é a própria obra. Uma vez finalizada e lançada no mercado (ainda mais em tempos pré-DLC), o autor perde a autonomia sobre sua obra. Isso não é exclusivo, sequer, do modo de produção capitalista, mas uma espécie de “axioma estético” milenar! Eu como autor sou obrigado a dizer que esta minha matéria, uma vez publicada, me torna seu escravo, e não o inverso – nosso dom da escrita é, em outros termos, também nossa maldição (o outro lado da moeda)!

Declarações podem ser sempre usadas – acabo de fazê-lo com Dissidia, acima –, mas sempre com um “grão de areia” (grão de sal em português não faz sentido como “expressão para conotar cautela”)… Respeitar demais os criadores de uma obra em sua ideologia sobre a própria obra, considerando que eles possuem motivações inconscientes que embelezam essa mesma obra, é o mesmo que chafurdar num fórum do GameFAQs e acreditar em todas as postagens, sem manter as próprias convicções e coerência, o que essa matéria e este portal visam a defender de modo adamantino!

Já deixei claro no “review principal” (ou “superficial”) que guias, oficiais ou não, como o Ultimania Guide (da própria Square) ou o BradyGames (sublicenciado para uma empresa jornalística), são periféricos e secundários como parâmetros para nossas interpretações…

Poderia Shakespeare brindar-nos com uma verdade íntima e última sobre Hamlet? Ele, como verdadeiro artista, jamais desempenhou a crítica do próprio trabalho. Ainda que o fizesse, nada significaria, enquanto Hamlet estiver aberto a interpretações (enquanto a peça existir em comunidades humanas que entendam o inglês), e enquanto a obra uma fez finalizada escapa a seu autor. Ainda mais se se mostrasse contraditório em relação ao próprio Hamlet, personagem sem dúvida contraditório – poderiam seus motivos ser elencados de forma taxativa e unilateral? Mas eu digressiono…

Dizem que Ingmar Bergman, sendo mais ingênuo que Shakespeare, fez afirmativas meta-narradoras sobre seu próprio trabalho – especificamente sobre uma trilogia de filmes. Num ponto futuro de sua existência desdisse o que havia dito – pode haver algo mais patético no mundo da arte?! Os livros oficiais Ultimania e a opinião e os retcons constantes dos criadores de Final Fantasy VIII nada são para nós senão vento e barulho sem coesão! Em suma, dentre todos os materiais oficiais, o mais oficial de todos, na hierarquia, é o trabalho ou obra de arte ele(a) mesmo(a). Essa é uma tirania, a tirania estética, da qual não abdicamos, e contra a qual não fazemos concessão alguma, em tempo algum. É nosso absoluto. A (boa) arte tem esse viés anti-democrático que lhe é inerente, queira-se ou não.

Longe de dizer que materiais como o Ultimania são um lixo: lá você encontrará artworks prototípicos exclusivos e a plot explicada de forma mais esquemática e mastigadinha do que aqui mesmo, por exemplo (mas sem mergulhar 20 mil léguas – já pode me chamar de Cila Verne)!

Com toda essa prevenção e “arrogância” como porta de entrada, gostaria de apresentar-lhes, entretanto, uma “atualização” da tradução do discurso de Edea (possuída por Ultimecia, no comício de Timber) – na verdade um diálogo com um perplexo Presidente Deling – que vem muito a calhar para os objetivos de nossa interpretação, parecendo resgatar o canon perdido pelas confusões da tradução japonês-inglês do período (1999):

(Obviamente, ao verter ao português, colocando uma terceira língua na salada, posso estar ‘corrompendo’ a pureza deste ‘achado’ ou ‘iguaria’, mas isso fica para vossa avaliação de meu trabalho investigativo e como tradutor!)

Edea (Ultimecia): “…Escumalha. …Rebotalho imundo e desavergonhado! Como celebrais minha ascensão em tal estado de euforia?! Louvais então aquela mesma que condenastes geração pós-geração? Não tendes o mínimo pudor? O que aconteceu com a feiticeira maligna e impiedosa de vossas fantasias? Com a tirana de sangue gélido que massacrou uma miríade infindável de homens, um punhado de nações?! Onde está ela agora? Ela se encontra diante de vossos próprios olhos, prestes a se tornar vossa nova ama. HAHAHAHAHA.”

President Deling: (…?)

Edea (Ultimecia): “Uma nova era começou.”

President Deling: “E-Edea… Você está se sentindo b…? Ede…!”

(Ela levita Deling telecineticamente e começa a assassiná-lo…)

Edea (Ultimecia): “Isso é… a realidade. Ninguém pode ajudar-vos agora. Sentai em vossas confortáveis poltronas e usufruí o espetáculo!”

(Após esgotar a seiva vital de Deling, arremessa o corpo cadavérico no chão com ímpeto, ainda com o poder da mente.)

Edea (Ultimecia): “Estai seguros, tolos! Vosso tempo há de chegar. Este é só o princípio. Comecemos o novo reino de terror. Deixar-vos-ei viver um reino de fantasia além de vossas imaginações!”

Excelente pedaço da narrativa. Há-de se observar que este é um novo texto, nem uma tentativa de ser idêntico ao mais formal e fabuloso discurso edeano nipônico nem uma reedição do discurso mais militarista, pragmático e calcado em termos tecnológicos da Edea “americana” de 1999. Comparai:

Edea nipônica 1999 (a original): “……Fede! Fede a tolos imundos! Vós empestais! Desde tempos imemoriais nós bruxas vivemos dentro de ilusões e encantamentos. Que ilusões? As que vós produzistes! Adornando os corpos das bruxas em roupas espantosas, escabrosas, as bruxas que amaldiçoam os virtuosos humanos em seus rituais brutais. A bruxa terrível que queima vossas pastagens, congela vossas casas a começar pelas lareiras em pleno inverno, com sua mágica cruel e sádica… ……Pedaços de excremento!  Agora que a bruxa da ilusão vem a ser considerada uma amiga de Galbadia, vós suspirais aliviados?! Mas que é isto?! Quem sonha sem parar e quem vive a realidade?!”

Edea anglófona 1999 (a adaptada): “Sim, refugiem-se em suas ridículas fantasias! Eu continuarei a dançar conforme a música! E dançarei pela eternidade como a bruxa que trará o pânico e o terror absolutos! Vocês e eu. Juntos criaremos a ÚLTIMA FANTASIA. Dentro desta ilusão, vida e morte, e doces sonhos. A feiticeira viaja através de ilusões infindas! A FEITICEIRA DO FUTURO e Galbadia – avante e para sempre!”

(A massa, a platéia, parecia tão fascinada quanto os alemães de 1932-39. Os loristas do jogo dirão que isso se devia a efeitos de magia apolítica de Ultimecia!)

Edea (Ultimecia) fala de forma mais teatral em japonês. Em português isso é mais fácil de transmitir usando o arcaico, o vós. E também a palavra feiticeira, mais “política”, eu decidi transformar em bruxa, mais medieval. A forma alegórica também “afasta” populacho e tirana mais e mais. Rituais, roupas espantosas, que visivelmente sempre visaram a distinguir quem têm poderes mágicos dos simples humanos, animais de rebanho. Mas Ultimecia quer demonstrar quão ridículos se tornaram os rumores sobre sua aparição no futuro, devido aos acontecimentos do presente. Nasceria uma tirania tão grotesca assim?! E por culpa de quem? E ela não seria bem-vinda pela mesma massa que tanto nutriu geração depois de geração pavor por uma coisa que sequer existia, apenas de nome, em hipótese?! Daí vem seu sarcástico conceito de fantasia que usa no palanque. As ilusões não são os feitiços de magia, mas as noções que a humanidade concebeu sobre a natureza de quem possui esses poderes. O preconceito, o burburinho, a incompreensão. Não foi Ultimecia obrigada a adotar essa máscara de ferro que já quiseram acoplar a sua face desde antes que ela pudesse ter uma alternativa? Ela dançará conforme a música, produzirá as ilusões em que a humanidade quer tanto acreditar! Já que o futuro disse o que ela seria, ou melhor, já que o passado determinou o futuro de antemão, que ela produza no passado o que as lendas vindouras ainda narrarão! Assim como Squall estava destinado a dançar com Rinoa, quisera ele ou não, assim Ultimecia e seus avatares dançarão perante o rebanho desprotegido, enquanto os SeeDs permitirem, é óbvio…

A Edea japonesa, a Edea reabilitada no guia Ultimania, é uma relações públicas, com efeito, de nome e de vocação – é uma atriz consciente de que interpreta um papel. Joga um RPG. De vida e morte, mas ainda assim um jogo, uma representação. Sentem e assistam a peça, vocês são meros espectadores! Nisso a versão americana do século passado tinha perdido muito de seus matizes (embora o meta-comentário com a palavra FINAL FANTASY seja muito benquisto), mas no guia a Edea teatral e sardônica está de volta. Ela é um vilão com muitos motivos, ao contrário do que se apregoa por aí! Toda bruxa tem seus motivos…

Ascensão, tirania, nações, reino de terror, essa é a parte mais política e que o Ocidente deixou mais transparente, embora os japoneses sempre captassem os mesmos conceitos no “subtexto”… Os japoneses não gostam de ser muito explícitos sobre imperialismo, o que não significa que suas obras deixem de explorá-lo com bastante freqüência – e inteligência! Quem já sentiu o pavor da bomba atômica sabe mais do que ninguém o que é o pavor metafísico, ainda mais elevado… da civilização que se encontra entregue. Felizmente existem heróis – nos videogames, podemos ter certeza!

Bem, qual das 3 traduções para português você mais apreciou?! Deixe sua opinião.

[REC]

RECOMENDAÇÕES LITERÁRIAS PARA AMANTES DO EFEITO DO TEMPO NA ESTÓRIA (O CONCEITO MODERNO DE TEMPO QUE INCORPORAMOS AINDA HOJE NA FICÇÃO)

Como penúltima nota, para aqueles que se mantiverem motivados e sedentos por enredos envolvendo o tempo (não precisa ser com máquinas do tempo, isso é para amadores!), recomendo, curto e grosso, Marcel Proust, um dos meus prazeres mais recentes. Sua magnum opus se chama em português Em busca do tempo perdido. É um livro sobre um pouco de tudo que discutimos aqui: inconsciente coletivo, tempo, espaço, memórias

Para discussões filosóficas, sem o envolvimento de personagens fictícias em ternos e emotivos diálogos, o caminho é outro e mais pedregoso. Poderia recomendar Husserl e Heidegger (que inclusive citei até bastante em minha análise análise – hat-trick contando com esta), da primeira metade do século XX como o próprio Proust, e Baudrillard da segunda metade do séc. XX e início do vigésimo primeiro (nosso quase-contemporâneo – agora que o ultrapassamos, pelo menos em sobrevivência, se não em refino, podemos nos sentir… velhos!) – todavia, fico receoso de referendar assim sem mais: essas leituras exigem uma preparação (equivalente a um curso completo de filosofia), então fiquemos por aqui! Você pode começar apreciando considerações mais pé-no-chão sobre o tempo em Aristóteles antes de partir para coisas mais radicais… (no Seclusão você encontre vários “cursos de filosofia” em formato de texto – meu maior talento –, se fazer 4 anos de graduação formal não é o que você tem em mente…)

[CON]

O QUE ACONTECE SÓ ACONTECE UMA VEZ, MAIS UM ARGUMENTO IN-GAME PARA MINHAS POSIÇÕES “HETERODOXAS”

Para quem não assistiu Somewhere in Time ou Lost ou não jogou ainda Final Fantasy VIII… Ou para quem assistiu SiT e Lost e não os entendeu ou torceu o nariz para essas produções… e jogou FF8, mas não concorda em nada com o que eu digo… Ou para quem prefere o tipo de viagem no tempo que gera universos ou dimensões alternativas ou paralelas, que é a noção contra a qual estou em guerra o tempo todo aqui (bem como os filmes, séries e jogos que estou citando!!), i.e., para o ANTI-TIME LOOP SQUAD, eu acrescentei essa seção. Vocês, obstinados jogadores da visual novel e apreciadores do anime de Steins;Gate (que ganhará review no rafazardly em 2024), vocês recalcitrantes expectadores de Back to the Future, o filme de happy ending em que você muda o futuro, apesar de flertar com o perigo do paradoxo do avô (aliás, valha trilogia superestimada!!!)… Finca a bunda na cadeira e vê se presta atenção mais um pouco, quem sabe você não é tão casmurro e eu ainda consiga “cooptá-lo”!

A primeira instância, da perspectiva do jogador de FF8, em que ele entende que “o passado não pode ser mudado” (e, em conseqüência, nem o presente nem o futuro, pois todos se tornam o passado após a devida quantidade de tempo!!) é a declaração de Ellone a Squall, explicando como seus poderes funcionam:

“Você não pode mudar o passado. Eu demorei para entender isso.”

Para quem não entendeu a questão da jogabilidade com Laguna, Kiros e Ward, o jogador é transportado mentalmente ao passado dessas 3 figuras veteranas. Eles são jogados pelo jogador, que tem total liberdade na ação, como se estivesse operando num Grand Theft Auto (ok, nem tanto!)… Mas, falando do jogo em si, esse é um recurso narrativo para dizer: este momento é o presente tanto de Laguna & cia. quanto de Squall & cia., que estão tendo um sonho lúcido “revivendo” o presente de Laguna & cia.! Desde que Laguna & cia. vivenciaram aqueles episódios, sempre estiveram sob influência de Squall e os outros, o filho e os amigos do filho provindos do futuro, isto é, dos SeeDs, que existiram desde sempre. Em suma, ninguém tinha a agência, porque todos tinham a agência ao mesmo tempo: o que Laguna escolheu fazer era igual aquilo que Squall escolheria fazer, etc. Tudo estava em harmonia. Ellone queria que Squall mudasse o passado de seu pai, mas tudo que aconteceu foi uma reprise tal e qual das mesmas cenas, ela não viajava no tempo nem transportava consciências, ela apenas assistia o passado, e mesmo sendo a usuária desse poder só foi perceber essa limitação após várias vezes em que “desmaiou” o grupo SeeD e “arremessou-os” na vida de Laguna…

Essa revelação tem um forte impacto. Não é absurdo que o jogador não tivesse percebido isso. A própria Ellone não tinha. O jogo foi feito para ser entendido apenas na segunda gameplay – o que é uma pena “ao quadrado”, porque a gameplay é horrível e só vale a pena pelo próprio enredo, urgh!

O caráter trágico e a condição humana sempre querem violar essa regra, e assim funcionará até o final dos tempos (no pun intended): Sísifo e sua pedra, Édipo-Rei, etc., etc. Squall, após ouvir Ellone, tenta ele mesmo mudar o passado, enquanto tenta salvar Rinoa do coma… até entender como funciona, na prática… O ser humano é assim. Muitos gostam de citar essa inconsistência ou contradição ciência-ação para refutar a teoria de que Rinoa=Ultimecia ou que a compressão do tempo foi realizada. Um dos motivos mais fortes é que Ultimecia estaria sendo “burra” ao tomar nota de que morreria tentando fazer a compressão temporal indo ao passado; mesmo assim ela escolheu ir ao passado. Explicam alegando que “todo ser humano tenta mudar o passado na prática por mais que seja avisado da impossibilidade dessa mudança”, um expediente natural em toda ficção de qualidade. É verdade e é plausível, mas queria Ultimecia “vencer” – podia Ultimecia “perder”?! Outras perguntas precisariam ser levantadas, perguntas que os “sabichões” coincidentemente sempre evitam desenvolver em suas “teorias bem-armadas”. Ora, nada tem que ver a vilã ser burra, ela é apenas falível e gananciosa, nisso residia seu mal, dizem aqueles que advogam pela total liberdade de agência dos envolvidos e entendem o final de FF8 como a representação de uma continuidade temporal pós-tentativa falhada de compressão do espaço-tempo. Tirando o fato de que é difícil tirar algum sentido lógico da “zeração” de FF8, a questão não é avaliar o nível de inteligência ou de teimosia de Ultimecia. A Square obviamente brinca com o fato, o que torna sua obra objeto de discussão até hoje – sabe quem mais faz esse tipo de coisa?! David Lynch – e ele nunca explica(rá) nenhuma de suas obras. Curiosamente, ao que tudo indica, em Twin Peaks acontece uma viagem temporal que muda-sem-mudar a realidade dos personagens, e mesmo assim ainda pressupõe-se que eles acabam vivendo num loop… O cara é tão maluco – no bom sentido – que conseguiu instilar em nós a percepção dual, ou seja, de que ele fez os dois tipos de viagem no tempo ao mesmo tempo… Sem trocadilhos… Talvez seja isso mesmo, talvez sejamos incompetentes demais para entender Lynch… Resumindo: é bom deixar algumas coisas em aberto e sem resposta definitiva ou não-críptica dentro de sua obra. Mas isso não significa que não puderam desenvolver um script em que Ultimecia vence no final, desde que se entenda, como eu entendo, a vitória de Ultimecia como uma vitória para todos os personagens, o que até obsolesce essa discussão idiota (após certo tempo, desculpe, desculpe, é a última vez que me refiro temporalmente ao tempo nesta resenha, pois ela já está chegando ao fim!… após certo tempo tudo se torna idiota e repetitivo, e era necessário indicar que o binarismo da questão Ultimecia venceu? S/N ou Rinoa=Ultimecia ou Rinoa=Rinoa e Ultimecia=Ultimecia sendo mutuamente exclusivos era o que precisava ser posto em questão o tempo todo… ops, de novo isso…).

Bom, qualquer coisa é melhor do que um argumento que eu li: “Já que existe o game, e eventos acontecem, significa que não houve compressão temporal, ou todos os eventos teriam sido anulados e não existiria o jogo…”. Vou levar na esportiva – belo troll! Vitórias podem ser amargas e exigir imensos sacrifícios (final de Lost); derrotas podem conter coisas boas e ser louváveis até na parte estética da coisa (final de SiT?). No fim, vitórias e derrotas – o conceito de vitória e o conceito de derrota – são tão intercambiáveis quanto GFs entre os personagens controláveis do jogo… A única mensagem que não podemos relativizar neste game, devido aos índices incontornáveis in-game e no meta-texto, é a seguinte: FINAL FANTASY VIII VERSA SOBRE UM ROMANCE MAIOR QUE TODO O DEMAIS. Acho que não preciso falar mais nada. Isso NÃO significa que Squall terminando a vida solteiro ou fora dum time loop seria um Squall mais triste ou piorado, só estou repetindo o óbvio: o que acontece, acontece…

[UNC]

UNCANNY VALLEY NO MÍNIMO – CONFIRMAÇÃO PARA OS “LEITORES RESPONSÁVEIS DA ESTÓRIA”:  Cotejando os character designs de Rinoa e Ultimecia, é incontestável que ambas têm até a mesma cara, como se já não bastassem as fortes evidências de roteiro de que cumprem o mesmo papel ou representam uma mesma (id)entidade. Dificilmente seria uma coincidência ou algo não-intencional por parte de um dos mais talentosos programadores e criadores de personagens no ramo, Tetsuya Nomura. Sempre haverá vozes em dissenso: “Nomura é conhecido por representar várias personagens femininas de forma semelhante”; “a tecnologia rudimentar do período não permitia grande diferenciação nos rostos”. Duas afirmações que são desmentidas pelos próprios female designs de FFVIII! Não há qualquer relação de verossimilhança entre Quistis, Selphie e Rinoa, como exemplo basilar. Se não estiverem convencidos de que Tetsuya Nomura criava designs únicos para cada personagem QUANDO QUERIA, dêem uma observada em character designs de outros desenhistas, do passado ou do presente, na minha opinião menos talentosos ou, pelo menos, mais idiossincráticos (ou ‘insistentes’ em rostos idênticos): Akira Toriyama, o mangaká mais superestimado de todos os tempos, nos brinda não só com rostos femininos sempre muito parecidos… mas até com rostos de homens e mulheres quase gêmeos, e até corpos – compare-se os crânios de Freeza, Majin Boo e Jiren, para não falar em Brolly, Kaulifla, Andróide 17 e 18, que instintivamente associamos a Toriyama, e achamos até desagradável (é tão desagradável que tendemos a ver a cara do Goku no protagonista de Chrono Trigger e nos personagens que ele desenha para a série Dragon Quest)!!! Pior ainda: o artwork de AKIRA (falo do mangá de mesmo nome de Akira Toriyama, mas que não é dele) revela que Katsuhiro Otomo tinha uma obsessão enferma pelo mesmo rosto empregável para três personagens principais ou, simplesmente, que ele não é tão talentoso… Tirem suas próprias conclusões abaixo. Identidade visual e estilo são uma coisa, mas modelo genérico é outra – mesmo em cores, ler o mangá Akira chega a ser um suplício em vários capítulos, pois nunca sabemos quem é quem!

Todo mundo sabe que uma forma de economizar tempo, para um mangaká, é apenas repetir os traços e mudar a cor do cabelo, certo? / Num universo paralelo, Goku/Yamcha(?), Android 18 (Chi Chi descolorida?) e um Shen Long azul (?!?) protagonizam o primeiro Dragon Quest/Dragon Warrior de SNES, que só foi localizado ao Ocidente 16 anos depois! (Não, é sério, alguém gosta de ver Dragon Ball Z em outras mídias? Eu quero distância!)

Kaneda, protagonista de AKIRA (esq.) e Kei, namorada de Kaneda (dir.). Ou seria vice-versa?

Kai, melhor amigo de Kaneda (ok, acho que o problema é a obsessão do autor com nomes e rostos parecidos mesmo, tá na cara que só podia ser de propósito)! O que muitos consideram digno de cult-following para mim é repulsivo aos olhos!

Ah sim, devia tê-lo dito isso “100 páginas atrás” (finja que está lendo um livro), mas Liberi Fatali, o nome da canção da FMV introdutória, significa: Children of Fate. O que fate (destino) significa? Não vou perder meu tempo discutindo binarismos – todos temos espontaneidade para agir no presente, mas quando o presente se torna passado, é essa palavra que usamos para caracterizá-lo: se tornou um destino, um fado, palavra do português mais próxima. Fado geralmente tem uma conotação negativa – e crianças, presumivelmente quem mais têm um futuro pela frente, conotação extremamente positiva. Acho que até Nobuo Uematsu gostou de brincar com a psique dos jogadores neste episódio VIII, pense bem! Pense também no filme Advent Children, continuação direta de Final Fantasy VII, de alguns anos depois: a Square é mesmo obcecada com crianças e o potencial que elas têm para forjar o destino, correto?! Ah, e eu que queria duplicar o tamanho desse texto, emendando-o com meu parecer sobre Final Fantasy VII Remake, que zerei semana passada… Mas isso não será feito nem aqui nem agora! É meu destino deixar para depois!

FINIS? INCIPIT? CAPUT? ESCATHOLOGIA? GENESIS (super nintendo)? KAPUTT? INITIUM? FINIAT? TELOS? FIAT?! C’est fini? J’N’SAIS PAS! (francês é muito romântico, vocês não acham?!)

POR QUE TITUS ANDRONICUS É A PEÇA MAIS OBSCURA DE SHAKESPEARE?

Informações extraídas de SEATTLE SHAKESPEARE COMPANY: EDUCATOR RESOURCE GUIDE.

Titus Andronicus is one of Shakespeare’s earliest plays and, as such, there is less evidence to pinpoint when it was written than is available for later works. At best, scholars are able to suggest plausible dates, taking evidence from the writings of Shakespeare’s contemporaries, clues about performance history in publications of the script, and comprehensive analysis of interconnected influences between works of Elizabethan theatre and literature. With no single date of authorship agreed on, proposed dates range from 1582 to 1593.

To add more complication to the matter of dating Titus Andronicus, we have two other surviving versions of the story. One is written in prose and was published between 1736 and 1764. Some scholars believe that this work was originally penned in Shakespeare’s time and, like many of Shakespeare’s own plays, published at a later date. The second version of the story is a ballad called Titus Andronicus’s Complaint. While the earliest surviving publication of the ballad is from 1620, it can be dated much earlier thanks to a mention of the ballad by printer John Danter in 1594.”

Shakespeare’s late Roman plays are each anchored to a period in history — Coriolanus in the early Roman Republic and Julius Caesar and Antony and Cleopatra at the transition from Republic to Empire. In contrast, Titus Andronicus is vaguely set in the late Roman Empire, with no major characters or events having historic counterparts.”

The rape and mutilation of Lavinia, as well as her solution for identifying Chiron and Demetrius, are conflated from several episodes in Ovid’s Metamorphoses. s. Titus’s ultimate revenge against Tamora, the unwitting cannibalism of her own children, combines another story from Metamorphoses and with Seneca’s Thyestes.”

But setting wasn’t much of a concern to Shakespeare and his original audiences. It was common in Elizabethan England for plays to be performed in current dress, regardless of when the story was set. It wasn’t until the Victorian era that the idea of performing Shakespeare in historical dress came into vogue.” É interessante que Hollywood faça “adaptações “elizabetanas” de Shakespeare, com elementos contemporâneos nas falas e indumentárias, como visto na própria adaptação de Titus e também no moderno Romeu e Julieta!

CICLOS INFINITOS DE VINGANÇA & A MEDIAÇÃO HUMANA (OU PROTO-HUMANA): “While civilization has progressed beyond it, the original function of ‘an eye for an eye’ in legal codes was to prevent over-retaliation. When the cycle of revenge gets out of hand for chimps and bonobos, a third party (either the leader or a segment of the group) breaks up the conflict and encourages reconciliation. This peace-keeping function of leadership was still in place at the beginning of recorded history.”

Aaron in Titus, Edmund in Lear, Iago in Othello. They’re all characters who stir the pot and create chaos. Just as the moral framework for maintaining group cooperation is not unique to humans, individuals who intentionally strain the peace can also be found in our close relatives.”

DEIXANDO SÓFOCLES INVEJOSO: “Titus Andronicus pushes violence to the limits of what can be portrayed onstage, and what audiences can endure over the course of the play. Not only are there numerous murders, but children are killed in front of their parents, killed by their parents, and a newborn sentenced to death by its mother. Lavinia is raped and mutilated, Titus has his hand chopped off, and Tamora’s sons are served to her in a pie. Yet throughout this bloody play, all of these acts are committed in the name of justice. Even as Titus kills his daughter, Lavinia, he considers it justified as an act of mercy.” E não há qualquer intervenção do Coro, como em outras peças maduras de Sh…

SUCESSORAS NA BONANÇA E NA DESGRAÇA: “Children are also treated as bargaining chips, and as mere extensions of their parents. When Titus feels wronged, he kills his own son Mutius and tries to give his daughter to someone she does not want to marry. And despite how much Tamora and Titus value their own children, they still slaughter each others’ children mercilessly to settle their disputes. Because of their value, they are used as pawns.” Ironicamente, Mutius significa mudo; aquele que tenta prevenir as conseqüências desastrosas da peça (que levariam Lavínia a se tornar literalmente muda) é calado por seu pai.

O CARROSSEL DA POPULARIDADE: “Written in Shakespeare’s late 20s, Titus was an instant hit. Historic records show5 stagings of the play within 6 months of the first confirmed performance! The script was frequently republished, and a popular contemporary ballad mirrored the plot. (…) The latter [adaptações do séc. XIX] omitted all violence toward Lavinia and portrayed Tamora as chaste, Aaron as noble, and Chiron and Demetrius as dutiful children!”

In 1923, Shakespeare’s original Titus Andronicus was staged for the first time in more than 300 years. Even then, the once beloved title still had an uphill battle to regain popularity and respect. T.S. Eliot wrote that Titus was ‘one of the stupidest and most uninspired plays ever written, a play in which it is incredible that Shakespeare had any hand at all’.” Nunca confiar nos críticos: mesmo quando são bons autores no “tempo ocioso”…

WILLIAM TARANTINO: “Shakespeare did his best to outdo the genre with an over-the-top play of blood and revenge, and he recognized the entertainment value of horrible people doing bad things. Then, as now, violence sells at the box office.”

 

Figurino de Lavínia em encenação do séc. XX.

A MODERN PERSPECTIVE: TITUS ANDRONICUS – Alexander Leggatt

In the source myth Shakespeare found in Ovid’s Metamorphoses, Tereus rapes his sister-in-law Philomela and cuts out her tongue; but she weaves a tapestry that tells her story, and her sister takes revenge. Lavinia has no hands; there is, seemingly, no way she can tell her story. The mutilation also figures externally the shame that attends a raped woman in the play’s patriarchal society: Lavinia is now ruined forever. Critics up to the middle of the 20th century saw Titus Andronicus as a pointless horror show, so bad that it was probably not by Shakespeare. [Nunca confiar nos críticos.] But Lavinia’s fate has been a key factor in the recent rehabilitation of the play, in the theater as well as in criticism. Violence against women, the denial of women’s language—these are issues to which we are now, with good reason, particularly alert; and when Lavinia enters, raped, mutilated, and speechless, it is as though in the middle of a high-flown, consciously literary tragedy someone has pulled a fire alarm.”

The attack takes place in the woods, established as a place of terror outside the bounds of society. Yet looking back, we can see that the act does not come out of nowhere. The rape sequence begins with the two Gothic brothers quarreling over Lavinia, a quarrel Aaron the Moor settles by pointing out that they both can have her. The play likewise began with a competition between two brothers, Saturninus and Bassianus, for the possession of Rome. Bassianus in particular makes Rome sound like a woman whose honor is at stake: ‘And suffer not dishonor to approach / The imperial seat, to virtue consecrate’ (1.1.13–14). Aaron in turn makes Lavinia sound like a captured city, telling Chiron and Demetrius to ‘revel in Lavinia’s treasury’ (2.1.139).”

The primary meaning of rape in our time is sexual assault, but it can also mean seizure; and in that sense Lavinia is raped twice, once in Rome and once in the woods. Saturninus and Bassianus debate the word, Saturninus declaring ‘Thou and thy faction shall repent this rape’ and Bassianus retorting ‘Rape call you it, my lord, to seize my own, / My true betrothèd love and now my wife? (1.1.41214). Throughout the sequence the emphasis is on Bassianus rights, and throughout the sequence Lavinia herself is silent. This is not the enforced silence of the second rape, and we could read many different meanings into it. But we have to do the reading, and the parallel has a disturbing effect. Raped and silenced in the woods, she has already been raped and silent in Rome. The atrocity may be not so much an outlaw act as a revelation of the male pride and possessiveness that have already erupted in Rome itself.”

At the request of his eldest son, Lucius, he sacrifices the Gothic queen Tamora’s eldest son, Alarbus, to give the souls of his own sons passage across the Styx. Tamora pleads for her son’s life; rejecting her plea, Titus gives no sign that he has even listened to it. He is then given the responsibility of picking the next emperor. Without pausing to think, he chooses Saturninus, simply because he is the late emperor’s elder son. He accepts Saturninus’ offer to marry Lavinia as an honor done to him, with no thought of Lavinia’s feelings or Bassianus’ rights. When the rest of the family carries her off he tries to pursue, and kills his own son Mutius for blocking his way, thinking only of the challenge of the moment: ‘What, villain boy, / Barr’st me my way in Rome?’ (1.1.295–96). Titus is a creature of armor and leather, with thought processes to match. § When Saturninus turns against him and marries Tamora, Titus suddenly feels disoriented, a stranger in the city he thought was his. But it is the return of Lavinia from the woods that breaks him open, presenting him with a sight for which nothing has prepared him, for which no automatic reaction will serve.”

“‘What shall we do?’ (3.1.135). Once a man of action and quick decisions, he can think only of multiplying Lavinia’s afflictions in static spectacles. His language expands, giving it a cosmic reach it never had before—but it is filled with images of flood and drowning, images of helplessness.”

The man of action is back; he knows now what he has to do. But there is still nearly half the play to come, and in the tradition of Elizabethan revenge plays (exemplified by Thomas Kyd’s The Spanish Tragedy (c. 1585) and, with variations, by Hamlet) the final deed is held off while the hero, seemingly mad, questions the world that makes revenge necessary. Titus has his relations dig in the earth, fish in the sea, and fire arrows with messages to the gods, all to seek for Justice and to demonstrate that she is nowhere to be found. The answer is revenge. Language was made helpless in the silencing of Lavinia and in Titus’ floundering attempts to find the right thing to say to her.”

Titus’ revenge, like the act it avenges, has its roots in the myth of Philomela, whose sister Procne feeds Tereus his own son at a banquet. Within the play itself the act is grimly appropriate: Titus will ‘make two pasties of [their] shameful heads’ (5.2.193), recalling the severed heads of Quintus and Martius. He will ‘bid that strumpet, [their] unhallowed dam, / Like to the earth swallow her own increase’ (194–95). Central to the atrocity in the woods is the pit in which Chiron and Demetrius dropped the body of Bassianus, and into which Aaron lured Lavinia’s brothers. The pit, like the tomb of the Andronici, is a dark hole that swallows life; now Tamora will be made to imitate it. Quintus also describes the mouth of the pit as stained with blood (2.3.200–202), making it an image of the assault on Lavinia that is taking place as he speaks. The Gothic brothers are entering her body as her own brothers fall into the pit. In revenge Titus compels Chiron and Demetrius to enter Tamora’s body, making her the final image of the hole in the earth that swallows men.”

When in the final scene Titus kills Lavinia, he does so after confirming with the Emperor that the story of Virginius gives him a precedent for his act. Roman honor is satisfied. (…) It is easy to assume that Titus is releasing Lavinia from a life that has become intolerable, and that death is what she wants. Some productions stage the scene as a ritual in which Lavinia not only consents but gives the signal for her death. Yet in Titus’ act we feel the weight of the patriarchal society he has always served, in which Lavinia earlier seemed to be a pawn. He is preoccupied not with her grief but with her shame; the grief that matters is his own. The last we hear of Lavinia is Lucius’ command to bury his father and sister in the family tomb. She is released from an intolerable life, but she is also absorbed into the patriarchal world that was implicated in her suffering.”

In Act 2, when Lavinia appeals to Tamora, as one woman to another, to prevent Chiron and Demetrius from raping her, Tamora ignores this appeal to fellow feeling as Titus ignored hers. Tamora has a son to avenge, as Titus will have a daughter. Tamora meets cruelty with cruelty, and Titus will do the same. Disguised as Revenge, Tamora comes to visit Titus, playing on what she thinks is his madness. When Titus welcomes her with a one-armed embrace, the moment has a double significance: Titus is embracing Revenge but he is also embracing Tamora—and the act conveys, more than Titus realizes, how much he and his victim have in common.” Segunda interpretação: um meio-abraço, um abraço traiçoeiro.

In the last scene Lucius is proclaimed Rome’s emperor, charged with restoring Rome and healing its wounds. Yet he has entered at the head of an army of Goths. Restoration is also enemy invasion: again the border has collapsed.”

The character who mounts the most telling challenge to any sense of otherness is Aaron the Moor. He appears at first to be the play’s ultimate Other: a Moor in the service of the Goths (and how did that happen?), he is doubly foreign in Rome. His blackness sets him apart visually, and his cruel wit gives him detachment of another kind. Telling Lucius of the attack on Lavinia, he describes it as a trip to the barber: ‘Why, she was washed, and cut, and trimmed [raspada, limpa]; and ‘twas / Trim sport for them which had the doing of it’ (5.1.96–98).”

The extravagance of the play’s action takes it to the edge of grotesque comedy. For Aaron, peering through the wall that signifies his detachment, it is a comedy.”

The play itself moves into Aaron’s territory in 3.2, a scene that appears for the first time in the Folio and may have been added by Shakespeare as an afterthought. Marcus casually kills a fly. After Titus rebukes him, invoking the grief of the fly’s parents, Marcus appeases his brother by saying ‘It was a black, ill-favored fly, / Like to the Empress’ Moor. Therefore I killed him’ (67–68). Titus then grabs a knife and stabs away at the tiny body. Two of the play’s key ideas, grief and revenge, spin into absurdity, and the sense of humor at work is not unlike Aaron’s own.”

They are foreign, other, not human. But earlier in the play Titus himself, when the outrages against his family are only just beginning, declares ‘Rome is but a wilderness of tigers’ (3.1.55). The atrocity committed against Lavinia happened outside society, in the wilderness; but the more we reflect on it, the more we find the distinction between Rome and the wilderness dissolving.”

LEWIS CARROLL #SérieOsÚltimosPolímatas

polímata

(po·lí·ma·ta)

adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros

Que ou quem estudou e sabe muitas coisas ou muitas ciências (ex.: Santa Hildegarda era uma freira polímata; os polímatas são peritos em muitas áreas do conhecimento). = POLÍMATE, POLÍMATO

<polímata>, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2023, https://dicionario.priberam.org/pol%C3%ADmata.”

Traduzido do wikipedia English com algumas (muitas!) liberdades autorais…

Lewis Carroll

From Wikipedia, the free encyclopedia

 

Carroll em junho de 1857

Nascimento

Charles Lutwidge Dodgson
27 de janeiro de 1832
Daresbury, Cheshire, Inglaterra

Morte

14 de Janeiro de 1898 (aos 65 anos)
Guildford, Surrey, Inglaterra

Restos mortais

Mount Cemetery, Guildford, Surrey, Inglaterra

Ocupações

  • Escritor (atingiu a excelência)

  • Ilustrador

  • Poeta (atingiu a excelência)

  • Matemático (atingiu a excelência)

  • Fotógrafo (atingiu a excelência)

  • Professor

  • Inventor

Educação formal

Gêneros literários

  • Literatura fantástica

  • Literatura infantil

  • Matemática > Álgebra linear

  • Matemática > Lógica

  • Poesia

  • Política > Teoria do voto

  • Nonsense

Pais

Charles Dodgson (pai)

Família

 
 

O inglês Charles Lutwidge Dodgson (1832–1898), mais conhecido por seu nome de autor Lewis Carroll, foi escritor de prosa e poesia, matemático e fotógrafo, principalmente. Seus maiores trabalhos são Alice no País das Maravilhas (1865) e sua continuação (…) Através do espelho (1871). Se o considerava talentoso para os jogos de palavra, raciocínio lógico e criações fabulosas e imaginativas. Seus poemas em Jabberwocky (1871) e The Hunting of the Snark [ver tradução melhor] (1876) são considerados precursores da literatura do não-senso.

Carroll vem de uma família tradicional de anglicanos, tanto que toda sua educação formal se deu na Christ Church, onde também morou e lecionou a maior parte de sua vida.

Alice Liddell (1852-1934) – filha de Henry Liddell, o reitor de Christ Church – é quase tão famosa quanto Carroll e quase unanimemente identificada como a principal inspiração para seu personagem mais celebrado. Em vida, entretanto, Carroll negava veementemente que a Alice dos livros fosse inspirada por ou apenas pela menina dos Liddell.

Um ávido montador e propositor de quebra-cabeças, Carroll criou o jogo de word ladder (que ele chamava “doublets”, uma espécie de jogo de adivinhação de palavras, ou melhor, associação lógica de palavras),¹ publicados semanalmente em sua coluna da revista Vanity Fair (revista vitoriana que durou quase meio século) entre 1879 e 1881.

¹ Já podemos dizer que esse aparato é mais sofisticado que qualquer “metodologia” pseudanalítica de um século mais tarde.

(…)

Infância

(…) Maioria de seus antepassados masculinos eram oficiais do exército ou pastores da igreja. Seu bisavô chegou a bispo de Elphin no interior da Irlanda. Seu avô paterno, outro Charles, foi capitão do exército, morto em combate em 1803, quando o pai e os tios de Carroll não passavam de bebês. (…) Talento nato para a matemática, igual se mostraria o filho, o professor Dodgson poderia ter escolhido o caminho exclusivo do bacharelado. Em vez disso, ele preferia uma vida mais seclusa. Casou com a prima Frances Jane Lutwidge em 1830 e se tornou um modesto pároco de província.

Dodgson (Lewis) era a terceira de onze crianças do casal, sendo o primeiro menino. Aos 11 anos, mudou-se para Yorkshire devido a uma promoção de seu pai. Esta foi sua casa pelos próximos 25 anos de sua vida. Seu pai era um religioso extremamente ortodoxo e chegaria ainda ao cargo de Arqui-deão/Arqui-decano de Richmond. Era um polemista em questões de moral e cismas religiosos. O maior ídolo do homem era John Henry Newman (polímata e santificado pela igreja católica em 2019!), líder do Tractarian movement (a redação de um número de panfletos que queria dogmatizar a igreja anglicana especificamente inglesa à parte de outras conformações, como a da Irlanda).

Seu filho homem mais velho, nem precisamos dizer, não herdou todas as concepções ortodoxas e aristocráticas de seu progenitor, tendo preferido ser autor e professor de matemática antes de deão. Aos 7, Carroll, segundo anotações da família, lia livros para adultos – posto que montados sobre complicadas alegorias – como The Pilgrim’s Progress (…) de Bunyan. Ele e vários de seus irmãos e irmãs eram gagos, o que limitava suas perspectivas sociais. (…)

Auto-retrato circa 1856, aos 24.

Alegadamente, segundo seu diário, no período de 3 anos em que estudou na Rugby School Dodgson (e todos os mais jovens ou novatos), sofreu bullying. (…) Seu sobrinho Stuart Collingwood escreveria mais tarde: “Muito embora seja difícil de figurar meu tio como alguém diferente dessa persona meiga e retraída que todos conhecem, é também verdade que, mesmo anos depois de deixar de ser um estudante, seu nome era ainda recordado como o de alguém que sabia usar os punhos em auto-defesa dos mais fracos quando necessário”, referindo-se principalmente a lutas em que Lewis defendia não a si mesmo mas as outras vítimas de assédio da escola.

Em matemática, nunca vi alguém tão dotado em todos os meus anos na Rugby School quanto Dodgson”, escreveu o professor da instituição R.B. Mayor. (…) Seus estudos nesta instituição duraram de 1846 a 1849, no que poderíamos equivalê-los ao nosso ensino médio. Em maio de 1850 Dodgson já estava matriculado em Oxford na disciplina que tanto notabilizou não só a ele, mas a sua família como um todo, como se corresse no sangue. Apenas dois dias após o início das aulas, Lewis foi convocado para voltar ao lar: sua mãe havia morrido de uma “inflamação no cérebro”, talvez decorrente de um surto de meningite, ou um derrame, provocado ou não por alguma forte pancada. Ela tinha apenas 47 anos.

Seus anos na academia transitaram, segundo ele mesmo em seus diários, entre corresponder ao status de gênio que lhe era imputado pelos mais velhos e uma incrível capacidade de distração e “desleixo” para com a seriedade excessiva do ambiente. Em 1852 ele obteve uma menção honrosa como um dos mais destacados alunos da Universidade. Isso valeu-lhe uma bolsa oferecida pelo amigo de seu pai, o cânone da igreja Edward Pusey. Em 1854, imediatamente antes de se formar, adquiriria outra menção honrosa.

(…) Quando não atuava, de forma contínua ou intermitente, como professor da instituição na qual se formou, Lewis desempenhava uma miríade de cargos honoríficos, como o de sub-bibliotecário da própria Christ Church, algo parecido com a reitoria ou pró-reitoria da instituição.¹ (…)

¹ Assim como a denominação secretário, bibliotecário sofreu, no mundo profissional e na língua portuguesa, grande “baque” ou “recessão”…

Personalidade e aparência

Problemas de saúde

Fotografia de 1863 por Oscar G. Rejlander

Charles Dodgson, uma vez adulto, tinha cerca de 1.83m e era muito magro. Tinha cabelo encaracolado castanho e olhos entre azul e cinza (difíceis de definir conforme cada testemunho diferia). Foi descrito em seus anos finais como um “senhor excêntrico”, assimétrico, um tanto falto de harmonia e bizarro. Suspeita-se que esse quadro não seria veraz, dadas indicações de que também já havia possuído porte atlético, não fosse por uma lesão crônica no joelho que adquiriu à meia-idade.

Quando era criança sofreu de uma febre que o deixou surdo de um ouvido. Aos 17, teve um ataque severo de coqueluche, o que talvez explique a fraqueza de seus pulmões durante toda a vida madura. Sua gagueira permaneceu oscilante e relativamente controlada, mas de modo geral incurada, hoje um de seus traços mais conhecidos. A principal instância desse fato está auto-parodiada pelo Dodo (animal extinto no mundo real e que repetia sílabas, já no nome) de Alice no País das Maravilhas.

(…)

Lewis viveu em tempos em que a “alta sociedade” exigia certa fluência oratória, quando não talento lírico para as músicas e serões em grupos e bailes. Mas parece que Lewis não era mau cantor, nem se intimidava diante do público, assim como recitar poemas ou predicar a fé não lhe eram situações problemáticas. Outras de suas renomadas especialidades são a mímica e o conto improvisado de estórias (assim começou Alice no País das Maravilhas, inclusive). Melhor ainda, era um grande charadista.

Conexões

Entre seus primeiros escritos e o mega-sucesso da dobradinha Alice, Dodgson participava ativamente de um círculo de intelectuais “pré-rafaelitas” (eruditos e rebuscados, desejosos de disseminar uma cultura que antecedia mesmo o neo-classicismo, ainda que não fosse gótica como a da idade média). Assim foi que ele conheceu John Ruskin¹ em 1857. Em 1863 entabulou relações com Dante Gabriel Rossetti e sua família. Rossetti era outro polímata: poeta, pintor, tradutor. Outras celebridades do círculo eram William Holman Hunt, Arthur Hughes e John Everett Millais. Mas aquele autor com características mais similares as suas talvez fosse George MacDonald, nem que somente por haver se notabilizado pela autoria de obras “para crianças”. Na verdade parece que a entusiástica recepção dos esboços de Alice pelos filhos deste último encorajaram Carroll de forma decisiva para empreender sua reescrita e publicação finais. Carroll, notório fotógrafo, tiraria muitas fotos da família MacDonald e também da família Rossetti em seus jardins em Chelsea.

¹ Mais um polímata britânico do XIX retroativamente acusado pelos acadêmicos de pedófilo.

Política, religião e filosofia

Dodgson seguiu minimamente a tradição de seu pai: era um conservador purista em todos os tópicos sociais, mesmo os do pensamento humano, quando não acabava atingindo verdades póstumas via insights em suas novelas. Martin Gardner descreve Dodgson como um Tory preconceituoso e esnobe com as classes trabalhistas, o que nos causa estranheza. William Tuckwell, em Reminiscências de Oxford (1900), entendia-o como “austero, tímido, preciso, absorvido por demais em esquemas matemáticos, muito autoconsciente de seu senso de dignidade, algo conservador além do que parecia confortável a sua própria natureza, como que por inércia ou razões de família, e, enfim, prisioneiro de preconceitos vitorianos”.

(…)

Dodgson também foi um membro-fundador da Sociedade para a Pesquisa Psíquica, e ele era um claro defensor da teoria da telepatia (em Sílvia e Bruno dedica todo o poder e fé a essas crenças ao seu eu-lírico).

(…)

Na arte

Uma das ilustrações de Carroll

Literatura

Desde a adolescência se dedicou aos poemas e pequenos contos. Havia uma revista da família, Mischmasch, em que contribuía. Quando esses escritos foram revividos por publicações profissionais, obtiveram sucesso moderado. Nos anos 1850 ele se tornaria um autor nacionalmente conhecido (antes de Alice, quando se tornou mundialmente consagrado). Destacava-se mais nas publicações que fossem bem-humoradas, satíricas, etc.

Uma de suas peças de teatro para serem encenadas por marionetes por suas irmãs, nunca publicada em seus tempos, sobreviveu para nosso escrutínio: La Guida di Bragia. Seu primeiro poema realmente famoso foi Solitude (Solidão), num exemplar de The Train, em que Dodgson já usava o alter ego ou pseudônimo Lewis Carroll, a partir dali indissociável de sua carreira literária não-acadêmica. (…) Participou da escolha de seu nome artístico um dos editores de suas obras, Edmund Yates. Ele vetou outros nomes sugeridos por Dodgson: Edgar Cuthwellis, Edgar U.C. Westhill e Louis Carroll!

Os livros de Alice

The Jabberwock, ilustrado por John Tenniel, mais famoso pelas caricaturas dos dois volumes de Alice. Uma parte deste poema, autocontido, está em Através do Espelho.

Em 1856 o autor conheceu Henry Liddell e sua família. Não só o pai da família se tornou seu confidente (e basicamente patrão, pois era figura importante de Oxford) como a esposa Liddell, Lorina, e suas crianças também lhe amigaram muito rápido. Eram três irmãs mulheres, Lorina a Filha, Edith e Alice, a caçula. Em geral a Alice da pena de Lewis não lembra Liddell, realmente, em seus atributos físicos e em grande parte de sua personalidade infantil. É curioso, ainda mais em vista do que diremos a seguir sobre o “escândalo Carroll-Liddell”, que Lorina conste como figura proeminente no epílogo de País das Maravilhas…

Outra “pequena musa” de suas obras foi Gertrude Chataway (já de uma época em que Alice Liddell era uma mulher adulta), a quem dedica um poema com acrósticos no prelúdio de The Hunting of the Snark. Isso não sugere, ao contrário das lendas urbanas muito ou pouco exageradas no caso dos livros de mais fama, que Gertrude tenha sido tal e qual transposta para a narrativa ou tenha sido uma inspiração essencial da obra. Encara-se como uma simples dedicatória, como todo autor tem o direito de fazer, e costumeiramente o faz.

O que não nos permite tecer conclusões cabais de nenhum tipo sobre a força ou intensidade das relações com suas “musas” é que os diários do autor de 1858-62 estão irremediavelmente perdidos para nós. Isso não nos veda o conhecimento de que Lewis era realmente amigo íntimo da família Liddell e passeava de barco/gôndola com as crianças do casal em fins de semana e feriados, por exemplo, nas águas que circundam a Universidade de Oxford. Parece que a amizade com filhos de conhecidos não se mantinha após crescerem, no caso de Dodgson, mas com Alice Liddell a fofoca e as lendas urbanas atingiram o nível máximo na imprensa e nos estudos acadêmicosb.

(…)

Graças ao sucesso do primeiro livro de Alice, Dodgson se viu, pela primeira vez na vida, essencialmente um homem rico e independente. Anedoticamente se conta que a própria Rainha Vitória se enamorou tanto do livro que teria instado o autor a dedicar seu próximo livro a ela, mas este não foi um livro infanto-juvenil, e sim um maciço volume acadêmico chamado An Elementary Treatise on Determinants (Tratado Elementar sobre Determinantes Matemáticas). Mas, como com a frase “os boatos de minha morte foram um tanto exagerados”, podemos suspeitar da veracidade desta lenda: a dedicatória existe, porém não há registro fiável de que a rainha Vitória tenha feito esta súplica de homenagem.

Mesmo com o ganho satisfatório advindo de suas publicações, contudo, Lewis seguiu em Christ Church, como um professor comum. A continuação da primeira parte de Alice (não que a estória tenha terminado inconclusa) demoraria quase uma década, Através do Espelho. É um livro mais sinistro e sério, como aliás seria a tendência para Sílvia e Bruno, dificilmente catalogável, em sua metade “menos élfica” como “livro de crianças”!

Como sempre, os críticos querem encontrar em circunstâncias pessoais os motivos para o tom mais melancólico de uma obra, neste caso uma duologia que, dizem, começa muito mais alegre do que termina: o pai de Lewis morrera em 1868, entre as duas publicações. Fato muito fraco para ser causa de uma mudança de estilística ou de sentimento e humor num autor de grande envergadura.

The Hunting of the Snark¹

¹ Snark é uma criatura mitológica inventada por Carroll, portanto não me cabe traduzir o nome. O restante do livro sim: A Caça ou Caçada ao Snark.

Trata-se de um poema épico eivado de nonsense. Henry Holiday substitui Tenniel como seu ilustrador desta vez. Talvez seja uma releitura do mito de Ahab-Moby Dick. Entre 1876 e 1908 o livro teve 17 reimpressões, outro sucesso incontestável, desta vez noutro gênero. Hoje é comum vê-lo transposto para musicais, óperas, peças e músicae, embora muito menos lido que Alice, o que não é difícil, uma vez que Alice é um dos livros mais lidos de todos os tempos. Ainda falta o filme, bem como um maior reconhecimento para o legado de Sílvia e Bruno. Voltando a Snark, Dante Gabriel Rossetti costumava dizer que o poema era inteiro sobre ele.

Sylvie and Bruno

Como três/duas décadas atrás, eis Carroll produzindo um livro para o público infanto-juvenil em dois volumes mais uma vez, Sílvia e Bruno, um casal de irmãos-fada, numa trama um tanto mais elaborada que as anteriores, embora cheias dos mesmos jogos de palavras e absurdos temáticos encantadores sob a pena de Carroll. Na verdade há duas main plots que se desenvolvem de forma ora paralela, ora complementar, num enredo espiralado e interdependente. Um é o mundo real da Inglaterra interiorana cujo protagonista é um senhor idoso suscetível à crença nas tais fadas (muito parecido com o próprio Carroll em seu temperamento e humor) – este senhor não é chamado por um nome próprio no decorrer de todo o livro. (O Seclusão postará seus principais trechos em poucos dias.) A outra metade é dedicada às desventuras dos pequenos irmãos exilados de Exotilândia, peregrinos de Elfolândia e outros países ou mundos de faz-de-conta que vivem nos interstícios do nosso, neste enredo. A obra tem bastantes mensagens crít(p)icas e conteúdos inapreensíveis para pessoas demasiadamente jovens sem muita semelhança com a precocidade intelectual do próprio Dodgson, o que me permite situá-la na literatura universal do mais alto nível sem constrangimento algum. Mesmo não fazendo tanto sucesso comercial (comparativamente), o livro nunca esgotou seus exemplares ou saiu de circulação, recebendo reimpressões constantes, em mais de um século.

Hobby (em alto nível) da fotografia (1856–1880)

Foto de Alice Liddell tirada pelo próprio Lewis Carroll (1858)

Em 1856 Dodgson descobriu a nova arte da fotrografia e a abraçou por completo, sob influência de um primo, Skeffington Lutwidge, e do colega oxfordiano Reginald Southey. Em pouco tempo ver-se-ia que Carroll não era só um entusiasta da nova tecnologia e meio de expressão artística imagético, tendo muito tato e senso estético para suas imagens, como um fotógrafo vocacionado atual.

Um estudo exaustivo de Roger Taylor e Edward Wakeling conseguiu reunir todos os retratos sobreviventes do autor (https://www.abebooks.com/9780691074436/Lewis-Carroll-Photographer-Taylor-Roger-0691074437/plp). O objeto favorito de Carroll eram garotas pré-púberes (cerca de 50% de suas modelos fotográficas). Estima-se que mais da metade das fotos tiradas por Dodgson foram destruídas pelo autor antes de sua morte ou por seus parentes, talvez mediante pedido do autor em testamento. Ele também fez estudos de paisagens, garotos e homens adultos. Mesmo objetos inanimados: esqueletos, bonecas, estátuas, pinturas (primeiras instâncias de um mélange ou intersemiótica de fotografia e outras artes?); ou então animais, principalmente cães, e a vida vegetal. Sempre que fotografava crianças ele mantinha um dos pais como testemunha em toda a sessão. A famosa foto acima, uma das que nos permite conhecer a fisionomia da Alice “verdadeira”, foi tirada nos jardins da propriedade dos Liddell: era comum àquele tempo ser melhor tirar fotos aproveitando-se da luz solar, pois não havia ainda bons estúdios de fotografia nem lugares fechados com iluminação hoje dita profissional.

The Rossetti Family, Lewis Carroll (1863). L-R: Dante Gabriel RossettiChristina RossettiFrances Polidori e William Michael Rossetti

A fotografia de pessoas célebres também valeu-lhe contatos importantes e dinheiro: John Everett MillaisEllen TerryJulia Margaret CameronMichael Faraday (um dos nossos polímatas da série!)Lord SalisburyAlfred Tennyson.

Em 1880 Dodgson se aposentou da fotografia (foram 24 anos de carreira). Ele tinha um lugar para armazenar seus retratos no sótão de Tom Quad. O aposento constituía um acervo de 3 mil imagens. Como dito, conhecemos hoje menos de mil, então é uma estimativa, no melhor dos mundos. Algumas fotos foram perdidas unicamente pelo desgaste do tempo e não-atendimento dos requisitos de preservação do suporte, não por negligência, mas pela precocidade técnica do trabalho de Carroll.

Como fotógrafo da velha guarda, seu método de revelação estava se tornando obsoleto e ele tinha de perder muito tempo com fotografias, o que o privava das delícias da literatura e da matemática, daí sua “aposentadoria” anunciada, bem antes do fim de seus anos ativos.

Matemática

Pintura-retrato póstuma de Lewis Carroll por Hubert von Herkomer.

Suas sub-especialidades eram os campos da geometria, álgebra linear, álgebra de matrizes, lógica e matemática recreativa (podendo ser considerado o pai da ‘disciplina’), tendo escrito quase uma dúzia de livros no assunto, com seu nome de batismo, não Lewis Carroll.

Dodgson produziu a primeira prova impressa do Teorema de Rouché-Capelli; contribuiu com novas idéias e conceitos em probabilidade e estudos de eleições (“método Dodgson”).

Lógica

Esse é um legado redescoberto somente na segunda metade do século XX. Martin Gardner e William Warren Bartley III parecem ter voltado a situar Carroll no âmbito dos lógicos de relevo. Seu volume II dedicado à lógica é especialmente recomendado.

Álgebra

A condensação de Dodgson é uma maneira de avaliar determinantes. Esses foram os passos iniciais para o desenvolvimento de um novo teorema algébrico.

Matemática como passatempo

Fosse vivo durante a Segunda Guerra, é de supor que Carroll pudesse ajudar os Aliados contra os alemães, pois algumas de suas proposições sobre criptografia seguem bastante atuais. Para um homem que viveu antes dos computadores, essa é uma faceta marcante.

Correspondências

Estima-se que Dodgson tenha escrito e recebido espantosas 98.721 cartas. Poderíamos chamá-lo de Pelé das cartas.

Anos finais¹

¹ Odiaria ter uma página no wikipedia com essa seção contando minha vida.

 

 

Lewis Carroll retratado na terceira idade

Dodgson pouco mudou sua rotina após a fama e a riqueza, como dito. Uma de suas poucas aparições públicas, por exemplo, se deu na estréia de Alice no País das Maravilhas no teatro, no País de Gales, 30 de dezembro de 1886. Parece que a única ocasião em que viajou para fora do Reino Unido foi quando conheceu a Rússia em 1867, numa missão eclesiástica com o reverendo Henry Liddon. Na volta, parece ter feito escalas em cidades da Bélgica, Alemanha, Polônia e França, conforme seus diários. A partir dos 60 anos sua mobilidade foi severamente comprometida pela artrite e a gota. Sua causa mortis foi pneumonia seguida de influenza.

Controvérsias

Sexualidade de Carroll & Algumas considerações sobre o surgimento da arte da fotografia

Biógrafos do fim do século XX, com a pauta finalmente em moda, começaram a se questionar sobre a homossexualidade e a possível classificação de Dodgson como pedófilo, mas é importante ressaltar que para que esse diagnóstico seja válido ao se referir a pessoas de séculos anteriores a documentação comprobatória precisa dar respaldo, mais ainda do que para biografias contemporâneas, com testemunhos, testes, dentre outras evidências muito mais acessíveis. Mais do que trabalho historiográfico, a grande parte do que se publicou sobre o tema até hoje parece jornalismo marrom ou tentativa de vender mais exemplares, alimentando polêmicas anacrônicas. Para exemplos da conduta, vd. Morton Cohen, Lewis Carroll: A Biography, 1995; Donald Thomas, Lewis Carroll: A Portrait with Background, 1995; Michael Bakewell, Lewis Carroll: A Biography, 1996. Veja que todas as biografias são produtos de um tempo (uma década histérica com a Aids, talvez, e de retrocesso nas conquistas de liberação pós-guerra?)

 

 

Fotografia carrolliana de Beatrice Hatch, parente em grau distante de Aldous Huxley.

Circulam fake news de que Dodgson teria pedido a mão de Alice Liddell em casamento, mas essa informação não é encontrada em nenhuma de suas quase 100 mil correspondências, o que deveria servir de alerta ao baixo nível das biografias acadêmicas do autor.

(…)

Do lado dos historiógrafos mais honestos e menos sensacionalistas podemos encontrar Hugues Lebailly (Through a Distorting Looking-Glass: Charles Lutwidge Dodgson’s artistic interests as mirrored in his nieces’ edited version of his diaries; Charles Lutwidge Dodgson’s relationship with the weaker and more aesthetic sex re-examined). A era vitoriana promovia uma espécie de culto divino da infância e da criança, mesmo do corpo a-erótico das crianças. É natural que um homem do período desenvolvesse uma carreira vicária de fotógrafo com estes gostos em mente, e que fotos com roupas de luxo, simulando certa pobreza ou espontaneidade (a criança coberta de farrapos, ou como que em roupa de cama, surpreendida ao acordar) e até mesmo nus completos não produzissem o menor choque social – pelo contrário, era como retratar anjos visíveis. Palavras como pornografia e abuso infantil estavam longe sequer de ser cunhadas ou debatidas.

Longe de ser uma exclusividade de Carroll, muitos profissionais do período e do local são notáveis no campo da Estética por tratar exclusivamente do assunto e contribuir em Estética e Moda das perspectivas infanto-juvenis, como Oscar Gustave Reilander¹ (quem trabalhou com Darwin) e Julia Margaret Cameron (a mãe do close-up, até hoje uma das maiores influenciadoras de nosso imaginário plástico dos maiores gênios que estudamos desde a escola via livros-textos, pois dela são algumas das fotos mais difundidas de ingleses de renome; ataques misóginos no período – que surpresa! – classificavam seus “cliques” atemporais como “borrados e fora de foco” – nem Bernard Shaw² deixou de dizer as maiores asneiras sobre Julia Cameron, ainda que obrigado a reconhecer seu talento… para fotografar homens velhos!). “Nus” de crianças apareciam vulgarmente em cartões postais britânicos a cada comércio de esquina, então não é como se fossem uma commodity para “aficionados” ou “doentes”, como seriam considerados hoje. Não há como condenar Dodgson sem condenar um período histórico inteiro (e ainda assim estar-se-ia correndo o risco de cometer grave injustiça) – disso os biógrafos incautos deveriam ser avisados, se ousam tecer conclusões de longo alcance a fim de vender livros mais facilmente.

¹ A propósito, através dessa página encontrei essa outra e estou aqui gargalhando há 5min: https://en.wikipedia.org/wiki/Victorian_headless_portrait. Etimologia da lenda do cavaleiro sem cabeça (ou um dos epifenômenos dessa obsessão inglesa)?

² Um dos últimos reacionários com cérebro do planeta Terra.

Karoline Leach vai mais longe e entende o retrato (no pun intended) que se faz de Lewis como “desinteressado de mulheres adultas” como uma grande mitologização e falsificação da vida do autor, o que ganhou até nome próprio para larga utilização: O Mito de Carroll. Os primeiros biógrafos erraram sutilmente a esse respeito; os de uma segunda geração, utilizando os primeiros como referência, ampliaram o erro ao entender “eco” como “informação” inquestionável, até que o mercado de biografias de Carroll se tornasse indistinguível do mau jornalismo de superfície, com lupas que magnificavam os erros dos biógrafos precedentes.

Algumas das famosas “amiguinhas” de Carroll, como chamam suas modelos pejorativamente, porque assim ele as tratava nas cartas, sem por isso significar algo jocoso, que os biógrafos que o acusam de pedofilia gostam de citar como “prova”, com as quais ele se correspondia, tinham mais de 18 anos de idade, por exemplo. Imoralidade não deve ser confundida com ilegalidade nesse aspecto idiossincrático – se verdadeiramente idiossincrático – do eminente pastor-matemático-poeta-fotógrafo! Langford Reed, por fim, para citarmos novamente alguém do campo anti[t]ético, propôs em 1932 uma tese um tanto “leonardodicapriana” para os interesses interpessoais de Carroll: ele, alega o autor da biografia dos anos 30 do século passado, descartava suas amizades femininas quando elas chegavam aproximadamente ao aniversário de 14 anos. Como vimos no caso da família Liddell, a razão do “rompimento” pode ser de ordem completamente não-relacionada com o envelhecimento da criança-modelo (inclusive pode ter relação com ciúmes e paranóia dos pais da agora púbere rebenta, num tempo em que se fazia legitimamente a côrte a mulheres assim que elas já haviam visivelmente menstruado – e não falo de jovens de barba espessa, mas de sessentões ou setentões, muitas vezes). Outros defendem que Carroll era homossexual e usava essas correspondências para tentar camuflar o fato, que era contravenção conforme a Inglaterra do período ou pelo menos pecado na consciência de alguém tão religioso, sabendo-se que dificilmente um aristocrata britânico teria de cumprir pena pelo crime do “amor proibido”.

O claustro e não-ordenação

Dodgson deveria ter sido ordenado para viver em claustro cerca de 4 anos após ter completado seus estudos como matemático na Christ Church. Mas essa circunstância foi inúmeras vezes adiada e Carroll acabou sendo sempre um “leigo”, isto é, um pastor comum de sua congregação, e não alguém mais retirado da vida, um “monástico” (a igreja anglicana possui tantos pontos em comum com o catolicismo – vedação do sexo fora ou mesmo dentro do casamento sem fins reprodutivos, quando não do casamento em si – quanto com o protestantismo, dependendo da seita em questão).

Algo dos possíveis tormentos um tanto herméticos e apenas psicológicos de Carroll no que diz respeito a sua condição de pecador pode ser distinguido nas entrelinhas da narração em primeira pessoa da ficção Sílvia e Bruno, que comparado com Alice no País das Maravilhas, livro sem referencial religioso algum (dir-se-ia, bastante pagão), é uma verdadeira gospel novel.

Os diários perdidos

Pelo menos 4 volumes completos e 7 páginas de texto de outros diários estão faltando, num total de 13 volumes dos diários de Lewis Carroll. Não se sabe explicar o desaparecimento. A remoção das páginas aleatórias dentre os volumes preservados, por exemplo: especula-se que seja obra dos herdeiros, a fim de preservar a imagem do autor em pontos sensíveis de sua biografia. Os períodos mais afetados por essas omissões são 1853 a 1863 (dos 21 aos 31 anos de Lewis). Há especulações, no mesmo montante, de que fossem poemas abertos sobre interesses homossexuais, numa análise contextual de em que períodos Carroll mais produziu poeticamente (justamente esse intervalo). Novamente, especulações com algo de razão, porém sem qualquer evidência.

 

Descoberta documental (não-conclusiva) de 1996 (Karoline Leach): mais um indício apoiando que ambas as famílias jamais trataram de propostas matrimoniais entre “Carroll” Lutdwidge e Alice Liddell.

Parece que a principal causa do rompimento havido entre Carroll e a família Liddell (que não foi definitivo, mas que esfriou a relação entre as partes de modo irreversível) tinha razões bem menos nobres, se se confirma a veracidade do conteúdo da imagem exposta acima –– outros diriam: bem menos escandalosas ––, que uma negativa de Alice (na verdade o pai de Alice) em se casar (que sua filha se casasse) com Dodgson. Havia boatos, na casa paterna, de relações entre o escritor e uma certa governanta, ou mesmo com Lorina Liddell, a irmã mais velha de Alice (em idade legal para contrair o matrimônio, a propósito). Na verdade, pior ainda, Lorina podia ser a própria mãe de Alice, já que o nome da primeira filha e da mulher do Sr. Liddell era o mesmo! Affair socialmente escandaloso, sem dúvida, mas absolutório de Carroll no quesito “pedófilo que gostaria de casar com sua principal musa inspiradora” (o que nos importa neste séc. XXI, assumo), para a decepção de muitos tablóides acadêmicos extemporâneos! Caso isso pudesse ser provado efetivamente, e não apenas apontado com um pouco mais de probabilidade (só o que há são “fofocas” provenientes de uma página muito tardia redescoberta, realmente suprimida do diário, mas não-escrita pelo próprio Carroll, mostrando que ele foi alterado entre sua morte e sua divulgação, que bate com a data do rompimento nas relações familiares, em que constam essas explicações mais fundamentadas no senso comum – testes caligráficos apontam para as anotações serem das sobrinhas de Carroll, que alegavam não querer manchar a reputação da governanta para terem suprimido a página depois, enquanto que há outra vertente que acredita na declaração do sobrinho-neto de Carroll de que foi ele o autor da entrada no diário, baseando-se, de qualquer maneira, em ouvir-dizer corrente na família), realmente seria o maior marco ou revolução epistemológica desde que biografias de Carroll começaram a ser escritas, digno de um grande mea culpa dos especuladores em relação a Lewis Carroll! A página acima segue, entretanto, como curiosidade pitoresca sobre esta inútil polêmica.

Enxaqueca e epilepsia¹

¹Esta seção deveria obviamente estar em Problemas de saúde, não como tópico separado.

Na década de 1880 Dodgson descreveu em detalhes suas crises de enxaqueca com aura. Curiosamente, uma vertente de enxaqueca foi batizada de Síndrome de Alice no País das Maravilhas por médicos posteriores, graças aos efeitos visuais lisérgicos decorrentes da crise (há a sensação corpórea, concomitante, de aumento e diminuição do tamanho dos corpos em volta).¹

¹ Eu mesmo padeci de uma dessas crises (embora minhas enxaquecas, sempre com aura, sejam bastante raras) num momento fundamental de minha adolescência em que fui falsamente acusado pelos meus pais de empreender ações horríveis (namorar uma suposta prostituta-cafetã – acusação que na verdade partiu – e foi facilmente crida – de um trote da cunhada má, irmã da difamada, nas quais meus pais caíram como patos sem solicitar qualquer evidência além de uma convicta voz na ligação de telefone, como caem em qualquer conversa para boi dormir, de golpes de cartão a Bolsonaros…).a Com o tempo, o sistema de mentiras que eles (meus pais) erigiram para me difamar voltou-se contra eles, e as doenças auto-imunes também deixaram de me afetar para afetar Nadir Gomes e José de Jesus Ferreira ao invés. Enantiodromia psicossomática hereditária? Somatização enantiodrômica intergeracional? Destino trágico-irônico? Chamem do que quiser! Eu chamo de BBB: burlesco, belo e moral.

a Anos depois, ironicamente, a mesma pessoa (a cunhada caluniosa), com o mesmo expediente (telefonar para os meus pais) conseguiu realizar o efeito contrário na mente deteriorada de meus lamentáveis progenitores: num contexto diferente, em que as duas tinham se reconciliado e eu era “o ex tóxico da estória”, a irmã de minha ex-namorada (quero deixar claro que esta ex-namorada nunca foi prostituta, nem cafetina, nem agia como qualquer dessas coisas, como nas ilações feitas pela própria irmã meses antes!! parece que não só a minha família é um poço de lodo covarde e deletério…) comunicou aos meus pais que me processaria por tê-la eu ofendido no scrapbook do finado Orkut! Meu pai, machão como sempre, disse que se algo assim se repetisse eu não poderia concluir minha faculdade privada de jornalismo, que ele a duras penas (falso!) custeava, pois pararia de me financiar no ato.aa

aa Mais curiosamente ainda, numa dessas reviravoltas típicas na vida de pessoas sem-cérebro (falo do meu pai, que infelizmente tinha dinheiro e o monopólio sobre minha existência, quando eu era um jovem desempregado de 20 anos), ele revoltou-se anos mais tarde quando eu desisti voluntariamente da faculdade de jornalismo, pois não desejava mais seguir aquela profissão, e ser-me-ia fácil largá-la de imediato, uma vez que já inclusive cursava em simultâneo sociologia na Universidade de Brasília e comunicação social nessa pós-graduação de direito privado… Agora, porém, o “machão” não podia dizer que sem seu dinheiro eu não poderia me formar (numa instituição pública), e que ele era o deus-mecenas de minha existência presente-futura… Havia perdido um grande poder, ou sensação de poder, que os idosos usam no lugar das ereções! Ele não deixou, contudo, e hipocritamente, de estrebuchar-se por meia hora sobre os recursos que havia jogado fora em minha educação, só para que eu desistisse dum curso em que eu era excelente aluno (e do qual ele ameaçou me desmatricular se eu xingasse uma verdadeira RAMEIRA REPRODUTORA DE MENTIRAS EM SÉRIE num perfil de rede social, recapitulemos). Assim caminha a família tradicional brasileira: vários andares abaixo da família tradicional vitoriana, que já claudicava e não ia nada bem… Intermezzo talvez desnecessário neste post sobre Carroll, mas delicioso mesmo assim, uma vez que a página do wikipedia achou tão importante citar as enxaquecas com aura de Dodgson e tudo isso me veio à baila sub-repticiamente!

Três médicos teriam diagnosticado Carroll ao longo da vida, graças a alguns desmaios sem piores conseqüências, como epilético em algum grau, diagnósticos não-conclusivos (exatamente como muitos capítulos biográficos contendo opiniões fortes em forma de afirmações absolutas, mas nada mais). De qualquer maneira, foram tonturas ou mal-estares “epileptiformes” ou “epileptóides”, embora não epilepsia propriamente dita.

(…)

(Um último conselho aos editores do Wikipédia: parem de incluir informações irrelevantes ou não-confirmadas em seus artigos biográficos!)

Trabalhos completos

Literários

  • La Guida di Bragia, Ópera-Balada para Teatro de Marionetes (c. 1850)

  • Miss Jones”, música cômica (1862)

  • Alice’s Adventures in Wonderland (1865)

  • Fantasmagoria e Outros Poemas (1869)

  • Through the Looking-Glass,…and What Alice Found There [Através do Espelho…e o que Ela Encontrou Por Lá] (inclui a 1ª aparição de Jabberwocky e “A Morsa e o Carpinteiro”) (1871)

  • The Hunting of the Snark (1876)

  • Rhyme? And Reason? [Rima? Com ou Sem Sentido?, seria minha opção de tradução favorita] (1883) – tem vários poemas em comum com o livro de 1869 “Phantasmagoria”

  • Um Conto Emaranhado (1885) [Este título também seria ótimo como alternativa para Sílvia e Bruno.]

  • Sylvie and Bruno (1889)

  • A Pequena “Alice” (1890) [Ou “Alice para a Creche”, versão abreviada para crianças de 0 a 5 anos, segundo o próprio Carroll.]

  • Sylvie and Bruno Concluded (1893) [primeira aparição do 2º volume da obra, hoje vendida em vol. único]

  • Problemas de Travesseiro (1893)

  • O que a tartaruga falou para Aquiles (1895)

  • Três Crepúsculos e Outros Poemas (1898)

  • The Manlet (1903)

Matemáticos

  • Uma Sílaba de Geometria Algébrica Plana (1860)

  • O Quinto Livro de Euclides Tratado Algebricamente (1858; 1868)

  • Tratado Elementar sobre Determinantes, Com sua aplicação a equações lineares simultâneas e equações algébricas

  • Euclides e seus rivais modernos (1879), uma espécie de livro-híbrido entre literatura de não-ficção e pedagogia em matemática.

  • Lógica Simbólica Parte I

  • Lógica Simbólica Parte II (póstumo)

  • A Cifra do Alfabeto (1868) [sobre decriptação]

  • O jogo da Lógica (1887)

  • Curiosa Mathematica I (1888)

  • Curiosa Mathematica II (1892)

  • Uma discussão sobre os vários métodos para se conduzir eleições (1873), Sugestões para o melhor método de escrutínio popular, em que mais de dois assuntos devem ser votados (1874), Método de contagem de votos em mais de dois temas simultâneos (1876), todos compilados como Teoria dos Comitês e Eleições, editado, analisado e publicado em 1958 por Duncan Black.

Outros/miscelânea

  • Algumas Conhecidas Falácias sobre Vivissecção

  • Oito ou Nove Sábias Palavras sobre Escrever Cartas (1890)

  • Notes by an Oxford Chiel [Observações de um ‘Cara’ de Oxford, como nos referiríamos à gíria chiel, caída em desuso] (1865-74)

  • Princípios da Representação Parlamentar (1884) [não entendo por que não recairia em ciência política ou, ao menos, matemática, conforme os outros trabalhos de Carroll sobre votação]

Referências importantes

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Uma das primeiras biografias a revelar detalhes da infância de Carroll.

Talvez a biografia mais indicada até o presente.

  • Pizzati, Giovanni: “An Endless Procession of People in Masquerade”. Figure piane in Alice in Wonderland. 1993, Cagliari.

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  • Taylor, Roger & Wakeling, Edward: Lewis Carroll, Photographer. 2002. Princeton University PressISBN 0-691-07443-7.

Para um livro de fotografia, não achei tão caro!

Aprofundamento

  • Black, Duncan (1958). The Circumstances in which Rev. C. L. Dodgson (Lewis Carroll) wrote his Three Pamphlets and Appendix: Text of Dodgson’s Three Pamphlets and of ‘The Cyclostyled Sheet’ in The Theory of Committees and Elections, Cambridge: Cambridge University Press

  • Bowman, Isa (1899). The Story of Lewis Carroll: Told for Young People by the Real Alice in Wonderland, Miss Isa Bowman. London: J.M. Dent & Co.

  • Carroll, Lewis: The Annotated Alice: 150th Anniversary Deluxe Edition. Illustrated by John Tenniel. Edited by Martin Gardner & Mark Burstein. W. W. Norton. 2015. ISBN 978-0-393-24543-1

  • Dodgson, Charles L.: Euclid and His Modern Rivals. Macmillan. 1879.

  • Dodgson, Charles L.: The Pamphlets of Lewis Carroll

  • Douglas-Fairhurst, Robert (2016). The Story of Alice: Lewis Carroll and the Secret History of Wonderland. Harvard University Press. ISBN 9780674970762.

  • Goodacre, Selwyn (2006). All the Snarks: The Illustrated Editions of the Hunting of the Snark. Oxford: Inky Parrot Press.

  • Graham-Smith, Darien (2005). Contextualising CarrollUniversity of Wales, Bangor. PhD thesis.

  • Edward Guiliano (1982). Lewis Carroll, a Celebration: Essays on the Occasion of the 150th Anniversary of the Birth of Charles Lutwidge Dodgson, C. N. Potter, London.

  • Huxley, FrancisThe Raven and the Writing Desk. 1976. ISBN 0-06-012113-0. (Francis Huxley é sobrinho de Aldous Huxley)

  • Kelly, Richard: Lewis Carroll. 1990. Boston: Twayne Publishers.

  • Kelly, Richard (ed.): Alice’s Adventures in Wonderland. 2000. Peterborough, Ontario: Broadviewpress.

  • Lakoff, Robin T.: Lewis Carroll: Subversive Pragmaticist. 2022. Pragmatics: Quarterly Publication of the International Pragmatics Association, pp. 367–85

  • Lovett, Charlie: Lewis Carroll Among His Books: A Descriptive Catalogue of the Private Library of Charles L. Dodgson. 2005. ISBN 0-7864-2105-3

  • Richardson, JoannaThe Young Lewis Carroll. London: Max Parrish, 1963.

  • Waggoner, Diane (2020). Lewis Carroll’s Photography and Modern Childhood. Princeton: Princeton University Press. ISBN 978-0-691-19318-2.

  • Wakeling, Edward (2015). The Photographs of Lewis Carroll: A Catalogue Raisonné. Austin: University of Texas Press. ISBN 978-0-292-76743-0.

  • Wullschläger, Jackie: Inventing WonderlandISBN 0-7432-2892-8. – Also looks at Edward Lear (of the “nonsense” verses), J. M. Barrie (Peter Pan), Kenneth Grahame (The Wind in the Willows), and A. A. Milne (Winnie-the-Pooh).

  • N.N.: Dreaming in Pictures: The Photography of Lewis CarrollYale University Press & SFMOMA, 2004.

  • Gena Showalter, Alice in Zombieland. Um belo exemplo das incontáveis paródias que Alice no País das Maravilhas gerou; mas eu ainda preferiria jogar a franquia McGee’s Alice! 😉

  • Schütze, Franziska: Disney in Wonderland: A Comparative Analysis of Disney’s Alice in Wonderland Film Adaptations from 1951 and 2010

[ARQUIVO] QUE FIM VENCEU QUEM LEVOU A MOSCA NÃO SABE A SOPA

Originalmente postado em 19 de dezembro de 2009.

 

O que acontece com os irmãos? O que acontece com a namorada? O que acontece ao amigo? O agon

 

QUEM VENCEU?

 

O barroco.

 

Eu fui belo.

Espetáculo inconsciente infantil.

 

Uma estória de um vencedor? Só que podia ter tomado uns descaminhos e não ter sido assim…

Às vezes é melhor deixar sem conclusão.

Porque a morte não sabe à conclusão.

A vida não é longa, a vida é

Majestade agora

            Não tão amplo sacrifício

Esse é o auge e percebi

 

 

[ARQUIVO] DO PARADOXO DO PARTO

Originalmente publicado em 17 de dezembro de 2007. Alterado e ampliado nas datas 15 de junho de 2008 e 17 de dezembro de 2009.

I. DO PARADOXO DO PARTO

Nasceu. A criatura sem dono e cuja descendência é ainda um mistério. Promovedora da iconoclastia, cultuada ou combatido pelos homens póstumos atingirá seu objetivo final invariavelmente. Ser desgraçado, que parece não-socializado, ignora ou aparenta nada além de desdenhar toda a coação vigente. Parece ter vindo do alto da montanha. Mas sua serenidade, seu ascetismo inoculado por uma estranha empáfia, fenecem se comparados, em caráter temporário, à brutalidade de ações pontuais. Ações outras que evocam uma furiosa correnteza, que desvirtua qualquer posição emérita entre estes que, ele sim – e somente –, denomina fracos. Ele, o denominador (e destruidor), o rebento anti-civilização. A figura marginal que pouco ameaçava, agora no papel de protagonista. Todas as certezas ocidentais, se é que ainda mereceriam tal designação, de repente soltas no vácuo, se assimilam ao próprio nada em que trafegam. Cada vez mais. Os contornos dos valores erigidos em milênios ficam difusos. Confundem-se contornos de dois ou mais objetos antigamente rijos; bem como contornos conjuntamente alinhados ou contrapostos e o fundo inócuo, onde se deveriam assentar todas as justificativas…

Quem é essa criatura, potencialmente a inutilizadora futura de quem dela trata, uma vez que a linguagem corre sério risco? A encarnação niilista e quase amorfa – ainda é feita do que o conclamado saber instrumental chamaria de carne – da História do mundo, ela própria fragmentada em multimundos pede, ou exige, o tombamento de todas as ideologias. Artigos de luxo e vindouras exposições e simulacros. A forma perfeita de entender, pela abstração laboratorial, a vitória irrevogável da própria ausência de qualquer entendimento. Alguém ainda respirará abaixo dos escombros após tempo suficiente? Talvez os bárbaros sucedâneos. Mas que visão impossível é a sociedade dos bizarros, clones (mal-feitos, o que significa que a intenção original fôra cumprida) do primeiro, justamente no que constitui uma não-sociedade, o esmagamento da interação discursiva mais simplória. Um ser, na hora apropriada, rui cem por cento dos pressupostos e exibe, glorioso, a coroação do pastiche? Por quê? Que fragilidade “inauditamente projetada” houve nas estradas, cidades, portões e desertos? Tecnicamente, a presença do ser, carnudo, jamais pôde ser exposta doutro modo que não uma descrição desonesta para com a própria falta de relevância?

Ora, nasceu também o relato. Uma peça elaborada, galgada no mundo já embebido, em sua essência, pela soma das lápides. Que quer dizer então? O indizível. A alegoria da caverna de Platão tampouco melhora as coisas…

II. DOS MAIS DIVERSOS RAIOS DE LUZ QUE OFUSCAM: ECCE CIÊNCIA PRAGMÁTICA!

O fim encetou pelo primeiro cerco. Balbucios arautos da verdade. A verdade do jogo, ou seja, uma cópia eternamente imperfeita da sede, grega ou cinematográfica. Estática ou com rotações digitais. Há a intriga, cotidiana, há o combate paulatino, existe a rebelião única e também já foi visto o projeto monumental da conversão da luz exterior em nova sombra das paredes. Destas todas, o homem se dá sobretudo pior com a luz irritante, porque onipresente mas sequer intensa, dos interesses diários, entre os quais, inclusive em vida, a mínima metafísica ou teleologia é deixada de lado e os prejuízos são imprevisíveis mesmo para o mais amoral (e não falo do ser). Claro, porque – ativada a linguagem – a noção de prejuízo é forte em demasia perante os corações – ou os olhos.

III. DA SUPERAÇÃO, VIA CORPO

Cingir a realidade não é o caminho. As ganas de conhecer fora-de-si são vontade de ser pedra. Institucionalizo essa condição para a correspondente volição. As pantomimas na tal luz encontram subsídio. Desejo a experiência máxima? A verdade é real; encontra-se no corpo. A verdade não é. O verdadeiro sempre corre, conquanto não foge de alcance ao bom usufruidor. O impulso de deus sombreou. Na estalactite da caverna a dor, sem ter como alegar que para além da cruz esbarra-se com o antídoto. Deterioram-se as panacéias débeis. Questão de tempo que o entardecer ensine à carne depauperada a dialética da não-contradição: torna-te aquilo que tu és.

IV. DO INAUDITO

Somente sei que o que jorra agora é o sangue, e a gargalhada parece o correr de um rio. Não há mais pingue-pongue. É a vida embebida na imortalidade dolorosa da carne. Benévola, livre, a criatura se refestela. Já não é a verdade que se isola, que não ecoa para outro senão para si. O homem se reconciliou com seus pais: a volição e a matéria.

[ARQUIVO] DIMITRI E O BILHETE

Originalmente publicado em 17 de dezembro de 2009

                Dimitri,

Preciso despejar algumas coisas aqui. Tive um pesadelo, aliás, uma cadeia de pesadelos, horrível (Pleonasmo? Logo explico) na madrugada (nesta madrugada, porém não lhe poderei enviar hoje) de 7 para 8 de fevereiro [de 2008], mais precisamente cerca de 1h40, num quartinho de uma casa aconchegante na cidade de Sousa, na Paraíba, a 2 mil km de Brasília e a 500km de Fortaleza, onde escolhemos dormir porque é para onde se mudou um grande amigo dos meus pais, que vieram a ser padrinhos do primeiro filho deste homem. Deixando de lado as redundâncias, você sabe que sou um cara iconoclasta que jamais teria medo consciente de manifestações de seu inconsciente que tratassem de instituições perfeitamente repressivas como a Igreja ou a Ciência, ou de imagens míticas como o diabo ou um ET (se não deu para entender, só quis dizer que não sou de me assustar, estando de olhos abertos, e temer fechar os olhos outra vez, após um pesadelo, qualquer que seja seu conteúdo, uma vez já propriamente desperto, na cama, num exercício de recuperação do sonho que acabara de ter). Aliás, neste meu fluxo de consciência que agora tenho ao escrever-lhe esta não-convencional carta, por enquanto à mão, rebusco duas coisas ditas por você nos comentários daquele texto:

1) Você questionou meu niilismo (na cozinha do Landscape você afirmou literalmente “eu questionei SEU niilismo”), ou afirmou a existência de vários tipos de niilismo, não é? Fale mais sobre.

2) Havia esquecido de comentar acerca do ciclo. Não funcionamos para esta “bestagem de trabalhar”, em suma (mas vejo que você está melhor do que eu, porque não se envergonha de ser sustentado pelo resto da vida).¹

¹ (P.S. 2023: Isso tudo eram idéias, debates, monólogos até… Dimitri, a pessoa real, hoje é servidor do senado federal.)

Passada a idéia desses 1) e 2) do fluxo, prossigo: tive uma série de 4 ou 5 (já não me recordo) de um sonho conhecido como “espiral”; se não me falha a memória, o pesadelo de ânsia de acordar terrível que, segundo Freud, representa 4 de cada 10 de uma criança, que muito acorda durante as noites sem ser capaz de recapitular os conteúdos. Esse tipo de manifestação do inconsciente se mostra raro nas fases posteriores da vida. Pois bem: recordo, também, que, fora da infância, só durante mais uma noite, antes de hoje, vivi tal inconveniente. Foi no mesmo dia em que consultei The Interpretation of Dreams, do Freud, em PDF, para saber o que acabei de relatar. Ou seja: foi uma experiência de metalinguagem… Alguma expiação ou teste, traquinagem do eu reprimido. Dá calafrios só de pensar. Veja…

Hoje tive o sonho de ansiedade. (É sufocante. Você percebe que está no sonho e quer acordar… Por mais que leve segundos, a sensação momentânea e pavorosa é a de que você não irá conseguir) Agora são 3 da manhã. Eu parto às 4. Todos dormem e estou na cozinha. O pesadelo em que você estava e que me interessa analisar é o primeiro da série. Respeitando o que eu observei sobre o sonho em espiral – teste no dia em que li F. –, acho que o que ocorreu hoje e pode continuar ocorrendo é uma maquinação metalingüística. Tudo começa por razões tais quais:

A) Você comentou sobre F. no meu texto de Sartre e do vagão;¹

¹ [P.S. 2023: No primeiro volume de CILA OU CARIBDE. <link>]

B) Coincidentemente, após longo tempo desinteressado nesse curioso autor de um “irracionalismo determinista”, me cai nas mãos um livro de filosofia para ensino médio da Marilena Chauí, em plena viagem a Fortaleza. O livro veio antes de eu conversar com você aquele primeiro dia pela internet, alguns minutos. Encontramos aqui um primo do meu pai, também de Brasília, professor. Ele mo mostrou e eu demonstrei entusiasmo pelo capítulo de Metafísica. Ele sugeriu que eu ficasse logo com o livro, pois ele poderia pegar outro de graça assim que quisesse. Mas foi um dia depois que li seus comentários que, na minha leitura pré-sono linear, cheguei às páginas que explicam F. genericamente. (No capítulo Razão na idade contemporânea – 1 – como esta geladeira emite ruídos detestáveis; 2 – você teve F. na escola? Eu jamais.) Li aquela coisa previsível sobre o recalque do ego e etc. Poxa, até atos falhos e lapsos não passam de dribles da censura, mas e daí? 1 – essa geladeira vai desmontar… 2 – descubro que estou trêmulo de fome; 3 – sim, deixe-me completar o que principiei lá atrás: o pesadelo em que você figurava me deixa de pêlo eriçado até este preciso e abominável segundo (logo iremos a ele).

Desde que reli F. voltei a me reanimar a tentar dotar meus sonhos de sentido no que tange a qualquer desejo reprimido. Até aí, nada de mais. Estava tendo sonhos agradáveis, comendo umas minas adoidado (em sonhos, entenda)… Sempre era sexo, carinho… O que me anda faltando. Aliás, você conhece a parte da sublimação dos instintos de pulsão em F.? Eu só não enlouqueci ainda, edipianamente falando, porque escrevo muito.¹ Eis, agora, depois de EU E VOCÊ (explicação do CAPS LOCK depois) consentirmos que só um pedaço de F. é válido, um pesadelo capaz de me arrepiar já em estado de consciência, ao ser retrospectivo, uma vez que foi uma representação altamente filosófica, existencial, biográfica… Devo descrever com mais detalhes o possível o sonho. Apuro mais uma razão para que ele tenha vindo justo agora, 5 ou cerca disso dias depois da referida leitura: SEU comentário, do Orkut, despretensioso e banal, e MINHA resposta idem. Hoje o que acabo de receber é um ataque, uma reação totalitária, do meu ISSO (espero estar sublimando aqui para acalmá-lo, mas ele detesta ser importunado com reflexões exatamente sobre si) à minha concepção de inexistência de dogmas, da verdade e onipresença do FATOR SUBJETIVO. Engraçado, o ISSO se sentir ofendido, pois objetivo ele não é. Isso (não o ISSO, mas o sonho e minhas crenças) é muito importante para mim porque, e você verá, parece ser o meu modo de ser o problema de tudo…

¹ [P.S. 2023: Tudo babaquice. Hoje eu pisaria em cima dum livro do doutor Fraud que eu visse aberto, no meio da rua.]

[ida ao banheiro]

Você deve estar ansioso por saber logo como foi “sonhado por outrem”. Acho que estiquei tanto isso que vou acabar desapontando-o até porque não será algo TÃO preciso, mas o curioso é o EU E VOCÊ.

Encho-me de calafrios, droga… Aqui é quente, estou encharcado e não penso em dormir de novo.

NO SONHO…

Aparentemente estamos numa mesa batendo um papo. Sou EU e é VOCÊ, de algum modo eu tenho certeza. Mas se não me engano tudo é um breu filho da puta. Só que eu sinto que estamos numa espécie de quina, com pessoas sussurrando mais para frente e para a direita. Entre elas meus pais. Ocorre um momento… em que você encerra o diabo do papo, e é tudo que lembro, e não lembro direito, vai me desculpar, mas você passa um “segredo” (não quer que os outros o escutem, só que eu leia) por papel. É uma pergunta e afirmação ao mesmo tempo, não sei como explicar… SUSTO… Entraram na cozinha… Saltei da cadeira!

[bebo água – aqui é cheio de arte barroca nas paredes…]

Sei que tem um ponto de interrogação. Não lembro o conteúdo literal do bilhete, branco, dentro do breu, que você me passou. Porém, lembro a idéia que ele representa ou manifesta, o teor da mensagem, e que além de pergunta aquilo é uma resposta conclusiva, taxativa. Tem a ver com tudo o que vim procurando todos esses anos… Agora, antes de refletir mais sobre o bilhete, duas coisas que se fazem eminentes… DROGA, DAQUI A POUCO É HORA DO PESSOAL AQUI PARTIR PARA A ESTRADA.

1) Quando eu li seu bilhete… eu me senti um otário. E quando tentava articular qualquer coisa menos passiva que um bocejo eu escorregava… Meu corpo deslizava duro – TÁ CHOVENDO E A LUZ TÁ INTERMITENTE –, como pedra, da quina inferior esquerda onde estávamos até a quina oposta, avante à direita, como um tabuleiro no éter. Meu pai dizia algo como “Ih, olha ele aí… Tá perdido. Não vai falar nada? Ô Rafael!”. Nesse momento começava a espiral para acordar porque era insustentável permanecer no sadomasoquista inconsciente. A seguir, o porquê do “sadomaso-“ e do CAPS LOCK.

2) Eu sou você e você sou eu. É como um espelho nossa relação no sonho. Eu sinto que sei do que você fala no bilhete e sou eu mesmo me contando, me provocando, utilizando sua imagem, uma das únicas pessoas dotadas de bagagem tal que entende onde eu quero chegar quando exponho minhas idéias. É alguém tão inteligente quanto eu, se é que posso dizê-lo. Essa palavra está muito desgastada pela crise da razão. Não é estranho que “o conhecimento não levar a nada” seja uma sentença nascida da própria busca pelo conhecimento? Se a sentença é produto do CONHECIMENTO ACUMULADO aplicado a certa época… ???

* * *

Avise-me se estiver errado: na realidade eu entendo você ser diferente de mim. Até queria ser você, mas sociologicamente falando está fora das minhas possibilidades em virtude de minha criação. Eu diria que você é um EU desejável e impossível. Foda-se se Sartre acha que qualquer omissão ou conformismo é deliberado, pois outros homens na situação não cederiam. Só que VOCÊ também aspira a ser eu – interpreto – num aspecto daquele texto: acho que você esconde que aquilo teve até mais poder sobre você. (Paranóia minha? Me avise.) Que não é ESCOLHER MUDAR PARA FAZER VALER A PENA OU CONTINUAR ASSIM PORQUE ESTÁ VALENDO A PENA. Que é tudo como meu pessimismo incondicional. Empiricamente não posso saber, pois só vivi a minha vida. Mas suponho que todas as vidas sejam um lixo e é essa a sua tristeza. Como num pêndulo, simultaneamente eu digo que quereria ser você para provar desse DIONISO ATIVO, porque ao que parece o meu DIONISO É PASSIVO. Será que você floreia sua vida, fala de um sabor inexistente? Mas a voz mais alta diz: é como “procurar a felicidade”, “dar murro em ponta de faca”. Porque você é carne como eu e não deve ser melhor ser você do que ser eu. DIVAGUE BASTANTE SOBRE O QUE ACABEI DE DIZER. Isso termina de explicar o EU E VOCÊ. Quem é você? Você mora em mim e suas palavras me causam um impacto às vezes acre.

Prosseguindo…

O BILHETE (merece até subtítulo)

Ele me mata, ideologicamente. Denota e conota minha demolição. Na metáfora, petrifica. É uma coisa simples e profunda. Abaixo, potenciais transcrições da mensagem. Não deve ser nenhuma, não devia ter nada lá. Nos sonhos sempre leio mas ao acordar vejo que nada estava escrito… Então, às aproximações:

(Vou disseca-las, em grupo, mesmo)

(Lembre-se de que é um “segredo”, e esse fato talvez seja mais importante que qualquer transcrição – indica, talvez, que meus pais não poderiam sabê-lo sob nenhuma circunstância)

A) PARA QUE FILOSOFIA?

B) É A VERDADE, ENTENDE?

C) PRA QUE TUDO ISSO?

D) ESPERO QUE VOCÊ TENHA ENTENDIDO A IDÉIA TÁCITA NO LANCE SOBRE A VERDADE – essa é grande, engraçado, porque o espaço para caracteres no bilhete era absurdamente pequeno.

E) ENTENDEU?

F) ESSE TEMPO TODO… NOS ENGANARAM… Não. É “ME ENGANARAM”. Mas se você sou eu refletido… Essa 6ª possibilidade é a que mais me prende à idéia de “otário”. Acho que o pessoal à direita ri, ou eu sinto muito vexame, porque não tinha entendido o substrato da Filosofia. Não sei dizer se seria um dogma ou um utilitarismo… A mensagem continua… ? PRA QUE VOCÊ ACHA QUE SERVE? Acho que é esta! Tinha outro “?” no começo, era uma espécie de indagação de uma coisa já debatida, para ver se eu tinha entendido direito, se eu não era retardado e estava me fazendo de desentendido. Ou a pontuação era em espanhol. ¿PRA QUE VOCÊ ACHA QUE SERVE?

Já estou cansado, não sei se ainda posso continuar divagando em alto nível. A tensão se dissipou.

É complicado deixar isso claro. A idéia por trás da mensagem e minha fobia ou sensação de engodo posterior. Como se eu tivesse pensado ou estudado errado todos esses anos. Sei lá o que você, que dá pouco crédito a F.,¹ irá dizer. Não sei também se é possível compreender que não é só uma desilusão ou estresse com a filosofia. A frase A) é a menos condizente com o efeito provocado.

¹ [P.S. 2023: Boa, Dimitri!]

Creio que…

Você tenha escrito para ser cortês e não fazer da revelação um total embaraço, mais do que já foi. Era para me dizer uma coisa que todos que estudam filosofia entendem, apesar de tácito. Na verdade eu sinto que entendia e não conseguia falar. E escorregava. Deslizava. Se você era eu obviamente eu sabia. E estava sentindo prazer com a idéia de me afligir diante da possibilidade simultânea de não saber. (4º PRINCÍPIO DE ARISTÓTELES)

Outra chance é de que estivesse escrita uma palavra. Não sou capaz de lembrar. Ela utopicamente sintetizaria o “segredo”. É como se você (eu) me dissesse: É UMA COISA PATETICAMENTE ÓBVIA. E eu sabia mas era vexatório que QUALQUER UM não soubesse, e eu talvez ruborizasse só de pensá-lo.

                    Assinado — A Mosca Filosófica

[P.S. 2023: Hoje eu entendo este sonho como um enterro metafórico de meus pais; dali em diante, só nos afastaríamos cada vez mais, sendo impossível a compreensão.]

[ARQUIVO] OITO DE DEZEMBRO COMEÇADO DEITADO

Originalmente publicado em 8 de dezembro de 2009

Perdi o gosto por comer. Perdi o gosto por ler. Perdi o gosto por reclamar. O que acontece quando se perde o gosto até pela obrigatoriedade de cagar? Hoje parece cada vez mais nítido que é demandado que eu não leia a fim de ainda viver respeitosamente. Comer, não precisamos estar tão a fim, podemos até nos empanturrar de cara feia. Eu até acho que cheguei ao absurdo do insípido e da indiferença: tanto faz meu pai ser um tolo. O que me move adiante é a inércia da reação automática e o princípio da equivalência. O conformismo é um pragmatismo ou “o”, porque o não-cumprimento é uma implosão. Dor de estômago crônica, parte já de mim, garganta ferrada… quanto tempo até expelir pus, complicar de fato? Sobreviver também é “secundário”; a missão, outra coisa que não importa, relativamente, vem à frente. Viver o presente. A riqueza e a beleza dum momento interminável indecifrável impoetizável. E a dor muscular e aquela vontade de fenecer, nem sei se respeito minha própria fadiga, minha própria necessidade fisiológica de sexo, meu remoto interesse por remoer sonhos. Que há? Nunca vi desbotado tão colorido. É o fim-meio de uma estações. Penso também na leveza pós-opressão. Na deposição dessa carcaça chamada curso. Aliás, de vivos e mortos, e de latrinas ambulantes. Melhor do que ver que já esqueceram da minha presença é saber que eu ainda me antecipo e os supero na má educação. Resignar-se até a uma das constatações mais duras, a da ausência de um amor, rompimentos que geram rompimentos, saber que as primeiras foram as últimas e matar a esperança de fome – pra ter indícios de que ainda vale a pena, pois ninguém me sufoca. A preocupação máxima é estilística: se vocês vão gostar, se vão parar.

[ARQUIVO] O PEN-XA DO FLA: Nelson Rodrigues virado no Jiraiya

Originalmente publicado em 7 de dezembro de 2009

Jasão, versão portuguesa do nome Jason, é o herói grego que mata o tio para se sagrar o rei da Tessália e rejeita a feiticeira Medéia, por ele apaixonada, depois que esta foi a principal colaboradora da conspiração que lhe devolveu o trono. Jasão é também o primeiro marinheiro de que se tem registro na História. Audacioso e precursor, apesar de ter sido morto posteriormente devido aos ciúmes da própria Medéia (o que é que as mulheres ressentidas não são capazes de fazer?), pode-se dizer que Jasão ficou imortalizado para a humanidade, tanto é que suas façanhas ecoam ainda no terceiro milênio da era cristã (que esperamos seja o último)…

O nome de Jasão atravessou várias léguas submarinas até chegar à terra do futebol, onde batiza um clube que estabeleceu hegemonia nos torneios nacionais nos últimos anos: o São Paulo Futebol Clube. Não é um vexame ver esse elenco de argonautas em terceiro na classificação final, até porque ele repetiu a dobradinha da zaga de prata no prêmio da ESPN/Placar.

Terceira posição que aliás é o tema central de uma música dos são-paulinos¹ do Ultraje a Rigor:

Não botaram fé porque não ia dar pé

Não ia dar pé porque não botaram fé

De qualquer forma eu pego um bronze

porque eu gosto da cor

Por isso eu sempre sou

Terceiro!

¹ [P.S. 2023: Naturalmente fascistas.]

Claro que não foi o cenário ideal dos vitoriosos, nem foi tão decepcionante a ponto de um torcedor fazer piada com essa música, afinal os caras terminaram fuzilando o rebaixado Sport Recife e soterrando as esperanças do rival Palmeiras de conquistar o título (caso os dois primeiros na tabela também falhassem na última rodada). Mas colei esses versos porque eles vêm muito bem a calhar para o Seu Dunga, que ano passado levou a seleção da CBF a um “honroso” bronze olímpico!

Tirada de sarro fora de hora? Talvez… Fica o alerta, porém: quando a competição é importante e realmente ambicionada pela Amarelinha, que já ganhou quase tudo que dá para ganhar, não se tolera ser um profissional (?) conformado ou, mais precisamente, um cavalo paraguaio.

O Paraguai que, se é que esteve encarnado em um clube brasileiro em 2009, certamente foi lembrado pelo Atlético. Precisamos de mais pesquisas para saber o que se passa na cabeça da calorosa torcida do Galo – talvez eles apenas estejam com febre, há pelo menos uns 30 anos, ou tenham se entusiasmado com as facilidades do microondas para aprontar comidinha… Mas sobre os pipoqueiros eu volto a falar mais tarde!

Jason, Freddy… O campeonato está cheio de bizarrices saídas de um halloween que ainda não terminou… E as cartas marcadas que tentaram roubar um pouco da luz dessas criaturas cinematográficas? Washington, ex-Fluminense, fez 5 gols nos últimos 2 jogos, bem mais que seu colega de profissão Fred Flueger. Quem é melhor? Pergunta que ofende quem está sem paciência (eu o tempo todo). Talvez para os entendidos e que não agüentam mais floreios, é mais sensato questionar: afinal, o Washington joga bola ou não joga? Assim, seco e de primeira (como uma boa assistência ou toquinho à la Romário direto para as redes), sem comparações exageradas…

(Ligeiro tempo para pensar numa resposta. Mas tem que ser mais ligeiro que o Magno Alves no auge!)

Independentemente da sua resposta, o sujeito grandão e desengonçado que desagrada uns e outros mas que guarda lá os seus já tem uma nova meta a perseguir nos seus anos finais… Foi contrato pelo São Paulo para 2010. E o SPFC caiu no grupo do Once Caldas, seu carrasco de 2004, na Libertadores da América de 2010: Once Caldas, once goles?


EXTRA! EXTRA! KLÉBER TIRA PALMEIRAS DA LIBERTADORES!

E a Mancha Verde já está correndo atrás dele para agredi-lo. Belluzzo é um dos marginais que grita palavras de ordem com um pau na mão.


Por falar no time que estava verde demais para atingir qualquer objetivo nesse campeonato, estou começando a comprovar minha antiga “teoria da camisa trocada”: se os mesmos jogadores atuarem com uma camisa mais “campeã”, renderão mais, terão tranqüilidade e não peidarão na farofa – já imaginou o Obina com a camisa do São Paulo? Não é à toa que disseram que o casaco da S.E. Palmeiras ficava muito frouxo no Muricy…

Se o Muricy Ramalho terminou o campeonato pianinho depois de vomitar [verd]ad[es] cegas sobre a imprensa e se o Vanderlei não foi menos fracassado e suas entrevistas acabaram ainda mais vazias de conteúdo (futebolístico não-publicitário)¹ do que de costume, será que pode baixar a baixada do santo do professor arrogante no Mário Sérgio (de modo mais simples: baixar o santo… da humildade… só cuidado para não se embananar e acabar rebaixando o Santos)?

¹ [P.S. 2023: É fantástico, quimérico e mitológico que essa criatura tenha continuado a habitar o folclore tupiniquim NESTE ANO em que escrevo esta nota! Sempre tem espaço para um boi-tatá, para um Joel Santana, gordo ou magro, casual ou de terno, no nosso futebol…]

No Santos (falando no diabo entre parênteses): nova idade média (e não falo de um levantamento etário do elenco)? O sujeito do terninho mais perdeu do que ganhou na Vila ou foi impressão minha? O time da Baixada (rs) se sustém na Série A com base em um ********¹ que aparece a cada 3 décadas?² De volta ao marasmo não-competitivo?

¹ [P.S. 2023: Usei um vocábulo que em 14 anos se tornou racista, mesmo quando não aplicado a um indivíduo não-branco.]

² [P.S. 2023: Duas, se contarmos com o Neymídia.]

* * *

Imprensa: ímpia.

Os comentaristas da ESPN me lembram o homem machista: assim como este diz “Mas nem todo homem…”, as Oddities do canal enchem o peito para falar “Mas nem toda a mídia… o que é ‘a mídia’? Informação é nosso esp… e blá-blá-blá”.

Já, já complemento o juízo tão breve (ímpia).

* * *

Tu és… time de armação

Mala, horror e extorsão

Rouba, Mengo!

Só uma brincadeira de um cara que já ouviu muita farra de flamenguista de ontem pra hoje, mas que reconhece, sim, o título conquistado dentro de campo – seja hexa, penta ou o que for que este caneco represente… A CBF não sabe da própria seleção, vai saber contar título de clube?!

Para ilustrar o que 17 anos não fazem com um time, e o quanto o São Paulo está “acostumado” aos títulos e o Clube de Regatas não está, vale a cena na sala de estar da casa de são-paulinos onde vi o jogo final, que contava com um intruso: o torcedor rubro-negro não sabia o que fazer diante da tela; do outro lado da membrana o Maracanã em polvorosa. Depois de nos mandar, a todos, “chupar” (sem o complemento apropriado),¹ se prostrou no sofá, ameaçou beijar o escudo, continuou olhando o entorno de olhos marejados… Ficha em queda livre… Tentamos resgatar nosso amigo “perdido no tempo e no espaço”, com a piadinha do bem-sucedido a longo prazo: “Bacana, né? Você vai ver que esse negócio de ser campeão do Brasil na era dos pontos corridos nem é tão difícil quando chegar no terceiro”.² Bem-vindos ao clube, rubro-negros! (e o Inter, tri-vice, sempre bate à porta, e ninguém deixa entrar… o corinthiano se mantém com um trabuco e uma liminar…³ o santista com um pôster do Robinho… o cruzeirense com um do Alex…)

¹ [P.S. 2023: Um canavial de rola.]

² [P.S. 2023: Malditas palavras proféticas!]

³ [P.S. 2023: Palavras suicidas e cruéis, vindas dum futuro convertido ao corinthianismo!]

* * *

Sou tricolor de coração

Sou do clube tantas vezes campeão

Esse hino me comove há anos (coisa de irmandade tricolor?), mas reprimia isso, especialmente ano passado, conforme alguns argonautas americanos lembrarão…¹

P.S. 2023: Eu comecei essa crônica citando o argonauta da mitologia grega Jasão, mas a referência aqui é a outra crônica, O VICE-CAMPEONATO MAIS ARDIDO DE TODOS OS TEMPOS, publicada no primeiro volume do meu livro Cila ou Caribde, que você pode ler gratuitamente no Seclusão: https://seclusao.art.blog/2021/07/11/o-vice-campeonato-mais-ardido-de-todos-os-tempos/. O assunto, ali, era o tropeço homérico do Fluminense Foot-ball Club diante da LDU… Este 2023 está realmente revirando as coisas, quando não confirma tendências: o Internacional de Porto Alegre segue sendo o time grande há mais tempo sem levantar um caneco nacional, mais anos até que o pobre Botafogo… que está desfalecendo neste momento em que redijo… de forma ainda mais vergonhosa e contundente que o Palmeiras 2009 e que o São Paulo 2020/2021… “Diniz, de 45 anos, chega ao São Paulo um mês depois de ter sido demitido do Fluminense, que ele deixou na zona de rebaixamento.” – trecho de uma antiga reportagem da ESPN Brasil, de 2019… As voltas que o mundo dá… Autodemonstrando que não é plano. Lembre-se: ainda na flat earth dos negacionistas, a única certeza em termos de futebol brasileiro é a seguinte: o plano é não ter planos, quem tem plano acaba afundando… Longa nota de rodapé, certo, rapaziada? Só faltou falar que isso de “reprimir” no futebol é uma coisa muito comum… quando se trata dos meus próprios sentimentos, ao menos… Em 2008 eu odiava mortalmente o Fluminense… Em 2009 fui-lhe simpático… Por décadas confundi amor pelo Corinthians com ódio e desprezo]

* * *

Como prometido, de volta à imprensa: alguns figurões já amanheceram dando uma bronca nos “chorões” que não souberam reconhecer os méritos flamenguistas na temporada. “O título do Flamengo é autêntico.” Tudo bem que seja – mas se é legítimo, não é porque babacas microfonados como o Calçade resolveram ratificar. Afinal, a mídia DEVE ratificar o título do campeão, seja ele quem for, caso contrário as ruas serão tomadas por vândalos como os de Curitiba.¹ Exemplo máximo é o de 2005: hoje os jornalistas mais corajosos até admitem a farsa corintianesca, mas na época era um imperativo ético colocar aquele “primeiro lugar” acima de qualquer suspeita!² Não acredite nos jornalistas. Acredite no bom senso. E lembre-se: se quiser vida fácil, saiba que esta é uma “carreira” que não necessita de diploma…³

¹ [P.S. 2023: Sempre os de Curitiba, já notaram?]

² [P.S. 2023: Ao meu eu do passado e a quem ainda não aceitou, só posso dizer: PÕE NO DVD!]

³ [P.S. 2023: Para quem não sabe, já fui jornalista esportivo. Abandonei o curso 2 anos e 3 experiências em veículos de imprensa depois de “ingressar nessa vida”. Pouquíssimo tempo depois, quando eu cursava o 2º ou o 3º semestre de sociologia, foi divulgado que o diploma de comunicação social tinha deixado de ser obrigatório para profissionais da área. Houve muitos protestos de alunos e certa resistência dos próprios jornais, que permanece até hoje, tornando a não-obrigação, na prática, nula.]

O pau quebrou lá no sul, e aqueles 10 minutos de “mídia passando o que a mídia quer coibir” (atos de violência brutal – nunca entendi essa lógica!) foram melhores que os 90 minutos de qualquer partida da 38ª rodada!

Agora imagina só uma humilhação parecida no Centenário do Corinthians! Se num ano comum eles já fizeram três vezes pior no Morumbi (massacre do River, eliminação na Libertadores) que os gorduchos sulinos do Couto Pereira ontem, quem dirá o que pode acontecer se o freio de mão puxado pelo Mano (das quebrada”) não for desativado a tempo para o ano que vem? Cuidado!¹

¹ [P.S. 2023: Estou batizado, Rafael do passado! E estamos de novo com o Mano Menezes, trafegando perto da zona – sem aflição e desespero! É o que tem pra hoje.]

* * *

Para fechar: Pernambuco: por um dia (ou por um ano), pior que o Maranhão? Os pernambucanos estão na mesma ressaca do Imperador, que não foi buscar sua Bola de Ouro no programa da ESPN, adivinha por quê…¹

¹ [P.S. 2023: Não lembro o motivo de alguns desses trocadilhos por trás dos nomes dos estados, mas nós já tivemos muitos Juninhos Pernambucanos e jogadores com “apodo” Maranhão, então suponho que se referia a algo nessa linha. Já Adriano o Imperador… que sabemos que não estava na cidade de Imperatriz-MA… esse comemorou bastante o título do pen-xa do Fla – muita cachaça na cabeça!]

[ARQUIVO] O MESSIAS & O HOMEM RURAL: Uma novela pós-apocalíptica.

Originalmente publicado em 3 de dezembro de 2009. 

Não foi preciso uma legião de bombas atômicas. O Estado nos abandonou. Polícia? Se não pagam impostos, são menos que lixo! O modelo de organização do Ocidente, uma vez adotado na China, o velho reacionarismo europeu… Tudo isso prejudicou ainda mais a situação americana. Não existem informações sobre a África. O número de pessoas impossível, a desertificação… A inflação… Ninguém mais tinha carteira assinada ou dinheiro para bens industriais. É uma escravidão sem senhor… Conseguem comida aqueles que dispõem de cavalos… Em uma antiga capital de país de terceiro mundo faz muito calor – e ainda tentam dar sentido e dignidade à existência.

Se há algo que não decaiu é o volume de arquivos. Toda a literatura está lá, embora envolta em pó e de utilidade duvidosa. O onanismo é o último remédio. Alguns foram viver entre os bichos. Há insistentes que se organizam em células de autossuficiência. Uma delas, localizada da forma mais ordinária, chama a atenção das chaminés, nuvens ácidas e do intenso sol. Não há nada que seja ilegal, embora a ausência de leis tenha findado a distinção. Alguém de alma jovem ainda caça novos valores. O que é um valor? No mundo sem mídia sequer se propaga o ideal do amor… Que animal político tem um intento, sórdido que seja? Esta é uma história que nenhum almanaque poderia conter… Seu registro estará apenas na brasa do fogo de um neo-Prometeu qualquer, que remeta à condição uma vez humana. De uma vez por todas chegou o ano (206X? A contagem tornou-se imprecisa.) da responsabilidade. Esta coisa estorvada que sempre pairou um pouco acima do solo sem sentir o seco, sem oprimir ninguém. Uma ventura sem rebanho! É demandado fazer-se deus.

Mostrar-se-á a degradação em pormenores e também o momento culminante da guerra dos indivíduos… Quando o exército de desabrigados, caravana ou bandeirantes da desolação, surge para implodir o que já estava semi-soterrado: a propriedade privada. Em busca de valores, cada um se apegava a seus apartamentos – ou ao que deles sobrou… As intempéries são piores à noite, mas não tem um indizível sabor achar-se o último, desobrigado de tudo e por isso mesmo soberano? Tempo é de incerteza e amor à vida. Este momento não tem comparação: somente é igual a ele mesmo…


Esboço de capítulos

O primeiro sábio sem nome

O artista supremo

A vida como ela é!

Todos os males vêm para o bem… Porque os males vêm para e por si mesmos.

Ulisses nunca termina de viajar, eis apenas um episódio…

Penélope Charmosa, rainha da costura

Diretrizes para a imortalidade…


RE-ESCRAVIZAÇÃO DOS FRACOS (que são os fortes de hoje)

Nada de ágoras ou interrupção da hereditariedade. Porém é certo que “pai” será apenas associação afetiva bem posterior ao nascimento, porque origem genética e fidelidade do casal são impossíveis de se verificar como padrão. Uma espécie de fluxo incessante entre transeuntes de povoação em povoação.

Valorização da sorte e das infinitas ou múltiplas alternativas. Não existem leis, todos criam e destroem e têm qualidades diferentes – e um poderio, em variável absoluta, quiçá maior porém sempre temporário e revogável.

Interiorização da ética artística, fusão de ética e estética, cristãos mantidos sob controle, embora se cace adeptos e se expurgue os indolentes que porventura nascerem entre os poderosos. GRANDES COMPETIÇÕES E EXPEDIÇÕES!

MUCH ADO ABOUT NOTHING

SCENE I. Before LEONATO’S house.

there appears much joy in him (…) joy could not show itself modest enough without a badge of bitterness.”

LEONATO

How much better is it to weep at joy than to joy at weeping!”

BEATRICE

I pray you, how many hath he killed and eaten in these wars? But how many hath he killed? for indeed I promised to eat all of his killing.”

You had musty victual, and he hath holp to eat it”

Você tinha carne podre, e ele ajudou a comê-la”

LEONATO

You must not, sir, mistake my niece. There is a

kind of merry war betwixt Signior Benedick and her:

they never meet but there’s a skirmish of wit

between them.”

BEATRICE

Who is his companion now? He hath every month a new sworn brother.”

he wears his faith but as the fashion of his hat”

Messenger

I see, lady, the gentleman is not in your books.

BEATRICE

No; an he were, I would burn my study.”

LEONATO

You will never run mad, niece.

BEATRICE

No, not till a hot January.”

DON PEDRO

Good Signior Leonato, you are come to meet your

trouble: the fashion of the world is to avoid

cost, and you encounter it.

LEONATO

Never came trouble to my house in the likeness of

your grace: for trouble being gone, comfort should

remain; but when you depart from me, sorrow abides

and happiness takes his leave.

DON PEDRO

You embrace your charge too willingly. I think this

is your daughter.

LEONATO

Her mother hath many times told me so.”

BEATRICE

Is it possible disdain should die while she hath

such meet food to feed it as Signior Benedick?

Courtesy itself must convert to disdain, if you come

in her presence.”

But it is certain I am loved of all ladies, only you excepted: and I would I could find in my heart that I had not a hard heart; for, truly, I love none.”

I had rather hear my dog bark at a crow than a man swear he loves me.”

BENEDICK

God keep your ladyship still in that mind! so some

gentleman or other shall ‘scape a predestinate

scratched face.

BEATRICE

Scratching could not make it worse, an ‘twere such

a face as yours were.

BENEDICK

Well, you are a rare parrot-teacher.

BEATRICE

A bird of my tongue is better than a beast of yours.”

Exeunt all except BENEDICK and CLAUDIO

CLAUDIO

Benedick, didst thou note the daughter of Signior Leonato?

BENEDICK

I noted her not; but I looked on her.

CLAUDIO

Is she not a modest young lady?

BENEDICK

Do you question me, as an honest man should do, for

my simple true judgment; or would you have me speak

after my custom, as being a professed tyrant to their sex?

CLAUDIO

No; I pray thee speak in sober judgment.

BENEDICK

Why, i’ faith, methinks she’s too low for a high

praise, too brown for a fair praise and too little

for a great praise: only this commendation I can

afford her, that were she other than she is, she

were unhandsome; and being no other but as she is, I

do not like her.

CLAUDIO

Thou thinkest I am in sport: I pray thee tell me

truly how thou likest her.

BENEDICK

Would you buy her, that you inquire after her?

CLAUDIO

Can the world buy such a jewel?”

Come, in what key shall a man take you, to go in the song?”

In mine eye she is the sweetest lady that ever I looked on.”

BENEDICK

I can see yet without spectacles and I see no such

matter: there’s her cousin, an she were not

possessed with a fury, exceeds her as much in beauty

as the first of May doth the last of December. But I

hope you have no intent to turn husband, have you?

CLAUDIO

I would scarce trust myself, though I had sworn the

contrary, if Hero would be my wife.”

DON PEDRO

I charge thee on thy allegiance.

BENEDICK

You hear, Count Claudio: I can be secret as a dumb

man; I would have you think so; but, on my

allegiance, mark you this, on my allegiance. He is

in love. With who? now that is your grace’s part.

Mark how short his answer is;–With Hero, Leonato’s

short daughter.

CLAUDIO

If this were so, so were it uttered.”

CLAUDIO

If my passion change not shortly, God forbid it

should be otherwise.

DON PEDRO

Amen, if you love her; for the lady is very well worthy.”

Bateu os olhos e não encontrou obstáculos.

Bateu nela os olhos e sentiu dor, pois ela era muito pontuda.

Comenos o come-nos.

BENEDICK

That I neither feel how she should be loved nor

know how she should be worthy, is the opinion that

fire cannot melt out of me: I will die in it at the stake.”

BENEDICK

That a woman conceived me, I thank her; that she

brought me up, I likewise give her most humble

thanks: but that I will have a recheat winded in my

forehead, or hang my bugle in an invisible baldrick,

all women shall pardon me. Because I will not do

them the wrong to mistrust any, I will do myself the

right to trust none; and the fine is, for the which

I may go the finer, I will live a bachelor.

DON PEDRO

I shall see thee, ere I die, look pale with love.

BENEDICK

With anger, with sickness, or with hunger, my lord,

not with love: prove that ever I lose more blood

with love than I will get again with drinking, pick

out mine eyes with a ballad-maker’s pen and hang me

up at the door of a brothel-house for the sign of

blind Cupid.

DON PEDRO

Well, if ever thou dost fall from this faith, thou

wilt prove a notable argument.

BENEDICK

If I do, hang me in a bottle like a cat and shoot

at me; and he that hits me, let him be clapped on

the shoulder, and called Adam.

DON PEDRO

Well, as time shall try: ‘In time the savage bull

doth bear the yoke.’

BENEDICK

The savage bull may; but if ever the sensible

Benedick bear it, pluck off the bull’s horns and set

them in my forehead: and let me be vilely painted,

and in such great letters as they write ‘Here is

good horse to hire,’ let them signify under my sign

Here you may see Benedick the married man.’

CLAUDIO

If this should ever happen, thou wouldst be horn-mad.

DON PEDRO

Nay, if Cupid have not spent all his quiver in

Venice, thou wilt quake for this shortly.”

BENEDICK

Nay, mock not, mock not. The body of your

discourse is sometime guarded with fragments, and

the guards are but slightly basted on neither: ere

you flout old ends any further, examine your

conscience: and so I leave you.

Exit

CLAUDIO

Hath Leonato any son, my lord?

DON PEDRO

No child but Hero; she’s his only heir.

Dost thou affect her, Claudio?”

I liked her ere I went to wars.”

DON PEDRO

Thou wilt be like a lover presently

And tire the hearer with a book of words.

If thou dost love fair Hero, cherish it,

And I will break with her and with her father,

And thou shalt have her. Was’t not to this end

That thou began’st to twist so fine a story?”

DON PEDRO

What need the bridge much broader than the flood?

The fairest grant is the necessity.

Look, what will serve is fit: ‘tis once, thou lovest,

And I will fit thee with the remedy.

I know we shall have revelling to-night:

I will assume thy part in some disguise

And tell fair Hero I am Claudio,

And in her bosom I’ll unclasp my heart

And take her hearing prisoner with the force

And strong encounter of my amorous tale:

Then after to her father will I break;

And the conclusion is, she shall be thine.

In practise let us put it presently.

Exeunt

SCENE II. A room in LEONATO’s house.

ANTONIO

The prince and Count

Claudio, walking in a thick-pleached alley in mine

orchard, were thus much overheard by a man of mine:

the prince discovered to Claudio that he loved my

niece your daughter and meant to acknowledge it

this night in a dance: and if he found her

accordant, he meant to take the present time by the

top and instantly break with you of it.”

LEONATO

No, no; we will hold it as a dream till it appear

itself: but I will acquaint my daughter withal,

that she may be the better prepared for an answer,

if peradventure this be true. Go you and tell her of it.”

SCENE III. The same.

DON JOHN

I cannot hide

what I am: I must be sad when I have cause and smile

at no man’s jests, eat when I have stomach and wait

for no man’s leisure, sleep when I am drowsy and

tend on no man’s business, laugh when I am merry and

claw no man in his humour.”

“…If I had my

mouth, I would bite; if I had my liberty, I would do

my liking: in the meantime let me be that I am and

seek not to alter me.”

ACT 2

SCENE I. A hall in LEONATO’S house.

BEATRICE

How tartly that gentleman looks! I never can see

him but I am heart-burned an hour after.

HERO

He is of a very melancholy disposition.

BEATRICE

He were an excellent man that were made just in the

midway between him and Benedick: the one is too

like an image and says nothing, and the other too

like my lady’s eldest son, evermore tattling.

LEONATO

Then half Signior Benedick’s tongue in Count John’s

mouth, and half Count John’s melancholy in Signior

Benedick’s face,–

BEATRICE

With a good leg and a good foot, uncle, and money

enough in his purse, such a man would win any woman

in the world, if a’ could get her good-will.

LEONATO

By my troth, niece, thou wilt never get thee a

husband, if thou be so shrewd of thy tongue.

ANTONIO

In faith, she’s too curst.

BEATRICE

Too curst is more than curst: I shall lessen God’s

sending that way; for it is said, ‘God sends a curst

cow short horns;’ but to a cow too curst he sends none.”

“…Lord, I could not endure a husband with a beard on his face: I had rather lie in the woollen.”

He that hath a beard is more than a youth, and he that hath no beard is less than a man: and he that is more than a youth is not for me, and he that is less than a man, I am not for him: therefore, I will even take 6-pence in earnest of the bear-ward, [constelação vizinha da Ursa Maior] and lead his apes into hell.”

LEONATO

Well, then, go you into hell?

BEATRICE

No, but to the gate; and there will the devil meet

me, like an old cuckold, with horns on his head, and

say ‘Get you to heaven, Beatrice, get you to

heaven; here’s no place for you maids:’ so deliver

I up my apes, and away to Saint Peter for the

heavens; he shows me where the bachelors sit, and

there live we as merry as the day is long.

ANTONIO

[To HERO] Well, niece, I trust you will be ruled

by your father.”

BEATRICE

Not till God make men of some other metal than

earth. Would it not grieve a woman to be

overmastered with a pierce of valiant dust? to make

an account of her life to a clod of wayward marl?

No, uncle, I’ll none: Adam’s sons are my brethren;

and, truly, I hold it a sin to match in my kindred.”

For, hear me, Hero: wooing, wedding, and repenting, is as a Scotch jig, a measure, and a cinque pace: the first suit is hot and hasty, like a Scotch jig, and full as fantastical; the wedding, mannerly-modest, as a measure, full of state and ancientry; and then comes repentance and, with his bad legs, falls into the cinque pace faster and faster, till he sink into his grave.”

I have a good eye, uncle; I can see a church by daylight.”

All put on their masks

Enter DON PEDRO, CLAUDIO, BENEDICK, BALTHASAR, DON JOHN, BORACHIO, MARGARET, URSULA and others, masked”

BEATRICE

That I was disdainful, and that I had my good wit

out of the ‘Hundred Merry Tales:’–well this was

Signior Benedick that said so.

BENEDICK

What’s he?

BEATRICE

I am sure you know him well enough.

BENEDICK

Not I, believe me.

BEATRICE

Did he never make you laugh?

BENEDICK

I pray you, what is he?

BEATRICE

Why, he is the prince’s jester: a very dull fool;

only his gift is in devising impossible slanders:

none but libertines delight in him; and the

commendation is not in his wit, but in his villany;

for he both pleases men and angers them, and then

they laugh at him and beat him. I am sure he is in

the fleet: I would he had boarded me.

BENEDICK

When I know the gentleman, I’ll tell him what you say.”

DON JOHN

Sure my brother is amorous on Hero and hath

withdrawn her father to break with him about it.

The ladies follow her and but one visor remains.

BORACHIO

And that is Claudio: I know him by his bearing.

DON JOHN

Are not you Signior Benedick?

CLAUDIO

You know me well; I am he.”

CLAUDIO [solilóquio]

Thus answer I in the name of Benedick,

But hear these ill news with the ears of Claudio.

Tis certain so; the prince wooes for himself.

Friendship is constant in all other things

Save in the office and affairs of love:

Therefore, all hearts in love use their own tongues;

Let every eye negotiate for itself

And trust no agent; for beauty is a witch

Against whose charms faith melteth into blood.

This is an accident of hourly proof,

Which I mistrusted not. Farewell, therefore, Hero!”

DON PEDRO

I will but teach them to sing, and restore them to

the owner.

BENEDICK

If their singing answer your saying, by my faith,

you say honestly.”

She told me, not thinking I had been myself, that I was the prince’s jester, that I was duller than a great thaw; huddling jest upon jest with such impossible conveyance upon me that I stood like a man at a mark, with a whole army shooting at me. She speaks poniards, and every word stabs: if her breath were as terrible as her terminations, there were no living near her; she would infect to the north star. I would not marry her, though she were endowed with all that Adam had left him before he transgressed: she would have made Hercules have turned spit, yea, and have cleft his club to make the fire too.”

for certainly, while she is here, a man may live as quiet in hell as in a sanctuary; and people sin upon purpose, because they would go thither; so, indeed, all disquiet, horror and perturbation follows her.”

BENEDICK

Will your grace command me any service to the

world’s end? I will go on the slightest errand now

to the Antipodes that you can devise to send me on;

I will fetch you a tooth-picker now from the

furthest inch of Asia, bring you the length of

Prester John’s foot, fetch you a hair off the great

Cham’s beard, do you any embassage to the Pigmies,

rather than hold 3 words’ conference with this

harpy. You have no employment for me?”

DON PEDRO

None, but to desire your good company.

BENEDICK

O God, sir, here’s a dish I love not: I cannot

endure my Lady Tongue.

Exit

BEATRICE

The count is neither sad, nor sick, nor merry, nor

well; but civil count, civil as an orange, and

something of that jealous complexion.

DON PEDRO

I’ faith, lady, I think your blazon to be true;

though, I’ll be sworn, if he be so, his conceit is

false. Here, Claudio, I have wooed in thy name, and

fair Hero is won: I have broke with her father,

and his good will obtained: name the day of

marriage, and God give thee joy!

LEONATO

Count, take of me my daughter, and with her my

fortunes: his grace hath made the match, and an

grace say Amen to it.

BEATRICE

Speak, count, ‘tis your cue.

CLAUDIO

Silence is the perfectest herald of joy: I were

but little happy, if I could say how much. Lady, as

you are mine, I am yours: I give away myself for

you and dote upon the exchange.

BEATRICE

Speak, cousin; or, if you cannot, stop his mouth

with a kiss, and let not him speak neither.

DON PEDRO

In faith, lady, you have a merry heart.”

Thus goes every one to the world but I, and I am sunburnt; I may sit in a corner and cry heigh-ho for a husband!”

DON PEDRO

By my troth, a pleasant-spirited lady.

LEONATO

There’s little of the melancholy element in her, my

lord: she is never sad but when she sleeps, and

not ever sad then; for I have heard my daughter say,

she hath often dreamed of unhappiness and waked

herself with laughing.”

DON PEDRO

She were an excellent wife for Benedict.

LEONATO

O Lord, my lord, if they were but a week married,

they would talk themselves mad.”

DON PEDRO

(…) I will in the interim undertake one of Hercules’ labours; which is, to bring Signior Benedick and the Lady Beatrice into a mountain of affection the one with the other. I would fain have it a match, and I doubt not but to fashion it, if you 3 will but minister such assistance as I shall give you direction.

LEONATO

My lord, I am for you, though it cost me ten

nights’ watchings.

CLAUDIO

And I, my lord.

DON PEDRO

And you too, gentle Hero?

HERO

I will do any modest office, my lord, to help my

cousin to a good husband.”

“…If we can do this, Cupid is no longer an archer: his glory shall be ours, for we are the only love-gods. Go in with me, and I will tell you my drift.

Exeunt”

ACT 2

SCENE II. The same.

Enter DON JOHN and BORACHIO

DON JOHN

It is so; the Count Claudio shall marry the

daughter of Leonato.

BORACHIO

Yea, my lord; but I can cross it.

DON JOHN

Any bar, any cross, any impediment will be

medicinable to me: I am sick in displeasure to him,

and whatsoever comes athwart his affection ranges

evenly with mine. How canst thou cross this marriage?

BORACHIO

Not honestly, my lord; but so covertly that no

dishonesty shall appear in me.

DON JOHN

Show me briefly how.

BORACHIO

I think I told your lordship a year since, how much

I am in the favour of Margaret, the waiting

gentlewoman to Hero.”

I can, at any unseasonable instant of the night, appoint her to look out at her lady’s chamber window.”

The poison of that lies in you to temper. Go you to the prince your brother; spare not to tell him that he hath wronged his honour in marrying the renowned Claudio–whose estimation do you mightily hold up–to a contaminated stale, such a one as Hero.”

–for in the meantime I will so fashion the matter that Hero shall be absent,–and there shall appear such seeming truth of Hero’s disloyalty that jealousy shall be called assurance and all the preparation overthrown.”

[JOHN] …Be cunning in the working this, and thy fee is a thousand ducats.”

ACT 2

SCENE III. LEONATO’S orchard.

[Grande monólogo de BENEDICK]

I do much wonder that one man, seeing how much

another man is a fool when he dedicates his

behaviors to love, will, after he hath laughed at

such shallow follies in others, become the argument

of his own scorn by falling in love: and such a man

is Claudio. I have known when there was no music

with him but the drum and the fife; and now had he

rather hear the tabour and the pipe: I have known

when he would have walked 10 miles a-foot to see a

good armour; and now will he lie 10 nights awake,

carving the fashion of a new doublet. He was wont to

speak plain and to the purpose, like an honest man

and a soldier; and now is he turned orthography; his

words are a very fantastical banquet, just so many

strange dishes. May I be so converted and see with

these eyes? I cannot tell; I think not: I will not

be sworn, but love may transform me to an oyster; but

I’ll take my oath on it, till he have made an oyster

of me, he shall never make me such a fool. One woman

is fair, yet I am well; another is wise, yet I am

well; another virtuous, yet I am well; but till all

graces be in one woman, one woman shall not come in

my grace. Rich she shall be, that’s certain; wise,

or I’ll none; virtuous, or I’ll never cheapen her;

fair, or I’ll never look on her; mild, or come not

near me; noble, or not I for an angel; of good

discourse, an excellent musician, and her hair shall

be of what colour it please God. Ha! the prince and

Monsieur Love! I will hide me in the arbour.”

DON PEDRO

Come, Balthasar, we’ll hear that song again.

BALTHASAR

O, good my lord, tax not so bad a voice

To slander music any more than once.

DON PEDRO

It is the witness still of excellency

To put a strange face on his own perfection.

I pray thee, sing, and let me woo no more.”

Air

BENEDICK [Oculto na moita.]

Now, divine air! now is his soul ravished! Is it

not strange that sheeps’ guts should hale souls out

of men’s bodies? Well, a horn for my money, when

all’s done.”

Sigh no more, ladies, sigh no more,

Men were deceivers ever,

One foot in sea and one on shore,

To one thing constant never:

Then sigh not so, but let them go,

And be you blithe and bonny,

Converting all your sounds of woe

Into Hey nonny, nonny.

Sing no more ditties, sing no more,

Of dumps so dull and heavy;

The fraud of men was ever so,

Since summer first was leafy:

Then sigh not so, & c.”

DON PEDRO

By my troth, a good song.

BALTHASAR

And an ill singer, my lord.

DON PEDRO

Ha, no, no, faith; thou singest well enough for a shift.”

BENEDICK [à parte]

An he had been a dog that should have howled thus,

they would have hanged him: and I pray God his bad

voice bode no mischief. I had as lief have heard the

night-raven, come what plague could have come after

it.”

DON PEDRO

Do so: farewell.

Exit BALTHASAR

Come hither, Leonato. What was it you told me of

to-day, that your niece Beatrice was in love with

Signior Benedick?

CLAUDIO

O, ay: stalk on. stalk on; the fowl sits. I did

never think that lady would have loved any man.”

BENEDICK

Is’t possible? Sits the wind in that corner?”

DON PEDRO

May be she doth but counterfeit.

CLAUDIO

Faith, like enough.

LEONATO

O God, counterfeit! There was never counterfeit of

passion came so near the life of passion as she

discovers it.”

DON PEDRO

Hath she made her affection known to Benedick?

LEONATO

No; and swears she never will: that’s her torment.”

DON PEDRO

It were good that Benedick knew of it by some

other, if she will not discover it.

CLAUDIO

To what end? He would make but a sport of it and

torment the poor lady worse.”

LEONATO

O, my lord, wisdom and blood combating in so tender

a body, we have 10 proofs to 1 that blood hath

the victory. I am sorry for her, as I have just

cause, being her uncle and her guardian.”

CLAUDIO

Hero thinks surely she will die; for she says she

will die, if he love her not, and she will die, ere

she make her love known, and she will die, if he woo

her, rather than she will bate one breath of her

accustomed crossness.

DON PEDRO

She doth well: if she should make tender of her

love, ‘tis very possible he’ll scorn it; for the

man, as you know all, hath a contemptible spirit.

CLAUDIO

He is a very proper man.”

DON PEDRO

And so will he do; for the man doth fear God,

howsoever it seems not in him by some large jests

he will make. Well I am sorry for your niece. Shall

we go seek Benedick, and tell him of her love?

CLAUDIO

Never tell him, my lord: let her wear it out with

good counsel.”

They have the truth of this from Hero. They seem to pity the lady: it seems her affections have their full bent. Love me! why, it must be requited. I hear how I am censured: they say I will bear myself proudly, if I perceive the love come from her; they say too that she will rather die than give any sign of affection. I did never think to marry: I must not seem proud: happy are they that hear their detractions and can put them to mending. They say the lady is fair; ‘tis a truth, I can bear them witness; and virtuous; ‘tis so, I cannot reprove it; and wise, but for loving me; by my troth, it is no addition to her wit, nor no great argument of her folly, for I will be horribly in love with her. I may chance have some odd quirks and remnants of wit broken on me, because I have railed so long against marriage: but doth not the appetite alter? a man loves the meat in his youth that he cannot endure in his age. Shall quips and sentences and these paper bullets of the brain awe a man from the career of his humour? No, the world must be peopled. When I said I would die a bachelor, I did not think I should live till I were married. Here comes Beatrice. By this day! she’s a fair lady: I do spy some marks of love in her.

Enter BEATRICE

BEATRICE

Against my will I am sent to bid you come in to dinner.

BENEDICK

Fair Beatrice, I thank you for your pains.

BEATRICE

I took no more pains for those thanks than you take

pains to thank me: if it had been painful, I would

not have come.

BENEDICK

You take pleasure then in the message?

BEATRICE

Yea, just so much as you may take upon a knife’s

point and choke a daw withal. You have no stomach,

signior: fare you well.

Exit

BENEDICK

Ha! ‘Against my will I am sent to bid you come in

to dinner;’ there’s a double meaning in that ‘I took

no more pains for those thanks than you took pains

to thank me.’ that’s as much as to say, Any pains

that I take for you is as easy as thanks. If I do

not take pity of her, I am a villain; if I do not

love her, I am a Jew. I will go get her picture.

Exit”

ACT 3

SCENE I. LEONATO’S garden.

HERO

Good Margaret, run thee to the parlor;

There shalt thou find my cousin Beatrice

Proposing with the prince and Claudio:

Whisper her ear and tell her, I and Ursula

Walk in the orchard and our whole discourse

Is all of her; say that thou overheard’st us;

And bid her steal into the pleached bower,

Where honeysuckles, ripen’d by the sun,

Forbid the sun to enter, like favourites,

Made proud by princes, that advance their pride

Against that power that bred it: there will she hide her,

To listen our purpose. This is thy office;

Bear thee well in it and leave us alone.”

HERO

Now, Ursula, when Beatrice doth come,

As we do trace this alley up and down,

Our talk must only be of Benedick.

When I do name him, let it be thy part

To praise him more than ever man did merit:

My talk to thee must be how Benedick

Is sick in love with Beatrice. Of this matter

Is little Cupid’s crafty arrow made,

That only wounds by hearsay.

Enter BEATRICE, behind

Now begin;

For look where Beatrice, like a lapwing, runs

Close by the ground, to hear our conference.

URSULA

The pleasant’st angling is to see the fish

Cut with her golden oars the silver stream,

And greedily devour the treacherous bait:

So angle we for Beatrice; who even now

Is couched in the woodbine coverture.

Fear you not my part of the dialogue.

HERO

Then go we near her, that her ear lose nothing

Of the false sweet bait that we lay for it.

Approaching the bower

No, truly, Ursula, she is too disdainful;

I know her spirits are as coy and wild

As haggerds of the rock.

URSULA

But are you sure

That Benedick loves Beatrice so entirely?

HERO

So says the prince and my new-trothed lord.

URSULA

And did they bid you tell her of it, madam?

HERO

They did entreat me to acquaint her of it;

But I persuaded them, if they loved Benedick,

To wish him wrestle with affection,

And never to let Beatrice know of it.

URSULA

Why did you so? Doth not the gentleman

Deserve as full as fortunate a bed

As ever Beatrice shall couch upon?

HERO

O god of love! I know he doth deserve

As much as may be yielded to a man:

But Nature never framed a woman’s heart

Of prouder stuff than that of Beatrice;

Disdain and scorn ride sparkling in her eyes,

Misprising what they look on, and her wit

Values itself so highly that to her

All matter else seems weak: she cannot love,

Nor take no shape nor project of affection,

She is so self-endeared.

URSULA

Sure, I think so;

And therefore certainly it were not good

She knew his love, lest she make sport at it.

HERO

Why, you speak truth. I never yet saw man,

How wise, how noble, young, how rarely featured,

But she would spell him backward: if fair-faced,

She would swear the gentleman should be her sister;

If black, why, Nature, drawing of an antique,

Made a foul blot; if tall, a lance ill-headed;

If low, an agate very vilely cut;

If speaking, why, a vane blown with all winds;

If silent, why, a block moved with none.

So turns she every man the wrong side out

And never gives to truth and virtue that

Which simpleness and merit purchaseth.

URSULA

Sure, sure, such carping is not commendable.

HERO

No, not to be so odd and from all fashions

As Beatrice is, cannot be commendable:

But who dare tell her so? If I should speak,

She would mock me into air; O, she would laugh me

Out of myself, press me to death with wit.

Therefore let Benedick, like cover’d fire,

Consume away in sighs, waste inwardly:

It were a better death than die with mocks,

Which is as bad as die with tickling.

URSULA

Yet tell her of it: hear what she will say.

HERO

No; rather I will go to Benedick

And counsel him to fight against his passion.

And, truly, I’ll devise some honest slanders

To stain my cousin with: one doth not know

How much an ill word may empoison liking.

URSULA

O, do not do your cousin such a wrong.

She cannot be so much without true judgment–

Having so swift and excellent a wit

As she is prized to have–as to refuse

So rare a gentleman as Signior Benedick.

HERO

He is the only man of Italy.

Always excepted my dear Claudio.

URSULA

I pray you, be not angry with me, madam,

Speaking my fancy: Signior Benedick,

For shape, for bearing, argument and valour,

Goes foremost in report through Italy.

HERO

Indeed, he hath an excellent good name.

URSULA

His excellence did earn it, ere he had it.

When are you married, madam?

HERO

Why, every day, to-morrow. Come, go in:

I’ll show thee some attires, and have thy counsel

Which is the best to furnish me to-morrow.

URSULA

She’s limed, I warrant you: we have caught her, madam.

HERO

If it proves so, then loving goes by haps:

Some Cupid kills with arrows, some with traps.

Exeunt HERO and URSULA

BEATRICE

[Coming forward]

What fire is in mine ears? Can this be true?

Stand I condemn’d for pride and scorn so much?

Contempt, farewell! and maiden pride, adieu!

No glory lives behind the back of such.

And, Benedick, love on; I will requite thee,

Taming my wild heart to thy loving hand:

If thou dost love, my kindness shall incite thee

To bind our loves up in a holy band;

For others say thou dost deserve, and I

Believe it better than reportingly.

Exit”

Até para a pena frenética de Shakespeare isso foi muito mais rápido do que eu pensava!

ACT 3

SCENE II. A room in LEONATO’S house

he hath a heart as sound as a bell and his tongue is the clapper, for what his heart thinks his tongue speaks.”

BENEDICK

Gallants, I am not as I have been.

LEONATO

So say I methinks you are sadder.

CLAUDIO

I hope he be in love.

DON PEDRO

Hang him, truant! there’s no true drop of blood in

him, to be truly touched with love: if he be sad,

he wants money.

BENEDICK

I have the toothache.

DON PEDRO

Draw it.

BENEDICK

Hang it!

CLAUDIO

You must hang it first, and draw it afterwards.

DON PEDRO

What! sigh for the toothache?

LEONATO

Where is but a humour or a worm.

BENEDICK

Well, every one can master a grief but he that has

it.”

LEONATO

Indeed, he looks younger than he did, by the loss of a beard.

DON PEDRO

Nay, a’ rubs himself with civet [fragrâncias, perfume africano ou oriental]: can you smell him

out by that?

CLAUDIO

That’s as much as to say, the sweet youth’s in love.”

BENEDICK

Yet is this no charm for the toothache. Old

signior, walk aside with me: I have studied 8

or 9 wise words to speak to you, which these

hobby-horses must not hear.

Exeunt BENEDICK and LEONATO”

the two bears will not bite one another when they meet.”

CLAUDIO

Who, Hero?

DON PEDRO

Even she; Leonato’s Hero, your Hero, every man’s Hero:

CLAUDIO

Disloyal?”

DON PEDRO

O day untowardly turned!

CLAUDIO

O mischief strangely thwarting!

DON JOHN [Don Juan]

O plague right well prevented! so will you say when

you have seen the sequel.

Exeunt”

ACT 3

SCENE III. A street.

DOGBERRY

Come hither, neighbour Seacole. God hath blessed

you with a good name: to be a well-favoured man is

the gift of fortune; but to write and read comes by nature.”

DOGBERRY

True, and they are to meddle with none but the

prince’s subjects. You shall also make no noise in

the streets; for, for the watch to babble and to

talk is most [in?]tolerable and not to be endured.

Watchman

We will rather sleep than talk: we know what

belongs to a watch.

DOGBERRY

Why, you speak like an ancient and most quiet

watchman; for I cannot see how sleeping should

offend: only, have a care that your bills be not

stolen. Well, you are to call at all the

ale-houses, and bid those that are drunk get them to bed.”

Watchman

If we know him to be a thief, shall we not lay

hands on him?

DOGBERRY

Truly, by your office, you may; but I think they

that touch pitch will be defiled: the most peaceable

way for you, if you do take a thief, is to let him

show himself what he is and steal out of your company.

VERGES

You have been always called a merciful man, partner.

DOGBERRY

Truly, I would not hang a dog by my will, much more

a man who hath any honesty in him.

VERGES

If you hear a child cry in the night, you must call

to the nurse and bid her still it.

Watchman

How if the nurse be asleep and will not hear us?

DOGBERRY

Why, then, depart in peace, and let the child wake

her with crying; for the ewe that will not hear her

lamb when it baes will never answer a calf when he bleats.

DOGBERRY

One word more, honest neighbours. I pray you watch

about Signior Leonato’s door; for the wedding being

there to-morrow, there is a great coil to-night.

Adieu: be vigilant, I beseech you.

Exeunt DOGBERRY and VERGES

Enter BORACHIO and CONRADE”

BORACHIO

Stand thee close, then, under this pent-house, for

it drizzles rain; and I will, like a true drunkard,

utter all to thee.

Watchman

[Aside] Some treason, masters: yet stand close.

BORACHIO

Therefore know I have earned of Don John 1,000 ducats.

CONRADE

Is it possible that any villany should be so dear?

BORACHIO

Thou shouldst rather ask if it were possible any

villany should be so rich; for when rich villains

have need of poor ones, poor ones may make what

price they will.”

CONRADE

Yes, it is apparel.

BORACHIO

I mean, the fashion.

CONRADE

Yes, the fashion is the fashion.

BORACHIO

Tush! I may as well say the fool’s the fool. But

seest thou not what a deformed thief this fashion

is?”

BORACHIO

Seest thou not, I say, what a deformed thief this

fashion is? how giddily a’ turns about all the hot

bloods between 14 and five-and-thirty?

sometimes fashioning them like Pharaoh’s soldiers

in the reeky painting, sometime like god Bel’s

priests in the old church-window, sometime like the

shaven Hercules in the smirched worm-eaten tapestry,

where his codpiece seems as massy as his club?”

CONRADE

And thought they Margaret was Hero?

BORACHIO

Two of them did, the prince and Claudio; but the

devil my master knew she was Margaret; and partly

by his oaths, which first possessed them, partly by

the dark night, which did deceive them, but chiefly

by my villany, which did confirm any slander that

Don John had made, away went Claudio enraged; swore

he would meet her, as he was appointed, next morning

at the temple, and there, before the whole

congregation, shame her with what he saw o’er night

and send her home again without a husband.”

First Watchman

We charge you, in the prince’s name, stand!

Second Watchman

Call up the right master constable. We have here

recovered the most dangerous piece of lechery that

ever was known in the commonwealth.

First Watchman

And one Deformed is one of them: I know him; a’

wears a lock.

CONRADE

Masters, masters,–

Second Watchman

You’ll be made bring Deformed forth, I warrant you.

CONRADE

Masters,–

First Watchman

Never speak: we charge you let us obey you to go with us.

BORACHIO

We are like to prove a goodly commodity, being taken

up of these men’s bills.

CONRADE

A commodity in question, I warrant you. Come, we’ll obey you.

Exeunt”

ACT 3

SCENE IV. HERO’s apartment.

MARGARET

By my troth, ‘s not so good; and I warrant your

cousin will say so.

HERO

My cousin’s a fool, and thou art another: I’ll wear

none but this.”

MARGARET

Of what, lady? of speaking honourably? Is not

marriage honourable in a beggar? Is not your lord

honourable without marriage? I think you would have

me say, ‘saving your reverence, a husband:’ and bad

thinking do not wrest true speaking, I’ll offend

nobody: is there any harm in ‘the heavier for a

husband’? None, I think, and it be the right husband

and the right wife; otherwise ‘tis light, and not

heavy: ask my Lady Beatrice else; here she comes.

Enter BEATRICE”

HERO

Why how now? do you speak in the sick tune?

BEATRICE

I am out of all other tune, methinks.”

BEATRICE

Ye light o’ love, with your heels! then, if your

husband have stables enough, you’ll see he shall

lack no barns.

MARGARET

O illegitimate construction! I scorn that with my heels.”

“…By my troth, I am exceeding ill: heigh-ho!

MARGARET

For a hawk, a horse, or a husband?

BEATRICE

For the letter that begins them all, H.

MARGARET

Well, and you be not turned Turk, there’s no more

sailing by the star.

BEATRICE

What means the fool, trow?

MARGARET

Nothing I; but God send every one their heart’s desire!”

BEATRICE

I am stuffed, cousin; I cannot smell.

MARGARET

A maid, and stuffed! There’s goodly catching of cold.

BEATRICE

O, God help me! God help me! how long have you

professed apprehension?”

ACT 3

SCENE V. Another room in LEONATO’S house.

DOGBERRY

A good old man, sir; he will be talking: as they

say, when the age is in, the wit is out: God help

us! it is a world to see. Well said, i’ faith,

neighbour Verges: well, God’s a good man; an 2 men

ride of a horse, one must ride behind. An honest

soul, i’ faith, sir; by my troth he is, as ever

broke bread; but God is to be worshipped; all men

are not alike; alas, good neighbour!

LEONATO

Indeed, neighbour, he comes too short of you.

DOGBERRY

Gifts that God gives.

LEONATO

I must leave you.

DOGBERRY

One word, sir: our watch, sir, have indeed

comprehended 2 auspicious persons, and we would

have them this morning examined before your worship.

LEONATO

Take their examination yourself and bring it me: I

am now in great haste, as it may appear unto you.

DOGBERRY

It shall be suffigance.”

LEONATO

I’ll wait upon them: I am ready.

Exeunt LEONATO and Messenger

DOGBERRY

Go, good partner, go, get you to Francis Seacole;

bid him bring his pen and inkhorn to the gaol: we

are now to examination these men.”

ACT 4

SCENE I. A church. [na íntegra]

LEONATO

Come, Friar Francis, be brief; only to the plain

form of marriage, and you shall recount their

particular duties afterwards.

FRIAR FRANCIS

You come hither, my lord, to marry this lady.

CLAUDIO

No.

LEONATO

To be married to her: friar, you come to marry her.

FRIAR FRANCIS

Lady, you come hither to be married to this count.

HERO

I do.

FRIAR FRANCIS

If either of you know any inward impediment why you

should not be conjoined, charge you, on your souls,

to utter it.

CLAUDIO

Know you any, Hero?

HERO

None, my lord.

FRIAR FRANCIS

Know you any, count?

LEONATO

I dare make his answer, none.

CLAUDIO

O, what men dare do! what men may do! what men daily

do, not knowing what they do!

BENEDICK

How now! interjections? Why, then, some be of

laughing, as, ah, ha, he!

CLAUDIO

Stand thee by, friar. Father, by your leave:

Will you with free and unconstrained soul

Give me this maid, your daughter?

LEONATO

As freely, son, as God did give her me.

CLAUDIO

And what have I to give you back, whose worth

May counterpoise this rich and precious gift?

DON PEDRO

Nothing, unless you render her again.

CLAUDIO

Sweet prince, you learn me noble thankfulness.

There, Leonato, take her back again:

Give not this rotten orange to your friend;

She’s but the sign and semblance of her honour.

Behold how like a maid she blushes here!

O, what authority and show of truth

Can cunning sin cover itself withal!

Comes not that blood as modest evidence

To witness simple virtue? Would you not swear,

All you that see her, that she were a maid,

By these exterior shows? But she is none:

She knows the heat of a luxurious bed;

Her blush is guiltiness, not modesty.

LEONATO

What do you mean, my lord?

CLAUDIO

Not to be married,

Not to knit my soul to an approved wanton.

LEONATO

Dear my lord, if you, in your own proof,

Have vanquish’d the resistance of her youth,

And made defeat of her virginity,–

CLAUDIO

I know what you would say: if I have known her,

You will say she did embrace me as a husband,

And so extenuate the ‘forehand sin:

No, Leonato,

I never tempted her with word too large;

But, as a brother to his sister, show’d

Bashful sincerity and comely love.

HERO

And seem’d I ever otherwise to you?

CLAUDIO

Out on thee! Seeming! I will write against it:

You seem to me as Dian in her orb,

As chaste as is the bud ere it be blown;

But you are more intemperate in your blood

Than Venus, or those pamper’d animals

That rage in savage sensuality.

HERO

Is my lord well, that he doth speak so wide?

LEONATO

Sweet prince, why speak not you?

DON PEDRO

What should I speak?

I stand dishonour’d, that have gone about

To link my dear friend to a common stale.

LEONATO

Are these things spoken, or do I but dream?

DON JOHN

Sir, they are spoken, and these things are true.

BENEDICK

This looks not like a nuptial.

HERO

True! O God!

CLAUDIO

Leonato, stand I here?

Is this the prince? is this the prince’s brother?

Is this face Hero’s? are our eyes our own?

LEONATO

All this is so: but what of this, my lord?

CLAUDIO

Let me but move one question to your daughter;

And, by that fatherly and kindly power

That you have in her, bid her answer truly.

LEONATO

I charge thee do so, as thou art my child.

HERO

O, God defend me! how am I beset!

What kind of catechising call you this?

CLAUDIO

To make you answer truly to your name.

HERO

Is it not Hero? Who can blot that name

With any just reproach?

CLAUDIO

Marry, that can Hero;

Hero itself can blot out Hero’s virtue.

What man was he talk’d with you yesternight

Out at your window betwixt 12 and 1?

Now, if you are a maid, answer to this.

HERO

I talk’d with no man at that hour, my lord.

DON PEDRO

Why, then are you no maiden. Leonato,

I am sorry you must hear: upon mine honour,

Myself, my brother and this grieved count

Did see her, hear her, at that hour last night

Talk with a ruffian at her chamber-window

Who hath indeed, most like a liberal villain,

Confess’d the vile encounters they have had

A thousand times in secret.

DON JOHN

Fie, fie! they are not to be named, my lord,

Not to be spoke of;

There is not chastity enough in language

Without offence to utter them. Thus, pretty lady,

I am sorry for thy much misgovernment.

CLAUDIO

O Hero, what a Hero hadst thou been,

If half thy outward graces had been placed

About thy thoughts and counsels of thy heart!

But fare thee well, most foul, most fair! farewell,

Thou pure impiety and impious purity!

For thee I’ll lock up all the gates of love,

And on my eyelids shall conjecture hang,

To turn all beauty into thoughts of harm,

And never shall it more be gracious.

LEONATO

Hath no man’s dagger here a point for me?

HERO swoons

BEATRICE

Why, how now, cousin! wherefore sink you down?

DON JOHN

Come, let us go. These things, come thus to light,

Smother her spirits up.

Exeunt DON PEDRO, DON JOHN, and CLAUDIO

BENEDICK

How doth the lady?

BEATRICE

Dead, I think. Help, uncle!

Hero! why, Hero! Uncle! Signior Benedick! Friar!

LEONATO

O Fate! take not away thy heavy hand.

Death is the fairest cover for her shame

That may be wish’d for.

BEATRICE

How now, cousin Hero!

FRIAR FRANCIS

Have comfort, lady.

LEONATO

Dost thou look up?

FRIAR FRANCIS

Yea, wherefore should she not?

LEONATO

Wherefore! Why, doth not every earthly thing

Cry shame upon her? Could she here deny

The story that is printed in her blood?

Do not live, Hero; do not ope thine eyes:

For, did I think thou wouldst not quickly die,

Thought I thy spirits were stronger than thy shames,

Myself would, on the rearward of reproaches,

Strike at thy life. Grieved I, I had but one?

Chid I for that at frugal nature’s frame?

O, one too much by thee! Why had I one?

Why ever wast thou lovely in my eyes?

Why had I not with charitable hand

Took up a beggar’s issue at my gates,

Who smirch’d thus and mired with infamy,

I might have said ‘No part of it is mine;

This shame derives itself from unknown loins’?

But mine and mine I loved and mine I praised

And mine that I was proud on, mine so much

That I myself was to myself not mine,

Valuing of her,–why, she, O, she is fallen

Into a pit of ink, that the wide sea

Hath drops too few to wash her clean again

And salt too little which may season give

To her foul-tainted flesh!

BENEDICK

Sir, sir, be patient.

For my part, I am so attired in wonder,

I know not what to say.

BEATRICE

O, on my soul, my cousin is belied!

BENEDICK

Lady, were you her bedfellow last night?

BEATRICE

No, truly not; although, until last night,

I have this 12-month been her bedfellow.

LEONATO

Confirm’d, confirm’d! O, that is stronger made

Which was before barr’d up with ribs of iron!

Would the 2 princes lie, and Claudio lie,

Who loved her so, that, speaking of her foulness,

Wash’d it with tears? Hence from her! let her die.

FRIAR FRANCIS

Hear me a little;

For I have only been silent so long

And given way unto this course of fortune…

By noting of the lady I have mark’d

A thousand blushing apparitions

To start into her face, a thousand innocent shames

In angel whiteness beat away those blushes;

And in her eye there hath appear’d a fire,

To burn the errors that these princes hold

Against her maiden truth. Call me a fool;

Trust not my reading nor my observations,

Which with experimental seal doth warrant

The tenor of my book; trust not my age,

My reverence, calling, nor divinity,

If this sweet lady lie not guiltless here

Under some biting error.

LEONATO

Friar, it cannot be.

Thou seest that all the grace that she hath left

Is that she will not add to her damnation

A sin of perjury; she not denies it:

Why seek’st thou then to cover with excuse

That which appears in proper nakedness?

FRIAR FRANCIS

Lady, what man is he you are accused of?

HERO

They know that do accuse me; I know none:

If I know more of any man alive

Than that which maiden modesty doth warrant,

Let all my sins lack mercy! O my father,

Prove you that any man with me conversed

At hours unmeet, or that I yesternight

Maintain’d the change of words with any creature,

Refuse me, hate me, torture me to death!

FRIAR FRANCIS

There is some strange misprision in the princes.

BENEDICK

Two of them have the very bent of honour;

And if their wisdoms be misled in this,

The practise of it lives in John the bastard,

Whose spirits toil in frame of villanies.

LEONATO

I know not. If they speak but truth of her,

These hands shall tear her; if they wrong her honour,

The proudest of them shall well hear of it.

Time hath not yet so dried this blood of mine,

Nor age so eat up my invention,

Nor fortune made such havoc of my means,

Nor my bad life reft me so much of friends,

But they shall find, awaked in such a kind,

Both strength of limb and policy of mind,

Ability in means and choice of friends,

To quit me of them throughly.

FRIAR FRANCIS

Pause awhile,

And let my counsel sway you in this case.

Your daughter here the princes left for dead:

Let her awhile be secretly kept in,

And publish it that she is dead indeed;

Maintain a mourning ostentation

And on your family’s old monument

Hang mournful epitaphs and do all rites

That appertain unto a burial.

LEONATO

What shall become of this? what will this do?

FRIAR FRANCIS

Marry, this well carried shall on her behalf

Change slander to remorse; that is some good:

But not for that dream I on this strange course,

But on this travail look for greater birth.

She dying, as it must so be maintain’d,

Upon the instant that she was accused,

Shall be lamented, pitied and excused

Of every hearer: for it so falls out

That what we have we prize not to the worth

Whiles we enjoy it, but being lack’d and lost,

Why, then we rack the value, then we find

The virtue that possession would not show us

Whiles it was ours. So will it fare with Claudio:

When he shall hear she died upon his words,

The idea of her life shall sweetly creep

Into his study of imagination,

And every lovely organ of her life

Shall come apparell’d in more precious habit,

More moving-delicate and full of life,

Into the eye and prospect of his soul,

Than when she lived indeed; then shall he mourn,

If ever love had interest in his liver,

And wish he had not so accused her,

No, though he thought his accusation true.

Let this be so, and doubt not but success

Will fashion the event in better shape

Than I can lay it down in likelihood.

But if all aim but this be levell’d false,

The supposition of the lady’s death

Will quench the wonder of her infamy:

And if it sort not well, you may conceal her,

As best befits her wounded reputation,

In some reclusive and religious life,

Out of all eyes, tongues, minds and injuries.

BENEDICK

Signior Leonato, let the friar advise you:

And though you know my inwardness and love

Is very much unto the prince and Claudio,

Yet, by mine honour, I will deal in this

As secretly and justly as your soul

Should with your body.

LEONATO

Being that I flow in grief,

The smallest twine may lead me.

FRIAR FRANCIS

Tis well consented: presently away;

For to strange sores strangely they strain the cure.

Come, lady, die to live: this wedding-day

Perhaps is but prolong’d: have patience and endure.

Exeunt all but BENEDICK and BEATRICE

BENEDICK

Lady Beatrice, have you wept all this while?

BEATRICE

Yea, and I will weep a while longer.

BENEDICK

I will not desire that.

BEATRICE

You have no reason; I do it freely.

BENEDICK

Surely I do believe your fair cousin is wronged.

BEATRICE

Ah, how much might the man deserve of me that would right her!

BENEDICK

Is there any way to show such friendship?

BEATRICE

A very even way, but no such friend.

BENEDICK

May a man do it?

BEATRICE

It is a man’s office, but not yours.

BENEDICK

I do love nothing in the world so well as you: is

not that strange?

BEATRICE

As strange as the thing I know not. It were as

possible for me to say I loved nothing so well as

you: but believe me not; and yet I lie not; I

confess nothing, nor I deny nothing. I am sorry for my cousin.

BENEDICK

By my sword, Beatrice, thou lovest me.

BEATRICE

Do not swear, and eat it.

BENEDICK

I will swear by it that you love me; and I will make

him eat it that says I love not you.

BEATRICE

Will you not eat your word?

BENEDICK

With no sauce that can be devised to it. I protest

I love thee.

BEATRICE

Why, then, God forgive me!

BENEDICK

What offence, sweet Beatrice?

BEATRICE

You have stayed me in a happy hour: I was about to

protest I loved you.

BENEDICK

And do it with all thy heart.

BEATRICE

I love you with so much of my heart that none is

left to protest.

BENEDICK

Come, bid me do any thing for thee.

BEATRICE

Kill Claudio.

BENEDICK

Ha! not for the wide world.

BEATRICE

You kill me to deny it. Farewell.

BENEDICK

Tarry, sweet Beatrice.

BEATRICE

I am gone, though I am here: there is no love in

you: nay, I pray you, let me go.

BENEDICK

Beatrice,–

BEATRICE

In faith, I will go.

BENEDICK

We’ll be friends first.

BEATRICE

You dare easier be friends with me than fight with mine enemy.

BENEDICK

Is Claudio thine enemy?

BEATRICE

Is he not approved in the height a villain, that

hath slandered, scorned, dishonoured my kinswoman? O

that I were a man! What, bear her in hand until they

come to take hands; and then, with public

accusation, uncovered slander, unmitigated rancour,

–O God, that I were a man! I would eat his heart

in the market-place.

BENEDICK

Hear me, Beatrice,–

BEATRICE

Talk with a man out at a window! A proper saying!

BENEDICK

Nay, but, Beatrice,–

BEATRICE

Sweet Hero! She is wronged, she is slandered, she is undone.

BENEDICK

Beat–

BEATRICE

Princes and counties! Surely, a princely testimony,

a goodly count, Count Comfect; a sweet gallant,

surely! O that I were a man for his sake! or that I

had any friend would be a man for my sake! But

manhood is melted into courtesies, valour into

compliment, and men are only turned into tongue, and

trim ones too: he is now as valiant as Hercules

that only tells a lie and swears it. I cannot be a

man with wishing, therefore I will die a woman with grieving.

BENEDICK

Tarry, good Beatrice. By this hand, I love thee.

BEATRICE

Use it for my love some other way than swearing by it.

BENEDICK

Think you in your soul the Count Claudio hath wronged Hero?

BEATRICE

Yea, as sure as I have a thought or a soul.

BENEDICK

Enough, I am engaged; I will challenge him. I will

kiss your hand, and so I leave you. By this hand,

Claudio shall render me a dear account. As you

hear of me, so think of me. Go, comfort your

cousin: I must say she is dead: and so, farewell.

Exeunt”

ACT 4

SCENE II. A prison.

DOGBERRY

Write down, that they hope they serve God: and

write God first; for God defend but God should go

before such villains! Masters, it is proved already

that you are little better than false knaves; and it

will go near to be thought so shortly. How answer

you for yourselves?

CONRADE

Marry, sir, we say we are none.

DOGBERRY

A marvellous witty fellow, I assure you: but I

will go about with him. Come you hither, sirrah; a

word in your ear: sir, I say to you, it is thought

you are false knaves.

BORACHIO

Sir, I say to you we are none.”

First Watchman

This man said, sir, that Don John, the prince’s

brother, was a villain.

DOGBERRY

Write down Prince John a villain. Why, this is flat

perjury, to call a prince’s brother villain.

BORACHIO

Master constable,–

DOGBERRY

Pray thee, fellow, peace: I do not like thy look,

I promise thee.

Sexton [o tocador do sino numa côrte de justiça ou assembléia]

What heard you him say else?

Second Watchman

Marry, that he had received a thousand ducats of

Don John for accusing the Lady Hero wrongfully.”

Sexton

What else, fellow?

First Watchman

And that Count Claudio did mean, upon his words, to

disgrace Hero before the whole assembly. and not marry her.

DOGBERRY

O villain! thou wilt be condemned into everlasting

redemption for this.

Sexton

What else?

Watchman

This is all.

Sexton

And this is more, masters, than you can deny.

Prince John is this morning secretly stolen away;

Hero was in this manner accused, in this very manner

refused, and upon the grief of this suddenly died.

Master constable, let these men be bound, and

brought to Leonato’s: I will go before and show

him their examination.

Exit”

ACT 5

SCENE I. Before LEONATO’S house.

Bring me a father that so loved his child,

Whose joy of her is overwhelm’d like mine,

And bid him speak of patience;

Measure his woe the length and breadth of mine

And let it answer every strain for strain,

As thus for thus and such a grief for such,

In every lineament, branch, shape, and form:

If such a one will smile and stroke his beard,

Bid sorrow wag, cry ‘hem!’ when he should groan,

Patch grief with proverbs, make misfortune drunk

With candle-wasters; bring him yet to me,

And I of him will gather patience.

But there is no such man: for, brother, men

Can counsel and speak comfort to that grief

Which they themselves not feel; but, tasting it,

Their counsel turns to passion, which before

Would give preceptial medicine to rage,

Fetter strong madness in a silken thread,

Charm ache with air and agony with words:

No, no; ‘tis all men’s office to speak patience

To those that wring under the load of sorrow,

But no man’s virtue nor sufficiency

To be so moral when he shall endure

The like himself. Therefore give me no counsel:

My griefs cry louder than advertisement.”

I pray thee, peace. I will be flesh and blood;

For there was never yet philosopher

That could endure the toothache patiently,

However they have writ the style of gods

And made a push at chance and sufferance.”

My soul doth tell me Hero is belied;

And that shall Claudio know; so shall the prince

And all of them that thus dishonour her.”

DON PEDRO

Nay, do not quarrel with us, good old man.

ANTONIO

If he could right himself with quarreling,

Some of us would lie low.”

Nay, never lay thy hand upon thy sword;

I fear thee not.”

Tush, tush, man; never fleer and jest at me:

I speak not like a dotard nor a fool,

As under privilege of age to brag

What I have done being young, or what would do

Were I not old. Know, Claudio, to thy head,

Thou hast so wrong’d mine innocent child and me

That I am forced to lay my reverence by

And, with grey hairs and bruise of many days,

Do challenge thee to trial of a man.

I say thou hast belied mine innocent child;

Thy slander hath gone through and through her heart,

And she lies buried with her ancestors;

O, in a tomb where never scandal slept,

Save this of hers, framed by thy villany!”

My lord, my lord,

I’ll prove it on his body, if he dare,

Despite his nice fence and his active practise,

His May of youth and bloom of lustihood.”

Canst thou so daff me? Thou hast kill’d my child:

If thou kill’st me, boy, thou shalt kill a man.”

ANTONIO

He shall kill 2 of us, and men indeed:

But that’s no matter; let him kill one first;

Win me and wear me; let him answer me.

Come, follow me, boy; come, sir boy, come, follow me:

Sir boy, I’ll whip you from your foining [pontuda] fence;

Nay, as I am a gentleman, I will.”

Content yourself. God knows I loved my niece;

And she is dead, slander’d to death by villains,

That dare as well answer a man indeed

As I dare take a serpent by the tongue:

Boys, apes, braggarts, Jacks, milksops!”

Hold you content. What, man! I know them, yea,

And what they weigh, even to the utmost scruple,–

Scrambling, out-facing, fashion-monging boys,

That lie and cog and flout, deprave and slander,

Go anticly, show outward hideousness,

And speak off half a dozen dangerous words,

How they might hurt their enemies, if they durst;

And this is all.”

DON PEDRO

Gentlemen both, we will not wake your patience.

My heart is sorry for your daughter’s death:

But, on my honour, she was charged with nothing

But what was true and very full of proof.

LEONATO

My lord, my lord,–

DON PEDRO

I will not hear you.”

DON PEDRO

Leonato and his brother. What thinkest thou? Had

we fought, I doubt we should have been too young for them.

BENEDICK

In a false quarrel there is no true valour. I came

to seek you both.”

DON PEDRO

As I am an honest man, he looks pale. Art thou

sick, or angry?

CLAUDIO

What, courage, man! What though care killed a cat,

thou hast mettle enough in thee to kill care.

BENEDICK

Sir, I shall meet your wit in the career, and you

charge it against me. I pray you choose another subject.”

BENEDICK

Shall I speak a word in your ear?

CLAUDIO

God bless me from a challenge!

BENEDICK

[Aside to CLAUDIO] You are a villain; I jest not:

I will make it good how you dare, with what you

dare, and when you dare. Do me right, or I will

protest your cowardice. You have killed a sweet

lady, and her death shall fall heavy on you. Let me

hear from you.

CLAUDIO

Well, I will meet you, so I may have good cheer.

DON PEDRO

What, a feast, a feast?

CLAUDIO

I’ faith, I thank him; he hath bid me to a calf’s

head and a capon; the which if I do not carve most

curiously, say my knife’s naught. Shall I not find

a woodcock too?”

DON PEDRO

But when shall we set the savage bull’s horns on

the sensible Benedick’s head?

CLAUDIO

Yea, and text underneath, ‘Here dwells Benedick the

married man’?”

I must discontinue your company: your brother the bastard is fled from Messina: you have among you killed a sweet and innocent lady. For my Lord Lackbeard there, he and I shall meet: and, till then, peace be with him.

Exit”

CLAUDIO

He is then a giant to an ape; but then is an ape a

doctor to such a man.”

DON PEDRO

Did he not say, my brother was fled?

Enter DOGBERRY, VERGES, and the Watch, with CONRADE and BORACHIO”

DOGBERRY

Marry, sir, they have committed false report;

moreover, they have spoken untruths; secondarily,

they are slanders; sixth and lastly, they have

belied a lady; thirdly, they have verified unjust

things; and, to conclude, they are lying knaves.

DON PEDRO

First, I ask thee what they have done; thirdly, I

ask thee what’s their offence; sixth and lastly, why

they are committed; and, to conclude, what you lay

to their charge.”

I have deceived even your very eyes: what your wisdoms could not discover, these shallow fools have brought to light: who in the night overheard me confessing to this man how Don John your brother incensed me to slander the Lady Hero, how you were brought into the orchard and saw me court Margaret in Hero’s garments, how you disgraced her, when you should marry her: my villany they have upon record; which I had rather seal with my death than repeat over to my shame. The lady is dead upon mine and my master’s false accusation; and, briefly, I desire nothing but the reward of a villain.”

DON PEDRO

Runs not this speech like iron through your blood?

CLAUDIO

I have drunk poison whiles he utter’d it.

DON PEDRO

But did my brother set thee on to this?

BORACHIO

Yea, and paid me richly for the practise of it.”

CLAUDIO

Sweet Hero! now thy image doth appear

In the rare semblance that I loved it first.

DOGBERRY

Come, bring away the plaintiffs: by this time our

sexton hath reformed Signior Leonato of the matter:

and, masters, do not forget to specify, when time

and place shall serve, that I am an ass.

VERGES

Here, here comes master Signior Leonato, and the

Sexton too.

Re-enter LEONATO and ANTONIO, with the Sexton”

LEONATO

Art thou the slave that with thy breath hast kill’d

Mine innocent child?

BORACHIO

Yea, even I alone.”

Yet I must speak. Choose your revenge yourself;

Impose me to what penance your invention

Can lay upon my sin: yet sinn’d I not

But in mistaking.”

LEONATO

I cannot bid you bid my daughter live;

That were impossible: but, I pray you both,

Possess the people in Messina here

How innocent she died; and if your love

Can labour ought in sad invention,

Hang her an epitaph upon her tomb

And sing it to her bones, sing it to-night:

To-morrow morning come you to my house,

And since you could not be my son-in-law,

Be yet my nephew: my brother hath a daughter,

Almost the copy of my child that’s dead,

And she alone is heir to both of us:

Give her the right you should have given her cousin,

And so dies my revenge.”

DOGBERRY

Moreover, sir, which indeed is not under white and

black, this plaintiff here, the offender, did call

me ass: I beseech you, let it be remembered in his

punishment. And also, the watch heard them talk of

one Deformed: they say he wears a key in his ear and

a lock hanging by it, and borrows money in God’s

name, the which he hath used so long and never paid

that now men grow hard-hearted and will lend nothing

for God’s sake: pray you, examine him upon that point.”

LEONATO

[To the Watch] Bring you these fellows on. We’ll

talk with Margaret,

How her acquaintance grew with this lewd fellow.

Exeunt, severally”

ACT 5

SCENE II. LEONATO’S garden.

BENEDICK

Pray thee, sweet Mistress Margaret, deserve well at

my hands by helping me to the speech of Beatrice.

MARGARET

Will you then write me a sonnet in praise of my beauty?

BENEDICK

In so high a style, Margaret, that no man living

shall come over it; for, in most comely truth, thou

deservest it.

MARGARET

To have no man come over me! why, shall I always

keep below stairs?

BENEDICK

Thy wit is as quick as the greyhound’s mouth; it catches.

MARGARET

And yours as blunt as the fencer’s foils, which hit,

but hurt not.

BENEDICK

A most manly wit, Margaret; it will not hurt a

woman: and so, I pray thee, call Beatrice: I give

thee the bucklers.

MARGARET

Give us the swords; we have bucklers of our own.

BENEDICK

If you use them, Margaret, you must put in the

pikes with a vice; and they are dangerous weapons for maids.”

Sings

The god of love,

That sits above,

And knows me, and knows me,

How pitiful I deserve,–

I mean in singing; but in loving, Leander the good

swimmer, Troilus the first employer of panders, and

a whole bookful of these quondam carpet-mangers,

whose names yet run smoothly in the even road of a

blank verse, why, they were never so truly turned

over and over as my poor self in love. Marry, I

cannot show it in rhyme; I have tried: I can find

out no rhyme to ‘lady’ but ‘baby,’ an innocent

rhyme; for ‘scorn,’ ‘horn,’ a hard rhyme; for,

school,’ ‘fool,’ a babbling rhyme; very ominous

endings: no, I was not born under a rhyming planet,

nor I cannot woo in festival terms.

Enter BEATRICE”

BENEDICK

O, stay but till then!

BEATRICE

Then’ is spoken; fare you well now: and yet, ere

I go, let me go with that I came; which is, with

knowing what hath passed between you and Claudio.

BENEDICK

Only foul words; and thereupon I will kiss thee.

BEATRICE

Foul words is but foul wind, and foul wind is but

foul breath, and foul breath is noisome; therefore I

will depart unkissed.

BENEDICK

Thou hast frighted the word out of his right sense,

so forcible is thy wit. But I must tell thee

plainly, Claudio undergoes my challenge; and either

I must shortly hear from him, or I will subscribe

him a coward. And, I pray thee now, tell me for

which of my bad parts didst thou first fall in love with me?

BEATRICE

For them all together; which maintained so politic

a state of evil that they will not admit any good

part to intermingle with them. But for which of my

good parts did you first suffer love for me?

BENEDICK

Suffer love! a good epithet! I do suffer love

indeed, for I love thee against my will.

BEATRICE

In spite of your heart, I think; alas, poor heart!

If you spite it for my sake, I will spite it for

yours; for I will never love that which my friend hates.

BENEDICK

Thou and I are too wise to woo peaceably.

BEATRICE

It appears not in this confession: there’s not one

wise man among 20 that will praise himself.”

If a man do not erect in this age his own tomb ere he dies, he shall live no longer in monument than the bell rings and the widow weeps.”

BEATRICE

And how long is that, think you?

BENEDICK

Question: why, an hour in clamour and a quarter in

rheum: therefore is it most expedient for the

wise, if Don Worm, his conscience, find no

impediment to the contrary, to be the trumpet of his

own virtues, as I am to myself. So much for

praising myself, who, I myself will bear witness, is

praiseworthy: and now tell me, how doth your cousin?

BEATRICE

Very ill.

BENEDICK

And how do you?

BEATRICE

Very ill too.”

URSULA

Madam, you must come to your uncle. Yonder’s old

coil at home: it is proved my Lady Hero hath been

falsely accused, the prince and Claudio mightily

abused; and Don John is the author of all, who is

fed and gone. Will you come presently?

BEATRICE

Will you go hear this news, signior?

BENEDICK

I will live in thy heart, die in thy lap, and be

buried in thy eyes; and moreover I will go with

thee to thy uncle’s.

Exeunt”

ACT 5

SCENE III. A church.

CLAUDIO

Now, unto thy bones good night!

Yearly will I do this rite.

ACT 5

SCENE IV. A room in LEONATO’S house. [final]

Enter LEONATO, ANTONIO, BENEDICK, BEATRICE, MARGARET, URSULA, FRIAR FRANCIS, and HERO.”

FRIAR FRANCIS

Did I not tell you she was innocent?

LEONATO

So are the prince and Claudio, who accused her

Upon the error that you heard debated:

But Margaret was in some fault for this,

Although against her will, as it appears

In the true course of all the question.

ANTONIO

Well, I am glad that all things sort so well.

BENEDICK

And so am I, being else by faith enforced

To call young Claudio to a reckoning for it.

LEONATO

Well, daughter, and you gentle-women all,

Withdraw into a chamber by yourselves,

And when I send for you, come hither mask’d.

Exeunt Ladies

The prince and Claudio promised by this hour

To visit me. You know your office, brother:

You must be father to your brother’s daughter

And give her to young Claudio.”

BENEDICK

Friar, I must entreat your pains, I think.

FRIAR FRANCIS

To do what, signior?

BENEDICK

To bind me, or undo me; one of them.

Signior Leonato, truth it is, good signior,

Your niece regards me with an eye of favour.

LEONATO

That eye my daughter lent her: ‘tis most true.

BENEDICK

And I do with an eye of love requite her.

LEONATO

The sight whereof I think you had from me,

From Claudio and the prince: but what’s your will?

BENEDICK

Your answer, sir, is enigmatical:

But, for my will, my will is your good will

May stand with ours, this day to be conjoin’d

In the state of honourable marriage:

In which, good friar, I shall desire your help.”

Enter DON PEDRO and CLAUDIO, and two or three others.”

LEONATO

Good morrow, prince; good morrow, Claudio:

We here attend you. Are you yet determined

To-day to marry with my brother’s daughter?

CLAUDIO

I’ll hold my mind, were she an Ethiope.”


DON PEDRO

Good morrow, Benedick. Why, what’s the matter,

That you have such a February face,

So full of frost, of storm and cloudiness?

CLAUDIO

I think he thinks upon the savage bull.

Tush, fear not, man; we’ll tip thy horns with gold

And all Europa shall rejoice at thee,

As once Europa did at lusty Jove,

When he would play the noble beast in love.

BENEDICK

Bull Jove, sir, had an amiable low;

And some such strange bull leap’d your father’s cow,

And got a calf in that same noble feat

Much like to you, for you have just his bleat.”

CLAUDIO

Re-enter ANTONIO, with the Ladies masked

Which is the lady I must seize upon?

ANTONIO

This same is she, and I do give you her.

CLAUDIO

Why, then she’s mine. Sweet, let me see your face.

LEONATO

No, that you shall not, till you take her hand

Before this friar and swear to marry her.

CLAUDIO

Give me your hand: before this holy friar,

I am your husband, if you like of me.

HERO

And when I lived, I was your other wife:

Unmasking

And when you loved, you were my other husband.

CLAUDIO

Another Hero!

HERO

Nothing certainer:

One Hero died defiled, but I do live,

And surely as I live, I am a maid.”

LEONATO

She died, my lord, but whiles her slander lived.

FRIAR FRANCIS

All this amazement can I qualify:

When after that the holy rites are ended,

I’ll tell you largely of fair Hero’s death:

Meantime let wonder seem familiar,

And to the chapel let us presently.

BENEDICK

Soft and fair, friar. Which is Beatrice?

BEATRICE

[Unmasking] I answer to that name. What is your will?

BENEDICK

Do not you love me?

BEATRICE

Why, no; no more than reason.

BENEDICK

Why, then your uncle and the prince and Claudio

Have been deceived; they swore you did.

BEATRICE

Do not you love me?

BENEDICK

Troth, no; no more than reason.

BEATRICE

Why, then my cousin Margaret and Ursula

Are much deceived; for they did swear you did.

BENEDICK

They swore that you were almost sick for me.

BEATRICE

They swore that you were well-nigh dead for me.

BENEDICK

Tis no such matter. Then you do not love me?

BEATRICE

No, truly, but in friendly recompense.

LEONATO

Come, cousin, I am sure you love the gentleman.

CLAUDIO

And I’ll be sworn upon’t that he loves her;

For here’s a paper written in his hand,

A halting sonnet of his own pure brain,

Fashion’d to Beatrice.

HERO

And here’s another

Writ in my cousin’s hand, stolen from her pocket,

Containing her affection unto Benedick.

BENEDICK

A miracle! here’s our own hands against our hearts.

Come, I will have thee; but, by this light, I take

thee for pity.

BEATRICE

I would not deny you; but, by this good day, I yield

upon great persuasion; and partly to save your life,

for I was told you were in a consumption.

BENEDICK

Peace! I will stop your mouth.

Kissing her

DON PEDRO

How dost thou, Benedick, the married man?

BENEDICK

I’ll tell thee what, prince; a college of

wit-crackers cannot flout me out of my humour. Dost

thou think I care for a satire or an epigram? No:

if a man will be beaten with brains, a’ shall wear

nothing handsome about him. In brief, since I do

purpose to marry, I will think nothing to any

purpose that the world can say against it; and

therefore never flout at me for what I have said

against it; for man is a giddy thing, and this is my

conclusion. For thy part, Claudio, I did think to

have beaten thee, but in that thou art like to be my

kinsman, live unbruised and love my cousin.

CLAUDIO

I had well hoped thou wouldst have denied Beatrice,

that I might have cudgelled thee out of thy single

life, to make thee a double-dealer; which, out of

question, thou wilt be, if my cousin do not look

exceedingly narrowly to thee.”

BENEDICK

First, of my word; therefore play, music. Prince,

thou art sad; get thee a wife, get thee a wife:

there is no staff more reverend than one tipped with horn.

Enter a Messenger

Messenger

My lord, your brother John is ta’en in flight,

And brought with armed men back to Messina.

BENEDICK

Think not on him till to-morrow:

I’ll devise thee brave punishments for him.

Strike up, pipers.

Dance

Exeunt”

GLOSSÁRIO:

bleat: balido

buckler: escudo

capon: galo capado

codpiece: braguilha

ewe: ovelha fêmewa

foining: espetar; arma afiada

gaol: jail, gaiola

racemes: “An inflorescence having stalked flowers arranged singly along an elongated unbranched axis, with the flowers at the bottom opening first.” = CACHO, aproximadamente.

sea cole: “1. perennial of coastal sands and shingles of northern Europe and Baltic and Black Seas having racemes of small white flowers and large fleshy blue-green leaves often used as potherbs

Crambe maritima, sea kale

2. Crambe, genus Crambeannual or perennial herbs with large leaves that resemble the leaves of cabbages

3. herb, herbaceous plant – a plant lacking a permanent woody stem; many are flowering garden plants or potherbs; some having medicinal properties; some are pests”

shingles: “An acute viral infection characterized by inflammation of the sensory ganglia of certain spinal or cranial nerves and the eruption of vesicles along the affected nerve path. It usually strikes only one side of the body and is often accompanied by severe neuralgia. Also called herpes zoster.”

tartly: amargo

trow: “A trow was a type of cargo boat found in the past on the rivers Severn and Wye in Great Britain and used to transport goods.” encyclopedia.thefreedictionary.com

[ARQUIVO] O INCOMUNICÁVEL

Publicado originalmente em 1º de dezembro de 2009.

Um dia de saldo zero que vai ficar para mim. Quatro cigarros fumados, um não achado. Pingos e pingos e pingos. Aquela chuva capaz de humilhar um homem, pois é fraca demais para que se seja visto de guarda-chuva em punho, mas é irritante o suficiente para afundar o moral, molhar os papéis em embaçar a vista de um míope. Do que me servem os papéis, se sempre tenho de refazê-los? Eu sou o homem-projeto, tudo o que eu não tenho é um projeto. Estou sempre em primeiro, mas isso parece ser estar em último. Estou sem identidade. Talvez devesse ficar assim.

Eu gosto de estar com febre (a febre do ânimo).

Férias?

No dia em que a hesitação oral se me escapou, em que me senti professor pela primeira vez, vi meu sonho chafurdar com pancadas insolentes, num recinto fechado, escuro e úmido, no subsolo de um campus semi-abandonado. Greve de fome para contornar as caganeiras. O que para mim é o impossível e inconcretizável, mistério, interrogação, loucura e crepúsculo feliz de um menino doente, é para os outros a obrigação sem gosto, ou o facilmente evitável, suplantável, por novas metas. O “pesadelo” deles é o meu sonho. Qualquer um pode sonhar com Freddy Krueger, cometer pecados e ir para o inferno. Mas o eldorado, o eldorado terreno que eu escolhi, esse é meu além. O dia em que eu morrerei de fome, farei trabalho braçal ou escorrerá sangue do meu peito, e eu estatelado na quina daquela passarela como um Vincent conformado, esse dia há de ser um dos meus milhares. Só mais uma sessão de jazz mortífero de um precoce guitarrista dos limites da distorção…

Todo começo de mês parece excepcional…

[ARQUIVO] OS NATUREBAS E OS DIGITAIS: L’ART, O PORNÔ, O GAUCHE E O BLASÉ… O que ser?

Publicado originalmente em 19 de novembro de 2009.

Me divido atualmente entre dois grandes vícios. Quis dizer: a humanidade se divide atualmente em duas grandes necessidades: atender à demanda irresistível pelo novo, diferente e mais bem-acabado tecnologicamente, ampliando o abraço orgiástico de todos com todos na malha digital; manter a fisiologia sã nos imprescindíveis momentos de (auto-)desligamento (desse gigante mecânico-biótipo, maníaco-depressivo, ambivalente, dentro e fora de nós), com práticas contraditórias como fumar, beber, repousar, contemplar, dançar, dissipar ou simplesmente se esconder. O perfeito blasé se acha um idiota no espelho. A crise do palhaço, começar o discurso (de que se vai arrepender depois), é intrínseca a esse comportamento, uma reação ao embotamento das sensações. À superexcitação, a máquina sofre solavancos que sabemos não serem fatais, embora desgastantes e, retroativamente falando, “evitáveis”.

Ou correto – ou impossível – está em idealizar o natural ou o digital? Em contra-atacar improficuamente com a alopatia ou a homeopatia? É sempre ineficaz. Mas ainda assim, somos artilheiros. Atacar com o quê? Isolar-se e adoecer encolhido diante do verme familial, tentando tecer um futuro finalmente não-monótono nem embaraçoso (de quantas drogas fazemos uso sem sequer nos darmos conta?)? Não dar atenção a ninguém – mas contar com o melindre embutido de que eles também o apagaram do mapa. Ou ter possibilidades, só que completamente amarradas pelo exército com ilimitadas reposições das pessoinhas? Desativado ou excessivamente ligado? Não se destrói afetos, mas é preferível concentrá-los diante dos punhos ou insistir em pisar em baratas? De qualquer jeito, com este arranjo, somos sempre abertos apesar de sermos entrópicos. Ninguém nunca sabe com quem vai topar amanhã na calçada enquanto divagava de cabeça baixa. Desgoverno como chance de governo? E a intolerância pesa no momento em que a troca seria o mais válido. Dar. Cooptar? O que levar aos olhos? O que chega aos meus ouvidos? Tateio alguma coisa.

Em suma, não preciso de tantas perguntas. Tendo perdido um bocado de viagens, efetuado várias recapitulações, saldo – finjamos – meio que zerado… Embarcar ou não?

Nossa alma é grande e cabe um pouco de tudo. Até um meio-termo.

HERBERT SPENCER #SérieOsÚltimosPolímatas

polímata

(po·lí·ma·ta)

adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros

Que ou quem estudou e sabe muitas coisas ou muitas ciências (ex.: Santa Hildegarda era uma freira polímata; os polímatas são peritos em muitas áreas do conhecimento). = POLÍMATE, POLÍMATO

<polímata>, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2023, https://dicionario.priberam.org/pol%C3%ADmata.”


RESUMÉ

Herbert Spencer (27 de abril de 1820 – 8 de dezembro de 1903) foi um polímata britânico com alguma proeminência nos seguintes campos: filosofia, psicologia, biologia evolucionista, sociologia e antropologia. É de Spencer a expressão, extremamente popularizada, “sobrevivência do mais forte”, contida em Princípios da Biologia (2 vols., 1864). É sempre necessário observar que Spencer extrapola o trabalho de Charles Darwin, autocontido na esfera da história natural, para aplicá-lo, segundo seus próprios critérios, a sociedades humanas (o que gera implicações antropológicas, políticas, sociológicas, históricas e sobretudo éticas, com as quais NÃO ESTOU DE ACORDO – por isso mesmo, devemos estudar nosso inimigo teórico, a fim de ultrapassá-lo em seus erros). Em suma, trata-se de um polímata polêmico, que deve ser sempre lembrado pelo que fez artificialmente mesclando seleção natural com eugenia (seleção organizada, crime contra a humanidade na atualidade). Spencer era o mais célebre intelectual anglófono no fim do século XIX.

BIOGRAFIA GERAL

Spencer é filho de William George Spencer, matemático. George foi um educador entusiasta das reformas pedagógicas de Johann Heinrich Pestalozzi e conheceu e trabalhou com Erasmus Darwin, avô de Charles Darwin, contemporâneo de Herbert ou Spencer filho. Sua educação se deu diretamente pelo pai e por um tio, com escassa instrução formal. Esse dado terá importância quando discutirmos as obras spencerianas.

Iniciou sua carreira como engenheiro civil durante o boom das estradas de ferro de 1830 na Grã-Bretanha, mas tinha dificuldade de se fixar em alguma atividade ou disciplina do conhecimento definidas. Desde muito jovem contribuía para jornais ditos “liberais”: intervencionistas na política e profunda e militantemente ateístas. Nisso não foi vanguardista, mas essencialmente um homem de seu tempo.

Em Social Statics, seu primeiro livro, 1851, previu que os indivíduos adaptar-se-iam “por osmose” à civilização e a sociedade caminharia para a abolição do Estado numa transição pacífica. Chocante se pensarmos que um grande adversário ideológico seu, Marx, proporia a mesma teleologia para a humanidade, mas por uma via completamente distinta. Passou a participar dos círculos dos homens mais “radicais” do período (o que hoje nos soa risível): Mill, Martineau, Henry Lewes, Huxley e George Eliot (esta última um interesse amoroso efêmero de Spencer), dentre outros. Defendendo Stuart Mill e combatendo o comtismo, elaborou sua principal obra, que o habilita hoje para determinadas fontes como cientista social, embora isso seja formalmente incorreto e anti-sociológico mesmo.

Seu segundo livro (1855) foi no campo da psicologia, em que advogava uma disciplina da alma humana (seu significado, afinal) baseada na fisiologia. Foi assim que, aproximando-se mais e mais da biologia, Spencer começou a pensar no indivíduo como mera peça da engrenagem de uma raça ou espécie (o que é contraditório com o liberalismo econômico e poderia até ser alinhado às principais crenças do positivismo de sua nêmese Auguste Comte, porém demonstra como a história da epistemologia não é coerente, e nem precisa ser; aliás, antes, se precisa ser algo, deve ser necessariamente contraditória a cada momento). Sua falta de fixação em fundamentos de um conhecimento genuíno levou-o a ser um dos homens mais “tendenciosos”, seguindo as modas intelectuais da época: aliando a frenologia (pseudociência, então em voga como ciência) à crença no progresso constante da humanidade, elaboraria vários silogismos centrais para sua visão de mundo. Como Darwin veio a publicar seus renomados trabalhos somente mais tarde, nessa época o “parcialmente biólogo” Spencer usou muito dos postulados do lamarckismo, a principal escola “rival” do darwinismo. Spencer tinha a ingênua ambição de ser “o Isaac Newton das ciências humanas”, pelo menos durante algum período de sua “eclética” vida.

Como definir rapidamente seu “sistema de filosofia sintética”? É simplesmente a aplicação da teoria biológica da evolução do século XIX a todos os campos humanos de maneira irrestrita, atrás de uma fórmula ou equação que simplificasse e esgotasse todo o conhecimento sobre a mente e o comportamento humanos (Spencer não apresenta literalmente uma equação ou lei, mas é o que ele mais gostaria de haver realizado): a psicologia, a sociologia e a moral seriam em breve apenas “ciências acessórias” da única ciência, esta filosofia sintética. Esse Sistema possui 10 volumes e levou 40 anos para ser escrito!

Apesar de tardio (suas primeiras obras venderam mal), seu reconhecimento se estabeleceu na década de 70. Até para o japonês e o mandarim traduziram seus livros da fase “intermediária”. Herbert Spencer basicamente resume o “homem diletante de ciência da era vitoriana”.

No fim de sua vida, sentiu que não criou uma trajetória intelectual em bases sólidas, entretanto, e queixou-se de uma extrema solidão. Nunca se casou nem deixou descendência e tinha um quadro hipocondríaco que a medicina não conseguia tratar. Era um homem que não aceitava, tampouco, ser contradito. Mesmo um jogo de baralho em que as coisas saíssem mal era-lhe suficiente para acabar com o resto do dia, talvez da noite, provocando-lhe insônia, como confidenciou-nos Huxley.

Na década de 1890 sua popularidade começou a fenecer no público, e maioria de seus melhores amigos já havia morto. A Europa imperialista caminhava cada vez mais para o reacionarismo e o “indivíduo livre”, sonho dos apologistas do mercado, teve sua esfera severamente encolhida. Em seu primeiro livro, Spencer advogava o sufrágio universal para as mulheres e a inclusão de votantes até mais abrangente que nossos sistema democráticos hordiernos: as crianças e os adolescentes deveriam participar desse dever cívico. (!) No fim de sua vida, tornou-se basicamente um oligarca irreconhecível. E é infelizmente desse último período que vem seu livro mais lido ou célebre, O Homem contra o Estado.

POLIMATIA

Spencer foi um dos últimos sistematizadores na filosofia/epistemologia, no auge das tendências atéias, da fé no progresso ilimitado e gradual e no poder explicativo exaustivo da ciência. Seu sistema é quase um dogma ou religião cientificista, o que novamente o aproxima, malgrado seu, de Auguste Comte!

Desconheço se Spencer realmente chegou a entender as implicações da segunda lei da termodinâmica. Se sim, ele deve ter ficado bem decepcionado. Decorre desta lei que tudo tende à uniformidade no nível inorgânico, diminuindo (e não aumentando) a heterogeneidade do sistema, que para ele ganharia em valor ao se complexificar cada vez mais..”

Bertrand Russell

DARWINISMO SOCIAL

Era questão arbitrária onde encaixar o subtítulo “darwinismo social” (se em sociologia, ciência política, economia ou ética) ou se simplesmente ele comporia um título independente deste artigo, como foi minha escolha. Mas as maiores implicações da eugenia proposta por Spencer se deram, como verificamos, na II Guerra, na Alemanha nazista, de modo que podemos isolar sua idéia-chave como a mais importante (e nefasta) que ele nos legou.

SOCIOLOGIA

Mais por acidente e por pertencer ao tempo e lugar a que pertenceu é que podemos falar de Spencer como “sociólogo”. Foi imediatamente precedido por Comte e muito influenciado pelo autor francês, de forma, como já se viu, um tanto ambígua. O que Spencer rejeita em Comte, p.ex., é seu postulado dos “três estágios” da evolução social. Segundo algumas referências, Spencer teria sido o primeiro a cunhar o binômio hiper-utilizado e hoje até saturado “estrutura social”. No seu lugar, Spencer cunhou uma antinomia chamada de estágio da sociedade militante (antiga) e estágio da sociedade industrial (moderna). Devemos nos perguntar, no entanto, no que isso enriquece qualquer debate sociológico para além de sua época. Não que tenham faltado críticas a seu olhar epistemológico mesmo durante sua vida e em seu próprio “círculo científico de colaboradores” (não precisamos citar, p.ex., Nietzsche, que foi um grande detrator seu, sendo-lhe contemporâneo – porém ambos nunca interagiram): Dilthey (embora alemão; e embora também muito espezinhado por Nietzsche) foi veemente na necessidade da separação entre ciências naturais e sociais, mirando atingir os escritos de Spencer proponentes de uma unificação do saber. Frank Ward, expoente da sociologia norte-americana, atacou Spencer virulentamente pelo flanco esquerdo (não falo de posicionamento político, mas da América em relação à Inglaterra no mapa). Mesmo o liberalismo montesquieusiano e a teoria da possibilidade de uma “decodificação e absolutização da ética” patrocinados por Spencer foram ambos tratados com desdém pelos cientistas sociais do último terço do séc. XIX. Para encerrar o assunto, Durkheim, em 1890, praticamente definiu a disciplina científica da sociologia, sem que o nome voltasse a ser impunemente usado por autores distintos empregando métodos basicamente idiossincráticos, como até então. O que restou das opiniões de Spencer resvalou para os campos da economia e da ciência política (ler mais abaixo).

ÉTICA” LIBERAL

Absurdamente, uma das conseqüências do “libertarianismo precoce” de Spencer, acoplado a sua crença teleológica no surgimento gradual do homem perfeito na sociedade perfeita e no fim dos conflitos sociais, era que as sociedades do presente deveriam experimentar punições por más condutas, a fim de que aprendessem por iniciativa própria “o poder soberano da natureza”. Segundo Spencer, portanto, o Estado não deveria se imiscuir na vida da pessoa, ainda que fosse para protegê-la ou melhorá-la: não obrigar vacinas, não promover assistência social (pensamento meritocrático ainda em voga pelas piores correntes ideológicas!) ou mesmo, ilustrativamente, proibir-se ou abandonar o ensino gratuito!

INVENÇÃO DO CLIPE DE PAPEL

Uma curiosidade menor é que os clips que usamos hoje para prender e agrupar papéis foram inventados, ou pelo menos seu precursor imediato, por Spencer. Sua autobiografia possui os desenhos do protótipo que depois foi patenteado e comercializado.

LEGADO

Curiosamente, Spencer foi muito mais difundido em vida do que morto (ao contrário da maioria dos grandes pensadores, por exemplo, Shakespeare ou Nietzsche) – sua decadência e ostracismo foram ligeiros. Herbert Spencer parece ter sido até hoje o único “filósofo” na História que conseguiu vender mais de 1 milhão de exemplares de livros ainda no decorrer de sua vida. Isso fez dele uma espécie de Carl Sagan do Liberalismo Econômico, um difusor de idéias próximo do que seria uma vedete hollywoodiana misturada com um comunicador jornalístico de 100 anos depois. Conteúdo mais viral de filósofos menores da História da filosofia nós só podemos conceber hoje, p.ex., na era do YouTube (com figuras deploráveis como Jordan Peterson, etc.). Porém, já em 1937, o sociólogo estruturalista Talcott Parsons podia perguntar zombeteiramente: “Quem ainda lê Spencer?”. William James, Bergson e Durkheim já haviam se ocupado de Spencer nesse ínterim entre sua ascensão e queda meteóricas (a fim de criticá-lo). Talvez boa parte de se sua debandada de leitores, além da percepção generalizada de que suas idéias não eram originais ou de tanta qualidade como de início se propugnava, tenha vindo em virtude de seu “liberalismo à la Europa do séc. XIX” ter resultado na catástrofe nazifascista que assolou o Velho Continente no mesmo período em que foi formulado esse juízo de Parsons (os anos 1930), ainda antes do conflito bélico principiar, mas com Adolf Hitler e Benito Mussolini já no poder. Uma ironia que complementa a anterior (um advogado da liberdade plena do indivíduo contribuir indiretamente para o Holocausto, dentre outros crimes) é que sua lápide está frente a frente com a de Karl Marx num cemitério londrino.

Seu legado ainda vivo – e preocupante – é o do campo anarco-capitalista e da medonha Escola Austríaca de economia. O mais engraçado é que na época de Spencer suas crenças anti-estatistas significavam uma completa rejeição do sentimento patriota, hoje usado por todos os grupos extremistas como tática de chegada ao e manutenção no poder. Além disso, Spencer, para sermos justos, era integralmente um pacifista, dizendo que se um soldado vai à guerra deve se conformar com o pior dos destinos e a sociedade de seu próprio país não tem o direito de lamentar sua perda, pois assim funcionam as conseqüências de quem opta pelo caminho da guerra.

Não há outra alternativa”, frase favorita de Margaret Thatcher, parece decorrer de um dos livros de Spencer. Em sua própria época, Spencer, apesar de ter todas as características de um tory, ou ser impossível imaginá-lo como um whig, pelo menos após o desenvolvimento de suas idéias em seguida ao primeiro livro (em que até defendia as cooperativas proletárias!), um tanto “juvenil e utópico”, reprovou as gestões Gladstone e Disraeli, atacando os conservadores britânicos, que ele chamava de “reformistas sociais”! Ao mesmo tempo, Spencer era refratário à independência da Irlanda, que efetuou já então sua reforma agrária, e nunca perdoou a gratuidade da escola, ou como o Estado obrigava seus cidadãos a ingressarem no ensino formal (Spencer é outro que se sentiria muito contente em defender iniciativas como o homeschooling no mundo atual).

Também era contra o sustento de bibliotecas com dinheiro dos impostos e leis contra o álcool, o tabaco e outras drogas. Para ele, o sujeito tinha o direito de se intoxicar, mas não de se instruir. Por outro lado, fascinante como pode ser uma figura autocontraditória como Herbert Spencer, ele era anticolonialista e anti-imperialista em seu próprio tempo (as colônias estariam sendo atrasadas pela “sociedade industrial”, de modo a ficarem em estado de dependência perpétua ou prolongada, o que ele chamava de sociedade militante, eufemismo para primitiva; ao mesmo tempo, Spencer cria genuinamente que o imperialismo anterior a sua própria geração tinha cumprido sua missão ao eliminando sociedades atrasadas e pavimentar o caminho da civilização branca e européia…)!

No fim, portanto, concedo: estamos falando mais de um pseudo-polímata do que um verdadeiro polímata, que está no limite do que esta série de artigos poderia comportar (ninguém inferior a ele será aqui “biografado”). Dada sua fama pregressa, achei inevitável tratar deste personagem, contudo.

Em qualquer contexto a migração é ruinosa, seja ela pequena ou vasta, para o país que recebe o imigrante. O caos social decorrerá necessariamente desta tolerância para com pessoas de outras nacionalidades. O mesmo se dará caso se permita a mistura e o casamento de europeus e americanos [norte-americanos, britânicos de ‘raça pura’] com japoneses.”

Trecho racista e xenófobo de Spencer

QUERO SABER MAIS! (MESMO NOSSOS ADVERSÁRIOS PRECISAM SER ESTUDADOS)

O autor já se encontra livre de copyrights:

https://www.gutenberg.org/ebooks/author/1887

Recomendo, além de sua apreciação crítica direta, as objeções de Plekhanov ao spencerismo contidas em Anarchism and Socialism, 1909.

[ARQUIVO] 15 MINUTOS DE FAMA (DOS NINFOMANÍACOS DA UNB)

Publicado originalmente em 18 de novembro de 2009.

Abaixei as calças, deixei-me fotografar, tornei-me uma celebridade. A vida andava meio… entediante. Mas salvei o dia! Amanhã eu penso em outra traquinagem boa o suficiente para interessar a um jornalista. Tarefa essa cada vez mais capciosa, uma vez que os jovens estão “botando pra quebrar”. E há jovens de todas as idades…¹

Terei eu logrado a eternidade, com um pequeno espaço no pior papel do mundo (aquele que desmancha quando chove)? Me impressiona as pessoas ainda terem olhos para penetrar nesse preto borrado depois de três séculos! (Me refiro aos jornais.) Borrado por borrado, prefiro pagar para lerem meu destino no fundo da xícara de café.

E não somos uns carolas reacionários puritanos? Até aqueles à flor da pele acham histriônica a idéia da nudez. Uns ridículos de reitoria desfazendo os anos 60…

Pergunta: por que só tem mulher horrorosa nesses “atos”? (Sobre o ATO – como vulgarizar peças de teATrO: chamando o burburinho dos rebeldes sem-causa de AÇÃO. Muito fácil ser ator!)¹

Unindo o útil ao agradável: quem luta pensa que “sofre pelos outros”. Sofrendo estou eu, nesse calor, com vontade de tirar a roupa mas guardando lá minha dignidade e inocência – quando fico pelado, não é para causar sensação, mas para lembrar que ainda sou gente.

¹ P.S. Essa crítica a um protesto cujo motivo agora me escapa (provando que não possuía qualquer importância, além de errarem no método), realizado no Minhocão por estudantes da UnB à época, contando com nudismo e striptease, quando circulei o manuscrito pela sala de aula, fez até com que uma senhora de 60 e poucos anos do curso de ciências sociais – que declarou seu amor ao professor de Teorias Sociológicas Contemporâneas no meio da aula da dita matéria!a –, minha veterana, parasse de falar comigo pelo restante do semestre (na prática, para sempre), sem sequer explicar seus motivos (me deixando 3 dias no escuro sobre a bizarrice de seu súbito mutismo após eu lhe haver perguntado, na fila da cantina, sobre os ingredientes de um salgado que estava na estufa, e ela se recusar a me responder, fitando-me o tempo todo!). Obs.: Eu não sabia que ela tinha participado do ato, daí minha sincera surpresa – ter acertado o cuco com uma paulada aleatória! A referência a “jovens de todas as idades” no fim do 1º parágrafo não procurava provocar ninguém em específico, já que havia outras pessoas mais velhas no ato.

a Em conseqüência dessa anedota um tanto engraçada que não tinha por que estar neste artigo ou panfleto satírico, ouvi o fora mais patético e despropositado de toda a minha vida, por isso o registro é mais do que merecido! Ao ouvir da aluna “experiente” que ela queria que ele fosse seu namorado, o ranzinza e estrambótico professor de Teorias Sociológicas Contemporâneas, de quem omito a identidade para não constrangê-lo no pudico e cerimonioso ambiente da Academia perante seus pares que tudo ouvem e tudo vêem (num departamento de Universidade, todos aqueles que se bicam têm sentidos anormalmente agudos para esse tipo de fofoca mesquinha a fim de arruinar reputações do dia para a noite e beliscar algum cargo ou, enfim, apenas rir da mancha no Lattes do desafeto!), assim se dirigiu à pretendente: “Isto não está posto!”, e seguiu dando sua (insossa) aula. Terá sido um pretexto para ensiná-la em privado sobre fenomenologia husserliana?! Os patronos da sociologia, onde quer que estejam, saberão – e ninguém mais!

PALAVRAS REBUSCADAS (OU NÃO) DA LÍNGUA PORTUGUESA

 

a trouxe-mouxe: pronuncia-se trouche-mouche. Em confusão, a esmo, caòticamente.

abaeté: 1. homem valoroso no vernáculo tupi; 2. algumas localidades em Minas e no Pará; 3. sujeito experiente; 4. feio, asqueroso.

abati: arroz

aberturar: agarrar pela gola

abotoar: (jargão) agarrar com segundas intenções

aça: albino, fuá, sarará

acaracu: bebida de garça, iguaria dos índios

acauã: espécie de ave de rapina agressiva cuja dieta prefere cobras

ádito: entrada; mistério.

aflar: soprar, bafejar; inspirar; achar (em desuso).

ai-jesus: 1. dileto ou preferido (Ex: “o ai-jesus do professor”); 2. designativo de dor ou pena.

alapardar: esconder

albatroz

substantivo masculino

Ave de habitat marinho, da família dos diomedeídeos, migradoras, de cor branca, corpo robusto, asas longas e cauda curta; com mais 3,5 metros de envergadura, sendo encontrada no hemisfério sul, é considerada a maior ave voadora do mundo.

Etimologia (origem da palavra albatroz). Do árabe al-gattas; do inglês albatross; pelo francês albatros.”

alçácar: alcácer, palácio-fortaleza

aldraba: antiga campainha (de ferro, para bater na porta da frente e anunciar a chegada), pedrês

almanjarra: roda hidráulica que o gado movia nos engenhos

almotacé: atual almotacel: “Oficial municipal encarregado da fiscalização das medidas e dos pesos e da taxação dos preços dos alimentos e de distribuir ou regular a distribuição dos mesmos em tempos de maior escassez”

almude: “é o nome de uma antiga medida de capacidade, correspondente à 12 canadas (VIDE CANADA), ou cerca de 32 litros.” O presidente da Câmara havia pedido 30 almudes de sangue dos Canjicas, o que resultaria em 960L! (Machado de Assis, O Alienista)

alqueire: mais de 2 e menos de 10 hectares (variação da medida conforme a região do país)

aluir: abater, abalar

ama-seca (auto-explicativo)

amásia: concubina, amante, barregã

âmbar: resina fóssil, matéria-prima de muitos adornos

amojo: lactância

anajê: ave amazonense

andira: morcego (origem Tupi)

andiroba: fruta da andirobeira, angiosperma freqüente nas margens dos rios. O óleo das sementes da andiroba possui uso medicinal e serve como repelente a insetos. Nome científico da andirobeira: Carapa guianensis.

anequim: tosquia de ovelha;  espécie de tubarão = CAÇÃO, TINTUREIRA.

anfracto: saliências, depressões e elevações sucessivas; aspecto do nosso cérebro (anfractuoso).

angico: árvore que dá tintura preta

anime: antes das bombas atômicas no Japão, resina!

anum: [Ornitologia] Designação dada a vários pássaros brasileiros da família dos cuculídeos, em especial do gênero Crotophaga. Etimologia do Tupi = ANI, ANU

aquilotar: habituar-se

ará: periquito

araçá: árvore; fruto do aracuzeiro; boi amarelo de manchas pretas.

aracati: vento cearense de verão, que sopra no sentido nordeste-sudoeste

araçóia: cinto de penas

araponga: pássaro cujo canto ressoa ao metal; pessoa que grita.

arapongagem: ação de espião ou agente infiltrado

aratanha: vaquinha; pequeno camarão de água doce; sapo; aroeira-do-campo; peixe cangauá.

arrebol: amanhecer ou pôr-do-sol; vermelhidão do céu.

áscua: brasa, chama

assuada: motim, algazarra

ati: gaivota-da-cabeça-cinza, tiribique. Nome científico: Larus cirrocephalus ou Chroicocephalus cirrocephalus.

atrabiliário: hipocondríaco, suscetível em excesso

avenca: árvore

azoinar: atordoar

azucrim: diabo

babugem: baba ou espuma nojenta aglomerada num ponto; dejeto alimentício; insignificância.

babujar: babar; bajular.

bacorejar: prever, pressentir

bacurau: ave noturna, antes de ser filme!

bagaceira: 1. cachaça; 2. depósito dos resíduos da cana; 3. bando de palavras desconexas; 4. ralé; 5. entulho (coletivo).

bagarote: dinheiro (arcaico)

baiuca: pocilga, chavascal (costumava levar acento no u)

banga: 1. cambada de vagabundos; indicativo de mofa com o interlocutor, quando no final da frase; 2. casa mal-construída.

bangalafumenga: zé-ninguém, imprestável, leguelhé.

barregã: concubina, amásia

batoré: porco, imundo

benjoim: resina da árvore benjoeiro; espécie de abelha.

berne: larva de mosca

besta

Arma portátil composta por um arco de madeira, ou de aço, cujas extremidades estão ligadas por uma corda que, ativada pelo gatilho, é esticada para arremessar setas ou balas de metal (pelouros).”

bicharoco: bicho pequeno; animal repelente; homenzarrão ou homem feioso.

bilha: vaso de gargalo curto e estreito; bujão; rabo, bunda (extremamente informal).

bocas do caeté legítimo / caquera / unha-de-vaca: o mesmo que solo fértil

bogari: jasmim

boicininga: cobra venenosa, a cascavel

borralho: cinzas ainda quentes, lareira; touro de cor cinza.

bouba: ferida

bromatologia: ciência dos alimentos

bruma

Nebulosidade causada por gotículas de água que ficam suspensas e diminuem a visibilidade; nevoeiro.”

bugre: rústico, primata, sujeito intratável

cabroeira: coletivo de cabras (homens)

cacaréu: cacareco

cacimba: orvalho; poço artesanal.

cafundó: ermo

caiçara: 1. árvores em decomposição; 2. isca vegetal na pescaria; 3. curral; 4. cobra venenosa; 5. caboclo imprestável; 6. sertanejo inculto do oeste brasileiro.

caiporismo: má sorte sem fim

calaçaria: preguiça

caligem: denso nevoeiro

caloji: quarto escuro para entrevistas amorosas

calumbi: árvore leguminosa também conhecida como jurema-preta

cambaxirra

Nome comum a várias aves da família dos trogloditídeos, também chamada carriça, camaxirra, corruíra, garrincha, garriça.”

cambraia: espécie de tecido algodoado mais nobre que o madapolão

cambiteiro: profissional rural

cambonja ou cambonje: ave peralta

camucim: sepultura indígena em forma de vaso

camumbembe: vagabundo

camurupim: peixe; cavalo velho.

caninana: cobra inofensiva; planta; mulher má.

caninguento: rabugento

capadócio: charlatão; vadio.

capilé: xarope vegetal

capiongo: soturno, triste, melancólico

capitoso: 1. que tem cabeça grande; 2. obstinado; 3. que embriega (ex: vinho, licor).

capitosa: obstinada; sedutora.

capoeira, capoeirão: grande terreno não-cultivado

capulho: broto ou botão da flor

carapina: carpinteiro

carimã: 1. bolo de tapioca ou mingau; 2. doença da cana ou praga algodoeira; 3. fala-se dos bois de cor branco-laranja.

carioba: veste indígena, tipo de camisa à base de algodão

Cariri: língua indígena extinta; região cearense composta por 8 municípios.

cariri: força, esforço

caritó: 1. casebre pobre; 2. prateleira em casas sertanejas; 3. espécie de estante rústica; 4. gaiola de engorda de caranguejos; 5. closet antigo, muquifo para coisas em desuso e tranqueiras; 6. tapera.

Carlota: mulher do povo, forte e livre

carlota: gênero de azeitona

carocha: 1. inseto, mormente a barata; 2. chapéu depreciativo que recebiam os condenados à fogueira na Idade Média; 3. chapéu depreciativo (a.k.a. carapuça) para humilhar os piores alunos da classe; 4. fogão de funileiro; 5. (Portugal) mulher horrível; 6; mentira (quando no plural); 7. bruxaria (quando no plural); 8. sexo oral no ânus ou beijo grego (apenas no Nordeste do Brasil); 9. (Portugal) o mesmo que Fusca para nós. (campeã de significados diferentes!)

carpir: colher (verbo); chorar.

casquete: tipo de gorro

cauim: o vinho de mandioca dos indígenas

chabouqueiro: tosco

charivari: tumulto

chavascal: atoleiro; mata cerrada; baiuca, pocilga.

chouto: trote sem elegância de algumas montarias

chuchurrear: bebericar com estardalhaço

chuço: 1. lança; 2. (Portugal) peixe; 3. (Portugal) guarda-chuva); 4. (Portugal) o gentio em relação ao judeu; 5. tamanco ou bota de má qualidade.

cleruco: “Cidadão que, na antiga Grécia, recebia um lote de terreno em um país conquistado e comumente para lá emigrava sem perda da cidadania.”

 

cocada: doce; cabeçada.

coco: dança popular de Alagoas

cocote: meretriz

colendo: respeitável

coleóptero: inseto de 4 asas, das quais 2 são especialmente duras

comenos: instante

comezaina: refeição abundante

cômoro: canteiro, socalco, elevação de terra

corrupiar: rodopiar ou andar em círculos

corrupio: atividade frenética; (Brasil) cata-vento.

crajiru: arbusto cujas sementes servem como remédio e corante rubro

crebro: freqüente

croque: cascudo

cruviana: grande frio

cuandu: porco-espinho

cuneiforme: “Diz-se da antiga escrita persa, meda e assíria formada de .caracteres em forma de cunha.”

cunhã: menina; mulher; cabocla.

curutié: [Ornitologia] Ave (Certhiaxis cinnamomeus) da família dos furnariídeos.

dédalo: labirinto; confusão; florido.

delerência: delícia (pessoa)

ditério: motejo, provocação

dobadoura: fazimento de intrigas

dríade ou dríada: planta que dá flor; divindade.

embatucar: paralisar

embigada: porrada com o umbigo

empacho: estorvo; vergonha.

empecivo: dificultoso, estorvado, que obstaculiza

encalacrar: entalar, endividar, comprometer-se (no mau sentido)

encalistrar: ficar vexado

encarquilhar: enrugar

endecha: poesia ou canção fúnebre

enfrenesiar, enfrenisar: colocar em frenesi

engrolar: pronunciar imperfeitamente; enganar.

enrediça: planta trepadeira

entanguir: encolher, pelo frio ou fome, tornar-se raquítico

entrudo: festa; 3 dias que precedem a Quaresma; folia carnavalesca; pessoa vestida como bufão; momo/obeso [só em Portugal].

enxuí: mari(m)bondo pequeno porém doloroso como qualquer espécie maior

esbrugado = esburgado: descascado, desossado

escolha: café bem reles

escopro: cinzel; cortador de ossos.

escorvar: preparar a pólvora, carregar a arma

esgrouviado: esguio e alto, parecido com um grou!

esmoler: mecenas dos mundanos

espia-caminho: flor

espojar: esparramar; deitar-se e rolar-se no chão.

espoleta: substantivo feminino 1. [Armamento] Artefato de metal ou madeira que determina a inflamação da carga, nos projéteis ocos; 2. [Armamento] Escorva em forma de pequeno tubo; substantivo de dois gêneros 3. [Brasil, Informal] Pessoa considerada insignificante. = ZÉ-NINGUÉM; substantivo masculino 4. [Brasil, Informal] Guarda-costas ou valentão que acompanha um fazendeiro para o defender (capataz); adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros 5. [Brasil, Informal] Que ou o que é muito ativo, agitado ou irrequieto (ex.: a gatinha está muito espoleta; esse espoleta precisa acalmar um pouco).

essa: monumento sepulcral; feminino do pronome esse.

estreme: puro

estróina: desregrado, irresponsável, fiota

factótum: braço direito, faz-tudo

fandango: Dança popular, a três tempos e sapateada, comum em Espanha e Portugal; arrasta-pé.

fanqueiro: comerciante de tecidos

faroleiro: que trabalha num farol; ou quem fala demais.

fasquia: barra de madeira usada em competições de atletismo (salto em altura, salto com vara)

fichu: lenço para se proteger do sol forte

figa: Várias acepções. Uma delas: dando figa. (= pouco me/se fodendo).

fígaro: antigo para barbeiro

filante: que corre em forma de fio; vinho engrossado; policial (gíria);  parasita = BURLISTA.

fiota: janota, estróina

fouveiro: ruivo, de fisionomia europeizada

frágua: forja do ferreiro; fogueira; calor intenso; amargura; lugar calamitoso; pedregulho; corruptela de flagra.

frege: aderna; briga; “estabelecimento modesto, popular e geralmente pouco asseado, que vende bebidas e refeições.”

frioleira: bagatela

fuá: arisco (cavalo, p. ex.); albino, aça, sarará; caspa.

furna: caverna; cratera.

gafo: leproso; faminto.

galarim: opulência, grandeza

garrancho: 1. parte dura do tronco da árvore; 2. graveto; 3. doença dos quadrúpedes, que afeta o casco; 4. ave ribeirinha (pernilonga); 5. aquele que em alguns jogos de carta não está na vez; 6. gadanho, um tipo de forca, instrumento do lavrador; 7. letra indecifrável.

gasnete: garganta

gira: passear; maluco; gíria.

goiamum: caranguejo gigante

graúna: ave sonora da América do Sul, conhecida por depredar milharais. Pássaro-preto, melro, vira-bosta.

grimpa: 1. cata-vento; 2. ponto mais elevado, cocuruto, píncaro.

grumete: soldado da marinha; abrasileirização de gourmet (à época groumet, criado numa adega ou então apreciador vinícola).

guenzo: doente

hamadríada ou hamadríade: macaco pequeno e feioso

hemoptise: hemorragia do pulmão

heróide: escrito em verso, em primeira pessoa, cujo eu-lírico tem de ser uma personagem com caracteres heróicos

homessa!: interjeição: ora essa!, essa agora!

homizio: desterro, exílio, fuga

igaçaba: pote indígena

igara: canoa indígena, usualmente um tronco de árvore escavado

ilharga(s): flancos; laterais do caixão; protetor.

imbu: fruta de gosto muito semelhante ao do cajá

imbuá: espécie de centopéia ou caracol sem casa e horrendo

infenso: adverso

inhuma: ave noturna, Palamedea chavaria, que canta regularmente à meia-noite, considerada agourenta pelos supersticiosos

ipu: terreno úmido adjacente a montanhas.

irapuã: abelha muito agressiva

irara: animal que parece a fuinha

íris: membrana ocular interna; borboleta diurna; planta.

iroso: irado

jaburu: ave pernalta; sujeito feio; roleta do jogo do bicho.

jandaia: periquito do Brasil, de cabeça amarela

japi, japim ou japu: ave de penas douradas; indivíduo barulhento.

jati: abelha pequena que produz um mel saboroso

jetica: batata doce

jirau: “1. Espécie de grade de varas, sobre esteios fixados no chão, que serve de cama nas casas pobres e também de grelha para expor ao sol quaisquer objetos; 2. Esteira suspensa do teto a certa altura, para nela se guardarem queijos e outros gêneros ao abrigo dos ratos; 3. Estrado onde se sentam os passageiros que vão numa jangada.” Significados antitéticos!

jitirana: [Botânica] Planta convolvulácea do Brasil.

joão-grande: gaivota

jucá: árvore conhecida como pau-ferro, conhecida pela madeira de excelência, ubiratã

juçara: palmeira de grandes espinhos

jucundo: jovial, prazenteiro

ledice: ar contente, de quem está ledo

leguelhé: imprestável, bangalafumenga

librar: suspender, equilibrar (em desuso)

macaíba ou macaúba: palmeira

madapolão: tecido branco de algodão

maldar (sentido peculiar): dar motivos para suspeitas

mangará: pé-de-bananeira

manipanso: ídolo africano; indivíduo muito gordo.

maniva: caule da mandioca

maracajá: gato silvestre

maracanã: periquito

maracatim: embarcação

maracatu: dança folclórica

marosca: trapaça

marouço: maré grossa

marrã(o): 1. porco que recém-deixou de mamar; 2. carne fresca do porco; 3. ovelha pequena (Pernambuco); 4. corcunda; 5. martelo grande; 6. turrão; 7. CDF (em Portugal); 8. qualquer animal arredio.

marruá: touro selvagem

mata-bicho: gole de pinga; café da manhã; gorjeta.

mata-pau: clúsia, espécie de figueira tropical

matula: corja

maturi: castanha ainda imatura

melão-de-são-caetano: “1. Planta trepadeira (Momordica charantia) da família das cucurbitáceas, de folhas simples e alternas, com flores solitárias masculinas e femininas, fruto oblongo de casca rugosa, nativa de regiões tropicais e subtropicais. = CAETANO, CARAMELO, ERVA-DE-SÃO-CAETANO, MELOEIRO-DE-SÃO-CAETANO; 2. Fruto dessa planta, de sabor muito amargo.”

membi ou inúbia: buzina de guerra dos indígenas

mezinha: remédio caseiro; espécie de laxante.

minhoto: peça de pau que segura a madeira rachada para que não se fenda mais; milhafre (o “quase-abutre” do livro de Fraud sobre Leonardo da Vinci).

moçame: coletivo de “moça”

montante: s.m e s.f. 1. quantia; 2. enchente da maré; 3. lado de cima da nascente; 4. a montante – o que precede de imediato; 5. alabarda (espada pesada que necessitava ser empunhada com as duas mãos).

moquém: grelha elevada, espécie de churrasqueira indígena; apodo da carne mantida em fogo baixo para não decompor.

mossa: mal; dano.

mucica: puxão do animal pela cauda, visando a derrubá-lo

mucufa: horda de covardes

mugunzá: mingau de milho para alimentação no agreste (Rachel de Queiroz e José de Alencar o citam)

multípara: parideira, mulher de ativo e fértil ovário, mãe de muitos

mundiça: 1. [Brasil, Informal] Grande quantidade; 2. [Brasil, Informal] Parte da sociedade considerada mais baixa. = ARRAIA-MIÚDA, RALÉ; 3. [Brasil] [Entomologia] Ácaro parasito dos galináceos.

náfego: torto, cambaleante

niquice: impertinência, ninharia. Palavra muito usada por por Graciliano Ramos e José Américo de Almeida.

normalista: universitário (arcaico)

nuelo: diz-se do passarinho ainda sem penas

ogre: ogro, bicho-papão

onzeneiro: agiota [criador de onzes em cima de dezes?]

ovém

Náutica Nome genérico do calabre que se fixa (ovém de avante e ovém de ré) para servir de apoio aos mastros e mastaréus de um navio.”

paca: espécie mamífera parecida com a capivara que pode chegar a 70cm, de carne reputada deliciosa

pacavira: planta musácea (familia da banana) de onde se extrai matéria-prima para confeccionar tecido

pajeú: 1. [Botânica] Designação dada a várias árvores da família das poligonáceas, do gênero Triplaris; 2. [Brasil] Faca ou outro instrumento de cutelaria, geralmente produzido na região do Pajeú, rio brasileiro.

paleio: lábia; carícias interesseiras.

panasco(a): planta de pasto; pântano nutritivo para o gado.

pantim: boato

parati: cachaça; peixe.

paroara: 1. ave tricolor de cabeça vermelha; 2. modo do cearense se referir a forasteiros, particularmente paraenses ou amazonenses.

parol: recipiente para alojar o caldo de cana no engenho antigo

pataca: moeda de prata, igual a 320 réis; centavos, quantia insignificante.

patacão: moeda de cobre, do tempo de D. João III; também usada no Brasil e no Uruguai (não a mesma, mas o nome); patela; idiota; cebolão (relógio grande de bolso).

patativa: pássaro do canto doce; sujeito falaz.

peco: acanhado

pedrês: 1. que é ornado como o xadrez (preto-e-branco), podendo ser um animal ou uma calçada; 2. ferro fundido; 3. aldraba (em Portugal).

peitica: despeito; ave tropical.

pelega: cédula

penha

Rochedo grande, saliente e de localização isolada, normalmente numa encosta ou serra; penedo, penhasco, rocha.”

pequiá: pequi (derivado do Tupi)

perequeté: emperiquitado

pernilonga: ave alvinegra; perna-longa, garrancho

pernóstico: prepotente

piaba: peixe fluvial de pequeno porte, piau

piau: piaba; logro.

picaço (antes do pintor e do carro): cavalo preto de cara e patas brancas; trem de ferro; carrapato-de-cachorro.

pileca: magro e fraco (cavalo ou homem)

pinóia: puta; pechincha.

piraí: chicote de couro cru

pirambeba: mesmo peixe que o cambucu

pocema: algazarra

podengo: cachorro de caçar coelhos

porangaba: beleza

poraquê: enguia

prognata: “adjetivo, substantivo masculino e feminino. Que ou aquele que tem as maxilas alongadas e proeminentes. adjetivo. Forma de crânio que apresentam certas raças humanas da África e Austrália.” Deixa fora de dúvida o racismo de Graciliano Ramos ao descrever as pessoas – e enterra esse mito idiota de que ele “não usa adjetivos”. É o que ele mais usa.

prosápia: vaidade

pulveroso: cheio de pó

punaré: Mamífero roedor, da família dos Echimydeos, gênero Thrichomys, presente no bioma da caatinga, mas também no Paraguai e na Bolívia. Se adapta facilmente a zonas secas e pedregosas. É de pequeno porte, tem pêlos macios, cauda longa e peluda, como de castor, apesar de no mais parecer um rato comum. Também é conhecido, vulgarmente, como rato-boiadeiro e rabudo.

quartau: cavalo pequeno e troncudo; cavalo castrado; canhão de ¼ do tamanho normal (em desuso).

rafeiro: 1. raça canina que guarda o gado; 2. indivíduo que não vive sem outro (fiel como o cão ao seu senhor); 3. puxa-saco.

rebentina: acesso de cólera

refe: rifle (regionalismo)

refego: dobra na pele resultante do excesso de gordura

refle: bacamarte

relho: cinto

“rodilha: rodela de pano torcido que o(a)s carregadores de águas de poços distantes da aldeia usam entre a cabeça e o pote ou a lata.”

ronceiro: indolente

rosetar: divertir-se demasiadamente

safardana/bigorrilhas: indivíduo banal

saí: macaco; pássaro azul de grande beleza.

sainete: consolo, graça

salmoura: água salgada que conserva alimentos

salsa: tipo de uva; malandro; espécie de bufão carnavalesco lisboeta.

sambudo: desnutrido, esquálido; anão; caveira de barriga de verme, dentre outros sentidos.

sapopem(b)a: árvore ou peixe

sarará: mulato arruivado ou com albinismo, aça, fuá.

sarilho: movimento rotativo; briga; confusão; roda-viva; engenho para tirar água.

sassafrás: árvore da qual se extraem fragrâncias

serôdio: tardio, inoportuno

serrazinar: ser maçante; insistir em monotema.

sessar: peneirar

sobrosso: medo

sofrer: s.m. (Brasil) ave cujo canto imita a pronúncia sofrer (anàlogamente ao bem-te-vi)

sostra: mulher feia

soverter: subverter (regionalismo)

talassocracia: “Estado cujo poder reside especialmente no domínio marítimo.”

tapera: 1. vilarejo fantasma; 2. escombros; 3. caolho ou cego completo; 4. palerma (São Paulo); 5. caritó.

tapir: anta (o animal)

tapuia: o mesmo que caboclo ou mameluco

taquara: taboca, bambu brasileiro; lagarta que vive neste bambu.

teiró: teima, birra, antipatia

tejuaçu: lagarto grande

tetéu: quero-quero

ticaca: gambá comum no Nordeste

tinhoso: de má índole; repelente.

torvo: terrível

toutiço: nuca

tramenha: cilada

transunto: retrato fiel, imagem

trêfego: inquieto

treno: canto plangente

truaca: bebedeira

trupizupe: desmiolado

tuim: papagaio pequeno

túrgido: inchado

ubiratã: pau-ferro, jucá

urbano: [Brasil, Informal] Agente de polícia

uru: animal parecido com a galinha; cesto indígena.

urupê: cogumelo também conhecido como orelha-de-pau

urutau: ave noturna de rapina

valdevinos: 1. indivíduo que gosta da vida boêmia, estróina; 2. indivíduo que não gosta de trabalhar, tunante, vadio; 3. doidivanas; 4. indivíduo que não tem dinheiro; 5. que vive de atividades ilícitas, traficante. Etimologia: alteração de balduíno.

viúva-alegre: camburão; (Moçambique) pássaro.

viuvinha: 1. (Portugal) jogo popular; 2. (Portugal) dança de roda; 3. (Portugal) peixe; 4. (Brasil) planta (quando no singular), (Portugal) planta (quando no plural); 5. pássaro; 6. corda (coloquial).

voltarete: “Jogo entre três parceiros que recebem, cada um, nove cartas.”

xenxém ou xem-xem: moeda de prata antiga, equivalente a 10 réis

zabelê: jaó, ave noturna, vermelha, de belo canto

zunzum: atoarda, boataria

[ARQUIVO] “EXISTENCIALISMO AOS 7” – AS ABELHAS, OS HOMENS E A ESPINHA METAFÍSICA

Publicado originalmente em 20 de outubro de 2009. Revisado.

Hoje minha mãe me apresentou uma pequena reflexão minha – de quando eu nem sabia o que era reflexão, e leria a palavra sexo como se lê “seixo” – na altura da 1ª série, sobre a vida. Apresentar-me é bem o termo, já que a gente se esquece com facilidade. Talvez tenha sido o passo inicial desta minha verve literária; impossível saber, mas é o que a arqueologia nos permite resgatar. Dizia mais ou menos assim: “Vida – Eu tenho 7 anos, meu irmão mais velho tem 14 anos, uns são mais novos, outros mais velhos, e assim a vida vai… A mulher mais velha tem 124 anos, a criança quando sai da barriga da mãe é a pessoa mais nova e tem 1 segundo”. Deve ser a segunda vez em período recente que minha mãe remexe em suas caixas repletas de recordações e vem me mostrar – como eu disse, a gente esquece, até as coisas de ontem –, não só esse tipo de protofilosofia como cartõezinhos de dia das mães e meus dentes-de-leite…

Não parece estranho que nossa vida comece aos 7? O que é o primeiro segundo? Talvez condiga em importância com os seis primeiros anos inteiros, a infância clássica. Que ela deve haver, disso não há dúvida. Que hoje reproduzimos aqueles sonhos, ou melhor, rememoramos o grande sonho, ainda mais certo. Os anos de jardim de infância são inconscientes. O pediatra moderno é um fraco. A força da criança reside na impossibilidade de abraçá-la no humano – ela é tão autêntica como um inseto. Azar dos homens, que hoje são menos do que insetos… Uma mosca ou uma abelha, por mais filosóficas que sejam, não possuem uma morte impactante. Seu pathos voador passa fulminante. Um cisco de poder que facilmente perde a autonomia. Uma palma da mão enfezada transforma uma perspectiva no zero, puro tecido em decomposição, nada de drama em câmera lenta. Considerar a infância sagrada é já um sinal… O bom velho é o menino…

A dor ou o prazer, seu antípoda o anestésico, nada representam para o precoce. O importante é seu reflexo no consciente mais tarde. O trauma torna-se desumano e criminoso quando a história do indivíduo realmente começa e ele toma suas escolhas baseado naquilo que ele nunca foi, a fim de ser o que é agora! O inconsciente. O inconsciente e a abelha verde. Esses foram meus principais amigos dos meus anos pré-existenciais. Talvez fossem as duas únicas entidades conhecidas! Todas as vezes que ia brincar no parquinho da escola, perto da gangorra ou do carrossel, ou da amarelinha pintada no chão, eu via uma abelha verde. Ela batia as asas como um beija-flor, deixava um rastro para meu olho incompetente adivinhar o que seria. Um bicho que nunca se cansa; e as abelhas verdes estão sempre no mesmo lugar. Aqui em Brasília posso encontrar diversas delas. Todas as vezes cruzo com uma, na ida e na volta, desde que faço o caminho para a Universidade. Retorno. Àquele tempo eu sabia – premeditava com bastante frieza – que chegaria o dia (utópico?) em que essa abelha seria o tema de um texto. Quem sabe não é a mesma abelha? Qual é a magnânima resistência de um ser vivo desses? Se a persistência com que se sustém no ar for a mesma com que enfrenta cada primavera… Ah, claro: primavera, época de flores (embora as estações não sejam bem-definidas no Cerrado), ela aparece bem mais. Parece que, para uma abelha, 50 dias são 50 anos. Elas começam a viver no 7º dia também? Não, a abelha não se perde como o homem…

Na nossa Odisséia, o significativo é a volta. A guerra o tornou herói, mas parece que não foi você. Está na hora de protagonizar de fato o roteiro. Hoje tenho o triplo daquela idade (1995-2009). [Hoje, que retranscrevo minhas palavras de 2009, o quíntuplo da idade!] O quanto o número 14 é emblemático para mim? [Intervalo 2009-2023] O quanto eu desejaria viver 1[2]4 anos? A escola parece eterna. A substância cotidiana permanece intacta. Imaculada rotina, transfigurada em novo linguajar. Consciente. Dolorosa. Mas sensível. Sempre pensei no meu inconsciente como um deus caprichoso. Direitos Humanos se preocupando com a saúde divina, quanta perda de tempo! Não é que não se deva mexer com crianças porque elas são sagradas; tabus mundanos… O sagrado é imexível, os costumes só existem para ser quebrados. Invertendo o axioma, elas são sagradas, daí que não seja possível a mediação humana. Atena não poderia ser prejudicada por Ulisses. Tolices!

A jogatina de dados de Deus deu no que deu(s)! Mortes inconscientes são não-mortes. 0 a 5 anos, latência. Esquecimento, imprescindível ferramenta. O fundamento do mundo é coisa para ficar debaixo do tapete. Aí inventarão as câmeras; e monitorarão todos os passos. Aí partirão numa máquina do tempo, só para testemunhar o 1º momento. Que revelação, voltar e pisar… na mesma sala! A vida é a máquina do tempo… Você foi primeiro, antes disso foi só o que seu consciente ainda não conscientizou e vai pegar de empréstimo – só para ter o gosto sem-fim de esquecer.

Abelhas não saem na chuva. A chuva dissipa os pensamentos. Sol sim; trovão não (o cachorro late ao raio – sabedoria ancestral?). Tenho a soberana impressão de que os céus são a extensão do meu estômago. Lubrificação aquosa. Palavras são águas… amanhã… Uma idéia que escapa é só uma idéia que ainda não estava pronta… O mais importante é a trama. Homo somnambuli? Non sapiens? A trama acaba como a teia de uma aranha de um recinto reaberto e devidamente higienizado…

Assinado,

A Mosca Filosófica

[ARQUIVO] IMBRÓGLIOS DE DOMINGO À TARDE

Publicado originalmente em 19 de outubro de 2009.

Faz três anos: “O fim do monopólio nas transmissões de futebol: ano que vem a Globo dará tchau à exclusividade” e papos assim rondando… Uma das melhores notícias que o fã de futebol poderia receber. Promessa é dívida: até agora, nada. Se o pay-per-view irrita, ver a fórmula do campeonato brasileiro voltar a ser mata-mata só para poder ver os jogos decisivos e aumentar os pontos ligados na emissora irritaria mais ainda. E, olhe bem, já fiz muitos amigos em mesa de bar… Tá certo que não gosto de ver jogo com chiado, chororô e cabeças se intrometendo na frente, mas é bom nos acostumarmos com o “clima de Copa”…

Data da edição da Veja de 7 de junho de 2006 a matéria “Torcedor em Festa”. Diziam que, se o futebol nacional continuasse sob os auspícios dos Marinho, ainda assim outras operadoras de TV a cabo como a Mais TV, pobrezinhas e coitadinhas, poderiam contar com os canais elitizados da Globosat, passando os melhores programas para mais alguns milhões de telespectadores ao redor do país, sem que eles tivessem que pagar mais de 100 reais para contar com a benesse dos jogos de São Paulo, Vasco, Cruzeiro, Grêmio, etc., mais do que 2 vezes por semana (conforme na TV aberta – ó, a quem estou enganando, os marajás transmitem apenas Flamengo e Fluminense, a comédia e a tragédia do futebol tupiniquim!)… Isso era lasanha podre para gato, já que indigesto mesmo são os 400 reais para ter tudo ao alcance dos botões, sofá, pipoca, 24h de partidas decentes… O pior é que, estragada ou não, a comida não vem; e continuamos vendo o restaurante funcionar ao lado, alguns cuspindo em seus pratos.

Mas hein?! Que papo é esse de campeonato brasileiro em mata-mata? Quando já nos achávamos europeizados, o complexo de vira-lata nos assalta novamente. Se a CBF sucumbir à tentação tribal e transformar o certame de turno e returno em Copa do Brasil II: A Missão,(*) pararei de acompanhar futebol. Perderei o tesão. Ou voltarei a fetichizar a liga italiana, sensata em suas marmeladas rodada a rodada… Já ouvi falar de muitos velhos morrendo do coração nos estádios, mas esse negócio de “emoção” é para quadrúpede fazer a sesta… A Globo podia passar jogos internacionais, se o problema é a incompetência dos brasileiros nos torneios eliminatórios sul-americanos… Aí vem o velho papo da bandeira e do hino, que ninguém, afinal, sabe… Como se doletas e merrecas não falassem a mesma língua… Só que, nessa Babel, a plim-plinzada carioca não manjou que campeão nacional é o maior somador de pontos, não o time das “cagadas”….

(*) Flamenguista, por exemplo, se acha o valentão das decisões, sem saber que em campeonato sem final qualquer batida em bêbado já é um clássico imortal; os poderosos estão se cansando da hegemonia são-paulina; os pequeninos quererão um pedaço da pizza – com 8, vai dar: é impossível chegar ao topo da tabela, mas quem sabe aos 33% mais bem-colocados! Ou quase metade, 8/20, 4/10, ! Isso mesmo, insólitos 40%, percentual digno de um Náutico –; e a Globo é a “paladina do povão”…

O Brasil tem sempre que ser diferente de tudo e de todos – por que não inventam uma bola com pontas? Ou uma bola-melancia? Ousaram até um pijama para árbitros… Tá na hora de reabrir a fábrica de craques, pois o melhor do brasileirão já foi um argentino e agora é um sujeito que nasceu num país que nem existe mais… Sem dindim, sem “aquele meia”… A TV Bobo faz questão de ficar com toda a verdinhada, os clubes que se danem, não dá nada! Só tem igreja na televisão, e eu achando que o futebol era a saída dos pagãos. 

[ARQUIVO] O DEUS QUE DESCEU À TERRA E QUE SE MISTUROU COM OS HOMENS

Originalmente postado em 19 de outubro de 2009. Com alterações.

Pássaro-homem. Alcance de um novo campo. Filosofia com estilo e verve de artista. O primeiro grande pensador da moral e grande estilista desde Platão. Subsumiu na própria carreira meteórica a noção de progresso, de civilização. Desvendou o fenômeno da decadência – projeção do Pecado Original na história do homem até aqui. Abriu horizontes, consolidou tempo e espaço sem origem ou escatologia. Resgatou a vontade de vida e a busca por um propósito válido. Um deserdado de seu tempo, companheiro de todos os deserdados em seus respectivos tempos.

Todo bom educador retorna de seu vôo para ensinar o caminho. Ligar céu e terra, habitat dos homens. Poesia & Torrente final.

A delimitação de suas “duas fases epistemológicas”:

A. POESIA

Humano, Demasiado Humano, Aurora e O Alegre Saber como preparações para sua aleg[o]ria-mor. Zaratustra, o enunciador do supra-homem, hoje sua “biografia” é chamada de o quinto evangelho. Maior condensação do saber milenar desde A República de Platão. Críptico. Reunião de todos os elementos de sua filosofia mascarados por símbolos muito bem-escolhidos.

B. TORRENTE FINAL OU “ESCLARECIMENTO”

Nietzsche sentiu que deveria dar algumas pistas sobre sua poesia esotérica. Labor mundano novamente, pois a parte do destruidor de mitos não se esconde detrás do artista (quando ambas habitam a mesmalma). Admissão de falibilidade, fraquezas, tibiezas, depressões, desesperos, precariedades. Discurso direto e enfático, sem lugar a dúvidas. Confirmação dupla, não uma volta atrás ou arrependimento, palavra que odiava. A volubilidade máxima do gênio máximo. Frágeis como vidro são os homens que mudaram a humanidade, hoje, ontem e sempre. Negro como piche rabiscando em giz em vez de em pincéis de todas as cores. Uma roda gigante une o epílogo d’O Alegre Saber, Assim Falou Zaratustra e todos os trabalhos de prosa e aforismos executados para explicar sua megalegoria. Seria como Platão abandonando por completo o diálogo em sua terceira idade. Sabemos, por exemplo, que suas cartas, que hoje temos, não eram destinadas à publicação (Carta VII, outro grande escrito de Platão). O cúmulo: inclusive como nuvem – sujeitos a trovoadas todos os que se abrigarem debaixo: Ecce Homo, a autobiografia… autobibliografia?! Complicada gênese imoralAlém de todo absoluto, de toda personalidade, usando apodos e epítetos camaleônicos para inverter o calendário (depois de Cristo, antes de outra qualquer coisa que nada é em si). Casos para esmiuçar, vontade final do defunto deve-se respeitar. Cuidado com meus administradores, ele já advertia. Não disse admiradores: disse mesmo administradores. Filosofia impermeável a razões de Estado (intempestiva). Pode entender uma pista quem não percorreu ainda toda a pista? Pode reconhecer um anel quem não vive em todos os tempos? Resgate do presente roubado. Contra dor não tome anestésicos, tome tônicos; contra música chiada, use amplificadores e termine o trabalho, ladeira abaixo. Descascamento da divindade. Autodissecção. Para quem já tinha erigido, toda a destruição pedagógica não passava de passatempo (letal). Modo de produção ao mesmo tempo assassino e prolífico em esterco, eugenista e proibidor da eutanásia e da vasectomia. Mesmo assim, isso não é razão para negar este mundo – o absurdo não é absurdo, só um obstáculo fungível no caminho. Um prazer sádico no agravamento do “niilismo”, termo sempre entre aspas dentre os verdadeiros exegetas deste filósofo. Depois dele a filosofia ficou sem sentido, mas o que ganhou com isso foram todas as outras áreas.

Em 2009 eu dizia que aos 20 a vida começa, podemos ir direto para nossos artismos depois de perder tempo considerável com muitas coisas… Hoje estou mais próximo da frase clássica e não-emendada dos 40… Nos desobrigamos de todo o trabalho tóxico de mineiro, “B”, num mundo pós-torrencial e esclarecido. Podemos iniciar novas viagens lingüísticas construtivas…

Palavras finais: O supra-homem é metafísico, conquanto exista, justamente porque ele não é desse mundo, não pode ser desse mundo… Ele vem a ser no que chamamos de “mundo” (caos).

THE UPANISHADS TRANSLATED by Swami Paramananda. (Vol I), 3rd edition, 1919.

INTRODUCTION

The Upanishads represent the loftiest heights of ancient Indo-Aryan thought and culture.” “the final goal of wisdom”

Because these teachings were usually given in the stillness of some distant retreat, where the noises of the world could not disturb the tranquility of the contemplative life, they are known also as Aranyakas, Forest Books.”

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This oneness of Soul and God lies at the very root of all Vedic thought”

The first introduction of the Upanishads to the Western world was through a translation into Persian made in the 17th century. More than a century later the distinguished French scholar, Anquetil Duperron, brought a copy of the manuscript from Persia to France and translated it into French and Latin, publishing only the Latin text. Despite the distortions which must have resulted from transmission through 2 alien languages, the light of the thought still shone with such brightness that it drew from Schopenhauer the fervent words: How entirely does the Oupnekhat breath throughout the holy spirit of the Vedas! How is everyone who by a diligent study of its Persian Latin has become familiar with that incomparable book, stirred by that spirit to the very depth of his Soul!

The acess to the Vedas by means of the Upanishads is in my eyes the greatest privilege which this still young century (1818) may claim before all previous centuries.”

free from particulars, simple, universal”

Thoreau

But a mere translation (…) is not sufficient to make the Up. accessible to the Occidental mind.”

Modern words are round, ancient words are square, and we may as well hope to solve the quadrature of the circle as to express adequately the ancient thought of the Vedas in modern English.”

Max Müller

W/o a commentary it is practically impossible to understand either the spirit or the meaning of the Up.”

Until our mind is withdrawn from the varied distractions and agitations of worldly affairs, we cannot enter into the spirit of higher religious study.”

ISA-UPANISHAD

Om! (…) from the Invisible Whole comes forth the visible whole. (…) the Whole remains unaltered.”

(*) “The indefinite term That is used in the Upanishads to designate the Invisible-Absolute, because no word or name can fully define It.”

the phenomenal and the Absolute are inseparable. All existence is in the Absolute”

Do not covet the wealth of any man.”

As we gain the light of wisdom, we cease to cling to the unrealities of this world”

He who is rich in the knowledge of the Self does not covet external power or possession.”

If one should desire to live in this world 100 years, one should live performing karma (righteous deeds).”

right action (Karma-Nishta) Self-knowledge (Gnana-Nishta) (às vezes transcrito como inana ou iñaña.

After leaving their bodies, they who have killed the Self [o Self, em maiúscula, é uma mesma identidade universal, diferente do ego individual, o Um] go the worlds of the As[h]uras, covered with blinding ignorance.”

(*) “The idea of rising to bright regions as a reward for well-doers, and of falling into realms of darkness as a punishment for evil-doers is common to all great religions. But Vedanta claims that this condition of heaven and hell is only temporary. Because our actions, being finite, can produce only a finite result.”

(*) “the immortal Soul cannot be destroyed, only obscured. (…) Those who serve the flesh and neglect the Atman or the real Self, are not able to perceive the effulgent and indestructible nature of the Soul (…) the only hell is absence of knowledge. (…) he who clings to the perishable body and regards it as his true Self must experience death many times.”

(*) “Grief and delusion rest upon a belief in diversity, which leads to competition and all forms of selfishness.”

They fall into blind darkness who worship Avidya (ignorance and delusion); they fall, as it were, into greater darkness who worship Vidya (knowledge). [sabedoria mundana, não-sabia, em realidade, apenas acúmulo de dados]

By Vidya one end is attained; by Avidya, another. Thus we have heard from the wise men who taught this.”

He who knows at the same time both Vidya and Avidya…”

Da hubris a queda é mais feia.

Não basta ter obras sem fé, nem fé sem obras.

They fall into blind darkness who worship the Unmanifested [o que não existe, ou o Self de uma forma errada] and they fall into greater darkness who worship the manifested [mundo empírico].

By the worship of the Unmanifested one end is attained; by the worship of the manifested, another. Thus we have heard from the wise men who taught us this.

He who knows at the same time both the Unmanifested (the cause of manifestation) and the destructible or manifested, he crosses over death through knowledge of the destructible and attains immortality through knowledge of the First Cause (Unmanifested).”

(*) “The wise men declare that he who worships in a one-sided way, whether the visible or the invisible, does not reach the highest goal. Only he who has a co-ordinated understanding of both the visible and the invisible, of matter and spirit, of activity and that which is behind activity, conquers Nature and thus overcomes death. By work, by making the mind steady and by following the prescribed rules (…) a man gains wisdom. By the light of that wisdom he is able to perceive the Invisible Cause in all visible forms. Therefore the wise man sees Him in every manifested form. They who have a true conception of God are never separated from Him. They exist in Him and He in them.”

The face of Truth is hidden by a golden disk. O Pushan [invisível]! Uncover Thy face, that I, the worshipper of Truth, may behold Thee.” Há um infinito de diferença entre devotos de qualquer coisa e devotos da Verdade. Este devoto é o investigador de Platão.

O Pushan! O Sun, sole traveller of the heavens, controller of all, son of Prajapati, withdraw Thy rays and gather up Thy burning effulgence. Now through Thy Grace I behold Thy blessed and glorious form. [o invisível] The Purusha [=Pushan] who dwells within Thee, I am He.”

(*) “Here the sun, who is the giver of all light, is used as the symbol of the Infinite, giver of all wisdom.” Chave da transcendência. “…[in order] that his eyes, no longer blinded by them, may behold the Truth.” Agora compreende-se o Um. “…there is no difference [anymore] between himself and the Supreme Truth…”

May my life-breath go to the all-pervading and immortal Prana, and let this body be burned to ashes. Om!” Três vezes a expressão “lembra-te”…

(*) “Seek not fleeting results as the reward of thy actions, O mind! Strive only for the Imperishable. This Mantram or text is often chanted at the hour of death to remind one of the perishable nature of the body and the eternal nature of the Soul.” Só precisa lembrar aquele que hesita. Todo estribilho é música. Removeram o que havia de musical do Novo Testamento. “A morte é como trocar de roupa.”

(*) “This Upanishad is called Isa-Vasya-Up., that which gives Brahma-Vidya or knowledge of the All-pervading Deity.” “Whatever we see (…) it is all That.” Manifesto contra a sabedoria fragmentária, ou melhor, o conhecimento fragmentário, a anti-sabedoria.

Quando Rafael está triste, quando Rafael está raivoso, deixa Rafael estar. Ele é Rafael, fenômeno e aparência. Ele não é Ele. Tu! Tu não és Rafael, lembra-te! Rafael é uma roupa cada vez mais gasta que vestes. Mas é ainda uma linda roupa, se precisas de alguma para o frio ou para o sol não te queimar! Tu estás triste porque és, também, Rafael, mas tu não estás na condição humana, porque estás sereno quando Rafael está visivelmente triste. Deixa Rafael com suas limitações, isto também é Brahman. Que ele se amargure, é possível; que te amargures com ele, isso não seria propício, se fôra sequer possível!

(*) “He alone can love. … birthless, deathless… untainted by sin and sorrow.” “Transcending death means realizing the difference between body and Soul and identifying oneself with the Soul.” Ler esse trecho com a máxima literalidade possível. Está no parágrafo com (*), significa que é do comentador. Não é o texto direto do Veda, que precisa ser interpretado. A interpretação exata foi entregue em vermelho.

(*) “we no longer identify our self with the body which dies and we do not die with the body.”

(*) “Self-knowledge has always been the theme of the Sages; and the Upanishads deal especially with the knowledge of the Self and also with the knowledge of God, because there is no difference”

(*) “That which comes out of the Infinite Whole must also be infinite; hence the Self is infinite.” Princípio ou axioma da transcendentalidade. Da Filosofia e da Religião Verdadeiras. Hoceanomem

KATHA-UPANISHAD

(O principal.)

(*) “The K.U. is probably the most widely known of all the U. It was early translated into Persian and through this rendering first made its way into Europe. Later Raja Ram Mohun Roy brought out an English version. It has since appeared in various languages (…) Sir Edwin Arnold popularized it by his metrical rendering under the name of The Secret of Death, and Ralph Waldo Emerson gives its story in brief at the close of his essay on Immortality.”

(*) “Some authorities declare it to belong to the Yajur-Veda, others to the Sama-Veda. The story [though] is first suggested in the Rig-Veda” O Upanishad perfeito e onipresente.

(*) “nor has any meaning been found for the name Katha.”

(A transcrição quase completa será dada em outro post em preparo para o Seclusão. Já há, no entanto, farto material interpretativo deste Upanishad no índice temático.)

(*) “his son Nachiketas, although probably a lad about 12 years of age, observed how worthless were the animals which his father was offering. His heart at once became filled with Shraddha. There is no English word which can convey the meaning of this Sanskrit term. It is more than mere faith. [Mais que salto da fé; mais que Kierkegaard; é o salto do Todo, que abole as contradições e restabelece o Um. É simplesmente O salto.]

As a boy of tender age, Nachi. had no right to question his father’s action; yet, impelled by the sudden awakening of his higher nature, he could not but reflect: ‘…If he has vowed to give all his possessions, then he must also give me….’

Ele pede três vezes ao pai para ser incluído no sacrifício (dessa forma: A quem o senhor me dará?). A interpretação é que o pai se faz de surdo duas vezes. Tudo se desenrola implicitamente. O humano comum não pode resistir pela terceira vez. Mesmo arquétipo da negação de Pedro na bíblia. Excede as forças e a compreensão do indivíduo.

(*) “Although he realized that his father’s harsh reply was only the expression of a momentary outburst of anger; yet he believed that greater harm might befall his father, if his word was not kept. Therefore he sought to strengthen his father’s resolution by reminding him of the transitory condition of life.”

(*) “…but Yama was absent and the boy waited without food or drink for 3 days.” A Morte estava ausente e o garoto não comeu nem bebeu por três dias. Alegoria.

(*) “When Yama returned, therefore, one of the members of his household anxiously informed him of Nachi.’s presence and begged him to bring water to wash his feet, this being always the first service to an arriving guest.” Mesmo um deus lava os pés de um brâmane. Jesus Cristo lavou os pés de um ser humano comum; o que isto quer dizer? A pergunta é retórica.

(*) “Verses XVI-XVIII are regarded by many as an interpolation, which would account for certain obscurities and repetitions in them.” Mais uma lei ou axioma do transcendental, com referência ao livro sagrado: ele é o mais evidente que pode ser (ao menos em nível exotérico; seu esoterismo ou conteúdo não-manifesto é outra coisa), e o mais econômico nesta missão. Interpolações acontecem com qualquer material, é inevitável. O conteúdo ou a doutrina podem ser transcendentais, mas necessitam do suporte material e aparente como qualquer outra coisa a mais reles. São estes os versos apontados como inautênticos: “The great-souled Yama, being well pleased, said to him: [MORTE (YAMA)] I give thee now another boon. This fire shall be named after thee. Take also this garland of many colors. [com efeito não faz parte da versão que li alhures] / He who performs this Nachiketa fire-sacrifice 3 times, being united with the 3 (mother, father and teacher), and who fulfills the 3-fold duty (study of the Vedas, sacrifice and alms-giving) [o Veda verdadeiro prescinde da parte ritual] crosses over birth and death. Knowing this worshipful shining fire, born of Brahman, and realizing Him, he attains eternal peace. [Uma escolha ‘infeliz’ de palavra, se posso dizê-lo: estar-com-Brahman não quer dizer estar em eterna paz, que é a degeneração vulgar e cristã, <a pregação que quer ser ouvida pelos sofredores>, uma mentira.] / He who knows the 3-fold Nachiketa fire [repet. inecessária] and performs the Nach. fire-sacrifice with 3-fold knowledge, having cast off the fetters of death and being beyond grief, he rejoices in the realm of heaven. [nada acrescentou]

(*) “‘Even wise men cannot understand it and thou art a mere lad. Take, rather, long life, wealth, whatever will give thee happiness on the mortal plane.’’Todo ‘escolhido’ é severamente testado ou mesmo tentado (mais um arquétipo). Ademais, este trecho comprova que a afirmação anterior sobre felicidade eterna era uma interpolação. Às vezes a curiosidade ressuscita o gato egípcio!

(*) “There are many in the world who, puffed up with intellectual conceit, believe that they are capable of guiding others. But although they may possess a certain amount of worldly wisdom, they are devoid of deeper understanding; therefore all that they say merely increases doubt and confusion in the minds of those who hear them. Hence they are likened to blind men leading the blind.”

(*) “What is meant by realization? It means knowledge based on direct perception. In India often the best teachers have no learning, but their character is so shining that every one learns merely by coming in contact with them. (…) the conveying of spiritual teaching does not depend upon words only. It is the life … which counts. (…) but even with such a teacher, the knowledge of the Self cannot be gained unless the heart of the disciple is open and ready for the Truth.”

(*) “Only he who has been able to perceive the Self directly, through the unfoldment of his higher nature, can proclaim what It actually is” Somos herdeiros da significativa palavra Platão. “It is too subtle to be reached by argument.” Refutação direta de todas as escolas sofistas e de oratória. Até mesmo do método socrático sem algo a mais, em última instância. Não significa que Sócrates fosse um sofista: mas quase todos em seu lugar o seriam. É irrelevante se Sócrates seria o autor original da teoria das Idéias ou não: de todo modo, ele foi um bom professor para Platão.

(*) “The aspirant must first hear about the Truth from an enlightened teacher; (1) next he must reflect upon what he has heard; (2) then by constant practice of discrimination and meditation he realizes it (3)” A compreensão do princípio da reminiscência necessita de um gatilho externo, mas em todas as épocas e lugares há gatilhos eternos. Eu tive o meu professor. Um livro em especial.

(*) “What name can man give to God? (…) Yet it is very difficult for mortals to think or speak of anything without calling it by a definite name. Knowing this, the Sages gave to the Supreme the name A-U-M, which stands as the root of all language. The first letter ‘A’ is the mother-sound, being the natural sound uttered by every creature when the throat is opened, and no sound can be made without opening the throat. The last letter ‘M’, spoken by closing the lips, terminates all articulation. As one carries the sound from the throat to the lips, it passes through the sound ‘U’. These 3 sounds therefore cover the whole field of possible articulate sound. Their combination is called the Akshara or the imperishable word, the Sound-Brahman or the Word-God, because it is the most universal name which can be given to the Supreme. Hence it must be the word which was ‘in the beginning’ and corresponds to the logos of Christian theology. It is because of the all-embracing significance of this name that it is used so universally in the Vedic Scriptures to designate the Absolute.”

(*) “Although this Atman dwells in the heart of every living being, yet It is not perceived by ordinary mortals because of Its subtlety. It cannot be perceived by the senses; a finer spiritual sight is required. (…) It is subtler than the subtle, because It is the invisible essence of every thing”

(*) “The Brahmanas stand for spiritual strength, the Kshatriyas for physical strength, yet both are overpowered by His mightiness. Life and death alike are food for Him.”

(*) “The Seers of Truth, [nosso eu mais nobre, alto e mais perto do astro-rei, atemporal, o inconsciente] as well as householders who follow the path of rituals and outer forms with the hope of enjoying the fruits of their good deeds, [nosso eu mais plebeu, abaixado, soterrado mas não profundo, a quem é vedada a luz, na caverna, vítima da tirania absoluta do tempo, a consciência banal] both proclaim that the Higher Self is like a light and the lower self like a shadow. When the Truth shines clearly in the heart of the knower, then he surmounts the apparent duality of his nature and becomes convinced that there is but One, and that all outer manifestations are nothing but reflections or projections of that One.”

(*) “He is manifested as the Lord of sacrifice for those who follow the path of ritual. He is the unmanifested, eternal, universal Supreme Being for those who follow the path of wisdom. (…) It is believed by many that these 2 opening verses were a latter interpolation. [May we be able to learn that Nachiketa fire-sacrifice, / which is a bridge for those who perform sacrifice. – a vertente exotérica do hinduísmo foi uma criação póstuma à ‘revelação originária’.]

(*) “Only through similes can some idea of It be conveyed. That is the reason why all the great Teachers of the world have so often taught in the form of parables. So here the Ruler of Death represents the Self as the lord of this chariot of the body. The intellect or discriminative faculty is the driver, [o passageiro é o senhor; o cocheiro é um mero intermediário] who controls this wild horses of the senses by holding firmly the reins of the mind. [ainda sendo um intermediário ‘reles’, comparado ao oceano primitivo dos instintos, representado pelos animais selvagens, este cocheiro é um domesticador] The roads in which these horses travel are made up of all the external objects which attract or repel the senses: [ainda esses cavalos, mesmo se deixados em seu puro instinto, são vida, superior ao inanimado, e ao mesmo tempo pressupondo-o: como haveria de haver vida sem a não-vida em suas imediações? mas o contrário ‘faz sentido’ em nossa abstração, porque o inanimado, a aparência, em sua significação, é já completo, nem sequer deseja ou caminha-para-algo; porém, numa segunda análise mais detida, o objeto sem sujeito não existe, porque um senhor sem súditos é inconcebível, é fora do natural; tampouco precede a vida, como diria Darwin, bem sabe a hermenêutica e a fenomenologia de a partir do fim do século XIX no Ocidente.] – the sense of smelling follows the path of sweet odors, the sense of seeing the way of beautiful sights. Thus each sense, unless restrained by the discriminative faculty, seeks to go out towards its special objects. [ao contrário das pedras, sempre iguais a si mesmas] When the Self is joined with body, mind and senses, It is called the intelligent enjoyer; because It is the one who wills, feels, perceives and does everything.”

(*) “A driver must possess first a thorough knowledge of the road; next he must understand how to handle the reins and control his horses. Then will he drive safely to his destination. (…) the abode” Isso é puro Heidegger.

(*) “Over the mind the determinative faculty exercises power; this determinative faculty is governed by the Individual Self; beyond this Self is the undifferentiated creative energy known as Avyaktam; [Este trecho me deixou confuso em minha primeira leitura do Katha: parecia espúrio; não sabia que a doutrina tinha um termo exato para tal ‘força indiferenciada’ – por um lado, traçaria um paralelo entre o Um ou Brahma[n] com a vontade de potência de Nietzsche; mas seguindo essa hierarquia, teríamos de mudar o avatar do Self e achar um outro nesta filosofia, porque a ‘vontade não-livre’ deste filósofo é ainda mais perfeita para tomar o lugar do termo Avyaktam; e é bastante provável que ele não tenha tido acesso a essa literatura, ou seja, chegou a esta noção de forma independente do seu conhecimento orientalista parcial.] and above this is the Purusha or Supreme Self. [Esse trecho é demasiado e desnecessariamente confuso – a introdução daquele primeiro Self como sinônimo de apenas um eu atômico, no contexto hindu, me parece supérflua ou precipitada. Além disso, o Avyaktam já guarda parentesco com a idéia do Ser Supremo o suficiente, também me parecendo dispensável (ou se retira o 1º termo ou o 2º termo nessa ‘cadeia improvisada de 3’).] Then there is nothing higher. [Auto-evidente.] That is the goal, the Highest Abode of Peace and Bliss.” Esse trecho, creio eu, foi malversado por dezenas de milhões de intérpretes por milênios, tendo se estabelecido um absurdo culto ao Nada por conta da expressão utilizada, de que no topo nada está, (não) está nada. E acredito mesmo que toda a doutrina do nirvana budista proceda desse mal-entendido metafísico tremendo. Nesta tradução: “…beyond the Purusha there is nothing. That is the end,…” O mesmo problema, como antecipei, acontece versos acima: “beyond the mind is the intellect…” Mente e intelecto tornam a metáfora da carroça do próprio non plus ultra do nobre (o próprio Sol) com um cocheiro e seus cavalos na estrada excessivamente complicada, e sobrepõem-se como qualificativos do mesmo objeto (o intelecto é a própria mente, tem a mesma hierarquia que a mente em relação aos sentidos e pulsões, está tudo coordenado por ela, é um dualismo que nada acrescenta à comunicação). Estes parágrafos IX e X da terceira parte do poema Katha não são bons.

(*) “Then the mind must be brought under the control of the discriminative faculty (…) The discriminative faculty in turn must be controlled by the higher individual intelligence and this must be governed wholly by the Supreme…” Faculdade que emana da própria mente. Tudo isto poderia ser evitado com um poema mais condensado! Não há qualquer base, tampouco, para mais uma enumeração irrelevante na segunda parte: é até mais que isso, é um contra-senso, porque a faculdade da discriminação já foi posta no parágrafo acima como superior ao intelecto! Volto a acreditar em algum tipo de interpolação de um poema original puro e objetivo; ou ao menos mantenho que esta passagem poderia ser muito melhor e mais clara. E, na verdade, após o esclarecimento sobre a morada, instância-termo, tudo o mais se torna apenas reiterativo e dispensável. Essa é uma lição que até o hinduísmo (escrita mais antiga expondo o transcendental), bem como nossos filósofos, precisam aprender: a economia da lição! Saber onde pôr o ponto final e começar o silêncio, princípio aliás bramânico (alguns diriam, wittgensteiniano!).

(*) [Even so pure a]…boy had thought that there was a place where he could stay and become immortal. But Yama shows him that immortality is a state of consciousness and is not gained so long as man clings to name and form, or to perishable objects. What dies? Form. Therefore the formful man dies; but not that which dwells within. Although inconceivably subtle, the Sages have always made an effort through similes and analogies to give some idea of this inner Self or the God within. [E em alguns momentos, pelo que se vê, faltou-lhes tato e exageraram!] …too subtle for ordinary perception, but not beyond the range of purified vision.” Mas é um mito que detentores de uma percepção meramente ordinária possam desenvolver uma visão purificada, neste sentido transcendental. Segurem-se, que ainda falta a quarta e última seção do Katha! Minha decisão de não postar aqui o poema inteiro, só os comentários, acabou sendo a melhor possível.

(*) “But the wise, who see deeper into the nature of things, are no longer deluded by the charm of the phenomenal world and do not seek for permanent happiness among its passing enjoyments.”

(*) “‘He who knows Aditi, who rises with Prana (the Life Principle), existent in all the Devas; who, having entered into the heart, abides there; and who was born from the elements – this verily is That.’ § This verse is somewhat obscure and seems like an interpolated amplification of the preceding verse.”

(*) “Even physical science has come to recognize that cause and effect are but 2 aspects of one manifestation of energy. He who fails to see this, being engrossed in the visible only, goes from death to death; because he clings to external forms which are perishable.”

(*) “‘the size of a thumb.’ This refers really to the heart, which in shape may be likened to a thumb. [?]

E eis que existe uma parte CINCO, que com certeza eu não li noutro livro-comentário dos Vedas, que talvez tenha considerado desimportante. Vou, desta forma, citar trechos se julgar necessário.

(*) “This human body is called a city with 11 gates, where the eternal unborn Spirit dwells. These gates are the 2 eyes, 2 ears, 2 nostrils, the mouth, the navel, the 2 lower apertures, and the imperceptible opening at the top of the head. The Self or Atman holds the position of ruler in this city”

He is the guest dwelling in the house. He dwells in man. He dwells in those greater than man.” Morada. Aluguel. Hospedeiro. Proprietário.

He it is who sends the Prana [como acima, <sopro vital>] upward and throws the breath downward.”

When this Atman goes out of the body, what remains then? This is verily That.

No mortal lives by the incoming breath or by the outgoing breath (Apana, morte, exalação, expiração¹), but he lives by another on which these two depend.”

¹ Daquele que morre nós dizemos: expirou. Expirou seu prazo terreno.

(*) “The sun is called the eye of the world because it reveals all objects. As the sun may shine on the most impure objects, yet remain uncontaminated by it, so the Divine Self within is not touched by the impurity or suffering of the physical form in which it dwells, the Self being beyond all bodily limitations.”

This is That. How am I to know It? Does It shine by Its own light or does It shine by reflected light?

(*) “the tree of creation [Samsara-Vriksha, árvore do mundo] (…) Heat and cold, pleasure and pain, birth and death, and all the shifting conditions of the mortal realm – these are the branches (…) There is nothing beyond [the roots of the world-tree].”

From fear of Him the fire burns, from fear of Him the sun shines. From fear of Him Indra and Vayu and Death, the 5th, speed forth.

(*) (…) He is likened to an upraised thunderbolt, because of the impartial and inevitable nature of His law, which all powers great or small, must obey absolutely.”

(*) “As soon as a man acquires knowledge of the Supreme, he is liberated” Trecho polêmico. Há que definer “conhecimento” nesse sentido.

(*) “It is only be developing one’s highest consciousness here in this life that perfect God-vision can be attained.” Complemento bem-vindo, se entendermos que consciência e inconsciência já chegaram a um estágio indiferenciado.

(*) “…the restless mind and the intellect: all must be indrawn and quieted. The state of equilibrium thus attained is called the highest state, because all the forces of one’s being become united and focused; and this inevitably leads to supersensuous vision.”

This firm holding back of the senses is what is known as YOGA. Then one should become watchful, for Yoga comes and goes.

(*) Yoga literally means to unite the lower self with the Higher Self, the object with the subject, the worshipper with God. (…) When this is accomplished through constant practice of concentration and meditation, the union takes place of its own accord. But it may be lost again, unless one is watchful.

KENA-UPANISHAD

Kena: aquele que dirige.

(*) “Among the Up., it is one of the most analytical and metaphysical, its purpose being to lead the mind from the gross to the subtle, from effect to cause.”

* * *

Muito trabalho perdido graças à merda do computador da CAPES. Mas para retomar o recenseamento sem maiores frustrações devo dizer que em geral as páginas até esta não são muito importantes. Estamos agora no Mandaka-Up., último dos 4 traduzidos nesta obra.

* * *

The sage said to him: There are 2 kinds of knowledge to be known, so are we told by the knowers of Brahman – higher knowledge and lower knowledge.

Lower knowledge consists of the Rig-Veda, Yajur-Veda, Sama-Veda, Atharva-Veda, phonetics, ceremonial, grammar, etymology, metre, astronomy. Higher knowledge is that by which the Imperishable is know.”

KALI (dark), Karali (terrific), Manojava (swift as thought), Sulohita (very red), Sudhumravarna (deep purple), Sphulingini (sparkling) Viswaruchi (universal light) are the 7 flaming tongues of fire.”

But all these sacrifices are inferior and ephemeral. The ignorant who regard them as the highest good and delight in them, again and again, come under the dominion of old age and death.”

OM! PEACE! PEACE! PEACE!