“Odeia-se mais aquele que nos seduz de volta a percepções sobre as quais nos tornamos vitoriosos com extrema dificuldade” Nietzsche. A seguir, um pouco sobre mim.

Eu já fui um liberal de tipo PSDBista. Odeio liberais. Odeio os ‘social-democratas’ (falsa esquerda, quinta-coluna). Eu já fui um ateu militante (na pré-adolescência, é verdade). Odeio esses ateus mais cristãos que os cristãos (leia-se: mais anticristãos que os anticristãos!). Odeio quem ama a sociologia. Odeio os hedonistas. Odeio metaleiros. Odeio são-paulinos. Odeio otakus. Odeio “gamers”. Odeio os que levam o trabalho a sério demais e adoecem por isso. Adoro aqueles que sabem ser anti-monoteístas, stalinistas, maoístas, fidelistas, chavistas, putinistas, aqueles que sabem usar a sociologia como anti-sociologia, para o verdadeiro progresso da sociedade (no sentido oposto a Comte-Durkheim), aqueles que sabem ouvir heavy metal, assistir e falar de futebol, apreciar jogos de videogame e desenhos japoneses sem parecerem completos imbecis infantilizados e extremistas desnorteados. Com efeito, odeio hoje todo e qualquer colega dos tempos de escola (avatares de todas estas categorias reunidas). Eles não acompanham o ritmo da dança. A classe média insossa do DF, minha grande nêmese. Já fui o mais insosso dos sem-sal, hoje sou um tempero exótico da Índia.

O PARADOXO DA PEDRA NO RIO DE HERÁCLITO (mais um aforismo de Nietzsche)

“Não precisais temer o fluxo das coisas: esse rio flui de volta para dentro de si: ele não foge de si apenas duas vezes.

Todo ‘era’ há de ser novamente um ‘é’. Todo vindouro morde o pretérito no rabo.”

ANÁLISE

Ambigüidade na tradução: em duas ocasiões o rio cessa de fugir de si mesmo ou ele foge bem mais vezes (e por que dizer duas vezes neste caso?)? A fluência do rio é a angústia humana (encarado como aspecto negativo do Ser: ‘temer’). Fluir de volta para dentro de si é harmonizar-se, ainda que temporariamente no tempo (linguajar voluntariamente heideggeriano). É atingir a essência (o Ser) no próprio devir. Ora, que o rio sempre está a fugir é um lugar-comum. Ele foge infinitamente de si mesmo. O que Nietzsche é celebrado por haver ensinado pela primeira vez na modernidade (canção já antiga)? Que o rio retorna. O rio deságua todo em seu próprio olho d’água ou manancial depois de as águas terem submergido por um tempo no subterrâneo, até voltar ao transcurso habitual do leito (metáfora para vida, pois é na cama, lugar de repouso e paz, também do sono, vizinho da morte, que a vida é gerada). E retorna infinitas vezes; é só modo de dizer, é verdade. Mas para o indivíduo, para o filósofo, para o ser vivo: quantas vezes? Minha opção é pela primeira semântica da tradução. Se o rio pára de fluir e se reencontra Uno consigo duas vezes, só pode ser em dois momentos: no nascimento e na morte. Porém para nós não faz diferença: é uma vez, na interseção dos dois. Há angústia pelo fluir do rio, não pela morte (um rio não morre, o rio da eternidade nunca seca, a existência nunca deixa de existir, este é seu modo, o da insistência do ser). Tanto quanto não pode haver angústia por haver nascido (a não ser para psicanalistas, que deviam todos estar em manicômios), se esse é o total do ser, e ele nunca foi (um não-ser), por exemplo, pedra. E, supondo que tivesse sido, (não pode) ainda carregar a sabedoria de ser pedra (novo absurdo, meramente expressável porém inconcebível) dentro de si. Nem a pedra no leito do rio nem o homem, o rio, com efeito, têm por que angustiar-se, jamais. Ainda assim, o homem se angustia. É só uma constatação. A pedra mais desesperada do universo não sentiria o menor átimo de ansiedade. O homem no mais remoto dos Shangri-Las e nirvanas ainda sofreria, se angustiaria, bastante. É nosso modo de existir. Por que se angustiar “ao quadrado” com o fato de que a angústia é inevitável? Ainda poder-se-ia dizer que este é o modo de existir do homem, ou ao menos do filósofo! Mesmo que existisse a cura, não obstante, o homem a preteriria, pois preferiria continuar sendo homem.

DO MISTERIOSO AFORISMO TRAGICÔMICO PÓSTUMO DE NIETZSCHE: O MACACO DE SI MESMO

“Em torno do herói tudo se torna tragédia; em torno do semi-deus – tudo sátira”

Por muito tempo meditei sobre esse aforismo, que não tinha entendido quando li a primeira vez, em 2009. Podemos evocar a famosa frase de Marx para nos ajudar a explicar seu significado. Mas eu ainda diria mais:

a) nosso mundo não tem mais heróis, não tem mais o caráter heróico; tem, sim, a necessidade, antropológica mesmo, do homem superar o homem; antes que substituir o deus morto seja uma realidade, o grau máximo que pode ser descrito é uma figura, a do semi-deus. Ele é um Zaratustra que aprendeu a rir de si mesmo. Tragédias são coisa do passado. Não há lugar para Édipos na atualidade;

b) pode ser apenas um comentário psicológico, despido de qualquer historicidade, e por isso nem Marx pode ajudar: depende da seriedade do próprio personagem (leitor), e com que gravidade ele enxerga a própria biografia. Mas por que “semi-deus”? Num mundo em que deus está morto, ter sido herói, ser um sábio, já é estar semi-morto. Não vale muita coisa. Quem deixou de ser herói e com isso não se tornou um vilão (recorro a mais uma frase famosa, provavelmente apenas uma re-citação de autor antigo, mas que, ao contrário da sentença marxiana, é apenas uma falácia), não degenerou completamente… ainda tem o aspecto exterior de um bufão. E onde já se viu palhaço triste? Menos Pierrots, mais respeito ao nosso passado que nos trouxe aqui, mas nunca em excesso… Nunca se tornar prisioneiro dos nossos (bons) feitos… Nem temos saúde para bancar de novo os Dons Quixotes, ainda que isso fosse possível! Resta reconhecer que hoje somos diferentes, menos rijos, mas que não podemos e nem queremos apagar nosso passado, mais ou menos distante… Ele ainda mora em nós.

Exemplo pessoal: antes, que eu tivesse um pai tirano era questão de vida ou morte. Hoje, sobrevivente, independente, ainda psicologicamente afetado pela experiência, e com o tirano ainda vivo, tudo é muito cômico e risível. Como pode e pôde uma pedra tão enxuta num sapato tão largo (ou o sapato era firme e apertado, o que impedia o seixo de rolar e atrapalhar? Sim, bufões usam sapatões maiores que os próprios pés!) me causar tantos problemas num nível tão fundamental? Como pôde a mais inferior das criaturas se interpor entre mim e o sol? Mas nem era imperador – e daí que fosse? De todo jeito não lhe resta solução senão sair do caminho, nem que fosse para vir atrás de briga… E, com o tempo, toda(o) coroa… vira areia. Quanto mais tempo bloqueou minha luz solar montado em seus cavalos chamados Prepotência, mais queimou as costas (uma singela inversão de Dédalo, o pai sábio, e Ícaro, o filho imprudente). E pra quê, se tive meu banho caloroso do mesmo jeito? É verdade que ele, este pai, é o “macaco de Zaratustra”: gostaria de ser eu. Hoje é ele que me imita, sem saber o que ou como imita. Mas ele quer fazer o dono, o original, ficar bravo, perder a sombra (posto que à sombra não há sua sombra). E se a indignação for só uma máscara da gargalhada, e se o macaco é que está enfezado por dentro? Sim, sinto pânico, mas essa é a parte doentia da árvore genealógica, o orgânico que atingiu seu limite. Até ele, porém, é uma atuação, em último grau. É sempre material para ressurgir.

Toda podridão pode ser cinzas para uma fênix. E macaco não é fênix. O ruim de dar azo pra macaco é que é um bicho muito folgado, por isso, mesmo descontraídos, precisamos manter meia-distância. Quem é mais triste? O macaco ignorado ou o macaco perseguido (letalmente perseguido)? O esgar dos dois por debaixo da máscara deve ser o mesmo. Talvez o macaco seja, então, nosso espelho? Com ele é o inverso, ele viveu a paródia e agora tudo termina em tragédia? Macaco com capa. Macaco capado. Bucéfalo empacado diante de Diógenes.

O sentido final da hipótese b), portanto, é que devemos vencer nosso próprio macaco, o macaco de Zaratustra, etapa e desafio obrigatórios a fim de avançarmos enquanto projetos conscientes de sermos além-homens. E esse passo exige encarar o humor com seriedade e leveza, não amargura; e desafiar a tragédia que ameaça nos aniquilar como se ríssemos de uma boa piada.

TRÊS FRAGMENTOS DE JOSÉ SARAMAGO

“teólogos afirmam, embora não por estas exatas palavras, que a maior dificuldade para chegar a viver razoavelmente no inferno é o cheiro que lá há”

“quando é que é necessário matar? Quando já está morto o que ainda é vivo”

“Os vossos soldados devem ter sido dos últimos a cegar, toda a gente está cega. Toda a gente, a cidade toda, o país.”

[REPRISE] #TRANSCENDER17 HEIDEGGER’S HEGEL’S PHENOMENOLOGY OF SPIRIT

Originalmente de agosto de 2009. Comentários atuais em azul.

A construção do sistema hegeliano – primeiramente, o autor necessitou recorrer ao fenômeno para dar suporte à continuidade de sua filosofia central (a Ciência e limites do conhecimento). Postumamente, deprecia o acontecimento e o relega a sub-seções em uma nova versão do sistema, doravante guiado pelo Espírito e pela Lógica (lógica hegeliano-dialética, de verniz aristotélico, em contraposição a Platão, ou, como preferir, “englobando-o”). O universo só pode surgir do Absoluto, mas é o material e explícito responsável por legitimá-lo como tal – o Universo é como o paradigma ególatra do homem que para fazer-se precisa ser reconhecido pelos outros. Nisso estaria o mistério do universo de se auto-desvelar “fingindo” ser outro para contemplar-se a si mesmo. Eu sou deus. Eu encerro o absoluto em meu caráter fugidio. Não devo me voltar para o universo em busca da Verdade: se ele sou eu, ela reside em mim, em meu devir. Aliás, ela o é. (Isso é exatamente o que Sartre dirá na introdução de sua Magnum opus.)

O problema do “saber absoluto” em Hegel e a constatação de que o Ser e a Verdade são quadros atemporais, desejo de fim e de morte, está no limite lógico do Ocidente e naturalmente antecede o devir nietzscheano. Hegel é o último grande herdeiro de Platão. (20-06-2023 Discordo desse ponto de vista. Já havia editado acima: Onde se lê “(lógica hegeliano-dialética, de verniz aristotélico, em contraposição a Platão, ou, como preferir, ‘englobando-o’)”, em 2009 se lia “lógica hegeliano-dialética, em oposição a Platão e Aristóteles, ou, como preferir, ‘compreendendo’ os dois)”. Catorze anos de leitura em filosofia mudaram minha exegese de Hegel. E não só de Hegel: Platão e Aristóteles são inconciliáveis.)

O século XX oferece um panorama engraçado: Camus insinua que o problema central da Filosofia deve ser “julgar se se deve viver”. Já Heidegger insinua que a grande questão é “o que é o ser”. Uma Filosofia da Morte que quer a vida e uma Filosofia do ser que deseja a morte! (20-06-2023 Leviano de minha parte tendo lido Heidegger muito pouco tipificá-lo assim com tamanha segurança.)

É banal discutir se a Filosofia é ou não Ciência. Ela existe meta-isso, além. Trata dos problemas da existência. Nietzsche é tachado de anti-filósofo por ser “Imoralista” e romper com os clássicos (na aparência). Sem embargo, seu trabalho sem dúvida é Filosofia Clássica. Talvez o problema seja a atual condição precária da disciplina…

O conhecimento absoluto é um espelho que quer ser olhado. Quem pode olhar? O discurso, o relativo, a própria “soma rumo ao supremo”. A História seria o movimento de auto-descoberta culminando na satisfação plenipotente do espírito. Para mim, tanto faz (volta ao primeiro tópico).

A consciência progride, por experiência, até a auto-consciência (20-06-2023 Esclarecimento: já há necessariamente auto-consciência na consciência – em Hegel –, que é consciência-de, e consciência-de-si, mas a didática exige uma exposição em etapas, gradual); esta por sua vez aspira imperfeitamente ao absoluto (os existencialistas apontariam um erro grosseiro aqui: não existe consciência que não seja consciência-de-si – como dito nos parênteses anteriores o eu de 2009 foi precipitado em não reconhecer que já havia a resposta a essa crítica dos existencialistas já em Hegel) dizendo-se isso mesmo (que é relativa, sabendo, pois, do que sabe)/ é um movimento de “absolvição”, de chegada ao espírito, o absoluto. O fenômeno é o espírito materializado. (20-06-2023 O espírito é o fenômeno teorizado.)

“A aparência formal pura do absoluto é a contradição”

“A fenomenologia do espírito é o genuíno e total aparecimento do espírito”

(Hegel e Heidegger são o Pai e o Filho: o Espírito Santo são os problemas para se fazerem entender; escrita embotada.) (20-06-2023 – haha!)

Os três primeiros capítulos são dedicados a esclarecer o jogo de linguagem por trás do título original da publicação mais conhecida de Hegel, Ciência da Fenomenologia do Espírito.

“O conhecimento absoluto é conhecimento e vontade ao mesmo tempo”

Atenção: as fenomenologias hegeliana e husserliana não batem. Apesar de todos os elogios e louvores de Heidegger a Hursserl, seu mestre, em Ser e Tempo. (Husserl é considerado uma “escola à parte” por Sartre, e assim deve ser lido.)

Hegel não deve ser interpretado, aqui, como um introdutor à filosofia: seu livro busca o “oposto” (uma escatologia filosófica), se pudéssemos assinalar de modo extremo, uma vez que lida de forma definitiva com o problema ocidental da possibilidade do conhecimento (uma potente auto-apresentação da senhora Razão – ele é o filósofo que pergunta já possuindo as respostas), inscrevendo-se no cume do Idealismo Alemão (curioso Heidegger tipificá-lo após criticar rótulos).

É, complementarmente, a espiral derradeira da escola racional, duramente golpeada, na seqüência pelo materialismo histórico e pelo irracionalismo nietzscheano.

“Em Filosofia, inexistem predecessores ou sucessores de um trabalho¹ (…) todo verdadeiro filósofo é contemporâneo dos outros filósofos”

¹ Talvez a frase mais conhecida de Heidegger.

Frase famosa e funesta. Quer dizer que Hegel nem mestre alternativo algum envelhece, e que sua doutrina é só uma doutrina. Uma vida que não se chama Georg Friedrich Hegel precisa de mais que uma doutrina.

Enxergo necessariamente o devir (20-06-2023 Quis dizer: filosofia do futuro) quando leio as intenções de Hegel (“o fim é o começo”).

Eu sou o Evangelho! “Deus” é a própria vontade do todo que em seus frangalhos se define, assim como a ausência de deus. Deus é e não é. Ou sou eu ou sou deus. Sou eu. Deus perde a relevância. Ou eu sou Deus. SINTO, LOGO EXISTO. EXISTO, LOGO SOU DEUS.

WEBER – Fragmento e comentários

Baseado em anotações de 11 de agosto de 2019.

1. A OBJETIVIDADE DO CONHECIMENTO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS

O historiador moderno de espírito relativista sente a necessidade de obter os padrões dos seus juízos a partir da ‘própria matéria’ do seu estudo. [método científico auto-justificador] E o atrativo estético desse procedimento constantemente o incita a esquecer a linha que separa o ‘tipo ideal’ [instrumento simplificador que se sabe simplificador] e o ‘ideal’, [descrição não-fidedigna], donde esta situação intermediária que, por um lado, não pode reprimir o juízo de valor, e que por outro tende a declinar a responsabilidade dos seus juízos.” O fazer-ciência pós-moderno: acredita-se no que se quer; referenda-se o subjetivismo descontrolado do pesquisador. No fundo é apenas uma questão de tato: ou se o tem ou não se o tem.

O tipo-ideal foi cunhado como solução empírica para o problema do relativismo de todo discurso e de todo conceito. Porém não consegue escapar do estatuto do metafísico. O fazer-sociológico, mesmo o compreensivo, é Metafísica. Marx empreendeu a dialética trágica, o super-empirismo, o principal rival da escola compreensiva. Hoje podemos afirmar: os tipos-ideais são mais perecíveis que as leis econômicas d’O Capital.

2. AS CAUSAS SOCIAIS DO DECLÍNIO DA CULTURA ANTIGA

A inadmissibilidade moderna da escravocracia.

A idade média como transição entre a comunhão mágica e a degenerescência (individualização, liberalização).

O dilema do Império Romano: impasse entre recrutamento para o exército ou serviço remunerado no campo. O Estado precisava de dinheiro para custeio do exército e no campo o pagamento era diretamente em bens. Ou havia falta de comida, ou havia deficiência de segurança nas fronteiras. Então os bárbaros começam a ser contratados – as forças militares se tornam milícias. O comércio decai. Buraco-negro desmantelador: Roma como grande fisco não se pagava, ao mesmo tempo que empobrecia a periferia. Incapaz de gerar riqueza.

O KATHA UPANISHAD E SUA ANTECIPAÇÃO DAS ÚLTIMAS CONSEQÜÊNCIAS DA FILOSOFIA OCIDENTAL

Este é um estudo que intenta a interpretação do livro Katha, um Upanishad (livro sagrado hindu), por meio da Filosofia Ocidental. As conclusões a que chego são que o Katha Upanishad corrobora os achados dos principais filósofos de nossa própria cultura, ou, antes, dado que o Katha é mais antigo que as contribuições de Platão e de todos os seus sucessores, são os achados da Metafísica Continental ou Primeira Filosofia que corroboram estes trechos da religião-filosofia oriental do Hinduísmo como autênticos e acertados (documentos que chegam ao que convencionamos como a Verdade em sentido filosófico). Não defendo, com essa tese, que Platão e os demais em seu conjunto foram influenciados pelo Katha; ao contrário: em geral, nossos autores chegaram às mesmas conclusões, porém de forma autônoma e independente, o que fortaleceria minha interpretação deste livro sagrado. Em verdade, apenas os últimos filósofos importantes a se considerar puderam ler os Upanishads, como Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche e Heidegger. Antes do século XIX nenhum filósofo de monta havia tido acesso a boas traduções destes livros, bem como o conhecimento do Ocidente sobre o hinduísmo era meramente fragmentário. Foram utilizadas citações do Katha na tradução inglesa de Patrick Olivelle, orientalista contemporâneo (os textos hindus estão sempre em itálico).

“So he asked his father: ‘Father, to whom will you give me?’ He repeated it for a second time, and again for a third time. His father yelled at him: ‘I’ll give you to Death!’”


“A mortal man ripens like grain,

And like grain he is born again.”


“You, O Death are studying,

the fire altar that leads to heaven;

Explain that to me, a man who has faith;

People who are in heaven enjoy the immortal state—

It is this I choose with my second wish.”


 

“(Death)

I shall explain to you—

and heed this teaching of mine, O Naciketas,

you who understands the fire altar that leads

to heaven, to the attainment of an endless world,

and is its very foundation.

Know that it lies hidden, in the Cave of the heart.”


(Death)

“Choose your third wish, O Naciketas.

(Naciketas)

There is this doubt about a man who is dead.

‘He exists,’ say some, others, ‘He exists not.’

I want to know this, so please teach me.

This is the third of my wishes.

*

(Death)

As to this even the gods of old had doubts,

for it’s hard to understand, it’s a subtle doctrine.

Make, Naciketas, another wish.

Do not press me! Release me from this.

*

(Naciketas)

As to this, we’re told, even the gods had doubts,

and you say, O Death, it’s hard to understand.

But another like you I can’t find to explain it;

and there is no other wish that is equal to it.

*

(Death)

Choose sons and grandsons who’d live a hundred years!

Plenty of livestock and elephants, horses and gold!

Choose as your domain a wide expanse of earth!

And you yourself live as many autumns as you wish!”


Resposta fraca da Morte nesta alegoria, evidentemente não comprada pelo filósofo e crente (aprendiz dos Vedas e Upanishads) Naciketas. Mas a Morte (pense em Mefistófeles aqui) não desiste:


“And if you would think this an equal wish—

You may choose wealth together with a long life;

Achieve prominence, Naciketas, in this wide world;

And I will make you enjoy your desires at will.

*

You may ask freely for all those desires,

hard to obtain in this mortal world;

Look at these lovely girls, with chariots and lutes,

girls of this sort are unobtainable by men—

I’ll give them to you; you’ll have them wait on you;

But about death don’t ask me, Naciketas.”


Outrossim, a sedução do diabo no deserto (Novo Testamento).


“(Naciketas)

Since the passing days of a mortal, O Death,

sap here the energy of all the senses;

And even a full life is but a trifle;

So keep your horses, your songs and dances!

*

With wealth you cannot make a man content;

Will we get to keep wealth, when we have seen you?

And we get to live only as long as you allow!

So, this alone is the wish that I’d like to choose.

*

What mortal man with insight,

who has met those that do not die or grow old,¹

himself growing old in this wretched and lowly place,

looking at its beauties, its pleasures and joys,

would delight in a long life?”

¹ Seria uma interessante parábola, se existissem tais deuses ou vampiros! Ou, conforme veremos adiante, Naciketas fala dos sábios, em sentido puramente alegórico.


 

“The point on which they have great doubts—

what happens at that great transit—

tell me that, O Death!

This is my wish, probing the mystery deep,

Naciketas wishes for nothing

other than that.”


“(Death)

The good is one thing, the gratifying [prazeres] is another;

their goals are different, both bind a man.

Good things await him who picks the good;

By choosing the gratifying, one misses one’s goal.

*

Both the good and the gratifying

present themselves to a man;

The wise assess them, note their difference;

And choose the good over the gratifying;

But the fool chooses the gratifying

rather than what is beneficial.

*

This disk of gold, where many a man founders,

You have not accepted as a thing of wealth.

*

Far apart and widely different are these two:

Ignorance [prazer] and what’s known as knowledge. [o bem]

I take Naciketas as one yearning for knowledge;

The many desires do not confound you.

*

Wallowing in ignorance, but calling themselves wise,

Thinking themselves learned the fools go around,

staggering about like a group of blind men,

led by a blind man who is himself blind. [um homem cego é mesmo cego!]

*

This transit lies hidden from a careless fool,

who is deluded by the delusion of wealth.

Thinking ‘This is the world; there is no other’,

he falls into my power again and again.”

Creio que ninguém ainda entendeu o verdadeiro sentido do texto. Em vermelho: o hedonista ou materialista pensa “não há outro mundo, só este, carpe diem, etc.”. Mas é só este quem morre. O outro mundo é neste mundo mesmo, invisível, habitado somente pelos sábios. Eles nunca morrem. Apud Sócrates-Platão-…


“Many do not get to hear of that transit;

and even when they hear,

many don’t comprehend it.

Rare is the man who teaches it,

Lucky is the man who grasps it;

Rare is the man who knows it,

Lucky is the man who is taught it.”

Mais más concepções: não se ouve a verdade muito amiúde; quando se a escuta, se a ignora como se ela nunca fôra proferida. Isto é Zaratustra livro I, cena da praça e do mercado. Não é raro o homem que ensina a sabedoria: tantos quantos são estes professores (os sábios, a.k.a. virtuosos), uma vez na vida eles acreditam poder ensinar – esse é seu erro; a virtude não pode ser ensinada. Portanto, só quem sábio se torna, sábio já era. Torna-te aquilo que tu és. Raro é o homem assim constituído. Sortudo é quem nasceu nessa condição, pois só assim “lhe foi ensinado” o conteúdo: por si mesmo.


“Though one may think a lot, it is difficult to grasp,

when it is taught by an inferior man.

Yet one cannot gain access to it,

unless someone teaches it.

For it is smaller than the size of the atom,

a thing beyond the realm of reason.”

Não existe o guru. Quantas vezes ter-se-á de dizê-lo? Quantos murros em ponta de faca? O final, porém, é adequado: a vontade ou Idéia é menor que qualquer pedaço de matéria, o que o século XX chama de partículas sub-atômicas fundamentais. Não é deste mundo, é do outro mundo vivenciado neste mundo pelos privilegiados de nascença (se há algo do mito brâmane que sobrevive é esse fatalismo: ou se nasce sábio e bom, ou se nasce ignorante e mau). E é vontade ou Idéia, esses nomes “estranhos”, embora familiares no léxico (mas quase nunca sabem seu significado!), porque não é razão, está além da razão. Quem disse que o sábio o é em virtude da razão?! Quem disse que a Idéia de Platão ou a virtude são alcançadas pela inteligência? Somente pelo instinto, pela inclinação natural em vê-las e senti-las, em sê-las (com isso que chamam de Brahma).


“One can’t grasp this notion by argumentation;¹

Yet it’s easy to grasp when taught by another

You’re truly steadfast dear boy,

you have grasped it!

Would that we have, Naciketas,

One like you to question us.”²

¹ A dialética esvaziada de um Aristóteles, o Racional.

² O outro é sempre si mesmo, sempre a ressalva em relação aos textos sagrados hindus, que ainda não tinham a consciência da origem da sabedoria, talvez a única vantagem oferecida pela filosofia ocidental sobre o maior trabalho, a maior sabedoria, embora inconsciente, trazida pelo Oriente, e que hibernou por tanto tempo, entre nós e até eles próprios, os professores do Veda! Us também não existe. Quem formula as perguntas e também as respostas naquele que não pode ser igualado (Platão)? Ele mesmo. A Morte neste Upanishad não é uma fraude, um espírito trickster, mas, pelo contrário, o alter ego de Naciketas: este é um diálogo, a maiêutica do sábio. Quem preside é ele mesmo, mediante suas reminiscências. Outra frase célebre: Dai a César o que é de César, significa: dai a este mundo o que quer este mundo: a humildade, a labuta, um mal-disfarçado senso de superioridade (porque os tolos, em sua maior parte, crêem na sua modéstia e na sua inferioridade, não se pode usar a sabedoria para angariar vantagens no jogo temporal). Assim quitais vossas dívidas com eles. Nosso eterno sofrimento, a eterna convivência com os eternos anões. O preço de nosso paraíso, no outro mundo que é aqui, sem testemunhas senão nossos poucos iguais. Jesus Cristo, o incompreendido. Ao mesmo tempo que não iniciou, o Juízo já terminou e está acontecendo. Acontece. Todo ele é a existência. A existência é uma criação escatológica.


“What you call a treasure, I know to be transient;”

tesouro transcendental


“Therefore I have built the fire altar of Naciketas,

and by things eternal I have gained the eternal.”

Jogando minha alma na aposta eu consegui meu objetivo: a eternidade. O outro mundo neste mundo. O presente do presente, o único tempo real. A única felicidade tangível. Sem necessidade de nenhuma providência; pois já estava lá, sempre esteve.


“[Já não importa quem fala, é o Um e o Mesmo]

The primeval one who is hard to perceive,

wrapped in mystery hidden in the cave,¹

residing within the impenetrable depth

Regarding him as god,² an insight

gained by inner contemplation,³

both sorrow and joy the wise abandon.”4

¹ E quem é que começa a vida preso à caverna, no mito (ou inclusive na historiografia “séria” – como se o mito não o fosse –: homem das cavernas)? O homem. Não é que o homem busque o sol que é a Iluminação ou instrumento necessário para iluminar aquilo que não se vê. Ou em outras palavras: aquilo que não se vê a descoberto é a si mesmo. O homem não se sabe homem, não sabe o que é, precisa do sol para entender que é o que tanto procurava. O mistério da vida é o mistério do homem diante do espelho. O eu, o maior enigma. O mundo dos homens, normalmente entendido como tão despido de significado quanto “o mundo de um deus desconhecido”, ou “de um deus que morreu”. O Mito da Caverna inverte a mitologia grega em geral: não estamos destinados a nos tornar sombras, mas somos sombras que eventualmente se incorporam e ganham volume, densidade, matéria, substância, cor, tangibilidade, vida.

² Na minha interpretação é o exato oposto: sem a companhia de ninguém, e deixado à própria sorte no fundo da caverna, em sua cela do Ser, o homem não pode atingir a hubris nem a auto-afirmação: divino é o estado mais difícil. o Um sem o Outro é prosaico.

³ Isso só pode ser exato depois da própria jornada, da odisséia, do retorno diferente ao mesmo lugar do princípio.

4 Como resultado inevitável da viagem exitosa. Quem tem o presente seria por definição feliz, como quer o hindu. Porém, em face do conhecimento da eternidade neste mundo (o outro mundo), sensações transitórias perdem o significado: o que é tristeza, o que é alegria sem contraste ou interrupção, sem-fim? Nada.


 

“When a mortal has heard it, understood it;

when he has drawn it out;

and grasped this subtle point of doctrine,

he rejoices, for he has found

something in which he could rejoice.

To him I consider my house

to be open, Naciketas.”

A liberação é saber que fora de todo o possível, fora do eterno presente, só fora, e só para quem está consciente do presente, no impossível (pois não existe esse fora), finalmente é concedido o direito de morrer. Não há transição. Só há transição na eternidade do presente e da ação. Mas o que é bênção para nós é maldição para quem tem medo da morte ou esperança eterna num outro mundo que não seja deste mundo. Eles já vivem neste outro mundo que desejam: eles são objetos, não são homens. O tempo corre para eles. Estão condenados a jamais morrer, porque para eles a vida é uma morte contínua.

Veja que o próprio compilador, ou tradutor, está confuso quanto à identidade de quem fala (como eu disse, não importa, é a mesma pessoa!):

“Seeking which people live student lives”

 

Buscando quais pessoas vivem vidas de estudante. O estudante dos Vedas é a figura perfeita dos Vedas. Não só dos Vedas: da existência mesma, das Idéias de Platão e da vontade de Nietzsche. O professor dos Vedas é só um artifício didático: ele é outro estudante, o daimon guia do bom caminho. Nunca cessamos de aprender, e de nos tornar mais sábios, mas não existe a Idéia do sábio: a idéia, a busca da sabedoria. A imagem perfeita. Tão perfeita que poderíamos nos perguntar se essa imagem não é a Idéia mesma. A imagem é a Idéia sobre a Idéia. A Idéia é a imagem da Idéia. A Idéia voltada para si mesma, a Idéia ao espelho. A sabedoria socrática. Esse é o infinito, pois não termina ou conclui, e é ao mesmo tempo um estado em perpétuo movimento. Um estado não-estado. Um movimento não-movimentado. A imagem das imagens.

 

A vontade, palavra do século XIX para o mesmo: deliberações sobre as entrelinhas de Platão, o contínuo debate da Idéia. Não menos perfeito que a Idéia, por não ser exatamente uma poesia da maiêutica (e quem disse que os aforismos não o são?), pois pressupõe a Idéia, já que não é debate estático. E é ao mesmo tempo estanque, porque não evadiu o bom caminho da Idéia. O invisível vivido pelo estudante (mestre).

 

OM é tudo, é vontade e é Idéia. Vibração contínua. Sempre há um ponto cego para o sábio, mas é ele que indica o bom caminho. Há sempre um mistério residual. Dádiva negativa do presente. Tê-lo em forma viva e depois querer tê-lo no mundo material para auferir vantagens é o mesmo que dele abdicar, cair na tentação sensualista da Morte na proposta ao estudante, do diabo a Jesus no deserto, da glória mundana. Uma confirmação empírica da Idéia desvaneceria a Idéia, descaracterizando seu ar incomunicável, indemonstrável, autorreferente e exclusivista, entrada para poucos e seletos. Ouvem-se as palavras Idéia, vontade e OM, mas, como disse a Morte acima, os habitantes deste mundo que esperam o outro mundo, sem saber que ele é este mesmo, não escutam. Escutam as palavras, mas não as compreendem. E escutar é compreender desde que o homem é homem. Escutar a mais bela melodia e não entender sua beleza? Quem não riria dessa “sabedoria” e deste pragmatismo dos tolos? Num mundo em que existem bem e mal, quem se dá bem, se dá mal. Assim poderíamos traduzir as palavras mais próximas a nosso tempo “muito além do bem e do mal”: o bem vigente não é o bem de Platão. Daí a razão da reviravolta que não é reviravolta (filosofia extrema de combate ao niilismo): contorceram tanto as palavras que já é necessário desfazer mal-entendidos a fim de se afirmar a mesma coisa de dois milênios atrás. O que já foi OM, e o que hoje não é entendido pelos exegetas hindus do OM, voltará a ser o mesmo OM originário, etc. Credo quia absurdum est?


“When, indeed, one knows this syllable,

He obtains his every wish.”

Sorte que nós não somos muito exigentes, e não pedimos desejos absurdos (com o perdão do trocadilho com o final do texto acima). Para nós tudo é possível, mas nem tudo é permitido (por nós mesmos), se pudermos incluir Dostoievsky na conversa, porque somos virtuosos e nossos desejos nada têm a ver com as fábulas dos adoentados morais, os sequiosos do outro mundo, materialistas incuráveis, a imaginar gênios que lhes concedam todo tipo de coisa inesgotável neste mundo; quando este mundo mesmo é esgotável (pelo menos para eles, pela forma como eles esperam saciar sua sede neste mundo, ainda contando com um outro!), que desejo logo não daria sede-de-mais aos pedintes? Esses mendicantes querem ganhar na mega-sena; os poucos que logram continuam sendo mendicantes, não há escapatória.


“And when one knows this support,

he rejoices in Brahman’s world.”

Brahman’s world = Brahman’s word

Outro mundo = Idéia, vontade, OM, presente eterno, vida do sábio


“The wise one—

he is not born, he does not die;

he has not come from anywhere;

He is the unborn and eternal, primeval and everlasting.

And he is not killed, when the body is killed.

(The dialogue between Naciketas and Death appears to end here.)”

Com minha ajuda, vocês certamente perceberam, o único mistério que subjaz é salutar para a compreensão do texto (o ponto cego do sábio). Então, modestia à parte, não haveria nem mais que dizer – hora perfeita para encerrar o trabalho de parto (maiêutica do sábio). O Katha Upanishad não encerra aqui, porém; a narração objetiva, fora de qualquer diálogo, dá continuidade aos ensinamentos.


“If the killer thinks that he kills;

If the killed thinks that he is killed;

Both of them fail to understand.

He neither kills, nor is he killed.”

Caim não matou ninguém, apenas passou por tolo! Abel vive ainda. A natureza se feriu. Mas a natureza é imortal.


“Finer than the finest, larger than the largest,

is the self (Ātman)¹ that lies here hidden

in the heart of a living being.

Without desires and free from sorrow,

a man perceives by the creator’s grace

the grandeur of the self.”

¹ Provável etimologia de nossa palavra “alma”.


“Sitting down, he roams afar.

Lying down, he goes everywhere.¹

The god ceaselessly exulting—

Who, besides me, is able to know?”

¹ Uma das características do homem pós-moderno esvaziado de sentido é viajar (territorialmente falando mesmo) sempre que pode. À procura de algo que nunca encontra. Sempre em movimento – mas ironicamente sempre estagnado no mesmo lugar – tentando fugir inadequadamente de sua sombra. A viagem talvez seja uma característica indispensável do ser humano. Mas é possível atingir a Idéia, ou o presente eterno, nunca saindo de sua província, como é possível errar como o judeu amaldiçoado sem qualquer conseqüência. Ulisses seria um bom exemplo daquele que viaja e sai do lugar ao mesmo tempo. O turista do capitalismo tardio, no entanto, apenas repete tudo que sabe fazer enquanto erradicado na província, necessitando, não obstante, de novas vistas na janela e de uma gorda fatura no cartão de crédito – suas provas empíricas de que ele viveu. Que bebeu a mesma Heineken vendida em sua vizinhança além-mar…


“When he perceives this immense, all-pervading self,

as bodiless within bodies,

as stable within unstable beings—

A wise man ceases to grieve.

*

This self cannot be grasped,

by teachings or by intelligence,

or even by great learning.

Only the man he [the self] chooses can grasp him,

Whose body this self chooses as his own.”

Aqui, estranhamente, cai a exigência de um guru, de um mestre para o estudante do Veda, e a auto-eleição fatídica que comentei acima fica sancionada.


“Not a man who has not quit his evil ways;

Nor a man who is not calm or composed;

Nor even a man who is without a tranquil mind;

Could ever secure it by his mere wit.”

Nenhum religioso com segundas intenções. A “frieza” do sábio não é a frieza do erudito, tão reparada e criticada em nossos tempos. O sábio não é um erudito. Erudito é o filisteu da cultura de massas. Sócrates é o anti-filisteu clássico. A frieza do sábio não é a incapacidade de se comover, mas a impassibilidade com que entende a inevitabilidade do funcionamento do princípio da Teoria das Idéias, da Vontade de Potência, do Om. Queira ele ou não, queira seu ego ou não, estas são Verdades que ele compreende como verdadeiras, e por isso as aceita (com impassibilidade, sinônimo circunstancial de frieza). Doravante, este é o “eleito”, de mente tranqüila, calmo e composto. Não levemos essa exigência longe demais: quem duvida que um Sócrates apaixonado por Alcibíades, que um Nietzsche compondo os livros mais destrutivos da cultura filistéia, não cumprem o requisito desta compostura exigida? Um homem calmo não vive em fúria, mas pode demonstrar fúria – caso contrário não seria um homem que os hindus estariam procurando, mas um embotado qualquer, já incapaz da ira.

A conhecida mente fervilhante do artista tampouco é uma vedação: suscetível às mudanças no mundo e crente nesta vida (e não somente em outra) ele sabe se isolar em seu próprio espaço, concentrado (o outro mundo neste mundo), onde não tem igual (Rafaello Sanzio, Miquelângelo, etc.). Acima de tudo ele pode contemplar sua situação no mundo com a mesma objetividade de um deus, de um filósofo (como dito acima) e de alguém que está desinteressado de lucros mundanos (o que os demasiado espertos são incapazes de compreender – “se eu tivesse seu talento, eu faria acontecer, eu seria muito maior, estaria no topo do mundo” – se um pequeno ou medíocre tivesse o talento do talentoso, ele não “faria acontecer”, porque então ele não seria apenas um esperto sem sabedoria e não pensaria como pensa o sem-talentos).


“For whom the Brahmin and the Kshatriya

are both like a dish of boiled rice;

and death is like the sprinkled sauce;

Who truly knows where he is?”

Quem senão essa super-alma qualificada, este que incorporou Brahman, para ver até mesmo a casta superior indiana como um mero equivalente inanimado da classe dos guerreiros que não estudam os Vedas? A morte é um fenômeno como outro qualquer, um tempero que aumenta o gosto da comida. E quem anseia pelo outro mundo, o que quer com isso? Quer escapar da morte como quem desmaia e acorda bem-tratado pelos outros, anestesiado, fugido das pesadas implicações. Isso pelo menos quando ele está anormalmente convicto do outro mundo. Na maioria do tempo essas pessoas sentem a própria insignificância e banalidade, e tremem diante da simples palavra morte, como que pressentem que estão erradas e falam da boca para fora.


“They call these two ‘Shadow’ and ‘Light’,

The two who have entered—

the one into the cave of the heart,

the other into the highest region beyond,

both drinking the truth

in the world of rites rightly performed.”

A semelhança com o Mito da Caverna ou princípios como os recitados no mazdeísmo são óbvios.


“the imperishable, the highest Brahman,

the farthest shore

for those who wish to cross the danger.”

Decerto “as margens mais afastadas” não são um batismo ritual indiferente e vazio, “feito por fazer”, “herança dos costumes dos pais”, incompreendido em “seus mistérios”, realizado mais por medo que por qualquer outro sentimento, extremas unções, confissões e idas semanais à igreja, “para não ir para o inferno”. Não, essa odisséia não é para almas covardes que recorrem a atalhos inofensivos gravados nas pedras! Quem pode nos dizer, num país cristão, que já não estava impregnado de todas essas ridicularias desde que se entendeu por indivíduo? Porque, claro, podiam significar nada, mas há sempre um parente ou conhecido para dizer: “Antes de tal coisa, fazer 3 ave-marias e rezar 10 pais-nossos, se não funciona, ao menos não prejudica”. E assim assimilamos costumes que não podemos chamar de imbecis, porque só consideramos imbecil aquilo que podemos compreender, para avaliar; isso é menos que imbecil, é apenas um mistério herdado, automático, parte de nosso “arrumar a cama – escovar os dentes – etc.”. Não se pode jogar essas coisas fora sem substituí-las por algo melhor, dir-se-ia. O algo melhor é a verdade do conhecimento sagrado inconsciente hindu, que finalmente se tornou acessível a nós após séculos de filosofia ocidental. Não que possamos encarnar em qualquer outro a função de guru; o ritual de ascensão do ignoto herdado ao autoesclarecimento é sempre individualmente doloroso. Por isso os materialistas (hedonistas que se dizem espiritualistas!), seguros do outro mundo, são incapazes de efetuar essa transmutação.


“Know the self as a rider in a chariot,

and the body, as simply the chariot.

Know the intellect as the charioteer,

and the mind, as simply the reins.”

Uma imensa sabedoria condensada e destilada em 4 versos. Seria incapaz de enumerar a série de referências que enxergo em nosso saber ocidental ao ler somente as duas primeiras linhas: já a figura da carroça que ascende ao saber está presente na mitologia grega, na própria alusão ao deus-sol e seus servos. Hélio e Faetonte são pai e filho e contudo com o passar das gerações já se confundem num só ente. A carroça voadora deveria descrever a parábola do percurso do sol durante as 12 horas do dia (depois ele submerge e passa por debaixo dos oceanos, voltando ao leste). Mas Faetonte já é associado, a dado momento, à própria carruagem (o eu-controlado da figura poética acima). É ele, esse deus, na forma humana, qualquer que seja o nome, o único apto a conduzir a carroça sem se queimar (ou desviar do percurso correto). Desdobramentos, ainda helênicos, são perceptíveis na estória de Ícaro e seu malfadado vôo, nos escritos de Parmênides sobre o Um, no daimon de Sócrates (o self mais profundo, que conduz a ele próprio, o indivíduo histórico), que o orienta até em sonhos musicais na véspera de beber a cicuta (que ele não tema, aliás, o oposto: que ele celebre e comemore a vida no momento do estar-morrendo).

Essa voz interior passa, mais explícita ou menos explícita, pelos textos de todos os principais pensadores, até aterrissar nas investigações sobre o inconsciente, o novo nome para o daimon, nosso verdadeiro senhor. O que é um espírito-livre senão o escravo de si mesmo, ou melhor, aquele bom discípulo de si mesmo, que sabe dominar seus impulsos (ou assiste, enquanto impulsos cegos, a este domínio que vem aparentemente de fora, mas que é ele mesmo?), malgrado seu, e sabe ouvir os conselhos da sua verdadeira personalidade, desconhecida em seu todo até pela própria vida consciente do indivíduo? É o homem ético e abnegado que vê os filisteus de cima, meras manchas topográficas – esses filisteus que se julgam alpinistas de elite!

E ainda nem falei da metade final! O intelecto é o cocheiro. Que intelecto – depois que a duras penas aprendemos a desconfiar desse intelecto lato sensu desde Aristóteles até Kant? Decerto não é o intelecto cartesiano, o intelecto dos ceticistas dogmáticos, o intelecto dos Iluministas franceses, dos ateístas franceses – cristãos amargurados! –, o intelecto dos cabeças de vento do séc. XIX tão criticados por Nietzsche, a raça dos eruditos alemães! Não é o intelecto dos românticos que sucederam a Hegel, nem do próprio Hegel, o Aristóteles de nossa era. Mas um Goethe, que se equilibrou entre o Romantismo moderno e a serendipidade dos antigos, este está acima do gradiente que criticamos aqui! Dele que é o Fausto, já antigo e do folclore, mas que de sua pena é o mais célebre – mais um Jesus Cristo depenado por seu daimon errado. Mefistófeles é só um agente externo, a sociedade, o gênio da lâmpada dos que querem vencer na vida ganhando na mega-sena, não o demônio interior verdadeiro do sábio. E o ícone intelectual que ainda subsiste para nós na terceira década do séc. XXI – a fraude chamada Sigmund Freud, este compartimentador do inconsciente, que transformou num mapa ou num cubículo as forças incompreensíveis e virtualmente ilimitadas que nos regem – fariseu dos fariseus, pois como judeu esclarecido este homem sabia ser um filisteu, e continuou interpretando seu papel jocoso por maldade e ganho pessoal. O ápice do racionalismo deletério – o Descartes pós-descoberta explícita do daimon, pela primeira vez, desde Sócrates-Platão. E quantos séculos ele não terá retardado o estado das coisas? Não decerto para os poucos privilegiados, que vêem por trás da opacidade de sua pseudanálise, que enxergam por detrás dessas paredes (pontos cegos do indivíduo médio).

E as correntes de pensamento continuaram, na segunda metade do século XX, errando em pontos fundamentais, aprisionando esse self hindu. Marxistas desfiguradores do princípio maiêutico-dialético provisoriamente resgatado no XIX… Não faltava mais nada! A filosofia continental se fecha e vive de comentadores dos clássicos – talvez devêssemos comemorar. Já sabiam os últimos clássicos e já sabem os melhores comentadores que as próximas respostas úteis (úteis para nós, os anti-utilitários) devêm do Oriente, que, contrariando a projeção geológica de que os continentes africano e americano à deriva estariam se aproximando coisa de 10cm por ano, parece estar vindo a nosso encontro a galope… Portanto, para arrematar: o self hindu não é esse tipo de intelecto, só para deixar claro!

A mente simplesmente como os freios (rédeas). No sentido do poema a mente me parece apenas essa faculdade consciente dos eleitos que efetuam a boa jornada. A mente de Dédalo, o pai do imprudente Ícaro, a prudência altruísta, sem ambições solares, mas orgulhosa o suficiente para não recair em abismos.


 

“The senses, they say, are the horses,

and sense[d?] objects are the paths around them;

He who is linked to the body (Ātman), senses, and mind,

the wise proclaim as the one who enjoys.”

Quem é este que encontrou a eternidade verdadeira no único mundo possível senão “the one who enjoys”? Que momento há para gargalhar se não o presente? É verdade que a carruagem segue um percurso, mas não estamos atrás de nenhum destino particular. Como Ulisses, apesar das aparências, também não estava. Sobre cavalos, poderia até citar David Lynch, para quem, em Twin Peaks, o cavalo branco era o símbolo da morte próxima e também do vício, representado pelo hábito cocainômano da protagonista (uma protagonista que morre antes mesmo da série começar, eis uma quebra de normas!), nas duas primeiras temporadas apresentado de forma mais sugestiva, vaga, anedótica e espaçada. Na terceira temporada, no entanto, ganhamos também um poema sobre eles, os cavalos brancos, que nos brindam com muito mais associações, ou pelo menos com um termômetro para julgar as sugestões das primeiras temporadas: …The horse is the white in the eyes / and dark within, embora eu tenha omitido a primeira metade desta outra quadra (!), para não me estender com conteúdo não-relacionado aos Vedas (se é que existe um que não o seja). Novamente o contraste entre o preto e o branco, a luz e as trevas, elementos da odisséia, dialética que leva à verdade. Mas, cavalo branco ou não, alado ou não, essa charrete mitológica também tem o seu, ou os seus. Embora pareça pouco funcional, podemos dizer que são 5, os cinco cavalos são os 5 sentidos. Cinco cavalos que puxam servilmente a carruagem (você). Se a vacuidade emocional dos filisteus de nosso tempo é uma imagem de cortar o coração, (!) não nos enganemos: os sentidos, raiz dos sentimentos, não são desprezíveis para o sábio – acontece que aqui eles têm tratamento pejorativo, sem dúvida. Os cavalos ou os pégasos cavalgam ou flutuam por uma estrada ou por um arco imaginário no firmamento. A estrada do Um de Parmênides. A mente precisa subordinar os cavalos: o cavalo que olha é na verdade cego; o cavalo orelhudo é na verdade surdo; o cavalo frenético e suscetível tem na verdade a epiderme dormente; o cavalo narigudo não tem faro; e o cavalo linguarudo nem saberia se ingere capim ou torrões de açúcar. Sem uma coordenação estes cinco não são nada. E para quem sabe coordená-los, veja, eles são tudo! A via de acesso ao nosso outro mundo, que está aqui. Uma via insuficiente por si só, mas indispensável para a alma. Há quem ache que o presente são os próprios sentidos. Rematados tolos. Eles são a paradoxal via para o invisível, o que eles percebem são apenas os objetos e os contornos da estrada para o presente.

Acaba de me chamar a atenção o fato de que, consultando o dicionário, obtive que “obscuro” é um antônimo de presente. E acima se contrapôs a parte do olho que enxerga, a retina, à brancura dos cavalos, prenúncio de armadilha. Pois o que não seria essa fala na boca de um dos agentes do Black Lodge de David Lynch, nesse contexto de cavalgar por uma senda necessariamente perigosa, senão uma grave advertência sobre a mais próxima vizinhança entre o enxergar bem e o viver com um antolho nos olhos? E eu que achei que já havia secado este poço (esta é a hora dos fãs de Twin Peaks mais ligados rirem bastante)!


“When a man lacks understanding,

and his mind is never controlled;

His senses do not obey him,

as bad horses, a charioteer.”

 

Apenas um lembrete, já que tudo isso já foi bem-comentado e o trecho é simples: o cocheiro (o daimon, o Ātman) é muito mais que a mente. É evidente que esta não é apenas uma enumeração paralela de uma hierarquia dupla, é mais complexo que isso. [De modo simples: cocheiro/o inconsciente (guia maior) > homem/vida consciente/carruagem > mente/corpo/intelecção > cavalos/sentidos (guias menores).] Maus cavalos não impossibilitam o sucesso da viagem (zero cavalos sim); uma mente em frangalhos, um corpo lasso e a estupidez (tudo junto conotando uma carroça em pedaços), sim.


“When a man lacks understanding,

is unmindful and always impure;

He does not reach that final step,

but gets on the round of rebirth.”

Renascer tem quase sempre conotações positivas. Não aqui, seja para o hinduísmo conforme os exegetas hindus seja para mim, que me arrisco a uma interpretação ainda alhures, conectada a um outro mundo no aqui e agora. Nada pode ser pior do que o renascimento contínuo neste contexto. É o mesmo que ensinar a doutrina do eterno retorno para os fracos em Assim Falou Zaratustra. A bênção de uma “vida” eterna não é nada no colo de mortos-vivos. A sua odisséia não é completada, é só uma grande tortura sem-sentido. OM omento presente não tem um último degrau, mas o último degrau é necessário para os sentidos do homem (sua parte menos importante).


RESUMO DO CREDO HINDU SEGUNDO RAFAEL DE ARAÚJO AGUIAR (LEMBRANDO QUE UM LIMITE MÁXIMO – QUE CHAMAMOS DE DEUS – QUE NÃO SAIBA RIR DE SI É INÚTIL, TANTO EXISTINDO COMO APENAS ALMEJANDO EXISTIR, DÁ NO MESMO):

No que os intérpretes (todos os já consultados por mim, pelo menos) do hinduísmo e eu discrepamos é: para eles, sair da roda da existência é a libertação. Eu acredito que os Vedas genuinamente pregam, no lugar, o seguinte:

Om. Quando se diz que sair da roda da existência é a libertação, está-se dizendo isso para os tolos; pois são os tolos que lêem ensinamentos nos livros e sempre os absorvem da pior forma. Desta feita, não proibiremos a leitura aos tolos, mas nos certificaremos que eles sempre retirarão deste manancial de sabedoria a interpretação mais literal e espúria possível: para eles, escapar da roda da existência via santidade é a libertação suprema. Isto não é Brahman, mas seria pecaminoso contra a própria vida ensinar a verdadeira religião para aqueles que não a merecem. O texto está redigido de forma que os merecedores de absorvê-la saberão interpretar nosso único credo a contento. A libertação é oni-presente e inevitável, sempre esteve aqui e agora e sempre estará para o leitor puro e consciente (aquele que aspira à sabedoria na vida). Isto é Brahma. Não há reencarnações, esse é apenas um dogma regulador para os hOMens mais vis. O dOM da vida é único e especial, pois a morte não é o que se entende vulgarmente pela morte: ela não encerra nada. O presente é eterno. A realidade é una. Não há progressos, regressos, ciclos ou aléns. O fato de indivíduos nascerem e morrerem confunde as massas, porque quem se crê indivíduo tenta se colocar no lugar de outro indivíduo, no que sempre falhará até os mínimos detalhes. É preciso entender que a existência não é algo linear sobre o qual o tempo – condição de possibilidade da própria existência, mas apenas uma de suas engrenagens – tenha qualquer poder. O tempo só funciona de acordo cOM o próprio desígnio inerente do que se chama realidade ou existência. Ele, o tempo, serve a e é inseparável da vida mesma. E a individualidade, o nascer e perecer são elementos, fundamentos da existência. Não significa que os indivíduos crus sejam Brahman (a existência mesma). Mas estão equipados para entender Brahman e se tornar Brahman. Pois Brahman pensou em tudo desde o sempre, já que o tempo é apenas uma engrenagem sua e ‘sempre’ é apenas uma palavra vazia fora da percepção dos hOMens, ligada às grandes limitações dos sentidos. Início e fim só existem para os indivíduos que são tolos. Brahman só pode ser usufruído pelo que chamam de presente. A vida dos tolos é um eterno sofrer, e o que é mais irônico: um sofrer baseado em algo que não existe – sua dilaceração, sua aniquilação, sua morte. O pavor do fim. Pois eles não sabem que são eternos, e isso gera a contradição muito lógica de que eles sofrem eternamente devido mesmo a esta ignorância, que em certa medida é obra deles próprios, pois eles também são Brahman, em crisálida. A forma de reestabelecer a harmonia e a ressonância cOM Brahman, o real, é, cOMpreendendo o real, efetivá-lo (sendo real, vivendo o presente, isto é, a eternidade). Esta condição carece de sofrimento penoso; o que (os tolos) chamam de sofrimento, na vida de quem entendeu Brahman é apenas atividade e saúde, a plena realização do Brahman, separado em indivíduos apenas formalmente, para apreciação dos eternamente tolos, tolo Brahman brincalhão (a verdade é que cada um que cOMpreende Brahman é Brahman, e Brahman é indivisível)! Por que nós, Brahman, dar-nos-íamos ao trabalho de escrever de forma tão límpida para nós mesmos, Brahman, o que é Brahman, se Brahman (os tolos, agora, os Brahman não-despertos e necessários ao Brahman) ainda assim não irá entender, da mesma forma que lendo poesia e enigmas? Pois este ensinamento carece da possibilidade de ser entendido pela mera literalidade e baixeza vital. É preciso ler mais do que palavras, porque Brahman é mais do que palavras. O “inferno” de Brahman é que Brahman é tudo, e a tolice é parte indissociável deste único e melhor dos mundos, o sempre-existente. O inferno de Brahman é Brahman, mas Brahman não se importa, o que é, aliás, muito natural e desejável. Brahman é o mais vil e o mais alto, e nunca se pára de cair e nunca se pára de subir segundo o axiOMa inquebrantável de Brahman, o Um ou Ser ou Ente. Brahman é perfeito e não quer se liberar de Brahman. E nem poderia se assim desejasse. Om.

Digo que Brahman em algum momento através de mim achou de bom tom ser mais literal, para satisfazer Sua vontade (e a minha), quebrando as regras num sentido e duma forma infinitesimal que não descaracteriza Brahman, num limiar bastante desprezível do que os tolos chamam de tempo-espaço que eu traduziria em palavras como sendo minha vida, os anos que eu vivo (da perspectiva de uma terceira pessoa)¹ nos lugares que eu vivo em torno de quem eu vivo (meus amigos, coetâneos e leitores).

¹ O que é a terceira pessoa (tanto do ponto de vista metafísico quanto do ponto de vista gramatical de todas as línguas)? É a junção fictícia das duas primeiras pessoas. Eu sou a terceira pessoa de vocês; vocês são a terceira pessoa para mim. E no entanto a primeira pessoa sou eu (vocês, isoladamente) e a segunda pessoa são vocês em conjunto (eu e os outros, para vocês, individualmente).


“When a man’s mind is his reins,

intellect, his charioteer;

He reaches the end of the road,

That highest step of Vishnu.”

Com esse trecho não vou gastar saliva. Irei apenas traduzi-lo para o formato da prosa familiar a nossa cultura, omitindo as palavras desnecessárias para a compreensão total (não faz sentido, na tríade homem-mente-intelecto, pelo menos nessa tradução em inglês, conservar mind e intellect; só man já é mais do que o bastante):

“When a man (…) is (…) his charioteer, he reaches the end of the road, that highest step of Vishnu.”


“Higher than the senses are their objects;

Higher than sense[d?] objects is the mind;

Higher than the mind is the intellect;

Higher than the intellect is the immense self;”

“Mais elevados que os sentidos são as coisas que percebemos por via dos sentidos, o mundo visível; [Que eu citei acima, na hierarquização simplificada, como intelecção – esta parte do mundo visível não fazendo referência ao próprio sujeito, e para sermos sujeitos está implicado que tem de haver o binômio sujeito-objeto, pode ser omitida, inclusive porque a mente, como veremos abaixo, interpreta automatica-mente todas as percepções dos 5 sentidos, integrando-as, e não se pode falar de mundo visível (veja como nos expressamos sempre hiper-valorizando os olhos!)/sentido sem que haja a mente do ator dotando este mundo de sentido (bússola das sensações).]

Mais elevada que o mundo visível é a mente;

Mais elevado que a mente é o intelecto; [Aqui sinto que nosso pensar ocidental entra em colisão com o vocabulário hindu – ou será problema da tradução para o inglês? –, pois mente e intelecto estão indissociados de acordo com nossa maneira de representar a ambos. A terceira linha, como a segunda linha, devem ser omitidas numa tradução explicativa superior.]

Mais elevado que o intelecto é o imenso self.”

Para melhorar, destarte:

“Mais elevada que os sentidos é a consciência;

Mais elevado que a consciência é o inconsciente.”

(mundo animal < mundo humano < mundo divino [somos divinos!]) (*) O mais irônico, se seguíssemos o ‘roteiro’ do Veda seria que posicionaríamos o mundo mineral acima do animal, i.e., o mundo visível, os objetos, as coisas, a estrada que os cavalos percorrem como sendo mais importantes até que nosso tato, audição, visão, olfato e paladar, o que é absurdo, pois não vivemos em subserviência aos objetos, e sim o contrário: somos nós que os criamos graças a nossa condição de seres vivos, por assim dizer.

A palavra que mais pode gerar confusão na tradução aperfeiçoada acima é a última. O inconsciente é o sábio que mora em nós sem que possamos ou devamos cobrar aluguel. Na verdade é ele que nos sustenta, em grau ainda mais surpreendente que a consciência sustenta os meros instintos. Porém, o INCONSCIENTE sofreu muitas malversações nos últimos tempos. Não temos palavra melhor para caracterizar “o verdadeiro senhor da consciência”, mas infelizmente a psicanálise poluiu imensamente essa palavra, para não falar das (más) psiquiatrias, psicologias e filosofias (jamais leiam Von Hartmann, um homem que interpretou Schopenhauer da pior maneira possível e teve grande influência sobre os ‘apreciadores da filosofia’). É preciso decantar e esterilizar a palavra para reutilizá-la, não temos escolha, e na verdade não devíamos nos subjugar a algumas poucas gerações de tolos, ou teríamos de reinventar nomes para quase todas as coisas. Mesmo assim, para iniciar esse processo e a revalorização do termo inconsciente, bem-descrito no Veda como imenso, muito mais abrangente que a consciência (como o oceano perante uma piscina), vindo a ser em última instância tão importante que pode ser igualado a Brahman, já que qualquer entidade separada de nós e portanto de nossa instância mais elevada seria apenas criar quimeras e fábulas que só multiplicariam as complicações, quando sabemos que o que o hinduísmo diz é que somos Brahman, ao contrário do cristianismo, que estabelece um Deus infinitamente inacessível ao homem, tão inacessível que se tornou a religião favorita do niilista ocidental,¹ quer dizer, maioria da população, que é niilista sem o saber… Em suma, quero dizer que de uma forma ou de outra, se quisermos respeitar o credo hindu, devemos equiparar a noção “despoluída” de inconsciente ao Todo desta querida religião. Seja falando simplesmente inconsciente, seja empregando, se se quiser, o termo inconsciente coletivo de Jung.

¹ Podemos até dizer que quanto mais crente se é, mais ateu! Só uma religião tão mesquinha seria capaz de provocar a morte teórica de deus, gerando tamanho estrago civilizacional que os filósofos tiveram de interferir nos negócios dos padrecos!

Por outro lado, se ainda assim o leitor fizer questões de sinônimos, como mais acima, para me referir a ‘inconsciente’, recorreria a:

BRAHMAN = OM = INCONSCIENTE (COLETIVO) (Filosofia, Psicologia, Jung) = UM (Parmênides) = DAIMON (Sócrates) = Idéia (Platão)¹ = MUNDO (vulgar) = OUTRO MUNDO (Filosofia Ocidental)² = VONTADE DE POTÊNCIA ou VONTADE NÃO-UNA ou VONTADE NÃO-LIVRE (Nietzsche)³ = VIDA DO SÁBIO (hinduísmo e outros sistemas) = ETERNIDADE ou PRESENTE ETERNO4

¹ Como Sócrates não escreveu, estamos autorizados a referir o daimon socrático ao próprio gênio de Platão: tão “egoísta” que criou dois nomes para Brahman ou aquilo que há de mais sagrado!

² Emprego aqui o Outro Mundo no sentido “recuperado” que já demonstrei, em relação ao Além da maioria das religiões: o Outro Mundo é o mundo das Idéias de Platão, localizado na alma do sábio, e portanto neste mundo mesmo, no presente, aqui e agora. Esse é o tesouro máximo do hinduísmo: uma religião de massa que não nega o amor à vida e não incita à hipocrisia e à mentira, prometendo recompensas num futuro indefinido. O que é do sábio sempre foi, é e será do sábio. A eternidade já foi alcançada. Desde pelo menos Schopenhauer ou Kierkegaard (admito que Kant é um caso talvez especial; já Hegel acreditava apenas num canhestro progresso da História, sem entender que o presente já havia trazido todas as evoluções que ele só podia atribuir ao futuro da Europa), após o longo e sombrio hiato entre Platão e o mundo moderno (quase ainda ontem!), chegando ao trabalho de autores definitivamente afirmadores de um e somente um mundo, este aqui, como Husserl, Heidegger, os existencialistas, praticamente todos os filósofos dignos do século passado e deste, o Outro Mundo dos fanáticos religiosos e dos Escolásticos – considerados filósofos apenas nominalmente, meros escribas de patrões temporais (a Igreja) – foi abandonado em prol de uma nomenclatura despida de conotações deletérias, fraudulentas e niilistas: o Outro Mundo de que falo, sinônimo da nova Zeitgeist de retorno ao Oriente, é o Outro Mundo que eu interpreto estar exposto nos Vedas: o mundo do sábio que chegou à realização de que a eternidade é o presente. O reencantamento do mundo; por isso também incluo a palavra mundo, porque é no mundo que vivemos, e em nenhum outro, em que tudo é possível. Este mundo é o Um.

³ O termo “vontade de potência” gera confusão. Primeiro porque faz parte do espólio de Nietzsche, que provavelmente teria mudado a expressão antes de publicá-la ou pelo menos não a elegeria como título de sua próxima obra. Segundo, por culpa do estudante filisteu de filosofia, que tende a associar “potência” (que já é uma adaptação à tradução portuguesa de “poder” na tentativa de evitar ambigüidades e enganos!) com o conceito de poder/monopólio da violência do Estado na Política, e em decorrência a doutrinas absolutamente anti-nietzscheanas como “sobrevivência do mais forte aplicada à Ciência Política”, nazifascismo, psicologias de auto-ajuda (como se se tratasse aqui de uma ‘força de vontade’ individual tendente ao infinito, calcada na imaginação desconexa da materialidade do mundo!), etc. A terceira problemática, e que quis evidenciar empregando sinônimos como VONTADE NÃO-UNA e VONTADE NÃO-LIVRE, é a falsa equiparação que se faz entre a Vontade schopenhauriana e a Vontade propriamente nietzscheana. Como Nietzsche é influenciado por Schopenhauer, muitos filósofos até razoavelmente competentes podem cair na cilada de não enxergarem onde está uma linha de ruptura definitiva do primeiro pensador com este último. E é importante tocar no assunto, já que Schopenhauer teria cunhado o termo Vontade justamente influenciado, por sua vez, por suas leituras orientalistas vinculadas ao hinduísmo! Há aqui, pelo que se vê, uma espécie de mal-entendidos em cascata. Desfaçamos esse nó górdio de vez! Se eu estiver certo e Schopenhauer errado (e uma coisa é decorrente da outra, pois temos pontos de vista divergentes), o que Schopenhauer entendeu dos Vedas e particularmente do budismo que se desenvolveu a partir da Índia, é exatamente a leitura leiga, ou a leitura tola e literal, da ascensão rumo à Verdade bramânica. Isso porque para Schopenhauer a doutrina budista é um quietivo da vontade. Sua Vontade, em letra maiúscula, é a entidade metafísica que rege secretamente todos os fenômenos do mundo visível e observável (que ele chamará de Representação). O mundo da representação de Schopenhauer se assemelha muito ao Samsara, o inferno hindu, em que não há um propósito para a existência. Aí entra a volição individual do homem: ao se aperceber da futilidade deste mundo (e percebendo, no caso de Schopenhauer – este um grande mérito seu) que não existe um outro mundo, tudo que resta ao indivíduo informado, ou ao sábio, é negar a vontade, com letra minúscula, o outro mundo que existe neste mundo. Ora, mero produto de um mundo sobre o qual ele não tem o menor controle, o asceta budista ao menos se empenha em emascular sua vontade, ou seja, a parcela dessa grande e única Vontade que configura seus instintos e portanto seu impulso vital, tratando, em primeiro lugar, de se guardar de gerar prole (instinto da reprodução e perpetuação da vida); em segundo lugar – e não cabe aqui citar o suicídio, pois Schopenhauer sabe que não há fuga da existência, ele fala de uma mortificação da vontade individual a despeito de que no mundo aparente nada mude – de refugiar-se na ascese espiritual, descartando o quanto puder traços de egoísmo, evitando agir sobre este mundo que não tende a nada e é só uma sucessão indefinida de acontecimentos vãos e sem valor. Uma forma de conseguir reduzir sua vontade virtualmente a zero (além de escrever um tratado filosófico sobre isso), para Schopenhauer, é que o sábio se dedique a refugiar-se na arte; principalmente na Música. Schopenhauer vê na música o elemento fenomênico (sensível) mais próximo da inacessível Vontade cega regedora do universo. Através dela o ser humano pode perpassar pelo circuito de todas as emoções, e ao mesmo tempo não viver, isto é, limitar-se a sentir paixões sem qualquer conseqüência prática ou interferência no mundo exterior. Para Schopenhauer todo grande artista é um negador da vida, um budista mascarado. Discordo frontalmente desse ponto de vista. Como eu acredito no Veda como uma alegoria que quer significar exatamente o oposto – a valorização do presente e da vida –, é necessário pontuar: minha principal influência filosófica é Nietzsche, e sua vontade opera em contraposição máxima ao “niilismo passivo” schopenhaueriano. Nietzsche quer restaurar as condições do grande homem, da grande cultura, da grande civilização, algo que o Ocidente não é mais capaz de proporcionar. Daí se explica que a filosofia oriental tenha, por tabela, exercido impacto proeminente no pensar de Nietzsche. Sua vontade é não-una porque diferentemente da Vontade indivisível, “em bloco”, de Schopenhauer, Nietzsche enxerga esse elemento metafísico como sendo manifestações completamente aleatórias e independentes entre si, de modo que o que realmente há não é uma tirania da Vontade sobre este mundo material, mas a presença de vontades dispersas, cada uma unilateral, procurando exercer seu “ponto de vista” sobre as demais, e conseguintemente sobre o mundo material. Esta vontade que “não é livre” (são palavras do próprio Nietzsche), ou todas essas porções infinitesimais de vontade, só sabe uma coisa: ser aquilo que ela é; forçar seu caminho, chegar a seus últimos limites; e os últimos limites são as outras vontades. Essas vontades não são entes abstratos absolutos, quer seja, não existem desde sempre e para sempre, consideradas individualmente. Conforme o jogo de forças, que seria apenas o espelho do jogo de forças do mundo material (daí ser possível a Nietzsche descrever uma vontade que pode ser apenas nomeada por hipótese, lembrando que os sentidos, guiados pela intelecção, no homem sábio, são a via para a Verdade, exatamente como nos Vedas, e exatamente como em todo e qualquer grande filósofo; esta é uma lei), vontades antes autônomas podem se ver reagrupadas (talvez uma vontade mais poderosa englobou ou absorveu outra, vencida), como um “tecido de vontade” pode se desmembrar em múltiplas vontades com novos vetores e potencialidades… Esse jogo não termina, pois jamais houve nem haverá um vencedor. É uma “guerra democrática”, já que uma só vontade jamais se tornará soberana (a Vontade no sistema schopenhaueriano é tirânica, soberana, pois não há oposição dela consigo mesma). Não só a vida é regida pela vontade, mas ela é evidentemente seu campo de atuação primordial. Cada instinto nosso pode ser interpretado como a manifestação aparente de uma vontade. Isso explicaria, o que Schopenhauer deixou em aberto, por que num mesmo indivíduo tantas volições contraditórias precisam combater entre si para se manifestar, num jogo de sucessões intermináveis. Podemos ter uma personalidade definida e coerente, mas basta lembrar que essa é só nossa vida consciente. Por debaixo do pano “n” vontades lutam para fazerem-se valer, partindo do inconsciente até serem traduzidas no reino visível ou “mundo das aparências”. Acontece que a contraposição ao mundo das aparências, onde atuam as vontades, não é outro reino senão o ideal, o fictício, forjado principalmente pelas grandes religiões do passado do homem. O Cristianismo, o próprio Budismo são inimigos do homem que encontrou a Verdade na revelação do mundo como vontades em eterno conflito. Nietzsche reconhece que esta é a vida e ela não deveria ser diferente do que é no presente; necessariamente o que torna o homem burguês decadente haverá de ser vencido um dia, por novos valores, novas vontades, novas potências. Embora tudo nasça, se desenvolva, atinja um auge, decline e finalmente morra, o fato de as vontades se entrechocarem o tempo todo, de a realidade da Vontade de Potência ser “estar sempre em contradição consigo mesma”, ambos os fatos são o fundamento da existência, e isto é o que há de constante neste grande pensamento. Exatamente como nos Vedas. Por esse lado, Nietzsche parece ser o inimigo de um credo que buscaria a ascese suprema, a libertação, a evasão do ciclo de reencarnações, a fusão com Brahman. Mas tudo depende de se Nietzsche – que não foi explícito nesse tocante – entendeu os Vedas dessa forma ou se “empatou” com minha conclusão: os Vedas foram, até hoje, mal-interpretados. Eles são um hino à vida, coincidentes com a filosofia nietzscheana. E o que é mais espantoso é que Nietzsche, que tanto se bateu com Platão, pode (pode! não sabemos bem o que ele deixou de declarar deliberadamente – coisa de filósofos!) não ter percebido que a dialética-maiêutica de Platão, sua teoria das reminiscências e das Idéias, tudo aquilo que o alemão parece ter associado, a princípio, à negação da vida em prol de “meras conjeturas servíveis apenas num Além-mundo”, é no fundo uma filosofia gêmea a sua! São duas aproximações que redundam nas mesmas conclusões. O primeiro e maior filósofo do Ocidente encontra em Nietzsche seu acabamento, e o acabamento da filosocia ocidental como um todo, como são muitos os que o afirmam. Ou podemos considerar Nietzsche um iniciador, e Platão o responsável pelo acabamento? Não faz diferença, quando a filosofia (a busca pela sabedoria) é atemporal e não tem fim ou começo. As filosofias mais sábias e honestas tenderão a chegar às mesmas conclusões, por mais que seus métodos e termos-chaves pareçam tão distintos e antípodas – esse pseudo-antagonismo não resiste a uma análise mais detida, não são filosofias ou fés, mas a Fé, a Filosofia Verdadeira. E não é um império dual, mas um triunvirato, se eu estiver certo: o hinduísmo corrobora, antes mesmo da História do Ocidente devir, estes dois maiores filósofos, o alfa e o ômega da historiografia da disciplina; nossos legítimos contemporâneos. Nietzsche declarou que Heráclito podia ter enunciado seu eterno retorno. Talvez seja o ponto cego inerente a cada filósofo que ele não tenha visto algo tão evidente para nós: Parmênides e Platão são os legítimos filósofos do eterno retorno da Antiguidade. A teoria das reminiscências é muito afim ao karma hindu e à proposta ética de Nietzsche para passarmos esta semelhança por alto. De onde quer que se parta, o Um parmenídeo, a Idéia platônica, o daimon socrático, a vontade de potência ou o privilégio da fusão do sábio com o verdadeiro invisível dos livros sagrados da Índia, a rota percorrida parece exatamente a mesma.

Para uma explicação mais detalhada das vontades em N. e S., recomendo meu post dedicado à filosofia de Schopenhauer (HISTÓRIA DAS IDÉIAS 3) ou ainda meu livro VONTADE DE INTERPRETAÇÕES (à venda em https://clubedeautores.com.br/livro/vontade-de-interpretacoes-2). E sim, o título do meu livro foi escolhido sarcasticamente, muito em virtude das distorções voluntárias ou não de exegetas quanto ao termo vontade de potência!

4 1) Eternidade é a palavra mais fácil a que atribuir autor: pode ser determinada como de uso vulgar desde os tempos mais imemoriais;

2) Esta nota de rodapé existe em razão do segundo termo, seu equivalente, se bem que, ao mesmo tempo, enfatizador da obviedade de que em havendo eternidade só pode haver uma eternidade presente. Isso porque não nos interessa aqui considerar a divisão tripartite do tempo entre passado, atualidade e futuro, o que seria jogar pela janela toda essa interpretação, julgo eu, em alto nível dos Vedanta, e aliás regressar às noções cavernícolas de tempo para Isaac Newton, sendo que Immanuel Kant destroçou pouco depois qualquer possibilidade desse “tempo em linha reta de jardim de infância” ter qualquer validade acadêmica séria. Como não sou Arnold Schwarzenegger me recuso a retornar ao jardim de infância, ainda que seja para dar aulas que gerem mais polêmica que o tira no filme! Afinal de contas, se quiséssemos falar de pseudo-eternidades (conceitos vulgares a-filosóficos) poderíamos partir para análises historiográficas de como não fazemos rigorosamente idéia de quantos anos há para trás ou para frente no universo, debate aliás absurdo e completamente improdutivo que é uma obsessão quase sexual e do subgênero sado-masoquista (uma parafilia) desses “especialistas sem espírito” (Weber) chamados físicos modernos, que falam com pompa e autoridade sobre asneiras como “big bang ou singularidade” (o ‘Adão e Eva’ dos filisteus™), “universo antes do universo existir, (!) previamente ao início do tempo, (!!) sob a forma de um ponto de densidade infinita (!!!)” ou ainda como “uma suposta idade atual do universo na casa dos 13 ponto sei lá quantos bilhões de anos”… Tampouco me interessa, aliás, tampouco interessa a qualquer habitante do planeta Terra, para sermos francos, quantos bilhões de anos o sol demorará para “queimar”, “explodir” ou “simplesmente se apagar”, primeiro porque no ritmo do capitalismo a Terra queimará “sem ajuda” antes, muito, muito antes; segundo porque não está provado – já que os cientistas amam de paixão esta palavra –, mesmo assumindo a absurdidade da hipótese de um universo com início-meio-fim proposta por físicos que quebra as próprias leis da física,(*) que não poderia haver uma – na falta de termo melhor, e de empréstimo da astronomiaprecessão das condições de ‘sobrevivência’ do sistema solar, para começo de conversa, quando eventos teoricamente prováveis em escala de bilhões de anos segundo nossos melhores matemáticos, estatísticos, físicos e químicos não poderiam ser descartados por inumeráveis fatos intervenientes no decorrer de todo esse tempo (5 bilhões de anos de vida restantes para nosso Astro-Rei!) no próprio reino da ciência estritamente acadêmica, ainda mais levando em conta que não há disciplina que não sofra grandes revoluções de paradigmas em um módico intervalo de décadas! Para se ter idéia, se preservássemos todas as condições de realização do Campeonato Brasileiro de Futebol numa estufa, dando vida eterna aos jogadores, dentro de bilhões de anos até o Coritiba, atual equipe de várzea, viria a ser campeã dos pontos corridos um sem-número de vezes com até 100% de aproveitamento em alguma das ocasiões!!! Bilhões de anos é uma quantidade de tempo imensurável. Tudo e qualquer coisa acontece num “período” tão vasto (é tão vasto que ouso dizer que nenhuma mente humana foi formatada para conceber quão verdadeiramente vasta é a quantidade de 1 milhão de anos, de modo que se multiplicarmos isso por mil podemos ter certeza de que todos os lobos do planeta terão sido extintos pelo mero apetite de uma única criança chamada Chapeuzinho Vermelho).

Para chegarmos direto ao ponto (que não é um ponto de densidade infinita que estourará, devido a uma maldosa singularidade, justo na sua cara, fique tranqüilo!), avancemos. Obviamente não fui eu quem cunhou a expressão PRESENTE ETERNO, mas no momento eu não saberia dizer quem foi o primeiro a utilizá-la, e no sentido aqui proposto. Tenho razoável confiança de que Nietzsche chegou a utilizar este binômio; de qualquer forma, não sendo o caso, foi ele quem influenciou autores do séc. XX a forjá-lo neste sentido que tenho em mente, se for mesmo verdade que já não o tomaram de empréstimo. Mas suspeito que antes de Nietzsche esta expressão, para um sentido parecido em Metafísica, já estava em voga. Ainda preciso pesquisar a respeito.

(*) DESABAFO EM CAPS LOCK

ME DIGAM EM QUE HOSPÍCIO JÁ SE VIU TAMANHA LOUCURA! MAS FALAR NISSO EM TEMPOS DE IVERMECTINA PARA TRATAMENTO DA COVID, EU SEI, CHEGA A SER UMA BLASFÊMIA, PORQUE DESCREDIBILIZA A CIÊNCIA ESTABELECIDA, EMBORA “ISSO” QUE OS FÍSICOS CHAMAM DE “TEORIA DO BIG BANG” PASSE LONGE DE SER MÉTODO E DE SER CIÊNCIA, MOLE OU DURA! ACONTECE QUE UM DIA, A LONGO, PRAZO, ISSO DEVERÁ SER ENDEREÇADO E DISCUTIDO, ENTÃO EU ARREMESSO A PRIMEIRA PEDRA SEM PUDOR E SEM MEDO – CIENTE DO MEU LEGADO – DE SER CHAMADO POR ALGUM CABEÇA-DE-BOI DE negacionista, MINHA CONTRA-DEFINIÇÃO POR EXCELÊNCIA! PORQUE, INFELIZMENTE, QUEM TEM VOZ NESSE DEBATE ATUALMENTE E QUE ATAQUE A TEORIA DEMENTE DO BIG BANG É OU CRIACIONISTA (COMO SE INVENTAR COISAS TÃO ESTAPAFÚRDIAS COMO UM PONTO DE DENSIDADE INFINITA PARA EXPLICAR A ORIGEM DA EXISTÊNCIA NÃO FOSSE DEIXAR OS COMUNS DOS MORTAIS DE CABELO EM PÉ, LOUCOS PARA ENTRAREM NUMA IGREJA E PEDIREM SOCORRO A UM PASTOR!) OU TERRAPLANISTA, OU SEJA, ESCÓRIA DA ESCÓRIA, AINDA MAIS DEMENTES QUE OS “FÍSICOS CONTEMPORÂNEOS”…

* * *

Mas ainda não acabou a hierarquia do texto sagrado! A ele devemos regressar:

“Higher than the immense self is the unmanifest;

Higher than the unmanifest is the person;

Higher than the person there’s nothing at all.

That is the goal, that’s the highest state.”

Acontece que eu equalizei o immense self ou inconsciente a todo o imanifestável, como foi visto exaustivamente acima! O Nada. Quase consigo acreditar que esses trechos dos Vedas sofreram interpolação de fanáticos de época posterior. Olhando dessa maneira, parece que os vaticínios de Schopenhauer fariam todo o sentido! Mas não percamos de vista que o Veda é um poema e não deve ser mal-interpretado. Tendemos a ler o “nada” deste escrito tão antigo como o nada da filosofia contemporânea, o que é um erro. Claro que não posso justificar em mil anos a segunda linha. Persons, se estivermos falando de individualidades, consciências, já ficaram muito abaixo na hierarquia. Por isso a diferença no matiz dos verdes: quanto mais escuro, mais censurável. Se acima do inconsciente ou, que seja!, daquilo-que-não-pode-ser-manifestado, só há o nada, ou não há nada, não significa que o último passo já foi dado? E não foi isso que foi dito no verso sobre Vishnu mais acima? A meta é chegar à realização do presente como a felicidade máxima: mais que isso é impossível, é absurdo. A pergunta pode até ser colocada: Existe outro degrau? Mas a resposta invariável é: Não.


“Hidden in all the beings,

this self is not visibly displayed.

Yet, people of keen vision see him,

with eminent and sharp minds.”

Pode até mesmo ser que o “nada” se refira apenas aos tolos. Sabemos que o invisível que o sábio vê no topo de todas as coisas do mundo, do único mundo, é Brahman, são as vibrações do Om. É o self no sentido hinduísta. E por que voltariam a citar “this self” quando, supostamente, a hierarquia ainda “subiu mais”, citando “unmanifest” depois, e “persons” (sic)? Porque os quatro versos de “Higher than the immense self…” a “…that’s the highest state.” são de importância relativa quase nula se compararmos a tudo o que precede e sucede!


“A razor’s sharp edge is hard to cross—

that, poets say, is the difficulty of the path.”

E no entanto não basta ensinar, como eu já disse. A jornada não pode ser ensinada. Quantos tolos não existem para cada Platão? Quantos puderam entender Platão? Quantos especialistas em Platão (oxímoro) me dirão que estou correto sobre Platão? A eternidade não é uma descoberta no estilo Eureka!. Posso enunciá-la quantas vezes quiser. Alguém a terá mesmo obtido, na forma como descrevi? Eu mesmo, vivo no presente sem me autoenganar, em minha potencialidade máxima, isto é, na potencialidade máxima que cabe ao homem? Sobre isso, Bíblias demais já foram escritas para que incorramos nas mesmas e repisadas fraudes… Fechando o parágrafo com uma piadinha: desde Gutenberg, nenhuma bíblia foi escrita. Os copistas perderam o emprego!


“It has no sound or touch,

no appearance, taste, or smell;

It is without beginning or end,

undecaying and eternal;

When a man perceives it,

fixed and beyond the immense,

He is freed from the jaws of death.

*

The wise man who hears or tells

the tale of Naciketas,

an ancient tale told by Death,

will rejoice in Brahman’s world.”

Quem senão a Morte (o Nada, pois nada está acima de Brahman) poderia contar o antigo conto (tale também pode ser traduzido como história ou conversa – o que é muito revelador sobre Platão e o método dialógico)?


“If a man, pure and devout, proclaims this great secret

in a gathering of Brahmins,

or during a meal for the dead,

it will lead him to eternal life!”

E assim termina o monumental capítulo do Upanishad chamado Katha, ou pelo menos a parte que mais nos interessa.

CURIOSIDADES PITORESCAS SOBRE BANDAS PITORESCAS

MINIBIOGRAFIAS DE ALGUMAS BANDAS OU ARTISTAS QUE ACUMULEI EM MEUS “RODOPIOS SONOROS” ULTIMAMENTE…

Renewed interest in Johnson’s work and life led to a burst of scholarship starting in the 1960s. Much of what is known about him was reconstructed by researchers such as Gayle Dean Wardlow and Bruce Conforth, especially in their 2019 award-winning biography of Johnson: Up Jumped the Devil: The Real Life of Robert Johnson (Chicago Review Press).” “Marc Meyers, of the Wall Street Journal, wrote that ‘His Stop Breakin’ Down Blues from 1937 is so far ahead of its time that the song could easily have been a rock demo cut in 1954.”

Raven are an English heavy metal band, formed in 1974 by the Gallagher brothers, bassist and vocalist John and guitarist Mark. They have released 14 studio albums to date, and had a hit with the single On and On. Often referred to as athletic rock, the band gained notoriety as part of the early-to-mid 1980s NWOBHM and is considered to be an influence and inspiration on development of the thrash metal genre, including bands such as ‘the big four’ (Metallica, Slayer, Megadeth and Anthrax), as well as others like Testament, Exodus, Overkill, Kreator, Sodom, Onslaught, Death Angel, Flotsam and Jetsam, Coroner, Annihilator, and Razor. Raven are also notable for headlining Metallica’s first-ever national tour in 1983.”

Diamanda Gálas (born August 29, 1955) is a Greek American musician and visual artist. Her commitment to addressing social issues and her involvement in collective action has made her concentrate on themes as diverse as the AIDS epidemic, mental illness, despair, loss of dignity, as well as political injustice, historical revisionism and war crimes, among much else. Galás has attracted the attention of the press particularly for her voice – a soprano sfogato – and written accounts that describe her work as original and thought-provoking and refer to her as ‘capable of the most unnerving vocal terror’, an ‘aesthetic revolutionary’, ‘a mourner for the world’s victims’ and ‘an envoy of risk, honesty and commitment’.

(…)

Her first solo album, The Litanies of Satan (1982), was also an operatic work. It included only 2 compositions: a 12-minute piece entitled Wild Women with Steak-Knives, which was described by Galás in the album notes as tragedy-grotesque deriving from her work Eyes Without Blood, and another lengthy composition, Litanies of Satan, an adaptation to music of a section from Charles Baudelaire’s poem Les Fleurs du Mal.”

Tangerine Dream are considered pioneers of the early days of electronica. Their work with the electronic music Ohr label produced albums that had a pivotal role in the development of the German musical scene known as kosmische (‘cosmic’). Their Virgin Years, so called because of their association with Virgin Records, produced albums that further explored synthesizers and sequencers, including the UK top 20 albums Phaedra (1974) and Rubycon (1975).”

Cliff Richard (born Harry Rodger Webb; 14 October 1940) is an English singer, musician, actor, and philanthropist who holds both British and Barbadian citizenship. He has sold more than 250 million records worldwide, making him one of the best-selling music artists of all time. He has total sales of over 21.5 million singles in the United Kingdom and is the 3rd-top-selling artist in UK Singles Chart history, behind the Beatles and Elvis Presley.”

Front 242 is a Belgian electronic music group that came into prominence during the 1980s. Pioneering the style they called electronic body music, they are a profound influence on the electronic and industrial music genres.”

Klaus Schulze (born 4 August 1947) is a German electronic music pioneer, composer and musician. He also used the alias Richard Wahnfried. He was briefly a member of the Krautrock bands Tangerine Dream, Ash Ra Tempel, and The Cosmic Jokers before launching a solo career consisting of more than 60 albums released across five decades.” W o w !

English Dogs were a British hardcore punk band that began life in the early eighties. Two versions of the band co-exist, the punk and metal crossover band featuring original drummer Andrew ‘Pinch’ Pinching and second-era members Graham ‘Gizz’ Butt and Adie Bailey; and a purely punk-based one featuring original vocalist Pete ‘Wakey’ Wakefield.”

Snap! is a German Eurodance group formed in 1989 by producers Michael Münzing and Luca Anzilotti. The act has been through a number of line-up changes over the years”

Technotronic was a Belgian electronic music project formed in 1988 by Jo Bogaert, who originally gained popularity in Europe as a solo artist with various New Beat projects, including the Acts of Madmen and Nux Nemo.”

Amen is an American hardcore punk band formed in Los Angeles, California in 1994. The band was founded by front man and singer Casey Chaos and combines elements of punk rock, hardcore, and heavy metal. Amen has released 4 studio albums [and] 1 live album”

Public Image Ltd (abbreviated as PiL) are an English post-punk band formed by singer John Lydon, guitarist Keith Levene, bassist Jah Wobble, and drummer Jim Walker in 1978. The group’s personnel has changed frequently over the years; Lydon has been the sole constant member. Following his departure from the Sex Pistols in January 1978, Lydon sought a more experimental ‘anti-rock’ project and formed PiL”

Apoptygma Berzerk (/əˈpɒptɪɡmə/; commonly abbreviated to APB or APOP) is a Norwegian musical group. They have achieved success with a brand of synthpop, and ballads backed with electronic rhythms, commonly known within the scene and referring to themselves as ‘futurepop’. Apoptygma Berzerk has over 30 releases and won awards and Top 10 spots in Germany and Scandinavia. Apoptygma Berzerk has toured Europe, North America, South America, Israel and Australia with bands such as VNV Nation, Beborn Beton, Icon of Coil and Unheilig.”

Magnum are an English hard rock band. They were formed in Birmingham¹ by Tony Clarkin (guitar, songwriter) and Bob Catley (vocals) in order to appear as the resident band at the Rum Runner nightclub in the city. Magnum have undergone several changes in personnel over the years; however, the core of Catley and Clarkin remain. Magnum’s most significant early success was Chase the Dragon in 1982, which reached number 17 in the UK Albums Chart. It included several songs that would become mainstays of the band’s live set, notably Soldier of the Line, Sacred Hour² and The Spirit. The band’s 1986 album Vigilante represented a further move towards the mainstream before the band achieved their commercial peak in 1988 when they entered the UK Top Ten for the first time with the album Wings of Heaven, which reached number five and featured 3 Top 40 singles, Days of No Trust, Start Talking Love and It Must Have Been Love.” Deve ser um Def Leppard da vida agora!

¹ Uma vez que a banda é de 1972, digamos que foram “colegas de ambiente” do Black Sabbath! Ainda estão ativos…

² O motivo para esta banda ter sido citada no livro de Dayal Petterson – de onde acabei retirando quase todas essas referências (as minibiografias são da Wikipédia) – é que essa faixa foi plagiada pelo 1º tecladista do Dimmu Borgir!

Modest Petrovich Mussorgsky; 21 March (O.S. 9 March) 1839 – 28 March (O.S. 16 March) 1881) was a Russian composer, one of the group known as ‘The Five’. He was an innovator of Russian music in the Romantic period. He strove to achieve a uniquely Russian musical identity, often in deliberate defiance of the established conventions of Western music.”

Dead Can Dance is an Australian music duo from Melbourne. Currently composed of Lisa Gerrard and Brendan Perry, the group formed in 1981 and relocated to London the following year. Australian music historian Ian McFarlane described Dead Can Dance’s style as ‘constructed soundscapes of mesmerising grandeur and solemn beauty; African polyrhythms, Gaelic folk, Gregorian chant, Middle Eastern music, mantras, and art rock’.

Having disbanded in 1998, they reunited briefly in 2005 for a world tour and reformed in 2011 when they released and toured a new album, Anastasis. They released a new album in 2018 called Dionysus and are touring again as of mid-2019.”

Enya Patricia Brennan (born 17 May 1961) is an Irish singer, songwriter, record producer and musician. Born into a musical family and raised in the Irish-speaking area of Gweedore in County Donegal, Enya began her music career when she joined her family’s Celtic folk band Clannad in 1980 on keyboards and backing vocals. She left in 1982 with their manager and producer Nicky Ryan to pursue a solo career, with Ryan’s wife Roma Ryan as her lyricist. Enya developed her sound over the following 4 years with multitracked vocals and keyboards with elements of new age, Celtic, classical, church, and folk music. She has sung in 10 languages.” “Enya is Ireland’s best-selling solo artist and 2nd-best-selling artist behind U2, [urgh!] with a discography that has sold 26.5 million certified albums in the United States and ~75 million records worldwide, making her one of the best-selling music artists of all time. A Day Without Rain (2000) remains the best-selling new-age album, with an estimated 16 million copies sold worldwide. Enya has won awards including 7 World Music Awards, 4 Grammy Awards for Best New Age Album, and an Ivor Novello Award. She was nominated for an Academy Award and a Golden Globe Award for May It Be, written for The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring (2001).” [!]

Loreena Isabel Irene McKennitt (born February 17, 1957) is a Canadian singer-songwriter, multi-instrumentalist, and composer who writes, records and performs world music with Celtic and Middle Eastern influences. McKennitt is known for her refined and clear soprano vocals. She has sold more than 14 million records worldwide.”

Folque is a Norwegian folk rock band founded in 1973 by Morten Bing, Jørn Jensen, Eilif Amundsen, Lisa Helljesen, Espen Løvstad, Trond Øverland, and Trond Villa. In 1972 a subset of the band was initially named «Brød & Vin» (Bread & wine), they changed the name to Folque in the spring of 1973 after adding members and traditional instruments to the ensemble. The band was dissolved in 1984, but reunited in 1994 and in 2004 for playing live. Folque is re-established in 2014 with Lisa Helljesen as lead singer.

Their musical style is linked to Malicorne in France and to Steeleye Span in the UK. Most of the discography is difficult to find, as only the first 3 albums [out of 10!] were re-released on CD.”

Massive Attack are an English electronic band formed in 1988 in Bristol by Robert ‘3D’ Del Naja, Adrian ‘Tricky’ Thaws, Andrew ‘Mushroom’ Vowles and Grant ‘Daddy G’ Marshall.”

John Zorn (born September 2, 1953) is an American composer, conductor, saxophonist, arranger, multi-instrumentalist, producer and dedicated improviser that deliberately resists category. Zorn’s avant-garde and experimental approaches to composition and improvisation are inclusive of jazz, rock, hardcore, classical, contemporary, surf, metal, soundtrack, ambient, and world music.”

Faster Pussycat is an American rock band from Los Angeles, California, formed in 1985 by vocalist Taime Downe, guitarists Brent Muscat and Greg Steele and bassist Kelly Nickels. The group has since gone through numerous lineup changes leaving Downe as the only constant member. They broke up in 1993, but reformed in 2001. Faster Pussycat has released 4 studio albums to date (…) They were one of the most successful hard rock bands of the late 1980s and early 1990s, having sold over two million records worldwide.”

Yann Tiersen (born 23 June 1970) is a French musician and composer. His musical career is split between studio recordings, music collaborations and film soundtracks songwriting. His music incorporates a large variety of classical and contemporary instruments, primarily the electric guitar, the piano, synthesisers and the violin, but also folkoric instruments like the melodica, xylophone, toy piano, harpsichord, piano accordion or even typewriter.”

Ataraxia is an Italian neoclassical dark wave band founded in 1985. Frontlined by singer Francesca Nicoli, it combines modern technology with archaic instrumentation. The lyrical themes are frequently drawn from nature and ancient cultures.”

The Chameleons were an English post-punk band formed in Middleton, Greater Manchester, England, in 1981. The band consisted of singer and bassist Mark Burgess, guitarists Reg Smithies and Dave Fielding, and drummer John Lever.”

Ride are an English rock band formed in Oxford in 1988. The band consists of Andy Bell, Mark Gardener, Laurence ‘Loz’ Colbert, and Steve Queralt. The band were initially part of the ‘shoegazing’ scene that emerged in England during the early 90s. Following the break-up of the band in 1996, members moved on to various other projects, most notably Bell who became the bassist for Oasis.”

Mono (stylised as MONO) is a Japanese instrumental band, formed in 1999 in Tokyo. The band consists of Takaakira ‘Taka’ Goto (electric guitar, glockenspiel), Hideki ‘Yoda’ Suematsu (electric guitar, glockenspiel), Dahm Majuri Cipolla (drums), and Tamaki Kunishi (bass guitar, electric guitar, piano, glockenspiel).”

Godspeed You! Black Emperor (sometimes abbreviated to GY!BE) is a Canadian experimental music collective which originated in Montreal, Quebec in 1994. The group releases recordings through Constellation, an independent record label also located in Montreal. After the release of their debut album in 1997, the group toured regularly from 1998 to 2003. Their second album, 2000’s Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven, received great critical acclaim and has been named as one of the best albums of the decade.”

Swans are an American experimental rock band formed in 1982 by singer, songwriter and multi-instrumentalist, Michael Gira. One of few acts to emerge from the New York City-based no wave scene and stay intact into the next decade, Swans have become recognized for an ever-changing sound, exploring genres such as noise rock, post-punk, industrial and post-rock.”

Of the Wand & the Moon (stylized as :Of the Wand & the Moon:) is the neofolk/experimental project of Danish musician Kim Larsen and various guest contributors.”

INTRODUCTION TO VEDANTA: Understanding the Fundamental Problem // INTRODUÇÃO AO VEDANTA: Mais próximo à filosofia ocidental do que se imagina. – Swami Dayananda, 1997.

This book is based on the opening talks given by Swami Dayananda at the start of a 3-year course in November 1979, at Piercy, California. The first text studied at this course was Tattvabodha, a simple textbook of definitions, comprising an outline of Vedanta. (…) Barbara Thornton compiled, abridged and edited the talks.”

1. AS BUSCAS HUMANAS

Os purushartha buscados pelo purusha

(Os 4 bens supremos buscados pelo homem.)

dharma ética

artha segurança (‘bem’, ‘felicidade’ ou ‘paz’ na filosofia ocidental)

kama princípio do hedonismo

moksha liberação

Artha e kama pertencem ao reino animal. A parte mais primitiva e ancestral do socius e os instintos mais básicos. Apenas o dharma e o moksa constituem buscas do homem, indivíduo, na acepção mais nobre da palavra. O homem, ou o animal super-ansioso.

Kama ou Mercúrio

Tempo condiciona o desejo [desejo stricto sensu]. Espaço condiciona o desejo. Individualidade condiciona o desejo.” Quase podemos dizer que o princípio mercurial foi enunciado no Ocidente por Kant. Seguem-se considerações no reino da Estética.

Artha ou Especificidades do homem

Sendo artha e kama as metas mais volúveis para o indivíduo, que se guia por valores mutantes, a cultura ou civilização é uma forma de tornar estes valores mais estáveis, estabelecendo um valor dos valores (prisão consensual ou condicionada).

As normas que controlam o livre-arbítrio se chamam karma.

Aqui iniciam as considerações sobre a subordinação do prazer e da segurança à ética. A primeira constatação do homem ético é: o próximo também vive (é purusha) e busca os bens supremos (purushartha). Não posso usá-lo como escada para minha auto-realização.

A fonte da ética

Se nenhum sistema ético ou ética idiossincrática é perfeito(a), há sistemas éticos que constituem medianas sociais exigentes e boas o suficiente para serem seguidas quase universalmente. A ética que deriva de escrituras sagradas de natureza remota no tempo, chamada de código religioso, é chamada no hinduísmo de dharma. Dharma estão acima de karma, porém karma é uma forma básica do dharma. O dharma é secular (deste mundo). O material de onde deriva pode ter qualquer status (secular ou sacro).

Interpretação de imperativos éticos, Falibilidade do homem e da astúcia: Lei e virtude como meios para um fim ou fim em si

Do valor destrutivo da Verdade, o imperativo ético mais difícil.

Da não-obrigatoriedade do cumprimento de tabus (vocação especial do sacerdote ou asceta), parte sagrada ou tradicional dos imperativos éticos.

O Dharma

O dharma é um misto de imperativos éticos seculares (senso comum) e fórmulas consagradas nos Vedas, com interdições e recomendações específicas para o seguidor do livro.

O que no Ocidente se costuma chamar de karma, sem conhecimento oriental, é justamente um princípio do dharma verdadeiro: o de que toda ação apresenta conseqüências, a curto, médio e longo prazo, boas ou ruins. O karma está falsamente associado, na cabeça do ocidental leigo, ao destino inexorável.

Punya é a boa ação cujos frutos podem ser imediatamente notados e colhidos. A própria prática da boa ação pode ser automatizada ou introjetada individualmente como um prazer.

Papa é a má ação cujos frutos podem ser imediatamente notados e colhidos. O Ocidente associa a expressão a pecar (e curiosamente não associa nada a punya). Papa tem a ver com a ocorrência de um futuro indesejado.

A árvore purushartha

Dharma está na copa da árvore dos purushartha, liderando em importância. Até agora a árvore parece um triângulo ou uma divisão tripartite. Foram citados apenas 3 dos bens supremos buscados. Isso tem uma motivação ulterior.

Moksha na verdade está além do dharma, mas na vida da maioria absoluta dos seres humanos não desempenha qualquer papel. Veremos adiante o quanto eu me oponho a essa “tese”… É possível levar uma vida prazenteira, feliz, confortável e mesmo ética, legítima e não-destrutiva para os outros; mas o dharma, sendo secular, possui limites bastante claros. É o limite dos bens supremos temporais. A partir de então fala-se em moksha, o que já é abstrato ou mais-que-abstrato, já que a ética é em si abstrata: supra-sensível.

Quando o corpo se torna uma prisão: Do belo & Para além da individualidade

O que Platão quer dizer com a metempsicose? A roda dos desejos.

Que tudo esteja no seu devido lugar é evidenciado pelo desejo de que nada fôra diferente do que as circunstâncias do momento.”

A vida inteira como este momento.

Todo ser humano tem a memória de já ter vivido um momento de moksha. Há correntes e há cavernas.

2. A QUESTÃO FUNDAMENTAL

A fonte do erro

Estar no meio do caminho é sempre pior que fora do caminho, para não dizer “no caminho certo”. Melhorando a analogia, saber de algo pela metade é sempre pior do que nada saber.

A auto-avaliação da inadequação

(…) Começa a adquirir um ar inopinado de auto-ajuda barata!

A busca pela perfeição via mudança

(…) Descrição modorrenta da vida do pequeno-burguês.

Valores pessoais determinam os tipos de mudança

(…)

Atitude quanto a mudanças

(…)

Ganho por mudanças pressupõe perdas

(…)

Volubilidade do prazer

(…)

Reconhecimento do problema

(…)

Análise da experiência

Finalmente algum conteúdo não-facilmente apreensível pelos adultos de 20 anos típicos (idiotas profusos): “A pessoa madura atinge o desapego (nirveda). Discerne que o incriado (infinito) não pode ser produzido pela ação.” Literalmente nenhum cristão é capaz de entender a segunda frase. O mundo enquanto mundo só tem sentido para o cristão porque é um mundo criado, com um Autor; derivado de uma Ação todo-poderosa daquele que é nossa imagem e semelhança elevadas à enésima potência.

Nesse momento o não-experimentado-o-bastante cai na tentação de contrariar a própria descoberta, e crer-se diferente só porque “descobriu” o tal “infinito”. E esse erro está sendo premeditado neste tópico pelo próprio autor! Quanto mais sabedoria, mais humildade, não é possível entender esse incriado e superar a ação, modo fundamental do homem! Em outros termos, o autor está confundindo o leitor leigo, não orientando-o bem.

A inadequação é centrada em si mesmo

Dos males o menor: essa interpretação pelo menos já desautoriza a conduta do convertido fanático que “vende todas as suas coisas” e parte seguindo Jesus… Nada ter e tudo ter são essencialmente idênticos.

O livro conceitua brahmanah como “pessoa madura”, descartando todo o racismo inevitável nos textos sagrados hindus. Não estou dizendo que não deveria fazê-lo, mas passa de largo que na literatura, e durante milênios, essa não foi uma possibilidade: ou se era da casta ariana ou os arcanos lhe estavam vedados!

He recognizes that what he really wants is a drastic change in himself, not a situational change.” Não! Como dito, o autor cai na precipitação (diria, cai no precipício) de piorar o erro, após citar o aforismo do incriado!

Noção de adequação: a norma para se auto-avaliar

A exposição retroagiu de novo para contemplar os babacas na casa dos 20. Exemplo: “One cannot consider something as bad unless one knows what is good. There is no dissatisfaction if there is no norm for satisfaction.”

“…Therefore one struggles for security and pleasure” O idiota continua querendo. O não-brâmane! Porque a noção de adequação é mais uma falsificação das aparências.

A busca direta pela liberdade a partir da inadequação

Moksha como a “senda” que leva à adequação (falso!). Mumukshu, quem busca a libertação. De nada adianta, porém, abrir um terceiro olho se ele também é cego!

Mumukshus e hedonistas: demasiado parecidos, demasiado pequenos olhados à distância, demasiado humanos…

E neste ponto, falta dharma, a ética, único campo genuíno das relações humanas (nirveda nirvana)… Mas foram 29 páginas circulares e silogísticas até aqui, num livro de apenas 120!

3. A BUSCA MADURA

A solução fútil

Resumo do capítulo anterior.

A experiência da adequação

Mais um pouco de resumo, i.e., tratamento infantil do conceito de ataraxia dos gregos antigos.

Alegria e inadequação não podem existir em mim no mesmo instante.”

Falácia. O alegre pode se sentir inadequado (o ganhador da mega-sena, que “tem tudo”, mas sabe que não tem “o que mais precisa”). Ou seu inverso, o infeliz que se sente adequado: segue a moral dos melhores, é ético, vive porém com pessoas corrompidas e inferiores. Vive da melhor maneira, mas seus vizinhos, sua sociedade, fá-lo um rematado infeliz.

Distinguindo conhecimento e experiência

Mais colocações óbvias.

Mais falácias:

  1. Experiences can be contradictory.”

Talvez falar em falácia seja exagero, mas é uma meia-afirmação inútil: experiências são, inerentemente, sempre contraditórias umas com as outras. Não é questão de possibilidade, é uma certeza inexorável.

  1. Knowledge cannot be contradicted.”

O conhecimento é apenas um raciocínio qualquer. Tanto quanto as experiências, os conhecimentos se contradizem o tempo todo. Mesmo se conhecimento = Verdade absoluta, há várias “verdades absolutas”, mais cedo ou mais tarde a filosofia e a observação da vida diária chegam a essa conclusão. E não há árbitro capaz de decidir pela preeminência de uma verdade absoluta sobre as outras. Aporia.

Parece um livro-texto furreca de psicologia dos anos 60: (p. 33) “Any given set of perceptual impressions gained from experience may or may not conform to knowledge. To qualify as knowledge they must pass the test of inquiry.” O que, uma junta de especialistas, banca monográfica?! Haha.

The questions are: Is the experience of a sun that rises in the east and sets in the west fact or not? Is this observation true? What about the polar sun that can be seen traveling in a circle? How does this observation correspond with fact?”

Knowledge: With respect to the earth the sun is stationary, neither rising nor setting nor moving in a circle” Então o conhecimento são os universais!

After inquiry and analysis, the contradictions are resolved in a true understanding” Desde que num tema já exaurido pela ciência da época.

The experiences were only mithya, apparent”

Investigação da natureza do si mesmo: atma-vicara

O sol, comparado a um si mesmo, é fixo, absoluto, mera coisa. Podemos dizer que temos um conhecimento objetivo sobre o sol. E, ao lado dessa afirmação, podemos dizer que ninguém tem um conhecimento objetivo sobre qualquer outro alguém (ao sujeito não é dado conhecer o sujeito). Sobre adequação ou inadequação de alguém. Como o Homo sapiens é primeiramente um animal crítico, dir-se-ia que “até Alexandre o Grande tinha suas inadequações”, mas que nos confins da Terra acharemos um “perfeito inadequado”. Por mais que queiramos, Bolsonaro, p.ex., ainda é costumeiramente adequado, até endeusado (absolutizado!) por muitos “seres humanos” (não-brâmanes)…

A investigação necessária para resolver a questão particular da auto-adequação é chamada atma-vicara. Atma significando ‘eu’ ou si mesmo, e vicara atendendo por pesquisa, inquérito, investigação.”

O tópico deve ser mantido em aberto.” Ó!

O que se tenta aqui não é resolver uma equação de segundo grau, rapazes, é um pouco mais complexo que isso!

Análise da busca pela adequação

Repetição.

A busca pela adequação é universal e não está em poder de ninguém desistir”

Repetição (cita mumukshu duas vezes, nada conclui).

A natureza da realização

Mudança de situação, mudança de lugar, passagem do tempo são relevantes somente para aquilo que é limitado.” Bom, aqui pelo menos refuta-se o além cristão. Não há redenção à morte (futuro temporal máximo do ponto de vista individual).

A conquista do já-realizado

(…)

Liberdade da inadequação: uma meta já consumada

The first 3 human goals, dharma, artha, kama, the ethical pursuit of sec…” Grave erro. Quando foi que o ser humano incipiente buscou ética? Jamais!

Inquiry into the nature of adequacy shows that this is the only category in which we can put moksha.” Desisto desse livro.

A busca madura

Grosso modo, podemos reduzir o dito à p. 43 como: “sou burro, doravante busco conhecimento”. Nada que Sócrates-Platão não tenham ensinado com palavras muito mais poéticas.

An informed mumukshu is called a jimasu Mas o mumukshu já não era “informado” (maduro)?

mumu… busca liberdade

jima… busca conhecimento

Many examples can be found in almost all religions of severe, painful, and sometimes strange practices undertaken for the sake of deliverance from limitation.” (mumu) Muitas, inclusive o próprio asceta hindu. O Código de Manu está inteiramente informado, para usar um trocadilho, desses casos.

A progressiva decadência (auto-retirada do mundo da ação) do homem…

This inquiry into the self which leads to discovery of the nature of oneself is called Vedanta.” Charlatanismo. Não o Vedanta, mas esta palestra.

4. IGNORÂNCIA E CONHECIMENTO

Vejam os subtítulos de mais este capítulo inecessário e “circular”, para “pegar leve”:

Todos nascem ignorantes

A desfolhação da ignorância

Conexões: sambandha

Objetos são conhecidos via percepção

Os meios para conhecer devem ser adequados

Inferências são baseadas na percepção

Conhecimento intelectual é conhecimento inferencial

O conhecimento é incriado [Platão já esteve aqui, etc., etc.]

Conhecimento válido

Percepção é inútil para o auto-conhecimento

A necessidade do auto-conhecimento

Os meios de obtenção do auto-conhecimento

Para o auto-conhecimento, procure um guru qualificado [mero esquema de pirâmide milenar]

Conhecimento indireto e direto via palavras

As palavras do guru dão o conhecimento direto do si mesmo

Chuva de lugares comuns. Creio, por bem, que devamos parar por aqui! Aquele que necessita de um guru não pode “ser salvo”, muito menos “salvar-se a si mesmo”…

RESOLUTION ON CERTAIN QUESTIONS IN THE HISTORY OF OUR PARTY SINCE THE FOUNDING OF THE PEOPLE’S REPUBLIC OF CHINA (Adopted by the 6th Plenary Session of the 11th Central Committee of the Communist Party of China on June 27, 1981)

At a time of national crisis of unparalleled gravity when the Japanese imperialists were intensifying their aggression against China, the Central Committee of the Party headed by Comrade Mao Zedong decided on and carried out the correct policy of forming an anti-Japanese national united front. Our Party led the students’ movement of December 9, 1935 and organized the powerful mass struggle to demand an end to the civil war and resistance against Japan so as to save the nation. The Xi’an Incident organized by Generals Zhang Xueliang and Yang Hucheng on December 12, 1936 and its peaceful settlement which our Party promoted played a crucial historical role in bringing about renewed co-operation between the Kuomintang and the Communist Party and in achieving national unity for resistance against Japanese aggression. During the war of resistance, the ruling clique of the Kuomintang continued to oppose the Communist Party and the people and was passive in resisting Japan. As a result, the Kuomintang suffered defeat after defeat in front operations against the Japanese invaders. Our Party persevered in the policy of maintaining its independence and initiative within the united front, closely relied on the masses of the people, conducted guerrilla warfare behind enemy lines and set up many anti-Japanese base areas. The Eighth Route Army and the New Fourth Army — the reorganized Red Army — grew rapidly and became the mainstay in the war of resistance. The Northeast Anti-Japanese United Army sustained its operations amid formidable difficulties. Diverse forms of anti-Japanese struggle were unfolded on a broad scale in areas occupied by Japan or controlled by the Kuomintang. Consequently, the Chinese people were able to hold out in the war for eight long years and win final victory, in co-operation with the people of the Soviet Union and other countries in the anti-fascist war.

During the anti-Japanese war, the Party conducted a rectification movement, a movement of Marxist education. Launched in 1942, it was a tremendous success. It was on this basis that the Enlarged Seventh Plenary Session of the Sixth Central Committee of the Party in 1945 adopted the Resolution on Certain Questions in the History of Our Party and soon afterwards the Party’s Seventh National Congress was convened.”

After the conclusion of the War of Resistance Against Japan, the Chiang Kai-shek government, with the aid of U.S. imperialism, flagrantly launched an all-out civil war, disregarding the just demand of our Party and the people of the whole country for peace and democracy. With the whole-hearted support of the people in all the Liberated Areas, with the powerful backing of the students’ and workers’ movements and the struggles of the people of various strata in the Kuomintang areas and with the active co-operation of the democratic parties and non-party democrats, our Party led the People’s Liberation Army in fighting the three-year War of Liberation and, after the Liaoxi-Shenyang, Beiping-Tianjin and Huai-Hai campaigns and the successful crossing of the Changjiang (Yangtse) River, in wiping out a total of 8,000,000 Chiang Kai-shek troops. The end result was the overthrow of the reactionary Kuomintang government and the establishment of the great People’s Republic of China. The Chinese people had stood up.”

Victory in the Chinese revolution was won under the guidance of Marxism-Leninism. Our Party had creatively applied the basic principles of Marxism-Leninism and integrated them with the concrete practice of the Chinese revolution. In this way, the great system of Mao Zedong Thought carne into being and the correct path to victory for the Chinese revolution was charted. This is a major contribution to the development of Marxism-Leninism.”

The Chinese revolution was victorious mainly because we relied on a people’s army led by the Party, an army of a completely new type and enjoying flesh-and-blood ties with the people, to defeat a formidable enemy through protracted people’s war. Without such an army, it would have been impossible to achieve the liberation of our people and the independence of our country.

The Chinese revolution had the support of the revolutionary forces in other countries at every stage, a fact which the Chinese people will never forget. Yet it must be said that, fundamentally, victory in the Chinese revolution was won because the Chinese Communist Party adhered to the principle of independence and self-reliance and depended on the efforts of the whole Chinese people, whatever their nationality, after they underwent untold hardships and surmounted innumerable difficulties and obstacles together.”

While changing the balance of forces in world politics, the people’s victory in so large a country having nearly one-quarter of the world’s population has inspired the people in countries similarly subjected to imperialist and colonialist exploitation and oppression with heightened confidence in their forward march. The triumph of the Chinese revolution is the most important political event since World War II and has exerted a profound and far-reaching impact on the international situation and the development of the people’s struggle throughout the world.”

Our Party and people would have had to grope in the dark much longer had it not been for Comrade Mao Zedong, who more than once rescued the Chinese revolution from grave danger, and for the Central Committee of the Party which was headed by him and which charted the firm, correct political course for the whole Party, the whole people and the people’s army. Just as the Communist Party of China is recognized as the central force leading the entire people forward, so Comrade Mao Zedong is recognized as the great leader of the Chinese Communist Party and the whole Chinese people, and Mao Zedong Thought, which came into being through the collective struggle of the Party and the people, is recognized as the guiding ideology of the Party. This is the inevitable outcome of the twenty-eight years of historical development preceding the founding of the People’s Republic of China.”

The establishment of the socialist system represents the greatest and most profound social change in Chinese history and is the foundation for the country’s future progress and development.”

We have established and consolidated the people’s democratic dictatorship led by the working class and based on the worker-peasant alliance, namely, the dictatorship of the proletariat. It is a new type of state power, unknown in Chinese history, in which the people are the masters of their own house. It constitutes the fundamental guarantee for the building of a modern socialist country, prosperous and powerful, democratic and culturally advanced.

We have achieved and consolidated nationwide unification of the country, with the exception of Taiwan and other islands, and have thus put an end to the state of disunity characteristic of old China. We have achieved and consolidated the great unity of the people of all nationalities and have forged and expanded a socialist relationship of equality and mutual help among the more than fifty nationalities. And we have achieved and consolidated the great unity of the workers, peasants, intellectuals and people of other strata and have strengthened and expanded the broad united front which is led by the Chinese Communist Party in full co-operation with the patriotic democratic parties and people’s organizations, and comprises all socialist working people and all patriots who support socialism and patriots who stand for the unification of the motherland, including our compatriots in Taiwan, Xianggang (Hong Kong) and Aomen (Macao) and Chinese citizens overseas.”

We have built and developed a socialist economy and have in the main completed the socialist transformation of the private ownership of the means of production into public ownership and put into practice the principle of ‘to each according to his work’. The system of exploitation of man by man has been eliminated, and exploiters no longer exist as classes since the overwhelming majority have been remoulded and now live by their own labour.

Compared with 1952 when economic rehabilitation was completed, fixed industrial assets, calculated on the basis of their original price, were more than 27 times greater in 1980, exceeding 410,000 million yuan; the output of cotton yarn was 4.5 times greater, reaching 2,930,000 tonnes; that of coal 9.4 times, reaching 620 million tonnes; that of electricity 41 times, exceeding 300,900 million KWH; and the output of crude oil exceeded 105,000,000 tonnes and that of steel 37 million tonnes; the output value of the engineering industry was 54 times greater, exceeding 127,000 million yuan. A number of new industrial bases have been built in our east hinterland and the regions inhabited by our minority nationalities. National defence industry started from scratch and is being gradually built up. Much has been done in the prospecting of natural resources. There has been a tremendous growth in railway, highway, water and air transport and post and telecommunications.”

Flooding by big rivers such as the Changjiang (Yangtse), Huanghe (Yellow River), Huaihe, Haihe, Zhujiang (Pearl River), Liaohe and Songhuajiang has been brought under initial control. In our rural areas, where farm machinery, chemical fertilizers and electricity were practically non-existent before liberation, there is now a big increase in the number of agriculture-related tractors and irrigation and drainage equipment and in the quantity of chemical fertilizers applied, and the amount of electricity consumed is 7.5 times that generated in the whole country in the early years of liberation. In 1980, the total output of grain was nearly double that in 1952 and that of cotton more than double. Despite the excessive rate of growth in our population, which is now nearly a billion, we have succeeded in basically meeting the needs of our people in food and clothing by our own efforts.”

Considerable progress has been made in education, science, culture, public health and physical culture. In 1980, enrolment in the various kinds of full-time schools totalled 204 million, 3.7 times the number in 1952. In the past thirty-two years, the institutions of higher education and vocational schools have turned out nearly 9 million graduates with specialized knowledge or skills. Our achievements in nuclear technology, man-made satellites, rocketry, etc. represent substantial advances in the field of science and technology. In literature and art, large numbers of fine works have appeared to cater for the needs of the people and socialism. With the participation of the masses, sports have developed vigorously, and records have been chalked up in quite a few events. Epidemic diseases with their high mortality rates have been eliminated or largely eliminated, the health of the rural and urban populations has greatly improved, and average life expectancy is now much higher.”

Internationally, we have steadfastly pursued an independent socialist foreign policy, advocated and upheld the Five Principles of Peaceful Coexistence, entered into diplomatic relations with 124 countries and promoted trade and economic and cultural exchanges with still more countries and regions. Our country’s place in the United Nations and the Security Council has been restored to us. Adhering to proletarian internationalism, we are playing an increasingly influential and active role in international affairs by enhancing our friendship with the people of other countries, by supporting and assisting the oppressed nations in their cause of liberation, the newly independent countries in their national construction and the people of various countries in their just struggles, and by staunchly opposing imperialism, hegemonism, colonialism and racism in defence of world peace. All of which has served to create favourable international conditions for our socialist construction and contributes to the development of a world situation favourable to the people everywhere.

New China has not been in existence for very long, and our successes are still preliminary. Our Party has made mistakes owing to its meagre experience in leading the cause of socialism and subjective errors in the Party leadership’s analysis of the situation and its understanding of Chinese conditions. Before the ‘cultural revolution’ there were mistakes of enlarging the scope of class struggle and of impetuosity and rashness in economic construction. Later, there was the comprehensive, long-drawn-out and grave blunder of the ‘cultural revolution’. All these errors prevented us from scoring the greater achievements of which we should have been capable. It is impermissible to overlook or whitewash mistakes, which in itself would be a mistake and would give rise to more and worse mistakes. But after all, our achievements in the past 32 years are the main thing. It would be a no less serious error to overlook or deny our achievements or our successful experiences in scoring these achievements. These achievements and successful experiences of ours are the product of the creative application of Marxism-Leninism by our Party and people, the manifestation of the superiority of the socialist system and the base from which the entire Party and people will continue to advance. ‘Uphold truth and rectify error’ — this is the basic stand of dialectical materialism our Party must take. It was by taking this stand that we laved our cause from danger and defeat and won victory in the past. By taking the same stand, we will certainly win still greater victories in the future.”

The Seven Years of Basic Completion of the Socialist Transformation

From the inception of the People’s Republic of China in October 1949 to 1956, our Party led the whole people in gradually realizing the transition from new democracy to socialism, rapidly rehabilitating the country’s economy, undertaking planned economic construction and in the main accomplishing the socialist transformation of the private ownership of the means of production in most of the country. The guidelines and basic policies defined by the Party in this historical period were correct and led to brilliant successes.

In the first 3 years of the People’s Republic, we cleared the mainland of bandits and the remnant armed forces of the Kuomintang reactionaries, peacefully liberated Tibet, established people’s governments at all levels throughout the country, confiscated bureaucrat-capitalist enterprises and transformed them into state-owned socialist enterprises, unified the country’s financial and economic work, stabilized commodity prices, carried out agrarian reform in the new liberated areas, suppressed counter-revolutionaries, and unfolded the movements against the ‘three evils’ of corruption; waste and bureaucracy and against the ‘five evils’ of bribery, tax evasion, theft of state property, cheating on government contracts and stealing of economic information, the latter being a movement to beat back the attack mounted by the bourgeoisie. (…) We effectively transformed the educational, scientific and cultural institutions of old China. While successfully carrying out the complex and difficult task of social reform and simultaneously undertaking the great war to resist U.S. aggression and aid Korea, protect our homes and defend the country, we rapidly rehabilitated the country’s economy which had been devastated in old China. By the end of 1952, the country’s industrial and agricultural production had attained record levels.

On the proposal of Comrade Mao Zedong in 1952, the Central Committee of the Party advanced the general line for the transition period, which was to realize the country’s socialist industrialization and socialist transformation of agriculture, handicrafts and capitalist industry and commerce step by step over a fairly long period of time. This general line was a reflection of historical necessity.”

With nationwide victory in the new-democratic revolution and completion of the agrarian reform, the contradiction between the working class and the bourgeoisie and between the socialist road and the capitalist road became the principal internal contradiction. The country needed a certain expansion of capitalist industry and commerce which were beneficial to its economy and to the people’s livelihood. But in the course of their expansion, things detrimental to the national economy and the people’s livelihood were bound to emerge. Consequently, a struggle between restriction and opposition to restriction was inevitable. The conflict of interests became increasingly apparent between capitalist enterprises on the one hand and the economic policies of the state, the socialist state-owned economy, the workers and staff in these capitalist enterprises and the people as a whole on the other. An integrated series of necessary measures and steps, such as the fight against speculation and profiteering, the readjustment and restructuring of industry and commerce, the movement against the ‘five evils’, workers’ supervision of production and state monopoly of the purchase and marketing of grain and cotton, were bound to gradually bring backward, anarchic, lopsided and profit-oriented capitalist industry and commerce into the orbit of socialist transformation.

Among the individual peasants, and particularly the poor and lower-middle peasants who had just acquired land in the agrarian reform but lacked other means of production, there was a genuine desire for mutual aid and co-operation in order to avoid borrowing at usurious rates and even mortgaging or selling their land again with consequent polarization, and in order to expand production, undertake water conservancy projects, ward off natural calamities and make use of farm machinery and new techniques. The progress of industrialization, while demanding agricultural products in ever increasing quantities, would provide stronger and stronger support for the technical transformation of agriculture, and this also constituted a motive force behind the transformation of individual into co-operative farming.”

In dealing with capitalist industry and commerce, we devised a whole series of transitional forms of state capitalism from lower to higher levels, such as the placing of state orders with private enterprises for the processing of materials or the manufacture of goods, state monopoly of the purchase and marketing of the products of private enterprise, the marketing of products of state-owned enterprises by private shops, and joint state-private ownership of individual enterprises or enterprises of a whole trade, and we eventually realized the peaceful redemption of the bourgeoisie, a possibility envisaged by Marx and Lenin. In dealing with individual farming, we devised transitional forms of co-operation, proceeding from temporary or all-the-year-round mutual-aid teams, to elementary agricultural producers’ co-operatives of a semi-socialist nature and then to advanced agricultural producers’ co-operatives of a fully socialist nature, always adhering to the principles of voluntariness and mutual benefit, demonstration through advanced examples, and extension of state help. Similar methods were used in transforming individual handicraft industries. In the course of such transformation, the state-capitalist and co-operative economies displayed their unmistakable superiority. By 1956, the socialist transformation of the private ownership of the means of production had been largely completed in most regions. But there had been shortcomings and errors. From the summer of 1955 onwards, we were over-hasty in pressing on with agricultural co-operation and the transformation of private handicraft and commercial establishments; we were far from meticulous, the changes were too fast, and we did our work in a somewhat summary, stereotyped manner, leaving open a number of questions for a long time. Following the basic completion of the transformation of capitalist industry and commerce in 1956, we failed to do a proper job in employing and handling some of the former industrialists and businessmen. But on the whole, it was definitely a historic victory for us to have effected, and to have effected fairly smoothly, so difficult, complex and profound a social change in so vast a country with its several hundred million people, a change, moreover, which promoted the growth of industry, agriculture and the economy as a whole.

In economic construction under the First Five-Year Plan (1953-57), we likewise scored major successes through our own efforts and with the assistance of the Soviet Union and other friendly countries. A number of basic industries, essential for the country’s industrialization and yet very weak in the past, were built up. Between 1953 and 1956, the average annual increases in the total value of industrial and agricultural output were 19.6 and 4.8 per cent respectively. Economic growth was quite fast, with satisfactory economic results, and the key economic sectors were well-balanced. The market prospered, prices were stable. The people’s livelihood improved perceptibly. In April 1956, Comrade Mao Zedong made his speech On the Ten Major Relationships, in which he initially summed up our experiences in socialist construction and set forth the task of exploring a way of building socialism suited to the specific conditions of our country.

The First National People’s Congress was convened in September 1954, and it enacted the Constitution of the People’s Republic of China. In March 1955, a national conference of the Party reviewed the major struggle against the plots of the careerists Gao Gang and Rao Shushi to split the Party and usurp supreme power in the Party and the state; in this way it strengthened Party unity. In January 1956, the Central Committee of the Party called a conference on the question of the intellectuals. Subsequently, the policy of ‘letting a hundred flowers blossom and a hundred schools of thought contend’ was advanced. These measures spelled out the correct policy regarding intellectuals and the work in education, science and culture and thus brought about a significant advance in these fields. Owing to the Party’s correct policies, fine style of work and the consequent high prestige it enjoyed among the people, the vast numbers of cadres, masses, youth and intellectuals earnestly studied Marxism-Leninism and Mao Zedong Thought and participated enthusiastically in revolutionary and construction activities under the leadership of the Party, so that a healthy and virile revolutionary morality prevailed throughout the country.

The Eighth National Congress of the Party held in September 1956 was very successful. The congress declared that the socialist system had been basically established in China; that while we must strive to liberate Taiwan, thoroughly complete socialist transformation, ultimately eliminate the system of exploitation and continue to wipe out the remnant forces of counter-revolution, the principal contradiction within the country was no longer the contradiction between the working class and the bourgeoisie but between the demand of the people for rapid economic and cultural development and the existing state of our economy and culture which fell short of the needs of the people; that the chief task confronting the whole nation was to concentrate all efforts on developing the productive forces, industrializing the country and gradually meeting the people’s incessantly growing material and cultural needs; and that although class struggle still existed and the people’s democratic dictatorship had to be further strengthened, the basic task of the dictatorship was now to protect and develop the productive forces in the context of the new relations of production. The congress adhered to the principle put forward by the Central Committee of the Party in May 1956, the principle of opposing both conservatism and rash advance in economic construction, that is, of making steady progress by striking an over-all balance. It emphasized the problem of the building of the Party in office and the need to uphold democratic centralism and collective leadership, oppose the personality cult, promote democracy within the Party and among the people and strengthen the Party’s ties with the masses. The line laid down by the Eighth National Congress of the Party was correct and it charted the path for the development of the cause of socialism and for Party building in the new period.”

Ten Years of Initially Building Socialism in All Spheres

In the ten years preceding the ‘cultural revolution’ we achieved very big successes despite serious setbacks. By 1966, the value of fixed industrial assets, calculated on the basis of their original price, was 4 times greater than in 1956. The output of such major industrial products as cotton yarn, coal, electricity, crude oil, steel and mechanical equipment all recorded impressive increases. Beginning in 1965, China became self-sufficient in petroleum. New industries such as the electronic and petrochemical industries were established one after another. The distribution of industry over the country became better balanced. Capital construction in agriculture and its technical transformation began on a massive scale and yielded better and better results. Both the number of tractors for farming and the quantity of chemical fertilizers applied increased over 7 times and rural consumption of electricity 71 times. The number of graduates from institutions of higher education was 4.9 times that of the previous seven years. Educational work was improved markedly through consolidation. Scientific research and technological work, too, produced notable results.”

While leading the work of correcting the errors in the Great Leap Forward and the movement to organize people’s communes, Comrade Mao Zedong pointed out that there must be no expropriation of the peasants; that a given stage of social development should not be skipped; that equalitarianism must be opposed; that we must stress commodity production, observe the law of value and strike an over-all balance in economic planning; and that economic plans must be arranged with the priority proceeding from agriculture to light industry and then to heavy industry. Comrade Liu Shaoqi said that a variety of means of production could be put into circulation as commodities and that there should be a double-track system for labour as well as for education in socialist society.”

In the course of this decade, there were serious faults and errors in the guidelines of the Party’s work, which developed through twists and turns.

Nineteen fifty-seven was one of the years that saw the best results in economic work since the founding of the People’s Republic owing to the conscientious implementation of the correct line formulated at the Eighth National Congress of the Party. To start a rectification campaign throughout the Party in that year and urge the masses to offer criticisms and suggestions were normal steps in developing socialist democracy. In the rectification campaign a handful of bourgeois Rightists seized the opportunity to advocate what they called ‘speaking out and airing views in a big way’ and to mount a wild attack against the Party and the nascent socialist system in an attempt to replace the leadership of the Communist Party. It was therefore entirely correct and necessary to launch a resolute counter-attack. But the scope of this struggle was made far too broad and a number of intellectuals, patriotic people and Party cadres were unjustifiably labelled ‘Rightists’, with unfortunate consequences.”

Left’ errors, characterized by excessive targets, the issuing of arbitrary directions, boastfulness and the stirring up of a ‘communist wind’, spread unchecked throughout the country. This was due to our lack of experience in socialist construction and inadequate understanding of the laws of economic development and of the basic economic conditions in China. More important, it was due to the fact that Comrade Mao Zedong and many leading comrades, both at the centre and in the localities, had become smug about their successes, were impatient for quick results and overestimated the role of man’s subjective will and efforts. After the general line was formulated, the Great Leap Forward and the movement for rural people’s communes were initiated without careful investigation and study and without prior experimentation. From the end of 1958 to the early stage of the Lushan Meeting of the Political Bureau of the Party’s Central Committee in July 1959, Comrade Mao Zedong and the Central Committee led the whole Party in energetically rectifying the errors which had already been recognized. However, in the later part of the meeting, he erred in initiating criticism of Comrade Peng Dehuai and then in launching a Party-wide struggle against ‘Right opportunism’. The resolution passed by the Eighth Plenary Session of the Eighth Central Committee of the Party concerning the so-called anti-Party group of Peng Dehuai, Huang Kecheng, Zhang Wentian and Zhou Xiaozhou was entirely wrong. Politically, this struggle gravely undermined inner-Party democracy from the central level down to the grass roots; economically, it cut short the process of the rectification of ‘Left’ errors, thus prolonging their influence. It was mainly due to the errors of the Great Leap Forward and of the struggle against ‘Right opportunism’ together with a succession of natural calamities and the perfidious scrapping of contracts by the Soviet Government that our economy encountered serious difficulties between 1959 and 1961, which caused serious losses to our country and people.”

A majority of the comrades who had been unjustifiably criticized during the campaign against ‘Right opportunism’ were rehabilitated before or after the conference. In addition, most of the ‘Rightists’ had their label removed. Thanks to these economic and political measures, the national economy recovered and developed fairly smoothly between 1962 and 1966.

Nevertheless, ‘Left’ errors in the principles guiding economic work were not only not eradicated, but actually grew in the spheres of politics, ideology and culture. At the Tenth Plenary Session of the Party’s Eighth Central Committee in September 1962, Comrade Mao Zedong widened and absolutized the class struggle, which exists only within certain limits in socialist society, and carried forward the viewpoint he had advanced after the anti-Rightist struggle in 1957 that the contradiction between the proletariat and the bourgeoisie remained the principal contradiction in our society. He went a step further and asserted that, throughout the historical period of socialism, the bourgeoisie would continue to exist and would attempt a comeback and become the source of revisionism inside the Party. The socialist education movement unfolded between 1963 and 1965 in some rural areas and at the grass-roots level in a small number of cities did help to some extent to improve the cadres’ style of work and economic management. But, in the course of the movement, problems differing in nature were all treated as forms of class struggle or its reflections inside the Party. As a result, quite a number of the cadres at the grassroots level were unjustly dealt with in the latter half of 1964, and early in 1965 the erroneous thesis was advanced that the main target of the movement should be ‘those Party persons in power taking the capitalist road’. In the ideological sphere, a number of literary and art works and schools of thought and a number of representative personages in artistic, literary and academic circles were subjected to unwarranted, inordinate political criticism. And there was an increasingly serious ‘Left’ deviation on the question of intellectuals and on the question of education, science and culture. These errors eventually culminated in the ‘cultural revolution’, but they had not yet become dominant.”

They overcame difficulties at home, stood up to the pressure of the Soviet leading clique and repaid all the debts owed to the Soviet Union, which were chiefly incurred through purchasing Soviet arms during the movement to resist U.S. aggression and aid Korea. In addition, they did what they could to support the revolutionary struggles of the people of many countries and assist them in their economic construction.”

All the successes in these ten years were achieved under the collective leadership of the Central Committee of the Party headed by Comrade Mao Zedong. Likewise, responsibility for the errors committed in the work of this period rested with the same collective leadership. Although Comrade Mao Zedong must be held chiefly responsible, we cannot lay the blame for all those errors on him alone. During this period, his theoretical and practical mistakes concerning class struggle in a socialist society became increasingly serious, his personal arbitrariness gradually undermined democratic centralism in Party life and the personality cult grew graver and graver. The Central Committee of the Party failed to rectify these mistakes in good time. Careerists like Lin Biao, Jiang Qing and Kang Sheng, harbouring ulterior motives, made use of these errors and inflated them. This led to the inauguration of the ‘cultural revolution’.”

The Decade of the ‘Cultural Revolution’

The ‘cultural revolution’, which lasted from May 1966 to October 1976, was responsible for the most severe setback and the heaviest losses suffered by the Party, the state and the people since the founding of the People’s Republic. It was initiated and led by Comrade Mao Zedong. His principal theses were that many representatives of the bourgeoisie and counter-revolutionary revisionists had sneaked into the Party, the government, the army and cultural circles, and leadership in a fairly large majority of organizations and departments was no longer in the hands of Marxists and the people; that Party persons in power taking the capitalist road had formed a bourgeois headquarters inside the Central Committee which pursued a revisionist political and organizational line and had agents in all provinces, municipalities and autonomous regions, as well as in all central departments; that since the forms of struggle adopted in the past had not been able to solve this problem, the power usurped by the capitalist-roaders could be recaptured only by carrying out a great cultural revolution, by openly and fully mobilizing the broad masses from the bottom up to expose these sinister phenomena; and that the cultural revolution was in fact a great political revolution in which one class would overthrow another, a revolution that would have to be waged time and again. These theses appeared mainly in the May 16 Circular, which served as the programmatic document of the ‘cultural revolution’, and in the political report to the Ninth National Congress of the Party in April 1969. They were incorporated into a general theory — the ‘theory of continued revolution under the dictatorship of the proletariat’¹ — which then took on a specific meaning. These erroneous ‘Left’ theses, upon which Comrade Mao Zedong based himself in initiating the ‘cultural revolution’, were obviously inconsistent with the system of Mao Zedong Thought, which is the integration of the universal principles of Marxism-Leninism with the concrete practice of the Chinese revolution. These theses must be clearly distinguished from Mao Zedong Thought. As for Lin Biao, Jiang Qing and others, who were placed in important positions by Comrade Mao Zedong, the matter is of an entirely different nature. They rigged up two counter-revolutionary cliques in an attempt to seize supreme power and, taking advantage of Comrade Mao Zedong’s errors, committed many crimes behind his back, bringing disaster to the country and the people. As their counter-revolutionary crimes have been fully exposed, this resolution will not go into them at any length.”

¹ Anos de trotskização do regime.

The history of the ‘cultural revolution’ has proved that Comrade Mao Zedong’s principal theses for initiating this revolution conformed neither to Marxism, Leninism nor to Chinese reality. They represent an entirely erroneous appraisal of the prevailing class relations and political situation in the Party and state.”

Many things denounced as revisionist or capitalist during the ‘cultural revolution’ were actually Marxist and socialist principles, many of which had been set forth or supported by Comrade Mao Zedong himself. The ‘cultural revolution’ negated many of the correct principles, policies and achievements of the 17 years after the founding of the People’s Republic. In fact, it negated much of the work of the Central Committee of the Party and the People’s Government, including Comrade Mao Zedong’s own contribution. It negated the arduous struggles the entire people had conducted in socialist construction.”

The so-called bourgeois headquarters inside the Party headed by Liu Shaoqi and Deng Xiaoping simply did not exist. Irrefutable facts have proved that labelling Comrade Liu Shaoqi a ‘renegade, hidden traitor and stab’ was nothing but a frame-up by Lin Biao, Jiang Qing and their followers. The political conclusion concerning Comrade Liu Shaoqi drawn by the Twelfth Plenary Session of the Eighth Central Committee of the Party and the disciplinary measure it meted out to him were both utterly wrong. The criticism of the so-called reactionary academic authorities in the ‘cultural revolution’ during which many capable and accomplished intellectuals were attacked and persecuted also badly muddled up the distinction between the people and the enemy.”

After the movement started, Party organizations at different levels were attacked and became partially or wholly paralysed, the Party’s leading cadres at various levels were subjected to criticism and struggle, inner-Party life came to a standstill, and many activists and large numbers of the basic masses whom the Party has long relied on were rejected.”

Many people were assailed either more or less severely for this very reason. Such a state of affairs could not but provide openings to be exploited by opportunists, careerists and conspirators, not a few of whom were escalated to high or even key positions.”

Of course, it was essential to take proper account of certain undesirable phenomena that undoubtedly existed in Party and state organisms and to remove them by correct measures in conformity with the Constitution, the laws and the Party Constitution. But on no account should the theories and methods of the ‘cultural revolution’ have been applied. Under socialist conditions, there is no economic or political basis for carrying out a great political revolution in which ‘one class overthrows another’. It decidedly could not come up with any constructive programme, but could only bring grave disorder, damage and retrogression in its train. History has shown that the ‘cultural revolution’ initiated by a leader labouring under a misapprehension and capitalized on by counter-revolutionary cliques, led to domestic turmoil and brought catastrophe to the Party, the state and the whole people.”

1) From the initiation of the ‘cultural revolution’ to the Ninth National Congress of the Party in April 1969. The convening of the enlarged Political Bureau meeting of the Central Committee of the Party in May 1966 and the Eleventh Plenary Session of the Eighth Central Committee in August of that year marked the launching of the ‘cultural revolution’ on a full scale.

In fact, Comrade Mao Zedong’s personal leadership characterized by ‘Left’ errors took the place of the collective leadership of the Central Committee, and the cult of Comrade Mao Zedong was frenziedly pushed to an extreme. Lin Biao, Jiang Qing, Kang Sheng, Zhang Chunqiao and others, acting chiefly in the name of the ‘Cultural Revolution Group’, exploited the situation to incite people to ‘overthrow everything and wage full-scale civil war’. Around February 1967, at various meetings, Tan Zhenlin, Chen Yi, Ye Jianying, Li Fuchun, Li Xiannian, Xu Xiangqian, Nie Rongzhen and other Political Bureau members and leading comrades of the Military Commission of the Central Committee sharply criticized the mistakes of the ‘cultural revolution’. This was labelled the ‘February adverse current’, and they were attacked and repressed.”

2) From the Ninth National Congress of the Party to its Tenth National Congress in August 1973.” “During the criticism and repudiation of Lin Biao in 1972, he correctly proposed criticism of the ultra-Left trend of thought. In fact, this was an extension of the correct proposals put forward around February 1967 by many leading comrades of the Central Committee who had called for the correction of the errors of the ‘cultural revolution’. Comrade Mao Zedong, however, erroneously held that the task was still to oppose the ‘ultra-Right’. The Tenth Congress of the Party perpetuated the ‘Left’ errors of the Ninth Congress and made Wang Hongwen a vice-chairman of the Party. Jiang Qing, Zhang Chunqiao, Yao Wenyuan and Wang Hongwen formed a Gang of Four inside the Political Bureau of the Central Committee, thus strengthening the influence of the counter-revolutionary Jiang Qing clique.”

3) From the Tenth Congress of the Party to October 1976. Early in 1974 Jiang Qing, Wang Hongwen and others launched a campaign to ‘criticize Lin Biao and Confucius’.”

When he found that Jiang Qing and the others were turning it to their advantage in order to seize power, he [Mao] severely criticized them. He declared that they had formed a ‘gang of four’ and pointed out that Jiang Qing harboured the wild ambition of making herself chairman of the Central Committee and ‘forming a cabinet’ by political manipulation. In 1975, when Comrade Zhou Enlai was seriously ill, Comrade Deng Xiaoping, with the support of Comrade Mao Zedong, took charge of the day-to-day work of the Central Committee. He convened an enlarged meeting of the Military Commission of the Central Committee and several other important meetings with a view to solving problems in industry, agriculture, transport and science and technology, and began to straighten out the work in many fields so that the situation took an obvious turn for the better. However, Comrade Mao Zedong could not bear to accept systematic correction of the errors of the ‘cultural revolution’ by Comrade Deng Xiaoping and triggered the movement to ‘criticize Deng and counter the Right deviationist trend to reverse correct verdicts’, once again plunging the nation into turmoil. In January of that year, Comrade Zhou Enlai passed away.” Teria Zedong vivido em senilidade seus últimos anos? O que é lenda e o que é veraz em todo esse comunicado oficial? O herói vive tempo suficiente apenas para arruinar-se perante a opinião pública (paradoxo da eternidade de Alexandre e Júlio César)?

The Political Bureau of the Central Committee and Comrade Mao Zedong wrongly assessed the nature of the Tian An Men Incident and dismissed Comrade Deng Xiaoping from all his posts inside and outside the Party. As soon as Comrade Mao Zedong passed away in September 1976, the counterrevolutionary Jiang Qing clique stepped up its plot to seize supreme Party and state leadership.”

Chief responsibility for the grave ‘Left’ error of the ‘cultural revolution’, an error comprehensive in magnitude and protracted in duration, does indeed lie with Comrade Mao Zedong. But after all it was the error of a great proletarian revolutionary. Comrade Mao Zedong paid constant attention to overcoming shortcomings in the life of the Party and state. In his later years, however, far from making a correct analysis of many problems, he confused right and wrong and the people with the enemy during the ‘cultural revolution’.”

While making serious mistakes, he repeatedly urged the whole Party to study the works of Marx, Engels and Lenin conscientiously and imagined that his theory and practice were Marxist and that they were essential for the consolidation of the dictatorship of the proletariat. Herein lies his tragedy. While persisting in the comprehensive error of the ‘cultural revolution’, he checked and rectified some of its specific mistakes, protected some leading Party cadres and non-Party public figures and enabled some leading cadres to return to important leading posts.”

The foundation of China’s socialist system remained intact and it was possible to continue socialist economic construction. Our country remained united and exerted a significant influence on international affairs. All these important facts are inseparable from the great role played by Comrade Mao Zedong. For these reasons, and particularly for his vital contributions to the cause of the revolution over the years, the Chinese people have always regarded Comrade Mao Zedong as their respected and beloved great leader and teacher.”

Party and state leaders such as Comrades Liu Shaoqi, Peng Dehuai, He Long and Tao Zhu and all other Party and non-Party comrades who were persecuted to death in the ‘cultural revolution’ will live for ever in the memories of the Chinese people.”

hydrogen bomb tests were successfully undertaken and man-made satellites successfully launched and retrieved; and new hybrid strains of long-grained rice were developed and popularized. Despite the domestic turmoil, the People’s Liberation Army bravely defended the security of the motherland.” “Needless to say, none of these successes can be attributed in any way to the ‘cultural revolution’, without which we would have scored far greater achievements for our cause.”

In addition to the above-mentioned immediate cause of Comrade Mao Zedong’s mistake in leadership, there are complex social and historical causes underlying the ‘cultural revolution’ which dragged on for as long as a decade. The main causes are as follows:

1) The history of the socialist movement is not long and that of the socialist countries even shorter. Some of the laws governing the development of socialist society are relatively clear, but many more remain to be explored. Our Party had long existed in circumstances of war and fierce class struggle. It was not fully prepared, either ideologically or in terms of scientific study, for the swift advent of the new-born socialist society and for socialist construction on a national scale. The scientific works of Marx, Engels, Lenin and Stalin are our guide to action, but can in no way provide ready-made answers to the problems we may encounter in our socialist cause. Even after the basic completion of socialist transformation, given the guiding ideology, we were liable, owing to the historical circumstances in which our Party grew, to continue to regard issues unrelated to class struggle as its manifestations when observing and handling new contradictions and problems which cropped up in the political, economic, cultural and other spheres in the course of the development of socialist society.” 1) A luta de classes permanecerá em qualquer nação do globo até a verdadeira derrocada do Imperialismo Americano; 2) Resta saber se a China como país mais capitalista seguirá sendo anti-imperialista e socialista, não apenas nominalmente (tal contradição, “mais capitalista e mais socialista ao mesmo tempo”, não é espantosa, ainda mais tendo em vista a literatura marxista a esse respeito, mais do que ampla).

For instance, it was thought that equal right, which reflects the exchange of equal amounts of labour and is applicable to the distribution of the means of consumption in socialist society, or ‘bourgeois right’ as it was designated by Marx,¹ should be restricted and criticized, and so the principle of ‘to each according to his work’ and that of material interest should be restricted and criticized; that small production would continue to engender capitalism and the bourgeoisie daily and hourly on a large scale even after the basic completion of socialist transformation, and so a series of ‘Left’ economic policies and policies on class struggle in urban and rural areas were formulated; and that all ideological differences inside the Party were reflections of class struggle in society, and so frequent and acute inner-Party struggles were conducted.”

¹ Posses individuais x posse dos meios de produção

Furthermore, Soviet leaders started a polemic between China and the Soviet Union, and turned the arguments between the two Parties on matters of principle into a conflict between the two nations, bringing enormous pressure to bear upon China politically, economically and militarily. So we were forced to wage a just struggle against the big-nation chauvinism of the Soviet Union. In these circumstances, a campaign to prevent and combat revisionism inside the country was launched, which spread the error of broadening the scope of class struggle in the Party, so that normal differences among comrades inside the Party came to be regarded as manifestations of the revisionist line or of the struggle between the two lines. This resulted in growing tension in inner-Party relations.”

2) Comrade Mao Zedong’s prestige reached a peak and he began to get arrogant at the very time when the Party was confronted with the new task of shifting the focus of its work to socialist construction, a task for which the utmost caution was required. He gradually divorced himself from practice and from the masses, acted more and more arbitrarily and subjectively, and increasingly put himself above the Central Committee of the Party.”

This state of affairs took shape only gradually and the Central Committee of the Party should be held partly responsible. From the Marxist viewpoint, this complex phenomenon was the product of given historical conditions. Blaming this on only one person or on only a handful of people will not provide a deep lesson for the whole Party or enable it to find practical ways to change the situation. In the communist movement, leaders play quite an important role. This has been borne out by history time and again and leaves no room for doubt. However, certain grievous deviations, which occurred in the history of the international communist movement owing to the failure to handle the relationship between the Party and its leader correctly, had an adverse effect on our Party, too. Feudalism in China has had a very long history. Our Party fought in the firmest and most thoroughgoing way against it, and particularly against the feudal system of land ownership and the landlords and local tyrants, and fostered a fine tradition of democracy in the anti-feudal struggle. But it remains difficult to eliminate the evil ideological and political influence of centuries of feudal autocracy. And for various historical reasons, we failed to institutionalize and legalize inner-Party democracy and democracy in the political and social life of the country, or we drew up the relevant laws but they lacked due authority. This meant that conditions were present for the over-concentration of Party power in individuals and for the development of arbitrary individual rule and the personality cult in the Party.”

Great Turning Point in History

To carry out the principle of emancipating the mind properly, the Party reiterated in good time the 4 fundamental principles of upholding the socialist road, the people’s democratic dictatorship (i.e., the dictatorship of the proletariat), the leadership of the Communist Party, and Marxism-Leninism and Mao Zedong Thought. It reaffirmed the principle that neither democracy nor centralism can be practised at each other’s expense and pointed out the basic fact that, although the exploiters had been eliminated as classes, class struggle continues to exist within certain limits.”

4) Large numbers of unjust, false and wrong cases were re-examined and their verdicts reversed. Cases in which people had been wrongly labelled bourgeois Rightists were also corrected. Announcements were made to the effect that former businessmen and industrialists, having undergone remoulding, are now working people; that small tradespeople, pedlars and handicraftsmen, who were originally labourers, have been differentiated from businessmen and industrialists who were members of the bourgeoisie; and that the status of the vast majority of former landlords and rich peasants, who have become working people through remoulding, has been re-defined. These measures have appropriately resolved many contradictions inside the Party and among the people.”

The system according to which deputies to the people’s congresses at and below the county level are directly elected by the voters is now universally practised. Collective leadership and democratic centralism are being perfected in Party and state organizations. The powers of local and primary organizations are steadily being extended. The so-called right to ‘speak out, air views and hold debates in a big way and write big-character posters’ [dazibao], which actually obstructs the promotion of socialist democracy, was deleted from the Constitution.” “A number of important laws, decrees and regulations have been reinstated, enacted or enforced, including the Criminal Law and the Law of Criminal Procedure which had never been drawn up since the founding of the People’s Republic. The work of the judicial, procuratorial and public security departments has improved and telling blows have been dealt at all types of criminals guilty of serious offences.”

The Party’s mass media have also contributed immensely in this respect. The Party has decided to put an end to the virtually lifelong tenure of leading cadres, change the over-concentration of power and, on the basis of revolutionization, gradually reduce the average age of the leading cadres at all levels and raise their level of education and professional competence, and has initiated this process. With the reshuffling of the leading personnel of the State Council and the division of labour between Party and government organizations, the work of the central and local governments has improved.”

Comrade Mao Zedong’s Historical Role and Mao Zedong Thought

The Chinese Communists, with Comrade Mao Zedong as their chief-representative, made a theoretical synthesis of China’s unique experience in its protracted revolution in accordance with the basic principles of Marxism-Leninism. This synthesis constituted a scientific system of guidelines befitting China’s conditions, and it is this synthesis which is Mao Zedong Thought, the product of the integration of the universal principles of Marxism-Leninism with the concrete practice of the Chinese revolution. Making revolution in a large Eastern semi-colonial, semi-feudal country is bound to meet with many special, complicated problems which cannot be solved by reciting the general principles of Marxism-Leninism or by copying foreign experience in every detail. The erroneous tendency of making Marxism a dogma and deifying Comintern resolutions and the experience of the Soviet Union prevailed in the international communist movement and in our Party mainly in the late 1920s and early 1930s, and this tendency pushed the Chinese revolution to the brink of total failure. It was in the course of combating this wrong tendency and making a profound summary of our historical experience in this respect that Mao Zedong Thought took shape and developed. It was systematized and extended in a variety of fields and reached maturity in the latter part of the Agrarian Revolutionary War and the War of Resistance Against Japan, and it was further developed during the War of Liberation and after the founding of the People’s Republic of China.”

Mao Zedong Thought is wide-ranging in content. It is an original theory which has enriched and developed Marxism-Leninism in the following respects:

1) On the new-democratic revolution. (…) a revolution against imperialism, feudalism and bureaucrat-capitalism waged by the masses of the people on the basis of the worker-peasant alliance under the leadership of the proletariat. His main works on this subject include: Analysis of the Classes in Chinese Society, Report on an Investigation of the Peasant Movement in Hunan, A Single Spark Can Start a Prairie Fire, Introducing ‘The Communist’, On New Democracy, On Coalition Government and The Present Situation and Our Tasks. The basic points of this theory are:

i) China’s bourgeoisie consisted of two sections, the big bourgeoisie (that is, the comprador bourgeoisie, or the bureaucrat-bourgeoisie) which was dependent on imperialism, and the national bourgeoisie which had revolutionary leanings but wavered. The proletariat should endeavour to get the national bourgeoisie to join in the united front under its leadership and in special circumstances to include even part of the big bourgeoisie in the united front, so as to isolate the main enemy to the greatest possible extent. When forming a united front with the bourgeoisie, the proletariat must preserve its own independence and pursue the policy of ‘unity, struggle, unity through struggle’; when forced to split with the bourgeoisie, chiefly the big bourgeoisie, it should have the courage and ability to wage a resolute armed struggle against the big bourgeoisie, while continuing to win the sympathy of the national bourgeoisie or keep it neutral.

ii) Since there was no bourgeois democracy in China and the reactionary ruling classes enforced their terroristic dictatorship over the people by armed force, the revolution could not but essentially take the form of protracted armed struggle. China’s armed struggle was a revolutionary war led by the proletariat with the peasants as the principal force. The peasantry was the most reliable ally of the proletariat. Through its vanguard, it was possible and necessary for the proletariat, with its progressive ideology and its sense of organization and discipline, to raise the political consciousness of the peasant masses, establish rural base areas, wage a protracted revolutionary war and build up and expand the revolutionary forces. Comrade Mao Zedong pointed out that ‘the united front and armed struggle are the 2 basic weapons for defeating the enemy’.”

2) On the socialist revolution and socialist construction. (…) By putting forward the thesis that the combination of democracy for the people and dictatorship over the reactionaries constitutes the people’s democratic dictatorship, Comrade Mao Zedong enriched the Marxist-Leninist theory of the dictatorship of the proletariat. After the establishment of the socialist system, Comrade Mao Zedong pointed out that, under socialism, the people had the same fundamental interests, but that all kinds of contradictions still existed among them, and that contradictions between the enemy and the people and contradictions among the people should be strictly distinguished from each other and correctly handled. He proposed that among the people we should follow a set of correct policies. (…) Moreover, he stressed that the workers were the masters of their enterprises and that cadres must take part in physical labour and workers in management, that irrational rules and regulations must be reformed and that the three-in-one combination of technical personnel, workers and cadres must be effected. (…) Comrade Mao Zedong concerning the socialist revolution and socialist construction are mainly contained in such major works as Report to the Second Plenary Session of the Seventh Central Committee of the Communist Party of China, On the People’s Democratic Dictatorship, On the Ten Major Relationships, On the Correct Handling of Contradictions Among the People and Talk at an Enlarged Work Conference Convened by the Central Committee of the Communist Party of China.

3) On the building of the revolutionary army and military strategy. (…) he advanced the Three Main Rules of Discipline and the Eight Points for Attention and stressed the practice of political, economic and military democracy and the principles of the unity of officers and soldiers, the unity of army and people and the disintegration of the enemy forces, thus formulating by way of summation a set of policies and methods concerning political work in the army. In his military writings such as On Correcting Mistaken Ideas in the Party, Problems of Strategy in China’s Revolutionary War, Problems of Strategy in Guerrilla War Against Japan, On Protracted War and Problems of War and Strategy, Comrade Mao Zedong summed up the experience of China’s protracted revolutionary wars and advanced the comprehensive concept of building a people’s army and of building rural base areas and waging people’s war by employing the people’s army as the main force and relying on the masses. Raising guerrilla war to the strategic plane, he maintained that guerrilla warfare and mobile warfare of a guerrilla character would for a long time be the main forms of operation in China’s revolutionary wars. He explained that it would be necessary to effect an appropriate change in military strategy simultaneously with the changing balance of forces between the enemy and ourselves and with the progress of the war. He worked out a set of strategies and tactics for the revolutionary army to wage people’s war in conditions when the enemy was strong and we were weak. These strategies and tactics include fighting a protracted war strategically and campaigns and battles of quick decision, turning strategic inferiority into superiority in campaigns and battles and concentrating a superior force to destroy the enemy forces one by one.”

After the founding of the People’s Republic, he put forward the important guideline that we must strengthen our national defence and build modern revolutionary armed forces (including the navy, the air force and technical branches) and develop modern defence technology (including the making of nuclear weapons for self-defence).”

4) On policy and tactics. (…) He pointed out that policy and tactics were the life of the Party, that they were both the starting-point and the end-result of all the practical activities of a revolutionary party and that the Party must formulate its policies in the light of the existing political situation, class relations, actual circumstances and the changes in them, combining principle and flexibility. (…) He pointed out among other things: that, under changing subjective and objective conditions, a weak revolutionary force could ultimately defeat a strong reactionary force; that we should despise the enemy strategically and take him seriously tactically; that we should keep our eyes on the main target of struggle and not hit out in all directions; that we should differentiate between and disintegrate our enemies, and adopt the tactic of making use of contradictions, winning over the many, opposing the few and crushing our enemies one by one; that in areas under reactionary rule, we should combine legal and illegal struggle and, organizationally, adopt the policy of assigning picked cadres to work underground; that, as for members of the defeated reactionary classes and reactionary elements, we should give them a chance to earn a living and to become working people living by their own labour, so long as they did not rebel or create trouble; and that the proletariat and its party must fulfill two conditions in order to exercise leadership over their allies: (a) Lead their followers in waging resolute struggles against the common enemy and achieving victories; (b) Bring material benefits to their followers or at least avoid damaging their interests and at the same time give them political education.” Current Problems of Tactics in the Anti-Japanese United Front, On Policy, Conclusions on the Repulse of the Second Anti-Communist Onslaught, On Some Important Problems of the Party’s Present Policy, Don’t Hit Out in All Directions, On the Question of Whether Imperialism and All Reactionaries Are Real Tigers.

5) On ideological and political work and cultural work. (…) intellectuals should identify themselves with the workers and peasants and (…) they should acquire the proletarian world outlook by studying Marxism-Leninism, by studying society and through practical work. He pointed out that ‘this question of <for whom?> is fundamental; it is a question of principle and stressed that we should serve the people whole-heartedly, be highly responsible in revolutionary work, wage arduous struggle and fear no sacrifice.” The Orientation of the Youth Movement, Recruit Large Numbers of Intellectuals, Talks at the Yan’an Forum of Literature and Art, In Memory of Norman Bethune, Serve the People, The Foolish Old Man Who Removed the Mountains.

6) On Party building. (…) Combat Liberalism, The Role of the Chinese Communist Party in the National War, Reform Our Study, Rectify the Party’s Style of Work, Oppose Stereotyped Party Writing, Our Study and the Current Situation, On Strengthening the Party Committee System and Methods of Work of Party Committees. (…)

MAIS MAO: Oppose Book Worship, On Practice, On Contradiction, Preface and Postscript to ‘Rural Surveys’, Some Questions Concerning Methods of Leadership, Where Do Correct Ideas Come From?

The proletarian revolution is an internationalist cause which calls for the mutual support of the proletariats of different countries. But for the cause to triumph, each proletariat should primarily base itself on its own country’s realities, rely on the efforts of its own masses and revolutionary fortes, integrate the universal principles of Marxism-Leninism with the concrete practice of its own revolution and thus achieve victory. Comrade Mao Zedong always stressed that our policy should rest on our own strength and that we should find our own road of advance in accordance with our own conditions.”

Of course, China’s revolution and national construction are not and cannot be carried on in isolation from the rest of the world. It is always necessary for us to try to win foreign aid and, in particular, to learn all that is advanced and beneficial from other countries. The closed-door policy, blind opposition to everything foreign and any theory or practice of great-nation chauvinism are all entirely wrong. At the same time, although China is still comparatively backward economically and culturally, we must maintain our own national dignity and confidence, and there must be no slavishness or submissiveness in any form in dealing with big, powerful or rich countries. Under the leadership of the Party and Comrade Mao Zedong, no matter what difficulty we encountered, we never wavered, whether before or after the founding of New China, in our determination to remain independent and self-reliant and, we never submitted to any pressure from outside; we showed the dauntless and heroic spirit of the Chinese Communist Party and the Chinese people. We stand for the peaceful co-existence of the people of all countries and their mutual assistance on an equal footing. While upholding our own independence, we respect other people’s right to independence. The road of revolution and construction suited to the characteristics of a country has to be explored, decided on and blazed by its own people. No one has the right to impose his views on others.¹ Only under these conditions can there be genuine internationalism. Otherwise, there can only be hegemonismWe will always adhere to this principled stand in our international relations.”

¹ Forte cláusula anti-Europa e Estados Unidos da América (não está na potencialidade dessas civilizações modificarem seu modo agressivo de existência).

² Mundo atual.

Mao Zedong Thought is the valuable spiritual asset of our Party. It will be our guide to action for a long time to come. The Party leaders and the large group of cadres nurtured by Marxism-Leninism and Mao Zedong Thought were the backbone fortes in winning great victories for our cause; they are and will remain our treasured mainstay in the cause of socialist modernization. While many of Comrade Mao Zedong’s important works were written during the periods of new-democratic revolution and of socialist transformation, we must still constantly study them. This is not only because one cannot cut the past off from the present and failure to understand the past will hamper our understanding of present-day problems, but also because many of the basic theories, principles and scientific approaches set forth in these works are of universal significance and provide us with invaluable guidance now and will continue to do so in the future. Therefore, we must continue to uphold Mao Zedong Thought, study it in earnest and apply its stand, viewpoint and method in studying the new situation and solving the new problems arising in the course of practice. Mao Zedong Thought has added much that is new to the treasure-house of Marxist-Leninist theory. We must combine our study of the scientific works of Comrade Mao Zedong with that of the scientific writings of Marx, Engels, Lenin and Stalin. It is entirely wrong to try to negate the scientific value of Mao Zedong Thought and to deny its guiding role in our revolution and construction just because Comrade Mao Zedong made mistakes in his later years. And it is likewise entirely wrong to adopt a dogmatic attitude towards the sayings of Comrade Mao Zedong, to regard whatever he said as the immutable truth which must be mechanically applied everywhere, and to be unwilling to admit honestly that he made mistakes in his later years, and even try to stick to them in our new activities. Both these attitudes fail to make a distinction between Mao Zedong Thought — a scientific theory formed and tested over a long period of time — and the mistakes Comrade Mao Zedong made in his later years. And it is absolutely necessary that this distinction should be made. We must treasure all the positive experience obtained in the course of integrating the universal principles of Marxism-Leninism with the concrete practice of China’s revolution and construction over 50 years or so, apply and carry forward this experience in our new work and enrich and develop Party theory with new principles and new conclusions corresponding to reality, so as to ensure the continued progress of our cause along the scientific course of Marxism-Leninism and Mao Zedong Thought.”

Unite and Strive to Build a Powerful, Modern Socialist China

The objective of our Party’s struggle in the new historical period is to turn China step by step into a powerful socialist country with modern agriculture, industry, national defence and science and technology and with a high level of democracy and culture. We must also accomplish the great cause of reunification of the country by getting Taiwan to return to the embrace of the motherland.” Previsão (de minha responsabilidade): em algum momento no séc. XXI os Estados Unidos usarão a questão da autonomia relativa de Taiwan para algum tipo de enfrentamento militar – indireto, frio, morno… Quente e direto é impossível, doutra forma a vida na Terra terá um fim. Partindo do pressuposto metafísico de que se o mundo fosse chegar a um fim, esse fim já teria sido atingido “no século do átimo, da fissão e da fusão nucleares”, não será uma guerra total. É sabido que os EUA já tentaram encetar essa crise logo após estabelecer mundialmente a Guerra contra a Rússia Via Ucrânia (como deve ser chamada), conflito que já existia mas tinha interesse apenas regional até 2021; mas claramente falharam em seus melhores prognósticos, e falo aqui de um acirramento muito mais grave das tensões entre China e Taiwan. Mas a minha previsão é que ao tentar sabotar a ascensão chinesa via Taiwan os EUA tragicamente acelerarão o processo de reunificação do território, e a submissão de Taiwan ao PCCh, que invariavelmente ocorreria mesmo que uma nação imperialista estrangeira não interviesse. Esse documento, de 1981, deixa claro que a reintegração é um objetivo inegociável da política chinesa.

Socialism and socialism alone can save China. This is the unalterable conclusion drawn by all our people from their own experience over the past century or so; it likewise constitutes our fundamental historical experience in the thirty-two years since the founding of our People’s Republic. Although our socialist system is still in its early phase of development, China has undoubtedly established a socialist system and entered the stage of socialist society. Any view denying this basic fact is wrong. Under socialism, we have achieved successes which were absolutely impossible in old China. This is a preliminary and at the same time convincing manifestation of the superiority of the socialist system.

The fact that we have been and are able to overcome all kinds of difficulties through our own efforts testifies to its great vitality. Of course, our system will have to undergo a long process of development before it can be perfected. Given the premise that we uphold the basic system of socialism, therefore, we must strive to reform those specific features which are not in keeping with the expansion of the productive fortes and the interests of the people, and to staunchly combat all activities detrimental to socialism. With the development of our cause, the immense superiority of socialism will become more and more apparent.”

Without the leadership of such a party, without the flesh-and-blood ties it has formed with the masses through protracted struggles and without its painstaking and effective work among the people and the high prestige it consequently enjoys, our country — for a variety of reasons, both internal and external — would inexorably fall apart and the future of our nation and people would inexorably be forfeited. The Party leadership cannot be exempt from mistakes, but there is no doubt that it can correct them by relying on the close unity between the Party and the people, and in no case should one use the Party’s mistakes as a pretext for weakening, breaking away from or even sabotaging its leadership. (…) We must resolutely overcome the many shortcomings that still exist in our Party’s style of thinking and work, in its system of organization and leadership and in its contacts with the masses. So long as we earnestly uphold and constantly improve Party leadership, our Party will definitely be better able to undertake the tremendous tasks entrusted to it by history.”

After socialist transformation was fundamentally completed, the principal contradiction our country has had to resolve is that between the growing material and cultural needs of the people and the backwardness of social production. It was imperative that the focus of Party and government work be shifted to socialist modernization centring on economic construction and that the people’s material and cultural life be gradually improved by means of an immense expansion of the productive forces. In the final analysis, the mistake we made in the past was that we failed to persevere in making this strategic shift. What is more, the preposterous view opposing the so-called ‘theory of the unique importance of productive forces’, a view diametrically opposed to historical materialism, was put forward during the ‘cultural revolution’. We must never deviate from this focus, except in the event of large-scale invasion by a foreign enemy (and even then it will still be necessary to carry on such economic construction as wartime conditions require and permit). ll our Party work must be subordinated to and serve this central task — economic construction. All our Party cadres, and particularly those in economic departments, must diligently study economic theory and economic practice as well as science and technology.”

We must keep in mind the fundamental fact that China’s economy and culture are still relatively backward. At the same time, we must keep in mind such favourable domestic and international conditions as the achievements we have already stored and the experience we have gained in our economic construction and the expansion of economic and technological exchanges with foreign countries, and we must make full use of these favourable conditions. We must oppose both impetuosity and passivity.”

The state economy and the collective economy are the basic forms of the Chinese economy. The working people’s individual economy within certain prescribed limits is a necessary complement to public economy. (…) It is necessary to have planned economy and at the same time give play to the supplementary, regulatory role of the market on the basis of public ownership. We must strive to promote commodity production and exchange on a socialist basis. There is no rigid pattern for the development of the socialist relations of production. At every stage our task is to create those specific forms of the relations of production that correspond to the needs of the growing productive forces and facilitate their continued advance.”

Class struggle no longer constitutes the principal contradiction after the exploiters have been eliminated as classes. However, owing to certain domestic factors and influences from abroad, class struggle will continue to exist within certain limits for a long time to come and may even grow acute under certain conditions. It is necessary to oppose both the view that the scope of class struggle must be enlarged and the view that it has died out. It is imperative to maintain a high level of vigilance and conduct effective struggle against all those who are hostile to socialism and try to sabotage it in the political, economic, ideological and cultural fields and in community life. We must correctly understand that there are diverse social contradictions in Chinese society which do not fall within the scope of class struggle and that methods other than class struggle must be used for their appropriate resolution. Otherwise, social stability and unity will be jeopardized. We must unswervingly unite all forces that can be united with and consolidate and expand the patriotic united front.”

It is essential to consolidate the people’s democratic dictatorship, improve our Constitution and laws and ensure their strict observance and inviolability. We must turn the socialist legal system into a powerful instrument for protecting the rights of the people, ensuring order in production, work and other activities, punishing criminals and cracking down on the disruptive activities of class enemies. The kind of chaotic situation that [was] obtained in the ‘cultural revolution’ must never be allowed to happen again in any sphere.”

Life under socialism must attain a high ethical and cultural level. We must firmly eradicate such gross fallacies as the denigration of education, science and culture and discrimination against intellectuals, fallacies which had long existed and found extreme expression during the ‘cultural revolution’; we must strive to raise the status and expand the role of education, science and culture in our drive for modernization. We unequivocally affirm that, together with the workers and peasants, the intellectuals are a force to rely on in the cause of socialism and that it is impossible to carry out socialist construction without culture and the intellectuals. It is imperative for the whole Party to engage in a more diligent study of Marxist theories, of the past and present in China and abroad, and of the different branches of the natural and social sciences. We must strengthen and improve ideological and political work and educate the people and youth in the Marxist world outlook and communist morality; we must persistently carry out the educational policy which calls for an all-round development morally, intellectually and physically, for being both red and expert, for integration of the intellectuals with the workers and peasants and the combination of mental and physical labour; and we must counter the influence of decadent bourgeois ideology and the decadent remnants of feudal ideology, overcome the influence of petty-bourgeois ideology and foster the patriotism which puts the interests of the motherland, above everything else, in the modernization of our national defence. The building up of national defence must be in keeping with the building up of the economy. The People’s Liberation Army should strengthen its military training, political work, logistic service and study of military science and further raise its combat effectiveness so as gradually to become a still more powerful modern revolutionary army. It is necessary to restore and carry forward the fine tradition of unity inside the army, between the army and the government and between the army and the people. The building of the people’s militia must also be further strengthened.

PARÁGRAFO PERFEITO: The improvement and promotion of socialist relations among our various nationalities and the strengthening of national unity are of profound significance to our multinational country. In the past, particularly during the ‘cultural revolution’, we made a grave mistake on the question of nationalities, the mistake of widening the scope of class struggle, and we wronged a large number of cadres and masses of the minority nationalities. In our work among them, we did not show due respect for their right to autonomy. We must never forget this lesson. We must have a clear understanding that relations among our nationalities today are, in the main, relations among the working people of the various nationalities. It is necessary to adhere to their regional autonomy and enact laws and regulations to ensure this autonomy and their decision-making power in applying Party and government policies according to the actual conditions in their regions. We must take effective measures to assist economic and cultural development in regions inhabited by minority nationalities, actively train and promote cadres from among them and resolutely oppose all words and deeds undermining national unity and equality. It is imperative to continue to implement the policy of freedom of religious belief. To uphold the 4 fundamental principles does not mean that religious believers should renounce their faith but that they must not engage in propaganda against Marxism-Leninism and Mao Zedong Thought and that they must not interfere with politics and education in their religious activities.”

In our external relations, we must continue to oppose imperialism, hegemonism, colonialism and racism, and safeguard world peace. We must actively promote relations and economic and cultural exchanges with other countries on the basis of the Five Principles of Peaceful Coexistence. We must uphold proletarian internationalism and support the cause of the liberation of oppressed nations, the national construction of newly independent countries and the just struggles of the peoples everywhere.”

We must carry out the Marxist principle of the exercise of collective Party leadership by leaders who have emerged from mass struggles and who combine political integrity with professional competence, and we must prohibit the personality cult in any form. It is imperative to uphold the prestige of Party leaders and at the same time ensure that their activities come under the supervision of the Party and the people. We must have a high degree of centralism based on a high degree of democracy and insist that the minority is subordinate to the majority, the individual to the organization, the lower to the higher level and the entire membership to the Central Committee. The style of work of a political party in power is a matter that determines its very existence. Party organizations at all levels and all Party cadres must go deep among the masses, plunge themselves into practical struggle, remain modest and prudent, share weal and woe with the masses and firmly overcome bureaucratism. We must properly wield the weapon of criticism and self-criticism, overcome erroneous ideas that deviate from the Party’s correct principles, uproot factionalism, oppose anarchism and ultra-individualism and eradicate such unhealthy tendencies as the practice of seeking perks and privileges. We must consolidate the Party organization, purify the Party ranks and weed out degenerate elements who oppress and bully the people. In exercising leadership over state affairs and work in the economic and cultural fields as well as in community life, the Party must correctly handle its relations with other organizations, ensure by every means the effective functioning of the organs of state power and administrative, judicial and economic and cultural organizations and see to it that trade unions, the Youth League, the Women’s Federation, the Science and Technology Association, the Federation of Literary and Art Circles and other mass organizations carry out their work responsibly and on their own initiative.”

EXILAR TROTSKY A CADA GERAÇÃO, DE NOVO E DE NOVO (contra o dogma ou falácia liberal do “socialismo dos pobres”, que ignora os avanços técnicos): “In firmly correcting the mistake of the so-called ‘continued revolution under the dictatorship of the proletariat’, a slogan which was advanced during the ‘cultural revolution’ and which called for the overthrow of one class by another, we absolutely do not mean that the tasks of the revolution have been accomplished and that there is no need to carry on revolutionary struggles with determination. Socialism aims not just at eliminating all systems of exploitation and all exploiting classes but also at greatly expanding the productive forces, improving and developing the socialist relations of production and the superstructure and, on this basis, gradually eliminating all class differences and all major social distinctions and inequalities which are chiefly due to the inadequate development of the productive forces until communism is finally realized. This is a great revolution, unprecedented in human history. Our present endeavour to build a modern socialist China constitutes but one stage of this great revolution. Differing from the revolutions before the overthrow of the system of exploitation, this revolution is carried out not through fierce class confrontation and conflict, but through the strength of the socialist system itself, under leadership, step by step and in an orderly way. This revolution which has entered the period of peaceful development is more profound and arduous than any previous revolution and will not only take a very long historical period to accomplish but also demand many generations of unswerving and disciplined hard work and heroic sacrifice. In this historical period of peaceful development, revolution can never be plain sailing. There are still overt and covert enemies and other saboteurs who watch for opportunities to create trouble. We must maintain high revolutionary vigilance and be ready at all times to come out boldly to safeguard the interests of the revolution. In this new historical period, the whole membership of the Chinese Communist Party and the whole people must never cease to cherish lofty revolutionary ideals, maintain a dynamic revolutionary fighting spirit and carry China’s great socialist revolution and socialist construction through to the end.

This session calls upon the whole Party, the whole army and the people of all nationalities to act under the great banner of Marxism-Leninism and Mao Zedong Thought, closely rally around the Central Committee of the Party, preserve the spirit of the legendary Foolish Old Man who removed mountains and work together as one in defiance of all difficulties so as to turn China step by step into a powerful modern socialist country which is highly democratic and highly cultured. Our goal must be attained! Our goal unquestionably can be attained!”

HENFIL NA CHINA (antes da Coca-Cola): releitura, 14 anos depois.

Postado originalmente em 10 de agosto de 2009 no extinto xtudotudo6.zip.net sob o título “TRANSCENDER-15”. Adaptado e atualizado.

18ª edição, 1987.

P. 13: “Eu ia me perguntando: qual é o objetivo da Europa? Revolucionar o mundo? Não mais. A busca da felicidade? Nenhum traço. Justiça social? Não me consta. L’amour? Nenhum indício. Então, para que vive a Europa? Para consumir até perder o sabor e aí precisar experimentar as próprias fezes como forma de excitar os sentidos anestesiados? Parti de Paris numa terça-feira, 19 de julho, sentindo cheiro de cocô. Tudo limpo. Sem mosquito. Mas tava lá o cheiro de cocô espiritual. Mas que fazem palácios, jardins e igrejas lindos, fazem.”

Ao contrário do governo brasileiro, o chinês preserva cada um dos traços culturais das etnias minoritárias.

P. 47: “Saio da França, chego na China e vejo o cocô adubando grande parte da agricultura chinesa. O cocô aqui trabalha duro em vez de ficar em orgias alienadas como na Europa.”

Notas engraçadas (ok, quase todas): o vaso chinês e o ato “de cócoras e sem encostar”: não é para o Henfil!

A China não se afigurava então como eminente poluidora!

Há sempre a briga pela maior produtividade – ainda que travestida ou “infantilizada”. Criam-se a tristeza e a fadiga típicas de sociedades industriais terceirizadas – não há escape, tudo integra a religião do progresso!

Henfil apareceu em um momento marcante para 900 milhões de pessoas: o relaxamento do regime, a Revolução Cultural.¹ Aspectos inflexíveis começavam a se liquefazer. 1977: faz um ano que Mao morreu. Quer-se escapar do revisionismo (ortodoxia à la Stalin) do Bando dos Quatro,² de dentro do qual a viúva de Tsé-tung³ exala seu fel.

¹ “Mao declared the Revolution over in 1969, but the Revolution’s active phase would last until at least 1971, when Lin Biao,a accused of a botched coup against Mao, fled and died in a plane crash. In 1972, the Gang of Four [vide ²] rose to power and the Cultural Revolution continued until Mao’s death and the arrest of the Gang of Four in 1976.” https://en.wikipedia.org/wiki/Cultural_Revolution

aLin Biao (Chinese: 林彪; 5 December 1907 – 13 September 1971) was a Chinese politician and Marshal of the People’s Republic of China who was pivotal in the Communist victory during the Chinese Civil War, especially in Northeast China from 1946 to 1949. Lin was the general who commanded the decisive Liaoshen and Pingjin Campaigns, in which he co-led the Manchurian Field Army to victory and led the People’s Liberation Army into Beijing. He crossed the Yangtze River in 1949, decisively defeated the Kuomintang and took control of the coastal provinces in Southeast China. He ranked 3rd among the Ten Marshals. Zhu De and Peng Dehuai were considered senior to Lin, and Lin ranked directly ahead of He Long and Liu Bocheng.” “Lin became more active in politics when named one of the co-serving Vice Chairmen of the Chinese Communist Party in 1958. He held the 3 responsibilities of Vice Premier, Vice Chairman and Minister of National Defense from 1959 onwards. To date, Lin is the longest serving Minister of National Defense of the People’s Republic of China. Lin became instrumental in creating the foundations for Mao Zedong’s cult of personality in the early 1960s, and was rewarded for his service in the Cultural Revolution by being named Mao’s designated successor as the sole Vice Chairman of the Chinese Communist Party, from 1966 until his death. § Lin died on 13 September 1971, when a Hawker Siddeley Trident he was aboard crashed in Öndörkhaan in Mongolia. The exact events of this incident have been a source of speculation ever since.” “Since the late 1970s, Lin and the wife of Mao, Jiang Qing, [vide ³] (along with the other members of the Gang of Four) have been labeled the 2 major ‘counter-revolutionary forces’ of the Cultural Revolution, receiving official blame from the Chinese government for the worst excesses of that period.” “The findings of Lin’s attempt to contact the Kuomintang supported earlier rumors from inside China that Lin was secretly negotiating with Chiang’s government in order to restore the Kuomintang government in mainland China in return for a high position in the new government. The claims of Lin’s contact with the Kuomintang have never been formally confirmed nor denied by either the governments in Beijing or Taipei.”

² “The Gang of Four (simplified Chinese: 四人帮; traditional Chinese: 四人幫; pinyin: Sì rén bāng) was a Maoist political faction composed of 4 Chinese Communist Party (CCP) officials. They came to prominence during the Cultural Revolution (1966–1976) and were later charged with a series of treasonous crimes. The gang’s leading figure was Jiang Qing (Mao Zedong’s last wife). The other members were Zhang Chunqiao, Yao Wenyuan, and Wang Hongwen.”

³ Jiang Qing (19 March 1914 – 14 May 1991), also known as Madame Mao, was a Chinese communist revolutionary, actress, and major political figure during the Cultural Revolution (1966–1976). She was the 4th wife of Mao Zedong, the Chairman of the Communist Party and Paramount leader of China. She used the stage name Lan Ping (藍蘋) during her acting career (which ended in 1938), and was known by many other names. Jiang was best known for playing a major role in the Cultural Revolution and for forming the radical political alliance known as the ‘Gang of Four’.” “At the height of the Cultural Revolution, Jiang held significant influence in the affairs of state, particularly in the realm of culture and the arts, and was idolized in propaganda posters as the ‘Great Flagbearer of the Proletarian Revolution’. In 1969, Jiang gained a seat on the Politburo. Before Mao’s death, the Gang of Four controlled many of China’s political institutions, including the media and propaganda. However, Jiang, deriving most of her political legitimacy from Mao, often found herself at odds with other top leaders. § Mao’s death in 1976 dealt a significant blow to Jiang’s political fortunes. She was arrested in October 1976 by Hua Guofengb and his allies, and was subsequently condemned by party authorities. Since then, Jiang has been officially branded as having been part of the ‘Lin Biao and Jiang Qing Counter-Revolutionary Cliques’ (林彪江青反革命集), to which most of the blame for the damage and devastation caused by the Cultural Revolution was assigned. Though she was initially sentenced to death, her sentence was commuted to life imprisonment in 1983. After being released for medical treatment, Jiang died by suicide in May 1991.”

b “In the struggle between Hua Guofeng’s and Deng Xiaoping’s followers, a new term emerged, pointing to Hua’s 4 closest collaborators, Wang Dongxing, Wu De, Ji Dengkui and Chen Xilian. In 1980, they were charged with ‘grave errors’ in the struggle against the Gang of Four and demoted from the Political Bureau to mere Central Committee membership.”

Jiang Qing

Quotations from Chairman Mao Tse-tung, 1964. “The most popular versions were printed in small sizes that could be easily carried and were bound in bright red covers, thus commonly becoming known internationally as the ‘Little Red Book’.”

Resolution on Certain Questions in the History of Our Party since the Founding of the People’s Republic of China, 1981. Vd. em

https://digitalarchive.wilsoncenter.org/document/resolution-certain-questions-history-our-party-founding-peoples-republic-china

(*) “The Five Black Categories (Chinese: 黑五; pinyin: Hēiwǔlèi) were classifications of political identity defined during the period of the Chinese Cultural Revolution (1966–1976) in the People’s Republic of China by Mao Zedong, who ordained that people in these groups should be considered enemies of the Revolution. The groups were:

Landlords (地主; dìzhǔ)

Rich farmers (; fùnóng)

Counter-revolutionaries (反革命; fǎngémìng)

Bad influencers (‘bad elements’) (坏分子; huàifènzǐ)

Right-wingers (右派; yòupài)” https://en.wikipedia.org/wiki/Five_Black_Categories

(*) “During the Cultural Revolution the Nine Black Categories were landlords, rich farmers, anti-revolutionaries, bad influences, right-wingers, traitors, spies, capitalist roaders and intellectuals. While often attributed to Mao Zedong, in 1977 Deng Xiaoping argued that it was the Gang of Four who came up with the phrase and that Mao himself saw intellectuals as having some value in society.” https://en.wikipedia.org/wiki/Stinking_Old_Ninth

* * *

P. 88: a excelente idéia dos feriados rotativos!

P. 92: “A China jamais, é o que sinto aqui, partirá para uma invasão no exterior. O perigo amarelo não existe.” Brilhante vislumbre à la dialética de Arrighi. Associação geo-econômica onde a expansão política é desprezada (anti-imperialismo): o que importa é a consolidação interna. Mais: “Nenhum outro povo é citado em nada, a não ser os russos que deverão (eles repetem isso toda hora) invadir a China mais dia menos dia”. A União Soviética é um gêmeo americano (para os líderes chineses de então). Os japoneses, outros. “Mas o que são 20, 30, 100 anos de comunismo para um homem de 20 mil anos? Minutos, talvez.”

Picles, capítulo das pp. 91-4: reflexões interessantíssimas e contraste com o american way. Gostaria de saber se todos lá, hoje (2009), ainda lêem o discutem saborosamente Marx…

P. 93: “Não há advogados na China.”

P. 94: os chineses tentavam a reforma urbana de Dahl, esvaziando as cidades e dispersando seu povo.

Corroborando Simmel (p. 100): “não há prostituição de forma alguma. Não fique em dúvidas. Há prostituição entre os índios?”. Para Henfil, o “problema sexual” chinês não é nenhum problema! Nós, os ocidentais, é que somos peritos em fundar dilemas insolúveis por meio de contrastes anti-naturais.

P. 113, sobre a punição ideológica: “O crime na China, realmente, não compensa.”

Como estão hoje os abrigos subterrâneos, as réplicas impecáveis de Pequim a 4, 8, 15m do piso das cidades? R (já em 2009): Esvaziados, mas conservados para o turismo.

Júlio Verne, As Atribulações de um Chinês na China

https://www.amazon.com.br/Atribula%C3%A7%C3%B5es-Chin%C3%AAs-China-Viagens-Maravilhosas-ebook/dp/B00H8CD1OU

Dazibaos, os fanzines chineses. “Longas seqüências de discussão eram postadas e apreciadas nos muros, como ocorre nas comunidades virtuais de hoje. (…) Em 1978, um dos mais importantes documentos da história chinesa, chamado A quinta modernização, foi um Dazibao. Ele proclamava a democracia como o último dos elementos necessários ao completo sucesso da revolução chinesa. Foi copiado e distribuído por todo o país, sob os auspícios do governo.” Em http://sinografia.blogspot.com/2011/04/o-que-e-dazibao.html#:~:text=Traduzindo%20literalmente%20do%20chin%C3%AAs%2C%20%C3%A9,feito%20artesanalmente%20ou%20a%20m%C3%A3o.

Inflação e impostos congelados. Como a China mudaria em três (duas) [2009] décadas!

A China de Mao é o lugar (extinto) onde a auto-suficiência está acima de tudo.

P. 156: “Sincera, cândida, ingênua, simples e comovente. As 5 palavras que mais usei para definir tudo na China.”

P. 163: “É bom saber que, ao contrário da Rússia e do Ocidente cristão, não se usa o choque elétrico na China.”

P. 164: “Nunca vi nada mais ‘católico’ que a China Comunista”

Quem É. U. A.nti-Cristo?

A diferença entre Stalin e Mao, ou entre a União Soviética e a China, era que o chinês era camponês, e o russo, burocrata alienado do povo e imerso nas relações de poder.

Cabelos longos na China: remetem à época imperial.

P. 204: “Talvez, na hora do pau, os camponeses resistam à tão temida ocupação estrangeira, mas os operários de fábricas como a de relógios vão é se identificar com os invasores estrangeiros. Eles já se identificam no comportamento. Dois autômatos, sejam eles chineses ou suíços, se beijam, sim senhor.”

P. 213: a “universidade parlamento”.

O pouco contato que eles têm pode ter ajudado a construção de um socialismo puro, mas poderá, no futuro, criar grandes danos quando o ‘civilizado’ chegar com suas gripes. Esta pureza chinesa não preocupa?” Terrível prenúncio da Covid!

A propaganda (não falo aqui da mídia – aliás, também da mídia!) ideológica – desde Pequim – é terrível, asfixiante [como tem de ser. P.S. 2023]. Talvez fosse, mas Henfil a sublinha na reta final do livro, quando está em Shangai. À página 225 explica o porquê: são seus anticorpos burgueses e a saudade da pátria entrando em ação!

P. 229: premonição sobre a poluição e a capacidade produtiva crescentes – competitividade e burocracia são males necessários na guerra do Capital.

P. 235: os camponeses cozinham com “biogás”: o próprio cocô vaporizado!

P. 247: fica evidente como está enraizada a noção de progresso, mesmo em culturas tão diferentes… A vontade para se atingir um fim, qualquer que ele seja…

P. 254: não pode haver arte medíocre.

Pp. 268-0: famílias que viviam em barcos e eram proibidas de aportar nas margens do rio! Os “favelados aquáticos”.

A terceira idade na China é uma fase digna da vida.

Cantão (Guangzhou), um bolsão de miséria: ainda que estejam extintos os tais “favelados aquosos”…

Atualização: “…the capital and largest city of Guangdong province in southern China. Located on the Pearl River about 120 km north-northwest of Hong Kong and 145 km north of Macau, Guangzhou has a history of over 2,200 years and was a major terminus of the maritime Silk Road; it continues to serve as a major port and transportation hub as well as being one of China’s 3 largest cities. … For a long time, the only Chinese port accessible to most foreign traders, Guangzhou was captured by the British during the First Opium War. No longer enjoying a monopoly after the war, it lost trade to other ports such as Hong Kong and Shanghai, but continued to serve as a major trans-shipment port. Due to a high urban population and large volumes of port traffic, Guangzhou is classified as a Large-Port Megacity, the largest type of port-city in the world. … Guangzhou is at the heart of the Guangdong–Hong Kong–Macau Greater Bay Area, the most-populous built-up metropolitan area in the world, which extends into the neighboring cities of Foshan, Dongguan, Zhongshan, Shenzhen and part of Jiangmen, Huizhou, Zhuhai and Macau, forming the largest urban agglomeration on Earth with approximately 65 million residents and part of the Pearl River Delta Economic Zone. … In the late 1990s and early 2000s, nationals of sub-Saharan Africa who had initially settled in the Middle East and Southeast Asia moved in unprecedented numbers to Guangzhou in response to the 1997/98 Asian financial crisis. The domestic migrant population from other provinces of China in Guangzhou was 40% of the city’s total population in 2008. Guangzhou has one of the most expensive real estate markets in China. … For 3 consecutive years (2013–2015), Forbes ranked Guangzhou as the best commercial city in mainland China. Guangzhou is highly ranked as an Alpha- (global first-tier) city together with San Francisco and Stockholm. It is a leading financial centre in the Asia-Pacific region and ranks 21st globally in the 2020 Global Financial Centres Index. As an important international city, Guangzhou has hosted numerous international and national sporting events, the most notable being the 2010 Asian Games, the 2010 Asian Para Games, and the 2019 FIBA Basketball World Cup. The city hosts 65 foreign representatives, making it the 3rd major city to host more foreign representatives than any other city in China after Beijing and Shanghai. As of 2020, Guangzhou ranks 10th in the world and 5th in China (after Beijing, Shanghai, Hong Kong and Shenzhen) for the number of billionaire residents by the Hurun Global Rich List. … and is home to many of China’s most prestigious universities, including Sun Yat-sen University, South China University of Technology, Jinan University, South China Normal University, South China Agricultural University, Guangzhou University, Southern Medical University, Guangdong University of Technology, Guangzhou Medical University, Guangzhou University of Chinese Medicine. … The English name ‘Canton’ derived from Portuguese Cantão or Cidade de Cantão, a blend of dialectical pronunciations of Guangdong (e.g., Cantonese Gwong2-dung1). Although it originally and chiefly applied to the walled city, it was occasionally conflated with Guangdong by some authors.” “Amid the closing months before total Communist victory, Guangzhou briefly served as the capital of the Republican government. Guangzhou was captured on 14 October 1949. Amid a massive exodus to Hong Kong and Macau, defeated Nationalist forces blew up the Haizhu Bridge across the Pearl River in retreat. The Cultural Revolution had a large effect on the city, with much of its temples, churches and other monuments destroyed during this chaotic period. § The People’s Republic of China initiated building projects including new housing on the banks of the Pearl River to adjust the city’s boat people to life on land. Since the 1980s, the city’s close proximity to Hong Kong and Shenzhen and its ties to overseas Chinese made it one of the first beneficiaries of China’s opening up under Deng Xiaoping. Beneficial tax reforms in the 1990s also helped the city’s industrialization and economic development.” https://en.wikipedia.org/wiki/Guangzhou

O banco que não é banco: vigia para que não ocorra o ciclo D-M-D’ (lucro).

Gostaria de saber em que pé anda a autonomia das comunas e lavouras camponesas na China das Olimpíadas! (2009)

P. 301: “É impossível utilizar a Rússia”

[ MILÉSIMO POST DO SECLUSÃO ANAGÓGICA ] THE ILLUSION OF THE END – Jean Baudrillard, 1994 (altamente comentado) [ #1000 ]

14/10/16 a 06/11/16

English translation from French by Chris Turner. Tradução do inglês ao português por mim.

history has become impossible because telling (recitatium) is, by definition, the possible recurrence of a sequence of meanings.”

No event can withstand being beamed across the whole planet.” “to pursue the same train of thought: no sexuality can withstand being liberated, no culture can withstand bein hyped, no truth can withstand being verified, etc.”

Matter shows the passing of time. To put it more precisely, time at the surface of a very dense body seems to be going in slow motion. Beyond a certain limit, time stops and the wavelenght becomes infinite.”

Qual seria o sentido de crianças nascendo mesmo após meu nascimento? I.e., do ponto de vista do combate ao niilismo. Porque se, para mim, mesmo os adultos são bebês gigantes com idéias de ter filhos e netos, trancados no ciclo da esterilidade, cuja trilha sonora é um grito estridente duma criança levada que ralou o joelho no parque… O tempo está estacionado na vaga dos deficientes.

Deep down, one cannot even speak of the end of history here, since history will not have time to catch up with its own end. Its effects are accelerating, but its meaning is slowing inexorably.”

Há uma terceira hipótese (…) o efeito estereofônico. Nós somos todos obcecados por alta fidelidade, pela qualidade da ‘reprodução’ musical. Nos consoles de nossos estéreos, abastecidos de tuners, amplificadores e microfones, misturamos, ajustamos, multiplicamos faixas em busca da batida perfeita. Isso ainda é música? Onde está o limite da alta fidelidade além do qual a música desaparece enquanto tal?” “ela desaparece em seu próprio efeito especial.” “É o êxtase e o fim da musicalidade.”

that famous feedback effect, which is produced in acoustics by a source and a receiver being too close together”

a short-circuit between cause and effect like that between the object and the experimenting subject in the microphysics” Re-re-re-re-re:RE:FWD:ENC-re-remaster of Reality

Cada bebê recria a sua Matrix. E só atinge o real em retrospecto. A revolução é mera nostalgia e arrependimento – e se?

We shall never get back to pre-stereo music (except by an additional technical simulation effect)”

Quem se recusa a esperar, espera do mesmo jeito.

Quem espera ardorosamente, na verdade faz tudo menos esperar.

Qual é a sua importante resolução?

800×600.

Baudrillard, o eterno canalha indiscordável. O autor da fascinação. Odiamo-lo, mas sempre concordamos com ele. Queremos profundamente que ele não esteja certo, mas pressentimos que está. A pobreza, recorrência e esterilidade – deliberada? Haha, qual a diferença? – de seu discurso nos resume, nos explica. Não podemos sequer simular que o superamos, ele é onipresente. Ele não foi o primeiro discurso branco (white noise, white text, white logos) intentado, mas é o primeiro consumado. Seria uma contradição dizer que é uma singularidade histórica? Ele desafia a máxima do “é possível ser filósofo a qualquer tempo”; estabelece-se como o último. Ou o primeiro de nós. Se ainda é possível não ser um Baudrillard, nascemos na época errada. É possível iniciar de forma diferente, mas ele é a conseqüência inelutável. Quando se tornar velho não será viável refutá-lo, porque então não terá o mesmo sentido a palavra “contradição”.

on edge – that is, both overexcited and indifferent”

Keith Beaumont, Alfred Jarry: A Critical and Biographical Study

A ARTE DA DETERRÊNCIA: Empurrando as revoluções com a barriga. Temos ainda muita gordura petrolífera para queimar. Deterrence is a very peculiar form of action: it is what causes something not to take place.

Marvel apresenta: O Homem que Congelou a Roda da História

Teria Alexandre realmente feito história? Historicamente feito realidade? Ponha um grande homem na frente de uma criança de 3 anos e veja-o convertido subitamente num pateta universal.

Kant, O Pataphýsico do Meião

Teleologia das 4 Patafísicas

Fenomenologia Ubuana

Patafísica Concreta

Patafisicismo Histórico-Dialético Positivista

Catecismo Patafísico

Patafisiquismo Empírico

Tu não vales meia metafa – BQT Somewhere

½ ½ ½ 3 legs

3 lags of a

2nd Messiah

A patafísica de Cristo final lapada na rachada

Os Fundamentos da Patafísica Moderna – Novo A Mosca?

apenas subtítulo… A Mosca Filosófica & Outras Estórias…

FM & Outras Estações

Neminhanamoradamelevasério

A Música Patofúsica

A liquidação da Patafísica

a $1,99

Morrenvenenado

Jarry, Exploits and Opinions of Dr. Faustroll

Veículo Cerebral Só Visível no Invisível Mapa Mental do Gênio

A Patafísica Antológica – Recipiente Líq. II – The Fly…And Other Detritus

O EXPERIMENTO ANTICAPES

ASSINE A PESTIÇÃO POR UMA VIDA

já com 0 assinaturas!

O universo é insetocêntrico.

A mariposa gira ao redor do Sol, desse Galileu Copo&Nico, o cientista com Asas – mas não seria o inverso, ó vôo relativo?

Os homens sobrevoam sua cabeça estacionária cheia de merda, tenho a certeza.

A cabana sobrevoa sua banana

A mucama voasub sua cruz

A Multiplicidade Concreta das Bolhas Atômicas

A Guerra Quente Nua que Há – Que Continua

A decência da Subida ao Vácuo

A Meridionauta Contra o Austronato

Eu não me recordo do título do meu livro;

Eu não me livro do título que recordo.

A força anormal que contrapõe a anti-gravidade.

D-Sire

Resided on The (D) Resistance

Past Tense

Nowadays Tranquility

Rope you find the hope

Todo Rousseau tem o seu Locke-fechadura.

Todo rousse tem o seu au mericano.

Pp. 18-9: “escape the heavy form, the gravity of ‘desire’, conceived as positive attraction, by the much more subtle eccentricity of seduction (…) the last gasp escape from the body of molecules that are much too light [not dark!]

Pope’s eye beholding the espinafrican. SPIN NACH(E)

O africano giratório

seclusion of reality

SECLUSÃO ANAGÓGICA – ótimo título em termos de oferta e demanda se é que mentende. (22/10/16, momento em que escolhi o título do blog.)

If, by some strange revolution, we set off in the opposite direction and turn inwards into this dimension of the past, then we can no longer represent that something to ourselves. The beam of memory bends, and makes every event a black hole.”

Depois da Ciência Histórica, na velocidade de alguns Hegels, a Probabilidade. Depois da Ciência Probabilística, no ridículo espaço de uns 15min, o link jornalístico sem maquiagem.

Como artistas, não nos sobra nem a energia para terminar nosso quadro.

Celebration and commemoration are themselves merely the soft form of necrophagous cannibalism, [necromicrophysics] the homeopathic form of murder by easy stages. This is the work of the heirs whose ressentiment towards the deceased is boundless. (…) complete works, the publication of the tiniest of unpublished fragments (…) active age of ressentiment

Um jogo quântico de RPG em que jogar o dado é banal.

A aristocracia celebra sua própria queda, porque só a aristocracia celebra. Mais, só a aristocracia cai.

We eliminate St.-Just from the Dictionnaire de la Révolution. ‘Overrated rhetoric’, says François Furet, perfect historian of the repentance of the Terror and the glory.”

the centenary of a death. With Rimbaud, Van Gogh and Nietzsche, 1991 will have been exceptional in terms of vile acts of desecration.”

If the left were a species, and culture obeyed the laws of natural selection, it would have disappeared long ago.” Fortunately for us, we are zombies.

Ficarei cego e exorcizado após tudo ter lido. Até um Diogo, um Ueslei, sangue do meu sangue, reprovaria incêndios bibliotecários… Alexandria, o pecado do sapato de ponta fina.

HELLCICLAGEM O Incinerador de Sonhos, que levará junto alguns resíduos. Velocidade Alucinante do Sereno

Preguiça, o Primeiro Não-Pecado dos Meus-Filhos

P. 24: “The century is becoming intellectual today just as it became bourgeois a century ago.”

the word ‘burgeois’ – which now exposes only the person who uses it to ridicule”

The little trick of placing the nude from Manet’s Déjeuner sur l’herbe opposite Cézanne’s Card Players, as one might put an admiral’s hat on a monkey, is nothing more than the advertising-style irony currently engulfing the world of art.” The Facebookians

É como se a história estivesse pilhando em meio ao seu próprio lixo em busca da redenção lixosa.”

Onde jogaremos o Marxismo, que vem a ser aliás o pai dos lixos da história? (Ainda há alguma justiça aqui, já que as mesmas pessoas que geraram o lixo caíram dentro da lixeira.) Conclusão: se não há mais lixos históricos, é porque a história propriamente dita se tornou um lixo.

Quando o gelo congela, todo o excremento emerge à superfície. Então, quando a dialética congelou, todos os dejetos sagrados da dialética vieram à tona.”

O PROBLEMA DA ECONOMIA DOS RESTOS OU DO RESTO: “ideologias defuntas, utopias abandonadas, conceitos mortos e idéias possibilizadas, que continuam a poluir nosso espaço mental. A recusa histórico-intelectual cria um problema ainda mais sério que os restos industriais. Quem vai nos livrar da sedimentação de séculos de estupidez? (…) O imperativo ecológico é que todos os resíduos devem ser reciclados.”

O Corpo Que Bóia, Inanimado, na Lagoa Rodrigo de Freitas, hitchcockian classic.

Ionesco, Amédée, ou Comment s’en Débarrasser (peça)

Um velho nostálgico conta o quê? Vintage!

Democracy itself (a proliferating form, the lowest common denominator of all our liberal west common societies); this planetary democracy of the Rights of Man, is to real freedom what Disneyland is to the imaginary.”

O que foi superplantado está sob a terra.

sóbrio elefante e a tartaruga de meia-idade

Onde estão os fragmentos póstumos resultantes da exumação do cadáver do Baudrillard?

History has only wrenched itself from cyclical time to fall into the order of the recyclable.”

A China e sua burocracia de dragões fossilizada é logo ali!

the problem of liberty quite simply cannot be posed here any longer. In the West, freedom – the Idea of Freedom – has died a natural death: In the East it was murdered, but there is no such thing as the perfect crime.”

Philippe Alfonsi, Au nom de la science (livro sobre a ‘memória d’água’!)

glasnost? it is almost a post-modern remake of our original version of modernity (…) all the positive and negative signs combined: not just human rights, but crimes, catastrophes and accidents which are all joyously increasing in the ex-USSR since the liberalization of the regime.” “The irony of the situation is such that it will perhaps be us who are one day forced to rescue the historical memory of Stalinism, while the countries of Eastern Europe will no longer remember the phenomenon.”

We are in the process of wiping out the entire 20th century, effacing all the signs of the Cold Wars one by one, perhaps even all trace of the Second World War and of all the political or ideological revolutions of the 20th century. The reunification of Germany is inevitable (…) a rewriting which is going to take up a large part of the last 10 years of the century. At the rate we are going we shall soon be back at the Holy Roman Empire.”

Restoration, regression, rehabilitation, revival of the old frontiers, of the old differences, of particularities, of religions – and even resipiscence [re-sapiência] in the sphere of morals.”

Ecstasy and beatification should not be confused.”

the astonishing pre-eminence in the media of the figure of the Pope, who travels the whole world (even the Islamic Sahel!) blessing all forms of crossbreeding and repentance, while ensuing that durable forms of voluntary servitude are in place.”

we are witnessing the striking illustration of what Hegel calls ‘the life moving within itself, of that which is dead’ [Das sich in sich selbst bewegende Leben des Totes.].”

the strange ease with which all the communist regions collapsed: they had only to be touched for them to realize that they no longer existed. It was like a cartoon, where the tightropewalker, teetering over the abyss, suddenly sees his rope is gone and immediately falls, passing without transition from the imaginary to the real (this the basic mechanism of cartoons).”

Freud saw very well those strange attractors that are condensation, displacement, ellipsis and reversibility. Forms, not values. And recent events have to be seen in terms of a theory of forms, rather than any kind of theory based on relations of force. The communist systems did not succumb to an external enemy, nor even to an internal one (had that been the case, they would have resisted), but to their own inertia; taking advantage of the opportunity, as it were, to disappear (perhaps they were weary of existing.)” “Now, this form of superconductivity of events is a marvellous one, like the form of the joke

The non-existence of governmental power is, admittedly, less visible in the West, on account of its great dilution and the transparency which enables it to survive. In the East, it was opaque and highly concentrated, to the point that, as with an unstable crystal, only an extra little dose was needed for it to liquefy.”

Behind the apparent victory of the West, it is clear, on the contrary, that the strategic initiative came from the East, not by aggression this time, but by disintegration, by a kind of offensive self-liquidation, catching the whole of the West unaware. By force of circumstance, which may have equated with a perception of his own weakness, Gorbachev was able to take this strategic tack of disarmament, the real deconstruction of his own bloc, and thereby of the entire world order. This was, in a way, dying communism’s witty parting shot

Let us beware of the naïve vision of a frozen history suddenly awakening and automatically heading once again, like a turtle, for the sea (for democracy).” “The East gobbling up the West by blackmailing it with poverty and human rights.”

Chernobyl whose radioactive cloud prefigured the collapse of the wall and the progressive contamination of the Western world. Bush may well disarm in the pretence of having won the Cold War, but it is the USSR and Gorbachev who invented the real bombe à depression, the surest one, the one which turns its own depression into a bomb.”

German¹ would describe this kind of transcendent high spirits, of historical rejoicing in sudden change, as Übermut. [além-coragem; super-ânimo]You have the Mut, you have the guts.

¹ Pode se referir a:

a) Aleksei Yuryevich German (Russian: Алексей Юрьевич Герман, IPA: [ɐlʲɪkˈsʲej ˈjʉrʲjɪvʲɪdʑ ˈɡʲermən]; 20 July 1938 21 February 2013) was a Russian film director and screenwriter. In a career spanning five decades of filmmaking, German completed 6 feature films,(*) noted for his stark pessimism, long, serpentine sequence shots, black and white cinematography, overbearing sound design and acute observations of Stalinist Russia.

(*) 1967 – Sedmoy sputnik (The Seventh Companion)

1971 – Proverka na dorogakh (Trial on the Road)

1976 – Dvadtsat dney bez voyny (Twenty Days Without War)

1984 – Moy drug Ivan Lapshin (My Friend Ivan Lapshin)

1998 – Khrustalyov, mashinu! (Khrustalyov, My Car!)

2013 – Trudno byt’ bogom (Hard to Be a God) (original title History of the Arkanar Massacre)“Trial on the Road (1971) is the film that made Alexei German famous. It was banned for 15 years and was shelved by the Ministry of Culture of the Soviet Union until its release (1986) during the Gorbachev era.”

b) Yuri Pavlovich German: “His best-known work, Ivan Lapshin (1937), was a police novel in a provincial setting whose main theme was the integration of criminals into society through order and labor. In this sense it resembles old bandit tales in which outlaws are reintegrated into society by colluding with the authorities. The novel incorporates a vision of collectivity (the policemen live in a commune), rationalism, culture, and social tranquility unperturbed by the black discord of crime. For good measure, Lapshin acts as mentor to his junior colleague. All of this is captured, with a twist, in the brilliant film version, My Friend, Ivan Lapshin made by the author’s son, Alexei German in the 1980s.”

c) Lindsey Ann German (born 1951) is a British left-wing political activist. A founding member and convenor of the British anti-war organisation Stop the War Coalition, she was formerly a member of the Socialist Workers Party, sitting on its central committee and editor of its magazine, Socialist Review.” Obras que Baudrillard pudesse ter lido até escrever Illusion of The End: Sex, class, and socialism (1989); Why we need a revolutionary party (1989).

Evil takes advantage of transparency (Glasnost).” eviral

it shows through in all things when they lose their image, when they no longer offer any substance, when they become both immanent and elusive from an excess of fluidity and luminosity.”

não será mais a violência da Idéia, mas o vírus da queda da imunidade.”

A communism that dissolves itself is [in!] a successful communism.”

what’s after the God of the social?

O doente que não pára de enfraquecer; sem morrer. Adoecendo até as raias do absurdo. Já é um ser-doença, com um espectro de homem como parasita. Alergia assintomática. Inatestável. Imanente ao mundo dos desespecializados. Chiclete da alma. Mago do trouxa. Olhando-se no espelho? Rachaduras nos 4) encantos.

Dissidents cannot bear a thaw. [o descongelamento] They have to die, or else become president (WalesaHavel²), in a sort of bitter revenge which, at any event, marks their death as dissidents” Lula, Mandela… Se o Lula não se tornou o establishment (não foi engolido pela Globo após um, dois, três mandatos, etc.), podemos nos considerar felizes por isso: morrerá para se eternizar como um dissidente do espectro progressista, sempiterno ícone desse projeto de país de meio-milênio!

¹ Presidente da Polônia nos anos 90.

² Caso curioso, porque foi presidente da República Tcheca, novo país, mas eleito tanto pelos cidadãos da Rep. Tcheca quanto pelos da Eslováquia, ex-território. Morreu em 2011.

They whose strength was in silence (or censorship) are condemned to speak and be devoured by speech.” Andrei Sakharov;¹ Zinoviev.

¹ Físico nuclear que depois virou ativista pró-desarmamento – quantas camadas de ironia não há nessa sinopse? Obviamente o Ocidente vai laureá-lo com o Nobel da Paz em 1975, como não! E depois distribuir um outro prêmio anual com seu nome, como se faz sempre com heróis advindos da Cortina de Ferro (fabricados à la Tio Sam).

Cioran: history is dying for want of paradoxes

ThirdWorld War”

For the human and ideological failure of communism by no means compromises its potency and virulence as an anthropological model. (…) stratégie du pire imposed on everyone as the last immune defense.”

It would be the opposite of Orwell’s prediction (strangely, he has not been mentioned of late, though the collapse of Big Brother ought to have been celebrated for the record, if only for the irony of the date Orwell set for the onset of totalitarianism which turned out to be roughly that of its collapse). Even more ironic is that we are threatened by the democratic rewriting of history: the very images of Stalin and Lenin went away, streets and cities renamed, statues scattered, soon none of all that will have existed.”

Eliminating the planet’s blackspots [ironia africana] as we might eliminate spots from a face: cosmetic surgery elevated to the level of the political, and to Olympic performance levels.”

A zona única chamada Infernéu, o Além-agora.

Fusion always turns into confusion, contact into contamination.” “networks transmit viruses even faster than information”

It is Dracula against Snow White (the Dracula myth is gathering strength all around as the Faustian and Promethean myths fade).” “The danger is to feed them too quickly, since this kills them.”

We had never seen anything like this before – the strongest State and largest army in the world fainting right away.” “What should have been a source of universal rejoicing passed off almost without interest – a sign of the nullity of the age.” “The end of empires means the unrestricted reign of slave micro-systems.” “The energy of the corpse is recycled, just as Jarry had dead man pedalling”

even the recognition of death, the intuition of that death (of the political) is impossible, since it would reintroduce a fatal virus into the virtual immortality of the transpolitical. [os mini-Estados condenados eternamente à imanência] There is the same problem with freedom: a non-violent, consensual, ecological micro-servitude, [a Gaia] which is everywhere the successor to the totalitarian oppression. [‘Seu porco estalinista, jogue esta casca de banana no lixo, seu genocida das futuras gerações!’]Incrível que eu o tenha digitado em 25/10/16, insuspeito do genocídio (nada ecológico, é claro) que se aproximava… No momento em que digito este trecho para publicação no Seclusão, 0h15 de 6 de maio de 2023, uso máscara, uma KN95, porque sou terrivelmente alérgico a ácaros e estou remexendo em papéis velhos, onde anotei estas aspas de Baudrillard… É como reviver aqueles meses de agonia… um pouco. Comentando também sobre Stalin, quando ele definitivamente volta à baila significa: a História voltou a andar. Des-revisionismo em ação.

É preciso desistir de algo a fim de verdadeiramente alcançá-lo. (Só os grandes homens entenderão.)

O fato de Marx ter errado o vencedor não depõe contra a exatidão da análise marxista de forma alguma, só acrescenta a ironia objetiva que faltava. O destino cuidou do assunto. Foi como se um gênio mau [evil genie] tivesse substituído um pelo outro – o comunismo pelo capitalismo – no último momento.” “Uma admirável divisão do trabalho: o Capital realizou a tarefa do Comunismo e este morreu no lugar do Capital. Mas isso pode facilmente revirar.” “Mas isso também é parte da ironia da história: a inversão do propósito final – a ilusão final.”

O Capital canibalizou toda a energia negativa, a da história e a do trabalho, numa – literalmente – operação sarcástica (…) O que vemos diante de nós é o triunfo paródico da sociedade sem classes (…) o cozinheiro [chef] se torna chefe de Estado, ou quase (já vimos pior desde que Lenin proferiu este seu velho sonho). (…) de qualquer forma, quando o Estado deixa de ser Estado, o cozinheiro deixa de ser cozinheiro. Como Brecht disse, o fato da cerveja não ser mais cerveja é harmoniosamente compensado pelo fato do cigarro não ser mais cigarro também. Logo, a ordem irônica está salva.”

Gorbachev is giving up Marxism! Fantastic! But what does <giving up> mean? Can you give up Marxism in the way you give up tobacco or alcohol? Can you give up your father and mother? Can you give up God? In its time, the Church has come close to giving up the Devil or the Immaculate Conception, but this has not occurred. Renunciation is the symmetrical and opposite movement to faith – as absurd and useless. If things exist, there is no use believing in them. If they do not exist, there is no use renouncing them.” “What if one day the West too were to renounce capitalism?” « Et si un jour l’Occident était forcé de ressusciter le marxisme, qui fait quand même partie du patrimoine, que diable (le Diable aussi d’ailleurs) ! »

« desimulation » pela primeira vez no autor (p. 54).

virtual is what puts and end to all negativity”

The highest pressure of news corresponds to the lowest pressure of events and reality [le réel].”

only information has sovereign rights, since it controls the right to existence.”

Vingança pela quietude da alma.

There is no worse mistake than taking the real for the real and, in that sense, the very excess of media illusion plays a vital disillusioning role. In this way news could be said to undo its own spell by its effects.” “Television and the media world render reality [le réel] dissuasive, were it not already so.”

soaking up the sulky sucking

Saddam, who will in the end have been nothing but that fairground dummy you shot at from point-blank range, had to be saved.” Anedota: Baudrillard morreu 3 meses após Hussein.

A TV é imunizadora.” E as redes sociais são ataques à imunidade. A predominância das redes sobre a televisão é irreversível e natural.

the most odious Realpolitik: the Shi’ites, the Kurds, the calculated survival of Saddam…”

The Stoics contest the very self-evidence of pain, when the body’s confusion is at its height. Here, we must contest the very self-evidence of war, when the confusion of the real is at its height.”

In a little time it will be possible to read La guerre du Golfe n’a pas eu lieu [1991] as a science-fiction novel (…) Like Borges’ chronicling of cultures which never existed.” “Anyhow, the book has fallen – quite logically – into the same black hole as the war.” É este humor buraco negro que tanto admiro no meu ídolo Jean Baudrillard. Somos escritores-gêmeos. Não o digo para prodigalizar meu talento, mas nosso temperamento e falsa auto-depreciação são idênticos – talvez eu não saiba, mas modelei os meus nos dele, pois meu primeiro contato com sua obra foi ao redor de sua morte, quando eu chegava a meus 20.

It was the simulacrum of Helen that was at the heart of the Trojan War. The Egyptian priests had held on to the original (we do not know what became of it) when she set out again with Paris for Troy.” “the universal form of beauty is as unreal as gold the universal form of all commodities.”

P. 66: “Dianismo” [conceito meu, Princess Diana]: o demagogismo do discurso de ajuda ao próximo, sobretudo às crianças sem pais (pais = dinheiro) do famélico Quarto Mundo. Carência alheia como atalho covarde para a fama. Espetacularização do indigentismo.

…AND REPENTANCE FOR ALL

Laras Crofts nos escombros de outras sociedades…

Lúcia Maria no Lixão com Grafites Residuais na Ilha dos Porcos-Subomens

Sebastiões Salgados, Uni-Vos!

Como é doce o som da fome e do caos!

Há CPFs e CNPJs que vivem só de “denúncia anônima”.

annihibalism

The sacrifices we offer in return are laughable (a tornado or two, a few tiny holocausts on the roads, the odd financial sacrifice)”

the demographic catastrophe, a veritable epidemic which we deplore each day in pictures.”

One day it will be the Whites themselves that will give up their whiteness.”

Because it is unable to escape it, humanity will pretend to be the author of its destiny.”

Uma memória hipertélica que armazena todas as informações num estado constante de recuperabilidade instantânea, excluindo qualquer trabalho de luto, qualquer resolução do passado. O Inconsciente é já algo desse tipo. Ele não conhece passado nem esquecimento, não é arcaico nem arqueológico. Ele é, ao contrário, um perpétuo presente, uma instantaneidade de todos os eventos físicos, que aparecem em sua superfície em uma contínua, potencial passagem ao ato. Paradoxalmente, por conta desse zeloso esforço para trazer de volta à tona, de uma maneira forçada, o que nós mesmos nem lembramos mais, vivemos num mundo tanto sem memória como sem esquecimento. Isso é como o céu – ou o inferno – deve ser: o reconhecimento maciço, a cada momento, de todos os padrões de nossa vida. A imortalidade penitente e penitenciária, a imortalidade carcerária de uma memória implacável.”

75: ainda sobre as Lascaux “simulacra” caves.

Quando confrontados com as pinturas nas cavernas, os povos do século XVIII não podiam acreditar nelas. Eles as viam como uma mistificação criada por libertinos para ridicularizar a Bíblia (dizia-se que as cavernas haviam sido pintadas para fazer com que os outros acreditassem numa humanidade ante-cristã).”

Assim como com aqueles objetos de que Freud fala, que, por estarem o mais próximos dos órgãos sexuais femininos, fazem o seu papel durante as alucinações sexuais, fetichizamos fósseis e relíquias porque eles são o que há de mais parecido com nossa origem perdida e são-nos substitutos de uma possível origem.

Secretamente, preferimos não ser mais confrontados com o original. Tudo que queremos é o copyright.”

OS HUMANO-BACTÉRIAS: “Será que o total do futuro vai se exaurir nessa síntese artificial do passado? Quem sabe aonde este gigantesco movimento retrógrado poderá nos levar? Seria ele uma fase efêmera em nossa pós-história, e, conseqüentemente, um fenômeno cultural, ou será um desenvolvimento de significância ainda mais profunda, relacionando-se com o destino da espécie, ou até além, com oscilações de um tipo cósmico? (Com o girino, logo que o ápice da sexuação é atingido, há involução rumo a formas mais precoces de reprodução. Estaria o ser humano reinventando a clonagem biológica no ponto final de uma história sexuada?)”

Somos sou a última singularidade

logo serei inconfundível com o protótipo de último homem, que não poderá mais se reproduzir.

Que espécie de quadro irá se mover sozinho?

Estrelas continuarão estourando?

Idealization always goes with abjection, just as charity always goes with destitution.”

A natureza vira coisa (modernidade) para depois virar sujeito (pós-modernidade) (mau sinal): não há outro; há apenas sujeitos – e, logo, logo, só sujeitos sem objetos.”

Biosphere 2, o primeiro “zoológico humano”, Arizona. Status: fracassado.

https://en.wikipedia.org/wiki/Biosphere_2

Especially during the first year, the 8 inhabitants reported continual hunger. Calculations indicated that Biosphere 2’s farm was amongst the highest producing in the world <exceeding by more than 5x that of the most efficient agrarian communities of Indonesia, southern China, and Bangladesh’.” Ou é mentira ou realmente os americanos são obesos incuráveis…

They consumed the same low-calorie, nutrient-dense diet that Roy Walford had studied in his research on extending lifespan through diet.” Mas faltou carne.

The oxygen inside the facility, which began at 20.9%, fell at a steady pace and after 16 months was down to 14.5%. This is equivalent to the oxygen availability at an elevation of 4,080 metres (13,390 ft). Since some biospherians were starting to have symptoms like sleep apnea and fatigue, Walford and the medical team decided to boost oxygen with injections in January and August 1993.”

After Biosphere 2’s first mission, extensive research and system improvements were undertaken, including sealing concrete to prevent the uptake of carbon dioxide. The second mission began on March 6, 1994, with an announced run of 10 months.”

On April 1, 1994, a severe dispute within the management team led to the ousting of the on-site management by federal marshals serving a restraining order, and financier Ed Bass hired Steve Bannon, then-manager of the Bannon & Co. investment banking team from Beverly Hills, California, to run Space Biospheres Ventures.”

At 3 a.m. on April 5, 1994, Abigail Alling and Mark Van Thillo, members of the first crew, allegedly vandalized the project from outside, opening one double-airlock door and 3 single door emergency exits, leaving them open for about 15 minutes. Five panes of glass were also broken. Alling later told the Chicago Tribune that she ‘considered the Biosphere to be in an emergency state … In no way was it sabotage. It was my responsibility.’ About 10% of the Biosphere’s air was exchanged with the outside during this time, according to systems analyst Donella Meadows, who received a communication from Alling saying that she and Van Thillo judged it their ethical duty to give those inside the choice of continuing with the drastically changed human experiment or leaving, as they didn’t know what the crew had been told of the new situation.”

Mission 2 was ended prematurely on September 6, 1994. No further total system science has emerged from Biosphere 2 as the facility was changed by Columbia University from a closed ecological system to a ‘flow-through’ system where CO2 could be manipulated at desired levels. § Steve Bannon left Biosphere 2 after 2 years, but his departure was marked by an ‘abuse of process’ civil lawsuit filed against Space Biosphere Ventures by the former crew members who had broken in. Leading managers of Biosphere 2 from the original founding group stated both abusive behaviour by Bannon and others, and that the bankers’ actual goal was to destroy the experiment. During a 1996 trial, Bannon testified that he had called one of the plaintiffs, Abigail Alling, a ‘self-centered, deluded young woman’ and a ‘bimbo’. He also testified that when the woman submitted a 5-page complaint outlining safety problems at the site, he promised to shove the complaint ‘down her throat’. Bannon attributed this to ‘hard feelings and broken dreams’.”

Os fascistas estragam tudo que tocam. Descrição de Baudrillard agora: “Outside Tucson, in Arizona, right in the middle of the desert, a geodesic glass and metal structure accommodating all the planet’s climates in miniature, where 8 human beings (4 men & 4 women, of course) are to live self-sufficiently, in a closed circuit, for 2 years, in order – since we are not able to change our lives – to explore the conditions for our survival.”

Man is also a scorpion, just as the Bororo are arara(*) and, left to himself in an expurgated universe, he becomes, himself, a scorpion.

(*) Arara is a name of Tupi origin for a bird of the genus Ara which includes the macaws (French: aras).”

Secretamos significados como o escorpião secreta seus venenos.

Segredamos significados como o escorpião secreta seus venenos.

Homem, o grande cretino.

That is the terroristic dream of the transparency of good, which very quickly ends in its opposite, the transparency of evil. § We must not reconcile ourselves with nature.”

espaço siderreal – certamente não são Adão e Eva ressuscitando: “The elimination of all sexual reproduction: it is forbidden to reproduce in Biosphere 2; even contamination from life [le vivant] is dangerous; sexuality may spoil the experiment. Sexual difference functions only as a formal, statiscal variable [não podiam furunfar nem com camisinha?! condomnados ao celibato!] (…) if anyone drops out, a person of the same sex is substituted.” “glass coffin” coma cosmético

O GRAU 1 BILHÃO DA ESCRITURA – O SUPER-U****I – o maior filósofo se torna o mais inconseqüente dos títulos.

Como pode alguém ofender alguém de blasé a sério? Que se acredite que se ofenda alguém que nunca se ofende é um atestado de desespero.

Nada a temer em temer o nada.

God, for his part, if he exists, does not believe in his existence, but he allows the subject to believe in it, and to believe he [god] believes in it, or [the subject] not to believe that – but not to believe he [god] does not believe in it (Stavrogin [personagem dostoievekiano, Os Demônios]).” Genial!

RESUMO LÓGICO DAS IMPLICAÇÕES DO EMPOLADO RACIOCÍNIO DE STAVROGIN E O SENTIDO DE “TUDO É PERMITIDO” NA OBRA DE DOSTOIEVSKY

1. Deus existe; Deus não acredita na própria existência; Deus permite que o homem acredite na existência de deus ou não, mas não na segunda verdade fundamental.

1.1 O homem acredita na existência de deus.

1.1.1 O homem acredita que deus acredita na própria existência.

1.1.2 O homem acredita que deus não acredita na própria existência.

1.2. O homem não acredita na existência de deus.

1.2.1 O homem acredita que deus, se existisse, acreditaria na própria existência.

1.2.2 O homem acredita que deus, se existisse, não acreditaria na própria existência.

2. Deus não existe.

2.1 O homem acredita na existência de deus.

2.1.1 O homem acredita que deus acredita na própria existência.

2.1.2 O homem acredita que deus não acredita na própria existência. Este homem na verdade é um grande ateu, pois um deus que não acredita na própria existência seria pior que a não-existência de um deus.

2.2. O homem não acredita na existência de deus.

2.2.1 O homem acredita que deus, se existisse, acreditaria na própria existência.

2.2.2 O homem acredita que deus, se existisse, não acreditaria na própria existência. Este homem é, finalmente, um grande ateu, o único ateu em sentido estrito, pois um deus que não acreditasse na própria existência, pensa ele, não deveria sequer ser pensável. Seria pior e mais absurdo que a não-existência de um deus, seria como uma confissão de não-onipotência por parte deste suposto deus.

2 conclusões:

a) As possibilidades éticas são maiores sem Deus (tudo é permitido).

b) Seria possível provar a inexistência de deus (jamais a existência)¹ ao se encontrar um só indivíduo que acredita que deus² não acredita em si próprio. É o caso do personagem da novela niilista de Dostoievsky. Seu niilismo absoluto, sua negação ultimada da realidade, não se escora no ingênuo fato de que não acredite num deus, mas que para ele, como um homem uma vez fanático e que pensou a idéia de Deus até as suas últimas conseqüências, esse deus se tornou impossível. Na percepção alcançada por Stavrogin, todos os casos são iguais, apenas ele e homens análogos a ele, um novo homem, são um outro: se Deus existe, quem acredita nele ou não são iguais; se Deus não existe, e Deus não existe, pois Stavrogin recebeu essa iluminação e nova sabedoria, ateus e crentes que acreditam que deus acredita em si próprio são iguais (inofensivos); mas ateus e crentes que acreditam que deus não acredita(ria) em si próprio, estes são niilistas radicais, os únicos ateus na verdadeira acepção da palavra. Igor Karamazov (outro romance) se questiona: Tudo é permitido?, mas Stavrogin responde, em Os Demônios.

¹ Pois todos os indivíduos precisariam respeitar as vedações em 1.1 e 1.2. Mas mesmo que todos na Terra em dado dia as respeitassem, não quereria dizer que jamais um indivíduo no passado as respeitou; e nem que nunca haverá de nascer um indivíduo que não as respeite.

² O deus existente, para o crente, ou inclusive apenas uma abstração, a hipótese de deus, de um deus que não acreditasse em si mesmo, para o não-crente.

Não exageremos a importância deste raciocínio lógico elaborado, no entanto: não podemos provar crenças (talvez apenas a nossa própria, e ainda assim podemos desconfiar de que às vezes mentimos para nós mesmos).

P. 94: “Todos esses corpos de pensamento [Stirner e seu individualismo soberano, Marx e a luta coletivista na História, Nietzsche, seu Übermensch e a transvaloração de todos os valores demasiado humanos] tiveram profundas conseqüências para o mundo – nenhum se converteu em realidade.

um <além> que não é aquele da religião, mas um <além> do humano que permanece dentro e com o humano (…) uma ilusão talvez, mas uma ilusão superior.” “Contrariamente à ilusão transcendental das religiões, o jogo das aparências é supra-humano”

Se a história tivesse um fim, esse fim já teria sido alcançado… Um dia me arrependerei dos meus atuais prognósticos e escreverei o livro HEIDEGGER ESTAVA CERTO? A tecnologia nos comeu sem volta. Quem dera Baudrillard estivesse errado…

O que atualmente toma o lugar da transmutação é a transcrição da Idéia em uma operação técnica (…) O que mostra que Nietzsche, por um lado, estava certo: a raça humana, deixada a si mesma, com efeito só sabe se reduplicar e destruir.”

fetichismo técnico (…), meramente a paródia da aceitação do seu destino, através de uma manipulação biológica que é meramente a caricatura da transvaloração dos valores.” “Desnecessário dizer, essa transvaloração de valores de que Nietzsche fala não teve lugar, exceto precisamente no sentido oposto – não para além, mas deste lado, aquém, do bem e do mal

Não mais uma fetichização de divindades, grandes idéias ou narrativas, mas de diferenças mínimas e de partículas. (…) As fronteiras entre o humano e o inumano estão desvanecendo, de fato, mas essa perda de nitidez se dá numa espiral rumo ao sub-humano (…) Verklärung des Untermenschen. Transfiguração do sub-homem.”

Essa reabsorção da metáfora da vida na metástase da sobrevivência é efetuada por uma progressiva redução ao menor denominador comum.”

Paradoxalmente, é a irrupção da biologia, i.e., da ciência da vida, que marca essa irrupção do não-vivo (…) Bem como a irrupção da psicologia marca o fim da transcendência da alma e sua suplantação por uma desconstrução analítica do mundo interior. Bem como a irrupção da ciência anatômica marca o fim do corpo e da morte como metáforas e suas entradas em cena como realidade e fatalidade biológicas.”

Podemos ainda falar do inconsciente, dado o prospecto do homem vindo a ser definido geneticamente? Mesmo a imortalidade do inconsciente, tão cara a Freud, está sob séria ameaça.”

RELEMBRE DEDÊ (TESE, vide mais abaixo): “Não mais imortal em termos de alma, que já desapareceu, nem mesmo em termos de corpo, que está para desaparecer, mas em termos de fórmula, imortal em termos de código.”

The trend in physics itself is towards the reduction of this interstitial void. It is the dream of that science to render matter totally concrete, to wrest all its energy from it by impelling it to limit-densities, densities artificial and monstrous.” Como congelar a luz, o novo absurdo alquímico.

From within, a culture is immortal; it seems to approach its end in an asymptotic curve. It has, in fact, already disappeared. The elevation of a value to universality is a prelude to its becoming transparent, which itself is a prelude to its disappearance.”

the single-handed ocean crossings, which are our modern equivalent of climbing Annapurna, [pico da cadeia de montanhas do Himalaya (circa 8000m); escalado pela primeira vez em 1950] are posthumous fantasies.”

Peter Schlemihl had at least sold his shadow to the devil; ours we have simply lost.” “The atomic shadow, the only one left to us: not the sun’s shadow, nor even the shadows of Plato’s cave, but the shadow of the absent irradiated body, the delineation of the subject’s annihilation, of the disappearance of the original.”

Alain Ehrenberg, La fatrigue d’être soi

the hero of subjectivity, of breaking with the old, of free will and Stirner’s radical singularity, is well and truly dead.” “This is the age of the daily invention of new particles. (…) freedom is merely the statistical end-product of impacts between singularities and no longer, therefore, in any sense a philosophical problem.”

His [the individual of today] only aim is the technical appropriation of the self. He is a convert to the sacrificial religion of performance, efficiency, stress and time-pressure – a much fiercer liturgy than that of production – total mortification and unremitting sacrifice to the divinities of data [l’information], total exploitation of oneself by oneself, the ultimate in alienation. § No religion has ever demanded as much of the individual as such, and it might be said that radical individualism is the very form of religious fundamentalism.” “By comparison, with this voluntary holocaust, [do sujeito atomizado liberal] this escalation of sacrifice, the so-called return of religion which we pretend to fear – these occasional upsurges of religiosity or traditional fundamentalism – is negligible. It merely conceals the fundamental integrism of this consensual society (…) Religious effects are taken too seriously in their religious dimension and not seriously enough as effects, that is, as making the true process.” “each one reviving for itself, in its micro-universe, the now useless totalitarianism of the whole.”

LIVRES COMO PEIXES NÃO-CONSTRANGIDOS EM SEUS AQUÁRIOS: “Liberty operates in a field that is limited and transcendent, in the symbolic space of the subject, where he is conformed with his own finality, his own destiny, whereas liberation operates in a potentially unlimited space. It is a quasi-physical process (…) That is why liberty is a critical form, whereas liberation is a potentially catastrophic form. The former confronts the subject with his own alienation and its overcoming. The other leads to metastases, chain reactions, the disconnection of the subject. Liberation is the effective realization of the metaphor of liberty and, in this sense, it is also its end. (…) Not the free subject any longer, but the liberal individual. (…) From liberty to liberation, from liberation to liberalization. The extreme point of highest dilution, minimal intensity” “And, in the process, the concept of alienation disappears. This new, cloned, metastatic, interactive individual is not alienated any longer, but self-identical. He no longer differs from himself and is, therefore, indifferent to himself. This indifference to oneself is at the heart of the more general problem of the indifference of institutions or of the political, etc., to themselves § The indifference of time: the non-distance between points in time, the promiscuity of points in time, the instantaneousness of real time. Boredom. § The indifference of space: the televisual, remote-controlled contiguity and contamination of all points in space, which leaves you nowhere. § Political indifference: the superimposition, the proliferation of all opinions in a single media continuum. § Sexual indifference: indistinguishability and substitution of sexes as a necessary consequence of the modern theory of sex as difference.” “this identitary individual lives on the hymning and hallucinating of difference, employing to that end all the devices for simulating the other.” Certamente Baudrillard ganharia o rótulo de fascista e transfóbico pela parte “amorosa” (inofensiva, cripto-neoliberal) da esquerda de hoje. A parte <<<revolucionária>>> (com o perdão da sobreposição das aspas) da esquerda e do <<<progressismo>>>.

ESQUEÇA DEDÊ (ANTÍTESE, vide acima): “This identity syndrome has a particular form of madness specific to it. To the <free> individual, the divided subject, there corresponds the vertical madness of yesteryear: psychical madness, the transcendent madness of the schizophrenic (…) [but] horizontal madness (…) [is] autism.”

Trecho de BAUDRILLARD, Jean. The Illusion of The End (1994) e, a seguir, especulações e desdobramentos meus sobre a figura do autista que devora o seu duplo e absorve seu irmão gêmeo, seja na vida real ou na ficção, com ou sem êxito:

[Not anymore] the delirium of the schizophrenic [personalidade cindida] but of the isophrenic, [idêntico tão-só a si mesmo] without shadow, other, transcendence or image (…) the autist who has devoured his double and absorbed his twin brother¹ (being a twin is, conversely, a form of autism à deux). (…) deprived of hereditary otherness, affected with hereditary sterility, they have no other destiny than desperately to seek out an otherness by eliminating all the Others one by one (whereas <vertical> madness [o tipo antigo da loucura, a família da esquizofrenia, formas arquetípicas do <desejo> de Gilles Deleuze & Guattari] suffered, by contrast, from a dizzying excess of otherness). The problem of Frankenstein, for example, is that he has no Other and craves otherness. This is the problem of racism.”

¹ The Black-Zamasu Syndrome! a Ou a Era Messi?b

O ANTES & DEPOIS DO “PERSONAGEM DUPLICADO” ZAMASU

a Black & Zamasu: dois lados de uma mesma moeda: Dois personagens de mangá/anime que são, no enredo, a mesma pessoa, porém provindos de universos alternativos (o que seria muito demorado explicar em suas minúcias), “um deles” mortal, um tanto impulsivo e dotado de um corpo “ágil e perfeito” (em que residiria essa agilidade e perfeição será deslindado a seguir – este mortal de que falo é chamado de “Goku Black” pelos demais personagens da trama), “outro deles” imortal, possuidor de extensos conhecimentos sobre o universo e não obstante dotado de um corpo um tanto menos versátil que o de sua contraparte espelhada (este é Zamasu, a identidade ‘original’ do ‘falso duo’). “Ambos” formam um par astuto e eficiente, pode-se dizer que “se completam” de forma platônica.

A solução final encontrada pelo(s) personagem(ns) desdobrado(s) Black-Zamasu na sua tentativa de cumprir o ambicioso propósito que persegue(m) com afinco na estória – o singelo plano da extinção da humanidade não só na Terra como em todo o universo (Ningen Zero Keikaku,(*) ‘Plano Zero Humanos’), e com humanos, nesta narrativa, não entender apenas criaturas antropomórficas, os terráqueos, mas todos os seres que a filosofia existencialista classificaria como conscientes de que um dia irão morrer dada “sua natureza meramente finita, recalcitrante e imperfeita, de pecadores natos, enfim”, como diria o vilão ou a dupla de vilões em questão –, envolve a precipitada decisão de “fundir-se consigo mesmo”, acarretando a transformação de duas entidades em uma.

(*) Acho divertida a inadvertida – cacofonia intencional – coincidência acústica que a transposição da obra para o português acaba gerando: ningen, sendo o japonês para ‘humano’, corresponde exatamente à idéia que Black-Zamasu tem/têm do homem: um zé(ro)-ninguém.

Este Narciso que conseguiu mergulhar no espelho d’água e não se afogar, este Fausto do universo ficcional de Dragon Ball, após vender a alma para chegar aonde quer, percebe tarde demais que o “diabo” (neste caso ele mesmo) o ludibriou na barganha, ao constatar que, uma vez fundido com sua cara-metade, sua principal vantagem tática na trama até aquele momento é, como num simples passe de mágica, desfeita: seu senso de cooperação com um Outro (ainda que esse outro fosse apenas ele desdobrado), sua sincronia e trabalho em equipe ideais na paciente execução de um projeto maquiavélico, acabam dando lugar a uma criatura “semi-imortal e auto-suficiente”. Ora, só que não existe a semi-imortalidade (algo intrinsecamente inútil, inferior à imortalidade) nem uma auto-suficiência genuína.

A sutil tragédia desta estória, nem sempre capturada pelo leitor/espectador, está em que a fim de chegar tão longe em seus planos diabólicos Zamasu teve de roubar o corpo do artista-marcial “perfeito”, Goku, o protagonista, que encarna o próprio sentido do humano arquetípico, cheio de defeitos, carências e tolas expectativas, dotado de uma fé cega e ingênua no futuro a despeito da certeza da morte e até de uma certa dose de despeito pelo conceito de divindade (justamente o que nos torna cônscios de nossa capacidade inerente de nos corrigirmos e nos superarmos diversas vezes ao longo de nossa curta vida), conjunto de características tão abominado pelo mesmo Zamasu. A parte “humana” de Zamasu, Goku Black, ao ser incorporada ao próprio Zamasu original, constituindo a partir daí um corpo só, desestabiliza seu Ser Eterno. Seu novo invólucro, em vez de onipotente, se revela uma falsificação, um embuste. Zamasu, o Uno, não dispõe mais da vida eterna.

E este nem é o pior de seus problemas após a fusão: logo se evidencia que, contra os humanos – raça que aprende com os erros e enquanto não perece ousa tentar outra vez, mesmo sem ter idéia do desfecho, de se seus esforços serão inúteis ou não, entregando, de qualquer maneira, tudo de si –, a própria habilidade de Zamasu, da parte do Goku Black em Zamasu, que ele tomou emprestada do corpo mortal de Goku quando uma de suas metades se transformara em Black no passado, a habilidade do contínuo e incessante auto-aperfeiçoamento pessoal, não passa de uma cópia barata da versão dos humanos autênticos dessa mesma habilidade. Zamasu, principalmente agora que contaminou sua antiga parte “humana” (parte que, reitera-se, era um mal necessário para que ele sobressaísse no combate) com traços divinos (e não o contrário: em Zamasu, é o humano que decai graças a sua metade deus, e não o inverso!), não possui a vontade e a determinação necessárias que lhe possibilitariam, em última instância, ultrapassar seus próprios limites.

Ao escolher se fundir consigo próprio, Zamasu apenas antecipou o fim do combate: se tornou um adversário facilmente vencível, incapaz de acompanhar o ritmo das proezas dos rivais e de compreender o ethos do inimigo. (Em sua cabeça, devia se perguntar: Por que eles lutam comigo, em intensa solidariedade uns com os outros o tempo todo, mesmo quando se acham em nítida desvantagem na correlação de forças? E por que eles não desistem nunca de realizar o impossível? O que faz criaturas tão frágeis e insignificantes se comportarem de maneira tão absurda e ao mesmo tempo exibirem uma invejável serenidade no olhar? Que impulso é esse que os move, que nem mesmo um deus como eu entende?!) O resultado final icônico do embate é que Black-Zamasu termina cortado em dois por um dos humanos que o antagonizam. Seu corpo imortal tinha o dom da auto-regeneração, mas sozinho não poderia vencer os humanos super-poderosos da trama fantástica. Quando se fundiu consigo mesmo, seu novo corpo semi-imortal foi aos poucos se deformando e perdendo aquela capacidade restauradora, embora ele calculasse que o ganho de poder resultante da fusão decidiria a guerra a seu favor.

Aquilo que fôra cortado pela espada de um humilde ser humano (a espada, apenas uma espada como qualquer outra, nada mais é do que o símbolo da inquebrantável perseverança dos mortais) não era bem a carne de Zamasu, a dizer verdade, mas seu espírito, sua própria essência, e este profundo ferimento metafísico se mostrou uma chaga incurável.

A evolução tremendamente satisfatória (em sua ascensão e queda) do multifacetado e secretamente atormentado Zamasu – esse Prometeu negativo, esse deus presunçoso e anti-socrático, que “não sabia que nada sabia” –, e seu estratagema cínico de forjar uma hipócrita aliança com seu duplo ou Doppelgänger, um duplo que ao mesmo tempo que imitava os seres humanos teria de ser seu principal instrumento para finalmente extingui-los, tornam este personagem, de longe, no melhor antagonista jamais apresentado por esta série shounen de lutinhas acéfalas, em que normalmente imperam a superficialidade mais boçal e os velhos clichês maniqueístas.

OBS: Deve haver uma mística ligação entre Jean Baudrillard e Dragon Ball, pois não é a primeira vez que eu associo a ambos – e ser mais distintos um do outro é impossível! – em posts do Seclusão (aqui vai a pista de uma possível explicação racional: novamente o assunto abordado se refere à ‘síndrome de deus’ de que padece o animal homem em todas as culturas conhecidas)!

Vide o contexto completo da primeira “analogia” entre aspas de Baudrillard e personagens de Dragon Ball em https://seclusao.art.blog/2021/12/20/ss-em-3-atos/.

b Lional “La Pulga” Messi: O conhecido jogador de futebol foi tachado por muitos “entendidos” de “autista” nos seus anos iniciais de carreira porque ‘se comunicava’ e ‘atuava’ de forma supostamente bizarra e muito diferente da habitual, tanto nos gramados quanto na vida privada. Diferente até de outros gênios do passado, principalmente do ícone-mor argentino, o extremamente sociável e integrado com o seu povo, extrovertido e burlesco Diego Maradona, que por muitos anos foi uma sombra na trajetória de Messi.

Vemos, num dégradé perfeito, como Lionel Messi foi se tornando, com a idade, cada vez mais e mais maradônico, seja porque assim quisemos passar a enxergar após começarmos a prestar mais atenção ou porque o meia-atacante foi se tornando, sem afetação, de modo orgânico e natural, grande e irreverente tal qual seu ídolo de infância, não só através de suas quebras rotineiras de recordes e a técnica cada vez mais precisa e apurada, como também pela maturidade com que aprendeu a chamar toda a responsabilidade e estrelato para si, aglutinando os companheiros pelo bem maior da equipe e confrontando com personalidade e malemolência os críticos e adversários, cada vez mais estupefatos e rendidos.

Messi soube se desdobrar, enquanto se movimentava como uma flecha durante os jogos, separou o Messi indivíduo comum do Messi lendário, o cidadão do mago protagonista de espetáculos, se situou num ângulo favorável, numa distância confortável, diante do espelho em que se punha a observar seu próprio Outro, que na verdade são duas coisas distintas, seus dois Outros – 1) o seu futuro como será contado pela História, que só pode ser decidido por ele mesmo; 2) e aquela antiga sombra ou reflexo pertencente ao passado, que mais parecia um destino inexorável a pesar como uma bigorna sobre as suas costas, ele, Diego Armando Maradona. Por muito tempo, no entanto, pensaram, e talvez Messi tenha pensado, que seus dois Outros eram um só: Messi é Maradona; mas se Messi não tem uma Copa, então Messi não é Maradona… então,a na realidade, Messi não é ninguém… Não!… Messi será Maradona!… contanto que… Entende-se onde quero chegar.

Os anos profissionais de um jogador de futebol passam muito mais depressa que nossa já efêmera vida. E, para Messi, sua trajetória como jogador, o capítulo mais importante de sua biografia, culminou com a decretação oficial de sua “santidade atlética”, a atribuição sem direito a controvérsia de seu status de craque atemporal, diante de toda a imprensa e da atual geração de torcedores do esporte mais popular do planeta, após a apoteótica exibição na final da Copa do Mundo de 2022, no momento em que erguia a Taça Fifa. Hoje, mesmo antes da aposentadoria, Messi já é apontado (e não apo-se-ntado, leia bem!) – e por não poucos, talvez pelos mesmos que antes tentavam explicar suas performances sobrenaturais apelando para diagnósticos clínicos! – como “melhor que Maradona” enquanto jogador e “tão influente e carismático quanto Dieguito” fora das quatro linhas, façanha notável, outrora até impensável, quando nos damos conta de que na Argentina Diego Maradona é venerado como um deus…

* * *

O MAL SOMÁTICO DA HUMANIDADE: “everything is already there, everything has already taken place. § We are thus immortal survivors, since the second existence is without end. It has no end because the end is already the beginnin.” “The process of de-humanization is complete and the clear effect of this phenomenon is that we no longer possess the psychical, ethical and spiritual resources which would enable us to realize this fact (Romain Gary).”¹

¹ wikia: “Romain Gary, 1914–1980, also known by the pen name Émile Ajar, was a French novelist, diplomat, film director, and World War II aviator. He is the only author to have won the Prix Goncourt under two names. He is considered a major writer of French literature of the second half of the 20th century.” “In a memoir published in 1981, Gary’s nephew Paul Pavlowitch claimed that Gary also produced several works under the pseudonym Émile Ajar. Gary recruited Pavlowitch to portray Ajar in public appearances, allowing Gary to remain unknown as the true producer of the Ajar works, and thus enabling him to win the 1975 Goncourt Prize, a second win in violation of the prize’s usual rules.” chad move here!

R.G., Les Racines du ciel

Our systems are thus doubly chaotic: they operate both by exponential stability and instability.”

A DIALÉTICA DO REJUVENESCIMENTO: “Sensitivity to initial conditions should not be confused with fate or predestination.” “In predestination, the end is there before the beginning and every effort to move away from the end brings that end closer. [Édipo Rei, etc.]

Meteorology is chaotic; it is not a figure of destiny.”

the destiny of simulation which one may, in effect, read as a form of catastrophe of reality, this dizzyng whirl of the model, the virtual and simulation carrying us further and further from the initial conditions of the real world

Chaos is a parody of any metaphysics of destiny. It is not even an avatar of such a metaphysics. The poetry of initial conditions fascinates us today, now that we no longer possess a vision of final conditionsO Ragnarok é sempre só um Big Bang.

Destiny is the ecstatic figure of necessity. Chaos is merely the metastatic figure of Chance. [a contingência se espalhando como um câncer]

the hidden order of strange attractors” “Condemned to an intense metabolism” “They are condemned, precisely, to the epidemic, to the endless excrescences of the fractal [vertigo] and not to the reversibility and perfect resolution of the fateful [fatal]. We know only the signs of catastrophe now.” Não é como um eterno retorno com sentido, mas apenas um loop de arcade game de Atari…

“…definitive doom, which we could at least consume as spectacle. Just imagine the extraordinary good luck of the generation which would have the end of the world to itself.” “we came too late for the beginning.”

You live too fast, you live too soon. Apoteozzy

Ó TESOURA AMIGA!

CORTO EU A LINHA PELUDA?

April of the pigs

O universo é como um ano-novo.

history itself has become interminable. when we speak of the <end of history>, the <end of the political>, the <end of the social>, the <end of ideologies>, none of this is true. The worse of it all is precisely that there will be no end to anything, and all these things will continue to unfold slowly, tediously, recurrently, in that hysteresis of everything which, like nails and hair, continues to grow after death.”

homepathic end, an end distilled into all the various metastases of the refusal of death.”

This revival of vanished forms, this attempt to escape the apocalypse of the virtual, is an utopian desire, the last of our utopian desires.” Nada será como antes.

the illusion of the end of that book

can we not imagine that, in history itself, previous states never disappeared, but present themselves again in succession, as it were, taking advantage of the weakness or excessive complexity of the present structures?”

The reabilitation of old frontiers, the old structures, the old elites will never have the same meaning. If, one day, the aristocracy or royalty recover their old position, they will, nonetheless, be <post-modern>.”

Magic Country, Future World, Gothic, Hollywood itself reconstructed 50 years on in Florida, the whole of the past and the future revisited as living simulation. Walt Disney is the true hero of deep-freezing, with his utopian hope of awakening one day in the future, in a better world. But that is where the irony bites: he had not foreseen that reality and history would turn right around. And he, who expected to wake up in the year 2100, might well, following out his own fairytale scenario, awaken in 1730 or the world of the Pharaohs or any one of his primal scenes.”

Communism will have had no historical end; it will have been sold off, knocked down like useless stock.”

The sales used to come after the feast days but now they precede them. It’s the same with our century”

This is like the parable of the Russian cosmonaut forgotten in space, with no one to welcome him, no one to bring him back – the sole particle of Soviet territory ironically overflying a deterritorialized Russia. Whereas on Earth everything has changed, he becomes pratically immortal and continues to circle like the gods, like the stars, like nuclear waste.”

Nostalgia had beauty because it retained within it the presentiment of what has taken place and could take place again. It was as beautiful for never being satisfied, as was utopia for never being achieved.”

the literal manifestness of the end”

We are, then, unable to dream of a past or future state of things. Things are in a state which is literally definitive (…) deprived of its end. Now, the feeling which goes with a definitive state, even a paradisiac one – is melancholic.”

there remains the completely improbable and, no doubt, unverifiable hypothesis of a poetic reversibility of events, more or less the only evidence for which is the existence of the same possibility in language.”

Canetti diz que a vingança é supérflua; torna-se desnecessária devido à inexorável reversibilidade das coisas.”

It isn’t just terrorists who repent. Intellectuals showed them the way, the Sartreans and others having been in the van of repentence from the 50s onwards.”

Arte total = arte mais fraca

If nothing exists now but effects, we are in a state of total illusion (which is also that of poetic language). If the effect is in the cause or the beginning in the end, then the catastrophe is behind us. This reversing of the sign of catastrophe is the exceptional privilege of our age. It liberates us from any future catastrophe and any responsibility in that regard. The end of all anticipatory psychoses, all panic, all remorse! The lost object is behind us. We are free of the Last Judgement.” Lost Judgement

INVERSÃO CONTRA FIM: “Anastrophe versus catastrophe”

Might we not transpose language games on to social and historical phenomena: anagrams, acrostics, spoonerisms, rhyme, strophe and cata-strophe [a estrofe que transtorna]?”

In these times of a retroversion of history, the palindrome,¹ that poetic, rigorous form of palinode,² could serve as a grille de lecture (might it not perhaps be necessary to replace Paul Virilio’s dromology³ with a palindromology?). And the anagram, that detailed process of ravelling, that sort of poetic and non-linear convulsion of language”

¹ Frase idêntica num sentido ou noutro, como a famosa SOCORRAM-ME SUBI NO ÔNIBUS EM MARROCOS.

² Re-citação de outro trecho do mesmo autor ou poema (quando muito grande), dentro do próprio poema.

³ A ciência da velocidade. Tão rápido que assa a virilha.

pure materiality of time” “The illusion of our history opens on to the greatly more radical illusion of the world. VdP, fim da exposição inicial sobre o niilismo.

we no longer have the choice of advancing, of persevering in the present destruction, or of retreating – but only of facing up to [reconhecer, aceitar, lidar com] this radical illusion.”

Voltar é impossível. Déjà vu em extinção. E dar um passo dianteiro kantiano ainda mais difícil,

Irreverente realidade do irreal.

Presente terno,

Uma música que não sai do refrão.

That’s what life means, said a Brazilian singer and composer…

GLOSSÁRIO:

fallow: terra deixada em descanso no sistema de cultivo rotativo (também conhecida como “pousio”)

lorry: caminhão-de-lixo

[PREVIEW DO PRÓXIMO POST] Como uma discussão sobre o autismo e o conceito de Doppelgänger em Jean Baudrillard me levou a entrar em detalhes sobre o melhor vilão de Dragon Ball e a carreira do Messi… Parece uma dupla loucura, mas não é!

Trecho de BAUDRILLARD, Jean. The Illusion of The End (1994), seguido de especulações e desdobramentos meus acerca da figura do autista que devora o seu duplo e absorve seu irmão gêmeo, seja na vida real ou na ficção, com ou sem êxito:

 

[Not anymore] the delirium of the schizophrenic [personalidade cindida] but of the isophrenic, [idêntico tão-só a si mesmo] without shadow, other, transcendence or image (…) the autist who has devoured his double and absorbed his twin brother¹ (being a twin is, conversely, a form of autism à deux). (…) deprived of hereditary otherness, affected with hereditary sterility, they have no other destiny than desperately to seek out an otherness by eliminating all the Others one by one (whereas <vertical> madness [o tipo antigo da loucura, a família da esquizofrenia, formas arquetípicas do <desejo> de Gilles Deleuze & Guattari] suffered, by contrast, from a dizzying excess of otherness). The problem of Frankenstein, for example, is that he has no Other and craves otherness. This is the problem of racism.”

¹ The Black-Zamasu Syndrome! a Ou a Era Messi?b

O ANTES & DEPOIS DO “PERSONAGEM DUPLICADO” ZAMASU

a Black & Zamasu: dois lados de uma mesma moeda: Dois personagens de mangá/anime que são, no enredo, a mesma pessoa, porém provindos de universos alternativos (o que seria muito demorado explicar em suas minúcias), “um deles” mortal, um tanto impulsivo e dotado de um corpo “ágil e perfeito” (em que residiria essa agilidade e perfeição será deslindado a seguir – este mortal de que falo é chamado de “Goku Black” pelos demais personagens da trama), “outro deles” imortal, possuidor de extensos conhecimentos sobre o universo e não obstante dotado de um corpo um tanto menos versátil que o de sua contraparte espelhada (este é Zamasu, a identidade ‘original’ do ‘falso duo’). “Ambos” formam um par astuto e eficiente, pode-se dizer que “se completam” de forma platônica.

A solução final encontrada pelo(s) personagem(ns) desdobrado(s) Black-Zamasu na sua tentativa de cumprir o ambicioso propósito que persegue(m) com afinco na estória – o singelo plano da extinção da humanidade não só na Terra como em todo o universo (Ningen Zero Keikaku,(*) ‘Plano Zero Humanos’), e com humanos, nesta narrativa, não entender apenas criaturas antropomórficas, os terráqueos, mas todos os seres que a filosofia existencialista classificaria como conscientes de que um dia irão morrer dada “sua natureza meramente finita, recalcitrante e imperfeita, de pecadores natos, enfim”, como diria o vilão ou a dupla de vilões em questão –, envolve a precipitada decisão de “fundir-se consigo mesmo, acarretando a transformação de duas entidades em uma.

(*) Acho divertida a inadvertida – cacofonia intencional – coincidência acústica que a transposição da obra para o português acaba gerando: ningen, sendo o japonês para ‘humano’, corresponde exatamente à idéia que Black-Zamasu tem/têm do homem: um zé(ro)-ninguém.

Este Narciso que conseguiu mergulhar no espelho d’água e não se afogar, este Fausto do universo ficcional de Dragon Ball, após vender a alma para chegar aonde quer, percebe tarde demais que o “diabo” (neste caso ele mesmo) o ludibriou na barganha, ao constatar que, uma vez fundido com sua cara-metade, sua principal vantagem tática na trama até aquele momento é, como num simples passe de mágica, desfeita: seu senso de cooperação com um Outro (ainda que esse outro fosse apenas ele desdobrado), sua sincronia e trabalho em equipe ideais na paciente execução de um projeto maquiavélico, acabam dando lugar a uma criatura “semi-imortal e auto-suficiente”. Ora, só que não existe a semi-imortalidade (algo intrinsecamente inútil, inferior à imortalidade) nem uma auto-suficiência genuína.

A sutil tragédia desta estória, nem sempre capturada pelo leitor/espectador, está em que a fim de chegar tão longe em seus planos diabólicos Zamasu teve de roubar o corpo do artista-marcial “perfeito”, Goku, o protagonista, que encarna o próprio sentido do humano arquetípico, cheio de defeitos, carências e tolas expectativas, dotado de uma fé cega e ingênua no futuro a despeito da certeza da morte e até de uma certa dose de despeito pelo conceito de divindade (justamente o que nos torna cônscios de nossa capacidade inerente de nos corrigirmos e nos superarmos diversas vezes ao longo de nossa curta vida), conjunto de características tão abominado pelo mesmo Zamasu. A parte “humana” de Zamasu, Goku Black, ao ser incorporada ao próprio Zamasu original, constituindo a partir daí um corpo , desestabiliza seu Ser Eterno. Seu novo invólucro, em vez de onipotente, se revela uma falsificação, um embuste. Zamasu, o Uno, não dispõe mais da vida eterna.

E este nem é o pior de seus problemas após a fusão: logo se evidencia que, contra os humanos – raça que aprende com os erros e enquanto não perece ousa tentar outra vez, mesmo sem ter idéia do desfecho, de se seus esforços serão inúteis ou não, entregando, de qualquer maneira, tudo de si –, a própria habilidade de Zamasu, da parte do Goku Black em Zamasu, que ele tomou emprestada do corpo mortal de Goku quando uma de suas metades se transformara em Black no passado, a habilidade do contínuo e incessante auto-aperfeiçoamento pessoal, não passa de uma cópia barata da versão dos humanos autênticos dessa mesma habilidade. Zamasu, principalmente agora que contaminou sua antiga parte “humana” (parte que, reitera-se, era um mal necessário para que ele sobressaísse no combate) com traços divinos (e não o contrário: em Zamasu, é o humano que decai graças a sua metade deus, e não o inverso!), não possui a vontade e a determinação necessárias que lhe possibilitariam, em última instância, ultrapassar seus próprios limites.

Ao escolher se fundir consigo próprio, Zamasu apenas antecipou o fim do combate: se tornou um adversário facilmente vencível, incapaz de acompanhar o ritmo das proezas dos rivais e de compreender o ethos do inimigo. (Em sua cabeça, devia se perguntar: Por que eles lutam comigo, em intensa solidariedade uns com os outros o tempo todo, mesmo quando se acham em nítida desvantagem na correlação de forças? E por que eles não desistem nunca de realizar o impossível? O que faz criaturas tão frágeis e insignificantes se comportarem de maneira tão absurda e ao mesmo tempo exibirem uma invejável serenidade no olhar? Que impulso é esse que os move, que nem mesmo um deus como eu entende?!) O resultado final icônico do embate é que Black-Zamasu termina cortado em dois por um dos humanos que o antagonizam. Seu corpo imortal tinha o dom da auto-regeneração, mas sozinho não poderia vencer os humanos super-poderosos da trama fantástica. Quando se fundiu consigo mesmo, seu novo corpo semi-imortal foi aos poucos se deformando e perdendo aquela capacidade restauradora, embora ele calculasse que o ganho de poder resultante da fusão decidiria a guerra a seu favor.

Aquilo que fôra cortado pela espada de um humilde ser humano (a espada, apenas uma espada como qualquer outra, nada mais é do que o símbolo da inquebrantável perseverança dos mortais) não era bem a carne de Zamasu, a dizer verdade, mas seu espírito, sua própria essência, e este profundo ferimento metafísico se mostrou uma chaga incurável.

A evolução tremendamente satisfatória (em sua ascensão e queda) do multifacetado e secretamente atormentado Zamasu – esse Prometeu negativo, esse deus presunçoso e anti-socrático, que “não sabia que nada sabia” –, e seu estratagema cínico de forjar uma hipócrita aliança com seu duplo ou Doppelgänger, um duplo que ao mesmo tempo que imitava os seres humanos teria de ser seu principal instrumento para finalmente extingui-los, tornam este personagem, de longe, no melhor antagonista jamais apresentado por esta série shounen de lutinhas acéfalas, em que normalmente imperam a superficialidade mais boçal e os velhos clichês maniqueístas.

OBS: Deve haver uma mística ligação entre Jean Baudrillard e Dragon Ball, pois não é a primeira vez que eu associo a ambos – e ser mais distintos um do outro é impossível! – em posts do Seclusão (aqui vai a pista de uma possível explicação racional: novamente o assunto abordado se refere à ‘síndrome de deus’ de que padece o animal homem em todas as culturas conhecidas)!

Vide o contexto completo da primeira “analogia” entre aspas de Baudrillard e personagens de Dragon Ball em https://seclusao.art.blog/2021/12/20/ss-em-3-atos/.

b Lional “La Pulga” Messi: O conhecido jogador de futebol foi tachado por muitos “entendidos” de “autista” nos seus anos iniciais de carreira porque ‘se comunicava’ e ‘atuava’ de forma supostamente bizarra e muito diferente da habitual, tanto nos gramados quanto na vida privada. Diferente até de outros gênios do passado, principalmente do ícone-mor argentino, o extremamente sociável e integrado com o seu povo, extrovertido e burlesco Diego Maradona, que por muitos anos foi uma sombra na trajetória de Messi.

Vemos, num dégradé perfeito, como Lionel Messi foi se tornando, com a idade, cada vez mais e mais maradônico, seja porque assim quisemos passar a enxergar após começarmos a prestar mais atenção ou porque o meia-atacante foi se tornando, sem afetação, de modo orgânico e natural, grande e irreverente tal qual seu ídolo de infância, não só através de suas quebras rotineiras de recordes e a técnica cada vez mais precisa e apurada, como também pela maturidade com que aprendeu a chamar toda a responsabilidade e estrelato para si, aglutinando os companheiros pelo bem maior da equipe e confrontando com personalidade e malemolência os críticos e adversários, cada vez mais estupefatos e rendidos.

Messi soube se desdobrar, enquanto se movimentava como uma flecha durante os jogos, separou o Messi indivíduo comum do Messi lendário, o cidadão do mago protagonista de espetáculos, se situou num ângulo favorável, numa distância confortável, diante do espelho em que se punha a observar seu próprio Outro, que na verdade são duas coisas distintas, seus dois Outros – 1) o seu futuro como será contado pela História, que só pode ser decidido por ele mesmo; 2) e aquela antiga sombra ou reflexo pertencente ao passado, que mais parecia um destino inexorável a pesar como uma bigorna sobre as suas costas, ele, Diego Armando Maradona. Por muito tempo, no entanto, pensaram, e talvez Messi tenha pensado, que seus dois Outros eram um só: Messi é Maradona; mas se Messi não tem uma Copa, então Messi não é Maradona… então,a na realidade, Messi não é ninguém… Não!… Messi será Maradona!… contanto que… Entende-se onde quero chegar.

Os anos profissionais de um jogador de futebol passam muito mais depressa que nossa já efêmera vida. E, para Messi, sua trajetória como jogador, o capítulo mais importante de sua biografia, culminou com a decretação oficial de sua “santidade atlética”, a atribuição sem direito a controvérsia de seu status de craque atemporal, diante de toda a imprensa e da atual geração de torcedores do esporte mais popular do planeta, após a apoteótica exibição na final da Copa do Mundo de 2022, no momento em que erguia a Taça Fifa. Hoje, mesmo antes da aposentadoria, Messi já é apontado (e não aposentado, leia bem!) – e por não poucos, talvez pelos mesmos que antes tentavam explicar suas performances sobrenaturais apelando para diagnósticos clínicos! – como “melhor que Maradona” enquanto jogador e “tão influente e carismático quanto Dieguito” fora das quatro linhas, façanha notável, outrora até impensável, quando nos damos conta de que na Argentina Diego Maradona é venerado como um deus…

RESUMO LÓGICO DAS IMPLICAÇÕES DO EMPOLADO RACIOCÍNIO DE STAVROGIN E O SENTIDO DE “TUDO É PERMITIDO” NA OBRA DE DOSTOIEVSKY

God, for his part, if he exists, does not believe in his existence, but he allows the subject to believe in it, and to believe he [god] believes in it, or [the subject] not to believe that – but not to believe he [god] does not believe in it

Stavrogin, de Os Demônios, o psicólogo de Deus

  1. Deus existe; Deus não acredita na própria existência; Deus permite que o homem acredite na existência de deus ou não, mas não na segunda verdade fundamental.

1.1 O homem acredita na existência de deus.

1.1.1 O homem acredita que deus acredita na própria existência.

1.1.2 O homem acredita que deus não acredita na própria existência.

1.2. O homem não acredita na existência de deus.

1.2.1  O homem acredita que deus, se existisse, acreditaria na própria existência.

1.2.2 O homem acredita que deus, se existisse, não acreditaria na própria existência.

  1. Deus não existe.

2.1 O homem acredita na existência de deus.

2.1.1 O homem acredita que deus acredita na própria existência.

2.1.2 O homem acredita que deus não acredita na própria existência. Este homem na verdade é um grande ateu, pois um deus que não acredita na própria existência seria pior que a não-existência de um deus.

2.2. O homem não acredita na existência de deus.

2.2.1  O homem acredita que deus, se existisse, acreditaria na própria existência.

2.2.2 O homem acredita que deus, se existisse, não acreditaria na própria existência. Este homem é, finalmente, um grande ateu, o único ateu em sentido estrito, pois um deus que não acreditasse na própria existência, pensa ele, não deveria sequer ser pensável. Seria pior e mais absurdo que a não-existência de um deus, seria como uma confissão de não-onipotência por parte deste suposto deus.

2 conclusões:

  1. a) As possibilidades éticas são maiores sem Deus (tudo é permitido).
  2. b) Seria possível provar a inexistência de deus (jamais a existência)¹ ao se encontrar um só indivíduo que acredita que deus² não acredita em si próprio. É o caso do personagem da novela niilista de Dostoievsky. Seu niilismo absoluto, sua negação ultimada da realidade, não se escora no ingênuo fato de que não acredite num deus, mas que para ele, como um homem uma vez fanático e que pensou a idéia de Deus até as suas últimas conseqüências, esse deus se tornou impossível. Na percepção alcançada por Stavrogin, todos os casos são iguais, apenas ele e homens análogos a ele, um novo homem, são um outro: se Deus existe, quem acredita nele ou não são iguais; se Deus não existe, e Deus não existe, pois Stavrogin recebeu essa iluminação e nova sabedoria, ateus e crentes que acreditam que deus acredita em si próprio são iguais (inofensivos); mas ateus e crentes que acreditam que deus não acredita(ria) em si próprio, estes são niilistas radicais, os únicos ateus na verdadeira acepção da palavra. Igor Karamazov (outro romance) se questiona: Tudo é permitido?, mas Stavrogin responde, em Os Demônios.

¹ Pois todos os indivíduos precisariam respeitar as vedações em 1.1 e 1.2. Mas mesmo que todos na Terra em dado dia as respeitassem, não quereria dizer que jamais um indivíduo no passado as respeitou; e nem que nunca haverá de nascer um indivíduo que não as respeite.

² O deus existente, para o crente, ou inclusive apenas uma abstração, a hipótese de deus, de um deus que não acreditasse em si mesmo, para o não-crente.

Não exageremos a importância deste raciocínio lógico elaborado, no entanto: não podemos provar crenças (talvez apenas a nossa própria, e ainda assim podemos desconfiar de que às vezes mentimos para nós mesmos).

SUPERGLOSSÁRIO – LATIM

Adjetivos

amarus,-a,-um. Amargo. Acre, desagradável. Sarcástico, mordaz. Irritável, impertinente.

amoenus,-a,-um. Agradável, doce, aprazível, encantador, gracioso.

E já começamos com dois antônimos!

angustus,-a,-um. (ango). Estreito, apertado. De curta duração, restrito. Limitado, acanhado. Seco, sutil.

aretalŏgus,-i, (m.). Charlatão, tagarela.

ater, atra, atrum. Negro, preto, atro, escuro. Obscuro, tenebroso, tempestuoso. Sombrio, funesto, horrível. Cruel, infeliz, maligno.

attigŭus,-a,-um. (ad-tango). Contíguo, próximo. Adjacente, vizinho.

bini,-ae,-a. De dois em dois, dois de cada vez. Dois, uma parelha.

caesĭus,-a,-um. Esverdeado, de cor verde.

citus,-a,-um. Pronto, rápido, ágil, ligeiro. Ver INCITUS em SUBSTANTIVOS.

crudus,-a,-um. (cruor). Sangrento, ensanguentado. Cru, não processado. Não digerido, que digere mal. Que faz sangrar, violento, cruel, áspero. Vigoroso, impiedoso. Novo, recente, imaturo, inexperiente.

edax, edacis. (edo). Voraz, devorador. Consumidor.

hostĭcus,-a,-um. (n.). (hostis). De estrangeiro, de inimigo. Como subst.: território estrangeiro, inimigo.

humĭlis, humĭle. (humus). Que está no chão. Baixo, pequeno. Humilde, modesto. Fraco, sem importância, de baixa condição. Abatido, humilhado.

ignauus,-a,-um. (in-gnauus). Ignavo, indolente, inativo, preguiçoso. Covarde. Sem energia, improdutivo, inerte, inútil. Que entorpece, torna ocioso.

ignotus,-a,-um. (in-nosco). Desconhecido, ignorado. Que não conhece, ignorante.

impos, impŏtis. (in-potis). Que não é se-nhor de. Que não pode alcançar, que não pode suportar.

inclutus,-a,-um. Célebre, ilustre, ínclito.

insŏlens, insolentis. (in-solĕo). Que não tem o hábito de, não habituado. Desusado, pouco frequente, novo. Desmedido, excessivo. Altivo, arrogante, insolente.

latus,-a,-um. Largo. Extenso, espaçoso. Abundante, rico. Duradouro.

maestus,-a,-um. (maerĕo). Triste, abatido, aflito. Fúnebre, sinistro. Severo, sombrio.

merus,-a,-um. Puro, simples, sem mistura. Nu, despojado. Verdadeiro, autêntico. Único.

mollis, molle. Mole, tenro, delicado, macio. Flexível. Brando. Fraco, tímido, sensível. Afeminado. Suave, agradável, doce. Ameno, aprazível. Favorável, propício.

morus,-a,-um. Maluco, louco, extravagante.

muliĕbris, muliĕbre. (mulĭer). De mulher, feminino.

obnoxĭus,-a,-um. (ob-noxĭus). Submetido a punição, exposto a um castigo. Culpado. Servil, humilde. Obrigado por lei. Perigoso, arriscado.

opertum,-i, (n.). (opertus/operĭo). Lugar secreto. Segredo. Resposta ambígua, oráculo obscuro.

perosus,-a,-um. (perodi). Que detesta, que odeia intensamente. Muito odiado, odioso.

pinguis, pingue. Gordo, obeso. Suculento, saboroso. Fértil, abundante, fecundo, em boa condição. Calmo, tranquilo, confortável. Oleoso, gorduroso, viscoso, resinoso. Espesso, denso. Lambuzado, besuntado. Insípido, insensível, não apurado. Pesado, grosseiro, estúpido. Forte, audacioso, determinado. Brilhante, resplandecente, elegante.

potis, pote. Capaz, poderoso. Possível.

praeceps, praecipĭtis. (prae-caput). Que coloca a cabeça na frente. Rápido, veloz, violento, arrebatador. Impetuoso, apressado, precipitado, impaciente, ansioso, abrupto. Íngreme, muito inclinado, em declive. Perigoso, crítico.

praestans, praestantis. (praesto). Que se destaca, superior, excelso, excelente, extraordinário, preeminente.

pullus,-a,-um. I – Puro. II – Preto, acinzentado, pardo. Vulgar, do povo. Triste, pesaroso.

putus,-a,-um. Limpo, puro, sem mistura, claro, transparente. Brilhante, radiante.

spissus,-a,-um. Denso, compacto, espesso, consistente. Lento, vagaroso. Difícil, penoso.

udus,-a,-um. (uuesco). Umedecido, molhado, banhado. Embriagado.

ueternosus,-a,-um. (uetus). Letárgico. Adormecido, inativo, lânguido.

uuĭdus,-a,-um. (uuesco). Úmido, molhado. Regado, refrescado. Bêbado, embriagado.

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Advérbios

aegre. (aeger). De modo aflitivo, com dificuldade, penosamente, de má vontade.

aeque. Igualmente, da mesma maneira. Justamente, equitativamente.

cito. Depressa, rapidamente. Facilmente.

clam, prep./acus. e abl., também advérbio. Às escondidas, secretamente, às ocultas.

crebro. (creber). Frequentemente, sempre, sem interrupção. = PROTINUS

cunctus,-a,-um. Todo, inteiro, sem exceção.

diu. Durante muito tempo, há muito tempo. Também usado como antigo locativo de dies: durante o dia, de dia. = PRIDEM

eo. I – Adv.: Para lá, para aquele lugar. A este ponto, a tal estado. II – Por causa disto, a fim de que, para que. Tanto que, tanto mais que, tanto menos que. De tal modo, assim, a tal ponto. obs: ver eo como verbo “vou lá assim” do português coloquial em latim poderia ser traduzido como “eo eo eo”.

fortasse também fortassis. (forte). Talvez, acaso. Possivelmente, provavelmente. Aproximadamente, mais ou menos, quase.

fundĭtus. (fundus). Desde os alicerces, radicalmente, inteiramente. No fundo, nas profundezas. = PENITUS

hesternus,-a,-um. (heri). De ontem, de véspera.

hic. Ver PRONOMES.

interĕa. (inter-ea). Durante este tempo, enquanto isso, no intervalo.

liquĭdo. (liquĭdus). Claramente. Certamente.

mature. (maturus). Oportunamente, a propósito, em tempo. Prontamente, rapidamente. ! ATENÇÃO! FALSO HOMÔNIMO

nimĭum. (nimis). Muito, demasiadamente, excessivamente, enormemente.

nitĭde. (nitĭdus). Claramente, nitidamente. Com brilho, em esplendor, magnificamente.

numquam. Nunca, jamais. De modo algum.

oppĭdo. Muito, exageradamente, extremamente. Inteiramente, completamente. Sim, certamente.

palam. I- Em público, publicamente, abertamente, claramente. De domínio público. II- Diante de, perante. = CORAM

paulo. (paulus). Pouco. De alguma maneira.

penĭtus. No fundo, até o fundo, profundamente. Internamente. = FUNDITUS

potĭus. (potis). Antes, melhor, preferivelmente, de preferência.

pridem. (prae). Há muito tempo, de longa data. Antes, antigamente, outrora. = DIU

promiscŭe. (promiscŭus). Indiscriminadamente, indiferentemente, em comum.

propĕre. (propĕrus). Às pressas, rapidamente, aceleradamente. a.k.a. o “mau” mature!

protĭnus. (pro-tenus). Para frente, para diante, avante. Diretamente, constantemente, continuamente, sem parar, ininterruptamente. Logo em seguida, sem demora, imediatamente. = CREBRO

quantuluscumque,-tulacumque,-tulum-cumque. (quantŭlus-cumque). Por menor que, independentemente do tamanho que.

quidem. De fato, realmente, na verdade. Também, igualmente. Mas, contudo, ainda mais. Pelo menos, mas ao menos. Por exemplo, tal como. (ne…quidem = nem mesmo, nem sequer. Et/ac…quidem = e ainda por cima, e o que é melhor).

saepe. Muitas vezes, frequentemente, com frequência. (saepe numĕro = repetidas vezes).

secure. (securus). De modo despreocupado, com tranquilidade, sem cuidado. Em segurança.

simul. Ao mesmo tempo, de uma só vez, juntamente, simultaneamente. (simul et = e também, assim que, tão logo; simul…simul… = de uma parte… de outra parte, não só…mas também…; simul ac/atque/ut/ubi = assim que, tão logo).

sponte. (spondĕo). Espontaneamente, de livre e espontânea vontade. Em separado, isoladamente. Naturalmente, instintivamente.

stillatim. (stilla). Gota a gota.

uulgo. (uulgus). Comumente, corriqueiramente. Por toda parte, por todos os lugares. Em público, abertamente. Indistintamente, em grande número.

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Conjunções:

(Para outras conjunções, ver tabela nas pp. 77-8.)

ast, conj. Por outro lado, por minha vez, mas.

atque, conj. E por outro lado, e o que é mais. E entretanto, e contudo. E.

autem, conj. (adversativa atenuada que não vem no início de frase). Por outro lado, ora, no entanto.

donec. I – com indicativo: enquanto, durante todo o tempo que. Até o momento que. II – com subjuntivo: Até que, até que finalmente, até o momento que.

ergo. I – Conj.: Pois, portanto, por conseguinte, logo. II – posposto a um genitivo = por causa de, graças a, em honra de.

haud, também hau e haut. Não (negação intensiva, forte).

ita. Assim, desta maneira, como dizes, nestas condições. Tal, do mesmo modo. Pois, portanto, por consequência. Sim (como resposta).

itaque. (ita-que). E assim, desta maneira. Pois, assim pois, por consequência. Por exemplo.

neque/nec. E não, nem.

neue/neu. E que não, e não, nem.

si. Se, se por acaso. Já que, visto que, uma vez que. (si modo = se pelo menos; si… tamen…= ainda que, mesmo se, embora).

sicut/sicŭti. (sic-ut/uti). Assim como, exatamente como. Visto que, já que. Como se fosse, tal qual. Como por exemplo, assim como. (sicut est/erat = Como é/era de fato, como realmente é/era)

tamen. Todavia, contudo, entretanto, ainda que. (claro caso de falso homônimo)

ue (-ue). Partícula aglutinante: I – como prefixo: indica privação – uesanus. II – como enclítica: corresponde a ou, nas expressões alternativas. = VEL

ut. I – Adv.: como, de modo que, de que maneira. Assim como, do mesmo modo que. II – conj.: que, a fim de que, para que. Quando, como.

uel. Ou, ou se, ou mesmo, ou então. Talvez, mesmo. = UE

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Interjeições

phu/fu. Oh! Ah!

Hercle! Fórmula de juramento: Por Hércules.

pol. Por Pólux!

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Numerais

quater. (quattŭor). Quatro vezes.

ter. Três vezes. É utilizado ainda como elemento de ênfase, de indicação de que algo se repete.

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Preposições

coram, prep./abl., também advérbio. Perante, em presença de, diante. Face a face, defronte. Publicamente, abertamente. = PALAM

deinde. Depois, em seguida, a seguir (no tempo e no espaço).

dum. I – com indicativo: Enquanto, durante o tempo em que. Até que, até o momento em que. II – com subjuntivo: até que, contanto que, desde que.

iam. Já, agora, neste momento. Desde agora, deste momento em diante. Ora, daí, então.

igĭtur. Portanto, pois, nestas circunstâncias. Em resumo, em suma. Então, sendo assim, por conseguinte.

licet. Embora, ainda que.

nisi. Se não. Exceto se, senão, somente se. (nisi ut = a menos que).

olim. Outrora, certa vez. Um dia (em referência a passado ou futuro). Algum tempo depois. De longa data, grande parte das vezes.

propter. (prope). prep./acus. Perto (de), ao lado (de), junto (a/de), ao alcance (de). Por causa de, em função de. Através de, por meio de.

quotquot. (quot). Quantos possível for, independentemente da quantidade, quaisquer que. Todos, cada um.

rursus/rursum. (reuerto). Para trás. Pelo contrário, por outro lado, por sua vez. Novamente, pela segunda vez.

saltem/saltim. Pelo menos, ao menos, de qualquer maneira.

siue. (si-ue). Ou se (siue… siue… = seja… seja…, se por um lado…, se por outro…, ou… ou mesmo…)

uel. Ou, ou se, ou mesmo, ou então. Talvez, mesmo.

uix. Com custo, com dificuldade, dificilmente. Mal, apenas. Enfim, em suma.

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Pronomes

(flexões às pp. 90-1 / explicação dos interrogativos à p. 97.)

an ou anne. Partícula interrogativa que traduz grande dúvida ou uma restrição. Será possível que…? Por ventura? Acaso?

eodem. (idem). Para o mesmo lugar, ao mesmo ponto. Ao mesmo fim.

hic, haec, hoc. Este, esta, isto.

hic. Aqui, neste lugar. Neste momento, agora.

ille, illa, illud. Aquele, aquela, aquilo. Usado enfaticamente: o famoso, “aquele”, célebre; para caracterizar desprezo, distanciamento: aquele, aquela.

is, ea, id. Elemento de valor anafórico: Ele, ela. O, a. Este, esta.

iste, ista, istud. Pronome demonstrativo de segunda pessoa: Esse, essa, isso. Tal, semelhante. Às vezes se emprega com sentido pejorativo.

qua. (qui). De que lado, em que lugar, em que direção, por onde. Até o ponto em que, o máximo que, pelo meio que, do lado que. Como, de que maneira, através de que meio. De qualquer maneira. (qua…qua = tanto…quanto, por um lado…por outro).

quisquam, quaequam, quicquam/quidquam. (quis-quam). Qualquer um, qualquer coisa, alguém, alguma coisa

ubi. No lugar em que, onde. Onde, em que lugar? Quando, em tal momento. Quando? Em que momento?

uter, utra, utrum. Um dos dois, não importa qual dos dois. Qual dos dois? (obs. também há um adjetivo e um substantivo uter). Provavelmente a origem ou correlacionado com other do inglês.

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Substantivos

adiutor, adiutoris, (m.). (ad-iuuo). O que ajuda. Auxiliar, assistente, ajudante. Substituto.

adiutorĭum,-i, (n.). (ad-iuuo). Ajuda, socorro, auxílio. Adjutório.

adiutrix, adiutricis, (f.). (ad-iuuo). A que ajuda. Auxiliar, assistente, ajudante.

aduena, -ae (advenio) (m.). I – Estrangeiro (subs.). Se aplicado como adjetivo, é uniforme (não flexiona). Ex: deos advenas habere [Cipriano]; advenam gruem captat (apanha o grou que vinha de país estrangeiro) [Horácio]. II – Por derivação: ignorante. advena belli (estranho à guerra, novato nessa coisa de guerra).

aduentor, -oris (ad-venio). Hóspede.

aduentus (ad-venio). I- Chegada, aproximação, vinda, aparição. (ante lucis adventum) II- Invasão, ataque. (Gallicus adventus)

aedes, aedis, (f.). Lareira, morada sagrada de um deus familiar. No plural, aedes, aedĭum, significa residência, casa, habitação. [MOSQUITO DO EGITO]

aes, aeris. (n) bronze, dinheiro, moeda, fortuna.

aestas, aestatis, (f.). Verão, estio. Calor do verão.

aetas, aetatis, (f.). Idade. Duração de uma vida. Geração, século.

aether, -ěris ou ěros. (m) éter, região superior do ar que envolve a atmosfera; parte do céu, sede do fogo; fogo; o céu, a mansão dos deuses; o ar; o mundo dos vivos (por oposição aos infernos).

afflatus,-us, (m.). (ad-flo). Sopro, vento, respiração. Inspiração.

ager, agri, (m.). Campo. Domínio, território. Campo (em oposição a urbs).

agger, aggĕris, (m.). (ad-gero). Materiais amontoados, montão de terra. Terrapleno, muralha, trincheira. Elevação, colina, outeiro.

agmen, agmĭnis, (n.). (ago). Marcha, curso, movimento. Exército em marcha, tropas, esquadrão. Multidão em caminhada.

agna,-ae, (f.). Cordeira, ovelha. Vítima oferecida em sacrifício.

agnatus,-us, (m.). (ad-gnascor). Parente pelo lado paterno. Criança nascida após estabelecidos os herdeiros.

agnina,-ae, (f.). (agnus). Carne de cordeiro.

agnitĭo, agnitionis, (f.). (ad-gnosco). Conhecimento, reconhecimento.

agnus,-i, (m.). Cordeiro, carneiro.

alĕa,-ae, (f.). Jogo de dados, jogo de sorte. Sorte. Risco, perigo, azar.

aluus,-i, (f.). Cavidade intestinal, ventre. Útero. Cortiço de abelhas.

amasiuncŭla,-ae, (f.). (amo). Amante, namorada. Namoradinha.

amasĭus,-i, (m.). (amo). Amante, namorado.

ambages, ambagis, (f.). (amb-ago). Sinuosidades, rodeios, voltas do caminho. Circunlóquios. Obscuridade, enigma, incerteza.

amnis, amnis (m.). Rio, corrente de água. Torrente. Água. Constelação do Eridan.

apertum,-i, (n.). (aperĭo). Lugar descoberto, planície. Ao ar livre. Às claras.

aprugnus ou aprunus,-a,-um. (aper). De javali.

aquĭlo, aquilonis, (m.). O Aquilão (vento norte).

ara, arae, (f.). Altar, lar dos deuses. Proteção, auxílio divino. Ara (constelação). Monumento, urna funerária.

arena,-ae, (f.). Areia. Lugar coberto de areia. Arena, anfiteatro. Gladiador, combatentes de circo.

arma,-orum, (n.). Armas. Utensílios, instrumentos. Exército, homens armados. A guerra.

amictus,-us, (m.). (amicĭo). Ação de lançar um manto em torno de si. Maneira de vestir-se. Toga, manto.

arx, arcis, (f.). Cidadela. Altura, o ponto mais elevado. Lugar fortificado, forte, baluarte. Refúgio, proteção. O Capitólio.

ascĭa,-ae, (f.). Enxó, machadinha.

biga,-ae, (f.). Carro puxado por dois cavalos. Biga.  Pl. bigis.

bos, bovis: (m) [seu pai tem… ] boi

brachĭum,-i (n.). Braço, antebraço. Membro anterior de animais. Braço de mar.

caecĭtas, caecitatis, (f.). (caecus). Cegueira, falta de vista.

caelicŏlae,-arum, (m.). (caelum-colo). Habitantes do céu, celícolas. Os deuses.

caelum,-i, (n.). I – Céu, abóbada celeste. Morada dos deuses, alturas celestes. Clima, região. Auge da felicidade. Fenômenos celestes. II – Cinzel, buril.

calămus,-i, (m.). Cana, haste de plantas. Objeto feito de ou em formato de cana. Caniço, flauta, flecha. Caneta, pena de escrever. Colmo de plantas.

calcŭlus,-i, (m.). (2.calx). Pequena pedra, calhau. Pedra para votar ou de tábua de calcular. Conta, cálculo.

capella,-ae, (f.). (capra). Cabrita, cabra. Cabra, uma estrela que indica o início da estação chuvosa. [canto à cabrita!]

calx (1), calcis, (f.). Calcanhar. Pé.

calx (2), calcis, (f.). Cal, pedra de cal. Extremidade ou fim de um espaço (marcado a cal). Fim, termo

[Acredito que a origem do mito de Aquiles, banhado nas águas imortais, porém vulnerável apenas no calcanhar, derive desta etimologia comum e dos trocadilhos que se faziam entre os helenos de então: a morte de Aquiles é seu fim; a flecha no calcanhar é seu fim.]

ceruix, ceruicis, (f.). Nuca, cerviz, cabeça, pescoço, ombros. Gargalo de garrafa, haste de planta. Confiança, audácia.

clipĕus,-i, (m.). Clípeo, escudo (de metal, redondo e côncavo). Disco do sol.

compressĭo, compressionis, (f.). (cum-premo). Compressão, ato de comprimir. Concisão, precisão de estilo. Abraço.

contubernĭum,-i, (n.). (cum-taberna). Camaradagem. Relações de amizade, intimidade. Habitação comum. Morada.

cacumen, cacumĭnis, (n.). Cimo, ponta, cume, extremidade. Auge, perfeição, apogeu.

carcer, carcĕris, (m.). Recinto fechado, lugar de onde partiam os carros em corrida. Ponto de partida. O que encerra, prisão, cárcere.

caro, carnis. (f) carne.

cauus,-a,-um. Vazio, oco, vão, cavado.

celox, celocis, (m. e f.). Navio ligeiro. Barriga, ventre.

cercurus,-i, (m.), ou cercyrus. Navio ligeiro, navio de carga.

cibus,-i, (m.). Alimento, comida. Seiva. Estimulante. Isca.

cinis, cinĕris, (m.). Cinza. Cinzas dos mortos, restos mortais. Ruínas. Morte.

clipĕus,-i, (m.). Clípeo, escudo (de metal, redondo e côncavo). Disco do sol.

columella,-ae, (f.). (columna). Pequena coluna.

comĭtas, comitatis (f.). (comes). Afabilidade, cortesia, bondade. Liberalidade, generosidade. Magnificência de mesa, luxo.

conus,-i, (m.). Cone. Cimeira de um capacete.

corbita,-ae, (f.). (corbis). Navio de carga (em que se penduravam cestos).

corbula. coração

corĭum,-i, (n.). Couro, pele curtida de animais. Pele, casca. Correia, chicote.

cornu,-us, (n.). Chifre, corno. Objeto feito de ou em forma de chifre. Casco do pé de animais. Bico de aves. Dente de elefante. Antena de insetos. Cornos da lua. Braço de rio. Arco. Penacho, cumeeira de capacete. Formação do exército. Vasilha de guardar azeite. Funil. Coragem, energia. Corno como símbolo da resistência e da hostilidade.

cornum, -i. Pilrito (fruta avermelhada)

corollarĭum,-i, (n.). (corona). Pequena coroa. Gorjeta, gratificação.

corona,-ae, (f.). Coroa. Objeto em forma de coroa. Círculo, roda, assembleia, reunião. Cornija. Alinhamento, formação de um exército sitiador ou de defesa. Bloqueio. Sub corona uendĕre = vender prisioneiros de guerra (estes se apresentavam coroados).

cras. Amanhã.

crastĭnus,-a,-um. (cras). De amanhã. Posterior, futuro.

crus, cruris (n.). Pernas. Pilastras. Parte inferior de um tronco.

cura,-ae, (f.). Cuidado, zelo, preocupação amorosa. Direção, administração, encargo. Tratamento (= atenção, cuidado). Guarda, vigia, protetor.

curĭa,-ae, (f.). Cúria (divisão do povo romano em ordens). Templo em que se reunia a Cúria para celebrar um culto. Sala de reuniões do Senado, o próprio Senado. Sala de sessões de outras assembleias.

curiosus,-a,-um. (cura). Que toma cuidado, cuidadoso. Excessivamente cuidadoso, minucioso. Indiscreto, impertinente.”

cydărum,-i, (n.). Navio de transporte.

cyprĕus,-a,-um. De cobre.

decor, decoris, (m.). (decet). Beleza física, formosura, encanto, graça. O que fica bem, o que convém. Ornamento, elegância. (Opõe-se a DECUS = beleza moral).

disciplina,-ae, (f.). (disco). Ensino, instrução, educação, ciência, disciplina. Disciplina militar. Matéria ensinada. Método, sistema, doutrina. Organização política. Princípios de moral.

dolus, -i, (m.). Manha, astúcia, sagacidade. Engano, ardil, dolo. Insídia, traição, trapaça, fraude. Erro, falta, ato censurável, negligência.

domĭna,-ae, (f.). (domus). Dona da casa, esposa. Senhora, soberana. Amiga, amante. A imperatriz.

dos, dotis, (f.). (do). Dote. Bens, talento, qualidades.

ensis, ensis, (m.). Espada, gládio. Autoridade, poder supremo. Combate, guerra. = MACHAERA = SPATHA

exordĭum,-i, (n.). (ex-ordĭor). Começo de uma urdidura, trabalho inicial do tecelão. Começo, princípio, origem. Começo de um discurso.

falcis. foice

fanum,-i, (n.). Lugar consagrado. Templo.

fartim. (farcĭo). De modo completamente cheio, inteiramente farto, empanturrado.

fartum. sanduíche

fastus,-us, (m.). Orgulho, soberba, altivez, desdém.

fauces, faucĭum, (f.). Garganta, desfiladeiro. Entrada de uma caverna, de um porto. Boca, cratera. Goela.

fel, fellis, (n.). Bílis, fel. Amargor. Cólera, inveja, veneno.

ferĕtrum,-i, (n.). (fero). Padiola para transportar oferendas, despojos e também os mortos. = FÉRETRO

filum,-i, (n.). Fio, cordão. Fio da espada. Enredo, contextura. Linha, traços fisionômicos. Figura, traçado, forma, arte, natureza.

fiscina. cesta

flamen, flamĭnis, (m.). Flâmine (sacerdote que se consagrava ao culto de uma divindade particular).

forma, formae: Pode significar forma, molde, moldura, beleza, formosura, mas também significa moeda cunhada, moeda, além de significar figura, imagem, representação. Ver VULTUS.

fornix, fornĭcis, (m.). Abóbada, arco. Porta em arco. Aqueduto, arco de triunfo. Lupanar, habitação em forma de abóbada, onde viviam prostitutas.

fraga, -orum (n. pl.). morangos

framĕa,-ae, (f.). Espada. Lança de ferro curto e estreito, usada pelos germanos.

frumentum,-i, (n.). Cereais, grãos, trigo ainda não beneficiado. Renda em trigo.

funicŭlus,-i, (m.). (funis). Cordão, barbante, cordinha, cordel.

gaulus,-i, (m.). Prato redondo, terrina. Barco quase redondo.

gausăpa,-ae (f.). Tecido espesso e de pelos compridos, toalha. Manto, capa. Cabeleira postiça.

gladium. espada

habĭtus,-us, (m.). (habĕo). Condição, estado, aspecto exterior, conformação física. Aparência, postura, situação, posição, atitude. Maneira de ser ou de agir, hábito. Veste, traje (= roupas características).

hasta,-ae, (f.). Lança, dardo, arma. Objeto em forma de lança. Venda em hasta pública, leilão (uma lança era fincada no local do leilão).

herctum,-i, (n.) Herança.

hereditarĭus,-a,-um. (heres). Relativo a uma herança, de herança. Recebido por herança, hereditário.

heredĭtas, hereditatis, (f.). (heres). Herança, ação de herdar. Sucessão.

heredĭum,-i, (n.). (heres). Herança, bens herdados, patrimônio.

heres, heredis, (m.). Herdeiro, herdeira. Proprietário, dono.

heri ou here. Ontem.

hiems, hiemis, (f.). Inverno, estação ruim. Mau tempo, tempestade. Frio. Ano.

hircinus,-a,-um. (hircus). De bode, de pele de bode.

hircosus,-a,-um. (hircus). De bode, peludo como um bode, que cheira a bode.

hircus,-i, (m.). também hirquus. Bode. Cheiro de bode. Devasso.

historĭa,-ae, (f.). História. Obra histórica, narração de fatos, conto, fábulas. Investigação.

historĭce, historĭces, (f.). (historĭa). Exegese, explicação de autores.

hortus,-i, (m.). Cerca, propriedade cercada. Jardins, parque, horto. Casa de campo, fazenda. ATENÇÃO COM O FALSO COGNATO ortum.

humĕrus,-i, (m.). Ombro, espádua. Pescoço de animais. Flanco, cimo.

humilĭtas, humilitatis, (f.). (humus). Pouca elevação, baixa estatura, pequenez. Fraqueza, pobreza, abatimento moral, humilhação, humildade. Servilismo, obscuridade.

iactura,-ae, (f.). (iacĭo). Alijamento, lançamento de uma carga ao mar, perda. Dano, prejuízo, sacrifício. Despesa, gasto, prodigalidade. ~FATURA

imber, imbris, (m.). Aguaceiro, chuva, temporal. Nuvem de chuva, chuva de pedras.

incĭta,-orum, (n.). (in-citus). Última ordem ou fila do xadrez. Beco sem saída. VER CITUS (adjetivo).

incus, incudis, (f.). (in-cudo). Bigorna.

inopĭa,-ae, (f.). (in-ops). Falta, carência, privação. Necessidade, pobreza, miséria, indigência. Abandono. Abstinência. Secura.

instar, (n.) – indeclinável. Peso que se colocava num dos pratos da balança. O equivalente, o valor de, mais ou menos, do tamanho de. Valor igual, imagem, semelhança.

interfatĭo, interfationis, (f.). (inter-for). Interrupção, interpelação.

iter, itinĕris, (n.). Caminho percorrido, trajeto, viagem, marcha. Via, meio, maneira. Curso.

iubar, iubăris, (n.). Estrela d’alva, estrela da manhã. Esplendor, brilho, glória, majestade.

iurgĭum,-i, (n.). (ius-ago). Querela, disputa, contenda. Contestação, separação (de casal).

iusiurandum, iurisiurandi. (n) Juramento.

iussum,-i, (n.). (iubĕo). Ordem, mandado, preceitos. Vontade (do povo), lei.

latex, latĭcis, (m./f.). Qualquer tipo de líquido (água, vinho, azeite, etc.). Absinto.

laticlauĭus,-a,-um. (latus-clauus). Guarnecido de larga banda de púrpura. Que usa o laticlavo. Patrício, senador.

latro, latronis, (m.). Soldado mercenário. Bandido, ladrão. Peão (peça de xadrez). Jogo de peão da antiguidade (que lembra as damas modernas): ludus latrunculorum.

lembus,-i, (m.). Pequena embarcação, barca.

lenuncŭlus,-a,-um. I- Diminutivo de leno [rufiãozinho]. II- Barco pequeno, canoa, bote.

loquela/loquella,-ae, (f.). (loquor). Palavra articulada. Língua, linguagem, idioma.

magmentaria. Confeitarias, onde se vendem tais guloseimas (ver mattea).

mattĕa,-ae, (f.). Manjar delicado, guloseima.

manes, manĭum, (m.). (manus). Manes, espíritos deificados dos mortos (especialmente dos pais). Divindades do mundo inferior. Morada dos manes, os infernos. Punições (impostas no mundo inferior). Cadáver.

mensis, mensis, (m.). Mês. Menstruação.

mentŭla,-ae, (f.). Membro viril, pênis.

mercedŭla,-ae, (f.). (merces). Pequeno salário, pequena renda. Rendimento fraco.

modĭus,-i, (m.). Módio, alqueire.

modo. Só, somente, apenas. Neste momento, imediatamente. Ainda há pouco, ainda agora. Pouco depois. (modo + subjuntivo/ut = contanto que, sob a condição de; modo…modo… = ora…ora…, sucessivamente).

moecha,-ae, (f.). Mulher adúltera, cortesã.

moechas, moechadis, (f.). Mulher adúltera, cortesã.

moechia,-ae, (f.). Adultério.

moechus,-i, (m.). Homem adúltero.

moenĭa, moenĭum, (n.). (munĭo). Muralhas, muros. Cerco, circuito. Cidade. Palácio, casa, edifício.

mola,-ae, (f.). Mó. Moinho. Farinha sagrada.

munus, munĕris, (n.). Cargo, função, ocupação, ofício público. Obrigação, serviço, tarefa. Presente, brinde. Graça, favor, benefício. Exéquias, funeral. Espetáculo público, combate de gladiadores.

mus, muris, (m.). Rato. = SOREX

murus,-i, (m.). Muro. Cerca. Defesa, proteção, abrigo.

nemoralis, nemorale. (nemus). Do bosque, da floresta. = SILVÍCOLAS, ninguéns (sentido depreciativo).

nimbus,-i, (m.). Nuvem de chuva, nuvem espessa. Chuva, tempestade. Nimbo, auréola. Desgraça, azar repentino.

nugae,-arum, (f.). Ninharias, frivolidades, bagatelas. Bobagens, palavras sem sentido. Versos ligeiros. Brincalhão, gracejador, galhofeiro. (nugas agĕre = fazer papel de bobo).

oblectamen, oblectamĭnis, (n.). (oblecto). Divertimento, distração, recreação.

occidĭo, occidionis, (f.). (occido). Massacre, extermínio, carnificina, matança.

occidŭus,-a,-um. (occĭdo). Poente, ocidental, localizado no ocidente. Decadente, declinante. Perecível, que caminha para o fim.

occipitĭum,-i, (n.). (ob-caput). A parte de trás da cabeça, occipício.

offa,-ae, (f.). Pedaço, mordida. Pedaço de carne/massa. Tumor. Fragmento, trecho.

officina,-ae, (f.). (opĭfex). Oficina, fábrica, laboratório, loja. Escola.

olla,-ae, (f.). Panela, caldeirão. Urna cinerária.

onerarĭa,-ae, (f.). (onus). Navio de carga, navio mercante.

onus, onĕris, (n.). Carga, peso, fardo. Encargo, dificuldade, ônus. Despesa, imposto. Gravidez.

opercŭlum,-i, (n.). (operĭo). Tampa, cobertura, coberta.

opĭfex, opifĭcis, (m./f.). (opus-facĭo). Autor(a), fabricante, produtor(a). Trabalhador(a), artista.

ora,-ae, (f.). Borda, extremidade. Beira-mar, costa, litoral. Zona, país, região. Contorno, limite, quadro. Cabo, amarra.

ortus,-us, (m.). (orĭor). O nascer dos astros. Surgimento, nascimento, começo, origem.

os, oris, (n.). Boca. Voz, linguagem, palavra. Expressão facial, rosto, fisionomia. Ar, aspecto. Entrada, abertura, orifício. = VULTUS. Fonte, princípio. Embocadura. Proa de Navio. (pleno ore = zelosamente, com carinho).

os, ossis, (n.). Osso, ossada. Parte interior, cerne, caroço. Esqueleto. Coração, entranhas.

osce. (oscus). Em osco, na linguagem dos oscos.

ouilis, ouile. (ouis). De ovelha, lanígero.

ouis, ouis, (f.). Ovelha, carneiro. Lã. Simplório, bobo, imbecil.

panarĭum,-i, (n.). (panis). Cesta de pão.

panificĭum,-i, (n.). (panis). Panificação. Bolo, pão, biscoito.

paratĭo, parationis, (f.). (paro). Preparação. Esforço para obter, aspiração.

parma,-ae, (f.). Parma (escudo redondo e pequeno). Escudo (em geral). Gladiador armado de parma, gladiador da Trácia.

pastus,-us, (m.). (pasco). Pasto, alimento, comida.

palus, paludis, (f.). Pântano, lagoa, paul. Junco, cana.

palus,-i, (m.). Estaca, poste, pelourinho.

pecus, pecŏris, (n.). [pecore] Rebanho, gado, manada. Ovelhas, carneiros, cabras. Bando, grande número de animais (da mesma espécie).

perduellĭo, perduellionis, (f.). (perduellis). Crime de alta traição, atentado contra o Estado.

perduellis, perduellis, (m.). Inimigo, oponente.

pilum,-i, (n.). Pilão. Pilo, dardo.

pistrinum,-i, (n.). (pistor). Lugar em que o trigo é triturado, moinho. Padaria. Trabalho cansativo.

pistris, pistris, (f.). Monstro marinho, baleia, tubarão. Constelação da baleia.

plaga,-ae, (f.). Golpe, pancada, soco. Surra, açoite. Ferida, lesão, cicatriz. Desgraça, calamidade. Praga, peste. Aflição, aborrecimento. Região, setor, área delimitada, zona. Distrito, comarca. Rede de caça. Armadilha, emboscada. Cortina.

poetrĭa,-ae, (f.). Poetisa.

pontĭfex, pontifĭcis, (m.). (pons-facĭo). Pontífice, sacerdote que ocupa alto cargo. (pontĭfex maxĭmus = presidente do Colégio dos pontífices).

ponto, pontonis, (m.). (pons). Balsa, barcaça (utilizada para transporte entre as margens de um rio).

pontus,-i, (m.). Mar, alto mar, mar profundo. Onda, vaga.

potĭo, potionis, (f.). (poto). Bebida. Bebida venenosa. Poção mágica, filtro mágico. Dose.

praetexta,-ae, (f.). (praetexo). I – Pretexta (manto bordado com púrpura, usado em Roma pelos mais altos magistrados e pelas crianças nascidas livres, até que pudessem vestir a toga uirilis – aos 16 anos mais ou menos). II – Um tipo de manifestação teatral romana, tragédia romana.

probrum,-i, (n.). Ato vergonhoso, conduta ignóbil. Indecência, lascívia, adultério. Vergonha, desgraça, desonra, infâmia. Abuso, insulto, difamação.

proelĭum,-i, (n.). Combate, batalha, luta. Rivalidade.

pruina,-ae, (f.). Geada, neve. Inverno.

puella,-ae, (f.). (puellus). Menina, garota, criança (do sexo feminino). Moça. Amada, querida. Mulher nova, esposa jovem.

puer,-ĕri, (m.). Criança (do sexo masculino ou feminino). Menino, garoto. Rapaz, jovem solteiro. Filho. Servo novo, escravo jovem, pajem.

puerpĕra,-ae, (f.). (puer-parĭo). Parturiente.

pugĭo, pugionis, (m.). (pungo). Punhal, adaga. Argumentação fraca. Lista de nomes de pessoas proscritas pelo imperador Calígula.

pulmentarĭum,-i, (n.). (pulmentum). Qualquer tipo de alimento que seja ingerido acompanhado de pão (frutas, mostarda, molho, pasta, etc). Ração para pássaros, painço. Comida em geral.

pulmentum,-i, (n.). (pulpa). Qualquer tipo de alimento comido acompanhado de pão (frutas, mostarda, molho, pasta, etc). Comida em geral. Porção.

pulpa,-ae, (f.). Parte carnosa do corpo de animais, carne pura (sem gordura). Natureza humana. Polpa (das frutas).

puls, pultis, (f.). Creme pastoso, papa, pasta densa.

puluinar, puluinaris, (n.). (puluinus). Leito formado de almofadas (coberto com suntuosa colcha, destinado aos deuses e a pessoas que receberam honras divinas). Sofá, poltrona (guarnecida de almofadas), lugar de honra. Leito nupcial. Camarote imperial.

puluinus,-i, (m.). Travesseiro, almofada. Lugar de honra. Elevação, aterro, monte. Estrutura de pedra dentro da água (sobre a qual se ergue um pilar). Parte da catapulta que lança os projéteis.

puluis, puluĕris, (m.). Pó, poeira. Terra. Areia/poeira (onde os matemáticos desenhavam figuras geométricas). Local destinado a torneios, arena, ringue. Território conhecido, campo de ação. Esforço, trabalho pesado, labuta, fadiga.

puluiscŭlus,-i, (m.)/puluiscŭlum,-i, (n.). (puluis). Pó fino. Matemática, geometria.

pumex, pumĭcis, (m./f.). Pedra-pomes. Pedra porosa. Pedra, rocha, rochedo.

punctum,-i, (n.). (pungo). Marca de picada. Picada. Punção. Marca (feita ao escrever). Ponto (para indicar um voto), voto, sufrágio. Aplauso, aprovação. Pequena parte, porção, recorte. Período curto de tempo, instante, momento. Frase curta, pequeno trecho, pequena parte do discurso.

pupa,-ae, (f.). (pupus). Menina, mocinha. Boneca.

pupilla,-ae, (f.). (pupa). Órfã menor de idade (que precisa de tutela). Pupila, olho.

putĕal, putealis, (n.). (putĕus). Barreira de contenção (feita de pedras, em torno de um poço). Barreira de contenção, mureta.

putĕus,-i, (m.). Poço. Cova, buraco. Subterrâneo.

quadrantalis, quadrantale. (quadrans). Que contém a quarta parte.

rapĭdus,-a,-um. (rapĭo). Que arrebata, que toma à força, que arrasta violentamente. Rápido, veloz, ligeiro. Impetuoso, precipitado, impaciente.

rastellus,-i, (m.). (rastrum). Pequena enxada, ancinho.

ratis (f.). I- Remo, conjunto de remos; II- Jangada; III- Ponte-volante; IV- Navio, barco; V- barco mercante.

regĭa,-ae, (f.). (rex). Residência do rei, palácio real. Tenda do rei. Trono, corte real. Reino, realeza. Cidade real, capital. Salão, varanda, pórtico. Basílica.

reticentĭa,-ae, (f.). (reticĕo). Silêncio, ação de silenciar. Pausa no meio do discurso.

rima,-ae, (f.). Fenda, rachadura, fissura, greta. Sulco. Órgão sexual feminino.

riuus,-i, (m.). Pequeno fluxo de água, córrego, riacho, ribeirão. Canal de irrigação, vala. Rego, calha. Corrente, torrente, fluxo. (e riuo flumĭna magna facĕre = supervalorizar uma situação, fazer tempestade em copo d’água).

robur, robŏris, (n.). Madeira muito dura. (Madeira de) carvalho. Objeto feito de madeira dura/carvalho (bancada, assento, lança, dardo, cavalo, arado, etc). Oliveira. Firmeza, vigor, força, rigidez. Poder, autoridade. Cerne, força motriz.

rogus,-i, (m.). Pira, fogueira funerária. Túmulo, sepultura.

rostrum,-i, (n.). (rodo). Rostro, bico, focinho, tromba. Esporão de navio. (rostra = palco/plataforma destinada aos oradores no Fórum).

rufus,-a,-um. Vermelho, avermelhado, ruivo.

saccellus,-i, (m.). (saccus). Sacola, bolsa.

scabellum,-i, (n.). (scamnum). Tamborete. Instrumento musical (semelhante à castanhola, mas tocado com os pés).

scelus, scelĕris, (n.). Crime, atitude abominável, ato infame. Má qualidade, natureza viciosa. Vilania, atitude de salafrário. Velhaco, patife (adj.). Azar, infelicidade, calamidade, infortúnio. Catástrofe natural.

scorpĭo, scorpionis, (m.). Escorpião (inseto e constelação). Artefato militar (destinado a atirar qualquer tipo de projétil).

scopŭlus,-i, (m.). Rocha, rochedo, penedo. Escolho. Dificuldade, perigo.

scutum,-i, (n.). Escudo oblongo. Soldados fortemente armados. Defesa, proteção, escudo humano.

seges, segĕtis, (f.). Campo semeado. Campo, terra, solo. Colheita, safra, produção agrícola. Fruto, produto, resultado, lucro.

semĭta,-ae, (f.). Passagem estreita, atalho, desvio. Caminho, passagem, estrada. [AQUELES QUE SE DESVIAM]

senex, senis. Velho, de idade avançada.

septem. Sete. Os sete sábios (da Grécia). (Septem Stellae = Setentrião, as Plêiades; Septem Marĭa = os lagos junto à foz do rio Pó, onde Veneza foi mais tarde fundada; Septem Aquae = lago no território reatino).

september, septembris, (m.). (septem). O sétimo mês (no ano Romano, que se iniciava em Março). Setembro.

septemflŭus,-a,-um. (septem-fluo). Que possui sete embocaduras (epíteto do Rio Nilo).

septemgemĭnus,-a,-um. (septem-gemĭnus). De sete vezes, composto de sete.

septempedalis, septempedale. (septem-pedalis). De sete pés de altura.

septemplex, septemplĭcis. (septem-plico). De sete vezes, composto de sete.

septemuir,-i, (m.). (septem-uir). Setênviro (um dos sete membros do conselho encarregado da partilha das terras).

septemuiralis, septemuirale. (sep-temuir). Relativo aos setênviros, setenviral.

septemuiratus,-us, (m.). (septemuir). Cargo de setênviro, setenvirato.

septenarĭus,-a,-um. (septem). Que contém sete, formado de sete elementos, setenário.

septendĕcim. (septem-decem). Dezessete.

septeni,-ae,-a. (septem). Em grupos de sete, de sete em sete. Sete. Sete vezes.

septentrionalis, septentrionale. (septentriones). Relativo ao norte, que se localiza ao norte.

septentriones, septentrionum, (m.). (septem-trio). As sete estrelas próximas ao Polo Norte, a constelação da Ursa (denominada Ursa Maior e Ursa Menor). O Setentrião (vento norte). Território ao norte.

septĭe(n)s. (septem). Sete vezes.

septiflŭus,-a,-um. (septem-fluo). De sete braços.

septimani,-orum, (m.). (septem). Soldados da sétima legião.

septĭmum. (septĭmus). Pela sétima vez.

septĭmus,-a,-um. (septem). Sétimo. (septĭmus casus = caso instrumental, caso adverbial sem preposição).

septingenti,-ae,-a. (septem-centum). Setecentos.

septingentĭe(n)s. (septingenti). Setecentas vezes.

septiremis, septireme. (septem-remus). Que possui sete fileiras de remos.

septuageni,-ae,-a. (septuaginta). Em grupos de setenta, de setenta em setenta.

septuagesĭmus,-a,-um. (septuaginta). Setuagésimo.

septuaginta. Setenta.

septuennis, septuenne. (septem-annus). De sete anos de idade.

septunx, septuncis, (m.). (septem-uncĭa). 7/12 de uma unidade. Sete onças (unidade de peso). Sete unidades, sete partes.

sera,-ae, (f.). (sero). Barra de madeira (usada para trancar portas). Fechadura, ferrolho.

sica,-ae, (f.). Punhal. Assassinato.

sidus, sidĕris, (n.). Grupo de estrelas, constelação. Céu, firmamento. Noite. Estrela, astro. Brilho, beleza, ornamento. Orgulho, glória. Estação do ano. Clima, tempo. Tempestade, temporal, tormenta.

signĭfer,-fĕra,-fĕrum. (signum-fero). Enfeitado de figuras/imagens. Ornado de constelações, estrelado. Que fornece sinais. NO SENTIDO ORACULAR DE ADIVINHAÇÕES, PREVISÕES.

sinus,-us, (m.). Curva, cavidade, sinuosidade, concavidade. Rosca, espiral. Prega da parte superior da toga, parte superior de uma vestimenta. Bolso, porta-moeda. Roupa, vestimenta. Seio, peito. Regaço, colo. Esconderijo, asilo. Parte mais íntima, interior, cerne, centro. Baía, enseada, golfo. Ponta de terra que avança sobre o mar. Terreno recurvado, vale. (sinu laxo ferre = ser descuidado, não prestar atenção).

sollertĭa,-ae, (f.). (sollers). Habilidade. Engenhosidade, inteligência, perspicácia, sagacidade, ardil. = SOLÉRCIA

solliferrĕum,-i, (n.). (sollus-ferrum). Dardo de ferro. = CATEIA = GAESA = LANCEA = RUMEX = TRAGULA

sorex, sorĭcis, (m.). Rato. = MUS

sors, sortis, (f.). Sorte, destino, acaso. Sorteio. Cargo, função, obrigação (designada por meio de sorteio). Resposta do oráculo, profecia, vaticínio. Capital, patrimônio. Parcela, quinhão. Classe social.

spes,-ei, (f.). Esperança, expectativa, perspectiva. Temor, mau pressentimento, receio.

spontis. Vontade, desejo, voluntariamente, por si mesmo, por sua própria vontade (sponte sua); sponte (abl.)

stabŭlum,-i, (n.). (sto). Residência, domicílio, morada, habitação. Estábulo, estrebaria, cercado. Rebanho, bando, manada. Cabana, albergue, hospedaria, taberna. Lupanar, bordel.

stilla,-ae, (f.). Gota (densa, viscosa ou resinosa). Pequena quantidade.

stillicidĭum,-i, (n.). (stilla-cado). Líquido que cai gota a gota. Água da chuva que cai dos telhados.

stipes, stipĭtis, (m.). Tronco de árvore, tora, talo, haste. Árvore. Galho, ramo. Imbecil.

surena,-ae, (m./f.). I – Grão-vizir (o mais alto cargo entre os Partos, semelhante ao de rei). II – Um tipo de peixe.

sus, suis. (m) Porco. = PORCUS

tergum,-i, (n.). Pele (das costas), dorso, costas. Lombo. Pele, couro, objetos feitos de couro. Face posterior das coisas, retaguarda. Superfície (de águas, por exemplo).

tergus, tergŏris, (n.). Pele, costas. Couro de um tambor, couraça, escudo de couro.

tesca,-ae, também tesqua,-ae. Regiões selvagens, lugares desertos.

tessĕra,-ae, (f.). Cubo, dado. Peça de mosaico ou marchetaria. Téssera, senha de hospitalidade. Tabuinha com as ordens do exército ou com uma senha. Bilhete de entrada no teatro. Senha para distribuição de alimento.

tragŭla,-ae, (f.). Espécie de dardo. Armadilha, isca.

tribus,-us, (m.). Tribo (divisão inicial do povo romano). Povo, classe pobre, multidão, massa. Classe, categoria.

triclinium: sala de jantar

triquĕtrus,-a,-um. Que tem três ângulos. Da Sicília (seu formato é triangular).

tritĭcum,-i, (n.). Trigo (beneficiado).

trua: buraco

truella:

truleum: trolha, espátula

tuendica. tenda

ualles, uallis ou uallis,-is .(f.). Vale. Concavidade.

uallum,-i, (n.). Paliçada (sobre terra amontoada), trincheira, circunvalação. Defesa, proteção.

uectura, -ae (veho) (f.). I – Transporte; II – Preço do transporte, frete.

uenator, uenatoris, (m.). (uenor). Caçador. Investigador, o que está à espreita.

uicus,-i, (m.). Rua, bairro, ajuntamento de casas. Aldeia, lugarejo. Propriedade rural.

uindex, -ĭcis. (m e f) fiador, vingador, protetor.

uir, uiri, (m.). Homem. Marido, esposo. Macho. Indivíduo, pessoa, companheiro, colega. Virilidade. família importante de palavras, com desinências abaixo.

uirga,-ae, (f.). Ramo flexível e delgado, rebento, vergôntea. Vara, chibata. Vara mágica. Caduceu (de Mercúrio). Vara com visgo para apanhar pássaros. Raios.

uirginĭtas, uirginitatis, (f.). (uirgo). Virgindade.

uirgiuendonĭdes. (uirgo-uendo). Vendedor de mulheres jovens.

uirgo, uirgĭnis, (f.). Mulher jovem. Virgem, novo. As Vestais. Diana. A constelação de Virgem.

uirgŭla,-ae, (f.). (uirga). Pequena vara, pequeno traço ou linha.

uiridĭa,-ĭum, (n.). (uirĕo). As plantas (o verde). Jardim, vergel.

uirilĭtas, uirilitatis, (f.). (uir). Virilidade, idade viril. Caráter masculino, sexo masculino.

uirtus, uirtutis, (f.). (uir). Força física do homem, vigor do homem. Coragem, vigor, energia. Qualidades morais: virtude, perfeição, mérito, valor.

uirus,-i, (n.). Suco de plantas. Humor venenoso, veneno, peçonha. Amargor, mau cheiro.

uisceratĭo, uiscerationis, (f.). (uiscus). Distribuição pública de carne. Refeição de carne.

uiscum,-i, (n.). Visco (planta). Visgo.

uligo, uligĭnis, (f.). (udus). Umidade natural da terra.

umbo, umbonis, (m.). Saliência em superfície redonda ou cônica: bossa de escudo, escudo. Cotovelo, promontório, prega ou dobra de toga (sobre o peito).

umbra,-ae, (f.). Sombra, obscuridade, trevas, escuridão da noite. Lugar ensombrado, objeto que produz sombra. Fantasma, espectro. Repouso, calma, abrigo, casa. Pessoa não convidada, mas levada por um conviva.

unguis, unguis, (m.). Unha. Garra, casco, esporão. Objeto em forma de unha.

urna,-ae, (f.). Urna (vaso de gargalo estreito e comprido, mas de bojo expandido) para guardar água, dinheiro, para votar, para guardar as cinzas dos mortos. Medida de capacidade (aproximadamente 12 litros).

usurpatĭo, usurpationis, (f.). (usus-rapĭo). Uso, emprego. Uso ilícito, abuso, usurpação.

uulpes, uulpis, (f.). Raposa. Manha, astúcia, dissimulação.

uultus,-us, (m.). Expressão do rosto, fisionomia, rosto, semblante, olhar. Figura, aspecto, aparência. = FORMA, OS.

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Verbos

abdo,-is,-ĕre,-dĭdi,-dĭtum. (ab-do). Retirar, afastar. Encobrir, ocultar.

aberro,-as,-are,-aui,-atum. (ab-erro). Errar longe, extraviar-se, andar sem rumo. Afastar-se.

adduco,-is,-ĕre,-duxi,-ductum. (ad-duco). Puxar para si, fazer vir a si, levar consigo. Conduzir, levar a. Contrair, enrugar.

adiuvo,-as,-are,-iuvi,-iutum. (ad-iuuo). Vir em auxílio de, auxiliar, ajudar, favorecer. Sustentar, manter. Animar. Realçar.

aduenio, is, ire, veni, ventum (ad-uenio). Chegar.

aequo,-as,-are,-aui,-atum. Aplainar, igualar, nivelar. Atingir, chegar a.

affĕro, affers,-ferre, attŭli, allatum. (ad-fero). Trazer ou levar. Anunciar, comunicar. Alegar, referir, dizer.

agĭto,-as,-are,-aui,-atum. (ago). Impelir com força, fazer avançar. Agitar. Perseguir, atormentar, censurar. Pensar, refletir.

agnascor,-ĕris,-nasci,-natus sum. (ad-gnascor). Nascer junto, ao lado de. Nascer depois do testamento.

ago,-is,-ĕre, egi, actum. Empurrar para frente, impelir, conduzir à frente. Dirigir-se para. Fazer sair, expulsar. Agir, fazer, ocupar-se de, tratar. Viver, passar a vida. Cumprir um ritual, interpretar, representar um papel.

aio, ais (defectivo). Dizer sim, afirmar. Dizer.

amburo,-is,-ĕre,-ussi,-ustum. (amb-uro). Queimar em torno. Queimar.

amitto,-is,-ĕre, amisi, amissum. (a-mitto). Deixar escapar ou afastar-se, deixar partir. Perder, abandonar, renunciar.

appeto,-is,-ĕre,-petiui,-petitum. (ad-peto). Procurar aproximar-se de, procurar alcançar. Atacar, assaltar. Desejar pretender. Aproximar-se, chegar.

arĕo,-es,-ere, arŭi. Estar seco. Estar abrasado em sede, estar esgotado.

aspernor,-aris,-ari,-atus sum. (sperno). Afastar, rejeitar, recusar, renegar. Repelir com desprezo

assuesco,-is,-ĕre,-sueui,-suetum. (ad-suesco). Habituar-se a, acostumar a.

attingo,-is,-ĕre,-tĭgi,-tactum. (ad-tango). Tocar em, alcançar, atingir. Confinar com, estar contíguo.

auĕo,-es,-ere. Desejar ardentemente, ser ávido.

caedo, -is, -ěre, cecidi, caesum. bater, abater, cortar, matar, massacrar, partir, decepar.

caelo,-as,-are,-aui,-atum. Gravar, cinzelar, burilar.

capesso,-is,-ĕre,-siui,-situm. (capĭo). Procurar agarrar, apanhar. Tomar, agarrar.

carpo,-is,-ĕre, carpsi, carptum. Colher, arrancar. Desenredar, desfiar, separar. Recolher, fruir, gozar, consumir. Censurar, atacar. Percorrer, seguir.

caulae,-arum, (f.), ou caullae. Curral de ovelhas. Cerca de um templo. Cavidades, poros da pele.

cauĕo,-es,-ere, caui, cautum. Tomar cuidado, precaver-se. Evitar. Velar por, cuidar de. Tomar providências. Provar, garantir, dispor em testamento.

cauo,-as,-are,-aui,-atum. (cauus). Cavar, furar, escavar. Abrir covas.

cedo,-is,-ĕre, cessi, cessum. Ir, andar, dar um passo adiante. Tocar a, caber a. Retirar-se, ir-se embora. Ceder a, não resistir. Entrar em acordo. Passar, decorrer. Conceder, entregar.

celo,-as,-are,-aui,-atum. Esconder, ocultar.

coepi, coepisse, coeptum – somente perfectum. Ter começado, principiado. Estabelecer. Começar.

coepto,-as,-are,-aui,-atum. (coepi). Começar, empreender, tentar. Estar no início.

cogo,-is,-ĕre, coegi, coactum. (cum-ago). Levar junto, conduzir juntamente. Reunir em um mesmo lugar, congregar. Condensar, resumir. Conduzir à força, obrigar a reunir. Coagir, forçar, obrigar. Coagular. Fechar a marcha. Concluir, inferir.

committo,-is,-ĕre,-misi,-missum. (cum-mitto). Pôr juntamente, juntar, reunir. Comparar, confrontar. Confiar, entregar. Começar, empreender, travar combate. Cometer uma falta, infringir uma lei. Merecer um castigo, ser culpado.

comprĭmo,-is,-ĕre,-pressi,-pressum. (cum-premo). Comprimir, apertar, contrair. Reter, suspender, conter, reprimir. Guardar, ocultar. Forçar, violentar. Ter prisão de ventre.

concumbo, -is, -ere, -cubui, cubitura: deitar-se

confirmo,-as,-are,-aui,-atum. (cum-firmo). Consolidar, firmar. Restabelecer-se, convalescer, curar-se. Confirmar, ratificar, provar, garantir. Animar, encorajar, persuadir.

coniicĭo,-is,-ĕre,-ieci,-iectum, ou conicĭo, também coicĭo. (cum-iacĭo). Lançar juntamente, lançar em massa, reunir. Lançar, arremessar, atirar. Presumir, calcular, conjeturar, concluir, inferir.

consto,-as,-are,-stĭti,-statum. (cum-sto). Estar seguro, estar firmemente estabelecido. Ser evidente, ser composto de, consistir em. Custar, ser posto à venda, ter o valor de. Existir, subsistir, permanecer, durar. Estar de acordo, em harmonia. Constar.

constupro,-as,-are,-aui,-atum. (cum-stupro). Desonrar, atentar contra o pudor, violar. Manchar, poluir, sujar.

consuesco,-is,-ĕre,-sueui,-suetum. (cum-suesco). Acostumar, habituar. Acostumar-se. Ter relações com. = SOLEO, ASSUESCO

contĕgo,-is,-ĕre,-texi,-tectum. (cum-tego). Cobrir, proteger. Esconder, encobrir, dissimular.

contingo,-is,-ĕre,-tĭgi,-tactum. (cum-tango). Tocar, tocar em, atingir. Chegar, alcançar. Ter relações. Contaminar.

contingo,-is,-ĕre,-tinxi,-tinctum, ou contingŭo. (cum-tingo). Tingir completamente, cobrir de tinta, untar, impregnar.

corripĭo,-is,-ĕre,-ripŭi,-reptum. (cum-rapĭo). Agarrar bruscamente, apoderar-se violentamente. Tomar, agarrar. Reunir, ajuntar, acolher. Reduzir, diminuir, abreviar.

corusco,-as,-are,-aui,-atum. Entrechocar-se. Cintilar, brilhar, luzir. Brandir, mover, agitar, dardejar.

cupĭo,-is,-ĕre,-iui/-ĭi,-ítum. Desejar, ter vontade de, desejar ardentemente, cobiçar. Ter desejos, paixão.

curo,-as,-are,-aui,-atum. (cura). Cuidar, olhar por, tratar, velar. Curar. Governar, dirigir, administrar. Comandar. Fazer por, ter em conta. Vigiar, zelar, proteger.

curro,-is,-ĕre, cucurri, cursum. Correr. Percorrer.

debĕo,-es,-ere, debŭi, debĭtum. (de-habĕo). Dever (dinheiro ou qualquer outra coisa), ser devedor. Ter obrigação de. Ser forçado a. Estar obrigado a. Ser destinado a.

delĕo,-es,-ere,-eui,-etum. Apagar, riscar, raspar. Destruir, arrasar, aniquilar, exterminar.

delinquo,-is,-ĕre,-liqui,-lictum. (de-linquo). Faltar, ausentar-se. Cometer uma falta, delinquir, pecar.

depono,-is,-ĕre,-posŭi,-posĭtum. (de-pono). Pôr no chão, pousar. Depor. Guardar em segurança, depositar, confiar a. Abandonar, largar, renunciar, deixar de lado.

deprĭmo,-is,-ĕre,-pressi,-pressum. (de-premo). Abaixar, fazer descer, enterrar. Submergir. Abater, deprimir, rebaixar. Humilhar, depreciar, restringir.

deridĕo,-es,-ere,-risi,-risum. (de-ridĕo). Rir de, zombar, ridicularizar.

detŏno,-as,-are,-nŭi. (de-tono). Trovejar fortemente. Enfurecer-se com alguém, cair como um raio. Deixar de trovejar, sossegar, acalmar.

detrăho,-is,-ĕre,-traxi,-tractum. (de-traho). Puxar para baixo, rebaixar. Tirar com violência, com força, arrancar. Denegrir, depreciar, causar mal.

deuŏco,-as,-are,-aui,-atum. (de-uoco). Chamar, fazer descer, fazer vir, atrair, convidar. Conduzir, levar a.

dico, -is, -ere, dixi, dictum: narrar; cantar, celebrar, recitar, predizer; chamar, designar, apelidar; nomear, eleger; fixar, estabelecer; ordenar, avisar.

dilĭgo,-is,-ĕre,-lexi,-lectum. (dis-lego). Amar (por escolha), gostar, distinguir, honrar, considerar.

disco,-is,-ĕre, didĭci. Aprender, estudar. Aprender a conhecer, conhecer, ser informado.

dispăro,-as,-are,-aui,-atum. (dis-par). Separar, dividir.

diuello,-is,-ĕre,-uelli/-uulsi,-uulsum. (dis-uello). Puxar em sentidos diversos, separar à força, rasgar, arrancar, dilacerar. Perturbar. Afastar, separar. (parece não ter o sentido de desvelar.)

do, das, dare, dedi, datum. Dar. Oferecer, apresentar, consagrar, fornecer. Permitir, concordar, admitir, ceder. Provocar, ocasionar. Pôr, colocar. Produzir, emitir. Dizer, expor, proferir. Fixar, representar.

duro,-as,-are,-aui,-atum. (durus). Tornar duro, endurecer, fortificar.Tornar-se insensível, ser cruel. Tornar forte, durar, resistir.

edo, edis, edĕre, edĭdi, edĭtum. (e-do). Fazer sair, publicar, dar à luz. Produzir, causar. Expor, fazer ver. Escolher, nomear, declarar, fazer conhecer oficialmente.

effodĭo,-is,-ĕre,-fodi,-fossum. (ex-fodĭo). Tirar cavando, extrair, abrir, vazar, furar, desenterrar. Demolir, abater, saquear. Vd. FODIO.

egĕo,-es,-ere, egŭi. Estar na pobreza, na indigência, ser pobre, carecer de. Estar privado de. Procurar, desejar.

elŏquor,-quĕris,-loqui,-locutus sum. (e-loquor). Falar, expor, exprimir-se. Explicar, indicar, revelar, declarar, anunciar.

emerĕo,-es,-ere,-merŭi,-merĭtum. (e-merĕo). Merecer, obter, conseguir, ganhar. Concluir o serviço militar.

emĭco,-as,-are,-micŭi,-atum. (e-mico). Lançar-se para fora, atirar-se para fora, sair com força, romper, brotar. Aparecer, surgir, irromper, manifestar-se.

enitĕo,-es,-ere,-nitŭi. (e-nitĕo). Brilhar, reluzir. Aparecer, distinguir-se.

eo, is, ire, iui/ĭi, itum. Ir. Dirigir-se, caminhar para, andar. Recorrer, procurar, Passar, transformar-se, correr de, espalhar-se. obs: ver EO como advérbio.

excepto, -as, -are. (ex-capĭo). Retirar a todo instante, recolher habitualmente, recolher, apanhar.

excĭto,-as,-are,-aui,-atum. (ex-cito). Mandar sair, chamar para fora, expulsar. Excitar, provocar, despertar, estimular, animar. Dar, apresentar (testemunhas). Construir, edificar. Fazer brotar, crescer. Assinar, encorajar.

fodĭo,-is,-ĕre, fodi, fossum. Cavar, escavar, furar, vazar. Picar, aguilhoar, atormentar, dilacerar. Esporear o cavalo.

fallo,-is,-ĕre, fefelli, falsum. Enganar, induzir em erro, trair, faltar, falsear. Escapar a, ignorar.

fano,-as,-are. (fanum). Consagrar, recitar fórmulas de consagração.

fatĕor,-eris,-eri, fassus sum. (for). Confessar, reconhecer o erro. Manifestar, declarar, proclamar, publicar.

fingo,-is,-ĕre, finxi, fictum. Modelar em barro, modelar, moldar, esculpir. Imaginar, inventar, produzir, criar, fingir. Ajustar, adaptar.

fio, fis, fiěri, factus sum. (passiva de facio) ser feito, ser criado, fazer-se, dar-se; ser nomeado, ser considerado; (com significação própria) tornar-se, acontecer, dar-se, resultar.

flagro,-as,-are,-aui,-atum. Arder, estar em chamas, estar abrasado. Estar dominado por, ser devastado, destruído. Arder de amor.

fleo,-es,-ere, fleui, fletum. Ato físico de chorar, derramar lágrimas. Lamentar, deplorar.

fodĭo,-is,-ĕre, fodi, fossum. Cavar, escavar, furar, vazar. Picar, aguilhoar, atormentar, dilacerar. Esporear o cavalo. Vd. EFFODIO.

frango,-is,-ĕre, fregi, fractum. Partir, quebrar, romper, rasgar, dilacerar. Violar, infringir. Abater, debilitar. Refrear, reprimir, destruir, arruinar.

futŭo,-is,-ĕre, futŭi, fututum. Ter relações com uma mulher.

gestio, gestionis, (m.). (gero). Ação de dirigir, gestão, administração, gerenciamento.

gestĭo,-is,-ire,-iui/-ĭi,-itum. (gero). Fazer gestos expansivos, emocionados. Desejar ardentemente, estar ansioso por.

gesto,-as,-are,-aui,-atum. (gero). Levar daqui e dali, levar, trazer, transportar em liteira. Estar grávida, trazer consigo. Denunciar, delatar.

haurĭo,-is,-ire, hausi, haustum. Esgotar, esvaziar. Absorver, engolir, consumir, devorar, dissipar. Perceber, captar pelos sentidos. Exaurir.

hio,-as,-are,-aui,-atum. Estar aberto, escancarar-se. Estar boquiaberto, pasmado. Bocejar, abrir a boca. Cobiçar, desejar com avidez. Produzir hiatos. Vomitar, declamar.

impingo,-is,-ĕre,-pegi,-pactum. (in-pango). Enterrar, plantar, pregar. Impingir. Lançar, impelir, atirar.

impono,-is,-ĕre,-posŭi,-posĭtum. (in-pono). Pôr em, dentro, colocar, depositar, sobrepor. Pôr à frente, infligir, impor. Encarregar, confiar. Enganar, iludir.

incedo,-is,-ĕre,-cessi,-cessum. (in-cedo). Avançar, caminhar para. Invadir, penetrar em, propagar. Apoderar-se.

incendo,-is,-ĕre,-cendi,-censum. (in-candĕo). Incendiar, queimar, abrasar. Inflamar, aquecer. Provocar, excitar, estar fortemente apaixonado, irritar. Tornar brilhante, iluminar. Agitar, perturbar, atormentar.

insĕquor,-ĕris,-sequi,-secutus sum. (in-sequor). Seguir, perseguir. Vir depois, sobrevir, suceder. Atacar, acometer, ferir.

insidĕo,-es,-ere,-sedi,-sessum. (in-sedĕo). Estar sentado em ou em cima de. Estar estabelecido, colocado, fixado. Ocupar-se. Estar gravado em, reter no espírito. Habitar.

insidĭor,-aris,-ari,-atus sum. (in-sedĕo). Armar ciladas, emboscadas. Preparar uma traição. Espiar, estar à espreita.

insido,-is,-ĕre,-sedi,-sessum. (in-sido). Assentar em, pousar, colocar sobre. Instalar, tomar posição, fixar-se em.

interficĭo,-is,-ĕre,-feci,-fectum. (inter-facĭo). Privar de, privar da vida, matar, assassinar, massacrar. Aniquilar, destruir, fazer desaparecer.

iudĭco,-as,-are,-aui,-atum. (ius-dico). Julgar, proferir uma sentença. Processar, reclamar, demandar. Declarar, proclamar. Avaliar, estimar, apreciar.

iubĕo,-es,-ere, iussi, iussum. Ordenar, mandar. Sancionar, autorizar, decidir. Convidar a, desejar, levar a. saudar.

iungo,-is,-ĕre, iunxi, iunctum. (iugum). Atrelar, unir aos pares, jungir. Reunir. Continuar, prosseguir, fazer suceder. Acrescentar.

laboro,-as,-are,-aui,-atum. (labor). Trabalhar, esforçar-se. Sofrer, inquietar-se, preocupar-se, estar em dificuldade. Desaparecer, sucumbir. Elaborar, executar. Cultivar.

laedo,-is,-ĕre, laesi, laesum. Bater, ferir. Prejudicar, danificar, ultrajar. Tocar, causar impressão.

lego, -is, -ěre, legi, lectum. Colher, reunir.

libet,-ere, libŭit/libĭtum est. Ter vontade de, agradar, achar bom.

licet,-ere, licŭit/licĭtum est. Ser permitido, poder, ter o direito de.

maerĕo,-es,-ere. Estar triste/aflito, afligir-se. Deplorar, lamentar. Dizer com tristeza.

mando,-as,-are,-aui,-atum. Confiar, entregar, encarregar. Mandar, ordenar. Mandar comunicar.

mando,-is,-ĕre, mandi, mansum. Mascar, mastigar. Devorar, comer com voracidade.

manĕo,-es,-ere, mansi, mansum. Ficar, permanecer. Morar, residir. Persistir, durar, perseverar. Esperar. Estar reservado.

minor,-aris,-ari,-atus sum. Ameaçar, fazer ameaças. Declarar, prometer.

miror,-aris,-ari,-atus sum. Espantar-se, assombrar-se. Admirar, contemplar, olhar com espanto/admiração.

moechor,-aris,-ari. (moechus). Cometer adultério.

monĕo,-es,-ere, monŭi, monĭtum. Fazer pensar, lembrar. Chamar a atenção, advertir. Aconselhar, esclarecer. Instruir, ensinar. Predizer, anunciar, profetizar.

mulcĕo,-es,-ere, mulsi, mulsum. Tocar levemente, acariciar, apalpar, lamber. Abrandar, apaziguar, suavizar, acalmar.

mulco,-as,-are,-aui,-atum. Bater, maltratar. Estragar, deteriorar, danificar.

munĭo,-is,-ire,-iui/-ĭi,-itum. Fortificar, munir. Construir uma estrada, abrir caminho. Abrigar, proteger(-se). Preparar.

munito,-as,-are. (munĭo). Abrir um caminho.

nescĭo, -is, -ire, -iui/-ĭi, -itum. (ne-scio). Desconhecer, ignorar, não saber.

nouo,-as,-are,-aui,-atum. (nouus). Tornar novo, renovar, inovar. Mudar, alterar, inventar.

obĕo,-is,-ire,-iui/-ĭi,-itum. (ob-eo). Ir ao encontro de, encontrar. Opor-se (ir de encontro a!), ir contra, afrontar. Percorrer, rodear. Empreender, executar. Pôr-se, acabar, perecer, morrer.

occĭdo,-is,-ĕre, occĭdi, occasum. (ob-cado). Cair, desmoronar-se. Pôr-se. Sucumbir, perecer.

occido,-is,-ĕre, occidi, occisum. (ob-caedo). Cortar, fazer em pedaços. Matar, fazer perecer, levar à morte, torturar. Importunar, atormentar.

occurro,-is,-ĕre,-curri,-cursum. (ob-curro). Ir ao encontro, apresentar-se. Ocorrer, vir à mente. Marchar/dirigir-se contra, atacar. Opor-se, fazer objeção, resistir.

occurso,-as,-are,-aui,-atum. (occurro). Ir ao encontro, apresentar-se, mostrar-se. Ocorrer, vir à mente

oportet,-ere, oportŭit. (opus). Ser necessário/preciso, ser apropriado/bom, ser razoável, convir. ~OPORTUNIDADE

ostendo,-is,-ĕre, ostendi, ostentum. (obs-tendo). Expor, mostrar, exibir, pôr diante dos olhos. Apresentar, demonstrar, indicar. Declarar, dizer, tornar conhecido.

pasco,-is,-ĕre, paui, pastum. Alimentar, nutrir, fornecer alimento. Pastar, pôr a pastar. Cultivar.

porricĭo,-is,-ĕre, porreci/porrexi, porrectum. Estender sobre o altar, oferecer sacrifícios aos deuses. Trazer diante de, apresentar.

posco,-is,-ĕre, poposci. Pedir prementemente, rogar, implorar. Demandar, solicitar, requisitar, precisar. Exigir punição, pedir a rendição. Mendigar. Chamar, exigir a presença. Invocar. Pedir a mão, pedir em casamento.

potĭo,-is,-ire,-iui,-itum. (potis). Sujeitar, deixar sob o comando.

potiono,-as,-are,-,-atum. (potĭo). Dar de beber, embebedar.

poto,-as,-are,-aui,-atum/potum. Beber. Sorver, absorver, sugar. Embeber, impregnar. Embebedar.

praemetŭo,-is,-ĕre. (prae-metŭor). Recear antes, temer antecipadamente.

prodo, -is, -ĕre, -dĭdi, -dĭtum. (pro-do). Dar, entregar, pôr à disposição. Produzir, fazer sair, dar à luz, parir. Publicar, relatar, tornar público, propagar. Indicar, eleger, criar. Trair, denunciar, delatar. Desistir, abandonar. Estender, prolongar. Transmitir, legar.

produco,-is,-ĕre,-duxi,-ductum. (pro-duco). Conduzir adiante, fazer avançar, fazer sair. Prolongar, estender. Apresentar, expor, manifestar, desvendar. Expor um escravo à venda. Produzir, criar, educar. Procrastinar, transferir, retardar, adiar. Alongar, prolongar. Pronunciar uma sílaba como longa. Desenvolver, tornar-se grande. Traçar, demarcar.

prosilĭo,-is,-ire,-silŭi/-silĭi/-siliui. (pro-salĭo). Saltar para frente, lançar-se, pular adiante, arremessar-se. Estourar, explodir, quebrar, romper. Correr, acelerar, apressar.

publĭco,-as,-are,-aui,-atum. (publĭcus). Tornar propriedade do governo, confiscar, disponibilizar para uso público. Tornar publicamente conhecido, divulgar, participar ao povo. Publicar, revelar, desvendar. Expor(-se), prostituir(-se). Destruir, arruinar, aniquilar.

pulso,-as,-are,-aui,-atum. (pello). Empurrar, impulsionar, impelir. Bater, golpear. Agitar, perturbar. Atacar, agitar, difamar. Insultar, ofender.

quaero, -is ,-ĕre, quaesiui/quaesĭi, quaesitum/quaestum. Procurar obter, buscar, visar. Obter, adquirir. Notar a ausência de, sentir a falta de. Perguntar, interrogar, desejar saber, informar-se, inquirir. Planejar, estabelecer como meta. Esforçar-se, empenhar-se. Meditar, refletir, ponderar. Exigir, demandar, necessitar. Desejar. Preferir. Investigar judicialmente. = quaeso

quaeso,-is,-ĕre, quaesiui/quaesĭi. (quaero). Procurar obter, buscar ardentemente, visar. Implorar, suplicar, rogar, pedir suplicantemente. (quaeso/quaesumus = por favor, por gentileza). = quaero

queror,-ĕris, queri, questus sum. Queixar-se, reclamar, lastimar-se, lamentar-se, deplorar, gemer, suspirar. Apresentar uma reclamação diante de um tribunal.

quirito,-as,-are,-,-atum. (quiris). Implorar a ajuda dos Quirites/cidadãos romanos. Lamentar-se, prantear, lamuriar, reclamar. Gritar, emitir som agudo. Gritar por socorro, apelar, invocar a ajuda.

reddo,-is,-ĕre, reddĭdi, reddĭtum. (re-do). Dar de volta, devolver, restabelecer, restituir. Consentir, conferir, conceder, entregar, recompensar, gratificar. Desistir, ceder, abandonar, entregar-se, resignar-se, renunciar. Vomitar, expelir. Decretar, estabelecer, pronunciar. Vingar-se, punir, fazer justiça. Traduzir, verter. Repetir, declarar, relatar, narrar, recitar, ensaiar, exercitar. Responder, replicar. Representar, imitar, expressar, assemelhar-se, refletir.

redĕo,-is,-ire, redĭi, redĭtum. (re-ĕo). Voltar, retornar. Recorrer. Surgir, provir, originar-se, proceder. Chegar a, ser levado a, ser reduzido a. Restituir, devolver, voltar-se para.

relinquo,-is,-ĕre,-liqui,-lictum. (re-linquo). Deixar para trás, abandonar. Deixar de herança, legar em testamento, transmitir. Ficar para trás, sobrar, ser deixado. Desistir, render-se, capitular, entregar-se. Resignar-se, renunciar. Negligenciar, omitir, desprezar. Desertar, exilar. Destituir. Deixar de mencionar, não destacar, censurar.

reor, reris, reri, ratus sum. Contar, calcular. Acreditar, pensar, julgar, supor, imaginar, avaliar.

repraesento,-as,-are,-aui,-atum. (re-praesento). Mostrar, exibir, colocar diante de, manifestar. Retratar, representar. Pagar imediatamente, pagar à vista. Fazer imediatamente, executar sem demora.

retundo,-is,-ĕre, re(t)tŭdi, retu(n)sum. (re-tundo). Embotar, tirar o fio de uma faca. Mitigar, enfraquecer, atenuar. Restringir, reprimir, fazer parar.

rumpo,-is,-ĕre, rupi, ruptum. Quebrar, romper, estourar. Lacerar, rasgar, despedaçar, forçar a abertura. Violar, destruir, anular, interromper, suspender. Lançar, soltar.

sapĭo,-is,-ĕre,-ĭi/-iui. Saborear, provar. Ter o gosto/sabor de. Cheirar a, ter o mesmo odor de. Ser inspirado por, imitar. Ser discreto/prudente/sábio, ter discernimento. Saber, conhecer, compreender, entender

saucĭo,-as,-are,-aui,-atum. (saucĭus). Ferir, machucar. Ferir mortalmente, matar. Cavar, escavar, fender, abrir. Podar, cortar, aparar. Ofender, magoar.

secludo,-is,-ĕre,-clusi,-clusum. (se-claudo). Trancar em local separado, isolar. Separar, remover, romper, partir. Excluir, segregar.

sino,-is,-ĕre, siui/sĭi, situm. Pôr, colocar, depositar, estender. Deixar, permitir, conceder, admitir. Desistir, interromper, deixar de fazer. (Sine! = Muito bem! De acordo!; sine modo = se pelo menos).

solĕo,-es,-ere, solĭtus sum. Estar acostumado/habituado, costumar. Ter relações sexuais. = CONSUESCO

sordĕo,-es,-ere, sordŭi. Estar sujo/imundo. Ser baixo/vil/ignóbil/sórdido.

spiro,-as,-are,-aui,-atum. Soprar, exalar. Respirar, inalar. Viver, estar vivo. Ser favorável a, favorecer. Estar inspirado poeticamente. Mostrar, expressar, manifestar. Aspirar, estar ávido por.

stabilĭo,-is,-ire,-iui,-itum. (stabĭlis). Tornar firme/constante/estável. Fixar, estabelecer. Fortalecer, apoiar, sustentar.

tenĕo,-es,-ere, tenŭi, tentum. Segurar, reter, manter, ter. Possuir, ocupar, ser senhor de, obter. Alcançar, atingir. Conservar, guardar, preservar. Durar, persistir.

tempto,-as,-are,-aui,-atum. Tocar, apalpar. Tentar, experimentar, ensaiar. Agitar, atacar, inquietar. Tentar corromper, seduzir.

tollo,-is,-ĕre, sustŭli, sublatum. Erguer, levantar, elevar, apanhar. Levar, transportar, embarcar. Tirar, tomar. Destruir, suprimir, abolir. Lançar, impelir. Exaltar, celebrar. Suportar, sofrer. Tollĕre filĭum: gesto simbólico de “tomar o filho” em reconhecimento da paternidade.

torquĕo,-es,-ere, torsi, tortum. Torcer, fazer o movimento de torção, dar volta. Revolver, fazer rolar. Torcer os membros, torturar, atormentar. Fazer o giro que antecede ao lançamento de uma arma. Experimentar, sondar. Sustentar, suportar.

traiicĭo,-is,-ĕre,-ieci,-iectum. (trans-iacĭo). Arremessar para outro lado, lançar para além. Atravessar, fazer passar de um lado para outro, transportar. Lançar sobre, atribuir.

tuĕor,-eris,-eri, tuĭtus sum/tutus sum. Ver, olhar, examinar, observar. Guardar, proteger, defender, honrar, respeitar. Perceber, descobrir. Alimentar, sustentar.

ualĕo,-es,-ere, ualŭi, ualĭtum. Ser forte, ser vigoroso, ter boa saúde, estar fisicamente bem. Prevalecer, exceder, ser influente. Ter a força, o poder. Valer, ter o valor de.

uarĭco,-as,-are,-aui,-atum. (uarus). Afastar as pernas, andar a passos largos.

uegĕo,-es,-ere. Excitar, animar, impelir. Ser ardente, vivo, ser fogoso.

uello,-is,-ĕre, uulsi, uulsum. Arrancar, puxar violentamente. Puxar delicadamente. Tirar a roupa. 

uescor,-ĕris, uesci. Alimentar-se, nutrir-se, comer. Fartar-se.

uidĕo,-es,-ere, uidi, uisum. Olhar, presenciar, testemunhar. Perceber, compreender. Examinar, meditar. Cuidar, tomar conta, ocupar-se de, reparar.

uincĭo,-is,-ire, uinxi, uinctum. Ligar, atar prender, amarrar, vincular, conter. Prender, aprisionar. Tolher, paralisar. Cativar, seduzir, encantar.

uinco,-is,-ĕre, uici, uictum. Sair vencedor, vencer. Ganhar, triunfar, superar. Convencer, provar, demonstrar.

uoluto, -as, -are, -avi, -atum. (freq. de volvo) rolar por várias vezes; revolver no espírito, meditar, discutir, examinar, debater.

uolvo, -is, -ěre, volui, volutum. rolar, fazer rolar, fazer dar voltas, revolver; revolver no espírito, refletir, meditar.

urinor,-aris,-ari. (uro). Mergulhar na água.

uro,-is,-ĕre, ussi, ustum. Queimar, arder. Incendiar, inflamar, abrasar. Assolar, destruir, consumir. Atormentar, inquietar, irritar.

usurpo,-as,-are,-aui,-atum. (usus-rapĭo). Tomar posse pelo uso. Apropriar-se de, tomar posse ou conhecimento, usurpar. Fazer uso, empregar, usar, praticar. Designar, denominar.

LATINĬTAS: Uma introdução à língua latina através dos textos

LATINĬTAS: Uma introdução à língua latina através dos textos: VOLUME ÚNICO: Fábulas mitológicas e esópicas, epigramas, epístolas, elegias, poesia épica, odes, 2ª ed. revista – José Amarante, Salvador, EDUFBA, 2018.

Livro vencedor do PRÊMIO CAPES DE TESE LETRAS E LINGUÍSTICA 2014.

Material didático de uso público. Eu selecionei apenas trechos que me auxiliaram a desenvolver meu LATIM (neste momento me considero de nível intermediário). Recomendo aos interessados em aulas inaugurais acessar o site da iniciativa do Prof. Amarante, discriminado mais abaixo.

PREFÁCIO – VOL. 1 – 1ª ed. (Milton Marques Júnior)

AINDA SE ENSINA LATIM? Eis aí uma pergunta frequente quando alguém sabe que ensino latim. Depois de séculos mostrando sua pujança, o latim é ainda visto com admiração, sendo recorrentes as perguntas mais descabidas com relação a essa língua, cuja importância, muitas vezes, por enfadonho, evitamos explicar. O assunto aqui se impõe – latim, não necessariamente a explicação de sua importância –, tendo em vista a minha participação em uma banca sobre a língua latina.”

Sabemos que nem sempre há uma relação exata e estreita entre ser professor e preocupar-se com a aprendizagem. Amarante demonstra ser esse professor. Esta preocupação revela-se através do método de latim que ele apresenta como um dos produtos de sua tese de doutoramento.

A palavra método me é muito cara por expressar que algo se faz através de um caminho, evidência que nos indica a sua etimologia, proveniente do grego meta, através, entre, conforme, e odos, caminho.”

O desafio do professor é duplo [triplo!]: percorrer um caminho, em seguida ensinar como se percorrer e, por último, mas não por fim, ir além.”

Na vida, em geral, e na do professor, em particular, o que existe é sempre infectum. É sempre aprendizagem.”

Trabalho alentado, digno realmente de um doutorado, tanto que foi aprovado com distinção, mas se alguém tinha alguma dúvida quanto a sua importância, elas foram dirimidas, desde o momento em que ganhou o prêmio CAPES de teses 2014.”

O primeiro volume [da tese] faz a revisitação da história do latim no Brasil, passando pelos métodos empregados, chegando à elaboração de um método próprio; os dois outros volumes são o próprio método em si, a partir de textos, com a gramática fluindo do contato direto com a língua. Dentre os dois volumes que compõem o método, o primeiro aborda fábulas mitológicas e esópicas, epigramas e epístolas; o segundo, elegias, poesia épica e odes.

Como se pode ver, o professor Amarante tomou o cuidado de abarcar o maior número possível de gêneros do latim clássico, incluindo outros latins, não só o costumeiro dos cursos de graduação, fazendo um escalonamento, a partir de textos considerados mais fáceis e, sobretudo, mais palatáveis, até chegar aos mais difíceis, no volume dois, como a atípica épica das Metamorfoses ovidianas e as odes horacianas. O resultado é que, tendo caminhado de acordo com o método, o estudante não terá grandes problemas com Horácio, Virgílio ou Ovídio, tendo em vista que, ao longo do processo, ele foi internalizando a estrutura essencial da língua latina, o que é importante ressaltar. Não se trata de repetir a velha cantilena das declinações ou de verbos decorados, mas de um método cuja base se erige na estrutura do vocábulo e na sua internalização, sem o sacrifício inútil de tentar memorizar listas enormes de casos e flexões verbais. A preocupação sempre deve ser outra. A preocupação com a estilística, pois cada autor tem o seu estilo próprio e, embora na sua estrutura o latim seja o mesmo, cada autor impõe a sua marca pessoal, com determinados usos, que lhes são próprios.”

Conhecendo perfeitamente bem a dificuldade de se aprender uma língua com uma infinidade de documentos escritos, mas sem um registro falado que acompanhe a quantidade e a qualidade, sobretudo, dos documentos escritos, o professor Amarante começa o seu estudo com Higino, esse maravilhoso bibliotecário de Augusto que escreveu o Liber Fabularum e De Astronomia. [único livro completo de Higino que temos – ver mais adiante] Desse modo, o estudante é seduzido pelos textos menos dados a torneios linguísticos e com um assunto sempre envolvente. Após esse início, que reputamos essencial e inteligente, Amarante faz suas incursões no mundo das fábulas de Fedro, terreno não menos atraente para os iniciantes na língua.

Com uma boa quantidade de exercícios e de vocabulário, cuja apresentação vai diminuindo à medida que se avança no estudo da língua, um outro mérito de seu método é o fato de que alguém que resolva estudar sozinho conseguirá ter êxito, caso se aplique.

Com uma tese que deságua num método de latim, o professor Amarante reabre a discussão do ensino de Latim, reabre a reflexão sobre essa língua e evidentemente sobre a sua importância para nós. Muitos há que são professores de latim e seus cultores, poucos há que se interessam verdadeiramente pela discussão de como e por que ela deve ser ensinada. (sic)”

PREFÁCIO – VOL. 2 – 1ª ed. (Patrícia Prata)

Parece, num primeiro momento, inusitado o lançamento de um método de ensino de latim em pleno século XXI e em terras brasileiras: poderíamos nos indagar se ainda se estuda essa língua em nosso país e por que ainda se estuda, já que ela não aparece como disciplina do currículo do ensino fundamental e médio e, nas Universidades, só consta do currículo de alguns cursos, em especial o de Letras. Contudo, observamos hoje no Brasil um avivamento do interesse pelo estudo do latim (diga-se de passagem, das línguas clássicas em geral), e o mais curioso é o que o tem motivado: a possibilidade de ter acesso aos textos latinos no original e, por meio deles, à cultura literária romana que tanto influenciou a nossa ocidental e, em muitos casos, de poder desenvolver pesquisas na área. A motivação não se dá mais apenas, como se poderia pensar, porque o conhecimento do latim auxiliaria o aprendizado da língua portuguesa (o que poderia assegurar um uso mais ‘correto’ de nossa língua)¹ e de sua história, já que o português proveio do latim.”

¹ Motivação mesquinha típica de um Pasquale.

procedeu-se a um levantamento dos textos latinos que circulavam em terras brasileiras, em especial nos primeiros séculos após o descobrimento, tornando-nos possível conhecer o rol das obras e autores latinos costumeiramente lidos e estudados no Brasil e entender o porquê de sua escolha”

o conhecimento gramatical está a serviço do ensino do texto, de sua leitura e tradução, e, consequentemente, também da literatura.”

Interessante que, mesmo recorrendo a autores canônicos, os textos escolhidos, ao contrário, muitas vezes não são considerados canônicos no que diz respeito à representatividade do gênero em livros didáticos, em especial no Brasil. Como é o caso da escolha de passagens do livro Metamorfoses do autor Ovídio como representante do gênero épico, e não, p. ex., a Eneida de Virgílio – essa escolha demonstra coragem de ousar frente a uma tradição já consolidada de textos utilizados em métodos produzidos no Brasil, e possibilita que outros textos sejam lidos e estudados, ampliando, assim, o repertório de autores e obras da Antiguidade romana a que temos acesso e pesquisamos. O gênero elegíaco também é representado por Ovídio, fato também não muito comum, (sic) esperaríamos encontrar elegias de Propércio, ou mesmo de Tibulo. Também chama a atenção a escolha das obras ovidianas, os Amores e os Tristĭa, esta última não muito conhecida e divulgada no Brasil.”

Não podemos deixar de retomar e destacar a importância da feliz escolha metodológica de se trabalhar com textos originais. Esse procedimento faz com que o aluno entre em contato o mais cedo possível com textos não adaptados dos autores latinos, capacitando-o a ler, interpretar e traduzir os textos com maior rigor, e, consequentemente, tornando-o mais habilitado a realizar pesquisas na área.”

O autor teve a possibilidade de aplicar sua proposta metodológica a um privilegiado grupo de professores da UFBA, bem como a algumas turmas regulares de alunos dessa mesma Universidade. Simultaneamente a sua aplicação, o autor procedia a alterações no material.

INTRODUÇÃO: Concebendo uma abordagem para o ensino e a aprendizagem do Latim

Mantivemos exercícios que, à primeira vista, teriam objetivos que não se direcionam à aquisição da competência leitora. Embora as atividades de falar latim ou de escrever em latim possam parecer úteis apenas para um período em que se utilizava a língua em contexto pragmático, essas atividades se mostram oportunas também para o desenvolvimento da leitura. Exercícios dessa natureza, contudo, se em quantidade excessiva, exigem uma quantidade razoável de horas-aula, um luxo de que as diretrizes curriculares atuais nos privam, razão pela qual aparecem em menor número. Os principais exercícios propostos, então, são exercícios de leitura, interpretação e versão para o português.”

Na primeira unidade textual, ainda que os alunos não tenham conhecimento de elementos gramaticais do latim, a eles é indicado um texto para leitura, antes mesmo de qualquer discussão de noções gramaticais. O vocabulário tem, então e inicialmente, a função de, além de atribuir sentidos, explicitar aspectos gramaticais que permitam a leitura. Nas demais lições, cada texto traz elementos gramaticais já conhecidos pelos alunos e novos elementos que se converterão em objeto de estudo na própria unidade ou nas unidades subsequentes. Assim, ao iniciar o trabalho com um texto novo de uma unidade, o aluno deve ter a noção do funcionamento da proposta, pois cada unidade traz um conjunto de aspectos gramaticais já conhecidos, vistos nas unidades anteriores, e introduz novos conteúdos, todos devidamente didatizados no vocabulário, de acordo com as características especiais do vocabulário de que tratamos.”

É importante que os alunos percebam que os textos antigos vêm de uma tradição de edições diversas, umas mais outras menos confiáveis.”

Não se conserva nenhum texto antigo autógrafo; subsistem muito poucos textos tardo-antigos; de muitos autores, alguns assaz importantes, não subsistem manuscritos anteriores ao século XIV, ou até o século XV. Para alguns textos, por vezes importantes, só se conservou um manuscrito, ao passo que, para outros, subsistem centenas deles. Muitos textos de extrema importância estão totalmente perdidos.”

Citroni et al. 2006

os manuscritos que chegaram até nós derivam-se dos originais através de um número desconhecido de cópias intermediárias, e, consequentemente, são de integridade questionável.”

Maas 1958

Em materiais didáticos de latim, é comum que os textos apresentados (quando é o caso) não venham com a indicação da fonte utilizada que restabeleceu o texto. O estudante precisa entender que aquele texto que irá ler foi estabelecido a partir de manuscritos diversos, num trabalho de crítica textual que busca ‘localizar os erros dos copistas, as interpolações posteriores, o estabelecimento das cópias disponíveis, a crítica da proveniência, fixação da data, identificação da origem, busca das fontes’ (FUNARI, 2003, p. 27).”

A seção ‘Salvar como’ apresenta uma lista de palavras, por classe gramatical, que devem ser memorizadas, arquivadas, guardadas. As palavras registradas na seção não aparecem na lista do vocabulário da unidade. Em geral, são palavras com mais de um significado ou com especificidades de uso. Nas unidades subsequentes, certamente elas aparecerão registradas com novos significados. Aqui, o aluno ‘salva a palavra como’, ou seja, guarda o significado adequado ao contexto do texto lido.”

O LATIM E O PORTUGUÊS § Atendendo a demandas de muitos estudantes pela discussão de elementos latinos interessantes para o entendimento de determinados aspectos do português, apresentam-se, nesta seção, elementos comparativos, de diferentes ordens, entre o latim e o português.”

Registro, nesta segunda edição, os meus agradecimentos aos professores de todo o Brasil que nos enviaram suas considerações e propostas de aprimoramento do material. Certamente, esta versão que agora vem publicada revê alguns problemas da primeira edição. Contudo, dada a complexidade de um material didático, não o consideraremos nunca acabado”

UNIDADE A. ASPECTOS HISTÓRICOS DA LÍNGUA E DA LITERATURA LATINAS

Estabelecemos as distinções entre latim clássico e latim vulgar e definimos a modalidade da língua com que iremos trabalhar. Também iremos conhecer as diferentes fases históricas do latim e sobre a formação dos gêneros na Antiguidade.”

embora declarado morto, o latim recusou-se a ser enterrado” Peter Burke, 1993

O caminho: indo-europeu — ítalo-céltico — itálico — latim — línguas românicas

Da mesma forma, podemos chegar a uma outra unidade linguística anterior ao latim, se analisarmos as semelhanças existentes entre o latim e os dois antigos idiomas falados na Península Itálica, o osco e o umbro. Trata-se do que se convencionou chamar de ‘itálico’.”

o latim (…) não se prende diretamente ao primitivo indo-europeu, mas dele está separado por outras unidades linguísticas subsequentes, como o itálico e o ítalo-céltico.”

Para Faria (1970, p. 14-17), em relação à unidade ítalo-céltica, como também não há documentação, a probabilidade de sua existência se deve às comparações e à observação de particularidades comuns à gramática das línguas itálicas (como o latim, o osco e o umbro) e à gramática das línguas célticas (como o bretão, irlandês e o gaulês). Da unidade itálica, ao que se pode concluir, há, apesar de curtos, numerosos textos epigráficos dos seus dialetos: o latim, que nos legou uma vasta literatura; o osco, conhecido através de inscrições, sendo a mais extensa a chamada Tabula Bantina (encontrada em Bântia, na Apúlia); e o umbro, através de moedas e curtas inscrições supérstites, [sobreviventes] além de uma longa epígrafe: as tábuas eguvinas, nas quais há a gravação do ‘ritual dos chamados frates Atiedii, colégio sacerdotal de Igúvio, hoje Gubbio (idem, ibidem).”

Descrição da “Fig. 1 – Árvore genealógica das línguas indo-europeias”: O hipotético indo-europeu deu origem a três grandes famílias que conhecemos também por inferência (o indo-iraniano, o balto-eslávico e aquele que daqui se trata, o ítalo-céltico). Além disso, deu origem às famílias germânica e helênica. Do helênico, só conhecemos uma língua: o grego. Do germânico, três: alemão, holandês e inglês. Do indo-iraniano, derivam o persa e o sânscrito. Do balto-eslávico, o polonês e o russo. Do ÍTALO-CÉLTICO, diretamente duas famílias: o ITÁLICO e o CÉLTICO. O Céltico deu origem ao bretão, ao gaulês e ao irlandês. O ITÁLICO teria originado mais uma família, a latina; além dos idiomas osco e umbro comentados. Do latim, nosso objeto de estudo, nós conhecemos o latim clássico, aquele que ‘morreu’ na Antiguidade; e o latim vulgar, que deu origem a todos os idiomas românicos. Para o romeno, o italiano, o francês e o espanhol a derivação é direta. Para o Português, curiosamente, ainda há mais uma mediação: nossa língua, bem como a galega, vem de uma família ou dialeto prévio que reunia a medula espinhal destas duas: o GALEGO—PORTUGUÊS. Defendo que o termo “idade média” só existe por deficiência de conhecimentos sobre a cultura da Europa após a queda do Império do Ocidente, ignorância essa que se reflete na dificuldade de apurar as mudanças regionais das falas românicas que foram brotando até nascerem os idiomas contemporâneos a nós.

Mas o latim que dará origem às línguas românicas não será o latim clássico, uma língua literária, trabalhada artisticamente pelos grandes escritores que nos legaram uma literatura que até hoje influencia o mundo ocidental. O latim que deu origem às línguas românicas é o chamado latim vulgar, ou o latim falado pelos diversos estratos sociais, em diferentes situações, tempos, lugares, e que não deve ser pensado como uma língua uniforme.” Somos o substrato do substrato do substrato do substrato!

Certamente o latim levado à península ibérica, por ocasião da segunda guerra púnica (contra os cartagineses, de 219 a 201 a.C), não será o mesmo latim das conquistas tardias, como a da Dácia, na atual Romênia, em 106 d.C.”

A designação de latim vulgar (DIEZ, 1836-1844), no singular, é apenas uma convenção para se referir às diferentes formas de latim, opondo-se ao latim literário (e – pensando com Maurer Jr. (O problema do latim vulgar, 1962), talvez pudéssemos afirmar – aos usos extremamente monitorados da língua em situações mais formais).

As fontes de que dispomos para o conhecimento do latim vulgar são as comédias de Plauto (séc. III–II a.C.), os poemas de circunstância de Catulo (séc. I a.C.), algumas cartas de Cícero dirigidas a familiares (séc. I a.C.), inscrições cristãs, feitas sem preocupações literárias, ou outros tipos de inscrições, bilhetes jocosos, o Appendix Probi, uma lista de correções explicitando as formas que poderiam ser consideradas corretas: socrus non socra, speculum non speclum, auris non oricla, por exemplo (CARDOSO, 1997).”

LATIM PRÉ-HISTÓRICO: Falado entre os séculos XI e VII ou VI a.C. A fase é anterior ao aparecimento de documentos escritos. Em meados do século VIII a.C., Roma é fundada.

LATIM PROTO-HISTÓRICO: Aparece nos primeiros documentos escritos. Inscrições: fibula prenestina (séc. VII ou VI a.C.), Vaso de Duenos (séc. IV a.C.)

LATIM ARCAICO: Utilizado entre o séc. III a.C. e o início do séc. I a.C., está presente em antigos textos literários (Névio, Plauto, Ênio, Catão), em epitáfios e textos legais. Inicialmente pobre, de vocabulário reduzido, enriquece-se com o desenvolvimento da literatura e com a influência da cultura helênica. É do início do período uma compilação do código do Direito Romano por uma comissão composta por dez cidadãos (decemviri). Publicada em 451-450 a.C., a lei das Doze Tábuas,¹ de que se conservam fragmentos, era utilizada nas escolas romanas até o período de Cícero e sua influência se estende sobre o pensamento e o estilo literário dos romanos (HARVEY, 1987).

LATIM CLÁSSICO: Séc. I a.C. a I d.C. (…)

LATIM PÓS-CLÁSSICO: Sécs. I a V d.C. A língua começa a perder a pureza e a perfeição do período clássico. Diminui a distância entre a língua literária e a falada. Já se prenuncia a dialetação que dará origem às línguas românicas.

USOS DO LATIM POSTERIORES (…): Os tabeliães utilizaram o latim até o século XII em documentos oficiais; a Igreja toma o latim como sua língua oficial e, até 1961, o uso do idioma era obrigatório na redação dos documentos eclesiásticos e na realização de cultos e cerimônias religiosas;(*) a ciência, até o início do séc. XX, vê no latim uma linguagem universal e na língua foram escritos tratados filosóficos e científicos.(**)

(*) No Vaticano, até nossos dias, os documentos oficiais são emitidos principalmente em latim. Ao que se pode depreender dos documentos disponíveis no site do Vaticano, a língua oficial ainda é o latim, embora só seja utilizada nos documentos oficiais e nos rituais cerimoniais. Até mesmo os caixas eletrônicos do Vaticano oferecem o latim como opção de língua. Em 2003, o Vaticano public[ou] um dicionário com traduções de 13 mil expressões inexistentes no tempo dos romanos da Antiguidade. O seu próprio site pode ser lido completamente em latim (http://www.vatican.va/latin/latin_index.html), além de existir a possibilidade de leitura nas línguas modernas. [https://www.vatican.va/roman_curia/institutions_connected/latinitas/documents/rc_latinitas_20040601_lexicon_it.html]

(**) Como em boa parte da Europa a língua ainda é estudada nas escolas, há traduções de textos modernos para o latim, como os volumes da série Harry Potter: Harrius Potter et Philosophi Lapis (‘Harry Potter e a pedra filosofal’), Harrius Potter et camera secretorum (‘Harry Potter e a câmara secreta’); ou Regulus (O pequeno príncipe), ou, entre tantas outras, Arbor alma (do original em inglês The giving tree, de Shel Silverstein, traduzido para o português, por Fernando Sabino, com o título A árvore generosa). Totalmente na língua são, também, sites com jornais que noticiam em latim (veja, por exemplo, http://ephemeris.alcuinus.net/ ou http://www.scorpiomartianus.com/, com arquivos em áudio de notícias na língua latina) ou sites que proporcionam espaços de interação entre seus membros, interessados em treinar o uso da língua. Veja-se, por exemplo, http://schola.ning.com/. Até mesmo existe uma Wikipedia em latim, a Vicipaedia: http://la.wikipedia.org/wiki/Pagina_prima. No Facebook, a língua latina é uma das opções de língua para a configuração da página.”

¹ Veja meu post de 19/1/21 para fragmentos (dos fragmentos!) em Inglês, https://seclusao.art.blog/2021/01/19/the-12-tables-com-comentarios-de-coleman-norton/.

* * *

Em geral há divergências na definição do período clássico e do período pós-clássico. Quando nos referimos ao fato de que estudaremos o latim ‘clássico’, estamos adotando o mesmo conceito de ‘clássico’ que se registra na abrangência sugerida por Aulo Gélio (Noites Áticas, XIX, 15)

A poesia (carmen para os latinos, com o sentido de composição em verso; o mesmo sentido tinha em latim a palavra poema, tomada do grego) é dividida de acordo com a imitação que se propõe de homens melhores, de homens piores, ou de homens nem melhores nem piores. Em sua divisão, estabelecem-se 3 grandes gêneros: o épico, o lírico e o dramático. No gênero épico, imitam-se as ações dos homens considerados melhores. É o gênero dos grandes heróis e das grandes ações. O gênero dramático, por sua vez, pode apresentar bons caracteres (a tragédia) ou maus caracteres (a comédia). O gênero lírico comporta a imitação de homens iguais a nós, nem melhores, nem piores.”

Entre os romanos, temos a Arte poética de Horácio (conhecida como Epistula ad Pisones), um tratado sobre a poesia. Dirigida aos irmãos Pisões, apresenta alguns preceitos que refletem a Poética aristotélica: ‘Eu o aconselharei a, como imitador ensinado, observar o modelo da vida e dos caracteres e daí colher uma linguagem viva.’

Plauto, por exemplo, seria cronologicamente do período arcaico, mas pensando a partir do critério permanência é um autor clássico; basta observar a influência do teatro plautino na posteridade.”

Os autores da literatura romana irão se dedicar a boa parte dos gêneros desenvolvidos pelos gregos (alguns surgidos antes mesmo dos gregos; a própria fábula, por exemplo, tem origem anterior, provavelmente oriental). Dos clássicos gêneros descritos por Aristóteles, escrevem-se e desenvolvem-se subgêneros. Em alguns casos, o espírito romano trará vieses novos a gêneros já conhecidos. Como criação romana, Quintiliano (séc. I d.C.) cita a sátira: ‘Satura quidem tota nostra est’.”

A partir de 81 a.C., quando ocorre o primeiro pronunciamento de Cícero como orador, começa a chamada fase clássica, com duas épocas distintas: a chamada época de Cícero ou de César, com grandes prosadores num momento de grandes lutas políticas, nos momentos finais do sistema republicano; a outra época é a chamada época de Augusto, com grande desenvolvimento da poesia latina através do surgimento de seus mais expressivos poetas, em momento de apoio oficial à arte poética (CARDOSO, 2003).

Após a morte de Augusto, a literatura começa a dar sinais de perda de sua força. É a época dos imperadores júlio-claudianos (Tibério, Calígula, Cláudio e Nero), que conta ainda com autores que se destacam em sua produção literária. Mas os maiores sinais da pouca vitalidade da literatura ocorrerão no chamado período pos-clássico, a partir da morte de Nero (68 d.C.). Essa época conta com dois períodos: o neo-clássico (de 68 até final do século II) e a época cristã (do final do século II até o século V).”

Segundo Cardoso, a obra Metamorfoses de Apuleio (conhecida como O asno de ouro) é ‘mais um curioso exemplo de narrativa novelística’, também de difícil classificação.”

UNIDADE B. ALFABETO E PRONÚNCIA DO LATIM

Segundo McMurtrie,(*) é consenso entre os especialistas a origem grega do alfabeto adotado pelos povos antigos que habitaram a península da Itália.

(*) McMURTRIE, Douglas. O livro: impressão e fabrico. Trad. Maria Luísa Saavedra Machado. 2 ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1982.

O primitivo alfabeto latino não era formado pelas 23 letras utilizadas no período clássico. Não possuía o G, nem o Y e o Z. Nos primeiros documentos escritos, empregava-se o C tanto para representar a oclusiva velar surda /k/ quanto a sua homorgânica sonora /g/. O surgimento do G, para diferenciar as duas oclusivas velares, se dá em função de, posteriormente, acrescentar-se uma pequena barra horizontal à haste inferior do C.” “Como o Z era pouco utilizado, passou a ocupar a última posição no alfabeto.”

O uso da letra K, primitivamente, restringia-se a sua posição antes de A e de consoantes. Praticamente em desuso depois, se manteve utilizada em poucas situações: geralmente em palavras estrangeiras e, especialmente, em abreviaturas, como se sugere para os nomes Caeso abreviado em K. [É nome próprio! Antes eu achava que era queijo!], ou para a palavra calendae ou kalendae (‘calendas’, o 1º dia do mês entre os romanos) abreviada em kal., ou ainda para termos como castra (‘acampamento’), abreviado em KK. Quanto ao Q, manteve-se em latim em antigas inscrições, no contexto antes das vogais o e u, mas o C viria a assumir generalizadamente todas as posições, no lugar do K e do Q, sendo que este último se manteve no grupo qu [que inclusive é a pronúncia de Q].”

Como vimos, o Y e o Z não eram propriamente letras latinas. Usadas para a transcrição de palavras gregas em latim, dada a influência do helenismo em Roma (…)”

As minúsculas surgirão mais tarde com alterações operadas paulatinamente nas maiúsculas, como resultado da tendência, bem natural, dos escribas para escreverem mais fácil e rapidamente do que se poderia fazer com as formas convencionais das letras monumentais.” MAIÚSCULAS não são o Partido dos Trabalhadores mas DÃO TRABALHO!

É no Renascimento que ocorrerá a incorporação dessas letras [J e V] ao alfabeto latino por Pierre de la Ramée (Ramus), daí serem conhecidas por letras ramistas.”

Para se estabelecer as características da pronúncia reconstituída do latim, utilizam-se os seguintes tipos de fontes: as informações diretas dos gramáticos latinos e escritores romanos, como Cícero, Quintiliano, Aulo Gélio, e muitos outros; a grafia das inscrições e dos manuscritos latinos; a métrica latina, principalmente para o estudo da quantidade; a transcrição de palavras latinas em línguas estrangeiras e vice-versa; a pronúncia do latim vulgar e das línguas românicas; o estudo da fonética histórica do latim, antigas etimologias, etc.; a gramática comparada das línguas indo-européias.”

Como ao estudante iniciante é difícil perceber quais vogais são longas ou quais são breves, é costume o uso dos sinais mácron (como em vidēre, indicando que se trata de uma vogal longa) e braquia (como em legĕre, indicando que se trata de uma vogal breve).”

incĭdo, eu caio

incīdo, eu golpeio”

cără, cara, face, rosto

cāră, nome de uma planta”

mălŭm, perigo, risco, desventura

mālŭm, maçã” A mais do que provável razão para se atribuir à maçã a fama de ‘fruto do pecado original’, já que isso não é dito ora alguma no Gênese.

ăvě é um adjunto circunstancial: com a ave, pela ave

ăvē é uma forma verbal do imperativo de avere (estar com boa saúde) e funciona como fórmula de saudação: Bom dia! Passe bem! Até mais!

Conforme veremos, uma vogal pode ser originariamente breve, mas a sílaba onde se encontra pode ser longa.” A verdade é que a visão geral do latim é desencorajante para qualquer um!

Considerando a intensidade, o acento em latim só ocorre até a antepenúltima sílaba, assim como no português. Entretanto, em latim o acento não ocorre na última, como o faz o português. Assim sendo, serão paroxítonos todos os dissílabos.”

Segundo a regra da penúltima sílaba, se a vogal da penúltima sílaba for longa, o acento recairá sobre essa sílaba (vidēre, Neptūnus); se ela for breve, o acento recuará para a antepenúltima (prodĭgus, legěre).

Como não há nenhum sinal para marcar o acento em latim, costumamos marcar a penúltima sílaba quando for breve. Não havendo nenhuma marcação na vogal de penúltima devemos considerá-la longa. É com o tempo e com o contato sistemático com a língua que teremos segurança na definição do acento em uma palavra.”

É sempre breve a sílaba constituída por uma vogal breve, ou por uma vogal breve precedida de uma ou mais consoantes. Ex.: a-la-crĭ-tas (alegria, entusiasmo), re-plĭ-co. Se a sílaba, contudo, terminar por consoante e for seguida imediatamente de outra consoante na sílaba seguinte, embora a vogal seja breve, a sílaba será longa. Ex.:

agěr (campo) e a-gel-lus (campo pequeno)

Nesse caso, embora o ě seja breve em ager e em agellus, a penúltima sílaba em agellus será longa. [mas não no a de ager, isto é, a enquanto sílaba?]”

Há raras exceções de palavras oxítonas, em função de alterações fonéticas, como, por exemplo, palavras que perderam um fonema em seu final: illuc(e) (ali), istac(e) (por aí).”

AUXÍLIO NAS PRONÚNCIAS

VOGAIS

ă: [a] como em “pato”

ē: como em musée (fr.)

ĕ: como em “teto”

ī: como em sheep (ing.)

ĭ: [i] como em “mico”

ō: como em niveau (fr.)

ŏ: como em “toca”

ū: como em goose (ing.)

ŭ: como em “mula”

SEMIVOGAIS

i: [y]

ocorre em: iacěo, jacěo

pronunciar como: praia

u: [w]

ocorre em: pauĭdus, pavĭdus

pronunciar como: quatro

ou como v mesmo, pois ninguém merece – somos ramistas!

CONSOANTES

pronunciam-se da mesma forma que no português as consoantes b, d, f, k, p, q, t

Se for verdade, o sujeitinho cuja vídeo-aula (uídeo-aŭla!) vi no youtube falou merda (em sua aula introdutória, citou BÉ, DÉ, ÉF, QU, TÉ! Se é que ainda não mandou um PÉ (não me recordo) – nota zero! Porém, não sei se confio mesmo nesse LATINĬTAS, pois não avisam das dentais como em deep e titillation, e não como em dia e tio em grande parte das regiões centro-oeste e sudeste do país, como aqui em Brasília entre os não-nordestinos e nem nortistas.

As consoantes geminadas (mm, pp, ll, etc.) devem ser pronunciadas alongadas. Veja que o fato de uma consoante ser simples ou geminada é um traço distintivo no latim:

[se não tiver tato, digo, palato, acaba se complicando!]

ānnŭs (ano) e ānŭs (ânus)”

Os gringos estão ainda mais fŭdīdŭs, já que falam ênnãs!

ATENÇÃO!

No caso das palavras ānŭs (ânus) e ănŭs (mulher velha) a distinção é feita pela duração da vogal /a/.” ã-nus; ános.

Em cŏ (cabeleira) e cōmmă (vírgula), além da distinção pela consoante geminada /mm/, temos a duração da vogal /o/.”

Estou em ,

, of souls

n: [n] como em cone “Em Quintus, deve ser pronunciada com seu valor consonantal, não apenas nazalizando (sic – erro horroroso [rōrōrōso]!) a vogal anterior.”

você está ss? pois eu já estou gritando!

ch: só o c, como em “coca”.

deus eks má quina

assim como no ph = p.

metápora

pilozópia

pilipe

FÁBULAS MITOLÓGICAS

A fábula, ainda tão presente no mundo de hoje, principalmente em edições escolares, tem suas origens remotas na Mesopotâmia, e sua transmissão se dá por testemunhos em textos de uma civilização geralmente considerada a mais antiga da humanidade: a civilização suméria. Como forma de sabedoria popular, portanto distante na forma e no conteúdo das poesias mais elevadas gregas, terá a atribuição de sua invenção justamente a um escravo estrangeiro, Esopo (séc. VI a. C.). O gênero é, pois, de tradição humilde.”

É fato que a narrativa mítica se presentifica na literatura grega desde suas origens, seja em micronarrativas, como encontramos nos poemas homéricos; seja como explicação da origem do cosmos grego, como o fez Hesíodo em sua Teogonia; seja como elemento essencial para a elaboração de peças dramáticas, do qual se serviram os 3 grandes tragediógrafos (Ésquilo, Sófocles e Eurípides). Acrescente-se a isso o papel que o mito desempenhou nas artes plásticas gregas através das cenas mitológicas que foram esculpidas nos frontões e métopas dos templos ou nas inúmeras pinturas em cerâmica.

Com o objetivo de instruir estudantes de Humanidades do mundo antigo, além de poetas e tratadistas, surgem as compilações de mitos, sendo a chamada Biblioteca de Apolodoro, a única que chegou praticamente completa até nossos dias.”

Nesse sentido, veremos, por exemplo, em Higino, alguns aspectos do mito de Hércules que só existem na sua versão, ou ainda ausências de elementos do mito que aparecem em outros mitógrafos.”

UNIDADE UM:

Alcmena (Fabŭlae, XXIX)

HIGINO

Basicamente, o que nos chegou sobre o suposto autor das Fabŭlae nos foi transmitido por Suetônio (De grammatĭcis et rhetorĭbus, XX, 1)

Foi amigo íntimo do poeta Ovídio e de Clódio Licínio, o antigo cônsul e também historiador; este informa que Higino morreu muito pobre e que foi sustentado por sua própria bondade enquanto estava vivo.”

Para Hoyo e Ruiz (2009), não há consenso sobre a veracidade dos dados apresentados por Suetônio. Afirmam, contudo, como certo, o fato da obra ter sido traduzida para o grego em 207 d.C., um fato peculiar na história da literatura latina, uma vez que se trata de um dos poucos exemplos de tradução ao grego de um texto latino; o inverso seria o mais comum.”

Se dessas obras temos apenas notícia ou pequenos fragmentos, chegou completa até nós uma obra de caráter mítico-científico: De astronomĭa. Fato ainda em discussão, a atribuição de uma mesma autoria às Fabŭlae e ao tratado De astronomĭa se dá devido ao fato de se observarem certas semelhanças entre as obras.”

* * *

O BOM ANFITRIÃO QUE À CASA TORNA…

obs: Não estou transcrevendo todos os mácrons e braquias!

Amphitryon maritus erat Alcmenae et suo a domo abĕrat [estava ausente] cum expugnabat Oechalĭam. Iupĭter Amphitryonem simulavit, quia dormire cum Alcmena volebat. Tunc Alcmena Iovem thalămis recepit, quia dolum nesciebat.

Iupĭter, cum in thalamos venit, Alcmenae retulit res gestas quas in Oechalĭa gessit. [realizado] Ea, credens Iovem coniugem esse, cum eo concubuit. Deus tam delectatus cum ea concubuit ut unum diem usurparet, duas noctes congeminaret. Ita Alcmena tam longam noctem admirata est. Ita Alcmenam tam longa nox tetĭgit. [?]

Postea cum verus venit maritus ad domum, minĭme [quase nada] eum curavit [se preocupava] Alcmena, quod iam putabat se coniugem suum vidisse. [ver] Amphitryon in regĭam [palácio] intravit et eam vidit securam. [indiferente] Tunc mirari coepit [começou a estranhar] et queri, [queixou-se] quia uxor eum comĭter [amavelmente] non excepit. [não o recebeu] Marito Alcmena respondit: ‘Iam pridem [antes] venisti et mecum concubuisti et mihi narrasti res gestas in Oechalĭa tuas’.

Alcmena omnes res domi factas dixit. Tunc factum sensit dolum maritus: deus alĭqui fuit pro se. [em seu lugar] Ex qua die cum ea non concubuit. [Nesse dia não consumaram relação] Alcmena, ex Iove compressa, [violentada] pepĕrit [pariu] Herculem.”

(*) “Alcmena, então, ficaria grávida de dois homens: do deus Júpiter, que será o pai de Hércules, e de seu marido, que será o pai de Íficles. Como Hércules será gerado primeiro, ele será chamado, inclusive em Higino, conforme veremos na Unidade II, de primogênito.”

Minha tradução completa:

Anfitrião, marido de Alcmena, deixou seu lar para lutar em Ecália.¹ Zeus se metamorfoseou em Anfitrião para satisfazer oportunamente seu anseio libidinoso de dormir com Alcmena. Alcmena, enganada pela artimanha do deus, recebeu Zeus de bom grado em sua cama e em seus braços, pensando que procedia apenas à virtuosa união do tálamo conjugal.

¹ [Futura Cálcis. Curiosamente, seria destruída por Hércules quando adulto.]

Zeus tanto gozou dessa união que, não só uma, mas duas noites inteiras tomou no ato de a possuir. Isso ele fez com artifício sobrenatural, para que a longa noite não fosse interrompida, transformando a duração normal em seu dobro. Alcmena bem se admirou da longa duração de suas núpcias de boas-vindas a seu esposo guerreiro.

Quando o verdadeiro Anfitrião enfim vitorioso da guerra regressou, vendo que Alcmena não o recebeu da forma apropriada, dando a sua chegacda somenos importância, questionou a indiferença de sua amada. Alcmena assim respondeu, com naturalidade e certo enfado categórico: ‘Ora, se viestes mais cedo e me enlaçaste, celebrando a vitória em Ecália!… Que esperavas agora? O mesmo entusiasmo?’.

Alcmena disse apenas a verdade que vivera. Constatou-se então a verdade maior, para ela e Anfitrião, até então oculta: um deus com ela jazeu na cama, fazendo-se passar por quem não era. Estuprada pelo Rei do Olimpo, o produto da semente daquela dupla noite capciosa seria parido nove meses mais tarde, sendo esta a estória de como o bebê Hércules nasceu.”

GLOSSÁRIO

concubuit: deitar-se

dixit: narrar (além de narrar, contar, o verbo significa cantar, celebrar, recitar, predizer; chamar, designar, apelidar, nomear, eleger; fixar, estabelecer; ordenar, avisar)

LEMBRETES DO PORTUGUÊS

congeminar: multiplicar

congeminar-se: cismar, matutar

Este é o lugar oportuno para citar as 3 principais recomendações com que me deparei em pesquisas que exorbitam este livro do LATINITAS para dicionários, seja para iniciantes ou usuários avançados, com o idioma de partida seja em português ou inglês:

FARIA. Dicionário Escolar Latino-Português (para usuários novatos e avançados)

GLARE. Oxford Latin Dictionary (melhor opção para quem já domina o inglês)

REZENDE & BIANCHET. Dicionário do latim essencial (para consultas breves)

SANTOS SARAIVA. Dicionário latino-português (para usuários avançados)

factum sensit dolum maritus

permutabilidade plena das palavras na frase sem perda de sentido:

factum sensit dolum maritus

maritus factum sensit dolum

factum maritus dolum sensit

dolum sensit factum maritus

maritus sensit factum dolum (melhor para perceber a concordância de sujeito e verbo conector)

Daqui por diante, ao verificar no vocabulário ou no dicionário uma palavra, observe que ela virá no nominativo e no genitivo singular, separados por vírgula:

ALCMENA , ALCMENAE ou ALCMENA , -AE” (detector da declinação)

ATENÇÃO: A palavra nox tem genitivo noctis. Assim, o seu genitivo simplificado não será formado apenas com a terminação –is (nox, -is), pois daríamos a impressão que o genitivo é noxis. Os dicionários costumam enunciar a palavra assim: nox, -ctis.”

QUAL A UTILIDADE DE COLOCAR NOMES PRÓPRIOS EM DICIONÁRIOS? NENHUMA, A NÃO SER QUE A LÍNGUA OS DECLINE! “Percebemos que a palavra Amphitryon é nominativo não por sua terminação, mas por sabermos que é uma palavra da 3ª declinação e, ao conferirmos sua entrada em dicionários, como se vê abaixo, nos certificarmos de que Amphitryon é a forma que antecede a vírgula. Veja:

Amphitryon, Amphitrionis”

MNEMÔNICO ETIMOLOGIA(?) “Puella est secura.” Curiosamente, as pessoas mais secas no tratamento com as outras são-no às vezes por serem mais seguras. Stultus? Sed utilis!

Tempos do infectum são aqueles que exprimem ações não concluídas, não acabadas (presente – eu julgo, pretérito imperfeito – eu julgava e futuro imperfeito – eu julgarei). Os tempos do perfectum, por sua vez, são aqueles que exprimem ações concluídas, acabadas (pretérito perfeito – eu julguei, pretérito mais-que-perfeito – eu julgara ou tinha julgado, futuro perfeito – eu terei julgado).”

Em geral, os dicionários costumam mostrar 5 formas do verbo, conhecidas como tempos primitivos. Por enquanto, vamos nos concentrar em 4 dessas cinco formas.” a terceira posição no dicionário, ou seja, a 2ª terminação à direita da palavra (do verbo) é o infinitivo.

puto, -as, -are, putavi

1. (ego) puto 1ª pessoa do presente do indicativo ou infectum (imperfectivo)

2. 2ª pessoa

3. declinação (1ª) – infinitivo – PUTARE

4. 1ª pessoa do pretérito perfeito (perfectivo)

O 1 e o 4 se fazem necessários pois dão origem a conjugações um tanto diferenciadas. Os verbos do imperfectivo se estruturarão pela partícula –ba–.

humani nihil a me alienum puto

nada humano julgo estranho

Há verbos que são irregulares e que são reconhecidos pela sua forma de infinitivo, não apresentando as terminações em -are, -ere, –ĕre e -ire. É o caso, por exemplo, de verbos como referre, esse e posse.”

Chamamos o verbo no latim pelo seu infinitivo (esse – ser, estar) ou pela primeira pessoa do presente do indicativo (sum – sou, estou). Assim, quando dizemos verbo sum, entendemos tratar-se do verbo ser; da mesma forma ocorre quando dizemos verbo esse. No dicionário, esse verbo aparece assim: sum, es, esse, fui.”

ego sum

tu es

ea est

nos sumus

vos estis

illo(*) sunt

eram

eras

erat

eramus

erātis

erant

fui

fuisti

fuit

fuĭmus

fuistis

fuērunt ou fuēre

possum, potes, posse, potŭi

possum

potes

potest

possumus

potestis

possunt

poteram

poteras

poterat

poterāmus

poterātis

poterant

potui

potuisti

potuit

potuimus

potuistis

potuerunt ou potuēre

(*) CURIOSIDADE

O elo perdido entre a preposição latina e o artigo português:

ĭllu > elo > lo > o

Se observarmos bem algumas palavras de nossa língua em determinados registros, vamos perceber que há ainda certas alternâncias, umas mais outras menos formais, entre pronúncias com b ou v: sobaco/sovaco, vassoura/bassoura, travesseiro/trabesseiro

UNIDADE DOIS:

Hercŭlis athla duodĕcim ab Eurysthĕo imperata (Fabŭlae, XXX)

HIGINO

In infantĭa, dracones duos duabus manĭbus necavit, quos dea Iuno misĕrat, unde poetae primigenĭum dixerunt puĕrum.

1. Leonem Nemeae, quem Luna nutriĕrat in antro amphistŏmo, [caverna de duas entradas] atrotum [invencível] necavit. Postea Hercŭles pellem leonis pro tegumento [capa] habŭit.

2. Hydram Lernae – Typhonis filĭam cum capitĭbus novem [nove cabeças] – ad fontem Lernaeum interfecit [matou]. Hydra tantam vim veneni habŭit. Ea afflatu [bafo] potĕrat homĭnes necare et si persona eam dormientem transiĕrat, vestigĭa personae afflabat [bafejava] et maiori cruciatu [maior sofrimento] interibat [matava]. Postquam hydram Hercŭles interfecit et exinteravit [estripou] et eius felle [em veneno] sagittas suas tinxit. Ităque sagittae Hercŭlis letales erant.

3. Aprum [javali] Erymanthi occidit. [matou]

4. Cervum ferocem in Arcadĭa cum cornĭbus aureis [áureo] vivum in conspectum [em presença] Eurysthei regis adduxit.

5. Aves Stymphalĭdes in insŭla Martis, quae emissis pennis [penas] suis sauciabant, sagittis interfecit.

6. Augeae regis stercus bovile uno die purgavit, maiorem partem Iove adiutore [ajudante]; Iupĭter flumen immisit et totum stercus ablŭit. »

GLOSSÁRIO

necavit: matar

propter : perto, por causa

in + subst. => uso do ablativo

Tendo a crer que esse método não levará a nada – veja só o caráter abstrato e distante do aprendiz: “Acusativo antecedido por preposição § Ao estudarmos as funções dos casos, constatamos que o acusativo é o caso do objeto direto. Observe estes dois exemplos do texto em que as palavras no acusativo exercem funções diferentes”…

O caso ablativo é o caso por excelência do adjunto ou complemento circunstancial, já que, mesmo não regido por preposição, pode assumir essas funções. Mas nem sempre o ablativo sozinho será suficiente para marcar todos os tipos de circunstâncias”

As palavras da 1ª declinação são, em sua grande maioria, femininas. Algumas, contudo, são masculinas: nomes de profissões comuns a pessoas do sexo masculino: nauta, -ae (marinheiro), poeta, -ae (poeta); nomes de pessoas do sexo masculino, como Galba, -ae (Galba); nomes de rios: matrŏna, -ae (Mátrona, rio da Gália, hoje Marne); e os substantivos formados com o auxílio dos sufixos -cola e -gena: agricŏla, -ae (agricultor), incŏla, -ae (habitante), indigěna, -ae (indígena).”

Há, assim, no latim, algumas palavras utilizadas somente no plural (chamadas pluralia tantum).”

Assim como divitiae, são pluralia tantum da 1ª declinação, além de outras, as seguintes palavras: feriae (férias), nuptiae (núpcias), Athenae (Atenas). Veja que, no português, algumas dessas palavras só são, também, utilizadas no plural. Em outras declinações, há também palavras só utilizadas no plural. Elas serão vistas nas lições em que detalharmos cada uma das declinações.”

Palavras especiais em –er da 2ª declinação

Observe a seguinte oração do texto:

Aprum Erymanthi occidit.

(Matou o javali de Erimanto)

A palavra em destaque na oração aparece assim dicionarizada: aper, -pri. Observe que, no exemplo acima, com a palavra no caso acusativo, ocorre a síncope da vogal ‘e’: aprum e não aperum. Veja, agora, duas palavras que têm nominativo em –er e que se comportam de maneira diferente ao serem declinadas.

PUER / APER

(…)

Podemos conferir que, na palavra puer, a vogal e se mantém em todos os casos do singular e do plural. Na palavra aper, por outro lado, ocorre a síncope do e em todos os casos do singular e do plural (exceto no nominativo singular). Em função dessas diferenças na declinação das palavras em –er, os dicionários e vocabulários costumam mostrar no genitivo, além da terminação, uma parte da palavra, indicando que ocorre síncope ali”

É o caso de lenha, no português, que é uma forma singular (oriunda de um neutro plural latino) e mantém uma ideia de plural: uma porção de gravetos ou pedaços de madeira para ser queimada.”

(cont.)

7. Taurum, cum quo Pasiphaa concubuit, ex Creta insula Mycenas vivum adduxit.

8. Diomedem, Thracĭae regem, et equos quattuor eius, qui carnem humanam edebant, cum Abdero famulo interfecit; equorum autem nomĭna: Podargus, Lampon, Xanthus, Dinus.

9. Hippolytam Amazonam, Martis et Otrerae reginae filĭam, cui reginae Amazonis baltĕum detraxit; [arrancou o cinturão] tum Antiopam captivam Thesĕo donavit.

10. Geryonem, Chrysaoris filĭum trimembrem, uno telo interfecit. [matou com uma flecha]

11. Draconem immanem [inumano] Typhonis filĭum, qui mala aurĕa [maçã de ouro] Hesperĭdum servare solĭtus erat, [soía guardar] ad montem Atlantem interfecit, et Eurystheo regi mala attŭlit.

12. Canem Cerbĕrum, Typhonis filĭum, ab infĕris regi in conspectum adduxit.”

(*) “As Hespérides eram as filhas de Héspero que habitavam perto do monte Átlas, num jardim com árvores de pomos de ouro e guardado por um dragão”

UNIDADE TRÊS:

Nessus (Fabŭlae, XXXIV);

Iŏle (Fabŭlae, XXXV)

HIGINO

Quando Hércules foi enviado pelo rei Euristeu até o cão de três cabeças, e Lico, filho de Netuno, acreditou que aquele tinha morrido, quis matar sua esposa Mégara, filha de Creonte, e seus filhos Terímaco e Ofites, e apoderar-se do trono. Hércules aparece e mata Lico, mas, mais tarde, vítima de um ataque de loucura provocado por Juno, matou Mégara e seus próprios filhos. Quando recobrou o seu juízo, solicitou de Apolo que lhe desse uma resposta sobre como devia expiar o crime. Como Apolo não quis oferecer-lhe resposta alguma, Hércules, irado, arrebatou de seu templo o trípode, que depois teve que devolver por ordem de Júpiter. Júpiter também ordenou a Apolo que lhe concedesse a resposta, ainda que não quisesse. Por isso, Hércules foi entregue como escravo por Mercúrio a Ônfale, rainha da Lídia.

Em algumas versões, como em Apolodoro (Bibl., II 5, 5), a morte de Mégara ocorre antes dos 12 trabalhos e teria sido o motivo de Euristeu ter ordenado a Hércules as suas provas. Na versão de Higino e também na de Eurípides (Hérc., 359-435), a matança é posterior às provas.”

Deianira Nessum – Ixionis et Nubis filium – Centaurum rogavit ut se flumen Euhenum transferret. Deianiram sublatam [nas costas, no dorso do minotauro] in flumine ipso violare volŭit. Hercŭles cum intervenisset et Deianira cum fidem eius implorasset, Nessum sagittis confixit. Hercules sagittas hydrae Lernaeae felle tinxerat, itaque quantam vim habebant veneni. Cum Centaurus hoc sciret, [saber] moriens sanguinem suum exceptum Deianirae dedit. Postea Deianirae dixit: ‘Sanguis philtrum [loção] est. Vestem eius perungere sanguinis debes, si maritum ardentem amore vis’ [força]. Centauri verba Deianira credidit et conditum diligenter servavit sanguinem.”

As fake news matam os velhos brochas desde o começo dos tempos…

Hercŭles cum Iŏlen Euryti filiam in coniugium petiisset, virginis pater eum repudiasset, Oechaliam expugnavit. Hercŭles – ut virgo rogaret – parentes eius coram ea interficere velle coepit. Illa animo pertinacior [ânimo firme] videre parentum suorum mortem ante se sustinuit. Postea, Hercŭles Iŏlen captivam ad Deianiram praemisit.”

GLOSSÁRIO

conditum: escondido

coram: em frente de

Júpiter, sabendo por Juno das investidas de Ixião, formou uma nuvem com o aspecto e a forma de Juno. Ixião possuiu a nuvem, acreditando estar com Juno. Daí vem a expressão ‘tomar a nuvem por Juno’. Dessa ‘união’, nasceram os Centauros. O castigo na roda a girar eternamente deveu-se ao fato de que Ixião, mandado de volta à Terra, tinha se gabado de ter dormido com a esposa de Júpiter.”

* * *

Observando as terminações da 3ª declinação, perceberemos que a palavra felle está no caso ablativo singular (com o fel), que a palavra vim está no acusativo singular, assim como a palavra sanguinem.”

Em geral, para sabermos se uma palavra da 3ª declinação é de tema em –i (ou tema sonântico), isolamos, do genitivo plural, o seu radical. Assim, se a palavra é volpes, volpis (raposa), detectamos seu radical (volp-) a partir do genitivo singular. Ao tomarmos o genitivo plural, volpium, e retirarmos o radical, observamos que a palavra é de tema em –i. Num outro caso, princeps, principis, detectamos o radical pelo genitivo singular. Com o genitivo plural sendo principum, retirando o radical, vemos que a palavra não é de tema em –i, mas é de tema consonântico.

Para a leitura dos textos latinos, não é necessário saber se o genitivo plural de uma palavra é em –um ou –ium”

O acusativo plural em –is das palavras masculinas e femininas (substantivos e adjetivos) de temas sonânticos ocorre até o século de Augusto, embora, segundo Faria (1958), a forma em –es já ocorresse desde os fins do século II a.C. Em Virgílio, a palavra feminina puppis apresenta o acusativo singular puppim e o plural puppis.

Algumas palavras que aparentemente não apresentam tema sonântico, como urbs (cidade), mors (morte), gens (família), dos (dote), são fruto de perda da sonante –i– quando precedida de uma consoante oclusiva: urb(i)s; mort(i)s > morts > mors; gent(i)s > gents > gens; dot(i)s > dots > dos. Essas palavras farão, pois, o genitivo plural em –ium (FARIA, 1958).”

Em latim, os tempos imperfectivos do subjuntivo são o presente e o pretérito imperfeito. Quanto ao futuro imperfeito, utilizam-se as mesmas formas tanto para o indicativo quanto para o subjuntivo”

O pretérito imperfeito do subjuntivo terá a raiz dos tempos imperfeitos e é marcado com o morfema –re–(*) em todas as pessoas do singular e do plural. Poderíamos também raciocinar assim: para fazermos o pretérito imperfeito do subjuntivo, consideramos o infinitivo do verbo e a ele acrescentamos os morfemas de pessoa: amarem (amare + m) = se eu amasse.

(*) Aqui também um fenômeno de rotacismo do sufixo –se-. No mais-que-perfeito do subjuntivo, esse sufixo, como veremos, é mantido.”

Observe aqui o uso das formas sincopadas: petiisset por petiviisset e repudiasset por repudiavisset.”

Deianira

(Fabŭlae, XXXVI)

(continuação da unidade III)

Deianira – Oenĕi filia et Hercŭlis uxor – cum vidit Iŏlen – virginem captivam eximiae formae – accedere, timŭit ne se coniugio privaret. Itaque, memor Nessi praecepti – vestem tinctam Centauri sanguine Hercŭli qui ferret – nomine Licham famŭlum misit. Inde paulum, quod in terra decidĕrat et sol attiigit, [vizinho, contíguo] ardere coepit. Quod Deianira ut vidit, dolum sensit: Nessus eam fefellĕrat. Et qui revocaret eum, cui vestem dedĕrat, misit. Vestem Hercŭles iam induĕrat, statimque flagrare coepit. Iovis filius cum se in flumen coniecisset ut ardorem extingueret, maior flamma exibat. Vestem demere autem cum vellet, viscĕra veniebant. Tunc Hercŭles Licham, qui vestem attulĕrat, rotatum in mare iecit. Servus quo loco cecidit, petra surrexit, quam Licham appellamus. Tunc Philoctetes, Poeantis filius, pyram in monte Oetaeo construxit Hercŭli, qui ascendit immortalitatem. Ob beneficium Philocteti Hercŭles arcus et sagittas donavit. Deianira autem ob fa(c)tum Herculis ipsa se interfecit.”

GLOSSÁRIO

affero: trazer // fero: levar

coniicio: lançar

fallo: enganar

flagro: arder, estar em chamas

forma, formae: “pode significar forma, molde, moldura, mas também significa moeda cunhada, moeda, além de significar figura, imagem, representação. No texto desta unidade, o significado é beleza, formosura)”

Lichas: escravo de Hércules

paulum: pequena quantidade

FÁBULAS ESÓPICAS

A conservação da obra de Fedro [compilador de Esopo] é parcial. Dos 5 livros que conhecemos, alguns têm um número muito menor de fábulas que outros. Enquanto os livros II e V têm, respectivamente 8 e 10 fábulas, os livros I, III e IV têm, por sua vez, 31, 19 e 25. Ainda são atribuídas a Fedro, hoje fato já aceito, 32 fábulas de uma compilação do humanista italiano Nicollò Perotti.(*) Essas fábulas, colocadas após o Livro V, aparecem reunidas no Appendix Perottina.

(*) Perotti (1429–1480) escreveu uma das primeiras gramáticas escolares modernas de latim (1473).”

De extensão variada, as fábulas de Fedro podem apresentar a lição de moral ora nos dois primeiros versos (promitio) ora nos dois últimos (epimitio).”

Quanto à forma, Fedro escreve suas fábulas com o mesmo metro utilizado pelos cômicos, o senário jâmbico, formado por 6 pés. Os pés são medidas ou grupos de sílabas de vários tempos.”

fīctīs | iŏcā | rī …… nōs | měmĭně | rīt fā|bŭlīs”

é bom lembrar que nós usamos o gracejo nestas fábulas fictícias”

UNIDADE QUATRO:

Serpens ad fabrum ferrarĭum (IV, 8);

Rana rupta et bos (I, 24);

Canes familĭci (I, 20)

FEDRO

A cidade mais importante da Trácia é Istambul, antiga Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente.”

Alguns dos assuntos das fábulas de Fedro eram já conhecidos e muitos já tinham sido apresentados por Esopo. Mas há também composições originais em sua obra. Apesar de sua inspiração em fábulas gregas e de sua adaptação delas para o latim, Fedro imprime sua originalidade, escrevendo em versos, diferentemente de Esopo, que escreveu suas fábulas em prosa.”

Apesar de publicar num tempo do ‘gosto novo’ que caracteriza esse período (artificialismos na linguagem, exageros), Fedro escreve com a concisão e precisão dos clássicos, num estilo limpo e elegante.”

Na fábula ‘Ranae ad Solem’, as rãs questionam o fato de o Sol querer casar-se, preocupando-se com a possibilidade de o Sol vir a ter filhos e sua morada, o lago, ficar ainda mais seca. Em ‘Lupus et Agnus’, a moral evidencia a crítica ao opressor: ‘Haec propter illos scripta est homĭnes fabŭla / qui fictis causis innocentes opprimunt’

A partir desta unidade do curso, os textos não mais se encontram adaptados. Todas as fábulas de Fedro utilizadas seguem a edição de Les Belles Lettres, cujos textos foram estabelecidos por Alice Brenot. (PHÈDRE. Fables. Texte établi et traduit par Alice Brenot. Sixième tirage. Paris: Les Belles Lettres, 2009baixar e ler 1º se a compreensão do latim estiver difícil!).”

Serpens ad fabrum ferrarium (IV, 8)

Mordaciorem qui inprŏbo dente adpětit,

hoc argumento se describi sentĭat.

In officinam fabri vēnīt vipěra.

Haec cum temtaret si ecqua [alguma] res esset cibi,

limam momordit. Illa contra contŭmax: [orgulhosa]

<Quid me> inquit <stulta, dente captas laeděre

omne adsuevi ferrum quae conroděre

………………………………………………………..?>

Rana rupta et bos (I, 24)

Inops, potentem dum vult imitari, perit.

In prato quondam rana conspexit bovem,

et, tacta invidĭa tantae magnitudinis,

rugosam inflavit pellem. Tum natos suos

interrogavit an bove esset latĭor.

Illi negarunt. Rursus intendit cutem

maiore nisu, et simĭli quaesivit modo

quis maĭor esset. Illi dixerunt bovem.

Novissĭme indignata, dum vult validĭus

inflare sese, rupto iacŭit corpŏre. »

Canes familici [famélico] (I, 20)

Stultum consilĭum non modo effectu caret,

sed ad pernicĭem quoque mortalis devocat. [arrasta]

Corĭum depressum in fluvĭo viderunt canes.

Id ut comesse extractum possent facilĭus,

aquam coepere ebibĕre, sed rupti prius

periere quam, quod petiĕrant, contingĕrent.”

GLOSSÁRIO:

pratum: prado

três prados cheios de trigo em que rondam três tigres felizes…

a preposição in com acusativo dá idéia de movimento em direção a algum lugar, com a idéia de lá ficar; a preposição ad dá ideia de direção a algum lugar”

coepere: começaram

(o verbo é defectivo e aparece dicionarizado apenas com as formas de perfeito: coepi, coepisti, coepisse. Conforme veremos nesta unidade, coepere não é infinitivo, mas uma forma da 3ª pessoa do plural do pretérito perfeito equivalente a coeperunt. No período clássico, usam-se apenas as formas dos tempos perfeitos e supino, conforme veremos, diferentemente do que ocorre no período arcaico)”

depressus: submerso, mergulhado

(também aparece dicionarizada como um adjetivo de 1ª classe – depressus, -a, -um –, mas se trata de um particípio passado do verbo deprĭmo, -is, -ěre, -pressi)”

rupta: arrebentada

(dicionarizada como um adjetivo de 1ª classe – ruptus, -a, -um – arrebentado(a), trata de um particípio passado do verbo rumpo, -is, -ěre, rupi)”

* * *

poderemos ter problemas ao encontrar num texto a palavra itiněris, pois seu nominativo (caso no qual os substantivos aparecem no vocabulário) é iter

SOBRE DECLINAÇÕES E COMO ACHAR CERTAS PALAVRAS IRREGULARES DE TERCEIRA DECLINAÇÃO NO DICIONÁRIO:

radical terminado em: genitivo: resultado: nominativo:

consoante dental dentis -ti desaparece no nom. dens

consoante labial hiemis -i desaparece no nom. hiems

consoante gutural ducis converte-se em –x dux

regis rex

Há um outro grupo de adjetivos em latim que segue a 3ª declinação. São os chamados adjetivos de 2ª classe. Diferentemente dos adjetivos de 1ª classe, que são sempre triformes, os de 2ª classe podem ser triformes, biformes ou uniformes (classificação que se baseia pelo nominativo singular).”

Inops, potentem dum vult imitari, perit.”

(O fraco, querendo imitar o forte, perece.)

Ex 1: acer, acris, acre (masc., fem., neut.)

áspero, cruel

Ex 2: atrox (m, f, n)

GLOSSÁRIO:

fleo: chorar

COMPARATIVO & SUPERLATIVO

Assim como no português, em latim, o adjetivo tem 3 graus: o positivo, o comparativo e o superlativo. No grau positivo, estudado anteriormente, menciona-se uma qualidade sem outra idéia complementar qualquer: bonus (‘bom’); fortis (‘forte’); celer (‘célere’).”

Conforme veremos, o comparativo de igualdade e de inferioridade só se faz em latim analiticamente, por meio de perífrases com advérbios (minus ou tam) mais o adjetivo. Já o comparativo de superioridade pode ser feito analiticamente, com o advérbio magis seguido do adjetivo, e pode ser feito sinteticamente, com os morfemas –ĭor e –ĭus.”

Ex 1: mordaciorem – mais mordaz que. Lembrar que ainda há o sufixo das declinações!

raiz mordax

Ex 2: altioris

Rana lata non erat magis quam bos.”

(A rã não era maior que o boi.)

ABLATIVO DE COMPARAÇÃO: “Rana latior non erat bove (abl. 3ª).”

a. Fons purĭor quam flumen est.

b. Fons purĭor flumine est.”

« Se se usar a partícula de comparação —quam—, o termo comparado fica no mesmo caso do outro termo a que se está comparando. »

Para a formação do grau superlativo dos adjetivos, temos como regra geral o acréscimo do morfema –issim- à raiz do adjetivo. Em seguida, ele se declina como um adjetivo de 1ª classe do tipo bonus, -a, -um. Altus, por exemplo, no grau superlativo, fica altissimus, altissima, altissimum.

Já para os adjetivos terminados em -er, como pauper, a regra será acrescentar o morfema -rim- e decliná-los como um adjetivo de 1ª classe. Assim: pauper ficará pauperrimus, pauperrima, pauperrimum.

Alguns adjetivos terminados em –ĭlis (como facilis, facile: biforme da 3ª declinação) terão como regra o acréscimo do morfema -lim- à raiz da palavra, declinando-se, a partir daí, como um adjetivo de 1ª classe. São os seguintes: facilis, dificilis, similis, dissimilis, gracilis, humilis, a cujos radicais acrescentamos –lĭmus. Facĭlis, por exemplo, ficará assim: facillimus, facillima, facillimum. Os demais adjetivos terminados em –ĭlis seguirão a regra geral: nobilis será nobilissimus, -a, -um; utilis será utilissimus, -a, -um assim como os demais.”

Alguns adjetivos só são utilizados nos graus comparativo e superlativo. Veja alguns deles:

inferĭor, inferius (inferior) infĭmus, -a, -um (ínfimo)

superĭor, superĭus (superior) supremus, -a, -um (supremo)

interĭor, interĭus (interior) intĭmus, -a, -um (íntimo)

prĭor, prĭus (anterior) primus, -a, -um (o primeiro)”

bonus, -a, -um melĭor, melĭus optĭmus, -a, -um

malus, -a, -um peior, peius pessĭmus, -a, -um

magnus, -a, -um maior, maius maximus, -a, -um

parvus, -a, -um minor, minus minĭmus, -a, -um

magnifĭcus magnificentior magnificentissimus, -a, -um

Adjetivos em cujo tema a vogal final vem precedida de outra vogal, como os terminados em -eus, -ius, -uus (idoneus, exiguus, regius), não possuem formas comparativas nem superlativas sintéticas. Usamos, nesses casos, os advérbios magis ou plus para o comparativo; e maxime (maximamente), multum, valde (muito), e outros de significação semelhante, para o superlativo.”

Perfeito sincopado

É comum alguns verbos apresentarem síncopes no tema do perfeito, razão pela qual os dicionários costumam registrar duas formas de perfeito entre os tempos primitivos de certos verbos. Reveja um trecho de uma fábula de Fedro e observe atentamente os pretéritos perfeitos dos verbos interrogare e negare

(…)

Veja como os verbos destacados aparecem dicionarizados: interrogo, -as, -are, interrogavi e nego, -as, -are, negavi.”

VERBO ESSE NO PRESENTE DO MODO SUBJUNTIVO

Analisaremos o verbo esse (sum, -es, esse, fui) separadamente, já que não seguirá a lógica de uso dos sufixos de subjuntivo dos verbos regulares.”

Presente do subjuntivo

sim

sis

sit

simus

sitis

sint

* * *

Da forma datum formamos, pois, o particípio passado datus, data, datum, que se declina como um adjetivo de 1ª classe (tipo bonus, bona, bonum).” isto-não-está-datum

o rrato arrombou a rrã do rrei de rroma

De vitĭis homĭnum (IV, 10) (A ORIGEM DA COLUNA VERTEBRAL!)

Peras [alforje/alforge¹] imposŭit [impôs] Iuppĭter nobis duas;

proprĭis repletam vitĭis post tergum [costas] dedit,

alienis ante pectus suspendit gravem.

Hac re videre nostra mala [dessa vez não é maçã, mas mal mesmo!] non possŭmus;

alĭi simul [assim que os outros] delinquunt, [erram] censores sumus.”

¹ “Etimologia (origem da palavra alforje). Do árabe al-khur, saco levado junto à sela, ao lado.”

GLOSSÁRIO:

cogo: forçar

vulpes: raposa

UNIDADE CINCO:

De vulpe et uva (IV, 3);

Cornu fractum (App. Per., 22);

Vulpes et simius (App. Per., 1).

FEDRO

De vulpe et uva (IV, 3)

Fame coacta vulpes alta in vinĕa

uvam adpetebat, summis saliens virĭbus.

Quam tangĕre ut non potŭit, discedens ait:

<Nondum matura es; nolo acerbam sumĕre.>

Qui facĕre quae non possunt verbis elĕvant [desdenhar no sentido abstrato – grande exemplo de falso cognato! / porém, em outros sentidos pode ser realmente elevar/tirar, física, concretamente.]

adscribĕre hoc debebunt exemplum sibi. »

MORAL DA HISTÓRIA: Ah, nem queria mesmo!

Cornu fractum (Appendix Perotina, 22)

Pastor capellae [de pequenas cabras] cornu bacŭlo fregĕrat;

rogare coepit ne se domĭno proderet.

<Quamuis indigne laesa reticebo tamen; [contudo, embora]

sed res clamabit (ipsa) quid deliquĕris.> »

Embora indignamente ofendida, guardarei silêncio, já que os fatos dirão em alta voz e por si mesmos que delinquiste.

Vulpes et simĭus (Appendix Perotina, 1)

Vulpem rogabat partem caudae simĕus,

contegĕre honeste [cobrir, ocultar dignamente] posset ut nudas nates. [nádegas nuas]

Cui sic maligna: <Longĭor fiat licet, [embora, apesar de]

tamen illam citĕus [de preferência a] per lutum [lodo] et spinas [espinhos] traham

quam tibi particŭlam quamuis [sem dúvida] parvam impartiar.>

Embora longa ela seja, (minha cauda) arrastá-la-ei pelo lodo e por espinhos, antes de compartilhá-la contigo!

GLOSSÁRIO:

adpeto: desejar

clamo: clamar (dizer em voz alta)

cras: amanhã

heri: ontem

Futuro imperfeito (indicativo e subjuntivo) de esse e seus compostos

ego ero

eris

erit

erĭmus

erĭtis

erunt

Certos verbos, em sua conjugação, não apresentam determinadas pessoas, tempos ou modos. São os chamados verbos defectivos.”

amarei: amabo ou amare habeo

Lupus et Agnus [cordeiro] (I, 1)

Ad rivum eundem lupus et agnus venerant

siti compulsi [impelidos pela sede]; superĭor stabat lupus

longeque inferĭor agnus. Tunc fauce [goela] improba

latro [ladrão] incitatus iurgĭi causam intulit.

<Quare>, inquit, <turbulentam fecisti mihi [tornou turva a água que bebo]

aquam bibenti?> Lanĭger contra timens: [temeroso respondeu]

<Qui possum, quaeso, [por favor] facere quod quereris, [de que te queixas] lupe?

A te decurrit [descem] ad meos haustos [goles] liquor.>

Repulsus ille veritatis virĭbus:

<Ante hos sex menses male>, ait, <dixisti mihi.>

Respondit agnus: <Equĭdem [decerto] natus non eram.>

<Pater hercle tuus>, ille inquit, <male dixit mihi>;

atque ita correptum [arrebatar] lacerat [devorar], iniusta nece. [usando uma desculpa]

Haec propter illos scripta est homĭnes fabŭla,

Qui fictis causis innocentes opprimunt.”

UNIDADE SEIS:

Ovis, cervus et lupus (I, 6);

De capris barbatis (IV, 17).

FEDRO

Ovis, cervus et lupus

Fraudator homĭnes cum advocat sponsum imprŏbos,

non rem expedire, sed nos induere expetit.

Ovem rogabat cervus modĭum tritĭci, [beneficiar-se]

lupo sponsore. At illa, praemetŭens dolum:

<Rapĕre atque abire semper adsuevit lupus;

tu de conspectu fugĕre veloci impĕtu.

Ubi vos requĭram, cum dies advenĕrit?>.”

De capris barbatis

Barbam capellae [de capri] cum impetrassent ab Iove,

hirci maerentes indignari coeperunt

quod dignitatem femĭnae aequassent suam.

<Sinĭte,> [concordância, sim] inqŭit, <illas glorĭa vana frui

et usurpare vestri ornatum munĕris,

pares dum non sint vestrum fortitudĭne.>

Hoc argumentum monet ut sustinĕas tibi

habĭtu esse simĭles qui sint virtute impăres.”

GLOSSÁRIO:

aequo: igualar

assuesco: habituar-se

dum: desde que/enquanto durar/até que

habitus: aparência

maerens: triste (lembrar de mareado)

modius: alqueire

múnus: cargo, função

ovis: ovelha; homem estúpido, simplório.

triticum: trigo

(A raiz de usurpação não denota ou conota crime, mas mero uso, diferente de rapio, rapto, p.ex.)

o latim mantém alguns verbos com duplo acusativo: um acusativo que funciona como o que conhecemos como objeto direto e outro acusativo como objeto indireto.”

CUIDADO COM QUEM É SUJEITO ATIVO E PASSIVO!

pueros docere grammaticam

Ovem rogabat cervus modium tritici (quem pede trigo é o veado)

parentes pretium poscere (não são os pais que exigem o preço ou paga; exige-se-lhes)

livrum flagitavi magistrum (solicitei o livro ao professor)

Careo virtute

Auxilio egeo (mar Egeu: o mar sempre necessitado!)

Vescor lacte (bebo leite; mas pode ser usado para comida, nutrição em geral)

Abundo pecunia.

Verbos que em português necessitam em geral “de” ou outro complemento, pelo menos na norma culta.

Hoc argumentum monet ut sustineas tibi habitu esse similes qui sint virtute impares.

Tal argumento demonstra o quanto deves sustentar uma aparência igual à daqueles de que

Este lembra como de quem …

que

és diferente em qualidades invisíveis

… virtudes.

caráter

Basicamente o provérbio da mulher de César.

Luminibus orbus

Privado da vista

Dives templum donis

Templo rico em oferendas

Parvo contentus.

Contente com pouco – e não: Tolo contente!! Nesse caso seria parvus contentum.

Verbos no presente do modo imperativo

sine: consinta

sine qua non – consinta que não…?

O sine qua non da filosofia n. é o eterno retorno – consinta que não existe filosofia nietzschiana sem o eterno retorno. = AQUILO SEM O QUE NÃO

Mons parturiens (IV, 24) [Montanha parturiente]

Mons parturibat, gemitus inmanes [espantoso] ciens,

eratque in terris maxĭma expectatĭo.

At ille murem [rato] pepĕrit. Hoc scriptum est tibi,

qui, magna cum minaris, [prometes] extricas nihil.”

prometes grandes coisas mas nada entrega /

Às vezes terremotos anunciam grandes coisas, mas nada sucede de relevo (tum dum!).

Tanto barulho por nada! etc.

Como grandes montanhas cujo parto ou tremor não era hecatombe, mas sim apenas obra dum rato em suas entranhas… tu, ladras e não mordes!

Vulpes ad personam [máscara] tragĭcam (I, 7)

Personam tragĭcam forte vulpes vidĕrat:

<O quanta specĭes> [beleza] inqŭit <cerĕbrum non habet!>

Hoc illis dictum est quibus honorem et glorĭam

fortuna tribŭit, sensum communem abstŭlit.”

A raposa viu casualmente uma máscara de tragédia

Quão bela, e no entanto nada carrega! Inanimada.

O que a sorte dá, o senso comum tira.

Particípio presente

Já que, em português, o particípio presente latino formou adjetivos e substantivos (amante, ouvinte, falante, parturiente, etc.), podemos muitas vezes traduzir o particípio presente como um gerúndio, como no verso acima.”

A voz passiva sintética

Personam tragicam vulpes videt

A raposa vê a máscara da tragédia

Persona tragica a vulpe(*) videtur

A máscara da tragédia é vista pela raposa

(*) Caso ablativo – “A função que tradicionalmente conhecemos como agente da passiva aparece, na oração em latim, no caso ablativo, antecedido por preposição, por se tratar de um ser animado (a raposa).” Caso sem preposição: Iniuriis non moveor tuis (Suas injúrias não me comovem – em português também caberia dizer não comovem a mim). Iniuriis tuis é o ‘agente da passiva’.

Em latim a voz passiva pode ser escrita de forma mais lacônica do que no português, cuja praxe é o contrário (alonga a voz ativa!).

Os verbos depoentes

Chamam-se verbos depoentes aqueles verbos que apresentam terminações de voz passiva, mas que têm sentido ativo.”

verbo depono: abandonar (mesma coisa do port. de-pôr)

No dicionário:

Tempos primitivos do verbo dare (não-depoente):

do, -as, -are, dedi, datum

Tempos primitivos do verbo minari (depoente):

minor, -aris, minari, minatus sum (eu prometi, eu ameacei) – não existe o supino (correlato a datum)

Lembrando que normalmente os infinitivos apresentam sufixo:

-re (voz ativa) dare (dar)

-ri (voz passiva) dari (ser dado)

GLOSSÁRIO:

abdo: esconder

abdômen: provavelmente porque o ventre está destinado a esconder nossas feias tripas.

EPIGRAMAS

O termo epigramma, em grego, significa inscrição. Originariamente, designava qualquer tipo de inscrição, ou seja, referia-se a textos escritos gravados ou pintados sobre objetos votivos, monumentos, estátuas, medalhas, moedas e também sobre monumentos celebrativos ou funerários, com o objetivo de fazer lembrar um acontecimento memorável, uma vida de destaque.” “o epigrama nasce com a característica da brevidade, da concisão. E essa característica se mantém quando adquire status de texto literário.”

Entre os latinos, mantém inicialmente a característica de uma poesia sentimental, subjetiva, herdada da influência helenística, e o tom de poema de ocasião, tendo, entre seus temas, o erotismo, a jocosidade, a polêmica, desenvolvendo-se como um instrumento para a difamação pessoal e a crítica social e até mesmo política.

Utilizado por Ênio (239 a.C–169 a.C) em monumento celebrativo, terá, com Catulo (87 a.C?–54 a.C?), repercussão e status literário e será identificado com o nome de Marcial (38/41 d.C–102/104 d.C).”

Após o Renascimento, contudo, volta a ser apreciado, inicialmente na Europa e depois nas Américas. Seu auge ocorrerá no século XVII, e ainda encontramos poetas que mantêm acesa a chama do gênero”

UNIDADE SETE: EPIGRAMAS – PARTE I – MARCIAL

Nasce Marcial por volta dos anos 38 e 41 d.C, na região conhecida por Hispânia Tarraconense, em um povoado chamado Bílbilis. De família provavelmente não muito modesta, deve ter recebido formação de ótimo nível na própria região da Hispânia (certamente não em Bílbilis, por se tratar de um pequeno povoado). Muda-se para Roma por volta do ano de 64 e aí desenvolverá sua atividade literária em boa parte dos 34 anos em que permaneceu longe de sua terra natal. Será acolhido por Sêneca e, renunciando à possibilidade de carreira no Foro, irá se dedicar à carreira poética. É na Hispânia também que ocorrerá o seu falecimento entre os anos de 102 e 104.”

Da obra de Marcial, chegou até nós uma coletânea que se abre com o Liber de spectaculis, tendo na sequência os livros de epigramas do I ao XII e os livros XIII e XIV (Xenĭa e Apophoreta), apesar de estes dois últimos terem surgido anteriormente ao livro I. Os epigramas apresentam, em sua maioria, entre 2 e 10 versos, sendo encontrados muitos outros que ultrapassam os 20 versos.”

Marcial influenciará autores como Quevedo (Espanha), Bocage (Portugal) e Gregório de Mattos (Brasil).”

Por ocasião da inauguração dos espetáculos no Anfiteatro Flávio, o Coliseu, no ano de 80, sob o domínio de Tito, Marcial publicará o Epigrammăton liber, conhecido por Liber de spectacŭlis. A partir dessa obra, que celebra um acontecimento público de tal dimensão, Marcial receberá de Tito o benefício ius trium liberorum, passando a contar com amparos legais destinados originalmente a progenitores de no mínimo três filhos, o que não era o caso de Marcial.”

Escritos em dísticos elegíacos, serviam para acompanhar os presentes aos amigos (xenĭa, presente em latim) ou para acompanhar os presentes que os convivas levavam para casa (apophoreta, presentes oferecidos aos convivas nos dias das Saturnais).”

Os epigramas utilizados nesta unidade foram os estabelecidos por H.-J. Izaac, conforme edição consultada: MARTIAL. Épigrammes. Tome I. Livres I-VII. Texte établi et traduit par H.-J. Izaac. Quatrième tirage. Paris: Les Belles Lettres, 2003.”

(I, 19)

Si memĭni, [se me lembro] fuěrant tibi quattŭor, Aelia, [Élia, Hélia] dentes:

expŭlit una duos tussis et una duos.

Iam secura potes totis tussire diebus:

nil istic [aí] quod agat tertia tussis habet.”

Agora pode tossir, não tem mais dente pra cair!

(I, 91)

Cum [Já que] tua non edas, carpis mea carmĭna, Laeli. [sobrenome]

Carpěre vel [ou] noli nostra vel ede tua.”

(III, 8)

<Thaida Quintus amat.> <Quam Thaida?> <Thaida luscam.> [Qual Thaís? A Thaís caolha.]

Unum ocŭlum Thais non habet, ille duos.”

(III, 13)

Dum non vis pisces, dum non vis carpěre [não quis destrinchar as escamas] pullos

et plus quam putri, Naevia, parcis apro,

accusas rumpisque cocum, [não quis incomodar nem acusar o cozinheiro] tamquam omnĭa cruda [como se a comida estivesse crua…]

attulěrit.¹ Numquam sic ego crudus ero.” […pois grosso não sou!]

¹ Se ele houvera trazido, verbo affero. Como se ele tivesse trazido uma comida crua da cozinha.

Minha primeira interpretação estava errada: o tanquam muda tudo: “Acusaste e quiseste bater no cozinheiro COMO SE ele tivesse trazido uma comida crua, porém a verdade é que és um grosseirão!”

GLOSSÁRIO:

Taís/Thaida: “Não tem a terminação -em de acusativo singular da 3ª declinação por ser uma palavra grega e seguir as formas gregas de declinação”

crudus: cru (comida) ou grosso(a) (pessoa!)

edas: tornar conhecido

numquam: “Não confundir com nunc, que quer dizer agora, e com nusquam, que quer dizer em nenhuma parte, em nenhuma ocasião, em nada, para nada”

tribus: alerta – 3 declinado!

Numerais

(cont.)

As centenas declinam-se como adjetivos de 1ª classe, no plural. Os ordinais declinam-se todos como adjetivos de primeira classe (primus, -a, -um; secundus, -a, -um; duodevicesĭmus, -a, -um)”

O verbo memĭni

Alguns verbos não apresentam tempos do infectum e/ou a forma do supino. Deixarão de apresentar também as formas derivadas desses tempos. São os verbos defectivos, que já havíamos começado a estudar.”

Comparação com dare no dicionário:

GLOSSÁRIO:

licet = quamuis: ainda que

Introdução ao imperativo negativo

ede: publique

Para dizer no negativo…

A forma em negrito (carpere noli) é uma forma perifrástica de se construir o imperativo negativo dos verbos. Nesse tipo de construção, coloca-se o verbo nolo (não querer) no imperativo (noli) e o verbo principal no infinitivo presente (carpere):

noli carpere: não queira você censurar (não censure)

nolite carpere: não censurem

Frase do epigrama acima:

Carpěre vel noli nostra [carmina] vel ede tua.

(Não censure nossa canção nem publique a tua.)

Vel… …vel…

* * *

I, 32

Non amo te, Sabidi, [Sabidius, nome próprio masculino] nec possum dicere quare:

hoc tantum possum dicere, non amo te.”

IV, 58

In tenebris luges amissum, Galla, maritum [Nas sombras chora teu falecido, Gala]

nam plorare pudet te, puto, Galla, virum. [O chorar viril não devia te envergonhar, Gala]

I, 63

Ut recĭtem tibi nostra rogas epigrammata. Nolo:

non audire, Celer, sed recitare cupis.”

I, 64

Bella es, novĭmus, [conhecemos] et puella, verum est,

et dives, quis enim potest negare?

Sed cum te nimĭum, [excessivamente] Fabulla, laudas,

nec dives neque bella nec puella es.”

II, 7

Declamas belle, causas agis, Attĭce, belle;

historĭas bellas, carmĭna bella facis;

componis belle mimos, epigrammata belle;

bellus grammatĭcus, bellus es astrologus,

et belle cantas et saltas, Attĭce, belle;

bellus es arte lyrae, [lírica, da lira] bellus es arte pilae [de bola – baile?].

Nil bene cum facĭas, facĭas tamen omnĭa belle,

vis dicam quid sis? Magnus es ardalĭo. [intrometido]

Verbos impessoais

São considerados verbos impessoais aqueles cuja ação não é propriamente atribuída a um sujeito animado ou inanimado. Apenas são conjugados na 3ª pessoa do singular e na 3ª do plural. Em função disso, esses verbos aparecem dicionarizados com as formas de 3ª pessoa (-t) e infinitivo. Veja os tempos primitivos do verbo pudere (ter vergonha de)…”

plorare pudet te: tu tens vergonha de chorar / chorar te envergonha

me pudet tui: tenho vergonha de ti

eos infamĭae suae non pudet: eles não têm vergonha de sua infâmia

Os verbos impessoais podem apresentar algumas especificidades, daí a necessidade de, sempre que necessário, consultar um bom dicionário ou uma boa gramática, até que o contato com eles nos textos nos dê segurança em sua leitura.Os famosos verbos de tempo ou de ocorrências naturais (sem sujeito) do português, mas não só (diria que sem dúvida os verbos mais religiosos têm essa tendência): fulget (relampejar), ningit (nevar), pluit (chover), tonat (trovejar), lucescit (amanhecer), vesperascit (entardecer), libet/lubet (agradar, ter vontade de), misĕret (ter compaixão de, compadecer-se de/por), piget (lamentar), paenitet (arrepender-se), licet (ser lícito, ser permitido, caber a), oportet (convir, ser preciso).

UNIDADE OITO: EPIGRAMAS – PARTE II – MARCIAL

(I, 75)

Dimidĭum [metade] donare Lino quam credĕre totum

qui mavolt, [prefere, magis+volo] mavolt perdĕre dimidĭum.

(III, 63)

Cotĭle, bellus homo es: dicunt hoc, Cotĭle, multi.

Audĭo: sed quid sit, dic mihi, bellus homo?

[…]”

(IV, 36)

Cana [branca, grisalha] est barba tibi, nigra est coma: [cabeleira] tinguĕre barbam

non potes – haec causa est – et potes, Ole, comam.

(I, 33)

Amissum non flet [chora] cum sola est Gellĭa patrem,

si quis adest [está presente] iussae [ordenar] prosilĭunt [jorrar] lacrĭmae.

[Não se chora só, pois quem está presente ordena que jorrem as lágrimas…]

Non luget quisquis laudari, Gellĭa, quaerit, [Gélia, não está de luto quem quer que procure ser louvado]

ille dolet vere qui sine teste dolet.[a dor verdadeira é aquela que dói sem testemunhas]

Os elogios precisam de testemunhas, a dor não?! Ou o contrário?

(III, 28)

Auriculam Mario gravĭter miraris olere.

Tu facis hoc: garris, Nestor, in auriculam.

Mário sabe sentir o odor das orelhas; é assim que se faz: Nestor, tagarele muito para elas.

(I, 110)

Scribĕre me querĕris, Velox, epigrammata longa.

Ipse nihil scribis: tu breviora facis.

[Tu, Véloce, te queixas de que eu escrevo epigramas compridos.

Tu mesmo, Véloce, nada escreves: e com isso fazes rápido.] ???

(VI, 90)

Moechum [Devasso] Gellĭa non habet nisi unum.

Turpe [feio, sujo, indecente, vergonhoso] est hoc magis: uxor est duorum.”

1 Quod potĭus est: dimidĭum donare Lino aut credere totum?

O que é melhor: Lino dar metade ou emprestar tudo?

2 Quid de Cotilo dicunt multi?

3 Cur cana est barba Olo?

4 Quid non flet cum sola est Gellia?

5 Quis non luget? Quis dolet vere?

6 Cur iussae prosiliunt lacrimae si quis adest? si quis = …?

7 Cur auricula Mario gravĭter olet?

8 Cur Velox epigrammăta breviora facit?

9 Quot moechos Gellia habet? Quid turpe est magis?

10 Verte epigrammăta lusitane.

  1. Quem prefere dar metade a emprestar tudo prefere perder essa metade.

  2. Porque barba não se pinta.

  3. O que dói de verdade?

  4. Unum. …

  5. Difícil!

LEMBRETE:

amare: amar

amari: ser amado

amavisse: ter amado

ATENÇÃO:

Apesar de o infinitivo perfeito apresentar a desinência –isse, que também ocorre no mais-que-perfeito do subjuntivo (por exemplo, amavissem = se eu tivesse amado), o fato não é motivo de confusão, já que o infinitivo não apresenta desinências pessoais:

amavisse: ter amado

amavissem: se eu tivesse amado”

Derivados de sum

Absum, abes, abesse, afui: estar ausente

Desum, dees, deesse, defui: faltar

Supersum, superes, superesse, superfui: sobreviver, subsistir

Possum, potes, posse, potui: poder

Prosum, prodes, prodesse, profui: ser útil

Subsum, subes, subesse, subfui: estar abaixo

Intersum, interes, interesse, interfui: participar

Insum, ines, inesse, infui: estar dentro

VOLO, NOLO, MALO

Mavolt ou mavult é a 3ª pessoa do presente do indicativo.”

Nos tempos de ação completa (os tempos do perfectum) esses verbos são formados regularmente, a partir do tema do perfeito e as desinências já estudadas.

volo, vis, velle, volui

nolo, non vis, nolle, nolui

malo, mavis, malle, malui

³ “Lembre-se de que utilizamos o imperativo presente de nolo para fazer o imperativo negativo dos outros verbos: noli amare = não queira amar ou não ame.”

VII, 77

Exigis ut nostros donem tibi, Tucca, libellos.

Non facĭam: nam vis vendĕre, non legĕre.

II, 49

Uxorem nolo Telesinam ducĕre: quare?

Moecha [puta] est. Sed puĕris dat Telesina: volo.

Nenhuma esposa agrada Telesina. Por quê?

Porque ela é uma puta. São os solteiros (moços, escravos) que a dão prazer!

I, 57

Qualem, Flacce, velim quaeris nolimque puellam?

nolo nimis facĭlem difficilemque nimis.

Illud quod medĭum est atque inter utrumque probamus:

nec volo quod crucĭat [atormenta] nec volo quod satĭat.

I, 23

Invitas nullum nisi cum quo, Cotta, lavaris

et dant convivam balnĕa [balneário] sola tibi.

Mirabar, quare numquam me, Cotta, vocasses:

Iam scio, me nudum displicuisse tibi.

Só convida para tua casa aqueles com quem te sentirias à vontade nua.

I, 77

Pulchre valet Charinus, et tamen pallet. = Tem valor Carino, tem medo.

Parce bibit Charinus, et tamen pallet. = Bebe pouco Carino, mas tem medo.

Bene concoquit [digere] Charinus, et tamen pallet. = Digere bem Carino, mas tem medo.

Sole utĭtur Charinus, et tamen pallet. =

Tingit cutem Charinus, et tamen pallet. = pinta a pele?…

Cunnum Charinus lingit, et tamen pallet. = Carino chupa bocetas, e também empalidece (tem medo).

I, 83

Os et labra tibi lingit, Manneia, catellus: [filhote, cachorrinho]

Non miror, merdas si libet esse cani.

Teu cãozinho lambee tua boca e teus lábios, Manéia:

Não te admires, cães até merda comem.

II, 88

Nil recĭtas et vis, Mamerce, poeta videri:

quidquid vis esto, dummodo nil recĭtes.

III, 71

Mentula [membro] cum dolĕat puĕro, tibi, Naevole, culus,

non sum divinus, sed scĭo quid facĭas.

Já que (o homem) tem um pênis que coça e tu, Névolo, um cu que dói,

Não tenho dons divinos, mas sei o que fazes.

O imperativo futuro dos verbos

O imperativo futuro se faz em latim morfologicamente. Muitas vezes é de difícil tradução e uma das opções é se traduzir pelo imperativo presente. Observe um exemplo retirado de um dos epigramas:

…quidquid vis esto, dummodo nil recites.

Seja (lá) o que quiser, contanto que nada recite.

IMPERATIVO PRESENTE (esse, ser)

2ª pessoa: es, este

IMPERATIVO FUTURO

2ª p: esto, estote

3ª p: esto, sunto

IMPERATIVOS DIVERSOS

Ex1: dare, datum

IMP. PRESENTE

2ª pessoa: da, date

IMP. FUTURO

2ª pessoa: dato, datote

3ª pessoa: dato, danto

Ex2: tenere (sempre 2ª pessoa para presente, 2ª e 3ª para futuro)

PRESENTE tene, tenete

FUTURO teneto, tenetote / teneto, tenento

Ex3: dicere

PRESENTE dic, dicite

FUTURO dicito, dicitote / dicito, dicunto

Ex4: facere

PRESENTE cape, capite

FUTURO capito, capitote / capito, capiunto

Ex5: audire

PRESENTE audi, audite

FUTURO audito, auditote / audito, audiunto

Concentrar-se em memorizar os significados dos termos abaixo:

atque: e

audio: ouço

breviora: menor que…

causa: —

credere: crer

cum: com

dat: dá

dicunt: dizer

donare: dar

ducere: agradar

duorum: dobro, dois

es: é

et: e

facis: fazes

facilem: fácil

graviter: gravemente, severamente, seriamente

habet: tem (ele/ela)

homo: homem

iam: agora

in: em

legere: ler

longa: larga, comprida

magis: mais

mihi: meu, pronome me.

nam: nem

nihil: nada

nil: não

nisi: só

nolo: não quero

non: não

nostros: os nossos (idéia de coletividade)

nudum: nu, nudez

nullum: nenhum

os: boca

patrem: pai

perdere: perder

potes: podes

probamus: aprovamos

puellam: meninas

pueris: meninos

quaerit: quer saber, pergunta

qualem: de que tipo ou qualidade

quam: como = quomodo

quare: por quê

quereris: queixas-te

scio: sei

scribere: escrever

sed: vós sois

si: se

sine: sem o que não / sem o qual

sola: só, sozinha

tamen: porém, mas

tibi: teu, te, a ti.

totum: tudo

turpe: torpe

valet: vale, valor

vis: queres

unum: um

vocasses: convidaste-me

volo: quero

ut: assim como

utor: uso

uxor: esposa

EPÍSTOLAS

O termo epístola vem do grego epistole, pelo latim epistula. Entre os antigos romanos, significava uma composição poética que se dirigia aos amigos e também aos mecenas. Tratando de variados assuntos (filosóficos, literários, morais, políticos, amorosos, sentimentais), as cartas podem apresentar uma linguagem mais cotidiana, diferentemente dos gêneros poéticos, erigidos em uma linguagem mais trabalhada, mais artística, portanto (MOISÉS, 2004, p. 160). Há, contudo, alguns textos do gênero que, escritos à maneira de epístolas, mantêm elementos da poesia. Na Antiguidade romana, destaca-se a figura de Horácio, com sua Epistula ad Pisones, com os conselhos sobre a arte de fazer poesia a um certo Pisão e a seus filhos, mais tarde traduzida como Ars Poetica, termo que já aparece em

Quintiliano e nos manuscritos horacianos (CITRONI et al., 2006, p. 543).

No gênero epistolar, também na Roma antiga, se aventura Ovídio com Tristia e Ex Ponto, além das Heroides. Entre outros autores do gênero, registram-se: Plínio, o jovem e Sêneca (Epistulae ad Lucilium).

Em Cícero, conhecemos muito da vida política romana do final da República, com suas quase 900 cartas. Segundo Citroni, em relação à Antiguidade são conhecidas as publicações de cartas privadas reais, como as de Cícero, e textos destinados ao público, como os breves tratados filosóficos, científicos ou as composições poéticas. Nas próximas unidades, analisaremos cartas cotidianas de Cícero e cartas filosóficas de Sêneca.”

De Plínio, temos uma coletânea de 10 livros. A partir de sua obra, muito se conhece dos comportamentos, das atitudes, dos valores e excessos da elite social do Império (finais do século I e inícios do século II). Para saber mais, conferir Citroni et al. (2006)”

UNIDADE NOVE: EPÍSTOLAS

Fam. XVI, 13 e XIV, 14

CÍCERO

O primeiro pronunciamento judiciário de Cícero ocorre em 81 a.C, quando ele estava com 25 anos, numa defesa de Quíncio (Pro Quinctio) num processo de espoliação, tendo como opositor Hortênsio, o maior advogado da época (HARVEY, 1987, p. 113).

Filósofo, orador, escritor, advogado e político romano, Cícero nos legou uma obra de considerável extensão e importância documental. Deixa também um acervo considerável de cartas, organizadas em 4 coleções:

Ad Atticum, 68-44 a.C. Publicadas pelo próprio Ático, amigo íntimo de Cícero / 16 livros

Ad Familiares, 62-43 a.C. Provavelmente publicadas por Tirão, liberto de Cícero / 16 livros¹

Ad Quintum Fratrem, 60-54 a.C. / 3 livros

Ad Brutum, 43 a.C. É controversa a autenticidade dessas cartas. Atualmente se aceita a autenticidade da maior parte delas. / 2 livros

¹ CICERÓN. Cartas III – Cartas a los familiares (cartas 1 – 173). Introducción, traducción y notas de José A. Beltrán. Madrid: Editorial Gredos, 2008; ou

CICÉRON. Correspondance. Tome III – Lettres CXXII-CCIV. (55-51 avant J.-C.). Texte établi et traduit par L.-A. Constans. 7e tirage. Paris: Les Belles Lettres, 2002.

Das 864 cartas, 744 foram escritas por Cícero e 90 foram a ele dirigidas. O valor histórico e documental do epistolário de Cícero é inestimável.” “É graças, sobretudo a estas cartas que a última fase da República constitui o período da História da Antiguidade de que possuímos um conhecimento mais aprofundado” Citroni

Tirão foi muito mais que um escravo. A liberdade a Tirão é concedida por Cícero em 54 a.C e, em sinal de gratidão ao seu senhor, adota o seu praenomen e nomen gentile, conforme costume romano, e mantém o próprio nome como cognomen: Marcus Tullius Tiro.”

M. TVLLI CICERONIS EPISTVLARVM AD FAMILIARES

LIBER SEXTVS DECIMVS

Ad Tironem

(Fam., XVI, 13)

Scr. in Cumano IV. Id. a.(u. c.) 701/53

Omnia a te data mihi putabo, si te valentem videro. Summa cura exspectabam adventum Menandri, quem ad te miseram. Cura, si me diligis, ut valeas et, cum te bene confirmaris, ad nos venias. Vale.

A carta que se segue foi escrita no dia 11 de abril de 53 a.C. Nela, Cícero elogia a atividade literária de Tirão.

(Fam., XVI, 14)

Scr. in Cumano III. Id. Apr. a.(u.c.) 701/53.

TVLLIVS TIRONI SAL.

Andricus postridie ad me venit quam exspectaram; itaque habui noctem plenam timoris ac miseriae. Tuis litteris nihilo sum factus certior quomodo te haberes, sed tamen sum recreatus. [Suas cartas não traziam fatos verossímeis, mas serviram para entreter-me] Ego omni delectatione litterisque omnibus careo, quas antequam te videro, attingere non possum. Medico mercedis quantum poscet promitti iubeto: id scripsi ad Ummium.

Audio te animo angi et medicum dicere ex eo te laborare. [Seu médico me falou do seu sofrimento presente] Si me diligis, excita ex somno tuas litteras humanitatemque, propter quam mihi es carissimus. Nunc opus est te animo valere, ut corpore possis. Id cum tua, tum mea causa facias a te peto. Acastum retine, quo commodius tibi ministretur. [Mantenha Acasto por perto para que ele possa lhe servir.] Conserva te mihi. [Não se aflija por mim] Dies promissorum adest, quem etiam repraesentabo, si adveneris. [Melhores dias virão, se você se empenhar em trazê-los] Etiam atque etiam vale.”

GLOSSÁRIO

adest: esta-aí

attingo: ocupar-se

careo: perder ou não ter

confirmo: venço a doença (com+firmar, eNFeRMidade de mnemônico)

cura: metafisicamente relevante (vd. Ser e Tempo): inquietação, ansiedade

curo: idem port.

diligo: estimo

excito: acordo!

III Idus h. VI = 10 de abril

III Idus (III Idus = 3 dias antes dos idos do mês correspondente – no caso de abril, os idos são em 13); nesta carta o remetente não informa o mês, convicto de que não será necessário.

h. VI = hora sexta ou meio-dia. “(o dia romano era dividido em 12 horas, contadas do nascer do sol até o crepúsculo. Para medir as horas, podiam utilizar relógios de sol e, não muito comum, relógios de água. Referiam-se às horas por numerais ordinais: hora prima, hora sexta. A hora sexta marcava o meio-dia. A noite era dividida em 4 partes, que se chamavam vigilia e que tinham duração diferente, a depender da época do ano)”

laboro: sofro

merces: salário (mnemônico: mercês… sua senhoria, vossa mercê… os outros que tratamos com respeito são ou o patrão ou aqueles de quem podemos auferir $lucros$)

ministro: servir

opus est: é necessário

repraesento: realizo imediatamente

sal. = salutat

Scr. a.u.c. 701. = scripta ab urbe conditia 701, ou seja, escrita no ano 701 depois de fundada a cidade. A data mais aceita para a fundação de Roma é 753 a.C.

si: QUANDO (! LEMBRETE !)

Vale: Adeus (imperativo do verbo valeo – estar bem de saúde, passar bem – utilizado como interjeição nas despedidas ou nos finais de cartas)

4ª DECLINAÇÃO

Pertencem à 4ª declinação nomes masculinos e femininos que terminam em -us no nominativo (fructus, -us) e alguns nomes neutros que terminam, no nominativo, em -u (genu, -us). Os neutros do plural têm os três casos iguais em –ua (nom. voc. e acus.).”

São neutras (raríssimas) as palavras genu (joelho), cornu (chifre), gelu (gelo, geada).”

ATENÇÃO:

Lembre-se de que não devemos nos basear na terminação do nominativo para sabermos a declinação a que pertence uma palavra. Veja, por exemplo, o nominativo em –us, que pode ser da 2ª, 3ª ou 4ª declinações.”

GLOSSÁRIO:

frango: quebrar

5ª DECLINAÇÃO

Ex: dies (praticamente todas as outras palavras da 5ª são femininas, ao contrário desta – MAS ATENÇÃO: dies só é masculino quando significar 24h, o dia cheio, e não o dia claro ou dia figurado, p.ex., ‘tal dia está chegando’! Além disso, o dia de 24h se feminiza quando a palavra é composta de uma preposição+die: antedie(m), postdie(m), addie(m) nom/gen)

dies diei

nominativo genitivo

Res e dies são os dois únicos nomes de flexões completas na 5ª declinação; os outros nomes, geralmente, não possuem plural”

ATENÇÃO:

Assim como a 4ª declinação se assemelha, em alguns casos, à 2ª declinação, o mesmo ocorre com a 5ª declinação em relação à 3ª.”

VOZ PASSIVA SINTÉTICA

Confira o quadro com as desinências de pessoa e de número (DPN) da voz ativa e da voz passiva:”

Acastum retine, quo commodius tibi ministretur. – ministretur, voz passiva da 3ª.

Para a formação do que conhecemos como agente da passiva, o caso latino mais adequado é o ablativo, antecedido ou não por preposição”

GLOSSÁRIO:

cinis: defunto

in: até

medicina: remédio

scelus: crime

A coordenação dos tempos (consecutĭo tempŏrum)

Em latim, o tempo de uma subordinada no subjuntivo será determinado pelo tempo do verbo da oração principal. Chamamos a isso de consecutiio temporum (ligação apropriada dos tempos ou coordenação dos tempos). A regra geral indicada abaixo pode ser considerada para se entender o uso do subjuntivo na coordenação dos tempos, embora uma ou outra especificidade possa ocorrer, fazendo com que recorramos a alguma gramática para entender um ou outro uso específico.

Opto ut scribat, ut scripserit. : Desejo que ele escreva ou tenha escrito.

Optabo ut scribat, ut scripserit. : Desejarei que ele escreva ou tenha escrito.

Optaveram ut scriberet. : Tinha desejado que ele escrevesse.

Optaveram ut scripsisset. : Tinha desejado que ele tivesse escrito.

Philosophi ignorabant quam pulchra esset [era] virtus : Os filósofos não sabiam quão bela é a virtude.

Cura, si me diligis, ut valeas… : Se gostas de mim, cuida para que estejas bem… ???

Observe que a forma verbal cura é presente do imperativo.” CUIDA, MENINO!

É só pensar na forma de condicional aceita em espanhol: Creo que estuviese/estuviera bien.

O calendário romano

Numa carta da Antiguidade, nos deparamos com algumas marcações temporais que exigem uma certa atenção para que consigamos associá-las aos marcos temporais atuais. No início da carta de Cícero vista nesta unidade, observamos a abreviatura “Scr. a.u.c 701” (scripta ab urbe condĭta 701, ou seja, escrita no ano 701 depois de fundada a cidade). Nesse caso, considera-se, como vimos, a data mais aceita para a fundação de Roma: 753 a.C.”

Kalendae (calendas) – é o primeiro dia do mês (daí a palavra calendário)

Nonae – (nonos) podia ser o 5º ou o 7º dia, a depender do mês (o dia que correspondia, tradicionalmente, à fase lunar de quarto crescente)

Idus – (idos) dependendo do mês, podia ser o 13º ou o 15º dia (tradicionalmente, o dia de lua cheia)

Nonos no 5º dia e Idos ao 13º dia – Janeiro, fevereiro, abril, junho, agosto, setembro, novembro e dezembro.

Nonos no 7º dia e Idos ao 15º dia – Março, maio, julho e outubro.”

Convenção romana dos nomes

Catarina Gaspar (2010, p. 153-178), analisa obras dos gramáticos latinos (grammatici latini) e, a partir delas, estabelece algumas notas sobre a onomástica romana. Eis as suas conclusões:

O praenomen é quase sempre definido como o elemento onomástico que precede o nomen. A sua representação sob a forma de abreviaturas também é transmitida pela maioria dos gramáticos. É interessante verificarmos que algumas das abreviaturas indicadas, para os praenomina mais comuns, são bem conhecidas nos textos epigráficos; contudo, outras não são comuns nos textos epigráficos que hoje conhecemos, como por exemplo, a abreviatura de PM para Pompeius (esta forma aparece quase sempre abreviada como POMP).

Quanto ao nomen, é ponto comum na sua definição a sua ligação à família. Nos séculos I a.C. e I d.C., encontramos uma noção de família genética: pertencem à mesma família todos os que partilham o sangue de um antepassado comum […]. A palavra familia era utilizada em alguns casos com um significado mais alargado, como equivalente a gens (…) [h]á a partilha de espaço e de cargos importantes na estrutura social, política e religiosa da cidade.”

(*) “Para uma visão e discussão do conceito de gens romana veja-se C.J. Smith, The Roman Clan. The Gens form Ancient Ideology to Modern Anthropology, Cambridge, 2006.”

Os cognomina são definidos pela maioria dos autores como os nomes que individualizavam a pessoa, isto é, de acordo com o seu uso clássico, que implicava que a sua transmissão de pai para filhos não fosse regular e a sua escolha fosse bastante variável.” “Kajanto (Onomastic Studies in the Early Christian Inscriptions of Rome and Carthage, 1963) refere a tendência para a transmissão dos cognomes de pais para filhos como um traço característico da onomástica na epigrafia cristã.”

O uso do agnomen tem raízes no Oriente, tendo começado a ser utilizado no Ocidente a partir da época imperial. Inicialmente, não terá existido muita diferença entre o uso do agnomen e o uso de dois nomes ou cognomes, segundo Kajanto. Os gramáticos latinos referem-no sempre como um nome que é adicionado ao cognomen, extrinsecus. Muitos autores realçam ainda o facto de este não ser um elemento tão comum como os outros três, nos antropônimos romanos, pois era geralmente indicado por causa de um feito relevante — notável ou vergonhoso.”

* * *

Senta que lá vem história…

No início de 58, Clódio apresenta aos comícios populares um projeto de lei que condena ao exílio os responsáveis pela execução de cidadãos romanos sem julgamento. A proposta visa claramente a Cícero, mentor do combate à conjura de Catilina e da punição dos seus cúmplices.

Cícero procura apoio junto dos cidadãos mais influentes, mas todos o aconselham a deixar Roma voluntariamente, para evitar o derramamento de sangue. Nestas circunstâncias, parte para o exílio. Na seqüência da aprovação da lei, a sua mansão no Palatino é saqueada e destruída. Clódio manifesta o desejo de erigir, no seu lugar, um templo à Liberdade. Para transformar o exílio voluntário de Cícero num ato de força jurídica, leva à aprovação outra lei que considera ilegal a decisão do senado, proíbe, sob pena de morte, a concessão de asilo ao exilado num raio de 400 milhas de Roma e, finalmente, inibe a revisão e a revogação destas deliberações.

Cícero parte de Brundísio, no extremo sul da península itálica, para a Macedônia e de lá, em finais de novembro, para Dirráquio. As cartas desta altura mostram o desgosto do afastamento da pátria, da família e dos amigos (Att. 3.4).”

Durante a ausência de Cícero, são várias as tentativas dos seus aliados para o fazerem voltar a Roma. Na sessão de 1º de junho de 58, a que Clódio não assiste, o senado aprova o seu regresso, por proposta de Nínio, um tribuno da plebe, mas o decreto é vetado por outro tribuno chamado Élio Liga. Em outubro, o tribuno Séstio prepara um novo projeto de lei, logo vetado por outro tribuno. Na primeira sessão de 57, a 1º de janeiro portanto, o cônsul Lêntulo fala do regresso de Cícero e é apoiado pelo colega Metelo.”

LXXXVII – AD ATTICVM.

(Att., III, 26).

Scr. Dyrrachi medio fere Ian. a. 697/57.

Litterae mihi a Q. [de Quinto] fratre cum s. c. [senatus-consultum] quod de me est factum allatae sunt [foi trazida – allatae ganha a declinação singular de litterae, mas o verbo da passiva permanece no plural]. Mihi in animo est legum lationem [de uma lei] expectare et, si obtrectabitur, utar auctoritate senatus [recorrerei à autoridade do senado] et potius [de preferência] vita quam patria carebo. Tu, quaeso, festina [se apressar] ad nos venire.

LXXXIX – AD ATTICVM.

(Att., III, 27).

Scr. Dyrrachi in. m. Febr. 697/57.

Ex tuis litteris, ex re ipsa nos funditus [inteiramente] perisse [ter perdido] video. Te oro [te oro, te rogo] ut quibus in rebus tui mei indigebunt [indigente] nostris miseriis ne desis [não abandonasse]. Ego te, ut scribis, cito [rápido] videbo.

A voz passiva analítica

A voz passiva analítica (aplicada aos verbos nos tempos do perfectum: pretérito perfeito, pretérito mais-que-perfeito e futuro perfeito) é feita através do particípio passado do verbo principal acompanhado do verbo auxiliar sum.

scripta est

Ao falante do português parece evidente escrita está, afinal é essa a tradução letra a letra. Porém dada a característica da voz passiva analítica, significa foi escrita. O francês constrói alguns de seus passados com base nesse sistema de regras.

Litterae … allatae sunt.

Uma carta … foi trazida (para mim)

cum s.c. quod de me est factum.

com um decreto do senado que foi emitido sobre mim ou sobre mim que fôra emitido

Recapitulação do subjuntivo do verbo ser:

amatus sum: eu fui amado

amati sumus: nós fomos amados

amatus eram: eu fôra amado / eu tinha sido amado

amatus ero: eu terei sido amado

Lembre-se:

Sou amado em latim diz-se amor, com a terminação -or da passiva sintética.”

Ou nunca use na passiva – mais fácil! Me amam.

GLOSSÁRIO

alea: jogo de dados

clarus: dentre outros, possui o sentido de famoso. clarus poeta

deleo, deletum: destruir

VOCABULÁRIO RELEVANTE DA UNIDADE 9:

a

ad

animo

atque

audio

bene

careo

causa

certior

cito

corpore

cum

cura

dicere

dies

ego

et

ex

exspecto

facias

haberes

habui

ipsa

itaque

legum

mihi

miseram

noctem

non

nunc

omni

omnia

opus est

patria

perisse

plenam

poscet

possum

potius

promitti

propter

quam

quem

re

retine

scripsi

sed

senatus

si

tamen

timor

valentem

venias

videro

ut

utar (?)

UNIDADE DEZ:

Epistulae ad Lucilium (I, 1)

SÊNECA

Lúcio Aneu Sêneca, o Filósofo, era filho de Sêneca, o Antigo, ou Sêneca, o Retórico. Nasceu em Córdova, na Espanha, provavelmente entre os anos de 4 e 1 a.C. Foi um intelectual de grande prestígio por ocasião dos principados de Calígula e de Cláudio. Tendo sido preceptor de Nero, foi uma das principais figuras intelectuais também em seu governo.

Sabemos de sua vida tanto através de suas próprias obras, quanto a partir das obras de seu pai, além dos relatos sobre sua atividade pública em Tácito e em Suetônio e Cássio Díon.

Ainda pequeno, Sêneca se dirige a Roma, como era de costume, para continuar seus estudos gramaticais e retóricos, mas seu interesse maior foi a Filosofia. Conta-se que Sêneca, já autor de obras filosóficas e científicas, teria atraído a inveja de Calígula, por seus dotes como orador no senado. Sêneca, então, se afasta da advocacia.

Por acusação de adultério com Livila, irmã mais nova de Nero, já com Cláudio no poder, o senado o condena à morte, mas o imperador o obriga a se exilar. Sêneca, tendo perdido um filho, se dirige à Córsega, em 41 d.C. e por lá fica por oito anos. Durante o exílio, escreve a Consolatĭo ad Helvĭam matrem, com o objetivo de confortar sua mãe pela dor da separação. Escreve também a Consolatĭo ad Polibĭum, numa tentativa de conseguir de Políbio, um liberto poderoso da côrte de Cláudio, o apoio para que ele regressasse do exílio. Com a morte de uma irmã de Políbio, a escrita de uma obra consolatória dedicada a ele se convertia num excelente momento para o pedido de apoio.

Retorna do exílio em 49 d.C., por insistência de Agripina, para ser preceptor de Nero. Mais tarde, em 65, o imperador o obrigará a se matar por conta de ser considerado cúmplice na conspiração de Pisão. O fracasso da revolta fará com que sejam condenados à morte tanto Sêneca quanto o seu sobrinho Lucano, o autor do poema épico De bello civili, conhecido como Farsália, sobre a guerra civil entre César e Pompeu.”

Obras sobreviventes:

De providentia

Dedicada a Lucílio, é um tratado que desfaz a ideia de que a providência divina é a causa das desventuras que atingem o homem bom.

De constantia sapientis

Obra filosófica dedicada a um funcionário equestre chamado Aneu Sereno, caracterizado como simpatizante do epicurismo.

De tranquilitate animi

Também dedicada a Sereno, aqui já mais conhecedor do estoicismo.

De otio

Uma defesa do direito do sábio de viver uma vida retirada das obrigações civis e a dedicar-se à pura contemplação.

De ira

Dedicada a seu irmão Novato, foi escrita logo após a morte de Calígula. Trata sobre a ira e seus efeitos e sobre educar os jovens para evitála.

(…)

De consolatione ad Marciam

Dirige-se à filha do historiador Cremúcio Cordo, consolando-a pela perda de um filho.

(…)

De clementia

Obra de filosofia política, relacionada à sua função como conselheiro de Nero, a quem dedica a obra.

De beneficiis

Tratado dedicado a seu amigo Ebúcio Liberal que apresenta duras críticas ao comportamento tirânico dos monarcas.

(…)

Epistulae ad Lucilium (extratos à frente)

Considerada a obra-prima de Sêneca enquanto filósofo. É composta por 124 cartas dirigidas a seu amigo Lucílio, a quem Sêneca vai ensinando elementos da filosofia estóica. Discute-se, ainda, se seriam cartas autênticas e que deveriam ser adaptadas para publicação ou se se trata de um uso do gênero para a escrita de tratados literários e filosóficos.

Tragédias Hercules furens, Troades, Medea, Phaedra, Oedipus, Phoenissae, Agamemnon, Thyestes; Hercules Oetaeus Octavia (Pseudo-Sêneca)

(…)

Apokolokyntosis

Escrita em prosa e verso, numa espécie de satyra anippeae, trata-se de um panfleto político mordaz, ironizando a morte e a divinização de Cláudio, a quem Sêneca bajulou em De consolatione ad Polybium.

(…)

Como veremos, algumas das sentenças famosas de Sêneca direcionadas a Lucílio são conhecidas e bem-difundidas até hoje.”

L. ANNAEI SENECAE AD LVCILIVM EPISTVLAE, I, 1

I. SENECA LVCILIO SVO SALVTEM

[1] Ita fac, mi Lucili: vindica te tibi, et tempus, quod adhuc [até aqui] aut auferebatur aut subripiebatur aut excidebat, collige et serva [lembre-se e atente-se]. Persuade tibi hoc sic esse ut scribo: quaedam tempora [algum tempo] eripiuntur nobis, quaedam subducuntur, quaedam effluunt. [se esvai] Turpissima tamen est iactura, [gasto, dispêndio – fatura, hehe!] quae per neglegentiam fit. Et si volveris attendere, magna pars vitae elabitur male agentibus, maxima nihil agentibus, tota vita aliud agentibus. [toda a vida regido por outros]

[2] Quem mihi dabis, qui aliquod pretium [algum preço] tempori ponat, qui diem aestimet, qui intellegat se cotidie mori? In hoc [Sobre isso] enim fallimur, quod mortem prospicimus; magna pars eius [grande parte dela] iam praeterit. [Excede] Quicquid aetatis [tempo de vida] retro est mors tenet. Fac ergo, mi Lucili, quod facere te scribis, omnes horas complectere [apodere-se de todas as horas – carpe diem]. Sic fiet ut minus ex crastino pendeas, si hodierno manum inieceris.

[3] Dum differtur, vita transcurrit. Omnia, Lucili, aliena sunt, tempus tantum nostrum est. In huius [genitivo de hic] rei unius fugacis ac lubricae [escorregadio – lubricidade – coisa de gente molhadinha!] possessionem natura nos misit, ex qua [da qual] expellit quicumque vult. Et tanta stultitia mortalium est ut quae minima et vilissima sunt, certe reparabilia, imputari sibi, cum impetravere, patiantur; nemo se iudicet quicquam [algo] debere, qui tempus accepit, cum interim [no entanto] hoc unum est quod ne gratus quidem [seguramente] potest reddere. [citar, replicar]

[4] Interrogabis fortasse [talvez, por acaso] quid ego faciam qui tibi ista praecipio. Fatebor ingenue: [Declarado com sinceridade] quod apud luxuriosum sed diligentem evenit, ratio mihi constat [concorda] impensae. Non possum me dicere nihil perdere, sed quid perdam et quare et quemadmodum [como – palavra grande só pra meter medo, mesmo que ut] dicam; causas paupertatis meae reddam, sed evenit mihi quod plerisque, non suo vitio, ad inopiam [miserável] redactis: omnes ignoscunt, nemo succurrit.

[5] Quid ergo est? Non puto pauperem cui, quantulumcumque [por menor que, tão pequeno que…] superest, sat est [é bastante]. Tu tamen malo serves tua, et bono tempore incipies. Nam, ut visum est maioribus nostris, ‘sera parsimonia in fundo est’.(*) Non enim tantum minimum in imo, sed pessimum remanet. Vale.

(*) Hesíodo [parcimônia do que há no fundo é coisa vã – o ébrio que economiza a borra do vinho não engana nem a si mesmo]Não faz cera, vai ficar tarde. Sera = tarde

Não é engraçado que o agente seja aquele que sofre a ação?

GLOSSÁRIO:

ignotum: tanto desculpado quanto a raiz de ignorado. Aquele que se desculpa não nos pode mais fazer mal?

mi: “o pronome possessivo meus, mea, meum, além de significar meu, minha significa, junto a nomes de pessoas e a pronomes pessoais, querido, amigo, que me é caro”

Amigo, …” qualquer estranho na rua

Meu amigo, …” Aí sim tem meu carinho!

O paulista é muito afetuoso: Fala, meu! Fala, querido!

plerusque: abundante

O GENITIVO PARTITIVO

Na epístola desta unidade, Sêneca faz uso da seguinte construção:

magna pars vitae elabitur male agentibus…

(…grande parte da vida escapa aos que agem mal…)”

grande parte” como subconjunto de “vida”.

O VERBO FIO (TORNAR-SE, SER FEITO)

Turpissima tamen est iactura quae per neglegentiam fit.” (se produz)

Sic fiet ut minus ex crastino pendeas…

Fiat!

fio, fis, fiěri, factus sum: (passiva de facio) ser feito, ser criado, fazer-se, dar-se; ser nomeado, ser considerado; (com significação própria) tornar-se, acontecer, dar-se, resultar”

(lembrete: o infinitivo é o terceiro termo dicionarizado.)

(cont.)

neque = nec

neve = neu = et ne

velim nolim…: queira ou não…

Com verbos no indicativo, uma conjunção pode ter um valor diferente do que ela tem com verbos no subjuntivo: ut, por exemplo, com indicativo é conjunção temporal (logo que) ou explicativa (como); com subjuntivo pode ser: uma conjunção integrante (que, que não), ou final (para que), ou consecutiva (que, de tal maneira que), ou ainda concessiva (ainda que).

Algumas conjunções são também advérbios, por exemplo, ut, ne, ubi.”

QUE LÍNGUA DES(GRAM)ENT(A)[TICA]]! “Sempre que preciso, você poderá consultar a seção Apêndice deste material, em que sistematizamos os aspectos gramaticais mais complexos que estamos estudando.” É, meu amigo, vou precisar bastante!

L. ANNAEI SENECAE AD LVCILIVM EPISTVLAE, I, VI

VI. SENECA LVCILIO SVO SALVTEM

[1] Intellego, Lucili, non emendari me tantum sed transfigurari. Nec hoc promitto iam aut spero, [ao menos espero] nihil in me superesse, quod mutandum sit. Quidni multa habeam, quae debeant colligi, quae extenuari, quae attolli? [elevar] [Por que eu não teria muitas coisas em mim, tanto dignas de censura quanto de elogio?] Et hoc ipsum argumentum est in melius translati animi, quod vitia sua, quae adhuc ignorabat, videt. Quibusdam aegris gratulatio fit, cum ipsi aegros se esse senserunt.

[2] Cuperem [Eu desejaria] itaque tecum [contigo] communicare tam subitam mutationem mei; tunc amicitiae nostrae certiorem fiduciam habere coepissem, [nossa firme amizade começaria] illius verae, quam non spes, [esperança] non timor, non utilitatis suae cura [busca] divellit, [dilacera] illius, cum qua homines moriuntur, pro qua moriuntur.

[3] Multos tibi dabo, qui non amico, sed amicitia caruerint. [carecer] Hoc non potest accidere, cum animos in societatem honesta cupiendi par voluntas trahit. Quidni non possit? [E por que não?] Sciunt enim ipsos omnia habere communia, et quidem magis adversa.

[4] Concipere animo non potes, quantum momenti adferre mihi singulos dies videam. ‘Mitte’ inquis ‘et nobis ista’ quae tam efficacia expertus es. Ego vero omnia in te cupio transfundere, [transmitir] et in hoc aliquid gaudeo discere, ut doceam. Nec me ulla res delectabit, licet sit eximia et salutaris, quam mihi uni sciturus sum. Si cum hac exceptione detur sapientia, ut illam inclusam [naquela limitação] teneam nec enuntiem, reiciam. Nullius boni sine socio iucunda possessio est.

[5] Mittam itaque ipsos tibi libros et ne multum operae inpendas, dum passim profutura sectaris, imponam notas, ut ad ipsa protinus, [desde já] quae probo et miror, accedas. Plus tamen tibi et viva vox et convictus [não é convicto, mas convivência!] quam oratio proderit. In rem praesentem [Pessoalmente,] venias oportet, primum, quia homines amplius oculis quam auribus credunt; deinde, quia longum iter est per praecepta, breve et efficax per exempla.

[6] Zenonem Cleanthes [estóico, discípulo de Zenão] non expressisset, si tantummodo audisset; [se apenas escutasse] vitae eius interfuit, [participei, compartilhei] secreta perspexit, observavit illum, an ex formula sua viveret. Platon et Aristoteles et omnis in diversum itura [e todos os que vieram e ainda virão depois deles] sapientium turba plus ex moribus quam ex verbis Socratis traxit;¹ Metrodorum et Hermarchum et Polyaenum [Metrodoro, Hermarco e Polieno] magnos viros non schola Epicuri sed contubernium [camaradagem] fecit. Nec in hoc te accerso [chamar] tantum, ut proficias, sed ut prosis; plurimum enim alter alteri [um ao outro] conferemus.²

¹ [Até ou já Platão e Aristóteles interpretaram e discordaram entre si acerca de muitos dos ensinamentos de Sócrates, pois se atinham a seus modos, não a suas palavras, o que não está mal.]

² [Não é preciso ser epicurista para seguir certos preceitos do epicurismo, nem ser estóico para seguir preceitos corretos do estoicismo; tudo tem sua medida, etc.]

[7] Interim quoniam diurnam tibi mercedulam debeo, quid me hodie apud Hecatonem [Hecatão, estóico] delectaverit dicam. ‘Quaeris’ inquit ‘vid profecerim? Amicus esse mihi coepi.’ Multum profecit; numquam erit solus. Scito hunc amicum omnibus esse. Vale.”

esperança espezinhada

à procura do que procurar

agora vejo que estava cego!

Conservação de raízes gerúndias no português:

morituro (homem morituro = homem que está para morrer);

nascituro (bebê nascituro = bebê que está para nascer).”

Essa turba e essa caterva maldita de filósofos!

VOCABULÁRIO BÁSICO DA UNIDADE:

accedas

accepit

adhuc

aetatis

aliena

aliquod

animos

apud

audisset

auferebatur

aut

causas

certe

certiorem

coepi/coepissem

constat

credunt

cum

cuperem [desejar]

cura

dabis/dabo

debeo

deinde [depois]

dicere

diem/dies

discěre [aprender] DISCENTE

doceam/doceo [ensinar] DOCENTE

eripiuntur [jogado fora, desperdiçado]

fac/faciam

fit [fazer-se]

habeam

homines

horas

iam

impetravere

interim

ita [então] = itaque

iter

iudicet [judiciar, julgar; adjudicar: atribuir publicamente, dizer a justiça…]

longum

manus

mi

mihi

minus

misit [(ele) enviou]

mitte

mori

mortem

nam

nobis

oportet [(ele) deve]

oratio

par

pars

patiantur [sofrer]

per

perděre

plus

potest

pro

probo

puto

quaeris

quare

quia

ratio

reddere

rei

sciunt [(eles) sabem]

scribo

senserunt [sentido]

serva [ministra, ministrar]

si

sibi

sic

socius [companhia]

spero

spes

tam

tamen

tantum

te

teneam/tenet

tibi

timor

tota

turpissima

vale

venias

verae

vero

videt [ver no sentido de compreender]

viros [os homens, os machos, os varões]

vitio

volueris

voluntas

vox

ut

vult

ELEGIAS

A elegia é uma forma literária do gênero lírico e tem origem controversa. Acredita-se que tenha surgido no Oriente, uma vez que era cantada com acompanhamento do som da flauta, um instrumento que deve ter sido proveniente da Ásia (CARDOSO, 2003, p. 69).

Apesar de seu longo percurso literário na Grécia, chegou até nós muito pouco da elegia helenística. O que conhecemos dela é por meio de fragmentos e por via indireta. Propércio, por exemplo, um dos cultivadores da elegia em Roma, credita parte de sua inspiração aos gregos Filetas de Cós e Calímaco (séc. III a.C.)”

Para os gregos e romanos antigos, a característica maior da elegia era a sua composição formal, em versos que chamamos de dísticos elegíacos. Segundo Oliva Neto (1996, p. 34), ‘a designação era formal, sem vínculo necessário entre gênero e assunto, que, assim como no epigrama, era variado’.”

Pouco conhecemos da produção dos primeiros autores elegíacos (Licínio Calvo, Varrão de Átax e Cornélio Galo). De Catulo, chegaram até nós algumas elegias, muitas das quais se situam entre epigrama e elegia. Como nos diz Oliva Neto, ‘não é sempre fácil saber se é um longo epigrama ou uma elegia breve’. Os nomes de Tibulo e de Propércio, autores dos quais nos chegou um número significativo de elegias, nos remetem imediatamente ao gênero. Ainda se destaca o nome de Ovídio, que se aventurou em diversos tipos de composição poética.

Segundo Massaud Moisés (1974/2004, p. 138), ‘após um interregno milenar, ao fim da Idade Média, a poesia elegíaca é ressuscitada por Villon, Jorge Manrique e Petrarca, tendo retornado à circulação, no século XVI, devido ao classicismo, influenciando poetas de diversas línguas.”

UNIDADE ONZE:

Elegia (I, 7)

PROPÉRCIO

PROPERTIUS. Elegies. Edited and translated by G.P. Goold. Cambridge/Massachusetts/ London/England: Harvard University Press, 2006.

Escreveu 4 livros de elegias, cuja cronologia é desconhecida: i) uma coletânea dedicada a Cíntia, um nome fictício provavelmente decorrente de uma experiência amorosa. Cíntia é, nas elegias de Propércio, como uma das jovens mulheres inteligentes, elegantes e de espírito independente que atraem a atenção dos possíveis amantes nas altas-rodas de Roma; ii) uma coletânea já mais extensa, sob a influência de Mecenas; iii) uma coletânea que apresenta, além da despedida de Cíntia, temas cívicos, discussões sobre poesia e aspectos morais de natureza diversa; iv) um quarto livro com composições de tema religioso e sobre a história romana, além de novas elegias amorosas.”

[A] influência de Calímaco se faz presente, numa aceitação dos gêneros menores, sem a rigidez da grande poesia (a épica). No texto que vamos ler nesta unidade, Propércio estabelece sua meta em relação às escolhas poéticas, dirigindo-se ao autor da Tebaida, um poema épico anterior à Eneida de Virgílio, e explicitando suas preferências.”

Dum tibi Cadmeae [Cadméia, povoado tebaido] dicuntur, Pontĭce, Thebae

armaque fraternae tristia militĭae,

atque, ita sim felix, primo contendis Homero

(sint modo fata tuis mollia [favorável, flexível] carminĭbus),

nos, ut consuemus, [consuetudinário – estar acostumado a] nostros agitamus [dedicamo-nos a] amores,

atque alĭquid [algo] duram [duro, a se queixar] quaerĭmus in domĭnam; [dona, amante]

nec tantum ingenĭo quantum servire dolori

cogor [premido, obrigado] et aetatis tempora dura queri.

hic mihi conterĭtur vitae modus, haec mea famast

hinc cupio [querer] nomen carmĭnis ire mei.”

¹ “Em textos em verso, o e- da forma verbal est pode ser elidido, por questões de métrica (fama est).

GLOSSÁRIO:

eo, is, ire, ivi ou ĭi, itum: caminhar, andar, marchar, espalhar-se.

! peguinha abaixo !

quaerĭmus: buscamos (do verbo quaero, -is, -ere, quaesivi ou quaesii, quaesitum ou quaestum, que significa procurar, buscar): outro sinônimo de cura – etimologia do quest saxão

queri: lamentar (do verbo depoente queror, -eris, queri, questus sum, que significa lastimar, lamentar, queixar-se judicialmente, daí querela: queixa, reclamação, acusação)

mnemônico: mulher: procuramos e depois nos lamentamos.

Tecnicamente, existe sim, sim! Ita.

TABELA DE DECLINAÇÃO PRONOMINAL

MAIS GLOSSÁRIO:

calamus: pena de escrever, do cálamo.

deridere: ser escarnecido

disparare : partior (depoente) : dividir

rima: fenda, racha

soleo, -es, -ere, solitus sum: ter por costume, estar habituado

Família do ALIQUIS:

RETORNO AO TEXTO:

nec tantum ingenĭo quantum servire dolori

cogor et aetatis tempora dura queri”

(sou obrigado a servir não tanto à minha inspiração

como à minha dor, e a lamentar os dias penosos de minha juventude)

…cupio nomen carmĭnis ire mei”

(…desejo de meus versos a fama espalhar-se) ou

(…desejo que a fama de meus versos se espalhe)

Oração principal: cupio

Oração infinitiva: nomen carminis ire mei”

REVISÃO DA UNIDADE

Os pronomes em geral apresentam formas especiais de declinação em alguns casos, principalmente no nominativo singular. Veja o caso de hic, haec, hoc, sem as habituais terminações –us, –a, –um de nominativo masculino, nominativo feminino e nominativo neutro. O mesmo ocorre com o pronome aliquis, aliqua, aliquid.”

Dos 6 casos latinos, um deles é considerado o caso lexicogênico do português, ou seja, o caso que deu origem aos nomes de nossa língua. Trata-se do caso acusativo.” “Vimos, por exemplo, o pronome aliquis, que está na forma masculina do caso nominativo. Seu acusativo masculino é aliquem. Qual das 2 formas você acredita que nos deu o pronome indefinido alguém?”

Na passagem do latim para o português, observamos duas regras que podem auxiliar numa busca de resposta: as consoantes surdas simples intervocálicas passam a suas sonoras equivalentes (-q- -g-) e a vogal postônica não-final cai (aliquem aliguem alguém).”

O acusativo sujeito da oração infinitiva é uma construção muito empregada no latim. Em português, embora ocorra com maior freqüência uma oração desenvolvida, temos também esse tipo de construção: Eu vi Sônia fazer o exercício, em que Sônia fazer o exercício é uma oração que funciona como objeto direto do verbo ver (eu vi algo), no infinitivo (equivale a Eu vi que Sônia fez o exercício). Alguns verbos permitem essa dupla construção em português (os causativos: mandar, deixar, fazer,…; e os sensitivos: ver, ouvir,…), outros, não.”

Propércio, I, 7, 21-26

[…]

tum me non humilem [humilde, não humilhar – falso cognato] mirabere [admirar, depoente]¹ saepe poetam, [= a imodéstia é admirável no poeta?]

tunc ego Romanis praeferar ingeniis.

nec poterunt iuvenes nostro reticere sepulcro [silenciar/silêncio sepulcral]

ardoris nostri magne poeta, iaces.’

tu cave nostra tuo contemnas [acautela-te de desprezar ou de teu desprezo pela nossa…] carmina fastu: [por orgulho]

saepe venit magno faenore [juro, -n] tardus Amor.”

¹ Macete: mir- de mirror, admirar-se no espelho.

Vocabulário importante da unidade:

aetatis

agitamus

alĭquid

atque

cogor : coagido

cupio : mnemônico: cupido

dicuntur : cantado

haec

hic

hinc

mollia : mole, FLEXÍVEL

nec

nomen

poterunt

quaerĭmus

queri

saepe : freqüentemente

sim/sint : deixar

tum : então

tunc

UNIDADE DOZE:

Elegia (III, 18 | = IV 12)

SULPÍCIA

(Corpus Tibullianum)

Pouco sabemos sobre a vida do poeta oriundo do Lácio, Álbio Tibulo. Deve ter nascido entre os anos de 55 a 50 a.C., e a data provável de sua morte se situa em 19 a.C. (pouco depois de Virgílio).

Consegue-se acompanhar alguns fatos de sua vida através da relação que manteve com M. Valério Messala Corvino,(*) um nobre e poderoso amigo e seu protetor.

(*) Messala participou como combatente da causa republicana em Filipos, embora tenha se aliado, posteriomente, a Marco Antônio e, em seguida, a Otávio, o futuro Augusto. A batalha de Filipos (42 a.C) ocorreu entre as forças do triunvirato formado por Otávio, Marco Antônio e Lépido e as forças republicanas, que tinham como líderes os principais envolvidos no assassinato de Júlio César. Nessa batalha, Bruto e Cássio perdem a vida, e suas tropas perdem a batalha.”

Acredita-se serem de sua autoria dois livros de elegias, havendo um terceiro que, na época do Humanismo, recebeu uma divisão em Livro III e Livro IV, com composições heterogêneas em uma coletânea que se conhece por Corpus Tibullianum.

É praticamente consensual que as curtas elegias em que a voz feminina de Sulpícia fala (el. 13-18 do livro III) sejam da autoria da própria Sulpícia, uma sobrinha de Messala, que, tendo ficado órfã, foi por ele acolhida e protegida. Sulpícia era neta de Sérvio Sulpício Rufo, um jurista famoso, amigo e correspondente de Cícero.”

Elegia (III, 18)

Ne tibi sim, mea lux, aeque [justamente] iam fervĭda [ardente] cura [nesse contexto, tormentos do amor]

ac viděor paucos ante fuisse dies,

si quicquam tota commisi [conmitto, committo, começar] stulta iuventa,

se eu, insensata que sou, cometi alguma burrice…

cuius me fatěar [confesso, vb. depoente] paenituisse magis,

da qual confesso ter me arrependido (mais que de qualquer outra fase da vida)…

hesterna quam te solum quod nocte [na noite passada] reliqui, [abandonada]

ardorem cupiens dissimulare meum.”

GLOSSÁRIO:

amasius: tanto amante quanto amado (que confusão!)

amata: sempre a amada (e pelo que entendi feminino, já que a mulher era uma ‘coisa’ na antiguidade e não se concebia o masculino também como objeto)

poetria: poetisa

Pronome indefinido (quisquam, quaequam, quidquam e quicquam ou quodquam)

O pronome quisquam deriva-se, como veremos mais à frente, do interrogativo-indefinido quis. Significa alguém, alguma coisa, algum, com valor de substantivo. É geralmente usado em frases negativas. Declina-se quis, e a forma enclítica –quam permanece invariável.”

Pronome relativo (qui, quae, quod)

Esse pronome aparece dicionarizado como um adjetivo de primeira classe, com o nominativo masculino (qui), o nominativo feminino (quae) e o nominativo neutro (quod).”

GLOSSÁRIO:

opertus: escondido (falso cognato do caralho!)

opertet: é preciso

Pronome anafórico (is, ea, id)

O pronome is, ea, id tem valor anafórico (ele, ela, o, a, lhe) e também antecede o relativo: o, a, aquele, aquela, aquilo (que).”

DIC (português!)

tugúrio: cabana

Visita vineam.

Vinde visitar a vinha (Salmos)

Amittit merito proprium [is] qui alienum adpetit.

(Phaed.)

Perde merecidamente o próprio [aquele] que cobiça o alheio

amitto: perder sua metade

GLOSSÁRIO:

vetus: antigo, arcaico

sinus: peito

sino dourado BLÉM-BLÉM

sinusite deveria ser inflamação no peito!

Infinitivo perfeito ativo

A partir do radical do perfeito (amav-), formamos o infinitivo perfeito ativo com a desinência –isse. Assim: amavisse (ter amado). No texto desta unidade, a partir do verbo sum, es, esse, fui, temos o infinitivo perfeito fuisse:

…ac viděor paucos ante fuisse dies…

(…como parecia ter sido há poucos dias…)

No mesmo texto, vimos, a partir do verbo impessoal paenitet, paenitui, o infinitivo perfeito paenituisse:

…me fatěar paenituisse magis…”

* * *

Do pronome relativo qui, quae, quod (que, o qual, quem), temos em português uma forma derivada do genitivo cuius. Trata-se do relativo cujo, que praticamente desapareceu da língua oral, permanecendo em textos escritos formais.”

Elegia 20, III

(Corpus Tibullianum)

Rumor ait [afirma] crebro [amiúde] nostram peccare puellam:

nunc ego me surdis auribus esse velim [volo]. [gostaria de pôr-me surdo às maledicências]

Crimina [injúria] non haec sunt nostro sine facta dolore:

quid miserum torques, [atormenta] rumor acerbe [cruel]? Tace. [Cala]

Moral da história: fica caladinho, irmão!

UNIDADE TREZE:

Amores (III, 14)

OVÍDIO

Sabemos sobre a vida de Ovídio através de seus próprios textos, especialmente através de uma elegia dos Tristia (Cantos Tristes), escrita durante seu exílio.(*) Na elegia IV, 10, Ovídio, numa espécie de autobiografia, busca se defender e nos deixa registros sobre sua própria vida.

(*) … Apesar de não supor a confiscação dos bens, esta relegatio tornava-se um duro castigo, porquanto obrigava o poeta a residir num lugar de clima rigoroso, quase incivilizado, habitado por bárbaros que de romanos só tinham o nome, banhado por águas insalubres. [atual Romênia]

Como muitos outros escritores contemporâneos seus, Ovídio, apesar de ter iniciado a magistratura, irá se dedicar ao ofício da poesia, desiludindo seu pai.”

Segundo Citroni, é admitido no círculo dos literatos que se reuniam em torno de Messala Corvino, podendo, dessa forma, entrar em contato e se relacionar com muitos poetas de seu tempo, como Horácio, Tibulo e Propércio. Virgílio, segundo nos conta o próprio Ovídio, só o conhecera de vista (Vergilium vidi tantum).”

O caráter multifacetado de Ovídio é demonstrado pela produção das seguintes obras:

Amores: coletânea de elegias em 3 livros (a primeira edição, não-conservada, teve 5 livros). O poeta-amante, nessas elegias, canta a paixão por Corina, uma antiga poetisa lírica grega.

Heroides: 21 epístolas poéticas, escritas em dísticos elegíacos, de heroínas famosas que escrevem a seus amados após terem sido, por eles, abandonadas: de Dido a Enéias, de Medéia a Jasão, de Ariadne a Teseu, e assim por diante, incluindo até mesmo uma figura não-retirada de mitos, a poetisa Safo, que escreve a Faón.

Ars amatoria: um tratado em dísticos elegíacos, <construído espirituosamente sobre os módulos do poema didascálico ‘sério’> (CITRONI et al., 2006, p. 592), em que a relação de amor se converte em objeto de ensino técnico (ars). Provavelmente por conta dessa obra Ovídio será exilado por Augusto para a longínqua cidade de Tomos (atual Constança, na Romênia).

Medicamina faciei feminae (Cosméticos da beleza feminina): trata-se de um livro de didática elegíaca com o ensinamento de truques para disfarçar qualquer tipo de defeito ou para melhorar o aspecto exterior. Desse poema, são supérstites apenas os cem primeiros versos.

Remedia amoris (Remédios contra o amor): trata-se de um pequeno poema que objetiva ensinar a pessoa amada a curar-se da paixão.

Metamorfoses: buscando um novo rumo para a épica, Ovídio compõe um poema de difícil classificação. Escrito em hexâmetros e com feições épicas (com invocação, proposição e narração), as Metamorfoses são um longo poema de 15 livros em que são narradas cerca de 250 histórias mitológicas que envolvem algum tipo de transformação. Segundo o próprio Ovídio, nos Tristia (Cantos Tristes), seu poema, por conta do exílio em Tomos, ficou sem a revisão que gostaria de fazer.

Fastos: escrito em dísticos elegíacos, trata-se da explicação da origem das festividades religiosas, um calendário do ano litúrgico romano. Nos Tristia (II, 549-552), Ovídio diz ter escrito 6 livros e outros tantos dos Fastos.

Tristia (Cantos Tristes): 5 livros de poesia elegíaca da época do exílio, enviados a Roma. Seus destinatários, evidentemente, não são identificados, exceto a sua esposa, que pode ser reconhecida claramente. (…)

Epistulae ex Ponto (Cartas do Ponto): obra composta de 3 livros (e um 4º, póstumo) de cartas poéticas (epístolas elegíacas), com a explicitação do nome do destinatário, numa tentativa de persuadir seus amigos a intercederem por ele. [Algo extremamente comum entre os poetas antigos, por sinal.]

Ovídio ainda escreveu Ibis (uma espécie de poesia como arma, em tom agressivo), Halieutica (pequeno poema didático sobre peixes e a pesca) e, provavelmente, uma Medea (de que nos restam apenas 2 versos).

OVID. Heroides – Amores. Translated by Grant Showerman and revised by G.P. Goold. Cambridge, Massachusetts, London: Harvard University Press, 1977.

Non ego, ne pecces, cum sis formosa, recuso,

sed ne sit misero scire necesse mihi;

nec te nostra iubet fieri censura pudicam,

sed tamen, ut temptes [tentar] dissimulare, rogat.

Non peccat, quaecumque potest peccasse negare,

solaque famosam culpa professa facit.

Quis furor est, quae nocte latent, in luce fateri,

et quae clam [ocultamente] facias facta referre palam? [publicamente]

Ignoto meretrix corpus iunctura Quiriti

opposĭta popŭlum summovet ante sera; [fechadura]

tu tua prostitues [exposta] famae peccata sinistrae

commissi [crime] perăges indiciumque tui?

Sit tibi mens melior, saltem[-]ve [ue: ou; saltem: ao menos] imitare pudicas,

teque probam, quamuis [quando muito] non eris, esse putem.”

GLOSSÁRIO:

iunctura: que está para unir (do verbo iungo, -is, -ere, iunxi, iunctum: unir. Do tema do supino se forma o particípio futuro: iuncturus, -a, -um: que está para unir) [juntura, conjuntura]

opposita: colocada (diante) (particípio passado do verbo oppono, -is, –ere, posŭi, -positum: colocar diante, formado pela preposição ob, diante de, e pelo verbo pono)

submovet: afasta (do verbo submoveo ou summoveo, -es, -ere, -movi, -motum: afastar, formado pela preposição de acusativo e ablativo sub + verbo moveo)

Dupla negação

No início da elegia que traduzimos nesta unidade, ocorre uma dupla negação. Veja:

Non ego, ne pecces, cum sis formosa, recuso”

(Já que és formosa, não me oponho a que me traias) CUCK!

Em eu não me oponho a que não me traias, entende-se, em latim, eu não me oponho a que me traias, de forma que a dupla negação, aqui, se lê como uma afirmação.(*)

(*) Paulo Sérgio de Vasconcellos, em sua Sintaxe do Período Subordinado Latino (2013), apresenta exemplos, a partir de Plauto, Ovídio, Cícero, Catulo e Petrônio, de dupla negação que continua negando. Para ele, ‘a presença, na língua popular, desde Plauto, da dupla negação que continua negando mostra que a dupla negação das línguas românicas não é uma criação nova: estava no latim desde muito cedo e, de quando em quando, aparece nos textos que a nós nos chegaram.’ (p. 57)”

Verbo sum

No texto desta unidade, em alguns versos, o verbo sum aparece nos tempos do subjuntivo:

Non ego, ne pecces, cum sis formosa, recuso,

sed ne sit misero scire necesse mihi;

(Já que sejas formosa, eu não me oponho a que me traias

mas que não seja necessário a mim, desgraçado, ter conhecimento)

…sit tibi mens melior, saltemue imitare pudicas,

teque probam, quamuis non eris, esse putem.

(A ti seja uma mente melhor, ou ao menos imita as pudicas

e logo, ainda que não fores, que eu te repute virtuosa)

quando muito não o sejas, tenha a aparência.

A enclítica –ve (ou)

A enclítica –ve é uma conjunção coordenativa, unindo termos equivalentes. Também é coordenativa a conjunção vel (‘ou’). Outra conjunção coordenativa já muito vista por nós é a conjunção et (‘e’). Devemos ter atenção ao analisar textos, verificando se essas conjunções (vel e et) unem termos equivalentes. Quando isso não ocorre, trata-se na verdade de advérbios: et (‘até’, ‘também’) e vel (‘até’, ‘também’, ‘talvez’).”

Pronome interrogativo

Origem do nosso ‘né’? De qualquer modo, até o japonês possui um mecanismo muito similar em sua gramática ou oralidade.

Verbos semidepoentes

Já estudamos e aprendemos a reconhecer um verbo depoente: verbo que apresenta terminações de voz passiva, mas que tem sentido ativo. Conforme vimos, são verbos que originalmente apresentavam terminações de ativa e de passiva e que abandonaram as formas ativas, passando as formas passivas a assumir o sentido ativo. Um verbo depoente é reconhecido nos vocabulários e dicionários por apresentar as terminações de passiva, diferentemente dos demais verbos, que apresentam as terminações de ativa. Os semidepoentes são verbos que têm, nos tempos de ação inacabada (infectum), as formas ativas, seguindo, nos tempos de ação acabada (perfectum), a conjugação dos depoentes.”

Diferentemente dos depoentes, que são em maior número, os semidepoentes são poucos, mas podem também ser identificados em dicionários: audĕo, -es, -ere, ausus sum (ousar); fido, fidis, fidĕre, fisus sum (fiar-se); gaudĕo, -es, -ere, gavisus sum (regozijar-se); solĕo, -es, -ere, solitus sum (estar habituado).

O verbo fieri (‘tornar-se’), apesar de se apresentar à maneira dos semidepoentes, possui algumas particularidades, funcionando, por exemplo, como passiva de facere (‘ser feito’, ‘ser criado’), razão pela qual costuma ser incluído entre os irregulares.

nec te nostra iubet fiĕri censura pudicam

(nem a nossa censura ordena tu te tornares pudica/que tu te tornes pudica)”

Particípio futuro

.. ignoto meretrix corpus iunctura Quiriti

(… a meretriz que está para unir o corpo ao desconhecido cidadão romano…)

Concordando com meretrix (feminina da 3ª) está a forma iunctura (forma feminina do particípio futuro iuncturus, -a, -um, do verbo iungo, -is, –ere, iunxi, iunctum, que significa unir, daí o particípio futuro ser traduzido por que está para unir).”

Elegia III, 14 (Ovídio, Amores)

Tunc amo, tunc odi frustra quod amare necesse est;

tunc ego, sed tecum, mortuus esse velim!

Nil equĭdem inquiram, nec quae celare [calar] parabis

insequar, et falli muneris instar [como; analogamente a] erit.

Si tamen in media [meio ou duvidoso] deprensa tenebere culpa,

et fuerint oculis probra [traição] videnda [que será vista] meis,

quae bene visa mihi fuerint, bene visa negato

concedent verbis lumina nostra tuis.

Prona tibi vinci cupientem vincere palma est,

sit modo [contanto que (neste contexto)] ‘non feci!’ dicere lingua memor.

Cum tibi contingat verbis superare duobus,

etsi [ainda que] non causa, iudice [julgar, julgamento] vince tuo!”

GLOSSÁRIO:

moecha: mulher adúltera

VOCABULÁRIO ESSENCIAL

-que

amo

ante

bene

causa

concedent

contingat

cum

cupientem

dicere

duobus

facit/facias/feci

famae

fateri

fiĕri : a ser feito, a se tornar

furor

ignoto

in

iubet : ordena

latent

luce

lumina

media

mens

mihi

misĕro

modo

munĕris

nec

necesse

negare

nocte

ocŭlis

parabis

popŭlum

potest

putem

quis

rogat

scire : saber

sed

si

sis/fuĕrint/sit/esse/eris – sis sit fui, foi

sola

superare

tamen

tunc

velim : volo, subj.

verbis

vince

ut

UNIDADE CATORZE:

Tristĭa (I, 7)

OVÍDIO

Na elegia escolhida para esta unidade, Ovídio lamenta não ter podido revisar as suas Metamorfoses (Carmina mutatas hominum dicentia formas) e sugere alguns versos que podem ser colocados no frontispício do primeiro livro da obra, advertindo o leitor quanto a [seu] caráter inacabado.”

OVIDE. Tristes. Texte établi et traduit par Jacques André. Quatrième tirage. Paris: Les Belles Lettres, 2008.

Tristia (I, 7)

Grata tua est pietas, sed carmina maior imago [memória]

Sunt mea quae mando qualiacumque legas,

Carmina mutatas hominum dicentia formas,

Infelix domini [autor] quod fuga rupit opus.

Haec ego discedens, sicut bene multa meorum,

Ipse mea posui maestus [muito aflito] in igne manu;

Utque cremasse suum fertur sub stipite [tição] natum

Thestias, et melior matre fuisse soror,

Sic ego non meritos, mecum peritura, libellos

Imposui [impor] rapidis, viscera nostra [vísceras ou nossas criações], rogis, [piras ou túmulos]

Vel quod eram Musas, ut crimina [pretextos, neste contexto] nostra, perosus, [avesso a]

Vel quod adhuc crescens et rude carmen erat.

Quae quoniam non sunt penitus [completamente] sublata, [removido, destruído, tollo] sed extant

Pluribus exemplis scripta fuisse reor [eu acho] –,

Nunc precor ut vivant et non ignava [preguiçosa, insegura] legentem [leitor]

Otia delectent admoneantque mei.

Nec tamen illa legi poterunt patienter ab ullo,

Nesciet his summam si quis abesse manum;

Ablatum [arrancar à força] mediis opus est incudibus [bigornas, peso] illud

Defuit [Falta] et scriptis ultima lima [retoque] meis,

Et veniam pro laude peto, laudatus abunde, [suficientemente]

Non fastiditus si tibi, lector, ero. [Fazer o possível para não desprezar o leitor]

Hos quoque sex versus, in prima fronte libelli

Si praeponendos esse putabis, habe:

Orba parente suo quicumque volumina tangis,

His saltem vestra detur [dado] in urbe locus;

Quoque magis faveas, haec non sunt edita ab ipso,

Sed quasi de domini funere rapta sui.

Quicquid in his igitur [portanto] vitii rude carmen habebit,

Emendaturus, si licuisset, eram.’

Tudo falsa modéstia.

GLOSSÁRIO:

perĭto, -as, -are: (freq. de pereo) morrer

reor, -eris, -eri, ratus sum: (depoente) pensar, julgar, crer (constrói-se com proposição infinitiva, com dois acusativos e é usado em frases parentéticas)

autem: além disso, outrossim

spiro: soprar spyro the dragon, quão original!

ascia: enxada

crus, cruris: perna

fingo: imaginar (finGir), formar, vencer, dominar… que gradação!

impingo: espetar (impingir)

lectum: escolhido (de lego, legere) se eu delego, eu também lego (escolho)

olla: panela

necnon, nec non ou neque non: (adv.): e também

nunc…nunc…: ora… ora… (ora isso, ora aquilo) ag-ora

Danai, -orum ou –um: os gregos

ter: 3x

quater: 4x

Altéia é uma Testíade. Diz-se Testíade por ser filha de Téstio. Altéia era esposa de Eneu, rei de Cálidon, e mãe de Dejanira e Meleagro. Passados 7 dias do nascimento de seu filho, as Moiras a visitaram e fizeram uma predição sobre o seu futuro, dizendo que a criança morreria se o tição que queimava na lareira se consumisse inteiramente.”

carmina dicentia = os versos que cantam”

dicência

mando : recomendo

ILLE, ILLA, ILLUD (cont.)

At ille murem peperit.

(Mas aquela pariu um rato.)

O pronome ille, no nominativo masculino singular, é sujeito de peperit. Veja que ille é masculino e nós o traduzimos por feminino. É que ille, na fábula Mons parturiens, de Fedro, retoma a palavra mons, que é masculina em latim. Em português, a palavra montanha é feminina.”

O pronome ille, illa, illud também antecede o relativo (ille qui = aquele que) e também pode ser empregado em construção com hic, em que hic se refere à última pessoa citada e ille, à primeira”

Galli et Romani pugnant; hi vincunt; illi vincuntur.

(Gauleses e romanos lutam; estes vencem, aqueles são vencidos)

Os pronomes hic e ille também se empregam juntos, significando um e outro:

Laborant; hic legit, ille scribit

(Trabalham; um lê, o outro escreve)”

Verbos derivados

Conforme vimos na unidade 8, em latim, do verbo sum se derivam outros tantos verbos, mediante a junção de um prevérbio (um prefixo) ao verbo.”

(recapitulação!)

absum: estar ausente, faltar = desum

possum: poder

prosum: ser útil, somar

intersum: participar (etimologia de interesse)

insum: estar dentro

ex+stare

Quae quoniam non sunt penitus sublata, sed extant

(Porque estes não foram destruídos completamente, mas subsistem)

É como se survive no Inglês tivesse um sinônimo ex-stand. Ficar-para-além, permanecer mais…

Gerundivo

O gerundivo é uma forma nominal do verbo latino que corresponde a um adjetivo. Ele se diferencia do gerúndio por ser passivo. Além disso, tem todos os casos, além de ter os 3 gêneros e os 2 números. Apresenta dois valores: exprime a idéia de destinação, quer ativa, quer passiva, e exprime a idéia de obrigação.”

magister discipulo libros legendos dedit [legere*]

os livros foram dados pelo professor, COM O EXPRESSO FIM DE QUE ELE LESSE

= PARA SEREM LIDOS

delenda est Carthago [delere*]

Cartago deve ser destruída

(*) “A partir do radical do infectum dele- ou lege-, acrescenta-se o morfema –(e)nd- mais as terminações -us, -a, -um, de adjetivos de 1ª classe.”

No texto desta unidade, observamos o uso de um gerundivo do verbo praeponěre (colocar à frente). Como a construção é de gerundivo, a tradução indica uma obrigação na ação, ou melhor, uma destinação, já que, nesse caso, o verbo putabis (julgares) retira a ideia de obrigação:

…in prima fronte libelli

Si praeponendos esse putabis…

(…se julgares (que) eles devem ser postos no frontispício do livro…)”

Na unidade seguinte, observaremos algumas particularidades do uso do gerúndio e do gerundivo.”

Voz passiva analítica (cont.)

Quae quoniam non sunt penitus sublata, sed extant

(Porque estes não foram destruídos completamente, mas subsistem…)

…ablatum mediis opus est incudibus illud…

(…aquela obra foi arrancada do(s) meio(s) da(s) correção(ões)…)

Olhando muito rapidamente essas construções, somos inclinados a traduzi-las por são destruídas e é arrancada, respectivamente. Trata-se, contudo, da voz passiva analítica do latim, que se faz para os tempos do perfectum.”

amatus, -a, um sum: eu fui amado (a)

amati, -ae, -a sumus: nós fomos amados (as)

amatus eram: eu fora amado (ou tinha sido amado)

amatus ero: eu terei sido amado

amatus sim: eu tenha sido amado

amatus essem: eu tivesse sido amado

Lembre-se: Sou amado em latim diz-se amor, com a terminação -r da passiva sintética.”

O gerundivo não passa ao português com forma morfológica. A idéia de destinação e de obrigação é feita em português com perífrases verbais. Algumas formas de gerundivo passaram, contudo, ao português como substantivos: agenda (as coisas que devem ser feitas); Amanda (a que deve ser amada); corrigenda (as coisas que devem ser corrigidas); legenda > lenda (as coisas que devem ser lidas).”

Elegia I, 7 (Ovídio, Tristia)

vv. 35-40

Orba parente [autor, pai da obra] suo quicumque volumina tangis, [mexer na obra]

His saltem vestra detur in urbe locus;

Quoque magis faveas, [E para que fosse mais favorável] haec non sunt edita ab ipso, [publicadas sem mim]

Sed quasi de domini funere rapta sui. [morte inesperada, morte/vida ‘raptada’]

Quicquid in his igitur vitii rude carmen habebit,

Emendaturus, si licuisset, [se é lícito… foram corrigidas] eram.”

POESIA ÉPICA

UNIDADE QUINZE:

Metamorfoses, I, 1-14

O proêmio e a narração sobre o caos

OVÍDIO

In nova fert anĭmus mutatas dicěre formas

corpora; Di, [deuses no vocativo] coeptis, [empreendeis, cooptais] nam [de fato] vos mutastis et illas, [transformastes aquelas]

adspirate meis primaque ab origĭne mundi

ad mea perpetuum deducĭte tempora carmen.

Ante mare et terras et, quod tegit omnia, caelum

unus erat toto naturae vultus in orbe,

quem dixere chaos, rudis indigestaque moles [massa]

nec quicquam nisi pondus iners [inerente] congestaque eodem

non bene iunctarum discordia semĭna rerum.

Nullus adhuc mundo praebebat lumĭna Titan,

nec nova crescendo reparabat cornua Phoebe,

nec circumfuso pendebat in aere tellus [terra]

ponderĭbus librata suis, nec bracchia [braço] longo

margĭne terrarum porrexerat [atingira, dera, apresentara] Amphitrite.

[…]”

a palavra deus apresenta o mesmo radical que origina a forma divos ou divus, que quer dizer ‘deus’, ‘divindade’ e também é utilizada como adjetivo, com o sentido de ‘divino’. Em sua declinação veremos algumas particularidades.”

As Titânides eram: Febe, a da coroa de ouro, Titânide da lua (…) Phoebe: Febe (Diana ou a Lua, irmã de Febo, Phoebus, que é Apolo, o Sol)” Mas Diana não era filha de Zeus? Bom, no Olimpo tem de tudo mesmo… Pode ser irmã e tia de Apolo ao mesmo tempo…

o verbo dico, -is, dicere, dixi, dictum, além de significar dizer, consagrar, proferir, também quer dizer cantar; cantar como trabalho do poeta, daí os livros serem chamados também de cantos (…) o verbo dico, -is, dicere, dixi, dictum tem [ainda] o sentido de chamar, designar. Traduz-se dixere da mesma forma que dixerunt, ou seja, pela 3ª pessoa do plural do pretérito perfeito”

Os cantos são diferentes do centro, que é silencioso.

Como mudou? Ora, mudou mudando!

Declinação de deus, dei

A palavra deus, da 2ª declinação, apresenta algumas particularidades de declinação.”

O vocativo singular de deus se registra após a época cristã, e a sua forma no chamado período da decadência é igual ao nominativo (deus). No período clássico, o vocativo utilizado é dive (de divus).” Fora com deus daqui!

As palavras em –ĭus da 2ª declinação terão geralmente vocativo em –i. Isso ocorre com nomes próprios (à exceção daqueles de origem grega, como Darīus, com o ī, que fará o vocativo em –e: Darie) e com palavras como filius (voc. fili), genius (voc. geni). Também fará vocativo em –i o pronome meus.”

GLOSSÁRIO

alvus: ventre

publĭce: (adv.) às custas do Estado

satis: (adv.) satisfatoriamente

tueri: defender – em francês tuer é praticamente a antonomásia!

Síncopes verbais

A 3ª pessoa do plural do pretérito perfeito, além da terminação em –erunt, pode também ser em -ere:

… quem dixere chaos

(… a qual chamaram caos)

X vs. C: Aparentemente, imaginamos se tratar de um infinitivo, pela terminação -ere, mas o infinitivo do verbo é dicere.

dico, -is, dicěre, dixi, dictum

dixerunt = dixere”

(espécie de síncope ainda mais elaborada)

Gerúndio

O gerúndio pode se construir com um objeto direto, em função da sua regência:

a) Cupidus legendi fabulam (desejoso de ler a fábula)

Nesse tipo de construção, o gerúndio pode ser substituído pelo gerundivo e não haverá alteração de sentido:

b) Cupidus fabulae legendae (desejoso de ler a fábula)

Nesse caso, o gerundivo não indica uma idéia de obrigação.”

desejoso de ver a cidade:

cupidus videndi urbem

cupidus urbis videndae

A substituição não deve ocorrer quando o complemento do gerúndio é um adjetivo ou pronome neutro:

Cupidĭtas discendi alĭquid (Desejo de aprender algo)

Em algumas situações, torna-se obrigatória a substituição do gerúndio pelo gerundivo:

1. Quando o gerúndio deveria estar no dativo: Impar fami ferendae (incapaz de suportar a fome), e não impar ferendo famem. Nesse caso, o adjetivo impar se constrói com dativo, de forma que o gerundivo e seu complemento vão para esse caso, em concordância de gênero e número.

2. Quando o gerúndio está no acusativo com ad: Magister tacuit ad voces audiendas (O professor se calou para ouvir as vozes) e não ad audiendum voces.

3. Quando o gerúndio está no ablativo com preposição: deterruit eum a bello faciendo (dissuadiu-o de travar a guerra) e não a faciendum bellum.”

Heranças do português

Em português, em certos registros lingüísticos, também ocorrem síncopes de toda ordem: paralepípedo [dessa eu ainda não tinha ouvido falar] por paralelepípedo; bebo por bêbado; cosca por cócega; chacra por chácara.”

O gerúndio no português manteve apenas sua forma de ablativo, como um adverbial. Os usos dos demais casos foram substituídos por preposições seguidas do verbo na sua forma de infinitivo.” O que é, convenhamos, 300x mais conveniente!

A separação dos elementos (I, vv. 15-27)

Utque erat et tellus illic et pontus [oceano] et aer,

Sic erat instabilis tellus, innabilis unda,

Lucis egens [extraindo] aer; nulli sua forma manebat

Obstabatque aliis aliud, quia corpore in uno

Frigida pugnabant calidis, umentia siccis,

mollia cum duris, sine pondere habentia pondus.

Hanc deus et melior litem natura diremit;

Nam caelo terras et terris abscidit undas

Et liquidum spisso [denso] secrevit ab aere caelum.

Quae postquam evoluit caecoque exemit acervo,

Dissociata locis concordi pace ligavit.

Ignea convexi vis et sine pondere caeli

Emicuit [irrompeu] summaque locum sibi fecit in arce. [de arx, nas alturas]

GLOSSÁRIO:

coeptis: começar

cornua: corno ou meia-lua, dependendo do contexto

eodem: igualmente

habentia: tendo

vultus: rosto (LEMBRE-SE!)

Deuses brigando:

– Foi você que começou!

– Não, foi você!

– Parem de brigar, meninos! (Essa é Gaia.)

A que pontus chegamos!

UNIDADE DEZESSEIS:

Metamorfoses, I, 69-81

A criação dos animais e o surgimento do homem

OVÍDIO

Vix [Mal, no sentido de logo que] ita limitĭbus dissaepserat [separada] omnia certis

cum, [neste contexto, quando] quae pressa [comprimido] diu [de dia] massa latuere [escondida] sub illa,

[Mal havia o caos sido separado e a terra e os céus organizados distintamente, quando…]

siděra [constelação] coeperunt toto effervescěre caelo.

[as constelações começaram a se espalhar, criando novas coisas]

Neu [E não] regio foret [estivesse, do sum, fuisse] ulla suis animalibus orba, [privado de]

astra tenent caeleste solum formaeque deorum,

[O céu se espalhou/estendeu para que a terra não estivesse privada de animais]

cesserunt nitidis [abundantes] habitandae piscibus undae,

terra feras cepit, volucres [alado(s)] agitabilis aer.

[e se viram peixes sem conta no mar, feras começaram a rumar pela terra, pássaros surgiram no ar…]

Sanctius his animal mentisque [discernimento, mente provida de razão] capacius altae

deerat adhuc et quod dominari in cetera posset.

[Afora aquela criatura que por suas capacidades dominaria todas as outras]

Natus homo est; sive [quer…] hunc divino semine fecit

[O homem, feito e compartilhando da semente divina]

ille opĭfex [criador, autor] rerum, mundi melioris origo,

[da melhor parte de deus]

sive […quer] recens tellus seductaque [afastada, retirada] nuper [ainda há pouco] ab alto

aethere cognati [aparentado] retinebat semina caeli.”

[quer seja fortuito que a terra, recentemente separada do céu, tenha mantido o germe divino ou seja: casual ou voluntariamente, o fato é que o homem, animal superior, existe.]

GLOSSÁRIO:

aether, -ěris ou ěros: “(m) éter, região superior do ar que envolve a atmosfera; parte do céu, sede do fogo; fogo; o céu, a mansão dos deuses; o ar; o mundo dos vivos (por oposição aos infernos)”

evenio: evento

tenent: “do verbo teneo, -es, -ere, tenui, tentum, que quer dizer ter, segurar, atingir, obter, dirigir, compreender, perceber, adquirir, saber, manter, perseverar, conter. Também significa governar, comandar”

Palavras compostas

As palavras compostas são formadas por mais de um elemento sendo o primeiro uma partícula ou um tema nominal. Nos compostos nominais, o primeiro elemento é um tema nominal que se apresenta geralmente sem desinências, tomando um –i final. Veja uma palavra que apareceu no texto desta unidade:

opĭfex, -ĭcis: (m e f)

Do substantivo opus (obra) + -fex (do verbo facio, fazer, criar) significando: criador, autor, artista

fazedor de obra, aquele que faz obra

pontifex: aquele que possui autoridade, aquele que faz a ligação (espiritual)

O primeiro elemento de um composto nominal pode tomar um –u final se o segundo elemento começar por uma consoante labial:

locuples, -etis:

Do substantivo locu (terras) + -ples (do verbo pleo, encher) significando: rico em terras”

me locupleto. repleto.

Os compostos verbais são formados quase que exclusivamente por meio de partículas prepositivas, originando verbos derivados:

abest:

partícula prepositiva ab- (ideia de afastamento) + est (estar) significando: está ausente

adest:

partícula prepositiva ad- (ideia de aproximação) + est (estar) significando: está presente

Alguns prefixos ou partículas podem sofrer alterações por conta de assimilações fonéticas:

affero:

partícula prepositiva ad- (ideia de aproximação) + fero (levar, trazer) significando: trago, levo para ou contra, anuncio

oppono:

partícula prepositiva ob- (em face de) + pono (pôr) significando: oponho”

Estruturas correlativas

sive…sive

AB-HORTO & AD-OPÇÃO: “Muitos dos compostos latinos passam ao português com a perda do sentido dos elementos da composição. Assim, um falante do português dificilmente percebe em uma palavra como aborto a formação a partir da partícula prepositiva ab- (negação, afastamento) e do substantivo ortus (nascimento), significando negação do nascimento. O contrário também ocorre com adoção, em que os elementos da composição (ad-, idéia de aproximação, e optio, significando opção) não são mais percebidos.”

Quam satus [gerado, plantado] Iapěto [pai de Prometeu, portanto praticamente nosso pai também] mixtam pluvialĭbus undis

finxit [modelou, esculpiu] in effigĭem moderantum cuncta deorum;

pronăque [inclinado] cum spectent animalĭa cetěra terram,

os [boca, rosto, fisionomia…] homĭni sublime dedit caelumque tueri

iussit [ordenasse] et erectos ad siděra tollěre vultus. [levantar o rosto]

Sic, modo quae fuěrat rudis et sine imagĭne, tellus

induit ignotas homĭnum conversa [transformada] figuras.”

1 Quid dedit deus homini?

2 Quid iussit deus homini?

3 Quomŏdo fuěrat tellus?

4 Qui fit terra?

5 Verte versus lusitane.”

UNIDADE DEZESSETE:

Metamorfoses, I, 89-107

A idade de ouro

OVÍDIO

No exercício, ao final desta unidade, analisaremos os versos de 113 a 124, que tratam da idade de prata, momento em que reina Júpiter, após a expulsão de Saturno para os tártaros tenebrosos.”

Ida de dela tá

Metamorfoses (I, 89-107)

Aurěa prima sata est aetas, quae vindĭce nullo,

sponte sua, sine lege fidem rectumque colebat.

Poena metusque aberant nec verba minantia fixo

aere legebantur, nec supplex turba timebat

iudicis ora sui, sed erant sine vindice tuti.

Nondum caesa [esverdeada] suis, peregrinum ut viseret orbem,

montĭbus in [contra] liquĭdas pinus descenděrat undas

nullaque mortales praeter sua litora norant.

Nondum praecipĭtes cingebant oppĭda fossae; [nenhuma cidade precisava de muros]

non tuba directi non aeris cornua flexi,

non galeae, non ensis erat; sine militis usu

mollia securae peragebant otĭa gentes.

Ipsa quoque immunis rastroque intacta nec ullis

saucia vomerĭbus per se dabat omnia tellus;

contentique cibis nullo cogente creatis [a terra dava de comer a todos os homens]

arbuteos fetus montanaque fraga legebant

cornaque et in duris haerentia mora rubetis

et quae deciderant patula [abundante] Iovis arbore glandes.

ver erat aeternum…”

Uso do dicionário

A partir deste momento, trabalharemos na direção do uso mais freqüente do dicionário, razão pela qual os vocabulários passarão a contar com um número cada vez mais reduzido de palavras.” Já estava na hora, amiguinho… Você vinha repetindo o léxico sem dó!

GLOSSÁRIO:

aes, aeris: (n) bronze, dinheiro, moeda, fortuna” “Não confundir com aer, aĕris, palavra masculina também da 3ª declinação que significa ar, ar atmosférico)”

na idade de ouro não se pagava com o bronze

na era do estanho tudo começou a ficar estranho

muita gente doente, expectorando ranho

deuses se vendendo como putas aos fiéis

ah, meus brônzeos pulmões de aço!

caedo, -is, -ěre, cecidi, caesum: bater, abater, cortar, matar, massacrar, partir, decepar”

caedo ou tarde todo mundo vai pra vala

cornum, -i: pilrito (fruta avermelhada)”

directus: também rígido

flexus: curvado

fraga, -orum: morangos (n. pl.)

haereo, -es, -ere, haesi, haestum: estar ou ficar ligado a”

lego, -is, -ěre, legi, lectum: colher, reunir”

as lendas reúnem tudo sobre um povo, eu mito mas não minto

« minans (gen. minantis): part. pres. de minor minor, -aris, -ari, -atus sum: (dep.) ameaçar”

ameaçado, minou minha confiança, então subi à superfície varonil da indiferença

menace, the golden age, and axe, X from Hera, Y from Zeus

men-race

logo se vê que a rigidez era a manutenção do respeito no reino do trovão

norant: forma sincopada de nouěrant. (ver nosco)

nosco, -is, -ěre, novi, notum: começar a conhecer.”

noras são pessoas muito espertas

ignoto, não noto s’ich bin Weisser. mnemônico saber ôntico

os, oris: (n) face, olhar, fisionomia, expressão fisionômica”

uma cara assim assaz dourada

na churrasqueira do hades

cerveja ósculo: caracu

praeceps (gen.: praecipĭtis): que se inclina, precipitado, íngreme, maléfico, perigoso, temerário”

o que é mau não tem princípio, me parece, cai no precipício da precipitação

panteão dos folgados

pente dos folguedos

satus, -a, -um: part. pass. de sero

sero, -is, -ěre, seui, satum: plantar, semear, criar, gerar”

fazer serão é passar a madrugada plantando na horta, semeando a vagem, mamando a glande do jardim profícuo, até ficar, sensata, saciada.

spontis: vontade, desejo, voluntariamente, por si mesmo, por sua própria vontade (sponte sua); sponte (abl.)”

desponta um feto um fato um novo dia de livre volição

vindex, -ĭcis: (m e f) fiador, vingador, protetor”

glande do carvalho – mostrando como a natureza era viril na idade de ouro!

Poderia ser uma palavra de difícil localização no dicionário, já que em seu nominativo ocorre a perda da consoante dental <t>. Em casos de palavras como essas, para localizá-las no dicionário, consideramos seu genitivo spontis e levamos em conta que a dental que antecede a terminação -is do genitivo não aparece no nominativo (spons, spontis). O mesmo ocorre com dens, dentis ou cupiens, cupientis.”

Os tradutores disponíveis hoje em português, mesmo os sumos, são horrendos. Nenhum sentido de beleza, nenhuma harmonia com o vernáculo!

Os dicionários costumam informar se se trata de um verbo depoente.”

!recordar é viver! “Os verbos semidepoentes são aqueles – poucos – que apresentam, nos tempos do infectum, as formas ativas, e, para os tempos do perfectum, seguem a conjugação dos depoentes. audĕo, -es, -ere, ausus sum: ousar”

o usar da língua

o ousar da língua

levanto o braço e mostro a ingua

em alguns verbos, ocorrem síncopes, algumas das quais são registradas”

Atenção aos pluralia tantum

Palavras que só são utilizadas no plural (ou que no plural podem ter outro significado) aparecem registradas no nominativo e genitivo plural: fraga, -orum

Fragrâncias do Nordeste

Atenção a palavras com particularidades morfológicas

Algumas palavras em latim apresentam diferenças temáticas significativas entre o nominativo e o genitivo, o que pode ocasionar alguma dificuldade para sua localização no dicionário.

iter, itiněris: (n) viagem

Iuppĭter, Iovis: (m) Júpiter

os, ossis: (n) osso [afirmativo, mestre Wing!]

cor, cordis: (n) coração [Pelé tricordiano – violão de 7 cordas tem muita emoção – coração de escorpião cordissimulado]

caro, carnis: (f) carne [no Brasil 2016-2022, muito fácil associar!]

bos, bovis: (m) boi [chefe é tudo gado – Madame Vacary; Simone de Boo Vwa]

sus, suis: (m) porco [je suis suíno suinócuo suicídio que emporcalhou tudo, era neurônio espalhado que nem merda pra todo lado! Among us, no sistema único de saúde mais próximo…]

iusiurandum, iurisiurandi: (n) juramento

respublica, reipublicae: (f) o Estado”

quero colônia de exploração, vou fugir de casa

* * *

FINALMENTE TERCEIRO (JÁ ESTAVA DANDO TRABALHO FICAR NO ALTO DO PÓDIO)

Postquam, Saturno tenebrosa in Tartara misso,

sub Iove mundus erat, subiit argentea proles, [BICAMPEÃ DO MUNDO!]

auro deterior, fulvo pretiosior aere.

Iuppiter antiqui contraxit tempora veris

perque hiemes aestusque et inaequalis autumnos

et breve ver spatiis exegit quattuor annum.

tum primum siccis aer fervoribus ustus [incendiar, urânio]

canduit, et ventis glacĭes adstricta pependit;

tum primum subiere domos; domus antra fuerunt

et densi frutices et vinctae [vincular] cortice virgae. [com vara curta]

semina tum primum longis Cerealia sulcis

obruta sunt, pressique iugo gemuere iuvenci.”

ACABOU A GENEROSIDADE! VEM O GENERAL, NEM DA TERRA NEM DOS MARES!

O ablativo absoluto

Tomando a estrutura em destaque nos versos abaixo, perceberemos uma construção especial em latim, o ablativo absoluto, formado por um nome no ablativo acompanhado por um particípio também no ablativo. Como resulta numa oração completamente independente sintaticamente da oração principal a construção é chamada de ablativo absoluto:

Postquam, Saturno tenebrosa in Tartara misso,

sub Iove mundus erat, subiit argentea proles…”

Exatamente como se fosse um epíteto, fixado, solidificado. Quer algo mais absoluto que o tempo que eu te dedico?

a província cis-platina é –a mas é transfóbica!

Caesar, dux, Rubiconem flumen transit

VERTA: “Hostibus victis, civibus salvis, re placida, pacibus perfectis, bello exstincto, re bene gesta, integro exercitu et praesidiis, cum bene nos, Iuppiter, iuvisti, dique alii omnes caelipotentes, eas vobis habeo gratis atque ago, quia probe sum ultus meum inimicum.”

Após os inimigos vencidos, os cidadãos salvos, tudo em paz, a paz consumada, a guerra terminada, as coisas bem-conduzidas, todos do exército em de suas guarnições vivos, com a bênção de Júpiter, e sabeis ó vós outros deuses onipotentes do firmamento, tenho vossa graça, e por isso realizei minha vingança.”

Plauto, Persas, vv. 753-56

GLOSSÁRIO:

eo, is, ire, ivi ou ĭi, itum: ir (futuro imperfeito, ibo)

proelium: batalha

UNIDADE DEZOITO:

Metamorfoses, I, 125-136

A idade de bronze e a idade de ferro

OVÍDIO

Nesta unidade, analisaremos os versos de 125 a 136, que tratarão sobre a idade de bronze (cruel, mas não criminosa) e a idade de ferro (atroz e criminosa). Ao final desta unidade, analisaremos os versos de 141 a 150, continuando a leitura sobre a idade de ferro, com o surgimento das guerras e das traições de toda ordem.” Que beleza!

Metamorfoses (I, 125-36)

Tertĭa post illam successit aeněa proles,

saevĭor [mais indomáveis, revoltosos] ingenĭis et ad horrĭda promptĭor arma, [a qualquer hora prontos para pegar em armas]

non scelereta tamen. [mesmo os que não eram criminosos] De duro est ultĭma ferro;

Protĭnus [De súbito] inrupit venae peioris in aevum [age]

omne nefas; fugere pudor verumque fidesque,

in quorum subiere [sucederam-se] locum fraudesque dolique

insidiaeque et vis et amor sceleratus habendi. [a vontade criminosa de tudo possuir, a sede insaciável de se apoderar das coisas – cobiça, sanha]

Vela dabat ventis neque adhuc bene nověrat illos

navĭta quaeque diu stetěrant in montĭbus altis

fluctĭbus ignotis insultavere carinae [fez saltar a quilha, i.e., deixou todas as embarcações ‘morais’ de ponta-cabeça]

communemque prius, ceu lumĭna solis et auras,

cautus humum [terreno] longo signavit limĭte mensor.”

GLOSSÁRIO:

armas: “Com o sentido de armas defensivas, pode ser oposto a tela (telum,–i), armas ofensivas. Também pode significar guerra, combate, homens armados, exército)”

promptior: “mais disposta (do adjetivo promptus, -a, -um, no grau comparativo de superioridade. Pode significar tirado para fora, exposto, que está à mão. Próximo a esse último sentido, também significa disposto, inclinado a, pronto, ativo)”

nefas: “atrocidade (palavra indeclinável, que pode significar o que é proibido pela lei divina, o que é ímpio, injusto ou criminoso. (…) Nefas é uma palavra formada pela negação ne + fas, que quer dizer expressão da vontade divina, o que é lícito, o destino. A expressão fas est traduz-se por é permitido, é lícito)”

steterant: “estiveram imóveis (o verbo stare em latim significa estar de pé, estar levantado; é o contrário de iacere, jazer, estar deitado. O sentido estar, como temos no português, é dito pelo verbo esse. No contexto trabalhado, pode-se traduzir o verbo stare por estar imóvel)”

noverat: “conhecera (o verbo do texto é o verbo nosco, -is, -ere, novi, notum, que quer dizer conhecer, saber; em latim, há também o verbo novo, -as, -are, novavi, novatum, com o sentido de renovar)”

diu: “aqui deve ser traduzido por há muito tempo, durante muito tempo”

em alguns verbos, como o verbo subire, o perfeito pode ter uma outra forma, com uma síncope do –v–subivi subii

Quando o verbo é de 1ª conjugação a síncope é da partícula –ra–: amaravi amavi

subiveram subieram

subivero subiero

subiverim subierim

subivissem subiissem

Ernesto Faria (1958) divide o tema do perfectum em 3 tipos distintos: perfectum de tipo em –v–, de tipo radical e de tipo sigmático.”

Ex:

1.

subeo

insulto: saltar sobre ou contra, saltar, pular, dançar (mais genérico impossível)

isto é um insulto!” = aí você saltou longe demais!

novo

signo: marcar, assinalar, designar

2.

do, das, dare, dedi, datum: oferecer, consagrar, provocar, pôr, colocar, produzir…

sto, -as, -are, steti, statum: estar de pé, estar levantado, estar imóvel, ficar firme, fixar-se, persistir estoicismo: filosofia da persistência, do manter-se incólume

fugio, -is, -ere, -fūgi, -fugitum

irrumpo, -is, -ere, -rupi, -ruptum

3.

succedo, -is, -ere, -cessi, -cessum = SUBEO na conotação

tuxedo

Protĭnus inrupit venae peioris in aevum

omne nefas

(Imediatamente irrompeu tudo o que é atrocidade na idade do pior filão…)”

Nesta atividade, trabalharemos com os versos de 141 a 150 do Livro I das Metamorfoses, que tratam sobre a idade de ferro, com a narração do surgimento das guerras e a indicação dos diversos tipos de traições.” (Ainda não estávamos nela???)

A idade de ferro (continuação)

Iamque nocens ferrum ferroque nocentius(*) aurum

prodiěrat; prodit bellum, quod pugnat utroque,

sanguineaque manu crepitantia concutit [tremer, vibrar] arma.

Vivitur ex rapto; non hospes ab hospĭte tutus,

non socer a geněro; fratrum quoque gratia rara est.

Imminet exitio vir coniugis, illa mariti; [dissolvera-se a força dos laços conjugais]

lurĭda [pálida, lívida, escura] terribĭles miscent aconita [veneno, substância química aconitina, C34H47NO11] novercae;

filius ante diem patrios inquirit in annos:

Victa iacet pietas [vencida jazeu a piedade; a piedade jaz vencida] et virgo caede madentis [úmidos, mas também cheios, repletos, como aqueles que se enchem de tanto beber],

ultima caelestum, terras Astraea reliquit. [os deuses abandonaram a terra e os mares aos homens, confinando-se nos céus]

(*) Preste atenção ao morfema ius de grau comparativo de superioridade para palavras neutras. Comparam-se aqui os neutros aurum e ferrum.”

Ironia das ironias, quando enferruja o coração humano produz muito mais ouro!

Acusativo plural em -is

Observando os últimos versos trabalhados nesta unidade, nos deparamos com a palavra madentis, um adjetivo que segue a 3ª declinação (madens, gen.: madentis). A princípio, poderíamos pensar que se trata de uma palavra no genitivo singular, mas a terminação –is é também de acusativo plural (–is ou –es) (…) Assim, o adjetivo madentis concorda com o substantivo terras, também no acusativo plural (1ª declinação).”

tradução mais perfeita que a minha tentativa acima:

…e a virgem Astréia, última dos deuses, abandonou

as terras umedecidas (pelo sangue)”

UNIDADE DEZENOVE:

Metamorfoses, I, 318-55

Deucalião e Pirra após o dilúvio

OVÍDIO

Depois do dilúvio, restam apenas um homem, Deucalião, e uma mulher, Pirra.”

Nos versos que iremos ler ao final desta unidade, Deucalião e Pirra resolvem consultar o oráculo para saber sobre como repovoar a terra.” O oráculo não tem genitais? Se for Tirésias, poderá engravidar Pirra e ao mesmo tempo engravidar de Deucalião!

Metamorfoses (I, 318-355)

Hic ubi Deucalĭon, nam cetěra texerat aequor,

cum consorte tori parva rate vectus adhaesit,

Corycĭdas nymphas et numĭna montis adorant

fatidĭcamque Themin, quae tunc oracla tenebat.

Non illo melĭor quisquam nec amantĭor aequi

vir fuit, aut illa metuentĭor ulla deorum.

[…]

Reddĭtus orbis erat; quem postquam vidit inanem

et desolatas agěre alta silentĭa terras,

Deucalĭon lacrĭmis ita Pyrrham adfatur [fala a Pirra – quem fala, fala algo a alguém] obortis:

O soror,(*) o coniunx, o femĭna sola superstes,

quam commune mihi genus et patruelis origo,

deinde torus iunxit, nunc ipsa pericŭla iungunt,

terrarum, quascumque vident occasus et ortus,

nos duo turba sumus; possedit cetěra pontus.

[…]”

(*) “Como Prometeu e Epimeteu eram irmãos, Deucalião e Pirra eram primos. Todos eles descendem de Jápeto, filho de Urano e Gaia.”

GLOSSÁRIO:

alta: “profundos, elevados (do adjetivo altus, -a, -um – alto, profundo, elevado. Acusativo plural neutro, alta concorda com silentia: altos silêncios ou profundos silêncios)”

Eu sou alto, em todos os sentidos.

ortus: “nascente (do substantivo masculino ortus, -us: nascimento, origem, o nascer dos astros; antônimo de occasus)” Ortus e occasus também podem ser usados para se referir a sol nascente e poente.

Caiu no horto, nasceu.

tenebat: “presidia (o verbo teneo, -es, -ere, tenŭi, tentum, além de significar ter, segurar, também significa dirigir, comandar, presidir, governar)”

Acusativo de pessoa e acusativo de coisa (duplo acusativo)

No texto que lemos nesta unidade, encontramos uma construção com o verbo adfatur (affatur), do verbo depoente affor

Certos verbos latinos que em português se estruturam com argumentos internos objeto direto e objeto indireto são construídos em latim com acusativo de pessoa e acusativo de coisa. Em geral, resultariam de construções com duas frases nas quais o mesmo verbo teria objetos diretos distintos, do tipo:

Hoc rogo [Rock Howard] (peço isto)

Te rogo (te peço)

Hoc te rogo (peço-te isto) (acc.+acc.)

O duplo acusativo ocorre com verbos que apresentam o sentido geral de:

a) pedir e rogar:

poscere (pedir, exigir, reclamar): parentes testamentum poposcit”

quem exige, exige algo a alguém, etc.

orare (pedir, rogar, solicitar, implorar): aliquem rogare libertatem

flagitare (solicitar, rogar, implorar): me cibum flagitabat

rogare (perguntar, interrogar; pedir, rogar): te pauca rogabo

inter-rogar

b) “ensinar (docere) e ocultar (celare):

docŭi discipŭlos eam [aquela] artem

Celabo te res Romanas”

Bassus me de hoc libro celavit

(Basso não me deu notícia deste livro, não deu notícias deste livro a mim)”

c) “aconselhar, exortar (hortor, cohortor, exhortor),¹ advertir (monĕo, admonĕo):

Eos pacem hortabatur.

Milĭtes ad ultionem exhortatur”

¹ Daí o sentido original de côrte ou conselho dos sábios governantes.

A consulta ao oráculo

[…] ‘O utĭnam possim popŭlos reparare paternis

artĭbus atque anĭmas formatae infunděre terrae!

Nunc genus in nobis restat mortale duobus,

sic visum supěris: homĭnumque exempla manemus.’

Dixěrat et flebant. Placŭit caeleste precari

numen et auxilĭum per sacras quaerěre sortes.

Ut templi tetigere gradus, procumbit uterque

pronus humi gelĭdoque pavens dedit oscŭla saxo

atque ita: ‘Si precibus’ dixerunt ‘numina iustis

victa remollescunt, si flectitur ira deorum,

dic, Themi, qua generis damnum reparabĭle nostri

arte sit et mersis fer [consentir] opem, mitissima, rebus!’

Mota dea est sortemque dedit: ‘Discedite templo

et velate caput cinctasque resolvite vestes

ossaque post tergum [voltar] magnae iactate parentis!’

[voltarão já como contentes pais]

Verbos impessoais

Conforme o que já estudamos, os verbos impessoais são empregados na 3ª pessoa do singular de todos os tempos e no infinitivo. É comum esses verbos serem construídos tendo um infinitivo ou uma oração infinitiva como sujeito. Veja o uso do verbo placere (parecer bem, agradar) no texto lido na atividade:

placuit caeleste precari

numen et auxilĭum per sacras quaerěre sortes.

verbos de clima;

decet, decere, decuit: convir, ser conveniente, ficar bem;

libet ou lubet, -ere, libuit ou libĭtum est: agradar, dar prazer, achar bem;

licet, -ere, licuit ou licĭtum est: ser permitido, ser lícito, poder, ter o direito;

oportet, -ere, oportuit: é preciso, é bom, convém, é necessário, é útil.”

Eos infamiae suae non pudet.

(Eles não têm vergonha de sua infâmia)”

miseret, miserere, miseruit: compadecer-se

paenitet, paenitere, paenituit

constat, -are, constĭtit: é certo, é evidente, é reconhecido;

patet, -ere, patuit: estar patente, estar evidente;

expedit, -ire, expedivit: ser útil; rapaz expedito!

iuvat, -are, iuvit: agradar; agradar a Jove

praestat, -are, praestitit: ser melhor, valer mais, ser preferível. em suma, prestar!

além de construções com proposição infinitiva, há construções com subjuntivos, com ou sem conjunção: ad me redeas oportet (Cíc.: convém que venhas para junto de mim / …vir para…).”

GLOSSÁRIO:

compono, -is, -ere, -posui, -posĭtum: acalmar

no fio da navalha feita e afiada

fluctus, -us: (m) onda

prosum, prodes, prodesse, profui: ser útil (profuisse é o infinitivo perfeito)

utor, -eris, uti, usus sum: (dep.) empregar, utilizar (com ablativo)

O locativo

O locativo é um antigo caso do indo-europeu que servia para indicar o lugar em que se está e, por extensão, o tempo. Em latim, ficaram alguns vestígios, especialmente no singular da 1ª e da 2ª declinação. Segundo Ernesto Faria, foi, de modo geral, substituído pelo ablativo. No texto que lemos, ocorre o locativo da palavra humus (chão, terra). Veja:

pronus humi

(inclinado no chão)

Terminações do locativo:

1ª declinação (-ae): conserva-se nos nomes de cidades do singular.

Romae: em Roma

2ª declinação (-i): conserva-se também no singular em nomes de cidades e de pequenas ilhas.

Lugduni: em Lião; humi: no chão; domi: em casa (2ª e 4ª declinações)

3ª declinação (-i): conserva-se apenas em ruri (do substantivo rus, ruris, campo) e em alguns nomes de cidades.

Ruri: no campo

UNIDADE VINTE:

Metamorfoses, I, 388-402

Ponderações sobre o oráculo e o lançamento das pedras

OVÍDIO

Metamorfoses (I, 388-402)

Ponderações sobre o oráculo e o lançamento das pedras

Interěa repětunt caecis obscura latebris

verba datae sortis secum inter seque volutant.

Inde Promethiădes [Prométida ou Prometíade, i.e., Deucalião, filho de Prometeu] placĭdis Epimethĭda [Pirra, filha de Epimeteu]¹ dictis

mulcet [acalmar] et: ‘Aut fallax’ ait ‘est sollertĭa nobis,

aut pia sunt nullumque nefas oracŭla suadent.

Magna parens terra est; lapĭdes in corpŏre terrae

ossa reor dici; iacĕre hos post terga iubemur.’

[¹ Ou seja: derivamos dos titãs, e não nos deuses. Derivamos dos deuses primevos que geraram os deuses; os deuses são apenas nossos irmãos. Somos de uma hierarquia até pré-celestial, vindos diretos do caos e do primeiro relógio organizador do movimento dos astros e da matéria. Perto dos imortais que reinam, somos, quem podê-lo-ia dizer?, gigantes.]

O raciocínio de Deucalião agrada a Pirra.

Entre esperanças e dúvidas, decidem seguir a predição

Discedunt velantque caput tunĭcasque recingunt [circundam]

et iussos lapĭdes sua post vestigĭa mittunt.

Saxa [Os seixos] (quis hoc credat, nisi sit pro teste vetustas?)

poněre duritiem coepere suumque rigorem

mollirique mora mollităque ducěre formam.”

Ora, o homem não é pedra, senão barro, i.e., terra molhada.

Palavras de mais de uma declinação

Algumas palavras em latim podem ser flexionadas por mais de uma declinação. Nesta unidade, por exemplo, observamos a palavra duritiem, pela 5ª declinação. Trata-se de uma palavra que pode ser declinada pela 1ª (duritia, -ae) ou pela 5ª (durities, -ei). Muitas palavras da 5ª declinação apresentam esses doublets na 1ª (materia, -ae ou materies, -ei; mollitia, -ae ou mollities, -ei; laetitia, -ae ou laetities, -ei).

poněre duritiem coepere suumque [bem como] rigorem

(começaram a deixar sua dureza e sua rigidez)”

Os dicionários costumam mostrar essas especificidades. Veja-se, por exemplo, o caso da palavra vas:

vas, vasis: (n) no plural vasa, -orum (o sing. vasum caiu em desuso).

1. Vaso, vasilha, recipiente, pote;

2. Utensílios de cozinha, móveis;

3. (Pl.) bagagens, equipamento (dos soldados).”

Verbos freqüentativos

volvo, -is, -ěre, volui, volutum: rolar, fazer rolar, fazer dar voltas, revolver; revolver no espírito, refletir, meditar.

voluto, -as, -are, -avi, -atum: (freq. de volvo) rolar por várias vezes; revolver no espírito, meditar, discutir, examinar, debater.”

Freqüentativos são verbos que se derivam do particípio (vide supino sublinhado) e indicam uma ação repetida, podendo ser puramente intensivos.”

Herança portuguesa: resoluto, resolvido…

Interěa¹ repětunt caecis obscura latěbris²

verba datae sortis secum³ inter seque volutant.4

(Nesse meio tempo,¹ repetem consigo as palavras obscuras,² com significados ocultos, da predição concedida,³ e entre si meditam)4voltam-se para dentro de si mesmos

Aqui, o uso do freqüentativo voluto indica a intensidade da meditação de Deucalião e Pirra, tentando, a qualquer custo e repetidamente, entender a predição oracular.”

Verbos incoativos

O latim também tem verbos conhecidos como incoativos. São verbos que indicam o início da ação e apresentam o sufixo –sco, como cresco, crescer, aumentar, engrandecer-se (incoativo de creo, criar, fazer crescer, produzir). Outra forma de fazer construções incoativas é através de uma perífrase verbal.”

NO PORTUGUÊS:

Há também casos, poucos, em que palavras de um determinado grupo, por razões externas à língua, passam a assumir características de outro grupo: presidente (do grupo de palavras em –e), presidenta (assumindo terminação do grupo de palavras em –a).”

A metamorfose das pedras

Uma Pirra e um Deucalião muito mais formosos…

Mox, ubi creverunt naturăque mitĭor illis

contigit, ut quaedam, sic non manifesta, videri

forma potest homĭnis, sed uti de marmŏre coepta

non exacta satis rudibusque simillima signis. [signo, figura, estátua neste contexto]

[…] saxa

missa viri manĭbus facĭem traxere virorum

et de feminěo reparata est femĭna iactu.

Inde genus durum sumus experiensque laborum

et documenta damus qua simus origĭne nati. »

Genitivo complemento de adjetivo

Inde genus durum sumus experiensque laborum.

(Por essa razão, somos uma natureza dura e experiente dos esforços/habituada aos esforços.)

ODES

A palavra ode, de origem grega (canto), nos chega pelo latim tardio. Entre os romanos, a palavra carmen era o seu equivalente, com o sentido de canto, som de voz ou dos instrumentos, composição em verso, poesia e, ainda, divisão dum poema, canto.

Para os antigos, o termo ‘lírica’, do gênero a que pertence a ode, tem um caráter técnico, referindo-se a uma composição para ser cantada com o acompanhamento da lira ou de outros instrumentos de corda.”

Estariam, assim, fora dos limites da lírica, diferentemente do que se concebe como lírica nos dias de hoje e no período helenístico, conforme veremos, a poesia elegíaca e a iâmbica (executadas com acompanhamento de instrumento de sopro) e o epigrama (cuja origem remonta a inscrições, vinculada à materialidade do escrito, não sendo, portanto, destinada ao acompanhamento musical).”

na época helenística, à excepção da lírica coral destinada às festas e ao culto, todos estes géneros deixaram de ser executados com acompanhamento musical e passaram a ser poesia destinada à leitura.”

CITRONI

Ou seja, na sua origem, era nas diversas modalidades de execução musical que se dava a distinção entre os gêneros, e essa distinção, a partir do período helenístico, se circunscreve exclusivamente à diversidade dos metros.

Apresentando composições líricas de tom normalmente solene e entusiasta, as odes podem tratar de temas variados.”

Segundo Martins (2009), se as ações superiores (heróicas e divinas) estariam ligadas à tragédia e à épica e as ações inferiores (pautadas pelo vício), à comédia, à sátira ou à inventiva jâmbica:

por sua vez, as ações do homem comum são aquelas que nos diferem por não serem unicamente viciosas ou virtuosas, então elas não teriam outro lugar para serem representadas senão a poesia da subjetividade lírica…” Eis o nascimento da poesia moderna. O coração doído e machucado de gente como a gente.

A ode seria, pois, um subgênero do gênero lírico, podendo apresentar, como se pode ver em Horácio, uma diversidade de temas e esquemas métricos. Horácio se inspira nos efeitos impressivos especiais dos metros eólicos e, em suas Odes, busca a compatibilidade entre forma e conteúdo (PENNA, 2007). Basicamente, estão, pois, entre suas fontes de inspiração os líricos eólicos de Lesbos, do séc. VI a.C.: Alceu, Safo e Anacreonte.”

A ode, após ter ficado praticamente abandonada durante a Idade Média, irá reflorescer a partir do Humanismo, no séc. XV. Continuará a ser cultivada, ainda que sem o mesmo fascínio, durante o período do Romantismo, mas com novos matizes, mais subjetivista (MASSAUD MOISÉS).”

No Brasil, surge no séc. XVIII, tendo sido experimentada, em períodos distintos, por poetas como Cláudio Manuel da Costa, Castro Alves, Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, para ficar com os principais nomes.”

UNIDADE VINTE E UM:

Carmen I, 11

HORÁCIO

Apesar de ter origem humilde, Horácio é enviado por seu pai a Roma para continuar seus estudos, tendo sido aluno de um certo Orbilius, descrito por ele como plagosus (aquele que gosta de bater) [!]. Conseguiu até mesmo ir se aperfeiçoar na Grécia, um privilégio para poucos. Por lá, se dedicava à filosofia e tomava conhecimento da poesia grega, dois aspectos fundamentais em sua obra.

Horácio é apresentado a Mecenas pelos consagrados poetas Virgílio e Vário. Mas recusa-se a escrever a poesia épica encomendada por Mecenas, tendo ficado Virgílio com a incumbência de fazer a epopéia latina.”

Horácio escreveu 4 livros de odes, 1 livro de epodos, 2 livros de sátiras, 2 livros de epístolas, a Epístola aos Pisões (com 476 versos, conhecida como Arte Poética), o Canto secular, com 76 versos.”

(*) “Todos os textos de Horácio utilizados no Latinitas seguem a edição de Les Belles Lettres: HORACE. Odes. Texte établi et traduit par François Villeneuve. Introduction et notes d’Odile Ricoux. Deuxième tirage. Paris: Les Belles Lettres, 2002.

Carmen (I, 11)

Tu ne quaesiěris (scire nefas [sabe mal]) quem mihi, quem tibi

finem di deděrint, Leuconŏe, nec Babylonĭos

temptaris numěros. Ut melĭus quicquid erit pati!

Seu pluris hĭemes seu tribŭit Iuppĭter ultĭmam,

quae nunc opposĭtis debilĭtat pumicĭbus mare

Tyrrhenum, sapĭas, vina liques et spatĭo brevi

spem longam resěces. Dum loquĭmur, fugěrit invĭda

aetas: carpe diem, quam minĭmum credŭla postěro.”

Metro utilizado:

Asclepiadeu maior:

Formado por: um espondeu ( ¯ ¯ ), um coriambo ( ¯ ˘ ˘ ¯ ), uma cesura, um coriambo ( ¯ ˘ ˘ ¯ ), outra cesura, um coriambo ( ¯ ˘ ˘ ¯ ) e um jambo ( ˘ ˘ ) com uma sílaba ancípite (que pode ser breve ou longa).”

GLOSSÁRIO:

sapias: “tenhas discernimento (o verbo sapio, -is, -ěre, -ivi, -ii ou -ui significa ter gosto, ter sabor de, exalar um perfume, ter gosto, mas também significa ter discernimento, ter inteligência, ser prudente, ser sensato, saber, conhecer, compreender)”

fugěrit invĭda aetas

(o invejoso tempo terá fugido)”

A palavra aetas poderia ser, conforme já estudamos, uma palavra de difícil localização no dicionário, já que em seu nominativo ocorre a perda da consoante dental <t>. Como a palavra já aparece no texto no caso nominativo, não temos problema em localizá-la no dicionário. Em casos de palavras como essas, estando no texto em outros casos (aetate, abl., por exemplo), para localizá-las no dicionário, consideramos seu genitivo (aetatis) e levamos em conta que a dental que antecede a terminação -is do genitivo não aparece no nominativo (aetas, aetatis).”

quae nunc opposĭtis debilĭtat pumicĭbus [pumex no dicionário] mare Tyrrhenum

(…que agora quebra o mar Tirreno nos opostos rochedos…)”

Seu pluris hiemes …. tribŭit Iuppĭter…

(quer Júpiter nos dê numerosos invernos…)”

Em palavras da 3ª declinação que fecham seu tema com consoante labial, essa consoante é mantida no nominativo (hiems).”

Palavras gregas em latim

1ª declinação

As palavras de origem grega seguem, praticamente em todos os casos, a declinação latina. Algumas formas gregas, contudo, são conservadas pelos poetas. No texto lido, ocorre uma palavra que, pela forma como aparece dicionarizada, não se assemelha a nenhuma forma de enunciar uma palavra de declinação latina, cujos genitivos são: -ae, -i, -is, -us, -ei. A palavra Leucônoe aparece dicionarizada com o genitivo em –es.”

Leuconŏē , -ēs: Leucônoe (nome de mulher)

A palavra cometa, -ae, por exemplo, pode aparecer dicionarizada assim: cometes, -ae. Vemos que se trata de uma palavra da 1ª declinação (genitivo em –ae), mas que, sendo tomada ao grego, se declina com algumas particularidades.” cometes uma injúria olhando tanto para o céu

Outros exemplos: epitŏme, Aeneas, Anchises

O plural, quando existe, segue regularmente a 1ª declinação latina. O genitivo plural pode apresentar, em nomes terminados em –ădes e –ĭdes, ao lado da terminação -arum, a terminação -um.”

2ª declinação

Seguem a 2ª declinação os nomes gregos (geralmente nomes próprios) terminados em –os, -on (ou –um) e em –eus (ou –eos), como mythos (m), Ilion, palavra neutra que quer dizer Ílio (Tróia) e Androgeus (ou Androgeos), Androgeu, filho de Minos.”

3ª declinação

Algumas palavras gregas da 3ª declinação não foram incorporadas à 3ª declinação latina, tendo algumas passado para a 1ª e outras, para a 2ª.”

basis – bases, tigris – tigres, herōs – herōēs [vemos que o português utilizou a declinação do plural para construir seus próprios vocábulos – plurais ou singulares. I.e., caiu o “i” em base, o “i” em tigre e o “e” em herói]

lampas – lampades, crater – crateres (daí ser cratera e não crátera para nós), poēma – poemăta

Socrătēs, Paris (como o genitivo é Parĭdes, decidiu-se por Páris em pt.)

Didō, Simoīs, Orpheus (o vocativo é Orpheǖ)

Resquícios do sentido dual de saber na língua:

O licor tinha a mais bela cor de topázio, fina e transparente. E sabia gostosamente a frutos e a doce.” (Maria Archer, Fauno Sovina, p. 98)

Era uma infusão descorada que sabia a malva e a formiga.” (Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, p. 162)

Livros como vinhos: quanto mais velhos mais sabem.” (Guilherme Figueiredo, Despropósitos, p. 37)

Nesta unidade, nossa atividade se centrará em comparação de traduções. Até este momento, vínhamos trabalhando com propostas da chamada tradução de estudo, uma espécie de versão do texto latino para a língua portuguesa com o objetivo de conhecermos o latim empregado em cada gênero. Num curso de leitura de textos em língua latina, que é o que se propõe neste material, o foco dado manteve-se mesmo nas estratégias de leitura do texto latino. Em estudos mais avançados do latim, que têm a tradução como meta, há que se debruçar sobre teorias e concepções de tradução. Assim, entre o texto de partida, em nosso caso, o texto em latim, e o texto de chegada, em português, há uma série de reflexões que devem ser feitas.”

Apresentamos a seguir 3 traduções da ode de Horácio lida nesta unidade, uma de Filinto Elísio, do séc. XVIII, outra de Ariovaldo Augusto Peterlini, de 1992, e uma outra, mais recente, de Paulo Henriques Britto. Ao comparar essas traduções com a tradução de estudo que você fez no início desta unidade, você observará que os tradutores que apresentamos a seguir fizeram determinadas escolhas, certas adaptações, permitindo que o texto de Horácio viva de outras formas para outros leitores de outros tempos.”

Horácio: ode I, 11 por Filinto Elísio (séc. XVIII)

Tu não trates (que é mau) saber, Leucônoe,

Que fim darão a mim, a ti os Deuses;

Nem inquiras as cifras Babilônias,

Por que melhor (qual for) sofrê-lo apures.

Ou já te outorgue Jove invernos largos,

Ou seja o derradeiro o que espedaça

Agora o mar Tirreno nos fronteiros

Carcomidos penhascos. Vinhos coa:

Encurta em trato breve ampla’sperança.

Foge, enquanto falamos, a invejosa

Idade. O dia de hoje colhe, e a mínima

No dia de amanhã confiança escores.

(FONTE: TREVIZAM, Matheus. Camena entre Brasil e Portugal. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2008)”

Mais arcanos que dois tucanos.

Horácio: ode I, 11 por Ariovaldo Augusto Peterlini (1992)

Não buscarás, saber é proibido [fica mal, eu traduziria agora – ou: não inventes de…], ó Leucônoe,

que fim reservarão a mim, a ti os deuses;

nem mesmo os babilônios números perscrutes…

Seja lá o que for, melhor é suportar!

Quer Júpiter nos dê ainda mil invernos,

quer venha a conceder apenas este último,

que agora estilhaça o mar Tirreno nos penhascos,

tem siso, os vinhos vai bebendo, e a esperança,

de muito longa, faz caber em curta vida.

Foge invejoso o tempo, enquanto conversamos.

Colhe o dia de hoje e não te fies nunca,

um momento sequer, no dia de amanhã…

(FONTE: NOVAK, Maria da Gloria; NERI, Maria Luiza (org.). Poesia lírica latina. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992)”

A regra nº 1 da boa tradução foi respeitada: há mais versos em português. Vejamos na 3ª!

Horácio no Baixo (Odes I, 11), por Paulo Henriques Britto

Tentar prever o que o futuro te reserva

não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral

e livro de autoajuda é tudo a mesma merda. [Hahaha, sensacional!]

O melhor é aceitar o que de bom ou mau

acontecer. O verão que agora inicia

pode ser só mais um, ou pode ser o último

vá saber. Toma o teu chope, aproveita o dia,

e quanto ao amanhã, o que vier é lucro.

Fonte: Guilherme Gontijo Flores

(https://escamandro.wordpress.com/2012/06/08/horacios-na-ode-1-11-a-leuconoe/”

A terceira tradução, embora a mais enxuta, sem dúvida é a melhor. Infelizmente sofro da doença e preconceito chamados espírito do tempo!

UNIDADE VINTE E DOIS:

Carmen III, 30

HORÁCIO

Exegi monumentum aere perennius

regalique situ pyramidum altius,

quod non imber* edax, [voraz] non Aquilo impotens

possit dirvere [dirigir] aut innumerabilis

annorum series et fuga temporum.

Non omnis moriar multaque pars mei

vitabit Libitinam; usque ego postera

crescam laude recens, dum Capitolium

scandet cum tacita virgine pontifex.

Dicar, qua violens obstrepit Aufidus

et qua pauper aquae Daunus agrestium

regnavit populorum, ex humili potens

princeps Aeolium carmen ad Italos

deduxisse modos. Sume superbiam

quaesitam meritis et mihi Delphica

lauro cinge volens, Melpomene, comam.”

GLOSSÁRIO:

imber: “(a chuva que cai) (do substantivo masculino imber, imbris, que quer dizer aguaceiro, nuvem de chuva, chuva, água ou líquido em geral. Uma outra palavra, pluvia, tem o sentido de chuva, água da chuva. Imber tem o sentido mais próximo de a chuva que cai)”

Aquilo: “Aquilão (do substantivo Aquĭlo,-onis, Aquilão, vento do norte, filho de Éolo e da Aurora. É possível que seu nome derive de aquila, águia, por se tratar de um vento rápido, ou de aquilus, escuro, por escurecer o céu quando soprava¹)

¹ Cf. Spalding, Tassilo Orpheu. Dicionário da mitologia latina. São Paulo: Cultrix, 1999.”

Libitinam: “Deusa Libitina (do substantivo Libitina, -ae, deusa dos mortos e da morte, que presidia os funerais. Em seu templo, depositava-se tudo o que fosse necessário para as pompas fúnebres, a fim de que pudesse ser vendido ou alugado nessa situação.)

Aufidus: “Áufido (do substantivo Aufidus, -i, rio da Apúlia)”

Daunus: “Dauno (do substantivo Daunus, -i, Dauno, avô de Turno, rei da Apúlia)”

Ver ainda GRIMAL, Pierre. Dicionário da mitologia grega e romana. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.

Genitivo partitivo (cont.)

Non omnis moriar multaque pars mei vitabit Libitinam…

(Não morrerei de todo e boa parte de mim há de escapar à deusa Libitina…)

O genitivo mei representa a totalidade (de mim) da qual se considera uma parte (multa pars).”

Genitivo partitivo para:

a) substantivos: una pars eorum (uma parte deles)

b) adjetivos (em grau superlativo): miserrŭmus homĭnum vivum (viverei como o mais

infeliz dos homens)

c) pronomes: quem nostrum ignorare arbitraris? (quem dentre nós julgas que ignora?)

d) advérbios (quantidade, lugar e tempo): ubi terrarum esses? (em que terras estavas?)

e) certos verbos: eos infamiae suae non pudet (eles não se envergonham de sua infâmia)

Figuras de linguagem

elipse

quod non imber edax, non Aquilo impotens

possit dirvere aut innumerabilis

annorum series et fuga temporum.

(…nem possa destruí-lo o Aquilão desenfreado, nem a chuva voraz, ou a série inumerável dos anos e a fuga rápida dos tempos.)

Observe que a locução verbal possit dirvere está no singular, concordando com o núcleo do sujeito mais próximo (Aquilo impotens), mas outros núcleos funcionam como sujeito para a mesma locução, sem a necessidade de sua repetição.”

aliteração

Non omnis moriar multaque pars mei

assonância

et qua [por onde] pauper aquae Daunus agrestium

superbiam … quaesitam meritis et mihi Delphica

A poesia e a ordem de substantivos, adjetivos e verbos

Adjetivos > substantivos

O mais comum, numa construção poética latina, é que se coloque um termo entre o adjetivo e o substantivo com o qual concorda, com o adjetivo aparecendo primeiro para efeito de ênfase:

Dicar, qua violens obstrepit Aufidus (serei celebrado, por onde o impetuoso Álfido estrondeia)”

et qua … Daunus agrestium

regnavit populorum

(e por onde … Dauno foi o senhor de agrestes povos)

princeps Aeolium carmen ad Italos

deduxisse modos.

(o primeiro a ter levado aos italianos costumes o eólio canto/canto eólio)

Verbos > sujeitos

Os verbos em relação a seus sujeitos costumam vir antes, podendo haver vários elementos entre eles:

scandet cum tacita virgine pontifex.

(…subirá, com a silenciosa virgem, o pontífice)”

Análise de traduções

Continuaremos, nesta unidade, nos centrando em comparações de traduções. Conforme dissemos, consideramos as atividades que se seguem como uma etapa preparatória para o desenvolvimento posterior de estratégias tradutórias em momentos mais avançados de estudo do latim.”

Apresentamos a seguir duas traduções da ode de Horácio lida nesta unidade, uma de Elpino Duriene, de 1807, e outra de Ariovaldo Augusto Peterlini, de 1992.”

Horácio, Ode III, 30 – Tradução 1 por Elpino Duriene (1807)

O poeta a si mesmo

Hum monumento mais que o bronze eterno,

E que as Reaes Pyramides mais alto

Arrematei; que nem voraz diluvio,

Áquilo iroso, ou serie immensa d’annos

Nem dos tempos a fuga estragar possa.

Eu não morrerei todo; grande parte

De mim se salvará da morte: sempre

Crescerei novo co’louvor vindouro,

Em quanto ao Capitolio o grão Pontifice

Subir co’ a virgem taciturna, Aonde

Sôa o violento Aufído, e aonde o Dauno

Pobre de aguas regeo agrestes póvos,

Dir-se-há, que eu de humilde poderoso

Fui o primeiro, que o Eolio carme

Trouxe á Italica cithara. Melpómene,

Com soberba por meritos ganhada,

Eleva-te, e de boamente cinge

Co’ Delphico laurel os meus cabellos.”

Tradução 2: por Ariovaldo Augusto Peterlini (1992)

Um monumento ergui mais perene que o bronze,

mais alto que o real colosso das pirâmides.

Nem a chuva voraz vingará destruí-lo,

nem o fero Aquilão, nem a série sem número

dos anos que se vão fugindo pelos tempos…

[Achei que ousou muito pouco. Estou decepcionado…]

Não morrerei de todo e boa parte de mim

há de escapar, por certo, à Deusa Libitina.

Crescerei sempre mais, remoçando-me sempre,

No aplauso do futuro, enquanto ao Capitólio

silenciosa ascender a virgem e o pontífice.

[Enquanto houver Estados e religiões

pontífice e virgem são duas palavras inócuas para nós – e já o eram em 1992…]

Celebrado serei, lá onde estrondeia

o impetuoso Áufido e onde Dauno reinou

sobre rústicos povos, em áridas terras,

como o primeiro que, de humilde feito ilustre,

o canto eólio trouxe às cadências da Itália.

O justo orgulho por teu mérito alcançado,

ó Melpômene, assume e, propícia, dispõe-te

a cingir-me os cabelos com délficos louros.”

A tradução 1 é mais competente por larga margem!

LENDO…

Repositórios literários

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Bibliotheca Augustanapossui textos medievais e quase contemporâneos! Ex: Schopenhauer e Marx chegaram, ainda, a escrever em Latim.

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Filologia – USP

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Dicionários online

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Forcellini Latim – Latim

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Gaffiot

Latim – Francês

perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus:text:1999.04.0059

Charlton T. Lewis, Charles Short, A Latin Dictionary

APÊNDICE (PARA CONSULTA RÁPIDA)

P. 523

[+]

Tuus, tua, tuum (não tem vocativo)

Suus, sua, suum (não tem vocativo)

OBS.: Declinam-se como o adjetivo de 1ª classe bonus, bona, bonum

Noster, nostra, nostrum

(Não confundir nostri e vestri (de nós, de vós), genitivo singular ou nominativo plural dos pronomes pessoais nos e vos, com nostri e vestri, genitivo singular ou nominativo plural dos possessivos noster e vestri (de nosso, de vosso ou os nossos, os vossos). O mesmo vale para tui (gen. de tu) e tui (de tuus, tua, tuum), sui (gen. da 3ª pessoa) e sui (de suus, sua, suum); a própria oração indica se essas formas são de pronomes pessoais ou de possessivos.”

Vester, vestra, vestrum (não tem vocativo)

OBS.: Noster e vester declinam-se como o adjetivo de 1ª classe pulcher, -chra, -chrum

Repare na similitude das duas tabelas.

Conjugações verbais a partir da p. 527, incluindo principais irregulares e depoentes.

VOCABULÁRIO GERAL p. 547

Por ordem de freqüência, 591 (fonte: Dictionnnaire fréquentiel et Index inverse de la langue latine)

Amostra das 20 palavras mais comuns nos textos latinos:

e, sou, que, em, que (id.), não, este, é, aquilo, até, és, tu, seja, tudo/todos, ser, qual, se, eu, de, como/assim.

REFERÊNCIAS

Gramáticas, manuais literários, estudos

(Seleção pessoal)

ARAÚJO, Sônia Regina Rebel de; ROSA, Cláudia Beltrão da; JOLY, Fábio Duarte (orgs.), Intelectuais e política na Roma Antiga. RJ: NAU/FAPERJ, 2010.

BRUNA, Jaime. A poética clássica. SP: Cultrix, 2005.

CAIO VALÉRIO CATULO, Livro de Catulo (trad. João Angelo Oliva Neto), SP: USP, 1996.

ERNOUT, Morphologie historique du Latin, Lille, Taffin-Lefort, 1953.

FARIA, Fonética histórica do latim, RJ: Livraria Acadêmica, 1970.

FURLAN, Língua e Literatura latina e sua derivação portuguesa. Petrópolis, Vozes, 2006.

HOYO & RUIZ, Higino: Fábulas, Madrid, Gredos, 2009.

MAURER JR., O problema do Latim Vulgar, RJ, Livraria Acadêmica, 1962.

VIEIRA, THAMOS (orgs.), Permanência Clássica: visões contemporâneas da Antiguidade greco-romana. Sp: Escrituras, 2011.

SUPERGLOSSÁRIO LATIM

Tendi a negritar ou “avermelhar” os verbetes mais relevantes, mais difíceis (distintos do Português) ou os mais polissêmicos e complexos. Mas já a presença do próprio verbete nessa seleção muito limitada indica sua relativa importância, uma vez que foi necessário em algum ponto deste livro.

Adjetivos

ater, atra, atrum. Negro, preto, atro, escuro. Obscuro, tenebroso, tempestuoso. Sombrio, funesto, horrível. Cruel, infeliz, maligno.

attigŭus,-a,-um. (ad-tango). Contíguo, próximo. Adjacente, vizinho.

caesĭus,-a,-um. Esverdeado, de cor verde.

crudus,-a,-um. (cruor). Sangrento, ensanguentado. Cru, não processado. Não digerido, que digere mal. Que faz sangrar, violento, cruel, áspero. Vigoroso, impiedoso. Novo, recente, imaturo, inexperiente.

edax, edacis. (edo). Voraz, devorador. Consumidor.

humĭlis, humĭle. (humus). Que está no chão. Baixo, pequeno. Humilde, modesto. Fraco, sem importância, de baixa condição. Abatido, humilhado.

ignauus,-a,-um. (in-gnauus). Ignavo, indolente, inativo, preguiçoso. Covarde. Sem energia, improdutivo, inerte, inútil. Que entorpece, torna ocioso.

ignotus,-a,-um. (in-nosco). Desconhecido, ignorado. Que não conhece, ignorante.

latus,-a,-um. Largo. Extenso, espaçoso. Abundante, rico. Duradouro.

maestus,-a,-um. (maerĕo). Triste, abatido, aflito. Fúnebre, sinistro. Severo, sombrio.

mollis, molle. Mole, tenro, delicado, macio. Flexível. Brando. Fraco, tímido, sensível. Afeminado. Suave, agradável, doce. Ameno, aprazível. Favorável, propício.

opertum,-i, (n.). (opertus/operĭo). Lugar secreto. Segredo. Resposta ambígua, oráculo obscuro.

perosus,-a,-um. (perodi). Que detesta, que odeia intensamente. Muito odiado, odioso.

praeceps, praecipĭtis. (prae-caput). Que coloca a cabeça na frente. Rápido, veloz, violento, arrebatador. Impetuoso, apressado, precipitado, impaciente, ansioso, abrupto. Íngreme, muito inclinado, em declive. Perigoso, crítico.

praestans, praestantis. (praesto). Que se destaca, superior, excelso, excelente, extraordinário, preeminente.

Advérbios

aegre. (aeger). De modo aflitivo, com dificuldade, penosamente, de má vontade.

aeque. Igualmente, da mesma maneira. Justamente, equitativamente.

cito. Depressa, rapidamente. Facilmente.

clam, prep./acus. e abl., também advérbio. Às escondidas, secretamente, às ocultas.

crebro. (creber). Frequentemente, sempre, sem interrupção. = PROTINUS

diu. Durante muito tempo, há muito tempo. Também usado como antigo locativo de dies: durante o dia, de dia. = PRIDEM

eo. I – Adv.: Para lá, para aquele lugar. A este ponto, a tal estado. II – Por causa disto, a fim de que, para que. Tanto que, tanto mais que, tanto menos que. De tal modo, assim, a tal ponto. obs: ver eo como verbo “vou lá assim” do português coloquial em latim poderia ser traduzido como “eo eo eo”.

fortasse também fortassis. (forte). Talvez, acaso. Possivelmente, provavelmente. Aproximadamente, mais ou menos, quase.

fundĭtus. (fundus). Desde os alicerces, radicalmente, inteiramente. No fundo, nas profundezas. = PENITUS

hesternus,-a,-um. (heri). De ontem, de véspera.

hic. Ver PRONOMES.

interĕa. (inter-ea). Durante este tempo, enquanto isso, no intervalo.

nimĭum. (nimis). Muito, demasiadamente, excessivamente, enormemente.

nitĭde. (nitĭdus). Claramente, nitidamente. Com brilho, em esplendor, magnificamente.

numquam. Nunca, jamais. De modo algum.

palam. I- Em público, publicamente, abertamente, claramente. De domínio público. II- Diante de, perante. = CORAM

paulo. (paulus). Pouco. De alguma maneira.

penĭtus. No fundo, até o fundo, profundamente. Internamente. = FUNDITUS

potĭus. (potis). Antes, melhor, preferivelmente, de preferência.

pridem. (prae). Há muito tempo, de longa data. Antes, antigamente, outrora. = DIU

protĭnus. (pro-tenus). Para frente, para diante, avante. Diretamente, constantemente, continuamente, sem parar, ininterruptamente. Logo em seguida, sem demora, imediatamente. = CREBRO

quantuluscumque,-tulacumque,-tulum-cumque. (quantŭlus-cumque). Por menor que, independentemente do tamanho que.

quidem. De fato, realmente, na verdade. Também, igualmente. Mas, contudo, ainda mais. Pelo menos, mas ao menos. Por exemplo, tal como. (ne…quidem = nem mesmo, nem sequer. Et/ac…quidem = e ainda por cima, e o que é melhor).

saepe. Muitas vezes, frequentemente, com frequência. (saepe numĕro = repetidas vezes).

secure. (securus). De modo despreocupado, com tranquilidade, sem cuidado. Em segurança.

simul. Ao mesmo tempo, de uma só vez, juntamente, simultaneamente. (simul et = e também, assim que, tão logo; simul…simul… = de uma parte… de outra parte, não só…mas também…; simul ac/atque/ut/ubi = assim que, tão logo).

Conjunções:

(Para outras conjunções, ver tabela nas pp. 77-8.)

atque, conj. E por outro lado, e o que é mais. E entretanto, e contudo. E.

autem, conj. (adversativa atenuada que não vem no início de frase). Por outro lado, ora, no entanto.

donec. I – com indicativo: enquanto, durante todo o tempo que. Até o momento que. II – com subjuntivo: Até que, até que finalmente, até o momento que.

ergo. I – Conj.: Pois, portanto, por conseguinte, logo. II – posposto a um genitivo = por causa de, graças a, em honra de.

ita. Assim, desta maneira, como dizes, nestas condições. Tal, do mesmo modo. Pois, portanto, por consequência. Sim (como resposta).

itaque. (ita-que). E assim, desta maneira. Pois, assim pois, por consequência. Por exemplo.

neque/nec. E não, nem.

neue/neu. E que não, e não, nem.

si. Se, se por acaso. Já que, visto que, uma vez que. (si modo = se pelo menos; si… tamen…= ainda que, mesmo se, embora).

sicut/sicŭti. (sic-ut/uti). Assim como, exatamente como. Visto que, já que. Como se fosse, tal qual. Como por exemplo, assim como. (sicut est/erat = Como é/era de fato, como realmente é/era)

tamen. Todavia, contudo, entretanto, ainda que. (claro caso de falso homônimo)

ue (-ue). Partícula aglutinante: I – como prefixo: indica privação – uesanus. II – como enclítica: corresponde a ou, nas expressões alternativas. = VEL

ut. I – Adv.: como, de modo que, de que maneira. Assim como, do mesmo modo que. II – conj.: que, a fim de que, para que. Quando, como.

uel. Ou, ou se, ou mesmo, ou então. Talvez, mesmo. = UE

Numerais

quater. (quattŭor). Quatro vezes.

ter. Três vezes. É utilizado ainda como elemento de ênfase, de indicação de que algo se repete.

Preposições

coram, prep./abl., também advérbio. Perante, em presença de, diante. Face a face, defronte. Publicamente, abertamente. = PALAM

deinde. Depois, em seguida, a seguir (no tempo e no espaço).

dum. I – com indicativo: Enquanto, durante o tempo em que. Até que, até o momento em que. II – com subjuntivo: até que, contanto que, desde que.

iam. Já, agora, neste momento. Desde agora, deste momento em diante. Ora, daí, então.

igĭtur. Portanto, pois, nestas circunstâncias. Em resumo, em suma. Então, sendo assim, por conseguinte.

licet. Embora, ainda que.

nisi. Se não. Exceto se, senão, somente se. (nisi ut = a menos que).

propter. (prope). prep./acus. Perto (de), ao lado (de), junto (a/de), ao alcance (de). Por causa de, em função de. Através de, por meio de.

rursus/rursum. (reuerto). Para trás. Pelo contrário, por outro lado, por sua vez. Novamente, pela segunda vez.

saltem/saltim. Pelo menos, ao menos, de qualquer maneira.

uix. Com custo, com dificuldade, dificilmente. Mal, apenas. Enfim, em suma.

Pronomes

(flexões às pp. 90-1 / explicação dos interrogativos à p. 97.)

an ou anne. Partícula interrogativa que traduz grande dúvida ou uma restrição. Será possível que…? Por ventura? Acaso?

eodem. (idem). Para o mesmo lugar, ao mesmo ponto. Ao mesmo fim.

hic, haec, hoc. Este, esta, isto.

hic. Aqui, neste lugar. Neste momento, agora.

ille, illa, illud. Aquele, aquela, aquilo. Usado enfaticamente: o famoso, “aquele”, célebre; para caracterizar desprezo, distanciamento: aquele, aquela.

is, ea, id. Elemento de valor anafórico: Ele, ela. O, a. Este, esta.

iste, ista, istud. Pronome demonstrativo de segunda pessoa: Esse, essa, isso. Tal, semelhante. Às vezes se emprega com sentido pejorativo.

qua. (qui). De que lado, em que lugar, em que direção, por onde. Até o ponto em que, o máximo que, pelo meio que, do lado que. Como, de que maneira, através de que meio. De qualquer maneira. (qua…qua = tanto…quanto, por um lado…por outro).

quisquam, quaequam, quicquam/quidquam. (quis-quam). Qualquer um, qualquer coisa, alguém, alguma coisa

ubi. No lugar em que, onde. Onde, em que lugar? Quando, em tal momento. Quando? Em que momento?

uter, utra, utrum. Um dos dois, não importa qual dos dois. Qual dos dois? (obs. também há um adjetivo e um substantivo uter). Provavelmente a origem ou correlacionado com other do inglês.

Substantivos

adiutor, adiutoris, (m.). (ad-iuuo). O que ajuda. Auxiliar, assistente, ajudante. Substituto.

adiutorĭum,-i, (n.). (ad-iuuo). Ajuda, socorro, auxílio. Adjutório.

adiutrix, adiutricis, (f.). (ad-iuuo). A que ajuda. Auxiliar, assistente, ajudante.

aes, aeris. (n) bronze, dinheiro, moeda, fortuna.

aestas, aestatis, (f.). Verão, estio. Calor do verão.

aetas, aetatis, (f.). Idade. Duração de uma vida. Geração, século.

aether, -ěris ou ěros. (m) éter, região superior do ar que envolve a atmosfera; parte do céu, sede do fogo; fogo; o céu, a mansão dos deuses; o ar; o mundo dos vivos (por oposição aos infernos).

afflatus,-us, (m.). (ad-flo). Sopro, vento, respiração. Inspiração.

agna,-ae, (f.). Cordeira, ovelha. Vítima oferecida em sacrifício.

agnatus,-us, (m.). (ad-gnascor). Parente pelo lado paterno. Criança nascida após estabelecidos os herdeiros.

agnina,-ae, (f.). (agnus). Carne de cordeiro.

agnitĭo, agnitionis, (f.). (ad-gnosco). Conhecimento, reconhecimento.

agnus,-i, (m.). Cordeiro, carneiro.

alĕa,-ae, (f.). Jogo de dados, jogo de sorte. Sorte. Risco, perigo, azar.

aluus,-i, (f.). Cavidade intestinal, ventre. Útero. Cortiço de abelhas.

amasiuncŭla,-ae, (f.). (amo). Amante, namorada. Namoradinha.

amasĭus,-i, (m.). (amo). Amante, namorado.

aprugnus ou aprunus,-a,-um. (aper). De javali.

aquĭlo, aquilonis, (m.). O Aquilão (vento norte).

arx, arcis, (f.). Cidadela. Altura, o ponto mais elevado. Lugar fortificado, forte, baluarte. Refúgio, proteção. O Capitólio.

ascĭa,-ae, (f.). Enxó, machadinha.

bos, bovis: (m) [seu pai tem… ] boi

brachĭum,-i (n.). Braço, antebraço. Membro anterior de animais. Braço de mar.

caecĭtas, caecitatis, (f.). (caecus). Cegueira, falta de vista.

calămus,-i, (m.). Cana, haste de plantas. Objeto feito de ou em formato de cana. Caniço, flauta, flecha. Caneta, pena de escrever. Colmo de plantas.

compressĭo, compressionis, (f.). (cum-premo). Compressão, ato de comprimir. Concisão, precisão de estilo. Abraço.

contubernĭum,-i, (n.). (cum-taberna). Camaradagem. Relações de amizade, intimidade. Habitação comum. Morada.

caro, carnis. (f) carne.

cibus,-i, (m.). Alimento, comida. Seiva. Estimulante. Isca.

cinis, cinĕris, (m.). Cinza. Cinzas dos mortos, restos mortais. Ruínas. Morte.

comĭtas, comitatis (f.). (comes). Afabilidade, cortesia, bondade. Liberalidade, generosidade. Magnificência de mesa, luxo.

corĭum,-i, (n.). Couro, pele curtida de animais. Pele, casca. Correia, chicote.

cornu,-us, (n.). Chifre, corno. Objeto feito de ou em forma de chifre. Casco do pé de animais. Bico de aves. Dente de elefante. Antena de insetos. Cornos da lua. Braço de rio. Arco. Penacho, cumeeira de capacete. Formação do exército. Vasilha de guardar azeite. Funil. Coragem, energia. Corno como símbolo da resistência e da hostilidade.

cornum, -i. Pilrito (fruta avermelhada)

cras. Amanhã.

crastĭnus,-a,-um. (cras). De amanhã. Posterior, futuro.

crus, cruris, (n.). Pernas. Pilastras. Parte inferior de um tronco.

cura,-ae, (f.). Cuidado, zelo, preocupação amorosa. Direção, administração, encargo. Tratamento (= atenção, cuidado). Guarda, vigia, protetor.

decor, decoris, (m.). (decet). Beleza física, formosura, encanto, graça. O que fica bem, o que convém. Ornamento, elegância. (Opõe-se a DECUS = beleza moral).

disciplina,-ae, (f.). (disco). Ensino, instrução, educação, ciência, disciplina. Disciplina militar. Matéria ensinada. Método, sistema, doutrina. Organização política. Princípios de moral.

dolus, -i, (m.). Manha, astúcia, sagacidade. Engano, ardil, dolo. Insídia, traição, trapaça, fraude. Erro, falta, ato censurável, negligência.

domĭna,-ae, (f.). (domus). Dona da casa, esposa. Senhora, soberana. Amiga, amante. A imperatriz.

dos, dotis, (f.). (do). Dote. Bens, talento, qualidades.

fastus,-us, (m.). Orgulho, soberba, altivez, desdém.

fauces, faucĭum, (f.). Garganta, desfiladeiro. Entrada de uma caverna, de um porto. Boca, cratera. Goela.

fel, fellis, (n.). Bílis, fel. Amargor. Cólera, inveja, veneno.

forma, formae: Pode significar forma, molde, moldura, beleza, formosura, mas também significa moeda cunhada, moeda, além de significar figura, imagem, representação. Ver VULTUS.

fraga, -orum (n. pl.). morangos

habĭtus,-us, (m.). (habĕo). Condição, estado, aspecto exterior, conformação física. Aparência, postura, situação, posição, atitude. Maneira de ser ou de agir, hábito. Veste, traje (= roupas características).

herctum,-i, (n.) Herança.

hereditarĭus,-a,-um. (heres). Relativo a uma herança, de herança. Recebido por herança, hereditário.

heredĭtas, hereditatis, (f.). (heres). Herança, ação de herdar. Sucessão.

heredĭum,-i, (n.). (heres). Herança, bens herdados, patrimônio.

heres, heredis, (m.). Herdeiro, herdeira. Proprietário, dono.

heri ou here. Ontem.

hircinus,-a,-um. (hircus). De bode, de pele de bode.

hircosus,-a,-um. (hircus). De bode, peludo como um bode, que cheira a bode.

hircus,-i, (m.). também hirquus. Bode. Cheiro de bode. Devasso.

iactura,-ae, (f.). (iacĭo). Alijamento, lançamento de uma carga ao mar, perda. Dano, prejuízo, sacrifício. Despesa, gasto, prodigalidade. ~FATURA

imber, imbris, (m.). Aguaceiro, chuva, temporal. Nuvem de chuva, chuva de pedras.

incus, incudis, (f.). (in-cudo). Bigorna.

inopĭa,-ae, (f.). (in-ops). Falta, carência, privação. Necessidade, pobreza, miséria, indigência. Abandono. Abstinência. Secura.

instar, (n.) – indeclinável. Peso que se colocava num dos pratos da balança. O equivalente, o valor de, mais ou menos, do tamanho de. Valor igual, imagem, semelhança.

interfatĭo, interfationis, (f.). (inter-for). Interrupção, interpelação.

iter, itinĕris, (n.). Caminho percorrido, trajeto, viagem, marcha. Via, meio, maneira. Curso.

iurgĭum,-i, (n.). (ius-ago). Querela, disputa, contenda. Contestação, separação (de casal).

iusiurandum, iurisiurandi. (n) Juramento.

iussum,-i, (n.). (iubĕo). Ordem, mandado, preceitos. Vontade (do povo), lei.

mentŭla,-ae, (f.). Membro viril, pênis.

mercedŭla,-ae, (f.). (merces). Pequeno salário, pequena renda. Rendimento fraco.

modĭus,-i, (m.). Módio, alqueire.

modo. Só, somente, apenas. Neste momento, imediatamente. Ainda há pouco, ainda agora. Pouco depois. (modo + subjuntivo/ut = contanto que, sob a condição de; modo…modo… = ora…ora…, sucessivamente).

moecha,-ae, (f.). Mulher adúltera, cortesã.

moechas, moechadis, (f.). Mulher adúltera, cortesã.

moechia,-ae, (f.). Adultério.

moechus,-i, (m.). Homem adúltero.

munus, munĕris, (n.). Cargo, função, ocupação, ofício público. Obrigação, serviço, tarefa. Presente, brinde. Graça, favor, benefício. Exéquias, funeral. Espetáculo público, combate de gladiadores.

occidĭo, occidionis, (f.). (occido). Massacre, extermínio, carnificina, matança.

occidŭus,-a,-um. (occĭdo). Poente, ocidental, localizado no ocidente. Decadente, declinante. Perecível, que caminha para o fim.

occipitĭum,-i, (n.). (ob-caput). A parte de trás da cabeça, occipício.

officina,-ae, (f.). (opĭfex). Oficina, fábrica, laboratório, loja. Escola.

olla,-ae, (f.). Panela, caldeirão. Urna cinerária.

opĭfex, opifĭcis, (m./f.). (opus-facĭo). Autor(a), fabricante, produtor(a). Trabalhador(a), artista.

os, oris, (n.). Boca. Voz, linguagem, palavra. Expressão facial, rosto, fisionomia. Ar, aspecto. Entrada, abertura, orifício. = VULTUS. Fonte, princípio. Embocadura. Proa de Navio. (pleno ore = zelosamente, com carinho).

os, ossis, (n.). Osso, ossada. Parte interior, cerne, caroço. Esqueleto. Coração, entranhas.

ouilis, ouile. (ouis). De ovelha, lanígero.

ouis, ouis, (f.). Ovelha, carneiro. Lã. Simplório, bobo, imbecil.

plaga,-ae, (f.). Golpe, pancada, soco. Surra, açoite. Ferida, lesão, cicatriz. Desgraça, calamidade. Praga, peste. Aflição, aborrecimento. Região, setor, área delimitada, zona. Distrito, comarca. Rede de caça. Armadilha, emboscada. Cortina.

poetrĭa,-ae, (f.). Poetisa.

pontĭfex, pontifĭcis, (m.). (pons-facĭo). Pontífice, sacerdote que ocupa alto cargo. (pontĭfex maxĭmus = presidente do Colégio dos pontífices).

pontus,-i, (m.). Mar, alto mar, mar profundo. Onda, vaga.

probrum,-i, (n.). Ato vergonhoso, conduta ignóbil. Indecência, lascívia, adultério. Vergonha, desgraça, desonra, infâmia. Abuso, insulto, difamação.

proelĭum,-i, (n.). Combate, batalha, luta. Rivalidade.

puella,-ae, (f.). (puellus). Menina, garota, criança (do sexo feminino). Moça. Amada, querida. Mulher nova, esposa jovem.

puer,-ĕri, (m.). Criança (do sexo masculino ou feminino). Menino, garoto. Rapaz, jovem solteiro. Filho. Servo novo, escravo jovem, pajem.

puerpĕra,-ae, (f.). (puer-parĭo). Parturiente.

pumex, pumĭcis, (m./f.). Pedra-pomes. Pedra porosa. Pedra, rocha, rochedo.

rapĭdus,-a,-um. (rapĭo). Que arrebata, que toma à força, que arrasta violentamente. Rápido, veloz, ligeiro. Impetuoso, precipitado, impaciente.

regĭa,-ae, (f.). (rex). Residência do rei, palácio real. Tenda do rei. Trono, corte real. Reino, realeza. Cidade real, capital. Salão, varanda, pórtico. Basílica.

reticentĭa,-ae, (f.). (reticĕo). Silêncio, ação de silenciar. Pausa no meio do discurso.

rima,-ae, (f.). Fenda, rachadura, fissura, greta. Sulco. Órgão sexual feminino.

riuus,-i, (m.). Pequeno fluxo de água, córrego, riacho, ribeirão. Canal de irrigação, vala. Rego, calha. Corrente, torrente, fluxo. (e riuo flumĭna magna facĕre = supervalorizar uma situação, fazer tempestade em copo d’água).

rogus,-i, (m.). Pira, fogueira funerária. Túmulo, sepultura.

scelus, scelĕris, (n.). Crime, atitude abominável, ato infame. Má qualidade, natureza viciosa. Vilania, atitude de salafrário. Velhaco, patife (adj.). Azar, infelicidade, calamidade, infortúnio. Catástrofe natural.

sera,-ae, (f.). (sero). Barra de madeira (usada para trancar portas). Fechadura, ferrolho.

sidus, sidĕris, (n.). Grupo de estrelas, constelação. Céu, firmamento. Noite. Estrela, astro. Brilho, beleza, ornamento. Orgulho, glória. Estação do ano. Clima, tempo. Tempestade, temporal, tormenta.

sinus,-us, (m.). Curva, cavidade, sinuosidade, concavidade. Rosca, espiral. Prega da parte superior da toga, parte superior de uma vestimenta. Bolso, porta-moeda. Roupa, vestimenta. Seio, peito. Regaço, colo. Esconderijo, asilo. Parte mais íntima, interior, cerne, centro. Baía, enseada, golfo. Ponta de terra que avança sobre o mar. Terreno recurvado, vale. (sinu laxo ferre = ser descuidado, não prestar atenção).

spes,-ei, (f.). Esperança, expectativa, perspectiva. Temor, mau pressentimento, receio.

spissus,-a,-um. Denso, compacto, espesso, consistente. Lento, vagaroso. Difícil, penoso.

spontis. Vontade, desejo, voluntariamente, por si mesmo, por sua própria vontade (sponte sua); sponte (abl.)

stabŭlum,-i, (n.). (sto). Residência, domicílio, morada, habitação. Estábulo, estrebaria, cercado. Rebanho, bando, manada. Cabana, albergue, hospedaria, taberna. Lupanar, bordel.

stipes, stipĭtis, (m.). Tronco de árvore, tora, talo, haste. Árvore. Galho, ramo. Imbecil.

sus, suis. (m) Porco.

tergum,-i, (n.). Pele (das costas), dorso, costas. Lombo. Pele, couro, objetos feitos de couro. Face posterior das coisas, retaguarda. Superfície (de águas, por exemplo).

tergus, tergŏris, (n.). Pele, costas. Couro de um tambor, couraça, escudo de couro.

tribus,-us, (m.). Tribo (divisão inicial do povo romano). Povo, classe pobre, multidão, massa. Classe, categoria.

tritĭcum,-i, (n.). Trigo (beneficiado).

usurpatĭo, usurpationis, (f.). (usus-rapĭo). Uso, emprego. Uso ilícito, abuso, usurpação.

vindex, -ĭcis. (m e f) fiador, vingador, protetor.

uir, uiri, (m.). Homem. Marido, esposo. Macho. Indivíduo, pessoa, companheiro, colega. Virilidade. família importante de palavras, com desinências abaixo.

uirga,-ae, (f.). Ramo flexível e delgado, rebento, vergôntea. Vara, chibata. Vara mágica. Caduceu (de Mercúrio). Vara com visgo para apanhar pássaros. Raios.

uirginĭtas, uirginitatis, (f.). (uirgo). Virgindade.

uirgiuendonĭdes. (uirgo-uendo). Vendedor de mulheres jovens.

uirgo, uirgĭnis, (f.). Mulher jovem. Virgem, novo. As Vestais. Diana. A constelação de Virgem.

uirgŭla,-ae, (f.). (uirga). Pequena vara, pequeno traço ou linha.

uiridĭa,-ĭum, (n.). (uirĕo). As plantas (o verde). Jardim, vergel.

uirilĭtas, uirilitatis, (f.). (uir). Virilidade, idade viril. Caráter masculino, sexo masculino.

uirtus, uirtutis, (f.). (uir). Força física do homem, vigor do homem. Coragem, vigor, energia. Qualidades morais: virtude, perfeição, mérito, valor.

uirus,-i, (n.). Suco de plantas. Humor venenoso, veneno, peçonha. Amargor, mau cheiro.

uisceratĭo, uiscerationis, (f.). (uiscus). Distribuição pública de carne. Refeição de carne.

uiscum,-i, (n.). Visco (planta). Visgo.

uulpes, uulpis, (f.). Raposa. Manha, astúcia, dissimulação.

uultus,-us, (m.). Expressão do rosto, fisionomia, rosto, semblante, olhar. Figura, aspecto, aparência. = FORMA, OS.

Verbos

abdo,-is,-ĕre,-dĭdi,-dĭtum. (ab-do). Retirar, afastar. Encobrir, ocultar.

adduco,-is,-ĕre,-duxi,-ductum. (ad-duco). Puxar para si, fazer vir a si, levar consigo. Conduzir, levar a. Contrair, enrugar.

adiuvo,-as,-are,-iuvi,-iutum. (ad-iuuo). Vir em auxílio de, auxiliar, ajudar, favorecer. Sustentar, manter. Animar. Realçar.

aequo,-as,-are,-aui,-atum. Aplainar, igualar, nivelar. Atingir, chegar a.

affĕro, affers,-ferre, attŭli, allatum. (ad-fero). Trazer ou levar. Anunciar, comunicar. Alegar, referir, dizer.

agĭto,-as,-are,-aui,-atum. (ago). Impelir com força, fazer avançar. Agitar. Perseguir, atormentar, censurar. Pensar, refletir.

agnascor,-ĕris,-nasci,-natus sum. (ad-gnascor). Nascer junto, ao lado de. Nascer depois do testamento.

ago,-is,-ĕre, egi, actum. Empurrar para frente, impelir, conduzir à frente. Dirigir-se para. Fazer sair, expulsar. Agir, fazer, ocupar-se de, tratar. Viver, passar a vida. Cumprir um ritual, interpretar, representar um papel.

aio, ais (defectivo). Dizer sim, afirmar. Dizer.

amitto,-is,-ĕre, amisi, amissum. (a-mitto). Deixar escapar ou afastar-se, deixar partir. Perder, abandonar, renunciar.

appeto,-is,-ĕre,-petiui,-petitum. (ad-peto). Procurar aproximar-se de, procurar alcançar. Atacar, assaltar. Desejar pretender. Aproximar-se, chegar.

assuesco,-is,-ĕre,-sueui,-suetum. (ad-suesco). Habituar-se a, acostumar a.

attingo,-is,-ĕre,-tĭgi,-tactum. (ad-tango). Tocar em, alcançar, atingir. Confinar com, estar contíguo.

caedo, -is, -ěre, cecidi, caesum. bater, abater, cortar, matar, massacrar, partir, decepar.

carpo,-is,-ĕre, carpsi, carptum. Colher, arrancar. Desenredar, desfiar, separar. Recolher, fruir, gozar, consumir. Censurar, atacar. Percorrer, seguir.

cedo,-is,-ĕre, cessi, cessum. Ir, andar, dar um passo adiante. Tocar a, caber a. Retirar-se, ir-se embora. Ceder a, não resistir. Entrar em acordo. Passar, decorrer. Conceder, entregar.

celo,-as,-are,-aui,-atum. Esconder, ocultar.

coepi, coepisse, coeptum – somente perfectum. Ter começado, principiado. Estabelecer. Começar.

coepto,-as,-are,-aui,-atum. (coepi). Começar, empreender, tentar. Estar no início.

cogo,-is,-ĕre, coegi, coactum. (cum-ago). Levar junto, conduzir juntamente. Reunir em um mesmo lugar, congregar. Condensar, resumir. Conduzir à força, obrigar a reunir. Coagir, forçar, obrigar. Coagular. Fechar a marcha. Concluir, inferir.

committo,-is,-ĕre,-misi,-missum. (cum-mitto). Pôr juntamente, juntar, reunir. Comparar, confrontar. Confiar, entregar. Começar, empreender, travar combate. Cometer uma falta, infringir uma lei. Merecer um castigo, ser culpado.

comprĭmo,-is,-ĕre,-pressi,-pressum. (cum-premo). Comprimir, apertar, contrair. Reter, suspender, conter, reprimir. Guardar, ocultar. Forçar, violentar. Ter prisão de ventre.

concumbo, -is, -ere, -cubui, cubitura: deitar-se

confirmo,-as,-are,-aui,-atum. (cum-firmo). Consolidar, firmar. Restabelecer-se, convalescer, curar-se. Confirmar, ratificar, provar, garantir. Animar, encorajar, persuadir.

coniicĭo,-is,-ĕre,-ieci,-iectum, ou conicĭo, também coicĭo. (cum-iacĭo). Lançar juntamente, lançar em massa, reunir. Lançar, arremessar, atirar. Presumir, calcular, conjeturar, concluir, inferir.

consto,-as,-are,-stĭti,-statum. (cum-sto). Estar seguro, estar firmemente estabelecido. Ser evidente, ser composto de, consistir em. Custar, ser posto à venda, ter o valor de. Existir, subsistir, permanecer, durar. Estar de acordo, em harmonia. Constar.

constupro,-as,-are,-aui,-atum. (cum-stupro). Desonrar, atentar contra o pudor, violar. Manchar, poluir, sujar.

consuesco,-is,-ĕre,-sueui,-suetum. (cum-suesco). Acostumar, habituar. Acostumar-se. Ter relações com. = SOLEO, ASSUESCO

contĕgo,-is,-ĕre,-texi,-tectum. (cum-tego). Cobrir, proteger. Esconder, encobrir, dissimular.

contingo,-is,-ĕre,-tĭgi,-tactum. (cum-tango). Tocar, tocar em, atingir. Chegar, alcançar. Ter relações. Contaminar.

contingo,-is,-ĕre,-tinxi,-tinctum, ou contingŭo. (cum-tingo). Tingir completamente, cobrir de tinta, untar, impregnar.

cupĭo,-is,-ĕre,-iui/-ĭi,-ítum. Desejar, ter vontade de, desejar ardentemente, cobiçar. Ter desejos, paixão.

curo,-as,-are,-aui,-atum. (cura). Cuidar, olhar por, tratar, velar. Curar. Governar, dirigir, administrar. Comandar. Fazer por, ter em conta. Vigiar, zelar, proteger.

debĕo,-es,-ere, debŭi, debĭtum. (de-habĕo). Dever (dinheiro ou qualquer outra coisa), ser devedor. Ter obrigação de. Ser forçado a. Estar obrigado a. Ser destinado a.

delinquo,-is,-ĕre,-liqui,-lictum. (de-linquo). Faltar, ausentar-se. Cometer uma falta, delinquir, pecar.

depono,-is,-ĕre,-posŭi,-posĭtum. (de-pono). Pôr no chão, pousar. Depor. Guardar em segurança, depositar, confiar a. Abandonar, largar, renunciar, deixar de lado.

deprĭmo,-is,-ĕre,-pressi,-pressum. (de-premo). Abaixar, fazer descer, enterrar. Submergir. Abater, deprimir, rebaixar. Humilhar, depreciar, restringir.

deridĕo,-es,-ere,-risi,-risum. (de-ridĕo). Rir de, zombar, ridicularizar.

deuŏco,-as,-are,-aui,-atum. (de-uoco). Chamar, fazer descer, fazer vir, atrair, convidar. Conduzir, levar a.

dico, -is, -ere, dixi, dictum: narrar; cantar, celebrar, recitar, predizer; chamar, designar, apelidar; nomear, eleger; fixar, estabelecer; ordenar, avisar.

dilĭgo,-is,-ĕre,-lexi,-lectum. (dis-lego). Amar (por escolha), gostar, distinguir, honrar, considerar.

disco,-is,-ĕre, didĭci. Aprender, estudar. Aprender a conhecer, conhecer, ser informado.

dispăro,-as,-are,-aui,-atum. (dis-par). Separar, dividir.

diuello,-is,-ĕre,-uelli/-uulsi,-uulsum. (dis-uello). Puxar em sentidos diversos, separar à força, rasgar, arrancar, dilacerar. Perturbar. Afastar, separar. (parece não ter o sentido de desvelar.)

do, das, dare, dedi, datum. Dar. Oferecer, apresentar, consagrar, fornecer. Permitir, concordar, admitir, ceder. Provocar, ocasionar. Pôr, colocar. Produzir, emitir. Dizer, expor, proferir. Fixar, representar.

duro,-as,-are,-aui,-atum. (durus). Tornar duro, endurecer, fortificar.Tornar-se insensível, ser cruel. Tornar forte, durar, resistir.

edo, edis, edĕre, edĭdi, edĭtum. (e-do). Fazer sair, publicar, dar à luz. Produzir, causar. Expor, fazer ver. Escolher, nomear, declarar, fazer conhecer oficialmente.

egĕo,-es,-ere, egŭi. Estar na pobreza, na indigência, ser pobre, carecer de. Estar privado de. Procurar, desejar.

emĭco,-as,-are,-micŭi,-atum. (e-mico). Lançar-se para fora, atirar-se para fora, sair com força, romper, brotar. Aparecer, surgir, irromper, manifestar-se.

eo, is, ire, iui/ĭi, itum. Ir. Dirigir-se, caminhar para, andar. Recorrer, procurar, Passar, transformar-se, correr de, espalhar-se. obs: ver EO como advérbio.

excepto, -as, -are. (ex-capĭo). Retirar a todo instante, recolher habitualmente, recolher, apanhar.

excĭto,-as,-are,-aui,-atum. (ex-cito). Mandar sair, chamar para fora, expulsar. Excitar, provocar, despertar, estimular, animar. Dar, apresentar (testemunhas). Construir, edificar. Fazer brotar, crescer. Assinar, encorajar.

fallo,-is,-ĕre, fefelli, falsum. Enganar, induzir em erro, trair, faltar, falsear. Escapar a, ignorar.

fatĕor,-eris,-eri, fassus sum. (for). Confessar, reconhecer o erro. Manifestar, declarar, proclamar, publicar.

fingo,-is,-ĕre, finxi, fictum. Modelar em barro, modelar, moldar, esculpir. Imaginar, inventar, produzir, criar, fingir. Ajustar, adaptar.

fio, fis, fiěri, factus sum. (passiva de facio) ser feito, ser criado, fazer-se, dar-se; ser nomeado, ser considerado; (com significação própria) tornar-se, acontecer, dar-se, resultar.

flagro,-as,-are,-aui,-atum. Arder, estar em chamas, estar abrasado. Estar dominado por, ser devastado, destruído. Arder de amor.

fleo,-es,-ere, fleui, fletum. Ato físico de chorar, derramar lágrimas. Lamentar, deplorar.

frango,-is,-ĕre, fregi, fractum. Partir, quebrar, romper, rasgar, dilacerar. Violar, infringir. Abater, debilitar. Refrear, reprimir, destruir, arruinar.

gestio, gestionis, (m.). (gero). Ação de dirigir, gestão, administração, gerenciamento.

gestĭo,-is,-ire,-iui/-ĭi,-itum. (gero). Fazer gestos expansivos, emocionados. Desejar ardentemente, estar ansioso por.

gesto,-as,-are,-aui,-atum. (gero). Levar daqui e dali, levar, trazer, transportar em liteira. Estar grávida, trazer consigo. Denunciar, delatar.

impingo,-is,-ĕre,-pegi,-pactum. (in-pango). Enterrar, plantar, pregar. Impingir. Lançar, impelir, atirar.

impono,-is,-ĕre,-posŭi,-posĭtum. (in-pono). Pôr em, dentro, colocar, depositar, sobrepor. Pôr à frente, infligir, impor. Encarregar, confiar. Enganar, iludir.

insĕquor,-ĕris,-sequi,-secutus sum. (in-sequor). Seguir, perseguir. Vir depois, sobrevir, suceder. Atacar, acometer, ferir.

nouo,-as,-are,-aui,-atum. (nouus). Tornar novo, renovar, inovar. Mudar, alterar, inventar.

interficĭo,-is,-ĕre,-feci,-fectum. (inter-facĭo). Privar de, privar da vida, matar, assassinar, massacrar. Aniquilar, destruir, fazer desaparecer.

iudĭco,-as,-are,-aui,-atum. (ius-dico). Julgar, proferir uma sentença. Processar, reclamar, demandar. Declarar, proclamar. Avaliar, estimar, apreciar.

iubĕo,-es,-ere, iussi, iussum. Ordenar, mandar. Sancionar, autorizar, decidir. Convidar a, desejar, levar a. saudar.

iungo,-is,-ĕre, iunxi, iunctum. (iugum). Atrelar, unir aos pares, jungir. Reunir. Continuar, prosseguir, fazer suceder. Acrescentar.

laboro,-as,-are,-aui,-atum. (labor). Trabalhar, esforçar-se. Sofrer, inquietar-se, preocupar-se, estar em dificuldade. Desaparecer, sucumbir. Elaborar, executar. Cultivar.

laedo,-is,-ĕre, laesi, laesum. Bater, ferir. Prejudicar, danificar, ultrajar. Tocar, causar impressão.

lego, -is, -ěre, legi, lectum. Colher, reunir.

licet,-ere, licŭit/licĭtum est. Ser permitido, poder, ter o direito de.

maerĕo,-es,-ere. Estar triste/aflito, afligir-se. Deplorar, lamentar. Dizer com tristeza.

mando,-as,-are,-aui,-atum. Confiar, entregar, encarregar. Mandar, ordenar. Mandar comunicar.

mando,-is,-ĕre, mandi, mansum. Mascar, mastigar. Devorar, comer com voracidade.

minor,-aris,-ari,-atus sum. Ameaçar, fazer ameaças. Declarar, prometer.

miror,-aris,-ari,-atus sum. Espantar-se, assombrar-se. Admirar, contemplar, olhar com espanto/admiração.

moechor,-aris,-ari. (moechus). Cometer adultério.

monĕo,-es,-ere, monŭi, monĭtum. Fazer pensar, lembrar. Chamar a atenção, advertir. Aconselhar, esclarecer. Instruir, ensinar. Predizer, anunciar, profetizar.

mulcĕo,-es,-ere, mulsi, mulsum. Tocar levemente, acariciar, apalpar, lamber. Abrandar, apaziguar, suavizar, acalmar.

mulco,-as,-are,-aui,-atum. Bater, maltratar. Estragar, deteriorar, danificar.

nescĭo, -is, -ire, -iui/-ĭi, -itum. (ne-scio). Desconhecer, ignorar, não saber.

nouo,-as,-are,-aui,-atum. (nouus). Tornar novo, renovar, inovar. Mudar, alterar, inventar.

obĕo,-is,-ire,-iui/-ĭi,-itum. (ob-eo). Ir ao encontro de, encontrar. Opor-se (ir de encontro a!), ir contra, afrontar. Percorrer, rodear. Empreender, executar. Pôr-se, acabar, perecer, morrer.

occĭdo,-is,-ĕre, occĭdi, occasum. (ob-cado). Cair, desmoronar-se. Pôr-se. Sucumbir, perecer.

occido,-is,-ĕre, occidi, occisum. (ob-caedo). Cortar, fazer em pedaços. Matar, fazer perecer, levar à morte, torturar. Importunar, atormentar.

oportet,-ere, oportŭit. (opus). Ser necessário/preciso, ser apropriado/bom, ser razoável, convir. ~OPORTUNIDADE

porricĭo,-is,-ĕre, porreci/porrexi, porrectum. Estender sobre o altar, oferecer sacrifícios aos deuses. Trazer diante de, apresentar.

posco,-is,-ĕre, poposci. Pedir prementemente, rogar, implorar. Demandar, solicitar, requisitar, precisar. Exigir punição, pedir a rendição. Mendigar. Chamar, exigir a presença. Invocar. Pedir a mão, pedir em casamento.

praemetŭo,-is,-ĕre. (prae-metŭor). Recear antes, temer antecipadamente.

prodo, -is, -ĕre, -dĭdi, -dĭtum. (pro-do). Dar, entregar, pôr à disposição. Produzir, fazer sair, dar à luz, parir. Publicar, relatar, tornar público, propagar. Indicar, eleger, criar. Trair, denunciar, delatar. Desistir, abandonar. Estender, prolongar. Transmitir, legar.

prosilĭo,-is,-ire,-silŭi/-silĭi/-siliui. (pro-salĭo). Saltar para frente, lançar-se, pular adiante, arremessar-se. Estourar, explodir, quebrar, romper. Correr, acelerar, apressar.

quaero, -is ,-ĕre, quaesiui/quaesĭi, quaesitum/quaestum. Procurar obter, buscar, visar. Obter, adquirir. Notar a ausência de, sentir a falta de. Perguntar, interrogar, desejar saber, informar-se, inquirir. Planejar, estabelecer como meta. Esforçar-se, empenhar-se. Meditar, refletir, ponderar. Exigir, demandar, necessitar. Desejar. Preferir. Investigar judicialmente. = quaeso

quaeso,-is,-ĕre, quaesiui/quaesĭi. (quaero). Procurar obter, buscar ardentemente, visar. Implorar, suplicar, rogar, pedir suplicantemente. (quaeso/quaesumus = por favor, por gentileza). = quaero

queror,-ĕris, queri, questus sum. Queixar-se, reclamar, lastimar-se, lamentar-se, deplorar, gemer, suspirar. Apresentar uma reclamação diante de um tribunal.

reddo,-is,-ĕre, reddĭdi, reddĭtum. (re-do). Dar de volta, devolver, restabelecer, restituir. Consentir, conferir, conceder, entregar, recompensar, gratificar. Desistir, ceder, abandonar, entregar-se, resignar-se, renunciar. Vomitar, expelir. Decretar, estabelecer, pronunciar. Vingar-se, punir, fazer justiça. Traduzir, verter. Repetir, declarar, relatar, narrar, recitar, ensaiar, exercitar. Responder, replicar. Representar, imitar, expressar, assemelhar-se, refletir.

reor, reris, reri, ratus sum. Contar, calcular. Acreditar, pensar, julgar, supor, imaginar, avaliar.

repraesento,-as,-are,-aui,-atum. (re-praesento). Mostrar, exibir, colocar diante de, manifestar. Retratar, representar. Pagar imediatamente, pagar à vista. Fazer imediatamente, executar sem demora.

retundo,-is,-ĕre, re(t)tŭdi, retu(n)sum. (re-tundo). Embotar, tirar o fio de uma faca. Mitigar, enfraquecer, atenuar. Restringir, reprimir, fazer parar.

rumpo,-is,-ĕre, rupi, ruptum. Quebrar, romper, estourar. Lacerar, rasgar, despedaçar, forçar a abertura. Violar, destruir, anular, interromper, suspender. Lançar, soltar.

sapĭo,-is,-ĕre,-ĭi/-iui. Saborear, provar. Ter o gosto/sabor de. Cheirar a, ter o mesmo odor de. Ser inspirado por, imitar. Ser discreto/prudente/sábio, ter discernimento. Saber, conhecer, compreender, entender

saucĭo,-as,-are,-aui,-atum. (saucĭus). Ferir, machucar. Ferir mortalmente, matar. Cavar, escavar, fender, abrir. Podar, cortar, aparar. Ofender, magoar.

secludo,-is,-ĕre,-clusi,-clusum. (se-claudo). Trancar em local separado, isolar. Separar, remover, romper, partir. Excluir, segregar.

sino,-is,-ĕre, siui/sĭi, situm. Pôr, colocar, depositar, estender. Deixar, permitir, conceder, admitir. Desistir, interromper, deixar de fazer. (Sine! = Muito bem! De acordo!; sine modo = se pelo menos).

solĕo,-es,-ere, solĭtus sum. Estar acostumado/habituado, costumar. Ter relações sexuais. = CONSUESCO

spiro,-as,-are,-aui,-atum. Soprar, exalar. Respirar, inalar. Viver, estar vivo. Ser favorável a, favorecer. Estar inspirado poeticamente. Mostrar, expressar, manifestar. Aspirar, estar ávido por.

stabilĭo,-is,-ire,-iui,-itum. (stabĭlis). Tornar firme/constante/estável. Fixar, estabelecer. Fortalecer, apoiar, sustentar.

tenĕo,-es,-ere, tenŭi, tentum. Segurar, reter, manter, ter. Possuir, ocupar, ser senhor de, obter. Alcançar, atingir. Conservar, guardar, preservar. Durar, persistir.

tempto,-as,-are,-aui,-atum. Tocar, apalpar. Tentar, experimentar, ensaiar. Agitar, atacar, inquietar. Tentar corromper, seduzir.

tollo,-is,-ĕre, sustŭli, sublatum. Erguer, levantar, elevar, apanhar. Levar, transportar, embarcar. Tirar, tomar. Destruir, suprimir, abolir. Lançar, impelir. Exaltar, celebrar. Suportar, sofrer. Tollĕre filĭum: gesto simbólico de “tomar o filho” em reconhecimento da paternidade.

torquĕo,-es,-ere, torsi, tortum. Torcer, fazer o movimento de torção, dar volta. Revolver, fazer rolar. Torcer os membros, torturar, atormentar. Fazer o giro que antecede ao lançamento de uma arma. Experimentar, sondar. Sustentar, suportar.

tuĕor,-eris,-eri, tuĭtus sum/tutus sum. Ver, olhar, examinar, observar. Guardar, proteger, defender, honrar, respeitar. Perceber, descobrir. Alimentar, sustentar.

ualĕo,-es,-ere, ualŭi, ualĭtum. Ser forte, ser vigoroso, ter boa saúde, estar fisicamente bem. Prevalecer, exceder, ser influente. Ter a força, o poder. Valer, ter o valor de.

uescor,-ĕris, uesci. Alimentar-se, nutrir-se, comer. Fartar-se.

uidĕo,-es,-ere, uidi, uisum. Olhar, presenciar, testemunhar. Perceber, compreender. Examinar, meditar. Cuidar, tomar conta, ocupar-se de, reparar.

uincĭo,-is,-ire, uinxi, uinctum. Ligar, atar prender, amarrar, vincular, conter. Prender, aprisionar. Tolher, paralisar. Cativar, seduzir, encantar.

uinco,-is,-ĕre, uici, uictum. Sair vencedor, vencer. Ganhar, triunfar, superar. Convencer, provar, demonstrar.

voluto, -as, -are, -avi, -atum. (freq. de volvo) rolar por várias vezes; revolver no espírito, meditar, discutir, examinar, debater.

volvo, -is, -ěre, volui, volutum. rolar, fazer rolar, fazer dar voltas, revolver; revolver no espírito, refletir, meditar.

usurpo,-as,-are,-aui,-atum. (usus-rapĭo). Tomar posse pelo uso. Apropriar-se de, tomar posse ou conhecimento, usurpar. Fazer uso, empregar, usar, praticar. Designar, denominar.

A CURIOSA ETIMOLOGIA LATINA DE ALGUMAS PALAVRAS DE NOSSO IDIOMA

agenda: de agenda, forma verbal que denota o que temos obrigação de fazer.

bêbado: é comum se pensar que as palavras apenas encolhem com o tempo, mas muitas do português são maiores que as originais do latim. Bêbado vem de bebo. Há mais casos de “síncopes aditivas” abaixo.

calar: do verbo celo.

chácara: de chacra, que pouco tem a ver com ninjutsu ou atributo hindu!

cócega: de cosca. No diminutivo informal usamos cosquinha.

consuetudinário: termo que sói-se encontrar prefixado por “direito”, sua raiz é consuemus, estar habituado a, daí o direito consuetudinário ser o direito dos costumes, da tradição, i.e., direito ou lei avant la lettre.

côrte: de cohortor, aconselhar ou exaltar.

cujo: do pronome quod, que flexiona para cuius, quase caído em desuso entre nós.

derrisão: de deridere, ridicularizar.

insumo: aquilo que compõe uma substância composta, de insum, prevérbio in+sum, dentro estar.

interesse: de interesse, préverbio inter+verbo esse (ser), estar entre, participar, estar envolvido.

legenda: de legenda, forma verbal que denota obrigação de ler.

nefasto: o que não se faz, o que não deveria ser permitido pelo destino (ne+fas). Fas também aportuguesado com o tempo para fado.

o (e demais flexões, artigo): de illo (eles)

ocidente: aquilo que declina, occĭdo.

paralelepípedo: por alguma razão, cresceu com cacofonia do –le– de paralepipedo.

público: o que hoje chamamos de público, principalmente com referência ao Estado, advém do advérbio publice, “às custas do Estado”. É como se publicamente, ao longo de muitas gerações, tivesse se contraído e se transformado num substantivo/adjetivo.

pueril: de puer, infantil.

querela: de queror, reclamar.

racha (lésbica) (inf.): de rima, tanto rachadura quanto vagina, clitóris. // o “racha” no sentido de disputa não tem correlação.

sinusite: “Etimologia (origem da palavra sinusite). Do latim sinus+ite.” Sinus é polissêmico, mas pode querer dizer peito ou centro, por exemplo.

suíno: de suis, que significa porcos.

tutela: de tueri, proteger, defender.

vídeo: de vejo, conjugação da 1ª pessoa do presente de ver, videre.

vulto: de vultus, rosto, aspecto, aparência, se tornou para nós uma aparência desconhecida ou impossível de determinar (sentido mais restrito).

X.

Me convidaram para o clube de xadrez. Eu não sabia o que dizer. Faz muitos anos que não jogo. Já me esqueci o movimento das peças. Eu teria que reaprender as regras. Disseram, meu orientador e um colega chamado Gregório, que tudo bem. Hesitante, eu, não sei por quê, aceitei. Meu orientador são duas pessoas que eu conheço.

Isso me põe ansioso. Quando será a primeira partida? Vou perder e ser considerado burro por eles. É claro que pensavam que eu me daria melhor. Não lido bem com jogos espaciais. Muita coisa acontece ao mesmo tempo. Não posso me concentrar de uma vez só nas minhas peças e nas do adversário. Todas. Todas juntas. Um mero lance muda todo o posicionamento relativo, todas as interrelações entre as peças alteram todas as previsões do oponente. Não sei detectar quando meu adversário está sendo imediatista, quando apenas iniciou uma grande jogada que requer mil lances preparatórios. Como contra-atacar essas estratégias tão bem pensadas e executadas? Como implementar minha própria tática e sufocar o adversário, colocando-o na defensiva? Se inicio um jogo e movo uma torre por determinado móvel, ele pouco importa: dez, quinze rodadas à frente o tabuleiro estará irreconhecível, a torre demovida de seu remoto e ancestral propósito. Ou será que ela, soldado orgânico, pensa obcecadamente no rei inimigo? E contudo seu general é um modesto incipiente!

Como querem que eu demore menos de um dia para passar meu turno, tomar minha decisão irreversível, sabendo que tenho de levar em conta todas as movimentações possíveis no universo para não fazer besteira? Bem, é verdade que no início, ao menos, não há muito que pensar. Só se pode avançar peões. Eu nunca lidei bem com avaliar a importância de cada peça no xadrez. Para mim, o valor de um macaco, de um kong, num Plataforma 2D, segue bem mais claro. De uma argola do Sonic, perdida em alturas vertiginosas e mais rápido que o som do tênis tropeçando na madeira. Devo sacrificar minha torre, enfim, para comer o bispo do outro? Sou cavalheiro, cavaleiro, ou são as damas? Bobo da côrte. Porque jogar damas não exige tamanha abstração. Matemática é instintivo. Não passaria nervoso antes de uma partida com quem quer que fosse, nem a rainha da Inglaterra. Os outros parecem enxergar o que eu não vejo.

Estou sentado no corredor do quarto andar. Me disseram para ir sem pressa, jogamos quando der. Agora cada um foi cuidar de seus assuntos. Eu moro aqui. É um prédio muito alto, mas são ainda mais garagens que andares sobre a superfície, isto é, são ainda mais numerosos os andares do subsolo. Eu moro no quarto andar. Mas o oitavo está quatro lances de escada abaixo. Significa que eu moro no -4. Não faz muito calor, mas tudo tem aspecto velho e poeirento, sem necessariamente sê-lo. A Universidade de Brasília anda sem investimentos, largada. Está certo que cederam todo o lote do antigo Colégio Militar para expandir o campus, mas não é nada muito além disso. Tudo está ativo e inativo ao mesmo tempo. Nós os veteranos, os ex-alunos, podemos usar tudo aqui, ter nossos beliches, nossos armários, nossos computadores – bem como um banheiro compartilhado por andar. É dentro do campus mas é uma república. E tem tantos andares, esses edifícios, que cabemos todos, milhares e milhares. Todos os alunos, todos os que chegam todos os semestres, e essa massa de egressos. Não tem fim.

Existe uma xérox, uma loja fotocopiadora, no quinto andar, logo abaixo. Mas parece que faliu. O dono, um velho bigodudo, só está lá dentro esperando até alguém se interessar pela faixa de “alugo” pregada na frente. Tudo está fechado na hora em que me aproximo. As cópias eram muito baratas, os materiais, o papel, a tinta andam caros. Eu gostaria muito de tirar uma xérox agora, se bem que não tenho verdadeira urgência, pensando melhor. Em qual cantina vou comer? Existe a do quarto, a do sexto. Uma menina acabou de dizer que não agüenta esse cheiro. É verdade, esse cheiro de mofo com mijo nunca sai do prédio. Diria até que o antecede. Me pergunto como as pessoas não adoecem. Devem ser os anticorpos.

A fila da cantina do quarto andar está muito comprida, não posso comprar meu x-burger. Daqui a pouco vão fechar. Vai escurecer – LÁ FORA… Espera, tenho que procurar algumas pessoas lá em cima antes que o dia termine!

Do lado de fora, T. estava sentado num dos parapeitos rentes à calçada. Logo mais conhecidos se juntaram. Uns três ou quatro membros do clube de xadrez. uma mulher só, entre eles. Dizem que não há nada como jogar xadrez de verdade, com o tabuleiro, as peças, fisicamente… Sentir sua textura, encarar o antagonista. Hoje em dia todo mundo joga pelo celular, não é a mesma coisa. O clube é veementemente contra, a menos que um dos desafiantes não esteja no campus.

Compraram novos computadores. Um bilhete branco pregado com durex fazendo as vezes de post-it na minha tela informa que esta máquina é a mais poderosa e satisfaz minhas necessidades de pesquisa. Duvido muito. Bom, esse teclado, fino, frágil, duro, parece um tapete congelado, está encapado num tecido ainda mais velho, puído e esburacado, algumas partes são auto-adesivas (velcro). Eles nunca nos dariam acessórios que não fossem improvisados assim, de graça. O mouse, se é que é possível, é ainda mais simples que o teclado. Além disso a tela é muito pequena, do tamanho do próprio bilhete, só x polegadas. Se eu pudesse trazer a minha…

. . .

Quando me aproximava de T. vi que conversava com Mariana, a gorda, e era uma conversa leve, riam, mas o assunto me chamou a atenção: “Não vai me dizer que você é budista agora? Todo mundo está virando budista.” Eu fiquei calado. Guardei silêncio enquanto dava os últimos passos – da distância que eu estava, não era certo para eles que eu conseguira pegar algum trecho da conversa. Isso porque, faz pouco tempo, sou budista.

As garotas querem ir embora, eu vou acompanhá-las até ali, descendo-subindo a rua (eu não sei, sigo ao mesmo tempo das 900 para as 700 e das 600 para as 400). Só por mais duas faixas de pedestre, e pronto. Espera… – não, não posso ir mesmo com vocês. Sim, é uma pena. Vou voltar, preciso comer. O dia passou muito rápido, não consegui resolver nada.

Não há mais atividades para o dia. Recolher-se ao subsolo. Toque de recolher. O toque de recolher é o insuportável atrito dos freios. Nossa rodoviária possui o mais rápido trem-bala.

31 de março, 29 de abril

SINOPSES DE (ALGUNS) LIVROS INDISPENSÁVEIS PARA A FORMAÇÃO DO HISTORIADOR – Episódio I

HERÓDOTO, Histórias

Histórias, ou simplesmente História ou A História, de Heródoto de Halicarnasso, é considerado o primeiro trabalho no campo do que hoje entendemos pela disciplina história ou historiografia no Ocidente, fundador por excelência, portanto, de uma ampla e milenar tradição. Escrita por volta de 430 a.C. no dialeto jônico, aquele mais rico em produções culturais no mundo helênico durante a vida do “pai da História”, esta é uma obra de valor e repercussões inestimáveis a fim de compreender as sociedades grega, médio-oriental e africana setentrional, raio geográfico do berço das civilizações. Heródoto viajou extensamente para colher boa parte de seus relatos, inaugurando, portanto, ademais da historiografia, a etnografia e o estudo de campo, fundamentos da disciplina antropológica.

Através da pena de Heródoto as gerações futuras obtiveram, por exemplo, seus primeiros esclarecimentos acerca do surgimento do império persa e das causas e do desenrolar das guerras pérsicas (travadas contra os próprios gregos no mesmo século de Heródoto). Para o autor, tratava-se da luta decisiva entre os bárbaros, a representar a escravidão, e a liberdade, bandeira levantada pela confederação das cidades-Estados helenas capitaneadas pela democracia ateniense. Post mortem os escritos de Heródoto, indivisos, passaram a ser transmitidos em 9 livros ou partes, compartimentação que persiste na atualidade, cada qual tendo como subtítulo uma das nove Musas do Olimpo.

Controvérsias

Hecateu, estudioso que precedeu Heródoto, é segundo algumas fontes o verdadeiro pai da História, sendo, portanto, retrospectivamente, rival de Heródoto em fama. Os críticos dessa visão asseveram que Hecateu, a despeito de dotado de respeitável espírito crítico, comparável ao moderno, pré-requisito para a boa historiografia, pecava por não ter logrado se libertar das correntes representadas pelo discurso mitológico. Onde Heródoto utilizava a mitografia como elemento entre outros de seu método histórico inovador, cujas regras estritas levavam a primazia sobre narrações fantásticas, Hecateu seria seu antípoda ideal: contaminado pelos mitos, subordinava o relato da História a essas fontes mais tradicionais e impossíveis de delimitar no tempo. O próprio Heródoto critica em Hecateu suas genealogias ingênuas e a falsa imagem que teria pintado dos atenienses. O que deve ser cedo aprendido pelo historiador neófito, entretanto, é que “atacar” um predecessor nem sempre significa rejeitá-lo por completo ou deixar de admirá-lo, pois é patente que Hecateu tem sua parcela de contribuição como influenciador de Heródoto, por sinal um assunto ainda muito espinhoso e de árdua deglutição entre nossos acadêmicos. Porfírio e Eusébio, autores da Antiguidade, acusam Heródoto de haver tomado as descrições naturalistas de Hecateu do crocodilo, do hipopótamo e da fênix sem citar a Circunavegação do Mundo Conhecido/Periegesis como sua verdadeira fonte (Histórias 2:78).

Outra distinção marcante entre Hecateu e Heródoto, que compartilham a primeira sílaba do nome e o ofício, é que Hecateu não contava com o presente como fonte de informações para sua história, ao contrário de Heródoto, que ensina que sem verificações no tempo atual o passado estará perdido e o historiador se confinará ao mero reino das conjeturas. Heródoto antecipou em muitos séculos uma tendência em voga: a revalorização da história oral, método praticamente olvidado pelo cânone da historiografia européia clássica.

Com efeito, o caráter sui generis de Heródoto é seu maior trunfo e, igualmente, a razão de ser vilipendiado e incompreendido por certa parcela de seus pósteros. Sendo o “Hipócrates da História”, posto não pouco invejado, a dificuldade em determinar qualquer fonte principal para a forja de seu método, em termos de nomes célebres, torna-o alvo fácil do menosprezo e exageros retóricos dos historiadores mais oportunistas e pedantes. Pois nenhum outro autor partícipe da formação intelectual do grego precursor teve importância hegemônica em sua obra, como acabamos de ver por Hecateu, que o influenciou marginalmente ou, pelo menos, acabou por ser completamente ofuscado pelas realizações mais impressionantes do discípulo indireto. Como não há, em várias instâncias, como atribuir identidade às inspirações empíricas de Heródoto, historiadores de um espectro extremado contestam o valor de seus achados históricos e põem em dúvida sua boa-fé em seguir o próprio método investigativo que consolidou. De fato, não é possível verificar uma por uma as referências de Heródoto colhidas em entrevistas e testemunhos em suas viagens. Seria fácil desqualificar qualquer autor antigo usando o mesmo argumento, incluindo filósofos e tragediógrafos. E não obstante os séculos XX e XXI estão repletos de fraudes em trabalhos de história, o que não significa que o historiador médio seja um ficcionista sem ética.

Dentre alguns raciocínios atemporais de Heródoto hoje ratificados encontramos sua afirmação de que os continentes então conhecidos não possuíam aproximadamente a mesma extensão, como costumava-se pensar a respeito da Europa, da Ásia e da África, noção hoje sem qualquer sustentação.

E, gostando-se ou não, Heródoto ainda é a única fonte para um sem-número de episódios históricos dos mundos grego e persa, do século VII ao V a.C. Não só: a arqueologia dos sécs. XIX e XX elevou o status do sábio de Halicarnasso em mais de um episódio desconectado da Grécia e da Pérsia. Um deles foi a descoberta, um tanto recente, aliás, de vestígios de Gelonus, cidade da Cítia, em 1975. Heródoto descreveu Gelonus como milhares de vezes maior que Tróia, juízo por muito tempo ridicularizado. O mesmo se sucedeu com Heracleion, cidade egípcia, que Heródoto afirmou ter sido fundada durante o novo reino do Egito, informação posta em dúvida até que achados empíricos (a estela de Naucratis) lhe prestassem renovada credibilidade.

Como dito, Heródoto nunca desprezou as fontes mitológicas, embora tenha lidado com elas de forma inédita. Em que pese os deuses nunca apareçam nos relatos de Heródoto (se pensarmos na freqüência desse expediente em Homero e Ésquilo, alguns de seus espíritos formadores), ele teve a sensibilidade dificilmente pueril de afirmar: “Muitas coisas me provam que os deuses participam dos negócios do homem” (9:10). Tal sentença deve ser encarada no contexto da interpretação filosófica da História por Heródoto, que não prescindia do importante, por mais que sujeito a intermináveis debates, conceito de destino.

A última grande polêmica em torno de Heródoto – se é que de fato vale a pena um tal questionamento “comezinho” – seria determinar quem foi um historiador mais completo: se ele ou se Tucídides, que lhe foi parcialmente contemporâneo, apesar de mais jovem, e afigura-se como rival muito mais competitivo para a obtenção do título de progenitor da disciplina histórica que Hecateu. Hoje o valor epistemológico daqueles dois autores, os maiores historiadores da Antiguidade, está fora de dúvida entre os mais reputados dos especialistas; mas qual levaria a palma num fabricado concurso, já que falamos de personalidades helênicas, regidas pelo agon?

Tucídides sem dúvida pertence a uma outra escola historiográfica em relação a Heródoto, que poderíamos chamar, grosso modo, de história bélica ou militar, e muito mais ligada à retórica e à psicologia interior das personalidades que movem a História. Sendo assim, é muito mais difícil comparar a ambos, dado que todo historiador terá a princípio uma predileção por uma das duas abordagens, e acabará tomando cada autor pela disciplina ou ramificação da disciplina que ajudou a fundar e desenvolver. Felizmente, não precisamos responder à pergunta que encerra o último parágrafo, e não deixaremos de falar mais detidamente de Tucídides em seu próprio espaço, mais abaixo, o que muito ajudará quem estiver interessado neste tira-teima – haja vista que no mínimo uma das obras tucidídicas também vem a ser um clássico indispensável da historiografia.

Legado e Legado, Inspiração e Inspiração

Heródoto utilizou Os Persas de Ésquilo como fonte bibliográfica. A derrota da frota da Pérsia em Salamina teria sido necessária para determinar a derrota que se deu também em terra firme diante de Atenas, conforme seu livro oitavo, e ele absorveu este ensinamento da peça do escritor trágico. Em contrapartida, o sucessor de Ésquilo no teatro grego, Sófocles, utilizou os conhecimentos de Heródoto em seus escritos. Caso exemplar seria a cena da morte de Intafernes na Antígona, replicada de História volume III.

TUCÍDIDES, História da Guerra do Peloponeso

HGP é obviamente um relato do conflito homônimo, transcorrido entre 431 e 404 antes de Cristo, envolvendo a liga de cidades-Estados espartanas contra a liga de cidades-Estados lideradas por Atenas, com vitória desta última. Tucídides foi ele mesmo ator daquilo que narra, uma vez que foi general do exército vencedor. Sua História é dividida em 8 tomos. A questão central, se podemos extrair alguma, está na ambígua sobreposição entre poder bruto e justiça em nível nacional.

Em geral, os historiadores contemporâneos julgam Tucídides um escritor mais “objetivo” e rigoroso que Heródoto, com um estilo conciso e preciso (“mais pesado e menos prazeroso” que o herodótico, dirão outros). Dialeticamente, entretanto, Tucídides sofrerá das mesmas críticas de falta de critério e invenção de fatos direcionadas a seu colega imediato, o Pai da História, como seria inevitável. Destaque-se, porém, que Tucídides procura transmitir o conhecimento do período assinalado acima muitas vezes através de diálogos “ficcionalizados”, que ele não presenciou e não se deram literalmente, que carregam grande dose de verossimilitude e probabilidade, i.e., bem podiam ter mesmo acontecido assim, baseados que estão na bem-constituída personalidade dos interlocutores. A boa-fé de Tucídides está em que ele nunca esconde o quanto seus diálogos “imaginados” não passam de artifício para ensinar o leitor acerca da realidade grega. Talvez o fragmento mais famoso do autor a seguir este método para nós um tanto inusual seja não um diálogo, mas o monólogo ou discurso de Péricles, governante de Atenas, sua oração fúnebre, no segundo tomo.

Também em oposição a Heródoto Tucídides prima pela transcrição cronológica dos fatos, preferindo dividir os acontecimentos da guerra ano a ano (ou mais precisamente estação a estação, já que durante o inverno havia tréguas entre os soldados devido ao clima), em vez de proceder a um relato que chamaríamos hoje de holístico ou global.

SIMA QIAN & al., Registros do grande historiador

O Shiji (chinês para o título acima) só está disponível em inglês entre as línguas mais faladas e lidas pelos brasileiros, por isso é a leitura mais inacessível dentre estas três primeiras apresentadas; mas ao menos não precisamos aprender mandarim para apreciâ-la. Foi publicado pela primeira vez aproximadamente em 91 antes de Cristo, mas provavelmente não há qualquer chance de intercâmbio de conhecimentos entre a tradição grega da fundação da História e esta magnum opus do Império Chinês, o que nos leva a enveredar por uma segunda proposição da disciplina, uma vertente ou etimologia alternativa para o conhecimento do passado dos povos, ou, particularmente, de um povo ou nação, neste caso. Trabalho monumental por si só, os Registros do Grande Historiador (RGH) são apenas a história da primeira das 24 dinastias de imperadores. Sima Qian na verdade empreendeu a continuação do trabalho de seu pai, também historiador (à época, ‘escriba’), Sima Tan (Qian SIMA e Tan SIMA na notação ocidental).

A abrangência do tratado também é espantosa, se considerarmos os empreendimentos mais modestos dos gregos Heródoto e Tucídides: 2500 anos, desde o lendário Imperador Amarelo até o reinado de Wu Han, contemporâneo de Qian (há uma gradual transição entre lendas e história de facto). O foco do trabalho é a dinastia Han, que controlava a China. Na verdade poderíamos dizer que, dada a complexa e rica história chinesa, aqui entra-se em pormenores somente sobre a dinastia Han do Ocidente (da China). Não quer dizer que houve em simultaneidade uma dinastia Han do Oriente. Esta, com efeito, viria a surgir apenas séculos mais tarde, e alegadamente seus imperadores descendiam dos Han do oeste. Atrás apenas de Confúcio, que está mais para um teólogo ou filósofo em nossa classificação, e do primeiro imperador de Qin, Qian pode ser considerada a figura mais importante para a formação da China como hoje a entendemos, isto é, uma nação unificada. Poderíamos ser mais ousados, todavia, e dizer que sem Qian não haveria primeiro imperador Qin nem Confúcio: o próprio autor do livro que aqui nos interessa narrou a biografia destas duas personalidades no monumental tratado de História, ajudando a consolidar suas reputações. Desnecessário afirmar que RGH é o modelo para todas as subseqüentes histórias de dinastias chinesas e redações de biografias, gênero nascente. Será possível diagnosticar que a própria noção de tempo histórico no Oriente diverge muito da nossa própria tradição.

Uma obra de várias mãos

É sábido que não recebemos a obra na sua forma original, pois já no primeiro século depois de Cristo outro historiador, Chu Shaosun, adicionou interpolações ao texto mais antigo. É reportado que, pela escassez de exemplares da obra e as condições de degradação física do material, em algum ponto entre os sécs. II e III d.C., já durante a dinastia Han Oriental, historiadores da côrte tiveram de reescrever porções irremediavelmente perdidas de alguns capítulos (10 dos 130 legados por Qian). Como se vê, diferentemente da Grécia Antiga, a própria vida intelectual era basicamente restrita a funcionários do governo; portanto, quando se fala em escribas ou historiadores desta época e lugar, são sempre funcionários públicos trabalhando para o monarca absoluto – são histórias oficiais.

Do séc. V ao X (atravessando 500 anos de História), muitos escribas de novas dinastias trabalharam em Comentários do Shiji ou RGH, não mais modificando a obra já então clássica, mas aumentando seu cânone e, de certo modo, facilitando sua compreensão. Um dos volumes de comentários mais famosos é o Sanjiazhu (Comentários dos Três Sábios).

Somente nos anos 1930 os Registros foram preparados para disseminação moderna e passaram a estar ao alcance dos historiadores profissionais e amadores estrangeiros interessados, bem como se tornaram legíveis para grande fatia da população da própria China. Nesta nova edição, os Comentários dos Três Sábios estão em apêndice. Subsistem, ainda, blocos de madeira antigos com trechos do manuscrito original, guardados em museus.

As circunstâncias especiais da produção de livros na China Antiga

Em volume, trata-se de uma obra quatro vezes maior que a História da Guerra do Peloponeso que, recordemos, é hoje dividida em 8 livros separados, para comodidade do leitor! O próprio Antigo Testamento é menor que os Registros. Com os materiais de madeira usados por Qian (antes que ele finalizasse a obra e a disponibilizasse para copistas que utilizaram suporte papel), estima-se que ela, do início ao fim, contida em centenas de toras de bambu (estima-se que entre 600 e 700), pesaria de 40 a 60kg, dificultando bastante seu transporte para outros escribas ou interessados em consultá-la. Lembre-se que, ademais, essa “economicidade” em bambus (pois deviam ser necessárias bem mais toras) só foi possível graças ao caráter bastante sintético dos caracteres chineses, que contém muito mais informações que nossas letras do alfabeto. A conta acima, entretanto, que coloca os Registros acima da Bíblia em espessura, considera palavras utilizadas, não espaço ocupado, considerando quantas caberiam numa página normal, e mesmo com uma notação diferente na escrita o trabalho da vida de Qian permanece mais comprido e capaz de ocupar mais páginas que o Velho Testamento, sobretudo nas traduções ocidentais.

Conteúdo

Em muitos aspectos, sobretudo nos primeiros capítulos, RGH se assemelha a relatórios públicos da Administração, pois diversos acontecimentos e decisões do governo centralizado constam de crônicas, no sentido oriental desta palavra (semelhante a relatórios, notas técnicas, dossiês). Para períodos anteriores a registros escritos e antes da vida de Qian, ele obviamente se fiou nas tradições para remontar a dois milênios atrás. O curioso é que, como com Heródoto, excavações recentes têm confirmado muitas das informações contidas nos Registros, embora tantos elementos permaneçam obscuros ou em suspenso, dada a limitação de materiais à disposição para fazer inferências e atestar a veracidade dos discursos. Mesmo inscrições funerárias, quando descobertas, representam um fantástico achado para a ciência, mas seu alcance interpretativo em termos de refutar ou confirmar um tratado histórico de envergadura colossal permanece irrisório.

Outra parte do livro se devota aos Tratados, narrativas de grande fôlego, mais congruentes com o método ocidental de registrar a história, e narram a evolução dos rituais, da música, dos artefatos tecnológicos, do calendário da astronomia, da geografia e hidrografia (principalmente rios e canais) e administração das finanças ou economia ao longo do maciço tempo enfocado por Qian.

A quarta parte estabelece as árvores genealógicas de diferentes casas ou dinastias. Para os Han foram também escritas biografias, de menor porte, inscritas no próprio estudo da dinastia como um todo.

É a quinta parte a mais relevante e também a responsável por quase metade do tamanho da obra, e ela é voltada exclusivamente para amplas biografias de figuras destacadas da História chinesa. O peso dessa seção do livro é o que faz com que até mesmo exegetas ocidentais mais rigorosos ou preconceituosos avaliem este Shiji como um livro de História propriamente dita, sem deixar a dever, em rigor, às nossas próprias obras fundacionais. Essas biografias não são elitizadas, do ponto de vista de que só contemplassem indivíduos da família real ou altos funcionários (como nas poucas biografias da parte precedente), consistindo numa verdadeira radiografia da sociedade chinesa, dos grupos ou trabalhadores mais humildes, que tiveram o privilégio de preservarem suas famas, a todo tipo de intelectual ou governante, incluindo desde figuras de proa da escola dos confucionistas (os primeiros grandes reformadores culturais da China de que se tem notícia) até artistas, assassinos e oficiais do exército. O impacto dessas biografias da quinta parte ainda pode ser sentido na China contemporânea, através da adoção de provérbios retirados dos Registros usados persistentemente nas conversas cotidianas.

E a despeito da inscrição dessa obra na “história oficial” da dinastia reinante, a verdade é que Qian foi mais imparcial que os historiadores do período pós-confuciano que endeusaram os imperadores e tentaram apagar das crônicas todos os postulantes ao trono que fracassaram. Podemos chamar Qian de um escritor liberal avant la lettre, muito mais dissociado de dogmas ancestrais e inscrito numa modalidade de historiografia social. Sua charmosa prosa influenciou novelistas e poetas do país. O relato da tentativa de Jing Ke de assassinar o rei de Qin foi escorado em declarações de uma testemunha ocular do evento, Xia Wuju, médico do rei, que estava presente na cerimônia diplomática em que sucedeu o ataque. Xia contou a história a conhecidos, esses entrevistados por Sima Qian. Mesmo hoje há muitos trabalhos históricos considerados isentos e científicos que só utilizam fontes muito mais indiretas.

IBN KHALDUN, Os Prolegômenos ou Filosofia Social

Os Prolegômenos – palavra erudita para Introdução – ou Muqaddimah em árabe são a grande obra de Ibn Kaldhun, raro filósofo, jurista e historiador medieval que segue relevante, publicada em 1377. Com efeito, muitos epistemólogos a vêem como a primeira obra de filosofia da história e das ciências sociais, séculos antes de Comte e Durkheim fundaram tal ciência. Será enriquecedor para o discípulo de História que ainda não teve qualquer contato com autores muçulmanos. Outros ainda enxergam Khaldun, não sem alguma controvérsia, como precursor de Malthus, por já incluir uma análise ecológica e demográfica em seus escritos, e da corrente do darwinismo social, que não tem relação com Darwin, mas é a aplicação de sua lei natural às ciências sociais a partir do fim do século XIX (além de que, numa famosa passagem do primeiro capítulo da Muqaddimah, Khaldun tece a conjetura de que os grupamentos humanos devieram do macaco, embora reconheça a insuficiência de dados empíricos à disposição para referendar sua tese). É verdade que, como entrega o nome, Khaldun desejava que este livro já extenso (dividido atualmente em 3) fosse uma mera introdução a sua grande obra sobre a História, mas morreu antes de realizar esta outra meta mais ambiciosa. Podemos dizer que os Prolegômenos são, sim, auto-suficientes e sua leitura não deve ser evitada pelo seu caráter de intróito (inclusive, se fôssemos aplicar este critério Tucídides não poderia ser recomendado, já que deixou de fora 6 anos da Guerra do Peloponeso de sua obra-mor).

Durkheim formularia muitos conceitos que se tornariam instrumentos obrigatórios da análise da sociedade. A asabiyyah pode ser lida, neste contexto, como uma primeira versão do termo mais famoso coesão social. Como Khaldun expunha a asabiyyah de uma determinada civilização ao longo do tempo, prescrevendo que ela funciona como um organismo, nascendo, se desenvolvendo, entrando em ocaso e eventualmente se dissipando, ao lado de outras, há certos ecos de sua teoria na obra de Oswald Spengler. Desde Ibn Khaldun já não seria possível dizer, no mundo moderno, que a história segue leis do progresso, sem com isso se defrontar com uma escola inteira da historiografia. Por estas linhas, torna-se óbvio que Khaldun, mesmo podendo ter sido uma influência para a biologia do século XIX, já reconhecia o papel da decadência em contraposição ao da evolução, sobretudo quando se passava da história natural para o estudo das culturas. Numa famosa citação, demonstra seu anti-maquiavelismo, pré-Maquiavel: se o governante tiver de optar entre ser temido ou amado, sempre deverá eleger a segunda alternativa, pois é contra a lei de Deus (Alá) subjugar o povo de forma violenta e não-consensual, ainda que pudesse ser materialmente lógico perseguir determinados fins por meio da força.

Outro aspecto antevisto por Khaldun em relação à sociologia durkheimiana ou mesmo o marxismo é a divisão do trabalho: quão mais complexa é a sociedade, mais as formações econômicas exigem a divisão e especialização do trabalho. Ele também relaciona esse raciocínio com o crescimento populacional e o supérfluo criado numa economia em expansão, que explica os bens de consumo inessenciais e a necessidade de mais mão-de-obra para expandir o ciclo de produção. Também em antecipação ao otimismo dos liberais do iluminismo europeu, Khaldun dirá que o preço é regulado pela lei de oferta e demanda, raciocínio, pelo visto, já velho antes do aparecimento de figuras celebradas do pensamento econômico hegemônico. Pode parecer incrível que até mesmo um estudo do avanço tecnológico tenha sido possível na época de Ibn Khaldun, mas é necessário lembrar que o autor vivia numa civilização até então próspera, antes do recuo e entrincheiramento moral e civilizatório experimentado pelo Islã, o que realçava o contraste com as forças paralisadas da Europa do século XIV, que dificilmente se poderia dizer depender essencialmente das urbes, sendo ainda uma conformação campesina. Outros ainda vêem certos comentários de Khaldun como keynesianos, antes de Keynes, principalmente quando ele culpa Estados que não investem em aspectos vitais a longo prazo pela decadência econômica da sociedade. Não só isso, mas Khaldun já advogava por reformas tributárias que não sufocassem as classes médias, embora elas sequer tivessem esse nome. Para não dizer que a análise econômica do autor seria perfeita, um dos vários pontos cegos de Khaldun foi não perceber que bens como o ouro e a prata apresentam valor relativo, o que já era óbvio no tempo de Montesquieu, por exemplo.

Embora de profissão de fé islâmica, e não um autor secular ou ateu, como seria mais comum encontrar na França a partir da Revolução, Khaldun defendia desde sua época a separação formal dos estudos em teologia e em filosofia. Sua posição enquanto jurista num país que aplicava o Alcorão era que mudanças culturais e relativizações ético-morais eram inevitáveis no decorrer das gerações, de forma que mesmo a letra sagrada se obsolescia na agonia de uma asabiyyah. Em um dos capítulos dos Prolegômenos, Khaldun também se preocupou em refutar a então ‘ciência’ da alquimia, tanto do ponto de vista moral quanto utilizando seu método científico. Aqui cabe a observação: acusando os alquimistas de charlatães, Khaldun diz que se todos fossem capazes de transformar metais não-nobres em ouro da noite para o dia, isso geraria uma súbita desvalorização da substância, o que colapsaria a economia (em outros termos, embora na sociedade vigente Khaldun não reconhecesse a flutuação do padrão-ouro, ele era engenhoso o suficiente para vislumbrar essa possibilidade num cenário hiperbólico, de superabundância do material – decerto ele teria captado outras leis do Capital se pudesse testemunhar a rapina européia nas minas americanas).

Em síntese, o grau de maturidade do modelo de historiografia proposto por Ibn Khaldun pode ser chamado de sem paralelos até o surgimento do Idealismo Alemão, tornando a consulta a seus escritos visionários algo mandatório.

DAVID HUME, História da Inglaterra

Já transportados para a Europa moderna deparamo-nos com Hume. Apesar de sua notável contribuição filosófico-epistemológica, o trabalho do escocês que permanece mais atual é no ramo da História, em que formula a primeira história da Inglaterra (mais propriamente falando, da Grã-Bretanha, por incluir ainda o País de Gales, a Escócia e a Irlanda, ainda não-dividida pelos cismas da Igreja) de leitura considerada obrigatória. A obra antecede a Revolução Francesa em cerca de três décadas. Coincide, portanto, com os primórdios da Revolução Industrial. Como as outras obras que aqui listamos, talvez para infelicidade dos leitores e historiadores incipientes com disposição de mergulhar de cabeça nos clássicos da disciplina, porém temerosos de calhamaços, está dividida em alguns volumes (seis). Como antecipa a capa acima, da editora Unesp, o período retratado vai das campanhas bretãs de César, com a colonização do território mais ao norte de Roma sendo levada a efeito, ao período da irreversível perda do poder absoluto pela família real e a conseqüente constitucionalização do regime político da Ilha (eventos anteriores ao nascimento do próprio David Hume).

Obviamente o renome desta história da Inglaterra em detrimento de outras que poderiam ser igualmente recomendadas em listas que-tais, além da excelência da escrita de Hume, se deve ao período privilegiado de sua produção, especialmente conturbado para os Estados europeus. Os intelectuais conservadores desejavam sedimentar o regime constitucionalista em meio a um ambiente propenso a revoluções e derrubadas de dinastias, de forma que a política do século XVII inglês, conforme estudamos hoje, é sobretudo uma antecipação local das reflexões mais amplas do Século das Luzes francês, i.e., uma série de eventos que os próprios britânicos foram capazes de dimensionar com propriedade apenas retrospectivamente. Não é estranho que um escocês tenha captado o momento, mais de meio século depois, melhor que qualquer inglês propriamente dito – a rigor mais distanciado, embora sem deixar de estar implicado na narrativa, sua História nacional tornou-se um parâmetro de objetividade atingível.

A primeira controvérsia que Hume tenta resolver (ou gera, para seus comentadores) é se a adoção de uma Bill of Rights teria sido uma reforma ou evolução previsível da organização política ou uma ruptura ou revolução em relação ao passado monárquico. E ao longo dos volumes que tratam deste período mais recente seu posicionamento será em favor da segunda hipótese. O principal defensor da carta de direitos inglesa como mera evolução legal dada sem sobressaltos e, portanto, rival ideológico de Hume, seria Edmund Burke, outro autor importante para entender os 1600 ingleses. Incrível como toda essa discussão essencialmente política e jurídica está totalmente fundada nos surtos de guerra civil transcorridos no território por conta da Reforma Protestante, que, na Inglaterra, tomou um rumo diferente de toda a Europa continental. Talvez ainda surpreenda alguns leitores que execuções de reis fossem “lugar-comum” nestes tempos na (hoje batizada como) Terra da Rainha (Elizabeth II, morta em 2022), e que a tendência regicida não tenha sido inaugurada pelos franceses. Talvez a historiografia – não a de Hume, mas outras fontes mais próximas de nós – tenha também muito a dizer sobre como foi que o mito do jacobino radical (a extrema esquerda francesa) como sendo a primeira e maior “peste” daqueles tempos adquiriu tanta dominância.

Hume sustenta que o absolutismo foi inaugurado na Inglaterra com Henry VII, o primeiro rei da dinastia Tudor. Antes disso o monarca era eleito pela aristocracia, prática semelhante à, e talvez importada da, Polônia. Também nessa região o tipo de governo, mais próximo de uma aristocracia ou oligarquia que de uma monarquia, cairia em desuso, sendo substituído pelas autocracias dos Hohenzollern, Habsburgo e Romanov. A dinastia Bourbon na França também foi importante para a centralização e consolidação de várias monarquias pela Europa. No período anterior ao que estudamos como monarquias clássicas das nações européias dificilmente havia a sucessão do trono por critérios hereditários. A aristocracia, vale lembrar, foi definida pelos gregos como sendo “o governo dos melhores”. Como tais, eles escolhiam entre si seu representante máximo. A Escócia, nos períodos em que se conservou independente da Inglaterra, jamais aderiu ao absolutismo. No tocante à lenta porém segura transição entre o direito consuetudinário ligado ainda ao que podemos chamar de evoluções de clãs bárbaros, i.e., gentios originários do território, e o direito moderno dos reis, associado com a influência do Império Romano, as conclusões de Hume muito se assemelham às de Montesquieu, jurista e historiador igualmente bastante estudado, senão mais, graças a sua doutrina dos pesos e contrapesos. Outra figura associada à Hume, inclusive na vida pessoal, foi Adam Smith, desta vez no campo do liberalismo econômico.

Desde os primórdios, porém, os autocratas ingleses tiverem menos prerrogativas que em outras partes, vide a necessidade de consultar o parlamento a fim de aprovar aumentos de impostos, o que ajuda a explicar a tendência natural de evolução do absolutismo bretão a um regime constitucionalista ou de monarquia decorativa.

Num posicionamento que entendemos salutar e engrandecedor do legado humeano, David afirmou que Thomas Hobbes, outro dos historiadores bretões mais reputados por seu povo, enquanto pensador político não passa de um promotor da tirania e da licenciosidade ético-moral. E ainda que inimigo da religião – como não foi Hume –, Hobbes nada tinha de cético (enquanto Hume é com mais justiça do que injustiça conhecido hoje sobretudo pelo epíteto de “O Cético”. Ainda comentando Hobbes, Hume dirá que este filósofo é sobretudo repulsivo por ser um dogmático e fanático secular, levando o racionalismo aos últimos limites, quase inumanos. E que só um homem de temperamento muito cruel poderia mostrar-se tão seguro de si em suas afirmações. Em termos biográficos, curiosamente Thomas Hobbes parece ter sido celebrado como homem virtuoso; seu sistema parecia uma projeção de todo um conteúdo reprimido em seus assuntos pessoais. Por outro lado, outro autor fundador da ciência política nesta nação é muito elogiado por David Hume: trata-se de Harrington, que só não incluo nesta série de livros introdutórios recomendados por, confesso, ainda não ter lido sua magnum opus Oceana, ligada às tendências democráticas, uma espécie de Thomas More evoluído. Contudo, o homem de letras que Hume mais admirou talvez tenha sido Francis Bacon, mais até que o próprio Shakespeare. Talvez tão moralista quanto Hobbes, embora num outro sentido, Hume é célebre por ter advogado a pena de morte a John Milton por haver exprimido idéias regicidas. E no entanto, ironicamente, Hume faleceu entusiasta da Independência Americana, então em curso.

GIBBON, História do Declínio e Queda do Império Romano

Continuando na tradição inglesa, Edward Gibbon escreveu uma história do Império Romano em 6 volumes, desde o auge de Roma (quando em seus territórios incluíam-se civilizações islâmicas e mongólicas) até seu definhamento e derrocada final (da parte ocidental do Império Romano, de quem somos “herdeiros culturais”), à queda de Bizâncio, Mégara (para os gregos antigos) ou simplesmente Constantinopla, como somos ensinados na escola como o marco para o fim da Antiguidade Clássica. O projeto iniciou sua publicação em 1776 (quatro séculos após os eventos narrados) e o último tomo apareceu em 1789, data simbólica, outrossim, para a instituição da modernidade européia.

O Império Romano é o alvo completo da historiografia, com os tempos da República Romana sendo deixados de fora. Isso representa uma abrangência cronológica de 98 depois de Cristo a 1590, ainda com as lentas repercussões da tomada de Constantinopla pelos turcos. Obviamente, dentro deste escopo, não poderia faltar a história do Cristianismo dentro do período. Com efeito, podemos considerar esta obra como a primeira historiografia de grande porte em que a religião ocupa o papel central, a despeito de ser uma narrativa civil e secular de um poder político de sua apoteose à extinção.

Ao invés de apenas anotar ou registrar a seqüência linear dos fatos, Gibbon é um dos primeiros¹ que se arrisca a determinar a causa da decadência romana como formação geopolítica. Sua tese primordial é a perda da virtude política dos romanos, pari passu as invasões bárbaras, cada vez mais significativas diante do enfraquecimento interno do regime imperial. Diferentemente de outros autores, Gibbon não atribui essa perda da virtude cívica do cidadão romano ao advento e propagação do Cristianismo, fosse por autocensura ou convicção própria, embora ele situe o governo de Constantino (o primeiro imperador declaradamente cristão) como um ponto-chave para a irreversível recessão do Império Romano, sobretudo do ponto de vista militar. Ainda segundo Gibbon, a História “foi sustada” entre a Queda de Constantinopla e os ideais iluministas da Europa, significando que nada de proveitoso adveio desta corrosão e destruição imperial.

¹ Bibliografia para esse período não era tão profusa como hoje (e hoje ela ainda existe aquém do desejável), então muitos dos dados apresentados por Gibbon foram extraídos de duas fontes, Montesquieu e Bossuet, predecessores seus nas especulações sobre como o maior poder político da Terra sucumbiu ao longo dos séculos.

O estilo desapaixonado de Gibbon foi confundido por muitos com um pessimismo invencível. É possível, tirando suas afirmações de contexto, argumentar que o autor britânico chamava a História Universal de “nada além do registro dos crimes, loucuras, tolices e tragédias dos mortais”. Com efeito, Gibbon destaca que descobertas para o mal agem de forma muito mais ágil sobre o espírito humano – como a descoberta da pólvora – que descobertas construtivas – o espírito pacificador, o método científico, o cultivo das artes e da filosofia.

Gibbon também denuncia o genocídio dos judeus em inúmeras oportunidades: no Egito, no Chipre, em Cirene (atual Líbia). Razões da diáspora judia e da associação da etnia com o espírito de rebelião, mero reflexo do instinto de sobrevivência, podem ser apuradas em suas pesquisas, o que ajuda os historiógrafos sucedâneos a determinar fontes e raízes do antissemitismo do Velho Continente.

Uma das maiores críticas à abordagem gibboniana é como deixou de lado a continuidade do Império Romano Oriental, desprezando toda a cultura bizantina, como que de propósito. De modo a corroborar uma maior neutralidade de Gibbon em relação à expansão do Cristianismo, sobretudo na forma do Catolicismo (afinal, conta da era pré-Reforma), ele que foi acusado de herege por autoridades eclesiásticas de seu tempo, cabe a ressalva de que Gibbon se opunha de modo geral às grandes crenças monoteístas, e chega a acusar o Islamismo e Maomé de atrasarem a condição da mulher por onde quer que promovessem revoluções.

Gibbon também foi um refutador de hagiografias (biografias de santos promovidas pela Igreja), questionando a validade de milagres ou de detalhes das vidas de vários dos mais famosos pregadores da fé cristã. Se havia algo que Gibbon mais reprovava no Cristianismo era seu dogma monástico, tentativas hipócritas ou infrutíferas de “se distanciar dos problemas temporais”, enclausurando-se em instituições exclusivamente religiosas, como se fôra possível tal abandono da história. Esse espírito ascético, migrando para a mentalidade dos plebeus e mesmo oligarcas do Império, era o que sem dúvida mais prejudicava a clássica visão de domínio e de Grande Política cultivada pelos romanos de gerações anteriores.

Como com Hume, a publicação de seu trabalho, necessariamente em fragmentos devido a suas dimensões, suscitou a cada tempo reações divergentes do clero ou dos historiadores contemporâneos. Sempre que suas conclusões iam contra um grupo social, o autor era rechaçado por esta parcela da sociedade com a mesma segurança com que era enaltecido caso as conclusões viessem a corroborar suas visões de mundo. Uma das qualidades que Gibbon viu no Cristianismo foi o “amolecimento” do espírito bélico e desregrado das diversas populações setentrionais européias, os então considerados “bárbaros”, o que teria favorecido uma assimilação intercultural. Obviamente, o que à primeira vista poderia parecer um indicativo de fortalecimento do Império a longo prazo acabou significando que a identidade latina do Império Romano foi-se perdendo mais e mais, conforme ia-se instalando uma maioria de “bárbaros convertidos ao cristianismo”.

Algumas edições modernas possuem o título Ascensão e Queda no lugar de Declínio e Queda, já que o período estudado por Gibbon começa no apogeu do Império e não retrata apenas os anos de derrocada. Autores como Piers Brendon (1940-) vêem no trabalho de Gibbon uma alegoria do Império Britânico, ou uma tentativa de ensinar aos governantes do “novo império mundial” lições para não repetir os erros dos poderosos do passado.

CARLYLE, História da Revolução Francesa

Thomas Carlyle é o terceiro inglês (escocês, em verdade) consecutivo desta lista. Não há dúvida que devemos muito à historiografia inglesa deste período pós-Revolução Constitucional da “Terra da Rainha”. Nesta ocasião, em vez de uma avaliação da própria história recente ou de um povo extinto e remoto, trata-se de investigar um grande evento transcorrido ao sul do Canal da Mancha, entre os vizinhos franceses. Em conformidade com todas as obras anteriores, esta está dividida em fascículos, mas talvez seja a mais curta de todas: são 3 exemplares para lê-la na íntegra. A pesquisa, desenvolvida à segunda metade do séc. XIX, debruça-se sobre os poucos anos que vão de 1789 a 1795, principalmente em Paris, com repercussões para toda a Europa (quase o “mundo” de então, para a historiografia de nossa cultura etnocêntrica no seu ápice). É a análise de um acontecimento revolucionário, adianta-se, de uma ótica conservadora.

Uma anedota interessante que se conta é que uma faxineira de John Stuart Mill, amigo pessoal de Carlyle que receberá a primeira versão integral do primeiro volume, cópia única, teria destruído o trabalho usando-o para alimentar a lareira, confundindo-o com lixo comum. Carlyle procederá então a uma apaixonada reescritura de todo este tomo em poucas semanas.

Carlyle não é um historiador por vocação, sendo mais um filósofo, poeta e moralista, então seu trabalho é visto como distanciando-se da narrativa historiográfica metodológica mais aceita. Enquanto alguns vêem nisso um mérito, evidentemente a maioria cita-o como crítica. Carlyle toma posição evidente nos episódios narrados. Acontece que um estilo de escrita “perfeitamente impessoal” poderia ser muito mais tendencioso, embora mascarasse sua opinião com ajuda da técnica de maneira superior. Podemos acusar Carlyle de imprecisão muito mais do que de má-fé ou desonestidade intelectual. O relato da execução de Robespierre é um exemplo máximo do estilo carlyleano e mediante sua leitura o estudioso poderá instantaneamente simpatizar com o autor ou compreender que seria melhor deixá-lo de lado, tamanha a ambivalência suscitada pelas escolhas de Thomas Carlyle no registro dos acontecimentos revolucionários.

Outras anedotas, bem-vindas neste caso, tratando-se de um autor tão emocional e controverso, incluem, por exemplo, a observação de que Charles Dickens andava para cima e para baixo com este livro (ou um dos exemplares) nos braços. Oscar Wilde chama Carlyle de “Tácito britânico”. Se uma terceira figura greco-latina tivesse de ser selecionada para estas sinopses, creio que Tácito seria o escolhido. Um terceiro escritor, Mark Twain, teria lido por último este livro antes de falecer. O filósofo americano Waldo Emerson disse que escritor mais imaginativo só apareceu antes nas peças e poemas de Shakespeare. Jules Michelet pode ser considerado o antípoda de Carlyle em termos de escrita da Revolução Francesa. Some-se a isso o fato de que este posicionou-se explicitamente contra aquele e que Michelet é um ícone da historiografia francesa; temos, neste par, além de uma rivalidade acadêmica, uma verdadeira rixa nacional. Taine, outra figura de igual ou senão maior peso que Michelet, também destroça o trabalho de Carlyle, segundo ele mero puritanismo especulativo, que desprezou o movimento iluminista e a importantíssima figura de Voltaire. É de fato um livro polêmico, que merece ser lido acima de tudo para se entender como a produção de uma História nunca poderá ser hegemônica nem consensual, mas apenas uma versão dos fatos dentre outras, aprendendo-se a filtrar desde cedo o joio do trigo da pena de um escritor clássico.

BURKE, Reflexões Sobre a Revolução na França

Diferentemente do trabalho do quase-compatriota Carlyle, Reflexões é assumidamente panfletário e escrito por um homem de Estado, um político, publicado pouquíssimo tempo após a própria Declaração dos Direitos do Homem, ainda durante o furacão da Revolução no país vizinho (a família real francesa sequer tinha sido submetida a julgamento popular àquela altura). Pode ser interpretado, portanto, como um relato ainda mais crítico e ferrenho que o de Carlyle, mas talvez um que tenha envelhecido menos. O irlandês Edmund Burke é um escritor que deve ser lido por todo estudioso da aristocracia, da monarquia e, portanto, do conservadorismo modernos. Mais do que ícone da historiografia, este tratado é onipresente nas ementas de ciência política e sociologia do século XX. Muito desse renome, entretanto, podemos atribuir ao mccharthismo e anticomunismo imperantes no mundo acadêmico ocidental, fomentado antes, durante e ainda posteriormente a todo o período da Guerra Fria (um ilustre apoiador das teses burkianas, que não hesitava em distorcê-las, ou simplesmente não era capaz de compreendê-las, é o infame Friedrich Hayek, que provavelmente se alterava mais ao ver a cor vermelha que um touro no cio). O que torna o “revanchismo contra-revolucionário” de Burke complexo de analisar é que ele foi um entusiasta, do início ao fim, da própria Revolução Americana, evento quase simultâneo e primo-irmão deste primeiro, tendo isso em comum com Hume. O crítico Alfred Cobban declara, sobre Burke e suas Reflexões: ‘Burke estava muito bem-informado sobre os Estados Unidos, a Irlanda e a Índia, [de quem também desejava a independência] mas suas fontes de informação sobre a situação na França eram escassas e contestáveis; como resultado, suas teses não são pertinentes em relação ao que sucedia realmente no alvorecer da Revolução, quando e onde estava claro para os nativos que as instituições francesas que lhes eram contemporâneas tinham se tornado insustentáveis e não havia a possibilidade de uma reforma de cunho gradual. Como literatura, teoria política e qualquer outra coisa que não seja História, as Reflexões são magníficas.’’

BURCKHARDT, A Cultura do Renascimento Italiano

Abandonando a exaustiva polêmica franco-inglesa em tempos revolucionários, dirigimo-nos agora à renomada historiografia alemã, mais especificamente ao grande estudioso da cultura e arte Jacob Burckhardt e sua exemplar A Civilização da Renascença Italiana (CRI) (ambos os títulos citados até aqui já foram escolhidos em diferentes traduções), de 1860. Primeiro, um merecido excurso pela biografia do autor. Burckhardt foi um suíço que viveu durante nove das dez décadas do século XIX. Hoje é considerado o pai da historiografia cultural e o primeiro grande redescobridor moderno do período do Renascimento Italiano, analisando a estética do período através de inéditas lentes sociais. Dois de seus grandes mestres foram os historiadores von Ranke e Franz Kugler. Na Universidade de Basel, onde lecionou, conheceu Friedrich Nietzsche, então professor de Filologia. Ambos se tornaram amigos e trocaram cartas pelo resto de suas vidas, as quais podemos hoje ler. Tendo sido o livro que aqui nos interessa escrito na meia-idade do autor – e Burckhardt pertencendo a uma geração anterior à de Nietzsche –, CRI mais influenciou este último (até pela especificidade do campo daquele) do que qualquer obra relevante de Nietzsche chegaria a influenciar Burckhardt, uma vez que a produção acadêmica de Nietzsche na filosofia continental enceta apenas na década posterior (os anos 1870). Ambos são figuras históricas que já superaram, por exemplo, as pretensões positivistas – ou de qualquer outra “escola” ou “sistema” fechado e dogmático, incluindo o Hegelianismo, com que ainda conviveram – no campo do conhecimento e representam uma nova hermenêutica ou cosmovisão da ciência, da arte e da história. Outra coincidência entre ambos é que encerraram suas contribuições intelectuais ao mundo em anos próximos e nunca deram aula em universidades alemãs propriamente ditas, embora o Alemão fosse a primeira língua dos dois; ambos são equivocadamente tratados como “pessimistas sobre o papel do Ocidente no futuro”, muito pelo fato de serem complicados e nuançados; não é de se estranhar que acabem defendendo posições políticas semelhantes. O pai de ambos, para finalizar, foi pastor protestante.

A Cultura do Renascimento Italiano ainda é a obra de referência da perspectiva artístico-cultural da história para esta época e inclusive há indícios de que J.B. foi o inaugurador do termo “modernidade” em seu sentido atual e influenciou nosso conceito de “homem moderno” como talvez nenhum outro escritor. A Renascença era uma totalidade fechada em si mesma (isto o que ele quereria dizer com Kultur), sem que sua arte, filosofia, religião e política possam estar subordinadas a outras disciplinas ou outros períodos (não são mero efeito ou emulação ou reação à Europa Medieval ou à Antiguidade Clássica, de onde, decerto, os grandes artistas italianos se nutriram a fim de gerar obras novas e ‘universais’). Os principais discípulos ou continuadores diretos de Burckhardt foram Kenneth Clark e Desmond Seward. No século XX, podemos associar as contribuições de Werner Kaegi e Johan Huizinga ao legado de Burckhardt.

É importante esclarecer que A Cultura do Renascimento Italiano é em verdade uma metade de um todo maior, que engloba a “obra-gêmea” História do Renascimento Italiano. Para mergulhar ao máximo na historiografia burckhardtiana seria necessário estudar os dois volumes. Dado que os títulos se parecem e que o primeiro deles tem duas traduções em Português, vários estudantes são induzidos a erro, pensando se tratar o par de um só livro.

TOYNBEE, Um Estudo da História

Voltamos aos tomos enciclopédicos, i.e., livros que na verdade são uma série de exemplares, de tão extensos: o Estudo da História de Arnold Toynbee consiste em 12 volumes separados. Já falamos aqui de um autor que publicou do Entre-Guerras ao Pós-II Guerra, bem mais próximo de nós. Incrivelmente popular nos anos 60 e 70, é também surpreendente que hoje seja necessário citar a obra em introduções sinópticas como esta para muitos leitores que, embora algo versados em Humanidades, a ignoram por completo. A História toynbeeana é uma de decadências e tem um quê de Ibn Khaldun: destina-se a explicar como várias civilizações pereceram no globo ao longo de milênios. Segundo Toynbee, toda civilização perpassa pelos seguintes estágios: gênese, expansão, tempos de crise, Estado universal (congelamento artificial) e desintegração. Em outras palavras, ele sugeriu um modelo estrutural explicativo do ciclo das civilizações. Seu modelo não é tão rígido a ponto de não aceitar exceções, o que chamará de desenvolvimentos civilizatórios abortados, citando como exemplo a civilização Escandinava, Otamana, Judaica e Polinésia, entre outras.

As 7 mil páginas escritas tratam cada etapa do ciclo na ordem cronológica necessária; em seguida ele se dedica às interações entre diferentes civilizações nos volumes oitavo e nono; e os últimos volumes vão dedicados à metodologia do historiador. Existe uma famosa edição abreviada, a de Oxford, que possui 3 volumes (25% do tamanho original).

Os sintomas de Toynbee para uma sociedade em sua desintegração final podem ser todos diagnosticados no Ocidente: arcaísmo (idealização do passado), futurismo (idealização do futuro), dessensibilização ou busca da impessoalidade (fuga da realidade imediata da decadência), o que inclui uma forte onda de individualismo, e por fim transcendência, a mais criativa das soluções adotadas (contrapondo os desafios aparentemente insolúveis do esgotamento de um modo de vida e de uma cultura com criações de novos valores, sejam espirituais, sejam materiais). Com restrições, podemos chamar Samuel Huntington um continuador ou ampliador das idéias de Toynbee.

MCNEILL, A Ascensão do Ocidente: Uma História da Comunidade Humana

O último livro que selecionamos por ora neste princípio de série (posts relacionados por vir). Numa perspectiva ora antitética, ora suplementar à de Toynbee, o norte-americano William McNeill dá ênfase às interações entre as civilizações para contar a História do mundo, principalmente as interações promovidas pela hegemonia da civilização ocidental nos últimos 500 anos. Grosso modo, na dinâmica historiografia proposta por McNeill, em cada era “unipolar” ou com dominância de uma civilização ou império podemos dividir o mundo ou as culturas em “a central ou dominante” e “as periferias”, isto é, a nação ou conjunto de nações que lideram o mundo vs. todo o resto – a história representaria a disseminação gradual dos valores do centro, que iriam modificando os ‘influenciados’. Obviamente, as revoluções políticas e industrial e a prevalência de valores da Europa branca nos últimos 250 anos merecem uma análise especial, diferente dos ciclos pregressos, dado seu caráter expansionista e tecnológico inauditos, potencialmente sem limite, tendo contaminado, por exemplo, a virtual totalidade da superfície do planeta, pelo menos do ponto de vista estritamente geográfico. O que nos deixa reticentes quanto ao livro, que – confessamos – ainda precisamos ler na íntegra é que ele foi incensado pelo liberal epistemologicamente descompromissado Trevor-Roper. Seja como for, as conclusões de McNeill fundamentam hoje as pesquisas nas escolas das teorias dos sistemas-mundo, não necessariamente confinadas a um só espectro (liberal ou marxista, por exemplo), e da teoria da dependência, situada algo entre o reconhecimento da culpa dos países ex-colonizadores e a crítica, a partir das zonas subdesenvolvidas, dos preceitos da globalização unipolar, sem uma proposição clara para o problema, no entanto (como fará a escola marxista). De certa forma, ao contrário de clássicos antigos ainda legíveis, um forte contra-argumento que já podemos tecer a McNeill é que ele pensa os Estados Unidos da América e a Europa Ocidental ainda em seu auge, premissa que envelheceu terrivelmente nos últimos 30 anos (e, não estranhamente, a última edição de Uma História da Comunidade Humana data de 1991, época do Consenso de Washington).

Devido ao espaço já ocupado pelas demais resenhas (e me esforcei para incluir apenas 11!), e sendo indesculpável a falta de múltiplas obras inscritas na historiografia marxista, dedicaremos outro post somente a sinopses de obras ligadas à historiografia da esquerda marxiana logo no segundo episódio de SINOPSES DE CLÁSSICOS DA HISTORIOGRAFIA.

O universo é insetocêntrico.

A mariposa gira ao redor do Sol, desse Galileu Copo&Nico, o cientista com Asas – mas não seria o inverso, ó vôo relativo?

Os homens sobrevoam sua cabeça estacionária cheia de merda, tenho a certeza.

A cabana sobrevoa sua banana

A mucama voasub sua cruz

A Multiplicidade Concreta das Bolhas Atômicas

A Guerra Quente Nua que Há – Que Continua

A decência da Subida ao Vácuo

A Meridionauta Contra o Austronato

Eu não me recordo do título do meu livro;

Eu não me livro do título que recordo.

A força anormal que contrapõe a anti-gravidade.

D-Sire

Resided on The (D)  Resistance

                                    Past Tense

                                    Nowadays Tranquility

Rope you find the hope

Todo Rousseau tem o seu Locke-fechadura.

Todo rousse  tem o seu au mericano.