MATRIZES DO PENSAMENTO PSICOLÓGICO – Luís Cláudio Figueiredo

I. A CONSTITUIÇÃO DO ESPAÇO PSICOLÓGICO

PEIRCE, O que é o pragmatismo. Em: PEIRCE, Semiótica. DEWEY, The development of American pragmatism. Em: RUNES, D.D. (org.) Living schools of philosophy.

II. A OCUPAÇÃO DO ESPAÇO PSICOLÓGICO

Os vitalistas tomam partido: são a favor da ‘vida’ e contra a razão.” “a inteligência conceitual deve ser substituída pela intuição, pela apreensão imediata da natureza ‘naturante’ [capaz de autocriação] das coisas” “mística da vivência autêntica” “No lugar do interesse tecnológico domina aqui o interesse estético” “a obra da decrepitude de W. Reich (…) a terapia gestáltica e outras técnicas corporais”

Os estruturalismos são de fato reações anti-românticas de índole tendencialmente cientificista, enquanto a fenomenologia é um dos coroamentos da tradição filosófica racionalista, iluminista e, portanto, anti-romântica.” “as três matrizes se inscrevem n…a problemática da expressão.”

O problema de difícil solução para o historicismo ideográfico é o do método.”

operacionalização de uma antecipação de compreensão.”

círculo hermenêutico”

A grande preocupação dos estruturalismos é a de elaborar métodos e técnicas de interpretação que conquistem o mesmo grau de segurança e objetividade que o obtido pelas ciências da natureza.”

estruturas profundas da vida simbólica”

Finalmente, encontramos na fenomenologia uma tentativa de superação tanto do cientificismo como do historicismo.”

DESDE KANT, O TEMPO ESTÁ EM NÓS: “A legitimação naturalista do conhecimento – como ocorre no empirismo – é inadequada porque as formas do mundo se apresentar à consciência não são oriundas da própria experiência, senão que a precedem e estabelecem suas condições de possibilidade.”

É necessário supor, para não cair no ceticismo, que todo conhecimento ou juízo empírico retire sua certeza de uma estrutura cognitiva apriorística que defina as formas, as categorias e os mecanismos da cognição de acordo com os quais as evidências possam se constituir e validar.”

O fundamento deve ser procurado do lado da consciência pura, do sujeito transcendental que determina as condições de existência para a consciência de todos os objetos da vida espiritual.”

A fenomenologia (ciência eidética)”—por causa do “de”: consciência (de algo). Consciência disso e daquilo…

Eidética no dicionário: “[Filosofia] Pertencente à essência abstrata das coisas, dos sentidos idealizados, por oposição ao que existe realmente.” Ironicamente, o que existe realmente é somente a essência abstrata das coisas.

Significado de Noese

substantivo feminino

[Filosofia] Na fenomenologia, aspecto subjetivo da vivência, constituído por todos os atos tendentes a apreender o objeto: o pensamento, a percepção, a imaginação etc.”

Não podemos admitir a completa irredutibilidade das épocas” Bem como seu inverso (estruturalismo).

O paradoxo de todo historicismo é negar-se à época que lhe sucede. “Em outras palavras, o ceticismo seria a conseqüência direta do relativismo radical historicista.”

A fenomenologia da consciência transcendental, confluindo com outras tradições filosóficas, e literárias, está na origem dos existencialismos, cujas repercussões no pensamento psicológico são mais profundas que as diretamente provenientes da filosofia fenomenológica.”

A antropologia fenomenológica existencialista dá o quadro de referências (os elementos e a norma, o ‘modelo’ de sujeito) que será investigado pelas ciências humanas empíricas.”

o que há de mais subjetivo, i.e., o projeto”

ideologias pararreligiosas”

Se nada me prende e minha vida é meu projeto, a solução é minha e para mim.”

retraimento do sujeito sobre si mesmo numa inflação inconseqüente da subjetividade”

Do behaviorismo tosco de J.B. Watson ao sofisticado de B.F. Skinner, à Psicanálise e a toda a obra de Jean Piaget reflete-se a mesma intenção.”

grandes tentativas de síntese, gestaltismo.”

psicologia social… recentemente … Harré e Hecord” + S. Koch + Nuttin + Howarth “senso comum”

Harré, Making social psychology scientific. Em: GILMOUR, DUCK (org.), The development of social psychology, 1980.

KOCH, Psicologia e ciências humanas. Em: GADAMER, VOGLER (org.), Nova antropologia, 1977.

NUTTIN, O comportamento humano: o homem e seu mundo fenomenal. EM: GADAMER, VOGLER (org.) op. cit.

Este texto de Nuttin é extremamente claro e penetrante. O que, somado ao seu fácil acesso ao leitor brasileiro, o torna uma indicação obrigatória para leitura”

HOWARTH, The structures of effective psychology. Em: CHAPMAN, JONES (org.) Models of man, 1980.

Wundt naturalmente listado como impressionante pioneiro do ecletismo epistemológico maduro e atual.

(*) “A irrelevância dos objetos e resultados de grande parte da pesquisa básica em psicologia é um dos principais alvos de seus detratores.” “função crítica da irrelevância” “O leigo acaba vendo no difícil de entender [hermético] um sinal de profunda sabedoria e alta ciência. Para uma boa aparência de cientificidade, quanto mais irrelevante melhor.”

(*) “A duplicidade e a complexidade do projeto de Wundt, durante muito tempo confundido com o de E.B. Titchener, vem sendo recentemente o tema de vários trabalhos, entre os quais se recomendam: BLUMENTAHL, A reappraisal of Wilhelm Wundt, American psychologist, 1975. … DANZIGER, The positivist repudiation of Wundt, Journal of the History of the Behavioral Sciences, 1979. LEAHEY, The mistaken mirror: on Wundt’s and Titchener’s psychologies, Journal of the History of the Behavioral Sciences, 1981.

III. MATRIZ NOMOTÉTICA E QUANTIFICADORA

BACON: “A emergência da ‘metodologia científica’ corresponde exatamente a um estágio em que a auto-reflexão das práticas produtivas já permite que a estrutura do trabalho seja posta a serviço da produção e validação de conhecimentos. As idéias de caráter preditivo chamar-se-ão hipóteses, e suas origens serão atribuídas a processos denominados indução, abdução ou invenção; as práticas produtivas serão os procedimentos de observação controlada e, em especial, os procedimentos experimentais de teste; o resultado obtido será confrontado com o resultado esperado – que, na medida do possível, deve ser rigorosamente [palavra que não combina] deduzido das hipóteses iniciais; a finalidade deste processo é a de, com base neste confronto, aceitar ou refutar as hipóteses.”

O positivismo foi concebido e desenvolvido não pelos filósofos do séc. XIII mas pelos astrônomos gregos que, tendo elaborado e aperfeiçoado o método do pensamento científico – observação, teoria hipotética, dedução e, finalmente, verificação por novas observações –, encontraram-se na incapacidade de penetrar no mistério dos movimentos verdadeiros dos corpos celestes e que, conseqüentemente, limitaram suas ambições à salvação dos fenômenos, isto é, a um tratamento puramente formal dos dados da observação. Tratamento que lhes permitia previsões válidas, mas cujo preço era a aceitação de um divórcio definitivo entre a teoria matemática e a realidade subjacente” KOYRÉ, Les étapes de la cosmologie scientifique. + Do mundo fechado ao universo infinito

As hipóteses descritivas e explicativas, como pretendem representar a essência dos fenômenos naturais, devem convergir para um sistema e, de preferência, ser dedutíveis de alguns poucos axiomas – o que foi finalmente alcançado no séc. XVIII por Isaac Newton.”

Quando as grandes conquistas da física moderna, nos sécs. XIX e XX, revelaram-se como meras hipóteses que exigiam correções radicais, abateu-se sobre a comunidade um certo descrédito diante da atitude realista que vê nas funções matemáticas expressões objetivas da ordem natural. Reanimaram-se, então, as posições instrumentalistas

Em momento algum, todavia, deixou de progredir a matematização da física e o distanciamento entre a experiência científica e a experiência leiga.”

A química enterrou definitivamente a alquimia quando Lavoisier – versado em lógica, matemática, física e astronomia – trouxe para a nova ciência o espírito de exatidão, da mensuração e da análise experimental. Os estudos biológicos, a partir da fisiologia, diretamente tributária da mecânica e da química, e dos empreendimentos taxonômicos de Lineu, também avançaram na direção da biologia científica.”

o cálculo de probabilidades e os procedimentos estatísticos em geral que, no campo das ciências não-exatas, asseguram a ligação entre o domínio empírico – marcado por uma certa margem de variabilidade intrínseca – e o domínio racional.”

A possibilidade de submeter os fenômenos psíquicos aos procedimentos matemáticos, de forma a criar-se uma psicologia empírica, foi expressamente negada por Kant com a alegação de que estes fenômenos não se prestavam à análise e à observação e só tinham uma dimensão, a temporal, quando a mensuração de um processo exige duas dimensões, a temporal e a espacial. Não obstante, o projeto de uma psicometria apareceu já no séc. XVIII na obra do filósofo alemão Christian Wolff, que esperava desta nova ciência a mensuração dos graus de prazer e desprazer, perfeição e imperfeição, certeza e incerteza.”

o mesmo fizeram outros autores como De Maupertuis, Buck, Mendelssohn, Ploucquet, Mérian e Lambert. (…) Nenhum deles, porém, dedicou ao tema mais que algumas páginas marginais de suas obras de matemáticos, filósofos e naturalistas. No séc. XVIII apenas Hagen, Krüger e Körber trataram com mais detalhe do assunto.”

a psicofísica de Weber e Fechner … Ebbinghaus”

O modelo de Herbart se propõe a representar a estática e a dinâmica dos processos mentais a partir da idéia de conflito entre representações (todos os fenômenos, conscientes ou inconscientes, são denominados representações).”

Hoje a construção de modelos matemáticos e lógicos não encontra a resistência que a partir do final do séc. XIX o positivismo opôs à pretensão de apreender os mecanismos, indo além das leis empíricas. Ainda assim, a prática da construção de modelos é apenas um dos momentos do procedimento científico, momento aliás subordinado ao de teste: a partir de um modelo devem-se atribuir valores plausíveis às variáveis quantitativas nele implicadas para em seguida – freqüentemente através de simulação computadorizada em que se variam parametricamente estes valores – deduzir os comportamentos do modelo nas diferentes condições programadas. Finalmente, confrontam-se os comportamentos do modelo com os do organismo nele representado. Convém assinalar que dificilmente o comportamento do modelo será idêntico ao do seu original, o que conduzirá a um processo infinito de ajuste com a introdução de novas variáveis e/ou com a postulação de novas relações funcionais entre elas. A psicologia matemática de Herbart carece completamente desta possibilidade de autocorreção” “É necessário que se mencione, a propósito, a semelhança entre o modelo de Herbart e o que veio a ser proposto por Freud.”

a dinâmica herbartiana é puramente mecanicista e a análise se orienta para a identificação das relações de causalidade eficiente; já na dinâmica freudiana há presença da intencionalidade.” Conversão para as ciências humanas, para nunca sair da preferência – tão prejudicial! – dos cientistas sociais…

O estudo dos limiares diferenciais – diferenças apenas perceptíveis – foi a área pioneira na concretização do ideal de quantificação em psicologia.”

dR/R=C, em que R é o estímulo-padrão com o que os outros devem ser comparados, dR é o incremento mínimo de R para que a diferença seja percebida, e C é uma constante.”

S=ClogR, em que S é a sensação, R o estímulo e C uma constante a ser obtida empiricamente. Esta função descreve os desvios sistemáticos da subjetividade em relação às mudanças do mundo exterior”

O estudo experimental das sensações permaneceu na segunda metade do séc. XIX e continua até hoje uma área de pesquisa muito ativa e rigorosa, aonde (sic) a matriz nomotética e quantificadora tem produzido alguns de seus melhores resultados.”

Com freqüência esta psicologia das diferenças individuais – ou psicologia diferencial – [McKeen Cattel, Galton, Binet, Thorndike] estava claramente empenhada em tarefas práticas no âmbito da escola, da indústria e da burocracia civil e militar, classificando a situando os sujeitos em escalas numéricas de acordo com medidas de inteligência geral, capacidades cognitivas específicas, velocidade de aprendizagem e desempenho de diferentes tipos de tarefas.”

não arrefeceu em momento algum o impulso nomotético e quantificador.”

GARRET, Grandes experimentos da psicologia, 1979.

IV. MATRIZ ATOMICISTA E MECANICISTA

A física do impetus ao final da Idade Média havia crescido a ponto de desalojar a física de Aristóteles, explicando em termos de impulso impresso também os movimentos ‘naturais’.”

A lei da inércia [de Galileu] atribui o mesmo valor e as mesmas propriedades ao repouso e ao movimento e libera este último da dependência de qualquer motor externo.”

Na química a análise elementar foi uma constante desde os trabalhos pioneiros de Priestley e Cavendish até a sistematização de Lavoisier. A subdivisão dos elementos em átomos progrediu no século XIX sob a direção de Dalton e Mendeleiev.”

a química é testemunha das transformações de qualidade produzidas por diferenças estruturais. Contudo, ao final do século passado, ainda era o procedimento analítico da química, e não seus resultados[,] que punham em questão o atomicismo físico, que servia de guia e exemplo para as demais ciências, entre as quais a psicologia.”

Os estudos de Pavlov, principalmente, são a contraparte fisiologizante e mais rigorosa dos estudos experimentais da associação iniciados por Ebbinghaus.”

Não se pode assim concordar com a idéia, amplamente divulgada, que associa o behaviorismo, fundamentalmente, ao mecanicismo e ao atomicismo. De qualquer forma, a sobrevivência de vestígios elementaristas e mecanicistas na psicologia behaviorista exigirá que no próximo capítulo uma atenção especial seja dada às combinações das duas matrizes.”

V. MATRIZ FUNCIONALISTA E ORGANICISTA NA PSICOLOGIA AMERICANA

A referência inicial e obrigatória é a chamada psicologia funcional8 que se desenvolveu nos EUA no final do século XIX e início do XX. Representantes notáveis desta corrente são J. Dewey (1859-1952), J. Angell (1869-1949), J.M. Baldwin (1861-1934) e, como grande precursor, William James (1842-1910).”

O estudo do comportamento animal com o objetivo de ‘conhecer o desenvolvimento da vida mental na escala filogenética e buscar a origem da inteligência humana’, tal como se expressa Thorndike em 1898, foi iniciada por Darwin e continuada por Romanes (1848-1894), Morgan (1852-1936), Thorndike (1874-1949) e Jennings (1868-1947), para ficar apenas com os pioneiros.”

Dois autores modernos assumiram integralmente, embora de formas muito diversas, o legado funcionalista: E.C. Tolman (1886-1959) e B.F. Skinner (1904-[1990]).”

Tolman, além de condensar e elevar a um nível superior todo o movimento da psicologia funcional, antecipou o movimento cognitivista americano.”

A solução mais original, contudo, foi elaborada por Skinner e batizada por ele de behaviorismo radical. Não me proponho aqui dar conta do conjunto desta obra que, pela extraordinária riqueza e penetração, é uma das mais notáveis realizações intelectuais da nossa época.”

VI. MATRIZ FUNCIONALISTA E ORGANICISTA NA PSICOLOGIA EUROPÉIA, NA PSICANÁLISE E NA PSICOSSOCIOLOGIA

Na obra de Jean Piaget—um dos mais completos, consistentes e articulados representantes da matriz funcionalista e organicista em psicologia—ficam dissolvidos os limites entre filosofia, psicologia e biologia, mas serão os métodos e conceitos da última que dominarão ao longo de toda a sua fecundíssima carreira.”

<A psicanálise é uma ciência natural—o que mais poderia ser?>, diz Fraud em 1925.”

VII. SUBMATRIZES AMBIENTALISTA E NATIVISTA NA PSICOLOGIA

(…)

VIII. MATRIZ VITALISTA E NATURISTA

Talvez seja necessário novamente esclarecer que não há relações diretas entre Bergson e os autores que serão nomeados neste capítulo. Na filosofia bergsoniana estão reunidos, isto sim, temas e atitudes que caracterizam muito do senso comum psicológico e que se encontram dispersos em várias orientações, escolas e seitas contemporâneas. Nenhuma delas, todavia, pode ser apresentada como uma ‘psicologia bergsoniana’ e em muitas há também vestígios de outras matrizes.”

IX. MATRIZES COMPREENSIVAS: HISTORICISMO IDIOGRÁFICO E SEUS IMPASSES

Hegel e Marx, cujas contribuições para o desenvolvimento da psicologia e das demais ciências empíricas foram negligenciáveis”

esta maneira dissecadora de lidar com a natureza provavelmente não atrai o leigo. Eu argúo que esta maneira pode ser inadequada mesmo para os iniciados e que, talvez, haja lugar para um outro método, um que não ataque a natureza dissecando e particularizando, mas a mostre viva e operante, manifestando se em sua totalidade em cada parte do seu ser.” Goethe

… devo-lhe confidenciar que estou muito perto de descobrir o segredo da criação e organização das plantas… A Urpflanze é a mais extraordinária criatura do mundo; a própria natureza a invejará. A partir deste modelo será possível inventar plantas ad infinitum e todas serão consistentes, isto é, todas poderiam existir, ainda que de fato não existam; elas não seriam meros sonhos ou sombras poéticas ou figuradas, mas possuiriam uma verdade interna e uma necessidade.” Goethe a Herder

A verdade é uma revelação que emerge no ponto em que o mundo interno do homem encontra a realidade externa”

Os românticos opõem-se fundamentalmente a todo revolucionarismo progressista que pretenda subverter a ordem natural da sociedade, rompendo com suas origens e tradições. A filosofia de Schelling condensa toda a temática romântica, e todas as soluções românticas e anti-racionalistas numa grande cosmovisão e numa teoria do conhecimento. Schelling constrói uma filosofia da totalidade, que é aí dotada de um movimento próprio, criativo e autônomo no qual o espírito, através da intuição, reconhece sua própria atividade criadora. O motor deste movimento é o conflito.”

a natureza desta totalidade (organismo, comunidade, nação, espírito popular, ou que outro nome receba) é tal que não a subordina às leis da sobrevivência e da adaptação, antes exibindo um caráter essencialmente produtor e criativo.”

O romantismo, de fato, é antes de tudo uma filosofia da expressão, da representação simbólica. Assim, enquanto a intuição de Bergson se move numa imediaticidade natural que visa unir o sujeito à vida pré-simbólica, dissolver o indivíduo no élan vital, a intuição romântica procura apreender a imediaticidade simbólica estabelecendo uma relação empática entre formas expressivas e comunicativas. Ora, esta apreensão imediata de uma forma expressiva, esta compreensão dos símbolos exige um esforço intelectual desconhecido tanto de Bergson como de todas as matrizes cientificistas: o esforço de interpretação.”

A preocupação em definir uma metodologia para as ciências morais manifestou-se durante todo o séc. XIX, sobressaindo as contribuições de Schleiermacher para a arte da compreensão—a hermenêutica—aplicada à filosofia e à teologia e as de historiadores como Ranke e Droysen. Foi, entretanto, o filósofo Wilhelm Dilthey (1833-1911) quem se propôs a desempenhar em relação às ciências morais o papel que Kant havia representado no âmbito das ciências naturais do séc. XVIII”

A preocupação com a verdade não costuma ser muito acentuada em vários arraiais psicológicos, e, desta maneira, variantes do discurso diltheyano aparecem com freqüência na psicologia clínica. Os chamados humanistas, p.ex., usam e abusam desta terminologia (compreensão, significado, etc.), reduzindo quase sempre estes conceitos ao nível de Bergson, ao vitalismo pré-crítico.”

A afirmação de Spranger de haver encontrado as leis universais da produção e da interpretação do sentido não encontrou muito eco no desenvolvimento posterior da psicologia.”

(*) “Convém, talvez, assinalar que embora use o termo com esta acepção ampla e acompanhe os autores em muitos pontos da análise, não encampo o enfoque pessimista, aterrorizante e algo obscurantista de Horkheimer e Adorno.” HAHAHA

HELLER, E. The Disinherited mind

(*) “Acerca da ideologia política romântica, ver ROMANO, R. Conservadorismo romântico. Origem do totalitarismo. São Paulo, Brasiliense, 1981.

X. MATRIZES COMPREENSIVAS: OS ESTRUTURALISMOS

A grande dificuldade era encontrar para estas ciências critérios positivos cuja aplicação discriminasse o verdadeiro do falso. Os estruturalismos nasceram no contexto desta problemática e formam o conjunto de soluções mais rigoroso, do ponto de vista metodológico. As totalidades simbólicas são submetidas a uma investigação imanente que as objetiviza e desprende tanto das conexões subjetivas, que as constituíram (intenções comunicativas), como das que as interpretam (intenções compreensivas). A neutralização do sujeito caracteriza o ideal científico dos estruturalismos e os coloca como uma espécie de positivismo das ciências humanas.”

Há assim dois níveis de organização: um, empírico, em que a organização aparece nas interconexões das ocorrências do mundo fenomenal, nas formas que se oferecem à consciência; um outro, teórico e construído (jamais vivenciado) em que a organização se manifesta no processo de dotação de forma e sentido. E a este nível – profundo e inconsciente – que se voltam preferencialmente os estruturalismos, ainda quando, como ocorre na psicologia da gestalt, as formas fenomenais da vivência espontânea dão o fio da meada para a investigação científica.”

Nas origens da matriz estruturalista encontramos movimentos intelectuais que no final do século XIX e no início do XX revolucionaram a psicologia, a teoria da literatura e a lingüística. No campo da psicologia foi a chamada psicologia da forma, ou da gestalt, que ofereceu a mais consistente alternativa européia à velha psicologia elementarista, associacionista e introspeccionista (nos EUA coube ao funcionalismo e ao behaviorismo esta missão).”

Ampliando ainda mais o foco de suas preocupações, o gestaltismo se projetou como uma filosofia geral das ciências e como uma fundamentação da ética e da estética. Grande parte desta imensa contribuição foi sistematizada nos Princípios da psicologia da gestalt, redigidos por K. Koffka (1886-1941) na década de 30. Outros nomes de primeiro plano são os do pioneiro Max Wertheimer (1880-1943), o de Wolfgang Koehler (1887-1949) e o de Kurt Lewin (1890-1947).”

O dado básico da psicologia da forma é a experiência imediata. Só que, ao contrário de Wundt, ao invés de dissecar esta experiência para identificar as suas unidades mínimas e, em seguida, reconstituir os fenômenos complexos, tratava-se para os gestaltistas, antes de mais nada, de descrever e compreender os fenômenos que espontaneamente se ofereciam na experiência dos sujeitos e dos seus observadores.”

Os psicólogos da forma, contudo, estão convencidos de que é possível superar o nível da pura compreensão e elaborar leis gerais explicativas.”

Enquanto a noção de forma contemplada pelos gestaltistas exerceu notável influência sobre a teoria das artes plásticas, simultaneamente desenvolvia-se na Rússia uma teoria da literatura também formalista e estruturalista. Para os formalistas russos colocava-se a tarefa de proceder a uma leitura das obras literárias que, pondo de parte o psicologismo e o sociologismo, visasse a obra mesma de maneira a captar nela, não as intenções do autor ou o efeito das pressões sociais, mas a sua estrutura imanente e os seus procedimentos constitutivos.”

(*) “Uma ótima apresentação e crítica do gestaltismo é encontrada em MERLEAU-PONTY, M. A estrutura do comportamento. Belo Horizonte, Inter livros, 1975.

XI. MATRIZ FENOMENOLÓGICA E EXISTENCIALISTA

(…)

XII. CONSIDERAÇÕES FINAIS E PERSPECTIVAS

Este livro nasceu das aulas que dava na disciplina História da psicologia. Convinha, então, no término do semestre, justificar o porquê de, no final das contas, não ter oferecido nada que parecesse com a história da psicologia. Tenho para mim que história da psicologia, como talvez também a de outras disciplinas que visam a vida em sociedade, não se pode nortear pelos modelos disponíveis de historiografia das ciências naturais. No conjunto da disciplina não encontramos, seja a acumulação regular de fatos e teorias, seja as revisões radicais e revolucionárias dos paradigmas dominantes, seja o confronto crítico de enfoques alternativos em condições de testes cruciais.”

A ORIGEM DAS ESPÉCIES: Sobre a origem das espécies, por meio da seleção natural ou A preservação de raças favorecidas na luta pela vida – Charles Darwin, 1859. Trad. Daniel Moreira Miranda, ed. Jair Lot Vieira & Maíra Lot Vieira Micales, ed., prefácio e notas de Nelio Bizzo, professor da USP e membro da Royal Society of Biology de Londres, doutor especialista nos escritos de Darwin, 1970 (EDIPRO, 2018).

PREFÁCIO

O editor, John Murray, anunciava para aquela venda de fim de ano o lançamento de um livro muito aguardado, pois revelaria os mistérios que envolviam o desaparecimento de mais de cem tripulantes da expedição mais ousada daquela época. Após numerosas tentativas, finalmente retornara à Inglaterra o capitão McClintock(*) com seu relato dos achados dos dois navios desaparecidos anos antes no rigoroso inverno do Ártico. Seu relato era dramático, com revelações inéditas de seus grandes achados, como o diário de bordo de Sir Franklin,(**) o experiente comandante da missão coberta de mistério, revelando o dia exato e as circunstâncias de sua morte. Já havia sido noticiado o achado de um esqueleto e dois corpos congelados de membros da desesperada tripulação, ainda vestindo roupas europeias. O livro traria até mesmo as figuras com a estampa do tecido das mortalhas encontradas.

(*) Francis Leopold McClintock (1819-1907), membro da Marinha Britânica, serviu em diversas expedições para localizar o paradeiro da expedição desaparecida no Ártico, entre 1848 e 1859, quando retornou em setembro de 1859, recebendo em seguida o título de Sir.

(**) Sir John Franklin (1786-1847), oficial da Marinha Britânica, que se notabilizou pela exploração dos mares polares, pioneiro no mapeamento da Antártida e do Ártico.”

O livro do capitão McClintock, preparado em apenas sessenta dias, um prazo incrível até para os editores da atualidade, permitia entender em detalhes o que ocorrera com a tripulação dos dois navios encalhados no mar congelado, caminhando até caírem, um a um, mortos por desnutrição, escorbuto e frio. § Essa história é tão dramática e comovente que incentivou buscas até nos nossos dias. Em setembro de 2016, foram encontrados, em surpreendente bom estado de conservação, os destroços do naufrágio do HMS Erebus e do HMS Terror, imponentes navios de mais de trezentas toneladas, sepultados no fundo mar do Ártico. Eles eram, já em seu tempo, exemplares da supremacia tecnológica britânica e até mesmo orgulho nacional, pois haviam sido originalmente construídos para missões de guerra, o que explicava sua robusta estrutura interna. Equipados com potentes obuses, capazes de lançar bombas mortíferas a grande distância, possuíam estrutura adaptada para resistir tanto ao ricochete do disparo de grandes petardos como a choques com icebergs, inaugurando a linha de navios quebra-gelo. De fato, o HMS Terror servira na Guerra de 1812,(*) com seus dois obuses e dez canhões bombardeando o Forte McHenry, em Baltimore, em setembro de 1814, uma batalha que inspirou a letra do atual hino dos Estados Unidos da América.(**)

(*) A Guerra de 1812 é vista, pelos britânicos, como parte das guerras napoleônicas, mas, como envolveu batalhas pela posse de terras americanas, é tida também como a Segunda Guerra de Independência na perspectiva estadunidense.

(**) [Kitsch] A letra do hino nacional dos Estados Unidos foi baseada no poema A defesa do Forte McHenry e fala dessa batalha na qual ‘bombas eram lançadas ao ar’, algumas delas provenientes desse vaso de guerra, posteriormente reformado para exploração polar.”¹

¹ Até o parnasianismo do Ouviram do Ipiranga… é melhor do que isso!

O sucesso imediato desse aguardado livro certamente impulsionou as vendas de outros da mesma fornada, entre eles A origem das espécies.(*)

(*) O título original, On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life, foi simplificado para The Origin of Species na 6ª edição pelo próprio Darwin, versão que se tornou famosa e prevaleceu até os dias de hoje. Por conta do reconhecimento público do título reduzido esta edição o adotou, embora traga, na verdade, uma tradução do texto da 1ª edição da obra, livre das diversas alterações posteriores. (N. E.)”

Se depois de centenas ou milhares de anos já era possível reconhecer em chácaras e sítios formas muito diferentes de galinhas, pombos, couves, rabanetes e ervilhas, o que não seria possível encontrar em florestas cheias de formas de vida após milhões de anos? Essa era a essência do pensamento darwiniano, apresentado de maneira cristalina na primeira edição, aqui traduzida, permitindo explicar a diversidade biológica de nosso planeta em bases científicas modernas. § Era bem conhecida a epopeia de Darwin em sua viagem ao mundo a bordo do HMS Beagle. Porém é interessante ressaltar que A origem das espécies se valia de achados também de expedições anteriores daqueles navios misteriosamente desaparecidos, dos quais tanto se fala desde 1859. Em uma delas, Joseph Hooker(*) realizou uma série de achados botânicos e paleontológicos a bordo do HMS Erebus que o notabilizou desde a juventude e que aparecia agora, pelas mãos do amigo Darwin, como evidências robustas da teoria da evolução. O ineditismo de plantas e animais das terras do hemisfério Sul teve papel central na argumentação de Darwin, que se valia das opiniões de especialistas, como o amigo botânico, ao lado do jovem Huxley,(**) zoólogo que logo se juntaria na defesa do evolucionismo.

(*) Joseph Dalton Hooker (1817-1911), embora médico de formação, foi um dos maiores botânicos ingleses de sua época, tendo participado da expedição do HMS Erebus ao polo sul em 1839 com o capitão James Ross, em sua busca pioneira pelo polo sul magnético.

(**) Thomas Henry Huxley (1825-1895), zoólogo inglês que se notabilizou pela árdua defesa das ideias evolucionistas logo após a primeira edição de A origem das espécies, ganhando a alcunha de ‘o buldogue de Darwin’.”

Na época de Darwin não havia indícios suficientes para crer que todos os continentes tivessem formado um bloco único em passado remoto. Hoje há consenso entre os geólogos [de] que os continentes são jangadas da crosta terrestre a se deslocar lentamente. Essa teoria teria poupado muito trabalho mental a Darwin, e não apenas nos capítulos finais.”

Darwin então recorreu à supremacia imperial britânica, estendendo o poder de enfrentar e derrotar semelhantes sem piedade, fossem aborígenes neozelandeses, mamíferos marsupiais ou ervas sul-americanas.” “Se as gramíneas eram iguais na Inglaterra e nos pampas argentinos, isso seria explicado não pelos arquétipos ideais, mas pela superioridade das estirpes britânicas.” Grande tolinho.

(*) “Richard Owen (1804-1892), zoólogo inglês de grande destaque em sua época, realizou estudos de anatomia comparada e estabeleceu o conceito de homologia, muito utilizado por Darwin, atual até nossos dias. (…) Owen e Louis

Agassiz, ao lado de seu predecessor Georges Cuvier, despontaram como ícones da oposição ao pensamento evolucionista darwiniano.”

(*) “Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873), naturalista suíço, foi aluno de Cuvier e do famoso Humboldt, antes de imigrar para os Estados Unidos e trabalhar na criação do Museu de Zoologia Comparada da Universidade de Harvard, em 1859, tendo sido seu primeiro diretor, até sua morte.”

(*) “Georges Cuvier (1769-1832), famoso anatomista e político francês, ficou famoso por estabelecer métodos de estudos de esqueletos de vertebrados e atestar que os fósseis não eram restos de um Dilúvio Universal, mas de animais extintos, embora se mantivesse como ferrenho opositor das ideias evolucionistas de seu tempo.”

Para Darwin, que já tinha respeitável estatura científica nos domínios geológicos naquela década, a ideia ajudava a entender muito da distribuição geográfica atual, em especial a similaridade das biotas da Europa e América do Norte. Mamutes, lobos e ursos, pinheiros e ciprestes, poderiam ter transitado livremente por gélidas, porém sólidas, pontes, contudo derretidas pelo clima mais quente que se seguiu.”

A descoberta de fósseis de eqüinos na América, onde o cavalo moderno foi reintroduzido pelos colonizadores europeus e se reproduziu sem limites, era explicada esplendidamente pela lógica da mudança climática global recente, que levara à extinção uma forma que agora se mostrava plenamente adaptada àquele mesmo ambiente em época anterior ao domínio do gelo.” A cavalo dado se olham os dentes colonizadores.

Hoje, a ideia de mudanças climáticas globais nos parece óbvia, mas, em escala planetária, ela teve em Charles Darwin um de seus primeiros defensores. Mal sabia ele que esta ideia seria, até nossos dias, crucial para compreender a chegada do ser humano ao continente americano. Não por acaso, até hoje os que se recusam a aceitar a evolução biológica também rejeitam a ideia de mudanças climáticas globais antropogênicas.” Embora por motivos diferentes (dinheiro no segundo caso, já que o criacionismo não interfere em nada com o presente imediato – a não ser que sirva de consolo na cabeça do culpado: se essa espécie se extinguir, foi porque Deus quis; e ele poderá recriá-la, já que é onipotente).

Estava bem assentada em Aristóteles a ideia de equilíbrio estático na Natureza, vista como eterna e imutável, na qual não há carência nem desperdício, que nada falta ou excede ao necessário, que cada característica tem uma finalidade específica a explicar sua existência, e que nada ocorre por acaso.”

Como explicar o desaparecimento de espécies em um mundo em perfeito equilíbrio estático? O desaparecimento de uma única forma, de um único pilar, faria vir ao chão os andaimes da Criação!”

A DERROCADA DO UTILITARISMO: “Qual a utilidade das asas do ganso das ilhas Malvinas se ele é incapaz de voar? Qual a utilidade dos olhos do tuco-tuco sul-americano, frequentemente infeccionados, se ele vive na escuridão dos túneis escavados debaixo dos campos gaúchos? O que faz um pica-pau endêmico nessas paragens se ali não há árvores?”

E no entanto… utilidades do pensamento de Jeremy Bentham: “defendeu o bem-estar social como dever do Estado, direitos iguais para homens e mulheres, direito ao divórcio e, ao mesmo tempo, fim de diversas práticas sociais, como escravidão, pena de morte, castigos físicos; além disso, propôs a descriminalização da homossexualidade. Ele estendia aos animais o direito à felicidade, evitando sofrimentos, e foi um dos primeiros defensores dos direitos animais! Só faltou a coletivização dos meios de produção.

Justamente ao discutir as ideias do utilitarismo britânico, que via nas variações dos seres vivos formas de evitar a monotonia aos olhos humanos, ele percebeu que poderia explicar as variações entre as raças humanas, ‘tão fortemente marcadas’ por meio da ‘seleção sexual de um tipo particular’. Quando escreveu essas palavras, ele tinha em sua escrivaninha os diversos volumes do livro de seu estimado James Cowles Prichard, que discutia as raças humanas, utilizando inclusive pranchas coloridas, outra sofisticação gráfica para a época.” “Como fazer em poucos parágrafos o que havia tomado a Prichard vários volumes? Assim, apenas em seu livro de 1871, Descent of Man, [intraduzido?] Darwin pôde discutir ‘com muitos detalhes’ seus pontos de vista sobre a ação da seleção sexual nas raças humanas.”

Desde o primeiro ensaio, escrito em 1844, Darwin destaca o ritual de acasalamento do dancing rock-thrush. Seu nome foi posteriormente retificado para rock-thrush of Guiana em todas as edições desta obra, na seção sobre seleção sexual. O nome aparece traduzido para o português como ‘melro’ ou ‘tordo-das-rochas’ desde a edição portuguesa de 1913. A confusão se justifica, vez que o nome popular rock thrush, na Inglaterra de meados do século XIX, designava a espécie Monticola saxatilis, descrita desde os tempos de Lineu. No entanto, nenhuma espécie dessa família (Muscicapidae) ocorre na Guiana nem em lugar algum do Novo Mundo. Ademais, os melros não praticam ritual de acasalamento incomum ou ‘dançante’… Na verdade, Darwin se equivocou, pois se referia ao Guianan cock-of-the-rock, ou seja, o galo-da-serra-do-pará (Rupicola rupicola). Essa bela ave da fauna brasileira, após mais de um século de injustiça e anonimato, ganhou justa homenagem na quarta capa desta edição.”

 

O capítulo final de A origem das espéciesabsolutamente inspirado, profético e grandioso – manteve a mesma estrutura da primeira à última edição. Ele é testemunha não apenas da solidez do argumento evolucionista como também da necessidade de alcançar o grande público por meio de algumas concessões. Darwin escreve não somente para os especialistas, mas também (e ao mesmo tempo) para o grande público, o que, aliás, explica a alternância de estilos literários ao longo do livro.(*)

(*) E a profusão de notas inseridas por este prefaciador e revisor técnico ao longo dos capítulos, pelo que se escusa antecipadamente.” Eu te entendo, amiguinho, eu te entendo. Sou viciado em interpolar textos – às vezes os meus próprios textos!

Com um siso e um apêndice, e munido de mais nada, o homem matou o rei-na-barriga que tinha em si desde os primórdios.

Alerta: “projeto inteligente” é um sinônimo utilizado pelos pérfidos pastores ou biólogos criacionistas para “criacionismo”, então… ¡date cuenta!

Ao ler esta primeira edição, fica o leitor preservado dessas titubeantes inserções, das quais o autor dirá ter se arrependido, em carta endereçada a Hooker em 1863, sem, contudo, produzir qualquer efeito no texto das edições seguintes.”

Toda nota é técnica dentro de uma nota técnica.

(*) “Cuvier tinha realizado a dissecação de uma mulher sul-africana (Sarah ‘Saartjie’ Baartman) em seu controvertido ‘Observations sur le cadavre d’une femme connue à Paris et à Londres sous le nom de Vénus hottentote (1817).” WIKIA: “Saartjie (que se pronuncia «Sarqui») pode ser considerado equivalente ao português «Sarinha». (…) Mediante um pagamento extra, os seus exibidores permitiam aos visitantes tocar-lhe as nádegas, cujo invulgar volume (esteatopigia) parecia estranho e perturbador ao europeu da época. § A sua exibição em Londres causou escândalo, tendo a sociedade filantrópica African Association criticado a iniciativa e lançado um processo em tribunal. Durante o seu depoimento, Sarah Baartman declarou, em neerlandês, não se considerar vítima de coação e ser seu perfeito entendimento que lhe cabia metade da receita das exibições. O tribunal decidiu arquivar o caso, mas o acórdão não foi satisfatório, devido a contradições com outras investigações, pelo que a continuação do espetáculo em Londres tornou-se impossível.” Um inglês tenderá a ser justo, exceto numa ocasião: quando dinheiro está em jogo. + “No fim de 1814, Saartjie foi vendida a um francês, domador de animais, que viu nela uma oportunidade de enriquecimento fácil. Considerando que a adquirira como prostituta ou escrava, o novo dono mantinha-a em condições muito mais duras. Foi exposta em Paris, tendo de aceitar exibir-se completamente nua, o que contrariava o seu voto de jamais exibir os órgãos genitais. As celebrações da reentronização de Napoleão Bonaparte no início de 1815 incluíram festas noturnas. A exposição manteve-se aberta durante toda a noite e os muitos visitantes bêbados divertiram-se apalpando o corpo da indefesa mulher. § O anatomista francês Georges Cuvier e outros naturalistas visitaram-na, tendo sido objeto de numerosas ilustrações científicas no Jardin du Roi. O corpo foi totalmente investigado e medido, com registo do tamanho das nádegas, do clitóris, dos lábios e dos mamilos para museus e institutos zoológicos e científicos. Com a nova derrota de Napoleão, o fim do seu governo e a ocupação da França pelas tropas aliadas em junho de 1815, as exposições tornaram-se impossíveis. Saartje foi levada a prostituir-se e tornou-se alcoólatra.” Napoleão exerceu certas influências maléficas em coisas de “somenos” importância que mal poderíamos acreditar… Enfim, repulsivo.

É só o começo! “Após sua morte, o corpo de Baartman foi enviado para o laboratório de George Cuvier, no Museu Nacional de História Natural, para exames. Cuvier queria analisar seus genitais para testar sua teoria de que quanto mais ‘primitivo’ era o mamífero, mais acentuados seriam seus órgãos sexuais e desejo sexual. Baartman recusou-se a ser um experimento, enquanto estava viva. Com a permissão da polícia, Cuvier, que acumulou a maior coleção do mundo de espécimes humanos e animais, realizou uma autópsia no corpo de Baartman. Primeiro, ele fez um molde do corpo, então ele preservou o cérebro e genitais. (…) Cuvier, que conhecera Baartman, observou em sua monografia que o seu objeto de estudo era uma mulher inteligente, com uma memória excelente, especialmente para rostos. Além de sua língua nativa, ela falava neerlandês fluentemente, tinha um inglês razoável e algum conhecimento de francês. Ele descreve os ombros e costas dela como ‘graciosos’, com ‘braços delgados’, mãos e pés como ‘encantadores’ e ‘bonitos’. Ele acrescenta que ela era adepta de berimbau de boca, dançava de acordo com as tradições de seu país e tinha uma personalidade alegre. Apesar disso, ele interpretou seus restos mortais, de acordo com suas teorias sobre evolução racial, como a manifestação de traços semelhantes a macacos.” Um pouco de alívio ao final: “O caso ganhou proeminência mundial só depois de Stephen Jay Gould escrever The Hottentot Venus na década de 1980. Após a vitória do Congresso Nacional Africano na eleição geral na África do Sul em 1994, o presidente Nelson Mandela solicitou formalmente que a França devolvesse os restos mortais. Depois de muita disputa legal e debates na Assembleia Nacional Francesa,¹ o governo francês aceitou o pedido em 6 de março de 2002. Seus restos mortais foram repatriados para sua terra natal, o vale do rio Gamtoos, em 6 de maio de 2002[,] e eles foram enterrados em 9 de agosto de 2002, sobre Vergaderingskop, uma colina na cidade de Hankey, mais de 200 anos depois de seu nascimento. (…) O Centro Saartjie Baartman para mulheres e crianças, um refúgio para sobreviventes de violência doméstica, foi inaugurado na Cidade do Cabo em 1999.”

¹ Debater o quê, cretinos?

Ele fez previsões testáveis, muitas das quais se comprovaram empiricamente, como a origem da baleia a partir de um mamífero terrestre, em vez do aperfeiçoamento de um réptil marinho, como pensavam muitos.”

Mais sobre Nelio Bezzo: “É pesquisador 1A do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), coordenador científico do Núcleo de Pesquisa em Educação, Divulgação e Epistemologia da Evolução ‘Charles Darwin’, ligado à Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, e do Projeto Temático BIOTA-FAPESP/Educação, que congrega pesquisadores da USP, UFABC, UNIFESP, USCS e do Instituto Butantan.”

INTRODUÇÃO

(*) “Darwin viajou no Beagle como convidado do capitão e tinha de arcar com suas despesas, de alimentação inclusive. Se fosse, de fato, o naturalista de bordo, todo o material coletado pertenceria ao almirantado e Darwin não poderia dele dispor como bem quisesse, como de fato ocorreu. (N.R.T.)” O destino escreve certo por linhas tortas (#chupacriacionismo).

Espero ser desculpado por entrar em detalhes pessoais, mas eu os ofereço para mostrar que não tomei decisões apressadas. “ Se, p.ex., Fraud esperasse 20 anos para publicar suas “conclusões” teríamos nos livrado de 80% das asneiras que redigiu! Um homem de ciência não se apressa…

(*) “Darwin trabalhava no que ele chamava de Big Species Book (Grande livro das espécies) quando foi surpreendido pela carta recebida de Wallace.”

Fui particularmente induzido a publicar este resumo, pois o senhor Wallace [Alfred Russel Wallace (1823-1913)], que hoje está estudando a história natural do arquipélago malaio, chegou quase exatamente às mesmas conclusões gerais que as minhas sobre a origem das espécies.” Um dos pares de descobridores simultâneos mais conhecidos.

(*) “Charles Lyell (1797-1875), advogado e geólogo britânico, publicou Principles of Geology em 3 volumes entre 1830 e 1833.” Ao passo que hoje não existem nem meios-advogados nem meios-geólogos, se formos aferir seus dons… até o séc. XIX a polimatia ou semi-polimatia parecia o estado natural para uma certa nata de burgueses, pequeno-burgueses ou aristocratas…

Ao pensar sobre a origem das espécies, é bastante concebível que um naturalista, refletindo sobre as afinidades mútuas dos seres orgânicos, suas relações embriológicas, suas distribuições geográficas, suas sucessões geológicas e outros fatos semelhantes, possa chegar à conclusão de que cada espécie não tenha sido criada independentemente, mas que tenha descendido, como variação, de outras espécies. No entanto essa conclusão, ainda que bem fundamentada, seria insatisfatória até que pudesse ser demonstrado como as inúmeras espécies que habitam o mundo foram modificadas para que atingissem a perfeição de suas estruturas e coadaptação que tanto inspiram nossa admiração.”

(*) “seiva xilemática das plantas (antigamente, chamada seiva bruta)” Será que meus livros-textos do ensino fundamental já são antigamente?!

O PRIMEIRO NATURALISTA IN VITRO: “No início de minhas observações, me pareceu que o estudo cuidadoso de animais domesticados e plantas cultivadas provavelmente ofereceria a melhor oportunidade para elucidar esse problema obscuro. Não fiquei decepcionado; nesse e em todos os outros casos desconcertantes, percebi invariavelmente que nosso conhecimento sobre a variação por meio da domesticação, mesmo sendo imperfeito, oferecia as melhores e mais seguras pistas.”

Evocando N.: Sobrevivência do mais forte falando em coletividades é um oximoro, uma vez que quanto mais bem-sucedida é uma espécie, mais ela se propaga e, portanto, mais ela está submetida às leis da restrição da população. O gênio, até na natureza, é de vidro. Apenas o medíocre é persistente e perdurável.

Embora muito ainda permaneça obscuro, e continuará assim por muito tempo, eu, após o estudo mais meticuloso e o julgamento mais imparcial de que sou capaz, não tenho dúvidas de que a posição sustentada pela maioria dos naturalistas – e sustentada também por mim anteriormente –, ou seja, de que cada uma das espécies foi criada independentemente, é falsa.” Dizer textualmente que o homem veio do macaco é, tecnicamente, contradizer Darwin. Mas tem-se de ser algo melhor do que estúpido para percebê-lo. O homem veio da primeira célula procarionte, esta seria a frase mais correta.

1. A VARIAÇÃO NA DOMESTICAÇÃO

Parece bastante claro que os organismos devem ser expostos às novas condições de vida por várias gerações para que isso cause um nível apreciável de variação; e, assim que o organismo começa a variar, ele geralmente continua a variar por muitas gerações. Não há casos registrados de que o cultivo tenha feito com que uma variedade da espécie deixasse de ser variável. Nossas mais antigas plantas de cultivo, como o trigo, ainda costumam gerar novas variedades: nossos mais antigos animais domesticados ainda podem sofrer um rápido aprimoramento ou modificação.De certo modo, isso já refuta a ‘seleção natural’: são os animais domésticos, que recebem fartura alimentar e não disputam contra outros pela sua sobrevivência, que são mais mutáveis e heterogêneos, dir-se-ia, superiores.

(*) “Note a insistência de Darwin ao tomar as ’monstruosidades’ como variedades, ou seja, como parte de um estado natural dos seres vivos, o que contrariava a tradição aristotélica, que as via como exceções inexplicáveis, pois incompatíveis com a ideia de perfeição da natureza, ideia ainda muito presente na história natural anglicana da época.”

(*) “Aqui Darwin fala de sua Teoria da Pangênese, ainda sem nomeá-la. Ele fará uma exposição mais detida apenas em 1868, em seu Variations of Animais and Plants under Domestication.”

mas a principal é a consequência notável que o cativeiro ou o cultivo tem sobre as funções do sistema reprodutivo; este sistema parece ser muito mais sensível do que qualquer outra parte do organismo à ação de qualquer alteração nas condições de vida. Nada é mais fácil do que domar um animal, e poucas coisas são mais difíceis do que fazê-los procriar livremente em cativeiro, e isso nem mesmo, em muitos casos, quando o macho e a fêmea se unem.” Nem para cães e gatos há exceção?

Quantos animais existem que não se reproduzem, apesar de já viverem há muito tempo em cativeiro não muito rigoroso em sua região nativa! Isso costuma ser atribuído à invalidação dos instintos; mas quantas plantas de cultivo exibem grande vigor e, ainda assim, raramente ou nunca produzem sementes!”

para mostrar como as leis que determinam a reprodução dos animais em cativeiro são singulares, posso apenas mencionar que os animais carnívoros, mesmo os dos trópicos,[?] cruzam neste país [Inglaterra] de forma bastante livre quando estão em cativeiro, com exceção dos plantígrados, isto é, a família dos ursos; no entanto, as aves carnívoras, com raras exceções, quase nunca põem ovos férteis. O pólen de muitas plantas exóticas é completamente inútil, estando na mesma condição dos mais estéreis híbridos. Quando, por um lado, vemos animais e plantas domesticados, embora muitas vezes fracos e doentes que, ainda assim, reproduzem-se de forma livre em cativeiro; e quando, por outro lado, vemos indivíduos que, embora tenham sido retirados ainda jovens da natureza, são perfeitamente domados, vivendo por muitos anos e saudáveis (dentre os quais eu poderia citar inúmeros casos) e que, apesar disso, possuem seus sistemas reprodutivos tão gravemente afetados por causas não observadas a ponto de não funcionarem, então não devemos nos surpreender quando esses sistemas não funcionam em cativeiro de forma razoavelmente regular e produzem crias que não são perfeitamente semelhantes a seus pais ou a variações próximas a eles.

Dizem que a esterilidade é a ruína da horticultura; mas, sobre este ponto de vista, a variabilidade assenta-se sobre a mesma causa que produz a esterilidade; e a variabilidade é a fonte das melhores produções de um jardim. Devo ainda dizer que alguns organismos procriarão de forma mais livre em condições mais artificiais (por exemplo, o coelho e o furão mantidos em jaulas), mostrando que seu sistema reprodutivo não foi afetado; assim, o mesmo vale para alguns animais e plantas que toleram a domesticação ou o cultivo e sofrerão pequenas variações, talvez não mais do que em seu estado natural.”

(*) “Darwin utiliza a expressão sporting plants entre aspas, demonstrando certa discordância em tomá-las como simples sports of nature, uma maneira de contornar as dificuldades do mundo estático de Aristóteles, mas ainda sem a conotação de mutações em sentido moderno.”

esses casos mostram que a variação não está necessariamente ligada, como alguns autores acreditam, ao ato de geração.”

As mudas da mesma fruta e as crias da mesma ninhada são às vezes bastante diferentes entre si, embora tanto as crias quanto os progenitores, conforme observou Muller, tenham sido aparentemente expostos a exatamente as mesmas condições de vida; e isso mostra a pouca importância dos efeitos diretos das condições de vida em comparação com as leis da reprodução, do crescimento e da hereditariedade; (…) No caso de qualquer variação, é bastante difícil decidirmos o quanto devemos atribuí-la à ação direta do calor, da umidade, da luz, da alimentação, etc.”

Desse ponto de vista, as experiências recentes do senhor Buckman [James Buckman (1816-1884)] com plantas parecem extremamente valiosas.”

em alguns casos, o aumento de tamanho [ocorre] devido à quantidade de alimentos, a [mudança da] cor devido a certos tipos de alimentos e à luz; e, talvez, a espessura da pelagem [varie] devido ao clima.” O que não ocorre com o homem (que está em seu natural?) – o homem mais se modificou quando estava em cativeiro na própria natureza, na sua era ágrafa!

Nos animais há um efeito mais acentuado [do hábito]; descobri, por exemplo, que, em relação a todo o esqueleto do pato doméstico, os ossos das asas ficam menos pesados e os ossos das patas ficam mais pesados do que os mesmos ossos do pato selvagem.” Don’t fly, just walk!

O aumento – grande e herdado – do úbere de vacas e cabras em países onde elas são habitualmente ordenhadas, em comparação com o estado desses órgãos em outros países, é outro exemplo do efeito do uso. Não há um único animal doméstico que não tenha, em alguma região, orelhas caídas; parece algo provável o ponto de vista sugerido por alguns autores de que tal fato ocorre devido ao desuso da musculatura da orelha, pois os animais não se alarmam muito com o perigo.”

Nas monstruosidades, as correlações entre partes bastante distintas são muito curiosas; e muitos exemplos são oferecidos por Isidore Geoffroy St. Hilaire em sua grande obra sobre o tema.”

os gatos com olhos azuis são invariavelmente surdos” Refutado.

Karl von Heusinger (1792-1883), médico alemão.”

Os cães sem pêlos têm dentes imperfeitos; animais de pelo longo ou áspero estão propensos a ter, como se afirma, chifres longos ou muitos chifres; pombos com pés emplumados têm pele entre os dedos mais longos; pombos com bico curto têm pés pequenos e aqueles com bicos longos têm pés grandes.”

leis misteriosas da correlação de crescimento”

Vale a pena estudar os vários tratados publicados sobre algumas de nossas antigas plantas de cultivo, como o jacinto, a batata, até mesmo a dália, etc.; e é realmente surpreendente observar os pontos infindáveis da estrutura e da constituição nos quais as variedades e subvariedades diferem ligeiramente entre si.”

Quaisquer variações não-hereditárias não são importantes para nós. Mas são quase infinitas a quantidade e a diversidade dos desvios hereditários estruturais, tanto os pequenos quanto os de considerável importância fisiológica. O tratado do doutor Prosper Lucas sobre o assunto, em dois grandes volumes, é o melhor e mais completo material sobre o tema.”

Por sorte, há todo tipo de antepassado nesse mundo, do mais vil ao mais divino (falo do atavismo – não é o tópico da conversação de Darwin neste momento).

Quando surge um desvio freqüente e verificado no pai e no filho, não podemos afirmar que o desvio ocorreu por uma mesma causa original que atuou em ambos os indivíduos; mas, por outro lado, quando entre os indivíduos aparentemente expostos às mesmas condições verificamos qualquer desvio muito raro devido a uma extraordinária combinação de circunstâncias que surja no ascendente – digamos, apenas uma vez dentre vários milhões de indivíduos – e que reapareça no filho, a mera doutrina das probabilidades quase nos obriga a atribuir sua reaparição à hereditariedade.”

As leis que regem a hereditariedade são bastante desconhecidas; não sabemos por que a mesma peculiaridade em diferentes indivíduos da mesma espécie e em indivíduos de espécies diferentes é por vezes herdada e por vezes não; por que a criança muitas vezes reverte a certas características de seu avô ou avó ou de outro ancestral mais remoto(*)” Agora sim.

(*) “Aqui aparece a primeira referência ao ‘princípio da reversão’, que explicaria o reaparecimento de uma característica de ancestral próximo ou ‘mais remoto’. Trata-se de assunto doloroso para Darwin, que havia acabado de perder um filho com 2 anos, batizado com seu nome (Charles), com síndrome de Down, vista à época como um tipo de ‘reversão mongólica’. O assunto será aprofundado logo adiante.” Que estultícia britânica.

Tem pouca importância para nós o fato de que as peculiaridades que aparecem nos machos de nossas criações domésticas sejam freqüentemente transmitidas exclusivamente ou em um grau muito maior apenas aos machos. Uma regra muito mais importante, e que me parece confiável, é que, independentemente do período da vida em que uma peculiaridade apareça pela primeira vez, ela tenderá a surgir na prole em uma idade correspondente, embora às vezes ocorra mais cedo.”

Mas as doenças hereditárias e alguns outros fatos me fazem acreditar que a regra tem uma extensão mais ampla e que, não havendo qualquer razão aparente para que alguma peculiaridade apareça em uma certa idade específica, ela realmente tenderá a surgir na prole no mesmo período em que apareceu pela primeira vez nos pais. Eu acredito que essa regra é extremamente importante para explicar as leis da embriologia. Essas observações, claro, aplicam-se apenas ao primeiro surgimento da particularidade e não à sua causa primária, que pode ter ocorrido nos óvulos ou no elemento masculino”

farei referência neste ponto a uma afirmação muitas vezes feita pelos naturalistas, ou seja, que nossas variedades domesticadas, quando se tornam novamente selvagens, gradual mas certamente readquirem as características de seus ancestrais. Portanto, foi argumentado que não se pode projetar deduções com base em raças domésticas para explicar espécies em estado natural. Em vão, me esforcei para descobrir em que fatos decisivos a afirmação acima foi tantas vezes e tão corajosamente feita.” “podemos seguramente concluir que muitas das variedades domésticas mais fortemente distintas não conseguiriam, em nenhuma hipótese, viver em estado selvagem. Em muitos casos, não sabemos como eram seus ancestrais e então não poderíamos dizer se a reversão quase perfeita teria ou não ocorrido.”

Se conseguíssemos demonstrar que nossas variedades domesticadas manifestaram uma forte tendência para a reversão – ou seja, para perder suas características adquiridas, enquanto as condições são mantidas inalteradas e as variedades são mantidas em um grupo consideravelmente grande, para que o cruzamento livre possa cancelar, por meio da mistura, qualquer pequeno desvio de estrutura –, então, nesse caso, garanto que não poderíamos deduzir nada sobre as espécies com base nas variedades domésticas.”

Devo acrescentar que, quando em estado natural, as condições de vida são alteradas e provavelmente ocorrem variações e reversões das características, mas a seleção natural, como explicado mais adiante, determina até que ponto as novas características que assim surgem devem ser preservadas.”

os naturalistas diferem bastante em relação à determinação das características de valor genérico, pois todas essas avaliações são até agora empíricas.”

Seria muito interessante se pudéssemos esclarecer (…) se (…) o galgo, o bloodhound,(*) o terrier, o spaniel e o buldogue – que, como todos sabemos, propagam sua espécie de forma tão exata – são descendentes de uma única espécie. Tais fatos teriam grande peso para fazer-nos duvidar da imutabilidade das muitas espécies naturais muito afins, como, por exemplo, o caso das muitas raposas que habitam diferentes regiões do mundo. Eu não acredito, como veremos em breve, que todos os nossos cães sejam descendentes de apenas uma espécie selvagem; mas, no caso de algumas outras raças domésticas, existem provas circunstanciais ou até mesmo fortes evidências a favor dessa perspectiva.” Todo puro-sangue é na verdade um vira-lata laureado.

(*) Bloodhound: “cão de santo Humberto”. “Manterei o nome das raças inglesas em sua língua original, exceto o bulldog, que foi dicionarizado como buldogue.”

Costuma-se supor que o homem optou pela domesticação de animais e plantas que possuíam uma extraordinária tendência inerente para variar e, da mesma forma, para resistir a diferentes climas.” Ele não teria como sabê-lo a priori. “quando um selvagem domesticou um animal pela primeira vez, como ele poderia saber se iriam ocorrer variações nas gerações seguintes, ou se este animal resistiria a outros climas?” Talvez porque nunca houve uma primeira vez. O “selvagem” (figura mítica) não saberia nem que diabos é “clima”!

Não tenho dúvidas de que se outros animais e plantas, em número igual ao de nossas criações domesticadas e igualmente pertencentes a diversas classes e regiões, fossem tirados de seu estado de natureza e se fosse possível fazer com que eles se reproduzissem por um número igual de gerações sob domesticação, eles iriam variar, em média, tanto quanto têm variado as espécies progenitoras de nossas criações domesticadas atuais.” Exemplo: se pudessem criar um urso polar num freezer gigante. Alegar-se-ia que se o faz em zoológicos de países “temperados” (quase polares), mas não é a mesma coisa.

O principal argumento invocado por aqueles que acreditam na origem múltipla de nossos animais domésticos é o fato de encontrarmos grande diversidade de raças nos registros mais antigos, especialmente nos monumentos do Egito; e que algumas das raças se assemelham e talvez sejam idênticas às ainda existentes. Mesmo que se descobrisse que isso é mais estrita e geralmente verdadeiro do que me parece ser o caso, o que demonstraria, senão que algumas de nossas raças originaram-se naquele local há 4 ou 5 mil anos? [um piscar de olhos insignificante] Mas as pesquisas do senhor Horner [(1785-1864), geólogo escocês] mostram a possibilidade de que homens suficientemente civilizados possam ter fabricado a cerâmica existente no vale do Nilo há 13 ou 14 mil anos; assim, quem poderá afirmar quanto tempo antes desses períodos antigos já havia selvagens, assim como já existiam na Terra do Fogo ou na Austrália, que possuíam cães semidomesticados no Egito?(*)” Nunca confiar nos capciosos egípcios.

(*) “Darwin está respondendo a réplicas de autoridades eclesiásticas, desafiadas pelos achados da invasão de Napoleão no Egito.” De novo Napoleão!

…é altamente provável que nossos cães domésticos sejam descendentes de várias espécies selvagens.(*)

(*) Estudos moleculares modernos falharam em elucidar claramente a origem do cão doméstico, mas provavelmente a hipótese de Darwin se mantém válida, havendo indicações de mais de um evento de domesticação no passado, possivelmente há 33 mil anos, sendo que a(s) espécie(s) ancestral(is) teria(m) sido extinta(s).” Der Urhund oder die Urhunde?

[Já] no que diz respeito aos cavalos, por razões que não posso oferecer aqui, estou mesmo inclinado a acreditar, em oposição a vários autores, que todas as raças descendem de um único grupo selvagem. O senhor Blyth,¹(*) cujo parecer, fruto de seu grande e variado conhecimento, eu devo valorizar mais do que a opinião de qualquer outra pessoa, acredita que todas as raças de galinhas originam-se da ave indiana selvagem comum (Gallus bankiva).(**)”

¹ Doctor Blyth! Será Togashi tão versado e eclético?!

(*) “Edward Blyth (1810-1873), zoólogo inglês, curador do museu da Sociedade Asiática Real de Bengala, em Calcutá, na Índia”

(**) “A nomenclatura moderna para o galo banquiva é Gallus gallus bankiva, uma subespécie do galo vermelho selvagem (Gallus gallus). O galo doméstico (Gallus gallus domesticus) é considerado outra subespécie, que não deriva diretamente do galo banquiva, de acordo com estudos moleculares recentes de DNA mitocondrial, embora tenham parentesco próximo.”

A doutrina segundo a qual as nossas várias raças domésticas teriam se originado de várias unidades populacionais aborígenes foi levada a um absurdo extremo por alguns autores. Eles acreditam que todas as raças que conseguem se reproduzir de forma correta, mesmo que suas características distintivas sejam extremamente sutis, possuem um protótipo selvagem. Segundo este raciocínio, é preciso que tenha existido pelo menos uma vintena de espécies de gado selvagem, o mesmo número de ovelhas e vários tipos de cabras somente na Europa e outras várias apenas dentro da Grã-Bretanha. Um desses autores acredita que, somente na Grã-Bretanha, existiram onze espécies únicas de ovelhas selvagens! Quando levamos em conta que o país atualmente mal possui um mamífero peculiar, que a França tem apenas alguns diferentes da Alemanha e vice-versa e que o mesmo vale para a Hungria, Espanha, etc., e que, além disso, se notarmos que cada um desses reinos possui diversas raças peculiares de gado, ovelhas, etc., então devemos aceitar que muitas raças domésticas originaram-se na Europa; pois, de onde mais poderiam ter surgido, já que nenhum entre esses vários países conta com um número de espécies peculiares que suporte grupos ancestrais distintos?”

Quem pode acreditar que animais tão parecidos com o galgo italiano, o bloodhound, o buldogue, o spaniel de Blenheim, (imagem) etc., que são tão diferentes de todos os Canidae selvagens, tenham existido livremente em estado natural?”

J. Sebright realizou experimentos com esse objetivo específico e fracassou.” (criar deliberadamente novas raças de cães) “A prole do primeiro cruzamento entre duas raças puras é tolerável e, às vezes (como observei entre os pombos), extremamente uniforme, e tudo parece suficientemente simples; mas quando esses mestiços são cruzados uns com os outros por várias gerações, dificilmente teremos dois espécimes iguais e, desse modo, a tarefa se mostra extremamente difícil, ou melhor, totalmente desencorajadora.”

Sobre as raças de pombos domésticos

Acreditando que é sempre melhor estudar um grupo especial, escolhi, após refletir sobre o assunto, os pombos domésticos. Além de ter mantido todas as raças que consegui comprar ou obter, também fui generosamente agraciado com espécimes empalhadas vindas de várias regiões do mundo, mais especialmente da Índia e da Pérsia, enviadas pelos honoráveis W. Elliot e C. Murray, respectivamente. Muitos tratados sobre pombos foram publicados em diferentes línguas, alguns deles são muito importantes por serem consideravelmente antigos. Associei-me a vários grandiosos criadores e fui aceito em dois clubes londrinos de criadores de pombos.”

(*) “English carrier, em inglês. Os nomes das linhagens de pombos ingleses serão dados em sua língua original, exceto o pombo-correio (carrier) e o pombo-das-rochas (rock pigeon, rock dove), também conhecido como pombo comum, pombo doméstico ou por seu nome binomial Columba livia. (N. T.)”

short-faced tumbler”

Muitas aves batizam redes sociais. Redes sociais gospel! Uma IA antropomorfizada chamada Paloma para um app de relacionamentos só para crentelhos!… Pare com essas idéias já, laico herege!

Pouter

O pombo-correio, mais especialmente o macho, também é notável pelo maravilhoso desenvolvimento de uma carúncula em torno da cabeça, e isso é acompanhado por pálpebras muito alongadas, narinas muito grandes e uma abertura ampla do bico.” “O pombo barb é afim do pombo-correio mas, em vez de ter bico muito longo, tem um bico muito curto e muito largo. O pouter tem corpo, asas e pernas muito alongados; seu papo extremamente desenvolvido, que ele infla com orgulho, bem pode causar espanto e até mesmo risos.” “O jacobin tem as penas ao longo da parte dorsal do pescoço tão invertidas a ponto de formarem uma capa, e ele tem, proporcionalmente ao seu tamanho, penas muito alongadas nas asas e na cauda. O trumpeter e o laugher, conforme indicado por seus nomes, proferem sons muito diferentes dos emitidos pelas outras raças. O fantail tem 30 ou até mesmo 40 penas na cauda, em vez de 12 ou 14, o número normal para todos os membros da grande família dos pombos; além disso, essas penas são mantidas abertas e são tão eretas que, em aves bem formadas, a cabeça e a cauda se tocam; a glândula de óleo(*) é bastante atrofiada.

(*) Trata-se da glândula uropigiana, que produz um muco oleoso, espalhado com o bico sobre as penas para impermeabilizá-las. Darwin dedicou especial atenção a órgãos atrofiados, que causavam desconforto aos naturalistas anglicanos da tradição aristotélica.”

O tamanho e a forma das cavidades torácicas são altamente variáveis; o mesmo vale para o grau de divergência e tamanho relativo dos dois ramos da fúrcula.(*) A largura proporcional da abertura da boca, o comprimento proporcional das pálpebras, do orifício das narinas, da língua (nem sempre em estrita correlação com o comprimento do bico), o tamanho do papo e da parte superior do esôfago; o desenvolvimento e a atrofia da glândula sebácea; o número de penas primárias da asa e da cauda; o comprimento relativo entre as asas, a cauda e o corpo; o comprimento relativo entre pernas e pés; o número de pequenas escamas nos dedos, o desenvolvimento da pele entre os dedos, são todos pontos variáveis da estrutura. O período dentro do qual a plumagem perfeita é adquirida varia, e o mesmo vale para o estado de cobertura da plumagem das aves filhotes ao nascerem. A forma e o tamanho dos ovos variam. A forma do voo difere bastante, o que também ocorre, em algumas linhagens, com a voz e a disposição. Por fim, em determinadas linhagens, machos e fêmeas são levemente diferentes.

(*) Trata-se do osso popularmente conhecido como ‘forquilha’.”

Mesmo que as diferenças entre as linhagens de pombos sejam grandes, estou totalmente convencido de que a opinião comum dos naturalistas está correta, ou seja: todas elas descendem do pombo-das-rochas (Columba livia)(*)” Vemos que nessa época os naturalistas estavam para os ornitólogos (meros catalogadores) como os filósofos estão para os filólogos.

(*) “Darwin compartilhava a ideia dos criadores de seu tempo, a qual foi confirmada por grande número de estudos posteriores, inclusive recentes. Algumas subespécies da atualidade podem ser linhagens ferais, ou seja, originadas de indivíduos domesticados que passaram a viver livremente e que, com o passar das gerações, manifestam algumas características selvagens.”

Além disso, ao cruzarmos duas aves pertencentes a duas linhagens distintas, sendo que nenhuma delas é azul nem tem qualquer uma das marcas especificadas acima, a prole mestiça fica repentinamente bastante apta a adquirir essas características; por exemplo, eu cruzei alguns fantails uniformemente brancos com alguns barbs uniformemente pretos e eles produziram aves malhadas de castanho e aves pretas; em seguida, cruzei estas aves novamente. Um dos netos do fantail branco e do barb preto nasceu com uma bela cor azul, com a anca branca, uma dupla faixa preta nas asas e barradas e penas afiladas de branco na cauda, como qualquer outro pombo-das-rochas selvagem!”

falo em 12 ou 20 gerações pois não conhecemos casos de descendentes que tenham revertido para algum ancestral separado por um número maior de gerações. No caso de uma linhagem que tenha sido cruzada apenas uma vez com uma linhagem distinta, a tendência de reversão para quaisquer características derivadas de tal cruzamento será, naturalmente, cada vez menor, pois em cada nova geração haverá menos sangue alheio; mas quando não houve nenhum cruzamento com uma linhagem distinta e há em ambos os pais a tendência de reversão das características perdidas em alguma geração anterior, então essa tendência (apesar de toda evidência contrária) pode ser transmitida sem alterações para um número indefinido de gerações.”

Por último, os híbridos ou mestiços de todas as linhagens domésticas de pombos são perfeitamente férteis. Posso afirmar isso com base em minhas próprias observações, propositadamente feitas com as mais diferentes linhagens. Agora, é difícil, talvez impossível, apresentar algum caso de descendentes híbridos e perfeitamente férteis gerados por dois animais claramente distintos.”

Em quarto lugar, os pombos têm sido acompanhados e cuidados com muita dedicação, bem como amados por muitas pessoas. Eles têm sido domesticados há milhares de anos em várias regiões do mundo; o registro mais antigo relacionado aos pombos pode ser encontrado na quinta dinastia egípcia, por volta de 3000 a.C., como foi dito para mim pelo professor Lepsius;(*) mas o senhor Birch(**) informou-me que os pombos aparecem em um cardápio da dinastia anterior. Nos tempos dos romanos, como ouvimos de Plínio, os pombos atingiam preços altíssimos; ‘além disso, chegaram ao ponto de darem conta do pedigree e da raça dos pombos’.

(*) Karl Richard-Lepsius (1810-1884), arqueólogo alemão.

(**) Samuel Birch (1813-1885), egiptólogo inglês.”

Há uma circunstância bastante favorável para a produção de linhagens distintas: pombos machos e fêmeas podem, facilmente, formar casais para toda a vida; e, assim, diferentes linhagens podem ser mantidas juntas no mesmo aviário.” Incesto (digamos endogenia, pois o conceito é impróprio para animais, que não estão na esfera ética) e seus males.

Tratei da provável origem dos pombos domésticos de forma um pouco longa, mas bastante insuficiente; a primeira vez que criei pombos e observei os vários tipos, sabendo bem que as crias mantêm as características dos pais, senti extrema dificuldade em acreditar que eles pudessem ser descendentes de um pai comum, como poderia ocorrer com qualquer naturalista ao chegar a uma conclusão semelhante em relação às muitas espécies de tentilhões ou outros grandes grupos de aves, na natureza. Uma circunstância me impressionou muito: todos os criadores dos vários animais domésticos e os cultivadores de plantas com quem conversei, ou cujos tratados li, estão firmemente convencidos de que as várias linhagens tratadas por cada um deles são descendentes de espécies aborígenes distintas. Pergunte, como eu perguntei, a um célebre criador de gado hereford se o seu gado poderia ser descendente da raça longhorn, e ele rirá de você com desprezo. Nunca conheci um apreciador de pombos, galináceos, patos ou coelhos que não estivesse totalmente convencido de que cada linhagem principal é descendente de uma espécie distinta. Jean Baptiste van Mons (1765-1842) mostra, em seu tratado sobre as pêras e as maçãs, quão grande é sua descrença na possibilidade de que os vários tipos, por exemplo, de maçãs ribston-pippin ou codlin, possam ter procedido das sementes de uma mesma árvore. (…) por conta de seus estudos contínuos e prolongados, eles ficaram fortemente impressionados com as diferenças entre as diversas raças; e embora eles bem saibam que cada raça varia ligeiramente, pois eles ganham seus prêmios ao selecionar essas pequenas diferenças, eles ainda ignoram todos os argumentos gerais, eles se recusam a sintetizar em suas mentes as pequenas diferenças acumuladas durante muitas gerações sucessivas. Será que aqueles naturalistas – que sabem muito menos sobre as leis da hereditariedade do que os criadores e que sabem tanto quanto eles sobre as conexões intermediárias das longas linhas de descendência, mas que, mesmo assim, admitem que muitas de nossas raças domésticas são descendentes dos mesmos pais – não poderiam aprender a ter cautela quando zombam da ideia de espécies em estado natural serem descendentes lineares de outras espécies?” Darwin não liga para erros de amadores, por mais crassos: mas que alguns naturalistas (supostos cientistas) ajam de maneira mais estúpida que os mais sábios dos colecionadores ou que todo colecionador com bom senso e capacidade de síntese, isso sim é indigno para a profissão e para um homem!

Seleção

Eu nem sabia que existem raças que são usadas como cavalos de carga que morreriam ou seriam péssimas disputantes como cavalos de corrida, e vice-versa…

Não supomos que todas as linhagens tenham sido produzidas repentinamente da forma tão perfeita e útil como as vemos hoje; com efeito, sabemos que em vários casos essa não é sua história. A chave da questão é o poder do homem para realizar uma seleção acumulativa: a natureza nos dá as sucessivas variações; o homem adiciona variações em determinadas direções úteis para si. Nesse sentido, pode-se dizer que o homem produz linhagens úteis para si mesmo.

É certo que vários dos nossos maiores criadores conseguiram modificar algumas raças de gado e ovelhas de forma significativa, mesmo no período de uma única vida humana. Para compreendermos bem o que eles fizeram, é quase necessário lermos alguns dos muitos tratados dedicados ao assunto e avaliar os próprios animais. Os criadores costumam referir-se aos organismos dos animais como algo plástico que pode ser modelado quase que da forma que desejarem.” O problema é que havia não-cientistas já cientes do processo de seleção, mas que se imaginavam deuses por poder manipular à vontade a seleção natural mediante sua mesquinha seleção artificial. Pequenos homens! Num mundo em eterno retorno, quantas variantes de cabeças, bicos, penas, garras de pássaros vocês não acham que existem por mero atavismo?!?

É a varinha do mágico, por meio da qual ele pode trazer à vida quaisquer formas e modelos que desejar.” Youatt, William. Sheep: Their Breeds, Management, and Diseases, to Which Is Added the Mountain Shepherd’s Manual. Londres: Baldwin and Cradock, 1837, p. 60.

Na Saxônia, a importância do princípio da seleção em relação às ovelhas merino é tão plenamente reconhecida que os homens o seguem como um negócio: as ovelhas são colocadas em uma mesa e são analisadas assim como um especialista estuda uma pintura; isso é feito três vezes, com intervalos de meses; nesses períodos as ovelhas são marcadas e classificadas para que a melhor seja, por fim, selecionada para reprodução.”

A melhoria não se deve de uma forma geral ao cruzamento de raças diferentes; todos os melhores criadores opõem-se fortemente a esta prática, exceto às vezes entre sub-raças muito próximas. E quando esse tipo de cruzamento é realizado, eles devem fazer uma seleção muito mais rigorosa do que a realizada nos casos normais. Se a seleção consistisse em apenas separar alguma variedade bastante distinta e reproduzir a partir dela, o princípio seria tão óbvio que nem valeria a pena ser notado; mas sua importância consiste no grande resultado produzido pela acumulação em uma única direção, durante sucessivas gerações, de diferenças absolutamente inapreciáveis para os olhos incultos; diferenças que eu tentei apreciar em vão.” O achatamento do focinho dos fofos lhasas e shitzus: muita endogamia, endogamia contínua da prole que surgisse com focinhos mais achatados que os de seus irmãos, etc.

Nem um homem em mil tem olhos tão precisos e é tão criterioso para se tornar um importante criador.” Está mais para croupier.

Os mesmos princípios são seguidos pelos horticultores; mas as variações nesse campo são frequentemente mais abruptas.” É como pular de romances franceses dum mesmo século direto para HQs e mangás: claro que a diferença se torna muito mais pronunciada entre cada “produção”.

Se compararmos as flores dos dias atuais com os desenhos feitos apenas há vinte ou trinta anos, notaremos uma melhora surpreendente nas flores de muitos floristas.” Imagina como os lótus da Índia Antiga deviam ser feios… A não ser… quantos milhares de anos de “seleção humana” já haviam transcorrido antes dos Vedanta?

Quando uma raça de plantas já está bem-estabelecida, os produtores de sementes já não escolhem as melhores plantas, mas vão simplesmente até suas plantações e arrancam as ‘daninhas’ (rogues), como eles chamam as plantas que se desviam do padrão adequado.” “quase ninguém é tão descuidado a ponto de permitir que seus piores animais procriem.(*)

(*) [Crux!] Darwin utilizará essa frase novamente em 1871, em seu livro Origem do homem, ao abordar a questão da eugenia: ‘Mas, com exceção do caso do próprio homem, dificilmente alguém é tão ignorante para permitir que seus piores animais procriem’.” O pior é não estabelecer compulsoriamente que aristocratas devam se casar com plebeus e somente com eles! Em pouco tempo os neo-aristocratas melhorarão consideravelmente…

amor-perfeito (Viola tricolor)”

note como os frutos dos vários tipos de groselheiras diferem em tamanho, forma, cor e pilosidade, mas, mesmo assim, como suas flores apresentam diferenças muito pequenas. Não podemos dizer que as variedades muito diferentes em alguma característica não tenham quaisquer diferenças em outras características; isso quase nunca, ou talvez nunca, ocorre.”

É possível rejeitar o princípio da seleção ao afirmar que ele se tornou uma prática metódica há apenas pouco mais de três quartos de século; certamente demos maior atenção a ele nesses últimos anos e muitos tratados têm sido publicados sobre o assunto; posso ainda acrescentar que o resultado disso tem sido correspondentemente rápido e importante. Mas está muito longe de ser verdade que o princípio é uma descoberta moderna.”

O princípio da seleção encontra-se claramente apresentado em uma antiga enciclopédia chinesa.” Mas aqui seleção quer dizer algo muito simples.

Certas passagens do Gênesis não deixam dúvidas de que, já naquele tempo, cuidava-se da cor dos animais domésticos. Os selvagens atuais às vezes cruzam seus cães com animais caninos selvagens para melhorar a raça, e faziam o mesmo no passado, conforme podemos ler em certas passagens de Plínio, o Velho. [bibliografia não-confiável]

As alterações lentas e insensíveis deste tipo nunca poderiam ser reconhecidas, a menos que medições reais ou desenhos impecáveis das linhagens em questão já viessem sendo feitos há muito tempo para que pudéssemos compará-las.” Às vezes esqueço que D. não tinha sequer a arte da fotografia a seu dispor.

Por um processo semelhante de seleção e pelo treinamento cuidadoso, os cavalos de corrida ingleses superam sua linhagem árabe paterna em velocidade e tamanho, ao ponto de esta última, de acordo com os regulamentos das corridas de Goodwood, ser favorecida pelo peso que carrega.”

Youatt oferece uma excelente ilustração dos efeitos de um processo de seleção que pode ser considerado inconsciente, já que os criadores não esperavam, ou nem mesmo desejavam, ter produzido o resultado que se seguiu, a saber, a produção de duas linhagens distintas. Os dois rebanhos de ovelhas leicester mantidos pelos senhores Buckley e Burgess, conforme observa o senhor Youatt, ‘foram criados a partir de linhagens puras do grupo de animais originais do senhor Bakewell por mais de 50 anos. Dentre aqueles que estão familiarizados com o caso, não há a mínima suspeita de que os proprietários desses dois rebanhos tenham se desviado do rebanho puro-sangue do senhor Bakewell mas, ainda assim, a diferença entre as ovelhas de cada um desses dois senhores é tão grande que elas parecem ser variedades completamente diferentes’.”

Mesmo que existam selvagens tão bárbaros a ponto de nunca pensarem sobre as características herdadas dos descendentes de seus animais domésticos, um animal que seja particularmente útil a eles para qualquer finalidade especial será cuidadosamente preservado durante períodos de carestia e outras adversidades às quais os selvagens estão tão expostos, e esses melhores animais geralmente deixariam, dessa forma, mais descendentes do que os inferiores a eles; assim, estaríamos neste caso observando um tipo de seleção inconsciente.”

em tempos de escassez, eles matam e devoram as mulheres velhas, pois elas têm menos valor que seus cães.(*)Qualquer inglês metendo-se a antropólogo antes do século XX só fala asneiras.

(*) “Darwin reproduz informação recebida na viagem do Beagle, um mito repetido desde o século XVI. Em 1888, ficou bem estabelecido ser totalmente falso.”

Ninguém espera obter um amor-perfeito de primeira qualidade ou uma dália a partir da semente de uma planta selvagem. Ninguém espera obter uma pêra que derrete na boca e de primeira qualidade a partir da semente de uma pêra selvagem, embora se possa ter sucesso a partir de uma muda de sementes fracas que estivesse crescendo em local selvagem, mas cuja origem fosse uma espécie doméstica. A pêra, embora cultivada na época clássica, parece, pela descrição de Plínio, ter sido um fruto de qualidade muito inferior.”

Já que foram necessários séculos ou milhares de anos para aprimorar ou modificar a maioria de nossas plantas até seu presente padrão de utilidade para o homem, então podemos entender por que não recebemos nem uma única planta de cultivo da Austrália, do Cabo da Boa Esperança ou de qualquer outra região habitada por homens incivilizados. Não que esses países, tão ricos em espécies, não possuam por um estranho acaso¹ os grupos aborígenes de quaisquer plantas úteis, mas as plantas nativas não foram aprimoradas pela seleção contínua até atingirem um padrão de perfeição comparável ao oferecido, na Antiguidade, às plantas dos países civilizados.”

¹ Na verdade foi o europeu que sempre arruinou seu solo, pois não passa de um bárbaro que se cultivou às expensas dos asiáticos e africanos, incluindo aí o atual território da Grécia.

O homem dificilmente pode selecionar, ou só com muita dificuldade, qualquer desvio de estrutura, excetuando aqueles que são externamente visíveis; e de fato ele raramente se importa com o que é interno. O homem somente consegue agir por meio da seleção após ter visto algum tipo de modificação ligeira ocorrida na natureza.”

Mas utilizar a expressão ‘tentar criar um fantail’ é, não tenho dúvidas, na maioria dos casos, totalmente incorreto.” Tirou as palavras de minha boca.

faz parte da natureza humana valorizar quaisquer novidades, mesmo que pequenas, daquilo que tem em mãos.” Na era da reprodutibilidade técnica, ainda mais.

O ganso comum não deu origem a qualquer grande variedade; por isso a linhagem comum e a linhagem thoulouse, que diferem apenas na cor (a característica mais fugaz de todas), têm sido apresentadas nas exposições de aves domésticas como se fossem linhagens distintas.” Ué, mas você acabou de dizer que são linhagens distintas!

não sabemos nada sobre a origem ou a história de nossas linhagens domésticas.” Não sabemos de porra nenhuma, nunca. Primeira lição!

Mas, na verdade, dificilmente podemos dizer que uma linhagem, assim como o dialeto de uma língua, tenha uma origem definitiva.” Golpe de gênio.

A manutenção de um grande número de indivíduos de uma espécie em uma região requer que as espécies sejam expostas a condições favoráveis de vida, a fim de procriarem livremente naquela região.”

Já vi comentado de forma muito séria que, afortunadamente, os morangos apenas passaram a variar quando os horticultores começaram a cuidar dessa planta com mais atenção. Sem dúvida, desde que são cultivados, os morangos sempre variaram, mas as pequenas variações foram negligenciadas.” “as muitas variedades admiráveis de morango dos últimos trinta ou quarenta anos.” Love is red.

Os pombos podem formar casais por toda a vida; isso é bastante conveniente para os apreciadores, pois assim muitas raças podem ser mantidas puras, mesmo que convivam no mesmo aviário; e esta circunstância deve ter favorecido bastante o aprimoramento e a formação de novas linhagens.” Na verdade segundo sua própria teoria teria criado mais monstruosidades… Sobre o acasalamento em família, Plínio estava certo!

Por outro lado, os gatos, por causa de seus hábitos noturnos e de perambularem, não podem ser facilmente cruzados e, embora muito valorizados pelas mulheres e crianças, raramente vemos uma linhagem distinta; as linhagens por vezes encontradas quase sempre são importadas de outros países, muitas vezes de ilhas. Embora eu não duvide de que alguns animais domésticos variem menos do que outros, a raridade ou ausência de raças distintas de gatos, burros, pavões, gansos, etc. pode ser atribuída principalmente ao fato de a seleção não ter sido posta em prática: nos gatos, por causa da dificuldade de acasalamento; nos burros, por serem criados por pessoas pobres e da pouca atenção que é dada à sua reprodução; nos pavões, por sua difícil criação e pela manutenção de pequenos grupos; nos gansos, por serem valiosos apenas para duas finalidades, alimento e penas; e, de forma mais específica, porque as pessoas não sentem prazer em exibir raças distintas deste animal.” Quanto ódio ao bichinho!

2. A VARIAÇÃO NA NATUREZA

(*) “O termo ‘monstruosidades’ (grego terata) foi utilizado por Aristóteles para designar os seres com órgãos sem finalidade de linhagens domésticas, como a planta que produz a couve-flor. O termo foi continuamente utilizado pelos naturalistas, inclusive por Lineu.”

(*) “John Lubbock (1834-1913), entomologista e antropólogo, um jovem brilhante que freqüentava a casa de Darwin, tendo sido por ele muito estimulado. De uma família de banqueiros, seguiu carreira nas finanças, mas também se tornou um cientista evolucionista muito respeitado.”

(*) “Lubbock publicou, em 1858, estudos sobre a anatomia interna de um inseto conhecido como cochonilha (à época, chamado Coccus hesperidium), de grande interesse econômico, de onde se extrai um corante vermelho (ácido carmínico) com largo emprego até hoje, inclusive na indústria alimentícia (corante E 120). Em seu artigo, ele escreveu que ’o sistema nervoso, longe de ser similar em todos os espécimes, variava de maneira muito extraordinária’.”

Os gêneros que são polimórficos em uma região parecem ser, com algumas poucas exceções, polimórficos em outras regiões e, julgando pelas conchas dos braquiópodes, também em períodos anteriores. Esses fatos são muito desconcertantes, pois parecem mostrar que esse tipo de variabilidade independe das condições de vida. Estou inclinado a suspeitar que observamos nestes gêneros polimórficos variações em pontos da estrutura que não servem nem prejudicam a espécie e que, conseqüentemente, não foram tomadas nem aceitas como definitivas pela seleção natural, como será explicado daqui por diante.”

Na prática, quando um naturalista consegue, por meio de formas com características intermediárias, unir duas formas, ele tratará uma como sendo variedade da outra, chamando de espécie a mais comum (ou às vezes aquela que foi descrita em primeiro lugar) e a outra de variedade.”

Compare a flora da Grã-Bretanha, da França ou dos Estados Unidos descrita por diferentes botânicos e note o número surpreendente de formas que foram classificadas por um botânico como uma espécie boa e por outro como mera variedade.”

(*) “Hewett Cottrell Watson (1804-1881), botânico pioneiro no estudo da distribuição das plantas (biogeografia) que se correspondeu intensamente com Darwin; publicou os relatos de sua expedição feita em 1842 aos Açores e, em 1845, publicou na revista Phytologist um artigo sobre Desenvolvimento Progressivo.”

Há muitos insetos nas ilhotas do pequeno grupo da Madeira que foram caracterizados como variedades na admirável obra do senhor Wollaston mas que, sem sombra de dúvida, seriam classificados como espécies distintas por muitos entomologistas. Até mesmo a Irlanda tem alguns animais que são geralmente considerados como variedades mas que foram classificados como espécies por alguns zoólogos. Vários dos ornitólogos mais experientes consideram nosso faisão vermelho (L. lagopus) como apenas uma raça fortemente distinta de uma espécie norueguesa, mas a maioria o classifica como uma espécie indubitável e peculiar à Grã-Bretanha.”

A distância entre a América e a Europa é grande, mas será que é suficiente a distância entre o continente e os Açores ou a ilha da Madeira, as Canárias ou a Irlanda?”

Certamente, ainda não há uma linha clara de demarcação entre espécies e subespécies, isto é, entre as formas que, na opinião de alguns naturalistas, estejam muito próximas mas não cheguem a compor uma espécie; ou, além disso, entre subespécies e variedades bem-marcadas, ou entre as variedades menores e as diferenças individuais. Essas diferenças misturam-se entre si em uma série imperceptível; e a série imprime na mente a ideia de uma passagem real.”

A passagem de uma fase de diferenciação para outra mais elevada pode se dever, em alguns casos, apenas à longa ação contínua de diferentes condições físicas de duas regiões diferentes; mas eu acredito muito pouco neste ponto de vista; e eu atribuo a passagem de uma variedade – que migra de um estado em que ela difere ligeiramente de seus progenitores para outro em que a diferença é maior – à ação da seleção natural, que acumula (como será daqui por diante mais plenamente explicado) diferenças de estrutura em determinadas direções definitivas.”

Se uma variedade florescesse a ponto de ultrapassar o número de indivíduos da espécie materna, então aquela seria classificada como a espécie e a espécie como a variedade; ou ela poderia suplantar e exterminar a espécie materna; ou ambas poderiam coexistir, e ambas seriam classificadas como espécies diferentes.”

Dessa forma, as que mais florescem ou, conforme dizemos, as espécies dominantes – aquelas que estão amplamente distribuídas por todo o mundo – são as mais difundidas em sua própria região e são as que possuem maior número de indivíduos, que com maior freqüência produzem variedades bem-marcadas ou, conforme eu as chamo, espécies incipientes.”

Um livro muito mais confuso, sem a atmosfera de clássico, do que eu poderia imaginar.

John Obadiah Westwood (1805-1893), An Introduction to the Modern Classification of Insects: founded on the natural habits and corresponding organization of the different families, Londres, 1839-1840.

Os gêneros maiores, portanto, tendem a tornar-se ainda maiores; e, em toda a natureza, as formas de vida que agora são dominantes tendem a tornar-se ainda mais dominantes, deixando muitos descendentes dominantes modificados. Mas, por etapas que serão explicadas adiante, os gêneros maiores também tendem a se dividir em gêneros menores. E, assim, as formas .de vida em todo o universo tendem a se dividir em grupos subordinados a outros grupos.” Mistura abstrações que extrapolam com constatações um tanto óbvias.

3. LUTA PELA EXISTÊNCIA

Já vimos que, por meio da seleção, as pessoas conseguem produzir grandes resultados e adaptar os seres orgânicos para seu próprio uso através da acumulação de pequenas, mas úteis, variações, dadas a eles pelas mãos da Natureza. No entanto a seleção natural, como veremos adiante, é um poder que está sempre pronto para agir e é imensamente superior aos fracos esforços do ser humano, da mesma forma como o são as obras da Natureza quando comparadas às obras de arte. § Trataremos agora um pouco mais detalhadamente da luta pela existência. Esse assunto será discutido com mais abrangência em uma obra futura, conforme ele bem merece.” Sempre com essas evasivas e adiamentos…

Costumamos ver a face lustrosa da natureza com alegria, muitas vezes vemos a superabundância de alimentos; mas não vemos, ou esquecemos, que os pássaros, que cantam à toa em nosso entorno, vivem principalmente de insetos ou sementes e estão, portanto, constantemente destruindo a vida (…) nem sempre temos consciência de que, embora a comida possa ser superabundante no presente, isso não é o que ocorre em todas as estações de cada novo ano.

Devo estabelecer que uso o termo luta pela existência em sentido amplo e metafórico, que inclui a dependência de um ser em relação a outro e, ainda mais importante, que inclui não só a vida do indivíduo, mas o sucesso em deixar descendentes.”

É a teoria de Malthus aplicada com forças múltiplas a todo o mundo dos reinos animal e vegetal; pois não há neste caso como ocorrer nenhum aumento artificial da quantidade de alimentos nem restrições discricionárias aos casamentos.”

Lineu calculou que, se uma planta anual produzir apenas duas sementes (sendo que não existe qualquer planta tão improdutiva como essa), suas mudas produzirão mais duas no ano seguinte e assim por diante e, em vinte anos, haverá 1 milhão de plantas. O elefante é tido como o reprodutor mais lento de todos os animais conhecidos; dei-me ao trabalho de estimar sua provável taxa mínima de crescimento natural: admitindo que sua reprodução comece aos trinta anos e continue até noventa, dando à luz três pares de jovens reprodutores neste intervalo; se fosse assim, no final do quinto século haveria 15 milhões de elefantes vivos descendentes do primeiro casal.”

se as declarações sobre a taxa de aumento do gado e de cavalos na América do Sul e mais tarde na Austrália não estivessem tão bem-documentadas, seria bastante difícil dar crédito a elas.” Só tem crédito o que fede a Europa?

Várias das plantas mais numerosas atualmente na grande planície de La Plata, cobrindo algumas léguas quadradas da superfície e quase à exclusão de todos os outros vegetais, foram trazidas da Europa;(*) e existem plantas – importadas da América desde a sua descoberta – que hoje estão distribuídas pela Índia e, pelo que eu soube pelo doutor Falconer, espalham-se desde o Cabo Comorin até o Himalaia.

(*) Darwin se baseia na opinião dos botânicos da época, inclusive Lineu, sobre as gramíneas sul-americanas. Hoje se sabe que este exemplo não é correto. No entanto o argumento geral é válido, como em Galápagos, onde há centenas de espécies invasoras, inclusive a goiabeira.”

Em tais casos, a progressão geométrica do aumento, cujo resultado nunca deixa de ser surpreendente, simplesmente explica o crescimento extraordinariamente rápido de indivíduos e a ampla difusão desses seres vivos em seus novos lares.”

Nossa familiaridade com os animais domésticos maiores tende, assim imagino, a nos enganar: não vemos neles nenhuma grande destruição e esquecemos que milhares são abatidos anualmente para nos alimentar; além disso, em estado natural, um número igual de organismos também é eliminado de alguma forma.”

A única diferença entre organismos que produzem anualmente milhares ou apenas alguns poucos ovos ou sementes é que os procriadores lentos precisariam de alguns anos a mais para povoar, em condições favoráveis, uma região inteira, mesmo que esta fosse enorme. O condor bota um par de ovos e o avestruz, vinte, e, ainda assim, na mesma região o condor pode ser o mais numeroso dos dois; a procelária (imagem, também conhecida como pardela-preta) coloca apenas um ovo, e acredita-se no entanto que seja a ave mais numerosa do mundo. Certa mosca deposita centenas de ovos, e outras, como as da família Hipobboscidae, um único; mas essa diferença não determina quantos indivíduos das duas espécies podem ser mantidos em uma região.”

a verdadeira importância de um grande número de ovos ou sementes é compensar a grande destruição que pode ocorrer em algum período da existência; e, na grande maioria dos casos, este período ocorre na fase inicial da vida.” “Para manter o número total de uma árvore que viva mil anos, em média, basta que uma única semente seja produzida uma vez a cada mil anos, supondo que esta semente nunca seja destruída e haja garantia de que germinará em local adequado. Assim, em todos os casos, o número médio de indivíduos de qualquer animal ou planta depende apenas de forma indireta do número de ovos ou sementes produzidos por ele.” De acordo, mas isso é lógica de jardim-de-infância.

Diminua um obstáculo, mitigue levemente a destruição e o número das espécies aumentará quase instantaneamente para quantidades cada vez maiores. A face da Natureza pode ser comparada a uma superfície macia coberta com 10 mil cunhas¹ afiadas e muito próximas umas das outras, as quais são empurradas para baixo por golpes incessantes, às vezes uma cunha sendo atingida e, então, outra sendo atingida com mais força.(*) E para D. essa imagem ainda cheia de candura era terrível!

¹ Instrumento para rachar lenha

(*) “Essa última sentença foi excluída nas edições seguintes.” Alegação de genocídio divino!

Não sabemos exatamente o que restringe o crescimento, nem mesmo em um único exemplo.”

No que se refere às plantas, há uma vasta destruição de sementes, mas, a partir de algumas observações que fiz, acredito que as mudas são as que mais sofrem, por germinarem em um terreno que já está densamente ocupado por outras plantas.” “Se deixarmos crescer o gramado cortado há muito tempo – ou mesmo um gramado repisado por quadrúpedes –, as plantas mais vigorosas, mesmo já sendo adultas, gradualmente matarão as menos vigorosas; assim, de 20 espécies que crescerem em uma área gramada (de 3 pés por 4, aproximadamente 1m²), 9 morrerão se deixarmos que outras espécies cresçam livremente.”

Se nenhuma caça fosse abatida durante os próximos vinte anos na Inglaterra e, ao mesmo tempo, se nenhum predador fosse destruído,(*) haveria, muito provavelmente, um menor número de animais de caça no futuro, apesar de centenas de milhares de animais de caça estarem sendo atualmente abatidos a cada ano.

(*) Darwin refere-se aos animais que prejudicavam os estoques de alimentos, que faziam parte da lista editada por Henrique VIII, em 1532, e ampliada por sua filha, que pagava uma recompensa pelo abate de falcões, raposas, etc., o chamado ‘Vermin Act’. As paróquias que não abatessem predadores eram multadas. Essa caça foi intensa até meados do século XVIII, e quase extinguiu diversos animais ‘nocivos’ na Inglaterra.”

mesmo o tigre da Índia raramente ousa atacar um elefante jovem protegido por sua mãe.” Culpa humana absoluta.

as estações periódicas de extremo frio ou as secas, acredito, são os controles mais eficazes de todos. Estimo que o inverno de 1854-1855 destruiu 80% das aves de meu próprio terreno; e essa pode ser considerada uma tremenda destruição quando nos lembramos que 10% constitui uma mortalidade extraordinariamente grave nas epidemias humanas.” Imagine se 1% da população brasileira morresse de Covid… Tudo indica que beiramos esse número… Calamidade.

(*) “Não deixa de ser evidente a visão de Darwin, compartilhando a ideologia da época, de que as plantas europeias exterminariam as dos demais continentes, mas nunca o inverso.” Burrice e prepotência cultivadas em estufa.

Quando uma espécie, devido a circunstâncias altamente favoráveis, aumenta excessivamente o número de seus indivíduos em uma pequena região, surgem epidemias; pelo menos isso é o que parece acontecer com frequência com nossos animais de caça: e aqui temos um controle limitador que independe da luta pela vida. Mas mesmo algumas dessas epidemias parecem ser causadas por vermes parasitas que – de alguma forma, e possivelmente em parte, através de sua fácil dispersão entre os animais aglomerados – foram desproporcionalmente favorecidos; e nesse caso surge uma espécie de luta entre o parasita e sua presa.”

Animais de pastagem são incríveis predadores até de árvores grandes e não-diretamente relacionadas com sua dieta (pinheiros), pois repisam e revolvem o solo de modo a matar muitas mudas.

se ocorresse no Paraguai um aumento no número de certas aves insetívoras (cujo limite de indivíduos é provavelmente regulado por falcões ou outros animais predadores), o número de moscas diminuiria, o gado e os cavalos se tornariam selvagens, e isso certamente causaria muitas alterações na vegetação (como de fato tenho observado em partes da América do Sul)”

oportunidade mais (r)adiante

(*) “Note-se o raciocínio da moderna ecologia, ao tratar de cadeias e teias alimentares, quando o nome dessa ciência sequer havia sido criado.” Glorificação injustificada de D.

A partir de experiências realizadas por mim, descobri que as visitas das abelhas, além de indispensáveis, são, no mínimo, altamente benéficas para a fertilização de nossos trevos; mas apenas as abelhas do gênero Bambus visitam o trevo vermelho, [Trifolium pratense] pois as outras abelhas não conseguem alcançar o seu néctar. Portanto, tenho pouquíssima dúvida de que se todas as abelhas do gênero Bambus desaparecessem ou se tornassem muito raras na Inglaterra, o amor-perfeito e o trevo vermelho também se tornariam raros ou desapareceriam completamente.”

Percebi que, perto de aldeias e cidades, o número de colmeias dessas abelhas era mais elevado do que em outros lugares. Atribuo esse fato ao número de gatos que matam os ratos.” Newman

Em todas as partes da Rússia, a pequena barata asiática tem levado consigo sua congênere, a grande. Uma espécie de mostarda substituirá outra, e o mesmo ocorrerá em outros casos. Podemos ver de forma vaga por que a competição é mais severa entre as formas mais próximas, que ocupam quase o mesmo lugar na economia da natureza;”

a vantagem de sementes plumadas está indubitavelmente relacionada com o fato de o terreno já estar densamente tomado por outras plantas; as plumas permitem que as sementes sejam levadas para mais longe e caiam em solo desocupado.”

Observe uma planta na sua região de distribuição; por que ela não duplica ou quadruplica o número de seus indivíduos? Sabemos que ela pode suportar muito bem um pouco mais de calor ou frio, umidade ou secura, pois em outros lugares ela se distribui por regiões ligeiramente mais quentes ou mais frias, mais úmidas ou mais secas. Nesse caso podemos ver claramente que, se quiséssemos imaginar a possibilidade de oferecer à planta o poder de aumentar o número de seus indivíduos, precisaríamos dar-lhe alguma vantagem sobre seus concorrentes, ou sobre os animais que as consomem. Nas fronteiras das regiões de sua distribuição geográfica, uma mudança em sua constituição legada ao clima seria claramente uma vantagem para nossa planta; mas temos razões para acreditar que somente algumas plantas ou alguns animais atingem uma distribuição tão ampla a ponto de poderem ser destruídos apenas pelo clima. A competição não deixará de existir até que cheguemos aos limites extremos da vida, nas regiões do Ártico ou nas fronteiras de uma região completamente desértica. O território pode ser extremamente frio ou seco, mas ainda haverá competição pelos pontos mais quentes ou mais úmidos entre algumas poucas espécies, ou entre os indivíduos da mesma espécie.”

a guerra da natureza não é incessante, o medo não é sentido, a morte é geralmente rápida e o vigoroso, o saudável e o feliz sobrevivem e se multiplicam.” Diferente do homem.

4. SELEÇÃO NATURAL

(lembrando que nascem muito mais indivíduos do que os que conseguem sobreviver)” Não a longuíssimo prazo, diria Jack Kerouac…

As variações que não são úteis nem prejudiciais não seriam afetadas pela seleção natural e funcionariam como um elemento flutuante, conforme notamos, talvez, nas espécies ditas polimórficas.”

Compreenderemos melhor o caminho provável da seleção natural ao tomarmos como exemplo o caso de uma região que esteja passando por alguma transformação física como, por exemplo, mudanças climáticas.” Ó! Mudanças climáticas, num universo regulado por deus (especificamente, Jeová)?! Que achado!

O excesso de notas de rodapé realmente é um incômodo desnecessário. Não era falsamente que o prefaciador pedia desculpas…

A seleção sexual é, portanto, menos rigorosa do que a seleção natural.”

Um cervo sem chifres ou um galo sem esporões teriam poucas chances de deixar descendentes.”

foi descrito que os jacarés machos brigam, rugem e giram pela posse das fêmeas como os índios em uma dança de guerra(*)

(*) Darwin repassa a informação sem investigá-la. Provavelmente se refere aos jacarés da Flórida (aligátores), cujos machos são territoriais e, embora não tenham cordas vocais, vocalizam expelindo água com ar inspirado, soando um rugido grave, capaz de atrair fêmeas e repelir outros machos.”

Apesar de os machos dos animais carnívoros já estarem bem armados, eles – e outros animais – podem ter recebido outros meios especiais de defesa por meio da seleção sexual: a juba do leão, a ombreira do javali e a mandíbula em forma de gancho do salmão macho, pois, para a vitória, um escudo pode ser tão importante quanto uma espada ou uma lança.”

Entre as aves, a luta muitas vezes tem um caráter mais pacífico. Todos aqueles que estudaram o tema acreditam que há uma rivalidade extremamente séria entre os machos de muitas espécies para atrair as fêmeas pelo canto.”

Sir R. Heron(*) descreveu como um pavão malhado era altamente atraente para todas as suas fêmeas. Pode parecer infantil atribuir qualquer efeito a tais meios aparentemente fracos: não poderei aqui dedicar-me aos detalhes necessários para oferecer suporte a essa perspectiva; mas se as pessoas, de acordo com seus padrões de beleza, conseguem em um curto espaço de tempo dar um porte elegante e beleza às suas garnisés, então não vejo nenhuma razão para duvidar que as aves fêmeas, selecionando durante milhares de gerações os machos mais melodiosos ou bonitos, de acordo com seu padrão de beleza, tenham produzido um efeito marcante.

(*) ” Refere-se ao relato de um caso de 1814 atribuído ao barão Robert Heron (1765-1854), presente no verbete ‘pavão’, publicado no volume 17 da famosa The Penny Cyclopedia for the Difusion of Useful Knowledge (1840).”

Sabemos que [nos gatos] a tendência para capturar ratos em vez de camundongos é hereditária.”

Nenhum naturalista põe em dúvida a vantagem do que tem sido chamado de ‘divisão fisiológica do trabalho’; portanto, acreditamos que seria vantajoso para uma planta produzir estames em apenas uma flor ou planta inteira, e pistilos apenas em outra flor ou planta.”

Passemos agora para os insetos que se alimentam de néctar em nosso caso imaginário: poderíamos supor que a planta cujo néctar estamos lentamente aumentando por meio da seleção contínua seja uma planta comum; e que certos insetos se alimentassem principalmente do néctar dela. Eu poderia enumerar muitos fatos que mostrassem a ansiedade das abelhas em economizar tempo; por exemplo, seu hábito de sugar o néctar por meio de um buraco feito por elas na base de certas flores nas quais poderiam entrar, com um pouco mais de trabalho, pela corola. Tendo tais fatos em mente, não enxergo nenhuma razão para duvidar que um desvio acidental no tamanho e na forma do corpo ou na curvatura e no comprimento da probóscide, etc. – algo demasiado pequeno para ser apreciado por nós –, poderia ser vantajoso para uma abelha ou outro inseto, e, dessa forma, um indivíduo com essas características seria capaz de obter seu alimento de modo mais rápido e, então, ter uma chance melhor de sobreviver e de deixar descendentes.”

Estou ciente de que esta doutrina da seleção natural, apresentada nos exemplos imaginários acima, está aberta às mesmas objeções que foram inicialmente oferecidas contra os nobres pontos de vista de Sir Charles Lyell em relação às ‘mudanças modernas da Terra como exemplos da geologia’; mas hoje em dia raramente ouvimos alguém dizer que a ação, por exemplo, das ondas costeiras seja uma causa fútil e insignificante quando usada para explicar as escavações de gigantescos vales ou para a formação das mais longas linhas de falésias interiores.”

Estou fortemente inclinado a acreditar que todos os hermafroditas precisam de dois indivíduos, de forma ocasional ou costumeira, para realizar a reprodução de sua espécie.” “A pesquisa moderna diminuiu muito o número de supostos hermafroditas e, dentre os hermafroditas verdadeiros, muitos deles também se unem; ou seja, dois indivíduos se unem regularmente para a reprodução, e isso é o que nos interessa. (…) a grande maioria das plantas é hermafrodita.”

lei geral da natureza: que nenhum organismo fertiliza-se a si mesmo por uma eternidade de gerações, mas que o cruzamento com outro indivíduo é indispensável – ainda que isso se dê ocasionalmente, talvez em intervalos muito longos.” Outra afirmação muito óbvia, mesmo para o séc. XIX.

as anteras e os pistilos da própria planta estão geralmente tão próximos uns dos outros que a autofertilização parece ser quase inevitável. Muitas flores, por outro lado, têm seus órgãos de frutificação estreitamente fechados, como é o caso da grande família das ervilhas ou papilionáceas; mas em várias dessas flores, talvez em todas elas, há uma adaptação muito curiosa entre a estrutura da flor e a maneira pela qual as abelhas sugam seu néctar; pois, ao fazê-lo, elas empurram o pólen da própria flor para o estigma, ou levam o pólen para outra flor.”

As abelhas atuarão como um pincel; é suficiente tocar as anteras de uma flor e depois o estigma de outra com o mesmo pincel para garantir sua fertilização; mas não devemos supor que as abelhas produziriam dessa forma uma infinidade de híbridos entre espécies distintas; pois, se você coloca o pólen da própria planta no pincel junto com o pólen de outra espécie, o primeiro tem um efeito tão preponderante que destrói invariável e completamente quaisquer influências de grãos de pólen externos, conforme foi demonstrado por Gärtner.”

há na Lobelia fulgens um artifício muito bonito e elaborado pelo qual cada um dos infinitamente numerosos grânulos de pólen são removidos das anteras de cada flor antes de o estigma das flores individuais estar pronto para recebê-los; e como esta flor nunca é visitada por insetos, pelo menos no meu jardim, ela nunca produz uma semente; apesar disso, consegui criar muitas sementes ao colocar o pólen de uma flor sobre o estigma de outra; enquanto isso, outra espécie de Lobelia, que cresce perto da primeira, é visitada por abelhas e produz sementes livremente.”

Quão estranhos são esses fatos! Quão estranho é o fato de o pólen e a superfície do estigma da mesma flor estarem tão próximos, mas – como se esse fato tivesse como objetivo a própria autofertilização – serem, em tantos casos, mutuamente inúteis uns para os outros! E quão simples tornam-se esses fatos se explicados pelo ponto de vista de que o cruzamento ocasional com um indivíduo distinto é vantajoso ou indispensável!”

lei geral segundo a qual as formas boas derivam do cruzamento entre indivíduos distintos da mesma espécie.” Me surpreende que os europeus tenham conservado seus princípios eugênicos por tanto tempo…

Voltando-nos brevemente aos animais: no ambiente terrestre há alguns hermafroditas, como lesmas, caracóis e vermes terrestres; mas todos eles se acasalam. Até este momento não encontrei nenhum animal terrestre que fertilize a si mesmo. Esse fato notável, que oferece um contraste tão forte com as plantas terrestres, pode ser entendido por meio da hipótese de um cruzamento ocasional ser indispensável, pois, tendo em conta o meio em que vivem os animais terrestres e a natureza de seu elemento fecundante, não conhecemos nenhuma maneira, análoga à ação dos insetos e do vento no caso das plantas, pela qual um cruzamento ocasional poderia ser realizado em animais terrestres sem a concordância de dois indivíduos.”

Durante muito tempo, pareceu-me que, sob esta hipótese, os crustáceos da infraclasse Cirripedia [cracas] apresentavam um caso bastante difícil; mas eu consegui, por um acaso feliz, provar que dois indivíduos podem cruzar, mesmo que os dois sejam hermafroditas que se autofertilizem.”

Mas se, de fato, todos os hermafroditas cruzam ocasionalmente com outros indivíduos, resulta muito pequena a diferença entre hermafroditas e as espécies unissexuais, pelo menos no que diz respeito à reprodução.”

Darwin parece um talento hiperativo que se perde em infinitas especulações que vai elencando, enumerando, acumulando e empilhando, sem saber como desenvolvê-las de modo decisivo, não conseguindo nada além disso mesmo: ser um biólogo especulador em vários fronts. Nem sequer chamaria seu “compilado” de observações e raciocínios de teoria… Ele não tem um foco, seu livro me deixa tonto! Várias das passagens de qualquer capítulo até aqui remetem a outros capítulos: “…porém tal idéia será desenvolvida a contento no capítulo tal”. E no entanto o presente capítulo é basicamente uma lista de idéias a ser propriamente desenvolvidas alhures!

Há ainda um grave problema sintático, senão de Darwin, do tradutor: a linguagem é muito imprecisa, refletindo o caráter hesitante do “descobridor”, conforme o trecho: “Finalmente, concluo que, embora pequenas áreas isoladas tenham provavelmente sido em alguns aspectos altamente favoráveis para a produção de novas espécies, ainda assim, o curso das modificações tem sido em geral mais rápido em grandes áreas;” Por onde começo? Pequenas áreas podem ter sido favoráveis para produzir novas espécies – como podem não ter sido! O provavelmente enfraquece todo o postulado, relativiza-o para que não possa ser contestado, basicamente. Ainda dentro da mesma frase o provável é nuançado para funcionar apenas em alguns aspectos, de modo que, mesmo que liguemos a chave do provável, tornando-o certo, essa certeza não afeta muitos aspectos, só alguns (aspecto já sendo uma palavra abstrata o bastante). Não pára por aí: altamente favoráveis, provavelmente, mas somente em alguns aspectos, lembre-se: o ser MUITO favorável é enfático, que pena que é restringido como mera probabilidade parcial de ser! Tudo isso esbarra na restritiva ainda assim, para contornar a possibilidade do “possível” estar equivocado (mas como estaria, se aponta tanto para um lado quanto para o outro, ficando em cima do muro?). Isso porque D. falava das áreas isoladas pequenas, mas agora quer estipular algum tipo de conclusão válida para áreas grandes, e portanto impossível que sejam isoladas, sendo todo um ecossistema complexo… E quer estipular conclusões para ambas, áreas pequenas e grandes, ao mesmo tempo, com algum grau de precisão… Como ele se sai? O curso das modificações (seja lá o que é curso de modificação… uma direção qualquer…) tem sido mais rápido… Não, pensando bem isso seria muito taxativo… Restrinjamos para em geral, de modo que se naturalistas me objetarem eu poderei alegar que falava apenas generalizadamente, sempre havendo exceções e casos particulares – mais uma salvaguarda! Repare a densidade de senões no texto darwiniano… Uma tática não incomum no livro.

Podemos, talvez, [!] por meio desses pontos de vista, [quase todos os pontos de vista passíveis de enumeração!] entender alguns fatos [não todos, aliás, poucos fatos!] que serão novamente aludidos em nosso capítulo sobre distribuição geográfica; Além de desonesto intelectualmente, é feio, truncado, horroroso para qualquer leitor… E, como sempre, a melhor parte fica para um capítulo vindouro… Onde, não duvido, ele fará outras promessas, ad infinitum… Não são raras as instâncias em que promete discutir o assunto não num capítulo já pronto do livro vigente, mas numa próxima e ainda inexistente obra… Fosse kardecista, começaria a dizer vida

na água doce encontramos algumas das formas mais anômalas atualmente conhecidas no mundo, como o ornitorrinco(*) e a pirambóia, os quais, como fósseis, conectam até certo ponto ordens que hoje estão amplamente separadas na escala natural. Essas formas anômalas podem quase ser chamadas de fósseis vivos; elas sobreviveram até os dias atuais por habitarem uma área confinada e por terem sido dessa maneira expostas a uma competição menos severa.(**)

(*) Ao contrário do que afirma Darwin, tem ampla distribuição geográfica no leste australiano e na Tasmânia, tendo sido introduzido na ilha Kangoroo, onde mantém população estável.

(**) Trata-se de uma afirmação equivocada de Darwin. A noção de fóssil vivo transmite a falsa ideia de que seja uma espécie que ‘sobreviveu’, permanecendo inalterada por milhões de anos, o que tem sido amplamente contrariado por estudos moleculares. Essas espécies continuaram a se adaptar sucessivamente.”

Quando o continente transformar-se em várias ilhas separadas devido ao afundamento de partes da superfície terrestre, restarão confinados muitos indivíduos da mesma espécie em cada ilha; o cruzamento fora dos limites da distribuição de cada espécie será, assim, impedido; depois das alterações físicas de quaisquer tipos, a imigração não será possível, de tal forma que os novos nichos de cada uma das ilhas serão preenchidos por modificações nos antigos habitantes; e o tempo permitirá que as variedades de cada uma se tornem bastante modificadas e aperfeiçoadas.” É difícil entender. Ele advoga que ilhas isoladas não produzem uma estagnação da evolução das espécies, mas ao mesmo tempo afirma que nas ilhas isoladas quase não há competição e portanto nenhuma necessidade de seleção natural que leve um animal à extinção, p.ex., o que é inconciliável com o fato de que a fauna e a flore continuem a mudar tanto… Pangéia como a era da luta de todos-contra-todos – Austrália como um ambiente tranqüilo… Puras idealizações!

…um campo justo para a seleção natural melhorar ainda mais os habitantes e, portanto, produzir novas espécies.” Ao mesmo tempo, o campo justo, para D., é a própria luta de todos-contra-todos com o menos freios possíveis.

Muitos irão afirmar que essas várias causas são mais do que suficientes para impedir completamente a ação da seleção natural. Não creio nisso. Por outro lado, acredito que a seleção natural sempre agirá muito lentamente, muitas vezes apenas em longos intervalos de tempo e geralmente apenas em alguns poucos habitantes da mesma região ao mesmo tempo.” Você apostaria suas fichas em alguém tão hesitante em afirmar qualquer coisa que seja? Não é que lhe sobre humildade científica – isso é excesso de medo! Estou me afogando em partículas restritivas! Não estou adaptado a meio tão agressivo!

Também acredito que essa ação muito lenta e intermitente [aqui ele acrescenta outro senão muito importante: não é só que a seleção é demasiadamente lenta, levando milhares e milhares de anos – ela também pára de agir durante certos períodos!!! por muito tempo julgava que era absolutamente corriqueiro defender D. no séc. XIX, mas lendo no original me parece algo cada vez mais heróico…] da seleção natural concorda perfeitamente bem com o que a geologia nos diz sobre o modo pelo qual os habitantes deste mundo sofreram mudanças e sobre as taxas através das quais essas alterações ocorreram.” Se ele puder se associar à geologia, e se a geologia estiver correta, jamais poderá ser refutado, pois a seleção natural biológica se torna equivalente à história geológica do planeta…

Embora o processo de seleção seja lento, se uma pessoa qualquer consegue fazer tanta coisa por meio da seleção artificial, não vejo limites para a quantidade de alterações – para a beleza e para a infinita complexidade das coadaptações entre todos os seres orgânicos, uns com os outros e com suas condições físicas de vida – que podem ser realizadas no longo curso do tempo pelo poder de seleção da Natureza.” Inclusive uma mistura de todas as cores, retornando todos os tons e matizes ao branco originário, isto é, uma constatação do caráter cíclico dessas transformações – que afinal não podem ser infinitas num tempo limitado… mas talvez, ainda mais criticamente, num longo espaço de tempo essas variações comecem a se repetir! Por que D. nunca levanta essa possibilidade, já que é tão cauteloso? Não há progressão no reino animal. Basta lembrar, por exemplo, que os continentes estão em tendência de afastamento desde que constituímos civilizações… Mas que o “final” desse processo só pode ser uma nova Pangéia, ou nossa extinção nesse ínterim… E “nossa”, da perspectiva da biologia, poderia querer dizer respeito a “todas as espécies”, a “determinadas espécies” ou ao homem propriamente dito… Mas do ângulo da hermenêutica, não havendo observador consciente e racional, um ser-no-mundo capaz da linguagem, do que adiantaria se o homem se ausentasse do espetáculo (existência)?

EXTINÇÃO Este assunto será mais plenamente discutido em nosso capítulo sobre geologia;” Enfurecedor, enfuriante!…

A geologia nos mostra claramente que o número de formas específicas não aumenta indefinidamente; e há de fato um motivo para esse aumento não ter ocorrido, uma vez que na Natureza o número de nichos não aumenta indefinidamente – não que tenhamos meios de saber se uma região já tem no momento seu número máximo de espécies. Provavelmente nenhuma região está hoje totalmente abastecida, pois no Cabo da Boa Esperança, onde há mais espécies de plantas do que em qualquer outra região do mundo,(*) algumas plantas estrangeiras têm se tornado aclimatadas, sem causar, tanto quanto sabemos, a extinção de espécies nativas.

(*) Já era reconhecida a grande diversidade florística daquela região, mas espécies invasoras sempre alteram as interações ecológicas locais.”

Conseqüentemente, toda nova variedade ou espécie, durante o progresso de sua formação, [mas toda variedade ou espécie está sempre em progresso e formação!] será geralmente mais pressionada por seus semelhantes mais próximos que tendem a exterminá-la.” Darwin atira para todos os lados sem saber no que acertar: poucas linhas antes insiste (não pela 1ª vez) na tese de que as espécies mais raras e mais ‘isoladas’ em características são as que mais sofrem na ‘luta pela sobrevivência’, e agora já afirma o contrário: quem está em perigo iminente de extinção afinal? Todas as espécies juntas aqui e agora? Mas não acaba aí. Parágrafos depois (veja se ele não volta a afirmar justamente o contrário!!): “quanto mais diversificados se tornam os descendentes de uma espécie qualquer em estrutura, constituição e hábitos, tanto mais eles são capazes de ocupar muitos nichos diversificados na Natureza e, assim, aumentar o número de seus indivíduos.” Lembrando que sempre que uma espécie aumenta muito sua quantidade de indivíduos, mais se aproxima da extinção competitiva, segundo o próprio D.

espécies incipientes”

mas não podemos responsabilizar apenas o acaso por diferenças tão grandes e habituais como as existentes entre as variedades da mesma espécie e entre espécies do mesmo gênero.” A natureza não tem um fim.

Se deixarmos que a espécie utilize seu poder de crescimento de forma natural, ela somente poderá aumentar o número de seus indivíduos (se não ocorrerem alterações nas condições de sua região) caso seus descendentes variem e busquem aproveitar os nichos atualmente ocupados por outros animais: alguns deles podem fazer isso ao, por exemplo, passarem a se alimentar de novos tipos de presas, mortas ou vivas; outros, ao habitar novos pontos, outros ainda, ao subir em árvores, ao freqüentar a água, e alguns, talvez, tornando-se menos carnívoros.” Não existe essa partição fantástica que ele denomina de nicho! D. não fornece uma conceituação, e por nicho entendem-se, conforme a enumeração, coisas tão ecléticas e impossíveis de mesclar como habitat, dieta, comportamento (dir-se-ia que se inspirou muito em Lamarck!) e até adaptações tão complexas que exigiriam mutações genéticas de várias gerações (mudança de terreno do solo para a água, p.ex.!). Como é que um animal herbívoro se torna carnívoro – bem-entendido, com exceção do homem?!

Além disso, sabemos que cada espécie e cada variedade de gramínea produzem um número quase incontável de sementes por ano; e assim está, por assim dizer, esforçando-se ao máximo para aumentar o número de seus indivíduos.” A espécie não está preocupada com nada, não existe uma consciência coletiva, apenas um instinto individual.

Alphonse de Candolle & Casimir de Candolle, Prodromus systematis naturalis regni vegetabilis

Asa Gray, Manual of the Flora of the Northern United States

BABOSEIRA COMPLETA: “A vantagem da diversificação dos habitantes de uma mesma região é, na verdade, o mesmo que a divisão fisiológica do trabalho encontrada nos órgãos do corpo de um mesmo indivíduo, conforme foi tão bem elucidado por Milne-Edwards.”

É possível pôr em dúvida, por exemplo, se os marsupiais australianos – que são divididos em grupos com poucas diferenças e que, conforme afirmado pelo senhor Waterhouse e outros, mal representam nossos animais carnívoros, ruminantes e roedores – conseguiriam competir, com sucesso, com essas ordens bem-definidas.” Nada sei de marsupiais australianos… Mas seria são desconfiar da capacidade da fauna da Oceania? Sendo assim, que se dane o tal Mister Casa D’Água!

(*) “Darwin aplica um raciocínio que toma os marsupiais como mamíferos ‘primitivos’ e ‘incompletos’, pois é comum serem exterminados por mamíferos placentários introduzidos. No entanto esse raciocínio tem premissas falsas. Marsupiais e placentários são igualmente ‘evoluídos’, cada um à sua maneira.”

ascendente único de nossos vários novos subgêneros e gêneros.”

No diagrama, supusemos até agora que o espaço entre cada linha horizontal representa milhares de gerações, mas poderia representar 1 milhão ou centenas de milhões de gerações e, da mesma forma, uma seção das sucessivas camadas da crosta terrestre que contêm os restos de organismos extintos.” O erro de D. é depositar todas as suas fichas na geologia/paleontologia. Dado que não existe o elo perdido entre o homem e o macaco, pois somos produtos de uma mutação abrupta, as crenças darwinianas são a razão mesma do histrionismo de grupos criacionistas, que podem alegar a “falta de prova científica” (de uma teoria equivocada, a do elo perdido, que serviria para justificar a teoria de que se trata, na verdade, de mais longo alcance, a do ancestral comum de todos os organismos) para deitar por terra todo o discurso racional sobre o devir das espécies, em prol de textos bíblicos e da origem divina do homem.

Muitas palavras para dizer apenas o seguinte: a longo prazo, toda espécie tende à extinção, e a natureza é a personificação do caos: “Um grupo grande irá lentamente conquistar outro grupo grande, reduzir o número de seus indivíduos, juntamente com suas chances de produzir mais variações e melhoramentos. Dentro do mesmo grande grupo, os subgrupos mais jovens e mais eficientemente melhorados, ao se ramificarem e dominarem diversos novos nichos da Natureza, tenderão constantemente a suplantar e destruir os subgrupos anteriores e menos melhorados. Subgrupos e grupos pequenos e fragmentados tenderão finalmente ao desaparecimento. Olhando para o futuro, é possível prever que os grupos de seres orgânicos que são atualmente grandes e vitoriosos, e que estão menos fragmentados, ou seja, aqueles que até o momento sofreram menos extinção, continuarão aumentando por um longo período. Mas não há como prever quais grupos irão, em última análise, prevalecer; pois nós bem sabemos que no passado muitos grupos bastante desenvolvidos foram extintos.” Os dinossauros refutam perfeitamente D.: a espécie ‘mais bem-adaptada e dominante’ passa a ser a mais mal-adaptada assim que sobrevém um racionamento de comida.

Voltarei a esse assunto no capítulo sobre classificação, mas posso acrescentar que a partir desse ponto de vista segundo o qual pouquíssimas espécies do passado mais remoto tenham gerado descendentes, e do ponto de vista de que todos os descendentes da mesma espécie formam uma classe, podemos entender por que existem poucas classes em cada divisão principal dos reinos vegetal e animal.” Se seu raciocínio estivesse correto, com a idade que tem a Terra deveria ter havido só uma classe que pudéssemos detectar, ou seja, com registros fósseis e a única existente há já milhões de anos, pois essa é justamente a tendência ou projeção para um futuro tendente ao infinito segundo as teorias de D. E, como sempre, parece que o comentador da edição concorda comigo:

(*) “A afirmação de que a maioria das espécies que já existiram no planeta foi extinta é corajosa e se mantém correta; o mesmo não se pode dizer da variação do número de classes, uma conjectura sem base factual.”

5. LEIS DA VARIAÇÃO

O avestruz, na verdade, vive no continente e está exposto a perigos dos quais não consegue escapar pelo vôo, mas consegue defender-se dos inimigos por meio de coices, como bem fariam todos os quadrúpedes menores. Podemos imaginar que o antigo progenitor do avestruz tivesse hábitos semelhantes aos de uma abetarda(*) e que – após a seleção natural ter aumentado o tamanho e o peso do seu corpo em gerações consecutivas – suas pernas tenham passado a ser mais utilizadas e suas asas menos, até que eles se tornaram incapazes de voar.

(*) Nome genérico das aves da família Otididae.”

Como eu acredito que nossos animais domésticos foram originalmente escolhidos pelo ser humano primitivo por causa da facilidade com que eram criados em confinamento e por serem úteis, e não por ter sido descoberto mais tarde que poderiam realizar o transporte a longas distâncias, acredito que a capacidade comum e extraordinária de nossos animais domésticos de não apenas resistir aos climas mais diversos, mas também de manterem-se perfeitamente férteis (um teste muito mais forte) em qualquer um deles, possa ser usada como um argumento para defender a idéia de que muitos outros animais – neste caso em estado natural – poderiam facilmente suportar diversos tipos de clima.”

CORRELAÇÕES DE CRESCIMENTO Com essa expressão quero dizer que as partes do organismo todo estão tão ligadas umas às outras durante seu crescimento e desenvolvimento que, quando ocorrem pequenas variações em qualquer dessas partes e essas são acumuladas através da seleção natural, outras partes também são modificadas. Esse é um assunto muito importante e compreendido de forma bastante imperfeita.”

O que é mais comum do que a relação entre os olhos azuis e a surdez dos gatos ou do que a cor dos cascos e o sexo feminino das tartarugas? Ou, nos pombos, a relação entre os pés com penas e a pele entre os dedos externos, bem como a presença de mais ou menos penugem nas aves jovens quando saem de seus ovos com a futura cor de sua plumagem; ou, mais uma vez, a relação entre os pêlos e os dentes do cão sem pêlos da Turquia, ainda que neste caso a homologia tenha relevância? Em relação a este último caso de correlação, acredito que dificilmente poderia ser algo acidental que as duas ordens de mamíferos mais anômalas em suas coberturas dérmicas, como, por exemplo, os cetáceos (baleias) e a ordem Edentata (tatus, pangolins, etc.), fossem também as ordens com mais formas anômalas de dentição.”

Geoffroy Sênior e Goethe(*) propuseram, mais ou menos na mesma época, a lei da compensação ou do equilíbrio do crescimento; ou, conforme disse Goethe, ‘a fim de gastar de um lado, a natureza é forçada a economizar do outro’.

(*) A metamorfose das plantas, 1790.”

6. CONTROVÉRSIAS ENVOLVENDO A TEORIA

Argumentação pouco convincente.

E FEZ-SE: “Sabermos como um nervo passa a ser sensível à luz é algo que nos desafia tanto quanto o faz não sabermos como a própria vida originou-se; mas reparem que [diversos fatos me fazem suspeitar que]¹ qualquer nervo sensível pode tornar-se sensível à luz e, da mesma forma, às vibrações mais grosseiras do ar que produzem o som.”

¹ Darwin escreve mal e de maneira hesitante. O trecho entre colchetes poderia ser facilmente omitido, ganhando-se em concisão e confiança.

É preciso que a razão conquiste a imaginação; e, já que eu mesmo senti a profundidade dessa dificuldade, não me surpreende que as pessoas hesitem em conceder tamanha amplitude ao princípio da seleção natural.” Irônico que esse comentário parta de um superempírico: aquele que só afirma o que , não se arriscando a tecer conclusões lógicas sem dados imediatos. Sem falar que parece uma obra medieval, überpreocupada com deus.

7. INSTINTO

Uma pequena dose de juízo ou razão, como afirma Pierre Huber,(*) muitas vezes entra em jogo, mesmo em animais que estão na base da escala da Natureza.

(*) Jean-Pierre Huber (1777-1840), entomólogo suíço, autor de diversos estudos sobre comportamento de insetos, seguiu a carreira do pai.”

Se Mozart, em vez de tocar piano aos 3 anos de idade admiravelmente apesar da pouca destreza, já tivesse produzido música sem nenhuma instrução anterior, poderíamos então dizer com convicção que ele o teria feito de forma instintiva.”

o medo do [em relação ao] homem é algo adquirido lentamente por vários animais que habitam ilhas desertas”

o corvo, tão cauteloso na Inglaterra, é muito dócil na Noruega, tal como a gralha-cinzenta o é no Egito.”

Le Roy descreve um cão cujo bisavô era um lobo; este cão mostrou um traço de sua ascendência selvagem somente de uma maneira: ele não ia em linha reta até seu dono quando era chamado.”

nenhum animal é mais difícil de amansar do que os filhotes do coelho selvagem, mas quase nenhum outro animal é tão dócil quanto os filhotes do coelho domesticado”

É praticamente impossível duvidar que o amor pelas pessoas se tornou algo instintivo nos cães. Todos os lobos, raposas, chacais e espécies do gênero Felis (gatos), quando mantidos mansos, ficam mais propensos a atacar aves, ovelhas e porcos; e descobrimos que essa tendência é algo incurável nos cães que foram trazidos ainda jovens para casa (Inglaterra) de regiões como a Terra do Fogo e a Austrália, onde os selvagens não os criavam como animais domésticos. Por outro lado, nossos cães domésticos raramente precisam, mesmo quando muito jovens, ser ensinados a não atacar aves, ovelhas e porcos!” “Por outro lado, as galinhas jovens perderam, inteiramente pelo hábito, o medo do cão e do gato”

(*) “Thomas Mayo Brewer (1814-1880), naturalista norte-americano, co-autor dos 3 volumes de A History of North American Birds (1874).”

Muitas abelhas são parasitas e sempre põem seus ovos em ninhos de abelhas de outros tipos. Esse caso é mais notável do que o do cuco; pois não apenas os instintos dessas abelhas foram modificados de acordo com seus hábitos parasitários, mas também suas estruturas; isso porque elas não possuem o aparato de coleta de pólen que seria necessário para armazenar alimentos para sua própria prole.”

As formigas são tão absolutamente desamparadas que, quando Huber isolou 30 delas sem nenhuma escrava, mas com os alimentos que mais gostam e com suas larvas e pupas para estimulá-las a trabalhar, elas não fizeram nada; não conseguiram nem se alimentar, e muitas morreram de fome. Huber, em seguida, introduziu uma única escrava (F. fusca), e ela imediatamente começou a trabalhar, alimentando e salvando os sobreviventes; construiu alguns alvéolos, cuidou das larvas e colocou a casa em ordem.” Jean-Pierre Huber, Recherches sur les Moeurs des Formis Indigenes [Natural History of Ants], 1810.

(*) “O tradutor do livro para o inglês, J.R. Johnson, tomou a decisão de substituir a expressão ‘formigas cinza-escuro’ por ‘negro’ e ‘formigas negras’ (negro e negro ant), por causa da ‘coloração’ e ‘situação mantida na colônia’ (de subserviência), uma clara referência à condição de escravizada. O tradutor registrou a ‘liberdade’ da tradução em nota, à página 252. No entanto, nem mesmo na versão inglesa aparecem os termos relativos à escravidão, como ‘escravo’, ‘senhor’ ou ‘mestre’. Darwin tinha um exemplar do original em francês, mas utilizou alguns dos termos de comentadores desde que a primeira resenha do livro foi publicada em inglês, em 1812. (…) Huber foi muito criticado por ‘naturalizar’ a escravidão, como se sua descrição fosse apenas obra de sua imaginação, mas provou ter sido um observador muito rigoroso.”

Eu abri 14 formigueiros de F. sanguinea e encontrei algumas poucas escravas em todos eles. Machos e fêmeas férteis da espécie escrava são encontrados somente em suas próprias comunidades e nunca são vistos nos formigueiros da F. sanguinea. As formigas escravas são pretas e têm quase a metade do tamanho de suas mestras vermelhas”

na Suíça, as escravas costumam trabalhar com suas mestras para construir o formigueiro, e elas são as únicas que abrem e fecham as portas pela manhã e à noite; e, conforme afirmado expressamente por Huber, a principal função delas é buscar pulgões. Esta diferença nos costumes habituais entre mestras e escravas nos dois países está ligada, provavelmente, ao fato de as escravas serem capturadas em maior número na Suíça em comparação com a Inglaterra.”

Isso me deixou curioso para saber se a F. sanguinea era capaz de distinguir as pupas da F. fusca, que habitualmente são escravizadas, da pequena e furiosa F. flava, que é raramente capturada; ficou claro que elas conseguiam diferenciá-las de imediato, pois notei que, de forma ansiosa e com rapidez, elas capturavam as

pupas de F. fusca, mas ficavam muito aterrorizadas quando se deparavam com as pupas, ou até mesmo com a terra do formigueiro da F. flava, e rapidamente fugiam; mas após cerca de um quarto de hora, logo depois de todas as pequenas formigas amarelas terem ido embora, elas criavam coragem e carregavam as pupas para casa.”

(*) “Sabe-se hoje que a F. sanguinea nem sempre captura outras formigas, pois pode se autossustentar. Já as formigas descritas no início da seção como F. rufescens têm hábitos bem distintos e são incapazes de sobreviver sem a ajuda de formigas de outras espécies. Essa relação ecológica é denominada ‘esclavagismo’, e em outras línguas se utiliza o termo dulosis, derivado do vocábulo grego DOULOS = escravos.”

(*) “As melíponas são abelhas americanas sem ferrão, que ocorrem do México até a Argentina, sendo conhecidas entre nós com os nomes mandaçaia, urucu, etc.” Afinal, abelha é a própria definição de “com ferrão”!

A maneira como as abelhas constroem é curiosa; elas sempre fazem uma parede grosseira que é de 10 a 20 vezes mais espessa que a parede excessivamente fina do alvéolo pronto, a qual, em última análise, será deixada assim. Nós podemos entender como elas trabalham ao imaginarmos pedreiros que primeiro juntam cimento em uma parede grossa e logo em seguida começam a aplainá-la igualmente em ambos os lados próximos ao solo até que, por fim, obtenham no centro uma parede lisa e muito fina; no processo, os pedreiros empilham o cimento retirado ao topo da parede e ao mesmo tempo adicionam cimento fresco.”

Por este modo singular de construção, o favo ganha força contínua, com a máxima economia final de cera.(*)(**)

(*) Darwin parte da conjectura de que o favo de mel da abelha-europeia é a forma mais econômica de obter máximo poder de estocagem com mínimo consumo de cera. Trata-se de um problema matemático estudado desde a Grécia Antiga, relacionando menor perímetro com máxima área, visto como uma solução divina. Darwin procura mostrar como o mesmo problema pode ter sido solucionado pela ação da seleção natural, sem intervenção divina, o que provocou grande ira nos círculos religiosos.

(**) O matemático húngaro László Tóth (1915-2005) demonstrou, em 1965, que a afirmação não é rigorosamente correta para as 3 dimensões.”

(*) “O fóssil mais antigo de abelhas foi datado recentemente ao redor de 100 milhões de anos, e tem características semelhantes às das vespas, embora tenha adaptações para transporte de pólen. Esse fato indica que a evolução das abelhas certamente ocorreu em período muito anterior ao imaginado por Darwin”

8. HIBRIDISMO

Acredito que a importância do fato de que os híbridos costumam ser estéreis tem sido muito subestimada por alguns autores modernos.”

9. A IMPERFEIÇÃO DO REGISTRO GEOLÓGICO

Parte mais fraca do livro!

10. A SUCESSÃO GEOLÓGICA DOS SERES ORGÂNICOS

(…)

11 & 12. DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA

(…)

13. AFINIDADES MÚTUAS DOS SERES ORGÂNICOS – MORFOLOGIA – EMBRIOLOGIA – ÓRGÃOS RUDIMENTARES

(…)

14. RECAPITULAÇÃO E CONCLUSÃO

(…)

GLOSSÁRIO

chanfrar: indentar

chanfro: que foi cortado de maneira oblíqua

cunha: instrumento para rachar lenha, de ferro ou madeira

rômbico: losango

tentilhão: “é uma ave de pequeno porte, com cerca de 15cm, da família dos Fringilídeos, de coloração bastante viva e canto bem sonoro. Habita toda a Europa, Ásia Central e norte da África, em zonas florestais e de pinheirais. Se alimenta de sementes e insetos. É também chamada de pintarroxo; chopin; pincha; chincho; patachim; chapin, etc.” Literalmente, AVE Maria, quantos nomes!

visco: “Planta da família das viscáceas” (chamada na obra de parasita; nas notas de hemiparasita)

Lista das obras grifadas em vermelho, em ordem alfabética:

BREWER, A History of North American Birds

CUVIER, ‘Observations sur le cadavre d’une femme connue à Paris et à Londres sous le nom de Vénus hottentote

DE CANDOLLE & DE CANDOLLE, Prodromus systematis naturalis regni vegetabilis

GOETHE, A metamorphose das plantas

GRAY, Manual of the Flora of the Northern United States

HUBER, Recherches sur les Moeurs des Formis Indigenes [Natural History of Ants]

LYELL, Principles of Geology (3 vols.)

SAINT-HILAIRE, Cours de l’histoire naturelle des mammifères

VAN MONS, Abres fruitiers (livro sobre maçãs e pêras!)

WESTWOOD, An Introduction to the Modern Classification of Insects

YOUATT, William. Sheep: Their Breeds, Management, and Diseases, to Which Is Added the Mountain Shepherd’s Manual

THE EVOLUTION OF MATTER – Gustave Le Bon (trans. Legge), 1909.

INTRODUCTION

The facts brought to light by my researches, as well as by those to which they have led, show that, contrary to this belief, matter is not eternal, and can vanish without return. They likewise prove that the atom is the reservoir of a force hitherto unrecognized, although it exceeds by its immensity those forces with which we are acquainted, and that it may perhaps be the origin of most others, notably of electricity and solar heat.”

It was above all the discovery of radium, long after my first researches, that fixed attention on these questions.”

To make this book easier to read, the experiments in detail have been brought together at the end of the volume, to which they form a second part. All the plates illustrating the experiments have been drawn or photographed by my devoted assistant, M.F. Michaux. I here express my thanks to him for his daily assistance at my laboratory during the many years over which my researches have extended.”

Gods and dogmas do not perish in a day. To try to prove that the atoms of all bodies, which were deemed eternal, are not so, gave a shock to all received opinions. To endeavor to show that matter, hitherto considered inert, is the reservoir of a colossal energy, was bound to shock more ideas still.”

It matters little, in reality, that he who has sown should not reap. It is enough that the harvest grows.”

BOOK I

THE NEW IDEAS ON MATTER

CHAPTER I

THE THEORY OF INTRA-ATOMIC ENERGY AND OF THE PASSING AWAY OF MATTER

The dogma of the indestructibility of matter is one of the very few which modern has received from ancient science without alteration. From the great Roman poet, Lucretius, who made it the fundamental element of his philosophical system, down to the immortal Lavoisier, who established it on bases considered eternal, this sacred dogma was never touched, and no one ever sought to question it.”

It is several years now since I proved by experiment for the first time that the phenomena observed in substances termed radioactive — such as uranium, the only substance of that kind then known — could be observed in all substances in Nature, and could only be explained by the dissociation of their atoms.” “Substances termed radioactive, such as uranium or radium, simply present in a high degree a phenomenon which all matter possesses to some extent.”

The atmosphere is now cleared, and few physicists deny that this dissociation of matter — this radioactivity as it is now called — is a universal phenomenon as widely spread throughout the universe as heat or light. Radioactivity is now discovered in nearly everything, and in a recent paper Prof. J.J. Thomson has demonstrated its existence in most substances — water, sand, clay, brick, etc.”

Force and matter are two different forms of one and the same thing. Matter represents a stable form of intra-atomic energy; heat, light, electricity, etc., represent instable forms of it.”

chemical species are no more invariable than are living species.”

DESCOBERTA DA “FORÇA FRACA”, CUJO NOME É ARDILOSO, POIS SE TRATA DA FORÇA MAIS FORTE: “To the known forms of energy — heat, light, etc. — there must be added another — matter, or intra-atomic energy. It is characterized by its colossal greatness and its considerable accumulation within very feeble volume.”

The individuality disappears, and the vortex dissolves in the ether as soon as the forces which maintain its existence cease to act.” Tão vanguardista e ainda atido a nomenclaturas do passado arcano como éter!

More than one physicist, the illustrious Faraday especially, has endeavored to clear away the duality existing between matter and energy. Some philosophers formerly made the same attempt, by pointing out that matter was only brought home to us by the intermediary of forces acting on our senses.”

For the classical adage, ‘Nothing is created, nothing is lost’ (attributed to Lavoisier) must be substituted the following: — Nothing is created, but everything is lost.

Herbert Spencer in one of the chapters of First Principles, headed ‘Indestructibility of Matter’, which he makes one of the pillars of his system, declares that, ‘Could it be shown, or could it with reason be supposed, that Matter, either in its aggregates or in its units, ever becomes non-existent, it would be needful either to ascertain under what conditions it becomes non-existent, or else to confess that true Science and Philosophy are impossible’. This assertion certainly seems too far-reaching. Philosophy has never found any difficulty in adapting itself to new scientific discoveries. It follows, but does not precede them.”

BOMBA ATÔMICA: “The practical interest of the doctrine of the vanishing of matter, by reason of its transformation into energy, will only appear when means are found of accomplishing with ease the rapid dissociation of substances. When that occurs, an almost unlimited source of energy will be at man’s disposal gratis, and the face of the world will be changed. But we have not yet reached this point.” Um inveterado otimista!

As matter seemed incapable by itself of quitting the state of repose, recourse was had to various causes, of unknown nature, designated by the term forces, to animate it. Physics counted several which it formerly clearly distinguished from each other, but the advance in science finally welded them into one great entity, Energy, to which the privilege of immortality was likewise conceded.”

The divinities of old time were replaced by ingenious systems of differential equations.”

CHAPTER II

HISTORY OF THE DISCOVERY OF THE DISSOCIATION OF MATTER AND OF INTRA-ATOMIC ENERGY

The public troubles itself very little with the way in which inventions are made, but psychologists will certainly be interested by certain sides of the following account. In fact, they will find therein valuable documents on the birth of beliefs, on the part played, even in laboratories, by suggestions and illusions, and finally on the preponderant influence of prestige considered as a principal element of demonstration.”

It was, in fact, in 1896 that I caused to be published in the Comptes Rendu de l’Academie des Science, solely for the purpose of establishing priority, a short notice summing up the researches I had been making for 2 years, whence it resulted that light falling on bodies produced radiations capable of passing through material substances. Unable to identify these radiations with anything known, I pointed out in the same note that they must probably constitute some unknown force — an assertion to which I have often returned. To give it a name I called this radiation black light.”

(1) Radiations of the same family as the cathode rays. They are incapable of refraction or of polarization, and have no kinship with light. These are the radiations which to so-called radioactive substances, such as uranium, constantly emit abundantly and ordinary substances freely.

(2) Infrared radiations of great wavelength which, contrary to all that has hitherto been taught, pass through black paper, ebonite, wood, stone, and, in fact, most non-conducting substances. They are naturally capable of refraction and polarization.

It was not very easy to dissociate these various elements at a time when no one supposed that a large number of bodies, considered absolutely opaque, were, on the contrary, very

transparent to the invisible infrared light, and when the announcement of the experiment of photographing a house in two minutes and in the dark-room through an opaque body would have been deemed absurd.”

It will be considered, I think, very curious and one of the most instructive chapters in the history of science that for 3 years not one single physicist was to be met with in the whole world who thought of repeating — though they were extraordinarily simple — the experiments of M. Becquerel on the refraction, reflection, and polarization of the uranium rays. On the contrary, the most eminent published ingenious theories to explain this very refraction, reflection, and polarization.

It was a new version of the story of the child with the golden tooth on which the scholars of the day wrote important treatises, till one day it occurred to a skeptic to go see if the said child was really born with a golden tooth. It will be difficult, after such an example, to deny that, in scientific matters, prestige forms the essential element in conviction. We must therefore not scoff too much at those in the Middle Ages who knew no other sources of demonstration than the statements of Aristotle.”

When the question as to polarization was definitely settled, it took but little time to establish the correctness of the facts stated by me. But it was only after the German physicists Giesel, Meyer, and Schweidler discovered in 1899 that the emissions of radioactive bodies were, like the cathode rays, capable of deviation by a magnet, that the idea of a probable analogy between these phenomena began to spread. Several physicists then took up this study, the importance of which has increased day by day. New facts arose on all sides, and the discovery of radium by Curie gave a great impetus to these researches.

M. de Heen, Prof. of Physics at the University of Liege, and Director of the celebrated Institute of Physics in that town, was the first to accept in its entirety the generalization I had endeavored to establish. Having taken up and developed my experiments, he declared in one of is papers that in point of importance they were on a par with the discovery of x-rays.”

The generality of the phenomenon of the dissociation of matter would have been noticed much sooner if a number of known facts had been closely examined, but this was not done. These facts, besides, were spread over very different chapters of physics. For example, the loss of electricity occasioned by ultraviolet light had long been known, but one little thought of connecting the fact with the cathode rays. More than 50 years ago N. de St.-Victor saw that, in the dark, salts of uranium caused photographic impression for several months; but as this phenomenon did not seem connected with any known fact, it was put on one side. For a hundred years the gases of flame had been observed to discharge electrified bodies without anyone attempting to examine the cause of this phenomenon. The loss of electric charges through the influence of light had been pointed out several years before, but it was regarded as a fact peculiar to a few metals, without any suspicion of how general and important it was.”

I have had the satisfaction of seeing, while still alive, the recognition of the facts on which I based the theories which follow. For a long time I had given up all such hope, and more than once had thought of abandoning my researches. They had, in fact, been rather badly received in France. (…) The book of nature is a romance of such passionate interest that the pleasure of spelling out a few pages repays one for the trouble this short decipherment often demands.”

The discovery of intra-atomic energy cannot, however, be quite assimilated to that of the universality of the dissociation of matter. This universal dissociation is a fact, the existence of intra-atomic energy is only an interpretation.”

It is natural enough that one should not be a prophet in one’s own country. It is sufficient to be a little of one elsewhere. The importance of the results brought to light by my researches was very quickly understood abroad. Out of the different studies they called forth, I shall confine myself to reproducing a few fragments.” Muito autocentrado o sr. Le Bon! A ciência e a filosofia são assim mesmo.

Rutherford in America, Nedon in France, de Heen in Belgium, Lenard in Austria, Elseter and Geitel in Switzerland have successfully followed in the lines of Gustave Le Bon. Summing up today the experiments made by him for the last 6 years, Gustave Le Bon shows that he has discovered a new force in nature which manifests herself in all bodies.”

As for chemistry, the whole fabric will be demolished at a blow; and we shall have a tabula rasa on which we may write an entirely new system wherein matter will pass through matter, and ‘elements’ will be shown to be only differing forms of the same substance. But even this will be nothing compared with the results which will follow the

bridging of the space between the material and the immaterial which M. Le Bon anticipates as the result of his discoveries, and which Sir William Crookes seems to have foreshadowed in his address to the Royal Society upon its late reception of the Prince of Wales.”

The new phenomena I have discovered have cost me too much labor, too much money, and too much annoyance for me not to try to keep a firm hold on a prize obtained with so much difficulty.”

BOOK II

INTRA-ATOMIC ENERGY AND THE FORCES DERIVED THEREFROM

CHAPTER I

INTRA-ATOMIC ENERGY — ITS MAGNITUDE

A very simple calculation shows, in fact, that to give a small bullet the speed of dissociation would require a firearm capable of containing 1,340,000 barrels of gunpowder. As soon as the immense speed of the particles emitted was measured by the very simple methods I describe elsewhere, it became evident that an enormous amount of energy is liberated during the dissociation of atoms.”

We shall see that, if instead of succeeding in dissociating thousandths of a milligram of matter, as at present, we could dissociate a few kilograms, we should possess a source of energy compared with which the whole provision of coal contained in our mines would represent an insignificant total.”

If this new force — the most widespread and the mightiest of all those of nature — has remained entirely unknown till now, it is because, in the first place, we lacked the reagents necessary for the proof of its existence, and then, because the atomic edifice erected at the beginning of the ages is so stable, so solidly united, that its dissociation — at all events by our present means — remains extremely slight. Were it otherwise the world would have vanished long ago.”

To reduce the mass of a projectile matters nothing if one arrives at a sufficient increase in speed. This is exactly the tendency of modern musketry, which constantly reduces the caliber of the bullet but endeavors to increase its speed.”

We can barely exceed a kilometer per second by the means at our disposal, while the speed of radioactive particles is 100,000 times greater. Thence the magnitude of the effects produced. These differences become plain when one knows that a body having a velocity of 100,000 kilometers/second would go from the earth to the moon in less than 4 seconds, while a cannon ball would take about 5 days.”

The fact of the existence of a considerable condensation of energy within the atoms only seems to jar on us because it is outside the range of things formerly taught us by experience; it should, however, be remarked that, even leaving on one side the facts revealed by radioactivity, analogous concentrations are daily observable. Is it not strikingly evident, in fact, that electricity must exist at an enormous degree of accumulation in chemical compounds, since it is found by the electrolysis of water that one gram of hydrogen possesses an electric charge of 96,000 coulombs?”

The best static machines in our laboratories hardly give forth 1/10,000 of a coulomb per second. They would have to work unceasingly for a little over 30 years to give the quantity of electricity contained within the atoms of one gram of hydrogen.”

Cornu pointed out that if it were possible to concentrate a charge of one coulomb on a very small sphere, and to bring it within one centimeter of another sphere likewise having a charge of one coulomb, the force created by this repulsion would equal 918 dynes, or about 9 billion kilograms.”

The difficulty was not, therefore, in conceiving that a great deal of energy could remain within an atom. It is even surprising that a notion so evident was not formulated long since.”

One of the most elementary formulas of dynamics teaches us that the energy of a body of constant size can be increased at will simply by increasing its speed. It is therefore possible to imagine a theoretical machine composed of the head of a pin turning round in the bezel of a ring, which, notwithstanding its smallness, should possess, thanks to its rotative force, a mechanical power equal to that of several thousand locomotives.”

It is important to notice that, although the numbers above arrived at in various ways point out the existence in matter of immense forces — so unforeseen hitherto — they by no means imply that these forces already are at our disposal. In fact the substances which

dissociate quickest, like radium, only disengage very minute quantities of energy. All those millions of kilogram-meters which a simple gram of matter contains amount in reality to very little if, to obtain them, we have to wait millions of years. Suppose a strong box containing several thousand millions of gold dust to be closed by a mechanism which only permits the daily extraction of a milligram of the precious metal. The owner of that strong box, notwithstanding his great wealth, would be in reality very poor, and would remain so, so long as his efforts to discover the secret of the mechanism by which he could open it were unsuccessful.” Mal sabia Le Bon que só levaria pouco mais de 30 anos da publicação do seu livro a descoberta da maneira mais “efetiva” de empregar tamanha energia: para a destruição.

No more could one say in the days of Galvani that the electrical energy which enabled him to move with difficulty the legs of frogs and to attract small scraps of paper would one day set in motion enormous railway trains. It will perhaps always be beyond our power to totally dissociate the atom, because the difficulties must increase as dissociation advances, but it would suffice if we could succeed in easily dissociating a small part of it. Whether the gram of dissociated matter that we have supposed to be taken from a ton of matter or even more, matters nothing.”

The power to dissociate matter freely would place at our disposal an infinite source of energy, and would render unnecessary the extraction of that coal. The scholar who discovers the way to liberate economically the forces which matter contains will almost instantaneously change the face of the world. If an unlimited supply of energy were gratuitously placed at the disposal of man he would no longer have to procure it at the cost of arduous labor. The poor would then be on a level with the rich, and there would be an end to all social questions.”

CHAPTER II

TRANSFORMATION OF MATTER INTO ENERGY

Modern science formerly established a complete separation between matter and energy. The classic ideas on this scission will be found very plainly stated in the following passage of a recent work by Prof. Janet: [não é o filósofo-psicólogo!]

…Copper, iron, and coal are forms of matter, mechanical labor and heat are forms of energy. These two worlds are each ruled by one and the same law. Matter and energy can assume various forms without matter ever transforming itself into energy or energy into matter… We can no more conceive energy without matter than we can conceive matter without energy’

Other and bolder physicists, like Rutherford, after having admitted the principles of intra-atomic energy, remain in doubt. This is what the latter writes in a paper later than his book on radioactivity:

It would be desirable to see appear some kind of chemical theory to explain the facts, and to enable us to know whether the energy is borrowed from the atom itself or from external sources

(Archives des Sciences Physiques a Genieve, 1905, p. 53).”

The fact is that the scientific ideas which rule the minds of scholars at various epochs have all the solidarity of religious dogmas. Very slow to be established, they are very slow likewise to disappear. New scientific truths have, assuredly, experience and reason as a basis, but they are only propagated by prestige — that is, when they are enunciated by scholars whose official position gives them prestige in the eyes of the scientific public. Now, it is this very category of scholars which not only does not enunciate them, but employs its authority to combat them. Truths of such capital importance as Ohm’s law, which governs the whole of electricity, and the law of the conservation of energy which governs all physics, were received, on their first appearance, with indifference or contempt, and remained without effect until the day when they were enunciated anew by scholars endowed with influence.

It is only by studying the history of sciences, so little pursued at the present date, that one succeeds in understanding the genesis of beliefs and the laws governing their diffusion. I have alluded to 2 discoveries which were among the most important of the past century, and which are summarized in two laws, of which one can say that they ought to have appealed to all minds by their marvelous simplicity and their imposing grandeur. Not only did they strike no one, but the most eminent scholars of the epoch did not concern themselves about them except to try to cover them with ridicule.”

Experiments — even those most convincing in appearance — have never constituted an immediately demonstrable foundation when they clashed with long since accepted ideas. Galileo learned this to his cost when, having brought together all the philosophers of the celebrated University of Pisa, he thought to prove to them by experiment that, contrary to the then accepted ideas, bodies of different weight fell with the same velocity.” “The professors contented themselves with appealing to the authority of Aristotle, and in nowise modified their opinions.”

CHAPTER III

FORCES DERIVED FROM INTRA-ATOMIC ENERGY — MOLECULAR FORCES, ELECTRICITY, SOLAR HEAT, ETC.

electricity is one of the most constant manifestations of the dissociation of matter.”

For a certain number of years the role of electricity has constantly grown in importance. It is at the base of all chemical reactions, which are more and more considered as electrical reactions. It appears now as a universal force, and the tendency is to connect all other forces with it. That a force of which the manifestations have this importance and universality should have been unknown for thousands of years constitutes one of the most striking facts in the history of science, and is one of those facts we must always bear in mind to understand how we may be surrounded with very powerful forces without perceiving them.

For centuries all that was known about electricity could be reduced to this: that certain resinous substances when rubbed attract light bodies. (…) By extending the friction to larger surfaces might not more intense effects still be produced? This no one thought of inquiring. Ages succeeded each other before there arose a mind penetrating enough to verify by experiment whether a body with a large surface when rubbed would not exercise an action superior in energy to that produced by a small fragment of the same body. From this verification which now seems so simple, but which took so many years to accomplish, we saw emerge the frictional electric machine of our laboratories and the phenomena it produces. The most striking of these were the apparition of sparks and violent discharges which revealed to an astonished world a new force and put into the hands of man a power of which he thought the gods alone possessed the secret.

Electricity was then only produced very laboriously and was considered a very exceptional phenomenon. Now we find it everywhere and know that the simple contact of 2 heterogeneous bodies suffices to generate it. The difficulty now is not how to produce electricity, but how not to give it birth during the production of any phenomenon whatever. The falling of a drop of water, the heating of a gaseous mass by the sun, the raising of the temperature of a twisted wire, and a reaction capable of modifying the nature of a body, are all sources of electricity.”

if the sun cannot change the temperature of a body without disengaging electricity, if a drop of water cannot fall without producing it, it is evident that its role in the life of all beings must be preponderant. This, in fact, is what we are beginning to admit.”

M. Berthelot has recently shown the important role of the electric tensions to which plants are constantly subjected.”

These figures give an idea of the potential which exists either between the upper point of a rod of which the other extremity is earthed, or between the top of a plant of a tree, and the layer of air in which that point or that top is bathed.”

Given the enormous quantity of energy accumulated within the atoms, it would be enough, if their dissociation were more rapid than it is on cooled globes, to furnish the amount of heat necessary to keep up the incandescence of the stars.”

Suppose, however, that the dissociation of any substance whatever were only one thousand times more rapid than that of radium, then the quantity of energy emitted would more than suffice to keep it in a state of incandescence.”

The figures given are considerable, and yet J.J. Thomson, who has recently taken up the question anew, arrives at the conclusion that the energy now concentrated within the atoms is but an insignificant portion of that which they formerly contained and lost by radiation. Independently and at an earlier date, Prof. Filippo Re arrived at the same conclusion.

If, therefore, atoms formerly contained a quantity of energy far exceeding the still formidable amount they now possess, they may, by dissociation, have expended during long accumulations of ages a part of the gigantic reserve of forces piled up within them at the beginning of things. They may have been able, and consequently may still be able, to maintain at a very high temperature stars like the sun and the heavenly bodies. In the course of time, however, the store of intra-atomic energy within the atoms of certain stars has at length been reduced, and their dissociation has become slower and slower. Finally, they have acquired an increasing stability, have dissociated very slowly, and have become such as one observes them today in the shape of cooled stars like the earth and other planets.”

So that it is not only electricity which is one of its manifestation, but also solar heat, that primary source of life and of the majority of the forces at our disposal. Its study, which reveals to us matter in a totally new aspect, already permits us to throw unforeseen light on the higher mechanics of our universe.”

ALEXANDER BAIN #SérieOsÚltimosPolímatas

polímata

(po·lí·ma·ta)

adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros

Que ou quem estudou e sabe muitas coisas ou muitas ciências (ex.: Santa Hildegarda era uma freira polímata; os polímatas são peritos em muitas áreas do conhecimento). = POLÍMATE, POLÍMATO

<polímata>, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2023, https://dicionario.priberam.org/pol%C3%ADmata.”

Traduzido do wikipedia English com algumas (muitas!) liberdades autorais…

Alexander Bain

Alexander Bain (11 de junho de 1818 – 18 de setembro de 1903) foi um filósofo e pedagogo escocês da escola empírica britânica, além de figura proeminente e inovadora nos campos da psicologia, lingüística, lógica, ética e da reforma da educação. Ele fundou Mind (Mente ou Cérebro), o primeiro jornal de psicologia e filosofia analítica, e foi pioneiro na aplicação do método científico à psicologia. Bain inaugurou a cadeira regente de Lógica da Universidade de Aberdeen, onde também ensinava ética e Literatura Inglesa, além de terminar por ser eleito duas vezes o reitor de tal universidade.

Linguística

Bain foi bastante influente na metodologia de ensino da gramática e estilo de composição do inglês no Reino Unido. Ele elaborou alguns livros-textos referência entre 1963 e 1974, dentre os quais também se encontra um Manual de Retórica.

Filosofia

Os tratados filosóficos de Bain, devido a sua espessura, eram impróprios para uso em sala de aula: Os Sentidos e o Intelecto, Sobre o Estudo do Caráter incluindo uma Recensão da Frenologia, etc. Para contornar esse inconveniente, Bain publicou em 1868 seu Manual da Ciência Mental e Moral. Em seguida ele publicou sua Lógica, também com intuitos didáticos, baseando-se em John Stuart Mill, porém divergindo deste em particulares. Precursor foi seu livro Educação (Pedagogia) como Ciência. Todos os seus livros filosóficos foram escritos durante os 20 anos em que lecionou na universidade.

Psicologia

Mesmo que tenha sido algo influente como lógico, retórico e lingüista, onde a fama de Bain reside verdadeiramente é na esfera psicológica. Pioneiro dos estudos em psicologia no XIX inglês, Bain foi também o patrocinador de uma visão moderna, para a qual, como já dizia o anatomista comparativo alemão Johannes Peter Müller, psychologus nemo nisi physiologus (não se é psicólogo sem ser ao mesmo tempo fisiólogo), aproximando corpo e mente como disciplinas e instâncias interdependentes.

William James, um dos grandes fundadores da Psicologia tal qual a conhecemos hoje, chama seu trabalho de “a última palavra” em termos de pré-psicologia como ciência constituída positiva. Não era estranho a Bain, outrossim, o apelo à psicologia social, ainda que o nome fosse inexistente à época. Sua teoria de que a crença era uma preparação para a ação tornou-se respeitada tanto nos círculos funcionalistas quanto entre os pragmatistas.

LEWIS CARROLL #SérieOsÚltimosPolímatas

polímata

(po·lí·ma·ta)

adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros

Que ou quem estudou e sabe muitas coisas ou muitas ciências (ex.: Santa Hildegarda era uma freira polímata; os polímatas são peritos em muitas áreas do conhecimento). = POLÍMATE, POLÍMATO

<polímata>, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2023, https://dicionario.priberam.org/pol%C3%ADmata.”

Traduzido do wikipedia English com algumas (muitas!) liberdades autorais…

Lewis Carroll

From Wikipedia, the free encyclopedia

 

Carroll em junho de 1857

Nascimento

Charles Lutwidge Dodgson
27 de janeiro de 1832
Daresbury, Cheshire, Inglaterra

Morte

14 de Janeiro de 1898 (aos 65 anos)
Guildford, Surrey, Inglaterra

Restos mortais

Mount Cemetery, Guildford, Surrey, Inglaterra

Ocupações

  • Escritor (atingiu a excelência)

  • Ilustrador

  • Poeta (atingiu a excelência)

  • Matemático (atingiu a excelência)

  • Fotógrafo (atingiu a excelência)

  • Professor

  • Inventor

Educação formal

Gêneros literários

  • Literatura fantástica

  • Literatura infantil

  • Matemática > Álgebra linear

  • Matemática > Lógica

  • Poesia

  • Política > Teoria do voto

  • Nonsense

Pais

Charles Dodgson (pai)

Família

 
 

O inglês Charles Lutwidge Dodgson (1832–1898), mais conhecido por seu nome de autor Lewis Carroll, foi escritor de prosa e poesia, matemático e fotógrafo, principalmente. Seus maiores trabalhos são Alice no País das Maravilhas (1865) e sua continuação (…) Através do espelho (1871). Se o considerava talentoso para os jogos de palavra, raciocínio lógico e criações fabulosas e imaginativas. Seus poemas em Jabberwocky (1871) e The Hunting of the Snark [ver tradução melhor] (1876) são considerados precursores da literatura do não-senso.

Carroll vem de uma família tradicional de anglicanos, tanto que toda sua educação formal se deu na Christ Church, onde também morou e lecionou a maior parte de sua vida.

Alice Liddell (1852-1934) – filha de Henry Liddell, o reitor de Christ Church – é quase tão famosa quanto Carroll e quase unanimemente identificada como a principal inspiração para seu personagem mais celebrado. Em vida, entretanto, Carroll negava veementemente que a Alice dos livros fosse inspirada por ou apenas pela menina dos Liddell.

Um ávido montador e propositor de quebra-cabeças, Carroll criou o jogo de word ladder (que ele chamava “doublets”, uma espécie de jogo de adivinhação de palavras, ou melhor, associação lógica de palavras),¹ publicados semanalmente em sua coluna da revista Vanity Fair (revista vitoriana que durou quase meio século) entre 1879 e 1881.

¹ Já podemos dizer que esse aparato é mais sofisticado que qualquer “metodologia” pseudanalítica de um século mais tarde.

(…)

Infância

(…) Maioria de seus antepassados masculinos eram oficiais do exército ou pastores da igreja. Seu bisavô chegou a bispo de Elphin no interior da Irlanda. Seu avô paterno, outro Charles, foi capitão do exército, morto em combate em 1803, quando o pai e os tios de Carroll não passavam de bebês. (…) Talento nato para a matemática, igual se mostraria o filho, o professor Dodgson poderia ter escolhido o caminho exclusivo do bacharelado. Em vez disso, ele preferia uma vida mais seclusa. Casou com a prima Frances Jane Lutwidge em 1830 e se tornou um modesto pároco de província.

Dodgson (Lewis) era a terceira de onze crianças do casal, sendo o primeiro menino. Aos 11 anos, mudou-se para Yorkshire devido a uma promoção de seu pai. Esta foi sua casa pelos próximos 25 anos de sua vida. Seu pai era um religioso extremamente ortodoxo e chegaria ainda ao cargo de Arqui-deão/Arqui-decano de Richmond. Era um polemista em questões de moral e cismas religiosos. O maior ídolo do homem era John Henry Newman (polímata e santificado pela igreja católica em 2019!), líder do Tractarian movement (a redação de um número de panfletos que queria dogmatizar a igreja anglicana especificamente inglesa à parte de outras conformações, como a da Irlanda).

Seu filho homem mais velho, nem precisamos dizer, não herdou todas as concepções ortodoxas e aristocráticas de seu progenitor, tendo preferido ser autor e professor de matemática antes de deão. Aos 7, Carroll, segundo anotações da família, lia livros para adultos – posto que montados sobre complicadas alegorias – como The Pilgrim’s Progress (…) de Bunyan. Ele e vários de seus irmãos e irmãs eram gagos, o que limitava suas perspectivas sociais. (…)

Auto-retrato circa 1856, aos 24.

Alegadamente, segundo seu diário, no período de 3 anos em que estudou na Rugby School Dodgson (e todos os mais jovens ou novatos), sofreu bullying. (…) Seu sobrinho Stuart Collingwood escreveria mais tarde: “Muito embora seja difícil de figurar meu tio como alguém diferente dessa persona meiga e retraída que todos conhecem, é também verdade que, mesmo anos depois de deixar de ser um estudante, seu nome era ainda recordado como o de alguém que sabia usar os punhos em auto-defesa dos mais fracos quando necessário”, referindo-se principalmente a lutas em que Lewis defendia não a si mesmo mas as outras vítimas de assédio da escola.

Em matemática, nunca vi alguém tão dotado em todos os meus anos na Rugby School quanto Dodgson”, escreveu o professor da instituição R.B. Mayor. (…) Seus estudos nesta instituição duraram de 1846 a 1849, no que poderíamos equivalê-los ao nosso ensino médio. Em maio de 1850 Dodgson já estava matriculado em Oxford na disciplina que tanto notabilizou não só a ele, mas a sua família como um todo, como se corresse no sangue. Apenas dois dias após o início das aulas, Lewis foi convocado para voltar ao lar: sua mãe havia morrido de uma “inflamação no cérebro”, talvez decorrente de um surto de meningite, ou um derrame, provocado ou não por alguma forte pancada. Ela tinha apenas 47 anos.

Seus anos na academia transitaram, segundo ele mesmo em seus diários, entre corresponder ao status de gênio que lhe era imputado pelos mais velhos e uma incrível capacidade de distração e “desleixo” para com a seriedade excessiva do ambiente. Em 1852 ele obteve uma menção honrosa como um dos mais destacados alunos da Universidade. Isso valeu-lhe uma bolsa oferecida pelo amigo de seu pai, o cânone da igreja Edward Pusey. Em 1854, imediatamente antes de se formar, adquiriria outra menção honrosa.

(…) Quando não atuava, de forma contínua ou intermitente, como professor da instituição na qual se formou, Lewis desempenhava uma miríade de cargos honoríficos, como o de sub-bibliotecário da própria Christ Church, algo parecido com a reitoria ou pró-reitoria da instituição.¹ (…)

¹ Assim como a denominação secretário, bibliotecário sofreu, no mundo profissional e na língua portuguesa, grande “baque” ou “recessão”…

Personalidade e aparência

Problemas de saúde

Fotografia de 1863 por Oscar G. Rejlander

Charles Dodgson, uma vez adulto, tinha cerca de 1.83m e era muito magro. Tinha cabelo encaracolado castanho e olhos entre azul e cinza (difíceis de definir conforme cada testemunho diferia). Foi descrito em seus anos finais como um “senhor excêntrico”, assimétrico, um tanto falto de harmonia e bizarro. Suspeita-se que esse quadro não seria veraz, dadas indicações de que também já havia possuído porte atlético, não fosse por uma lesão crônica no joelho que adquiriu à meia-idade.

Quando era criança sofreu de uma febre que o deixou surdo de um ouvido. Aos 17, teve um ataque severo de coqueluche, o que talvez explique a fraqueza de seus pulmões durante toda a vida madura. Sua gagueira permaneceu oscilante e relativamente controlada, mas de modo geral incurada, hoje um de seus traços mais conhecidos. A principal instância desse fato está auto-parodiada pelo Dodo (animal extinto no mundo real e que repetia sílabas, já no nome) de Alice no País das Maravilhas.

(…)

Lewis viveu em tempos em que a “alta sociedade” exigia certa fluência oratória, quando não talento lírico para as músicas e serões em grupos e bailes. Mas parece que Lewis não era mau cantor, nem se intimidava diante do público, assim como recitar poemas ou predicar a fé não lhe eram situações problemáticas. Outras de suas renomadas especialidades são a mímica e o conto improvisado de estórias (assim começou Alice no País das Maravilhas, inclusive). Melhor ainda, era um grande charadista.

Conexões

Entre seus primeiros escritos e o mega-sucesso da dobradinha Alice, Dodgson participava ativamente de um círculo de intelectuais “pré-rafaelitas” (eruditos e rebuscados, desejosos de disseminar uma cultura que antecedia mesmo o neo-classicismo, ainda que não fosse gótica como a da idade média). Assim foi que ele conheceu John Ruskin¹ em 1857. Em 1863 entabulou relações com Dante Gabriel Rossetti e sua família. Rossetti era outro polímata: poeta, pintor, tradutor. Outras celebridades do círculo eram William Holman Hunt, Arthur Hughes e John Everett Millais. Mas aquele autor com características mais similares as suas talvez fosse George MacDonald, nem que somente por haver se notabilizado pela autoria de obras “para crianças”. Na verdade parece que a entusiástica recepção dos esboços de Alice pelos filhos deste último encorajaram Carroll de forma decisiva para empreender sua reescrita e publicação finais. Carroll, notório fotógrafo, tiraria muitas fotos da família MacDonald e também da família Rossetti em seus jardins em Chelsea.

¹ Mais um polímata britânico do XIX retroativamente acusado pelos acadêmicos de pedófilo.

Política, religião e filosofia

Dodgson seguiu minimamente a tradição de seu pai: era um conservador purista em todos os tópicos sociais, mesmo os do pensamento humano, quando não acabava atingindo verdades póstumas via insights em suas novelas. Martin Gardner descreve Dodgson como um Tory preconceituoso e esnobe com as classes trabalhistas, o que nos causa estranheza. William Tuckwell, em Reminiscências de Oxford (1900), entendia-o como “austero, tímido, preciso, absorvido por demais em esquemas matemáticos, muito autoconsciente de seu senso de dignidade, algo conservador além do que parecia confortável a sua própria natureza, como que por inércia ou razões de família, e, enfim, prisioneiro de preconceitos vitorianos”.

(…)

Dodgson também foi um membro-fundador da Sociedade para a Pesquisa Psíquica, e ele era um claro defensor da teoria da telepatia (em Sílvia e Bruno dedica todo o poder e fé a essas crenças ao seu eu-lírico).

(…)

Na arte

Uma das ilustrações de Carroll

Literatura

Desde a adolescência se dedicou aos poemas e pequenos contos. Havia uma revista da família, Mischmasch, em que contribuía. Quando esses escritos foram revividos por publicações profissionais, obtiveram sucesso moderado. Nos anos 1850 ele se tornaria um autor nacionalmente conhecido (antes de Alice, quando se tornou mundialmente consagrado). Destacava-se mais nas publicações que fossem bem-humoradas, satíricas, etc.

Uma de suas peças de teatro para serem encenadas por marionetes por suas irmãs, nunca publicada em seus tempos, sobreviveu para nosso escrutínio: La Guida di Bragia. Seu primeiro poema realmente famoso foi Solitude (Solidão), num exemplar de The Train, em que Dodgson já usava o alter ego ou pseudônimo Lewis Carroll, a partir dali indissociável de sua carreira literária não-acadêmica. (…) Participou da escolha de seu nome artístico um dos editores de suas obras, Edmund Yates. Ele vetou outros nomes sugeridos por Dodgson: Edgar Cuthwellis, Edgar U.C. Westhill e Louis Carroll!

Os livros de Alice

The Jabberwock, ilustrado por John Tenniel, mais famoso pelas caricaturas dos dois volumes de Alice. Uma parte deste poema, autocontido, está em Através do Espelho.

Em 1856 o autor conheceu Henry Liddell e sua família. Não só o pai da família se tornou seu confidente (e basicamente patrão, pois era figura importante de Oxford) como a esposa Liddell, Lorina, e suas crianças também lhe amigaram muito rápido. Eram três irmãs mulheres, Lorina a Filha, Edith e Alice, a caçula. Em geral a Alice da pena de Lewis não lembra Liddell, realmente, em seus atributos físicos e em grande parte de sua personalidade infantil. É curioso, ainda mais em vista do que diremos a seguir sobre o “escândalo Carroll-Liddell”, que Lorina conste como figura proeminente no epílogo de País das Maravilhas…

Outra “pequena musa” de suas obras foi Gertrude Chataway (já de uma época em que Alice Liddell era uma mulher adulta), a quem dedica um poema com acrósticos no prelúdio de The Hunting of the Snark. Isso não sugere, ao contrário das lendas urbanas muito ou pouco exageradas no caso dos livros de mais fama, que Gertrude tenha sido tal e qual transposta para a narrativa ou tenha sido uma inspiração essencial da obra. Encara-se como uma simples dedicatória, como todo autor tem o direito de fazer, e costumeiramente o faz.

O que não nos permite tecer conclusões cabais de nenhum tipo sobre a força ou intensidade das relações com suas “musas” é que os diários do autor de 1858-62 estão irremediavelmente perdidos para nós. Isso não nos veda o conhecimento de que Lewis era realmente amigo íntimo da família Liddell e passeava de barco/gôndola com as crianças do casal em fins de semana e feriados, por exemplo, nas águas que circundam a Universidade de Oxford. Parece que a amizade com filhos de conhecidos não se mantinha após crescerem, no caso de Dodgson, mas com Alice Liddell a fofoca e as lendas urbanas atingiram o nível máximo na imprensa e nos estudos acadêmicosb.

(…)

Graças ao sucesso do primeiro livro de Alice, Dodgson se viu, pela primeira vez na vida, essencialmente um homem rico e independente. Anedoticamente se conta que a própria Rainha Vitória se enamorou tanto do livro que teria instado o autor a dedicar seu próximo livro a ela, mas este não foi um livro infanto-juvenil, e sim um maciço volume acadêmico chamado An Elementary Treatise on Determinants (Tratado Elementar sobre Determinantes Matemáticas). Mas, como com a frase “os boatos de minha morte foram um tanto exagerados”, podemos suspeitar da veracidade desta lenda: a dedicatória existe, porém não há registro fiável de que a rainha Vitória tenha feito esta súplica de homenagem.

Mesmo com o ganho satisfatório advindo de suas publicações, contudo, Lewis seguiu em Christ Church, como um professor comum. A continuação da primeira parte de Alice (não que a estória tenha terminado inconclusa) demoraria quase uma década, Através do Espelho. É um livro mais sinistro e sério, como aliás seria a tendência para Sílvia e Bruno, dificilmente catalogável, em sua metade “menos élfica” como “livro de crianças”!

Como sempre, os críticos querem encontrar em circunstâncias pessoais os motivos para o tom mais melancólico de uma obra, neste caso uma duologia que, dizem, começa muito mais alegre do que termina: o pai de Lewis morrera em 1868, entre as duas publicações. Fato muito fraco para ser causa de uma mudança de estilística ou de sentimento e humor num autor de grande envergadura.

The Hunting of the Snark¹

¹ Snark é uma criatura mitológica inventada por Carroll, portanto não me cabe traduzir o nome. O restante do livro sim: A Caça ou Caçada ao Snark.

Trata-se de um poema épico eivado de nonsense. Henry Holiday substitui Tenniel como seu ilustrador desta vez. Talvez seja uma releitura do mito de Ahab-Moby Dick. Entre 1876 e 1908 o livro teve 17 reimpressões, outro sucesso incontestável, desta vez noutro gênero. Hoje é comum vê-lo transposto para musicais, óperas, peças e músicae, embora muito menos lido que Alice, o que não é difícil, uma vez que Alice é um dos livros mais lidos de todos os tempos. Ainda falta o filme, bem como um maior reconhecimento para o legado de Sílvia e Bruno. Voltando a Snark, Dante Gabriel Rossetti costumava dizer que o poema era inteiro sobre ele.

Sylvie and Bruno

Como três/duas décadas atrás, eis Carroll produzindo um livro para o público infanto-juvenil em dois volumes mais uma vez, Sílvia e Bruno, um casal de irmãos-fada, numa trama um tanto mais elaborada que as anteriores, embora cheias dos mesmos jogos de palavras e absurdos temáticos encantadores sob a pena de Carroll. Na verdade há duas main plots que se desenvolvem de forma ora paralela, ora complementar, num enredo espiralado e interdependente. Um é o mundo real da Inglaterra interiorana cujo protagonista é um senhor idoso suscetível à crença nas tais fadas (muito parecido com o próprio Carroll em seu temperamento e humor) – este senhor não é chamado por um nome próprio no decorrer de todo o livro. (O Seclusão postará seus principais trechos em poucos dias.) A outra metade é dedicada às desventuras dos pequenos irmãos exilados de Exotilândia, peregrinos de Elfolândia e outros países ou mundos de faz-de-conta que vivem nos interstícios do nosso, neste enredo. A obra tem bastantes mensagens crít(p)icas e conteúdos inapreensíveis para pessoas demasiadamente jovens sem muita semelhança com a precocidade intelectual do próprio Dodgson, o que me permite situá-la na literatura universal do mais alto nível sem constrangimento algum. Mesmo não fazendo tanto sucesso comercial (comparativamente), o livro nunca esgotou seus exemplares ou saiu de circulação, recebendo reimpressões constantes, em mais de um século.

Hobby (em alto nível) da fotografia (1856–1880)

Foto de Alice Liddell tirada pelo próprio Lewis Carroll (1858)

Em 1856 Dodgson descobriu a nova arte da fotrografia e a abraçou por completo, sob influência de um primo, Skeffington Lutwidge, e do colega oxfordiano Reginald Southey. Em pouco tempo ver-se-ia que Carroll não era só um entusiasta da nova tecnologia e meio de expressão artística imagético, tendo muito tato e senso estético para suas imagens, como um fotógrafo vocacionado atual.

Um estudo exaustivo de Roger Taylor e Edward Wakeling conseguiu reunir todos os retratos sobreviventes do autor (https://www.abebooks.com/9780691074436/Lewis-Carroll-Photographer-Taylor-Roger-0691074437/plp). O objeto favorito de Carroll eram garotas pré-púberes (cerca de 50% de suas modelos fotográficas). Estima-se que mais da metade das fotos tiradas por Dodgson foram destruídas pelo autor antes de sua morte ou por seus parentes, talvez mediante pedido do autor em testamento. Ele também fez estudos de paisagens, garotos e homens adultos. Mesmo objetos inanimados: esqueletos, bonecas, estátuas, pinturas (primeiras instâncias de um mélange ou intersemiótica de fotografia e outras artes?); ou então animais, principalmente cães, e a vida vegetal. Sempre que fotografava crianças ele mantinha um dos pais como testemunha em toda a sessão. A famosa foto acima, uma das que nos permite conhecer a fisionomia da Alice “verdadeira”, foi tirada nos jardins da propriedade dos Liddell: era comum àquele tempo ser melhor tirar fotos aproveitando-se da luz solar, pois não havia ainda bons estúdios de fotografia nem lugares fechados com iluminação hoje dita profissional.

The Rossetti Family, Lewis Carroll (1863). L-R: Dante Gabriel RossettiChristina RossettiFrances Polidori e William Michael Rossetti

A fotografia de pessoas célebres também valeu-lhe contatos importantes e dinheiro: John Everett MillaisEllen TerryJulia Margaret CameronMichael Faraday (um dos nossos polímatas da série!)Lord SalisburyAlfred Tennyson.

Em 1880 Dodgson se aposentou da fotografia (foram 24 anos de carreira). Ele tinha um lugar para armazenar seus retratos no sótão de Tom Quad. O aposento constituía um acervo de 3 mil imagens. Como dito, conhecemos hoje menos de mil, então é uma estimativa, no melhor dos mundos. Algumas fotos foram perdidas unicamente pelo desgaste do tempo e não-atendimento dos requisitos de preservação do suporte, não por negligência, mas pela precocidade técnica do trabalho de Carroll.

Como fotógrafo da velha guarda, seu método de revelação estava se tornando obsoleto e ele tinha de perder muito tempo com fotografias, o que o privava das delícias da literatura e da matemática, daí sua “aposentadoria” anunciada, bem antes do fim de seus anos ativos.

Matemática

Pintura-retrato póstuma de Lewis Carroll por Hubert von Herkomer.

Suas sub-especialidades eram os campos da geometria, álgebra linear, álgebra de matrizes, lógica e matemática recreativa (podendo ser considerado o pai da ‘disciplina’), tendo escrito quase uma dúzia de livros no assunto, com seu nome de batismo, não Lewis Carroll.

Dodgson produziu a primeira prova impressa do Teorema de Rouché-Capelli; contribuiu com novas idéias e conceitos em probabilidade e estudos de eleições (“método Dodgson”).

Lógica

Esse é um legado redescoberto somente na segunda metade do século XX. Martin Gardner e William Warren Bartley III parecem ter voltado a situar Carroll no âmbito dos lógicos de relevo. Seu volume II dedicado à lógica é especialmente recomendado.

Álgebra

A condensação de Dodgson é uma maneira de avaliar determinantes. Esses foram os passos iniciais para o desenvolvimento de um novo teorema algébrico.

Matemática como passatempo

Fosse vivo durante a Segunda Guerra, é de supor que Carroll pudesse ajudar os Aliados contra os alemães, pois algumas de suas proposições sobre criptografia seguem bastante atuais. Para um homem que viveu antes dos computadores, essa é uma faceta marcante.

Correspondências

Estima-se que Dodgson tenha escrito e recebido espantosas 98.721 cartas. Poderíamos chamá-lo de Pelé das cartas.

Anos finais¹

¹ Odiaria ter uma página no wikipedia com essa seção contando minha vida.

 

 

Lewis Carroll retratado na terceira idade

Dodgson pouco mudou sua rotina após a fama e a riqueza, como dito. Uma de suas poucas aparições públicas, por exemplo, se deu na estréia de Alice no País das Maravilhas no teatro, no País de Gales, 30 de dezembro de 1886. Parece que a única ocasião em que viajou para fora do Reino Unido foi quando conheceu a Rússia em 1867, numa missão eclesiástica com o reverendo Henry Liddon. Na volta, parece ter feito escalas em cidades da Bélgica, Alemanha, Polônia e França, conforme seus diários. A partir dos 60 anos sua mobilidade foi severamente comprometida pela artrite e a gota. Sua causa mortis foi pneumonia seguida de influenza.

Controvérsias

Sexualidade de Carroll & Algumas considerações sobre o surgimento da arte da fotografia

Biógrafos do fim do século XX, com a pauta finalmente em moda, começaram a se questionar sobre a homossexualidade e a possível classificação de Dodgson como pedófilo, mas é importante ressaltar que para que esse diagnóstico seja válido ao se referir a pessoas de séculos anteriores a documentação comprobatória precisa dar respaldo, mais ainda do que para biografias contemporâneas, com testemunhos, testes, dentre outras evidências muito mais acessíveis. Mais do que trabalho historiográfico, a grande parte do que se publicou sobre o tema até hoje parece jornalismo marrom ou tentativa de vender mais exemplares, alimentando polêmicas anacrônicas. Para exemplos da conduta, vd. Morton Cohen, Lewis Carroll: A Biography, 1995; Donald Thomas, Lewis Carroll: A Portrait with Background, 1995; Michael Bakewell, Lewis Carroll: A Biography, 1996. Veja que todas as biografias são produtos de um tempo (uma década histérica com a Aids, talvez, e de retrocesso nas conquistas de liberação pós-guerra?)

 

 

Fotografia carrolliana de Beatrice Hatch, parente em grau distante de Aldous Huxley.

Circulam fake news de que Dodgson teria pedido a mão de Alice Liddell em casamento, mas essa informação não é encontrada em nenhuma de suas quase 100 mil correspondências, o que deveria servir de alerta ao baixo nível das biografias acadêmicas do autor.

(…)

Do lado dos historiógrafos mais honestos e menos sensacionalistas podemos encontrar Hugues Lebailly (Through a Distorting Looking-Glass: Charles Lutwidge Dodgson’s artistic interests as mirrored in his nieces’ edited version of his diaries; Charles Lutwidge Dodgson’s relationship with the weaker and more aesthetic sex re-examined). A era vitoriana promovia uma espécie de culto divino da infância e da criança, mesmo do corpo a-erótico das crianças. É natural que um homem do período desenvolvesse uma carreira vicária de fotógrafo com estes gostos em mente, e que fotos com roupas de luxo, simulando certa pobreza ou espontaneidade (a criança coberta de farrapos, ou como que em roupa de cama, surpreendida ao acordar) e até mesmo nus completos não produzissem o menor choque social – pelo contrário, era como retratar anjos visíveis. Palavras como pornografia e abuso infantil estavam longe sequer de ser cunhadas ou debatidas.

Longe de ser uma exclusividade de Carroll, muitos profissionais do período e do local são notáveis no campo da Estética por tratar exclusivamente do assunto e contribuir em Estética e Moda das perspectivas infanto-juvenis, como Oscar Gustave Reilander¹ (quem trabalhou com Darwin) e Julia Margaret Cameron (a mãe do close-up, até hoje uma das maiores influenciadoras de nosso imaginário plástico dos maiores gênios que estudamos desde a escola via livros-textos, pois dela são algumas das fotos mais difundidas de ingleses de renome; ataques misóginos no período – que surpresa! – classificavam seus “cliques” atemporais como “borrados e fora de foco” – nem Bernard Shaw² deixou de dizer as maiores asneiras sobre Julia Cameron, ainda que obrigado a reconhecer seu talento… para fotografar homens velhos!). “Nus” de crianças apareciam vulgarmente em cartões postais britânicos a cada comércio de esquina, então não é como se fossem uma commodity para “aficionados” ou “doentes”, como seriam considerados hoje. Não há como condenar Dodgson sem condenar um período histórico inteiro (e ainda assim estar-se-ia correndo o risco de cometer grave injustiça) – disso os biógrafos incautos deveriam ser avisados, se ousam tecer conclusões de longo alcance a fim de vender livros mais facilmente.

¹ A propósito, através dessa página encontrei essa outra e estou aqui gargalhando há 5min: https://en.wikipedia.org/wiki/Victorian_headless_portrait. Etimologia da lenda do cavaleiro sem cabeça (ou um dos epifenômenos dessa obsessão inglesa)?

² Um dos últimos reacionários com cérebro do planeta Terra.

Karoline Leach vai mais longe e entende o retrato (no pun intended) que se faz de Lewis como “desinteressado de mulheres adultas” como uma grande mitologização e falsificação da vida do autor, o que ganhou até nome próprio para larga utilização: O Mito de Carroll. Os primeiros biógrafos erraram sutilmente a esse respeito; os de uma segunda geração, utilizando os primeiros como referência, ampliaram o erro ao entender “eco” como “informação” inquestionável, até que o mercado de biografias de Carroll se tornasse indistinguível do mau jornalismo de superfície, com lupas que magnificavam os erros dos biógrafos precedentes.

Algumas das famosas “amiguinhas” de Carroll, como chamam suas modelos pejorativamente, porque assim ele as tratava nas cartas, sem por isso significar algo jocoso, que os biógrafos que o acusam de pedofilia gostam de citar como “prova”, com as quais ele se correspondia, tinham mais de 18 anos de idade, por exemplo. Imoralidade não deve ser confundida com ilegalidade nesse aspecto idiossincrático – se verdadeiramente idiossincrático – do eminente pastor-matemático-poeta-fotógrafo! Langford Reed, por fim, para citarmos novamente alguém do campo anti[t]ético, propôs em 1932 uma tese um tanto “leonardodicapriana” para os interesses interpessoais de Carroll: ele, alega o autor da biografia dos anos 30 do século passado, descartava suas amizades femininas quando elas chegavam aproximadamente ao aniversário de 14 anos. Como vimos no caso da família Liddell, a razão do “rompimento” pode ser de ordem completamente não-relacionada com o envelhecimento da criança-modelo (inclusive pode ter relação com ciúmes e paranóia dos pais da agora púbere rebenta, num tempo em que se fazia legitimamente a côrte a mulheres assim que elas já haviam visivelmente menstruado – e não falo de jovens de barba espessa, mas de sessentões ou setentões, muitas vezes). Outros defendem que Carroll era homossexual e usava essas correspondências para tentar camuflar o fato, que era contravenção conforme a Inglaterra do período ou pelo menos pecado na consciência de alguém tão religioso, sabendo-se que dificilmente um aristocrata britânico teria de cumprir pena pelo crime do “amor proibido”.

O claustro e não-ordenação

Dodgson deveria ter sido ordenado para viver em claustro cerca de 4 anos após ter completado seus estudos como matemático na Christ Church. Mas essa circunstância foi inúmeras vezes adiada e Carroll acabou sendo sempre um “leigo”, isto é, um pastor comum de sua congregação, e não alguém mais retirado da vida, um “monástico” (a igreja anglicana possui tantos pontos em comum com o catolicismo – vedação do sexo fora ou mesmo dentro do casamento sem fins reprodutivos, quando não do casamento em si – quanto com o protestantismo, dependendo da seita em questão).

Algo dos possíveis tormentos um tanto herméticos e apenas psicológicos de Carroll no que diz respeito a sua condição de pecador pode ser distinguido nas entrelinhas da narração em primeira pessoa da ficção Sílvia e Bruno, que comparado com Alice no País das Maravilhas, livro sem referencial religioso algum (dir-se-ia, bastante pagão), é uma verdadeira gospel novel.

Os diários perdidos

Pelo menos 4 volumes completos e 7 páginas de texto de outros diários estão faltando, num total de 13 volumes dos diários de Lewis Carroll. Não se sabe explicar o desaparecimento. A remoção das páginas aleatórias dentre os volumes preservados, por exemplo: especula-se que seja obra dos herdeiros, a fim de preservar a imagem do autor em pontos sensíveis de sua biografia. Os períodos mais afetados por essas omissões são 1853 a 1863 (dos 21 aos 31 anos de Lewis). Há especulações, no mesmo montante, de que fossem poemas abertos sobre interesses homossexuais, numa análise contextual de em que períodos Carroll mais produziu poeticamente (justamente esse intervalo). Novamente, especulações com algo de razão, porém sem qualquer evidência.

 

Descoberta documental (não-conclusiva) de 1996 (Karoline Leach): mais um indício apoiando que ambas as famílias jamais trataram de propostas matrimoniais entre “Carroll” Lutdwidge e Alice Liddell.

Parece que a principal causa do rompimento havido entre Carroll e a família Liddell (que não foi definitivo, mas que esfriou a relação entre as partes de modo irreversível) tinha razões bem menos nobres, se se confirma a veracidade do conteúdo da imagem exposta acima –– outros diriam: bem menos escandalosas ––, que uma negativa de Alice (na verdade o pai de Alice) em se casar (que sua filha se casasse) com Dodgson. Havia boatos, na casa paterna, de relações entre o escritor e uma certa governanta, ou mesmo com Lorina Liddell, a irmã mais velha de Alice (em idade legal para contrair o matrimônio, a propósito). Na verdade, pior ainda, Lorina podia ser a própria mãe de Alice, já que o nome da primeira filha e da mulher do Sr. Liddell era o mesmo! Affair socialmente escandaloso, sem dúvida, mas absolutório de Carroll no quesito “pedófilo que gostaria de casar com sua principal musa inspiradora” (o que nos importa neste séc. XXI, assumo), para a decepção de muitos tablóides acadêmicos extemporâneos! Caso isso pudesse ser provado efetivamente, e não apenas apontado com um pouco mais de probabilidade (só o que há são “fofocas” provenientes de uma página muito tardia redescoberta, realmente suprimida do diário, mas não-escrita pelo próprio Carroll, mostrando que ele foi alterado entre sua morte e sua divulgação, que bate com a data do rompimento nas relações familiares, em que constam essas explicações mais fundamentadas no senso comum – testes caligráficos apontam para as anotações serem das sobrinhas de Carroll, que alegavam não querer manchar a reputação da governanta para terem suprimido a página depois, enquanto que há outra vertente que acredita na declaração do sobrinho-neto de Carroll de que foi ele o autor da entrada no diário, baseando-se, de qualquer maneira, em ouvir-dizer corrente na família), realmente seria o maior marco ou revolução epistemológica desde que biografias de Carroll começaram a ser escritas, digno de um grande mea culpa dos especuladores em relação a Lewis Carroll! A página acima segue, entretanto, como curiosidade pitoresca sobre esta inútil polêmica.

Enxaqueca e epilepsia¹

¹Esta seção deveria obviamente estar em Problemas de saúde, não como tópico separado.

Na década de 1880 Dodgson descreveu em detalhes suas crises de enxaqueca com aura. Curiosamente, uma vertente de enxaqueca foi batizada de Síndrome de Alice no País das Maravilhas por médicos posteriores, graças aos efeitos visuais lisérgicos decorrentes da crise (há a sensação corpórea, concomitante, de aumento e diminuição do tamanho dos corpos em volta).¹

¹ Eu mesmo padeci de uma dessas crises (embora minhas enxaquecas, sempre com aura, sejam bastante raras) num momento fundamental de minha adolescência em que fui falsamente acusado pelos meus pais de empreender ações horríveis (namorar uma suposta prostituta-cafetã – acusação que na verdade partiu – e foi facilmente crida – de um trote da cunhada má, irmã da difamada, nas quais meus pais caíram como patos sem solicitar qualquer evidência além de uma convicta voz na ligação de telefone, como caem em qualquer conversa para boi dormir, de golpes de cartão a Bolsonaros…).a Com o tempo, o sistema de mentiras que eles (meus pais) erigiram para me difamar voltou-se contra eles, e as doenças auto-imunes também deixaram de me afetar para afetar Nadir Gomes e José de Jesus Ferreira ao invés. Enantiodromia psicossomática hereditária? Somatização enantiodrômica intergeracional? Destino trágico-irônico? Chamem do que quiser! Eu chamo de BBB: burlesco, belo e moral.

a Anos depois, ironicamente, a mesma pessoa (a cunhada caluniosa), com o mesmo expediente (telefonar para os meus pais) conseguiu realizar o efeito contrário na mente deteriorada de meus lamentáveis progenitores: num contexto diferente, em que as duas tinham se reconciliado e eu era “o ex tóxico da estória”, a irmã de minha ex-namorada (quero deixar claro que esta ex-namorada nunca foi prostituta, nem cafetina, nem agia como qualquer dessas coisas, como nas ilações feitas pela própria irmã meses antes!! parece que não só a minha família é um poço de lodo covarde e deletério…) comunicou aos meus pais que me processaria por tê-la eu ofendido no scrapbook do finado Orkut! Meu pai, machão como sempre, disse que se algo assim se repetisse eu não poderia concluir minha faculdade privada de jornalismo, que ele a duras penas (falso!) custeava, pois pararia de me financiar no ato.aa

aa Mais curiosamente ainda, numa dessas reviravoltas típicas na vida de pessoas sem-cérebro (falo do meu pai, que infelizmente tinha dinheiro e o monopólio sobre minha existência, quando eu era um jovem desempregado de 20 anos), ele revoltou-se anos mais tarde quando eu desisti voluntariamente da faculdade de jornalismo, pois não desejava mais seguir aquela profissão, e ser-me-ia fácil largá-la de imediato, uma vez que já inclusive cursava em simultâneo sociologia na Universidade de Brasília e comunicação social nessa pós-graduação de direito privado… Agora, porém, o “machão” não podia dizer que sem seu dinheiro eu não poderia me formar (numa instituição pública), e que ele era o deus-mecenas de minha existência presente-futura… Havia perdido um grande poder, ou sensação de poder, que os idosos usam no lugar das ereções! Ele não deixou, contudo, e hipocritamente, de estrebuchar-se por meia hora sobre os recursos que havia jogado fora em minha educação, só para que eu desistisse dum curso em que eu era excelente aluno (e do qual ele ameaçou me desmatricular se eu xingasse uma verdadeira RAMEIRA REPRODUTORA DE MENTIRAS EM SÉRIE num perfil de rede social, recapitulemos). Assim caminha a família tradicional brasileira: vários andares abaixo da família tradicional vitoriana, que já claudicava e não ia nada bem… Intermezzo talvez desnecessário neste post sobre Carroll, mas delicioso mesmo assim, uma vez que a página do wikipedia achou tão importante citar as enxaquecas com aura de Dodgson e tudo isso me veio à baila sub-repticiamente!

Três médicos teriam diagnosticado Carroll ao longo da vida, graças a alguns desmaios sem piores conseqüências, como epilético em algum grau, diagnósticos não-conclusivos (exatamente como muitos capítulos biográficos contendo opiniões fortes em forma de afirmações absolutas, mas nada mais). De qualquer maneira, foram tonturas ou mal-estares “epileptiformes” ou “epileptóides”, embora não epilepsia propriamente dita.

(…)

(Um último conselho aos editores do Wikipédia: parem de incluir informações irrelevantes ou não-confirmadas em seus artigos biográficos!)

Trabalhos completos

Literários

  • La Guida di Bragia, Ópera-Balada para Teatro de Marionetes (c. 1850)

  • Miss Jones”, música cômica (1862)

  • Alice’s Adventures in Wonderland (1865)

  • Fantasmagoria e Outros Poemas (1869)

  • Through the Looking-Glass,…and What Alice Found There [Através do Espelho…e o que Ela Encontrou Por Lá] (inclui a 1ª aparição de Jabberwocky e “A Morsa e o Carpinteiro”) (1871)

  • The Hunting of the Snark (1876)

  • Rhyme? And Reason? [Rima? Com ou Sem Sentido?, seria minha opção de tradução favorita] (1883) – tem vários poemas em comum com o livro de 1869 “Phantasmagoria”

  • Um Conto Emaranhado (1885) [Este título também seria ótimo como alternativa para Sílvia e Bruno.]

  • Sylvie and Bruno (1889)

  • A Pequena “Alice” (1890) [Ou “Alice para a Creche”, versão abreviada para crianças de 0 a 5 anos, segundo o próprio Carroll.]

  • Sylvie and Bruno Concluded (1893) [primeira aparição do 2º volume da obra, hoje vendida em vol. único]

  • Problemas de Travesseiro (1893)

  • O que a tartaruga falou para Aquiles (1895)

  • Três Crepúsculos e Outros Poemas (1898)

  • The Manlet (1903)

Matemáticos

  • Uma Sílaba de Geometria Algébrica Plana (1860)

  • O Quinto Livro de Euclides Tratado Algebricamente (1858; 1868)

  • Tratado Elementar sobre Determinantes, Com sua aplicação a equações lineares simultâneas e equações algébricas

  • Euclides e seus rivais modernos (1879), uma espécie de livro-híbrido entre literatura de não-ficção e pedagogia em matemática.

  • Lógica Simbólica Parte I

  • Lógica Simbólica Parte II (póstumo)

  • A Cifra do Alfabeto (1868) [sobre decriptação]

  • O jogo da Lógica (1887)

  • Curiosa Mathematica I (1888)

  • Curiosa Mathematica II (1892)

  • Uma discussão sobre os vários métodos para se conduzir eleições (1873), Sugestões para o melhor método de escrutínio popular, em que mais de dois assuntos devem ser votados (1874), Método de contagem de votos em mais de dois temas simultâneos (1876), todos compilados como Teoria dos Comitês e Eleições, editado, analisado e publicado em 1958 por Duncan Black.

Outros/miscelânea

  • Algumas Conhecidas Falácias sobre Vivissecção

  • Oito ou Nove Sábias Palavras sobre Escrever Cartas (1890)

  • Notes by an Oxford Chiel [Observações de um ‘Cara’ de Oxford, como nos referiríamos à gíria chiel, caída em desuso] (1865-74)

  • Princípios da Representação Parlamentar (1884) [não entendo por que não recairia em ciência política ou, ao menos, matemática, conforme os outros trabalhos de Carroll sobre votação]

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    116. ^ “‘A most curious thing’ / Lewis Carroll Library”. designbybeam.com. Archived from the original on 3 April 2015. Retrieved 15 March 2013.

    117. ^ “LEWIS CARROLL IS HONORED ON 150TH BIRTHDAY”. The New York Times. 18 December 1982. Archived from the original on 5 May 2015. Retrieved 30 January 2015.

    118. ^ “Lewis Carroll Centenary Wood near Daresbury Runcorn”. woodlandtrust.org.uk. Archived from the original on 5 August 2020. Retrieved 27 November 2019.

    119. ^ About Us, Lewis Carroll Centre & All Saints Daresbury PCC, archived from the original on 14 April 2012, retrieved 11 April 2012

    120. ^ The Carrollian. Lewis Carroll Society. Issue 7–8. p. 7. 2001: “In 1862 when Lewis Carroll sent to Yates the manuscript of the words of a ‘melancholy song’, entitled ‘Miss Jones’, he hoped that it would be published and performed by a comedian on a London music-hall stage.” Archived 4 August 2020 at the Wayback Machine

    121. ^ The Hunting of the Snark and Other Poems and Verses, New York: Harper & Brothers, 1903

Bibliografia

  • Clark, Anne (1979). Lewis Carroll: A Biography. London: J. M. Dent. ISBN 0-460-04302-1.

Uma das primeiras biografias a revelar detalhes da infância de Carroll.

Talvez a biografia mais indicada até o presente.

  • Pizzati, Giovanni: “An Endless Procession of People in Masquerade”. Figure piane in Alice in Wonderland. 1993, Cagliari.

  • Reed, Langford: The Life of Lewis Carroll (1932. London: W. and G. Foyle)

  • Taylor, Alexander L., Knight: The White Knight (1952. Edinburgh: Oliver and Boyd)

  • Taylor, Roger & Wakeling, Edward: Lewis Carroll, Photographer. 2002. Princeton University PressISBN 0-691-07443-7.

Para um livro de fotografia, não achei tão caro!

Aprofundamento

  • Black, Duncan (1958). The Circumstances in which Rev. C. L. Dodgson (Lewis Carroll) wrote his Three Pamphlets and Appendix: Text of Dodgson’s Three Pamphlets and of ‘The Cyclostyled Sheet’ in The Theory of Committees and Elections, Cambridge: Cambridge University Press

  • Bowman, Isa (1899). The Story of Lewis Carroll: Told for Young People by the Real Alice in Wonderland, Miss Isa Bowman. London: J.M. Dent & Co.

  • Carroll, Lewis: The Annotated Alice: 150th Anniversary Deluxe Edition. Illustrated by John Tenniel. Edited by Martin Gardner & Mark Burstein. W. W. Norton. 2015. ISBN 978-0-393-24543-1

  • Dodgson, Charles L.: Euclid and His Modern Rivals. Macmillan. 1879.

  • Dodgson, Charles L.: The Pamphlets of Lewis Carroll

  • Douglas-Fairhurst, Robert (2016). The Story of Alice: Lewis Carroll and the Secret History of Wonderland. Harvard University Press. ISBN 9780674970762.

  • Goodacre, Selwyn (2006). All the Snarks: The Illustrated Editions of the Hunting of the Snark. Oxford: Inky Parrot Press.

  • Graham-Smith, Darien (2005). Contextualising CarrollUniversity of Wales, Bangor. PhD thesis.

  • Edward Guiliano (1982). Lewis Carroll, a Celebration: Essays on the Occasion of the 150th Anniversary of the Birth of Charles Lutwidge Dodgson, C. N. Potter, London.

  • Huxley, FrancisThe Raven and the Writing Desk. 1976. ISBN 0-06-012113-0. (Francis Huxley é sobrinho de Aldous Huxley)

  • Kelly, Richard: Lewis Carroll. 1990. Boston: Twayne Publishers.

  • Kelly, Richard (ed.): Alice’s Adventures in Wonderland. 2000. Peterborough, Ontario: Broadviewpress.

  • Lakoff, Robin T.: Lewis Carroll: Subversive Pragmaticist. 2022. Pragmatics: Quarterly Publication of the International Pragmatics Association, pp. 367–85

  • Lovett, Charlie: Lewis Carroll Among His Books: A Descriptive Catalogue of the Private Library of Charles L. Dodgson. 2005. ISBN 0-7864-2105-3

  • Richardson, JoannaThe Young Lewis Carroll. London: Max Parrish, 1963.

  • Waggoner, Diane (2020). Lewis Carroll’s Photography and Modern Childhood. Princeton: Princeton University Press. ISBN 978-0-691-19318-2.

  • Wakeling, Edward (2015). The Photographs of Lewis Carroll: A Catalogue Raisonné. Austin: University of Texas Press. ISBN 978-0-292-76743-0.

  • Wullschläger, Jackie: Inventing WonderlandISBN 0-7432-2892-8. – Also looks at Edward Lear (of the “nonsense” verses), J. M. Barrie (Peter Pan), Kenneth Grahame (The Wind in the Willows), and A. A. Milne (Winnie-the-Pooh).

  • N.N.: Dreaming in Pictures: The Photography of Lewis CarrollYale University Press & SFMOMA, 2004.

  • Gena Showalter, Alice in Zombieland. Um belo exemplo das incontáveis paródias que Alice no País das Maravilhas gerou; mas eu ainda preferiria jogar a franquia McGee’s Alice! 😉

  • Schütze, Franziska: Disney in Wonderland: A Comparative Analysis of Disney’s Alice in Wonderland Film Adaptations from 1951 and 2010

HERBERT SPENCER #SérieOsÚltimosPolímatas

polímata

(po·lí·ma·ta)

adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros

Que ou quem estudou e sabe muitas coisas ou muitas ciências (ex.: Santa Hildegarda era uma freira polímata; os polímatas são peritos em muitas áreas do conhecimento). = POLÍMATE, POLÍMATO

<polímata>, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2023, https://dicionario.priberam.org/pol%C3%ADmata.”


RESUMÉ

Herbert Spencer (27 de abril de 1820 – 8 de dezembro de 1903) foi um polímata britânico com alguma proeminência nos seguintes campos: filosofia, psicologia, biologia evolucionista, sociologia e antropologia. É de Spencer a expressão, extremamente popularizada, “sobrevivência do mais forte”, contida em Princípios da Biologia (2 vols., 1864). É sempre necessário observar que Spencer extrapola o trabalho de Charles Darwin, autocontido na esfera da história natural, para aplicá-lo, segundo seus próprios critérios, a sociedades humanas (o que gera implicações antropológicas, políticas, sociológicas, históricas e sobretudo éticas, com as quais NÃO ESTOU DE ACORDO – por isso mesmo, devemos estudar nosso inimigo teórico, a fim de ultrapassá-lo em seus erros). Em suma, trata-se de um polímata polêmico, que deve ser sempre lembrado pelo que fez artificialmente mesclando seleção natural com eugenia (seleção organizada, crime contra a humanidade na atualidade). Spencer era o mais célebre intelectual anglófono no fim do século XIX.

BIOGRAFIA GERAL

Spencer é filho de William George Spencer, matemático. George foi um educador entusiasta das reformas pedagógicas de Johann Heinrich Pestalozzi e conheceu e trabalhou com Erasmus Darwin, avô de Charles Darwin, contemporâneo de Herbert ou Spencer filho. Sua educação se deu diretamente pelo pai e por um tio, com escassa instrução formal. Esse dado terá importância quando discutirmos as obras spencerianas.

Iniciou sua carreira como engenheiro civil durante o boom das estradas de ferro de 1830 na Grã-Bretanha, mas tinha dificuldade de se fixar em alguma atividade ou disciplina do conhecimento definidas. Desde muito jovem contribuía para jornais ditos “liberais”: intervencionistas na política e profunda e militantemente ateístas. Nisso não foi vanguardista, mas essencialmente um homem de seu tempo.

Em Social Statics, seu primeiro livro, 1851, previu que os indivíduos adaptar-se-iam “por osmose” à civilização e a sociedade caminharia para a abolição do Estado numa transição pacífica. Chocante se pensarmos que um grande adversário ideológico seu, Marx, proporia a mesma teleologia para a humanidade, mas por uma via completamente distinta. Passou a participar dos círculos dos homens mais “radicais” do período (o que hoje nos soa risível): Mill, Martineau, Henry Lewes, Huxley e George Eliot (esta última um interesse amoroso efêmero de Spencer), dentre outros. Defendendo Stuart Mill e combatendo o comtismo, elaborou sua principal obra, que o habilita hoje para determinadas fontes como cientista social, embora isso seja formalmente incorreto e anti-sociológico mesmo.

Seu segundo livro (1855) foi no campo da psicologia, em que advogava uma disciplina da alma humana (seu significado, afinal) baseada na fisiologia. Foi assim que, aproximando-se mais e mais da biologia, Spencer começou a pensar no indivíduo como mera peça da engrenagem de uma raça ou espécie (o que é contraditório com o liberalismo econômico e poderia até ser alinhado às principais crenças do positivismo de sua nêmese Auguste Comte, porém demonstra como a história da epistemologia não é coerente, e nem precisa ser; aliás, antes, se precisa ser algo, deve ser necessariamente contraditória a cada momento). Sua falta de fixação em fundamentos de um conhecimento genuíno levou-o a ser um dos homens mais “tendenciosos”, seguindo as modas intelectuais da época: aliando a frenologia (pseudociência, então em voga como ciência) à crença no progresso constante da humanidade, elaboraria vários silogismos centrais para sua visão de mundo. Como Darwin veio a publicar seus renomados trabalhos somente mais tarde, nessa época o “parcialmente biólogo” Spencer usou muito dos postulados do lamarckismo, a principal escola “rival” do darwinismo. Spencer tinha a ingênua ambição de ser “o Isaac Newton das ciências humanas”, pelo menos durante algum período de sua “eclética” vida.

Como definir rapidamente seu “sistema de filosofia sintética”? É simplesmente a aplicação da teoria biológica da evolução do século XIX a todos os campos humanos de maneira irrestrita, atrás de uma fórmula ou equação que simplificasse e esgotasse todo o conhecimento sobre a mente e o comportamento humanos (Spencer não apresenta literalmente uma equação ou lei, mas é o que ele mais gostaria de haver realizado): a psicologia, a sociologia e a moral seriam em breve apenas “ciências acessórias” da única ciência, esta filosofia sintética. Esse Sistema possui 10 volumes e levou 40 anos para ser escrito!

Apesar de tardio (suas primeiras obras venderam mal), seu reconhecimento se estabeleceu na década de 70. Até para o japonês e o mandarim traduziram seus livros da fase “intermediária”. Herbert Spencer basicamente resume o “homem diletante de ciência da era vitoriana”.

No fim de sua vida, sentiu que não criou uma trajetória intelectual em bases sólidas, entretanto, e queixou-se de uma extrema solidão. Nunca se casou nem deixou descendência e tinha um quadro hipocondríaco que a medicina não conseguia tratar. Era um homem que não aceitava, tampouco, ser contradito. Mesmo um jogo de baralho em que as coisas saíssem mal era-lhe suficiente para acabar com o resto do dia, talvez da noite, provocando-lhe insônia, como confidenciou-nos Huxley.

Na década de 1890 sua popularidade começou a fenecer no público, e maioria de seus melhores amigos já havia morto. A Europa imperialista caminhava cada vez mais para o reacionarismo e o “indivíduo livre”, sonho dos apologistas do mercado, teve sua esfera severamente encolhida. Em seu primeiro livro, Spencer advogava o sufrágio universal para as mulheres e a inclusão de votantes até mais abrangente que nossos sistema democráticos hordiernos: as crianças e os adolescentes deveriam participar desse dever cívico. (!) No fim de sua vida, tornou-se basicamente um oligarca irreconhecível. E é infelizmente desse último período que vem seu livro mais lido ou célebre, O Homem contra o Estado.

POLIMATIA

Spencer foi um dos últimos sistematizadores na filosofia/epistemologia, no auge das tendências atéias, da fé no progresso ilimitado e gradual e no poder explicativo exaustivo da ciência. Seu sistema é quase um dogma ou religião cientificista, o que novamente o aproxima, malgrado seu, de Auguste Comte!

Desconheço se Spencer realmente chegou a entender as implicações da segunda lei da termodinâmica. Se sim, ele deve ter ficado bem decepcionado. Decorre desta lei que tudo tende à uniformidade no nível inorgânico, diminuindo (e não aumentando) a heterogeneidade do sistema, que para ele ganharia em valor ao se complexificar cada vez mais..”

Bertrand Russell

DARWINISMO SOCIAL

Era questão arbitrária onde encaixar o subtítulo “darwinismo social” (se em sociologia, ciência política, economia ou ética) ou se simplesmente ele comporia um título independente deste artigo, como foi minha escolha. Mas as maiores implicações da eugenia proposta por Spencer se deram, como verificamos, na II Guerra, na Alemanha nazista, de modo que podemos isolar sua idéia-chave como a mais importante (e nefasta) que ele nos legou.

SOCIOLOGIA

Mais por acidente e por pertencer ao tempo e lugar a que pertenceu é que podemos falar de Spencer como “sociólogo”. Foi imediatamente precedido por Comte e muito influenciado pelo autor francês, de forma, como já se viu, um tanto ambígua. O que Spencer rejeita em Comte, p.ex., é seu postulado dos “três estágios” da evolução social. Segundo algumas referências, Spencer teria sido o primeiro a cunhar o binômio hiper-utilizado e hoje até saturado “estrutura social”. No seu lugar, Spencer cunhou uma antinomia chamada de estágio da sociedade militante (antiga) e estágio da sociedade industrial (moderna). Devemos nos perguntar, no entanto, no que isso enriquece qualquer debate sociológico para além de sua época. Não que tenham faltado críticas a seu olhar epistemológico mesmo durante sua vida e em seu próprio “círculo científico de colaboradores” (não precisamos citar, p.ex., Nietzsche, que foi um grande detrator seu, sendo-lhe contemporâneo – porém ambos nunca interagiram): Dilthey (embora alemão; e embora também muito espezinhado por Nietzsche) foi veemente na necessidade da separação entre ciências naturais e sociais, mirando atingir os escritos de Spencer proponentes de uma unificação do saber. Frank Ward, expoente da sociologia norte-americana, atacou Spencer virulentamente pelo flanco esquerdo (não falo de posicionamento político, mas da América em relação à Inglaterra no mapa). Mesmo o liberalismo montesquieusiano e a teoria da possibilidade de uma “decodificação e absolutização da ética” patrocinados por Spencer foram ambos tratados com desdém pelos cientistas sociais do último terço do séc. XIX. Para encerrar o assunto, Durkheim, em 1890, praticamente definiu a disciplina científica da sociologia, sem que o nome voltasse a ser impunemente usado por autores distintos empregando métodos basicamente idiossincráticos, como até então. O que restou das opiniões de Spencer resvalou para os campos da economia e da ciência política (ler mais abaixo).

ÉTICA” LIBERAL

Absurdamente, uma das conseqüências do “libertarianismo precoce” de Spencer, acoplado a sua crença teleológica no surgimento gradual do homem perfeito na sociedade perfeita e no fim dos conflitos sociais, era que as sociedades do presente deveriam experimentar punições por más condutas, a fim de que aprendessem por iniciativa própria “o poder soberano da natureza”. Segundo Spencer, portanto, o Estado não deveria se imiscuir na vida da pessoa, ainda que fosse para protegê-la ou melhorá-la: não obrigar vacinas, não promover assistência social (pensamento meritocrático ainda em voga pelas piores correntes ideológicas!) ou mesmo, ilustrativamente, proibir-se ou abandonar o ensino gratuito!

INVENÇÃO DO CLIPE DE PAPEL

Uma curiosidade menor é que os clips que usamos hoje para prender e agrupar papéis foram inventados, ou pelo menos seu precursor imediato, por Spencer. Sua autobiografia possui os desenhos do protótipo que depois foi patenteado e comercializado.

LEGADO

Curiosamente, Spencer foi muito mais difundido em vida do que morto (ao contrário da maioria dos grandes pensadores, por exemplo, Shakespeare ou Nietzsche) – sua decadência e ostracismo foram ligeiros. Herbert Spencer parece ter sido até hoje o único “filósofo” na História que conseguiu vender mais de 1 milhão de exemplares de livros ainda no decorrer de sua vida. Isso fez dele uma espécie de Carl Sagan do Liberalismo Econômico, um difusor de idéias próximo do que seria uma vedete hollywoodiana misturada com um comunicador jornalístico de 100 anos depois. Conteúdo mais viral de filósofos menores da História da filosofia nós só podemos conceber hoje, p.ex., na era do YouTube (com figuras deploráveis como Jordan Peterson, etc.). Porém, já em 1937, o sociólogo estruturalista Talcott Parsons podia perguntar zombeteiramente: “Quem ainda lê Spencer?”. William James, Bergson e Durkheim já haviam se ocupado de Spencer nesse ínterim entre sua ascensão e queda meteóricas (a fim de criticá-lo). Talvez boa parte de se sua debandada de leitores, além da percepção generalizada de que suas idéias não eram originais ou de tanta qualidade como de início se propugnava, tenha vindo em virtude de seu “liberalismo à la Europa do séc. XIX” ter resultado na catástrofe nazifascista que assolou o Velho Continente no mesmo período em que foi formulado esse juízo de Parsons (os anos 1930), ainda antes do conflito bélico principiar, mas com Adolf Hitler e Benito Mussolini já no poder. Uma ironia que complementa a anterior (um advogado da liberdade plena do indivíduo contribuir indiretamente para o Holocausto, dentre outros crimes) é que sua lápide está frente a frente com a de Karl Marx num cemitério londrino.

Seu legado ainda vivo – e preocupante – é o do campo anarco-capitalista e da medonha Escola Austríaca de economia. O mais engraçado é que na época de Spencer suas crenças anti-estatistas significavam uma completa rejeição do sentimento patriota, hoje usado por todos os grupos extremistas como tática de chegada ao e manutenção no poder. Além disso, Spencer, para sermos justos, era integralmente um pacifista, dizendo que se um soldado vai à guerra deve se conformar com o pior dos destinos e a sociedade de seu próprio país não tem o direito de lamentar sua perda, pois assim funcionam as conseqüências de quem opta pelo caminho da guerra.

Não há outra alternativa”, frase favorita de Margaret Thatcher, parece decorrer de um dos livros de Spencer. Em sua própria época, Spencer, apesar de ter todas as características de um tory, ou ser impossível imaginá-lo como um whig, pelo menos após o desenvolvimento de suas idéias em seguida ao primeiro livro (em que até defendia as cooperativas proletárias!), um tanto “juvenil e utópico”, reprovou as gestões Gladstone e Disraeli, atacando os conservadores britânicos, que ele chamava de “reformistas sociais”! Ao mesmo tempo, Spencer era refratário à independência da Irlanda, que efetuou já então sua reforma agrária, e nunca perdoou a gratuidade da escola, ou como o Estado obrigava seus cidadãos a ingressarem no ensino formal (Spencer é outro que se sentiria muito contente em defender iniciativas como o homeschooling no mundo atual).

Também era contra o sustento de bibliotecas com dinheiro dos impostos e leis contra o álcool, o tabaco e outras drogas. Para ele, o sujeito tinha o direito de se intoxicar, mas não de se instruir. Por outro lado, fascinante como pode ser uma figura autocontraditória como Herbert Spencer, ele era anticolonialista e anti-imperialista em seu próprio tempo (as colônias estariam sendo atrasadas pela “sociedade industrial”, de modo a ficarem em estado de dependência perpétua ou prolongada, o que ele chamava de sociedade militante, eufemismo para primitiva; ao mesmo tempo, Spencer cria genuinamente que o imperialismo anterior a sua própria geração tinha cumprido sua missão ao eliminando sociedades atrasadas e pavimentar o caminho da civilização branca e européia…)!

No fim, portanto, concedo: estamos falando mais de um pseudo-polímata do que um verdadeiro polímata, que está no limite do que esta série de artigos poderia comportar (ninguém inferior a ele será aqui “biografado”). Dada sua fama pregressa, achei inevitável tratar deste personagem, contudo.

Em qualquer contexto a migração é ruinosa, seja ela pequena ou vasta, para o país que recebe o imigrante. O caos social decorrerá necessariamente desta tolerância para com pessoas de outras nacionalidades. O mesmo se dará caso se permita a mistura e o casamento de europeus e americanos [norte-americanos, britânicos de ‘raça pura’] com japoneses.”

Trecho racista e xenófobo de Spencer

QUERO SABER MAIS! (MESMO NOSSOS ADVERSÁRIOS PRECISAM SER ESTUDADOS)

O autor já se encontra livre de copyrights:

https://www.gutenberg.org/ebooks/author/1887

Recomendo, além de sua apreciação crítica direta, as objeções de Plekhanov ao spencerismo contidas em Anarchism and Socialism, 1909.

MICHAEL FARADAY #SérieOsÚltimosPolímatas

polímata

(po·lí·ma·ta)

adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros

Que ou quem estudou e sabe muitas coisas ou muitas ciências (ex.: Santa Hildegarda era uma freira polímata; os polímatas são peritos em muitas áreas do conhecimento). = POLÍMATE, POLÍMATO

<polímata>, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2023, https://dicionario.priberam.org/pol%C3%ADmata.”

RESUMÉ

Nascido em 22 de setembro de 1791 e morto em 25 de agosto de 1867, Michael Faraday foi um cientista inglês indispensável para as disciplinas físico-químicas do eletromagnetismo e da eletroquímica. Ele enumerou os princípios da indução eletromagnética, do diamagnetismo e da eletrólise. Praticamente um autodidata, se enquadra entre os maiores cientistas da História. Antes de Faraday não se podia falar em campo eletromagnético. Faraday também foi o primeiro a indicar que o magnetismo podia afetar os raios de luz, demonstrando que são forças físicas são só diferentes como interdependentes ou interativas entre si. Foi um dos precursores do uso da eletricidade em massa, mudando o mundo, talvez, mais nos últimos 150 anos que nos 10 mil precedentes.

Como químico, Faraday descobriu o benzeno, investigou o hidrato de clatrato a partir do cloro e estabeleceu o sistema numérico de oxidação dos átomos. Os termos ânodo, cátodo, eletrodo e íon são suas criações. Faraday divulgava suas descobertas em linguagem absolutamente didática e popular.

Em compensação, seu conhecimento matemático não ultrapassava a trigonometria euclidiana, com conhecimentos básicos de álgebra. James Maxwell converteu as descobertas faradayanas em equações hoje consideradas a base da teoria moderna do eletromagnetismo. Faraday usava conceitos de “linhas de força” vetoriais em suas explanações – isso indica que ele possuía concepções matemáticas em alto grau, embora não as realizasse no papel – pois matemáticas envolvendo vetores foram desenvolvidas apenas após o próprio Maxwell. A unidade de medida internacional de capacitância foi batizada farad em sua homenagem.

BIOGRAFIA GERAL

Michael Faraday é natural da atual cidade de Londres, de origem plebéia. Foi o terceiro de 4 irmãos. Aos 14 anos conheceu o livreiro George Riebau, que ajudou em sua educação. Os autores que mais o influenciaram nesse período constam como Isaac Watts e Jane Marcet.

Aos 20, estabeleceu conexões com o químico Humphry Davy e com John Tatum, fundador da Sociedade Filosófica de Londres. William Dance atuou como seu mecenas nesse período. Seu primeiro emprego como assistente químico laboratorial foi obtido em 1813. Ele e seu superior, Davy, foram vitimados por uma explosão do composto tricloreto de nitrogênio, felizmente sem conseqüências graves. Em 1821 Faraday casou-se com Sarah Barnard (1800-1879). O casamento não gerou descendência.

Em 1832 Faraday recebeu o título honorário de doutor em em Direito Civil pela Universidade de Oxford. Foi-lhe oferecido o título de Sir em decorrência de suas descobertas científicas, o qual ele dispensou por motivos religiosos. Além disso, era membro honorário das academias científicas de inúmeros países.

Faraday declinou ao convite britânico para ajudar na produção de armamentos químicos para uso na Guerra da Criméia (1853-56).

POLIMATIA

QUÍMICA

As primeiras descobertas de Faraday foram dois compostos envolvendo cloro e carbono: o hexacloroetano, decorrente da cloração do etileno; e o tetracloreto, oriundo da decomposição deste primeiro. Também desempenhou experimentos complexos sobre a difusão de gases, dando continuidade às primeiras teses e descobertas de John Dalton. Thomas Graham e Joseph Loschmidt explorariam mais a fundo o legado experimental de Faraday no subcampo dos gases aplicados à física. Faraday pôde liquefazer vários gases, investigou as propriedades das ligas metálicas e produziu novos vidros destinados a aplicações em ótica. Um dos vidros de Faraday foi usado num importante experimento que demonstrou modificações na propagação da luz. Faraday desenvolveu uma versão prototípica do Bico de Bunsen, importante instrumento de laboratório. Quando descobriu o benzeno, batizou-o provisoriamente de bicarbureto de hidrogênio.

Faraday foi precursor no estudo das chamadas nanopartículas metálicas. Em 1847, anunciou as propriedades únicas do composto de ouro coloidal, diferentes do ouro “puro”. Alguns reportam esta investigação como o marco zero da nanociência.

ELETRICIDADE E MAGNETISMO

Seu principal campo de atuação. Seu primeiro construto foi uma pilha voltaica feita de 7 moedas de meio centavo da libra, enfileiradas com 7 discos de folhas de zinco e 6 folhas de papel umedecidas de água marinha (ionizadas). Com ajuda desta pilha, Faraday decompôs o sulfato de magnésio.

O físico e químico danês Hans Christian Ørsted é apontado como o real descobridor do eletromagnetismo em si, mas físicos posteriores como Davy (o chefe de Faraday) e William Hyde Wollaston não conseguiram desenvolver um motor elétrico baseado na descoberta. Faraday desenvolveu então um motor homopolar capaz de produzir movimento circular de um fio com a ajuda de um ímã, ambos imersos em mercúrio. A invenção teria advindo de uma contribuição teórica tripla entre Davy, Wollaston e Faraday. Por não atribuir crédito aos outros dois no invento, as relações entre Faraday e Davy azederam, e essa pode ter sido a razão central de sua mudança para outros campos do conhecimento, afastando-se do eletromagnetismo (senão até sua morte, por alguns anos).

Foi somente 2 anos após a morte de seu mentor Davy que Faraday anunciou a descoberta da indução eletromagnética (1831). Nessa época nasceu a teoria do campo (magnético)¸ abrangendo o escopo do trabalho teórico de Ørsted. Aplicando a teoria em laboratório, Faraday construiu o dínamo, “avô” dos geradores de energia e motores elétricos atuais.

Investigando a eletricidade em seus fundamentos, Faraday cunhou os termos eletrostática, atração, eletrólise e magnetismo (sem o prefixo eletro-). Ele concluiu que não existia uma divisão rígida entre os fenômenos de eletricidade (na época falava-se em vários tipos de eletricidade com leis próprias, sendo eletromagnetismo apenas a interação entre eletricidade e eletromagnetismo e não uma força física una). O segredo estaria nas variáveis de quantidade e intensidade (corrente e voltagem, respectivamente), o que mudava as propriedades da única e mesma corrente elétrica, fenômeno básico da física. Os trabalhos de Faraday impactariam de maneira majoritária os avanços em engenharia do último terço do século XIX, que ele não viveu para ver.

DIAMAGNETISMO

Em 1845 Faraday descobriu a repulsão (de caráter fraco) de certos materiais ao campo magnético, o que batizou de diamagnetismo. Foi na mesma época que cunhou o que viria a ser chamado post mortem de Efeito Faraday, sobre a mudança da rotação polar de um feixe de luz linear sob interferência magnética.

A caixa de Faraday ou gaiola de Faraday, talvez seu instrumento mais conhecido, comprovou que descargas elétricas afetavam apenas a superfície exterior do condutor elétrico (metálico). Não é uma lenda que Faraday tinha confiança plena no resultado do experimento e se posicionou dentro da gaiola a fim de provar, saindo vivo, que a eletricidade não se propagaria como um fluido para dentro da gaiola, já na primeira tentativa, posto que era uma força que se propagava por outras regras, como ele mesmo já sabia.

PREVENÇÃO CONTRA EXPLOSÕES FATAIS EM MINAS

Faraday investigou o efeito de grandes explosões e acidentes com múltiplas vítimas em minas inglesas. Ele descobriu que a poeira destes túneis subterrâneos potencializava as explosões e encorajava a construção de dutos de ventilação para mitigar o poder de expansão das chamas. Apesar de suas severas advertências, apenas em 1913, após outro grande desastre, suas idéias começaram a ser acolhidas pelos empresários mineiros.

PEDAGOGIA

Faraday se posicionou e palestrou sobre os perigos das modas correntes do mesmerismo (magnetismo animal, fenômeno psicológico, não da física), das tentativas de comunicação com os mortos e dos fenômenos de Poltergeist ou “mesas giratórias”, desaconselhando qualquer ensino de paraciências, fenômenos paranormais (nunca comprovados) e misticismos nas escolas britânicas.

Ele deu aulas de iniciação científica para alunos do ciclo básico. Um dos livros que produziu a partir dessas lições, de mais fama, é A História Química de uma Vela (1851). São incursões consideradas populares, instrutivas e filosóficas ao mesmo tempo.

QUERO SABER MAIS!

Havendo publicado poucos livros qua livros em vida, as melhores fontes para seu pensar em via direta são seus diários, que foram, ao longo do tempo, organizados e traduzidos para vários idiomas.

PEDAGOGIA DO OPRIMIDO – Paulo Freire. Ou como diríamos após o vendaval fascista: A ESCOLA DO BOM PARTIDO! Ou: POR QUE FILÓSOFOS NÃO SÃO APRECIADOS EM SUA TERRA NATAL. Ou ainda: ANTROPOLOGIA DA PEDAGOGIA.

Ed. Paz e Terra, 1970 (23ª reimpressão).

LEGENDA

Conteúdo do autor original “”: sempre entre aspas

Colchetes []: quando faço observações dentro das aspas

Cor vermelha, grifos: mais importante

Cor verde: raciocínios perniciosos (normalmente, citação de autores ou realizadores da opressão)

Cor azul: meus comentários quando fora de colchetes

PREFÁCIO (Ou: resumo de Ser e Tempo) – Ernani Maria Fiori

Uma cultura tecida com a trama da dominação, por mais generosos que sejam os propósitos de seus educadores, é barreira cerrada às possibilidades educacionais dos que se situam nas subculturas dos proletários e marginais.”

A pedagogia do oprimido é, pois, liberadora de ambos, do oprimido e do opressor.”

o processo em que a vida como biologia passa a ser vida como biografia. (Ortega)”

a pedagogia faz-se antropologia.” “contínua recriação de um mundo que, ao mesmo tempo, obstaculiza e provoca o esforço de superação liberadora da consciência humana. A antropologia acaba por exigir e comandar uma política.”

círculo de cultura” “Como unir consciências autênticas quando cada consciência implica uma cisão com o mundo do outro? Pois cultura é crítica. Toda cultura, todo círculo de cultura, é uma crítica de culturas e outros círculos culturais.(*)”

(Sobre a alfabetização): “não há professor, há um coordenador, que tem por função dar as informações solicitadas pelos respectivos participantes e propiciar condições favoráveis à dinâmica do grupo, reduzindo ao mínimo sua intervenção direta no curso do diálogo.”

objetivação das palavras geradoras”

Pensar o mundo é julgá-lo; e a experiência dos círculos de cultura mostra que o alfabetizando, ao começar a escrever livremente, não copia palavras, mas expressa juízos.” “o alfabetizando (…) vai assumindo, gradualmente, a consciência de testemunha de uma história de que se sabe autor.”

testemunha responsável por (terminologia mais explorada no último capítulo)

a empresa educativa, que não é senão aprendizagem permanente desse esforço de totalização – jamais acabada – através do qual o homem tenta abraçar-se inteiramente na plenitude de sua forma.” “Mas, para isto, para assumir responsavelmente sua missão de homem, há de aprender a dizer a sua palavra, pois, com ela, constitui a si mesmo e a comunhão humana em que se constitui”

Tudo foi resumido por uma mulher simples do povo, num círculo de cultura, diante de uma situação representada em quadro: ‘Gosto de discutir sobre isto porque vivo assim. Enquanto vivo, porém, não vejo. Agora sim, observo como vivo’. § A consciência é essa misteriosa e contraditória capacidade que tem o homem de distanciar-se das coisas para fazê-las presentes, imediatamente presentes.”

Trajeto Schopenhauer-Heidegger: presença não é representação, mas (condição de) apresentação.” Demiurgia antropomórfica. Quem não tem um presente, em que é livre, não vive, não é homem.

e o coito de suas respostas mede-se por sua maior ou menor adaptação: naturaliza-se.” Naturaliza-se: anti-culturaliza-se (mas toda cultura é ‘natural’).

coisas desafios

limitação (dogma da liberdade relativa) não é aprisionamento ou confinamento. Mas a condição de possibilidade da existência livre e original.

consciência do além-limite” (além-animal)

transubstanciação do meio físico”

o homem não se naturaliza, humaniza (culturaliza) o mundo (a natureza).”

hominização”

adaptar: processo estacionário, dado – o revolucionário não se adapta, transgride.

hominizar: processo dinâmico, criação

a interrogação nunca é pergunta exclusivamente especulativa: [a pedagogia inútil e livresca de hoje] no processo de totalização da consciência é sempre provocação que a incita a totalizar-se. O mundo é espetáculo, [observação passiva] mas sobretudo convocação. [chamada a subir ao palco]

PENSAR OU AGIR? PENSAR & AGIR: “Se a consciência se distancia do mundo e o objetiva, é porque sua intencionalidade transcendental a faz reflexiva.”

a distância é a condição da presença.” Não há zero distância ou presença absoluta. Por outro lado, nada está infinitamente distante ou é irrecuperável. Quem não se vê de fora, se objetificando em exercício abstrato, não compreende a própria existência.

(*)(Retomada do dilema introdutório:) “Se cada consciência tivesse o seu mundo, as consciências se desencontrariam em mundos diferentes e separados – seriam mônadas incomunicáveis.”

convergência das intenções”

Infelizmente, convergimos até com fascistas.

As consciências não são comunicantes porque se comunicam; mas comunicam-se porque comunicantes. A intersubjetivação das consciências é tão originária quanto sua mundanidade ou sua subjetividade.” Trocando em miúdos para o pedagogês-sem-filosofês: Antes de existir o eu, já existia o nós.

Na intersubjetivação, as consciências também se põem como consciências de um certo mundo comum e, nesse mundo, se opõem como consciência de si e consciência do outro. Comunicamo-nos na oposição” Não há espaço para solipsismos.

A solidão – não o isolamento – só se mantém enquanto renova e revigora as condições do diálogo. [A solidão é como o distanciar-se a fim de estar verdadeiramente presente.]

O diálogo fenomeniza e historiciza a essencial intersubjetividade humana; ele é relacional; e, nele, ninguém tem iniciativa absoluta. Os dialogantes ‘admiram’ [esta palavra, ainda veremos, tem conotação afirmativa em Freire] um mesmo mundo; afastam-se dele e com ele co[-]incidem; nele põem-se e opõem-se. Vimos que, assim, a consciência se existencia e busca perfazer-se.”

Todo quartel é um quadrante errado (isolado) da existência.

Então, o mundo da consciência não é criação, [divina, destino] mas sim, elaboração humana. Esse mundo não se constitui na contemplação, [diferente de admiração, acima] mas no trabalho.”

o espetáculo, em verdade, é compromisso.” O espetáculo é o mundo admirado do qual pode-se escolher ou vir a participar. Esse é o compromisso, uma escolha consciente. “Reencontrar-se como sujeito e liberar-se é todo o sentido do compromisso histórico.”

Em diálogo circular, [dialético, não-repetitivo, mas recursivo] intersubjetivando-se mais e mais, vai assumindo, criticamente, o dinamismo de sua subjetividade criadora. Todos juntos, em círculo, [representa a igualdade entre os participantes da proposta pedagógica – todos estão a igual distância do centro comum] e em colaboração, reelaboram o mundo e, ao reconstruí-lo, apercebem-se de que, embora construído também por eles, esse mundo não é verdadeiramente para eles. Humanizado por eles, esse mundo não os humaniza. As mãos que o fazem não são as que o dominam. [falta de controle sobre o produto do próprio trabalho] Destinado a liberá-los como sujeitos, escraviza-os como objetos.”

não se davam conta de que também eram presença que presentifica um mundo que não é de ninguém, porque originariamente é de todos.”

Como todo bom método pedagógico, [o método Paulo Freire] não pretende ser método de ensino, mas sim de aprendizagemRecomendo consultar os termos na internet, mas um rápido resumo: método de ensino – educação tradicional, professor como protagonista, ênfase no conteúdo, ‘cápsulas de saber’, contextualizadas ou não com os estudantes; método de aprendizagem – mais moderno, se preocupa com o que se passa com o aluno após a transmissão do saber, enfatiza conteúdos importantes para o contexto do aluno, a denúncia de que o método de ensino, antigo, era a perpetuação de uma necessidade de decorar conteúdos sem-sentido, aprender por aprender, e ainda pior: aprender por um tempo curto, pois inútil na ‘vida real’. Podemos grosso modo dizer, ainda: a aprendizagem é um meio para um fim; o ensino enquanto método pedagógico já é um fim em si mesmo.

A cultura marca o aparecimento do homem no largo processo da evolução cósmica. A essência humana existencia-se, autodesvelando-se como história. Mas essa consciência histórica, objetivando-se reflexivamente, surpreende-se a si mesma, passa a dizer-se, torna-se consciência historiadora: o homem é levado a escrever sua história. Alfabetizar-se é aprender a ler essa palavra escrita em que a cultura se diz e, dizendo-se criticamente, deixa de ser repetição intemporal do que passou, para temporalizar-se, para conscientizar sua temporalidade constituinte, que é anúncio e promessa do que há de vir.” O educar não faz sentido se não é agente transformador dos educandos.

HORA DO DITADO (DITADURA DO DITO): “Ensinar a ler as palavras ditas e ditadas é uma forma de mistifìcar as consciências, despersonalizando-as na repetição – é a técnica da propaganda massificadora.” Ditado, prática comum dos primeiros níveis da escola fundamental: o pior exemplo do método de ensino, sem aprendizagem. Exemplo extremo: Aprendi a escrever lápis, mas talvez nem saiba o que é um lápis e para quê serve (ironicamente, usando o lápis para escrever lápis).

Aprender a dizer a sua palavra é toda a pedagogia, e também toda a antropologia.” Lápis, acima, não é a sua palavra, mas uma palavra despida de sentido, porque despida de contexto. A alfabetização verdadeira vem depois, quando se formulam enunciados, expressando visões de mundo.

A palavra pessoal, criadora, pois a palavra repetida é monólogo das consciências que perderam sua identidade, isoladas, imersas na multidão anônima e submissas a um destino que lhes é imposto e que não são capazes de superar, com a decisão de um projeto.” Palavra repetida me lembra: coral de igreja: os anjinhos que não sabem o que lêem. Mas lêem e capricham na leitura. Recebem aplausos do padre.

O enfrentamento com o mundo é ameaça e risco. O homem substitui o envoltório protetor do meio natural por um mundo que o provoca e desafia. Num comportamento ambíguo, enquanto ensaia o domínio técnico desse mundo, tenta voltar a seu seio, imergir nele, enleando-se na indistinção entre palavra e coisa.¹ A palavra, primitivamente, é mito. Interior ao mito e condição sua, o ‘logos’ humano vai conquistando primazia, com a inteligência das mãos que transformam o mundo.”²

¹ O descompasso entre as maiores maravilhas tecnológicas e ainda o mesmo primitivismo de sempre na pedagogia: a maioria dos homens pensa que palavras e coisas são atributos absolutos, já dados desde que o mundo é mundo, e que não foram criadas pelo próprio homem.

² De certa forma, a alfabetização-para-o-mundo (o método Freire) é apenas a repetição, em nível individual, da história conhecida da cultura: como viemos das trevas para nos tornarmos seres ativos, culturas, civilizações. E para que continuemos sendo ativos, é necessário repetir o processo, que nunca se fará por si mesmo. Nada do que foi conquistado no passado garante o presente do homem, que afinal não é o mesmo indivíduo que dominou o fogo e que filosofou na Grécia. Mas agora temos uma dimensão histórica que aquele mesmo homem, tão esclarecido, ainda não possuía.

A narração do mito, no entanto, objetivando o mundo mítico e entrevendo o seu conteúdo racional, acaba por devolver à consciência a autonomia da palavra, distinta das coisas que ela significa e transforma.” O mito, como ponto de origem do saber, não é mal em si mesmo; e sim uma má utilização do mito para falsear a realidade. Somos intérpretes de mitos.

a cultura letrada é um epifenômeno [instrumento] da cultura, que, atualizando sua reflexividade virtual, encontra na palavra escrita uma maneira mais firme e definida de dizer-se, isto é, de existenciar-se discursivamente na ‘práxis’ histórica. Podemos conceber a ultrapassagem da cultura letrada: o que, em todo caso, ficará, é o sentido profundo que ela manifesta: escrever e não conservar e repetir a palavra dita, mas dizê-la com a força reflexiva que sua autonomia lhe dá – a força ingênita que a faz instauradora do mundo da consciência, criadora da cultura.” Diferente de todas as toneladas de teses e papers de hoje, meras repetições analfabetas de um mundo velho. Ernani, ao dizer “Podemos conceber a ultrapassagem da cultura letrada”, além de lembrar que existe uma cultura popular (mesmo escrita), pode estar falando do cinema ou das comunicações audiovisuais em geral, hoje imperantes. Tudo isso é ainda logos (razão e palavra), no entanto.

a sua palavra humana imita a palavra divina” Ainda estamos muito aquém. Circundados por escravos que são todo-orgulho (me refiro aos acadêmicos e seu monopólio sobre o saber). E são acadêmicos cada vez piores (basta olhar para os séculos passados).

Aos que constroem juntos o mundo humano, compete assumirem a responsabilidade de dar-lhe direção.” “então conscientizar é politizar. E a cultura popular se traduz por política popular; não há cultura do Povo, sem política do Povo.”

[Paulo Freire] Não absorve o político no pedagógico, mas também não põe inimizade entre educação e política. Distingue-as, sim, mas na unidade do mesmo movimento em que o homem se historiciza e busca reencontrar-se, [outro motivo de falar-se de círculo] isto é, busca ser livre. Não tem a ingenuidade de supor que a educação, só ela, decidirá dos rumos da história, mas tem, contudo, a coragem suficiente para afirmar que a educação verdadeira conscientiza as contradições do mundo humano, sejam estruturais, superestruturais ou inter-estruturais, contradições que impelem o homem a ir adiante. As contradições conscientizadas não lhe dão mais descanso, tornam insuportável a acomodação.” O homem que aprendeu a problematizar o mundo não se é mais mero macaco, autômato desesperado e agitado, que pula de galho em galho, estruturalmente correlato, i.e., no tédio da existência, só sabe ir de um extremo ao outro, procurando um sentido absoluto que jamais encontrará (comentário dedicado a um fascista que cruzou meu caminho, que mascaro sob um inteligente apelido para evitar processinhos: Acefaloísio).

Um método pedagógico de conscientização alcança as últimas fronteiras do humano. E como o homem sempre se excede, o método também o acompanha.”

Em regime de dominação de consciências, em que os que mais trabalham menos podem dizer a sua palavra e em que multidões imensas nem sequer têm condições para trabalhar, os dominadores mantêm o monopólio da palavra, com que mistificam, massificam e dominam. Nessa situação, os dominados, para dizerem a sua palavra, têm que lutar para tomá-la. Aprender a tomá-la dos que a detêm e a recusam aos demais é um difícil mas imprescindível aprendizado – é a ‘pedagogia do oprimido’.” A missão da minha geração é ser o pesadelo número 1 da mídia tradicional. Propagar a verdade.

Santiago, 1957

PRIMEIRAS PALAVRAS (agora sim Paulo Freire em pessoa entra em cena!)

As páginas que se seguem e que propomos como uma introdução à Pedagogia do Oprimido são o resultado de nossas observações nestes 5 anos de exílio. Observações que se vêm juntando às que fizemos no Brasil.” “Parta de quem parta, a sectarização é um obstáculo à emancipação dos homens. Daí que seja doloroso observar que nem sempre o sectarismo de direita provoque o seu contrário, isto é, a radicalização do revolucionário.”

o sectário de direita que, no nosso ensaio anterior, chamamos de ‘sectário de nascença’ pretende frear o processo, ‘domesticar’ o tempo e, assim, os homens. Esta é a razão também porque o homem de esquerda, ao sectarizar-se, se equivoca totalmente na sua interpretação ‘dialética’ da realidade, da história, deixando-se cair em posições fundamentalmente fatalistas.”

Santiago, 1968 [significa que esteve exilado já antes da ditadura militar – um forte indício de que seu trabalho incomodava e muito; ou seja, de que estava no bom caminho.]

CAPÍTULO 1. JUSTIFICATIVA DA “PEDAGOGIA DO OPRIMIDO”

Reconhecemos a amplitude do tema que propomos tratar neste ensaio, com o qual pretendemos, em certo aspecto, aprofundar alguns pontos discutidos em nosso trabalho anterior Educação como Prática da Liberdade. Daí que o consideremos como mera introdução

A desumanização, que não se verifica, apenas, nos que têm sua humanidade roubada, mas também, ainda que de forma diferente, nos que a roubam, é distorção da vocação do ser mais. É distorção possível na história, mas não vocação histórica. Na verdade, se admitíssemos que a desumanização é vocação histórica dos homens, nada mais teríamos que fazer, a não ser adotar uma atitude cínica ou de total desespero.”

A violência dos opressores que os faz também desumanizados, não instaura uma outra vocação – a do ser menos. Como distorção do ser mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os fez menos.”

A ‘ordem’ social injusta é a fonte geradora, permanente, desta ‘generosidade’ que se nutre da morte, do desalento e da miséria.”

[os oprimidos-não-conscientes do verdadeiro problema dialético da opressão] querem a reforma agrária, não para libertar-se, mas para passar a ter terra e, com esta, tornar-se proprietários ou, mais precisamente, patrões de novos empregados. Raros são os camponeses que, ao serem ‘promovidos’ a capatazes, não se tornam mais duros opressores de seus antigos companheiros do que o patrão mesmo.” O Movimento dos Sem Terra está informado desta contradição.

A liberdade, que é uma conquista, e não uma doação, exige uma permanente busca. Busca permanente que só existe no ato responsável de quem a faz. Ninguém tem liberdade para ser livre: pelo contrário, luta por ela precisamente porque não a tem. Não é também a liberdade um ponto ideal, fora dos homens, ao qual inclusive eles se alienam.”

Não basta saber-se numa relação dialética com o opressor – seu contrário antagônico – descobrindo, por exemplo, que sem eles o opressor não existiria, (Hegel) para estarem de fato libertados. É preciso, enfatizemos, que se entreguem à práxis libertadora.”

Descobrir-se na posição de opressor, mesmo que sofra por este fato, não é ainda solidarizar-se com os oprimidos. Solidarizar-se com estes é algo mais que prestar assistência a 30 ou a 100, mantendo-os atados, contudo, à mesma posição de dependência. Solidarizar-se não é ter a consciência de que explora e ‘racionalizar’ sua culpa paternalistamente. A solidariedade, exigindo de quem se solidariza, que ‘assuma’ a situação de com quem se solidarizou, é uma atitude radical.”

O opressor só se solidariza com os oprimidos quando o seu gesto deixa de ser um gesto piegas e sentimental, de caráter individual, e passa a ser um ato de amor àqueles. Quando, para ele, os oprimidos deixam de ser uma designação abstrata e passam a ser os homens concretos, injustiçados e roubados. Roubados na sua palavra, por isto no seu trabalho comprado, que significa a sua pessoa vendida.”

A objetividade dicotomizada da subjetividade, a negação desta na análise da realidade ou na ação sobre ela, é objetivismo. Da mesma forma, a negação da objetividade, na análise como na ação, conduzindo ao subjetivismo que se alonga em posições solipsistas, nega a ação mesma, por negar a realidade objetiva, desde que esta passa a ser criação da consciência. Nem objetivismo, nem subjetivismo ou psicologismo, mas subjetividade e objetividade em permanente dialeticidade.

Confundir subjetividade com subjetivismo, com psicologismo, e negar-lhe a importância que tem no processo de transformação do mundo, da história (…) É admitir o impossível: um mundo sem homens, tal qual a outra ingenuidade, a do subjetivismo, que implica homens sem mundo.”

O que Marx criticou, e cientificamente destruiu, não foi a subjetividade, mas o subjetivismo, o psicologismo.” “Se os homens são os produtores desta realidade e se esta, na ‘inversão da práxis’, se volta sobre eles e os condiciona, transformar a realidade opressora é tarefa histórica, é tarefa dos homens.”

Este é um dos problemas mais graves que se põem à libertação. É que a realidade opressora, ao constituir-se como um quase mecanismo de absorção dos que nela se encontram, funciona como uma força de imersão das consciências.” Opressores que não se julgam opressores, oprimidos que se pensam – e favoravelmente! – opressores, ou ao menos não-oprimidos, ou ‘oprimidos conformados’.

Hay que hacer la opresión real todavia más opresiva añadiendo a aquella la consciencia de la opresión, haciendo la infamia todavia más infamante, al pregonarla.”

Marx e Engels, Sagrada Família

O NOVO ENSINO MÉDIO: “Por isto, inserção crítica e ação já são a mesma coisa. Por isto também é que o mero reconhecimento de uma realidade que não leve a esta inserção crítica (ação já) não conduz a nenhuma transformação da realidade objetiva, precisamente porque não é reconhecimento verdadeiro.”

A ‘racionalização’, como mecanismo de defesa, termina por identificar-se com o subjetivismo. Ao não negar o fato, mas distorcer suas verdades, a ‘racionalização’ ‘retira’ as bases objetivas do mesmo.” Diz o racionalista inautêntico: o problema da pedagogia existe e é profundo, está-aí. Mas é insolúvel. Não tem a ver com a luta de classes, precisamos propor ‘soluções pragmáticas’, etc., etc. Ao dizer que a educação anda mal e precisa melhorar, é tido superficialmente como um crítico do sistema, mas não avança no problema, estanca-o mesmo. Ou a educação sempre andará mal porque não é possível fazer nada a respeito, ou formulam-se soluções mirabolantes, eternamente fadadas ao fracasso, e não se modifica o discurso, e não cessa o ciclo de formulação de soluções mirabolantes.

« il doit, pour employer les mots de Marx, expliquer aux masses leur propre action non seulement afin d’assurer la continuité des expériences revolutionnaires du prolétariat, mais aussi d’activer consciemment le développement ultérieur de ces expériences. »

Lukács, Lenin

quê-fazer/quefazer X puro fazer

ação organizada dos oprimidos X ação alienada

Para nós, contudo, a questão não está propriamente em explicar às massas, mas em dialogar com elas sobre a sua ação. De qualquer forma, o dever que Lukács reconhece ao partido revolucionário de ‘explicar às massas a sua ação’ coincide com a exigência que fazemos da inserção crítica das massas na sua realidade através da práxis, pelo fato de nenhuma realidade se transformar a si mesma.”

Nenhuma pedagogia realmente libertadora pode ficar distante dos oprimidos, quer dizer, pode fazer deles seres desditados, objetos de um ‘tratamento’ humanitarista,¹ para tentar, através de exemplos retirados de entre os opressores, modelos para a sua ‘promoção’. Os oprimidos hão de ser o exemplo para si mesmos, na luta por sua redenção.

¹ ideologia (do) humanismo(ta) X ideologia (do) humanitarismo(ta)

práxis revolucionária X discurso liberal da meritocracia, demagogia

A pedagogia do oprimido, que busca a restauração da intersubjetividade, se apresenta como pedagogia do Homem. (…) Pelo contrário, a pedagogia que, partindo dos interesses egoístas dos opressores, egoísmo camuflado de falsa generosidade, faz dos oprimidos objetos de seu humanitarismo, mantém e encarna a própria opressão.”

Se, porém, a prática desta educação implica o poder político e se os oprimidos não o têm, como então realizar a pedagogia do oprimido antes da revolução?”

trabalhos educativos X educação sistemática

Trabalho de base, contínuo, implementando a conscientização paulatina dos oprimidos, que segundo Freire com o tempo e o sucesso da primeira etapa do trabalho de base passam a ser, já, ‘sujeitos em direção à libertação’, ex-oprimidos conscientes e emergentes, já capazes de co-conduzir o processo da luta, e não apenas submeter-se à inércia da pedagogia do opressor. X Tomar-o-poder-para-depois-revolucionar-a-educação (reforma vertical, de alto escalão, de cima para baixo)

tese-antítese-síntese em operação:

De: homens opressores vs. homens oprimidos… A: homens libertando-se.

A situação de opressão em que se ‘formam’, em que ‘realizam’ sua existência, os constitui nesta dualidade, na qual se encontram proibidos de ser. Basta, porém, que homens estejam sendo proibidos de ser mais para que a situação objetiva em que tal proibição se verifica seja, em si mesma, uma violência. Violência real, não importa que, muitas vezes, adocicada pela falsa generosidade a que nos referimos, porque fere a ontológica e histórica vocação dos homens — a do ser mais.”

Como poderiam os oprimidos dar início à violência, se eles são o resultado de uma violência? § Como poderiam ser os promotores de algo que, ao instaurar-se objetivamente, os constitui?”

Inauguram a violência os que oprimem, os que exploram, os que não se reconhecem nos outros; não os oprimidos, os explorados, os que não são reconhecidos pelos que os oprimem como outro. § Inauguram o desamor (…) porque apenas se amam.

Os que inauguram o terror não são os débeis, que a ele são submetidos, mas os violentos que, com seu poder, criam a situação concreta em que se geram os ‘demitidos da vida’, os esfarrapados do mundo.”

Quem inaugura a negação dos homens não são os que tiveram a sua humanidade negada, mas os que a negaram, negando também a sua.”

Para os opressores, porém, na hipocrisia de sua ‘generosidade’, são sempre os oprimidos, que eles jamais obviamente chamam de oprimidos, mas, conforme se situem, interna ou externamente, de ‘essa gente’ ou de ‘essa massa cega e invejosa’, ou de ‘selvagens’, ou de ‘nativos’, ou de ‘subversivos’, [os ‘favelados’] são sempre os oprimidos os que desamam. São sempre eles os ‘violentos’, os ‘bárbaros’, os ‘malvados’, os ‘ferozes’, quando reagem à violência dos opressores.” Veja a repetição dessa lógica agora em Gaza. “Consciente ou inconscientemente, o ato de rebelião dos oprimidos, que é sempre tão ou quase tão violento quanto a violência que os cria, este ato dos oprimidos, sim, pode inaugurar o amor.” “Os opressores, violentando e proibindo que os outros sejam, não podem igualmente ser; os oprimidos, lutando por ser, ao retirar-lhes o poder de oprimir e de esmagar, lhes restauram a humanidade que haviam perdido no uso da opressão.”

Os freios que os antigos oprimidos devem impor aos antigos opressores para que não voltem a oprimir não são opressão daqueles a estes. A opressão só existe quando se constitui em um ato proibitivo do ser mais dos homens. Por esta razão, estes freios, que são necessários, não significam, em si mesmos, que os oprimidos de ontem se tenham transformado nos opressores de hoje.” “Um ato que proíbe a restauração deste regime não pode ser comparado com o que o cria e o mantém; não pode ser comparado com aquele através do qual alguns homens negam às maiorias o direito de ser.”

SINAL VERMELHO: “No momento, porém, em que o novo poder se enrijece em ‘burocracia’ dominadora, se perde a dimensão humanista da luta e já não se pode falar em libertação.”

os opressores de ontem não se reconhecem em libertação. Pelo contrário, vão sentir-se como se realmente estivessem sendo oprimidos. É que, para eles, ‘formados’ na experiência de opressores, tudo o que não seja o seu direito antigo de oprimir significa opressão a eles. Vão sentir-se, agora, na nova situação, como oprimidos porque, se antes podiam comer, vestir, calçar, educar-se, passear, ouvir Beethoven, enquanto milhões não comiam, não calçavam, não vestiam, não estudavam nem tampouco passeavam, quanto mais podiam ouvir Beethoven, qualquer restrição a tudo isto, em nome do direito de todos, lhes parece uma profunda violência a seu direito de pessoa. Direito de pessoa que, na situação anterior, não respeitava nos milhões de pessoas que sofriam e morriam de fome, de dor, de tristeza, de desesperança.”

HUMANOS ‘DIREITOS’ “É que, para eles, pessoa humana são apenas eles. Os outros, estes são ‘coisas’. Para eles, há um só direito — o seu direito de viverem em paz, ante o direito de sobreviverem, que talvez nem sequer reconheçam, mas somente admitam aos oprimidos. E isto ainda porque, afinal, é preciso que os oprimidos existam, para que eles existam e sejam ‘generosos’…” Pois quem irá esfregar suas roupas sujas?

Esta violência, como um processo, passa de geração a geração de opressores, que se vão fazendo legatários dela e formando-se no seu clima geral. Este clima cria nos opressores uma consciência fortemente possessiva. Possessiva do mundo e dos homens. Fora da posse direta, concreta, material, do mundo e dos homens, os opressores não se podem entender a si mesmos. (…) A terra, os bens, a produção, a criação dos homens, os homens mesmos, o tempo em que estão os homens, tudo se reduz a objeto de seu comando.

Nesta ânsia irrefreada de posse, desenvolvem em si a convicção de que lhes é possível transformar tudo a seu poder de compra. Daí a sua concepção estritamente materialista da existência. O dinheiro é a medida de todas as coisas. E o lucro, seu objetivo principal.” Ser, para eles, é ter e ter como classe que tem.”

humanização é apenas sua. A dos outros, dos seus contrários, se apresenta como subversão. Humanizar é, naturalmente, segundo seu ponto de vista, subverter, e não ser mais.”

Esta tendência dos opressores de inanimar tudo e todos, que se encontra em sua ânsia de posse, se identifica, indiscutivelmente, com a tendência sadista.” “O sadismo aparece, assim, como uma das características da consciência opressora, na sua visão necrófila do mundo. Por isto é que o seu amor é um amor às avessas — um amor à morte e não à vida.”

Daí que vão se apropriando, cada vez mais, da ciência também, como instrumento para suas finalidades. Da tecnologia, que usam como força indiscutível de manutenção da ‘ordem’ opressora, com a qual manipulam e esmagam.”

DOS RICOS QUE VÃO PARA O CÉU: “Em face de tudo isto é que se coloca a nós mais um problema de importância inegável a ser observado no corpo destas considerações, que é o da adesão e consequente passagem que fazem representantes do polo opressor ao polo dos oprimidos. De sua adesão à luta destes por libertar-se.”

TODO FILANTROPO É BEM-INTENCIONADO, MAS NEM TODO BEM-INTENCIONADO É BEM-VINDO À LUTA: “Acontece, porém, que, ao passarem de exploradores (1) ou de espectadores indiferentes (2) ou de herdeiros da exploração (3)¹ — o que é uma conivência com ela — ao pólo dos explorados, quase sempre levam consigo, condicionados pela ‘cultura do silêncio’,(*) toda a marca de sua origem. Seus preconceitos. Suas deformações, entre estas, a desconfiança do povo. Desconfiança de que o povo seja capaz de pensar certo. De querer. De saber. § Deste modo, estão sempre correndo o risco de cair num outro tipo de generosidade, tão funesto quanto o que criticamos nos dominadores. (…) acreditam que devem ser os

fazedores da transformação.” O mito dos heróis escolhidos, de raiz aristocrata. Os reformadores não-dialéticos, liberais, da educação.

¹ Três subtipos da classe dominadora. O quarto subtipo seriam os traidores ou explorados voluntários. Paulo Freire citará Guevara na parte final da obra sobre a classe dos traidores.

(*) FREIRE, Ação cultural para a liberdade e outros escritos

crer no povo é a condição prévia, indispensável, à mudança revolucionária. Um revolucionário se reconhece mais por esta crença no povo, que o engaja, do que por mil ações sem ela.” Serei eu mesmo revolucionário? A que ponto? Considero-me de uma elite intelectual privilegiada e incompreensível, impotente para participar positivamente das mudanças históricas? “Àqueles que se comprometem autenticamente com o povo é indispensável que se revejam constantemente. Esta adesão é de tal forma radical que não permite a quem a faz comportamentos ambíguos.”

Fazer esta adesão e considerar-se proprietário do saber revolucionário, que deve, desta maneira, ser doado ou imposto ao povo, é manter-se como era antes.” Nem Marx era proprietário do marxismo, e o sabia – e este é um aspecto intencionalmente ou não esquecido por toda a crítica ao marxismo. Se o povo não pode atuar livremente, ainda não estão dadas as condições da revolução (momento 1 de 2 em Paulo Freire). Stalin surgiu cedo demais, teve de impor para subsistir; se surgira mais tarde, não seria um Stalin, sendo genuinamente revolucionário.

Dizer-se comprometido com a libertação e não ser capaz de comungar com o povo, a quem continua considerando absolutamente ignorante, é um doloroso equívoco. § Aproximar-se dele, mas sentir, a cada passo, a cada dúvida, a cada expressão sua, uma espécie de susto, e pretender impor o seu status, é manter-se nostálgico de sua origem. § Daí que esta passagem deva ter o sentido profundo do renascer. Os que passam têm de assumir uma forma nova de estar sendo; já não podem atuar como atuavam; já não podem permanecer como estavam sendo.”

Daí que, quase sempre, enquanto não chegam a localizar o opressor concretamente, como também enquanto não cheguem a ser ‘consciência para si’, assumam atitudes fatalistas em face da situação concreta de opressão em que estão.”

O ‘SOFRIDO E FELIZ’ POVO BRASILEIRO (A MAIOR DAS MENTIRAS): “Este fatalismo, às vezes, dá a impressão, em análises superficiais, de docilidade, como caráter nacional, o que é um engano.”

FALAMOS SOBRE OS SÁDICOS ACIMA – AQUI APRESENTAMOS OS MASOQUISTAS: “Quase sempre este fatalismo está referido ao poder do destino ou da sina ou do fado — potências irremovíveis — ou a uma distorcida visão de Deus. Dentro do mundo mágico ou místico em que se encontra, a consciência oprimida, sobretudo camponesa, quase imersa na natureza, encontra no sofrimento, produto da exploração em que está, a vontade de Deus, como se Ele fosse o fazedor desta ‘desordem organizada’.”

violência horizontal com que agridem os próprios companheiros.” “Ao agredirem seus companheiros oprimidos estarão agredindo neles, indiretamente, o opressor também ‘hospedado’ neles e nos outros. Agridem, como opressores, o opressor nos oprimidos.”

O PROBLEMA DO LUMPENPROLETARIADO

uma irresistível atração pelo opressor.”

Participar destes padrões constitui uma incontida aspiração.”

Imitá-lo. Segui-lo. Isto se verifica, sobretudo, nos oprimidos de ‘classe média’, cujo anseio é serem iguais ao ‘homem ilustre’ da chamada classe ‘superior’.”

Consciência colonizada: misto de repulsa e admiração pelo próprio colonizador (Memmi, The Colonizer and the Colonized. Boston: Beacon Press, 1967).

autodesvalia”:

De tanto ouvirem de si mesmos que são incapazes, que não sabem nada, que não podem saber, que são enfermos, indolentes, que não produzem em virtude de tudo isto, terminam por se convencer de sua ‘incapacidade’.”

Não são poucos os camponeses que conhecemos em nossa experiência educativa que, após alguns momentos de discussão viva em torno de um tema que lhes é problemático, param de repente e dizem ao educador: ‘Desculpe, nós devíamos estar calados e o senhor falando. O senhor é o que sabe; nós, os que não sabemos.’

Muitas vezes insistem em que nenhuma diferença existe entre eles e o animal e, quando reconhecem alguma, é em vantagem do animal. ‘É mais livre do que nós’, dizem.

É impressionante, contudo, observar como, com as primeiras alterações numa situação opressora, se verifica uma transformação nesta autodesvalia.”

Diziam de nós que não produzíamos porque éramos borrachos, preguiçosos. Tudo mentira. Agora, que estamos sendo respeitados como homens, vamos mostrar a todos que nunca fomos borrachos, nem preguiçosos. Éramos explorados, isto sim” Camponês chileno

É preciso que comecem a ver exemplos da vulnerabilidade do opressor para que, em si, vá operando-se convicção oposta à anterior. Enquanto isto não se verifica, continuarão abatidos, medrosos, esmagados.”

Enquanto para o opressor ‘ser é ter’, para o oprimido nos seus níveis mais baixos de percepção da relação de dominação ‘ser é depender (do senhor)’.

Se esta descoberta não pode ser feita em nível puramente intelectual, mas da ação, o que nos parece fundamental é que esta não se cinja a mero ativismo, mas esteja associada a sério empenho de reflexão, para que seja práxis.”

O que pode e deve variar, em função das condições históricas, em função do nível de percepção da realidade que tenham os oprimidos, é o conteúdo do diálogo. Substituí-lo pelo antidiálogo, sloganização, verticalidade e comunicados é pretender a libertação dos oprimidos com instrumentos da ‘domesticação’.” “É fazê-los cair no engodo populista e transformá-los em massa de manobra.”

Como ensinar quem não é ou não é mais a ser mais ou querer-ser-mais?

Ao defendermos um permanente esforço de reflexão dos oprimidos sobre suas condições concretas, não estamos pretendendo um jogo divertido em nível puramente intelectual.”

A ação política junto aos oprimidos tem de ser, no fundo, ‘ação cultural’ para a liberdade, por isto mesmo, ação com eles. A sua dependência emocional, fruto da situação concreta de dominação em que se acham e que gera também a sua visão inautêntica do mundo, não pode ser aproveitada a não ser pelo opressor. Este é que se serve desta dependência para criar mais dependência.”

Indo além do slogan popular mal-repercutido, pescar para o pobre e dar o peixe é pouquíssimo. Mas ensinar a pescar é ainda pouquíssimo, embora um pouco melhor. Criar, via diálogo, independência sem doação de pseudo-independência, ajudar a tornar um ser dependente em independente na ação e na teoria é o maior desafio do revolucionário.

se não é autolibertação — ninguém se liberta sozinho —, também não é libertação de uns feita por outros.” “É necessário que a liderança revolucionária descubra esta obviedade: que seu convencimento da necessidade de lutar, que constitui uma dimensão indispensável do saber revolucionário, não lhe foi doado por ninguém, se é autêntico. Chegou a este saber, que não é algo parado ou possível de ser transformado em conteúdo a ser depositado nos outros, por um ato total, de reflexão e de ação. § Foi a sua inserção lúcida na realidade, na situação histórica, que a levou à crítica desta mesma situação e ao ímpeto de transformá-la.”

Se os líderes revolucionários de todos os tempos afirmam a necessidade do convencimento das massas oprimidas para que aceitem a luta pela libertação — o que de resto é óbvio —, reconhecem implicitamente o sentido pedagógico desta luta. Muitos, porém, talvez por preconceitos naturais e explicáveis contra a pedagogia, terminam usando, na sua ação, métodos que são empregados na ‘educação’ que serve ao opressor. Negam a ação pedagógica no processo de libertação, mas usam a propaganda para convencer…” A propaganda sempre vence, mas é uma vitória que dura pouco. Os melhores propagandistas e piores mantenedores de regime são os fascistas. Vivem de influxos e refluxos de ondas intermitentes.

Não basta que os homens não sejam escravos; [formais] se as condições sociais fomentam a existência de autômatos, o resultado não é o amor à vida, mas o amor à morte.” “Não podem comparecer à luta como quase-coisas para depois serem homens. É radical esta exigência. A ultrapassagem deste estado, em que se destroem, para o de homens, em que se reconstroem, não é a posteriori. A luta por esta reconstrução começa no autorreconhecimento de homens destruídos.”

Notas do capítulo

Talvez dês esmolas. Mas de onde as tiras, senão de tuas rapinas cruéis, do sofrimento, das lágrimas, dos suspiros? Se o pobre soubesse de onde vem o teu óbolo, ele o recusaria porque teria a impressão de morder a carne de seus irmãos e de sugar o sangue de seu próximo. Ele te diria estas palavras corajosas: não sacies a minha sede com as lágrimas de meus irmãos. Não dês ao pobre o pão endurecido com os soluços de meus companheiros de miséria. Devolve a teu semelhante aquilo que reclamaste e eu te serei muito grato. De que vale consolar um pobre, se tu fazes outros cem?”

São Gregório de Nissa (330-395), Sermão contra os usurários

A verdade da consciência independente é (por coerência) a consciência da escravidão [e de que existem senhores e escravos].” Hegel [tradução minha do inglês]

La teoría materialista de que los hombres son producto de las circunstancias y de la educación, y de que, por tanto, los hombres modificados son producto de circunstancias distintas y de una educación distinta, olvida que las circunstancias se hacen cambiar precisamente por los hombres y que el proprio educador necesita ser educado.”

Marx, ‘Tercera Tesis sobre Feuerbach’

Recentemente, num país latino-americano, segundo depoimento que nos foi dado por sociólogo amigo, um grupo de camponeses, armados, se apoderou do latifúndio. Por motivos de ordem tática, se pensou em manter o proprietário como refém. Nenhum camponês, contudo, conseguiu dar guarda a ele. Só sua presença já os assustava. Possivelmente também a ação mesma de lutar contra o patrão lhes provocasse sentimento de culpa. O patrão, na verdade, estava ‘dentro’ deles…”

Desabafa sua ‘pena’ em casa, onde grita com os filhos, bate, desespera-se. Reclama da mulher. Acha tudo mal. Não desabafa sua ‘pena’ com o patrão porque considera um ser superior. Em muitos casos, o camponês desabafa sua ‘pena’ bebendo.”

Mais um camponês. Curiosamente acabo de ler um trecho muito parecido no livro de pseudo-literatura infantil (pois é para adultos) de Lewis Carroll, Sílvia e Bruno.

CAPÍTULO 2. A CONCEPÇÃO “BANCÁRIA” DA EDUCAÇÃO COMO INSTRUMENTO DA OPRESSÃO. SEUS PRESSUPOSTOS, SUA CRÍTICA

Há uma quase enfermidade da narração. A tônica da educação é preponderantemente esta — narrar, sempre narrar.” Se os bolsominions soubessem que seu maior algoz utiliza a expressão narrativa tantas vezes… capaz que se apaixonassem!

Falar da realidade como algo parado, estático, compartimentado e bem-comportado, quando não falar ou dissertar sobre algo completamente alheio à experiência existencial dos educandos, vem sendo, realmente, a suprema inquietação desta educação. (…) A palavra, nestas dissertações, se esvazia da dimensão concreta que devia ter ou se transforma em palavra oca, em verbosidade alienada e alienante. Daí que seja mais som que significação e, assim, melhor seria não dizê-la.

Por isto mesmo é que uma das características desta educação dissertadora é a ‘sonoridade’ da palavra e não sua força transformadora. Quatro vezes quatro, dezesseis; Pará, capital Belém, que o educando fixa, memoriza, repete, sem perceber o que realmente significa quatro vezes quatro. O que verdadeiramente significa capital, na afirmação, Pará, capital Belém. Belém para o Pará e Pará para o Brasil.”

Quanto mais vá ‘enchendo’ os recipientes com seus ‘depósitos’, tanto melhor educador será. Quanto mais se deixem docilmente ‘encher’, tanto melhores educandos serão.” “Em lugar de comunicar-se, o educador faz ‘comunicados’ e depósitos que os educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem.”

GENEALOGIA DO FICHAMENTO: “Margem para serem colecionadores ou fichadores das coisas que arquivam.”

Educador e educandos se arquivam na medida em que, nesta distorcida visão da educação, não há criatividade, não há transformação, não há saber.”

absolutização ou alienação da ignorância”

O PROFESSOR QUE SORRI AO ENTREGAR A PROVA CORRIGIDA ASSINALADA COM UM ZERO (“Fiz meu trabalho!”): “O educador, que aliena a ignorância, se mantém em posições fixas, invariáveis. Será sempre o que sabe, enquanto os educandos serão sempre os que não sabem. A rigidez destas posições nega a educação e o conhecimento como processos de busca.”

Os educandos, alienados, por sua vez, à maneira do escravo na dialética hegeliana, reconhecem em sua ignorância a razão da existência do educador, mas não chegam, nem sequer ao modo do escravo naquela dialética, a descobrir-se educadores do educador.”

c. o educador é o que pensa; os educandos, os pensados” Descartes diria: os educandos nem existem (são robôs).

o educador escolhe o conteúdo programático” Hoje nem isso: o tecnocrata fascista escolhe o conteúdo programático do educador. (escrito em 2022)

autoridade funcional” I’m a number, I’m a restrained man!

Não é de estranhar, pois, que nesta visão ‘bancária’ da educação, os homens sejam vistos como seres da adaptação, do ajustamento. Quanto mais se exercitem os educandos no arquivamento dos depósitos que lhes são feitos, tanto menos desenvolverão em si a consciência crítica de que resultaria a sua inserção no mundo, como transformadores dele. Como sujeitos.” São o(a)s caixas do dinheiro(conteúdo) alheio.

adaptar-se ingenuamente ao mundo”

ingenuidade X criticidade

passividade X atuação

autuado X sujeito do processo

ensino banal e ensino medíocre

no lugar dos nexos, os anexos, apensos inertes na mente decaída inutilizada.

os oprimidos recebem o nome simpático de ‘assistidos’.”

Estudante ou um outro poetastro sem valor?

Pó-e-traste (nosso alfa e nosso ômega com um violão no colo cantando nossas dores)

Os oprimidos, como casos individuais, são patologia da sociedade sã, que precisa, por isto mesmo, ajustá-los a ela, mudando-lhes a mentalidade de homens ineptos e preguiçosos.”

integrados (o que me lembra a sociologia chapa branca do séc. XX) X críticos

educa(n)dos bancários X trânsfugas, desertores, infelizes (sempre voluntários)

Ada deu o dedo ao urubu”

Como diria Macunaíma, o autômato é o capim que se corta a si mesmo.

É que, se os homens são estes seres da busca e se sua vocação ontológica é humanizar-se, podem, cedo ou tarde, perceber a contradição em que a ‘educação bancária’ pretende mantê-los e engajar-se na luta por sua libertação. Um educador humanista, revolucionário, não há de esperar esta possibilidade. Sua ação, identificando-se, desde logo, com a dos educandos, deve orientar-se no sentido da humanização de ambos. Do pensar autêntico e não no sentido da doação, da entrega do saber.”

…profunda crença nos homens. Crença no seu poder criador.” Meu eu-filósofo rema contra isso, mas meu eu-artista abraça de toda a causa. O artista vencerá o pensador na ‘guerra intestina da arte contra a academia’ que se dá no seio do movimento revolucionário.

companheiro dos educandos” Descer do pedestal ou ampliar o pedestal para todos do recinto, eis a única questão. Uma kestão, não uma cuestão (gringuismo acéfalo).

Não sente no banquinho, e saia fazendo estardalhaço.

consciências-piscinas

sopa de letrinhas: pior que bóia fria de presídio, forçam a engolir o cardápio de palavras desconexas. – Toma tua refeição, aspirante-a-sábio!

FILHO-CONE: “Ah, como seu filho é educado – quietinho ele!”

Quem muito prescreve, um dia prescreve… Contradições auto-superadoras da língua…

controle de leitura”

necrofilia X biofilia (central no livro, décadas antes da moda sociológica da “necropolítica” como explicação do fenômeno Bolsonaro.)

El individuo necrófilo puede realizarse con un objeto — una flor o uma persona — únicamente si la posee

Fromm

A opressão, que é um controle esmagador, é necrófila. Nutre-se do amor à morte e não do amor à vida.” Necropolítica já descrita. O terror dos fascistas encontrar sua descrição num “autor morto” (justamente porque ele não está morto, mas influi no presente, isso o torna inimigo).

participação simbólica” O que eles não aturam é que um comun-ista é co-partícipe com-o-povo, não com Fulano ou Sicrano que “fez e aconteceu”, pintado de verde, amarelo, azul e branco. Todos se identificam com alguma coisa maior, algum movimento de homens; mas se este for um espelho autêntico (o que é difícil), é uma projeção ou associação válida, um modus vivendi digno.

manifestações populistas … líderes carismáticos … uso de sua potência”

Um líder ex-oprimido, não-formado na educação ‘bancária’, é uma manifestação popular, despida do ‘ista’ insultante. É ele que se vê no povo carente de atuação, vê como foi e o que eles podem vir a ser.

BORRACHA NOS ALUNOS E PROFESSORES: “…repressão feita em nome, inclusive, da liberdade e do estabelecimento da ordem e da paz social.”

Ao denunciá-la, não esperamos que as elites dominadoras renunciem à sua prática. Seria demasiado ingênuo esperá-lo.”

A sociedade revolucionária que mantenha a prática da educação ‘bancária’ ou se equivocou nesta manutenção ou se deixou ‘morder’ pela desconfiança e pela descrença nos homens.”

Disto, infelizmente, parece que nem sempre estão convencidos os que se inquietam pela causa da libertação. É que, envolvidos pelo clima gerador da concepção ‘bancária’ e sofrendo sua influência, não chegam a perceber o seu significado ou a sua força desumanizadora.” Um longo caminho pela frente.

consciência especializada”, espécie de oxímoro.

Já agora ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo.” Por assim dizer, eu sou um achado se achando.

em nome da ‘preservação da cultura e do conhecimento’, não há conhecimento, nem cultura, verdadeiros.”

Estes, em lugar de serem recipientes dóceis de depósitos, são agora investigadores críticos, em diálogo com o educador, investigador crítico, também.”

DA DOXA AO LOGOS

anestesia dentro dum mundo-cela X desvelamento-do-mundo

reconhecimento-que-engaja”

Relações em que consciência e mundo se dão simultaneamente. Não há uma consciência antes e um mundo depois e vice-versa.” Sejamos realistas aqui: enquanto o cristianismo não for mera curiosidade mórbida de pé de página na História da humanidade, este dia da educação libertadora não se concretizará nunca.

E quando o educador lhe disse: ‘Admitamos, absurdamente, que todos os homens do mundo morressem, mas ficasse a terra, ficassem as árvores, os pássaros, os animais, os rios, o mar, as estrelas, não seria tudo isto mundo?’ ‘Não!’, respondeu enfático, ‘faltaria quem dissesse Isto é mundo’. O camponês quis dizer, exatamente, que faltaria a consciência do mundo que, necessariamente, implica o mundo da consciência.” E no entanto para 99 de 100 camponeses estará lá deus todo-poderoso com seu mundo-coisa – e não só eles: talvez os ‘cientistas’, na mesma proporção!

visões de fundo” (Husserl, Ideas Pertaining to a Pure Phenomenology and to a Phenomenological Philosophy: General Introduction to a Pure Phenomenology, 3.ed, 1969)

O que antes já existia como objetividade, mas não era percebido em suas implicações mais profundas e, às vezes, nem sequer era percebido, se ‘destaca’ e assume o caráter de problemas, portanto, de desafio.” Infelizmente isso só diz respeito a uma nata de pensadores em todos os tempos. A pedagogia de Freire pode ser resumida como uma sistematização do que acontece com todo sábio por contingência: por que somos o que somos?

A primeira ‘assistencializa’; a segunda, criticiza.”

#offtopic “Eu sou o cartório!”, uma espécie de título de filme com impacto frasal, em que Will Smith não diz que é o homem ou a lenda, mas o único e genuíno cartório: o único de que emanam coisas AUTÊNTICAS.

diferentemente dos outros animais, que são apenas inacabados, mas não são históricos, os homens se sabem inacabados. (…) Aí se encontram as raízes da educação mesma, como manifestação exclusivamente humana”

Sua ‘duração’ — no sentido bergsoniano do termo —, como processo, está no jogo dos contrários permanência-mudança.” Às vezes é mais um exibicionismo bibliográfico, ‘bancário’, infelizmente, e menos pedagogia revolucionária… Força seu ávido leitor a ler outros autores por décadas, tempo que levará para dele discordar, tempo que poderia ter sido mais bem-empregado. É preciso tomar cuidado com a hipertrofia da consciência histórico-revolucionária, no entanto, algo que ainda não estava muito presente nos autores que Freire estudou (mas estava presente em Nietzsche, p.ex.): se se vive sempre na dinâmica e na fluidez, pura e simples, tem-se um mundo tão destroçado e uma completa falta de formação do homem, idem ibidem, como se vê na educação imobilista. O rio escorre tanto que não se o vê passar, não se sente a água, nele não se toma banho nunca… Vertigem e náusea com pinta de sabedoria, cegas como Tirésias, mas inconscientes como um não-profeta. E tudo isso num livro introdutório de Freire!

A percepção ingênua ou mágica da realidade da qual resultava a postura fatalista cede seu lugar a uma percepção que é capaz de perceber-se. E porque é capaz de perceber-se enquanto percebe a realidade que lhe parecia em si inexorável, é capaz de objetivá-la [no bom sentido de objetivar].”

CURA vs. FATALISMO: “Seria, realmente, uma violência, como de fato é, que os homens, seres históricos e necessariamente inseridos num movimento de busca, com outros homens, não fossem o sujeito de seu próprio movimento.” Contanto que se esclareça, na verdade: não se trata realmente de um lado ou outro, mas a superação dessa contradição em algo impossível de nomear a não ser por ser-aí e ser-no-mundo, responsabilidade, liberdade sem má-fé, etc.

Não importam os meios usados para esta proibição [de ser sujeito da própria busca ou vida]. Fazê-los objetos é aliená-los de suas decisões, que são transferidas a outro ou a outros.” CICLO AVÔ-PAI-FILHO/PAI-FILHO-NETO: O pai idiota que ‘escolhe a carreira do filho’, sua extensão objetal. Filho-caminhonete, filho-contracheque. “Já que meu pai, escravo, me fez escravo e eu não quero me libertar, tu também escravo serás…”

Qual é a diferença entre uma abertura e uma fechadura? O olho de quem vê. O pathos de quem vê.

Ninguém pode ser, autenticamente, proibindo que os outros sejam.”

amenização X resolução

Notas do capítulo

Ao menos admite seu arcabouço teórico, i.e., sua falta de originalidade (ninguém “cria” na roda do saber, só repercute): “A concepção do saber, da concepção ‘bancária’, é, no fundo, o que Sartre (El hombre y las cosas, Buenos Aires: Losada, 1965) chamaria de concepção ‘digestiva’ ou ‘alimentícia’ do saber. Este é como se fosse o ‘alimento’ que o educador vai introduzindo nos educandos, numa espécie de tratamento de engorda…”

Em Ação cultural para a liberdade e outros escritos (op. cit.) discutimos mais amplamente este sentido profético e esperançoso da educação (ou ação cultural) problematizadora.”

CAPÍTULO 3. A DIALOGICIDADE: ESSÊNCIA DA EDUCAÇÃO COMO PRÁTICA DA LIBERDADE

A palavra inautêntica, por outro lado, com que não se pode transformar a realidade, resulta da dicotomia que se estabelece entre seus elementos constituintes. Assim é que, esgotada a palavra de sua dimensão de ação, sacrificada, automaticamente, a reflexão também, se transforma em palavreria, verbalismo, blá-blá-blá.”

Existir, humanamente, é pronunciar o mundo, é modificá-lo. O mundo pronunciado, por sua vez, se volta problematizado aos sujeitos pronunciantes, a exigir deles novo pronunciar.”

CONTRA A REVELAÇÃO (PARADIGMA MOSAICO): “ninguém pode dizer a palavra verdadeira sozinho, ou dizê-la para os outros, num ato de prescrição, com o qual rouba a palavra aos demais.”

Esta é a razão por que não é possível o diálogo entre os que querem a pronúncia do mundo e os que não a querem” Com fascista não se conversa.

Não é também discussão guerreira, polêmica, entre sujeitos que não aspiram a comprometer-se com a pronúncia do mundo, nem a buscar a verdade, mas a impor a sua.”

A conquista implícita no diálogo é a do mundo pelos sujeitos dialógicos, não a de um pelo outro. Conquista do mundo para a libertação dos homens.”

Sendo fundamento do diálogo, o amor é, também, diálogo. Daí que seja essencialmente tarefa de sujeitos e que não possa verificar-se na relação de dominação. Nesta, o que há é patologia de amor: sadismo em quem domina; masoquismo nos dominados. Amor, não. Porque é um ato de coragem, nunca de medo, o amor é compromisso com os homens.

Como ato de valentia, não pode ser piegas; como ato de liberdade, não pode ser pretexto para a manipulação, senão gerador de outros atos de liberdade. A não ser assim, não é amor.” Amor livre como redundância em si mesma.

Se não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo os homens, não me é possível o diálogo. Não há, por outro lado, diálogo, se não há humildade. A pronúncia do mundo, com que os homens o recriam permanentemente, não pode ser um ato arrogante.”

Como posso dialogar, se me admito como um homem diferente, virtuoso por herança, diante dos outros, meros ‘isto’, em quem não reconheço outros eu?”

DE CERTO MODO, ANTI-ZARATUSTRA: “Como posso dialogar, se parto de que a pronúncia do mundo é tarefa de homens seletos e que a presença das massas na história é sinal de sua deterioração que devo evitar?”

DE CERTO MODO, PRÓ-ZARATUSTRA: “Como posso dialogar se temo a superação e se, só em pensar nela, sofro e definho?”

Não há também diálogo se não há uma intensa fé nos homens. Fé no seu poder de fazer e de refazer. De criar e recriar. Fé na sua vocação de ser mais, que não é privilégio de alguns eleitos, mas direito dos homens. A fé nos homens é um dado a priori do diálogo.” “O homem dialógico tem fé nos homens antes de encontrar-se frente a frente com eles. Esta, contudo, não é uma ingênua fé.”

Esta possibilidade, [a da alienação] porém, em lugar de matar no homem dialógico a sua fé nos homens, aparece a ele, pelo contrário, como um desafio ao qual tem de responder.” “Este poder (…) Pode renascer. Pode constituir-se.”

QUANDO SACAR É UM VERBO TÃO BOM QUANTO DEPOSITAR, E NADA TEM QUE VER COM ARMAS: “Ao fundar-se no amor, na humildade, na fé nos homens, o diálogo se faz uma relação horizontal, em que a confiança de um polo no outro é consequência óbvia. Seria uma contradição se, amoroso, humilde e cheio de fé, o diálogo não provocasse este clima de confiança entre seus sujeitos. Por isto inexiste esta confiança na antidialogicidade da concepção ‘bancária’ da educação.”

A confiança vai fazendo os sujeitos dialógicos cada vez mais companheiros na pronúncia do mundo. Se falha esta confiança, é que falharam as condições discutidas anteriormente.” “A confiança implica o testemunho que um sujeito dá aos outros de suas reais e concretas intenções. Não pode existir, se a palavra, descaracterizada, não coincide com os atos.” Derrocada do sonho americano, não mais praticado-no-real.

Falar, por exemplo, em democracia e silenciar o povo é uma farsa. Falar em humanismo e negar os homens é uma mentira.”

Não existe, tampouco, diálogo sem esperança. A esperança está na própria essência da imperfeição dos homens, levando-os a uma eterna busca. Uma tal busca, como já vimos, não se faz no isolamento, mas na comunicação entre os homens — o que é impraticável numa situação de agressão. O desespero é uma espécie de silêncio, de recusa do mundo, de fuga.” “Não é, porém, a esperança um cruzar de braços e esperar. Movo-me na esperança enquanto luto e, se luto com esperança, espero.”

<Banha-se> permanentemente de temporalidade cujos riscos não teme. § Opõe-se ao pensar ingênuo, que vê o ‘tempo histórico como um peso, como uma estratificação das aquisições e experiências do passado’, de que resulta dever ser o presente algo normalizado e bem-comportado. § Para o pensar ingênuo, o importante é a acomodação a este hoje normalizado.”

Para o pensar crítico, diria Pierre Furter, ‘a meta não será mais eliminar os riscos da temporalidade, agarrando-se ao espaço garantido, mas temporalizar o espaço. O universo não se revela a mim (diz ainda Furter) no espaço, impondo-me uma presença maciça a que só posso me adaptar, mas como um campo, um domínio, que vai tomando forma na medida de minha ação’.” O fim da luta clássica pelo espaço estanque (século XX).

O BOM PROFESSOR NÃO É O SUBPRODUTO DA SALA DE AULA (TABULA RASA): “Daí que, para esta concepção como prática da liberdade, a sua dialogicidade comece, não quando o educador-educando se encontra com os educando-educadores em uma situação pedagógica, mas antes, quando aquele se pergunta em torno do que vai dialogar com estes.”

Para o ‘educador-bancário’, na sua antidialogicidade, a pergunta, obviamente, não é a propósito do conteúdo do diálogo, que para ele não existe, mas a respeito do programa sobre o qual dissertará a seus alunos. E a esta pergunta responderá ele mesmo, organizando seu programa.

Para o educador-educando, dialógico, problematizador, o conteúdo programático da educação não é uma doação ou uma imposição — um conjunto de informes a ser depositado nos educandos —, mas a devolução organizada, sistematizada e acrescentada ao povo daqueles elementos que este lhe entregou de forma desestruturada.”

Um dos equívocos de uma concepção ingênua do humanismo está em que, na ânsia de corporificar um modelo ideal de ‘bom homem’, se esquece da situação concreta, existencial, presente, dos homens mesmos. (Rousseau, apartado em sua floresta)” “Simplesmente, não podemos chegar aos operários, urbanos ou camponeses, estes, de modo geral, imersos num contexto colonial quase umbilicalmente ligados ao mundo da natureza de que se sentem mais partes que transformadores, para, à maneira da concepção ‘bancária’, entregar-lhes ‘conhecimento’ ou impor-lhes um modelo de bom homem, contido no programa cujo conteúdo nós mesmos organizamos.” Educação dos sem-terra para os sem-terra, do indígena para os indígenas. E para mantê-los ligados às origens, não para embranquecê-los (duplo sentido, aliás).

COMO SER UM BOM HOKAGE: “Não seriam poucos os exemplos que poderiam ser citados, de planos, de natureza política ou simplesmente docente, que falharam porque os seus realizadores partiram de uma visão pessoal da realidade. Porque não levaram em conta, num mínimo instante, os homens em situação a quem se dirigia seu programa, a não ser com puras incidências de sua ação.” O mesmo poderia ser dito do fundador da CAPES, por exemplo. Uma singularidade no espaço-tempo, sem continuidade.

ESCOLA COM SENHORIO (significado real de ‘SEM PARTIDO’): “Quem atua sobre os homens para, doutrinando-os, adaptá-los cada vez mais à realidade que deve permanecer intocada são os dominadores. Lamentavelmente, porém, neste ‘conto’ da verticalidade da programação, ‘conto’ da concepção ‘bancária’, caem muitas vezes lideranças revolucionárias, no seu empenho de obter a adesão do povo à ação revolucionária.”

Acercam-se das massas camponesas ou urbanas com projetos que podem corresponder à sua visão do mundo, mas não necessariamente à do povo. § Esquecem-se de que o seu objetivo fundamental é lutar com o povo pela recuperação da humanidade roubada e não conquistar o povo. Este verbo não deve caber na sua linguagem, mas na do dominador. Ao revolucionário cabe libertar e libertar-se com o povo, não conquistá-lo.” Chega de Césares.

As elites dominadoras, na sua atuação política, são eficientes no uso da concepção ‘bancária’ (em que a conquista é um dos instrumentos) porque, na medida em que esta desenvolve uma ação apassivadora, coincide com o estado de ‘imersão’ da consciência oprimida.”

Afinal, o empenho dos humanistas não pode ser o de opor os seus slogans aos dos opressores, tendo como intermediários os oprimidos, como se fossem ‘hospedeiros’ dos slogans de uns e de outros.”

No sentido estrito, se qualquer conservador ou reacionário tivesse miolos, perceberia que Paulo Freire não é perigoso, ainda mais sendo lido por ignorantes (pessoas da própria direita), senão na hipótese muito remota (pouco provável no presente, ou no sentido de um futuro ainda distante) de que seu discurso fosse compreendido pela esquerda como um todo, principalmente quando ele diz, exatamente referendando, que ainda que fosse verdade a hipótese do <marxismo cultural> em nada revoluciona a educação, mas apenas perpetua o que ele já denominou como pedagogia do opressor-oprimido (grifos meus): “Por isto é que não podemos, a não ser ingenuamente, esperar resultados positivos de um programa, seja educativo num sentido mais técnico ou de ação política, se, desrespeitando a particular visão do mundo que tenha ou esteja tendo o povo, [0% educado em luta de classes] se constitui numa espécie de ‘invasão cultural’, [sinônimo de marxismo cultural neste contexto] ainda que feita com a melhor das intenções. Mas ‘invasão cultural’ sempre.”

Na prática, a esquerda não revolucionou a educação ou a formação do homem – a inclusão no sistema educacional dos antes excluídos não fá-los inverter os valores (Nietzsche), só cria mais carvão ou bucha de canhão (cannon fodder) para o querer-ser-burguês ou morrer tentando. Mensagem mais clara, impossível (e, sendo impossível, significa que o público de direita não entende o que está escrito, pois nesse caso, para ele, o texto precisaria ser mais claro; e mais claro que isso seria inautêntico ou já distorceria o conteúdo que se quer transmitir – é por isso que eles só podem ler o que Olavo pensa ser Freire, e não Freire mesmo).

pregar no deserto”

PEDALÍTICOS E POLIGOGOS: “Por isto mesmo é que, muitas vezes, educadores e políticos falam e não são entendidos. Sua linguagem não sintoniza com a situação concreta dos homens a quem falam. E sua fala é um discurso a mais, alienado e alienante.” Presencie qualquer reunião de governe e sinta este parágrafo na pele.

Podemos sequer enumerar 5 educadores-políticos ou políticos-educadores dos tempos modernos? Lenin, Mao, quem mais?… Figura também próxima ao filósofo-legislador do Zaratustra. É natural, e não chocante, a aparição de Nietzsche cada vez mais numerosa conforme nos aprofundemos na questão da formação do “novo” homem – como se um dia ele se opusesse à “doutrina” marxista, e não o contrário (apesar dos equívocos que ele alimentava sobre o ‘socialismo’, já que ele não só conheceu o ‘socialismo pré-marxista’, o mesmo que desconhecer em absoluto o socialismo)!… Até para que marxistas e nietzscheanos se congratulem pelos achados uns dos outros e pela “incrível coincidência” de objetivos, ao menos um século e meio da data em que escrevo terão se passado. Quanto mais que isto chegue ao vulgo… O tal “marxismo cultural”, se pudesse ser implantado, exigiria 500 anos para gerar qualquer fruto. Ainda estamos muito longe de vislumbrar este pomar do saber e da eliminação da opressão.

Antes de perguntar-nos o que é um ‘tema gerador’, cuja resposta nos aclarará o que é o ‘universo mínimo temático’, nos parece indispensável desenvolver algumas reflexões.”

Se o ‘tema gerador’ fosse uma hipótese que devesse ser comprovada, a investigação, primeiramente, não seria em torno dele, mas de sua existência ou não.”

por viver num presente esmagador, o animal é a-histórico.”

O mundo humano, que é histórico, se faz, para o ‘ser fechado em si’, mero suporte. Seu contorno não lhe é problemático, mas estimulante. Sua vida não é um correr riscos, uma vez que não os sabe correndo.”

Não pode, tampouco, saber-se destruído em vida” (o animal)

os homens, ao contrário do animal, não somente vivem, mas existem, e sua existência é histórica.” Sujeito à má interpretação do rebotalho. No sentido aqui empregado, a frase sartreana “a existência precede a essência” não se aplica. A existência no sentido da hermenêutica exige a compreensão da história, não é algo de que bebês usufruam. O mais correto seria atualizar Sartre e dizer: “a vivência precede a existência”. Deixemos, no entanto, para não complicar demais as coisas, “essência” de fora neste momento. Existir é estar-na-história.

situações-limite”: limite intransponível no animal; apenas um limite temporário no devir humano.

percebidos destacados”: situações-limite que não conseguem ser transpostas. Nas palavras de Freire, “dimensões concretas e históricas de uma dada realidade”. A História como a conhecemos, “cristalizada”, a história acadêmica dada (fora do escopo marxista da determinação e criação da história – presente-futuro – pelo homem e do escopo da reinterpretação constante do próprio passado, que nunca é fixo ou rígido). São um desafio a ser enfrentado para aqueles que não sucumbem ao desespero (aqueles capazes da percepção crítica). Quem está em desespero recai na “aceitação dócil e passiva” dessa situação histórica.

A rigor, se o homem é ser-no-mundo, em Freire o animal é ser-no-suporte. O suporte é como uma coisa no mundo humano. O ser-no-suporte é incapaz de decisões. Já o mundo é o palco por excelência das decisões. Imaginar um homem que permanecesse se deslocando apenas numa esteira.

O próprio do animal, portanto, não é estar em relação com seu suporte — se estivesse, o suporte seria mundo —, mas adaptado a ele.”

este mundo não existiria, se este ser não existisse.”: sine qua non da hermenêutica ou fenomenologia.

Uma unidade epocal se caracteriza pelo conjunto de ideias, de concepções, esperanças, dúvidas, valores, desafios, em interação dialética com seus contrários, buscando plenitude. A representação concreta de muitas destas ideias, destes valores, destas concepções e esperanças, como também os obstáculos ao ser mais dos homens, constituem os temas da época.”

Desta forma, não há como surpreender os temas históricos isolados, soltos, desconectados, coisificados, parados, mas em relação dialética com outros, [suportes-no-mundo] seus opostos. Como também não há outro lugar para encontrá-los que não seja nas relações homens-mundo. O conjunto dos temas em interação constitui o ‘universo temático’ da época.”

O BRASIL VIVE ESSE ANTAGONISMO AGUDO NA SUA EXPRESSÃO MAIS APROFUNDADA DESDE 2002, E A ‘LUTA’ SEGUE EM CURSO: “Na medida em que se aprofunda o antagonismo entre os temas que são a expressão da realidade, há uma tendência para a mitificação da temática e da realidade mesma, o que, de modo geral, instaura um clima de ‘irracionalismo’ e de ‘sectarismo’.” No mundo, vemos a tão esperada transição de poder decorrente do declínio dos Estados Unidos (econômico-cultural), tornado claro apenas há poucos anos, após mais de duas décadas do Consenso de Washington e da interrupção temporária oficial da Guerra Fria. Rússia e China são os protagonistas da Nova Ordem Mundial. O Brasil se inserirá no lado oriental contra o imperialismo ianque.

Este clima ameaça esgotar os temas de sua significação mais profunda, pela possibilidade de retirar-lhes a conotação dinâmica que os caracteriza.” Meia dúzia de anos muito inócuos (2016-2022).

SÍNTESE DA CONDIÇÃO PÓS-MODERNA (QUE FINALMENTE APRESENTA RACHADURAS): “Neste caso, os temas se encontram encobertos pelas ‘situações-limite’, que se apresentam aos homens como se fossem determinantes históricas, esmagadoras, em face das quais não lhes cabe outra alternativa senão adaptar-se. Desta forma, os homens não chegam a transcender as ‘situações-limite’ e a descobrir ou a divisar, mais além delas e em relação com elas, o inédito viável.” O freio-de-mão estava puxado desde o pós-guerra.

ALUSÃO DIRETA A SARTRE (O MAIS POPULAR DOS FENOMENÓLOGOS DE ESTIRPE BURGUESA, OU PELO MENOS REPRESENTANTES DO LIBERALISMO INDIVIDUALISTA): “No momento em que estes [homens] as percebem [às situações-limite] não mais como uma ‘fronteira entre o ser e o nada’,¹ mas como uma ‘fronteira entre o ser e o mais ser’, se fazem cada vez mais críticos na sua ação,² ligada àquela percepção.”

¹ Expressão (em Sartre) que é esvaziada de sentido: a rigor, não quer dizer nada; apenas que vivemos em perpétuo devir. Falta aí uma concepção esperançosa da estabilidade de valores nobres, como a Idéia em Platão. Tendência ao niilismo e ao absurdo.

² O que os olavistas ou “os idiotas no meio do caminho” chamariam de “perigo vermelho”. Bem vermelho – e inevitável! Não importa o nome que dêem. O homem está fadado à liberdade é uma frase famosa de Sartre, mas talvez interpretada na verve pessimista de sua época. A verdade é que o homem está fadado a nunca querer o nada, destarte ele agora quer alguma coisa, enjoou do nada, e só pode querer mais do ser, ser mais, como no jargão freireano.

O OLAVISMO: “A tendência então, dos primeiros, [os que servem, negam e freiam –porque até o senhor nega e freia o homem, e a si mesmo, ao não compreender a dialética do senhor-escravo] é vislumbrar no inédito viável, ainda como inédito viável, uma ‘situação-limite’ ameaçadora [Cuba, Venezuela, a União Soviética que vence a Guerra Fria, etc., ‘o Brasil que não queremos’, etc.] que, por isto mesmo, precisa não concretizar-se.” Defendem a pátria e a família cristã para que os radicais não mudem a ancestralidade primitiva dada desde o sempre.

a investigação da temática significativa”

Temas de caráter universal, contidos na unidade epocal mais ampla, que abarca toda uma gama de unidades e subunidades, continentais, regionais, nacionais etc., diversificadas entre si. Como tema fundamental desta unidade mais ampla, que poderemos chamar ‘nossa época’, se encontra, a nosso ver, o da libertação, que indica o seu contrário, o tema da dominação. É este tema angustiante que vem dando à nossa época o caráter antropológico a que fizemos referência anteriormente.” A descoberta do ser-no-mundo implica na tentativa da execução da tarefa da libertação.

O PROBLEMA DO TERCEIRO MUNDO (nomenclatura já em desuso pelas forças dominantes, pois ela escancara o problema): “Em círculos menos amplos, nos deparamos com temas e ‘situações-limite’, característicos de sociedades de um mesmo continente ou de continentes distintos, que têm nestes temas e nestas ‘situações-limite’ similitudes históricas.”

“‘situação-limite’ do subdesenvolvimento, ao qual está ligado o problema da dependência, é a fundamental característica do Terceiro Mundo.” Por incrível que pareça, citei o TERCEIRO MUNDO antes de ler essa passagem. Sinal de que Freire e eu estamos sintonizados. O momento em que o princípio da soberania de todos os povos passa a ser questionado pelas nações que não lideram a geopolítica.

Em círculo mais restrito, observaremos diversificações temáticas, dentro de uma mesma sociedade, em áreas e subáreas em que se divide, todas, contudo, em relação com o todo de que participam. (…) Em uma unidade nacional mesma, encontramos a contradição da ‘contemporaneidade do não-coetâneo’.” Os dois Brasis dentro do Brasil. As regiões norte e nordeste; o centro-oeste (capital do poder, porém agrário); o sul e sudeste, motores industrais, e no entanto¹ reacionários.

¹ Ou melhor: e por isso mesmo reacionários, pois vêem a possibilidade da perda relativa de influência no jogo total.

Nas subunidades referidas, os temas de caráter nacional podem ser ou deixar de ser captados em sua verdadeira significação, ou simplesmente podem ser sentidos. Às vezes, nem sequer são sentidos.” Desde Paulo Freire até o presente a subunidade temática é a mesma, mas a postura diante dela sofre flutuações. Os oprimidos intelectualizados sentem o problema ‘mais cedo’. As elites contra-atacam. O povo passa quase inconscientemente pela época (mesmo que continuamente oprimido, mais oprimido que o oprimido intelectualizado, inclusive, naturalizando sua própria opressão). Estamos no ponto em que há discussão aberta sobre essa temática; e os contrários ao desenvolvimento da luta contra a opressão negam o problema (literalmente o campo negacionista).

a existência de uma ‘situação-limite’ de opressão em que os homens se encontram mais imersos que emersos.” Virada (emersão > imersão): O “CHEGA DE POLARIZAÇÃO” midiático como mensagem desesperada dos donos do poder tentando “puxar o freio de mão” de uma situação ou desafio já lançados no horizonte: a polarização é inevitável, o crescimento da esquerda organizada diante da opressão a desencadeia.

faltando aos homens uma compreensão crítica da totalidade em que estão, captando-a em pedaços nos quais não reconhecem a interação constituinte da mesma totalidade, não podem conhecê-la.” Discurso popular inócuo: não gosto de política; todos os políticos são corruptos; sou indiferente a quem está sazonalmente no poder, etc.

lhes seria indispensável ter antes a visão totalizada do contexto para, em seguida, separarem ou isolarem os elementos ou as parcialidades do contexto, através de cuja cisão voltariam com mais claridade à totalidade analisada.” É o sociólogo (para citar o meu exemplo) que capta a realidade presente de modo crítico. O povo é um pólo passivo no presente. Não é ‘na escola’ que a sociologia (ou as humanidades) consegue(m) ‘abrir os olhos da população’, pois a sociologia (e as disciplinas-irmãs) está(ão) inscrita(s) ela(s) mesma(s) na educação bancária que combate. O marxismo é adverso ao conteudismo didático-pedagógico do modelo atual.

…insere ou começa a inserir os homens numa forma crítica de pensarem seu mundo.” Negrito em ‘começa’!

se faz indispensável que a sua busca se realize através da abstração.” “A descodificação da situação existencial provoca esta postura normal, que implica um partir abstratamente até o concreto; que implica uma ida das partes ao todo e uma volta deste às partes, que implica um reconhecimento do sujeito no objeto (a situação existencial concreta)¹ e do objeto como situação em que está o sujeito.²”

¹ Sou um trabalhador/desempregado: faço parte de estatísticas.

² O capitalismo é criação do homem e inter-relação entre homens. Não é um sistema inerte e imutável.

cisão ou descrição da situação: “a tendência dos indivíduos é dar o passo da representação da situação (codificação) à situação concreta mesma em que e com que se encontram. § Teoricamente, é lícito esperar que os indivíduos passem a comportar-se em face de sua realidade objetiva da mesma forma, do que resulta que deixe de ser ela um beco sem saída para ser o que em verdade é: um desafio ao qual os homens têm que responder.”

percepção fatalista”, “percepção estática”, “percepção dinâmica” TEMAS GERADORES

Ainda quando um grupo de indivíduos não chegue a expressar concretamente uma temática geradora, o que pode parecer inexistência de temas sugere, pelo contrário, a existência de um tema dramático: o tema do silêncio.” A resposta da maioria é a adaptação (mercado de trabalho, família, ‘despreocupação’ com o que está ‘em tese’ fora da ‘órbita individual’, que aliás é apenas um construto da visão de mundo individual). Por isso o praticante da práxis (pensamento e ação) é chamado pejorativamente de ativista ou militante. Quando na verdade o puro pensador ou o puro agitador seriam protótipos – se é que realizáveis – indesejáveis. O ativista – o crítico da esquerda, ‘progressista’ – é aquele que age sobre o mundo em postura e com caráter transformadores.

Poderá dizer-se que o fato de serem os homens do povo, tanto quanto os investigadores, sujeitos da busca de sua temática significativa, sacrifica a objetividade da investigação. Que os achados já não serão ‘puros’ porque terão sofrido uma interferência intrusa. No caso, em última análise, daqueles que são os maiores interessados — ou devem ser — em sua própria educação.

Isto revela uma consciência ingênua da investigação temática, para a qual os temas existiriam em sua pureza objetiva e original, fora dos homens, como se fossem coisas.” Estágio atual da luta de classes, confinada aos eruditos. Isso ainda é Francis Bacon (1561-1626)!

É através dos homens que se expressa a temática significativa e, ao expressar-se, num certo momento, pode já não ser, exatamente, o que antes era, desde que haja mudado sua percepção dos dados objetivos aos quais os temas se acham referidos.” É dessa forma que o átomo de Demócrito já não é o átomo de Niels-Bohr (Nobel de Física de 1922), i.e., o homem (o físico contemporâneo) não o enxerga como a menor unidade da matéria, mas como partícula dual (matéria e luz). Nesse “simples ato” (em verdade uma revolução epistemológica) o homem acaba de transformar a natureza; embora não tenha modificado de forma alguma a realidade ipsis literis (o átomo sempre foi dual), para ele agora o átomo é dual. Longe de ser uma curiosidade de pé de página, essa descoberta ajudou a reconfigurar as forças militares e ameaçou a vida na Terra num intervalo de poucas décadas.

Assim como não é possível — o que salientamos no início deste capítulo — elaborar um programa a ser doado ao povo, também não o é elaborar roteiros de pesquisa do universo temático a partir de pontos prefixados pelos investigadores que se julgam a si mesmos os sujeitos exclusivos da investigação.” Não existe o investigador social que investiga os fatos sociais (“os fatos sociais são coisas”, disse Durkheim, ultrapassado). Existimos “nós”, os homens. “Investigadores profissionais e povo, nesta operação simpática, que é a investigação do tema gerador, são ambos sujeitos deste processo.”

O investigador da temática significativa que, em nome da objetividade científica, transforma o orgânico em inorgânico, o que está sendo no que é, o vivo no morto, teme a mudança.” A decadência do Ocidente não deve ser combatida ou refreada, mas aprofundada, diz Nietzsche. Ela é sempre a aurora de novas culturas, mais frescas e arejadas.

Pensar que não se dá fora dos homens, nem num homem só, nem no vazio, mas nos homens e entre os homens, e sempre referido à realidade.” Antropologia: retorno aos homens. Mitologia: estudo dos enredos originários. Religião enquanto saber: reanimação do transcendental perdido no Ocidente. “A investigação do pensar do povo não pode ser feita sem o povo, mas com ele, como sujeito de seu pensar. E se seu pensar é mágico ou ingênuo, será pensando o seu pensar, na ação, que ele mesmo se superará. E a superação não se faz no ato de consumir ideias, mas no de produzi-las e de transformá-las na ação e na comunicação.”

a inserção [contrário de imersão? Confesso que aqui P.F. se torna confuso…]é um estado maior que a emersão e resulta da conscientização da situação. É a própria consciência histórica.” A emersão sendo, portanto, apenas o início da compreensão crítica da história, ‘semi-consciência’ histórica…

Enquanto na prática ‘bancária’ da educação, antidialógica por essência, por isto, não-comunicativa, o educador deposita no educando o conteúdo programático da educação, que ele mesmo elabora ou elaboram para ele, na prática problematizadora, dialógica por excelência, este conteúdo, que jamais é ‘depositado’, se organiza e se constitui na visão do mundo dos educandos, em que se encontram seus temas geradores.”

A tarefa do educador dialógico é, trabalhando em equipe interdisciplinar este universo temático recolhido na investigação, [caráter coletivo totalmente ausente da escola hoje] devolvê-lo, como problema, não como dissertação, aos homens de quem recebeu.” Dissertação: algo referendado, exatamente como o Papa referenda qualquer decisão inferior de bispo.

Se, na etapa da alfabetização, a educação problematizadora e da comunicação busca e investiga a ‘palavra geradora’,¹ na pós-alfabetização, busca e investiga o tema gerador.”

¹ Referência exclusiva aos campos da lingüística e psicologia. Questão de somenos importância: métodos de alfabetização do homem ainda incapaz da codificação da linguagem escrita, levando em conta a cultura a que pertence o alfabetizado.

Que fazermos, por exemplo, se temos a responsabilidade de coordenar um plano de educação de adultos em uma área camponesa, que revele, inclusive, uma alta porcentagem de analfabetismo? O plano incluirá a alfabetização e a pós-alfabetização. Estaríamos, portanto, obrigados a realizar tanto a investigação das palavras geradoras quanto a dos temas geradores, à base de que teríamos o programa para uma e outra etapas do plano.”

MESMO CÓDIGO DE ÉTICA DA ETNOGRAFIA: “É que, neste encontro, os investigadores necessitam obter que um número significativo de pessoas aceite uma conversa informal com eles, em que lhes falarão dos objetivos de sua presença na área. Na qual dirão o porquê, o como e o para quê da investigação que pretendem realizar e que não podem fazê-lo se não se estabelece uma relação de simpatia e confiança mútuas.”

Uma série de informações sobre a vida na área, necessárias à sua compreensão, terá nestes voluntários [<tutores>, nativos] os seus recolhedores. Muito mais importante, contudo, que a coleta destes dados, é sua presença ativa na investigação.”

A maneira de conversar dos homens; a sua forma de ser. O seu comportamento no culto religioso, no trabalho. Vão registrando as expressões do povo; sua linguagem, suas palavras, sua sintaxe, que não é o mesmo que sua pronúncia defeituosa, mas a forma de construir seu pensamento.”

Esta descodificação ao vivo implica, necessariamente, que os investigadores, em sua fase, surpreendam a área em momentos distintos. É preciso que a visitem em horas de trabalho no campo; que assistam a reuniões de alguma associação popular, observando o procedimento de seus participantes, a linguagem usada, as relações entre diretoria e sócios; o papel que desempenham as mulheres, os jovens. É indispensável que a visitem em horas de lazer; que presenciem seus habitantes em atividades esportivas; que conversem com pessoas em suas casas, registrando manifestações em torno das relações marido-mulher, pais-filhos; afinal, que nenhuma atividade, nesta etapa, se perca para esta compreensão primeira da área.”

Poderíamos pensar que, nesta primeira etapa da investigação, ao se apropriarem, através de suas observações, dos núcleos centrais daquelas contradições, os investigadores já estariam capacitados para organizar o conteúdo programático da ação educativa. Realmente, se o conteúdo desta ação reflete as contradições, indiscutivelmente estará constituído da temática significativa da área.

Não tememos, inclusive, afirmar que a margem de acerto para a ação que se desenvolvesse a partir destes dados seria muito mais provável que a dos conteúdos resultantes das programações verticais.

Esta, contudo, não deve ser uma tentação pela qual os investigadores se deixem seduzir.

Na verdade, o básico, a partir da inicial percepção deste núcleo de contradições, entre as quais estará incluída a principal da sociedade como uma unidade epocal maior, é estudar em que nível de percepção delas se encontram os indivíduos da área.

No fundo, estas contradições se encontram constituindo ‘situações-limite’, envolvendo temas e apontando tarefas.

Se os indivíduos se encontram aderidos a estas ‘situações-limite’, impossibilitados de ‘separar-se’ delas, o seu tema a elas referido será necessariamente o do fatalismo e a ‘tarefa’ a ele associada é a de quase não terem tarefa.” A velha tarefa de resignação (mortos por dentro)!

Por isto é que, embora as ‘situações-limite’ sejam realidades objetivas e estejam provocando necessidades nos indivíduos, se impõe investigar, com eles, a consciência que delas tenham.” Normalmente pessoas de um vilarejo pobre de um país com áreas menos pobres sonham em ‘ir embora’ do local; para eles isso é o ‘crescer na vida’…

Uma ‘situação-limite’, como realidade concreta, pode provocar em indivíduos de áreas diferentes, e até de subáreas de uma mesma área, temas e tarefas opostos, que exigem, portanto, diversificação programática para o seu desvelamento.

Daí que a preocupação básica dos investigadores deva centrar-se no conhecimento do que Goldmann chama de ‘consciência real’ (efetiva) e ‘consciência máxima possível’.

Real consciousness is the result of the multiple obstacles and deviations that the different factors of empirical reality put into opposition and submit for realization by this potential consciousness. Daí que, ao nível da ‘consciência real’, os homens se encontrem limitados na possibilidade de perceber mais além das ‘situações-limite’,

o que chamamos de ‘inédito viável’.” O inédito viável do ocidente por inteiro é o que todo o mundo precisa desvendar junto. O inédito viável de uma pequena comunidade pode quem sabe ser elucidada pelos moradores locais com a intermediação de investigadores aptos. Acima eu havia pensado no inédito viável global, como bom filósofo da crise!

Por isto é que, para nós, o ‘inédito viável’ (que não pode ser apreendido no nível da ‘consciência real’ ou efetiva [um só indivíduo, ou um grupo de forasteiros, ou a coletividade nativa deixada ‘sem iluminação’]) se concretiza na ‘ação editanda’, cuja viabilidade antes não era percebida.” Resultado do trabalho etnográfico bem-feito.

A ‘consciência possível’ parece poder identificar-se com o que Nicolaj chama de ‘soluções praticáveis despercebidas’ (nosso ‘inédito viável’), em oposição às ‘soluções praticáveis percebidas’ e às ‘soluções efetivamente realizadas’, [plano mais baixo] que correspondem [as duas últimas nomenclaturas] à ‘consciência real’.”

Esta é a razão por que o fato dos investigadores, na primeira etapa da investigação, terem chegado à apreensão mais ou menos aproximada do conjunto de contradições, não os autoriza [ainda] a pensar na estruturação do conteúdo programático da ação educativa. § Até então, esta visão é deles ainda, e não a dos indivíduos em face de sua realidade.”

A segunda fase da investigação começa precisamente quando os investigadores, com os dados que recolheram, chegam à apreensão daquele conjunto de contradições.”

Na medida em que as codificações (pintadas ou fotografadas e, em certos casos, preferencialmente fotografadas) são o objeto que, mediatizando os sujeitos descodificadores, se dá à sua análise crítica, sua preparação deve obedecer a certos princípios que são apenas os que norteiam a confecção das puras ajudas visuais.” Se eu fosse obrigado a desenhar, sairia uma obra de arte rupestre!

Uma primeira condição a ser cumprida é que, necessariamente, devem representar situações conhecidas pelos indivíduos cuja temática se busca, o que as faz reconhecíveis por eles, possibilitando, desta forma, que nelas se reconheçam.

Não seria possível, nem no processo da investigação, nem nas primeiras fases do que a ele se segue, o da devolução da temática significativa como conteúdo programático, propor representações de realidades estranhas aos indivíduos.” Freire pede uma suspensão do juízo para que o investigador evite neste momento comparações entre sua própria realidade e a da comunidade que investiga.

NEM FALAR UM PORTUGUÊS TAXATIVO E BUROCRÁTICO DEMAIS, NEM GREGO! “Igualmente fundamental para a sua preparação é a condição de não poderem ter as codificações, [todos os produtos culturais sendo interpretados] de um lado, seu núcleo temático demasiado explícito; de outro, demasiado enigmático. No primeiro caso, correm o risco de transformar-se em codificações propagandísticas, em face das quais os indivíduos não têm outra descodificação a fazer, [Diretrizes do MEC: não! O MEC, a instância burocrática mais afastada, ‘não sabe de nada’ neste momento! Essa é a razão precípua de haver um investigador in loco fazendo o trabalho de base, i.e., construindo o conteúdo programático horizontalmente, previamente a uma suposta programática vertical/holística, digamos, de zonas rurais do país inteiro, ou de uma região inteira do país] senão a que se acha implícita nelas, de forma dirigida. [dirigir o investigado a confirmar suas próprias hipóteses, procedimento do ‘dominador’] No segundo, o risco de fazer-se um jogo de adivinhação ou ‘quebra-cabeça’.”

As codificações não são slogans, são objetos cognoscíveis” Slogans, termo publicitário, nasce da política: condensa idéias complexas em poucas palavras, sempre retóricas. Seria poluir toda a pesquisa.

as codificações, na organização de seus elementos constituintes, devem ser uma espécie de ‘leque temático’. Desta forma, na medida em que sobre elas os sujeitos descodificadores incidam sua reflexão crítica, irão ‘abrindo-se’ na direção de outros temas.” Os fascistas não gostam de leques, gostam de rolos compressores.

[Ora,] no processo da descodificação os indivíduos, exteriorizando sua temática, explicitam sua ‘consciência real’”

Na medida em que, ao fazê-lo, vão percebendo como atuavam ao viverem a situação analisada, chegam ao que chamamos antes de percepção da percepção anterior. § Ao terem a percepção de como antes percebiam, percebem diferentemente a realidade, e, ampliando o horizonte do perceber, mais facilmente vão surpreendendo, na sua ‘visão de fundo’,¹ as relações dialéticas entre uma dimensão e outra da realidade.”

¹ Visão de fundo, termo já usado anteriormente mas não citado nestes “melhores momentos” do livro, seria uma espécie de leitmotiv do indivíduo que conecta sua consciência real à capacidade de, via práxis, atingir uma consciência do inédito viável. A ação editanda de Freire nada mais é que esta práxis, no âmbito da pedagogia de campo (da pedagogia etnográfica, não conotando ‘campo’ vs. cidade, para esclarecer).

A nova percepção e o novo conhecimento, cuja formação já começa nesta etapa da investigação, se prolongam, sistematicamente, na implantação do plano educativo, transformando o ‘inédito viável’ na ‘ação editanda’, com a superação da ‘consciência real’ pela ‘consciência máxima possível’.” Consciência máxima possível não é uma expressão de Freire, mas podemos igualá-la, pelo menos num momento inicial ao inédito viável. Não gosto do sufixo –máxima possível porque não é possível (com o perdão do trocadilho!) determinar o impossível, a menos que sejamos oniscientes, ainda mais durante o desenrolar do processo.

Neste sentido, um jovem chileno, Gabriel Bode, que há mais de 2 anos trabalha com o método na etapa de pós-alfabetização, trouxe uma contribuição da mais alta importância. § Na sua experiência, observou que os camponeses somente se interessavam pela discussão quando a codificação dizia respeito, diretamente, a aspectos concretos de suas necessidades sentidas. Qualquer desvio na codificação, como qualquer tentativa do educador de orientar o diálogo, na descodificação, para outros rumos que não fossem os de suas necessidades sentidas, provocavam o seu silêncio e o seu indiferentismo.” O mais apressado dos filisteus (ou o europeu médio do séc. XVIII) diria: camponeses são animais incapazes do pensamento.

Por outro lado, observava que, embora a codificação se centrasse nas necessidades sentidas, os camponeses não conseguiam, no processo de sua análise, fixar-se, ordenadamente, na discussão, ‘perdendo-se’, não raras vezes, sem alcançar a síntese.” Quão genial não foi Dostoievsky em captar o espírito camponês russo em pleno séc. XIX!

Faltava-lhes, diremos nós, a percepção do ‘inédito viável’ mais além das ‘situações-limite’, geradoras de suas necessidades.” Mas isso é o óbvio: essa é a exceção da exceção, o nível mais alto da decodificação. O sujeito plenamente liberto da alienação.

Desta forma, [Gabriel Bode] resolveu experimentar a projeção simultânea de situações, e a maneira como desenvolveu seu experimento é que constitui a contribuição indiscutivelmente importante que trouxe.”

experimento bodiano (não confundir com bodiniano!):

1. codificação a mais simples (a 1ª realizada) da situação existencial do nativo.

2. após abrir o leque (com mais codificações), ele obtém um arcabouço que chama de codificações auxiliares. núcleo+periferia do “leque”

3. é pela ligação das codificações auxiliares que os sujeitos (os nativos) não perdem de vista a codificação nuclear ou simples, e continuam engajados no diálogo. atingem uma melhor percepção de sua situação existencial.

4. momento da síntese (espécie de aprimoramento do ‘leque’), feito pelo pesquisador com os nativos.

No fundo, o grande achado de Gabriel Bode está em que ele conseguiu propor à cognoscitividade dos indivíduos, através da dialeticidade entre a codificação ‘essencial’ e as ‘auxiliares’, o sentido da totalidade. Os indivíduos imersos na realidade, com a pura sensibilidade de suas necessidades, emergem dela e, assim, ganham a razão das necessidades.” Primeiro nível de abstração obtido com sucesso. Ainda é uma consciência real (nível mais baixo), mas mais fortalecida.

Preparadas as codificações, estudados pela equipe interdisciplinar todos os possíveis ângulos temáticos nelas contidos, iniciam os investigadores a terceira fase da investigação. Nesta, voltam à área para inaugurar os diálogos descodificadores, nos ‘círculos de investigação temática’.”

vão sendo gravadas as discussões que serão, no que se segue, analisadas pela equipe interdisciplinar.” Primeiro as fotos, agora os registros de áudio.

presença crítica de representantes do povo desde seu começo até sua fase final, a da análise da temática encontrada, que se prolonga na organização do conteúdo programático da ação educativa, como ação cultural libertadora.

A estas reuniões de descodificação nos ‘círculos de investigação temática’, além do investigador como coordenador auxiliar da descodificação, assistirão mais 2 especialistas — um psicólogo e um sociólogo — cuja tarefa é registrar as reações mais significativas ou aparentemente pouco significativas dos sujeitos descodificadores.”

os participantes do ‘círculo de investigação temática’ vão extrojetando, pela força catártica da metodologia, uma série de sentimentos, de opiniões, de si, do mundo e dos outros, que possivelmente não extrojetariam em circunstâncias diferentes.”

DISCURSO-FETICHE: “Numa das investigações realizadas em Santiago (esta infelizmente não concluída), ao discutir um grupo de indivíduos residentes num ‘cortiço’ (conventillo) uma cena em que apareciam um homem embriagado, que caminhava pela rua, e, em uma esquina, 3 jovens que conversavam, os participantes do círculo de investigação afirmavam que ‘aí apenas é produtivo e útil à nação o borracho que vem voltando para casa, depois do trabalho, em que ganha pouco, preocupado com a família, a cujas necessidades não pode atender. É o único trabalhador. É um trabalhador decente como nós, que também somos borrachos’.”

O interesse do investigador, o psiquiatra Patrício Lopes, a cujo trabalho fizemos referência no nosso ensaio anterior, era estudar aspectos do alcoolismo. Provavelmente, porém, não haveria conseguido estas respostas se se tivesse dirigido àqueles indivíduos com um roteiro de pesquisa elaborado por ele mesmo. Talvez, ao serem perguntados diretamente, negassem, até mesmo que tomavam, vez ou outra, o seu trago. Frente, porém, à codificação de uma situação existencial, reconhecível por eles e em que se reconheciam, em relação dialógica entre si e com o investigador, disseram o que realmente sentiam.

Há dois aspectos importantes nas declarações destes homens. De um lado, a relação expressa entre ganhar pouco, sentirem-se explorados, com um ‘salário que nunca alcança’, e se embriagarem. Embriagarem-se como uma espécie de fuga à realidade, como tentativa de superação da frustração do seu não-atuar. Uma solução, no fundo, autodestrutiva, necrófila. De outro, a necessidade de valorizar quem bebe. Era o ‘único útil à nação, porque trabalhava, enquanto os outros o que faziam era falar mal da vida alheia’.” Estima de alcoviteiro.

Imaginemos, agora, o insucesso de um educador do tipo que Niebuhr chama de ‘moralista’, que fosse fazer prédicas a esses homens contra o alcoolismo, [padrecos] apresentando-lhes como exemplo de virtude o que, para eles, não é manifestação de virtude.” J., a abstêmia religiosa até o fanatismo, seria massacrada nesta comunidade. E quem há de dizer quem no caso é mais cristão? Um dos cristãos? Dificilmente. É o mesmo que auto-declaração: eu posso me autodeclarar branco, pardo, amarelo – não é exatamente um indício de verdade!

Em outra experiência, de que participamos, esta, com camponeses, observamos que, durante toda a discussão de uma situação de trabalho no campo, a tônica do debate era sempre a reivindicação salarial e a necessidade de se unirem, de criarem seu sindicato para esta reivindicação, não para outra. Discutiram 3 situações neste encontro e a tônica foi sempre a mesma — reivindicação salarial e sindicato para atender a esta reivindicação. Imaginemos, agora, um educador que organizasse o seu programa ‘educativo’ [vertical, imposto a priori] para estes homens e, em lugar da discussão desta temática, lhes propusesse a leitura de textos que, certamente, chamaria de ‘sadios’, e nos quais se fala, angelicalmente, de que ‘a asa é da ave’.” Eu mesmo não entendi patavinas da referência!

E isto é o que se faz, em termos preponderantes, na ação educativa como na política, porque não se leva em conta que a dialogicidade da educação começa na investigação temática.” Textos de apoio que nada apoiam. Muletas fendidas.

A sua última etapa [quarta] se inicia quando os investigadores, terminadas as descodificações nos círculos, dão começo ao estudo sistemático e interdisciplinar de seus achados.”

Estes temas devem ser classificados num quadro geral de ciências, sem que isto signifique, contudo, que sejam vistos, na futura elaboração do programa, como fazendo parte de departamentos estanques.” Ou não chamariam um psicólogo e um sociólogo para a equipe.

O tema do desenvolvimento, por exemplo, ainda que situado no domínio da economia, não lhe é exclusivo.” Isso é o que nenhum doutor economista de Harvard está maduro para aceitar. Ele precisa ser submetido urgentemente à “educação problemática (crítica) pós-alfabetização” delineada por Paulo Freire.

os temas que foram captados dentro de uma totalidade jamais serão tratados esquematicamente. Seria uma lástima se, depois de investigados na riqueza de sua interpenetração com outros aspectos da realidade, ao serem ‘tratados’, [autocensurados] perdessem esta riqueza, esvaziando-se de sua força, na estreiteza dos especialismos.”

Feita a delimitação temática, caberá a cada especialista, dentro de seu campo, apresentar à equipe interdisciplinar o projeto de ‘redução’ de seu tema. No processo de ‘redução’ deste, o especialista busca os seus núcleos fundamentais que, constituindo-se em unidades de aprendizagem e estabelecendo uma sequência entre si, dão a visão geral do tema ‘reduzido’.”

Neste esforço de ‘redução’ da temática significativa, a equipe reconhecerá a necessidade de colocar alguns temas fundamentais que, não obstante, não foram sugeridos pelo povo, quando da investigação. (…) Se a programação educativa é dialógica, isto significa o direito que também têm os educadores-educandos de participar dela, incluindo temas não-sugeridos. A estes, por sua função, chamamos ‘temas dobradiça’.” Não precisa chamar de nada. Essas nomenclaturas excessivas e esquemáticas só atrapalham…

O conceito antropológico de cultura é um destes ‘temas dobradiça’, que prendem a concepção geral do mundo que o povo esteja tendo ao resto do programa. Esclarece, através de sua compreensão, o papel dos homens no mundo e com o mundo, como seres da transformação e não da adaptação.” A argamassa da ‘porra-toda’.

a escolha do canal visual, pictórico ou gráfico, depende não só da matéria a codificar, mas também dos indivíduos a quem se dirige. Se têm ou não experiência de leitura.”

Figuremos, entre outros, o tema do desenvolvimento. A equipe procuraria dois ou mais especialistas (economistas),¹ inclusive de escolas diferentes, e lhes falaria de seu trabalho, convidando-os a dar uma contribuição que seria a entrevista em linguagem acessível sobre tais pontos.”

¹ Um neoliberal e um não-neurodivergente, no caso. O primeiro dificilmente conseguiria traduzir suas abobrinhas em que nem ele mesmo acredita em ‘linguagem acessível’.

Se é um professor de universidade, ao declinar-se sua condição de professor universitário já se poderia discutir com o povo o que lhe parecem as universidades de seu país. Como as vê. O que delas espera. O grupo estaria sabendo que, após ouvir a entrevista, seria discutido o seu conteúdo, o qual passaria a funcionar como uma codificação auditiva. [não-autoritária sobre o contéudo programático, nem definitiva]

Do debate realizado, faria posteriormente a equipe um relatório ao especialista em torno de como o povo reagiu à sua palavra.” Prevejo os egos de vidro se estilhaçando… “Desta maneira, se estariam vinculando intelectuais, muitas vezes de boa vontade, mas, não-raro, alienados da realidade popular, a esta realidade. E se estaria também proporcionando ao povo conhecer e criticar o pensamento do intelectual.” O povo emitirá sempre comentários mais lúcidos. Será muito mais fácil a desalienação do povo do que a do economista de cátedra, cuja vida não mudará mesmo que participe voluntariamente (o que é utópico) de cem dessas experiências!

Como nas entrevistas gravadas, aqui também, antes de iniciar a leitura de artigo ou do capítulo do livro, se falaria de seu autor. Em seguida, se realizaria o debate em torno do conteúdo da leitura.”

Na linha do emprego destes recursos, parece-nos indispensável a análise do conteúdo dos editoriais da imprensa, a propósito de um mesmo acontecimento. Por que razão os jornais se manifestam de forma diferente sobre um mesmo fato?” Mentira! No Brasil, todos os jornais se pronunciam em uníssono – e estão sempre errados!

PERIGOSÍSSIMO PARA O SISTEMA GLOBO! “Que o povo então desenvolva o seu espírito crítico para que, ao ler jornais ou ao ouvir o noticiário das emissoras de rádio, [creio que Freire escreveu antes da popularização da televisão nos lares] o faça não como mero paciente, como objeto dos ‘comunicados’ que lhes prescrevem, mas como uma consciência que precisa libertar-se.” O paradigma dos ‘comunicados’ permanece intocado nos podcasts de internet, infelizmente.

O primeiro trabalho dos educadores de base será a apresentação do programa geral da campanha a iniciar-se. Programa em que o povo se encontrará, de que não se sentirá estranho, pois que dele saiu.”

Como fazer, porém, no caso em que não se possa dispor dos recursos para esta prévia investigação temática, nos termos analisados?”

TUDO COMEÇA E TERMINA EM ANTROPOLOGIA… “Sejam homens camponeses ou urbanos, em programa de alfabetização ou de pós-alfabetização, o começo de suas discussões em busca de mais conhecer, no sentido instrumental do termo, é o debate deste conceito.”

Com a experiência que hoje temos, podemos afirmar que, bem-discutido o conceito de cultura, em todas ou em grande parte de suas dimensões, nos pode proporcionar vários aspectos de um programa educativo. Mas, além da captação, que diríamos quase indireta, de uma temática, na hipótese agora referida, podem os educadores, depois de alguns dias de relações horizontais com os participantes do ‘círculo de cultura’, perguntar-lhes diretamente:

Que outros temas ou assuntos poderíamos discutir além deste?

(…)

Admitamos que um dos membros do grupo diz: ‘Gostaria de discutir sobre o nacionalismo.’Assunção muito otimista! Esse termo, além de problemático (no sentido não-freireano!), dificilmente é evocado por pessoas ainda não-críticas, imersas na ‘realidade’ cotidiana.

(cont.)

“‘Muito bem (diria o educador, após registrar a sugestão, e acrescentaria): Que significa nacionalismo? Por que pode interessar-nos a discussão sobre o nacionalismo?’

É provável que, com a problematização da sugestão ao grupo, novos temas surjam. Assim, na medida em que todos vão se manifestando, o educador vai problematizando, uma a uma, as sugestões que nascem do grupo.”

Se, por exemplo, numa área em que funcionam 30 ‘círculos de cultura’, na mesma noite, todos os ‘coordenadores’ (educadores) procedem assim, terá a equipe central [um círculo de cultura ‘coordenador-geral’?] um rico material temático a estudar, dentro dos princípios descritos na primeira hipótese de investigação da temática significativa.” Não entendi a envergadura desses círculos de cultura. Estariam todos instalados no mesmo município? Ou um por município ou área? Pergunta quase retórica, já que Freire cita “numa área em que funcionam 30…” e depois arremata com “na mesma noite”. Mas é irreal imaginar sequer que tenhamos profissionais competentes em número para tal tarefa – por grande que seja o contingente de educadores de elite brasileiros. Território imenso – quase russo! E os ‘melhores’ estão provavelmente em outros vínculos empregatícios mais atrativos (o poder do Capital!), infelizmente…

O importante (…) é que (…) os homens se sintam sujeitos de seu pensar, discutindo o seu pensar, sua própria visão do mundo, manifestada implícita ou explicitamente, nas suas sugestões e nas de seus companheiros.”

Ao contrário do Ensaio sobre a dádiva, aqui não é bom doar (enquanto educador): quem doa são os nativos, o professor é quem recebe o conteúdo programático (se seguir todos os passos acima).

Notas do capítulo (muitas referências bibliográficas)

(*) Sobre o “silêncio” como fracasso da educação crítica: “Não nos referimos, obviamente, ao silêncio das meditações profundas em que os homens, numa forma só aparente de sair do mundo, dele ‘afastando-se’ para ‘admirá-lo’ em sua globalidade, com ele, por isto, continuam. [‘a vida é bela’, mas só à distância, em muitos casos!] Daí que estas formas de recolhimento só sejam verdadeiras quando os homens nela se encontrem ‘molhados’ de realidade e não quando, significando um desprezo ao mundo, sejam maneiras de fugir dele, numa espécie de ‘esquizofrenia histórica’.” O lado anti-hindu de P.F.! Nota subscrita, porém, por Zaratustra.

(*) A AUTÊNTICA REVOLUÇÃO É UM PROJETO AMOROSO: “Cada vez nos convencemos mais da necessidade de que os verdadeiros revolucionários reconheçam na revolução, porque um ato criador e libertador, um ato de amor. Para nós, a revolução, que não se faz sem teoria da revolução, portanto, sem ciência, não tem nesta uma inconciliação com o amor. Pelo contrário, a revolução, que é feita pelos homens, o é em nome de sua humanização. Que leva os revolucionários a aderirem aos oprimidos, senão a condição desumanizada em que se acham estes?

Não é devido à deterioração a que se submete a palavra amor no mundo capitalista que a revolução vá deixar de ser amorosa, nem os revolucionários fazer silêncio de seu caráter biófilo. Guevara, ainda que tivesse salientado o ‘risco de parecer ridículo’, não temeu afirmá-lo. Déjeme decirle (declarou dirigindo-se a Carlos Quijano) a riesgo de parecer ridículo que el verdadero revolucionario es animado por fuertes sentimientos de amor. Es imposible pensar un revolucionario autentico, sin esta cualidad. Ernesto Guevara, Obra revolucionaria. México: Ediciones Era S.A., 1967, pp. 637-38.

(*) Pierre Furter, Educação e vida. Petrópolis: Vozes, 1966.

(*) « Em uma longa conversação com Malraux, declarou Mao: Vous savez que je proclame depuis longtemps: nous devons enseigner aux masses avec précision ce que nous avons reçu d’elles avec confusion. André Malraux, Anti-memoires. Paris: Gallimard, 1967, p. 531. Nesta afirmação de Mao está toda uma teoria dialógica de constituição do conteúdo programático da educação, que não pode ser elaborado a partir das finalidades do educador, do que lhe pareça ser o melhor para seus educandos.” E veja onde está a China hoje! E onde está o Brasil!

(*) “Pour établir une liaison avec les masses, nous devons conformer à leurs désirs. [Até mesmo quando Mao mais errou – na revolução cultural – a motivação de suas ações foi a mais nobre e popular possível] Dans tout travail pour les masses, nous devons partir de leurs besoins, et non de nos propres désirs, si louables soient-ils. Il arrive souvent que les masses aient objetivement besoin de telles ou telles transformations, mais que subjetivement, elles ne soient conscients de ce besoin, qu’elles n’aient ni la volonté ni le désir de les réaliser; dans ce cas, nous devons attendre avec patience; [e quem poderá acusar Mao de « mencheviquismo » ?] c’est seulement lorsque, à la suite de notre travail, les masses seront, dans leurs majorité, conscientes de la nécessité de ces transformations, lorsqu’elles auront la volonté et le désir de les faire aboutir, qu’on pourra les réaliser; sinon, l’on risque de se couper des masses. […] Deux principes doivent nous guider: premièrement, les besoins réels des masses et non les besoins nés de notre imagination; deuxièment, le désir librement exprimé par les masses, les resolutions qu’elles ont prises elles mêmes et non celles que nous prenons à leur place. Mao Tsé-Tung, ‘Le Front uni dans le travail culturel’, in Oeuvres choisies de Mao Tse-Toung. Pequim: Ed. du Peuple, 1966.Hmm, Mao me cai muito bem em francês. Depois desse par de declarações, estou disposto a adquirir sua obra nessa tradução!

(*) “é mais contraditório que homens verdadeiramente humanistas usem a prática ‘bancária’ da educação que homens de direita se empenhem num esforço de educação problematizadora. Na verdade é uma contradição meramente teórica. Estes são sempre mais coerentes — jamais aceitam uma pedagogia da problematização.” Nosso maior desafio é que a direita é sempre prejudicial. A esquerda é ora prejudicial, ora benéfica à própria esquerda. Somos uma minoria absoluta.

(*) “O prof. Álvaro Vieira Pinto analisa, com bastante lucidez, o problema das ‘situações-limite’, cujo conceito aproveita, esvaziando-o, porém, da dimensão pessimista que se encontra originariamente em Jaspers.” Normal!

(*) Karel Kosik, Dialética do concreto, 3ed., RJ: Paz e Terra, 1985.

(*) Hans Freyer, Teoría de la época actual, México: Fondo de Cultura Econ., 1958.

(*) O CAMPONÊS É NOSSO AMIGO METAFÍSICO, A CLASSE MÉDIA É O MAIOR DOS PROBLEMAS: “Esta forma de proceder se observa, não raramente, entre homens de classe média, ainda que diferentemente de como se manifesta entre camponeses. Seu medo da liberdade os leva a assumir mecanismos de defesa e, através de [ir]racionalizações, escondem o fundamental, enfatizam o acidental e negam a realidade concreta. Em face de um problema cuja análise remete à visualização da ‘situação-limite’, cuja crítica lhes é incômoda, [a ascensão dos pobres, em resumo] sua tendência é ficar na periferia dos problemas, rechaçando toda tentativa de adentramento no núcleo mesmo da questão. Chegam, inclusive, a irritar-se quando se lhes chama a atenção para algo fundamental que explica o acidental ou o secundário, [ex: por que as cidades estão apinhadas de mendicantes] aos quais estão dando significação primordial.”

(*) Lucien Goldmann, The Human Sciences and Philosophy. Londres: The Chancer Press, 1969.

(*) André Nicolaj, Comportement économique et structures sociales. Paris: PUF, 1960.

(*) “Em cada ‘círculo de investigação’ deve haver um máximo de 20 pessoas, existindo tantos círculos quantos a soma de seus participantes atinja a da população da área ou da subárea em estudo.”

(*) EXPLICAÇÃO DA REDUÇÃO: “Na redução temática, que é a operação de ‘cisão’ dos temas enquanto totalidades, se buscam seus núcleos fundamentais, que são as suas parcialidades. Desta forma, ‘reduzir’ um tema é cindi-lo em suas partes para, voltando-se a ele como totalidade, melhor conhecê-lo.”

CAPÍTULO 4. A TEORIA DA AÇÃO ANTIDIALÓGICA

Não é possível à liderança tomar os oprimidos como meros fazedores ou executores de suas determinações; como meros ativistas a quem negue a reflexão sobre o seu próprio fazer. Os oprimidos, tendo a ilusão de que atuam, na atuação da liderança, continuam manipulados exatamente por quem, por sua própria natureza, não pode fazê-lo. § Por isto, na medida em que a liderança nega a práxis verdadeira aos oprimidos, se esvazia, consequentemente, na sua.” Por uma <semi-ditadura do proletariado> ou uma <ditadura do semi-proletariado>?

Instala, com este proceder, uma contradição entre seu modo de atuar e os objetivos que pretende, ao não entender que, sem o diálogo com os oprimidos, não é possível práxis autêntica, nem para estes nem para ela.”

Na práxis revolucionária há uma unidade, em que a liderança — sem que isto signifique diminuição de sua responsabilidade coordenadora e, em certos momentos, diretora — não pode ter nas massas oprimidas o objeto de sua posse.”

admirar (quem admira termina por problematizar e criar) X adaptar-se

clima sectário”: “Do mesmo modo, uma liderança revolucionária, que não seja dialógica com as massas, ou mantém a ‘sombra’ do dominador ‘dentro’ de si e não é revolucionária, ou está redondamente equivocada e, presa de uma sectarização indiscutivelmente mórbida, também não é revolucionária.” Sectarização: corrosão do testemunho.

Se são levadas ao processo como seres ambíguos, metade elas mesmas, metade o opressor ‘hospedado’ nelas, e se chegam ao poder vivendo esta ambiguidade que a situação de opressão lhes impõe, terão, a nosso ver, simplesmente, a impressão de que chegaram ao poder.”

Estamos convencidos de que o diálogo com as massas populares é uma exigência radical de toda revolução autêntica. Ela é revolução por isto. Dos golpes, seria uma ingenuidade esperar que estabelecessem diálogo com as massas oprimidas. Deles, o que se pode esperar é o engodo para legitimar-se ou a força que reprime.”

Se, na educação como situação gnosiológica, o ato cognoscente do sujeito educador (também educando) sobre o objeto cognoscível não morre, ou nele se esgota, porque, dialogicamente, se estende a outros sujeitos cognoscentes, de tal maneira que o objeto cognoscível se faz mediador da cognoscitividade dos dois, na teoria da ação revolucionária se dá o mesmo.”

Talvez se pense que, ao fazermos a defesa deste encontro dos homens no mundo para transformá-lo, que é o diálogo, estejamos caindo numa ingênua atitude, num idealismo subjetivista. § Não há nada, contudo, de mais concreto e real do que os homens no mundo e com o mundo. Os homens com os homens, enquanto classes que oprimem e classes oprimidas.”

Não há realidade histórica — mais outra obviedade — que não seja humana. Não há história sem homens, como não há uma história para os homens, mas uma história de homens que, feita por eles, também os faz, como disse Marx.”

Falsamente realistas seremos se acreditarmos que o ativismo, que não é ação verdadeira, é o caminho para a revolução.”

Por que não fenecem as elites dominadoras ao não pensarem com as massas? Exatamente porque estas são o seu contrário antagônico, a sua ‘razão’, na afirmação de Hegel já citada. Pensar com elas seria a superação de sua contradição. Pensar com elas significaria já não dominar.”

AUTOCONFISSÃO BURGUESA: “Por especial que pudesse ser em teoria o projeto de dar educação às classes trabalhadoras dos pobres, seria prejudicial para sua moral e sua felicidade; ensinaria a desprezar sua missão na vida, em lugar de fazer deles bons servos para a agricultura e outros empregos; em lugar de ensinar-lhes subordinação os faria rebeldes e refratários, como se pôs em evidência nos condados manufatureiros, habilitá-los-ia a ler folhetos sediciosos, livros perversos e publicações contra a cristandade; torná-los-ia insolentes para com seus superiores e, em poucos anos, se faria necessário à legislatura dirigir contra eles o braço forte do poder.” Mr. Giddy apud Niebuhr.

No fundo, o que o tal Mr. Giddy, citado por Niebuhr, queria, tanto quanto os de hoje, que não falam tão cínica e abertamente contra a educação popular, é que as massas não pensassem. Os Mr. Giddy de todas as épocas, enquanto classe opressora, ao não poderem pensar com as massas oprimidas, não podem deixar que elas pensem.”

ESTAMOS NUM HIATO ‘INTERESSANTE’ (EPISTEMOLOGICAMENTE FALANDO), AQUELE EM QUE OS OPRESSORES AINDA NÃO SABEM CAIR E OS REVOLUCIONÁRIOS NÃO SABEM SUBIR: “Não é o mesmo o que ocorre com a liderança revolucionária. Esta, ao não pensar com as massas, fenece. As massas são a sua matriz constituinte, não a incidência passiva de seu pensar.”

Enquanto o outro é um pensar de senhor, este é um pensar de companheiro. E só assim pode ser.” “Esta liderança, que emerge, ou se identifica com as massas populares, como oprimida também, ou não é revolucionária. § Assim é que, não pensar com elas para, imitando os dominadores, pensar simplesmente em torno delas, não se dando a seu pensar, é uma forma de desaparecer como liderança revolucionária.”

Enquanto, no processo opressor, as elites vivem da ‘morte em vida’ dos oprimidos e só na relação vertical entre elas e eles se autenticam, no processo revolucionário só há um caminho para a autenticidade da liderança que emerge: ‘morrer’ para reviver através dos oprimidos e com eles.

Na verdade, enquanto no primeiro é lícito dizer que alguém oprime alguém, no segundo, já não se pode afirmar que alguém liberta alguém, ou que alguém se liberta sozinho, mas os homens se libertam em comunhão.”

comunhão-com X esmagamento-dos

E o mundo não é um laboratório de anatomia nem os homens são cadáveres que devam ser estudados passivamente.” Infelizmente minha rotina é o sentir-me rato de laboratório.

O PROBLEMA DA ELITE <ANTI-SÓCRÁTICA>: “…deixar-se cair num dos mitos da ideologia opressora, o da absolutização da ignorância, que implica a existência de alguém que a decreta a alguém.”

MASTURBADORES HIERÁRQUICOS: “Quanto mais diz a palavra sem a palavra daqueles que estão proibidos de dizê-la, tanto mais exercita o poder e o gosto de mandar, de dirigir, de comandar. Já não pode viver se não tem alguém a quem dirija sua palavra de ordem.”

A liderança revolucionária (…) [n]ão tem sequer o direito de duvidar, por um momento, de que isto é mito. Não pode admitir, como liderança, que só ela sabe e que só ela pode saber — o que seria descrer das massas populares. Ainda quando seja legítimo reconhecer-se em um nível de saber revolucionário, em função de sua mesma consciência revolucionária, diferente do nível de conhecimento ingênuo das massas, não pode sobrepor-se a este, com o seu saber.”

Há os que pensam, às vezes, com boa intenção, mas equivocamente, ‘que sendo demorado o processo dialógico — o que não é verdade — se deve fazer a revolução sem comunicação, através dos comunicados’ e, depois de feita, então, se desenvolverá um amplo esforço educativo. ‘Mesmo porque’, continuam, ‘não é possível fazer educação antes da chegada ao poder. Educação libertadora’.”

Ao admitirem que não é possível uma forma de comportamento educativo-crítica antes da chegada ao poder por parte da liderança, negam o caráter pedagógico da revolução, como revolução cultural.” O problema da “revolução cultural” na China.

a chegada ao poder é apenas um momento, por mais decisivo que seja.”

Por isto é que, numa visão dinâmica e não estática da revolução, ela não tem um antes e um depois absolutos, de que a chegada ao poder seria o ponto de divisão.”

a contrarrevolução também é dos revolucionários que se tornam reacionários.”

MAO, On Contradictions’, in: Four Essays on Philosophy, 1968.

Gajo Petrovic, Marx in the Mid-Twentieth Century, 1967.

E, se não é possível o diálogo com as massas populares antes da chegada ao poder, porque falta a elas experiência do diálogo, também não lhes é possível chegar ao poder, porque lhes falta igualmente experiência dele. Precisamente porque defendemos uma dinâmica permanente no processo revolucionário, entendemos que é nesta dinâmica, na práxis das massas com a liderança revolucionária, que elas e seus líderes mais representativos aprenderão tanto o diálogo quanto o poder. Isto nos parece tão óbvio quanto dizer que um homem não aprende a nadar numa biblioteca, mas na água.

O diálogo com as massas não é concessão, nem presente, nem muito menos uma tática a ser usada, como a sloganização o é, para dominar. O diálogo, como encontro dos homens para a ‘pronúncia’ do mundo, é uma condição fundamental para a sua real humanização.”

Destas considerações gerais, partamos, agora, para uma análise mais detida a propósito das teorias da ação antidialógica e dialógica.”

O primeiro caráter que nos parece poder ser surpreendido na ação antidialógica é a necessidade da conquista.” Gradação do paternalismo à tirania.

NAPOLEÃO NÃO PODERIA TER REVOLUCIONADO A EUROPA, COMO CÉSAR NÃO O FEZ COM ROMA: “O sujeito da conquista determina suas finalidades ao objeto conquistado, que passa, por isto mesmo, a ser algo possuído pelo conquistador. Este, por sua vez, imprime sua forma ao conquistado que, introjetando-o, se faz um ser ambíguo.”

O desejo de conquista, talvez mais que o desejo, a necessidade da conquista, acompanha a ação antidialógica em todos os seus momentos.”

os opressores se esforçam por matar nos homens a sua condição de ‘ad-miradores’ do mundo.¹ Como não podem consegui-lo, em termos totais, é preciso, então, mitificar o mundo.”

¹ Ir ao encontro do mundo, até o.

MUNDO-VERDADE DO FALSO MOEDEIRO: “Daí que, na ação da conquista, não seja possível apresentar o mundo como problema, mas, pelo contrário, como algo dado, como algo estático, a que os homens se devem ajustar.”

A falsa ‘ad-miração’ não pode conduzir à verdadeira práxis”

O mito, por exemplo, de que a ordem opressora é uma ordem de liberdade.”

O mito de que esta <ordem> respeita os direitos da pessoa humana e que, portanto, é digna de todo apreço.”

o mito de que o homem que vende, pelas ruas, gritando: ‘doce de banana e goiaba’ é um empresário tal qual o dono de uma grande fábrica.”

O mito do direito de todos à educação, quando o número de brasileiros que chegam às escolas primárias do país e o dos que nelas conseguem permanecer é chocantemente irrisório.”

O mito da igualdade de classe, quando o <sabe com quem está falando?> é ainda uma pergunta dos nossos dias.”

O mito do heroísmo das classes opressoras, como mantenedoras da ordem que encarna a ‘civilização ocidental e cristã’, que elas defendem da ‘barbárie materialista’.”

O mito da propriedade privada, como fundamento do desenvolvimento da pessoa humana, desde, porém, que pessoas humanas sejam apenas os opressores.”

Os conteúdos e os métodos da conquista variam historicamente, o que não varia, enquanto houver elite dominadora, é esta ânsia necrófila de oprimir.”

Na medida em que as minorias, submetendo as maiorias a seu domínio, as oprimem, dividi-las e mantê-las divididas são condição indispensável à continuidade de seu poder.” “Conceitos, como os de união, de organização, de luta, são timbrados, sem demora, como perigosos. E realmente o são – mas para os opressores.”

Estas formas focalistas de ação, intensificando o modo focalista de existência das massas oprimidas, sobretudo rurais, dificultam sua percepção crítica da realidade e as mantêm ilhadas da problemática dos homens oprimidos de outras áreas em relação dialética com a sua.” Por uma crítica à pedagogia estrita do campo. Insulamento das culturas indígenas a somente ‘eles mesmos’, etc.

AS <ESCOLAS DE LÍDERES>: “No momento em que, depois de retirados da comunidade, a ela voltam, com um instrumental que antes não tinham, ou usam este para melhor conduzir as consciências dominadas e imersas, ou se tornam estranhos à comunidade, ameaçando, assim, sua liderança.”

A harmonia viável e constatada só pode ser a dos opressores entre si. Estes, mesmo divergentes e, até em certas ocasiões, em luta por interesses de grupos, se unificam, imediatamente, ante uma ameaça à classe.”

Sua interferência nos sindicatos, favorecendo certos ‘representantes’ da classe dominada que, no fundo, são seus representantes, e não de seus companheiros; a ‘promoção’ de indivíduos que, revelando certo poder de liderança, podiam significar ameaça e que, ‘promovidos’, se tornam ‘amaciados’; a distribuição de benesses para uns e de dureza para outros, tudo são formas de dividir para manter a ‘ordem’ que

lhes interessa.” “A perda do emprego e o seu nome numa ‘lista negra’, que significa portas que se fecham a eles para novos empregos, são o mínimo que lhes pode suceder.”

Desta maneira, para dividir, os necrófilos se nomeiam a si mesmos biófilos e aos biófilos, de necrófilos. A história, contudo, se encarrega sempre de refazer estas ‘nomeações’. § Hoje, apesar de a alienação brasileira continuar chamando o Tiradentes de inconfidente e ao movimento libertador que encarnou, de Inconfidência, o herói nacional não é o que o chamou de bandido e o mandou enforcar e esquartejar, e espalhar pedaços de seu corpo sangrando pelas vilas assustadas, como exemplo. O herói é ele. A história rasgou o ‘título’ que lhe deram e reconheceu o seu gesto.”

E os pactos somente se dão quando estas [massas oprimidas], mesmo ingênuas, emergem no processo histórico e, com sua emersão, ameaçam as elites dominantes.”

Toda política de esquerda se apoia nas massas populares e depende de sua consciência. Se vier a confundi-la, perderá as raízes, pairará no ar à espera da queda inevitável, ainda quando possa ter, como no caso brasileiro, a ilusão de fazer a revolução pelo simples giro à volta do poder” Weffort, in: Política e revolução social no Brasil, 1965.

Daí que o populismo se constitua, como estilo de ação política, exatamente quando se instala o processo de emersão das massas em que elas passam a reivindicar sua participação, mesmo que ingenuamente.”

O PERIGO PARA O STATUS QUO CHAMADO LULA: “Somente quando o líder populista supera o seu caráter ambíguo e a natureza dual de sua ação e opta decididamente pelas massas, deixando assim de ser populista, renuncia à manipulação e se entrega ao trabalho revolucionário de organização. Neste momento, em lugar de mediador entre massas e elites, é contradição destas, o que leva as elites a arregimentar-se para freá-lo tão rapidamente quanto possam.”

Venho dizer que, neste momento, o governo ainda está desarmado de leis e de elementos concretos de ação imediata para a defesa da economia do povo. É preciso, pois, que o povo se organize, não só para defender seus próprios interesses, mas também para dar ao governo o ponto de apoio indispensável à realização dos seus propósitos. … Preciso de vossa união, preciso de que vos organizeis solidariamente em sindicatos; preciso que formeis um bloco forte e coeso ao lado do governo para que este possa dispor de toda a força de que necessita para resolver os vossos próprios problemas. Preciso de vossa união para que possa lutar contra os sabotadores, para que não fique prisioneiro dos interesses dos especuladores e dos gananciosos em prejuízo dos interesses do povo. … Chegou, por isto mesmo, a hora do governo apelar para os trabalhadores e dizer-lhes: uni-vos todos nos vossos sindicatos, como forças livres e organizadas. Na hora presente nenhum governo poderá subsistir ou dispor de força suficiente para as suas realizações se não contar com o apoio das organizações operárias.” Vargas, num 1º de maio. Recado claro, efetivamente.

Se Vargas não tivesse revelado, na sua última etapa de governo, uma inclinação tão ostensiva à organização das massas populares, consequentemente ligada a uma série de medidas que tomou no sentido da defesa dos interesses nacionais, possivelmente as elites reacionárias não tivessem chegado ao extremo a que chegaram. § Isto ocorre com qualquer líder populista ao aproximar-se, ainda que discretamente, das massas populares, não mais como exclusivo mediador das oligarquias, se estas dispõem de força para freá-lo. § Enquanto a ação do líder se mantém no domínio das forças paternalistas e sua extensão assistencialista, pode haver divergências acidentais entre ele e grupos oligárquicos feridos em seus interesses, dificilmente, porém, diferenças profundas.”

FILA DO OSSO, NUNCA MAIS: “Há, contudo, em toda esta assistencialização manipuladora, um momento de positividade. § É que os grupos assistidos vão sempre querendo indefinidamente mais e os indivíduos não-assistidos, vendo o exemplo dos que o são, passam a inquietar-se por serem assistidos também.”

HURRAH, USA! “Uma condição básica ao êxito da invasão cultural é o conhecimento por parte dos invadidos de sua inferioridade intrínseca.”

É preciso que o eu oprimido rompa esta quase ‘aderência’ ao tu opressor, dele ‘afastando-se’, para objetivá-lo, somente quando se reconhece criticamente em contradição com aquele.”

Renunciar ao ato invasor significa, de certa maneira, superar a dualidade em que se encontram — dominados por um lado; dominadores, por outro.”

O ‘medo da liberdade’, então, neles se instala. Durante todo esse processo traumático, sua tendência é, naturalmente, racionalizar o medo, com uma série de evasivas.

Este ‘medo da liberdade’, em técnicos que não chegaram sequer a fazer a descoberta de sua ação invasora, é maior ainda, quando se lhes fala do sentido desumanizante desta ação.”

Uma das educadoras do Full Circle, de Nova York, instituição que realiza um trabalho educativo de real valor, nos relatou o seguinte caso: ao problematizar uma situação codificada a um dos grupos das áreas pobres de Nova York que mostrava, na esquina de uma rua — a rua mesma em que se fazia a reunião —, uma grande quantidade de lixo, disse imediatamente um dos participantes: ‘Vejo uma rua da África ou da América Latina’.

E por que não de Nova York?’, perguntou a educadora.

Porque, afirmou, somos os Estados Unidos e aqui não pode haver isto.’

Este é um dos sérios problemas que a revolução tem de enfrentar na etapa em que chega ao poder.”

a formação técnico-científica não é antagônica à formação humanista dos homens, desde que ciência e tecnologia, na sociedade revolucionária, devem estar a serviço de sua libertação permanente, de sua humanização.”

Este poder burocrático, violentamente repressivo, por sua vez, pode ser explicado através do que Althusser [Pourx Marx] chama de ‘reativação de elementos antigos’, toda vez que circunstâncias especiais o favoreçam, na nova sociedade.”

sociedade ser-para-si X sociedade metropolitana (sociedade ser-para-outro, “invadida”)

Por tudo isto, é preciso não confundir desenvolvimento com modernização. Esta, sempre realizada induzidamente, ainda que alcance certas faixas da população da ‘sociedade-satélite’, no fundo interessa à sociedade metropolitana.

A sociedade simplesmente modernizada, mas não desenvolvida, continua dependente do centro externo, mesmo que assuma, por mera delegação, algumas áreas mínimas de decisão.” “Estamos convencidos de que, para aferirmos se uma sociedade se desenvolve ou não, devemos ultrapassar os critérios que se fixam na análise de seus índices per capita de ingresso que, ‘estatisticados’, não chegam sequer a expressar a verdade, bem como os que se centram no estudo de sua renda bruta. Parece-nos que o critério básico, primordial, está em sabermos se a sociedade é ou não um ‘ser para si’. Se não é, todos estes critérios indicarão sua modernização, mas não seu desenvolvimento.”

Superada a contradição, o que antes era mera transformação ‘assistencializadora’ em benefício, sobretudo, da matriz, se torna desenvolvimento verdadeiro, em benefício do ‘ser para si’.

Por tudo isto é que as soluções puramente reformistas que estas sociedades tentam, algumas delas chegando a assustar e até mesmo a apavorar a faixas mais reacionárias de suas elites, não chegam a resolver suas contradições.

Quase sempre, senão sempre, estas soluções reformistas são induzidas pela própria metrópole, como uma resposta nova que o processo histórico lhe impõe, no sentido de manter sua hegemonia.”

façamos as reformas, antes que as sociedades dependentes façam a revolução”

Queremos referir-nos ao momento de constituição da liderança revolucionária e algumas de suas consequências básicas, de caráter histórico e sociológico, para o processo revolucionário.”

Em um dado momento de sua experiência existencial, em certas condições históricas, estes, num ato de verdadeira solidariedade (pelo menos assim se deve esperar), renunciam à classe à qual pertencem e aderem aos oprimidos.” Cfr. Guzmán, Camilo, el cura guerrillero, 1967.

EM CASO DE ÊXITO INICIAL: “Há uma empatia quase imediata entre as massas e a liderança revolucionária. O compromisso entre elas se sela quase repentinamente. Sentem-se ambas, porque coirmanadas na mesma representatividade, contradição das elites dominadoras. § Daí em diante, o diálogo entre elas se instaura e dificilmente se rompe. Continua com a chegada ao poder, em que as massas realmente se sentem e sabem que estão.”

Lukács, Histoire et conscience de classe, 1960.

A liderança de Fidel Castro e de seus companheiros, na época chamados de ‘aventureiros irresponsáveis’ por muita gente, liderança eminentemente dialógica, se identificou com as massas submetidas a uma brutal violência, a da ditadura de Batista.

Com isto não queremos afirmar que esta adesão se deu tão facilmente. Exigiu o testemunho corajoso, a valentia de amar o povo e por ele sacrificar-se. Exigiu o testemunho da esperança nunca desfeita de recomeçar após cada desastre, animados pela vitória que, forjada por eles com o povo, não seria apenas deles, mas deles e do povo, ou deles enquanto povo.

Fidel polarizou pouco a pouco a adesão das massas que, além da objetiva situação de opressão em que estavam, já haviam, de certa maneira, começado, em função da experiência histórica, a romper sua ‘aderência’ com o opressor.”

Daí que Fidel jamais se haja feito contradição delas. Uma ou outra deserção, uma ou outra traição registradas por Guevara no seu Relatos de la Guerra Revolucionaria, em que se refere às muitas adesões também, eram de ser esperadas.”

Quase nunca, porém, a liderança revolucionária percebe que está sendo contradição das massas. § Realmente, é dolorosa esta percepção e, talvez por um mecanismo de defesa, ela resista em percebê-lo. § Afinal, não é fácil à liderança, que emerge por um gesto de adesão às massas oprimidas, reconhecer-se como contradição exatamente de com quem aderiu.”

Na hipótese em que as contradiz, ao buscar esta adesão e ao surpreender nelas um certo alheamento, uma certa desconfiança, pode tomar esta desconfiança e aquele alheamento como se fossem índices de uma natural incapacidade delas. (…) E, como precisa de sua adesão à luta para que possa haver revolução, mas desconfia das massas desconfiadas, se deixa tentar pelos mesmos procedimentos que a elite dominadora usa para oprimir.”

Em seu diário sobre a luta na Bolívia, o comandante Guevara se refere várias vezes à falta de participação camponesa, afirmando textualmente: ‘La mobilización campesina es inexistente, salvo en las tareas de información que molestan algo, pero no son muy rápidos ni eficientes; los podremos anular’. E em outro momento: ‘Falta completa de incorporación campesina aunque nos van perdiendo el miedo y se logra la admiración de les campesinos. Es una tarea lenta y paciente.’” Cfr. El diário de Che en Bolívia

Por esta razão é que afirmamos antes ser tão paradoxal que a elite dominadora problematize as relações homens-mundo aos oprimidos, quanto o é que a liderança revolucionária não o faça.”

(*) Buber, Yo y tú

(*) Mikel Dufrenne, Pour l’homme, 1968.

(*) John Gerassi, A invasão da América Latina, 1965.

o eu e o tu passam a ser, na dialética destas relações constitutivas, dois tu que se fazem dois eu.”

O diálogo, que é sempre comunicação, funda a colaboração. Na teoria da ação dialógica, não há lugar para a conquista das massas aos ideais revolucionários, mas para a sua adesão.”

Adesão conquistada não é adesão porque é aderência do conquistado ao conquistador através da prescrição deste àquele.” “A adesão verdadeira é a coincidência livre de opções.”

A confiança das massas na liderança implica a confiança que esta tenha nelas. Esta confiança nas massas populares oprimidas, porém, não pode ser uma confiança ingênua. § A liderança (…) há de desconfiar, sempre desconfiar, da ambigüidade dos homens oprimidos. § Desconfiar dos homens oprimidos, não é, propriamente, desconfiar deles enquanto homens, mas desconfiar do opressor ‘hospedado’ neles. § Desta maneira, quando Guevara chama a atenção ao revolucionário para a ‘necessidade de desconfiar sempre — desconfiar do camponês que adere, do guia que indica os caminhos, desconfiar até de sua sombra’, não está rompendo a condição fundamental da teoria da ação dialógica. Está sendo, apenas, realista.”

a confiança, ainda que básica ao diálogo, não é um a priori deste, mas uma resultante do encontro em que os homens se tornam sujeitos da denúncia do mundo, para a sua transformação. § Daí que, enquanto os oprimidos sejam mais o opressor ‘dentro’ deles que eles mesmos, seu medo natural à liberdade pode levá-los à denúncia, não da realidade opressora, mas da liderança revolucionária.” Ah, gado brasileiro – que queres? Preferes não ter nem pão nem liberdade, és o último dos fachos! O amedrontado de Dostoievsky, ao menos, recusava a liberdade para devorar seu pão diário… Tu, brasileiro do século XXI, minoria recalcitrante, és o mais vil dos párias rastejantes, um famélico agrilhoado e de olhar cinza, incendiário que tem medo do próprio fogo. Inconscientemente, tens medo de sobreviver a uma guerra, a ter de posicionar-se nesse mundo frívolo – por isso aceitas (apressas-te a, em verdade) ir à Ucrânia ou Israel, pois preferes a morte a questionar-te a ti mesmo!

Algumas vezes, no seu relato, ao reconhecer a necessidade da punição ao que desertou para manter a coesão e a disciplina do grupo, reconhece também certas razões explicativas da deserção. Uma delas, diremos nós, talvez a mais importante, é a ambiguidade do ser do desertor.”

A guerrilha e o campesinato, continua, se iam fundindo numa só massa, sem que ninguém possa dizer em que momento se fez intimamente verídico o proclamado e fomos partes do campesinato.”

Veja-se como um líder como Guevara, que não subiu a Sierra com Fidel e seus companheiros à maneira de um jovem frustrado em busca de aventuras, reconhece que a sua ‘comunhão com o povo deixou de ser teoria para converter-se em parte definitiva de seu ser’ (no texto: nosso ser).”

Não há vida sem morte, como não há morte sem vida, mas há também uma ‘morte em vida’. E a ‘morte em vida’ é exatamente a vida proibida de ser vida. Acreditamos não ser necessário sequer usar dados estatísticos para mostrar quantos, no Brasil e na América Latina em geral, são ‘mortos em vida’, são ‘sombras’ de gente, homens, mulheres, meninos, desesperançados e submetidos a uma permanente ‘guerra invisível’ em que o pouco de vida que lhes resta vai sendo devorado pela tuberculose, pela esquistossomose, pela diarréia infantil, por mil enfermidades da miséria, muitas das quais a alienação chama de ‘doenças tropicais’…”

(Parênteses não inteiramente fora de contexto, já que Freire cita muitos. Não sei de onde os latino-americanos tiraram que padres conduziriam qualquer revolução por aqui – ou que suas opiniões a respeito eram de relevo! Uma coisa de época, imagino…)

UNIR PARA NÃO CONQUISTAR, O PARADIGMA MAIS DIFÍCIL DA CIÊNCIA POLÍTICA ATÉ AQUI: “a liderança se obriga ao esforço incansável da união dos oprimidos entre si, e deles com ela, para a libertação.” Tem de ser muito corajoso para ser revolucionário num mundo em que as desistências são freqüentes, múltiplas e diárias. Os senhores só desonrariam nossas botas ao lambê-las.

Se, para a elite dominadora, lhe é fácil, ou pelo menos não tão difícil, a práxis opressora, já não é o mesmo o que se verifica com a liderança revolucionária, ao tentar a práxis libertadora. Enquanto a primeira conta com os instrumentos do poder, a segunda se encontra sob a força deste poder. A primeira se organiza a si mesma livremente e, mesmo quando tenha as suas divisões acidentais e momentâneas, se unifica rapidamente em face de qualquer ameaça a seus interesses fundamentais.” Viva a hubris dos fracos no poder; sem ela, nenhum episódio revolucionário teria se verificado na História, apesar da inevitabilidade da decadência burguesa. O que se deu em Cuba, na Rússia, na China são eventos grandiosos, milenares. A conjunção da mais impecável união proletária com erros e estupidezes daqueles no comando em cada nação. A obscenidade que é ter em mãos a máquina do Estado, só para… perdê-la! Lembra-me a capacidade de gestão de um adolescente sem apoio enfrentando adultos competentes e com a cabeça no lugar… Quem diria que poderia vencer?!

A própria situação concreta de opressão, ao dualizar o eu do oprimido, ao fazê-lo ambíguo, emocionalmente instável, temeroso da liberdade, facilita a ação divisória do dominador nas mesmas proporções em que dificulta a ação unificadora indispensável à prática libertadora. § Mais ainda, a situação objetiva de dominação é, em si mesma, uma situação divisória. Começa por dividir o eu oprimido na medida em que, mantendo-o numa posição de ‘aderência’ [pejorativo; apenas risca a superfície] à realidade, que se lhe afigura como algo todo-poderoso, esmagador, o aliena a entidades estranhas, explicadoras deste poder.” Como os imbecis do 8 de janeiro perderam qualquer noção dessa grandeza insondável do poder estatal… eis algo que me assombra, e deveria assombrar a teoria do conhecimento em si! Os multi-coloridos que bailaram sobre cacos de vidro… sentindo-se em Paris. Sim, tivemos nossa efêmera revanche, quando os fascistas não tinham mais o poder e então tiveram de se agitar como ovelhas a fim da mais vã tentativa de recuperá-lo! Não poderiam saber que era vã, é claro… Financiamento algum gera resultado sem organização, paixão, sabedoria.

Parte de seu eu se encontra na realidade a que se acha ‘aderido’, parte fora, na ou nas entidades estranhas, às quais responsabiliza pela força da realidade objetiva, frente à qual nada lhe é possível fazer. Daí que seja este, igualmente, um eu dividido entre o passado e o presente iguais e o futuro sem esperança que, no fundo, não existe.”

AGORA, AQUI & SEMPRE: “Um eu que não se reconhece sendo, por isto que não pode ter, no que ainda vem, a futuridade que deve construir na união com outros.”

É necessário desideologizar.” Janela de oportunidade e ao mesmo tempo o momento mais perigoso para os oprimidos. Intervalo entre ideologias que é o céu e inferno de nossas aspirações e frustrações.

Contra burguês, vote 16”: a sloganização risível de um movimento que se quer revolucionário. Revolução e horário político como antípodas perfeitos. “É que este, distorcendo a relação autêntica entre o sujeito e a realidade objetiva, divide também o cognoscitivo do afetivo e do ativo que, no fundo, são uma totalidade não-dicotomizável.” (Não sei por que P.F. grifou apenas dos do tripé – esses itálicos cognoscitivo e ativo não são meus! –, sendo conhecimento teórico e ação os eixos da práxis, deixando de fora – do sublinhado apenas, mas isso me causa estranhamento! –, no entanto, o afeto, as emoções, a razão real, por assim dizer.)

Propor a um camponês europeu, como um problema, a sua condição de homem, lhe parecerá, possivelmente, algo estranho. Já não é o mesmo fazê-lo a camponeses latino-americanos, cujo mundo, de modo geral, se ‘acaba’ nas fronteiras do latifúndio, [cada latifúndio uma pequena Europa, aliás] cujos gestos repetem, de certa maneira, os animais e as árvores e que, ‘imersos’ no tempo, não-raro se consideram iguais àqueles.” A verdade é que todos nós depositávamos fichas demais nos europeus. Está mais perto do que imaginávamos o total ocaso da Europa!

Ação cultural, cuja prática para conseguir a unidade dos oprimidos vai depender da experiência histórica e existencial que eles estejam tendo, nesta ou naquela estrutura.” Faltou a Paulo Freire ser um pouco mais anti-cristão. É isso o que a igreja faz com o passar dos séculos: torna trabalhadores em pedras.

De manipulação e progresso para ordem e progresso (no legítimo sentido da palavra ordem)

testemunho, esforço comum

anti-dirigismo

REGIONALISMO OU PONTO FOCAL NA ECLOSÃO DA REVOLUÇÃO QUE TEM DE SER POR NECESSIDADE GLOBAL: “Sendo históricas estas dimensões do testemunho, o dialógico, que é dialético, não pode importá-las simplesmente de outros contextos sem uma prévia análise do seu. A não ser assim, absolutiza o relativo e, mitificando-o, não pode escapar a alienação.” O britânico bem podia “copiar” Marx (apenas figurativamente, pois a práxis nunca copia),¹ mas os russos tiveram de adaptar o conteúdo crítico às próprias condições; como a Iugoslávia e demais países do Leste; como Cuba; como a China, ao romper com o Stalinismo. Como a própria Coréia do Norte, se se quiser pensá-la como projeto socialista-dinástico (um culto à personalidade à Soviética, porém com suas próprias características).

¹ Marx era alemão mas estudou principalmente o capitalismo inglês, o mais avançado em seu tempo de vida.

a existência como um risco permanente, a radicalização A radicalização se tornou o único caminho quando o “normal” é a deterioração climática do planeta e a ascensão de bilionários loucos desconexos de qualquer cosmovisão, brincando com a vida de bilhões de humanos. Não é mais necessária tanta coragem assim.

atu(r)ar[,] na massa[,] [é ignorar, relevar, insistir em quebrar] todos os seus defeitos.

Um testemunho que, em certo momento e em certas condições, não frutificou, não está impossibilitado de, amanhã, vir a frutificar.”

o diálogo revolucionário vicia. torna-se doloroso voltar à manipulação uma vez que se entende o processo. por isso é um ‘ato imparável’, e a soma de atos dos indivíduos revolucionários, e das massas aderentes, têm necessariamente de se perpetuar no tempo-espaço até sua realização. não existe o aborto final ou definitivo das tentativas pela classe dos opressores, que em dado momento ‘perde o trilho’, e cai como peças de dominó.

Como insinuado acima pelo lema da bandeira nacional, há ordem e há ordem (a ordem de quartel e a ordem das ruas, a ordem da morte em vida contra a ordem biófila): “Se, para a elite dominadora, a organização é a de si mesma, para a liderança revolucionária, a organização é a dela com as massas populares.”

disciplina & disciplina

anarquismo: fora de questão

a pronúncia inicial (talvez seja a denúncia, mas não estou seguro se apreendi os conceitos freireanos nesse grau de qualidade) sempre será proibida. e daí? o mundo é feito de pronúncias em sucessão. há pronúncias tão coletivas que amedrontam os maiores conglomerados de donos dos meios de produção.

diálogo não implica licenciosidades, exceções, procrastinações: dar “direitos demais” à massa, direitos que, enquanto agregado de homens, ela não tem, pois se justapõem aos interesses de classe.

A teoria dialógica da ação nega o autoritarismo como nega a licenciosidade. E, ao fazê-lo, afirma a autoridade e a liberdade.” Uma tática do neofascismo que se tornou clichê é associar toda organização revolucionária ao libertinismo ou à balbúrdia. Os fascistas podem se alongar muito neste tema, já que entendem como ninguém destes assuntos. Aliás, houve a apropriação para a própria causa do termo “libertário”, que antes descrevia um progressista radical (há 1, 2 séculos, em outros regiões do mundo). Hoje, e aqui, e nos EUA, libertário, libertarianismo, significa uma coisa só: Fascismo da iniciativa privada. Libertinagem no sentido mais imoral da pecúnia.

liberdade&autoridade, e não liberdade vs. autoridade

GENERAIS NÃO SABEM DISSO (nunca confiam plenamente em seus subordinados – nunca confiam em si mesmos, pois já foram ‘o subordinado’): “É por isto que a verdadeira autoridade não se afirma como tal na pura transferência, mas na delegação ou na adesão simpática.”

autoridade X autoritarismo

O pacto da pornochanchada é um indício de que o autoritarismo tupiniquim já estava molenga. O “pau duro” participava do “pão e circo” do povo, que se fingia de cego, mas os militares e seu abrandamento covarde não era menos dissimulado (‘deixai passar…’)

Em todo o corpo deste capítulo se encontra firmado, ora implícita, ora explicitamente, que toda ação cultural é sempre uma forma sistematizada e deliberada de ação que incide sobre a estrutura social, ora no sentido de mantê-la como está ou mais ou menos como está, ora no de transformá-la.”

A ação cultural ou está a serviço da dominação — consciente ou inconscientemente por parte de seus agentes — ou está a serviço da libertação dos homens.”

PRIMEIRAS RACHADURAS NA TORRE DOS <QUE MANDAM>: “Daí que estes, não aceitando jamais a transformação da estrutura, que supere as contradições antagônicas, aceitem as reformas que não atinjam seu poder de decisão

Enquanto, na invasão cultural, [o colonizador, externo ou não – pois o colonizador da mesma nacionalidade é apenas um alienígena que ganha a tarimba de ‘nacional’] os atores — que nem sequer necessitam de, pessoalmente, ir ao mundo invadido, [segue atualíssimo em 2023] sua ação é mediatizada cada vez mais pelos instrumentos tecnológicos — são sempre atores que se superpõem, com sua ação, aos espectadores, seus objetos; na síntese cultural, [revolucionária, não-alienígena] os atores se integram com os homens do povo, atores, também, da ação que ambos exercem sobre o mundo.”

expectadores de nós mesmos

Desta maneira, este modo de ação cultural, como ação histórica, se apresenta como instrumento de superação da própria cultura alienada e alienante.” Só se pode destruir e criar a cultura culturalmente. “Neste sentido é que toda revolução, se autêntica, tem de ser também revolução cultural.”

Daí que não seja possível dividir, em dois, os momentos deste processo: o da investigação temática e o da ação como síntese cultural.” “Esta dicotomia implicaria que o primeiro seria todo ele um momento em que o povo estaria sendo estudado, analisado, investigado, como objeto passivo dos investigadores, o que é próprio da ação antidialógica. Deste modo, esta separação ingênua significaria que a ação, como síntese, partiria da ação como invasão.” O velho mote ‘o brasileiro precisa ser estudado’ (justo por quem… pela NASA!) se converte no muito mais salutar: ‘o brasileiro precisa ser o Sócrates de si mesmo e dos demais e se unir em um mesmo estrado (falando de palco, já que foram citados atores da revolução ou da contra-revolução, acima), em uma mesma classe, em igualdade, numa relação de-homem-para-homem’. Torna-te aquilo que tu és como um slogan (não-entendido pejorativamente) revolucionário – contra a intenção original de Nietzsche (pelo menos no que toca à forma dessa transvaloração).

Tornar implica de antemão conhecer; conhecer é fraco, implica resignar-se, se não houver um acréscimo à frase da sibila Conhece-te a ti mesmo. Para quê? Para perceber as próprias limitações, dir-se-ia num sentido epistemológico. Mas aqui se trata do saber dialético, da práxis, e este conhecer deveria ser já uma ação, ou seria sempre um autoconhecimento distorcido e individualista. Tornar-se quem se é como lema-resumo da luta de um povo é perfeito para conotar a luta revolucionária para inverter o quadro de opressor-oprimido. Quem é o homem senão aquele que pode modificar o próprio destino?

clima da criatividade”

O mito americano do alienígena (vida fora da Terra que nos visita ou invade) é um grito de socorro disfarçado: nem eles próprios se agüentam como dominadores. Claro, os alienígenas, na ficção (e onde mais, quando falamos aqui literalmente de seres extra-terrenos?), estão sempre em conluio com os poderosos, a Casa Branca, etc., confundem-se com eles. A ufologia é a última saída dos oprimidos da nação que menos aceita a revolução na superfície da Terra: uma nova religião recrudescedora dos males que intentaria de bom grado extirpar! Como esses sofredores inconscientes do dia-a-dia gostariam de ser abduzidos para não mais ter de servir de bucha de canhão ao governo americano! E isso que estamos falando do folclore do branco classe-média; o que dizer dos mais cruelmente afetados pelas políticas ianques fora de seu território, e dos negros? Eles são muito mais inteligentes, passaram por uma luta social de libertação racial antes. Não se apegam a ninharias, bobajadas hollywoodianescas. Porém, tudo isso não deixa de ser sintomático: os próprios “senhores da guerra” (Warlords) estão cansados de comandar as guerras… querem delegar essa difícil e árdua tarefa da manipulação constante a SERES EXÓTICOS, não-humanos (e daí que se identifiquem com eles: atualmente não passam de coisas, máquinas de destruição em massa, autômatos sem redenção).

Tudo, do topo (após a derrubada do opressor) à classe popular, incluindo aí a classe média, mais do que cooptável, termo chulo… conversível, termo mais sincero, pode ser integrado e sintetizado em prol da revolução… E também os camponeses, que consideramos a base. Mas a real base, a degradação humana que já não nos permite redimi-los como coisas-homens, o lumpenproletariado, este deve ser rechaçado ou controlado. Talvez seja um mal necessário e eterno. Mas ele é um fator de pura desagregação, e deve ser tratado como se trataria o opressor: impossível contorná-lo, dialogar com ele. Só resta o uso da força, neste caso preciso. A nova sociedade não é dos opressores antigos incapazes de se integrar, como não é da massa falida que jamais aderiria à revolução, que já tem o opressor dentro de seu coração, fincado até o dia de sua morte.

as suas crenças religiosas, [do povo] quase sempre sincréticas, o seu fatalismo, a sua reação rebelde.” Isto significa: passíveis de transformação (quanto ao credo religioso).

em nome do respeito [unilateral] à visão popular do mundo, respeito que realmente deve haver, terminaria a liderança revolucionária apassivada àquela visão.”

Se, em um dado momento histórico, a aspiração básica do povo não ultrapassa a reivindicação salarial, a nosso ver, a liderança pode cometer dois erros. (I) Restringir sua ação ao estímulo exclusivo desta reivindicação, (II) ou sobrepor-se a esta aspiração, propondo algo que está mais além dela. [inserção dum ‘além’ no mundo secular: um dia as contradições serão abolidas e o Estado autodissolvido – até lá, por favor agüentem, suportem a miséria]O povo quer salário e cultura já é uma boa frase: o povo quer salário, liberdade de escolha no consumo – e uma nova pedagogia, pois isto que é cultura, não a cultura alienada do opressor (ainda que no marco zero o povo não tenha ciência disso).

No primeiro caso, incorreria a liderança revolucionária no que chamamos de adaptação ou docilidade à aspiração popular. [neste caso, sujeito perpetuamente à perda instantânea do poder, provisório, pois nem venceu em definitivo os opressores como nem sequer conquistou a adesão genuína das massas – equilíbrio precário] No segundo, desrespeitando a aspiração do povo, cairia na invasão cultural [reiteração da dominação sob novos avatares].”

Ter a consciência crítica de que é preciso ser o proprietário de seu trabalho e de que ‘este constitui uma parte da pessoa humana’ e que a ‘pessoa humana não pode ser vendida nem vender-se’ é dar um passo mais além das soluções paliativas e enganosas.”

Parece-nos, contudo, que o fato de não termos tido uma experiência no campo revolucionário [no Brasil] não nos retira a possibilidade de uma reflexão sobre o tema.” Brasil XX (é daqui que Paulo Freire parte) – Alemanha XIX (foi daqui que Marx e Engels partiram).

[REPRISE] O QUE É PÓS-MODERNO? – Jair Ferreira dos Santos, 1987. Thrice is the charm, so roll the dice, it won’t harm.

Originalmente publicado em 16 de setembro de 2009.

mescla de purpurina com circuito integrado (…) Um bem? Um mal? Quem viver verá.”

CONTRACAPA

E quantos ainda vivem? E quantos não estão cegos?

índice

1. VEM COMIGO QUE NO CAMINHO EU EXPLICO

2. DO BOOM AO BLIT AO BLIP

Inclui wikia sobre John Barth

3. DO SACROSSANTO NÃO AO ZERO PATAFÍSICO

4. ANARTISTAS EM NULIVERSO [MYTHBUSTING!!]

Inclui wikia sobre o dadá Rudolf Schwarzkogler

5. ADEUS ÀS ILUSÕES

6. A MASSA FRIA COM NARCISO NO TRONO

7. DEMÔNIO TERMINAL E ANJO ANUNCIADOR

1. VEM COMIGO QUE NO CAMINHO EU EXPLICO

Menos coisas do que parece mudaram desde os anos 80: o U2 ainda faz um estrondoso sucesso e tenho um computador a minha frente. Qual a razão? O autor é um visionário ou a História está desacelerando? A fase crítica, a da elaboração do manifesto, teria passado? Agora havemos de ver mais VIDA do que MORTE?

O PRINCÍPIO DO SCAT: “A câmera adaptada ao vídeo filmou vocês enquanto faziam amor. Será o pornô que animará a próxima vez.” Sintomático dos ingleses, segundo Latour; sintomático dos franceses que fedem à bosta, segundo Henfil.

Alternativa diferente das anteriores: o Brasil sentiu isso mais tarde – o escritor captou as tendências descritas somente no Primeiro Mundo. É só pensar nas manifestações pró-aborto: nosso espectro é defasado. E agora a moda é o do contra… Retroação. (2023)

Na cama, um sentimento de vazio e irrealidade se instala em você.”

ACIMA DO BEM E DO MAL: “Por que o niilismo voltou à boca dos filósofos?” Mas quando é que saiu desde a década de 1880?!

Digamos que o dia agitado do urbanóide retratado equivalha a meu ciclo semanal… (2009, quando morava com os pais, que ‘funcionavam’ num ciclo com esta duração)

Nenhuma revolta. Entre a apatia e a satisfação, você dorme” É necessário morrer (dormir) mil vezes… O outro lado da moeda – em relação ao niilismo clássico – é oco.

A fábrica suja, feia, foi o templo moderno; o shopping, feérico em luzes e cores, é o altar pós-moderno” Já foi-se o tempo.

Os modernistas (vejam Picasso) complicaram a arte por levá-la demasiado a sério. Os pós-modernistas querem rir levianamente de tudo.” Querer não é poder.

A CRIANÇA RADIOSA vs. O ANDRÓIDE MELANCÓLICO: “o fantasma pós-moderno (…) A rigor, nada tem a ver com o Brasil, embora já se assista a um trailer desse filme por aqui”

É preciso sofrer para enxergar algum sentido. Nós, brasileiros, fomos tetracampeões em sofrimento recentemente.

(2009) Quando me torno forte e apólogo do devir, logo surgem vaidades econômicas dos pais, amigos paralisantes, universidade estressante e malditos insetos que não tratam de cessar – combinação explosiva. O clima neste deserto já está há um ano insuportável (quase dois! – 2010), e qualquer retiro imaginável é apenas para lugares piores. Não calculo a possibilidade dessa luta não dar em nada. Meu sonho é centrífugo à realidade jovem do celular-câmera-Orkut-baladas-funcionalismo. Eu quero apenas duas coisas: colchão velho¹ e distância (paradigma do conhaque e da atmosfera puída e calada). As fases passam (C. e reclamação na mesa)… O pior de todos os infernos sem dúvida é o Inferno Tecnológico. Ou o deserto do real a-tecnológico involuntário. Ridiculerói na Terra da Música.

¹ (P.S. 2023) Alergia a ácaros torna este velho ‘mandamento’ proibitivo hoje!

DO TRAILER (TEASER!) AO LONGA: O que é não fugir, Jesus? O que é não consumir, Lúcia? O que é não tratar do cabelo no salão, Nadir? O que é ter um pobre na família, Aguiares? O que é não sair de casa no sábado, Eduardo? Todos estamos no mesmo barco – inclusive eco-chatos e maconheiros, não é, G.B.? Você sai muito de casa e toma muito suquinho? O quanto isso o elevou? Ao anonimato num jardim malpodado!

(O ruim de anotar as coisas é que a gente lembra das coisas! Inconscientemente, já havíamos nos vingado há muito tempo…)

preferimos o (…) simulacro ao real. E por quê? Porque desde a perspectiva renascentista até a televisão, que pega o fato ao vivo, a cultura ocidental foi uma corrida em busca do simulacro perfeito da realidade.” “Simular por imagens como na TV, que dá o mundo acontecendo, significa apagar a diferença entre real e imaginário, ser e aparência. Fica apenas o simulacro passando por real. Mas o simulacro, tal qual a fotografia a cores, embeleza; intensifica o real. Ele fabrica um hiper-real, espetacular, um real mais interessante que a própria realidade.” Quebra da tela da TV definitiva (resolução maior que a de qualquer olho humano) e multipolaridade, o caminho.

Sua superfície é enorme, lustrosa, sedutora (…) O Danone verdadeiro é um alimento mixuruca.”

2. DO BOOM AO BIT AO BLIP

John Barth, The Floating Opera

______, Giles, o Menino Bode

______, Once Upon a Time: A Floating Opera

______, The Literature of Exhaustion, 1967 // “Barth has since insisted that he was merely making clear that a particular stage in history was passing, and pointing to possible directions from there. He later (1980) wrote a follow-up essay, The Literature of Replenishment, to clarify the point.” Curiosamente, Barth e (Roland) BarthES possuem trabalhos teóricos correlatos e coetâneos!

wiki: “Despite Barth’s influence on postmodern literature in America, his influence and publicity have decreased since his novels were published.”

Barth began his career with The Floating Opera and The End of the Road, two short realist novels that deal wittily with controversial topics, suicide and abortion respectively. They are straightforward realistic tales; as Barth later remarked, they ‘didn’t know they were novels’. § The Sot-Weed Factor (1960) was initially intended as the completing novel of a trilogy comprising his first 2 ‘realist’ novels, but, as a consequence of Barth’s maturation as a writer, it developed into a different project.”

Barth’s next novel, Giles Goat-Boy (about 800 pages), is a speculative fiction based on the conceit of the university as universe. Giles, a boy raised as a goat, discovers his humanity and becomes a savior in a story presented as a computer tape given to Barth, who denied that it was his work.”

The short story collection Lost in the Funhouse (1968) and the novella collection Chimera (1972) are even more metafictional than their 2 predecessors, foregrounding the writing process and presenting achievements such as a 7-deep nested quotation. Chimera shared the U.S. National Book Award for Fiction.”

The Floating Opera is a novel by American writer John Barth, first published in 1956 and significantly revised in 1967. Barth’s first published work, the existentialist and nihilist story is a first-person account of a day when protagonist Todd Andrews contemplates suicide. § Critics and Barth himself often pair The Floating Opera with Barth’s next novel, The End of the Road (1958); both were written in 1955, and they are available together in a one-volume edition. Both are philosophical novels; The End of the Road continues with the conclusions made about absolute values by the protagonist of The Floating Opera, and takes these ideas ‘to the end of the road’.”

EDITOR OU AÇOUGUEIRO? “After a string of publisher rejections, Appleton-Century-Crofts agreed to publish The Floating Opera in 1956, but stipulated it ‘conclude on a less nihilist note’; Barth complied and altered the ending. (…) Barth made a number of changes to the text for a revised edition from Anchor Books in 1967, including restoration of the original ending.”

Giles Goat-Boy (1966) is the 4th novel by American writer John Barth. It is a metafictional comic novel in which the universe is portrayed as a university campus in an elaborate allegory of both the hero’s journey and the Cold War. Its title character is a human boy raised as a goat, who comes to believe he is the Grand Tutor, the predicted Messiah. The book was a surprise best-seller for the previously obscure Barth, and in the 1960s had a cult status.”

Nathalie Sarraute (1900-1999), Portrait of a Man Unknown (Portrait d’un inconnu)

______, L’Ère du soupçon, 1956 (enssaio)

______, Tropismes

3. DO SACROSSANTO NÃO AO ZERO PATAFÍSICO

John Fowles, A Mulher do Tenente Francês

Donald Barthelme (1931-1989), Snow White (1967)

_____, Me and Miss Mandible (conto)

_____, The Joker’s Greatest Triumph (c.)

_____, The Balloon (c.)

4. ANARTISTAS EM NULIVERSO [MYTHBUSTING!!]

EM NOME DA ARTE: O caso que sempre recordo, mas nunca sei dizer o nome do suicida: Rudolf Schwarzkogler (1940-69), vienês, precursor da arte performática, se matou em uma exibição apoteótica em 1969.

wiki: “He was born the son of a doctor who killed himself near Dubinniskij-Stalingrad after a serious war injury in which he lost both legs. In 1951 Schwarzkogler’s mother moved with her son to Lienz, where she married the sculptor Erich Unterweger. In 1954 he moved back to Vienna to live with his paternal grandmother and in 1956 to live with his other grandmother in Vienna. He continued to attend high school and in 1956 the federal trade school for one year.

In 1960, he met Hermann Nitsch, who had graduated from the ‘Graphische’ in 1958, and became friends with him. The following year he left graphic arts without a degree and worked in the summer as a student trainee for C.F. Boehringer und Soehne GmbH in Mannheim. In October he enrolled at the Academy of Applied Arts Vienna, but only attended it briefly. He was drafted into the military. He worked as a graphic artist and took part in campaigns by Viennese actionists such as Otto Muehl and Hermann Nitsch. Shortly afterwards he started his own actions.

Schwarzkogler devoted himself entirely to free art from 1965 and quit his job. He started out with horse betting and was interested in winning systems. In 1968 he took part in film projects. In 1969, he died after falling from the window of his apartment. He was buried at the Vienna Central Cemetery.” Ou não contaram a história direito (em alguma das fontes) ou a verdadeira história suicida era unicamente a de seu pai…

The enduring themes of Schwarzkogler’s works involved experience of pain and mutilation, often in an incongruous clinical context, such as 3rd Aktion (1965) in which a patient’s head swathed in bandages is being pierced by what appears to be a corkscrew, producing a bloodstain under the bandages. They reflect a message of despair at the disappointments and hurtfulness of the world.”

His first and most famous action was performed on February 6, 1965, titled Wedding: Schwarzkogler shows a private ritual with religious, shamanistic and alchemical elements at a table covered with a white tablecloth, on which there are dead fish, a dead chicken, various animal organs, eggs, colored liquids, a knife and scissors.”

FAQUIR EUNUCH NEWS? “Chris Burden once remarked that a 1970s Newsweek article, which had mentioned himself and Schwarzkogler, had misreported that Schwarzkogler had died by slicing off his penis during a performance. (…) The castration theme in some of them — for example, in Aktion 2 he posed with a sliced open fish covering his groin — have additionally fueled this myth. Additionally, the protagonist of the Aktion in which the cutting of a penis was simulated was not Schwarzkogler himself, but his friend and model, the renowned photographer Heinz Cibulka. When Schwarzkogler died, the series of performances had long been concluded. He was found beneath a window from which he had fallen, seemingly the victim of an accident. His death generated speculations and further myths.”

Castro a sociedade e mato o Ocidente, teria dito o ditador cubano.

Kurt Vonnegut, Cat’s Cradle (já recomendado em minha resenha de Symphony of The Night).

Robert Coover, The Public Burning

Robe-Grillet, La Maison de Rendez-Vous (Encontro em Hong Kong)

Italo Calvino, Cosmicomics

______, Se um viajante numa noite de inverno… (roleplaying game)

Günter Grass, O Tambor

______, O Linguado

NACIONAIS

Osman Lins, Avalovara

Ivan Ângelo, A Festa

Rubem Fonseca, O Cobrador

Victor Giudice, Bolero

Sérgio Sant’Anna, O Concerto de João Gilberto no RJ

CINEMA

Paris-Texas, Salve-se Quem Puder

5. ADEUS ÀS ILUSÕES

Nietzsche entrou em (sic) moda nos anos 70 [na verdade dir-se-ia que na Europa entrou em moda nos 1900 e decaiu antes dos 1960!] e continua no hit-parade

A pós-modernidade é o momento em que tais valores [fim, unidade, verdade], ainda atentos e fortes durante a modernidade industrial, entram em decadência acelerada. Se isso vai dar ou não na transvaloração, no supra-homem, é outro papo.” O ‘velho’ papo: a) falta de conhecimento do método; b) imaturidade dos meios de produção.

Esse profeta, que pensava durante longas caminhadas, usaria hoje um walk-man sem som para melhor enxergar na confusão de nossa época.” Datado E adiantado.

Lyotard, A Condição Pós-moderna

(leitura atrasada!)

6. A MASSA FRIA COM NARCISO NO TRONO

Madonna como a criança radiosa.

A melancolia, sentimento frio, é o último grau da apatia – a doença da vontade – prevista por Nie. para o homem ocidental quando ele fosse o andróide programado pela tecnociência” A melancolia ainda está muito longe de ser o non plus ultra de alguma coisa séria…

(2009) Woody Allen é o arquétipo do melancólico.

(2023) E do pedófilo.

7. DEMÔNIO TERMINAL E ANJO ANUNCIADOR

Alvin & Heidi Toffler, A Terceira onda Revolutionary Wealth, 2006. (atualização tardia) – desconfiar: sociologia norte-americana

Muniz Sodré, A Máquina de Narciso: Televisão, indivíduo e poder no Brasil, 4ed., 2001.

Umberto Eco (1932-2016), Viagem na irrealidade cotidiana, 1984. (arquivo da anna, inglês)

______, O fascismo eterno, 1997 (2018, trad. de Eliana Aguiar, Record). (exemplar impresso baratinho – 50p. – na Amazon)

Baudrillard, À sombra das maiorias silenciosas

HISTÓRIA DAS IDÉIAS 4: HINDUÍSMO & FILOSOFIA OCIDENTAL: Um esboço

Esse artigo (contendo também anotações fragmentárias) visa a integrar os conhecimentos transmitidos pelos Vedas-Upanishads (livros sagrados hindus) com o conhecimento em Primeira filosofia (Metafísica no sentido estrito ou Filosofia Continental, abarcando autores de Platão (séc. IV a.C.) ao pós-estruturalismo francês dos anos 1960). O post poderá ser lido em conjunto com outros da categoria Religião e da subcategoria Hinduísmo já presentes no Seclusão e indexados no menu. Usarei The Roots of Vedanta, de Sudhakshina Rangaswami, como bibliografia principal para as citações dos textos védicos (traduzidos por mim do inglês quando necessário).

Os Upanishads (revelações comentadas) são a cabeça e os Vedas em si são o tronco da visão e conhecimento hindus; a correta leitura dos Upanishads, portanto, pode ser considerada a aquisição da consumação da sabedoria transmitida pelos textos sagrados antigos da Índia. Mal comparando, os Upanishads seriam como os textos dos Escolásticos sobre o Antigo e o Novo Testamentos (Santo Agostinho e São Tomás de Aquino como os principais); mas o paralelo cessa quando se entende que, para o praticante da religião hindu, os Upanishads são de quase tão remota origem quanto os Vedas e, apesar de reconhecidamente escritos por mãos humanas, de indivíduos considerados “gurus”, são tratados como texto sagrado, indispensável para compreender a elaborada natureza dos Vedas. Isso faz com que os Upanishads gozem de uma autoridade que a Cidade de Deus ou a Suma Teológica jamais gozaram no Ocidente, mesmo em face da Igreja Romana.

O fato fundamental dos escritos Upanishads é que eles reconhecem a característica de arbitrariedade e às vezes insuficiência da língua para transmitir idéias, compreensão básica da Lingüística moderna e o esteio principal de toda a bibliografia, por exemplo, de Ludwig Wittgenstein. Como a linguagem, a partir de determinado ponto, se torna inadequada para articular a experiência em sua essência, os sábios antigos do Oriente utilizaram o recurso da exposição de mitos e símbolos como alegorias de seus ensinamentos (paralelo com Platão), chegando mesmo à utilização de conceitos puramente negativos (Hegel), necessários para abordar as intuições que levam ao Absoluto.

Os Upanishads são a primeira fonte direta (śruti prasthāna) do oriental para a cognição da Realidade Absoluta. Há mais de cem Upanishads, de forma que o que se realiza aqui é apenas um esboço de introdução ao tema. Os dez Upanishads comentados pelo sábio Sankara são considerados os Upanishads clássicos ou mais importantes, aqueles que se deve tentar ler, caso não haja tempo para a leitura de todo o catálogo dos Upanishads. Os Upanishads, desde o início, não pretendem ser uma descrição literal ou hiper-concentrada de saberes, dogmas ou revelações, como a Bíblia. Dessa forma, não está organizado em versículos, mas em capítulos de prosa como os livros técnicos ou de ficção ocidental modernos em sua quase totalidade, aproximando-nos do olhar védico. O importante será a compreensão holística de todo o conteúdo ali apresentado, e não debruçar-se sobre uma sentença, procurando o significado de um vocábulo como aforismo ou sentença para a vida. O que interessa é a compreensão global pelo adepto. Fenômeno similar se dá com o estudante de filosofia, que adquire conhecimento aos poucos consultando os vários autores de primeira grandeza, para só então partir para os de segunda ou terceira grandeza, buscando conhecimentos mais específicos. Tampouco há uma ordem preestabelecida para a leitura: pode-se começar por qualquer Veda ou Upanishad. O aprendizado é cumulativo, cíclico e recursivo.

Afora o próprio binômio Vedas-Upanishads, o texto da literatura mais importante para Sankara, a maior autoridade sobre o assunto, é o épico Bhagavad Gita. É como se na Ilíada e Odisséia homéricas estivessem comprimidos toda a doutrina de Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Kierkegaard, Leibniz, Spinosa, Pascal, dentre outros. O Bhagavad consegue resumir os principais preceitos dos Upanishads e pode ser uma primeira leitura iniciática, ou uma leitura posterior, de reforço dos ensinamentos védicos.

A forma de trabalho da linha dos Upanishads é diametralmente oposta à do Bhagavad Gita, mas ambos atingem a mesma meta: os primeiros enfatizam a renúncia e meditação em Brahma como a disciplina espiritual que conduz à liberação; o segundo, poema-diálogo, ensina a trilha da ação desinteressada neste mundo, a prática do karma-yoga, evoluindo gradativamente ao mais espiritualizado inana-yoga, que pode incluir ou não a devoção a um deus antropomorfizado (objetivo do bhakti-yoga), abrindo, tanto quanto os Upanishads, o caminho para a liberação sem a prática da renúncia ascética. Alguns dos temas deste parágrafo são complexos e foram utilizadas expressões diretamente retiradas dos próprios textos sagrados. Por isso, entraremos em explicações mais detalhadas adiante, “quebrando” os vários temas em seções:

A trilha da ação desinteressada

Em última instância, a prática do karma-yoga equivale a princípios ocidentais como o enunciado de Friedrich Nietzsche “como filosofar com o martelo”. Em Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche, escritor alemão do séc. XIX, expõe seu “método destrutivo do pensamento”. Destrutivo não deve ser entendido de forma pejorativa. Como na frase acima “chegando mesmo à utilização de conceitos puramente negativos, o “pensar destrutivo” nada mais é do que lutar contra preconcepções potencialmente nocivas adquiridas involuntariamente durante o processo normal de educação do ser humano. Através da aplicação do pensamento crítico sobre os valores herdados pelo homem ocidental, Nietzsche pretende pôr em questão algumas afirmações tidas como verdade que não passam, no sentido da filosofia, de “puras aparências”. Filosofar a marteladas nada tem de violento, ou mesmo de atividade corporal voltada ao mundo material em si: é, traduzida em outras palavras, a função do filósofo. Porém, Nietzsche escreve em um tempo que já carrega uma grande herança da Filosofia, diferente de quando Platão escreveu. Por isso, para ele, é fundamental desconfiar e reler os filósofos do passado, analisando-os filosoficamente, a fim de não acabar criando castelos de areia, isto é: a desvinculação do pensador a noções antigas e erradas deve ser priorizada em relação a “criar novos conteúdos deônticos (princípios éticos para a convivência humana)”. Ele estava aplicando o karma-yoga sem o saber. O karma-yoga é a meditação oriental que ensina a iniciar o caminho da renúncia das ilusões materiais.

Através dos fenômenos, experiências e aparências chegamos enfim àquilo que não é passível de ser pronunciado com suficiência de sentido (a Idéia de Platão conforme exposta n’A República). Quer dizer, o ioga é visto por grande parte dos ocidentais como um mero exercício de relaxamento, equivalente à passividade e inação. Esta é a “aparência enganosa” do ioga e do iogue (praticante). O próprio termo “praticante” levaria à conclusão imediatamente contrária, no entanto: ele pratica, ele age, o ioga é ação – contradição de sentido com a visão exotérica ocidental (vulgar, depreciativa) sobre o ioga. Ação que sufoca a ação através do controle da respiração.

Depois de compreender o ioga como ação, entretanto, é hora de compreender o ioga num nível ainda mais esotérico (de disciplina verdadeira): não como ação comum, mas como ações das ações. Esta assim num sentido novo é tanto oposta à inação ou renúncia conhecidas do público em geral como à ação comum do cotidiano. O que se faz aqui é exatamente o proceder dinâmico da filosofia de Georg Hegel, se tivermos que pensar não mais em Platão, mas no primeiro filósofo moderno de importância que podemos usar para nos auxiliar na compreensão do hinduísmo. Não é que o hinduísmo deva ser necessariamente analisado filosoficamente, nem a filosofia moderna “superada” ou sentida religiosamente pelo guru capacitado por Brahma, mas há essa constatação intermédia: as duas vias são o Um e o Mesmo. Tese (popular, concepções mundanas) – antítese (começo crítico do aprendizado de “filosofar com o martelo” ou do karma-yoga) – síntese (consumação, sabedoria efetiva, inana-yoga ou o conceito da Idéia de Platão em seu sentido mais elaborado).

A trajetória da compreensão pelo sujeito aspirante ao saber de que o mundo das experiências é nosso meio (nossa técnica) para alcançar o Absoluto: assim também pode ser resumido o karma-yoga. E alcançar o Absoluto no sentido carma-iogue é: compreender que participo de um destino em perfeita harmonia com todo o universo, me fundo com ele. A expressão karma, muito mal-utilizada no Ocidente, deve ser interpretada pelo estudante dos Vedas como destino, mas não na concepção clássica e fatídica de destino. Trata-se do destino sentido não como um peso ou castigo infligido ao indivíduo (compreensão popular de “carma”), mas como a leveza de espírito para a prática da ação responsável. O eterno retorno de Nietzsche buscava a mesma conclusão ética. O saber é sempre recursivo. Estou explicando estas mesmas equivalências pela terceira ou quarta vez no Seclusão Anagógica. Mas isso é uma virtude, não um defeito: a sabedoria é esse ir e vir pelos mesmos pensamentos, até solidificar o conhecimento adquirido. Eu aprendo enquanto ensino; não importa de onde parti, nem onde chego; percorro círculos; não importa se o leitor me lê pela primeira vez agora ou acessa esse texto depois de ler outras explicações anteriores (ou futuras). Ele se junta ao círculo seleto, aprende e também ensina.

A devoção a um deus antropomorfizado (bhakti-yoga)

“O caminho da devoção a uma forma pessoal de Deus abre as portas da liberação mesmo para aqueles incapazes de renunciar ao mundo (inquilinos do mundo).” Esta é uma citação de Sankara nos Upanishads. Ter fé numa entidade divina (religião significa re-ligare, entrar em fusão com) é uma das formas disponíveis para atingir a liberação védica, mesmo sem a disciplina espiritual mais rogorosa dos Upanishads, como ensina o Bhagavad Gita. Ao que se renuncia quando se diz “aqueles incapazes de renunciar”? Ao mundo? Sim e não. Sim no sentido das aparência enganosas, não no sentido de que não se renuncia à vida neste mundo, contanto que a vida neste mundo esteja ligada à busca da verdade mais profunda (o Absoluto). Há que prestar atenção na palavra inquilino. Nossa casa é o mundo, mas não somos os proprietários: estamos de passagem, utilizando uma vida cedida por empréstimo num todo maior.

Apesar da semelhança à primeira vista entre o bakthi-yoga e as religiões ou monoteísmos ocidentais, que são baseadas no culto a um Deus pessoal, a primeira vantagem do hinduísmo sobre o credo cristão (sempre citarei o Cristianismo pela sua maior popularidade e aderência no Ocidente, mas a rigor me refiro a todas as religiões de massa por metonímia) é que o hinduísmo não é um ateísmo, não é um monoteísmo e não é um politeísmo, apesar de ser todos os três ao mesmo tempo (aparências divergem das idéias). O caminho da devoção seria interpretado como “oração” ou “reza” no Ocidente. Está no limiar do que seria a passividade – ajoelhar-se, entregar-se, pedir socorro, etc. – e do que seria a atividade – executar um rito por volição própria, aliar-se ao seu deus, ser ativo na transformação do mundo ao se encontrar apto a transformá-lo, encarnando, representando ou se manifestando como, sendo carne e estando presente no mundo material, a vontade divina neste mundo –.

Em outros termos: ajoelhar-se (símbolo da submissão) e performar são sinônimos. Entregar-se, desistir, dar por encerrado, transferir a responsabilidade, ser o forjador de uma aliança, puxar para si a responsabilidade, iniciar a resolução de um problema concreto são também sinônimos. Pedir socorro e socorrer, ser o agente de alguém, representar algo maior do que a si mesmo são sinônimos. É natural vulgarmente separar todo fenômeno em “ação” ou “renúncia”, inação, como se viu na explicação introdutória sobre o ioga. Porém, as fronteiras entre essas categorizações arbitrárias são enganosas.

Indo além: renunciar ao mundo, seria uma ação ou uma desistência? O discípulo de Cristo, que no ato de se tornar discípulo distribui todas as suas riquezas para peregrinar com Cristo, não age? Aquele que renuncia ao mundo, não desiste da vida, se entrega, se anula? Ambas as perspectivas estão corretas. Covardia ou coragem? O debate ou simpósio entre ambas as alternativas seria eterno e inconclusivo. Há aqueles formatados para o que o mundo chama de ação; há aqueles formatados para o que o mundo chama de inação. Todos são, não obstante, homens, e muito mais parecidos em essência do que revelam as simples aparências. Assim como o ioga pode ser ação, inação, o que é ação e inação e o que não é ação nem inação ao mesmo tempo, o mesmo se aplica à intervenção militante no mundo. Cristo é reconhecido por qualquer cristão, do papa ao mais tímido e “ignorante” dos fiéis, tanto como aquele que disse: “Dai a César o que é de César, meu reino não está neste mundo”; como aquele que militou fervorosamente (veja o advérbio), com bastante ênfase e barulho, no seio do judaísmo: curar os doentes, ensinar a verdade, acusar os fariseus, destruir ídolos, arregimentar um exército de apóstolos. Portanto, tanto o reacionário político quanto o comunista clássico da guerra de guerrilha poderão dizer, com acerto, tanto que:

a) Cristo era, mesmo que de carne, Deus ou o Espírito Santo (mistério triplo, imagens que não correspondem às idéias), a manifestação ativo-passiva (tanto faz) de Deus, o Único, na Terra, com “destino selado”, ao mesmo tempo que dirigente autônomo das próprias ações, para o cumprimento final da Palavra e do Evento. Em última instância, a apologia mais completa de tudo que aconteceu, acontece e acontecerá. O pregador da doutrina de que “não importa o Estado, nos preparemos para o outro, o verdadeiro Reino”.

b) Cristo foi o comunista consumado. Revolucionário, transformador, ativista-modelo para a humanidade póstuma. Mártir, lutou por um futuro melhor para seus camaradas, derramando sangue para que seus filhos pudessem sorrir, viver a vida, sem carregar nenhuma cruz. Um libertador das condições materiais opressoras, desafiador de César e do templo dos hipócritas, instaurador de boas-novas, de uma nova verdade, de novos valores. O mundo se divide em dois, afinal – como negá-lo? Antes de Cristo e depois de Cristo; pelo menos pode-se generalizar dessa forma contanto que não levemos em conta a Ásia. (Curiosamente, de onde vêm os três reis magos? Do Oriente. Folclore popular que se integra com o que existe no Novo Testamento.)

Renunciar ao mundo não é nem uma ação nem uma renúncia, no sentido vulgar. Cristo não foi nem um corajoso herói nem um herege tumultuador e covarde. Ecce homo: Eis o homem. Cristo foi um homem. A única unidade entre esses pólos fictícios que traçamos é nossa própria condição e convivência no mesmo planeta.

A esse ponto, já ficou muito claro, após uma exposição tão numerosa em exemplos, que não importa a estrada, a esotérica (erudita) ou a exotérica (popular), a crença num panteão, num Deus único e supremo, o panteísmo ou o ceticismo extremos, o acolhimento do budismo ou do ateísmo clássico no seio da modernidade pós-Revolução Francesa (a negação do Deus cristão, que após Jesus Cristo, para os fiéis, nada quer dizer para o indivíduo senão “condenar-se ao inferno”)… Todos os caminhos levam ao mesmo caminho, ao mesmo ponto de chegada. É claro – no hinduísmo, a religião mais antiga e perfeita, completada, este caminho é explicado, e desde o Bhagavad Gita foi ensinado o método mais econômico para percorrê-lo.

Seja pela compreensão e estudo aplicado dos Vedas em alto nível de abstração, seja pela crença popular nos avatares de Brahman, o hinduísmo permite o ecumenismo: quem desejar segui-lo poderá atingir o mesmo efeito (em última instância, a fusão com Brahman, a renúncia ao mundo ou a completa inserção no mundo, no real, conforme o próprio indivíduo interprete e descreva o próprio credo). A velha polêmica (tão recente, se comparada com todo o sistema hindu!) entre Calvino e Lutero sobre a salvação via fé ou via obras é uma bobagem, uma dialética de boteco entre os dois mais importantes cristãos da Europa do período reformista.

Para voltarmos ao hinduísmo: As portas da liberação são abertas, sem olhar a quem. O ser humano é um inquilino no mundo. Ou antes: o corpo é o inquilino da alma, que é Brahman. As aparências estão de passagem no seio do Absoluto, que as contém e retém e é o dono do espaço que elas ocupam. Toda morada é temporária, por isso a expressão inquilino: nosso corpo não é o dono do imóvel. O homem é, apesar de tudo, nômade, no sentido espiritual, mesmo o mais sedentário: ele chegou e irá partir. Enquanto mero indivíduo, é um ser provisório.

Pensando na expressão inglesa usada no Upanishad traduzido naquela língua, o house-holder, o chefe de família ou dono do seu lar, no sentido empregado na frase, é o meu inquilino, é o corpo e não a alma. Como posso estar tão certo, pois, de traduzir desta maneira? No próprio inglês haveria um termo muito mais inequívoco para descrever um house-holder que não é apenas um sujeito de ocasião (um inquilino, que mora no mundo apenas de aluguel, no sentido cotidiano). Este termo é o landlord, “aquele que aluga para os outros”. O único landlord num sentido metafísico (e quem é Senhor da terra é Senhor do tempo e de tudo que ambos contêm) é Brahma. Mesmo Vishnu e os outros deuses-avatares da hierarquia hindu, e abaixo deles os sábios inspirados que escreveram, sistematizaram e interpretaram os Vedas numa linha sucessória, são apenas manifestações de aluguel, procuradores (no sentido jurídico daquele que representa) do Um. A explicação, pelo menos para mim, é muito mais intelectiva, simples, que o mistério da Santíssima Trindade, e nem por isso o hinduísmo deixa de ser uma religião, isto é, vira apenas um sistema de regras e saberes secular (por não conter mistérios que não podem ser revelados). Toda religião tem seus mistérios, é um sine qua non (condição de existência de uma religião). Os do Cristianismo, entretanto, podem e devem no mais longo prazo levar à vertigem, à estupefação e a uma incompreensão completa e duradoura.

O hinduísmo, pelo contrário, é explícito e honesto: enquanto alguém que não crê em Cristo é sempre alguém que não crê no Deus-Pai (e vice-versa) conforme o cânone cristão, um hindu poderá dizer: eu só acredito neste mundo, no meu lar e em minha família; isso não “interessa” a Brahman (trilha da ação desinteressada). Caso siga sua crença aparentemente simplória da maneira correta, este hindu (consciente ou inconsciente de sê-lo) entenderá eventualmente que tudo (sua casa, sua família, seu mundo) é real, e que, no entanto e apesar disso, tudo isso é Brahman, oriundo de Brahman. Não crer no ‘divino’ ou crer demasiado no ‘divino’ são uma e a mesma coisa para o hinduísmo: seja um indivíduo como Platão, seja um venerador público de Vishnu, seja um venerador secreto de Indra, seja um ‘venerador’ ou venerador de Brahma… (Quem põe as aspas? Responde-se à pergunta mais adiante.) Se ele sabe quem é Brahma, as portas estão abertas para ele. Brahma é apenas uma palavra.

A evolução transcendental ao inana-yoga: estar-com-Brahman

Quem acredita em Brahma como um colega-acima-dos-outros, que vive em relação com eles, sendo um outro para eles, diferente, como por exemplo Zeus para os outros deuses gregos ou o general para seu exército, é um herege, herege no sentido absoluto do bramanismo (hinduísmo), pois não é isto que Brahma é (malversação das escrituras). E no entanto, Platão, que viveu sob a religião ateniense, e não hindu, onde Zeus presidia, onde Zeus como primeiro-acima-dos-outros-deuses era a única norma sancionada, e pré-requisito da conservação da cidadania na polis (cidade-Estado de Atenas), sem nunca negar explicitamente a mitologia grega, chegou à Verdade, “apenas” trocando as palavras.

Aquele que jejua hipocritamente, ritualiza apenas teatralmente e diviniza ou amaldiçoa erradamente (não chega a Brahman embora pareça ser do credo de Brahman; amaldiçoa em verdade o mundo, que é Brahman, enquanto alega que o faz por Brahman, não entendendo o vínculo entre aparência e Verdade), esse alguém não compreendeu Brahman, então não importa que seja um devoto no sentido clássico ou popular (um asceta que se conduz de modo perfeito no exterior). Pois este que desrespeita tanto a casa em que mora de aluguel quanto as portas da libertação da frase traduzida acima, a única verdade é que se encontra fora da doutrina hindu, condenado à eterna imanência. E este que respeita sua moradia passageira e conduz-se às portas de Brahman, é Um com Brahman. E é impossível desrespeitar a casa (alegoria para o mundo material) respeitando o que é mais importante que o material ao mesmo tempo (pois a “casa” é a via de acesso ao que é invisível, a senda espiritual), como é uma situação impossível desprezar as portas da liberação, a Idéia, ao passo que respeita concomitantemente as aparências. (Respeitar as aparências não é ser materialista – é tratar aparências como aparências! Respeitar é entender.) Não! Não existe distinção final ou factual entre corpo e alma, entre casa e portas supremas, do ângulo hindu: ou se está com Brahman, ou não se está com Brahman, de corpo e de alma.

Estar-com-Brahman é um conceito, portanto não pode ser determinado por um observador externo, o mais zeloso: não é uma opinião, não é aparência. O conceito é Idéia. Que segundo os outros homens alguém esteja ou não com Brahman, e pratique ou não o bramanismo, isto é indiferente no tocante à vida deste homem determinado (e à resposta para a pergunta: ele está com Brahman?). Pois as aparências enganam, e enganam todos os observadores do sensível sem exceção. Enganam até quando enganam ou “não enganam”: o asceta hipócrita, o asceta legítimo, o homem conhecido por seus pares como mau, o homem conhecido por seus pares como bom, todos estes são aparência, mas quem haverá de dizer se correspondem ou não em essência? Quem determina com infalibilidade a hipocrisia? Quem está acima do conceito de legitimidade, de bem e de mal? Quem no mundo das aparências não é apenas joguete dessas noções humanas, demasiado humanas? Quem será o juiz temporal da transcendentalidade de um ser?

O cristianismo cavou a própria cova quando erigiu a Igreja, matéria-carne que proclama o monopólio do espírito. É a infância do ser humano em forma institucional: comete os erros mais fundamentais a respeito das aparências e do caminho ao mundo-verdade. E quando a religião definhava e foi reformada, os juízes saíram das igrejas e se instalaram por todo o mundo debaixo do céu, como câmeras de vigilância de um panóptico da Torre de Babel, tão onipotentes quanto inúteis, pois os reformadores, tanto quanto os iniciadores, não reconheceram o mesmo princípio universal exposto pelos Vedas: não há juízo temporal da transcendentalidade alheia. Não se julga do sagrado (verdadeiro) com opinião (aparência). Ninguém nega boas intenções onde há. Ninguém nega má-fé onde há. Mas no caso do Ocidente as boas intenções dos tradutores, disseminadores e pastores, “democratas do espírito”, geraram o mesmo mal-entendido que a má-fé pura: povoou-se o mundo de sacerdotes, em vez de eliminá-los, tal qual o bramanismo, que já nasceu onisciente e infalível por um simples motivo: é uma religião sem sacerdotes, que proíbe o sacerdócio sobre os outros. É por isso que a origem dos Vedas é tão remota que só pode ser falada em termos de fábulas, mitos e lendas, pois o que já não fosse transcendental a partir de sua estada-no-mundo não poderia gerar transcendência. Indivíduos não autorizam (no sentido tanto de autorização quanto de serem os autores) religiões.

A impossibilidade da divinização do indivíduo e de provar o sagrado: Por que o Ocidente precisa do Oriente

O mundano só existe “em-transcendência”, não é possível tratar uma Revelação como aparência, experiência derivada dos cinco sentidos – mesmo os eventos geradores ou supostamente geradores de transcendência que se localizem após a pré-história (i.e., numa cronologia humana consciente) são fabulosos: Cristo existiu? Onde ele foi crucificado? Qual era sua aparência (ironia tríplice)? Quem hoje tem parentesco mais próximo com ele? Ele ressuscitou? Por que ele ressuscitou em segredo diante de seus mais próximos e de Maria Madalena, e não diante de toda a cidade, de toda a colônia, de toda a civilização romana (a mesma pergunta da crônica esportiva: por que ele não calou os críticos?)? Por que milagres não são fatos científicos (ambos são conceitos mutuamente contraditórios)? Por que cada apóstolo conta um evento de forma diferente, tendo Cristo no mesmo instante pronunciado algo distinto conforme a testemunha?

Porque não seria fato gerador de uma religião de massa nada que não suscitasse tantas perguntas sem resposta! Somente havendo tantas dúvidas sobre a identidade ou mesmo a existência de Cristo é que foi possível tornar fascículos sabidamente escritos pelos homens chamados X., Y., Z. e K., depois reunidos necessariamente em uma outra geração por outro homem que jamais conheceu Cristo a não ser por relatos, Paulo, ele mesmo santificado (num tempo em que santificavam pessoas apenas após a morte; é constrangedor ter de incluir essas ressalvas entre parênteses!), somente por toda essa via errática é que o Cristianismo pôde nascer como uma fé (fora da História, embora ‘na’ cronologia histórica). Tudo isso apenas gerará pano para manga enquanto coserem-se hábitos, surgirem panos com manchas misteriosas para movimentar discussões vãs e enquanto átomos não puderem ser fotografados.

Um exemplo de por que não há novas religiões a partir da modernidade, nem pode haver: Napoleão Bonaparte gerou partidários, admiradores e fanáticos, mas não uma religião. Quem sabe em outro milênio uma figura tornada finalmente mitológica chamada Napoleão, de quem pouco se sabe de concreto, venha a inspirar um novo credo transcendental, o Napoleonismo! Não, porém, enquanto houver uma foto de Napoleão ou o sentido de fotografia não recair novamente no mitológico (esquecimento da técnica fotográfica, tratamento da evidência da imagem como produção sobrenatural). Insisto sobre o sentido de ‘fotografia’ como ícone moderno da palavra chamada ‘prova’ e do método científico, consistente em ‘provar uma série de fenômenos’, visto que pretendo voltar ao assunto no próximo subtítulo.

Mas isso – a divinização no sentido autêntico de Napoleão – seria impossível para a França que tanto sabe sobre ele, para o Ocidente inteiro agora, historiograficamente informado sobre o indivíduo Napoleão Bonaparte, objeto de inúmeros tratados políticos e biografias científicas. O pior tirano imaginável sobre a Terra não poderia fundar uma religião à força e ser bem-sucedido; mas uma miríade infinita de tiranos de esquina poderia se perpetuar no poder firmemente falando em nome do deus estabelecido – o que evidencia a diferença infinita entre a esfera do transcendente (Brahman) e o poder terrenal (mundo de César). De fato, o Ocidente se tornou tão desconfiado que a própria noção de Deus em sua cultura vive no fio da navalha, e seguirá se complicando cada vez mais, enquanto o Ocidente for Ocidente, e não uma cultura nova e reoxigenada, alimentada pelo intercâmbio cultural com o Oriente, o único lugar do universo que hoje pode ressuscitar o sagrado da outra metade do globo mortificada e anestesiada, mundanizada.

Aplicação do anteriormente estabelecido às contradições da ciência pós-moderna (reino da não-filosofia)

…enquanto átomos não puderem ser fotogrados”: retomaremos este trecho como um exemplo prosaico da transcendentalidade de todo o mundano fora do próprio tema religioso: é fisicamente impossível, e isto foi declarado pela própria Física, que o principal objeto de estudo da ciência chamada Física seja fotografado, ou, de forma ainda mais astuciosa podemos dizer, no lugar de fotografado: comprovado (requisito mínimo da cientificização de um conhecimento, qualquer que seja ele). Este fracasso é a razão precípua de dizermos que “as ciências exatas estão em crise”, e de essa crise ser administrada – e sem dúvida ao longo de muitos séculos ainda por vir continuará sendo administrada, o que significa “adiada”, ou “não-resolvida” – desde há não muito tempo pelo inteligente expediente da troca da denominação “exatas” por “naturais”, o que certamente dissipa ao menos parcialmente o constrangimento, o escândalo e a sangria mais explícitos que ocorreriam, tendo em vista a denominação antiga (o que é exato pode ser totalmente definido, sem lacunas), caso contrastassem diariamente o termo exato ou hard com a patente inexatidão atual do conhecimento técnico Esta inexatidão não decorre de erro ou incompetência. Este “fracasso” não é, do ângulo científico, um fracasso: ele é conseqüência natural e direta do grande sucesso da aplicação do método científico por um par de séculos. A inexatidão das ciências naturais é conseqüência inevitável de seu enorme e vertiginoso progresso.

Nos tempos áureos da ciência moderna a “tradutibilidade” dos conhecimentos tecnológicos era ampla. Todo o conteúdo das ciências clássicas está bem-explicado em livros-textos escolares atuais. Porém, os novos conhecimentos derivados do método científico em crise, no que chamo de decadência da ciência moderna ou sua fase pós-moderna, não são comunicáveis ao grande público com a mesma facilidade, pois os dados não são mais o que costumavam ser, e é preciso refundar o conceito de lógica (hoje tributário de Aristóteles, i.e., lógica formal, mas não a única lógica passível de existir) para acomodar resultados de observações e experimentos, vd. física quântica. E é exatamente por isso que as pessoas leigas ficam cada vez mais insatisfeitas com os resultados divulgados como conquistas das ciências, e que cientistas não dão entrevistas em grandes jornais, porque há uma longa cadeia de pessoas que precisa processar e filtrar a informação emanada pelas maiores autoridades em determinado assunto, reformatando a informação para que ela seja recebida pelo grande público em palavras – finalmente para ele – compreensíveis. Talvez os últimos eventos a capitalizarem grande parte da atenção mundial (sem necessidade de conhecimento técnico sobre fabricação de foguetes ou as propriedades dos átomos instáveis usados em bombas nucleares, seja por parte dos jornalistas e comunicadores ou do cidadão comum) tenham sido a criação da bomba atômica e a aterrissagem do homem na Lua.

A quem se pergunta, “compreensíveis” acima significa, no sentido mais sincero possível, que, na verdade, nada de significativo está sendo dito ou veiculado, e talvez devêssemos agradecer por isso, se pensarmos exclusivamente na preservação de nossa saúde mental em uma sociedade tão complexa, e se desprezarmos o outro lado da questão e que é a pior parte de tudo isso, ou seja, que evidências socialmente verificáveis não cessam de indicar que um público necessariamente cada dia mais ignorante passará a exibir comportamentos negacionistas de manada mais e mais aleatórios, ridículos e perigosos – sem que se conheça por ora o limite macabro desta “torção cognitivo-coletiva” –, recusando-se um grande número de indivíduos, por exemplo, para nos restringirmos à época atual e não sucumbirmos à tristeza tentando prever o que virá a seguir, a tomar vacinas que facilmente previnem doenças graves e que são muito transmissíveis, a ponto de que os próprios cientistas de “médio escalão” poderão estar mais e mais sujeitos a esta mesma lei (da involução cognitiva pari passu à evolução do compartimento das ciências em múltiplos e pequeníssimos nichos mais e mais “intraduzíveis” ao cidadão comum), havendo alguns que, não por charlatanismo nem qualquer intenção de ganho pessoal, repercutem os mesmos discursos de manada, genuinamente convencidos por ele, até que num dia não muito distante os físicos, biomédicos e bacteriologistas mais especializados em seus sub-sub-sub-ramos (previsão:) venham a se encontrar mais isolados de qualquer contato humano que K., o agrimensor do livro O Castelo, ponto em que já não haverá possibilidade de retorno (fratura do campo científico como jamais se viu, mesmo durante a sofrida transição da opulenta Idade Antiga para a fervilhante Idade Moderna). Corre-se o risco do turismo espacial se tornar realidade simultaneamente a quebras de recordes para a resposta ‘sim’ em enquetes como “você acredita que vive num mundo que tem o formato de um tabuleiro?” (obviamente que até lá a palavra usada não será tabuleiro, pois esse termo tão complicado terá caído em desuso), e o risco conseqüente de que esse contraste absurdo nada cause em termos de convívio social, pois cidadãos dos espectros mais afastados coexistirão harmoniosamente dentro de suas culturas e subculturas (cada qual enterrado e cem por cento esterilizado em sua própria bolha inexpugnável, chamando tudo o mais de falso e conspiratório, já incapaz, porém, de se incomodar de verdade com isso, apenas reproduzindo comportamentos automáticos como dizer no elevador que “parece que vai chover” ao negar a eficácia de vacinas). Essa situação não mudará caso estejamos falando de colegas de trabalho, roommates ou parentes próximos ou ainda marido e mulher situados em campos extremos e opostos (imagine o casal: um é funcionário de agência espacial e outra uma atleta que vem se preparando para a expedição de exploração das cachoeiras infinitas das bordas do tabuleiro terrestre).

Recuando um pouco, tudo isso é a razão precípua, ainda, da filosofia ser a mãe de todas as ciências mas de forma nenhuma nem sequer uma meia-ciência (ou seja, um título honorífico), porque ela fala do transcendental, que o mundo moderno aprendeu a considerar não só inecessário como até mesmo inexistente ou indesejável caso existisse, em vez de vital. Dada a própria natureza indeterminável do objeto teórico ‘átomo’, vulgar “menor partícula da matéria”, que na verdade nem é matéria, podemos dizer que toda a decadência do saber transcendental no Ocidente é, ironicamente, uma questão de lógica da mais rapace ou degradada.

Por outro lado, que se pense na implicação do átomo como partícula dual é já um sintoma de que mundo das aparências (a matéria, o real, o perceptível) e a verdade invisível que rege sobre ele (ser duas coisas ao mesmo tempo, cientificamente validado) estão se aproximando, e não se afastando inequivocamente. Somos matéria; somos átomos, sem dúvida. O átomo é um (excelente) modelo, não pode ser provado, significando que nós mesmos, que sabemos que existimos enquanto aparência, átomos que somos, pressentimos que somos, embora também átomo e matéria, algo mais, que não conseguimos definir com palavras, i.e., opera-se uma crescente necessidade de revitalização do transcendental, muito lenta e imperceptível para os desatentos, mas cujo mecanismo é similar ao desenvolvimento da Filosofia Continental e à doutrina contida nos Vedas-Upanishads.

Trocando em miúdos, em uma sociedade em que todos andam com uma câmera no bolso, capaz de registrar “coisas” instantaneamente, a fim de convencer os ausentes de coisas improváveis (via sentidos), desconfiamos da própria realidade dos entes, da própria acepção das palavras prova, coisa e fotografia. Duvidamos do que está aí, presente, e por uma questão até de sobrevivência cada indivíduo-coisa se vê, embora não veja (a realidade imaterial), obrigado a perguntar por sua própria essência e considerar o que não está aí para nenhum dos cinco sentidos, procurando um sentido metafísico para sua existência e presença, um caminho que seja, diferente do caminho das coisas (método científico, experimental ou positivista, o caminho não-filosófico ou irreligioso e o modo completamente mundano da existência).

Conclusão da tese: hinduísmo e filosofia continental como duas versões da Verdade revelada

E no entanto, a despeito da superioridade metafísica do hinduísmo, percebida tautologicamente apenas pelos próprios adeptos do hinduísmo, o mundo segue seu curso histórico sem nenhuma modificação fundamental até agora quanto à dimensão de alcance e prevalência das grandes religiões. A despeito da fraude autodemonstrada da religião cristã, a humanidade está e é livre para ter sacerdotes. Se no Oriente, por hipótese, o povo viesse a desejar de forma inédita o sacerdócio em nossos moldes, haveria o sacerdócio! Haveria a hipocrisia, e, aliás, há a hipocrisia entre “hindus” como há dentro de qualquer outro credo (e como os outros credos apresentam seus Platões, brâmanes inconscientes, i.,e., os praticantes honestos).

O que se pode afirmar, percorrendo a História, entretanto, é que o hinduísmo prevalece internamente imutável – sem necessidade de um movimento ou clamor popular por uma reforma nas práticas e nos escritos dos Vedas –, uma vez que como ele é e como ele está, ele conduz à Idéia, à Verdade, a Brahman. Já os pressupostos das religiões monoteístas que conhecemos não resistem a uma análise bramânica ou filosófica pós-moderna, i.e., o próprio Ocidente veio a negar sua religião (suas religiões) em tempos relativamente recentes. No Oriente, semelhante acontecimento ‘mundano’ não teve lugar. Nele, filosofia e religião são Um só. Entre nós verificamos dolorosamente o contrário, e a dor é mútua e equivalente: a dos Escolásticos (quando a religião se dizia a própria filosofia, hoje extintos) e a dos sábios laicos, em voga, momento definidor em que a filosofia emancipou-se e após caminhar certo tempo com as próprias pernas descobriu sobre a calamidade da morte de Deus – Nietzsche em Gaia-Ciência – e sobre a inevitabilidade do transcendental da condição humanaO Mundo como Vontade & Representação, Assim Falou Zaratustra –, logo, tragicamente, no momento em que via essa mesma transcendentalidade escorrer pelo ralo – o Ser e Tempo de Heidegger, etc. –, cenário este que, a filosofia pós-moderna o sabe, inviabiliza a própria continuidade da filosofia e, destarte, da vida.

Esse texto foi um retrabalho das anotações feitas durante a leitura do livro indicado no primeiro parágrafo, Rangaswami, The Roots of Vedantha, e a síntese e principais aspas desta obra serão publicados posteriormente no Seclusão.

EL DESCUBRIMIENTO DEL INCONSCIENTE: Historia y evolución de la psiquiatría moderna – Henri Ellenberger (versión española de Pedro López Onega), 1970.

Em breve, além de anotar as sugestões de leituras no trello, terei de organizar um post apenas com boas recomendações livrescas – esse post irá duplicar essa lista!

Es necesario, pues, aceptar las aportaciones de las nuevas Escuelas de psiquiatría dinámica renunciando al ideal de una ciencia única y universal, o bien conservar este ideal renunciando en bloque a los datos de estas Escuelas? [resposta antecipada fornecida no capítulo 11: nenhum dos dois, aporia.] Uno de los medios para salir del dilema sería tal vez el de emprender de nuevo el estudio, muy abandonado desde Myers y Flournoy, de la función mitopoyética del inconsciente y de buscar en qué medida éste ha podido modelar o producir un desvío en los descubrimientos de las nuevas escuelas dinámicas.”

Entre las tendencias que explican la orientación hacia una nueva psiquiatría dinámica destacan la nueva psicología «desnuda» de Nietzsche y otros, el movimiento neo-romántico, la tendencia a la repsicologización de la psiquiatría, el rápido desarrollo de la psicopatología sexual, el interés por los sueños y la exploración del inconsciente (un gran pionero aquí fue Flournoy).”

Se refutan varias leyendas concernientes a Janet. Este capítulo proporciona también por primera vez un examen verdaderamente completo de su sistema psicológico. Se evidencia mediante numerosas citas su prioridad en el descubrimiento de la terapia catártica, y se dirige la atención hacia el hecho de que el primer (y posiblemente el único) caso de posesión diabólica tratado y curado con la psicoterapia dinámica fue el del paciente «Aquiles» de Janet en 1890 y 1891. El lector encontrara una descripción de sus teorías sobre el automatismo psicológico, de sus análisis psicológicos, de la gran síntesis psicológica que construyó desde 1908, y de sus ideas sobre la psicología de la religión. Se presta el crédito debido a la psicoterapia de Janet, que raramente se menciona en los libros de texto.”

Después de una búsqueda prolongada pude encontrar una copia (probablemente la única que quede) de la primera publicación de Adler, su Libro de la salud del oficio de sastre (1898). He desenterrado también una serie de artículos publicados por el en un periódico austríaco poco conocido. El escrutinio del libro y de los artículos muestra que ya estaban presentes en ellos los postulados principales de su futuro sistema; en otras palabras, que la psicología individual de Adler no puede ser considerada como una «distorsi6n del psicoanálisis», sino como un retorno y una elaboración de ideas desarrolladas durante los 6 años pre-psicoanalíticos.”

Refuto de forma definitiva la actual idea estereotipada de que el sistema de Jung es una mera distorsión del psicoanálisis de Freud.” “El examen que se presenta del sistema de Jung es probablemente el más completo de todos los escritos hasta la fecha: no solo he utilizado la totalidad de los trabajos publicados por el, y las entrevistas que concedió a periódicos y revistas, sino que he tenido acceso a la colección completa de las lecturas y seminarios suyos no publicados.” “Había tratado personalmente con el difunto C.G. Jung y le entrevisté sobre todos los puntos que encontraba oscuros en sus enseñanzas; escribí entonces el borrador de una descripción de sus teorías, tras leer el cual me lo devolvió con anotaciones a lápiz.”

I. LOS ANTEPASADOS DE LA PSICOTERAPIA DINÁMICA

Ciertas enseñanzas médicas o filosóficas del pasado, así como ciertos métodos curativos antiguos, ofrecen un grado sorprendentemente alto de captación de los descubrimientos considerados como más recientes en el campo de la mente humana.

Durante muchos años, los relatos de curas realizadas entre los hombres primitivos por hombres-medicina, hechiceros y personas semejantes despertaron poco la atención de los psiquíatras. Se consideraban como historias curiosas, de interés solamente para los historiadores y antropólogos. Se pensaba que los hombres-medicina eran individuos bastante ignorantes y supersticiosos, capaces de curar solamente a los pacientes que de cualquier modo se habrían recuperado espontáneamente, o peligrosos impostores que explotaban la credulidad de sus compañeros.”

Uno de los científicos que primero comprendió la importancia científica de la curación primitiva fue el antropólogo alemán Adolf Bastian (1826-1905).” Cf. Adolf Bastian, „Über psychische Boebachtungen bei Naturvölkern“, Schriften der Gesellschaft für Experimental-Psychologie zu Berlin, Leipzig, Ernst Günther, II (1890); Henri Meige, Les Possédées noires, Paris, Schiller, 1894.

Estas 2 nociones se combinan en la teoría de que el hombre lleva dentro de sí una especie de duplicado, un alma fantasma cuya presencia en el cuerpo es un requisito previo para la vida normal, pero que puede abandonarlo temporalmente y vagar por ahí, especialmente durante el sueño.”

G.V. Ksenofontov, en Schamanen-Geschichten aus Sibirien, traducido al alemán y editado por Adolf Friedrich y Georg Buddrus, Munich, O. W. Barth, 1955.”

Los quechuas sienten un gran temor por ciertos pozos y cuevas, y sobre todo por las viejas ruinas incas. Tanto si el susto aparece después de un susto como si no, el poder propiciatorio es la tierra.” [¿?]

Sal y Rosas

Es obvio que el objeto-enfermedad aparentemente extraído por el hombre-medicina lo es mediante un truco, lo que explica por qué algunos europeos que observaron estos procedimientos curativos tacharon a los hombres-medicina de farsantes y charlatanes. Y sin embargo, no cabe duda de que estas curas tienen éxito muchas veces. Se ha señalado asimismo que en ciertos pueblos el objeto-enfermedad es de tal naturaleza que el paciente difícilmente puede creer que le ha sido extraído de su propio cuerpo. Nos encontramos aquí con una situación que aparece con frecuencia en antropología. Para comprender el significado de una costumbre o creencia, debemos considerarla dentro de la estructura sociológica de la comunidad.”

Nuestro alumno aprende como los chamanes, antes de la ceremonia curativa, se colocan varios plumones de águila en una comisura de la boca y los mezclan con sangre obtenida mediante mordeduras de la lengua o frotamiento de las encías; después de numerosos cantos y gestos mágicos, el chamán, con más o menos esfuerzo, extrae la ‘enfermedad’ del cuerpo del paciente y se la muestra a éste y a su familia en forma de un gusano sanguinolento. Nuestro alumno aprende cómo debe pretender pasar la noche entre las tumbas y cómo el chamán utiliza ‘visionarios’, esto es, espías que de forma oculta consiguen informaciones de los pacientes de sus enfermedades e informan de ello en secreto a los brujos.”

Qaselid [el noviciado] prosigue el estudio de los trucos de otros chamanes mientras aumenta sus éxitos terapéuticos con el método del gusano sanguinolento. Al término de la narración está claro que encuentra cada vez más difícil reconocer a los chamanes ‘reales’ de los farsantes. Sólo está seguro de que uno de ellos es un chamán ‘real’ porque no acepta pago de sus pacientes y nunca se le ha visto reír; todos los otros ‘pretenden ser chamanes’. Por otra parte, Qaselid describe sus propios éxitos sin recordar, al parecer, que comenzó su carrera con el propósito de desenmascarar los trucos que ahora aplica él mismo con tanto éxito.”

El chamán es un miembro de una organización que tiene su aprendizaje, sus escuelas, sus reglas estrictas, sus lugares de reunión, sus agentes secretos, así como sus rivalidades con otras organizaciones similares.”

El exorcismo ha sido uno de los principales procedimientos curativos en la zona mediterránea y todavía se utiliza en diversos países; para nosotros tiene un interés particular, porque es una de las raíces a partir de las que, históricamente hablando, ha evolucionado la moderna psicoterapia dinámica.”

Österreich, Die besessenheit, Langenzalza, Wendt & Klauwell, 1921. (Traducción inglesa, Possession, Demoniacal and Other Among Primitive Races, in Antiquity, the Middle Ages, and Modern Times, NY, Richard R. Smith, 1930.)”

La teología católica reservó, de forma incidental, la palabra posesión para la forma sonámbula y denominó obsesión a la forma lúcida, palabra esta última adoptada por la psiquiatría, aunque con otro significado.”

Percival Lowell, Occult Japan, or the Way of the Gods, Boston, Houghton Mifflin Company, 1895.

El caso de Gottliebin Dittus y el reverendo Blumhardt es un ejemplo típico de posesión y exorcismo, que encaja exactamente en el molde de los realizados por la primitiva Iglesia cristiana. Tuvo lugar, sin embargo, a mediados del siglo XIX, y fue por tanto un ejemplo de curación primitiva en tiempos modernos y en ambiente moderno. Más aún, es un suceso excepcionalmente bien documentado que ha sido objeto de numerosos estudios, tanto desde el punto de vista psiquiátrico como religioso.

Este famoso exorcismo tuvo lugar en el pequeño pueblo de Möttlingen, Württemberg, en 1842 y 1843, poco después del nombramiento de Blumhardt como pastor luterano del mismo. Daremos primero un resumen de la posesión y el exorcismo según lo relató Blumhardt en el informe oficial que envió a sus autoridades eclesiásticas.”

Gustav Roskoff, Geschichte des Teufels, 1869.

El pueblo de Möttlingen está situado en una remota región de la Selva Negra, en la que florecieron la superstición y las creencias en la hechicería.” Ouvindo neste exato momento o delicioso Daemon (2019) do Mayhem, noruegueses – lá também há um lugar chamado Floresta Negra envolto em estórias parecidas.

El reverendo Barth, predecessor de Blumhardt y pietista, había llevado a cabo una intensa campaña de avivación del sentimiento religioso sin gran éxito. Es de destacar que, según se decía, Gottliebin Dittus [uma mulher] era su feligrés [paroquiana] favorito (sic). El nombramiento de Blumhardt fue considerado por la población como um alivio.”

HISTERIA CITADINA: “Como primer resultado de la victoria de Blumhardt, la reavivación del sentimiento religioso que había intentado en vano el reverendo Barth se hizo realidad.”

Considero el incidente de la lucha de 2 años entre el viejo Blumhardt y Gottliebin Dittus como uno de los ejemplos más destacables de acción recíproca entre el curador y la persona necesitada de ayuda… Esta joven sería considerada hoy como uno de los casos más graves de histeria. Después de 2 años de lucha ininterrumpida, se convirtió en un miembro de la familia de Blumhardt… Esta solución significó una victoria de Blumhardt sobre la histeria y una victoria de Gottliebin sobre Blumhardt: él obtuvo la expulsión de los demonios, y ella la vida en comunidad con él.”

Viktor von Weizsäcker

La aguda intuición psicológica de Blumhardt se demuestra en el hecho de que mientras la resistencia tomaba formas cada vez más absurdas, exageradas y desesperadas, él establecía condiciones, probaba a su paciente y le daba órdenes. (En este punto podríamos añadir que utilizó en grado máximo lo que los terapeutas existenciales denominam el kairos, es decir, el punto de elección para la intervención o la decisión decisivas.)”

Gaetano Benedetti

CAREFUL WHAT YOU WISH: “Este tipo de tratamiento nos puede parecer increíble: ¿quién trataría a un paciente dándole todo lo que desea? No obstante, es posible que hoy día subestimen los efectos curativos de la satisfacción de los deseos.”

La actitud colectiva en Haití es digna de interés; se escucha al paciente con atención simpática y se busca una posición de acuerdo con su capacidad. Las características ceden de forma gradual, y el individuo perturbado se reintegra a la comunidad.

Muchas personas se sienten frustradas porque sus vidas son monótonas y carecen de interés y porque no reciben la consideración suficiente de sus amigos y de sus familiares. Por ciertos relatos de Madagascar, parece que hay procedimientos terapéuticos que tienden directamente a la satisfacción de esas necesidades frustradas.”

Le Barbier describió el bilo (palabra que designa, al mismo tiempo, la enfermedad, el paciente y la ceremonia terapéutica) como ‘la enfermedad más curiosa, extraña e imaginaria, y la más fácil de curar’. Los pacientes son nerviosos, hipersensibles a los ruidos, incapaces de permanecer tranquilos. El curandero local, u ombiasa, determina el día que tendrá lugar la ‘coronación’. El héroe de la ceremonia es el propio paciente, al que dan el tratamiento de ‘rey’, mientras que su familia es la ‘corte’ y los habitantes del poblado, sus súbditos. El día de la ceremonia se le viste con ropas elegantes y se le muestra respeto y deferencia. Dos veces al día se realizan cánticos y danzas en su honor, a las que se puede unir si lo desea. Estas celebraciones se continúan durante 15 o 20 días, hasta que el paciente se cura. Entonces se sacrifica un buey, y el bilo bebe de su sangre.”

Otro incentivo poderoso para la curación es el hecho de que, si el paciente no se cura después del bilo, es considerado responsable y hecho objeto de reprobación pública, e incluso puede ser expulsado de la comunidad. Este punto ha sido señalado al autor por el antropólogo Louis Molet.”

Los procedimientos de la terapia primitiva son muchas veces tan complejos que no es fácil clasificarlos. Así sucede, p.ej., con la incubación, que podría incluirse en otros tipos de curación ceremonial si se considera que su parte esencial iba precedida y seguida de diversos ritos y ceremonias, pero que debe describirse aparte porque resulta obvio que la incubación era precisamente el principal agente terapéutico.

La palabra incubación significa ‘yacer en la tierra’. Al paciente se le hace pasar una noche en una cueva, tendido sobre la tierra; entonces soñará con una visión que le curará.” E eu que pensava que isso era só um trote…

Alguns procedimentos descritos também se assemelham muito à “cabana de suor” de John Locke (o importante). A analogía com a hipnose é inevitável.

Pausanias, Description of Greece, IV, The Loeb Classical Library, 1955.

Los enfermos venían de muy lejos a buscar la curación en estos lugares sagrados. Por desgracia, desconocemos muchas cosas acerca de sus métodos, como es el significado y uso de un laberinto circular, el tholos, encontrado en las ruinas de varios Asklepeia.

(…)

La estancia sagrada donde tenía que pasar la noche era un lugar subterráneo denominado abaton. (…) En los primeros tiempos, el paciente tenía que tenderse en el suelo; posteriormente se le facilitó un lecho denominado kline. En contraste con el diván analítico de hoy día, el kline estaba destinado a dormir y soñar.

(…)

el paciente simplemente soñaba, ¡e inmediatamente desaparecía la enfermedad! Se trata, obviamente, de un tipo de psicoterapia que no tiene equivalente en nuestro tiempo y que merece más atención. (…) C.A. Meier menciona que Kieser, discípulo de Mesmer, expresó un concepto semejante: <Cuando el sentimiento interno de la enfermedad se personifica y se expresa mediante símbolos, puede producirse la curación>.

Emma Edelstein & Ludwig Edelstein; Karl Kerenyi

Según Elkin, los hombres-medicina australianos coinciden en afirmar que, durante la iniciación final, sus cuerpos fueron abiertos, sus órganos extraídos y reemplazados por otros, y las incisiones curadas sin dejar ninguna señal. También se dice que son capaces de producir alucinaciones colectivas, como la visión de una cuerda mágica. Las aseveraciones de Elkin las ha confirmado R. Rose, investigador que recibió entrenamiento en parapsicología. Estas alucinaciones son muy semejantes a las descritas en el Tibet, y Elkin supone, por tanto, que los conocimientos secretos de los australianos y los tibetanos derivan de una fuente común.” Cf. Elkin, Aboriginal Men of High Degree, 1945.

La creencia en la magia es universal entre los pueblos primitivos. Entre los civilizados persistió hasta épocas relativamente recientes”

La curación mágica abarca, por tanto, 2 procedimientos principales. El 1º es la contra-magia. Una enfermedad supuestamente causada por magia negra se cura mediante la extirpación de la causa, bien por destrucción del supuesto hechicero o por neutralización de su hechicería. Otra aplicación de la contra-magia es la prevención contra las acciones mágicas por medio de talismanes u otros medios. El 2º procedimiento es la aplicación directa de la magia al tratamiento de la enfermedad, sin importar que ésta estuviera producida por aquélla.”

No debemos olvidar que el hombre-medicina lucha sobre todo con enfermedades graves y muy raras, y que suele haber otros hombres, a los que podemos denominar doctores laicos, que se enfrentan con las enfermedades menores o claramente físicas.” “Es sabido que la farmacopea moderna deriva en gran parte de las drogas más activas de la medicina primitiva. (…) Uno de los mejores estudios sobre la medicina primitiva racional es el de G.W. Harley, quien vivió en la tribu de los manos en Liberia (Native African Medicine, Harvard Press, 1941).”

R.W. Felkin, joven médico que trabajó como misionero en Uganda en 1884, publicó el relato de una operación cesárea que presenció en 1879 en Katura, entonces integrante del reino de Bunyoro. (‘Notes on Labour in Central Africa’, Edinburgh Medical Journal, XXIX (1884), 922-30)”

Si se ponían agresivos no había que atarles, sino que meterlos en una habitación de la que se retiraba cualquier objeto potencialmente peligroso. Si atacaban a alguien, se les daba un palmetazo en el cuerpo desnudo con una rama sin hojas; se les hablaba con claridad y sin demostrar temor. Se decía que el citado curandero lapón había curado a numerosos enfermos mentales.”

Es un insulto para el hombre-medicina denominarlo antecesor del médico moderno. Lo es, con seguridad, pero es aún mucho más; en realidad es el antecesor de la mayoría de nuestras profesiones” Sigerist, A History of Medicine, I, 1951.

enfermedades creadoras, en las cuales se incluyen las experiencias de ciertos místicos, poetas y filósofos.” Esse é definitivamente o conceito mais equivocado e degenerado deste autor. Destacarei ainda muitas vezes esse mau uso, se é que cabe dizer mau uso de algo que sequer tem uso, porque é completamente hipostasiado.

La curación primitiva es casi siempre un procedimiento público y colectivo. En general, el paciente no va al curandero por sí mismo, sino acompañado por parientes que están presentes durante el tratamiento.”

Durante largos siglos, el médico y el sacerdote vivieron lado a lado: Cos era la cuna de Hipócrates y de su escuela, pero también era famosa por su Asklepeion. Galeno, el médico más importante del siglo II, recurría sin vacilación al Asklepeion de Pérgamo para ciertas materias.”

el yoga, técnica mística extraordinariamente elaborada, común a la mayoría de las escuelas religiosas y filosóficas de la India. Del budismo surgieron también otras técnicas fisiológicas y psicoterapéuticas, como las de la secta Zen.” Cf. M. Eliade, Yoga, Essai sur les origines de la mystique indienne, Paris, Geuthner, 1936; Techniques du Yoga, Paris, Gallimard, 1948.

SOBRE AS SEITAS E ESCOLAS GRECO-ROMANAS:

Paul Friedländer, Platon: Seinswahrheit und Lebenswirklichkeit, 2ª ed., Berlim, de Gruyter, 1954;

Norman W. Dewitt, Epicurus and His Philosophy, Minneapolis, University of Minnesota Press, 1958, 89-120.

Los platónicos buscaban la verdad, que esperaban surgiera en las conversaciones entre el maestro y los discípulos.” Caracterização bem idiota. Não se esperava nem surgia, porque é um processo ativo e porque surgir dá a idéia de quem vém do nada, quando é apenas desvelada, estando desde o sempre.

Inácio de Loyola foi estóico (¿?).

Se ha afirmado que algunas de las características del estoicismo se repiten en las escuelas adleriana y existencialista de hoy, al igual que ocurre con algunas de la Academia de Platón con relación a la escuela de Jung, mientras que el método epicúreo para la eliminación de la ansiedad ha sido comparado en este aspecto con F..” Nada que ver!

Los estoicos sobrepasaban en número a los discípulos de Platón y Aristóteles, pero los más populares eran, con gran diferencia, los epicúreos, que formaban grandes comunidades en casi todas las ciudades del mundo grecorromano.”

La propia madre de Galeno, según él mismo, solía morder a sus sirvientas, y el autor cita como ejemplo de moderación a su padre, que, cuando estaba irritado con sus servidores, no les daba de puntapiés, sino que esperaba hasta que su ira se hubiera calmado para golpearlos.” “La existencia de una masa de esclavos pasivos sobre los que se podían descargar tales estallidos de pasión favorecía este tipo de conducta.” Cf. Galeno, On the Passions and Errors of the Soul, traduzido por Harkins, prefácio de Walther Riese, Ohio State Press, 1961.

La Iglesia católica adoptó, de las religiones establecidas, algunas prácticas, como las oraciones, los votos y las peregrinaciones (que sin duda tenían una virtud estimulante en una época en que las personas vivían una vida monótona, enraizada en un lugar) y dio asimismo gran importancia a la práctica de la confesión, realizada de forma individual ante un sacerdote y ligada al más absoluto secreto. Existen razones para creer que la práctica común de la confesión ejerció una influencia notable sobre el desarrollo de la psicología, en forma de autobiografías como las Confesiones de San Agustín, y de la novela psicológica.”

Los reformistas protestantes abolieron la confesión obligatoria, pero fue en sus comunidades donde surgió una nueva práctica y tradición, la ‘cura de almas’ (Seelsorge).” “A falta de un ejemplo histórico de tales curaciones, lo tomaron de una novela de Heinrich Jung-Stilling, Theobald oder die Schwärmer, publicada en 1785. En uno de sus episodios principales encontramos el relato detallado de una ‘cura de almas’, inspirada muy probablemente por un hecho real que captó la atención del novelista.” “Existe una traducción inglesa resumida y muchas veces inexacta: Heinrich Stilling, Theobald or the Fanatic. A True Story, trad. por el Rev. Samuel Schaeffer, NY, 1846.

– Herr Pfarrer! Sie beschämen mich!

Haja vista que o magnetismo animal data da década de 1780, bem poderia haver uma novela ou conto sobre uma seita que conseguira hipnotizar toda Paris e em seguida a França e a Europa, consumando a Revolução Francesa sem o movimento de regressão conservador (fim do mundo?!).

SE TEM UMA COISA QUE O INCONSCIENTE DETESTA AINDA MAIS QUE A CONSCIÊNCIA, É A MODA! “En la primera época del magnetismo se describían en todas partes casos semejantes; se hicieron menos frecuentes en la segunda mitad del siglo XIX, pero todavía entre 1880 y 90 había hipnotizadores que sabían cómo liberar a sus pacientes de los secretos abrumadores que les contaban en estado hipnótico.”

En 1850 Nathaniel Hawthorne describió, en su obra maestra La letra escarlata, cómo un malvado puede descubrir un secreto patógeno y explotarlo para torturar a su víctima hasta la muerte.”

Ibsen, La dama del mar [The Lady from the Sea, tradução da filha de Marx], 1888.

Para los que le conocieron personalmente o han leído con detenimiento sus escritos, está claro que Oskar Pfister consideraba el psicoanálisis en cierto modo como un redescubrimiento perfeccionado de la ‘cura de almas’ tradicional. Siempre consideró su práctica psicoanalítica como parte de su trabajo pastoral.” Logo, há de ser um psicanalista mais honesto que a média.

Históricamente, la psicoterapia dinámica moderna deriva de la medicina primitiva, y se puede demostrar que hay una continuidad ininterrumpida entre el exorcismo y el magnetismo, entre éste y el hipnotismo, y entre el hipnotismo y las modernas escuelas dinámicas.”

II. LA APARICIÓN DE LA PSIQUIATRÍA DINÁMICA

La aparición de la psiquiatría dinámica se puede datar en 1775, en un choque entre el médico Mesmer y el exorcista Gassner.” ¿Qué puede ser más interesante que un hipnotizador contra un exorcista (dos charlatanes)? ¡Es como pelea de enanos!

Creio que li o oposto simétrico em Schopenhauer! Haen, médico de corte de la emperatriz María Teresa, se oponía con todas sus fuerzas a Gassner, que, afirmaba, había curado muy pocos pacientes, e incluso estas curaciones eran el resultado de fraudes, imaginación o de los largos viajes y la dieta de los pacientes.”

Mesmer declaró que Gassner era sin duda un hombre honrado, pero que curaba a sus pacientes por medio del magnetismo animal sin saberlo.”

Pio VI, o papa na época de Gassner, era contra exorcismos públicos.

ambos murieron cruelmente decepcionados.”

Jean Vinchon, Mesmer et son secret, Paris, 1936.

Se desconocen sus actividades y paradero durante los años de 1754-9. Es probable que los pasara estudiando filosofía.”

Todo tiene siempre que ver con mi edad actual: “se licenció en 1766, a los 33 años, con una tesis sobre la influencia de los planetas en las enfermedades humanas.”

Em 1767 el joven doctor se casó con una viuda adinerada de ascendencia noble, Maria Anna von Posch, y se estableció en Viena como médico. (…) Entre los amigos que visitaban la casa se contaban los músicos Gluck, Haydn y la familia Mozart. (La 1ª ópera de Wolfgang Amadeus Mozart, Bastien uns Bastienne, se representó por vez 1ª en el teatro privado de Mesmer.)Seguro que era de la mazonería. ¿O mozartería?

Pero el mundo médico vienés se mostraba todavía indiferente e incluso hostil.” E ao contrário do que alguns pensam, isso não era abrandado de forma alguma por Mesmer não ser judio!

Desesperaba de encontrar nunca la verdad. Caminaría por los bosques, hablando con los árboles, y durante 3 meses trató de pensar sin la ayuda de palabras.”

Pensar es ya empezar.

La atmósfera que Mesmer encontró en París era completamente distinta de la que había dejado en Viena.” “Habría, sobre todo en París, una tendencia general a la histeria masiva; la gente saltaba de una locura a otra. La vida en París durante esos años críticos ha sido admirablemente descrita en las cartas que Melchior Grimm escribió a su soberano alemán, Correspondance littéraire, philosophique et critique adressée à un souverain d’Allemagne, 5 vols., por el barón de Grimm y por Diderot, París, F. Buisson, 1813. Esta correspondencia contiene varios informes muy valiosos acerca de Mesmer.”

Mesmer, Mémoire sur la découverte du magnétisme animal, Paris, 1779. + Précis historique, 1781.

Mialle, Exposé par ordre alphabetique des cures opérées en France par le magnétisme animal, depuis Mesmer jusqu’à nos jours, II, Paris, Dentu, 1826.

Podría establecerse una analogía entre esta teoría y el concepto polinesio de ‘mana’, energía universal e impersonal que se puede almacenar en personas, objetos o lugares, y sólo detectable por sus efectos objetivos.”

Esta parte física de la doctrina era sin duda su punto más débil y siempre permaneció oscura en la mente de Mesmer, que no era un buen sistematizador.”

Su baquet, instrumento que se suponía concentraba el fluido, era una imitación de la botella de Leyden inventada recientemente. Pensaba también que existía un fluido positivo y otro negativo que se neutralizaban mutuamente, suposición que nunca aceptaron sus discípulos.” Vejo agora quase de forma clarividente que Reich se enganou completamente com o seu orgone: é apenas uma pseudociência derivada destas fantasias do século XVIII. Novamente um médico que não sabe separar suas pesquisas empíricas de meras superstições. Inventa acumuladores de algo que não se pode provar diretamente. Não com dolo, mas com fé. E estiliza a questão da satisfação e repressão sexual no ser humano. Seus pacientes acabam por se sentir melhores pela velha e sempre bem-vinda confiança no tratamento médico e sobretudo porque além de receberem ‘sessões de orgone’ como se fosse um bronzeamento invisível, recebiam massagens, se autoaplicavam massagens liberadoras, e praticavam – fora da clínica, evidentemente – sexo livre de misticismos e tabus, praticavam, enfim, o amor livre comunista dos tempos áureos, sem dúvida uma solução para muitos tipos de neuroses, mas nunca de todos, e nunca completamente – pois que a questão social, insistia o próprio Reich, era o mais importante. Está claro também que Reich foi perseguido pelos motivos errados, e que seu acumulador de orgone ou que sua doutrina não podiam fazer mal a ninguém. Eis o fim de todos os inovadores – estejam integralmente certos ou não!

El egocentrismo de Mesmer le hizo suponer que las facultades de medicina aceptarían una teoría que anulaba todos los descubrimientos realizados desde Hipócrates, y que haría superflua la profesión médica. No debe sorprender que su terapia repugnara tanto a la medicina contemporánea como ésta le repugnaba a él.”

El método colectivo de Mesmer era aún más extraordinario. Un médico inglés, John Grieve, que estaba en París en mayo de 1784, describió en una carta su visita a la casa de Mesmer, destacando que nunca había menos de 200 pacientes a la vez”

Até a familia Montesquieu caiu na dele!

SUB JUDICE: “El programa de pruebas había sido diseñado por Lavoisier y era un modelo de la aplicación del método experimental. El punto en litigio no era si Mesmer curaba o no a sus pacientes, sino su pretensión de haber descubierto un nuevo fluido físico.”

cuando el Ministerio Público, basado en el informe de los comisionados, decidió prohibir la práctica del magnetismo animal, Bergasse triunfó en sus esfuerzos para conseguir que el Parlamento – el máximo organismo judicial – levantase la interdicción basado en un tecnicismo legal: el informe de los comisionados se refería a la práctica de D’Eslon, no a la de Mesmer.”

Pero el interés público se vio desviado de Mesmer pocos meses después por los nuevos temas del conde Allesandro di Cagliostro (Giuseppe Balsamo) y el escándalo del ‘collar de la Reina’.”

Thouret publicó un estudio (Recherches et doutes sur le magnétisme animal, 1784) tomando una por una las 27 proposiciones de Mesmer y demostrando que cada una de ellas ya había sido establecida en términos muy parecidos por autores como Paracelso, Van Helmont y Goclenius, y sobre todo por Mead y Maxwell. Llegó a la conclusión de que la teoría magnética, lejos de ser una novedad, era un sistema antiguo abandonado ya hacía casi un siglo. Mesmer negó haber leído nunca a cualquiera de esos autores (todavía no estaba de moda denominarles ‘precursores’). Los físicos, por su parte, no querían oír hablar del denominado fluido magnético. Marat declaró que el magnetismo animal no tenía derecho a sostener que era una teoría física.”

Se nombró un Comité d’instruction para publicar la doctrina en una forma aceptable para los discípulos.”

El movimiento fundado por él se desarrollaba más y más en la dirección impuesta por Puységur.”

Las actividades de Mesmer durante los 20 años siguientes son en gran parte desconocidas. (…) Se ha sabido que cuando volvió a Viena en 1793 fue expulsado como sospechoso político, y que en 1794 su nombre estuvo relacionado con un oscuro complot.” “Había perdido parte de su fortuna, pero aún era lo suficientemente rico para vivir como un hombre desocupado durante el resto de su vida, al estilo de los viejos aristócratas.” “Se sentía ofendido contra el mundo que no había aceptado su descubrimiento, los médicos que le habían rechazado y los discípulos que habían deformado sus enseñanzas.”

Wolfart era tan descuidado que, cuando publicó el libro de Mesmer, le dio el nombre de pila de Friedrich en lugar de Franz.”

Tenía, añadían, un canario amaestrado en una jaula abierta en su habitación. Todas las mañanas el pájaro volaba hacia su amo, se le posaba en la cabeza y le despertaba con su canto. Le hacía compañía durante el desayuno, echando en ocasiones terrones de azúcar a su taza. Con un ligero golpe de la mano, Mesmer podía hacer que se durmiera o despertara. Una mañana el pájaro permaneció en su jaula: Mesmer había muerto durante la noche. El canario no volvió a cantar ni a comer, y pocos días después fue hallado muerto en su jaula.”

PROTO-FREUD: “Exigía de sus discípulos una devoción absoluta, aunque no sentía la necesidad de reciprocidad monstrándoles gratitud, y rompió con quienquiera que manifestara ideas independientes. Se sentía como si viviera en un mundo de enemigos que contínuamente trataban de robar, alterar o suprimir su descubrimiento.” Mal de vienês!

Era inigualable en el arte de convencer a las personas y obtener de ellas grandes favores. Esto puede explicar también el misterio de su ascenso social en una era de diferenciación impenetrable de clases, y su habilidad para tratar con príncipes y aristócratas en un plano de igualdad.”

Sin Puységur, añade, la vida del magnetismo habría sido corta y únicamente habría dejado el recuerdo de una epidemia psíquica transitoria alrededor del baquet.”

Para ‘desencantarlos’ (es decir, para despertarlos de su sueño magnético), Puységur les ordenaba besar el árbol, e inmediatamente despertaban, sin recordar nada de lo que había ocurrido. Estos tratamientos se llevaban a cabo en presencia de curiosos y entusiasmados espectadores. Se dijo que en poco más de 1 mes, 62 de los 300 pacientes fueron curados de diversas enfermedades.” “Pronto se reconoció la semejanza de este sueño magnético con el sonambulismo natural, y de ahí el nombre de ‘sonambulismo artificial’. (Sólo mucho después denominaría Braid a esta situación por su nombre actual, ‘hipnosis’). El 2º aspecto era la ‘lucidez’ exhibida por ciertos pacientes, esto es, su capacidad para diagnosticar enfermedades, predecir sus cursos y prescribir tratamientos, tanto para ellos mismos como para otros con los que habían sido puestos en relación.”

Muchos de los discípulos aristócratas de Mesmer emigraron; otros perecieron en el patíbulo, como sucedió con varios antiguos miembros de las Comisiones Reales: especialmente Bailly y Lavoisier.”

En Santo Domingo, el magnetismo degeneró en una epidemia psíquica entre los esclavos negros, aumentando su agitación, y la dominación francesa terminó en un baño de sangre. Posteriormente Mesmer se vanaglorió de que la nueva república – ahora denominada Haití – le debiera su independencia.”

Puységur, Les Fous, les insensés, les maniaques et les frénétiques ne seraient-ils que des somnanbules désordonnés?, 1812.

sus escritos fueron cada vez más difíciles de hallar. Charles Richet le redescubrió en 1884 y demostró que la mayoría de lo que sus ilustres contemporáneos creían haber hallado en el campo de la hipnosis se encontraba ya en los escritos de Puységur.”

THE LOG SIR: “En la actualidad, Buzancy es un pueblecito encantador rodeado de bosques y fértiles campos y praderas. El castillo de la antigua y poderosa familia Puységur ha desaparecido casi por completo. El olmo centenario sobrevivió hasta 1938; la Société des Amis de Mesmer iba a rodar una película sobre la vida de éste, uno de cuyos episodios se centraba alrededor del árbol, cuando una tormenta lo arrancó de raíz. Los campesinos se abalanzaron a recoger sus trozos; algunos cogieron porciones de la corteza que guardaron cuidadosamente, atribuyéndolas ciertas propiedades profilácticas o curativas. El arroyo continúa vertiendo sus aguas en el mismo lugar y se le otorgan virtudes maravillosas. Ha desaparecido la tumba de Victor Race [1º paciente de Puységur] del pequeño cementerio, y sus descendientes, que han sido seguidos hasta la actualidad, conocen bastante poco del papel histórico de su antepasado.”

O MENTOR DO CONDE: “Entre [los continuadores de la doctrina se] destacó el notable Abbé de Faria, [Abade!] sacerdote portugués que pretendía venir de la India y ser un brahmán. En 1813 abrió una academia pública de sueño lúcido en París, [não é anterior a Hervey? Cf. F., De la cause du sommeil lucide, ou Étude de la nature de l’homme, 1819] en la que criticaba la teoría del fluido físico, así como la de la relación, y sostenía que el proceso esencial de la magnetización se debía menos al magnetizador que al sujeto. (…) Por desgracia para él, constituía un obstáculo para su práctica su mal francés y (según Noizet) fue víctima de la broma de un actor que había ido a una de sus sesiones con la intención de ridiculizarle, tras lo cual Faria se convirtió en el hazmerreír de París. Su nombre sobrevivió sobre todo porque Alejandro Dumas lo aplicó a un personaje de su novela El conde de Montecristo. Janet ha demostrado que fue Faria, a través de Noizet y Liébeault, el verdadero antecesor de la Escuela de Nancy.”

Deleuze [¡! – cf. Histoire critique du magnétisme animal, 1810] se encontró con el éxito donde Faria había fracasado, y a él se suele atribuir el resurgimiento del magnetismo en Francia.” “se mostraba escéptico acerca de las pretendidas manifestaciones preternaturales, y avisó contra los diversos peligros inherentes al tratamiento magnético.”

Alexandre Bertrand, con una doble formación como médico e ingeniero, enfocó el fenómeno del magnetismo animal con vistas a explorarlo de forma científica y experimental. Janet, que tenía en la más alta estima su trabajo, le consideraba como el verdadero iniciador del estudio científico de la hipnosis.”

Tardif de Montrevel destacó en 1785 que el sujeto en sueño magnético era capaz de resistir cualquier orden inmoral que le pudiera dar un magnetizador sin escrúpulos.”

El desarrollo del mesmerismo en Alemania tomó un carácter distinto porque, en contraste con Francia, las universidades mostraron un vivo interés por el magnetismo animal y fue adoptado por los románticos y los filósofos de la Naturaleza. En 1812 el gobierno prusiano nombró una comisión oficial de investigación, cuyos informes, publicados en 1816, fueron favorables, e inmediatamente después las universidades de Berlín y Bonn crearon cátedras de mesmerismo.” Falta de critério.

Os caras falam de VISÃO – não direi anal, mas de VISÃO – ESTOMACAL! E é sexto e não oitavo sentido… (piada interna)

Claridad universal: eliminación de los obstáculos de tiempo y espacio, con lo que el sujeto percibe cosas escondidas en el pasado, en el futuro o en lugares remotos.”

Kluge

Así, mientras que los franceses buscaban sonámbulos extralúcidos como auxiliares para la práctica médica, los alemanes los utilizaban en un atrevido intento de metafísica experimental.”

Matefísica, a metafísica dos pampas

Winfried Hümpfner, Clemens Brentanos Glaubwürdigkeit in seinen Emmerich-Aufzeichnungen, 1923. O poeta místico que se tornou secretário de uma “santa” que possui os estigmas…

René Guignard, Un Poète romantique allemand, C. Brentano, 1933.

Cada noche Anna Katharina tenía sueños que se continuaban en secuencia regular según el ciclo del año litúrgico y que mostraban la vida de Cristo y de la Virgen. Brentano visitaba a Katharina todas las mañanas y escribía sus sueños y visiones según ella se los dictaba. Con este material recopiló 2 libros que tuvieron gran éxito. No obstante los adornos del poeta, mucha gente creyó que tales revelaciones eran documentos históricos reales.”

Como médico, Justinus Kerner fue el 1º en describir una especie de intoxicación alimentaria hoy denominada botulismo, y completó sus observaciones clínicas con ingeniosos experimentos en animales con la sustancia venenosa.” Olha só quem editou as obras completas de Kerner – David Strauss!

En el último período de su vida, Kerner perdió a su amada esposa y se fue quedando progresivamente ciego. Cayó en una profunda depresión, aunque sin perder el impulso creador. Como pasatiempo solía verter gotas de tinta sobre una hoja de papel que luego doblaba, perfilando las figuras resultantes, dándoles formas fantásticas y escribiendo versos al pie de cada una de ellas. Estas pinturas, decía, eran fantasmas y monstruos a los que adscribía un lugar en el Hades. Este libro, publicado después de su muerte con el título de Kleksographien, se convirtió en fuente de inspiración para Hermann Rorschach y sus pruebas de las manchas de tinta, muy posteriores.”

el cirujano inglés Esdaile, que trabajaba en la India, publicó un informe sobre 345 intervenciones quirúrgicas mayores realizadas por él con la única ayuda de la anestesia mesmérica, técnica que encontraba más fácil de aplicar a los pacientes hindúes que a los ingleses.” “Poco tiempo después, el descubrimiento de la anestesia por éter dejó anticuada esta técnica.”

John Hughes Bennett, The Mesmeric Mania of 1851, with a Physiological Explanation of the Phenomena Produced, Edimburgo, Sutherland and Knox, 1851.

Phineas Parkhurst Quimby (1802-1866), joven relojero, comprendió que el agente verdadero de la curación era la sugestión y practicó una especie de ‘curación de la mente’.”

Otro [americano del mesmerismo] fue Andrew Jackson Davis (The Magic Staff), joven que se magnetizaba a sí mismo a diario, y que en trance dictó un enorme libro de revelaciones acerca del mundo de los espíritus. La obra tuvo un gran éxito y preparó el camino para la propagación del espiritismo, que ya estaba próximo.” “cuanto más numerosos, entusiastas y fanáticos se hacían los discípulos de Mesmer, más se desviaba el movimiento de su norma inicial y caía en el descrédito: se mezcló con las especulaciones rústicas, el ocultismo y, en ocasiones, incluso se confundió con el charlatanismo.”

Si hemos de creer los relatos de la época, la historia comenzó en 1847, cuando un hombre de Hydesville, cerca de Arcadia, Nueva York, comenzó a ser molestado por misteriosos ruidos que se oían en su casa por la noche y se la cedió a un granjero, John Fox, el cual la ocupó con su esposa y 2 hijas, de 15 y 12 años de edad.” “Pronto, la Sra. Fox y sus hijas comercializaron sus sesiones con los espíritus, y tuvieron numerosos imitadores. El contagio se extendió con rapidez por los EEUU; se perfeccionó el código de comunicación con los espíritus.” “A comienzos de 1852 la ola de espiritismo cruzó el Atlántico e invadió Inglaterra y Alemania. En abril de 1853 se extendió por Francia y pronto alcanzó todos los lugares del mundo civilizado.”

Frank Podmore, Modern Spiritualism. A History and a Criticism, 2 vols., Londres, Methuen, 1902.

médiuns”

Allan Kardec (Hippolyte Rivail), Le Livre des esprits, contenant les principes de la doctrine spirite, 1857.

Gradualmente surgió una ciencia nueva, la parapsicología. En Inglaterra, Myers y Gurney fundaron en 1882 la Society for Psychical Research, que reunió una gran cantidad de datos cuidadosamente seleccionados.”

Michel Chevreul, De la baguette divinatoire, du pendule dit explorateur et des tables tournantes, au point de vue de l’histoire, de la critique et de la méthode expérimentale, 1854.

En el período comprendido entre 1860 y 80, tanto el magnetismo como el hipnotismo estaban tan desprestigiados que cualquier médico que los utilizase podía comprometer de forma irreparable su carrera científica y perder su clientela.” “Entre los pocos que se atrevían a hipnotizar abiertamente estaba Auguste Ambroise Liébeault (1823-1904) (op. cit.).” “Pero era mejor hipnotizador que escritor; lo cierto es que en 10 años sólo se vendió UN ejemplar de su libro.” HAHAHAHAHA! “Se trata de una de las numerosas leyendas de la historia de la psiquiatría dinámica. Liébeault había tenido lectores en Francia, Suiza e incluso en Rusia, como demuestra el libro de Nikolay Grot, Snovidyeniya, kak predmet nautshnavo analiza, Kiev, Tipografía Fritza, 1878, que con frecuencia se refería a su teoría del sueño.” “Durante más de 20 años, Liébeault fue considerado por sus colegas como un charlatán (porque hipnotizaba) tonto (porque no cobraba). Los rumores de sus milagros terapéuticos llegaron a Bernheim, quien decidió hacerle una visita en 82 y quedó convertido a suas ideas.” “L. adquirió de repente fama de gran médico; su libro fue rescatado del olvido y ampliamente leído.”

Con los miembros de las clases altas y adineradas, obtenía peores resultados.”

Bernheim, Hypnotisme, suggestion, psychothérapie, Études nouvelles, 1891

« En sentido amplio, la Escuela de Nancy era un grupo indefinido de psiquíatras que habían adoptado los principios y métodos de Bernheim. Entre ellos estaban Albert Moll y Schrenck-Notzing en Alemania, Krafft-Ebing en Australia, [¿Austria?] Bechterev en Rusia, Milne Bramwell en Inglaterra, Boris Sidis y Morton Prince en los EEUU y algunos otros que merecen especial mención.”

Hacia 1900, Bernheim era considerado por muchos como el psicoterapeuta más importante de Europa. Después de haber sido durante años un discípulo respetuoso de Liébeault, Bernheim lo consideraba ahora como su precursor y se creía el verdadero fundador de la psicoterapia. Pero 10 años después estaba casi olvidado.”

En los 8 años transcurridos desde 1862-70, Charcot realizó los descubrimientos que le hicieron el neurólogo más famoso de su tiempo.”

curación por la fe”

Era un hombre ambicioso, envidioso de toda superioridad, que sentía un feroz resentimiento contra quienes declinaban las invitaciones a sus recepciones; déspota en la universidad y duro con sus pacientes, hasta el punto de hablarles bruscamente de su próxima muerte, se mostraba cobarde cuando era él quien se sentía enfermo. Era un tirano con sus hijos y obligó, p.ej., a su hijo Jean, que quería ser marino, a convertirse en médico. (…) Lo más desagradable era su indiscreción al referirse a cuestiones confidenciales de sus pacientes.”

Jean, su hijo (1867-1936), que había estudiado medicina para satisfacer a su padre, abandonó esta profesión varios años después y se hizo famoso como marino y explorador del Polo Sur.”

Llegó un momento en que nadie podía ser asignado a la Facultad de Medicina de París sin su consentimiento. (…) él y Pasteur eran para los franceses una prueba del genio científico nacional, que desafiaba la pretendida superioridad de los alemanes.”

Profundo conocedor de la historia del arte, era un erudito de la prosa francesa y poseía extensos conocimientos de literatura.” “Se decía que el emperador Pedro II del Brasil había ido a su casa, había jugado al billar con él y había asistido a sus clases en la Salpêtrière.” “En Viena, estaba bien relacionado con Meynert y Moritz Benedikt.” “Napoleón de la neurología”

Era conocido por su colección de libros antiguos y extraños sobre brujería y posesión, algunos de los cuales había hecho reimprimir en una serie titulada La Biblioteca Diabólica.”

Lyubimov señala la diferencia entre estas lecciones y las de Meynert, a las que también había asistido en Viena y que le dejaban exhausto y confuso, mientras que las de Charcot las abandonaba con un sentimiento de alegría y alborozo.” Nem sempre o bom professor ensina coisas boas. Ou, antes, nem sempre o sábio é bom professor…

El neurólogo alemán Westphal expresó profunda preocupación por el nuevo rumbo que había tomado la investigación de Charcot después de que le visitó en París. En América, fue atacado en el mismo sentido por Bucknill. Beard, que admitía que Charcot había cometido ‘errores graves’, le respetaba no obstante ‘como hombre genial y de honor’.”

Durante mucho tiempo había sido extremadamente cauto, pero al final se le pudo aplicar la máxima de La Rochefoucauld: ‘El engaño va siempre más lejos que las sospechas’.”

En primer lugar, se olvida muchas veces que Charcot, como internista y anatomo-patólogo, contribuyó poderosamente al conocimiento de las enfermedades pulmonares y renales, y que sus lecciones sobre las enfermedades en los ancianos fueron durante mucho tiempo clásicas de lo que ahora se denomina geriatría. En segundo lugar, en lo que se fue su 2ª carrera, la neurología, hizo descubrimientos fundamentales en los que descansará sin discusión su fama perpetua: descripción de la esclerosis diseminada, de la esclerosis lateral amiotrófica (‘enfermedad de Charcot’) y de la ataxia locomotora y sus artropatías características (‘articulaciones de Charcot’), trabajos sobre las localizaciones cerebral y medular, y sobre la afasia.

Es más difícil valorar de una forma objetiva la que podría denominarse ‘3ª carrera’ de Ch., es decir, su examen de la histeria y del hipnotismo.”

Pierre Janet ha descrito con exactitud los errores metodológicos de Ch. en ese campo.” “Por alguna razón desconocida, Blanche Wittmann abandonó la Salpêtrière por algún tiempo y fue admitida en el Hötel-Dieu, donde la estudió Jules Janet, el hermano de Pierre Janet.”

Como ha indicado De Monzie, Ch. representó el punto de partida de toda una tradición de escritores de orientación psiquiátrica, como Alphonse Daudet y su hijo León Daudet, Zola, Maupassant, Huysmans, Bourget, Claretie, y posteriormente Pirandello y Proust, sin hablar de numerosos autores de novelas populares.”

La publicación de sus obras completas, que estaba planeada en 15 volúmenes, fue abandonada después de la aparición del número IX en 1894.”

Léon Daudet, Les Morticoles

Lo malo que el hombre hace, le sobrevive;

Lo bueno se entierra muchas veces con sus huesos.”

Otro relato malévolo de la Salpêtrière fue el de Axel Munthe en su novela autobiográfica La historia de San Michele.”

El propio nombre de ‘histeria’ fue sustituido por el de ‘pitiatismo’, acuñado por Babinski.”

OS MODERNISTAS MAIS ABOMINÁVEIS DE TODOS: “En 1928, un grupo de surrealistas de París, en un intento de contrarrestar todas las ideas aceptadas de su tiempo, decidieron celebrar el descubrimiento de la histeria por Ch., el mayor descubrimiento poético de finales del siglo XIX (Breton).”

III. LA PRIMERA PSIQUIATRÍA DINÁMICA (1775-1900)

La primera psiquiatría dinámica fue una conquista impresionante, tanto más cuanto que había sido elaborada en su mayor parte fuera de – cuando no en oposición directa con – la medicina oficial.”

Hacia 1880 tuvo lugar un gran resurgimiento, y la 1ª psiquiatría dinámica consiguió el reconocimiento universal gracias a Charcot y Bernheim. Siguió un rápido desarrollo. Emergió entonces lentamente una nueva psiquiatría dinámica y durante algún tiempo coexistieron los 2 sistemas, hasta 1900, en que las nuevas escuelas pasaron a primer plano.”

Se generalizó un nuevo modelo de la mente humana, basado en la dualidad de psiquismo consciente e inconsciente. Más tarde se modificó, dándole la forma de un manojo de subpersonalidades yacentes bajo la personalidad consciente.”

actividad mitopoética del inconsciente.”

En la época del Renacimiento, filósofos y médicos se interesaron mucho por un poder de la mente, la imaginatio, que tenía un significado mucho más amplio que el actual y contenía lo que denominamos sugestión y autosugestión.”

En un capítulo de sus Ensayos, Montaigne resume algunas de las ideas prevalecientes en su tiempo. (…) La imaginación, según él, era una causa frecuente de enfermedad física, emocional y mental, e incluso de muerte, así como todas las manifestaciones atribuidas comúnmente a la magia.”

En el siglo XVIII, el italiano Muratori escribió un tratado, Sobre el poder de la imaginación humana, ampliamente leído y citado. Entre las numerosas manifestaciones de la imaginación describía los sueños, visiones, ilusiones, las ideas fijas, la antipatía (es decir, las fobias) y, sobre todo, el sonambulismo.”

Por todas partes se publicaban historias maravillosas acerca de durmientes paseadores que escribían, cruzaban ríos a nado o caminaban sobre los tejados en las noches de luna llena, y cuyas vidas peligraban si se les llamaba bruscamente por su nombre o se les despertaba.”

crisis perfecta” “sueño magnético”; “sonambulismo artificial” “hipnotismo” (Braid, 1843)

fluidismo x animismo

{polémica puramente pré-psicológica}

fascinación” “mirar a un punto fijo o en movimiento, luminoso o no, posiblemente a los ojos del hipnotizador.” (Egito Antigo)

método verbal – Abade Faria Liébeault Escola de Nancy

el sujeto debe estar cómodo, tranquilo y relajado.”

Ser hipnotizado exige conhecimento prévio da hipnose: “Janet ha explicado por completo este último punto. Si vuestro sujeto no ha oído hablar nunca de hipnotismo, es poco probable que podáis inducir en él el estado hipnótico usual”

possibilidade de autocegueira ou aurtossurdez temporariamente fabricada – provável aspecto subjacente da cegueira histérica.

1821: anestesia hipnótica para cirurgias (procedimento subutilizado)

E no entanto as propriedades curativas somáticas de males menores (neuralgia, reumatismo) nunca foram relegadas ao olvido desde os mesmeristas.

Desde el principio, los mesmeristas se quedaron sorprendidos de la capacidad de sus sujetos para representar emociones y encarnar papeles con extraña perfección, con la máxima sinceridad aparente, y les parecía a ellos, con más talento que los actores experimentados.”

Notaba como si tuviera mis ojos húmedos y sentía una ligera sensación de quemazón, pero me encontraba relajado. Un calor confortable invadía mi cuerpo (…) no sentía deseos de moverme ni de hacer nada, y me parecía que mis pensamientos eran completamente claros. Oí que el hipnotizador me decía que moviera los brazos; traté de resistir a la orden, pero fracasé en parte. A continuación, el hipnotizador me dijo que el dorso de mi mano era insensible; yo pensé que no podía ser verdad y que Von Speyr bromeaba cuando me decía que me estaba pinchando (lo cual era cierto). A la orden del hipnotizador, desperté como si surgiera de un sueño. Me acordaba de todo. También recordé la sugestión pos-hipnótica de que me despertaría a las 6:15 exatactamente de la mañana siguiente. (…) Dos o tres sesiones posteriores con Von Speyr y Forel produjeron los mismos resultados que la 1ª.” Eugen Bleuler, ‘Zur Psychologie der Hypnose’, Münchener medizinische Wochenschrift 36 (1889).

[Inconscientes do protagonismo do papel do terapeuta na sessão,] hallaron que el paciente podía no sólo diagnosticar sus propias enfermedades, predecir su curso y prescribir el remedio, sino también hacer lo mismo para personas con las que había sido puesto en relación.” …E então Neo rompeu o casulo da Matrix.

Uno de los temas más sujetos a controversia dentro del hipnotismo fue el de la regresión de edad, reconocido precozmente por algunos hipnotizadores y sujeto a estudio entre 1880 y 1890. Se dice al sujeto hipnotizado que está retrocediendo en el tiempo, por ejemplo hasta su adolescencia o infancia, hasta un momento dado de su pasado. Su conducta, movimientos y voz cambian de forma concordante. Parece haber olvidado todo lo que le ocurrió desde el momento que está representando, y da un relato detallado de acontecimientos de ese período de su vida. ¿Se trata de una ‘regresión verdadera’, es decir, de una reviviscencia de lo que el sujeto experimentó realmente a tal edad, o únicamente de una excelente imitación de lo que cree que experimentó?” “El coronel De Rochas, hipnotizador famoso en su tiempo, llevó estos experimentos a sus límites extremos, incluso ad absurdum. [COMEÇA A PSEUDO-METEMPSICOSE! Cf. Albert de Rochas, Les Vies successives. Documents pour l’étude de cette question, 1911.] » “…período fetal. Sobrevenía un oscurecimiento, seguido de la descripción de la vida anterior de la persona, que retrocedía desde la edad adulta hasta la infancia, el nacimiento y el período fetal, y luego, tras un nuevo oscurecimiento, la representación de la 2ª vida anterior. De este modo, los sujetos de De Rochas reencarnaban varias vidas anteriores, alternando siempre la de un hombre con la de una mujer. Las descripciones de estas vidas previas eran muchas veces plausibles, aunque con algunos anacronismos. [ADIVINHA POR QUÊ!] Algunos creyeron que el coronel De Rochas había hallado una confirmación experimental de la doctrina de la reencarnación. Pero las dudas surgieron cuando indujo a personas jóvenes a representar los diversos estadios posteriores de su vida.”

Ya en 1785 se polemizó en París sobre si la mujer cedería a una orden inmoral dada por el magnetizador.”

O INÍCIO DOS BILHÕES DE TRANSFERÊNCIAS E CONTRA-TRANSFERÊNCIAS ENTRE CONTAS CORRENTES DO ESPÍRITO:Teste notó que el sujeto era capaz de detectar los deseos secretos del magnetizador y se protegía contra los peligros, no sólo de una seducción sexual cruda, sino de caer en una relación amorosa sincera y verdadera.” Essa só existe mesmo na música Teacher’s Pet!

El Padre Debreyne (Pensées d’un croyant catholique, 1844), sacerdote y educador con conocimientos médicos, destacó que el magnetizador era generalmente un hombre sano y fuerte, y el sujeto una hermosa joven (en raras ocasiones vieja o fea)”

En un relato autobiográfico, Du Potet refiere cómo, en su juventud, magnetizó a 2 muchachas jóvenes y se desesperó cuando las vio caer en un estado cataléptico y durante horas hizo esfuerzos desesperados para sacarlas de él, hasta que finalmente despertaron.”

Otra manifestación patológica era el vigilambulismo, estado peculiar de semisonambulismo permanente en personas que, hipnotizadas repetidas veces, no habían sido sometidas a las maniobras normales que harían concluir su sueño magnético. Parecían estar completamente despiertas, pero eran capaces de recibir sugestiones de cualquiera que les hablara.”

Charcot contó el caso de una mujer que había sido hipnotizada 5x en un intervalo de 3 semanas, y que no podía pensar en otra cosa que no fuera su hipnotizador, hasta que se fugó de su hogar para vivir con él. Su marido la recogió, pero ella comenzó a manifestar graves alteraciones histéricas que hicieron necesario su ingreso en un hospital.”

A principios de la década de 1850, ciertos médiums comenzaron no sólo a escribir bajo el dictado del espíritu, sino que prestaban, por así decirlo, su pluma a los espíritus. En París, el barón de Guldenstubbe pretendía haber obtenido de esta forma mensajes autógrafos de Platón y Cicerón. La mayoría de los médiums, sin embargo, parecían contentarse con tomar al dictado del espíritu, al que recibían estando en trance, y quedaban muy sorprendidos cuando despertaban y se les mostraba lo que habían escrito.”

Flournoy, Des Indes à la planète Mars; Esprits et médiums

Otro estado clínico, que a 1ª vista parece muy distinto del sonambulismo, es el ‘letargo’, sueño muy profundo y prolongado, aunque en ocasiones toma la forma de muerte aparente (de aquí el temor extendido de ser enterrado vivo).”

Briquet observó que la catalepsia era tan frecuente en los hombres como en las mujeres, mientras que la histeria era 20x más frecuente en éstas.”

Estos 3 estados magnéticos, sonambulismo, letargo y catalepsia, tenían en común el hecho de mostrar oscuras afinidades con la histeria, de concurrir en ocasiones en el mismo paciente, y de poder ser inducidos mediante maniobras hipnóticas. Posteriormente, a este grupo de enfermedades magnéticas se añadieron otras 2, a las que Prichard denominó ‘éxtasis maníaco’ y ‘visiones de éxtasis’.”

KAFKIANO: “Prichard nos habla de un clérigo que no había tenido problemas de salud durante bastante tiempo cuando, estando un día en una esquina, vio una procesión fúnebre que se dirigía hacia él. Esperó y la dejó pasar, y entonces observó su propio nombre sobre el ataúd y vio que la procesión entraba en su casa. Éste fue el comienzo de una enfermedad que le llevó a la muerte en unos cuantos días.”

CASO DE <AUTOMATISMO AMBULATÓRIO>: “Como ejemplo, podemos citar el caso, famoso en su tiempo, de un joven pastor alemán, Sörgel, que era epiléptico. Un día que se hallaba en el bosque recogiendo leña se encontró con un hombre, le mató, le cortó los pies y bebió su sangre. Después regresó al pueblo, relató tranquilamente lo que había hecho, y poco después volvió a su estado normal de consciencia, en el que parecía no recordar absolutamente nada. El tribunal, mostrando mucha más comprensión psicológica que algunos de los jurados actuales, le absolvió basándose en que no se le podía hacer responsable de lo que había ocurrido.” Anselm Feuerbach, Aktennässige Darstellung merkwürdiger Verbrechen, 2 vols., Giessen, Heyer, 1828.

En agosto de 1895, un hombre de 35 sentado en un café de Zurich se sobresaltó al leer una noticia en un periódico. El texto decía que un cierto Mr. N. que, algunos meses antes había abandonado Suiza con destino a Australia, había desaparecido y se temía que hubiera muerto asesinado o víctima de una infección epidémica. Agitado por esta noticia, el hombre se precipitó a su pensión, buscó ansiosamente en los bolsillos de sus ropas, y encontró un pasaporte a nombre de Mr. N. Le asaltó la idea de que él era Mr. N., aunque no estaba completamente seguro: había una gran laguna en su memoria. Todo lo que recordaba era que un año antes había solicitado un puesto en ultramar, y tenía imágenes extremadamente vagas de un largo viaje por mar. Durante las últimas semanas, había llevado una vida vulgar y anodina en Zurich. En esta situación, fue a ver al Dr. Forel, el cual le admitió como paciente en el Burghölzli. El interrogatorio mostró que Mr. N. había sido nombrado por el gobierno suizo para un cargo oficial en Australia, que había partido para ese país en noviembre del año anterior y que había cumplido sus funciones de forma completamente normal durante 6 meses. Había abandonado su residencia en mayo para cumplir una misión oficial en una ciudad del centro de Australia, donde se había visto afectado por una enfermedad epidémica, y en este punto se perdía su pista. Sin embargo, afirmaron haberle reconocido posteriormente en un puerto de mar australiano, y se comprobó que había regresado desde Australia hasta Nápoles bajo nombre supuesto.

El paciente estaba deprimido, agotado y nervioso. Los intentos de estimular su memoria pidiéndole que se encontrara en ciertos puntos, realizando confrontaciones con su familia, y con un hombre al que había conocido en Australia, resultaron infructuosos.

Forel hipnotizó a Mr. N. y, comenzando con los recuerdos más recientes del paciente, procedió de forma lenta y progresiva hacia atrás en orden cronológico, comenzando cada sesión hipnótica con los últimos recuerdos descubiertos en la anterior. De esta forma el paciente dio una descripción detallada de su viaje desde Suiza hasta Australia, sus actividades en aquel país y su viaje a Australia central, donde se había enfrentado con serios problemas y había sido atacado por la fiebre. A partir de ahí, el tratamiento hipnótico se mostró mucho más difícil. Sin embargo, las resistencias fueron vencidas de forma gradual, de modo que se consiguió una recuperación casi completa de la amnesia.”

Yo no soy yo mismo, oh Señor, mi Dios. ¡Existe todavía tanta diferencia entre yo y yo mismo en el momento en que paso de la vigilia al sueño o vuelvo de éste a aquélla!” Agustín

En 1789, al comienzo de la Revolución francesa, llegaron a Stuttgart varios refugiados aristócratas. Impresionada al verlos, una joven alemana de 20 años <cambió> de repente su propia personalidad por los modos y maneras de una dama francesa, imitándola y hablando francés perfectamente, mientras que utilizaba el alemán como lo haría una mujer francesa. Estos estados <franceses> eran recurrentes. En su personalidad francesa, el sujeto tenía una memoria completa de todo lo que había dicho y hecho durante sus estados franceses anteriores. Como alemana, no sabía nada de su personalidad francesa.” Eberhardt Gmelin, Materialen für die Anthropologie, 1791.

Las diferencias entre las 2 personalidades eran muy llamativas. En su primer estado, Mary era una persona tranquila, callada y pensativa, con tendencia a la depresión, de pensamiento lento y carente de imaginación. En el 2º estado se mostraba alegre, sonriente, extravagante, amante de la compañía, la risa y los juegos, con una fuerte propensión a la versificación y la rima. Sus 2 caligrafías eran completamente distintas. En cada estado tenía conciencia del otro y temía regresar a él, pero por razones diferentes. En su estado 2º consideraba el otro como aburrido y estúpido.

Su 2º estado causaba mucho pesar a su familia porque se volvía inquieta y excéntrica; vagaba por los bosques sin temor a los lobos ni los osos, y una vez intentó capturar una serpiente de cascabel. Estaba también bajo el influjo de un cuñado. Inmediatamente antes de quedarse dormida, hablaba de los acontecimientos del día y a veces se reía feliz de las bromas que había hecho durante el mismo.

El caso Mary Reynolds se suele citar como ejemplo de separación completa entra las 2 personalidades. Sin embargo, en el relato del reverendo Plumer queda claro que la superación no era siempre tan completa. En el 2º estado, antes que hubiera aprendido a leer de nuevo y sin que tuviera ningún recuerdo de las Escrituras habló de sueños que manifestaban un conocimiento de la Biblia, así como de su fallecida hermana Eliza, de la que no tenía el menor recuerdo cuando estaba despierta.”

Österreich, Phänomenologie des Ich, 1910

Morton Prince, The Unconscious, 1911

Janet, L’Évolution psychologique de la personnalité, 1929

Personalidades múltiples simultáneas: Las personalidades se denominan simultáneas cuando son capaces de manifestarse distintamente en un mismo momento. Hay que subrayar que no se puede hablar de tales cuando se trata simplemente de 2 focos de atención o 2 corrientes de conciencia que actúan de forma concurrente (como puede suceder con los místicos religiosos, los poetas, artistas o inventores), o cuando una persona representa un papel en un teatro.”

En el relato de sus propias experiencias con mescalina, Giovanni Enrico Morselli relata su sensación de que una bestia salvaje se fusionaba con él; en otras palabras, se sentía como el licántropo de antiguo metamorfoseado en un animal salvaje, del que podía percibir incluso el olor.”

La coexistencia en la conciencia de 2 personalidades es un estado excepcional con pocas probabilidades de durar largo tiempo. Incluso cuando las 2 personalidades se conocen mutuamente, una de ellas es siempre dominante (aunque la presencia de la otra se note en el fondo).”

Personalidades múltiples sucesivas, mutuamente enteradas”

A seguía siendo la personalidad normal, habitual, y mantenía su carácter previo. Era una mujer brillante y cultivada de un buen ambiente, aunque reservada e inhibida. Cantaba mal. Tanto en su hogar como en el colegio de monjas fue una crianza rígida y, en su educación, se había mantenido un tabú estricto en lo relativo a las cuestiones sexuales. B parecía una mujer mayor, más atrevida pero digna y seria, que pretendía ser la reencarnación del alma de una cantante española. Cantaba bien y con seguridad y hablaba inglés con fuerte acento español. En ocasiones, hablaba un presunto español, pero que en realidad era una mezcla de fragmentos de español y de palabras con sonido de este último idioma. Era muy egocéntrica, mostraba fuertes pasiones, y su interés principal estaba en el instinto sexual.

(…) parece que B nunca dormía, y pretendía conocer la vida anterior de A mucho mejor que esta última. (…) Cory era capaz de hipnotizar a cada personalidad por separado. (…) En el colegio de monjas, A había conocido a 3 niñas procedentes de Méjico, que hablaban español entre ellas. Poco después de la muerte de su padre, había conocido a un hombre muy mayor que ella, que parecía español y cuya madre era realmente de ese país. Por otra parte, la paciente había sufrido una fuerte represión sexual y conflictos internos.”

Personalidades múltiples sucesivas, mutuamente amnésicas: En este grupo, las personalidades A y B no saben una acerca de la otra. Tal es el caso de la joven paciente de Gmelin, cuya personalidad francesa no sabía nada acerca de la alemana, ni ésta acerca de aquélla.

Ansel Bourne nació en 1826. Hijo de padres divorciados, había tenido una infancia desgraciada. Posteriormente trabajó de carpintero en los pueblecitos de Rhode Island. Ateo, según declaró públicamente el 28 de octubre de 1857, prefería quedar sordo y mudo antes que ir a la iglesia. Momentos después perdió el oído, el habla y la vista.

(…)

Treinta años después de su conversión, Ansel Bourne desapareció un día de su casa en Conventry, Rhode Island. Había ido a Providence, cobrado 551 dólares en el banco, hecho una visita a un sobrino y a partir de entonces se perdía su rastro.

Dos semanas después, un cierto Albert Brown llegó a Norristown, Pennsylvania; alquiló una tiendecita, compró algunas mercancías y abrió un comercio de papelería, confección y artículos varios. Llevó una vida completamente anodina y aislada. El 14 de marzo por la mañana se despertó temprano y completamente desorientado. Había vuelto a su 1ª personalidad de Ansel Bourne y no podía comprender lo que hacía en ese extraño lugar. Llamó a sus vecinos, los cuales pensaron que se había vuelto loco. Ansel Bourne no recordaba nada de lo que había hecho durante los 2 meses en que había vivido bajo el nombre de Albert Brown.

En 1890 Ansel Bourne fue hipnotizado por William James y conducido, en trance, a su 2ª personalidad de Albert Brown. Brown no sabía nada de Bourne, pero dio un relato coherente de lo que había hecho durante los 2 meses de su existencia. (…) En lo relativo a su fuga, no cabe duda de que estaba insatisfecho con la vida y sufría con el carácter desagradable de su 2ª esposa. Desapareció inmediatamente después de cobrar una gran cantidad de dinero. Su nueva identidad (Albert Brown de Newton, N.H.) era un mal disfraz de la verdadera (Ansel Bourne de New York, N.Y.).”

Su acento era irlandés. Él pensaba que podía ser canadiense y sentía un interés inexplicable por el estado de Michigan. (…) Con intensa emoción, le habló a Franz [el médico] de sus experiencias bélicas en la jungla africana y relató cómo, después de escapar de una prisión alemana con otro soldado, había visto cómo su compañero era devorado por los leopardos. (…) Era un hombre de 42 años con recuerdos y experiencias de solamente 27.” “En unos pocos minutos vivió 15 años. Se había encontrado y reconocido a sí mismo.”

Franz, Persons One and Three. A Study in Multiple Personalities, 1933.

Personalidades múltiples sucesivas: amnésicas en una dirección: En este caso la personalidad A no sabe nada acerca de la personalidad B, mientras que esta última se conoce no sólo a sí misma, sino también a la A.”

La mayoría de los casos de personalidades múltiples pertenecen a este grupo de amnesia en una dirección. (…) Más aún, S.W. Mitchell destacó que, en todos los casos conocidos, la personalidad B resulta más libre y gozosa; la personalidad A es inhibida, compulsiva y deprimida. Myers, y posteriormente Janet, declararon que era incorrecto, como hizo Azam, denominar normal a la personalidad A y anormal a la B.”

Desde entonces alternaron las personalidades francesa e italiana. En ambos casos, Elena creía que hablaba italiano. En su estado francés, hablaba italiano como lo haría un francés, y viceversa. Además de estas 2 personalidades, de tiempo en tiempo padecía estados de delirio con terribles alucinaciones en las que veía, p.ej., cómo su madre era asesinada por su padre (estados semejantes fueron descritos también por Azam como tercer estado de Félida).

(…) La personalidad francesa era claramente psicótica (…) La vida en el hogar era intolerable a causa de las escenas violentas que se producían entre los padres.

(…) Descubrió que podía hacerla pasar a voluntad del estado francés al italiano haciéndole leer en voz alta 50 versos de Dante. Morselli intentó, sin utilizar la hipnosis, una cuidadosa aclaración de su pasado.

(…) Recordó haber sido víctima de los ataques incestuosos de su padre (cuya realidad fue confirmada por otras fuentes). Lo más horrible para ella fue el recuerdo de los intentos de su padre de introducir la lengua en su boca. Su paso a la personalidad francesa era, por tanto, un intento de reprimir el recuerdo de la ‘lengua’ de su padre, y de sus ataques incestuosos en general.”

Racimos de personalidad”

Una vez bautizada, la personalidad inconsciente se hace más clara y definida; muestra sus rasgos psicológicos con mucha mayor claridad.”

Janet

Mientras que B II era la propia Beauchamp <exagerada>, B III era completamente opuesta: se mostraba alegre, vivaz, valiente, rebelde y muchas veces tartamudeaba. B I (estado normal) no sabía nada de sus 2 personalidades hipnóticas; B II conocía a B I pero no a B III. Por otra parte, B III lo sabía todo acerca de B I y B II. La 2ª subpersonalidad hipnótica, B III, a la que Prince denominó Chris, eligió el nombre de Sally. Despreciaba y ridiculizaba a B I, a la que encontraba estúpida. Sin embargo, Sally no tenía la cultura de la señorita Beauchamp, ni hablaba francés.

(…) Posteriormente emergió una nueva personalidad, B IV, La Idiota (…) Desde 1898 hasta 1904 todas estas personalidades representaron <una comedia de errores que en ocasiones era burlesca y en ocasiones trágica>. (…) consiguió amalgamar estas personalidades en una, la verdadera Beauchamp. Los detalles de este tratamiento que se podría denominar correctamente terapia de grupo, se describen de forma más completa en el libro de Prince La disociación de una personalidad.”

Comentarios generales sobre la personalidad múltiple” “Para explicar estos fenómenos se elaboraron varias teorías. Al principio, la discusión se estableció entre los asociacionistas, que hablaban de escisión mental y pérdida de conexión entre los 2 grupos principales de asociaciones, y los organicistas, los cuales mantenían la idea en una modificación orgánica del cerebro. En un período posterior, hacia finales del XIX, se sacaron a la luz los factores de motivación, interpretación de un papel, regresión y progresión de la personalidad total, por obra, sobre todo, como veremos, de Flournoy. Gardner Murphy llegó a la conclusión de que <la mayoría de los casos de personalidad múltiple parecen representar en esencia el esfuerzo del organismo por vivir, en momentos diferentes, con referencia a sistemas de valores diferentes>.”

A partir de 1910 se generalizó la reacción frente al concepto de personalidad múltiple. Se afirmó que los investigadores, desde Despine hasta Prince, habían sido víctimas de pacientes mitomaníacos, y que habían conformado de forma involuntaria las manifestaciones que observaban. La nueva psiquiatría dinámica dedicó poca atención a los problemas de la personalidad múltiple. Posteriormente, sin embargo, pareció producirse un resurgimiento parcial del interés por este tema.” “En los EEUU persistió el caso sensacional de Thipgen y Cleckley, que despertó mucho interés y fue llevado al cine [claro!].”

Corbett Thipgen & Hervey Cleckley, The Three Faces of Eve, 1957.

* * *

El estudio verdaderamente objetivo y sistemático de la histeria comienza con el médico francés Briquet, cuyo celebrado Traité de l’hystérie fue publicado en 1859. (…) En el transcurso de 10 años y con la ayuda de su equipo, realizó una investigación sobre 430 pacientes histéricos.” “la histeria era prácticamente inexistente entre las monjas, pero muy frecuente entre las prostitutas de París.” “Posteriormente, Ch. haría suyas las líneas principales de este concepto.”

Es interesante mencionar que el mismo concepto [da má-fé feminina, excisão em 2 personalidades] está también presente en la descripción que hace Flaubert del carácter de Salambó en su novela del mismo título publicada en 1859.” + Gaultier, Le Génie de Flaubert, 1913.

Dessoir, Das Doppel-Ich, 1890.

Colsenet recogió y dio una elaboración filosófica a la teoría del polipsiquismo, que relacionó con el concepto de Leibniz de la jerarquía de mónadas (Études sur la vie inconsciente de l’espirt, 1880).”

En realidad, la mitomanía debería entenderse como un aspecto particular de un concepto más amplio, el de la función mitopoética del inconsciente. Con la excepción de algunos estudios brillantes como el de Flournoy sobre su médium Hélène Smith, dicha función no ha recibido la atención que merece, y es lamentable que los nuevos sistemas de psiquiatría dinámica no hayan llenado todavía esta laguna.”

Bjerre supuso que <la hipnosis es un retroceso temporal hacia el estado primario de reposo propio de la vida fetal>. Utilizada de esta forma, la hipnosis actuó aparentemente como un poderoso sedante.”

Hacia finales del siglo XIX, la palabra <sugestión> se utilizó con tal profusión que llegó a perder su significado.”

Los alemanes Gmelin y Heinecken habían notado que pacientes magnetizados por el mismo magnetizador sentían una irresistible atracción entre sí. Un autor escocés anónimo observó exactamente el mismo fenómeno; los pacientes a los que él había magnetizado se sentían muy atraídos entre sí, se daban unos a otros nombres mesméricos, y se consideraban como hermanos y hermanas.”

Otro problema que surgió en ese período fue el de la pretensión de los colegios médicos de que sólo fueran autorizados para la práctica del magnetismo los doctores en medicina. Los magnetizadores profanos se opusieron violentamente a esta petición.” HAHAHAHA

Goethe, p.ej., nunca demostró el menor interés por el magnetismo. En cambio, los promotores de la filosofía de la naturaleza lo aclamaron como un descubrimiento de los que hacen época. Schelling vio en el sonambulismo magnético un medio de establecer conexión entre el hombre y el Alma Universal (…) Fichte se mostró más crítico, pero, habiendo observado varias demonstraciones con sonámbulos, llegó a la conclusión de la relatividad del yo y dijo que la individualidad del hombre podía ser alterada, dividida o sujeta a la voluntad de otro. Schopenhauer, que había quedado profundamente impresionado por las demostraciones públicas de Regazzoni en 1854, expresó repetidamente en sus escritos su interés por el magnetismo.”

Aunque no desde un punto de vista económico o técnico, sino filosófico, el magnetismo animal es el descubrimiento más trascendental (inhaltsschwer) jamás realizado, aun cuando, en el momento actual, plantee más enigmas de los que resuelve”

Apenas se hallará un poeta romántico alemán que no fuera influido por el magnetismo animal.”

Si su sonámbula es tan lista, hágale adivinar lo que haré dentro de 8 días y cuáles serán los números premiados en la lotería de mañana.”

Napoleão

E.T.A. Hoffman, Los elixires del diablo (sobre Doppelgänger)

Este relato es notable como anticipación del concepto de Jung de la <sombra>. Medard ha proyectado su sombra (el lado malo de su personalidad) sobre otro ser; de ahí su vida perversa y errática. Una vez que ha aceptado su culpa y asimilado la sombra, consigue una integración mayor de su personalidad.”

Pearl Lenore Curran, nacida en Illinois de padres ingleses en 1883. Aunque un tío suyo era médium, ella nunca pareció interesada por el espiritismo. En 1912, sin embargo, comenzó a experimentar con el tablero Ouija. De forma gradual, le llegaron cartas con rapidez creciente, y a continuación desarrolló vívidos cuadros mentales.” Walter Franklin Prince, The Case of Patience Worth. A Critical Study of Certain Unusual Phenomena, 1927.

Pero quizá la mejor obra de este tipo de literatura sea la novela de Stevenson El extraño caso del Dr. Jekyll y Mr. Hyde.” Podia ser melhor…

Menção de Prévost, Jardim Secreto.

La obra de Proust es de particular interés porque sus sutiles análisis no estaban influidos por F. y los otros representantes de la nueva psiquiatría dinámica. Sus fuentes académicas no fueron otras que Ribot y Bergson.”

+ Ribot, Les Maladies de la mémoire ; Les Maladies de la personnalité

Jung interpretó el Zarathustra de Nietzsche como el resultado de una 2ª personalidad, que se había desarrollado silenciosamente hasta que un día surgió a la luz repentinamente.”

Da, plötzlich, Freundin! wurde Eins zu Zwei

Und Zarathustra gieng an mir vorbei…

Acho que levaram muito ao pé da letra os dois versos!

Jung, p.ej., descubrió que un párrafo completo del Zarathustra de Nietzsche provenía de un artículo del 4º volumen del Blätter von Prevorst (el periódico editado por Justinus Kerner), publicación que se sabía había sido leída por Nietzsche en su juventud. La naturaleza inconsciente del plagio se pudo deducir del hecho de que el texto original estaba modificado de forma rústica e insertado de modo completamente innecesario¹ en la historia de Zarathustra.”

¹ Se a citação não era literal, não cabe chamar de plágio. Se é uma inserção completamente inecessária, creio que um filósofo mais competente deva julgar!

Así es como, dice Wagenvoort, Nie. tomó los conceptos principales desarrollados en El nacimiento de la tragedia del libro La Bible de l’Humanité de Michelet. Según otros historiadores literarios, los principales conceptos originales de Nie. tendrían su origen en Emerson, por medio de la criptomnesia.” Régis Michaud, Autour d’Emerson, 1924.

La historia de la 1ª psiquiatría dinámica es la de una paradoja: durante todo un siglo los nuevos descubrimientos lucharon por ser reconocidos; luego, una vez que lograron el reconocimiento de la medicina oficial, disfrutaron de una fase brillante de éxito de menos de 20 años, seguida de un rápido declinar.” “A partir de 1882 el mundo médico quedó cegado por el hipnotismo; las publicaciones sobre este tema se contaron por centenares, hasta que se alcanzó la saturación y se abandonó la tendencia.”

el primer sujeto hipnotizado imprime sobre el hipnotizador un método y una esperanza determinada de resultados, que modifican el método y los resultados ulteriores. Más aún, el hipnotizador que ha seguido ciertas enseñanzas transfiere su método y sus esperanzas de resultados a sus discípulos, lo que explica el origen de escuelas rivales, cada una con el monopolio de unos fenómenos hipnóticos específicos.”

Mantengo que el trance hipnótico […] tiene algunas analogías tanto con la genialidad como con la histeria. Mantengo que, en sujetos ineducados, es el estado mental más alto en el que nunca han estado; y que, cuando se comprenda mejor y se aplique a sujetos de características superiores, dará lugar a una fluidez de pensamiento más ininterrumpida y firme de la que podemos mantener mediante el esfuerzo en estado vigil en nuestros ajetreados y fragmentarios días.”

Myers

Estas predicciones de Myers se materializaron en el método de autosugestión de Coué, en la técnica del parto sin dolor [¡!] y en el entrenamiento autógeno de Schultz.

Pero es más fácil, desde luego, rechazar en bloc una enseñanza que ha incorporado errores que llevar a cabo el difícil trabajo de seleccionar el grano de la paja, y, como tuvo que concluir Janet, <el hipnotismo ha muerto… hasta el día en que resucite>.”

IV. EL ENTORNO DE LA PSIQUIATRÍA DINÁMICA

eran de estatura más corta, más duros, muy sufridos (la anestesia quirúrgica no existía; los sedantes y narcóticos apenas se conocían; la mente estaba acostumbrada al sufrimiento físico y a la vista del mismo).”

la suciedad se extendía por todas partes y se estaba acostumbrado a los olores fuertes.”

En 1771, después de realizar la circunnavegación del globo, el francés Bougainville publicó una narración de sus viajes, excitando las imaginaciones con su descripción de la pretendida felicidad natural y completa libertad sexual existente entre los nativos de Tahití.” “venza el que venza en esta lucha, aquél será por siempre una criatura infeliz, idea que hicieron suya más tarde Nietzsche y Fraud.” “Se creía que Court de Gébelin (uno de los admiradores de Mesmer) había descifrado los mitos más antiguos y reconstituido el lenguaje primitivo de la humanidad.”

Los castillos medievales todavía existentes habían quedado anticuados y sólo servían como tema de leyendas y <novelas negras>.”

Los campesinos agrícolas eran primitivos en comparación con los modernos. Los campesinos estaban agobiados por los impuestos y tenían que someterse al trabajo obligatorio (lo que en Austria se denominaba trabajo Robot) para el señor de la tierra o para el Estado. Solían ser analfabetos, hablaban innumerables dialectos y casi ninguno comprendía el idioma oficial de su país.”

Las familias nobles que vivían en sus propiedades campestres estaban en íntima relación con las mismas familias de campesinos, generación tras generación. Un individuo podía cultivar las tierras de su dueño y convertirse de forma temporal en criado o soldado suyo cuando éste tomaba el mando de su regimiento. Semejantes relaciones se mantenían durante generaciones y eran, sin lugar a dudas, completamente autoritarias.”

En Rusia era costumbre que los aristócratas castigaran a sus campesinos com el knout (látigo ruso).” Cf. Marivaux, Beaumarchais

Bertrand, físico que se convirtió en uno de los mejores estudiantes del magnetismo animal, contaba curiosas historias acerca de los primeros investigadores que sentían terribles choques a partir de una descarga eléctrica que nosotros sólo consideraríamos ligeramente desagradable, y cómo se asustaban hasta el punto de pasar 2 días en cama, mientras otros físicos realizaban con toda ingenuidad experimentos muy peligrosos, que algunas veces les llevaron a la muerte (Lettres sur la physique, Paris, Bossange, 1825).”

Durante la 2ª mitad del siglo XVIII existieron en realidad 2 neurosis de moda: una, la hipocondriasis, afectaba a los caballeros y consistía en ataques de depresión e irritabilidad. La otra era los vapeurs, la neurosis de las damas distinguidas, que se desmayaban y sufrían variados ataques de nervios.”

En su monumental trabajo El folklore de Francia, Sébillot dedica un capítulo a las creencias y prácticas populares relativas a los árboles (t. III).”

los bosques y los árboles sagrados eran probablemente las divinidades más respetadas entre los antiguos galos (…) si este culto desapareció por fin, fue debido más a la tala y a la utilización de la tierra con fines agrícolas que a las prohibiciones religiosas. En todo caso, el culto de ciertos árboles continuó en forma más o menos solapada hasta los tiempos modernos. En 1854, una investigación demostró que en el departamento del Oise no había menos de 253 árboles a los que se daba un culto más o menos secreto o disfrazado, entre ellos, 74 olmos y 27 encinas.”

Durante muchos siglos, el latín había sido la lengua común de la Iglesia, de la administración y de las universidades europeas. Su supremacía, ya puesta en entredicho por la Reforma, caería por tierra con el nacimiento del nacionalismo. Siguió siendo, sin embargo, el idioma oficial del Parlamento, el Estado y la administración de Hungría hasta 1840, y se suponía que toda persona culta de Europa occidental debía hablarlo con fluidez. Pero en la mayoría de los países, los científicos habían comenzado ya a utilizar sus propios idiomas nacionales, y el uso de latín disminuyó rápidamente tras el advenimiento de la Revolución francesa.

La razón de esta desaparición del latín no hay que buscarla en su inadecuación científica: Newton, Harvey y Linnaeus habían publicado en él sus descubrimientos. Mach piensa que la razón fue que la nobleza deseaba disfrutar de la literatura y la ciencia sin tener que aprender en lenguaje erudito. [plebeya nobreza!] Condorcet proclamó que utilizando el idioma nacional, las publicaciones de los científicos franceses ya no serían un campo inaccesible para el francés medio; dejó que los científicos aprendieran los idiomas de sus colegas extranjeros.” Schopenhauer é extremamente crítico desse abandono do latim pela ciência oficial.

por otro lado, la ciencia perdió parte de la universalidad que le había caracterizado hasta entonces y se convirtió en un asunto nacional, en ocasiones incluso en un arma política.”

Desde el Renacimiento y hasta finales del siglo XIX, se consideraba como cosa obvia que una persona educada debía poseer un gran conocimiento del latín y griego y de sus literaturas, así como de los modernos clásicos de las lenguas nacionales.”

Baldassare Castiglione, The Book of the Courtier

Baltasar Gracían, The Art of Wordly Wisdom

(Repare na insólita semelhança nominal destes dois homens citados à mesma página, sem qualquer inter-relação, um descrevendo o homem da Renascença, o outro o homem do Barroco, em países diferentes!)

El nacimiento de la psiquiatría dinámica a finales del siglo XVIII sólo se puede comprender por completo si se sitúa en la perspectiva cultural e histórica del declinar del barroco y el triunfo de la Ilustración.”

Cassirer, The Philosophy of Enlightenment, 1951

Lessing, Nathan o Sábio, 1779

Badt-Strauss, Moses Mendelssohn, der Mensch und das Werk, 1929 (M.M. foi um judeu heterodoxo que militou contra os arcaísmos da ortodoxia de sua religião)

Beccaria, Dei Delitti e dele Pene, 1764

El propio Kant, en uno de sus libros, escribió un capítulo ‘Sobre el poder de la mente para dominar los propios sentimientos morbosos mediante la simples decisión’, en el que dio reglas para vencer el insomnio, la hipocondriasis y diversas alteraciones físicas mediante una dieta adecuada, la respiración correcta y, sobre todo, el trabajo sistemático intercalado con períodos de relajación completa y el establecimiento de hábitos sólidos, especialmente la realización de actos frecuentes y conscientes de la voluntad.” Segundo consta na historiografia, ele mesmo não seguiu seus conselhos, e morreu quase entregue à idiotia.

personas como el pastor alsaciano Oberlin llevaron pacientes mentales a sus casas y los trataron con una mezcla de terapia de apoyo y ocupacional.”

En Alsacia, la Société de l’Harmonie abrió una serie de servicios ambulatorios gratuitos para todo el que necesitara magnetización. (Que nosotros sepamos, es el primer caso registrado históricamente de tratamiento psiquiátrico gratuito para los desheredados.)

Henri Brunschwig, La Crise de l’état prussien à la fin du XVIIIe siècle et la genèse de la mentalité romantique, 1947

El estudio sistemático de los mitos y símbolos fue comenzado por pensadores tales como Christian Gottlob Heyne, Friedrich Schlegel, Creuzer y Schelling, para los cuales no había errores históricos o conceptos abstractos, sino fuerzas y realidades vivas.”

La Bildungsroman, novela que describía los procesos de desarrollo intelectual y emocional de un individuo, se convirtió en la manifestación literaria preferida y probablemente indujo a los psiquíatras a escribir historias clínicas en conexión con la historia completa de sus pacientes.”

la asombrosa perfección de las traducciones, por los alemanes, de autores extranjeros”

El concepto típicamente romántico de Weltanschauung indica una forma específica de percibir el mundo peculiar de una nación, un período histórico o un individuo. Según Max Scheler, esta palabra fue acuñada por Wilhelm von Humboldt

Schlegel, Lucinde

Cuando se habla de Romanticismo, se piensa normalmente en su expresión literaria, musical o artística; pero en Alemania, el romanticismo invadió también los campos de la filosofía, la ciencia y la medicina. Debido a su gran importancia en relación con el desarrollo posterior de la psiquiatría dinámica, observaremos con más detenimiento sus implicaciones en esas esferas.”

Schelling. Ver especialmente Ideen zu einer Philosophie der Natur, 1797“ “Sche. y sus discípulos veían polaridades por todas partes. Los tratados de química se escribieron bajo el aspecto de la polaridad ácido y base. La fisiología humana se interpretó en función de las polaridades vigilia y sueño, esfera vegetativa y esfera animal (Reil), sistema cerebral y ganglionar (Von Schubert).” Winkelmann como a hipérbole desse tipo de fisiología dualista.

La noción del inconsciente. Esta palabra ya no significaba los recuerdos olvidados de san Agustín o las ‘percepciones oscuras’ de Leibniz, sino que era el verdadero fundamento del ser humano, por estar enraizado en la vida invisible del universo y ser, por lo tanto, el verdadero nexo de unión del hombre con la naturaleza.”

Leibbrand ha dicho que ‘las enseñanzas de C.G. Jung en el campo de psicología son ininteligibles a menos que se conecten con Schelling.’“Los conceptos de Jung de animus y anima no son sino una reencarnación posterior de los Urphänomene románticos, expresados en el mito del Andrógino.”

não há um só conceito de Fraud ou Jung que não fôra antecipado pela filosofia da natureza e medicina românticas.”

Schopenhauer, aunque no exactamente romántico, perteneció a la misma época y debe ser considerado entre los antecesores de la moderna psiquiatría dinámica.”

FRACAS ASPIRAÇÕES: “El verdadero objetivo de la filosofía es convertir el espíritu en un órgano de conocimiento a través del cual el hombre pueda tomar conciencia de realidades espirituales más altas: esto es lo que Troxler denominó antroposofía. Existen claras semejanzas entre esta doctrina del desarrollo de la mente humana y el concepto de individuación de Jung, así como entre el Gemüt de Troxler y el Selbst de Jung.”

Carl Gustav Carus (1789-1869), médico y pintor, es célebre por su trabajo sobre psicología animal y fisionomía, y en particular por su libro Psyche, que fue el primer intento de dar una teoría completa y objetiva de la vida psicológica inconsciente.” Já fala de um inconsciente absoluto geral (totalmente inacessível); um inconsciente absoluto parcial (indiretamente acessível); e de um inconsciente relativo ou secundário (partes do presente, ou seja, da consciência e da vivência, relegadas agora ao passado). Ainda parece incorporar sem contradições o a priori kantiano e antecipar o inconsciente coletivo junguiano.

En la obra Psyche se presenta la vida de un médico y agudo observador de la mente humana. Revela cómo estaba modelada la teoría del inconsciente a finales del período romántico, antes de que empezara a predominar la teoría positivista. Carus fue la fuente de Von Hartmann [¡pésimo!] y de los últimos filósofos del inconsciente, [¿?] así como de la teoría de los sueños de Scherner.”

Schopenhauer (1788-1860) había publicado su obra principal, El mundo como voluntad y representación, en 1819, mucho antes de que Carus publicara su Psyche, pero permaneció ignorado por filósofos y críticos durante 20 años. Comenzó a ser famoso a partir de 1850. Fue [<]maestro[>] de Wagner y Nietzsche [nunca os conheceu], y sus obras lograron un gran éxito en la década de 1880. [después de muerto, como siempre]

La voluntad de Böhme, Schelling y Sch. tomó por último el nombre mucho más apropiado de inconsciente. El inconsciente de Von Hartmann adquirió aparentemente las cualidades de la idea de Hegel” Parca compreensão filosófica. Mas o que esperar de psiquiatras e historiadores… Para colmo, Von Hartmann copiou o inconsciente tripartite de Carus.

O ponto mais vulnerável e atacável da obra de Ellenberger: “Realmente no cabe duda de que existe algo como la enfermedad creadora, de la que la persona surge con una nueva visión del mundo o con una nueva filosofía, como vimos cuando habláblamos de los hechiceros y veremos al referirnos a Fechner, Nietzsche, Fraud y Jung.”

Nos limitaremos a 4 de estos pioneros: Reil, Heinroth, Ideler y Neumann.”

Kirchhoff llama a Johann Christian Reil (1759-1813) <el descubridor y fundador consciente de la psicoterapia racional>.” Reil fala em “teatro terapêutico” (atual psicodrama) já em 1803. Já então havia superado o falso dilema muito ulterior organicismo X psiquismo.

Johan Christian August Heinroth (1773-1843) es ridiculizado todavía hoy por haber proclamado que la causa principal de la enfermedad mental es el pecado. De hecho, bastaría substituir el término <pecado> por el de <sentimento de culpa> para que pareciera casi contemporâneo. (…) La consciencia no se origina ni en el mundo externo ni en el yo, sino en un Über-Uns (super-nosotros), que Heinroth parece igualar con la razón y com un camiño que lleva a Dios.”

Karl Wilhelm Ideler (1795-1860) (…) cree firmemente en la posibilidad de una psicoterapia de las psicosis.”

Heinrich Wilhelm Neumann (1814-1884): Segundo este último, a angústia não é um sentimento universal do homem, mas supõe um desequilíbrio instintual.

Sintomatologia um tanto incomum e mal-aceita no próprio 2021: “religiosidad morbosa, e interés exagerado por el servicio divino y el pastor.”

La mayoría de estos psiquíatras [románticos] eran alemanes. El belga Guislain, que expuso ideas originales acerca del papel de la angustia en la génesis de la enfermedad mental, pertenece al mismo grupo”

Sempre a culpa e a impotência como motores.

al parecer encontraron poca o ninguna comprensión por parte de las autoridades públicas.” “El estudio de la anatomía del cerebro adquirió una importancia fundamental, y el trabajo de estos pioneros cayó em el descrédito o el olvido. Pero cualquiera que conozca el trabajo de Reil, Heinroth, Ideler, Neumann y Guislain reconocerá un retorno a estas fuentes olvidadas en muchos de los descubrimientos de Bleuler”

1850s: a década mundial do Positivismo.

Românticos retardatários: Fechner (o médico que virou físico) e Bachofen.

Wundt, Gustav Theodor Fechner. Rede zur Feir seines hundertjährigen Geburtsages, 1901. (terá tradução? ver abaixo)

Fe. obtubo una plaza universitaria no remunerada y se ganaba la vida traduciendo obras científicas y redactando libros de texto elementales y enciclopedias populares. De cuando en cuando publicaba breves folletos literarios bajo el seudónimo de Dr. Mises. En uno de ellos, Anatomía comparada de los ángeles, siguió la curva de evolución del reino animal, desde la ameba hasta el hombre y a continuación, mediante extrapolación, trató de construir la forma ideal de um ser aún más alto, el ángel. Llegó a la conclusión de que tales seres serían esféricos, percibirían la gravitación universal del mismo modo que los humanos perciben la luz, y se comunicarían entre ellos por medio de un lenguaje de signos luminosos, al igual que los humanos conversan entre sí por medio de un lenguaje acústico. En 1836 publicó El libro de la vida después de la muerte, que firmó con su próprio nombre”

En 1833, a la edad de 32 años, Fechner se casó y obtuvo la plaza de profesor de física en la Universidad de Leipzig. En palabras de Wundt, <desde el momento en que logró una posición independiente que le daría libertad para su propio trabajo, desde este mismo momiento, falló su fortaleza. El trabajo excesivo le había dejado exhausto.>”

Durante los 6 años siguientes, 1834-40, prosiguió con su trabajo gracias a un esfuerzo considerable, y realizó en sí mismo experimentos sobre fenómenos visuales subjetivos. Su vista resultó dañada y en 1840, a los 39, sufrió un colapso y tuvo que abandonar sus atividades profesionales durante los 3 años siguientes.” Ficou biruta depois da recuperação: “Al abrir los ojos en el jardín por 1ª vez después de sus 3 años de oscuridad, quedó sorprendido por la belleza de las flores; comprendió que tenían un alma, y escribió su libro Nanna, o el alma de las plantas.” “Una vez recuperado, Fe. vivió en perfecto estado de salud durante el resto de su vida, pero dentro de él había tenido lugar una notable metamorfosis.”

Durante la 2ª mitad de su vida, escribió numerosos tratados bien estructurados y originales, la mayoría en un bello estilo lírico. Con su antiguo seudónimo de Dr. Mises publicó una colección de los acertijos que había compuesto durante su enfermedad. Con su nombre real escribió 2 de las obras más típicas de la filosofía de la naturaleza: Nanna, probablemente la 1ª monografia dedicada a la psicología de las plantas, una rama eminentemente romántica de la psicología. El trabajo siguiente, Zend-Avesta, cuyo título estaba tomado de los libros sagrados de los antiguos persas, tenía el fin aparente, en la mente del autor, de ser una Biblia de la filosofía de la naturaleza. Fechner afirma que la Tierra es un ser viviente, de un nivel superior al hombre y correspondiente al de los ángeles deducidos hipotéticamente por él en su antigua Anatomía comparada de los ángeles.” “Al examinar el lugar de la Tierra dentro del sistema solar, Fechner introduce los principios de <estabilidad> y de <repetición>. El sistema solar se mantiene a sí mismo mediante la repetición periódica de posiciones y tipos de movimientos idénticos; la estabilidad toma, por tanto, la forma específica de repetición. El Zend-Avesta contiene las primeras indicaciones de la aplicación de los principios de estabilidad y repetición a la fisiología y psicología humanas, y la 1ª mención de la <ley psicofísica>.”

Estos trabajos filosóficos fueron publicados en un momento muy desfavorable, ya que la filosofía de la naturaleza había quedado anticuada. Sin embargo, Fechner nunca desesperó de propagar su filosofía, aunque, dice Wundt, modificó su táctica y volvió a la psicología existente entre el mundo físico y el espiritual. Pensaba que debería existir una ley general que gobernara esta relación, y trató de descubrir la fórmula matemática más probable que la expresase. Según su propio relato, esa fórmula, a la que denominó ley psicofísica, se le ocurrió repentinamente en la mañana de 22 de octubre de 1850, a tiempo para mencionarla brevemente en su Zend-Avesta. A continuación procedió a diseñar una larga serie de experimentos para comprobar la certeza de la misma, trabajo en el que estuvo absorbido los 10 años siguientes. [Não diria que a metade final de sua vida foi lúcida!] Sus hallazgos fueron recogidos en los 2 volúmenes de la Psicofísica publicados en 1860, que despertaron un interés considerable y fueron el punto de partida de la moderna psicología experimental.”

En un estudio crítico sobre la teoría darviniana de la evolución de las especies, Fechner formuló su <principio de la tendencia a la estabilidad>, principio teleológico universal que trataba de completar al principio causal.”

MUITO REVELADOR: “En 1876 publicó su trabajo sobre estética experimental, intento de basar la estética en la investigación experimental y de comprenderla desde el punto de vista del principio del placer-displacer. Ese mismo principio, lo aplicó a la psicología del ingenio y de los chistes. En 1879, a los 78 años, publicó La visión de día en contraste con la visión de noche, en el que opone su propia visión panteísta del mundo (que llama <visión de día>) a la concepción seca, desconsolada, del cientificismo materialista contemporáneo [y del futuro siglo XX].”

En 1879 fue abierto en Leipzig por Wilhelm Wundt, gran seguidor de Fechner, el primer instituto de psicología experimental. Leipzig, la ciudad adoptada por Fechner, se convirtió en el centro de la nueva ciencia y los estudiantes llegaban a ella desde todas las partes del mundo.”

A finales del XIX parecía que Fechner sólo sería recordado como un pionero de la psicología experimental y como el autor de la <ley psicofísica fundamental>. Irónicamente, sin embargo, fue de su filosofía de la naturaleza de donde Fraud tomó varios conceptos básicos que incorporó en su metapsicología.”

Johann Jakob Bachofen (1815-87), promulgador de la teoría del matriarcado [ou não, conforme abaixo!] (…) que tropezó con la indiferencia o con las críticas agudas de los especialistas.” “Así es como Bachofen se convirtió, en palabras de Turel, en <el historiador de una época sin historia>.” “Residiendo en Basilea, Bac., digno caballero de modales ceremoniosos, llevó la vida de un Privatgelehrter (erudito particular), dividiendo su tiempo entre la escritura de libros y los estudios en Italia y Grecia. Vivió soltero en la casa de sus padres hasta los 50 años, en que contrajo matrimonio con una hermosa prima suya de 20. En su ciudad nativa era considerado como un intelectual maduro y algo excéntrico. Cuando murió, en 1887, su fama había comenzado a extenderse por todo el mundo.

Aunque desconocida para Bac., la teoría del matriarcado ya había sido anticipada por Joseph François Lafitau (1681-1746), erudito jesuita que vivió 5 años entre los iroqueses. El padre Julien Garnier, que había pasado 60 años de su vida con los algonquinos, hurones e iroqueses, le había contado todo lo que sabía acerca de sus costumbres y organización social.” “Otro erudito francés, el abbé Desfontaines, describió, en una novela que pretendía relatar las aventuras del hijo de Gulliver (Le nouveau Gulliver, ou Voyages de Jean Gulliver, fils du capitaine Lemuel Gulliver, 2vols., 1730), una isla imaginaria, Babilary, donde el poder residía en manos de las mujeres, quienes lo utilizaban de la misma manera que hacen los hombres en la mayoría de las civilizaciones contemporáneas. El libro contenía un apéndice supuestamente escrito por un erudito, el cual, habiendo leído la historia del hijo de Gulliver, advertía que en aquella isla no había nada que resultara nuevo para quien estuviera familiarizado con la historia de los antiguos licios y escitas.”

Me pergunto se Bachofen tem alguma fonte legítima! “se daba preferencia a las hermanas sobre los hermanos y al último hijo sobre el mayor; existía, por último, la preferencia del lado izquierdo sobre el lado derecho. § Bac. consideraba el paso del matriarcado al patriarcado como un progreso hacia un estadio superior de civilización.”

El amazonismo, como se expresa en las antiguas leyendas, fue una especie de imperialismo femenino (decía Turel), que apareció durante la vieja lucha entre el hetairismo [estado orgíaco a-familial da horda primitiva] y el matriarcado, y posteriormente como una degeneración de éste durante su lucha contra el patriarcado naciente.”

Una vez establecido sólidamente el sistema patriarcal, el recuerdo del matriarcado se hizo tan intolerable para los hombres que fue <olvidado>.” E agora que foi lembrado e é discutido e até exaltado, a ele o homem deverá ser retornado!

La trilogía de Esquilo la Orestíada era para Bach. una representación simbólica de la victoria del matriarcado, de la vindicación del principio patriarcal y del triunfo final de este último.” Yocasta, túputo.

La falta de éxito de la obra de Bachofen hay que imputarla en parte a la mala estructuración del libro, a sus numerosas digresiones y a las largas citas en latín y griego sin traducir.” “En Basilea, ni siquiera un erudito como Jakob Burckhardt las comprendió. Sin embargo, el viejo Bachofen encontró un admirador en el joven Nietzsche, el cual adoptó su concepto de las civilizaciones dionisíaca y apolínea (con la diferencia de que N. consideró la civilización dionisíaca como viril…).” Cf. Baeumler, Bachofen und Nietzsche, 1929.

Aunque casi ninguno de los trabajos de Bach. ha sido traducido a otros idiomas, muchos de sus conceptos se hicieron populares y se encuentran (más o menos deformados) en numerosas publicaciones de historiadores, etnólogos, sociólogos, escritores políticos, psicólogos y psiquíatras, la mayoría sin referencia de su nombre.”

Bachofen descubrió el fenómeno de la represión medio siglo antes que Fraud.” “Baeumler ha señalado que (mucho antes que Nietzsche) Bachofen había desmontado el sistema de valores de la burguesía del siglo XIX, al demostrar que el campo de la vida sexual no estaba en su orden subordinado a los valores morales, sino que tenía dimensiones insospechadas y un complejo simbolismo propio.” “La influencia de Bachofen llegó hasta Alfred Adler a través de los intermediarios Engels y Bebel. Adler afirma que la opresión actual de las mujeres por los hombres representa una sobrecompensación masculina de un estado previo de dominación femenina.”

En 1840 Alexis de Tocqueville profetizó que EEUU y Rusia surgirían repentinamente como cabezas rectoras que algún día dominarían el mundo y se lo repartirían. En 1869 Bachofen predijo que la historia del siglo XX hablaría únicamente de América y Rusia, y que el papel de la vieja Europa quedaría limitado al de maestro de los nuevos amos.”

Mientras tanto, había surgido una nueva filosofía que se haría cada vez más popular, el positivismo. Su origen se puede remontar a los enciclopedistas franceses del siglo XVIII, y en particular a Condorcet” “La nueva filosofía, que había sido inaugurada al comienzo del siglo XIX por Saint-Simon, fue sistematizada por Auguste Comte, su discípulo Littré en Francia, y por John Stuart Mill y Herbert Spencer en Inglaterra.”

Foi Augusto Comte quem criou a palavra <sociologia>, e quem estabeleceu os fundamentos de dita ciência, que dividiu em sociologia estática e dinâmica.”

En Alemania (…) el intento [revolucionario] de unidad solamente se hizo realidad posteriormente, gracias a Bismarck, y bajo la hegemonía prusiana. (…) Se generalizó entonces la depresión entre los jóvenes. Muchos de los jóvenes europeos más progresivos y enérgicos, especialmente de Alemania, se sintieron cansados de Europa (europamüde) y emigraron a los EEUU.” “Las manifestaciones psicológicas amplias y colectivas que acompañaron y siguieron a la revolución de 1848 no han sido objeto de una investigación sistemática.”

¿Creéis –preguntaba Nietzsche- que las ciencias habrían tomado forma y se habrían engrandecido si los magos, los alquimistas, los astrólogos y los brujos no la hubieran precedido? ¡Ellos fueron los primeros en crear, con sus promesas y pretensiones, el ansia, el hambre y el gusto por los poderes escondidos y prohibidos!”

Nunca ha sido fácil encontrar un criterio para definir lo que es ciencia y lo que no lo es. El magnetismo animal, la frenología y la homeopatía fueron aclamados como maravillosos descubrimientos científicos y como nuevas ramas de la ciencia.”

La creencia universal en la ciencia tomó muchas veces la forma de una fe religiosa y produjo la mentalidad que ha sido llamada cientificismo. La tendencia cientificista llegó a negar la existencia de todo aquello a lo que no se pudiera llegar por métodos científicos, y en muchas ocasiones se confundió con el ateísmo. A partir de 1850, una ola de libros de vulgarización que propagaban la creencia exclusiva en la ciencia la combinó con el ateísmo, y en ocasiones con una enseñanza muy simplificada del materialismo. Esta dirección siguieron los trabajos de Büchner, Moleschott y Vogt, y posteriormente los de Haeckel.”

Era sabido desde luego que la ciencia podía ser aplicada también a la búsqueda de medios de exterminio, pero se consideraba una divertida paradoja el hecho de que personas como el anarquista Bakunin o Ernest Renan expresaron la idea de que probablemente se utilizara algún día para la opresión y destrucción de la humanidad.”

The enemies of Judaism, however, if you only look at them more closely, you will see that they are the enemies of the modern spirit in general.”

Renan

Francis Darwin (ed.), Charles Darwin, Life and Letters (3 volumes), 1887.

En realidad, la teoría del transformismo se puede encontrar ya en los filósofos griegos Anaximandro y Empédocles, así como en su contemporáneo chino Tson-Tse, el cual, según Nehru, había escrito lo siguiente en el siglo VI a.C.:

Todas las organizaciones se originan a partir de una especie única. Esta especie única sufrió numerosos cambios graduales y continuos, y después dio lugar a todos los organismos de diferentes formas. Tales organismos no se diferenciaron inmediatamente, sino que, por el contrario, adquirieron sus diferencias mediante cambio gradual, generación tras generación.” Cf. Jawaharlal Nehru, Glimpses of World History, 1942.

Los historiadores de la ciencia han identificado una serie de precursores de Darwin en el siglo XVII, llegando a la conclusión de que el pensamiento evolucionista estaba ampliamente extendido en su tiempo. (…) El mérito de D. es el de proponer una nueva explicación causal y haber apoyado su teoría con un gran número de argumentos [pruebas]”

“…que el progreso de la paleontología proporcionará los eslabones perdidos que permitan relacionar las especies conocidas con sus supuestas formas ancestrales.” Esperança darwiniana que era seu calcanhar-de-Aquiles, que Nietzsche pegou no pulo. Simplesmente não há esas formas intermediárias.

La lucha por la vida, concebida en un sentido más hobbesiano como <guerra de todos contra todos>, fue proclamada ley universal descubierta y demostrada por D., <ley de hierro> que gobernaba el mundo viviente y la humanidad y que proporcionaba un criterio para la ética. Hubo, no obstante, como es lógico, científicos que trataron de delimitar en forma objetiva el significado real de los pensamientos de D.”

Gertrude Himmelfarb (Darwin and the Darwinian Revolution) cita varias obras de destacados naturalistas contemporáneos en las que se afirma que la aceptación común del darwinismo no responde a ninguna comprobación satisfactoria, sino que tiene su origen en el miedo existente en la mente humana a la presencia de lagunas en nuestro conocimiento, y en el hecho de que los científicos prefieren una explicación insatisfactoria a la ausencia de toda explicación.”

Shute, Flaws in the Theory of Evolution, 1961

Rabaud, ‘L’Interdépendance générale des organismes’, Revue Philosophique, 59, n. 2 (1934), 171-209.

Carl Du Prel aplicó seriamente el darwinismo a la astronomía y describió la <eliminación> del sistema solar de los cuerpos celestes <no adaptados>, como los meteoritos, asteroides y ciertos cometas.”

D. había tenido la precaución de no inmiscuirse en el campo de la filosofía, pero sus seguidores dedujeron de sus ideas un sist. filosófico, y particularmente un concepto nuevo de la evolución y del progreso.”

CURIOSIDADES ANÓDINAS: “El botánico Asa Gray (1810-88), primer seguidor de D. en América, patrocinó el <ala teísta> del pensamiento evolucionario desde el comienzo.”

A baboseira da ontogenia recapitula a filogenia: moto do professor maníaco e delirante de grandeza de Fraud (vê-se como os teutônicos não tinham muito como fugir da Zeitgeist!), o acima-citado sr. Haeckel. Mas, para variar, Hae. tinha muito mais boa-fé que seu discípulo involuntário: “Más tarde reconocería que esta ley no es constante, ya que la serie de metamorfosis puede ser reducida o incluso alterada.” “monismo” “ser viviente elemental, la mónera, ser unicelular sin núcleo que el propio Haeckel pretendía haber visto a través del microscopio.” “protistos” “No existe diferencia entre la naturaleza orgánica y la inorgánica: la vida es un fenómeno físico caracterizado por un tipo peculiar de vibración de la materia.” “Hae. reconstruyó el árbol genealógico completo del hombre en 22 grados, siendo la mónera el primero de ellos y el hombre el último” “el nº 21 se suponía que era el <pitecantropo>, relacionado con los antropomorfos.” “El hombre había aparecido en Lemuria, continente hoy sumergido que estuvo entre India y África” Parem de lamúrias, lêmures!

Nunca comprendió que su sistema no era sino un resurgir perdido de la filosofía de la naturaleza. Lo consideraba absolutamente científico y hoy día resulta difícil imaginar el fantástico éxito que tuvieron sus teorías durante varias décadas, especialmente en Alemania” “Fue principalmente bajo el ropaje impuesto por Haeckel como los jóvenes de la generación de Fraud tuvieron su primer contacto con el darwinismo. Su prestigio fue tan alto que, cuando el joven Rorschach dudaba en 1904 entre el arte o las ciencias naturales, consideró un paso lógico escribirle y pedirle consejo.”

La influencia más importante del darvinismo fue la ejercida a través del darvinismo social, es decir, la aplicación indiscriminada de los conceptos de <lucha por la vida>, <supervivencia de los más aptos> y <eliminación de los menos aptos> a los hechos y problemas de las sociedades humanas.” “En la filosofía pseudodarviniana que persuadió a las minorías europeas de que la guerra es una necesidad biológica y una ley inexorable han visto algunos la causa del desencadenamiento de la Primera Guerra Mundial.”

el anarquista ruso Kropotkin advirtió (Memoirs of a Revolutionist, 1899) la necesidad de revaluar la fórmula de Darwin sobre la base de los datos que había encontrado en los trabajos de los zoólogos rusos Kessler y Syevertsoff.”

NÃO FOI POR FALTA DE AVISO: Norman Angell, The Great Illusion, a Study of the Relation of Military Power in Nations to Their Economic and Social Advantage, 1910.

En realidad, pocos hombres han estado menos preparados para una vida de dura competición que el propio Darwin, cuya 1ª ambición fue la de convertirse en clérigo rural y dedicar el tiempo libre a su hobby de la historia natural. Su mala salud le había eliminado de cualquier carrera universitaria. No podría haber llevado a cabo su trabajo a no ser por su fortuna personal y los cuidados de su devota esposa. Evitó la participación personal en las controversias provocadas por sus teorías y dejó que las defendieran sus seguidores.”

Es interesante citar que Fraud partió de la consideración exclusiva de la libido y sólo posteriormente supuso la existencia de otro instinto agresivo y destructivo, mientras que Darwin había seguido el camino opuesto

La teoría de la génesis del remordimiento fue desarrollada por Nietzsche en su Genealogía de la moral, <prototipo> [EUFEMISMO PARA FONTE DE PLÁGIO] de las nociones expuestas por Fraud en El malestar de la civilización.”

De hecho, Marx y Engels no gustaban de dirigir organizaciones revolucionarias, aunque participaron en varios movimientos de este tipo en Alemania.”

Wilhelm Griesinger (1817-69), psiquíatra representativo de la mitad de siglo. En 1845 publicó un libro de texto sobre psiquiatría, tras lo cual pasó varios años en Egipto como director del Servicio de Sanidad Pública. Tras su regreso a Europa, se convirtió en 1860 en el primer director del hospital mental de la recientemente fundada universidad de Zurich, el Burghölzi. En 1867 publicó una 2ª edición, considerablemente aumentada, de su obra, que se convirtió en el libro de texto oficial de psiquiatría para toda una generación. Griesinger es considerado muy a menudo como el hombre que materializó la victoria del Somatiker sobre el Psychiker.”

Casi todas las ideas fijas son en esencia expresiones de una frustración o gratificación de un interés emocional propio” agridoce obsessão

Gr. se sitúa en la encrucijada de la mayoría de las tendencias psiquiátricas del XIX: anatomopatología cerebral y neuropsiquiatría, y psiquiatría clínica y psiquiatría dinámica. (…) Se le considera también como el fundador de la psiquiatría universitaria: después de él, los grandes dirigentes de la psiquiatría fueron necesariamente profesores universitarios.”

Hasta 1860, la psiquiatría francesa estaba en un primer plano, hasta tal punto que la mayoría de las historias clínicas recogidas en el libro de texto del propio Griesinger estaban copiadas de autores franceses.

Sus seguidores, hombres como Westphal, Meynert y Wernicke, desarrollaron su enfoque orgánico de la enfermedad mental, pero parecieron olvidar el aspecto psicológico dinámico de sus enseñanzas. La síntesis ulterior de la psiquiatría orgánica y la dinámica sería obra de un remoto sucesor de Gr. en el Burgh.: Eugen Bleuler.”

NASCE A DEPRESSÃO E EXAUSTÃO POR ESTRESSE, CHAMADA ENTÃO DE “MAL DO INGLÊS”: “James Johnson destacó el papel desempeñado por el exceso de trabajo, la falta de ejercicio al aire libre, y el lóbrego humo suspendido sobre las ciudades. No encontraba otro remedio que el descanso anual y el viaje al extranjero. [¡!]”

QUANDO EMBARCA NO TRANSATLÂNTICO: “En 1869 George M. Beard describió en los EEUU una enfermedad parecida, na neurastenia.” “El neurasténico es una persona que gasta más de lo que tiene y que, si continúa haciéndolo, entra en una <bancarrota nerviosa>.” “Es de destacar que tanto la noción de fuerzas nerviosas como las comparaciones financieras se encontrarían de nuevo de forma más sistematizada en los escritos de Janet.”

Beard fue uno de los primeros médicos, si no el 1º, que buscó una explicación psicológica dinámica del alcoholismo.” “Las ideas de Beard tuvieron un gran éxito. La neurastenia no sólo era una enfermedad de los profesionales y de los hombres que trabajaban mucho, sino que era la neurosis de la propia vida moderna. Para su tratamiento se erigieron sanatorios en América y Europa. Sin embargo, en la medida en que se generalizó su diagnóstico, su origen se adscribió más a factores constitucionales y de otro tipo que al trabajo; p.ej., a alteraciones sexuales y a la masturbación.” Um tanto CONVENIENTE DEMAIS para o modo de produção, não acham?!

Conclusão do capítulo: O fanatismo religioso e o positivismo são inimigos de igual monta da psiquiatria dinâmica.

V. EN EL UMBRAL DE UNA NUEVA PSIQUIATRÍA DINÁMICA

Como las transacciones financieras se efectuaban en moneda oro, el dinero parecía algo constante, fiable y de valor universal y duradero.” “A pesar de las rivalidades (…) las fronteras eran casi inexistentes: cualquiera podía abandonar su residencia y, suponiendo que tuviera medios, llegar a cualquier parte del mundo sin pasaporte, visado o cualquier otra formalidad (con la única excepción de Rusia y Turquía).” “los edificios bancarios y los hoteles se construían con paredes tan gruesas como la de las fortalezas”

Había numerosos clubs de caballeros, e incluso en las reuniones sociales mixtas, los hombres se congregaban en la sala de fumar mientras las damas quedaban en otra habitación, una vez concluida la cena.” “Era raro encontrar alguna con pantalones, que llevara el pelo corto o que fumara.” “el padre despótico era un lugar común, y solamente destacaba cuando era extremadamente cruel.” “Los militares, magistrados y jueces gozaban de gran prestigio.” Isso sim parece incrível!

Marcel Proust captó en su obra el espíritu de la época al describir aquellos hombres y mujeres ociosos, su forma de vida, su charla vacía.”

Esta misma atmósfera hacía surgir apasionamientos repentinos, como la moda por la música de Wagner, por las filosofías del inconsciente de Schopenhauer y Von Hartmann, y posteriormente por los escritos de Nietzsche, por los simbolistas, los neorrománticos, etc.” Uma dessas paixões se sobrepôs e sobreviveu a todas as outras, alguém seria capaz de responder qual?

Para as gerações atuais, o espírito vitoriano representa um estilo arquitetônico feio, um mobiliário incômodo, tapeçarias pesadas, cerimônias pomposas, uma fraseologia solene, uns preconceitos datados e um puritanismo ridículo. Mas, para seus contemporâneos, a palavra <vitoriano> sugeria <vitória> (…) O que para seus atuais descendentes se denomina hipocrisia, para eles era autodisciplina e dignidade.”

Al contrario de lo que se supone hoy día, los temas sexuales se trataban con franqueza en la literatura médica y antropológica” O problema era na família.

En el continente, el poder dirigente pasó a Alemania, que, después de haber sido durante siglos una <nación sin Estado> conseguía finalmente la unidad. Ésta, sin embargo, no había llegado bajo el Parlamento democrático de Frankfort de 1848, sino en 1871, bajo la égida de Prusia y de su canciller de hierro, Bismarck.”

En Europa, Alemania había sido considerada hasta entonces como una nación de románticos, músicos, filósofos, poetas y científicos inseguros; ahora, al alborear su despertar político, empezó a dar la impresión de un pueblo agresivo que sólo respetaba la fuerza.” “Alemania, que entró en la competición colonial en 1890, tuvo que contentarse, de mala gana, con las migajas.” “Con el tiempo, los alemanes se sintieron obsesionados asimismo por el temor de ser <rodeados> por las fuerzas combinadas de Francia, Inglaterra y Rusia.”¹ “A los ojos de numerosos alemanes, la anexión de Alsacia era únicamente una reconquista del antiguo territorio alemán <robado> por Luis XIV (lo que, sin embargo, no justificaba su anexión simultánea de una gran parte de la Lorena francesa, de gran importancia estratégica).”

¹ Muito mais legítima a preocupação russa no XXI. E a hipócrita Alemanha é a primeira a se ofender por isso!

Pero la población francesa no aumentaba como la de otros países, lo que contribuía a la imagen estereotipada de Francia como una <nación declinante>, sentimiento éste ampliamente extendido en Alemania.”

Austria-Hungría no era un Estado nacional unificado como Francia o Alemania, sino como un <mosaico de naciones y ruinas de naciones> mezcladas de la forma más compleja. La opinión actual ve muchas veces en la monarquía austro-húngara una institución ridícula y pasada de moda, con su Corte Imperial y su aristocracia todavía aferrada a las tradiciones barrocas.” “La monarquía austro-húngara estaba considerada por algunos como un castillo en el aire que se podría desmoronar al menor toque, y por otros como un milagro de inteligencia política y como elemento indispensable para el equilibrio europeo.”

el turco, denominado el hombre enfermo de Europa”

A pesar del carácter políglota de la monarquía, el alemán era su idioma principal, se hablaba en la Corte y contaba con un gran prestigio cultural.” “La población vienesa, muy distinta de los fríos, duros y disciplinados alemanes, era cordial, alegre, bienhumorada y amiga de las bromas.”

mientras en el resto de Europa las clases más altas miraban con desprecio a los campesinos, entre la élite rusa estaba extendida la creencia de que el pueblo es la fuente de toda la cultura.” “Una segunda característica era que Rusia fue el lugar elegido para el <nihilismo>, tendencia que se podría definir por su fascinación por la idea de la destrucción. Sus orígenes remotos se pueden seguir hasta los genocidios en gran escala perpetrados por los mongoles, quienes, desde el siglo XIII hasta el XV, ocuparon la mitad de Asia y Rusia central, mataron incontables millones de seres humanos, redujeron países completos a desiertos y destruyeron ciudades florecientes. En Rusia, a su vez, la matanza se convirtió en un método político en manos del zar Iván el Terrible. Pero entre el pueblo se extendió una mentalidad apocalíptica que dio lugar a la autodestrucción en masa. Así, a mediados del siglo XVII, los Raskolniki (<viejos creyentes>) destruían sus casas y se quemaban vivos antes que aceptar ciertas modificaciones en los libros religiosos. En ellos se inspiraron diversas sectas como los Skoptzy o <auto-castrados> y los Khilisty o <auto-flagelantes>. (…) los nihilistas políticos, en particular el famoso Nechayev, cuyo Catecismo revolucionario es un libro de texto de la ciencia de la destrucción de la sociedad por medios violentos.” “No es, quizá, pura casualidad que el concepto de instinto de muerte fuera expresado por 2 científicos rusos a finales del siglo XIX: el psiquíatra Tokarsky y el fisiólogo Metchnikoff. Para los demás europeos, las tendencias del <retorno al pueblo> y del nihilismo eran características perturbadoras del alma rusa, a la que no pertenecían directamente.”

Robert Payne, Zero. The Story of Terrorism, 1950.

SUPERVIVENTE E NÃO SOBREVIVENTE: “hasta 1900 seguía siendo el latín obligatorio en Francia en las tesis para el doctorat ès-lettres.” “Los alumnos tenían 1º que memorizar las declinaciones, conjugaciones y reglas gramaticales, así como el vocabulario, y a continuación pasaban a componer frases, traducirlas de y al latín, y escribir composiciones, 1º en prosa y después en verso, prestando mucha atención al estilo, de modo que fuera lo más cercano posible al de los grandes clásicos.¹ Después de 6 u 8 años de este estudio, tendrían un dominio perfecto del latín, que utilizarían sólo para escribir, y en muy raras ocasiones para hablar.” ¡Envidia monstruosa!

¹ Hipérbole desagradável. Maneirismo inócuo.

Janet, que leyó la obra de Bacon en latín, Fraud, que leyó antiguos libros sobre brujería en los textos originales, y Jung, que leyó a los alquimistas medievales en su difícil latín, no eran una excepción entre los eruditos de aquella época.”

La universidad no pretendía tanto graduar especialistas como formar personas dotadas de una cultura general que se especializaran en una rama de la ciencia.” Universidades eran, ó!, universidades…

Una carrera universitaria solía ser larga y difícil. Era extraordinariamente raro que un intelectual fuese nombrado profesor universitario durante su juventud. El caso de Nietzsche, titular de una cátedra a los 25, fue una excepción notable.”

Había pasado el tiempo en que los jóvenes intelectuales esperaban hasta su entrada en la universidad actuando como tutores de los hijos de familias acomodadas, trabajo que tanto había disgustado a Fichte, Hegel y otros. En Alemania y en Europa central, el sistema que prevalecía era el del Privatdozent: el profesor explicaba en la universidad sin otra remuneración que los honorarios que pagaban los estudiantes que asistían a las clases.”

Fuchs, Geistige Strömungen in Österreich

no era prudente escribir demasiado y convertirse en un <Narciso del tintero>. Lo más rápido era realizar una investigación activa en alguna de las direcciones principales reconocidas, lo cual significaba también que era peligroso separarse demasiado de la senda trillada.”¹ “era poco recomendable ser mejor reconocido por el público en general que por los círculos universitarios; esto es lo que había ocurrido con Haeckel, el cual, tras iniciar una brillante carrera universitaria, publicó diversos escritos populares acerca de la ciencia y la filosofía que despertaron feroces ataques de sus colegas.”

¹ Essa tendência infelizmente explica a vida (vida não-viva) acadêmica de hoje.

Leyendo la literatura de aquella época, se comprende que una carrera universitaria estaba llena de numerosos obstáculos y podía ser destruida muy fácilmente. El anátomo-patólogo Lubarsch cuenta como estuvo a punto de arruinar su porvenir por un paso en falso. Trabajando como ayudante en el Instituto de Patología de Rostock, preguntó una mañana «quien era el idiota que había puesto una pieza anatómica en una solución química», a lo que el segundo ayudante replicó que se había hecho por orden del profesor. Al día siguiente, Lubarsch recibió una carta del profesor Thierfelder, despidiéndole debido a tal insulto.” HAHAHAHA

También era peligroso cambiar repentinamente la dirección de un trabajo o pasar a otro campo.” O erro de cálculo de Fraud.

UM DEDO DO MEIO PARA A ACADEMIA DESDE O SÉC. XIX: “Bachofen, que había comenzado una carrera prometedora como historiador del derecho, la vio rota cuando publicó su trabajo sobre las tumbas antiguas. Igual ocurrió con Nietzsche, cuya brillante carrera como filólogo se vio amenazada cuando publicó El nacimiento de la tragedia y concluyó definitivamente al aparecer sus siguientes trabajos filosóficos.”

El francés Léon Daudet describió, bajo el nombre de invidia, el tipo de resentimiento profesional que surgía entre los escritores, pero su descripción se podría aplicar igualmente a los profesores de universidad de su época.”

envenenados panfletos” “Cuando Nietzsche publicó El nacimiento de la tragedia, el filólogo Von Wilamowitz-Moellendorf le criticó severamente. A éste le contestó el filólogo Erwin Rohde (Afterphilologie), amigo de Nie., con un escrito virulento que comenzaba con la famosa frase: <Cuando chocan una cabeza y un libro y producen un sonido hueco, ¿proviene éste necesariamente del libro?>.”

Wenn ein Kopf und ein Buch zusammenstossen, und es klingt hohl, ist denn das allemal im Buche?

Cuando Pasteur divulgó su tratamiento preventivo contra la rabia, fue objeto de ataques tan violentos por parte del internista Peter que entró en un estado de depresión y tuvo que tomarse varios meses de vacaciones. En Alemania, cuando Ehrlich descubrió el tratamiento de la sífilis, fue atacado sin misericordia durante varios años.”

Cuando Krafft-Ebing, entonces profesor en Graz, comenzó a trabajar en la hipnosis, fue atacado furiosamente por Benedikt, quien dijo que le sometería a un análisis psicológico.”

A ONDA: “¿Cuántas veces pretendieron los arqueólogos haber descifrado la lengua etrusca, los físicos haber descubierto nuevas radiaciones, los médicos la curación del cáncer, o los historiadores de la literatura haber identificado al verdadero autor de los dramas shakespearianos?” “En ocasiones, un descubrimiento erróneo producía la misma ilusión en otros investigadores, dando lugar así a confirmaciones falsas que tenían que ser refutadas por una investigación más crítica.” O que isso tem a ver com as teses nietzscheanas, por exemplo, no entanto?!

Otra ilusión colectiva que duró mucho tiempo fue el supuesto descubrimiento de los canales del planeta Marte por el astrónomo italiano Schiaparelli en 1877. Varios astrónomos de todo el mundo comenzaron a creer que veían dichos canales y otros semejantes en número cada vez mayor; se publicaron mapas de Marte mostrando hasta 800 de ellos. De ahí se dedujo que el planeta estaba habitado por seres inteligentes. Sin embargo, nadie pudo nunca obtener una fotografía de los canales. En este campo, la ilusión estaba más arraigada debido al componente emocional que suponía el problema de la existencia de seres inteligentes en otros mundos.”

Era corriente que aun los de carácter más apacible se enfurecieran si alguien publicaba como descubrimiento nuevo algo que ellos hubieran publicado ya. En el XVIII hubo una controversia entre Leibniz y Newton acerca del <descubrimiento> del cálculo infinitesimal, que amargó los últimos años de este último.” Essas disputas “[r]aramente concluían en la forma generosa en que D. y Wallace saldaron la suya en 1858 bajo los auspicios de la Sociedad Lineana. August Forel insiste en que halló el núcleo de origen del nervio auditivo del conejo en 1884, y que envió un informe al profesor Bechtereff, de San Petersburgo, el cual le contestó que también él acababa de hacer el mismo descubrimiento, publicándolo poco después en el Neurologisches Zentralblatt.”

Forel [cara azarado!] afirmaba haber descubierto en 1886 la unidad de la célula nerviosa, y enviado su trabajo al Archiv für Psychiatrie, el cual lo publicó en enero de 1887. El mismo hallazgo fue hecho de forma simultánea por His, [his rival!] pero la revista a la que la envió lo publicó en octubre de 1886, con lo que se le dio la prioridad. Tras ello, Ramón y Cajal, Kölliker y, por último, Waldeyer, publicaron el mismo descubrimiento, aunque este último, que acuñó el término <neurona>, fue el que recibió por lo general el honor del mismo.”

Después de su derrota militar, los franceses elevaron a Pasteur, cuyos descubrimientos fueron memorables, al rango de símbolo de la superioridad francesa en el campo del espíritu. Los alemanes opusieron a Koch.”

A ERA DO PAPER: “En el pasado, un erudito podía concentrarse durante años en un volumen importante, que sería la síntesis del trabajo y pensamientos de toda una vida. Con el desarrollo del movimiento científico comenzó la era de las academias y de las sociedades culturales, que se reunían de forma regular y en las que los científicos anunciaban de forma resumida todo nuevo descubrimiento tan pronto como lo conseguían. Fue también la era de los congresos, en los que los c. anunciaban apresuradamente descubrimientos que todavía estaban realizando y resultados que esperaban encontrar. No suele caerse en la cuenta de que tales congresos son relativamente modernos. (…) los grandes congresos [supracionais] con los que estamos familiarizados eran una completa novedad en la década de 1880.”

Os congressos eran reuniões pequenas até então, e “[s]e suponía que los c. de todos los países podían entenderse sin necesidad de intérpretes (sin que hubiera, desde luego, traducción simultánea, procedimiento que ni siquiera existía en la ciencia-ficción de aquella época).”

las Memorias de Moritz Benedikt (1835-1920) nos presentan un relato desconsolador de una vida de frustración científica y profesional en Viena. A 1ª vista parecería que hizo una brillante carrera: pionero de la neurología, electrología, criminología y psiquiatría, enseño en la Universidad de Viena, tuvo una saneada clientela privada, publicó numerosos trabajos, y viajó mucho por países extranjeros, donde era considerado como una de las cabezas de la medicina austríaca. Se ganó la admiración y amistad de Charcot, quien dio su nombre a una rara enfermedad (el síndrome de Benedikt, que este último había sido en realidad el 1º en describir). Sin embargo sus memorias son las de un hombre frustrado que, literalmente, se ahoga de resentimiento. (…) [relata] como nunca se le concedió el profesorado al que creía tener derecho, y cómo sus méritos no fueron reconocidos por sus compatriotas. (…) [inclusive] Relata la hostilidad de los austríaco frente a cualquier tipo de grandeza (…) y la ingratitud para con (…) músicos como Mozart, Haydn, Schubert, el poeta Grillparzer, etc.”

Una gran contribución a la historia secreta de la ciencia sería el análisis detallado de los factores que llevaron la fama a unos científicos, y el olvido a otros. (…) se podría hacer una comparación entre Champollion (1790-1832), considerado como un genio por haber descifrado la escritura jeroglífica egipcia, y Grotefend (1775-1853) que, aunque descifró la antigua escritura cuneiforme persa, está casi olvidado en la actualidad.”

Gordon, Forgotten Scripts: How they were deciphered and their impact on contemporary culture, 1968.

A Pérsia era completamente subestimada pelos folcloristas e entusiastas do mundo antigo: “Solamente después, con el Zend-Avesta de Fechner y el Zarathustra de Nie., se puso un poco más de moda. En 2º lugar, los caracteres cuneiformes eran más abstractos y menos decorativos que los jeroglíficos egipcios, de gran valor artístico.”

Grotefend era hijo de un zapatero remendón; sólo a fuerza de paciencia consiguió ser profesor de un gimnasio y nunca pasó de ahí en la escala docente. Su descubrimiento chocó con la incredulidad, la sospecha y la hostilidad de los orientalistas, quienes encontraban inadmisible que se hubiera conseguido fuera de los círculos universitarios.” [¡!]

En un sentido restringido, el término neorromanticismo designa una serie de poetas alemanes, entre los que se incluyen Stefan George, Gerhart Hauptmann, Hugo Von Hofmannsthal y Rainer Maria Rilke.” Cf. Mason, Rilke, Europe and the English-speaking World, 1961

Nunca en la historia de la literatura habían celebrado los poetas hasta tal punto a Narciso”

Os simbolistas franceses como os primeiros modernistas avant la lettre, uma mistura de niilistas conceituais e dadaístas: forjaram uma bolha para se isolarem da forte ideologia progressista do período e criar uma literatura atávica e acusatória.

O HOMEM-DINAMITE DEIXOU SUAS PEGADAS (ISTO É, SEU RASTRO DE PÓLVORA!): “Quase todos os autores do tempo consideravam sua época como decadente. Não era uma absurdidade de alguns excêntricos, senão uma opinião mantida por patologistas, filósofos e críticos… Visto desde as ruínas do presente, o séc. XIX parece algo incrivelmente sólido, um cúmulo de energia, dureza e autoconfiança, como o foram suas exposições internacionais. Foi o século que absorveu continentes e conquistou o mundo… O porquê de uma época assim, que vivia vigorosamente uma vida vigorosa (sic!) perdeu tanto tempo em meditações lúgubres sobre sua própria decadência, real ou imaginada, é um problema estranho a que não se pode dar uma resposta simples.” Carter, The Idea of Decadence in French Literature, 1830-1900, 1958.

Como demonstrara o mesmo Carter, a palavra <decadência> havia modificado sua conotação em finais do XIX, possuindo agora um matiz peculiar de corrupção rica e sedutora.” “De aquí el éxito del libro de Max Nordau, Degeneración, que contenía una condena radical de los movimientos culturales contemporáneos de aquella época.” “En la década de 1850, Morel había formulado una teoría psiquiátrica en la que se unían casi todas las enfermedades mentales crónicas bajo el nombre de <degeneración mental>. La teoría de Morel tuvo un gran éxito, y en los 1880 dominó junto con Magnan la psiquiatría francesa.”

A principios de la década, Lombroso hablaba del <delincuente nato>, supuestamente resultante de la regresión a un tipo ancestral de hombre.”

Gobineau, Essai sur l’inégalité des races humaines (4 vols.!)

En Francia e Italia, y también en España tras su derrota de 1898 [contra os EUA], la idea de la inferioridad de las razas latinas estaba ampliamente extendida y se asociaba muchas veces con una idea obsesionante de la superioridad de los anglosajones.”

Esta tendencia general culminó en el espíritu fin de siècle. Esta expresión parece haber surgido en París en 1886 y fue posta de moda por Paul Bourget el año siguiente con su novela Mensonges. En 1891 se había convertido en una <calamidad literaria>, que surgía a cada momento en las conversaciones y se podía leer docenas de veces en cualquier página de los periódicos.”

Malwida von Meysenburg (sic), amiga de W. e N., cuenta en sus Memorias (Memoiren einer Idealistin, s/d) cómo el descubrimiento de la obra de Sch. fue para ella una especie de conversión religiosa. Problemas filosóficos que la habían preocupado durante años se resolvieron de repente. Encontró una nueva interpretación de la fe cristiana, junto con la paz de la mente y una nueva significación de vida.”

Se adoptó un nuevo procedimiento literario, el monólogo interior, que pretendía ser una reproducción exacta del flujo de consciencia del individuo. [que a propaganda canarinho diz ter sido inventado por Clarice Lispector décadas depois, hahaha!] El escritor francês Édouard Dujardin y el austríaco Arthur Schnitzler comenzaron a escribir novelas en las que no había acción, sino únicamente una descripción del supuesto devenir del flujo de pensamientos del personaje durante un período dado de tiempo.”

tá tudo denominado

La abundancia de literatura obscena era tal que Jules Claretie, en una revisión del año 1880, escribió: <Aquí yace el año pornográfico 1880>.” “Fue entonces cuando algunas perversiones recibieron los nombres bajo los que todavía se las conoce técnicamente: sadismo, masoquismo, fetichismo, etc. Mario Praz (The Romantic Agony) ha demostrado el papel que desempeñó el vampirismo en el XIX, explicando que el carácter del <vampiro macho> (seductor destructivo o lobo) fue reemplazado gradualmente por el del <vampiro hembra> (la femme fatale) hacia finales de siglo.”

escritores como De Maupassant, Wedekind, Wildgans y Popper-Lynkeus glorificaron las prostitutas.”

PARIS E VIENA, MODERNAS SODOMA E GOMORRA: “Escritores como Paul Morand, rememorando dicho período, son propensos a considerarlo como una época frívola que no produjo sino trivialidades, e insisten en el morboso erotismo que impregnaba la vida. André Billy, sin embargo, afirma que dicho erotismo, que no niega, era de una alta calidad y formaba parte de la búsqueda entonces corriente de la felicidad.”

Ya se ha señalado que muchas de las historias clínicas de Pinel parecen haber sido tomadas de las novelas de Balzac. Del mismo modo, los pacientes de Janet muestran numerosas semejanzas con algunos de los personajes de Zola (La Irène de J., p.ej., con Pauline, la heroína de La joie de vivre). La Electra de Hofmannsthal se asemeja mucho más a la famosa Anna O. de Breuer que a la Electra de Eurípides, y Dora parece sacada de una de las historias cortas de Schnitzler.” Parece ou foi – pois lidamos com um escritor mitomaníaco, e não com um médico na acepção da palavra!

Kraepelin se ha convertido en piedra de escándalo para numerosos psiquíatras actuales, los cuales afirman que su único interés por los pacientes era colocarles etiquetas diagnósticas, tras lo cual no hacía nada más para ayudarles. De hecho, sin embargo, se interesaba al máximo por que cada uno de sus pacientes recibiera el mejor tratamiento disponible”

La compensación que Forel encontró en su infancia fue el estudio de las hormigas, campo en el que se hizo probablemente el principal especialista del mundo. (…) Fo. perteneció inicialmente a la escuela de los organicistas, pero por su actitud sufrió un cambio gradual. Se preguntó por qué los psiquíatras eran incapaces de curar a los alcohólicos, hecho que algunos profanos lograban. (…) Organizó un servicio de policlínica en el que también se aplicó con éxito tratamiento hipnótico a pacientes afectos de reumatismo y diversos trastornos físicos. Entre los estudiantes de Fo. se encontraban Bleuler, que llegó a ser el psiquíatra más prominente de Suiza, y Adolf Meyer (1866-1950), que sería el psiquíatra más famoso de los EEUU.”

La familia de Bleuler había tomado parte en la lucha política que llevó finalmente, en 1831, al reconocimiento de la igualdad de derechos y a la fundación de la Universidad de Zurich en 1833, destinada a aumentar el desarrollo intelectual de la joven generación campesina.” “surgieron quejas de que [los primeros profesores y psiquíatras de Zurich] se preocupaban más de sus microscopios que de sus pacientes y de que eran incapaces de hacerse entender por éstos debido a que únicamente hablaban el alemán culto y no estaban familiarizados con el dialecto local. Durante los años que pasó en la escuela secundaria, Bleuler oyó muchas veces estas quejas de personas de su propio ambiente. Decidió entonces convertirse en psiquíatra, para entender a los enfermos mentales y hacerse a su vez entender por éstos.”

(*) “En 1852, Morel había creado el término démence précoce para etiquetar a los pacientes que sufrían una grave afectación mental poco después del comienzo de la enfermedad (Études cliniques, 1852). Se creía que todas las enfermedades mentales terminarían antes o después con grave afectación mental (denominada démence, aunque le faltaba la connotación actual de deterioro intelectual). Así, el término démence précoce significaba en realidad <rápida afectación mental>. Posteriormente, se confundió su significado y se le dio el de <demencia en edad temprana>. Hoy la demencia precoz es la esquizofrenia.”

En 1886 Bleuler fue nombrado director médico del Hospital mental de Rheinau, gran asilo habitado por viejos pacientes demenciados que estaba considerado como una de las instituciones más atrasadas de Suiza. Emprendió la tarea de rehabilitar el hospital y cuidó a sus pacientes con un desinterés poco corriente. Soltero, vivía en el hospital y pasaba todo el tiempo con sus enfermos, desde primeras horas de la mañana hasta últimas de la noche, tomando parte en su tratamiento físico, organizando la terapia ocupacional, y logrando un estrecho contacto emocional con cada uno de los internados. Así obtuvo una comprensión única de los enfermos mentales y los detalles más íntimos de su vida patológica. Esta experiencia fue la semilla de su futuro libro sobre esquizofrenia y de su libro de texto sobre psiquiatría.” “En 1898 fue elegido para suceder a Forel como director del Hospital mental de Burghölzli.”

Como la doctrina de Bleuler sobre la esquizofrenia ha sido mal entendida en numerosas ocasiones, quizá no esté de más recordar aquí sus características principales.” “contacto emocional (affektiver Rapport)” Anos depois, o coroamento de seus esforços de Rheinau no Burg., mediante seu discípulo Jung e as associações de palavras para chegar a compreender o <dialeto esquizofrênico> de cada paciente.

teoria organo-dinámica” “inspiración en la psicastenia de Janet”

Spalltungen o discontinuidad”

En este punto [a descoberta do autismo, antes do termo esquizofrenia ser cunhado] se puede establecer una curiosa comparación entre el concepto de Bleuler y la teoría filosófica de Schlegel de que el hombre está separado de la comunicación con Dios, la naturaleza y el universo por hallarse dividido dentro de sí entre la razón, la voluntad y la fantasía, y de que el deber de la filosofía es restablecer la armonía dentro del hombre.” Hm.

Minkowski, La Schizophrénie, 1927

Bleuler introdujo la noción optimista de que la esquizofrenia podía ser retenida o hecha retroceder en cualquier estadio de su evolución y, en una época en que los médicos terapéuticos fisiológicos y farmacológicos no existían, utilizaba una serie de inventos que, según el testimonio de todos los que trabajaron en el Hospital mental de Burg., en ocasiones producían efectos milagrosos. Recurría, p.ej., a dar el alta prematura a enfermos aparentemente graves, o a cambiarlos de forma súbita e inesperada a otra sala, o a asignarles una responsabilidad.”

Otra característica de los años 1880-1900 fue la elaboración gradual de la noción de psiquiatría dinámica. La palabra <dinámica> llegó a utilizarse corrientemente en psiquiatría, aunque con una diversidad de significados que muchas veces entrañaba alguna confusión. (…) el diccionario de la Sociedad Francesa de Filosofía prevenía contra su uso: <La palabra dinámico, seductora en el aspecto científico, es sin duda (especialmente como adjetivo) una de las acuñaciones falsas más corrientes en el lenguaje filosófico de estudiantes y escritores pseudofilosóficos>.”

Se suele considerar a Leibniz como el 1º que utilizó la palabra <dinámico> en contradicción con <estático> y <cinemático>, en el campo de la mecánica. El término fue tomado y aplicado a la psicología por Herbart, el cual distinguía los estados estático y dinámico de conciencia, y posteriormente a la sociología por Comte, quien distinguía entre una sociología estática y una dinámica [tudo a mesma bosta, não se engane].”

Los fisiólogos franceses, sin embargo, habían utilizado el término <dinámico> para expresar la noción de <funcional> en oposición a la de <orgánico>. Macario escribió un estudio muy citado sobre <parálisis dinámicas>, expresión con la que quería aludir a las parálisis sin lesiones del sistema nervioso.”

Un tercer significado fue introducido por Brown-Séquard con su teoría de las <acciones dinámicas> del sistema nervioso. (…) Los psiquíatras comenzaron a aplicar estos conceptos a los fenómenos de las alteraciones mentales, especialmente la neurosis, completándolos con otros tomados de la fisiología cerebral, como el de la <facilitación>.”

Mientras tanto, el término <dinámico> había sido aplicado al poder motor de las imágenes [Malebranche] (…) Según De Morsier, dicho concepto fue transferido de la filosofía a la psiquiatría por Esquirol

Por último, la palabra <dinámico> adquirió otro significado referido al concepto de evolución y regresión. (…) Janet insistió siempre en que su teoría dinámica había estado inspirada por lo que él denominaba <ley fundamental de la enfermedad mental> de Moreau de Tours. Henri Ey ha subrayado repetidas veces la originalidad de las ideas de Moreau.”

Jacques-Joseph Moreau (de Tours), Du Hachisch et de l’aliénation mentale, 1845.

En el sistema nervioso humano, ciertos centros han aparecido en una fase más reciente de la evolución que otros. Cuanto menor es su antigüedad, más vulnerables son, y cuando uno de ellos resulta lesionado, aumenta la actividad de los más antiguos. De aquí la distinción entre las lesiones nerviosas de síntomas negativos (producidos directamente por la lesión) y las de síntomas positivos (resultantes de la reactivación de las funciones de los centros más antiguos).” Não seria melhor indicar lesões nervosas diretas e indiretas?

La imagen estereotipada que tenemos de este período puede ser debida a nuestra mala interpretación del hecho de que su código social obligaba a referirse a los temas sexuales de forma más discreta que en la actualidad, y a que ciertas materias, como la homosexualidad, se ignoraban o estaban prohibidas. La represión sexual, fenómeno supuestamente característico de ese período, era en muchas ocasiones simple expresión de 2 hechos: la falta de difusión de los contraceptivos y el temor a las enfermedades venéreas.”

Ibsen, Los fantasmas

Brieux, Les avariés

Pero la literatura es incapaz de expresar todo el horror de las destrucciones individuales que ocurrieron en realidad. El joven Nietzsche que, a los 20 años, en febrero de 1865, se detuvo durante una noche en Colonia, en una casa de prostitución [pelo visto os historiadores são piores que GPS!], contrajo la sífilis, y nunca fue tratado.” Fonte? A certeza do achado é espantosa! Esse diagnóstico (de paralisia sifilítica progressiva de Nietzsche até ele se ver inválido antes dos 50 anos, é tido como incorreto e fabuloso na atualidade. Não sei até que ponto a estada dele no prostíbulo também seria apenas um mito infundado, mas tudo leva a crer que ele padecia de males vasculares hereditários que afetavam os do sexo masculino em sua família, tanto que seu pai não chegou aos 40 anos – sua mãe e sua irmã, no entanto, morreram com idades bem avançadas. “Este incidente fue utilizado por Mann en su novela Doktor Faustus, 1947.”

O forte e arraigado mito dasífilis hereditária que era o diagnóstico de numerosos médicos diante do desconhecimento de sua etiologia. Assim, quando Fraud considerou a sífilis hereditária como uma das principais causas da neurose, limitava-se a reproduzir uma opinião que era corrente nos círculos médicos da época.” Fraud era comum, prosaico.

Em 1901, o psiquiatra alemão Moebius publicou um tratado, Sobre a imbecilidade fisiológica da mulher, que colocava esta, tanto física quanto mentalmente, entre a criança e o homem numa escala evolutiva.”

Samuel Chugerman, Lester F. Ward, The American Aristotle, 1939 (Lester foi o primeiro homem “feminista radical” avant la lettre, a afirmar que as mulheres eram biologicamente superiores aos varões).

Ashley Montague, The Natural Superiority of Women, 1953.

Fraud pareceu tomar como segura a inferioridade natural da mulher, já que, num de seus primeiros trabalhos, supunha que a repressão sexual mais forte nela existente era a causa de sua inferioridade intelectual. Posteriormente, chegou a falar do masoquismo natural da mulher.” “Adler, por sua vez, era um firme defensor da teoria da igualdade natural dos sexos. Já Jung, obviamente, em sua teoria do anima no homem e do animus na mulher, alude à 3ª proposição [a mulher não estava nem acima nem abaixo, sendo uma natureza complementar à do homem].” Ou seja, dos 3 epígonos da pseudanálise, Fraud era efetivamente o ÚNICO machista.

Spitteller, Imago (novela – Spit. foi quem lançou o termo)

Karl Neisser afirmava que para que uma mulher seja amada por um homem terá de se parecer com os antepassados femininos deste, com as mulheres que despertaram o amor de seus avós.”

Uma destas figuras arquetípicas (o Frauenphantome, fantasma feminino, como eram denominadas nos países de língua alemã) foi a da mulher como mero objeto sexual, imagem que podia ser seguida de Lutero a Schopenhauer, e que fôra revivida nesta época polêmica por Laura Marholm [a Dâmares de então?]: o fim da mulher é satisfazer os desejos do homem, sendo este o único significado de sua vida. A mesma idéia seria desenvolvida e levada ao seu mais extremo por Weininger em Sexo e caráter.”

A mulher não possui inteligência nem caráter, nem qualquer relação com o mundo das idéias ou com Deus. É um indivíduo, mas não uma pessoa, a essência de cujo ser é a atividade sexual: é uma prostituta nata que, ao envelhecer, trata de que as jovens sigam seu mesmo caminho.”

Otto Weininger

Emil Reicke, Malwida von Meysenbug, 1911 (biografada como femme inspiratrice de ao menos 2 homens: Alexander Herzen e Wagner, que deve ter tido muito o que contar sobre sua vida antes de casar com Cósima!)

La femme fatale era también um <fantasma> popular. Es la mujer que destroza el genio de un hombre, [Sharon Stone] o incluso le lleva a la muerte.”

Ibsen, Rosmersholm

Villiers de L’Isle-Adam, L’Eve future (o mais engraçado é o complemento dos nomes autor/obra)

durante los siglos XVIII y XIX eran normales ciertas ideas falsas acerca de los supuestos peligros de la masturbación, como la creencia de que podía ser causa de graves enfermedades medulares y cerebrales de otro tipo, o de hebefrenia.”

Debreyne, Moechialogie. Traité sur les péché contre le sixième et le neuvième commandements du Décalogue, 1846 (rabino que já predicava contra o incesto e o <complexo de Édipo> muito antes de Fraud nascer) // Michelet, Nossos filhos, 1895. // Alfonso de Ligorio, Oeuvres, IX

Rousseau daba en sus Confesiones (por lo menos él lo aseguraba) un relato completo y sincero de las experiencias más íntimas de su vida, incluyendo sus experiencias sexuales relativas a la masturbación, inhibición sexual, exhibicionismo y masoquismo moral. Una generación después, Restif de la Bretonne (1734-1806) describía su fetichismo en varias de sus novelas, sobre todo en Monsieur Nicolas. Sade era un psicópata de moral disoluta aunque de brillante inteligencia que, declarado culpable de diversos delitos, pasó 14 años de su vida en prisión y 13 en hospitales mentales. Dedicó este ocio forzoso a escribir novelas que fueron consideradas aburridas durante mucho tiempo.” Engraçado que essa versão é oposta a que me contaram (Saulo Nepomuceno, UnB): um padre admoestava Sade na cadeia por ‘escrever demais e ler de menos’, suposta etiologia de sua ‘loucura’. Mas se ele só passou a escrever seus livros mais conhecidos porque já estava internado ou confinado…

Sacher-Masoch (1836-1895) describió sus propias tendencias sexuales anormales en varias novelas, principalmente en Venus con abrigo de pieles.” Venus in Furs: livro fraco: https://seclusao.art.blog/2021/11/26/venus-in-furs-sacher-masoch-trans-fernanda-savage/.

Gilbert Lely, Vie du marquis de Sade, 2 vols., 1957.

Talvez o mais antigo de toda a série de livros de múltiplos autores com o mesmo título: Kaan, Psychopathia sexualis, 1844.

Moreau, Des aberrations du sens génésique, 1880.

Westphal, ‘Die Conträre Sexualempfindung’, 1º estudo psiquiátrico sobre a homossexualidade (artigo de 1870).

O INVENTOR DOS TERMOS SADISMO E MASOQUISMO: “Al contrario de lo que se supone frecuentemente, Krafft-Ebing no habló de dolor físico en tal asociación; por el contrario, decía que el masoquismo aborrece la idea de la flagelación. Consideraba esta última como una condición completamente distinta y no necesariamente conectada con la patología sexual.”

En Alemania, una obra de Bölsche, Vida amorosa en la naturaleza (1902), que describía con detalle las múltiples variedades de los procesos de reproducción en el reino animal, se convirtió en un éxito de ventas.”

Obviamente, la línea divisoria entre la vulgarización científica y la pornografía era difícil de determinar desde el comienzo. (…) Tampoco en ese aspecto era siempre fácil delimitar los escritos de los psiquíatras profesionales y los de los desviados sexuales que defendían su causa.”

Rousseau ya había descrito cómo una paliza [surra] que recibió de un joven, cuando tenía 8, había sido el punto de partida de su desviación sexual.”

Dallemagne, Dégénérés et déséquilibrés, 1894.

Théodule Ribot, La Psychologie des sentiments, 1896.

El papel del instinto sexual en la histeria había sido dado por cierto por casi todos los médicos hasta que Briquet, como hemos visto antes, lo denegó expresamente en su libro escrito en 1859. Después de él, las opiniones sobre este tema estuvieron divididas, se produjo así una de esas curiosas escisiones que suceden a veces en la historia de las ciencias: mientras que la mayoría de los neurólogos tendían a seguir el punto de vista de Briquet y Charcot, los ginecólogos todavía creían en la psicogénesis sexual.”

Peyer, Asthma sexuale, 1889.

Esse é um dos maiores charlatães da História! “Curiosamente, Gall, aunque iniciador de una psicología basada en el estudio de los instintos, se oponía a esa idea y exclamaba: <¿Quién osaría hacer derivar la poesía, la música y las artes figurativas de una condición de los órganos de la generación?>.”

Santayana (The Sense of Beauty, 1896) decía que el impulso sexual irradia a la religión, la filantropía, el amor por la naturaleza y por los animales y el sentido de la belleza.”

Moebius, Über Schopenhauer, 1899

Yrjö Hirn, Origins of Art, 1900

Incidentalmente, la palabra <libido> había sido usada antes por ciertos médicos aficionados a introducir vocablos latinos en su terminología. Pero el sentido pseudanalítico actual es de Moll.”

El libro de Scherner La vida del sueño apareció en 1861 (…) Nunca fue popular.” “El libro clásico de Maury, Sueño y sueños, apareció el mismo año que el de Scherner, pero, en contraste con éste, fue reeditado en varias ocasiones.” “Creía que la velocidad de los sueños era mucho mayor que la del pensamiento en el estado de vigilia.” “Sante de Sanctis criticó los experimentos de Maury, en el sentido de que la expectación de tener ciertos sueños era suficiente para crear en el soñador algunos que cumplieran su teoría, crítica que también aplicó a todos los que experimentaban con los sueños.”

Frederik van Eeden, The Bride of dreams (mais um “lucidista” onírico), 1913

Georges Dumas, ‘Comment on gouverne les rêves’, 1909.

Robert, criador do termo Traumarbeit.

Por esta somera revisión se puede ver que los investigadores de los sueños desde 1860 hasta 1899 habían descubierto ya casi todas las nociones que serían ‘sintetizadas’ por Fraud y Jung (…) En las teorías de Fraud se pueden reconocer las influencias de Maury, Scherner, Strümpell, Volkelt y Delage. En cuanto a Jung, su teoría nos recuerda más la de Von Schubert y los románticos [mau sinal] y muestra en ocasiones grandes analogías con la de Hervey de Saint-Denis (sic).”

el umbral como una superficie donde había una multitud siempre cambiante de percepciones y representaciones que estaban constantemente luchando entre sí.” (Herbart, Leibniz)

Allí está también la masa de apercepción, un compacto manojo organizado de representaciones inconscientes.”

No son los <espíritus> los que mueven las mesas, sino los movimientos musculares inconscientes de los participantes; los supuestos mensajes de los <espíritus> son la expresión de los pensamientos inconscientes del médium.”

Chrevreul

Janet publicó su Automatisme Psychologique en 1889 y su impacto, como veremos en el capítulo siguiente, fue considerable y dominó el tema durante algún tiempo.”

Théodore Flournoy (1854-1920), médico, filósofo y psicólogo, así como discípulo de Wundt, fue nombrado profesor de la Universidad de Ginebra en 1891. Había aprendido las técnicas de la psicología experimental y tratado de aplicarlas a los problemas de la parapsicología. Tomó como máximas lo que él denominaba principio de Hamlet: <Todo es posible>, [mais para PRINCÍPIO DE DOSTOIEVSKI] y principio de Laplace: <El peso de las pruebas debe ir en proporción con la extrañeza del hecho>.”

Catherine Muller, más conocida por el seudónimo de Hélène Smith, era una mujer alta y hermosa de 30 años de edad, que trabajaba como vendedora en una tienda. Era una creyente ferviente en el espiritismo, y nunca aceptó pago alguno por su trabajo como médium. Sus declaraciones eran consideradas por su círculo de admiradores como revelaciones de otro mundo, mientras que los escépticos las consideraban un fraude. Flournoy afirmó que no era ni una cosa ni la otra, y que se podía dar una explicación natural.” Cf. F., Desde la India hasta el planeta Marte

Al igual que la teratología ilustra la embriología, la cual a su vez explica la teratología, y al igual que ambas se unen para iluminar la anatomía, del mismo modo podemos esperar que el estudio de los hechos del mediumismo pueda algún día ayudarnos a conseguir una visión exacta y fructífera de la psicogénesis normal.”

Según Claparède, Flournoy había comprendido muy bien su naturaleza psicosexual y podría haber descrito el proceso de transferencia, pero la discreción le impidió extenderse sobre ella, puesto que sabía que el libro sería leído por la médium y su círculo de amistades.”

Mientras que Flournoy demostraba que el lenguaje <marciano> estaba construido sobre la base gramatical del francés, un lingüista, Victor Henry, afirmó que gran parte del vocabulario estaba formado por palabras húngaras deformadas. (El húngaro era la lengua materna del padre de la médium.)Cf. Henry, Le Langage martien. Étude analytique de la genèse d’une langue dans un cas de glossolalie somnambulique, 1901.

Hélène Smith rompió posteriormente con Flournoy y con sus amigos espiritistas. Una rica dama americana le donó una cantidad de dinero lo suficientemente elevada como para permitirle dedicarse por completo a su actividad como médium. Fue un golpe fatal para su salud mental. Abandonó su posición, rompiendo así su último lazo con la realidad, y vivió en aislamiento casi completo, entrando en sonambulismo para pintar cuadros religiosos. Un control detallado del curso clínico de la médium ha sido dado por Wladimir Deonna, De la planète Mars en Terre Sainte, 1932.” Adoro a série: continuações de sagas, por um outro autor!

Es ésta la mejor conocida de las investigaciones de Flournoy en el campo del inconsciente, y la que muestra la dirección que siguió.” “acuñó el término criptomnesia.” “La mayoría de los médiums no desean engañar, sino que quieren jugar, como las niñas pequeñas con sus muñecas, pero algunas veces la vida fantástica toma el control.”

HD QUÂNTICO: “Una discusión clásica a finales del siglo XIX entre psicólogos y filósofos era la de si el individuo retiene un registro inconsciente de la totalidad de los recuerdos de toda su vida.”

La función mitopoética (término éste aparentemente inventado por Myers) es una <región intermedia> del sí mismo subliminal, donde tiene lugar perpetuamente una extraña fabricación de fantasías internas. (…) En esta concepción, el inconsciente parece estar continuamente entretenido en crear ficciones y mitos, que en ocasiones permanecen inconscientes o aparecen únicamente en los sueños.”

Un socialista, Hertzka, describió en una novela el mundo futuro como un paraíso socialista de todo tipo de mejoras técnicas, entre las que se incluían las excursiones en aeroplanos.” “Quizás las más leídas de todas estas predicciones fueron las <novelas del siglo XX> del escritor francés Albert Robida, quien las ilustró con fantásticos dibujos de gente vestida a la moda de 1895, en medio de fantásticas máquinas y gigantescos edificios modernistas.” “Sería posible obtener comunicación instantánea con alguien en cualquier parte del mundo a través del <tele>, teléfono combinado con una especie de espejo en el que cada uno podría ver a la persona con la que estaba hablando. Las personas ya no se escribirían unas a otras, sino que se enviarían discos. Los libros serían reemplazados en su mayor parte por <fonolibros>. [¡!] (…) los antiguos clásicos solamente serían leídos en forma condensada. Las amas de casa ya no cocinarían; un instituto alimenticio despacharía comidas mediante tubos neumáticos. [haha] (…) Surgiría un nuevo feudalismo de los negocios y millones de trabajadores sufrirían una vida de terrible dureza. La vida sería febril y fatigante, y estaría dominada por una constante sobreestimulación. Aparecerían nuevas formas de arte y nuevos deportes, como la caza submarina. Desaparecería la intimidad porque la ciencia proporcionaría medios ilimitados para el espionaje. Habría guerras terribles, no ya causadas por ideales pasados de moda, sino por el afán de conquista de los mercados comerciales. (…) se utilizarían gases venenosos y microbios. (…) Bretaña, p.ej., sería transformada en una reserva en la que los bretones vivirían exactamente de la misma forma que en el siglo XIX, mientras que Italia sería convertida en un gigantesco parque de atracción para turistas.” Cf. Le Vingtième Siècle. La vie électrique, 1895

Paul Regnard, Les Maladies épidémiques de l’esprit, 1887.

Mientras tanto, se había puesto de moda un nuevo término, la palabra <psicoterapia>, utilizada al principio por algunos de los discípulos de Bernheim.”

VI. PIERRE JANET Y EL ANÁLISIS PSICOLÓGICO

En 1886, cuando Janet publicó sus primeros trabajos científicos, Francia sufría la fiebre del movimiento boulangista, que despertó, temporalmente, una exaltación patriótica y el deseo de volver a anexionarse Alsacia y Lorena.” “Janet tenía 60 años cuando terminó la guerra con la victoria de los aliados y el Tratado de Versalles.” “Janet comenzó a reconsiderar sus teorías en 1925 y construyó un nuevo sistema que pasó casi desapercibido en medio de la confusión política y moral.”

Desde 1907 hasta su muerte vivió en la rue de Varennes, en un ambiente exclusivamente aristocrático y diplomático. Sin embargo, la mayoría de los pacientes a los que trató y que le proporcionaron el material para su trabajo psiquiátrico pertenecían a las clases más pobres.”

Paul Janet (1823-1899) [tío de Pierre] llegó a ser un filósofo bien conocido y el orgullo de la familia.”

Jules [su hermano] fue médico urologista. Estaba muy interesado por la psicología, y durante sus años de internado colaboró con su hermano en experimentos hipnóticos. Su tesis doctoral, dedicada a las alteraciones neuróticas del sistema urinario, es una excelente contribución a lo que en la actualidad se denomina medicina psicosomática, al igual que un estudio posterior que realizó sobre la anuria [déficit urinário].”

Paul Janet escribió libros de texto de filosofía, que fueron clásicos en Francia durante 2 o 3 generaciones, y numerosos estudios sobre historia de la filosofía. Su hijo, también Paul Janet, llegó a ser un famoso ingeniero eléctrico que fundó (…) la École Supérieure d’Électricité en París. Tenía asimismo inquietudes filosóficas y escribió estudios sobre la filosofía de la ciencia y la psicología de los descubrimientos científicos.” Cf. Paul Janet, Notes et souvenirs, 1933.

El 7 de septiembre de 1882 consiguió el 2º puesto en los duros exámenes selectivos de la agrégation de Philosophie (sólo fueron admitidos 8 candidatos, entre los cuales estaba Durkheim, que obtuvo el 7º puesto).” “Entre los estudiantes que fueron admitidos el año anterior a Janet estaban Bergson y Jaurès. Este último adquiriría fama como gran líder socialista; el 1º se convertiría en el más famoso filósofo francés de su generación. Bergson y Janet permanecerían en estrecho contacto intelectual durante toda su vida.”

Es interesante ver, en esta 1ª publicación conocida suya (La fundación del derecho de propiedad, 1883(*)), el esquema lógico, la firmeza de pensamiento y la claridad de estilo que desplegaría posteriormente en todos sus trabajos siguientes.

(*) En la Bibliothèque Nationale en París hay una copia, quizá la única existente.” Podemos, então, dar o livro como perdido para nós (ou inacessível, o que dá no mesmo). Mesmo sites com a versão digital devem cobrar aluguel do “exemplar” em euros! Maldito Capital…

Carl Murchison, A History of Psychology in Autobiography, 1930

El doctorat ès-lettres requería la elaboración de una tesis principal en francés y de una menor en latín sobre un tema distinto. Para esta última, Janet eligió como tema Bacon y los alquimistas.”

Janet supo desde el principio que no podría proseguir su investigación psicopatológica si no lograba el título de doctor en medicina, y decidió comenzar sus estudios médicos mientras continuaba con su profesión y su propia investigación.” “En 1894 Janet publicó el libro de texto de filosofía, en el que había estado trabajando durante 12 años y del que hablaremos después.”

Tuvo 3 hijos: Hélène (que se casaría con el psicoanalista Édouard Pichon), Fanny (profesora de francés) y Michel (ingeniero).”

En 1900 se instituyó en París un Instituto Internacional de Psicología con la ayuda financiera de una serie de donantes, entre los que se encontraba Serge Yourievitch, agregado de la Embajada rusa. Bajo el patrocinio de un comité internacional, entre sus miembros se encontraban William James, Frederick Myers, Lombroso, Théodore Flournoy y Théodule Ribot.”

a pesar del enorme trabajo dedicado a este nuevo sistema y a la originalidad de sus nuevas teorías, parece que no hubo muchas personas en Francia capaces de seguirle en este nuevo camino.”

Se mostró muy interesado también por la terapéutica con electroshock al ver que un paciente deprimido, que había sido sometido a psicoanálisis durante casi un año sin ningún éxito, se curaba después del tercer choque eléctrico.”

nunca concedió entrevistas a los periodistas.” Virei fã.

La mayor parte de las veces, los psicóticos están actuando. No crean la cuarta parte de lo que digan. Tratan de impresionarles con su grandeza o con sus faltas, de las que ellos mismos creen la mitad o incluso nada.”

Nunca he olvidado las sabias palabras de Janet acerca de la persecución, ni las muchas otras que eran un elemento importante en sus relaciones con sus estudiantes. Representaban un arte socrático que yo nunca he experimentado con ningún otro profesor eminente de psiquiatría. En su caso, era inseparable de su concepto de la psiquiatría.”

Ernest Harms

Cuando murió, las fichas de sus 5 mil o más enfermos fueron quemadas de acuerdo con su voluntad. No puede por menos de lamentarse la pérdida de este material extraordinariamente rico y bien clasificado, y en particular de las fichas correspondientes a Léonie y Madeleine, pero al mismo tiempo hay que respetar este acto de respeto al secreto profesional.” Diametralmente o oposto da nojeira da devassa psicanalítica…

Quizás debido a la falta de tiempo, J. no leyó mucho aparte de la literatura psicológica y psiquiátrica. Tampoco estaba interesado particularmente por la música, el arte o la arquitectura.”

Aunque tuvo gran cuidado de no mezclar nunca conceptos filosóficos con teorías psicológicas, hay una idea metafísica que aparece repetidamente en sus escritos, como una especie de leitmotiv: la de que el pasado de la humanidad ha sido preservado en su totalidad de alguna manera.” #superstições, kwahkwah!

QUEM ERA O DOPPELGÄNGER? “Una ojeada rápida a la biografía de Bergson muestra un cierto paralelismo entre su vida y la de Janet. Ambos nacieron en París en 1859. Ambos estudiaron en un Liceo de París (B. en el Lycée Condorcet, Janet en el Collège Sainte-Barbe). Ambos fueron admitidos en la École Supérieure; Bergson en 1878, Janet el año siguiente. Ambos enseñaron 1º filosofía en un liceo provincial (B. pasó 1 año en Angers y 5 en Clermont-Ferrand; Janet, medio año en Châteauroux y 6 y ½ en El Havre). Para ambos, esos años pasados en provincias representaron un período de maduración y trabajo intensivo. Ambos hicieron experimentos con hipnotismo: el primer trabajo de B., de 1886, estaba dedicado al tema de la simulación inconsciente en la hipnosis” “Ambos editaron también la obra de un filósofo (J. – Malebranche; B. – Lucrecio), y ambos presentaron sus tesis en la Sorbona en 1889. (…) B. en su Ensayo sobre los datos inmediatos de la conciencia y J. en su Automatismo Psicológico [em breve no Seclusão] enfocaron el mismo problema, aunque de forma diferente. Ambos fueron nombrados profesores de filosofía de un liceo de París; B. llegó antes al Collège Rollin, donde J. fue su inmediato sucesor. Ambos enseñaron también en la Sorbona y posteriormente en el Collège de France, donde B. había sido nombrado antes que J. y defendió la candidatura de éste en la asamblea de profesores. Durante muchos años fueron colegas en dicho centro, y luego también en la Académie des Sciences Morales et Politiques, a la vez que mantuvieron estrechos contactos sociales.”

La noción de B. de <attention à la vie> muestra gran semejanza con la fonction du réel de J. (…) [lo mismo para] el concepto de J. de tensión psicológica. (…) En Materia y memoria, B. se refiere a la investigación de J. sobre las disociaciones de personalidad; también tomó de él el término fonction fabulatrice, concepto [parecido al de] función mitopoética de Frederick Myers.”

Fue Binet (…) pionero de la psicología infantil y de la pedagogía experimental; lo fue también de la psicología sexual. Describió el fetichismo, acuñando este término. [en psicología]”

Pierre Janet siempre afirmó ser el creador de la palabra subconsciente. (El autor no ha encontrado ningún ejemplo de esa palabra antes de que él la utilizara.) Al parecer, la había acuñado para demostrar que utilizaba un enfoque psicológico completamente distinto del concepto metafísico de inconsciente de Von Hartmann, que estaba tan de moda en aquella época.” O que muito me agrada…

Muy relacionado con las distracciones está el fenómeno de la escritura automática, ampliamente practicado por los espiritistas desde 1850. Colocando un lápiz en la mano de un individuo, y manteniendo su atención en otra parte, se puede ver cómo comienza a escribir cosas de las que no es consciente y produce de esta forma grandes fragmentos de material subconsciente.” “la mente subconsciente, que ha sido traída a un primer plano durante la hipnosis y que a continuación ha retrocedido, persiste y cumplirá puntualmente las órdenes dadas por el hipnotizador durante la hipnosis. El difícil problema de las existencias simultáneas es interpretado por la teoría general de J. de la désagrégation psychologique, concepto no muy distinto del de disolución psicológica, propuesto en primer lugar por Moreau (de Tours) y posteriormente por Hughlings Jackson.”

El Automatismo (…) fue considerado desde el principio como una obra clásica de las ciencias psicológicas.”

J. afirmaba que ciertos síntomas histéricos se pueden relacionar con la existencia de partes escindidas de la personalidad (ideas fijas subconscientes) dotadas de vida y desarrollo autónomos. Demostró su origen en los acontecimientos traumáticos del pasado y la posibilidad de curarlos mediante el descubrimiento y disolución subsiguiente de estos sistemas psicológicos.”

O CASO MARCELLE: “En el nivel más superficial estaban las nubes, que el autor comparó a los efectos de las sugestiones pos-hipnóticas. Se preguntó si su contenido no sería un reflejo parcial de las novelas populares que la paciente había leído con pasión durante varios años. En un nivel intermedio estaban los impulsos, que J. adscribió a la acción de ideas fijas subconscientes surgidas a partir de ciertos recuerdos traumatizantes. Situado más profundamente estaba el terreno morboso, dependiente de la herencia, de las enfermedades físicas anteriores graves y de los acontecimientos traumáticos tempranos.”

hubo una grave febre tifoidea a los 14 (…) Se produjo así un círculo vicioso; al ser incapaz de ajustarse a las nuevas situaciones, Marcelle se refugiaba en sus ilusiones, que hacían que se adaptara peor, y así sucesivamente. Un año después (…) su padre, parapléjico, murió. El último golpe fue un desgraciado asunto amoroso, que llevó consigo ideas de suicidio. En este punto la paciente perdía la memoria de los acontecimientos recientes.”

la hipnosis y la escritura automática daban lugar a crisis, pero después la mente estaba más clara. Las crisis se hacían cada vez más graves, y las ideas fijas que surgían eran de origen cada vez más antiguo. Todas aquellas ideas que la paciente había desarrollado en el curso de su vida aparecían una tras otra, en orden inverso.”

CASO MADAME D., MAIS UM PLAGIADO PELA PSEUDANÁLISE: “un nuevo procedimiento, la charla automática, consistente en dejar a la paciente charlar en voz alta al azar en lugar de escribir de forma automática.”

En el último volumen de la Clínica de las enfermedades del sistema nervioso de Charcot, el caso de madame D. fue incluido con una nota en la que se reconocía el resultado favorable del tratamiento de J..”

Otro de los primeros pacientes de J. en París fue Justine, mujer casada de 40 años (…) había tenido un temor morboso al cólera y gritaba repetidamente, <!Cólera… se apodera(rá) de mí!>, lo que era signo de una crisis histérica.” “En una ocasión, de niña, había visto los cuerpos de los pacientes fallecidos de cólera. J. trató a Justine como paciente ambulatoria durante 3 años y obtuvo con ella una de sus curaciones más famosas.” “J. entró en el drama privado de sus crisis como un actor secundario.”

– ¿Donde está tu cólera?

– ¡Aquí! ¡Mírela, es azulada, y apesta!

Más tarde le fue fácil inducir directamente la hipnosis y obtener una descripción completa de la experiencia subjetiva durante la crisis. Veía 2 cadáveres a su lado, uno de ellos, más próximo, el de un feo anciano desnudo de color grisáceo y con un hedor de putrefacción. Simultáneamente oía sonar las campanas y gritos de <¡Cólera, cólera!>. Superada la crisis, Justine parecía haberlo olvidado todo excepto la idea del cólera, que permanecía constante en su mente. (…) El método más eficaz demostró ser la sustitución, es decir, la sugestión de una transformación gradual de la imagen alucinatoria. El cadáver desnudo fue cubierto con ropas e identificado con un general chino ante el que Justine había quedado muy impresionada al verle en la Exposición Universal. Dicho general comenzó a caminar y actuar de modo que su imagen, en lugar de ser terrorífica, se hizo cómica. El ataque cambió, en el sentido de que ahora consistía en unos cuantos gritos seguidos por crisis de llanto. Después desaparecieron los gritos, y las visiones de cólera persistieron únicamente durante el sueño, hasta que J. las expulsó a su vez sugiriendo sueños inocuos. Este resultado había requerido aproximadamente un año de tratamiento. Pero la idea fija persistía (…) En ocasiones se observaba Justine susurrando la palabra <cólera> mientras su mente estaba ocupada con cualquier otra actividad. Los intentos con la escritura automática no produjeron sino interminables repeticiones de la palabra <cólera, cólera…>. Janet dirigió ahora su ataque contra la propia palabra, y sugirió que Cho-le-ra era el nombre del general chino. La sílaba cho fue asociada con otras terminaciones hasta que llegó el día en que la palabra cólera perdió sus malas connotaciones.”

Tras la desaparición de la idea fija principal, comenzaron a desarrollarse ideas fijas secundarias. J. las clasificó en 3 grupos: 1) Ideas fijas derivadas, resultantes de la asociación con la principal (p.ej., temor morboso de los ataúdes y los cementerios). 2) Ideas fijas estratificadas: resulta sorprendente, después de haber eliminado una idea fija, ver que surge otra sin conexión con la 1ª, ni relación con las circunstancias que la rodean. Lo que reaparece entonces es una idea más antigua, previa a la que se acaba de tratar. Cuando ésta es eliminada a su vez, se descubre una 3ª, aún más antigua, de modo que hay que aplicar en orden inverso el tratamiento de las ideas fijas principales que el paciente ha sufrido durante toda su vida. 3) Ideas fijas accidentales, que son absolutamente nuevas y están provocadas por cualquier incidente en la vida diaria; son fáciles de borrar, sin embargo, siempre que se traten inmediatamente. El hecho de que puedan aparecer con tanta facilidad prueba que el paciente está en un estado de alta perceptividad, que a su vez crea la necesidad de un tratamiento más prolongado. En su lugar, la solución del problema descansa en conseguir desarrollar la capacidad de atención y síntesis mental en el paciente. Con este fin, J. ideó un programa de ejercicios escolares elementales para Justine, comenzando con operaciones aritméticas sencillas o unas cuantas líneas de escritura, para lo cual se aseguró la cooperación del comprensivo marido de ella. Después de 1 año de enseñanza, es decir, a finales del tercer año de tratamiento, la paciente estaba en situación aparentemente normal, aunque J. todavía rechazaba hablar de recuperación completa.”

J. destaco que, en muchos pacientes, antes de una neurosis grave se desarrolla en muchas ocasiones una fiebre tifoidea o una influenza.”

Segundo Janet e Morel, adeptos pelo menos parciais da teoria da degenerescência, gerações de pais obsessivos ou alcoólatras redundam em filhos epilépticos ou imbecis. “Sin embargo, J. afirmaba que las enfermedades familiares pueden desaparecer al igual que las individuales. El punto principal era comprender que la enfermedad se extiende más allá del individuo, siendo ésta la razón por la que, en un caso de este tipo, nunca se debería esperar la recuperación completa.”

cuanto más fácil parece ser la curación, más enferma está realmente la mente” Quão mais sugestível é a mente, mais a pessoa é hipnodependente e terapeutodependente. O problema do desmame já consta perfeitamente da obra de J.. “Al principio veía a Justine varias veces a la semana, después una vez a la semana y, en el tercer año, una vez al mes.”

Otra de sus curaciones famosas fue la de Achilles. Este hombre, de 33 años, fue llevado a la Salpêtrière a finales de 1890 con manifestaciones de posesión demoníaca. Provenía de un ambiente supersticioso y se decía que su padre había visto una vez al demonio al pie de un árbol.”

Repentinamente tuvo un ataque de risa que duró 2h, y clamó que veía el infierno, a Satanás e a los demonios. A continuación, y después de atarse las piernas, se arrojó a una alberca, [piscina] de la que le sacaron, y dijo que había sido una prueba para asegurarse de si estaba poseído o no. (…) Achilles se negaba a hablar, y era imposible hipnotizarle.” “Durante su viaje de negocios había sido infiel a su esposa. Había tratado de olvidar el incidente pero entonces vio que era incapaz de hablar. Comenzó a soñar en numerosas ocasiones con el demonio, hasta que por último se encontró repentinamente poseído.” Ivankaramazoviano.

IRENE, IRENE E ELA MESMA: “Muy inteligente, cumplidora y trabajadora, Irene se mostraba ansiosa y extremadamente solitaria.” “A la muerte de aquélla, en julio de 1900, su conducta cambió completamente. Se rió en el cementerio, no llevó luto y comenzó a ir al teatro. Sabía que su madre había muerto, pero hablaba de ello como de un incidente histórico que no le afectaba. Una grave amnesia se extendió sobre los 3 o 4 meses que habían precedido al fallecimiento, con un grado bastante alto de amnesia también para los acontecimientos que le habían seguido. De tiempo en tiempo, sin embargo, tenía alucinaciones en las que veía la imagen de su madre y oía su voz, que en ocasiones le ordenaba suicidarse. (…) J. decía que ninguna actriz podía haber interpretado esas sombrías escenas con tal perfección.” “Desde el momento en que Irene fue capaz de pensar en su madre a voluntad, cesó de pensar en ella involuntariamente; tras ello, no persistieron ni la amnesia ni la hipermnesia; bien cómo todos los demás síntomas.”

Tanto en el caso de Irene como en el de otros pacientes, el tratamiento hipnótico y sugestivo tenía que ser completado por otro de estímulo y reeducación mentales.”

Señaló que hay una forma de insomnio producida por ideas fijas subconscientes, de lo que dio el ejemplo de una mujer de 37 años que había perdido 4 meses antes un hijo afecto de fiebre tifoidea y que empezó a manifestar una preocupación obsesiva por éste durante 1 o 2 meses. Cuando esta obsesión desapareció, comenzó el insomnio, que por entonces ya duraba 3 años. La medicación a base de soporíferos producía dolores de cabeza y confusión mental, pero no sueño.” É por isso que irrita profundamente leigos intrometidos que “aconselham” o consumo de chá de camomila ou maracujá antes de ir para a cama! Muitos leitores de best-sellers e psicólogos diletantes do dia a dia pensam perscrutar o fundo da alma de todos os homens ao seu redor…

J., ‘L’Insomnie par idée fixe subconsciente’, Presse Médicale, V, 1897, II, 41-4.

En un estudio de 8 pacientes afectos de espasmos de los músculos del tronco, J. halló que todos ellos habían sufrido traumas psíquicos o choques emocionales. ‘La contractura persiste porque persiste la emoción’, dijo.” “El tratamiento sugestivo, continuaba, no es suficiente. Hay que tratar la idea fija subconsciente y completar el tratamiento psicológico con masaje, cuyos resultados dependen en gran parte de la influencia personal ejercida por el masajista sobre el paciente.”

En ocasiones la investigación de los sueños del paciente dará algunos resultados, pero el medio principal de que se valía Janet era la hipnosis, por la cual el paciente rendía sus recuerdos olvidados con más o menos resistencia. La hipnosis se completaba muchas veces con la escritura automática o el uso de la distracción.” O que a pseudanálise plagiaria depois como atenção flutuante.

As idéias fixas inconscientes são um dado característico da histeria, e não das neuroses obsessivas, em que as idéias fixas são conscientes. Todavia, Janet descobriu cedo a existência de idéias fixas inconscientes em estados tais como a insônia pertinaz e os espasmos musculares. Seu estudo sobre o automatismo ambulatório, publicado conjuntamente com Raymond, parece haver sido o primeiro em que se explicam os diversos atos realizados durante as fugas como efeitos coordenados de diversas idéias fixas inconscientes.”

Janet sabía desde el principio que hacer salir a la idea fija del subconsciente no era suficiente para curarle, pues no hace sino cambiar una idea de este tipo por una obsesión fija consciente.”

Cuando hablaba de análisis psicológico, J. nunca afirmaba que éste fuera su propio método. Aparentemente, utilizaba dicha expresión con el mismo sentido general que los matemáticos cuando hablan de análisis algebraico y los químicos de análisis químico.” E não é assim em toda ciência? Claro que é, pois pseudanálise não é ciência.

J., Les Névroses (1909): “la distinción de 2 neurosis básicas: histeria y psicastenia.” Recuo do juízo anteriormente obtido em Ellenberger: pareceu que psicastenia não guardava qualquer relação com a neurastenia (inferência que fazia pelas minhas leituras passadas), mas sim com a psicose; porém esse trecho me devolve à convicção antiga. Na continuação, a explicação completa (MUITO ALÉM DE BEARD E DURKHEIM): “J. descartó la palabra neurastenia, que implicaba una teoría neurofisiológica de la que no había pruebas, y creó el término psicastenia para designar un grupo de neurosis en el que incluía las obsesiones, las fobias y otras diversas manifestaciones.”

Estigmatizado” em Janet significa estritamente: aquele que padece de neurose crônica, sofrendo um estreitamento das faculdades da consciência. Por que ocorre em uns e em outros não, ainda que com histórias de vida similares? Porque certos pacientes têm maior predisposição à histeria por nascerem com menos “força psicológica”, o equivalente ao conceito de energia psíquica de Mach.

A histeria é uma doença psicogênica, não fisiológica”: ponto de vista compartilhado por Briquet, Charcot, Janet.

A histeria é uma forma de personalidade múltipla”: ponto de vista compartilhado por Binet, Janet.

crisis psicasténicas, ataques de ansiedad” relação com as IDÉIAS FIXAS CONSCIENTES.

movimentos musculares inúteis”

coeficiente de realidade”

Depreende-se facilmente do esquema teórico da psicastenia de Janet que o psicastênico é o clássico “inadaptado social” (enfim, o mesmo que o neurastênico de Durkheim). O sujeito não sabe equilibrar seus rasgos de personalidade com as exigências do mundo exterior a sua volta. Daí a dizer que isso é uma queda ou perda da função do real no paciente é uma hipérbole e tanto, ainda mais para hoje em dia! Se o psicastênico é algo mais específico que o neurastênico de Beard, infelizmente acabou generalizando-se da mesma forma, no atual modo de produção. Incompreensão geral do gênio e do pathos do desinteresse, mesmo por outros indivíduos com rasgos geniais.

Posso afirmar que Janet padece, em menor escala, claro, de um empobrecimento de seu sistema, embora tente aperfeiçoá-lo e abranger mais dados, após seu trabalho clássico Automatismo psicológico. Os conceitos que formulou a posteriori são de pouco interesse ao metafísico como eu, categorias, ao meu ver, mal-pensadas.

J. consideró que no era suficiente pensar en la energía mental en términos de cantidad, sino que había que tener también en cuenta la <tensión psicológica> del individuo, es decir, su capacidad para elevar dicha energía a un cierto nivel en la jerarquía de funciones.” Acréscimo desnecessário, já que não dirime a questão.

ESPOSAS DE CÉSAR: “También fue criticado el concepto de psicastenia: ¿era en realidad una entidad nosológica?” “En la época de Janet, numerosos autores suponían la existencia de una hipotética energía nerviosa o mental, cuya insuficiencia daría lugar a las alteraciones neurasténicas. Pero se veían confundidos por algunos hechos, como el de que un individuo que parecía completamente exhausto pudiera repentinamente, bajo ciertos estímulos, hallar la fuerza necesaria para realizar acciones difíciles. J. superó estas aparentes contradicciones elaborando un sistema en el que la energía psicológica se caracteriza por 2 parámetros: fuerza y tensión. [Superou = disfarçou, ‘fugiu’ epistemologicamente falando.]

La fuerza psicológica es la cantidad de energía psíquica elemental, es decir, la capacidad de realizar actos psicológicos numerosos, prolongados y rápidos. Existen 2 formas: latente y manifiesta. Movilizar la energía significa hacerla pasar de la forma latente a la manifiesta.

La tensión psicológica es la capacidad de un individuo para utilizar su energía física a un nivel más o menos alto en la jerarquía de tendencias descrita por J.. Cuanto mayor sea el número de operaciones sintetizadas, más nueva será la síntesis, y por tanto más alta la tensión correspondiente. Apenas hace falta señalar que la tensión en el sentido de J. no tenía nada en común con la denominada tensión en el sentido coloquial de ansiedad o irritación que, según la terminología de J., correspondería, por el contrario, a estados bajos de tensión psicológica.

Se han establecido comparaciones con los fenómenos físicos. La relación de fuerza y tensión psicológicas ha sido comparada con la de calor expresado en términos de calorías y en términos de temperatura, y con la de electricidad en términos de corriente y de tensión.”

La agitación aparece cuando la cantidad de fuerza se mantiene al tiempo que desciende la tensión. Las crisis psicolépticas y otras descargas [¿?] son los efectos de un descenso súbito de la tensión. El agotamiento aparece cuando la energía psicológica de un cierto nivel se utiliza en otro superior. [Empréstimo do futuro ou do mundo dos mortos? Gon Freecs] Debiera haber un equilibrio entre fuerza y tensión.” A psicologia dinâmica de J. é ainda muito mecânica!

Este es el principio que J. desarrolló en el volumen de 1100 páginas de sus Médications psychologiques. Su sistema ha sido posteriormente elaborado y codificado por su discípulo suizo Leonhard Schwartz (Neurasthenie: Entstehung. Erklärung und Behandlung der nervösen Zustande, 1951).” Não ler.

síndromes asténico e hipotónico”

laxitud x agotamiento (¿?)

En las astenias leves, los pacientes están insatisfechos de sí mismos, son incapaces de disfrutar completamente de la felicidad o el placer, y con facilidad se muestran ansiosos o deprimidos. Sabiendo que se cansan fácilmente, evitan los esfuerzos, la iniciativa y las relaciones sociales, y son considerados orgullosos o torpes. Restringen sus intereses, sentimientos y acciones al mínimo posible, hasta el punto de llevar una vida de ascetas (ascetismo neurótico). Se muestran suspicaces hacia los demás, e inestables y lentos en adaptarse a las situaciones nuevas; tratan de ser reservados, pero no saben guardar con facilidad un secreto y son muchas veces grandes mentirosos.” Já acho que pinta demasiado o perfil.

No les gusta la gente y no se sienten ligados a los demás (…) Numerosos alcohólicos pertenecen a esta categoría.”

LOS HIPOTÓNICOS: “agitaciones motoras, tics, gesticulación, garrulidad, [loquacidade] ansiedad, obsesión, meditaciones mentales, y también asma, palpitaciones cardíacas y migrañas. Como característica, el cansancio aumenta con el reposo y muchas veces disminuye con el ejercicio. Este tipo de paciente busca espontáneamente estímulos, porque éstos no sólo movilizan sus fuerzas latentes sino que las elevan a un nivel más alto de tensión psic.”

Dormir muito e tirar férias seriam para os astênicos. “Los estimulantes no Suelen ser muy útiles aquí, porque tienden a movilizar reservas que muchas veces son insuficientes, y a agotarlas. Sin embargo, parece que algunos tipos de estímulo incrementan realmente la energía. Entre ellos, productos endocrinos y métodos fisioterapéuticos que ejercen acción estimulante sobre la piel.” “los puntos débiles se encuentran generalmente en la relación del paciente con su ambiente social y con su trabajo profesional.” “El médico debe preguntar 1º acerca de las diversas personas con las que el paciente entra en contacto y de su relación con cada una de ellas, para delimitar hasta qué punto le dan fuerza o le privan de ella. Los más peligrosos son los devoradores de energía (o ‘sanguijuelas’), es decir, aquellas personas que, debido a su mal temperamento constante, sus enfados, sus suspicacias y autoritarismo, dejan exhaustos a sus compañeros. Su acción es en ocasiones lo suficientemente nociva como para que el psiquíatra se sienta autorizado a llevar a cabo una operación de ‘cirugía social’, a espaciar o separar a los individuos, o incluso apartarse de ellos permanentemente. Las mujeres asténicas no deben tener niños. (…) Debemos añadir aquí que el propio paciente neurótico es muchas veces un devorador de energía de su medio ambiente y que está grandemente necesitado de consejo acerca de sus actitudes hacia la gente que le rodea.”

la moratoria: después de un sobreesfuerzo físico o emocional, un individuo puede aparecer normal durante cierto tiempo y después derrubarse bruscamente.” “El psiquíatra que ve a alguien en ese período latente debe ser capaz de diagnosticar un agotamiento real bajo la máscara de salud aparente, y someterle a tratamiento como si fuera un asténico.” É esperar demais de seres tão limitados…

Idéias fixas e traumas como atos não-saldados.

J. insistía en la gran importancia de los actos de terminación.”

PROFILAXIA DOS HIPOTÔNICOS: “caminatas, deportes, caza o trabajos manuales. El problema se hace más difícil cuando las derivaciones han tomado um carácter de organización autónoma, como es el caso de los síndromes obsesivos convulsivos [COMPULSIVOS?].”

café, estricnina” “viajes, cambios de vida, asuntos amorosos, que los pacientes buscan espontáneamente.” “Pero la estimulación no es más que un desplazamiento”

La crisis epiléptica no es sino un colapso repentino de tensión psicológica en forma de descarga de energía, cayendo el individuo a un nivel inferior, del que asciende lentamente. Menos espectaculares son las crisis psicolépticas de los psicasténicos. Existe un emborronamiento súbito de la acción y la percepción y una pérdida del sentimiento de la realidad, y su terminación puede ser repentina o gradual.”

La relación entre cleptomanía y depresión mental fue bien ilustrada en el caso de un paciente que había aprendido accidentalmente a aliviar su depresión mediante la estimulación proporcionada por el robo en las tiendas.”

O QUANTA (E NÃO QUANTO) QUE PODEMOS AGUENTAR: “el caso del individuo que deja sus acciones incompletas y sin conseguir, haciendo descender cada vez su tensión psicológicas y quedando cada vez menos capaz de adaptación; de este modo cae en un círculo vicioso cuya terminación lógica es un síndrome asténico-hipotónico, que tiene su expresión en la esquizofrenia hebefrénica. [hebétude] Este concepto está muy próximo a la teoría de la esquizofrenia de Adolf Meyer, quien la considera como el resultado de una larga serie de reacciones inadecuadas y de deterioro de los hábitos.”

Ray, How Never to Be Tired, 1938.

Na relação entre o paciente e o diretor [de sua terapia], como dizia Janet, apareceria, antes ou depois, em ocasiões de forma brusca, uma mudança chamativa. O paciente mostraria uma conduta específica frente ao terapeuta, que não tinha frente a mais ninguém. Afirmaria que o terapeuta era um ser excepcional e que ele, o paciente, havia por fim encontrado alguém que o compreendia e o levava a sério. Isto significava, em realidade, que o paciente era agora capaz de contar seus próprios sentimentos e de falar seriamente acerca de si mesmo. A imagem inexata anterior que tinha do diretor era uma mescla de todo tipo de inclinações prévias mais ou menos semelhantes que temos a outras pessoas, sintetizadas agora de uma forma particular.”

J. declaró una vez que los psicólogos de finales del XIX habían escrito demasiadas monografías sobre temas limitados, hasta el punto de crear una gran confusión. Se necesitaban ahora sistemas comprensivos que permitieran ordenar, clasificar e interpretar hechos”

tendencias (concepto que prefiere al de instinto; las tendencias son más flexibles y se pueden combinar entre sí).”

un acto de cualquier nivel se puede hacer subconsciente cuando el individuo realiza de forma consciente actos de un nivel superior.” E não vice-versa? O inconsciente é burro?

La gran síntesis psicológica de J. es un monumento de tal amplitud que haría falta un volumen de 400-500pp. para exponer sus elementos.”

En lo relativo a la imitación, J. adopta la definición de Durkheim: la percepción del acto de otro hombre parece controlar la ejecución del acto del imitador, pero la imitación es un <acto doble> que implica una acción no sólo del imitador, sino también del imitado.”

J. L’Amour et la heine, 1937

« Al principio la palabra hablada era el comienzo de una acción. Pero después, el habla se emancipó de la conducta corporal; el hombre comenzó a jugar con el lenguaje, y esto es a lo que J. denomina lenguaje inconsistente. El lenguaje inconsistente se puede observar en niños de 3 a 6 años, que muchas veces hablan sin prestar atención a lo que dice el otro, según describió Piaget.”

Finalmente, el lenguaje fue utilizado por el hombre para hablarse a sí mismo en forma de lenguaje interior. Este fue el origen del pensamiento.” Se não pensava, homem não era.

los seres no son sino objetos a los que el nombre y la creencia añaden persistencia y estabilidad.”

Bergson, L’Évolution créatrice, 1907

Murphy, Human Potentialities, 1958

Os papéis primigênios do rito (ainda mais antigo) e do mito.

No es sorprendente que en numerosas religiones primitivas se realizaran ritos orgiásticos en los que la intoxicación alcohólica desempeñaba un papel predominante. Incluso las ceremonias fúnebres pretenden aumentar la energía de los participantes”

La idea de los espíritus-dioses surgió también de la conducta para con los seres ausentes, de los que los muertos son una categoría especial.”

la acedia [acídia] se podría explicar como un empobrecimiento gradual de energía mental. Su reverso es la conversión, que incluye una recuperación de la fe y un nuevo sentido de poder y estabilidad mental, así como un proceso de recuperación de energía mental y de ciertos estímulos.”

En una discusión religiosa falta la resignación científica, hay desprecio por el adversario y falta de honradez intelectual, p.ej., en forma de citas incorrectas de los escritos del mismo.” “El grado más alto de proselitismo es la persecución religiosa, que J. explica como un deseo de mando, de unidad intelectual y de alivio de la depresión mental.”

El fenómeno de la posesión demoníaca es considerado por J. como el reverso de la oración. Al igual que en ésta, es una conducta doble en la que el sujeto interpreta 2 papeles, pero mientras que en la oración la 2ª personalidad es buena (un dios o santos), en la posesión es mala (un diabo o demonio).”

O ÊXTASE, AMBIVALENTE: “Es una experiencia que la religión atesora pero de la que también recela, pues la persona extática está propensa a tener revelaciones privadas, separadas de los dogmas de la Iglesia.”

William James, Las variedades de la experiencia religiosa

Bergson, Las dos fuentes de la moral y de la religión

Desde el punto de vista clínico, J. suele ser considerado como un discípulo de Charcot. Se olvida muchas veces que, antes de ingresar en la Salpêtrière en 1899, tenía ya una experiencia de 6 o 7 años de trabajo clínico con neurosis y enfermedades mentales en El Havre con los doctores Gibert y Powilewicz, de modo que fue a la Salpêtrière no como estudiante, sino como como colaborador experimentado. Allí, en todo caso, aprendió a tratar psicóticos, sobre todo en las salas de los doctores Séglas y Falret.”

Las teorías de J. sobre la energía psicológica tienen mucho en común con las ideas expresadas por Beard y S. Weir Mitchell, y sobre todo por William James (cf. The Energies of Man).”

Las últimas teorías de Janet sobre la jerarquía de las tendencias, su amplio conductismo, estuvieron también sin duda muy inspiradas por la obra de Josiah Royce y James Mark Baldwin.” “J. nunca ocultó que muchas de las ideas que desarrolló tan ampliamente en su gran síntesis estuvieron inspiradas por Royce y Baldwin. Incluso el término socius, que tanto le gustaba, era tomado de Baldwin.”

Todos os pioneiros da psicologia da infância nada mais são que Hegels “aplicados”.

Las analogías entre las últimas teorías de Janet y las enseñanzas de George Herbert Mead son particularmente llamativas.”

El propio Bleuler dijo que la palabra autismo designa esencialmente desde el ángulo positivo lo que J. denominó pérdida del sentido de lo real desde el punto de vista negativo.”

Lo que Jung denominó complejo no era originariamente más que el equivalente de la idea fija subconsciente de Janet.

El trabajo de J. ejerció también una gran influencia sobre la psicología individual de Adler. Este último reconoció que su trabajo sobre el sentimiento de inferioridad constituyó un desarrollo de la observación de J. del sentiment d’incomplétude.”

La influencia de J. ha sido considerable también sobre la psiquiatría francesa y sus 3 principales representantes contemporáneos, Henri Baruk, Henri Ey y Jean Delay.” “La psicofarmacología, añade Delay, ha confirmado ciertas de las ideas de Janet, y por esta razón el propio Delay clasificó los fármacos psicótropos en psicolépticos, psicoanalépticos y psicodislépticos, sobre la base de los conceptos de Janet.”

Pierre Janet es un ejemplo notable de la forma como la fama y el olvido se distribuyen de manera desigual entre los científicos. Hacia 1900 sus contemporáneos tenían la impresión de que pronto sería el fundador de una gran escuela. Sin embargo, a pesar del constante desarrollo de su obra, pareció como si se separara lentamente de la tendencia general.” “Resulta tentador, en este punto, especular acerca de las razones por las que Janet fue favorecido por Lesmosine, la diosa del olvido, en lugar de por Mnemosine, la diosa de la memoria.” “Casi parece como si algún hado misterioso hubiera decretado el olvido de la memoria de Janet. Cuando murió, el 24 de febrero de 1947, en París no había periódicos debido a una huelga de impresores; su muerte pasó, por tanto, casi desapercibida. Cuando reaparecieron los periódicos, el 18 de marzo, [o mês em que a terra parou!] fue mencionada la noticia en 2 líneas entre un gran número de informaciones de todo tipo.” “En 1956 fue celebrado en la Salpêtrière el centenario de Fraud, al que se erigió un monumento en recuerdo de su visita a la clínica de Charcot. Pero nadie pensó en erigir un monumento a Janet en su centenario, en 1959” “En 1960, al publicarse un volumen conmemorativo de la fundación del collège Sainte Barbe, la lista de los hombres ilustres que habían estudiado allí no contenía el nombre de Janet. Mas aún: sus obras nunca han sido reimpresas; cada vez son más raras y difíciles de obtener.”

VII. SIGMUND FRAUD Y EL PSEUDANÁLISIS

Mientras que hombres como Pierre Janet se habían mantenido dentro de los límites de las organizaciones científicas tradicionales, de la universidad, de las sociedades culturales establecidas, escribiendo en periódicos abiertos a cualquier punto de vista psicológico o médico, y sin intentar nunca fundar una escuela, Freud rompió abiertamente con la medicina oficial.”

En 1859 Austria fue vencida en Italia por los piamonteses y los franceses, y perdió Lombardía. En 1866 sufrió, en guerra con Prusia, una rápida y aplastante derrota en Sadowa y perdió Venecia. El imperio tuvo que abandonar sus ambiciones relativas a Alemania e Italia y puso sus ojos en la Península Balcánica para su expansión política y económica, pero allí tropezó con la creciente rivalidad de Rusia. En 1867, se convirtió en doble monarquía austro-húngara.” “En 1890 los suburbios de Viena fueron incorporados a la capital, que ahora tenía más de 1 millón de habitantes y se había convertido en una de las ciudades más bellas del mundo.”

Su vida es un ejemplo de ascenso social gradual desde la clase media baja hasta la alta burguesía.” MUDE SUA CLIENTELA E SE TORNARÁ UM NOVO-RICO: “Los pacientes en los que realizó sus estudios neurológicos pertenecían a los estratos más bajos de la población, pero su práctica privada, en la que basó el psicoanálisis, se desarrolló entre enfermos de los más altos círculos sociales.”

La mayor parte del entorno familiar de Fraud es todavía desconocido u oscuro.” “En Viena habitaban las denominadas familias toleradas. Aunque los judíos habían sido desterrados de la ciudad en 1421, y de nuevo en 1670, en la 2ª mitad del siglo XVIII reconstituyó una tercera comunidad alrededor de varias familias ricas e influyentes.” “Otro grupo judío de Viena, la denominada comunidad turco-israelita, estaba formado por judíos sefarditas procedentes de Constantinopla y Salónica, y que durante largo tiempo gozaron de la protección del sultán. Hablaban sefardita, y pronunciaban el hebreo de forma diferente que los judíos de habla alemana.” “Como los judíos eran los únicos comerciantes de la ciudad, las calles del ghetto estaban siempre abarrotadas de clientes.”

Los niños iban a la escuela en la sinagoga, donde las enseñanzas se centraban en la lectura de los libros sagrados en hebreo, penosa prueba para la mayoría de ellos por no comprender su significado.” “La característica principal era el miedo: miedo de los padres, de los profesores, de los esposos, de los rabinos, de Dios y sobre todo de los gentiles.”

Por último, dentro del ghetto existía una cierta estructura social basada en el éxito y el fracaso, el rico y el pobre, con una aristocracia formada por algunas familias ricas, como los Gomperz, los Todeco, los Ullman o los Pappenheim, que construyeron una gran red de negocios y conexiones sociales.”

Vishnitzer, trad./ed., The Memoirs of Ber of Bolechow (1723-1805), Londres, Oxford Press, 1922: Ber habla con ironía de su educación talmúdica y del pilpul, es decir, de la profunda discusión de los hombres cultos acerca de puntos oscuros del Talmud, donde rivalizaban en argumentos sutiles, distinciones demasiado finas y audaces afirmaciones obtenidas de combinaciones ingeniosas del texto.”

El permiso para habitar en domicilios privados se conseguía mediante el pago de un impuesto especial. (…) Tal era la condición de los judíos antes de la emancipación. [hasta 1851]” “Una gran fracción de judíos, especialmente en las ciudades, tendió a la <asimilación>, adoptando las costumbres, modales, vestidos y forma de vida de la población circundante, y los que hablaban yiddish (dialecto alemán del siglo XIV intercalado con palabras hebreas) adoptaron el uso del alemán moderno. Muchos de estos judíos asimilados conservaron su religión en la forma denominada judaísmo liberal; otros que tenían poco o ningún sentimiento religioso permanecieron unidos por tradición a sus comunidades. Algunos fueron más lejos y abandonaron la religión de sus mayores, que ya no significaba nada para ellos; como era obligatorio declarar una religión, se registraron como católicos o protestantes. Algunas comunidades de judíos ortodoxos mantuvieron, sin embargo, rigurosamente sus creencias, ritos y costumbres. Leyendo ciertas descripciones de la vida del ghetto, como las de Siegmund Mayer o Steinthal, se siente una curiosa sensación de nostalgia por aquella época en que la vida religiosa y la disciplina moral eran tan estrictas.” “surgieron numerosos conflictos entre los padres ortodoxos y los hijos separados, que no podían comprender las duras condiciones bajo las que habían vivido aquéllos.” “Muchos adoptaron nombres y apellidos nuevos, así como fechas ficticias de nacimiento; estaban registrados en la comunidad judía con un nombre hebreo, de modo que tenían una especie de identidad doble.” “Por tales razones los historiadores deben tener cuidado al utilizar los documentos oficiales austríacos de aquella época, especialmente los relativos a la población judía.”

Parece ser que los primeros brotes de antisemitismo aparecieron después del pánico en la Bolsa de valores en 1873, y se generalizaron lentamente en las décadas de 1880 y 90, aunque ciertos eminentes judíos que vivían en Viena en aquella época aseguran que no advirtieron nada, o muy poco.” Isso é muito bem-explicado por Hannah Arendt. O anti-semitismo tem raízes mais antigas, e sequer este anti-semitismo econômico de 1873 é, ainda, considerado pela autora o anti-semitismo moderno (Holocausto). Além disso, os judeus viviam, por assim dizer, em seu próprio mundo, de modo que não percebiam os movimentos políticos ou as tendências sociais.

Nuestra epidermis se ha hecho demasiado sensible, y desearía que nosotros, los judíos, tuviéramos una firme conciencia de nuestro propio valor, tranquilidad y casi indiferencia por el juicio de los otros, en lugar de este point d’honneur oscilante, hipersensible y fácilmente insultado. Sea lo que quiera, ese point d’honneur es ciertamente un producto de la asimilación.” Josef Breuer, 1894. É por isso que os judeus jamais entenderam ou tiveram como se preparar… O que Breuer chama aqui de “ponto de honra” é o que nós entendemos por viver em sociedade!

Fraud mantuvo la ideología patriarcal, con su creencia en la dominación del hombre y la subordinación de la mujer, su devoción por la familia y sus severas costumbres puritanas.”

Si es difícil escribir acerca de Fraud es por la profusión de obras a él dedicadas y por la leyenda surgida a su alrededor, que hace excesivamente laboriosa y decepcionante la labor de un biógrafo objetivo.” “El estudio objetivo [verdadero] de las fuentes de F. ha sido comenzado por Maria Dorer y Ola Andersson ha llevado a cabo una investigación sobre el desarrollo de los conceptos fraudianos basándose en materiales de origen.”

La afirmación de que Jacob Freud poseía una fábrica de tejidos pertenece a la leyenda, así como la historia de que abandonó Freiberg debido al furioso antisemitismo.”

La lengua de la comunidad sefardita, no muy numerosa, era un dialecto hispano-judío. ¿Pudo el prestigio de esa comunidad haber incitado al joven Sigismund a aprender su idioma? Se sabe, por lo demás, que F. aprendió español con un condiscípulo llamado Eduard Silberstein.”

Breuer tenía amistad personal con el compositor Hugo Wolf, el escritor Schnitzler y el filósofo Brentano, y mantenía correspondencia con la poetisa Maria Ebner-Eschenbach.”

A F. le gustaba decir que había sido alumno de Charcot en París durante 1885 y 1886. Esto ha llevado en ocasiones a creer que permaneció allí durante largo tiempo. En realidad, éste vio a Ch. por 1ª vez el 20/10/85, y se separó de él el 23/2/86. De estos 4 meses hay que restar además una semana de las vacaciones de Navidad, que pasó con su novia en Alemania, y <un par de semanas> en que Ch. estuvo enfermo. Podemos suponer que su encuentro con él tuvo más la naturaleza de un encuentro existencial que la de una relación maestro-discípulo.”

Aumentó la frecuencia de la histeria masculina en Francia, al menos como etiqueta diagnóstica, por lo que en París se conocieron 2 tipos: el clásico y el postraumático. En Viena, ya no se discutía la existencia de la histeria masculina clásica, pero los neurólogos más famosos no aceptaban la identificación que hacía Ch. de las parálisis traumáticas en el hombre con ella.” O erro de F. foi cair que nem um patinho no 2º conceito, o charcotiano, na frente de auditórios vienenses bastante exigentes!

El profesor Bamberger, presidente, reconoció los méritos de Ch., pero no vio nada nuevo en el interesante trabajo de F..” “El profesor Leidesdorf mencionó que en muchas ocasiones había examinado pacientes que, después de un accidente de ferrocarril o un trauma similar, habían desarrollado síntomas orgánicos que no tenían nada en común con la histeria.” “a aquellos neurólogos les irritaría que F. atribuyera a Ch. el descubrimiento de que la histeria no era una simulación ni el resultado de alteraciones de los órganos genitales, 2 puntos que ya eran conocidos en Viena hacía largo tiempo, por lo que pensarían que F. les trataba como ignorantes e intentaba ponerse a su nivel. Asombra pensar que F. no se diera cuenta de que estaba ofendiendo a una Sociedad que se había mostrado bien dispuesta hacia él.” “En contra de lo que afirma la leyenda, F. no rompió sus lazos con la Sociedad. Su candidatura fue apoyada por 7 miembros destacados de la misma el 16/2/87, y fue elegido el 18/3. Nunca dejó de ser miembro de la Sociedad hasta abandonar Viena.”

La controversia sobre las neurosis traumáticas de histeria masculina continuó invadiendo Europa durante algunos años hasta que, hacia 1900, el mundo médico perdió su interés por la histeria, cesó de creer en la existencia de los estigmas de Ch. y la propia enfermedad se hizo mucho menos frecuente.”

Fue acusado de haber desencadenado sobre la humanidad el <tercer azote>, la adicción a la cocaína (los otros 2 eran en alcoholismo y la morfinomanía)”

No era extraño trabajar desde la 1ª hora de la mañana hasta la última de la noche, durante 6 días a la semana, pero los profesionales liberales y las personas de categorías se tomaban 3 meses de vacaciones de verano, que pasaban en el campo o viajando Baedeker [guia de viagens] en mano.”

La evolución científica de F. durante esos 10 años es manifiesta: en 1886 era un neurólogo que aceptaba completamente las teorías de Ch., mientras que en 1896 ya no se interesaba por la neurología” Grande involução!

Se alejaban las esperanzas de un gran descubrimiento que le daría fama y riquezas.”

OS DELÍRIOS ELLENBERGUIANOS DA ‘DOENÇA CRIADORA’: “Sufre de sentimentos de aislamiento total, aun cuando tenga um mentor que le guíe a lo largo de la prueba. La terminación es muchas veces rápida y está caracterizada por una fase de alegría.”

COLOCANDO A CARROÇA NA FRENTE DOS BOIS:Paul Valéry ha demostrado como la personalidad de un escritor creador puede también ser premoldeada por la imagen de su trabajo.” Mais salutar seria denominar essa condição de Síndrome de Nietzsche, de Platão ou de Sócrates, como queira. Lá pelos meus 18 anos denominei coisas correlatas a esse processo como COMPLEXO DO SUPERIOR.

¿No es entonces la teoría de Fraud una racionalización de su propia inhibición sexual?” Maryse Choisy

Wagner-Jauregg recibió numerosos honores, que culminaron en 1927 con la concesión del premio Nobel. Fue el primer psiquíatra que lo recibió.”

Repetidas veces se ha trazado un paralelismo entre Fraud y Arthur Schnitzler.” “Siguiendo los pasos de su padre, Schn. se dedicó al periodismo médico.” “Mientras tanto, tenía su tiempo y su interés cada vez más absorbidos por la literatura y el teatro, y su consulta mermó gradualmente. Sus tormentosas relaciones amorosas con algunas actrices le hicieron sufrir, pero le proporcionaron material para sus obras.” “La fama de S. comenzó con Anatol, la historia de un playboy vienés de la época.” “El Paracelsus de S. da así una imagen de la hipnosis y la vida mental muy distinta de la que presentan los estudios sobre la histeria de Br. y F.. Estos 2 parecen tomar las revelaciones de sus sujetos hipnotizados en su sentido literal, y construían sus teorías sobre esta base” “Las semejanzas entre S. y F. no se deben sobrevalorar.” Pelo pouco que li, isso é EVIDENTE!

La misma independencia del pseudanálisis se demuestra en la novela de S. Frau Beate, historia de incesto entre un joven y su madre viuda.”

Después de la I Guerra, la nueva generación austríaca despreció Schnitzler como prototipo de <espíritu corrompido de la monarquía decadente> y de <la vida frívola de la clase ociosa vienesa>. En 1927 publicó un opúsculo, El espíritu en el trabajo y en la acción, curioso ensayo sobre la tipología de distintas variedades de hombre tales como el poeta, el filósofo, el sacerdote, el periodista, el héroe, el organizador, el dictador, etc.”

S. se reveló como mucho menos escéptico de lo que hacían pensar sus primeros trabajos literarios.” Ao invés de sucumbir ao niilismo bélico, propunha soluções e era um verdadeiro humanista, ao contrário de Fraud.

S., Huida en las tinieblas

La historia de Moisés habría sido una novela comparable a las bíblicas de Shalom Asch y Thomas Mann.”

Creo que la gente no se da cuenta por lo general de las dificultades de la observación al microscopio, o de la enorme y penosa preparación necesaria para educar simplemente los órganos de la vista y el tacto para el trabajo… Parece una cosa fácil sentarse y mirar los objetos a través de un cristal que lo aumenta todo; pero en la investigación microscópica existen campos tan oscuros que el estudiante debe observar una dieta especial antes de comenzar su estudio, para evitar que incluso el latido de las arterias pueda alterar la firmeza de su mirada, y tener el sistema nervioso en excitación tan tranquila que toda su figura permanezca durante horas en rígida obediencia a su mirada fija y concentrada.” Agassiz

Haeckel describió e ilustró configuraciones imaginarias que confirmaban sus teorías y que le condujeron a ser acusado de fraude, Meynert halló tractos ilusorios en la sustancia cerebral, y varias generaciones de astrónomos vieron y levantaron mapas de los <canales> de Marte.”

En aquella época [1891] había una abundancia enorme de literatura sobre este tema, [afasia] hoy difícilmente accesible; muchas de esas obras estaban escritas en el estilo de la mitología cerebral contemporánea.”

A principios de la década de 1880, Heymann Steinthal propuso lo que en la actualidad se podría calificar de teoría dinámica de la afasia, pero, por tratarse de un lingüista, fue ignorado por los neuropatólogos.”

La reputación de F. como especialista en parálisis cerebral infantil quedó tan firmemente asentada que Nothnagel le pidió que escribiera una monografía sobre el tema, que apareció retrasada en 1897. Este trabajo fue objeto del aprecio, en Francia, de Brissaud y Raymond. En Bélgica, las teorías de F. sobre la parálisis cerebral y su clasificación en subformas fue criticada por Van Gehuchten, quien las tachó de concepción artificial carente de base anatomopatológica alguna. Todos estos hechos tienen interés, porque muestran que F., también en su período neurológico, recibió tantos honores como críticas, contrariamente a la afirmación de que durante la época en que fue neurólogo no recibió más que honores, que se convirtieron en insultos tan pronto como se dedicó al estudio de la neurosis.”

Hay 2 formas de construir una teoría psicológica. La 1ª es reunir hechos y hallar factores comunes de los cuales deducir leyes y generalizaciones. La 2ª es construir un modelo teórico y ver si los hechos se ajustan a él, para modificarlos si es necesario. Siguiendo una tendencia común en su época, la preferencia de Fraud fue por este 2º camino.” Tsc, tsc…

Para hacer inteligible el Proyecto hay que colocarlos en su contexto, es decir, en la larga línea de evolución que había comenzado con Herbart. En el curso del siglo XIX, la anatomía y fisiología cerebrales se construyeron sobre una base científica y experimental, pero existía también una línea paralela de anatomofisiología cerebral especulativa, que en la última parte del siglo fue denominada Hirnmythologie (mitología del cerebro). Curiosamente, en ocasiones fueron los mismos estudiosos empíricos los que patrocinaban la anatomofiología mitológica, aunque se consideraban como <positivistas> y despreciaban la filosofía de la naturaleza.” < < < Perfeita descrição de Freud.

El Proyecto de F. no es sino un último resurgir de esta secuencia especulativa.Tudo explicável ao ler-se Herbart e Fechner. A propósito do primeiro (Herb.), de acordo com diversas passagens deste livro, é imprescindível ler ao menos seu principal tratado psicológico, e na fonte, não via fracas obras de coleções didáticas governamentais! Parece que mesmo noções avançadas do inconsciente como a sombra junguiana têm seu precedente nele…

Estos principios fechnerianos fueron completados posteriormente por Heinrich Sachs con su supuesta ley de la cantidad constante de energía psíquica

Brücke fue uno de los estudiosos que redujeron la psicología a la neurología y explicaron todo el funcionamiento del sistema nervioso como una combinación de reflejos. (…) Meynert (…) fue apenas más elaborado que Brücke.”

Exner, el 3º de los maestros neurológicos de F., publicó en 1894 su Entwurf, considerado como una síntesis de los sistemas de Brücke y Meynert. En el intervalo, sin embargo, había aparecido la teoría de la neurona, y Exner discutió las cantidades de excitación que podrían ser transferidas en las uniones entre las neuronas, donde él creía que tenía lugar la suma de las excitaciones.” “Desarrolló ampliamente su psicología neurológica, dando explicaciones de la percepción, el juicio, la memoria, el pensamiento y otros procesos mentales.”

La neuropatología (en aquella época completamente distinta de la psiquiatría) comenzaba a ser una especialidad de moda.”

Comparando la biografía de Bertha Pappenheim con las 2 versiones de la historia de Anna O. se observa que, según la 1ª, Bertha se trasladó de Viena a Frankfurt en 1881, mientras que Anna permaneció en el sanatorio vienés hasta junio de 1882 según Breuer, y durante mucho más tiempo según Jones. Más extraño aún es que la fotografía de Bertha (cuyo original ha visto el autor) lleve la fecha de 1882 grabada por el fotógrafo y muestre una mujer de aspecto sano, deportivo; aparece con traje de montar, en agudo contraste con el retrato que hace Breuer de una joven ligada al hogar sin escape para sus energías físicas y mentales.” “La historia clínica de Br. es obviamente una reconstrucción hecha de memoria, escrita 13 o 14 años más tarde <a partir – como él mismo dice – de notas incompletas> y publicada con bastante indiferencia, para complacer a Fraud.” Será Breuer o maior mentiroso –– depois do próprio F., que não tem paralelo?

Breuer y su paciente jugaron un juego cerrado, como habían hecho Despine y Estelle en el pasado, aunque Br. tuvo menos éxito. A los viejos magnetizadores la historia de Anna no les hubiera parecido tan extraordinaria (…) Era uno de esos casos frecuentes en la década de 1820”

La catarsis fue durante algún tiempo uno de los temas más discutidos entre los eruditos y se hizo tópico en las conversaciones de los salones vieneses. No es de extrañar que una joven de la alta sociedad la adoptara como medio para una cura autodirigida, pero resulta irónico que el tratamiento infructuoso de Anna O. convirtiera para la posteridad en el prototipo de una cura catártica.”

No se da indicación [en los relatorios de los años 80 de Br.] de adónde fue la paciente después de su salida de[l sanatorio de] Bellevue. Manifiestamente, estaba ella enferma física y psíquicamente y era morfinómana en un grado grave.”

La 1ª psiquiatría dinámica había significado, fundamentalmente, la sistematización de observaciones realizadas sobre pacientes hipnotizados.” Em 1896 F. rompeu com todo esse trabalho sério!

En la realidad, tanto la resistencia como la transferencia habían sido conocidas ya por los magnetizadores e hipnotizadores.”

En los 1880 Gross revisó sistemáticamente las declaraciones de testigos y acusados en busca de lapsus de lengua y manifestaciones afines significativas y publicó observaciones relevantes en sus artículos y libros de textos.” “Gross halló que los testigos falsos invariablemente se traicionaban, aunque fuera por una sola palabra, y también por su actitud, talante o gestos.”

Algunos escritores utilizaban corrientemente parapraxias como una argucia tan obvia que no era necesario explicárselas al lector.”

Schopenhauer había dado ya a la metafísica del sexo un lugar central en su filosofía” E assim vai… Até vermos que NADA em F. é original! Os TRÊS ENSAIOS, p.ex.: F. puxou tudo de Krafft-Ebing.

En 1913 parecía que la teoria pseudanalítica se había completado por fin. Sin embargo, y para sorpresa de [nadie!], todavía tenía que producirse una gran metamorfosis.”

El paso final al moderno pseudanálisis [contradição em termos – neo-charlatania] del yo se dio en 1939 con la famosa monografía de Heinz Hartmann [começa como termina, com o mesmo sobrenome irrelevante!], en la cual se resaltaba la autonomía del yo y su función de adaptación.” Adaptação da psicanálise ao mercado.

EVIL NEVER DIES! “Poco después de haber concebido su teoría pseudanalítica, Fraud la expandió a los campos de la religión, la sociología, la historia de la cultura, el arte y la literatura.” Resumindo, tudo de que ele jamais entendeu.

Tomó cosas de sus maestros, sus colegas, sus rivales, sus colaboradores, sus pacientes y sus discípulos.”

La fuente primera y principal de cualquier pensador creador descansa en su propia personalidad.” Talvez de um criador, mas o que essa frase faz justo no capítulo sobre Fraud?!

La Piere¹ (The Freudian Ethic, 1959) afirma que el freudismo arruinó la ética del individualismo, la autodisciplina y la responsabilidad que prevalecían en el mundo occidental.”

¹ Também grafado LaPiere (Google Books). Infelizmente esse livro só deve existir na Amazon e na Abe Books – nenhum ebook encontrado!

Sería de valor incalculable conocer el punto de partida de la leyenda freudiana y los factores que la llevaron a su desarrollo actual. Por desgracia, el estudio científico de las leyendas, su estructura temática, su crecimiento y sus causas es una de las provincias menos conocidas de la ciencia, y hasta la fecha no se ha escrito nada sobre Fraud que pudiera compararse con el estudio que hizo Etiemble de la leyenda que creció alrededor del poeta Rimbaud.” Isso segue válido também fora do domínio dos psicólogos da TCC (os mais interessados em atacar F., isto é, chutar cachorro morto), 50 anos depois.

La leyenda atribuye a F. mucho de lo que pertenece a Herbart, Fechner, Nietzsche, Meynert, Benedikt y Janet, y descuida la obra de los exploradores previos del inconsciente, de los sueños y de la patología sexual.”

Su sistema fue juzgado lo bastante materialista como para ser adoptado por los psicólogos soviéticos de Rusia antes de que fuera reemplazado por la psiquiatría de Pavlov.”

Le ocurrió, por tanto, a F. lo que había ocurrido a Darwin y otros antes de él” Grosseiro mal-entendido: Darwin era um naturalista, e foi aplicado ao campo social e político, sem qualquer licença ou transição prevista pelo autor. Já Fraud era um enxerido metafísico e cripto-biólogo que foi aplicado em tudo o que queria que fosse aplicado, através da burocracia da IPA: psicologia nascente, psiquiatria, neurologia, sexologia, sociologia, antropologia, história, onirologia obviamente, teologia, blá, blá, blá… Não só seu estrago foi de dimensões muito mais incalculáveis como foi VOLUNTÁRIO.

VIII. ALFRED ADLER Y LA PSICOLOGÍA INDIVIDUAL

El interés de la psicología individual consiste en que es el primer sistema registrado, unificado y completo de Menschenkenntnis, lo suficientemente vasto además como para abarcar también el campo de las neurosis, de las psicosis y de la conducta delictiva.” “Los años 1920 a 32 fueron, a pesar de los cataclismos políticos, los de sus más grandes descubrimientos. Pero no esperó a que Hitler subiera al poder, y emigró a los EEUU en 1932.” Cem vezes mais inteligente que F., em que pese seus fanáticos dizerem o oposto.

La desintegración del imperio austro-húngaro favoreció el paso de su enseñanza desde su posición marginal inicial a la de un movimiento socio-ético de alcance mundial.”

Burgenland está orgulloso de su pasado histórico y de sus grandes hombres, entre los que se encuentran los compositores Haydn y Liszt. Durante siglos había sido una especie de <estado tapón> situado entre Austria y Hungría. Entonces pertenecía a Hungría, pero los magnates húngaros, dueños de una gran parte de la tierra, se mostraban amistosos con Austria (lo que era excepcional entre la nobleza húngara). (…) Los judíos de Burgenland gozaban de un status más liberal que la mayoría de los demás del imperio.”

Em toda a bibliografia de Adler não se encontra nem uma vez o termo “anti-semitismo”: “Al no estar unidos sentimentalmente, podían pasar al protestantismo o al catolicismo sin tener el sentimiento de traicionar a sus antecesores o de ser desleales con sus compañeros judíos. Así, Alfred Adler se hizo posteriormente protestante, mientras que 2 de sus hermanos (Max y Richard) se convirtieron al catolicismo y el primogénito (Sigmund) abandonó la comunidad judía como konfessionslos (sin ninguna religión declarada).”

La única investigación sistemática [de la genealogía de la familia Adler] realizada hasta la fecha es la del Dr. Hans Beckh-Widmanstetter, que es la que seguimos aquí.”

Según [su biógrafa] Phyllis Bottome, la familia criaba caballos, vacas, cabras, gallinas y conejos, pero sería exageración representar al joven Alfred creciendo en una especie de jardín del Edén en miniatura, como se ha hecho en ocasiones.”

[Su madre] y Alfred nunca se entendieron, y se dice que desempeñó en la vida de su hijo el papel al que este último denominaría posteriormente Gegenspieler (matriz), es decir, la persona contra la que uno mide y ejercita la propia fuerza.”

Alfred se sentía a sí mismo a la sombra del hermano mayor modelo, un verdadero <primogénito>, al que siempre vio remontándose delante de él en una esfera que Alfred – a pesar de todos sus esfuerzos – nunca podría alcanzar”

Bottome

Ellenberger chega a um nível de detalhamento biográfico absurdo! Refere que seu caçula Max Adler não deve ser confundido com o economista relativamente famoso de mesmo nome e dá até o título de seu doutorado, Die Anfänge der merkantilistischen Gewerbepoilitik in Oesterreich!”

Comovedoramente ingênuo: “La diferencia existente entre el ambiente social y familiar de A. y F. guarda relación con la diferencia que se advierte entre sus respectivos sistemas psicológicos.” Mas podemos resumir, sem ter de recorrer ao pomposo social: F. era um filhinho da mamãe num ambiente infecto, e A. ao contrário (um filho normal numa família sadia). Ironicamente, mais tarde, Fraud, de cidadania austríaca integral, sentia-se “isolado”, “sorumbático”, “antagonizado” por tudo e todos, ao passo que Adler, que era de nacionalidade húngara até 1911, era, ao contrário, tudo menos um autodenominado perseguido ou “de minoria”. Um odiava a vida, exalava polpa odium fati, o outro…

Alfred pasó la mayor parte de su infancia en los <arrabales> de la ciudad, jugando o luchando con muchachos no judíos, muchos de los cuales pertenecían a las clases más inferiores.”

Mientras que la dificultad de escribir acerca de F. proviene de la superabundancia de material [mítico-]biográfico, con Adler, al igual que con Janet, ocurre exactamente lo contrario.” “De la abundante correspondencia de A. se ha publicado escasamente media docena de cartas.” “Por desgracia, los archivos escolares fueron destruidos durante la ocupación aliada de Viena después de la Segunda Guerra Mundial. Por tanto, es imposible saber el tipo de alumno que fue Alfred Adler.”

Según sus biógrafos, era un gran apasionado de la música, del canto y del teatro, y también un actor bastante bueno.” Nesta frase já vemos sua superioridade humana em relação a Fraud.

El. Dr. Beckh-Widmanstetter localizó el expediente académico completo de A. (…) completó sus estudios de medicina en un tiempo normal, siguió únicamente los cursos obligatorios necesarios para pasar los exámenes y pasó sus 3 Rigorosa con la nota de genügend (suficiente), que era la mínima para aprobar. Como en aquella época la psiquiatría no era una asignatura obligatoria, A. no recibió ninguna enseñanza psiquiátrica; tampoco asistió a las clases del Privatdozent Fraud sobre la histeria. Sin embargo, en el 6º semestre siguió el curso de Krafft-Ebing sobre Las enfermedades más importantes del sistema nervioso.”

no se sabe en que circunstancias se conocieron los 2 colegas [en aproximadamente 1902].” “Parece ser que era el miembro más activo del círculo, y que F. le tenía en gran estima durante esos primeros años. En 1907 aparecieron sus Estudios sobre la inferioridad de los órganos, obra que fue considerada como un complemento fisiológico de la teoría psicoanalítica y bien conceptuada por F..” “Con los 6 miembros que habían renunciado al mismo tiempo que él y algunos otros, A. fundó un nuevo grupo, la Sociedad de Psicoanálisis Libre, [HAHAHA!] que poco después fue denominada Sociedad de Psicologia Individual.”

Precisamente en aquella época apareció el famoso libro de Hans Vaihinger, La filosofía del como si, que impresionó mucho a A.”

A COR DA INVEJA: “Mientras que F. se reunía con sus discípulos 1º en su apartamento y luego en los locales de una asociación médica, A. prefería hacerlo con sus seguidores en uno de los cafés vieneses. Alguno de sus adversarios consideró el procedimiento poco decoroso, a pesar de que las discusiones eran más serias que la charla usual que tenía lugar en los cafés.”

Salud y educación, livro-texto da Psicologia individual.

Trotski vivió en Viena desde 1907 hasta julio de 1914; su esposa era amiga de Raissa Adler.”

Leyendo el informe de Wagner-Jauregg, [quem indeferiu sua candidatura a Privatdozent] no se puede por menos de pensar que su crítica de A. estaba dirigida sobre todo a F., que es mencionado varias veces.”

Su mujer había ido de vacaciones a Rusia con los 4 niños, y cuando él le envió un telegrama urgiéndole regresar a Viena, ella no se dio cuenta de la seriedad de la situación, pospuso la vuelta y fue detenida. Hubieron de transcurrir varios meses de arduas negociaciones para conseguir que saliera de Rusia y volviese a Viena atravesando Suecia y Alemania.” “A. fue enviado como médico del ejército a la sección neuropsiquiátrica del Hospital militar de Semmering.”

Hemos perdido nuestro dominio sobre otros pueblos y vemos sin envidia ni rencor cómo los checos, los eslavos del sur, los húngaros, los polacos, los rutenios, aumentan su fuerza y despiertan a una nueva vida independiente… Nunca fuimos más miserables que cuando estábamos en la cúspide de nuestro poder…”

Los intentos de deserción en masa durante la ofensiva de Rusia fueron severamente controlados por la policía militar.”

Robert Dottrens, The New Education in Austria, 1930.

En aquella época se enfrentaba con otra serie de problemas, porque algunos de sus seguidores izquierdistas mantenían persistentemente que la psicología individual no era sino una consecuencia del marxismo.”

Phyllis Bottome cuenta en su autobiografía el desencanto que le produjo su primer encuentro con Adler, en el verano de 1927: Yo pensaba en un genio socrático, que nos condujera a todos a las profundidades de la psicología. Me encontré con un anfitrión muy amable y considerado que no hablaba de nada en particular y de todo en general.”

Parece que a desagradável expressão “constelação familiar” nasceu de Adler.

En aquella época, muchas mujeres estudiantes iban a las universidades de Europa Central, y algunas de ellas se casaban con sus compañeros o profesores. Podría hacerse una lista de los profesores franceses, alemanes y austríacos que contrajeron matrimonio con estudiantes rusas de aquella forma.”

Adler pertenecía a la clase media baja austríaca, en la cual se esperaba que la mujer fuese sobre todo una buena ama de casa”

Cuando Adler y su pequeño grupo se separaron de F., Stekel permaneció fiel a éste durante algún tiempo, pero fue atacado por los otros miembros del grupo, [novidade…] de modo que abandonó a su vez la sociedad pseudoanalítica.” “No se sabe la causa por la que, después de una amistad tan larga, se enemistaran hasta el extremo de que ni siquiera se hablaban o se saludaban cuando se encontraban en la calle.” “Con el transcurrir de los años, muchas de las ideas del propio A. fueron adoptadas tranquilamente por St., cuya enseñanza se convirtió en una mezcla de los conceptos fraudianos y adlerianos junto con los suyos propios.” “En 1908 A. sostuvo, contrariamente a la opinión de F., la existencia e importancia de los impulsos agresivos primarios; S. fue más lejos, manteniendo que el instinto criminal desempeña un papel importante en la neurosis, en la melancolía, en la epilepsia y en la elección de profesión.” “El énfasis que pone Stekel sobre el actor que hay en todo neurótico no está muy lejos de lo que Adler dice acerca del estilo de vida de un paciente. (…) Cuando F. declaró que la perversión es la negación de las neurosis, S. y A. no estuvieron de acuerdo: para ellos, la perversión no es sino otra forma de neurosis.” “La enseñanza de S. muestra el camino que habría tomado el pseudoanálisis si hubiera sido un método puramente empírico y práctico”

Libro de la salud del oficio de sastre. [alfaiate, costureiro] Este folleto de 31 páginas es tan raro en la actualidad que incluso entre los psicólogos individuales se han formulado dudas sobre su existencia verdadera.” Origem social das enfermidades físicas e nervosas. O Uber da época:

La peor calamidad es la desigual distribución del trabajo a lo largo del año: hay 5 o 6 meses de trabajo excesivo, durante los cuales el sastre trabaja 16 o 18 horas diarias, si no más, ayudado por su esposa y los hijos. Y durante el resto del año no tiene casi trabajo en absoluto, lo que le obliga a disminuir los sueldos de sus ayudantes o a despedirlos. Es asombroso que, a pesar de las bajas condiciones salariales, haya no menos de 200 mil sastres en Alemania, y casi otros tantos en Austria-Hungría. (…) Tiene que vivir y trabajar en el mismo local, situado en la zona más barata e insalubre de la ciudad; son lugares húmedos, faltos de aireación, llenos de gente, lo que favorece el contagio de las enfermedades infecciosas.

(…) La tuberculosis pulmonar es 2x más frecuente entre ellos que en el resto de los oficios. Otros resultados de la posición inclinada son las alteraciones circulatorias, como varices y hemorroides, así como frecuentes alteraciones gástricas e intestinales, de las que están afectos más del 30% de los sastres. La posición peculiar sentada e inclinada determina deformaciones tales como escoliosis, cifosis, reumatismo y artritis del brazo derecho, callosidades de los tobillos, etc. (…) Las enfermedades de la piel son frecuentes: se encuentra sarna en aproximadamente el 25% de los sastres. Debido a los pinchazos de la aguja, muchas veces padecen abscesos en los dedos, y debido a la presión de las tijeras, es frecuente la luxación del pulgar derecho. Su costumbre de colocarse hilos en la boca les produce infecciones de las encías y diversas alteraciones bucales y gástricas. (…) sufren cortedad de vista y calambres [cãibra] de los músculos oculares. (…) Según las estadísticas, la morbilidad es superior a la de cualquier otro oficio, y su esperanza media de vida es la más baja de todas las profesiones.”

El hilo rojo que cruza la monografía es la denuncia de la medicina académica contemporánea, que ignora la existencia real de las enfermedades sociales.” “Los que dice acerca de la superioridad de la gran fábrica sobre la pequeña tienda parece reflejar la teoría entonces muy discutida de Schulze-Gaewernitz, quien afirmaba que no se podrían mejorar las condiciones de la clase trabajadora hasta que hubiera una industria pesada poderosa y amplia.”

¿Continuará la profesión médica dejándose llevar a remolque por los funcionarios, o tomará su lugar a la cabeza del movimiento?”

El carácter nervioso adolece de un deficiente estilo y composición, pero está lleno de ideas y datos clínicos. En él se citan gran variedad de autores: médicos, pediatras y psiquíatras como Kraepelin y Wernicke y, entre los representantes de las nuevas escuelas, Janet, Bleuler, F. y numerosos psicoanalistas. Entre los filósofos, los que aparecen con más frecuencia son Nie. y Vaihinger, y entre los escritores, Goethe, Schiller, Shakespeare, Tolstoi, Dostoievski, Gogol e Ibsen.”

el más claro y sistemático de sus libros, Conocimiento de la naturaleza humana.” “Esta especie de psicología pragmática, calificada en ocasiones de concreta, no pretende profundizar demasiado en los temas, sino proporcionar principios y métodos que permitan adquirir un conocimiento práctico de uno mismo y de los demás. Esto fue también lo que intentó Kant en su La antropología desde el punto de vista pragmático. Incidentalmente, en el prólogo de este libro Kant utiliza 2x el término Kenntnis des Menschen y emplea la palabra Menschenkenntnis, que Adler utilizaría después casi como sinónimo de la psicología individual. Henri Lefèbvre ha demostrado asimismo que del marxismo se podía deducir un sistema para el conocimiento práctico del hombre en general y de la vida diaria. Aún más fácilmente se podría extraer otro sistema de psicología pragmática de las obras de Nietzsche.”

Según Adler, los primeros recuerdos tienen un gran valor diagnóstico, sean o no históricamente ciertos. Reflejan el fin vital y el estilo de vida del individuo, siempre que sean examinados en conexión con otras indicaciones psicológicas.”

Lebensstil: Uno recurrirá a la arrogancia, el otro a la modestia fingida, un tercero despertará la lástima en los demás y así sucesivamente.” “Así es posible diagnosticar de forma simple y rápida el fin secreto perseguido por aquellos con los que tratamos y ver cómo intentan influir sobre nosotros. De esta forma se puede ver a través de la máscara, y evitar sus ataques.” “Adler considera importantes los deseos sucesivos del niño relativos a su futura profesión, y piensa que la ausencia de cualquier deseo de este tipo podía ser signo de una grave alteración subyacente.”

En la última década del siglo XIX se puso de moda ser Nervenarzt, es decir, tratar a esos numerosos pacientes cuyas enfermedades no pertenecían ni a la neurología ni a la psiquiatría hospitalaria.”

El terapeuta no dudará en charlar con miembros de la familia o amigos del paciente en presencia de este último (y con su consentimiento), si lo considera necesario.”

Madelaine Ganz, que visitó uno de estos jardines de infancia en 1932, notó que los niños parecían menos disciplinados que en el de Montessori. Eran libres de realizar sus actividades en pequeños grupos o solos. La única regla impuesta era la de concluir cualquier trabajo que eligieran.”

Estas organizaciones fueron abolidas cuando el partido socialdemócrata abandonó su último reducto, <Viena roja>, en 1934. Pero las ideas de Adler permanecieron vivas, y se puede percibir su inspiración en creaciones, no ya suyas, sino de algunos de sus discípulos.”

IX. CARL GUSTAV JUNG Y LA PSICOLOGÍA ANALÍTICA

AINDA MAIS ARCANA: “la psicología analítica rechaza dicha herencia y regresa a las fuentes inalteradas del romanticismo psiquiátrico y de la filosofía de la naturaleza.” “Cuando nació, F. tenía 19, Janet 16 y Adler 5.”

Um suíço nacional-socialista.

Durante la 2ª Guerra y con posterioridad aflojó sus lazos con su escuela y expresó sus pensamientos en forma cada vez más personal.”

Hacia el fin de su vida personificó la figura casi legendaria el <sabio anciano de Küsnacht>, al que iban a visitar personas procedentes de todas las partes del mundo.”

Para el suizo, el federalismo y la democracia son términos casi sinónimos. Todo suizo ejerce sus derechos políticos en 3 niveles: municipio, cantón y federación. Cada municipio goza de gran autonomía, y todos los ciudadanos varones intervienen de forma constante y activa en sus problemas.” “Um estrangeiro que trate de conseguir a cidadania suíça deve solicitar primeiro a aceitação de um município dado, mediante a qual se converte em cidadão do cantão e conseguintemente da Confederação Suíça.” “Nada mais detestável, menos democrático, para um suíço, que a idéia de impor um idioma comum a todo o país.” “Mais ainda, na Suíça de fala alemã utiliza-se uma variedade de dialetos, em contraste com o Schriftdeutsch (Alemão escrito), a língua oficial administrativa e universitária.”

Em antagonismo com os outros exércitos europeus, que impõem um período de 1, 2 ou mais anos de serviço militar, os jovens recrutas recebem umas quantas semanas de instrução e exercício militares intensivos.” “Deste modo, cada varão suíço é simultaneamente soldado ou oficial e civil. Os efetivos militares permanentes estão reduzidos ao mínimo.” “dispõem de escudos de armas não só os aristocratas mas todas as famílias. Em conseqüência do sistema de município de origem, a qualquer um lhe resulta muito fácil reconstruir sua genealogia consultando os arquivos municipais.” “Durante a segunda metade do século XIX, se converteu numa espécie de laboratório experimental das instituições democráticas.”

Mas não é verdade que a Suíça sempre nadou de braçada na Europa e viveu na mais plena paz, com firmamento azul, enquanto seus irmãos mergulhavam em fratricídios sem fim: Napoleão conturbou o país, e houve guerra civil entre 1815-1830. Foi esta basicamente um conflito senhores do campo X patriciado urbano. Devido a isso, Basiléia se dividiu em duas em 1833: Basiléia-cidade e Basiléia-campo, ambas com autonomia política.

Em 1845 os 7 cantões católicos constituíram uma Liga em separado, a Sonderbund, dando lugar a uma guerra civil que terminou com a vitória da Federação e a reunificação de 1847.”

BASILÉIA: “Centro industrial e comercial internacional situado na encruzilhada de Suíça, França e Alemanha, era naquela época o suficientemente pequena como para que seus cidadãos se conhecessem todos entre si – tinha 50 mil habitantes. Desde o Renascimento, havia sido um dos centros da cultura européia. Em sua infância, caminhando pelas ruas, Jung podia ver o eminente filósofo-historiador Jac[k?]ob Burckhardt, ou o ancião Bachofen; ouvia falar por todas as partes de Nietzsche, que travara uma infinidade de relações; e Jung podia ser apontado na rua e infalivelmente identificado como <o neto do famoso Carl Gustav Jung>. [homônimo?]” “Seu avô (1794-1864) era um personagem lendário na Basiléia.” Um poeta e boêmio com diploma de medicina. Uma prisão decorrente de perseguição a movimentos estudantis na Alemanha, que dura 1 ano, acaba com suas pretensões de carreira artística e, exilado na França, conhece Von Humboldt, que o recomenda como professor de medicina na Universidade da Basiléia. “Em 1857 fundou uma casa para crianças retardadas, à qual dedicaria a maior parte de seu tempo.” Tornar-se-ia a seguir reitor da universidade, grão-mestre franco-maçon e autor de inúmeros tratados científicos, bem como voltou à arte, compondo peças de teatro sob pseudônimos. Segundo um rumor era filho ilegítimo de Goethe. (!) Não há dúvida de que havia certa semelhança física entre os dois. Jung o jovem jamais vira seu avô.

Relata-se uma série de “habilidades paranormais” dos avós maternos de Jung (o jovem).

F. había sido el primogénito querido de una madre joven y hermosa, mientras que Jung conservaba la imagen de una madre vulgar, ambivalente. La idea de que todo niño pequeño se enamora de su madre y siente celos de su padre le parecía absurda. Por outro lado, não deu tanta importância à hostilidade do filho ao pai, senão à identificação inconsciente com ele e com seus antepassados.”

A maioria dos filhos de pastores foi de homens destacados, ainda que alguns se rebelassem contra a ortodoxia religiosa paterna (quando não contra a própria religião, como sucedeu com Nietzsche).”

Conhece-se menos de Jung do que se poderia supor. A obra de Jung se encontrava incompleta na época do livro de Ellenberger, poucas de suas cartas foram publicadas e maioria de suas biografias se baseia em suas próprias memórias em entrevistas concedidas na velhice.

Exemplos de conflitos de relatos: “Albert Oeri, seu amigo de infância, diz que J. havia decidido, ainda muito jovem, converter-se em médico; em sua autobiografia, J. relata que esta decisão foi tomada repentinamente, sob o impacto de dois sonhos, pouco antes de matricular-se na Universidade.”

Ich kann nicht glauben an was ich nicht kenne, und an was ich kenne brauche ich nicht zu glauben.“

Em sua autobiografia, J. relata que o acontecimento mais importante de seus anos de faculdade foi o descobrimento do Zaratustra de Nietzsche, livro que exerceu uma extraordinária fascinação sobre ele, bem como sobre muitos dos jovens de sua geração.”

É extraordinário [porque fantasioso e mentiroso] que em sua autobio. não se mencione o nome de Bleuler nem uma só vez, e que Jung afirme que, quando chegou a Burghölzli, aos psiquiatras não lhes interessava outra coisa a não ser descrever os sintomas e etiquetar os pacientes, e que <a psicologia do paciente mental não tinha importância alguma>. Esta afirmação está em contradição manifesta com a de todos os que trabalharam com Bleuler.”

Sua tese de graduação, dedicada à história de sua prima médium, [hmmm] apareceu em 1902.”

Diz-se que J. e B. tiveram freqüentes choques porque J. estava tão interessado pela psicanálise que havia abandonado seus deveres no hospital.” “El doctor Alphonse Maeder assegura al autor que fue testigo de incidentes durante los cuales J. ridiculizó públicamente a Bleuler.” Esquentadinhos esses pseudanalistas!

F. queria discípulos que aceitassem sua doutrina sem reservas. Blueler e Jung concebiam a relação com ele como uma colaboração que deixava livres a ambas as partes. (…) F. estava disposto a ser paciente e a fazer concessões, exceto no relativo a seu Édipo e sua libido. Ora, eram estas precisamente as idéias que J. nunca aceitou, tornando inevitável que F. reprovara seu oportunismo, e que este rechaçara em Fraud seu dogmatismo autoritário.”

As divergências se acirram e temos em Metamorfoses e símbolos da libido, 1911 o marco junguianos equivalente ao que seria Humano, Demasiado humano para o dueto Nie.-Wag.

Em 1913 Jung, que já havia se desvinculado do Burghölzi, demitiu-se da Universidade de Zurique e da IPA.

Patéticas páginas sobre a autofabricação dos arquétipos.

Pero el mundo de los arquetipos amenazaba con sumergirle, y Jung se dio cuenta de que este tipo de ejercicio era muy peligroso. Por lo tanto, se impuso varias reglas.” Jajaja!

Como resultado destas regras, diz J., logrou descer ao Hades e emergir vitoriosamente de seu arriscado experimento. Defendia que Nietzsche havia tido uma experiência similar. Seu Zaratustra era uma erupção formidável de material arquetípico, mas, por não estar firmemente cravado na realidade, [!!!] já que vivia só, [!!] sem uma família [!!!!] e sem ocupação, [!!!!!!!!!!] Nie. foi esmagado [??!?]” Que interpretação mais torpe! Isso vindo de um simpatizante do espiritismo é mais que inaceitável.

percebeu que tinha dentro de si uma subpersonalidade autônoma, feminina, a que denominou anima.”

veia neognóstica” Jamais ler Livro negro e Livro vermelho! Aliás, seria muito pouco o que preciso ler deste homem…

Esta progressão desde o inconsciente ao consciente e desde o eu ao si mesmo foi o que denominou individuação. Lá pelos findos da Primeira Guerra Mundial, descobriu que, muitas vezes, um avanço decisivo na individuação era sancionado pela aparição de uma figura quadrada específica em seus sonhos, mais ou menos semelhante aos mandalas da Índia e Tibet. Em princípios de 1919 terminou seu experimento, do qual surgiu como um novo homem com novos conhecimentos.” Urgh! Sempre esse papinho… Nada mais antípoda do Z.

Os tipos psicológicos, 1921, espécie de condensação da DOUTRINA (é bem essa a palavra!)

Antes de que Richard Wilhelm publicara su traducción alemana de I Ching, J. estaba ya apasionadamente interesado por ese método chino de oráculos y realizó experimentos con él, aparentemente con algún éxito, aunque se abstuvo de comentarios hasta muchos años después.”

Praticou antropologia no Quênia e em povos do Novo México (Estados Unidos). Mais humilde e pertinente que Fraud: (*) “El autor preguntó a J. una vez por qué no publicaba sus observaciones sobre los elgoni, a lo que éste respondió que, siendo psicólogo, no quería invadir el campo de la antropología.”

El 25/11/32, el Ayuntamiento de Zurich decidió concederle el Premio de Literatura de la Ciudad, que ascendía a 8 mil francos suizos. La ceremonia tuvo lugar en la casa consistorial el 18/12. Se le concedía el premio por haber superado la <psicología sin alma> del siglo XIX, así como las concepciones parciales de F., por la gran influencia ejercidas por sus ideas sobre la literatura, y por su propia labor como crítico literario.”

Informações pouco fiáveis: “Em fevereiro de 34 Gustav Bally expressou sua surpresa por Jung prosseguir em suas funções no seio da Sociedade [Nazista] de Psicoterapia trabalhar como redator-chefe da Zentralblatt für Psychotherapie. Jung replicou que estava confuso. Seria fácil abandonar todo esse trabalho, mas havia preferido ajudar seus colegas alemães mesmo que sob risco de ser mal-interpretado. (…) Protestou contra a acusação de colaboração com os nazis e de anti-semitismo. Bally não voltou a insistir, mas alguns anos mais tarde publicou uma apreciação da psicologia junguiana raramente imparcial, demonstrando muita simpatia por Jung.” Mas em 1935 foi recebido em Harvard!

Em 28/9/37 estava em Berlim durante a histórica visita de Mussolini a Hitler e observou-os detidamente durante 45 minutos no desfile. Desde então, sua preocupação centrou-se fundamentalmente nos problemas da psicose de massas e nos perigos que ameaçavam a existência da humanidade.” hm.

No início de 1944, relata J., fraturou um pé e sofreu um infarto do miocárdio, durante o qual perdeu a consciência e sentiu que estava morrendo. Teve uma visão cósmica, percebendo nosso planeta como que desde uma distância imensa, e sua personalidade pareceu ser a soma total de tudo que havia dito e feito durante sua vida.”

Durante o resto de sua vida escreveria livros que confundiriam seus discípulos (como foi seu Resposta a Jó); concedeu entrevistas a visitantes de todas as partes do mundo, e recebeu numerosas honras, ainda que também sofresse muitas indignidades.”

Naquela época, em 1934, as pessoas ainda criam que se podia negociar com os nazis, [sempre esse pretexto da INOCÊNCIA!] e inclusive em 1936 o próprio Jones entrevistou na Basiléia o <doutor> Göring e outros da alta cúpula nazi.”

Jung mantinha [em seu artigo que fala de uma psicologia semita vis-à-vis outra ariana!] a opinião de que não existe um método universal de psicoterapia, e que o zen ou o ioga, que podiam ser eficazes no Japão e na Índia, não tinham por que sê-lo na Europa” E a ‘psicologia judia’, onde daria certo, já que eles não têm um território?

O que J. dizia acerca da falta de uma identidade cultural judia não era muito distinto do que haviam proclamado Theodor Herzl (O Estado judeu, 1896) e os sionistas.”

É possível que identificasse de forma inconsciente [VSF!] o incipiente movimento nazi com a sublevação patriótica e criadora da juventude [reacionária, pois anti-Comuna de Paris, etc.] em 1848”

Durante toda sua vida, Jung esteve muito interessado pelo gnosticismo, e em 1945 se sentiu comovido pela notícia da descoberta de uma coleção de manuscritos gnósticos no povo de Khenoboskion, no Alto Egito.”

Já após seu octogésimo aniversário reanimou-se uma campanha para denunciá-lo e estigmatizá-lo como colaborador nazi. Diz-se que havia ocultado cuidadosamente seus sentimentos anti-semitas, revelando-os tão-só no momento em que creu que Hitler dominaria toda a Europa. Teria traído Fraud em 1913 e tratado de afundar a psicanálise em 1933. Um grupo de discípulos judeus seus publicou um protesto na Israelitisches Wochenblatt (semanário israelita). (…) A campanha não arrefeceu depois de sua morte.”

Jung morreu em 6 de junho de 1961.”

En sus seminarios no-publicados se advierten algunas de las calidades que caracterizaron su conversación, en contraste con el estilo muchas veces pesado y laborioso de sus libros.”

Mantenía también la opinión de que cualquiera que deseara ser un buen psiquíatra debía abandonar la consulta y partir para visitar las prisiones y las casas de los pobres, los garitos, los burdeles y tabernas, los salones distinguidos, la bolsa de valores, las reuniones socialistas, las iglesias y las sectas.”

según fuentes dignas de crédito, en los 20 cobraba 50 francos suizos a la hora por la psicoterapia (cifra muy alta) (…) pero hay otros informes de que, muchos años después, la gente se veía sorprendida por los bajos honorarios que solicitaba.”

De todos los grandes pioneros de la psiquiatría dinámica., J. es el único cuya esposa se convirtió en su discípulo, adoptó sus enseñanzas y aplicó su método psicoterapéutico.”

Denis de Rougemont dijo que <posiblemente el mayor teólogo y el mayor psicólogo de nuestro siglo sean 2 suizos: Karl Barth (1886-1968) y Jung. Los dos, sigue explicando, se dedicaron a la cura de almas y a la edificación de un vasto sistema.>” “Siendo pastor de un pueblecito, Barth publicó un comentario sobre la Epístola a los romanos que revolucionó el pensamiento teológico.” “Cuando Hitler subió al poder, encabezó la resistencia de la Iglesia protestante contra los nazis, por lo que fue juzgado y expulsado de Alemania.” “Barth, que había escrito incontables libros y artículos, se concentró entonces en un vasto y universal tratado de teología, la Kirchliche Dogmatik, que ha sido comparado a la Summa de santo Tomás de Aquino por su magnitud y profundidad. Barth está considerado unánimemente como el mayor teólogo protestante desde Lutero y Calvino, y goza de audiencia universal, no sólo entre los protestantes sino también entre los católicos.”

Paul Häberlin (1878-1960), [quem?] considerado generalmente como el mayor filósofo suizo moderno, tiene algunas características comunes con Jung, como es la de que nació también en Kesswil.” “Durante varios años tuvo siempre 2 o 3 niños difíciles viviendo con su propia familia. Desde 1914 hasta 22 fue profesor titular de filosofía en Berna. (…) su éxito era comparado con el de Bergson en el Collège de Francia.” “Su Antropología filosófica es realmente notable.”

J. ha sido comparado muchas veces con Rudolf Steiner (1861-1925), fundador de la antroposofía.” “Steiner mantuvo que el enfoque de Goethe [em suas obras de filosofia natural] constituía la base para un verdadero estudo científico” “A partir de 1902 fue un miembro influyente de la Sociedad Teosófica, pero gradualmente desarrolló sus propias ideas en una dirección que por último le llevó a fundar un movimiento propio en febrero de 1912, la Sociedad Antroposófica. En el mismo año se comenzó la construcción del gran (…) Goetheanum en honor de quien, según Steiner, había alcanzado el grado más alto posible de sabiduría humana.” “El término <antroposofía> había sido acuñado por el filósofo romántico suizo Ignaz Troxler (1780-1866) para designar un método cognoscitivo que, tomando como punto de partida la naturaleza espiritual del hombre, investigaría la naturaleza espiritual del mundo” “Aunque muchos trataron de aplicar el método de Steiner, parece ser que nadie llegó nunca adonde el maestro.” Hahahaha “Enseñó un nuevo estilo arquitectónico y nuevos principios de pintura, declamación y arte dramático.” “No debe extrañar que ambos vieran la vida como una sucesión de metamorfosis, siendo la central el <cambio> que se produce hacia los 35 años.” Eu fui mesmo extraordinariamente precoce…

En el semestre de invierno de 1897-8 Jung fue elegido presidente de la Zofingia de Basilea. En su charla de apertura declaró que un hombre formado no debía tomar parte activa en la vida política. (Actitud común mantenida por los intelectuales antes de 1914).”

Aunque no era de ningún modo ateo, atacó varias formas de religiosidad: la fe religiosa tradicional, el racionalismo (tal como veía en la teología de Ritschl), y el interés por las <experiencias religiosas> (al estilo de William James). Era notable el tono de absoluta convicción cuando hablaba del alma (término que había desaparecido de la psicología)”

Kraepelin demostró que la fatiga favorecía las asociaciones verbales. Efectos semejantes fueron observados en la fiebre y la intoxicación alcohólica.” Como eu mesmo em minha carreira literária também demonstrei.

ABAIXO A ASSOCIAÇÃO DE PALAVRAS! “Nunca la repudió, y su práctica fue mantenida en el Instituto C.G. Jung debido a su valor disciplinario. Pero J. proclamó que <quien desee conocer la mente humana no aprenderá nada, o casi nada, de la psicología experimental>.”

J. había dirigido su atención, al principio, a los contenidos extinguidos del inconsciente (las ideas fijas subconscientes de Janet); después asimiló a los complejos de representación con carga emocional de Ziehen, y por último los volvió a encontrar en las reminiscencias traumáticas de F..”

(*) “Resulta por lo tanto erróneo lo que ciertos autores afirman de que el test de asociación de palabras era <una aplicación del psicoanálisis al método de prueba>. El proprio método y la noción de <complejo> precedieron a la fundación del pseudoanálisis.”

Tanto los chicos como las chicas, dice, se conforman de modo inconsciente a las actitudes familiares, como si hubiera una especie de contagio psíquico. Una vez fijadas estas actitudes, persistirán a lo largo de toda la vida. (…) En resumen, J. atribuía a esta asimilación precoz de las actitudes familiares (<identificación> en la terminología posterior) todos los efectos que F. adscribía a la resolución del complejo de E.”

Una de las primeras aplicaciones del ps.an. a la psicología social fue el trabajo de J. sobre <Psicología de los rumores>: una niña de 13 años había contado a sus condiscípulas un sueño que había tenido acerca de su profesor. La historia produjo un gran escándalo y la niña fue expulsada de la escuela, si bien la junta escolar se mostró dispuesta a readmitirla bajo aprobación psiquiátrica.” “El sueño en sí no tenía nada escandaloso, pero las testigos habían elaborado una serie de detalles escabrosos. J. llegó a la conclusión de que el sueño representaba sin lugar a dudas los deseos inconscientes de la niña, y que los testigos habían aportado nuevas versiones, al igual que si lo hubieran interpretado en un sentido psian..” Hermenêutica fraca e tendenciosa.

Dedicó más de 400 páginas a la interpretación mitológica de algunas ilusiones y fantasías de una persona a la que nunca había visto. Esta obra fue publicada en 2 partes en el Jahrbuch, en 1911-2.” “Trad. inglesa, Psychology of the Unconscious, NT, Moffat Yard, 1916. Nueva edición con el título Symbols of Transformation, en Collected Works, vol. V, NY, Pantheon Books, 1956.”

La obra de J. no es fácil de leer. En la versión original alemana abundan las citas latinas, griegas, inglesas y francesas sin traducir, así como largas etimologías copiadas de diccionarios. El lector se ve aplastado por una avalancha de citas eruditas de la Biblia, los Upanishad y otros libros sagrados; de la epopeya de Gilgamés y la Odisea; de poetas y filósofos (en particular Goethe y Nie.); de arqueólogos, lingüistas e historiadores de la religión; de Creuzer, Steinthal y otros estudiosos de la mitología, para no hablar de los psicólogos, psiquíatras y pseudoanalistas contemporáneos.”

Todas las dificultades, según J., se zanjarían dando a la palabra <libido> el significado de <energía psíquica>, la energía que se manifiesta en el proceso vital y es percibida subjetivamente como tendencia y deseo.” “Tomado en el nuevo sentido propuesto, el término <libido> se convertiría en un concepto abstracto (al igual que el de energía en la física), en una pura hipótesis.” “No hay sexualidad infantil propiamente dicha, y J. critica duramente la expresión <perverso polimorfo> adscrita por F. al niño.”

En presencia de una neurosis, lo que hay que preguntarse es: <¿Qué tarea desea evitar el paciente?>

Esta variedad de fuentes explica el motivo de que Los tipos psicológicos sea un libro en cierto modo desconcertante. El lector que abre ese volumen de 700 páginas esperando que comience con una clara descripción psicológica de lo que su título sugiere, pronto se siente decepcionado. La descripción clínica de los tipos ocupa únicamente el último tercio del libro, después de un largo estudio que comprende las obras de teólogos, filósofos, psicólogos, poetas e historiadores de la ciencia.” “Para captar la teoría junguiana en toda su complejidad, no hay nada que pueda reemplazar a la lectura del arduo capítulo X de la obra citada. La contribución de J. al Festschrift de Morton Prince sería una buena introducción.”

A los que son muy introvertidos o extravertidos les resulta difícil comprender a los del otro tipo, al menos intelectualmente. Pero (…) los matrimonios entre personas de distintos tipos son frecuentes y muchas veces felices.” “La noción de introversión y extraversión y la de las 4 funciones permitió a J. establecer un sistema de 8 tipos psic., 4 de los cuales son extrav. y los otros 4 introv..” “Luego tenemos el tipo reflexivo-introvertido, descrito ampliamente por J., quien parece que tomó a Nie. como modelo: es el hombre que carece de sentido práctico, se aísla después de las experiencias desagradables con sus compañeros, desea llegar al fondo de las cosas y muestra una gran audacia en sus ideas, aunque muchas veces se ve estorbado o detenido por dudas y escrúpulos.”

Como el libro de Binet apareció aproximadamente en la época en que J. estudiaba en París con Janet, es probable que lo leyera y después lo olvidara, lo cual sería un ejemplo más de esas criptomnesias tan frecuentes en la historia de la psiq. dinámica.” Criptomnésia, ah, tá bom!…

Jung dedicaria 20 livros a sua agora esculpida Psicologia Analítica. “La revisión completa de este amplio sistema requeriría un libro de 500 páginas, que por desgracia J. no escribió nunca.”

Lo que F. hizo por Moll, lo hizo J. por F.”

lo que importa no es la realidad del padre o de la madre, sino el modo como el niño los ve subjetivamente. J. propuso llamar a esta representación subjetiva imago, término inspirado por el título de la novela de Carl Spitteler.”

HISTORICIDADE DOS CONCEITOS DA PSIC. ANALÍTICA:

complexo imago arquétipo (inconsciente coletivo)

O culto de Mitra e o sol dotado de um falo. Origem do símbolo para o masculino?

Hay que hacer una distinción entre los <arquetipos propiamente dichos> que normalmente están latentes e inconscientes, y las <imágenes arquetípicas> que son las manifestaciones de aquéllos en la consciencia. Los arquetipos no son fruto de la experiencia individual, son <universales>.” “alma mundial-neo-platónica” “calidad <numinosa>” Acredite se quiser, J. se autodefinia como um empírico!

(*) “En realidade, el símbolo del sol fálico (Sonnenphallus) había sido mencionado por Creuzer en Symbolik und Mythologie der alten Völker, III, 3ª ed., Leipzig, Leske, 1841.”

La persona es la suma total de las actitudes convencionales que un individuo adopta por pertenecer a ciertos grupos: trabajo, clase social, casta, partido político o nación. Algunos ind. se identifican de tal manera con estas actitudes que pierden el contacto con su verdadera personalidad.”

La sombra es la suma de las características personales que el ind. desea esconder a los demás y a sí mismo. Pero cuanto mayor empeño pone en ocultársela a sí mismo, más activa y maligna se hace.” Difícil levar a sério! “El concepto junguiano de la sombra no debe confundirse con el concepto fraudiano de lo reprimidoA exposição e o reconhecimento da sombra, sua visibilidade em suma, seriam voluntarios.

el más central de todos los arquetipos, el sí mismo.”

Muchas veces se tiene la impresión de que gran parte de lo que Adler denomina protesta masculina es considerado por J. como manifestaciones del animus [a anima das mulheres, i.e., entidade masculina].”

espíritu (…) Aparece en los sueños bajo múltiples formas (…) Tiende a personificar en forma de sabio anciano” “En la literatura la personificación por excelencia del sabio anciano se encuentra en el Zarathustra de N.”

La palabra inglesa self, a la que se han dado tantos significados antagónicos, difícilmente expresa lo que quería significar J. con Selbst (literalmente, el <ello mismo>).” Ponto nevrálgico que uniria o consc. e o inconsc.

Considerando dicha neurosis como un aviso del inconsciente, el sujeto debe cambiar su forma de vida, o de lo contrario desperdiciará la 2ª mitad de la misma.” “J. contrastó la deplorable pseudo-juventud de las personas de edad en la civilización occidental con la dignidad de los ancianos entre los elgoni del este de África y el respeto que inspiraban a sus compañeros de tribu.”

(*) “Ver, por ejemplo, la descripción de la neurosis de la mitad de la vida de Velchaninov, en la novela de Dostoievski El eterno marido, y la de Claude Lothaire en la novela de Edmond Jaloux Les profondeurs de la mer.”

Una vez obtenida la individuación, el yo ya no es el centro de la personalidad, sino un planeta que gira alrededor de un sol invisible, el sí mismo. El individuo ha logrado la ecuanimidad y ya no teme a la muerte”

En Francia, Fabre d’Olivet había escrito sobre la cuaternidad a principios del siglo XIX.” “El mandala es una figura circular ornada con símbolos y dividida generalmente en 4 secciones.”

enantiodromia. Este término, originario de Heráclito, significa <regreso a lo opuesto>.” “autorregulación” Divina comédia – a diferença é que nós, os poetas de carne e osso, temos de viver o paraíso primeiro.

A PSICOTERAPIA P.D.: “Vamos considerar em separado a terapia de conscienciação, o tratamento do segredo patógeno, o método redutivo-analítico, a ativação da individuação e a reeducação.”

J. afirma que, de todos sus pacientes que estaban en la 2ª mitad de la vida, no había uno solo cuyo problema principal no estuviera relacionado con su actitud hacia la religión.”

¿?? “Existen, dice J., pacientes cuya característica principal es una especie de hedonismo y ansia infantil por la gratificación de sus instintos, mientras que otros están poseídos por el impulso del poder y la superioridad. Los del primer grupo deben ser tratados con una terapia de orientación pseudoanalítica, [¡!] y los del 2º, según los principios adlerianos. [¡!]Adler primeiro…

en algunas ocasiones J. daba a sus pacientes más cultos escritos de F. y A. para que los leyeran, y por lo general pronto encontraban por ellos mismos lo que más de acuerdo iba consigo.

Los métodos reductores-analíticos proporcionan muchas veces buenos resultados, pero otras veces no son completamente satisfactorios, y el progreso resulta detenido o el paciente tiene sueños de carácter arquetípico. Todo ello señala la necesidad de cambiar el procedimiento, es decir, de trabajar con el método sintético-hermenéutico.” Por que esse idiota batizou sua psicoterapia de Psicologia Analítica então?

Lo que F. denomina neurosis de transferencia es para J. un intento desesperado del paciente de compensar sus actitudes equivocadas ante la realidad y un resultado de la falta de habilidad del terapeuta (incidentalmente, esto es exactamente lo que Janet había dicho en 1896).”

El terapeuta debe llevarle, pues, a confrontar el consciente y el inc. de modo que pueda tener lugar la deseada síntesis.”

Mientras que muchos de los pseudanalistas freudianos de la actualidad nunca analizan los sueños de sus pacientes, no ocurre así en la terapia junguiana.”

J. no acepta la distinción que hace F. entre el contenido manifiesto y el latente de los sueños, sino que afirma que el manifiesto es el propio sueño.”

Los sueños no se pueden interpretar si el intérprete (…) carece de un buen conocimiento de los símbolos, y por tanto de la mitología y la historia de la religión.”

Resumiremos ahora los estados sucesivos de la psicoterapia sintético-hermenéutica normal.”

SONHAR COM A SUA SOMBRA: “El paciente sueña con um individuo repulsivo que es siempre diferente, [pai? Aloísio?] aunque conserva ciertas características, y que muestra además ciertos rasgos que recuerdan los suyos propios. Por último, llega el momento en que comprende que ese individuo no es otro que él mismo, [outros recorrentes: Thomas, Maurício, Leandro, Igor e Gustavo…] o mejor, su sombra, lo que le permite tomar consciencia de ciertos aspectos de su personalidad que había rehusado ver. [CASUAL DEMAIS, INTRANSIGENTE DEMAIS] Una vez que está completamente consciente de su sombra, tiene que asimilarla.”

inflación psíquica”

O tratamento pretende a progressão e terminação da individuação, o que significa que uma pessoa seguiu o velho preceito de <torna-te aquilo que tu és>, que se atribui amiúde a Nietzsche, mas que em realidade é uma citação do poeta grego Píndaro.” Torna-te um misantropo, pelo bem social!

Mientras que F. declara que el psan. no debe tratar de reeducar a su paciente, J. insiste en que éste debe ser ayudado desde el principio a lo largo de todos los estadios, sea cual sea la terapia que se utilice.”

J. concibe la neurosis como un <sistema enfermo de relaciones sociales>, definición que concuerda con los conceptos de Janet y de Adler. Debido a esta proyección, el neurótico manipula inconscientemente a las personas que le rodean (esposa, padres, hijos y amigos) y les hace enfrentarse uno con otro de modo que pronto se encuentra preso en una red de intrigas de las que son víctimas tanto él como los demás.”

en 1937 interpretó la visión de Zosimos de Panopolis, gnóstico del siglo III que marcó además la transición entre el gnosticismo y la alquimia.

La alquimia había sido siempre un rompecabezas para los historiadores de la cultura. Ya en la antigüedad griega y romana, y hasta el siglo XVIII, gran número de hombres cultos habían dedicado su vida a la práctica de operaciones pseudoquímicas”

Silberer, quien en un tratado sobre alquimia del siglo XVIII halló la representación simbólica del asesino del padre, de las teorías de sexualidad infantil y de otras varias. Jung, a su vez, vio en la serie de operaciones realizadas por los alquimistas una proyección del proceso de individuación” Berthelot, Les Origines de l’alchemie, 1885 / Silberer, Probleme der Mystik und ihrer Symbolik, 1914. – cada qual vê o que quer na alquimia, aparentemente…

Su interés se dirigió también a la astrología e los símbolos astrológicos.”

El Libro tibetano de los muertos es una descripción de lo que experimenta el alma desde el momento de la muerte hasta el de la próxima reencarnación, así como una explicación de cómo alcanzar la iluminación final y escapar, por lo tanto, a la reencarnación.”

En 1929 publicó un comentario psicológico como introducción a la traducción alemana que hizo su amigo, el sinólogo Richard Wilhelm, de un antiguo libro chino, El secreto de la flor dorada.”

El rico simbolismo del yoga tántrico le proporcionó abundante material comparativo para el estudio de los símbolos del inconsciente colectivo.”

En varios comentarios sobre las enseñanzas orientales, y sobre todo en su estudio del I Ching, J. anunció un nuevo concepto que desarrollaría en 1952 bajo el nombre de sincronicidad. (…) En realidad, algo de eso había también en el concepto de <armonía preestabelecida> de Leibniz y en comentarios de Schopenhauer”

Por último, se preguntó si la física moderna, tomando como punto de partida el principio del determinismo causal rigoroso, no daría un paso adelante hacia el principio de sincronicidad.” A física quântica já existía há décadas nos anos 50!

Desde la primavera de 1934 hasta el invierno de 39, J. dedicó a Zarathustra un seminario cada semestre.” Pena que não o entendeu! “Estes 10 volumes representam o comentário mais completo conhecido da obra de Nie.” E o cadáver de Deus nos livre de ler isso algum dia, correto, Federico Nicolas?

Extrañamente, cuando se solicitó de J. que escribiera una introducción para la 3ª ed. de la traducción alemana del Ulises de Joyce, no fue capaz de reconocer en la obra un duplicado moderno de la OdiseaPorque é BURRO!

Le pareció una especie de <tenis> interminable, y consideró que se podía leer con la misma facilidad al derecho o al revés. Estos comentarios fueron publicados en una revista e irritaron a Joyce.”

Vio en el hitlerismo el resurgir del arquetipo de Wotan, el antiguo dios germánico de la tormenta, la batalla, la inspiración profética y las ciencias secretas. Distinguió 2 tipos de dictadores: el tipo <caudillo> (como Mussolini y Stalin) y el tipo <[muy mal] vidente> (como Hitler). Este último es capaz de percibir fuerzas oscuras en el inconsciente de sus seguidores y conducirlos como un Mesías.”

La idea de lo santo de Rudolf Otto apareció en 1917 y fue considerada como una contribución sustancial a la psicología de la religión.”

En Aion (1951) parece identificar a Cristo como el arquetipo del sí mismo y considerar que la humanidad como un todo está sufriendo un proceso de individuación colectiva” Shinji curtiu.

como Job tenía una concepción de la justicia más alta que el propio Dios, Éste se enfrentó con el desafío mediante la encarnación de su Hijo.” “Por esa razón, J. considera que la proclamación en 1950 del dogma de la Asunción es <el acontecimiento religioso más importante desde la Reforma>.”

el mayor de todos los enigmas filosóficos, el problema del mal.” Discordo!

Según Leibbrand, el sistema junguiano no se puede concebir sin la filosofía de Schelling.”

Eugen Böhler (…) trató de aplicar los conceptos de Jung a la ciencia económica” “La fantasía es el verdadero incentivo del progreso económico (…) La literatura, el arte, los periódicos, el cine, la radio la televisión son <fábricas de sueños> Mais manjado impossível.

La Bolsa de Valores tiene también una función mítica; no es el <cerebro>, sino el <corazón> de la vida económica” Aí eu concordo!

las depresiones surgen cuando el mito económico se pierde bruscamente.”

La aplicación de los conceptos junguianos a la filosofía política fue inaugurada en 1931 por Schindler con su estudio sobre el Derecho constitucional y la estructura social.” E eu pensando que seria um enaltecimento do nazismo!

X. APARICIÓN Y ASCENSO DE LA NUEVA PSIQUIATRÍA DINÁMICA

después de describir el entorno social, político, cultural y médico de la nueva psiquiatría dinámica y de tratar de resumir las doctrinas de sus 4 grandes representantes, Janet, F., Adler y J., tenemos todavía que esbozar la compleja interrelación de estos grandes sistemas entre sí y con otros menores, así como con el entorno general de los acontecimientos de su tiempo. Tomaremos como punto de partida al memorable informe de Ch. sobre la hipnosis, de feb. de 1882, que abrió la nueva era, y terminaremos a finales de la II Guerra”

Había muchas protestas por el aluvión de literatura pornográfica y obras teatrales de esta especie (…) El interés principal del público parecía centrarse en las nuevas obras de teatro, como Safo de Daudet, en una visita que realizó de incógnito a París el excéntrico rey de Baviera Luis II, y en la exhibición de un grupo de aborígenes australianos en un parque zoológico. Por el diario de los hermanos Goncourt sabemos que Charcot se había trasladado un año antes al espléndido palacio que se había hecho construir en el Faubourg Saint-Germain, y que su hija Jeanne estaba enamorada del hijo de Alphonse Daudet, Léon, cuya resistencia suscitó el desagrado de Ch..”

Entre las personas a quienes Fraud conoció en París estaba Léon Daudet, con el que se encontró por lo menos una vez en casa de Ch.. Aunque aún no había acabado sus estudios de medicina, el dotado joven era una persona muy notable, a la que se predecía un brillante futuro en política, la literatura o la medicina.” Legal, chutando tantas carreiras, em uma acertaria!

Agudo observador y dueño de una gran memoria para recordar a las personas, al parecer no tomó en consideración al neurólogo vienés, ya que nunca mencionó su encuentro con él, mientras que F. conservó un recuerdo duradero del joven Daudet.” HAHAHA – geralmente o inferior é que tem a ganhar nesse tipo de encontro aleatório, realmente!

¿Quién hubiera pensado entonces que el invitado austríaco se convertiría en un hombre de fama mundial y que Léon Daudet no terminaría sus estudios de medicina, seguiría una carrera política sin esperanzas como dirigente del movimiento realista [¿?] y, a pesar de su gran talento literario, no escribiría nunca una obra maestra?”

Alguna de las novelas de L. Daudet trata del incesto y otras desviaciones sexuales, de la adicción a la morfina y de la herencia psicopática.”

BOM SUJEITO: “Escribió asimismo obras no-ficticias sobre los ensueños y la personalidad humana, en especial sobre el yo y el sí mismo, y denominó metapsicología a su propio sistema psicológico. Sus concepciones, sin embargo, difieren notablemente de las de F. y muestran más semejanzas con las de Jung.”

El 13 de junio de 1886 el joven y extravagante rey de Baviera Luis II, que acababa de ser declarado psicótico por una comisión médica y recluido en su castillo de Berg, apareció ahogado en un lago junto con el psiquíatra que le atendía, el profesor Gudden.”

En los EEUU hubo una violenta agitación socialista, que culminó en el caso Haymarket, en el que 4 dirigentes sindicales, víctimas de un complot de la empresa, fueron sentenciados a muerte y ahorcados en Chicago el 1º de mayo, fecha que desde entonces conmemoran los años los socialistas en todo el mundo.”

Cuando Brasil abolió la esclavitud en 1888, el resto del mundo quedó desconcertado al saber que había existido hasta entonces.”

En el campo de la psicología, el acontecimiento más importante fue la publicación de los Principios de psicología de William James. El famoso psicológico de Harvard había trabajado durante 12 años en el libro, que era una de las mayores obras de este tipo que aparecían en los EEUU y que tuvo un éxito inmediato y duradero a ambos lados del Atlántico. Trataba no sólo de diversos aspectos de la psicología experimental, sino también de problemas de hipnosis dual e investigación psíquica.”

Houve outros processos que ajudaram no descrédito da teoria do delito sob hipnose. —Grasset referiu o caso de uma mulher histérica de 19 anos que, encontrando-se grávida, afirmara ter sido hipnotizada por um camelô. Os especialistas a hipnotizaram, por sua vez, e assim conseguiram detalhes do suposto estupro. Apesar de suas negativas, o camelô foi detido. Então ocorreu que, 2 meses antes da data esperada, nascera a criança. A recém-mãe confessou que suas acusações contra o camelô eran falsas, e que suas sessões hipnóticas com os peritos haviam sido simuladas.”

O discípulo de Charcot Georges Gilles de la Tourette publicou o grande Tratado sobre a histeria [Traité clinique et thérapeutique de l’hystérie d’après l’enseignement de la Salpêtrière, 1891], síntese da doutrina de Ch. e refutação de seus principais adversários.”

1892 deu a impressão de ser particularmente violento, dados os numerosos atentados criminosos levados a cabo pelos anarquistas na Europa e na América.”

Marcel Prévost, El otoño de una mujer (“romance psicológico”, e, como indicado mais acima, mesmo autor de Jardim secreto!)

Por su semejanza con la personalidad y la psicoterapia de Pierre Janet, apenas hay dudas de que el escritor utilizó a éste como modelo del Doctor Daumier, quizás un poco también Benedikt.”

Tal era la situación [de abandono gradual da hipnose terapêutica] a comienzos del crucial año de 1893.” “nunca había sido tanta la actividad anarquista, y el 9 de diciembre Vaillant arrojó una bomba en la Chambre des Députés.”

Babinski buscaba criterios neurológicos para definir los síntomas histéricos y distinguirlos de los orgánicos (lo que le llevaría al descubrimiento del reflejo plantar-cutáneo, o <reflejo de Babinski>).”

El mes de julio [1893] se inició con diversas manifestaciones estudiantiles en París, y un joven fue muerto accidentalmente en un café. Fue la señal de comienzo de violentos disturbios estudiantiles, secundados por los trabajadores. Durante 4 días el Barrio Latino se vio cubierto de barricadas.”

En el año 1894 todavía no se discutía la supremacía política de Europa, pero hubo 2 acontecimientos que pudieron haber servido de aviso. Japón, por propia iniciativa, declaró la guerra a China y, después de una rápida victoria, hizo de Corea su <protectorado>. El sultán turco Abdul Hamid II eligió a los armenios como víctimas propiciatorias y exterminó sistemáticamente a 80 mil de ellos. Hasta entonces había sido costumbre que los países europeos intervinieran declarando la guerra o amenazando con hacerla tan pronto como los turcos comenzaban una matanza de cristianos. Pero esta vez, a pesar de la indignación levantada en las naciones cristianas, nadie se opuso de forma eficaz al sultán rojo, lo que significó otra derrota moral para Europa. La actividad anarquista, mientras tanto, continuaba, y el presidente francés Sadi Carnot fue asesinado.” A Europa vive em derrotismo moral há séculos, essa seria a afirmação mais sóbria e próxima da verdade.

1895: “el favor del público cultivado se inclinó por la Psicología de las masas de Gustave Le Bon, que se creyó proporcionaría una nueva clave para la comprensión de la sociología, la historia y la ciencia política.” Infelizmente Le Bon nunca foi capaz de entender o comunismo ou a revolução. Cf. outro livro na seara da psicología de Le Bon, mais tardio: https://seclusao.art.blog/2021/06/16/as-opinioes-e-as-crencas-gustave-le-bon-1911/.

En 1896 se produjo otro grave golpe contra la autoestimación de Europa. Los italianos, que habían emprendido la conquista de Etiopía, sufrieron una dura derrota frente al emperador Menelik en Adua. Pero de los acontecimientos de ese año, quizá ninguno fue tan terrible como la catástrofe que acompañó a la coronación del zar Nicolás II y la emperatriz Alejandra el 29 de mayo. Durante los festejos, la multitud se vio acometida por el pánico y varios miles de hombres, mujeres y niños fueron pisoteados y muertos. Se suscitaron duras protestas de los liberales y alborotos estudiantiles que tuvieron que ser reprimidos. Los supersticiosos vieron en todo eso como un mal augurio para el reinado del nuevo zar. La alianza entre Francia y Rusia, sin embargo, tomaba forma, y cuando el zar Nicolás visitó París se le tributó una recepción triunfal. Todo ello no hacía sino aumentar la tensión existente entre los 2 bloques políticos de Europa.”

En Viena, Karl Lueger, dirigente antisemita, fue elegido por 3ª vez alcalde; después de que el emperador hubiera cancelado en 2 ocasiones su nombramiento, esta vez fue ratificado.”

el incendio del Bazar de la Charité, el 4 de mayo de 1897. Los organizadores y participantes pertenecían a la élite de la aristocracia francesa. Una de las víctimas del desastre fue la hermana de la emperatriz Isabel de Austria. Entre las 125 personas que perecieron en el incendio sólo había 5 hombres (3 ancianos, 1 muchacho de 20 y un médico). Se confirmó que los jóvenes aristócratas presentes se habían abierto camino a puntapiés, conducta que significó el golpe mortal para el respeto que seguía teniéndose a la aristocracia.”

Todos los síntomas histéricos, lo digo claramente, son equivalentes a idées fixes; y un ataque histérico es la explosión de una idée fixe… Nociones como ésta, que me han sido sugeridas en gran parte por los experimentos del Dr. Janet, encuentran una extraña confirmación en los recientes estudios de Breuer-F.. (…) El genio es, en esencia, una súbita afluencia subliminal que expresa simbólicamente el resultado de observaciones, y de cuya inferencia no es consciente el sí mismo subliminal.”

Myers

El narcisismo europeo recibió un nuevo y serio golpe con la guerra de Cuba. Como consecuencia de un incidente no aclarado (la explosión del Maine cerca de La Habana), los EEUU declararon la guerra a España, cuya flota sufrió una gran derrota. En corto espacio de tiempo, los norteamericanos ocuparon Cuba, Puerto Rico, Guam y las islas Filipinas. En España, la derrota motivó una autorreflexión que cristalizó en la <generación de 1898>, muchos de cuyos componentes hicieron resurgir la vida intelectual del país.”

La emperatriz Isabel de Austria fue asesinada por un anarquista en Ginebra, y por entonces muchos creyeron que la mano del destino trabajaba contra el desgraciado emperador Francisco José I.”

Névroses et idées fixes contiene varias de las historias clínicas más famosas de J., las de Marcelle, Justine, Marcelline, madame D. y Achilles, así como contribuciones de naturaleza más teórica. Después de L’automatisme psychologique y la tesis médica sobre la histeria,(*) el libro aseguró la fama de Janet como el primer especialista francés en neurosis.

(*) J., ‘Traitement psychologique de l’hystérie’, en Traité de Thérapeutique, Albert Robin (org.), fascículo 15, 2ª parte, Paris, Rueff, 1898, pp. 140-216.

1899 trajo consigo la guerra de los Boers. El público esperaba una rápida victoria de los ingleses, pero sufrieron algunas derrotas iniciales y tuvieron que pedir refuerzos. Los Boers gozaron de amplias simpatías en Francia y Alemania. En la 1ª de estas naciones la agitación por el caso Dreyfus se apaciguó gradualmente. La sentencia fue suspendida y Dreyfus regresó de la isla del Diablo.”

El año de 1900 se presentó como uno de los más sangrientos nunca vistos.” “Cierta sociedad secreta, la de los boxers, provocó una insurrección en China. En junio, los europeos fueron sitiados en sus embajadas en Pekín y rescatados en agosto por una expedición internacional al mando de un alemán. Se habló mucho del <peligro amarillo>, el pensar que los chinos se unieran para constituir un ejército poderoso que anegaría y destruiría Europa se convirtió en una pesadilla. El rey Umberto de Italia fue asesinado por un anarquista.”

En Alemania, Planck leyó su primer trabajo sobre la teoría de los cuantos, que revolucionaría la física.”

El Desde la India hasta el planeta Marte de Flournoy es tan entretenido como una novela de Julio Verne o H.G. Wells, un profundo análisis de algunos de los sutiles procesos de la mente inconsciente.” “El libro de Flournoy irritó a quienes creían que las declaraciones de los médiums eran verdaderas revelaciones de otros mundos.”

Creo que la obra de Flournoy ha dado el paso decisivo para convertir la investigación psíquica en una ciencia respetable”

William James

un modelo de honradez”

Myers

La interpretación de los sueños fue criticada también en una serie de periódicos y revistas destinadas al gran público. Apenas había salido de la imprenta cuando apareció su recensión en el periódico vienés Die Zeit de 6 y 13 de enero de 1900, firmada nada menos que por su redactor-jefe, Max Burckhardt. (…) Consideraba que el autor había dado demasiada importancia al elemento infantil, y lamentaba que no explicara sueños de las personas pertenecientes al tipo verbal (las que piensan en palabras más que en imágenes), ni la escisión de la personalidad en los sueños.”

Hubo un desplazamiento político general hacia la izquierda, y mucha gente esperaba que el triunfo de los partidos socialistas asegurara la paz internacional.”

Babinski recomendó reemplazar el término <histeria> por el de <pitiatismo>. La mayoría de los neurólogos franceses, que estaban hartos de ver demostraciones de pacientes histéricos en la Salpêtrière, la Charité o el Hôtel-Dieu, aceptaron con rapidez las ideas de Babinski. (…) llegaron a la conclusión de que la histeria era una entidad carente de existencia. El nº de pacientes histéricos descendió de forma rápida y continuada; los franceses pretendieron atribuir este descenso a los nuevos conceptos de Babinski, pero, dado que en toda Europa ocurría el mismo fenómeno, podría preguntarse uno hasta qué punto no estuvieron implicados factores sociales y culturales.”

[1902] La erupción del Mont-Pelée, en la Martinica, que destruyó la capital de la isla, fue considerada por algunos como un signo de la ira de Dios contra el gobierno anticlerical francés.”

J., Sobre la psicopatología de los fenómenos denominados ocultos

El año de 1903 estuvo caracterizado por grandes tensiones en todo el mundo. En Serbia fueron asesinados el rey Alejandro y la reina Draga, en virtud de un complot organizado por una sociedad secreta. Su sucesor, Pedro I, abrió una nueva dirección política. Su gobierno era rabiosamente nacionalista, se oponía a Austria-Hungría y estaba apoyado por Rusia.”

Entre las publicaciones de ese año, hubo 3 que tuvieron una importancia directa para la psiquiatría dinámica. Janet publicó sus 2 grandes volúmenes, Las obsesiones y la psicastenia, descripción completa y exacta de las obsesiones y alteraciones psicasténicas, con numerosas historias clínicas y una elaboración de sus nuevos conceptos sobre fuerza y tensión psicológicas.

La 2ª fue la obra póstuma de Frederic Myers, Personalidad humana, libro que no sólo contenía una colección inigualable de material acerca de los temas del sonambulismo, la hipnosis, la histeria, la personalidad dual y los fenómenos parapsicológicos, sino también una teoría completa de la mente inconsciente, con sus funciones regresiva, creadora y mitopoética.

En la literatura de aquel año, sin embargo, nada pudo superar el éxito del libro de Weininger Sexo y carácter.”

O ESTRANHO TERROR MISTURADO COM PRECURSOR DO IDENTITARISMO CONTEMPORÂNEO: “Weininger propôs a criação de uma nova metafísica dos sexos: a diferença entre o homem e a mulher se toma como ponto de partida para a resolução de numerosos problemas psicológicos, sociológicos, morais e filosóficos. O principio básico é a bissexualidade fundamental do ser humano. No principio de seu livro Weininger recolhe todos os dados anatômicos, fisiológicos e psicológicos disponíveis acerca da bissexualidade dos seres vivos. Refere-se, p.ex., a um zoólogo dinamarquês, J.J. Steenstrup, quem proclamou, já em 1846, que a sexualidade não é uma característica exclusivamente do corpo como um todo, senão de cada órgão e de cada célula. W. considera cada homem ou mulher como uma combinação, em proporção diversa, de 2 ‘substâncias’, uma masculina (arrenoplasma) e outra feminina (teliplasma). A proporção difere não só em cada célula e órgão de cada indivíduo senão que neste indivíduo oscila e pode mudar no curso da vida. A lei básica da atração sexual diz que todo indivíduo resulta atraído por outro de proporção complementar (assim, um homem com ¾ de substância masculina mais ¼ de feminina buscará uma mulher com ¾ de feminina mais ¼ de masculina). Os homossexuais são seres inter-sexuais cujos objetos de amor cumprem também esta lei de complementaridade, por mais que pertençam ao mesmo sexo.”

Weininger esboça uma tipologia dos tipos intermediários; o homem feminino, a mulher masculina (grupo a que pertencem aquelas que lutam pela emancipação; as mulheres superiores são seres em que predomina o elemento masculino). Descreve especialmente 2 tipos de ideais opostos, o <varão absoluto> e a <mulher absoluta>, que não se devem confundir com o homem mediano nem a mulher mediana. A diferença esencial entre o homem e a mulher é que nesta a esfera sexual se estende a toda a personalidade: [mas e se todas as minhas células forem femininas, poxa?!?] <A mulher não é nada mais que sexualidade, o homem é sexualidade e algo mais… A mulher é UNICAMENTE sexual, o homem é TAMBÉM sexual. (…) O homem tem um pênis, a vagina tem uma mulher…>¹.” É toda uma teoria que se espatifa contra ela própria: “O gênio é a aptidão para uma maior claridade de pensamento com uma consciencia mais ampla; entranha, portanto, um grau mais alto de masculinidade, ao que uma mulher não pode chegar.” ¡!!

¹ Verdadeiro papa do machismo que ainda persiste nas conversas de bar e entre os mais subdesenvolvidos socialmente.

Weininger distingue 2 tipos ideais opostos de mulheres: a <prostituta absoluta> e a <mãe absoluta>. O tipo materno existe unicamente para a preservação da raça humana; seu único fim é o filho, todo homem pode convertê-la em mãe. É valente e frugal. O tipo de prostituta existe unicamente devido à relação sexual; [Deusa da Sífilis?] é covarde e esbanjadora.” Depois de afirmar essas lorotas no triste ano de 1903 (se este foi o livro mais importante sobre sexualidade, imagine o pior!), Weininger ainda arremata dizendo que não existe um tipo puro de mulher-mãe na sociedade, embora exista, ah, mas é claro, já estava prevendo esse argumento falocêntrico hediondo!, o tipo puro da puta.

Os chineses e, sobretudo, os judeus são mais afeminados.”

NEM TUDO ESTAVA PERDIDO: “O livro foi muito criticado, levantou uma tormenta de controvérsias, foi considerado como obra-prima e obteve êxito fabuloso, sobretudo nos países de fala alemã, na Itália, Rússia e Dinamarca. Na Suécia foi exaltado por Strindberg. Em Viena tomou as discussões públicas por 4 meses. Mas o sucesso do livro explodiu mesmo quando seu autor, de 23 anos, se suicidou antes do fim de 1903.”

Em 1904 os japoneses vencem uma guerra contra a Rússia (¡!), e o resto da Europa, escandalizada, aceita passivamente. Blá, blá, blá, mais um golpe fatal no eurocentrismo…

Mientras tanto, había aparecido una nueva estrella en el firmamento de la psicoterapia. Un médico suizo, Paul Dubois, afirmó que las alteraciones neuróticas y muchas enfermedades físicas eran producto de la imaginación y se podían curar mediante la voluntad a través de la autoeducación. En 1904 dio unas conferencias en la Universidad de Berna acerca de los métodos psicoterapéuticos que empleaba en su consulta privada y en el hospital. Según los relatos, Dubois era un terapeuta reputado; le llegaban pacientes de todas partes del mundo, y el profesor Déjerine, de la Salpêtrière, aprendió su método de él. Las razones de estos éxitos terapéuticos no aparecen en sus escritos, y parecían misteriosas a sus contemporáneos.”

El presidente Theodore Roosevelt se ofreció como mediador del tratado de paz entre rusos y japoneses que se firmó en Portsmouth, New Hampshire.”

Édouard Claparède, Psychologie de l’enfant et pédagogie expérimentale, 1905.

Em 1908, o Império Turco, <o homem doente da Europa>, demonstrou que ainda não estaba morto. Um grupo de revolucionários, os Jovens Turcos, cansados do sangrento despotismo do sultão Abdul Hamid II, deram um golpe de Estado, após o qual o sultão reagiu oferecendo-lhes postos no governo. As minorías oprimidas do Império começaram a cultivar esperanças. Os búlgaros proclamaram sua independência, e entre os armênios surgiu a agitação nacionalista, desejosos de se emancipar, como haviam feito os gregos, sérvios e os próprios búlgaros. O governo austro-húngaro aproveitou a oportunidade para proclamar a anexação das províncias da Bósnia e Herzegovina, que durante 30 anos estavam, se bem que apenas nominalmente, sob a soberania do sultão.” “Os anarquistas seguiam ativos: em Portugal assassinaram o rei Carlos.”

Sorel, Réflexions sur la violence, 1908.

Karl Kraus predijo que el advenimiento de la aviación desataría el colapso en el mundo.” “La famosa revista de Karl Kraus, Die Fackel, que mantuvo una vehemente lucha contra la moralidad sexual convencional y glorificó al marqués de Sade y a Weininger, había alabado años antes los Tres ensayos. Ahora, sin embargo, K.K. ridiculizó a un pseudoanalista que afirmaba haber descubierto fantasías masturbatorias en el poema de Goethe El aprendiz de brujo. Kraus comparó a los pseudoanalistas con los meteorólogos que pretenden no sólo predecir el tiempo, sino controlarlo.”

Ziehen dijo que los conceptos de F. eran <carentes de sentido>, pero halló las observaciones de Abraham interesantes y verdaderas en líneas generales. Rothmann creía que los matrimonios consanguíneos eran comunes entre los judíos por haber vivido siempre en comunidades aisladas.”

En 1909, en Turquía, los elementos conservadores se rebelaron contra los Jóvenes Turcos, cuyos dirigentes fueron asesinados el 31 de marzo, pero un destacamento del ejército mandado por ellos consiguió el poder y depuso a Hamid II, reemplazándole por su hermano Mohamed V. El nuevo gobierno decidió reorganizar y modernizar Turquía. Se dotó al ejército de consejeros alemanes. Surgió un movimiento nacionalista, consecuencia del cual fue la matanza de armenios en Cilicia y Constantinopla. El nuevo gobierno trató de revitalizar la literatura y cultura. [¿?] El público de todo el mundo quedó fascinado por la conquista del Polo Norte por Peary, por la exploración de Shackleton de las regiones del Polo Sur y por el primer vuelo aéreo realizado por Blériot sobre el Canal de la Mancha.” A proletarização inclusive dos ursos polares e pingüins!

Primero, en lugar de las tranquilas demostraciones corrientes entre los científicos en sus discusiones, los pseudoanalistas hacen afirmaciones dogmáticas matizadas por estallidos emocionales; son únicos para comparar a F. con hombres como Kepler, Newton y Semmelweis, y se caracterizan por el vigor de sus ataques contra sus adversarios.

Segundo, en lugar de probar sus afirmaciones de forma científica, se contentan con manifestaciones imposibles de verificar. Dicen: <Sabemos por experiencia propia que…> y dejan a otros el trabajo de probarlo.

Tercero, no aceptan ninguna crítica, ni siquiera la expresión de la duda más justificada, a la que denominan resistencia neurótica.

Cuarto, los pseudoanalistas ignoran todo lo realizado antes de ellos, o por otros, pretendiendo así ser innovadores. En tal caso, antes de Fraud, no se habría curado a ningún paciente histérico, y tampoco se hubiera practicado ningún tipo de psicoterapia.

Quinto, las teorías sexuales del pseudoanálisis se presentan como un hecho científico, aunque no probado, como cuando Wulffen dice: <Todas las facultades éticas del interior del hombre, su sentido del pudor, su moralidad, su adoración de Dios, su estética, sus sentimientos sociales, proceden de la sexualidad reprimida>. Wulffen recuerda a Weininger cuando dice: <La mujer es un delincuente sexual nato; cuando su fuerte sexualidad se reprime por completo, le conduce fácilmente a la enfermedad y la histeria y, cuando tal represión es insuficiente, a la delincuencia; en muchas ocasiones le conducirá a ambas cosas>.”

Friedländer, no Congresso Internacional de Medicina de Budapeste

Aschaffenburg, Löwenfeld y Friedländer explicaron el éxito de las teorías sexuales de Fraud basándose en que habían caído en el terreno fértil vienés. La Psychopathia sexualis de Krafft-Ebing había logrado en Viena, en 1886, un extraordinario éxito entre el gran público, y desde entonces no había cesado de crecer el interés específico por los temas sexuales, como demostró el éxito fabuloso del libro de Weininger, para no mencionar el de Schnitzler y los trabajos de otros escritores. Los pacientes de Fraud, por tanto, eran receptivos ante ese tipo de cuestiones. Este argumento del genius loci, que Ladame también citaría posteriormente y que llevaría a malas interpretaciones del habla de Janet, que utilizó el término, pero no para repetir Ladame (que utilizó genius loci en un nuevo contexto y se refería al mórbido interés de los vieneses por la discusión de las patologías sexuales).”

[1910] Francia, Inglaterra y Alemania eran presa de una neurosis nacionalista de masas”

Caroline Playne, The Neuroses of the Nations, 1928.

Otro signo ominoso fue la aparición de tendencias nihilistas, tales como el movimiento futurista. (…) los futuristas organizaron espectáculos teatrales diseñados para conmocionar y maltratar al público, que terminaban en reyertas. [motins]

Na psicanálise todo analista é selvagem.

O movimento fraudiano é o regresso em forma modernizada a uma medicina mágica, uma espécie de maçonaria para psicoterapeutas, uma autêntica epidemia psíquica de <doutores>”

Hoche

[1911] Em virtude de um acordo com a Inglaterra, a França abandonou suas pretensões sobre o Egito em troca da liberdade completa no Marrocos. Os alemães, no entanto, também tinham interesse no protetorado e, para fazer-se notar, enviaram um navio de guerra a Agadir. Depois de difíceis negociações evitou-se a guerra, e a Alemanha cedeu seus <direitos> sobre Marrocos em troca de uma zona do Congo Francês, muito embora ambas as potências se sentissem enganadas e a tensão mal diminuísse. A Itália se recusava a ser deixada de lado na partilha da África e, vendo que o Império turco sofria uma grave crise interna, declarou-lhe guerra e invadiu Trípoli com o intento de adquirir uma nova colônia e vingar assim sua derrota em Adua.”

Sobre um método psicoterapêutico então em voga que caiu no olvido porque seu autor não o ensinou nem oralmente nem por escrito:

Robert Dupond, La Cure des psychonévroses par la méthode du Dr. Vittoz, 1934 (tese);

Henriette Lefebvre (paciente curada), Un Sauveur, le Docteur Vittoz, sem data.

psicastenia de Janet esquizofrenia de Bleuler (conceituada e assim batizada em 1911)

O ano de 1912 foi, sobretudo, o das guerras balcânicas. Grécia, Sérvia e Bulgária, os novos Estados balcânicos, atacaram a Turquia, pretendendo livrar-se de seu jugo. Este foi o tema do dia, e se falou muito das <atrocidades macedônias>. A guerra intensificou a tensão entre as outras potências européias, em particular entre a Rússia e a Áustria-Hungria.”

Von Bernhardi explicó en Alemania y la guerra próxima que su país tendría que enfrentarse a una serie de enemigos”

Wilhelm Wundt, Elemente der Völkerpsychologie, 1912: “Añadió que se sentía abrumado por la extravagante literatura pseudoanalítica; acababa de recibir una obra de Johann Michelsen en la que se interpretaba a Cristo como un símbolo del acto sexual, y el buey en el establo como un símbolo de castración, y se explicaban de forma semejante todos los demás personajes de la Natividad.”

Los pseudoanalistas analizan ahora no sólo la vida, sino la muerte: toda la vida espiritual de la humanidad, la religión, el arte, la literatura y el folklore. No pueden aceptar críticas de los legos, pero no dudan en invadir campos en los que ellos mismos son legos.”

Oppenheim, Friedländer, Isserlin, etc., considerados por lo general en la actualidad como los primeros oponentes del pseud., pertenecieron en realidad al grupo que intentaba hacer una valoración objetiva. Sus críticas han sido considerablemente exageradas [por los pseud.] y el <germen de verdad> que aceptaban ha sido olvidado.”

Sob a epígrafe de pseudoanálise se mesclavam numerosas tendências; existiam amplas gradações entre os escritos de F., do seu círculo próximo, do círculo mais amplo de analistas leigos e dos excêntricos que se diziam analistas. Como podia o público reconhecer o pertencente à pseud. genuína?” Isso de <psicanálise genuína> é a mesma coisa de procurar o ramo de ouro chamado CHARLATANICE ORIGINAL, da qual derivariam todas as outras. É inútil.

neurose x psicose

Viena x Zurique

[1913] Después de vencer a los turcos, Grecia, Bulgaria y Servia comenzaron a despedazarse entre sí en una 2ª guerra balcánica, aliándose Grecia, Servia y Rumania contra Bulgaria. Estas convulsiones sacudieron a Austria-Hungría y asimismo a Rusia, donde se decretó una movilización parcial, y únicamente se logró evitar la guerra gracias a una conferencia de embajadores.”

Henri Bergson relata que, dia 4 de agosto de 1914, ao abrir um jornal e fixar os olhos na enorme manchete: ALEMANHA DECLARA A GUERRA À FRANÇA, sentiu subitamente uma presença invisível, como se uma figura mítica houvesse escapado de um livro e se situado tranqüilamente em sua casa. (…) Bergson se dio cuenta entonces de que este acontecimiento, que había esperado sin descanso durante 43 años, había llegado por fin y, a pesar de su horror ante la catástrofe, no pudo sino maravillarse de la facilidad con que la idea abstracta de la guerra se había convertido en una presencia viva. El conflicto armado, que vemos en retrospectiva como un trueno en un cielo azul y como una interrupción dramática de la marcha de Europa hacia la felicidad y la prosperidad, apareció ante muchos contemporáneos como el resultado inevitable de una larga serie de conflictos, amenazas, guerras locales y rumores de guerra, cuando no como una liberación de intolerables tensiones.” Ah, um prato cheio para os pseudanalistas!

A França já havia assimilado suas minorias,¹ mas a Grã-Bretanha tinha dificuldades com os irlandeses. A Espanha, com os catalães, e a Alemanha com suas minorias alsacianas, dinamarquesas e polacas. Os turcos recorriam a matanças periódicas, cujas últimas vítimas tinham sido, em 1914, os búlgaros e os armênios. A Rússia, que durante muito tempo havia exibido um talante liberal, tratava agora de <russificar> suas minorias. A situação da Áustria-Hungria era a mais difícil, já que era o único grande Estado multinacional em período de ultra-nacionalismo universal. Estava exposta à agitação interior e ao mesmo tempo às intrigas russas e sérvias. Dificilmente poder-se-ia entender seus problemas, fora daquele país, quando ainda não se haviam formulado os conceitos de descolonização, Estados-satélites e Estado supra-nacional. Nos Balcãs, recentemente livres dos turcos, era-se presa de nacionalismos fanáticos e de lutas intestinas. A Sérvia era um satélite da Rússia, que dirigia sua política na prática e utilizava-a contra o império austro-húngaro. Este último, se ainda existisse hoje [1970], seria considerado um Estado supra-nacional, mas suas dissenções internas reclamavam uma reforma política completa. Todas as fichas da monarquia estavam depositadas no príncipe-herdeiro Francisco Fernando.”

¹ Falso: faltavam os argelinos.

O público europeu estava tão acostumado ao assassinato de reis e chefes de Estado por anarquistas ou paranóicos isolados que não compreendeu o verdadeiro significado do assassinato de Sarajevo, autêntico complô organizado pelo serviço secreto da Sérvia. Já vimos que em 1903 tinham sido assassinados o rei pró-austríaco sérvio Alexandre III e sua esposa, a rainha Draga, assim como alguns de seus partidários. O novo monarca, Pedro, iniciou, apoiado pela Rússia, uma política anti-austríaca, respaldada pelos terroristas que lhe haviam elevado ao poder. A anexação da Bósnia-Herzegovina pela Áustria-Hungria e a criação de uma Dieta bósnia enfureceu os nacionalistas sérvios, que levaram a cabo uma série de atos terroristas contra funcionários austríacos e em 1912 contra o governador da Croácia. Em 28 de junho de 1914, um grupo de jovens conspiradores bósnios, treinados nas escolas terroristas sérvias, equipados com armas deste exército, e ajudados através da fronteira por agentes também sérvios, assassinaram o arquiduque e sua esposa na visita a Sarajevo. Se alguma vez houve um crime maquiavélico, foi este: como o arquiduque havia decidido resolver os problemas do Império atribuindo igual cidadania a todos os grupos eslavos do sul para conter os nacionalistas sérvios, seu homicídio pôs termo a qualquer esperança de readaptação, ao deixar como prováveis herdeiros um imperador velho e cansado ou um jovem sem preparação alguma.¹ O governo austro-húngaro se defrontava agora com um trágico dilema: deixar sem castigo as atividades de um perigoso ninho de terroristas que jurara destruir o Império ou recorrer a uma intervenção armada com o risco de uma guerra generalizada, tendo em vista o apoio da Rússia à Sérvia.”

¹ Uaaau, que dramalhão!

Robert Kann, The Multinational Empire, 2 vols., 1964.

Zerman, The Break-up of the Hapsburg Empire, 1914-18, 1961.

Dois meses antes o governo dos Estados Unidos havia enviado uma expedição contra os mexicanos de Veracruz, como resposta a um ato muito menos grave de agressão. Para explicar realisticamente a situação austro-sérvia, devemos imaginar o que ocorreria se o presidente Wilson é que tivesse sido assassinado em Santa Fé por um grupo de terroristas procedentes do Novo México, armados, treinados e dirigidos pela polícia secreta mexicana, e com o apoio encoberto de uma potência importante (européia).”

A guerra supunha um risco mortal, sobretudo porque, apenas 1 ano antes, havia-se descoberto que o coronel Alfred Redl, chefe do Serviço de Contra-espionagem do exército imperial, havia sido obrigado mediante coação a proporcionar informação militar vital aos russos.”

A Alemanha sim estava bastante preparada” Imagina se não estivesse…

Todas as igrejas puseram-se ao lado de seus respectivos países, e o Papa simplesmente encomendou seus combatentes a Deus.”

Poucos pensadores souberam contemplar a catástrofe com lucidez. O filósofo francês Alain adivinhou que significaria uma hecatombe da elite e que deixaria o país à mercê dos ladinos, os tiranos e os escravos.” Que Alain???

Romain Rolland, otro escritor francés residente en Ginebra, lanzó un manifiesto ensalzando el heroísmo de la juventud europea y sus sacrificios por un ideal patriótico, pero acusando a los hombres de Estado que habían desencadenado la guerra y no hacían nada para detenerla, y condenando a los escritores que atizaban el fuego. En el mismo sentido, el novelista alemán Hermann Hesse, al tiempo que ensalzaba a los combatientes, denunció a quienes permanecían en la seguridad de sus casas para escribir fogosas incitaciones contra el enemigo.”

Los miles de hombres que habían ido a luchar con tan gran entusiasmo esperaban una guerra corta, pensando que las armas modernas favorecerían necesariamente una conclusión rápida. Muy pocos adivinaron que duraría más de 4 años. La guerra comenzó con un periodo de vehemente entusiasmo y mortíferos ataques.”

O GENOCÍDIO DE 2 MILHÕES DE ARMÊNIOS: The Memoirs of Naim Bey. Turkish Official Documents Relating to the Deportations and Massacres of Armenians, 1920.

PREVIEW: “A Alemanha tratou de forçar a sorte intensificando a guerra submarina, o que motivou a intervenção dos EUA ao lado dos Aliados.”

A finales de 1918, toda Europa tenía puestas sus esperanzas en el presidente Wilson. Los aliados veían en él al poderoso defensor que apoyaría sus peticiones en la conferencia de paz; los alemanes y austríacos estaban convencidos de que conseguiría una paz de justicia y reconciliación.”

FRANKENSTEIN & REVENGE: “Babinski, que había atacado el concepto de histeria de Ch., se enfrentó con alteraciones clínicas muy semejantes a las de la vieja histeria que, no obstante, resistían la acción terapéutica de la sugestión.”

los Estados Unidos de Europa habían existido aquí durante generaciones, cuando en ningún otro sitio había sido posible hacerlos vivir juntos. Y este imperio múltiple, con sus lenguas, culturas y temperamentos, esa mezcla brillante de colores en contraste, existió únicamente aquí…”

Ernst Lothar, vienense nostálgico safado

En el Congreso de Viena, en cuyas sesiones se firmó en 1815 una paz duradera después de las guerras napoleónicas, la derrotada Francia había negociado en un plano de igualdad. En 1919 no se admitió, en cambio, en las negociaciones a las potencias vencidas; más aún, Alemania fue obligada a reconocerse culpable, demanda nunca oída antes en la historia de la diplomacia. No es de extrañar que los pueblos de Europa Central que habían puesto su confianza en el presidente Wilson se enfureciesen y, si Fraud mantuvo una aversión inveterada contra el presidente, se limitaba a compartir un sentimiento ampliamente extendido por Austria y Europa Central.”

Tras la ignominiosa huida del káiser a Holanda y un corto intento de revolución comunista, se estableció el gobierno democrático de Weimar”

Bajo la carga de la miseria espiritual y material, muchos alemanes se rebelaron contra la situación y aceptaron la leyenda de que la derrota se debía a la <puñalada por la espalda> (Dolchstoss) de los socialistas; comenzaron, pues, a pensar en el desquite.”

Los creadores del Tratado de Paz no se dieron cuenta de que el desmembramiento del imperio de los Habsburgo había separado razas cuyas rivalidades se remontaban a mil años antes, y que únicamente se habían mantenido juntas por las tradiciones de la monarquía.”

Bullock, Austria, 1918-1938: A Study in Failure, 1939.

Austria pasó a ser un país de 6,5 millones de hab., con una capital hipertrófica de 2,5 mi.”

En Rusia, el nuevo gobierno soviético se mostró mucho más fuerte de lo que los aliados habían esperado, y Europa comenzó a temblar ante el espectro del bolchevismo. Hasta entonces, el nihilismo había sido para la mayoría un concepto fundamentalmente abstracto, o algo que concernía únicamente a los rusos, pero súbitamente apareció como una terrible amenaza para el mundo.” ¿? Ver o histriónico folheto de Hermann Hesse, Blick ins Chaos, 1921!

A los armenios se les había prometido un Estado independiente, pero resultó que después de las matanzas ya no quedaban armenios.”

Karl Kraus, Die Letzten Tage der Menschheit [Los últimos días de la humanidad], 1926.

En medio del desastre se hicieron heroicos esfuerzos para salvar la salud nacional de la juventud. Entre ellos destaca el famoso experimento sobre pedagogía terapéutica realizado por Aichhorn en Oberhollabrunn, cerca de Viena. Por desgracia, es uno de los episodios de la historia de la pedagogía acerca del cual existe menos documentación.”

Alec Mellor, La Torture, son histoire, son abolition, sa réapparition au XXe siècle, 1961.

Resulta característico que en las novelas de Proust no se haga ninguna mención de las bebidas alcohólicas, mientras que en las de Hemingway y otros escritores de la posguerra el alcohol desempeña un papel considerable.”

en Francia, con el modernismo, Lautréamont, que había muerto joven y cuyos escritos se consideraban contaminados por la enfermedad mental, fue proclamado extemporáneamente como el más grande poeta francés del siglo XIX.Em breve no Seclusão!

Entre la abundante literatura dedicada al surrealismo, ver particularmente Maurice Nadeau, Histoire du surréalisme, 2 vols., 1948.”

Siendo estudiante de medicina, André Breton fue movilizado para trabajar en una unidad psiquiátrica militar. Entre sus pacientes se encontraba un hombre que había permanecido en una trinchera durante la batalla y que, al igual que un policía dirigiendo el tráfico, había <dirigido> el vuelo de las granadas a su alrededor. El hombre estaba convencido de que se trataba de una guerra simulada, con armas falsas y heridos y muertos simulados; prueba de ello es que él siempre escapaba a las heridas. Breton quedó impresionado al ver cómo una persona joven y bien educada, que parecía lúcida, podía vivir en un mundo fantástico hasta un grado tal.”

Breton cuenta cómo el uso inmoderado de la escritura automática suscitó en él estados alucinatorios. Uno de sus colaboradores, Desnos, caía cada vez con más facilidad en profundos estados sonámbulos, en los que se tornaba agitado y peligroso, hasta el punto de que una vez persiguió al poeta Éluard con un cuchillo para matarlo.”

James Mooney, The Ghost Dance Religion and the Stoux Outbreak of 1890, 1896.

En cuanto a J., se afirmó que había dicho de las obras dadaístas: Es demasiado idiota para ser esquizofrénico.”

QUINTO EVANGELHO E… “En psiquiatría, algunos de los maestros de la antigua generación se interesaban por otros campos. Bleuler publicó su Historia natural del alma, en la que había trabajado durante muchos años y que algunas personas llamaron su Segundo Fausto.”

Forel, Le Monde social des fourmis, 5 vols. (!!!), 1921.

Rorschach, Psychodiagnostik Methodik und Ergebnisse eines wahrnehmungsdiagnostischen Experiments (Deutenlassen von Zufallsformen), 1921.

La Editorial Pseudoanalítica pasó también por momentos buenos y malos. Cuando publicó una <novela psicoanalítica> de Groddeck, despertó agudas críticas; algunos analistas la juzgaron de mal gusto, pornográfica e indigna de ser publicada por una editorial científica.” HAHAHAHA!

En psiquiatría se manifestaban nuevas tendencias. El tratamiento de la parálisis general mediante malarioterapia utilizado por Wagner-Jauregg fue conocido y aplicado universalmente. Es difícil darse cuenta hoy día de la sensación que este descubrimiento causó: la paresia general era el arquetipo de la enfermedad mental incurable y fatal, y el tratamiento citado suponía la introducción del método fisiológico en psiquiatría.”

El primer signo de un enfoque nuevo y completamente distinto [en muchos años] se tuvo cuando Ludwig Binswanger leyó un trabajo <sobre fenomenología> ante la Sociedad Suiza de Neurología y Psiquiatría. Este autor, psiquíatra dotado de amplia base filosófica, discípulo de Bleuler, destacó el interés de la fenomenología de Husserl como método aplicable a la psiquiatría clínica.”

Buber publicó un librito, Yo y tu, que se convertiría en uno de los clásicos del existencialismo.”

En octubre de 1925 fue firmado por las grandes potencias el pacto de Locarno, tendente a la prevención de posteriores agresiones, con lo que se estimó que había concluido la posguerra.”

Bleuler, Die Psychoide, das Prinzip der organischen Entwicklung

Para algunos contemporáneos, la admisión de Alemania en la Liga de las Naciones en septiembre de 1926 fue un paso adelante en la reconstrucción de Europa; para otros, un signo inquietante de recuperación del poder perdido.”

Otro acontecimiento importante de 1926 fue el gran Congreso Internacional de Investigación Sexual, celebrado en Berlín del 11 al 16 de octubre y organizado por Albert Moll.”

El relato del año 1927 no sería completo sin mencionar el libro de Heidegger Sein und Zeit, análisis completamente nuevo y original de la estructura de la existencia humana.” https://seclusao.art.blog/2022/04/07/ser-e-tempo-heidegger-trad-marcia-sa-cavalcante-schuback-ed-universitaria-sao-francisco/

Uno de los principales acontecimientos de 28, el pacto Briand-Kellogg, de renuncia a la guerra, fue firmado solemnemente en París el 27 de agosto por los representantes de 15 Estados. Algunos vieron en él un paso definitivo hacia la paz; otros, un ceremonial sin ningún significado.”

Von Gebsattel publicó un estudio fenomenológico sobre la melancolía, que confirmaba algunos de los hallazgos de Minkowski. Entre los nuevos métodos psicoter. se encontraban la técnica de relajación progresiva de Edmund Jacobson, de Chicago, y la terapéutica de Shoma Morita, de Japón.”

Ludwig Bauer, pensador político, escribió un análisis de la situación y llegó a la conclusión de que era inevitable una nueva guerra mundial, más terrible que la 1ª, salvo el caso improbable de creación de un Estado universal supranacional.”

[1932] Los japoneses crearon el Estado títere del Manchukuo. En Alemania, Hindenburg fue reelegido presidente (…) Salazar pasó a ser el jefe del gobierno de Portugal, y en Sudamérica estalló la guerra del Chaco entre Paraguay y Bolivia. Roosevelt fue elegido presidente de EEUU y Francia rehusó pagar sus deudas a esta nación.”

Minkowski, Le Temps vécu [Tiempo experimentado], 1933.

El 9 de octubre de 1934, el rey Alejandro de Yugoslavia y el ministro francés Barthou fueron asesinados en Marsella por un grupo de conspiradores ustasi.¹”

¹ “The Ustaše (pronounced [ûstaʃe]), also known by anglicised versions Ustasha or Ustashe, was a Croatian fascist and ultranationalist organization active, as one organization, between 1929 and 1945, formally known as the Ustaša – Croatian Revolutionary Movement (Croatian: UstašaHrvatski revolucionarni pokret). Its members murdered hundreds of thousands of Serbs, Jews, and Roma as well as political dissidents in Yugoslavia during World War II.”

Einstein deploró que los científicos intelectuales, que en el siglo XVII habían formado una comunidad espiritual, fueran ahora meros representantes de sus diversas tradiciones nacionalistas. Habían dejado la responsabilidad de pensar a escala internacional en manos de los políticos. Pidió con urgencia científicos que reconstruyeran una comunidad espiritual para asumir la dirección de todos los esfuerzos encaminados a impedir la guerra.”

En 1936 apareció el último libro de Janet, La inteligencia antes del lenguaje, estudio de las formas no-verbales de inteligencia en el que se comparan el animal, el niño y el idiota.”

De um ângulo alternativo, pode-se considerar o início da guerra em 38, pois Hitler anexou a Áustria neste ano antes de invadir a Polônia: “La sombría atmosfera de la capital, con las terribles dificultades que encontraban quienes intentaban huir, ha sido descrita fielmente por Leopold Ehrlich-Hichler en una novela.”

Según Jochen Besser, en la ideología nazi influyeron fuertemente las teorías de los círculos ocultistas y teosóficos de principios del siglo XX (apud Wettley, August Forel, 1953). Es de destacar el favor concedido, en efecto, a la cosmogonía glacial, o Welt-Eis-Lehre (teoría del hielo cósmico) de Hörbiger, ingeniero austríaco que enseñaba un complicado sistema astronómico y cosmogónico. En él incluía la idea de que el hielo es la sustancia fundamental constituyente del universo. Su sistema consiguió un éxito prodigioso entre los nazis, e incluso encontró adeptos en Inglaterra. Irónicamente, el Instituto Hörbiger se instaló en la casa que había pertenecido a Alfred Adler en Salmannsdorf. La medicina nazi retiraba inspiración de la dietética de Bircher-Benner

Hans Wolfgang, Hörbiger. Ein Schicksal, 1930.

Arnold Toynbee & Frank Ashton-Gwatkin, The World in March, 1939, 1952.

[1939] Karen Horney publicó sus Nuevos caminos en pseudanálisis, manifiesto y primer libro-texto de una escuela desviacionista que combinaba las enseñanzas de Adler con la terminología fraudiana.”

La generación que surgió en 45 era tan distinta de la precedente como la de 19 lo había sido de la Belle Époque.”

Gengis Khan hizo que millones de mujeres y niños murieran por su propia voluntad y con un corazón alegre. La historia sólo ve en él el gran constructor de un Estado. No me importa lo que piense de mí la débil civilización europea… Por ello he enviado al Este únicamente a mis unidades de la Calavera, con orden de matar sin pena o piedad todos los hombres, mujeres y niños de raza o idioma polaco. ¿Quién se acuerda hoy día del exterminio de los armenios?” Hitler, discurso aparecido no The Times londrino de 24/11/45. Cf. Pasdermadjian, Histoire de l’Arménie depuis les Origines jusqu’au Traité de Lausanne, 1949.

en menos de 3 semanas, Polonia había desaparecido del mapa.”

Visão de Ellenberger completamente turvada pelo imperialismo do Capital, acusando os russos de invadir nações, como se fossem parceiros dos alemães, contendo comentários cretinos como: “Desde agosto a octubre se desarrolló, sin embargo, la batalla de Inglaterra, que salvó al mundo occidental.”

Fromm, Escape from Freedom, 1941.

Binswanger, Formas básicas y conocimiento de la existencia humana, 1942. O “manifesto” da Daseinanalyse. Dizer que esta análise existencial dos psicóticos se inspirou na análise metafísica que pretendia ser uma Primeira filosofia de Heidegger é um verdadeiro escracho paradoxal!

Carl Rogers e a ascensão da estupidez na psicología americana.

En 43 pasó a un primer plano una nueva tendencia dinámica: la medicina psicosomática.[*] En realidad, ella ya tenía una larga historia: la medicina primitiva era en gran parte psicosomática, al igual que las curaciones realizadas por Gassner y Mesmer, y también Liébault, Bernheim, Forel y sus seguidores. Hasta fisiólogos hablaban del fuerte poder de las emociones (psiquismo) para adolecer la persona, como Krehl en Alemania y Cannon en los EUA.” Weiss & English, Psychosomatic Medicine; Dunbar, Psychoshomatic Diagnosis.

+ Sarno, The Divided Mind, 2006.

+ Caroline Myss, Creation of health.

[*] WIKI (ENTRE DOIS ASSASSINOS PROFISSIONAIS, O STRESS E O TÉDIO): “The strongest perspective on psychosomatic disorders is that attempting to distinguish between purely physical and mixed psychosomatic disorders is obsolete as almost all physical illness have mental factors that determine their onset, presentation, maintenance, susceptibility to treatment, and resolution. According to this view, even the course of serious illnesses, such as cancer, can potentially be influenced by a person’s thoughts, feelings and general state of mental health.” “it questions the broad acceptance of self-proclaimed diseases such as gluten-intolerance, chronic Lyme disease and Fibromyalgia as a gain of illness for patients to avoid the underlying intra-psychic conflicts eliciting the disease, while at the same time, challenging the reasons for this neglect in the doctors’ own avoidance of their emotional intra-psychic conflict.” “While in the U.S., psychosomatic medicine is considered a subspecialty of the fields of psychiatry and neurology, in Germany and other European countries it is considered a subspecialty of internal medicine. Thure von Uexküll and contemporary physicians following his thoughts regard the psychosomatic approach as a core attitude of medical doctors, thereby declaring it not as a subspecialty, but rather an integrated part of every specialty.”

In the beginnings of the 20th century, there was a renewed interest in psychosomatic concepts. Psychoanalyst Franz Alexander [muito citado por Ellenberger, mas não achei os contextos importantes a ponto de destacar neste resumo] had a deep interest in understanding the dynamic interrelation between mind and body. Sigmund Fraud pursued a deep interest in psychosomatic illnesses following his correspondence with Georg Groddeck who was, at the time, researching the possibility of treating physical disorders through psychological processes. Hélène Michel-Wolfromm (Gynecologie psychosomatique, 1964) applied psychosomatic medicine to the field of gynecology and sexual problems experienced by women.”

Robert Adler is credited with coining the term Psychoneuroimmunology (PNI) to categorize a new field of study also known as mind-body medicine. The principles of mind-body medicine suggest that our mind and the emotional thoughts we produce have an incredible impact on our physiology, either positive or negative.” “Dr. Candace Pert, a professor and neuroscientist who discovered the opiate receptor, called this communication between our cells the <Molecules of Emotion> because they produce the feelings of bliss, hunger, anger, relaxation, or satiety. Dr. Pert maintains that our body is our subconscious mind, so what is going on in the subconscious mind is being played out by our body.”

Biosemiotics (from the Greek βίος, bios, life, and σημειωτικός, sēmeiōtikos, observant of signs) is a field of semiotics and biology that studies the prelinguistic meaning-making, or production and interpretation of signs and codes and their communication in the biological realm.

Biosemiotics integrates the findings of biology and semiotics and proposes a paradigmatic shift in the scientific view of life, in which semiosis (sign process, including meaning and interpretation) is one of its immanent and intrinsic features. The term biosemiotic was first used by Friedrich S. Rothschild in 1962, but Thomas Sebeok and Thure von Uexküll have implemented the term and field. The field, which challenges normative views of biology, is generally divided between theoretical and applied biosemiotics. Insights from biosemiotics have also been adopted in the humanities and social sciences, including human-animal studies and human-plant studies.”

According to the basic types of semiosis under study, biosemiotics can be divided into: 1) vegetative semiotics (also endosemiotics, or phytosemiotics), the study of semiosis at the cellular and molecular level (including the translation processes related to genome and the organic form or phenotype); vegetative semiosis occurs in all organisms at their cellular and tissue level; vegetative semiotics includes prokaryote semiotics, sign-mediated interactions in bacteria communities such as quorum sensing and quorum quenching.

2) zoosemiotics or animal semiotics, or the study of animal forms of knowing; animal semiosis occurs in the organisms with neuromuscular system, also includes anthroposemiotics, the study of semiotic behavior in humans.”

TAL PAI, TAL FILHO? Jakob von Uexküll (1864–1944), médico psicossomático do XIX; Thure von Uexküll (1908–2004), seu continuador.

The contemporary period (as initiated by Copenhagen-Tartu school) include biologists Jesper Hoffmeyer, Kalevi Kull, Claus Emmeche, Terrence Deacon, semioticians Martin Krampen, Paul Cobley, philosophers Donald Favareau, John Deely, John Collier and complex systems scientists Howard H. Pattee, Michael Conrad, Luis M. Rocha, Cliff Joslyn and León Croizat.”

Donald Favareau, Essential Readings in Biosemiotics, 2010.

In 2021, the American philosopher Jason Josephson Storm has drawn on biosemiotics and empirical research on animal communication to propose hylosemiotics, a theory of ontology and communication that Storm believes could allow the humanities to move beyond the linguistic turn.”

Hoffmeyer, Jesper (ed.)(2008). A Legacy for Living Systems: Gregory Bateson as a Precursor to Biosemiotics. Berlin: Springer.

John Deely, Introducing Semiotics: Its History and Doctrine (1982).

J.D., Medieval Philosophy Redefined: The Development of Cenoscopic Science, AD354 to 1644 (From the Birth of Augustine to the Death of [João] Poinsot) (University of Scranton: 2010).

trad. português de um de seus livros: Semiótica Básica, trad. Julio Pinto e Julio Jeha [São Paulo, Brazil: Ática Editora].

The postmodern era has for its distinctive task in philosophy the exploration of a new path, no longer the ancient way of things nor the modern way of ideas, but the way of signs, whereby the peaks and valleys of ancient and modern thought alike can be surveyed and cultivated by a generation which has yet further peaks to climb and valleys to find.” Deely. Excessivamente otimista…

It appears that the methodology of biosemiotics has a clear resemblance with that of phenomenology, but with the important difference that several biosemiotic perspectives can be applied to all living organisms, rather than just to humans.” Lol. Estaríamos voltando a uma presunção de onisciência objetiva, ao, sem nem nos compreendermos a nós mesmos, já soltarmos afirmações sobre animais, plantas e microrganismos e como eles experienciam o mundo?

* * *

COMO SE O MUNDO, FARTO DE SI MESMO DEPOIS DE DUAS GUERRAS, CONSPIRASSE PARA ALIVIAR TENSÕES GENERALIZADAS, AJUDANDO FENÔMENOS COMO BABY BOOMERS E BEATNIKS ‘ALL ALIKE’: “Podemos añadir que, en 1943, en los laboratórios de la compañía farmacéutica Sandoz, de Basilea, el químico Albert Hofmann descubrió por casualidade una sustancia que producía vívidas alucinaciones en dosis infinitesimales. Su descubrimiento no atrajo mucha atención en aquella época, pero el producto se haría famoso más tarde bajo el nombre de LSD.”

López Ibor, Angustia vital, 1950.

El análisis existencial había sido considerado hasta entonces como un sistema teórico completamente abstracto. Con la publicación del caso de Ellen West, entró en el campo de la psiquiatría y psicopatología clínica.” “Binswanger comienza su análisis donde Janet había interrumpido el estudio de Nadia, [paciente com um problema psiquiátrico afim] es decir, éste es su intento de elucidar y reconstruir la evolución del Dasein de la paciente con su universo de experiencia subjetiva. En esa tarea se vio favorecido por la aptitud de E.W., persona de una formación esmerada, para expresarse en prosa y en verso.” Seriam pacientes estúpidos imunes à Daseinanalyse?

A los 9 meses rechazó la leche y siempre mostró dificultades en relación con la ingesta de comidas. Era una niña vivaz, con aspecto de muchacho, muy obstinada y ambiciosa y a la que gustaba la lectura. Desde su adolescencia había llevado un diario, escrito poesía y expresado una especie de entusiasmo panteísta por la vida y la naturaleza. Se sentía llamada a grandes logros, a conseguir fama imperecedera, y ansiaba el amor de un hombre perfecto. (…) A los 20 años comenzó a tener miedo de engordar, que gradualmente se convirtió en una obsesión que dominó toda la vida.” Comigo foi o contrário!

Vê-se, logo após, no relato de Binswanger, que esta foi mais uma das vítimas da pseudanálise, antes de consultar consigo.

Binswanger no se atrevió a mantenerla en la zona abierta de la institución debido a sus impulsos suicidas. Dos famosos psiquíatras llamados a consulta concordaron con él en que la paciente era incurable. El marido, informado de esta situación y del peligro, prefirió llevarla a casa. Inmediatamente cesaron los sufrimientos de la paciente. Alegremente, comió a satisfacción por 1ª vez en 13 años, leyó poesías, escribió unas cartas, e inmediatamente tomó un veneno y murió a la mañana siguiente.”

Desde el punto de vista de la temporalidad, E.W., que no había sido capaz de construir el tiempo, no tenía futuro, o más bien éste estaba reemplazado por el mundo etéreo de las fantasías, falto de raíces en su presente o su pasado. Tampoco tenía un pasado sobre el que construir sus acciones presentes o su futuro”

Szondi, Análisis del destino, 1945. “La Schicksalanalyse era un sistema teórico que ha sido mal comprendido en muchas ocasiones. Se puede definir como una síntesis de la genética psiquiátrica y del pseudoan.. El enfoque genético tuvo su origen en el estudio de las enfermedades mentales hereditarias. Partiendo de ellas (epilepsia, esquizofrenia y síndrome maníaco-depresivo), la escuela alemana llegó a la noción de <círculo hereditario> (Erbkreis). Él comprende no sólo las manifestaciones negativas (tipos específicos de psicosis y anomalías del carácter), sino también otras positivas (dones y talentos específicos), de modo que en una misma familia ciertos individuos pueden estar afectos de psicosis, otros favorecidos por un talento particular [yo] y otros mostrar, por último, rasgos específicos de carácter dentro de los límites de la normalidad. [yo de nuevo] Esto lleva a suponer que en cada círculo hered. hay un denominador común, que ha sido denominado factor raíz o radical biológico. Lo que Szondi denomina factores de impulso es un sistema de 8 radicales biológicos de ese tipo derivados de la investigación genético-psiquiátrica.” “inconsciente familiar” “elecciones vitales (elección del amor, la amistad, la profesión, la enfermedad e incluso la forma de morir), cuya suma constituye nuestro destino.” “el genotropismo, a saber, que la elección del amor está dirigida inconscientemente por semejanzas latentes en la fórmula genética.” “el operotropismo, es decir, la tendencia inconsciente de un individuo a elegir una ocupación para la cual los factores hereditarios positivos le confieren una superioridad.” E tudo isso antes mesmo da descoberta do DNA!

Se pusieron en duda sus hipótesis genéticas, en particular su sistema de los 8 factores agrupados en 4 vectores. Pero en realidad parece ser que, en la mente de Sz., este sistema es más bien un modelo ficticio, comparable a los resonadores diseñados por Helmholtz y con los que analizan los médicos los elementos constitutivos de un tono. La elección de los resonadores tiene que ser necesariamente arbitraria, pero ningún médico negará su utilidad para el análisis de un sonido.”

1945: Merleau-P., Fenomenologia da percepção

Para los franceses se hizo corriente el leer a F. en inglés, e incluso los alemanes jóvenes hablaban del ego, id y superego en lugar de utilizar los términos originales Ich, Es, ÜbeR[e]ICH.”

11. CONCLUSIÓN

El fracasado intento revolucionario de la Comuna de París de 1871 desencadenó una ola de sentimientos antidemocráticos. Dupréel ha demostrado que la teoría de Gustave Le Bon sobre la <psicología de las masas> era una expresión de esa tendencia, y a pesar de ello fue tomada como verdad científica indiscutible y utilizada como tal por muchos autores, incluyendo a Fraud.”

No es de extrañar que muchas de las ideas de Fraud y Jung sean semejantes a las enseñanzas de los viejos psiquíatras románticos. Janet, por el contrario, es en definitiva un representante póstumo de la Ilustración, al igual que en menor grado Adler. Bajo esta luz se pueden comprender las rivalidades existentes entre estos 4 autores y sus discípulos como olas retrasadas de las luchas de Ilustración y el romanticismo a finales del siglo XVIII y principios del XIX.” Excelente resumo. Doutor Fraude é um charlatão leitor de Goethe que usava sua habilidade de escritor e seu senso de fantasia e ficção para ‘hipnotizar’ (pun intended) as massas, involucrando seu ‘sistema’ com as idéias e modas do momento (daí que numa life span de 50 anos como autor pós-tempos como neurologista tenha fabricado um conteúdo tão versátil que, de década a década, contradizia inteiramente todos os ensinamentos futuros e pretéritos – em outros termos, a melhor refutação da pseudanálise é a própria obra fraudiana, elevada a uma pseudociência hagiográfica pelos psicólogos e psiquiatras facilmente enganados).

Ellenberger, porém, reduz todos os sistemas de psicoterapia existentes de uma forma tão extrema ao núcleo familiar de cada psicoterapeuta de destaque que, penso, ignorava as terríveis e desagradáveis implicações de sua exegese: toda terapia é discurso, e se o paciente é inteligente o bastante, não embarca em nenhuma. Enfim, como sempre, a ignorância é uma bênção. A neurose criadora de Ellenberger era pouco criativa e suicida!

Burton, The anatomy of melancholy, 1621.

A RAQUÍTICA REDUÇÃO DE TUDO À BIOGRAFIA (O que me leva a concluir: o melhor terapeuta é o historiador): “Según Phyllis Bottome, Adler padeció raquitismo en edad temprana, lo que explicaría sus teorías sobre la inferioridad orgánica, el complejo de inferioridad y la compensación. El propio Pavlov hizo un corto pero significativo relato de la neurosis cardíaca que sufrió tras ser operado en 1927, y parece ser que su interés por la psiquiatría fue grandemente estimulado por este acontecimiento.”

E não contente com invalidar qualquer pesquisa no campo, Ellenberger parte para uma engenhosa negação da negação logo a seguir: “Aunque Janet utilizó su propia experiencia de la psicastenia y Adler su experiencia personal de inferioridad orgánica, obtuvieron sus principales descubrimientos mediante la investigación clínica objetiva.”

Es lamentable que las enseñanzas de Puységur y los antiguos magnetizadores hayan estado tan completamente olvidados en las últimas décadas del siglo XIX, como demuestran los ejemplos de Ch. y Breuer.”

O FALSO DINAMISMO DO CÍRCULO: “Retrocedemos, por tanto, a la paradoja que fue el punto de partida de nuestra investigación, es decir, el hecho de que la psiquiatría dinámica sufrió una sucesión aparentemente incoherente de vicisitudes con fases de rechazo y resurgimiento, en contraste con el curso constante de evolución de las ciencias físicas.”

Tal punto de vista es extraño a la ciencia moderna; nadie podía imaginar a Pasteur, p.ej., declarando ser el único en decidir lo que era y lo que no era bacteriología, mientras que sería perfectamente normal que Heidegger afirmara que él era el único capaz de definir lo que era y lo que no era la filosofía heideggeriana.” Chega a ser tão óbvio que é engraçado!

Entre los fundadores de la moderna psiquiatría dinámica notamos que sólo uno, Janet, permaneció fiel a la tradición de la ciencia unificada. (…) Esperó que sus enseñanzas se integraran en la disciplina de la psicología, del mismo modo que Pasteur había esperado que sus descubrimientos se integraran en la medicina.”

Lista das obras grifadas em vermelho, em ordem alfabética, menos aquelas virtualmente impossíveis de encontrar hoje em dia (repete-se o negrito para as leituras consideradas prioritárias):

ABRAHAM, K., Dreams and Myths : A study in folk-Psychology

ADLER, Conocimiento de la naturaleza humana

____, Estudios sobre la inferioridad de los órganos

____, Salud y educación

AGASSIZ, Études sur les glaciers

ALEXANDER, Franz, The Western mind in transition : an eyewitness story

ANGELL, The Great Illusion, a Study of the Relation of Military Power in Nations to Their Economic and Social Advantage

AICHHORN, Wayward Youth

ASCH, East River

BABINSKI & FROMENT, Hysteropithiatisme en Neurologie de Guerre

BACHOFEN, O Matriarcado

BAEUMLER, Bachofen und Nietzsche

BADT-STRAUSS, Moses Mendelssohn, der Mensch und das Werk

BAKUNIN, Marxism, Freedom and the State, http://www.revoltlib.com/anarchism/marxism-freedom-and-the-state-some-class-bakunin-mikhail-1950/.

____, 5 mini-artigos: http://www.revoltlib.com/anarchism/recollections-on-marx-and-engels-marx-bakunin-mikhail-1869/, http://www.revoltlib.com/anarchism/red-association-emancipation-work-bakunin-mikhail-1870/, http://www.revoltlib.com/anarchism/god-or-labor-two-camps-idea-of-god-moral-bakunin-mikhail-1947/, http://www.revoltlib.com/anarchism/integral-education-i-masses-power-bakunin-mikhail-1869/, http://www.revoltlib.com/anarchism/organization-of-the-international-policy-bakunin-mikhail-1869/.

BALDWIN, Mental Development in the Child and the Race

BARTH, The Epistle to the Romans

____, Dogmática Eclesiástica [inacabada]

BEAUMARCHAIS, Le Barbier de Séville

BEBEL, A., Women Under Socialism, https://archive.org/details/WomanUnderSocialism.

BECCARIA, Dei Delitti e dele Pene

BENEDETTI, Psychotherapie als existentielle Herausforderung

BENEDIKT, M., Memories

____, Seelenkunde des Menschen als reine Erfahrungswissenschaft

BENNETT, The Mesmeric Mania of 1851, with a Physiological Explanation of the Phenomena Produced

BERGASSE, Considérations sur le magnétisme animal, ou, Sur la théorie du monde et des êtres organisés après les principes de M. Mesmer, avec des pensées sur le Mouvement par M. le Marquis de Chatellux, de l’Académie Françoise

BERGSON, Las dos fuentes de la moral y de la religión

____, Ensayo sobre los datos inmediatos de la conciencia

____, L’Évolution créatrice

BERNHEIM, Hypnotisme, suggestion, psychothérapie, Études nouvelles

BERTHELOT, Les Origines de l’alchemie

BERTRAND, Du magnétisme animal en France et des jugements qu’en ont porté les sociétés savantes, (Suivi de) Considérations sur l’apparition de l’extase dans les traitements magnétiques

____, Lettres sur la physique

BINSWANGER, Caso Ellen West

____, Formas básicas y conocimiento de la existencia humana

BIRCHER-BENNER, The Essential Nature and Organisation of Food Energy, https://archive.org/details/b29807232/page/n5/mode/2up

BJERRE, Psychosynthese

BLEULER, Historia natural del alma

____, Die Psychoide, das Prinzip der organischen Entwicklung

BÖLSCHE, Vida amorosa en la naturaleza

BOTTOME, Alfred Adler: Apostle of Freedom

____, Against Whom?

BOUGAINVILLE, Voyage autour du monde

BOURGET, P., The Glamour of Italy

____, Mensonges

BRAID, Neurypnology, or the Rationale of Nervous Sleep

BRAMWELL, Hypnotic and Post-hypnotic Appreciation of Time: Secondary and Multiplex Personalities

BRENTANO, Philosophical Investigations on Space, Time and Phenomena

BRIEUX, Les avariés

BRIQUET, Traité de l’hystérie

BRUNSCHWIG, La Crise de l’état prussien à la fin du XVIIIe siècle et la genèse de la mentalité romantique

BUBER, Yo y tu

BÜCHNER, L., Kraft und Stoff [Força e matéria]

____, Man in the Past, Present and Future [ah, esses polímatas!…]

BULLOCK, Austria, 1918-1938: A Study in Failure

BURCKHARDT, J., A Cultura do Renascimento na Itália

BURTON, The anatomy of melancholy

CARTER, The Idea of Decadence in French Literature, 1830-1900

CARUS, Psyche

CASSIRER, The Philosophy of Enlightenment

CASTIGLIONE, The Book of the Courtier

CHAMPOLLION, Précis du système hiéroglyphique des anciens Égyptiens, ou recherches sur les éléments premiers de cette écriture sacrée, sur leurs diverses combinaisons, et sur les rapports de ce systéme avec les autres méthodes graphiques égytpiennes

CHARCOT, Clínica de las enfermedades del sistema nervioso

CHEVREUL, De la baguette divinatoire, du pendule dit explorateur et des tables tournantes, au point de vue de l’histoire, de la critique et de la méthode expérimentale

CHOISY, Love in the Prisons

CHUGERMAN, Lester F. Ward, The American Aristotle

CLAPARÈDE, L’association des idées

____, Psychologie de l’enfant et pédagogie expérimentale

CLARETIE, Histoire de la révolution de 1870-1871, 5 vols.

____, Les Mirabeau

COLSENET, Études sur la vie inconsciente de l’espirt

CONDORCET, Esquisse d’un tableau historique des progres de l’esprit humain

COUÉ, Self-Mastery Through Conscious Autosuggestion, https://archive.org/details/selfmasterythro00amergoog/page/n4/mode/2up?view=theater

GRACÍAN, The Art of Wordly Wisdom

CREUZER, Symbolik und Mythologie der alten Völker, besonders der Griechen

DALLEMAGNE, Dégénérés et déséquilibrés

DAUDET, Léon, L’Avant-Guerre

____, Les Morticoles

____, Safo

DARWIN, F., (ed.) Charles Darwin, Life and Letters (3 volumes)

DAVIS, A.J., The Magic Staff

DE LIGORIO, Oeuvres, IX

DE ROCHAS, Les Vies successives. Documents pour l’étude de cette question

DE SANCTIS, I sogni. Studi psicologici e clinici di un alienista

DEBREYNE, Moechialogie. Traité sur les péché contre le sixième et le neuvième commandements du Décalogue

____, Pensées d’un croyant catholique

DÉJERINE, L’héredité dans les maladies du système nerveux

DELAY, Les Dissolutions de la mémoire, Preface by Pierre Janet

DELEUZE, Histoire critique du magnétisme animal

DEONNA, De la planète Mars en Terre Sainte

DESFONTAINES, Le nouveau Gulliver, ou Voyages de Jean Gulliver, fils du capitaine Lemuel Gulliver, 2vols.

DESSOIR, Das Doppel-Ich

DEWITT, Epicurus and His Philosophy

DOTTRENS, The New Education in Austria

DU PREL, Justinus Kerner und die Seherin von Prevorst

____, Der Kampf ums Dasein am Himme, republicado como Entwickelungsgeschichte des Weltalls

____, Oneirokritikon. Der Traum vom Standpunkt des transcendentalen Idealismus

DUBOIS, P., Psychic Treatment of Nervous Disorders

DUJARDIN, Interior Monologue

DUMAS, G., ‘Comment on gouverne les rêves’

DUNBAR, Psychoshomatic Diagnosis

DUPOND, La Cure des psychonévroses par la méthode du Dr. Vittoz (tese)

DUPRÉEL, Esquisse d’une philosophie des valeurs

EDELSTEIN, E. & EDELSTEIN, L. Asclepius: Collection and Interpretation of the Testimonies

EHRLICH, P., Histology of the Blood, Normal and Pathological (c/ Adolf Lazarus) https://www.gutenberg.org/ebooks/author/34208, quem descobriu a cura para a sífilis.

ELIADE, Techniques du Yoga

____, Yoga, Essai sur les origines de la mystique indienne

ELKIN, Aboriginal Men of High Degree

ÉSQUILO, la Orestíada

EXNER, S., Entwurf zu einer physiologischen Erklärung der psychischen Erscheinungen

EY, Schizophrénie: études cliniques et psychopathologiques

FABRE D’OLIVET, Music Explained as Science and as Art and Considered in its Analog Relationship with Religious Mysteries, Ancient Mythology and the History of the Earth, https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k65505h.pdf

____, Notions sur le sens de l’ouïe en général, et en particulier sur la guérison de Rodolphe Grivel, sourd-muet de naissance en une série de lettres écrites par Fabre d’Olivet, https://www.biusante.parisdescartes.fr/histoire/medica/resultats/index.php?do=chapitre&cote=49724

FALRET, Mémoire sur la folie circulaire, forme de la maladie mentale caractérisée par la reproduction successive et régulière de l’état maniaque, de l’état mélancolique, et d’un intervalle lucide plus ou moins prolongé (artigo em https://www.biusante.parisdescartes.fr/histoire/medica/resultats/index.php?do=page&cote=epo0306&p=1)

FARIA, De la cause du sommeil lucide, ou Étude de la nature de l’homme

FAVAREAU, Essential Readings in Biosemiotics

FECHNER, In Sachen der Psychophysik, https://archive.org/details/insachenderpsyc00fechgoog

____, Nanna, o el alma de las plantas

____, On Life After Death, https://archive.org/details/onlifeafterdeath00fechuoft

____, Repertorium der Experimentalphysik, 3 vols., https://archive.org/details/repertoriumdere04fechgoog, https://archive.org/details/repertoriumdere03fechgoog, https://archive.org/details/repertoriumdere00fechgoog.

____, Revision der hauptpuncte der psychophysik, https://archive.org/details/revisionderhaup01fechgoog

____, La visión de día en contraste con la visión de noche

____, Zend-Avesta

FEUERBACH, Aktennässige Darstellung merkwürdiger Verbrechen, 2 vols.

FLAUBERT, Salambó

FLOURNOY, Esprits et médiums

____, Des Indes à la planète Mars

FOREL, Ants and Some Other Insects: An Inquiry into the Psychic Powers of these Animals, https://archive.org/details/antssomeotherins00fore

____, Hypnotism; or, Suggestion and Psychotherapy: A Study of the Psychological, Psycho-physiological and Therapeutic Aspects of Hypnotism, https://archive.org/details/hypnotismorsugge00foreiala/page/n5/mode/2up?view=theater

FRANZ, Persons One and Three. A Study in Multiple Personalities

FRIEDLÄNDER, Platon: Seinswahrheit und Lebenswirklichkeit

FROMM, Escape from Freedom

FUCHS, Geistige Strömungen in Österreich

GALENO, On the Passions and Errors of the Soul, traduzido por Harkins, prefácio de Walther Riese

GANZ, Madelaine, The Psychology Of Alfred Adler: and the Development of the Child

GAULTIER, Le Génie de Flaubert

GEORGE, S., Das neue Reich

GMELIN, Materialen für die Anthropologie

GOBINEAU, Essai sur l’inégalité des races humaines, 4 vols.

GOCLENIUS, Isagoge in peripateticorum et scholasticorum primam philosopiam, quae dici consuevit metaphysica

GORDON, Forgotten Scripts: How they were deciphered and their impact on contemporary culture

GRASSET, J., The marvels beyond science: (L’occultisme hier et aujourd’hui; le merveilleux préscientifique): being a record of progress made in the reduction of occult phenomena to a scientific basis, https://archive.org/details/marvelsbeyondsci00gras/page/n5/mode/2up

GRAY, A., Darwiniana: Essays and Reviews Pertaining to Darwinism, https://archive.org/details/darwinianaessay03graygoog

GRIESINGER, Pathologie und Therapie der psychischen Krankheiten, o fundador da psiquiatria universitária

GRILLPARZER, Libussa

____, Sappho

GRIMM, Correspondance littéraire, philosophique et critique adressée à un souverain d’Allemagne, 5 vols., por el barón de Grimm y por Diderot

GROTEFEND, Neue Beiträge zur Erläuterung der persepolitanischen Keilschrift

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HÄBERLIN, Antropologia filosófica

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HERTZKA, Freiland, ein soziales Zukunftsbild[

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HERZL, O Estado judeu

HESSE, Demian

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____, Schön ist die Jugend

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HIMMELFARB, Darwin and the Darwinian Revolution

HIRN, Origins of Art

HOFFMAN, Los elixires del diablo

HOFMANN, A., LSD – My Problem Child, https://maps.org/images/pdf/books/lsdmyproblemchild.pdf

HÜMPFNER, Clemens Brentanos Glaubwürdigkeit in seinen Emmerich-Aufzeichnungen

HUYSMANS, La Bièvre et Saint-Séverin

IBOR, Angustia vital

IBSEN, La dama del mar [The Lady from the Sea, tradução da filha de Marx]

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IDELER, C.L., Die Zeitrechnung der Chinesen

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JALOUX, Les profondeurs de la mer

JAMES, W., The energies of man

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____, Principios de psicología

____, Las variedades de la experiencia religiosa

JANET, Pierre, L’amour et la heine

____, Automatisme Psychologique

____, Bacon y los alquimistas (tese de doutorado)

____, L’Évolution psychologique de la personnalité

____, ‘L’Insomnie par idée fixe subconsciente’

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____, Les Névroses

____, Névroses et idées fixes

____, Las obsesiones y la psicastenia

JANET, Paul, Notes et souvenirs

JUNG, Aion

____, Metamorfoses e símbolos da libido

____, Psicologia Analítica

____, ‘Psicología de los rumores

____, Resposta a Jó

____, Sobre la psicopatología de los fenómenos denominados ocultos

____, Os tipos psicológicos [resumo mais completo do junguismo]

JUNG-STILLING, Theobald oder die Schwärmer

KAAN, Psychopathia sexualis

KANN, The Multinational Empire, 2 vols.

KARMA LINGPA, The Tibetan Book of the Dead

KERENYI, Bachofen und die Zukunft des Humanismus. Mit einem Intermezzo über Nietzsche und Ariadne

____, Die Mythologie der Griechen (The Mythology of the Greeks), 2 vols.

KERENYI & JUNG, Einführung in das Wesen der Mythologie

KERNER, Kleksographien

KIRCHHOFF, A., Das Gotische Runenalphabet

KRAFFT-EBING, Psychopathia Sexualis

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____, Mut https://gutenberg.org/ebooks/4341 ual Aid: A Factor of Evolution, https://gutenberg.org/ebooks/4341

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LA PIERE, The Freudian Ethic

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LAFITAU, Moeurs des Sauvages Amériquains, Comparées aux Moeurs des Premiers Temps, 2 vols.

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LITTRÉ, E., Conservation, révolution et positivisme

LOMBROSO, The Man of Genius

LOWELL, Occult Japan, or the Way of the Gods

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MANN, Doktor Faustus

MAGNAN, V., Des anomalies, des aberrations et des perversions sexuelles

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MAUPASSANT, Pierre et Jean

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MEYER, A., The Collected Papers

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MICHAUD, Autour d’Emerson

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MICHELET, La Bible de l’Humanité

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MINKOWSKI, La Schizophrénie

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MOLESCHOTT, Der Kreislauf des Lebens

MOLET, La Conception malgache du monde, du surnaturel et de l’homme en Imerina, 2 vols.

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MORAND, P., Fin de siècle

____, Tendres Stocks

MOREL, Études cliniques

MOREAU, Des aberrations du sens génésique

MOREAU DE TOURS, Du Hachisch et de l’aliénation mentale

MUNTHE, La historia de San Michele

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MYERS, Personalidad humana

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NADEAU, Histoire du surréalisme, 2 vols.

NECHAYEV, Catecismo revolucionario, manifesto de 6 páginas, fácil de baixar.

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PASDERMADJIAN, Histoire de l’Arménie depuis les Origines jusqu’au Traité de Lausanne

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PAYNE, Zero. The Story of Terrorism

PEYER, Asthma sexuale

PEARY, North Pole diary

PERT & MARRIOTT, Everything You Need to Know to Feel Go(o)d

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PIAGET, Le Langage et la pensée chez l’enfant

PIRANDELLO, Si Gira, Quaderni di Serafino Gubbio (Shoot!, The Notebooks of Sarafino Gubbio, Cinematograph Operator)

PLAYNE, The Neuroses of the Nations

PODMORE, Modern Spiritualism. A History and a Criticism, 2 vols.

POPPER-LYNKEYS, The Ethical and Cultural Meaning of Technological Progress

PRAZ, The Romantic Agony

PRÉVOST, Jardim Secreto

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PRINCE, M., La disociación de una personalidad

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Prince, W.F., The Case of Patience Worth. A Critical Study of Certain Unusual Phenomena

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RAY, How Never to Be Tired

REGNARD, Les Maladies épidémiques de l’esprit

REICKE, Malwida von Meysenbug

RENAN, E., Averroës et l’Averroïsme

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____, Drames philosophiques

wiki: “They show the attitude towards uncultured Socialism of a philosopher liberal by conviction, by temperament an aristocrat. We learn in them how Caliban (democracy), the mindless brute, educated to his own responsibility, makes after all an adequate ruler; how Prospero (the aristocratic principle or the mind) accepts his dethronement for the sake of greater liberty in the intellectual world, since Caliban proves an effective policeman and leaves his superiors a free hand in the laboratory”

____, The Future of Science/L’Avenir de la Science

____, Histoire Générale et Systèmes Comparés des Langues Sémitiques

____, History of the People of Israel/Histoire du peuple d’Israël [antiga] (em 5 volumes)

____, Origins of Christianity (7 vols., 2 póstumos, mas ler sobretudo o 4º, Antichrist/L’antéchriste, 1873(6?), quase empatando com Nie.!), https://archive.org/details/bub_gb_R6qpV-l8zH0C ou https://archive.org/details/bub_gb_VHniKE1ME8wC

____, Vie de Jésus, seu livro mais polêmico – e em verdade é o 1º volume do livro acima citado, porém é muito mais vendido em separado. Versões em 3 línguas: https://www.gutenberg.org/ebooks/author/4527.

wiki: “Renan’s works were read and appreciated by many of the leading literary figures of the time, including James Joyce, Marcel Proust, Matthew Arnold, Edith Wharton, and Charles Augustin Sainte-Beuve. One of his greatest admirers was Manuel González Prada in Peru who took the Life of Jesus as a basis for his anticlericalism.”

RESTIF DE LA BRETONNE, Monsieur Nicolas

RIBOT, As doenças da memória

____, Les Maladies de la personnalité (última edição 2001)

____, Problèmes de psychologie affective, https://archive.org/details/problmesdepsyc00ribouoft

____, La psycholgie allemande contemporaire: (École expérimentale), https://archive.org/details/lapsycholgieall00ribogoog

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RICHET, Our Sixth Sense

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ROBIN, A., (org.) Traité de Thérapeutique

ROHDE, Afterphilologie

RORSCHACH, Psychodiagnostik Methodik und Ergebnisse eines wahrnehmungsdiagnostischen Experiments (Deutenlassen von Zufallsformen)

ROSKOFF, Geschichte des Teufels

ROUSSEAU, Confissões

SAL Y ROSAS, El mito del jani o susto de la medicina indigena del Peru

SANTAYANA, The Sense of Beauty

SARNO, The Divided Mind

SCHELER, The Human Place in the Cosmos

SCHELLING, Ideen zu einer Philosophie der Natur

SCHERNER, The Life of The Dream

SCHIAPARELLI, G.V., La vita sul pianeta Marte (Life on Mars)

____, Sulla distribuzione apparente delle stelle visibili ad occhio nudo, https://gutenberg.beic.it/view/action/nmets.do?DOCCHOICE=12383389.xml&dvs=1672862904812~217&locale=pt_BR&search_terms=&show_metadata=true&adjacency=&VIEWER_URL=/view/action/nmets.do?&DELIVERY_RULE_ID=7&divType=

SCHLEGEL, Lucinde

SCHNITZLER, Anatol

____, El espíritu en el trabajo y en la acción

____, Frau Beate

____, Huida en las Tinieblas

____, Paracelsus

SCHRENCK-NOTZING, Phenomena of Materialisation

SEBEOK, Zoosemiotics

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SEMMELWEIS, Semmelweis‘s Gesammelte Werke Herausgegeben und zum Theil aus dem Ungarischen Übersetzt

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SIGERIST, A History of Medicine, I

SILBERER, Probleme der Mystik und ihrer Symbolik

SOREL, Réflexions sur la violence

SPENCER, Essays: Scientific, Political, and Speculative, Vol I: The Development Hypothesis, “Progress: Its Law and Cause, The Factors of Organic Evolution and others

SPITTELER, Imago

STEINER, R., Fundamentals of Therapy: An Extension of the Art of Healing Through Spiritual Knowledge, https://rsarchive.org/Books/GA027/English/RSP1983/GA027_index.html

____, Theosophy: An Introduction to the Spiritual Processes in Human Life and in the Cosmos, https://rsarchive.org/Books/GA009/

STEINTHAL, Philologie, Geschichte und Psychologie in ihren gegenseitigen Beziehungen

SZONDI, Análisis del destino

TESTE, Comment on devient homoeopathe, https://babel.hathitrust.org/cgi/pt?id=mdp.39015010568577&view=1up&seq=9

THIPGEN & CLECKLEY, The Three Faces of Eve

THOURET, Recherches et doutes sur le magnétisme animal

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TOKARSKY, Fear of Death

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VAIHINGER, La Filosofía del como si

VALÉRY, Regards sur le monde actuel

VAN EEDEN, The Bride of dreams

VAN GEHUCHTEN, L’Anatomie du système nerveux de l’homme (crítico de F.)

VILLIERS DE L’ISLE-ADAM, L’Eve future

VINCHON, Mesmer et son secret

VISHNITZER, trad./ed., The Memoirs of Ber of Bolechow (1723-1805)

VOLKELT, Phänomenologie und Metaphysik der Zeit

VON BERNHARDI, Alemania y la guerra próxima

VON GEBSATTEL, E., Handbuch der Neurosenlehre und Psychotherapie

VON HUMBOLDT, W., On Schiller and the Path of Spiritual Development

VON MEYSENBUG, M., Memoiren einer Idealistin

VON SCHUBERT, Populäre Astronomie

VON WEIZSÄCKER, Pathosophie

WAGENVOORT, Roman dynamism: studies in ancient Roman thought, language and custom

WATTS, Life and Work of Kerner

WEDEKIND, F.

wiki:In the English-speaking world, before 2006 Wedekind was best known for the Lulu cycle, a 2-play series—Erdgeist (Earth Spirit, 1895) and Die Büchse der Pandora (Pandora’s Box, 1904)

WEININGER, Sexo e caráter

WEIR MITCHELL, Rest in the Treatment of Nervous Disease, https://corescholar.libraries.wright.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1006&context=special_books

WEISS & ENGLISH, Psychosomatic Medicine

WERNICKE, Lehrbuch der Gehirnkrankheiten : für Aerzte und Studirende

WESTPHAL, K.F.O., Contrary sexual instinct: Symptom of a neuropathic (psychopathic) Condition, 1a descrição médica da homossexualidade.

WETTLEY, August Forel

WILDGANS, Dies Irae

WILHELM, R., I Ching, http://www2.unipr.it/~deyoung/I_Ching_Wilhelm_Translation.html

____, Secret of the Golden Flower

WINKELMANN, Forschungen zur deutschen Geschichte

WOLFGANG, Hörbiger. Ein Schicksal

WUNDT, Elemente der Völkerpsychologie

____, Gustav Theodor Fechner. Rede zur Feir seines hundertjährigen Geburtsages

ZERMAN, The Break-up of the Hapsburg Empire, 1914-18

ZIEHEN, G.T., Concerning the overall relations between the brain and soul

ZOLA, La joie de vivre

ZOZIMOS OF PANOPOLIS, The Book of the Keys of the Work (Kitāb Mafātī aan’a)

____, The Book of Pictures (Muṣḥaf auwar)

Bônus (autores e leituras relacionados com as sugestões acima): (ESPECIALIZAR-ME NA GÊNESE DO FASCISMO ANTES DE MORRER, COMO MONOTEMA DE PESQUISA)

Deely, John, Introducing Semiotics: Its History and Doctrine (1982).

____, Medieval Philosophy Redefined: The Development of Cenoscopic Science, AD354 to 1644 (From the Birth of Augustine to the Death of [João] Poinsot) (University of Scranton: 2010).

____, Semiótica Básica, trad. Julio Pinto e Julio Jeha [São Paulo, Brazil: Ática Editora]

Gasman, Daniel (1971). The Scientific Origins of National Socialism: Social Darwinism in Ernst Haeckel and the German Monist League.

Hoffmeyer, Jesper (ed.)(2008). A Legacy for Living Systems: Gregory Bateson as a Precursor to Biosemiotics.

Hugh Robert (1923). The Life of Sir Ernest Shackleton, https://archive.org/details/lifeofsirernests00milluoft

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Weikart, Richard (2004). From Darwin to Hitler.

O LEGADO DE GEORG GRODDECK: Genuinidade e Originalidade (mestrado em Psicossomática e Psicologia Hospitalar, PUC/SP, 2009, 1ª versão) – Maria Consuelo da Costa Oliveira e Silva

Escrita péssima! Mais abaixo entrarei em pormenores!

INTRODUÇÃO

O que é Psicossomática?

Como uma primeira tentativa de responder esta questão, a autora deu início ao Mestrado na área de Psicossomática e Psicologia Hospitalar. A partir deste momento, passou a se aprofundar em alguns autores, citados como referência nesta temática: Joyce McDougall, Pierre Marty, Rosine Debray, Franz Alexandre, (sic) entre outros. Porém, um autor em particular chamou a atenção, não só por ser um autor considerado como o ‘Pai da Psicossomática’, mas também, e principalmente, por sempre vê-lo citado como referência pelos autores acima mencionados.”

Os estudantes foram maçados com fórmulas e hipóteses que precisavam esquecer para poderem ajudar os seus doentes” GG

Médico, ou o Açougueiro

Este autor é de quem FRAUD tomou emprestado por sua vez o termo ‘Id’, porém caracterizando-o a seu gosto e deformando-o para que se encaixasse em suas idéias. Groddeck não pode tolerar isto e se afasta da psicanálise.” Editado onde é óbvio.

Tese baseada em fontes primárias mas que não consulta as fontes primárias (apenas traduções dos originais em alemão)!

Diferente de Freud, que estava fortemente influenciado pelas ciências naturais e seu determinismo, reducionismo e mecanicismo, Groddeck estava impregnado pelo Romantismo.” Aleksandar Dimitrijevic, 2008erro crasso: Henri Ellenberger e eu sabemos o quanto FRAUD é tributário do Romantismo em ainda mais alto grau (ampliando seus defeitos e aporias). Isso será repisado na seqüência.

Em 1909, Groddeck profere um ciclo de conferências, ‘Rumo ao Deus-Natureza’ e o nome de Goethe é mencionado como alguém que disse: Deve-se considerar cada coisa como parte de um todo. Observem o todo na parte, e a parte no todo. […] Goethe foi maior como pesquisador da natureza do que como poeta. (GRODDECK, 2001, p. 26).”

W.G., Bei Betrachtung von Schillers Schädel

Agora a atenção se desloca para outro autor, Carl Gustav Carus (médico e paisagista), não citado por Groddeck, autor de um livro sobre Goethe (1843) e cartas a respeito de Fausto (1835).”

Carus, Lições sobre psicologia

C., Psyche, Zur Entwicklungsgeschichte der Seele

É importante lembrar que ele falava de si mesmo como o ‘quinto’ Groddeck e derivou uma série de raciocínios a partir do número cinco. E o que significa esta lembrança? O período de vida deste clínico geral começa em 1866 (cinco anos antes da unificação da Alemanha) e morre em 1934 (cinco anos antes da invasão da Polônia pela Alemanha e do início da Segunda Guerra Mundial).”

É importante ressaltar que os pacientes atendidos por Groddeck padeciam, na maioria dos casos, de doenças orgânicas e que ele não era psiquiatra, mas sim clínico geral.”

(*) “Sandor Ferenczi assumiu uma posição distante e crítica às idéias do médico de Baden-Baden e mesmo assim aceitou escrever uma resenha favorável ao primeiro texto que Freud leu de Groddeck. No final de 1921, Ferenczi resolveu tratar-se no sanatório de Groddeck em Mariennhöle, sem que isso significasse que tivesse se tornado adepto das idéias proferidas neste local. Mas a partir deste instante iniciou-se uma longa amizade entre esses dois homens, com uma intensa e significativa troca de correspondência, que começa com um pedido de compreensão [??] que está presente numa carta escrita por Ferenczi no Natal de 1921. Este pedido de vínculo envolverá vários aspectos da vida amorosa de Ferenczi, sua insatisfação com Freud e com a sua análise, o pedido e a necessidade dele por análises mútuas, e como este pedido revela alto grau de honestidade

emocional, Groddeck se converte no companheiro analítico mútuo o (sic) que Freud não chegou a ser. E esta relação de amizade e confiança profunda, com visitas constantes, principalmente de Ferenczi a Baden-Baden, durará até a morte deste em 22 de maio de 1933.”

(*) “Nas suas Memórias Groddeck se refere a Keyserling como sendo […] o mais brilhante interlocutor que jamais encontrei, um completo homem do mundo no melhor sentido da palavra e um homem que sabia dar e receber. Encontram-se com bastante freqüência os que sabem dar, pelo menos se se tiver o dom de se deixar presentear; os que sabem receber já são mais raros, pois cada um se desacostuma o mais rápido e radicalmente possível do ingênuo receber da criança, para logo pisar com prazer na lama do pagar e quitar, igual a todos os outros; como se algum dia algo pudesse ser pago. […] Então, homens que sabem dar e receber quase não existem. Considero uma graça especial do destino ter conhecido Keyserling. […] Conheço muito bem a sua paixão pela sabedoria, o que se pode chamar de filosofia, e foi assim que ele a chamou. E sendo ele o único entre milhares que suspeita do que seja sabedoria, considero justo que tenha dado à instituição de Darmstadt o nome de ‘Escola de Sabedoria’. […] Estive várias vezes em Darmstadt e existe o fato de que Keyserling é capaz de harmonizar de forma perfeita os pensamentos de homens de tão diferentes correntes de espírito e índoles, como Scheler, Jung, Frobenius, de tal forma que o ouvinte, mediante um claro conhecimento de cada personalidade individual e através de um interesse atento pela lei individual sob a qual vive o orador, pode facilmente absorver e assimilar o humano em geral; este fato dá a Keyserling o direito de afirmar que, em Darmstadt, se está realizando algo de diferente que não é oferecido em nenhum outro lugar e que só pode ser realizado por ele. (GRODDECK 1970, 1994, p. 322–323).”

(*) “Em 10 de junho de 1934 morre em Zurique, com a idade de 67 anos, o médico de Baden-Baden Georg Groddeck, o único autêntico e qualificado continuador da escola de Schweninger. Com ele desapareceu um dos homens mais extraordinários que eu jamais havia encontrado. Era a única pessoa minha conhecida que sempre me fazia pensar em Lao-Tsé: seu não-fazer era criativo, a um nível inclusive mágico. Ele se atribuía o princípio de que o médico não sabe nada, nada pode fazer e pouco tem o que fazer: deverá somente, com sua presença, despertar as forças curativas inatas no paciente. Naturalmente, esta técnica de não-saber, de não fazer por si só, não lhe daria condições de manter ativa sua clínica em Baden-Baden. Portanto, ele curava fazendo uso de uma combinação de psicanálise e massagens. […] Foi assim que Groddeck me curou, em menos de uma semana, de uma flebite recorrente.¹ […] Sem dúvida, em Georg Groddeck, eu não amava e respeitava tanto o médico como o sábio paradoxal. Ele não pertencia a nenhuma escola: sobre cada coisa tinha suas opiniões estritamente pessoais e freqüentemente heréticas. E todas elas eram entendidas no sentido justo, não muito ajustadas ao literal, opiniões profundas. Não conheço nenhum filósofo da natureza que como ele tenha ressaltado a condição da infância; até quase se poderia dizer que seu ideal era o ovo, posto que nenhum organismo já formado saberia do que o ‘Isso’ é capaz. […] Porém, como acontece freqüentemente com as pessoas de vida rica, a presença pessoal de Groddeck contava muito, muito mais do que aquilo que ele expressava em suas palavras e em suas teorias. Disso puderam se interar, (sic) até agora, os participantes dos seminários da ‘Escola da Sabedoria’ em Darmstadt: onde apesar de que muitas vezes ele tomava a palavra, era sobretudo sua simplicidade, sua presença viva o que fazia de Groddeck um participante único daquelas reuniões (sic) pensar por si mesmo. […] Porém, no íntimo, foi um dos homens mais cálidos, mais carinhosos, mais preocupados pelo bem-estar alheio que jamais havia encontrado. Epílogo a El Libro del Ello, de Georg Groddeck de (sic) Hermann Keyserling”

¹ “Inflamação de uma veia, a qual geralmente afeta os membros inferiores, podendo provocar a formação de um coágulo (tromboflebite, causa de embolias). Os anticoagulantes evitam esses acidentes.”

1. OBJETIVO

O objetivo deste trabalho é fazer uma leitura detalhada da obra de Georg Groddeck, dentro de um espaço de tempo definido como período pré-psicanalítico.”

2. PANORAMA HISTÓRICO ANTERIOR À OBRA DE GRODDECK

A primeira conseqüência da Reforma foi o isolamento da Alemanha durante cerca de dois séculos, divorciando-se da cultura latina. Depois, segue-se uma série de movimentos subseqüentes, que tendem não só a integrar a Alemanha na Europa, mas sobretudo a reabilitar os seus valores. No século XVIII surge o primeiro desses movimentos, a Aufklärung que deve ser compreendida como um esforço de assimilação da cultura européia. Em seguida, o Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), um Pré-Romantismo rebelado contra o classicismo francês e desperto aos valores germânicos. Depois o classicismo alemão, alheio a exclusivismos exacerbados, tendendo a realizar uma síntese européia da cultura. E finalmente, o Romantismo, no qual a Alemanha atinge a sua máxima maturidade cultural. Com o Romantismo, os papéis se invertem. Se a Alemanha vence o ‘obscurantismo’ graças à influência do Classicismo latino, o seu Romantismo impõe-se a toda Europa. (GERD BORNHEIM, in J. GUINSBURG, p. 78, 1997).”

A palavra deriva do francês Roman, que se refere a uma história, usualmente uma história militar de criaturas medonhas, cavaleiros heróicos e amor cavalheiresco. Quando a palavra entra na Alemanha, próximo ao final do século XVIII, ela carrega o significado de romanhaft, semelhante a uma novela, especialmente o tipo de história ou atitude típica do gênero. […] [Schlegel] deseja empregar o termo mais especificamente para descrever uma forma de literatura poética desenvolvida no período moderno que expressava os interesses subjetivos do artista” Robert Richards, 2002

a tarefa dos românticos não é a rejeição mas a transformação da ciência, ir além do estabelecido. O seu propósito tem que ser ampliado, a ciência deve se dirigir para as profundidades como também para as alturas.” Correto, pequena Gaia-Padawan!

A NEO-SEITA DA FILOSOFIA NATURAL: “Os filósofos da natureza estão associados com a filosofia idealista alemã, e abordam a natureza a partir do pólo do pensamento puro.” Zajonc, 1998

A partir de Descartes e Newton, até Hume e Kant, o mecanicismo foi empregado como o conceito básico pelo qual é possível compreender não somente o universo inanimado como também a realidade viva.”

O mecanismo do relógio em si mesmo é fundamentalmente atemporal e então a-histórico. Mas a natureza como autogerativa, como orgânica, pode ter uma história. […] A infusão do tempo na natureza não foi meramente uma condição necessária para o aparecimento das teorias evolutivas; ela constitui essas mesmas teorias durante os séculos XVIII e XIX.” Richards

1) Romantismo Inicial (Die Frühromantiker), situado em Jena. Alguns autores que canonicamente definem este primeiro romantismo: os irmãos Wilhelm e Friedrich Schlegel, suas esposas Caroline e Dorothea, o teólogo Friedrich Schleiermacher, os poetas e novelistas Ludwig Tieck e Friedrich von Hardenberg (Novalis), o teórico das artes Wilhelm Wackenroder e o filosofo Friedrich Schelling.

2) Romantismo Médio ou Segundo Romantismo, centrado em Heidelberg, inclui autores como os escritores Achim von Arnim, Clerius Brentano e o pintor Caspar David Friedrich.

3) Romantismo Tardio ou Terceiro Romantismo, ativo em Viena, Berlin e Munique. Este grupo mantém alguns membros do Primeiro Romantismo, como o crítico literário e historiador Friedrich Schlegel e o filosofo (sic) Friedrich Schelling e também novos participantes como os escritores Johann Ludwig Uhland e E.T.A. Hoffman.”

O ato de fundação da Filosofia da Natureza pode ser estabelecido em 1797 quando Schelling publica a sua obra Ideen zur einer Philosophie der Natur.”

a antiga idéia platônica de um principio (sic) vivificante que perpassaria a totalidade do mundo” interpretação não-autorizada

SÁBIO GOETHE: “Com efeito, ele disse ser ‘politeísta’ como poeta e ‘panteísta’ como cientista, mas ainda assim abria a possibilidade para um Deus pessoal”

De todos os precursores, Carus chama maior atenção da psicologia porque a sua apresentação do inconsciente mostra-o principalmente como um psicólogo. Sua idéia do inconsciente, não é nem um flash poético nem um sistema filosófico especulativo, como nas mãos do jovem von Hartmann [ou seja, já caiu nas minhas graças!] […] nem tampouco é um conceito médico heurístico, semi-neurológico e útil para explicar processos mentais desconhecidos. […] Carus descreve processos psicológicos em detalhe e ainda assim mantém uma visão holística” James Hillman, 1989

Carus nasceu em 3 de janeiro de 1789, em Leipzig. Nesta cidade cursou a Universidade, estudou medicina em função de seu interesse pela ciência da natureza, começou a dar palestras no campo da anatomia comparada, recebeu seu Doutorado (sic) com 22 anos e no mesmo ano casou-se (1811).” Ai, os românticos… Tão apressadinhos para viver!

Carus pertence à história da arte como um reconhecido pintor de paisagens, tendo deixado uma coleção de 420 pinturas e 1100 desenhos.” “Seu período de vida abrange desde a Revolução Francesa até a era do moderno positivismo, liberalismo e nacionalismo.”

Durante seus primeiros anos em Dresden, Carus primeiramente se aproximou de Goethe que, apesar de ser 40 anos mais velho que ele, muito o admirava. Carus escreveu um livro, Goethe (1843) e publicou, em 1835, uma série de cartas sobre o Fausto. Goethe refere-se a Carus em suas cartas e notas. Ele era particularmente entusiasmado com as Lectures on Psychology (1831) vendo-o como um herdeiro de sua abordagem da natureza e da vida.”

Na bibliografia de Groddeck é possível perceber que em momento algum Carus é citado. No entanto a forma como Groddeck concebe o inconsciente, principalmente a relação entre o inconsciente e a doença, e também ao reconhecer a capacidade curativa presente na natureza[,] é muito semelhante à de Carus.”

Nasa (a natureza cura) (…)

Mecu (médico cuida).

Já a Nasa americana não irá nos salvar…

3. MÉTODO

capítulo inútil

4. CRONOGRAMA DOS ESCRITOS DE GRODDECK

Somente os mais interessantes (em aparência):

Konstipation, 1896

Ein Frauenproblem, 1903

As núpcias [Hochzeit] de Dioniso, 1908 (poesia)

Tragödie oder Komödie? Eine Frage an die Ibsenleser, 1910

5. O LEGADO P.D.

5.1. GEORG GRODDECK – DO NASCIMENTO ATÉ SUA ADOLESCÊNCIA.

Eram filhos do doutor Carl Theodor Groddeck (1826-1885), epidemiólogo e posteriormente médico ‘termal’, e de Caroline Koberstein (1825-1892). Antes de prosseguir com as notas biográficas de Groddeck, é necessário fazer um breve percurso em torno da cidade onde ele nasceu e posteriormente pela biografia dos pais.”

Duvido que esmiúce a questão do protonazismo do pai de Gr.

LINDA HISTÓRIA (sem ironia!): “Isto nos faz retomar a biografia dos pais de Groddeck. O pai, Carl Groddeck, era filho de um deputado de Danzing, sua cidade natal, no norte da Alemanha. Já sua mãe, Caroline, era filha do professor August Koberstein, historiador da literatura alemã e professor em Pforte por 50 anos. Caroline e Carl se conheceram quando ele ainda era estudante em Pforte. O jovem estudante era pensionista na casa dos Koberstein e foi acometido por um distúrbio cardíaco que perduraria por toda a vida. Durante a convalescença, Carl permaneceu na casa do professor, o que proporcionou o tempo e a intimidade suficientes para que os dois jovens se apaixonassem. A Senhora Koberstein era quem se ocupava do paciente, e por este motivo Carl tinha muito apreço por ela. Por sua vez a filha, Caroline, nunca falava de sua mãe com muita admiração, diferente de como se referia a seu pai. A mãe era uma mulher totalmente comum, mas com uma facilidade para atrair pessoas, o que para a filha era um defeito. Independente de como a Senhora Koberstein era vista por sua filha, para os demais, no entanto, era uma pessoa notável.”

Em 1849, Carl Groddeck formou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Berlim, com a tese com o título em latim De morbo democratico, nova insaniae forma. Em 1850, Carl apresenta-a em público, revista e ampliada, agora com o título em alemão: Die Demokratische Krankheit, Eine Neue Wahnsinnsform.” Que pretendo logo ler.

Nas suas Memórias, Groddeck escreve sobre seu pai:

[…] Como era normal na época – eram os anos em torno de 1848 – aquele que estivesse mais próximo da política se tornava o centro do círculo; era o meu pai. Tirando o fato de ter ele, como filho de um deputado, sido atraído para o movimento com mais força do que os outros, ele pusera na cabeça mostrar-se ativo e, pela necessidade de ser incomum – uma necessidade que infelizmente adotei e que levei uma grande parte da minha vida para neutralizar – ele o fez de um modo característico: escolheu para sua tese de doutoramento o tema: (…) A doença democrática, uma nova forma de loucura. Foi esta a única vez que meu pai se apresentou publicamente, e não ficou pouco orgulhoso deste grande momento; já idoso, ele me contou com grande alegria como tudo teria acontecido, como o pequeno salão não foi suficiente para a afluência do público e todos passaram para o grande salão da universidade, como foi assaltado por todos os lados e escarnecido e como a situação se tornou difícil por ter que se defender em latim, de mais a mais, contra 2 dos melhores mestres de línguas antigas. Naturalmente, tornou-se desse modo o herói de seus amigos. (GRODDECK 1929, 1994, p. 326)

Na carta ao Prof. H. Vaihinger, citada anteriormente, o editor adiciona a nota de rodapé 9 que amplia o tema da dissertação de Carl Groddeck, sua importância e relevância para a obra de Nietzsche. No prefácio à 5ª edição, de 1930, de seu livro Nietzsche als Philosoph, Vaihinger escreve:

A posição antidemocrática de Nietzsche é fortemente influenciada pela dissertação de Carl Theodor Groddeck, De modo democratico, nova insaniae forma, tese aprovada pela Faculdade de Medicina de Berlim no ano da Revolução de 1849 e famosa e muito discutida nos círculos mais amplos. […] A defesa pública da tese, em 21 de dezembro de 1849, tornou-se um acontecimento político de grandes proporções: líderes do Partido Democrático apresentaram-se como oponentes, como, por exemplo, Krüger, o importante filólogo clássico e gramático. Enquanto o original latino é encontrado em todas as bibliotecas universitárias alemães entre as teses de medicina, a edição alemã, publicada pelo próprio Groddeck em 1850, Die Demokratische Krankheit, Eine Neue Wahnsinnsform, tornou-se muito rara. […] A tese de Carl Theodor Groddeck […] é extremamente séria, e como tal deve ser considerada: em conexão com a literatura psiquiátrica da época, especialmente com a teoria de Hecker sobre as doenças mentais contagiosas, Groddeck descreve o movimento democrático espalhado por toda a Europa como uma epidemia do espírito. – O título e o assunto parecem menos escandalosos, se considerarmos que os ‘democratas’ de então não podem ser identificados ao partido político tão característico hoje em dia. Pois os ‘democratas’ de 1848 abrangiam não só os constitucionalistas e os republicanos de todas as correntes como também os socialistas, comunistas e anarquistas. [Não, é justamente por isso que o assunto parece mais escandaloso a nossos olhos!] […] Friedrich Nietzsche foi interno em Schulpforta, de 1858 a 64, onde manteve estreitas relações com o diretor Koberstein, em cuja casa conheceu também Carl. T. Groddeck. Na casa de Koberstein falou-se muito do texto sobre a doença democrática, e desse modo Nietzsche absorveu com certeza o espírito antidemocrático e provavelmente também leu o livro. Pois muita coisa que Nietzsche diz, em inúmeras passagens das suas obras, deriva[,] quase palavra por palavra, das concepções de Carl. T. Groddeck. [a conferir!] (VAIHINGER in GRODDECK 1930, 1994. p. 117/9)“

[mas] o que é possível afirmar da presença das idéias do pai no pensamento futuro do filho? A resposta a esta questão será dada por Jacquy Chemouni:

Escolhendo a mesma profissão que seu pai, Groddeck não poderia deixar de conhecer sua tese de doutorado. Sua influência direta não é possível de ser percebida, mas os problemas que ela propõe produziram efeitos alguns anos mais tarde em seu filho. No entanto, o que de fato vai marcar o futuro psicanalista é a maneira própria como seu pai praticava a medicina. (CHEMOUNI, 1984, p. 23)”

De resto[,] era tão pouco neurologista quanto eu, mas um simples médico clínico, aliás, muito avançado em relação ao seu tempo, talvez também bastante distante das opiniões remanescentes da sua época, conforme se quer. Nos seus últimos anos de vida, estudou, para uso médico particular, o livro de Rademacher, o redescobridor de Paracelso, então quase desconhecido. Eu já havia lido, no tempo do colégio, esta ‘terapêutica’ pela experiência de Rademacher; para minha formação médica e humana, foi tão importante quanto a minha relação de estudante e de amigo com Schweninger. (GRODDECK 1930, 1994, p. 118)”

Movido por um fato externo e enfrentando certa resistência da família, ambos casam-se em 14 de setembro de 1852 (RIVERAS, 2004). O fato externo que acelera o matrimônio é uma epidemia de cólera e tifo que se alastra pela Prússia, o que faz com que Carl receba o cargo de epidemiólogo na cidade de Marienburg.

O período passado em Marienburg é marcado por dois fatos importantes: em 22 de junho de 1853, a primeira filha morre um mês após seu nascimento e, em 1854, após a epidemia estar praticamente controlada, Carl contrai tifo e fica muito doente. A situação da família se torna mais equilibrada só a partir de 1855 com a mudança para Kösen, e conforme vimos, ali estabelecem uma clínica termal, que graças à atitude firme da mãe, se manteria por mais de duas décadas. Ali fixados, tiveram cinco filhos. (RIVERAS, 2004, p.23)”

Em relação ao respeito pela ciência não era possível encontrar qualquer vestígio disso em suas palavras e atos.” Quem nos dera os doutores acadêmicos de hoje assim o fossem, na prática!

Sobre o relacionamento entre seus pais, desde pequeno Georg Groddeck percebia que existia uma distância irreparável entre os dois, e discorre sobre as atitudes que o pai tinha, com o intuito de agradar a esposa: ‘Creio que tentou honradamente converter-se em um Koberstein’. (apud GROSSMAN, 1967, p.18). Por este motivo, se comportava como se a medicina significasse apenas uma forma de viver, pois para Caroline era a Literatura que valia a pena, e não a medicina.” “para Groddeck, o pai era o homem mais forte e mais sábio do mundo. Era um pai severo, porém afetuoso, que os filhos adoravam, mas que nunca encontrou a aceitação plena da esposa.”

Para Groddeck, o fato de ter sido amamentado por uma ama-de-leite e ter uma mãe verdadeira que lhe dava carinho o colocava em dúvida sobre qual das mulheres amar, dilema que tornaria todas as suas escolhas mais difíceis”

Você já imaginou as atribulações de uma criança amamentada por uma ama? É uma situação complicada, pelo menos quando a mãe verdadeira gosta da criança. De um lado a mãe, em cuja barriga a gente viveu durante nove meses, sem nenhuma preocupação[,] no quentinho, nadando na felicidade. Como não gostar dela? E depois, uma segunda pessoa, em cujo seio a gente se alimenta todo dia, cujo leite a gente bebe, sentindo sua pele fresca e respirando seu cheiro. Como não se afeiçoar por ela? E então, a quem se apegar? Alimentado pela ama, o bebê se coloca num estado de incerteza do qual nunca conseguirá sair. Sua capacidade de crença se vê abalada em suas bases e a escolha torna-se para ele mais difícil do que para os outros.” Eu, como alguém amamentado por uma “ama-de-leite”, digo: tudo isso é uma grande besteira fraudiana avant Fraud!

Próximo de completar 6 anos foi à primeira escola, juntamente com sua irmã Lina. Era uma escola de meninas, uma Mädchenschule. Na época, os filhos de pais bem situados começavam seus estudos em escolas femininas. Era uma escola dirigida por três irmãs, e foi descrita por Groddeck com riqueza de detalhes:

As três irmãs Hochbohm dirigiam a escola; cada uma era mais gorda do que a outra, e a mais magra – Marie – era a mais temida. Entre outras coisas, ela nos ensinava aritmética. Sua influência, a influência do medo, foi muito grande e ainda hoje tem vestígios […]. A irmã do meio, Emma Hochbohm, era a diretora do instituto; por causa da sua obesidade, foi apelidada de ‘carrossel de duas pernas’. […] A mais velha das irmãs Hochbohm era a mais gorda; na verdade era tão gorda que não podia lecionar, porque as crianças não queriam e não podiam ser ensinadas por ela. Diziam as más línguas que ela, com toda aquela gordura, não podia passar pelo portão da igreja, mas tinha de se lançar com o ombro à frente. (GRODDECK 1929, 1994, p. 269)” Ah, as memórias infantis!

Ao sair dessa escola, Groddeck sabia ler e escrever corretamente, embora sua letra, durante a vida, não tenha mudado muito. Como diria, sua letra se manteve como a de uma criança de 8 anos. (RIVERAS, 2004)”

Este fato parece ter incomodado Groddeck, pois ele próprio se definia como ‘um pagãozinho’, que até deixar a casa paterna nunca havia entrado em uma igreja. Mas, apesar deste fato, foi nesta escola que descobriu o verdadeiro sentido do escrever” Tantas e tantas semelhanças entre nós, sr. Groddeck Jr.!

Aos 11 anos, segundo ele próprio, a desgraça se abateu sobre sua família. Seu pai havia se envolvido em negócios imobiliários e, aparentemente devido a um golpe dado por um sócio, perdeu todas as posses. A casa onde Groddeck havia nascido e passado toda a infância foi leiloada, assim como os móveis aos quais o seu coração estava ligado. O pai, sem outra saída, resolveu deixar a cidade e tentou se estabelecer em Berlim, porém não obteve o número de pacientes que esperava. Retornou a Bad-Kösen no verão para tentar ganhar algum dinheiro. A sua mãe, no intuito de ajudar a família, empregou-se como dama de companhia. Georg Groddeck entendeu este afastamento da mãe como uma traição. Pior que tudo isso, antes da dissolução da casa e de que tomasse conhecimento da situação, sua irmã, a companheira de toda a infância, foi mandada à casa de um tio para lá viver, passando a trabalhar como babá. A ferida aberta por este fato nunca cicatrizaria. Só posteriormente Groddeck descobriria que isso havia sido, de certa forma, bom para ele. (RIVERAS, 2004)”

EIS O QUARTO OU QUINTO PONTO EM COMUM ENTRE NÓS: “Pforte resultou em tudo que ele havia temido. A escola é descrita como uma fortaleza, rodeada de muros altos feitos de pedra, uma verdadeira prisão. [também, com este nome! Rockman & Pforte!] O jovem Groddeck foi um pecador desde o início, parecia desejar tudo aquilo que estava proibido: jogos de cartas, trepar sobre os muros e fumar. E depois de ser um magnífico estudante durante anos, se tornou um estudante medíocre (GROSSMAN, 1967).”

Ouvi pela primeira vez o nome de Schweninger. Meu pai falou com entusiasmo sobre ele, que devia ser um médico sob a graça divina, pois conseguira obrigar Bismarck a obedecer. Eu nunca tinha ouvido da boca do meu pai um elogio a qualquer médico e estava sinceramente convencido de que só ele compreendia a Medicina. (GRODDECK 1929, 1994, p. 332)”

Em toda a Alemanha levantou-se um tumultuoso alarido contra a violação da liberdade científica pelo tirano Bismarck. […] A gritaria chegou até a vida tranqüila de Pforte, e mesmo um tímido como eu foi arrastado para o conflito. Tomei o partido de Schweninger, e o teria feito mesmo que não tivesse ouvido a observação do meu pai sobre a genialidade de Schweninger; pois eu estava na idade em que naturezas hipersensíveis procuram abrigo no cinismo. Esta briga de dormitório decidiu a minha vida. Sem ela, eu não teria sido capaz, sendo um rapaz ignorante, de absorver as idéias de Schweninger. Quando o conheci, já gostei dele, como se gosta de algo que se defendeu com força e sorte. E como não podia ser diferente, desde então começou a minha veneração por Bismarck. (GRODDECK 1929, 1994, p. 333 e 334)”

E quando finalmente cheguei e fui instalado em cima de um colchão, um novo medo me assaltou. Eu ainda molhava a cama na época, fi-lo até os meus 14 anos. Meu irmão me prometeu uma boa surra se eu sujasse a cama numa casa estranha. Tive sorte, todavia, à custa do melhor sono. (GRODDECK 1929, 1994, p. 287)”

5.2 FORMAÇÃO PROFISSIONAL

Apesar de a escola militar ser gratuita, é necessário uma participação financeira para a manutenção do filho na escola e isto só será possível com a ajuda de alguns amigos mais abastados e próximos à família.”

aprendi a conhecer a atividade médica não com doentes, mas com pessoas sadias. Isso foi de valor inestimável para mim.”

Meu pai não percebia que eu não tinha qualquer conhecimento do latim médico, de que me eram totalmente incompreensíveis as receitas que me ditava e de que não era melhor com os nomes de doenças que eu tinha de anotar aos livros. E ficava impaciente quando eu lhe pedia que repetisse uma palavra.”

nessa época, teve lugar o acontecimento que de algum modo me tirou da minha vida de sonhos e deu a direção decisiva à minha carreira: no meio de uma consulta, meu pai sofreu um derrame. […] Na noite de 19 para 20 de setembro meu pai faleceu. (GRODDECK 1927, 1994, p. 380, 381, 385)”

Finalmente em 1° de outubro de 1885, Groddeck começa o seu curso de medicina. Um dado importante acerca do Instituto é que para poder frequentar esta instituição o aluno deveria preencher uma série de exigências, como por exemplo, ser alemão, ser filho legítimo, ter menos de 21 anos, apresentar o certificado de alistamento militar e se dispor a prestar um ano de serviço militar voluntário. Concluídos os estudos, era previsto um serviço de 8 anos como médico militar para um período de aperfeiçoamento. O estudante então, ao mesmo tempo em que assistia às aulas de seu curso de medicina, estava submetido ao regulamento militar.”

Servi sob o comando do Conde Hardenberg apenas 4 semanas. Nada sei sobre ele, nunca mais o encontrei, mas ainda assim seu nome está gravado tão profundamente na minha memória que quase diariamente penso nele. Por alguma razão totalmente injustificada, atribuo-lhe a culpa pela tosse com que eu mesmo me divirto e atormento os outros; não sei por que o faço e persisto nisso, embora saiba que não há a menor ligação entre ele e meu doce hábito de tossir claro [sic – clara] e ruidosamente a tudo o que não me agrada. (GRODDECK, 1929, 1994, p. 368)”

em Pforte ele havia sido educado dentro do espírito da cultura clássica e na tradição do humanismo, mas a partir de agora deve confrontar-se com o estudo de uma ciência com características eminentemente empíricas, permeada pelo paradigma da ciência natural (MARTYNKEWICZ, 2005). Ao perceber este choque de formação e ao mesmo tempo a permanência de Groddeck em seu esforço de se formar médico, é possível dividir este período de estudo em duas etapas. Uma primeira, na qual ocorre um encontro entre a formação e os interesses anteriores de Groddeck com esse modelo de medicina, tal como ensinado na Alemanha, encontro que, apesar das turbulências que causam, não o impedem de continuar estudando. E uma segunda etapa, que se inicia em torno da metade de seu percurso acadêmico, e que corresponde ao seu encontro com Schweninger.”

5.3 PRIMEIRA ETAPA DA FORMAÇÃO DE GRODDECK EM MEDICINA

Neste momento se faz necessário interromper a biografia de Groddeck para descrever o método de ensino da medicina da sua época e que terá influência em sua prática clínica e em sua construção teórica.”

…de um lado o hospital, principalmente os grandes hospitais públicos em Paris, e de outro o laboratório, em Berlim.” Os franceses “pouco valor deram à terapêutica”.

JACQUES LE FATALISTE: “É possível falar de uma atitude médica, que tem um tom até certo ponto fatalista, chamada de ‘niilismo terapêutico’ e que segundo Roy Porter se define como a capacidade da medicina […] em compreender as doenças de que as pessoas morriam, mas não conseguir impedi-las de morrer. (PORTER, 2004, p. 57)”

Excetue-se o ópio, excetuem-se alguns medicamentos específicos, excetue-se o vinho, que é um alimento, e os vapores que produzem o milagre da anestesia, e creio firmemente que, se toda a matéria médica, tal como é hoje usada, fosse atirada no fundo do mar, seria muito melhor para a humanidade – e muito pior para os peixes.” Oliver Wendell Holmes, Medical Essays, 1891.

para Pierre Louis e seus colegas, a medicina clínica era uma ciência da observação, a ser aprendida nos pavilhões hospitalares e nos necrotérios, através da anotação e da explicação dos fatos. A formação médica devia ser uma disciplina da explicação dos aspectos visuais, dos sons e dos odores da doença – uma educação dos sentidos.” Típico da França. Se não fede, não ensina.

isto é conhecido como teoria ontológica da doença.” Porter

a Fisiologia, que atingiu sua maioridade, como disciplina experimental de status superior. Seu pioneiro foi Johannes Muller, professor de fisiologia e anatomia em Berlim a partir de 1833. […] foi um professor inspirador, e seus alunos – Theodor Schwann, Hermann von Helmholtz, Emil Du Bois-Reymond, Karl Ludwig, Ernst Brücke, Jacob Henle, Rudolf Virchow e muitos outros – tornaram-se os dirigentes da pesquisa científica e médica no mundo alemão e ganharam fama internacional. (PORTER, 2004, p. 103)”

Com a fisiologia científica nasce um novo paradigma que se impõe sobre o conceito vitalista dominante no início do século XIX e sob a influência do naturalismo romântico de Friedrich Wilhelm Schelling. A fisiologia inspirada na filosofia da natureza de Schelling postulava a unidade da natureza e do espírito, indagava o conceito de vida e refutava qualquer descrição fisiológica isolada de um fenômeno singular.” MARTYNKEWICZ, 2005, p. 93.

Como foi dito anteriormente, um dos discípulos de Johannes Muller foi Rudolf Virchow, considerado o mais criativo dos pesquisadores médicos alemães. Virchow é conhecido, entre outros resultados, pela sua máxima Omnis cellula e cellula (todas as células provêm de células)”

O câncer, demonstrou Virchow brilhantemente, surgia de mudanças anormais nas células, que então se multiplicavam de maneira descontrolada através da divisão (metástase). (…) Assim, Virchow defendeu uma concepção interna da doença; por essa razão, em parte, ele veio depois a suspeitar da bacteriologia pasteuriana, a qual considerava muito superficial, por ela ver a doença como sendo de causa essencialmente externa.” Porter

Assim, minha mãe entrou em contato com a sociedade bom-tom de Berlim e soube angariar prestígio. Entre outros, Rudolf Virchow foi um dos seus admiradores. Quando mais tarde, fui reprovado nos exames estaduais de medicina por Virchow, por falta de conhecimento em anatomia patológica, tentei atribuir este fato à atitude pouco amável da minha mãe para com ele, uma tolice vaidosa que repeti muitas vezes em outras ocasiões e que ainda repito de tempos em tempos quando falho em alguma coisa por minha própria negligência.”

Influenciou essa postura também o fato do nome de Virchow desde muito cedo estar mencionado à Groddeck de uma forma muito negativa, seja pela posição que ele assume, contrária à nomeação de Schweninger como médico do Charité [Hospital da Universidade de Berlim], como também pelas opiniões contrárias à Virchow emitidas pelo seu pai, não só em relação aos seus métodos de cura como também por suas opiniões políticas.”

A imagem que tem do médico e da medicina foi influenciada pelo pai e pelas ideias românticas e vitalísticas. […] A cientifização da formação e a estandartização [sic – estandardização] do nível profissional foram introduzidos no início dos Oitocentos, mas se afirmaram só na segunda metade do século. Em 1861 o estudo da física foi inserido no curso de medicina em lugar da filosofia. O paradigma da ciência natural se sobrepõe ao filosófico. A linguagem do médico é separada daquela da filosofia. Isso é visível, não apenas no encontro entre o médico e o paciente: a pergunta do médico não é mais: ‘O que tens?’, mas sim ‘O que te faz mal?’. (…) O médico na tradição hipocrática era um tipo de adivinho que se aproximava do corpo à distância e o observava como uma trama, se afastando do visível e penetrando na profundidade do corpo. Muda a angulação. (…) Neste caso, Groddeck se encontra em dificuldade: como a maior parte dos estudantes de medicina daquele tempo[,] ele também chegou à universidade com uma formação humanística e que não era muito adaptada às necessidades da disciplina. Havia aprendido a interpretar, a abrir e a descrever, mas não a separar, a dividir e a fixar. O olhar anatômico, que coloca a verdade da doença no corpo morto, teve sobre ele um efeito repugnante. Ele duvida desta verdade que se manifesta somente na morte, no cadáver. Só com grande fadiga consegue assimilar o argumento da lesão e a seguir o programa. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 98, 99)”

5.4 SEGUNDA ETAPA DA FORMAÇÃO MÉDICA DE GRODDECK: SCHWENINGER

Ciência não é erudição, não é saber, mas aquilo que o saber cria; é o alicerce imprescindível sobre o qual se constroem saber, conhecimento e talento. E um homem de ciência é apenas aquele que lança tal alicerce ou, pelo menos, trabalha nesse alicerce. Quem compreende este sentido da palavra ciência não confunde o saber médico, a soma dos conhecimentos anatômicos, fisiológicos, diagnósticos ou terapêuticos, com ciência médica. Quando alguém é chamado um homem de ciência médica, isto significa: esse homem descobriu a essência do pensamento e do agir médico, estudou conscienciosamente a base e o terreno e, de acordo com esse terreno e conforme a finalidade do ser médico, a partir do seu espírito e pensamento traçou um plano de construção e lançou os fundamentos aos quais poderiam ater-se os mestres de obras, até que seja imaginado um plano novo, verdadeira ou aparentemente melhor. O essencial para o criador da ciência médica é, portanto, o conhecimento da finalidade do médico e o pensamento e o trabalho independentes para esta finalidade e, finalmente, o que é mais importante, o acerto desse trabalho (GRODDECK 1925, 1994, p. 139, 140).”

O nome dele não está associado a nenhuma descoberta científica significativa e dentro da história da medicina normalmente seu nome é ignorado ou pouco mencionado e isto se deve principalmente ao fato de Schweninger pouco ter produzido teoricamente; somente em 1906 publicou sua obra maior Der Arzt, livro que enfoca a questão da relação médico-paciente.”

Atualmente o nome de Schweninger parece totalmente desconhecido. As grandes enciclopédias francesas, inglesas ou americanas não o mencionam. Nós encontramos, na Der Grosse Brockhaus in Zwölf Banden (1980) três ou quatro linhas indicando, além da sua data de nascimento e do seu falecimento, sua qualidade de médico de Bismarck. Ao contrário, a grande Encyclopédie Française, do fim do século passado[,] consagrou em seu tomo 29 linhas a Schweninger: ‘Schweninger, Ernst: médico alemão contemporâneo, nascido em Freistadt (Baviera) em 15 de junho de 1850. Assistente de Buhl em Munique em 1870, torna-se professor titular em 1875. Ele conta com alguns favores especiais de Bismarck, e foi nomeado, graças a ele, professor da Universidade de Berlim em 1884, depois membro extraordinário do escritório de saúde, e diretor da clínica dermatológica no Hospital Charité. Em 1886, criou em Heidelberg um sanatório especial para a cura da obesidade’ […] Quanto aos historiadores da medicina, as diferentes obras consultadas ignoram totalmente o nome de Schweninger. (CHEMOUNI, 1984, p. 37, nota 1)”

[…] A apresentação de Schweninger, aqui no circo dos tagarelas, foi um verdadeiro desastre! Não compareci, é claro; em vez disso, presenteei-me com uma audição do nosso velho amigo Mark Twain, em pessoa, o que foi um deleite absoluto.” FRAUD, 1986, p. 300.

Sei que a máxima ‘Natura sanat, medicus curat’ não foi descoberta por Schweninger. Mas Schweninger foi o primeiro e, durante dezenas de anos, o único médico moderno a reconhecê-la como ponto de partida, barreira e objetivo da ciência médica.” GRODDECK, Nasamecu

(*) “De fato, esta sentença é muito antiga, formulada inicialmente em latim arcaico conforme podemos ler no Dicionário de Sentenças Latinas e Gregas. O seu autor, Renzo Tosi, ao comentar a sentença ‘Vis medicatrix naturae’ (‘A força saneadora da natureza’), que de acordo com ele significa que a cura só é possível pela capacidade natural de reação, escreve: […] Este conceito, porém, já se encontra em Hipócrates (por exemplo, De fractoris 1,2); ainda goza de certa fama a medieval Medicus curat, natura sanat (TOSI, 2000, p. 353).”

O relato de Groddeck sobre o tratamento de Bismarck é parcial [no sentido de pouco informativo, não de tendencioso] e isto se deve, em parte, a esta observação sobre a postura e a discrição de Schweninger:

(Schweninger) me contou alguma coisa sobre o caso Bismarck; uma coisa dessa era muito rara, pois Schweninger era a própria discrição. Nos 25 anos em que fui seu aluno predileto, não falou quase nada de suas atividades junto a Bismarck, nunca disse também a mínima coisa que estivesse fora do puramente médico. (GRODDECK 1929, 1994, p. 340)”

através da observação incansável dos hábitos de vida do Príncipe, Schweninger havia curado Bismarck de uma grave e perigosa doença, depois que cem médicos o tentaram inutilmente. O próprio Bismarck disse a sua maneira (…) como Schweninger o conseguiu: ‘Até agora eu tratei de todos os médicos; o senhor é o primeiro que trata de mim’. (GRODDECK 1929, 1994, p. 333)”

Meu príncipe – Schweninger nunca se referia a Bismarck a não ser com esta denominação – estava acostumado a grandes refeições e grande quantidade de líquidos, e como achavam que ele tinha câncer quando o conheci, reforçam a sua tendência a comer e beber muito, em vez de reprimi-la. O segredo do meu sucesso foi que lhe dei para comer somente arenques salgados¹ e contra a sede apenas a água que ele mesmo pegava do poço. Sempre se afirmou que eu o fizera emagrecer. Não é nada disso; ao contrário, com muito esforço conseguiu aumentar os seus cem quilos. Portanto, apesar de toda a comida intensa, ele emagreceu e, apesar de toda a fome, aumentou de peso. Não importa o que o homem come, mas como utiliza o que come. Desde então, os arenques de Bismarck viraram moda. Mas o que o Príncipe recebeu para comer não eram aqueles arenques artísticos já preparados, mas simples arenques salgados.”

¹ “Gênero de peixes da família dos clupeídeos, de dorso azul-esverdeado e ventre prateado, de hábitos migratórios, comum no canal da Mancha e nos mares setentrionais; reúnem-se em cardumes para pôr os ovos, sendo pesca muito procurada e apreciada. (Compr.: de 20 a 30 cm.).”

Mas antes de seguir adiante, um comentário é necessário a respeito da biografia escrita pelos Grossman. É o primeiro relato biográfico de Groddeck – a sua edição original em inglês é de 1965 e posteriormente traduzido em diversos idiomas – e, apesar da variedade e da riqueza das informações contidas, não apresenta, pelo menos nas duas edições consultadas,(*) a mínima referência bibliográfica, não citando as suas fontes; o que se (sic) faz com que qualquer citação ou referência a esta obra seja feita sob o signo da cautela.

(*) El Psicoanalista Profano, Fondo de Cultura Económica, México (1967); L’analyste sauvage, Press Universitaires de France, Paris (1978).” Por que mudar o título de um livro na sua nova edição é um mistério. A não ser que realmente tenham verificado que chamar um bom médico de pseudanalista é um grande insulto! Ou se trata tão-somente de uma localização (a França, terra da pseudanálise, oculta a parte psico- da alcunha! Além disso, profano dá a idéia de seita que tem essa… seita; o que é diminuído quando se fala simplesmente selvagem…).

Faz com que o chanceler se levante às oito da manhã para fazer exercícios com pesos; durante todo o dia o paciente não deve comer senão arenques. Quando Bismarck exclama: ‘Você deve estar completamente louco’, Schweninger responde: ‘Muito bem, Alteza, será melhor que chame a um veterinário.’ Dito isto Schweninger se vai. Este procedimento estabelece seu poder sobre Bismarck, que se submete. Agora o doutor leva 15 dias sem abandonar a casa de seu paciente. Os alimentos e a bebida, a hora de levantar-se e de deitar-se, o trabalho e o sono, são meticulosamente vigiados. Ao final deste período houve uma melhora notável. Schweninger abandona a casa pela primeira vez. Neste momento, o paciente ordena ‘uma porção tripla de creme’. Isto provoca uma violenta gastralgia, seguida de icterícia e partida para Friedrischsruh. Ali o doutor volta a vigiá-lo de perto e depois em Kissingen e Gastein não o deixa só um dia. [sic – um só dia] Depois de 2 meses, o paciente está praticamente curado e reconhece que pode voltar, rejuvenescido[,] à fadiga do trabalho. Dominando em vez de deixar-se dominar, Schweninger salva a vida de Bismarck.”

Médicos excelentes haviam fracassado com Bismarck porque se deixavam intimidar pelo paciente. Schweninger não se deixava intimidar por nada. Porém nas escolas de medicina não se fabricam autocratas: era difícil para ele ensinar seu método.” GROSSMAN & GROSSMAN, 1967

Depois de seu restabelecimento, Bismarck expressou o desejo de que Schweninger permanecesse em Berlim e primeiro tentou amistosamente conseguir para seu médico preferido um cargo de professor e uma clínica através de decisão da faculdade de medicina. Teria sido muito fácil, pois Schweninger era hábil em todas as ciências, se Bismarck não tivesse tantos inimigos entre os eruditos da universidade, sobretudo se Virchow não estivesse lá. […] Mas a sua perícia ia no máximo a odiar Bismarck e a opor-se a ele sempre que possível, [frase muito mal-traduzida] e já que o Príncipe nunca soube tratar com afabilidade os seus adversários querelantes, o erudito se enchera de tanta amargura que se aproveitou com prazer da oportunidade de frustrar o desejo ardente de Bismarck. Ele obstou, juntamente com um grande número de presunçosos moralistas, uma decisão da faculdade em favor de Schweninger. […] Talvez Bismarck tivesse encontrado outro meio para conseguir a posição para o genial salvador de sua vida; pois, na verdade, Schweninger estaria muito mal na camarilha administrativa das universidades alemães da época. Mas era teimoso, e o que não podia obter por bem, agora forçava por mal. Por um ato autoritário, Schweninger recebeu o cargo de professor de doenças dermatológicas e uma clínica para doentes de pele. (GRODDECK 1929, 1994, p. 333 e 334)”

Ele promove uma medicina da expectativa. O médico não deve intervir no processo de cura natural, mas só sustentar e reforçar as defesas. Em cada doença existe um determinismo que ao se retirar a ação médica (sic) pode levar à morte ou à cura […] Ele rejeita a procura da causa oculta de uma doença; ao centro de sua teoria (sic) não busca aquilo que produz a doença, mas aquilo que o libera dela. Não se interessa como respira uma pessoa e que coisa significa respirar bem ou normalmente, a ele interessa como ajudar e aliviar o sofrimento daquele que respira mal. Reprovará a medicina científica de estudar a gênese da doença (sic) abstraindo-a do processo vital. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 101, 102)”

5.4 TESE DE DOUTORADO

Em 1889, Schweninger oferece como sugestão a Groddeck uma pesquisa com um novo remédio para as doenças da pele, a Hidroxilamina,¹ e que serviria como tema para seu trabalho de doutoramento. A sugestão de Schweninger tem uma conotação no mínimo curiosa, principalmente em épocas de pesquisas e êxitos científicos:

Schweninger, porém[,] não esperava de seu formando resultados necessariamente positivos, mas uma documentação detalhada da completa ineficácia do remédio. Groddeck deve (sic – devia) escrever uma crítica destrutiva sobre o remédio e enfrenta com prazer esta tarefa. […] Tanto o orientador quanto o formando, com os resultados do trabalho[,] visavam um confronto com alguma autoridade importante do grupo de médicos que estavam sugerindo fartamente este remédio. A pesquisa sobre a hidroxilamina deve ser a ocasião para criticar em geral a produção e difusão desregrada de remédios. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 105)” Qualquer semelhança com o CFM em governos bolsonaristas é mera coincidência.

¹ “Base NH2OH, que se forma na redução dos nitratos.”

Executei escrupulosamente, com grande afinco, todos os experimentos, recorrendo ao pincelamento, aplicação do ungüento e sabão, e aqui percebia zero esperança de obter resultados positivos. Quando percebi que não havia me enganado me propus a estender o protocolo, que de um lado reportava um conjunto escarnecedor dos insucessos, e de outro, ao contrário, oferecia uma visão harmônica bem-exitosa da teoria de Schweninger. (Texto de Groddeck citado em: MARTYNKEWICZ, 2005, p. 105)”

Os colegas que introduziram o novo remédio acreditam poder contribuir deste modo com o progresso da nossa arte? Talvez desta maneira estejam acrescentando um nome à farmacopéia, para o horror de todos os candidatos ao exame de habilitação, mas não fornecem alguma vantagem [sic – vantagem alguma!] à medicina.”

5.6 MORTE DA MÃE DE GRODDECK E O SEU CASAMENTO COM ELSE

Neste período de trabalho como oficial médico – que vai de 28 de junho de 1891 até março de 1897 – além das obras escritas, dois fatos pessoais relevantes e suas implicações posteriores marcam esta etapa da vida de Groddeck. Antes de mencionar os acontecimentos, é importante salientar que esse período da sua vida militar não é contínuo, tendo uma interrupção de um ano, a partir de maio de 96, por conta de uma dispensa, quando Groddeck volta a trabalhar como assistente de Schweninger em sua clínica em Berlim. Uma outra observação é que neste tempo de vida militar, que se inicia no Regimento de Infantaria Real em Brandenburgo, Groddeck é transferido 3 vezes: inicialmente para Ückermunde (1892) onde vai supervisionar a higiene das embarcações fluviais; posteriormente volta para Brandenburgo[;] e por último é transferido para a escola de formação de Oficiais em Weilburg (1894), onde permanece até obter a dispensa, por motivos de saúde, em março de 1897.”

Ainda relativamente jovem, eu obtivera um posto independente na Escola de Suboficiais de Weilburg, o que eu podia e devia considerar uma distinção. Tinha pouca coisa a fazer, esse pouco eu podia organizar como quisesse, era adulado por jovens e velhos, por patentes altas e baixas, enfim, tudo poderia ter sido bom, se não fossem os relatórios. Na minha guarnição anterior, como se eu fosse totalmente incapaz de desempenhar essa tarefa, deixei-a a cargo do escriturário do hospital militar. Mas, em Weilburg, o titular desse posto era mais bobo do que eu. Não consegui uma única vez fazer um relatório sem erros, sempre recebia de volta com o amável pedido para corrigi-los. (Meu superior) me transferiu, por algumas semanas, para Frankfurt e encarregou um antigo médico do quartel de me introduzir nos segredos dos relatórios militares. O plano falhou. […] E continua assim até hoje, e se muitas vezes pensei na possibilidade de desistir do meu sanatório, a razão principal para isso é a obrigação de preencher todo ano um questionário simples – em três cópias. O estranho é que, só no ano passado, descobri que o questionário pode ser preenchido por qualquer outra pessoa que não eu. Tenho grande prazer na leitura de estatísticas; só que não acredito nelas. (GRODDECK 1929, 1994, p. 291, 292)” HHAAHAHAHA!

Depois da morte do meu pai, minha mãe tentou novamente criar para si mesma um campo de atividade: empregou uma pequena herança que recebera de uma amiga de juventude – eram apenas algumas centenas de marcos – para fundar um lar para moças; para isso, mudou-se para Ilmenau. […] Passei com ela em Ilmenau algumas semanas e lembro-me desse tempo com uma especial sensação de prazer. O natural nas relações entre mim e minha mãe voltara a ser como no tempo da infância, só que era diferente o plano em que este convívio de compreensão [???] era vivido no falar e no calar; assim continuou até a morte de minha mãe, éramos adultos dados um ao outro com caminhos próprios. (GRODDECK 1929, 1994, p. 377)”

Quando a mãe morre de infarto em 20 de setembro de 1892, Groddeck tem um forte sentimento de culpa. Exteriormente[,] isto poderia estar relacionado sobretudo à sua chegada atrasada ao funeral da mãe e ao fato de não ter conseguido vê-la mais consciente. A sua última visita apressada, as cartas escritas de forma irregular e com um longo intervalo, tudo isso serve para agravar seu ânimo. (GRODDECK in MARTYNKEWICZ, 2005, p. 117)”

Aposto diariamente sempre mais na massagem e este é o campo no qual gostaria de te ver. Talvez tenha muito sucesso porque faço tudo sozinho. E tu não tens vontade? Faz poucos anos que a massagem tem uma grande relevância na cura das doenças femininas. Uma mulher que seja capaz de fazê-la poderá contar com um ganho de muitos milhares de marcos. Deste modo serás completamente autônoma. Com cuidado posso te ensinar coisas que nenhum outro pode.” Trecho de uma carta de Georg Groddeck a Lina Groddeck, sua irmã (17 de novembro de 1892).

A mudança mais importante deste período está sem dúvida ligada ao encontro com Else von der Goltz. Groddeck a conheceu como paciente. Era a mulher do conselheiro regional Friedrich von der Goltz, 14 anos mais velho do que ela. Quando se casaram a mulher não havia ainda completado 19 anos. Do casamento nasceram 2 crianças: Ursula (11 de setembro de 1889) e Joachim (19 de março de 1892). No período no qual Else encontr[ou] Groddeck, o casamento estava em crise e a separação é [sic – foi] só uma questão de tempo. Else von der Goltz, que no diário Groddeck chama de Elfie, é de uma beleza extraordinária, é culta e possui um grande talento musical. Antes do casamento com Friedrich Von der Goltz se apresentava como pianista e cantora e os seus dotes provocavam a admiração geral.”

No dia 28 de março de 1896, Else se divorcia e em 20 de setembro do mesmo ano Else e Groddeck se casam em Berlin. Após obter a dispensa definitiva do exército e tendo aceitado o convite de Schweninger para que assumisse uma clínica que ele dirigia em Baden-Baden,(*) Groddeck, a esposa, seus enteados e sua irmã Lina mudam-se para esta cidade termal em 18 de março de 1897.

(*) Era uma clínica, o Lichtenfelder-Kreiskrankenhaus, famosa por seu atendimento e por ter bons resultados no tratamento e cura de emagrecimento.”

No final de 1897, Lina aluga a vila Monbijou, situada no número 16 da Werderstrasse e, em fevereiro de 1898, abrem um novo espaço para atendimento. Este espaço sofrerá uma nova alteração de endereço quando, em 1899, o comerciante Gustav Bazoche oferece a Lina uma casa situada na Werderstrasse 14, a pensão Marienhöhe. A irmã de Groddeck se sente encorajada a realizar a compra, mesmo não tendo os recursos necessários, tanto pela sensação de ser independente quanto pela esperança de enriquecer tendo sua própria casa. Os recursos são obtidos a partir de um empréstimo com a paciente Margarethe Hermann (50 mil marcos) e de um banco em Zurique (70 mil). Em 31 de julho, Lina assina o contrato de compra e venda e após algumas reformas, em 6 de março de 1900, a clínica Marienhöhe abre suas portas.”

5.7 ALGUNS ESCRITOS TEÓRICOS

A medicina não está à disposição do doente. O doente é que está à disposição da medicina. O trabalho segue a onda de um mal-estar geral que se percebe no século XIX no confronto do progresso científico e se utiliza de uma linguagem formal e polêmica.”

Kunst und Wissenschaft in der Medizin representa o início programático e indica a direção: em nome da totalidade, da originalidade e da naturalidade a medicina deve novamente ocupar-se do texto da vida e com isso explicar e compreender os sintomas da doença.”

Enquanto Virchow pensava poder controlar algumas doenças com uma melhora das condições de vida, das condições de higiene, da cultura e da educação, Groddeck é muito mais pessimista […] Aquilo que faz adoecer o homem depende no fundo da disposição pessoal e do caso singular. (…) No princípio da personalização emerge o ceticismo contra os métodos de cura que tendem a generalizar e a esquematizar. Na escola de Schweninger a personalização é sustentada com particular ênfase e se mescla em igual quantidade contra a medicina científica e contra a social.” Infelizmente Reich regrediu muito neste último aspecto.

Somente no trabalho sobre constipação, publicado em 1896, fala pela primeira [vez] de certo influxo do fator psíquico. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 115)”

A respeito de toda ‘cura’ é necessário criar uma unidade, a ‘cura personalizada’. […] É a única que tem validade geral. Essa na verdade supõe uma acurada apreciação de todos os pontos vitais acessíveis, exteriores e interiores.” GG, Kur und Kuren

O homem, segundo Groddeck, não vive daquilo que ingere, mas daquilo que digere e como digere, vive daquilo que utiliza e consome e que o seu corpo assimila. (…) No fundo, diz Groddeck, não é absolutamente importante aquilo que o homem come, mas sim com que intervalo e em qual porção assume o alimento.”

Então, segundo Martynkewicz, no texto Krankendiät Groddeck expõe algumas críticas ao modelo proposto por Schweninger, e seu escrito por sua vez é criticado por Schweninger que o considera destituído de conotações positivas. Este descompasso revela um primeiro sinal de que Groddeck começa a propor seu próprio modelo”

Ele, em cada um dos escritos[,] é extremista e dirige ataques selvagens contra a ciência e a fé na religião. Schweninger, porém não deseja uma revolução, agora pelo menos não mais, e deseja um espírito mais conciliador. No período em que esteve junto de Bismarck, havia conduzido uma batalha particular contra a medicina universitária […] Nos anos noventa a medicina científica está[va] em crise, em parte por motivos internos, e com isso perdeu (sic – perdera) um pouco do seu prestígio. As idéias de Schweninger na universidade são agora muitas vezes consideradas extravagantes, mas a sua cura e terapia se tornaram reconhecidas, sobretudo no ambiente das pessoas ricas e nobres. […] Que Schweninger consegue (sic – conseguisse) pacientes sempre mais industriais e menos no ambiente da política é [era] um fato sintomático e corresponde [correspondia] à mudança súbita da sociedade no final do século XIX. A Alemanha se transformou em uma das nações mais industrializadas, sobretudo no setor do carvão e do ferro.”

Um certo desencantamento de Groddeck com estas novas atitudes de Schweninger, que de certa maneira perdeu o espírito crítico e combativo, faz com que escreva em seu diário: ‘Schweninger está cansado e facilmente influenciável’.”

Duas são as possibilidades concretas: entrar em um ambulatório como assistente, para que um dia possa tornar-se independente, ou então, como o aconselha seu irmão Carl, afirmar-se como oficial médico em Weilburg e, talvez, esperar sem demora fazer carreira militar.

Mas a solução oferecida pela vida e pelas circunstâncias foi uma solução intermediária: ao obter uma dispensa da atividade militar em março de 1896, Groddeck vai trabalhar como médico-assistente da clínica de Schweninger em Berlim.”

5.8 MÉTODO DE TRATAMENTO MINISTRADO POR GR.

A massagem, refere-se Cohn, é aplicada três vezes ao dia pelo médico em pessoa, com ‘um método muito particular’ […] antes do café da manhã, antes do almoço e antes do jantar, cada vez durante um quarto de hora. O paciente fica deitado sob [SOB?!?] um divã, com as coxas ligeiramente levantadas contra o busto e os joelhos juntos, para forçar os músculos do abdômen, enquanto segura a cabeça com as mãos. Cohn subdivide o procedimento da massagem em três fases: na primeira o médico ‘dá dois golpes’ com punho fechado na região da fossa epigástrica, inicialmente levemente, depois pressionando sempre mais, até afundar o máximo possível o punho; tudo isto enquanto o paciente deve procurar respirar profundamente. No primeiro dia não é possível fazer mais do que cinco vezes, porque o movimento do diafragma, sob esta pressão[,] é muito cansativo. Segue depois a fase chamada por Cohn de ‘beliscar’: o médico prende com as mãos aquele estrato do abdômen, com a máxima extensão e na horizontal, apertando depois o ‘pneu’ com tal força que sob a pele se formam manchas marrons e azuis. Durante esta operação o doente chora e se lamenta: é a parte mais dolorosa de todo o tratamento. Por fim, diz Cohn, ‘o médico salta com todo seu peso sob o abdômen do paciente, de maneira tal que consegue afundar o joelho em profundidade na fossa epigástrica. O médico fica de joelho sob[re] o doente até que este faça, no início cinco, sete, depois dez respirações profundas, até chegar a trinta. […] O Doutor Groddeck é particularmente hábil e preciso neste tipo de massagem’.

Como segundo componente do tratamento vem descrito o banho quente. Não se trata aqui de banho integral, mas de banho de partes específicas do corpo. No primeiro dia, pela manhã, depois da massagem, vem prescrito o banho quente dos braços; no segundo o banho quente dos pés[;] e no terceiro o banho quente das nádegas, e assim continua cada dia nesta ordem. Schweninger havia construído vasos específicos para os braços e para os pés. Os vasos para os braços são grandes vasos de lata, colocados numa mesa, possuem uma tampa com 2 furos e são cheios com água a 36o Réamur (NB. Nesta escala térmica a temperatura de ebulição é de 80). Na parte superior existe um bocal de afluxo e ao lado um tubo ligado a uma torneira, esta à entrada de um balde grande. O doente coloca na bacia o braço até o ombro, deixando o antebraço e a mão sob a cinta esticada no interior do vaso. O braço permanece 20 minutos no banho, enquanto é colocada continuamente nova água quente, até quando a temperatura atinge lentamente os 40o Réamur. […] O vaso para os pés se distingue dos baldes pelo fato de serem em forma de bota, de modo que toda a base do pé possa pousar comodamente, enquanto a perna permanece em ângulo reto. […] No terceiro dia era realizado o banho das nádegas, à mesma temperatura.

O terceiro componente da cura de Schweninger é a dieta. Antes de falar das iguarias, Cohn relata como a massa era servida em porções pequenas e em louças pequenas. Os copos são aqueles de brinquedo que contém menos de 50 gramas de água. Mesmo os pratos são de boneca, que podem conter no máximo uma fatia de carne. A faca e o garfo são também muito pequenos. Em tudo isto há uma ação sugestiva benéfica: imagina haver bebido e comido muito quando na realidade não é tanto quanto recebeu. Além dessa forma exterior, segundo Cohn, se cuida, sobretudo[, d]o ritmo de fornecimento da massa. Com grande pontualidade, [a] cada três horas são servidas (sic – É SERVIDA) uma nova alimentação, o café da manhã às sete e meia, a segunda refeição em torno das dez e meia, a uma e meia o almoço, às quatro e meia o lanche e o jantar às sete e meia.

Com o passar do tempo, Groddeck modifica e integra a cura. A massagem e o banho quente permanecem substancialmente iguais; a importância da dieta é, no entanto, redimensionada e no final é[,] sem dúvida[,] considerada um procedimento danoso. A cura[,] no momento[,] é de tipo puramente fisioterápico, deve somente reforçar as resistências do corpo e favorecer o processo natural de cura. [REDUNDANTE] Um papel central, sobretudo para a massagem e para o banho quente, é atribuído à dor[,] tratada como [sic – com] um escopo terapêutico, que sobre o homem deverá ter valor educativo.”

5.9 TEXTOS MÉDICOS E ESCRITOS LITERÁRIOS

Ein Frauenproblem (1903) é o primeiro texto literário, não-médico de Groddeck: ‘à minha mulher, pelo Natal’ é a dedicatória[;] e como escreve Martynkewicz: ‘no caso de Groddeck[,] a dedicatória e o conteúdo do livro são extremamente correlatos. Aquilo que ele diz neste livro gira sempre em torno da mulher e […] este presente de Natal é uma carta e contemporaneamente um manifesto da misoginia. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 164).

Sobre a forma de apresentação dos temas deste texto e seu impacto no público, Groddeck escreve ao seu irmão Carl (24 de fevereiro de 1905): O Problema da Mulher foi mal entendido por todos que o leram. Sobre isso, eu só censuro a mim mesmo. Não se deve escrever por enigmas.’” // Outra tradução, se não conseguir encontrar no original nem em português: Un Problème de Femme.

O homem desaparecerá, mas a mulher é eterna”

tornar-se criança, condição do tornar-se ser humano”

ÚLTIMA SENTENÇA DO LIVRO: “O sol brilha unicamente para ela, as árvores carregam frutos unicamente para ela, a mãe vive unicamente para ela. A criança cria seu próprio mundo, para ser livre e liberar. […] Por eles, tu te tornarás livre, por eles, tu te tornarás uma criança, e mais ainda: um ser humano. […] Saudemos ao ser humano, à criança realizada em um mundo realizado. (GRODDECK 1903, 1992, p.117)”

Da mesma maneira que Winnicott e que a Escola Psicanalítica Húngara, mas de forma totalmente diferente, [?!] ele estabeleceu uma psicanálise centrada exclusivamente na mãe, [isso cheira mal] sobre o espaço que ela instaura durante a vida de cada ser humano” Chemouni

Não era mais possível remover Schweninger. Ele conhece o trecho que escrevi sobre ele, e eu não gostaria de magoá-lo, ele que sempre foi amável comigo, mudando agora alguma coisa.” Carta ao irmão

Em 30 de março, sai o romance em 2 volumes Ein Kind der Erde [Uma Criança da Terra] e ‘em abril a editora envia a Groddeck uma breve crítica, que poderia ser considerada como positiva. […] Em julho a editora comunica que o livro não está vendendo bem’.”

O contínuo insucesso da minha atividade literária infundiu em mim uma aversão contra este tipo de ocupação, e, como, de quebra, perdi há algum tempo a minha caneta costumeira, considerei isso um mau agouro. Talvez ela me tenha sido furtada por algum deus benevolente. Para arquivar, portanto, as atas desse período já encerrado, informo-lhe que a minha novela foi rejeitada em toda parte. Eu a havia escrito inicialmente por um prêmio de 5 mil marcos, que o Daheim tinha proposto pela melhor novela. Evidentemente, lá ela não foi lida, pelo menos é o que deduzo do estado inato do manuscrito, e teve a mesma sorte em diferentes mesas de redação. (GRODDECK 1908, 1994, p. 89-90)”

De resto, só posso repetir: essa novela é a melhor coisa que você escreveu. Não quero ir tão longe e afirmar que não há erros; na primeira versão, o final está fraco, e temo que isso não melhorou muito desde então. Mas encontrei aqui em você, pela primeira vez, um pedaço de vida, em lugar de invenções penosamente criadas.” O irmão Carl Groddeck em carta de consolo (?) ao médico diletante literato!

Em 1906, Schweninger publica Der Arzt, livro que é uma síntese de suas idéias e que pode ser visto como um guia de sua prática como médico, ou[,] ainda, como seu testamento teórico. A obra foi editada numa coleção dedicada a publicar estudos sócio-psicológicos que era dirigida por Martin Buber.”

Decididamente, nisto Schweninger tem mais sorte. Do seu O Médico foram impressos 14 mil exemplares e está esgotado. Além disso, recebeu 700 marcos como honorários pela primeira edição. O restante, o editor meteu no bolso. O mais estranho para mim é que a crítica elogia quase unanimemente O Médico. Não invejo o reconhecimento tardio do meu mestre tão difamado pelo bando científico; gostaria apenas que ele também fosse apreciado em outros campos, estritamente científicos, pelos quais tanto fez. (GRODDECK 1907, 1994, p. 87)“

A ideia central da filosofia de Schweninger é que o médico não é um cientista mas um artista. Com esclarecimentos diferentes – histórico, sociológico, filosófico, etc. – ele tenta dizer que a prática médica é uma arte. A arte é eterna. […] Em certo sentido, a arte não constitui um saber mas resulta de uma atividade inata. Ela se eleva contra a idéia, ainda prevalente, que a atividade do médico consiste essencialmente em aplicar os conhecimentos científicos. A ciência é de pouco auxílio na relação médico-doente. […] o fato de cuidar é idêntico através dos tempos. […] Hipócrates, pela sua arte de cuidar, pode ser considerado hoje em dia como médico. […] Sua arte de cuidar não é inferior à dos médicos formados na Universidade. Aquilo que o médico é capaz de aportar a seu paciente é idêntico ao longo do tempo, somente a forma muda. Não se pode imaginar melhores relações médico-paciente só porque vivemos no século XX, as condições humanas serão sempre as mesmas. […] Somente os meios colocados à disposição do médico se modificam, a qualidade de seu trabalho, essencialmente relacional, é constante. A arte do médico resulta de um saber inato: ele é inerente ao homem. A arte não é mais do que a forma visível deste saber. A riqueza técnico-científica não poderá mudá-la. […] Arte e ciência se opõe[m] como o natural ao cultural. Só a experiência serve como denominador comum.” Jacquy Chemouni

Schweninger critica a formação do médico, refutando que um diploma possa sancionar a profissão médica. […] é médico a partir da sua capacidade de estabelecer com o outro uma relação que seja a mais pessoal e íntima possível. J.C.

Natura sanat, medicus curat, isto quer dizer que a natureza [é que] cura e o médico [só] cuida.”

Mas quem foi a Senhorita G.? Será que ela existiu de fato ou ela resume vários casos tratados por Groddeck no período anterior à Primeira Guerra Mundial? Como vimos acima, este personagem só é mencionado por Groddeck algum tempo depois de ter ocorrido o processo de tratamento. A resposta a estas perguntas será dada por W. Martynkewicz:

O caso da Senhorita G. serve claramente a Groddeck para construir um novo início […] No estado atual do conhecimento do legado não se pode ainda afirmar com certeza se esta análise havia de fato ocorrido e se existia uma figura de referência real para a Senhorita G. No que diz respeito a esta última questão, venho colocando ênfase, e em parte também o próprio Groddeck, em diversos pacientes. (…) Margareth Fellinger se torna a ‘cara Grete’ (que poderia ser desdobrada na abreviação ‘G.’). Também o quadro de sintomas apresenta alguma correspondência. Mas nas cartas a Margareth Fellinger não fica claro o tipo de tratamento psicanalítico; a psicanálise não entra em jogo nem ao menos como terminologia. (MARTYNKEWICZ, 2005, p. 197)”

Que Groddeck no período que precede a Primeira Guerra Mundial havia efetuado um movimento em direção à psicanálise é, sobretudo, uma auto-mistificação na qual os seus seguidores, no entanto, prontamente acreditaram.”

Natureza! Estamos cercados e envolvidos por ela – impotentes para deixá-la e impotentes para adentrá-la mais profundamente. Sem aviso, e sem ser chamada, ela nos varre para longe nas voltas da sua dança e continua a dançar até que caiamos exaustos dos seus braços. Ela sempre gera formas novas: o que existia, nunca tinha existido antes, o que era, nunca voltará. Tudo é novo, e, no entanto, velho para sempre. […] Todos os esforços dela parecem inclinados à individualidade, e ela não se preocupa com indivíduos. Ela constrói sempre, destrói sempre, e sua área de trabalho está além do nosso alcance. […] A sua coroa é o amor. Somente através do amor nós chegamos a ela. Ela abre um abismo entre todos os seres, e um quer devorar o outro. Ela separa todos para depois juntá-los, com uns poucos goles da sua taça de amor. Ela torna boa uma vida cheia de labuta. Ela é tudo. Ela se recompensa e se pune, deleita e atormenta a si mesma. Ela é rude e gentil, agradável e terrível, impotente e toda poderosa [sic- todo-poderosa], tudo está eternamente presente nela. Ela nada sabe de passado e futuro. O presente é eternidade para ela.”

Goethe, A Natureza

(…)

5.12 O ‘ISSO’

Não existe nenhum eu, é uma mentira, uma desfiguração quando se diz: eu penso, eu vivo. Dever-se-ia dizer: isso pensa, isso vive. ‘Isso’ quer dizer o grande mistério do mundo. Não existe um eu. […] Tudo flui. Com toda a certeza não existe um eu. É um erro da linguagem e lamentavelmente um erro fatal. Porque ninguém é capaz de libertar-se dessa palavra ‘eu’.”

5.13 CÍRCULOS DE DISCUSSÃO POPULAR E A COOPERATIVA DE CONSUMO

O tradutor de Nasamecu para o francês, P.S. Vilain, faz o seguinte comentário:

Esta obra não tem nada de um tratado científico: ela é o resultado de um ciclo de conversas populares, que Groddeck […] realizou diante de um público modesto, em benefício da associação cooperativa, [para venda de alimentos, inflacionados no verão, a custo de produção] quando foi um animador despretensioso. O autor se contentou em revê-las brevemente com o propósito de publicá-las sob a forma de um livro. Assim colocado, o leitor não se surpreenderá de reencontrar em diferentes capítulos, de forma repetitiva, os temas favoritos deste clínico geral. […] A definição do homem doente, o papel e o poder do médico, a admiração diante do milagre do organismo humano; ele não se surpreenderá de encontrar, por exemplo, no capítulo que trata dos ossos, um desenvolvimento dos nervos da pele, ou, naquele que é dedicado aos músculos, as idéias de Groddeck acerca da informação sexual […] ele se esforça em ver o homem que sofre dentro do conjunto de suas condições de existência e considerar os elementos do corpo humano em suas interdependências (VILAIN in GRODDECK 1980, p. X)”

5.14. NASAMECU

O título do livro é uma fórmula abreviada, Natura sanat, Medicus curat, a mesma é a ordem inversa de uma sentença medieval: Medicus curat, Natura sanat.”

DICIONÁRIO LATIM!

Sanat: cura;

Sanativus: própria para a cura;

Sanator, -oris: o que cura.

Medicus: tratar de um enfermo, medicar, aplicar remédio.

Curat: aplicação, tratamento;

cura, curae: cuidado, diligência;

curate: com cuidado, com diligência;

Curator, Curatoris: o que tem cuidado.”

A sentença aparece três vezes ao longo do livro, sendo inclusive [su]a última frase (…) na primeira vez em que é mencionada, Groddeck explica exatamente qual é o seu significado: ‘É a natureza que cura e não mais o médico, que só cuida [presta atenção]’.”

Apesar de estar sempre procurando reconhecer e valorizar o diálogo entre o médico e a natureza, Groddeck privilegia a segunda parte da frase, ou seja, a posição e o valor do médico.”

com o Nasamecu nós estamos no coração dos ensinamentos e do pensamento de Schweninger, tudo o que é específico nesta obra […] nós o encontramos na obra de Schweninger e em particular na sua obra intitulada Der Arzt. (CHEMOUNI, 1984)”

é bem por isso, e em função da grande ignorância das pessoas, que eu escrevi este livro. É tempo de elas adquirirem algum conhecimento a fim de não mais se comportarem na vida como uma criança. O médico, sem mais razão, necessita de conhecimentos, mas ele estará mal-colocado se estes conhecimentos forem exclusivamente de ordem médica.”

A partir destas colocações, Groddeck justifica o seu modelo de trabalho, como clínico geral, não ambulatorial, mas privilegiando o internamento por um período de tempo, em um espaço terapêutico: ‘O sucesso que obtêm os hospitais, as estações termais, etc., se explica em grande parte pela mudança mais ou menos bruta e brusca de todas as condições de vida do paciente.’ (GRODDECK 1913, 1980, p. 8)” Isso se chama: férias.

O médico deve dominar seu paciente. […] O dom inato de dominar é mais indispensável que todo o resto e é seu dever desenvolver este dom. O médico deve dispor de uma personalidade, reunir em sua pessoa numerosas personalidades. […] Ele deve conhecer as inúmeras facetas das constituições possíveis do caráter humano.” Será que o vestibulando de hoje ainda consegue fazer isso depois de torrar o cérebro para entrar numa faculdade – provido do dom da cura ou não?

a tarefa do médico é outra: ele é chamado a dominar, a dirigir este mini-universo que se chama um ser humano, que se mete em seu caminho dizendo: ‘ajude-me caso eu esteja doente’”

Nestas citações sobre a natureza do médico é possível perceber que os 2 verbos preferidos por Groddeck para definir a ação do médico são: dominar e dirigir; e que a conjugação destes verbos não é algo que se aprende, é como um dom inato. Para Groddeck, a personalidade do médico é o principal elemento da relação médica, ocupando um papel preponderante sobre seus conhecimentos científicos e o método terapêutico escolhido. Outra característica é a ação do médico como arte. O exercício dessa arte faz com que o médico fique a serviço da natureza (vida) e não possa agir em oposição a ela.”

Groddeck recomenda: Cuide [sic – Cuida] da tua língua, atenção às conseqüências de tuas palavras! Essa sugestão se dirige principalmente ao que ele chama de: a mania dos diagnósticos. E à sua dúvida: em que o diagnóstico ajuda o paciente?”

Neste momento, os problemas sociais são ainda parte integrante da medicina de nossos dias.” Afasta-te do médico bolsonarista mais do que o diabo se afastaria da cruz, porque neste problema social ele é claramente o problema!

cada época é, assim, tanto saudável quanto não-saudável, da mesma maneira que cada ser humano é simultaneamente sadio e doente.” Temo que este aforismo não sobreviveria à análise de Groddeck se este ressuscitasse no séc. XXI!

o erro antigo que considera que a doença é um agente externo que agride o homem desde fora. […] é bom admitir que a doença não é jamais um elemento externo ao corpo, mas um processo da vida […] que o elemento decisivo para a evolução da vida no sentido da saúde ou da doença não é o bacilo, mas o próprio homem.” Antigo mas bem recente: data da invenção da microscopia. Hipócrates já tinha a mesma visão sistêmica da psicossomática. Não é o maldito vírus, mas o verme do vírus (o homem).

As tendências de cura estão incluídas na própria doença. Existem mesmo no câncer, mesmo na morte; a vida persegue a sua ação ordenadora, procura curar e trazer à saúde, criar, mesmo quando as condições são más, a melhor existência possível: ela comove a sensibilidade do doente.”

Quer estejamos doentes ou bem, portanto, a vida é uma aposta na ordem. Sem se cansar ela diz ao homem: ‘coloque ordem’ […] porque o caos está em você [sic – ti] mesmo, aqui está a doença que tem a missão de colocar a ordem no teu caos.” A ansiedade busca fundir o organismo humano tão previsível e estático perante o caos do capitalismo tardio num caos sui generis, numa – sem dúvida, de algum prisma possível – ordem convivível… Mas isso não podemos deixar, já vai além do propósito da vida… Seria preferível morrer em catalepsia e apatia a se adaptar a um mundo tão cruel. Diga, Groddeck, você teria se rebaixado a usar Prozac?

É doente, no meu significado, o indivíduo diminuído em seus desempenhos e que se credita como tal. Para mim, todos os outros são saudáveis, pouco me importa que a Faculdade os tenha declarado gravemente doentes.”

Qualquer um que se sinta doente é conveniente se considerar doente, mesmo que o exame não descubra nada de patológico sobre ele ou nele.”

A cada indivíduo correspondem critérios que permitem determinar ou não a existência de uma patologia. (CHEMOUNI, 1984, p. 34)”

Vale salientar que Groddeck não tinha uma teoria do psíquico, tanto em seus aspectos estruturais quanto dinâmicos. A sua noção de inconsciente era pensada dentro do espírito romântico como desconhecido, um aspecto oculto da natureza e do sujeito, material sem estrutura que se expressa principalmente na poesia, nos sonhos e na enfermidade mental. Como clínico geral, Groddeck, nesse primeiro momento, situa o inconsciente e faz seus comentários a respeito dele como o desconhecido das funções somáticas

…e, nessa ampliação é necessário que se desloque sua perspectiva do Romantismo para a Psicanálise conforme pensada por Freud.” O Fraudismo é o puro Romance (só falta o Amor, claro)… Para “se deslocar” do Romantismo das concepções simbólicas do inconsciente a uma verve mais pseudanalítica do pensamento, Groddeck não teve de dar um só passo!

Quem não estuda está condenado a repetir a História. Neste caso que nos cabe agora, quem não estuda está condenado a repetir erradamente que Fraud foi pioneiro em alguma coisa, e um escritor honesto. Alguns parágrafos ilegíveis…

Queremos a esperança da cura. Bem mais: no fundo, não esperamos, desde o primeiro momento, a ajuda, mas a certeza da cura. Não se sabe mais apreciar a sua [nossa] situação, perdeu-se [perdemos] a [nossa] confiança em si [nós]. Essas duas coisas espera-se do médico.” E isso era tudo o que a pseudanálise não podia dar. Mas a autora da tese de mestrado não sabia disso…

O médico, sem dúvida, existe para todos os que sofrem, e ele deve dar ao seu tratamento a forma mais simples possível, a fim de que todo mundo, ricos e pobres, possam (sic)¹ aproveitar; diante do médico todos os homens são iguais, ele age sem considerar a pessoa” Outro preceito NADA seguido pelos instintos semitas da fantástica arte de extirpar neuroses com a força dos fundos movimentados pelos cheques – que perdeu um pouco da parte ‘artística’ conforme as décadas foram corroendo seus métodos estelionatários…

¹ As traduções da autora também são péssimas. Deixei este trecho como lembrete, num erro de concordância primário; porém, foram muitas as instâncias em que tive de corrigir aspectos básicos como a pontuação e a sintaxe elementar, que a criatura (nunca traduzindo do alemão, o vernáculo de Groddeck, mas do italiano ou do francês!) transcrevia diretamente do idioma original, como se o português fosse acentuado como seus primos latinos, tivesse ritmo idêntico – no francês isso é particularmente bisonho, pois, sabe, os, franceses… amam, vírgulas, Paulos, Coelhos, e três… pontinhos!… e exclamações. Só à guisa de comparação vamos recitar o trecho acima conforme citado na nota de rodapé da tese, antes da versão da autora:

« le médecin, n’est ce pas, existe pour tous ceux qui souffrent, et il doit donner à sa thèrapeutique la forme la plus simple possible, afin que tout le monde, riches ou pauvres, puisse [curioso! o erro de concordância não existia aqui!] en profiter, devant le médecin, tout les hommes sont égaux, il agit san[s] considération de la personne. » Não houve o cuidado, como denota o [s], nem de copiar os trechos com 100% de fidelidade.

Antes da Psicanálise se estabelecer como modelo terapêutico hegemônico na Europa e na América, a hipnose e a sugestão eram os procedimentos terapêuticos dominantes. Foi Liébault quem estabeleceu a doutrina da sugestão terapêutica.” Verdades e mentiras mescladas numa frase mesquinha.

Os membros da família, mesmo quando estão de boa vontade e sobretudo em função das suas boas intenções, constituem um obstáculo ao tratamento. Todo mundo, desde a infância, gosta de brincar de médico, e quando um membro querido da família fica doente, desamparado, você o socorre dando conselhos a torto e a direito e, em seu zelo excessivo, acaba atrapalhando.”

EXCELENTE: “Supo[nha]mos que, a partir de agora, nós dispomos de todo o conhecimento que a humanidade acumulará nos milênios que virão; nós não seríamos capazes de curar um simples resfriado: nunca poderemos fazer mais do que tratar. Este mesmo tratamento, que é a nossa única tarefa, e privilégio só nosso, será sempre limitado pelo poder da própria vida. A vida tolera com rigor que tiremos uma articulação doente, por exemplo, do joelho, substituindo-a por outra; ma[i]s ainda, é possível pensar que ela nos permitirá um dia transplantar de um indivíduo a outro, a fim de substituir os órgãos deficientes, o[s] rins, os ovários ou os olhos saudáveis. Mas, sempre, ela [Mas ela sempre – aprender a traduzir, dona Maria Consuelo!] se reservará [a]o direito de fazer viver ou não esses órgãos, se eles serão recebidos ou não dentro da unidade do corpo humano.”¹

¹ Esta última frase, de novo, evidência cristalina dos péssimos dotes da tradutora de improviso. Eis minha versão: “Sempre, porém, é a vida quem se reservará ao direito de deixar que sobrevivam ou não estes órgãos, de recebê-los ou não na unidade do corpo humano.” O “dentro da” como tradução de dans é típico de um estudante de primeiro período de francês que nunca aprendeu o conceito-base de tradução como tradução do conteúdo global e não simples ‘termo a termo’ o que nunca existiu fora dos recônditos da subliteratura. E a subliteratura não devia estar presente em nenhuma pós-graduação; nem num modelo hiper-expansionista, tendente ao universalismo (o chinês, por exemplo).

Tive que corrigir a próxima tradução inteira, de tão capenga:

Oliveira e Silva: “Levavam, pelo contrário, mais profundamente inscrito no seu coração que nós não fazemos, esta verdade, essencial do exercício do médico: a saber que somente a vida tem o poder de curar, o fato mesmo de estar vivo, é o verdadeiro médico.”

Rafael Aguiar: Seus corações, ao contrário, traziam inscrita, mais profundamente do que nos nossos, esta verdade essencial do exercício do médico: que somente a vida tem o poder da cura; que a vida, o fato mesmo de se estar vivo, é o verdadeiro médico.

Mesmo se fosse uma noviça no francês, caso tivesse alguma noção de escrita (do próprio recurso lingüístico padrão, i.e., do português!) e um pouquinho de teoria da tradução incorporada, poderia disfarçar facilmente a falta de estilo. Mas é um estilo todo cru, cego, cheio de arestas. Se é que não é o puro suco do google translate! Depois querem que eu diga por que um homem de altas qualificações como eu não quer perder 2 anos de sua vida sendo avaliado por pares – e que pares! Olhem o que deixam entrar e, portanto, titular-se (porque ninguém reprova num mestrado a não ser por falta)! Alguém incapaz de inverter a ordem frasal na translação entre dois idiomas, porque não tem a sensibilidade DE LEITOR suficiente para notar que ao não fazê-lo o português fica severamente prejudicado! Alguém que disso não sabe não pode se meter a ensinar medicina ou psicologia. Seria confissão de charlatanismo.

Estraçalhar o estilo, retalhar seu autor favorito, remover dele toda sua poesia: é isso que você faria como “homenagem” num trabalho? Num trabalho que imortalizará seu nome, pelo menos por algumas gerações, num arquivo mofado de universidade, para consultas de olhos curiosos de uma ávida geração distante?! Sugiro destinos melhores! Mas só posso ficar na sugestão. Minha sugestão não tem poder hipnótico!

5.15 PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL (?)

No dia 28 de junho, ao entrar na cidade em carro aberto, alguém jogou uma bomba contra ele. Ferdinand empurrou o artefato para perto de outro veículo. Sua sorte não durou muito. Após comparecer a uma recepção na prefeitura, o arquiduque foi visitar os feridos do atentado. O estudante bósnio Gavrilo Princip avançou em direção a seu carro e disparou 3 tiros, matando Franz Ferdinand e sua mulher, Sophie. Esse ato, que agitou as engrenagens de alianças nacionais, alimentadas por nacionalismo e temor, foi o estopim da Primeira Guerra.”

Viena exigiu que Belgrado censurasse publicações anti-austríacas e prendesse ativistas anti-monarquistas. A Sérvia rejeitou essas exigências, aceitou outras e pediu uma arbitragem internacional. As autoridades austríacas, decididas a subjugar os sérvios, recusaram a interferência externa.” The same dirty old game and tricks by the pigs, pigs, PIGS!…

Em um mês, Montenegro lutava ao lado dos sérvios, o Japão junto a sua aliada britânica e a Turquia em defesa dos germânicos.” Com essas alianças bizarras, difícil considerar a Segunda Guerra como segunda e não como parte orgânica da primeira e única guerra total da História (como Poderoso Chefão 2, nem é uma continuação, é o próprio filme original).

E o que acontece com Groddeck neste período inicial da guerra? Ele é convocado, não para atuar no front, mas para ser o diretor-médico do Hospital Militar da Cruz Vermelha em Badischer Hof.”

Para uma apresentação, causas, implicações e desdobramentos políticos e culturais da Primeira Guerra Mundial, ver: A Sagração da Primavera, Modris Eksteins. Rocco, Rio de Janeiro, 1991

Sendo fiel ao seu projeto de trabalho, Groddeck não consegue se adaptar às pressões do tempo, imposto [SIC – IMPOSTAS] pelas exigências próprias de uma guerra[; n]e[m] muito menos se adequar às características próprias de um hospital para militares feridos. Como consequência, acabou tendo problemas com o restante do corpo clínico.

Aqueles dois outros colegas do Badischer Hof assumiram uma posição completamente diversa e logo[,] em pouco tempo[,] renuncia[ra]m a colaborar naquele projeto de cura. A sua atividade está sendo [SIC – foi] considerada de modo crítico mesmo pelas autoridades médicas sanitárias. (MARTYNKEWICZ, 2005)”

Groddeck se irrita e manda¹ rapidamente uma carta de protesto à autoridade sanitária, na qual reivindica o ‘direito fundamental do médico’, que mesmo na guerra deve poder curar ‘em seu critério’ e não ser ‘influenciado por alguma ordem’. A autoridade, segundo ele, não teria direito de criticar de nenhum modo a sua ação médica ou de impor-lhe regras; como médico ele afirma não se submeter às leis da guerra. A autoridade militar não se deixa impressionar e intervém, depois de haver tomado uma outra posição, […] na metade de maio Groddeck é exonerado do cargo de diretor médico do Badischer Hof. […] O licenciamento representa uma degradação oficial e uma declaração de incompetência.” Groddeck se mostrou tão ético e íntegro que vou chamá-lo de ANTI-FREUD!

¹ Provavelmente a autora pensa que o passé literário francês é o presente do indicativo, daí tantas frases estranhas nesta linha.

Além destas questões ligadas à sua atividade como médico de um Hospital da Cruz Vermelha, 2 fatos pessoais ocorrem neste período: em setembro de 1914, morre o ‘último Groddeck’, seu irmão Hans; outro fato acontece neste período, mas que terá efeito e desdobramentos significativos pelo resto da vida de Groddeck: em maio de 15 chega ao sanatório uma viúva sueca, Emmy Martina von Voigt. Fica pouco tempo na clínica como paciente e, quando retorna em julho do mesmo ano, Groddeck a convida para ser sua colaborada e assistente; em suas memórias escreve: ‘Em 1915 conheci minha futura esposa. Isto me fez progredir rapidamente.’

E abruptamente (nessas aspas mesmo!) termina a tese. Bizarro. Capítulo fora do lugar este da 1ª guerra? Sim; mas a tese em si é fraca, então não é um erro grosseiro. Isto é, diante do quadro geral é até perdoável!

NOTAS

Para Ber[n]heim e a escola de Nancy, [a] terapia de sugestão consistia na deliberada manipulação do crédito, fé e expectativa sob a orientação da sugestão e auto-sugestão no tratamento de uma vasta gama de condições físicas e psicológicas.” Shamdasani

CONCLUSÃO

Se dermos um texto não identificado escrito por Groddeck para um estudante de medicina que esteja lendo sobre Humanização, este possivelmente acreditará se tratar de um texto contemporâneo, e não um texto escrito a mais de nove décadas.” Se aos pacientes se der tanta atenção quanto à penteada na gramática desta tese, estão bem fudidos e desumanizados! Se não tem tempo de revisar o próprio texto, saia da academia. Mas o orientador e a banca ainda conseguem ser mais malditos… Uma revisão de literatura tosca de nível de terceiro semestre de uma graduação de humanas (mesmo sendo uma especialização, aparenta generalidade total, quer em medicina, em psicologia, em história das idéias, quer em epistemologia…). Este é meu parecer honoris causa.

EL LIBRO NEGRO DEL PSICOANÁLISIS: Vivir, pensar y sentirse mejor sin Freud – Catherine Meyer (org.)

INTRODUÇÃO

En Francia, cuando los alumnos preparan el bachillerato y durante toda la formación de los maestros de escuela, las ideas de Freud – el complejo de Édipo, el desarrollo afectivo del niño en las fases oral, anal y fálica – se enseñan como verdades incontestables. Incluso entre aquellos que nunca han oído hablar de Freud, el lenguaje corriente ha adoptado numerosos conceptos freudianos, utilizados a diestro y siniestro (<un trabajo de duelo>, <rechazo>, <hacer una transferencia>, <una mujer castrante>, etc.).” Ainda é melhor do que as crendices brasileiras…

Los psicoanalistas ocupan una posición dominante en el universo de la salud mental. De un total de 13 mil psiquiatras, el 70% practican el psicoanálisis o terapias de inspiración psicoanalítica.” Acredite, podia ser MUITO pior… Podíamos estar dominados pela TCC!

La historia oficial del freudismo ha sido progresivamente cuestionada por aquellos a los que en inglés se denomina <Freud scholars>, en traducción literal, los <eruditos de Freud>. Estos han revelado muchas mentiras en la obra original. Paralelamente, el psicoanálisis en tanto que terapia ha perdido consideración. En la Europa del Norte y en los países anglosajones, prácticamente no se enseña en las facultades de psicología y ha encontrado refugio en las facultades de letras o de filosofía. En Holanda, la nación en la que se consumen menos ansiolíticos, el psicoanálisis es casi inexistente en tanto que terapia.”

La célebre Sociedad psicoanalítica de Nueva York pena a diario para reclutar candidatos. El Myers, ese manual que sirve de referencia a los estudiantes de psicología del otro lado del Atlántico, sólo consagra 11 páginas a las teorías freudianas, de un total de 740 páginas. ¿Tendrán Francia y Argentina razón, ellas solas, contra el resto del mundo?”

Las grandes figuras de los años 70 (Françoise Dolto, Bruno Bettelheim, Jacques Lacan) siguen siendo referencias incontestables, a veces incluso mitos.” “La división, particularmente violenta entre bastidores, nunca ha sido abordada de frente en la escena pública. Los insurgentes de ayer se han convertido en guardianes del templo. El psicoanálisis se vivió por la generación de Mayo del 68 como un viento de libertad; en adelante toma la forma de un dogma intocable. Los psicoanalistas más influyentes, principalmente los lacanianos, intentan sistemáticamente matar el debate antes de que nazca. Excomulgan y anatematizan, arrojando regularmente a sus detractores al terreno (a elección) ¡de la extrema derecha antisemita, los lobbies farmacéuticos o los conservadores americanos!”

Como un símbolo, los herederos de Jacques Lacan obtuvieron así, en febrero de 2005, de Philippe Douste-Blazy, entonces ministro de Sanidad, que recusara e hiciera desaparecer de la página Web de su ministerio un informe del INSERM (Institut Nacional de la Santé et des Recherches Medicales). Este organismo había realizado una evaluación de las diferentes terapias, realizada a petición de asociaciones de pacientes, cuyas conclusiones eran desfavorables al psicoanálisis.”

En Estados Unidos cualquier persona cultivada conoce la triste suerte de Emma Eckstein, una de las víctimas históricas del psicoanálisis; todos están informados de las imposturas de Bruno Bettelheim; los argumentos de los <Freud scholars> han convencido, más allá de los especialistas.”

Así, en Inglaterra, en los años 70, el filósofo Frank Cioffi, uno de los autores de nuestro Libro negro, creó una oleada de emoción considerable consagrando una memorable emisión de la BBC al siguiente tema: ¿Era Freud un mentiroso? Más recientemente, en los Estados Unidos, una gran encuesta, Freud desconocido, de Frederick Crews, que igualmente participa en nuestro libro, aparecida en la New York Review of Books provocó el envío de miles de cartas indignadas.”

Hay una cierta embriaguez y un gran consuelo en poder dar un sentido a cada pequeño momento, incluso fallido, de nuestra vida. Hay pacientes que se han sentido ventajosamente después de un análisis; algunos incluso se han curado. Hombres y mujeres inteligentes han sido conquistados por el psicoanálisis, su romanticismo y su lenguaje misterioso. Todo eso no se borra con unas líneas.” “Hay una vida después de Freud: se puede, en terapia, trabajar sobre un inconsciente no-freudiano, se puede uno también interesar en la infancia, en la sexualidad, en la historia y en las emociones de cada uno sin adherirse a los conceptos freudianos.”

Este cuarteto ha dado la tonalidad a esta obra: no-sectaria, [mais ou menos…] internacional, [mais para menos: só fala de França, França, França…] multidisciplinar, preocupada por los lectores y abierta a la crítica. Gracias a ellos y a menudo a su intermediación, he podido solicitar a los mejores expertos en estudios freudianos, que, desde hace varias decenas de años, estudian los textos del padre del psicoanálisis y ponen al descubierto, en alguna de las 6226 páginas que comporta esa obra colosal, las numerosas incoherencias y ocasiones en las que FRAUD tomó sus deseos por realidades.”

Este libro da, en fin, la palabra a los pacientes, tan frecuentemente olvidados en los debates.”

Una persona de cada 2 está confrontada o se enfrentará a lo largo de su vida con la enfermedad psíquica, y 1 de cada 5 presentará una forma grave de trastorno psicológico.” “¿A quien recurrir en caso de depresión o de trastornos ansiosos? ¿Qué tratamientos se han demostrado eficaces en la esquizofrenia? ¿Cómo enfrentarse a la anorexia? Todos estamos, de una u otra forma, concernidos por estas preguntas.”

Sigmund Freud ha influido nuestra manera de vivir, es evidente. El psicoanálisis forma parte de nuestro pasado. Moldea nuestro presente. Queda por saber en qué medida formará parte también de nuestro futuro.”

Mikkel BORCH-JACOBSEN, es danés-francés-americano. Filósofo de formación, consagró su tesis al Sujeto freudiano y enseñó brevemente en el departamento de psicoanálisis de Vincennes, bastión de Lacan. Instalado en los Estados Unidos desde 1980, donde es profesor de literatura comparada en la Universidad de Washington, es autor de 7 libros sobre el psicoanálisis y la historia de la psiquiatría, traducidos a 6 idiomas, entre los cuales Lacan, el dueño absoluto, hoy convertido en un clásico, y Anna O., una mistificación centenaria, que suscitó una viva polémica en el momento de su publicación en 1995. Sus trabajos se inscriben en la nueva historia del psicoanálisis y de la psiquiatría.”

Jean COTTRAUX, psiquiatra de hospitales, dirige la Unidad de tratamiento de la ansiedad en el CHU de Lyon. Ha consagrado más 35 años a aquellos que sufren trastornos ansiosos. Se formó en terapias comportamentales y cognitivas (TCC) en Inglaterra y Estados Unidos. Encargado de curso en la universidad de Lyon-1, ha creado un diploma de TCC gracias al cual ha formado a numerosos practicantes. Es autor de varios libros de referencia para profesionales y de obras que han tenido un gran éxito como La Repetición de escenarios de vida.”

Jacques VAN RILLAER es profesor de psicología de la universidad de Louvain-la-Neuve (Bélgica). Conoce el psicoanálisis <desde el interior> puesto que fue durante más de 10 años miembro de la Escuela belga de psicoanálisis. Durante mucho tiempo practicó el método freudiano antes de su deconversión que narró en un libro, Las ilusiones del psicoanálisis (1980), en el que reconstruye el sistema freudiano. Según él, los hijos de Freud, que se presentan como maestros-pensadores de la desmitificación, son ellos mismos, a menudo sin saberlo, propagadores de ilusiones y artesanos de alienaciones. Esta obra, convertida en un clásico [por que eu nunca ouvi falar?], marcó a numerosos psicólogos y psiquiatras. Es, desde entonces, autor de siete libros entre los cuales Psicología de la vida cotidiana [hahaha, tripudiou!].”

Jean-Jacques DÉGLON es psiquiatra, director de la Fondation Phénix en Ginebra y se consagra desde hace 35 años a los toxicómanos. Contra el parecer de los psicoanalistas franceses, luchó por los tratamientos de sustitución a base de metadona, que han permitido salvar miles de vidas.”

Violaine GUÉRITAULT es doctora en psicología, formada en la universidad de Atlanta (Estados Unidos) especialista en el síndrome del burn-out [eu gostaria de saber o que diabos é isso – especialista em burning out! Um nome chiquérrimo para depressão no capitalismo avançado…] y autora de El agotamiento emocional y físico de las madres.”

Philippe PIGNARRE es director de ediciones Les Empêcheurs de penser en rond y encargado de curso en París VIII. Trabajó cerca de 17 años en la industria farmacéutica y es autor de Cómo la depresión se ha convertido en una epidemia, y de El gran secreto de la industria farmacéutica.”

Richard POLLACK es periodista de investigación, basado en Nueva York, y autor de numerosas novelas y documentos. (…) Recientemente ha escrito un libro, Bettelheim o la fabricación de un mito, que ha tenido un gran éxito en los Estados Unidos.”

Se as psicoterapias são tão PLURAIS por que todos os co-autores desse livro só são da TCC?!?

Edward SHORTER es historiador de la medicina. Enseña en la facultad de medicina de la universidad de Toronto. Es autor de numerosas obras, entre las que se destacan una historia de las enfermedades psicosomáticas y una monumental Historia de la psiquiatría: De la era del asilo a la era del Prozac aparecida en 1998.”

Frank SULLOWAY es historiador de las ciencias en Berkeley (California). Su libro Freud, biólogo de la mente: Más allá de la leyenda psicoanalítica, aparecido en 1979, (ver no Seclusão) es un análisis radical de los orígenes y de la validez del psicoanálisis. Recibió la MacArthur Grant, más conocida como la <bolsa de los genios>. En un libro más reciente, Los niños rebeldes, estudia la forma en que la dinámica familiar afecta al desarrollo de la personalidad, incluyendo la de los genios creadores, y subraya la influencia del orden de nacimiento sobre la personalidad y el comportamiento.” Ouvi dizer que não obteve muito sucesso nessa tese… De fato não passa da fraca aplicação de um dos motes da psicologia individual adleriana…

Peter J. SWALES es una autoridad reconocida en el campo de la historia del psicoanálisis. Conocido por sus escritos sobre la vida y obra de Sigmund Freud, Marilyn Monroe, William S. Burroughs et Shirley Mason (alias Sybil)

PRIMERA PARTE

LA CARA OCULTA DE LA HISTORIA FREUDIANA

1. MITOS Y LEYENDAS DEL PSICOANÁLISIS

A) ÉRASE UNA VEZ… – BORCH-JACOBSEN

Su único amigo durante esos años terribles fue Wilhelm Fliess, un otorrinolaringólogo de Berlín que sostenía teorías estrafalarias sobre la periodicidad sexual en ambos sexos y en el que Fraud encontró, a falta de algo mejor, una escucha para los descubrimientos espectaculares que hacía cada día en su consulta.”

Fraud, confiando como siempre en su material clínico, había extraído en 1896 una teoría según la cual la histeria y la neurosis obsesiva eran invariablemente debidas a ‘seducciones’ infantiles de este tipo, para gran escándalo de sus colegas para los que una frecuencia tal de incestos en la buena burguesía vienesa era simplemente impensable. Un año más tarde, sin embargo, Freud tuvo que rendirse a la evidencia: las descripciones de incesto y de perversión de sus pacientes carecían de fundamento (…) Esta dolorosa constatación, que hubiera desanimado definitivamente a cualquier otro investigador, coincidió con el heroico autoanálisis que emprendió en agosto de 1897.”

B) LA VERDAD SOBRE EL CASO ANNA O.

Está pues completamente claro que la famosa talking cure, modelo original de todas las curas psicoanalíticas del mundo, había sido un fiasco total y que Breuer lo sabía pertinentemente. Sucede lo mismo con Freud, al que Breuer tenía al corriente de la evolución de su ex-paciente.”

Es evidentemente una conclusión muy embarazosa para el psicoanálisis, y he sido severamente atacado por los psicoanalistas desde que la avancé en mi libro. André Green, por ejemplo, me reprochó desde las columnas de Le Monde que no sabía de lo que hablaba, dado que era evidente para cualquier psiquiatra que el restablecimiento de Bertha Pappenheim había sido una curación <en diferido>.” “La verdad es que nadie sabe lo que provocó la curación de Bertha Pappenheim y que atribuirse el mérito, como lo hicieron con toda verosimilitud Breuer y Freud, es simplemente un abuso de confianza.” “Freud, por tanto, invirtió los papeles de los 2 protagonistas para sugerir la naturaleza sexual de la histeria de Anna O.”

Como buen alumno, Eitingon se empleó en demostrar que la sintomatología de Anna O. traicionaba las fantasías incestuosas de ésta con respecto a su padre, particularmente una fantasía de embarazo, que enseguida transfirió sobre Breuer, tomado como figura paternal (…) Es pues esta fantasía de embarazo, de hecho hipotético, reconstruido por alguien que no conocía a ninguno de los protagonistas del asunto, el que Fraud transformó inmediatamente en embarazo histérico real, con el fin de ridiculizar a Breuer y cerrar el pico a sus críticos.”

El procedimiento es perfectamente mezquino, y en cualquier otro terreno se calificaría de habladuría o calumnia. En psicoanálisis, a esto se le llama ‘construcción’.”

C) LA TEORÍA DE LA SEDUCCIÓN: UN MITO PARA NUESTRO TIEMPO – ESTERSON

Freud modificó retroactivamente la teoría que había defendido originalmente a fin de hacer plausible la nueva teoría, suprimiendo por ejemplo el hecho de que en 1896 había insistido en el carácter brutal de muchos de los atentados sexuales sobre los que construía su hipótesis.”

D) LA TEORÍA DE LA SEDUCCIÓN: UNA IDEA QUE NO FUNCIONÓ – ISRAËLS (entrevista)

Freud simplemente tuvo una idea, y no funcionó. Lo intentó a fondo, pero fue un fracaso. Entonces decidió abandonarla. Es tan tonto como esto.”

E) ERA FREUD UN MENTIROSO? – DUFRESNE, CIOFFI & ESTERSON

Los documentos y los análisis que en la actualidad son de dominio público hacen que no se pueda tomar en serio lo que Freud declaraba en esa época, está claro. No es sólo que sus declaraciones sean contradictorias. Igualmente están las incoherencias internas. Por ejemplo, Freud nos dice que los pacientes recibieron abusos de una forma particularmente atroz – habla en particular de penetraciones anales. Pero sostiene al mismo tiempo que, cuando recordaban esos episodios, sus pacientes pretendían no haber pensado nada en la época. ¿Cómo es posible que un niño que ha sido sodomizado no piense nada?”

Roy Porter, un historiador de la medicina universalmente conocido que acaba de morir recientemente, rehusaba admitir que los informes tradicionales del episodio de la teoría de la seducción fueran falsos. Al contrario, su último libro (póstumo) sigue vehiculando la versión tradicional del error de la teoría de la seducción. Todo esto es por supuesto muy irónico. Se supone que estas personas están liberadas de toda idealización – y sin embargo se reafirman en una visión idealizada e indefendible de Fraud y del pseudanálisis. La verdad, es que el movimiento psicoanalítico en su conjunto es uno de los movimientos intelectuales más corruptos de la historia. Es corrupto por consideraciones políticas, por opiniones indefendibles que siguen siendo repetidas únicamente a causa de relaciones personales y de consideraciones de carrera.”

Nos queda todavía por explicar por qué los mejores y los más inteligentes, dentro de nuestra cultura, han rechazado utilizar los métodos normales de investigación intelectual en lo que se refiere a Fraud. Sería un completo error creer que la presente actitud crítica con respecto a Fraud es resultado de la investigación de los últimos 20 años. Las pruebas de que el psicoanálisis no es una empresa seria existen desde hace por lo menos 50 años para cualquiera que quiera molestarse en leer de cerca los escritos del propio Freud. No se necesita nada excitante para darse cuenta – ni cartas escondidas, ni relaciones secretas con la cuñada, etc. La pregunta es pues ¿por qué? Me permitiría sugerir que es en parte porque Fraud ha tenido una influencia enormemente positiva, una influencia liberadora sobre la cultura del siglo XX. Gracias a él, podemos, por ejemplo, utilizar argumentos bidón [¿?] a propósito de los efectos nocivos de la represión sexual a fin de inducir a la gente a relajarse, a no ser tan estrictos con la vida sexual de los demás. Es muy positivo. Qué pena que haya sido necesario utilizar una teoría de neurosis de pacotilla para llegar a este fin, ¡pero el fin es cuanto menos muy deseable!”

F) FREUD RECICLADOR: CRIPTOBIOLOGÍA Y PSEUDOCIENCIA – SULLOWAY

(*) “Freud no había ‘descubierto’ nada en absoluto: había simplemente reemplazado una teoría traumática de las neurosis, inspirada en Charcot y en Janet, por otra teoría, de inspiración biológica y ‘fliessiana’: el psicoanálisis era, según el término de Sulloway, una <criptobiología>, una teoría biogenética disfrazada de psicología clínica para esconder su carácter perfectamente especulativo. Prosiguiendo sus investigaciones, Sulloway consiguió establecer que todos los elementos principales de la teoría freudiana de la sexualidad – la <bisexualidad>, las <zonas erógenas>, la <perversión polimorfa>, la <regresión>, la <libido>, la <represión primaria>, etc., provenían en línea más o menos directa de la sexología de la época (Krafft-Ebing, Albert Moll, Havelock Ellis), lo que demolía con un solo golpe el mito del aislamiento intelectual de F. y el pretendido <puritanismo> de sus colegas.”

(*) “La ley biogenética de Haeckel – según la cual <la ontogénesis resume la filogénesis> – era muy influyente en la biología y las ciencias humanas a finales del siglo XIX.”

Ernest Jones presenta a Fraud como un hombre que se había hecho muy impopular porque hablaba de sexualidad infantil, pero eso no se corresponde en absoluto con lo que se desprende de su correspondencia con Fliess. Fliess aceptaba aparentemente la sexualidad infantil como evidente y participaba sin reticencias en toda esta discusión.”

Cuando empecé el libro, abordé a Freud como la mayor parte de las gentes de la época, de la forma en que habría abordado a una de las grandes mentes del siglo XX, alguien comparable a Copérnico y a Darwin, tal como el mismo pretendía. Pero cuanto más estudiaba el desarrollo del psicoanálisis, más descubría que estaba fundado en hipótesis científicas que databan del siglo XIX y que habían sido definitivamente refutadas por el redescubrimiento de la ley de Mendel sobre la genética, por el abandono de la teoría de Lamarck por parte de la biología evolucionista, y por el rechazo de las diferentes hipótesis fisiológicas de Helmholtz, sin embargo tan decisivas para la teoría freudiana de la histeria y más en general en la formación de los síntomas neuróticos.”

Acabé, en todo caso, viendo más claramente al psicoanálisis como una especie de tragedia, como una disciplina que había pasado de una ciencia muy prometedora a una pseudociencia muy decepcionante. La ciencia es un proceso que comprende 2 etapas. La primera consiste en formular hipótesis, y, en ese momento, importa poco que las hipótesis sean verdaderas o falsas. En otros términos, Fraud podía de hecho tener hipótesis erróneas, fundadas en ideas o suposiciones corrientes en su época, pero que más adelante se demostraron falsas. Este no es el punto en el que la ciencia tropieza. Es en la segunda etapa en la que la ciencia se extravía más comúnmente, cuando se trata de poner a prueba estas hipótesis y de abandonarlas si se demuestra que son erróneas.”

¡El gran asunto es que Freud descubrió en su infancia cosas similares a las que precisamente estaba leyendo! No hay nada de espectacular, es de una banalidad sin nombre.”

Este autoanálisis está entre las más grandes leyendas de la historia de las ciencias. Incluso aunque Freud no hubiera el mismo propagado este aspecto de la leyenda freudiana, es interesante observar que no hizo nada para contradecirlo. [Em Biologist of the Mind Sulloway está muito mais ameno neste tema, curioso!… https://seclusao.art.blog/2021/06/02/freud-biologist-of-the-mind-beyond-the-psychoanalytic-legend-frank-sulloway-1983/]

Fue Fritz Wittels el primero que afirmó, en su biografía de Freud de 1924, que Freud debió de descubrir la sexualidad infantil en el curso de su autoanálisis. Freud leyó esta biografía con mucha atención y corrigió ciertos errores, pero nunca corrigió este, porque a mi manera de ver esta versión le convenía. Era completamente falsa, pero era el tipo de anécdota biográfica que habría tenido que ser verdadera en virtud de la teoría psicoanalítica.”

En tanto que historiador de las ciencias que ha estudiado los caminos de científicos eminentes como Copérnico, Galileo, Newton y Darwin, a menudo me he enfrentado a todo tipo de leyendas análogas. Desde este punto de vista, diría sin dudar que nunca en la historia de las ciencias una leyenda de orígenes ha sido desarrollada de manera tan elaborada como esta. El psicoanálisis es la única teoría en la historia de las ciencias que exige que su propia historia sea perfectamente coherente con la teoría elaborada por su inventor. (…) Desde un punto de vista historiográfico, este tipo de lógica circular puede ser muy nefasto. Si la teoría de Freud fuera cierta al cien por cien, se hubiera quizás podido hacer una buena historia con este enfoque conceptual. Pero, en la medida en que esta teoría es problemática, lo que se obtiene es forzosamente una historia en sí problemática – y más verosímilmente aun una historia complaciente y llena de defectos. Esta exigencia extraordinaria – que la historia de los orígenes de la teoría se explique por la teoría actual – ha creado a la historia del psicoanálisis un problema que nunca ha afrontado ninguna otra disciplina en la historia de las ciencias.”

El darwinismo triunfó; la gente se dio cuenta rápido de que Darwin tenía razón, y, hoy en día, ningún científico digno de ese nombre pone en cuestión la veracidad fundamental de la teoría evolucionista. Incluso si Darwin suscitó leyendas, éstas no fueron concebidas para proteger sus teorías, ni para inmunizarlas contra la crítica. En tanto que disciplina, el psicoanálisis nunca triunfó como lo hicieron las teorías de Darwin, y la leyenda freudiana ha continuado jugando un papel útil, políticamente hablando. Incluso hoy en día, los partidarios de la teoría psicoanalítica no dudan en utilizar indebidamente la historia para servir a sus propios intereses.

Sin embargo, no voy a decir que Fraud y sus discípulos se sentaran alrededor de una mesa y decidieran deliberadamente mentir sobre su historia. El proceso se hizo de manera mucho más sutil. En ciertos casos, estos diversos mitos fundadores que constituyeron la leyenda freudiana (he identificado a más de 20 en mi libro) eran casi inocentes puesto que, en el contexto de la teoría psicoanalítica, parecían perfectamente plausibles. Tales mitos, en cualquier caso, no eran en general explícitamente deshonestos. Pero sus formas de historia legendaria implicaban una ceguera masiva autoimpuesta. Desde el momento en que la ceguera autoimpuesta entra en juego, es siempre difícil estimar la parte de franca deshonestidad, como ha resaltado Allen Esterson a propósito de las conclusiones clínicas de Freud, que son a menudo de una falsedad flagrante. Es como preguntarse cual era la parte de deshonestidad en los agitados debates políticos que se mantenían en la Convención durante la Revolución francesa, cuando los diputados se caricaturizaban unos a otros y se condenaban mutuamente a la guillotina. Es importante comprender que cada parte creía en su propia propaganda. A.A. Brill describió la forma en que los primeros discípulos del hospital psiquiátrico de Burghölzli de Bleuler se analizaban entre ellos desde el momento en que uno solo de ellos hacía alguna cosa que se saliera de lo ordinario, como dejar caer una cuchara u olvidar su propio nombre.”

Los psicoanalistas parecen poseer efectivamente anticuerpos que los inmunizan a los cara a cara de la historia, sobre todo porque en psicoanálisis nada se considera que es lo que parece. El contenido <manifiesto> de los pensamientos y de los sueños, por ejemplo, nunca es más que una capa superficial y deformada del contenido <latente> u oculto. El trabajo histórico de un psicoanalista consiste a menudo en mostrar que aquello que un historiador no-psicoanalista ha podido escribir sobre tal o cual asunto – ya se trate de la historia del movimiento psicoanalítico o de cualquier otro aspecto de la psicohistoria – es erróneo.”

Si el principio fundador de un pensamiento ‘científico’ es que nada es lo que parece ser, se llega pronto a una situación en la que nada puede ser demostrado, ya que no te puedes fiar de nada (si no es lo que confirma lo que se creía ya). Supongamos que produzco un conjunto de documentos históricos sobre, digamos, una idea que Fraud habría sacado de Richard von Krafft-Ebing. Bien, el psicoanalista medio que tiende a defender la originalidad de Freud dirá: <¡Ah, esto no es más que una prueba superficial – una prueba del tipo ‘contenido manifiesto’! Freud utilizó de una forma radicalmente diferente esta idea que tomó prestada de Krafft-Ebing, puesto que Freud es un verdadero genio original, no un gorrón intelectual>.”

el psicoanálisis volvió a la escolástica y a la tradición medieval que precedían a la revolución científica, creando pequeños institutos privados en el seno de los cuales el saber podía enseñarse de forma dogmática y donde se enseñaba a los alumnos a superar sus ‘resistencias’ a la teoría.”

Es imposible esperar que un alumno, que ha pasado algunos años en las condiciones artificiales y en ocasiones confinadas del análisis didáctico y del que su carrera profesional depende del nivel de satisfacción de su analista en lo que concierne a su capacidad de superar sus ‘resistencias’, pueda tener los medios de defender su integridad científica contra las teorías y las prácticas de su analista. Cuanto más permanece en el análisis didáctico, menos es capaz de hacerlo. Puesto que según su analista, las objeciones del estudiante a sus interpretaciones revelan ‘resistencia’. En una palabra, hay una tendencia inherente a la situación del análisis didáctico a persistir en el error.”

Edward Glover

Él es directamente responsable de la privatización de la formación psicoanalítica, y esta privatización equivalía de dejar de poner a prueba la validez de sus hipótesis, en otros términos de rechazar los principios científicos conquistados tras dura lucha en el curso de los 4 últimos siglos y por tanto a rechazar las más importantes conquistas de la revolución científica.”

El psicoanálisis quizás fue una ciencia en 1895, quizás aun en 1900; pero a partir de 1915 o 1920 – es decir, en la época en la que hizo del análisis didáctico un elemento obligado de la formación psicoanalítica –, esta disciplina ya no podía pretender ser realmente científica. A partir del hecho de su modo de formación rígido, el psicoanálisis ha dejado de ser una ciencia, y cuando una disciplina deja de ser una ciencia, se convierte en una pseudo-ciencia.”

En los años 70, apareció un magnífico artículo escrito por George Weisz, consagrado a los aspectos sectarios del psicoanálisis, y creo que nadie hasta ahora ha tratado mejor este tema que este análisis penetrante. Incluso los propios discípulos de Freud, como Hanns Sachs o Max Graf, han evocado a menudo los aspectos sectarios de la comunidad psicoanalítica.”

2. LAS FALSAS CURACIONES

A) FREUD COCAÍNOTERAPEUTA – ISRAËLS

Antes de practicar el psicoanálisis, Freud realizó en efecto algunas experiencias con la cocaína: con la ayuda de este producto, intentó liberar a una persona de su dependencia de la morfina. Tenemos aquí uno de los raros casos en los que podemos controlar las afirmaciones de Freud concernientes a uno de sus tratamientos.”

algunos meses después del inicio del tratamiento, Freud escribía a su prometida que no se sentía bien y que, por esta razón, había pedido a Fleischl un poco de cocaína – una sustancia que, según Freud, su amigo consumía entonces regularmente.”

Algunos meses más tarde, Freud escribía a Martha que Fleischl había recibido una carta de un fabricante alemán de cocaína. El fabricante había constatado que Fleischl consumía mucha cocaína y le preguntaba lo que sabía de los efectos que producía. Es probable que el fabricante pensara que Fleischl la utilizaba para experiencias científicas. Fleischl había remitido al fabricante a Freud, y éste escribió a su prometida que esperaba sacar provecho de ese contacto con el fabricante. Parece que Fleischl utilizaba cantidades importantes de cocaína, pero a Freud – al decir de sus cartas – no parecía inquietarle mucho. No fue hasta 6 meses más tarde, cuando Freud escribió a su prometida que Fleischl iba muy mal. Estaba en una situación tal que Freud lo velaba de forma regular durante la noche. En mayo de 1885, un año después del inicio del tratamiento, Freud apuntaba en una carta a Martha que Fleischl sólo se mantenía con la ayuda de cocaína y morfina, y que había utilizado grandes cantidades de cocaína en los últimos meses. El consumo había sido tal que había provocado una intoxicación crónica que había acarreado un grave insomnio y una especie de delirium tremens. Fleischl sufría ataques de pánico. Creía sentir a pequeños animales circulando por su piel y se rascaba los brazos hasta sangrar. Iba tan mal que decía que se suicidaría en el momento en que sus padres murieran.”

Freud no demostraba ningún escrúpulo en presentar una terapia desastrosa como un éxito espectacular. Un investigador que comunica sus resultados de esta manera no merece ser tomado en serio.”

Gracias a las cartas de Freud a su prometida sabemos hasta qué punto embelleció sus resultados. Esas cartas se conservan en la biblioteca del Congreso en Washington, pero la mayor parte de ellas se mantuvieron en secreto hasta el principio de los años 2000. Una de las raras personas que pudo consultarlas antes de esa fecha es Ernest Jones, el biógrafo autorizado de Freud. Para conocer el tratamiento de Fleischl, puede leerse el primer tomo de su obra, aparecido en 1953.”

Freud escribió alrededor de mil cartas a su prometida. Solamente están publicadas un centenar. En éstas, no se dice nada del desarrollo dramático del tratamiento de Fleischl. Al principio de los años 90, pude leer la trascripción de 300 cartas no-publicadas. Sobre esta base, he podido reconstruir el tratamiento de Fleischl. He dado cuenta de ello, de forma detallada en mi libro Le Cas Freud, escrito en holandés, traducido al alemán y al español.”

B) EL MÉDICO IMAGINARIO – BORCH-JACOBSEN

Una de las razones por las que ha sido necesario tanto tiempo para hacerse una idea más precisa de la eficacia de los análisis practicados por Fraud es, evidentemente, que no se conocía la identidad real de sus pacientes. Protegido por el secreto médico, Freud podía pues permitirse escribir no importa qué, y sólo de forma muy progresiva la realidad ha salido a la luz, a medida que los historiadores conseguían identificar a las personas que se escondían detrás de los pintorescos nombres de Elisabeth von R., del Hombre de los lobos o del Pequeño Hans. En la actualidad es cosa hecha (sólo Miss Lucy R. sigue desafiando obstinadamente las investigaciones de los historiadores) se empezar a realizar un balance más realista de los resultados terapéuticos obtenidos por Freud.”

Anna von Lieben (…) Su hija hubo de declarar más tarde a Kurt Eissler, que la entrevistaba para los Archivos Freud, que la familia detestaba cordialmente a Freud (<lo odiamos todos>) y que la propia paciente se interesaba bastante menos por la cura catártica que por las dosis de morfina que el doctor le administraba liberalmente:”

De hecho, Ida Bauer no manifestó ningún signo de neurosis o de inestabilidad psíquica en su vida ulterior. En 1923, Felix Deutsch, el médico personal de Freud, escribía a su mujer Hélène que había encontrado a la <Dora> del Profesor y que <no tenía nada bueno que decir a propósito del análisis>

Según los cálculos de Stadlen, es <muy probable> que Ida Bauer, contrariamente a lo que escribe Freud, no tuviera más de 13 años en el momento de este episodio, lo que evidentemente convertiría su reacción en algo aun más comprensible (y los acosos pedófilos de M. Zellenka en francamente criminales a los ojos de la ley austriaca de la época); ver Anthony Stadlen, ‘Just how interesting psychoanalysis really is’, Arc de Cercle, An International Journal of the History of the Mind-Sciences. vol. 1, nº 1, 2003, p. 158, n. 29.”

La historia de la ‘enfermedad y curación’ del pequeño Herbert Graf no es una más, como la de Aurelia Kronich o la de Ida Bauer. Freud y su padre, Max Graf, derrocharon tesoros de ingeniosidad psicoanalítica para curarlo de lo que Fraud llamaba una fobia a los caballos, que se consideraba que provenía del complejo de castración del niño. Herbert, que parece haber tenido considerablemente más sentido común que sus 2 terapeutas, atribuía su miedo a los caballos y a los animales grandes a un accidente de ómnibus del que había sido testigo, en el curso del cual 2 caballos habían caído al suelo sobre sus espaldas. Con esta segunda hipótesis, bastante más simple y prosaica, no hay que sorprenderse de que las angustias con respecto a los animales del niño fueran atenuándose espontáneamente después de algún tiempo. ¡Lo sorprendente es que Herbert saliera indemne del espantoso interrogatorio edipiano-policial al que le sometieron su padre y Freud!”

sesenta años después, Pankejeff seguía siendo un sujeto con pensamientos obsesivos y accesos de depresión profunda”

Lo que es inexcusable es la constancia con la que pretendió obtener resultados profundos y duraderos mientras sabía pertinentemente que no tenía nada, incitando a innumerables pacientes a lanzarse a análisis largos y costosos en lugar de inclinarse por terapias menos ambiciosas y quizás más eficaces.”

C) ¿QUIÉN TEME AL HOMBRE DE LOS LOBOS? – SULLOWAY

Strachey dijo de este caso que era <el más documentado y sin ninguna duda el más importante de todos los casos históricos de Freud>. Es generalmente considerado por los psicoanalistas como un éxito terapéutico considerable.” “Gracias a los esfuerzos de una periodista austríaca, Karin Obholzer, que consiguió seguir el rastro del Hombre de los lobos en Viena a principio de los años 70, tenemos ahora acceso a las propias impresiones de éste sobre su análisis con Fraud.”

La teoría era, le decía a Obholzer, que Freud me había curado al cien por cien… Y por esa razón Muriel Gardiner me animó a escribir mis memorias.”

Los psicoanalistas son un problema, no hay ninguna duda en eso”

Cuando el Hombre de los lobos manifestó su deseo de emigrar a América para huir de esta situación costosa y desagradable, se le disuadió de su petición de forma repetida, aparentemente porque el movimiento psicoanalítico prefería procurarle un sostén financiero en Viena, donde vivía en el anonimato, antes de correr el riesgo de que este paciente célebre – y altamente neurótico – de Freud fuera descubierto en América. (¡Imagínenle a punto de <hablar de todo> en el plató de una de las grandes cadenas de televisión americanas!) Eissler y otros analistas desplegaron igualmente esfuerzos sostenidos para disuadir al Hombre de los lobos de que se entrevistara con Karin Obholzer, cuyos esfuerzos sólo tuvieron éxito gracias a su extraordinaria perseverancia y a la promesa que hizo a su informador, que tenía miedo, de no publicar sus entrevistas hasta después de su muerte. Estas entrevistas constituyen, podría decirse, la última protesta del Hombre de los lobos hacia las falsas promesas y las decepciones del psicoanálisis.”

Como demostró Eysenck, el fracaso del psicoanálisis en alcanzar las tasas superiores que se había fijado debería ser considerado como una prueba manifiesta de su fracaso teórico.”

D) EL ANÁLISIS INTERMINABLE, O CÓMO NO CURARSE POR MALAS RAZONES – STENGERS (entrevista em grupo)

(*) “En su libro El corazón y la razón, uno de esos raros libros que en Francia ha osado atacar de frente las pretensiones del psicoanálisis, la filósofa de las ciencias Isabelle Stengers y el psicoanalista-hipnoterapeuta [¡?] Léon Chertok han analizado el fracaso del proyecto teórico-terapéutico freudiano y la forma en que la comunidad analítica ha evitado extraer las consecuencias enorgulleciéndose de no curar a la gente de forma ilusoria (entendámonos: de forma contraria a la teoría analítica del momento).”

La grandeza de Fraud fue plantear el desafío de la ciencia en un terreno que escapaba de ella, intentando crear un fenómeno fiable a partir del cual una discusión fuera posible. Pero era aquí también donde debía forzosamente fracasar.”

En ese artículo de 37, Freud confiesa en términos muy claros el fracaso de toda su empresa, y es solamente, dicen ustedes, porque la comunidad psicoanalítica se organizó para disimular o minimizar las cosas, que no nos hemos dado cuenta de la enormidad de esa confesión del fundador del psicoanálisis.

Digamos que se puede leer esa confesión de 2 maneras. Se puede leer, y es lo que nosotros hicimos, como el último de los escritos técnicos de Freud. Desde este punto de vista, te preguntas verdaderamente por qué no figura al final del volumen que se considera que reúne en francés los escritos técnicos de Freud. Es evidente que es un texto que tiene la misma esencia, los mismos ingredientes que los demás escritos en los que Fraud presenta su técnica terapéutica. O, si se lo lee en continuidad con los demás escritos técnicos, lo único que podemos ver es una confesión de fracaso, totalmente claro y totalmente explícito. Fraud muestra con enorme insistencia que la relación de fuerza entre el paciente y el analista es desfavorable a este último, en el sentido de que todo lo que éste puede movilizar contra las resistencias del paciente no es suficiente, casi nunca para eliminarlas. Por tanto la técnica psicoanalítica no había cumplido sus promesas, decepcionó al viejo Fraud exactamente de la misma manera que la hipnosis le había decepcionado en los tiempos del inicio del psicoanálisis. Desde este punto de vista, este artículo traza una línea sobre el psicoanálisis, una línea verdaderamente final, y, si se lee desde esa perspectiva, como hicimos, es completamente evidente.”

Fue el factor cuantitativo, dicho de otra manera, la eficacia alegada de la cura psicoanalítica la que le sirvió para promocionar el análisis como una psicoterapia diferente a las demás. De repente, se dice que este ‘tenemos razón cualitativamente’ suena muy hueco. Flota en el aire, ya que ha perdido el apoyo que Fraud le había dado antes. En realidad, este ‘cualitativamente tenemos razón’ equivale simplemente a un ‘existimos y vamos a continuar existiendo’. Y es así como lo han entendido los psicoanalistas”

No se puede hablar de resistencia salvo en la medida en que se puede vencer a la resistencia, y es precisamente lo que pretendía Fraud al inicio, al hacer coincidir el análisis de transferencia, la curación y la prueba.”

Nuestra práctica es una estafa, embaucar [engañar], asombrar a la gente, deslumbrarla con palabras afectadas, o por lo menos eso que se llama habitualmente afectación. […] desde el punto de vista ético, nuestra profesión es insostenible; y desde luego por eso estoy enfermo, porque tengo, como todo el mundo, un superego. […] Se trata de saber si Fraud es o no un acontecimiento histórico. Yo creo que falló el golpe. Es como yo, en poco tiempo, todo el mundo se cachondeará [troçará] del psicoanálisis.

J. Lacan, extractos de una conferencia pronunciada en Bruselas el 26 de febrero de 1977 en Le Nouvel Observateur nº 880, septiembre 1981, p. 88. En su seminario del 15 de marzo de 1977 en París, Lacan matizaba lo que había soltado en Bruselas:

Creo que, como estáis informados por los belgas, habrá llegado a vuestros oídos que hablé del psicoanálisis como si pudiera ser una estafa. […] El psicoanálisis es quizás una estafa, pero esto no es una estafa cualquiera – es una estafa que cuadra en relación a lo que es significativo, es decir algo muy especial, que tiene efectos de sentido

in: Ornicar?”

3. LA FABRICACIÓN DE LOS DATOS PSICOANALÍTICOS

A) SCHREBER Y SU PADRE – SULLOWAY

El caso de Daniel Paul Schreber concierne a un magistrado alemán afecto de psicosis que Freud nunca contó, pero que analizó a partir de las Memorias que aquel publicó y en las que describía su enfermedad. Los numerosos defectos de su análisis han sido puestos en evidencia por los eruditos Niederland, Schatzman, Israëls y Lothane. Dos aspectos de este caso han sido significativamente reconsiderados por estos investigadores: la relación de Schreber con su padre y por otra parte su supuesta homosexualidad.”

Fraud, que ya había elaborado su teoría de la paranoia antes de tropezar con las Memorias de Schreber, ni siquiera se tomó la molestia de leer los trabajos del padre. Sin embargo, parece que hay una relación entre las alucinaciones del hijo (sensación de tener el pecho oprimido, la cabeza comprimida, los cabellos estirados) y varios aparatos cuya utilización recomendaba el padre para forzar a los niños a mantenerse derechos. Por ejemplo, Moritz Schreber alababa los méritos de un ‘enderezador’ que impedía que el niño se inclinara hacia delante cuando escribía o leía. El instrumento consistía en una barra horizontal fijada a la mesa frente al niño y que oprimía su pecho a la altura de los hombros y las clavículas. Otro aparato, el ‘soportador de cabezas’, animaba al niño a mantener derecha su cabeza tirándole del pelo cada vez que la dejaba caer. Se ignora si Daniel Paul Schreber fue alguna vez sometido a una de estas máquinas, pero Niederland y Schatzman han argumentado con razón que las alucinaciones, que Freud interpreta como signos de una homosexualidad reprimida, tienen una relación con los métodos de educación de su padre.”

Si Moritz Schreber era severo en el tema de la compostura de sus hijos y les imponía ideales sociales elevados, recomendaba también ser ‘alegre con el niño, hablarle, reír, cantar y jugar con él’, y subrayaba la importancia de hacerle a menudo elogios. Sobre todo, decía, no había que hacer del ‘niño el esclavo de una voluntad que no era la suya’. Algo que ni Niederland ni Schatzman mencionan.

Pero si Niederland y Schatzman deformaron efectivamente la figura del padre que era Moritz Schreber, Fraud fue mucho más lejos omitiendo pruebas concretas y determinantes de su personalidad y de sus convicciones pedagógicas. Si esta omisión se hubiera hecho por ignorancia, sería comprensible. Pero, en realidad, Fraud era muy consciente de ciertos hechos que contradecían sus afirmaciones con respecto al padre. En una carta notable a Sándor Ferenczi, escrita mientras trabajaba en el caso Schreber, describía a Moritz con los rasgos de un ‘tirano doméstico’. Sabía eso a través del doctor Arnold Georg Stegmann, un adepto del psicoanálisis que conocía no solamente a los diferentes psiquiatras que habían tratado a Daniel Paul Schreber, sino también a ciertos miembros de su familia. De forma sorprendente, Fraud suprimió esta información en su relato del caso, donde describe por el contrario a Moritz Schreber como un ‘padre excelente’.”

Fraud estaba deseoso de mostrar que la paranoia era causada por una homosexualidad reprimida y, en el caso preciso de Schreber, por un deseo homosexual reprimido hacia su padre. Antes de su enfermedad, Schreber no había dado prueba de inclinaciones homosexuales. Sin embargo, justo antes de una de sus hospitalizaciones, mientras estaba aun medio dormido, Schreber había sido súbitamente presa del pensamiento ‘particularmente extraño’ de que ‘debe ser muy agradable ser una mujer experimentando el acoplamiento sexual’.”

Lothane concluye después de un examen minucioso de las Memorias de Schreber que Fraud ‘manipuló los acontecimientos descritos por Schreber y los transformó para que correspondieran a su teoría’. Estas distorsiones incluían la imputación a Schreber de deseos homosexuales bajo los pretextos más dudosos y el silencio observado por Fraud sobre la rabia de Schreber contra su psiquiatra cuando éste le hizo internar en un asilo para incurables (Schreber había sido ya tratado y curado por ese mismo psiquiatra 10 años antes). Después de que su delirio se estabilizara en una serie de alucinaciones inofensivas, Schreber luchó varios años para obtener su salida del asilo. Utilizando brillantes argumentos jurídicos para su defensa, ganó finalmente la causa ante un tribunal alemán, a despecho de las protestas obstinadas del director del asilo.”

Fuera lo que fuera, Fraud evidentemente consideró que el retrato de un Moritz Schreber déspota y perseguidor de sus hijos sólo podía debilitar su hipótesis de una homosexualidad y de un complejo de Édipo invertido en el origen de la enfermedad del hijo. Un padre de tal manera superior, dice Fraud, era evidentemente propicio a su transformación en Dios en la memoria afectuosa de su hijo. En efecto, según Freud, es ‘el hecho de que la tonalidad del complejo paternal era positiva’ y ‘sin nubes’ lo que permitió finalmente a Schreber aceptar sus fantasías homosexuales y conseguir una curación parcial.”

B) EL HOMBRE DE LAS RATAS COMO ESCAPARATE DEL PSICOANÁLISIS – SULLOWAY

Incluso los relatos de casos atendidos por Freud más completos y aparentemente con éxito están manchados por ‘construcciones’ inciertas y por la ausencia de un seguimiento adecuado. El caso del hombre de las ratas ilustra particularmente bien esta afirmación. Fraud publicó esta historia porque le hacía falta demostrar al mundo que el psicoanálisis podía obtener resultados terapéuticos satisfactorios. Como el Hombre de las ratas había consultado previamente a Julius von Wagner-Jauregg, el eminente psiquiatra y colega de Fraud en la Universidad de Viena, su caso constituía una puesta a prueba decisiva de los dones terapéuticos de Freud. Antes del mes de octubre de 1908, cuando consagró una comunicación a este caso en el I Congreso de psicoanálisis de Salzburgo, no había publicado aun los resultados de un psicoanálisis con éxito. Por sorprendente que esto pueda parecer, no se sabía si había tenido éxito en los análisis después de que Dora huyera de su consulta en 1900. No tengo ningún caso terminado y que pueda ser considerado como un todo’, advertía a Carl Jung en una carta del 19 de abril de 1908, solamente una semana antes del Congreso de Salzburgo. Freud también había considerado presentar extractos del relato de caso del pequeño Hans, del que supervisaba en aquel momento el tratamiento. Pero el pequeño Hans rehusó ser curado en la fecha prevista, y el Hombre de las ratas se convirtió, parece ser que por defecto, en la primera comunicación pública de Fraud con respecto a una curación psicoanalítica.”

Lanzer – en tanto que rata y mordedor – tenía una fantasía inconsciente de relación anal con su padre y su amiguita. Este espantoso pensamiento, reprimido en el inconsciente por Lanzer, había sido la causa de sus síntomas obsesivos. Como análisis final, su motivo psicológico era la agresividad de Lanzer con respecto a su padre del que Freud pensaba, sobre la base de una reconstrucción psicoanalítica suplementaria, que había interrumpido la vida sexual precoz de su hijo y había amenazado con castrarlo. Según Freud, la comunicación de esta reconstrucción edipiana ‘había conducido a la restauración completa de la personalidad del paciente, y a la supresión de sus inhibiciones’.

Mahony ha puesto en evidencia numerosas e importantes contradicciones entre el relato de caso publicado por Fraud y sus notas de análisis encontradas entre sus papeles después de su muerte. Según Mahony, que es a su vez analista y que se adhiere a los principios del psicoanálisis, la versión del caso publicada por Freud presenta los hechos de forma ‘confusa’ e ‘inconsistente’, y comporta omisiones ‘flagrantes’. En particular, Fraud otorga una importancia exagerada al papel del padre en detrimento del de la madre. Mahony muestra además que Freud dio una apreciación engañosa de la duración del tratamiento de su paciente. Las notas del análisis revelan que Fraud siguió cotidianamente a su paciente durante apenas un poco más de 3 meses. El análisis fue irregular los 3 meses siguientes y a lo sumo esporádico después de eso. (De hecho, no hay ningún rastro de tratamiento pasados los 6 primeros meses.) Freud sin embargo pretendía haber tratado a su paciente ‘durante más de 11 meses’, lo que según Mahony es de hecho imposible y representa pues una distorsión ‘deliberada’ por su parte.”

Más bien, la relación entre la masturbación del Hombre de las ratas y la muerte de su padre fue en gran parte creada por Freud y no propuesta espontáneamente por su paciente por ‘libre asociación de ideas’. Con el fin de hacer su explicación aun más convincente, Freud suprimió la palabra ‘alrededor’ de la frase original (‘alrededor de 21 años’) e insertó las palabras ‘poco tiempo’ en la frase ‘después de la muerte de su padre’. En realidad, el padre había muerto 2 años antes, cuando Lanzer tenía 19 años.”

El Hombre de las ratas – curado o no – fue manifiestamente utilizado como un escaparate por el naciente movimiento psicoanalítico. Que le vaya bien a este título que este caso haya entrado en la historia (y que haya permanecido en los ojos de los fieles), es lo que muestra la conclusión de Peter Gay, según la cual ‘sirvió para apuntalar las teorías de Fraud, particularmente aquellas que postulaban que la neurosis está enraizada en la infancia… Fraud no era lo bastante masoquista como para no publicar más que un problema de ajedrez’.”

C) UN CIUDADANO POR ENCIMA DE TODA SOSPECHA – BORCH-JACOBSEN

Durante mucho tiempo, Fraud fue considerado como un ciudadano por encima de toda sospecha, cuya probidad y rigor no se sabría poner en cuestión. Pero, desde que la duda se instaló en cuanto a la fiabilidad de sus observaciones y relatos de casos, los historiadores no dejan de descubrir en sus textos anomalías muy alarmantes. Todo sucede como si hubiera sido necesario desembarazarse de la imagen idealizada del fundador para ver finalmente extravagancias que deberían de haber saltado a los ojos de no importa cual investigador un poco atento.”

Está claro que Fraud no dudaba un solo instante en modificar los datos a su disposición cuando éstos no coincidían con sus hipótesis, al estilo de un matemático ‘redondeando’ sus cálculos para tener un resultado justo. No es sorprendente, en estas condiciones, que sus análisis sean a menudo tan convincentes: ¡todo lo que podría contradecirlos había sido silenciosamente eliminado, o subrepticiamente modificado!”

El análisis de Fraud es muy satisfactorio para la mente, pero choca con un detallito testarudo: Fraud, que no era particularmente versado en historia del arte, verosímilmente no conocía el nombre de Boltraffio en el momento en que se dirigía en tren hacia Trebinje en Herzegovina, es decir, alrededor del 6 de septiembre de 1898. Según la minuciosa reconstrucción cronológica de Swales, no fue hasta varios días más tarde, con ocasión de una estancia en Milán entre el 14 y el 17 de septiembre, cuando pudo observar la estatua de Boltraffio bajo un monumento erigido por Magni en honor de Leonardo da Vinci, en la Piazza della Scala (se acordaba todavía en 1907 cuando el psiquiatra Paul Näcke le reprochaba, sin razón, haber deletreado mal el nombre del pintor). Fue también en Milán – exactamente el 14 de septiembre – cuando Freud adquirió el libro del famoso anatomista/historiador del arte Giovanni Morelli, Della pintura italiana, en el que se encuentra un pasaje sobre Boltraffio (al que le remite significativamente Fraud, en su respuesta a Näcke). Fue sin duda en esta ocasión cuando Fraud supo que Morelli (un autor de método con el que compararía más tarde el suyo) había legado su colección de pinturas del renacimiento a una escuela de arte de Bérgamo, ya que fue allí donde se presentó de improviso el 17 de septiembre después de dejar Milán. Entonces, recorriendo las piezas de la Galleria Morelli en el orden indicado por el catálogo, Fraud no pudo dejar de ir a parar a los números 20, 21 y 22:

Luca SIGNORELLl, Madonna col Bambino

Sandro BOTTICELLI, Ritratto di Giuliano dei Medici

Giovanni Antonio BOLTRAFFIO, Salvator Mundi

Como resalta Swales, la probabilidad de que obras de estos 3 pintores estuvieran colgadas en un mismo muro eran mínimas, dado el carácter relativamente oscuro de Boltraffio. En cuanto a las probabilidades de que Fraud reuniera en el pensamiento precisamente a esos 3 pintores 2 semanas antes de tropezar al azar con el mismo trío en Bérgamo, tienden a cero. A menos que admitamos una coincidencia tan sorprendente, debemos pensar que el episodio del olvido del nombre de ‘Signorelli’ y su reemplazo por ‘Boltraffio’ y ‘Botticelli’, si tuvo lugar como Fraud nos cuenta, data del 17 de septiembre o poco después (el 22 de septiembre, Fraud exponía ya el principio de su análisis a Fliess). Pero, si ese es el caso, la sustitución la sustitución de ‘Signorelli’ por ‘Boltraffio’ y ‘Botticelli’ se explica por simple contigüidad, sin que sea necesario hacer intervenir la compleja reflexión inconsciente alegada por Fraud. Esta es una construcción perfectamente gratuita y artificial, destinada a epatar [asombrar] a los lectores, y Fraud no podía ignorarlo en el momento en que lo comunicó a Fliess: ‘¿Cómo voy, pues, a hacer esto creíble a alguien?’. Sin duda esta es la razón por la que experimentó la necesidad de antedatar su olvido, colocándolo antes de su visita a Bérgamo: debía serle particularmente penoso reconocer que estaba inventando.”

¿pero y si Fraud y ‘Monsieur Aliquis’ fueran la misma la persona?” “El análisis de Swales fue durante tiempo (sic) muy controvertido, pero recibió recientemente una confirmación independiente de lo más sorprendente. Resulta en efecto, que el domingo 23 de septiembre de 1900, sólo un día antes de que Fraud anunciara a Fliess que iba a iniciar la redacción de la Psicopatología de la vida cotidiana, la Neue Freie Presse, el periódico que Fraud leía religiosamente todas las mañanas, había publicado un artículo del gran crítico danés Georg Brandes que evocaba largamente… la capilla de San Gennaro en Nápoles y el milagro de la licuefacción de la sangre – es decir, ¡el mismo milagro que Freud afirmaría incesantemente que había venido a la mente de un cierto ‘Monsieur Aliquis’ durante el verano anterior! Esta sorprendente coincidencia, revelada por Richard Skues, hay que ponerla en relación con el hecho de que Brandes, una de las grandes admiraciones de Fraud, había publicado una biografía de Ferdinand Lassalle a la que Fraud había tomado de prestado el epígrafe de su propia Interpretación de los sueños (Flectere si nequeo superos Acheronta movebo) y en la que se encontraba igualmente mencionado en buen lugar… el verso de Virgilio ‘Exoriar(e) aliquis…’, citado por Lassalle en uno de sus famosos discursos. Si se añade a esto el testimonio de Jung, según el cual Freud tenía la costumbre de citar este mismo verso, difícilmente podemos escapar a la conclusión de que el ‘Monsieur Aliquis’ de la Psicopatología de la vida cotidiana no es otro que el mismo Sigmund.”

Igual que en el caso del olvido del nombre ‘Signorelli’, el hecho de que Fraud omita señalar su lectura reciente del artículo de Brandes y proyecte el episodio del olvido a una fecha anterior demuestra bastante que intenta disimular la relación de otro modo flagrante entre los dos.”

Parece que pasa exactamente lo mismo con ciertas asociaciones citadas en el famoso análisis del ‘sueño de la inyección puesta a Irma’ que abre La interpretación de los sueños. Fraud había tenido ese sueño la noche del 23 al 24 de julio de 1895, y fue el primero, nos dice, que ‘sometió a una interpretación en profundidad’. Es por tanto poco probable que hiciera ese análisis ‘en profundidad’ el mismo día, ya que la interpretación de ese sueño que se encuentra en el Proyecto de una psicología enviado a Fliess 3 meses más tarde es extremadamente frustrante cuando se la compara con la propuesta en 1899 en La interpretación de los sueños. No solamente falta la teoría de la consecución del deseo, como ha observado Frank Sulloway, sino que se buscan en vano las múltiples asociaciones entrecruzadas que hacen el análisis de La Interpretación de los sueños tan eminentemente convincente.”

¿Hay que admitir entonces que añadió a posteriori asociaciones que no había hecho en 1895, con el fin de adornar su análisis y de dar una ilustración más impactante de su nuevo método de interpretación? No solamente es muy plausible, sino que Robert Wilcocks, un profesor de literatura comparada de la Universidad de Alberta, cree haber encontrado la prueba.

En el curso de su análisis del sueño, Fraud hace en efecto alusión a la difteria de su hija Mathilde, que había estado a punto de morir: ‘La mancha blanca (en la garganta de Irma) recuerda a la difteria y así la amiga de Irma, pero además la grave afección de mi hija mayor hace cerca de 2 años y todo el espanto de ese mal periodo’. Algunas líneas más adelante, Fraud asocia a su hija con una de sus pacientes, Mathilde Schleicher, a la que involuntariamente había causado la muerte al prescribirle Sulfonal. Lo que Fraud no menciona, pero que ciertamente jugó un papel en su asociación entre las dos Mathildes, es el hecho de que Mathilde Schleicher, poco antes de morir de una porfiria aguda causada por el Sulfonal, tenía la orina roja, al igual que la difteria de Mathilde Fraud había provocado albuminuria. (El tema de la albuminuria en la orina reaparece un poco más adelante en las asociaciones de Fraud, pero sin la referencia explícita a Mathilde Fraud.) ¿Entonces cuando había Mathilde Fraud había tenido una difteria seguida de una albuminuria? Gracias a la edición completa (es decir, no-censurada) de las cartas a Fliess, lo sabemos ahora: fue en marzo de 1897, es decir ¡2 años después del sueño de la inyección que le pusieron a Irma! Freud pues, interpoló en sus asociaciones un elemento que no pudo, evidentemente, jugar el menor papel en su sueño. El procedimiento es tan grosero que basta para poner en el ridículo más absoluto el método de interpretación de los sueños promovido por Fraud en sus célebres páginas.

Dada la importancia de lo que hay en juego, el hallazgo de Wilcocks fue objeto de una de esas disputas eruditas que agitan regularmente el pequeño mundo de los estudios fraudianos. Peter Swales y Richard Skues, entre otros, objetaron que no se puede excluir a priori que Mathilde Fraud hubiera estado afecta una 1ª vez de difteria (o de otra enfermedad falsamente diagnosticada como tal) en 1893, aunque no se encuentre por ninguna parte en la correspondencia de Fraud. Contrariamente a lo que afirmaba Wilcocks sobre la base de informaciones aportadas por colegas de la facultad de medicina de Alberta, es en efecto posible (aunque muy raro) reinfectarse una 2ª vez, y eso es lo que parece indicar una carta de Fraud a Fliess del 9 de noviembre de 1899, en la que escribía que ‘cuando Mathilde tuvo la difteria por 2ª vez’, un colega había preguntado al portero ‘si la hija de Fraud había muerto ya’. Esto, sin embargo, entra en conflicto con el testimonio unánime de los propios miembros de la familia Fraud.” “Si los investigadores retroceden de nuevo a partir de ahora frente a la desagradable hipótesis de la mentira, a Fraud se le concederá automáticamente el beneficio de la duda a pesar de haber equivocado a menudo a sus lectores. Por el contrario, es la desconfianza la que se convierte actualmente en la regla. Fraud ya no es un ciudadano por encima toda sospecha.”

D) EL HOMBRE DEL BUITRE: FREUD Y LEONARDO DA VINCI – ISRÄELS

Aê Urubuzada! Aê Milhafrada!

Basándose en un recuerdo de infancia, muy corto y curioso, Freud cree poder explicar varios aspectos de la personalidad de da Vinci, su genio científico y el hecho de que habría sido homosexual. [como se maioria dos italianos do renascimento não o fosse!] Después de la publicación de su libro Un recuerdo de la infancia de Leonardo da Vinci, el detalle del recuerdo sobre el que se basaba la demostración de Fraud se demostró inexacto. Sin embargo, Fraud no puso en absoluto en cuestión su interpretación. Puede deducirse que el razonamiento psicoanalítico tiene menos necesidad de material de lo que el propio analista pensaba en un principio. Incluso un pequeño detalle no es necesario: el psicoanálisis funciona igualmente bien cuando se basa en un hecho inexistente.”

Fraud no duda en hacer lo que ningún historiador del arte ha osado hacer. Afirma que da Vinci pasó los primeros años de su vida solo con su madre. Esta situación – vivir solo con una madre soltera durante los primeros años de la infancia – tuvo, según Fraud, consecuencias muy pesadas”

En el curso de un vuelo, el buitre abre su vagina y se hace fecundar por el viento. Esta leyenda egipcia fue utilizada por los Padres de la Iglesia para acreditar la creencia en la concepción de Jesús por María sin intervención de un hombre.”

Un chico que ha crecido viviendo solo con su madre se une a ella hasta un punto en que no querría, más adelante, serle infiel amando a otras mujeres. Se convertirá pues en homosexual. Fraud explica así por qué da Vinci debía ser homosexual.”

En 1923, el historiador del arte Eric Maclagan reveló que toda la construcción de Fraud se basaba en un error de traducción. Da Vinci había escrito que el ave de su recuerdo era un ‘nibio’ – que hoy en día se escribe nibbio. Resulta que un nibbio no es un buitre sino un milano. El milano no juega ningún papel en la mitología egipcia y no sirvió a los Padres de la Iglesia para hacer comprensible la concepción de Jesús por una virgen.” “En ruso, la palabra korshun designa igualmente a un buitre y a un milano. El traductor alemán había cometido el error de elegir el primero de esos dos términos. Pero poco importa, el psicoanálisis funciona incluso cuando se basa en cosas que no han tenido lugar”

Yo mismo he publicado las pruebas del hecho de que Fraud había sido perfectamente informado de la denominación correcta de la rapaz, un milano, pero no pudo por menos que continuar repitiendo la construcción elaborada sobre un buitre. Aquí como en otras ocasiones, Freud no se preocupó demasiado de la realidad de los hechos.”

E) ¿UN ERROR DE TRADUCCIÓN? – BORCH-JACOBSEN

Hasta el presente, se admitía generalmente que el error de Fraud a propósito del pretendido ‘buitre’ de Leonardo era imputable a las traducciones alemanas del pasaje sobre el nibbio a las que había tenido acceso, en particular la de Leonardo da Vinci, una novela histórica de la época próxima al siglo XV del escritor ruso Dimitri Sergeievitch Merejkovski. En esta biografía novelada que Fraud citaba en 1907 entre sus libros preferidos y que parece haber aportado el punto de partida de su investigación sobre Leonardo, nibbio en efecto había sido traducido en alemán como Geir (buitre) en lugar de Hühnergeier (milano) – un error del traductor, ya que el propio Merejkovski había traducido correctamente el término en ruso. Estamos por tanto tentados a pensar que es esta traducción de Merejkovski la que inicialmente lanzó a Fraud sobre una pista falsa. Esto, sin embargo, encaja mal con el hecho de que Fraud, en su ensayo, da su propia traducción del texto de Leonardo, citando por añadidura el original italiano en una nota, mientras que en el resto del texto cita sistemáticamente las traducciones alemanas cada vez que es posible.”

Como demostró Han Israëls en su artículo sobre Fraud y Leonardo, el pasaje de este último sobre el milano de su infancia se encuentra reproducido en 4 de las obras en alemán citadas por Fraud en su ensayo: la biografía de Merejkovski y las más académicas de Woldemar von Seidlitz, de Edmondo Solmi y de Marie Herzfeld. Si las traducciones de Merejkovki y de Solmi dan las 2 Geier, von Seidlitz y Herzfeld dan la traducción correcta”

Se sabe, en efecto, que Fraud, poco respetuoso con sus libros [haha], tenía la costumbre de señalar con un trazo vertical a lápiz verde o marrón los pasajes que le interesaban o que contaba con citar más adelante. Cualquiera puede pues, tomarse la molestia de ir al Freud Museum de Londres y consultar el ejemplar del libro de Herzfeld que se encuentra en la biblioteca de Fraud, con el fin de verificar por sí mismo si el gran hombre había o no prestado atención a la traducción propuesta por el autor. Abriendo el libro por la página V, en el lugar preciso donde se encuentra citado el pasaje de Leonardo sobre el Hühnergeier de su infancia, el escéptico podrá constatar con sus propios ojos que Freud trazó en el margen no uno, sino 2 trazos verticales con un lápiz marrón…”

El error de traducción de Fraud es un error completamente voluntario, deliberado. Al darse cuenta de que su construcción se rompía por un pequeño detalle incómodo, eligió mantenerla a despecho de todo, reescribiendo (retraduciendo) el recuerdo de Leonardo para que encajara con sus deseos teóricos. El procedimiento es tanto más extravagante en cuanto que Fraud, sin duda para cubrirse las espaldas en caso de que se le acusara de falsificación, reprodujo simultáneamente el texto original en italiano. ¿Cómo, en estas condiciones, podía esperar que su maniobra escapara durante tiempo a la detección? La impresión que se saca de este extraño episodio es la de un hombre tan firmemente convencido de su infalibilidad que no podía imaginar que la realidad se le resistiera. Difícil encontrar mejor ilustración a lo que el mismo denominaba la ‘omnipotencia de los pensamientos’…”

F) EL DIARIO DE UNA ADOLESCENTE DE LA DRA. HUG-HELLMUTH – ISRÄELS

En 1919, las Ediciones psicoanalíticas de Viena publicaban el diario de una adolescente: Tagebuch eines halbwüchsigen Mädchens. El autor permanecía en el anonimato. Igualmente, la persona que había aportado el documento a las Ediciones psicoanalíticas de Viena había deseado no desvelar su identidad. En el prefacio de la obra, esta persona citaba una carta de Fraud, que calificaba este diario de ‘pequeña joya’, porque en él, se encontraba descrito con una precisión excepcional el desarrollo de la vida sexual. La descripción, en efecto, era considerable: la evolución sexual de la joven correspondía punto por punto con la teoría fraudiana.”

En esos círculos, algunos dudaban de la autenticidad del texto, mientras que otros consideraban esas dudas totalmente fuera de lugar. Así, la célebre psicoanalista Helene Deutsch escribía, algunos años más tarde:

En lo que me concierne, estoy completamente convencida de la autenticidad del diario publicado por Hug-Hellmuth. Las descripciones son tan justas y vivas que sólo una chica joven ha podido vivir y escribir todo lo que se encuentra en él […]. El libro es de una veracidad psicológica tal que se puede decir que es una joya de la literatura psicoanalítica.”

En 22, un resumen de la traducción inglesa del Diario fue publicado en el British Journal of Medical Psychology. El autor del resumen era Cyril Burt entonces joven miembro de la Asociación inglesa de psicoanálisis. Por varias razones, emitía dudas en cuanto a la autenticidad de la obra: en ningún lugar encontraba el lector alguna dificultad de comprensión, no se revelaba necesaria ninguna nota explicativa, cada personaje era presentado brevemente cuando hacía su primera aparición, numerosos pasajes estaban hasta tal punto elaborados que el autor había tenido que consagrarles sin duda un mínimo de 5 horas diarias. Menos de 1 año después, la revista inglesa publicaba una carta de la Dra. Hermina Hug-Hellmuth. La psicoanalista revelaba que era ella quien había aportado el Diario al editor, subrayaba que era una persona respetada en el mundo del psicoanálisis y que conocía personalmente al profesor Fraud. Afirmaba con fuerza que el Diario era auténtico y que ella no había cambiado nada, aparte de nombres y lugares. Un pequeño comentario de Cyril Burt seguía a la publicación de esta carta. Burt explicaba que había escrito a Hug-Hellmuth antes de publicar su resumen y que había esperado durante mucho tiempo una respuesta. Hug-Hellmuth había terminado por escribirle que había estado ausente durante mucho tiempo, que la autora del Diario había muerto y que el manuscrito ya no estaba disponible. Esta respuesta terminó por convencer a Burt de que su resumen, entonces en la imprenta, podía aparecer sin modificaciones.

Bastantes años después, Cyril Burt se convirtió en un célebre psicólogo. No fue hasta después de su muerte cuando se desvelaron los fraudes que había cometido en investigaciones empíricas. Como en su caso, el engaño de Hug-Hellmuth no fue claramente establecido hasta después de su deceso.”

El engaño no fue definitivamente desenmascarado hasta 1926, 2 años después de la muerte trágica de la Dra. Hug-Hellmuth. Un cierto Josef Krug puso en evidencia que sucede frecuentemente, en el Diario, que entre los 2 mismos días de la semana el número de días no es un múltiplo de 7. Por otra parte, las fechas de una serie de días festivos son erróneas. Así, durante 3 años consecutivos, el día de Pascua, que se menciona, es en cada ocasión un día después del anterior. El prefacio de la 3ª edición menciona que los acontecimientos descritos se desarrollaron entre 1903 y 1907. En el Diario, el sistema de boletines escolares, que se menciona, no fue introducido en la enseñanza hasta 1908 (Josef Krug era maestro en una escuela de secundaria en Viena). El autor del Diario utiliza cabinas públicas de teléfono: en Viena, la primera de este tipo data de 1908. Está la cuestión de un grupo de oficiales de la Fuerza aérea: la primera aparición de un avión de caza austriaco data de 1909. Está aun la cuestión de un libro que no fue escrito hasta 1909. Krug podía pues concluir que el Diario ‘es solamente un documento psicológico, en el sentido en que testimonia la forma en la que muchos adultos se representan el mundo vivido por una niña que crece’.

La redacción de la revista que publicaba el artículo de Krug, señalaba que había pedido a los psicoanalistas una réplica y que su respuesta se publicaría en el número siguiente. No apareció ninguna réplica. Sin embargo, un año más tarde, las Ediciones psicoanalíticas hacían un llamamiento, en el boletín de las librerías alemanas, para recuperar todos los ejemplares de la obra aun a la venta, porque habían surgido dudas en cuanto a la autenticidad del texto.

A despecho de todo esto, la carrera del Diario no había terminado. Observemos la colección de libros de bolsillo del célebre editor alemán Suhrkamp. ¡Encontraremos desde 87 el mismo Tagebuch eines halbwüchsigen Mädchens! Si usted no conoce el libro y lo consulta, es poco probable que usted pueda descubrir que se trata de una superchería [fraude]. La portada del libro cita solamente un extracto del elogio escrito por Freud. La obra contiene un nuevo prefacio, escrito por Alice Miller, la célebre pedagoga antiautoritaria, autora de libros de éxito como el Drama del niño dotado. Según Alice Miller, los niños no son – como sugiere el psicoanálisis – pequeños monstruos del egoísmo; son los adultos los que se conducen demasiado a menudo de forma monstruosa, malsana e hipócrita. Según ella, la educación se reduce frecuentemente al aprendizaje de la hipocresía y de la mendacidad que caracterizan el mundo de los adultos.” “En el prefacio, puede leerse que la obra desapareció de las librerías alemanas en 27, pero la verdadera explicación no se aporta. Sin embargo se sugiere una razón: el autor escribe que el diario había sido ‘prohibido en Inglaterra porque constituía un peligro para las buenas costumbres’.” “En Inglaterra, la obra sobrevivió a todas las controversias. Una segunda edición vio la luz en 36 y una tercera en 52, disponible hasta los años 70. En la contraportada de esta 3ª edición puede leerse, en negrita: ‘La obra no es una novela, sino lo que pretende ser: un diario no reelaborado y no expurgado’. En esta edición, no aparece el nombre de Hug-Hellmuth, ni una evocación de las dudas concernientes a la autenticidad del Diario. Apareció en una colección donde se encuentran obras de Fraud y de otros psicoanalistas. Manifiestamente, en el mundo psicoanalítico, Hug-Hellmuth no era la única que, por una buena causa, no dudaba en engañar conscientemente al público.”

4. ¿LA ÉTICA DEL PSICOANÁLISIS?

(*) “¿por qué los psicoanalistas piden precios tan superiores a los de otras psicoterapias? ¿por qué insisten tan a menudo en cobrar en efectivo? ¿por qué el psicoanálisis ha sido siempre, en lo esencial, un asunto de gente con fortuna (y por tanto bien situada)? y ¿por qué las instituciones psicoanalíticas reciben tan a menudo legados y donaciones de pacientes reconocidos? es esta cuestión particularmente explosiva del dinero y del abuso de poder (undue influence) ejercido por los psicoanalistas el que plantea el historiador Peter Swales, destruyendo de una vez por todas el mito del desinterés del buen doctor de Viena.”

FREUD, LUCRO Y ABUSO DE PODER

Mi estado mental depende muy fuertemente de lo que gane. Para mí, el dinero es como un gas hilarante” F.

Los editores de las cartas a Fliess, Marie Bonaparte, Anna Freud y Ernst Kris, suprimieron las alusiones al ‘pescado de oro’ para designar a su paciente, y al ‘gas hilarante’ para designar al dinero – así como las citas anteriores sobre los ‘negros’ –, con el pretexto de que no tenían razón de ser en una biografía científica.”

un día conocí la extrema pobreza y tuve angustia de ella. Si esta ciudad me concede medios confortables de subsistencia, verá, mi estilo mejorará y mis ideas serán más precisas.”

Es sin duda verdad – como afirma Alexandre, el hermano más joven de Freud – que, más adelante en su vida, Freud exageró las privaciones que había sufrido en su juventud.”

intentó escapar de esa pobreza sórdida, precipitar su matrimonio y salvar su carrera en la investigación pura reclutando gloria y riqueza por sus trabajos sobre el alcaloide de la cocaína. Pero la mala suerte quiso que fracasara totalmente, de entrada cuando se vio adelantado por un colega en el importante descubrimiento de uso de la cocaína como anestésico en cirugía local, después cuando un amigo, al que había intentado deshabituar de la morfina dándole cocaína, se convirtió de hecho en dependiente de ambas sustancias.”

en 87, Freud empezó a tratar a Frau Anna von Lieben, baronesa de nacimiento y esposa de un célebre banquero, que era una de las mujeres más ricas de Viena. Aproximadamente en la misma época, parece que empezó a atender a Frau Elise Gomperz, que se había casado con un tío de Anna von Lieben y se había convertido así en miembro de una de las familias más influyentes de Viena y de la vecina Moravia. Poco después, Fraud empezó el tratamiento de Frau Fanny Moser, la viuda de un industrial de origen ruso y suizo, reputada como una de las mujeres más ricas de Europa central. Así, apenas 2 o 3 años después de haber abierto su consulta médica, Fraud se había de hecho convertido en el psicoterapeuta de algunas de las mujeres más ricas del mundo, gracias al prestigio relacionado con su asociación con Charcot, a las recomendaciones de sus padrinos Josef Breuer y Rudolf Chrobak, pero también a Hermann Nothnagel, Richard von Krafft-Ebing y Moriz Benedikt.

En otoño de 87, Anna von Lieben fue remitida a Fraud por Breuer, el médico internista de esta última, y Chrobak, su ginecólogo: para ambos había llegado el punto de no saber qué hacer con esa cuarentona obesa, histérica, a la que ningún médico había conseguido realmente satisfacer, por no hablar ya de ayudarla. Inmediatamente, el joven doctor se puso a la tarea, y le insinuó sus buenos oficios rindiéndole visitas cotidianas en su lujosa residencia del centro de la ciudad. Pero, a continuación, noche y día durante 6 años, Fraud se encontró progresivamente a las órdenes de su paciente. En efecto, 2 veces al día, estaba obligado a calmar las crisis emocionales explosivas por medio de sesiones de sugestión bajo hipnosis, conversaciones interminables, e inyecciones de morfina – hasta tal punto la paciente devoraba prácticamente a su médico, que le amenazaba con interrumpir sus vacaciones de verano en el campo con mujer e hijos. Freud expresó así sus frustraciones en una carta de 1889 a su cuñada, Minna Bernays, después de que le sacaran de la cama la noche anterior: ‘El coloso piensa siempre únicamente en sus nervios, y simplemente no entiende de otra cosa’. La sumisión crónica de Freud a su dominadora formaba parte de una dependencia simbiótica, ya que, para él, la mujer continuaba representando la gallina de los huevos de oro. En 1890, escribió a Fliess para declinar la invitación de éste para ir a Berlín explicando: ‘Mi principal cliente atraviesa justo en este momento una especie de crisis nerviosa, y puede que durante mi ausencia, su estado mejore’.”

Varios miembros del círculo familiar sospechaban desde hacía tiempo que Fraud no era más que un charlatán ávido de llenarse los bolsillos gracias a los ingresos sustanciales que le procuraba el tratamiento de una aristócrata inmensamente rica. Al no constatar ningún signo de mejoría – y temiendo que ciertamente su hipernerviosismo fuera de origen iatrogénico [culpa del propio tratamiento] –, se opusieron categóricamente a esas interminables sesiones cotidianas. Así, quizás no fue accidental que, algunos meses más tarde, dado que el estado de esta mujer no había mejorado demasiado desde su primer encuentro con Freud 6 años antes, la locura a 2 terminó, sin duda a instancias de la familia o de la propia paciente, y a pesar del consejo de Freud.”

Quemado con Breuer, sin duda el médico internista más respetado y más próspero de la ciudad, ya no podía contar con las recomendaciones de este último. No es sorprendente que a continuación, ese año, decepcionado por sus ingresos, Freud imagine poder mejorar de manera drástica su situación material con su nueva teoría según la cual la única fuente de la histeria reside en los abusos sexuales de la primera infancia. Sin embargo, demasiado pronto, debió rendirse a la evidencia de que los ensayos en los que proclamaba su gran descubrimiento eran acogidos con un silencio burlón por sus colegas médicos.”

En febrero de 97, cuando un colega de más edad le anunció que, de acuerdo con otros 2 colegas, tenía la intención de someter una demanda de promoción en su favor al ministro de Educación, tuvo razones para esperar que sus ambiciones fueran por fin a ser recompensadas. Pero, al mismo tiempo, Fraud sabía que era mejor no confiarlo todo a eso, ya que el antisemitismo se hacía cada día más fuerte y corrompía insidiosamente el clima político. Podía aparentemente ganarse aun correctamente la vida con los largos tratamientos de sus ricas pacientes neuróticas – por lo menos mientras que le pudieran llegar de países como Rusia, Polonia, Hungría y Rumania. Pero seguía inquietándose por la manera en que podría alcanzar los 2 objetivos y estaba ansioso a propósito del futuro. En verano de 98, se planteó, de forma quizás no tan frívola, ser invitado a Rusia durante 1 año para atender al zar, al que había diagnosticado a distancia como afecto de ideas obsesivas, y pensó que eso le reportaría tanto dinero que tendría la posibilidad no sólo de viajar, sino de seguir atendiendo a sus pacientes ‘por nada’.”

As confissões mais degradantes e sórdidas vêm sempre das cartas censuradas a Fliess: “El pescado de oro (Marie von Ferstel, de soltera Torsch, una pariente lejana de mi esposa) ha mordido el anzuelo, pero disfrutará aun de su libertad hasta finales de octubre, ya que por el momento se queda en el campo”

Para el hombre muy ambicioso que era Fraud, era como si la humanidad rechazara la iluminación que el ofrecía – con su Interpretación de los sueños, pero también con su teoría de la histeria –, como si hubiera fracasado en dejar su pisada en el mundo y en reclutar la gloria y la riqueza que, según él, se le debían.”

Yo mismo me sentiría extremadamente feliz cambiando 5 felicitaciones por un caso conveniente, susceptible de ser seguido de un tratamiento prolongado. He aprendido que el Viejo Mundo está gobernado por la jerarquía mientras que el Nuevo Mundo lo está por el dólar. Por primera vez, me he sometido a ella, y tengo derecho de esperar una recompensa. Si el efecto producido sobre círculos de influencia más grandes es tan prodigioso que sobre círculos restringidos, entonces tengo razones para la esperanza.”

De novo, F. a Fl.

Que Fraud pasara sus vacaciones con su mujer y sus hijos no era en sí un problema, ya que una calurosa amistad se estaba anudando entre la baronesa, su marido y los miembros de la familia Fraud, hasta tal punto que los hijos de Fraud estaban invitados a festejar la Navidad en casa de ella. Pero, según el profesor Renée Gicklhorn de la Universidad de Viena, cuya informadora era una sobrina de la paciente, al estarse enamorando la baronesa de Fraud y, actuando bajo su influencia, le había cedido, por acta notarial, una villa en el campo cerca de Viena, quizás en Perchtoldsdorf, con el fin de consolidar la seguridad financiera de sus 6 hijos. Fraud, como está documentado, revendió la villa poco tiempo después.

Según Gicklhorn, la familia de Marie von Ferstel estaba ferozmente opuesta a que su entusiasmo por Fraud continuara. Después de que ella le ofreciera la villa – que pertenecía a sus bienes personales –, sus padres le bloquearon el acceso al patrimonio inmobiliario de la familia, de tal suerte que ella ya no tuvo medio de pagar los honorarios de su tratamiento.”

Ser calumniado y consumido a causa del amor que es nuestro útil de trabajo – tales son los riesgos de nuestro oficio, que ciertamente no vamos a abandonar a causa de lo que ellas cuenten.”

En septiembre de 02, Fraud envió un ejemplar de su Interpretación de los sueños al célebre Theodor Herzl, con la esperanza de que el folletinista hiciera un comentario del libro en el importante periódico de Viena, Neue Freie Presse. Pero Herzl emitió reservas, diciendo que no se sentía competente para hacerlo.”

Fraud, el especialista en enfermedades nerviosas, se autoproclamó desde entonces psiquiatra y, como los miembros de su nuevo movimiento dirigían una campaña sistemática en su favor, afirmó su hegemonía sobre este reino – y, por extensión, sobre el campo de la psicología en su conjunto. A pesar de su éxito y del aumento significativo de sus ingresos, siguió fundamentalmente insatisfecho por su situación financiera: el dinero, como resalta en una carta de Carl G. Jung en 1909, era <el complejo que supero menos bien, por razones que se remontan a mi infancia>.”

Estoy absolutamente desolado de que no podáis estar conmigo. Pero para disfrutar de todo esto con vosotros… hubiera sido necesario que no fuera psiquiatra y que no fundara una nueva escuela, sino que fuera fabricante de productos útiles como el papel higiénico, las cerillas o los cordones para los zapatos. Es demasiado tarde ahora para cambiar de oficio, así que continúo – egoístamente pero de hecho, a disgusto – disfrutando de todo esto solo.”

Tres años más tarde, en un ensayo titulado Algunas recomendaciones sobre la técnica del psicoanálisis, Freud abordó la cuestión de los honorarios, un tema que omitirá profundizar más en la obra publicada – de una forma bastante lamentable, hay que resaltarlo, recomendaba a los practicantes adoptar desde el principio una actitud muy franca. Debían convenir expresamente, con audacia y sin escrúpulos, honorarios suficientemente elevados para que los clientes potenciales tuvieran la impresión de que la prestación que se les proponía tenía valor. A la <pregunta molesta> de la duración del tratamiento – una cuestión <a la que, de hecho, es casi imposible responder> – Fraud respondía que un analista podía solamente dar garantías del hecho de que duraría <más tiempo del que preveía el paciente>. Freud mantenía que los honorarios elevados estaban justificados por el hecho de que, independientemente de la duración del tratamiento, el psicoanálisis mantendría su promesa de partida: la curación de la neurosis. Era por tanto con consideraciones terapéuticas en mente que recomendaba esta actitud interesada; después de todo, la reducción progresiva del tamaño de la cartera o de los bolsillos del paciente podía actuar como potente motivación para sentirse mejor. En virtud de este razonamiento y de la idea de que el pago de honorarios permite mantener la relación entre el doctor y su paciente sobre un plano estrictamente profesional, el psicoanalista estaba entonces por la fuerza de las cosas ante la imposibilidad de seguir a pacientes por caridad – algo que, de todas maneras, teniendo en cuenta el tiempo empleado, hubiera sido fuertemente perjudicial para sus ingresos.”

Con la inflación y la reducción de su clientela durante la Primera Guerra Mundial, Freud perdió todas sus economías y, a pesar de las sumas de dinero enviadas por un rico cuñado de América, temió al fin de la guerra estar completamente arruinado. Preocupado esencialmente por cuestiones materiales, Fraud se puso a soñar que podría obtener el Premio Nobel. Pero, en 1919, para su sorpresa, empezó a recibir visitantes de Gran Bretaña, América, Suiza, que estaban ávidos de conocer sus teorías, y estaban dispuestos a pagar por psicoanálisis prolongados, cada uno en su moneda de origen y comparativamente no-devaluada.”

A principios del año 1921, Horace Frink, un psiquiatra muy conocido, decidió quedarse algún tiempo en Viena para seguir un psicoanálisis, y Fraud reconoció instantáneamente en él a un hombre perfectamente adaptado para tomar la dirección del movimiento psicoanalítico en el Nuevo Mundo. Frink tenía a una esposa amante y 2 hijos jóvenes, pero, después de varios años, mantenía una familiaridad indebida con una paciente, Angelika Bijur, heredera de una familia de banqueros, casada a su vez. En el curso de las primeras semanas de análisis, Fraud intentó convencer a su alumno de que estaba enamorado de su paciente. Dejando caer la amenaza de que, si no, Frink se convertiría en homosexual y que Bijur tendría una depresión nerviosa, les presionó para divorciarse de sus respectivos esposos y casarse, de manera que Frink pudiera obtener la gratificación sexual y el amor que no había podido encontrar con su mujer. Al principio, Frink se resistió a los esfuerzos de persuasión de Fraud, pero, después de transcurridos 6 meses en el diván legendario, se unió a la opinión del gran Menschenkenner. Anunciando a su mujer el fin de su matrimonio, le pidió a Bijur que se casara con él, lo que ella aceptó, con gran enfado del cornudo de su marido.”

Al rehacer una biografía de Freud más moderna, <para nuestro tiempo>, Peter Gay, el actual guardián del sueño de este mundo hinchado de sueños que es el psicoanálisis, relega lo esencial de la historia de Frink a una nota a pie de página y disculpa a Freud como actuando <con la mejor voluntad del mundo pero también con una forma de arrogancia despreocupada>, siendo esta última verosímilmente <inconsciente>. Además, en una entrevista, desaconseja juzgar demasiado severamente a Fraud a propósito de los acontecimientos de 1921-22: <La mayor parte de ellos se desarrollaron en 1923-1924 [¿?]. En esa época, Freud había sabido que tenía un cáncer y pensaba que quizás muriera.> De hecho, después del inicio del siglo, Fraud cobraba el equivalente a $10/h – unos honorarios muy elevados para la época – y veía de 8 a 10 pacientes por día, en general 6 días a la semana; después de saber que tenía un cáncer en 1923, no veía más que a 5 paciente por día, pero dobló sus honorarios hasta $20, que había que pagar en divisas extranjeras. Desde entonces, las consultas le reportaban al <león> alrededor de 500 dólares por semana – el equivalente actual a un poder adquisitivo 10x superior –, y lejos de él la idea de rehusar los demás legados y regalos de sus <negros>. Jones declara que Fraud defraudaba probablemente en sus impuestos, algo ampliamente extendido en aquella época en Austria. Lo hizo ciertamente omitiendo declarar sus honorarios y derechos de autor pagados en divisas extranjeras y depositados en 1 o 2 cuentas bancarias en la Haya, en Holanda.”

Anotações do diario de Ferenczi (aspas sempre de F.): “Los paciente son basuras (ein Gesindel)”, “buenos sólo para sacarles dinero y para ser considerados como objetos de estudio”, “no podemos un ningún caso ayudarlos”, “es posible que el psicoanálisis no tenga ningún valor terapéutico”…

Los propagandistas de la doctrina fraudiana no pusieron en cuestión, al menos oficialmente, este autorretrato altruista de Fraud. Al contrario, con el tiempo, construyeron y embellecieron el mito del héroe y trabajaron activamente en su deificación en un verdadero Moisés de la cultura moderna. Después de todo, describir a Fraud como un investigador desinteresado, de una integridad a toda prueba, servía para autentificar y legitimar la empresa psicoanalítica desde un punto de vista no solamente científico, sino también ético. Se daba así a entender al público no-iniciado que los psicoanalistas, al igual que su maestro cuyo retrato estaba habitualmente colgado en los muros de sus consultas, eran ellos también profesionales devotos de la salud mental, sin intenciones ocultas y teniendo en su corazón los intereses de sus pacientes. A la luz de los datos históricos y en particular de las informaciones contenidas en la correspondencia privada de Fraud, junto con otros documentos que fueron exhumados o que se hicieron accesibles después de su edificación, este retrato del médico y del científico con motivaciones irreprochables y con una conducta sin tacha debe ser inmediatamente descolgado. Funditus.

En efecto, el fenómeno del <abuso de poder> (undue influence) – se trate de donaciones, legados, análisis interminables, relaciones sexuales con los pacientes o de la actual imitación mutuamente consentida de recuerdos de la 1ª infancia – es virtualmente endémica en una profesión que, después de todo, debe su propia existencia y su propagación a una plétora de personas crédulas, dispuestas a pagarse el lujo de abdicar de su soberanía mental en otro y tentando demasiado a menudo desesperadamente descargarse de la responsabilidad moral del naufragio de su vida. Estas personas colaboran, de buen corazón o sin darse cuenta de lo que les pasa, con un grupo muy organizado de profesionales interesados, que están persuadidos del valor de su título, ciegamente convencidos de haber superado sus <represiones> después de años de tratamientos costosos y de tener una intuición especial de trabajo íntimo de la mente del que es privado en general, el no-iniciado. Pero una evocación así del papel profundamente nocivo del <abuso de poder> en la historia psicoanalítica moderna – un tema raramente abordado en la literatura profesional, aunque sea removido de vez en cuando por los periodistas – sobrepasaría el alcance de este ensayo, que quiere ser únicamente una contribución a los estudios freudianos. Quizás estas páginas tengan al menos algún valor para el gran público en tanto que constituyen un consejo y un cuento moral.”

SEGUNDA PARTE

¿POR QUÉ EL PSICOANÁLISIS HA TENIDO TANTO ÉXITO?

1. A LA CONQUISTA DEL MUNDO

A) ESPLENDOR Y DECADENCIA DEL PSICOANÁLISIS – EDWARD SHORTER (traducción de Violaine Guéritault)

A medida que el psicoanálisis se desarrollaba como movimiento, 2 tipos de médicos le prestaron atención: los psiquiatras, que trabajaban en asilos psiquiátricos, y los neurólogos que ejercían en privado (Prácticamente no existían psiquiatras privados antes de la I Guerra mundial; la psicoterapia dependía del terreno de competencia de los neurólogos.)”

Todo el mundo está de acuerdo en el hecho de que fue Angelo Hesnard, un estudiante de Régis, el que introdujo el psicoanálisis en Francia en 1913 publicando una serie de artículos en L’Encéphale.

El psicoanálisis estuvo de moda en París hacia 1925, en la época en que Eugène Minkowski se convirtió en uno de los fundadores de la publicación L’Évolution psychiatrique, el órgano principal del grupo vagamente pro-psicoanalítico del mismo nombre, y cuyas bases filosóficas descansaban en los escritos de Henri Bergson y en la fenomenología de Edmund Husserl.”

Desde 1914, Karl Bonhoeffer, profesor de psiquiatría en Berlín, introdujo, en los exámenes de sus estudiantes, preguntas del tipo: ‘¿Cuál es el papel que representa el psicoanálisis en la psiquiatría?’ Después de la guerra, el aprendizaje del nuevo ‘seelische Behandlung’ hacía furor entre los jóvenes psiquiatras y neurólogos. Alrededor del año 1925, estaba muy de moda hablar de su ‘Minko’ (es decir su Minderwerligkeitskomplex, o complejo de inferioridad) en las veladas de alto copete de Berlín.

Irónicamente, fue en los Estados Unidos, país habitualmente indiferente a las influencias europeas, donde el psicoanálisis se expandió más. Esta tendencia se explica fácilmente por la fuerte emigración a Nueva York, Washington y Los Ángeles de analistas alemanes y austríacos perseguidos consecutivamente en sus propios países tras el ascenso del nazismo.” “50 de los 250 psiquiatras alemanes que emigran a los Estados Unidos después de 1933 son psicoanalistas, y de gran renombre para algunos.

Un sondeo efectuado años más tarde (1980) identifica entre los 10 analistas más reputados del país a 8 emigrados entre los cuales Heinz Hartmann, Ernst Kris y Erik Erikson. Se deduce de otro sondeo realizado mucho antes que los psiquiatras interrogados sobre a qué colegas juzgaban particularmente influyentes en la profesión colocaban a Anna Freud en cabeza de la lista, sin contar que casi todos los nombre citados eran psicoanalistas.”

Todos estos programas universitarios orientados al psicoanálisis ejercieron una gran influencia sobre los psiquiatras americanos que no eran en ese momento psicoanalistas (solamente el 10% de ellos lo eran) pero cuya orientación profesional estaba basada en la psicodinámica. Dos tercios de los psiquiatras americanos en 1970 parecían utilizar el ‘Enfoque dinámico’. El psiquiatra canadiense Heinz Lehman, también emigrado, decía mucho más tarde: ‘Entre 1930 y 50, el modelo psicosocial reinaba como un dueño absoluto en los Estados Unidos. Cualquier otro enfoque había desaparecido y eras juzgado como anacrónico, simplista y sin ninguna cultura si pensabas que la fisiología, bajo la forma que fuera era capaz de aportar respuestas a las cuestiones esenciales. Eso no tenía ningún sentido, y ciertamente no osabas emitir este tipo de ideas’.”

Incluso la tradición de la patología del cuerpo, tan influyente en Europa a lo largo del siglo XIX, tenía aun su lugar después de la Segunda Guerra mundial (mientras que había desaparecido casi totalmente en los Estados Unidos) y conducía a ciertos descubrimientos como la base biológica del síndrome de La Tourette.”

Pasó en seguida una cosa sorprendente. Al final de los años 60, la corriente de pensamiento psicoanalítico conoció una verdadera recrudescencia en Francia, en Alemania, en Italia así como en otros países europeos. Los acontecimientos de mayo de 68 en Francia sirvieron de trampolín a esa recuperación del interés en el psicoanálisis. Cuando los jóvenes estudiantes de medicina furiosos ocuparon el despacho de Jean Delay, exigieron el fin de los tratamientos con electrochoques (uno de los raros tratamientos en psiquiatría verdaderamente eficaces), así como la integración del psicoanálisis en el programa de medicina y en los hospitales. En Holanda, en 65, el anuncio de que el psiquiatra Hermann Van Praag, conocido por sus trabajos en psicofarmacología, venía de los Estados Unidos para abrir un servicio de psiquiatría biológica en Groningen fue vivido como un verdadero drama por los intelectuales de la época. Cuando en 77 Van Praag, conocido con el nombre de ‘Señor Psiquiatría biológica’, se convirtió en titular de una cátedra en Utrecht, la reacción fue aun más violenta ya que recibió amenazas de muerte. En Italia, donde se mostró poco interés en enfoques del tipo ‘psicología de las profundidades’ antes de los años 60, el psicoanálisis se identificó prácticamente con la psiquiatría (y sigue siendo el caso hoy en día: Italia parece una especie de museo de la psiquiatría de los años 60, en donde se oye aun hablar de Fraud en la prensa y en donde se lee que (…) todos los hospitales psiquiátricos han cerrado sus puertas).

¿Cuál es la causa de este ascenso tardío en el poder del psicoanálisis en países que o bien habían sostenido la dictadura de Hitler, o la habían padecido? Se puede entender fácilmente el espíritu de rebelión de los años 60, marcado por el rechazo a la autoridad médica, a los asilos de alienados y al poder que tenían los psiquiatras de disponer de la libertad de sus pacientes.”

Entre los activistas de los años 60, el simple término ‘psicopatología’ inspiraba desprecio, como si la patología en cuestión residiera en la mente y no en el cuerpo del paciente. Franco Basaglia, psiquiatra italiano reputado por sus opiniones a propósito de la psiquiatría, hablaba con desdén de las corrientes ‘antropofenomenológicas’ que simbolizaban todo lo que le parecía erróneo en la psiquiatría institucional tradicional. Basaglia, adepto convencido de la psiquiatría social y comunitaria, no se adhería particularmente al psicoanálisis. Sin embargo, tanto los analistas como los activistas sociales estaban de acuerdo con el hecho de que las enfermedades psiquiátricas no existían y que sólo los problemas personales y sociales exteriores debaten a la gente entre la buena salud y la enfermedad.” “Es así como las doctrinas de Fraud conocieron un resurgimiento importante en esa época, porque representaban una terapia de elección para los intelectuales. Y los activistas de los años 60, apasionados por Marx y Marcuse, formaban ciertamente parte del grupo.”

La historia de la psicofarmacología debuta en París con el descubrimiento en 1952 en el hospital Val-de-Grâce de un compuesto químico, la clorpromazina producida por Rhône Poulenc, cuyos efectos sobre las ‘manías’ eran espectaculares. Jean Delay y su asistente Pierre Deniker sometieron a la clorpromazina, a punto de ser comercializada bajo el nombre de Largactil, a una serie de test clínicos y se dieron cuenta de la extraordinaria eficacia de este medicamento en las psicosis. La clorpromazina, el primer neuroléptico, tenía la ventaja de calmar a numerosos pacientes haciendo desaparecer sus alucinaciones sin tener que administrarles tranquilizantes. Después de 52, un amplio mercado farmacológico se abrió a la comercialización de los antidepresivos (el primero, la imipramina, hizo su aparición en 57); de ansiolíticos (el primero, la benzodiacepina, Librium, cuya apelación genérica es clordiazepóxido, se comercializó en Estados Unidos en 60 y en Francia en 61); y de los timoreguladores (el litio se comercializó en los años 60)”

La terapia por electrochoques se demostró muy eficaz en el tratamiento de los trastornos del humor.”

La primera versión de este manual que ponía el acento en las ‘reacciones’ psiquiátricas descritas por el psiquiatra Adolf Meyer de la Universidad John Hopkins apareció en 1952; una segunda edición, redactada bajo la influencia del movimiento psicoanalítico que describía todos los trastornos como ‘neurosis’, se publicó en 1968. Finalmente, en 1980, la 3ª edición del Manual diagnóstico y estadístico de los trastornos mentales, también llamado DSM-III, hizo su aparición. Al contrario que las ediciones precedentes, el DSM-III se pretendía absolutamente agnóstico en lo que concernía a las causas de los trastornos mentales.” DESCONFIE!

(Una versión francesa de la edición siguiente, DSM-III-R (1987), se publicó en 1989 bajo el nombre: Manuel diagnostique et statistique des troubles mentaux.)” Versão Remis Deluxe

A partir de 90, los analistas abandonan prácticamente por completo ciertas neurosis como los trastornos obsesivo-compulsivos (o TOC) – dejados desde entonces en manos de la psicofarmacología y de las terapias comportamentales y cognitivas – y se interesan por la patología de la personalidad, y en la ocurrencia de trastornos de la personalidad que no están reportados en el DSM.”

O resultado é que, não importa o que tenhamos, estamos todos fodidos.

Es un poco como la última persona que aprenda esperanto. ¿Quién será el último en ser psicoanalizado? Preguntaba Adam Gopnik en el New Yorker. Es parecido al cómo ‘lo vivió el primer hombre en ser hipnotizado o en ser sangrado con sanguijuelas. O aun como el último hombre… en llevarle a un alquimista un trozo de plomo con la esperanza sincera de poder transformarlo en oro’.”

Szasz, The Myth of Psychotherapy

B) PSICOANÁLISIS, MARCA REGISTRADA – SONU SHAMDASANI (traducción de Marie Olivier)

El 29 de noviembre de 93, la revista Time ponía en portada la pregunta siguiente: ¿Ha muerto Freud? Sus partidarios y sus detractores están por lo menos de acuerdo en un punto; el psicoanálisis está actualmente en declive; el lugar esencial que ocupaba en otro tiempo en la psiquiatría americana ha sido eclipsado por el auge de los medicamentos psicotropos, y cada vez más compite peor en el mercado con la plétora de psicoterapias, ayudas sociopsicológicas u medicinas alternativas.” A Time já ficou famosa por assassinar pessoas ou entidades extemporaneamente, pergunte ao Ozzy!

La publicación de la obra de Henri Ellenberger El Descubrimiento del Inconsciente constituyó el desencadenante decisivo. Pasando revista a la historia del psicoanálisis del siglo XX, nos enfrentamos a un problema: ha sido sin cesar reformulada y adaptada a las psicologías y tradiciones intelectuales de cada país, aunque a fin de cuentas a menudo no tiene gran cosa que ver con la obra de Fraud.”

en la Historia del psicoanálisis en Francia de Elisabeth Roudinesco, los psicólogos y psiquiatras no-freudianos se describen en general como oscurantistas que pasaron de lado por esa ruptura epistemológica que representaba el psicoanálisis: éste constituye para la autora una verdad con valor de axioma.”

A continuación de Ellenberger, Sulloway demostró como el movimiento freudiano había construido una leyenda heroica muy elaborada alrededor de la persona de Freud, leyenda indispensable para la ascensión del psicoanálisis.”

Freud y sus sucesores minimizaron invariablemente la herencia de la hipnosis en el psicoanálisis y se extraviaron proclamando una gran ruptura epistemológica con la era de las terapias basadas en la hipnosis y la sugestión.”

Bernheim, considerando simplemente a la hipnosis como un estado exacerbado de sugestibilidad, favorecía el uso terapéutico de la hipnosis y de la sugestión, uso que enseguida se generalizó. El término ‘psicoterapia’ se convirtió en intercambiable con el de ‘hipnosis’.”

Hay que ganarse completamente la confianza del paciente a través del afecto e inmiscuyéndose en su vida mental; hay que simpatizar con todos sus sentimientos, hacerle contar su vida, revivirla completamente con él, y ‘entrar en las emociones’ del paciente. Pero nunca hay que perder de vista el aspecto sexual, que difiere enormemente de una persona a la otra, y que puede constituir un peligro real… Hay que comprender que no es suficiente con aplicar el examen clínico clásico, que consiste en prestar atención a la emisión de esperma, al coito y al embarazo; es necesario tomar muy en cuenta todas las regiones del intelecto, del humor y de la voluntad, que están más o menos asociadas a la esfera sexual. Una vez hecho, conviene definir en grandes líneas un objetivo adecuado para el paciente, y lanzarlo por ese camino, con energía y seguridad.” Forel, Hypnotism

Las recomendaciones de Forel se parecen mucho a las que Freud llamará más adelante la regla fundamental del psicoanálisis: la libre asociación y el ‘análisis de resistencias’. Freud conocía bien la obra de Forel ya que la había compendiado.”

Bernheim puso en cuestión el estatuto ontológico de los resultados presentados por Charcot; se trataban según él de artefactos, que, en lugar de revelar la naturaleza de la hipnosis y de la histeria, eran simplemente el resultado de las sugestiones de Charcot. Para Bernheim, las experiencias de Charcot no podían reproducirse fuera de su entorno específico. Freud, que había asistido a las conferencias de Charcot durante el invierno de 1885, se aprestó a defender la objetividad de las observaciones del profesor de París” “Freud indicó en su justa medida las consecuencias que resultarían del abandono de este punto de vista: el hipnotizador podría generar cualquier sintomatología, y el estudio de la hipnosis no revelaría otra cosa que el proceso arbitrario que llevaría a la producción de las diferentes nosografías o entidades mórbidas. § El punto de vista que Freud se empleaba en descartar era precisamente la conclusión adoptada por William James en 1890. Este sostenía que las propiedades atribuidas al trance eran producto de la sugestión.”

Toda particularidad propia de un individuo, toda manipulación que se manifieste accidentalmente en un sujeto, puede, al llamar la atención, convertirse en un estereotipo y servir de modelo para ilustrar las teorías de una escuela. El primer sujeto de la experiencia ‘forma’ al hipnotizador, que a su vez forma a los sujetos siguientes, y todos contribuyen así de buena fe a la elaboración de un resultado perfectamente arbitrario.” James

James y Delboeuf estimaban que las escuelas de hipnotismo se habían convertido en verdaderas máquinas de influenciar y de generar pruebas. El hecho de que se pueda presentar con ostentación diferentes características como constitutivas de la esencia de la hipnosis y que estos resultados sean confirmados por otros indicaba que el propio modo de institucionalización estaba sometido a los efectos de la hipnosis y la sugestión, que no podían ser neutralizados. Para Delboeuf y James, los conflictos que oponían a las diferentes escuelas eran insolubles ya que ninguna de ellas podía aportar pruebas que apoyaran su propia teoría. Todas estas escuelas ‘tenían razón’ – en la medida en que podían aportar casos que justificaran sus teorías – pero eso llevaba a negar el estatuto universal reivindicado por esas teorías. Lo que se ponía en cuestión era la posibilidad de una metodología clínica que permitiera aportar bases para una psicología general.”

Freud se había extraviado cometiendo precisamente los errores predichos por Delboeuf y James. El problema no era la falta de pruebas (ni la necesidad de fabricarlas) sino el exceso de pruebas. § Sin embargo, si Freud modificó a continuación sus teorías de la histeria y de las neurosis, siguió unido a la idea de que el encuentro clínico podía aportar una base objetiva de pruebas para una psicología general.”

Las teorías freudianas no serían hoy más conocidas que las de Delboeuf si Freud no hubiera agrupado a su alrededor un grupo de discípulos. En 1902, algunos (Alfred Adler, Max Kahane, Rudolf Reitler y Wilhelm Stekel) empezaron a reunirse regularmente alrededor de Freud.” “Algunos años más tarde, la situación evolucionó. Freud supo por Eugen Bleuler, el sucesor de Forel en el Burghölzli, que estudiaban su obra. Fue con la llegada de Jung y de la escuela de Zurich cuando el movimiento psicoanalítico se hizo verdaderamente internacional.”

El modelo de enseñanza abierta practicado en el Burghölzli contribuyó mucho a la propagación del psicoanálisis. Sin embargo, escapó rápidamente a la estructura feudal que había puesto en pie Freud.”

Psiquiatras como Ludwig Frank y Dumeng Bezzola (dos estudiantes de Forel) defendieron el tratamiento catártico de Breuer y Freud contra los desarrollos ulteriores del psicoanálisis freudiano.”

Fraud pretendía que la técnica psicoanalítica no podía aprenderse en los libros y que sólo alguien competente en este terreno podía enseñarla.” Foi a primeira coisa que meu psicanalista falou quando entrei na sala, à 1ª sessão.

Como han establecido los historiadores, las nociones de discriminación o boicot contra el psicoanálisis pertenecen a la leyenda heroica del movimiento. En efecto, fue en función de la política freudiana cada vez más aislacionista frente a la psiquiatría y a la medicina en general por lo que Bleuler se dimitió de la API en 1911.”

La institución de un análisis didáctico jugó un papel crucial aportando una base financiera para la práctica privada del psicoanálisis haciendo atrayente esa profesión.”

Siegfried Bernfeld recuerda que numerosos miembros de la Asociación experimentaban la necesidad de un análisis, pero no deseaban confiar sus secretos a un analista que viviera en la misma ciudad que ellos. Así, se invitó a Hanns Sachs, que vino a Berlín a analizar a los analistas.”

Ernst Falzeder resalta que los institutos de Berlín, Budapest, Londres y Viena ‘eran dirigidos por miembros del comité secreto, que ejercían pues no sólo un control político sobre el movimiento psicoanalítico, sino también una influencia directa sobre los futuros analistas en formación’.” “Cuando alguien se alejaba de la ortodoxia, había dos formas de actuar: la expulsión pura y simple de los disidentes, o lo que se podría llamar una gestión de crisis interna: se autorizaban las innovaciones considerándolas como subcorrientes legítimas de la teoría psicoanalítica. Lo que resulta chocante es que el juicio de secesión o de subcorriente legítima, realizado sobre un desarrollo particular, no dependía en principio del alejamiento más o menos grande de la teoría psicoanalítica; en efecto, a medida que las instituciones se hicieron más sólidas, se autorizó una mayor latitud. Lo irónico del caso, en muchos aspectos, es que las posiciones heréticas defendidas por Adler, Jung, Rank y otros son mucho más acordes con la principal corriente psicoanalítica de hoy en día que con la ortodoxia de la época.” “Son las mismas ideas que permitieron a los psicoterapeutas continuar llamando a su disciplina ‘psicoanálisis’ y a la profesión subsistir, aunque Fraud los denunciara como heréticos.”

cuando se estimó que la obra de Rank se alejara demasiado de la ortodoxia psicoanalítica, fue tratado de enfermo mental por Brill, excluido de la Asociación americana y los analistas que le habían formado tuvieron que dimitirse o ser reanalizados por un analista ortodoxo”

Es la eficacia de las estructuras institucionales del psicoanálisis la que le ha otorgado una notoriedad tal que los debates culturales sobre la nueva psicología se formulan en lenguaje psicoanalítico.”

Es un desprecio al asunto de la naturaleza de estas sustituciones lo que condujo a la extrema exageración actual de la importancia del psicoanálisis en la cultura del siglo XX.”

El éxito de estas escuelas concurrentes, que adoptaron las mismas estructuras institucionales que el psicoanálisis haciéndolas más accesibles, contribuyó en gran medida al estado del psicoanálisis hoy en día: está completamente sitiado.”

el sujeto preferido de la investigación psicoanalítica es el bebé: un sujeto incapaz de testimoniar verbalmente y por tanto de contradecir las construcciones analíticas. Más en serio, las escuelas psicoanalíticas concurrentes – desde el análisis jungiano hasta la terapia de regresión a vidas anteriores – detentan por igual múltiples ‘pruebas’ en forma de testimonios en primera persona, y si se considera como válida una de ellas, difícilmente se pueden rechazar las otras formas a falta de criterios para diferenciarlas.”

Estos testimonios, subrayémoslo, no son simples relatos de sujetos sobre acontecimientos particulares que les han sucedido, sino relatos en los cuales los propios sujetos afirman haber sufrido una transformación. En este sentido, estos testimonios se parecen a los relatos de experiencias religiosas como las estudiadas por James.”

B) UNA TEORÍA CERO – BORCH-JACOBSEN

Si la validez de una teoría se midiera por el rasero de su éxito cultural, deberíamos tener en cuenta a las diversas religiones entre las teorías científicas.” “Se dirá incluso que el ascenso del psicoanálisis al principio del siglo XX correspondió a la propagación del darwinismo, o bien que aportó una ideología a la sociedad capitalista y al individualismo moderno, o bien que sirvió de refugio a los decepcionados del marxismo”

es precisamente porque está perfectamente vacía, perfectamente hueca, que esta teoría pudo propagarse como lo hizo y adaptarse a contextos tan diferentes.” “El psicoanálisis no existe – es una nebulosa sin consistencia, una diana en perpetuo movimiento.”

¿Qué tienen en común las teorías de Freud y las de Rank, de Ferenczi, de Reich, de Melanie Klein, de Karen Horney, d’Imre Hermann, de Winnicot, de Bion, de Bowlby, de Kohut, de Lacan, de Laplanche, de André Green, de Slavoj Zizek, [¡] de Julia Kristeva, de Juliet Mitchell? Mejor aun, ¿qué hay en común entre la teoría de la histeria profesada por Freud en 1895, la teoría de la seducción de los años 96-97, la teoría de la sexualidad de los años 1900, la segunda teoría de las pulsiones de 14, la segunda y la tercera teoría de las pulsiones de los años 20? Basta con consultar no importa que artículo del Diccionario del psicoanálisis de Laplanche y Pontalis (https://seclusao.art.blog/2020/02/01/glossario-psicanalitico-ou-a-fantastica-fabrica-de-casos-ou-ainda-novela-das-nojeiras-e-sujidades-das-biografias-dos-psicanalistas-ate-aqui-2001-por-falta-de-dados-mais-atuais/)¹ para darse cuenta de que el ‘psicoanálisis’ ha sido desde el inicio una teoría en renovación (o en fluctuación) permanente, capaz de tomar las curvas más inesperadas. § La única cosa que permanece constante, es la afirmación del inconsciente, acoplada con la pretensión de los psicoanalistas de interpretar sus mensajes.”

¹ É uma miscelânea de trechos marcantes tanto do DICIONÁRIO de Roudinesco quanto do dicionário (no Brasil impresso como VOCABULÁRIO DA PSICANÁLISE) de Lap. & Pont..

El analista puede por consiguiente hacer decir al inconsciente lo que quiera, sin temor a ser desmentido ya que el inconsciente no habla más que a través de él (y que el testimonio de los pacientes, en cuanto a él, se descalifica como ‘resistencia’). De ahí los múltiples conflictos de interpretación que surgieron inmediatamente entre los primeros psicoanalistas: allí donde Freud decía Edipo, otros decían Electra; allí donde decía libido, otros decían pulsión de agresión o inferioridad de órgano; allí donde decía complejo paternal, otros decían complejo maternal o traumatismo del nacimiento.”

A parte de todo esto, lo que firma el carácter pseudo-científico del psicoanálisis a los ojos de un falsacionista como Popper es precisamente la razón de su increíble éxito. La teoría psicoanalista al estar perfectamente vacía, es también a la vez, asombrosamente adaptable.”

¿Tal o cual aspecto de la teoría se demuestran difícilmente defendibles, o incluso francamente embarazosos, como la relación establecida por Freud entre neurastenia y masturbación, por ejemplo, o el ‘deseo de pene’ considerado como el rector de la sexualidad femenina, o el carácter de ‘perversión’ de la homosexualidad? Bien, basta con dejarlos caer silenciosamente y sacar un nuevo conejo teórico de la chistera inagotable del inconsciente. Esto es lo que los psicoanalistas gustan de describir como ‘progresos’ del psicoanálisis, como si cada analista se adentrara más allá en el continente del inconsciente, rectificando los errores de sus predecesores. De hecho, cada escuela de psicoanálisis tiene su propia idea de lo que es el progreso, vigorosamente contestada por las otras, y buscaríamos en vano en esas disputas lo que podría ser un desarrollo acumulativo. Desde este punto de vista, nada ha cambiado desde las monumentales disputas entre Freud y Adler, Jung, Stekel, Rank, Melanie Klein o Ferenczi. Lo que se presenta como un ‘progreso del psicoanálisis’ no es nunca más que la última interpretación hasta la fecha, es decir la más aceptable en un determinado contexto institucional, histórico y cultural.” “Al no ser nada en particular, puede evadirse de todo. El psicoanálisis es como el símbolo cero del que habla Lévi-Strauss: es un ‘truco’, una ‘máquina’ que puede servir para designar no importa qué, una teoría de la vida en la que sea lícito rellenar con lo que se quiera.”

¿Se objetaba desde todas partes a Freud su insistencia con la sexualidad? ¿Que eso no se sostiene?, desarrolla la teoría del narcisismo y del análisis del yo, tomándolas silenciosamente prestadas de algunos de sus críticos (Jung, Adler). ¿Las neurosis traumáticas de la guerra de 1914-18 había demostrado que se podían sufrir síntomas histéricos por razones no-sexuales? Freud saca inmediatamente de su chistera la teoría de la compulsión de repetición y de la pulsión de muerte. A menudo se alaba a Freud por haber cambiado sus teorías cuando se percataba de que estaban siendo invalidadas por los hechos (Clark Glymour, Adolf Grünbaum), pero se confundía el rigor falsacionista y el oportunismo teórico”

Encontramos ese mismo oportunismo en sus sucesores. Cuando los emigrados vieneses llegaron a los Estados Unidos, la primera cosa que hicieron fue enmendar la doctrina promoviendo una ego psychology compatible con la psicología del desarrollo de la época. Inversamente, cuando el positivismo de Freud se demostró difícil de vender a un público europeo imbuido de fenomenología y dialéctica, los partidarios de la reforma hermenéutica del psicoanálisis (Habermas, Ricoeur) decidieron que se trataba de una ‘automalainterpretación’ por su parte, que bastaba simplemente con rectificar. El mismo Lacan dejó caer el biologismo freudiano en provecho de un concepto de ‘deseo’ entendido como pura negatividad, adecuado para complacer a los lectores de Alexandre Kojève y a los ‘existencialistas’ de los años 50, después de lo cual mezcló eso con las teorías de Saussure y de Lévi-Strauss cuando el estructuralismo invadió las ciencias humanas. En nuestros días, los narrativistas americanos no creen en la ‘verdad histórica’ de lo que les cuentan sus pacientes, ya que se han hecho irresolublemente post-modernos y no se comprometen más que por los relatos y la ‘verdad narrativa’. Sus colegas ‘terapeutas de la memoria reencontrada’, por el contrario, vuelven a la veja teoría de la seducción del fundador y exhuman en sus pacientes recuerdos de abusos sexuales infantiles perfectamente conformes a las predicciones de las feministas americanas radicales de los años 80. En cuanto a los más astutos, esbozan en la actualidad un acercamiento entre psicoanálisis y neurociencias, con el fin de no perder el tren del siglo XXI.”

Hace decir al inconsciente lo que cada una de sus clientelas quiere escuchar, creando en cada ocasión un pequeño universo terapéutico en el que la oferta corresponde exactamente a la demanda. Que haya tantos universos de este tipo como demandas no es de ninguna manera preocupante para el psicoanálisis ya que es precisamente así como se propaga y sobrevive a su propia inconsistencia teórica. (…) nunca ha habido ‘psicoanálisis’, solamente una miríada de conversaciones terapéuticas tan diversas como sus participantes.”

C) LITERATURA, CINE Y PSIQUIATRÍA: UN JUEGO DE ESPEJOS – JEAN COTTRAUX

En otros tiempos, todo discurso de ingreso en la Academia francesa debía hacer el elogio empurpurado al cardenal Richelieu; ahora todo artista debe rendir homenaje a Freud, verdadero Danubio del pensamiento. Poco a poco, el psicoanálisis se ha convertido en el Conservatorio nacional superior de los clichés. Rindámosle, al menos, esta justicia: sólo ha conseguido imponer su manierismo a artistas que ya no saben donde buscar inspiración.”

Uno de los primeros surrealistas, Émile Malespine afirmaba: ‘Para comprender a Freud, colóquense los testículos en forma de gafas’. Numerosos surrealistas estaban próximos al Partido Comunista que consideraba al psicoanálisis como una práctica por lo demás burguesa. Tristan Tzara que había tenido contactos con la escuela psicoanalítica de Zurich escribió en el manifiesto Dada de 1918: ‘El psicoanálisis es una enfermedad peligrosa, adormece las inclinaciones antirreales del hombre y sistematiza la burguesía’. Este era el clima de atracción-repulsión que marcó las relaciones del psicoanálisis con los artistas de este movimiento particularmente inventivo.”

A partir de 1919, los surrealistas pondrán en funcionamiento los procedimientos de escritura automática originales. Al contrario que Janet, consideran la actividad automática como una actividad superior que permite alcanzar la fuente de la creación poética liberada de la tiranía de la razón.”

El psicoanálisis no sería verdaderamente comprendido hasta después de la publicación de la traducción de Psicopatología de la vida cotidiana en 1922, después de la Interpretación de los sueños traducida al francés bajo el título: La Ciencia de los sueños,¹ en 1926. Anteriormente, Breton sólo había leído documentos de segunda mano, y algunos artículos dispersos de Freud. Los surrealistas no leían alemán.”

¹ Achei que isso tinha sido idéia de Lacan…

Freud contaba mucho más con Henri René Lenormand, un escritor francés hoy olvidado, para propagar la causa freudiana en Francia. A pesar de su descontento, Breton apoyó el psicoanálisis, pero con la boca pequeña.” A propósito, o leitor está convidado aos meus destaques e à minha crítica de Breton em:

https://seclusao.art.blog/2020/12/22/manifesto-of-surrealism-andre-breton-1924/.

René Crevel, aunque psicoanalista, hizo de él una crítica virulenta: Un uniforme para un maniquí abstracto. La revista El surrealismo al servicio de la Revolución abrió una rúbrica titulada: las tonterías psicoanalíticas. Podía encontrarse allí una referencia al libro del psicoanalista René Laforgue, El Fracaso de Baudelaire, con el siguiente comentario: Predominancia de la Imbecilidad.”

René Crevel, ainda que psicanalista, fez uma crítica virulenta à psicanálise: Um uniforme para um manequim abstrato. A revista O surrealismo a serviço da Revolução abriu uma rubrica intitulada: as tolices psicanalíticas. Podia-se encontrar ali uma referência ao livro do psicanalista René Laforgue, O Fracasso de Baudelaire, com o seguinte comentário: Predominância da Imbecilidade.”

Breton tuvo también influencia sobre Lacan. Varios conceptos faro del lacanismo: la dialéctica del deseo, el imaginario y el inconsciente estructurado como un lenguaje, parecen inspirarse en 2 obras del papa del surrealismo”

La irreverencia de los surrealistas les permitió resistir a la tiranía de la teoría psicoanalítica, como a otras tiranías. Sacaron el mejor partido que pudieron de los trabajos de Janet y de Freud, para construir sus propios métodos de exploración de las fuentes escondidas de la metáfora. Hacían más bien su miel con trabajos alucinados sobre el espiritismo y dirigieron una carta de felicitaciones a los videntes. Enviaron, igualmente, una carta de insultos a los médicos de los asilos psiquiátricos, considerados incapaces de entender otra cosa en el delirio que una ensalada de palabras.” Muito bom ler ese trecho justamente ao som de Welcome Home (Sanitarium)!

Un verdadero poeta ve siempre más allá de la punta de su pluma.”

El psicoanálisis nació al mismo tiempo que el cine. La primera película que tuvo un escenario psicoanalítico vio la luz en contra de la opinión de Freud, al que el cine no le gustaba demasiado. Con la aprobación de Karl Abraham, G.W. Pabst realizó una película muda: Los Misterios de un alma (1926). En ella se cuenta la historia de un hombre obsesionado por el impulso de matar a su mujer. Esta película no tuvo éxito e implicó una ruptura entre Fraud, que aparecía en genérico en contra de su voluntad, y Karl Abraham.¹ Menos tímidos, 2 surrealistas, Luís Buñuel y Salvador Dalí realizaron un film onírico mucho más acabado: Un perro andaluz, en 1929, cuya primera imagen era la de un ojo cortado por una navaja de afeitar.”

¹ O “nervos-suscetíveis”!

La época clásica va desde la invención del cine hablado en 1929 a 1962: en esta época la imagen del psiquiatra es, en general, positiva. Es la imagen del liberador o del oráculo. Es objeto de burlas pero con ternura y sobre músicas peripuestas. El film emblemático de esta época es Amanda de Mark Sandrich (Carefree 1938). El psicoanalista, representado por Fred Astaire, es un amable charlatán que se aprovecha de su situación para seducir a sus pacientes y se encuentra atrapado en el juego del amor. Puede también tener el papel dramático de un liberador que ayuda a una paciente a salir de una situación traumática y a reencontrar su identidad: es el caso de Montgomery Clift, en De pronto el último verano de Joseph L. Mankiewicz (1959). En fin, llega a exhibir el aspecto barbudo de un clon de Freud, que parte, en compañía de su alumna Ingrid Bergman, en busca del vacío de la memoria donde se encuentra la verdad de la historia de un desdichado neurótico. Es lo que cuenta Hitchcock en La Casa del doctor Edwards (Spellbound, 1945), en la que la gran escena onírica lleva la firma de Salvador Dalí.

La época moderna debuta en los años 1960: la imagen del psiquiatra se degrada, y ya no se cuenta más que con psicoanalistas locos. Este tema se observa en Pulsiones de Brian De Palma (Dressed to Kill, 1981), donde un psicoanalista que tiene un desdoblamiento de personalidad se traviste para matar a mujeres jóvenes que se portan mal. Antes de ser desenmascarado, mata a una de sus clientes, interpretada por una Angie Dickinson madura, que le cuenta sus ‘líos’ con amantes encontrados al azar en las calles de Nueva York, algo que él no puede soportar. En esta época, aparece otro cliché en el cine americano: en diferentes escenarios, los psicoanalistas tienen relaciones sexuales con sus pacientes.

En la era postmoderna, en los años 1990, la imagen del psicoanalista de deconstruye aun más, y su identidad se hace cada vez más borrosa. Ya no es una referencia y se distingue mal de sus pacientes. A cambio, se le adjudica a menudo un policía bueno que lleva por el buen camino y juega el papel de embajador de la realidad. El psiquiatra polar a la francesa nos pasea alegremente por este juego de espejos. El mejor film de este género sigue siendo: Mortel Transfert (2001) de Jean- Jacques Beineix.”

Welcome to the Jung, le psychanaliste, sucesso da banda Édipos & neuRoses.

Paul Bourget es sin duda el primer novelista francés en hablar del psicoanálisis en Némésis, en 1918. Lenormand, en 1922, escribe una pieza sobre el psicoanálisis: El Comedor de sueños, que tuvo un gran éxito en Francia y Suiza. Roudinesco, psicoanalista e historiadora, que se tomó la molestia de leer a estos dos escritores pasados de moda, considera que han languidecido en un olvido merecido.” HAHAHA!

50 shadows of prey

Fue esta literatura barata, sin embargo, la que creó la moda del psicoanálisis en Francia, después de la Primera Guerra mundial.”

The Legend of Schizeldania

Posteriormente, el psicoanálisis ha recubierto con su exégesis, a menudo fastidiosa, a veces entretenida, todos los terrenos de la literatura desde la tragedia griega hasta los cuentos de hadas, pasando por la canción popular y las bandas sonoras.”

Ellenberger escribió que el psicoanálisis es la construcción de un mito semejante a la obra de arte. Pero, a mi manera de ver, la más bella creación de Fraud es Freíd.¹ Fabricó su imagen a través de un escenario cuyo objetivo era propagar una ideología que le permitiera influir en el destino del otro.”

¹ Fritar (freír), mais especificamente “(Vós) fritai!”

Así, durante más de 3 generaciones, se ha mantenido, frente y contra todo, un mito fundador como el que se encuentra en todas las culturas. Sigmund como el Sigfrido de la ópera de Wagner, forjó el solo una espada invencible, que los enanos de su época hubieran sido incapaces de forjar. Sigmund, en alemán, significa ‘boca victoriosa’, como resalta su biógrafo Wittels.” “Freud percibió sin duda el carácter débilmente científico de su teoría y conoció demasiado rápido la desilusión terapéutica. La única manera de salvar su obra era convertirla en una novela”

La disonancia cognitiva se presenta cuando las personas son expuestas a una información que no tiene sentido en relación a sus creencias colectivas previas. Un cierto número de personas cambian de opinión y retoman su libertad individual. Pero el núcleo duro del grupo permanece unido. Cuanto más la realidad, o el trabajo científico, pone en duda a una creencia, más considera que tiene razón el grupo que la sostiene. Se reafirma a sí mismo y se hace prosélito. El reclutamiento de nuevos adeptos se convierte, para ellos, en el único medio de perpetuar y regenerar la creencia a través de los siglos.” Certos #LulaTáPresoBabaca feelings…

Freud recibió un premio literario: el premio Goethe, bien merecido vista la amplitud de su contribución a la literatura mundial de ficción. Evidentemente se puede preferirle a su contemporáneo Marcel Proust que exploró con audacia, objetividad y sinceridad los meandros de la mente y del comportamiento humano, sin tener el recurso del sistema psicoanalítico.”

En nuestros días el falo se ha hecho doctrinario” Proust [¡!]

ELEMENTAR, MEU CARO! “Shepherd, un psiquiatra inglés, conocido por trabajos muy rigurosos en epidemiología, mostró el parentesco entre la obra de Fraud y la de Conan Doyle.”

How to overdrive yourself

Muchos analizados por Fraud han informado que soportaba mal la discusión de sus interpretaciones y se enfadaba cuando el paciente las ponía en duda. Los perros huskies que figuraban en el famoso sueño del hombre de los lobos se convirtieron en lobos, por la gracia de la interpretación freudiana”

Stephan Zweig le consagró un capítulo deslumbrante en su obra La Curación por la mente. Arthur Schnitzler, en su genial Reigen [O círculo], divinamente filmado por Max Ophuls (1950), lo hizo aun mejor. Describe con vivacidad y humor los tormentos de la sexualidad vienesa, con sus pollitas, sus cornudos, sus chicas de la calle, sus mujeres mundanas y sus oficiales que se transmiten la temida sífilis en un vals mortal, sobre el fondo de un Imperio crepuscular. En la época del SIDA, esta ronda [círculo] sigue siendo, y tristemente, de actualidad.” O Mal-estar do Círculo vienense vicioso, teria escrito o imaginativo Klossowski se tivesse o tempo!

Schnitzler, también médico, vivía a algunos cientos de metros de Freud, que le escribió un día que no quería encontrárselo, ya que tenía miedo de encontrarse cara a cara con su doble. ¿Celos literarios o ejercicio de admiración? ¿Conciencia lúcida de la debilidad literaria de una obra que oscila sin cesar entre el estilo pontificante de los medicastros de su tiempo y la libertad del verdadero escritor?”

En la sabrosa Madone des sleepings, Maurice Dekobra, en el primer capítulo, describe a un doctor Traurig que es capaz de medir las capacidades orgásmicas inconscientes de una lady cuyas aventuras amorosas y políticas se desarrollarán en un decorado ferroviario.”

Y los autores, que hacían las delicias de la abuela, encontraron una digna sucesora en Marguerite Duras, y su estilo sincopado hecho erotismo lánguido, de agujeros de memoria y de aroma exótico. Fue incapaz, sin embargo, de resistirse a una recuperación aduladora de su obra por Lacan, que veía en ella, un eco de sus teorías. Después de que un psicoanalista con el predestinado nombre de Montrelay le hiciera leer Le Ravissement de Lol V Stein, Lacan convocó a Marguerite Duras a medianoche en un bar para decirle todo lo bueno que pensaba de ella. La V del título no podía simbolizar más que las tijeras de la castración, y el encanto (ravissement) el orgasmo amnésico de la mujer a la sobra de un ausente pene. [¡!] Un poco sorprendida por este tono machista, Duras supo servirse de sus tijeras para devolver al maestro a sus fantasías.”

TorPENISso tudo que se chama vida, os psicanalistas veem pênis em absolutamente tudo.

Todo el mundo tiene derecho a escribir una novela o a construir un mito. Nadie sueña con criticar a Chateaubriand, novelista, cuando describe las cataratas del Niágara, que no había visto nunca. Nadie fustigará a la religión cristiana por servirse de Cristo para proponer una moral, que puede aceptarse o rechazarse. Pero el mito psicoanalítico se presenta como una ciencia imparable, a la que nada ni nadie podrá escapar. Da lecciones, a menudo con arrogancia, a la comunidad científica y artística desde hace un siglo.”

O ROMANTISMO FECHA O CÍRCULO DE NOVO: “Al final, Freud quedará, sin duda, como un maestro sin igual en el arte de servirse de los medios. En los años 1990 su foto era la solicitada más a menudo por las agencias de documentación. Su verdadera obra maestra fue haber construido un instrumento de poder mediático a través de la Tabla Redonda de los miércoles en la que se reunían sus primeros discípulos, los congresos, los escritos, los viajes, las conferencias y la Asociación psicoanalítica internacional. El conflicto de esta última con la Iglesia lacaniana hizo resurgir el mito en nuestro país.”

A Dialética da Igreja Redonda

Cuarenta y dos años más tarde que su muerte, se convirtió en personaje de novela en L’Hôtel Blanc (The White Hotel) de D.M. Thomas.” Engraçado, estava me lembrando neste instante do Thomas Edson!

Deus não joga dados, mas faz sentarmo-nos em seu Divã ácido e lisérgico.

Él no(s) creaba!

2. EL PODER DE SEDUCCIÓN DEL PSICOANÁLISIS

¿Por qué alguien que empieza un psicoanálisis presa de un malestar profundo puede a veces, al cabo de largos y costosos años de asiduidad, alegrarse de los beneficios de un trabajo analítico que no lo ha curado?”

A) LOS BENEFICIOS DEL PSICOANÁLISIS – JACQUES VAN RILLAER

He sido psicoanalista devoto, después psicoanalista escéptico y finalmente psicoanalista renegado. En 1972, defendí mi tesis doctoral en psicología sobre Fraud. En 1980, desconvertido, escribí Las Ilusiones del psicoanálisis para exponer las razones para abandonar el freudismo. Se me ha podido reprochar mi tono apasionado que se explicaba por el poder excesivo y la arrogancia de los psicoanalistas de mi país (Bélgica) y, en particular, en mi universidad (Louvain-la-Neuve). En la época, reaccioné como un habitante que viera a sus vecinos indicar un camino equivocado a unos extranjeros inocentes.”

Al inicio de su carrera, Freud era muy optimista. En 1895, anunció: ‘La histeria y la neurosis obsesiva son actualmente radicalmente curables y no solamente sus diversos síntomas, sino también la propia predisposición neurótica’. A continuación, se hizo cada vez más modesto y, al final de su carrera, francamente pesimista.”

Los estudios metódicos sobre los efectos de las psicoterapias muestran que su método no da mejores resultados que los demás y que, teniendo en cuenta su coste en tiempo y dinero, los beneficios son netamente menos ventajosos”

Así, Pierre Rey, al término de 10 años se sesiones cotidianas con Lacan, escribe que sus fobias sociales – el ‘síntoma’ por el que había emprendido el tratamiento – no han desaparecido”

DE F. AO TCC: “En los años 1950, Carl Rogers, un psicólogo americano que ‘derivó’ hacia una forma de tratamiento muy alejada del freudismo ortodoxo, promovió el término ‘cliente’, con vistas a subrayar el papel activo que debería jugar toda persona implicada en una relación de ayuda psicológica.” “El término está particularmente indicado cuando se trata de un análisis ‘didáctico’, es decir cuando la persona en análisis busca adquirir una competencia profesional para hacerse psicoanalista.”

Una de las satisfacciones esenciales de toda forma de psicoterapia es poder hablar libremente, de no importa qué, teniendo el sentimiento de ser escuchado atentamente, por una persona disponible, según un horario convenido.” “El que no podía, en su casa, abrir la boca sin ser desairado es por fin libre de expresarse sin ser interrumpido, sin ser por tanto juzgado. Aquí, basta de miedo a hablar: con palabras, todo está permitido, todo tiene un sentido, todo es digno de interés, todo parece instructivo o va a ocurrirte. Si el terapeuta emite regularmente signos de atención y hace algunos comentarios no críticos, el cliente se siente comprendido, reconocido, valorado. Un cierto número de personas no pide más.”

Stern, La Fiction psychanalytique

Frischer, Les analysés parlent

Fanget, Affirmez-vous!; Osez: Thérapie de la confiance en soi (TCC FEDE!!!)

Al leer las encuestas sobre psicoanalizados, se constata que su experiencia, como sucede con la de Giroud, ilustra más la concepción de Alfred Adler que la de Freud.”

Al término de su encuesta sobre la imagen del psicoanálisis en Francia, Serge Moscovici constataba que los entrevistados que conocían a analizados subrayaban frecuentemente el aumento del egocentrismo como una consecuencia del tratamiento.”

¿Olvidas el paraguas en casa de un amigo? Desea volver a su casa. ¿Tu amigo te dice que no ‘le tomes por la palabra’? ‘Entiendes’ que reprime su ‘homo’-sexualidad. ¿Reacciona mal a tu interpretación? ‘Se defiende’, se resiste al ‘ello’, que habla en él ‘a espaldas de su yo’. ¿Critica a Freud o a Lacan? Se rebela contra el Padre.”

Popper (…) recordando su encuentro, en su juventud, con el marxismo, el psicoanálisis de Freud y el de Adler, escribe:

El estudio de una u otra de estas tres teorías [descabido nivelar MARXISMO, adlerismo e fraudismo, por favor!] parece tener el efecto de una conversión intelectual o de una revelación, que te permite descubrir una verdad nueva, escondida a los ojos de aquellos que aun no han sido iniciados. [Já compactuar com o liberalismo económico é apenas seguir no mesmo estado em que nasceu: a ignorância absoluta.] Una vez que tus ojos se abran, descubrirás confirmaciones no importa donde; el mundo está lleno de verificaciones de la teoría. Todo lo que pueda suceder la confirma siempre. Su verdad es por tanto manifiesta. Los que rechazan la teoría son sin duda gente que no quiere ver la verdad evidente; la rechazan a causa de sus intereses de clase [se ao menos fosse uma crítica ao reichismo!] puestos en cuestión o a causa de sus represiones aun no analizadas que reclaman, a voz en grito, una terapia”

Otro gran filósofo y epistemólogo del siglo XX, Ludwig Wittgenstein, conoció el mismo deslumbramiento, seguido de la misma desilusión. Después de ser declarado un ‘adepto de Fraud’, no ahorró demasiadas críticas con respecto a un sistema que terminó por comparar a una mitología de aplicación fácil.”

Bouveresse, Philosophie, mythologie et pseudo-science. Wittgenstein lecteur de Freud

Dar un sentido a la vida

(…)

Esta función del psicoanálisis interesa a las personas que no sufren de un trastorno mental caracterizado, sino que viven una existencia que ellas estiman monótona, poco interesante. Al ser el inconsciente fraudiano ‘campo infinito’, el análisis da de que ocuparse [bastante heideggeriano: esquecer a preocupação existencial mergulhado em ocupações comezinhas da circuvizinhança do ‘manual’] indefinidamente.”

Desde que Lacan abolió la separación entre análisis ‘didácticos’ y ‘terapéuticos’, muchos pacientes han acabado engordando la cohorte de analistas lacanianos.” “Se puede ganar mucho más dinero siendo psicoanalista que profesor de instituto o asistente social en un hospital. Entonces, desde los años 60, muchos diplomados en filosofía, sacerdotes que se han desacralizado, artistas sin renombre y cantidad de otras personas han hecho del psicoanálisis su modo de sustento.”

Cuando el cliente hace preguntas embarazosas, basta con devolvérselas: ‘¿Por qué hace usted esa pregunta?’, ‘Qué es lo que está interpelando?’, etc. Estas críticas y sus oposiciones se interpretan como ‘resistencias’, ‘denegaciones’ o manifestaciones de una ‘transferencia hostil’. Nunca ponen en cuestión al analista.”

A parte de estos motivos teóricos, es forzoso reconocer que los análisis didácticos, para los que los dirigen, son a menudo los tratamientos más rentables y siempre los más cómodos: los alumnos analistas no tienen en principio grandes problemas, llegan siempre a la hora, pagan religiosamente, no osan interrumpir el tratamiento ni criticar el comportamiento del docente, se convierten generalmente en celosos discípulos y aportan nuevos clientes.

Los primeros análisis didácticos realizados por Fraud, el de Ferenczi por ejemplo, no duraron más que algunas horas. A partir de los años 20, se hicieron cada vez más largos: 12 años en el caso de Dorothy Burlingham (cuyo hijo mayor, analizado por Anna Freud, se envenenaría acostado en la cama de ésta); 16 años para Ruth Mack-Brunswick (que murió prematuramente de politoxicomanía).”

Roudinesco escribió que ‘todos los psicoanalistas han seguido los mismos estudios de psicología’, en Pourquoi la psychanalyse?, París. Fayard, 1999, p. 193. Es falso. Incluso los psicoanalistas reconocidos como miembros efectivos por su asociación – por no hablar de los que ejercen el psicoanálisis de manera ‘salvaje’, es decir, sin ninguna formación – no tienen necesariamente un diploma de psicología o de psiquiatría. Los principales líderes de opinión en materia de psicoanálisis en los medios franceses son una historiadora, É. Roudinesco precisamente, e intelectuales, como los hermanos Miller, Catherine Clément, Bernard-Henri Lévy y Philippe Sollers.”

La forma en la que Lacan dirigía sus análisis didácticos muestra hasta donde puede llegar el poder de aquellos que otorgan el título de psicoanalista de su asociación. A lo largo de las sesiones, el presidente de la Escuela freudiana de París se permitía echar un sueño o leer los periódicos sin decir una palabra. Este es el testimonio de Jean-Guy Godin, ‘autorizado’ psicoanalista gracias a su paso por el diván de Lacan (la portada de su libro, en el que cuenta su análisis didáctico, no menciona ningún otro título que el de psicoanalista)”

Tenía miedo de Fraud; temía que descubriera mi agresividad oculta. Hice pues una alianza muda con él: ‘Yo seguiré siendo dócil siempre que usted me otorgue su protección’. Si me rechazaba, perdía para siempre toda posibilidad de entrar en ese círculo mágico de la profesión.” Kardiner

En Bélgica, no hay asignatura de filosofía en la enseñanza secundaria. Son los enseñantes de Francés, de moral y de religión católica los que difunden la doctrina fraudiana, en ocasiones con un celo considerable. (…) Es mucho más estimulante hablar de Fraud, Dolto y Marie Cardinal(*) que de Platón o Kant.”

SEMPRE OS MESMOS ESQUEMAS, NÃO ENJOAM, NÃO CANSAM, NÃO SE CONSTRANGEM: (*) “Recordemos que el célebre libro de Marie Cardinal Las plabras para decirlo no es el relato de su cura, sino una novela inspirada en ella. La palabra ‘novela’ aparecía en la portada de la primera edición (Grasset, 1975), pero desapareció con ocasión de las reediciones de bolsillo.

El psicoanálisis tiene la enorme ventaja de aparecer a la vez como una ciencia empírica – que sería ‘verificada’ por hechos –, una antropología – en la que los conceptos tienen la misma ‘profundidad’ que las nociones fundamentales de la filosofía – y una técnica que libera de sufrimientos a la condición humana”

Hacer investigación empírica de calidad en el terreno de las ciencias humanas es una empresa compleja y exigente. Es mucho más fácil acceder al título de doctor o de agregado de enseñanza superior escribiendo un texto a partir de textos psicoanalíticos.” “Si quien presenta la tesis prevé un jurado compuesto de lacanianos, puede parlotear sin preocuparse del sentido de sus palabras. Para una demostración de las posibilidades de hacer pasar malabarismos verbales por una teoría psicoanalítica sofisticada, cf. A. Sokal & J. Bricmont, Les Impostures intellecluelles, 1997. Una vez nombrado, el enseñante puede continuar discurriendo y publicando sin que nadie en el mundo se preocupe de la relación con la realidad empírica y la eficacia práctica – siendo esta última preocupación calificada de ‘tecnocrática’, ‘neo-liberal’ [¿??¿] o ‘neo-higienista’.”

Esta laxitud en el otorgamiento de los títulos requeridos para el profesorado universitario tuvo su época en las universidades anglosajonas y del norte de Europa (incluida la Bélgica flamenca), al menos en los departamentos de psicología y psiquiatría. (En ciertos departamentos de filosofía y letras, la especulación psicoanalítica sigue siendo admitida en la confección de una tesis). En los países latinos (incluida la Bélgica francófona), el psicoanálisis sigue marcando la pauta, en todos los sentidos de la expresión: menos para el bienestar de los pacientes que el de los analistas, enseñantes, editores y periodistas.”

B) LA MITOLOGÍA DE LA TERAPIA EN PROFUNDIDAD – JACQUES VAN RILLAER

No hay un artículo de psicoanálisis sobre las terapias que no aseste como una evidencia que las demás disciplinas atenderían solamente a los ‘síntomas’, la parte visible del iceberg, exponiendo al paciente al riesgo de ver reaparecer la enfermedad exposant ‘en otro lugar’, mientras que el psicoanálisis, más largo, más exigente, trataría al paciente en profundidad. De hecho, la idea en gran parte ha trascendido al gran público que piensa que, si se atiende a una fobia por ejemplo, se corre el riesgo de tener asma o eccema, como si una enfermedad subterránea viajara por el interior del ser humano. ningún estudio ha podido jamás demostrar este prodigio, pero las ilusiones del psicoanálisis son… profundas.”

En 1890, cuando aun no se hablaba de psicoanálisis, William James, en su monumental tratado de psicología (Principles of Psychology, 1400 páginas)(*), examinaba las formas con las que Schopenhauer, von Hartmann,¹ Janet, Binet y otros habían utilizado los términos ‘inconsciente’ y ‘subconsciente’.” “James admitía de hecho la existencia de procesos inconscientes, pero denunciaba las explicaciones comodín [coringas] por el inconsciente.

(*) Ver ainda Whyte, The Unconscious before Freud, 1960

¹ Embora do mais baixo nível literário.

Esa distinción entre los estados inconscientes y conscientes del psiquismo es el medio soberano para creer todo lo que se quiera en psicología” William James

La palabra ‘inconsciente’ se utiliza desde hace más de 250 años, pero la afirmación de la existencia de procesos no-conscientes se encuentra ya en los filósofos y místicos de la antigüedad. La noción del inconsciente tomó un giro decisivo con Leibniz y se desarrolló en los siglos XVIII y XIX. Hacia 1880, era banal para muchos filósofos, para psiquiatras – como Benedikt en Viena, Bernheim o Charcot en Francia – y para los primeros psicólogos científicos.”

A partir del siglo XVII, filósofos y moralistas, desarrollaron esquemas de interpretación de las motivaciones ocultas o inconscientes. Uno de los pioneros de esta corriente es La Rochefoucauld.” “Recordemos que, en el vocabulario de hoy, los ‘moralistas’ de época son más fisiólogos que gentes que hacen moral. Estos moralistas escriben sobre ética, pero predominantemente de las costumbres de su tiempo (‘moralista’ viene del adjetivo latino moralis, ‘relativo a las costumbres’) y, más generalmente, sobre el funcionamiento de las conductas humanas.”

Arthur Schopenhauer, Karl Marx y Friedrich Nietzsche cada uno a su manera, también creyeron poner al día un mecanismo fundamental que daría cuenta de una infinidad de conductas humanas, por no decir de toda acción.”

Si comprendiéramos fácilmente los mecanismos y las razones de todas nuestras conductas, no quedaría lugar para los investigadores en psicología.”

SOA FAMILIAR? “Encontramos ya en los magnetizadores del siglo XVII relatos de curaciones a continuación de la revelación de secretos penosos, pero hay que esperar hasta los años 1860 para que Moritz Benedikt, un neurólogo austriaco, elabore un tratamiento psicológico basado en la exploración de secretos y de acontecimientos traumatizantes del pasado.

A partir de 1864, Benedikt, jefe de servicio de neurología de la policlínica general de Viena, emitió la idea de que la histeria a menudo es causada por una perturbación psicológica de la vida sexual y no, como se creía en la época, por una disfunción somática del útero o de la sexualidad. A continuación, desarrolló la tesis de que no solamente la histeria, sino todos los trastornos mentales e incluso ciertas enfermedades psíquicas encuentran su origen en ‘secretos patógenos’ tales como los traumatismos sexuales de la infancia, las frustraciones sexuales, las pasiones contrariadas, las ambiciones decepcionadas.”

En un primer momento, Benedikt utiliza la hipnosis para facilitar la exploración de los acontecimientos pasados que son la fuente de los trastornos mentales. Algunos años más tarde, abandona esta técnica. Como otros investigadores de su época, constató que la hipnosis favorecía sugestiones y mistificaciones, y que los resultados eran efímeros.”

La teoría y la práctica de Benedikt jugaron un papel capital en las concepciones de su amigo Joseph Breuer – en la época en la que éste trataba a la célebre paciente Anna O. –, de Freud – que recibió de Benedikt su carta de presentación para su estancia con Charcot – y de Adler – que trabajó a su servicio.”

En sus primeras publicaciones, Freud reconoce su deuda con respecto a Benedikt en cuanto a la explicación de los trastornos por conflictos interiores enraizados en el pasado, la terapia por la rememoración de conflictos y la importancia de analizar las fantasías y ensoñaciones diurnas. Si no continuó citándolo, es quizás por parecer el mismo más original de lo que era y sin duda porque Benedikt había publicado una crítica acerva del libro de Fliess, Les Relations entre le nez et les organes génitaux féminins, del que Freud había dicho, con ocasión de su publicación, que constituía ‘el propio zócalo del psicoanálisis’.”

A título de ejemplo, tomemos un comportamiento adoptado por alrededor de una cuarta parte de la población: el tabaquismo. Según Freud, esta toxicomanía, de la que intentó en varias ocasiones liberarse, es el sustituto inconsciente de la masturbación.”

Según la psicoanalista Odile Lesourne, Freud fumaba ‘con el fin de controlar a la muerte’, con el fin de ‘no dejarse tomar por la muerte, sino de hacerla entrar en sí lenta y metódicamente para controlarla y observar los efectos’.”

C) PSICOANÁLISIS POPULAR Y PSICOANÁLISIS PARA INICIADOS – JACQUES VAN RILLAER

La atracción que usted siente por la cultura y la mística hindú corresponde a un carácter anal, evidente, es muy típico.

Lo que decía aquí Françoise Dolto, sin ninguna sombra de reserva, es típico de lo que se escucha en las conversaciones entre freudianos, se enseña en las asociaciones de psicoanálisis y se escribe en las revistas especializadas o confidenciales.”

Una gran parte de la población ignora que hay 2 formas de psicoanálisis: el psicoanálisis popular, constituido principalmente por ideas de sentido común traducidas al vocabulario freudiano, y la forma intransigente reservada a los iniciados.”

La moderadora – una psiquiatra que era ‘la’ psicoanalista de niños de mi universidad – explicaba, sin la menor reserva, que los niños que miran la televisión tienen de hecho deseos de descubrir la ‘escena primitiva’, es decir el coito parental. Su afirmación se fundaba en el texto de Melanie Klein fechado en 1923, es decir antes de la aparición de la pequeña pantalla.”

Así aprendí que existían 2 doctrinas muy distintas: de una parte, el psicoanálisis destinado a un público al que no se puede asustar, el que había abordado a través de las Cinco Lecciones sobre el psicoanálisis y otras obras ad usum delphini, y, por otra parte, la doctrina de los psicoanalistas que ofician en ese Sancta Sanctorum que es su Sociedad de psicoanálisis. Entre ellos, los iniciados pueden decirse que Jung escribió a Fread: ‘Es un cruel disfrute estar Dios sabe cuantos decenios por delante del ganado’ (11-8-1910).”

Diciendo que ‘no hay relación sexual’, Lacan quiere quizás decir (aunque con él nada es nunca seguro) que inconscientemente nuestras relaciones sexuales son siempre incestuosas.”

Hoy en día, buen número de Occidentales cultivados, que oyen a un niño pequeño decir ‘cuando sea mayor, me casaré con mamá’, piensan que Freud tenía razón al afirmar la universalidad del complejo de Édipo. De hecho, lo que escribe Freíd es de otro orden: entre los 3 y los 5 años, el niño desea verdaderamente ‘matar a su padre y tener relaciones sexuales con su madre’.”

En cuanto a hacer del complejo de Edipo el fons et origo de la cultura, de la conciencia moral, de los trastornos mentales, etc., sólo es posible en el marco de un pensamiento mítico.”

Los freudianos que quieren a toda costa salvar el ‘complejo nuclear’ sólo han podido hacerlo ‘domesticándolo’ y ‘esterilizándolo’. Así, el deseo de ‘acostarse con su madre’ ha dado lugar a la ‘fusión con el objeto natural’ o a ‘la inmersión en la Naturaleza’

Ya en 1912, Jung concebía el complejo de Édipo de forma metafórica o simbólica: la ‘Madre’ significaba lo Inaccesible al que el individuo debe renunciar en función de la Cultura; el ‘Padre’ muerto por Édipo era el ‘padre interior’ del que el sujeto debe liberarse para ser autónomo, etc.”

Uma inusitada tabela à p. 160 contendo “expressões psicanalíticas” e sua “decodificação para normies” (esq. dir.):

Transferência Afeto (amor) pelo psiquiatra

Supereu Consciência moral

Narcisismo Egocentrismo

Exibicionista Extrovertido [HAHAHAHAHAHA!]

Fulano fantasiou Fulano imaginou

Castração Proibição de um prazer

Cicrano desenvolve seu Édipo Cicrano quer sua mamãe / Cicrano se rebela contra seu papai

Mãe castrante Mãe superprotetora

Mãe fusional Mãe afetuosa

Histérica Paciente irritante

Obsessivo Pessoa muito pontual

Caráter anal Avaro

Sofia tem vontade de pênis Sofia quer um filho

Paulo exterioriza sua pulsão de morte Paulo está puto

Posta em ação Soco, bofetada [HAHAHAHAHAHA]

Léo não admite a castração Léo tem medo de morrer

Fazer o luto Esquecer

Reprimir Discordar [HAHAHAHAHAHAHAAHA]

Isto me pergunta/chama minha atenção Eu me pergunto se…

O Outro me fez atuar Não compreendo por que fiz isso

etc.

3. LA EXCEPCIÓN FRANCESA

A) CRÓNICA DE UNA GENERACIÓN: CÓMO TOMÓ EL PSICOANÁLISIS EL PODER EN FRANCIA – JEAN COTTRAUX

Este relato empieza en 1967. En aquel momento, bajo el reino de Charles de Gaulle, Francia era próspera, casi sin parados, sin televisión en color, sin coches quemados en los extrarradios, sin radares para cazar a los delincuentes de la carretera, sin reality shows, ni teléfonos móviles para vender viento. Cada uno debía estar en su lugar. El Rey despreciaba a la Corte, de la que el Canard enchainé [¿] contaba escrupulosamente, cada semana, la historia vacía de ruido y de furor. La Corte despreciaba a la Ciudad, que a su vez despreciaba las Provincias. Se frecuentaba poco a los psicoanalistas; era una marca indefendible de debilidad. Y los psicoanalistas no eran las estrellas de la tele: no hubiera sido conveniente.”

Desde la ‘Nouvelle Vague’ cinematográfica, todo debía ser nuevo: la novela, la cocina, la izquierda, la derecha, la música, los padres, los hijos e incluso el Espíritu Santo. Sin embargo, nada cambiaba a parte de la longitud del cabello, y el corte de los pantalones que ahora desplegaban amplias patas de elefante. En resumen, te aburrías de firme.”

La Iglesia psicoanalítica era el camino para conquistar el Estado psiquiátrico a través de su intermediación y del ejemplo que daban a los demás.” “‘Buscad en el diván vuestro destino de analista’ era la frase habitual. Y estábamos todos, después de esos 2 años, persuadidos de su valor.” “Era la época de reuniones improvisada en las que cada grupo de presión manipulaba al movimiento estudiantil para hacer progresar sus ambiciones. Los psicoanalistas no se quedaban atrás. Tenían el viento en popa, ya que el psicoanálisis era percibido como una práctica contestataria de la sociedad y tenía sus aficionados entre los líderes del movimiento.” “En ese tiempo, un analista didáctico tenía valor de obispo y distribuía sin reparos el agua bendita de Palacio, en bien de sus interese. El juego era tanto más cómico al observar que los psicoanalistas se servían del movimiento izquierdista, mientras ellos eran más bien de derechas. Que importa.”

Los acontecimientos de mayo de 1968 dieron lugar a que la psiquiatría fuera finalmente separada de la neurología, algo que representaba un progreso. Pero esta separación se hizo en nombre del psicoanálisis. En el espíritu del ministro de Educación nacional Edgar Faure y de su consejera, su hija Sylvie Faure, psicoanalista, y también del gran público, los 2 estaban relacionados. La psiquiatría se liberaba de la tutela neurológica, para someterse a la guía más sutil de la corriente psicoanalítica. Los nuevos universitarios de psiquiatría, que habían sentido el ruido de las balas, cortejaron a los psicoanalistas a los que distribuyeron púlpitos, puestos de profesores asociados, o la dirección de seminarios de formación en los diplomas de psiquiatría. Les proporcionaron así una inmensa esfera de influencia: la posibilidad de impregnar a la juventud con su catecismo.”

Lacan, en 1963, había dejado la Asociación psicoanalítica internacional para fundar una escuela de psicoanálisis ‘galicana’ y contestaría del establishment psicoanalítico. Era marginal. Mayo de 1968 fue su revancha. Los ex-izquierdistas deprimidos por el fracaso de su movimiento se arrojaron con los brazos abiertos al psicoanálisis lacaniano considerado más de ‘izquierdas’ que el psicoanálisis clásico. Hay que decir que Lacan se benefició de una gigantesca metedura de pata de los psicoanalistas de la sociedad psicoanalítica de París. Dos de ellos, bajo el seudónimo de André Stéphane, habían publicado, en 1969, un libro titulado El Universo contestatario que afirmaba, entre otras cosas, que el movimiento de mayo de 1968 representaba una puesta en práctica de la pulsión anal entre sus participantes. [HAHAHAHA!] Esta obra decía, en un estilo menos gráfico, lo mismo que el general Gaulle que hablaba de ‘cagacamas’ a propósito de los acontecimientos de mayo de 1968. Veamos un pasaje que parece beneficiarse, igualmente, de la influencia del pensamiento de Salvador Dalí dado que en él la analidad se hace ‘cósmica’.”

El lacanismo alcanzó entonces su cenit. Por medio del Maestro en la Escuela normal superior, de Serge Leclaire en Nanterre y en la televisión, y de Françoise Dolto en la radio, Francia se lacanizó insensiblemente. Todos los niveles del público estaban cubiertos por este trío carismático, que progresivamente impuso un psicoanálisis a la francesa. Éste achacaba a los escritores católicos franceses clásicos un estilo pomposo, a los poetas simbolistas oscuridades sabias, y al grupo surrealista, del que Lacan formaba parte en su juventud, un agudo sentido de la provocación. Estaba todo servido con consideraciones abstractas que iban de la lingüística a las matemáticas modernas pasando por una relectura de los Evangelios freudianos. Lo tenía todo para seducir.

El evangelio se expandió a las facultades de letras y ciencias humanas. Muchos enseñantes tomaron como segunda profesión la de psicoanalista lacaniano, y, al igual que sus homólogos psiquiatras o psicólogos, tuvieron las mismas motivaciones económicas para que la ideología analítica perdurara el mayor tiempo posible. Así, hacia el año 2000, se alcanzó la cifra record de más de 3000 psicoanalistas lacanianos contra cerca 700 psicoanalistas ‘clásicos’.

Ya no era concebible hacer una tesis de filosofía sin lacanizar. No se podía enseñar inglés de hecho sin solicitar una interpretación lacaniana de James Joyce. Una tesis sobre Céline debía preocuparse del vacío significante del enunciado sobre renunciación.”

En 1967, Lyon había recibido la visita de Jacques Lacan que impartió una conferencia titulada: ‘Lugar, origen y fin de mi enseñanza’. Lacan hizo una llegada de estrella a la estación de Perrache, sacó lentamente una moneda del bolsillo de su chaleco para dársela al mozo de cuerda: ‘Ten mi valiente’, luego se dirigió hacia el comité de recepción dirigido por Gilles Deleuze, entonces profesor de filosofía en la facultad de letras, que lo acogió con fervor: ‘Ah, querido maestro, no puede saber la importancia de su visita a Lyon’. ‘Lo sé, lo sé…’, respondió Lacan, noblemente.

La visita de Françoise Dolto, algunos años más tarde, se saldó más bien con un vacío en Bourgen-Bresse. Nos había contado una bonita historia, pero totalmente inverosímil. En el curso de un análisis una mujer joven de origen indio se pone a hablar en indostaní, lengua que la paciente nunca había hablado y de la que ignoraba el sentido. Françoise Dolto anota fonéticamente esa frase que confía a un traductor y, divina sorpresa: se trata de un diálogo entre el padre y la madre de la paciente que ella escuchó el día de su nacimiento. (…) Sin embargo, nadie osó contradecir a una mujer tan calurosa como Françoise Dolto, que tenía el aire de una buena mamá que ofrece confituras a los niños. Pero nos pareció que, ese día, había ido un poco lejos.”

Una visita muy esperada fue la de Bruno Bettelheim en 1975. Su libro La Fortaleza vacía había sido un gran éxito en las librerías, se le había consagrado una emisión de televisión. En un film de François Truffaut: L’Argent de poche (1976), se puede ver a un valeroso maestro leer La Fortaleza vacía para comprender mejor a los niños.”

Bettelheim tenía entonces 71 años. Se expresaba en un francés perfecto. En esa época, no daba la imagen de un hombre arrogante. Confesó que no tenía más diploma que uno de estética de la universidad de Viena y presentó su trabajo con niños autistas, con simplicidad, en una discusión a calzón quitado. No era reconocido como psicoanalista por la Asociación psicoanalítica internacional. La impresión que dejó a nuestro pequeño grupo fue la de un super-educador. He guardado en la memoria una de sus reflexiones prácticas que estaba marcada por el buen sentido: ‘La mejor manera de juzgar el valor de una institución psiquiátrica es visitar sus cuartos de baño’.”

Lo que me sorprende, retrospectivamente, es el encanto de esas 3 personas que conseguían finalmente hacer pasar no importa qué idea, fuera azarosa, errónea, o representara una contraverdad. Su talento era grande, así como su poder de convicción, pero también la fe de los espectadores.”

La propagación de la fe psicoanalítica existiría sin recordar los métodos del doctor Knock, de la obra de Jules Romains, que mete en la cama a toda la población de un pueblo persuadiéndola de ‘que un hombre sano es un enfermo sin diagnosticar’.”

Pensaba a la vez en encontrar en el psicoanálisis algunas revelaciones sobre lo que yo era, y acrecentar mi capacidad de tratar a los pacientes. Mi análisis se desarrolló entre 1972 y 1976 mientras el movimiento analítico estaba en plena ascensión en Francia, en las universidades, los hospitales, los medios y las editoriales. Salía aproximadamente un libro nuevo cada semana, lo que bastaba ampliamente para ocupar mi tiempo de lectura. En ese tiempo, la marea de la fe era alta, y era legítimo pensar que el psicoanálisis iba a reformar duraderamente la práctica de la psicología y de la psiquiatría: era necesario pues investirlo todo tanto en la comprensión de textos como en el desarrollo personal en el diván.

Pero progresivamente perdería la fe. La fe no se pierde como se olvida un paraguas. Es un proceso lento en el que los acontecimientos exteriores fueron más importantes que lo que se decía o se callaba, en el análisis. Para empezar, al cabo de un año me di cuenta de que había repasado los problemas potenciales y que manifiestamente estaba dando vueltas en círculo. Pero eso no fue lo más grave. En los 3 años siguientes, hubo en Lyon, en el pequeño mundo de los analizantes, una epidemia de suicidios o de descompensaciones psicóticas: 2 mujeres jóvenes se suicidaron de manera inopinada, otra hizo un episodio delirante, uno hizo un intento de suicidio muy grave, y finalmente un joven colega en análisis en París con Jacques Lacan se suicidó.

Las reacciones en el medio me chocaron más aun que los propios hechos. Los comentarios eran de decepción no a propósito del psicoanálisis, sino de los suicidas: ‘Eran psicóticos sin duda’, cuando nada permitía afirmarlo. Esta sustitución de síntomas no implicaba ninguna puesta en cuestión del propio método.”

Por supuesto, sería excesivo cargar sobre el psicoanálisis toda la responsabilidad de esas muertes prematuras: se sabe que el grupo de los psicoanalistas es globalmente un grupo de riesgo. Numerosos compañeros de Freud se suicidaron igualmente. Sin embargo, no conozco ninguna encuesta epidemiológica seria que haya abordado el problema, para extraer enseñanzas que eviten la repetición de tales catástrofes.

También es cierto que el psicoanálisis, incluso en personas inicialmente con buena salud, implica fases depresivas relacionadas con la frustración, al silencio y al desarrollo de fenómenos transferenciales que llevan al analizante a funcionar sobre un modelo cada vez más irracional. Es entonces más frágil frente a acontecimientos de la vida que hubiera soportado mejor de otra manera. Para ciertos analistas, la depresión es incluso una fase necesaria para el buen desarrollo de la cura ya que permite la maduración psicológica. Sin embargo nadie advierte al futuro analizante del riesgo. Como mínimo, al hacer balance de estos suicidios, yo podría llegar a la conclusión provisional de que el psicoanálisis no es un método con resultados particularmente brillantes para prevenir los riesgos de la depresión.”

Le prescribió un antidepresivo que produjo una mejoría significativa. Sin embargo ella deseaba curar por el psicoanálisis y sólo con él. Le sugerí consultar con otro analista, y lo hizo. Pero, presa de la dependencia de su transferencia, volvió al primer analista que le aconsejó seguir, en paralelo, un grupo de terapia del que era director, algo que es una práctica muy poco habitual. Ella decidió interrumpir el antidepresivo y seguir ese plan terapéutico: se suicidó. Todo sucedió como si hubiera preferido matarse antes que matar la teoría de su analista pasando a otra forma de tratamiento o a otro analista.”

Habiendo pasado 4½ años sobre un diván, puedo dar testimonio del aburrimiento mortal que me inspiraba el redescubrimiento simulado de las teorías de Freud, conocidas con antelación tan bien por el analista como por el analizante.”

Cada vez que vuelvo a Viena, no pienso demasiado en Freud o aun menos en mi estancia sobre el diván de la que tengo muy pocos recuerdos. Escucho en mi cabeza la música de Alban Berg: los cromatismos descendientes al final de concierto A la memoria de un ángel. O incluso Abendstern de Schubert. La música de una ciudad persiste más que sus palabras.”

En 1979, había publicado el primer libro escrito por un francés sobre las terapias comportamentales: Les Thérapies comportementales, stratégies du changement. En el deslicé algunas insolencias juveniles sobre la eficacia del psicoanálisis y sus derivados. Tuve el honor en el que nunca pude pensar; el de tener una crítica en la Revista Francesa de psicoanálisis, de Jacques Hochmann, profesor de paidopsiquiatría en Lyon, que terminaba así un texto, que sonaba como una llamada al orden e indicaba a todos donde estaba la verdad y el camino correcto:

(…) A falta de saber realizar el sueño de Freud de una aleación del oro y el cobre, ¿hay que prever una terapia idiota para los idiotas, es decir una terapia ‘idiotizante’ evitando a los hombres el esfuerzo de pensar? El comportamentalismo tendrá el mérito de la franquicia, mostraría a cara descubierta lo que otros enfoques más o menos codificados disimulan bajo una máscara humanista o personalista, cuando no es todo estúpidamente farmacológico.” ‘Aspects d’un scientisme: les thérapies comportementales’

Concordo em absoluto: TCC é um cientismo barato. Os franceses, coitados, correm do bicho-papão mas caem na frigideira… Hopeless!

Francia está en el vigésimo lugar en materia de publicaciones científicas psiquiátricas. Descorazonados por un sistema intangible, investigadores de valor han dejado Francia por el Canadá o los Estados Unidos. Pero los pacientes son cada vez menos pacientes y están mejor informados: todo el saber científico está, hoy en día, disponible en tiempo real en Internet.

Los psicoanalistas, aunque aun muy numerosos y siempre influyentes, han perdido mucho. Son cada vez menos creíbles, e incluso los medios que les son favorables osan decirlo. Les corresponde modificar sus ideas y sus prácticas, algo que hacen ya sus colegas anglosajones.”

Con mis colegas de escritura, acababa de realizar el sueño de todo intelectual francés: escribir un libro censurado por un ministro de derechas. Encontrándonos en compañía de Flaubert, Baudelaire, Aragon, Vercors y Henri Alleg, que habían sufrido la misma suerte aunque en circunstancias mucho más dramáticas, podíamos sentirnos orgullosos. Incluso me planteé, un instante, dar gracias al ministro por su solicitud, ya que remitía nuestro modesto informe a su verdadero destinatario: el público que siempre ha sabido que se aprende mucho en los libros que se le quieren esconder.” “Toda ideología triunfalista acaba por encontrar una realidad, que un día desbaratará sus ilusiones.” “En la Antigüedad, cuando un general romano conseguía una gran victoria, el Senado y el pueblo de Roma organizaban un triunfo a su vuelta a la ciudad. El general victorioso desfilaba a la cabeza de la parada, pero, dos pasos por detrás de él, un esclavo repetía sin cesar: ‘La gloria es efímera’. (…) Gurú, mito, impostor, genio… Las palabras tienen prisa cuando se trata de Lacan.”

B) LACAN VENTRÍLOCUO – BORCH-JACOBSEN


“Jacques Lacan no publicó su primer libro hasta los 65 años… Son en primer lugar 30 años de enseñanza (…) que le permitieron marcar profundamente las mentes. El guión de sus cursos se fue estableciendo progresivamente bajo el nombre de Seminario, que sigue publicándose más de 20 años después de su muerte.”

El lacanianismo es una maravillosa ilustración del carácter oportunista y camaleónico del psicoanálisis.” “Sin embargo, basta con leer no importa cual de sus escritos para darse cuenta de que su ‘Freíd’ no tiene rigurosamente nada que ver con el Freud histórico e incluso lo contradice en puntos de hecho esenciales (algo que sus colegas y rivales no dejaron de revelar, por supuesto).”

Freud daba un sustrato biogenético a sus teorías, Lacan recusaba todo biologismo. Freud concebía el narcisismo como un amor al yo, Lacan como una alienación en un alter ego imaginario. Freud hablaba de ‘pulsiones’, Lacan se reía de la noción de ‘instinto’. Freud hablaba de ‘satisfacción del deseo’, Lacan afirmaba que el deseo no se satisfacía más que en la insatisfacción, la carencia y el fracaso. Freud hablaba del ‘objeto’ de la pulsión, a Lacan sólo se le conocía un objeto básicamente ‘perdido’. Freud veía en la prohibición paterna un obstáculo al deseo edípico, Lacan al contrario de la ley hacía de aquella su propia condición.”

STONKS MÁXIMO: DIZER-SE PSICANALISTA PARA DESTRUIR A PSICANÁLISE POR DENTRO (PARTE NOBRE) E LUCRAR COMO UM PSICANALISTA AO MESMO TEMPO: “Sin embargo, Lacan afirmaba con el mayor aplomo sacar sus teorías de los textos del propio Freud, lanzando a sus discípulos a una búsqueda cómica del pasaje preciso en el que Freud habría hablado de la ‘forclusion’, del ‘significante’ o del ‘objeto a minúsculo’. Podrían buscar durante tiempo. Los conceptos de Lacan no vienen de F., sino de hecho de otros: de Hegel, de Kojève, de Heidegger, de Sartre, de Blanchot, de Bataille – entre otros. No hay que buscar en otra parte la razón de su extraordinario éxito en Francia (y de su fracaso en los países anglosajones, poco dados a la ‘filosofía continental’). Si Lacan fascinó y reclutó a tantos intelectuales franceses, es porque les sirvió, bajo la etiqueta ‘psicoanalista’, ideas procedentes de su propio Zeitgeist (espíritu del tiempo) filosófico. Sorprendente jugarreta, de la que muchos aun no se han dado cuenta. Lacan, al ser un intelectual perpetuamente al acecho de lo que de nuevo se hacía, comprendió muy pronto que el psicoanálisis no tenía ninguna posibilidad de ‘prender’ en Francia si no se le sometía a un revocado filosófico integral, susceptible de atraer a una clientela formada con las ‘tres H’ (Hegel, Husserl, Heidegger) y alérgica a toda forma de biologismo, de positivismo o de ‘cientismo’.

Lean sus textos de los años 1930-40, consagrados a la elaboración de la teoría del ‘estadio del espejo’ u de la constitución imaginaria del yo: no podrán dejar de sorprenderse de sus

resonancias hegelianas: el yo que se constituye por reflexión especular, que se aliena en un alter ego imaginario con el cual entra inmediatamente en una ‘lucha de puro prestigio’, etc. Todo esto es una reescritura de la dialéctica del reconocimiento hegeliano, mezclada con elementos procedentes de la psicología del niño (Henri Wallon, Charlotte Bühler). En cuanto a la idea de que el yo es un objeto, viene directamente del ensayo de Sarte (el mismo profundamente hegeliano) sobre La Trascendencia del ego: la conciencia, al ser siempre ‘conciencia de’, no puede asirse más que a distancia de ella misma, bajo la forma de un ego-objeto trascendente que la inmoviliza. Nada que ver, evidentemente, con el inocente ‘narcisismo’ de F., para el que el yo era un regalo, un ‘reservatorio’ de libido cedida y retirada a los objetos.

Sucede lo mismo con los textos de los años 1950-60, en los que aparecen los conceptos de ‘sujeto’, de ‘deseo’, de ‘incapacidad de ser’, de ‘palabra plena’, de ‘Simbólico’, de ‘Real’, de ‘gozo’. Todas estas nociones se enraízan en una filosofía del sujeto entendido como negatividad radical que Lacan sacaba, como tantos otros de la época, de los cursos de Alexandre Kojève sobre la Fenomenología del espíritu de Hegel, cursos que Raymond Queneau había publicado en 1947 (Lacan había asistido a esos cursos en los años 30, pero no parece haber sacado verdaderamente provecho más que a partir de ese momento). Esto vale fundamentalmente para el ‘deseo’ lacaniano, que no tiene nada que ver con el ‘Wunsch’ (deseo) fraudiano y traduce de hecho la ‘Begierde’ (otra palabra para deseo) hegeliana, corregida y revisada por Kojève en su comentario de la dialéctica del Maestro y el Esclavo.”

El deseo humano es un deseo del deseo del otro, dicho de otra manera un deseo puro, vacío, sin objeto, y por eso no puede manifestarse y hacerse reconocer como tal más que en una ‘lucha a muerte por el prestigio’ donde el hombre pone en juego su vida biológica de forma puramente gratuita y ‘soberana’, como decía también Bataille, por nada.”

<…El sujeto del deseo (es decir el sujeto simple, el ‘para-sí’) es una negatividad-trascendencia radical que se niega y se sobrepasa constantemente como objeto ‘en-sí’, no es lo que es y es lo que no es> (Hegel citado por Kojève y por Sartre). En cuanto al lenguaje, hacia el que se vuelve Lacan cada vez más a partir del inicio de los años 50 releyendo a Saussure a la luz, una vez más, de Hegel, Kojève y Blanchot, es la paradójica manifestación de esta negatividad, en tanto que abole y ‘mata’ la cosa (lo ‘Real’) de la que habla, incluido el propio sujeto parlante. Cuanto más el sujeto intenta decirse su verdad, más se equivoca, se falta y se ausenta, y más manifiesta que la verdad es esa misma equivocación. El lenguaje es la Verdad (Heidegger) del sujeto, su abismal aparición-desaparición: ‘Yo, la verdad, hablo’.”

Borch-Jacobsen, Lacan, Le Maître absolu, 1990 (1995).

Nadie sueña con reprochar a Lacan que le gustara la filosofía y haberse inspirado en aquellas las cosas más agudas que se hacían en el pensamiento de su tiempo, aunque tuviera tendencia a no citar las fuentes. [¡!!] Nadie le reprocha no haber sido fiel a F. (en todo caso yo no). Lo que hay que reprocharle, es por el contrario haber pretendido ser fiel a Freud y haber presentado su filosofía abigarrada como la verdad del psicoanálisis. Una cosa en efecto es avanzar ideas y liberarlas a la apreciación del público, como hace cualquier filósofo: a este respecto Lacan aparecería como un simple epígono. Otra cosa diferente es hacer hablar a la ‘boca sombría’ del inconsciente y hacerle pronunciar tesis que se acaban de leer en el último libro de Heidegger o de Blanchot: ‘Yo, la verdad, hablo’, etc. La posición del discurso es evidentemente completamente diferente. En un caso, el autor firma sus propias ideas, tomando una responsabilidad. En el otro, el ventrílocuo, toma una idea cualquiera de otro, negando serlo para nada: procedimiento de clérigo y fundador de religión.

Lacan afirmaba: ‘F. nos decía que x’ – después de lo cual proponía una interpretación de su credo, muy a menudo influenciada por la última filosofía del momento. O bien declaraba: ‘La práctica psicoanalítica nos enseña que y’, ‘Todo analista, entrado en años, sabe bien que z’ – después de los cuales deslizaba como una carta en el correo no importa que nuevo concepto.” “misma proyección especulativa, misma propensión a presentar ideas e hipótesis bajo la forma de ‘hechos observados’ o de ‘práctica analítica’ (desde este punto de vista por lo menos, Lacan habría sido el fiel discípulo del fundador).”

¿cómo no iban a estar convencidos de que esta era la ciencia de las ciencias, ya que parecía haber ya anticipado los avances más recientes del pensamiento? El ‘psicoanálisis’ lo era todo, lo invadía todo – pero era, también aquí, porque Lacan rellenaba con él no importa qué.”

Los intelectuales franceses hubieran pagado ese precio tan caro para buscar la verdad de su deseo en su diván si hubieran sabido que podían encontrar la misma sabiduría en las ediciones de bolsillo de Kojève, de Heidegger o de Blanchot?”

C) ¿POR QUÉ LACAN ES TAN OSCURO? – FILIP BUEKENS (TRAD. DO HOLANDÊS DE VAN RILLAER)

(*) “El presente texto es un extracto de un libro que aparecerá en holandés, Ensayo sobre el vacío: la irrelevancia filosófica de Lacan y del lacanianismo

S. Barnard y B. Fiak (eds.), Reading Seminar XX. Lacan’s Major Work on Love, Knowledge, and Feminine Sexuality. Albany, State University of New York Press, 2002.

El sueño es un jeroglífico, dice Freud. ¿Qué hubiera sido necesario que añadiera para que no esperáramos las palabras del alma?”

Judith Gurewich no duda en hablar del carácter ‘revolucionario’ de Lacan. Si sus ‘brillantes’ formulaciones no son comprendidas, es simplemente a causa de ‘prejuicios’. (…) ¿Se puede decir que una crítica razonable es ipso facto la puesta en acción de prejuicios?”

La lógica y la teoría de conjuntos son disciplinas perfectamente transparentes… salvo en la versión lacaniana. Incluso entre los interpretadores experimentados de Lacan reina una total disparidad concerniente a la significación de sus formalizaciones lógicas.”

¿por qué aquel que tiene la ambición explícita de elaborar una teoría sobre un tema, intrínsecamente difícil e incluso oscuro, tendría que escribir de una forma oscura?” “Existe cantidad de teorías filosóficas concernientes a cosas vagas y a conceptos imprecisos que no dejan de estar presentadas de forma clara y bien argumentada.” “El argumento lacaniano implica que F., por el mismo hecho de escribir de forma comprensible, ¡no hubiera entendido nada del inconsciente!” “Suponer que el estilo barroco de Lacan sea una imitación del inconsciente o, más fuerte aun, que el inconsciente enuncie el mismo su teoría (¿Lacan sería un desagüe acústico de una teoría del inconsciente, formulada por su propio inconsciente?), eso no basta para justificar su estilo y sus extraños razonamientos.” “Y puesto que Lacan tiene la intención de presentar su teoría de una forma barroca, su elección se basa en consideraciones racionales, u no puede decirse, en este caso, que sea su inconsciente quien tiene la palabra.” “Si el contenido de una teoría no se comprende salvo que el lector acepte que es verdadera, el lector puede considerase con toda justicia inmovilizado.”

Una cuestión notablemente difícil es establecer de forma precisa la significación, en la teoría de Lacan, del término significante.” “Poco importa la energía consumida en ‘articular el deseo’ – digamos en construir una teoría –, el deseo escapa siempre a las frases, a los diagramas y a las ecuaciones. Pero, insiste Lacan, las teorías no deben ser silenciosas sobre aquello que se les escapa!” “La actitud hostil de Lacan con respecto al discurso teórico está además en contradicción con sus ambiciones ‘científicas’ explícitas.” “Si el segundo argumento es correcto, sólo los psicoanalistas expertos tienen acceso al significado oculto de los textos lacanianos, y los demás lectores, por definición, no pueden entrar en este proceso.” “La objeción según la cual Lacan no presenta una teoría es contradicha por el propio Maestro, pero también por el estatus que dan los interpretadores de los textos lacanianos: incluso cuando empiezan por decir que Lacan habla en tanto que terapeuta, terminan siempre con una explicación de la teoría, que se encuentra en la base de su discurso.” “Este problema atraviesa toda la obra de Lacan; por una parte, sería preciso escapar a las convenciones del lenguaje teórico; por otra parte, todos los medios son buenos para hacer del psicoanálisis una ciencia de todas.”

¿Tiene Lacan necesidad de nuevos conceptos? Teniendo en cuenta que su objeto de estudio, el inconsciente, es relativamente nuevo, se cree obligado a ello. Quien lee a Lacan debe aprender un nuevo idioma: el ‘Otro’, lo ‘real’, ‘el significante’, etc.” “Todo desarrollo de un nuevo campo teórico se acompaña de la introducción de conceptos o de nuevas significaciones de los conceptos al uso. En la práctica, eso no debería plantear grandes problemas: basta con trabajar cuidadosamente, evitar las ambigüedades y hablar de forma coherente. Lacan no tiene en cuenta estos principios. Veamos una comparación: se puede perfectamente comprender las teorías de Newton y de Einstein, aunque se sitúen en paradigmas diferentes. Afirmar que Lacan se refiere a un ‘paradigma único’ no excusa su oscuridad.

Concluyo: los elogios ditirámbicos dirigidos a Lacan no tienen justificaciones racionales. Los argumentos de los lacanianos son, como muchos de los razonamientos del propio Maestro, conceptualmente incoherentes y, para toda persona dotada de razón, completamente rechazables.”

TERCERA PARTE

EL PSICOANÁLISIS FRENTE A SUS IMPASES

1) EL PSICOANÁLISIS ¿ES UNA CIENCIA?

A) EPISTEMOLOGÍA Y MALA FE: EL CASO DEL FRAUDISMO – CIOFFI (TRAD. DEL INGLÉS POR ANNE-CAROLE GRILLOT)

(*) “Se puede demostrar que la tolerancia creciente con respecto a la homosexualidad en nuestras sociedades no se traduce en una disminución de la tasa de pacientes atendidos con delirio de persecución, lo que invalida la tesis freudiana”

(*) “la astrología, por ejemplo, ha sido mil veces refutada, y sin embargo, sus adeptos continúan encontrando miles de confirmaciones de sus teorías.”

(*) “El psicoanálisis es una pseudociencia porque es una teoría de mala fe. Las tesis de Freud, observa Cioffi, han sido invalidadas hace mucho tiempo, y los historiadores han puesto en evidencia las manipulaciones de los datos a las que F. se entregaba, pero los defensores del psicoanálisis siguen obstinadamente encerrados en su jaula de cristal.”

(*) “cuando se ha revelado un error o una manipulación experimental, como en el caso de los ‘rayos N’ de Blondlot(**) o el fraude perpetrado por Cyril Burt para promocionar sus trabajos sobre la herencia de la inteligencia, esto basta de ordinario para dejar de considerar de una vez por todas a la teoría que se apoya sobre esas experiencias. No en psicoanálisis.

(**) Ver M.J. Nye, ‘N-Rays: An episode in the history and psychology of science’, Historical Studies in the Physical Science, vol. 2 (1980), p. 125-155”

(*) “Frank Cioffi no se hace ilusiones sobre la buena fe de sus interlocutores. Denuncia con audacia a los ‘perros guardianes del psicoanálisis’. Con una energía poco común en Francia, compara la mala fe de los fraudianos con la de todos los creyentes obstinados de los totalitarismos del siglo XX, a los que ninguna prueba ni ningún argumento racional apartaba del dogma.”

Sigmund Fraud fue quizás un gran hombre, pero sin embargo no era un hombre honorable. Grande por la imaginación y la elocuencia, se deshonró dirigiendo un movimiento dogmático en cuyo interés no dejó de perjurar.” “¿En qué criterios nos basamos para afirmar que Fraud no es que simplemente se equivocara sino que se trataba de un hipócrita y un mentiroso? ¿Por qué es importante, y no solamente para sus biógrafos? Porque el psicoanálisis es una ciencia testimonial. El crédito que se le concede a F. y a los analistas no descansa en las garantías que ofrecen sino en las que pretenden tener.”

A History of Medical Psychology, de Gregory Zilboorg, ilustra bien el enraizamiento de la tradición hagiográfica concerniente a la honestidad de F.. Zilboorg, no contento con relatar el mito convencional de ‘el inmenso deseo de Freud de conocer la verdad’, lo reforzó con el testimonio de un profesor de teología de la Universidad de Friburgo: ‘Freud es un buscador fanático de la verdad y creo que no dudaría en desvelarla aunque eso le costara la vida’.”

En La Vida y la Obra de Sigmund Freud, Ernest Jones evoca ‘la absoluta honestidad y la total integridad’ del padre del psicoanálisis, cuando sabía con certeza que esas cualidades estaban lejos de ser absolutas y totales, ya que su propio relato de la vida de Freud lo prueba.”

En 1992, el filósofo de las ciencias popperiano¹ J.O. Wisdom escribió: ‘Un hombre más honesto que Freud raramente ha pisado el suelo de nuestra tierra’.

¹ Eufemismo para idiota.

Mentira nº 1: Freud descubrió el complejo de Édipo sobre la base de falsos recuerdos de seducción parental”

Si numerosos admiradores de F. conocen la teoría de la seducción y saben que éste reconoció que se trataba de un error, no se han percatado de las implicaciones desastrosas de este error, ya que han creído la falsa historia que contó F. sobre las razones que le llevaron a cometer ese error. Lo que es falso, es que se basara en una convicción errónea, según la cual sus pacientes habían sido objeto de agresiones sexuales durante su infancia, sobre los recuerdos que éstas parecían haber reencontrado en el curso del tratamiento. En realidad, F. no basó estas escenas de agresión sexual en recuerdos de sus pacientes sino en su interpretación de sus sueños, sus asociaciones libres e imágenes fragmentarias de las que formaron parte en el curso del análisis.”

¿Por qué son desastrosas las implicaciones de esta falsa declaración en cuanto a la pretensión de F. de poder reconstruir los años perdidos de la infancia? Porque, cuando se comprende que, reemplazando los abusos sexuales sufridos durante la infancia por fantasías perversas e incestuosas, Freud ha utilizado exactamente el mismo material, adquirido por el mismo método, que el que le había conducido a las falsas conclusiones de abusos sexuales infantiles, la teoría de la sexualidad infantil pierde toda credibilidad.”

A finales del siglo XX, Kurt Eissler, fundador y secretario de los Archivos Freud, escribió un libro sobre la teoría de seducción que contiene un capítulo titulado: ‘Incoherencias e incongruencias en los artículos de 1896 de Freud sobre la teoría de la seducción’. Para aquellos que no conozcan su reputación de defensor eminente de la rectitud de F. en el seno de la comunidad psicoanalítica, diré simplemente que es como si el papa hubiera difundido una encíclica titulada ‘Incoherencias e incongruencias de los relatos de los Evangelios’. Una de las conclusiones de Eissler consiste en decir que ‘F. fue injusto con sus antiguos pacientes. En ninguna parte de sus publicaciones de la época se encuentra a mujeres acusando a su padre’, y ‘Freud había olvidado los casos o había ejercido una presión sobre ellos para obligarles a aceptar sus interpretaciones’. Eissler había comentado en varias ocasiones la teoría de la seducción sin apartarse de la opinión general y se sintió por tanto obligado a explicar el aspecto tardío de esta súbita severidad. Este es su argumento: ‘Estos tres artículos están escritos con tanta brillantez, convicción y persuasión que hay que leerlos varias veces con cuidado para descubrir las contradicciones que encierran y las debilidades de su fundamento’.”

Mentira n° 2: érase una vez una chica llamada Anna O.”

En un artículo de la Partisan Review, que toma partido por F., el historiador del psicoanálisis Nathan Hale respondió a las acusaciones formuladas en Souvenirs d’Anna O., de Borch-Jacobsen. Negó que F. hubiera mentido diciendo que Anna O. estaba curada. F. había dicho simplemente que Anna O. se había liberado de algunos de sus síntomas. Cuando Borch-Jacobsen protestó diciendo que esta construcción era simplemente incompatible con los textos, la Partisan Review decretó que el tema era demasiado abstruso para interesar a sus lectores y rechazó publicar su carta. Esta anécdota ¿no responde en parte a la pregunta plateada por Elaine Showalter en su crítica de The Memory Wars, de Frederick Crews, a saber: ¿por qué se considera que los defensores de Freud no sólo simplemente se equivocaron sino que son ‘hipócritas e impertinentes’? Aunque a algunos les pueda parecer oblicuo, Nathan Hale es un modelo de simplicidad comparado con Elisabeth Roudinesco, cuyo truco de jugarreta posmodernista desfigura el análisis de Anna O.. Así es como Roudinesco concilia la falsedad de la historia del tratamiento de Anna O. con su propagación por los freudianos. Esta historia aunque ficticia,

testimonia una verdad histórica a la que no puede oponerse la simple argumentación de una ‘realidad’ de los hechos. En efecto, cuando se cree demasiado en la transparencia del evento, se corre el riesgo de denunciar la actividad fabuladora como una intencionalidad mentirosa […]. La verdad de esta historia se atiene a la leyenda y remite a la manera en que el movimiento psicoanalítico se cuenta a sí mismo las fantasías iniciales de un nacimiento.” Histoire de la psychanalyse en France, p. 31

Mentira n° 3: la teoría de la sexualidad infantil de F. ha sido confirmada por la observación directa de niños”

Servirse de ello con ese fin, es hacer como el hombre de la petaca de Wittgenstein que intenta tener confirmación de lo que dice el periódico comprando otro ejemplar del mismo periódico.”

Un día, Ernest Jones excusó un olvido tácticamente ventajoso de Jung señalando que era

probablemente ‘inconsciente’. F. respondió que ‘un hombre honorable no sabría tener un inconsciente así’.”

¡Conozco casos de neurosis en los que el complejo de castración no juega ningún papel patógeno o no aparece en absoluto!’ F. Y sin embargo, cuando Adler fue puesto en jaque, el complejo de castración fue restablecido en su posición central, y F. olvidó que había tratado a pacientes en los que el ‘complejo de castración no jugaba ‘ningún papel patógeno’.”

Mentira nº 4: F. no tenía ninguna idea preconcebida en cuanto a la influencia de la sexualidad cuando empezó a analizar a sus pacientes, de suerte que la aparente corroboración no podía ser debida a la sugestión.”

* * *

Só 4 mentiras? Achei que seriam 40!…

Un historiador americano, indignado por el rechazo de Speer a admitir que estaba al corriente de la ‘solución final’ y persuadido de que mentía cuando rechazó asistir a una conferencia sobre ese tema, habría modificado los resúmenes de los debates de forma que Himmler parece dirigirse directamente a Speer.”

ARGUMENTO DA AUTOCORREÇÃO GRADUAL: “¿La decisión de Hitler de elevar a los Japoneses al rango de los Arios rubios prueba que la versión nazi de la teoría racista no era pseudo-científica?”

Un día, escuché una anécdota de J. Edgar Hoover, el fundador del FBI, según la cual, cuando decidía someter a escuchas a una persona sospechosa de subversión, preparaba 2 informes, uno titulado ‘subversivo’ – para el caso en que las conversaciones escuchadas fueran comprometedoras –, y otro titulado ‘subversivo astuto’ – para el caso en que no lo fueran.”

2. ¿EL PSICOANÁLISIS ES UNA PSICOTERAPIA?

A) ¿EL PSICOANÁLISIS CURA? – COTTRAUX

La propia palabra de ‘psicoanálisis’ no designa de ninguna manera el tipo de atención, ya que se trata de analizar el psiquismo disolviendo las resistencias que impedirían a un sujeto conocerse a sí mismo. Esta tradición se remonta, por lo demás, al budismo Zen, a Platón y a los presocráticos. Sería vano por tanto hacer un proceso al psicoanálisis en nombre del orden médico, ya que su intención no es cuidar y mucho menos curar. Nadie le pide a un filósofo o a un sacerdote que cure. Si todo esto fuera cierto, mi capítulo habría terminado. Pero el problema se basa en una doble ambigüedad: el psicoanálisis pretende en ocasiones tratar en el sentido médico del término, y las filosofías y las religiones pueden tener efectos terapéuticos, aunque no tengan, en principio, intención de tratar.”

A ÉTICA CATÓLICA E O ESPÍRITO PSICANALÍTICO? “No ha sucedido lo mismo en Francia, que ha seguido siendo, con Argentina y Brasil, uno de los bastiones de una influencia psicoanalítica casi sin comparación hasta una fecha reciente.”

Hay un problema ético: ¿con qué derecho vamos a transformar un simple problema psicológico en una neurosis de transferencia que corre el riesgo de durar años y con qué beneficios?”

El psicoanálisis lacaniano agrupa alrededor de 3 mil pseudoanalistas en el mundo, principalmente en Francia y América del Sur. Esta distribución no es debida al azar: se trata de países en los que la fe católica sigue siendo fuerte.” Já que estamos nos protestantizando, AO MENOS a psicanálise está com os días contados por aquí!

Syntoma: es la ortografía antigua de la palabra síntoma. Es lo que relaciona lo imaginario, lo real y lo simbólico (el lenguaje) en la última teoría lacaniana. Para él el ‘syntoma’ es el nombre del padre; el que conserva a través de un nudo sutil, el nudo borromeano, tanto lo imaginario, como lo simbólico y lo real. El padre se convierte así en el hombre santo. No es preciso aferrarse al síntoma sino buscar en él al padre.”

Lacan en El Triunfo de la religión se definía a sí mismo como ‘un niño de cura’. Hacia el final de su recorrido terrestre, sucedió que atacó sin misericordia al psicoanálisis, del que ridiculizaba sus pretensiones terapéuticas.”

Como ha demostrado sobradamente un tal Karl Popper, no es una ciencia en absoluto, porque es irrefutable. Es una práctica, una práctica que durará lo que durará. Es una práctica de charlatanería.”

Lacan, de hecho, en El Triunfo de la religión no se priva de tachar a F. de ‘grosero materialista’, para ganarse los aplausos de un auditorio bienpensante.”

en la época de los PACS (Pacto civil de solidaridad), de las familias monoparentales, el Orgullo Gay y de las madres solteras ha sido recientemente subrayado por psicoanalistas más en sintonía con los problemas de este tiempo.”

La ANAES (Agence nationale d’accréditation et d’évaluation en santé), convertida actualmente en Alta Autoridad de la Salud, ha propuesto 3 niveles de pruebas. El grado A que corresponde a una eficacia demostrada. El grado B que refleja la presunción de eficacia. Y, finalmente, el grado C que no manifiesta más que un débil nivel de pruebas. Existen sistemas de clasificación análogos en los países anglosajones.” “Las terapias psicoanalíticas han sido testadas en ciertas indicaciones, aunque en ensayos controlados poco numerosos o estudios de cohortes que hacen imposibles conclusiones positivas en los trastornos ansiosos, la depresión y los estados psicóticos. En cambio, existen datos positivos en el stress postraumático en un único estudio (presunción de eficacia).”

B) ANÁLISIS TERMINABLE – CREWS (TRAD. DEL INGLÉS POR AGNÈS FONBONNE)

La curación por la fe existe igualmente, como admitía tristemente F., frente a los prodigios Lourdes. Al igual que una milagrosa imposición de manos no prueba nada en cuanto a la piedad de Cristo, el contenido posicional del psicoanálisis sigue no demostrado por una o incluso varias historias de casos con éxito. Si el psicoanálisis debe justificar el exotismo de su teoría, debe, para empezar, probar que sus características únicas están bien autentificadas por hechos que a su vez no se presten a ninguna otra explicación más simple.”

Las investigaciones han demostrado que los individuos aceptan con entusiasmo falsas interpretaciones como descripciones precisas de sus propias personalidades”

Relacionando el éxito terapéutico con factores inespecíficos o falaces, el psicoanálisis no es más deshonesto que no importa cual de las numerosas terapias que invitan al cliente a fusionarse con el inconsciente colectivo, a regresar a la infancia, a revivir su nacimiento o a identificar sus reencarnaciones precedentes.”

el cliente freudiano es el único que prolonga su tratamiento y lo paga religiosamente para tener el simple privilegio de ver algunas de sus objeciones arrojadas a la basura” “Si el psicoanálisis es realmente LA cura de los trastornos de la personalidad, como pretenden sus más fervientes admiradores, hay que preguntarse por qué sus beneficios sólo se extienden a una clientela relativamente sana y más bien rica. Según los investigadores freudianos antes mencionados, el retrato del cliente susceptible de beneficiarse de un psicoanálisis es ‘joven, educado, inteligente, motivado, con tiempo disponible, dinero y un trastorno de la personalidad relativamente ligero’.”

3. ¿EL PSICOANÁLISIS ES UN INSTRUMENTO DE CONOCIMIENTO DEL YO?

A) DESAFÍOS A LA METODOLOGÍA DEL PSICOANÁLISIS – MACMILLAN (TRAD. DE AGNÈS FONBONNE)

El psicoanálisis nos ofrece una multitud de teorías, cada una de ellas esforzándose en obtener el puesto de vedette, y todas ellas bailando con músicas diferentes la mayor parte de las cuales no se parecen para nada al tema original de Freud. ¿Cómo hacer para elegir una? Si estas teorías son guías más o menos aceptables de una realidad verdadera – y, en ese caso, la realidad verdadera es la realidad de las gentes –, ¿cómo elegir aquella de la que podamos sacar un verdadero alimento intelectual?”

Deus eu não sei, mas o analisando com certeza joga dados!”, teria dito Einstein!

Que no haya ninguna respuesta clara a la pregunta: ¿para qué sirve el saber psicoanalítico? Es una consecuencia de los defectos fundamentales e irremediables relacionados con las técnicas de recolección de datos u sus interpretaciones, consecuencia común a todas las escuelas del psicoanálisis.”

Bremer enuncia que la construcción de Freud está basada ‘en varias ideas fundamentalmente erróneas’, la más importante de las cuales es que utiliza el relato de la primera ascensión de Moisés al monte Sinai, después de la cual rompió las Tablas de la Ley, en lugar de la segunda ascensión, al término de la cual Moisés recibió las segundas Tablas de la Ley. Bremer remarca que ninguno de los aspectos de la estatua está en contradicción con la segunda ascensión, pero que en cambio hay muchos con la primera. Ese mismo año, Bergmann observa casi por azar que es una pena, para la interpretación de F., que el Moisés de Miguel Ángel posea cuernos, ya que, según el Éxodo, solamente los habría adquirido en la segunda ascensión, después de que se le apareciera Dios. Al igual que las Tablas vírgenes que sostiene Moisés, esos cuernos indican que Miguel Ángel representó a Moisés durante la segunda ascensión.”

Miguel Ángel probablemente representó a Moisés con cuernos porque, según la traducción latina del Éxodo que hizo San Jerónimo (a partir del hebreo), es así como fue glorificado. La interpretación de San Jerónimo seguramente no es errónea como se ha dicho en ocasiones. Años antes, Áquila había hecho la misma elección en su traducción en griego, y Jerónimo y él eran reconocidos como expertos hebraicos por sus trabajos. Pero el hebreo es tan particular y tan ambiguo que no hay ninguna certeza en cuanto al sentido literal de las frases en hebreo y aun menos en su traducción. J. Bowker, The Targums and Rabbinic Literature: An Introduction to Jewish Interpretations of Scripture. ed. cor., Cambridge, Cambridge University Press, 1969, 1979; R. Mellinkoff, The Horned Moses in Medieval Art and Thought.“La cuestión no es saber si la interpretación del Moisés de Bremer es más plausible o convincente que la de Freud, sino que la suya es más fiel a los hechos. La posición es parecida a las construcciones psicoanalíticas propiamente dichas. Sin criterio exterior, no hay ningún medio de juzgar si ofrecen un informe completo y honesto de la historia del paciente, eso que Freud consideraba como el objetivo del análisis.”

No existe por ejemplo, ningún hecho que aporte la evidencia de que las niñas se masturban de otra manera que frotando su clítoris o que el superyo femenino sea más o menos rígido que el superyo masculino.” “No se ha propuesto ninguna solución a estas cuestiones, incluso por esos psicoanalistas y sus simpatizantes que califican de ‘problemática’ la teoría de Freud sobre la sexualidad femenina.”

El conflicto que enfrentó a Freud con Rank a propósito de la tesis de este último sobre el traumatismo de nacimiento aporta quizás el caso más claro sobre la forma en que los hechos reflectados por la asociación libre se generan por las diferencias de técnica y la orientación teórica.”

4. LOS CLARIVIDENTES

A) UNA EPIDEMIA ENTRE LOS PSIQUIATRAS – HOCHE (TRAD. DEL ALEMÁN POR BORCH-JACOBSEN)

De forma sorprendente, un gran número de discípulos, en parte resueltamente fanáticos, se han alistado con F. y le siguen a donde les ordene. Hablar a ese propósito de una ‘escuela’ freudiana estaría en realidad completamente fuera de lugar, en la medida en que no es cuestión de hechos científicamente probables, sino de artículos de fe; en realidad, si exceptúo algunas cabezas más ponderadas, se trata de una comunidad de creyentes, de una especia de secta (eine Art von Sekte) con todas las características de éstas.”

Lo que es común a todos los miembros de la secta es el alto grado de veneración por el maestro, que quizás no tenga otro análogo que el culto a la personalidad del círculo de Bayreuth.

El movimiento freudiano es en fin, el retorno, bajo una forma moderna, a una Medicina mágica, una especie de enseñanza secreta (Geheimlehre) que sólo puede ser practicada por adivinos cualificados.”

B) UNA SUPERCHERÍA PARA NUESTRO SIGNO – ALDOUS HUXLEY (1925) (TRAD. POR AGNÈS FONBONNE)

(*) “Según Huxley, cada época sucumbe al poder explicativo de una teoría seductora que desaparece pronto, más o menos rápidamente, más o menos profundamente, en los limbos de la historia del pensamiento: astrología, magnetismo, fisiognomía. El siglo XX será percibido un día como el siglo de una nueva superchería, tan popular como estrafalaria: el psicoanálisis.”

La frenología, la fisiognomía y el magnetismo nos parecen hoy en día ciencias bastante cómicas y extrañas. Hemos perdido nuestra fe en la protuberancia de las protuberancias; y para dar una explicación a los fenómenos del hipnotismo y de la sugestión, ya no tenemos necesidad de recurrir a la caricatura de la teoría del magnetismo. Sin embargo, hace un siglo, la gente que aportaba a la ciencia lo que se denomina – sin ironía alguna – un interés esclarecido eran en su mayor parte fervientes admiradores de Lavater, de Gall y de Mesmer(*). Balzac, por ejemplo, creía muy sinceramente en sus doctrinas, y su Comedia humana rebosa de presentaciones pseudocientíficas de la teoría de las protuberancias y fosas craneales y de otros fluidos magnéticos.

(*) Lavater fue un célebre fisiognomista del siglo XVIII; Gall fue el fundador de la frenología, y Mesmer, el autor de la doctrina del magnetismo animal.

Al releerlas ahora uno se sorprende – una sonrisa condescendiente en los labios – de que un hombre tan sensato como Balzac, por no decir un hombre de genio, haya podido creer tan inverosímiles tonterías, y más extravagante aun, pensar que hayan podido tener alguna relación con la ciencia. En nuestro siglo tan esclarecido, este tipo de cosas no podrían suceder, no decimos con suficiencia.

Pero, lamentablemente, sí, es posible. Algunas vagas mentes diletantes y bien pensantes, que en 1925 se veían como seres particularmente esclarecidos sobre cuestiones científicas, descubrieron con la más gran delectación una cosa casi tan estúpida, fácil e inexacta, una cosa casi tan divertida, excitante e irresistiblemente ‘filosófica’ como las teorías de Gall o de Mesmer. La frenología y el magnetismo se unieron a la magia negra, la alquimia y la astrología. Pero no hay ninguna necesidad de lamentar su pérdida; los fantasmas de nuestros antepasados no tienen ninguna razón para compadecerse de nosotros. En realidad, casi podrían envidiarnos. Ya que hemos puesto la mano sobre una cosa más divertida que la frenología. Hemos inventado el psicoanálisis.

Dentro de 50 años, ¿adivinan cual será la pseudociencia preferida del novelista, de la mujer mundana y del investigador cándido pero sin suficiente rigor científico para proseguir después del primer ‘eureka’? Será algo, podemos estar seguro, que, un siglo más tarde, parecerá tan grotesco como nos parece hoy en día la frenología y como parecerá el psicoanálisis a su vez a la próxima generación.”

De la magia al magnetismo pasando por la astrología y hasta el psicoanálisis, el objeto de todas las pseudociencias ha sido siempre el Hombre – y el Hombre en su naturaleza moral, el Hombre en tanto que ser que sufre y disfruta. La razón no es difícil de encontrar. El Hombre, que es el centro, por no decir el creador de nuestro universo, sigue siendo el más espectacular y apasionante de los temas de estudio. Quien más, quien menos, conocemos todos al Hombre o, al menos, lo pensamos; ninguna necesidad de formación previa para aplicarse a su estudio. Una ciencia del Hombre se presenta como el atajo más rápido hacia el saber absoluto – tal es pues la invariable materia de las pseudociencias.

Los métodos de todas estas ‘ciencias’ desprenden un mismo aire de familia: utilización de argumentos basados en la analogía en lugar de razonamientos lógicos, aprobación de todo tipo de evidencias útiles sin verificación experimental, elaboración de hipótesis consideradas en seguida como hechos, deducción de leyes a partir de un único caso mal observado, transformación de connotaciones de determinados términos cuando mejor conviene y apropiación espontánea del sofisma post hoc ergo propter hoc – después de esto luego a causa de esto. Así actúan las mentes no-científicas que buscan la verdad para montar el extraño y formidable edificio de sus doctrinas.

Algunas de estas pseudociencias han disfrutado en el pasado, incluso durante milenios, de una gran popularidad. Pero el desarrollo de ciencias auténticas, la generalización de la educación y el acceso al conocimiento han acelerado considerablemente el proceso de su nacimiento y declive. La astrología y la magia perduraron durante decenas de siglos en las antiguas naciones civilizadas, pero el magnetismo no duró más que una generación antes de desaparecer. La frenología no vivió mucho más tiempo, y, de todas las prometedoras estrellas pseudocientíficas del siglo XX, los Caballos sabios de Elberfeldt(*) no consiguieron salir en la prensa más que 2 o 3 años; los sublimes rayos N de Nancy no ondularon demasiado tiempo hacia la nada después de un estallido popular que, aunque intenso, fue de breve duración. El psicoanálisis ha durado y, podemos estar seguros, va a durar mucho más tiempo por la simple razón de que su carácter erróneo no puede ser probado de forma concluyente por un único experimento, como sucedió con los rayos N. Sin embargo, como todas las otras grandes pseudociencias del pasado, la seguridad del absurdo aparecerá y crecerá poco a poco en la mente de sus adeptos, hasta que al fin incluso aquellos lucen una mirada inteligente con respecto a la ciencia y lo consideren demasiado manifiestamente absurdo como para ser creído. De aquí a entonces, algún nuevo genio anticientífico habrá hecho su aparición con una nueva pseudociencia, y los ex-fanáticos de F. no estarán de duelo.

(*) Cuatro caballos que eran capaces, se dice, de calcular, gracias a poderes de telepatía.”

Para empezar, trata del Hombre en su naturaleza moral. A continuación, a sus estudiantes no se les exige ninguna formación particular o inteligencia relevante. Ningún doloroso esfuerzo intelectual a aportar para seguir sus argumentos; los cuales, por otra parte, sólo se presentan en pequeño número en el sentido estricto del término.” “Quien sienta una atracción por retorcer la lógica que representa la deducción analógica puede estudiar el psicoanálisis.” “es, como siempre ha sido, una medicina patentada para las clases distinguidas.” “Si solamente pudiera incorporar un método para predecir el futuro o incluso una receta milagrosa para ganar millones sin trabajar, el psicoanálisis se convertiría en una pseudociencia tan completa como lo fueron la astrología, la magia o la alquimia.” “Por el momento, incluso tomándolo como es, sigue siendo incomparablemente superior al magnetismo, a la frenología y a los rayos N, e inferior solamente a las creaciones más grandiosas del espíritu anticientífico.”

Mi profunda incredulidad con respecto al psicoanálisis nació hace ahora varios años con la lectura de la teoría freudiana de la interpretación de los sueños. Fue el mecanismo de lo simbólico, a través del cual el analista transforma los datos evidentes para convertirlos en el contenido de un sueño oculto, lo que quebrantó la poca fe que le hubiera podido conceder al sistema. Me pareció, mientras recorría esas listas de símbolos y esas obscenas interpretaciones alegóricas de sueños por lo demás simples, que ya conocía este tipo de proceder de antemano.” “los encantadores bestiarios de los que nuestros antepasados de la Edad Media se servían para aprender las grandes lecciones de ética contenidas en la historia natural me vienen a la memoria. Siempre he dudado de que el leopardo sea verdaderamente un símbolo viviente de Cristo (o, como afirman otros bestiarios, del Diablo).”

¿Por qué debería aceptar como válido el simbolismo del doctor Fraud? No hay más razones para creer que subir unas escaleras o volar en el cielo sean sueños equivalentes al coito que para creer que la chica del Cantar de los cantares representa a la Iglesia de Cristo. Por una parte, nos encontramos con la afirmación de algún piadoso teólogo de que una canción de amor aparentemente escandalosa es de hecho, si aceptamos interpretarla en el sentido correcto, la expresión de una inocente y efectivamente loable aspiración hacia Dios. Por otro, tenemos a un médico sosteniendo que una inocente acción hecha en un sueño es, cuando se la interpreta de la forma adecuada, el símbolo del acto sexual. Ninguna de estas 2 explicaciones aporta la menor prueba; cada una por el contrario nos abandona en manos de una afirmación tan plana como infundada. En todos los casos, sólo los que tienen la voluntad de creer son los que tienen necesidad de creer, y no hay ninguna prueba que permita obtener el asentimiento del escéptico. Que una cosa tan fantasiosa como esta teoría de la interpretación por el sesgo de los símbolos (que están prestos a significarlo absolutamente todo según el humor del analista) haya podido un día ser considerada como poseedora de siquiera una onza de valor científico, es verdaderamente increíble. Observaremos de paso que mientras todos los psicoanalistas están de acuerdo en decir que los sueños tienen la más alta importancia, difieren profundamente en sus métodos de interpretación. F. descubre deseos sexuales reprimidos en todos los sueños; Rivers ve la resolución de un conflicto mental; Adler, la voluntad de poder; y Jung, un poco de todo mezclado. Los psicoanalistas dan la impresión de vivir en el maravilloso universo trascendental de los filósofos, en el que todo el mundo tiene razón, donde todo es verdad, donde toda contradicción se tranquiliza.”

Fue la interpretación simbólica de los sueños la que quebrantó en primer lugar mi fe en el psicoanálisis. Pero una crítica sistemática de la teoría debería empezar por poner en cuestión sus doctrinas aun más fundamentales. Está la hipótesis, por ejemplo, que quiere que los sueños sean siempre profundamente significativos.” “La hipótesis psicoanalítica según la cual los sueños tienen el más alto valor significativo se hizo de hecho necesaria por esa otra hipótesis aun más fundamental que es la existencia del inconsciente fraudiano.” “El inconsciente, nos explican, es una especie de antro o de infierno a donde son enviados todos los malos pensamientos y los deseos villanos que entran en conflicto con nuestros deberes sociales del mundo exterior.”

Las 2 partes recurren a las estratagemas más extraordinarias y más ingeniosas: los malos pensamientos se disfrazan, toman el aspecto de vírgenes asustadizas y surgen como inofensivos pensamientos; eso es lo que sucede en los sueños. De ahí el significado de los sueños y la necesidad de interpretarlos simbólicamente, con el fin de alcanzar su sentido oculto, es decir, descubrir cual es el mal pensamiento que se oculta bajo sus disfraces.” “Los pensamientos reprimidos y el censor dan prueba de una increíble ingeniosidad en la

invención de estratagemas. Da la impresión de que son mucho más malignos que la pobre y estúpida mente consciente, que, a menos que sea la de un psicoanalista sería incapaz de imaginar fintas y combinaciones tan ingeniosas. La autenticidad de este apasionante mito antropomórfico es asumida alegremente por todos los psicoanalistas que se aplican a basar en él sus argumentos, como si se tratara de un hecho científicamente probado.”

En su excelente libro, Psychoanalysis Analysed, el doctor McBride relata casos de fobias, que supuestamente son particularmente receptivos al tratamientos por métodos psicoanalíticos, que sin embargo fueron curados por el simple procedimiento del razonamiento con el paciente sobre sus propios miedos.” “Por supuesto, los psicoanalistas repudian con indignación esta noción y declaran a coro que la sugestión es absolutamente extraña a sus procederes y que no la practican por supuesto nunca. La publicación de sus relatos de casos muestra con bastante claridad que la sugestión es, evidentemente, empleada, sea de forma intencionada o no.” “Y el depresivo está curado. Pero la curación probablemente se hubiera efectuado de una forma mucho más expeditiva si se hubiera empleado directamente la sugestión y el hipnotismo desde el principio.”

5. COMO SE IMUNIZÓ EL PSICOANÁLISIS CONTRA LA CRÍTICA

El inconsciente es un arma temible, que funciona a la manera de un proceso inmunitario, destruyendo toda objeción que amenace al sistema. así, es probable que ciertos freudianos denuncien este libro porque revela la ‘resistencia’ y por lo tanto la neurosis de sus autores que rehúsan aceptar las ‘revelaciones’ freudianas.”

A) LOS MECANISMOS DE DEFENSA DE LOS FREUDIANOS – VAN RILLAER

F. presenta características de una personalidad paranoide y contribuyó al desarrollo de una psicología que sospecha, por no decir paranoide (cf. John Farrell, Freud’s Paranoid Quest: Psychoanalysis and Modern Suspicion. New York, New York University Press). Él mismo reconoció la analogía de los sistemas interpretativos del psicoanalista y del paranoico: en ambos casos, escribe, pequeños indicios se explotan y combinan para formar explicaciones. Añade con sagacidad: Sólo pueden preservarnos de tales peligros el amplio asentamiento de nuestras observaciones, la repetición de impresiones similares procedentes de los terrenos más diversos de la vida del alma.

neurastenias (aproximadamente el equivalente a lo que hoy llamamos ‘depresiones’)”

Krafft-Ebing, el célebre sexólogo, objeta que el factor sexual juega ciertamente un gran papel en los trastornos mentales, pero que no se puede generalizar a todos los casos; Hollander dice igualmente que la sexualidad es muy importante, pero que otros factores pueden entrar en juego, por ejemplo el agotamiento en los casos de neurastenia.”

No es necesario ser un experto en epistemología para comprender que ni el éxito de una teoría ni las resistencias que suscita son en sí pruebas de validez o error. Sin embargo, el argumento de la ‘resistencia a la verdad’ se convirtió en la principal defensa de F. y de sus discípulos.”

Freud se presentó a sí mismo como el punto culminante de las revoluciones intelectuales que van desde Copérnico hasta él mismo pasando por Darwin.”

Varias contribuciones a la presente obra demuestran que F. no es el descubridor del inconsciente. Desde hace alrededor de 300 años, filósofos y luego psicólogos han admitido que nuestras conductas participan de procesos en los cuales no reflexionamos o de los que ignoramos”

El más grave de estos errores es creer que el inconsciente es otro Yo; un Yo que tiene sus prejuicios, sus pasiones y sus ardides.” Alain, Élements de philosophie, París, Gallimard, 1941.

Henri Ellenberger demostró que en la época de Freud se interesaban mucho por los problemas sexuales.” “Las críticas no vienen todas de individuos pudibundos ni de reprimidos sexuales. Algunas emanan de psicólogos y de sexólogos que tienen un vivo interés por la sexualidad de la que hablan sin ninguna verguenza.” “Sin la insistencia sobre la sexualidad, el psicoanálisis sin duda hubiera conocido un éxito considerablemente menor. El placer sexual es uno de los más intensos que existen.” “La versión fraudiana del determinismo es criticable porque desemboca siempre sobre los mismos determinantes (la sexualidad y el esquema familiarista) y que supone un inconsciente que elabora contenidos muy complicados a espaldas de la persona que sería su teatro.” “Los psicoanalistas cometen ‘el error del homúnculo’; postulan un ser en nuestro interior, que sin que sepamos nada, tiene sus propios deseos, desarrolla intenciones propias, piensa cosas muy complicadas y hace operaciones aritméticas.”

Sólo los raros privilegiados, que pueden pagarse una larga cura fraudiana, se convertirán en clarividentes en cuanto a los mecanismos del inconsciente y podrán liberarse de automatismos alienantes.

Es sin duda para enmascarar esta fuente legítima de crítica al psicoanálisis que ciertos fraudianos son hoy en día una versión ‘liberadora’ de la doctrina. En la jerga de Élisabeth Roudinesco, esto se convierte en:

El sujeto fraudiano es un sujeto libre, dotado de razón, pero cuya razón vacila en el interior de ella misma. […] F. hizo de la sexualidad y del inconsciente el fundamento de la experiencia subjetiva de la libertad.”

Los psicoanalistas formados en epistemología moderna han abandonado la idea de defender la cientificidad del psicoanálisis. Es la posición de Lacan a finales de los años 1970.”

Entre los psicoanalistas que no entendieron los principios elementales de la epistemología, citamos a É. Roudinesco, la más mediática de los defensores del freudismo.

Uno de los principales argumentos opuestos al sistema fraudiano, particularmente por Karl Popper y sus herederos, es su carácter infalsacionable, inverificable o irrefutable. Incapaz de poner en cuestión sus propios fundamentos, el psicoanálisis no respondería a criterios que le hicieran entrar en el mundo de las ciencias.”

André Green, antiguo director del Instituto de Psicoanálisis de París, decía: ‘Roudinesco se dice historiadora y psicoanalista. […] Temo que no sea más psicoanalista que historiadora’. Diría en este sentido que no es más epistemóloga que psicóloga.”

F., Adler, Stekel, Jung, Rank, Reich, Ferenczi y otros eran ante todo clínicos. Todos construyeron teorías que se contradicen mutuamente. Sólo la investigación científica permite retener, entre las hipótesis, aquellas que encajan mejor con la realidad.”

En 1914, F. escribía que Rank era ‘su más fiel colaborador’ y manifestaba ‘una comprensión extraordinaria del psicoanálisis’. El 8 de abril de 1923, escribe aun a Abraham: ‘Estoy muy contento al convencerme de que mis paladines, es decir usted, Ferenczi y Rank, se aplican siempre en sus trabajos a cosas fundamentales’. Desgraciadamente, al año siguiente, Rank publica su propia versión del psicoanálisis. F. le dice que no habría escrito nunca El Traumatismo del nacimiento si hubiera sido psicoanalizado. Rank responde: ‘En cualquier caso, después de todos los resultados que he visto en los analistas analizados, sólo puedo calificar este hecho como una suerte’. F., furioso, exclama: ‘Esto lo sobrepasa todo’. Ferenczi – en ese momento aun amigo de Rank – escribe al maestro: ‘Lo que no puedo aprobar en ningún caso es la propuesta de Rank con respecto a las ventajas de no estar analizado. Esta frase contradice todo el psicoanálisis y, si es admitida, lo reduciría a una especie de adivinación poética. Entre los primeros psicoanalistas, varios – como el fiel Abraham – no fueron analizados, mientras que otros – Stekel, Ferenczi – sólo lo fueron durante unas horas.”

PEGA FOGO, DIVÃ DO CABARÉ (O TIPO DE BRIGA EM QUE TORCEMOS PELA BRIGA)! “Sabiendo que Jones continuaba criticando a su hija, Sigmund le escribe el 23 de septiembre: ‘Está usted poniendo en pie en Londres una campaña en modo y forma con el análisis de niños de Anna, en la que le hace usted el reproche de no haber sido ella misma suficientemente analizada, reproche que me repite usted en una carta. Me he visto obligado a hacerle ver que esta crítica es tan peligrosa como ilícita. ¿Quién, a decir verdad, estará entonces suficientemente analizado? Puedo asegurarle que Anna por ejemplo ha sido analizada durante más tiempo y con más profundidad que usted mismo’.”

En Las Ilusiones del psicoanálisis, consagré 5 páginas a ejemplos de ‘diagnósticos’ concedidos por F.a discípulos disidentes (Adler, Stekel, Jung, Bleuler, Hirschfeld) y a psiquiatras o psicólogos que emitían críticas (Bratz, Morton, Prince, Heltpach y otros). Me contento aquí con citar brevemente algunas de estas etiquetas: resistencia homosexual, ambivalencia obsesiva, inconsciente perverso, yo paranoico, imbecilidad afectiva, tonto arrogante, rabieta homosexual, delirio de grandeza, loco rematado.”

Por ejemplo, se puede explicar la omnipresencia del tema de la sexualidad en la teoría fraudiana por el hecho de que F., a partir de 1893, sufre importantes frustraciones sexuales, pero sólo observaciones metódicas permiten validar o refutar esta teoría.” HAHAHAHA!

F. publicó resultados falsos. Los fraudianos minimizan esas mentiras, declaran que muchos otros investigadores cometieron fraude y que, de todas formas, F. sigue siendo un genial descubridor.”

en los años 1880, Hans Gross, el padre de la psicología judicial, daba una serie de ejemplos de acusados y de falsos testimonios que se habían traicionado por lapsus y otros actos fallidos. En 1895, Rudolf Meringer, un filólogo, y Karl Mayer, un psiquiatra, publicaban una obra completa sobre los lapsus. El célebre lapsus, citado por F., del presidente de la Cámara austríaca de diputados diciendo ‘Señores, constato la presencia de tantos diputados y declaro, por consiguiente, cerrada la sesión!’ es precisamente un ejemplo dado previamente por otros autores.” “Heath Bawden explicaba, apoyándose en la teoría de Herbart, que los lapsus resultan de un ‘conflicto de sistemas mentales’. El libro de F. sobre los actos fallidos no aparecería hasta 1901. Su originalidad consiste en producir asociaciones de ideas, a partir de los lapsus, hasta llegar a un contenido sexual incluso cuando éste no parezca tener nada que ver.”

F. no era particularmente demócrata. Escribió que ‘no puede evitarse la dominación de la masa por una minoría, ya las masas son inertes y desprovistas de discernimiento’ y que ‘los hombres son, por término medio y en gran parte, una miserable canalla’ (esta última palabra fue muy utilizada por Lacan y luego por su yerno J.A. Miller). Su sistema de pensamiento favorece una ‘subjetivización’ o ‘sobreindividualización’ de todos los problemas psicológicos: la explicación final se encuentra siempre en la vida ‘interior’, los eternos elementos del ‘alma’ (libido, pulsiones de vida y muerte, complejos de Édipo y de castración, deseo de pene) y las vivencias de la primera infancia.” “Se comprenden por tanto las críticas de los psicólogos científicos (que conceden importancia a las interacciones con el entorno y no solamente con las de la primera infancia), los sociólogos y los marxistas.”

En junio de 1949, la revista marxista Nouvelle Critique publicaba un texto, que se hizo célebre: ‘El psicoanálisis, ideología reaccionaria’. Se explicaba que el psicoanálisis, bajo su cubierta de cientificidad, es en realidad un instrumento político. Despolitiza al individuo, hace del revolucionario un ‘neurótico’ y sirve de opio para las clases medias. ‘El psicoanálisis viene a reforzar la psicotécnica ordinaria en un trabajo policial que funciona al servicio del patrono y del ocupante americano con vistas a la eliminación de los no dóciles y de los resistentes.’ Es divertido constatar que, desde la publicación del informe del INSERM sobre las psicoterapias en 2004, los lacanianos utilizaron sin cesar el mismo vocabulario contentándose con reemplazar ‘psicoanálisis’ por ‘TCC’.

En el curso de los años 70, Lacan consiguió interesar a los intelectuales marxistas. Una de las razones se relacionaba con su discurso anti-institucional, que Turkie llamó ‘el protestantismo psicoanalítico’. Para Lacan, ‘la única regla debe ser que no hay reglas establecidas […] el analista no se autoriza más que a sí mismo. […] El psicoanálisis es más una vocación que una carrera y ninguna institución puede garantizar la fuerza que ejerce interiormente la llamada de una vocación en un individuo’.”

Hoy en día, un cierto número de lacanianos presentan al psicoanálisis como la muralla contra el totalitarismo. [Infelizmente vemos a refutação desse pressuposto na França de Le Pen] Si se les cree, los psicoanalistas serían en todo y siempre los héroes de la libertad y de la resistencia a la opresión. Élisabeth Roudinesco llega decir que ‘el pseudoanálisis siempre y en todo lugar ha visto prohibida su enseñanza y práctica por parte de todos los poderes dictatoriales, empezando por el que pusieron en pie los nazis. [… ] Varios representantes [del psicoanálisis] fueron perseguidos, exterminados, torturados a causa de sus ideas’ Olvida lo que escribía 5 años antes: ‘Las dictaduras militares no han impedido la expansión del psicoanálisis en América latina (particularmente en Brasil y Argentina)’. En efecto, Argentina, bajo el régimen de los generales, era nada menos, según la expresión de Serge Leclaire, que el ‘Eldorado del psicoanálisis’. É. Roudinesco no cita un solo nombre de pseudoanalista exterminado o torturado únicamente a causa de su calificación de pseudoanalista (evidentemente hubo pseudoanalistas judíos exterminados, porque eran judíos). Recordemos también que varios pseudoanalistas – por ejemplo Boehm y Müller-Braunschweig – se unieron a la causa nazi y continuaron trabajando como pseudoanalistas en el seno del Instituto Göring.”

El pseudoanálisis molesta al poder absoluto, pero no más, o quizás mucho menos, que algunos hombres de Iglesia incapaces de soportar la esclavitud, que un sindicato movido por la justicia, que un grupúsculo de estudiantes decididos que no temen a la muerte” François Roustang

CUARTA PARTE

LAS VÍCTIMAS DEL PSEUDOANÁLISIS

1. LAS VÍCTIMAS HISTÓRICAS

A) LA HISTORIA TRÁGICA Y VERÍDICA DE HORACE FRINK, MANIPULADO POR LAS NECESIDADES DE LA CAUSA – EDMUNDS (trad. Agnès Fonbonne)

En febrero de 1921, Horace Frink parte hacia Europa con el fin de iniciar un análisis con F.. Tenía entonces 38 años, formaba parte de esa multitud de jóvenes intelectuales irresistiblemente atraídos por el 19 Berggasse en Viena, para estudiar allí, bajo la férula del ‘maestro’, como le llamaban sus aprendices. Frink es de esos que aspiran a formarse en la Maestría del Arte pagando 10 dólares la hora de diván, para deshojar sueños y fantasías. Freud enseña en parte el pseudoanálisis aplicándolo simplemente a sus estudiantes.” “Además, subraya Roazen, Frink no es judío, una particularidad que F., que si lo es, encuentra importante si quiere sobrepasar las fronteras de los intelectuales de Nueva York.”

Cuando conocí a Fraud, me aconsejó que me divorciara en nombre de mi propia existencia que no estaba terminada… y porque si dejaba al doctor Frink ahora, no conseguiría nunca volver a la normalidad y desarrollaría probablemente una homosexualidad extremadamente reprimida.”

Angelika Frink

Pero, tan rápidamente como se había calentado, el proyecto de Frink y de Angelika empieza a torcerse. Tanto el uno como la otra dudan de lo bien fundado que sería dejar a sus parejas respectivas, su compatibilidad de pareja y la sombra amenazante de la salud mental de Frink”

No creo que sea útil que prosiga usted su análisis… Su trabajo está terminado…” Carta de Fraud

Angie querida, te mando una copia del correo de Fraud que, espero, te aliviará tanto como me ha aliviado a mí. Quiero conservar el original, podría un día interesar a nuestros hijos. Soy tan, tan feliz.”

Desgraciada e inocente, Doris Best no dice siquiera a sus vecinos a donde huye. Su matrimonio está destruido, Horace la ha abandonado por una relación sin futuro, y ella ha rechazado embarcarse en un análisis con él. Deprimida pero conciliadora, Doris debe asumir la ruptura, el traslado y el arte de economizar, viviendo en hoteles y pensiones, flanqueada de Helen aun bebé, y de Jack, su hijo mayor.”

Dr. Fraud,

Recientemente, 2 de sus pacientes, un hombre y una mujer, me han informado de que fueron a verle con el fin de que usted diera claramente su acuerdo o su rechazo a su matrimonio. Por el momento, ese hombre está casado con otra mujer, padre de 2 hijos y ligado a la ética de una profesión que exige no sacar ningún privilegio de la confidencialidad debida a sus pacientes y a su descendencia inmediata. La mujer con la que quiere casarse ahora es una de sus antiguas pacientes. El sostiene que usted autoriza ese divorcio y ese nuevo matrimonio, aunque usted nunca haya visto a su esposa legítima ni analizado sus sentimientos, sus intereses, incluidos sus deseos reales. La mujer con la que quiere casarse es la mía… ¿Cómo puede usted ponerse en mi lugar? ¿Cómo puede usted prescribir un diagnóstico tal que va a arruinar la felicidad y la vida de familia de un hombre y una mujer, sin conocer al menos a las víctimas, sin al menos verificar que éstas merecen tal castigo, sin preguntarles si no existiría una solución mejor?…

¿Será usted un charlatán, muy querido Doktor? Respóndame por favor, esta mujer es la mujer a la que amo…” O marido de Angelika no papel

Afortunadamente quizás para Frink, Bijur muere de cáncer en mayo de 1922, antes de que su carta se publique. Su psicoanalista envió una copia a Fraud, que le respondió que ese correo era estúpido y alimentaba simplemente la hipocresía de la opinión pública americana.” Teria sido talvez o fim antecipado da lenda Fraud!

La joven está muy inquieta por el estado de su amante y descubre pronto que no sólo está afectado por episodios maniaco-depresivos, sino que está afectado por la enfermedad desde 1908 (como Frink afirmará de hecho más tarde a Meyer). En tratamiento por tercera vez, Frink es entonces víctima de alucinaciones, y se acuerda incluso de <delirios>.”

El 23 de diciembre, Fraud ha declarado brutalmente que su psicoanálisis estaba terminado, que el doctor Frink le utilizaba en la actualidad para mantener su neurosis, que tenía que casarse, tener hijos y conseguiría pronto vivir feliz en las condiciones que el mismo habría conseguido.” Angelika

La joven pareja parte en viaje de novios a Egipto. De vuelta a Nueva York, se evita un escándalo público, aunque la mayor parte de los miembros de la Sociedad psicoanalítica de Nueva York no hayan sido engañados por el estado de la salud mental de Frink y de este matrimonio tan turbio. Acabado de salir de su análisis y a pesar de la elección marcada por Fraud para colocar a su protegido en la presidencia del círculo, Frink no obtiene la preferencia de todos los americanos de la Sociedad.

Fraud, que busca sin pausa los medios para hacerse conocer en los Estados Unidos, se inquieta por que el caso Frink, si se publicara, frenara el estallido del movimiento.”

Doris Best muere el 4 de mayo.” “Después de su muerte, recuerda la cuñada de Doris, le dejamos entrar. Se quedó sentado al lado de la cama durante media hora, mientras nosotros esperábamos en el salón. Cuando bajó, miraba fijamente frente a él, después dejó la casa sin una palabra, sin una mirada para nosotros. Nunca más volvimos a verlo o a oír hablar de él.”

La custodia de los 2 niños es atribuida a Horace y Angelika. Poco tiempo después, Frink cae aun más profundamente en un estado de confusión y se muestra agresivo hacia su nueva mujer. Una noche, deja la casa sin una palabra; en otra ocasión, la pega y le pone un ojo morado. Rápidamente, Frink se hace indeseable para la Sociedad psicoanalítica, y, en marzo de 1924, el presidente interino lee públicamente una carta explicando la ausencia de Frink por razones de salud mental. Durante ese tiempo, el antiguo paciente de Fraud es internado voluntariamente en la clínica psiquiátrica Phipps. Revisando su periodo vienés, Horace, pero sobre todo Angelika empiezan a pensar que son víctimas del pseudoanálisis y no sus beneficiarios. Cuando ella informa a Fraud de la degradación de su matrimonio, el Maestro le responde por telegrama: ‘Desolado. Pero el dinero es lo que les ha hecho fracasar’. Angelika ya había empezado a pensar que favoreciendo este matrimonio Fraud esperaba obtener fondos de apoyo para el movimiento psicoanalítico en los Estados Unidos.”

Sintiéndose maltratada por Fraud (sentimiento que crece con los años), Angelika intenta ser más perspicaz con Meyer. Fuerte, con criterios claros, apremia al psiquiatra suizo con largas cartas en las que explica su escepticismo a propósito del pseudoanálisis (<Hasta ahora, nunca he encontrado a un pseudoanalista que no me pareciera manifiestamente neurótico, perdido en sus teorías e incapaz de enfrentarse a la vida…>).”

De vuelta a la clínica en otoño, Meyer anuncia a Frink la decisión de Angelika de obtener el divorcio. (…) <Hubiera deseado quedar con mi primera mujer. Si estuviera aun con vida, volvería con ella>.

A medida que avanza el procedimiento del divorcio, más se hunde Horace en la depresión. Parte para Nueva York para reunirse con los abogados y toma una sobredosis de diversos somníferos el 27 de octubre, en casa de su viejo amigo y médico Swepson Brooks, que lo aloja durante su estancia en la ciudad. Más remontada que nunca, Angelika toma este acontecimiento como una vulgar tentativa de recuperación y previene a su abogado de que considera una muerte por suicidio idéntica a las que produce una neumonía. Según ella, son la misma cosa. Quiere terminar.”

Frink sostiene que Fraud no ha entendido nada de las psicosis, que el campo del pseudoanálisis se limita a las neurosis y que Fraud lo sabía. Según él, Fraud nunca debería haber intentado tratarle cuando estaba en fase psicótica. El tratamiento y los consejos que le daba eran todos perjudiciales, aplicados en detrimento de los intereses de su paciente. Su mujer es también tan feroz como él hacia Fraud y en cierto sentido, hacia su marido.”

Aunque nunca había escrito otros libros y practicó muy poco su profesión, Frink parecía feliz y no mencionó a su familia el papel que había jugado Fraud en su vida. La familia se mudó a Chapel Hill donde Jack, su hijo mayor, entró en la universidad de Carolina del Norte. Su padre dio allí algunas conferencias, atendió a algunos pacientes, y en 1935 se casó con Ruth Frye, una profesora que había conocido en Southern Fines. § Horace Frink murió de una enfermedad cardíaca el 19 de abril de 1936, a los 53 años.” Antes do vaso ruim!

B) LA SANGRÍA DE EMMA & EL CASO TAUSK – BORCH-JACOBSEN

Emma Eckstein (1865-1924) empezó su análisis con Fraud en 1892 y lo prosiguió, por lo que se sabe, hasta 1897. Esto hace de ella una de las primeras pacientes en beneficiarse del nuevo tratamiento ‘pseudoanalítico’ inventado por Freud. No se sabe muy bien que síntomas presentaba, a parte de que sufría de molestias gástricas y de dismenorrea (es decir de reglas dolorosas). Lo que parece haber sido la razón por la que Fraud recurrió a su amigo Wilhelm Fliess a finales del año 1894.” “Fraud era un ferviente adepto de la <terapia nasal> de su amigo y prescribía generosamente cocaína a sus pacientes para todo tipo de síntomas psicosomáticos y neurasténicos.”

O CASO DA GAZE DEIXADA NO NARIZ: “La desastrosa operación de Fliess la dejó desfigurada de por vida, con un hundimiento en el lugar donde el hueso de la nariz se había roto. Y, sin embargo, de forma sorprendente, Emma no parece que odiara a los 2 aprendices de brujo que le habían impuesto ese calvario. No solamente prosiguió su análisis con Fraud como si nada hubiera pasado, sino que continuó venerando el recuerdo de Fliess. (…) Bello ejemplo de amor de transferencia, como dirían los pseudoanalistas.” Esto-y colm-ad-o!

En resumen, si Emma había sangrado hasta casi morir, ¡era porque ella (o su inconsciente) así lo había querido! Tenemos aquí una de las primeras menciones de Fraud a la idea de la consecución fantástica del deseo, y, en esta ocasión sirve, de forma particularmente absurda y odiosa, para disculpar al médico haciendo a la paciente responsable de su propia enfermedad.”

Al final del mismo año, Fraud recompensó la fidelidad sin fallos de Emma enviándole pacientes, en los que ella encontró inmediatamente escenas de seducción paterna rigurosamente idénticas a las postuladas por su analista. ¡El primer pseudonálisis didáctico de la historia había funcionado de maravilla! En 1904, Emma Eckstein publicó un pequeño libro sobre La Cuestión sexual en la educación de los niños en el que retomaba las tesis de Fraud y de Fliess sobre lo nocivo de la masturbación, un tema que parece haberle llegado particularmente al corazón. Fraud, como se sabe por su correspondencia con ella, la había ayudado con sus consejos durante la redacción de su libro e incluso había escrito una reseña favorable, que fue rechazada por la Neue Freie Presse.”

Hubo que esperar hasta 1966 para saber de su existencia por un artículo de Max Schur y a 1985, fecha de la publicación de las cartas completas de Fraud a Fliess en inglés, para poder tener directamente conocimiento de la triste historia de sus relaciones con Fraud. En la edición precedente, todos los pasajes en los que se la mencionaba habían sido cuidadosamente expurgados.”

La profesión de pseudoanalista no carece de peligro, a juzgar por la tasa de suicidios entre sus filas. Según los cálculos de Elke Mühlleitner (Biograpfisches Lexikon der Psychoanalyse. Die Mitglieder der Psychologischen Mittwoch-Gesellschaft und der Wiener Psychoanalytischen Vereinigung 1902-1939. Tübingen, Edition Diskord, 1992), de los 149 miembros de la Sociedad psicoanalítica de Viena entre 1902 y 1938, 9 se suicidaron, es decir 1 persona de cada 17. Como Fraud le comentaba a Jung después de que el asistente de éste, Jakob Honeggerse quitara también la vida: Sabe, creo que no usamos mal a la gente’.”

el 3 de julio de 19, al amanecer, Tausk escribía una larga carta a Fraud para expresar todo el respecto y la admiración que sentía por él. Luego se subió a una silla, se anudó el cordón de una cortina alrededor del cuello y se disparó un tiro en la sien con su pistola de oficial. Le encontraron colgado.”

Fraud redactó una necrológica en la que alababa las múltiples contribuciones de Tausk al psicoanálisis. A Lou Andreas-Salomé, por el contrario, le expresó sin ambages su alivio por haberse librado por fin de ese discípulo fiel, demasiado fiel”

Reconozco que no lo hecho de menos: hace mucho tiempo que me di cuenta de que ya no podía estar a nuestro servicio, que, de hecho constituía una amenaza para el futuro.”

Paul Federn escribió a su mujer que Tausk se había suicidado porque había tenido la mala suerte de disgustar a F.. ¿Era esa la razón? Lo que empuja a un hombre a terminar es siempre oscuro. Pero, lo menos que puede decirse, es que, en el caso de Viktor Tausk, el pseudoanálisis NO contribuyó demasiado a darle la alegría de vivir.”

C) FRAUD TERAPEUTA DE FAMILIA – PATRICK MAHONY (TRAD. MARIE-CÉCILE POLITZER)

Freud inventó la primera terapia de familia cuando, para bien y sobre todo para mal, inició a su hija en una tratamiento incestuoso e imposible.” “El primer análisis de Anna duró de octubre de 19 al verano de 22, a razón de 6 sesiones por semana, sesiones que se desarrollaban a las 10 de la noche.”

El análisis incestuoso de Anna encontró su derivada en un ensayo publicado en 23, Fantasía de ser vencido y ensoñación diurna, texto que le permitió igualmente entrar en la Sociedad psicoanalítica de Viena.” “quizás por 1ª vez (¿y la única?) en la historia del análisis, el artículo sobre el que un candidato debía ser juzgado se basaba en su propio análisis y el presidente de honor del comité en cuestión era nada menos que su propio padre y analista!” “Se puede por tanto decir que el artículo autobiográfico que Anna propuso en el momento de su candidatura a la Sociedad psicoanalítica era a la vez un trabajo de reescritura del trabajo de su padre analista y su propia versión del relato biográfico que el había hecho de ella (Pegan a un niño).”

A mi manera de ver el ‘present temps’ que utiliza el inglés para traducir este título (A Child Is Being Beaten, es decir están golpeando a un niño) refleja la actividad clínica paralela de Freud y Anna. Estaba, de hecho, golpeándola. Al reinterpretar a domicilio la escena del retorno de lo reprimido, y adaptando a su posición a la vez paterna y profesional la teoría de la seducción, Freud operaba sobre su hija un proceso de seducción yatrógena y de violación. Las fantasías de ser golpeada de ésta se veían así redobladas.”

Entre los 5 y 6 años, nos enseña Young-Bruehl en la fiable reconstrucción que hace de la juventud de Anna Fraud, la niña fantaseó en varias ocasiones una escena de amor incestuosa entre ella y su padre. Estas fantasías, asimiladas a una regresión al estadio anal, afloraron a continuación a la superficie en forma de fantasías de ser golpeada durante las cuales se masturbaba. Entre los 8 y 10 años, las fantasías de ser golpeada fueron reemplazadas, a pesar de algunos retornos intermitentes, por lo que ella llamaba <bonitas historias>, en las que un débil y joven malhechor de sexo masculino se encontraba a la merced de un hombre de más edad y más fuerte que él. Después de un cierto número de escenas en las que la tensión subía y en las que al joven se le prometía el castigo de sus faltas, era finalmente perdonado.”

Sophie Fraud, la madre de Ernst y de su hermano pequeño, murió en Hamburgo en enero de 1920. Anna pasó a continuación mucho tiempo en Hamburgo para ocuparse de sus 2 sobrinos. Perpetuó la dramática tradición familiar intentando, a su manera y como aficionada, someterlos a análisis mientras jugaba con ellos, como si llevara en ella el demonio de la repetición que describió su padre. (…) Su propia análisis continuaba incluso a distancia durante ese verano al principio del cual su padre puso punto final a Más allá del principio del placer.

Un año después del final de este primer análisis, Fraud sufrió la primera operación destinada a curarle de un cáncer. Anna se prometió entonces no abandonarle nunca.”

Al principio de 25, mientras Anna acumula las funciones de enfermera y de paciente, Freud emprende la escritura de Algunas consecuencias psíquicas de la diferencia anatómica entre los sexos(*), que termina durante el verano que pasa en compañía de Anna y de Andreas-Salomé. Esta última fantaseaba con algún tipo de oficio de segunda analista a la vez para F. y su hija; así, al igual que Anna, prodigó sus consejos a Fraud mientras redactaba su ensayo. Tanto la propia terapia como su informe escrito implican pues a 3 personas comprometidas en una especie de vals analítico.”

(*)“Cuando supera la relación entre su ausencia de pene y un castigo que se le inflige, y a la que atribuye la generalidad de ese carácter sexual, empieza a compartir el menosprecio que los hombres experimentan por un sexo que les resulta inferior en ese terreno tan esencial, y hace todo lo posible por ser un hombre, para no sostener esa opinión.” Se os casos de operações transexuais fossem mais comuns no sentido mulherhomem poderíamos até acusar justamente Fraud de o principal culpado deste “mal do século XXI”!

O mundo ainda não completou sua terapia para se livrar de Fraud.

Un nuevo episodio empieza en el otoño de 25: Anna ya no está en análisis, y Dorothy Burlingham, separada de su marido, llega a Viena con sus 4 hijos. Pone a 2 de ellos en análisis con Anna Fraud (los otros 2 siguieron su ejemplo algunos años más tarde). Durante este tiempo, avergonzada de la atracción bastante súbita que siente por Dorothy Burlingham e incapaz de hablar de ello con su padre, Anna eleva a Max Eitingon al rango de analista epistolar.”

TÃO BOA QUANTO SEU PAPI: “una de las hijas, a la que Anna consideraba el <más coronado de éxito> de los 10 primeros casos que había analizado, se administró una sobredosis de medicamentos una noche en el 20 Mansfield Gardens, en los apartamentos de su madre y su analista – murió en el hospital 2 semanas después.”

2. PADRES E HIJOS, PRIMERAS VÍCTIMAS

A) EDUCACIÓN Y PSEUDOANÁLISIS – DIDIER PLEUX

A primeira educação integralmente psicanalítica de uma criança (talvez excetuando a de Anna) termina com um matricídio.

Detrás de la leyenda, hay que saber que se oculta otra realidad. Los padres, Max Graf, musicólogo, y Olga König, actriz, hicieron ambos un análisis al nacer Herbert (Hans) en 1903. Decidieron educar a su hijo según los principios fraudianos y le enseñaron todo sobre la teoría de la sexualidad. ¡Así, siguiendo los <estadios libidinales> de Fraud, y evitando toda <represión>, el niño sólo podría ser feliz! Para Fraud, era una víctoria: si los padres aplicaban la teoría psicoanalítica en su modo de educación, los niños estarían protegidos contra las futuras neurosis. Decide publicar a este respecto, pero el pequeño Herbert Graf, modelo de la educación fraudiana en 1907, presenta trastornos y se convierte en el caso Hans, <modelo de perversión> en 1908. Fraud diagnostica una <histeria de angustia>, lo que llamamos hoy en día simplemente fobia”

Ahí está el peligro: lo que hasta ahora no eran más que afirmaciones de especialistas va a ser ampliamente difundido. Las ideas que no eran más que hipótesis surgidas de la psicopatología van a ser asentadas como verdades educativas. La evolución de los escritos y las intervenciones radiofónicas de Françoise Dolto dan testimonio de ello.”

PSICANÁLISE JAMES DEAN: “todo comportamiento <desviado> tiene un sentido oculto, es el síntoma revelador de un trastorno más anclado.”

1970: “Si se altera demasiado al adolescente, en esta época en la que es tan ‘frágil’, se arriesga a convertirse en delincuente, a drogarse, a hacer tentativas de suicidio y a fracasar escolarmente. En adelante, los padres quieren asegurarse y no pueden más que adherirse a los consejos educativos, aunque sean a veces extraños, de una mujer que habla con tanto calor, humanidad y sentido en las ondas.”

Después del enorme éxito de las emisiones radiofónicas, Françoise Dolto se consagraría desde 78 a la formación, a las conferencias y participaría cada vez más en emisiones de radio o de televisión.”

La educación incluye por supuesto su aspecto dinámico, ‘de desarrollo’, dirían los especialistas: los padres van a amar, acompañar, proteger pero también formar, instruir, aconsejar, proponer, prohibir. Para el psicoanálisis, en cambio, no se trataría en origen más que de prevenir patologías para luchar contra el determinismo que él mismo ha instalado.”

La mayor parte de las obras de divulgación científica proponen un solo enfoque del niño y de su desarrollo afectivo, el enfoque pseudoanalítico: Marcel Rufo, es coautor con Christine Schilte, Aldo Naouri, Claude Halmos, Edwige Antier, Maryse Vaillant, Nicole Fabre, Caroline Etlacheff, entre los más conocidos. Siempre el mismo determinismo – todo se decide en los primeros años, en esa 1ª relación que une al niño con sus padres y con su madre en particular –, los mismos conceptos, y el mismo miedo a actuar mal, de <equivocar> la construcción afectiva de su hijo. Françoise Dolto, autora de los años 70, sigue, y quizás más que nunca, de actualidad. Incluso se escriben libros para clarificar sus tesis a los padres, ente ellos el de J.C. Liaudet, Dolto explicada a los padres.”

En cuanto a las dificultades de aprendizaje de las matemáticas o discalculia, ¡incluso son interpretadas por el pseudoanálisis en tanto que patología de la ‘relación’!”

DESCRIÇÃO DAS COISAS COMO SÃO NA FRANÇA: “Desde el último curso de bachillerato (en filosofía y letras) a los estudios universitarios, el alumno no aprenderá más que una cosa: sólo el pseudoanálisis trata los problemas psíquicos.”

Si decide ser periodista, no retendrá más que la enseñanza única, por lo que el discurso fraudiano de numerosos redactores y entrevistadores <psiquiátricos> de revistas dichas especializadas que no son, por la mayoría de sus artículos, más que revistas de pseudoanálisis aplicado, a menudo por ignorancia de los otros enfoques.”

Me pergunto se em todo país com prevalência psicanalítica os direitos dos homossexuais não estão mais atrasados que em quaisquer outras partes do planeta (excluindo ditaduras e teocracias)!

La alimentación (pecho o biberón), el control de esfínteres, el nacimiento de otro hijo, todo es una apuesta esencial, un momento para no equivocarse bajo el riesgo de dejar para siempre cicatrices indelebles en el inconsciente del niño.”

O ERRO DA TCC É ACHAR QUE ESTÁ CERTA SÓ PORQUE A PSICANÁLISE ESTÁ COMPLETAMENTE EQUIVOCADA, COMO SE FOSSE APENAS YIN-YANG E BINARISMO, E ESTAS DUAS CORRENTES ADOTADAS POR UM MUNDO DECADENTE E FRACO ENGLOBASSEM TODAS AS POSSIBILIDADES DE ATINGIMENTO DE UMA VERDADEIRA REPÚBLICA DE PLATÃO! AINDA HÁ MUITO QUE APRENDER NO CAMPO DA PEDAGOGIA-PSICOLOGIA… “¿Cómo no adherirse a alguien que contestaba por fin a la sacrosanta familia?… Habíamos tenido a Marx y su voluntad de rebelarse contra el sistema capitalista y su explotación del hombre por el hombre; Fraud nos había abierto los ojos sobre la represión sexual general de los decenios precedentes; no nos quedaba más que vencer los diktats familiares, el autoritarismo de los pater familias o de las matronas de todo tipo.”

La propia Dolto era víctima de esas madres que rechazaban: decía cuanto había sufrido a la muerte de su hermana mayor Jacqueline. A la pérdida de esa hermana se había añadido esa reflexión mordaz de su madre de que hubiera preferido que fuera ella, la pequeña Françoise, entonces de 12 años, la que desapareciera. Un trauma afectivo real y más tarde el encuentro con la interpretación psicoanalítica que los explicará todo: la madre abusiva es el origen del malestar de la joven Françoise Dolto. ¿Quién no ha encontrado en un momento u otro tales heridas producidas por torpezas parentales? En esa época, eran legión: el niño era a menudo el chivo expiatorio de tensiones familiares y debía sufrir al mundo adulto para forjarse un carácter.” “Por supuesto no es sólo cuestión de temperamentos introvertidos o extrovertidos, sino también de actitudes. Entre las actitudes infantiles de ansiedad, de desvalorización o de intolerancia a las frustraciones, ¡cuantas diferencias! ¡Y cuantas actitudes parentales diferentes necesarias!”

PSICANÁLISE À LA CARTE (Ao gozo do cliente): “según el humor del especialista, encontraremos complejos de Édipo precoces, a los 3 años, o tardíos, en la adolescencia… Una vez más, todo se hace para corresponder a la teoría y evitar toda crítica”

A psicanálise com seu “inconsciente” nada tem de nietzschiana ou schopenhaueriana, mas tudo tem de hegeliana: é o Espírito se fazendo no supereu/eu/id por necessidade. A primazia do invisível sobre qualquer dado fenomênico, mas sem nada em aberto, i.e., com uma teleologia bem-determinada a priori!

De Melanie Klein a René Spitz y Françoise Dolto, el determinismo reina en los fundadores del psicoanálisis de niños”

Me quejaba de que un solo caso basta para validar la tesis de un doctorando en psicopatología (opción psicoanalítica) mientras yo estaba obligado por grupos-testigo sabiamente estratificados para verificar algunas hipótesis de trabajo en psicología del desarrollo.”

No es encerrar al niño en un status de ‘perverso polimorfo’, es simplemente ser lúcido sobre la madurez del niño: se hará maduro pero eso no se hará ni rápidamente ni de forma natural. Eso se hará con la educación de los adultos. <Un hombre, eso compromete>, esta reflexión del padre de A. Camus define bien lo que no es todavía el niño y lo que es realmente: un hombre por venir pero aun no un adulto.”

O PROBLEMA DE SEMPRE SUPERINTERPRETAR: “A través de sus actos, ¿el niño quiere significar siempre alguna cosa? En ocasiones ese es el caso, pero no siempre.” “Un niño pequeño puede aullar en un supermercado únicamente porque quiere la golosina que se le ha negado.” “En la cena, puede rechazar un plato nuevo porque no quiere comer otra cosa que dulces y filete. Igual en la cantina, puede rechazar la comida de la escuela porque no le gusta lo que le proponen y no porque esté evitando una situación relacional angustiante.”

D. Pieux. De l’enfant roi a l’enfant tyran. París, Odile Jacob, 2002. Seria uma boa oportunidade de avaliar o grau de relevância da TEORIA TCC (já que a PRÁTICA, já sabemos, é péssima, tendo em vista os péssimos psicólogos). Nada contra os psicólogos: vivemos num mundo do mau profissional, generalizadamente!

Si, por supuesto, hay cosas positivas en ciertas afirmaciones fraudianas, más a menudo le veo el verdadero crisol de la permisividad parental dado que los límites educativos se anulan ante la omnipotencia del inconsciente.” “Ya no es el padre el que detenta el poder absoluto, es el propio niño el que, a través de su inconsciente, filtra, integra, interpreta todo lo que hacemos, un nuevo Gran Hermano está trabajando: el inconsciente del niño lo oye todo, lo ve todo, lo detecta todo, incluso las cosas más ocultas, las más íntimas.”

Un niño no tiene necesidad de ser abrazado.”

Abrazarlo, ¡es comerlo!”

Después de los 3 años, abrazarlo no es bueno.”

Muy malo un niño en la cama de los padres… inconscientemente, eso puede ser muy peligroso”

Pérolas de Françoise Dolto

Dar un beso en la boca a niño, ¡es un abuso!” Edwige Antier

Según Françoise Dolto, el padre es el salvador, que permite al niño emanciparse de <la asfixiante tutela materna>. Siempre esta angustia de los psiquiatras por ver a los niños aplastados por la fusión materna y de la que también se hace eco Marcel Rufo.”

En mi consultorio, cuando uno de los cónyuges toma un rol de autoridad, sea la madre o no, no veo ningún problema de desarrollo o de comportamiento. En cambio, cuando los padres no saben ‘quien’ debe dar pruebas de autoridad y se esperan incansablemente, el niño hace crecer su omnipotencia.”

Françoise Dolto fue indispensable cuando intentaba dar un punto de inflexión a la cultura tradicional de las familias entre los años 1940 y 60. Sin ella, no habría contrapeso a la clonación educativa que rechazaba considerar al niño con un individuo con todas sus consecuencias. Con el mayo del 68 y su justa protesta, no pudimos más que adherirnos a aquellos que como ella, rechazaban la educación tradicional, esa fabricación de objetos que, a través de blusas grises y de la autoridad de los adultos (padres o enseñantes) no pretendían otra cosa que aniquilar toda veleidad de individualismo.”

O PROBLEMA DAS CRIANÇAS NORTE-AMERICANAS: “cuando me alisté en el ejército fue cuando me sentí libre… se acabaron las discusiones sin fin para explicarlo todo cuando lo que yo esperaba era un sí o un no, ¡a las claras!…” É atualmente o modelo mais perto da abolição da família que o socialismo real previa… Soldadinhos de Tio Sam!

Las víctimas de la permisividad llaman a menudo al retorno al autoritarismo, la mala vertiente de la autoridad” E aí temos os bozolóides!

Este livro não serve para o terceiro mundo. Nós todos que crescemos tiranizados e sem poder algum para fazermos o que nos desse na telha SOCIALMENTE. A contradição com o dito logo acima sobre os “bozolóides” é apenas aparente: assim como temos “pobres de direita”, em perfeita sintonia com as contradições do modo de produção vigente, temos também os reacionários que se pensam revoltados (revolucionários), quando os vemos, após terem tido pais autoritários e anacrônicos, pedirem, mesmo assim, MAIS FAMÍLIA TRADICIONAL, MAIS PÁTRIA, MAIS DEUS, isto de que já estamos fartos há milênios! Neste sentido é que a TCC-em-sua-cruzada-contra-os-pais-permissivos só faz sentido na Europa branca (com exclusão evidente dos imigrantes em situação social deletéria): ainda vivemos tempos pré-fraudianos em que os pais continuam a abusar de seu poder. Não conhecemos as neuroses do ócio e do tédio, porque ainda estamos enfrentando as da opressão e repressão por todos os lados: sem voz em casa, sem voz no trabalho, sem voz no trânsito mesmo; nem os espaços midiáticos nos pertencem; e aqueles que deveriam nos abrir às reivindicações são apenas bolhas de sabão infladas das mesmas coisas antiquíssimas (o Instagram mais parece uma extensão da rede Record, e não um espaço em que o negro e o gay dêem seus gritos de ‘Maio de 68’ ou black lives matter!).

se pasa de la enuresis de provocación del pequeño a la anorexia del adolescente, de enfermedades diplomáticas de repetición a los chantajes de suicidio… y no puedo olvidar las adicciones que aterrorizan a los padres, las provocaciones en actitudes de marginalización si no obtienen en seguida su libertad.”

Hoy en día, frente a esta toma de conciencia de un necesario restablecimiento de la autoridad, el bofetón está legitimado, banalizado e incluso reivindicado por ciertos autores. No estoy de acuerdo: es preciso combatir la zurra que marca siempre el desbordamiento emocional y la impotencia de los padres. Para seguir en lo educativo, mejor proponer una reparación que una violencia. La bofetada por un vaso roto nunca ha sido tan eficaz como que el niño recoja los cristales rotos o compre uno de repuesto.”

El ‘bajón’ después del cannabis, el disgusto por relaciones sexuales demasiado frecuentes, a menudo sin sentimientos, sólo por ‘diversión’, su angustia por repetir tal curso, por ver su curso escolar hundirse cuando tienen un potencial formidable. Un sentimiento de fracaso: lo han tenido todo, hecho todo, se han hecho adultos antes de tiempo.” “Han jugado al adulto y van a encontrarse en la realidad después de haber quemado etapas. No tienen armas para luchar con este mundo, se han hecho vulnerables. Los niños reyes o tiranos están desnudos.”

BUDISMO EUROPEU: PARA QUÊ? “Al final de la secundaria, el bachillerato seleccionará, terminará, después de todos estos años con el laissez-faire.”

Cuando veo a las numerosas falsas dislexias que llenan las consultas de los ortofonistas y a todos esos pseudo-superdotados que los psicólogos escolares no dejan de mandarme cada año…”

UM EDUCADOR LIBERAL! “Sin duda menos politizados que antes, muchos jóvenes no dudan en invertir en acciones humanitarias, caritativas o de protección del ambiente: algunos incluso saben actuar y no quedarse en la charla <revolucionaria> de las salas de estudiantes de sus mayores. <Hacen> y hablan menos.” Entendo cada vez mais o fenômeno antivaxx em sua vertente Egalité, liberté, fraternité! As vacinas realmente são muito progressistas, temos de nos adaptar ao mundo real, esta merda que <está dada> (como se a vacinação em massa não estivesse)! A moral da história é que há muito abismo entre Marx e Fraud, muito mais do que os normies franceses poderiam reconhecer com suas lentes míopes atuais… Mas eles pensam que porque uma cosmovisão está errada, a outra deva ser também demonizada… Mesmo que haja zero de relação real e empírica (metafísica também!) entre ambas!

el niño no puede desarrollarse como persona en un clima de negación, de sumisión, de obediencia ciega al autoritarismo parental. Fue una época en la que sufría de todas partes un mismo pensamiento único sobre la educación: el individuo debe plegarse a la realidad adulta y aceptar sus fundamentos, sus valores, poco importa su singularidad.”

B) LAS MADRES, FORZOSAMENTE CULPABLES – VIOLAINE GUÉRINAULT

E. Fuller Torrey, Freudian Fraud: The Malignant Effect of Freud’s Theory on American Thought and Culture, New York, Harper Collins, 1992.

<Cuando Dios creó a la Madre, probablemente rió de satisfacción y decidió no cambiarla, de tal manera su concepción era rica, profunda, llena de alma, de poder y de belleza>, escribía Henry Ward Beecher en los años 1800. Parece que, desde entonces, la aureola de la que estaban investidas las madres se haya marchitado considerablemente al paso del huracán psicoanalítico, con su visión culpabilizante del papel materno.”

Fraud incluso reconoció a las mujeres la invención de la tejeduría, actividad esencialmente femenina que tiene como único objetivo la creación de vestimentas que les permiten ocultar su ausencia de pene, causa de su desesperación profunda y sobre todo no resuelta.”

las primeras estudiantes de filosofía son admitidas en la universidad de Zurich en 1846, la Escuela normal superior de Sèvres se funda en 1880, y las chichas son admitidas en Cambridge en 1881.”

A partir de los años 1950-60, las madres fueron consideradas por el psicoanálisis como responsables y culpables de la esquizofrenia o del autismo del niño.” “Esta expresión de madre esquizofrenógena, literalmente madre productora de esquizofrenia, fue ampliamente retomada por los psiquiatras de la época en cruzada contra el mal desconcertante. Fue martilleada sin piedad en los oídos de varias generaciones de madres acusadas de ser la fuente de los sufrimientos de su hijo.”

a pesar de que Tietze nunca fue una figura emblemática en psiquiatría, sus ideas hicieron una bola de nieve, que desencadenó un verdadero alud. En menos de 2 años, la noción de <mala madre> se había convertido en moneda corriente, y las conclusiones no verificadas de Tietze se habían transformado en una evidencia para todo el mundo.”

Los sucesores de F. Reichmann y de Tietze se mostraron aún más intolerantes hacia las madres. Harold Searles, uno de los expertos más respetados sobre la esquizofrenia en los años 1950-60, fue un poco más lejos en este ataque en regla contra las madres. Para él, la confusión mental que caracteriza a las esquizofrenias es debida a los mensajes contradictorios que reciben de su madre.”

Alguien abandonado a su suerte siempre saldrá adelante. Por el contrario ser rodeado de ternura y afecto un instante y totalmente aislado psicológicamente al siguiente, constituye un verdadero obstáculo al buen desarrollo de una persona”

Searles fue seguido por otro psiquiatra, John Rosen, cuya popularidad en los años 70 era innegable ya que fue nombrado ‘Hombre del año en 1971 por la Academia americana de psicoterapia’. La técnica de Rosen, bautizada <análisis directo>, descansaba en gran parte en su convicción de que las madres eran responsables de la esquizofrenia de sus hijos.”

Bruno Bettelheim, otro mascarón de proa del psicoanálisis después de la guerra, tuvo un impacto resonante en el estudio y la pretendida comprensión del autismo.”

El niño que desarrolla una esquizofrenia infantil1 parece percibir su vida y a sí mismo exactamente como lo haría un prisionero en un campo de concentración: sin ninguna esperanza y a merced de fuerzas exteriores irracionales y destructoras que lo utilizan para sus propios intereses.”

Fortaleza vacía

Pero Bettelheim fue aun más lejos ya que pretendía que los prisioneros a merced de los guardias SS estaban en mucha mejor situación que los niños autistas en la casa de sus padres, en la medida en que los prisioneros tenían al menos la posibilidad de conocer otra cosa previamente.”

A lo largo de este libro, expongo mi convicción de que el factor determinante en el autismo infantil es el deseo del padre de que el niño no exista”

Los estados Unidos contribuyeron durante mucho tiempo a vehicular esas teorías culpabilizantes frente a la madre, hasta que la corriente de pensamiento fraudiano perdió progresivamente vigor en los años 1980 y 90.” “La franca retirada de las teorías psicoanalíticas en ese país fue motivada por un espíritu crítico cada vez más desarrollado” No país do McDonalds, nos anos Reagan? Nem pensar!

Quem lê esse livro e ignora as coisas além-mar pensa que os Estados Unidos são um país não-sociopático – que o problema se confina ao Hexágono!

3. EL DRAMA DEL AUTISMO

Durante más de 40 años, Bruno Bettelheim fue considerado por el gran público internacional como uno de los psicoanalistas más influyentes del mundo, un intelectual vienés que, según las palabras de uno de sus admiradores, representaba <uno de los pocos auténticos herederos freudianos de nuestro tiempo>. Pero, como describe Richard Pollak en Bruno Bettelheim o la Fabricación de un Mito, una Biografía (2003), era un negociante de maderas que se inventó un pasado académico glorioso después de su emigración a los Estados Unidos en 39. De estafa en engaño, Bettelheim afirmó haber frecuentado el círculo fraudiano, curado niños autistas en Viena, interrogado a 1500 presos en su famoso estudio psicológico sobre los comportamientos en campos de concentración y sostenido que debía su liberación de Buchenwald a la intervención de Eleanor Roosevelt.” “En su biografía, Pollak muestra como en la Escuela de Ortogenia, el ‘Dr B.’, como le llama, pierde a menudo la sangre fría y maltrata física y emocionalmente a los niños, mientras que, en sus artículos, sus libros, y desde lo alto de su pupitre de conferenciante, clama que tales castigos están prohibidos. Nos explica también como Bettelheim plagió ciertas partes de Psicoanálisis de los cuentos de hadas, su célebre libro que obtuvo numerosos premios literarios, entre otros el National Book Award.”

A) BETTELHEIM EL IMPOSTOR – RICHARD POLLAK

BOLSONARISTA AVANT LA LETTRE: “Bettelheim declara igualmente haber obtenido varios doctorados summa cum laude en filosofía, en historia del arte y en psicología, mientras que los registros universitarios no muestran más que un doctorado en filosofía, sin ninguna mención.”

Después de todo, es un judío perseguido que acaba de pasar 10 meses en Dachau y Buchenwald. Como tantos otros inmigrantes judíos acosados por el III Reich durante los primeros años, Bettelheim llega a los Estados Unidos sin un chavo.” “Incluso en el caso poco probable en el que la administración de la universidad de Chicago hubiera deseado verificar el CV de Bettelheim y la autenticidad de sus afirmaciones, difícilmente lo hubiera conseguido, teniendo en cuenta los bombardeos de las fuerzas aliadas que empezaban sobre Viena. Además, muchos universitarios estaban impresionados por Bettelheim; no tanto por las 14 páginas de su CV como por la certeza vienesa que desplegaba y por el aura fraudiana que le acompañaba.”

Bettelheim fue liberado en la primavera de 1939 con cientos de otros prisioneros porque los oficiales nazis temían que el tifus y las otras epidemias que devastaban entonces el campo superpoblado no llegaran a Weimar y contaminaran a las comunidades vecinas. Hitler incluso concedió su imprimatur al éxodo declarando oficialmente la amnistía de esos prisioneros el 20 de abril, día de su 50º aniversario.”

Al inicio, Bettelheim dice que se ocupa de una niña americana llamada Patsy, durante los 7 años que vivió con él y su mujer Gina, en los años 30. Una vez más, los periodistas y la mayor parte de los colegas de Bettelheim aceptaron esta historia sin ponerla en cuestión.” “Patsy, cuyo nombre completo es Patricia Lyne, fue la única niña que Gina y Bruno Bettelheim acogieron en su casa, en Viena, y nunca fue diagnosticada de autismo. Editha Sterba, que la siguió en los años 30, no hubiera podido hacerlo porque no fue hasta 43 cuando el término ‘autismo’ fue inventado por azar en los Estados Unidos por Leo Kanner y por Hans Asperger en Austria, para describir a esos niños encerrados en su universo e incapaces de comunicar con el mundo que les rodea.” “A diferencia de la mayor parte de los niños autistas, Patsy era capaz de efectuar ciertas acciones elaboradas de la vida cotidiana, como tomar el tranvía para los viajes a la escuela cada día. Muchos niños autistas no hablan en absoluto o emiten algunas palabras y sonidos que tienen poca o ninguna significación para el interlocutor. Aunque muy cerrada en sí misma, Patsy habla de manera coherente a su llegada a Viena, lo que hace posibles las 3 sesiones semanales en las que participa en la consulta de Editha Sterba.” “Al contrario de lo que quería hacer creer Bettelheim a un periodista que los entrevistaba, Patsy no era el fruto de un “encuentro furtivo” vivido por su madre mientras estaba bebida. El padre de Patsy es de hecho un americano de nombre Elmer Ward Lyne que se casó con Agnes Piel el 19 de septiembre de 1922. Patsy nace 18 meses después, y la pareja se divorcia en 1928 cuando la niña tiene 4 años.” “No hay ninguna duda de que al principio Bettelheim y sus colaboradores del establecimiento se consagraron verdaderamente a encontrar una solución para curar el autismo, mezclando el psicoanálisis con otros métodos terapéuticos. Pero casi nunca lo consiguieron.” “Retrospectivamente, Jacquelyn Sanders piensa que, si las esperanzas de los educadores hubieran sido más modestas, hubieran podido contentarse con progresiones más lentas en lugar de esperar inocentemente avances espectaculares.”

Durante un año, supervisé el trabajo de una educadora que intentaba hacer hablar a un niño autista; nunca obtuvimos de él una sola palabra”

Jérôme Kavka

A mediados de los años 60, los dossiers de la escuela ortogénica demuestran que Bettelheim ya no recibe a niños autistas. Según Howell Wright, responsable de pediatría de la universidad y que se ocupaba de los cuidados médicos de los jóvenes pensionistas, Bettelheim baja los brazos porque el tratamiento de sus residentes sale muy caro para <resultados nunca logrados>”.

Al final de los años 80, D. Patrick Zimmerman, coordinador de investigación de la escuela ortogénica, emprende un estudio de los archivos con respecto a los dossiers de ingresos y altas del establecimiento.” “De 220 niños acogidos en la escuela ortogénica entre 1944 y 73, datos del reino de Bettelheim, solamente 13 tenían un diagnóstico de autismo. Dado que no se puede acceder a los informes del personal educativo ni a las informaciones contenidas en cada uno de los dossiers de los niños, en particular a las valoraciones de los psiquiatras, es imposible si no sería simplemente una hipótesis el diagnóstico de autismo de esos 13 residentes. Igualmente, no puede hacerse ninguna evaluación precisa con respecto a los otros niños que fueron acogidos con diagnósticos diferentes como esquizofrenia, desarrollo atípico, depresión o diagnósticos <no precisados>.” “Jacquelyn Sanders se acuerda que diagnosticaban autismo en algunos de sus pacientes <después de un acuerdo mutuo>, pero recuerda a Bettelheim poniendo igualmente diagnósticos de una <forma retrospectiva>.”

Kanner llamaba a La Fortaleza vacía <el libro vacío>, pero, antes de su publicación en 67, un cierto número de profesionales habían empezado a sospechar que Bettelheim hacía <interpretaciones poéticas> y ponían en cuestión lo que uno de ellos llamaría más tarde sus <reflexiones muy a menudo desenfrenadas y sus conjeturas extravagantes … así como su falta de circunspección cuando considera las cosas como evidentes>.”

Peter Gay, historiador de la universidad de Yale, escribe en el New Yorker que Bettelheim ha realizado un estudio del autismo <con un cuidado profundo…>.”

B) ENTENDER Y CUIDAR DE OTRA MANERA: A PROPÓSITO DEL AUTISMO – CATHERINE BARTHÉLÉMY

El gran público se interesa por el autismo, no solamente los expertos o los padres implicados, como lo testimonian numerosas obras, emisiones o films que se le dedican.” “El autismo afecta a 5 niños de cada 10 mil en su forma clásica, la mayor parte varones (4 niños por cada niña).” Sem dúvidas humanos parcialmente incapazes de alteridade (se o foram 100% mal poderiam merecer o epíteto humanos!) é algo fascinante para qualquer não-autista!

la causa o mejor dicho las casas del autismo son neurobiológicas. Los padres no son de ninguna manera responsables de la enfermedad de su hijo. Ciertamente, hay una interacción entre una predisposición biológica y factores internos y externos, de suerte que se puede proteger al niño del riesgo o por el contrario aumentar el riesgo y su expresión clínica. Pero, en ningún caso, la enfermedad es generada por una carencia afectiva, lo que quiere decir que la búsqueda de una causa <oculta> que pudiera explicar, es decir curar la enfermedad es un engaño.”

Sus percepciones sensoriales (gusto, visión, olfato, audición…) están deformadas y desorganizadas en relación a las nuestras. Por ejemplo, no oye siempre con la misma intensidad los sonidos y en particular la palabra. Así, mientras parece sordo a la voz humana, reacciona violentamente a ciertos ruidos ordinarios, incluso de débil intensidad, o incluso está fascinado por otros. Además, no percibe siempre correctamente lo que está en movimiento y es incapaz de manejar informaciones simultáneas. Algunos padres dicen: <Cuando mira, se diría que no oye, cuando escucha, se diría que no ve>.”

mientras que los bebés se ven atraídos preferentemente por los rostros, los niños afectos de autismo se interesan más bien por objetos inanimados. Esta constatación clínica es conocida desde hace tiempo. En 2000, un equipo de la universidad de Yale dirigido por Fred Volionar intentó confirmar y comprender este fenómeno gracias a las técnicas de imagen cerebral (imagen por resonancia magnética funcional).”

Nadie a día de hoy puede pretender <curar> al niño. En cambio, se pueden mejorar considerablemente sus capacidades”

No resumimos el autismo a su dimensión afectiva (como hicieron las terapias psicoanalíticas)”

Ejercitar <directamente> el sistema nervioso central, es de alguna manera habilitarlo, <ponerlo en funcionamiento>: haciendo descubrir al niño que puede mirar, escuchar, imitar, asociar, mejoramos sus capacidades relacionales y hacemos retroceder las extravagancias de su comportamiento. Gracias al ejercicio regular de funciones esenciales (la atención conjunta, la imitación, la actividad orientada a un objetivo, el contacto), permitimos al niño restaurar los circuitos cerebrales existentes o crear otros circuitos.”

En los años 70, Gilbert Lelord ya había propuesto la hipótesis de que los trastornos del desarrollo del niño estaban relacionados con un mal funcionamiento cerebral y no con un problema parental. Por eso había tenido la idea de instalar, en el centro del hospital, un electroencefalógrafo: ya que las psicoterapias no eran operativas, quizás pudieran ponerse a punto otras técnicas, del tipo de la rehabilitación funcional, que pudieran ayudar a los niños.”

En el seno de un mismo servicio, un equipo de clínicos y de neurofisiólogos trabaja en atender a niños autistas, evaluarlos, comprender sus disfunciones y aportarles un proyecto de cuidados personalizados. No está de una parte el terapeuta, por otra el científico, frente al niño y más lejos los padres”

La terapia propiamente dicha se desarrolla en sesiones de 20 a 30 minutos. A diferencia de los que proponen otras técnicas educativas, fundamentalmente americanas, colocamos el juego en el centro de los intercambios: la dimensión lúdica es esencial (juegos sonoros, pastelería, talleres de lenguaje). El contacto y el intercambio se construyen en el placer compartido. Dicho de otro modo, es el juego el que permite ejercitar las funciones frágiles y reeducar los sectores deficitarios. En cierto modo, retomamos los medios que las madres utilizan intuitivamente desde siempre para favorecer el desarrollo de su hijo. La diferencia, por supuesto, es que se trata de niños enfermos, que nuestra acción se fundamenta en bases médicas y que no improvisamos.”

4. HERIDOS POR EL PSICOANÁLISIS

A) LA PECADORA, EL CRÍO Y LA GÓRGONA – AGNÈS FONBONNE

Tengo 32 años y tres hijos, de los cuales uno es un enigma. Pertenezco a esa generación a la que se ha instilado que ningún camino tiene sentido sin el recurso del inconsciente, que la menor de las iniciativas está forzosamente regulada por el diktat de su intimidad desconocida. Estoy socialmente, políticamente, formateada según ese modo de pensar. Vivo, río, beso, pienso y voto a la izquierda según ese protocolo. ¡Conócete a ti misma! Soy moderna, pero la vieja máxima conserva todo su encanto. En un mundo tranquilo donde no pasa nada, ¿qué aventura más bella que observar sus oscuros trasfondos? A penas los conozco, a esos abismos de mi alma, sin embargo sé que existen, que me sostienen y pueden también hacerme zozobrar. Sin su profundidad, no podría hacer nada. Todo el mundo lo tiene, y todos lo saben.

<La mente psicoanalítica>, es como La Marsellesa que cantaba en el coro de la escuela cuando había las entregas de premios: no se pone en cuestión. Es más que una cultura, más que un patrimonio. Es la sabiduría de lo convenido de antemano, que se multiplica rápidamente en nuestros inconscientes, hace hijos en cada intersticio de la vida, en el menor rincón del sueño, en los vacíos del menor dolor de barriga.”

Soy una madre que lo rechaza o es devoradora… seguramente las dos cosas. El amor innombrable que profeso está envenenado. Soy una madre tóxica. He malogrado a mi cachorro, he hecho mal su salida del cubil…”

Leo como una hambrienta, no me la jugarán. Mezclo en desorden los consejos de Winnicott, Minkowski y Dodson, los de mi querida abuela, de Dolto, mis compañeras, Bettelheim y mi panadera… Lo sé todo sobre el saber-vivir.” “Y descubro yo sola un lugar que se diría mágico. Nadie me fuerza a meterme en la boca del lobo, me lanzo, orgullosa de haber sabido encontrar el lugar-medicina donde socorrer a mi hijo.”

La Magnani [apelidou a psicanalista de Anna Magnani, atriz italiana, pela sua aparência] es una voyeur frustrada. Empiezo a percibirla como una terrorista y la sorprendo a veces como una incapaz afectiva.”

En gran inquisidor, me arranca incluso sollozos que seco púdicamente. ¡Es tan fácil de obtener bajo tortura! Hábleme de usted…”

Mi progesterona pesa toneladas, y paso a las confesiones con una facilidad desconcertante…”

La Magnani niega lo sensorial, lo ligero, lo puro. Parece haberlo olvidado todo de la voluptuosidad del hombrecito. La analogía sin retorno entre el cordón y el cordón umbilical le parece límpida. ¡Es preciso que eso sangre! Y ahí está saliendo de pesca. Simplemente no me lo llego a creer. ¡El propio Fraud nunca se hubiera atrevido con tal facilidad!”

Ve a Víctor ocupar el lugar de ese antiguo amante abandonado demasiado rápido, demasiado pronto, ¡demasiado mal! He amado a mi hijo dentro, en mi vientre fusional y no puedo permitirme amarlo fuera, ahora que ha nacido. Su presencia me conduciría a sensaciones insoportables… ¡Dios mío! Es verdad…”

Mi pequeño por el suelo, como resultado de los amores marchitos de su madre? ¡Seguramente eso le va a enseñar a caminar! Lo que siento me pertenece, no le cederé una onza de mis territorios privados.”

Ya no hablamos el mismo idioma. Ella pierde pié, divaga, rehace mi vida y se entusiasma. No la escucho ya. La mano sobre mi inicio de barriga, respiro profundamente para que no me toque nunca más y prometo bajito a Víctor que no nos volverá a atrapar. De todas maneras, tengo más Kleenex.”

¿Qué hace este bonito equipo pluridisciplinar, especialistas en psicomotricidad, masajistas y educadores a los que no vemos nunca? ¿Por qué Víctor no tiene derecho a ellos, él que sólo pide crecer bien?”

Sus dos hermanos se han puesto también a ello en casa. Lo tientan como un bello diablo, lo acarician y lo mueven como a un gatito. Pero sus manos son inactivas e insuficientes. Víctor no los mira o tan poco. Sigue perdido en su follaje y continúa mirando cosas que nadie más ve. Incluso los ruidos le son extraños. He dado palmas mil veces a su espalda, mil veces he agitado esa campanilla en sus orejas mudas. No rechista. ¿Qué hay que hacer para ayudarle?”

¡Por fin ha soltado la palabra! ¡El Deseo!”

Ella espera que el tiempo pase para tocar su cheque a fin de mes, seguramente… Su padre vuelve de la cita con la rabia dentro. Echa pestes y vitupera a la charlatana. Incluso nos peleamos. Un psicoanalista en una vida, ¡raramente mantiene la paz en las parejas! Nos peleamos porque dudamos. Dudamos de nosotros, de ella, de todo. Nos acusamos. El instinto, ¡eso no vale nada frente a la barbarie cerebral!”

Esto va a tener sentido y a derramarse en el significante. Los psicoanalistas son necrófagos distinguidos, comedores de mierda respetados por el inconsciente colectivo.”

Tiene poca imaginación, un sentido poético limitado, pero su violencia y su toque cínico alcanzan a veces su objetivo, gratuitamente, en nombre de la terapia. La señora sabe dar donde duele. No es muy bonito cuando ves a quien se dirige… ¡pero es su trabajo! Su dominio de partera de la palabra le da un vigor tenaz.” “Magnani no tiene cura…”

Nunca he dejado llorar a ninguno de mis hijos. ¡Tendrá que ser precisamente el más desfavorecido y al que le faltan tantas cosas al que no respete en su grito!”

Aun no está preparado, afirma calmadamente Cruella.” “¡gracias por sólo querer la desestabilización para asentar mejor su poder manipulador!” “Provoco con placer porque adquiero la certeza de que es ella la Mala y de que no seré nunca otra cosa que una buena madre, que una <madre suficientemente buena>… como dice el otro maleducado de Winnicott.”

Agito un bebé marciano, un vientre fértil y un cráneo rapado que ella se permite comentar en la siguiente sesión. ¡Intimidad fatal! ¡No eres mi madre ni mi compañera! Este pelo de pincho se convierte un poco en mi primera pintura de guerra. Una cabellera tan rasa, eso la desestabiliza un poco, eso hace menos madre… ¡pero le da un poco el aspecto de combate callejero!”

En efecto, verán, no es porque su hijo tenga una pérdida en los agudos por lo que no oye… Hay parámetros mucho más importantes que las cifras… Algunos niños seleccionan la información sonora… Sólo oyen lo que eligen… ¡Bah veamos! Ahora, ¡Víctor no está listo para escuchar! ¡Es preciso comprenderlo!” “Supongo que es mejor oír eso que ser sordo…”

un médico del establecimiento nos lleva un día como a delincuentes a un rincón sombrío del corredor para aconsejarnos vivamente que demos la espalda a esos ineptos y no volvamos nunca. Va en ello el porvenir de Víctor. Aquí no hay nada bueno para él, no hay que escucharles más e irse rápidamente. Juramos no decir nada, se juega su trabajo. Desconcertados, prometemos, pero comprendemos también que hay peligro en la demora.”

B) 7 AÑOS DE PSICOANÁLISIS – ANNIE GRUYER

Numa pesquisa no google, parece que grande parte dessas vítimas da psicanálise compartilham um estranho ponto em comum: são hoje fotógrafxs!

Sólo me sentía bien con personas que se me parecían, a través de sus diferencias. Siempre me percibí como una extranjera para mis camaradas, ya fuera en la guardería, en primaria y luego en el instituto.”

¿Cómo se puede no trabajar cuando no se tiene ninguna herida, ningún mal físico es visible? ¿Cómo puede permitirse uno, un lujo así?”

Yo que habitualmente hablo poco, comprendo que, para salir de este mal paso, debo lanzarme a una especie de logorrea: no puedo soportar esos silencios y esas miradas.”

No debía plantear ninguna pregunta personal, ni siquiera la más anodina. Sólo tenía que entregarme y esperar las deducciones que ella consiguiera hacer de mis declaraciones. De hecho, si lo pienso, es lo que preocupaba, no era que yo no sabía nada sobre ella, era más bien la manera en la que ella ponía distancia entre nosotros, debería decir mejor ‘altura’.”

No conseguí integrarme hasta el día en que comprendí (sin psicoterapeuta) que el humor provocaba innegablemente la simpatía. Me convertí desde entonces hasta en fin de mis ‘años de colegio’, a veces a mi costa, en el payasete de servicio que hacía sonreír, reír…” “Pero, de todo esto, no hablaba con la psicóloga, hablaba poco o nada de mis dificultades en la escuela ya que ella no me interrogaba nunca en ese sentido.”

Sin embargo, mis sueños tenían al menos el mérito de atraer la atención de la psicóloga sobre mí, ya que a veces parecía aburrirse mucho. Se ‘distraía’ a través de la nube de humo que provocaba cada uno de los cigarrillos consumidos en su despacho. La niebla se espesaba.”

Al pasar los años, mi tendencia a ser ansiosa e introvertida se transformó en diferentes fobias cada vez más invalidantes.”

Pues es bastante simple. ¿Nunca te has mirado desnuda en un espejo y has observado tu sexo?… ¿No? ¿Nunca? No es normal a tu edad. No eres curiosa. Tu cuerpo no debe serte extraño. Lo que da miedo, lo sabes, es cuando la verga del hombre se hincha, cuando el músculo se estira hasta el punto en que las venas y las arterias sobresalen. Es parecido para ti, los labios mayores se llenan de sangre.”

¿Dices que había leche en los cubos? Pero, de hecho, ¿no sería otra cosa?”

Estaba claro como el agua de roca: según ella, tenía ganas de que el psiquiatra me diera su esperma. Del blanco, mis juegos habían cambiado al rojo, luego fue el blanco del silencio y del malestar, frío, glacial.”

Me replegaba sobre mí misma, colocándome en clase cerca de la salida, o en el fondo para no someterme a la pesada mirada de mis camaradas. Mis resultados escolares vacilaban como mi salud. Mi fobia a la sangre me obligó a estar liberada del curso de ciencias naturales y de biología. Entrar en el aula implicaba sudores fríos y sofocaciones.”

A finales de los años 80, el estante de psicología en la librería se titulaba ‘psicoanálisis’. Eso no me planteaba demasiados problemas ya que entonces yo creía que la psicología ERA el psicoanálisis.”

Además, tuve la decepción de la asignatura de filosofía en el último curso. Esperaba codearme con los grandes conceptos: la libertad, la autoridad, el libre albedrío, la felicidad, la sabiduría y los gigantes del pensamiento: Platón, Rousseau, Kant… Otra desilusión. El profesor limitaba su curso a 2 palabras: deseo y sueño, Fraud y más Fraud, que sin embargo no era para nada filósofo.”

Tomé así conciencia de que el freudismo no se limitaba a la consulta del analista sino que ocupaba de forma tentacular nuestro terreno cultural; en el instituto, en las bibliotecas, el cine, la tele. Entonces, ¿cómo salir del laberinto del Minotauro que devora los males de sus pacientes para volver a sacar, aun más deshumanizantes, sus teorías inmóviles desde hace un siglo?”

Renuncié al instituto, al deporte, a las salidas. Mi vida se encogía cada vez más. Y, sin embargo, ningún diagnóstico, ningún interés más grande en ayudarme por parte de la psicóloga que sabía que me veía obligada a ir a las consultas rodeadas por mis 2 padres y en taxi (vivía a 10 minutos caminando).” “Un día, se dignó aconsejarme que cogiera mi bicicleta ya que no podía coger el metro o el autobús. No comprendía que el transporte que utilizara no cambiaba nada mi terror a salir de casa.”

Los días que siguieron fueron terribles para mí. No osaba mirar a los ojos a mi padre. Por primera vez en mi vida, dudaba de él, mi propio padre. No osaba tocar una estilográfica, ni mirar un póster en el que figuraba el cohete Ariane. Había sexos de hombres por todas partes.”

C) MIS PSEUDOANALISTAS Y YO – MARIE-CHRISTINE LORENTZ

El Sr. C. se divertía con esa tía que buscaba un nuevo compañero por Internet y le contaba sus encuentros, sus esperanzas, sus desengaños. Además me había prescrito un antidepresivo en la primera sesión.”

tenía de nuevo depresiones de repetición, que perduraban mientras que había encontrado un compañero con el que me sentía muy bien. Incluso habíamos decidido terminar juntos nuestros días, como se dice. Sin embargo, empezaba a encadenar bajas laborales por depresión. § Entre todo esto, mi nuevo compañero murió. Brutalmente y sin signos premonitorios, mientras yo dormía.

Y he aquí que no reacciono exactamente como podría esperarse. <Pensaba encontrarla postrada, me dice el Sr. C., y la veo muy agitada. Duerme demasiado poco, hay que prestar atención, sino va a hacer usted una depresión severa.>

Entre mediados de julio y final de agosto, ente 2 crisis de desesperación, estaba en un estado de euforia nunca visto antes, hablando a todo el mundo – yo la tímida –, arreglando el menor problema sin ningún esfuerzo.

Como dormía 2 horas por la noche, me recetaron un regulador del humor. Ignoraba lo que era, pero el efecto fue radical. En unos días, me puse a llorar y entré en un periodo de depresión intensa.”

Tengo 2 grandes reproches con respecto al Sr. C.: por una parte no haberme dicho de lo que sufría, por otra no haber respetado el protocolo de tratamiento de esa enfermedad dejándome suspender el Tegretol, mi timoregulador.”

Luego un Sr. E. entró en el paisaje. Pienso que voy a poder dejar de agotar el alfabeto: es un especialista reconocido en bipolaridad. En el momento en el que escribo estas líneas, 4 meses después del inicio de mi nuevo tratamiento, únicamente medicamentoso, siento volver la alegría de vivir que me ha faltado desde hace tantos años.” Hmmm.

Texto muito ruim! Pular os próximos 3 micro-relatos é imprescindível a fim de continuar a suportar a leitura deste livro. Não é que seu conteúdo seja inaproveitável, pelo contrário: toda antipseudanálise é útil! Mas seu estilo é horrendo, sua escrita é escabrosa!

5. UN CASO EJEMPLAR: LA TOXICOMANÍA

A) COMO LAS TEORÍAS PSEUDOANALÍTICAS BLOQUEARON EL TRATAMIENTO EFICAZ DE LOS TOXICÓMANOS Y CONTRIBUYERON A LA MUERTE DE MILES DE INDIVIDUOS – JEAN-JACQUES DÉGLON

Apenas déjà vu sobre a hegemonia da psicanálise na França.

QUINTA PARTE

UNA VIDA DESPUÉS DE FRAUD

1. LA REVOLUCIÓN DE LAS NEUROCIENCIAS [se foi a própria limitação desta ciência que nos brindou com a pseudanálise!!!]

A) EL MODELO FRAUDIANO DE LOS SUEÑOS NO ES PLAUSIBLE (1992) – ALLAN HOBSON

Se puede continuar interpretando los sueños como metáforas, o incluso en términos de inconsciente dinámicamente reprimido, si nos empeñamos. Pero semejante cuestión ya no es ni necesaria ni suficiente para explicar tanto el origen como la naturaleza del sueño.

A diferencia de Fraud, pienso que la mayoría de los sueños no son ni oscuros ni expurgados, sino, al contrario, claros y de fabricación en bruto. Contienen pulsiones altamente conflictivas, sin disfrazar y perfectamente comprensibles, que merecen la pena que sean anotadas por el soñador (y por cualquier participante en la interpretación). Mi concepto se hace eco del de Jung de un sueño claramente comprensible. Se desembaraza de toda distinción entre contenido manifiesto y contenido latente. Mientras que los psicoanalistas conservadores continúan defendiendo y aplicando, sin modificación seria, la teoría de Fraud sobre el sueño, otros, más liberales (los de la <hermenéutica>), se separan explícitamente de la neurología y del paradigma de causa, procedente de las ciencias físicas.”

AMBIÇÃO DE SOBRA, COMPETÊNCIA DE MENOS: “El punto de partida de Fraud en sus Apuntes de una psicología científica es rigurosamente científico. Expresa claramente su ambición de construir una teoría de la mente que sería una junto con su teoría del cerebro. La teoría del sueño no es más que una traducción de las nociones derivadas de la neurobiología que utiliza en sus Apuntes.

La teoría psicoanalítica del sueño se apoya en la idea errónea de que el sistema nervioso, a falta de una energía propia, encuentra su energía en dos fuentes no neuronales: el mundo exterior y los impulsos somáticos. Sabemos hoy en día que el cerebro produce su propia energía y, al hacerlo, no es dependiente ni del mundo exterior ni de los impulsos somáticos.”

La potencia exigida al sistema energético es relativamente débil; Fraud, por el contrario, la creía elevada. Además, el psicoanálisis considera la forma del contenido onírico como procedente principalmente de las ideas (los pensamientos latentes del sueño); la hipótesis de activación-síntesis tiene una fuerte influencia sensorio-motora (no hay diferencia entre el contenido latente y el contenido manifiesto).”

La activación-síntesis no tiene ninguna necesidad de un postulado de regresión: afirma que es una característica intrínseca del estado onírico de tener primero un carácter sensorial, porque los sistemas sensoriales del cerebro están intrínseca y primordialmente activados. Y considero ese aspecto sensorial como progresivo más que regresivo, porque el sistema es autoactivo y autocreativo.” O sistema é sem-tempo, não é progressivo tampouco!

El contenido de la mayor parte de los sueños es directamente leíble sin decodificación. Al ser el estado onírico abierto, los sueños de los individuos pueden efectivamente revelar estilos de conocimiento, aspectos de la visión que un individuo tiene del mundo y de las experiencias históricas específicas de ese individuo.”

3. LAS PSICOTERAPIAS DE HOY [TCC, TCC E MAIS TCC…]

(…)

* * *

À página 536 (a 3 do fim!) cita-se como que em nota de pé-de-página a Gestalt: “Fundada por Fritz Perls, representa sin duda la forma más sofisticada del enfoque humanista.” E não diz mais do que 3 frases além disso…

METAFÍSICA DA ARTE: AUTO-OBJETIFICAÇÃO DO ARTISTA & SUBJETIVIDADE DO RECEPTOR

“For we only apprehend the world in a purely objective manner when we no longer know that we belong to it; and all things appear the more beautiful the more we are conscious merely of them and the less we are conscious of ourselves.”

Schopenhauer

Está correto dizê-lo se se refere puramente ao processo da crítica da arte, com alguns ajustes – Sinal trocado: in a purely SUBJECTIVE manner – the less we are conscious of ourselves (o crítico apreende a obra como algo estranho, sujeito x objeto, esqueceu que a criação do artista, sua objetividade, está em ser o objeto enquanto o objeto é consciência, na fusão dos pólos). Propriamente falando, o artista não julga o que é ou não é o belo, pois se torna provisoriamente o próprio belo. Como pode a beleza argumentar intelectualmente sobre a beleza? Ela apenas é. Narciso não se reconhece ao espelho, está menos consciente de si, pode julgar seu reflexo (o outro) como belo. Narciso é o crítico – quem está desinteressado de si está interessado no outro (a obra). Nele, sujeito e objeto estão divorciados, Narciso não é a imagem de Narciso. O artista é todo consciência-de-si, ele e a obra são cegos à outridade, entendem apenas os reflexos (o espelho que reflete a si próprios), estão fechados em si numa subjetividade infinita – mas como não há outro, apenas mesmidade, identidade, trata-se da OBJETIVIDADE PERFEITA E AUTO-SUFICIENTE DO QUE É IGUAL A SI MESMO. Narciso, o crítico, se afoga porque carece, busca o complemento, a beleza (Narciso não é a beleza, ele é inconsciente de si, seu corpo não está em consideração a não ser como outro, infinitamente separado por um abismo). O reflexo (a obra) não quer nada. Sujeito e objeto aqui são um, o mundo. O exterior e o interior simultâneo. O Ser. Não há logos, só recursividade tautológica. Vênus é. O amor é cego e no entanto não deseja enxergar (interagir com o exterior). O amor é o processo de criação. O amor está na boca do mundo, é discursado pelos loucos da subjetividade irrestrita. Neste sentido, o amor é a Poesia e a crítica é a Verdade. Homero descreve o mundo; a verdade desmistifica-o. A verdade é a verdade dos homens, discurso, sempre carentes da serena objetividade muda e inacessível da beleza.

Goethe compreendeu esta antítese, e por isso sua autobiografia se chama Poesia & Verdade. Poesia é a sua obra, verdade o indivíduo biografado. Por ser uma obra, versando sobre a obra e a crítica, é Poesia, como foram antes seus poemas que não falavam de poemas, mas uma poesia sem objeto, inacabada. Por ser uma crítica, prosando sobre a crítica e a obra, é Verdade, verdade clínica e impessoal de sua vida. Beleza deficitária, crítica consumada. Tentativa de uma síntese impossível a não ser dentro da obra de arte que é o artista enquanto indivíduo. O jeito do belo ver, elogiar, participar – a possibilidade da crítica ser bela e definitiva.

ANTI-DÜHRING – Engels

PREFÁCIO À 1ª EDIÇÃO

O presente trabalho não é, absolutamente, fruto de um ‘impulso interior’. Muito pelo contrário. Quando, há 3 anos, o Senhor Dühring surgia, cheio de rompante, apresentando-se, ao mesmo tempo, como adepto e reformador do socialismo, disposto a trazer o século à luta, alguns amigos da Alemanha expressaram várias vezes o desejo de que eu fizesse, no órgão do partido social-democrata, então o Volksstaat, um estudo crítico da nova doutrina socialista.”

Havia mesmo pessoas que já se julgavam no dever de difundir a doutrina entre os trabalhadores. Finalmente, o Senhor Dühring e seus correligionários punham a seu serviço todos os artifícios da propaganda e da intriga para obrigar o Volksstaat a tomar posição definitiva em face da nova doutrina, que entrava em cena com tão consideráveis pretensões.”

Por outro lado, o Senhor Dühring, como ‘criador de sistema’, não é uma aparição isolada na Alemanha contemporânea. De algum tempo a esta parte, os sistemas de cosmogonia, de filosofia da natureza em geral, de política, economia, etc., proliferam na Alemanha, da noite para o dia, às dúzias, como os cogumelos. Qualquer doutor em filosofia e até mesmo o simples estudante não mais se contentam senão com um sistema integral. Da mesma forma que, no Estado moderno, todos os cidadãos se supõem aptos para julgar as questões em que são chamados a dar voto; da mesma maneira pela qual, em economia política, se considera o comprador com conhecimentos profundos sobre todas as coisas que adquire para o seu sustento; da mesma forma se pretende proceder com respeito à ciência. A liberdade científica consistirá, assim, na possibilidade de cada qual escrever sobre ciência tudo o que nunca aprendeu, dando-o como o único método rigorosamente científico.”

É esse o mais característico e abundante produto da indústria intelectual alemã, ‘barato, sim, porém de má qualidade’, tal como outros produtos nacionais com que o país, infelizmente, não se fez representar na Exposição da Filadélfia. O próprio socialismo alemão, de algum tempo para cá, notadamente após o bom exemplo do Senhor Dühring fez, ultimamente, grandes progressos na arte do ruído de latão e exibe tal ou qual produto batizado de ciência e da qual não contém uma palavra.”

No momento de concluir este prefácio, recebo de uma livraria um anúncio redigido pelo Senhor Dühring, no qual o filósofo promete uma nova obra ‘capital’ intitulada: Novas leis básicas da química e da física nacionais. Tenho pleno conhecimento da insuficiência de meus conhecimentos em física e em química; apesar disso, porém, acredito conhecer bastante o meu caro Dühring, para adiantar, mesmo sem lhe haver lido a obra, que as leis físicas e químicas aí estabelecidas poderão competir, em confusão ou em banalidades, com as leis econômicas, cosmológicas e outras que ele até agora descobriu e examinei no meu livro. Só espero que o rigômetro, instrumento construído pelo Sr. Dühring para medir as temperaturas mais baixas, sirva para medir, não temperaturas altas ou baixas, mas simplesmente a arrogante ignorância do Senhor Dühring.

Londres, 11 de junho de 1878.”

PREFÁCIO À 2ª EDIÇÃO

A necessidade de fazer-se desta obra uma 2ª edição foi para mim verdadeira surpresa. A personagem, que neste livro se critica, está hoje inteiramente esquecida. A obra em si mesma não só teve numerosos leitores, quando apareceu em fragmentos no Vorwärts de Leipzig, em 1877 e 78, como dela se tiraram, em separado e integralmente, inúmeros exemplares. Como poderá alguém interessar-se pelo que eu disse há vários anos a propósito do Senhor Dühring?

Devo-o, antes de tudo, à circunstância de que esta obra, como, aliás, quase todos os meus escritos ainda agora em circulação, foi interditada no império alemão logo após a promulgação da lei contra os socialistas. Quem quer que não estivesse preso aos hereditários preconceitos dos funcionários dos países da Santa Aliança deveria claramente prever o efeito de semelhante medida: dupla ou tripla venda para os livros interditados e manifestação de impotência por parte daqueles Senhores de Berlim, que promulgam leis cuja execução não conseguem impor. Realmente, a amabilidade do governo do império forçou-me a novas edições que não poderia satisfazer: como não tenho tempo para corrigir o texto, coisa que seria de desejar, sou obrigado a contentar-me com uma simples reimpressão.”

Assim, a crítica negativa resultou positiva; a polêmica transformou-se em exposição mais ou menos coerente do método dialético e da ideologia comunista defendida por Marx e por mim, numa série de domínios bastante vastos. Esta concepção, desde o seu aparecimento na Miséria da Filosofia de Marx e no Manifesto Comunista, tem atravessado um período de incubação de mais de 20 anos, até este momento em que, com a apresentação d’O Capital, ela alcançou regiões cada vez mais distantes, e, hoje, já fora das fronteiras da Europa, prende a atenção em todos os países em que há proletários e cientistas imparciais.”

Quanto às demais modificações, que desejaria fazer, referem-se principalmente a 2 pontos: primeiramente, à história primitiva da humanidade, assunto de que Morgan só nos deu a chave em 1877. Mas, como, em minha obra As origens da família, da propriedade privada e do Estado tive ocasião de ordenar e expor a matéria por mim reunida desde o aparecimento deste livro, bastará recorrer a esse trabalho ulterior.

Em segundo lugar, teria desejado modificar a parte relativa às ciências naturais. Nota-se ali grande descuido de exposição e há várias coisas que hoje poderiam ser expressas com maior precisão e clareza. Não me arrogando o direito de corrigir, julgo-me na obrigação de fazer esta crítica.

Marx e eu fomos, sem dúvida alguma, os únicos que salvaram da filosofia idealista alemã a dialética consciente, incluindo-a na nossa concepção materialista da natureza e da história. Mas uma concepção da história, a um tempo dialética e materialista, exige o conhecimento das matemáticas e das ciências naturais. Marx foi um consumado matemático: mas, de nossa parte, não pudemos estudar senão fragmentariamente, de quando em quando, as ciências naturais. À medida que ocupações comerciais e a minha mudança para Londres mo foram permitindo, fiz uma completa mise en mue, como diria Liebig,¹ das matemáticas e ciências naturais, tarefa em que empreguei quase 8 anos. Estava eu em meio desse trabalho quando me ocupei do Senhor Dühring e de sua pretensa filosofia da natureza. Se, pois, nem sempre atino com a exata expressão técnica, e se, por vezes, me vejo em alguma dificuldade no domínio das ciências naturais, é naturalíssimo. Por outro lado, a consciência da própria incerteza me fez prudente: ninguém me poderá atribuir erros patentes sobre fatos então conhecidos, nem inexatidão na exposição das teorias professadas na época. A tal respeito, só surgiu um grande matemático pouco conhecido, a queixar-se, numa carta dirigida a Marx, de que eu havia criminosamente atentado contra a honra da XXX. Tratava-se, evidentemente, de que eu, ao fazer a recapitulação das matemáticas e ciências naturais, procurava convencer-me sobre uma série de pontos concretos – sobre o conjunto eu não tinha dúvidas –; de que, na natureza, se impõem, na confusão das mutações sem número, as mesmas leis dialéticas do movimento que, também na história, presidem à trama aparentemente fortuita dos acontecimentos; as mesmas leis que, formando igualmente o fio que acompanha, de começo a fim, a história da evolução realizada pelo pensamento humano, alcançam pouco a pouco a consciência do homem pensante; leis essas primeiramente desenvolvidas por Hegel, mas sob uma forma que resultou mística, a qual o nosso esforço procurou tornar acessível ao espírito, em toda a sua simplicidade e valor universal. Será escusado dizer que a velha filosofia natural – apesar das muitas coisas boas que realmente continha e dos muitos germes fecundos que encerrava(*) – não poderia contentar-nos: conforme se expõe minuciosamente neste livro, consiste-lhe o defeito na forma hegeliana de não reconhecer na natureza nenhum desenvolvimento no tempo, nenhuma ‘sucessão’, mas simplesmente uma ‘coexistência’ (Nacheinandr-Nebeinander). Tal defeito tinha razão de ser, de uma parte, no sistema hegeliano de per si, que não atribuía ao espírito seqüência de desenvolvimento histórico, e, de outro lado, no estado das ciências naturais na época. Assim, Hegel recua, neste ponto, bem para antes de Kant, que, em sua teoria da nebulosa, já punha em foco o problema das origens e cujo descobrimento do obstáculo que, segundo se supunha, as marés criavam ao movimento de rotação da Terra, anunciava já a consolidação do sistema solar. Finalmente, o problema, para mim, consistia, não em impor à natureza leis dialéticas predeterminadas, mas em descobri-las e desenvolvê-las, partindo da mesma natureza.

[¹ O químico alemão Justus von Liebig (1803-1873).]

(*) É bem mais fácil invectivar contra a antiga filosofia da natureza, acompanhando o vulgo profano, como o faz Karl Vogt, do que apreciar sua importância histórica. Ela contém inúmeros absurdos e fantasias, mas não tantas quantas se encerram nas teorias dos naturalistas empíricos da mesma época e já se começa a perceber, desde a vulgarização da teoria da evolução, quanto encerra de bom senso e de inteligência. Assim, Haeckel reconheceu muito justamente os méritos de Treviranus¹ e de Ocken.² Este estabeleceu o postulado da biologia baseado na substância colóide primitiva (Urschleim) e sua vesícula primária (Urblaschen), coisas que depois foram chamadas protoplasma e célula. Hegel é, no que lhe concerne especialmente, de muitos pontos de vista, bem superior aos empiristas de seu tempo, que supunham haver explicado todos os fenômenos atribuindo-os a uma força – força da gravidade, força da rotação, força do contato elétrico, etc. – e, na impossibilidade dessas, a uma substância desconhecidasubstância luminosa, calorífica, elétrica, etc. As substâncias imaginárias estão hoje mais ou menos abandonadas, mas o ‘charlatanismo das forças’, que Hegel combatia, reaparece como fantasma, por exemplo, no discurso pronunciado por Helmholtz em Innsbrück no ano de 1869. [Esperassem para ver o que o discípulo de Helmholtz iria provocar, hipostasiando até uma libido!] (…) Os filósofos da natureza estão, para a ciência natural conscientemente dialética, na mesma situação em que se acham os utopistas para o comunismo moderno.”

¹ Gottfried Reinhold Treviranus (1776–1837), médico e naturalista alemão.

² Lorenz Oken, nome de batismo Lorenz Ockenfuss (1779—1851), naturalista, botânico, biólogo e ornitólogo, também alemão.

possuímos hoje mamíferos ovíparos, e, se a notícia se confirma, aves que caminham sobre 4 patas. Se a célula impôs a Virchow,¹ há anos, a contingência de resolver a individualidade animal (conseqüentemente humana), numa federação de elementos celulares, este fato ainda mais se complica pela descoberta dos glóbulos brancos do sangue, que circulam à maneira de amebas no corpo dos animais superiores.”

¹ Rudolf Ludwig Karl Virchow (1821—1902), médico, antropólogo, patologista, pré-historiador, biólogo, escritor, editor e político alemão (ufa!).

Exatamente por isso, pelo fato de que vão aprendendo a utilizar os resultados de 3 milênios de história filosófica, por isso é que as ciências econômicas se estão emancipando de toda essa pretensa filosofia da natureza, estranha e superior a elas, assim como se vão também emancipando do mesquinho método especulativo, herdado do empirismo inglês.” Que pena que essa tendência não durou muito…

Londres, 23 de setembro de 1885.

INTRODUÇÃO. CAPÍTULO I. GENERALIDADES

(Vejo que Engels faz ‘divisões hegelianas’ nos capítulos do livro!)

Era a época em que, segundo a frase de Hegel, o mundo descobriu que tinha um cérebro.” “o passado merecia apenas comiseração e desprezo. O mundo, até então, havia estado envolto em trevas; para o futuro, a superstição, a injustiça, o privilégio e a opressão seriam substituídos pela verdade eterna, pela eterna justiça, pela igualdade baseada na natureza e por todos os direitos inalienáveis do homem.” 

…e o Estado da razão, o contrato social de Rousseau, ajustou-se, como de fato só podia ter-se ajustado, à realidade, convertido numa república democrático-burguesa. Os grandes pensadores do século XVIII, sujeitos às mesmas leis de seus predecessores, não podiam romper os limites que sua própria época traçava.” A gente já não pode porra nenhuma: nem viver a nossa época!

Os novos pensadores descobrem que também o mundo burguês, instaurado segundo os princípios do racionalismo, é injusto e irracional, merecendo, portanto, ser desprezado como um traste inútil, da mesma forma como já o foram o feudalismo e as formas sociais que o precederam. Se, até então, a verdadeira razão e a verdadeira justiça não governaram o mundo, isso se deve a que, segundo o seu modo de ver, ninguém ainda conseguiu alcançá-las.”

O mesmo poderia ter ocorrido há 500 anos e teria sido poupada a humanidade de 500 anos de erros, de sofrimentos e de lutas. Esse modo de ver é, em suma, o de todos os socialistas ingleses e franceses e o dos primeiros socialistas alemães, sem excluir Weitling.¹ O socialismo é a expressão da verdade, da razão e da justiça absoluta, e é suficiente descobri-lo para que se imponha ao mundo por sua própria virtude. E, como a verdade absoluta é independente do espaço, do tempo, do desenvolvimento do homem e da história, só o acaso pode decidir quando e onde se deve revelar o seu descobrimento.”

¹ Wilhelm Christian Weitling (1808–1871), alfaiate e comunista vanguardista, como coloca Engels, porém comunista ou socialista “utópico” segundo a classificação marxista que só se torna possível depois da primeira metade do séc. XIX.

forçosamente surge um conflito entre as verdades absolutas, não restando outra solução senão a dos atritos ou fusões de umas com as outras. Era, pois, natural e inevitável, que surgisse uma espécie de socialismo eclético e, com efeito, a maior parte dos operários socialistas da França e da Inglaterra tem, nos cérebros, uma mistura pitoresca que admite, aliás, toda uma série de matizes, na qual se fundem os princípios econômicos, as expansões críticas e as representações sociais do futuro, dos diversos fundadores de seitas. Essa mescla é tanto mais fácil de ser composta quanto mais depressa os ingredientes individuais vão perdendo, no curso das discussões, seus contornos agudos e concretos, como se fossem pedras aplainadas pela corrente do rio.” Lamentavelmente continua a ser assim – na verdade voltou a ser assim após anos muito mais organizados da esquerda (fim do séc. XIX/início do século XX 

Fora do estrito campo da filosofia, os franceses souberam também criar obras mestras de dialética, como, por exemplo, O Sobrinho de Rameau, de Diderot, e o estudo de Rousseau Sobre a origem da desigualdade dos homens.”

Se submetermos à consideração especulativa a natureza ou a história humana ou a nossa própria atividade espiritual, encontrar-nos-emos, logo de início, com uma trama infinita de concatenações e de mútuas influências, onde nada permanece o que era nem como e onde existia, mas tudo se destrói, se transforma, nasce e perece. Esta intuição do mundo, primitiva, simplista, mas perfeitamente exata e congruente com a verdade das coisas, foi utilizada pelos antigos filósofos gregos e aparece expressa, claramente, pela primeira vez, em Heráclito: tudo é e não é, pois tudo flui, tudo está sujeito a um processo constante de transformação, de incessante nascer e perecer. Mas esta intuição, por ser exatamente a que reflete o caráter geral de todo o mundo dos fenômenos, não basta para explicar os elementos isolados de que se forma todo esse mundo. E esta explicação é indispensável, pois, sem ela, nem mesmo a imagem total adquirirá sentido exato. Para penetrar nesses elementos, antes de mais nada, precisamos destacá-los de seu tronco histórico ou natural e investigá-los separadamente, cada um de per se, em sua estrutura, causas e efeitos que em seu seio se produzem, etc…”

Os rudimentos das ciências naturais exatas não se desenvolveram até chegar aos gregos do período alexandrino e, muito mais tarde, na Idade Média, com os árabes. Na realidade, a autêntica ciência da natureza data somente da segunda metade do século XV e, a partir de então, não fez mais que progredir com velocidade constantemente acelerada.” O que já não é mais o caso.

Para o metafísico, as coisas e suas imagens no pensamento, os conceitos, são objetos isolados de investigação, objetos fixos, imóveis, observados um após o outro, cada qual de per se, como algo determinado e perene. O metafísico pensa em toda uma série de antíteses desconexas: para ele, há apenas o sim e o não e, quando sai desses moldes, encontra somente uma fonte de transtornos e confusão. Para ele, uma coisa existe ou não existe. Não concebe que essa coisa seja, ao mesmo tempo, o que é uma outra coisa distinta. Ambas se excluem de modo absoluto, positiva e negativamente, causa e efeito se revestem da forma de uma antítese rígida. À primeira vista, esse método especulativo parece-nos extraordinariamente plausível, porque é o do chamado senso comum. Mas o verdadeiro senso comum, personagem bastante respeitável dentro de portas fechadas, entre as 4 paredes de sua casa, vive peripécias verdadeiramente maravilhosas quando se arrisca pelos amplos campos da investigação.”

Kant começou sua carreira de filósofo transformando o sistema solar estável e de duração eterna de Newton num processo histórico (…) Meio século mais tarde, sua teoria foi confirmada matematicamente por Laplace, e, depois de mais 50 anos, o espectroscópio demonstrou a existência, no espaço, daquelas massas ígneas de gás, em diferentes graus de condensação.” Mas que importa tudo isso? Se com Kant não estamos mais no tempo, mas o tempo está em nós, que NOS importa a teleologia e escatologia do sistema solar, ou sua genealogia?

Não importa que Hegel não tenha resolvido esse problema. Seu mérito, que marcou época, consistiu apenas em o ter colocado. Mas não se trata de um problema que pode ser resolvido apenas por um homem. E, mesmo sendo Hegel, ao lado de Saint-Simon, o cérebro mais universal de seu tempo, seu horizonte estava circunscrito, em primeiro lugar, pela limitação inevitável de seus próprios conhecimentos, e, em segundo, pela dos conhecimentos e observações de sua época, também limitados em extensão e profundidade. A tudo isso deve-se ainda acrescentar uma 3ª circunstância. Hegel era idealista. As idéias de seu cérebro não eram, para ele, imagens mais ou menos abstratas das coisas e dos fenômenos da realidade, mas coisas que, em seu desenvolvimento, se lhe apresentavam como projeções realizadas de uma ‘idéia’, existente não se sabe onde, antes da existência do mundo.” “O sistema Hegel foi um aborto gigantesco, porém o último de sua espécie.”

IGUALMENTE OUSADO E FUNESTO (Não tem lei aquilo que não existe, i.e., a humanidade): “A consciência da total inversão em que o idealismo alemão incorrera, necessariamente, tinha que levar ao materialismo. Mas, note-se bem, não se trata do materialismo puramente metafísico e exclusivamente mecânico do século XVIII. Afastando-se da simples repulsa, candidamente revolucionária, de toda a história anterior, o materialismo moderno vê, na história, o processo de desenvolvimento da humanidade, cujas leis dinâmicas tem por encargo descobrir.”

OH, METAPHYSICS! THEY TRY TO KILL YOU IN EACH GENERATION! “Desde o instante em que cada ciência tenha que se colocar no quadro universal das coisas e do conhecimento delas, já não há margem para uma ciência que seja especialmente consagrada a estudar as concatenações universais. Tudo o que resta da antiga filosofia, com existência própria, é a teoria do pensamento e de suas leis: a lógica formal e a dialéticaTudo o mais se dissolve na ciência positiva da natureza e da história.” Curiosamente, isso se coaduna bastante bem com os <paradigmas científicos> de Popper & Kuhn – não entendo por que eles são ferrenhos adversários do marxismo!

Lançavam-se os alicerces para uma concepção materialista e abria-se o caminho para verificar-se que a existência é quem determina a consciência do homem e não é a consciência quem determina a existência, como se afirmava tradicionalmente.” Diabrura epistemológica: mas então a revolução proletária continuará dependendo dos fatores <da existência> e não da consciência da classe?

Com efeito, o socialismo [tradicional anglo-franco] criticava o regime capitalista de produção existente e suas conseqüências, mas não conseguiu explicá-lo e, portanto, também não o poderia destruir, limitando-se apenas a repudiá-lo, simplesmente, como imoral.”

Era esse, mais ou menos, o sentido com que se apresentavam as coisas no campo do socialismo teórico e da decadente filosofia, quando o Senhor Eugen Dühring veio à cena e anunciou, com o auxílio de tambores e fanfarras, a total subversão da filosofia, da economia política e do socialismo, subversão feita unicamente por ele.

Vejamos, agora, o que o Senhor Dühring promete e… o que cumpre.”

INTRODUÇÃO. CAPÍTULO II. O QUE PROMETE O SR. DÜHRING

Já na primeira página, o Sr. Dühring se nos anuncia como o homem ‘que se outorga a representação desse poder (isto é, a filosofia) em sua época e em todo o seu desenvolvimento próximo previsível’. Ou, por outras palavras, declara-se como o único filósofo verdadeiro dos tempos presentes e de um futuro ‘previsível’. Quem dele se afasta, saiba que se afasta da verdade. Não é o Sr. Dühring o 1º que assim raciocina a seu próprio respeito, mas, excluindo-se Richard Wagner – é o primeiro que o afirma com tranqüilidade.” HAHAAHAHAAHA

além disso, termina suas investigações com um plano socialista completo, pessoal, perfeitamente desenvolvido, da sociedade do futuro, plano que é ‘o resultado prático de uma teoria clara, que se aprofunda até as últimas raízes’ e, portanto, compartilha com a infalibilidade e a virtude de santificação universal, que é o atributo da filosofia dühringuiana, pois, só sob a forma socialista por mim desenvolvida em meu Curso de Economia Política e Social pode uma autêntica propriedade ocupar o posto dessa propriedade aparente e provisória conquistada pela violência. Já sabe o futuro que, quer deseje ou não, terá que se basear, forçosamente, nessa concepção.

Nada nos custaria aumentar essa coleção de elogios dedicados pelo Sr. Dühring ao Sr. Dühring. Mas cremos bastar o que já dissemos para que o leitor tenha algumas dúvidas sobre o fato de ter realmente diante de si um filósofo ou… Não; rogamos ao leitor que reserve sua opinião até conhecer mais de perto o prometido ‘radicalismo’Se apresentamos todo esse florilégio é porque queríamos simplesmente demonstrar não se tratar de um filósofo e socialista vulgar, desses que se limitam a formular suas idéias deixando que os outros julguem de seu valor, mas de um ser verdadeiramente extraordinário, que afirma possuir a mesma infalibilidade do papa e cuja doutrina, de virtude universalmente santificadora, deve ser aceita, sem discussão, se não se quiser incorrer na mais horrenda das heresias.”

Ou o Sr. Dühring tem razão e, nesse caso, estaremos diante do maior dos gênios de todos os tempos, do primeiro homem sobre-humano, infalível, ou, então, está o Sr. Dühring equivocado, mas, mesmo assim, seja qual for a nossa opinião, se tomássemos em consideração, benevolentemente, a sua boa vontade, como se esta existisse, isso seria para ele a maior das ofensas.”

O SCHOPENHAUERIANO SR. DÜHRING! “‘Leibniz, carente de todo sentido elevado, é o melhor de todos os possíveis filosofadores cortesãos.’ Kant é ainda tolerado. Depois dele, entretanto, tudo virou às avessas, pois vieram as tolices e futilidades, tão sem substância e tão enganosas, dos primeiros epígonos, de um Fichte e de um Schelling … caricaturas monstruosas de incultos filosofastros da natureza … as ‘monstruosidades pós-kantianas’ e as ‘fantasias febris’ que encontram ‘num Hegel’ o seu remate e sua coroação.” Só faltou falar filosofia de bundões!

Os naturalistas não têm tratamento melhor, apesar de ser citado apenas Darwin.” Talvez só Nietzsche tenha tido a estatura para ser essas 3 coisas ao mesmo tempo: do século XIX, relevante e contra Darwin!

Do nosso ponto de vista, o darwinismo, do qual se devem separar, naturalmente, as doutrinas lamarckianas[como se o outro não fosse ainda pior!] é uma afirmação de selvageria e um crime de lesa-humanidade.”

[Quanto aos socialistas, u]nicamente Saint-Simon consegue um tratamento bastante passável, uma vez que só lhe é reprovado o ‘exagero’, considerando-se caridosamente a enfermidade de megalomania religiosa de que padecia. Mas, ao chegar a Fourier, o Sr. Dühring perde a paciência.” “O inegavelmente ‘perturbado Fourier’, essa ‘cabecinha infantil’, esse ‘idiota’, nem sequer era socialista; o seu palavreado nada tinha a ver com o socialismo racional; era simplesmente ‘um aborto trabalhado pelo padrão da vida vulgar’.”

E, por fim, ficamos sabendo que Robert Owen ‘tinha idéias pobres e mesquinhas … sua mentalidade tão grosseira no que se refere ao terreno moral … alguns lugares comuns degenerados em idéias confusas … talento de observação absurdo e torpe … O processo mental de Owen não merece sequer o tempo que se gasta com uma crítica séria … A sua vaidade …’ etc., etc. O Sr. Dühring classifica os utopistas, divertindo-se com os seus nomes, com o seguinte desperdício de humor: Saint-Simon, saint (santo), Fourier, fou (louco), Enfantinenfant (criança). Só lhe faltou acrescentar Owen, oh weh (oh! dor, em alemão), encerrando um período bastante considerável da história do socialismo com uma piada em 4 letras”

¹ Barthélemy-Prosper Enfantin (1796-1864), reformador social francês, saint-simoniano. Idealizou a criação do canal de Suez.

Dos julgamentos, que Dühring faz dos socialistas posteriores, limitar-nos-emos a destacar, devido à sua brevidade, os que faz sobre Lassalle e Marx:

Lassalle: ‘Ensaios de vulgarização pedantes e pegajosos … excessos escolásticos … uma mistura monstruosa de teorias gerais e de detalhes mesquinhos … superstição hegeliana absurda e disforme … exemplo repelente … limitação … envaidecimento jactancioso com a mais banal mediocridade … nosso herói judeu … panfletista … ordinário … uma concepção da vida e do mundo absolutamente insustentáveis …’

Marx: ‘Estreiteza de concepções … seus trabalhos e suas conclusões são falhos por si mesmos, isto é, do ponto de vista de teoria pura, do valor permanente, são indiferentes para o nosso objetivo (a história crítica do socialismo), e, no que se refere à história geral sobre as correntes do espírito, pode-se tomá-lo em consideração, no máximo, como um sintoma da influência atingida por um ramo do escolasticismo sectário moderno [HAHAAHA!] … impotência e incapacidade de concentração e ordenação … deformação de pensamento e de estilo, maneiras de linguagem pouco dignas … vaidade anglicana … engano … concepções áridas, que, na realidade nada mais são do que rimas bastardas da fantasia histórica e lógica … processos desonestos … vaidade pessoal … [a anglicana era apenas coletiva?] maneiras insolentes … impertinências … frasezinhas engenhosas [a raiva realmente passou para o estilo da escrita!] e tolices … erudição mesquinha … um retrógrado na filosofia e na ciência.’

PARTE 1. FILOSOFIA. CAPÍTULO III. CLASSIFICAÇÃO. APRIORISMO.

Com efeito, coloquemos a Enciclopédia de Hegel, com todas as suas fantasias febris, junto às verdades definitivas e inapeláveis do Sr. Dühring. Ao que o Sr. Dühring chama de esquemática geral do mundo, Hegel chama de lógica. O que o primeiro aplica à natureza como esquemas, o segundo o faz com as categorias lógicas e daí temos a filosofia da natureza, e, finalmente, a sua aplicação ao mundo do homem, que, em Hegel, se chama filosofia do espírito. Como vemos, a ‘ordem lógica interna’ da hierarquia dühringuiana nos encaminha diretamente, ‘com absoluta espontaneidade’, à Enciclopédia de Hegel, donde foi tirada com tal fidelidade que faria chorar de ternura ao judeu errante da escola hegeliana, o professor Michelet,¹ de Berlim.”

¹ Poderia ser o historiador francês Jules Michelet (1798–1874). O problema é que não consta que ele tenha se radicado na capital alemã.

Se, ao chegar a um período qualquer do progresso humano, se tornasse possível construir um sistema definitivo e determinado das concatenações universais, tanto no físico como no espiritual e histórico, ter-se-ia encerrado o ciclo dos conhecimentos humanos e, uma vez que a sociedade se sujeitasse a esse sistema, levantar-se-ia uma barreira a todo o desenvolvimento histórico futuro, o que seria um contra-senso, um absurdo.”

É indubitavelmente certo que os conceitos das matemáticas puras regem independentemente da experiência concreta de qualquer indivíduo, ainda que essa virtude não pertença exclusivamente às matemáticas, o que é fato comum comprovado por todas as ciências e, mais ainda, a todos os fatos em geral, cientificados ou não. Os pólos magnéticos, a composição da água por 2 átomos de hidrogênio e 1 de oxigênio, o fato de que Hegel está morto e de que o Sr. Dühring está vivo, são fatos que existem independentemente de minha experiência ou da experiência de outras pessoa, e mesmo independentemente da experiência do Sr. Dühring, assim que ele dormir o sono dos justos. O que não é certo é que as matemáticas puras são entendidas pela inteligência apenas com as suas próprias criações e imaginações. De onde são tirados os conceitos de número e figura, senão do mundo real?” “Tiveram que existir objetos que apresentassem uma forma, e cujas formas pudessem ser comparadas entre si, para que pudesse surgir o conceito de figura.” “Mas, como acontece em todos os campos do pensamento humano, ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento, as leis abstraídas do mundo real se vêem separadas desse mundo real do qual nasceram, consideradas como se fossem alguma coisa à parte, como se fossem leis vindas de fora e às que o mundo se deveria ajustar. Assim aconteceu com a sociedade e o Estado e assim acontecera, num determinado momento, com as matemáticas puras, que serão aplicadas ao mundo, apesar de nele ter sua origem e de não representar mais do que uma parte de suas formas de síntese.”

PARTE 1. FILOSOFIA. CAPÍTULO IV. ESQUEMÁTICA DO MUNDO

No sujeito, o Sr. Dühring diz-nos que o ser, como universal, compreende tudo e no predicado afirma intrepidamente que nada, então, existe fora dele. Que colossal idéia ‘criadora de sistema’!” “E assim ‘as coisas do além não têm mais lugar, uma vez que o espírito aprendeu a discernir o que existe na sua universalidade homogênea’. Eis uma batalha do espírito comparada com a qual Austerlitz e Iena Sadow e Sédan desaparecem inteiramente.”

Não é bastante que me resolva eu a classificar uma escova de sapatos na classe dos mamíferos para que a mesma, como que por encanto, apresente glândulas mamárias. A unidade do ser, ou seja, aquilo que justifica a redução à unidade no pensamento, é, pois, justamente o que era mister demonstrar”

Começo pelo que existe. Penso. pois, sobre o que tem existência real. A idéia do que existe constitui uma unidade. Mas o pensamento e o que existe têm que estar de acordo, correspondem-se, <coincidem>. Portanto, o que existe é também, na realidade, unitário. Donde se conclui que o sobrenatural não existe.’ Se o Sr. Dühring nos tivesse falado assim, sem subterfúgios, ao invés de nos apresentar os dogmas anteriormente citados, sua ideologia se tornaria compreensívelQuerer demonstrar a realidade de um resultado mental qualquer por meio da identidade entre o que se pensa e o que existe é, de fato, uma das fantasias febris mais loucas de… Hegel.”

O mais cômico nessa história é que o Sr. Dühring, para provar a não-existência de Deus por meio do conceito do ser, lança mão da prova ontológica da existência de Deus. Diz essa prova: quando pensamos em Deus, nós o concebemos como a soma de todas as perfeições. Ora, a soma de todas as perfeições implica, antes de tudo, na existência, pois um ser inexistente é necessariamente imperfeito. Devemos, pois, incluir a existência no número das perfeições de Deus. Logo, necessariamente, Deus existe. É esse, tal qual, o raciocínio do Sr. Dühring: quando ideamos o ser, ideamo-lo como conceito uno. O que se compreende num só conceito é uno. O que existe não corresponderia, portanto, ao seu conceito se não constituísse uma unidade; Deus, portanto, não existe, etc.”

Temos que nos afastar, um só milímetro que seja, desse simples fato fundamental de que todos os objetos têm em comum a existência para que, desde logo, comecem a surgir aos nossos olhos suas diferenças.” “É necessário levar-se em conta que a existência começa a ser um problema a partir dos limites de nosso círculo visual.”

O ser … não é esse ser puro que, idêntico a si próprio, igual a si mesmo, é desprovido de qualquer propriedade concreta que não representa efetivamente senão uma contra-imagem do nada ou da ausência da idéia.”

[Mas é] somente a partir desse ser nada que se desenvolve o estado atual do mundo, diferenciado, mutável, apresentando já uma evolução, um processo de formação; e é somente depois de termos compreendido isso que chegamos a encontrar, de novo, sob essa transformação perpétua, ‘o conceito do ser universal idêntico a si mesmo’.”

Comparemos agora essa ‘nítida classificação dos esquemas gerais’ e esse ‘ponto de vista verdadeiramente crítico’, com as ingenuidades, as grosserias e os sonhos febricitantes de Hegel.”

Do reino da insensibilidade não se passa ao da sensação, apesar de toda a continuidade quantitativa, a não ser por um salto qualitativo do qual … podemos dizer que se diferencia infinitamente da simples variação de graus de uma só e mesma propriedade”

E, não contente com haver tomado de empréstimo o seu esquematismo daquele dentre os seus predecessores que ele mais calunia, o Sr. Dühring, depois de ter ele próprio dado o exemplo referido acima, de uma passagem brusca da quantidade em qualidade, tem a ousadia de falar de Marx nestes termos: ‘Como é cômico vê-lo (a Marx) referir-se a essa Idéia confusa e nebulosa de Hegel, de que a quantidade se transforma em qualidade!’

Do ser, Hegel passa à substância, à dialética. Aí, trata das determinações reflexas de seus antagonismos e contradições internas (por exemplo, negativo e positivo), depois chega à causalidade ou relação de causa e efeito, finalizando com o estudo da necessidade. Outra coisa não faz o Sr. Dühring. Onde Hegel escreve ‘teoria da substância’, o Sr. Dühring traduz por ‘propriedades lógicas do ser’.”

Quando, pois, o Sr. Dühring diz de si próprio: ‘nós, que não filosofamos de uma gaiola para fora’, ele quer dizer, sem dúvida, que filosofa dentro da gaiola

PARTE I. FILOSOFIA. FILOSOFIA DA NATUREZA. CAPÍTULO V. O TEMPO E O ESPAÇO

Essas proposições são literalmente copiadas de um livro bastante conhecido que apareceu, pela 1ª vez, em 1781 e que se intitula Crítica da Razão Pura” “Portanto, ao Sr. Dühring cabe unicamente a glória de ter batizado uma idéia de Kant com o nome de ‘lei do número determinado’ e de ter descoberto a existência de um tempo onde ainda não existia tempo, mas sim apenas o mundo. Quanto ao resto, isto é, quanto àquilo que, na análise do Sr. Dühring, tem algum sentido, ao subentender ‘nós’, na expressão ‘Encontramos’, quer se referir a Immanuel Kant; a atualidade das descobertas do Sr. Dühring tem apenas 95 anos.” HAHAHAHAHAA!

Mas acontece que Kant não considera, de modo algum, a tese acima como provada por sua demonstração. Ao contrário, na página seguinte sustenta e prova que o mundo não tem começo no tempo nem limite no espaço e justamente nisso é que reside a antinomia, a contradição irredutível, segundo a qual podemos provar tanto uma tese como a sua contrária.”

A série infinita adaptada ao mundo espacial é uma linha tirada em direção ao infinito, a partir de um ponto determinado, numa direção determinada. Isso exprime, mesmo remotamente, a infinidade do espaço? Pelo contrário: bastam 3 linhas tiradas a partir desse ponto único, em 6 direções opostas, para circunscrever as direções do espaço e teríamos assim 6 dimensões. Kant o compreendeu tão bem que não foi senão indiretamente, por um rodeio, que ele transportou a sua série numérica para o mundo espacial. O Sr. Dühring, pelo contrário, força-nos a admitir 6 dimensões no espaço e, logo depois, esquecendo-se do que afirmou, não encontra palavras para exprimir a sua indignação contra o misticismo matemático de Gauss que não queria contentar-se com as 3 tradicionais dimensões do espaço!” “A supressão da contradição seria o fim da infinidade. Hegel já o havia visto muito bem e é por isso que trata aos que se dedicam a fantasiar sobre essa contradição com um merecido desprezo.” Esse trecho não resta claro.

Esse Deus e esse Além, que o Sr. Dühring pretendia haver eliminado tão galhardamente de sua ‘esquemática do universo’, ele próprio os reintroduz, reforçados e aprofundados, em sua filosofia da natureza.”

PARTE I. FILOSOFIA. FILOSOFIA DA NATUREZA. CAPÍTULO VI. COSMOLOGIA, FÍSICA, QUÍMICA

A teoria sobre a gênese dos mundos atuais, pela rotação das massas nebulosas, foi o maior progresso que a astronomia fez desde Copérnico. Pela primeira vez abalou-se a idéia de que a natureza não teria história no tempo. Até então, acreditava-se, os corpos celestes se moviam, constantemente, desde a sua origem, nas mesmas órbitas invariáveis; e se bem fosse admitido que sobre cada um dos corpos celestes os seres orgânicos individuais pereciam, entendia-se que essa morte não afetava em nada às espécies e aos gêneros. A natureza estava, de fato, visivelmente empenhada num movimento perpétuo: mas esse movimento parecia não ser mais que a repetição incessante dos mesmos fenômenos. Nessa concepção, que correspondia inteiramente ao método filosófico metafísico, Kant abriu a primeira brecha, e isso de maneira tão científica que a maior parte dos argumentos empregados por ele tem, ainda hoje, um grande valor. É certo que a teoria de Kant não é, ainda agora, rigorosamente mais que uma hipótese. Mas o sistema cosmológico do próprio Copérnico não conseguiu ser senão uma hipótese, até hoje; e, depois que as investigações espectroscópicas, derrubando todos os argumentos contrários, apresentaram a prova evidente de que existem tais massas gasosas ígneas no firmamento, a oposição científica à teoria de Kant foi reduzida ao silêncio. O Sr. Dühring não pode, igualmente, construir o seu mundo, sem apelar para um estado de nebulosidade precedente, mas ele vinga-se exigindo que lhe demonstrem o sistema mecânico dessa nebulosa e, como não pôde ser atendido, investe contra essa demonstração com toda a espécie de epítetos desdenhosos.”

Observemos, de passagem, que, na ciência da natureza, a massa de névoa de Kant, que é designada atualmente pelo nome de nebulosa primitiva, não deve ser tomada, como é fácil compreender, senão num sentido relativo. Quando dizemos que ela é nebulosa primitiva, por um lado, queremos dizer que nela está a origem dos corpos celestes existentes e que ela é, por outro lado, a mais antiga forma de matéria a que podemos, até agora, remontar. O que absolutamente não exclui, mas, pelo contrário, supõe que a matéria tenha atravessado, antes da nebulosa primitiva, uma série infinita de outras formas.”

A unidade de matéria e força mecânica, à qual damos o nome de meio universal, é uma fórmula por assim dizer lógico-real, da qual nos valemos para designar o estado da matéria idêntico a si próprio, como fase prévia de todas as etapas da evolução que possamos estabelecer.”

fórmula lógico-real não é senão uma fraca tentativa de utilizar, na ‘filosofia da realidade’, as categorias hegelianas do em-si (Ansich) e para-si (Fürsich). Na primeira categoria reside, para Hegel, a identidade primitiva das antíteses ainda latentes e embrionárias, ocultas numa coisa, num fenômeno, num conceito; na segunda, manifestam-se a diferenciação e a separação desses elementos ocultos e começa o seu conflito.”

Nunca, em parte alguma, existiu, nem pode existir, matéria sem movimento. Movimento no espaço absoluto, [vácuo?] movimento mecânico de pequenas massas em qualquer dos mundos existentes, vibrações moleculares sob a forma de calor, de corrente elétrica ou magnética, de análise e síntese químicas, vida orgânica: em qualquer uma dessas formas de movimento, ou em várias ao mesmo tempo, é que se encontra, no mundo, cada átomo de matéria, em cada instante determinado.” “O movimento não pode, por conseqüência, ser criado ou destruído, como também não pode ser a própria matéria, e é a isso que a antiga filosofia (Descartes) se refere quando afirma que a quantidade de movimento existente no mundo é sempre a mesma.”

restaria ainda a dificuldade de se saber, em primeiro lugar, como o mundo foi carregado de forças, visto que nem hoje os fuzis se carregam por si próprios. Em segundo lugar, era preciso saber qual foi o dedo que apertou o gatilho. Por mais que mudemos a direção, por voltas e voltas, pelos ensinamentos do Sr. Dühring, chegamos sempre ao dedo… da Providência.”

Essa explicação é naturalmente uma hipótese, como, aliás, toda a teoria mecânica do calor, pois que ninguém, até agora, viu uma molécula e, muito menos, uma molécula vibrátil. Esta hipótese está cheia de defeitos como, aliás, toda a teoria térmica que é ainda bastante nova; mas pode, pelo menos, explicar os fenômenos sem entrar em contradição com a lei segundo a qual o movimento não se perde, nem se cria, ao mesmo tempo em que é capaz de explicar, com clareza, a existência do calor no curso de suas metamorfoses. O calor latente ou retidão não é, de maneira alguma, um impulso para a teoria mecânica do calor. Pelo contrário, essa teoria dá, pela primeira vez, uma explicação racional dos fenômenos e torna-se estranho que os físicos continuem a dar ao calor, transformado numa outra forma de energia molecular, o qualificativo antiquado e impróprio de ‘calor retido’.” “Quanto mais avançamos na filosofia da natureza do Sr. Dühring, mais nos parecem inconcebíveis e inconsistentes todas as tentativas de explicar o movimento pela imobilidade ou de encontrar a ponte pela qual o que está em repouso e é puramente estático poderia por si mesmo passar ao dinâmico, ao movimento.”

Volta a se dar aqui a mesma história que acima se deu com Kant: o Sr. Dühring arranja não importa que velha banalidade arqui-conhecida, cola sobre ela uma etiqueta de Dühring e chama as coisas de ‘resultado e concepções essencialmente originais … idéias criadoras de sistema … ciência radical …’

uma coisa há que o Sr. Dühring pode afirmar com segurança: ‘O ouro existente no universo existiu necessariamente sempre na mesma quantidade e não pode, assim como a própria matéria universal, aumentar ou diminuir’. Mas o que podemos comprar com esse ‘ouro’, o Sr. Dühring infelizmente não nos diz.”

PARTE I. FILOSOFIA. FILOSOFIA DA NATUREZA. CAPÍTULO VII. O MUNDO ORGÂNICO

No interior da órbita da vida, os saltos tornam-se cada vez mais raros e imperceptíveis. Desse modo é Hegel, mais uma vez, quem deve corrigir o Sr. Dühring.” “Para qualquer lado que volvamos os olhos, encontramos, nas afirmações do Sr. Dühring, grosserias hegelianas que ele põe sem nenhum constrangimento a serviço de sua ciência radical.”

O próprio Sr. Dühring, que, à menor tendência ‘espiritista’ em outrem, explode numa indignação moral sem limites, afirma-nos com certeza que ‘as sensações instintivas foram criadas, em primeiro lugar, graças à satisfação que está ligada a seu funcionamento’.”

Ora, Darwin não sonhou sequer em dizer que a origem da idéia da luta pela existência era a teoria de Malthus. O que ele diz é que a sua teoria da luta pela existência é a teoria de Malthus aplicada a todo o mundo vegetal e animalPor maior que fosse o deslize cometido por Darwin de aceitar, na sua ingenuidade, a teoria malthusiana, vê-se logo, a um primeiro exame, que, para se perceber a luta pela existência na natureza – que aparece na contradição entre a multidão inumerável de germes engendrados pela natureza, em sua prodigalidade, e o pequeno número desses germes que podem chegar à maturidade, contradição que, de fato, se resolve em grande parte numa luta – às vezes extremamente cruel – pela existência, não há necessidade das lunetas de Malthus. E, assim como a lei que rege o salário conservou o seu valor muito tempo depois de estarem caducos os argumentos malthusianos sobre os quais Ricardo a baseava – a luta pela existência pode igualmente ter lugar na natureza sem nenhuma interpretação malthusiana.”

“‘Se se tivesse procurado, no esquematismo interno da procriaçãoqualquer princípio de modificação substantiva, teria sido muito racional, porquanto é uma idéia bastante natural a de harmonizar o princípio da gênese geral com o da reprodução sexual, e a de conceber, de um ponto de vista superior, o que se chama de geração espontânea, não como o contrário da reprodução, mas precisamente como um caso de produção.’ E o homem que pôde redigir semelhante tolice não hesita em censurar Hegel pela sua ‘gíria’.”

Não temos, contudo, o direito de esquecer que, ao tempo de Lamarck, a ciência estava muito longe de dispor de materiais suficientes para poder resolver a questão da origem das espécies a não ser como uma antecipação a sua época, ou, por assim dizer, de uma maneira profética. Sem contar a massa enorme de materiais de zoologia e de botânica, anatômicos e descritivos, que foram reunidos a partir dessa época, surgiram depois de Lamarck 2 ciências inteiramente novas e de importância decisiva neste terreno, que estudam – uma a evolução dos germes vegetais e animais (embriologia) – e outra os vestígios orgânicos conservados nas diversas camadas da crosta terrestre (paleontologia).¹ Com efeito, descobriu-se que existe uma coincidência entre a evolução gradativa, segundo a qual os germes orgânicos se tornam organismos adultos, e a série cronológica das plantas e animais que aparecem sucessivamente na história da terra. E foi precisamente essa coincidência que deu à teoria da evolução a sua base mais sólida. Mas a teoria da evolução é ainda bastante nova e, por conseqüência, está fora de qualquer dúvida que as pesquisas ulteriores devem modificar notavelmente as idéias atuais, inclusive as que são estritamente darwinistas, sobre o processo da evolução das espécies.”

¹ Como repara o leitor de Origem das Espécies, Darwin até superestima a importância de achados paleontológicos.

Finalmente, ele nos adverte contra o abuso das palavras metamorfose e evolução. Segundo ele, a idéia de metamorfose é um conceito vago e a idéia da evolução só pôde ser admitida na medida em que se pôde verdadeiramente provar a existência das leis que a regem. E aconselha-nos a substituir ambas as palavras pelo termo ‘composição’ e então tudo irá bem. É sempre a mesma história: as coisas continuam como são e o Sr. Dühring mostra-se todo satisfeito se lhes mudamos o nome.

Faremos uma grande confusão se falarmos na evolução do pinto dentro do ovo, porque não conhecemos a ciência das leis que regem esse processo. Para esclarecer, devemos substituir, apenas, a palavra ‘evolução’ pela palavra ‘composição’. Não diremos mais: ‘essa criança desenvolve-se magnificamente’, mas sim, ‘essa criança compõe-se esplendidamente’. E podemos felicitar o Sr. Dühring pelo fato de, não contente com enfileirar-se dignamente ao lado do autor do Anel dos Niebelung, no que se refere ao alto conceito que tem de si mesmo, ainda não lhe fica atrás como ‘compositor’ do futuro.” HAHAHAHAHAHAHA!

PARTE I. FILOSOFIA. FILOSOFIA DA NATUREZA. CAPÍTULO VIII. O MUNDO ORGÂNICO (CONCLUSÃO)

Não existe átomo, como se sabe, para a gravitação ou qualquer outra forma dinâmica, mecânica, ou física, mas somente para a ação química.”

O núcleo celular estrangula-se primeiramente em seu centro; o estrangulamento que separa os 2 lóbulos do núcleo torna-se cada vez mais acentuado; por fim, separam-se e formam 2 núcleos celulares independentes. O mesmo processo que se dá com os núcleos estende-se à célula: cada um dos 2 núcleos torna-se o centro de um agregado de matéria celular: os agregados são ligados por um fio cada vez mais delgado até que se separam, passando a viver como 2 células independentes. É pela repetição de tais desdobramentos que a bolha germinal do ovo animal, depois que se processa a fecundação, engendra, pouco a pouco, todo o novo organismo”

Como vemos, o Sr. Dühring, no seu exemplo de caracterizar a vida, ‘no sentido estrito e rigoroso do termo’, apresenta 4 critérios inteiramente contraditórios de vida, que se excluem uns aos outros, sendo que condena à morte não só todo o reino vegetal, mas ainda cerca de metade do reino animal.”

Portanto, o característico de todos os seres animais é o de serem capazes de ter sensações, isto é, terem percepções subjetivamente conscientes dos estados pelos quais atravessam. A verdadeira linha divisória entre a planta e o animal está ali onde se realiza o salto para a sensação. E esse limite é tão claro e resiste tanto a deixar-se apagar pelas conhecidas formas intermediárias que, justamente essas formações exteriormente indistintas ou indetermináveis são as que se convertem numa necessidade lógica.”

Primeira, advertiremos que já Hegel dizia (Filosofia da Natureza, pág. 351, nota diferencial) que ‘a sensação é a differentia specifica, a característica absoluta do animal’.”

Em segundo lugar, ouvimos falar, pela primeira vez, de formações intermediárias exteriormente indistintas ou indeterminadas (delicioso patuá) entre o reino animal e o vegetal. (…) E tudo isso sugere ao Sr. Dühring a necessidade lógica de fixar uma característica diferencial que, ao mesmo tempo, afirma ser insustentável.”

Em terceiro lugar, temos mais uma ‘criação e livre imaginação’ do Sr. Dühring ao afirmar que a sensação está sempre, psicologicamente, ligada à existência de um sistema nervoso qualquer, ‘por mais simples que seja’. (…) Não é senão a partir dos vermes que o encontramos regularmente e o Sr. Dühring é o primeiro a afirmar que, nesses animais, a ausência de sensação provém do fato de não terem nervos.”

Deve-se admitir que o animal provém, por evolução, da planta? Semelhante pergunta só poderia ser feita por um homem que nada entende nem do que é um animal, nem do que é uma planta.”

A mudança de substâncias que se realiza por meio de uma esquematização plasticamente modeladora (pode-se saber o que é isso?) continua sendo um caráter distintivo do processo vital propriamente dito.’ É tudo o que nos ensina sobre a vida.”

Entende-se pela expressão corpos albuminóides, aqueles de que trata a química moderna, que compreende, sob esse nome, todos os corpos complexos, cuja composição é análoga à da albumina normal e que também têm, às vezes, o nome de substâncias protéicas ou proteínas. Essa definição de vida não agrada aos homens, pois a albumina normal é, de todas as substâncias afins, a mais inanimada, a mais passiva, sendo, como a gema do ovo, uma simples substância nutritiva para o germe em gestação. Mas enquanto não nos adiantarmos mais na composição química dos corpos albuminóides, essa denominação será ainda a melhor, por ser a mais geral de todas.” “As definições têm sempre um valor científico muito precário. Para se ter um conhecimento verdadeiramente completo do que é a vida seria preciso relacionar todas as formas em que ela se manifesta, desde a inferior até a superior. Mas, para uso corrente, tais definições são bastante cômodas, havendo casos em que não se pode dispensá-las.”

E, assim, o universo cósmico subjetivo não é mais estranho para nós que o universo objetivo. A constituição desses 2 reinos deve ser concebida segundo um tipo harmônico; temos assim os elementos iniciais de uma teoria da consciência cujo alcance é mais do que terrestre.”

Passemos adiante!”

PARTE I. FILOSOFIA MORAL E DIREITO. CAPÍTULO IX. VERDADES ETERNAS

Abstemo-nos de dar algumas amostras do guisado de tolices e sentenças oraculares, ou seja, do simples charlatanismo que o Sr. Dühring serve a seus leitores em 50 páginas como sendo a ciência radical dos elementos da consciência. Não citaremos senão esta: ‘Quem não é capaz de pensar senão com a ajuda da linguagem não tem a menor idéia do que significa pensamento original e verdadeiro’. Segundo essa afirmativa, os animais são os pensadores mais originais e mais verdadeiros, pois o seu pensamento jamais é perturbado pela intromissão da linguagem. A dizer verdade, vê-se bem nos pensamentos dühringuianos e na linguagem que os exprime, quanto eles se adaptam mal a uma linguagem qualquer, e, por outro lado, como a linguagem, pelo menos a alemã, se ajusta com dificuldade a esses pensamentos.”

4 capítulos depois (da obra do Sr. Dühring, isto é)…

Mas, por outro lado, será sempre uma concepção própria à ampliação benfazeja dos nossos horizontes, o representarmos a vida individual e social, em outros astros, como baseada, necessariamente, na contextura fundamental e geral de um esquema que … não pode ser suprimido nem cancelado por nenhum ser que atue de modo inteligente.”

Já, por si mesma, a dúvida permanente é um estado doentio de fraqueza e não faz senão manifestar um desolado confusionismo que às vezes procura dar-se a aparência de alguma solidez, na consciência sistemática de sua nulidade. Em matéria de moral, a negação dos princípios universais apega-se às diversidades geográficas e históricas dos costumes e dos princípios morais; e, confessando-se a necessidade inevitável do mal e do perverso em moral, acredita-se livre da obrigação de reconhecer a comprovada vigência e a ação eficaz de padrões morais coincidentes[!!!] Esse ceticismo dissolvente, que se exerce não contra tal ou qual falso ensinamento objetivo, mas contra a própria capacidade que tem o homem de obedecer a uma moralidade consciente, atinge mesmo alguma coisa pior que o puro niilismo. [!!!] … Ele tem a ilusão de, facilmente, poder governar o seu tumultuoso caos de noções morais desagregadas e de poder abrir as portas ao Capricho destituído de princípios. Mas seu erro é imenso, pois é suficiente que se recordem as aventuras inevitáveis da razão na verdade e no erro. para que se reconheça, revelada por essa analogia, que a falibilidade das leis naturais não exclui necessariamente a possibilidade de saber encontrar o caminho exato.”

E quando digo conhecimento humano, não é que tenha qualquer intenção de ofender aos habitantes dos outros astros, que não tenho a honra de conhecer; mas é que os animais também têm um conhecimento, embora não seja nunca soberano; o cão, por exemplo, terá o seu dono por um Deus, o que não impede que esse Senhor seja o maior canalha do mundo.”

O OTIMISMO DE ENGELS: “Assim, pois, quando eu digo que esse pensamento de todos os homens, inclusive os vindouros, sintetizado no meu espírito, é soberano, capaz de conhecer, de modo absoluto, o mundo real, desde que a humanidade subsista o tempo necessário para isso e que não se produza, nem nos órgãos nem nos objetos do conhecimento, modificação capaz de limitar esse conhecimento, estarei dizendo uma coisa banal e, além disso, estéril. Porque o resultado mais precioso dessa idéia seria tornarmo-nos extremamente desconfiados quanto aos nossos conhecimentos atuais, posto que estamos, segundo toda a probabilidade, ainda quase no início da história da humanidade, tendo as gerações que nos corrigirão de ser seguramente muito mais numerosas que aquelas cujos conhecimentos – não poucas vezes com um olímpico desprezo – somos capazes de corrigir.”

Nesse sentido, podemos dizer que o pensamento humano é ao mesmo tempo soberano e não-soberano e a sua capacidade cognoscitiva é ao mesmo tempo limitada e absoluta. Soberano e absoluto quanto à sua capacidade, sua vocação, suas possibilidades, sua meta histórica final: não-soberano e limitado, quanto à sua aplicação concreta e à realidade de cada caso particular.”

Ao introduzir as grandezas variáveis e ao estender a sua variabilidade até o infinitamente grande e o infinitamente pequeno, as puritanas matemáticas cometeram o pecado original, morderam a maçã do bem e do mal, que lhes abriu um caminho de grandes triunfos, mas também de grandes erros.” “Mas é ainda pior o que se dá com a astronomia e a mecânica, sem falarmos da física e da química: nelas, o cientista move-se dentro de um turbilhão de hipóteses que o assaltam, de todos os lados, como um enxame de abelhas.”

átomos (…) e se a interferência das ondas luminosas não é uma fábula, não há a menor esperança de que possamos algum dia chegar a ver esses tão interessantes objetos com os nossos próprios olhos.”

Incomparavelmente mais difícil é o terreno em que pisamos em geologia, ciência que estuda, por sua própria natureza, e em primeiro lugar, fenômenos que não só não assistimos, como também não foram assistidos por nenhum outro homem, em época alguma. Aqui, a procura de verdades definitivas inapeláveis é extraordinariamente penosa, e de rendimento escassíssimo, além do mais.”

A segunda categoria de ciências é a das que têm a seu cargo a investigação dos fenômenos que ocorrem nos organismos vivos.” “Pense-se na imensa sucessão de fases intermediárias que foi preciso percorrer-se, desde Galeno até Malpighi, para tornar clara uma coisa tão simples como a circulação do sangue nos mamíferos” “De vez em quando, e com muita freqüência, aparece uma descoberta, como esta da célula, que nos obriga a submeter a uma total revisão as noções que considerávamos verdades definitivas e inapeláveis no campo da biologia e a deixar de lado, para sempre, inúmeras delas.”

Mas as verdades eternas saem perdendo ainda mais no 3º grupo de ciências, as ciências históricas, aquelas que investigam, na sua sucessão histórica e nos seus resultados atuais, as condições de vida dos homens, as relações sociais, as formas do Direito e do Estado, com as suas superestruturas ideal, filosófica, religiosa, artística, etc.”

As espécies animais e vegetais continuam sendo, de modo geral, as mesmas do tempo de Aristóteles. O mesmo não acontece na história da sociedade, na qual as repetições de situações, desde que ultrapassamos a pré-história da humanidade, a chamada Idade da Pedra, são a exceção e não a regra.”

Ainda mais: quando conseguimos conhecer, uma vez ou outra, a íntima ligação que existe entre as modalidades de vida, sociais e políticas, de uma época, isso acontece, em regra geral, quando essas formas estão já semi-decadentes e caminham para a morte.”

Entretanto, é notável que seja este precisamente o campo em que, com maior freqüência, deparamos com pretensas verdades eternas, verdades definitivas e inapeláveis, etc. Considerar verdades eternas que 2 + 2 = 4, que os pássaros têm bico, e outras coisas deste gênero, não mais pode ocorrer a quem abrigue a secreta intenção de estabelecer o princípio das verdades eternas de modo geral, para deste princípio extrair deduções sobre a existência, também no campo da história humana, de verdades eternas, como sejam, uma moral eterna, uma justiça eterna, etc., com os mesmos títulos de legitimidade e o mesmo alcance que as verdades matemáticas e as aplicações dessas verdades.” “Centenas e milhares de vezes tais coisas já se passaram, de tal modo que se tem que ficar assombrado, de que haja ainda homens que sejam bastante ingênuos para acreditar, já não digo nas plataformas dos outros, mas nas suas próprias.”

Sabemos já que a negação, ou, mais ainda, a simples dúvida a respeito das verdades eternas, é um ‘estado de debilidade doentia’, um ‘desesperado confusionismo’, uma ‘nulidade’, um ‘nada’‘ceticismo desagregador’‘ainda pior que o simples niilismo’, um ‘caos de confusão’, e não sei quantas outras delicadezas do mesmo gênero. Já se sabe que os profetas não precisam molestar-se em realizar investigações críticas e científicas, pois lhes basta fulminar-nos com seus raios morais.”

e, como sabemos, todos os livros que se escreveram ou que continuam sendo preparados sobre lógica demonstram completamente que também neste campo não abundam, como muitos acreditam, as verdades eternas e inapeláveis.”

Tomemos, como exemplo, a conhecida lei de Boyle, segundo a qual, permanecendo invariável a temperatura, varia o volume dos gases na razão inversa da pressão a que estão submetidos. Regnault descobriu que esta lei não era aplicável a certos casos. Se tivesse sido um ‘filósofo da realidade’, deveria ter dito: a lei de Boyle é mutável; não é, portanto, uma autêntica verdade, ou seja, não é uma verdade, mas sim um erro. Mas com isso teria cometido um erro muito maior que o existente na citada lei; a rocha granítica de sua verdade teria desaparecido como se fosse um torrão de areia na imensidade de seu erro; teria convertido o seu resultado originariamente exato num erro tal que, comparada com ele, a lei de Boyle, apesar da poeira de erros a ela aderida, resplandeceria como uma grande verdade. Mas Regnault, como cientista que de fato era, não se deixou levar por semelhantes puerilidades, tendo continuado a pesquisar, até descobrir que a lei de Boyle era apenas aproximadamente certa e que deixava de sê-lo, sobretudo na presença de gases que, quando submetidos à pressão, se tornavam fluidos, ou, mais concretamente, a lei deixava de ser certa a partir do momento em que a pressão se aproximava do ponto de fluidez. A lei de Boyle só se mantinha exata dentro de certos limites. Mas, dentro destes limites, era absoluta, definitivamente verdadeira? Nenhum físico se atreverá a afirmar semelhante coisa. Responderá unicamente que esta lei é efetiva e exata dentro de certos limites de pressão e temperatura e para determinados gases; e mesmo dentro destes limites admitirá a possibilidade de que o seu campo de aplicação se restrinja mais ainda ou que a sua fórmula se modifique como resultado de posteriores investigações.

(*) [Nota de Engels] Posteriormente à data em que escrevi o trecho acima, parece ter-se confirmado essa hipótese. Segundo as últimas pesquisas feitas por Mendelelef e Bogusky, com aparelhos de maior precisão, todos os verdadeiros gases revelaram relações variáveis entre pressão e volume; o coeficiente de expansão do hidrogênio tinha sido positivo, em todas as pressões aplicadas até então (diminuía o volume com maior lentidão conforme aumentava a pressão); no ar da atmosfera e em todos os demais gases investigados, foi descoberto um ponto morto de pressão, de tal modo que, nos casos de pequena pressão, aquele coeficiente era positivo, convertendo-se em negativo com o aumento de pressão. Assim, a lei de Boyle, embora utilizável ainda, praticamente, precisará ser completada, de acordo com os resultados das pesquisas, por toda uma série de leis especiais. (Atualmente – 1885 – já sabemos, além disso, que não existem, de modo algum, ‘verdadeiros’ gases, pois que todos podem ser reduzidos ao estado fluido).”

As idéias do bem e do mal variaram tanto de povo para povo, de geração para geração, que, não poucas vezes, chegam a se contradizer abertamente.” “Que espécie de moral nos pregam hoje? Temos, em primeiro lugar, a moral cristã-feudal, que nos legaram os velhos tempos da fé e que se divide, fundamentalmente, numa moral católica e numa moral protestante, com toda uma série de variações e subdivisões que vão desde a moral católica dos jesuítas e a moral ortodoxa dos protestantes, até uma moral de certo modo liberal e tolerante. E, ao lado dessas, temos a moderna moral burguesa e, ao lado da moral burguesa moderna, a moral proletária do futuro.”

AH, ENGELS! “Que esta evolução se processa sempre, em largos traços, da mesma forma no campo da moral como no dos demais ramos do conhecimento humano e sempre num sentido de progresso, é o que nos parece indubitável.”

o fato de que o tipo de gato, que é encontrado nessa espécie animal com a falsidade que o caracteriza, pode ser comparado com a contextura de certos caracteres humanos, colocados, assim, no mesmo plano que esses bichos … O mal não é, pois, nada misterioso, a menos que se queira farejar alguma coisa de místico na existência do gato ou na dos felinos em geral.”

Goethe cometeu um erro imperdoável quando, em seu Fausto, apresentou Mefistófoles na forma de um cão negro, em vez de dar-lhe a figura de um gato.”

PARTE I. FILOSOFIA MORAL E DIREITO. CAPÍTULO X. A IGUALDADE

Esses 2 homens de encomenda são patrimônios de todo o século XVIII. Já os conhecemos em 1754 no Discurso sobre a desigualdade do homem, de J.J. Rousseau, onde – seja dito entre parênteses – se demonstra, também ‘axiomaticamente’, o contrário do que o Sr. Dühring afirma. Tornamos a nos encontrar com eles, desempenhando um papel de relevo, na economia política, desde Adam Smith até Ricardo, embora já não sejam, nesse assunto, completamente iguais, pois que exercem ofícios diferentes – geralmente os de caçador e pescador – e trocam entre si os seus produtos. Mas o século XVIII se utiliza, de um modo quase exclusivo, desses personagens, a título de ilustração e exemplo; a originalidade do Sr. Dühring consiste em tornar esse método puramente ilustrativo como método fundamental aplicável a toda a ciência da sociedade e como critério para o estudo de todas as manifestações históricas.”

aceitação voluntária da servidão é encontrada em toda a Idade Média e, na Alemanha, chega mesmo até a Guerra dos 30 Anos. Quando, na Prússia, depois das derrotas de 1806 e 1807, foi abolida a servidão e com ela a obrigação imposta ao nobre feudal de zelar pelos seus súditos, em casos de miséria, enfermidade ou velhice, dirigiram-se os camponeses ao rei para suplicar que os deixasse continuar como servos, pois, de outro modo, quem iria cuidar deles e ampará-los na miséria?”

Mas deixemos por um momento este assunto e suponhamos que nos tenha convencido a axiomática do Sr. Dühring e que estejamos verdadeiramente entusiasmados com a absoluta equiparação das 2 vontades, com a ‘soberania humana geral’, com a ‘soberania do indivíduo’, verdadeiras expressões maravilhosas ao lado das quais ‘Único’, de Max Stirner, com todas as suas propriedades, fica obscurecido, embora também a ele seja devida uma parte modesta da criação.”

Ali, onde homem e animal formam uma só pessoa, pode-se perguntar, em nome de uma 2ª pessoa completamente humana, se a sua conduta pode, neste caso, ser a mesma que teria sido frente a pessoas exclusivamente humanas, digamos assim … Começamos por supor 2 pessoas moralmente desiguais, uma das quais tem, de certo modo, um pouco do caráter das bestas, e, dessa forma, criamos um esquema fundamental aplicável a todas as relações que podem, de acordo com essa diferença, ser encontradas … entre os grupos humanos e dentro deles.”

procure entender o atormentado libelo que o Sr. Dühring apresenta (…) dá voltas e mais voltas, deslizando por sendas tortuosas, como um jesuíta”

Assim, a igualdade também termina ali onde 2 pessoas são ‘moralmente desiguais’. Então, para que esse esforço todo no sentido de reunir 2 seres humanos absolutamente idênticos, se sabemos que não existem 2 pessoas que sejam moralmente iguais? Pois é o Sr. Dühring quem nos diz que a desigualdade consiste em que uma delas é pessoa humana, enquanto que a outra tem dentro de si uma qualquer coisa de besta.” “A classificação dos homens em 2 bandos nitidamente distintos e separados, o dos humanos e os dos bestiais, os bons e os maus, os cordeiros e os lobos, somente pode ser admitida pela filosofia da realidade e pelo cristianismo, com a diferença de que este é mais conseqüente, pois cria um juiz universal, que tem a seu cargo a tarefa da classificação de cada indivíduo num dos 2 grupos.”

Quando, no verão de 1873, o general Kauffmann caiu, como um vendaval, sobre a tribo tártara dos jomudas, incendiou suas tendas, massacrou, ‘à boa maneira caucasiana’, como rezava a ordem, as mulheres e as crianças, invocava ele também a necessidade inevitável de submeter a vontade ‘desviada e hostil’ daqueles selvagens, para reduzi-los aos ‘vínculos coletivos’, afirmando que os meios postos em prática por ele eram os mais eficazes para conseguir tal coisa; e já se sabe, além do mais, que os fins justificam os meios. O que verificamos é que o general conquistador era um pouco menos cruel, pois não lhe ocorria, além de tudo, rir-se dos jomudas, enganando-os com a fábula de que, ao exterminá-los, como ‘compensação’, não fazia mais que render homenagem à sua própria vontade, acatando-a como ‘igualmente legítima’. Neste conflito, os eleitos são ainda, em última instância, os filósofos da realidade, que dizem agir de conformidade com a verdade e a ciência, e que portanto são chamados a definir o que quer dizer a superstição, o preconceito, a brutalidade, o que são as tendências malignas do caráter e quando é que devem ser indicadas a dominação e a força como meios de compensação.”

No fato de ver implícito na pena um direito próprio do criminoso é que se reconhece e se honra a este como um ser racional (Hegel, Filosofia do Direito, § 100, nota).”

Não precisamos ver como, pouco a pouco, vai o Sr. Dühring navegando para as águas tranqüilas da construção de seu Estado socialitário do futuro, no qual teremos oportunidade, numa manhã de bom tempo, de fazer-lhe uma visita. Basta-nos o que foi dito atrás para compreender que a completa igualdade entre as 2 vontades fica liquidada desde o momento e no ponto exato em que qualquer uma delas chegue a desejar alguma coisa. Compreendemos, desse modo, que, desde o momento em que deixam de ser vontades humanas como tais e passam a ser vontades reais, individuais, acabou-se a igualdade das vontades de 2 homens reais e concretos. Compreendemos que a infância, a loucura, o que ele chama de bestialidade, a suposta superstição, os preconceitos denunciados, a presumida incapacidade de um lado e o prurido de humanidade de outro, o domínio da verdade e das ciências, ou seja, que a mínima diferença do ponto de vista qualitativo entre as 2 vontades, ou no tocante à inteligência que as orienta, justificam uma desigualdade que pode chegar até a submissão. Para quê continuar, quando já o próprio Sr. Dühring pulveriza tão radicalmente, em seus próprios fundamentos, o seu edifício da igualdade?”

Foram precisos muitos milhares de anos e, de fato, passaram, antes que aquela idéia primitiva da igualdade relativa inspirasse, como um corolário, a idéia da igualdade dentro da sociedade e do Estado, e muito mais tempo seria preciso até que esta dedução se impusesse como algo evidente e natural.”

A invasão do ocidente da Europa pelos germanos varreu por vários séculos toda idéia de igualdade, levantando, pouco a pouco, uma hierarquia social e política tão complicada como até então não se conhecera; entretanto, ao mesmo tempo, a invasão germânica arrastava consigo, para o mesmo movimento histórico. todos os países do ocidente e do centro da Europa, criando, pela primeira vez, uma área compacta de cultura e sobre esta área erigindo, também pela 1ª vez na história, um sistema de Estados predominantemente nacionais, que se influenciavam e se contrapunham uns aos outros.”

Além disso, no bojo da Idade Média feudal, entrou em gestação a classe chamada a proclamar quando atingisse a idade madura, o postulado da igualdade humana moderna: a burguesia.” Esses artesãos são cheios de artes!

O comércio extra-europeu, que até então se realizava somente entre a Itália e os portos do Levante, torna-se extensivo agora à América e à Índia e logo ultrapassa em importância o intercâmbio entre muitos países europeus e mesmo o comércio interior destes países. O ouro e a prata da América inundaram a Europa e penetraram, como um ácido corrosivo, em todos os poros, fendas e vácuos da sociedade feudal.”

A passagem do artesanato para a manufatura pressupõe a existência de um certo número de operários livres – livres, de um lado, dos entraves gremiais e, de outro, donos dos meios de explorarem, por si próprios, a sua força de trabalho – capazes de estabelecer contrato com o fabricante, vendendo-lhe a sua força de trabalho, e que, portanto, sejam capazes de contratar de igual para igual.”

Por todas as partes se erguiam privilégios locais, barreiras alfandegárias para cada produto, leis de exceção de todo o gênero, prejudicando o comércio não só dos estrangeiros e dos habitantes das colônias, mas até, muitas vezes, de categorias inteiras dos próprios súditos do país; por todas as partes, inúmeros privilégios gremiais barravam-lhes o caminho e se antepunham ao desenvolvimento da manufatura.”

Embora proclamado este postulado da igualdade de direitos no interesse da indústria e do comércio, não havia mais remédio senão torná-lo extensivo também à grande massa de camponeses que, submetida a todas as nuanças de vassalagem, que chegava até a servidão completa, passava a maior parte de seu tempo trabalhando gratuitamente nos campos do nobre senhor feudal, além de ter de pagar a ele e ao Estado uma infinidade de tributos.” “E como a sociedade não vivia mais num império mundial como o romano, mas sim dividida numa rede de Estados independentes, que mantinham entre si relações de igualdade e tinham chegado a um grau quase burguês de desenvolvimento, era natural que aquelas tendências adquirissem um caráter geral, ultrapassando as fronteiras dos Estados, e era natural, portanto, que a liberdade e a igualdade fossem proclamadas direitos humanos. Para compreender o caráter especificamente burguês de tais direitos humanos, nada mais eloqüente que a Constituição norte-americana, a primeira em que são definidos os direitos do homem, na qual, ao mesmo tempo, se sanciona a escravidão dos negros, então vigente nos Estados Unidos, e se proscrevem os privilégios de classe, enquanto que os privilégios de raça são santificados.”

E ao movimento da igualdade burguesa acompanha, também, como a sombra ao corpo, o movimento da igualdade proletária.” “Os proletários colhem a burguesia pela palavra: é preciso que a igualdade exista não só na aparência, que não se circunscreva apenas à órbita do Estado, mas que tome corpo e realidade, fazendo-se extensiva à vida social e econômica. E, desde que a burguesia francesa, sobretudo depois da Grande Revolução, passou a considerar em primeiro plano a igualdade burguesa, o proletariado francês coloca, passo a passo, as suas próprias reivindicações, levantando o postulado da igualdade social e econômica, e, a partir dessa época, a igualdade se converte no grito de guerra do proletariado, e, muito especialmente, do proletariado francês.”

Este postulado da igualdade não é mais que uma explosão do instinto revolucionário e somente isso é que o justifica. Outras vezes, no entanto, nasce esse postulado como reação contra o postulado de igualdade da burguesia e tira dele muitas conseqüências avançadas, mais ou menos exatas, sendo utilizado como meio de agitação para levantar os operários contra os capitalistas, usando para isso frases tomadas dos próprios capitalistas e, considerado desse aspecto, se organiza e cai por terra esse postulado juntamente com essa mesma liberdade burguesa.” “abolição das classes”

Como vemos, a idéia da igualdade, tanto na sua forma burguesa como na proletária, é, por si mesma, um produto histórico que somente podia tomar corpo em virtude de determinadas condições históricas, as quais, por sua vez, tinham por trás de si um grande passado. Está longe, pois, de ser uma verdade eterna. E se alguma coisa é atualmente evidente para o grande público – num ou noutro sentido – se, como diz Marx – alguma coisa ‘possui já a completa estabilidade de um preconceito popular’, não há de ser devido à sua verdade axiomática, mas por ser resultado da difusão generalizada e da permanente atualidade das idéias do século XVIII. Portanto, se o Sr. Dühring pode se dar ao luxo de colocar os seus 2 homens a viver num plano de igualdade, isso se dá, pura e simplesmente, porque para o povo, devido a esse preconceito, parece essa igualdade ser a coisa mais natural do mundo. Não esqueçamos que o Sr. Dühring chama de filosofia natural à sua filosofia, por ser proveniente de toda uma série de coisas que parecem a ele naturalíssimas.”

PARTE I. FILOSOFIA MORAL E DIREITO. CAPÍTULO XI. LIBERDADE E NECESSIDADE

Comecei por dedicar-me ao estudo da jurisprudência e não só consagrei a ela os 3 anos usuais da preparação teórica universitária, como ainda mais 3 anos da prática judicial, ocupados por um constante estudo, principalmente destinado a aprofundar o seu conteúdo científico … Também enfrentaria seguramente a crítica das instituições de direito privado e suas correspondentes imperfeições jurídicas, com idêntico domínio da matéria, se não estivesse certo de conhecer todos os pontos fracos desta especialidade, da mesma forma que conhecia os seus pontos fortes.”

os estudos jurídicos primários do Sr. Marx, tão descuidados, segundo ele mesmo confessa”

Mas observemos de perto os conscienciosos estudos especializados e o profundo domínio da ciência, adquirido por nosso jurista, durante os 3 anos de prática judiciária.”

O Ministério Público, mergulhado no direito nacional prussiano, passou por alto, da mesma forma que o Sr. Dühring, a diferença essencial que distingue o preceito francês, concreto e preciso, da confusa imprecisão da norma prussiana, e, desse modo, pretendeu envolver Lassalle num processo tendencioso, tendo saído fragorosamente derrotado. Afirmar que o direito processual francês, assim como o prussiano, admite uma absolvição de instância, uma ‘meia-absolvição’, exige uma audácia que só se pode permitir em quem desconhece completamente o moderno direito francês. O direito francês admite apenas, com relação ao processo penal, uma absolvição ou uma condenação – não há meio termo.” “Não temos outro remédio senão concluir que o Sr. Dühring ignora, de modo absoluto, o único Código Civil moderno que se baseia nas conquistas sociais da Grande Revolução Francesa e que traduz estas conquistas para a linguagem jurídica: o moderno direito francês.” “o Sr. Dühring ignora completamente não apenas o único direito moderno, o direito francês, como demonstra mesmo idêntica incultura com respeito ao único direito germânico que se desenvolveu até os nossos dias, estendendo-se aos 4 cantos do mundo, fora de qualquer influência romana: o direito inglês.”

O que poderá significar o mundo de língua inglesa com o amálgama pueril de sua linguagem, ao lado de nosso vigoroso e antiquíssimo idioma?’ Basta-nos responder a isto com as palavras de Spinoza: ‘Ignorantia non est argumentum’.

Depois do que acabamos de expor, somos forçados a concluir que os conscienciosos estudos especializados do Sr. Dühring se reduziram a 3 anos de esforços teóricos consagrados ao Corpus Juris e outros 3 anos de preocupações práticas ao nobre Direito Nacional Prussiano. Estudos bastante meritórios, sem dúvida, e que são suficientes para um respeitabilíssimo juiz distrital ou para um senhor advogado prussiano. Mas quando se deseja criar uma filosofia do direito que seja válida para todos os mundos e todos os tempos, achamos que não seria demais acumular um pequeno conhecimento das instituições jurídicas de países como a França, a Inglaterra e os Estados Unidos da América, que representaram na História, e ainda representam, um papel bastante diferente que o direito desse recanto da Alemanha onde floresce o direito nacional prussiano.”

Também o anti-semitismo, tendo ou não importância e que é levado a extremos ridículos, merecendo o entusiasmo do Sr. Dühring, nos demonstra a mesma qualidade, se não especificamente prussiana, pelo menos característica de uma determinada região da Prússia: o Leste do Elba.”

O socialismo é a única força capaz de fazer frente a Estados de população com uma forte mescla judia.’ (Estados de mescla judia! Que linguagem!)”

o direito nacional prussiano, esse código ilustrado do despotismo patriarcal, escrito num alemão que se parece com o que aprendeu o Sr. Dühring, código que parece estar cheio da era pré-revolucionária, pelas suas glórias morais, pelo seu estilo vago e pela falta de consciência jurídica, bem como pelos açoites que adotava como meio de tortura e como pena.”

liberdade seria, pois, a linha média entre a razão e o instinto, entre a inteligência e a irreflexão; poder-se-ia determinar o grau de liberdade, em cada indivíduo, de modo empírico, por meio de uma ‘equação pessoal’, para dizê-lo em linguagem astronômica.”

Essa 2ª definição da idéia da liberdade, que se choca flagrantemente com a 1ª, não é mais do que uma fraca vulgarização da filosofia hegeliana. Foi Hegel o primeiro que soube expor de um modo exato as relações entre a liberdade e a necessidade.”

O livre arbítrio não é, portanto, de acordo com o que acabamos de dizer, senão a capacidade de decisão com conhecimento de causa. Assim, pois, quanto mais livre for o juízo de uma pessoa com relação a um determinado problema, tanto mais nítido será o caráter de necessidade determinado pelo conteúdo desse juízo; ao contrário, a falta de segurança que, baseada na ignorância, parece escolher, livremente, entre um mundo de possibilidades distintas e contraditórias, está demonstrando, desse modo, justamente a sua falta de liberdade, está assim demonstrando que se acha dominada pelo objeto que pretende dominar.”

O fogo, obtido dessa forma, foi que permitiu ao homem o domínio sobre uma força da natureza, emancipando-o definitivamente das limitações do mundo animal. máquina a vapor não poderá jamais representar um passo tão gigantesco na história do homem, por mais que apareça, ante nossos olhos, como a representação de todas essas gigantescas forças produtivas a ela incorporadas e sem as quais não seria possível instaurar um regime social livre de todas as diferenças de classe, no qual desapareçam as preocupações com relação aos meios de subsistência individual e se possa falar, pela primeira vez, de uma liberdade verdadeiramente humana, de uma vida em harmonia com as leis naturais que conhecemos.”

para essa filosofia, a história, focalizada concretamente, se divide em 2 grandes épocas, a saber: 1) do estado da matéria idêntica a si mesmo até a Revolução Francesa; e 2) da Revolução Francesa até o Sr. Dühring.” HAHAHAHA

Os poucos milênios a que se pode remontar a recordação histórica, por meio de documentos originais, para estabelecer a estrutura da humanidade até os nossos dias, não significam grande coisa, quando se pensa na série de milênios que ainda estão por vir … O gênero humano, considerado como um todo, é ainda muito jovem, e, quando chegar o dia em que as documentações científicas retrospectivas possam operar com dezenas de milhares e não apenas com milhares de anos, o caráter espiritualmente pueril e incipiente de nossas instituições ter-se-á imposto, indiscutivelmente, como sendo uma hipótese evidente sobre a nossa época, que será, então, considerada como a mais primitiva das antiguidades.”

É preciso que se seja um Richard Wagner filósofo – embora sem o mesmo talento – para não se compreender que todos os desprezos, que se costumam lançar sobre a história humana anterior aos nossos dias, acabam por se voltar, necessariamente, contra o próprio resultado final de suas investidas, a chamada filosofia da realidade.”

É preciso viver a vida, a vida íntegra. O Sr. Dühring nos proíbe apenas duas coisas: ‘a imundície e o uso do tabaco’ e as bebidas e alimentos que ‘provocam sensação de nojo ou contêm qualquer outra qualidade contrária às sensações delicadas’. Mas como, no seu curso de economia, o Sr. Dühring dedica uma série de ditirambos à destilação de aguardente, devemos por isso entender que a sua proibição não é extensiva a estas bebidas, mas somente ao vinho e à cerveja. Proíbe-nos, também, o uso da carne e essa proibição eleva a filosofia da realidade àquelas alturas em que se colocou, em seu tempo, com tanto êxito, Gustav Strouve: nas alturas da mais pura futilidade.”

PARTE I. FILOSOFIA DIALÉTICA. CAPÍTULO XII. QUANTIDADE E QUALIDADE

a contradição na realidade, a névoa que parece levantar-se dos pretendidos mistérios da lógica, demonstrando a inutilidade do incenso que se gastou, aqui e ali, em homenagem ao fetiche de barro da dialética da contradição, grosseiramente talhado e burilado na esquemática dos antagonismos do mundo.”

Na sua História Crítica, o Sr. Dühring focaliza, de um modo completamente diferente, a dialética da contradição e nela, principalmente, a doutrina de Hegel: ‘Na lógica hegeliana, ou melhor, na teoria do logos, o contraditório não reside no pensamento, que, por sua própria natureza, só pode ser representado como função subjetiva e consciente, mas que existe objetivamente e pode ser apalpado, digamos, de um modo corporal, nas coisas e nos próprios fenômenos; ou seja, o contra-senso não é de fato uma combinação impossível de pensamentos, mas sim uma potência real. A realidade do absurdo é o primeiro artigo de fé na unidade hegeliana da lógica e da falta de lógica … Quanto mais contraditório, mais verdadeiro, ou melhor, quanto mais absurdo, mais verossímil. Esta máxima, que nem sequer é nova, pois provém da teologia da revelação e da mística, é a expressão pura e simples do chamado principio dialético.’

Considerando-se o papel de suma importância que a chamada dialética da contradição tem desempenhado na filosofia, desde os gregos antigos até os filósofos atuais, mesmo um adversário um pouco mais forte do que o Sr. Dühring sentir-se-ia na obrigação de lançar contra ela argumentos que não fossem apenas uma afirmação e umas tantas injúrias.”

A inteligência que só sabe pensar metafisicamente não pode, de modo algum, passar da idéia do repouso à idéia do movimento, porque o obstáculo da contradição lhe barra o caminho. Para os que assim pensam, o movimento é, como contradição, alguma coisa de totalmente inconcebível.” “E, se o simples movimento mecânico, a simples mudança de um para outro lugar, contém uma contradição, suponha-se então a série de contradições que estarão contidas nas formas superiores de movimento da matéria, e, em particular, na vida orgânica e na sua evolução.” “ao cessar a contradição, cessa a vida e sobrevém a morte.”

Não há uma contradição no fato de que uma grandeza negativa não possa ser quadrado de nenhuma outra, embora toda grandeza negativa multiplicada por si mesma dê um quadrado positivo? A raiz quadrada de -1 é, pois, não somente uma contradição, mas simplesmente uma contradição absurda, um verdadeiro contra-senso. Entretanto, é, em muitos casos, o resultado necessário de uma operação matemática exata; onde estariam mesmo as matemáticas, tanto as elementares como as superiores, se lhes fosse proibido operar com a raiz quadrada de -1?”

Quando se tem conhecimento de como se reduziu a ‘teoria do ser’ de Hegel a esta vulgaridade de forças que se movimentam em direção determinada, mas não por um processo de contradições, o melhor que se tem a fazer é evitar cuidadosamente qualquer aplicação de um tal lugar comum. § Um outro pretexto em que se apoia o Sr. Dühring para dar vazão à sua cólera anti-dialética é O Capital de Marx.”

Embora já naquela época incorresse no deslize de confundir a dialética marxista com a hegeliana, não tinha ainda perdido por completo a capacidade de distinguir o método dos resultados conseguidos por meio dele, nem tampouco o dom de compreender que, para refutar de um modo concreto estes resultados, não basta lançar por terra, de um modo geral, o método.

Mas a verdadeira surpresa que nos tinha reservado o Sr. Dühring é a de que, do ponto de vista marxista, ‘em última análise tudo é uno’, ou seja, que, para Marx, por exemplo, capitalistas e operários assalariados, regimes de produção feudal, capitalista e socialista, ‘tudo é uno’ e acabamos, no fim de contas, por concluir que Marx e o Sr. Dühring são também uno e o mesmo. Para não cair em tal tolice e em semelhante simplismo, não temos mais que um caminho, que é o de supor que, pronunciando a palavra ‘dialética’, o Sr. Dühring se vê transportado automaticamente para um estado de irresponsabilidade, no qual, partindo de uma idéia de balbúrdia e confusão, acaba por achar que tudo é a mesma coisa, parecendo-lhe que é ‘um todo’ tudo quanto diz e faz.”

Faz com Marx exatamente a mesma coisa que com Darwin. Constrói um Marx imaginário, feito à medida de suas forças, para poder, logo depois, triunfar sobre ele.”

Assim, por exemplo, em O Capital de Marx, toda a seção 4a., dedicada ao estudo da produção da mais-valia relativa ao âmbito da corporação, da divisão do trabalho, e da manufatura, da maquinaria e da grande indústria, contém inúmeros casos de simples mudanças quantitativas que fazem transformar-se a qualidade e, de mudanças quantitativas que fazem com que se transforme a qualidade das coisas podendo-se dizer, portanto, para usar uma expressão que tanta indignação provoca no Sr. Dühring, que a quantidade se converte em qualidade e vice-versa. Temos, por exemplo, o fato de que a colaboração de muitas pessoas, a fusão de muitas forças numa só força total, cria, como diz Marx, uma ‘nova potência de forças’ que se diferencia, de modo essencial, da soma das forças individuais associadas.”

A teoria molecular, aplicada à química moderna e desenvolvida cientificamente pela primeira vez por Laurent e Gerhardt, descansa nesta mesma lei.”

M.

Trata-se das séries homólogas de combinações de carbono, muitas das quais já são conhecidas, cada uma delas tendo a sua própria forma algébrica sintética. Assim, pois, se, do mesmo modo que os químicos, chamarmos um átomo de carbono de C, um átomo de hidrogênio de H, um átomo de oxigênio de O e por n o número dos átomos de carbono encerrados em cada combinação, podemos expor as fórmulas moleculares de algumas dessas séries, do seguinte modo:

Série da parafina normal: CnH2n+2

Série de álcoois primários: CnH2n+20

Série dos ácidos graxos monobásicos: CnH2nO2

Se tomarmos como exemplo a última dessas séries e adotarmos, sucessivamente, n = 1, n = 2, n = 3, etc., teremos os seguintes resultados (deixando de pôr os isômeros):

ácido fórmico – CH2O2 – ponto de ebulição: 100° – ponto de fusão: 1°

ácido acético – C2H4O2 – ponto de ebulição: 118° – ponto de fusão: 17°

ácido propriônico – C3H6O2 – ponto de ebulição: 140° – ponto de fusão: —

ácido butírico – C4H8O2 – ponto de ebulição: 162° – ponto de fusão: —

ácido valeriânico – C5H10O2 – ponto de ebulição: 175° – ponto de fusão: –,

e assim sucessivamente, até chegar ao:

ácido melíssico (C30H60O2), que não se funde até os 80° e não tem ponto de ebulição pela simples razão de que esse ácido se decompõe ao se evaporar. Temos, pois, aqui, toda uma série de corpos qualitativamente distintos, formados pela simples adição quantitativa de elementos que são, além do mais, agregados sempre na mesma proporção. Esse fenômeno ainda se torna mais claro quando todos os elementos, que entram na composição, variam na mesma proporção e na mesma quantidade, como acontece com a série das parafinas normais (CnH2n+2). A primeira fórmula é o metano (CH4), que é um gás; a fórmula mais elevada que se conhece é o hecdecano (C16H34), corpo sólido formado por cristais incolores, que se funde a 21°, e que só atinge o seu ponto de ebulição a 278°. Em ambas as séries basta acrescentar CH2 ou seja, 1 átomo de carbono e 2 de hidrogênio, à fórmula molecular do membro anterior da série para que se tenha um corpo novo; donde se conclui que uma mudança puramente quantitativa da fórmula molecular faz surgir um corpo qualitativamente diferente.”

Napoleão descreve o combate travado entre a cavalaria francesa, cujos soldados eram pouco afeitos à equitação, mas que eram, no entanto, disciplinados, e os mamelucos, cuja cavalaria era a melhor do seu tempo para os combates individuais, mas que eram indisciplinados. Eis o que nos diz Napoleão: ‘Dois mamelucos sobrepujavam, indiscutivelmente, a 3 franceses; 100 mamelucos faziam frente a 100 franceses; 300 franceses venciam 300 mamelucos e 1000 franceses derrotavam, inevitavelmente, 1500 mamelucos’. Da mesma forma que, em Marx, a soma do valor de troca tinha que alcançar um limite mínimo determinado, embora variável, para se converter em capital, vemos que, na descrição napoleônica, o destacamento de cavalaria tem que alcançar um determinado limite mínimo para que a força da disciplina que se encerra na ordem unida de combate, e no emprego das forças, com base num só plano, possa se manifestar e se desenvolver até o ponto de poder aniquilar massas numericamente superiores de uma cavalaria irregular, composta de melhores montarias e de soldados pelo menos tão bravos quanto os outros.”

PARTE I. FILOSOFIA DIALÉTICA. CAPÍTULO XIII. NEGAÇÃO DA NEGAÇÃO

SEM MISERICÓRDIA DE NÓS, ENGELS JÁ ABRE O CAPÍTULO COM UM PETARDO DE LONGO ALCANCE DO SENHOR DããRING:

Este esboço histórico (o da gênese da chamada acumulação primitiva do capital, na Inglaterra) é, até agora, o que há de melhor, relativamente, no livro de Marx, e ainda poderia ter sido melhor se não se apoiasse na agudeza erudita e, além disso, na dialética. Recorre à negação da negação de Hegel para que ponha a seu serviço, na falta de meios mais claros e melhores, os seus serviços de parteira, ajudando-o a fazer brotar o futuro das entranhas do passado. A abolição da propriedade individual, que se processou, por esse modo, a partir do século XVI, é a primeira negação. Esta será seguida por outra, caracterizada como negação da negação e, portanto, como a restauração da ‘propriedade individual’, mas de uma forma mais elevada, baseada na propriedade comum do solo e dos instrumentos de trabalho. O fato de o Sr. Marx qualificar, em seguida, esta nova ‘propriedade individual’ também com o nome de ‘propriedade social’ revela a unidade hegeliana de caráter superior, na qual a contradição, conforme se verifica, fica cancelada; ou seja, de acordo com o já conhecido jogo de palavras, a contradição se mantém, ainda que superada. A expropriação dos expropriadores é, de acordo com isso, o resultado automático da realidade histórica, em suas circunstâncias materiais externas … Naturalmente, nenhuma pessoa que reflita deixar-se-á convencer só por terem sido invocados os disparates de Hegel, e a negação da negação nada mais é que um dos tantos, da necessidade de se implantar a comunidade da terra e dos capitais … Além disso, a nebulosa ambigüidade das idéias de Marx [Kant e os astrônomos póstumos conheciam essa nebulosa? Onde ela fica?] não surpreenderá a quem já sabe que ela pretende rimar com a dialética de Hegel, tomando-a como sua base científica, ou melhor, tomando como conclusão o absurdo a que nos querem levar. Para quem desconhece estes trechos, advertiremos que a primeira negação é, em Hegel, a idéia do pecado original do Catecismo e a segunda é a idéia de uma unidade superior que conduz à redenção do homem. E, sobre uma farsa desse gênero, tomada à religião, não se pode, facilmente, fundar a lógica dos fatos. O Sr. Marx se obstina em permanecer no mundo nebuloso de sua propriedade ao mesmo tempo individual e social, deixando que os seus adeptos resolvam por si esse profundo enigma da dialética.”

O Sr. Dühring nos diz que é ‘um mundo nebuloso’ e, ainda que pareça estranho, dessa vez ele está com a razão. O pior é que, como sempre, não é Marx que vive extraviado nesse mundo nebuloso, mas, de fato, é o próprio Sr. Dühring. Com efeito, como já vimos, o seu desembaraço no manejo do método hegeliano do ‘delírio’ permitiu-lhe definir, sem dificuldade, o que conteriam os volumes ainda não publicados de O Capital, e ainda aqui lhe é fácil retificar Marx de acordo com Hegel, atribuindo-lhe a unidade superior de uma propriedade sobre a qual Marx não disse uma só palavra.”

Para qualquer pessoa que saiba ler, isto significa que a propriedade coletiva se tornará extensiva à terra e aos demais meios de produção, e a propriedade individual se limitará aos produtos, ou aos objetos destinados ao consumo. E, para que essa idéia possa ser compreendida mesmo por crianças que tenham 6 anos, Marx, na página 40, fala de ‘uma associação de homens livres que trabalham com meios comuns de produção e que despendem suas forças de trabalho individuais, conscientemente, como uma força de trabalho social’, isto é, de uma associação organizada de forma socialista, e acrescenta: ‘O produto coletivo da associação é um produto social. Uma parte desse produto volta a servir como meio de produção. Continua sendo social. Mas uma outra parte é absorvida como meio de vida pelos membros da associação. Deve, portanto, ser distribuída entre eles.’ Isto está mais do que claro e até mesmo uma cabeça hegelianizada, como a do Sr. Dühring, deveria compreendê-lo.”

Mas parece que chegou o momento em que o Sr. Dühring também se converte de quantidade em qualidade.”

Nas páginas 791 e seguintes, [Marx] expõe os resultados finais das investigações econômicas e históricas, que constam das 50 páginas anteriores, sobre a chamada acumulação primitiva do capitalAntes de sobrevir a era capitalista, dominava, pelo menos na Inglaterra, a pequena indústria baseada na propriedade privada do operário sobre os meios de produção. A chamada acumulação primitiva do capital se caracterizou, nestas condições, pela expropriação desses produtores imediatos, isto é, pela abolição da propriedade privada, baseada no trabalho do próprio produtor. Efetivou-se tal coisa porque aquele regime de pequena indústria era compatível somente com as proporções mesquinhas e primitivas da produção e da sociedade, engendrando, tão logo os meios materiais de produção atingiram um certo grau de progresso, a sua própria destruição. Esta destruição, que consistiu na transformação dos meios individuais e dispersos de produção em meios de produção socialmente concentrados, constitui a pré-história do capital. A partir do momento em que os operários se transformam em proletários, em que as suas condições de trabalho passam a ter a forma do capital, a partir do instante em que o regime capitalista de produção começa a se mover por sua própria conta, a socialização do trabalho e a mudança do sistema de exploração da terra e dos demais meios de produção, e que, portanto, há a expropriação dos proprietários privados individuais, é preciso, para continuarem progredindo, que seja adotada uma nova forma.”

Cada capitalista devora muitos outros. E, ao mesmo tempo em que alguns capitalistas expropriam muitos outros, desenvolve-se, em grau cada vez mais elevado, a forma cooperativa do processo de trabalho, a aplicação técnica e consciente da ciência, sendo a terra cultivada mais metodicamente, os instrumentos de trabalho tendem a alcançar formas que são manejáveis unicamente pelo esforço combinado de muitos, economizam-se os meios da produção, em sua totalidade, ao serem aplicados pela coletividade come meios de trabalho social, o mundo inteiro se vê envolvido na rede do mercado mundial, e, com isso, o regime capitalista passa a apresentar um caráter internacional cada vez mais acentuado. E, deste modo, enquanto vai diminuindo progressivamente o número dos magnatas do capital, que usurpam e monopolizam todas as vantagens desse processo de transformação, aumenta, no pólo oposto, proporcionalmente, a pobreza, a opressão, a escravização, a degradação e a exploração. Mas, ao mesmo tempo, cresce a revolta da classe operária e esta se torna cada dia mais numerosa, mais disciplinada, mais unida e organizada pelo próprio método capitalista de produção. O monopólio capitalista transforma-se nas grilhetas do regime de produção que com ele e sob as suas normas floresceu. A concentração dos meios de produção e a socialização do trabalho chegam a um ponto em que se tornam incompatíveis com a sua envoltura capitalista. E a envoltura se desagrega. Soou a hora final da propriedade privada capitalista. Os expropriadores são expropriados.”

Vemos, assim, que Marx, ao encarar esse fenômeno como um caso de negação da negação, não tem em mente a idéia de demonstrá-lo, por meio desse argumento, como um fenômeno de necessidade histórica. Pelo contrário: somente depois de haver provado historicamente o fenômeno que já se passara parcialmente e que terá necessariamente que se desenvolver daqui por diante é que o define como um fenômeno sujeito em sua realização, a uma determinada lei dialética.”

¹ Infelizmente o oligopólio pode durar até a extinção da civilização humana – a menos que integremos o materialismo histórico às trágicas conclusões de Nietzsche: o mundo não tende a um fim, se tendesse esse final já teria sido alcançado; a raça humana não perece; logo, chega o momento da inversão de valores, da dissolução das classes vigentes.

lógica formal também é, antes de mais nada e acima de tudo, um método de perscrutar novos resultados progressivos do conhecido ao desconhecido. [e não um expediente meramente probatório]”

As matemáticas elementares, que operam com grandezas constantes, se movem, pelo menos em termos gerais, dentro das fronteiras da lógica formalas matemáticas das grandezas variáveis, cujo setor mais importante é o cálculo infinitesimal, não são, em essência, nada mais que a aplicação da dialética aos problemas matemáticos. (…) Mas, a rigor, quase todas as demonstrações das matemáticas superiores, a começar pelas introdutórias ao cálculo diferencial, são falsas do ponto de vista das matemáticas elementares.” “Querer provar alguma coisa, pela simples dialética, a um metafísico [formalista do pensamento] tão declarado como o Sr. Dühring, seria perder tempo, e seria tão infrutífero como aconteceu quando Leibniz e seus discípulos quiseram provar, aos matemáticos de sua época, as operações do cálculo infinitesimal. (…) Aqueles cavalheiros foram, entretanto, pouco a pouco, pelo menos aqueles que sobreviveram àquela etapa, se rendendo à nova doutrina, embora resmungando, não porque esta convencesse, mas porque a verdade se impunha cada dia com mais força. O Sr. Dühring anda pelos 40, conforme sua própria informação, e podemos garantir que passará pela mesma experiência que aqueles matemáticos, se alcançar a idade avançada, como é, aliás, nosso desejo.”

Tomemos, por exemplo, um grão de cevada. Todos os dias, milhões de grãos de cevada são moídos, cozidos, e consumidos, na fabricação de cerveja. Mas, em circunstâncias normais e favoráveis, esse grão, plantado em terra fértil, sob a influência do calor e da umidade, experimenta uma transformação específica: germina. Ao germinar, o grão, como grão, se extingue, é negado, destruído, e, em seu lugar, brota a planta, que, nascendo dele, é a sua negação. E qual é a marcha normal da vida dessa planta? A planta cresce, floresce, é fecundada e produz, finalmente, novos grãos de cevada, devendo, em seguida ao amadurecimento desses grãos, morrer, ser negada, e, por sua vez, ser destruída. E, como fruto desta negação da negação, temos outra vez o grão de cevada inicial, mas já não sozinho, porém ao lado de 10, 20, 30 grãos. Como as espécies vegetais se modificam com extraordinária lentidão, a cevada de hoje é quase igual à de 100 anos atrás. [Não parece ser veraz.] Mas tomemos, em vez desse caso, uma planta de ornamentação ou enfeite, por exemplo, uma dália ou uma orquídea. Se tratarmos a semente e a planta que dela brota com os cuidados da arte da jardinagem, obteremos como resultado deste processo de negação da negação não apenas novas sementes, mas sementes qualitativamente melhoradas, capazes de nos fornecer flores mais belas; cada repetição deste processo, cada nova negação da negação, representará um grau a mais nesta escala de aperfeiçoamento. E um processo semelhante se dá com a maioria dos insetos, como, por exemplo, com as mariposas. Nascem, estas, também, do ovo, por meio da negação do próprio ovo, destruindo-o, atravessando depois uma série de metamorfoses até chegar à maturidade sexual, se fecundam e morrem por um novo ato de negação, tão logo se consume o processo de procriação, que consiste em pôr a fêmea os seus numerosos ovos. Por enquanto nada mais nos interessa, nem que não apresente o processo a mesma simplicidade noutras plantas e animais, que não produzem uma, mas várias vezes, sementes, ovos ou crias, antes que lhes sobrevenha a morte; a única coisa que nos interessa é demonstrar que a negação da negação é um fenômeno que se dá realmente nos 2 reinos do mundo orgânico, o vegetal e o animal. E não somente nestes reinos. Toda a geologia não é mais que uma série de negações negadas, uma série de desmoronamentos de formações rochosas antigas, sobrepostas umas às outras, e de justaposição de novas formações. A sucessão começa porque a crosta terrestre primitiva, formada pelo resfriamento da massa fluida, vai-se fracionando pela ação das forças oceânicas, meteorológicas e químico-atmosféricas, formando-se, assim, massas estratificadas no fundo do mar. Ao emergir, em certos pontos, as matérias do fundo do mar à superfície das águas, parte destas estratificações se vêem submetidas novamente à ação da chuva, às mudanças térmicas das estações, à ação do hidrogênio e dos ácidos carbônicos da atmosfera; e a essas mesmas influências se acham expostas as massas pétreas fundidas e logo depois esfriadas que, brotando do seio da terra, perfuram a crosta terrestre. Durante milhares de séculos vão-se formando, dessa forma, novas e novas camadas que, por sua vez, são novamente destruídas em sua maior parte e, algumas vezes, são utilizadas como matéria para a formação de outras novas camadas. Mas o resultado é sempre positivo em qualquer hipótese: a formação de um solo onde se misturam os mais diversos elementos químicos num estado de pulverização mecânica, que permite o desenvolvimento da mais extensa e variada vegetação.

Com as matemáticas ocorre exatamente o mesmo fato. Tomemos uma qualquer grandeza algébrica, por exemplo a. Se a negarmos, teremos -a (menos a). Se negarmos esta negação, multiplicando -a por -a, teremos +a², isto é, a grandeza positiva da qual partimos, mas num grau superior, elevada à segunda potência. Mas aqui não nos interessa que a este resultado () se possa chegar multiplicando a grandeza positiva a por si mesma, pois a negação negada é algo que se acha tão arraigado na grandeza a² que esta encerra, sempre e de qualquer modo, 2 raízes quadradas, a saber: a do a e a do -a.” “Entretanto é maior ainda a evidência com que se nos apresenta a negação da negação na análise superior, nessas ‘somas de grandezas ilimitadamente pequenas’ que o próprio Sr. Dühring considera como as supremas operações das matemáticas e que são as que vulgarmente chamamos de cálculo diferencial e integral.”

não restando, portanto, de x e y nada mais que sua razão ou proporção, despojada, por assim dizer, de toda a base material, reduzida a uma relação quantitativa da qual se eliminou a quantidade dy/dx, isto é, a razão ou proporção das 2 diferenciais de x e y, se reduz, portanto, a 0/0mas esta fórmula nada mais é que a expressão da fórmula y/x.” “Pois bem, que fizemos neste problema, além de negar as grandezas x e y, mas negá-las não nos descartando delas, que é o modo pelo qual a filosofia formal nega a metafísica, mas sim negando-as de um modo que se ajusta à realidade da situação? Substituímos as grandezas x e y pela sua negação, chegando, assim, em nossas fórmulas ou equações a dx e dy. Isso feito, seguimos nossos cálculos operando com dx e dy como grandezas reais, embora sujeitas a certas leis de exceção e ao chegar a um determinado momento, negamos a negação, isto é, integramos a fórmula diferencial, obtendo novamente, em vez de dx e dyas grandezas reais x e y. (…) teremos resolvido o problema contra o qual se debateram, em vão, por outros caminhos, a geometria e a álgebra elementares.

O mesmo acontece com a História. Todos os povos civilizados têm em sua origem a propriedade coletiva do solo. E, em todos esses povos, ao penetrar numa determinada fase primitiva, o desenvolvimento da agricultura, a propriedade coletiva converte-se num entrave para a produção. Ao chegar a este momento, a propriedade coletiva se destrói, se nega, convertendo-se, após etapas intermediárias mais ou menos longas, em propriedade privada. Mas, ao chegar a uma fase mais elevada de progresso no desenvolvimento da agricultura, fase essa que se alcança justamente devido à propriedade privada do solo, esta, por sua vez, se converte num obstáculo para a produção, conforme hoje se observa no que se refere à grande e à pequena propriedade. Nestas circunstâncias, surge, por força da necessidade, a aspiração de negar também a propriedade privada e de convertê-la novamente em propriedade coletiva. Mas esta aspiração não tende exatamente a restaurar a primitiva propriedade comunal do solo, mas a implantar uma forma multo mais elevada e mais complexa de propriedade coletiva que, longe de criar uma barreira ao desenvolvimento da produção, deverá acentuá-lo, permitindo-lhe explorar integralmente as descobertas químicas e as invenções mecânicas mais modernas.” Não subestime o homem: ele consegue embrulhar até a própria dialética; até o próprio tempo!

UM ERRO DE ENGELS: SUBESTIMAR PLATÃO E CONGÊNERES: “A filosofia antiga era uma filosofia materialista, porém primitiva e rudimentar. Esse materialismo não seria capaz de explicar claramente as relações entre o pensamento e a matéria. A necessidade de se chegar a conclusões claras a respeito desse problema levou à criação da teoria de uma alma separada do corpo e logo depois se passou à afirmação da imortalidade da alma e, por fim, ao monoteísmo. Desse modo, o materialismo primitivo se via negado pelo idealismo. Mas, com o desenvolvimento da filosofia, também o idealismo se tornou insustentável e, por sua vez, teve de ser negado pelo materialismo moderno. Este não é, entretanto, como negação da negação, a mera restauração do materialismo primitivo, mas, pelo contrário, corresponde à incorporação, às bases permanentes deste sistema, de todo o conjunto de pensamentos, que nos provêm de 2 milênios de progressos no campo da filosofia e das ciências naturais e da história mesma destes 2 milênios. Não se trata já de uma filosofia, mas de uma simples concepção do mundo, de um modo de ver as coisas, que não é levado à conta de uma ciência da ciência, de uma ciência à parte, mas que tem, pelo contrário, a sua sede e o seu campo de ação em todas elas. Vemos, pois, como a filosofia é, desse modo, ‘cancelada’,¹ isto é, ‘superada ao mesmo tempo que mantida’; superada, com relação à sua forma; conservada, quanto ao seu conteúdo.” A fé hegeliana no PROGRESSO ainda se encontrava no marx-engelismo, subsumida na superação do Estado em vez de na confirmação do Estado burguês, obviamente.

¹ Tudo isso que estamos vivendo hoje deve ser uma maldita maldição! As palavras têm poder!

Pois ali onde o Sr. Dühring não vê mais que ‘um jogo de palavras’ se esconde, para quem sabe ver as coisas, um conteúdo e uma realidade.”

Finalmente, até a teoria rousseauniana da igualdade, que tem apenas um eco apagado e falseado nas futilidades do Sr. Dühring, foi incapaz de se constituir sem os serviços de parteira da negação da negação hegeliana: e isto, mais de 20 anos antes do nascimento de Hegel. Longe de se envergonhar de tal coisa, essa teoria exibe, quase ostensivamente, em sua 1ª versão, a marca de suas origens dialéticas. No estado de natureza e de selvageria, os homens eram iguais; e como Rousseau considera já a linguagem uma deturpação do estado de natureza, tem razão quando aplica o critério da igualdade, assim como, ao mesmo tempo, pretendeu classificar, hipoteticamente, os homens-bestas sob a designação de ‘álalos’ (seres privados de fala). Mas estes homens-bestas, iguais entre si, levavam sobre os outros animais a vantagem de serem animais perfectíveis, de terem capacidade de desenvolvimento; eis onde está, segundo Rousseau, a fonte da desigualdade. Rousseau vê, assim, no nascimento da desigualdade um progresso, mas este progresso é contraditório, pois implica, ao mesmo tempo, num retrocesso.”

Para o poeta, o ouro e a prata, assim coma para o filósofo o ferro e o trigo, civilizaram o homem e arruinaram o gênero humano”

Rousseau

Todas as instituições que nascem nas sociedades, no decorrer do processo de civilização, se convertem no inverso de sua primitiva finalidade.”


O paradoxo: “frente ao déspota, todos os homens são iguais, pois todos se reduzem a zero.”

Ao chegar a essa fase, o grau máximo de desigualdade é o ponto final que, fechando o ciclo, toca já o ponto inicial do qual partimos: ao chegar a este ponto, todos os homens são iguais, pelo fato de serem nada e, como súditos, têm todos, como única lei, a vontade de seu Senhor”

Não lembrava de que Rousseau fosse tão genial também em seu tratado político (que li pela última vez em 2009), acostumado que estou apenas com sua imagem recente, a do grande educador.


A mesma força que o susteve, o derruba, e tudo se passa, de acordo com uma causa adequada e de acordo com a ordem natural”

a liberdade superior do contrato social. (…) É a negação da negação.” Idealista, i.e..

Em Rousseau, já nos encontramos, pois, com um processo quase idêntico ao que Marx desenvolve em O Capital. Além de todas as expressões dialéticas que são exatamente as mesmas empregadas por Marx, encontramos também processos antagônicos por natureza, cheios de contradições, contendo a transmutação de um extremo em seu contrário (…) Assim, já em 1754, Rousseau, que ainda não se podia exprimir pela nomenclatura hegeliana, estava, 23 anos antes do nascimento de Hegel, devorado até a medula pela peste da filosofia hegeliana, pela dialética da contradição, pela teoria do logos, pela teologia, etc., etc. E quando o Sr. Dühring, reduzindo a zero a teoria rousseauniana da igualdade, opera com os seus 2 homenzinhos triunfais, se vê forçado a deslizar por um plano perigoso, que o leva, irremediavelmente, para a negação da negação da qual está querendo fugir. (…) É divertido ver como, além de ampliar de modo benéfico o nosso horizonte visual, o próprio Sr. Dühring acaba cometendo, também, sem que se dê conta, contra a sua augusta pessoa, o horrendo crime que é o de incorrer na intolerável negação da negação.”

Quando se diz que todos esses processos têm de comum a negação da negação, o que se pretende é englobar a todos, sob esta lei dinâmica, sem se prejulgar, no entanto, de modo algum, o conteúdo concreto de cada um deles. [respondendo aos que dizem que o socialismo pretende aplicar o cálculo diferencial aos homens, hahaha!] Esta não é a missão da dialética, que tem apenas por incumbência estudar as leis gerais que presidem à dinâmica e ao desenvolvimento da natureza e do pensamento.”

Negar, em dialética, não consiste pura e simplesmente em dizer não, em declarar que uma coisa não existe, ou em destruí-la por capricho. Já Spinoza dizia: Omnis determinatio est negatiotoda determinação, toda demarcação é, ao mesmo tempo, uma negação.” “Ao se moer o grão de cevada, ou ao se matar o inseto, está-se executando, inegavelmente, o 1º ato, mas torna-se impossível o 2º. Portanto, cada espécie de coisas tem um modo especial de ser negada, que faz com que a negação engendre um processo de desenvolvimento, acontecendo o mesmo com as idéias e os conceitos.” “Não basta que saibamos que a muda de cevada e o cálculo infinitesimal se encontram sob as leis da negação da negação, para que possamos cultivar com sucesso a cevada ou para que possamos realizar operações de diferenciação ou integração, da mesma maneira que não nos é suficiente conhecer as leis que regem a determinação do som, pelas dimensões das cordas, para que saibamos tocar violino.” “Isso não obsta, porém, a que os metafísicos pretendam demonstrar que, se nos empenharmos em raciocinar sobre a negação da negação, somente poderemos utilizar este processo.” O tamborilar dos dedos no instrumento é uma negação da negação prática!

Muito antes de saber o que era dialética, o homem já pensava dialeticamente, da mesma forma por que, muito antes da existência da palavra escrita, ele já falava. Hegel nada mais fez que formular nitidamente, pela 1ª vez, esta lei da negação da negação, lei que atua na natureza e na História, como atuava, inconscientemente, em nossos cérebros, muito antes de ter sido descoberta. E se o Sr. Dühring fica aborrecido com um tal nome, e quer realizar o processo, sem que ninguém saiba que o está realizando, ainda é tempo de inventar um nome melhor.”

PARTE I. FILOSOFIA DIALÉTICA. CAPÍTULO XIV. CONCLUSÃO

Acabamos o estudo da Filosofia. Trataremos, a seguir, de outras fantasias contidas no Curso para, finalmente, examinarmos os característicos da revolução que o Sr. Dühring introduz no terreno do socialismo. Que nos havia prometido o Sr. Dühring? Tudo. E o que finalmente cumpriu? Absolutamente nada.” “apenas um eco charlatanesco e infinitamente desbotado da Lógica de Hegel”

No estudo da natureza orgânica tivemos oportunidade de ver que a filosofia da realidade, após condenar a luta pela existência e a seleção natural, de Darwin, como ‘um caso de selvageria cometida contra a humanidade’, permitia que estas teorias se esgueirassem novamente pela porta dos fundos, como fatores ativos da natureza, embora de 2ª classe. O Sr. Dühring soube endossar, além disso, no campo da biologia, uma ignorância que, desde que se tornaram habituais as conferências de vulgarização científica, já não é fácil encontrar e que, mesmo entre as senhoritas de boa sociedade, ter-se-ia que procurar com uma lanterna.”

Não consegue nem expor a sua filosofia da realidade sem insinuar ao leitor a sua repugnância contra o tabaco, contra os gatos e os judeus.” “Os pobres restos de sabedoria que nos oferece a respeito de assuntos próprios de filisteus como, por exemplo, o do valor da vida e o melhor meio de gozá-la, tem um tal caráter de vulgaridade que bastam para explicar, perfeitamente, a cólera de seu autor contra o Fausto de Goethe. Com efeito, o Sr. Dühring, não poderá perdoar jamais a Goethe, o fato de ter criado, como herói de seu drama, um ser tão imoral como Fausto, em vez de pôr em seu lugar um ilustre filósofo da realidade, como o seria Wagner.” HAHAHAHAHAHAHAAH!

Em resumo, a filosofia da realidade não é mais que, afinal de contas, para usar uma expressão de Hegel, ‘a mais vulgar lama do lamaçal alemão’, com uma fluidez e uma transparência feitas de lugares-comuns, que só pode ser tornada mais turva e mais densa com os coágulos oraculares que o seu autor nela dissolve.” “E este homem, que tanta propaganda faz de suas artes e mercadorias, ao som de fanfarras, como o mais vulgar camelô de feira, por detrás de cujas frases grandiloqüentes não se encontra nada, mas absolutamente nada, este homem tem a ousadia de chamar de charlatães a figuras como Fichte, Schelling e Hegel, o mais humilde dos quais seria, ao seu lado, um gigante! Há charlatanismo, sim: mas onde e por parte de quem?”

PARTE II. ECONOMIA POLÍTICA. CAPÍTULO I. OBJETO E MÉTODO

DIRIA QUE ERA UM ERRO TIPOGRÁFICO, MAS A EXATA REPETIÇÃO DO COMEÇO DESTE CAPÍTULO EM RELAÇÃO AO COMEÇO DO CAPÍTULO PASSADO SE JUSTIFICA, E ENGELS A USOU SEM DÓ: “Acabemos o estudo da Filosofia. Trataremos, a seguir, de outras fantasias contidas no Curso para, finalmente, examinarmos os característicos da revolução que o Sr. Dühring introduz no terreno do socialismo. Que nos havia prometido O Sr. Dühring? Tudo. E o que finalmente cumpriu? Absolutamente nada.”

A produção pode desenvolver-se sem a troca, mas esta pressupõe, sempre, necessariamente, a produção, pelo próprio fato de que o que se trocam são os produtos. Cada uma destas funções sociais sofre a influência de um grande número de fenômenos exteriores, sendo que essa influência é subordinada, em grande parte, a leis próprias e específicas. Mas, ao mesmo tempo, a produção e a troca se condicionam, a cada passo, reciprocamente e influem de tal modo uma sobre a outra, que se pode dizer que são a abcissa e a ordenada da curva econômica.” “Os habitantes da Terra do Fogo não conhecem a produção em grande escala, assim como não conhecem o comércio mundial, nem tampouco as letras de câmbio que circulam a descoberto e os inesperados cracks de Bolsa.” “A Economia Política é, portanto, uma ciência essencialmente histórica. A matéria sobre que versa é uma matéria histórica, isto é, sujeita a mudança constante. Somente depois de investigar as leis específicas de cada etapa concreta de produção e de troca, como conclusão, nos será permitido formular, a título de resumo, as poucas leis verdadeiramente gerais, aplicáveis à produção e à troca, quaisquer que sejam os sistemas.”

As velhas comunidades naturais, a que nos referimos atrás, puderam viver milhares de anos, como aliás ainda perduram em nossos dias entre os índios e muitos eslavos, antes que o comércio com o mundo exterior engendrasse em seu seio as diferenças de patrimônio que deveriam acarretar a sua disposição. Ao contrário, a moderna produção capitalista, que não conta mais de 300 anos e que não se impôs mesmo depois da implantação da grande indústria, isto, é, até há uns cem anos, provocou, no entanto, durante este curto período, muitos antagonismos no regime de distribuição – de um lado a concentração de capitais em poucas mãos e, de outro, a concentração das massas não possuidoras nas cidades mais populosas – de tal modo que estes antagonismos necessariamente a farão perecer.”

Enquanto um regime de produção está-se desenvolvendo em sentido ascensional, pode contar até mesmo com a adesão e a admiração entusiasta dos que menos beneficiados sairão com o regime de distribuição ajustado a ele. Basta que se recorde o entusiasmo dos operários ingleses ao aparecer a grande indústria. E mesmo depois que este regime de produção já consolidado, constitui, na sociedade de que se trata, um regime normal, continua-se mantendo, em geral, algum contentamento com a forma de distribuição e, se se ergue alguma voz de protesto, é das fileiras da classe dominante que ela sai (Saint-Simon, Fourier, Owen), sem encontrar nem mesmo algum eco no seio da massa explorada. Há de passar algum tempo – e encaminhar-se o regime de produção, já francamente pela vertente da decadência, deve este regime já ter sido superado em parte, devem ter desaparecido, em grande proporção, as condições que justificam a sua existência, estando mesmo tomando tal vulto o seu sucessor – para que a distribuição, cada vez mais desigual, seja considerada injusta, para que a voz da massa clame contra os fatos do passado junto ao tribunal da chamada justiça eterna. Claro está que este apelo à moral e ao direito não nos faz avançar cientificamente nem uma polegada; a ciência econômica não pode encontrar, na indignação moral, por mais justificada que ela seja, nem razões nem argumentos, mas simplesmente sintomas.”

A cólera provocada no poeta tem a sua razão de ser quando se trata de descrever esses males e abusos, ou de atacar os ‘harmonizadores’ que pretendem negá-los ou atenuá-los em benefício da classe dominante mas, para compreender como a cólera prova pouco em cada caso, basta que se considere que, até hoje, em todas as épocas da História, houve matéria de sobra para alimentar os seus impulsos.” Creio que Marx & Engels diriam no mundo de hoje: vê-se que apesar de toda a decadência abissal e contínua, recrudescida em relação a nossos escritos originais, o sistema de produção mantém-se de pé. Algo deve ter escapado de nossas análises, posto que se fôra necessidade que o regime devera ceder neste período, cederia, sem falta. Parece que algo no motor da História indica que a máquina da transformação conseguiu ser parada ou desacelerada consideravelmente, e isso integra quase que uma lei interna do Capital. Nada podemos fazer, não é hora de revolução – se ela ocorre localmente, o sistema de produção em outras partes poderá sufocá-la. E claro está que não ocorrerá globalmente, pois os centros de concentração do poder capitalista não permitiriam, mesmo se houvesse um desejo da maioria massacrante da população.

Tudo o que até hoje possuímos de ciência econômica se reduz quase exclusivamente à gênese e ao desenvolvimento do regime capitalista de produção. Ela parte da crítica dos restos das formas feudais de produção e de troca, põe em relevo a necessidade de fazer desaparecer estes restos, substituindo-os por formas capitalistas, desenvolve as leis do regime capitalista de produção, com as suas formas correspondentes de troca no seu aspecto positivo, i.e., do ponto de vista em que contribuem para fomentar os fins gerais da sociedade e conclui com a crítica socialista do regime de produção do capitalismo, o que quer dizer com a exposição das leis que presidem o seu aspecto negativo, com a demonstração de que este regime de produção por força de seu próprio desenvolvimento, se aproxima de um ponto em que a sua existência se torna impossível.”

um antagonismo sempre mais profundo entre alguns capitalistas, cada vez em menor número, porém cada vez mais ricos, e uma massa de operários assalariados, cada vez mais numerosa e em geral, também mais desfavorecida e mal-retribuída” E cada vez mais grupos intermediários cães de guarda do Capital, às vezes sem acesso a nenhum filé mignon.

Para compreender em todo o seu alcance esta crítica da Economia burguesa, não era suficiente conhecer a forma capitalista de produção, de troca e de distribuição. Era preciso investigar e trazer à comparação, embora apenas em seus traços mais gerais, as formas que a precederam e que, em países menos avançados, coexistem ainda com aquela. Até hoje, esta investigação e este estudo comparativo foram realizados somente por Marx, e devemos, portanto, a seus trabalhos, quase que exclusivamente, o que até agora se pode esclarecer com relação à teoria econômica pré-burguesa.

Embora tivesse nascido, nos fins do século XVIII, em algumas cabeças geniais, a Economia Política, no sentido restrito, tal como a apresentam os fisiocratas e Adam Smith, é essencialmente um fruto do século XVIII, figurando entre as conquistas dos grandes racionalistas franceses dessa época, participando, portanto, de todas as vantagens e todos os inconvenientes do tempo. O que dissemos dos racionalistas podemos aplicar também aos economistas desse século. A nova ciência não era, para eles, uma expressão das circunstâncias e das necessidades da época em que viviam, mas, sim, um reflexo da razão eterna: as leis da produção e da troca, descobertas por eles, não possuem uma forma condicionada historicamente, com a qual se deviam revestir essas atividades, mas outras tantas leis naturais eternas, derivadas da natureza humana. Mas o homem que eles tinham em conta era, na realidade, simplesmente o homem da classe média daqueles tempos, do qual depressa deveria brotar o homem burguês moderno, reduzindo-se a sua natureza apenas a fabricar e a comerciar, sob as condições historicamente condicionadas de então.”

Instituições como a escravidão e a exploração do trabalho assalariado, às quais se vêm unir, como sua irmã gêmea, a propriedade baseada na força, devem ser investigados como formas constitutivas econômico-sociais, de autêntico caráter político, formando as mesmas, no mundo atual, o quadro fora do qual não se poderiam revelar os efeitos das leis naturais da Economia.”

Assim, desligada já, felizmente, a distribuição de todo o contato com a produção e a troca, pode, então, realizar-se, por fim, o grande acontecimento.”

Um homem, na qualidade de indivíduo, ou seja, desligado de toda a conexão com quaisquer outros homens, não pode ter deveres. Não há, para ele, outros imperativos que o de sua vontade.’ Quem há de ser este homem, desligado de seus deveres e concebido como indivíduo isolado a não ser o fatal ‘proto-judeu Adão’ ainda no paraíso, despido de todo o pecado, pela simples razão de não ter com quem cometê-lo? Mas também a este Adão, da Economia da realidade, está reservado o seu pecado original. Ao lado dele surge, não uma Eva de longos cabelos encaracolados, mas um segundo Adão. E imediatamente Adão adquire deveres e logo os desrespeita. Em vez de estreitar contra o peito o seu irmão, como um seu igual, submete-o logo ao seu domínio, escraviza-o. E este primeiro pecado, este pecado original da escravidão, é o pecado cujas conseqüências ainda vêm sendo sentidas por toda a história do mundo, e tal é a causa por que esta história não valha, segundo o Sr. Dühring, nem uma cadelinha qualquer.”

versão semi[ó]tica da bíblia

…embora tenhamos de reconhecer que ninguém disputará ao Sr. Dühring a glória de ter construído o pecado original da maneira mais original do mundo: com 2 homens.” HAHAHAHAHA

Entre o estado da igualdade e o da anulação de uma das partes, ao lado da onipotência e da participação ativa da outra, medeia toda uma série de graus que os fenômenos da história universal se encarregaram de preencher [os fenômenos se encarregam de preencher, não os homens!] com uma pitoresca variedade. Uma vista de olhos universal sobre as diferentes instituições do direito e da injustiça históricos, torna-se aqui uma condição prévia essencial”

Não foi o Capital que inventou a mais-valia. Onde quer que uma parte da sociedade possua o monopólio dos meios de produçãoo operário, livre ou escravo, não tem outro remédio senão acrescentar ao tempo de trabalho, para o seu sustento, uma quantidade de trabalho excedente, destinada a produzir os meios de vida para o proprietário dos meios de produção, quer se trate de um kalokagathos [nobreza] ateniense, um teocrata etrusco, um civis romanus (cidadão romano), quer de um barão da Normandia, um escravagista americano, um senhor feudal da Valáquia, um proprietário de terras moderno ou de um moderno capitalista.”

O Capital

O que fica faltando para que haja mais-valia no sentido do Capital é a reinversão na melhoria dos próprios meios de produção (alavancagem, aceleração do montante da mais-valia, que nas sociedades tradicionais permanece ‘fixa’).

O nosso Adão, agora convertido em Robinson, põe a trabalhar o segundo Adão, ou seja, o ‘Sexta-feira’Porém, como ‘Sexta-feira’ há de se prestar a trabalhar mais do que o necessário para o seu sustento? Esta pergunta parece que foi também respondida, em parte, pelo menos, por Marx. Entretanto, a resposta de Marx é demasiado prolixa para os nossos 2 homens. Resolve-se o assunto com mais facilidade. Robinson ‘oprime’ o ‘Sexta-feira’, espolia-o ‘como um escravo ou instrumento, posto ao serviço econômico’, e somente o sustenta ‘na qualidade de instrumento’ [dá-lhe ração e lições de catequese!]. Com esta novíssima ‘manobra criadora’, mata o Sr. Dühring 2 coelhos com uma só cajadada. Em 1º lugar, poupa-se ao trabalho de explicar-nos as diversas formas de distribuição que se sucedem na história, com suas diferenças e suas respectivas causas. Basta que se saiba que todas estas formas são reprováveis, pois todas elas descansam na opressão, na violência – sobre isso teremos oportunidade de falar mais adiante. Em segundo lugar, desloca toda a teoria da distribuição do terreno econômico para o da Moral e do Direito, ou seja, do terreno dos fatos materiais concretos e decisivos para o das opiniões e sentimentos mais ou menos flutuantes.” “Como vemos, em 1868, a propriedade privada e o trabalho assalariado eram instituições naturais e necessárias e, portanto, justas. Em 1876, eram ambas, pelo contrário, resultado da violência e do roubo, e portanto, injustas. Não é nada fácil saber o que será considerado moral e justo, dentro de alguns anos, por um gênio tão vertiginoso como esse! Se quisermos, assim, estudar a distribuição das riquezas, será melhor que nos restrinjamos às leis reais e objetivas da Economia, e não às idéias momentâneas, mutáveis e subjetivas do Sr. Dühring, no que diz respeito ao Direito e à injustiça.”

Os místicos da Idade Média, aqueles que sonhavam com a proximidade do reino milenar, já tinham consciência dessa injustiça, a consciência da injustiça dos antagonismos de classe. Nos primórdios da história moderna, há uns 350 anos, ergueu-se a voz de Thomas Munzer, clamando contra esta injustiça. O mesmo grito novamente ressoa e perde-se na Revolução Inglesa e na Revolução burguesa da França. O grito, que até 1830 não tinha comovido ainda as massas trabalhadoras e oprimidas, encontra hoje eco em milhões de homens, abalando um por um, todos os países, na mesma ordem e com a mesma intensidade com que, nesses países, se vai desenvolvendo a grande indústria, e chega a atingir, no decurso de uma geração, uma força tal que pode desafiar todos os poderes coligados contra ele, estando mesmo seguro da vitória definitiva num futuro próximo.” Como é doloroso ler tudo isso em 2021…

Neste fato material e tangível, que se impõe, dentro de limites mais ou menos claros, através de uma irresistível necessidade, nos cérebros dos proletários vítimas da exploração, nesse fato e não nas idéias e maquinações de um erudito especulador sobre o Direito e a Justiça, é que se evidencia a certeza de que o socialismo moderno terá de triunfar.” Triste.

PARTE II. ECONOMIA POLÍTICA. CAPÍTULO II. TEORIA DA VIOLÊNCIA

A configuração das relações políticas é historicamente fundamental, e as dependências econômicas nada mais são que um efeito ou caso especial, sendo, portanto, sempre, fatos de segunda ordem. Muitos dos sistemas socialistas modernos têm, como princípio diretivo, a aparência de uma relação totalmente inversa, que salta aos nossos olhos, fazendo com que os estados econômicos surjam, digamos, das subordinações políticas. Esses efeitos de 2ª classe existem, sem dúvida, como tais, e são especialmente sensíveis nos tempos atuais; [isso não seria sinal de que você deveria estudar melhor o tema?] mas o elemento primário deve ser encontrado no poder político imediato e não no poder econômico indireto.”

“Em nenhum dos 3 tomos de sua obra, apesar de tão volumosos, pode ser encontrada a mais leve intenção de demonstrá-la ou de refutar a opinião contrária a sua. Ainda que os argumentos fossem baratos como amoras, o Sr. Dühring não nos forneceria nenhum em apoio a sua tese.”

A crença de que os atos políticos dos chefes e do Estado são um fator decisivo da História é uma crença tão antiga como a própria historiografia e a ela se deve particularmente o fato de que saibamos tão pouco a respeito da silenciosa evolução que impulsiona realmente os povos e que se oculta no fundo de todas as cenas ruidosas. Esta crença presidiu toda a História antiga até que, na época da Restauração, os historiadores burgueses lhe assestaram o primeiro golpe. O que é original é que o Sr. Dühring ignore tudo isso, como de fato o ignora.”

É preciso que se seja um Sr. Dühring para se poder imaginar que os impostos cobrados pelos Estados não são mais que ‘efeitos de 2ª ordem’ e que o ‘agrupamento político’ de nossos dias, que coloca, de um lado, a burguesia poderosa e, de outro, o proletariado oprimido, chegou a existir graças a si mesmo, e não como conseqüência dos ‘fins de subsistência’ dos burgueses dominantes, ou seja, pela produção de lucro e acumulação do Capital.”

antes de se instituir a escravidão, para que esta seja mesmo possível, é mister que a produção tenha alcançado já um certo grau de progresso e que, na distribuição, tenha sido atingido um certo grau de desigualdade. E, para que o trabalho dos escravos possa converter-se em regime de produção predominante em toda a sociedade, é preciso que, nesta, a produção, o comércio e a acumulação de riquezas se tenham desenvolvido num grau já muito superior.”

Sabemos que, nos tempos da guerra dos persas, o número de escravos se elevava, em Corinto, a 460 mil, e, em Egina, a 470 mil, chegando a haver 10 escravos para cada cidadão livre. É evidente que para chegar a este estado de coisas, não bastava usar a ‘violência’, mas, pelo contrário, devia fazer falta uma indústria artística e artesanal muito desenvolvida, ao lado de uma extensa rede comercial. Nos Estados Unidos da América a escravidão não descansava nem no uso da violência, nem na existência da indústria inglesa do algodão. Nas regiões não-algodoeiras e que não se dedicavam, como os Estados litorâneos, à manutenção de escravos, destinados aos Estados algodoeiros, foi-se extinguindo a escravidão por si mesma, sem apelar para a violência, pela simples razão de que não era rendosa.” Mas descansava sobre a existência da indústria do algodão noutra parte, ora!

despotismo oriental e a constante mudança de poderes, de uns para outros povos nômades conquistadores, não puderam violar, durante milênios, este regime primitivo de comunidade. Em compensação, a destruição gradual de sua indústria doméstica natural, pela concorrência com os produtos da grande indústria, vai conduzindo este regime, cada vez mais aceleradamente, para a sua dissolução.”

Nem mesmo a formação de uma aristocracia natural, como a que se instituiu entre os celtas e os germanos e na região hindu dos Cinco Rios, baseada no regime da propriedade coletiva do solo, surge, de forma alguma, baseada na violência, mas sim de modo espontâneo e por força do costume.”

Para que o ladrão possa se apropriar de bens alheios, é evidente que a instituição da propriedade privada já deve estar consagrada e em vigor em toda a sociedade; ou seja, a violência poderá, sem dúvida alguma, transformar o estado possessório, mas, entretanto, não engendrará nunca a instituição da propriedade.”

A luta da burguesia contra a nobreza feudal é a luta da cidade contra o campo, da indústria contra o proprietário de terras, da economia baseada no dinheiro contra a economia natural, e as armas decisivas que, nestas lutas, empregou o burguês foram simplesmente os seus recursos de poder econômico, constantemente reforçados por meio do desenvolvimento da indústria, a princípio artesanal e mais tarde manufatureira, e pela difusão do comércio. Durante toda esta luta, o poder político [se] formou ao lado da nobreza, com a única exceção de um período em que o poder real julgou conveniente utilizar a burguesia contra a nobreza, para contrabalançar uma camada com a outra. Mas, a partir do momento em que a burguesia, embora impotente politicamente, começara a ser perigosa, graças ao seu poderio econômico cada vez maior, a monarquia voltou a aliar-se com a nobreza. provocando, assim, primeiro na Inglaterra e logo depois na França, a revolução da burguesia.”

[Na França, p]oliticamente, a nobreza era tudo e a burguesia era nada. Socialmente, a burguesia era já a classe mais importante dentro do Estado, ao passo que a nobreza tinha perdido já todas as suas funções sociais, embora continuasse cobrando as rendas com que ainda eram remuneradas essas funções desaparecidas.” “hoje a burguesia já não está muito longe da posição que a nobreza ocupava em 1789, pois que de fator de progresso foi-se convertendo, pouco a pouco, num fator, não apenas socialmente inútil, mas até nocivo ao desenvolvimento da sociedade” “Este resultado da atuação e da conduta da burguesia não corresponde, de modo algum, a sua vontade; muito pelo contrário, foi cedendo ante o impulso de uma força irresistível, contra a sua vontade e contra as suas intenções, simplesmente porque as suas próprias forças produtivas ultrapassaram os quadros de sua direção e empurraram a sociedade burguesa inteira”

PARTE II. ECONOMIA POLÍTICA. CAPÍTULO III. TEORIA DA VIOLÊNCIA (continuação)

Mas, que saibamos, a violência não é capaz de criar dinheiro. A única coisa que ela sabe é arrebatar o que já foi criado, o que também de pouco nos servirá, como já o sabemos pela pungente experiência dos famosos 5 bilhões da França. [?]

A indústria não perde o seu caráter de indústria por se destinarem os seus produtos a destruir e não a criar os objetos. (…) As armas de fogo foram, por isso, desde o primeiro momento, manejadas pelas cidades e pela monarquia em ascensão, que nelas se apoiava para lutar contra a nobreza feudal. As muralhas de pedra das fortalezas feudais, até então inexpugnáveis, renderam-se frente aos canhões dos burgueses e as balas dos mosquetes da burguesia trespassaram as armaduras dos cavaleiros. (…) O desenvolvimento da burguesia fez com que passassem para o 1º plano, como armas decisivas da guerra, a infantaria e a artilharia, tendo esta forçado a criação de uma nova seção, dentro da indústria de guerra, até então desconhecida: a da engenharia militar.

As armas de fogo desenvolveram-se com grande lentidão. Os canhões continuavam pesados, os mosquetes não perdiam sua forma tosca, apesar de muitos inventos que o modificaram em detalhes. Foi preciso que se passassem 300 anos até que fosse inventado um fuzil que pudesse ser utilizado por toda a infantaria. Até os começos do século XVIII, o fuzil de espoleta, armado de baioneta, não eliminou definitivamente a lança, como arma de infantaria. As antigas tropas pedestres eram formadas pelos elementos mais vis da sociedade, que eram sujeitos a uma rigorosa instrução, mas não representavam nenhuma segurança e só conseguiam manter-se disciplinados à custa de pancada. (…) a única forma de luta na qual podiam estes soldados utilizar o novo fuzil era a tática de linha, que alcançou a sua máxima perfeição sob o comando de Frederico II. Esta tática consistia em formar toda a infantaria do exército num grande quadrado de 3 filas, capaz de se mover somente em bloco na ordem de batalha; o que no máximo se permitia era que uma das 2 alas avançasse ou recuasse um pouco. Toda essa massa disforme e lerda só podia movimentar-se ordenadamente num terreno completamente plano e, mesmo assim, com grande lentidão de movimentos (à razão de 75 passos por minuto). Não se podia pensar em mudar a ordem de batalha durante o combate, e uma vez que entrava em fogo a infantaria, a vitória ou a derrota podiam ser decididas de golpe, rapidamente.” Primitivo como o futebol na era Friedenreich!

“Contra estas linhas desmanteladas e tontas se levantaram, na guerra da independência norte-americana, as guerrilhas dos rebeldes que, embora sem estar instruídos, disparavam com muito mais pontaria com as suas carabinas e, além disso, como lutavam por seus próprios interesses, não se precisava temer que desertassem, como costuma acontecer com as tropas mercenárias. E estas guerrilhas não davam aos ingleses a satisfação de enfrentá-los com este, em linha regular de combate, nem a campo aberto, operando, pelo contrário, em grupos soltos, manobrando com muita rapidez e sob a proteção dos bosques. A linha, tornada impotente teve de sucumbir frente a um inimigo invisível e inatacável e surgiu a tática dos atiradores: uma tática nova, fruto de um novo material humano.

A obra iniciada pela Revolução Americana foi levada a termo, ainda no terreno militar, pela Revolução Francesa. Frente aos treinados exércitos mercenários da coalizão, a França podia apenas levantar as suas massas, trazidas de toda a nação, numerosas mas pouco bem-instruídas. Com estas massas tratava-se de proteger Paris, isto é, de defender uma determinada zona e, nestas condições, não podiam os combates abertos de massa garantir sozinhos o triunfo. Para tal resultado, não bastava também a tática de guerrilhas. Era preciso inventar uma forma nova para empregar as massas, e esta forma foi a coluna. A marcha em coluna e a sua disposição de combate permitiam ainda a tropas pouco treinadas que se deslocassem bastante ordenadamente e com certa rapidez de movimentos (à razão de 100 passos e até mais, por minuto), permitiam que se rompessem as rígidas formas das velhas linhas, lutando-se em qualquer terreno, mesmo quando desfavorável para as linhas, que se agrupassem as tropas do modo mais conveniente para cada caso, podendo-se barrar, cortar o caminho e fatigar as linhas inimigas, combinando a ação regular com a ação das guerrilhas dispersas, e distraindo o inimigo até que chegasse o momento de se lançar sobre ele e de se romper a sua frente com as massas de reserva. Este novo método de luta, baseado na ação combinada de guerrilhas de colunas e no agrupamento do exército em divisões e corpos de exército independentes, integrados por todas as armas, método de luta que Napoleão utilizou e desenvolveu perfeitamente em seu aspecto estratégico e tático, surgiu, como vimos, imposto pela necessidade, precisamente na ocasião em que se transformava o material humano militar com a Revolução Francesa. Mas também pressupunha 2 condições técnicas muito importantes. A 1ª era a invenção, por Gribeauval, de carretas mais leves para os canhões de campanha, de modo a permitir a estes deslocar-se rapidamente. A 2ª, o arqueamento das escopetas de caça, que até então vinha sendo aplicado apenas no sentido de alargar o diâmetro dos canhões, quando aplicado à culatra dos fuzis, e permitir que se apontasse a um homem isolado, sem se disparar ao acaso. Este invento foi implantado na França em 1767, e podemos dizer que, sem ele, não teria sido possível equiparar eficientemente os atiradores.

sistema revolucionário, que consistia em armar o povo, foi logo substituído pelo recrutamento obrigatório (trocado pelo resgate em dinheiro, no caso dos ricos) e adotado pela maioria dos grandes Estados do continente. A Prússia foi o único país que pretendeu estender aos quadros da reserva, em grandes proporções, a força militar do povo. E foi, além disso, o primeiro Estado a adotar em toda a sua infantaria a novíssima arma, o fuzil carregado pela culatra, depois de ter usado, por pouco tempo, o fuzil de carga dianteira, aperfeiçoado e adaptado para a guerra, entre 1830 e 1860. Tais foram as 2 inovações a que se deveram os triunfos prussianos de 1866.

Na guerra franco-prussiana, enfrentaram-se, pela primeira vez, 2 exércitos equipados com fuzis carregados pela culatra, ambos instruídos, em essência, nas formações táticas que já eram utilizadas no tempo do velho fuzil de espoleta. Nada mais os diferenciava, a não ser que os prussianos, adotando a coluna de companhia, se esforçavam por criar uma forma de luta mais adequada ao novo armamento. Quando, porém, em 18 de agosto, perto de St. Privat, a Guarda Prussiana quis tomar a sério a ordem de batalha de sua coluna de companhia, os 5 regimentos mais empenhados na ação perderam, em 2h, mais de 1/3 de seus efetivos (178 oficiais e 5114 homens). A partir deste momento, a coluna de companhia foi condenada a desaparecer como forma de luta, da mesma maneira que a coluna de batalhão e a linha. Abandonou-se toda e qualquer intenção de continuar expondo, ao fogo dos fuzis inimigos, formações cerradas e, a partir dessa época, os alemães passaram a guerrear somente em densas guerrilhas, naqueles mesmos enxames de tropas em que a coluna se abria, dispersando-se por si mesma, geralmente sob a chuva das balas inimigas, tática que o comando combatia como sendo contrária aos regulamentos. Uma outra inovação foi a adoção do passo rápido de marcha sob o alcance do fogo inimigo, como sendo a única forma de movimento. Novamente o soldado voltava a se mostrar mais inteligente que o oficial, descobrindo instintivamente a única forma de luta que, desde então, pôde vingar, sob o fogo do fuzil carregado pela culatra, e impondo-a, triunfalmente, apesar de todas as resistências do comando.” Ou seja: mais de meio século depois, o exército prussiano se aprimorou com táticas nada novas, provindas dos civis destreinados da revolução francesa. Época romântica dos conflitos armados; e no entanto Nietzsche já a considerava o tipo de guerra dos últimos homens, dos fracos e covardes.

A guerra franco-prussiana representa, na história militar, um ponto de transição que ultrapassa em importância a todos os precedentes. Em primeiro lugar, as armas adquirem um tal grau de aperfeiçoamento que nenhum progresso possível é já capaz de revolucionar este setor.” Calma!!

Quando já se dispõe de canhões capazes de alvejar um batalhão tão logo seja divisado a olho nu à distância, e fuzis que permitem fazer o mesmo tendo como objetivo um homem isolado e nos quais se demora menos tempo em carregar que em fazer a pontaria, todos os progressos que possam ainda ser feitos nas artes da guerra são de menor importância. Neste aspecto, podemos dizer que a era do progresso está mais ou menos terminada, pelo menos em sua parte essencial.”

ANTECEDENTES DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL: “Em 2º lugar, a guerra obrigou todos os grandes Estados do continente a implantar o sistema rigoroso da reserva do tipo prussiano, com isso trazendo para os seus ombros uma carga militar que os levará à ruína dentro de poucos anos. Os exércitos se converteram na principal finalidade dos Estados, como um fim em si mesmo. Os povos existem hoje só para fornecer soldados e para sustentá-los. O militarismo domina e devora a Europa.” “Por outro lado, o serviço militar vai generalizando-se cada vez mais e com isso não faz mais que familiarizar com o emprego das armas todo o povo, ou seja, tornando-o capaz, mesmo contra a sua vontade, de impor, num determinado momento, a sua vontade à camarilha militar governante.”

Chegado este momento, os exércitos dos príncipes se converterão em exércitos do povo, a máquina se negará a continuar funcionando e o militarismo perecerá, engolido pela dialética de seu próprio desenvolvimento. E o que não pôde conseguir a democracia burguesa de 1848, precisamente porque era burguesa, e não proletária – infundir às massas trabalhadoras uma vontade ajustada à sua situação de classe –, conseguirá o socialismo, infalivelmente. E pelo fato de consegui-lo, matará em suas raízes o militarismo e os exércitos permanentes.”

Somente um povo de caçadores como o americano poderia de novo pôr em prática a tática dos atiradores. E os americanos não eram caçadores por capricho, mas por causas puramente econômicas, exatamente da mesma forma por que hoje, por causas também puramente econômicas, esses mesmos yankees – pelo menos aqueles que vivem nos Estados mais antigos – se converteram em lavradores, industriais, navegantes e comerciantes, que já não se dedicam à caça no desbravamento das selvas virgens, mas que, em troca, sabem como ninguém se mover com desenvoltura no campo da especulação, no qual aplicaram também a sua tática de massas.”

Até que ponto a tática da guerra depende atualmente do estado da produção e dos meios de comunicação do país, que o exército tem em sua retaguarda, é coisa que qualquer suboficial, por pouco instruído, poderá explicar ao Sr. Dühring.”

Passando dos exércitos de terra à marinha, veremos que somente os últimos 20 anos constituem uma verdadeira revolução neste aspecto da guerra.” “A princípio era uma camada muito delgada; 4 polegadas de espessura já se considerava uma blindagem pesadíssima. Mas os progressos da artilharia alcançaram e ultrapassaram esta defesa. Para cada nova espessura da blindagem era inventado um novo canhão sempre mais pesado que a perfurava com maior facilidade. Chegamos assim às espessuras de couraças de 10, 14, e 24 polegadas (a Itália se dispõe a construir um barco encouraçado com chapas de 3 pés de espessura), de um lado, e, de outro, aos canhões de 25, 35, 80 e até 100 toneladas (20 quintais de peso), capazes de lançar a distâncias antes inconcebíveis cargas de 300, 400, 1700 e até 2000 libras.” “O barco de guerra de hoje é um vapor gigantesco com chapa torneada, de 8 ou 9 mil toneladas de calado e 6 a 8 mil cavalos de força, com torres giratórias, e 4 ou, no máximo, 6 canhões pesados, e uma proa terminada em aríete por debaixo da linha de flutuação para pôr a pique os barcos inimigos; é todo ele uma máquina gigantesca, na qual a força de vapor não somente permite um deslocamento muito mais rápido, como também toda uma série de movimentos antes desconhecidos, tais como a direção do navio da ponte do comando, o manejo do leme, a rotação das torres, a direção e o carregamento dos canhões, a sucção da água, o arriar e içar dos botes – operação que se realiza, também às vezes, a vapor – etc. E o duelo entre a blindagem dos navios e o alcance dos canhões está muito longe de terminar, a ponto de que, geralmente, quando sai um navio dos estaleiros, já é antiquado e não mais corresponde às exigências que presidiram a sua construção.” “Todos os barcos encouraçados turcos, quase todos os russos e a maioria dos alemães, foram construídos na Inglaterra. As chapas blindadas de alguma eficácia quase que só são fabricadas em Sheffield. Das 3 fábricas de fundição da Europa, montadas em condições de fornecer canhões mais pesados, 2 correspondem à Inglaterra (Woolwich e Elswick) e a 3ª à Alemanha (Krupp).” “Ninguém ficará tão desesperado com esta nova situação como a própria violência, isto é, o Estado, que chega à conclusão de que um navio lhe custa hoje tanto como antes uma pequena esquadra, tendo por fim que se resignar com o fato de que estes navios caríssimos sejam logo considerados obsoletos, perdendo, portanto, o seu valor antes de fazer-se ao mar.” “De nosso lado, não temos por que nos indignar pelo fato de que, no duelo que se está desenrolando entre as placas blindadas e os canhões, o navio vai aperfeiçoando-se, até que termine por atingir uma perfeição tal que se torne definitivamente inexeqüível e inútil para a guerra.” O impasse das bombas nucleares só que aplicado às frotas perfeitas: duas armas de ataque e defesa máximos, que não conseguiriam danificar uma à outra; ou que forçosamente só o fariam sob o preço de também se virem naufragar.

o militarismo, como qualquer outra manifestação histórica, perecerá, devido às conseqüências de seu próprio desenvolvimento.” Ainda não atingimos esse ponto de corte.

Mas para que perder tempo com todas estas demonstrações? Que na próxima guerra marítima se entregue o Alto Comando ao Sr. Dühring e veremos como ele destruirá todas as frotas de encouraçados, escravizados pela ‘situação econômica’, sem utilizar torpedos ou outras armas do mesmo gênero, mas simplesmente apelando para a sua ‘força imediata’

PARTE II. ECONOMIA POLÍTICA. CAPÍTULO IV. TEORIA DA VIOLÊNCIA (conclusão)

quando, nos últimos tempos da República Romana, os proprietários dos grandes blocos de terra, os latifundiários, expulsaram os camponeses de seus lotes, substituindo-os por escravos, foi ao mesmo tempo substituída a agricultura pela criação de gado, semeando, como já predizia Plínio, a ruína da Itália (latifundia Italiam perdidere).”

Os colonos da Frisia, [Frígia?] da Baixa Saxônia, de Flandres, e do Baixo-Reno, os que cultivavam, a leste do Elba, a terra arrebatada aos eslavos, trabalhavam como lavradores livres, sob um estatuto muito favorável e sem estarem sujeitos a ‘nenhum tipo de vassalagem’. Na América do Norte, a grande maioria das terras foi aberta ao cultivo pelo trabalho de agricultores livres, enquanto que os grandes proprietários do Sul, com seus escravos e seus métodos de exploração, esgotaram o solo até o ponto de não dar mais nada, exceto pinho”

Na Austrália e na Nova Zelândia, fracassaram até agora todas as tentativas do governo inglês para a instauração artificial de uma aristocracia de fazendeiros.”

esse grande proprietário de terras, que começa por desbravar o solo e por submeter a natureza ao seu domínio, por meio de seus escravos ou vassalos, não é mais que uma pura criação da fantasia do Sr. Dühring. Longe disso, ali onde aparece esse grande proprietário de terras, como aconteceu na Itália, não é precisamente para desbravar e iniciar o cultivo das terras incultas, mas, muito ao contrário, para converter em pastos as terras cultivadas pelos camponeses, despovoando e arruinando regiões imensas.”

Para cada acre de terras comunais que os grandes proprietários cultivaram na Inglaterra, converteram, na Escócia, pelos menos 3 acres de terras cultivadas em pasto de ovelhas” Ou seja: terra destinada à agropecuária é muito mais improdutiva que a destinada à agricultura. Dir-se-ia que é inevitável a expansão do agronegócio devido ao aumento da população e à necessidade de carne; e que coisas como batatas poderiam ser facilmente adquiridas por importação. Mas numa economia de terceiro mundo, que destina também a carne à exportação (Brasil), isso é um desastre para a população, majoritariamente pobre. Ironicamente, grandes pastos só existem porque havia múltiplas pequenas propriedades destinadas ao cultivo, anteriormente, nessas mesmas regiões.

Se o Sr. Dühring, ao afirmar que o domínio do homem sobre o homem é, em termos gerais, a condição prévia do domínio da natureza pelo homem, e com isto quer dizer apenas que todo o nosso atual estado econômico, o grau de desenvolvimento a que chegaram a agricultura e a indústria, são apenas o resultado de uma história social que se veio desenvolvendo por antagonismos de classe, por relações entre o poder e a vassalagem, nesse caso está afirmando alguma coisa que é já, desde a publicação do Manifesto Comunista, um velho lugar comum. Trata-se precisamente de explicar as origens dessas classes e as relações do poder, e o Sr. Dühring não sabe nos oferecer mais que a repisada explicação da ‘violência’, mas essa palavra não nos faz dar nem um passo para frente. O simples fato de que os dominados e explorados tenham sido, em todos os tempos, uma legião muito mais numerosa do que a de seus dominadores e exploradores, tendo, portanto, em suas mãos a força real basta para pôr a nu toda a inutilidade da teoria da violência. O problema está, exclusivamente, repetimos, em explicar o por que dessas relações entre o poder e vassalagem.”

ORIGEM DO ESTADO VERSÃO CONDENSADA E HISTÓRIA DA ESPECIALIZAÇÃO DOS INDIVÍDUOS: “No seio de cada uma destas coletividades [primitivas, proto-estatais] existem, desde o 1º momento, determinados interesses comuns, cuja defesa se entrega a determinados indivíduos, embora sob o controle da coletividade, como seja: administração da justiça, repressão de atos ilegítimos, inspeção do regime de águas, principalmente nos países tropicais e, finalmente, toda uma série de funções religiosas, derivadas do primitivismo selvagem destas sociedades. Tais fenômenos de distribuição de competências se encontram nas coletividades naturais de todas as épocas, como já ocorria na sociedade antiquíssima dos marks alemães e como ainda hoje se observa na Índia. Trazem consigo, como é lógico, uma certa amplitude de poderes e representam as origens do Estado. Pouco a pouco, as forças produtivas se vão intensificando, a densidade cada vez maior de população cria interesses, ora comuns ora formados entre as distintas coletividades, de modo que, agrupando-se num todo superior, fazem nascer uma nova divisão do trabalho, criando os órgãos necessários para cuidar dos interesses harmônicos e para defender-se contra os interesses hostis.”

Não é necessário que examinemos aqui o modo como esta independência da função social frente à sociedade foi convertendo-se, com o correr dos tempos, numa verdadeira hegemonia sobre a própria sociedade, o modo como os primitivos servidores da sociedade, nos lugares onde as circunstâncias lhes foram propícias, foram-se erigindo paulatinamente em senhores dela própria e, finalmente, o modo como, de acordo com o ambiente, esses mesmos senhores se instauraram, no Oriente, como déspotas ou sátrapas, na Grécia como príncipes de linhagem, entre os celtas como chefes de clã, e assim por diante.”

POR QUE A INGLATERRA FRACASSOU NAS ÍNDIAS: “Muitos foram os déspotas que passaram pelo poder, na Pérsia e na Índia, mas todos eles sabiam perfeitamente que a sua missão coletiva era, antes de tudo, a de regar os vales, pois que sem irrigação não se podia fazer ali agricultura. Foi preciso que chegassem os ingleses civilizados para que esse dever primordial do despotismo, no Oriente, fosse esquecido. Os ingleses deixaram que se estragassem os canais e as represas, e, atualmente, depois de muitos anos, as épocas periódicas de fome vêm a lhes apontar que menosprezaram a única atividade que poderia tornar a sua hegemonia sobre a Índia pelo menos tão legítima quanto a de seus antecessores.”

A força de trabalho adquiriu um valor. Mas nem a coletividade, por si mesma, nem o agrupamento de coletividades de que ela fazia parte podiam fornecer forças de trabalho disponíveis, excedentes. Fornecia-as a guerra, que já se efetuava a partir, pelo menos, dos tempos em que começaram a coexistir, lado a lado, distintos grupos sociais. Até essa época, não se tinha sabido, ainda, como empregar os prisioneiros de guerra, razão pela qual eram eles liquidados em vez de se os alimentar, como era costume em épocas anteriores. Ao chegar, porém, a esta etapa da evolução econômica, os prisioneiros de guerra começaram a representar um valor. Por isso, deixaram-nos viver, a fim de aproveitarem-se de seu trabalho. Como vemos, a violência, longe de se impor sobre a situação econômica, foi posta a serviço desta. Haviam sido lançadas as bases da instituição da escravidão.”

Foi a escravidão que tornou possível a divisão do trabalho, em larga escala, entre a agricultura e a indústria, e foi graças a ela que pôde florescer o mundo antigo, o helenismo.” “E sem as bases do helenismo e do Império Romano não se teria chegado a formar a moderna Europa.” “Podemos, neste sentido, afirmar, legitimamente, que, sem a escravidão antiga, não existiria o socialismo moderno.” “Neste terreno, por mais paradoxal e mais herético que possa parecer, não temos outro remédio senão dizer que a implantação da escravidão representou, nas circunstâncias em que ocorreu, um grande progresso. É indiscutível que a humanidade saiu de um estado de animalidade e que necessitou utilizar, portanto, de meios bárbaros e quase bestiais para erguer-se desse estado de barbárie.” Nietzsche-Adorno

As antigas comunidades, onde subsistem essas instituições, formam, desde milhares de anos, da Índia à Rússia, a base da mais tosca forma de Estado: o despotismo oriental.” “Enquanto o trabalho humano era muito pouco produtivo, é claro que apenas fornecia um pequeno excedente, depois de satisfeitas as necessidades mais prementes da vida, não se podendo tratar da intensificação das forças produtivas, da ampliação do mercado, do aperfeiçoamento do Estado e do Direito, da fundação de nenhuma arte [técnica] e de nenhuma ciência, a não ser pela mais reforçada divisão do trabalho, em cuja base estava, forçosamente, a grande divisão do trabalho entre as massas dedicadas ao simples trabalho manual e uns poucos privilegiados, ao cargo dos quais estava a direção dos trabalhos, o comércio, o trato dos negócios públicos e, mais tarde, o cultivo das artes e ciências.” “E representava esta instituição um progresso até para os próprios escravos: permitia, pelo menos, aos prisioneiros de guerra, entre os quais eram recrutados em seu maior número os escravos, que conservassem as vidas já que, até então, eram todos exterminados, no começo, por meio da fogueira, e, depois, por meio do cutelo.”

tinha que haver necessariamente uma classe especial que, livre do trabalho efetivo, tratasse desses assuntos.” Da kalokagathia até os levitas, tribo sacerdotal, e especial, dos semitas!

A gigantesca intensificação das forças produtivas, conseguida graças ao advento da grande indústria, é que tornou possível que o trabalho se possa distribuir, sem exceção, entre todos os membros da sociedadereduzindo dessa forma a jornada de trabalho do indivíduo a tais limites, que deixem a todos um tempo livre suficiente para que cada um intervenha – teórica e praticamente – nos negócios coletivos da sociedade.” Sem a inclusão da mulher, o homem trabalharia em dobro. Sem a inclusão de uma grande parte desse exército de reserva que está à míngua no Brasil nunca atingiremos os patamares europeus de, senão pleno emprego, pelo menos a redução ainda maior da carga horária, ainda convencionada em média a 40h semanais, a mais salutares 30h ou a menos dias úteis semanais.

PARTE II. ECONOMIA POLÍTICA. CAPÍTULO V. TEORIA DO VALOR

Há cerca de cem anos, apareceu, em Leipzig, um livro, que alcançou 31 edições até o começo do atual século, tendo sido distribuído e difundido nas cidades e aldeias, pelas próprias autoridades, por pregadores e por filantropos de toda a espécie, além de ser colocado em todas as escolas públicas do país, como texto de leitura. O título deste livro era: O Amigo da Criança, e tinha por autor um tal Rochow. A sua finalidade era doutrinar, aos jovens filhos dos camponeses e dos artesãos, a respeito de sua missão na vida e de seus deveres para com os seus superiores hierárquicos, na sociedade e no Estado, infundindo-lhes contentamento com a sorte benfazeja que o céu lhes tinha reservado na terra, e, ao mesmo tempo, com o pão negro e as batatas, as tributações feudais e os magros salários, as surras recebidas de seu pai, e outras coisas não menos agradáveis, tudo divulgado por meio de raciocínios que eram muito comuns naquela época.”

O valor das mercadorias é determinado pelo trabalho geral, humano, socialmente necessário, nelas materializado, o qual, por sua vez, é medido pela sua duração. O trabalho é a medida de todos os valores, mas não possui valor algum.”

Marx, O Capital

se o salário determina o valor, é impossível conceber que o operário seja explorado pelo capitalista.” O valor também determinaria o salário, não haveria inflação nem lucro capitalista, apenas uma troca equivalente universal entre trabalhadores e consumidores (as mesmas pessoas).

PARTE II. ECONOMIA POLÍTICA. CAPÍTULO VI. TRABALHO SIMPLES E TRABALHO COMPLEXO

trabalho mais complexo não é mais que o trabalho simples potenciado, ou melhor, multiplicado de tal maneira que uma quantidade pequena de trabalho complexo equivale a uma quantidade maior de trabalho simples. A experiência nos ensina que a redução de trabalho complexo para trabalho simples está sendo realizada diariamente. Embora uma mercadoria seja um produto do trabalho mais complicado do mundo, o seu valor a coloca no mesmo plano que os produtos do trabalho simples, o que faz com que só represente uma determinada quantidade de trabalho comum. As diferentes proporções em que as diferentes espécies de trabalho são reduzidas ao trabalho simples, que é a sua unidade de medida, são fixadas por meio de um processo social, desenvolvido sem o conhecimento dos produtores, que supõem mesmo que ela provém da tradição.”

O Capital

Ora, nem todo trabalho consiste na simples força humana de trabalho. Existem variadas espécies de trabalho, que envolvem o exercício de aptidões e conhecimentos, adquiridos com maior ou menor esforço, ao lado de um gasto maior ou menor de tempo e de dinheiro. Formam, essas categorias de trabalho complexo, no mesmo espaço de tempo, um valor mercantil idêntico ao do trabalho simples, que é o desgaste ou a aplicação da força simples de trabalho? Está claro que não. O produto de uma hora de trabalho complexo, comparado com o produto de uma hora de trabalho simples, representa uma mercadoria cujo valor é 2 ou 3x superior. O valor dos produtos do trabalho complexo é expresso, nesta comparação, por determinadas quantidades de trabalho simples, mas esta redução do trabalho complexo ao trabalho simples se realiza por meio de um processo social desconhecido dos próprios produtores, cuja trajetória não podemos aqui senão assinalar na exposição da teoria do valor, deixando a sua explicação detalhada para ocasião oportuna.”

Ao falarmos do valor do trabalho, empenhando-nos em determiná-lo, incorremos no mesmo contra-senso em que incorreríamos se falássemos, procurando encontrá-lo, do valor ou do peso, não de um corpo pesado, mas da própria gravidade.”

Para o socialismo, que aspira à emancipação da força humana de trabalho de sua condição de mercadoria, é da maior importância compreender que o trabalho não tem um valor. Demonstrado este fato, caem por terra todas as tentativas próprias do socialismo operário primitivo e elementar, que tem no Sr. Dühring um continuador, e que são destinadas a regulamentar a distribuição futura dos meios de vida por meio de uma espécie de salário superior.”

A CILADA DO VALOR ‘ABSOLUTO’ DE DÜHRING: “É claro que o modo tradicional de pensar das classes cultas, herdado pelo Sr. Dühring, tem que considerar, necessariamente, como uma monstruosidade que chegue o dia em que não existam mais carregadores e arquitetos de profissão, e no qual o homem, que passou uma meia hora dando instruções, como arquiteto, tem que servir durante algum tempo como carregador, até que seus serviços de arquiteto voltem a ser necessários. Para se eternizar a categoria dos carregadores de profissão não era preciso o socialismo!”

Entre 2 operários, até de um mesmo ramo industrial, o produto do valor criado em cada hora de trabalho se diferenciará sempre, quer devido à intensidade do trabalho, quer à habilidade do trabalhador. E este ‘mal’, que existe somente para homens do gênero do Sr. Dühring, não pode ser remediado nem mesmo pela Comuna Econômica, ao menos em nosso planeta.”

Na sociedade de produtores privados, os gastos para a formação de cada operário instruído correm por conta dos particulares ou de suas famílias, razão pela qual devem eles mesmos lucrar com a diferença de preço das forças de trabalho qualificadas. O escravo hábil é vendido por maior preço, o operário mais competente obtém um melhor salário. Na sociedade socialista, os gastos com a instrução correrão por conta da coletividade, e a ela, portanto, é que deverão caber os seus frutos, isto é, o excedente de valor engendrado pelo trabalho complexo.”

PARTE II. ECONOMIA POLÍTICA. CAPÍTULO VII. CAPITAL E MAIS-VALIA

Assim, segundo Marx, o capital teria nascido da moeda no começo do século XVI. É como se disséssemos que a moeda metálica nasceu há 3 mil anos, do gado, porque, como se sabe, este teve antigamente função de moeda. Só mesmo o Senhor Dühring seria capaz de exprimir-se com tanta grosseria e desacerto.”

Na sua primeira entrada em cena, isto é, na sua primeira aparição no mercado, quer se trate do mercado de mercadorias, do de trabalho ou de moeda, o capital reveste sempre a forma dinheiro, a forma de um dinheiro que (…) deve transformar-se em capital.

O Capital, livro I, capítulo IV

capitalista incipiente começa por comprar aquilo de que ele próprio ‘não tem’ necessidade; compra para vender, e para vender mais caro, para recuperar o valor-dinheiro primitivamente aplicado na compra e, mais ainda, para recuperá-lo acrescido de um excedente em dinheiro, que Marx denomina de mais-valia.”

O problema é este: como é possível vender constantemente mais caro do que se comprou, mesmo que se suponha que se trocam sempre valores iguais por valores iguais?

A solução dessa questão é, na obra de Marx, o seu grande mérito, um acontecimento que marca uma época. Ela veio iluminar domínios econômicos em que até aqui não só os socialistas como os economistas burgueses tateavam no meio das trevas mais espessas. Data dessa época, e em torno dela se agrupa, o socialismo científico.”

seria preciso que o nosso possuidor de dinheiro tivesse a sorte de descobrir, na esfera da circulação, isto é, no mercado, uma mercadoria cujo valor de uso fosse dotado da singular propriedade de ser fonte de um novo valor ou cuja utilização real seria, pois, a materialização do trabalho e, por conseqüência, ‘criação de valor’. Ora, o possuidor de dinheiro encontra no mercado essa mercadoria particular: é a capacidade de trabalho, ou força de trabalho.”

O Capital

Também o comprador da força de trabalho tem, em conseqüência, [do fato de que, no início, o valor pago pelas horas de trabalho suficientes para produzir a mercadoria não gere excedente¹] uma maneira inteiramente diversa de encarar a natureza do contrato realizado com o operário.”

¹ Obviamente essa hipótese ideal só poderia ocorrer sob 2 possibilidades razoavelmente difíceis de encontrar no mercado de trabalho:

a) remuneração justa;

b) jornada de trabalho honesta.


O fato de somente 6h de trabalho serem necessárias para manter a vida do trabalhador durante 24h não o impede de modo algum que seja obrigado a trabalhar 12h em 24.” Razão por que as reformas trabalhistas demoraram séculos, enquanto o Capitalismo se consolidava espetacularmente… Quando o Capital volta a enfraquecer no fim do século XX, principalmente no setor de serviços, onde não há a possibilidade de mecanização da maioria dos processos, tem de recorrer à terceirização e quarteirização, expediente que permite a flexibilização das leis trabalhistas e o retorno de jornadas de 10 a 12h para desprivilegiados do sistema.

Que o valor criado pela utilização dessa força de trabalho, durante um dia, seja 2x tão grande quanto o valor diário dessa força é uma grande sorte para o comprador; mas não é, de forma alguma, de acordo com as leis que regem a troca de mercadorias, uma injustiça em relação ao vendedor. Assim, o trabalho custa ao possuidor de dinheiro, segundo a nossa hipótese, diariamente, o produto em valor de 6h de trabalho. Diferença em proveito do possuidor de dinheiro: 6h de sobre-trabalho não-pago, no qual se acha incorporado o trabalho de 6h. Realizou-se o milagre, a mais-valia foi produzida, o dinheiro transformou-se em Capital.”

É preciso, primeiramente, que o trabalhador possa dispor, como pessoa livre, de sua força de trabalho, como de uma mercadoria qualquer; é preciso, em seguida, que não tenha outra mercadoria a vender e que esteja livre e desembaraçado de todas as coisas necessárias para realizar, por conta própria, a sua força de trabalho.”

O Capital

Com efeito, esse trabalho livre aparece na história, pela 1ª vez, em massa, no fim do século XV e começo do XVI, em seguida à decomposição do regime feudal de produção.”

Assim, o pecado que o Senhor Dühring acusa em Marx, de não fazer do Capital a idéia comumente admitida em economia política, não somente ele próprio o comete, como perpetra, em relação a Marx, um plágio torpe, ‘mal-dissimulado’ por meio de frases pretensiosas.”

O Capital é, pois, uma fase histórica, não somente em Marx como também no Sr. Dühring. Somos, assim, forçados a concluir que estamos entre jesuítas: quando 2 homens fazem a mesma coisa, não é a mesma coisa. Quando Marx diz que o Capital é uma fase histórica, essa afirmação é resultado de ‘uma imaginação exótica, produto bastardo da fantasia histórica e lógica em que a faculdade de discernimento desaparece com tudo o que significa probidade no emprego dos conceitos’. Quando o Sr. Dühring apresenta igualmente o Capital como uma fase histórica, isso é uma prova de ‘penetração na análise econômica, do caráter científico mais definitivo e mais rigoroso, no sentido das disciplinas exatas’.”

“‘O sobre-trabalho, o trabalho excedente ao tempo necessário à manutenção do trabalhador’, e a apropriação do produto desse sobre-trabalho por outrem, a exploração do trabalho, são, pois, comuns a todas as formas de sociedade até aqui existentes, enquanto nelas reinarem os antagonismos de classes. Mas é somente quando o produto desse sobre-trabalho se reveste da forma de mais-valia, quando o proprietário dos meios de produção encontra diante de si, como objeto de exploração, o trabalhador livre – livre de entraves sociais e livre de bens próprios – e o explora tendo em vista a produção de mercadorias, é somente então, segundo Marx, que os meios de produção se revestem do caráter específico de Capital.”

Noutros termos, o Senhor Dühring apropria-se do conceito de sobre-trabalho descoberto por Marx para fulminar a mais-valia, igualmente descoberta por Marx, e que, por enquanto, não lhe convém. Segundo o Senhor Dühring, não só a riqueza mobiliária e imobiliária dos cidadãos atenienses e coríntios, que utilizavam o trabalho escravo, mas também a dos grandes proprietários territoriais romanos da época imperial, e, do mesmo modo, dos barões feudais da Idade Média, por pouco que servissem, de qualquer maneira, à produção, constituem, todas, modalidades, sem exceção, de Capital.”

Para nós, é-nos absolutamente indiferente que todos os economistas burgueses se deixem dominar pela idéia de que a virtude de produzir juros ou lucros é inerente a qualquer soma de valores invertidos, sob condições normais, na produção ou na troca de mercadorias. Capital e lucro ou capital e juros são, na economia clássica, inseparáveis, estão de tal maneira entrelaçados entre si como a causa e o efeito, o pai e o filho, o ontem e o hoje. Mas a palavra, Capital, na sua significação econômica moderna, só aparece na época em que surge o próprio fenômeno que o caracteriza, em que a riqueza mobiliária se reveste cada vez mais da função de Capital, isto é, explora o sobre-trabalho de operários livres, com o fim de produzir mercadorias; e esse fenômeno começa a tomar forma, pela 1ª vez, na mais antiga nação capitalista que se apresenta na história: a Itália dos séculos XV e XVI.”

PARTE II. ECONOMIA POLÍTICA. CAPÍTULO VIII. CAPITAL E MAIS-VALIA (conclusão)

A mais-valia divide-se, portanto, em várias partes, que se destinam a diversas categorias de pessoas e se revestem, cada uma, de uma forma especial, independentes umas das outras, tais como lucro, juros, ganho comercial, renda territorial, etc.

O Capital

BURRO OU DESONESTO: “Quando o Sr. Dühring pretende, portanto, que a mais-valia de Marx é, para falar a linguagem comum, o ‘lucro do Capital’, o quê se pode concluir, em face disso, uma vez que todo o livro de Marx gira em torno da mais-valia? Só há 2 hipóteses: ou ele não sabe o que diz e, nesse caso, é de uma impudência sem igual pretendendo fulminar uma obra cujo conteúdo essencial ignora; ou conhece esse conteúdo e comete voluntariamente uma falsificação.”

Marx diz expressamente que o lucro comercial também constitui uma parte da mais-valia, e em tais circunstâncias isto só é possível se o fabricante vender seu produto ao negociante, abaixo de seu valor, cedendo-lhe, assim, uma parte de seu espólio. Feita como aí está, a pergunta, na verdade, não pode nem mesmo ser encontrada em Marx. Feita em termos racionais, ei-la: Como a mais-valia se transforma em suas formas e modalidades: lucro, juros, ganho do comerciante, renda territorial, etc.? E esta questão Marx promete, sem dúvida, resolvê-la no livro II de O Capital. Mas se o Senhor Dühring não podia esperar pacientemente pelo aparecimento do 2º volume de O Capital, poderia ter examinado, com mais cuidado, o 1º vol. Neste, poderia ver, afora as passagens já citadas, à página 323, por exemplo, que, segundo Marx, as leis imanentes da produção capitalista agem no movimento exterior dos capitais como as leis imperativas da concorrência, que é a forma sob a qual se revelam à consciência do capitalista individual como os seus motivos propulsores; que, por conseguinte, uma análise científica da concorrência não é possível senão quando se discerne a natureza íntima do capital[Sua natureza trágica e inconsciente] do mesmo modo que o movimento aparente dos corpos celestes só é perceptível aos que conhecem o seu movimento real, imperceptível aos sentidos.”

Para Marx, o sobre-produto, como tal, não entra absolutamente nos gastos da fabricação: é a parte do produto que não custa nada ao capitalista. Se os patrões concorrentes quisessem vender o sobre-produto ao preço de suas despesas naturais de fabricação, nada mais teriam a fazer senão dá-lo de presente. Mas não nos retardemos nestes ‘detalhes micrológicos’. Não estariam os patrões concorrentes valorizando diariamente o produto do trabalho acima do custo natural de produção?”

A Vênus da qual esse fiel mentor procura desviar a juventude alemã, ele a tinha ido buscar nas terras de Marx e a tinha posto, em surdina, em lugar seguro, para seu próprio prazer. Cumprimentemo-lo por esse produto líquido obtido, utilizando a força de trabalho de Marx, e pela luz particular que a sua anexação da mais-valia marxista, sob o nome de renda possessória, lança sobre os motivos da sua falsa e obstinada afirmação, aliás repetida em 2 edições, de que Marx entendia por mais-valia somente o lucro ou o ganho do Capital.”

PARTE II. ECONOMIA POLÍTICA. CAPÍTULO IX. LEIS NATURAIS DA ECONOMIA – A RENDA TERRITORIAL

Lei nº 1: ‘A produtividade dos meios econômicos, das riquezas naturais e da força do homem, é intensificada pelas <invenções> e <descobrimentos>.’

Espantoso! O Senhor Dühring trata-nos, mais ou menos como, em Molière, aquele pândego trata o fidalgo, ao dizer-lhe que ele fez prosa toda a vida sem o saber.”

—“que essa velha banalidade seja a lei fundamental de toda a economia, eis uma revelação que ficamos devendo ao Senhor Dühring.” “Se a ‘vitória da verdadeira ciência’, em economia política como em filosofia, consiste somente em dar ao 1º lugar-comum que nos ocorre um nome retumbante, e proclamá-lo como uma lei natural, ou seja, como uma lei fundamental, então, realmente, ‘fundar a ciência sobre uma base aprofundada’, revolucionar a ciência, torna-se possível a todo mundo, inclusive à redação da Volkszeitung, de Berlim.”

Quando dizemos, p.ex., que os animais comem, com isso enunciamos tranqüilamente, com toda a inocência, uma grande coisa. Para revolucionarmos toda a zoologia, não teríamos senão que dizer: a lei fundamental de toda vida animal é comer.” HAHAHA!

Lei nº 2: ‘Divisão do trabalho. A separação dos ramos profissionais e a especialização das atividades aumentam a produtividade do trabalho.’

Lei nº 3: ‘Distância e transporte são as causas principais que entravam ou favorecem a cooperação das forças produtivas.’

Lei nº 4: ‘O Estado industrial tem uma capacidade de produção incomparavelmente maior que o Estado agrícola.’

Lei nº 5: ‘Em economia política, nada acontece sem que corresponda a um interesse material.’ [HAHAHAHAA]

Tais são as ‘leis naturais’ sobre as quais o Senhor Dühring funda a sua economia.”

terminaremos por um estudo rápido das idéias do Senhor Dühring sobre a renda territorial. § Passamos por alto todos os pontos em que o Sr. Dühring se limita a repetir Carey, seu predecessor; não trataremos aqui de refutar a Carey, nem de defendê-lo contra suas tergiversações e fatuidades acrescentadas à concepção ricardiana da renda do solo.”

ele define a renda do solo como ‘a renda que o proprietário recebe do solo, em sua condição de proprietário’.” Parece fazer sentido!

[Mas a] idéia econômica de renda territorial, que o Sr. Dühring deve explicar, é singelamente traduzida em linguagem jurídica, de maneira que não avançamos um palmo. Nosso construtor de alicerces profundos é, portanto, obrigado a entregar-se, por bem ou por mal, a excessos de explicações.”

n[est]a teoria da renda territorial não se distingue especialmente o caso em que um homem explora, ele próprio, a sua terra, e não se dá muita importância à diferença quantitativa que existe entre uma renda percebida sob a forma de arrendamento e uma renda produzida por aquele mesmo que a aufere.”

Onde existam explorações consideráveis, ver-se-á facilmente que não se poderia considerar o ganho específico do arrendatário como uma espécie de salário de seu trabalho: esse lucro, com efeito, surge em oposição à força de trabalho agrícola, cuja exploração torna, por si mesma, possível essa espécie de renda. É evidentemente ‘uma fração de renda’ que fica nas mãos do arrendatário e torna menor a ‘renda integral’ que o proprietário receberia caso explorasse por conta própria a terra.

A teoria da renda territorial é uma parte da economia política especificamente inglesa e devia sê-lo, pois é somente na Inglaterra que existe um modo de produção em que a renda se separa efetivamente do lucro e dos juros. Na Inglaterra, como se sabe, dominam o latifúndio e a grande agricultura. Os proprietários territoriais arrendam suas terras, sob a forma, quase sempre, de grandes domínios, a arrendatários providos de capital suficiente para explorá-las. Estes arrendatários não trabalham como os camponeses alemães, não passando de autênticos empreiteiros capitalistas, pois empregam o trabalho de assalariados. Temos aí, portanto, 3 classes da sociedade burguesa e a renda própria a cada uma delas: o latifundiário, que percebe a renda territorial; o capitalista, que embolsa o lucro; o trabalhador, que recebe o salário. Nunca um economista inglês se lembrou de fazer do ganho do arrendatário, como ‘parece’ ao Senhor Dühring, uma espécie de salário.”

“É verdadeiramente ridículo, com efeito, dizer que nunca se levantou com tanta precisão a questão de saber o que é, na verdade, o lucro do arrendatário. Na Inglaterra, não se tem mesmo necessidade de fazer semelhante pergunta, cuja resposta está dada há muito tempo pelos fatos e nenhuma dúvida houve, até hoje, nesse sentido, desde Adam Smith.

O caso em que o proprietário explora, ele mesmo, as suas terras, segundo considera o Sr. Dühring, ou melhor, como diríamos nós, a exploração por parte dos administradores, por conta do proprietário territorial, como acontece, às vezes, na Alemanha, em nada altera a questão. Quando o latifundiário fornece o capital e faz explorar a terra por sua própria conta, ele embolsa, além da renda territorial, o lucro do capital, como é inevitável no atual regime de produção.”

Um latifundiário que ‘também explora’ parte de suas próprias terras deveria receber, uma vez pagos os gastos de exploração, a renda do proprietário territorial [mas é ele! a renda que ele recebe está na forma de não pagar o arrendamento ao proprietário, ora bolas!] e o lucro do arrendatário. Entretanto, ele chamará de boa vontade, pelo menos na linguagem corrente, todo o seu ganho de lucro, confundindo assim renda com lucro. A maioria dos lavradores da América do Norte e das Índias Ocidentais está nesse caso: a maior parte cultiva suas propriedades e raramente ouvimos falar da renda de uma lavoura, e, sim, do lucro que ela dá … Um hortelão, que cultiva com suas mãos sua própria horta, é proprietário territorial, arrendatário [!!!] e operário assalariado ao mesmo tempo: o produto deveria, portanto, pagar-lhe a renda do primeiro, o lucro do segundo e o salário do terceiro; [HAHAHA!] entretanto, tudo passa ordinariamente como sendo produto de seu trabalho: desse modo, a renda e o lucro se confundem com o salário.” 

Riqueza das Nações, vol 1, cap. 6

o arrendatário ‘diminui’ a renda do latifundiário, isto é, que, no Senhor Dühring, não é como se havia até agora figurado, o arrendatário que ‘paga’ ao proprietário territorial, mas ‘proprietário territorial’ que paga ‘ao arrendatário uma renda’ – [!!!!] e eis aí ‘um ponto de vista eminentemente original’.” “o que o Senhor Dühring entende [verdadeiramente] como renda do solo: é todo o sobre-produto obtido, na agricultura, pela exploração do trabalho do camponês.” Mas o latifundiário exclusivo não possui a mão-de-obra, burro!

Assim, segundo o Senhor Dühring, a única diferença entre a renda territorial e o lucro do capital é que a 1ª se obtém na agricultura e a 2ª na indústria e no comércio.”

PARTE II. ECONOMIA POLÍTICA. CAPÍTULO X. SOBRE A “HISTÓRIA CRÍTICA”

Como a economia política, tal qual se manifestou na história, não é, de fato, senão o estudo científico do que é a economia do período de produção capitalista, não se podem encontrar proposições e teoremas que com ela se relacionem (p.ex., entre os escritores da sociedade grega antiga) senão na medida em que certos fenômenos, tais como a produção mercantil, o comércio, a moeda, o capital que rende juros, etc., são comuns às duas sociedades. Todas as vezes que os gregos incursionam ocasionalmente nesse domínio, demonstram o mesmo gênio e a mesma originalidade que nos outros. Seus pontos de vista são, pois, historicamente, os pontos de partida teóricos da ciência moderna.”

D. critica Aristóteles, o inventor dos termos valor de uso e valor de troca, dizendo que em sua época (a de D., claro) já não é mais necessária essa distinção!

Desdém e nada mais, é tudo o que Platão consegue do Senhor Dühring pela sua exposição – genial para seu tempo – da divisão do trabalho como base natural da cidade (sinônimo de Estado para os gregos), e isso porque ele (Platão) não menciona (mas o grego Xenofonte o faz, Senhor Dühring!) que o ‘limite que impõe toda a extensão do mercado à divisão ulterior dos ramos profissionais e a separação técnica das operações especiais … A noção desse limite é a primeira verificação pela qual uma idéia que, antes, se podia dificilmente classificar de científica, se torna uma verdade de importância econômica.’

não foi o mercado que criou a divisão capitalista do trabalho, mas que, inversamente, foi o desdobramento de unidades sociais anteriores, e a divisão do trabalho dele resultante, que criaram o mercado. (Ver O Capital, livro I, capítulo XXIV, 5: ‘Estabelecimento do mercado interior para o capital industrial’).”

O papel da moeda foi, em todos os tempos, a primeira incitação às idéias econômicas (!).¹ Mas que sabia um Aristóteles desse papel? Evidentemente nada que ultrapassasse a noção de que a troca, por meio da moeda, sucedeu à troca primitiva em espécie.”²

¹ A exclamação de Engels se deve a que o Sr. Dãring havia reputado a Marx, em outra página, o erro calamitoso de que ‘o capital surgia com a moeda’, discutido mais acima, sendo que Marx nunca dissera isso!

² “Descobriu” o movimento M-D-M / D-M-D de Marx! Hahaha!

Mas, quando um Aristóteles se permite descobrir as 2 ‘formas de circulação’ diferentes da moeda, uma em que ela aparece como simples instrumento de circulação, outra em que age como capital monetário, não faz, com isso, segundo o Senhor Dühring, ‘senão exprimir uma antipatia moral’.” “um Dühring prefere nada dizer, por motivos dele conhecidos, sobre essa impertinente audácia.”

Faremos melhor lendo o capítulo do Senhor Dühring sobre o mercantilismo, no ‘original’, isto é, em F. List, Sistema Nacional, capítulo XXIX: O sistema industrial, falsamente chamado de sistema mercantil.”

A Itália precedeu todas as nações modernas, na teoria como na prática da economia política (…) [a] primeira obra escrita na Itália, especialmente sobre economia política, o livro de Antonio Serra, napolitano, Sobre os meios de proporcionar aos reinos ouro e prata em abundância [ou Breve Trattato] (1613).”

List

O Senhor Dühring aceita isso sem hesitação e pode, em conseqüência, ‘considerar o livro de Serra como uma espécie de epígrafe à entrada da pré-história moderna, da economia’. (…) mas, infelizmente, as coisas se passaram na realidade de outro modo, pois, em 1609, 4 anos por conseguinte antes do Breve Trattato, apareceu A Dicourse of Trade, etc., de Tomas Mann. Essa obra teve, desde a sua primeira edição, a significação particular de ser dirigida contra o antigo ‘sistema monetário’, então ainda defendido como prática do Estado, na Inglaterra, e representa, portanto, a ‘emancipação’ conscientemente praticada pelo sistema mercantil do sistema que lhe tinha dado origem.” “Na edição de 1664, completamente refundida pelo autor e aparecida após a sua morte sob o título de England’s Treasure, etc. continuou sendo, por mais 100 anos ainda, o evangelho mercantilista. Se, pois, o mercantilismo possui um livro que fez época, ‘uma espécie de epígrafe à entrada’, é bem esse, que também não existe de maneira alguma para o Senhor Dühring e nem para sua ‘História’, que ‘observa com o maior cuidado as gradações hierárquicas da história’.”

Do fundador da economia política moderna, Petty, o Senhor Dühring nos diz que tinha uma quantidade ‘bem grande’ de pensamentos superficiais, que ‘não tinha o senso das distinções interiores e sutis entre os conceitos’ “Que extraordinária condescendência, esta do ‘pensador sério’, Senhor Dühring, consentindo em levar em conta ‘um Petty’! E de que maneira o leva em conta!”

No seu Treatise on Taxes and Contributions (1ªed. em 1662), Petty faz uma análise perfeitamente clara e exata sobre a grandeza do valor das mercadorias. Esclarecendo primeiramente, à luz da igualdade de valor entre os metais preciosos e os cereais que custam um trabalho igual, ele foi o primeiro a dizer a última palavra ‘da teoria’ sobre o valor dos metais preciosos, expondo com a mesma precisão o princípio geral de que os valores das mercadorias são medidos por um ‘trabalho igual’ (equal labor).” Naquela época, aparentemente, dizer que 1kg de chumbo pesava tanto quanto 1kg de alface ainda gerava muito rumor e polêmica…

entretanto, na construção e na aplicação prática do princípio do trabalho igual existe, eu o confesso, muita diversidade e complicação”

Petty, o modesto

Um trabalho de Petty, perfeitamente harmônico, é o seu Quantulumcumque [Concerning Money], publicado em 1682, 10 anos após sua Anatomy of Ireland (aparecida ‘pela primeira vez’ em 1672 e não em 1691, como escreve o Senhor Dühring, conforme as ‘compilações dos manuais mais correntes’). Os últimos traços de concepções mercantilistas, que se acham noutros escritos de Petty, desaparecem por completo nesta obra. É uma pequena obra-prima, no fundo e na forma, e é justamente por isso que não figura na lista do Senhor Dühring.”

O Senhor Dühring trata Petty, fundador da Aritmética Política, vulgarmente chamada estatística, como já havia tratado Petty pelos trabalhos propriamente econômicos. Dá de ombros, com ar zangado, diante da singularidade dos métodos grotescos que o próprio Lavoisier aplicava ainda, nesse domínio, 100 anos mais tarde: quando consideramos a distância que ainda separa a estatística atual do objetivo que Petty lhe traçara em linhas gerais, esse ar de superioridade suficiente, 2 séculos post festum, parece como uma tolice desmedida.”

Law imagina, pelo contrário, que um ‘acréscimo’ qualquer do número desses ‘pedaços de papel’ aumenta a riqueza de uma nação.”

SUCESSORES DE PETTY: “As duas obras, Considerations on Lowering of Interest and Raising of Money, de Locke, e os Discourses upon Trade, de North, apareceram no mesmo ano de 1691.”

DEFEITO DO TRATADO ECONÔMICO: ERA EMPÍRICO DEMAIS! “‘O que Locke escreveu sobre os juros e a moeda não sai do quadro das reflexões que eram habitualmente, sob o reino do mercantilismo, ligadas aos acontecimentos da vida política (pág. 64, da História Crítica de Dãring). O leitor poderá, agora, por intermédio desse verídico informe, compreender com absoluta clareza por que o Lowering of Interests, de Locke, exerceu sobre a economia política francesa e italiana da 2ª metade do século XVIII influência tão considerável, e efetivada em diversos sentidos.”

enquanto que Locke só admite com restrições a liberdade dos juros reclamada por Petty, North a aceita integralmente.”

O Senhor Dühring ultrapassa-se a si mesmo quando, mercantilista mais inflexível ainda, num sentido ‘mais sutil’fulmina os Discourses upon Trade de Dutley North, observando que são escritos ‘no sentido do livre-câmbio’. É como se disséssemos, de Harvey, que ele escreveu ‘no sentido da circulação do sangue’. [HAHAHA] A obra de North – sem falar de outros méritos que tem – é uma análise clássica, escrita com uma lógica rigorosa, da doutrina livre-cambista, referente ao comércio tanto exterior como interior, análise que, na verdade, no ano de 1691, representava ‘algo inaudito’.

De resto, o Senhor Dühring relata que North era um ‘traficante’ e, ainda por cima, um mau sujeito, e que seu livro ‘não podia ter êxito’. Ele teria feito melhor mostrando que tal obra teria ‘êxito’ no momento em que triunfava definitivamente o sistema protecionista na Inglaterra, pelo menos junto à turba que representava o elemento característico. Entretanto, isso não impediu sua ação teórica imediata, que se pôde mostrar em toda uma série de escritos econômicos aparecidos na Inglaterra, imediatamente depois dele, alguns ainda no século XVII.”

durante o período que vai de 1691 a 1752, impõem-se ao observador mais superficial, pelo simples fato de que todos os trabalhos econômicos importantes dessa época a eles se referem, para dar razão ou refutar Petty. Esse período, em que abundam os espíritos originais, é conseqüentemente o mais importante para o estudo da gênese e do gradual desenvolvimento da economia política. O ‘historiador em grande estilo’, censura a Marx, como uma falta imperdoável, o fato de, em O Capital, ter feito tanto barulho em torno de Petty e dos escritores desse período, simplesmente escamoteia a todos eles da história. De Locke, North, Boisguillebert e Law, ela salta imediatamente para os fisiocratas e, então, aparece nos umbrais do verdadeiro templo da economia política… David Hume. Com a permissão do Senhor Dühring, restabeleçamos a ordem cronológica e ponhamos Hume antes dos fisiocratas.

Os Ensaios econômicos de Hume apareceram em 1752. Nos 3 ensaios existentes – Of MoneyOf the Balance of TradeOf Commerce, Hume segue passo a passo, às vezes até em suas simples fantasias, um livro de Jacob VanderlintMoney answers all things, Londres, 1734. Por mais desconhecido que esse Vanderlint tivesse permanecido para o Senhor Dühring é ainda tomado em consideração nos livros ingleses de economia política do fim do século XVIII, isto é, no período que se segue a Adam Smith.”

HUME, CARENTE EM DIVERSAS SEARAS: “Como Vanderlint, Hume trata da moeda como simples signo do valor; copia quase palavra por palavra (e isso é importante, porque ele poderia ter tomado de empréstimo a muitas outras obras essa teoria da moeda como signo do valor), de Vanderlint, as passagens explicando por que a balança do comércio não pode ser constantemente favorável ou desfavorável a um país; ensina, como Vanderlint, a teoria do equilíbrio das balanças estabelecendo-se natural e respectivamente, segundo as diversas situações econômicas dos diferentes países; prega, como Vanderlint, o livre-câmbio de maneira apenas menos audaciosa e menos conseqüente; insiste, como Vanderlint, porém com menos vigor, sobre as necessidades como motivo da produção: segue Vanderlint no que se refere à falsa influência atribuída à moeda bancária e a todos os valores públicos sobre os preços das mercadorias; como Vanderlint, repele a moeda fiduciária; como Vanderlint, faz depender os preços das mercadorias do preço do trabalho, portanto, do salário; segue-o mesmo nessa fantasia de que o entesouramento faz baixar o preço das mercadorias, etc., etc.”

Nada passa por ser um indício mais certo da prosperidade de uma nação que o nível baixo da taxa de juros, e com razão; contudo, creio que a causa desse fato é um pouco diferente daquela que geralmente se admite.’ Como vêem, desde a 1ª frase, Hume aceita a idéia de que o nível da taxa de juros é o indício mais seguro da prosperidade de uma nação, como um lugar-comum que já em seu tempo se tornara banal. Efetivamente, depois de Child, essa ‘idéia’ teve, para se popularizar, uns bons 100 anos de vulgarização.”

num trecho (…) [Hume] leva mais longe o erro de Locke, segundo o qual os metais preciosos só teriam um ‘valor imaginário’, e o agrava dizendo que eles têm principalmente um ‘valor fictício’. Nesse ponto, Hume é bastante inferior, não somente a Petty, mas ainda a vários de seus contemporâneos ingleses. Ele mostra o mesmo espírito atrasado quando se obstina em exaltar o ‘comerciante’, à moda antiga, como o primeiro motivo da produção, ponto de vista que Petty há muito tempo superara.”

Cantillon, 1752 (alternativa muito superior a Hume, que publicou por essa época – com a diferença suplementar que aquele já havia morrido, isto é, suas publicações são post mortem)


Como era inevitável num escocês, a admiração de Hume pelo enriquecimento burguês está longe de ser puramente platônica. Nascido pobre, ele consegue obter um rendimento anual de milhares de libras, o que o Senhor Dühring, uma vez que não se trata mais de Petty, exprime engenhosamente da seguinte maneira: ‘Ele chegara, partindo de poucos recursos, graças a uma boa <economia doméstica>, a não precisar escrever para agradar a quem quer que seja’

Sem dúvida, não nos consta que Hume se tenha associado com um Wagner, (sic) para negócios literários:(*) mas sabe-se que Hume era um partidário infatigável da oligarquia whig, defensora ‘da Igreja e do Estado’;¹ e que, como recompensa de seus serviços, obteve, primeiro, o posto de secretário da embaixada em Paris, e, mais tarde, o cargo incomparavelmente mais importante e lucrativo de sub-secretário de Estado. ‘Do ponto de vista político, Hume era e continuou sempre conservador e estritamente monarquista. Por esse motivo, não foi excomungado com tamanha violência, como Gibbon, pelos partidários da Igreja estabelecida’, diz o velho Schlosser. ‘Hume, esse egoísta, esse historiador mentiroso – diz esse ‘rude’ plebeu Cobbet – que insulta os monges ingleses de gordos, de celibatários, de sem-família, vivendo da mendicidade, nunca teve nem família nem mulher e era, ele próprio, um latagão gordo e grande, excelentemente engraxado pelo dinheiro do Estado, sem o ter nunca merecido, por serviço algum, verdadeiro, prestado ao povo.’

(*) Alusão a uma obra de Dühring para Bismarck, por encomenda de Wagener, professor e conselheiro prussiano.”

¹ Assim como nos Estados Unidos, eis a ultra-esquerda dos britânicos!


Escola ‘fisiocrática’ deixou-nos, como se sabe, no Quadro econômico de Quesnay, um enigma, que, para os críticos e historiadores da economia política, tem sido de impossível decifração. Esse Quadro, destinado a fazer compreender claramente a concepção que tinham os fisiocratas da maneira pela qual se produz e circula o conjunto da riqueza de um país, permaneceu bastante obscuro para os economistas ulteriores.” “Segundo o próprio sr. Dühring confessa, não compreende o ABC da fisiocracia.”

Mas não queremos que o leitor fique, a respeito do Quadro de Quesnay, na mesma ignorância em que necessariamente se afundaram os que bebem a sua ciência econômica ‘de primeira mão’ no Senhor Dühring. Vejamos, em poucas palavras, de que se trata.

Sabe-se que, para os fisiocratas, a sociedade se divide em 3 classes: 1ª. a classe produtiva, isto é, a classe que realmente se ocupa da agricultura, os colonos e os trabalhadores rurais, cujo trabalho é produtivo porque fornece um excedente: a renda; 2ª. a classe que se apropria desse excedente que compreende os proprietários territoriais, os príncipes e toda a clientela que deles depende; de modo geral, os funcionários pagos pelo Estado e, inclusive, a Igreja, na sua qualidade particular de recebedora de dízimo (para abreviar, designaremos a 1ª classe simplesmente pelo nome de ‘colonos’ e a segunda pelo de ‘proprietários fundiários’): 3ª. a classe industrial, ou estéril (improdutiva), porque, segundo os fisiocratas, se limita a incorporar às matérias-primas fornecidas pela classe produtiva o necessário valor para compensar os víveres que esta própria classe consome. Quadro de Quesnay é feito para tornar sensível aos nossos olhos como o produto total de um país (na realidade, a França) circula entre essas 3 classes e serve para a reprodução anual.

Supõe-se, inicialmente, no Quadro, que o sistema de arrendamento, e com ele a grande agricultura, no sentido que essa palavra tinha no tempo de Quesnay, fôra introduzido por toda parte, na Normandia, na Picardia, na Ilha-de-França, e em algumas outras províncias francesas. Também o arrendatário é para ele o verdadeiro condutor da agricultura; representa no Quadro toda a classe produtiva (agrícola), [grande confusão: quando estes arrendatários deviam ser simplesmente os capitalistas do campo, i.e., a 3ª classe de Quesnay, sua antípoda – aqui são justamente os ‘operários’, que pagam diretamente a renda da terra aos ‘senhores feudais’, por assim dizer, da nobreza!] e paga ao proprietário territorial uma renda em dinheiro. [que Quesnay novamente confunde e põe na 2ª classe, eminentemente urbana, onde estão até os funcionários do Estado! – o abstrato colono é a única mão-de-obra que ele conhece, afinal.]

O ponto de partida do Quadro é a colheita total do país, a qual, por essa razão, figura no alto do Quadro como produto bruto anual do solo ou ‘reprodução total’ do país, ou seja, da França.” “Como dissemos, calcularam-se os preços constantes e a reprodução simples, [‘PIB cíclico’, ‘orçamento anual’] segundo uma taxa fixada de uma vez por todas: O valor em moeda dessa parte descontada, de antemão, é igual a 2 bilhões de libras. Esta parte não entra, pois, na circulação geral, porque, conforme já dissemos, a circulação que se efetua somente dentro de uma das classes não é registrada no Quadro.”

Sendo a renda total o ponto de partida do Quadro, constitui ao mesmo tempo o ponto terminal de um ano econômico, por exemplo, o ano de 1758, após o qual um novo ano econômico começa. (…) Mas esses movimentos sucessivos, e dispersos, que se estendem por todo um ano, são – como de qualquer maneira devia fazer-se no Quadro – reunidos num pequeno número de atos característicos, abrangendo cada um, de um só golpe, o ano inteiro. Assim, no fim do ano de 1758, a classe dos arrendatários viu refluir para ela o dinheiro que havia pago como renda aos proprietárias territoriais em 1757, ou seja, a soma de 2 bilhões de libras, de maneira que ela pôde lançar novamente essa soma na circulação de 1759 (…) os 2 bilhões de libras que se encontram nas mãos dos arrendatários ficam representando a soma total da moeda circulante da nação. [onde outros 8 bilhões, que somados a esses 2 são o produto bruto do solo da França, são apenas transações interclasse e não ‘entram’ no ‘orçamento’!]

A classe dos proprietários territoriais que vivem de suas rendas, apresenta-se, então, como ainda hoje várias vezes acontece, no seu papel de credora. Segundo a suposição de Quesnay, os proprietários territoriais propriamente ditos não recebem senão 4/7 dessa renda de 2 bilhões, pois 2/7 vão para o governo e 1/7 para os cobradores de dízimos. No tempo de Quesnay, a Igreja era o maior proprietário territorial da França e recebia, ainda por cima, o dízimo da propriedade territorial restante.” O dízimo que era bem mais de 10%!

Quanto aos múltiplos papéis que esses produtos desempenham na exploração das indústrias dessa classe [a 3ª], é coisa que não interessa ao quadro, assim como nele não interessa a circulação de mercadorias e de dinheiro, que se verifica dentro da sua própria órbita. O salário pago pelo trabalho, graças ao qual a classe estéril transforma as matérias-primas em produtos manufaturados, é igual ao valor dos meios de existência que ela recebe, diretamente, da classe produtiva e, indiretamente, dos proprietários territoriais. Se bem que a classe estéril se divida em capitalistas e trabalhadores assalariados, ela está, segundo a concepção fundamental de Quesnay, como classe em seu conjunto, a soldo da classe produtiva e dos proprietários territoriais. [confusão da porra!]

Supõe-se, portanto, que, no começo do movimento figurado pelo Quadro[1º dia do ano fiscal] a produção anual em mercadorias da classe estéril se encontra inteiramente em suas mãos, e, por conseguinte, todo o seu capital de exploração, ou seja, as matérias-primas no valor de 1 bilhão, é transformado em mercadorias, no valor de 2 bilhões, cuja metade representa o preço dos meios de existência consumidos durante essa transformação.” “não só a classe estéril consome, ela própria, uma parte dos seus produtos, como ainda procura reter o máximo que pode; ela vende, pois, suas mercadorias postas em circulação, acima do seu valor real, e é forçada a fazê-lo uma vez que incluímos essas mercadorias no valor total de sua produção. Isso, entretanto, não altera os dados estabelecidos pelo Quadro, porque as 2 outras classes só recebem, afinal de contas, as mercadorias manufaturadas pelo valor de sua produção total.”

A classe produtiva, após haver substituído, em espécie, o seu capital de produção, dispõe ainda de 3 bilhões de produto agrícola e de 2 bilhões de moeda. A classe dos proprietários territoriais só é aí mencionada pelo seu crédito de 2 bilhões de renda sobre a classe produtiva. A classe estéril dispõe de 2 bilhões de mercadorias manufaturadas. Os fisiocratas chamam circulação imperfeita àquela que se efetua apenas entre 2 dessas 3 classes: a circulação perfeita é a que se passa entre todas as 3.”

Primeira circulação (imperfeita). – Os arrendatários pagam aos proprietários territoriais, sem prestação recíproca, a renda que lhes corresponde, com 2 bilhões em dinheiro. Com 1 desses bilhões os proprietários territoriais compram, dos arrendatários, meios de subsistência, e assim receberam metade do dinheiro desembolsado para pagar a renda.

Em sua Análise do Quadro Econômico, Quesnay já não fala nem do Estado, que recebe 2/7, nem da Igreja, que recebe 1/7 da renda territorial, porque o papel social de um e de outra é universalmente conhecido. Mas, no que se refere à propriedade territorial, [os 4/7 dos rentistas] diz ele que os seus gastos, entre os quais também figuram todos os trabalhadores [!] são, pelo menos em sua maior parte, gastos improdutivos, com exceção da pequena parte que é destinada a ‘manter e a melhorar os seus bens e incrementar o cultivo da terra’.” A classe inútil subsidia a classe produtiva com todos os meios de produção, que ficam aglutinados entre eles (os colonos). Que sonho lisérgico!

Segunda circulação (perfeita). – Com o 2º bilhão em dinheiro, que se acha ainda em suas mãos, os proprietários territoriais compram produtos manufaturados à classe estéril; e, por outro lado, esta, com o dinheiro percebido, compra dos fazendeiros os meios de existência pela mesma soma.”

Terceira circulação (imperfeita). – Os fazendeiros compram à classe estéril, com 1 bilhão em moeda, mercadorias manufaturadas correspondentes à mesma soma; [está se referindo à despesa da 2ª circulação, certo? pois do contrário, não tem sequer esse 1bi!] grande parte dessas mercadorias consiste em instrumentos agrícolas e outros meios de produção necessários ao cultivo da terra. A classe estéril restitui aos fazendeiros o mesmo dinheiro, comprando 1 bilhão de matérias-primas destinadas a substituir seu próprio capital de exploração[Sim, estamos apenas repetindo a 2ª circulação até aqui! Que inútil!] Assim, os arrendatários recuperam os 2bi em dinheiro por eles desembolsado para pagamento da renda. Desse modo, fica resolvido o grande enigma‘Que vem a ser, na circulação econômica, o produto líquido apropriado sob forma de renda?’.” Na verdade um nada, já que as riquezas são pré-históricas a este sistema maluco! Tudo isso é apenas um sistema solar em seu grande ano… Mas ainda tem mais, que tortura!:

No começo do processo, encontramos entre as mãos da classe produtiva um excedente de 3 bilhões. Deles, somente 2 foram pagos como produto líquido aos proprietários territoriais, sob forma de renda. O 3º bilhão excedente constitui os juros do capital total invertido pelos arrendatários, isto é, para 10 bilhões, 10%; estes juros – frisemo-lo bem – eles não os adquirem em virtude da circulação: acham-se em espécie em suas mãos, e a circulação nada mais faz que realizá-los, transformando-os, por esse meio, em mercadorias manufaturadas de valor igual.

Sem estes juros, o arrendatário, que é o agente principal da agricultura, não fará a ela o adiantamento do capital de estabelecimento. Esta já é uma razão para os fisiocratas pensarem que a apropriação pelo arrendatário da parte do sobre-produto agrícola que representa os juros, é uma condição tão necessária como a própria existência de uma classe de arrendatários; [a mais-valia é boa – e aliás é até NULA no final!] e esse elemento não pode, em conseqüência, ser incluído na categoria de ‘produto líquido’ ou ‘rendimento líquido’ nacional, nem pode ser consumido sem nenhuma consideração para com as necessidades imediatas da reprodução nacional.”


O sistema de Ricardo é um sistema de discórdia … nada mais faz do que provocar o ódio entre as classes … seu livro é o manual do demagogo que se esforça por ir ao poder, através da divisão das terras, da guerra e do saque”

Carey


tudo é o resultado da ‘violência’: maneira esta de falar com a qual, há séculos, os filisteus de todas as nações se consolam de tudo que lhes acontece de desagradável, e que nada nos ensina.”

PARTE III. SOCIALISMO. CAPÍTULO ÚLTIMO. TRAÇOS HISTÓRICOS

Contrato social de Rousseau tomaria corpo no regime do Terror e, fugindo dele e desconfiando já de seus próprios dons políticos, a burguesia foi refugiar-se, primeiro, na corrupção do Diretório e, por fim, sob a égide do despotismo napoleônico. A prometida paz eterna transformara-se numa interminável guerra de conquistas. A sociedade da razão também não teve melhor sorte. O antagonismo entre pobres e ricos, longe de desaparecer no bem-estar geral, aguçara-se ainda mais, com o desaparecimento dos privilégios feudais e outros, que o atenuavam, e dos estabelecimentos de beneficência, que mitigavam um pouco o contraste da desigualdade.”

privilégio da 1ª noite nupcial passou do senhor feudal para o fabricante burguês. A prostituição desenvolveu-se em proporções inauditas. O casamento continuou sendo o que já era: a forma sancionada pela lei, o manto oficial com que se cobria a prostituição seguida de uma abundância complementar de adultério. Numa palavra, comparadas com as brilhantes promessas dos racionalistas, as instituições políticas e sociais, instauradas pela ‘vitória da razão’, deram como resultados umas tristes e decepcionantes caricaturas. Só faltava mesmo que os homens pusessem em relevo o seu desengano. Esses homens surgiram nos primeiros anos do século XIX. Em 1802, foram publicadas as Cartas genebrinas de Saint-Simon; em 1808, Fourier editou o seu 1º livro, embora as bases da sua teoria já datassem de 1799; em 1º de janeiro de 1800, Robert Owen assumiu a direção da empresa de New Lanark.” “A grande indústria, que, na Inglaterra acabava de nascer, era inteiramente desconhecida na França.”

Se as massas desprotegidas de Paris conseguiram apossar-se, por algum tempo, do poder, durante o regime do Terror, foi somente para demonstrar até que ponto era impossível manter esse poder nas condições da época. O proletariado, que começava a destacar-se, no seio dessas massas desprotegidas, como tronco de uma classe nova, mas ainda incapaz de desenvolver uma ação política própria, não representava mais do que um setor oprimido, castigado, ao qual, em sua incapacidade para valer-se a si mesmo, teria que ser dada ajuda de fora, do alto, se possível.”

A sociedade não continha senão males, que a razão pensante era chamada a remediar. Tratava-se de descobrir um novo sistema, mais perfeito, de ordem social, a fim de impô-lo à sociedade, de fora para dentro, por meio da propaganda, e, se possível, pregando-o com o exemplo, mediante experiências que servissem de modelos de conduta. Esses novos sistemas sociais nasciam condenados a mover-se no reino da utopia; quanto mais detalhados e minuciosos mais haveriam de degenerar, forçosamente, em puras fantasias.

Baseados nisso, não há razão para nos determos nem um momento mais nesse aspecto já definitivamente incorporado ao passado. Deixemos que os trapeiros literários do tipo do Sr. Dühring revolvam solenemente estas fantasias, que hoje provocam riso, para salientar sobre esse ‘fundo’ a seriedade e a respeitabilidade do seu próprio sistema.”

Essa burguesia soube, além disso, aproveitar-se da revolução para enriquecer-se rapidamente, especulando com os bens confiscados e, em seguida, vendidos, da aristocracia e da Igreja, e enganando a nação por meio dos fornecimentos ao exército. Foi precisamente o governo desses especuladores que, sob o Diretório, levou a França e a revolução à beira da ruína, proporcionando a Napoleão o pretexto que desejava para o seu golpe de Estado.”

E esses mesmos burgueses, segundo as concepções de Saint-Simon, haveriam de transformar-se numa espécie de funcionários públicos, de agentes sociais, mas conservariam, sempre, diante dos operários, uma posição autoritária e economicamente privilegiada. Os banqueiros, principalmente, seriam chamados a regular toda a produção social por meio de uma regulamentação de crédito. Esse modo de conceber a sociedade correspondia perfeitamente a uma época em que a grande indústria e, com ela, o antagonismo entre a burguesia e o proletariado, começava a despontar na França.” “Mas, o conceber a Revolução Francesa como uma luta de classes entre a nobreza, a burguesia e os desprotegidos era um descobrimento verdadeiramente genial para o ano de 1802. Em 1818, Saint-Simon declara que a política é a ciência da produção e prediz a total absorção da política pela economia. E se aqui não se faz mais do que apontar a consciência de que a situação econômica é a base das instituições políticas, proclama-se já, claramente, a futura transformação do governo político sobre os homens numa gestão administrativa sobre as coisas e no governo direto sobre os processos da produção que não é nem mais, nem menos do que a idéia da abolição do Estado, que tanto ruído levanta hoje.”

Fourier não é apenas um crítico; seu espírito sutil e engenhoso torna-o satírico – um dos maiores satíricos de todos os tempos. A loucura da especulação, que se acentua com o refluxo da onda revolucionária, e a mesquinhez do comércio francês daqueles anos aparecem desenhados em sua obra com traços maravilhosos e cativantes.” “Fourier é o 1º a proclamar que o grau de emancipação da mulher numa sociedade é o barômetro natural pelo qual se mede a emancipação geral.” “Como se vê, Fourier maneja a dialética com a mesma mestria de seu contemporâneo Hegel. Diante dos que se empavonam falando da ilimitada capacidade humana de perfeição, salienta, com a mesma dialética, que toda fase histórica tem, ao mesmo tempo, um lado ascendente e outro descendente e projeta esta concepção sobre o futuro de toda a humanidade. E, assim como Kant proclama, na ciência da natureza, o futuro desaparecimento da Terra, Fourier proclama, na ciência histórica, a extinção futura da humanidade.”

O ritmo lento do período da manufatura transformou-se numa marcha verdadeiramente vertiginosa de produção. Com uma velocidade cada vez mais acelerada ia-se operando a divisão da sociedade em 2 campos: os grandes capitalistas e os proletários, entre os quais já não ficava encravada a antiga classe média, com sua estabilidade, mas, ao contrário, oscilava, levando vida insegura, uma massa instável de artesãos e pequenos comerciantes, a parte mais flutuante da população.” “Nestas circunstâncias, surge como reformador um industrial de 29 anos, um homem cuja pureza infantil atingia o sublime, e que era, ao mesmo tempo, um inato condutor de homens, como poucos. Robert Owen assimilara os ensinamentos dos materialistas do racionalismo, segundo os quais, se o caráter do homem é por um lado o produto de sua organização inata, é, por outro, o fruto das circunstâncias que o rodeiam durante sua vida, e, principalmente, durante o período de seu desenvolvimento.”

Já em Manchester, dirigindo uma fábrica de mais de 500 trabalhadores, tentara, não sem êxito, pôr em prática sua teoria: de 1800 a 1829, conduziu, no mesmo sentido, embora com muito mais liberdade de iniciativa e com um êxito que lhe valeu fama européia, a grande fábrica de fios de algodão de New Lanark, na Escócia, da qual era sócio e gerente. Uma população operária, que foi crescendo até chegar a 2500 indivíduos, recrutada entre os elementos mais heterogêneos, a maioria dos quais sem qualquer princípio moral, converteu-se, em suas mãos, numa perfeita colônia-modelo, na qual não se conhecem a embriaguez, a polícia, o cárcere, os processos, os pobres nem a beneficência pública. Para isso, bastou-lhe colocar os seus trabalhadores em condições humanas de vida, dedicando um cuidado especial à educação de seus descendentes. Owen foi o inventor dos jardins-de-infância, que funcionaram, pela 1ª vez, em New Lanark. As crianças, já aos 2 anos de idade, eram enviadas à escola e nela se sentiam tão satisfeitas, com os seus jogos e diversões, que não havia quem de lá as tirasse. Ao passo que, nas outras fábricas que lhe faziam concorrência, a duração do trabalho era de 13 e 14h por dia, a jornada em New Lanark era de 10h30. Ao estalar uma crise algodoeira, que o obrigou a fechar a fábrica durante 4 meses, os trabalhadores de New Lanark continuaram percebendo integralmente os seus salários. E, apesar disso, a empresa duplicou seu capital e deu, até o último dia, grandes lucros a seus sócios.

Owen, porém, não estava satisfeito com o que conseguira. A existência que proporcionara a seus operários estava, segundo ele, ainda muito longe de ser uma existência humana

Para onde irá a diferença entre a riqueza consumida por estas 2500 criaturas e a que teriam que consumir as 600 mil de outrora? [pré-revolução industrial] A resposta não era difícil. Essa diferença destinava-se a abonar aos sócios da empresa os 5% de juros do capital de estabelecimento, o que importava em 300 mil libras esterlinas de lucros.”

A ela, portanto, deviam pertencer os seus frutos. As novas e gigantescas forças produtivas que, até então, só haviam servido para enriquecer uma minoria e para a escravização das massas lançava, na opinião de Owen, os alicerces de uma nova estrutura social e estavam destinadas a trabalhar apenas para o bem-estar geral, como propriedade coletiva de todos os membros da sociedade.

E foi assim, por este caminho puramente industrial, como um fruto, por assim dizer, dos cálculos de um homem de negócios, que surgiu o comunismo oweniano, que conservou sempre este mesmo caráter prático. Em 1823, Owen propõe a criação de um sistema de colônias comunistas para combater a miséria irlandesa e apresenta, em favor de sua proposta, um orçamento completo de instalação, despesas anuais e receitas prováveis. E, em seus planos definitivos do futuro, as minúcias técnicas do assunto estão calculadas com tal conhecimento da matéria, que, aceito o método oweniano da reforma da sociedade, pouca coisa se lhe poderia objetar, mesmo um técnico muito competente quanto aos pormenores da organização.

Ao abraçar o comunismo, a vida de Owen transformou-se radicalmente. Enquanto se limitara a agir como filantropo, colheu riquezas, aplausos, honrarias e fama. Era o homem mais popular da Europa. (…) Mas, quando formulou suas teorias comunistas, a coisa mudou de aspecto. Segundo ele, os grandes obstáculos que se antepunham à reforma social eram, principalmente, 3: a propriedade privada, a religião e a forma atual do matrimônio. E não ignorava o perigo que corria combatendo-os. Nem podia ignorar que lhe estavam reservadas a condenação geral da sociedade oficial e a perda da posição que nela ocupava. Mas essa consideração não o deteve em seus impiedosos ataques àquelas instituições. E ocorreu o que estava previsto. Alijado da sociedade oficial, ignorado pela imprensa, arruinado por suas malogradas experimentações comunistas na América – às quais sacrificou toda a sua fortuna –, entregou-se diretamente à classe trabalhadora, no seio da qual ainda agiu durante 30 anos. Todos os movimentos sociais, todos os melhoramentos reais tentados pela Inglaterra em prol da classe trabalhadora estão associados ao nome de Owen. Assim, por exemplo, em 1819, depois de 5 anos de lutas, conseguiu que fosse promulgada a 1ª lei regulamentadora do trabalho da mulher e dos menores nas fábricas. Foi ele, também, quem presidiu o primeiro congresso em que os sindicatos de toda a Inglaterra se fundiram num grande e único sindicato. E foi também ele quem implantou, como medida de transição, até que a sociedade pudesse, na sua totalidade, organizar, comunisticamente, 2 espécies de organismos: as cooperativas de consumo e de produção, que, pelo menos, mostram praticamente a inutilidade do comerciante e do fabricante, e os bazares operários, estabelecimentos em que se trocavam os produtos do trabalho por bônus de trabalho, que fazem as vezes do papel-moeda e cuja unidade é a hora de trabalho despendido. Estabelecimentos necessariamente fadados ao fracasso, mas que superam os bancos proudhonianos de intercâmbio, muito posteriores, diferenciando-se destes principalmente porque não pretendem servir de panacéia universal para todos os males sociais, mas são, pura e simplesmente, um 1º passo para a transformação radical da sociedade.”

São estes os homens que o olímpico Senhor Dühring contempla dos cimos de sua ‘verdade absoluta e de última instância’ com o desprezo que salientamos na Introdução.”

E, no que se refere a Robert Owen, para escrever as 12 páginas que lhe consagra, não teve outra fonte de informação senão a mísera bibliografia de Sargant, um filisteu que também não conhecia as obras mais importantes de Owen: as relativas ao matrimônio e à organização comunista da sociedade. Essa ignorância permite ao Senhor Dühring lançar intrepidamente a afirmativa de que não há base para ‘pressupor’ em Owen um ‘comunismo decidido’. Se houvesse tido em suas mãos o seu Book of the New Moral World, não só teria visto afirmado nele o mais definido comunismo, com o dever geral de trabalhar e o direito de participar eqüitativamente do produto do trabalho – eqüidade dentro de cada idade, como Owen salienta sempre –, como também, perfeitamente esboçado, o edifício da sociedade comunista do futuro, com os seus planos, a sua planta e a sua perspectiva.”

O Sr. Dühring não é mais do que um epígono dos utopistas, o último dos utopistas, ele que, por toda parte, vê apenas epígonos.”

a luta entre as 2 classes, criada pelo regime atual de produção e continuamente renovada, em antagonismo cada vez mais acentuado, invadiu todos os países civilizados, tornando-se cada dia mais violenta; já temos hoje consciência de seu encadeamento histórico e podemos penetrar nas condições da transformação social, que se torna inevitável, como podemos predizer igualmente as linhas gerais dessa transformação, condicionada também por ela própria.”

1841: THE WORLD-HISTORIC SPLIT IN WESTERN PHILOSOPHY – Andy Blunden

The 10 years after Hegel’s death were the apogee of Hegelianism. His students, who had lived under the master’s spell during his lifetime, went out and popularised his teachings and translated them into the language of politics – or much more correctly, translated politics into the language of Hegelianism.

In 1841, the establishment deliberatively moved to ‘expunge the dragon’s seed of Hegelian pantheism’ from the minds of Prussian youth. A newly-appointed Minister for Culture mobilised Friedrich Schelling to come to Berlin and do the job. Friedrich Schelling was the second, and in 1841, the only living representative of Classical German Philosophy. The former Professor of Philosopher at Jena after Fichte’s dismissal for heresy, who as a youth had been a close friend of Hegel, had both encouraged Hegel and enlisted his support in his struggle against Fichte.”

Two old friends of younger days, room mates at the Tübingen theological seminary, are after 40 years meeting each other again face to face as opponents; one of them 10 years dead but more alive than ever in his pupils; the other, as the latter say, intellectually dead for 3 decades, but now suddenly claiming for himself the full power and authority of life. Anybody who is sufficiently ‘impartial’ to profess himself equally alien to both, that is, to be no Hegelian, for surely nobody can as yet declare himself on the side of Schelling after the few words he has said – anybody then, who possesses this vaunted advantage of ‘impartiality’ will see in the declaration of Hegel’s death pronounced by Schelling’s appearance in Berlin, the vengeance of the gods for the declaration of Schelling’s death which Hegel himself pronounced in his time” Engels, Schelling on Hegel, December 1841

Old doctors and ecclesiastics, the jubilee of whose matriculation can soon be celebrated feel the long-forgotten student haunting their minds again and are back in college. Judaism and Islam want to see what Christian revelation is all about: German, French, English, Hungarian, Polish, Russian, modern Greek and Turkish, one can hear them all spoken together – then the signal for silence sounds and Schelling mounts the rostrum. [púlpito]”

The audience also included the Russian anarchist, Mikhail Bakunin, and Søren Kierkegaard, who was to be the founder of Existentialism. Schelling’s proposition was that Hegel had confused ‘essence’ and ‘existence’, and what was required was a return to a philosophy of existence. Kierkegaard ridiculed Hegel for ‘reconstructing’ history in retrospect, ‘but history has to be lived forwards, not backwards’. For his part, Engels insisted that the youth and all enemies of the autocracy must rally to the defence of Hegel. He characterised Schelling’s proposition as a ‘philosophy of revelation’, or ‘positivism’ (as opposed to the ‘negative’ standpoint of Reason).

Schelling did not, as it turned out, win much support for his position, but the young Danish theologian Kierkegaard, declaring the bankruptcy of Reason, can be seen as the founder of Existentialism, which is continued through Friedrich Nietzsche, Edmund Husserl, Martin Heidegger and through Heidegger is a significant component of today’s philosophical cloudscape.” Um tanto simplificador, mas ok.

Arthur Schopenhauer, who had taught at the University of Berlin for 24 semesters, and had spoken regularly to an empty lecture hall, next door and at the same hour when Hegel lectured to a large and ever-growing audience, renounced, in May 1825, his career to live as a recluse. In 1844, an obscure Berlin bookseller accepted the manuscript of Schopenhauer’s oft-rejected The World as Will and Idea without remuneration; and this book (…) gained Schopenhauer worldwide recognition”

The emergence of labour as a conscious social force puts a final end to the classical period of bourgeois epistemology. The explosion of 1841 anticipates this explosion and the irreversible sea-change which follows. ‘Nature’ has spoken. For bourgeois philosophy prior to this time, the labouring masses (or what the post-moderns call the ‘sub-altern’ – the ‘congregation’ who get spoken of and to, but have themselves no right to speak) were like Nature, something ‘beyond sensation’, the unconscious.”

The figures who launch the initial attack on Hegel, Feuerbach and Schelling, did not gather around them a substantial and lasting following. John Stuart Mill and Auguste Comte were already well-known by the end of the 1830s, and as it turns out, the principal figures of the first period immediately following 1841 are Mill, Comte and later Herbert Spencer (Positivists), Søren Kierkegaard and Arthur Schopenhauer (the precursors to Existentialism), the Anarchist Mikhail Bakunin and Communists Karl Marx and Frederick Engels.” “Despite the mutual hostility which is a professional prerequisite and despite the political diversity within each camp, we have on the one hand, the ‘sociologists’ Comte, Mill and Spencer, and on the other hand, the ‘psychologists’ Kierkegaard and Schopenhauer.”

The problem is that Comte’s solution (which was probably the dominant one) led to a further shattering of the unity of human labour, with 1,001 ‘specialists’ beavering away in their own little area. Thus, the great synthesis which Hegel achieved, albeit idealistically, was lost on the very people who most needed it.”

[Kierkegaard’s] whole thing about moods is a knife aimed at the whole basis of Logic, [and] ‘Rationalism’” “Kierkegaard goes on to say that Ethics is also not the correct science to deal with sin as ‘Ethics is after all an ideal science, … Ethics bring ideality into reality; on the other hand its movement is not designed to raise reality up into ideality.’ So it is only ‘dogmatics’, i.e. Christian dogma, which is capable of dealing with sin: ‘While psychology is fathoming the real possibility of sin, dogmatics explains original sin, which is the ideal possibility of sin’.”

Schopenhauer’s philosophy is (…) given the name of Voluntarism, seeking to resolve the scepticism of Kant by identifying the thing-in-itself with Will (rather than Ego as with Fichte or Nature as in the earlier Schelling).” “However, within of the secular religious mentality of classical epistemology, this subjective idealism is invariably reactionary in its political implications because it belittles the creative function of labour and promotes the unrestricted action of the rulers.”

Both these tendencies have inspired and attracted the political right, and there is certainly nothing progressive or optimistic about them. Both were religious but non-conformist, Kierkegaard a devout Lutheran at war with the established Church, Schopenhauer a respectable German bourgeois, with a somewhat ‘New Age’ interest in Hinduism.”

The name of Irrationalism which we can attach to Existentialism and Voluntarism and to a certain extent also Pragmatism, should not be taken as a term of abuse.”

The period following the expurgation of Hegelianism in Germany has John Stuart Mill the leading figure of philosophy in Britain and Auguste Comte in France. Both were great synthesisers and reflected the scientific optimism of the bourgeoisie of their time, taking their inspiration from Kant and Hume, seemingly unmoved by either Hegelianism or its condemnation in Germany. Each, however, respond to the changed social conditions of Europe by the promotion of Ethics.” “Jeremy Bentham, renowned for his theories of prison reform, should properly be given credit as originator of Utilitarianism, but it was Mills that systematically elaborated the theory and did so in conjunction with political economy and his theoretical work on the foundations of the British political system.”

Comte was no democrat however. His notion of social organisation imitated the hierarchy and discipline of the Catholic church. From various Enlightenment philosophers he adopted the notion of historical progress, and from Saint-Simon he drew the need for a basic and unifying ‘sociology’ to explain existing social organisations and guide social planning for a better future.” “Both men [Comte & Mill] assisted in promoting women’s suffrage in the wake of the tragic death of the love of their life, and both were advocates of reform of various kinds within their own country.” “In these two ‘progressive’ bourgeois gentlemen, we see in classic form the national characteristics of British and French philosophy: Mill, an ethic based on the laws of the political economy of laissez faire capitalism, Comte, an ethic of the benign dictatorship of Reason based on laws of socio-historical formation of knowledge and belief.”

Human society was long, long ago shattered by the social division of labour, and the transcendence of this rupture is a long drawn out historical struggle. The mystical character of the process follows from the limitations imposed on professional thinkers under conditions where the real contact with Nature, real production and the real satisfaction of natural human needs is unspoken and unconscious because the producing class itself is silent.”

The period of transformation of bourgeois ideology we are looking at is the period, in Britain, from the publication of the People’s Charter in 1838 which continued up to the final Chartist demonstrations in 1848, the same year which saw the popular uprising in Paris in February, bringing down the July Monarchy, the rioting in Vienna which led to the fall of Metternich and the emancipation of the peasantry, the nationalist uprisings in Hungary, the movement for representative government in Germany and the publication of the Communist Manifesto, and leads up to the founding of the First International and The American Civil War in 1863 and the Paris Commune in 1871. The uprisings and revolutions of 1848 are all defeated but all in one way or another see many of their objectives achieved during the period of relative stability and prosperity which followed.”

The Origin of Species is not to be published until 1859, while the science of psychology is still embroiled in mysticism. Helmholtz formulates the law of conservation of energy in 1847 and his work on nerve signals and body heat during the 1850s cut the ground away from vitalism. The sciences of anthropology and sociology begin from this period.”

In a sense, one must give Comte his due: in declaring the end of the period of metaphysical speculation and the beginning of the period of natural scientific investigation with sociology at the centre, he stated with fair accuracy exactly what was taking place.”

British political economy and French social theory have the elements of the puzzle, but they cannot put it all together. The German bourgeoisie has suffered humiliating defeat at the hands of the Junkers, and German Idealism has been debunked.”

Revolutionary socialist ideology also developed in a struggle. Both theoretical anarchism and modern socialism sprung from the dissolution of the Young Hegelians and drew upon the whole of bourgeois culture. The struggle between Anarchism (Bakunin, Proudhon, and others) and Communism (Marx and Engels) was the principal axis of development of the workers’ movement throughout the next two generations including the First International, the Paris Commune and the Russian Revolution.”

AS OPINIÕES E AS CRENÇAS – Gustave Le Bon, 1911.

APRESENTAÇÃO (Nelson Jahr Garcia)

Dificilmente se poderia estudar temas como: teoria do conhecimento, ideologia, religiões, superstições, comportamento das massas, propaganda, persuasão sem estudar e se apoiar em Le Bon.” “É uma obra de incrível atualidade; talvez tenham conseguido aprofundá-la, superar ainda não.” Digamos que seja uma mescla de preciosidades muito relevantes em assuntos como a gênese das crenças com as pérolas mais grotescas sobre movimentos sociais!

LIVRO I. OS PROBLEMAS DA CRENÇA E DO CONHECIMENTO

1. OS CICLOS DA CRENÇA E DO CONHECIMENTO

O domínio da crença sempre pareceu repleto de mistérios. É por isso que os livros sobre as origens da crença são tão pouco numerosos, ao passo que são inúmeros os que se referem ao conhecimento.”

Aceitando a velha opinião de Descartes, os autores repetem que a crença é racional e voluntária. Um dos objetivos desta obra será precisamente mostrar que ela não é voluntária nem racional.”

Por que se observam, simultaneamente, em certos espíritos, ao lado de elevadíssima inteligência, superstições muito ingênuas? Por que é tão fraca a razão para modificar as nossas convicções sentimentais? Sem uma teoria da crença, essas questões e muitas outras ficam insolúveis.”

Se o problema da crença tem sido tão mal-compreendido pelos psicólogos e pelos historiadores, é porque eles têm tentado interpretar com os recursos da lógica racional fenômenos que ela jamais regeu. Veremos que todos os elementos da crença obedecem a regras lógicas muito seguras, porém inteiramente alheias às que são empregadas pelo sábio nas suas investigações.”

Tribos nômades, perdidas no fundo da Arábia, adotam uma religião que um iluminado lhes ensina, e graças a ela fundam, em menos de 50 anos, um império tão vasto quanto o de Alexandre, ilustrado por uma esplêndida manifestação de maravilhosos monumentos.

Poucos séculos antes, povos semibárbaros se convertiam à fé pregada por apóstolos que vinham de obscuros lugares da Galiléia, e sob a luz regeneradora dessa crença, o velho mundo desabava, substituído por uma civilização inteiramente nova, de que cada elemento permanece impregnado da lembrança do Deus que o originou.

Cerca de vinte séculos mais tarde, a antiga fé é abalada, estrelas luminosas surgem no céu do pensamento, um grande povo se subleva, pretendendo romper os elos do passado. A sua fé destruidora, porém possante, confere-lhe, a despeito da anarquia em que essa grande Revolução o submerge, a força necessária para dominar a Europa armada e atravessar vitoriosamente todas as suas capitais.”

Compreende-se, por exemplo, sem dificuldade, que o Cristianismo se haja propagado facilmente entre os escravos e todos os deserdados, aos quais prometia uma felicidade eterna. Mas, que forças secretas podiam determinar um cavalheiro romano, um personagem consular, a despojar-se dos seus bens e afrontar vergonhosos suplícios, para adotar uma religião nova e vedada pelas leis?”

Facilmente concebemos que Newton, Pascal, Descartes, vivendo num meio social saturado de certas convicções, sem discussão aí tenham admitido, como admitiam as leis inelutáveis da natureza. Mas como, nos nossos dias, em meios sobre os quais a ciência projeta tanta luz, não se acham essas mesmas crenças inteiramente desagregadas? Por que as vemos nós, quando por acaso se desagregam, originar outras ficções, maravilhosas, como prova a propagação das doutrinas ocultas, espirituais etc., entre sábios eminentes?”

Tudo quanto é aceito por um simples ato de fé deve ser qualificado de crença. Se a exatidão da crença é verificada mais tarde pela observação e a experiência, cessa de ser uma crença e torna-se um conhecimento.”

Um mistério é a alma ignorada das coisas.”

Claramente se qualifica a civilização, dando-lhe o nome da fé que a inspirou. Civilização búdica, civilização muçulmana, civilização cristã são designações muito justas, porquanto, ao tornar-se um centro de atração, a crença se transforma num centro de deformação.

As únicas verdadeiras revoluções são as que despertam as crenças fundamentais de um povo. Têm sido sempre muito raras. Ordinariamente, só o nome da convicção se transforma; a fé muda de objeto, mas nunca morre.

Não poderia morrer, pois a necessidade de crer constitui um elemento psicológico tão irredutível quanto o prazer ou a dor. A alma humana tem aversão à dúvida e à incerteza. O homem atravessa, por vezes, fases de ceticismo, mas nelas não se detém longamente; sente a ânsia de ser guiado por um credo religioso, político ou moral que o domine e lhe evite o esforço de pensar. Os dogmas, que se dissipam, são sempre substituídos. A razão nada pode contra essas indestrutíveis necessidades.

A idade moderna contém tanta fé quanto tiveram os séculos precedentes. Nos novos templos pregam-se dogmas, tão despóticos quanto os do passado, e eles contam fiéis igualmente numerosos. Os velhos credos religiosos que outrora escravizavam a multidão são substituídos por credos socialistas ou anarquistas, tão imperiosos e tão pouco racionais como aqueles, mas não dominam menos as almas. A igreja é substituída muitas vezes pela taverna, mas aos sermões dos agitadores místicos que aí são ouvidos atribui-se a mesma fé.” O problema: o pós-moderno matou o socialismo e o anarquismo, restou apenas o liberalismo de mãos dadas com a velha e boa religião ecumênica – absorveram a parte religiosa (durkheimiana) do social, e agora essa neo-crença dá sinais de ser realmente indestrutível…

A fé num dogma qualquer é, sem dúvida, de um modo geral, apenas uma ilusão. Cumpre, contudo, não a desdenhar. Graças à sua mágica pujança, o irreal torna-se mais forte do que o real. Uma crença aceita dá a um povo uma comunhão de pensamentos de que se originam a sua unidade e a sua força.”

As opiniões representam geralmente pequenas crenças, mais ou menos transitórias.”

Crença e conhecimento não são opostos, como parece crer o autor. O conhecimento é apenas a crença sedimentada, e ainda não erodida. Resquício positivista, embora seja bem mais cético do que Comte, por exemplo. Tampouco deixam as opiniões de ser conhecimentos – recém-nascidos, é verdade, fetos ou bebês num mundo de alto morticínio.

2. OS MÉTODOS DE ESTUDO DA PSICOLOGIA

O mais antigo método psicológico, o único praticado durante muito tempo, foi o que se denomina de introspecção. Encerrado no seu gabinete de estudos e ignorando voluntariamente o mundo exterior, o pensador refletia em si mesmo e com os resultados das suas meditações fabricava grossos volumes. Hoje, já não acham leitores.” EXCELENTE DESCRIÇÃO DO ERUDITO! PORÉM, os primeiros “psicólogos” eram homens que viviam ao ar livre e não sabiam o que era o papel…

Lady Macbeth é uma alucinada, Otelo um histero-epilético, Hamlet um alcoólico perseguido por fobias, o rei Lear um maníaco melancólico, vítima de loucura intermitente. Cumpre, aliás, reconhecer que, se todos esses ilustres personagens tivessem sido individualidades normais, ao invés de possuírem uma patologia alterada e instável, a literatura e a arte não teriam tido necessidade de ocupar-se deles.”

A psicologia dos animais, mesmo superiores, está ainda no começo. Para compreendê-los, cumpre examiná-los de muito perto, e a essa tarefa ninguém se entrega.

Facilmente aprenderíamos a adivinhá-los, contudo, mediante um exame atento. Consagrei outrora muitos anos à observação dos animais. Os resultados que colhi foram expostos numa memória sobre a psicologia do cavalo, publicada na Revue Philosophique. Dali deduzi regras novas para a educação desse animal. Essas pesquisas foram-me úteis quando redigi o meu livro atinente à Psicologia da Educação.” [!] Tentador, objeto curioso, mas eu não leria tal livro…

A enumeração precedente permite pressentir que nenhum dos métodos psicológicos clássicos, nem os inquéritos, nem a psicofísica, nem as localizações, nem a própria psicopatologia podem revelar a gênese e a evolução das opiniões e das crenças.”

Veremos ilustres físicos afirmarem que desdobraram seres vivos e viveram com fantasmas materializados; um célebre professor de filosofia evocar os mortos e conversar com eles; outro, não menos eminente, declarar que viu um guerreiro, armado de capacete, sair do corpo de uma mulher, com os seus órgãos completos, como provava o estado da sua circulação e o exame dos produtos da sua respiração.” As Paralógicas em Psicologia: desafiando Aristóteles!

Os mais eminentes psicólogos modernos, principalmente William James, viram-se forçados a reconhecer ‘a fragilidade de uma ciência que poreja a crítica metafísica por todas as suas articulações Ainda esperamos o primeiro clarão que deve penetrar na obscuridade das realidades psicológicas fundamentais’.” “a psicologia clássica não contém ‘uma única lei, uma só fórmula de que possamos deduzir uma consequência, como se deduz um efeito da sua causa’.”

LIVRO II. O TERRENO PSICOLÓGICO DAS OPINIÕES E DAS CRENÇAS

1. OS GRANDES FATORES DA ATIVIDADE DOS SERES: O PRAZER E A DOR

Prazer e dor (…) são efeitos, como os sintomas patológicos são as conseqüências de uma moléstia.” Bom, Le Bon! Esse é o caminho…

A fome é a dor mais temida; o amor, o prazer mais procurado, e pode-se repetir o que disse o grande poeta Schiller, isto é, que a máquina do mundo se sustenta pela fome e pelo amor.”

2. CARACTERES DESCONTÍNUOS DO PRAZER E DA DOR

O único prazer um pouco durável é o (…) desejo.”

O tique-taque do relógio mais ruidoso acaba, no fim de algum tempo, por não ser mais ouvido, e o moleiro não será despertado pelo ruído das rodas do seu moinho, mas pela sua parada.”

A felicidade paradisíaca sonhada pelos crentes deixaria logo de possuir atrativos (…) [em relação ao] inferno.”

A dor de hoje torna-se o prazer de amanhã e inversamente.”

O prazer do operário que bebe e vocifera na taverna sensivelmente difere do prazer do artista, do sábio, do inventor, do poeta, ao comporem as suas obras. O prazer de Newton, ao descobrir as leis da gravitação, foi, sem dúvida, mais vivo do que se ele houvesse herdado as numerosas mulheres do rei Salomão.”

Do pólipo aos homens, todos os seres são movidos pelo desejo. Inspira a vontade, que não pode existir sem ele, e depende da sua intensidade.” Por que separar vontade e desejo? Como que antecipando minha objeção: “Cumpre, no entanto, não confundir vontade e desejo, como fizeram muitos filósofos, tais como Condillac e Schopenhauer. Tudo quanto é querido é, evidentemente, desejado; mas desejamos muitas coisas que, sabemos, não podíamos querer.” Falta CLAREZA!

A vontade traduz deliberação, determinação e execução, estados de consciência que não se observam no desejo. O desejo estabelece a escala dos nossos valores, variável, aliás, com o tempo e as raças. O ideal de cada povo é a fórmula do seu desejo.” Mera questão de semântica. Não entendeu a Vontade schopenhaueriana-nietzschiana.

Não existindo em si mesmo o valor das coisas, ele é apenas determinado pelo desejo e proporcionalmente à intensidade desse desejo. A variável apreciação dos objetos de arte fornece desse fato uma prova diária.”

Somente o grande reformador Buda compreendeu que o desejo é o verdadeiro dominador das coisas, o fator da atividade dos seres. Para libertar a humanidade das suas misérias e conduzi-la ao perpétuo repouso ele tentou suprimir esse grande móvel das nossas ações. A sua lei submeteu milhões de homens, mas não subjugou o desejo.” Perigo: o budismo europeu!

Buda vs Realpolitik

A esperança é filha do desejo, mas não é o desejo.” “Toda gente deseja a fortuna, muito poucos a esperam. Os sábios desejam descobrir a causa primitiva dos fenômenos; eles não têm nenhuma esperança de consegui-lo.”

O desejo aproxima-se algumas vezes da esperança, a ponto de confundir-se com ela. Na roleta, eu desejo e espero ganhar.

A esperança é uma forma de prazer em expectativa que, na sua atual fase de espera, constitui uma satisfação freqüentemente maior do que o contentamento produzido pela sua realização.”

Ela constitui uma espécie de vara mágica que transforma tudo. Os reformadores nunca fizeram mais do que substituir uma esperança por outra.”

O hábito é o grande regulador da sensibilidade; ele determina a continuidade dos nossos atos, embota o prazer e a dor e nos familiariza com as fadigas e com os mais penosos esforços. O mineiro habitua-se tão bem à sua dura existência que dela se recorda saudoso quando a idade o obriga a abandoná-la e o condena a viver ao sol.”

A dificuldade para um povo consiste, primeiramente, em criar hábitos sociais, depois em não permanecer muito tempo neles. Quando o jugo dos hábitos pesou muito tempo num povo, ele só se liberta desse jugo por meio de revoluções violentas. O repouso na adaptação, em que o hábito consiste, não se deve prolongar.” Por que não?

Povos envelhecidos, [Europa] civilizações adiantadas, indivíduos idosos tendem a sofrer demasiado o jugo do costume, isto é, do hábito.”

A existência de um indivíduo ou de um povo ficaria instantaneamente paralisada se, por um poder sobrenatural, ele se visse subtraído à influência do hábito. É ele que diariamente nos dita o que devemos dizer, fazer e pensar.”

Não é o pensamento, mas a sensibilidade, que nos revela o nosso ‘eu’. Se dissesse: ‘Sinto, logo existo’ ao invés de: ‘Penso, logo existo’, Descartes estaria muito perto da verdade.”

Fornecem uma resposta segura à eterna pergunta tão repetida desde o Eclesiastes: por que tanto trabalho e tantos esforços, já que a morte nos espera e o nosso planeta se resfriará um dia?

Por quê? Porque o presente ignora o futuro e no presente a Natureza nos condena a procurar o prazer e evitar a dor.” Último homem (primeiro homem).

O operário, curvado sob o peso do trabalho, a irmã de caridade, a quem não repugna nenhuma chaga, o missionário torturado pelos selvagens, o sábio que procura a solução de um problema, o obscuro micróbio que se agita no fundo de uma gota d’água, todos obedecem aos mesmos estimulantes de atividade: o atrativo do prazer, o receio da dor.” Uma meia-verdade

Não poderíamos mesmo imaginar móveis diferentes desses. Só os nomes podem variar.” Sim, e o mais correto seria vontade de no lugar de prazer.

2. AS VARIAÇÕES DA SENSIBILIDADE COMO ELEMENTOS DA VIDA INDIVIDUAL E SOCIAL

Para que a sensação aumente em progressão aritmética, cumpre que a excitação cresça em proporção geométrica. Segundo Fechner, a sensação cresce segundo o logaritmo da excitação. Assim, para dobrar a sensação produzida por uma excitação, a de um instrumento de música, por exemplo, seria necessário decuplar o número dos instrumentos; para triplicá-la, dever-se-ia centuplicar esse número.”

A placa fotográfica pode, com uma ‘pose’ suficiente, reproduzir estrelas sempre invisíveis à vista desarmada, precisamente porque a retina não possui a propriedade de acumular as pequenas impressões.”

É vantajoso que assim seja. Se o organismo se achasse constituído de modo a acumular as pequenas dores, a vida tornar-se-ia logo insuportável.” Sobre um acidente de trem com 300 vítimas chocar muito mais que uma doença, por exemplo, que leve essas mesmas 300 pessoas no decorrer de um ano ou, para deixar o exemplo simétrico, 300 pessoas que morrem em acidentes individuais de trem no mesmo período alongado. Torna-se evidente que isso se aplica à pandemia: 400 mortos diários na Itália chocaram os brasileiros; 2 mil mortes diárias em solo nacional, pela centésima vez, 1 ano depois, já não têm o poder de chocar.

Certos fatores das opiniões podem igualmente limitar as oscilações da sensibilidade. Tal é o contágio mental, criador de maneiras susceptíveis de estabilizar um pouco a nossa mobilidade. As sensibilidades coletivas, momentaneamente fixas, traduzem-se, então, em obras diversas, que são o espelho de uma época.”

Comparai, por exemplo, os pesados desenhos de Daumier com esses sóbrios esboços modernos, em que só se guardou o traço saliente dos personagens, deixando à vista o cuidado de completá-los. Do mesmo modo, em literatura, as longas descrições de paisagens são hoje substituídas por algumas linhas breves, porém evocadoras.

Apurando-se, a sensibilidade se embota também. A música simples de Lulli, que encantava nossos pais, nos enfastia. As operações de há 50 anos nos parecem, na maioria, muito envelhecidas. A harmonia tem cada vez mais dominado a melodia, e agora é necessário, para excitar sensibilidades fatigadas, o emprego de certas dissonâncias que os antigos compositores teriam considerado como erros.

Só as obras de uma época, sobretudo, artísticas e literárias, permitem conhecer a sensibilidade dessa época e as suas variações.

É precisamente porque elas são a verdadeira expressão da sensibilidade de uma época que as obras de arte são facilmente datadas. Pela mesma razão, são muito mais instrutivas do que metódicos livros de história. O historiador julga o passado com a sua sensibilidade moderna. A sua interpretação, forçosamente falsa, pouco nos ensina. O menor conto, romance, quadro, monumento da época considerada, encerra um ensinamento mais exato e interessante.”

As sensibilidades não se transportam no espaço nem no tempo. Uma obra arquitetônica formada de uma mescla de elementos de épocas afastadas ou procedentes de raças diversas nos causará, necessariamente, má impressão, porque se origina de sensibilidades dissemelhantes da nossa.

Se, em virtude da evolução da nossa espécie, a nossa sensibilidade se transformasse, todas as obras do passado, as que são mais admiradas hoje: o Partenon, as catedrais góticas, os grandes poemas, as pinturas célebres, seriam consideradas como produções indignas de atrair a atenção.”

Bastaria que a educação persistisse na sua tendência atual especialista e técnica, e continuasse a rápida ascensão ao poder das multidões. Todas as formas da arte representam para elas apenas um luxo desprezível. A Comuna, expressão bastante fiel da alma popular, não hesitou em incendiar os mais belos monumentos de Paris, como a Municipalidade e as Tuileries. Unicamente por acaso o Louvre, com as suas coleções, escapou a esse vandalismo.”

Sem esses elementos de informação, fornecidos pela literatura e pela arte, a sensibilidade de uma época permaneceria tão ignorada quanto a dos habitantes de Júpiter.”

Uma nação sem ideal desaparece rapidamente da história.”

3. AS ESFERAS DAS ATIVIDADES VITAIS E PSICOLÓGICAS: A VIDA CONSCIENTE E A VIDA INCONSCIENTE

É errôneo deixar de lado o exame dos fenômenos vitais como fazem os psicólogos, que o abandonam aos fisiologistas.”

Os sentimentos só entram na consciência após uma elaboração automática praticada nessa obscuríssima zona do inconsciente, qualificada hoje de subconsciente e cuja exploração apenas se acha iniciada.”

MAIS PARA JUNG QUE PARA FREUD: “O inconsciente é em grande parte um resíduo ancestral. A sua força é devida à circunstância de ser o inconsciente a herança de uma longa série de gerações, a que cada uma juntou alguma coisa.

O seu papel, outrora ignorado, tornou-se tão preponderante hoje que certos filósofos, principalmente W. James e Bergson, nele procuraram a explicação da maior parte dos fenômenos psicológicos.”

A prática de um ofício ou de uma arte facilmente se exerce, desde que os dirija o inconsciente, educado de um modo satisfatório. Uma moral sólida é o inconsciente bem-educado.”

Acima do inconsciente orgânico vemos o inconsciente afetivo. É de formação mais recente, é um pouco menos estável, conquanto ainda o seja muito. Por isso, quando podemos mudar o assunto no qual se exercem os nossos sentimentos, a nossa ação nele influi de maneira muito fraca. No alto dessa escala acha-se o inconsciente intelectual, que muito tarde surgiu na história do mundo e não possui profundas raízes ancestrais. Ao passo que o inconsciente orgânico e o afetivo acabaram por criar instintos transmitidos pela hereditariedade, o inconsciente intelectual só se manifesta ainda sob a forma de predisposições e de tendências, e a educação deve completá-lo em cada geração.”

ANTI-JUSSARA PR*DO: “A educação influi grandemente no inconsciente intelectual, precisamente porque ele é menos fixo do que as outras formas do inconsciente. Ela exerce, ao contrário, uma influência diminuta nos sentimentos, que são os elementos fundamentais do nosso caráter, fixos desde muito tempo. O inconsciente afetivo é, freqüentemente, um dominador imperioso, indiferente às decisões da razão. É por isso que tantos homens, muito sensatos nos seus escritos e nos seus discursos, tornam-se, na sua maneira de proceder, simples autômatos, dizendo o que não queriam dizer e fazendo o que não queriam fazer.”

A educação, já disse em outro livro, é a arte de fazer passar o consciente para o inconsciente.”

A biologia moderna baniu, há muito tempo, e com razão, a finalidade do universo; os fatos ocorrem, no entanto, como se ela dominasse o seu encadeamento. Todas as nossas explicações racionais deixam a natureza repleta de manifestações impenetráveis. A julgar pelos seus resultados, poderia parecer que o inconsciente — forma moderna da finalidade — abriga gênios sutis, desejosos de cegar-nos, fazendo-nos sacrificar, incessantemente, os nossos interesses em favor da espécie. Os gênios da finalidade inconsciente são, sem dúvida, simples necessidades selecionadas que o tempo fixou.

Qualquer que seja a razão, o inconsciente muitas vezes nos domina e sempre nos cega. Não o lamentemos demasiado, porquanto uma clara visão da sorte futura tornaria a existência muito triste. O boi não comeria tranqüilamente a erva do caminho que o conduz ao matadouro, e os entes, na sua maioria, estremeceriam de horror perante o seu destino.”

4. O EU AFETIVO E O EU INTELECTUAL

PREFIGURAÇÕES DO FASCISMO: “Legiões de políticos quiseram assentar em raciocínios o que só se pode basear em sentimentos.”

Ilustres filósofos foram vítimas da mesma confusão entre a lógica afetiva e a lógica racional. Kant pretendia edificar a moral sobre a razão. Ora, entre as duas diversas origens, a razão quase nunca figura.”

qualquer ciência seria impossível se não tivéssemos aprendido a criar uma parte descontínua no contínuo.”

O eu afetivo, evolvendo a despeito da nossa vontade e muitas vezes contra nós, torna a vida cheia de contradições.” “Assim, não temos razão quando censuramos alguém por ter mudado. Essa censura subentende a idéia muito falsa de que a inteligência pode modificar um sentimento. Erro completo. Quando o amor, por exemplo, se torna indiferença ou antipatia, a inteligência assiste a essa mudança, mas não é ela que a causa. As razões que são imaginadas para explicar tais transformações não têm relação alguma com os seus verdadeiros motivos. Nós os ignoramos.”

Freqüentemente imagina-se sentir por uma pessoa uma dedicação profunda e sólida (amor, amizade); a ausência ou a necessidade de uma ruptura demonstra a real fragilidade dessa dedicação.” Ribot

É, pois, impossível, como justamente observa o mesmo autor, julgar com o eu intelectual a maneira de agir do eu afetivo.” “Todo o nosso sistema de educação latina é uma prova dessa asserção. A persuasão de que o desenvolvimento da inteligência pela instrução desenvolve também os sentimentos, cuja associação constitui o caráter, é um dos mais perigosos preconceitos da nossa Universidade. Os educadores ingleses sabem há muito tempo que a educação do caráter não se faz por meio dos livros.

Sendo distintos o eu afetivo e o eu intelectual, não pode surpreender que uma inteligência muito elevada coexista com um caráter muito baixo.” “[Como muito bem o demonstra] o ilustre chanceler Bacon. Nenhum homem do seu tempo possuiu uma inteligência mais elevada, mas muito poucos revelaram uma alma tão baixa. Começou, na esperança de obter um emprego da rainha Isabel, por trair o seu único benfeitor, o conde d’Essex, que foi decapitado. Teve de esperar, contudo, o reino de Thiago I [James? Que tradução escrota!], para conseguir, recomendado pelo duque de Buckingham, que ele igualmente logo traiu, o lugar de solicitor geral, depois o de chanceler. Revelou-se nesse ponto cortesão humilde e ladrão impudente. As suas concussões [corrupções ao Erário] foram de tal ordem que se tornou preciso processá-lo. Em vão tentou enternecer os seus juízes por uma humílima confissão escrita, na qual confessava as suas faltas e ‘renunciava a defender-se’. Foi condenado à perda de todos os postos que ocupava e à prisão perpétua.” O que Le Bon omite é que a sentença foi revogada depois de poucos dias, e a multa a que também havia sido condenado foi paga pelo rei! “Subsequently, the disgraced viscount devoted himself to study and writing.” Parece que foi para o nosso bem. Pelo verbete do Wikipédia, não está claro que ele tivesse uma personalidade tão sórdida!

Mas, voltando: premissa irretocável. Conclusão interessante, porém é a partir dela que eu e Le Bon discordamos. Não se trata de uma inteligência muito elevada, quando é esse o caso – apenas na aparência vulgar (ou que o sujeito seja um traste, isso é um engano, se for inteligente)! Popularmente se diz que a sabedoria é individualmente rara, e que o bom caráter é-o mais ainda, ou o contrário: o bom caráter raro, a sabedoria raríssima. Porém, quem avalia a ambos está distante das condições requeridas para fazer uma avaliação correta: ambos são raros em igual medida – assim que se depara com a verdadeira sabedoria, esbarra-se também com o verdadeiro e genuíno caráter elevado. Tão raro como se apresenta, ainda há aqueles que não são reconhecidos como tais em seu próprio tempo por ninguém. Homens sábios e bons (homens sábios; homens bons – é indiferente aqui a escolha do qualificativo) que passam incógnitos pelo mundo. Pode haver a “canonização” póstuma se este homem lega obras ou tem sorte o bastante.

Mme. de Stael observava que entre os alemães o sentimento e a inteligência ‘não têm aparentemente relação alguma; uma não pode admitir limites, o outro se submete a todos os jugos’.” Cada vez mais vejo citações de De Stael. Nação de filisteus: nenhum era realmente sábio, e os estouvados foram engolfados no – quando não autores do – fascismo. É paradoxal e contra-intuitivo, mas deve ser aceita a possibilidade de uma nação burra onde floresce a filosofia. Ademais, via de regra, todo povo é burro; a sabedoria e o bom caráter devem ser procurados sempre nos indivíduos singulares.

a inteligência, variando consideravelmente de um assunto para outro e, não sendo contagiosa como os sentimentos, nunca pode revestir uma forma coletiva. Os indivíduos de uma mesma raça possuem, ao contrário, certos sentimentos comuns, que facilmente se fundem quando se acham agrupados.” A busca pelos privilegiados cosmopolitas…

O eu afetivo constitui o elemento fundamental da personalidade. Mui lentamente elaborado por aquisições ancestrais, ele evolve nos indivíduos e nos povos muito menos depressa que a inteligência.”

Um sentimento primeiramente refreado torna-se preponderante numa época e domina de maneira mais ou menos durável os outros estados afetivos. O homem em sociedade vê-se certamente forçado a submeter os seus sentimentos às sucessivas necessidades que lhe são impostas pelas circunstâncias e, sobretudo, pelo ambiente social.”

A emoção é um sentimento espontâneo, mais ou menos efêmero. Nasce de um fenômeno súbito: acidente, anúncio de uma catástrofe, ameaça, injúria, etc. A cólera, o medo, o terror são emoções.

O sentimento representa um estado afetivo durável, como a bondade, a benevolência, etc.

A paixão é constituída por sentimentos que adquirem grande intensidade e podem momentaneamente anular outros: ódio, amor, etc.”

A transformação em sentimento ou em pensamento de um processo químico-orgânico é agora completamente inexplicável.

Os sentimentos e as emoções variam conforme o estado fisiológico da pessoa ou segundo a influência de diversos excitantes: café, álcool, etc.

O sentimento mais simples é sempre muito complexo; desde, porém, que se torna irredutível a outro pela análise, devemos, para facilidade da linguagem, tratá-lo como se fosse simples. Também o químico denomina corpos simples aqueles que ele não sabe decompor.

Os psicólogos referem-se, por vezes, a sentimentos intelectuais. ‘Esse termo’, diz Ribot, ‘designa estados afetivos agradáveis ou mistos, que acompanham o exercício das operações da inteligência’.

Eu não poderia admitir essa teoria, que confunde uma causa com o seu efeito. Um sentimento pode ser produzido por influências tão diversas quanto a ação de um alimento agradável ou a de uma descoberta científica, mas resta sempre um sentimento. Quando muito poder-se-ia dizer que as nossas idéias têm um equivalente emocional.”

Os psicólogos não conseguiram ainda definir nem classificar as paixões. Spinoza admitia três: o desejo, a alegria e a tristeza, das quais deduzia todas as outras. Descartes admitia seis primitivas: a admiração, o amor, o ódio, o desejo, a alegria e a tristeza. São, evidentemente, meras formas de linguagem que nada podem explicar e que não resistem à discussão.”

As paixões que duravam muito tempo são paixões que se reavivam, como, por exemplo, os ódios políticos.”

A inteligência só influi numa paixão quando a representação mental de um sentimento é oposta a outro. A luta existe, então, não entre representações intelectuais e representações afetivas, mas unicamente entre representações afetivas postas em presença pela inteligência.”

A memória dos sentimentos [memória afetiva] existe como a da inteligência, mas num grau muito menor. O tempo muito depressa a enfraquece.” Perfumes e canções como máquinas do tempo voláteis.

Na época em que os livros eram raros e custosos, por exemplo, no século XIII, os estudantes sabiam reter os cursos que lhes eram ditados. Atkinson assegura ‘que se os clássicos chineses viessem a ser hoje destruídos, mais de 1 milhão de chineses poderiam reconstituí-los de memória’.”

Um ódio que não se entretém não subsiste. O ódio dos alemães contra os franceses teria desaparecido desde muito tempo se os jornais germânicos não o atiçassem incessantemente.” Ódio intelectual a pobre, eis tudo que a elite brasileira lega uma geração após a outra… Retórica do intelectualismo mais bárbaro, entretanto.

A aversão que os holandeses votam aos ingleses, que outrora lhes tomaram as colônias, persiste somente porque fatos numerosos, principalmente a guerra contra os colonos holandeses do Transvaál, vêm reavivá-la, e porque a Holanda se julga sempre ameaçada.

A aliança russa e o acordo franco-inglês mostram com que rapidez povos, outrora inimigos, esquecem os ódios que não são alimentados. Quando a Inglaterra se tornou a nossa amiga, nós não nos achávamos longe da terrível humilhação de Fashoda [1898, símbolo do fim da era colonialista].”

Nas associações por semelhança, a impressão atual reaviva as impressões anteriores análogas. Nas associações por contigüidade, a impressão nova faz reviver outras, ressentidas ao mesmo tempo, mas sem analogia entre elas.”

5. OS ELEMENTOS DA PERSONALIDADE: COMBINAÇÕES DE SENTIMENTOS QUE FORMAM O CARÁTER

O caráter é constituído por um agregado de elementos afetivos aos quais se sobrepõem, mesclando-se muito pouco a eles, alguns elementos intelectuais. São sempre os primeiros que dão ao indivíduo a sua verdadeira personalidade.

Sendo numerosos os elementos afetivos, a sua associação formará os elementos variados: ativos, contemplativos apáticos, sensitivos, etc.

COMO UM GATO LÍQUIDO NUM RECIPIENTE: “Aos agregados sólidos correspondem às individualidades fortes, que se mantêm não obstante as variações de meio e de circunstâncias. Aos agregados mal-cimentados correspondem às mentalidades moles, incertas e mutáveis. Elas se modificariam a cada instante sob as influências mais insignificantes se certas necessidades da vida quotidiana não as orientassem, como as margens de um rio canalizam seu curso.

Por mais estável que seja o caráter, permanece sempre ligado, no entanto, ao estado dos nossos órgãos. Uma nevralgia, um reumatismo, uma perturbação intestinal, transformam o júbilo em melancolia, a bondade em maldade, a vontade em indolência. Napoleão, doente em Warteloo, já não era Napoleão. César, dispéptico, não teria, sem dúvida, transposto o Rubicon.”

Depois de uma conversão, o amor profano se tornará amor divino. O clerical fanático e perseguidor acabará, por vezes, como livre-pensador, igualmente fanático e não menos perseguidor.”

A TSUNAMI CHINESA VEM AÍ: “Admito facilmente, com Faguet, que a Europa, ao tornar-se pacifista, será conquistada ‘pelo último povo que permaneceu militar e ficou relativamente feudal’. Esse povo reduzirá os outros à escravidão e fará trabalhar em seu proveito pacifistas muito inteligentes, mas destituídos da energia que a vontade proporciona.” Interessante também notar como os europeus, nem mesmo na segunda década do século XX, enxergavam os Estados Unidos, tão auto-suficientes se crêem.

Cada povo possui caracteres coletivos, comuns à maioria dos seus membros, o que faz das diversas nações verdadeiras espécies psicológicas.”

Consideremos os ingleses, por exemplo. Os elementos que orientam a sua história podem ser resumidos em poucas linhas: culto do esforço persistente, que impede de recuar diante do obstáculo e de considerar uma desgraça como irremediável; respeito religioso dos costumes e de tudo o que é validado pelo tempo; necessidade de ação e desdém das vãs especulações do pensamento; desprezo da fraqueza, muito intensa compreensão do dever, vigilância de si mesmo julgada como qualidade essencial e entretida cuidadosamente por especial educação.

Certos defeitos de caráter, insuportáveis nos indivíduos, tornam-se virtudes quando são coletivos; por exemplo, o orgulho.” “A inquebrantável coragem dos japoneses, na sua última guerra, provinha de um orgulho idêntico.” Quebrar o orgulho em nível subatômico…

Desde que uma nação se convence da sua superioridade, ela leva ao máximo os esforços necessários para mantê-la. [ou conquistá-la, quando ela se convence de que é superior mas não o é; no entanto, seu esforço apenas acelerará sua própria decadência]”

COMMUNISM IS THE END, WINTER IT WILL SEND: “O amor da família, depois da tribo, da cidade e, enfim, da pátria são adaptações de um sentimento idêntico a agrupamentos diferentes, e não a criação de sentimentos novos. O internacionalismo e o pacifismo representam as últimas extensões desse mesmo sentimento.”

Há apenas um século, o patriotismo alemão era desconhecido, a Alemanha se achava dividida em províncias rivais. Se o pangermanismo atual constitui uma virtude, essa virtude é unicamente a extensão de sentimentos antigos a categorias novas de indivíduos.”

Para adquirir, por exemplo, um pouco — muito pouco — essa forma de altruísmo, qualificada de tolerância, foi preciso, disse justamente o Sr. Lavisse, ‘que morressem mártires por milhares em suplícios e o sangue corresse em ondas nos campos de batalha’.

É um grande perigo para um povo querer criar, por meio da razão, sentimentos contrários aos que a natureza lhe fixou na alma. Semelhante erro pesa sobre o povo desde a Revolução. Ele provocou o desenvolvimento do socialismo, que pretende mudar o curso natural das coisas e refazer a alma das nações.” O mundo pede a criação de um SOCIALISMO IRRACIONAL.

São poderosas essas influências econômicas. A difusão da propriedade, por exemplo, tem como conseqüência a diminuição da natalidade, pois surge o egoísmo familiar do proprietário, pouco desejoso de ver divididos os seus bens. Se todos os cidadãos de um país se tornassem proprietários, a população diminuiria provavelmente em enormes proporções.”

se, atualmente, o futuro se apresenta muito sombrio, é porque os sentimentos das classes populares tendem a sofrer uma nova orientação. Sob o impulso das ilusões socialistas, cada qual, do operário ao professor, se tornou descontente da sua sorte e persuadido de que merece outro destino. Todo o trabalhador julga-se explorado [correção: é explorado] pelas classes dirigentes e ambiciona apoderar-se das suas riquezas por meio de um golpe de força. No domínio do afetivo, as ilusões têm uma força que as torna muito perigosa, porque a razão não as influencia.” Sociologia de época. Não podia ir além dessa compreensão escrevendo nos 1910s… Ou podia, mas ainda era possível ser bem-intencionado e “liberal” ao mesmo tempo, ainda que a História estivesse galgando o caminho da desolação a passos de guepardo…

6. A DESAGREGAÇÃO DO CARÁTER E AS OSCILAÇÕES DA PERSONALIDADE

TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR: “A noção de equilíbrio entre o meio em que vivemos e os elementos que nos compõem é capital. Sem que seja absolutamente especial à psicologia, ela domina a química, a física e a biologia. Um ente qualquer, matéria bruta ou matéria viva, resulta de certo estado de equilíbrio entre ele e o seu meio. O primeiro não poderia mudar sem que logo se transformasse o segundo. Uma barra de aço rígida pode, sob a influência de uma modificação conveniente de meio, tornar-se um leve vapor.”

A diminuição de sensibilidade dos caracteres, no tocante à influência de certas ações exteriores por diversos processos, tem o nome, como se sabe, de imunização. O futuro estudo da patologia dos caracteres compreenderá também o da sua imunização.”

Vamos ver o que Le Bon oferece como contraponto (ou em concordância com a?) falida teoria da degenerescência. Provavelmente, ele apenas a ignora em toda a sua obra.

O verdadeiro homem de Estado possui a arte, ainda misteriosa, de saber modificar, se for necessário, o equilíbrio dos elementos do caráter nacional, fazendo predominar os elementos úteis nas necessidades do momento.”

É inútil objetar que a personalidade dos seres parece, em geral, bastante estável. Se ela nunca varia, com efeito, é porque o meio social permanece mais ou menos constante. Se subitamente esse meio se modifica, como em tempo de revolução, a personalidade de um mesmo indivíduo se poderá transformar inteiramente. Foi assim que se viram, durante o Terror, bons burgueses reputados pela sua brandura tornarem-se fanáticos sanguinários. Passada a tormenta e, por conseguinte, representando o antigo meio e o seu império, eles readquiriram sua personalidade pacífica. Desenvolvi, há muito tempo, essa teoria e mostrei que a vida dos personagens da Revolução era incompreensível sem ela.” O que limita muito o poder de análise da teoria é que vivemos numa longa revolução (de coisa de 2 ou 3 séculos), então não existe nenhum contraste com um “mundo exterior estável” em que apoiemos e testemos a validação de nossas conclusões.

Excitações emocionais violentas, certos estados patológicos observáveis nos médiuns, nos extáticos, nos indivíduos hipnotizados, etc., fazem variar essas combinações e, por conseguinte, determinam, pelo menos momentaneamente, no mesmo ente, uma personalidade diversa, inferior ou superior à superioridade ordinária. Todos possuímos possibilidades de ação que ultrapassam a nossa capacidade habitual e que certas circunstâncias virão despertar.”

PUBLIC ENEMY N. 1: “Aquele que se quer diferenciar do seu grupo tem-no inteiramente por inimigo.”

OS COROAS DO GUARÁ, AUTÔMATOS: “Se os homens não tivessem por guia as opiniões e a maneira de proceder daqueles que os cercam, onde achariam a direção mental necessária à maior parte? Graças ao grupo que os enquadra, eles possuem um modo de agir e de reagir quase constante. Graças ainda a ele, naturezas um pouco amorfas são orientadas e sustentadas na vida.”

Assim canalizados, os membros de um grupo social qualquer possuem, com uma personalidade momentânea ou durável, porém bem-definida, uma força de ação que jamais sonharia qualquer dos indivíduos que a compõem. As grandes matanças da Revolução não foram atos individuais. Os seus autores atuavam em grupos: girondinos, dantonistas, hebertistas, robespierristas, termidorianos, etc. Esses grupos, muito mais do que indivíduos, então se combatiam. Deviam, portanto, empregar nas suas lutas a ferocidade furiosa e o fanatismo estreito, característicos das manifestações coletivas violentas.”

Sendo variável o nosso eu, que é dependente das circunstâncias, um homem jamais deve supor que conhece outro. Pode somente afirmar que, não variando as circunstâncias, o procedimento do indivíduo observado não mudará. O chefe de escritório que já redige há 20 anos honestos relatórios, continuará sem dúvida a redigi-los com a mesma honestidade, mas cumpre não o afirmar em demasia. Se surgirem novas circunstâncias, se uma paixão forte lhe invadir a mente, se um perigo lhe ameaçar o lar, o insignificante burocrata poderá tornar-se um celerado ou um herói.

As grandes oscilações da personalidade observam-se quase exclusivamente na esfera dos sentimentos. Na da inteligência, elas são muito fracas. Um imbecil permanecerá sempre imbecil.

As possíveis variações da personalidade, que impedem de conhecer a fundo os nossos semelhantes, também obstam a que cada qual conheça a si próprio. O adágio Nosce te ipsum dos antigos filósofos constitui um conselho irrealizável. O eu exteriorizado representa habitualmente uma personalidade de empréstimo”

Cada qual só se conhece um pouco depois de ter observado a sua maneira de agir em circunstâncias determinadas. Pretender adivinhar como procederemos numa situação dada é muito quimérico. O marechal Ney, quando jurou a Luís XVIII que lhe traria Napoleão numa gaiola de ferro, estava de muito boa fé, mas não se conhecia; um simples olhar do Imperador bastou para mudar a sua resolução; o infortunado marechal pagou com a vida a ignorância da sua própria personalidade. Se estivesse mais familiarizado com as leis da psicologia, Luís XVIII lhe teria provavelmente perdoado.”

Quanto mais se aprofunda o assunto, tanto mais firmemente se reconhece que a educação e as instituições políticas desempenham um papel bastante fraco no destino dos indivíduos e dos povos. Essa doutrina, contrária, aliás, às nossas crenças democráticas, parece, por vezes, contrariada também pelos fatos observados em certos povos modernos, e é isso que sempre a impedirá de ser facilmente admitida.

Na introdução que escreveu para a tradução japonesa das minhas obras, um dos mais eminentes estadistas do Extremo-Oriente, o barão Motono, embaixador em São Petersburgo, me objeta com várias mudanças realizadas na mentalidade japonesa, sob a influência das idéias européias. Não creio, entretanto, que isso prove uma modificação real dessa mentalidade. As idéias européias simplesmente entram na armadura ancestral da alma japonesa, sem modificar as suas partes essenciais. A substituição do canhão pela funda mudaria completamente o destino de um povo, sem transformar por isso os seus caracteres nacionais.”

LIVRO III. AS DIVERSAS FORMAS DE LÓGICA QUE REGEM AS OPINIÕES E AS CRENÇAS

1. CLASSIFICAÇÃO DAS DIVERSAS FORMAS DE LÓGICA

A lógica tem sido considerada até aqui como a arte de raciocinar e demonstrar. Mas viver é agir e, na maior parte das vezes, não é a demonstração que faz agir.” “Constituindo a ação, no nosso modo de ver, o único critério de uma lógica, consideraremos como diversas as lógicas que conduzem a resultados dessemelhantes.”

Há ações virtuosas ou criminosas, hábeis ou inábeis, não as há ilógicas. Elas procedem, simplesmente, de lógicas distintas e nenhuma pode exclusivamente servir no julgamento das outras.”

Pode-se, julgamos, estabelecer cinco formas de lógica: 1º. lógica biológica; 2º. lógica afetiva; 3º. lógica coletiva; 4º. lógica mística; 5º. lógica racional.”

a lógica biológica (…) não traz nenhum traço de influência das nossas influências, mas produz adaptações, dirigidas em determinado sentido, por forças que não conhecemos. Essas forças parecem agir como se possuíssem uma razão superior à nossa e nada têm de mecânicas, porquanto a sua ação varia a cada instante, conforme o objetivo a satisfazer.

A adjunção às outras formas de lógica da lógica biológica, que domina grandemente a maioria das outras, preencherá uma lacuna dissimulada pelas velhas teorias metafísicas.”

as associações intelectuais podem ser conscientes, ao passo que as dos estados afetivos permanecem inconscientes.”

Mostramos, há já muitos anos, que o homem em multidão procede diferentemente do homem isolado. Ele é, pois, guiado por uma lógica especial [a terceira]”

Para as mentalidades místicas o encadeamento das coisas não oferece nenhuma regularidade, mas depende de seres ou de forças superiores, cujas vontades nos são simplesmente impostas.” A lógica que Freud converteu no seu horrendo conceito de compulsão à repetição, patologizando a nomenclatura inutilmente, doravante.

LÓGICA RACIONAL: “Desde Aristóteles, inumeráveis livros lhe têm sido consagrados.”

A lógica afetiva levava um general, invejoso dos seus rivais, a declarar-lhes a guerra. A lógica mística fazia [com] que ele consultasse os oráculos relativamente à data útil das operações a empreender. A lógica racional guiava a sua tática. Durante todos esses atos, a lógica biológica o fazia viver.” Kira do Death Note é um general que sofre de uma hipertrofia da lógica racional. Frio e calculista (risos). Diria o PSDB que faltou a Kira fazer a sua autocrítica…

A existência das diversas formas de lógica só é demonstrada pelos seus resultados. Elas representam postulados que só se verificam pelas conseqüências decorrentes. As ciências mais exatas, a física, por exemplo, são igualmente obrigadas a colocar na sua base puras hipóteses, transformadas em verdades prováveis quando se demonstra a sua necessidade.” O gato de Schrödinger é um “reconhecimento tácito” de que outras lógicas operam, também nesse nível…

Todas as explicações da luz, do calor, da eletricidade, isto é, a física quase integral, repousam na hipótese do éter. A essa substância totalmente desconhecida foi preciso atribuir propriedades incompreensíveis e mesmo inconciliáveis, como, por exemplo, uma rigidez superior à do aço, conquanto os corpos materiais nela se movam sem dificuldade. Um fenômeno novo obriga os físicos a darem ao éter propriedades novas contrárias às que já estão admitidas. Assim, depois de lhe haver atribuído uma densidade infinitamente mais fraca que a dos gases, agora se lhe concebe uma que é milhões de vezes superior à dos mais pesados metais.” Excelente insight. E Le Bon parece não ter sobrevivido até a refutação final do éter e a fragmentação da física.

O físico não afirma que o éter existe. Diz simplesmente que as coisas se passam como se o éter existisse e que todos os fenômenos ficariam incompreensíveis sem essa suposta existência.”

2. A LÓGICA BIOLÓGICA

o que escrevi sobre esse assunto no meu livro A Evolução da Matéria:

Os edifícios atômicos que células microscópicas conseguem fabricar compreendem não só as mais sábias operações dos nossos laboratórios: eterificação, oxidação, redução, polimerização, etc., como também muitas outras mais difíceis, que não poderíamos imitar. Por meios insuspeitos, as células vitais constroem esses compostos complicados e variados albuminóides, celulose, gorduras, amido, etc., necessários para a conservação da vida. Elas sabem decompor os corpos mais estáveis, como o cloreto de sódio, extrair o azoto dos sais amoniacais, o fósforo dos fosfatos, etc. Todas essas obras tão precisas, tão admiravelmente adaptadas a um objetivo, são dirigidas por forças de que não temos nenhuma idéia e que atuam exatamente como se elas possuíssem uma sagacidade muito superior à nossa razão. A obra que elas executam a cada momento da existência, paira muito acima do que pode realizar a ciência mais adiantada. O sábio capaz de resolver com a sua inteligência os problemas resolvidos a cada instante pelas humildes células de uma ínfima criatura seria de tal modo superior aos outros homens que se poderia considerá-lo como um deus.”

Se um corpo inútil ou perigoso for introduzido no organismo, será neutralizado ou rejeitado. O elemento útil é, ao contrário, expedido a órgãos diferentes e sofre transformações físicas muito sábias. Esses milhares de pequenas operações parciais se emaranham sem se contrariar, porque são orientadas com uma precisão perfeita. Desde que a rigorosa lógica diretriz dos centros nervosos se detém, é a morte.”

Quando uma célula evolve para certa forma, quando o animal regenera inteiramente um órgão amputado, com nervos, músculos e vasos, verificamos que a lógica biológica funda, para esses acidentes imprevistos, uma série de fenômenos que nenhum esforço da lógica racional poderia imitar ou mesmo compreender.” As manifestações mais cruas da Vontade.

As espécies parecem desaparecer quando, muito estabilizadas por uma pesada hereditariedade ancestral, já não se podem adaptar às variações do meio. Essa história do mundo vegetal e animal foi também a de muitos povos. § A infância de uma espécie, de um indivíduo ou de um povo caracteriza-se por uma plasticidade excessiva, que lhe permite adaptar-se a todas as variações de meio.”

Tendo os sentimentos por sustentáculo a vida, concebe-se que a lógica biológica não somente influa na lógica afetiva, como também possa parecer confundir-se, por vezes, com ela. Não permanecem ambas, por isso, menos nitidamente separadas, pois a vida biológica é simplesmente o terreno no qual a vida afetiva vem germinar. § É, portanto, inexplicável que os psicólogos ignorem a lógica biológica. Ela é a mais importante de todas as formas de lógica, por ser a mais imperiosa.”

Bergson tem razão quando separa o instinto da inteligência, mas só parcialmente tem razão nesse ponto. Uma multidão de instintos constituem hábitos intelectuais ou afetivos acumulados pela hereditariedade. Para os fenômenos biológicos, não somente os mais simples, a fome ou o amor, como também os muito complicados, que se observam nos insetos, a separação entre eles e a inteligência parece completa.”

Uma ameba, isto é, um simples glóbulo de protoplasma formado de granulações vivas, quando se quer apoderar de uma presa, executa atos adaptados ao fim que tem em mira, variando segundo as circunstâncias como se esse esboço de ser pudesse ter certos raciocínios. Observando os minuciosos cuidados de certos insetos na proteção dos ovos de que sairão larvas de uma forma muito diferente da sua e que, na maioria dos casos, eles jamais verão, Darwin declarava ‘que é infrutífero especular sobre esse assunto’.”

O seu mecanismo permanece ignorado, mas o sentido do seu esforço é acessível.”

Numerosos naturalistas, Blanchard, Fabre, etc., mostraram a perfeição dos atos dos insetos, como também o seu discernimento e a sua aptidão para mudar de proceder segundo as circunstâncias. Eles sabem, por exemplo, modificar a qualidade das matérias alimentares preparadas para as suas larvas, conforme devem ser machos ou fêmeas. Certos insetos que não são carnívoros, mas cujas larvas só se podem nutrir de presas vivas, paralisam-nas de modo que elas possam esperar, sem decomposição, o nascimento dos seres que as hão de devorar. Determinar uma paralisia semelhante seria uma operação difícil para um anatomista hábil. Ela não embaraça, entretanto, o inseto. Ele sabe atacar os únicos coleópteros cujos centros nervosos se aproximem até tocar-se, o que permite provocar a paralisia com um só golpe de aguilhão. Na considerável quantidade de coleópteros, somente dois grupos, os charanções e os buprestes, satisfazem a essas condições. Fabre reconhece que ao instinto geral do inseto que o dirige nos atos imutáveis da sua espécie se sobrepõe alguma coisa de ‘consciente e de perceptível pela experiência. Não ousando chamar inteligência a essa aptidão rudimentar, pois aquela denominação seria muito elevada para ela. Eu a denominarei’, diz ele discernimento (…) ‘o inseto nos maravilha e nos apavora pela sua alta lucidez’”

Numerosos fatos da mesma ordem, observados nas formigas e nas abelhas por um sábio acadêmico, Gaston Bonnier, conduziram-no a atribuir aos insetos uma faculdade por ele denominada raciocínio coletivo.” “Se, por exemplo, a comissão manda buscar água a uma bacia, em vão se espalhariam ao lado gotas de xarope ou de mel, o inseto não tocará nisso. Aqueles que estão prepostos à colheita do néctar não se ocuparão de recolher o pólen, etc.” “É o ideal do coletivismo realizado.”

Esses fatos, multiplicados pela observação, embaraçam cada vez mais os adeptos da velha psicologia racionalista. Tinha-se, outrora, para interpretá-los, um termo precioso, o instinto; mas é preciso reconhecer que, sob esse vocábulo gasto, se abriga uma ordem completa de fenômenos profundamente desconhecidos.” “Outrora, o instinto era considerado como uma espécie de faculdade imutável, concedida pela natureza aos animais no próprio momento da sua formação, para guiá-los através dos atos da vida, como o pastor conduz o seu rebanho.”

Tendo os animais sido mais bem-estudados, foi preciso reconhecer a variabilidade desses pretensos instintos imutáveis. A abelha, por exemplo, sabe perfeitamente transformar a sua colméia, desde que isso se torne necessário. Numa nota intitulada gradação e aperfeiçoamento do instinto nas vespas solitárias da África, inserta nas atas da Academia das Ciências, de 19 de outubro de 1908, o sr. Roubaud mostra entre as espécies do gênero sinagris ‘diferenças das mais notáveis, a tal ponto que se podem aí seguir as fases principais de uma insuspeita evolução do instinto dos solitários para o das vespas sociais’. Os ninhos, primeiramente solitários, antes de se aproximarem, representam sem dúvidas a forma primitiva das colônias de vespas sociais.”

A seguir, a exposição de que o pássaro não é “tão burro como o homem”: conheceu antes de seu próprio Newton a gravidade! Terá sempre conhecido (princípios antagônicos dos instinto estático x instinto dinâmico)? Pode ser até que não, mas então não era ainda pássaro!

Renunciar às explicações puramente mecânicas como as de Descartes é compreender, ao mesmo tempo, que existe uma esfera imensa da vida física, completamente inexplorada, e de que apenas entrevemos a existência.” “Quando analisarmos os fatores das nossas opiniões e das nossas crenças, não nos deveremos esquecer de que, sob a superfície das coisas, se oculta um mundo de forças inacessíveis à nossa razão, mais pujantes do que essa razão, e que muitas vezes a conduzem.”

Se a sua ação se interrompesse, o nosso planeta se tornaria um triste deserto, submetido às forças cegas da natureza, isto é, às forças ainda não-organizadas.” Abandono da concepção do instinto como força cega da natureza!

3. A LÓGICA AFETIVA E A LÓGICA COLETIVA

Antes de conhecer, todos sentiram.”

E se a transmutação de todos os valores a um além-homem fosse não um upgrade de qualquer forma do Homo sapiens sapiens, mas apenas aquele ponto histórico irreversível (point of no return) em que enquanto coletividade decidimos conscientemente abandonar este que é o mais central de todos os preconceitos, i.e., toda a nossa fonte de amor-próprio: “Não somos aquele que sabe que sabe! Demo-nos de uma vez por todas um outro nome que corresponda melhor a nossa essência!”? Que é o Homem, perguntou Drácula: perguntou, porque ele já não era um Homem!

As Luzes da Emoção

MUITO ALÉM DA LINGUAGEM: “As palavras, por meio das quais tentamos representar os sentimentos, muito mal os traduzem. Só o consentem um pouco por associação. O hábito de ligar os sentimentos ao som de certos vocábulos dá a estes últimos o poder de evocar representações mentais afetivas.” “A música, verdadeira linguagem dos sentimentos, evoca-os melhor do que as palavras, mas, pela falta de precisão, só permite relações muito vagas entre os seres.”

Não podendo as regras da lógica afetiva serem universais como as da lógica racional, um tratado de lógica afetiva, verdadeiro para um indivíduo ou para certa categoria de indivíduos, não o seria para os outros. Um livro de lógica racional possui, ao contrário, um valor invariável para todos.”

Percebe-se, todavia, o caminho percorrido, quando se vê, pelo estudo dos selvagens, o que foram os primitivos dominados pela sentimentalidade pura.” Aqui sou obrigado a refutar qualquer presença de sentimentalidade pura.

A lógica afetiva é um dos sustentáculos da lógica coletiva. Não estudaremos agora esta última, porquanto nos devemos ocupar dela no capítulo consagrado às opiniões e às crenças coletivas.”

4. A LÓGICA MÍSTICA

A lógica mística, de que nos vamos ocupar agora, corresponde a uma fase superior da vida mental. Os animais não a conhecem, conquanto possuam grande número dos nossos sentimentos.” “Semelhante à lógica afetiva, a lógica mística aceita as contradições; não é, porém, inconsciente como a primeira e traduz, freqüentes vezes, uma deliberação.”

Desfazendo alguns mal-entendidos do míope século XIX: “O ateu pode ser tão místico quanto um perfeito devoto; freqüentemente ele o é ainda mais.”

O misticismo muda incessantemente de forma, porém conserva como fundo imutável o papel atribuído a poderes misteriosos. O tempo, que faz variar o objeto do misticismo, mantém a intangibilidade daquele elemento.” O tempo: último misticismo, aliás.

Muitos homens que se qualificam de livres-pensadores porque rejeitam os dogmas religiosos, firmemente crêem nos pressentimentos, nos presságios, na força mágica da corda do enforcado ou do número 13.” “Não há jogador cuja convicção nesse ponto não esteja solidamente estabelecida.” Quem tem cu tem superstição, já diria o outro (Mestre Zagallo).

Os progressos da razão não hão de poder, sem dúvida, abalar o misticismo, porquanto ele terá sempre como refúgio o domínio do além-túmulo, inacessível à ciência. Os espíritos curiosos desse além-túmulo são, naturalmente, inumeráveis.”

A credulidade do verdadeiro crente é geralmente ilimitada, e nenhum milagre o poderia surpreender, porquanto é infinito o poder do Deus que ele invoca. Vê-se na catedral de Orviedo um cofre que, diz a notícia distribuída aos visitantes, foi instantaneamente transportado de Jerusalém através dos ares. Encerra: ‘o leite da mão de Jesus Cristo, os cabelos com que Maria Madalena enxugou os pés do Salvador, a vara com que Moisés separou as águas do mar Vermelho, a carteira de S. Pedro, etc.’.”

A Lógica de Pandora

A época literária chamada romântica é disso uma manifestação. Os artistas têm somente convicções místicas. Os métodos da análise racional são, geralmente, ignorados por eles.” A unio mystica entre mim e o eu-escritor.

PURO ZEITGEIST DE LE BON: “Mas é principalmente em política que se observa a influência do espírito místico. Radicais, anticlericais, maçons e todos os sectários de partidos extremos vivem em pleno misticismo. A classe operária é, igualmente, dominada por um misticismo intenso.” A mania do intelectual de até 100 anos atrás de enxergar o liberalismo como a-místico. Não leu Marx e sua análise do fetichismo econômico.

Lógica mística, lógica sentimental e lógica racional representam 3 formas da atividade mental irredutíveis uma na outra. Seria, portanto, inútil pô-las em conflito.”

5. A LÓGICA INTELECTUAL

A lógica intelectual tem sido o assunto de inúmeros escritos de uma utilidade, aliás, medíocre. Se a ela aludimos aqui, é, primeiramente, porque representa certo papel na gênese das opiniões e, em seguida, para precisar os pontos em que ela difere das outras formas de lógica”

A vontade é a faculdade de resolver-se a praticar um ato; compreende, geralmente, 3 fases: deliberação, determinação, execução. Uma determinação chama-se volição, uma resolução tem também o nome de decisão.”

A vontade é, ao mesmo tempo, de origem afetiva e racional. É de origem afetiva porque todos os móveis dos nossos atos têm um substratum afetivo.”

Descartes, imitado nisso por muitos filósofos modernos, fazia da vontade uma espécie de entidade aposta à inteligência” “Aristóteles se aproximava muito mais do que Descartes das idéias aqui expostas, quando fundava a sua psicologia na distinção entre as faculdades sensitivas e as faculdades intelectuais. Da combinação das duas resultava, no seu juízo, a vontade”

A atenção é o ato pelo qual, sob a ação de um excitante ou da vontade, o espírito se concentra num objeto, com exclusão dos outros, ou na representação mental desse objeto, ou ainda nas idéias que ele suscita.”

A criança e o selvagem possuem muito diminuta atenção voluntária. Quanto mais suscetível de atenção e, por conseguinte, de reflexão, for o homem, tanto mais considerável será a sua força intelectual. Um Newton sem grande capacidade de atenção não é concebível.”

A aptidão para refletir implica sempre a aptidão para a atenção. A capacidade de atenção fácil comporta a faculdade de reflexão medíocre.”

O seu domínio é o da matéria bruta, isto é, momentaneamente estabilizada pela morte ou pelo tempo. Sobre os fenômenos que representam um movimento constante, como a vida, ela projetou luzes muito incertas.”

Para mover, cumpre comover.”

Esse imenso poder [de tudo que não é lógico-racional] é talvez maior ainda do que a ciência o supõe. Nós estamos sujeitos à natureza, mas não se acha ela também submetida, segundo as palavras atribuídas por Ésquilo a Prometeu, acorrentada ao seu rochedo, às necessidades que regem o destino e às quais os próprios deuses devem obedecer?” Mas a necessidade é a natureza.

LIVRO IV. OS CONFLITOS DAS DIVERSAS FORMAS DE LÓGICA

1. O CONFLITO DOS ELEMENTOS AFETIVOS, MÍSTICOS E INTELECTUAIS

O equilíbrio que acabamos de indicar não é uma fusão, porém uma superposição das diversas formas de lógica, cada uma das quais mantém independente a sua ação.”

Nas suas concepções científicas, esses espíritos são guiados pela lógica racional. Nas suas crenças, obedecem às leis da lógica mística ou da lógica afetiva. § Um sábio passa da esfera do conhecimento à da crença, como mudaria de habitação. O erro de que é vítima muitas vezes consiste em querer aplicar às interpretações das lógicas místicas ou afetiva os métodos da lógica intelectual, a fim de basear cientificamente as suas crenças.

Destruído o equilíbrio entre as várias formas de lógicas, elas entram em luta. Raramente nesse conflito vence a lógica racional, que se deixa facilmente torturar, aliás, a fim de colocar-se ao serviço das concepções mais infantis. Por isso, em matéria de crença religiosa, política ou moral, toda a contestação é inútil. Discutir racionalmente com outrem uma opinião de origem afetiva ou mística só terá como resultado exaltá-lo. Discuti-la consigo mesmo também não a abala, salvo quando ela chegou a um grau de enfraquecimento tal que a sua força inteiramente se dissipou.

Os resultados de uma luta entre a lógica mística e a lógica racional não poderiam ser postas mais em evidência do que pelo exemplo de Pascal, examinado minuciosamente em outro capítulo desta obra.”

Nós nos limitaremos, portanto, no que se vai seguir, a estudar o conflito entre a lógica afetiva e a lógica racional.”

A idéia só é, geralmente, a conclusão de um sentimento, cuja evolução permanece inconsciente e, portanto, ignorada.”

Uma palavra, um gesto, quase insignificantes em determinado momento, podem, com o tempo, transformar a amizade em indiferença e, algumas vezes, mesmo em antipatia.

O verdadeiro papel da inteligência no agregado de sentimentos que formam o caráter consiste em isolar alguns, torná-los mais intensos por meio de uma contínua representação mental, dando-lhes a força necessária para dominar certas impulsões. Ela pode chegar, por esse predomínio de um estado afetivo relativamente a outro, a elevar o indivíduo acima de si mesmo, pelo menos momentaneamente.”

se os sentimentos são muito intensos, a inteligência perde todo o poder. A força de certos sentimentos pode tornar-se tal que, não só a inteligência, como também os interesses mais evidentes do indivíduo perdem a influência.”

Se os sentimentos não se transformam diretamente em idéias, são, contudo, criadores de idéias, evocadoras, por seu turno, de outros sentimentos. Mantendo assim a sua independência, essas duas esferas da atividade mental atuam constantemente uma na outra.”

Como as idéias surgem dos sentimentos, as lutas entre idéias não são, na realidade, mais do que lutas entre sentimentos. Os povos que combatem aparentemente por idéias, lutam por sentimentos dos quais essas idéias se derivam.”

Assim, as funções outrora exercidas pelas nobrezas inglesa e francesa apresentavam qualidades de caráter que desapareceram com a cessação das funções. Tendo essas classes sociais perdido as suas qualidades de ordem moral, sem adquirir a inteligência, que elas não tinham tido ensejo de exercer, tornaram-se inferiores às classes outrora dominadas. Era, pois, inevitável que a influência da nobreza, depois de haver sido destruída em França pela Revolução, ficasse hoje muito abalada na Inglaterra.

Essa lei, ignorada pelos nossos educadores, de que um sentimento não praticado se atrofia, parece ter uma aplicação geral.” “Os nossos instintos guerreiros, tão desenvolvidos na época da Revolução e do Império, acabaram por dar lugar a um pacifismo e a um antimilitarismo cada dia mais divulgados, não somente nas massas, como também entre os intelectuais. Daí resulta este estranho contraste: à medida que as nações se tornam mais pacíficas, os seus governos não cessam de aumentar os armamentos.”

Os indivíduos obedecem ao seu egoísmo pessoal, ao passo que os governantes são obrigados a preocupar-se do interesse coletivo. Mais esclarecidos do que as multidões e os retóricos, eles sabem, por experiências seculares, que toda a nação que se enfraquece é logo invadida e saqueada pelos vizinhos.

As nações modernas não escaparam mais a essa lei do que as suas predecessoras das civilizações antigas. Polacos, turcos, egípcios, sérvios, etc., só evitaram as invasões destruidoras deixando-se despojar do todo ou de parte dos seus territórios.”

Os códigos civis ou religiosos sempre tiveram por objetivo principal exercer uma ação inibidora nas manifestações de certos sentimentos.”

Aprendendo, sob a rigorosa lei das primeiras obrigações sociais, a dominar um pouco as suas impulsões, o primitivo desprendeu-se da animalidade pura e chegou à barbárie. Forçado a refrear-se mais, ele se elevou até à civilização. Esta só se mantém enquanto persiste o domínio do homem sobre si mesmo.”

Os sentimentos nos conduzirão sempre, mas nenhuma sociedade pode subsistir sem que os membros aprendessem a mantê-los nos limites abaixo dos quais começam a anarquia e a decadência.”

2. O CONFLITO DAS DIVERSAS FORMAS DE LÓGICA NA VIDA DOS POVOS

O seu primeiro sintoma é um rápido acréscimo da criminalidade, tal como o que hoje se observa em França. É favorecido, aliás, pelo desenvolvimento do humanitarismo, que paralisa a repressão e tende, por conseguinte, a destruir todos os freios.

A nossa democracia atual sofre cada vez mais as conseqüências da supressão dessas ações inibidoras, as únicas que podiam contrabalançar os sentimentos antissociais.” Grande paradoxo da democracia.

O ódio das superioridades e a inveja, que se tornaram os flagelos da democracia e ameaçam a sua existência, derivam de sentimentos muito naturais para que não tivessem subsistido sempre.

Tendo adquirido hoje livre impulso, incessantemente alentados por políticos ávidos de popularidade e universitários descontentes da sua sorte, esses sentimentos exercem constantemente a sua desastrosa tirania.” Bolsonarismo e jovem periférico reacionário (o preto que acessou a universidade e depois se tornou antipetista) in a nutshell.

Uma sociedade subsiste graças ao fator de manter a convicção hereditária de que cumpre respeitar religiosamente as leis em que se funda o organismo social. § A força que os códigos possuem para impor a obediência é, sobretudo, moral. Nenhuma potência material conseguiria tornar respeitada uma lei que toda a gente violasse.”

Se um gênio malfazejo quisesse destruir uma sociedade em poucos dias, bastar-lhe-ia sugerir a todos os seus membros a recusa de obedecer às leis. O desastre seria muito maior do que uma invasão a que se seguisse a conquista. Um conquistador limita-se geralmente, com efeito, a mudar o nome dos senhores que dispõem do poder, mas é seu interesse conservar cuidadosamente os quadros sociais cuja ação é sempre mais eficaz do que a dos exércitos.” Alexandre é o melhor exemplo disso. Portugal, um dos piores.

Os monumentos saqueados rapidamente se reconstroem, mas para refazer a alma de um povo, são necessários, em muitos casos, alguns séculos.”

Combatendo a tradição em nome do progresso e sonhando destruir a sociedade para apoderar-se das suas riquezas, como Átila sonhava saquear Roma, os sectários não vêem que a sua vida é um estreito tecido de aquisições ancestrais, sem as quais não viveriam um só dia.”

só a experiência repetida instrui.” Nem isso!

Se só tratarmos dos tempos modernos, não ouvimos repetir, por toda parte, que a Revolução teve por origem as dissertações dos filósofos e que o seu principal objetivo foi obter que triunfassem as ideias racionais?

Em nenhuma época, com efeito, a razão foi tão invocada. Chegou-se mesmo a deificá-la e a construir-lhe um templo. Na realidade, não existe período em que ela haja representado um papel menos importante. Isso se verificará seguramente quando, dissipados os atavismos que nos cegam, for possível escrever uma psicologia da Revolução Francesa.”

Os burgueses, que foram os seus primeiros instigadores, eram, sobretudo, guiados por um sentimento de intensa inveja contra uma classe que eles supunham ter igualado. O povo não pensava, a princípio, em invejar certas situações, tão longe dele que jamais esperaria alcançá-la; acolheu, todavia, com entusiasmo o movimento revolucionário. Sentimento muito natural, pois a destruição legal das peias sociais e as promessas que se fazia luzir aos seus olhos lhe desvendavam a perspectiva de ser igual aos seus antigos senhores e de apoderar-se das suas riquezas. Na divisa revolucionária, recordada nas nossas moedas e nas nossas muralhas, um único vocábulo, igualdade, apaixonou os espíritos, como ainda os apaixona. De fraternidade não se fala mais hoje, pois a luta das classes se tornou a divisa dos novos tempos. Quanto à liberdade, as multidões jamais perceberam seu sentido e sempre a recusaram.”

A guerra de 1870, por exemplo, é repleta de ensinamentos desse gênero. O imperador, doente, e o rei da Prússia, idoso, queriam, a todo o custo, evitar o conflito. Nesse intuito, o rei da Prússia tinha, finalmente, renunciado à candidatura de seu parente ao trono da Espanha, e a paz parecia firme.

Atrás, porém, desses espíritos incertos e de vontade fraca, um cérebro possante, dotado de uma vontade enérgica, tinha nas mãos os fios do destino. Suprimindo habilmente algumas palavras de um telegrama, soube exasperar até ao furor a sentimentalidade de um povo demasiado sensível e obrigou-o a declarar, sem preparo militar, a guerra a inimigos preparados desde muito tempo. Utilizando, em seguida, os sentimentos de cada nação, conseguiu manter a neutralidade que convinha aos seus desígnios. Cega pelos sentimentos que esse profundo psicólogo fizera vibrar, a Inglaterra recusou associar-se a um projeto de congresso, sem prever o que, mais tarde, lhe custaria a formação de uma potência militar preponderante, seu pesadelo atual.”

Do conflito das várias formas da lógica resulta a maior parte das oscilações da história. Quando predomina o elemento místico, são as lutas religiosas com a sua imperiosa violência. Quando sobressai o elemento afetivo, notam-se, conforme o fator sentimental mais evidente, ou os grandes empreendimentos guerreiros ou, ao contrário, a florescência do humanitarismo e do pacifismo, cujas consequências finais não são menos mortíferas.”

Nos nossos dias, as multidões e os seus agitadores mostram-se, como já dissemos, tão saturados de misticismo quanto os seus mais remotos antepassados. Palavras e fórmulas dotadas de um poder mágico herdaram a força atribuída às divindades que nossos pais adoravam.”

Sendo consideráveis os progressos que ela tem realizado nas ciências, tomou-se natural supor que métodos suscetíveis de produzir tais resultados podiam transformar as sociedades e criar a felicidade universal.”

A própria Inglaterra, tradicional, começa a assistir a esse conflito. As instituições políticas que fizeram a sua grandeza estão agora em luta com os ataques racionalistas de partidos adiantados, os quais pretendem reconstruir o edifício em nome da razão, isto é, da sua razão.”

3. A BALANÇA DOS MOTIVOS

Esses móveis de ação podem, algumas vezes, ser razões, mas aos móveis conscientes de ordem intelectual juntam-se, as mais das vezes, os móveis inconscientes já descritos, que pesam grandemente em um dos pratos. Em última análise, os motivos são energias em luta. Vencem os mais fortes. § Quando as energias contrárias têm, mais ou menos, a mesma intensidade, os pratos oscilam muito tempo antes de fixar-se numa posição definitiva. Caracteres incertos, hesitantes.”

Não é com as multidões, cegos joguetes dos seus instintos, que as civilizações progridem, mas com a pequena elite que sabe pensar por elas e orientá-las. Procurando pôr a lógica intelectual ao serviço da lógica coletiva para justificar todos os seus impulsos, a terrível legião dos políticos não fez mais do que criar uma profunda anarquia.”

Uma lógica afetiva demasiada leva a ceder sem reflexão a impulsos freqüentemente funestos. Uma lógica mística excessiva suscita as exigências religiosas, dominadas pela preocupação egoísta da sua salvação, e sem utilidade social. Uma lógica coletiva exagerada promove a predominância dos elementos inferiores de um povo e o conduz à barbárie. Uma lógica racional em demasia provoca a dúvida e a inação.”

LIVRO V. AS OPINIÕES E AS CRENÇAS INDIVIDUAIS

1. OS FATORES INTERNOS DAS OPINIÕES E DAS CRENÇAS: O caráter, o ideal, as necessidades, o interesse, as paixões, etc.

O jornal inglês Comentator escrevia recentemente, a propósito da psicologia política: ‘Nascerá, talvez, um dia, um livro maravilhoso sobre a arte de persuadir. Se supusermos que a psicologia chega a ser uma ciência tão adiantada quanto a geometria e a mecânica, será possível predizer os efeitos de um argumento sobre o espírito do homem tão seguramente quanto podemos agora predizer um eclipse de lua. Uma psicologia desenvolvida até esse ponto possuirá uma série de regras que permitem converter um indivíduo a uma opinião qualquer. O mecanismo de um espírito será, então, comparável a máquina de escrever, em que basta apoiar numa alavanca para ver sair imediatamente a letra desejada. Uma ciência tão pujante e, por conseguinte, tão perigosa, tornar-se-á necessariamente um monopólio do governo’.”

O mais refletido dos filósofos não escapa à sua influência. As suas doutrinas otimistas ou pessimistas resultam muito mais do seu caráter que da sua inteligência. W. James assegura, pois, com razão, que ‘a história da filosofia é, em grande parte, a do conflito dos temperamentos humanos. Essa diferença particular dos temperamentos’, acrescenta ele, ‘sempre entrou em linha de conta no domínio da literatura, da arte, do governo e dos costumes, tanto quanto no da filosofia.’

Compenetrados dessa influência do caráter individual nas opiniões, facilmente conceberemos por que certos homens são conservadores e outros revolucionários. Estes últimos tendem sempre a revoltar-se, unicamente por temperamento, contra o que os cerca, qualquer que seja a ordem das coisas estabelecidas. Encontram-se, geralmente, entre caracteres cuja estabilidade ancestral foi dissociada por influências diversas. Eles já não se acham, por conseguinte, adaptados ao seu meio. Muitos dentre eles pertencem à grande família dos degenerados, que estão sobretudo no domínio da patologia.” HAHAHAHAHA!

O exército dos revolucionários se recruta, principalmente hoje, nessa multidão de degenerados, com que o alcoolismo, a sífilis, o paludismo, o saturnismo, etc., povoam as grandes cidades. É um resíduo cujo número os progressos da civilização diariamente aumentam. Um dos mais temíveis problemas do futuro será subtrair as sociedades aos furiosos ataques desse exército de inadaptados.” Toma sintoma por causa. Filósofo de província.

Semi-alienados [?!] como Pedro o Ermitão [?] e Lutero subverteram o mundo.”

[?] Ou Eremita. Um dos promotores das Primeiras Cruzadas.

Se tantos homens se mostram hoje hesitantes nas suas opiniões, nas suas crenças e obedecem às impulsões mais contrárias é porque, com uma inteligência por vezes muito elevada, possuem um ideal muito fraco.” O problema hoje é o contrário…

A força dos fanáticos reside precisamente na rigorosa obediência ao seu ideal perigoso. É o que se pode observar hoje no tocante ao ideal socialista, o único que ainda seduz as multidões. Ele pesa inteiramente na nossa vida nacional e suscita numerosas leis destruidoras da sua prosperidade.

Um ideal não é, absolutamente, portanto, uma concepção teórica, cuja ação possa ser negligenciada. Quando se generaliza, exerce uma influência preponderante nas minúcias mais insignificantes da vida. Mesmo aqueles que ignoram a sua influência, a elas se submetem.”

Já disse, com razão, que o socialismo é uma questão de estômago.” Ninguém pode dizer que diz com razão: deve apenas dizer, e deixar arrazoamentos para os outros.

A evolução científica da indústria promoveu necessidades novas, que se tornaram logo, como os caminhos de ferro e o telefone, necessidades indispensáveis. Infelizmente, essas necessidades aumentaram mais depressa do que os meios de satisfazê-las. Representam uma das fontes do descontentamento que desenvolve o socialismo.”

O germano de há 50 anos, modesto comedor de ‘choucroute’, era pacífico, porque não tinha desejos. Tendo subitamente crescido as suas necessidades, tornou-se guerreiro e ameaçador. Aumentando, além disso, rapidamente, a sua população e ultrapassando logo o número de indivíduos que o país pode nutrir, aproxima-se o momento em que, sob um pretexto qualquer, e mesmo sem outro pretexto a não ser o direito do mais forte, a Alemanha invadirá, para viver, as nações vizinhas. Só essa razão podia decidi-la a fazer as esmagadoras despesas exigidas pelo aumento da sua marinha e do seu exército.”

2. OS FATORES EXTERNOS DAS OPINIÕES E DAS CRENÇAS: A sugestão, primeiras impressões, necessidade de explicações, palavras e imagens, ilusões, necessidade, etc.

Convencer não é absolutamente sugerir. Uma sugestão faz obedecer. Um raciocínio pode persuadir, mas não obriga a ceder.” Conceituação complicadinha de sugestão, já que exige muito… Uma hipnose!

repetir a afirmação com ardor é levar ao seu máximo a ação sugestiva.” E no entanto aqui está a boa e velha acepção de sugestão…

Os efeitos da sugestão são de uma intensidade muito variável. Ela se estende desde a ação diminuta do vendedor que se procura desfazer de uma mercadoria, até a que é exercida pelo hipnotizador no espírito do neuropata, o qual cegamente obedece a todas as suas vontades. Na política, o hipnotizador se chama agitador; sua influência é considerável.

Os efeitos de uma sugestão dependem do estado mental do indivíduo que a recebe. Sob uma influência pessoal intensa: ódio, amor, etc., que limita o campo da sua consciência, ele será muito sugestionável e as suas opiniões facilmente se transformarão.”

Questões escandalosas, tais como a de Mme. Humbert e de Dupray de la Mahérie, provaram que banqueiros hábeis, advogados e homens de negócios experientes podiam ser sugestionados, a ponto de abandonar a fortuna a vulgares velhacos, que só tinham ao seu favor a força fascinadora.”

O FASCISMO É FASCINANTE… “Essa fascinação é uma irresistível forma de sugestão. O homem a ela se submete como o pássaro diante da cobra.”

Muitos crimes tiveram como origem essa ação fascinadora. A formosa condessa Tarnowska sugeria sem dificuldade assassinatos aos seus adoradores. A sua força era tal que se tornou preciso mudar muitas vezes os carabineiros que a acompanhavam, assim como os guardas da sua prisão.”

Tornando-se cada vez mais preponderante o papel das multidões e sendo estas unicamente influenciadas pela sugestão, a influência dos agitadores cresce dia a dia. Um governo supostamente popular é, na realidade, uma oligarquia de agitadores, cuja influência tirânica se manifesta a cada instante. Eles ordenam as greves, obrigam os ministros a obedecer-lhes e impõem leis absurdas.”

Sendo de ordem afetiva, a sugestão só pela sugestão pode ser combatida. Ceder aos agitadores, como sem cessar se procede, é fortalecer a sua influência.” Dente por dente? Fake News por fake news?

O principal inconveniente das opiniões baseadas em explicações errôneas é que, admitindo-as como definitivas, o homem não procura outras. Supor que se conhece a razão das coisas é um meio seguro de não a descobrir. A ignorância da nossa ignorância tem retardado de longos séculos os progressos das ciências e ainda, aliás, os restringe.”

Certas palavras, como precisamente observou a propósito o sr. Barrès, são dotadas de uma sonoridade mística. Gozam dessa propriedade as expressões favoritas dos políticos: capitalismo, proletariado, etc.” E quem é este senhor Barres?

O inacessível elétron sucedeu ao não menos inacessível átomo. Essas expressões baseadas no desconhecido concedem suficiente satisfação à nossa necessidade de explicações.”

Diante da rápida diminuição dos alistamentos voluntários na cavalaria, um sensato psicólogo militar teve, há alguns anos, a idéia de mandar colar, por toda parte, cartazes ilustrados coloridos que representavam elegantes cavaleiros, fazendo várias sortes de exercícios. Na parte inferior figurava a enumeração das vantagens outorgadas aos que se alistavam pela primeira e pela segunda vez. Os resultados foram tais que, em muitos regimentos, os coronéis recusaram os candidatos por falta de lugar.”

Uma inteligência que possui o poder atribuído aos deuses de abranger, num golpe de vista, o presente e o futuro, a nada mais se interessaria e os seus móveis de ação ficariam paralisados para sempre.”

Conquanto muito breve, a enumeração dos fatores de opiniões e de crenças precedentemente exposta basta para provar como são pesadas as fatalidades de que está carregada a alma humana.” Realmente Le Bon prima pela concisão. Prima até demais.

3. POR QUE DIFEREM AS OPINIÕES E POR QUE A RAZÃO NÃO AS CONSEGUE RETIFICAR

Aperfeiçoando os homens, a civilização não os transformou, portanto, igualmente. Longe de caminharem para a igualdade, como as nossas ilusões democráticas procuram persuadir, eles tendem, ao contrário, para uma desigualdade crescente. A igualdade, que foi a lei dos primeiros tempos, não poderia ser a do presente e ainda menos a do futuro.

Assim, só pelo fato da sua ascensão progressiva, a civilização realizou a façanha de um mágico que ressuscitasse, no mesmo momento, no mesmo solo, homens das cavernas, senhores feudais, artistas da Renascença, operários e sábios modernos.”

A árdua tarefa dos governos modernos é fazer viver, sem excessivo desacordo, todos esses herdeiros de mentalidades tão desigualmente adaptadas ao seu meio. Inútil seria pensar em nivelá-las. Isso não é possível pelas instituições, pelas leis nem pela educação.

Um dos maiores erros do nosso tempo é supor que a educação iguala os homens. Ela os utiliza, mas não os nivela nunca. Numerosos políticos ou universitários, carregados de diplomas, possuem mentalidade de bárbaros e somente podem, portanto, ter por guia na vida uma alma de bárbaro.”

Uma mulher culpada de grave crime, porém cercada de filhos lacrimosos que a reclamem, está certa da indulgência do júri. A mulher formosa que, num acesso de ciúme, matou o amante, pode estar ainda certa disso. Um júri inglês a condenaria à forca; um júri francês a absolve quase sempre.”

Um pouco acima dessa categoria, dominada por mera sentimentalidade, acham-se os juízes dos tribunais de primeira instância. São ainda bastante jovens e os argumentos de ordem afetiva podem-nos comover. O prestígio de um advogado célebre sempre os impressiona. Pode-se, entretanto, exercer influência nos seus espíritos por meio de provas racionais, unicamente, porém, se elas não tiverem de lutar contra interesses pessoais. A esperança de promoção, as pressões políticas, exercem, por vezes, uma influência preponderante nas suas opiniões. Eles formulam julgamentos bastante incertos, porquanto os magistrados do Tribunal de Apelação reformam cerca de um terço desses julgamentos. Eles se iludem, portanto, mais ou menos 1 vez em 3.

Os magistrados de Tribunais de Apelação formam um grau superior ao da classificação precedente. Mais idosos e mais instruídos, são menos subordinados à lógica afetiva do que à lógica racional.

No vértice, finalmente, surgem os juízes do Tribunal Supremo. Envelhecidos, um pouco decrépitos, nada mais tendo a esperar, desprovidos de toda sentimentalidade, tão indiferentes ao interesse individual quando à compaixão, ignoram os casos particulares e permanecem confinados no direito estrito. Nenhum advogado procuraria invocar um ar sentimental diante deles. Só a prova racional os pode impressionar. As meticulosas precauções da lei inteiramente os dominam. Ela tornou-se para eles uma espécie de entidade mística, isolada dos homens. Esse excesso de racionalismo não é destituído de perigo, pois o direito, eqüitável no momento em que acaba de ser fixo, cessa logo de o ser em virtude de evolução social, que rapidamente o excede. É então que se deve interpretá-lo, a fim de preparar a sua transformação, como fazem alguns magistrados cujas sentenças formam uma jurisprudência, [ou um calhamaço de jurisprudências…] filha de novos costumes e mãe de novas leis. O duelo passou, assim, do estado de crime ao de delito não-condenável; o adultério, acarretando outrora anos de prisão para os culpados e julgado pelo código como um crime tão grave que ao marido se desculpava matar a mulher, acabou por ser incluído entre os delitos de tal modo secundários que um novo projeto de lei propôs, como única punição para o adultério, uma insignificante multa.”

Assembléias: “Os votos são unicamente sugeridos pelos interesses do partido ou pelos dos eleitores, aos quais devem agradar.” Se houver resquícios do segundo, dêem-se por satisfeitos!

Sem dúvida, a razão é constantemente invocada nas assembléias parlamentares, mas, na realidade, é o menos importante dentre os fatores suscetíveis de influenciá-la.”

As divergências de opinião não resultam, como por vezes supomos, das desigualdades de instrução daqueles que as manifestam. Elas se notam, com efeito, em indivíduos dotados de inteligência e de instrução equivalentes.” Bourdieu pesquisou temperamentos e caracteres em sua nascida-defasada-teoria social dos gostos? Tudo o que vale para esses mentes-vazias é a erudição e a classe econômica!

A história da Alemanha e a da França nestes últimos 50 anos fornece numerosas provas das vantagens inconvenientes destes dois métodos: a tirania individual e a tirania coletiva.” Infelizmente o conhecimento político de Le Bon parece se limitar ao século XIX de dois ou três países vizinhos, o que é teoricamente um nada.

4. A RETIFICAÇÃO DAS OPINIÕES PELA EXPERIÊNCIA

Todas as nações verificam, desde as origens do mundo, que a anarquia termina pela ditadura. Mas dessa eterna lição elas não tiram nenhum proveito.”

A experiência mostra, igualmente, que, por seguros motivos de ordem psicológica, todo o produto fabricado pelo Estado ultrapassa sempre os preços da indústria particular, não obstante essa prova, os socialistas obrigam o Estado a monopolizar constantemente alguma fabricação nova.” Que coisa! Israel devia terceirizar sua indústria bélica, então!

SIM, ESSE É UM DOGMA DO CAPITALISMO: “Os socialistas aprenderam, assim, experimentalmente, porém à custa dos seus administradores, que as leis econômicas desdenhadas, quando não são compreendidas, tornarão sempre impossível o estabelecimento de uma taxa qualquer numa classe única de cidadãos. Por incidência, ela se reparte logo entre todas as outras classes, e quem paga não é aquele contra o qual o imposto foi votado.”

LIVRO VI. AS OPINIÕES E AS CRENÇAS COLETIVAS

1. AS OPINIÕES FORMADAS SOB INFLUÊNCIAS COLETIVAS: A raça, o meio, o costume, os grupos sociais, etc.

Já não existem hoje raças puras, no sentido antropológico da expressão; mas, quando povos da mesma origem ou origens diversas, sem que sejam muito afastadas, estiveram submetidos durante muitos séculos às mesmas crenças, às mesmas instituições, às mesmas leis, e falam a mesma língua, constituem o que denomino uma raça histórica.” “A alma de um povo não é, portanto, uma concepção metafísica, mas uma realidade palpitante. É formada de uma estratificação atávica, de tradições, modos de pensar e mesmo preconceitos. Da sua solidez depende a força de uma nação.” “Destruir as influências do passado na alma de um povo teve sempre como invariável resultado conduzi-lo à barbárie.” “Os tchecos e os húngaros na Áustria, os irlandeses na Inglaterra, etc., confirmaram a exatidão dessa lei. A pretensão de impor os nossos códigos aos indígenas das nossas colônias prova que ela é mal-compreendida.”

Um povo de mestiços é ingovernável. A anarquia em que vivem as repúblicas latinas da América é uma prova dessa asserção.”

As violentas revoluções por meio das quais os povos procuram então, por vezes, subtrair-se ao jugo opressor de um passado demasiadamente penoso, não têm uma ação durável. Podem destruir as coisas, porém modificam muito pouco as almas. Assim, as opiniões e as crenças da velha França pesam sobre a nova de um modo irresistível. Só as fachadas mudaram.” Tanto criticam a ineficácia das revolução nos séculos XVIII e XIX e se esquecem do advento do Cristianismo: teria mudado o homem? Não, em absoluto!

Um perfeito socialista revolucionário facilmente se torna um conservador intransigente, desde que chegue ao poder. Sabe-se com que facilidade Napoleão transformou em duques, camaristas e barões, os terríveis convencionais que ainda não tinham tido tempo de matar-se uns aos outros.” Pouco se fala, no entanto, do estranho fenômeno dos comunistas na velhice ou maturidade: FhC, Mandetta, Mark Zuckerberg, se bobear até o Musk… Todos xingados de comunistas pelos “cérebros de gelatina” que ajudaram a destruir o Brasil elegendo Bolsonaro.

QUE AZEDO E ULTRAPASSADO! “Imaginando, segundo a afirmação dos seus agitadores, que eles são os criadores únicos da riqueza, não suspeitam absolutamente o papel que o capital e a inteligência representam. Considerando-se muito mais compatriotas dos operários estrangeiros do que dos burgueses franceses, eles se tornaram internacionalistas e antimilitaristas. A sua verdadeira pátria é o grupo de homens do seu ofício, a qualquer nação que pertençam.”

2. OS PROGRESSOS DA INFLUÊNCIA DAS OPINIÕES COLETIVAS E AS SUAS CONSEQÜÊNCIAS

O ponto mais essencial, talvez, da psicologia das multidões é a nula influência que a razão exerceu nelas. (…) Tais verdades deveriam ser banais desde muito tempo, mas a maneira de agir dos políticos de raça latina indica que eles não as compreendem ainda. Eles só se libertarão da anarquia depois de a terem compreendido.” Mas de que adianta compreender, se continuarão sentindo e sendo mistificados, Le Bon?

As mais revolucionárias multidões latinas mantêm um espírito muito conservador, muito tradicionalista. E isso explica por que os regimes que ela destrói são logo restaurados sob novas designações.”

A ação das opiniões populares, que hoje se tornou preponderante, igualmente se exerceu nas diversas épocas da História. Ela não é sempre percebida, porque a crônica das nações não foi, durante muito tempo, mais do que a dos soberanos. Todos os atos dos reinados pareciam resultar meramente da vontade dos reis.”

Quando, depois de haver terminado a história dos soberanos, o cronista se ocupar da história dos povos, claramente se verá que as multidões foram as verdadeiras criadoras de acontecimentos memoráveis: cruzadas, guerra de religião, matança de S. Bartolomeu,¹ revogação do edito de Nantes, restauração monárquica e napoleônica, etc. Nenhum déspota teria jamais tido a força de ordenar a matança de São Bartolomeu e, a despeito do seu poder absoluto, Luís XIV não haveria podido revogar o edito de Nantes.”

¹ wiki: “O massacre da noite de São Bartolomeu ou a noite de São Bartolomeu foi um episódio da história da França na repressão ao protestantismo, engendrado pelos reis franceses, que eram católicos. [Pelos reis, no plural, se foram somente em duas noites?] Esses assassinatos aconteceram em 23 e 24 de agosto de 1572, em Paris, no dia de São Bartolomeu. Estima-se que entre 5 e 30 mil pessoas tenham sido mortas, dependendo da fonte atribuída.”

Os acontecimentos provocados pelas multidões são, na maioria, os que têm na História o papel mais funesto. As catástrofes de origem popular foram, felizmente, pouco numerosas, graças à ação das elites que, tão fracas hoje, conseguiam, então, na maior parte das vezes, limitar os caprichos e os furores do número.” Que coisa, não? Como envelheceste mal!

Se tudo é permitido para muitos ou quase todos, nada é permitido a ninguém.

Se um povo aspira à liberdade, o que raramente lhe acontece, ou se ele se arremessa à servidão, tendência muito mais freqüente, sempre achará professores e advogados que dêem uma forma intelectual às suas impulsões, por mais perigosas que possam ser.”

As opiniões da multidão ditam sempre hoje aos legisladores leis que eles devem votar e, como essas leis correspondem a efêmeras fantasias e não a necessidades, o seu resultado final é a desorganização da vida industrial, social e econômica do país.” Se assim o é, poderia me explicar como e por que a maconha e o aborto não são ainda legais? E por que não existe um programa de renda mínima consolidado no Brasil?

Que saudades do que não vivi (as greves sendo realmente temidas!)…

Isso é apenas, cumpre notar, um começo. [!!!] Os operários, aos quais são propostas pensões de 200 ou 300 francos já não se contentarão com isso, desde que se certificarem de que, mediante violência, os seus colegas das estradas de ferro obtêm 2 ou 3 mil. Depois do voto do Senado, os pedidos de aposentadorias proporcionais principiaram a aparecer, naturalmente, em avultado número: cantoneiros, operários dos arsenais, da manufatura do fumo reclamaram energicamente. Mas tudo isso é o futuro, um temível futuro, que só as preocupações eleitorais impedem de ver. Que sinistra cegueira!”

Sem os pesquisadores solitários, jamais haveria civilização ou progresso; mas a obra individual somente adquire toda a força pela sua absorção na alma coletiva.”

3. A DISSOLUÇÃO DA ALMA INDIVIDUAL NA ALMA COLETIVA

Essa desagregação de uma sociedade em fragmentos sem elos comuns constitui o que se denominou movimento sindicalista. Longe de permanecer, como o socialismo, um produto de puros teóricos, alheios às realidades, ele representa uma criação espontânea, devida a necessidades econômicas, que por toda a parte se impuseram, como prova a sua generalização, sob formas diversas, em povos de mentalidades distintas. As únicas diferenças são que o sindicalismo, revolucionário em alguns países, é pacífico em outros.” Que distinção absurda é essa???

A evolução industrial, que provocou esse movimento, conduz as grandes pátrias modernas a se subdividirem em pequenas pátrias, que só respeitam as próprias leis e desdenham as da coletividade geral que as contém.” Intui (mas articula mal) o reacionarismo e a fragmentação pós-modernos subseqüentes à falência do socialismo…

Desde que o antigo bloco social tiver sido inteiramente dissolvido em pequenos fragmentos solidamente constituídos, as suas divergências de interesses fatalmente os conduzirão a incessantes lutas. Se cada grupo for, com efeito, composto de elementos homogêneos, dotados de interesse e opiniões semelhantes, ele se achará em conflito com outros grupos, tão pujantes, mas que encerrem interesses nitidamente opostos.

É possível pressentir desde já essas futuras lutas entre interesses contrários, pois assim nos revela a história das antigas repúblicas italianas, principalmente a de Siena e a de Florença. Governadas por sindicatos operários, estes ensangüentaram com as suas dissensões intestinas, durante séculos, todas as cidades em que se exerceu o seu domínio. § Não objetemos que se trata de tempos muito remotos. As grandes leis sociais não são numerosas e sempre se repetem. § As lutas de grupos apenas começam porque o poder central, ainda forte, refreia as suas rivalidades, mas esse poder perde cada vez mais a sua ação. Desde que ele a tiver perdido inteiramente contra ele, [ele contra ele quem?] como em Narbona, depois entre eles, como na Champagne, onde os sindicatos rivais de dois departamentos de interesses contrários encarniçadamente lutaram um contra o outro.” Alusão a fenômenos sociais hoje ininteligíveis para quem não conhece os episódios com muita especificidade!

Nos capítulos consagrados ao estudo das opiniões individuais, tivemos, muitas vezes, dificuldade em precisar, entre os fatores que podiam agir, aqueles que desempenham um papel preponderante. Nada é, porém, mais fácil quando se trata de grupos muito homogêneos, muito circunscritos, tais como aqueles cuja formação acabamos de indicar.

Eles são, efetivamente, compostos de indivíduos que possuem unicamente as opiniões do seu pequeno meio. Para conservar a sua força, o grupo é obrigado a não tolerar nenhuma dissidência. Pela opinião de um dos seus membros, conhece-se a de todos os outros.”

Caiam as sociedades futuras sob o jugo do socialismo, do sindicalismo ou dos déspotas, suscitados pelas anarquias precedentes dessas doutrinas, elas serão, de qualquer modo, mentalmente escravizadas.” HAHAHA!

A evolução moderna tende, como acabamos de ver, a desagregar as sociedades em pequenos grupos distintos, que possuem sentimentos, idéias e opiniões idênticas, isto é, uma alma comum. É inútil discutir o valor dessa evolução, porquanto a razão não altera os fatos. § Mas, sem que os julguemos, é possível, pelo menos, tentar interpretá-los. Ora, é fácil mostrar que essa fusão das almas individuais em almas coletivas constitui um retrocesso a fases extremamente remotas da história, observadas ainda no estado de sobrevivência entre os povos primitivos inferiores.” Interessante. Simplesmente enuncia o conceito de aldeia global ou “tribos urbanas”! “e é por isso que todos os membros de uma mesma tribo são considerados como responsáveis pelos atos de um só.”

Um administrador da Indochina, o Sr. Paul Giran, observa justamente que ‘o direito coletivo desse país parece incompreensível aos magistrados europeus que aí são enviados, porquanto eles consideram como indiscutível evidência que somente o autor de um delito tem a responsabilidade do ato cometido. A idéia de que uma pessoa alheia a um crime possa, pelo fato desse crime, sofrer uma pena qualquer, parece-lhes monstruosa’.

Ela não o é, entretanto, para o anamita.¹ Em numerosos casos, os parentes, que pertencem ao grupo familiar do culpado, são executados. E por quê? Pela razão psicológica acima indicada, isto é, que não estando diferenciados os elementos de cada grupo social, são considerados como tendo apenas uma alma coletiva.” Mas se está falando da individualização do crime?!?

¹ Antigo povo autóctone do território atual do Camarões (melhor resultado na pesquisa)? Ininteligível…

Os próprios europeus empregam esse direito primitivo em tempo de guerra, quando fuzilam os reféns, apoiando-se no princípio da responsabilidade coletiva,”

A não-diferenciação psicológica dos diversos membros de uma tribo, entre os primitivos, é também acompanhada de uma não-diferenciação anatômica. Provei, outrora, por investigações feitas em milhares de crânios, que a homogeneidade anatômica de um povo é tanto maior quanto mais alto se remonta às suas origens, e os crânios dos seus diversos membros se diferenciam gradualmente, à medida que esse povo progride.” Difícil provar algo em arqueologia, amigo!

A alma individual, que só em séculos conseguira desprender-se um pouco da alma coletiva, atualmente se volta para ela.” Oxalá!

LIVRO VII. A PROPAGAÇÃO DAS OPINIÕES E DAS CRENÇAS

1. A AFIRMAÇÃO, A REPETIÇÃO, O EXEMPLO E O PRESTÍGIO

O hábito de louvar a virtude teria acabado, talvez, por tornar virtuoso o próprio Tartufo.”

Mais forte que o hábito é o enjôo, a náusea. É o que vem depois de dois mil anos de “ele morreu por nós”…

Enquanto na Alemanha a mocidade universitária, a mocidade burguesa, inteligente e letrada, outrora atraídas pelo socialismo, hoje se afastam dele e voltam a sentimentos de patriotismo exclusivo e exaltado, a tal ponto que a social-democracia alemã já não obtém, por assim dizer, adeptos entre eles; em França, ao contrário, é moda alistar-se entre os estudantes coletivistas e internacionalistas. O exemplo vem de cima, dos professores de filosofia, dos normalistas. A Escola Normal se transforma numa escola do socialismo.” Que bom, Le Bon: evitastes o fascismo francês – orgueil! Estranho poder místico possuído por esses professores… Os do século XXI não conseguem mais influenciar seus alunos e pensarem por si mesmos!

A autoridade do mestre é hoje soberana, inteiramente como no tempo em que reinava Aristóteles. Ela se torna mesmo cada vez mais onipotente à medida que a ciência mais se especializa.” Defina mestre. Hoje ele é o bobo-da-côrte.

CLOROQUINERS IN A NUTSHELL: “O completo imbecil, entretanto, alcança êxito, algumas vezes, porquanto, não tendo consciência da sua imbecilidade, jamais hesita em afirmar com autoridade.” “O mais vulgar dos ‘camelos’, quando energicamente afirma a imaginária superioridade de um produto, exerce prestígio na multidão que o circunda.” Seja lá o que for camelo, está correto…

2. O CONTÁGIO MENTAL

Minha sensação é que Le Bon – logo ele! – subestima a inteligência da sua própria massa; ignaro em sua própria psicologia! Ele pressupõe que seu público não sabia das verdades imorredouras (as obviedades, melhor dizendo) que ele elenca com sua automática, sua metralhadora verbal. Tudo isso (o que é uma opinião, o que é uma crença, seu poder absoluto) o populacho sempre soube, sempre saberá.

2014- : “Na vida ordinária, o contágio pode ser limitado pela ação inibidora da vontade, mas, se uma causa qualquer — violenta mudança de meio em tempo de revolução, excitações populares, etc. — vêm paralisá-la, o contágio exercerá facilmente a sua influência e poderá transformar seres pacíficos em ousados guerreiros, plácidos burgueses ou terríveis sectários. Sob a sua influência, os mesmos indivíduos passarão de um partido para outro e empregarão tanta energia em reprimir uma revolução quanto em fomentá-la.” PARADOXO DE SININHO, a “esquerdista” que ajudou a acordar o Gigante e derrubar o Partido dos Trabalhadores…

Quanto mais se multiplicam os meios de comunicação tanto mais se penetram e se contagiam. A cada dia estamos mais ligados àqueles que nos cercam. A mentalidade individual facilmente reveste uma forma coletiva.”

UM HOMEM DE ÉPOCA (E PÕE ÉPOCA NISSO!): “Os magistrados são, com efeito, indulgentes em demasia para com todos os criminosos, e bons filantropos, um pouco imbecis, constroem para eles elegantes prisões bem-aquecidas e providas de todo o conforto moderno.”

O contágio criminal produz-se, muitas vezes, assim, graças às narrações de assassinatos profissionais, referidos pelos jornais.” Engraçado que nunca ninguém imitou Pelé! Uma teoria de contágio com partido (se for ruim, é contagiante…). Típica do reacionarismo fim-de-milênio.

O terror do último cometa, que devia, segundo se afirmava, encontrar a Terra, provocou a morte voluntária de muitas pessoas.”

O rol de exemplos eqüestres é invejável! Mas não terei saco para ler sua obra sobre equinos…

Se um dos cães ladra, os outros imediatamente o imitam.” Será mesmo uma imitação, ou apenas um ato contíguo e inédito, impossível de ser distinguido de uma reação instintiva pelo homem?

Tem-se muitas vezes repetido a história dos 15 inválidos que se enforcaram no mesmo gancho de um corredor e a dos soldados que se suicidaram na mesma guarita.” É mesmo? Diga-me o nome de 3 deles, por favor.

O Sr. Stohoukine cita um caso de uma fogueira que devorou 2500 indivíduos que se sacrificavam na esperança de uma vida melhor.”

O contágio mental pode, portanto, escravizar todas os inteligências. À semelhança do contágio pelos micróbios, ele poupa apenas naturezas muito resistentes e pouco numerosas.” Imagina quanta tolice não foi reverberada graças às passagens mais histriônicas do seu livro?

TOUCHÉ: “As opiniões propagadas por contágio só se destroem por meio de opiniões contrárias propagadas do mesmo modo. Aplicada por estadistas, essa regra de ordem psicológica lhes permitiria, graças aos meios de que dispõem, combaterem o contágio pelo contágio.” Meu país sempre será vermelho, etc.

3. A MODA

Com a vida mais rápida, a mulher teve de se masculinizar exteriormente para seguir o homem nas suas vertiginosas corridas pelas grandes estradas. O vestido tailleur, primeiramente reservado a certos esportes, generalizou-se em tudo quanto tinha de cômodo e de adequado. Quanto aos outros vestidos, as mangas largas dos corpetes tornaram-se estreitas para deslizarem facilmente nos paletós. Mas, então, a vista sentiu-se impressionada desagradavelmente pelo busto assim estreito. Para corrigir esse defeito e porque uma transformação determina outra, diminuiu-se a amplitude das saias, para que ficassem mais largas as espáduas e se afinasse a silhueta, modificação que suscitou a supressão dos bolsos e, depois, as saias inferiores. A mulher, na sua necessidade de sentir em torno de si uma atmosfera de desejo, sublinhou essa simplicidade por uma estreiteza excessiva. Ela mostrou tudo quanto era possível e deixou adivinhar o resto. Saias, rendas e roupa branca cederam o lugar às peças inferiores, chamadas combinaisons, que preservam do pó e do frio.”

A moda é tão poderosa entre as mulheres que elas suportam, em obediência aos seus ditames, os mais terríveis enfados, como as obrigações, há alguns anos, de manter constantemente erguido, por uma das mãos, um vestido de cauda, sendo a outra mão ocupada em carregar a bolsa, destinada a encerrar o conteúdo dos bolsos; é análogo o suplício no andar, determinado pelos vestidos chamados entraves e aceito há longos meses. Nesse ponto, as civilizadas rivalizam com as selvagens, que suportam a tortura de um anel espetado no nariz, em obediência à moda.”

A moda não conhece revoltadas; só a extrema pobreza lhe recusa escravas. Nenhum dos deuses do passado foi mais respeitosamente obedecido.”

4. OS JORNAIS E OS LIVROS

Alguns foram, contudo, bastante poderosos pela sua influência sugestiva para provocar a morte de milhares de homens. Tais são as obras de Rousseau, verdadeira bíblia dos chefes do Terror, ou A Cabana do Pai Tomás, que contribuiu muito para a sanguinolenta guerra de secessão na América do Norte.”

A leitura da Bíblia no tempo de Cromwel criou na Inglaterra um número avultado de fanáticos. Sabe-se que na época em que foi escrito Dom Quixote, os romances de cavalaria exerciam uma ação tão perniciosa em todos os cérebros que os soberanos espanhóis vedaram, finalmente, a venda desses livros.”

A simples repetição de uma fórmula breve só é útil para um produto já conhecido. Ela atua, então, por uma espécie de obsessão, mas, para um produto novo, será necessariamente preciso enumerar todas as suas qualidades.”

A dificuldade de lutar contra o hábito, que combate a influência psicológica do anúncio, ficou muito bem provada pela história da adaptação dos pneumáticos aos carros. Tendo os alugadores recusado a compra desse artigo, o inventor o distribuiu gratuitamente a uma pequena companhia. O êxito foi tão rápido que, não somente essa empresa fez fortuna, como, diante das reclamações dos que tomavam carro, todas as outras companhias se viram obrigadas, com grandes despesas, a munir da borracha, primeiramente desdenhada, os seus veículos.”

A batalha de Iena para os alemães, a guerra de 1870 para os franceses, foram necessárias para que criassem correntes de opiniões suscetíveis de impor o serviço militar obrigatório universal.(*) Só uma corrente de opiniões análoga, resultante de decisivos sucessos marítimos, podia permitir ao governo japonês aumentar de mais de um bilhão por ano as despesas da sua marinha de guerra.

(*) O chanceler do Império da Alemanha exprimiu muito bem essa verdade num discurso proferido em março de 1911 no Reichstag, e de que damos um resumo: ‘A questão do desarmamento é, para todo o observador sério, insolúvel enquanto os homens forem homens e os Estados forem Estados. Por mais que façam, os fracos serão sempre a presa dos fortes. O povo que não quer despender com o seu armamento, decai, e um povo mais forte toma o seu lugar’. [Carniça!] Como muito bem disse o mesmo estadista, ‘as disposições de que podem hoje surgir a guerra têm as suas raízes em sentimentos populares, que se deixam facilmente influenciar’.”

Os mais temíveis tiranos nunca foram bastante fortes para lutar muito tempo contra correntes de opiniões. Observa Juvenal que Domiciano pôde matar impunemente personagens ilustres, porém ‘pereceu quando os sapateiros começaram a ter medo dele’.”

Essas explosões de opiniões populares, muito perigosas porque a razão não exerce nelas nenhuma influência, são felizmente pouco duráveis. Resistir-lhes diretamente é excitá-las ainda mais. Entre os diversos fatores das explosões de furor provocadas pela questão Dreyfus, um dos mais ativos foi a obstinação do Estado-maior em afrontar a opinião, contestando a evidência de certos documentos. Um simples erro judiciário não teria produzido mais efeito do que tantos outros, cotidianamente cometidos, e logo se teria cessado de pensar nisso.”

LIVRO VIII. A VIDA DAS CRENÇAS

1. CARACTERES FUNDAMENTAIS DE UMA CRENÇA

Se os romanos aceitaram as divindades de todos os povos estrangeiros, foi porque elas constituíam para eles uma hierarquia de seres poderosos, que cada qual devia atrair em seu favor pela adoração.

Conquanto animado de princípios diferentes, o budismo triunfante não foi mais perseguidor. Ensinando a indiferença ao desejo e considerando os deuses e os entes como vãs ilusões sem importância, ele não tinha nenhuma razão para ser intolerante.”

Os sectários modernos da deusa Razão são tão violentos, tão intolerantes, tão sequiosos de sacrifícios quanto os seus predecessores. A regra de todo o verdadeiro crente será sempre a que foi ensinada na Suma de S. Tomás: ‘A heresia é um pecado pelo qual se merece ser excluído do mundo pela morte’.”

Todos os progressos da civilização procedem, evidentemente, desses espíritos superiores, mas não se pode desejar a sua multiplicação sucessiva. Inapta a adaptar-se imediatamente a progressos rápidos e profundos em demasia, uma sociedade se tornaria logo anárquica. A estabilidade necessária à sua existência é precisamente estabelecida graças ao grupo compacto dos espíritos lentos e medíocres, governados por influências de tradições e de meio.”

A mediocridade de espírito pode, pois, ser benéfica para um povo, sobretudo associada a certas qualidades de caráter. Instintivamente, a Inglaterra o compreendeu, e é por isso que nesse país, embora seja um dos mais liberais do universo, o livre-pensamento sempre foi bastante mal-visto.”

A mentalidade dos mártires de toda a espécie, política, religiosa ou social, é idêntica. Hipnotizados pela fixidez do seu sonho, sacrificam-se alegremente a fim de estabelecer a vitória da sua idéia, sem mesmo nenhuma esperança de recompensa neste mundo ou no outro. A história dos niilistas e dos terroristas russos é abundante em ensinamentos que demonstram este último ponto. Não é sempre a esperança do céu que faz os mártires.” “O estudo dos mártires pertence, sobretudo, ao domínio da patologia mental. Os alucinados das crenças mais variadas apresentam tal analogia que, depois de examinados dois ou três, todos os outros ficam conhecidos.” HAHAHAHAHAAHA!

Eles podem ter como tipo o exemplo de Vivia Perpétua, venerada pelos cristãos sob o nome de santa Perpétua, e que vivia no reinado de Sétimo Severo. Filha de um senador três vezes cônsul, presidente do Senado de Cartago, a bela e rica patrícia, [afinal ela era cartaginesa ou romana?] secretamente convertida ao Cristianismo, preferiu ser exposta nua diante do povo e devorada viva pelos animais ferozes a fazer o simulacro de queimar um pouco de incenso no altar do gênio do Imperador. Os crentes consideraram tais atos como provas do poder dos seus Deuses. É, evidentemente, uma pura ilusão, porquanto os mártires foram igualmente numerosos em todas as religiões e em todas as seitas políticas.”

Os povos jamais sobreviveram muito tempo à morte dos seus deuses.”

2. AS CERTEZAS DERIVADAS DAS CRENÇAS: A natureza das provas com que se contentam os crentes

Lutero tinha certeza de que o papa era o Anti-Cristo, que não existia purgatório e, em nome de verdades dessa ordem, a Europa foi posta a fogo e sangue, durante muitos séculos. Os padres da Inquisição tinham certeza de que Deus queria ver queimados os hereges, e eles despovoaram a Espanha com as suas fogueiras.”

A leitura das obras relativas aos meios de descobrir os feiticeiros, descritos por doutos magistrados outrora qualificados de eminentes, é, nesse ponto de vista, extremamente instrutiva. Os documentos dessa natureza, tanto quanto os livros dos teólogos, mostram o abismo que separa a prova exigida pelo sábio da que satisfaz o espírito encerrado no ciclo da crença.

É inútil dar aqui exemplos. Todos seriam análogos aos que foram revelados no processo que se intentou contra o escritor italiano d’Albano. Provou-se claramente que havia aprendido ‘as 7 artes liberais’ com o auxílio de 7 demônios, por se ter descoberto em sua casa uma garrafa que continha 7 drogas diferentes, cada uma das quais representava um demônio. A despeito dos seus 80 anos, ia ser queimado vivo, quando, protegido sem dúvida pelos 7 demônios captados, morreu subitamente. Os juízes tiveram de limitar-se a desenterrá-lo e a queimar o cadáver numa praça pública.

No reinado de Luís XIV, só excepcionalmente os feiticeiros foram queimados, mas ninguém duvidava do poder que eles possuíam. O processo da feiticeira Voisin revelou que as maiores personalidades da época, o marechal de Luxembourg, o bispo de Langres, primeiro capelão da rainha e outros, tinham recorrido à força mágica que lhe atribuíam. O bispo Simiane de Gorges se dirigira a ela, a fim de obter, por influência do diabo, a fita azul do Espírito Santo!

Se as cartomantes e as pitonisas modernas referissem as visitas que recebem, ver-se-ia que a credulidade humana não tem diminuído. Eu poderia citar um ex-ministro, conhecido pelo seu rígido anticlericalismo, que nunca sai sem ter no bolso o pedaço de uma corda de enforcado. Um dos nossos mais eminentes embaixadores imediatamente se levanta de uma mesa em que se acham 13 convivas. É o fetichismo desses ilustres homens de Estado verdadeiramente superior às crenças religiosas que eles proscrevem com tanto vigor?”

Uma doutrina deve ser julgada verdadeira, dizia ele, desde que todos os homens assim pensam. No juízo de Bossuet, um único ente não poderia ter razão contra a totalidade dos outros. Foram necessários os progressos das ciências modernas para provar que muitas descobertas se realizaram, precisamente porque um único homem teve razão contra todos os outros.”

Uma mentalidade religiosa indestrutível nos fará voltar sempre os olhos para o sobrenatural, mas o estudo atento dos fatos milagrosos sempre mostrará também que eles são apenas alucinações criadas pelo nosso espírito.”

3. PAPEL ATRIBUÍDO À RAZÃO E À VONTADE NA GÊNESE DE UMA CRENÇA

O exemplo de Pascal mostra o que podem ser os resultados dessa luta entre a lógica afetiva e mística de um lado e a lógica racional do outro. O ilustre pensador escrevia numa época em que as verdades religiosas eram aceitas sem contestação, e só um gênio como o seu podia ousar submeter as suas certezas a uma discussão racional. O completo insucesso da sua tentativa demonstra, ainda uma vez, a fraqueza da razão perante a crença.

Pascal era dotado de muita sagacidade para não perceber o ilogismo racional de uma lenda que supõe um Deus a vingar em seu filho uma injúria cometida na origem do mundo por uma das suas criaturas, e não hesita em qualificá-la de ‘tolice’.” “Impressionado pelo receio do inferno (…) ele chega a considerar a vida futura como o objeto de uma temível aposta.” O e se… ético da vida aqui e agora, só que mal-aplicado…

Todo o homem pode fazer o que fez Maomé, porquanto este não fez milagres e não foi predito. Nenhum homem pode fazer o que fez Jesus Cristo.”

4. COMO AS CRENÇAS SE MANTÊM E SE TRANSFORMAM

uma crença que não é continuamente defendida logo se desagrega. A história está repleta de destroços de crenças que, por essa razão, tiveram apenas uma existência efêmera.” Mas pode-se reavivar crenças há séculos perdidas.

Confinado num deserto, privado de qualquer símbolo, o crente mais convicto veria rapidamente declinar a sua fé. Se, entretanto, anacoretas e missionários a conservam, é porque incessantemente relêem os seus livros religiosos e, sobretudo, se sujeitam a uma multidão de ritos e de preces. A obrigação para o padre de recitar diariamente o seu breviário foi imaginada pelos psicólogos que conheciam bem a virtude sugestiva da repetição.”

Os iconoclastas eram guiados por um instinto seguro, quando quebravam as estátuas e os templos das divindades que eles queriam destruir.”

O bramanismo, por exemplo, só tem muito vaga relação com os livros védicos que o inspiraram. O mesmo se diria do budismo.” Não existem dois brâmanes iguais, diria Heráclito.

Uma crença triunfante acaba sempre por fragmentar-se em seitas, cada uma das quais mantém apenas os elementos fundamentais da crença primitiva.”

Considerar a Reforma, como freqüentemente se faz, como uma vitória da liberdade do pensamento é não compreender absolutamente a natureza de uma crença. O protestantismo foi, primeiramente, mais rígido do que o catolicismo, e se ele evolveu, em seguida, para formas por vezes um pouco liberais, não ficou, por isso, menos intolerante. Lutero e os seus sucessores professavam doutrinas muito decisivas, destituídas de todo o espírito filosófico e impregnadas de uma intransigência absoluta. Tendo dividido os homens em eleitos e réprobos, Calvino julgava que os primeiros não devem ter nenhuma consideração para os segundos. Tendo-se tornado senhor de Genebra, impôs à cidade a mais terrível tirania e organizou um tribunal tão sanguinário quanto o Santo Ofício. O seu contraditor, Michel Servet, foi queimado a fogo lento.

Na época da matança de S. Bartolomeu, resultado de todas essas querelas em França, os protestantes foram os massacrados; mas, em todos os países em que eles eram os mais fortes, tornaram-se massacradores. A intolerância era a mesma dos dois lados.

A perpétua subdivisão das crenças é devida à circunstância de que cada qual adota os elementos que o impressionam com mais força e não é influenciado pelos outros. Certos fiéis que possuem o temperamento de apóstolos procuram logo formar uma pequena igreja. Se o conseguem, funda-se um cisma ou uma heresia e o contágio mental logo intervém para propagá-la. A divisão de uma crença em seitas foi sempre favorecida pela extrema imprecisão dos livros sacros. Cada teólogo pode, desde então, interpretá-los ao seu modo.

É útil percorrer obras como as que foram consagradas às discussões sobre a graça, entre tomistas e congruístas, jansenistas e jesuítas, etc., a fim de ver a que grau de aberração podem descer mentalidades influenciadas pela fé.

Os próprios espíritos mais eminentes parecem estar tomados de vertigem, desde que penetram no domínio da crença. Como exemplo, citaríamos as Meditações do célebre Malebranche. O êxito desse livro foi tal que, ao ser publicado em 1684, 4 mil exemplares foram vendidos em uma semana.”

Se há mal no mundo, é porque Deus negligenciou um pouco a sua obra; assim era, aliás, preciso, porquanto o mundo é a morada dos pecadores.”

Os crentes de todos os tempos têm procurado racionalizar a sua fé, sem compreender que a sua força era devida justamente à circunstância de não ser influenciada pelo raciocínio.”

A desagregação de uma crença em seitas rivais perpetuamente em luta não se poderia produzir nas religiões politeístas. Elas também evolveram, mas por simples anexação, depois por fusão de deuses novos, todos considerados como muito poderosos e, conseguintemente, muito respeitados. Eis por que as guerras de religião que devastaram a Europa ficaram mais ou menos ignoradas na antiguidade pagã.

Foi, pois, um grande benefício para os povos terem começado pelo politeísmo. Considero, contrariamente a uma opinião muito generalizada, que eles lucrariam muito se permanecessem nesse terreno. Longe de favorecer o progresso, o monoteísmo os atrasou, pelas lutas sanguinolentas com que encheu o mundo. Moderou durante séculos a evolução das artes, da filosofia e das letras, desenvolvidas pelos gregos politeístas a um ponto tal que eles são tidos como nossos mestres.” “O culto da pátria tinha bastado para dotar os romanos politeístas, na época da sua grandeza, de uma identidade de sentimentos que nunca foi ultrapassada.”

Se, conforme o juízo de tantos historiadores e de meios-filósofos como Renan, o monoteísmo houvesse constituído uma superioridade, seria preciso colocar acima de todas as outras religiões o islamismo, a única mais ou menos monoteísta.

Digo ‘mais ou menos’ porquanto as religiões realmente monoteístas só existiram nos livros. O cristianismo, por exemplo, logo anexou legiões de anjos, santos e demônios, que correspondem exatamente às divindades secundárias do mundo antigo e são venerados ou temidos como aquelas.

Essa multiplicidade de deuses secundários nas crenças monoteístas e a divisão rápida destas últimas em seitas mostram claramente que o monoteísmo é um conceito teórico, que não satisfaz às nossas necessidades afetivas e místicas.”

5. COMO MORREM AS CRENÇAS

Exato no sentido histórico, o título deste capítulo é muito menos preciso no sentido filosófico. Semelhantes à energia física moderna, as crenças se transformam algumas vezes, mas nunca perecem. Mudam, contudo, de nome, e é esse fenômeno que pode ser considerado como a sua morte.”

Essa fase, na qual o ceticismo e a fé se aproximam, produz-se quando o tempo ou outros motivos abalaram as crenças antes que estejam ainda nitidamente formuladas aquelas que as devem substituir. Os últimos defensores dos dogmas desfeitos a eles se prendem desesperadamente, sem que neles acreditem muito. Parece recearem ‘esse incurável tédio’, segundo Bossuet, ‘que constitui o fundo da vida dos homens, desde que perderam o gosto de Deus’.”

Atravessamos precisamente um desses períodos de instabilidade em que os povos se sentem vacilantes entre as influências das divindades antigas e as que se acham em via de formação. A nossa época constitui um dos pontos críticos da história das crenças. Enquanto se espera a adoção de uma grande fé nova, a alma popular flutua entre pequenos dogmas momentâneos, sem duração, mas não sem força. Defendidos por grupos, comissões ou partidos, eles exercem, muitas vezes, um poder considerável.” “Os imperativos categóricos gerais de outrora tornaram-se pequenos imperativos de seitas, tendo de comum apenas um ódio intenso contra a ordem de coisas estabelecidas.”

Robespierre, encarnação típica da estreita mentalidade religiosa do seu tempo, julgava-se um apóstolo que recebera do céu a missão de estabelecer o reino da virtude. Muito deísta, muito conservador e grão-sacerdote infalível de uma nova teocracia, supunha um dever sagrado imolar implacavelmente ‘os inimigos da virtude’ e, como outrora os pontífices da Inquisição, não excluía ninguém. Os seus discursos faziam incessantemente apelo ao Ente Supremo. O seu agente Couthon invocava também a cada instante o Altíssimo.”

O DEUS DO SOCIALISMO É O TRABALHO RESTITUÍDO AO HOMEM: “Se o socialismo possuísse alguma divindade precisa que cumprisse adorar, o seu êxito seria muito mais rápido. Os seus apóstolos reconhecem instintivamente essa necessidade, mas, não ousando oferecer à adoração popular a cabeça do principal teórico da doutrina, o judeu Karl Marx, eles se voltaram para a deusa Razão.” Qual é a necessidade de designá-lo como judeu neste contexto? Eu mesmo respondo: anti-semitismo.

Infelizmente, as divindades abstratas nunca seduziram as multidões, e é por isso que a religião socialista possui dogmas, mas ainda espera o seu deus. Ele não se fará esperar muito tempo. Os deuses surgem quando se tornam necessários.” Erro crasso ou acertou por tabela ao chutar o vento, acertando na Mãe-Rússia?

É inútil recriminar.” Dessa perspectiva, seu livro inteiro foi inútil.

Pilatos, hoje, já não formularia sem dúvida a pergunta, à qual nenhum filósofo jamais respondeu definitivamente. Ele diria que, sendo a verdade o que se crê, toda a crença estabelecida constitui uma verdade.”

LIVRO IX. PESQUISAS EXPERIMENTAIS SOBRE A FORMAÇÃO DAS CRENÇAS E SOBRE FENÔMENOS INCONSCIENTES DE QUE ELAS DERIVAM

1. INTERVENÇÃO DA CRENÇA NO CICLO DO CONHECIMENTO. GÊNESE DAS ILUSÕES CIENTÍFICAS.

Um dos mais flagrantes é a aventura de que foram vítimas, há mais ou menos 40 anos, a quase totalidade dos membros da Academia das Ciências, e que inspirou a Daudet o seu célebre romance O imortal. Acreditando num eminente geômetra, aureolado de grande prestígio, a ilustre assembléia inseriu, como autênticas, nas suas atas, uma centena de cartas atribuídas a Newton, Pascal, Galileu, Cassini, etc. Fabricadas, inteiramente, por um falsário pouco letrado, encerravam numerosos erros e vulgaridades, mas os nomes dos supostos autores e do sábio que as apresentava fizeram aceitar tudo. Os acadêmicos, na sua maioria, e principalmente o secretário perpétuo, não conceberam nenhuma dúvida no tocante à autenticidade desses documentos, até ao dia em que o falsário confessou a fraude. Dissipado o prestígio, declarou-se que era miserável o estilo das cartas, que, ao princípio, se afirmara ser maravilhoso e digno dos escritores de gênio considerados como os seus autores.

RAIOS N: “Durante 2 anos, as atas da Academia de Ciências publicaram inúmeras notas de vários físicos profissionais: Broca, J. Becquerel, Bichot, etc., sobre as propriedades, cada dia mais maravilhosas, desses raios. O Sr. Jean Becquerel anunciava mesmo tê-los cloroformizado. Sábios distintos, notavelmente o sr. D’Arsonval, faziam a respeito deles entusiásticas conferências. A Academia de Ciências, julgando necessário recompensar tão importante descoberta, encarregou vários dos seus membros, entre os quais o físico Marcart, de verificarem na residência do autor a exatidão das suas pesquisas. De lá voltaram maravilhados, e um prêmio de 50 mil francos foi concedido ao inventor.(*)

(*) Esse prêmio devia, primeiramente, ser conferido exclusivamente pelos raios N, mas, no último momento, por um excesso de prudência, que se afigurou excessivo a alguns membros da comissão, no relatório se declarou que o prêmio seria atribuído ao sr. Becquerel pelo conjunto dos seus trabalhos, sem especificação.

Durante esse tempo, sábios estrangeiros, para os quais os físicos franceses são destituídos de prestígio, repetiam em vão as experiências, sem o menor resultado. Muitos se decidiram, então, a ir observá-las na residência do inventor, e rapidamente se certificaram de que este era vítima das mais completas ilusões e continuaram a medir, por exemplo, os desvios dos raios N sob a influência de um prisma, conquanto se houvesse retirado sorrateiramente esse prisma na escuridão, etc.

A Revue Scientifique encetou, então, um vasto inquérito junto a todos os físicos do universo. Os seus resultados foram desastrosos para os raios N. Foi preciso reconhecer que eles constituíam um mero produto da sugestão mental e do contágio, e nunca tinham tido existência.

Dissipada a sugestão, nenhum dos físicos franceses persuadidos de terem visto os raios N conseguiu uma só vez vê-los de novo. As comunicações sobre esse assunto, outrora tão abundantes nas atas da Academia de Ciências, subitamente e totalmente cessaram.”

Nas ciências em via de formação, como é a medicina, [!] na qual são extremamente difíceis as verificações — porquanto jamais se sabe que resultados cumpre atribuir à sugestão e ao remédio —, os erros se perpetuam muito mais. Enumerá-los seria relatar a história da medicina e mostrar que teorias, remédios e raciocínios mudam todos os quartos de século.”

Há 50 anos, mais ou menos, o tratamento da pneumonia pela sangria era considerado como uma das belas conquistas da arte médica. O seu valor parecia fartamente provado por estatísticas, as quais indicavam que, graças a esse tratamento, só morriam 30 doentes em 100. (…) Os médicos matavam, pois, pela sangria, 25 por 100 dos seus doentes.”

2. A FORMAÇÃO MODERNA DE UMA CRENÇA: O ocultismo

Queimados por milhares, os feiticeiros reapareciam sempre. Essa potência rival da Igreja foi vencida pelo tempo muito mais do que pelos suplícios.”

Se inúmeros testemunhos, afirmações obstinadamente repetidas, mesmo à custa da vida, bastassem para estabelecer a existência de um fato, nada seria mais incontestavelmente provado do que a existência do sabbat. Incalculável é, com efeito, o número de indivíduos que confessaram tê-lo visitado através dos ares, montados numa vassoura, e haver tido aí relações sexuais com os demônios.”

O papel da sugestão e do contágio mental aí se manifesta em grande escala. Os testemunhos ouvidos no decurso dos processos de feitiçaria em vários países são concordes, as descrições de satã idênticas, o modo de ir ao sabbat é o mesmo em toda parte. Nenhum interesse pessoal parece ter influenciado a alma desses alucinados. O diabo lhes dava, verdadeiramente, muito pouco em troca da sua salvação eterna”

Raramente havia, aliás, necessidade de recorrer às torturas para obter a confissão dos seus supostos crimes. Os inculpados descreviam, sem resistência alguma, as cenas do sabbat. O diabo aí os esperava sob formas variadas: sapo, gato, cão preto, bode, etc. Oferecia aos seus fiéis refeições geralmente compostas de fragmentos de cadáveres e distrações mui pouco numerosas. Afora as danças e as relações sexuais com feios demônios ou velhas feiticeiras, as mais freqüentes ocupações consistiam em fustigar vigorosamente grandes sapos para que segregassem um líquido esverdeado e pegajoso, destinado a fabricar unguentos e pós mágicos.”

A magia antiga devia, ainda uma vez, reaparecer, mudando de nome sem sofrer notável modificação. Chama-se hoje ocultismo de espiritismo, os áugures se denominam médiuns, os deuses inspiradores de oráculos se intitulam espíritos, as evocações dos mortos têm o nome de materialização. Durante muito tempo a nova crença foi desdenhada pelos sábios; mas, há uns 20 anos que assistimos a este fenômeno muito imprevisto: eminentes professores tornam-se convencidos adeptos de todas as formas de magia.

Assim, reputados antropologistas, como Lombroso, [só um racista de merda] afirmam que evocaram as sombras dos mortos e com elas conversaram; ilustres químicos, tais como Crookes, dizem ter vivido meses com um espírito que diariamente se materializava e desmaterializava, professores de filosofia célebres, como Richet, [enxame de perfeitos anônimos] declaram ter visto um guerreiro de capacete surgir espontaneamente do corpo de uma menina, físicos distintos, como d’Arsonval, referem que um ‘médium pode fazer variar, à vontade e de um modo considerável, o peso de um objeto’. Vemos, enfim, ilustres filósofos, como o sr. Boutroux, dissertarem em brilhantes conferências sobre os espíritos, as comunicações sobrenaturais, e afirmarem que ‘a porta subliminal é a abertura pela qual o divino pode penetrar na alma humana’.”

A palavra materialização significa que um espírito, o de um morto ou mesmo o de uma pessoa viva, pode subtrair ao organismo do médium, o ‘fluido’, isto é, uma substância imponderável, suscetível, entretanto, de condensar-se e tornar-se matéria. Essa substância se agrega em matéria e se apresenta sob formas diversas, conforme a vontade da inteligência que a manipula. Ordinariamente é um corpo análogo a um corpo vivo que essa inteligência fabrica; lembra a forma que tinha, quando vivo, o defunto, se se trata de um morto. Tais corpos têm a denominação de materializados.” “Dr.” Maxwell

Além do nosso corpo material, possuímos em duplicata, um corpo astral, por vezes separável do primeiro depois da morte. Ele se pode materializar, servindo-se dos elementos materiais de um corpo vivo, o do médium, por exemplo.

Naturalmente, as explicações dos espíritas sobre tal assunto são bastante confusas e variam com a imaginação de cada autor. Cumpre unicamente reter que do corpo de um ente vivo poderia instantaneamente surgir outro ser, possuindo os mesmos órgãos e não o seu simples aspecto.

A famosa Katy King, de Williams Crookes, tinha, com efeito, um coração muito regular, e os pulmões do fantasma de capacete, materializado em presença do professor Richet, segregavam ácido carbônico como os de um ente ordinário, como se pode verificar, mediante a insuflação de ar num tubo banhado em água de barita.” HAHAHA?!

O sr. Bottazi e os seus auxiliares estavam persuadidos de que do corpo de Eusápia podiam sair um braço e uma mão invisíveis, que lhe permitiam levantar uma mesa de 22 quilos e deslocar numerosos objetos.”

Outros sábios conhecidos, o Dr. Venzano, o professor Morselli, etc., anunciam ter observado com o mesmo médium fenômenos análogos, principalmente ‘um vulto de mulher que tinha nos braços uma criança de cabelos muito curtos’.”

Os povos de todas as raças adoraram, sob nomes diversos, uma única divindade: a Esperança.” Menos os gregos.

3. MÉTODOS DE EXAME APLICÁVEIS AO ESTUDO EXPERIMENTAL DE CERTAS CRENÇAS E DE DIVERSOS FENÔMENOS SUPOSTAMENTE MARAVILHOSOS

As pessoas um pouco familiarizadas com a psicologia das multidões sabem como é diminuta a utilidade dos inquéritos coletivos. Os observadores transmitem sugestão uns aos outros e perdem inteiramente o espírito crítico; o nível de sua credulidade aumenta e eles chegam apenas a conclusões incertas. Não creio que uma só grande descoberta haja sido feita por uma coletividade.”

Todos os inquéritos relativos ao ocultismo empreendidos na Inglaterra, na França e na Itália, nada adiantaram e amplamente justificaram as reflexões precedentes. Conforme a mentalidade dos assistentes e o seu grau de sugestibilidade, o mesmo médium foi considerado como um vulgar embusteiro ou, ao contrário, como possuidor de poderes tão maravilhosos quanto os que foram outrora atribuídos ao diabo pela feitiçaria.

O mais importante desses inquéritos, tanto pelo tempo e pelo dinheiro despendido quanto pela qualidade dos observadores, foi o que organizou o Instituto Psicológico de Paris. Os resultados não foram brilhantes, apesar dos 25 mil francos sacrificados e das 43 sessões consagradas às experiências.”

Seria preciso imaginar um Mulder que não consegue provar a farsa ou embuste de nenhum autor de fenômenos paranormais!

Não se podia objetar às condições precedentes que os fenômenos de levitação somente se produzem na obscuridade, [os médiuns] tinham renunciado a essa exigência. O sr. Maxwell não cessa de insistir, no seu livro, na possibilidade de obter os fenômenos de levitação em plena luz. O sr. Boirac, reitor da Academia de Dijon, afirma também ter, por várias vezes, à luz, atraído uma mesa, sem tocar. Por que, gozando de tão curiosa propriedade, não quis obter o prêmio de 2 mil francos?

O anúncio desse prêmio valeu-me, naturalmente, a recepção de muitas centenas de cartas, porém somente 5 médiuns se apresentaram para ganhá-lo. Referi-lhes as condições acima indicadas prometendo, aliás, o número de sessões que quisessem. Disseram-me que voltariam. Não os tornei a ver.”

O fenômeno da levitação das mesas representa o ABC do espiritismo. Nesse particular, já não há dúvida possível! A mesa se levanta inteiramente só, sem estratagemas nem embustes, e fica suspensa até 78 segundos… Aqui em Gênova um jovem poeta, excelente médium, imprimiu movimento a uma caixa que pesava 180 quilos.” Prof. Morseff

por que os médiuns, capazes, há 40 anos, de erguer 75 quilogramas, já não podem levantar hoje alguns gramas?”

Um erro muito generalizado é o que consiste em imaginar que um sábio, distinto na sua especialidade, possui por essa única razão uma aptidão particular na observação dos fatos alheios a essa especialidade, principalmente aqueles em que a ilusão e a fraude desempenham um papel preponderante. Vivendo na sinceridade, habituados a crer no testemunho dos seus sentidos, completados pela precisão dos instrumentos, os sábios são, na realidade, os homens mais facilmente iludíveis.”

Os fenômenos do espiritismo não poderiam, portanto, ser eficazmente observados por sábios. Os únicos observadores competentes são os homens habituados a criar ilusões e, por conseguinte, a desvendá-las, isto é, os prestidigitadores. É muito lamentável que o Instituto Psicológico não o tenha compreendido.”

Não sendo os verdadeiros crentes influenciáveis por um raciocínio, seria inútil discutir com eles. Mas, ao lado desses agita-se a imensa legião dos simples curiosos, dos meio-convencidos.” Cético pero no mucho.

4. ESTUDO EXPERIMENTAL DE ALGUNS FENÔMENOS INCONSCIENTES GERADORES DE CRENÇAS

Está hoje mais ou menos demonstrado que as peregrinações, levando milhares de crentes tanto a Meca quanto a Lourdes, ou às margens do Ganges, não lhes foram sempre inúteis. As forças misteriosas do inconsciente, postas em jogo por uma fé ardente, muitas vezes se revelam mais pujantes que os meios de que dispõe a terapêutica.

Julgo que é do mais elevado interesse, porquanto pode desvendar imprevistos horizontes à fisiologia, pôr nitidamente em evidência os limites das influências que consegue determinar no organismo a sugestão produzida pelas preces, pelas relíquias, pelos amuletos, etc.

Sem dúvida, durante muito tempo ainda, esse estudo capital não poderá ser seriamente iniciado. As curas, qualificadas de milagrosas, só foram até aqui examinadas por céticos intransigentes ou crentes irredutíveis. Ora, essas duas formas de mentalidade paralisam, igualmente, a faculdade de observar. E como o cético nesses assuntos se torna facilmente um crente, por vezes sem consciência disso, vê-se que não é fácil chegar a conclusões muito nítidas.”

O QUERIDINHO DE FRAUD, O PRESTIDIGITADOR: “A cura pela fé foi numerosas vezes utilizada nos nossos dias pelo célebre médico Charcot.”

Eusápia, diz o relator, pede ao sr. D’Arsonval que tente erguer uma pequena mesa, o que ele facilmente faz; veda-lhe, em seguida, que o faça o sr. D’Arsonval não consegue deslocar o objeto. ‘Parecia pregado ao solo.’ Eusápia coloca de novo o cotovelo sobre a mesa, e o Sr. D’Arsonval ergue a mesa sem dificuldade. Alguns instantes, após, Eusápia diz ao objeto: ‘Sê leve’ e o Sr. D’Arsonval mais facilmente ainda o levanta. Essa experiência, que os magnetizadores profissionais facilmente conseguem nas feiras, escolhendo os seus ‘motivos’ entre os neuropatas da assistência, demonstra simplesmente o poder sugestionante de certos médiuns.”

É infinitamente provável que o sr. d’Arsonval, supondo, sob a influência da vontade de Eusápia, observar as variações de peso de um corpo, teve uma ilusão análoga à que se deu com os raios N, à qual lhe inspirou uma conferência entusiástica, e à qual afirmou a realidade de todos os fenômenos anunciados.”

OUIJA? “Está desde muito tempo provado que os movimentos dessas mesas são devidos às impulsões inconscientes dos operadores. Mas por que gira a mesa sempre num sentido determinado, sem ser contrariada por impulsões diferentes? Por que, tocando no solo, de um modo que corresponda a certas letras do alfabeto, e colocada sob as mãos dos diversos indivíduos que a cercam, pára a mesa no momento necessário, como se obedecesse a uma vontade única?” A hipótese da “alma coletiva” transitória.

É inútil insistir nesse esboço de explicação. O fenômeno constituído pelo nascimento, pela evolução e pela dissolução de uma alma coletiva é um dos enigmas da psicologia. Ela pode apenas afirmar que essa alma coletiva sempre desempenhou um papel essencial na vida dos povos.”

5. COMO O ESPÍRITO SE FIXA NO CICLO DA CRENÇA: Tem limites a credulidade?

É por essas fases diversas, começando por uma incredulidade total para chegar a uma credulidade completa, que têm passado muitos sábios modernos, tais como o célebre Lombroso. Muito cético no começo das suas investigações, adquiriu, finalmente, uma fé ingênua, de que fornece triste testemunho o seu último livro.”

A ciência se nega a discutir o que ela denomina o incognoscível, e é precisamente nesse incognoscível que a alma humana coloca o seu ideal e as suas esperanças. Com uma paciência que seculares insucessos não puderam fatigar, ela encontra, incessantemente, um obstáculo no mundo sempre inviolado do mistério, a fim de descobrir aí a origem das coisas e o segredo do seu destino. Não tendo aí podido penetrar, acabou por povoá-lo dos seus sonhos.”

o ocultismo, último ramo da fé religiosa, que nunca morre.” O cadáver fétido de Deus.

PSYCHOLOGY OF SPACE EXPLORATION (NASA): Contemporary research in historical perspective – Douglas Vakoch (ed.), 2011.

1. INTRODUCTION: PSYCHOLOGY AND THE U.S. SPACE PROGRAM: Albert Harrison & Edna Fiedler

Looking back over the history of aviation, Grether remarked that despite a few contributions to military aviation in World War I, for roughly 35 years after the Wright brothers’ initial flight at Kitty Hawk, aviation and psychology pretty much went separate ways. Then, beginning with research to benefit civilians in the late 1930s and followed by a powerful military program in World War II, aviation psychology became prominent and influential. <How much different the role of psychology has been in man’s early ventures into space!> Grether wrote (Psychology and the Space Frontier, 1962). Psychological testing, he continued, was prominent in the selection of the initial 7 Mercury astronauts, and beyond selection psychologists were productively engaged in vehicle design, training, task design, and workload management.

Grether pointed to 4 areas for future research: moving about the interior of spacecraft (once they became large enough for this to occur), conducting extravehicular activities (EVAs) or <spacewalks>, performing rendez-vous, and living and working under conditions of prolonged isolation and confinement. Highly optimistic about America’s future in space, Grether foresaw a strong continuing partnership between psychology and space exploration. One of his few notes of pessimism – that it would not be possible to use the science fiction writer’s rocket gun to move from place to place during EVAs – would soon be proven wrong.”

although NASA has been forthright about medical and biological insights gained from previous spaceflights . . . the agency has been hesitant on styudying or releasing information on the psychological experience of its personnel in space. Generally, NASA has limited the access to astronauts by social science researchers, even by its own psychiatrists and psychologists; the agency has failed to capitalize [?] on the data it collected that could improve spaceflight and living for others to follow.” P.H. Harris, “Personal Deployment Systems: Managing People in Polar and Outer Space Environments”, From Antarctica to Outer Space: Life in Isolation and Confinement, ed. A.A. Harrison, Y.A. Clearwater, and C.P. McKay (NY: Springer, 1990)

Margaret Weitekamp points out how interest in high-altitude flight in the 1930s initiated research that evolved into aerospace medicine in the 1940s. Research to support pilots flying very fast and high provided basis for sending astronauts into space. The first conference with <space> in the title was prior to 1950, notes Weitekamp, but some space-oriented research was clandestine or integrated into aviation medicine and psychology in order to avoid the wrath of superiors who thought it wasteful to study Buck Rogers issues.”

In 2001, the National Academy of Sciences issued Safe Passage: Astronaut Care for Exploration Missions, prepared by the Committee on Creating a Vision for Space Medicine During Travel Beyond Earth Orbit of the Institute of Medicine of the N.A.S.. This panel of experts identified some of the medical and behavioral issues that should be resolved quickly in anticipation of a return to the Moon and a mission to Mars. This far-ranging work covers astronaut health in transit to Earth orbit and beyond, health maintenance, emergency and continuing care, the development of a new infrastructure for space medicine, and medical ethics.”

Following Apollo and the race to the Moon, NASA entered new eras in 1981, when the Space Shuttle took flight, and again in 1993, when astronauts joined cosmonauts first on Russia’s Mir space station and then on the International Space Station (ISS) in 2000. Topics such as habitability, loneliness, cultural conflicts, the need to sustain a high level of performance over the long haul, and postflight adjustment gained a degree of immediacy and could no longer be ignored.”

In their discussion of post-Apollo psychological issues, Connors and her associates noted that as missions change, so do behavioral requirements. Perhaps the most conspicuous trench are in the direction of increased crew size, diversity, and mission duration. The first round of US flights, under Project Mercury, were solo but rapidly gave way to 2-person crews with the advent of Project Gemini in 1965, followed by 3-person crews during the Apollo program. After Mercury, note Clay Foushee and Robert Helmreich, the test pilot became a less relevant model than the multi-engine aircraft commander, who not only requires technical skills but also requires human relations skills as the leader of a team. America’s first space station, Skylab, provided a <house in space> for 3-person crews; apart from occasional emergencies or visitors, 3-person crews were also typical for Soviet (1970-89) and then Russian (1990 and onwards) space stations and the ISS. Shuttles are relatively capacious and usually carry 6 to 8 crewmembers. Other than during brief visits from Shuttle crews, the ISS has been home to crews of 2 to 6 people. We suspect that later space stations will house larger crews. Although it is possible to envision huge orbiting platforms and communities on the Moon and Mars, foresseable missions are unlikely to exceed 8 people, so crews will remain within the <small group> range.

A second salient trend is toward increasing diversity of crew composition. The initial vision was for a highly diverse pool of astronaut candidates, including mountain climbers, deep sea divers, and arctic explorers, but it was military pilots who got the nod. The military remains well represented, but over the years, the astronaut corps has been expanded to include people from many different professions and a greater number of women and minorities. Further complexity was added with the Soviet guest cosmonaut program beginning in the 70s, the inclusion of international crewmembers on the Shuttle, and international missions on Mir and the ISS. Already, tourists have entered the mix, and the first industrial workers in commercial space ventures may not be far behind.

Third, initial spaceflights were measured in hours, then days. (Indeed, within each series of flights, successive Mercury and then Gemini flights were longer and longer, to establish that astronauts could withstand the long trip to the Moon.) The third Skylab crew remained on orbit 84 days. Skylab was short-lived, but the Soviets set endurance records in this area; the present record of 366 days was set by a Russian cosmonaut on Mir during a 1987-88 mission. ISS missions have usually lasted about 3 months, but individuals are staying on the Space Station for up to 6 months, as demonstrated in 2007 and 2008 by Sunni Williams and Peggy Whitson. Extended stays can also result from unexpected circumstances, such as the loss of the Shuttle Columbia, which delayed the retrieval of one crew. If and when humans go to Mars, the sheer distance may require a transit time of 2 years.”

Harvey Wichman points out that soon, spaceflight may no longer be a government monopoly and future spacefarers may require departing from the government agency form of organization that has dominated space exploration so far in favor of a private enterprise model of commercial space exploration; it will also require accommodating people who lack the qualifications of today’s astronauts and cosmonauts. In his view, society is at a historical threshold that will require a shift in how engineers, designers, flight managers, and crews perform their tasks. He illustrates some of these points with his industry-sponsored simulation study intended to gauge tourist reactions to spaceflight.

Group dynamics is a focal point for Jason Kring and Megan Kaminski, who explore gender effects on social interaction and the determinants of interpersonal cohesion (commitment to membership in the group) and task cohesion (commitment to the work at hand). Their review of the basic literature on mixed-gender groups, as well as findings from spaceflight and other extreme environments, points to the conclusion that whereas there are many benefits to mixed-gender crews (typically men and women bring different skills to the mix), the issue is multifaceted and complex and poses challenges for spaceflight operations.”

Through studying reminiscences of majority and minority participants in multinational and international missions, they test the hypothesis that multinational flights are a source of frustration and annoyance, that are not evident in the true partnerships of international flights.”

although most of the chapters in this book are authored or coauthored by psychologists and make repeated references to psychology, understanding and managing human behavior in space is an interdisciplinary effort. In essence, <spaceflight psychology> includes contributions from architecture and design, enineering, biology, medicine, anthropology, sociology, communications, and organizational studies, as well as many hybrids (such as cognitive science) and disciplines within psychology (such as environmental, social, and clinical). In a similar vein, the delivery of psychological services to astronauts involve physicians, psychiatrists, social workers, and peers, as well as psychologists.”

Our essays do not provide in-depth tratment of the interface between engineering and psychology, nor do they attend to the interface of biology and behavior, f.ex., the effects of cumulative fatigue and circadian rhythms on performance and risk. With respect to this, we note a recent chapter by Barbara Woolford and Frances Mount that described how, over the past 40 years, research on anthropometrics, biomechanics architecture, and other ergonomics issues slowly shifted from surviving and functioning in microgravity to designing space vehicles and habitats to produce the greatest returns for human knowledge.”

2. BEHAVIORAL HEALTH: Albert Harrison & Edna Fiedler

As early as the late 40s, biological specimens were launched on balloons and sounding rockets. In 1958, the Russians successfully launched a dog, Laika, who survived several days in orbit even though she could not be brought back to Earth.” “In 1958-9, America’s first primate spacefarers, 2 squirrel monkeys named Able and Baker were launched on 15-minute flights reaching an altitude of 300 miles on a 1,500-mile trajectory and were successfully recovered following splashdown.”

During the early 60s, the United States and Soviet Russia were locked in a race to the Moon, and in many ways, the 2 programs paralleled each other. In the United States, solo missions (Mercury) gave way to two-person missions (Gemini) and then to three-person missions (Apollo) that, in July of 1969, brought astronauts to the Moon.” “By the late 70s, the U.S. and Soviet programs were following different paths: Americans awaited the orbiter, or Space Shuttle, and Soviets launched a series of space stations. In 1984, President Ronald Reagan approved the development of a U.S. space station, but construction was delayed almost 15 years. President Bill Clinton approved the station as a multi-national venture, and it became the International Space Station, or ISS. Prior to its construction, American astronauts joined Russian cosmonauts on Mir

Since there were practically no studies of astronauts, researchers relied heavily on studies conducted in Antarctica, submarines and research submersibles, and simulators. Research continues in all three venues; Antarctica took an early lead and remained prominent for many years.” “Other factors that favored Antarctica were the large number of people who ventured there and that, as an international site, it offers opportunities for researchers from many different nations. By picking and choosing research locations, one can find conditions that resemble those of many different kinds of space missions, ranging from relatively luxurious space stations to primitive extraterrestrial camps.”

Compared with earlier formulations (such as mental health), behavioral health is less limited in that it recognizes that effective, positive behavior depends on an interaction with the physical and social environments, as well as an absence of neuropsychiatric dysfunction. [?] Behavioral health is evident not only at the level of the individual, but also at the levels of the group and organization. [Ô, cê jura?]”

GRINGOS: “many people strongly associate psychology with mental illness and long-term psychotherapy.”

The historian Roger Launius points out that, from the moment the astronauts were first introduced to the public in 1959, America was enthralled by the <virtuous, no nonsense, able and professional men> who <put a very human face on the grandest technological endeavor in history> and <represented the very best that we had to offer>. From the beginning, the press was never motivated to dig up dirt on the astronauts; rather, reporters sought confirmation that they embodied America’s deepest virtues. <They wanted to demonstrate to their readers that the Mercury 7 strode the Earth as latter-day saviors whose purity coupled with noble deeds would purge this land of the evils of communism by besting the Soviet Union on the world stage.>

Assim que o Homem pisou na lua não demorou muito para Clark Kent ceder a Xavier, Magneto e Wolverine na preferência mundial (ou ianque).

Michael Collins and his colleagues liked the John Wayne–type image created for the early astronauts and did not want it tarnished. Flying in space was a macho, masculine endeavor, and there were those who made an effort to reserve the term astronaut for men, referring to women who sought to fly in space as astronautrix, astro-nettes, feminauts, and space girls.”

Many kinds of workers, including those in the military and law enforcement, worry about breaches of confidentiality that have adverse repercussions on their careers. Worries about a breach of confidentiality are periodically reinforced by officials who release information despite assurances to the contrary. Efforts to protect the astronauts’ image are evident in the cordon that NASA public relations and legal teams establish to prevent outsiders from obtaining potentially damaging information, the micromanagement of astronauts’ public appearances, and the great care with which most astronauts comport themselves in public.”

A REALIDADE IMITA A ARTE: “By the beginning of the 21st century, cracks began to appear in this image.”

On the debit side of the balance sheet, members of isolated and confined groups frequently report sleep disturbances, somatic complaints (aches, pains, and a constellation of flu-like symptoms sometimes known as the space crud), heart palpitations, anxiety, mood swings including mild depression, inconsistent motivation, and performance decrements. Crewmembers sometimes withdraw from one another, get into conflicts with each other, or get into disputes with Mission Control. Eugene Cernan reports that the conflicts between the Apollo 7 crew and Mission Control were so severe that the astronauts never flew again. [ver bibliografia]” “Burrough writes that Soyuz 21 (1976), Soyuz T-14 (1985), and Soyuz TM-2 (1987) were shortened because of mood, performance, and interpersonal issues.”

After their return, some astronauts reported depression, substance abuse issues, marital discord, and jealousy.”

The Mercury astronauts lobbied aggressively to fly as pilots rather than to ride as mere passengers (<Spam in a can>) whose spacecraft were controlled from the ground.”

To get the most information from this final trip in the Apollo program, ground control in Houston had removed virtually all the slack from the astronauts’ schedule of activities and had treated the men as if they were robots. To get everything in, ground control shortened meal times, reduced setup times for experiments, and made no allowance for the fact that previous crews aboard Skylab had stowed equipment in an unsystematic manner. The astronauts’ favorite pastimes—watching the sun and earth—were forbidden.” Weick

Thus, on 27 December 1973, the Skylab 4 astronauts conducted a day-long <sit-down strike>. Cooper described the crew pejoratively as hostile, irritable, and down-right grumpy, while other writers have described the strike as a legitimate reaction to overwork.”

NASA appears to have taken the lesson to heart. In 2002, Space.com’s Todd Halvorson conducted an interview with enthusiastic ISS astronaut Susan Helms. <It’s not that the crew isn’t busy maintaining the station, testing the remote manipulator and conducting science, it’s that there remains enough time to look out the window, do somersaults in weightlessness, watch movies, and sit around chatting.>”

Many of the two dozen or so astronauts and cosmonauts interviewed by Frank White reported <overview effects>, truly transformative experiences including senses of wonder and awe, unity with nature, transcendence, and universal brotherhood.”

Studies of the mental health of cosmonauts conducted 2 or 3 years after their return to Earth found that they had become less anxious, hypochondriacal, depressive, and aggressive.”

By the mid-80s, Oleg Gazenko, head of Soviet space medicine, concluded that the limitations of living in space are not medical, but psychological.”

The Russians have experienced longer spaceflights than their American counterparts and have given considerable attention to ways of maintaining individuals’ psychological health and high morale in space . . . In the Soviet Union, the Group for Psychological Support is an acknowledged and welcomed component of the ground team. Concern over such issues as intragroup compatibility and the effects of boredom on productivity seem to be actively studied by cosmonauts and psychologists alike. There appears to be little if any loss of status associated with confirmation of psychological or social problems associated with confinement in space.”

Thus, Russians had to confront in the 70s issues that became pressing for Americans two decades later. As a result, when looking for models for a psychological support program, NASA turned to the Russian program to support cosmonauts on Mir. It is interesting that America’s international partners in space—European as well as Japanese—share the Russians’ interest in spaceflight psychology.”

NASA, chartered as a civilian space agency, initially intended to select Mercury astronauts from a relatively broad range of explorers: military and commercial aviators; mountain climbers; polar explorers; bathysphere operators [câmaras impermeáveis para mergulhos em altas profundidades oceânicas, baixadas e erguidas via cabos]; and other fit, intelligent, highly motivated individuals who had demonstrated capabilities for venturing into dangerous new areas. Strong pressure from the White House limited the pool to military test pilots.”

Furthermore, because they were under military command, they were used to taking orders and were already cleared for top-secret technology. Mercury candidates had to be under 40 years of age, have graduated from college with a bachelor’s degree in science or engineering, have logged at least 1,500 hours flying jet planes, and have graduated from test pilot school. Of course, they were expected to be free of disease or illness and to demonstrate resistance to the physical stressors of spaceflight, such as temperature extremes and rapid acceleration and deceleration. To fit in the cramped confines of the Mercury capsule, their height could not exceed 5 feet 9 inches [1.75m]. The first astronauts had 5 duties: survive, perform effectively, add reliability to the automated system, complement instrument and satellite observation with scientific human observation, and improve the flight system through human engineering capabilities.” “As Robert Voas and Raymond Zedekar point out, psychological qualifications fell into 2 categories: abilities and personality.” “At that time, of 508 military test pilots, 110 met the general requirements and 69 were considered highly qualified. These were invited to the Pentagon for a briefing and interviews. Then, 32 were sent to the Lovelace clinic for an extraordinary physical exam and, after certification at Lovelace, to Wright Air Development Center in Dayton, Ohio, for tests of performance under stress.”

Two of the more interesting personality and motivation studies seemed like parlor games at first, until it became evident how profound an exercise in Socratic introspection was implied by conscientious answers to the test questions <Who am I?> and <Whom would you assign to the mission if you could not go yourself?>”

After five Mercury flights, NASA officials decided that, given the absence of serious performance deficits to date, there was no need to continue exhaustive testing procedures. Although ongoing research would have provided an excellent basis for refining selection methods, by the end of 1962, NASA had prohibited research teams from collecting data on astronaut job performance, thus making it impossible to validate selection methods. At that point, according to Patricia Santy’s authoritative work, Choosing the Right Stuff: The Psychological Assessment of Astronauts and Cosmonauts, normal reluctance to participate in psychological research was transformed into <outright hostility>. Psychiatric and psychological data from the Mercury program were confiscated, and researchers were told that apart from incomplete information that had already appeared in an obscure interim report, nothing could be published about astronaut psychology. The reasons for this are not entirely clear—for example, confidentiality was a growing concern, and data that could provide a basis for invidious comparisons could work against crew morale—but Santy favors the view that <NASA became fearful that information on the psychological status and performance of their astronauts would be detrimental to the agency.> She also documents the minimal role that psychiatrists and psychologists played in the selection process from Gemini until well into the early Shuttle missions.”

in 1983, no psychological testing was involved. Rather, the approach had evolved into an entirely psychiatric process completed by two psychiatrists who separately interviewed each candidate. Whereas the original examination sought the best-qualified candidates, later procedures simply ensured that each candidate met the minimum qualifications.

Candidates were no longer rated against one another, but they were screened for various psychopathologic conditions that could be detrimental or unsafe in a space environment. (…) Neuroses, personality disorders, fear of flying, disabling phobias, substance abuse, the use of psychotropic medications, or any other psychiatric conditions that would be hazardous to flight safety or mission accomplishment were among the grounds for rejection.

Thus, a selection program that began in 1959 as a model rooted in psychiatry and clinical psychology, and in industrial and organizational psychology, had been reduced to subjective evaluation.”

The development of standardized, semistructured interviews and diagnostic criteria, aided by the work done by the Working Group on Psychiatric and Psychological Selection of Astronauts, resulted in a rewrite of NASA psychiatric standards based on the then-current American Psychiatric Association’s Diagnostic and Statistical Manual III and recommendations for a select-in process.” (1999)

Although these researchers developed a profile of needed knowledge, skills, and abilities, NASA’s prohibition against obtaining in-training or on-the-job performance ratings effectively killed any longitudinal or predictive validation of the proposed astronaut select-in procedures.” “To prevent coaching, the specific tests and interview content are not publicly available. The current selection process resembles the selection procedures for other high-risk jobs and incorporates highly validated tests that are quantitatively scored, along with in-depth, semistructured interviews.”

Well before Apollo astronauts set foot on the Moon, there were political pressures to increase the diversity of the astronaut corps by including women and representatives of different racial and ethnic groups. Accommodating people with different cultural backgrounds became a practical matter in the Apollo-Soyuz rendezvous, in the course of the Russian <guest cosmonaut> program, in Shuttle missions with international crews, and, of course, aboard the ISS.”

Women offered certain potential advantages over men; one of the most notable of these was their smaller size (and reduced life-support requirements), which would make them easier to lift into orbit and keep alive at a time when engineers had to fret every extra pound of weight. After word of the program’s existence leaked, it was abandoned by the Air Force and taken over by Dr. Randall Lovelace, of the same Lovelace Clinic that conducted the physicals for project Mercury. Aviatrix Jackie Cochran and her wealthy philanthropist husband, Floyd Odlum, provided funding [$$$] so that Lovelace could put the women through the same rigorous evaluation. Of the 25 women who took the physical, 13 passed. The next step in the process, which involved centrifuges and jet flights, depended on the availability of military facilities and equipment. Although it appeared that the procedures could be done at the Naval Air Station in Pensacola, Florida, the ability to do so depended on NASA’s officially <requiring> and then reimbursing the testing. Since the program was unofficial (despite widespread perceptions that it was connected with NASA), the space agency did not intervene on the women’s behalf. Some of the women continued to press for further testing and flight training, and, eventually, there was a congressional hearing, but public clamor and aggressive lobbying got no results. Kennedy’s decision to place a man on the Moon before the decade was finished was interpreted by NASA to mean that it could not divert resources to sending women to orbit. But there were other barriers to women’s participation in space exploration, including the inability of some of the people in NASA’s white-male-dominated culture to conceive of women in the <masculine> role of astronaut.”

At a very basic level, it never occurred to American decision makers to seriously consider a woman astronaut. In the late 50s and early 60s, NASA officials and other American space policy makers remained unconscious of the way their calculations implicitly incorporated postwar beliefs about men’s and women’s roles. Within the civilian space agency, the macho ethos of test piloting and military aviation remained intact. The tacit acceptance that military jet test pilots sometimes drank too much (and often drove too fast) complemented the expectation that women wore gloves and high heels—and did not fly spaceships.”

In the congressional report, NASA admitted that as of the end of fiscal year (FY) 1971, of all NASA employees, only 16.6%were women and 4.6% minorities. Only 3% of the supervisors and 2.4% of the engineers were women.”

On 16 January 1978, the first female and black candidates were selected; only a few years later, in 1983, the public wildly acclaimed mission specialist Sally Ride’s orbital flight aboard Challenger.” “Despite the long road that American women and minorities traveled to prove their worth, the U.S. experience has shown that talented women and minorities, given no special treatment because of gender or ethnicity, are as adept as their white, male colleagues in the world of space.”

During the flight stage, in addition to the crew care packages and private weekly videoconferences with families, psychological support services include extensive communication with people on the ground (including Mission Control personnel, relatives, and friends), psychological support hardware and software, special events such as surprise calls from celebrities, and semimonthly videos with a behavioral health clinician. Astronauts in flight have e-mail accessibility and can use an Internet protocol phone on board the ISS to call back to Earth. As in the past, ham radio allows contact between the ISS and schools throughout the world.”

3. FROM EARTH ANALOGS TO SPACE: GETTING THERE FROM HERE: Sheryl L. Bishop

Many of our earliest myths, such as the flight of Daedalus and Icarus too close to the Sun on wings made of wax, expressed our desire to explore beyond the boundaries of Earth as well as our willingness to push current technology to its limits. Considerations by the earliest philosophers and scientists, including Archimedes, Galileo Galilei, Nicolaus Copernicus, Leonardo da Vinci, Isaac Newton, Jules Verne, H.G. Wells, or Percival Lowell, eventually generated a whole new genre of fictional literature built upon scientific extrapolations, dubbed science fiction, and gave voice to their speculations about the nature of extraterrestrial environments. Modern scientists and pioneers led by the Wright brothers, Robert Goddard, Konstantin Tsiolkovsky, Hermann Oberth, Wernher von Braun, Sergey Korolev, Yuri Gagarin, and Neil Armstrong pushed the boundaries of knowledge about flight and extended human inquiry beyond our terrestrial boundaries into our local and extended galactic neighborhood.”

Since there is no direct equivalent for space, all analog environments are simulations of greater or lesser fidelity along varying dimensions of interest. Some analog environments provide extremely good characterizations of expected challenges in testing equipment or hardware, e.g., environmental chambers such as the Space Shuttle mock-ups of the various decks or the cargo bay in NASA’s Weightless Environmental Training Facility (WET-F), but lack any relevance to assessing how human operators will fare psychologically or as a team.”

The tradition of publishing personal diaries and mission recounts has been similarly observed by the earliest explorers of space. Secondary analyses of historical expeditions have become increasingly popular in recent years.” Ver bibliografia ao final para várias referências.

In real-world groups that have higher degrees of structure and control, such as military teams, the command and control structure is distinctly different from the current scientist-astronaut organizational structure of space missions. Fundamental differences in group structures, such as leadership and authority, represent significant elements in whether findings from terrestrial analogs translate to future space crews.”

the tendency of crews to direct aggression toward personnel at Mission Control.”

A more recent, hybrid approach of situating research facilities within extreme environments offers a good compromise between the artificial conditions of the laboratory and the open-ended, full access of an expeditionary mission. When teams or individuals operate in extreme environments, their responses are more purely a product of either situational drivers or internal personal characteristics. To the extent that an extreme environment is well characterized and known, it gains in fidelity and allows more accurate inferences about key phenomena to be drawn. For these very reasons, Palinkas has strongly argued that the cumulative experience with year-round presence in Antarctica makes it an ideal laboratory for investigating the impact of seasonal variation on behavior, gaining understanding about how biological mechanisms and psychological processes interact, and allowing us to look at a variety of health and adaptation effects.”

One could argue that chronicles such as the Iliad and the Odyssey were early examples of more recent diaries such as those that recounted the historic race to reach the South Pole between modern polar expeditions lead by Roald Amundsen, who reached the South Pole in 1911, and Robert F. Scott, who reached the South Pole in 1912. (…) The first winter-over in Antarctica occurred during 1898–99 on board an icebound ship, the Belgica, on which Amundsen served as a second mate. A continuous presence on our furthermost southern continent has only been in place since the International Geophysical Year of 1956–7.”

Analyses of critical incidents in medical operating rooms indicate that 70% to 80% of medical mishaps are due to team and inter-personal interactions among the operating room team.”

While an emergency on the International Space Station certainly poses difficulties regarding time to rescue, one can argue that the difficulties inherent in a Mars mission or even here on Earth from the Antarctic in midwinter, where weather conditions may absolutely make rescue impossible for long periods, carry a qualitatively different psychological impact. An emergency on a mission to Mars will preclude any chance of rescue and necessitate a high degree of autonomy for the crew in making decisions without any real-time mission support. The degree to which such factors magnify the negative effects of isolation and confinement is critical to assess.”

in a study of Antarctic winter-over personnel, Palinkas found that personnel at Palmer (a small station) spent 60% of their waking hours alone and retreated to their bedrooms extensively for privacy. These behaviors could be considered fission factors as they promote withdrawal, social isolation, and distancing from one’s teammates. On the other hand, if the use of privacy served to control the amount of contact and decreased tensions and group conflict, they would be considered fusion factors. He also found that intermittent communication was a major source of conflict and misunderstanding between crews and external support personnel, a clear source of fission influence. Examples of fusion factors for this group were effective leadership styles, which played a significant role in station and crew functioning, as well as the ability to move furniture and decorate both common and private areas, which facilitated adaptation and adjustment.”

Whereas polar teams evidenced a delay interval with a marked drop in aggression until after the first quarter, with concomitant increase in homesickness, chamber teams displayed a steady gradual increase in coping over time. A number of researchers have noted that it is not the site that seems to matter, but rather it is the differences in the mission profiles, e.g., tasks (daily achievement of a distance goal versus stationkeeping) or duration (short versus long).”

Similarly, an apparently adaptive personality profile has emerged from winter-overers that is characterized by low levels of neuroticism, desire for affection, boredom, and need for order, as well as a high tolerance for lack of achievement, which would fit well in an environment where isolation and confinement prevented accomplishments and the participants experienced frequent short-ages and problems.”

The expedition may be intended to recreate experiences of earlier explorers, such as the Polynesian Kon-Tiki oceanic traverse; set records or discover new territory, e.g., discover a route to India or explore a cave system; achieve personal challenges, such as climbing mountains or skiing to the North Pole; conduct scientific research, e.g., by means of ocean-going research vessels or polar ice drilling teams; or conduct commercial exploration, such as mineral and oil exploration.”

Voyages of scientific discovery began in the late 18th century, an age, Finney points out, that many have argued foreshadowed the space race of the 1960s. The first exploratory voyage to include scientists as crew and mission goals with explicit scientific objectives instead of commercial goals that serendipitously collected science data was the 3-year-long English expedition of the Endeavour to Tahiti, 1768–71, led by Captain James Cook. The on-board scientists were tasked to observe the transit of Venus across the face of the Sun to provide data needed to calculate the distance between Earth and the Sun. The success of the Endeavour’s expedition led to a 2nd expedition, which sailed with a number of scientists, 2 astronomers, and a naturalist, an expedition that, in contrast to the first, was rife with contentious relationships between the seamen and the scientists. Subsequent voyages with scientists on board were similarly plagued by conflicts between those pursuing scientific goals and those tasked with the piloting and maintenance of the ship.”

Not until a hundred years after Cook, in 1872, would the Royal Navy’s Challenger, a 3-masted, square-rigged, wooden vessel with a steam engine, sail around the world with 6 marine scientists and a crew and captain who were totally dedicated to the research.”

Such troubles were not limited to the English. The French followed a similar pattern, beginning in 1766 and continuing through 1800, when scientists sailed with numerous expeditions that were summarily characterized by conflict and contention between the crews and scientists. Finney further notes that such complaints are found in journals of early Russian scientists, as well as American scientists on the 4-year-long United States Exploring Expedition that sailed from Norfolk in 1838 with a contingent of 12 scientists.

Modern development of specialized ships complete with laboratories and equipment dedicated to oceanographic research has been primarily organized and maintained by universities and oceanographic institutes. Yet even aboard these dedicated floating research vessels, conflict between the ship’s crew and the scientists whom they serve has not been eliminated. A dissertation study conducted by a resident at the Scripps Institute of Oceanography during 1973 concluded that tension between the 2 groups was inevitable because they formed two essentially separate and distinct subcultures with different values and goals, as well as different educational backgrounds and class memberships.”

If space research were to be made as routine to the extent that ocean research now is, subcultural differences, and hence tensions, between scientist and those pilots, station-keepers, and others whose job it will be to enable researchers to carry out their tasks in space may become critical considerations. If so, space analogues of the mechanisms that have evolved to accommodate differences between scientists and seamen aboard oceanographic ships may have to be developed.”

An example of how examination of the records from past expeditions contributes to the current state of knowledge and provides the impetus for future studies in space can be seen in a metastudy by Dudley-Rowley et al. that examines written records from a sample of space missions and polar expeditions for similarities and differences in conflicts and perceptions of subjective duration of the mission. Ten missions were compared across a number of dimensions. The metastudy included 3 space missions that represented both long- and short-duration mission profiles: Apollo 11 (1969) and Apollo 13 (1970), ranging from 6 to 8 days apiece, and Salyut 7 (1982), which lasted over 200. Four Antarctic expeditions were included: the western party field trip of the Terra Nova Expedition (1913, 48 days), an International Geophysical Year (IGY) traverse (1957–58, 88 days), the Frozen Sea expedition (1982–84, 480 days), and the International Trans-Antarctic expedition (1990, 224 days). Finally, 3 early Arctic expeditions were also included: the Lady Franklin Bay (1881–84, 1,080 days), Wrangel Island (1921–23, 720 days), and Dominion Explorers’ (1929, 72 days). Seven factors emerged that seemed to coincide with the subjectivization of time and the differentiation of situational reality for the crews from baseline:

1. increasing distance from rescue in case of emergency (lessening chances of <returnability>);

2. increasing proximity to unknown or little-understood phenomena (which could include increasing distance from Earth);

3. increasing reliance on a limited, contained environment (where a breach of environmental seals means death or where a fire inside could rapidly replace atmosphere with toxins);

4. increasing difficulties in communicating with Ground or Base;

5. increasing reliance on a group of companions who come to compose a micro-society as time, confinement, and distance leave the larger society behind, in a situation where innovative norms may emerge in response to the new sociophysical environment;

6. increasing autonomy from Ground’s or Base’s technological aid or advice; and

7. diminishing available resources needed for life and the enjoyment of life.”

The Lady Franklin Bay Expedition [ao Ártico, que durou de 1881 a 1884] suffered 18 deaths of its complement of 25, and the rest were starving when found. The Wrangel Island expedition [idem, porém de 1921 a 23] suffered 4 deaths out of its crew of 5. Apollo 13 was a catastrophe that was remarkable in its recovery of the crew intact. The Salyut 7 mission [espacial, 1982, 200 dias], the Terra Nova western field party [1913, 48 dias na Antártida], and the Apollo 11 mission all had high degrees of risk.”

the presence of similar factors in space and early polar exploration that contributed to perceptions of mission/expedition duration or of how their situational reality deviates from baseline is important to note. These results suggest that as control over their environment decreases, team members’ subjective experiences of time and the situation increasingly differ from their baselines.”

Initially, it was believed that space would represent a significant loss of normal sensory stimulation due to isolation from people, reduction in physical stimulation, and restricted mobility. Thus, sensory deprivation chambers were argued to be good analogs for astronauts. Selection procedures, therefore, included stints in dark, small, enclosed spaces for several hours to observe how potential astronauts handled the confinement and loss of perceptual cues. As Dr. Bernard Harris, the first African American to walk in space, recounts, <They put me in this little box where I couldn’t move or see or hear anything. As I recall, I fell asleep after a while until the test ended.>

The first systematic attempts to investigate psychological adaptation factors to isolation and confinement in simulated operational environments were conducted in the 60s and early 70s by putting volunteers in closed rooms for several days, subjecting them to sleep deprivation and/or various levels of task demands by having them complete repetitive research tasks to evaluate various aspects of performance decrements. Chamber research, as it was to become known, encompassed a variety of artificial, constructed environments whose raison d’être was control over all factors not specifically under study. Later, specially constructed confinement laboratories such as the facility at the Johns Hopkins University School of Medicine or simulators at Marshall Space Flight Center in Huntsville, Alabama; the McDonnell Douglas Corporation in Huntington Beach, California; or Ames Research Center at Moffett Field, California, housed small groups of 3 to 6 individuals in programmed environments for weeks to months of continuous residence to address a variety of space-science-related human biobehavioral issues related to group dynamics”

The epitome example of chamber research may be the series of 4 hyperbaric-chamber studies, sponsored by the European Space Agency and designed to investigate psychosocial functioning, in which groups were confined for periods lasting from 28 to 240 days.” “However, skepticism regarding the verisimilitude of studies in which discontented members can simply quit has continued to raise real concerns as to how generalizable the findings from chamber studies are to space missions.”

Occupying the middle ground between traditional expeditionary missions with moving trajectories and the artificiality of laboratory spaces designated as space station habitats are capsule habitats, sharing the controlled, defined enclosure of the laboratory situated within an extreme unusual environment (EUE). Characterized by a controlled, highly technological habitat that provides protection and life support from an environment that is harsh, dangerous, and life-threatening, capsule habitats occupy a wide range of environments. Some are true operational bases with missions in which biobehavioral research is only secondary. Others run the gamut from fundamental <tuna can> habitats with spartan support capabilities situated in locations of varying access to a full-fidelity Antarctic base constructed solely for the purposes of biobehavioral space analog research.”

Due to their high military relevance, the best-studied of capsule habitats are submarines. As an analog for space, submarines share a number of common characteristics: pressurization concerns (hyperpressurization for submarines and loss of pressurization for space), catastrophic outcomes for loss of power (e.g., the inability to return to the surface for submarines and degraded orbits for space), dependence on atmosphere revitalization and decontamination, radiation effects, and severe space restrictions. Prenuclear submarine environments were limited in the duration of submersions (72 hours), crew size (9 officers and 64 enlisted men), and deployment periods without restocking of fuel and supplies. Structurally, these short-duration mission parameters mimicked those of the early years of space, albeit with vastly larger crews. With the launch of the nuclear-powered Nautilus in 1954, the verisimilitude of the submersible environment as an analog for long-duration space missions was vastly improved. With the nuclear submarine, mission durations were extended to 60 to 90 days, crews were increased to 16 officers and 148 enlisted men, and resupply could be delayed for months.”

An extension of the submersible operational environment of a military submarine is the NASA Extreme Environment Mission Operations program (NEEMO) being conducted in the Aquarius underwater habitat situated off Key Largo, Florida—the only undersea research laboratory in the world. Owned by the U.S. National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) and operated by the National Undersea Research Center (NURC) of the University of North Carolina at Wilmington on behalf of NOAA, Aquarius is the submerged analog to NOAA oceanic research vessels. First deployed in 1988 in the U.S. Virgin Islands and relocated to Key Largo in 1992, the underwater facility has hosted more than 80 missions and 13 crews of astronauts and space researchers since 2001. Aquarius provides a capsule habitat uniquely situated within an environment that replicates many of the closed-loop constraints of the vacuum of space, a hostile, alien environment that requires total dependency on life support; poses significant restrictions to escape or access to immediate help; and is defined by limited, confined habitable space and physical isolation. The complexity of NEEMO missions further parallels space missions in their mission architecture, with similar requirements for extensive planning, training, control, and monitoring via an external mission control entity. However, it has only been the most recent NEEMO missions in which stress, fatigue, and cognitive fitness, as well as individual and intrapersonal mood and interaction, have been the focus of study.”

While there are other polar bases in the Arctic and subarctic, the bulk of sustained psychological research has been conducted in Antarctica. (…) There are 47 stations throughout the Antarctic and sub-Antarctic regions, operated by 20 different nations, with populations running from 14 to 1,100 men and women [!!] in the summer to 10 to 250 during the winter months. The base populations vary from mixed-gendered crews to male-only crews, from intact families (Chile) to unattached singletons, for assignments that last from a few months to 3 years.

In 1958, after the IGY (1956–57) produced the 1st permanent bases in Antarctica, C.S. Mullin, H. Connery, and F. Wouters conducted the first systematic psychological study of 85 men wintering over in Antarctica. Their study was the first of many to identify the Antarctic fugue state later dubbed the <big-eye>, characterized by pronounced absent-mindedness, wandering of attention, and deterioration in situational awareness that surfaced after only a few months in isolation.” “Those that did address psychosocial factors tended to focus on the negative or pathological problems of psychological adjustment to Antarctic isolation and confinement, with persistent findings of depression, hostility, sleep disturbance, and impaired cognition, which quickly came to be classified as the <winter-over syndrome>.”

One of Antarctica’s most prolific researchers, Dr. Larry Palinkas has analyzed 1,100 Americans who wintered over between 1963 and 2003 over four decades of research [uma vida inteira na região mais remota do planeta!] in Antarctica and proposed 4 distinct characteristics to psychosocial adaptation to isolation, confinement, and the extreme environment” “Crews with clique structures report significantly more depression, anxiety, anger, fatigue, and confusion than crews with core-periphery structures.”

Palinkas found that a depressed mood was inversely associated with the severity of station physical environments—that is, the better the environment, the worse the depression—and that the winter-over experience was associated with reduced subsequent rates of hospital admissions.”

Dome C is one of the coldest places on Earth, with temperatures hardly rising above –25°C in summer and falling below –80°C in winter. Situated on top of the Antarctic plateau, the world’s largest desert, it is extraordinarily dry and supports no animals or plants. The first summer campaign lasted 96 days, from 5 November 2005 until 8 February 2006, with 95 persons participating. The 2006 season included 7 crewmembers with 2 medical experiments and the first 2 psychological experiments sponsored by the European Space Agency for which the crew acted as subjects during their stay. The 2 experiments investigated psychological adaptation to the environment and the process of developing group identity, issues that will also be important factors for humans traveling to Mars.”

4. PATTERNS IN CREW-INITIATED PHOTOGRAPHY OF EARTH FROM THE ISS—IS EARTH OBSERVATION A SALUTOGENIC EXPERIENCE? Julie A. Robinson, Kelley J. Slack, Valerie A. Olson, Michael H. Trenchard, Kimberly J. Willis, Pamela J. Baskin & Jennifer E. Boyd

John Glenn, the first U.S. astronaut in orbit, talked NASA into letting him carry a camera on Friendship 7 on 20 February 1962. (…) Glenn proceeded to describe each of the 3 sunrises and sunsets he saw during the flight, and he continues to recount that experience in interviews today. A number of the astronauts who have followed have verbally recounted emotional experiences related to seeing and photographing Earth, and several astronauts have documented in written form their responses to views of Earth linked to their photography activities while in space.”

First of all, there’s the astounding beauty and diversity of the planet itself, scrolling across your view at what appears to be a smooth, stately pace . . . I’m happy to report that no amount of prior study or training can fully prepare anybody for the awe and wonder this inspires.” Kathryn D. Sullivan

All the imagery is archived in a searchable online database maintained by the descendant of the previous programs on the International Space Station, CEO, which provided statistics summarized here. Over 2,500 photographs of Earth were taken by Mercury and Gemini astronauts. Apollo astronauts photographed both Earth and Moon views, with over 11,000 photographs taken, and have been credited with initiating the interest in Earth observations from space. Handheld photography of Earth by astronauts on Skylab accompanied the extensive imagery obtained by an automated multispectral camera system. Over the 3 Skylab missions, crewmembers took around 2,400 images of Earth, and the automated camera systems an additional 38,000 photographs with specialized films.

Building from this experience and the growing interest in Earth observations from space, a program called the Space Shuttle Earth Observations Project (SSEOP) was established in 1982 to support the acquisition and scientific use of Earth photography from Space Shuttle flights.”

Astronauts were trained in geology, geography, meteorology, oceanography, and environmental change for a total of approximately 12 instructional hours prior to flight. Also before flight, about 20 to 30 sites were chosen for the crew to photograph while on orbit. The mission-specific sites were chosen from a list of previously identified environmentally dynamic terrestrial areas visible from the Space Shuttle. Each crew was given a preflight manual consisting of their unique sites that included photographs and scientific information. The decision on when to take photographs was at the astronauts’ discretion. A list of targets was sent to the Shuttle crew on a daily basis during the flight. The main camera used for Earth observation was the 70-millimeter Hasselblad with the 50-, 100-, 110-, and 250-millimeter lenses commonly used, and both color and infrared film was made available per crew preference.” “To date, Shuttle crewmembers have captured over 287,000 images of Earth.”

Although SSEOP was dissolved, individual Shuttle crewmembers on missions to the ISS could still use the on-board cameras to take images of Earth, but without scientific support.”

The digital camera was favored by ISS crews over the film cameras because it allowed them to review their imagery while on orbit. The immediate review of their imagery enabled the crews to view and improve their photographic techniques. Digital images could also be down-linked to the CEO scientists for review, and the scientists in turn could provide feedback to the crew. The issue of film versus digital cameras was settled in 2003 when mission length was extended to about 6 months. The extension of crew time on orbit made film more susceptible to radiation ‘fogging’. While digital cameras are not immune to radiation, they are better able to cope with longer exposures to the space environment, and eliminating the need to return film to Earth was also an important improvement.”

With the use of the 400-millimeter lens and 2× extender available for the digital camera, ISS crews have been able to document dynamic events at a higher resolution than was possible from the Shuttle with the 250-millimeter lens.”

JURO QUE NÃO ENTENDO ESSA OBSESSÃO: “A particular concern is maintaining crew psychological well-being for the duration of a round-trip mission to Mars that could last as long as 3 years.

Positive (or ‘salutogenic’) experiences while in space may promote psychological well-being by enhancing personal growth and may be important for offsetting the challenges of living and working in a confined and isolated environment. In a survey of flown astronauts aimed at identifying the positive or salutogenic effects of spaceflight, Eva Ihle and colleagues identified positive changes in perceptions of Earth as the most important change experienced by astronauts.

If viewing Earth is an important component of positive experiences in spaceflight, then having Earth ‘out of view’ may be an important challenge for crews going to Mars because it could increase the sense of isolation.” De novo isso? Ora, leve cada um uma foto do Blue Planet na ‘carteira’!

Typically, crewmembers have fewer set tasks to accomplish on weekends, so they have increased periods of time in which they can choose their activities.” É fim de semana aqui na lua!

While the term phasing is more general, the term third-quarter effect specifically refers to a period of lowered psychological well-being during the third quarter of an extended confinement.”

The cameras automatically record the date and time when the photograph was taken, as well as specific photographic parameters. The data do not identify the individuals using the camera, as any crewmember may pick up any camera to take pictures, and individuals often stop briefly at a window to take pictures throughout the day. Crews are cross-trained in the use of the imagery equipment. Some crews share the responsibility of taking images of Earth; in other crews, one member might have more interest and thus be the primary photographer. Regardless, crewmembers report photographing areas known to be of interest to fellow crewmembers.” “Occasionally, battery changes and camera resets were conducted on orbit without resetting the date and time on the camera. Because of this, not all camera time stamps were accurate. We screened those data for inaccuracies (such as an incorrect year for a specific expedition), and these records were eliminated from the analyses.”

The use of the 800-millimeter lens was tracked because it represents a significant skill that requires much effort to achieve the best results, and the resulting images provide the most detail (up to 6-meter spatial resolution).” O que isso significa exatamente? Que o zoom com nitidez vai até um pixel representar 6m? Ou que é como se a fotografia fosse tirade da altura de 6m de uma camera comum ou, enfim, semipro? A segunda possibilidade parece ser improvável, então vamos com a 1ª caso o texto não esclareça mais à frente!

Dados estatísticos para o estudo analisados pelo SAS (mesmo programa que estou aprendendo a usar no meu trabalho!).

From December 2001 (Expedition 4) through October 2005 (Expedition 11), crewmembers took 144,180 images that had accurate time and date data automatically recorded by the camera. Of time-stamped photographs, 84.5% were crew-initiated and not in response to CEO requests.”

A crew containing a member, for example, whose childhood home was in a small town in Illinois, would be more likely to take images of that area than of areas not holding personal significance for any member of that crew.”

Foi possível fotografar a Golden Gate Bridge (San Francisco) como se sua largura fosse da espessura da metade do meu dedo mindinho. Mas mais impressionantes ainda são as fotos de picos no Alaska, que parecem laterais e não panorâmicas, provavelmente devido à proximidade do pólo da Terra!

Earth photography is clearly a leisure activity. However, crews are more likely to take self-initiated images as the mission progresses—perhaps due to acclimation and familiarity with life and duties on the Station or a growing realization that their time in space, and thus their ability to photograph Earth from space, is limited. This trend over the duration of the mission was the only mission phasing observed. A more careful examination of figure 3 suggests that the phasing effect might be due more to individual differences pertaining to specific missions or perhaps to an increasing competency with the photographic equipment. It is not clear to what extent this phasing effect might reflect differences in mission profiles or characteristics of the particular crewmembers assigned to the particular missions.”

As we begin to plan for interplanetary missions, it is important to consider what types of activities could be substituted. Perhaps the crewmembers best suited to a Mars transit are those individuals who can get a boost to psychological well-being from scientific observations and astronomical imaging.” Deixe de ver a Terra e então você terá um derrame logo (Desmond Effect)!

5. MANAGING NEGATIVE INTERACTIONS IN SPACE CREWS: THE ROLE OF SIMULATOR RESEARCH – Harvey Wichman

In the 47 years since Yuri Gagarin became the first person in space and the first person to orbit Earth, several hundred cosmonauts and astronauts have successfully flown in space. Clearly, there is no longer any doubt that people can live and work successfully in space in Earth orbit. This ability has been demonstrated in spacecraft as tiny as the Mercury capsules, in Space Shuttles, and in various (and much more spacious) U.S. and Soviet/Russian space stations. Spending up to half a year in space with a small group of others is no longer unusual. However, plans are afoot to return to the Moon and establish a permanent settlement there and then to proceed to Mars. Big challenges are on the horizon, and their likely success is predicated on 3 historical series of events: first, the long series of successes in Earth-orbital flights since the launch of Sputnik on 4 October 1957; second, the 6 successful excursions of Apollo astronauts on the Moon; and third, the success-ful robotic landings to date on Mars.”

is there any chance that space tourism, with a much more fluid social structure and a vastly broader spectrum of participants than in the current space program, will work at all?”

New “extreme environment” since 2020: our houses!

The density intensity hypothesis stated that whatever emotion is extant when crowding occurs will be enhanced by the crowding. Crowding per se is not necessarily aversive. This was a nonintuitive but valuable finding. This phenomenon can be witnessed at most happy social gatherings. A group of people may have a whole house at their disposal, but one would seldom find them uniformly distributed about the premises. It is much more likely that they will be gathered together in 2 or 3 locations, happily interacting in close proximity. The reverse of this is also true, as can be seen in mob behavior, where the crowding amplifies the anger of the members.”

In the early days of the space program, when anecdotal studies of life in extreme environments such as submarines were all we had, these studies proved valuable and served us well. But spaceflight simulators can be used to create situations more specific to spaceflight and do so in a laboratory setting in which extraneous variables can be much better controlled.

Of course, spaceflight simulators on Earth cannot simulate weightlessness. That is unfortunate because the higher the fidelity of the simulator, the better the transfer to real-world situations. We have seen in aviation that extremely high-fidelity flight simulators can be so effective for training that airline pilots transitioning to a new airplane can take all of their training in a simulator and then go out and fly the airplane successfully the first time.”

Since there have been few such studies involving civilian participants, the general public knows little of what goes on in such a study. Therefore, I will describe a study conducted in my laboratory that will demonstrate how simulator studies can address both applied and theoretical research questions.”

McDonnell Douglas Aerospace (now Boeing Space Systems) in Huntington Beach, California, was in the process of developing a new, single-stage-to-orbit rocket to replace the Space Shuttles. This vehicle would take off vertically the way the Shuttles do, but instead of gliding in for a landing, it would land vertically using the thrust of its engines the way the Moon landers did in the Apollo program. The rocket, which was to be called the Delta Clipper, was first conceived of as a cargo vehicle. Soon, engineers began thinking about having both a cargo bay and, interchangeable with it, a passenger compartment. The passenger compartment was to accommodate 6 passengers and a crew of 2 for a 2-day orbital flight. Former astronaut Charles ‘Pete’ Conrad was then a vice-president of McDonnell Douglas Aerospace and a key player in the development of the Delta Clipper. At the time, all of the McDonnell Douglas designers were fully occupied with work under a NASA contract on the design of what would eventually become the International Space Station.”

remember that when orbiting Earth, one is in darkness half the time”

Once the passenger compartment design was satisfactorily completed, there was considerable excitement among the McDonnell Douglas engineers about the idea of taking civilian passengers to space (no one spoke words such as ‘space tourism’ yet at that time). The designers were excited about such ideas as not putting full fuel on board the vehicle for orbital flight but keeping it lighter, adding more passengers, remaining suborbital, and flying from Los Angeles to Tokyo in 40 minutes or Los Angeles to Paris in 38 minutes. However, when the euphoria of the daydreaming was over, the Delta Clipper team was left with the question, can you really take a group of unselected, relatively untrained civilians; coop them up in a cramped spacecraft for 2 days of orbital spaceflight; and expect them to have a good time?”

We accepted the challenge and built a spaceflight simulator in our laboratory that had the same volume per person as the one designed for the Delta Clipper”

Planta do simulador-laboratório

The Delta Clipper team wanted to know whether people such as those we would select could tolerate being enclosed in a simulator for 45 hours, whether this experience could be an enjoyable space vacation adventure, and whether anything could be done prior to a flight to ensure a high quality of interpersonal interactions among the participants during the flight.”

we decided to conduct 2 simulated flights with equivalent groups. The flights would have to be essentially identical except that one group (the experimental group) would get pre-flight training in effective group behavior techniques, and the other group (the control group) would spend the same preflight time in a placebo treatment without group training.”

Participants soon were oblivious to being observed, as was often demonstrated when an observer on the outside would be startled by a participant suddenly using the one-way window as the mirror it appeared to be on the inside.

In an effort to recruit participants who would approximate the kinds of people who might book a spaceflight, we contacted a travel company that booked adventure travel tours such as to Antarctica and got from them the demographics of the people who book such tours. We then advertised in a local paper for volunteers to act as participants in a simulated space ‘vacation’. Those applying would have to commit to participating for 48 hours, from 5p.m. on a Friday evening until 5p.m. on the following Sunday evening. Six passengers were selected for each of the 2 groups: they ranged in age from 34 to 72, half of them were men and half were women, and each group had one married couple. In addition, each group had its own 2-membercrew, a white male and a black female. We knew of no spaceflight simulation study that involved such diversity of age, gender, and ethnicity involving civilians resembling those who might one day be involved in space travel. Participants wore their own light sport clothing and soft slippers or warm socks because, as they were informed, in space, where people will be floating about and might bump into others or delicate equipment, shoes would not be worn. The crewmembers were mature college students who were recruited and trained ahead of time. They wore uniforms similar to NASA-type coveralls. They were unaware of the fact that there were 2 groups and of the variables being studied.

Observers were trained to a high degree of reliability to observe the groups at all times. The analytical system used was the Bales Interaction Analysis technique. Using operationally defined criteria, the observers measured whether interpersonal interactions, both verbal and nonverbal (e.g., postures, gestures, and expressions), were positive, neutral, or negative.

During their duty shifts, the observers each monitored the behavior of 2 participants. An observer would monitor 1 participant for a 1-minute period, assign a score, and then switch to the other participant for a 1-minute period and assign that person a score. Then it was back to the first person for a minute and so on until the end of the shift.”

A simulator is, in a way, equivalent to a stage set. If it looks sufficiently like a spaceship and has the sounds and smells of a spaceship, and if the things that take place within it are those that take place in spaceflight, then the participants, so to speak, ‘buy into it’ and experience the event as a spaceflight. Our spaceflight simulator seems to have worked very well in this respect. Loudspeakers produced sounds mimicking those in Space Shuttles and were kept at amplitudes similar to the Shuttle averages (72 decibels). For lift-off and touchdown, very loud engine exhaust vibration and sound were produced by large, hidden speakers.

Because the participants in the simulator did not float about in weightlessness as they would in orbit, we had to have bunks for them to sleep in.” Bom saber que astronauta não tem cama!

During the simulated lift-off and insertion into orbital flight, the participants remained strapped in their bunks. The participants reported in postflight questionnaires that they felt they really had a sense of what a spaceflight would be like—that they often forgot that this was ‘make believe’ and that they ‘really were living the real experience’, to quote 2 of the participants.”

The passengers had unstrapped from their bunks and were assembled in their seats facing forward toward the window area. Mission Control advised that they were preparing to remotely retract the radiation shield over the window and that everyone would soon have a view of Earth from space. By watching the changing postures of the participants, observers could easily see that tension was mounting during the 10-second countdown. Suddenly, a view of Earth taken from one of the Shuttle flights filled the window (actually a 27-inch television screen). One participant gasped and placed her hand to her mouth while staring at the scene.”

Exit from the simulator was delayed in both flights because the participants took the unplanned-for time to trade telephone numbers and addresses before leaving. People who came to the experiment as strangers left as friends. Participants’ moods during the simulated flights remained positive, and the number of negative interactions in both groups was small. In the year following the study, my lab received so many telephone calls from participants in both groups requesting a reunion that we felt compelled to go back to McDonnell Douglas and request that they sponsor such an event. They did, and it was a very well-attended, robust party.”

For months after the experiment, the lab kept receiving calls from participants requesting answers to all sorts of space questions. It seemed that now that they were perceived by others as authorities on space, people called to ask space-related questions of them. When they could not answer them, they turned to us for the answers. What is important here is that this post-simulation experience gave us the opportunity to see how this simulation had changed the participants’ lives in a positive, space-related way.”

In the postflight questionnaires, the participants of both flights indicated that the discussions with Mission Control while flying were the favorite parts of the trip. Very clearly, the participants enjoyed the spaceflight aspects of the simulation very much. All of the subsystems of the simulator worked as planned. No extraneous variables intruded, such as outside noises. From the standpoint of the equipment, the experiment was uneventful.

Just before entering the simulator, the experimental group received a 2-hour-long program designed to enhance interpersonal prosocial behavior. It was designed much like the type of program corporations provide for their executives in order to develop team building and enhance effective workplace interactions.” Então não serviu pra nada!

In our simulations, the experimental group index of amicability was 44.3. The control group had an index of amicability of 14.8. Thus, using the difference in index of amicability between the 2 groups as a measure of the efficacy of the preflight training, we find a very large improvement in social functioning of 299% from a small investment of 2 hours in a training program.” “We found that our short-duration experimental study corroborated the findings of both the long-duration experimental studies and the anecdotal studies.”

As the history of spaceflight unfolds, I contend that now we are at a transition point between the exploratory and settlement stages of spaceflight that is similar to the opening of the American West in the United States. The early exploration of the West was conducted by a relatively few brave and hardy explorer sorts with an emphasis on daring and pushing back frontiers. There was much ambiguity about the challenges and dangers that lay in uncharted territory. These beginning forays into the unknown were followed by the incursion of hardy trappers, hunters, miners, and various tradesmen. Settlers soon followed, and eventually tourists did as well. In parallel with the western movement of people, technology was improving to facilitate the western expansion—transportation evolved from stage coaches and Conestoga wagons to steamboats and trains.” Comparação grosseira. Um bando de covardes com pólvora, isso que eram os americanos ‘colonizadores territoriais’…

space vehicles are currently very noisy. The noise is due to the fact that warm air does not rise in weightless environments. Without convection currents, any air that is to be moved must be moved mechanically. The large number of fans and bends in ductwork create much of the noise.” “This [72db] is about like driving a car at 100 kilometers per hour (kph) with the windows rolled down. By comparison, a living room on Earth would be about 45db.”

As this paper is being written, the European Space Agency has just issued a worldwide invitation for volunteers to participate in a 520-day simulated Mars mission.” Loucura e estultícia!

6. GENDER COMPOSITION AND CREW COHESION DURING LONG-DURATION SPACE MISSIONS: Jason Kring & Megan Kaminski

(…)

Estou cansado! Já não há nenhuma idéia nova há ALGUNS artigos, e estou somente no sexto! Mau sinal, mau sinal… Só se fala em MARTE, MARTE, MARTE… MARTEla outra tecla, Houston!

7. FLYING WITH STRANGERS: Postmission Reflections of Multinational Space Crews: Peter Suedfeld, Kassia Wilk & Lindi Cassel

Long before technology made real space voyages possible, fictional explorations can be traced to the myth of Daedalus and Icarus and its counterparts in other traditions, to the writings of Cyrano de Bergerac, and eventually to the imaginations of Jules Verne and the multitude of early-20th-century science fiction writers.” Depois disso (principalmente na segunda metade do XX, i.e., desde que existe a Nasa) o ser humano perdeu a criatividade.

The first decades of human spaceflight were a series of competitions between the Soviet Union and the United States: who would be the first to launch an orbiting spacecraft, a piloted spacecraft, a space crew, a Moon rocket, a space station . . . . Flights were scheduled to preempt media publicity from the competition. Temporary victory veered from one bloc to the other, with each claiming—or at least implying—that being momentarily ahead in the race was proof of the superiority of its political and economic system, just as Olympic gold medals were (and are) risibly interpreted as markers of national quality.”

(…)

8. SPACEFLIGHT AND CROSS-CULTURAL PSYCHOLOGY: Juris Draguns & Albert Harrison

(…)

AFTERWORD. FROM THE PAST TO THE FUTURE: Gro Mjeldheim Sandal & Gloria Leon

(…)

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

Cernan & Davis, The Last Man on the Moon: Astronaut Eugene Cernan and America’s Race to Space (New York: St. Martin’s Press, 1999).

Dunmore, French Explorers of the Pacific, vol. 1 (Oxford: Clarendon Press, 1965).

Greely, Three Years of Arctic Service: An Account of the Lady Franklin Bay Expedition of 1881–1884, and the Attainment of the Farthest North (New York: Scribner, 1886).

Harrison, Spacefaring: The Human Dimention (Berkeley: University of California Press, 2001).

Lebedev, Diary of a Cosmonaut: 211 Days in Space (College Station, TX: Phytoresource Research, Inc., 1988).

Linklater, The Voyage of the Challenger (London: John Murray, 1972).

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Mears & Cleary, “Anxiety as a Factor in Underwater Performance,” Ergonomics 23, no. 6 (1980): 549.

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Petrov, Lomov, & Samsonov, eds., Psychological Problems of Spaceflight (Moscow: Nauka Press, 1979).

Ryan, The Pre-Astronauts: Manned Ballooning on the Threshold of Space (Annapolis, MD: Naval Institute Press, 1995).

Stefansson, The Adventure of Wrangel Island (New York: MacMillan Company, 1925).

Von Chamisso [o mesmo autor de Peter Schlemiel], Reise um die Welt mit der Romanoffischen Entdeckungs Expedition in den Jahren 1815–1818 (Berlin: Weidmann, 1856).

Weitekamp, Right Stuff, Wrong Sex: America’s First Women in Space Program (Baltimore, MD: Johns Hopkins University Press, 2004).

DOES THE DUBBING EFFECT APPLY TO VOICE-OVER? A CONCEPTUAL REPLICATION STUDY ON VISUAL ATTENTION AND IMMERSION – Gabriela Flis, Adam Sikorski and Agnieszka Szarkowska

The original study by Romero-Fresco (2016) was replicated by Di Giovanni and Romero-Fresco (2019) on a group of Italian and English viewers watching a fragment of Grand Budapest Hotel (Wes Anderson 2014). While the original study focused on close-ups, Di Giovanni and Romero-Fresco (2019) examined a different language combination (English to Italian dubbing) and different types of shots in the film.”

As opposed to Spain, where the predominant audiovisual translation (AVT) mode is dubbing, and the UK, where the vast majority of audiovisual content is available in the original English version, Poland is generally considered a stronghold of voice-over (VO) (Gottlieb 1998). Casablanca has never been dubbed into Polish and only the voiced-over and subtitled versions exist.” [!!]

Voice-over translation is an audiovisual translation technique in which, unlike in dubbing, actor voices are recorded over the original audio track which can be heard in the background.”

In contrast to dubbing, where every attempt is made to synchronise the translation with the lip movements of the original actors (Chaume 2014), in voice-over there is no requirement for lip synchrony (Sepielak and Matamala 1999). Neither does the translation need to be of the same duration as the original – a requirement known as isochrony (Chaume 2014). In VO, the original soundtrack remains audible but its volume is lowered, and the translation tends to be shorter than the original, typically allowing viewers to hear the beginning and end of the original utterances. The translation is read by one voice talent, usually male.”

Assuming that a lack of synchrony between the characters’ lip movements and the translation may lead to viewers avoiding looking at the mouth, we wondered whether a similar effect may take place when watching Polish VO, where the lack of synchrony between the original utterance and its translation is part and parcel of this AVT mode. Have Polish viewers also developed similar strategies in their process of habituation to VO? Given the fact that all the translated utterances, whether pronounced by female or male actors, are read out by a single male voice talent, we thought that the viewers’ potential avoidance of looking at characters’ mouths may be particularly discernible in scenes with female characters speaking.”

Although film viewing may seem like a passive activity, when watching films viewers are, in fact, busy processing the sequences of images and sounds, understanding the action, and construing the narrative. From previous research we know that viewer gaze behaviour shows certain commonalities (Smith 2013).” “Attentional synchrony, or “the tendency for observers to be looking in the same place at the same time” (Foulsham and Sanderson 2013: 926), is greater when sound is present than during moments of silence (ibid.: 939).”

One might think that perceptual quality would be extremely low in cases of, for example, science-fiction movies or animated short stories; however, this is not the case. In Hall’s experiment, participants who watched Jurassic Park (Steven Spielberg 1993) still perceived dinosaurs as real, even though they had become extinct millions of years ago, because they felt real in the context of the film.”

Even though it might sound similar to transportation, character identification is limited to particular characters depicted in a movie, whereas transportation ‘is a more general experience created by the narrative as a whole’ (Tal-Or and Cohen 2010: 404).”

Experiment 1 reports on the results of the eye-tracking study conducted on VO with Polish viewers, using the same 6-minute excerpt from Casablanca as Romero-Fresco (2016, 2020). We used a mixed study design with the area of the face (eyes/mouth) as an independent within-subject variable, and participants’ immersive tendency and English proficiency as factors. The dependent variables were the percentage of gaze distribution, immersion levels, comprehension and enjoyment. In Experiment 2, we compared our results with those obtained by Romero-Fresco (2016, 2020).”

To the best of our knowledge, no work on the dubbing effect in voiced-over films, and especially Polish VO, has been done before.”

In general, our sample consisted of young adults whose proficiency in English was relatively high, which may be important as they could understand the original English audio in the background of the Polish voiced-over version.”

Our percentages on eyes and mouth did not add up to 100%, as was the case in the original study, because we also took into account other areas on the screen where people looked, including the nose, hat, hair, background, etc.”

when the actors were speaking, participants looked at the eyes twice as much as at the mouth but, when the characters were not speaking, participants looked at the eyes four times more than at the mouth.”

We therefore compared the percentage of gaze distribution on Ilsa’s mouth with that on Rick’s mouth. Indeed, a statistically significant main effect of actors’ gender was found on gaze distribution on the mouth in dialogue scenes, F(1, 17) = 4.516, p = .049, partial eta2 = .21. Contrary to our predictions, [sabia!] however, viewers looked more at Ilsa’s mouth (M = 24.94, SD = 12.36) than Rick’s (M = 17.94, SD = 13.34).

We were also interested in finding out whether gaze distribution was in any way related to the participant’s immersive tendency and English proficiency, but neither of these factors was found to be significant.”

The largest discrepancy between the declarative and the actual time spent was found in the case of Spanish participants looking at the mouth, which may show that the dubbing effect is largely unconscious.

It needs to be noted that asking people to report on a 1-5 scale the time they think they spent on eyes and mouth is problematic for a number of reasons, including the fact that while watching they were unaware of the nature of the experiment and were not focussed on their gaze behaviour and its distribution.”

In answer to our main research question, we found that when watching the voiced-over fragment of Casablanca, Polish viewers did not avoid looking at the characters’ mouths. Our participants spent – proportionally – about 60% of the time looking at the eyes and about 40% at the mouth in scenes with dialogue, while for the English this proportion was about 75% and 25% and for the Spanish 95% and 5%. This means that we did not find what could be potentially called ‘the voice-over effect’.”

Interestingly, the percentage gaze distribution of Polish viewers was closer to that of the English viewers watching the original clip than to the Spanish group watching the dubbed version. Statistically, there were no differences in gaze distribution between Polish and English people in the sense that more time was spent looking at eyes in scenes with no dialogue than in dialogue scenes and, analogically, at mouth in dialogue scenes in comparison with those where the character remained silent. For Spanish, the trend was reversed. Such results make us wonder whether voice-over may in fact provide an experience more similar to the one we may have while watching a film originally recorded in our native language, an aspect that could be investigated in further studies.” A questão não é essa, mas que o áudio original estava presente!

In the presence of noise, where speech is less intelligible, the significance of visual speech information increases. If we consider VO as a sort of ‘noise’, making the perception of the original more difficult by the co-presence of the VO translation, then it may explain why Polish viewers focused so much on the mouth compared to the other two groups.”

Indeed, when directing films starring Ingrid Bergman, Alfred Hitchcock increased the use of close-ups ‘to concentrate expression in the micromovements’ of Bergman’s face. In the scene used in the study, Bergman is also framed in a close-up, placing her face and full mouth in a particularly prominent position, which may explain the larger focus on Ilsa’s face and mouth than on Rick’s.

It has been suggested that the reasons for the scarcity of replication in modern science include the negative perception of replication as research that is unoriginal and lacking in novelty; the unfavourable attitude of some editors and the consequent difficulty in publishing such studies; the potential hostility towards the original researchers and the fact that replications may be associated with controversy (Koole and Lakens 2012; Nosek et al. 2012; Coyne et al. 2016).”

In our study, direct replication was not possible since dubbing is rare in Poland and the clip used in the original study has never been dubbed into Polish. Furthermore, as we were operating with the institutional confines of our university lab, we had to work with a different eye tracker (SMI) than that used in the original study (Tobii).”

Given the departures from the original study, conceptual replications ‘do not constitute an unequivocal test of the validity of prior findings’ (Coyne et al. 2016: 245) and can be used ‘only to confirm […] the original result, not to disconfirm it’ (Nosek et al. 2012: 619). Therefore, the fact that the dubbing effect has not been found in the Polish context does not necessarily disconfirm its existence in a typical dubbing country such as Spain. Last but not least, as stated by Earp and Trafimow (2015: 9), ‘even carefully-designed replications, carried out in good faith by expert investigators, will never be conclusive on their own.’ What is needed is a series of replications, conducted independently of one another by different research teams and labs.

Replicating a study may be in some ways more challenging than conducting an original study from scratch. The replication team needs to make sure that they follow exactly the same protocol as the original team did. Yet, current reporting practices are sometimes insufficient for the replicating team to be able to follow the experimental protocol to the letter. This relates to, for instance, using identical areas of interest, identical pre-processing of eye-tracking data in terms of minimum and maximum fixation duration as cut-off points, or using exactly the same eye-tracking measures, such as fixation time or dwell time.”

Our study has shown that the visual attention distribution of Polish participants was similar to that of English people watching the film in the original, which suggests that for viewers accustomed to VO, watching a voiced-over film may be an experience comparable with watching the original, at least in terms of visual attention distribution. This may come as a surprise, since VO is often considered ‘the worst possible method (which can) in no sense maintain or do justice to the quality of the original version’ (Dries 1995: 6).”

FREUD, BIOLOGIST OF THE MIND: Beyond the psychoanalytic legend – Frank Sulloway, 1983.

PREFACE

To humanists, Freud is an epic poet and a hero of literature. Moreover, his theories are deliberately segregated from the sciences under a variety of labels, such as ‘hermeneutics’ and ‘Geisteswissenschaft’. Freud himself helped to cultivate this kind of image when he elected to exclude from his Gesammelte Werke almost all of his numerous publications on the fields of neurology and neuroanatomy.”

A central message is that F., through the years, has become a crypto-, or covert, biologist, and that psychoanalysis has become, accordingly, a crypto-biology.”

Henri Ellenberger, in his impressively erudite if also much-disputed Discovery of the Unconscious (1970), has done more than any student of Freud’s life to question these myths in a systematic matter and to sketch out their general proportions.”

PART I: FREUD AND NINETEENTH CENTURY PSYCHOPHYSICS

1. THE NATURE AND ORIGINS OF PSYCHOANALYSIS

A renowned Viennese physiologist, Ernst Brücke, along with Émil du Bois-Reymond, Hermann Helmholtz, and Carl Ludwig, had succeeded in revolutionizing German physiology during the preceding quarter century [1848-1873, tomando como ponto de chegada o ano de entrada de Freud na faculdade de Medicina, quando teve Brücke como seu terceiro mestre – ao que tudo indica, os alunos naquela época e naquele modelo de ensino possuíam um professor por ano]. As youthful students of that Science in the early 1840s, the first 3 of these 4 men had banded together and pledged their mutual dedication to overthrowing the then-dominant position of vitalistic biologists like Johannes Müller – their common teacher; Ludwig, who was not a Müller student, joined the movement in 1847.”

no other forces than the common physical-chemical ones are active within the organism. In those cases which cannot at the time be explained by these forces one has either to find the specific way or form of their action by means of the physical-mathematical method, or to assume new forces equal in dignity to the chemical-physical forces inherent in matter, reducible to the force of attraction and repulsion.” Du Boys-Reymond, trad. Bernfeld. Vemos o quanto a HISTÓRIA DA MATEMÁTICA interfere na epistemologia médica do século XIX! Cf. https://seclusao.art.blog/2021/05/26/historia-da-matematica-uma-visao-critica-desfazendo-mitos-e-lendas-tatiana-roque-2012/.

Young Freud thus acquired his first scientific training within what has often been referred to, after its most famous member, as the ‘Helmholtz school of medicine’.”

Freud published 5 scientific papers during the next 6 years (1876-82): 2 on the neuroanatomy of Ammocoetes (Petromyzon planeri) – a primitive form of fish; 1 on the gonadal structure of the eel; an announcement of a new chemical method for preparing nerve tissues for microscopic examination; and a study of the nerve cells of the crayfish.”

F. subsequently named his third son after Brücke”

F.’s last major publication from this neuroanatomical phase of his career appeared in 1897” Daí pra frente (ou eu diria: já antes!) é só ladeira abaixo…

As late as 1936 the Swiss neurologist Rudolf Brun commented upon the unrivalled status of this monograph, calling it ‘the most thorough and complete that has yet been written on the cerebral paralyses of children’

2. SIGMUND F. AND JOSEF BREUER: TOWARD A PSYCHOPHYSICAL THEORY OF HYSTERIA (1880-95)

Meynert soon invited F. to work in his Laboratory for Cerebral Anatomy, which Freud did from 1883 to 1886.”

SEMPRE LIGADO À MORTE: “It was also while working as Sekundararzt in Meynert’s Psychiatric Clinic that F. finally decided, in September 1883, to become a neurologist. The immediate inspiration for this decision was the tragic suicide of Nathan Weiss, an extremely brilliant and eccentric young neurologist whom F. hoped to succeed in the medical community.”

Jean-Martin Charcot (1825-93) was then at the height of the varied medical career that had led him to the study of neurology, and his stature in French medicine was equalled only by that of the great Louis Pasteur.” “With the possible exception of Guillain (1955), no adequate biographical treatment of Charcot yet exists. This surprising lacuna in the history of medicine is perhaps related to the sharp reversal of medical opinions after Charcot’s death regarding the reliability of his famous researches on hypnotism and hysteria. The following account of his life and work relies heavily upon Ellenberger”

Charcot’s paper created a sensation. It also brought about a complete reversal within France of the negative attitude in official science toward mesmerism or ‘animal magnetism’ – a subject that the Académie des Sciences itself had twice formally condemned.” “It is no wonder, then, that the neurologist whose work on hypnotism and hysteria in the 1880s enthralled both the French medical community and a generation of novelists and playwrights eventually received the nickname ‘Napoleon of Neuroses’.”

Charcot was the first to teach us that to explain hysterical neurosis we must apply to psychology”

Charcot had further fixed the ratio of male to female hysteria at roughly 1:20.”

MITO OU VERDADE? F. (ou Charcot) descobriu a histeria masculina.

MITO. A questão já era debatida um século antes na Alemanha.

P. 38: “Thus, the existence of male hysterie per se (as a non-traumatic clinical entity) was by no means a controversial medical issue of this period, but had long been accepted, in fact, by most European and American physicians.”

The chairman of the meeting, Heinrich von Bamberger (one of the 4 professors on the committee that awarded F. his traveling stipend), responded to F.’s presentation with the words: ‘In spite of my great admiration for Charcot and my high interest for the subject, I was unable to find anything new in the report of Dr. F. because all that has been said has already long been known’ (Schnitzler, 1886).” Acontece que em seus escritos autobiográficos F. dissera que Bamberger respondeu: “Isso que você nos apresentou é inacreditável, a ciência não respalda!”.

As Ellenberger observes, the ‘critical’ reception of F.’s own paper was clearly a routine affair amidst such a learned society of medical experts.”

Three points of interest emerge from a survey of the responses to F.’s paper. First, F. was apparently unaware, before he delivered his paper, of just how well-known Charchot’s ideas already were to his own superiors in Vienna. (…) Second, F. obviously returned from Paris with an idealized picture of Charcot (…) It is now generally recognized that Charcot formulated his theories of hypnotism and hysteria on the basis of experiments performed repeatedly with a few dozen subjects, most of whom lived on the wards of the Salpêtrière, and many of whom, unknown to Charcot, had been rehearsed beforehand in the various responses expected of them.” Hahaha! “One patient, Blanche Wittmann, earned herself the title ‘Queen of the Hysterics’ for her ability to produce both the 3 stages of hypnosis and a complete hysterical crisis à la Charcot.”

The Belgian physician Joseph Delboeuf, who visited Paris contemporaneously with F., was appalled by the laxity of Charcot’s experimental procedures and, upon returning home, issued a highly critical account of them (1886).”

The third and last point about this incident is F.’s tactical blunder in attributing as unique to Charcot certain ideas and discoveries that were common medical knowledge in Vienna at the time. F.’s student contemporary and acquaintance, the psychiatrist and subsequent Nobel Prize laureate Julius Wagner-Jauregg (1847-1940), was also present at this meeting, and he later recorded in his autobiography how F. had affronted his superiors when he ‘spoke only of Ch. and praised him in the highest fashion’.” Como um aluno qualquer apresentando seminário.

F. was the only one at the Society of Physicians meeting even to bring up the old uterine theory of hysteria, which only a handful of physicians (particularly gynaecologists) took seriously any longer”

All in all, the reception of F.’s paper tells us more about his ambitious expectations as a young man of science (and about his overly sensitive attitude toward criticism) than it does about the supposedly backward state of affairs in Viennese medical circles in 1886.”

Briquet’s Traité presented the results of over 400 investigations of hysterical patients. On the basis of these researches, which required approximately 10 years to complete, he was able to dismiss altogether the prevailing notions that hysteria was related to unsatisfied sexual impulses (he found that prostitutes suffered more than nuns), to disturbances of the womb, or to an exclusive etiology in the female sex. Briquet estimated the same ratio between female and male cases later reported by Ch..”

Further, it is not true thar F. ceased on this account to attend the various local medical societies, as he also claims in his Autobiography. (…) a year and a half after his ill-fated talk he was duly elected to the society [of Physicians, de Viena]’s membership! He remained a member in good standing until he was forced by the Nazis to leave Vienna in ‘38. (…) See Sablik (1968)

Soon after F.’s return to Vienna, Meynert had begun to take a dim view of F.’s new allegiance to the views of Charcot, apparently considering it to be disloyal both to himself and to his own more somatically oriented views of disease.” Rupturas são com ele mesmo!

He even went so far as to label the growing hypnotism movement a ‘psychical epidemic among doctors’ – precisely the same epithet used 20 years later by a critic of the nascent psychoanalytic movement. Finally, Meynert firmly believed that most hypnotic ‘cures’ were the result either of fraudulence or of self-delusion on the part of doctors and patients.” “Meynert cited in this connection the experiences of one candid physician who confessed that he had more than once experienced involuntary pollutions after having been placed in a state of hypnosis. To this same subcortical liberation of sexual impulses, Meynert was also inclined to ascribe the well-known state of ‘euphoria’ so often experienced by subjects under hypnosis.” Ironicamente, F. iria se alimentar do fel do seu novo rival.

Liébault (mestre de Bernheim), Du sommeil et des états analogues, livro à frente da sua época sobre o hipnotismo.

Bernheim’s 1884 revival of Lié. suggestion therapy was subsequently expanded in 1886 into a larger textbook (De la suggestion et de ses applications à la thérapeutique), which F. himself had presumably read by the end of December 1887, since he was already under contract by that date, as he informed his friend Fliess, to translate this work into German. Bernheim reiterated his basic theme that (…) suggestibility (…) was a capacity shared by all human beings, not just hysterics and neuropaths. [como acreditava Charcot]”

As it has turned out, Bernheim was right [sobre a exclusividade do psiquismo no hipnotismo], and F., who later retracted his support for Charcot on this point, was wrong.” “In short, by 1893, the work of Bernheim and others had succeeded in convincing F. that much of Ch.’s evidence for the physiological nature of hypnosis was completely bogus.”

Breuer’s physiological researches provided a conceptual foundation for the pioneering theory of hysteria that he and F. later proposed.” “Breuer’s first important discovery – while still working as a medical student under Ewald Hering – was of the self-regulating mechanism of breathing as controlled by the vagus nerve (the so-called Hering-Breuer reflex). (…) his demonstration furnished conclusive evidence for one of the first biological feedback mechanisms to be documented in mammals. Breuer’s second major contribution to physiology was his discovery in 1873, essentially simultaneously with the great Ernst Mach and the Edinburgh chemist A. Crum Brown, of the function played by the semicircular canals in the ear. The inner ear is a double organ – for both hearing and balance. Breuer, in his own work on this problem, skillfully elucidated the delicate series of reflex mechanisms by which the sensory receptors within the inner-ear labyrinth succeed in regulating posture, equilibrium and movement. He also called attention to the importance of the more obscure otolith system, an aspect of the problem that had been overlooked by Mach and Brown. See Cranefield (1970a) and Hirschmüller (1978)” “The first Austrian Nobel Laureate, Robert Bárány, won the Physiology and Medicine Prize in 1914 for his work on the equilibrium organs of the inner ear. In 1916 he was denied academic advancement by the Senate of the University of Vienna because he had given insufficient credit to prior researchers on this subject, principally Josef Breuer. Although Bárány indeed admitted to having forgotten Breuer’s 1874 paper, Breuer himself made light of the whole episode and actually came to Bárány’s defense in the priority proceedings (Hirscmüller).”

On the strength of these early and impressive findings in physiology, Breuer was appointed in 1875 to the rank of Privatdozent at the University of Vienna. Subsequent difficulties in gaining patients for teaching purposes apparently caused him to resign his position 10 years later. At this time he also refused the offer of Theodor Billroth, the famous surgeon, to propose him for the title ‘Extraordinary Professor’, retiring instead into the full-time private practice that became his principal medical devotion.

The calibre of Breuer’s continued scientific reputation is nevertheless well illustrated by the fact the he was elected to the Viennese Academy of Sciences in 1894 upon the nominations of Ernst Mach, Ewald Hering, and Sigmund Exner, 3 of that body’s most accomplished and internationally known members. Although it is often assumed that Breuer published relatively little in his lifetime, a bibliography of his purely physiological publications includes nearly 20 articles totaling some 500 printed pages of meticulously conducted and carefully described research (Cranefield). Among Breuer’s many patients were the families of Brücke, Exner, Billroth, Chrobak, and many other prominent members of the Viennese scientific community.”

Breuer maintained an extensive correspondence with the philosopher-psychologist Franz Brentano as well as with the poetess Marie von Ebner-Eschenbach.”

In 1881, Breuer’s tutelage included regular monthly loans, and F.’s financial debt to him eventually was substantial – a debt that became a sore burden to F. a decade later, when B. tried to refuse its repayment during the period when the 2 men were growing estranged.”

B. immediately recognized Anna O. as one of hysterical double personality. He discovered at one point that, merely by showing her an orange, he could induce a transition from her normal personality to what she called her ‘bad self’. More remarkable still, at the height of her illness, the patient regularly hallucinated the various events in her life that had actually taken place 365 days earlier. B. documented this aspect of the case history from a diary of the illness kept by Anna O.’s mother.” “He found that if he repeated to his patient each evening, when she entered a state of autohypnosis, the frightened words she had uttered during her daytime absences (fr.), she was able to recall the forgotten details of her terrifying hallucinations. Therapeutically, this process relieved both her symptoms and her often agitated state of mind by the end of each day.” A limpeza de chaminé que, convenhamos, F. nunca soube reproduzir.

The medical cure was nothing short of stupendous, given the almost unheard-of time and patience Breuer spent in treating this one patient. According to Breuer, he listened to stories of the circumstances, people, places, and often exact dates (for Anna O. had a remarkable memory) associated with 303 separate instances in which the patient had previously experienced dysfunctions in her hearing alone. The systematic Breuer carefully recorded them all and even managed to group them under 7 different contextual subheadings!”

Juan Dalma has pointed out that Jacob Bernays, the uncle of F.’s future wife, had long been concerned with the Aristotelian concept of dramatic catharsis. (…) According to Hirschmüller, by 1880 Bernays’s ideas had inspired some 70 German-language publications on catharsis, a number that more than doubled by 1890. It seems very possible that an intelligent girl like Anna O. might have been acquainted with the subject and have unconsciously incorporated this knowledge into the dramatic plot of her illness.” Por que demorou mais de uma década para os Estudos em Histeria saírem? Porque o livro haveria de ser incrementado com algumas pacientes de F., as ‘famosas’ Elisabeth von R., Emmy von N., etc. Se é que todas existiram e tal e qual foram retratadas…

F. was slow to apply to B.’s new therapeutic technique himself after returning from Paris, probably because his initial clientele presented him with many strictly neurological disorders and, as a specialist in neurology, his own interests were still largely focused upon physiological aspects of the neuroses.”

The mysterious clinical diminution of hysteria in the course of the 20th century makes Breuer and Freud’s Studies on Hysteria an unusual book in the history of science; for while it marks a turning point in psychiatric theory, it deals with a disease many present-day neurological specialists see only once or twice in a lifetime of medical practice. Although no one has succeeded in satisfactorily explaining why hysterical afflictions have become as rare as they have in Europe and America, an interesting discussion of this problem from a social historian’s point of view has been provided by Carroll Smith-Rosenberg (1972). In a quasi-Adlerian analysis of the problem, Smith-Rosenberg has tentatively related the passing of this primarily female affliction to the increased opportunity that women have in modern life to control their own destinies, especially when faced with the sort of oppressive or intolerable circumstances that formerly allowed only one principal form of escape – flight into illness (and the role of the invalid).” Ou “flight into marrying”, rigorously the same!

Is it phantasy or just a fantasy?

É claro que dos “4 casos clássicos” do livro, o de Breuer é o único sem nada sexual envolvido…

The economic aspect is embodied in Breuer and F.’s theoretical attribution of hysterical symptoms to a certain ‘quantity’ of excitation, affect, or mental energy. In healthy individuals, this quantity is dissipated along the nervous pathways of everyday mental and physical activity. But in hysteria, B. and F. believed, a certain quota of affect succeeds in becoming pathologically ‘converted’ into inappropriate somatic channels (Strachey).”

The nervous system endeavours to keep constant something in its functional relations that we may describe as the ‘sum of excitation’. It puts this precondition of health into effect by disposing associatively of every sensible accretion of excitation or by discharging it by an appropriate motor reaction”

supersuscetível e insensível ao mesmo tempo

strangulation of affect: (…) when a strong affect is not permitted immediate or adequate conscious discharge – as with known clinical instances of hysteria arising from severe insults endured in silence”

The first published instance of the term das Unbewusste (‘the unconscious’) by either B. or F. occurs in B.’s discussion of the case history of Anna O. (S.E.).” “B., by his unusual diligence, perspicacity, and extreme patience as a physician, provided the initial discoveries that hysterical symptoms can arise from unconscious ideas and that they can be made to disappear if they are brought back into consciousness. (…) he also coined the term catharsis and possibly the term ab-reaction and was responsible for the notions of hypnoid hysteria and retention hysteria. F. was responsible, first and foremost, for reviving B.’s dormant interest in his famous patient” Graaaande papel.

According to the extreme form of this particular myth, F. was subjected to 2 conflicting forces, namely his allegiance to mechanistic and molecular explanation, i.e., the Helmholtz school’s¹ influence, and his desire to forge a new way of looking at the mind, a psychological way free from the entanglements of narrow and naïve materialism.” Cranefield

¹ “See Bernfeld (1944, 1949), who coined the phrase ‘the School of Helmholtz’.”

In the first place, Helmholtz himself was by no means ever considered to be the head of a ‘school’ in medicine, even among the original group of 4 – du Bois-Reymond (the group’s real leader), Brücke, Ludwig, and Helmholtz himself – who together initiated what Cranefield has more appropriately termed ‘the 1847 biophysics program’. (The year 1847 was when Ludwig joined the group.) Furthermore, Helmholtz was actually an isolated figure in science compared with the other 3; he had few students or close associates, even within the fields of mathematics and physics where he did his major and most valuable scientific work. Secondly, the members of this movement were at no time typical, as both Bernfeld and Jones have implied, of the extreme brand of 19th-century mechanism-materialism that was espoused by men like Karl Vogt and Ludwig Büchner. Carl Ludwig, for example, treated the subject of dreams (…) in what is certainly the language of psychology”

Finally, by the time F. began his medical training in the 1870s, the 1847 biophysics program had been in manifest retreat for many years. Indeed, by the 1870s, most of the movement’s original members had frankly acknowledged the prematurity of their initial visions that physiology was soon to become nothing but physics and chemistry.

On the other hand, the mechanistic thrust of Helmholtz and his biophysics confreres did enter psychoanalysis indirectly from the field of psychology through Gustav Theodor Fechner (1801-87). It was Fechner who not only introduced into psychology the principle of the conservation of energy (formulated in 1842 by the physician Robert Mayer and further developed by Helmholtz in 1845), but also derived a sophisticated equivalent of F.’s pleasure-unpleasure principle from this notion.”

Fechner’s famous law describing the mathematical relationship between the intensity of stimulation and the resultant sensation is mentioned by F. (…) in the Project for a Scientific Psychology.” “Josef Breuer, for his own, greatly admired Fechner, who, along with Goethe, were his two favourite authors (Jones). Fechner likewise exerted considerable influence upon F.’s teacher Theodor Meynert (Dorer).

Thus, perhaps most directly, the Breuer-Freud theory of hysteria reflects the ‘Fechnerian school’ of psychophysics far more than it does the long-since defunct ‘Helmholtz school’ of biophysics.”

Herbart’s influence may also be traced in the psychological writings of Fechner, as well as in those of the psychiatrist Wilhelm Griesinger (1817-69), both of whose ideas were in turn important sources of inspiration to F.’s teacher Meynert (Dorer).”

In the course of his Theoretical contribution to the Studies, B. specifically cited the works of men like Paul Möbius (1888, 1894), Adolf von Strümpell (1892), Pierre Janet (1889, 1893a, 1894), Joseph Delboeuf (1889) and Moritz Benedikt (1894) for their many anticipations of (…) the basic ideas advocated by himself and F..

Although the Frenchman Janet’s researches are now perhaps the best known of this group of psychotherapists, Viennese neurologist Moritz Benedikt’s views were the closest to those of B&F. As early as 1868, Benedikt had insisted, in opposition to Charcot’s predecessor Pierre Briquet, that hysteria often depends upon functional disorders of the libido. In subsequent publications, he continued to elaborate this doctrine on the basis of clinical evidence suggesting that most hysterics fall ill owing to their excessive preoccupation with a ‘secret life’ of phantasies or frustrated desires, frequently of a sexual nature.”

what perhaps serves most of all to distinguish the work of B&F from that of their many contemporaries in the scientific study of hysteria is their unusually detailed clinical documentation of case histories”

3. SEXUALITY AND THE ETIOLOGY OF NEUROSIS: THE ESTRANGEMENT OF BREUER AND F.

A técnica da pressão na testa foi inventada por Bernheim e por ele comunicada a F..

It is to Ellenberger’s (1972) even more recent and detective-like research efforts that we owe the unexpected rediscovery of a contemporaneous, 21-page case history of Bertha Pappenheim prepared by Josef Breuer in 1882, for the Sanatorium Bellevue, Kreuzlingen, Switzerland. (Where Anna O. was transferred to in July of that year.) Ell. also uncovered a brief follow-up report written by one of the physicians at the San. Bell. for the period of Anna O.’s 3-and-½-month sojourn there. (…) Albrecht Hirschmüller (1978), who has published the German texts of the various documents discovered by Ell., has found other equally relevant materials at the Sanatorium Bellevue. (…) So much for the myth about ‘timid’ B., retreating from the distasteful implications of his own momentous discoveries!”

In his painstaking work on the semicircular canals of the inner ear, B. did not stop until he had generalized his findings to fish, reptiles, birds, and mammals. If, prior to F.’s confirmation of B.’s initial findings, the latter was reluctant to publish his discoveries in the case of Anna O., this was simply because he did not believe that the isolated and possibly atypical results in this one case were grounds for formal (theoretical) publication on a subject of such complexity.” “In sharp contrast to B., F. saw far less need for copious replications of the cathartic procedure before making it known to the medical world.”

Even as late as 1895, when B&F finally published Studies on Hysteria, Bertha Pap.’s identity as A.O. became immediately evident to many Viennese readers of that book.”

In earlier times all hysteria was sexual; afterwards we felt we were insulting our patients if we included any sexual feeling in their aetiology; and now that the true state of things has once more come to light, the pendulum swings to the other side. (…) it is merely (…) the law of the swing of the pendulum, which governs all intellectual development.” B.

To sum up, B.’s collaboration with F. came to an end when F. began to insist sexuality was the essential cause of every hysteria as well as of most other neuroses.”

O bichinho da prepotência mordeu F. dentro da Salpêtrière.

In a word, F. feared mediocrity and others’ anticipation of his ideas more than he feared error in science, and he fully accepted the risks inherent in this particular choice of values.” Mas depois chorava suas pitangas.

B.’s position is plain enough from several subsequently published accounts detailing his 4 November 1895 public defense of F.’s views before the Wiener medicinisches Doctorencollegium (Vienna College of Physicians). F. had given 3 lectures on hysteria before this society on the evenings of 14, 21 and 28 October 1895.”

No physician has any idea what sort of symptoms an erection calls forth in women, because the young women refuse to speak of the matter and the old ones have already forgotten about it” B., 1895.

Thus, B.’s ‘inability’ to follow F. completely on this issue is simply a measure of F.’s own growing fanaticism about it.”

A Viena fim de século era mais promíscua que Gotham City, Paris no auge da opulência e que essas capitais da África setentrional e do Oriente Médio cheias de pederastas todas juntas. Por ali, tudo devia acabar em segredinhos sujos e mulheres histéricas.

F. clearly took his reductionist metapsychology literally when it came to the phenomenon of sex. B., on the other hand, was inclined to be more cautious in generalizing the various mechanical analogies in their model of hysteria. In Studies on Hysteria he treated this model as a psychological heuristic and thus saw no need to make sexuality any more ‘indispensable’ to hysterical symptom formation than affects like fright or anger.”

Eis-tudo da raiva.

Any theory of causation in mental pathology [why not general pathology too?] must take account of the straightforward medical consideration that disease can have only 2 logical sources, acting singly or together: (1) harmful experiences and/or agents originating in the external environment; and (2) endogenous (generally hereditary) factors. Ultimately, however, medical science must also seek to explain what contributes to disease-prone heredity, either in terms of inherited residues of noxious, ancestral experiences – the now-discredited Lamarckian position that F. himself endorsed – or in terms of some other form of genetic anomaly.”

DESCONFIE DOS ESQUEMAS REDONDAMENTE SIMÉTRICOS: “F.’s 4-part logic of disease brings to mind Aristotle’s well-known and similar fourfold analysis of causality into material, efficient, formal and final causes. Thus it is of particular interest that, at the University of Vienna, F. took 5 separate courses in philosophy with Franz Brentano, a specialist on Aristotle who also emphasized that Greek philosopher’s relevance to modern psychology. Two of Freud’s 5 courses with Brentano were devoted to Aristotle and to logic, respectively. See Bernfeld (1951) and, especially, Ramzy (1956), who discusses a number of more general parallels between the doctrines of Aristotle and F..”

The standard English expression ‘free association’ is a misleading approximation of F.’s own choice of the German words freier Einfall for his technique. F.’s term conveys much more of the intended impression of an uncontrollable ‘intrusion’ (Einfall) of preconscious ideas upon conscious thinking, a process that his fundamental rule of analysis – that the patient should report everything that comes to mind – was further designed to lay bare to the physician.”

4. F.’S 3 MAJOR PSYCHOANALYTIC PROBLEMS AND THE PROJECT FOR A SCIENTIFIC PSYCHOLOGY (1895)

I am particularly indebted to Stewart’s comprehensive analysis of the aspect of the choice-of-neurosis in F.’s neurological career in the 1890s (Psychoanalysis: The First 10 Years).”

The development of F.’s ideas on the actual neuroses can be followed in the Fl. correspondence from manuscript Drafts A and B in late 1892 and early 1893, to their far more refined formulations in Drafts E and G (mid-1894 and January 1895), and finally to their various published treatments in the 1890s (1895b, 1895f, 1898a). F.’s general approach to the problem, as stated in his earliest manuscript drafts, was purely ‘toxicological’. In other words, sufferers from the actual neuroses were somehow being neurologically poisoned by their own abnormal deployment of a sexual substance emanating from the reproductive organs.” O cérebro do neurastênico é inimigo do neurastênico, grande descoberta/hipótese que não mudava nada: mas quando é que F. não foi um inútil fataliste?!

AS INSPIRAÇÕES DE REICH: “At this point a totally uninhibited organism would take steps through vigorous motoric activity to place the sexual object in a favorable position. If successful, orgasmic reflex action discharges the accumulated tension in the end organ, thus triggering the simultaneous sensation of voluptuous feelings in the psychical sexual group.”

The 4-part analysis offered here is mine, not F.’s, although it is fully implicit in his psychophysicalist logic about the neuroses.”

He later called such anxiety neuroses ‘the somatic counterpart of hysteria’” “the symptoms of melancholia – a sort of psychopathological ‘mourning over loss of libido’ – were simply an unconscious neurotic counterpart to normal mourning.” “Two forms of actual neurosis were to be distinguished from one another in F.’s scheme: neurasthenia (characterized by lassitude, headaches, indigestion, perceptual sensitivities and a wide variety of other complaints) and anxiety neurosis. Neurasthenia was invariably the result of excessive adolescent masturbation (Freud 1895b), and it generally appeared with the onset of puberty.” Os sintomas de esgotamento, letargia e de fechamento ao mundo exterior não combinam com a puberdade. A energia sexual está em franco crescimento, pouco importando as vicissitudes do indivíduo e ele vive a fase mais expansiva de sua vida psíquica.

neurose atualíssima:

tão atual que só começa a acontecer amanhã!

F. via o afeto como impulsos somáticos que catexizam [descarregam] idéias no processo de obtenção de expressão psíquica.”

The paranoid individual, F. maintained in his 1896 publication, is one who differs from other psychoneurotics by fully accepting the existence of the incompatible idea. [Sem mecanismo de defesa ‘clássico’] Defense is nevertheless achieved in paranoia and entails projection of that incompatible idea onto the external world, whence comes the paranoid’s sense of persecution, his delusions, and his extreme distrust of other people.”

The Project is sufficiently complex that a summary of its contents cannot do it full justice. But a brief list of the topics treated by F. will perhaps suffice to convey the ambitious nature of this undertaking.

No other document in the history of psychoanalysis has provoked such a large body of discussion with such a minimum of agreement as has Freud’s Project. (…) [it] has even prompted some students of F.’s ideas to make elaborate comparisons between it and more recent achievements in the kindred field of cybernetics. Specifically, comparisons have been made to the electronic models of brain functioning developed by Donald Hebb, Karl Lashley, Norbert Wiener and others” “F. soon altogether abandoned the Project itself. As Jones observes, F. never even requested the return of the 2 notebooks that had cost him so much mental effort; and so it was that these notebooks¹ only became known to the world 2 decades after Fliess’ death and a full decade after F.’s own.”

¹ Mas não estamos falando do mesmo livro que tanto inspirou Reich enquanto ainda estava ligado a F.? Estranho…

Holt (1865a) has repeatedly insisted that many of the most important and often seemingly arbitrary aspects of psychoanalytic theory have their origin in ‘hidden biological assumptions’ derived from F.’s pre-psychoanalytic career. According to Holt, F.’s apparently psychological description of the psychical apparatus in the famous 7th chapter of The Interpretation of Dreams (1900a) was no more than a ‘convenient fiction’ – one that ‘had the paradoxical effect of preserving these biological assumptions by hiding their original nature, and by transferring the operations of the apparatus into a conceptual realm where they were insulated from correction by progress in neurophysiology and brain anatomy’ (1968a). Peter Amacher (1965) concurs with this judgment; and it is upon his careful historical documentation of the Project’s various intellectual roots that Robert Holt has based his own historical claims.”

Did F. (…) simply retain old-fashioned neurological terms (e.g. ‘cathexis’) while giving them a new and independent psychoanalytic meaning in The Interpretation (…)? [Mostly so!] Or, are the outmoded 19th-century neurological constructs so evident in the Project still holding up the creaking scaffolding of present-day psychoanalysis, as Holt insists, and has their cryptic nature insulated psa. from a much-needed rejuvenation within the fertile field of neurophysiology (…)? [Both!]”

According to Freudians, the Project represents F.’s ‘last desperate effort to cling to the safety of cerebral anatomy’ and is therefore a conceptual hangover from his earlier neurological education within the famous Helmholtz school of medicine (Jones). Complementing this 1st misunderstanding is the 2nd, namely, that F. abandoned the Project as an abject failure shortly after having written it. As I have already discussed the specific Helmholtz aspect of these claims, stressing its several implicit fallacies, here I shall address the view that the Project was only a ‘neurological’ document.”

F. was convinced that psychology must have a physical basis, and he logically hoped that psychological laws might turn out to exhibit many of the same fundamental principles as the neurophysiological events upon which they are causally dependent (Wollheim 1971).” “Even Jones (…) admits that F. had come upon the meaning of dreams more from an a priori physicalist than from a purely empirical point of view (Amacher 1965). (…) Kanzer’s attempt to reduce F.’s P. metapsychology to purely clinical inductions is, to me, patently unconvincing and only seems to substitute one unfortunate historical extreme for another.”

in seeking to legitimate his hypothetical distinctions between perceptual and psychical-mnemic neurones, F. had momentarily considered what he termed ‘a Darwinian line of thought’ before ultimately settling upon a mechanical solution to that problem.” Tradução: Quando convinha, F. usava o modelo estático da neurologia incipiente do século XIX; quando a explicação era insuficiente, recorria à biologia. Abandonava novamente a biologia quando seus conhecimentos em neuroanatomia pareciam não deixar contradições teóricas.

He formally enunciated 2 such rules, those of attention and primary defense, when his mechanical paradigm proved insufficient to master the psychological problems of intentionality and foresight. So it transpired that, when necessary, F. was able to renounce in the Project the concepts of a reductionist physiologist in favour of concepts proper to an organismic and evolutionary biologist. The importance of this conceptual step cannot be overestimated.”

In this way, and in this way alone [Darwinism], F.’s Project model of mind was made applicable to more than just amoeba-like behaviour. Thus in the Project, his 2 biological models – the purely mechanical and the organismic-evolutionary – were at times decided rivals for his supposedly ‘neurological’ loyalties.” “one remarkably well-integrated psychobiological system.”

This psychology is really an incubus… All I was trying to do was to explain defence, but I found myself explaining something from the very heart of nature. (…) Now I want to hear no more of it” F. a Fl.

F.’s unrelenting difficulties with the problems of defense and pathological repression in the P. bring up the important but far too little emphasized fact that he never finished this work. Furthermore, it was its most critical part – ‘The Psychopathology of Repression’ in the 3rd, and now lost, notebook – that he failed to complete to his personal satisfaction and thus withheld from Fl. [and burnt].”

From that point (completion of the first 2 notebooks) I had to start from scratch again, and I have been alternately proud and happy and abashed and miserable, until now, after an excess of mental torment, I just apathetically tell myself that it does not hang together yet and perhaps never will. What does not hang together yet is not the general mechanism (…) but the mechanical explanation of repression, clinical knowledge of which has incidentally made great strides.” Daí todo o seu pavor medonho de que Marie Bonaparte expusesse sua charlatanice ainda em vida, de posse das cartas a Fl..

The principal difficulty (…) was to provide a mechanical explanation for defense against unpleasure without having to assume the existence of an ‘observing’ ego.” Nascimento da tópica esdrúxula e fim de qualquer utilidade do Fraudismo.

chemical measure of unpleasure”

SEM FLIESS, SEM PSICANÁLISE: “It was to Fl. ultimately that F., in his candid desperation, increasingly looked for help in attempting to solve the problem of pathological repression in biological terms. ‘I am in a rather gloomy state,’ Fr. wrote to his friend on 30 June 1896, 9 months after drafting the Project for a Scientific Psychology, ‘and all I can say is that I am looking forward to our next congress. . . . I have run into some doubts about my repression theory which a suggestion from you . . . may resolve. Anxiety, chemical factors, etc. – perhaps you may supply me with solid ground on which I shall be able to give up explaining things psychologically and start finding a firm basis in physiology!’.” Mal posso acreditar que isso passou pela censura e pente-fino de Kris e Anna F. para publicação, pela 1ª vez, dos extratos das cartas F./Fl. (Origins of Psychoanalysis, p. 169)!

It is often assumed, erroneously, that there is only one form of reductionism in science – to the laws of physics and chemistry. But in certain sciences, particularly the life sciences, there are 2 major forms of reductionism – physical-chemical and historical-evolutionary; each supplements the other and explains attributes of living organisms that the other cannot (Mayr 1961).”

PART II: PSYCHOANALYSIS: THE BIRTH OF A GENETIC PSYCHOBIOLOGY

5. WILHELM FLIESS AND THE MATHEMATICS OF HUMAN SEXUAL BIOLOGY

A correspondence between the 2 began shortly after their first meeting, and by 1892 the formal Sie in their letters had given way to the informal du.”

Unfortunately even the availability of a complete edition of F.’s letters to Fl. would hardly solve many of the most important enigmas that have come to surround the intellectual relationship of these 2 men. Part of the historian’s problem stems from the fact that they exchanged many of their scientific ideas orally.”

Your praise is nectar and ambrosia to me”

Fl.’s Christmas present to F. in ‘98 was, appropriately, a two-volume set of Helmholtz’ lectures (Kris 1954). Physics, chemistry, and, for Fl., particularly mathematics were to be the foundations of the mature sort of scientific explanation that both men sought to achieve in their medical theories. It was Fl., significantly, who encouraged F. to continue with the Project for a Scientific Psychology when he began to bog down under the manifold frustrations of the ambitious undertaking.”

The standard and, indeed, the virtually unanimous judgment of posterity regarding Fl.’s scientific ideas is that they constitute a remarkably well-developed form of pseudoscience.”

Fl., Gardner explains, analysed all his periodicity data in terms of the general formula x*23 +- y*28. Unfortunately Fl.’s mathematical abilities must have been limited to elementary arithmetic, Gardner asserts, for what Fl. did not seem to realize was that any 2 positive integers that possess, like 23 and 28, no common divisor, can be used with his general formula (above) to derive any positive number whatsoever! Thus, there was no positive integer that Fl.’s formula could not produce, given the right juggling of the values of x and y. (Gardner, Fads an Fallacies in the Name of Science, 1957; 1966)”

If one eliminates these as well as 4 other numbers within plus or minus 3 of 28, one is left with only 2 candidates for Fl.’s formula: 23 and 33. It is interesting that modern Fliessians (and to this day Fl.’s theories boast a considerable following in Germany, Switzerland, Japan and US) have added a 33-day cycle to Fl.’s original 2-cycle system. One of Fl.’s most ardent disciples, Bruno Saaler, also found such a 33-day period in his own periodicity researches while Fl. was still alive, and asked his mentor about it.” Qualquer bom matemático ‘imparcial’ pode provar a existência de Deus para os crédulos! Como qualquer satanista ou esotérico pode usar os números a seu favour, ad infinitum

Fl. replied that he, too, had found considerable evidence for such a period, but he had finally concluded that it was really to be explained as the difference between 2*28 – that is, 56 – and 23[*1] (Saaler, 1921).

Freud intended to name one of his 2 youngest children after Fliess, but, as Jones dryly remarks, ‘fortunately they were both girls.’

F. even permitted Fliess to operate repeatedly upon his own nose and sinuses – Fl. surgically removed and cauterized part of F.’s turbinate bone – in the hope of dispelling certain neurotic symptoms!”

Two voices, albeit lone ones, have managed to find a few good words to say about Fl. – words that go beyond the standard attribution of menial functions that he supposedly served in F.’s life. (…) [e.g.] Eissler: [que começou a rever suas posições tarde demais, na velhice da velhice…] (…) an unsolved enigma still surrounds the relationship of these 2 men”

Precisely what that ‘unsolved enigma’ might be is a subject to which the psychiatrist and historian of medicine Iago Galdston (1956) long ago devoted an outspoken, heterodox, and thought-provoking essay.”

DO ESOTÉRICO AO EXOTÉRICO, PERCORRENDO TODO O HORÓSCOPO E TODO O CALEIDOSCÓPIO: “Virtually all of Fl.’s major ideas – periodicity, bisexuality, polarity, and man’s dependence upon the world process – were part of a Romantic tradition in medicine” “among other figures [than proto-biologists, naturalists and physicians], Galdston specifically cites Leibniz, Kant, Fichte, Schelling, Goethe, Carus, Oken, Novalis and Bachofen

In fact, I have absolutely no hesitation in asserting that, along with Brücke, Charcot and Breuer, Wilhelm Fliess is the 4th, the last, and perhaps the most important of the quaternary of personal friends and scientific contemporaries who most influenced F.’s psychoanalytic thinking during the crucial years of discovery.”

Surprising as it may seem, Fl. was hardly alone during the early 1890s in suspecting a physiological connection between the nose and the female sexual organs.”

Speaking in 1898 at a major medical conference in Montreal, Mackenzie expressed nothing but praise for Fl.’s researches (…): ‘Fliess’ elaborate monograph, written in apparent ignorance of the work done by me in this special field before him, is a model of painstaking labour, and is valuable as an independent contribution to the study of this important subject’”

To render the relationship to which I wish to call attention more intelligible, it is necessary to recall the anatomical fact that in man, covering . . . the septum of the nose is a structure which is essentially the anatomical analogue of the erectile tissue of the penis”

Indeed, the genitalia, the nipples, and the nose are the only parts of the body to possess such erectile tissue. Also, there generally occurs during sexual arousal a simultaneous erection of all such tissues throughout the body. According to Mackenzie, this last circumstance explains why some individuals suffer from chronic nasal disturbances (nosebleeding, sneezing, and simple occlusion) during moments of intense sexual excitation.”

Mackenzie believed that all such afflictions of the nasal mucous membranes were probably ‘the connecting link between the sense of smell and erethism of the reproductive organs exhibited in the lower animals’.”

In this connection Mackenzie testified that masturbators frequently suffer from concurrent nasal disease, olfactory disturbances and nosebleeding.” “Nor was Mackenzie surprised by Fl.’s report of several cases of accidental abortion due to galvanocaustic operations on the nose, for analogous medical observations had been known to Pliny in ancient times.”

Mackenzie’s early findings (1884) had received a prompt and favourable discussion from F.’s noted colleague at the University of Vienna, Richard von Krafft-Ebing.” “Krafft-Ebing drew attention to the relevance of the nasogenital relationship to certain enigmatic problems of sexual pathology, and he cited patients plagued by olfactory hallucinations apparently induced through excessive masturbation.” “Indeed, so closely linked with sexuality did Krafft-Ebing believe the olfactory sense to be that he envisioned the two functions as controlled by proximal areas within the cerebral cortex.”

For a more complete review of the history of this field, see Semon (1900), who credits the Freiburg otolaryngologist Wilhelm Hack (1884) with developing the notion of nasal reflex neuroses independently of the Mackenzie-Fliess theory of nasogenital disorders.”

By the late 1890s, the area of research pioneered by Mackenzie in 1884 in America and shortly thereafter by Fl. in Germany had come to be a common topic of discussion among rhinologists. To cite one illustration, in the same periodical (the much-respected Journal of Laryngology, Rhinology and Otology) and year in which Mackenzie issued his 1898 review article on this subject, there appeared a paper discussing the frequent association between nasal catarrh and enuresis (bed-wetting) among children.”

some 20 years earlier (…) illustrious biologist and ardent Darwinian, Ernst Haeckel (…) had theorized in his Anthropogenie oder Entwickelungsgeschichte des Menschen (Anthropology or Evolutionary History of Man) that ‘erotic chemotropisms’ – that is to say, chemically based sex stimulants affecting taste and smell were (…) the ‘primal source’ of all sexual attraction in nature (1874a).” “When sexologist Iwan Bloch published his 2-volume Beiträge zur Aetiologie der Psychopathia sexualis (1902-3), he duly cited Haeckel’s evolutionary hypothesis immediately before discussing both Fl.’s researches and their more recent confirmation in 47 clinical histories by Arthur Schiff (1901).”

(*) “Bloch, Haeckel and Fliess were all 3 to become founding members of the Berlin Ärtzliche Gesellschaft für Sexualwissenschaft und Eugenik in 1913. This organization in turn provided a prominent forum for the discussion and dissemination of Fl.’s theories. For a general review of late-19th-century literature on sexuality and olfaction, see Kern, 1975

What Benedikt and other critics contested was Fl.’s general theory of ‘nasal reflex neuroses’ and, in particular, the clinical frequency that he persisted in claiming for such disorders (1901). Yet (…) Even the ever-cautious Josef Breuer, after some initial hesitation, appears to have accepted the whole of Fl.’s nasal theory by the mid-90s, while Richard von Krafft-Ebing’s enthusiastic endorsement of the Mackenzie-Fl. doctrine stands in considerable contrast to the ‘benevolent scepticism’ with which he tended to view many of F.’s psychoanalytic claims about this same time.

As late as 1914, almost 20 years after their formulation, Fl.’s ideas on nasogenital disorders were still being openly discussed and zealously defended on an evolutionary as well as on a clinico-medical basis. One lively focal point for these later debates was the experimental research by Koblanck and Roeder in 1912, which showed that young rabbits that had had Fliess’ ‘genital spots’ surgically removed from their noses uniformly suffered an inhibition of development in their genital organs.” “How, his supporters apparently wondered, could Fl.’s detractors be so blind to the biological validity and importance of his nasal discoveries? § It is against this background of biological and medical debate over Fl.’s theories that the clinical support of his numerous co-workers must also be considered, for a surprising number of them found that his methods of cocaine application and nasal cauterization actually worked!”

The method becoming more generally known made friends out of scoffers, and many a man who began to experiment with it in the hope of discrediting it and exposing its fallacy wound up as a disciple and an apostle. Wherever the method was subjected to impartial tests it has achieved an amazing number of successes, and the experience of the last 6 years has procured for it many friends who would be loath to part with it if not forced thereto by very weighty reasons” Ries, 1903

Yet, numerous experimenters who took careful steps to preclude suggestion found that this particular factor could not explain why cocaine solutions worked and water did not, why the cocaine solutions uniformly took 8 minutes to act – instead of having a more immediate effect, as they should have done if suggestion was involved – or why cauterization of the nose often produced permanent results. (…) Only Fl.’s more ambitious and peculiar theory of the ‘nasal reflex’, together with his method of therapeutic treatment, eventually proved ephemeral.”

(*) “The specific use of cocaine in the treatment of nasal disorders remains one of the few success stories in the history of this otherwise problematic drug. According to Henderson and Johns (1977), this drug is unrivalled in nasal therapy today for its fast action, its prolonged duration, and its strong vasoconstricting and decongestive effects. ‘Cocaine finds its most extensive use in nasal surgery. In a recent survey of 4000 otolaryngologists, 94% said that they utilize cocaine routinely for anesthesia in nasal surgery’.”

the study of vital periodicity had passed through a long and honourable history before Fl. turned to it in the 1890s. The lengthy list of previous researchers into the biomedical implications of vital periodicity includes, among others, Charles Darwin, who in The Descent of Man had addressed himself to ‘that mysterious law’ common to both man and lower animals ‘which causes certain normal processes, such as gestation, as well as the maturation and duration of various diseases, to follow lunar periods’ (1871).

D. recognized not only the biological significance of the 28-day lunar cycle in most living creatures, but also the existence of regular weekly cycles, together with their even multiples, in virtually all temporal aspects of growth, reproduction, and disease known to life science. Darwin’s explanation for such weekly periodic processes assumed that man and his vertebrate relations must be descended from an ever lower, originally tidal-dependent, marine organism similar to the present-day ascidians.

The ascidians, or sea squirts, appear in adult form to be potato-sized sea plants. They are exclusively found, fixed to firm supports, in tidal zones. In the mid-1860s, the remarkable discovery was made by Russia’s leading 19th-century embryologist, Aleksandr Kovalevsky (1840-1901), that the larval form of the ascidian, which resembles a microscopic tadpole, possesses a rudimentary notochord and is therefore related to the most primitive of all true vertebrates (see also Adams 1973). The ascidians were consequently recognized as animals, not plants, and were considered by many to be a ‘missing link’ between invertebrates and the lowest true vertebrates.(*)

(*) The honor of being the lowest true vertebrate had previously fallen to the lancelot or amphioxus, a primitive fish that was once mistakenly classified with the worms. For a more general historical review of the receptions and controversies that greeted the famous ascidian hypothesis of vertebrate descent, see Russell 1916).”

“… animals living either about the mean high-water mark, or about the mean low-water mark, pass through a complete cycle of tidal changes in a fortnight [14 dias]. Consequently, their food supply will undergo marked changes week by week. The vital functions of such animals, living under these conditions for many generations, can hardly fail to run their course in regular weekly periods. Now it is a mysterious fact that in the higher and now terrestrial Vertebrata, as well as in other classes, many normal and abnormal processes have one or more whole weeks as their periods; this would be rendered intelligible if the Vertebrata are descended from an animal allied to the existing tidal Ascidians. (Darwin, 1874, expanded from the 1871 ed.).

As striking illustrations of both the prevalence and the indelible nature of this law, D. went on to cite that the eggs of the pigeon hatch in precisely 2 weeks, those of the hen in 3, those of the duck in 4, those of the goose in 5, and those of the ostrich in 7 whole weeks.

But why, asked D., had such weekly periods survived so uniformly in higher organisms? He attributed this rhythmic persistence to natural selection, which must have favoured in gestation and other periodic biological functions only those temporal alterations that harmonized with the original pre-existing cycles of the ancestors. Such ‘pre-adaptive’ transmutations, D. reasoned, would have been those occurring ‘abruptly by a whole week’. This conclusion, if sound, is highly remarkable; for the period of gestation in each mammal, and the hatching of each bird’s eggs, and many other vital processes, thus betray to us the primordial birthplace of these animals.

Darwin’s interest in vital periodicity was apparently aroused by the researches of his fellow countryman Thomas Laycock, who had treated the subject in a provocative series of 11 separate studies published in the early 1840. D. must have been familiar as well with his grandfather Erasmus Darwin’s stimulating treatment of solar and lunar influences upon biological processes. See Erasmus D.’s discussion of The Periods of Disease in Zoonomia (1794-6).

A neurophysiologist and neurologist like F., Thomas Laycock (1812-76) was a prolific scientific writer and published some 300 articles and 6 books in his lifetime. His widely read Treatise on the Nervous Diseases of Women: Comprising an Inquiry into the Nature, Causes, and Treatment of Spinal and Hysterical Disorders recognized hysteria in the male, attributed hysteria in the female primarily to sexual causes, and, on more Fl. lines, argued that menstruation does not cease during pregnancy (1840). More important for the history of psychology, Laycock was one of the earliest to develop a theory of the reflex action of the brain. He later combined this doctrine with a remarkably Freudian view of unconscious mental activity in order to explain dreaming, states of delirium, and various other mental disorders. He was one of the first neurologists to apply the theory of evolution to explaining the comparative structure and function of the nervous system in man and other vertebrates (see Laycock 1860). Through his famous pupil John Hughlings Jackson, Laycock’s views on the ‘evolution and dissolution’ of nervous functioning were later to have a major influence on F..”

Like Fl. half a century later, Laycock believed that temporal cycles govern the duration of many stages in the development of organisms. He drew much of his evidence on this score from the life cycles of insects, showing that the sequence of principal stages (ovum, larva and its moults, pupa, imago or ‘puberty’ stage, and adult life-span) often follows multiples of 7 whole days.”

In this last connection [cycles of 3 ½ days and its multiples for diseases] he pointed to the remarkable coincidence between such views and the famous ‘critical days’ of Hippocratic medicine – that is, the 7th, 14th, 21st, and 28th days. Setting forth one last anticipation of Fl.’s theories, Laycock suggested that twins, siblings, and perhaps even successive generations might all share identical constitutional periodicities in their vital cycles.”

Krafft-Ebing mentions Laycock’s Nervous Diseases (…) for its observations on the sexually stimulating effect exerted by musk [uma planta] upon women (Psychopathia Sexualis, 1886).”

Havelock Ellis, one of the great turn-of-the-century pioneers in the scientific study of sexuality, mentioned both men prominently and devoted a large portion of the 2nd volume of his Studies in the Psychology of Sex to ‘the phenomena of sexual periodicity’ (1900).” “Following the Italian anthropologist Mantegazza rather than D., Ellis attributed the 28-day menstrual cycle in the human species to a (…) residue of the favourable opportunities for courting, long provided by the light of the full moon (1900).”

In the late 1890s, the Nobel Prize of 1902 Arrhenius had claimed the discovery of 2 separate periods of air-electrical activity in Stockholm, following intervals of 25.93 and 27.32 days, respectively. On the basis of these meteorological findings, he went on to refer the 26.68-day menstrual cycle average in that city to the mean effect of these 2 electrical periodicities – themselves averaging 26.62 days, a difference of only .06 days [~1h26] (Arrhenius 1898).”

Krafft-Ebing had previously recognized equivalent phenomena in the male sex – for example, regular monthly homosexual urges and the case of a microcephalic imbecile whose sexual impulses were manifested ‘periodically and intensively, as in animals’ (1899).”

Like the relationship between the nose and the genitals, the subject of vital periodicity had become a hot topic for scientific research around this time. Indeed, not a few contemporary researches believed with Fl. that vital periodicity, together with its manifest links to biochemistry, might soon provide a major scientific breakthrough on the level of D.’s momentous achievements half a century before.”

Gravitation and evolution had to run the gantlet [encruzilhada, convergência] of ‘ist’ and ‘ism’, but are now undeniable laws. The medical man has now, so to speak, to devote himself to the astronomy of microscopic bodies” (Green 1897) – “vital law” never took place!

W.Fl.’s 3rd major scientific interest: bisexuality in man.”

To men like Richard von Krafft-Ebing, the idea of constitutional bisexuality provided one of the most promising solutions to the enigmas of homosexuality and other forms of psychosexual hermaphroditism.”

The original bisexuality [o sentido hoje seria ‘unissexualidade’, terceiro sexo, ou sexo uno, ou sexo zero, na realidade – pré-diferenciação sexual não-análoga ao hermafroditismo] of the ancestors of the race, shown in the rudimentary female organs of the male, could not fail to occasion functional, if not organic reversions, when mental or physical manifestations were interfered with by disease or congenital defect . . . . It seems certain that a femininely functionating brain can occupy a male body and vice versa(Kiernan 1888)

Krafft-Ebing presented in Psychopathia Sexualis the instructive case history of a woman who underwent a spontaneous sexual transformation at the age of 30. In June of 1891 this woman suddenly grew a full beard, developed hair on her abdomen and chest, and experienced a drastic voice change from that of a ‘soprano’ to that of a ‘lieutenant’. Temperamentally the patient assumed a psychically aggressive demeanor, and she even showed signs of a progressive ‘masculinization’ of the external genitalia. (…) In support of the probably organic and atavistic, or reversionary, nature of such pathological phenomena, Krafft-Ebing cited the researches of zoologist Carl Claus, an expert on both hermaphroditism and sexual alternation of generations in lower animals. K.-E. was particularly impressed by Claus’s discovery that certain forms of Crustacea live the 1st part of their lives as males and the 2nd as females (see Claus 1891).”

Impressed by his young student, Claus twice obtained for F., in March and September 1876, traveling grants to his newly founded marine laboratory in Trieste. While F. was at the Trieste laboratory, Claus personally directed his first piece of scientific research – a study of the male sex organs of the eel (Freud 1877b).”

Sobre o Segundo e mais conhecido trabalho de graduação de F., com Brücke (op. cit.): “Not only is Petromyzon itself bisexual, but, more important, it is virtually the closest zoological relative to the primitive amphioxus and hence, hypothetically, to the remarkable little Ascidians that had prompted to much lively biological controversy during F.’s student days. (…) Thus, when Fl. brought the theory of bisexuality to F.’s attention in the mid-90s, he found in the latter a biologically prepared listener who not only had trained with a leader in this field but also had conducted first-hand research himself on a bisexual progenitor of man.”

I should like to emphasize that Fl.’s only really new idea was the controversial claim to have discovered a 23-day physiological cycle in man. But even here he was forced to share the honors of simultaneous discovery with another of his biological contemporaries, Edinburgh University Professor of Comparative Embryology and Vertebrate Morphology, John Beard.” “23 days is the average interval between the termination of one menstruation and the beginning of the next.” “Beard sought to demonstrate that the time required from the last day of menstruation to the completion of the next ovulation in women, approximately 23 days, is of far greater biological significance than the full 28-day cycle.”

In the embryological development of every species, there comes a point at which the embryo is finally recognizable in all its essential parts. In man, this point, defined by Beard as ‘the critical period’, comes between the 46th and 47th day of embryonic life. Why, he asked, do some organisms come into the world only long after this critical period is reached? In other words, why are not all organisms born, as are most species of marsupials, when the critical period is attained, and when the primitive yolk-sac placenta of these marsupials is no longer able to nourish the young? Beard’s answer was that the post-marsupial evolution of an allantoic placenta had allowed gradual prolongation of gestation (with all of its well-known evolutionary benefits). But in marsupials, which lack this innovation, the embryo must be born when its parts are roughly complete, and when its source of uterine nourishment is gone.”

Something of a masterpiece in hypothetico-deductive reasoning, Beard’s monography was empirically supported by considerable quantitative data from comparative embryology and reproductive biology. His information showed that such whole multiples were indeed to be found in the mouse, rabbit, dog, cat, cavy, pig, sheep, cow, horse, and even man!

These findings bring us to Beard’s analysis of the relationship between menstrual and ovulatory cycles in human beings. In the human female, B. reasoned, menstruation represents the abortion of an unfertilized egg. It also represents the abortion of a missing 23-day-old embryo, one that would have been half the age at which such embryos now reach their critical period and technically become ‘fetuses’. According to Beard’s theory, 23 days must have been the original length of gestation in man’s ancestors; afterward it doubled to the present critical period and then was augmented, again by whole multiples, until it reached the present gestation span of 276-80 days. The aboriginal period of gestation has nevertheless been preserved, B. argued, in the present period of ovulation, which is triggered anew by each abortive ‘birth’ (menstruation) of an unfertilized embryo. In B.’s interpretation, then, the period of evolution is to be seen as extending from the very end of one menstruation to the very beginning of the next (1897). Menstruation itself is merely a superadded phenomenon – and peculiarly long in the human female on account of the highly evolved nature of placental reproduction in our species.

One important implication of Beard’s theory was that in man the usual length of gestation (276-80 days) could be understood as precisely 12 times the average ovulation cycle (23-23,33 days) and 6 times the critical period (46-47 days), and not, as most physicians then commonly believed, 10x the 28-day menstrual cycle. In corroboration of his theory, Beard presented considerable statistical evidence showing that spontaneous abortions tend to be most frequent at multiples of the 23-day ovulation cycle (1897).”

Although Fl. reached essentially the same conclusion as B. regarding the independent existence of a 23-day sexual cycle in man, he seems to have done so from a more physicalist point of view.” “It should be noted that much of Fl.’s scientific work on this subject originated from observations on himself and his family. Fl.’s wife became pregnant with her first child in March 1895 and delivered in 29 December, precisely the interval in which Fl. developed his ideas on the 23-day masculine cycle. What is more, during her pregnancy his wife’s periods varied from a lower limit of 23 days to an upper limit of 33 (Kris). (…) He was well aware that during pregnancy menstruation appears to cease only superficially. That is because the most characteristic feature of the female cycle, the last 4 or 5 days of uterine bleeding, is biologically suppressed (Fliess 1897).” “[This is the reason] this 2nd rhythm could be seen in Fl.’s bioenergetics terms as the really active and procreative component of the human sexual cycle.”

QUANDO DOIS MACHISTAS COADUNAM: “So, too, when his friend F. later came to the conclusion that libido, which the latter always conceived as inherently ‘active’, must be predominantly masculine and therefore corresponds to Fl.’s 23-day substance”

The normal ratio between the sexes at birth is roughly 105 or 106 males to every 100 females. On the basis of his theory of bisexual periods, Fliess predicted that this ratio should be 121.7 per 100 (=28/23). But males are known to show a much higher intrauterine, as well as postnatal, mortality rate than females. Citing data from Carl Düsing’s (1884) authoritative monograph on the regulation of the sex ratio in man, animals and plants, Fl. noted that the human dead-born sexual ratio was 129 males to 100 females (based on a figure of 10 million dead-born foetuses). Numerically, this finding is intriguing for Fl.’s theory, because:

129 dead-born males / 106 live-born males = 1.217 = 28/23 (exactly)!

In other words, the higher intrauterine death rate among males appeared to be somehow related to Fl.’s 2 periodic cycles.”

Fl. even produced independent biological statistics from Düsing (1884) to show that roughly 2 fetuses die in utero for every 51 born alive – precisely the figure required by his theory:

1+1 / 28+23 = 2 dead-born foetuses / 51 live-born foetuses”

There are (…) misunderstandings about Fl.’s theories that we are finally in a position to correct (…) in order to convey the full and rational nature of his influence upon F. (…) First, Fl. definitely did not chose the number 23 in his general formula 23x +- 28y because it allowed him to derive, in conjunction with 28, any and all positive integers, as critics from his own time up to ours (e.g. Gardner 1966) have suggested.(*) Fl. was simply not that stupid, either biologically or mathematically. [desmente trecho acima] Indeed, he was fully aware of such mathematical criticism and devoted 2 whole chapters in Der Ablauf des Lebens (1906b) to refuting it!

(*) According to Kris (1954), Fl.’s scientific ideas were never discussed outside Germany. This claim is patently false. See Ellis (1928), Mackenzie (1898) and Ries (1903) for further English and American citations of Fl.’s theories. See also Henning (1910).”

All in all, it would not be going too far to say that the remarkable mathematical versatility of 23 and 28 in Fl.’s basic formula was purely an unforeseen consequence of his prior biological train of thought. Only later did he apparently realize this mathematical versatility, which proved to be a veritable nuisance in his efforts to win converts to his biological conceptions.”

To cite perhaps the most glaring example of this historical disregard by the Freudians, Fl. has long been held responsible for predicting, on the basis of his biorhythm theory, that F. would die at 51 (the sum of 23 and 28).(*) And yet periods of years had absolutely no significance in Fl.’s theory.(**) In actuality, F. himself made this superstitious prediction in a letter he wrote Fl. a full year before his friend had even begun to speak about a 23-day cycle. F. founded this famous prediction upon his own knowledge of several colleagues who had died suddenly at this critical age (1900a). He was also obsessed at various times with the fear that he would die at 41 and 42, 61 and 62, and 81½ – ages that were as little significant to Fliess’s theory as was 51. Thus, the ‘death-at-51’ story, long a symbol of Fliess’s ‘number mysticism’ and ‘Teutonic crackpottery’, is largely a myth – one that tells us something about Sigmund Freud and his subsequent biographers, but nothing about Fliess.

(*) Consequently, Jones, Bakan, Lauzon, Gardner, Costigan, Schur and Strachey were all wrong.

(**) The only one who has ever noticed this inconsistency is the English-language translator, Patrick Evans, of Lauzon’s French biography of F. (1963), in a translator’s footnote to p. 47.

This conclusion brings us to the second and perhaps the more important of the 2 major historical misunderstandings about Fl.’s theory of vital periodicity.”

(*) “Discovery of the 33-day ‘intellectual’ cycle was announced in the 1920s by Alfred Teltscher, a doctor of engineering and teacher at Innsbruck who collected information on the performance of high school and university students. A series of Swiss investigators subsequently combined Fl.’s 2 cycles with the Teltscher cycle to create the present 3-cycle system. See Wernli 1959; Thommen 1964.”

Fl. was fully aware that the 28-day menstrual cycle does not confine itself to producing just 4 or 5 days’ symptoms every 23rd through 28th day or, for that matter, at regular 14-day intervals (…) Nor did Fl. expect all the phenomena of life, any more than those pertaining to menstruation, to follow entirely like clockwork at uninterrupted intervals of 23 and 28 days.” “What Fl. did expect was that different vital and pathological manifestations would intermittently occur in various bodily organs throughout each cycle and that the presence of recurring patterns would reveal itself by phenomena like migraine, Nebenmenstruation [sangramentos esporádicos fora dos dias habituais de menstruação], and other organic symptoms following one another at intervals of 23 and 28 days.”

Thus, Fliess was, above all, a victim of his own prior expectations; and as the latter had a substantial biological foundation, it was all the easier to find confirmations of his theory. After all, much of his data was derived from entirely bona fide 28-day, and even some 23-day manifestations of his female patients. (…) his ultimate scientific self-deception on the basis of prior biological assumptions was hardly the sort of totally ‘psychopathological’ affair that Freud’s biographers have so often proclaimed it.” “Some even interpreted resistance to his discoveries as a sign that he, like the long-unappreciated Gregor Mendel, was simply too far ahead of his times.”

From now on, we may definitely delete the word ‘chance’ from the biological sphere of events.”

6. F.’S PSYCHOANALYTIC TRANSFORMATION OF THE FLIESSIAN UNCONSCIOUS

Yet what a truly remarkable fact it is that not a single word has been uttered in the voluminous secondary literature on F. concerning Fl.’s discoveries on this most Freudian of topics (childhood sexuality). (…) Fl. published his ideas on infantile sexuality for all to see in his scientific monograph of 1897. (…) Kern, who mentions Fl.’s observations on sensual thumb-sucking in childhood seems not to have appreciated that they were part of a far more comprehensive conception of childhood sexuality and, more important still, that this conception was integral to his overall theory of human development and exerted a considerable influence upon F..”

Growth to Fl. was just another form by which sexual chemistry expresses itself in a wider, asexual mode of biological reproduction.” “his pansexualist unification of biorhythms, sexual chemistry and a theory of the entire human life cycle seemed to contradict contemporary scientific belief in the absence of sexual phenomena before puberty.”

Among children, in whom development proceeds in the same periodic thrusts (as found in adults), subtle indications from among the cluster of anxiety symptoms¹ betray the fact that these thrusts are essentially of a sexual nature. Such symptoms are singultus (attacks of sobbing) and diarrhea (‘teething diarrhea’). (…) it finds (…) symptomology (…) with little boys, in direct erections of the penis (…) (even as early as the first months of life!).”

¹ Referência a F.

Fl. set forth his provocative views on spontaneous infantile sexuality at a time when F., obsessed by his faith in a traumatic seduction theory of psychoneuroses, was intent on minimizing just such a possibility.”

Like F., Fl. was concerned with what is commonly known in psychoanalytic parlance as erotogenic zones – those parts of the body (including the nose) that are capable of contributing to sexual excitement in its wider, non-genital sense.”

I would just like to point out that the sucking movements that small children make with their lips and tongue on periodic days . . ., the so-called ‘Ludeln’,(*) as well as thumb-sucking, must be considered as an equivalent of masturbation. Such activity (…) brings on anxiety, sometimes combined with neurasthenia, just as does true masturbation. It comes on impulsively and is, on this account, so difficult to wean children from. . . . The role which the word ‘sweet’ (suss) later plays in the language of love has its initial physiological root here. With lips and tongue the child first tastes lactose (Milchzucker) at his mother’s breast, and they provide him with his earliest experience of satisfaction. Süss is related to the French sucer (to suck) and to Zucker, suggar, sugere.”

(*) “English possesses no real equivalent for the German nursery terms Ludeln and Lutschen (‘thumb-sucking’) used by Fl.. Both terms were later employed by F., along with wonnesaugen (‘to suck sensually’), to describe sexual manifestations of the so-called oral phase of childhood development. (…) see Strachey’s footnote to F.’s Three Essays. See also Lindner (1879), who had previously used all 3 terms in his study of childhood thumb-sucking.”

Compare Fl.’s etymological analysis of the German word suss with F.’s similar observations on this subject in his case history of the ‘Wolf Man’ some 20 years later

The enuresis and urticarial of children also appears only at periodic intervals. Childhood enuresis resembles the urge to urinate by which so many women are tormented and which also in fact occurs at periodic intervals among adults. Its relationship with sexual processes was apparently already known to the ancients (castus raro mingit, ‘the chaste rarely urinate’). But only if one knows its exact periodic relationship, can one understand why among older people, following the extinction of the sexual function, the bladder becomes less ‘retentive’ and how it might come to be that in some men, directly after castration and in an often mysterious way, that incessant impulse to urinate suddenly disappears, which at times can make life miserable for those with prostate disorders.” PARA ALÉM DA VASECTOMIA! DEVERÍAMOS NOS AUTOCASTRARMOS (EM BUSCA DO AUTOADESTRAMENTO)? O eunuco é o “cão comportado” cultural.

Fl. stood on Freudian ground when he drew a connection in his sexual theory between haemorrhoids in adults and those ‘reflex-neuroses’ associated with the reproductive system.”

Ernest Jones, who apparently misread a remark by F., has erroneously attributed to Fl. the origins of the specific term sublimation. Actually, both the term and the concept were already in common circulation in F.’s day, and they may be traced to Novalis, Schopenhauer and Nietzsche, among others. Although Krafft-Ebing did not employ this term, he believed, like Nie. and the others, that civilization, ethics and the highest poetic arts were all founded in human sexual feeling (Psychopathia Sexualis, 1886 and later editions).” Ernest Jones errar ou se enganar é pleonasmo.

(*) “Breuer’s teacher Ewald Hering (1870) and Ernst Haeckel (1876) had already proposed that heredity was merely ‘memory’ stored in the form of molecular vibrations or periods of motions (Gould, 1977).”

#offtopic Se Adão viveu 1000 anos, quando vocês acham que começou a adolescência dele e quando a pipa dele parou de subir?

Such a sharp student of etymologies as Fl. could hardly have overlooked the fact that the German language specifically relates ‘shame’ (Scham) to the genital organs: e.g., Schamteile (‘genitals’), Schamgegend (‘pubic region’), Schamglied (‘penis’), Schamgang (‘vagina’), and so forth”

F.’s use of the German expression schubweise in the preceding passage [of Interpretation of Dreams] is particularly worthy of commentary. Schub (‘push’, ‘shove’, ‘thrust’, etc.) and schubweise (‘by thrusts’) were developmental terms Fl. used throughout his monograph of 1897 in order to express the periodic ebb and flow that he personally attributed to all developmental processes in human beings. As such, these terms were unique to his writings in this scientific and biophysical context. F. adopted these terms from Fl. and introduced them into his correspondence with his friend soon after reading the latter’s monograph. In English translation, this linguistic tie between Fl. and F. has largely been lost. Thus, Eric Mosbacher’s English rendition of these terms in F.’s letters to Fl. (e.g., Entwicklungsschübe as ‘progressive steps of development’ and Schübe as ‘steps’ of development) has unfortunately obliterated both the precise scientific meaning of these terms in German, where Schub is specifically used in physics to mean ‘thrust’, and their peculiarly Fliessian, biorhythmic significance. (…) In the SE, translator Strachey’s choice of the words ‘successive waves (of development)’ as an English equivalent for Entwicklungsschübe and ‘by successive waves’ for schubweise is considerably more accurate but still not entirely adequate.”

Fl.’s 1st child (Robert) and F.’s 6th and last child (Anna) were born the same month (December 1895). Just how far F.’s scientific cooperation with Fl.’s researches proceeded may be gathered from the following anonymous, but surely Freudian, observation subsequently attributed to ‘a friendly colleague’ by Fl., who cited his anonymous friend ‘word for word’:

My wife felt the 1st movements of the child on July 10th 1895. On the 3rd December came the beginning of labor and birth. On the 29th day of February her period resumed again. My wife has always been regular since puberty. Her period runs somewhat over 29 days. Now, from the 3rd Dec. to the 29th Feb. exactly 88 = 3 * 29.33 days elapsed and from the 10th of July to the 3rd Dec. 146 = 5 * 29.2 days passed. For a period of somewhat over 29 days the birth therefore ensued right on time and the first movements of the child fall on the 5th menstrual date.”

That these observations were made by Freud and dealt with his wife and youngest child seems more than likely on the basis of the following 5 points of indirect evidence. First, A. was indeed born on 3 Dec. 1895. Second, she was Frau F.’s 6th delivery. Third, the written summary of evidence provided by Fl.’s anonymous ‘colleague’ required familiarity with Fl.’s unpublished theoretical expectations. Thus, the information could only have come from someone like F. who was in close scientific contact with Fl. in the early summer of ‘95. Fourth, the particular expression befreundeter College employed by Fl. in referring to his collaborator is one that F. and Fl. had previously agreed upon for just such discreet acknowledgments of mutual scientific debt. Fifth, Fl. later used birth information on all the F. children in his larger book Der Ablauf des Lebens (1906c).”

Uma doença em uma imagem

An universal medical diagnosis in the 1870s and 1880s, the attribution of neuroses and even insanity to ‘masturbatory excesses’ had virtually vanished by the 1930s and early 1940s. This change was effected largely by the pioneering medical efforts of Ellis, Moll and other contemporary sexologists, who, by systematically collecting information on the problem, found healthy and mentally disturbed individuals to differ little in their autoerotic practices.” “Freud and Fliess were united in their endorsement of the harmful consequences of such onanistic activities by their toxicological conception of the whole problem. (…) In spite of many emendations, [A psicanálise pode ser vista como UMA ÚNICA E GIGANTESCA AUTORRETIFICAÇÃO INTERMINÁVEL, TAL QUAL AS ANÁLISES!] F.’s mature theory of the neuroses continued to support this toxicological-bioenergetic conception of sexual pathology that had bound him to Fl. in the ‘90s.”

as late as 1899, Hermann Rohleder, in a scholarly medical monograph on masturbation (…) was able to assert that 16 months was the earliest age at which an erection had ever been reported in the medical literature. In contrast, Fl. was claiming such spontaneous erections as a regular phenomenon in the first few weeks of life – probably on the basis of first-hand observations of his son Robert. (…) See Chodoff 1966

Jung later recalled how surprised he was in 1907 to discover that F.’s wife knew ‘absolutely nothing’ about her husband’s psychoanalytic work (Billinsky 1969).”

F. wrote to his friend in February 1897 in connection with a request for information on early childhood attitudes toward excrement: ‘Because with 12 and ½ hours’ work I have no time, and because the womenfolk do not back me in my investigations’“Fliess had even informed Freud that his son Robert, now in the 2nd year of life, had become sexually aroused by the sight of his mother’s naked body – the same and supposedly revolutionary revelation later occurred to Freud”

Elenore Fliess, in a biography of her husband Robert, has briefly described the home life that allowed his father and mother to utilize him and his siblings as objects of psychosexual research. According to Elenore Fliess, Wilhelm Fliess was a man ‘who however charming to patients and acquaintances was a tyrant at home. His children were 2nd-class citizens, from diet to schooling. The mother, intelligent and quite efficient, would appear to have been more impressed with her husband’s off-beat (and quite unsubstantiable) physiologic theories than with his parental responsibilities’ (1974). It is not without significance that the principal subject of W.Fl.’s pioneering infant studies should have become a psychoanalyst who had little good to say about his own father. Yet prior to the ‘30s, Robert Fliess actively supported his father’s controversial periodicity theories (Schlieper 1928). His father’s death in 1928 and especially Robert’s subsequent training as an analyst during his late thirties seem to have precipitated a considerable re-evaluation of his father and his father’s theories (R. Fliess 1956). When George Thommen, an American Neo-Fliessian, contacted R.Fl. in the early 60s, Fl. refused to speak to him on the telephone; and Thommen was told by a second party that ‘the doctor did not wish to be involved’ Irmão da Anna por procuração. pRocura$ão.

Although F. was apparently unaware of Laycock’s views, the intimate biological link between sexuality and dentition was certainly known to him from more contemporary sources. Charles Darwin, in particular, covered much of this same ground when, in The Descent of Man, he listed tusks and enlarged canines among the most important mammalian secondary sexual characteristics, commented upon the regularly ‘inverse relationship’ between the development of horns and the length of canine teeth, and emphasized the inhibitory effect that castration generally exerts upon the development of horns and antlers in mammals (1871, 1874).”

The perversions regularly lead into zoophilia, and have an animal character. They are not to be explained by the functioning of erotogenic zones which have later been abandoned (in normal individuals), but by the operation of erotogenic sensations which have subsequently lost their force (in normal individuals). In this connection it will be remembered that the principal sense in animals (for sexual purposes as well as others) is that of smell, which has been deposed from that position in human beings. So long as the sense of smell (and of taste) is dominant, hair, faeces, and the whole surface of the body – and blood as well – have a sexually exciting effect. The increase in the sense of smell in hysteria (a state of repressed perversion) is no doubt connected with this.”

At any event, what F. does not state, but nevertheless seems to have had in mind in relating abandoned erotogenic zones to repression and the sense of smell, is Ernst Haeckel’s biogenetic law – better known as the theory that ‘ontogeny is the short and rapid recapitulation of phylogeny’ (1866) (…) then, according to Haeckel’s law, the child must necessarily recapitulate both the process by which the zones were gradually extinguished in man and the concomitant acquisition of olfactory ‘disgust’ toward these zones.” O que é falso, já que a repulsa ao material fecal não é “inata à maturidade”, mas um fator da socialização.

At what age, Freud asked Fliess, is disgust toward excrement first sensed by infants?”

At Aussee (for our planned meeting in August), I know a wonderful wood full of ferns and mushrooms, where you shall reveal to me the secrets of the world of the lower animals and the world of children. [grifo de Sulloway] I am agape [boquiaberto] as never before for what you have to say – and I hope that the world will not hear it before me, and that instead of a short article you’ll give us within a year a small book which will reveal organic secrets of development in periods of 28 and 23”

There can, in short, be little question, as subsequent letters to Fl. make even more evident, that the famed biogenetic law was of major hypothetico-deductive influence upon F.’s thinking throughout the 1986-7 period.”

Fetos do porco, da vaca, do coelho e do homem

Freud then remarked that sexual development in the female, as opposed to the male, seems to require an additional step in organic repression at the time of puberty – one that extinguishes the clitoral, or masculine, zone and thereby prepares the way for the subsequent innervation of the vaginal zone. Feminists will be inclined to see in this last, and surprisingly influential, psychoanalytic idea both a typical reflection of F.’s sexism and a clear sign of his ignorance about the female sex.”

Neurosis always has a feminine character . . . Whatever is of the libido has a masculine character, and whatever is repression is of a feminine character”

Experiences in childhood which merely affect the genitals never produce neuroses in males (or masculine females) but only compulsive masturbation and libido.”

P. 204: F. acreditou (ou, enfim, forjou, já que com charlatões nunca se sabe ao certo) sua ‘teoria da sedução’ principalmente porque não seguiu o trabalho de Fl. nessa parte, recusando-se, nesse ponto de sua ‘vida intelectual’, a atribuir sexualidade (ativa) às crianças pequenas, como algumas passagens de Sulloway já deixavam claro mais acima.

Ou seja, do ponto de vista do ‘teórico honesto’ (supondo que ele não tinha qualquer interesse supracientífico!), assim Sulloway explica o nascimento da ‘principal descoberta da psicanálise’ e que todos os imbecis e descuidados reputam ser de Freud, o primeiro do mundo a proclamar: “it only remained for Freud to take the next logical step in order to see how such repressed sexual impulses might generate phantasies” Além disso, não fosse dessa forma, não demoraria até 1905 para que ele publicasse um trabalho como os Três ensaios.

Was Freud himself consciously aware of any overlap between Fliess’ biochemical, developmental vision of libidinal impulses and his own growing insight into the etiology of neurotic phantasies? Judging from the Fl. correspondence, I believe he was.”

Nuremberg kept me going for 2 months.” Awn, que bonitos são 2 homens apaixonados! Trecho censurado pela família, hahahaha!… Sulloway só pôde citá-lo graças ao “furo” de Schur – quanta ironia!

Até mesmo Ellenberger, o destruidor dos mitos, caiu no conto do vigário mais potentemente que defensores escrachados como Schur e Jones, localizando (crendo haver já é chocante o bastante!) uma autoanálise a partir de 1895, enquanto esses outros babaquinhas atribuíam a “data oficial” como sendo algum mês de 1897.

F. frankly acknowledges the first essay, ‘The Sexual Aberrations’, to be a general compendium of current information from the writings of Krafft-Ebing, Havelock Ellis, Albert Moll and other sexologists.”

in 1910 and ‘15, F. ascribed homosexuality, in part, to ‘narcissistic object-choice and a retention of the erotic significance of the anal zone’

[In the 3rd essay] Adolescence also presents each individual with the critical task of finding an appropriate sexual object. At first such sexual objects are taken in phantasy life only – a process that inevitably revives the incestuous libidinal ties of childhood. These phantasies must be overcome if a normal sexual life is to ensue. Most individuals accomplish this feat by gradually detaching themselves from the parental authority that they accepted so unquestioningly in childhood. Psychoneurosis becomes the individual’s unhappy fate if there instead occurs a repudiation of the demands of normal sexuality, followed by an unconscious return to the incestuous object choice of childhood.”

In spite of the considerable credence given to these various explanations of the estrangement, I must question them all. To begin with, they all rest upon the (…) incorrect assumption that F. (…) was the one who terminated the relationship (e.g., Schur 1972).”

FREUD’S NEUROSES

From about 1894 to about 1900, F. suffered the symptoms of a psychosomatic illness. His complaints included highly depressed moods, disquieting self-doubts, an obsessive preoccupation with his own death, and various gastrointestinal and cardiac disturbances.”

The collapse of his seduction theory (his would-be discovery of ‘the source of the Nile’) effectively smashed his hopes for quick fame and recognition as a neurologist. Moreover, his scientific mistake, already published in several scientific papers, was professionally embarrassing. Indeed, it was fully seven years before F. finally admitted his error in print to the highly sceptical medical community that had never really believed him in the first place!” Isso que dá sair correndo para a caixa de correio com a tinta ainda fresca… Aprendesse com seu ex-mentor Breuer, poxa vida!

The characteristics of a creative illness are polymorphous, according to Ellenberger. They include depression; symptoms of a severe neurosis or even psychosis; excessive preoccupation with obscure intellectual problems; a sense of utter isolation, of ordeal, and of searching for ‘an elusive truth’; continual doubts about one’s ability to reach that great and secret principle; and an euphoric return to health once the discovery, or series of discoveries, has finally been made [or so the author convinces himself of].” Se essa foi a ‘doença’, acho que também já a tive! (2008-10) Todo pensador de pensamento único (Heidegger), aliás. Nietzsche hat mich kaputt gemacht!

E todo este meu depoimento sem que eu tivesse lido as linhas subsecutivas antes! “Such illnesses, Ellenberger maintains, are to be seen among shamans, mystics, creative writers, and many philosophers. Mesmer, Fechner, Nietzsche, Freud and Jung all suffered from a creative illness at some time in their lives. In F.’s case, Ellenberger believes, Fl. took on the role of ‘the shaman master before the shaman apprentice’ and thus facilitated F.’s passage through his creative illness. This is a variant of the traditional ‘transference’ hypothesis about Fl..

Whereas Ellenberger, Jones and most other F. scholars tend to stress the creative derivatives of F.’s neurotic illness, I prefer to concentrate upon its causes. F. was not only an ambitious and creative thinker but also a man obsessed with being creative – a self-styled ‘conquistador’ in the world of science. Eissler (1971), speaking of the medical-student period of F.’s life (1882-86), has reached a similar conclusion in relating F.’s ‘wild and probably pathological ambition’, together with his fear of accepting ‘a subordinate position in the history of ideas’, to many psychical conflicts he experienced during this earlier period. Eissler believes that F. has learned to master such conflicts by the time he visited Charcot in Paris. I, on the other hand, prefer to think more in terms of a ‘return of the repressed’ [HAHAHA] during the late 1890s.” A exata ironia que se deve usar contra os psicanalistas, uma vez que tudo eles rebatem com essas feias ferramentas escolásticas!

“‘We share like the two beggars, one of whom allotted himself the province of Posen; you take the biological, I the psychological.’ Then, with the abandonment of the seduction theory in September 1897, all this suddenly changed as F. also abandoned his extreme environmentalism and in its stead began to speak of ‘big, general framework factors’ in human development”

Biologically dream-life seems to me to proceed directly from the residue of the prehistoric stage of life (1 to 3 years), which is the source of the unconscious and alone contains the aetiology of all the psychoneuroses; the stage which is normally obscured by an amnesia similar to hysteria.”

But Fl. meanwhile had been busy extending his own theories – both along with, and independently of, F. – into the overlapping provinces of psychology, human psychosexual development, and neuropathology. (The absence of Fl.’s replies to F.’s letters should not fool one into thinking him as just a passive or disinterested observer of F.’s psychoanalytic transformation of his ideas.)”

In short, F. wanted to use Fl.’s ideas and suggestions – in his own psychoanalytically transformed terms.”

Contrary to his unconscious wish ‘to survive Fl.’, F. received no indication from the publication of The Interpretation of Dreams that his ambition was to be realized in a purely intellectual sense.”

I am deeply impoverished. I have had to demolish all my castles in the air, and I have just plucked up enough courage to start rebuilding them . . . In your company . . . your fine and positive biological discoveries would rouse my innermost envy. (…) [Veja os sinais do delírio de grandeza:] No one can help me in what oppresses me, it is my cross, which I must bear”

No critic . . . can see more clearly than I the disproportion there is between the problems and my answers to them” Ecoa o “Essas correspondências traem o que há de mais íntimo em minha vida” a Marie Bonaparte…

It’s just as well that we’re friends. Otherwise I should burst with envy if I heard that anyone was making such discoveries in Berlin!”

The result of the situation at Achensee in the summer of 1900 was that I quietly withdrew from F. and dropped our regular correspondence. Since that time F. has heard no more from me about my scientific findings.” Fl., 1906a

F. continued to believe in Fl.’s theory of biological periodicity long after they had parted intellectual company.”

FEDERN does not see the contradiction that has just been mentioned by F.. Tabular comparisons he made from this Fliessian point of view reveal that in some cases the periodic influence comes clearly to the fore as soon as during the course of treatment the psychogenic repetition of symptoms subsides. . . .

HITSCHMANN, too, is of the opinion that the influence exerted by psychic factors is no evidence against periodicity.” Minutes, 1913

F.’s disciples must surely have sensed more than a rational scientific objection in his aversion to combining Fliessian periodicity theory with the psychoanalytic point of view.”

Now for bisexuality! I am sure you are right about it. And I am accustoming myself to the idea of regarding every sexual act as a process in which 4 persons are involved. We shall have a lot to discuss about that” 1899

At first F. could not believe that Fl. would allow such a valuable friendship to come to an end. When he finally realized that Fl. was serious, [meio lerdinho, né gente] he still thought he could placate his friend by recognizing bisexuality theory ‘once and for all’ in connection with his famous ‘Dora’ case history, where, however, Fl. is NOT credited for this notion. Then, in an effort of DUBIOUS TACT, F. sought to win back Fl.’s friendship in late 1901 with the announcement that his next book would be called Bisexuality in Men, for which he would need Fl.’s considerable help!“Fl. also turned down F.’s subsequent plea for a reunion in January 1902.”

Legenda hilária de foto à p. 224: “Otto Weininger about 1900. At 23, he stunned the world with his book Sex and Character (1903) and then committed suicide the same year.”

The success of Weininger’s book may be judged by its having reached a 26th edition in 1925. A Danish translation appeared in 1905, an English translation in 1906, and a Polish translation in 1921. See also Ellenberger. Abrahamsen’s The Mind and Death of a Genius (1946) presents the best account of Weininger’s life and work and also contains 2 letters to the author from F. discussing his relations with Weininger.”

Até Jones confessa que no caso do plágio F. foi frouxo e covarde: “Obviously what Oskar Rie (Fliess’ brother-in-law and F.’s old collaborator on the subject of childhood cerebral paralyses) told me, in all innocence, when I mentioned Weininger, was incorrect. He said that Weininger had been to you with his manuscript and you, after examining it, had advised him against publication, because the contents were rubbish. In that case, I would have thought that you would have warned both him and myself of the theft.” Fl.

Jones, speaking from personal experience, was later to point up Freud’s annoying inability to keep confidential matters to himself.”

Meanwhile the whole episode had taken on a new complexion. When the psychotic Weininger had committed suicide in 1903, he left his library and all his papers to his friend Swoboda (Brome 1967), who in 1904 published a book on the periods of the human organism in their psychological and biological significance.” Não se pode confiar num lacaniano como Porge nem para saber desses detalhes direito!

UNFORTUNATELY Swoboda also tried to claim that he had made these discoveries independently of Fl., and that he had been, moreover, the 1st to document such periodic processes in the psyche.”

Actually we have to do with the fantasy of an ambitious man who in his loneliness has lost the capacity to judge what is right and what is permissible” F. sobre Fl. após o escândalo detonar, em carta para um anuário de sexualidade infanto-juvenil – ou seria sobre ele mesmo?!?

According to Bernfeld, Swoboda lost the case because his Viennese lawyer was sadly ignorant of German libel laws”

Both Pfennig and Fl. attempted to argue that Weininger’s knowledge of biology was so poor that he could not possibly have reached such an insight by himself. But Weininger’s 133-page Appendix (Zusätze und Nachweise) contradicts this claim and shows that he was widely read in the works of Darwin, Weismann, Haeckel, Naegeli, Claus, the Hertwig brothers, de Vries and many other contemporary biologists.” Em suma, este morto aos 23 anos não viveu!

In this Appendix (which is not included in the English translation), Weininger noted that the idea of bisexual complementarity in sexual attraction had previously been suggested by two men – Arthur Schopenhauer (1844) and Albert Moll (1897). Nevertheless, Weininger claimed to have reached his similar insight independently of these two sources.”

Sincerely convinced, like Weininger, that he was the originator of new and profound insights about an admittedly old idea, Fl. did what he thought necessary to protect his priorities. Such a response can hardly be considered ‘paranoid’, as Eissler and others have labelled it.” “Did not Fl., after nearly 15 years of intimate friendship and scientific collaboration, deserve better from F.?”

As late as 1910, he was disturbed by a dream repeated over a series of nights – a dream that had as its basic content a possible reconciliation with his old friend.” Que ironia que o grande manipulador da História no século XX fosse um “mago dos sonhos” e gostasse de se autodissecar, de forma que até essa sua intimidade pôde ser, enfim, exposta após sua morte!

Um dos desmaios de F. com J. foi quando este se recusou a omitir o nome de Fliess de qualquer artigo do Zentralblatt! “It seems that their final argument during the Achensee congress in 1900 took place in this same dining room.” Se não me engano, Roazen atribui cada um dos episódios de desmaio ao sentimento de inveja dirigido a Jung.

Recently, and in spite of their repeated refutation, these theories have attracted a following in Japan, where, according to Neo-Fliessian George Thommen (1973), they have been adopted by over 5,000 companies in an effort to improve safety and production. In America, the 3-cycle system has been promoted into a $1000-a-week business [?] by George Thommen and has also been applied to sports forecasting (see Gittelson 1977). Needless to say, Fliessian biorhythms work best when the application is retrospective, or when a knowledge of the theory alters the subjects’ behavioural patterns.”

7. THE DARWINIAN REVOLUTION’S LEGACY TO PSYCHOLOGY AND PSYCHOANALYSIS

When Charles Darwin, in his celebrated book On the Origin of Species (1859), announced to a disbelieving world that the supposed Organic Creation was no ‘creation’ at all but rather the result of a natural evolutionary process; when, in the guise of his theory of natural selection, he presented the world with a convincing new rationale for such heterodox views; and when, in The Descent of Man (1871), he finally included man himself in this evolutionary vision – in short, when he accomplished all these feats, he probably did more than any other individual to pave the way for F. and the psyc. revolution.”

Educated men and women read about Darwinian ideas first-hand, second-hand, third-hand, and nth-hand” Onde eu me incluo, pois até a data nunca li D. mas provavelmente já absorvi por tabela tudo o que ele disse sobre a tese central de seus dois livros imortais.

Lamarck, whose work finally gained acceptance through D.’s own achievements; those who were influenced by D., Wallace, and other early Darwinians (…) and those, like Herbert Spencer in England and Ernst Hackel in Germany, who played an important role in popularizing D.’s theories [os Sagans da época]”

that D.’s personal interest in psychology was ‘fundamental to his system’ has been convincingly maintained by Ghiselin (1973).”

D. successfully convinced his hesitant father that an oceanic voyage as a ship’s naturalist would not be demeaning to his intended profession as a clergyman. For 5 years Darwin circumnavigated the globe, spending most of this time in the vicinity of the South American continent, where he conducted detailed studies of the geology and the natural history of this great land mass and its neighboring islands.”

D.’s M and N notebooks have been transcribed and published with valuable commentary by Howard Gruber and Paul Barrett in Darwin on Man (1974). (…) Gruber’s chapter ‘D. as Psychologist’ has been of particular assistance in my own treatment of this theme.”

Metaphysics must flourish. – He who understands baboon would do more toward metaphysics than Locke” Notebook M – Não sei se isso ficou ultrapassado ou nós é que ainda estamos muito atrasados para “superar lockismos”…

D.’s researches on facial expression and other manifestations of the emotions were later published as The Expression of the Emotions in Man and Animals (1872). Although he had originally intended to use this material as part of The Descent of Man, he found the subject so extensive that it required a book of its own.”

D.’s notebooks touch repeatedly upon unconscious mental processes and conflicts; upon psychopathology (including double consciousness, mania, delirium, senility, intoxication, and a variety of other psychosomatic phenomena); upon the psychopathology of everyday life (forgetting and involuntary recall); upon dreaming (D. records 3 of his own dreams and subjects them to partial psychological analysis); upon the psychology of love and the phenomena of sexual excitation (‘We need not feel so much surprise at male animals smelling vagina of females. – when it is recollected that smell of one’s own pudenda is not disagreeable’

The Devil under form of Baboon is our grandfather!”

One of the earliest known attempts of its kind, D.’s ‘A Biographical Sketch of an Infant’ (1877)

Taine believed that children would eventually create a language of their own if not otherwise supplied one by adults.”

In the early 1880s, while F. was still a student, and aging D. had put the bulk of his unpublished researches in psychology at the disposal of Romanes. After D.’s death in 1882, Romanes published much of this unknown manuscript material, including an essay by D. on the subject of instinct, as part of his Mental Evolution in Animals (1883). Five years later, Romanes followed this work with a companion study on child development entitled Mental Evolution in Man (1888), which was read and carefully annotated by F. – probably during the early 90s. This book is, in fact, the most annotated work of those that comprise the 1,200-item F. acquisition of the Health Sciences Library, Columbia University.” “It is strange that F. does not refer to this work in any of his published writings – for example, in the list of books on child psychology that he said were known to him in his Three Essays.”

D.’s inference was anticipated by his grandfather Erasmus D., who was also an evolutionist and had already argued in Zoonomia that the infant’s pleasurable sensations while breast-feeding later find mature expression in man’s highest aesthetic undertakings (see Ellenberger 1970).”

Enfim, a cada página que se lê, fica mais claro que Freud tem mais precursores que o Flamengo tinha torcedores no Maracanã nos anos 70.

In America, Groos’ Die Spiele der Thiere (The Play of Animals) and Die Spiele der Menschen were translated by Elizabeth L. Baldwin, the wife of American psychologist and evolutionary theorist James Mark Baldwin.” “F. was familiar with the works of Baldwin (1895), Groos (1899), Sully (1896) and Preyer (1882)“To sum up, by the ‘90s the post-Darwinian rush to child psychology had reached the point at which even F. was wondering in private how much room for originality remained.”

The history of psychology in the 19th century may be viewed as essentially a development away from philosophy and toward biology (Young 1970).”

It is not generally recognized that D.’s The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex [the whole title of the book] was really 2-books-in-1, with roughly 2/3 of it being devoted to the subject matter announced in the latter half of the title! In fact, the major message was the claim that a phenomenon called sexual selection can and does act independently of the Darwinian principle of natural selection. But D. was saying even more – namely, that the ultimate test of biological success lies in reproduction, not in ‘the survival of the fittest’.” Ainda não fugimos de Schopenhauer…

TAVA DEMORANDO, ALIÁS! “Schopenhauer’s famous work Die Welt als Wille und Vorstellung emphasized the unconscious and irrational aspects of the will. Behind the operation of the will were 2 instincts, the conservative [feeding] and the sexual; and Sch. considered the sexual to be by far the more important of the 2.”

The sexual act is the unceasing thought of the unchaste and the involuntary, the ever recurring daydream of the chaste, the key of all intimations, an ever ready matter for fun, an inexhaustible source of jokes” Provavelmente já traduzi esse trecho!

Mann once wrote that F.’s theories were Sch.’s doctrines ‘translated from metaphysics to psychology’. F. later claimed that he read Sch. very late in life” Sempre essa mesma baboseira de escusa. Veja as cores e cheire a merda (merdanálise!).

Havelock Ellis, who later prided himself on his early (1898b) acceptance of the Breuer-F. theory of hysteria, nevertheless recalled in the year of his death that Thomas Clouston had endorsed a sexual interpretation of this disease ahead of all of them (1939a).”

To biologists before D., the many useless rudimentary organs in nature – like wisdom teeth and the appendix in adult man, and the gill slits [brânquias – como se fôssemos capazes de respirar na água caso o feto se desenvolvesse de forma diferente…] and tail in the early stages of human embryological development – often seemed like arbitrary quirks of Creative Fiat. D. demonstrated the historical meaning of such organs”

Wilhelm Bölsche [vik?] (1861-1939), a popular science writer as well as novelist, was also known in lay intellectual circles for his biographies of D. and Haeckel.” “His rambling and highly lyrical Das Liebesleben was an unabashed part of this attempt [in materialistic biology], extolling the many marvels of sex while cataloguing in prosaic detail the remarkable diversity in nature’s modes of sexual union.”

Penis and vagina appeared with the crocodiles as a means of introducing greater efficiency into the awkward process of ‘anus pressed against anus’” Bölsche (1931)

By the mid-19th century, the notion of anatomical fixations (or ‘arrests in development’) was well established in the fields of embryology, teratology (the study of monstrous births), and medical pathology.”

James’ laws were applied by Moll to developmental disorders of the ‘libido sexualis’ in a work that F. carefully read in 1897.”

F. owned, and from the evidence of his annotations, read with care the 1896 German translation of Ellis’s Sexual Inversion.”

F. scholars have long pointed out that F. was indebted for this general concept of regression to the English neurologist John Hughlings Jackson (1935-1911) and his notion of ‘dissolution’. Jackson, in turn, derived his ideas on the ‘evolution’ and the ‘dissolution’ of the nervous system from the evolutionary philosophy of Herbert Spencer.” “Pagel (1954) has traced the notion of pathological regressions to a number of early 19th-century medical thinkers.”

#offtopic Eu sou uma cadeira e odeio ser um encosto!

8. F. AND THE SEXOLOGISTS

Terms and constructs like libido, component instincts, erotogenic zones, autoerotism, and narcissism – all generally associated in 20th century consciousness with F.’s name alone – were actually brought into scientific circulation between 1880 and 1900 by other contemporary students of sexology.” “Unknown to Ellis, Näcke and F., Alfred Binet (1887) precede them all by comparing certain fetishists who take themselves as their preferred sexual object to the famous fable of Narcissus.”

Stephen Kern (1973, 1975), who has presented by far the most detailed historical survey to date on the subject of childhood sexuality, lists over a dozen publications between 1867 and 1905 in which F.’s views were clearly presaged (…) Not only did many of these writers, like Henry Maudsley (1867), S. Lindner (1879), Bernard Pérez (1886), Friedrich Scholz (1891), Paul Sollier (1891), Jules Dallemagne (1894), Stekel (1895), Karl Groos (1899), Hermann Rohleder (1901), Iwan Bloch (1902-3), and Lewis Terman (1905) recognize the relative normalcy of sexual manifestations in childhood; but a few others, like Max Dessoir (1894), Moll (1897b), Ellis (1898a, 1900b, 1901) and Sanford Bell (1902) went even further in arguing that the normal human libido develops in sequential, prepubertal stages – attaching itself to different ‘love’ objects in the process. (…) As Kern concludes, ‘almost every element of F.’s theory of child sexuality is exactly anticipated, or in some way implied or suggested, before him.’

Um quarto de século antes do que se imagina popularmente.

Krafft-Ebing later attributed his ambition of erecting a whole science of sexual pathology to Ulrichs’ influence. Ulrichs (1826-95), a Hanoverian legal official, was also a self-confessed homosexual. In a series of works published from 1864 onward, at first under the pseudonym of Numa Numantius, Ulrichs had openly discussed the problem of sexual inversion and had sought for a revision of the German legal codes in this domain. It was Ulrichs who coined the term urning in reference to homosexuals (an allusion to Uranos in Plato’s Symposium).”

Although the Psychopathia Sexualis enjoyed immense success, finding its way into 7 languages and going through 12 editions in its author’s lifetime, Krafft-Ebing himself was far from being a seeker after notoriety. As Victor Robinson (1953) has commented about him: ‘K.-E. was a physician who wrote for physicians. He did not want the public to read his book, so he gave it a scientific title, employed technical terms, and inscribed the most exciting parts in Latin. . . . It was annoying not to understand the cryptic phrase in the lady’s letter: <While you whine like a dog under the lashes of my servants, you shall witness another favoritus sudorem pedum mihi lambit. [meu pé suado favorito sendo lambido]>’. Still, the public was hardly to be foiled by such subterfuges, for most of the book was written in the vernacular. It was this feature of the Psychopathia Sexualis that prompted the Brittish Medical Journal to lament in 1893 not only the book’s recent translation into English (by an initially anonymous translator), but also the fact that K.-E. had not written his entire book in Latin and thus veiled it ‘in the decent obscurity of a dead language’.” “The Psychopathia Sexualis itself grew from 45 case histories and 110 pages in 1886 to 238 case histories and 437 pages by the 12th edition of 1903.”

It was Krafft-Ebing that coined the terms sadism, masochism, sexual bondage and psychical hermaphroditism.”

Adolescent onanism, he believed, destroys the masturbator’s sexual ideals and eventually undermines a normal desire for the opposite sex.”

Differentiating himself from alienists like Krafft-Ebing, who were preoccupied with the medical and forensic aspects of perversion, Binet (1887) explicitly set out to study the acquirement of sexual perversions and, particularly, to elucidate the psychological laws governing this process.”

Schrenck-Notzing reported that his patient, a homosexual from a ‘tainted’ family, had required 45 hypnotic sessions over 4 months in order to reverse his inverted tendencies (1889). (…) (Besides hypnotic suggestions, Schrenck-Notzing’s treatment included trips to local brothels in order to reinforce these therapeutic suggestion!)”

In part a reaction against the pseudoexactitude of German psychophysics, the functionalist program (led by William James, John Dewey, J.R. Angell, and G. Stanley Hall) sought to make psychology the study of the organism’s adaptations to its environment.”

It was Kiernan who first insisted that the 9 gruesome (and never solved) murders attributed to ‘Jack the Ripper’ between 1887-89 were the work of a sexual deviate.” “It was through publications of Kiernan and Lydston in America and, slightly later, through Julien Chevalier’s (1893) similar writings in France, that these biogenetic theories of sadism and sexual inversion came to the attention of Krafft-Ebing, who was particularly enthusiastic about the notion of bisexuality, with its apparent solution to the problem of homosexuality.” “Through years of patient research, Krafft-Ebing had come to recognize the noble qualities of many homosexuals, who were frequently, he emphasized, the pride of their nations as authors, artists, statesmen (1901b).”

Krafft-Ebing was one of 2 professors, along with Hermann Nothnagel, who actively supported F.’s promotion to Extraordinary Associate Professor at the University of Vienna – an honor F. finally obtained in 1902, the year of K.-E.’s death.”

It was to the Psychopathia Sexualis, that monumental conduit of information and theory on sexual pathology, that F. turned in early 1897 when he first formulated the notion that psychoneurosis is a ‘repressed’ state of perversion.”

Compared with Havelock Ellis and F., Albert Moll is an obscure figure today – a standing that is in marked contrast to his preeminence as a neurologist and sexologist around the turn of the century. After K.-E.’s death in 1902, Moll was possibly the best-known authority on sexual pathology in all Europe.” “After 1933, Moll’s reputation suffered a further setback in Germany as his books were systematically destroyed by the Nazis; and in a curious twist of fate, he died in 1939, in relative anonymity, the same day as his world-celebrated rival F. (Ellenberger 1970). [!] Moll’s intellectual relationship to F. has long been obscured by his harsh criticisms of psychoanalysis after the turn of the century” Errado não tava!

The rank of Ellis’ (1928) citations may be looked upon as a convenient ‘Who’s Who’ of eminent sexologists around the turn of the century. Moll, leading the field with 120 citations, is followed by Iwan Bloch (96), K.-E. (77), Charles Féré (76), F. (75), Magnus Hirschfeld (71) and Paul Näcke (57).”

In Paris, Moll attended Charcot’s lectures and clinic and was also invited, like F., to C.’s famous parties. Through C., he met Binet, Féré, Gilles de la Tourette and many others (…) he attached himself to the Nancy school of hypnotic therapy (…) [and] he later spoke, like F., of having been ‘isolated’ from his older and more conservative colleagues during these pioneering years (1936).” Deve ser o ar de Viena que deixava os doutores tão egocêntricos e afetados!

Ellis, who arranged for Moll’s first book [on hypnosis] to be translated into English as part of his Contemporary Science Series, later reported that it had become the best-seller of the entire 50-volume series (1939b).”

Writing on the subject in 1897, Ellis called Moll’s work ‘the most important discussion of sexual inversion which has yet appeared’ (…) E. commanded Moll for attacking the causes of perversion and for doing so ‘as a psychologist even more than as a physician’.”

Already in the 1890s he had reported that mutual masturbation is often practiced in childhood by individuals who later show no signs of inversion. In fact, he had learned of a veritable ‘epidemic’ of this sort that had broken out in a Berlin boarding school many years before.”

It was, as he stated in his Preface to Investigations into the Libido Sexualis (1897b), the regrettable failure of previous sexologists to study normal sexuality that was largely responsible for existing disagreements about abnormal sexuality.”

“…we are familiar in literary history with numerous cases of prominent poets who in their early childhood fell in love with women, that is at a time when we could not as yet speak of physical puberty. Let me mention Dante, who fell in love with Beatrice at the age of 9; Canova at the age of 5; Alfieri, at 10; and Byron is said to, when 8, have fallen in love with Mary Duff.” Moll

Were a single sexual experience and, indeed, the first sexual experience, to induce a lasting association between the sex drive and the object of the first sexual experience, then we would have to find sexual perversion everywhere. Where are there to be found people who initially satisfied their sexual impulse in a normal manner?”

I determined that I would . . . spare the youth of future generations the trouble and perplexity which this ignorance had caused me”

H. Ellis

Besides his own writings, Ellis occupied himself for many years by editing 2 major book series: the 26-volume Mermaid Series, through which he republished the best plays of Shakespeare’s contemporaries; and the 50-volume Contemporary Science Series, the first volume of which was Geddes and Thomson’s widely read The Evolution of Sex (1889). After writing 2 books of his own in the CSSThe Criminal (1890) and Man and Woman (1894) – Ellis turned his attention in the mid-90s to his chief life’s work, the Studies in the Psychology of Sex.”

Ellis says in his autobiography that when he finally finished the 6th volume, he could identify himself with Gibbon completing his monumental History; and in his personal diary Ellis wrote at the time, ‘The work that I was born to do is done’ (1939b). A supplementary 7th volume (Eonism and other Supplementary Studies) was added to the series in 1928.

The scope of Ellis’s documentation in the Studies is truly breathtaking. He was uncommonly at home with the medical literature of his day and cited more than 2,000 authors in the Studies from at least half a dozen different languages. Each volume is an encyclopedic compendium of contemporary information on the various topics he treated. At once informative, judicious and readable, the series enjoyed an immense success that included its translation into numerous foreign languages.

Publication of his 1st volume in the series, Sexual Inversion, soon became the occasion for the famous prosecution of Queen v. Bedborough in 1898. Bedborough, a bookseller of radical reputation, was arrested in 1898 for selling a copy of Ellis’s book to a London police detective.(*) He was thereupon charged by a grand jury with seeking ‘to vitiate and corrupt the morals of the liege subjects of our Lady the Queen, to debauch and poison the minds of divers of the liege subjects of our said Lady the Queen, and to raise and create in them lustful desires, and to bring the liege subjects into a state of wickedness, lewdness and debauchery’ (Ellis 1936).

(*) See E.’s Note on the Bedborough Trial (1898c).”

even in America, the sale of E.’s Studies was restricted to doctors and lawyers until the early 1930s.”

He acknowledged the importance of examples set at school, of seductions, and of disappointments in normal love in eliciting such latent tendencies. (…) When the Studies were later republished in America, he moved the volume on sexual inversion to the 2nd position in the series.”

As sexual derivatives, E. proclaimed, the symptoms of hysteria documented so thoroughly by Breuer and F. were to be included among autoerotic phenomena. (…) A regular exchange of letters and publications between the two investigators dates from about this time.”

He recorded the case of an 8-month-old female infant who was able to induce complete orgasm by closing her eyes, clenching her fists, and tightly crossing her thighs.”

E.’s survey article offered several provocative views of his own on the oral and anal nature of childhood sexuality, a subject on which he anticipated much of the Freudian doctrine. He referred to the pleasurable anal, urethral, and bladder sensations reported by a number of his personal informants who, as children, had regularly practiced the voluntary retention of urine and excreta for this purpose.”

The analogy is indeed very close, though I do not know, or cannot recall, that it has been pointed out: the erectile nipple corresponds to the erectile penis, the eager watery mouth of the infant to the moist and throbbing vagina, the vitally albuminous milk to the vitally albuminous semen: The complete mutual satisfaction, physical and psychic, of mother and child, in the transfer from one to the other of a precious organized fluid, is the one true physiological analogy to the relationship of a man and a woman at the climax of the sexual act.”

E.

Along with Max Dessoir and Karl Groos, Moll and Ellis established a developmental conception of the sexual instinct – a conception extending back into early childhood and acknowledging the apparently perverse nature of spontaneous infantile sexual phenomena. Within this developmental conception, sexuality in childhood became comprehensible as a biologically normal and prerequisite part of human maturation. Moreover, this new and largely Darwinian conception of sex, supplemented as it was by detailed autobiographical narratives of healthy individuals, placed the isolated observations on childhood sexuality by Lindner (1879), Pérez (1886), Sollier (1891), Dallemagne (1894) and others within an assimilable context of theory. Prior to this conceptual transformation, such reports had received systematic attention only in the contrasting, pathological context of degeneration doctrine (…) The discovery of infantile sexuality was therefore a discovery in theory as much as it was a discovery of facts. For the facts, long known but eschewed, required the proper theory to bring them to recognition as a normal aspect of human development.”

Contrary to the Freudian legend, this new conception of sexual development was established in the sphere of sexual studies by Ellis and Moll several years before F.’s Three Essays” “Above all, it was Moll (1897c) who added the dynamic element to this indifferentiated-stage concept [origem das nomenclaturas de fase oral e anal]”

Pode-se dizer que, com a reviravolta pessoal de Krafft-Ebing em 1901, simbolicamente, a homossexualidade nasceu, em decorrência da morte do homossexualismo. O que torna toda a bizarria da teoria da degenerescência e da homofobia nazistas ainda mais incompreensíveis, tendo em vista que – salvo Ellis! – toda a sexologia alemã era tão avançada tantas décadas antes! Não existia tanto corporativismo e ortodoxia na ciência como hoje – a Verdade, por incrível e fabuloso que este relato pareça, venceu então:

It may now be said to be recognized by all authorities, even by F. [!] . . . that a congenital predisposition as well as an acquired tendency is necessary to constitute true inversion, apparent exceptions being too few to carry much weight. K.-E., Näcke and Iwan Bloch, who at one time believed in the possibility of acquired inversion, all finally abandoned that view, and even Schrenck-Notzing, a vigorous champions of the doctrine of acquired inversion 20 years ago, admits the necessity of a favoring predisposition.” Ellis, 1928

Outra conclusão desse capítulo: a falhada teoria da sedução freudiana era natimorta; não é que a “genialidade” de F. (cof, cof!) tenha permitido que ele corrigisse esse embaraço em 2 ou 3 anos: quando F. inventou sensacionalisticamente essa teoria, dando o pontapé inicial na psicanálise, Moll já havia publicado seus trabalhos de vanguarda que rechaçavam por completo essa possibilidade. Ou seja: essa asneira só existiu porque F. não foi um leitor compenetrado de seu próprio campo no fim dos anos 1890…

Although F. himself never said as much, I believe that reading Moll’s Libido Sexualis indeed played an important part in F.’s abandonment of the seduction theory during the fall of 1897.”

F.’s published references to Moll – whom, as I have already mentioned, he greatly despised – are 8 in number: of these, 2 are favorable (1 of these was later deleted), 2 are neutral (and briefly mention M.’s notions of detumescence and contrectation), and the remaining 4 are disparaging. F. listed Moll in 1910 (3 essays, 2nd ed.) among those backward physicians who were still denying the existence of infantile sexuality!”

A citação que F. suprimiu dos Três Ensaios, e que constava da 1ª edição, jamais restaurado na Standard Edition: “Many writers, especially Moll [insbesondere von Moll], have insisted with justice that the dates assigned by inverts themselves for the appearance of their tendency to inversion are untrustworthy, since they may have repressed the evidence of their heterosexual feelings from their memory”

F. 1st alluded to this crucial distinction between genital and non-genital childhood sexuality in a 14 November 1897 letter to Fliess in which he also mentioned Albert Moll.” NÃO LEIAM MINHAS CARTAS COM FLIESS, ELAS POSSUEM NOTAÇÕES DA MAIOR INTIMIDADE!!! Hehehe…

Moll warned against the danger of accepting too readily the accusations of sexual misconduct that little girls often lodge against men, and called it ‘one of the gravest scandals of our present penal system’ that such charges were so frequently believed by judges. The problem was particularly marked, he also emphasized, with child hysterics (1912a). Similarly Iwan Bloch (1902-3) supported Moll’s call for caution when he noted that in spite of the ‘enormously important’ role of childhood seductions as documented by K.-E., Moll and Ellis, Moll’s report of a 7-year-old girl seducing her own brother was a clear caveat for suspecting that little girls may sometimes make false sexual accusations against adults.”

As mentioned before, the prevalence of such homosexual activities among the Greeks had sufficiently impressed American psychologist William James (1890) for him to proclaim that homosexual inclinations must be innate in all of us, although normally kept in check by an instinct for interpersonal ‘isolation’.” Já li muito absurdo, mas um instinto de ISOLAMENTO é um dos maiores até agora… Seclusão Anagógica é um atributo do gênio, não do homem médio!

Outra bandwagon em q F. se viu levado a embarcar: as observações etnográficas. Que pena que as dele ele tirou apenas de sua mente inerentemente fértil – muita charutada no divã!…

Bourke’s Scatologic Rites of All Nations (1891) – another of Iwan Bloch’s sources.”

In sum, the collective efforts of historians, ethnologists and anthropologists to escape the narrow confines of the late-19th-century Victorian conception of sexuality played an important role in the sexual revolution that is now associated with F.’s name.”

More of a psychologist than K.-E., Moll or Ellis, F. was also far more of a biologist than Binet, Schrenck-Notzing or Bloch. It is this dual construction to his theorizing as a sexologist that has made so enduring F.’s thinking as a ‘psychoanalyst’.”

9. DREAMS AND THE PSYCHOPATHOLOGY OF EVERYDAY LIFE

If The Interpretation of Dreams is F.’s greatest book, it is today also one of his least understood, as Henri Ellenberger has insisted. Ellenberger would ascribe the inaccessible nature of F.’s book to the many revisions, additions and deletions that The Interpretation of Dreams underwent in F.’s lifetime; the frequently difficult-to-translate nuances in F.’s original German-language dream discussions; and the implicit, but largely unappreciated, context of fin-de-siècle Viennese life that the book as a whole reflects.”

when F. once wrote that he had entertained no interest in the subject of dreams prior to his discovery of their psychoanalytic importance in the 1890s, he was evidently allowing his Baconian self-image as a scientist to obscure the truth of the matter.” = Freud lied hard.

F. was considerably more accurate and outspoken when it came to acknowledge his major predecessors in dream theory. Prior to F., the literature on dreams was already quite voluminous, as he discovered to his chagrin when he decided to write a historical survey chapter for his book. Furthermore, like the psychoanalytic theory of psychosexual development, F.’s theory of dreams had been anticipated piecemeal in almost every major constituent by prior students of the problem. For example, the claim that dreams have a hidden meaning, that they are wish-fulfillments, that they represent disguised expressions of unacceptable thoughts, that they elicit the archaic features of man’s psyche, that they involve a regression to the dreamer’s childhood experiences and successive personalities, that they fulfill the wish to sleep, and that they come about by the condensation and displacement of ideas – all these ‘Freudian insights’ and more were made by other students of dreaming prior to F..”

The Bibliography of F.’s book includes references to 79 different works on dreams, most of which are mentioned in the text. In later editions, F. added a 2nd bibliographical list of over 200 works – most of them psychoanalytic – written since 1900 and increased the first (pre-1900) list to 260 items.”

F.’s most important precursors in the theory of dreaming, at least for him personally, are probably the least discussed in psychoanalytic history, because they were largely anonymous. I am speaking of the age-old proponents of the popular, lay conception of dreaming, as set forth in the Bible – for example, Joseph’s interpretations of the Pharaoh’s prophetic dreams – and in countless cheap dream books that were widely available in F.’s day. Two methods of dream interpretation are generally used in these popular sources. In most biblical instances, dreams are transposed as a symbolic whole in order to uncover their hidden, prophetic meaning. Joseph interprets the Pharaoh’s dream of 7 fat cows that are followed and then eaten by 7 thin cows as foretelling 7 years of Egyptian plenty that are to be followed by 7 years of famine. (…) the popular dream books generally treated the dream piecemeal as a series of brief messages to be deciphered according to a fixed cryptographic key (e.g., receiving a ‘letter’ stands for impending ‘trouble’). Although F. did not specifically mention ever having studied such dream books, the private dream notebooks he kept in the early 1880s were clearly patterned after them.” Traumdeutung, unlike, say, Deutung des Traums, reminded his German readers of the fortune-teller’s slogan as well as of the related word Sterndeutung (‘astrology’).”

For Meynert’s concept of amentia and its ties to F.’s own thinking see Amacher 1965.”

Some years after publishing his famous work on dreams, F. ran across the related ideas of a Viennese engineer, Josef Popper, who had independently set forth what F. acknowledged as ‘the core’ of his own dream-distortion theory. Popper’s views were first stated in Phantasien eines Realisten (1899), published almost simultaneously with F.’s Interpretation. Writing under the pseudonym of Lynkeys, Popper had explained in a chapter entitled ‘Dreaming like Waking’ that the dreams of the unchaste, in contrast to those of the virtuous, are commonly senseless and fragmented owing to an intervening distortion and censorship of the original dream-thoughts.”

Influenced by the Romantic tradition, Scherner’s Das Leben des Traums appeared in 1861 and set forth a symbolic theory of dream interpretations. (…) Scherner was particularly thorough in his enumeration of sexual symbols. As symbolic equivalents of the male sexual organs, he listed pointed objects of all sorts, and, for the female sex, he mentioned narrow passageways through courtyards and other similarly confined spaces. Scherner believed pubic hair to be symbolized by fur. F. later praised Scherner as ‘the true discoverer of symbolism in dreams’, adding that Sc.’s views on this subject had merely been resurrected and given proper recognition by his own psychoanalytic of dream symbolism (1911).” Sincero uma vez na vida: viu só como é bom? Doeu?! Filho da puta! Se o autor tivesse sobrevivido para criticar a psicanálise, obviamente sequer seria citado (pelo menos a partir da 2ª edição!).

It remained for Hervey de Saint-Denys, however, to carry the self-analytic technique of dream interpretation to its most herculean extreme in the late 19th century. In his anonymously published Les Rêves et les moyens de les diriger (1867), Hervey described the 3 stages through which his self-analytic technique evolved. First he learned how to recognize when he was dreaming. Then he taught himself to wake up after each dream so that he might record his dreams in special notebooks. Finally, he sought to alter the course of his dreams as he pleased, a technique that was successful but that met with certain limitations.¹ For instance, when Hervey once attempted to kill himself in the course of a dream by jumping off a tall tower, he instantly found himself transposed into the crowd below, where he witnessed another man falling off the same tower. Over a 20 year period, Hervey recorded more than 2,000 dreams, many of them ‘self-directed’ by his remarkable experimental method.” “Hervey’s book had become a rare item by the 1890s, and F. reported that he was unable, in spite of all his efforts, to procure a copy of it. [Eu não acredito] Many of Hervey’s findings were indirectly known to F., however, from other works on dreaming – e.g., Maury’s (1861) book in its 2nd edition (1878).”

¹ É altamente provável que este homem teve algum contato oriental.

Yves Delage (1891) was a French biologist whose model of dreaming, with its emphasis upon day-to-day sensory impressions as ‘accumulators of energy’ tending to inhibit and conflict with one another, approximates the economic and dynamic postulates of F.’s theory.”

When asleep we go back to the old ways of looking at things and of feeling about them, to impulses and activities which long ago dominated us”

James Sully, 1893

Another little-appreciated aspect of F.’s thinking about dreams is that he held 2 distinct theories between 1895 and 1900. Or I might say that his theory of dreams passed through 2 major stages, with the later reformulation encompassing the earlier. F. himself confounded his 2 different dream theories in his History of the Psychoanalytic movement, where he wrote The Interpretation of Dreams (…) was finished in all essentials at the beginning of 1896 but was not written out until the summer of 1899’. James Strachey seems to agree with F.’s statement, while adding ‘some qualifications’ to it. On the other hand, Jones, Kris & Schur [os guarda-costas] and others have questioned F.’s claim. (…) Of principal concern to J., K. and S. is to portray F.’s self-analysis in the fall of ‘97 as the revolutionary catalyst in his understanding of the dreaming process”

F. reached his early theory of dreams deductively in the process of thinking about the Project. Having envisioned primary-process mental phenomena as movements of psychic energy following previous experiences of satisfaction (or the neuronal pathways of least ‘resistance’), F. found it logical to view dreams as similar primary-process activities. Dreams, according to this conception, are simply hallucinations motivated by the small residues of energy that are ordinarily left over in an otherwise sleeping (or energyless) mind. (…) F.’s interpretation of the dream about Irma’s injection [ah, como eu estou farto dessa fabricação!] fixed [t]his theory in his mind at the more empirical level when he inferred from certain ideational missing links that were somehow absent from the conscious manifestations of the dream.”

The day before the dream, F. was visited by his friend Oskar Rie, who had been staying with Emma’s family at a summer resort. Oskar reproved F. for his failure to cure Emma of all her symptoms. That evening F. wrote out Emma’s case history so that he might present it to Josef Breuer in order to justify his treatment of the case. Later that night F. dreamt that he met Emma at a large party and said to her ‘If you still get pains, it’s really only your fault’. Emma looked ‘pale and puffy’, and F. wondered if she might not have an organic disease after all. He therefore examined his patient and detected white patches and scabs in her mouth. Oskar and Breuer, who were also present in the dream, then examined the patient for themselves, and it was agreed by all that Emma had contracted ‘an infection’. The 3 physicians further determined that the infection had originated from an injection previously given to the patient by Oskar, who had apparently used a dirty syringe.” Esse homem deve ter tido muitos sonhos até 1939 para expiar cada pecado médico!

the dream had excused him of responsibility for Emma’s pains (…) [and] had exercised revenge upon his friend Oskar for his annoying remarks about F.’s unsuccessful therapy. There is no mention of either repression or censorship in F.’s brief Project discussion of the dream.”

F. evidently declined to theorize about nightmares, anxiety dreams and other forms of blatantly unpleasant dreams in 1895. And although the term id did not become part of the psychoanalytic lexicon until 1923, I have used it here in its generally accepted conceptual sense as applied to the earlier period.”

In Interpretation F. cited 6 other authorities on dreaming, in addition to Griesinger (1861) who had anticipated him on the notion that dreams are a wish-fulfillment. What was unique to his own theory, he declared, was that every dream could be proved as such.” “F.’s whole theory of anxiety dreams has its roots, of course, in his toxicological theory of anxiety neurosis.”

your fly is undone” “du hast deine Fleischbank offen” “sua braguilha ‘tá aberta”

F.’s early theory of dreams actually constituted a reaction against symbolic theories of dream interpretation. It was Wilhelm Stekel whom F. personally credited with having brought the full importance of dream symbols to his attention.”

His book remained incomplete in [2]¹ significant ways that conjointly touch upon this problem of interpretation.”

¹ Sulloway diz 3, mas ao meu ver os pontos 1 e 3 que ele cita são aspectos diferentes do mesmo problema, que eu resumi abaixo como o 1º ponto:

1) Sonhos dos neuróticos não diferem dos sonhos dos “normais”. Conclusão: não existe a neurose?

2) Interpretações exaustivas implicavam usar os próprios sonhos do autor. Por razões óbvias, seria impossível uma decodificação absoluta e honesta – e se fosse possível, não seria publicada. A censura de vigília da psicanálise sempre foi um problema muito maior que a censura do sonho, hehe…

F.’s appraisal [in book reviews] was indeed prophetic, for some of his most devoted disciples were unimpressed by their first reading of Interpretation. Sándor Ferenczi, for one, read and dismissed the book ‘with a shrug of his shoulders’ shortly after it was published, and in 1907 he had to be persuaded to read it again – this time with a better result – by a Hungarian colleague who fortunately happened to be acquainted with F. and Jung.”

Even as late as 1911, Jung and his Swiss group were still very conscious of the didactic inadequacies in F.’s treatment of dreams. When F. asked J. that year if he had any suggested revisions for the 3rd edition of Interpretation, J. responded with the collective criticism put forward by his teaching seminar on psychoanalysis at the Burghölzli – that it was ‘sorely’ difficult to understand F.’s theory and methods from his book owing to the incomplete nature of the specimen dreams and the consequent lack of ‘deeper layer’ interpretations. J. recommended that F. insert more dreams of neurotics and interpret them fully, so that ‘the ultimate real motives’ of dreams could be ruthlessly disclosed’. F. answered J.’s criticisms by saying that the time had now come to discontinue publication of Interpretation with the forthcoming edition (!) and to replace it with a ‘new and impersonal’ work in which the theories of dreaming and neurosis could be interrelated more adequately. F. added that he would announce this decision in his Preface to the 3rd edition of Interpretation and would explain there the various reasons for it, pretty much in J.’s own words. Nothing ever came of this plan, as – among other reasons – F.’s astute publisher, Franz Deuticke, thught it would make a bad impression and so vetoed it (Freud/Jung Letters).”

As for the supposedly poor sales of F.’s book, Interpretation sold, at an annual rate of 75 copies per year over an 8-year period, nearly twice as well as Studies on Hysteria and about half as well as F.’s Jokes and Their Relation to the Unconscious (1905c) and Leonardo da Vinci (1910c). (…) Sales figures are not available for The Psychopathology (…) (1901b), which was first issued as a book in 1904 and became F.’s most successful pre-I World War publication.”

the 5 Lectures (1910a), published at the height of controversy over F.’s theories, sold 1,500 copies over an initial 2-year period (…), and eventually over 30,000 copies by the mid-1950s after worldwide fame.”

A similar myth surrounds Alfred Adler’s conversion to psychoanalysis. According to Phyllis Bottome (1939), Adler read a hostile review of Interpretation in the Neue Freie Presse and thereupon wrote a letter of protest to that newspaper. Adler’s letter supposedly attracted F.’s attention, causing F. to send a postcard to Adler thanking him for his support and inviting Adler to pay him a visit. In reality, neither a hostile review nor a response from Adler ever appeared in the Neue Freie Presse – or in any other Viennese newspaper, as far as is known.”

10. EVOLUTIONARY BIOLOGY RESOLVES F.’S 3 PSYCHOANALYTIC PROBLEMS (1905-39)

After carefully searching F.’s and Adler’s clinical writings for indications about the wealth and the social status of their clientele, Wassermann found consistent differences between the two physicians’ patients. Specifically, ¾ (74%) of F.’s patients were affluent, and almost none (3%) poor. By Viennese standards, F.’s fees were also high. In contrast to this, 75% of Adler’s patrons were either middle class (40%) or poor (35%). Wassermann attributes certain basic theoretical differences between F. and Adler to this marked contrast in their medical practices. Among F.’s upper-class clientele, ‘with the instinct of self-preservation completely satisfied, the second most powerful instinct (sex) moves to the frontline’ (1958). Adler’s less affluent patients, on the other hand, found ‘the problems of material existence . . . much more anxiety-inspiring’.”

Adler (…) pioneered in discovering (…) the sibling-sibling interactions and saw his patients as victims of their struggle for greater power” // Bianca @SastyPie e seu relato de sonhos edípicos com a irmã – característica que eu, um caçula praticamente filho único, dadas as minhas condições singulares, não podia intuir solo.

SULLOWAY COMO PSICÓLOGO MEDÍOCRE (BEM ABAIXO DE SUAS REALIZAÇÕES COMO EPISTEMÓLOGO): “In my view, to be elaborated more fully in a future publication [seu único livro autoral ou o único livro de fama, um dos dois, muito criticado pelos psicólogos] on birth order and revolutionary temperament in science, F. was a birth-order ‘hybrid’, simultaneously displaying qualities of both firstborn and laterborn temperaments.” De uma ingenuidade candente para a segunda metade do séc. XX!

As we shall see in this chapter, it was actually (and ironically) because of F.’s sweeping cultural and historical relativism that he was ultimately able to proclaim the universal views on sex and neurosis that he did, and not, as Jung and others have suggested, because F. was tragically caught up by his own ‘daimon’ and was thus incapable of placing his clinical findings in a proper socio-historical framework.” Generalizou para todos os tempos e lugares sua Viena vitoriana. Grosso modo, absolutamente toda e qualquer idéia que constitui o miolo de cada livro de F. no séc. XX pode ser apanhada na correspondência com Fl.. Um “Carl Sagan da sexologia”, F. precisou apenas reciclar, como bom jornalista, seus “achados” por 4 décadas a fio… A tal correspondência, por sua vez, pode ser interpretada como um espirro de efeito retardado do Darwinismo.

As a pre-1900 psychologist and neuropathologist, F. may be described as primarily a proximate-causal theorist. For a time, he even hoped that a proximate-causal approach to brain functioning might allow him to grasp the entire working principles of the mental apparatus. (…) his abandonment of neurophysiological reductionism was increasingly counterbalanced by his adoption of a phylogenetic-historical form of reductionism as he continued to wrestle with his most essential, unanswered problems.”

Os cientistas do XIX trocaram sua fé em D. pela fé em D. (Deus por Darwin).

Heinz Hartmann (1939) and Hans Lampl (1953) tried to reconcile F.’s notion of sexual latency with Bolk’s fetalization theory. Bolk’s ideas, founded upon a Lamarckian-vitalist theory of evolution, have long since been rejected by biologists (Gould 1977). Yazmajian sums up this Neo-Freudian foray into biology by saying that ‘it epitomizes the erroneous biological thinking, glib theorizing, and philosophizing that has regularly punctuated psychoanalytic literature in this area over the years’ (1967).”

THALASSA UMA TEORIA DA GENITALIDADE COMO A EXAGERAÇÃO DA TEORIA DO MESTRE: “Ferenczi set forth 5 great catastrophic events that he believed to be faithfully recapitulated in present human sexual life. He saw these recapitulations not only in ontogeny but also in what he termed perigenesis, or all those biological developments pertaining to the protection and nurture of the embryo. The great biogenetic theorist Ernst Haeckel had believed such specialized placental innovations to be independent of recapitulation and to interfere, moreover, with the embryological corroboration of that law. Ferenczi, ‘out-Haeckeling’ Haeckel, claimed these acquisitions as attempted re-creations, for the sake of the germ cells, of life’s earliest, preterrestrial environment.”

11. LIFE (EROS) AND DEATH INSTINCTS: CULMINATION OF A BIOGENETIC ROMANCE

In particular, F.’s idea of a death instinct has the remarkable distinction among his theories of being the only one that achieved little acceptance even among his own followers. Jones reported in 1957 that (…) by the 50s (…) none of the psychoanalytic papers devoted to this topic supported F.’s theory” “English psychologist William McDougall, who was sympathetic to many of Freud’s psychoanalytic ideas, once colorfully dubbed his death instinct ‘the most bizarre monster of all his gallery of monsters’ (1936).” “According to neurologist Rudolf Brun (1953), F.’s theory of the death instinct ‘contradicts all biological principles’

F.’s tortuous formulations on the death instinct can now securely be relegated to the dust bin of history”

Ernest Becker, 1973

The 2nd basic inconsistency to be rectified by F.’s death-instinct theory entails a clinical phenomenon known as the compulsion to repeat.”

A ETERNA GAMBIARRA QUE SÓ PIORA O MAL-FUNCIONAMENTO: “But regression without prior repressions would produce perversion, never neuroses. Once again, to explain the possibility of regressions-in-aim that are capable of inducing a psychoneurosis, [aqui está terminantemente claro: F. nunca entendeu o que é uma psiconeurose] F. had to assume that some unknown force is active in overcoming the counterinfluence of primal repressions.

In ‘13, F.’s colleague Ferenczi had independently dealt with the general evolution/involution paradox and successfully resolved it in a way that was to prove instrumental to F.’s own thinking. [se é que ele possui own thinking!]” E pelo que li na seqüência, Ferenczi teve de beber muito em Rank!

Some 20 years after Fechner’s (1873) publication of his 3 principles of stability, and some 20 years before F.’s Beyond (…), Cope (1896) proposed a fundamental biological dichotomy between Anagenetic (life) and Catagenetic (death-dissolution) forces.”

During later years, F. used the death instinct as an important rationale for explaining the therapeutic limits to psychoanalytic treatment.”

Of all of F.’ works, Beyond offers perhaps the closest conceptual ties to the unpublished Project for a Scientific Psychology, drafted a quarter of a century earlier. One is struck by the bold and frankly speculative vein of both works as well as by their common guiding principle – F.’s attempt to unite psychology with biology in resolving his most fundamental questions about human behavior.”

PART III: IDEOLOGY, MYTH AND HISTORY IN THE ORIGINS OF PSYCHOANALYSIS

12. FREUD AS CRYPTO-BIOLOGIST: THE POLITICS OF SCIENTIFIC INDEPENDENCE

Galileo, Dialogues Concerning Two New Sciences, trans. Henry Crew and Alfonso de Salvio, 1914.

Honton’s book (1969) on Einstein”

Historians and political ideologists may haggle over the young Marx as against the mature Marx, but at least these classical disputants have both sets of writings readily available to fuel their debates. See, e.g., Althusser, For Marx (1969).”

Biology is the antidiscipline of psychology, just as psychology is itself the antidiscipline of sociology and certain other social sciences.” Logo, Psicanálise (Cripto-Biologia) & Sociologia formam um belo casamento, que coisa linda!

The physicist seeks to reduce chemistry to the laws of physics, while the chemist hopes to reduce biology to chemistry, and so forth along the antidiscipline/discipline progression.”

Dismissing F.’s notion of sexual latency as an ‘impossible supposition’, Jung affirmed instead this doctrine’s opposite: that the usual beginning of sexual development coincides precisely with the onset of F.’s latency period (around the age of 6).” “Thus, like Janet and Adler, Jung now endorsed a theory of neurosis emphasizing current psychical conflicts, not childhood ones”

According to J.’s theoretical scheme, activation of the collective unconscious is achieved through psychical regressions during adulthood. Such regressions were thought to play a major role in mental disorders like schizophrenia.”

The defections of Jung and Adler soon drew other psychoanalytic enthusiasts away from the Freudian camp, including Stanley Hall”

Jones is undoubtedly a very interesting and worthy man, but he gives me a feeling of, I was almost going to say racial strangeness. He is a fanatic . . . He denies all heredity; to his mind even I am a reactionary. How, with your moderation, were you able to get on with him?” F. a J., hahaha!

Fritz Wittels later recalled of the movement’s earliest members how ‘they had hoped a psychoanalytic revolution would transmute the Victorian Era into a Golden Age!’

Freud’s Lamarckian propensities were much regretted by many of us” Ernst Kris

BLEACHING MACHINE: “In his biography of F., Jones later psychoanalyzed F.’s Lamarckian gullibility away attributing it to his having heard, as a young child, the Bible story in which God punishes the iniquity of the fathers in the children of successive generations.” HAHAHAHAA!

Throughout his productive life, F. found himself caught between the Scylla of critical opposition, which repeatedly accused him of excessive speculation, and the Charybdis of his unsolved psychobiological problems. As is often the case in science, he consequently sought to portray his discoveries as rooted in empiricism and, in so doing, emphasized his debt to his clinical materials and to the psychoanalytic method, not to theoretical (and often biological) inspirations.”

F.’s theories have consistently been reinterpreted, especially by an optimistic America, in a more purely environmentalist, and hence more psychological, vein than Freud ever intended.”

13. THE MYTH OF THE HERO IN THE PSYCHOANALYTIC MOVEMENT

Joseph Campbell, who has surveyed hundreds of examples of hero myths in The Hero with a Thousand Faces (1968), has described the archetypal hero in detail. Although Campbell does not discuss the F. case, his model of the classical hero’s life-path can fruitfully be applied to the Freud legend.”

The story of F.’s heroic self-analysis follows this last archetypal sub-pattern in many essential respects and may be compared with such equally heroic episodes as Aeneas’ descent into the underworld to learn his destiny or Moses’ leadership of the Hebrews during the Exodus from Egypt.”

F.’s self-analysis will one day take a place of eminence in the history of ideas, just as the fact that it took place at all will remain, possibly forever, a problem that is baffling to the psychologist” O ingênuo (gullible) Eissler em 1971!

Campbell, himself a Jung devotee, compares the journey of the archetypal hero to a temporary loss of ‘ego control’ upon entering the forbidding world of the personal unconscious”

Whatever else may have isolated F. in Vienna, it was not his scrutiny of sex. In a city where Sacher-Masoch, Krafft-Ebing and Weininger were read with nonchalance, F.’s pansexualism hardly shocked anyone”

Johnston, 1972

F.’s opponents saw him not so much as a ‘depraved revolutionary’ as they did a misguided reactionary who was harking back to the superstitions of the past. The psychiatrist Konrad Rieger (1896) was apparently the first to object to F.’s theories on such grounds. (…) R. concluded that F.’s attempt to unite hysteria with paranoia under the common rubric of sexual etiology threatened to destroy one of the most important distinctions in all of psychiatry. Such a confusion of etiologies, Rieger insisted, ‘can lead to nothing else but to a simply horrible old wives’ psychiatry.”

After reading The Interpretation, many reviewers judged certain of F.’s specific dream interpretations as arbitrary, unconvincing, and even far-fetched. (…) Once again F. seemed like a reactionary, not a revolutionary”

As late as 1905, Hermann Oppenheim called F.’s clinical work ‘original’, ‘significant’, and ‘ingenious’ before changing his tune on psychoanalysis a few years later.”

In remembering Ziehen only as an enemy of psychoanalysis, one leaves out almost 10 years of his professional career during which he occasionally practiced psychoanalysis himself, never condemned it, and reported its efficacy in certain situations.” Decker, 1971

Various medical authorities before F. had recognized the importance of sex as well as its aptitude to appear in childhood. But they had been careful to make their statements with moderation and to express them temperately, so that they might be accepted without arousing either enthusiasm or hostility. F.’s outspoken and even extravagant presentation of the subject, fortified by a literary skill which has not always been recognized, was, on the other hand, warmly welcomed by those who had never dared to reveal a secret sense of the importance of sexual phenomena, and, on the other hand, indignantly rejected by those who cherished all the ancient traditions of the mingled sacredness and obscenity of sex.” Ellis

Stanley Hall encountered much the same problem in America owing to his own unrestrained manner of writing about sex. ‘To realize the material presented in Adolescence (1904), one must combine his memories of medical text-books, erotic poetry and inspirational preaching’ (Edward Thorndike). Thorndike had nothing but praise, however, for the staid and dignified treatment of sexual life of the child by Moll (1909).”

The rise of psychoanalysis as a movement thus served to embroil the reception of F.’s ideas even further. Neuropathologists like Oppenheim, Ziehen, Weygandt, Eulenburg and others, who had originally held a respectful and even friendly attitude toward psychoanalysis, now felt compelled to take a negative public stance on it.”

In Wittgenstein’s Vienna, Janik and Toulmin (1973) have shown that Viennese society exerted a pervasive influence upon a whole generation of intellectuals, including both F. and the philosopher Ludwig Wittgenstein (1889-1951), who grew up in Vienna during the waning years of the Hapsburg Empire. From 1848, when Emperor Franz Josef began his 68-year rule of Austria-Hungary, the Hapsburg House governed from Vienna with a single guiding philosophy, which was that change, especially revolutionary change, was to be prevented at all costs.” “Unlimited patriarchal authority and typical Viennese bourgeois values came to reflect the Hapsburgs’ own fetish of stability.” “woman suffered most from this prevailing moral attitude; and hysteria and frigidity were often the psychological consequences.” “But whereas Jones later attributed F.’s hatred of Vienna to Viennese anti-Semitism and to the community’s hostile reception of his theories, F.’s feelings must actually be understood in a less personal vein.” “Karl Kraus, the witty satirist who attacked the Viennese underbelly with his periodical Die Fackel (The Torch); Arnold Schönberg, the composer and conductor; Ludwig Wittgenstein, the philosopher; and F. himself were all among those who resisted Viennese double-think and generally perceived themselves as morally and spiritually isolated from the society whose values they did not share.” “F. was never inhibited in his scientific research or in the publication of his results.”

The common assumption that F.’s promotion was opposed for anti-Semitic reasons is also not supported by the facts. Seven of the 10 nominees in F.’s original 1897 group appear to have been Jewish, while the Minister of Education, von Hartel, had himself publicly condemned anti-Semitism before the Austrian Parliament (Gicklhorn & Gicklhorn, 1960; Eissler, 1966).

What does appear relevant to F.’s 5-year delay is the issuing in early 1898 of a ‘secret’ ministerial decree, which was subsequently discovered in the Austrian state archives and published by the Gicklhorns. The decree in question had sought to reduce the number of promotions from Assistant to Extraordinary Professor, partly for financial reasons and partly because recent promotions had created an imbalance in the Medical Faculty between the numbers of Ordinary (or Full) Professors (then 25) and the number of Extraordinary (or Associate) Professors (37) eventually supposed to succeed them. For several years, appointments were held up by this decree until a compromise between the Ministry and the Medical Faculty was finally worked out.”

That F.’s controversial views on sexual etiology, added to his prior reputation as a fanatic who had defended dubious causes like Charcot and cocaine, might have annoyed someone with influence in the Ministry is certainly not implausible.”

F.’s attitude toward Schopenhauer and Nietzsche, whose philosophies so closely resemble the leading tenets of psychoanalysis, is particularly revealing in this regard. Like F., both philosophers described the unconscious and irrational sources of human behavior and stressed the self-deluding character of the intellect. But whereas Schopenhauer and F. considered sexuality as the most important instinct, Nietzsche emphasized the aggressive and self-destructive drives of man. Nie., however, preceded F. in the use of the terms sublimation and id (das Es) as well as in the idea that civilization is founded upon a renunciation of instinct.” “In point of fact, both Sch.’s and N.’s ideas were so widely discussed within late-XIX intellectual circles that F. could not possibly have escaped a reasonably general education in their doctrines (Ellenberger 1970).” “The members of this reading society [de que F. era membro] even corresponded with N., [!!!] telling him of their extreme devotion to his philosophy and vowing ‘to strive like you with the strongest will, selflessly and truthfully, for the realization of those ideals which you have presented in your writings – specifically, in your Schopenhauer as Educator (letter of 18-10-1877, cited by McGrath, 1967).”

the general conception of unconscious mental processes was conceivable . . . around 1700, topical around 1800, and fashionable around 1870-80.”

Whyte, 1960

[In his autobiography,] Moll also recalled the amusing story of how he once trained a psychoanalyst for public service. During the I World War, Moll had received a call from the German Colonial Office requesting that he prepare a certain intelligent soldier for immediate medical duty. After learning that he was to be given just 4 days to complete the man’s training, Moll decided the only medical discipline that could possibly be learned in such a brief period was psychoanalysis! Moll therefore asked the soldier if he possessed a good imagination, which the soldier claimed he did. The soldier was then instructed in a few technical terms, like conversion, repression, and the subsconscious, and introduced to a few key dream symbols. Throughout the allotted 4 days, Moll assiduously rehearsed his pupil, who afterward had to pass a special examination administered by Moll. According to Moll, his ‘psychoanalyst’ served the Fatherland in a commendable fashion, analyzing fellow soldiers for the duration of the war.

Years later, when Moll organized and, as a capstone to his career, was elected president of the First International Congress for Sexual Research in 1926, F. ordered a psychoanalytic boycott of the congress owing to Moll’s continued opposition to his theories. In spite of the boycott, the congress was an immense success, and a second one, this time attended by psychoanalysts, was held 4 years later in London.”

Freud was lapped in the myth of the hero . . . There can be little doubt that F. felt himself heroically predestined and convinced that it was up to him to eventuate this heroic destiny” Iago Galdston

F. was born with a caul [omento(*)], a circumstance that people over the centuries have taken as a portent of later fame.”

(*) substantivo

[Medicina] Epíploo; parte da membrana peritoneal que envolve os intestinos.

Nunca tinha ouvido falar nisso – nem na palavra ou circunstância que envolve “heróis de berço”!

F. aos 11 ou 12 anos estava comendo com sua família na rua… “when their attention was attracted by a man who, for a small fee, was improvising verse on any chosen subject. F. was sent to fetch the poet, who began by dedicating a few lines to his young emissary, declaring that the boy would grow up to be a cabinet minister. At that time the liberal Bürger (‘Middle-class’) Ministry included a number of Jews, whose names and portraits were all well known to Jewish schoolboys. F. was so impressed by this predicting that he decided to study law. Only at the last moment before entering the university did he change his career plans to medicine (1900a, Standard Edition).”

The entire family revolved around his well-being. To cite one amusing and representative anecdote, when Freud found that a sister’s piano practicing was disturbing his studies, both the piano lessons and the piano had to go (Anna Freud Bernays, 1940).”

The Fliess correspondence clearly documents the partially self-imposed nature of F.’s isolation, as well as Fl.’s role in it, in a letter of 16 April 1896: ‘Following your suggestion, I have started to isolate myself completely and find it easier to bear.’

Besides being predominantly Jewish, F.’s early followers were often ‘lonely and highly neurotic men’ (Weisz 1975). A surprising number eventually committed suicide (Stekel, Federn, Kahane, Tausk, Silberer, Honegger, Schrötter; and there were others).”

Jones saw himself in relation to F. as T.H. Huxley – ‘Darwin’s bulldog’ – had stood to the embattled Darwin a half century earlier.” “Veszy-Wagner, who was in close contact with Jones during his composition of the F. volumes, particularly noted his undiminished virulence toward all the old opponents of F. and psychoanalysis.” “he regarded the F. biography as part of his autobiography – so much so, that Jones post-poned writing his own autobiography (1959) in favor of the F. work even though he knew he might die, as he did, before completing them both.” Se fodeu!

In short, the myths of the hero and of F. as pure psychologist are the heart of the epistemological politics that have pervaded the entire psychoanalytic revolution.”

14. EPILOGUE AND CONCLUSION

Time and time again, F. saw in his patients what psychoanalytic theory led him to look for and then to interpret the way he did; and when the theory changed, so did the clinical findings.”

The opinion is gaining ground that doctrinaire psychoanalytic theory is the most stupendous intellectual confidence trick of the 20th-century: and a terminal product as well – something akin to a dinosaur or a zeppelin in the history of ideas, a vast structure of radically unsounded design and with no posterity”

Medawar, 1975

In Freudian language, sociobiology represents a dramatic ‘return of the repressed’.” Fica a dica para MANTER-SE LONGE DESSE RAMO!

We are accustomed to such myths, mystiques, and cults of personality in major social and political movements; but their manifestation in the objective world of science is more surprising.”

Mankind, it would seem, will not tolerate the critical assaults upon its heroes and the charitable reassessments of its villains that myth-less history requires. In many respects, then, F. will always remain a crypto-biologist”