A ORIGEM DAS ESPÉCIES: Sobre a origem das espécies, por meio da seleção natural ou A preservação de raças favorecidas na luta pela vida – Charles Darwin, 1859. Trad. Daniel Moreira Miranda, ed. Jair Lot Vieira & Maíra Lot Vieira Micales, ed., prefácio e notas de Nelio Bizzo, professor da USP e membro da Royal Society of Biology de Londres, doutor especialista nos escritos de Darwin, 1970 (EDIPRO, 2018).

PREFÁCIO

O editor, John Murray, anunciava para aquela venda de fim de ano o lançamento de um livro muito aguardado, pois revelaria os mistérios que envolviam o desaparecimento de mais de cem tripulantes da expedição mais ousada daquela época. Após numerosas tentativas, finalmente retornara à Inglaterra o capitão McClintock(*) com seu relato dos achados dos dois navios desaparecidos anos antes no rigoroso inverno do Ártico. Seu relato era dramático, com revelações inéditas de seus grandes achados, como o diário de bordo de Sir Franklin,(**) o experiente comandante da missão coberta de mistério, revelando o dia exato e as circunstâncias de sua morte. Já havia sido noticiado o achado de um esqueleto e dois corpos congelados de membros da desesperada tripulação, ainda vestindo roupas europeias. O livro traria até mesmo as figuras com a estampa do tecido das mortalhas encontradas.

(*) Francis Leopold McClintock (1819-1907), membro da Marinha Britânica, serviu em diversas expedições para localizar o paradeiro da expedição desaparecida no Ártico, entre 1848 e 1859, quando retornou em setembro de 1859, recebendo em seguida o título de Sir.

(**) Sir John Franklin (1786-1847), oficial da Marinha Britânica, que se notabilizou pela exploração dos mares polares, pioneiro no mapeamento da Antártida e do Ártico.”

O livro do capitão McClintock, preparado em apenas sessenta dias, um prazo incrível até para os editores da atualidade, permitia entender em detalhes o que ocorrera com a tripulação dos dois navios encalhados no mar congelado, caminhando até caírem, um a um, mortos por desnutrição, escorbuto e frio. § Essa história é tão dramática e comovente que incentivou buscas até nos nossos dias. Em setembro de 2016, foram encontrados, em surpreendente bom estado de conservação, os destroços do naufrágio do HMS Erebus e do HMS Terror, imponentes navios de mais de trezentas toneladas, sepultados no fundo mar do Ártico. Eles eram, já em seu tempo, exemplares da supremacia tecnológica britânica e até mesmo orgulho nacional, pois haviam sido originalmente construídos para missões de guerra, o que explicava sua robusta estrutura interna. Equipados com potentes obuses, capazes de lançar bombas mortíferas a grande distância, possuíam estrutura adaptada para resistir tanto ao ricochete do disparo de grandes petardos como a choques com icebergs, inaugurando a linha de navios quebra-gelo. De fato, o HMS Terror servira na Guerra de 1812,(*) com seus dois obuses e dez canhões bombardeando o Forte McHenry, em Baltimore, em setembro de 1814, uma batalha que inspirou a letra do atual hino dos Estados Unidos da América.(**)

(*) A Guerra de 1812 é vista, pelos britânicos, como parte das guerras napoleônicas, mas, como envolveu batalhas pela posse de terras americanas, é tida também como a Segunda Guerra de Independência na perspectiva estadunidense.

(**) [Kitsch] A letra do hino nacional dos Estados Unidos foi baseada no poema A defesa do Forte McHenry e fala dessa batalha na qual ‘bombas eram lançadas ao ar’, algumas delas provenientes desse vaso de guerra, posteriormente reformado para exploração polar.”¹

¹ Até o parnasianismo do Ouviram do Ipiranga… é melhor do que isso!

O sucesso imediato desse aguardado livro certamente impulsionou as vendas de outros da mesma fornada, entre eles A origem das espécies.(*)

(*) O título original, On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life, foi simplificado para The Origin of Species na 6ª edição pelo próprio Darwin, versão que se tornou famosa e prevaleceu até os dias de hoje. Por conta do reconhecimento público do título reduzido esta edição o adotou, embora traga, na verdade, uma tradução do texto da 1ª edição da obra, livre das diversas alterações posteriores. (N. E.)”

Se depois de centenas ou milhares de anos já era possível reconhecer em chácaras e sítios formas muito diferentes de galinhas, pombos, couves, rabanetes e ervilhas, o que não seria possível encontrar em florestas cheias de formas de vida após milhões de anos? Essa era a essência do pensamento darwiniano, apresentado de maneira cristalina na primeira edição, aqui traduzida, permitindo explicar a diversidade biológica de nosso planeta em bases científicas modernas. § Era bem conhecida a epopeia de Darwin em sua viagem ao mundo a bordo do HMS Beagle. Porém é interessante ressaltar que A origem das espécies se valia de achados também de expedições anteriores daqueles navios misteriosamente desaparecidos, dos quais tanto se fala desde 1859. Em uma delas, Joseph Hooker(*) realizou uma série de achados botânicos e paleontológicos a bordo do HMS Erebus que o notabilizou desde a juventude e que aparecia agora, pelas mãos do amigo Darwin, como evidências robustas da teoria da evolução. O ineditismo de plantas e animais das terras do hemisfério Sul teve papel central na argumentação de Darwin, que se valia das opiniões de especialistas, como o amigo botânico, ao lado do jovem Huxley,(**) zoólogo que logo se juntaria na defesa do evolucionismo.

(*) Joseph Dalton Hooker (1817-1911), embora médico de formação, foi um dos maiores botânicos ingleses de sua época, tendo participado da expedição do HMS Erebus ao polo sul em 1839 com o capitão James Ross, em sua busca pioneira pelo polo sul magnético.

(**) Thomas Henry Huxley (1825-1895), zoólogo inglês que se notabilizou pela árdua defesa das ideias evolucionistas logo após a primeira edição de A origem das espécies, ganhando a alcunha de ‘o buldogue de Darwin’.”

Na época de Darwin não havia indícios suficientes para crer que todos os continentes tivessem formado um bloco único em passado remoto. Hoje há consenso entre os geólogos [de] que os continentes são jangadas da crosta terrestre a se deslocar lentamente. Essa teoria teria poupado muito trabalho mental a Darwin, e não apenas nos capítulos finais.”

Darwin então recorreu à supremacia imperial britânica, estendendo o poder de enfrentar e derrotar semelhantes sem piedade, fossem aborígenes neozelandeses, mamíferos marsupiais ou ervas sul-americanas.” “Se as gramíneas eram iguais na Inglaterra e nos pampas argentinos, isso seria explicado não pelos arquétipos ideais, mas pela superioridade das estirpes britânicas.” Grande tolinho.

(*) “Richard Owen (1804-1892), zoólogo inglês de grande destaque em sua época, realizou estudos de anatomia comparada e estabeleceu o conceito de homologia, muito utilizado por Darwin, atual até nossos dias. (…) Owen e Louis

Agassiz, ao lado de seu predecessor Georges Cuvier, despontaram como ícones da oposição ao pensamento evolucionista darwiniano.”

(*) “Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873), naturalista suíço, foi aluno de Cuvier e do famoso Humboldt, antes de imigrar para os Estados Unidos e trabalhar na criação do Museu de Zoologia Comparada da Universidade de Harvard, em 1859, tendo sido seu primeiro diretor, até sua morte.”

(*) “Georges Cuvier (1769-1832), famoso anatomista e político francês, ficou famoso por estabelecer métodos de estudos de esqueletos de vertebrados e atestar que os fósseis não eram restos de um Dilúvio Universal, mas de animais extintos, embora se mantivesse como ferrenho opositor das ideias evolucionistas de seu tempo.”

Para Darwin, que já tinha respeitável estatura científica nos domínios geológicos naquela década, a ideia ajudava a entender muito da distribuição geográfica atual, em especial a similaridade das biotas da Europa e América do Norte. Mamutes, lobos e ursos, pinheiros e ciprestes, poderiam ter transitado livremente por gélidas, porém sólidas, pontes, contudo derretidas pelo clima mais quente que se seguiu.”

A descoberta de fósseis de eqüinos na América, onde o cavalo moderno foi reintroduzido pelos colonizadores europeus e se reproduziu sem limites, era explicada esplendidamente pela lógica da mudança climática global recente, que levara à extinção uma forma que agora se mostrava plenamente adaptada àquele mesmo ambiente em época anterior ao domínio do gelo.” A cavalo dado se olham os dentes colonizadores.

Hoje, a ideia de mudanças climáticas globais nos parece óbvia, mas, em escala planetária, ela teve em Charles Darwin um de seus primeiros defensores. Mal sabia ele que esta ideia seria, até nossos dias, crucial para compreender a chegada do ser humano ao continente americano. Não por acaso, até hoje os que se recusam a aceitar a evolução biológica também rejeitam a ideia de mudanças climáticas globais antropogênicas.” Embora por motivos diferentes (dinheiro no segundo caso, já que o criacionismo não interfere em nada com o presente imediato – a não ser que sirva de consolo na cabeça do culpado: se essa espécie se extinguir, foi porque Deus quis; e ele poderá recriá-la, já que é onipotente).

Estava bem assentada em Aristóteles a ideia de equilíbrio estático na Natureza, vista como eterna e imutável, na qual não há carência nem desperdício, que nada falta ou excede ao necessário, que cada característica tem uma finalidade específica a explicar sua existência, e que nada ocorre por acaso.”

Como explicar o desaparecimento de espécies em um mundo em perfeito equilíbrio estático? O desaparecimento de uma única forma, de um único pilar, faria vir ao chão os andaimes da Criação!”

A DERROCADA DO UTILITARISMO: “Qual a utilidade das asas do ganso das ilhas Malvinas se ele é incapaz de voar? Qual a utilidade dos olhos do tuco-tuco sul-americano, frequentemente infeccionados, se ele vive na escuridão dos túneis escavados debaixo dos campos gaúchos? O que faz um pica-pau endêmico nessas paragens se ali não há árvores?”

E no entanto… utilidades do pensamento de Jeremy Bentham: “defendeu o bem-estar social como dever do Estado, direitos iguais para homens e mulheres, direito ao divórcio e, ao mesmo tempo, fim de diversas práticas sociais, como escravidão, pena de morte, castigos físicos; além disso, propôs a descriminalização da homossexualidade. Ele estendia aos animais o direito à felicidade, evitando sofrimentos, e foi um dos primeiros defensores dos direitos animais! Só faltou a coletivização dos meios de produção.

Justamente ao discutir as ideias do utilitarismo britânico, que via nas variações dos seres vivos formas de evitar a monotonia aos olhos humanos, ele percebeu que poderia explicar as variações entre as raças humanas, ‘tão fortemente marcadas’ por meio da ‘seleção sexual de um tipo particular’. Quando escreveu essas palavras, ele tinha em sua escrivaninha os diversos volumes do livro de seu estimado James Cowles Prichard, que discutia as raças humanas, utilizando inclusive pranchas coloridas, outra sofisticação gráfica para a época.” “Como fazer em poucos parágrafos o que havia tomado a Prichard vários volumes? Assim, apenas em seu livro de 1871, Descent of Man, [intraduzido?] Darwin pôde discutir ‘com muitos detalhes’ seus pontos de vista sobre a ação da seleção sexual nas raças humanas.”

Desde o primeiro ensaio, escrito em 1844, Darwin destaca o ritual de acasalamento do dancing rock-thrush. Seu nome foi posteriormente retificado para rock-thrush of Guiana em todas as edições desta obra, na seção sobre seleção sexual. O nome aparece traduzido para o português como ‘melro’ ou ‘tordo-das-rochas’ desde a edição portuguesa de 1913. A confusão se justifica, vez que o nome popular rock thrush, na Inglaterra de meados do século XIX, designava a espécie Monticola saxatilis, descrita desde os tempos de Lineu. No entanto, nenhuma espécie dessa família (Muscicapidae) ocorre na Guiana nem em lugar algum do Novo Mundo. Ademais, os melros não praticam ritual de acasalamento incomum ou ‘dançante’… Na verdade, Darwin se equivocou, pois se referia ao Guianan cock-of-the-rock, ou seja, o galo-da-serra-do-pará (Rupicola rupicola). Essa bela ave da fauna brasileira, após mais de um século de injustiça e anonimato, ganhou justa homenagem na quarta capa desta edição.”

 

O capítulo final de A origem das espéciesabsolutamente inspirado, profético e grandioso – manteve a mesma estrutura da primeira à última edição. Ele é testemunha não apenas da solidez do argumento evolucionista como também da necessidade de alcançar o grande público por meio de algumas concessões. Darwin escreve não somente para os especialistas, mas também (e ao mesmo tempo) para o grande público, o que, aliás, explica a alternância de estilos literários ao longo do livro.(*)

(*) E a profusão de notas inseridas por este prefaciador e revisor técnico ao longo dos capítulos, pelo que se escusa antecipadamente.” Eu te entendo, amiguinho, eu te entendo. Sou viciado em interpolar textos – às vezes os meus próprios textos!

Com um siso e um apêndice, e munido de mais nada, o homem matou o rei-na-barriga que tinha em si desde os primórdios.

Alerta: “projeto inteligente” é um sinônimo utilizado pelos pérfidos pastores ou biólogos criacionistas para “criacionismo”, então… ¡date cuenta!

Ao ler esta primeira edição, fica o leitor preservado dessas titubeantes inserções, das quais o autor dirá ter se arrependido, em carta endereçada a Hooker em 1863, sem, contudo, produzir qualquer efeito no texto das edições seguintes.”

Toda nota é técnica dentro de uma nota técnica.

(*) “Cuvier tinha realizado a dissecação de uma mulher sul-africana (Sarah ‘Saartjie’ Baartman) em seu controvertido ‘Observations sur le cadavre d’une femme connue à Paris et à Londres sous le nom de Vénus hottentote (1817).” WIKIA: “Saartjie (que se pronuncia «Sarqui») pode ser considerado equivalente ao português «Sarinha». (…) Mediante um pagamento extra, os seus exibidores permitiam aos visitantes tocar-lhe as nádegas, cujo invulgar volume (esteatopigia) parecia estranho e perturbador ao europeu da época. § A sua exibição em Londres causou escândalo, tendo a sociedade filantrópica African Association criticado a iniciativa e lançado um processo em tribunal. Durante o seu depoimento, Sarah Baartman declarou, em neerlandês, não se considerar vítima de coação e ser seu perfeito entendimento que lhe cabia metade da receita das exibições. O tribunal decidiu arquivar o caso, mas o acórdão não foi satisfatório, devido a contradições com outras investigações, pelo que a continuação do espetáculo em Londres tornou-se impossível.” Um inglês tenderá a ser justo, exceto numa ocasião: quando dinheiro está em jogo. + “No fim de 1814, Saartjie foi vendida a um francês, domador de animais, que viu nela uma oportunidade de enriquecimento fácil. Considerando que a adquirira como prostituta ou escrava, o novo dono mantinha-a em condições muito mais duras. Foi exposta em Paris, tendo de aceitar exibir-se completamente nua, o que contrariava o seu voto de jamais exibir os órgãos genitais. As celebrações da reentronização de Napoleão Bonaparte no início de 1815 incluíram festas noturnas. A exposição manteve-se aberta durante toda a noite e os muitos visitantes bêbados divertiram-se apalpando o corpo da indefesa mulher. § O anatomista francês Georges Cuvier e outros naturalistas visitaram-na, tendo sido objeto de numerosas ilustrações científicas no Jardin du Roi. O corpo foi totalmente investigado e medido, com registo do tamanho das nádegas, do clitóris, dos lábios e dos mamilos para museus e institutos zoológicos e científicos. Com a nova derrota de Napoleão, o fim do seu governo e a ocupação da França pelas tropas aliadas em junho de 1815, as exposições tornaram-se impossíveis. Saartje foi levada a prostituir-se e tornou-se alcoólatra.” Napoleão exerceu certas influências maléficas em coisas de “somenos” importância que mal poderíamos acreditar… Enfim, repulsivo.

É só o começo! “Após sua morte, o corpo de Baartman foi enviado para o laboratório de George Cuvier, no Museu Nacional de História Natural, para exames. Cuvier queria analisar seus genitais para testar sua teoria de que quanto mais ‘primitivo’ era o mamífero, mais acentuados seriam seus órgãos sexuais e desejo sexual. Baartman recusou-se a ser um experimento, enquanto estava viva. Com a permissão da polícia, Cuvier, que acumulou a maior coleção do mundo de espécimes humanos e animais, realizou uma autópsia no corpo de Baartman. Primeiro, ele fez um molde do corpo, então ele preservou o cérebro e genitais. (…) Cuvier, que conhecera Baartman, observou em sua monografia que o seu objeto de estudo era uma mulher inteligente, com uma memória excelente, especialmente para rostos. Além de sua língua nativa, ela falava neerlandês fluentemente, tinha um inglês razoável e algum conhecimento de francês. Ele descreve os ombros e costas dela como ‘graciosos’, com ‘braços delgados’, mãos e pés como ‘encantadores’ e ‘bonitos’. Ele acrescenta que ela era adepta de berimbau de boca, dançava de acordo com as tradições de seu país e tinha uma personalidade alegre. Apesar disso, ele interpretou seus restos mortais, de acordo com suas teorias sobre evolução racial, como a manifestação de traços semelhantes a macacos.” Um pouco de alívio ao final: “O caso ganhou proeminência mundial só depois de Stephen Jay Gould escrever The Hottentot Venus na década de 1980. Após a vitória do Congresso Nacional Africano na eleição geral na África do Sul em 1994, o presidente Nelson Mandela solicitou formalmente que a França devolvesse os restos mortais. Depois de muita disputa legal e debates na Assembleia Nacional Francesa,¹ o governo francês aceitou o pedido em 6 de março de 2002. Seus restos mortais foram repatriados para sua terra natal, o vale do rio Gamtoos, em 6 de maio de 2002[,] e eles foram enterrados em 9 de agosto de 2002, sobre Vergaderingskop, uma colina na cidade de Hankey, mais de 200 anos depois de seu nascimento. (…) O Centro Saartjie Baartman para mulheres e crianças, um refúgio para sobreviventes de violência doméstica, foi inaugurado na Cidade do Cabo em 1999.”

¹ Debater o quê, cretinos?

Ele fez previsões testáveis, muitas das quais se comprovaram empiricamente, como a origem da baleia a partir de um mamífero terrestre, em vez do aperfeiçoamento de um réptil marinho, como pensavam muitos.”

Mais sobre Nelio Bezzo: “É pesquisador 1A do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), coordenador científico do Núcleo de Pesquisa em Educação, Divulgação e Epistemologia da Evolução ‘Charles Darwin’, ligado à Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, e do Projeto Temático BIOTA-FAPESP/Educação, que congrega pesquisadores da USP, UFABC, UNIFESP, USCS e do Instituto Butantan.”

INTRODUÇÃO

(*) “Darwin viajou no Beagle como convidado do capitão e tinha de arcar com suas despesas, de alimentação inclusive. Se fosse, de fato, o naturalista de bordo, todo o material coletado pertenceria ao almirantado e Darwin não poderia dele dispor como bem quisesse, como de fato ocorreu. (N.R.T.)” O destino escreve certo por linhas tortas (#chupacriacionismo).

Espero ser desculpado por entrar em detalhes pessoais, mas eu os ofereço para mostrar que não tomei decisões apressadas. “ Se, p.ex., Fraud esperasse 20 anos para publicar suas “conclusões” teríamos nos livrado de 80% das asneiras que redigiu! Um homem de ciência não se apressa…

(*) “Darwin trabalhava no que ele chamava de Big Species Book (Grande livro das espécies) quando foi surpreendido pela carta recebida de Wallace.”

Fui particularmente induzido a publicar este resumo, pois o senhor Wallace [Alfred Russel Wallace (1823-1913)], que hoje está estudando a história natural do arquipélago malaio, chegou quase exatamente às mesmas conclusões gerais que as minhas sobre a origem das espécies.” Um dos pares de descobridores simultâneos mais conhecidos.

(*) “Charles Lyell (1797-1875), advogado e geólogo britânico, publicou Principles of Geology em 3 volumes entre 1830 e 1833.” Ao passo que hoje não existem nem meios-advogados nem meios-geólogos, se formos aferir seus dons… até o séc. XIX a polimatia ou semi-polimatia parecia o estado natural para uma certa nata de burgueses, pequeno-burgueses ou aristocratas…

Ao pensar sobre a origem das espécies, é bastante concebível que um naturalista, refletindo sobre as afinidades mútuas dos seres orgânicos, suas relações embriológicas, suas distribuições geográficas, suas sucessões geológicas e outros fatos semelhantes, possa chegar à conclusão de que cada espécie não tenha sido criada independentemente, mas que tenha descendido, como variação, de outras espécies. No entanto essa conclusão, ainda que bem fundamentada, seria insatisfatória até que pudesse ser demonstrado como as inúmeras espécies que habitam o mundo foram modificadas para que atingissem a perfeição de suas estruturas e coadaptação que tanto inspiram nossa admiração.”

(*) “seiva xilemática das plantas (antigamente, chamada seiva bruta)” Será que meus livros-textos do ensino fundamental já são antigamente?!

O PRIMEIRO NATURALISTA IN VITRO: “No início de minhas observações, me pareceu que o estudo cuidadoso de animais domesticados e plantas cultivadas provavelmente ofereceria a melhor oportunidade para elucidar esse problema obscuro. Não fiquei decepcionado; nesse e em todos os outros casos desconcertantes, percebi invariavelmente que nosso conhecimento sobre a variação por meio da domesticação, mesmo sendo imperfeito, oferecia as melhores e mais seguras pistas.”

Evocando N.: Sobrevivência do mais forte falando em coletividades é um oximoro, uma vez que quanto mais bem-sucedida é uma espécie, mais ela se propaga e, portanto, mais ela está submetida às leis da restrição da população. O gênio, até na natureza, é de vidro. Apenas o medíocre é persistente e perdurável.

Embora muito ainda permaneça obscuro, e continuará assim por muito tempo, eu, após o estudo mais meticuloso e o julgamento mais imparcial de que sou capaz, não tenho dúvidas de que a posição sustentada pela maioria dos naturalistas – e sustentada também por mim anteriormente –, ou seja, de que cada uma das espécies foi criada independentemente, é falsa.” Dizer textualmente que o homem veio do macaco é, tecnicamente, contradizer Darwin. Mas tem-se de ser algo melhor do que estúpido para percebê-lo. O homem veio da primeira célula procarionte, esta seria a frase mais correta.

1. A VARIAÇÃO NA DOMESTICAÇÃO

Parece bastante claro que os organismos devem ser expostos às novas condições de vida por várias gerações para que isso cause um nível apreciável de variação; e, assim que o organismo começa a variar, ele geralmente continua a variar por muitas gerações. Não há casos registrados de que o cultivo tenha feito com que uma variedade da espécie deixasse de ser variável. Nossas mais antigas plantas de cultivo, como o trigo, ainda costumam gerar novas variedades: nossos mais antigos animais domesticados ainda podem sofrer um rápido aprimoramento ou modificação.De certo modo, isso já refuta a ‘seleção natural’: são os animais domésticos, que recebem fartura alimentar e não disputam contra outros pela sua sobrevivência, que são mais mutáveis e heterogêneos, dir-se-ia, superiores.

(*) “Note a insistência de Darwin ao tomar as ’monstruosidades’ como variedades, ou seja, como parte de um estado natural dos seres vivos, o que contrariava a tradição aristotélica, que as via como exceções inexplicáveis, pois incompatíveis com a ideia de perfeição da natureza, ideia ainda muito presente na história natural anglicana da época.”

(*) “Aqui Darwin fala de sua Teoria da Pangênese, ainda sem nomeá-la. Ele fará uma exposição mais detida apenas em 1868, em seu Variations of Animais and Plants under Domestication.”

mas a principal é a consequência notável que o cativeiro ou o cultivo tem sobre as funções do sistema reprodutivo; este sistema parece ser muito mais sensível do que qualquer outra parte do organismo à ação de qualquer alteração nas condições de vida. Nada é mais fácil do que domar um animal, e poucas coisas são mais difíceis do que fazê-los procriar livremente em cativeiro, e isso nem mesmo, em muitos casos, quando o macho e a fêmea se unem.” Nem para cães e gatos há exceção?

Quantos animais existem que não se reproduzem, apesar de já viverem há muito tempo em cativeiro não muito rigoroso em sua região nativa! Isso costuma ser atribuído à invalidação dos instintos; mas quantas plantas de cultivo exibem grande vigor e, ainda assim, raramente ou nunca produzem sementes!”

para mostrar como as leis que determinam a reprodução dos animais em cativeiro são singulares, posso apenas mencionar que os animais carnívoros, mesmo os dos trópicos,[?] cruzam neste país [Inglaterra] de forma bastante livre quando estão em cativeiro, com exceção dos plantígrados, isto é, a família dos ursos; no entanto, as aves carnívoras, com raras exceções, quase nunca põem ovos férteis. O pólen de muitas plantas exóticas é completamente inútil, estando na mesma condição dos mais estéreis híbridos. Quando, por um lado, vemos animais e plantas domesticados, embora muitas vezes fracos e doentes que, ainda assim, reproduzem-se de forma livre em cativeiro; e quando, por outro lado, vemos indivíduos que, embora tenham sido retirados ainda jovens da natureza, são perfeitamente domados, vivendo por muitos anos e saudáveis (dentre os quais eu poderia citar inúmeros casos) e que, apesar disso, possuem seus sistemas reprodutivos tão gravemente afetados por causas não observadas a ponto de não funcionarem, então não devemos nos surpreender quando esses sistemas não funcionam em cativeiro de forma razoavelmente regular e produzem crias que não são perfeitamente semelhantes a seus pais ou a variações próximas a eles.

Dizem que a esterilidade é a ruína da horticultura; mas, sobre este ponto de vista, a variabilidade assenta-se sobre a mesma causa que produz a esterilidade; e a variabilidade é a fonte das melhores produções de um jardim. Devo ainda dizer que alguns organismos procriarão de forma mais livre em condições mais artificiais (por exemplo, o coelho e o furão mantidos em jaulas), mostrando que seu sistema reprodutivo não foi afetado; assim, o mesmo vale para alguns animais e plantas que toleram a domesticação ou o cultivo e sofrerão pequenas variações, talvez não mais do que em seu estado natural.”

(*) “Darwin utiliza a expressão sporting plants entre aspas, demonstrando certa discordância em tomá-las como simples sports of nature, uma maneira de contornar as dificuldades do mundo estático de Aristóteles, mas ainda sem a conotação de mutações em sentido moderno.”

esses casos mostram que a variação não está necessariamente ligada, como alguns autores acreditam, ao ato de geração.”

As mudas da mesma fruta e as crias da mesma ninhada são às vezes bastante diferentes entre si, embora tanto as crias quanto os progenitores, conforme observou Muller, tenham sido aparentemente expostos a exatamente as mesmas condições de vida; e isso mostra a pouca importância dos efeitos diretos das condições de vida em comparação com as leis da reprodução, do crescimento e da hereditariedade; (…) No caso de qualquer variação, é bastante difícil decidirmos o quanto devemos atribuí-la à ação direta do calor, da umidade, da luz, da alimentação, etc.”

Desse ponto de vista, as experiências recentes do senhor Buckman [James Buckman (1816-1884)] com plantas parecem extremamente valiosas.”

em alguns casos, o aumento de tamanho [ocorre] devido à quantidade de alimentos, a [mudança da] cor devido a certos tipos de alimentos e à luz; e, talvez, a espessura da pelagem [varie] devido ao clima.” O que não ocorre com o homem (que está em seu natural?) – o homem mais se modificou quando estava em cativeiro na própria natureza, na sua era ágrafa!

Nos animais há um efeito mais acentuado [do hábito]; descobri, por exemplo, que, em relação a todo o esqueleto do pato doméstico, os ossos das asas ficam menos pesados e os ossos das patas ficam mais pesados do que os mesmos ossos do pato selvagem.” Don’t fly, just walk!

O aumento – grande e herdado – do úbere de vacas e cabras em países onde elas são habitualmente ordenhadas, em comparação com o estado desses órgãos em outros países, é outro exemplo do efeito do uso. Não há um único animal doméstico que não tenha, em alguma região, orelhas caídas; parece algo provável o ponto de vista sugerido por alguns autores de que tal fato ocorre devido ao desuso da musculatura da orelha, pois os animais não se alarmam muito com o perigo.”

Nas monstruosidades, as correlações entre partes bastante distintas são muito curiosas; e muitos exemplos são oferecidos por Isidore Geoffroy St. Hilaire em sua grande obra sobre o tema.”

os gatos com olhos azuis são invariavelmente surdos” Refutado.

Karl von Heusinger (1792-1883), médico alemão.”

Os cães sem pêlos têm dentes imperfeitos; animais de pelo longo ou áspero estão propensos a ter, como se afirma, chifres longos ou muitos chifres; pombos com pés emplumados têm pele entre os dedos mais longos; pombos com bico curto têm pés pequenos e aqueles com bicos longos têm pés grandes.”

leis misteriosas da correlação de crescimento”

Vale a pena estudar os vários tratados publicados sobre algumas de nossas antigas plantas de cultivo, como o jacinto, a batata, até mesmo a dália, etc.; e é realmente surpreendente observar os pontos infindáveis da estrutura e da constituição nos quais as variedades e subvariedades diferem ligeiramente entre si.”

Quaisquer variações não-hereditárias não são importantes para nós. Mas são quase infinitas a quantidade e a diversidade dos desvios hereditários estruturais, tanto os pequenos quanto os de considerável importância fisiológica. O tratado do doutor Prosper Lucas sobre o assunto, em dois grandes volumes, é o melhor e mais completo material sobre o tema.”

Por sorte, há todo tipo de antepassado nesse mundo, do mais vil ao mais divino (falo do atavismo – não é o tópico da conversação de Darwin neste momento).

Quando surge um desvio freqüente e verificado no pai e no filho, não podemos afirmar que o desvio ocorreu por uma mesma causa original que atuou em ambos os indivíduos; mas, por outro lado, quando entre os indivíduos aparentemente expostos às mesmas condições verificamos qualquer desvio muito raro devido a uma extraordinária combinação de circunstâncias que surja no ascendente – digamos, apenas uma vez dentre vários milhões de indivíduos – e que reapareça no filho, a mera doutrina das probabilidades quase nos obriga a atribuir sua reaparição à hereditariedade.”

As leis que regem a hereditariedade são bastante desconhecidas; não sabemos por que a mesma peculiaridade em diferentes indivíduos da mesma espécie e em indivíduos de espécies diferentes é por vezes herdada e por vezes não; por que a criança muitas vezes reverte a certas características de seu avô ou avó ou de outro ancestral mais remoto(*)” Agora sim.

(*) “Aqui aparece a primeira referência ao ‘princípio da reversão’, que explicaria o reaparecimento de uma característica de ancestral próximo ou ‘mais remoto’. Trata-se de assunto doloroso para Darwin, que havia acabado de perder um filho com 2 anos, batizado com seu nome (Charles), com síndrome de Down, vista à época como um tipo de ‘reversão mongólica’. O assunto será aprofundado logo adiante.” Que estultícia britânica.

Tem pouca importância para nós o fato de que as peculiaridades que aparecem nos machos de nossas criações domésticas sejam freqüentemente transmitidas exclusivamente ou em um grau muito maior apenas aos machos. Uma regra muito mais importante, e que me parece confiável, é que, independentemente do período da vida em que uma peculiaridade apareça pela primeira vez, ela tenderá a surgir na prole em uma idade correspondente, embora às vezes ocorra mais cedo.”

Mas as doenças hereditárias e alguns outros fatos me fazem acreditar que a regra tem uma extensão mais ampla e que, não havendo qualquer razão aparente para que alguma peculiaridade apareça em uma certa idade específica, ela realmente tenderá a surgir na prole no mesmo período em que apareceu pela primeira vez nos pais. Eu acredito que essa regra é extremamente importante para explicar as leis da embriologia. Essas observações, claro, aplicam-se apenas ao primeiro surgimento da particularidade e não à sua causa primária, que pode ter ocorrido nos óvulos ou no elemento masculino”

farei referência neste ponto a uma afirmação muitas vezes feita pelos naturalistas, ou seja, que nossas variedades domesticadas, quando se tornam novamente selvagens, gradual mas certamente readquirem as características de seus ancestrais. Portanto, foi argumentado que não se pode projetar deduções com base em raças domésticas para explicar espécies em estado natural. Em vão, me esforcei para descobrir em que fatos decisivos a afirmação acima foi tantas vezes e tão corajosamente feita.” “podemos seguramente concluir que muitas das variedades domésticas mais fortemente distintas não conseguiriam, em nenhuma hipótese, viver em estado selvagem. Em muitos casos, não sabemos como eram seus ancestrais e então não poderíamos dizer se a reversão quase perfeita teria ou não ocorrido.”

Se conseguíssemos demonstrar que nossas variedades domesticadas manifestaram uma forte tendência para a reversão – ou seja, para perder suas características adquiridas, enquanto as condições são mantidas inalteradas e as variedades são mantidas em um grupo consideravelmente grande, para que o cruzamento livre possa cancelar, por meio da mistura, qualquer pequeno desvio de estrutura –, então, nesse caso, garanto que não poderíamos deduzir nada sobre as espécies com base nas variedades domésticas.”

Devo acrescentar que, quando em estado natural, as condições de vida são alteradas e provavelmente ocorrem variações e reversões das características, mas a seleção natural, como explicado mais adiante, determina até que ponto as novas características que assim surgem devem ser preservadas.”

os naturalistas diferem bastante em relação à determinação das características de valor genérico, pois todas essas avaliações são até agora empíricas.”

Seria muito interessante se pudéssemos esclarecer (…) se (…) o galgo, o bloodhound,(*) o terrier, o spaniel e o buldogue – que, como todos sabemos, propagam sua espécie de forma tão exata – são descendentes de uma única espécie. Tais fatos teriam grande peso para fazer-nos duvidar da imutabilidade das muitas espécies naturais muito afins, como, por exemplo, o caso das muitas raposas que habitam diferentes regiões do mundo. Eu não acredito, como veremos em breve, que todos os nossos cães sejam descendentes de apenas uma espécie selvagem; mas, no caso de algumas outras raças domésticas, existem provas circunstanciais ou até mesmo fortes evidências a favor dessa perspectiva.” Todo puro-sangue é na verdade um vira-lata laureado.

(*) Bloodhound: “cão de santo Humberto”. “Manterei o nome das raças inglesas em sua língua original, exceto o bulldog, que foi dicionarizado como buldogue.”

Costuma-se supor que o homem optou pela domesticação de animais e plantas que possuíam uma extraordinária tendência inerente para variar e, da mesma forma, para resistir a diferentes climas.” Ele não teria como sabê-lo a priori. “quando um selvagem domesticou um animal pela primeira vez, como ele poderia saber se iriam ocorrer variações nas gerações seguintes, ou se este animal resistiria a outros climas?” Talvez porque nunca houve uma primeira vez. O “selvagem” (figura mítica) não saberia nem que diabos é “clima”!

Não tenho dúvidas de que se outros animais e plantas, em número igual ao de nossas criações domesticadas e igualmente pertencentes a diversas classes e regiões, fossem tirados de seu estado de natureza e se fosse possível fazer com que eles se reproduzissem por um número igual de gerações sob domesticação, eles iriam variar, em média, tanto quanto têm variado as espécies progenitoras de nossas criações domesticadas atuais.” Exemplo: se pudessem criar um urso polar num freezer gigante. Alegar-se-ia que se o faz em zoológicos de países “temperados” (quase polares), mas não é a mesma coisa.

O principal argumento invocado por aqueles que acreditam na origem múltipla de nossos animais domésticos é o fato de encontrarmos grande diversidade de raças nos registros mais antigos, especialmente nos monumentos do Egito; e que algumas das raças se assemelham e talvez sejam idênticas às ainda existentes. Mesmo que se descobrisse que isso é mais estrita e geralmente verdadeiro do que me parece ser o caso, o que demonstraria, senão que algumas de nossas raças originaram-se naquele local há 4 ou 5 mil anos? [um piscar de olhos insignificante] Mas as pesquisas do senhor Horner [(1785-1864), geólogo escocês] mostram a possibilidade de que homens suficientemente civilizados possam ter fabricado a cerâmica existente no vale do Nilo há 13 ou 14 mil anos; assim, quem poderá afirmar quanto tempo antes desses períodos antigos já havia selvagens, assim como já existiam na Terra do Fogo ou na Austrália, que possuíam cães semidomesticados no Egito?(*)” Nunca confiar nos capciosos egípcios.

(*) “Darwin está respondendo a réplicas de autoridades eclesiásticas, desafiadas pelos achados da invasão de Napoleão no Egito.” De novo Napoleão!

…é altamente provável que nossos cães domésticos sejam descendentes de várias espécies selvagens.(*)

(*) Estudos moleculares modernos falharam em elucidar claramente a origem do cão doméstico, mas provavelmente a hipótese de Darwin se mantém válida, havendo indicações de mais de um evento de domesticação no passado, possivelmente há 33 mil anos, sendo que a(s) espécie(s) ancestral(is) teria(m) sido extinta(s).” Der Urhund oder die Urhunde?

[Já] no que diz respeito aos cavalos, por razões que não posso oferecer aqui, estou mesmo inclinado a acreditar, em oposição a vários autores, que todas as raças descendem de um único grupo selvagem. O senhor Blyth,¹(*) cujo parecer, fruto de seu grande e variado conhecimento, eu devo valorizar mais do que a opinião de qualquer outra pessoa, acredita que todas as raças de galinhas originam-se da ave indiana selvagem comum (Gallus bankiva).(**)”

¹ Doctor Blyth! Será Togashi tão versado e eclético?!

(*) “Edward Blyth (1810-1873), zoólogo inglês, curador do museu da Sociedade Asiática Real de Bengala, em Calcutá, na Índia”

(**) “A nomenclatura moderna para o galo banquiva é Gallus gallus bankiva, uma subespécie do galo vermelho selvagem (Gallus gallus). O galo doméstico (Gallus gallus domesticus) é considerado outra subespécie, que não deriva diretamente do galo banquiva, de acordo com estudos moleculares recentes de DNA mitocondrial, embora tenham parentesco próximo.”

A doutrina segundo a qual as nossas várias raças domésticas teriam se originado de várias unidades populacionais aborígenes foi levada a um absurdo extremo por alguns autores. Eles acreditam que todas as raças que conseguem se reproduzir de forma correta, mesmo que suas características distintivas sejam extremamente sutis, possuem um protótipo selvagem. Segundo este raciocínio, é preciso que tenha existido pelo menos uma vintena de espécies de gado selvagem, o mesmo número de ovelhas e vários tipos de cabras somente na Europa e outras várias apenas dentro da Grã-Bretanha. Um desses autores acredita que, somente na Grã-Bretanha, existiram onze espécies únicas de ovelhas selvagens! Quando levamos em conta que o país atualmente mal possui um mamífero peculiar, que a França tem apenas alguns diferentes da Alemanha e vice-versa e que o mesmo vale para a Hungria, Espanha, etc., e que, além disso, se notarmos que cada um desses reinos possui diversas raças peculiares de gado, ovelhas, etc., então devemos aceitar que muitas raças domésticas originaram-se na Europa; pois, de onde mais poderiam ter surgido, já que nenhum entre esses vários países conta com um número de espécies peculiares que suporte grupos ancestrais distintos?”

Quem pode acreditar que animais tão parecidos com o galgo italiano, o bloodhound, o buldogue, o spaniel de Blenheim, (imagem) etc., que são tão diferentes de todos os Canidae selvagens, tenham existido livremente em estado natural?”

J. Sebright realizou experimentos com esse objetivo específico e fracassou.” (criar deliberadamente novas raças de cães) “A prole do primeiro cruzamento entre duas raças puras é tolerável e, às vezes (como observei entre os pombos), extremamente uniforme, e tudo parece suficientemente simples; mas quando esses mestiços são cruzados uns com os outros por várias gerações, dificilmente teremos dois espécimes iguais e, desse modo, a tarefa se mostra extremamente difícil, ou melhor, totalmente desencorajadora.”

Sobre as raças de pombos domésticos

Acreditando que é sempre melhor estudar um grupo especial, escolhi, após refletir sobre o assunto, os pombos domésticos. Além de ter mantido todas as raças que consegui comprar ou obter, também fui generosamente agraciado com espécimes empalhadas vindas de várias regiões do mundo, mais especialmente da Índia e da Pérsia, enviadas pelos honoráveis W. Elliot e C. Murray, respectivamente. Muitos tratados sobre pombos foram publicados em diferentes línguas, alguns deles são muito importantes por serem consideravelmente antigos. Associei-me a vários grandiosos criadores e fui aceito em dois clubes londrinos de criadores de pombos.”

(*) “English carrier, em inglês. Os nomes das linhagens de pombos ingleses serão dados em sua língua original, exceto o pombo-correio (carrier) e o pombo-das-rochas (rock pigeon, rock dove), também conhecido como pombo comum, pombo doméstico ou por seu nome binomial Columba livia. (N. T.)”

short-faced tumbler”

Muitas aves batizam redes sociais. Redes sociais gospel! Uma IA antropomorfizada chamada Paloma para um app de relacionamentos só para crentelhos!… Pare com essas idéias já, laico herege!

Pouter

O pombo-correio, mais especialmente o macho, também é notável pelo maravilhoso desenvolvimento de uma carúncula em torno da cabeça, e isso é acompanhado por pálpebras muito alongadas, narinas muito grandes e uma abertura ampla do bico.” “O pombo barb é afim do pombo-correio mas, em vez de ter bico muito longo, tem um bico muito curto e muito largo. O pouter tem corpo, asas e pernas muito alongados; seu papo extremamente desenvolvido, que ele infla com orgulho, bem pode causar espanto e até mesmo risos.” “O jacobin tem as penas ao longo da parte dorsal do pescoço tão invertidas a ponto de formarem uma capa, e ele tem, proporcionalmente ao seu tamanho, penas muito alongadas nas asas e na cauda. O trumpeter e o laugher, conforme indicado por seus nomes, proferem sons muito diferentes dos emitidos pelas outras raças. O fantail tem 30 ou até mesmo 40 penas na cauda, em vez de 12 ou 14, o número normal para todos os membros da grande família dos pombos; além disso, essas penas são mantidas abertas e são tão eretas que, em aves bem formadas, a cabeça e a cauda se tocam; a glândula de óleo(*) é bastante atrofiada.

(*) Trata-se da glândula uropigiana, que produz um muco oleoso, espalhado com o bico sobre as penas para impermeabilizá-las. Darwin dedicou especial atenção a órgãos atrofiados, que causavam desconforto aos naturalistas anglicanos da tradição aristotélica.”

O tamanho e a forma das cavidades torácicas são altamente variáveis; o mesmo vale para o grau de divergência e tamanho relativo dos dois ramos da fúrcula.(*) A largura proporcional da abertura da boca, o comprimento proporcional das pálpebras, do orifício das narinas, da língua (nem sempre em estrita correlação com o comprimento do bico), o tamanho do papo e da parte superior do esôfago; o desenvolvimento e a atrofia da glândula sebácea; o número de penas primárias da asa e da cauda; o comprimento relativo entre as asas, a cauda e o corpo; o comprimento relativo entre pernas e pés; o número de pequenas escamas nos dedos, o desenvolvimento da pele entre os dedos, são todos pontos variáveis da estrutura. O período dentro do qual a plumagem perfeita é adquirida varia, e o mesmo vale para o estado de cobertura da plumagem das aves filhotes ao nascerem. A forma e o tamanho dos ovos variam. A forma do voo difere bastante, o que também ocorre, em algumas linhagens, com a voz e a disposição. Por fim, em determinadas linhagens, machos e fêmeas são levemente diferentes.

(*) Trata-se do osso popularmente conhecido como ‘forquilha’.”

Mesmo que as diferenças entre as linhagens de pombos sejam grandes, estou totalmente convencido de que a opinião comum dos naturalistas está correta, ou seja: todas elas descendem do pombo-das-rochas (Columba livia)(*)” Vemos que nessa época os naturalistas estavam para os ornitólogos (meros catalogadores) como os filósofos estão para os filólogos.

(*) “Darwin compartilhava a ideia dos criadores de seu tempo, a qual foi confirmada por grande número de estudos posteriores, inclusive recentes. Algumas subespécies da atualidade podem ser linhagens ferais, ou seja, originadas de indivíduos domesticados que passaram a viver livremente e que, com o passar das gerações, manifestam algumas características selvagens.”

Além disso, ao cruzarmos duas aves pertencentes a duas linhagens distintas, sendo que nenhuma delas é azul nem tem qualquer uma das marcas especificadas acima, a prole mestiça fica repentinamente bastante apta a adquirir essas características; por exemplo, eu cruzei alguns fantails uniformemente brancos com alguns barbs uniformemente pretos e eles produziram aves malhadas de castanho e aves pretas; em seguida, cruzei estas aves novamente. Um dos netos do fantail branco e do barb preto nasceu com uma bela cor azul, com a anca branca, uma dupla faixa preta nas asas e barradas e penas afiladas de branco na cauda, como qualquer outro pombo-das-rochas selvagem!”

falo em 12 ou 20 gerações pois não conhecemos casos de descendentes que tenham revertido para algum ancestral separado por um número maior de gerações. No caso de uma linhagem que tenha sido cruzada apenas uma vez com uma linhagem distinta, a tendência de reversão para quaisquer características derivadas de tal cruzamento será, naturalmente, cada vez menor, pois em cada nova geração haverá menos sangue alheio; mas quando não houve nenhum cruzamento com uma linhagem distinta e há em ambos os pais a tendência de reversão das características perdidas em alguma geração anterior, então essa tendência (apesar de toda evidência contrária) pode ser transmitida sem alterações para um número indefinido de gerações.”

Por último, os híbridos ou mestiços de todas as linhagens domésticas de pombos são perfeitamente férteis. Posso afirmar isso com base em minhas próprias observações, propositadamente feitas com as mais diferentes linhagens. Agora, é difícil, talvez impossível, apresentar algum caso de descendentes híbridos e perfeitamente férteis gerados por dois animais claramente distintos.”

Em quarto lugar, os pombos têm sido acompanhados e cuidados com muita dedicação, bem como amados por muitas pessoas. Eles têm sido domesticados há milhares de anos em várias regiões do mundo; o registro mais antigo relacionado aos pombos pode ser encontrado na quinta dinastia egípcia, por volta de 3000 a.C., como foi dito para mim pelo professor Lepsius;(*) mas o senhor Birch(**) informou-me que os pombos aparecem em um cardápio da dinastia anterior. Nos tempos dos romanos, como ouvimos de Plínio, os pombos atingiam preços altíssimos; ‘além disso, chegaram ao ponto de darem conta do pedigree e da raça dos pombos’.

(*) Karl Richard-Lepsius (1810-1884), arqueólogo alemão.

(**) Samuel Birch (1813-1885), egiptólogo inglês.”

Há uma circunstância bastante favorável para a produção de linhagens distintas: pombos machos e fêmeas podem, facilmente, formar casais para toda a vida; e, assim, diferentes linhagens podem ser mantidas juntas no mesmo aviário.” Incesto (digamos endogenia, pois o conceito é impróprio para animais, que não estão na esfera ética) e seus males.

Tratei da provável origem dos pombos domésticos de forma um pouco longa, mas bastante insuficiente; a primeira vez que criei pombos e observei os vários tipos, sabendo bem que as crias mantêm as características dos pais, senti extrema dificuldade em acreditar que eles pudessem ser descendentes de um pai comum, como poderia ocorrer com qualquer naturalista ao chegar a uma conclusão semelhante em relação às muitas espécies de tentilhões ou outros grandes grupos de aves, na natureza. Uma circunstância me impressionou muito: todos os criadores dos vários animais domésticos e os cultivadores de plantas com quem conversei, ou cujos tratados li, estão firmemente convencidos de que as várias linhagens tratadas por cada um deles são descendentes de espécies aborígenes distintas. Pergunte, como eu perguntei, a um célebre criador de gado hereford se o seu gado poderia ser descendente da raça longhorn, e ele rirá de você com desprezo. Nunca conheci um apreciador de pombos, galináceos, patos ou coelhos que não estivesse totalmente convencido de que cada linhagem principal é descendente de uma espécie distinta. Jean Baptiste van Mons (1765-1842) mostra, em seu tratado sobre as pêras e as maçãs, quão grande é sua descrença na possibilidade de que os vários tipos, por exemplo, de maçãs ribston-pippin ou codlin, possam ter procedido das sementes de uma mesma árvore. (…) por conta de seus estudos contínuos e prolongados, eles ficaram fortemente impressionados com as diferenças entre as diversas raças; e embora eles bem saibam que cada raça varia ligeiramente, pois eles ganham seus prêmios ao selecionar essas pequenas diferenças, eles ainda ignoram todos os argumentos gerais, eles se recusam a sintetizar em suas mentes as pequenas diferenças acumuladas durante muitas gerações sucessivas. Será que aqueles naturalistas – que sabem muito menos sobre as leis da hereditariedade do que os criadores e que sabem tanto quanto eles sobre as conexões intermediárias das longas linhas de descendência, mas que, mesmo assim, admitem que muitas de nossas raças domésticas são descendentes dos mesmos pais – não poderiam aprender a ter cautela quando zombam da ideia de espécies em estado natural serem descendentes lineares de outras espécies?” Darwin não liga para erros de amadores, por mais crassos: mas que alguns naturalistas (supostos cientistas) ajam de maneira mais estúpida que os mais sábios dos colecionadores ou que todo colecionador com bom senso e capacidade de síntese, isso sim é indigno para a profissão e para um homem!

Seleção

Eu nem sabia que existem raças que são usadas como cavalos de carga que morreriam ou seriam péssimas disputantes como cavalos de corrida, e vice-versa…

Não supomos que todas as linhagens tenham sido produzidas repentinamente da forma tão perfeita e útil como as vemos hoje; com efeito, sabemos que em vários casos essa não é sua história. A chave da questão é o poder do homem para realizar uma seleção acumulativa: a natureza nos dá as sucessivas variações; o homem adiciona variações em determinadas direções úteis para si. Nesse sentido, pode-se dizer que o homem produz linhagens úteis para si mesmo.

É certo que vários dos nossos maiores criadores conseguiram modificar algumas raças de gado e ovelhas de forma significativa, mesmo no período de uma única vida humana. Para compreendermos bem o que eles fizeram, é quase necessário lermos alguns dos muitos tratados dedicados ao assunto e avaliar os próprios animais. Os criadores costumam referir-se aos organismos dos animais como algo plástico que pode ser modelado quase que da forma que desejarem.” O problema é que havia não-cientistas já cientes do processo de seleção, mas que se imaginavam deuses por poder manipular à vontade a seleção natural mediante sua mesquinha seleção artificial. Pequenos homens! Num mundo em eterno retorno, quantas variantes de cabeças, bicos, penas, garras de pássaros vocês não acham que existem por mero atavismo?!?

É a varinha do mágico, por meio da qual ele pode trazer à vida quaisquer formas e modelos que desejar.” Youatt, William. Sheep: Their Breeds, Management, and Diseases, to Which Is Added the Mountain Shepherd’s Manual. Londres: Baldwin and Cradock, 1837, p. 60.

Na Saxônia, a importância do princípio da seleção em relação às ovelhas merino é tão plenamente reconhecida que os homens o seguem como um negócio: as ovelhas são colocadas em uma mesa e são analisadas assim como um especialista estuda uma pintura; isso é feito três vezes, com intervalos de meses; nesses períodos as ovelhas são marcadas e classificadas para que a melhor seja, por fim, selecionada para reprodução.”

A melhoria não se deve de uma forma geral ao cruzamento de raças diferentes; todos os melhores criadores opõem-se fortemente a esta prática, exceto às vezes entre sub-raças muito próximas. E quando esse tipo de cruzamento é realizado, eles devem fazer uma seleção muito mais rigorosa do que a realizada nos casos normais. Se a seleção consistisse em apenas separar alguma variedade bastante distinta e reproduzir a partir dela, o princípio seria tão óbvio que nem valeria a pena ser notado; mas sua importância consiste no grande resultado produzido pela acumulação em uma única direção, durante sucessivas gerações, de diferenças absolutamente inapreciáveis para os olhos incultos; diferenças que eu tentei apreciar em vão.” O achatamento do focinho dos fofos lhasas e shitzus: muita endogamia, endogamia contínua da prole que surgisse com focinhos mais achatados que os de seus irmãos, etc.

Nem um homem em mil tem olhos tão precisos e é tão criterioso para se tornar um importante criador.” Está mais para croupier.

Os mesmos princípios são seguidos pelos horticultores; mas as variações nesse campo são frequentemente mais abruptas.” É como pular de romances franceses dum mesmo século direto para HQs e mangás: claro que a diferença se torna muito mais pronunciada entre cada “produção”.

Se compararmos as flores dos dias atuais com os desenhos feitos apenas há vinte ou trinta anos, notaremos uma melhora surpreendente nas flores de muitos floristas.” Imagina como os lótus da Índia Antiga deviam ser feios… A não ser… quantos milhares de anos de “seleção humana” já haviam transcorrido antes dos Vedanta?

Quando uma raça de plantas já está bem-estabelecida, os produtores de sementes já não escolhem as melhores plantas, mas vão simplesmente até suas plantações e arrancam as ‘daninhas’ (rogues), como eles chamam as plantas que se desviam do padrão adequado.” “quase ninguém é tão descuidado a ponto de permitir que seus piores animais procriem.(*)

(*) [Crux!] Darwin utilizará essa frase novamente em 1871, em seu livro Origem do homem, ao abordar a questão da eugenia: ‘Mas, com exceção do caso do próprio homem, dificilmente alguém é tão ignorante para permitir que seus piores animais procriem’.” O pior é não estabelecer compulsoriamente que aristocratas devam se casar com plebeus e somente com eles! Em pouco tempo os neo-aristocratas melhorarão consideravelmente…

amor-perfeito (Viola tricolor)”

note como os frutos dos vários tipos de groselheiras diferem em tamanho, forma, cor e pilosidade, mas, mesmo assim, como suas flores apresentam diferenças muito pequenas. Não podemos dizer que as variedades muito diferentes em alguma característica não tenham quaisquer diferenças em outras características; isso quase nunca, ou talvez nunca, ocorre.”

É possível rejeitar o princípio da seleção ao afirmar que ele se tornou uma prática metódica há apenas pouco mais de três quartos de século; certamente demos maior atenção a ele nesses últimos anos e muitos tratados têm sido publicados sobre o assunto; posso ainda acrescentar que o resultado disso tem sido correspondentemente rápido e importante. Mas está muito longe de ser verdade que o princípio é uma descoberta moderna.”

O princípio da seleção encontra-se claramente apresentado em uma antiga enciclopédia chinesa.” Mas aqui seleção quer dizer algo muito simples.

Certas passagens do Gênesis não deixam dúvidas de que, já naquele tempo, cuidava-se da cor dos animais domésticos. Os selvagens atuais às vezes cruzam seus cães com animais caninos selvagens para melhorar a raça, e faziam o mesmo no passado, conforme podemos ler em certas passagens de Plínio, o Velho. [bibliografia não-confiável]

As alterações lentas e insensíveis deste tipo nunca poderiam ser reconhecidas, a menos que medições reais ou desenhos impecáveis das linhagens em questão já viessem sendo feitos há muito tempo para que pudéssemos compará-las.” Às vezes esqueço que D. não tinha sequer a arte da fotografia a seu dispor.

Por um processo semelhante de seleção e pelo treinamento cuidadoso, os cavalos de corrida ingleses superam sua linhagem árabe paterna em velocidade e tamanho, ao ponto de esta última, de acordo com os regulamentos das corridas de Goodwood, ser favorecida pelo peso que carrega.”

Youatt oferece uma excelente ilustração dos efeitos de um processo de seleção que pode ser considerado inconsciente, já que os criadores não esperavam, ou nem mesmo desejavam, ter produzido o resultado que se seguiu, a saber, a produção de duas linhagens distintas. Os dois rebanhos de ovelhas leicester mantidos pelos senhores Buckley e Burgess, conforme observa o senhor Youatt, ‘foram criados a partir de linhagens puras do grupo de animais originais do senhor Bakewell por mais de 50 anos. Dentre aqueles que estão familiarizados com o caso, não há a mínima suspeita de que os proprietários desses dois rebanhos tenham se desviado do rebanho puro-sangue do senhor Bakewell mas, ainda assim, a diferença entre as ovelhas de cada um desses dois senhores é tão grande que elas parecem ser variedades completamente diferentes’.”

Mesmo que existam selvagens tão bárbaros a ponto de nunca pensarem sobre as características herdadas dos descendentes de seus animais domésticos, um animal que seja particularmente útil a eles para qualquer finalidade especial será cuidadosamente preservado durante períodos de carestia e outras adversidades às quais os selvagens estão tão expostos, e esses melhores animais geralmente deixariam, dessa forma, mais descendentes do que os inferiores a eles; assim, estaríamos neste caso observando um tipo de seleção inconsciente.”

em tempos de escassez, eles matam e devoram as mulheres velhas, pois elas têm menos valor que seus cães.(*)Qualquer inglês metendo-se a antropólogo antes do século XX só fala asneiras.

(*) “Darwin reproduz informação recebida na viagem do Beagle, um mito repetido desde o século XVI. Em 1888, ficou bem estabelecido ser totalmente falso.”

Ninguém espera obter um amor-perfeito de primeira qualidade ou uma dália a partir da semente de uma planta selvagem. Ninguém espera obter uma pêra que derrete na boca e de primeira qualidade a partir da semente de uma pêra selvagem, embora se possa ter sucesso a partir de uma muda de sementes fracas que estivesse crescendo em local selvagem, mas cuja origem fosse uma espécie doméstica. A pêra, embora cultivada na época clássica, parece, pela descrição de Plínio, ter sido um fruto de qualidade muito inferior.”

Já que foram necessários séculos ou milhares de anos para aprimorar ou modificar a maioria de nossas plantas até seu presente padrão de utilidade para o homem, então podemos entender por que não recebemos nem uma única planta de cultivo da Austrália, do Cabo da Boa Esperança ou de qualquer outra região habitada por homens incivilizados. Não que esses países, tão ricos em espécies, não possuam por um estranho acaso¹ os grupos aborígenes de quaisquer plantas úteis, mas as plantas nativas não foram aprimoradas pela seleção contínua até atingirem um padrão de perfeição comparável ao oferecido, na Antiguidade, às plantas dos países civilizados.”

¹ Na verdade foi o europeu que sempre arruinou seu solo, pois não passa de um bárbaro que se cultivou às expensas dos asiáticos e africanos, incluindo aí o atual território da Grécia.

O homem dificilmente pode selecionar, ou só com muita dificuldade, qualquer desvio de estrutura, excetuando aqueles que são externamente visíveis; e de fato ele raramente se importa com o que é interno. O homem somente consegue agir por meio da seleção após ter visto algum tipo de modificação ligeira ocorrida na natureza.”

Mas utilizar a expressão ‘tentar criar um fantail’ é, não tenho dúvidas, na maioria dos casos, totalmente incorreto.” Tirou as palavras de minha boca.

faz parte da natureza humana valorizar quaisquer novidades, mesmo que pequenas, daquilo que tem em mãos.” Na era da reprodutibilidade técnica, ainda mais.

O ganso comum não deu origem a qualquer grande variedade; por isso a linhagem comum e a linhagem thoulouse, que diferem apenas na cor (a característica mais fugaz de todas), têm sido apresentadas nas exposições de aves domésticas como se fossem linhagens distintas.” Ué, mas você acabou de dizer que são linhagens distintas!

não sabemos nada sobre a origem ou a história de nossas linhagens domésticas.” Não sabemos de porra nenhuma, nunca. Primeira lição!

Mas, na verdade, dificilmente podemos dizer que uma linhagem, assim como o dialeto de uma língua, tenha uma origem definitiva.” Golpe de gênio.

A manutenção de um grande número de indivíduos de uma espécie em uma região requer que as espécies sejam expostas a condições favoráveis de vida, a fim de procriarem livremente naquela região.”

Já vi comentado de forma muito séria que, afortunadamente, os morangos apenas passaram a variar quando os horticultores começaram a cuidar dessa planta com mais atenção. Sem dúvida, desde que são cultivados, os morangos sempre variaram, mas as pequenas variações foram negligenciadas.” “as muitas variedades admiráveis de morango dos últimos trinta ou quarenta anos.” Love is red.

Os pombos podem formar casais por toda a vida; isso é bastante conveniente para os apreciadores, pois assim muitas raças podem ser mantidas puras, mesmo que convivam no mesmo aviário; e esta circunstância deve ter favorecido bastante o aprimoramento e a formação de novas linhagens.” Na verdade segundo sua própria teoria teria criado mais monstruosidades… Sobre o acasalamento em família, Plínio estava certo!

Por outro lado, os gatos, por causa de seus hábitos noturnos e de perambularem, não podem ser facilmente cruzados e, embora muito valorizados pelas mulheres e crianças, raramente vemos uma linhagem distinta; as linhagens por vezes encontradas quase sempre são importadas de outros países, muitas vezes de ilhas. Embora eu não duvide de que alguns animais domésticos variem menos do que outros, a raridade ou ausência de raças distintas de gatos, burros, pavões, gansos, etc. pode ser atribuída principalmente ao fato de a seleção não ter sido posta em prática: nos gatos, por causa da dificuldade de acasalamento; nos burros, por serem criados por pessoas pobres e da pouca atenção que é dada à sua reprodução; nos pavões, por sua difícil criação e pela manutenção de pequenos grupos; nos gansos, por serem valiosos apenas para duas finalidades, alimento e penas; e, de forma mais específica, porque as pessoas não sentem prazer em exibir raças distintas deste animal.” Quanto ódio ao bichinho!

2. A VARIAÇÃO NA NATUREZA

(*) “O termo ‘monstruosidades’ (grego terata) foi utilizado por Aristóteles para designar os seres com órgãos sem finalidade de linhagens domésticas, como a planta que produz a couve-flor. O termo foi continuamente utilizado pelos naturalistas, inclusive por Lineu.”

(*) “John Lubbock (1834-1913), entomologista e antropólogo, um jovem brilhante que freqüentava a casa de Darwin, tendo sido por ele muito estimulado. De uma família de banqueiros, seguiu carreira nas finanças, mas também se tornou um cientista evolucionista muito respeitado.”

(*) “Lubbock publicou, em 1858, estudos sobre a anatomia interna de um inseto conhecido como cochonilha (à época, chamado Coccus hesperidium), de grande interesse econômico, de onde se extrai um corante vermelho (ácido carmínico) com largo emprego até hoje, inclusive na indústria alimentícia (corante E 120). Em seu artigo, ele escreveu que ’o sistema nervoso, longe de ser similar em todos os espécimes, variava de maneira muito extraordinária’.”

Os gêneros que são polimórficos em uma região parecem ser, com algumas poucas exceções, polimórficos em outras regiões e, julgando pelas conchas dos braquiópodes, também em períodos anteriores. Esses fatos são muito desconcertantes, pois parecem mostrar que esse tipo de variabilidade independe das condições de vida. Estou inclinado a suspeitar que observamos nestes gêneros polimórficos variações em pontos da estrutura que não servem nem prejudicam a espécie e que, conseqüentemente, não foram tomadas nem aceitas como definitivas pela seleção natural, como será explicado daqui por diante.”

Na prática, quando um naturalista consegue, por meio de formas com características intermediárias, unir duas formas, ele tratará uma como sendo variedade da outra, chamando de espécie a mais comum (ou às vezes aquela que foi descrita em primeiro lugar) e a outra de variedade.”

Compare a flora da Grã-Bretanha, da França ou dos Estados Unidos descrita por diferentes botânicos e note o número surpreendente de formas que foram classificadas por um botânico como uma espécie boa e por outro como mera variedade.”

(*) “Hewett Cottrell Watson (1804-1881), botânico pioneiro no estudo da distribuição das plantas (biogeografia) que se correspondeu intensamente com Darwin; publicou os relatos de sua expedição feita em 1842 aos Açores e, em 1845, publicou na revista Phytologist um artigo sobre Desenvolvimento Progressivo.”

Há muitos insetos nas ilhotas do pequeno grupo da Madeira que foram caracterizados como variedades na admirável obra do senhor Wollaston mas que, sem sombra de dúvida, seriam classificados como espécies distintas por muitos entomologistas. Até mesmo a Irlanda tem alguns animais que são geralmente considerados como variedades mas que foram classificados como espécies por alguns zoólogos. Vários dos ornitólogos mais experientes consideram nosso faisão vermelho (L. lagopus) como apenas uma raça fortemente distinta de uma espécie norueguesa, mas a maioria o classifica como uma espécie indubitável e peculiar à Grã-Bretanha.”

A distância entre a América e a Europa é grande, mas será que é suficiente a distância entre o continente e os Açores ou a ilha da Madeira, as Canárias ou a Irlanda?”

Certamente, ainda não há uma linha clara de demarcação entre espécies e subespécies, isto é, entre as formas que, na opinião de alguns naturalistas, estejam muito próximas mas não cheguem a compor uma espécie; ou, além disso, entre subespécies e variedades bem-marcadas, ou entre as variedades menores e as diferenças individuais. Essas diferenças misturam-se entre si em uma série imperceptível; e a série imprime na mente a ideia de uma passagem real.”

A passagem de uma fase de diferenciação para outra mais elevada pode se dever, em alguns casos, apenas à longa ação contínua de diferentes condições físicas de duas regiões diferentes; mas eu acredito muito pouco neste ponto de vista; e eu atribuo a passagem de uma variedade – que migra de um estado em que ela difere ligeiramente de seus progenitores para outro em que a diferença é maior – à ação da seleção natural, que acumula (como será daqui por diante mais plenamente explicado) diferenças de estrutura em determinadas direções definitivas.”

Se uma variedade florescesse a ponto de ultrapassar o número de indivíduos da espécie materna, então aquela seria classificada como a espécie e a espécie como a variedade; ou ela poderia suplantar e exterminar a espécie materna; ou ambas poderiam coexistir, e ambas seriam classificadas como espécies diferentes.”

Dessa forma, as que mais florescem ou, conforme dizemos, as espécies dominantes – aquelas que estão amplamente distribuídas por todo o mundo – são as mais difundidas em sua própria região e são as que possuem maior número de indivíduos, que com maior freqüência produzem variedades bem-marcadas ou, conforme eu as chamo, espécies incipientes.”

Um livro muito mais confuso, sem a atmosfera de clássico, do que eu poderia imaginar.

John Obadiah Westwood (1805-1893), An Introduction to the Modern Classification of Insects: founded on the natural habits and corresponding organization of the different families, Londres, 1839-1840.

Os gêneros maiores, portanto, tendem a tornar-se ainda maiores; e, em toda a natureza, as formas de vida que agora são dominantes tendem a tornar-se ainda mais dominantes, deixando muitos descendentes dominantes modificados. Mas, por etapas que serão explicadas adiante, os gêneros maiores também tendem a se dividir em gêneros menores. E, assim, as formas .de vida em todo o universo tendem a se dividir em grupos subordinados a outros grupos.” Mistura abstrações que extrapolam com constatações um tanto óbvias.

3. LUTA PELA EXISTÊNCIA

Já vimos que, por meio da seleção, as pessoas conseguem produzir grandes resultados e adaptar os seres orgânicos para seu próprio uso através da acumulação de pequenas, mas úteis, variações, dadas a eles pelas mãos da Natureza. No entanto a seleção natural, como veremos adiante, é um poder que está sempre pronto para agir e é imensamente superior aos fracos esforços do ser humano, da mesma forma como o são as obras da Natureza quando comparadas às obras de arte. § Trataremos agora um pouco mais detalhadamente da luta pela existência. Esse assunto será discutido com mais abrangência em uma obra futura, conforme ele bem merece.” Sempre com essas evasivas e adiamentos…

Costumamos ver a face lustrosa da natureza com alegria, muitas vezes vemos a superabundância de alimentos; mas não vemos, ou esquecemos, que os pássaros, que cantam à toa em nosso entorno, vivem principalmente de insetos ou sementes e estão, portanto, constantemente destruindo a vida (…) nem sempre temos consciência de que, embora a comida possa ser superabundante no presente, isso não é o que ocorre em todas as estações de cada novo ano.

Devo estabelecer que uso o termo luta pela existência em sentido amplo e metafórico, que inclui a dependência de um ser em relação a outro e, ainda mais importante, que inclui não só a vida do indivíduo, mas o sucesso em deixar descendentes.”

É a teoria de Malthus aplicada com forças múltiplas a todo o mundo dos reinos animal e vegetal; pois não há neste caso como ocorrer nenhum aumento artificial da quantidade de alimentos nem restrições discricionárias aos casamentos.”

Lineu calculou que, se uma planta anual produzir apenas duas sementes (sendo que não existe qualquer planta tão improdutiva como essa), suas mudas produzirão mais duas no ano seguinte e assim por diante e, em vinte anos, haverá 1 milhão de plantas. O elefante é tido como o reprodutor mais lento de todos os animais conhecidos; dei-me ao trabalho de estimar sua provável taxa mínima de crescimento natural: admitindo que sua reprodução comece aos trinta anos e continue até noventa, dando à luz três pares de jovens reprodutores neste intervalo; se fosse assim, no final do quinto século haveria 15 milhões de elefantes vivos descendentes do primeiro casal.”

se as declarações sobre a taxa de aumento do gado e de cavalos na América do Sul e mais tarde na Austrália não estivessem tão bem-documentadas, seria bastante difícil dar crédito a elas.” Só tem crédito o que fede a Europa?

Várias das plantas mais numerosas atualmente na grande planície de La Plata, cobrindo algumas léguas quadradas da superfície e quase à exclusão de todos os outros vegetais, foram trazidas da Europa;(*) e existem plantas – importadas da América desde a sua descoberta – que hoje estão distribuídas pela Índia e, pelo que eu soube pelo doutor Falconer, espalham-se desde o Cabo Comorin até o Himalaia.

(*) Darwin se baseia na opinião dos botânicos da época, inclusive Lineu, sobre as gramíneas sul-americanas. Hoje se sabe que este exemplo não é correto. No entanto o argumento geral é válido, como em Galápagos, onde há centenas de espécies invasoras, inclusive a goiabeira.”

Em tais casos, a progressão geométrica do aumento, cujo resultado nunca deixa de ser surpreendente, simplesmente explica o crescimento extraordinariamente rápido de indivíduos e a ampla difusão desses seres vivos em seus novos lares.”

Nossa familiaridade com os animais domésticos maiores tende, assim imagino, a nos enganar: não vemos neles nenhuma grande destruição e esquecemos que milhares são abatidos anualmente para nos alimentar; além disso, em estado natural, um número igual de organismos também é eliminado de alguma forma.”

A única diferença entre organismos que produzem anualmente milhares ou apenas alguns poucos ovos ou sementes é que os procriadores lentos precisariam de alguns anos a mais para povoar, em condições favoráveis, uma região inteira, mesmo que esta fosse enorme. O condor bota um par de ovos e o avestruz, vinte, e, ainda assim, na mesma região o condor pode ser o mais numeroso dos dois; a procelária (imagem, também conhecida como pardela-preta) coloca apenas um ovo, e acredita-se no entanto que seja a ave mais numerosa do mundo. Certa mosca deposita centenas de ovos, e outras, como as da família Hipobboscidae, um único; mas essa diferença não determina quantos indivíduos das duas espécies podem ser mantidos em uma região.”

a verdadeira importância de um grande número de ovos ou sementes é compensar a grande destruição que pode ocorrer em algum período da existência; e, na grande maioria dos casos, este período ocorre na fase inicial da vida.” “Para manter o número total de uma árvore que viva mil anos, em média, basta que uma única semente seja produzida uma vez a cada mil anos, supondo que esta semente nunca seja destruída e haja garantia de que germinará em local adequado. Assim, em todos os casos, o número médio de indivíduos de qualquer animal ou planta depende apenas de forma indireta do número de ovos ou sementes produzidos por ele.” De acordo, mas isso é lógica de jardim-de-infância.

Diminua um obstáculo, mitigue levemente a destruição e o número das espécies aumentará quase instantaneamente para quantidades cada vez maiores. A face da Natureza pode ser comparada a uma superfície macia coberta com 10 mil cunhas¹ afiadas e muito próximas umas das outras, as quais são empurradas para baixo por golpes incessantes, às vezes uma cunha sendo atingida e, então, outra sendo atingida com mais força.(*) E para D. essa imagem ainda cheia de candura era terrível!

¹ Instrumento para rachar lenha

(*) “Essa última sentença foi excluída nas edições seguintes.” Alegação de genocídio divino!

Não sabemos exatamente o que restringe o crescimento, nem mesmo em um único exemplo.”

No que se refere às plantas, há uma vasta destruição de sementes, mas, a partir de algumas observações que fiz, acredito que as mudas são as que mais sofrem, por germinarem em um terreno que já está densamente ocupado por outras plantas.” “Se deixarmos crescer o gramado cortado há muito tempo – ou mesmo um gramado repisado por quadrúpedes –, as plantas mais vigorosas, mesmo já sendo adultas, gradualmente matarão as menos vigorosas; assim, de 20 espécies que crescerem em uma área gramada (de 3 pés por 4, aproximadamente 1m²), 9 morrerão se deixarmos que outras espécies cresçam livremente.”

Se nenhuma caça fosse abatida durante os próximos vinte anos na Inglaterra e, ao mesmo tempo, se nenhum predador fosse destruído,(*) haveria, muito provavelmente, um menor número de animais de caça no futuro, apesar de centenas de milhares de animais de caça estarem sendo atualmente abatidos a cada ano.

(*) Darwin refere-se aos animais que prejudicavam os estoques de alimentos, que faziam parte da lista editada por Henrique VIII, em 1532, e ampliada por sua filha, que pagava uma recompensa pelo abate de falcões, raposas, etc., o chamado ‘Vermin Act’. As paróquias que não abatessem predadores eram multadas. Essa caça foi intensa até meados do século XVIII, e quase extinguiu diversos animais ‘nocivos’ na Inglaterra.”

mesmo o tigre da Índia raramente ousa atacar um elefante jovem protegido por sua mãe.” Culpa humana absoluta.

as estações periódicas de extremo frio ou as secas, acredito, são os controles mais eficazes de todos. Estimo que o inverno de 1854-1855 destruiu 80% das aves de meu próprio terreno; e essa pode ser considerada uma tremenda destruição quando nos lembramos que 10% constitui uma mortalidade extraordinariamente grave nas epidemias humanas.” Imagine se 1% da população brasileira morresse de Covid… Tudo indica que beiramos esse número… Calamidade.

(*) “Não deixa de ser evidente a visão de Darwin, compartilhando a ideologia da época, de que as plantas europeias exterminariam as dos demais continentes, mas nunca o inverso.” Burrice e prepotência cultivadas em estufa.

Quando uma espécie, devido a circunstâncias altamente favoráveis, aumenta excessivamente o número de seus indivíduos em uma pequena região, surgem epidemias; pelo menos isso é o que parece acontecer com frequência com nossos animais de caça: e aqui temos um controle limitador que independe da luta pela vida. Mas mesmo algumas dessas epidemias parecem ser causadas por vermes parasitas que – de alguma forma, e possivelmente em parte, através de sua fácil dispersão entre os animais aglomerados – foram desproporcionalmente favorecidos; e nesse caso surge uma espécie de luta entre o parasita e sua presa.”

Animais de pastagem são incríveis predadores até de árvores grandes e não-diretamente relacionadas com sua dieta (pinheiros), pois repisam e revolvem o solo de modo a matar muitas mudas.

se ocorresse no Paraguai um aumento no número de certas aves insetívoras (cujo limite de indivíduos é provavelmente regulado por falcões ou outros animais predadores), o número de moscas diminuiria, o gado e os cavalos se tornariam selvagens, e isso certamente causaria muitas alterações na vegetação (como de fato tenho observado em partes da América do Sul)”

oportunidade mais (r)adiante

(*) “Note-se o raciocínio da moderna ecologia, ao tratar de cadeias e teias alimentares, quando o nome dessa ciência sequer havia sido criado.” Glorificação injustificada de D.

A partir de experiências realizadas por mim, descobri que as visitas das abelhas, além de indispensáveis, são, no mínimo, altamente benéficas para a fertilização de nossos trevos; mas apenas as abelhas do gênero Bambus visitam o trevo vermelho, [Trifolium pratense] pois as outras abelhas não conseguem alcançar o seu néctar. Portanto, tenho pouquíssima dúvida de que se todas as abelhas do gênero Bambus desaparecessem ou se tornassem muito raras na Inglaterra, o amor-perfeito e o trevo vermelho também se tornariam raros ou desapareceriam completamente.”

Percebi que, perto de aldeias e cidades, o número de colmeias dessas abelhas era mais elevado do que em outros lugares. Atribuo esse fato ao número de gatos que matam os ratos.” Newman

Em todas as partes da Rússia, a pequena barata asiática tem levado consigo sua congênere, a grande. Uma espécie de mostarda substituirá outra, e o mesmo ocorrerá em outros casos. Podemos ver de forma vaga por que a competição é mais severa entre as formas mais próximas, que ocupam quase o mesmo lugar na economia da natureza;”

a vantagem de sementes plumadas está indubitavelmente relacionada com o fato de o terreno já estar densamente tomado por outras plantas; as plumas permitem que as sementes sejam levadas para mais longe e caiam em solo desocupado.”

Observe uma planta na sua região de distribuição; por que ela não duplica ou quadruplica o número de seus indivíduos? Sabemos que ela pode suportar muito bem um pouco mais de calor ou frio, umidade ou secura, pois em outros lugares ela se distribui por regiões ligeiramente mais quentes ou mais frias, mais úmidas ou mais secas. Nesse caso podemos ver claramente que, se quiséssemos imaginar a possibilidade de oferecer à planta o poder de aumentar o número de seus indivíduos, precisaríamos dar-lhe alguma vantagem sobre seus concorrentes, ou sobre os animais que as consomem. Nas fronteiras das regiões de sua distribuição geográfica, uma mudança em sua constituição legada ao clima seria claramente uma vantagem para nossa planta; mas temos razões para acreditar que somente algumas plantas ou alguns animais atingem uma distribuição tão ampla a ponto de poderem ser destruídos apenas pelo clima. A competição não deixará de existir até que cheguemos aos limites extremos da vida, nas regiões do Ártico ou nas fronteiras de uma região completamente desértica. O território pode ser extremamente frio ou seco, mas ainda haverá competição pelos pontos mais quentes ou mais úmidos entre algumas poucas espécies, ou entre os indivíduos da mesma espécie.”

a guerra da natureza não é incessante, o medo não é sentido, a morte é geralmente rápida e o vigoroso, o saudável e o feliz sobrevivem e se multiplicam.” Diferente do homem.

4. SELEÇÃO NATURAL

(lembrando que nascem muito mais indivíduos do que os que conseguem sobreviver)” Não a longuíssimo prazo, diria Jack Kerouac…

As variações que não são úteis nem prejudiciais não seriam afetadas pela seleção natural e funcionariam como um elemento flutuante, conforme notamos, talvez, nas espécies ditas polimórficas.”

Compreenderemos melhor o caminho provável da seleção natural ao tomarmos como exemplo o caso de uma região que esteja passando por alguma transformação física como, por exemplo, mudanças climáticas.” Ó! Mudanças climáticas, num universo regulado por deus (especificamente, Jeová)?! Que achado!

O excesso de notas de rodapé realmente é um incômodo desnecessário. Não era falsamente que o prefaciador pedia desculpas…

A seleção sexual é, portanto, menos rigorosa do que a seleção natural.”

Um cervo sem chifres ou um galo sem esporões teriam poucas chances de deixar descendentes.”

foi descrito que os jacarés machos brigam, rugem e giram pela posse das fêmeas como os índios em uma dança de guerra(*)

(*) Darwin repassa a informação sem investigá-la. Provavelmente se refere aos jacarés da Flórida (aligátores), cujos machos são territoriais e, embora não tenham cordas vocais, vocalizam expelindo água com ar inspirado, soando um rugido grave, capaz de atrair fêmeas e repelir outros machos.”

Apesar de os machos dos animais carnívoros já estarem bem armados, eles – e outros animais – podem ter recebido outros meios especiais de defesa por meio da seleção sexual: a juba do leão, a ombreira do javali e a mandíbula em forma de gancho do salmão macho, pois, para a vitória, um escudo pode ser tão importante quanto uma espada ou uma lança.”

Entre as aves, a luta muitas vezes tem um caráter mais pacífico. Todos aqueles que estudaram o tema acreditam que há uma rivalidade extremamente séria entre os machos de muitas espécies para atrair as fêmeas pelo canto.”

Sir R. Heron(*) descreveu como um pavão malhado era altamente atraente para todas as suas fêmeas. Pode parecer infantil atribuir qualquer efeito a tais meios aparentemente fracos: não poderei aqui dedicar-me aos detalhes necessários para oferecer suporte a essa perspectiva; mas se as pessoas, de acordo com seus padrões de beleza, conseguem em um curto espaço de tempo dar um porte elegante e beleza às suas garnisés, então não vejo nenhuma razão para duvidar que as aves fêmeas, selecionando durante milhares de gerações os machos mais melodiosos ou bonitos, de acordo com seu padrão de beleza, tenham produzido um efeito marcante.

(*) ” Refere-se ao relato de um caso de 1814 atribuído ao barão Robert Heron (1765-1854), presente no verbete ‘pavão’, publicado no volume 17 da famosa The Penny Cyclopedia for the Difusion of Useful Knowledge (1840).”

Sabemos que [nos gatos] a tendência para capturar ratos em vez de camundongos é hereditária.”

Nenhum naturalista põe em dúvida a vantagem do que tem sido chamado de ‘divisão fisiológica do trabalho’; portanto, acreditamos que seria vantajoso para uma planta produzir estames em apenas uma flor ou planta inteira, e pistilos apenas em outra flor ou planta.”

Passemos agora para os insetos que se alimentam de néctar em nosso caso imaginário: poderíamos supor que a planta cujo néctar estamos lentamente aumentando por meio da seleção contínua seja uma planta comum; e que certos insetos se alimentassem principalmente do néctar dela. Eu poderia enumerar muitos fatos que mostrassem a ansiedade das abelhas em economizar tempo; por exemplo, seu hábito de sugar o néctar por meio de um buraco feito por elas na base de certas flores nas quais poderiam entrar, com um pouco mais de trabalho, pela corola. Tendo tais fatos em mente, não enxergo nenhuma razão para duvidar que um desvio acidental no tamanho e na forma do corpo ou na curvatura e no comprimento da probóscide, etc. – algo demasiado pequeno para ser apreciado por nós –, poderia ser vantajoso para uma abelha ou outro inseto, e, dessa forma, um indivíduo com essas características seria capaz de obter seu alimento de modo mais rápido e, então, ter uma chance melhor de sobreviver e de deixar descendentes.”

Estou ciente de que esta doutrina da seleção natural, apresentada nos exemplos imaginários acima, está aberta às mesmas objeções que foram inicialmente oferecidas contra os nobres pontos de vista de Sir Charles Lyell em relação às ‘mudanças modernas da Terra como exemplos da geologia’; mas hoje em dia raramente ouvimos alguém dizer que a ação, por exemplo, das ondas costeiras seja uma causa fútil e insignificante quando usada para explicar as escavações de gigantescos vales ou para a formação das mais longas linhas de falésias interiores.”

Estou fortemente inclinado a acreditar que todos os hermafroditas precisam de dois indivíduos, de forma ocasional ou costumeira, para realizar a reprodução de sua espécie.” “A pesquisa moderna diminuiu muito o número de supostos hermafroditas e, dentre os hermafroditas verdadeiros, muitos deles também se unem; ou seja, dois indivíduos se unem regularmente para a reprodução, e isso é o que nos interessa. (…) a grande maioria das plantas é hermafrodita.”

lei geral da natureza: que nenhum organismo fertiliza-se a si mesmo por uma eternidade de gerações, mas que o cruzamento com outro indivíduo é indispensável – ainda que isso se dê ocasionalmente, talvez em intervalos muito longos.” Outra afirmação muito óbvia, mesmo para o séc. XIX.

as anteras e os pistilos da própria planta estão geralmente tão próximos uns dos outros que a autofertilização parece ser quase inevitável. Muitas flores, por outro lado, têm seus órgãos de frutificação estreitamente fechados, como é o caso da grande família das ervilhas ou papilionáceas; mas em várias dessas flores, talvez em todas elas, há uma adaptação muito curiosa entre a estrutura da flor e a maneira pela qual as abelhas sugam seu néctar; pois, ao fazê-lo, elas empurram o pólen da própria flor para o estigma, ou levam o pólen para outra flor.”

As abelhas atuarão como um pincel; é suficiente tocar as anteras de uma flor e depois o estigma de outra com o mesmo pincel para garantir sua fertilização; mas não devemos supor que as abelhas produziriam dessa forma uma infinidade de híbridos entre espécies distintas; pois, se você coloca o pólen da própria planta no pincel junto com o pólen de outra espécie, o primeiro tem um efeito tão preponderante que destrói invariável e completamente quaisquer influências de grãos de pólen externos, conforme foi demonstrado por Gärtner.”

há na Lobelia fulgens um artifício muito bonito e elaborado pelo qual cada um dos infinitamente numerosos grânulos de pólen são removidos das anteras de cada flor antes de o estigma das flores individuais estar pronto para recebê-los; e como esta flor nunca é visitada por insetos, pelo menos no meu jardim, ela nunca produz uma semente; apesar disso, consegui criar muitas sementes ao colocar o pólen de uma flor sobre o estigma de outra; enquanto isso, outra espécie de Lobelia, que cresce perto da primeira, é visitada por abelhas e produz sementes livremente.”

Quão estranhos são esses fatos! Quão estranho é o fato de o pólen e a superfície do estigma da mesma flor estarem tão próximos, mas – como se esse fato tivesse como objetivo a própria autofertilização – serem, em tantos casos, mutuamente inúteis uns para os outros! E quão simples tornam-se esses fatos se explicados pelo ponto de vista de que o cruzamento ocasional com um indivíduo distinto é vantajoso ou indispensável!”

lei geral segundo a qual as formas boas derivam do cruzamento entre indivíduos distintos da mesma espécie.” Me surpreende que os europeus tenham conservado seus princípios eugênicos por tanto tempo…

Voltando-nos brevemente aos animais: no ambiente terrestre há alguns hermafroditas, como lesmas, caracóis e vermes terrestres; mas todos eles se acasalam. Até este momento não encontrei nenhum animal terrestre que fertilize a si mesmo. Esse fato notável, que oferece um contraste tão forte com as plantas terrestres, pode ser entendido por meio da hipótese de um cruzamento ocasional ser indispensável, pois, tendo em conta o meio em que vivem os animais terrestres e a natureza de seu elemento fecundante, não conhecemos nenhuma maneira, análoga à ação dos insetos e do vento no caso das plantas, pela qual um cruzamento ocasional poderia ser realizado em animais terrestres sem a concordância de dois indivíduos.”

Durante muito tempo, pareceu-me que, sob esta hipótese, os crustáceos da infraclasse Cirripedia [cracas] apresentavam um caso bastante difícil; mas eu consegui, por um acaso feliz, provar que dois indivíduos podem cruzar, mesmo que os dois sejam hermafroditas que se autofertilizem.”

Mas se, de fato, todos os hermafroditas cruzam ocasionalmente com outros indivíduos, resulta muito pequena a diferença entre hermafroditas e as espécies unissexuais, pelo menos no que diz respeito à reprodução.”

Darwin parece um talento hiperativo que se perde em infinitas especulações que vai elencando, enumerando, acumulando e empilhando, sem saber como desenvolvê-las de modo decisivo, não conseguindo nada além disso mesmo: ser um biólogo especulador em vários fronts. Nem sequer chamaria seu “compilado” de observações e raciocínios de teoria… Ele não tem um foco, seu livro me deixa tonto! Várias das passagens de qualquer capítulo até aqui remetem a outros capítulos: “…porém tal idéia será desenvolvida a contento no capítulo tal”. E no entanto o presente capítulo é basicamente uma lista de idéias a ser propriamente desenvolvidas alhures!

Há ainda um grave problema sintático, senão de Darwin, do tradutor: a linguagem é muito imprecisa, refletindo o caráter hesitante do “descobridor”, conforme o trecho: “Finalmente, concluo que, embora pequenas áreas isoladas tenham provavelmente sido em alguns aspectos altamente favoráveis para a produção de novas espécies, ainda assim, o curso das modificações tem sido em geral mais rápido em grandes áreas;” Por onde começo? Pequenas áreas podem ter sido favoráveis para produzir novas espécies – como podem não ter sido! O provavelmente enfraquece todo o postulado, relativiza-o para que não possa ser contestado, basicamente. Ainda dentro da mesma frase o provável é nuançado para funcionar apenas em alguns aspectos, de modo que, mesmo que liguemos a chave do provável, tornando-o certo, essa certeza não afeta muitos aspectos, só alguns (aspecto já sendo uma palavra abstrata o bastante). Não pára por aí: altamente favoráveis, provavelmente, mas somente em alguns aspectos, lembre-se: o ser MUITO favorável é enfático, que pena que é restringido como mera probabilidade parcial de ser! Tudo isso esbarra na restritiva ainda assim, para contornar a possibilidade do “possível” estar equivocado (mas como estaria, se aponta tanto para um lado quanto para o outro, ficando em cima do muro?). Isso porque D. falava das áreas isoladas pequenas, mas agora quer estipular algum tipo de conclusão válida para áreas grandes, e portanto impossível que sejam isoladas, sendo todo um ecossistema complexo… E quer estipular conclusões para ambas, áreas pequenas e grandes, ao mesmo tempo, com algum grau de precisão… Como ele se sai? O curso das modificações (seja lá o que é curso de modificação… uma direção qualquer…) tem sido mais rápido… Não, pensando bem isso seria muito taxativo… Restrinjamos para em geral, de modo que se naturalistas me objetarem eu poderei alegar que falava apenas generalizadamente, sempre havendo exceções e casos particulares – mais uma salvaguarda! Repare a densidade de senões no texto darwiniano… Uma tática não incomum no livro.

Podemos, talvez, [!] por meio desses pontos de vista, [quase todos os pontos de vista passíveis de enumeração!] entender alguns fatos [não todos, aliás, poucos fatos!] que serão novamente aludidos em nosso capítulo sobre distribuição geográfica; Além de desonesto intelectualmente, é feio, truncado, horroroso para qualquer leitor… E, como sempre, a melhor parte fica para um capítulo vindouro… Onde, não duvido, ele fará outras promessas, ad infinitum… Não são raras as instâncias em que promete discutir o assunto não num capítulo já pronto do livro vigente, mas numa próxima e ainda inexistente obra… Fosse kardecista, começaria a dizer vida

na água doce encontramos algumas das formas mais anômalas atualmente conhecidas no mundo, como o ornitorrinco(*) e a pirambóia, os quais, como fósseis, conectam até certo ponto ordens que hoje estão amplamente separadas na escala natural. Essas formas anômalas podem quase ser chamadas de fósseis vivos; elas sobreviveram até os dias atuais por habitarem uma área confinada e por terem sido dessa maneira expostas a uma competição menos severa.(**)

(*) Ao contrário do que afirma Darwin, tem ampla distribuição geográfica no leste australiano e na Tasmânia, tendo sido introduzido na ilha Kangoroo, onde mantém população estável.

(**) Trata-se de uma afirmação equivocada de Darwin. A noção de fóssil vivo transmite a falsa ideia de que seja uma espécie que ‘sobreviveu’, permanecendo inalterada por milhões de anos, o que tem sido amplamente contrariado por estudos moleculares. Essas espécies continuaram a se adaptar sucessivamente.”

Quando o continente transformar-se em várias ilhas separadas devido ao afundamento de partes da superfície terrestre, restarão confinados muitos indivíduos da mesma espécie em cada ilha; o cruzamento fora dos limites da distribuição de cada espécie será, assim, impedido; depois das alterações físicas de quaisquer tipos, a imigração não será possível, de tal forma que os novos nichos de cada uma das ilhas serão preenchidos por modificações nos antigos habitantes; e o tempo permitirá que as variedades de cada uma se tornem bastante modificadas e aperfeiçoadas.” É difícil entender. Ele advoga que ilhas isoladas não produzem uma estagnação da evolução das espécies, mas ao mesmo tempo afirma que nas ilhas isoladas quase não há competição e portanto nenhuma necessidade de seleção natural que leve um animal à extinção, p.ex., o que é inconciliável com o fato de que a fauna e a flore continuem a mudar tanto… Pangéia como a era da luta de todos-contra-todos – Austrália como um ambiente tranqüilo… Puras idealizações!

…um campo justo para a seleção natural melhorar ainda mais os habitantes e, portanto, produzir novas espécies.” Ao mesmo tempo, o campo justo, para D., é a própria luta de todos-contra-todos com o menos freios possíveis.

Muitos irão afirmar que essas várias causas são mais do que suficientes para impedir completamente a ação da seleção natural. Não creio nisso. Por outro lado, acredito que a seleção natural sempre agirá muito lentamente, muitas vezes apenas em longos intervalos de tempo e geralmente apenas em alguns poucos habitantes da mesma região ao mesmo tempo.” Você apostaria suas fichas em alguém tão hesitante em afirmar qualquer coisa que seja? Não é que lhe sobre humildade científica – isso é excesso de medo! Estou me afogando em partículas restritivas! Não estou adaptado a meio tão agressivo!

Também acredito que essa ação muito lenta e intermitente [aqui ele acrescenta outro senão muito importante: não é só que a seleção é demasiadamente lenta, levando milhares e milhares de anos – ela também pára de agir durante certos períodos!!! por muito tempo julgava que era absolutamente corriqueiro defender D. no séc. XIX, mas lendo no original me parece algo cada vez mais heróico…] da seleção natural concorda perfeitamente bem com o que a geologia nos diz sobre o modo pelo qual os habitantes deste mundo sofreram mudanças e sobre as taxas através das quais essas alterações ocorreram.” Se ele puder se associar à geologia, e se a geologia estiver correta, jamais poderá ser refutado, pois a seleção natural biológica se torna equivalente à história geológica do planeta…

Embora o processo de seleção seja lento, se uma pessoa qualquer consegue fazer tanta coisa por meio da seleção artificial, não vejo limites para a quantidade de alterações – para a beleza e para a infinita complexidade das coadaptações entre todos os seres orgânicos, uns com os outros e com suas condições físicas de vida – que podem ser realizadas no longo curso do tempo pelo poder de seleção da Natureza.” Inclusive uma mistura de todas as cores, retornando todos os tons e matizes ao branco originário, isto é, uma constatação do caráter cíclico dessas transformações – que afinal não podem ser infinitas num tempo limitado… mas talvez, ainda mais criticamente, num longo espaço de tempo essas variações comecem a se repetir! Por que D. nunca levanta essa possibilidade, já que é tão cauteloso? Não há progressão no reino animal. Basta lembrar, por exemplo, que os continentes estão em tendência de afastamento desde que constituímos civilizações… Mas que o “final” desse processo só pode ser uma nova Pangéia, ou nossa extinção nesse ínterim… E “nossa”, da perspectiva da biologia, poderia querer dizer respeito a “todas as espécies”, a “determinadas espécies” ou ao homem propriamente dito… Mas do ângulo da hermenêutica, não havendo observador consciente e racional, um ser-no-mundo capaz da linguagem, do que adiantaria se o homem se ausentasse do espetáculo (existência)?

EXTINÇÃO Este assunto será mais plenamente discutido em nosso capítulo sobre geologia;” Enfurecedor, enfuriante!…

A geologia nos mostra claramente que o número de formas específicas não aumenta indefinidamente; e há de fato um motivo para esse aumento não ter ocorrido, uma vez que na Natureza o número de nichos não aumenta indefinidamente – não que tenhamos meios de saber se uma região já tem no momento seu número máximo de espécies. Provavelmente nenhuma região está hoje totalmente abastecida, pois no Cabo da Boa Esperança, onde há mais espécies de plantas do que em qualquer outra região do mundo,(*) algumas plantas estrangeiras têm se tornado aclimatadas, sem causar, tanto quanto sabemos, a extinção de espécies nativas.

(*) Já era reconhecida a grande diversidade florística daquela região, mas espécies invasoras sempre alteram as interações ecológicas locais.”

Conseqüentemente, toda nova variedade ou espécie, durante o progresso de sua formação, [mas toda variedade ou espécie está sempre em progresso e formação!] será geralmente mais pressionada por seus semelhantes mais próximos que tendem a exterminá-la.” Darwin atira para todos os lados sem saber no que acertar: poucas linhas antes insiste (não pela 1ª vez) na tese de que as espécies mais raras e mais ‘isoladas’ em características são as que mais sofrem na ‘luta pela sobrevivência’, e agora já afirma o contrário: quem está em perigo iminente de extinção afinal? Todas as espécies juntas aqui e agora? Mas não acaba aí. Parágrafos depois (veja se ele não volta a afirmar justamente o contrário!!): “quanto mais diversificados se tornam os descendentes de uma espécie qualquer em estrutura, constituição e hábitos, tanto mais eles são capazes de ocupar muitos nichos diversificados na Natureza e, assim, aumentar o número de seus indivíduos.” Lembrando que sempre que uma espécie aumenta muito sua quantidade de indivíduos, mais se aproxima da extinção competitiva, segundo o próprio D.

espécies incipientes”

mas não podemos responsabilizar apenas o acaso por diferenças tão grandes e habituais como as existentes entre as variedades da mesma espécie e entre espécies do mesmo gênero.” A natureza não tem um fim.

Se deixarmos que a espécie utilize seu poder de crescimento de forma natural, ela somente poderá aumentar o número de seus indivíduos (se não ocorrerem alterações nas condições de sua região) caso seus descendentes variem e busquem aproveitar os nichos atualmente ocupados por outros animais: alguns deles podem fazer isso ao, por exemplo, passarem a se alimentar de novos tipos de presas, mortas ou vivas; outros, ao habitar novos pontos, outros ainda, ao subir em árvores, ao freqüentar a água, e alguns, talvez, tornando-se menos carnívoros.” Não existe essa partição fantástica que ele denomina de nicho! D. não fornece uma conceituação, e por nicho entendem-se, conforme a enumeração, coisas tão ecléticas e impossíveis de mesclar como habitat, dieta, comportamento (dir-se-ia que se inspirou muito em Lamarck!) e até adaptações tão complexas que exigiriam mutações genéticas de várias gerações (mudança de terreno do solo para a água, p.ex.!). Como é que um animal herbívoro se torna carnívoro – bem-entendido, com exceção do homem?!

Além disso, sabemos que cada espécie e cada variedade de gramínea produzem um número quase incontável de sementes por ano; e assim está, por assim dizer, esforçando-se ao máximo para aumentar o número de seus indivíduos.” A espécie não está preocupada com nada, não existe uma consciência coletiva, apenas um instinto individual.

Alphonse de Candolle & Casimir de Candolle, Prodromus systematis naturalis regni vegetabilis

Asa Gray, Manual of the Flora of the Northern United States

BABOSEIRA COMPLETA: “A vantagem da diversificação dos habitantes de uma mesma região é, na verdade, o mesmo que a divisão fisiológica do trabalho encontrada nos órgãos do corpo de um mesmo indivíduo, conforme foi tão bem elucidado por Milne-Edwards.”

É possível pôr em dúvida, por exemplo, se os marsupiais australianos – que são divididos em grupos com poucas diferenças e que, conforme afirmado pelo senhor Waterhouse e outros, mal representam nossos animais carnívoros, ruminantes e roedores – conseguiriam competir, com sucesso, com essas ordens bem-definidas.” Nada sei de marsupiais australianos… Mas seria são desconfiar da capacidade da fauna da Oceania? Sendo assim, que se dane o tal Mister Casa D’Água!

(*) “Darwin aplica um raciocínio que toma os marsupiais como mamíferos ‘primitivos’ e ‘incompletos’, pois é comum serem exterminados por mamíferos placentários introduzidos. No entanto esse raciocínio tem premissas falsas. Marsupiais e placentários são igualmente ‘evoluídos’, cada um à sua maneira.”

ascendente único de nossos vários novos subgêneros e gêneros.”

No diagrama, supusemos até agora que o espaço entre cada linha horizontal representa milhares de gerações, mas poderia representar 1 milhão ou centenas de milhões de gerações e, da mesma forma, uma seção das sucessivas camadas da crosta terrestre que contêm os restos de organismos extintos.” O erro de D. é depositar todas as suas fichas na geologia/paleontologia. Dado que não existe o elo perdido entre o homem e o macaco, pois somos produtos de uma mutação abrupta, as crenças darwinianas são a razão mesma do histrionismo de grupos criacionistas, que podem alegar a “falta de prova científica” (de uma teoria equivocada, a do elo perdido, que serviria para justificar a teoria de que se trata, na verdade, de mais longo alcance, a do ancestral comum de todos os organismos) para deitar por terra todo o discurso racional sobre o devir das espécies, em prol de textos bíblicos e da origem divina do homem.

Muitas palavras para dizer apenas o seguinte: a longo prazo, toda espécie tende à extinção, e a natureza é a personificação do caos: “Um grupo grande irá lentamente conquistar outro grupo grande, reduzir o número de seus indivíduos, juntamente com suas chances de produzir mais variações e melhoramentos. Dentro do mesmo grande grupo, os subgrupos mais jovens e mais eficientemente melhorados, ao se ramificarem e dominarem diversos novos nichos da Natureza, tenderão constantemente a suplantar e destruir os subgrupos anteriores e menos melhorados. Subgrupos e grupos pequenos e fragmentados tenderão finalmente ao desaparecimento. Olhando para o futuro, é possível prever que os grupos de seres orgânicos que são atualmente grandes e vitoriosos, e que estão menos fragmentados, ou seja, aqueles que até o momento sofreram menos extinção, continuarão aumentando por um longo período. Mas não há como prever quais grupos irão, em última análise, prevalecer; pois nós bem sabemos que no passado muitos grupos bastante desenvolvidos foram extintos.” Os dinossauros refutam perfeitamente D.: a espécie ‘mais bem-adaptada e dominante’ passa a ser a mais mal-adaptada assim que sobrevém um racionamento de comida.

Voltarei a esse assunto no capítulo sobre classificação, mas posso acrescentar que a partir desse ponto de vista segundo o qual pouquíssimas espécies do passado mais remoto tenham gerado descendentes, e do ponto de vista de que todos os descendentes da mesma espécie formam uma classe, podemos entender por que existem poucas classes em cada divisão principal dos reinos vegetal e animal.” Se seu raciocínio estivesse correto, com a idade que tem a Terra deveria ter havido só uma classe que pudéssemos detectar, ou seja, com registros fósseis e a única existente há já milhões de anos, pois essa é justamente a tendência ou projeção para um futuro tendente ao infinito segundo as teorias de D. E, como sempre, parece que o comentador da edição concorda comigo:

(*) “A afirmação de que a maioria das espécies que já existiram no planeta foi extinta é corajosa e se mantém correta; o mesmo não se pode dizer da variação do número de classes, uma conjectura sem base factual.”

5. LEIS DA VARIAÇÃO

O avestruz, na verdade, vive no continente e está exposto a perigos dos quais não consegue escapar pelo vôo, mas consegue defender-se dos inimigos por meio de coices, como bem fariam todos os quadrúpedes menores. Podemos imaginar que o antigo progenitor do avestruz tivesse hábitos semelhantes aos de uma abetarda(*) e que – após a seleção natural ter aumentado o tamanho e o peso do seu corpo em gerações consecutivas – suas pernas tenham passado a ser mais utilizadas e suas asas menos, até que eles se tornaram incapazes de voar.

(*) Nome genérico das aves da família Otididae.”

Como eu acredito que nossos animais domésticos foram originalmente escolhidos pelo ser humano primitivo por causa da facilidade com que eram criados em confinamento e por serem úteis, e não por ter sido descoberto mais tarde que poderiam realizar o transporte a longas distâncias, acredito que a capacidade comum e extraordinária de nossos animais domésticos de não apenas resistir aos climas mais diversos, mas também de manterem-se perfeitamente férteis (um teste muito mais forte) em qualquer um deles, possa ser usada como um argumento para defender a idéia de que muitos outros animais – neste caso em estado natural – poderiam facilmente suportar diversos tipos de clima.”

CORRELAÇÕES DE CRESCIMENTO Com essa expressão quero dizer que as partes do organismo todo estão tão ligadas umas às outras durante seu crescimento e desenvolvimento que, quando ocorrem pequenas variações em qualquer dessas partes e essas são acumuladas através da seleção natural, outras partes também são modificadas. Esse é um assunto muito importante e compreendido de forma bastante imperfeita.”

O que é mais comum do que a relação entre os olhos azuis e a surdez dos gatos ou do que a cor dos cascos e o sexo feminino das tartarugas? Ou, nos pombos, a relação entre os pés com penas e a pele entre os dedos externos, bem como a presença de mais ou menos penugem nas aves jovens quando saem de seus ovos com a futura cor de sua plumagem; ou, mais uma vez, a relação entre os pêlos e os dentes do cão sem pêlos da Turquia, ainda que neste caso a homologia tenha relevância? Em relação a este último caso de correlação, acredito que dificilmente poderia ser algo acidental que as duas ordens de mamíferos mais anômalas em suas coberturas dérmicas, como, por exemplo, os cetáceos (baleias) e a ordem Edentata (tatus, pangolins, etc.), fossem também as ordens com mais formas anômalas de dentição.”

Geoffroy Sênior e Goethe(*) propuseram, mais ou menos na mesma época, a lei da compensação ou do equilíbrio do crescimento; ou, conforme disse Goethe, ‘a fim de gastar de um lado, a natureza é forçada a economizar do outro’.

(*) A metamorfose das plantas, 1790.”

6. CONTROVÉRSIAS ENVOLVENDO A TEORIA

Argumentação pouco convincente.

E FEZ-SE: “Sabermos como um nervo passa a ser sensível à luz é algo que nos desafia tanto quanto o faz não sabermos como a própria vida originou-se; mas reparem que [diversos fatos me fazem suspeitar que]¹ qualquer nervo sensível pode tornar-se sensível à luz e, da mesma forma, às vibrações mais grosseiras do ar que produzem o som.”

¹ Darwin escreve mal e de maneira hesitante. O trecho entre colchetes poderia ser facilmente omitido, ganhando-se em concisão e confiança.

É preciso que a razão conquiste a imaginação; e, já que eu mesmo senti a profundidade dessa dificuldade, não me surpreende que as pessoas hesitem em conceder tamanha amplitude ao princípio da seleção natural.” Irônico que esse comentário parta de um superempírico: aquele que só afirma o que , não se arriscando a tecer conclusões lógicas sem dados imediatos. Sem falar que parece uma obra medieval, überpreocupada com deus.

7. INSTINTO

Uma pequena dose de juízo ou razão, como afirma Pierre Huber,(*) muitas vezes entra em jogo, mesmo em animais que estão na base da escala da Natureza.

(*) Jean-Pierre Huber (1777-1840), entomólogo suíço, autor de diversos estudos sobre comportamento de insetos, seguiu a carreira do pai.”

Se Mozart, em vez de tocar piano aos 3 anos de idade admiravelmente apesar da pouca destreza, já tivesse produzido música sem nenhuma instrução anterior, poderíamos então dizer com convicção que ele o teria feito de forma instintiva.”

o medo do [em relação ao] homem é algo adquirido lentamente por vários animais que habitam ilhas desertas”

o corvo, tão cauteloso na Inglaterra, é muito dócil na Noruega, tal como a gralha-cinzenta o é no Egito.”

Le Roy descreve um cão cujo bisavô era um lobo; este cão mostrou um traço de sua ascendência selvagem somente de uma maneira: ele não ia em linha reta até seu dono quando era chamado.”

nenhum animal é mais difícil de amansar do que os filhotes do coelho selvagem, mas quase nenhum outro animal é tão dócil quanto os filhotes do coelho domesticado”

É praticamente impossível duvidar que o amor pelas pessoas se tornou algo instintivo nos cães. Todos os lobos, raposas, chacais e espécies do gênero Felis (gatos), quando mantidos mansos, ficam mais propensos a atacar aves, ovelhas e porcos; e descobrimos que essa tendência é algo incurável nos cães que foram trazidos ainda jovens para casa (Inglaterra) de regiões como a Terra do Fogo e a Austrália, onde os selvagens não os criavam como animais domésticos. Por outro lado, nossos cães domésticos raramente precisam, mesmo quando muito jovens, ser ensinados a não atacar aves, ovelhas e porcos!” “Por outro lado, as galinhas jovens perderam, inteiramente pelo hábito, o medo do cão e do gato”

(*) “Thomas Mayo Brewer (1814-1880), naturalista norte-americano, co-autor dos 3 volumes de A History of North American Birds (1874).”

Muitas abelhas são parasitas e sempre põem seus ovos em ninhos de abelhas de outros tipos. Esse caso é mais notável do que o do cuco; pois não apenas os instintos dessas abelhas foram modificados de acordo com seus hábitos parasitários, mas também suas estruturas; isso porque elas não possuem o aparato de coleta de pólen que seria necessário para armazenar alimentos para sua própria prole.”

As formigas são tão absolutamente desamparadas que, quando Huber isolou 30 delas sem nenhuma escrava, mas com os alimentos que mais gostam e com suas larvas e pupas para estimulá-las a trabalhar, elas não fizeram nada; não conseguiram nem se alimentar, e muitas morreram de fome. Huber, em seguida, introduziu uma única escrava (F. fusca), e ela imediatamente começou a trabalhar, alimentando e salvando os sobreviventes; construiu alguns alvéolos, cuidou das larvas e colocou a casa em ordem.” Jean-Pierre Huber, Recherches sur les Moeurs des Formis Indigenes [Natural History of Ants], 1810.

(*) “O tradutor do livro para o inglês, J.R. Johnson, tomou a decisão de substituir a expressão ‘formigas cinza-escuro’ por ‘negro’ e ‘formigas negras’ (negro e negro ant), por causa da ‘coloração’ e ‘situação mantida na colônia’ (de subserviência), uma clara referência à condição de escravizada. O tradutor registrou a ‘liberdade’ da tradução em nota, à página 252. No entanto, nem mesmo na versão inglesa aparecem os termos relativos à escravidão, como ‘escravo’, ‘senhor’ ou ‘mestre’. Darwin tinha um exemplar do original em francês, mas utilizou alguns dos termos de comentadores desde que a primeira resenha do livro foi publicada em inglês, em 1812. (…) Huber foi muito criticado por ‘naturalizar’ a escravidão, como se sua descrição fosse apenas obra de sua imaginação, mas provou ter sido um observador muito rigoroso.”

Eu abri 14 formigueiros de F. sanguinea e encontrei algumas poucas escravas em todos eles. Machos e fêmeas férteis da espécie escrava são encontrados somente em suas próprias comunidades e nunca são vistos nos formigueiros da F. sanguinea. As formigas escravas são pretas e têm quase a metade do tamanho de suas mestras vermelhas”

na Suíça, as escravas costumam trabalhar com suas mestras para construir o formigueiro, e elas são as únicas que abrem e fecham as portas pela manhã e à noite; e, conforme afirmado expressamente por Huber, a principal função delas é buscar pulgões. Esta diferença nos costumes habituais entre mestras e escravas nos dois países está ligada, provavelmente, ao fato de as escravas serem capturadas em maior número na Suíça em comparação com a Inglaterra.”

Isso me deixou curioso para saber se a F. sanguinea era capaz de distinguir as pupas da F. fusca, que habitualmente são escravizadas, da pequena e furiosa F. flava, que é raramente capturada; ficou claro que elas conseguiam diferenciá-las de imediato, pois notei que, de forma ansiosa e com rapidez, elas capturavam as

pupas de F. fusca, mas ficavam muito aterrorizadas quando se deparavam com as pupas, ou até mesmo com a terra do formigueiro da F. flava, e rapidamente fugiam; mas após cerca de um quarto de hora, logo depois de todas as pequenas formigas amarelas terem ido embora, elas criavam coragem e carregavam as pupas para casa.”

(*) “Sabe-se hoje que a F. sanguinea nem sempre captura outras formigas, pois pode se autossustentar. Já as formigas descritas no início da seção como F. rufescens têm hábitos bem distintos e são incapazes de sobreviver sem a ajuda de formigas de outras espécies. Essa relação ecológica é denominada ‘esclavagismo’, e em outras línguas se utiliza o termo dulosis, derivado do vocábulo grego DOULOS = escravos.”

(*) “As melíponas são abelhas americanas sem ferrão, que ocorrem do México até a Argentina, sendo conhecidas entre nós com os nomes mandaçaia, urucu, etc.” Afinal, abelha é a própria definição de “com ferrão”!

A maneira como as abelhas constroem é curiosa; elas sempre fazem uma parede grosseira que é de 10 a 20 vezes mais espessa que a parede excessivamente fina do alvéolo pronto, a qual, em última análise, será deixada assim. Nós podemos entender como elas trabalham ao imaginarmos pedreiros que primeiro juntam cimento em uma parede grossa e logo em seguida começam a aplainá-la igualmente em ambos os lados próximos ao solo até que, por fim, obtenham no centro uma parede lisa e muito fina; no processo, os pedreiros empilham o cimento retirado ao topo da parede e ao mesmo tempo adicionam cimento fresco.”

Por este modo singular de construção, o favo ganha força contínua, com a máxima economia final de cera.(*)(**)

(*) Darwin parte da conjectura de que o favo de mel da abelha-europeia é a forma mais econômica de obter máximo poder de estocagem com mínimo consumo de cera. Trata-se de um problema matemático estudado desde a Grécia Antiga, relacionando menor perímetro com máxima área, visto como uma solução divina. Darwin procura mostrar como o mesmo problema pode ter sido solucionado pela ação da seleção natural, sem intervenção divina, o que provocou grande ira nos círculos religiosos.

(**) O matemático húngaro László Tóth (1915-2005) demonstrou, em 1965, que a afirmação não é rigorosamente correta para as 3 dimensões.”

(*) “O fóssil mais antigo de abelhas foi datado recentemente ao redor de 100 milhões de anos, e tem características semelhantes às das vespas, embora tenha adaptações para transporte de pólen. Esse fato indica que a evolução das abelhas certamente ocorreu em período muito anterior ao imaginado por Darwin”

8. HIBRIDISMO

Acredito que a importância do fato de que os híbridos costumam ser estéreis tem sido muito subestimada por alguns autores modernos.”

9. A IMPERFEIÇÃO DO REGISTRO GEOLÓGICO

Parte mais fraca do livro!

10. A SUCESSÃO GEOLÓGICA DOS SERES ORGÂNICOS

(…)

11 & 12. DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA

(…)

13. AFINIDADES MÚTUAS DOS SERES ORGÂNICOS – MORFOLOGIA – EMBRIOLOGIA – ÓRGÃOS RUDIMENTARES

(…)

14. RECAPITULAÇÃO E CONCLUSÃO

(…)

GLOSSÁRIO

chanfrar: indentar

chanfro: que foi cortado de maneira oblíqua

cunha: instrumento para rachar lenha, de ferro ou madeira

rômbico: losango

tentilhão: “é uma ave de pequeno porte, com cerca de 15cm, da família dos Fringilídeos, de coloração bastante viva e canto bem sonoro. Habita toda a Europa, Ásia Central e norte da África, em zonas florestais e de pinheirais. Se alimenta de sementes e insetos. É também chamada de pintarroxo; chopin; pincha; chincho; patachim; chapin, etc.” Literalmente, AVE Maria, quantos nomes!

visco: “Planta da família das viscáceas” (chamada na obra de parasita; nas notas de hemiparasita)

Lista das obras grifadas em vermelho, em ordem alfabética:

BREWER, A History of North American Birds

CUVIER, ‘Observations sur le cadavre d’une femme connue à Paris et à Londres sous le nom de Vénus hottentote

DE CANDOLLE & DE CANDOLLE, Prodromus systematis naturalis regni vegetabilis

GOETHE, A metamorphose das plantas

GRAY, Manual of the Flora of the Northern United States

HUBER, Recherches sur les Moeurs des Formis Indigenes [Natural History of Ants]

LYELL, Principles of Geology (3 vols.)

SAINT-HILAIRE, Cours de l’histoire naturelle des mammifères

VAN MONS, Abres fruitiers (livro sobre maçãs e pêras!)

WESTWOOD, An Introduction to the Modern Classification of Insects

YOUATT, William. Sheep: Their Breeds, Management, and Diseases, to Which Is Added the Mountain Shepherd’s Manual

PINGOS NOS IS

Estou sumamente confuso com relação a minha orientação política. Meu meio é muito conservador. Ao mesmo tempo, sou empurrado pela “ala à esquerda” a posições mais reacionárias… Resta saber: que ala à esquerda é essa? Não seriam militantes por conveniência? Feministas e trans por mero oportunismo? Novamente esse maldito dilema: como classe média branco hetero e homem de esquerda me cobram um alto “pedágio” por assumir posições progressistas. Exigem que eu corte da própria carne como se tivesse de provar lealdade a alguma coisa. Estou automaticamente em dívida – frente a essas pessoas e a minha consciência. Preciso perder o pouco poder que ainda tenho pela “causa maior”, ceder em posicionamentos. Como se o espectro oposto também não quisesse ao mesmo tempo me massacrar e aliciar! Exige-se a convivência pacífica em prol da minha saúde, o que é impossível, a menos que me comporte de modo hipócrita. Querem que eu engula ao mesmo tempo o papel do macho encolhido, o fenômeno dos homens que “se sentem mulheres” e a homofobia generalizada, ou concepções racistas e até auto-racistas, como, aliás, se o brasileiro não fosse uma minoria mundial! O suficiente para levar qualquer um menos preparado à loucura…

Teoricamente, o que sou eu, se sou anticapitalista e antifascista mas rejeito o pressuposto de que a massa possa ser educada? Sou uma espécie de elitista. A revolução não dará certo – uma minoria seguirá no poder. O que importa para mim é que eu seja representante dessa minoria. Estética e intelectualmente já o sou. Não é algo de que se abdique. É preciso sofrer disso como sofrer de vestir a própria pele. Não defendemos caos ou orgias aqui, embora minha indiferença (não aversão) em relação às últimas não venha ao caso!

Que mundo é aceitável? Que mundo é possível? Em que mundo eu vivo?

Um mundo da indiferença, para a própria proteção. Não se igualar aos outros, extremistas em eterna mutação tanto quanto arrependimento. É aceitável um mundo em que se passa fome? Não. Mas como não será possível regular a superprodução no século XXI meu único e modesto objetivo é não me tornar um faminto. Tanto faz ignorar ou não os que solicitam diretamente a minha ajuda.

Não suporto gente burra – não importa que sejam gays, mulheres ou negros se forem estúpidos. Senso de independência. Externamente a mesma fachada, agora felizmente mais calma. Como se fosse um famoso, discrição e recato na internet (onde exclusivamente parece haver revolucionários hoje em dia – os indispostos a conversar e que impõem barreiras e condições).

No fundo o T. não era um cêntimo melhor que o Valdemar da Costa Neto… que a comparação seja entendida.

Fã de modelos que vão até as últimas conseqüências, tal qual o marxismo. (O fascismo não vai até as últimas conseqüências. Ideologia dos medrosos.) Ainda assim, parece que o presente é um véu impenetrável até para os olhos de águia da Antiguidade serena e sábia… Elitismo cultural. Platão e o anti-demos. Nietzsche e o anti-demos: NADA MUDOU. Curva e elipse para atingir o mesmo destino. Polemista. Pessimista. Religiões, ainda que anti-religioso: nenhum incômodo, ou estou errado?! Solidão e espaço. “Impersonamento.” Tarde demais para tratar melhor quem eu destratei. Cedo para bancar o cordial com os que estão-aí…

Como quem diz valorizar o conhecimento pode valorizar as massas? Não é possível massificar o conhecimento, mas o intento é (foi) nobre… Só é possível o avesso: conhecer a massa. Criatura disforme condenada a permanecer disforme.

MANUAL DE PSIQUIATRÍA – Palomo & Jiménez-Arriero, 2009.

De ahí surge el presente Manual de Psiquiatría aprovechando la oportunidad del nuevo Programa de formación para la especialidad de psiquiatría, con planteamientos novedosos relacionados con áreas de acreditación específica y con nuevas exigencias de capacitaciones, y la ausencia en nuestro país de un libro de referencia que pueda cumplir similares funciones al de otros que sí existen en otros ámbitos culturales de nuestro entorno, especialmente anglosajones. Por tanto, aunque surge inspirado en el Manual del Residente de Psiquiatría, escrito por residentes y realizado aprovechando la oportunidad del Programa de 1996, el presente Manual está escrito por psiquiatras expertos, con responsabilidad directa o indirecta en la formación de los residentes de psiquiatría con el objetivo de proporcionar un manual que sea moderno, atractivo, inspirado en la filosofía y contenido del nuevo Programa de 2008, y que sea en un sólo volumen, al estilo británico del Companion to Psychiatric Studies de Edimburgo (Churchill Livingston) o el Core Psychiatry de Londres (Elsevier Saunders).

En el momento actual de globalización del conocimiento y el acceso inmediato a su progresión a través de internet en una disciplina, la psiquiatría, en constante evolución, podría parecer que la existencia de textos de psiquiatría es innecesaria y obsoleta. Sin embargo, es precisamente este contexto el que ha llevado a los editores a considerar la necesidad de realizar un manual riguroso de psiquiatría que sirva de mapa entre tanta información disponible y cambiante y con frecuencia difícil de contrastar.”

Aunque este Manual se ha elaborado pensado como libro de texto para los residentes de psiquiatría, resulta igualmente útil para residentes de psicología y estudiantes de pregrado en medicina, psicología, y en general ciencias de la salud y del comportamiento.”

1. BASES DE LA PSIQUIATRÍA

hoy por hoy es, sin duda, la epidemiología la que ha trazado los datos más seguros sobre aspectos básicos de muchos trastornos mentales.” “Los límites de nuestra disciplina son tan amplios, que sólo el interés y la curiosidad individual puede definir hasta dónde quiere o necesita un psiquiatra en formación profundizar en algunos de los aspectos aquí mencionados. Estos capítulos constituyen, en cualquier caso, un excelente punto de partida y un primer paso para abrir el apetito a mentes más inquietas.”

1. HISTORIA DE LA PSIQUIATRÍA

La psicopatología descriptiva es definida como un lenguaje descriptivo, que abarca un léxico, sintaxis y reglas de aplicación e impone orden en un universo comportamental complejo. La patogénesis es la vía por la que determinados mecanismos cerebrales alterados generan síntomas mentales. Esto no es entendido de una forma crudamente mecanicista sino que los fenómenos psiquiátricos <son la expresión final de señales biológicas moduladas por gramáticas personales y culturales>. Y, por último, la taxonomía atiende a las reglas que gobiernan las clasificaciones de las enfermedades.

Histórica y conceptualmente la psicopatología descriptiva (en cuanto semiología) debe mucho a las corrientes lingüísticas del siglo XVIII. Las teorías etiológicas y la patogénesis a los avances de la medicina general, anatomía patológica y teorías psicológicas del XIX. Por su parte la taxonomía está vinculada a las metáforas generativas sobre el sentido del orden producidas en los siglos XVII y XVIII.

En todo caso, concluye Berrios, será de nuevo el siglo XIX el que contemple los grandes cambios que habrían de tener una importancia determinante en la psiquiatría, a saber: la trasformación del concepto multiforme de <locuras> en el restrictivo de psicosis; el estrechamiento, como categoría general, del concepto de neurosis y, por último, la fragmentación de las antiguas descripciones monolíticas de la locura en lo que llamamos síntomas mentales.

Como regla de oro y para evitar confusión, enfoques anacronísticos o psicohistoricismos banales, el estudioso de la historia de la psiquiatría debe siempre mantener separadas en su aproximación lo que es la historia de los términos, de los comportamientos y de los conceptos en psicopatología y psiquiatría.

Respecto a la protohistoria de la disciplina, como indica el autor precitado, la creación de la psicopatología descriptiva llevó unos 100 años. Comenzó durante la segunda década del siglo XIX y fue completada justo antes de la primera guerra mundial. Ha cambiado poco desde entonces. Esto significa que el éxito de los esfuerzos clínicos y de investigación actuales dependen en gran medida de la maquinaria conceptual construida durante el XIX.”

Comenzando con los trabajos pioneros de recopilación de textos clásicos hay que mencionar los de Richard Hunter e Ida MacAlpine recorriendo tres siglos de psiquiatría y los volúmenes colectivos (The anatomy of madness) de Bynum, Porter y Shepherd. Las monografías sobre temas clínicos encuentran su expresión en los trabajos interesantes de Jackson sobre la melancolía, con el estudio de su terminología diacrónica, metáforas generativas de su estudio y teorías explicativas desde la Grecia y Roma clásicas hasta nuestros días.”

Berrios, The history of mental symptoms. Descriptive psychopathology since the nineteenth century

La figura de Pinel, como es lógico, ha sido motivo frecuente de investigación y la dedicación a su obra por parte de autores como Weiner (Comprendre et soigner) es fundamental para entender el Zeitgeist pineliano. Bercherie se detiene en la historia y la estructura del saber psiquiátrico (autores, nosología, clínica), génesis de los conceptos freudianos y su inserción en el marco de las corrientes de la psicología positiva del siglo XIX así como su aportación a la psicologización de la histeria.

Dos autoras son fundamentales en la reconstrucción de la historia de la psiquiatría francesa. Nos referimos a Dora Weiner quién en The citizen-patient estudia el devenir de la enfermedad en el París revolucionario e imperial analizando las políticas de salud en Francia durante la Revolución y bajo Napoleón y a Jan Goldstein. Esta última en Console and classify ofrece el emerger del alienismo a lo largo del siglo XIX subsumiendo en su urdimbre las diversas historias (intelectual, social y política) que concurren en su determinación.”

la apasionante edad de oro de la psiquiatría en la Alemania imperial.” “La teoría de la degeneración, omnipresente en la literatura y en el alienismo como <the condition of conditions, the ultimate signifier in pathology>, devino denominador común de una cultura literaria, médica y antropológica y un crudo antecedente de los marcadores biológicos.”

Tony James, respecto a los estados alterados de conciencia, revisó fenómenos como los sueños, el sonambulismo, el éxtasis o las alucinaciones en algunos escritores franceses del XIX fundamentalmente en la relación entre sueño y locura.”

En el campo del análisis histórico de las instituciones merece destacarse el trabajo consagrado por Jean Delamare y Thérèse Delamare-Riche al Hospital de Bicêtre: Le grand renfermement. Histoire de l´hospice de Bicêtre 1657-1974 donde se estudia el microcosmos custodial con el ritmo de los trabajos y los días.”

O MONGE & O LOUCO: “No cabe duda de que el estudio del monacato en tanto microsociedad letrada y con amplia introspección sobre los estados mentales de los profesos es sumamente iluminadora en sus narrativas de la melancolía.”

Séverine Jouve en Obsessions et perversions dans la littérature et les demeures à la fin du dix-neuvième siècle reúne una serie de temas, desde el imaginario decadente a las metáforas de la imagen del cuerpo o del alma, pasando por los consabidos tópicos de la misoginia y las atmósferas arquitectónicas febriles o <malditas> en la estela literaria de Mario Praz.”

Pobres coitados dos editores de manual que consideram Foucault uma grande contribuição para sua disciplina…

Mención especial requiere la obra de Lantéri-Laura. (…) la Histoire de la phrénologie, donde plantea un recorrido desde Gall hasta la psicopatología actual.” + Lantéri-Laura G. Les hallucinations. Paris: Masson; 1991.

En la misma línea de reflexión histórico-conceptual sobre la clínica se sitúa el trabajo de Garrabé sobre la esquizofrenia, en un recorrido que abarca desde la conceptualización kraepeliniana de la dementia praecox a las formas de pensamiento y existencia esquizofrénicas.”

2. BASES PSICOLÓGICAS Y PSIQUIATRÍA. SU DEVENIR HISTÓRICO

Resulta curioso, o mejor tal vez sorprendente, constatar la existencia de una zona oscura, poco desarrollada, en las obras de historiadores relevantes de la psicología y de la medicina, así como de la psicopatología, en la presentación de relaciones entre ellas. Historiadores como Dörmer, Laín, Rosen, incluso Foucault, mencionan, a lo más, referentes o denominaciones filosóficas al establecer parámetros teóricos generales de la psicología para una obra médica.

Llama por tanto la atención la carencia en la exposición de la existencia o conexiones entre concepciones acerca de los trastornos mentales o su asistencia y las teorías psicológicas existentes en cada momento (fenómenos psicológicos, conexiones materia-conocimiento-mente, sobre conducta e instinto, sobre diferencia en la naturaleza psicológica entre los seres humanos y los animales, por poner algunos ejemplos), más aún cuando precisamente el desarrollo de muy importantes concepciones psicológicas que han ejercido influencia tanto en su momento como posteriormente, se produce a partir del siglo XVII y hasta el XIX (sin querer negar el interés y la importancia de los habidos antes, particularmente en el Renacimiento; Juan Huarte de San Juan es buena muestra), cuando la imprenta, la universidad, la investigación y los viajes facilitaban tanto la intercomunicación y difusión de conocimientos. El interaccionismo psicofísico, el empirismo psíquico, el automatismo conductual, el asociacionismo, la explicación de las actividades mentales en términos de actividades sujetas a funciones corporales, las distinciones entre cualidades ‘primarias’ y ‘secundarias’ de la sensación y la percepción, pueden ser buenos ejemplos. Destaca Coto que estas ideas debieron de estar presentes en las coexistentes o coetáneas concepciones sobre la psicopatología, la medicina o la locura, pero no aparecen reflejadas, o lo están muy escasamente, en los textos de historia.

La suposición de alejamiento entre ramas de la ciencia, no resulta explicación adecuada, pues no era entonces tan relevante como pudiera serlo hoy: el alejamiento entre los médicos y los filósofos, lugar común que podría facilitar una explicación rápida, no se compadece con la discriminación arborescente del conocimiento en esos tiempos, que no se había producido aún de manera relevante. De hecho tanto los espacios universitarios y sus foros, como los encuentros y tertulias de intelectuales y científicos eran muy comunes y compartidos. Cabanis presenta que la física y la moral se enseñaban en los mismos lugares y un autor podría escribir sobre filosofía, moral, psicología, medicina, religión o política sucesiva e incluso simultáneamente.

De hecho, la consulta de obra original permite contrastar el conocimiento y manejo de muchas de ellas por los autores y así la monadología de Leibniz, las teorías sobre la sensación y la percepción de Locke, la teoría copernicana, las descripciones de metodologías inductiva y deductiva para la ciencia, la química de Lavoisier, las teorías sobre el reflejo de Willis, el pensamiento sobre la conciencia y el método de Descartes, son objeto de citas y claros referentes en diferentes autores y para lo que hoy son diferentes ciencias o ramas de la ciencia. Pero lo que cabe y quiero aquí destacar, es la necesaria existencia de referencias comunes que se actualizaban en producción y debates. Es decir, la mezcla de conocimientos y la transmisión de los mismos se producía, era un hecho. Sin embargo, ello no se traduce en la presentación historiográfica de hoy, que más bien parece escotomizar y parcelar de manera excluyente la globalidad confluyente del conocimiento, sus desarrollos y sus vertientes de aplicación entre la medicina y la psicología, habiéndose generalizado así una imagen sesgada de desarrollos paralelos que más bien parece querer amparar hoy (cuando la profesionalización se ha producido) intereses gremialistas de preponderancias y poderes con estas presentaciones parceladas (más allá de la intención de sus autores).

Veamos, buscando hacer ciencia sobre la locura, las teorías renacentistas retomadas por las ilustradas se separaban radicalmente de las teorías demonológicas, y para ello resultaban muy relevantes, por ejemplo, las aportaciones de Hartle, Priestley y Hobbes, que buscaban explicar la conducta animal y humana desde el ‘mecanicismo fisiológico’. Sin embargo, ello prácticamente está oculto en los textos actuales (precisamente el ‘mecanicismo’ para el pensamiento científico de la época fue una marca de progreso científico) y en cambio se subraya con demasiada frecuencia a mi juicio que se producía un alejamiento entre las teorías sobre la locura y la psicología en evitación de pseudociencia filosófica, cuando es sabido que los científicos de la época (filósofos, biólogos, fisiólogos) y con ellos los pensadores e intervinientes que generaban conocimiento en medicina y psicología, tomaban como modelos las ciencias físicas y químicas.

Estamos por tanto en un terreno marcado por los desajustes y tal vez las sombras de la incongruencia. Conocerlo podría facilitar dar cuenta de las batallas, de los conflictos de hoy que parecen querer reescribir el pasado para resignificar posiciones e intereses de la ciencia profesionalizada del presente.”

OS QUATRO CAVALEIROS: “Gall (1758-1828), Spurzheim (1776-1834), Brown (1778-1820) y Hall (1790-1857) son señalados como primordialmente interesados en la investigación de las leyes que rigen los fenómenos psicológicos y de conducta, la relación de las funciones mentales con el medio y entre la mente y el cerebro. Gall inició el estudio empírico de la localización cerebral y buscó definir las funciones que pudiesen dar cuenta del pensamiento, de la conducta humana y de los animales en su medio ambiente. De hecho, es el responsable de la generalización en la comunidad científica de la época, de que era el cerebro el órgano específico de la mente, defendiendo que era a través de la observación de cómo su estructura y funciones podían ser descritas y analizadas y llamó la atención sobre las semejanzas con los animales, posiblemente conociendo las teorías evolucionistas de Lamarck (1744-1829).

Gall defendía que las facultades y características mentales eran innatas, dependían de estructuras del cerebro que se correspondían con protuberancias de la superficie del cráneo.¹ Bernstein y Nietzel resumen las ideas fundamentales de Gall:

[¹ Tantos seminários e pesquisas para NADA.]

a. Cada área cerebral (físicamente identificable) se asocia con una facultad o función psicológica.

b. A mayor desarrollo de un área cerebral mayor presencia en el comportamiento.

c. El mayor o menor desarrollo de cada una de las facultades se refleja en las protuberancias o depresiones del cráneo que les correspondan.

Gall estableció la existencia identificada de órganos diferentes del cerebro humano e igualmente sus facultades mentales innatas no modificables por la educación (entrando así en el debate suscitado con motivo de las ideas roussonianas en la pedagogía), alcanzando notoriedad sus mediciones craneales. Sus trabajos sufrieron los rigores de la jerarquía eclesiástica: el papa Pío VII le excomulgó e incluyó sus obras en el Índice, pero la investigación de la relación entre facultades psicológicas, conducta y cerebro quedó consolidada como ámbito de interés científico”

Ferrier en 1886 conecta las aportaciones de Bain y Spencer con los trabajos de Broca y Fritsch e Hitzig y se abre así el fructífero periodo de localización cerebral experimental.”

Así, no es posible entender en psicología el funcionalismo americano (y sus posteriores desarrollos conductistas), las concepciones de la enfermedad mental como regresiones a fases evolutivamente anteriores, la psicología del desarrollo, la psicología de la motivación, etc., sin las influencias de Darwin, cuyo primo F. Galton es quien introduce los trabajos de medición de las diferencias individuales entre los seres humanos, verdadero precedente del psicodiagnóstico y que a su vez difunde con verdadera eficacia las tesis darwinistas entre los investigadores y artífices de la psicología de la época.

De hecho, en el último cuarto del siglo XIX el estudio de los procesos psicológicos guardaba íntima relación con trabajos filosóficos (que a su vez impregnaban diferentes líneas de investigación en otras ciencias y sus aplicaciones), fisiológicos y biológicos y estos no podrían entenderse suficiente y adecuadamente a mi juicio si no es también sobre las aportaciones de la psicología sobre las funciones mentales, la conducta, la conciencia, el aprendizaje, la adaptación, etc.”

Existe un asentado consenso en reconocer el inicio de la psicología como ciencia independiente con W. Wundt (1832-1920) a partir de la creación en Leipzig del primer laboratorio de psicología experimental.” “Pero veamos cómo lo logra a partir de los equilibrios de los que dan cuenta posiblemente hechos como que esta consolidación en la Academia se produce en una cátedra de filosofía, construyendo su obra en psicología apoyado en el marco de debates (y disputas) entre idealistas kantianos, empiristas y positivistas y desde su profundo conocimiento de las técnicas experimentales de la fisiología por haberse formado con investigadores de valía como Helmholtz y Du Bois-Reymond sobre lo que había publicado previamente.”

La sustancia es una noción metafísica sobrante que no es útil para la psicología. Esto concuerda con el carácter fundamental de la vida mental. La mente no consiste en la conexión inalterable de objetos y diversos estados. En todas sus fases es ‘proceso’, una existencia ‘activa’ más que pasiva, un desarrollo más que un estado fijo. Conocer las leyes básicas de este desarrollo es la meta principal de la psicología.”

Coto, destaca que el laboratorio de Leipzig además no fue el inicio, sino la continuación de los trabajos en la década de 1860 antecediendo en más de 15 años la creación del laboratorio desde el que introdujo un programa en su cátedra dirigido al estudio de cuestiones específicamente psicológicas.” “Coherentemente con lo anterior, Wundt tomó posiciones críticas ante el movimiento de la introspección sistemática de comienzos de siglo XX (Külpe, Titchener) protagonizado por los psicólogos de la Escuela de Würzburgo.”

Por otra parte, las posiciones de Wundt en torno al papel de la voluntad en los procesos psicológicos, le enfrentaron a la fisiología del momento, pues influido por el evolucionismo biologicista por una parte y la filosofía kantiana por otra, abogaba por una concepción de los organismos y particularmente de los procesos psicológicos humanos como marcados por la experiencia y dirigidos a metas.”

Pinillos señala que la ‘ley de la causalidad psíquica’ de Wundt, representa un salto cualitativo respecto al asociacionismo positivista. Por otra parte Wundt busca la imbricación adecuada de la psicología y sus desarrollos, en el mapa de los conocimientos científicos, de las ciencias en función de su objeto de estudio. Y así, Leary muestra que Wundt consideraba la psicología como ciencia experimental (o natural) en tanto su objeto fuese el estudio de actividades psicológicas como la sensación o la percepción, mientras que cuando el objeto de estudio se centraba en procesos psicológicos superiores como el lenguaje, la costumbre o el pensamiento, su consideración era que la psicología debía incluirse entre las ciencias sociales”

Y también cabe destacar junto a su rigor, su posición abierta y plural que le llevó a apoyar intereses y estudios muy diversos entre sus discípulos, que se abrían en abanico. Así, las aportaciones de psicólogos como Judd, Mead, Cattell, Külpe, Titchener, Dewey y otros tan relevantes en la psicología moderna, no puede entenderse sin Wundt, al que por tanto no sólo el consenso de hoy le señala como el primer psicólogo que establece la independencia de la psicología como ciencia, sino que además su contribución, sus aportaciones y sus discípulos sin duda representan un hito y ejerce una gran influencia en el pensamiento científico para otras ciencias”

Sin embargo, la ‘caída’ no sólo de la influencia, sino también de la obra (incluso el conocimiento de la misma) de Wundt producido entre las dos guerras mundiales fue muy grande y muy rápido. Posiblemente a ello contribuyó la política nazi, el desmantelamiento de las universidades centroeuropeas y sin duda, el surgimiento de movimientos ‘rompedores’, como el conductismo, el psicoanálisis, el positivismo, la Gestalt que buscaban junto a la investigación de procesos básicos, el establecimiento de conocimiento aplicado a necesidades humanas en campos diversos, uno de ellos y muy relevante, la clínica.”

La idea de un ‘pensamiento inconsciente’ desató un potentísimo debate pues generó oponentes que se basaban en la posición de que lo no-consciente era fisiológico y, por tanto, no debía ser objeto de la psicología científica.”

Esta idea de ‘disposición mental’ se incorporó rápidamente en EE.UU entre los psicólogos (funcionalismo americano) interesados en las operaciones mentales más que en el pensamiento sin imágenes y ha impregnado (pese a la disolución de la Escuela [Würz.] en el primer cuarto del siglo XX) trabajos posteriores en diversos ámbitos, como por poner un ejemplo, el experimental sobre esquizofrenia de Shakow con sus aportaciones sobre la ‘disposición mental fraccionada’.

En realidad la Escuela de Würzburgo surge a partir de un alumno de Wundt, Külpe (1862-1915), profesor de Würzburgo de 1894 a 1909, que cuando se trasladó a Bonn desapareció la Escuela prácticamente como tal.”

El movimiento evolucionó hacia la ‘fenomenología’ de Brentano y de Husserl, que rompía con Mach (que analizaba únicamente la experiencia de las sensaciones), proponiendo el análisis del propósito como elemento clave de la introspección (Titchener permaneció cerca de las posiciones de Mach), alejándose de las técnicas experimentales: Ach en 1905 llega a denominar esta escuela como ‘movimiento de la introspección sistemática’. § Publicaron protocolos de introspección causando fuerte impacto fundamentalmente durante la primera década del siglo XX.”

Elemento central de la Escuela de Würzburgo fue, como hemos visto, el ‘propósito’, la intención. Consecuencia de ello fue su evolución hacia la fenomenología: un enfoque que concibe la configuración y organización de la percepción como actividad específicamente propia y singular del sujeto.

La fenomenología pronto se desarrolló en 2 líneas: la filosófica, con Husserl como mayor exponente, y la experimental, con Stumpf siendo este último clave en la Escuela de Würzburgo.”

La obra de Brentano, de tan alto impacto en su época, resulta altamente desconocida entre los psicólogos (clínicos y no clínicos) y médicos”

Fue Titchener quien, en sus específicos desarrollos introspeccionistas de Wundt, lleva a éste a los EE.UU. Frente a ello se establece el funcionalismo que crean James y Dewey.”

La reflexología soviética busca una psicología objetiva psicofisiológica que trata de establecer los elementos de los procesos psicológicos desde los mecanismos fisiológicos que los determinan.”

Tras la revolución de octubre de 1917, con Kornilov, la escuela soviética retoma y adapta algunos elementos de Wundt que habían quedado descalificados hasta entonces entre ellos. Y así, como recoge Rivière, conciben la psicología como estudio de las reacciones de la mente al mundo material y la conciencia como una cualidad de la materia organizada.

Vygotsky y Luria, continuadores, adjudican especial valoración a la interacción del individuo con el medio que le rodea y a la genética de las funciones psicológicas superiores.”

La psicología dinámica, que tanto rechazo suscitaba en la medicina oficial de la época, principalmente Mesmer, es a finales del siglo XIX, particularmente con Charcot (1825-1893) y sus trabajos y colegas en La Salpetrière, Bernheim (1825-1919) y Lièbeault (1823-1904), la que alcanza cierta consideración más en los terrenos aplicados que académicos y de investigación, de los que queda periférica cuando no alejada.

Es preciso considerar, siguiendo a Ellenberger, que la psicología dinámica que parte del magnetismo animal y del sonambulismo artificial (antecedente del hipnotismo) se inicia y desarrolla al margen tanto de los desarrollos en medicina y orientaciones científicas biologicistas, como de otras psicologías; con intereses directamente relacionados a aplicaciones en procesos mórbidos específicos como la catalepsia, la letargia, el sonambulismo y finalmente, al finalizar el siglo XIX, en la histeria incorporando el hipnotismo como vía de acceso a la mente inconsciente; incorporó rápidamente una noción de mente humana dual y de oposición interna (consciente-inconsciente); elaboró teorías de la ‘enfermedad nerviosa’ relacionadas con ideas de energía dinámica y ‘anclajes’ indebidos; y fue pionera en el diseño y desarrollo de teorías y técnicas terapéuticas que contaban 2 dos instrumentos técnicos referentes: la relación terapéutica y la palabra, configurando así precedente inexcusable de la psicoterapia.

Pese a su indudable identidad psicológica, durante muchos años, la progresiva incorporación (insuficiente posiblemente, pero indudable) de la psicología dinámica a cierta práctica médica y a lecturas y discursos de la psicopatología profesionalizadamente ejercida desde la medicina neuropsiquiátrica, junto a su alejamiento de las líneas de investigación y escuelas académicamente reconocidas de la psicología, posiblemente ha hecho que se configurase la estereotipada idea de que la psicología dinámica no ha sido (o es) parte de la psicología, olvidando que la tardía configuración de la profesionalización de la psicología, favoreció con ésta como con otras líneas de la psicología, que las aplicaciones de la misma las realizasen y ejerciesen otros profesionales (como pedagogos y médicos) durante mucho tiempo, lo que posiblemente ha traído un beneficio añadido o no buscado específicamente: la alta valoración de la psicología en otras profesiones y la consideración de su necesidad en distintos campos para acceder a comprensiones globales e intervenciones integrales, seguramente hoy imprescindibles.”

Ya Torrey señalaba que el entonces característico (y aún hoy en vigencia) énfasis biologicista de las ideas en psicopatología estaba extremadamente lejos del ámbito de la investigación y experimentación rigurosas, del método clínico y aparecía dominada más bien por una especie de magma de creencias y supuestos poco o mal contrastados.

Tal vez impelidos por supuestas “garantías” de lo orgánico en medicina, la insistente búsqueda de incorporarse históricamente a concepciones organicistas, ha resultado ser una de las constantes en la medicina interesada en el ámbito del estudio e intervención en trastornos psicopatológicos. Así nos encontramos con quienes situaban el foco de atención en la patología anatómica o en quienes situaban su atención esperanzada en la etiología o bien quienes lo hacían en la fisiopatología. De ahí la incorporación asimilada del término ‘enfermedad mental’ que continúa oponiéndose al científicamente establecido ‘trastorno mental’.”

A MANIA DA ‘COMPREENSIBILIDADE’

Posiblemente Kahlbaum (1828-1899) es quien, con un empeño más logrado, hace una primera clasificación de enfermedades mentales (4 grandes grupos de ‘especies morbosas’) que incorporaban con gran fragilidad científica ‘conocimientos’ de clínica, etiopatogenia, causas y síntomas psíquicos y corporales y descripciones de curso y terminación.”

Kraepelin (1855-1926) fue quien logró alto impacto con su propuesta de sistema nosológico, pese a su explicitación de que esa tarea no era posible realizarla desde lo establecido ya entonces para otras ramas de la medicina. De este modo estableció un sistema que suponía un ordenamiento que se generalizó rápidamente, pese a que contenía muy relevantes inconsistencias internas.”

Así, por ejemplo, P. Ranschburg (médico húngaro) realizó estudios e investigaciones experimentales sobre los trastornos de la memoria y en 1902 dirigía un laboratorio, subvencionado por el gobierno para estudiar las ‘anomalías mentales’.

También Kraepelin estudió y aplicó el método experimental como discípulo de Wundt, bajo cuya influencia y auspicios creó un laboratorio de psicología experimental y un laboratorio de neuropatología (Alzheimer realizó con él sus hallazgos sobre la enfermedad que ha quedado denominada con su nombre).”

Volviendo a Kraepelin y su sistema nosológico cabe decir, pese al impacto e influencia que generó, que tomó criterios diversos (a veces dispares) para establecer diferencias entre las diversas formas. Fue en su quinta edición del Compendio de psiquiatría (la primera la escribió siguiendo consejo de Wundt) que toma en consideración como elemento clave del cuadro clínico, la evolución y el desenlace o terminación. Incorporó que en pocos casos, como el de la parálisis general, era factible recabar etiología orgánica si bien precisamente en ella no podían establecerse síntomas específicos.”

el impacto que produjeron sus libros estuvo relacionado con la claridad de la exposición, que abogaba por una etiología orgánica y simultáneamente por el estudio e investigación de la conducta anormal y el análisis de la conducta de los pacientes y que fue adecuando sus formulaciones en función de las críticas recibidas. En realidad, las críticas a aspectos centrales de la clasificación nosológica empiezan pronto y Kraepelin en su última obra Las formas de manifestación de la locura (1920) da cuenta de su convencimiento de la imposibilidad de seguir el modelo médico en la patología mental.” Como sua nosologia não tem peso hoje, essa é a razão da falta de livros impactantes na pesquisa preliminar feita para fechar o meu O Desejo de Deleuze.

Si Bleuler había enfrentado desde su propia obra posiciones de Kraepelin, destacando la importancia de los factores psicológicos a nivel etiológico y terapéutico, Bonhöffer propuso directamente el abandono de la noción y denominación ‘especie morbosa’ por otra que consideraba más exacta y alejada de los parámetros de modelo médico y que fue ‘tipo de reacción’, entendiendo que el individuo, ante diferentes tipos de causas externas, respondía con un determinado tipo de reacción psicopatológica, lo que se acomodaba a la investigación psicológica y los datos que se obtenían.”

Meyer consideraba los ‘desórdenes mentales’ efecto de una acumulación progresiva de hábitos, por lo que el tratamiento debía dirigirse a eliminarlos y enseñar hábitos nuevos, muy en línea con las ideas pedagógicas de la época predominantes en torno a la importancia y valor de la educación como elemento modulador de la buena condición humana.”

Con el antecedente de la “psicología del acto” de Brentano, que desarrolla el método fenomenológico, si bien más en la línea filosófica de Husserl (1859-1939) que en la experimental de Stumpf, Karl Jaspers hace una clara adscripción por una fundamentación psicológica de la psicopatología y considera el objeto de ésta, la fenomenología, el fenómeno de la ‘enfermedad’ mental.”

Añadía que sus necesarios conocimientos de medicina no le aportaban elementos ni respuestas a cuestiones centrales de la psicopatología y de la intervención terapéutica ante ella. Propone como objeto de la psicopatología ‘el acontecer psíquico realmente consciente’ y para ello reclama la psicología ‘como la fisiopatología necesita de la fisiología’, pues, dado que la noción de ‘enfermedad’ en psicopatología ‘no es unitaria’, es preciso trabajar con los mismos conceptos fundamentales en psicología que en psicopatología.”

Para Laín Entralgo la fenomenología jaspersiana tiene 2 referentes directos ‘wundtianos’ y ‘brentanianos’: Husserl que retoma y trabaja la idea psicológica de la intencionalidad como eje organizador en la vida mental y los actos psíquicos, y W. Dilthey (1833-1911) para quien desde su ‘psicología descriptiva y comprensiva’ es la comprensión psicológica de sentido frente a la explicación física de mecanismo lo que permite el acceso al conocimiento de la vida mental humana.”

La influencia de la obra de Jaspers y la escuela de Heidelberg fue importante y duradera en la psiquiatría. Sin embargo, fue más breve en la psicología clínica, que situó su interés y debates en esos momentos en el funcionalismo americano, el conductivismo, la psicología de la Gestalt y la ‘psicología dinámica’, si bien hoy es visible (aunque poco citada) su influencia en el cognitivismo.”

Entralgo, Historia de la medicina. Barcelona: Salvat; 1978.

Leary, Wundt and after: Psychology’s shifting relations with the natural sciences, social sciences and philosophy

Torrey, La muerte de la psiquiatría. Barcelona: Martínez Rica. 1980.

3. MODELOS PSICOLÓGICOS

Como consecuencia, hemos asistido a lo que los historiadores llaman ‘la aceleración de la historia’ que consiste en una constante anticipación del futuro, que se convierte en pasado muy rápido.” Ora, vejam só!

Aunque todo encasillamiento de autores es discutible, se suele distinguir entre la ‘tradición neopsicoanalítica’, en la que se incluyen las aportaciones de autores tan relevantes como Fenichel, Ferenczi, Horney, Rank, Sullivan y Fromm, y la ‘tradición analítica del yo’ que incluye autores como M. Klein, Fairbairn, Winnicot, A. Freud, Eriksson, Hartmann, [¿?] Rappaport y Guntrip.”

En otra órbita distinta, hay que situar a Lacan, un psicoanalista francés, que ha llevado a cabo una relectura de la obra de Freud a partir de la tesis de que el inconsciente está estructurado como un lenguaje y ha convertido el psicoanálisis en algo cercano al análisis semiótico sólo comprensible para los iniciados en el lenguaje particular que él mismo ha creado.” Dizer que só entende Lacan quem é lacaniano é uma ótima forma de dizer que Lacan não faz nenhum sentido!

Kant estableció una distinción entre el noúmeno, la realidad en sí a la que no tenemos acceso, y el fenómeno, que es la realidad en cuanto conocida. La fenomenología (representada por autores como Brentano, Husserl, Heidegger, Merleau-Ponty y Ricoeur, entre otros) es una corriente de la filosofía que vino a poner de manifiesto el carácter intencional de la conciencia.” “simplemente, no existe la res pensante desencarnada que Descartes imaginó.”

A diferencia de los modelos psicodinámicos, que tienen la obra de Freud como referente, los modelos fenomenológicos en psicología clínica no cuentan con un referente claro y se suelen agrupar bajo este epígrafe teorías muy dispares. Por un lado, hay que mencionar la obra de Jaspers, Blondel, Minkowski y Binswanger, entre otros psiquiatras europeos de orientación fenomenológico-existencial que se preocuparon por entender, por ejemplo, qué se siente al tener una alucinación.” Algum deles era um alucinado?

Pero la divulgación más notoria del enfoque fenomenológico en psicología clínica se produjo en el marco de lo que se llamó la ‘psicología humanista’, que fue un movimiento que surgió en EE.UU durante los años 60 del pasado siglo y que aglutinó a autores como Allport, Murray, Bugental, G. Kelly, Murphy, Rogers, Maslow y May, entre los más destacados. Todas las teorías desarrolladas por estos autores coincidían en enfatizar la experiencia inmediata como fenómeno primario que ocurre en el aquí y ahora.” Só ILUSTRE DESCONHECIDO nessa lista!

A modo de ilustración de estos enfoques, mencionaremos brevemente la terapia de Rogers, que junto con la terapia Gestalt de Perls, han sido los enfoques más populares para trabajar en el nivel de la experiencia inmediata desde el punto de vista fenomenológico.” “En consecuencia, la psicoterapia debía dirigirse a facilitar la emergencia de una imagen del sí mismo (ideal) más congruente con el sí mismo real. Para ello, el terapeuta debía sintonizar emocionalmente con la experiencia real del paciente tal como ésta ocurría en la sesión, de modo que pudiera devolvérsela por medio del reflejo empático y se esperaba que, por medio de este espejo, el paciente pudiera verla, aceptarla y, en definitiva, entrar en contacto con sus deseos más auténticos, resolviendo así sus discrepancias consigo mismo o con los demás.”

La conducta es lo que un organismo hace, como dijo Watson en el manifiesto conductista de principios del siglo XX, o mejor, como matizó Skinner, lo que un organismo observa que otro organismo está haciendo.” “Pero la definición funcional de la conducta, lejos de ser objetiva, es ambigua y depende del observador; observar siempre es observar algo. A pesar de estas dificultades, la perspectiva conductista sirvió para que la investigación psicológica se ajustara al rigor de la ciencia experimental, y la conducta humana se concibió como una máquina de precisión que paso a paso está regulada por las condiciones y contingencias ambientales.”

El paradigma del condicionamiento clásico, iniciado por Pavlov, sirvió para entender cómo estímulos neutros (o nuevos) pueden llegar a provocar respuestas innatas como consecuencia del emparejamiento con otros estímulos. Por ejemplo, un sonido, previamente incapaz de suscitar una respuesta incondicionada (parpadeo), puede acabar provocándola como consecuencia de su asociación con el estímulo que suscita esta última (un soplo de aire). Este paradigma hizo posible concebir la ansiedad como una respuesta condicionada, lo cual dio lugar a nuevas técnicas de tratamiento, tales como las técnicas de exposición, desarrolladas por Marks entre otros y la desensibilización sistemática, creada por Wolpe. Esta última, que es la técnica que más investigación científica ha recibido en la historia de los tratamientos psicológicos, consiste en 4 pasos: primero, se entrena al paciente a discriminar la intensidad de su respuesta de ansiedad en una escala de 0 a 100, utilizando para ello ‘unidades subjetivas de ansiedad’. En segundo lugar, se lleva a cabo un minucioso análisis conductual y se construye una jerarquía de escenas temidas ordenada de menor a mayor. En tercer lugar, se entrena al paciente en relajación. En el cuarto paso, en la sesión de desensibilización en sí, cuando el paciente está relajado, se van presentando las escenas¹ de la jerarquía comenzando por la que suscita menos ansiedad. Así, los estímulos que antes suscitaban ansiedad, ahora se van emparejando con la respuesta de relajación, que es incompatible con la respuesta de ansiedad.”

¹ Apenas verbalmente? No que isso me ajudaria num encontro indesejado com meu pai?

El condicionamiento clásico y el operante se combinaron a la hora de explicar trastornos psicopatológicos como las conductas fóbicas.” Esse deve ser o limite terapêutico em Skinner.

Como propuso Mowrer en 1946, la ansiedad se adquiere mediante procesos de condicionamiento clásico, pero se mantiene por medio de procesos de condicionamiento operante. La ansiedad activaría respuestas de evitación que resultarían reforzantes porque producirían alivio de la ansiedad e impedirían que el proceso de extinción se llevara a cabo. Esta visión continúa vigente en la actualidad en lo que se conoce como ‘terapia de aceptación y compromiso’, en la que los trastornos psicopatológicos son vistos como formas de ‘evitación experiencial’, de modo que antes de poder facilitar el cambio de conducta, la terapia debe facilitar la aceptación de la experiencia, habilitando al paciente para reconocer como tales sus tendencias a la evitación.”

No es posible hacer referencia a los modelos cognitivos sin mencionar los nombres de Piaget y Vygotsky, cuyas obras han resultado imprescindibles para comprender el desarrollo cognitivo en la infancia y también después.”

Autores como Kanfer, Bandura, Eysenck, Cautela, Mahoney, Meichenbaum, Goldfried, entre otros, hicieron contribuciones importantes en el modelo cognitivo-conductual, que es la denominación más extendida en la actualidad.” Uma corrente de merda para um tempo de merda.

Por que todo ex-psicanalista vira cognitivista? Porque é cognitivamente deficitário! Haha.

4. DESARROLLO DE LA PERSONALIDAD: TEMPERAMENTO Y CARÁCTER

Hipócrates, Galeno, Juan Huarte de San Juan, Kretschmer, Sheldon, Eysenck y un largo etcétera de autores han realizado aproximaciones más o menos científicas al estudio de la personalidad y su desarrollo.”

Una de las definiciones más aceptadas del concepto de temperamento fue propuesta por el eminente psicólogo Gordon W. Allport. Definió el temperamento como el conjunto de fenómenos característicos de la naturaleza del individuo, incluyendo su susceptibilidad ante la estimulación emocional, su energía habitual y la rapidez de respuesta, la cualidad de su estado de ánimo prevalente y todas las peculiaridades de fluctuación e intensidad del ánimo, siendo considerados estos fenómenos como dependientes del conjunto constitucional y, por tanto, de origen hereditario. De esta forma, la constitución somática, el temperamento y la inteligencia constituirían el substrato de la personalidad porque serían elementos que se heredan.” “el carácter, frente a la estabilidad y constancia del temperamento, sería modificable por la experiencia, surgiendo a partir de la interacción del individuo con el ambiente.”

Las personas podrían diferir unas de otras en:

Productividad

Salud

Sociabilidad”

Extremamente produtivo (morbidamente, eu diria), no limiar da saúde e da doença, não-sociável via de regra (após muito me estrepar).

Dado el gran número de teorías de la personalidad que existen, se han realizado diferentes clasificaciones. Liebert y Liebert consideran 4 estrategias de abordaje de la personalidad que son: disposicional (p.ej. enfoques de rasgos y tipos), ambiental (p.ej. conductismo), psicodinámica (p.ej. psicoanálisis) y basada en las representaciones (p.ej. fenomenología o humanismo).”

ESQUEMA-RESUMO DO TEMPERAMENTO-PERSONALIDADE:

Hipócrates y Galeno

4 tipos temperamentales: melancólico, colérico, flemático y sanguíneo, en función de 4 humores (bilis negra, bilis amarilla, flema y sangre)

Kretschmer

3 tipos constitucionales: leptosomático, atlético y pícnico [¿??]

Sheldon

3 somatotipos: ectomorfo, mesomorfo y endomorfo

Eysenck

3 dimensiones de la personalidad normal: neuroticismo-control, extraversión-introversión y psicoticismo

Cattell

16 rasgos de la personalidad normal: afabilidad, razonamiento, estabilidad, dominancia, animación, atención a las normas, atrevimiento, sensibilidad, vigilancia, abstracción, privacidad, aprensión, apertura al cambio, autosuficiencia, perfeccionismo y tensión [Aí vira bagunça, meu cumpadi!]

(…)

Cloninger [pasticheiro]

4 dimensiones temperamentales: búsqueda de novedades, evitación del daño, dependencia de la recompensa y persistencia [patología-no-patología]. 3 dimensiones caracteriales: autodirección, cooperación y autotrascendencia

[K.] Distinguió los tipos constitucionales leptosomático (cuerpo alargado y delgado), atlético (desarrollo del esqueleto y la musculatura) y pícnico (grueso, con tendencia a la obesidad). Al relacionar estos tipos constitucionales con características psicológicas, definió los tipos esquizotímico (constitución leptosomática y temperamento introvertido), ciclotímicos (constitución pícnica y temperamento extravertido) y el tipo viscoso (constitución atlética).”

[S.] Los ectomorfos se caracterizarían por ser sociables, ansiosos y con tendencia al aislamiento; los mesomorfos serían agresivos, bruscos y en una constante búsqueda del triunfo; y, por último, los endomorfos serían muy sociables.”

la primera descripción de las dimensiones de personalidad introversión-extraversión se debe a Jung.” “Aunque Eysenck pertenecía a la corriente conductista, sus investigaciones en el campo de la personalidad prestaron una especial atención a la genética al explicar las diferencias interindividuales.”

Citando ejemplos de los rasgos típicos, en el caso del neuroticismo-control estaría la ansiedad; para la extraversión, la asertividad; en el caso de la apertura a la experiencia, la imaginación; para la amabilidad, el altruismo; y para la responsabilidad, la minuciosidad.”

5. PSIQUIATRÍA SOCIAL, SOCIOLOGÍA Y CULTURA

El primer estudio empírico en sociología sobre la enfermedad mental es El suicidio de Durkheim. Publicado en 1897 es clave en psiquiatría social tanto por su contenido como por su método.”

Brown G.W., Harris T., Social origins of depression: a study of psychiatric disorder in women. London: Tavistock Publications; 1978.

Newton J., Preventing mental illness in practice. London: Routledge; 1992.

6. NEUROANATOMÍA FUNCIONAL

El presente capítulo trata específicamente de aportar los avances recientes a la construcción del puente, ya bien establecido, entre las neurociencias y la psiquiatría. La enfermedad mental es una condición o estado de la persona que se origina y se expresa no solamente en un cambio de su actividad psíquica (cerebral en último término), sino también en un cambio de su conducta, de sus relaciones con los demás y viceversa y de su capacidad para crear cultura.”

El neocórtex está constituido por cientos de miles de millones de neuronas colocadas en seis capas. La estructura no es exactamente la misma para las diferentes partes del neocórtex y Brodmann realizó un mapa de unas 47 a 52 áreas de acuerdo con la citoarquitectura histológica de la corteza cerebral. Existen dos tipos fundamentales de neuronas: neuronas eferentes y neuronas intrínsecas. Las neuronas eferentes dejan la corteza para alcanzar estructuras nerviosas inferiores. Las principales neuronas eferentes son las células fusiformes y las células piramidales. Las neuronas intrínsecas conectan las diferentes neuronas de la corteza cerebral sin dejar el neocórtex (neuronas de asociación). Ejemplos de éstas son: células horizontales, células estrelladas, células de Martinotti, etc.”

Los módulos, por consiguiente, trabajan mediante conflicto: produciendo y almacenando poder dentro de ellas mismas e inhibiendo las células de las columnas vecinas.”

El lóbulo frontal tiene que ver fundamentalmente con la planificación de la acción futura y con el control motor. El lóbulo parietal, con las sensaciones somáticas, con la imagen corporal y con la relación entre la imagen corporal propia y el espacio extrapersonal. El lóbulo occipital, con la visión. El lóbulo temporal, con la audición y a través de sus estructuras profundas (hipocampo) y sus conexiones, con aprendizaje, memoria y las emociones. El surco central separa el giro precentral, relacionado con la función motora, del giro postcentral, que se relaciona con la función sensorial. Cada hemisferio es responsable primariamente de los procesos sensoriales y motores del lado contralateral del cuerpo. Aunque los hemisferios parecen similares, no son completamente simétricos ni en estructura ni en la función equivalente. En la mayoría de la gente el hemisferio izquierdo es considerado como dominante controlando los movimientos de la mano derecha normalmente más precisa que la izquierda. En este hemisferio izquierdo es donde se localizan las áreas del lenguaje.”

La percepción, el movimiento, el lenguaje, el pensamiento y la memoria son todas posibles por la interconexión en serie y en paralelo de varias regiones cerebrales cada una con funciones específicas. Como resultado, la lesión de una sola área no tiene por qué traer consigo la pérdida de la facultad completa. Incluso aunque la capacidad desaparezca inicialmente puede recuperarse parcialmente gracias a las partes no dañadas del cerebro que reorganizan sus conexiones.

En resumen, todas las funciones mentales son divisibles en subfunciones. Los procesos mentales están compuestos de numerosos componentes independientes de procesamiento de la información. Así por ejemplo una pequeña lesión en el lóbulo temporal izquierdo puede destruir la capacidad de un paciente de reconocer a la gente por su nombre sin que afecte la capacidad de reconocerles visualmente. Ni siquiera la conciencia de uno mismo es un proceso unitario, como demostraron Sperry y Gazzaniga, al estudiar pacientes epilépticos a los que se les había seccionado el cuerpo calloso para tratar su epilepsia. La independencia de cada hemisferio en la respuesta a las instrucciones llegaba hasta el punto de que podrían responder a órdenes contrarias como si cada hemisferio tuviera una mente propia e incluso interfirieran una con la otra en su función.”

Desde un punto de vista anatómico descriptivo, el cerebro consiste en dos hemisferios cerebrales unidos por una gran estructura comisural: el cuerpo calloso, y conectados al tálamo y a los ganglios basales. Millones de conexiones unen los hemisferios cerebrales y el tálamo a niveles inferiores: mesencéfalo, puente, cerebelo, bulbo raquídeo y médula espinal. La superficie de los hemisferios cerebrales constituye la corteza cerebral y está compuesta de materia gris. La corteza cerebral está dividida en lóbulos mediante fisuras que recorren su superficie. Debajo de la corteza cerebral existe una masa de sustancia blanca. Enterrados en esta sustancia blanca se encuentran algunos núcleos grandes de sustancia gris: tálamo y ganglios basales. La sustancia blanca está constituida por vías que van hacia la corteza o desde la corteza, fibras de asociación, y fibras comisurales que unen los hemisferios. Los detalles anatómicos pueden ser consultados en los libros habituales de anatomía. Un área importante en relación con la psiquiatría es el tronco cerebral (entre el cerebro y la médula espinal), lugar donde se originan los neurotransmisores más significativos en psiquiatría: las neuroaminas.”

Para el estudio más detallado de la corteza cerebral pueden consultarse tratados de neuroanatomía y en particular el libro de Kandel, Schwartz y Jessell que ha servido de base para la descripción de algunas estructuras a las que se hace referencia en el presente capítulo. En los párrafos que siguen nos limitamos al estudio de la corteza prefrontal implicada en los circuitos córtico-subcorticales y límbicos, particularmente relevantes para la psiquiatría.”

La corteza orbitofrontal juega un papel importante en las reacciones emocionales. Lesiones de esta región reducen las respuestas inhibitorias y llevan a que el individuo se torne irresponsable, impulsivo, descuidado, y pierda la habilidad para planear y tomar decisiones.

Es de gran importancia la estrecha relación entre estas estructuras límbicas y el estriado, especialmente su parte ventral o núcleo accumbens, considerado parte central de los procesos de aprendizaje basado en la recompensa”

El giro del cíngulo proporciona una interfase entre el proceso de toma de decisiones (corteza orbitofrontal), las funciones relacionadas con las emociones del complejo amigdalino y los sistemas que controlan el movimiento. La corteza cingular anterior constituye la base de las conductas ejecutivas mientras que la corteza cingular posterior sirve de base para las funciones evaluadoras. La corteza cingular anterior tiene particular importancia por su implicación en trastornos psiquiátricos.”

La habilidad de la corteza cerebral para procesar información sensorial, para asociarla con estados emocionales, para almacenarla en su memoria, y para iniciar la acción, es modulada por 3 estructuras enterradas dentro de los hemisferios cerebrales: los ganglios basales, la amígdala y la formación hipocampal. Además de estas estructuras existen 2 grandes núcleos diencefálicos, tálamo e hipotálamo, que también forman parte de los circuitos córtico-subcorticales”

La amígdala, justo delante del hipocampo, está implicada en el análisis del significado emocional o motivacional de los estímulos sensoriales y en coordinar las acciones de diferentes sistemas del cerebro para permitir al individuo realizar la respuesta adecuada.” “Por ejemplo, las respuestas al peligro (la sensación de miedo, el cambio en la frecuencia cardiaca y de la respiración ante una amenaza) son mediadas por la amígdala y sus conexiones. La ablación de la amígdala, elimina no solamente la respuesta aprendida al miedo, sino también la respuesta innata al miedo. La visión más clásica considera que la amígdala basolateral es responsable de los procesos de condicionamiento que conforman el aprendizaje asociativo, mientras que la amígdala central actúa como un controlador del tronco cerebral, utilizando sus profusas conexiones sobre estas zonas para modular la respuesta ante las señales de amenaza. En la actualidad se considera que estas funciones se reparten de forma más compleja, especialmente en lo que al aprendizaje se refiere, de forma que ambos núcleos participan junto con otras estructuras con las que interactúan”

El complejo amigdalino también está implicado específicamente en las funciones de memoria explícita así como en las conductas sociales. De este modo, habría 2 sistemas neuronales separados anatómicamente: uno localizado en la corteza temporal anterior implicado en la memoria explícita y en la identificación de caras, el otro localizado en la amígdala, que estaría relacionado con la memoria implícita de las señales apropiadas de las emociones expresadas en el rostro. El reconocimiento de las expresiones faciales es esencial para una conducta social exitosa.”

Los 4 núcleos principales de los ganglios basales son: el estriado, el globus pallidus, la sustancia negra (pars recticulata y pars compacta), y el núcleo subtalámico. El estriado consiste a su vez en 3 importantes subdivisiones: el núcleo caudado, el putamen y el estriado ventral (que incluye el núcleo accumbens). Desde un punto de vista motor, los ganglios basales junto con los núcleos motores del tronco del encéfalo, forman el llamado sistema extrapiramidal, cuya función principal es la participación en los movimientos automáticos y en el control de la postura y el tono muscular. El caudado y putamen reciben aferencias de todas las partes de la corteza, y proyectan manteniendo la disposición topográfica sobre el globo pálido. Éste proyecta sobre el núcleo ventral del tálamo y de aquí a la corteza premotora que permite una monitorización y modulación fina de la actividad motora. Por otro lado, existen 2 sistemas paralelos de conexión recíproca con los núcleos dopaminérgicos, uno relacionado con la sustancia negra mesencefálica, y el otro, específicamente entre estriado ventral, donde se encuentra el núcleo accumbens y las neuronas dopaminérgicas del área tegmental ventral.”

En los últimos años existe evidencia creciente del papel del estriado en funciones relacionadas con la atención y otras funciones cognitivas, y muy especialmente con el aprendizaje. El núcleo accumbens en el estriado ventral es el centro del sistema cerebral de aprendizaje basado en la recompensa.”

Suele hablarse de un sistema cerebral de recompensa como unidad independiente, aunque se trata de circuitos directamente implicados también en el control atencional, la toma de decisiones, o el control de impulsos. Sin embargo, su estudio independiente resulta interesante debido a que estas estructuras y vías son la base del desarrollo de las conductas adictivas.” Accumbens viciado em ler. Movido a nicotina: “todas las sustancias susceptibles de inducir abuso y dependencia acaban produciendo, de forma directa o indirecta, un aumento de la transmisión dopaminérgica en el núcleo accumbens.”

La formación hipocampal es un conjunto de estructuras corticales modificadas y, de hecho, el hipocampo es un pliegue de la corteza temporal inferior sobre sí misma. El hipocampo tiene solamente un papel indirecto en la emoción. El papel más prominente adscrito al hipocampo en el hombre tiene que ver con la memoria y el aprendizaje. En la mayoría de los sujetos el hipocampo izquierdo se relaciona principalmente con el aprendizaje y la memoria verbal, mientras que el hipocampo derecho lo hace con la memoria no verbal. Sin embargo, el hipocampo no es el almacén permanente de las memorias, y así las lesiones del hipocampo hacen que el paciente sea incapaz de almacenar nuevas memorias pero no afecta a las antiguas: amnesia anterógrada.”

el giro dentado del hipocampo también produce nuevas neuronas, neurogénesis, durante la vida adulta en diferentes especies incluyendo el hombre. Esta propiedad tiene un papel importante en los trastornos afectivos. Así los estresores psicológicos reducen de manera importante la velocidad a la que se forman nuevas neuronas y pueden junto con la elevación en la producción de corticoesteroides¹ relacionada con el estrés, promover la muerte celular y de ahí la reducción en el volumen hipocampal descrita en pacientes con depresión crónica y otros trastornos relacionados con el estrés. Del mismo modo, los tratamientos antidepresivos actúan protegiendo, o revertiendo, estos cambios. Esto sucede tanto con los tratamientos farmacológicos antidepresivos, como con la estimulación electroconvulsiva que evita la reducción de la neurogénesis inducida por los corticoesteroides.”

¹ Corticóides

El hipotálamo por tanto se considera una estación entre lo cognitivo y lo visceral, comunicándose de un lado con estructuras superiores como el tálamo y la corteza límbica y de otro lado, con los sistemas ascendentes provenientes del tronco del encéfalo y de la médula espinal.”

En general los trastornos asociados con la disfunción de los circuitos córtico-prefrontales y córtico-basales-ganglio-talamo-corticales implican acción más que percepción o sensación. Estos trastornos se asocian tanto con intensificación de la acción (impulsividad) como aplanamiento de la acción (apatía). La conducta obsesivo-compulsiva se puede ver como una forma de hiperactividad. Los trastornos del humor asociados con la disfunción de estos circuitos van desde la manía a la depresión. Tanto la dopamina como la serotonina, aminas biógenas que modulan la actividad neuronal dentro de los circuitos, son importantes en la depresión”

El sistema límbico constituye también la interfase entre lo psicológico y lo somático, de forma que la actividad generada en él va a repercutir por diferentes vías en la psicomotricidad y en todas las manifestaciones somáticas de la vida emocional con su repercusión visceral a través de los sistemas nerviosos vegetativos simpático y parasimpático y del sistema neuroendocrino. El sistema límbico además constituye una estructura que, dependiendo del estado emocional del sujeto y de sus necesidades, va a filtrar la información que recibimos de forma que atendemos a unos estímulos y desatendemos a otros.”

7. NEUROTRANSMISIÓN

El descubrimiento por parte de Santiago Ramón y Cajal de las neuronas como unidades celulares y funcionales básicas del sistema nervioso planteó rápidamente el problema del intercambio de información entre ellas. Hoy en día sabemos que la transmisión de los impulsos nerviosos, de tipo eléctrico, a lo largo de los axones neuronales produce la liberación de sustancias químicas (neurotransmisores) que actúan sobre determinadas proteínas (receptores) localizadas en la membrana de otras neuronas, en un proceso que se conoce como neurotransmisión química. Además, existen sinapsis o uniones de tipo eléctrico, en las que las membranas de 2 células adyacentes están unidas físicamente mediante hemicanales formados por proteínas denominadas conexinas, aunque este tipo de sinapsis parecen estar restringidas a algunos tipos neuronales (p. ej., redes de interneuronas GABAérgicas inhibitorias).” “La integración de todas las señales, tanto excitatorias como inhibitorias, recibidas por la neurona, se realiza en la región somatodendrítica y en el segmento inicial del axon. Este proceso genera nuevos potenciales de acción que viajan a lo largo de los axones, liberando neurotransmisores que a su vez actúan sobre receptores situados en otras neuronas, excitándolas o inhibiéndolas según cual sea el neurotransmisor liberado y el receptor activado. La actividad del cerebro, y en definitiva nuestro comportamiento, es el resultado de los millones de comunicaciones de este tipo que se producen de forma simultánea en diversas áreas cerebrales.”

Las principales vías neuronales del cerebro utilizan glutamato como neurotransmisor. Entre ellas, circuitos excitadores locales y distales en el cortex, hipocampo, cerebelo y otras regiones. El glutamato es también el neurotransmisor utilizado por algunas poblaciones de células bipolares y ganglionares en la retina.”

8. NEUROBIOLOGÍA INTERPERSONAL

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9. BASES GENÉTICAS DE LOS TRASTORNOS PSIQUIÁTRICOS

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10. FACTORES DE RIESGO Y VULNERABILIDAD: LO BIOLÓGICO Y LO AMBIENTAL

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2. SEMIÓTICA Y DIAGNÓSTICO PSIQUIÁTRICO

11. EXAMEN CLÍNICO DE LOS PACIENTES PSIQUIÁTRICOS

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12. EXPLORACIÓN PSICODINÁMICA

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13. PSICOPATOLOGÍA DESCRIPTIVA

Husserl, considerado ‘padre’ de la fenomenología, postula que la principal característica de la conciencia es su intencionalidad (ser intencional es la característica básica que diferencia el fenómeno psíquico del físico, con el consiguiente componente motivacional), al tiempo que analiza la estructura de los actos mentales, y cómo estos se dirigen a objetos reales e irreales (noesis, acto de conciencia y el fenómeno al que va dirigido, esto es desear; y noema, objeto o contenido que aparece en el acto noético, esto es lo deseado). De este modo, lo que vemos no es el objeto en sí mismo, sino cómo y cuándo nos es dado en los actos intencionales. El conocimiento de ‘las esencias’ sólo es posible obviando todas las presunciones sobre la existencia de un mundo exterior, así como los aspectos sin esencia (subjetivos) del cómo el objeto es dado a nosotros. Este proceso es denominado epojé (etimológicamente del griego εποχη ‘suspensión’) por Husserl, quien años más tarde introduce el método de ‘reducción fenomenológica’ para eliminar la existencia de los objetos externos, y así centrarse en lo ideal, en la estructura esencial de la conciencia, en el ‘ego trascendental’ contrapuesto al ‘ego empírico’. Muchos autores encuentran una influencia decisiva de la fenomenología en la Psicopatología general de Jaspers, autor que por su vinculación con la obra de Husserl sostiene la posibilidad de efectuar descripciones neutrales y a-teóricas de las conductas anómalas, condición indispensable para el desarrollo de una psicopatología descriptiva.”

Atendiendo brevemente a los albores históricos de la psicopatología, los alienistas europeos de finales del XVIII fueron pioneros a la hora de acercarse con curiosidad científica a aquellos individuos (alienados) que se comportaban de un modo extraño e incomprensible para el resto de personas de la época. Cuando comenzaron a describir los fenómenos observados en sus nuevos pacientes, los alienistas se encontraron con que no disponían de un lenguaje semiológico propio que les ayudara en su tarea. Por ello recurrieron a la psicología y a la filosofía decimonónica para apoyarse en la creación, tanto de conceptos referidos a las funciones mentales ‘normales’, como secundariamente a las anomalías encontradas en los individuos objeto de su atención clínica. Esta construcción de un nuevo lenguaje semiológico se desarrolló a lo largo del siglo XIX y las primeras décadas del XX. En este tiempo, tanto la psicología como la filosofía de la mente cambiaron en varias ocasiones, por lo cual podemos afirmar que aquellos conceptos sobre los que se cimentaron los síntomas mentales ‘clásicos’ terminaron por desaparecer, al modo de las civilizaciones antiguas. Sin embargo, sorprendentemente [¡!] esos mismos síntomas mentales y muchos de los conceptos unidos a ellos siguen siendo utilizados por los psiquiatras de hoy en día, ya que aún no ha surgido ningún sistema semiológico capaz de sustituir al que con tanto esfuerzo se construyó durante siglo y medio. No podemos asegurar si este hecho obedece a la robustez del ‘modelo antiguo’, o a la insuficiencia de los psiquiatras contemporáneos para construir uno propio, nuevo y más eficaz a la hora de conceptualizar las enfermedades mentales de un modo acorde con la filosofía de la mente y con las ciencias psicológicas y biológicas modernas.” Hahaha!

La psicopatología ha seguido tradicionalmente este modelo, de forma que los signos y síntomas mentales se clasifican en función de la facultad putativamente afectada. Sin embargo, esta clasificación aunque necesaria es claramente imperfecta, ya que cada síntoma mental comparte características propias de distintas facultades mentales.”

La investigación neurobiológica ha aportado hasta el momento escasos resultados en el ámbito psicopatológico, bien sea por la utilización de una metodología deficiente, o bien por la posibilidad de que el objeto a estudio (la conducta humana) sea intrínsicamente opaca y, por tanto, no pueda ser captada su especificidad por parte de ningún lenguaje”

Todo ello nos lleva a plantearnos la necesidad de una remodelación de la psicopatología del futuro (‘psicopatología científica’). La psicopatología descriptiva actual ha avanzado poco desde sus orígenes en el siglo XIX, y si entonces el nivel de descripción se acoplaba a la perfección al de las necesidades del trabajo de la microscopía y a la anatomía macroscópica de la época, hoy en día la investigación neurobiológica debe de incluir análisis cuantitativos, estadísticos y dimensionales que distan mucho del poder resolutivo de la psicopatología tradicional.”

Así, los esquemas descriptivos psicopatológicos se obtienen forzando los distintos estados mentales de los pacientes y adecuándolos a los conocimientos de cada época, al tiempo que se ignoran y se engloban aquellos otros síntomas que por razones diversas nunca han sido descritos.”

podemos preguntarnos dónde encontramos en la clínica actual las floridas manifestaciones sintomáticas motoras de la histeria (‘conversión’) o de la esquizofrenia (‘catatonia’) que nutren innumerables páginas de los tratados psicopatológicos clásicos.”

Los conceptos de proceso, desarrollo y reacción, así como el de comprensibilidad, fueron completados y popularizados por Jaspers en su obra cumbre” “Resulta imprescindible para cualquier clínico el adecuado conocimiento de su significado contextual, así como de su repercusión académica. Pese a todo, Berrios defiende que la psicopatología descriptiva comienza a desarrollarse significativamente un siglo antes de que Jaspers publique su obra, y que tanto esta última como la fenomenología no parecen haber resultado tan cruciales para la evolución psicopatológica como muchos autores afirman.”

Jaspers, junto con autores de la talla de Weber, Dilthey, Husserl o Heidegger, considera que las ciencias ‘humanas’ necesitan una técnica diferenciada del método científico (observación más explicación) propio de las ciencias ‘naturales’.”

Para Jaspers un proceso se corresponde con la modificación duradera e incomprensible para el observador de la vida psíquica de un individuo, la cual conlleva una alteración permanente, una descomposición y transformación de su personalidad premórbida, que acaba generando algo ‘nuevo’, totalmente distinto a su vida y personalidad previas.”

14. NEUROPSICOLOGÍA

En la segunda mitad del siglo XIX, los trabajos de Broca y Wernicke sobre las afasias (síndrome neuropsicológico por antonomasia) establecieron por primera vez un sustrato neuroanatómico para disfunciones cognitivas específicas. Esta visión localizacionista, que puede rastrearse hasta las propuestas de la frenología, encaja mejor en la neurología porque las funciones más elementales pueden localizarse de manera precisa en el córtex cerebral.”

En cambio, las enfermedades psiquiátricas no se caracterizan por lesiones cerebrales focales y su psicopatología es la de las funciones cognitivas más complejas.”

una serie de estudios comparativos entre pacientes con esquizofrenia y pacientes con daño cerebral, siguiendo la distinción que se hacía antaño entre trastornos funcionales y orgánicos, coincidieron en señalar a finales de la década de 1970 que los rendimientos neuropsicológicos de ambos grupos eran indistinguibles. Este dato, junto con los signos de atrofia cortical y dilatación ventricular detectados en los estudios pioneros de neuroimagen, sentó las bases para considerar la esquizofrenia como una enfermedad cerebral.”

De manera intencional, se han excluido el lenguaje y las habilidades visuoconstructivas y la cognición social por considerar que no forma parte de la neuropsicología convencional.”

Típicamente, las tareas de recuerdo, como generar una lista de palabras o un dibujo, requieren un esfuerzo cognitivo mayor que las de reconocimiento, como decidir si una palabra o una imagen han sido presentadas o no con anterioridad.”

En realidad [la atención] es un concepto multidimensional que incluye: atención focalizada (atender la información relevante), atención sostenida o vigilancia (mantener la atención en el tiempo), atención selectiva (ignorar estímulos distractores o irrelevantes), atención alternante (flexibilidad para cambiar de una tarea a otra) y atención dividida (realizar dos tareas diferentes de manera simultánea, lo que indica la habilidad de trabajar en paralelo).”

la evaluación del cociente intelectual (CI) no es un método adecuado para estudiar funciones neurocognitivas concretas.”

Para poder hablar propiamente de deterioro cognitivo es preciso determinar el nivel de funcionamiento cognitivo previo a la enfermedad, es decir, la inteligencia premórbida del sujeto. Como poquísimas veces se dispone de evaluaciones previas para poder compararlas con el rendimiento actual, habitualmente debe recurrirse a realizar una estimación mediante diversos métodos, ninguno de los cuales es completamente satisfactorio. La estimación cualitativa tiene en cuenta los logros educativos o profesionales alcanzados por un sujeto, lo que no está exento de sesgos. Por ello, es preferible hacer una estimación cuantitativa a partir de los rendimientos en tareas verbales que se supone son relativamente resistentes (‘inteligencia cristalizada’) a los efectos de la disfunción cerebral o de la edad, como el vocabulario, la comprensión verbal o la información general.” “En cualquier caso, el mejor método para confirmar un deterioro cognitivo progresivo es la realización de evaluaciones repetidas en el tiempo. La estimación de la inteligencia premórbida tiene también utilidad para el pronóstico, ya que establece unas expectativas de recuperación, y en el pareamiento con el grupo control en investigación.”

Es muy importante poder determinar si un anciano con quejas de memoria presenta el inicio de una demencia, una depresión con manifestaciones cognitivas o un trastorno específico de la memoria.”

THE UNCANNY WRITER: “Las funciones relativamente preservadas en la esquizofrenia son los conocimientos verbales y el lenguaje en sus vertientes de comprensión y denominación.”

[En la depresión unipolar] la función cognitiva más afectada es la memoria declarativa, seguida de la fluidez verbal, la atención sostenida y la velocidad psicomotora, estando más conservadas la memoria semántica, la memoria de trabajo, el razonamiento conceptual y las habilidades visuo-perceptivas. En los trastornos afectivos, uno de los datos más consistentes es la disociación que se produce en memoria, estando alterada la explícita y conservada la implícita. Hasta fechas relativamente recientes se habían asumido las alteraciones neuropsicológicas como un mero epifenómeno de la sintomatología depresiva, es decir, transitorias y reversibles de forma paralela a la mejoría clínica. Hoy se sabe, sin embargo, que pueden persistir más allá de la remisión clínica.”

15. (…)

16. (…)

17. DIAGNÓSTICO Y CLASIFICACIÓN EN PSIQUIATRÍA

El futuro DSM-V verá la luz en 2010, siguiendo el esquema neo-kraepeliniano[,] intentará dar cabida a las tendencias desde las más biológicas hasta las formulaciones culturales.”

2. GRANDES SÍNDROMES PSIQUIÁTRICOS

El estudio de los síntomas fue fructífero en la psiquiatría del siglo XIX, que gracias a la influencia de la escuela francesa construyó, entre 1820 y 1850, bajo el impulso de la psicopatología descriptiva, las bases de una psiquiatría de orientación médica en la que el conjunto de síntomas estables permitía perfilar enfermedades de base presumiblemente biológica.

La dinámica de la escuela francesa y posteriormente la alemana, de la mano de Griesinger, culminó, hacia finales del siglo XIX, con la clasificación de Kraepelin, que se erigió en guía de las futuras clasificaciones durante el siglo XX. Sin embargo, hacia finales del siglo XX la psiquiatría americana elaboró una clasificación, el DSM III (1980), que rehuyendo la ideología y basándose solamente en la clínica, obviase los problemas ideológicos de las clasificaciones europeas. Con esta pretensión se han ido elaborando posteriores clasificaciones (DSM III-R, DSM IV, DSM IV-TR) cuyo mayor acierto ha sido mejorar notablemente la fiabilidad pero no la validez.

Toda esta situación ha cristalizado en una aceptación internacional de la clasificación americana pero un empobrecimiento de la clínica, que se ha convertido en una suma aséptica de síntomas desde los cuales se diagnostican enfermedades.

Por estas razones se impone una vuelta a la clínica refinada, que tenga en cuenta síntomas y signos, para diagnosticar enfermedades de una forma precisa. Otros factores, además de los síntomas, pueden ayudar a la construcción de patología, como los marcadores biológicos, los antecedentes familiares, el curso, el pronóstico y la respuesta terapéutica. (…) Sin embargo, la primera parte, que supone una clínica refinada, está obstaculizada por una psiquiatría que desde hace casi 30 años se ha ido relajando en torno a diagnósticos fáciles y de manual, como los DSM. Volver a adquirir la precisión clínica, la valoración de las categorías y el abandono de los espectros y la hegemonía de la ideología psiquiátrica y el ojo clínico, no es tarea fácil, si bien hay que intentarlo.”

En el capítulo 21, Manuel Camacho se enfrenta a temas clásicos en psiquiatría como la paranoia, todavía aceptada en la nueva psiquiatría, y la parafrenia, de corte clásico, actualmente en desuso, pero con aún vigencia clínica. Puede celebrarse la presencia de estos trastornos señeros de la psiquiatría en este libro.”

El conjunto de los trastornos nucleares de la ansiedad se aborda por parte de Guillem Pailhez y Antonio Bulbena en el capítulo 26. Aunque el capítulo engloba trastornos de ansiedad, fobias y crisis de angustia, se profundiza más en los trastornos de angustia que en las fobias, aún abordándose los aspectos más sobresalientes de las mismas. Asimismo, hay que celebrar que se emplee el clásico término de crisis de angustia, tan querido en la psiquiatría europea.

Siguiendo los criterios actuales de clasificación, Margarita Vives, Saray Monzón y Miguel Roca, abordan los trastornos somatomorfos y conversivos de forma sucinta y clara en el capítulo 27. Deshauciada y desmembrada la histeria como enfermedad, estos trastornos conforman un heterogéneo grupo que crea dificultades prácticas al clínico, sobre todo en el plano terapéutico.

Finalmente, Pau Pérez-Sales se enfrenta al trastorno adaptativo y reacciones de estrés en el capítulo 28, que como el autor señala es una categoría puente entre la normalidad y el trastorno. Son las clásicas reacciones frente a estresores ambientales. Por su frecuencia afectan al clínico que debe discernir entre conceder al cuadro la naturaleza de patológico o ubicarlo entre las reacciones humanas normales. Por otra parte, tal como se concreta en el propio capítulo la farmacología tiene un papel discutido y discreto frente a opciones de tipo psicológico.”

(…)

26. TRASTORNOS DE ANSIEDAD, FOBIAS Y CRISES DE ANGUSTIA

Aunque hoy día ansiedad y angustia se utilizan de forma casi indistinta, el término anxietas describe una vivencia más larvada y permanente, mientras que angustia tiene su origen en angor y remite a una mayor intensidad y a un sufrimiento ‘somático’ (angor deriva del verbo ango: oprimir, estrangular, estrechar).” (1)(referências bibliográficas ao final do capítulo)

El común denominador de las fobias es la angustia desplazada con un pretexto hacia objetos, actividades o situaciones específicas que son vividas por el sujeto como temores irracionales, persistentes, exagerados y patológicos.”

Según Ey(4), la angustia patológica se distingue por:

a. Ser anacrónica, pues lleva a revivir situaciones pasadas.

b. Ser fantasmagórica, pues su génesis no es el mundo real, sino la representación imaginaria de un conflicto inconsciente. [eu vulnerável vs. meu pai no auge]

c. Ser estereotipada o repetitiva por cuanto está afincada en el carácter del sujeto.”

El término neurosis, acuñado por primera vez por el médico escocés Cullen en 1769, facilita la comprensión de una conexión estrecha entre distintas formas clínicas con origen fundamentalmente psicológico, sin olvidar su asociación a determinados factores morfofisiológicos. Con la finalidad de centrarse en criterios clínicos y descriptivos, la psiquiatría norteamericana prescindió del término neurosis a partir de la aparición del DSM-III en 1980(5), aunque su uso se mantiene en el ámbito de la psiquiatría europea. En el actual DSM-IV-TR(6) las neurosis quedan recogidas en 3 apartados de trastornos: los de ansiedad, los somatomorfos y los disociativos.

Siguiendo a Vallejo(3), en las neurosis, la distinción sano/enfermo es más tenue, requieren de un abordaje de tipo más dimensional que categorial y posiblemente comparten un temperamento nuclear ansioso. En el campo de la investigación biosomática de las neurosis, diversos estudios clásicos y actuales confirman la presencia de factores morfofisiológicos particulares que acompañan a la personalidad neurótica. Entre otros, el hábito corporal asténico o ectomorfo, la disfunción del sistema nervioso vegetativo y la mayor elasticidad tisular.”

En el DSM-III (1980) y siguiendo los trabajos de Klein en la década de los 60 [que idade tinha Klein quando publicou esses trabalhos?],¹ se distinguen las categorías de trastorno por crisis de angustia y trastorno de ansiedad generalizada.(7)” Que lástima que dependamos do conhecimento original de psicanalistas a este respeito – ou seja, estamos no escuro!

¹ O Wikipédia diz que ela morreu em 22/9/60, ora! Klein e anos 60 são dois conjuntos que não intersecionam!

En la CIE-108, las neurosis se mantienen agrupadas bajo el epígrafe ‘trastornos neuróticos, secundarios a situaciones estresantes y somatomorfos’ que recoge hasta 7 categorías:

a. Trastornos fóbicos

b. Otros trastornos de ansiedad

c. Trastorno obsesivo-compulsivo

d. Reacción a estrés grave y trastorno de adaptación

e. Trastornos disociativos

f. Trastornos somatomorfos

g. Otros trastornos neuróticos

A diferencia del DSM, en la CIE-10 aparece antes la distinción entre los trastornos de ansiedad propiamente dichos (pánico, ansiedad generalizada, trastorno mixto ansioso-depresivo) y las fobias (agorafobia, fobia social y fobia específica).”

Quase 1 entre 10 pessoas (nos países de primeiro mundo, pelo menos) possui algum tipo de fobia específica.

En general, las mujeres son 2 veces más proclives a padecer trastorno de angustia y de ansiedad generalizada que los hombres. La edad de inicio de ambos trastornos se sitúa entorno a los 20 y los 40 años, y la duración media de los síntomas antes de recibir un tratamiento, en el caso del trastorno de angustia, es de 5 años. Cabe recordar que la mayoría de cuadros de gran ansiedad de inicio en edades avanzadas son en realidad depresiones ansiosas(7).”

En la población infantil son frecuentes los temores (90%) con una incidencia manifiesta a los 3 años, y la mayor parte van disminuyendo hasta desaparecer en la adolescencia. El promedio de edad de inicio de la fobia social se sitúa entre la adolescencia y el principio de la tercera década de la vida, y es muy raro que lo haga a partir de los 25 años.”

FACTORES BIOLÓGICOS DEL TRASTORNO DE ANSIEDAD GENERALIZADA(13)

Los estudios sobre una posible base familiar y genética en el trastorno de ansiedad generalizada muestran resultados poco definitorios. Aunque existen estudios que avalan un patrón familiar, los estudios gemelares han arrojado resultados contradictorios. En conclusión, la diátesis genética para el trastorno de ansiedad generalizada no basta para explicar la aparición de todos los casos.”

Nos estudos neuroquímicos, para variar, não sabem porra nenhuma!

El eje hipotálamo-hipófiso-suprarrenal (HHS) parece estar hiperactivado en el trastorno de ansiedad generalizada, y probablemente contribuye a perpetuar el trastorno.” “Otro sistema evaluado es el eje tiroideo, aunque con resultados menos claros.”

Se han implicado de forma clara con estados de ansiedad las siguientes estructuras: amígdala, hipocampo, corteza prefrontal, locus coeruleus y la sustancia gris perisilviana. Sin embargo, destaca el núcleo central de la amígdala como regulador de la respuesta vegetativa al miedo. Recibe aferencias sensoriales del prosencéfalo y envía eferencias a la sustancia gris perisilviana (respuesta de huida, bloqueo o defensa), al núcleo motor dorsal del vago (activación cardíaca), al núcleo parabraquial (activación respiratoria), al núcleo paraventricular del hipotálamo, locus coeruleus y a la región tegmentaria ventral (responsables de la activación del eje HHS).”

El trastorno de ansiedad generalizada se ha asociado con alteraciones de la función respiratoria y cardiovascular, respaldando la idea que la preocupación crónica se acompaña de una disfunción del sistema nervioso vegetativo (tensión arterial sistólica más baja después de levantarse, acortamiento del intervalo entre latidos en el ECG, etc.). Destaca el perfil EEG del sueño con un descenso de la fase de ondas lentas (sobre todo de la fase IV) y los cambios en las ondas alfa de bajo voltaje, aunque sin ser estos cambios específicos de este trastorno.”

TRASTORNO DE ANGUSTIA(14)

Es ya conocida la naturaleza hereditaria del trastorno de angustia. Las últimas investigaciones para hallar las anomalías genéticas implicadas tratan de identificar un endofenotipo que reuniría el trastorno de angustia, un biotipo asténico o ectomorfo(15) y las enfermedades médicas con las que se asocia muy a menudo.”

Posteriormente se ha comprendido el PVM como una entidad propia del síndrome de hiperlaxitud articular (SHA), un trastorno hereditario benigno asociado a un incremento de la flexibilidad del tejido conectivo. El SHA ha resultado un potente marcador biológico subyacente a los trastornos de ansiedad, en especial al espectro crisis de angustia/fobias, tanto en estudios epidemiológicos, como en población general y en estudios clínicos con pacientes(16)(17)(18). La tesis de la autoinmunidad en el trastorno de angustia se apoya en la observación de un aumento de los anticuerpos antiserotonínicos y de los anticuerpos antiidiotípicos dirigidos contra los receptores de serotonina. Entre otras asociaciones frecuentes con el trastorno de angustia (además del SHA) se encuentran la fibromialgia, el síndrome de fatiga crónica, el síndrome del colon irritable, el hipotiroidismo, el asma, la rinitis alérgica, la sinusitis y una disfunción del sistema nervioso vegetativo.”

Según este modelo, los síntomas neuróticos son patrones aprendidos de conducta inadaptativos que se originan por los mismos mecanismos de aprendizaje (condicionamiento) que la conducta normal. Después de producido el condicionamiento, en un segundo estadio, por un proceso de condicionamiento operante o instrumental, se fija y se refuerza la conducta neurótica al reducir ésta la ansiedad. A pesar de su capacidad explicativa para algunos cuadros neuróticos (manejo de la ansiedad anticipatoria y conductas de evitación agorafóbicas), las teorías conductistas se muestran insuficientes para aclarar la etiopatogenia del trastorno de ansiedad generalizada o la emergencia de la crisis de angustia espontánea.

La valoración cognitiva permanente de los estímulos externos como amenazantes y la infravaloración de las capacidades personales está en la base de la génesis de la angustia.”

En el trastorno de ansiedad generalizada, se han señalado 2 tipos de cogniciones, la primera en relación con preocupaciones por estímulos externos e internos (sensaciones corporales) y la segunda, en relación con una sobrevaloración de la probabilidad o la intensidad de los acontecimientos amenazantes, lo que mantiene el trastorno.”

Existen autores que defienden que estos trastornos son en realidad una constelación de rasgos de personalidad desadaptativos, una personalidad alterada en su desarrollo caracterial y en su infraestructura neurovegetativa o temperamental (estructura y funcionamiento innato del sujeto; ver constitución y ansiedad). El rasgo de ansiedad puede definirse como una disposición bastante estable para responder con un estado de ansiedad a una amplia gama de situaciones.(22) Además el rasgo de ansiedad se asocia a una tendencia a la preocupación y a una estimación alta del peligro. Así pues, el trastorno de ansiedad generalizada podría ser el resultado de un estilo de afrontamiento caracterizado por hiperactivación y preocupación ante el más mínimo estrés(13).” Imagina a merda: ter um pai tirânico e depois encarar a reascensão do fascimo!

Cloninger ha propuesto un modelo para explicar la ansiedad crónica mediante la combinación de rasgos temperamentales. En concreto, propone que un grado extremadamente alto (sobrevaloración del riesgo) o bajo (alto riesgo de experiencias traumáticas) de evitación del daño predispone a la ansiedad crónica.” Não dar muita fé a esse autor, pelo que vi nos capítulos precedentes…

Generalmente, el enfermo pone los elementos somáticos en primer plano.”

Para el diagnóstico se requieren 4 de estos síntomas, aunque pueden existir formas mitigadas con menos síntomas (crisis sintomáticas limitadas) o crisis sin componente psíquico (non-panic attacks), motivo que puede favorecer la elevada frecuencia de consultas médicas no-psiquiátricas entre los pacientes con crisis de angustia en los servicios ambulatorios o de urgencias.”

Desde su primera descripción en el DSM-III, el trastorno de ansiedad generalizada fue considerado una categoría residual. Actualmente, diversos autores han criticado su estatus nosológico y se propone, para los siguientes DSM, el uso de una concepción diagnóstica dimensional(3)(24).”

OTORRINO MAS É SÉRIO: “La tensión muscular ocasiona bastantes cefaleas y dolores musculares crónicos. Si el cuadro se prolonga, se pueden sobreañadir síntomas depresivos como tristeza, apatía, astenia intensa, desinterés, pérdida del impulso vital, etc. Como en el trastorno de angustia, aunque sin una manifestación crítica de los síntomas, en la ansiedad generalizada los síntomas vegetativos son variados y pueden remedar a una serie de enfermedades médicas, de modo que suelen ser atendidos por especialistas ajenos a la salud mental.(24)”

El curso del trastorno de angustia suele ser crónico con fluctuaciones. Un 50% de los pacientes no vuelve a presentar crisis de angustia, un 30-40% presentan formas mitigadas y un 10-20% no remiten.(7) La respuesta al tratamiento es rápida, pero son frecuentes las recaídas tras el abandono temprano de la medicación.(26)”

Si no se trata adecuadamente, el cuadro puede empeorar con conductas agorafóbicas y terminar en un estado de desmoralización, hipocondría y abuso de tranquilizantes o alcohol.

La evolución del trastorno de ansiedad generalizada también es crónica con fluctuaciones. Comienza hacia los 20 años, pero con peor evolución en pacientes con manifestaciones antes de los 10 años por su efecto en el carácter. La remisión prolongada sin tratamiento se da pocas veces. La evolución a largo plazo varía. La intensidad depende de diversos factores, entre ellos la comorbilidad, el apoyo ambiental, el temperamento y la duración de la enfermedad.”

Sintomas secundários ligados marginalmente a outros distúrbios:

Pueden aparecer crisis pero ante exposición o pensamientos obsesivos, las preocupaciones no son por problemas diarios de la vida real” (TOC) – Sempre as insônias se referem a acontecimentos remotos do passado.

Crisis o síntomas de angustia centrados en situaciones sociales” (fobia social)

Crisis o síntomas de angustia ante objetos o situaciones determinadas” (fobia específica) – PAIFOBIA!

Crisis o síntomas de angustia ante recuerdos del desencadenante” (transtorno de estresse pós-traumático)

crisis infrecuentes en melancolía” (depressão)

Otros fármacos utilizados con más o menos eficacia son el antidepresivo de acción dual venlafaxina, los eutimizantes gabapentina y ácido valproico, y los neurolépticos atípicos olanzapina y quetiapina a dosis bajas.

Junto a la utilización de la terapéutica farmacológica ansiolítica para la estabilización sintomática debe estudiarse siempre la posibilidad de iniciar una psicoterapia psicoanalítica o cognitivo-conductual.”

ANSIEDADE GENERALIZADA – PROFILAXIA (29)

Los antidepresivos también se han utilizado para el tratamiento del trastorno de ansiedad generalizada. Cualquier ISRS, los ISRN o los ADT pueden ser útiles para el tratamiento a largo plazo de la angustia crónica. En la angustia a corto plazo pueden utilizarse las benzodiazepinas de vida media larga como el clonazepam (0,5-2 mg/día), el cloracepato dipotásico (5-15 mg/día) o el diazepam (10-30 mg/día). Otras posibilidades de tratamiento avaladas por ensayos clínicos son la buspirona (agonista 5-HT1A) a dosis de 20-40 mg/día, la hidroxizina (antagonista H1) a dosis de 50 mg/día o la pregabalina (modulador de la hiperexcitación neuronal por unión a los canales calcio dependientes) a dosis de 150-600 mg/día.”

BIBLIOGRAFIA:

(1) Vallejo J, Sánchez Planell L, Díez C, Menchón JM. Editores. La neurosis de angustia en el siglo XXI. Barcelona: Ars Medica; 2004.

(3) Vallejo J. Editor. Introducción a la psicopatología y la psiquiatría. 5ª ed. Barcelona: Masson; 2002.

(4) Ey H, Bernard P, Brisset C. Tratado de psiquiatría. 8ª ed. Barcelona: Masson; 1996.

(5) = (1)

(6) DSMerda

(7) = (3)

(13) Stein DJ, Hollander E. Editores. Tratado de los trastornos de ansiedad. Barcelona: Ars Medica; 2004.

(14) = (13)

(15) Bulbena A, Martin-Santos R, Porta M, et al. ‘Somatotype in panic patients.’ Anxiety 1996; 2(2): 80-5.

(16) Bulbena A, Agullo A, Pailhez G, et al. Is joint hypermobility related to anxiety in a nonclinical population also?Psychosomatics 2004; 45(5): 432-7.

(17) Bulbena A, Gago J, Martín-Santos R, et al. ‘Anxiety Disorder & Joint Laxity. A definitive link.Neurology, Psychiatry and Brain Research 2004; 11: 137-40.

(18) Martín-Santos R, Bulbena A, Porta M, et al. Association between the joint hypermobility syndrome and panic disorder.’ Am J Psychiatry 1998; 155: 1578-83.

(22) Spielberger CD. Editor. Anxiety: current trends in theory and research. New York: Academic Press; 1972

(24) = (13)

(26) Kaplan HI, Sadock BJ, Grebb JA. Sinopsis de psiquiatría. 7ª ed. Buenos Aires: Editorial Médica Panamericana; 1996.

(29) = (13)

27. TRASTORNOS SOMATOMORFOS Y CONVERSIVOS

Los trastornos somatomorfos, sumergidos en la actualidad en una amplia controversia nosológica, suponen una importante repercusión en el funcionamiento psicosocial de los pacientes así como una clara incidencia en el sistema asistencial. Se trata de cuadros sumamente problemáticos en su manejo por parte de los clínicos, especialmente los médicos de atención primaria, que ven cómo una parte muy importante de su tiempo es consumido por estos pacientes, sin grandes estrategias terapéuticas disponibles. Su característica principal es la presencia de síntomas físicos que sugieren una enfermedad médica, pero que no se explican completamente por ella, causan discapacidad ocupacional o social y no son intencionados.

Entre ellos se incluyen, si seguimos las actuales nosologías:

Trastorno de somatización

Trastorno somatomorfo indiferenciado

Trastorno de conversión

Trastorno por dolor

Hipocondría

Trastorno dismórfico corporal

Trastorno somatomorfo no especificado”

El término trastorno somatomorfo tiene grandes dificultades conceptuales y de validez, hasta el punto que podría ser una de las categorías diagnósticas que sufra mayores cambios en las futuras clasificaciones. Se utilizó por primera vez en el DSM-III como un conjunto de ‘síntomas físicos no explicables por enfermedades o mecanismos fisiopatológicos conocidos y por la fuerte presunción de que estaban vinculados a factores psicológicos’. Se pretendía así, en falso, cerrar el círculo en torno a un grupo de pacientes con un diagnóstico confuso, como consecuencia de la supresión del epígrafe de ‘neurosis’. Posteriormente fue incluido en la CIE-10 como un trastorno caracterizado por ‘la presencia de síntomas somáticos con demandas persistentes de exploraciones clínicas, a pesar de los resultados negativos repetidos en las mismas y de las continuas garantías de los médicos de que los síntomas no tienen justificación somática’.

El antecedente histórico de los trastornos somatomorfos se halla en el concepto de histeria, que perduró como un trastorno cuya causa residía en el útero hasta la época del Renacimiento. Paracelso, Thomas Willis, Sydenham, Mesmel y Pinel fueron los primeros en asociar la histeria a factores psicológicos y eliminaron la relación que existía entre este trastorno y el útero. En concreto, el trastorno de somatización tiene su origen en el ‘síndrome de Briquet. A mediados del siglo XIX, Briquet separó la somatización de la conversión a partir de una descripción de un síndrome de múltiples síntomas motores y sensoriales en su Traité clinique et thérapeutique de l’hystérie. En 1911, Stekel utilizó por primera vez el término ‘somatización’ y lo definió como ‘el proceso por el cual los conflictos neuróticos pueden presentarse como un trastorno físico’.(10) En la década de los 70 se acuñó el término somatoform disorder en los Research Diagnostic Criteria (RCD).”

Los 2 sistemas clasificatorios más utilizados actualmente, DSM-IV y CIE-10, consideran la presencia de síntomas somáticos para realizar el diagnóstico de los trastornos somatomorfos, excluyendo cualquier tipo de causalidad, excepto para el trastorno conversivo.”

la categoría neurastenia, no contemplada en el DSM-IV.”

a) “TRASTORNO DE SOMATIZACIÓN (CIE-10, DSM-IV-TR)

La característica principal de este trastorno es la presencia de múltiples y recurrentes síntomas somáticos, no completamente explicados por causas orgánicas ni por los efectos directos de una sustancia, que conducen al paciente a una incesante demanda de atención de los servicios de atención primaria y especializados (en la terminología anglosajona, doctor shopping). Puede existir afectación de cualquier órgano o sistema, aunque son más frecuentes los problemas gastrointestinales (dolor abdominal, náuseas, vómitos, regurgitación, meteorismo, [acúmulo de gases] etc.) y de la piel (prurito, quemazón, hormigueo, entumecimiento, dolorimiento, enrojecimiento, etc.), así como síntomas de la esfera sexual y menstruales.”

El trastorno de somatización suele presentarse en la adolescencia y generalmente se diagnostica antes de los 25 años de edad.”

El curso tiende a ser crónico y se presenta de manera fluctuante, con periodos de remisión no superiores a un año de duración y sucesivas recaídas.”

Diversos trabajos señalan índices diferentes de prevalencia, que oscilan entre un 0,2 y un 2% en mujeres y menos de un 0,2% en hombres.”

Existen dificultades para diferenciar los trastornos de ansiedad con el trastorno de somatización.” “A diferencia de estos pacientes, en el trastorno de somatización las quejas aparecen de forma independiente al estado de ánimo del individuo.” “Finalmente, el trastorno de somatización se distingue del trastorno facticio y de simulación por la falta de intencionalidad en la producción de los síntomas.”

b) TRASTORNO SOMATOMORFO INDIFERENCIADO “Está relacionado con otros trastornos psiquiátricos entre los que destacan los trastornos depresivos y de ansiedad (50% de los pacientes con este trastorno frente al 7% de la población general). El curso de estos síntomas tiende a ser crónico y recurrente, aunque hay pocos estudios al respecto. Provoca deterioro laboral, discapacidad y un consumo inadecuado de recursos, aunque en menor medida que el trastorno de somatización.”

El (c) diagnóstico de trastorno por dolor debe efectuarse únicamente en el caso de que el dolor sea centro de atención clínica independiente y altere significativamente la vida del individuo.”

Este trastorno [(d) hipocondría] presenta un alto índice de comorbilidad psiquiátrica: ansiedad generalizada, distimia, depresión mayor, trastorno de somatización y trastorno de angustia.”

Las preocupaciones hipocondríacas no son creencias delirantes, a diferencia de lo que ocurre en los trastornos psicóticos.”

Durante los siglos XVII y XVIII una gran variedad de trastornos tales como la hipocondríasis, la histeria o la dispepsia se incluyeron dentro del término general ‘trastornos nerviosos’, creado por Briefe en 1603 y que fue reemplazado más tarde por el de ‘temperamento nervioso’.”

Briquet fue el primero en señalar la asociación entre el trastorno de conversión y los trastornos del sistema nervioso central, y en sugerir que la causa de dicho trastorno se encontraba en el estrés y situaciones ambientales, que afectan las áreas ‘afectivas’ del cerebro de una persona con una hipersensibilidad premórbida.”

Janet concebía la histeria como ‘una forma de depresión mental caracterizada por la limitación del campo de la conciencia y por la tendencia a la disociación y la emancipación de los sistemas de ideas y funciones que constituyen la personalidad’, que podía afectar a un amplio conjunto de funciones mentales y físicas en personas temperamentalmente predispuestas, después de experimentar situaciones estresantes o traumáticas.(29)

La clasificación del trastorno de conversión ha sido siempre un hecho controvertido. Buena muestra de ello es el hecho de que desde los años 50 haya sufrido diversas variaciones en su nomenclatura, y que en la actualidad se adscriba a categorías diferentes en función del modelo clasificatorio.”

A pesar de la impresión generalizada de que la prevalencia de este trastorno en los países desarrollados está en declive, existen pocos estudios al respecto. En población general las cifras varían en función de los estudios, desde el 11 al 500/100.000. [0,0001% a 0,005%] La distribución por género indica que las mujeres adultas presentan el trastorno de conversión de 2 a 5 veces más que los hombres.”

Los síntomas de parálisis, afonía y ceguera ofrecen mejor pronóstico que los temblores y las convulsiones.” “La probabilidad de que se produzca una remisión espontánea a los 2 años se estima en torno al 50%. Otros estudios indican tasas de remisión del 60 al 75% en los primeros 5 años desde el inicio de los síntomas.”

A diferencia de lo que ocurre con las crisis epilépticas neurológicas, a menudo tras una crisis conversiva el paciente será capaz de recordar lo que ocurría a su alrededor durante las convulsiones. El diagnóstico de un trastorno de origen no orgánico se establece a partir de hallazgos inconsistentes, incoherencia entre los hallazgos físicos y funcionales e inconsistencia entre los síntomas y los sistemas anatómico o fisiológico.”

Algunos estudios afirman que entre el 25 y el 50% de los pacientes diagnosticados de trastorno de conversión recibirán posteriormente un diagnóstico de enfermedad médica que explica la presencia de los síntomas. Este porcentaje es mucho menor en publicaciones recientes, probablemente debido al mayor conocimiento que en la actualidad existe sobre el trastorno y a los grandes avances en las técnicas diagnósticas.”

Prácticamente la mitad de los ensayos incluían pacientes con cefaleas y otros 18 con el diagnóstico de fibromialgia.”

Con fármacos antidepresivos existen resultados positivos con fluoxetina, hierba de San Juan, opipramol y venlafaxina en lo que respecta a determinados síntomas somáticos como el dolor.” “los resultados son malos en los estudios que incluyen tratamientos alternativos como la hipnosis.”

BIBLIOGRAFIA:

(10) Stekel W. Die sprache des traumes. Wiesbaden: Bergmann, 1911.

(29) Hare E. The history of “nervous disorders” from 1600 to 1840, and a comparison with modern views. Br J Psychiatry, 1991.

28. TRASTORNOS ADAPTATIVOS Y REACCIONES DE ESTRÉS

La categoría de ‘trastorno adaptativo’ y las denominadas ‘reacciones de estrés’ constituyen entidades únicas dentro de la nosología psiquiátrica, por cuanto son las únicas que refieren a un agente etiológico y no a la presencia de un síndrome. Recogen las múltiples reacciones posibles ante situaciones de cambio, amenaza o pérdida frente a las que no es posible adaptarse o cuando las personas se sienten subjetivamente sobrepasadas por los acontecimientos. Se trata, en este sentido, de lo más cercano a una ‘patología de la vida cotidiana’ o patología psicosocial.”

El trastorno adaptativo es uno de los diagnósticos limítrofes entre patología y normalidad más frecuentemente usados por el personal de salud.”

Desde un modelo ‘psicologizante’ se ha considerado la necesidad de reconocer y legitimar las dificultades de adaptación al medio para poder brindar desde el sistema de salud la atención adecuada. El máximo exponente son las patologías psicosociales contemporáneas (acoso laboral (mobbing), acoso escolar (bullying), síndrome de estrés laboral (burnout), síndromes de cansancio crónico etc.). Desde un modelo ‘salutógeno’ del ser humano se entiende por el contrario que existe una tendencia social contemporánea a una intolerancia a las emociones negativas y una medicalización de la vida cotidiana ante cualquier forma de sufrimiento. Así, se convertirían en problemas psiquiátricos la ausencia de una vida gratificante, las disputas con las personas del entorno o los problemas laborales, convirtiendo en enfermedad (y por tanto en problema individual a dirimir en la intimidad de la consulta) lo que antaño eran las diferencias habituales con el grupo natural, los reveses esperables de la vida o los problemas sindicales o colectivos.” Senhores salutogênicos: se não for via médica, por que via se dará essa luta por uma vida menos pior?

El trastorno adaptativo no ha sido incluido en ninguno de los grandes estudios de epidemiología psiquiátrica.”

Reacción a estrés agudo (CIE-10) / Trastorno por estrés agudo REA (DSM-IV-TR). La CIE-10 defiende una tesis ‘normalizadora’ en la que conceptualiza estas reacciones como un estado transitorio tras un hecho amenazante extremo, que dura unos días (a lo sumo 2-3) y en los que lo que predominaría sería un estado de shock o aturdimiento. El DSM-IV-TR en cambio, habla de trastorno y no de reacción, prolonga su posible duración hasta las 4 semanas, sólo incluye las amenazas de carácter físico y no considera las psicológicas (lo que resulta incoherente con que si acepte el estrés vicario, es decir, el producido por oír hablar o contemplar hechos que suceden en otros)” “síntomas de reexperimentación, evitación acusada de recuerdos del trauma y experimentar malestar significativo o deterioro en el funcionamiento.”

La epidemiología muestra, además, que no todos los hechos traumáticos tienen un impacto similar. Mientras se estima que entre un 5-10% de personas desarrollan secuelas a un accidente de tráfico con riesgo vital, en el abuso sexual con violencia física esta se eleva al 35 al 50% (según estudios) y hasta al 50% a 65% si ésta se produce por un familiar o amigo cercano.”

aquellos de quienes más cabe esperar protección y afecto son precisamente quienes se constituyen en agresores. ¿Cómo confiar en otros? Por otro lado, ¿quién y cómo soy que ni de mi familia merezco afecto?”

4. PERSONALIDAD, CONTROL DE IMPULSOS Y RITMOS BIOLÓGICOS

29. TRASTORNOS DE LA PERSONALIDAD

A estas alturas aún tenemos más preguntas que respuestas en lo relativo a los trastornos de la personalidad”

Entendemos por personalidad el conjunto de formas de comportarse, sentir, pensar, y en suma, de relacionarse, de un individuo concreto.”

Por otro lado, hay trastornos como el borderline que: por su complejidad, la diferencia entre el DSM y la CIE en su clasificación y las conexiones que se han encontrado con el trastorno bipolar y su espectro, condicionarán en donde situarle. Los trastornos del espectro esquizoide tienen muchas similitudes fenomenológicas, neurobiológicas y de agregación familiar con el grupo de las esquizofrenias y por tanto su posicionamiento en un eje u otro será revisado, como lo ha sido en la CIE-10 el trastorno esquizotípico. Los trastornos fóbicos sociales y la personalidad evitativa tienen a su vez similitudes que requerirán un replanteamiento.”

Los datos que tenemos en la actualidad, hacen que la problemática de los trastornos de personalidad sea un asunto de una gravedad evidente, por la seriedad de los mismos, así como por su alta prevalencia en la población general.”

la prevalencia de los trastornos de personalidad en la población general oscila entre un 4,4% y un 22,3%, con una tasa media estimada de prevalencia en torno al 11,3% de la población.”

El trastorno paranoide de la personalidad es más frecuente en hombres de clase social baja y más común en familiares de primer grado de pacientes con esquizofrenia. Asimismo, en las muestras forenses es frecuente encontrar el trastorno paranoide con comorbilidad con el trastorno antisocial vinculado a crímenes violentos.”

El trastorno esquizoide de la personalidad es poco común en entornos clínicos pero es más prevalente en poblaciones carcelarias, donde a su vez es más frecuente en hombres.” “se ha sugerido que esta categoría diagnostica debe de ser clasificada en un futuro como un trastorno del desarrollo, más que como un trastorno de la personalidad.”

El trastorno narcisista de la personalidad presenta una baja prevalencia en la población general y es diagnosticado con más frecuencia en varones, encontrándose con una mayor prevalencia en muestras forenses donde se encuentra una alta comorbilidad con el trastorno antisocial de la personalidad.”

El trastorno histriónico de la personalidad, en las investigaciones iniciales, se encontró que la prevalencia era más común en mujeres. Los datos más recientes indican que la ratio según género es similar. Es más común en personas divorciadas y separadas, se encuentra asociado a conductas parasuicidas y es más frecuente en mujeres con trastornos de somatización y en hombres con uso inadecuado de sustancias.”

En relación al trastorno límite de la personalidad, es más frecuente en grupos jóvenes de edad, entre 19 y 35 años y en mujeres. Está asociado con una pobre adaptación sociolaboral, es más común en áreas urbanas y existe una comorbilidad con el abuso de sustancias, fobia, depresión, y trastornos de ansiedad, presentando una tasa de suicidios en ocasiones hasta el 10%.”

El trastorno antisocial de la personalidad tiene una prevalencia media en las sociedades occidentales del 2 al 3% y es 4 o 5 veces más frecuente en hombres que en mujeres. La prevalencia más alta se sitúa en la orquilla de edad entre 22 y 44 años y los trastornos antisociales están asociados con abandonos prematuros de la escolarización y mayor mortalidad en la adolescencia.”

En relación al trastorno evitativo de la personalidad, en muestras clínicas, este trastorno es frecuentemente comórbido con el trastorno dependiente de la personalidad y con los trastornos fóbicos. Específicamente, la fobia social que tiene características clínicas muy similares. Esta similitud con la fobia social hace que la separación entre el eje 1 y el eje 2 en este trastorno específico sea muy cuestionada.”

El trastorno obsesivo compulsivo de la personalidad es más común en varones blancos, con un nivel educacional alto, casados y con empleo.”

La crítica a los modelos categoriales es mayoritaria entre los investigadores y el descontento de los profesionales con el actual sistema clasificatorio llega a un 74%.”

Las síntesis de los modelos categoriales y dimensionales tendrá consecuencias en los futuros sistemas de clasificación”

O PARANÓIDE: “él tiende a verse como una persona honrada y noble, incluso inocente, con facilidad para dejarse engañar o manipular, pudiendo hablar de sí mismo como vulnerable; por el contrario, describe a los demás como sujetos amenazantes, invasivos, que realizan comentarios alusivos a él con suma frecuencia, considerándoles individuos entrometidos, insultantes, que con frecuencia tienden a discriminarle y manipularle, lo que le hace tener esas conductas defensivas. § En la entrevista con el paciente paranoide, éste se muestra defensor de las argumentaciones racionales, de los datos objetivos, pero obviamente, desde su punto de vista. Sus argumentaciones son muy repetitivas y sistemáticamente se sitúa como víctima de las situaciones.” “Alberga rencores durante mucho tiempo, por ejemplo, no olvida los insultos, injurias o desprecios.” “Percibe ataques a su persona o a su reputación que no son aparentes para los demás y está predispuesto a reaccionar con ira o a contraatacar.”

Lo diferencia del trastorno esquizotípico el que éste presenta un pensamiento mágico, experiencias perceptivas peculiares, extrañeza en el pensamiento y en el lenguaje. A diferencia del trastorno límite de personalidad, el paranoide no presenta la marcada inestabilidad emocional que presenta el trastorno límite de la personalidad (TLP). El trastorno paranoide de la personalidad y el evitativo, comparten cierta suspicacia hacia los demás, pero este último la tiene por el temor al rechazo. El trastorno narcisista puede presentar ideación autoreferencial y cierta suspicacia, ya que siente la necesidad de ocultar sus imperfecciones, complejos e inseguridades, y teme ser descubierto por los demás.”

Trastorno esquizoide de la personalidad

Este trastorno, se presenta con un patrón de desconexión del sujeto de las relaciones sociales y fundamentalmente interpersonales, con un serio déficit de su capacidad de expresión emocional. Estos pacientes tienden a verse a sí mismos como autosuficientes y tener la sensación de estar separados del mundo, por lo cual desarrollan un comportamiento con una marcada tendencia a la soledad. Ven a los demás como sujetos a los que no necesitan, de los que es mejor mantenerse aislado y viéndoles específicamente como potenciales intrusos que vienen a perturbar su precaria estabilidad emocional.”

brincadeira do check (S/N)

No desea ni disfruta de las relaciones personales, incluido el formar parte de una familia.” S

Escoge casi siempre actividades solitarias.” S

Tiene escaso o ningún interés en tener experiencias sexuales con otra persona.” S

Disfruta con pocas actividades o con ninguna.” S

No tiene amigos íntimos o personas de confianza, aparte de los familiares de primer grado.” S

Se muestra indiferente a los halagos o las críticas de los demás.” (N)

Muestra frialdad emocional, distanciamiento o aplanamiento de la afectividad.” (N)

El trastorno esquizoide de la personalidad se diferencia de la esquizofrenia por no compartir, entre otras cosas, la presencia de antecedentes familiares ni trastornos formales del pensamiento.”

hay un aislamiento social voluntario.”

La visión que los pacientes esquizotípicos tienen de sí mismos, es de sentirse especiales y pueden asumir el que son sujetos raros con comportamientos que no son compartidos con las demás personas, sin que esto les preocupe mucho, por su interés de mantenerse distante de ellos. Tienden a ver a los demás como sujetos normativos, robots, que no tiene ningún interés mantener (sic) ninguna relación con ellos.”

Creencias raras o pensamiento mágico que influye en el comportamiento y no es consistente con las normas subculturales (p. ej., superstición, creer en la clarividencia, telepatía o ‘sexto sentido’; en niños y adolescentes, fantasías o preocupaciones extrañas).” Hahaha

Experiencias perceptivas inhabituales, incluidas las ilusiones corporales.”

Ansiedad social excesiva que no disminuye con la familiarización y que tiende a asociarse con los temores paranoides más que con juicios negativos sobre uno mismo.”

Trastorno antisocial de la personalidad

Presentan estos pacientes, un patrón persistente de abuso, violación de los derechos y utilización del prójimo.” “Con frecuencia la entrevista con pacientes con este diagnóstico puede resultar fácil, pero esconde una manipulación sistemática del entrevistador para satisfacer los intereses, los que fueren, del entrevistado.”

Trastorno de la personalidad por evitación

Estos pacientes presentan un patrón persistente de evitación social, con sentimientos subjetivos de incompetencia y excesiva hipersensibilidad a la evaluación negativa por parte del otro. Estos pacientes tienden a verse a sí mismos como muy vulnerables ante conductas despectivas por parte de los demás y especialmente cuando son objeto de rechazo. Se ven a sí mismos como incompetentes y con serias dificultades para el desempeño de conductas sociales adaptadas. Tienden a ver a los demás como personas exigentes, críticas, orgullosas y amenazantes, en el sentido de que pueden ser aquellos que realicen el rechazo.”

Los estudios longitudinales sobre los trastornos de la personalidad tienen un antes y un después entre la literatura previa a 1999 y la literatura del siglo XXI. Los estudios anteriores al año 2000 presentan datos que apuntan hacia la estabilidad a lo largo del tiempo de los trastornos de personalidad, con alguna excepción puntual. A partir de 1999, coinciden varios estudios longitudinales muy importantes en EE.UU que constatan que la estabilidad de los trastornos de personalidad no es como se planteaba.”

Una limitación de espacio como la de este capítulo, deja en el tintero mucha información relevante. Aquellos interesados en profundizar en la temática de los trastornos de la personalidad, les será útil las siguientes lecturas recomendadas:

Miguel Roca Bennasar. Trastornos de la personalidad. Ed. Ars Medica 2003.

Oldham JM, Skodol AE, Bender, DS. Tratado de los trastornos de la personalidad. Ed. Elsevier Masson 2007.

Livesley JW. Practical management of personality disorders. Ed. The Guilford Press 2003.”

31. ALCOHOL Y OTRAS DROGODEPENDENCIAS

Tabaco: es la droga más consumida en España. Según la encuesta epidemiológica que se realiza a residentes de 15 a 64 años de hogares españoles por el observatorio para el plan nacional sobre drogas (PND, 2006), el tabaco es una de las drogas que se consume más temprano, sobre todo en hombres, siendo la media de edad del primer consumo 16,4 años. Es más consumida por población joven y de predominio masculino, aunque en los más jóvenes la diferencia se acorta. El consumo medio de cigarrillos es de 14,5. [por dia ou por mês??]

5. PSIQUIATRÍA Y GRUPOS DE EDAD

(…)

leitura interrompida

[ARQUIVO] O MESMO ERRO AD INFINITUM

Publicado originalmente em 6 de julho de 2010.

Se o novo técnico da seleção brasileira for o Leonardo, abdico de torcer pelo futebol do meu país até Ricardo Teixeira bater as botas. É inaceitável o projeto que esse mesmo homem expôs num programa em estúdio na Soccer City, África do Sul (alguém aí sabe por que chamamos “soccer” um esporte inventado pelos ingleses como football, e que só os norte-americanos, em teoria, teriam motivos para não chamar assim?). R.T., presidente da Confederação Brasileira de Sóquer, em uma bancada dividida com Renato Maurício Prado, Paulo César Vasconcelos e Arnaldo César Coelho, e orquestrada por Galvão Bueno, disse que o time de 2014 começa a ser montado já no amistoso com os EUA no fim do ano, o primeiro depois da Copa. Segundo o chefão, alçado ao posto por ser apadrinhado (na verdade genro!) de João Havelange, precisamos de jogadores novos, de 18 a 22 anos, para que cheguem experientes ao Mundial do Brasil, e em idade para disputar o torneio com fôlego de sobra! Ótimo…

Prevalece o velho argumento. O mesmo erro de sempre: fecha-se o time antes, e ele, entrópico, naufraga. As últimas Copas vencidas pelo Brasil receberam reforços de última hora: Romário (Parreira), Ronaldo, Rivaldo, Kléberson, Kaká… (Felipão) Os últimos retumbantes fracassos eram times que já estavam prontos, só faltava o “gesto de Bellini”: Parreira (quadrado mágico), Dunga (o papa-Eliminatórias e Copa das Confederações). Leonardo, o Cão Fiel, o terceiro cão fiel consecutivo, recomeçará a tragicomédia… Neymar, Ganso… Ciclos de 4 anos são longos, longos… Sobretudo quando a seleção vira um clube privê… Sobretudo quando TODAS as recentes contratações da CBF para o cargo de técnico são preenchidas por CHATÕES de 1994.

Leonardo foi outro jogador raçudo e brigador. Bonitinho mas ordinário: expulso nas oitavas-de-final da Copa, jogo Brasil x EUA no território ianque, na absurda tarde calorenta de 4 de julho. Guardadas as devidas proporções, o Felipe Melo daquele escrete canarinho. Tinha tudo para resultar em eliminação. O Brasil empatava por 0 a 0. Conseguiu passar com um milagre de Bebeto. Dunga e Jorginho estavam em campo. Ricardo Teixeira já era o presidente da CBF. Sabe-se lá de onde esses caras aprenderam a cultivar uma fixação incurável pela conquista do Tetra. Começo a desconfiar de várias coisas, embarcar nas maiores neuras soviéticas: e se o Romário virou técnico com o Eurico Miranda (no Vasco em 2008) como parte do doutrinamento para a seleção? Não está na cara que um daqueles pertencentes ao clube dos vencedores vai ser o próximo? Tem algo realmente podre nisso tudo. A punheta quadrienal – a ejaculação é precoce. No sexo em si, o pau não sobe, o time fica aviadado, enfia as travas da chuteira na perna do oponente caído, o cotovelo no focinho do gringo desprevenido, a bola pra dentro (epa, Júlio César! pro lado errado…) e a meia (do Roberto Carlos) no CU…

Estou começando a achar que a presença do Baixinho Infernal naquele Mundial 24 anos depois do ponto máximo na carreira de Pelé, a falta super-bem-cobrada pelo Branco no finzinho do jogo e até aquele pênalti do Baggio pra fora… era melhor que nada disso tivesse acontecido! Vencer é um detalhe, no que não sou inédito ao afirmar. Não existe esse instinto de vencedor ou perdedor nas veias. Ronaldo foi os dois, Cafu foi um e foi outro, perebas sortudos já ganharam, Zico só perdeu… E o que isso prova? Invertendo-se um famoso ditado, a sede afobada de vencer é o atalho mais certeiro do perder. Não é 100% garantido, não é um dogma, estamos falando de futebol (ainda magia)! Mas quem quer produzir axiomas é a cartolagem. Eu pude prever, graças a isso, a nossa derrota de 2010 com 40 dias de antecedência. E agora com 4 anos… É, o Ricardo Teixeira facilita as coisas…

[ARQUIVO] O VERDADEIRO PROBLEMA DUNGA-GLOBO

Publicado originalmente em 25 de junho de 2010.

 

Com as últimas atitudes, Dunga conquistou os corações de quem não gosta de futebol; o meu, não. Eu não estou ligando para a Globo. O Gato Mestre é uma cria da Globo, mas e daí? Eu estou ligando, sim, para entrevistas coletivas que me fazem ter vergonha de ser brasileiro, de ser atrelado, lá fora, a uma imagem totalmente disparatada. Isso inclui tanto Dunga quanto a referida Rede Globo.

Como se algo fosse mudar por causa do técnico da seleção brasileira, quando nem mesmo um momento como Cid Moreira sendo obrigado judicialmente a ler sobre as manipulações contra o Brizola em horário nobre, no Jornal Nacional, realmente desencadeou frutos (pelo contrário, vimos o domínio da Globo se expandir nas últimas duas décadas).

A história da Rede Globo é a mesma dos tentáculos do maior conglomerado de estúdios norte-americano sendo infiltrados no Brasil precisando de uma fachada tupiniquim, no conveniente período em que os competentes homens de quepe no comando entronizavam a técnica e deixavam “a realidade se fazer por si mesma”, ela e os cidadãos Kane, todos arvorados nas ditaduras militares de seus respectivos países. Fiz um trabalho detalhado sobre isso baseado em livro de Daniel Herz há 3 anos, para quem estiver interessado. Para quem não sabe do que estou falando, este é o contrato da Time-Warner, à época apenas Time-Life, absolutamente ilegal pelas leis ainda em vigor no Brasil quando legislavam Figueiredo e outros, sobre as quais os generais fizeram o santo favor de fazer vista grossa. É uma endemia que não cura com sapos veiculados em cadeia nacional para o povão – quem dirá através do twitter, que amanhã se interessará mais pela nova plástica da Vera Fischer e desviará o foco! A verdade é que ainda que o discurso simplista de ópio do povo prevalecesse, o povo precisa do ópio. Ou não precisa?

Em suma, ver a Globo chafurdando (e dando lugar a algo de QUALIDADE no espectro televisivo, o que AINDA não existe!) é tão utópico quanto imaginar um fim dos oligopólios mundiais das telecomunicações, o que exigiria um colapso irreversível do sistema. Seu nome não é Marx e suponho que você não pertença à intelligentsia dos últimos dois séculos que dedicou a vida a tratar desse problema. De qualquer forma, para que eu seja econômico em palavras, permita-me dizer que não há saída para este labirinto.

Portanto, recomendo-vos, neste início de madrugada de 25 de junho, quando será realizada a partida entre Brasil e Portugal logo mais às 11h, que acompanhem os acontecimentos mediante a transmissão da tão insultada e megalomaníaca Globo, porque a imagem e o som são melhores, e fazer o contrário redundaria em prejuízo apenas para o telespectador e torcedor canarinho. Quem tem TV a cabo dispõe de narradores e comentaristas mais preparados – ou, eu diria, menos fossilizados –, porém ainda tem de lidar com um dos maiores reveses dessa Copa, o delay dos gols, que nos são anunciados pela gritaria da vizinhança. Paciência, deixem os mais pobres estarem em vantagem pelo menos dessa vez!

É, meus amigos, redundaria, sim, em desvantagem exclusivamente para vocês e para quem se erguer contra o colosso. Alguma dúvida do quanto estou penalizado pelo Dunga, que será o novo Barbosa caso não conquiste a Copa? Vocês sabem o que acontece quando alguém aparece tentando puxar o tapete de alguns poderosos – vide a dinamitada popularidade do Obama, que por enquanto não depôs ditadores com armas de destruição em massa invisíveis em nenhum país, nem chupou a genitália de nenhuma secretária ou estagiária, mas que é odiado como nunca! O que me espanta sobretudo é que Dunga não precisou ser negro como Barbosa, goleiro do escrete de 50, ou o Barack destes EUA racistas, para cair na desgraça falimentar do SAG (Sistema de Acusações Globo) – não pela cor da pele, como antes, ou por qualquer outra característica como homossexualidade ou ser um ateu, coisas que ele não é, mas, caros amigos, ele cairá inevitavelmente na malha dos seus inimigos, se tornará o alvo perfeito… Dentro de pouquíssimo tempo!

Aliás, eu havia esquecido o argumento central contra toda essa palhaçada advinda de uma classe média incapaz de, agora, enxergar seu próprio umbigo, de tanto que se encontra o traseiro entalado no sofá, como se este móvel se tratasse de um buraco negro e seus corpos sedentários fossem uma mega-sonda ou um sistema solar inteiro: desligar a Globo e recorrer à TV a cabo, a estratégia dos endinheirados e privilegiados, me desculpe informar, é, ainda, se jogar nos braços acolhedores (no sentido de sempre, que é o da leniência dos profissionais liberais para com os que realmente controlam o país, desde os engenhos de cana subutilizados até essa era nojenta do telemarketing) da REDE BOBO, porque ela é dona das principais operadoras do sistema de cabo-difusão e também satélite-difusão e não-sei-mais-quê-difusão, e possui “n” canais 100% seus, além de meter o dedo, e uma lista considerável de programas, nos canais “teoricamente” independentes. Além disso, pare para pensar sobre a produção cultural escassa deste país e o quanto – bem ou mal – foi ela incrementada pelos recursos dos estúdios do Projac: quantos filmes não retratam o país e quantos deles você não assistiu e assistiria de novo? É possível desvinculá-los da própria imagem que fazemos de nós mesmos?

Sim, é preciso saber quem vocês estão atacando! Cuidado com Narciso e sua piscadinha… no espelho!

Minha opinião pessoal: para dizer a verdade, ninguém merece um hexacampeonato. E se eu fosse dono de emissora eu faria a mesma coisa, buscando entrevistas exclusivas, porque, afinal de contas, a CBF é uma entidade viciada, e eu me aproveitaria disso. A Fátima Bernardes enrolou o Rodrigo Paiva a vida inteira, por que pensaria que com o pouco eloqüente Dunga seria diferente? Pensem a respeito.

E reitero: ninguém que ama futebol merece ver esse espetáculo de meio-campo autômato 4 anos a fio. Que a Globo faça suas materiazinhas (que aliás sairiam melhores com Ronaldinho Gaúcho e a espontaneidade do Neymar), e em troca eu possa assistir o que eu quero assistir, sem ter de torcer para a Holanda em pleno 2014. Um bom jogo a todos os CIENTES de que amanhã… nada vai mudar.

Assinado:

Cordialmente [à moda de nossas elite sub-repticiamente conciliadoras e do eterno Acordão que nos contempla]

Gato Mestre, da África do Sul

THE EVOLUTION OF MATTER – Gustave Le Bon (trans. Legge), 1909.

INTRODUCTION

The facts brought to light by my researches, as well as by those to which they have led, show that, contrary to this belief, matter is not eternal, and can vanish without return. They likewise prove that the atom is the reservoir of a force hitherto unrecognized, although it exceeds by its immensity those forces with which we are acquainted, and that it may perhaps be the origin of most others, notably of electricity and solar heat.”

It was above all the discovery of radium, long after my first researches, that fixed attention on these questions.”

To make this book easier to read, the experiments in detail have been brought together at the end of the volume, to which they form a second part. All the plates illustrating the experiments have been drawn or photographed by my devoted assistant, M.F. Michaux. I here express my thanks to him for his daily assistance at my laboratory during the many years over which my researches have extended.”

Gods and dogmas do not perish in a day. To try to prove that the atoms of all bodies, which were deemed eternal, are not so, gave a shock to all received opinions. To endeavor to show that matter, hitherto considered inert, is the reservoir of a colossal energy, was bound to shock more ideas still.”

It matters little, in reality, that he who has sown should not reap. It is enough that the harvest grows.”

BOOK I

THE NEW IDEAS ON MATTER

CHAPTER I

THE THEORY OF INTRA-ATOMIC ENERGY AND OF THE PASSING AWAY OF MATTER

The dogma of the indestructibility of matter is one of the very few which modern has received from ancient science without alteration. From the great Roman poet, Lucretius, who made it the fundamental element of his philosophical system, down to the immortal Lavoisier, who established it on bases considered eternal, this sacred dogma was never touched, and no one ever sought to question it.”

It is several years now since I proved by experiment for the first time that the phenomena observed in substances termed radioactive — such as uranium, the only substance of that kind then known — could be observed in all substances in Nature, and could only be explained by the dissociation of their atoms.” “Substances termed radioactive, such as uranium or radium, simply present in a high degree a phenomenon which all matter possesses to some extent.”

The atmosphere is now cleared, and few physicists deny that this dissociation of matter — this radioactivity as it is now called — is a universal phenomenon as widely spread throughout the universe as heat or light. Radioactivity is now discovered in nearly everything, and in a recent paper Prof. J.J. Thomson has demonstrated its existence in most substances — water, sand, clay, brick, etc.”

Force and matter are two different forms of one and the same thing. Matter represents a stable form of intra-atomic energy; heat, light, electricity, etc., represent instable forms of it.”

chemical species are no more invariable than are living species.”

DESCOBERTA DA “FORÇA FRACA”, CUJO NOME É ARDILOSO, POIS SE TRATA DA FORÇA MAIS FORTE: “To the known forms of energy — heat, light, etc. — there must be added another — matter, or intra-atomic energy. It is characterized by its colossal greatness and its considerable accumulation within very feeble volume.”

The individuality disappears, and the vortex dissolves in the ether as soon as the forces which maintain its existence cease to act.” Tão vanguardista e ainda atido a nomenclaturas do passado arcano como éter!

More than one physicist, the illustrious Faraday especially, has endeavored to clear away the duality existing between matter and energy. Some philosophers formerly made the same attempt, by pointing out that matter was only brought home to us by the intermediary of forces acting on our senses.”

For the classical adage, ‘Nothing is created, nothing is lost’ (attributed to Lavoisier) must be substituted the following: — Nothing is created, but everything is lost.

Herbert Spencer in one of the chapters of First Principles, headed ‘Indestructibility of Matter’, which he makes one of the pillars of his system, declares that, ‘Could it be shown, or could it with reason be supposed, that Matter, either in its aggregates or in its units, ever becomes non-existent, it would be needful either to ascertain under what conditions it becomes non-existent, or else to confess that true Science and Philosophy are impossible’. This assertion certainly seems too far-reaching. Philosophy has never found any difficulty in adapting itself to new scientific discoveries. It follows, but does not precede them.”

BOMBA ATÔMICA: “The practical interest of the doctrine of the vanishing of matter, by reason of its transformation into energy, will only appear when means are found of accomplishing with ease the rapid dissociation of substances. When that occurs, an almost unlimited source of energy will be at man’s disposal gratis, and the face of the world will be changed. But we have not yet reached this point.” Um inveterado otimista!

As matter seemed incapable by itself of quitting the state of repose, recourse was had to various causes, of unknown nature, designated by the term forces, to animate it. Physics counted several which it formerly clearly distinguished from each other, but the advance in science finally welded them into one great entity, Energy, to which the privilege of immortality was likewise conceded.”

The divinities of old time were replaced by ingenious systems of differential equations.”

CHAPTER II

HISTORY OF THE DISCOVERY OF THE DISSOCIATION OF MATTER AND OF INTRA-ATOMIC ENERGY

The public troubles itself very little with the way in which inventions are made, but psychologists will certainly be interested by certain sides of the following account. In fact, they will find therein valuable documents on the birth of beliefs, on the part played, even in laboratories, by suggestions and illusions, and finally on the preponderant influence of prestige considered as a principal element of demonstration.”

It was, in fact, in 1896 that I caused to be published in the Comptes Rendu de l’Academie des Science, solely for the purpose of establishing priority, a short notice summing up the researches I had been making for 2 years, whence it resulted that light falling on bodies produced radiations capable of passing through material substances. Unable to identify these radiations with anything known, I pointed out in the same note that they must probably constitute some unknown force — an assertion to which I have often returned. To give it a name I called this radiation black light.”

(1) Radiations of the same family as the cathode rays. They are incapable of refraction or of polarization, and have no kinship with light. These are the radiations which to so-called radioactive substances, such as uranium, constantly emit abundantly and ordinary substances freely.

(2) Infrared radiations of great wavelength which, contrary to all that has hitherto been taught, pass through black paper, ebonite, wood, stone, and, in fact, most non-conducting substances. They are naturally capable of refraction and polarization.

It was not very easy to dissociate these various elements at a time when no one supposed that a large number of bodies, considered absolutely opaque, were, on the contrary, very

transparent to the invisible infrared light, and when the announcement of the experiment of photographing a house in two minutes and in the dark-room through an opaque body would have been deemed absurd.”

It will be considered, I think, very curious and one of the most instructive chapters in the history of science that for 3 years not one single physicist was to be met with in the whole world who thought of repeating — though they were extraordinarily simple — the experiments of M. Becquerel on the refraction, reflection, and polarization of the uranium rays. On the contrary, the most eminent published ingenious theories to explain this very refraction, reflection, and polarization.

It was a new version of the story of the child with the golden tooth on which the scholars of the day wrote important treatises, till one day it occurred to a skeptic to go see if the said child was really born with a golden tooth. It will be difficult, after such an example, to deny that, in scientific matters, prestige forms the essential element in conviction. We must therefore not scoff too much at those in the Middle Ages who knew no other sources of demonstration than the statements of Aristotle.”

When the question as to polarization was definitely settled, it took but little time to establish the correctness of the facts stated by me. But it was only after the German physicists Giesel, Meyer, and Schweidler discovered in 1899 that the emissions of radioactive bodies were, like the cathode rays, capable of deviation by a magnet, that the idea of a probable analogy between these phenomena began to spread. Several physicists then took up this study, the importance of which has increased day by day. New facts arose on all sides, and the discovery of radium by Curie gave a great impetus to these researches.

M. de Heen, Prof. of Physics at the University of Liege, and Director of the celebrated Institute of Physics in that town, was the first to accept in its entirety the generalization I had endeavored to establish. Having taken up and developed my experiments, he declared in one of is papers that in point of importance they were on a par with the discovery of x-rays.”

The generality of the phenomenon of the dissociation of matter would have been noticed much sooner if a number of known facts had been closely examined, but this was not done. These facts, besides, were spread over very different chapters of physics. For example, the loss of electricity occasioned by ultraviolet light had long been known, but one little thought of connecting the fact with the cathode rays. More than 50 years ago N. de St.-Victor saw that, in the dark, salts of uranium caused photographic impression for several months; but as this phenomenon did not seem connected with any known fact, it was put on one side. For a hundred years the gases of flame had been observed to discharge electrified bodies without anyone attempting to examine the cause of this phenomenon. The loss of electric charges through the influence of light had been pointed out several years before, but it was regarded as a fact peculiar to a few metals, without any suspicion of how general and important it was.”

I have had the satisfaction of seeing, while still alive, the recognition of the facts on which I based the theories which follow. For a long time I had given up all such hope, and more than once had thought of abandoning my researches. They had, in fact, been rather badly received in France. (…) The book of nature is a romance of such passionate interest that the pleasure of spelling out a few pages repays one for the trouble this short decipherment often demands.”

The discovery of intra-atomic energy cannot, however, be quite assimilated to that of the universality of the dissociation of matter. This universal dissociation is a fact, the existence of intra-atomic energy is only an interpretation.”

It is natural enough that one should not be a prophet in one’s own country. It is sufficient to be a little of one elsewhere. The importance of the results brought to light by my researches was very quickly understood abroad. Out of the different studies they called forth, I shall confine myself to reproducing a few fragments.” Muito autocentrado o sr. Le Bon! A ciência e a filosofia são assim mesmo.

Rutherford in America, Nedon in France, de Heen in Belgium, Lenard in Austria, Elseter and Geitel in Switzerland have successfully followed in the lines of Gustave Le Bon. Summing up today the experiments made by him for the last 6 years, Gustave Le Bon shows that he has discovered a new force in nature which manifests herself in all bodies.”

As for chemistry, the whole fabric will be demolished at a blow; and we shall have a tabula rasa on which we may write an entirely new system wherein matter will pass through matter, and ‘elements’ will be shown to be only differing forms of the same substance. But even this will be nothing compared with the results which will follow the

bridging of the space between the material and the immaterial which M. Le Bon anticipates as the result of his discoveries, and which Sir William Crookes seems to have foreshadowed in his address to the Royal Society upon its late reception of the Prince of Wales.”

The new phenomena I have discovered have cost me too much labor, too much money, and too much annoyance for me not to try to keep a firm hold on a prize obtained with so much difficulty.”

BOOK II

INTRA-ATOMIC ENERGY AND THE FORCES DERIVED THEREFROM

CHAPTER I

INTRA-ATOMIC ENERGY — ITS MAGNITUDE

A very simple calculation shows, in fact, that to give a small bullet the speed of dissociation would require a firearm capable of containing 1,340,000 barrels of gunpowder. As soon as the immense speed of the particles emitted was measured by the very simple methods I describe elsewhere, it became evident that an enormous amount of energy is liberated during the dissociation of atoms.”

We shall see that, if instead of succeeding in dissociating thousandths of a milligram of matter, as at present, we could dissociate a few kilograms, we should possess a source of energy compared with which the whole provision of coal contained in our mines would represent an insignificant total.”

If this new force — the most widespread and the mightiest of all those of nature — has remained entirely unknown till now, it is because, in the first place, we lacked the reagents necessary for the proof of its existence, and then, because the atomic edifice erected at the beginning of the ages is so stable, so solidly united, that its dissociation — at all events by our present means — remains extremely slight. Were it otherwise the world would have vanished long ago.”

To reduce the mass of a projectile matters nothing if one arrives at a sufficient increase in speed. This is exactly the tendency of modern musketry, which constantly reduces the caliber of the bullet but endeavors to increase its speed.”

We can barely exceed a kilometer per second by the means at our disposal, while the speed of radioactive particles is 100,000 times greater. Thence the magnitude of the effects produced. These differences become plain when one knows that a body having a velocity of 100,000 kilometers/second would go from the earth to the moon in less than 4 seconds, while a cannon ball would take about 5 days.”

The fact of the existence of a considerable condensation of energy within the atoms only seems to jar on us because it is outside the range of things formerly taught us by experience; it should, however, be remarked that, even leaving on one side the facts revealed by radioactivity, analogous concentrations are daily observable. Is it not strikingly evident, in fact, that electricity must exist at an enormous degree of accumulation in chemical compounds, since it is found by the electrolysis of water that one gram of hydrogen possesses an electric charge of 96,000 coulombs?”

The best static machines in our laboratories hardly give forth 1/10,000 of a coulomb per second. They would have to work unceasingly for a little over 30 years to give the quantity of electricity contained within the atoms of one gram of hydrogen.”

Cornu pointed out that if it were possible to concentrate a charge of one coulomb on a very small sphere, and to bring it within one centimeter of another sphere likewise having a charge of one coulomb, the force created by this repulsion would equal 918 dynes, or about 9 billion kilograms.”

The difficulty was not, therefore, in conceiving that a great deal of energy could remain within an atom. It is even surprising that a notion so evident was not formulated long since.”

One of the most elementary formulas of dynamics teaches us that the energy of a body of constant size can be increased at will simply by increasing its speed. It is therefore possible to imagine a theoretical machine composed of the head of a pin turning round in the bezel of a ring, which, notwithstanding its smallness, should possess, thanks to its rotative force, a mechanical power equal to that of several thousand locomotives.”

It is important to notice that, although the numbers above arrived at in various ways point out the existence in matter of immense forces — so unforeseen hitherto — they by no means imply that these forces already are at our disposal. In fact the substances which

dissociate quickest, like radium, only disengage very minute quantities of energy. All those millions of kilogram-meters which a simple gram of matter contains amount in reality to very little if, to obtain them, we have to wait millions of years. Suppose a strong box containing several thousand millions of gold dust to be closed by a mechanism which only permits the daily extraction of a milligram of the precious metal. The owner of that strong box, notwithstanding his great wealth, would be in reality very poor, and would remain so, so long as his efforts to discover the secret of the mechanism by which he could open it were unsuccessful.” Mal sabia Le Bon que só levaria pouco mais de 30 anos da publicação do seu livro a descoberta da maneira mais “efetiva” de empregar tamanha energia: para a destruição.

No more could one say in the days of Galvani that the electrical energy which enabled him to move with difficulty the legs of frogs and to attract small scraps of paper would one day set in motion enormous railway trains. It will perhaps always be beyond our power to totally dissociate the atom, because the difficulties must increase as dissociation advances, but it would suffice if we could succeed in easily dissociating a small part of it. Whether the gram of dissociated matter that we have supposed to be taken from a ton of matter or even more, matters nothing.”

The power to dissociate matter freely would place at our disposal an infinite source of energy, and would render unnecessary the extraction of that coal. The scholar who discovers the way to liberate economically the forces which matter contains will almost instantaneously change the face of the world. If an unlimited supply of energy were gratuitously placed at the disposal of man he would no longer have to procure it at the cost of arduous labor. The poor would then be on a level with the rich, and there would be an end to all social questions.”

CHAPTER II

TRANSFORMATION OF MATTER INTO ENERGY

Modern science formerly established a complete separation between matter and energy. The classic ideas on this scission will be found very plainly stated in the following passage of a recent work by Prof. Janet: [não é o filósofo-psicólogo!]

…Copper, iron, and coal are forms of matter, mechanical labor and heat are forms of energy. These two worlds are each ruled by one and the same law. Matter and energy can assume various forms without matter ever transforming itself into energy or energy into matter… We can no more conceive energy without matter than we can conceive matter without energy’

Other and bolder physicists, like Rutherford, after having admitted the principles of intra-atomic energy, remain in doubt. This is what the latter writes in a paper later than his book on radioactivity:

It would be desirable to see appear some kind of chemical theory to explain the facts, and to enable us to know whether the energy is borrowed from the atom itself or from external sources

(Archives des Sciences Physiques a Genieve, 1905, p. 53).”

The fact is that the scientific ideas which rule the minds of scholars at various epochs have all the solidarity of religious dogmas. Very slow to be established, they are very slow likewise to disappear. New scientific truths have, assuredly, experience and reason as a basis, but they are only propagated by prestige — that is, when they are enunciated by scholars whose official position gives them prestige in the eyes of the scientific public. Now, it is this very category of scholars which not only does not enunciate them, but employs its authority to combat them. Truths of such capital importance as Ohm’s law, which governs the whole of electricity, and the law of the conservation of energy which governs all physics, were received, on their first appearance, with indifference or contempt, and remained without effect until the day when they were enunciated anew by scholars endowed with influence.

It is only by studying the history of sciences, so little pursued at the present date, that one succeeds in understanding the genesis of beliefs and the laws governing their diffusion. I have alluded to 2 discoveries which were among the most important of the past century, and which are summarized in two laws, of which one can say that they ought to have appealed to all minds by their marvelous simplicity and their imposing grandeur. Not only did they strike no one, but the most eminent scholars of the epoch did not concern themselves about them except to try to cover them with ridicule.”

Experiments — even those most convincing in appearance — have never constituted an immediately demonstrable foundation when they clashed with long since accepted ideas. Galileo learned this to his cost when, having brought together all the philosophers of the celebrated University of Pisa, he thought to prove to them by experiment that, contrary to the then accepted ideas, bodies of different weight fell with the same velocity.” “The professors contented themselves with appealing to the authority of Aristotle, and in nowise modified their opinions.”

CHAPTER III

FORCES DERIVED FROM INTRA-ATOMIC ENERGY — MOLECULAR FORCES, ELECTRICITY, SOLAR HEAT, ETC.

electricity is one of the most constant manifestations of the dissociation of matter.”

For a certain number of years the role of electricity has constantly grown in importance. It is at the base of all chemical reactions, which are more and more considered as electrical reactions. It appears now as a universal force, and the tendency is to connect all other forces with it. That a force of which the manifestations have this importance and universality should have been unknown for thousands of years constitutes one of the most striking facts in the history of science, and is one of those facts we must always bear in mind to understand how we may be surrounded with very powerful forces without perceiving them.

For centuries all that was known about electricity could be reduced to this: that certain resinous substances when rubbed attract light bodies. (…) By extending the friction to larger surfaces might not more intense effects still be produced? This no one thought of inquiring. Ages succeeded each other before there arose a mind penetrating enough to verify by experiment whether a body with a large surface when rubbed would not exercise an action superior in energy to that produced by a small fragment of the same body. From this verification which now seems so simple, but which took so many years to accomplish, we saw emerge the frictional electric machine of our laboratories and the phenomena it produces. The most striking of these were the apparition of sparks and violent discharges which revealed to an astonished world a new force and put into the hands of man a power of which he thought the gods alone possessed the secret.

Electricity was then only produced very laboriously and was considered a very exceptional phenomenon. Now we find it everywhere and know that the simple contact of 2 heterogeneous bodies suffices to generate it. The difficulty now is not how to produce electricity, but how not to give it birth during the production of any phenomenon whatever. The falling of a drop of water, the heating of a gaseous mass by the sun, the raising of the temperature of a twisted wire, and a reaction capable of modifying the nature of a body, are all sources of electricity.”

if the sun cannot change the temperature of a body without disengaging electricity, if a drop of water cannot fall without producing it, it is evident that its role in the life of all beings must be preponderant. This, in fact, is what we are beginning to admit.”

M. Berthelot has recently shown the important role of the electric tensions to which plants are constantly subjected.”

These figures give an idea of the potential which exists either between the upper point of a rod of which the other extremity is earthed, or between the top of a plant of a tree, and the layer of air in which that point or that top is bathed.”

Given the enormous quantity of energy accumulated within the atoms, it would be enough, if their dissociation were more rapid than it is on cooled globes, to furnish the amount of heat necessary to keep up the incandescence of the stars.”

Suppose, however, that the dissociation of any substance whatever were only one thousand times more rapid than that of radium, then the quantity of energy emitted would more than suffice to keep it in a state of incandescence.”

The figures given are considerable, and yet J.J. Thomson, who has recently taken up the question anew, arrives at the conclusion that the energy now concentrated within the atoms is but an insignificant portion of that which they formerly contained and lost by radiation. Independently and at an earlier date, Prof. Filippo Re arrived at the same conclusion.

If, therefore, atoms formerly contained a quantity of energy far exceeding the still formidable amount they now possess, they may, by dissociation, have expended during long accumulations of ages a part of the gigantic reserve of forces piled up within them at the beginning of things. They may have been able, and consequently may still be able, to maintain at a very high temperature stars like the sun and the heavenly bodies. In the course of time, however, the store of intra-atomic energy within the atoms of certain stars has at length been reduced, and their dissociation has become slower and slower. Finally, they have acquired an increasing stability, have dissociated very slowly, and have become such as one observes them today in the shape of cooled stars like the earth and other planets.”

So that it is not only electricity which is one of its manifestation, but also solar heat, that primary source of life and of the majority of the forces at our disposal. Its study, which reveals to us matter in a totally new aspect, already permits us to throw unforeseen light on the higher mechanics of our universe.”

BAYLE’S HISTORICAL AND CRITICAL DICTIONARY – 2nd edition, Royal Society, 1737. Vol 4.

MACHIAVEL

The praises he gave Brutus and Cassius in his discourses and books, made him vehemently suspect to be the principal director of a plot that was discovered. Nevertheless, there was no prosecution against him. But from that time he lived in poverty, ridiculing everything and having no religion. (…) Some say that they were obliged to use the public authority to force him to receive the sacraments. Others say that he died uttering blasphemies.”

Some authors say he served Caesar Borgia as his favourite-counsellor; and perhaps he was employed for him in France, when he had at Nants [sic] that conversation with the cardinal of Rouen, which he mentions in the 3rd chapter of his Prince.”

One day, as Machiavel mimicked the gestures and irregular motions of some of the Florentines, the cardinal told him, they would appear much more ridiculous on the stage, in a comedy made in imitation of the comedies of Aristophanes. There needed no more to put Machiavel upon writing his Sanitia, in which the persons he designed to ridicule were so lively described that they durst not show their resentment tho’ they were present at its first acting, for fear of increasing the public laughter, by discovering themselves. The cardinal de Medicis was so charmed with it, that after he was Pope, he caused the scenes, the habits, and the actors themselves, to be brought to Rome to divert his court with it.” Paul Jovius

The Florentine scribe, whom you know, has turned a good Latin play into one not bad in the Tuscan language; for his Clitia is the same with Plautus’ Casina. Some parts of which he has translated word for word, some artfully corrected, and many most happily imitated; tho’ some passages either imprudently or perversely; as that of the bailiff Olympio to his master Stalionon:

OLYMPIO. Your wife hates me, your son hates me, and all your acquaintance hate me.

STAL. What is that to you? Whilst Jupiter is your friend, nevermind those minute deities.

OLYMPIO. They are indeed not worth my regard, provided these human Jupiters die soon; but you, Mr. Jupiter, should die, and your kingdom come to the minor gods, what will become of my back, and shoulders, and shins?

Which the Tuscan Poet had thus turned in the 6th scene of the 3rd act, where Pyrrhus holds this dialogue with Nicomachus.

NIC. What is it to you? keep in favour with CHRIST, and laugh at the saints.

PYR. Yes; but if you die, and the saints use me very ill.

NIC. Fear not; I will put you in such a condition, that the saints shall be able to give you very little trouble.

This is much inferior in elegance to the passage of Plautus; but unworthy of a Christian, whose muse ought to be more holy, and, even in ludicrous subjects, remember severity.” Balzac

He confined with new and perfectly Attic chains the old rambling prose of Boccace, its founder; yet so, as that the latter is esteemed by the men of leisure the more correct, but not the more pure or more weighty.” P.J.

when I say that Machiavel died in the year 1530, I accommodate myself to Paul Jovius’ expressions; without knowing whether it will be better to follow him or Poccianti, who places his death in the year 1526.”

It is strange there are so many people who believe Machiavel teaches princes dangerous politics; for on the contrary, princes have taught Machiavel what he has written. It is the study of the world, and the observation of the transactions in it, and not a fanciful closet meditation, that have been M.’s masters. Let his books be burned, answered, translated, and commented, it will be all one with respect to government. By an unhappy and fatal necessity, Politics set themselves above Morality; they do not confess it, but yet they do as Achilles, Jura negat sibi nata. A great philosopher of this age cannot bear they should say that it was necessary man should sin: ‘I believe, however, that he owns, with respect to princes, that sin is now become a necessary thing, although that does not make them excusable; for besides that there are few who content themselves with what is necessary, they would not be under this wretched condition, if they were all good men.’

qui nescit dissimulare nescit regnare”

Mr. Amelot proves that Machiavel was but the disciple or interpreter of Tacitus, and he makes use of the same observations as Coringius.”

Prince was published about the year 1515, and dedicated to Laurence de Medicis, nephew to Leo X. It did not prejudice the author with this Pope, who nevertheless was the first who threatened those with excommunication that read a prohibited book. (…) The Pope was so far from discontinuing the expressions of his friendship to the author that he employed him in writing a book that required secrecy. He ordered him to write a treatise concerning the reformation of the republic of Florence. (…) Hadrian VI, successor to Leo X, did not censure Machiavel’s book. Clement VII, successor to Hadrian VI, did more; for he not only allowed of Machiavel’s dedicating his History of Florence to him, but also granted a privilege to Antony Bladus to print this author’s works at Rome. The successors of Clement VII, to Clement VIII, exclusively, permitted the sale of Machiavel’s Prince, in all Italy, whereof there were frequent editions and translations. It was however known that this book did not please some doctors; for a book of Ambrose Catharinus, printed at Rome in 1552, has a chapter against the Discourses and the Prince. At last, under the pontificate of Clement VIII, the writings of this Florentine were condemned, after the loud complaints of the Oratory called Thomas Bozius: tho’ it is certain that this Jesuit had never read Machiavel’s Prince; for if you look into the judgment he has published on 4 writers, La Nouë, Bodin, Du Plessis Mornai and M., you will find that he supposes the Prince, written by the 4th, to be divided into 3 books; which is evidently false! He charges M. with such things as are not in the book. Coringius conjectures very well that the occasion of these mistakes was because Possevin [another critic] never knew this work, but by the reading of Gentillet [cujo livro mais famoso é conhecido como O Anti-Maquiavel].”

Cardan informs us that M., a doctor of the last age, who wrote so much, and so well, on the military discipline of the Romans, would not venture to exercise a single regiment, tho’ the duke of Urbino pressed him to attempt it.”

That HISTORY OF FLORENCE, says James Gohory, was written in such perfection that the deceased Milles Perrot, Master of the Accounts, my near kinsman (the most learned person of his time in this kingdom in divers languages and sciences) having made some notes on it in the margin more carefully with his own hand, than on his Livy and Tacitus, told me that it was so fitted to the humour of our times, that he esteemed the reading of it more profitable than of the great ancient Historians, so different from our present manners, fashions and customs.”

MAHOMET

This woman, called Chadigha, fell in love with Mahomet, driver of her camels, and married him. He was then 25 (…) He had by this woman 3 sons, who died very young, and 4 daughters, which were well married. Being subject to the falling-sickness, and having a mind to conceal this infirmity from his wife, he made her believe that he fell into these convulsions upon sight of the angel Gabriel, which he was not able to bear, who came to reveal to him many things, in the name of God, concerning religion. Chadigha, being either deceived or feigning to be so, went about, and told from house to house that her husband was a prophet, and by that means endeavoured to procure him followers.”

It is not easy to know the true detail of his actions; for if the writers of his own sect have invented a thousand fables in honour of him, it is no ways probable that his adversaries made any scruple of publishing lies against him. It is very remarkable that he himself says that he wrought no miracles, and yet his followers attribute many to him.”

His lewdness was doubtless the cause why he permitted Polygamy under some restraints, and concubinage without any bounds.”

There are some Doctors, even in the communion of the Protestants, who have taken him for Anti-christ.”

There has been published a Testament, under the name of Mahomet, which has very much the air of a forgery: It is a treaty of mutual toleration, which, they say, was concluded between him and the Christians.”

if we divide the known countries of the earth into 30 equal parts, 5 of them are Christians, 6 Mahometan and 19 Pagan.” Brerewood

Moreover, say these gentlemen, the Alcoran is the work of a fanatic: everything in it savours of disorder and confusion; it is a chaos of disjointed thoughts. A deceiver would have ranged his doctrines better; a Comedian would have been more polite. And let none say that the devil would never have persuaded him to oppose idolatry, nor to recommend so much the love of the true GOD, and of virtue; for this proves too much; since from thence we might conclude that Mahomet was not his instrument.” “It would be to no purpose to alledge that this false prophet boasted of conversing with the angel Gabriel: for since the Scripture tells us that the devil transforms himself into an angel of light; cannot we say that he presented himself to Mahomet under that name, and in the figure of the angel Gabriel?”

He ordains circumcision, which is a thing very harsh to adult persons: he requires them to abstain from certain meats, which is a slavery that does not well agree with worldly men: he forbids the use of wine, which is a precept indeed, that is not so very harsh to the Asiatic people, as to the northern nations, and which would certainly have made Willibrod and Boniface miscarry in their design: but yet it is convenient in all countries, where wine grows; and we know, by ancient and modern History, that this liquor does not displease the eastern people. Besides, Mahomet imposed fastings and washings, which are very troublesome, and such a frequent use of prayers, as is tedious and uneasy.” “I mistake not, the only things wherein it opened the gap, which the Gospel had shut, are marriage and revenge”

I do not deny but the divisions of the Greek churches, whose sects were unhappily multiplied, the bad state of the oriental empire, and the corruption of manners were a favourable conjuncture for the designs of this impostor.”

We may venture to affirm that Paganism would be still in being, and that ¾ of Europe would still be Pagan, if Constantine and his successors had not employed their authority to abolish that religion (sic)” Mr. Jurieu

We must freely declare the truth: the kings of France have planted Christianity in the country of the Frisons and Saxons by Mahometan ways”

The exploits of the Mahometans are without doubt the most glorious things that History affords. What can we find more wonderful than the empire of the Saracens, which extended from the Straits of Gibraltar as far as the Indies? Has it fallen? See the Turks on one side, and the Tartars on the other, who preserve the grandeur and renown of Mahomet. Find, if you can, among the conquering Christian princes, any that can be put in the balance with the Saladines, the Gingis-Chams, the Tamerlanes, the Amuraths, the Bajazets, the Mahomets II, the Solymans. Did not the Saracens confine Christianity within the bounds of the Pyrenean mountains? Did they not commit 100 outrages in Italy, and proceed as far as the heart of France? Did not the Turks extend their conquests to the confines of Germany, and the gulf of Venice? The leagues, the croisades of Christian princes, those grand expeditions, which drained the Latin church of men and money, can they not be compared to a sea, whose waves flow from the west to the east, to be broken, when they encounter the Mahometan forces, like one that splits against a steep rock?”

The Mahometans, being more addicted to war than study, have not written histories equal to their actions; but the Christians having many great wits, have wrote histories which excel all that they have done.” “A fine advantage indeed, that we know better than they, the art of killing, of bombarding and destroying mankind!”

Mahomet, the legislator of the Turks, through an immoderate lust, lay with a she-ass, which he rode on.”

He had but 2 wives, when Marine, his servant-maid, a very pretty lass, pleased him so well, that he lay with her before she came to a marriageable age. His wives surprised him in the very act, and were transported with rage against him. He swore to them that he would never return to her anymore if they would keep it secret; but because he broke his oath, they made a great noise, and went away from his house. To remove this great scandal, he feigned a voice from heaven, which informed him that it was lawful for him to have to do with his servant-maids. Thus this impostor begun with committing a crime, and finished with converting it into a general law.”

MAHOMET II

The 11th sultan of the Turks, born at Adrianople the 24th of March, 1430, was one of the greatest men that is mentioned in history, if we consider only the qualifications necessary for a conqueror”

The Christians raised monuments to him, which exalt his victories above what the Ottoman annals do, and above all the Turks could invent to immortalize the grandeur of his actions.”

I think he was also the first of the Sultans who loved the arts and sciences.”

MAIGNAN, EMANUEL (1601-1676)

One of the greatest philosophers of the XVIIth century, was a Minim Frier, a native of Toulouse. (…) He was neither Catesian, nor Gassendist, but agreed with the heads of these 2 sects in rejecting accidents, qualities and substantial forms, and cultivating experimental philosophy.”

He is sometimes mistaken for another philosopher, called Magnen.”

His book De Perspectiva Horaria, printed at Rome in 1648, at the expence of cardinal Spada, was very much esteemed. No body had yet undertaken such a work. It contains a method of making telescopes of his own invention, which he explains at large, and does not imitate those, who conceal, as a mystery, the inventions of their art, and die with their secret.”

MANICHEES

It became formidable in Armenia in the IXth century (…) and it appeared in France in the time of the Albigenses. (…) but it is not true that the Albigenses were Manichees. These, among other errors, taught that the souls of plants are rational and condemned Agriculture as a murdering employment”

MELANCHTHON, PHILIP

There was quickly an intimate friendship contracted between him and Luther, who taught Divinity in the same university. They went together to Leipsic [sic] in the year 1519, to dispute with Eccius.”

But nothing cost him more pains than the task that was given him in the year 1530, to draw up a Confession of Faith; which is called the Augsburg Confession, because it was presented to the emperor at the diet in that city. All Europe was convinced that he was not so averse as Luther to an accommodation, and that he would have sacrificed many things for the sake of peace. Wherefore Francis I judged him a proper person to pacify the disputes about religion in his kingdom, and desired him to come thither.”

he was credulous as to prodigies, Astrology and Dreams”

METRODORUS

M. of Chios, a disciple of Democritus, had among other disciples the philosopher Anaxarchus and Hippocrates the Physician. Others affirm that he was the disciple of Nessas, who had been the disciple of Democritus, and that he was master to Diogenes, who had been the master of Anaxarchus.”

MILTON, John

while he was writing a History of England, the council of State which was then established by authority of parliament, having a mind to make use of his pen, ordered him to confute the Icon Basilike, which went under the name of the deceased king. He intituled his confutation Iconoclastes.”

He lived very quietly under the usurpation of Cromwell, and by a good fortune, which was very extraordinary, he was not disturbed nor called to an account after the restoration of Charles II, but was suffered to live peaceably at his house, though no writer did ever more insult a crowned head, than he did king Charles I and his banished family.”

He understood the Italian tongue so well that he designed to write a Grammar of it, and made very good Italian verses.”

Que não se comente no verbete de Milton sobre o Paraíso Perdido é uma sentença de morte desse “dicionário”…

AS YOU LIKE IT

ACT 1

SCENE I. Orchard of Oliver’s house.

ORLANDO

This is it, Adam, that grieves me; and the spirit of my father, which I think is within me, begins to mutiny against this servitude: I will no longer endure it, though yet I know no wise remedy how to avoid it.”

OLIVER

Now, sir! what make you here?

ORLANDO

Nothing: I am not taught to make any thing.

OLIVER

What mar you then, sir?

ORLANDO

Marry, sir, I am helping you to mar that which God

made, a poor unworthy brother of yours, with idleness.”

ORLANDO

Shall I keep your hogs and eat husks with them?

What prodigal portion have I spent, that I should

come to such penury?”

The courtesy of nations allows you my better, in that you are the first-born; but the same tradition takes not away my blood, were there twenty brothers betwixt us: I have as much of my father in me as you; albeit, I confess, your coming before me is nearer to his reverence.”

Wert thou not my brother, I would not take this hand from thy throat till this other had pulled out thy tongue for saying so”

OLIVER

And what wilt thou do? beg, when that is spent?

Well, sir, get you in: I will not long be troubled

with you; you shall have some part of your will: I

pray you, leave me.”

OLIVER

Get you with him, you old dog.

ADAM

Is ‘old dog’ my reward? Most true, I have lost my

teeth in your service. God be with my old master!

he would not have spoke such a word.

Exeunt ORLANDO and ADAM”

CHARLES

They say he is already in the forest of Arden, and

a many merry men with him; and there they live like

the old Robin Hood of England: they say many young

gentlemen flock to him every day, and fleet the time

carelessly, as they did in the golden world.”

I’ll tell thee, Charles: it is the stubbornest young fellow of France, full of ambition, an envious emulator of every man’s good parts, a secret and villanous contriver against me his natural brother: therefore use thy discretion; I had as lief thou didst break his neck as his finger. And thou wert best look to’t; for if thou dost him any slight disgrace or if he do not mightily grace himself on thee, he will practise against thee by poison, entrap thee by some treacherous device and never leave thee till he hath ta’en thy life by some indirect means or other; for, I assure thee, and almost with tears I speak it, there is not one so young and so villanous this day living. I speak but brotherly of him; but should I anatomize him to thee as he is, I must blush and weep and thou must look pale and wonder.”

Exit CHARLES

Now will I stir this gamester: I hope I shall see

an end of him; for my soul, yet I know not why,

hates nothing more than he. Yet he’s gentle, never

schooled and yet learned, full of noble device, of

all sorts enchantingly beloved, and indeed so much

in the heart of the world, and especially of my own

people, who best know him, that I am altogether

misprised: but it shall not be so long; this

wrestler shall clear all: nothing remains but that

I kindle the boy thither; which now I’ll go about.

Exit”

SCENE II. Lawn before the Duke’s palace.

for always the dulness of the fool is the whetstone of the wits.”

ROSALIND

But is there any else longs to see this broken music

in his sides? is there yet another dotes upon

rib-breaking? Shall we see this wrestling, cousin?

LE BEAU

You must, if you stay here; for here is the place

appointed for the wrestling, and they are ready to

perform it.”

DUKE FREDERICK

You will take little delight in it, I can tell you;

there is such odds in the man. In pity of the

challenger’s youth I would fain dissuade him, but he

will not be entreated. Speak to him, ladies; see if

you can move him.”

ROSALIND

Young man, have you challenged Charles the wrestler?

ORLANDO

No, fair princess; he is the general challenger: I

come but in, as others do, to try with him the

strength of my youth.

CELIA

Young gentleman, your spirits are too bold for your

years. You have seen cruel proof of this man’s

strength: if you saw yourself with your eyes or

knew yourself with your judgment, the fear of your

adventure would counsel you to a more equal

enterprise. We pray you, for your own sake, to

embrace your own safety and give over this attempt.”

ORLANDO

I beseech you, punish me not with your hard

thoughts; wherein I confess me much guilty, to deny

so fair and excellent ladies any thing. But let

your fair eyes and gentle wishes go with me to my

trial: wherein if I be foiled, there is but one

shamed that was never gracious; if killed, but one

dead that was willing to be so: I shall do my

friends no wrong, for I have none to lament me, the

world no injury, for in it I have nothing; only in

the world I fill up a place, which may be better

supplied when I have made it empty.”

They wrestle

ROSALIND

O excellent young man!

CELIA

If I had a thunderbolt in mine eye, I can tell who

should down.

Shout. CHARLES is thrown

DUKE FREDERICK

No more, no more.

ORLANDO

Yes, I beseech your grace: I am not yet well breathed.”

DUKE FREDERICK

I would thou hadst been son to some man else:

The world esteem’d thy father honourable,

But I did find him still mine enemy:

Thou shouldst have better pleased me with this deed,

Hadst thou descended from another house.

But fare thee well; thou art a gallant youth:

I would thou hadst told me of another father.

Exeunt DUKE FREDERICK, train, and LE BEAU”

CELIA

Gentle cousin,

Let us go thank him and encourage him:

My father’s rough and envious disposition

Sticks me at heart. Sir, you have well deserved:

If you do keep your promises in love

But justly, as you have exceeded all promise,

Your mistress shall be happy.”

ORLANDO

What passion hangs these weights upon my tongue?

I cannot speak to her, yet she urged conference.

O poor Orlando, thou art overthrown!

Or Charles or something weaker masters thee.”

LE BEAU

Good sir, I do in friendship counsel you

To leave this place. Albeit you have deserved

High commendation, true applause and love,

Yet such is now the duke’s condition

That he misconstrues all that you have done.

The duke is humorous; what he is indeed,

More suits you to conceive than I to speak of.”

Thus must I from the smoke into the smother;

From tyrant duke unto a tyrant brother:

But heavenly Rosalind!

Exit”

SCENE III. A room in the palace.

is it possible, on such a sudden, you should fall into so strong a liking with old Sir Rowland’s youngest son?”

DUKE FREDERICK

Mistress, dispatch you with your safest haste

And get you from our court.

ROSALIND

Me, uncle?

DUKE FREDERICK

You, cousin

Within these ten days if that thou be’st found

So near our public court as twenty miles,

Thou diest for it.”

DUKE FREDERICK

Thou art thy father’s daughter; there’s enough.”

Treason is not inherited, my lord;

Or, if we did derive it from our friends,

What’s that to me? my father was no traitor:

Then, good my liege, mistake me not so much

To think my poverty is treacherous.”

CELIA

No, hath not? Rosalind lacks then the love

Which teacheth thee that thou and I am one:

Shall we be sunder’d? shall we part, sweet girl?

No: let my father seek another heir.

Therefore devise with me how we may fly,

Whither to go and what to bear with us;

And do not seek to take your change upon you,

To bear your griefs yourself and leave me out;

For, by this heaven, now at our sorrows pale,

Say what thou canst, I’ll go along with thee.”

ROSALIND

Alas, what danger will it be to us,

Maids as we are, to travel forth so far!

Beauty provoketh thieves sooner than gold.

CELIA

I’ll put myself in poor and mean attire

And with a kind of umber smirch my face;

The like do you: so shall we pass along

And never stir assailants.”

CELIA

What shall I call thee when thou art a man?

ROSALIND

I’ll have no worse a name than Jove’s own page;

And therefore look you call me Ganymede.

But what will you be call’d?

CELIA

Something that hath a reference to my state

No longer Celia, but Aliena.

ROSALIND

But, cousin, what if we assay’d to steal

The clownish fool out of your father’s court?

Would he not be a comfort to our travel?

CELIA

He’ll go along o’er the wide world with me;

Leave me alone to woo him. Let’s away,

And get our jewels and our wealth together,

Devise the fittest time and safest way

To hide us from pursuit that will be made

After my flight. Now go we in content

To liberty and not to banishment.

Exeunt”

ACT 2

SCENE I. The Forest of Arden.

DUKE SENIOR

Now, my co-mates and brothers in exile,

Hath not old custom made this life more sweet

Than that of painted pomp? Are not these woods

More free from peril than the envious court?

Here feel we but the penalty of Adam,

The seasons’ difference, as the icy fang

And churlish chiding of the winter’s wind,

Which, when it bites and blows upon my body,

Even till I shrink with cold, I smile and say

This is no flattery: these are counsellors

That feelingly persuade me what I am.’

And this our life exempt from public haunt

Finds tongues in trees, books in the running brooks,

Sermons in stones and good in every thing.

I would not change it.

AMIENS

Happy is your grace,

That can translate the stubbornness of fortune

Into so quiet and so sweet a style.”

SCENE II. A room in the palace.

(…)

SCENE III. Before OLIVER’S house.

Know you not, master, to some kind of men

Their graces serve them but as enemies?

No more do yours: your virtues, gentle master,

Are sanctified and holy traitors to you.

O, what a world is this, when what is comely

Envenoms him that bears it!”

Thou art not for the fashion of these times,

Where none will sweat but for promotion,

And having that, do choke their service up

Even with the having: it is not so with thee.”

ADAM

Master, go on, and I will follow thee,

To the last gasp, with truth and loyalty.

From seventeen years till now almost fourscore

Here lived I, but now live here no more.

At seventeen years many their fortunes seek;

But at fourscore it is too late a week:

Yet fortune cannot recompense me better

Than to die well and not my master’s debtor.

Exeunt”

SCENE IV. The Forest of Arden.

(…)

SCENE V. The Forest.

(…)

SCENE V. The Forest.

ORLANDO

I will here be with thee presently;

and if I bring thee not something to eat, I will

give thee leave to die: but if thou diest before I

come, thou art a mocker of my labour.”

SCENE VII. The forest.

JAQUES

The motley fool thus moral on the time,

My lungs began to crow like chanticleer,

That fools should be so deep-contemplative,

And I did laugh sans intermission

An hour by his dial. O noble fool!

A worthy fool! Motley’s the only wear.”

O that I were a fool! I am ambitious for a motley coat.”

…I must have liberty

Withal, as large a charter as the wind,

To blow on whom I please; for so fools have;

And they that are most galled with my folly,

They most must laugh. And why, sir, must they so?

The “why’ is plain as way to parish church:

He that a fool doth very wisely hit

Doth very foolishly, although he smart,

Not to seem senseless of the bob: if not,

The wise man’s folly is anatomized

Even by the squandering glances of the fool.

Invest me in my motley; give me leave

To speak my mind, and I will through and through

Cleanse the foul body of the infected world,

If they will patiently receive my medicine.”

DUKE SENIOR

For thou thyself hast been a libertine,

As sensual as the brutish sting itself;

And all the embossed sores and headed evils,

That thou with licence of free foot hast caught,

Wouldst thou disgorge into the general world.”

What woman in the city do I name,

When that I say the city-woman bears

The cost of princes on unworthy shoulders?

Who can come in and say that I mean her,

When such a one as she such is her neighbour?

Or what is he of basest function

That says his bravery is not of my cost,

Thinking that I mean him, but therein suits

His folly to the mettle of my speech?

There then; how then? what then? Let me see wherein

My tongue hath wrong’d him: if it do him right,

Then he hath wrong’d himself; if he be free,

Why then my taxing like a wild-goose flies,

Unclaim’d of any man. But who comes here?”

ORLANDO

I almost die for food; and let me have it.

DUKE SENIOR

Sit down and feed, and welcome to our table.”

DUKE SENIOR

Thou seest we are not all alone unhappy:

This wide and universal theatre

Presents more woeful pageants than the scene

Wherein we play in.

JAQUES

All the world’s a stage,

And all the men and women merely players:

They have their exits and their entrances;

And one man in his time plays many parts,

His acts being seven ages. At first the infant,

Mewling and puking in the nurse’s arms.

And then the whining school-boy, with his satchel

And shining morning face, creeping like snail

Unwillingly to school. And then the lover,

Sighing like furnace, with a woeful ballad

Made to his mistress’ eyebrow. Then a soldier,

Full of strange oaths and bearded like the pard,

Jealous in honour, sudden and quick in quarrel,

Seeking the bubble reputation

Even in the cannon’s mouth. And then the justice,

In fair round belly with good capon lined,

With eyes severe and beard of formal cut,

Full of wise saws and modern instances;

And so he plays his part. The sixth age shifts

Into the lean and slipper’d pantaloon,

With spectacles on nose and pouch on side,

His youthful hose, well saved, a world too wide

For his shrunk shank; and his big manly voice,

Turning again toward childish treble, pipes

And whistles in his sound. Last scene of all,

That ends this strange eventful history,

Is second childishness and mere oblivion,

Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything.”

Most friendship is feigning, most loving mere folly:

Then, heigh-ho, the holly!

This life is most jolly.

Freeze, freeze, thou bitter sky,

That dost not bite so nigh

As benefits forgot:”

…I am the duke

That loved your father: the residue of your fortune,

Go to my cave and tell me. Good old man,

Thou art right welcome as thy master is.

Support him by the arm….”

ACT III

SCENE I. A room in the palace.

(…)

SCENE II. The forest.

TOUCHSTONE

For a taste:

If a hart do lack a hind,

Let him seek out Rosalind.

If the cat will after kind,

So be sure will Rosalind.

Winter garments must be lined,

So must slender Rosalind.

They that reap must sheaf and bind;

Then to cart with Rosalind.

Sweetest nut hath sourest rind,

Such a nut is Rosalind.

He that sweetest rose will find

Must find love’s prick and Rosalind.

This is the very false gallop of verses: why do you

infect yourself with them?

ROSALIND

Peace, you dull fool! I found them on a tree.

TOUCHSTONE

Truly, the tree yields bad fruit.”

ROSALIND

I was seven of the nine days out of the wonder

before you came; for look here what I found on a

palm-tree. I was never so be-rhymed since

Pythagoras’ time, that I was an Irish rat, which I

can hardly remember.

CELIA

Trow you who hath done this?

ROSALIND

Is it a man?

CELIA

And a chain, that you once wore, about his neck.

Change you colour?

ROSALIND

I prithee, who?

CELIA

O Lord, Lord! it is a hard matter for friends to

meet; but mountains may be removed with earthquakes

and so encounter.”

ROSALIND

Good my complexion! dost thou think, though I am

caparisoned like a man, I have a doublet and hose in

my disposition? One inch of delay more is a

South-sea of discovery; I prithee, tell me who is it

quickly, and speak apace. I would thou couldst

stammer, that thou mightst pour this concealed man

out of thy mouth, as wine comes out of a narrow-

mouthed bottle, either too much at once, or none at

all. I prithee, take the cork out of thy mouth that

may drink thy tidings.

CELIA

So you may put a man in your belly.

ROSALIND

Is he of God’s making? What manner of man? Is his

head worth a hat, or his chin worth a beard?

CELIA

Nay, he hath but a little beard.

ROSALIND

Why, God will send more, if the man will be

thankful: let me stay the growth of his beard, if

thou delay me not the knowledge of his chin.

CELIA

It is young Orlando, that tripped up the wrestler’s

heels and your heart both in an instant.”

ROSALIND

Alas the day! what shall I do with my doublet and

hose? What did he when thou sawest him? What said

he? How looked he? Wherein went he? What makes

him here? Did he ask for me? Where remains he?

How parted he with thee? and when shalt thou see

him again? Answer me in one word.

CELIA

You must borrow me Gargantua’s mouth first: ‘tis a

word too great for any mouth of this age’s size. To

say ay and no to these particulars is more than to

answer in a catechism.

ROSALIND

But doth he know that I am in this forest and in

man’s apparel? Looks he as freshly as he did the

day he wrestled?

CELIA

It is as easy to count atomies as to resolve the

propositions of a lover; but take a taste of my

finding him, and relish it with good observance.

I found him under a tree, like a dropped acorn.

ROSALIND

It may well be called Jove’s tree, when it drops

forth such fruit.”

Enter ORLANDO and JAQUES”

JAQUES

I pray you, mar no more trees with writing

love-songs in their barks.

ORLANDO

I pray you, mar no more of my verses with reading

them ill-favouredly.”

JAQUES

Rosalind is your love’s name?

ORLANDO

Yes, just.

JAQUES

I do not like her name.

ORLANDO

There was no thought of pleasing you when she was

christened.

JAQUES

What stature is she of?

ORLANDO

Just as high as my heart.

JAQUES

You are full of pretty answers. Have you not been

acquainted with goldsmiths’ wives, and conned them

out of rings?”

JAQUES

The worst fault you have is to be in love.

ORLANDO

Tis a fault I will not change for your best virtue.

I am weary of you.

JAQUES

By my troth, I was seeking for a fool when I found

you.

ORLANDO

He is drowned in the brook: look but in, and you

shall see him.

JAQUES

There I shall see mine own figure.

ORLANDO

Which I take to be either a fool or a cipher.

JAQUES

I’ll tarry no longer with you: farewell, good

Signior Love.”

ORLANDO

Who ambles Time withal?

ROSALIND

With a priest that lacks Latin and a rich man that

hath not the gout, for the one sleeps easily because

he cannot study, and the other lives merrily because

he feels no pain, the one lacking the burden of lean

and wasteful learning, the other knowing no burden

of heavy tedious penury; these Time ambles withal.”

ORLANDO

Your accent is something finer than you could

purchase in so removed a dwelling.”

ROSALIND

No, I will not cast away my physic but on those that

are sick. There is a man haunts the forest, that

abuses our young plants with carving ‘Rosalind’ on

their barks; hangs odes upon hawthorns and elegies

on brambles, all, forsooth, deifying the name of

Rosalind: if I could meet that fancy-monger I would

give him some good counsel, for he seems to have the

quotidian of love upon him.

ORLANDO

I am he that is so love-shaked: I pray you tell me

your remedy.”

ROSALIND

A lean cheek, which you have not, a blue eye and

sunken, which you have not, an unquestionable

spirit, which you have not, a beard neglected,

which you have not; but I pardon you for that, for

simply your having in beard is a younger brother’s

revenue: then your hose should be ungartered, your

bonnet unbanded, your sleeve unbuttoned, your shoe

untied and every thing about you demonstrating a

careless desolation; but you are no such man; you

are rather point-device in your accoutrements as

loving yourself than seeming the lover of any other.”

ROSALIND

Love is merely a madness, and, I tell you, deserves

as well a dark house and a whip as madmen do: and

the reason why they are not so punished and cured

is, that the lunacy is so ordinary that the whippers

are in love too. Yet I profess curing it by counsel.”

…would now like him, now loathe

him; then entertain him, then forswear him; now weep

for him, then spit at him; that I drave my suitor

from his mad humour of love to a living humour of

madness; which was, to forswear the full stream of

the world, and to live in a nook merely monastic.

And thus I cured him; and this way will I take upon

me to wash your liver as clean as a sound sheep’s

heart, that there shall not be one spot of love in’t.

ORLANDO

I would not be cured, youth.

ROSALIND

I would cure you, if you would but call me Rosalind

and come every day to my cote and woo me.

ORLANDO

Now, by the faith of my love, I will: tell me

where it is.

ROSALIND

Go with me to it and I’ll show it you and by the way

you shall tell me where in the forest you live.

Will you go?

ORLANDO

With all my heart, good youth.

ROSALIND

Nay you must call me Rosalind. Come, sister, will you go?

Exeunt”

SCENE III. The forest.

TOUCHSTONE

When a man’s verses cannot be understood, nor a

man’s good wit seconded with the forward child

Understanding, it strikes a man more dead than a

great reckoning in a little room. Truly, I would

the gods had made thee poetical.

AUDREY

I do not know what ‘poetical’ is: is it honest in

deed and word? is it a true thing?

TOUCHSTONE

No, truly; for the truest poetry is the most

feigning; and lovers are given to poetry, and what

they swear in poetry may be said as lovers they do feign.

AUDREY

Do you wish then that the gods had made me poetical?

TOUCHSTONE

I do, truly; for thou swearest to me thou art

honest: now, if thou wert a poet, I might have some

hope thou didst feign.

AUDREY

Would you not have me honest?

TOUCHSTONE

No, truly, unless thou wert hard-favoured; for

honesty coupled to beauty is to have honey a sauce to sugar.

JAQUES

[Aside] A material fool!

AUDREY

Well, I am not fair; and therefore I pray the gods

make me honest.

TOUCHSTONE

Truly, and to cast away honesty upon a foul slut

were to put good meat into an unclean dish.

AUDREY

I am not a slut, though I thank the gods I am foul.

TOUCHSTONE

Well, praised be the gods for thy foulness!

sluttishness may come hereafter. But be it as it may

be, I will marry thee, and to that end I have been

with Sir Oliver Martext, the vicar of the next

village, who hath promised to meet me in this place

of the forest and to couple us.

JAQUES

[Aside] I would fain see this meeting.“

…As horns are odious, they are necessary. It is said, ‘many a man knows no end of his goods:’ right; many a man has good horns, and knows no end of them. Well, that is the dowry of his wife; ‘tis none of his own getting. Horns? Even so. Poor men alone? No, no; the noblest deer hath them as huge as the rascal. Is the single man therefore blessed? No: as a walled town is more worthier than a village, so is the forehead of a married man more honourable than the bare brow of a bachelor; and by how much defence is better than no skill, by so much is a horn more precious than to want. Here comes Sir Oliver.”

JAQUES

Will you be married, motley?

TOUCHSTONE

As the ox hath his bow, sir, the horse his curb and

the falcon her bells, so man hath his desires; and

as pigeons bill, so wedlock would be nibbling.”

[Aside] I am not in the mind but I were better to be

married of him than of another: for he is not like

to marry me well; and not being well married, it

will be a good excuse for me hereafter to leave my wife.”

SCENE IV. The forest.

CELIA

Yes; I think he is not a pick-purse nor a

horse-stealer, but for his verity in love, I do

think him as concave as a covered goblet or a

worm-eaten nut.”

SCENE V. Another part of the forest.

Scratch thee but with a pin, and there remains

Some scar of it; lean but upon a rush,

The cicatrice and capable impressure

Thy palm some moment keeps; but now mine eyes,

Which I have darted at thee, hurt thee not,

Nor, I am sure, there is no force in eyes

That can do hurt.”

You are a thousand times a properer man

Than she a woman: ‘tis such fools as you

That makes the world full of ill-favour’d children:

Tis not her glass, but you, that flatters her;

And out of you she sees herself more proper

Than any of her lineaments can show her.

But, mistress, know yourself: down on your knees,

And thank heaven, fasting, for a good man’s love:

For I must tell you friendly in your ear,

Sell when you can: you are not for all markets:

Cry the man mercy; love him; take his offer:

Foul is most foul, being foul to be a scoffer.

So take her to thee, shepherd: fare you well.”

Exeunt ROSALIND, CELIA and CORIN

PHEBE

Dead Shepherd, now I find thy saw of might,

Who ever loved that loved not at first sight?’”

Silvius, the time was that I hated thee,

And yet it is not that I bear thee love;

But since that thou canst talk of love so well,

Thy company, which erst was irksome to me,

I will endure, and I’ll employ thee too:

But do not look for further recompense

Than thine own gladness that thou art employ’d.”

PHEBE

Know’st now the youth that spoke to me erewhile?

SILVIUS

Not very well, but I have met him oft;

And he hath bought the cottage and the bounds

That the old carlot once was master of.”

PHEBE

Think not I love him, though I ask for him:

Tis but a peevish boy; yet he talks well;

But what care I for words? yet words do well

When he that speaks them pleases those that hear.

It is a pretty youth: not very pretty:

But, sure, he’s proud, and yet his pride becomes him:

He’ll make a proper man: the best thing in him

Is his complexion; and faster than his tongue

Did make offence his eye did heal it up.

He is not very tall; yet for his years he’s tall:

His leg is but so so; and yet ‘tis well:

There was a pretty redness in his lip,

A little riper and more lusty red

Than that mix’d in his cheek; ‘twas just the difference

Between the constant red and mingled damask.

There be some women, Silvius, had they mark’d him

In parcels as I did, would have gone near

To fall in love with him; but, for my part,

I love him not nor hate him not; and yet

I have more cause to hate him than to love him:

For what had he to do to chide at me?

He said mine eyes were black and my hair black:

And, now I am remember’d, scorn’d at me:

I marvel why I answer’d not again:

But that’s all one; omittance is no quittance.

I’ll write to him a very taunting letter,

And thou shalt bear it: wilt thou, Silvius?

SILVIUS

Phebe, with all my heart.”

ACT IV

SCENE I. The forest.

ORLANDO

Good day and happiness, dear Rosalind!

JAQUES

Nay, then, God be wi’ you, an you talk in blank verse.

Exit”

The poor world is almost six thousand years old, and in all this time there was not any man died in his own person, videlicit, in a love-cause. Troilus had his brains dashed out with a Grecian club; yet he did what he could to die before, and he is one of the patterns of love. Leander, he would have lived many a fair year, though Hero had turned nun, if it had not been for a hot midsummer night; for, good youth, he went but forth to wash him in the Hellespont and being taken with the cramp was drowned and the foolish coroners of that age found it was ‘Hero of Sestos.’ But these are all lies: men have died from time to time and worms have eaten them, but not for love.”

men are April when they woo, December when they wed:

maids are May when they are maids, but the sky

changes when they are wives. I will be more jealous

of thee than a Barbary cock-pigeon over his hen,

more clamorous than a parrot against rain, more

new-fangled than an ape, more giddy in my desires

than a monkey: I will weep for nothing, like Diana

in the fountain, and I will do that when you are

disposed to be merry; I will laugh like a hyen, and

that when thou art inclined to sleep.”

O, that woman that cannot make her fault her husband’s occasion, let her never nurse her child herself, for she will breed it like a fool!”

my affection hath an unknown bottom, like the bay of Portugal.”

SCENE II. The forest.

(cantado)

Take thou no scorn to wear the horn;

It was a crest ere thou wast born:

Thy father’s father wore it,

And thy father bore it:

The horn, the horn, the lusty horn

Is not a thing to laugh to scorn.”

SCENE III. The forest.

CELIA

Are you his brother?

ROSALIND

Wast you he rescued?

CELIA

Was’t you that did so oft contrive to kill him?

OLIVER

Twas I; but ‘tis not I I do not shame

To tell you what I was, since my conversion

So sweetly tastes, being the thing I am.

ROSALIND

But, for the bloody napkin?

OLIVER

By and by.

When from the first to last betwixt us two

Tears our recountments had most kindly bathed,

As how I came into that desert place:–

In brief, he led me to the gentle duke,

Who gave me fresh array and entertainment,

Committing me unto my brother’s love;

Who led me instantly unto his cave,

There stripp’d himself, and here upon his arm

The lioness had torn some flesh away,

Which all this while had bled; and now he fainted

And cried, in fainting, upon Rosalind.

Brief, I recover’d him, bound up his wound;

And, after some small space, being strong at heart,

He sent me hither, stranger as I am,

To tell this story, that you might excuse

His broken promise, and to give this napkin

Dyed in his blood unto the shepherd youth

That he in sport doth call his Rosalind.

ROSALIND swoons

CELIA

Why, how now, Ganymede! sweet Ganymede!

OLIVER

Many will swoon when they do look on blood.

CELIA

There is more in it. Cousin Ganymede!“

ACT 5 SCENE I. The forest.

TOUCHSTONE

Why, thou sayest well. I do now remember a saying,

The fool doth think he is wise, but the wise man

knows himself to be a fool.’ The heathen

philosopher, when he had a desire to eat a grape,

would open his lips when he put it into his mouth;

meaning thereby that grapes were made to eat and

lips to open. You do love this maid?”

TOUCHSTONE

Then learn this of me: to have, is to have; for it

is a figure in rhetoric that drink, being poured out

of a cup into a glass, by filling the one doth empty

the other; for all your writers do consent that ipse

is he: now, you are not ipse, for I am he.”

TOUCHSTONE

He, sir, that must marry this woman. Therefore, you

clown, abandon,–which is in the vulgar leave,–the

society,–which in the boorish is company,–of this

female,–which in the common is woman; which

together is, abandon the society of this female, or,

clown, thou perishest; or, to thy better

understanding, diest; or, to wit I kill thee, make

thee away, translate thy life into death, thy

liberty into bondage: I will deal in poison with

thee, or in bastinado, or in steel; I will bandy

with thee in faction; I will o’errun thee with

policy; I will kill thee a hundred and fifty ways:

therefore tremble and depart.”

SCENE II. The forest.

ORLANDO

Is’t possible that on so little acquaintance you

should like her? that but seeing you should love

her? and loving woo? and, wooing, she should

grant? and will you persever to enjoy her?

OLIVER

Neither call the giddiness of it in question, the

poverty of her, the small acquaintance, my sudden

wooing, nor her sudden consenting; but say with me,

I love Aliena; say with her that she loves me;

consent with both that we may enjoy each other: it

shall be to your good; for my father’s house and all

the revenue that was old Sir Rowland’s will I

estate upon you, and here live and die a shepherd.”

…But, O, how bitter a thing it

is to look into happiness through another man’s

eyes! By so much the more shall I to-morrow be at

the height of heart-heaviness, by how much I shall

think my brother happy in having what he wishes for.”

SILVIUS

It is to be all made of fantasy,

All made of passion and all made of wishes,

All adoration, duty, and observance,

All humbleness, all patience and impatience,

All purity, all trial, all observance;

And so am I for Phebe.

PHEBE

And so am I for Ganymede.

ORLANDO

And so am I for Rosalind.

ROSALIND

And so am I for no woman.

PHEBE

If this be so, why blame you me to love you?

SILVIUS

If this be so, why blame you me to love you?

ORLANDO

If this be so, why blame you me to love you?

ROSALIND

Who do you speak to, ‘Why blame you me to love you?’

ORLANDO

To her that is not here, nor doth not hear.

ROSALIND

Pray you, no more of this; ‘tis like the howling

of Irish wolves against the moon.

To SILVIUS

I will help you, if I can:

To PHEBE

I would love you, if I could. To-morrow meet me all together.

To PHEBE

I will marry you, if ever I marry woman, and I’ll be

married to-morrow:

To ORLANDO

I will satisfy you, if ever I satisfied man, and you

shall be married to-morrow:

To SILVIUS

I will content you, if what pleases you contents

you, and you shall be married to-morrow.

To ORLANDO

As you love Rosalind, meet:

To SILVIUS

as you love Phebe, meet: and as I love no woman,

I’ll meet. So fare you well: I have left you commands.

SILVIUS

I’ll not fail, if I live.

PHEBE

Nor I.

ORLANDO

Nor I.

Exeunt”

SCENE III. The forest.

(…)

SCENE IV. The forest.

ROSALIND

I have promised to make all this matter even.

Keep you your word, O duke, to give your daughter;

You yours, Orlando, to receive his daughter:

Keep your word, Phebe, that you’ll marry me,

Or else refusing me, to wed this shepherd:

Keep your word, Silvius, that you’ll marry her.

If she refuse me: and from hence I go,

To make these doubts all even.

Exeunt ROSALIND and CELIA”

Enter TOUCHSTONE and AUDREY

JAQUES

There is, sure, another flood toward, and these

couples are coming to the ark. Here comes a pair of

very strange beasts, which in all tongues are called fools.

TOUCHSTONE

Salutation and greeting to you all!

JAQUES

Good my lord, bid him welcome: this is the

motley-minded gentleman that I have so often met in

the forest: he hath been a courtier, he swears.

TOUCHSTONE

If any man doubt that, let him put me to my

purgation. I have trod a measure; I have flattered

a lady; I have been politic with my friend, smooth

with mine enemy; I have undone three tailors; I have

had four quarrels, and like to have fought one.”

HYMEN

Peace, ho! I bar confusion:

‘Tis I must make conclusion

Of these most strange events:

Here’s eight that must take hands

To join in Hymen’s bands,

If truth holds true contents.

You and you no cross shall part:

You and you are heart in heart

You to his love must accord,

Or have a woman to your lord:

You and you are sure together,

As the winter to foul weather.

Whiles a wedlock-hymn we sing,

Feed yourselves with questioning;

That reason wonder may diminish,

How thus we met, and these things finish.

SONG.

Wedding is great Juno’s crown:

O blessed bond of board and bed!

‘Tis Hymen peoples every town;

High wedlock then be honoured:

Honour, high honour and renown,

To Hymen, god of every town!”

EPILOGUE

ROSALIND

It is not the fashion to see the lady the epilogue;

but it is no more unhandsome than to see the lord

the prologue. If it be true that good wine needs

no bush, ‘tis true that a good play needs no

epilogue; yet to good wine they do use good bushes,

and good plays prove the better by the help of good

epilogues. What a case am I in then, that am

neither a good epilogue nor cannot insinuate with

you in the behalf of a good play! I am not

furnished like a beggar, therefore to beg will not

become me: my way is to conjure you; and I’ll begin

with the women. I charge you, O women, for the love

you bear to men, to like as much of this play as

please you: and I charge you, O men, for the love

you bear to women–as I perceive by your simpering,

none of you hates them–that between you and the

women the play may please. If I were a woman I

would kiss as many of you as had beards that pleased

me, complexions that liked me and breaths that I

defied not: and, I am sure, as many as have good

beards or good faces or sweet breaths will, for my

kind offer, when I make curtsy, bid me farewell.

Exeunt”

GLOSSÁRIO:

bur: casca de noz; aporrinhação.

chanticleer: galo

ewe: ovelha

jolly: alegre

motley: variegado, caleidoscópico; a roupa arco-íris de um bobo da côrte.

whetstone: pedra-de-amolar

ALEXANDER BAIN #SérieOsÚltimosPolímatas

polímata

(po·lí·ma·ta)

adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros

Que ou quem estudou e sabe muitas coisas ou muitas ciências (ex.: Santa Hildegarda era uma freira polímata; os polímatas são peritos em muitas áreas do conhecimento). = POLÍMATE, POLÍMATO

<polímata>, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2023, https://dicionario.priberam.org/pol%C3%ADmata.”

Traduzido do wikipedia English com algumas (muitas!) liberdades autorais…

Alexander Bain

Alexander Bain (11 de junho de 1818 – 18 de setembro de 1903) foi um filósofo e pedagogo escocês da escola empírica britânica, além de figura proeminente e inovadora nos campos da psicologia, lingüística, lógica, ética e da reforma da educação. Ele fundou Mind (Mente ou Cérebro), o primeiro jornal de psicologia e filosofia analítica, e foi pioneiro na aplicação do método científico à psicologia. Bain inaugurou a cadeira regente de Lógica da Universidade de Aberdeen, onde também ensinava ética e Literatura Inglesa, além de terminar por ser eleito duas vezes o reitor de tal universidade.

Linguística

Bain foi bastante influente na metodologia de ensino da gramática e estilo de composição do inglês no Reino Unido. Ele elaborou alguns livros-textos referência entre 1963 e 1974, dentre os quais também se encontra um Manual de Retórica.

Filosofia

Os tratados filosóficos de Bain, devido a sua espessura, eram impróprios para uso em sala de aula: Os Sentidos e o Intelecto, Sobre o Estudo do Caráter incluindo uma Recensão da Frenologia, etc. Para contornar esse inconveniente, Bain publicou em 1868 seu Manual da Ciência Mental e Moral. Em seguida ele publicou sua Lógica, também com intuitos didáticos, baseando-se em John Stuart Mill, porém divergindo deste em particulares. Precursor foi seu livro Educação (Pedagogia) como Ciência. Todos os seus livros filosóficos foram escritos durante os 20 anos em que lecionou na universidade.

Psicologia

Mesmo que tenha sido algo influente como lógico, retórico e lingüista, onde a fama de Bain reside verdadeiramente é na esfera psicológica. Pioneiro dos estudos em psicologia no XIX inglês, Bain foi também o patrocinador de uma visão moderna, para a qual, como já dizia o anatomista comparativo alemão Johannes Peter Müller, psychologus nemo nisi physiologus (não se é psicólogo sem ser ao mesmo tempo fisiólogo), aproximando corpo e mente como disciplinas e instâncias interdependentes.

William James, um dos grandes fundadores da Psicologia tal qual a conhecemos hoje, chama seu trabalho de “a última palavra” em termos de pré-psicologia como ciência constituída positiva. Não era estranho a Bain, outrossim, o apelo à psicologia social, ainda que o nome fosse inexistente à época. Sua teoria de que a crença era uma preparação para a ação tornou-se respeitada tanto nos círculos funcionalistas quanto entre os pragmatistas.

[ARQUIVO] A ESPERA PELO SUPRA-HOMEM (10/07/08): RETRORREFLEXÃO

Publicado originalmente em 8 de maio de 2010.

Pela terceira vez venho falar do “supra-homem no devir”:

Não passa pela cabeça dos candidatos a Zaratustra que o supra-homem nunca chega; e este é seu sentido? Que é melhor, e só é possível, ser um anunciador, “esperar”, fazer a apologia do amanhã? Que a cena da fuga sublime da caverna é o ícone máximo do humano? Que humano? Todo e nenhum.

No que essa hipótese é invencível: sempre há fichas sobrando para apostar no amanhã. Um amanhã – uma aurora – terreno. Para todo sol soerguente e a pino, um crepúsculo. Jamais a falsa promessa de conceder todas as vantagens sem as revelias, contrastes e – sim! – castigos.

Ainda há muitas auroras pela frente”

E não importa que debaixo dos pórticos, muitas tarântulas da moral!

[ARQUIVO] AFORISMOS RUBROS

De setembro a novembro de 2009.

Às vezes remexemos teias de aranha e papeladas amarelentas, pastas e armários empoeirados, para encontrar uma coisa – no meio da busca os resultados já são tão admiráveis que nem lembramos se o objetivo original já foi contemplado…

Eu sou o cúmulo do ocioso. Eu, eu estou aqui para nada, esse é meu fado. Quando até para filosofar é preciso ter técnica…

O que você tem contra os beberrões, a Amy Winehouse, o atleta, o cientista? Se eles são chamas que queimam como querem!

Meu encanto por alguém como Schuldiner vem de eu ter 21 anos e me sentir em perigo. Minha não-fascinação por Niemeyer e pelo “em fim de carreira” se explica pelo cômodo vizinho ser escuso e eu não encontrar interruptor.

Em mel há moscas! Pior ainda se o açúcar não consegue transbordar…

Me sinto como EricAlex de Elefante: capaz de metralhar um refeitório inteiro só para comer descansado e ouvir os pássaros. Que tal limpar esta quadra? Ou as concessionárias.

[ARQUIVO] O SER E O NADA: Ensaio de Ontologia Fenomenológica, Jean-Paul Sartre

Originalmente publicado em 16 de abril de 2010. Lido entre 30 de abril e 23 de julho de 2009.

Ensaio de ontologia não-ontológica.

INTRODUÇÃO

se nos desvencilharmos do que Nietzsche chamava ‘a ilusão dos trás-mundos’ e não acreditarmos mais no ser-detrás-da-aparição, esta se tornará, ao contrário, plena positividade, e sua essência um ‘parecer’ que já não se opõe ao ser, mas ao contrário, é sua medida”

O fenômeno aqui trabalhado é o relativo-absoluto. Tudo o que é, o que passa, é autêntico, porém o é para o observador.

Série”, “cadeia” em oposição à rigidez e à fixidez de uma “sina” pessoal. A palavra “teimosia” e minha pessoa. Isso é “intuição de essência” em Husserl.

Quando se for mais velho e se puder contemplar a morte de perto, aí então eu saberei o que é a iminência do colapso do universo. Nada espetacular, eu responderia, 15 anos depois.

Não é possível que minha vida vá se resumir a divagar sobre o que é a vida!

Nada mais incompreensível que o princípio da inércia”

PRIMEIRA PARTE – O PROBLEMA DO NADA

CAPÍTULO 1 – A ORIGEM DA NEGAÇÃO

CAPÍTULO 2 – A MÁ-FÉ

SEGUNDA PARTE – O SER-PARA-SI

CAPÍTULO 1 – ESTRUTURAS IMEDIATAS DO PARA-SI

O fenomenismo de Husserl beira a toda hora o idealismo kantiano”

um dos postulados de Husserl, o ‘Eu penso’, é uma viscosa e fascinante ‘armadilha para cotovias’” Heidegger

A realidade humana, por natureza, é consciência infeliz, sem qualquer possibilidade de superar o estado de infelicidade.”

o esgar inconsciente de quem dorme”

o valor pode ser considerado a unidade incondicionada de todos os transcenderes do ser” “é o faltado de todas as faltas, não o faltante”

há uma total contingência do ser-para-o-valor, que recairá imediatamente sobre toda moral para trespassá-la e torná-la relativa – e, ao mesmo tempo, uma livre e absoluta necessidade.”

Denominaremos ‘Circuito da ipseidade’ a relação do Para-si com o possível que ele é, e ‘mundo’, e ‘mundo’ a totalidade de ser na medida em que é atravessada pelo circuito da ipseidade”

CAPÍTULO 2 – A TEMPORALIDADE

Representação e vontade são ídolos inventados pelos psicólogos”

CAPÍTULO 3 – A TRANSCENDÊNCIA

TERCEIRA PARTE – O PARA-OUTRO

CAPÍTULO 1 – A EXISTÊNCIA DO OUTRO

o realismo não deixa qualquer lugar à intuição do outro

Se os animais são máquinas, por que não o seria o homem que vejo passando na rua? Por que não seria válida a hipótese radical dos behavioristas?”

Mas como um instante de meu tempo poderá estar em relação de simultaneidade ou sucessão com um instante do tempo do outro?”

Estava justamente pensando nisso hoje: eu não coexisto com meus pais, no sentido em que o valentão, p.ex., se depara com meu despeito “em fase final da carreira”, décadas e décadas depois de tantos obstáculos, me vê como um literal grão-de-arroz. De minha parte, esse colosso invencível não passa da miragem de uma juventude, prestes a se tornar um borrão num baú. Não existe “neste momento” para eles! Existe o meu-momento-deste-momento-deles.¹

¹ (P.S. 2024) Embora concorde com essa definição (e tenha sempre relembrado desse parágrafo que escrevi), o conteúdo de Sartre é ainda mais profundo que isso. Meu tempo está separado de outros tempos por um abismo intransponível mesmo se falarmos de tempos de coetâneos, ou do tempo da alma gêmea.

Solipsismo: o que eu um dia batizei de “ultra-existencialismo” como atitude corriqueira de desprezo.

o idealista, sem se dar conta, recorre a um ‘terceiro homem’ para fazer surgir esta negação de exterioridade.”

Irracionalismo materialista? VIDISMO! Existencialismo… Apodrecimento de “HUMANISMO, EMPIRISMO, NATURALISMO, MODERNISMO”…

O deus-homem – produto da superação do binômio SOLIPSISMO (esquizofrenia auto-criacionista) & PANTEÍSMO (fusão com deus num sintoma correlato de fraqueza). (Meu duelo de forças! Concepção definitiva do universo.)

Linguajar empolado e desonestidade bibliográfica: não foi o primeiro, não será o último.

A tragédia dos solipsistas é que eles precisam aprender a doutrina de outros solipsistas.

ANTI-HEGEL: “Com efeito, esqueceu sua própria consciência; ele é o Todo, e, nesse sentido, se tão facilmente resolve o problema das consciências, é porque, para ele, nunca houve verdadeiro problema a esse respeito.” “posso, sem dúvida, transcender-me rumo a um todo, mas não me estabelecer nesse todo para me contemplar e contemplar o outro.”

O livro me decepcionou. Eis que os filósofos voltam a “não ter músculos”! Cheiro de Kant, Hegel, poeira e livro velho – quanto a TODOS os hommes de letres do século XX, sei-o. Marinetti está certo…

Com seu modo brusco e algo rude de romper os nós górdios antes de tentar desatá-los, Heidegger responde à questão colocada com uma pura e simples definição.”

O ‘ser-com’ concebido como estrutura de meu ser é algo que isola de modo tão inegável como os argumentos do solipsismo [confradismo alemão]. É porque a a transcendência heideggeriana é um conceito de má-fé.” “o idealismo assim superado não passa de uma forma bastarda de idealismo, uma espécie de psicologismo empiriocriticista.”

seria inútil buscar em Ser e Tempo a superação simultânea de todo idealismo e todo realismo.”

A solidão humana sempre vence.

pelo olhar do outro, tenho a prova concreta de que há um para-além do mundo.”

o olhar, por sua vez, será que não irá se tornar provável pelo fato de que posso constantemente supor estar sendo visto sem sê-lo?” (“MEU ALÉM”, necessidade de “viver para meus entes passados” – simulação)

se ocorre de aparecermos ‘em público’ para interpretar um papel ou dar uma conferência, não esquecemos o fato de que somos vistos e executamos o conjunto dos atos que viemos fazer em presença do olhar, ou melhor, tentamos constituir um ser e um conjunto de objetos para esse olhar. Mas não enumeramos o olhar. Enquanto falamos, atentos apenas às idéias que queremos desenvolver, a presença do outro permanece indiferenciada”

A vergonha é sentimento de pecado original (…) simplesmente pelo fato de [eu] ter ‘caído’ no mundo.”

CAPÍTULO 2 – O CORPO

não vejo minha mão de modo diferente de como vejo esse tinteiro.”

a [teoria da] relatividade não é um ‘relativismo’”

a famosa ‘sensação de esforço’, com que Maine de Biran tentava responder ao desafio de Gume, é um mito psicológico. Jamais temos a sensação de nosso esforço, mas tampouco temos sensações periféricas, musculares, ósseas, tendinosas ou cutâneas, pelas quais tentou-se substituí-la: percebemos a resistência das coisas.”

coeficiente de adversidade dos objetos” Bachelard

A finitude é condição necessária do projeto original do Para-si.”

o corpo é a forma contingente que a necessidade de minha contingência assume.”

sinestesia, cinestesia, cenestesia

“‘esqueço’ minha dor (o que de modo algum significa que esta tenha desaparecido, uma vez que, se venho a conhecê-la em um ato reflexivo posterior, dar-se-á como havendo estado sempre aí).”

Crise”: minha projeção das consciências terceiras sobre o que leio – atuando agora! [agora!]¹ –, minhas neuroses antes de passear-fumar-escutar, minha motricidade irritável (dedos, suor, orelhas, caspa). Parte marginal e instigante da obra: e aquelas – essas! – malditas dores espontâneas que irradiam de todos os lugares?² Analogia musical para a dor o latejo ritmado, as notas e o silêncio.

¹ (P.S. 2024) Agora!!

² (P.S. 2024) Ampliei contudo minha consciência mental-corporal. Entendo a origem dessas dores: falta de manutenção. Bem como sei perfeitamente que todos os sinais de irritabilidade (o que, ademais, muito óbvio!) eram parte de uma ansiedade não-tratada e não de uma singularidade atípica do meu ser de 2009.

Esta perpétua captação por meu Para-si de um gosto insípido e sem distância, que me acompanha até em meus esforços para livrar-me dele e que é meu gosto, é o que descrevemos em outro lugar com o nome de Náusea“Longe de tomarmos esse termo náusea como metáfora tomada de nossos mal-estares fisiológicos, é, ao contrário, sobre o fundamento desta náusea que se produzem todas as náuseas concretas e empíricas (náuseas ante a carne putrefata, o sangue fresco, os excrementos, etc.) que nos impelem ao vômito.” O normal é que não sintamos náusea com relação a nosso próprio sangue, somente o alheio. Igualmente, ninguém sente o “fedor” das próprias fezes, mesmo quando o sente!

O que é gosto de si para o outro converte-se para mim em carne do outro.” “e esta apreensão é um tipo particular de náusea.”

A anatomia é o estudo da exterioridade que subentende sempre a facticidade, enquanto tal exterioridade jamais é perceptível, salvo no cadáver. A fisiologia é a reconstituição sintética do vivente a partir dos cadáveres.”

anatomofisiologia” como ciência incapaz de descrever a vida. Em realidade, fala dos livros-textos de biologia (confusão terminológica).

CAPÍTULO 3 – AS RELAÇÕES CONCRETAS COM O OUTRO

o Para-si é perseguidor-perseguido.”

sedução: brincar-de-ser-coisa

É claro que entendemos por linguagem todos os fenômenos de expressão, e não a palavra articulada.”

Cada um quer que o outro o ame, sem se dar conta de que amar é querer ser amado e que, desse modo, querendo que o outro o ame, quer apenas que o outro queira que ele o ame.”

Daí esta psicologia ‘moralista’ que o século XVII francês nos legou.”

encontro-me comprometido em uma busca que perdeu seu sentido (…) exatamente como quando tento reaver a lembrança de um sonho e essa lembrança se liquefaz entre meus dedos, deixando uma vaga e exasperante impressão de conhecimento total e sem objeto; ou exatamente como quando tento explicar o conteúdo de uma falsa reminiscência e a própria explicação faz com que ela se dissolva em translucidez.”

as filosofias existenciais não acreditaram na necessidade de se preocupar com a sexualidade.” Heidegger, o frígido!

O fato de poder dispor de um órgão sexual apto a fecundar e buscar o prazer só representa uma fase e um aspecto de nossa vida sexual.”

O homem comum, por preguiça de espírito e conformismo, também não pode conceber para seu desejo outra meta que não seja a ejaculação.” O homem de 13 a 15 anos no Ocidente, no século XX, no seu final: não há criatura mais patética e previsível. Paradigma American Pie: a vida antes e depois da cópula.

em última instância, o desajeitado é injustificável”

estamos já lançados no mundo diante do outro; nosso surgimento é livre limitação de sua liberdade, e nada, sequer o suicídio, pode modificar esta situação originária; quaisquer que sejam nossos atos, com efeito, cumprimo-los em um mundo onde já há o outro e onde sou supérfluo com relação ao outro.”

a ocasião que solicita a ira é simplesmente o ato do outro que me colocou em estado de padecer sua liberdade. Este ato é humilhante em si mesmo: é humilhante na medida em que é revelação concreta de minha objetividade instrumental diante da liberdade do outro”

numa conversa a três, um está sempre sobrando.”

A essência das relações entre consciência não é o ser-com, mas o conflito.”

Se lemos Heidegger, chama a atenção a insuficiência de suas descrições hermenêuticas.”

QUARTA PARTE – TER, FAZER E SER

CAPÍTULO 1 – SER E FAZER A LIBERDADE

concepção instantaneísta da consciência da qual Husserl não pode sair”

mesmo se eu fosse imrtal, me seria vedado ‘ter minha segunda chance’; é a irreversibilidade da temporalidade que me impede isso.”

Show de obviedades.

CAPÍTULO 2 – FAZER E TER

Todos esses hermeneutas da modernidade, aí incluído Marx, captaram a mesma coisa com palavras diferentes.

o materialista (…) sequer encara mais a possibilidade de sair do mundo, pois deu a si próprio o tipo de existência do rochedo.”

Exemplos de viscosidade: aperto de mão do Tartas. Sexo, depois do auge do tesão; caminhar sob o sol de Brasília sem barba feita, e de preto; coca-cola, pirulito.¹

¹ (P.S. 2024) Hilário!

CONCLUSÃO

acontecerá que o quietismo do bêbado solitário prevalecerá sobre a vã agitação do líder dos povos.”

[ARQUIVO] EDITORIAL AO RAQUÍTICO

Originalmente publicado em 9 de abril de 2010.

O que leitores de carne fraca do meu blog não podem compreender (pois, ao passo que esses, que ladram duas ou três vezes por ano nos comentários – e que jamais mordem, como os cachorros dos meus sonhos –, são quase sempre seres magrelos, lhes parece faltar a condição da correta circulação do sangue – são um tanto anêmicos, não conhecem as próprias emoções; como poderiam avaliar os corações dos outros?) é o preço incorruptível da vontade de me expressar, pela qual aceito todo o ônus. Disposição esta perfeitamente confundível, em meu caso, com a vontade de viver. Nisso tudo se ergue a verdade fundamental deste espaço, que é: o ponto mais forte e o ponto mais fraco do blog são uma e a mesma coisa, quer seja, que ele lida o tempo todo com tabus. Pense-se no quanto é conveniente ser discreto e, ainda assim, se arrogar títulos como: mente perfeitamente sã, desbravador, etc., etc…

Duele comigo no meu terreno! Que não é o dos inautênticos…

Atacar primeiro, eis o meu lema, e com elegância. O revide grosseiro eu deixo para os covardes.

[ARQUIVO] MEDITAÇÕES AO MEIO-DIA…

Originalmente publicado em 6 de abril de 2010.

…o meio-dia de qualquer dia

Já sinto saudades… Queria fincar meus pés no chão

Então tanto faz! Mas há coisas que eu não sei e que o plus sabe… A ameaça de ficar inválido me rodeia. Por que rastejar como um verme? Porque a próxima primavera será melhor! Até que os fios brancos e o acidente fatal não mais permitam essa “saída”… Porque o projeto humano, que digo, o plus!, só faz sentido enquanto plus! Mas até lá… De volta ao tanto faz, mas que não é tanto faz até que se torne o passado.

Álbum de fotos ou bola-de-cristal? Sempre acho que falta uma emoção a mais… Até que achar não será mais suficiente para transmutar o futuro. Desgosto, uma brincadeira de mau gosto, se o momento não chegar! Mas ele não pode ser QUALQUER fim? Podemos mudar de idéia com uma velocidade incrível… O último enjôo.

No fundo sabemos que eu só estou re-acumulando energia…

À vezes é preciso voltar – quando já se sabe tudo. Pode ser apenas um engano dos senhores pregadores da ciência.

[ARQUIVO] AS DESILUSÕES DO JOVEM EDWARDS

Originalmente publicado em 6 de abril de 2010.

Eduardo tem 22 anos. Encontra-se no limiar do que se pode dizer que é a idade adulta. No limiar inferior. E deixa, com mais um salto sobre um montículo, a adolescência, essa infância amarga. Seu ímpeto volta agora a arder após um longo degelo. Ele realmente gostaria de empreender essas energias que lhe sobram em algo mais que trabalho, poesia, porres e planos. Isso significa a inclinação para a conquista. E ao voraz basta o alimento. Nem precisa ser cozido. Ao fundador de uma nova nação não é certo falar do luxo chamado escolha. A aridez do Himalaia, prados verdíssimos, uma flora exuberante sem solo firme? Ou quiçá aquele chão eterno apesar de rachado? O homem não escolhe local nem clima. Inóspito é só “onde não havia homens ainda”. Nenhum lugar passa em branco, sem ver vidas brotarem, se desenvolverem e serem, na acepção crua da palavra, aquele ambiente. Pois bem: Eduardo chegou a um impasse provisório. Nada de bem-estar, mas sim algo de temeridade, na escolha: o porto um ou o porto dois. A mulher que ele quer contemplar na doce idade do pecado e do erro, ou a firmeza de espírito. Não haverá encanto sobrenatural na segunda, a não ser o encanto de saber que amortecer os encantos é também um encanto, talvez o senhor dos encantos!

O que poderá valer mais? Uma vida com Gabriela, 15 anos, ou o futuro devotado a esta mulher de primavera para outono de 30, Isadora? Sente que vai explodir de paixão por uma das duas a qualquer momento e sente, prenuncia, o derramar das antagonistas, embora o jeito que uma entorne seja absolutamente pacífico e irretocável, um verdadeiro chá das cinco, frente ao outro, tão violento, sacolejante, animado, invejável, imprudente, que espirra lava pelas imediações e até para além delas. O jeito como entornam a água da cumplicidade. O que ele quer? Que tipo de banho Eduardo almeja? Poderia ser que haja essências a desmascarar? Gabriela precisa de proteção. Chora quando a mãe a fustiga, seja por falta de amor-próprio ou por falar demais no telefone. Chora com a menstruação. Chora com as cólicas, mas tem sede de aprender. De aprender que na vida há muito mais pelo que sofrer. Quase uma filha, sete anos mais jovem. Quando for petulante será bem mais má que qualquer mulher mais velha – inocentemente, é claro. Ainda possui aquela pele escorregadia que pode trombar – o que digo? – com outros pênis, outros braços, outros beiços, outro bafo. Crê que poderia ser assim por mais mil anos, sem desgastar sua virgem beleza. O ruim e cansativo na maldade é que ela nos torna assaz bons! É só olhar Isadora! Aprendeu, aprendeu e não pode voltar a ser o que era – e se Eduardo escolhesse Gabriela, escolheria Isadora por tabela. Pagaria toda a fortuna do mundo pelos momentos, pelas efusões mais breves, pelo espetáculo do princípio, a demonstração da gênese, a verificação da beleza mais casual e lívida, coisa autodestrutiva e tão pequenina? Será que vale a pena? A vida vale o ano? O ano não vale a vida, seria fácil demais…

E então, Eduardo quer já o correto ou ainda repisar nos velhos erros? Acho que enquanto puder, ele vai procurar a menina onde puder, mesmo onde já não estiver…

Repisar nos erros é o certo. Isadora não vingou. Virou Poliana e depois Nathália. Nathália era Gabriela. Hoje Gabriela é mais “Rebeca”, nome forte esse, de batalhadora, que não se furta à oportunidade da vanglória. Ou Glória, de duros bastidores, pernas grossas, mas no fundo… Gabriela não é mais Isadora, agora, do que Isadora foi um dia? Não, não chora.

Marina, nome híbrido. Mulher-menina. Menina sabida. Mente, está acima! Dengo de Flamengo. Nina, Nana neném. Tessália, de saia, é a Renata que acertou de primeira…


ímã mar imagemalgemar

amalgamar a margem

geme


Candura ou postura?

Cabisbaixo ou de somenos?

Democrata ou patriarca?

Devagar ou depressa?

Responsabilidade ou co-autoria?

Fria ou debaixo das cobertas ela ainda ardia?

Proibido e escondido ou só apartado, alojado, reservado?

Faz-de-conta ou pega-fogo? Incendiário!


O que faz um homem que não aprendeu a amar a vida toda?

[ARQUIVO] DEBAIXO DO BLOCO

Originalmente publicado em 10 de março de 2010.

Vivia-se mais despreocupadamente. Como que em uma cidade do interior sem nenhuma das intempéries do Nordeste e da magra infância dos pais/primeiros candangos. As bermudas não precisavam ter bolsos, não se carregava dinheiro, documentos, quiçá a chave, para entrar de ponta de pé quando se chegasse em casa – que ultraje! – depois da meia-noite… Telefone é algo imencionável. Não diria que o ritmo era dos mais lentos e morosos, pois as brincadeiras exigiam agilidade. Abordagem muito romântica? Devemos respeitar a ilusão. Improviso, machucados, inconseqüência, carreira e dinheiro… Ninguém se deu conta MESMO?! Hoje há mais com o que se desgastar: borborigmos de estômago, pessoas de quem se depende, namorada exigente, remédios, relógios, traumas… E hoje já nem consigo achar moedas no chão! Não existe uma mão amiga, uma paragem, hospedaria solidária… sem que se deva lavar a sujeira alheia – nada de FIADO! E na verdade esse é o futuro sem futuro. Todos, mesmo os mais destacados, têm de ter um período de banal, de comum, de mais um, de harmonia e encaixe; bem como eu recomendaria a quem não sabe enxergar os panoramas para além da montanha um exílio, um estágio especial, nem que apenas para guardar o vazio num álbum de fotografias, uma história de rodinha sem risos, um “e eu também… embora não goste de lembrar”. Sabe o que faltou ao mestre dos ditirambos? Ser mais ditirâmbico!

CRÍTICA DA FILOSOFIA DO DIREITO DE HEGEL + INTRODUÇÃO À CRÍTICA DA FILOSOFIA DO DIREITO DE HEGEL – Marx (trad. Rubens Enderle e Leonardo de Deus; ed. Marcelo Backes, Boitempo), 1843, 1844; 2005 (2010), 2ed.

NOTA À EDIÇÃO

Na Crítica, Marx afirma a ‘verdadeira democracia’, no sentido do pensamento de Rousseau (e de Feuerbach). Já na ‘Introdução’ ele faz uma transição do liberalismo burguês ao tema da ‘emancipação humana’ (isto é, do comunismo), enquanto a democracia passa a ser identificada com a ‘emancipação política’; é quando Marx introduz o conceito de ‘democracia acabada’ (vollendete Demokratie), definição que iria muito além da mera transformação da forma política na república burguesa.”

O primeiro caderno manuscrito – que provavelmente continha a crítica dos parágrafos 257 a 260 da obra de Hegel – desapareceu, e os que restaram contêm uma análise detalhada e crítica dos parágrafos 261 a 313, nos quais é aprofundada a questão do Estado.”

APRESENTAÇÃO

Para os jovens-hegelianos, [esquerda burguesa] tratava-se de demonstrar que o ‘real’ não devia ser identificado imediatamente com a realidade empírica, positiva, como afirmavam os velhos-hegelianos, [direita] mas sim com a realidade que, pelo ‘trabalho do negativo’, deve ser suprassumida em um nível superior do conceito.”

Essa posição, no entanto, sofreu uma séria inflexão a partir de 1841, quando os jovens discípulos de Hegel, desiludidos com as possibilidades de uma reforma constitucional de caráter liberal no reinado de Frederico Guilherme IV, e identificando a monarquia constitucional com um mero compromisso de feudalidade e modernidade, acabaram por abandonar a filosofia hegeliana do Estado em nome da defesa da democracia.”

Marx, embora à época bastante próximo do pensamento jovem-hegeliano, já explicitava suas diferenças em relação a esses autores.”

Essa primeira formulação da idéia de ‘crítica filosófica’ seria retomada e desenvolvida, em 1842, nas páginas da Gazeta Renana, em um pequeno artigo voltado contra a Escola Histórica do Direito e seu precursor, Gustav Hugo. Ao denunciar a impostura da filiação de Hugo à filosofia de Kant, Marx compara o ‘ceticismo vulgar’ da Escola Histórica com o ‘ceticismo do século XVIII’, isto é, com o caráter crítico da filosofia iluminista (id est, a filosofia kantiana).”

Sem a intervenção da crítica filosófica, o ‘já repudiado’ não dá lugar à ‘nova vida’, o ‘espírito novo’ fica preso às ‘velhas formas’ e assiste-se à ‘putrefação do mundo de seu tempo, que se compraz em si mesma’. A crítica não opõe ao mundo uma racionalidade exterior a ele, mas é, ela mesma, tão somente a atualização dessa racionalidade, o tornar-se consciente, para si, do trabalho do negativo que impulsiona o processo histórico para a realização de sua racionalidade intrínseca.”

A crítica vulgar (Bruno Bauer, Max Stirner) assume diante da realidade empírica uma atitude arrogante, altiva, pretensiosa; ela expõe as contradições do existente apenas para desprezá-las como algo pertencente à massa, isto é, ao mundo humano, o mundo da prática sensível, sobre o qual paira a imaculada esfera puramente teorética do Espírito.”

Tratava-se, para Marx, de estender o alcance da crítica para além dos limites do pensamento feuerbachiano, restrito ao campo teórico da religião e da ciência.”

o pressuposto da supremacia ontológica do Estado em relação à sociedade civil, pressuposto este que acompanhou todo o pensamento político ocidental até alcançar, na filosofia hegeliana, sua forma acabada.”

Além disso, foram perdidas a folha de rosto e a capa do manuscrito, o que alimentou incertezas e especulações sobre o verdadeiro título que Marx teria consagrado a essa obra. Em sua primeira publicação, em 1927, na edição da MEGA¹, dirigida por Riazanov, ele aparece com o título ‘Da crítica da filosofia do direito de Hegel: crítica do direito público hegeliano (§§ 261-313)’. Já na edição da MEGA², de 1982, que serviu como original para a presente tradução, adotou-se ‘Para a crítica da filosofia do direito de Hegel’, título mais provável do manuscrito segundo os editores, considerando-se a designação da obra à qual Marx dedicará, logo em seguida, uma Introdução. No Brasil, assim como em outros países, as referências à Crítica adotaram títulos diversos, como ‘Contribuição à crítica da filosofia do direito de Hegel’, ‘Crítica de 1843’, ‘Crítica de Kreuznach’, ‘Manuscrito de Kreuznach’ etc.”

O que Marx denuncia como o ‘mistério’ da especulação hegeliana é a ontologização da Idéia, com a conseqüente desontologização da realidade empírica. Em Hegel, família e sociedade civil são produzidas pela idéia de Estado, engendradas por ela.”

A inversão determinativa entre sujeito e predicado é, portanto, a inversão ontológica entre a determinação real e a determinação ideal, o conteúdo concreto e a idéia abstrata ou, poder-se-ia dizer, o ser e o pensar.”

O pensamento é transformado em sujeito do mesmo modo que Deus o é na teologia: pela atribuição de ser à idéia abstrata e de abstração ao ser concreto.”

A matemática aplicada é, também, subsunção etc. Hegel não se pergunta se esta é a maneira racional, adequada, de subsunção. Ele se agarra apenas a uma única categoria e se satisfaz em encontrar para ela uma existência correspondente.”

A alienação política tem lugar no momento em que o povo, ao se submeter à sua própria obra, perde seu estatuto fundante e as posições são invertidas.”

no poder governamental, como a burocracia, a participação no Estado transformada em privilégio, como uma corporação contra a sociedade civil (§§ 287-297)”

Em Hegel, como em Montesquieu, a constituição é entendida não como um código particular de leis positivas mas como produto do espírito de um povo, conjunto de determinações fundamentais da vontade racional.”

A constituição, como particular, deve ser apenas ‘parte’ do todo, isto é, momento da vontade geral. Como universal, ela deve ser essa própria vontade geral, o próprio todo. Na especulação hegeliana, no entanto, esses dois sentidos da constituição são confundidos: embora afirme tratar da constituição como um universal, Hegel a desenvolve, em verdade, como um particular.”

o conflito do povo com o Estado político reproduz-se, no interior desse Estado, como o conflito do ‘povo en miniature’ do poder legislativo com o poder governamental. § A crítica de Marx à alienação política guarda um vínculo profundo com o pensamento de Rousseau.”

É preciso, porém, distinguir, na argumentação marxiana, os 2 níveis em que o termo democracia é empregado: como ‘gênero’ (a ‘verdadeira democracia’) e como ‘espécie’ (a ‘república política’). A ‘verdadeira democracia’ é um princípio político, não um Estado existente. (…) Com o termo ‘república política’, Marx se refere à democracia no interior do ‘Estado abstrato’, à democracia existente, ainda não plenamente realizada.”

A defesa hegeliana da constituição estamental assenta, por sua vez, na concepção do povo como uma ‘massa’ que ‘não sabe o que quer’, uma ‘multidão e uma turba’ dotada de ‘uma opinião e um querer inorgânicos’, opostos ao Estado.” Infelizmente o tempo está dando a razão a Hegel!

Solange Mercier-Josa, Entre Hegel et Marx (Paris, L’Harmattan, 1999)

A Crítica da filosofia do direito de Hegel é a obra de um democrata radical.”

Rubens Enderle

Sete Lagoas, abril de 2005

CRÍTICA DA FILOSOFIA DO DIREITO DE HEGEL

(§§ 261-313)

§ 261. Em face das esferas do direito privado e do bem privado, da família e da

sociedade civil, o Estado é, de um lado, uma necessidade externa e sua potência

superior, a cuja natureza as leis daquelas esferas, bem como seus interesses,

encontram-se subordinados e da qual são dependentes; porém, de outro lado,

é o Estado seu fim imanente e tem sua força na unidade de seu fim último geral

e no interesse particular dos indivíduos, na medida em que tais indivíduos

têm deveres perante ele assim como, ao mesmo tempo, têm direitos.”

negrito: Marx

(não-)itálico + sublinhado: Hegel

Por ‘necessidade externa’ pode-se somente entender que ‘leis’ e ‘interesses’ da família e da sociedade civil devem ceder, em caso de colisão, às ‘leis’ e ‘interesses’ do Estado; que aquelas são subordinadas a este; que sua existência é dependente da existência do Estado”

Mas Hegel não fala, aqui, de colisões empíricas; ele fala da relação das ‘esferas do direito privado e do bem privado, da família e da sociedade civil’ com o Estado”

Precisamente porque ‘subordinação’ e ‘dependência’ são relações externas, que restringem e se contrapõem à essência autônoma, é a relação da ‘família’ e da ‘sociedade civil’ com o Estado aquela da ‘necessidade externa’, de uma necessidade que vai contra a essência interna da coisa.”

“‘Subordinação’ e ‘dependência’ são as expressões para uma identidade ‘externa’, forçada e aparente, para cuja expressão lógica Hegel utiliza, corretamente, a ‘necessidade externa’.”

Hegel estabelece, [na segunda metade do parágrafo,] uma antinomia sem solução.” Se refere a NECESSIDADE EXTERNA x FIM IMANENTE. O silogismo tem como fim que direitos seriam iguais a deveres.

O Estado é o Novo Testamento: amar a propriedade alheia como a tua mesma.

§ 262. A Idéia real, o Espírito, que se divide ele mesmo nas 2 esferas ideais de seu conceito, a família e a sociedade civil, como em sua finitude, para ser, a partir da idealidade delas, Espírito real e infinito para si [empiricamente infinito, infinito na prática], divide, por conseguinte, nessas esferas, a matéria dessa sua realidade, os indivíduos como a multidão, de maneira que, no singular, essa divisão aparece mediada pelas circunstâncias, pelo arbítrio e pela escolha própria de sua determinação.

Se traduzirmos essa frase em prosa, teremos: [HAHAHA]

O que serve de mediação para a relação entre o Estado, a família e a sociedade civil são as ‘circunstâncias, o arbítrio e a escolha própria da determinação’. [hahahaha] A razão do Estado nada tem a ver, portanto, com a divisão da matéria do Estado em família e sociedade civil. O Estado provém delas de um modo inconsciente e arbitrário. Família e sociedade civil aparecem como o escuro fundo natural donde se acende a luz do Estado. Sob a matéria do Estado estão as funções do Estado, bem entendido, família e sociedade civil, na medida em que elas formam partes do Estado, em que participam do Estado como tal.”

A assim denominada ‘Idéia real’ (o Espírito como infinito, real) é, portanto, apresentada como se ela agisse segundo um princípio determinado, mediante um desígnio determinado.” “ela o faz de um modo que é precisamente como é na realidade. Aqui aparece claramente o misticismo lógico, panteísta.”

Esse fato, essa relação real é expressa, pela especulação, como manifestação, fenômeno. Essas circunstâncias, esse arbítrio, essa escolha da determinação, essa mediação real são tão-somente a manifestação de uma mediação que a Idéia real executa nela mesma e que se passa por detrás das cortinas.” O mundo aparente é só o resultado esquematizado de uma fórmula atemporal já aplicada no eterno (em si) das coisas. Trazendo o debate para a concretude do assunto, o direito privado é só o que o direito público predeterminou!

A empiria ordinária não tem como lei o seu próprio espírito, mas um espírito estranho e, ao contrário, a Idéia real tem como sua existência não uma realidade desenvolvida a partir dela mesma, mas a empiria ordinária, comum.”

[Daí que] ‘circunstâncias, arbítrio’, etc. convertem-se em momentos objetivos da Idéia, irreais e com um outro significado.”

Trata-se de uma dupla história, uma esotérica e outra exotérica. O conteúdo permanece na parte exotérica [ordinária]. O interesse da parte esotérica é sempre o de novamente achar, no Estado, a história do Conceito lógico. Mas é na parte exotérica que o desenvolvimento verdadeiro prossegue.”

Racionalmente, as sentenças de Hegel significam apenas que:

A família e a sociedade civil são partes do Estado. Nelas, a matéria do Estado é dividida ‘pelas circunstâncias, pelo arbítrio e pela escolha própria da determinação’. Os cidadãos do Estado (Staatsbürger) são membros da família e membros da sociedade civil.”

família e sociedade civil se fazem, a si mesmas, Estado. Elas são a força motriz. Segundo Hegel, ao contrário, elas são produzidas pela Idéia real.”

A realidade empírica é, portanto, tomada tal como é; ela é, também, enunciada como racional; porém, ela não é racional devido à sua própria razão, mas sim porque o fato empírico, em sua existência empírica, possui um outro significado diferente dele mesmo.” “O real torna-se fenômeno; porém, a Idéia não tem outro conteúdo a não ser esse fenômeno. Também não possui a Idéia outra finalidade a não ser a finalidade lógica: ‘ser espírito real para si infinito’. [ser uma auto-justificação circular de si mesmo, dar conta imediatamente de algo que é mais amplo, i.e., a Lei positivando aqui e agora de maneira determinada – arbitrária! – a sucessão inesgotável das gerações] Nesse parágrafo, encontra-se resumido todo o mistério da filosofia do direito e da filosofia hegeliana em geral.”

§ 266: puxadinho de Hegel para salvaguardar a “liberdade” (colocando nela tanto peso quanto na necessidade, em seu sistema).

a relação universal entre necessidade e liberdade.” “É exatamente a mesma passagem que se realiza, na lógica, da esfera da Essência à esfera do Conceito.” Essência: o que há de mais particularista, ocluso. Conceito: o que há de mais universal, público. Um conceito particular é o conceito que divulga uma essência. Está feita a mediação, como no outro par aparentemente irreconciliável.

Trata-se apenas de encontrar, para determinações singulares concretas, as determinações abstratas correspondentes.”

§ 267. A necessidade na idealidade é o desenvolvimento da Idéia dentro de si mesma; ela é, como substancialidade subjetiva, a disposição política e, como objetiva, diferentemente daquela, é o organismo do Estado, o Estado propriamente político e sua constituição.”

O desenvolvimento lógico da família e da sociedade civil ao Estado é, portanto, pura aparência, pois não se desenvolve como a disposição familiar, a disposição social; a instituição da família e as instituições sociais como tais relacionam-se com a disposição política e com a constituição política e com elas coincidem.

A passagem em que o Espírito é ‘não apenas como essa necessidade e como um reino da aparência’, mas como ‘sua idealidade’, [o espírito é ao mesmo tempo essência e aparência] como a alma desse reino que é para si real e que possui uma existência particular, não é de modo algum uma passagem, uma vez que a alma da família existe para si como amor etc. A pura idealidade de uma esfera real só poderia, contudo, existir como ciência.” Marx pega bem pesado: o florilégio do discurso de Hegel chega a querer ser estética, poesia, pintura de amor, quando não pode exceder a simples epistemologia.

A constituição política é o organismo do Estado, ou o organismo do Estado é a constituição política. Que os diferentes lados de um organismo se encontrem em uma coesão necessária e oriunda da natureza do organismo, é pura tautologia. Que, uma vez que a constituição política é determinada como organismo, os diferentes lados da constituição, os diferentes poderes, relacionem-se como determinações orgânicas e se encontrem em uma relação racional recíproca, é, igualmente, tautologia.”

Além dessa inversão de sujeito e predicado, produz-se aqui a aparência de que o discurso trata de outra idéia que não a do organismo.”

Quando eu digo: ‘Esse organismo (organismo do Estado, a constituição política) é o desenvolvimento da Idéia em suas distinções etc.’, não sei ainda absolutamente nada sobre a idéia específica da constituição política; a mesma sentença pode ser dita, com a mesma verdade, tanto do organismo animal quanto do organismo político.” “uma explicação que não dá a differentia specifica não é uma explicação.” “há apenas a aparência de um conhecimento real, pois esses sujeitos reais permanecem incompreendidos”

“‘Esses lados distintos são, assim, os diferentes poderes, suas funções e sua atividade.’ Por meio da pequena palavra ‘assim’, cria-se a aparência de uma conseqüência, de uma derivação, de um desenvolvimento.”

Que os ‘diferentes lados do organismo do Estado’ sejam os ‘diferentes poderes’, com suas ‘funções e atividade’, é um fato empírico; que eles sejam membros de um ‘organismo’ é o ‘predicado’ filosófico.”

Chamemos a atenção, aqui, para uma peculiaridade estilística de Hegel, que se repete freqüentemente e é um produto do misticismo. O parágrafo, em seu conjunto, diz o seguinte:

C1 (COLUNA 1) “A disposição toma seu conteúdo particularmente determinado dos diferentes lados do organismo do Estado. Esse organismo é o desenvolvimento da Idéia em suas distinções e em sua realidade objetiva. Esses lados distintos são, assim, os diferentes poderes, suas funções e atividades, por meio dos quais o universal continuamente, e aliás na medida em que esses poderes são determinados pela natureza do Conceito, se mantém, se engendra de modo necessário e, na medida em que é igualmente pressuposto de sua produção, conserva a si mesmo; – esse organismo é a constituição política.”

Ex: o universal … 1) se mantém; 2) se engendra necessariamente; 3) se conserva. Uma sintaxe realmente problemática!

+ os (diferentes) poderes são determinados pela natureza do Conceito logo, a natureza do Conceito determina a manutenção, conservação e engendramento do universal.

+ o universal é um pressuposto de sua própria produção

+ A disposição toma seu conteúdo … dos diferentes lados da constituição política. A disposição política toma seu conteúdo da constituição política. A constituição política é o desenvolvimento da Idéia. (tautologias)

C2 (COLUNA 2 [Rearranjo de Marx]) “(I) A disposição toma seu conteúdo particularmente determinado dos diferentes lados do organismo do Estado. Esses lados distintos são… os diferentes poderes, suas funções e suas atividades.

(II) A disposição toma seu conteúdo particularmente determinado dos diferentes lados do organismo do Estado. Esse organismo é o desenvolvimento da Idéia em suas distinções e em sua realidade objetiva… por meio dos quais o universal continuamente, e aliás na medida em que esses poderes são determinados pela natureza do Conceito, se mantém, se engendra de modo necessário e, na medida em que é igualmente pressuposto de sua produção, conserva a si mesmo; – esse organismo é a constituição política.”

Ana Coluto

Vê-se como Hegel une as determinações ulteriores em dois sujeitos, nos ‘diferentes lados do organismo’ e no ‘organismo’.”

A determinação de que o universal ‘se engendra’ continuamente e, por meio disso, se conserva, não é nada original, pois isso já está presente na determinação desses poderes como ‘lados do organismo’, como lados ‘orgânicos’.”

As frases: esse organismo é ‘o desenvolvimento da Idéia em suas distinções e na realidade objetiva destas’, ou em distinções por meio das quais ‘o universal’ (o universal é, aqui, o mesmo que a Idéia) ‘continuamente, e aliás na medida em que esses poderes são determinados pela natureza do Conceito, se mantém, se engendra de modo necessário e, na medida em que é igualmente pressuposto de sua produção, conserva a si mesmo’ são frases idênticas.” A constituição política é a Idéia engendrando-se a si própria, teria sido mais honesto de H. dizer.

A frase: ‘os diferentes lados do Estado são os diferentes poderes’ é uma verdade empírica e não pode se passar por uma descoberta filosófica.”

o espírito que, por haver [o mesmo papel do ‘assim’ anterior] passado pela forma da cultura, sabe-se e quer a si mesmo.”

Na medida em que, primeiro, eu trato o Estado sob o esquema da realidade ‘abstrata’, tenho que tratá-lo, em seguida, sob o esquema da ‘realidade concreta’, da ‘necessidade’, da distinção realizada.”

Traduzindo-se esse parágrafo para nossa língua, temos:” HAHAHA!

O verdadeiro ponto de partida, o espírito que se sabe e se quer, sem o qual o ‘fim do Estado’ e os ‘poderes do Estado’ seriam ficções inconsistentes, vazias de essência, ou até mesmo existências impossíveis, aparece apenas como último predicado da substancialidade, já anteriormente determinada como fim universal e como os diferentes poderes do Estado.”

O ‘fim do Estado’ e os ‘poderes do Estado’ são mistificados, visto que são apresentados como ‘modos de existência’ da ‘Substância’ e aparecem como algo separado de sua existência real, do ‘espírito que se sabe e se quer’, do ‘espírito cultivado’.”

A essência das determinações do Estado não consiste em que possam ser consideradas como determinações do Estado, mas sim como determinações lógico-metafísicas em sua forma mais abstrata. O verdadeiro interesse não é a filosofia do direito, mas a lógica.”

A lógica não serve à demonstração do Estado, mas o Estado serve à demonstração da lógica.”

A Substância deve ‘dividir-se nas distinções conceituais, que são, do mesmo modo, graças àquela substancialidade, determinações estáveis e reais’. Essa frase, a essencial, pertence à lógica e já se encontra pronta e acabada antes da filosofia do direito.”

Adendo: O Estado interno como tal é o poder civil, sendo a direção para o exterior o poder militar, que é, contudo, no Estado, um lado nele mesmo determinado.”

Em lugar do conceito da constituição, obtemos a constituição do Conceito.”

a subjetividade como a última decisão do querer, o poder soberano – no qual os diferentes poderes estão reunidos em uma unidade individual, que é, portanto, o cume e o início do todo – a monarquia constitucional.”

Cada povo tem, assim, a constituição que lhe cabe e que lhe é própria”

Do raciocínio de Hegel segue-se apenas que o Estado, em que o ‘modo e formação da autoconsciência’ e a ‘constituição’ se contradizem, não é um verdadeiro Estado.”

Disso deveria resultar, antes, a exigência de uma constituição que contivesse em si mesma a determinação e o princípio de avançar com a consciência; de avançar com o homem real, o que só é possível quando se eleva o ‘homem’ a princípio da constituição. Hegel é, aqui, sofista.”

Este absoluto autodeterminar-se constitui o princípio distintivo do poder soberano como tal, que é o primeiro a ser desenvolvido.”

É … incorreto fazer do poder soberano o sujeito e, uma vez que o poder soberano pode ser compreendido como o poder do príncipe, produzir a ilusão de que ele é o senhor desse momento, o seu sujeito.”

§ 12 A vontade, … dando-se a forma da singularidade, é decisiva e apenas como vontade decisiva ela é vontade efetiva.”

É evidente que se as funções e atividades particulares são chamadas funções e atividades do Estado, função e poder estatais, elas não são propriedade privada, mas propriedade do Estado. Isso é uma tautologia.”

ele esquece que tanto a individualidade particular como as funções e atividades estatais são funções humanas; ele esquece que a essência da ‘personalidade particular’ não é a sua barba, o seu sangue, o seu físico abstrato, mas sim a sua qualidade social, e que as funções estatais etc. são apenas modos de existência e de atividade das qualidades sociais do homem.”

COMO IGUALAR TIRANIA E SOBERANIA: “O despotismo designa, em geral, a situação da ausência de lei em que a vontade particular como tal, seja a de um monarca seja a de um povo, vale como lei ou, antes, em lugar da lei, ao passo que a soberania, ao contrário, constitui precisamente a situação legal e constitucional, o momento da idealidade das esferas e funções particulares, pelo qual uma tal esfera não é independente e autônoma em seus fins e modos de atuação e centrada apenas em si mesma, mas é determinada, nesses fins e modos de atuação, pelo fim do todo (o que foi designado, em termos gerais, com a expressão vaga de o bem do Estado), sendo dele dependente. (…) em situação de urgência, porém, seja ela interna ou externa, impõe-se a soberania, em cujo conceito simples conflui o organismo existente em suas particularidades e à qual é confiada a salvação do Estado com o sacrifício daquilo que seria legítimo, situação na qual aquele idealismo chega à sua realidade própria.” O exato conceito de ditadura.

A soberania existe, portanto, por um lado, apenas como substância inconsciente, cega. Logo conheceremos sua outra realidade.”

Se Hegel tivesse partido dos sujeitos reais como a base do Estado, ele não precisaria deixar o Estado subjetivar-se de uma maneira mística.”

A Substância mística se torna sujeito real e o sujeito real aparece como um outro, como um momento da Substância mística. Precisamente porque Hegel parte dos predicados, das determinações universais, em vez de partir do ente real (υποχειµενον, sujeito), e como é preciso haver um suporte para essa determinação, a Idéia mística se torna esse suporte.”

Que idealismo de Estado seria este, que, em lugar de ser a real autoconsciência dos cidadãos do Estado, a alma comum do Estado, seria uma pessoa, um sujeito? Hegel não desenvolve mais a respeito nessa frase.”

O discurso, que antes falava da subjetividade, fala agora da individualidade. O Estado como soberano deve ser Uno, Um indivíduo, deve possuir individualidade.”

Ele não diz: a vontade do monarca é a decisão última, mas a decisão última da vontade é… o monarca. A primeira frase é empírica. A segunda distorce o fato empírico em um axioma metafísico.”

A nota de Hegel a esse parágrafo é tão curiosa que devemos elucidá-la mais de perto.”

O desenvolvimento imanente de uma ciência, a dedução de todo seu conteúdo a partir do simples Conceito, mostra a peculiaridade de que um único e mesmo conceito – aqui a vontade –, que, inicialmente, porque é o começo, é abstrato, se conserva, mas condensa suas determinações igualmente apenas por si mesmo e, desse modo, ganha um conteúdo concreto.”

Medonho!

Como Marx falou, trata-se apenas da ciência da Lógica, única “ciência” em que há “a dedução de todo seu conteúdo a partir do simples Conceito”. Traduziria da seguinte maneira: O desenvolvimento do conhecimento humano mostra a peculiaridade de que um conceito qualquer (p.ex. a vontade) se conserva, ainda que passe de pura abstração para conteúdo concreto (ou seja, se duplica). Passa a ser, como fica bem claro pela Introdução marxiana (mais abaixo) o filósofo tardio do Absolutismo francês, e não o descobridor contemporâneo da ascensão prussiana.

Hegel poderia concluir, do mesmo modo: pelo fato de o homem singular ser um Uno, o gênero humano é apenas Um único homem.”

Típico de um autor aristocrata no final da aristocracia européia: “Mas soberania popular, definida em oposição à soberania existente no monarca, é o sentido ordinário em que se começou a falar de soberania popular nos últimos tempos – nessa oposição a soberania popular pertence aos pensamentos confusos, [!] em cujo fundamento reside a representação desordenada do povo.”

Os ‘pensamentos confusos’ e a ‘representação desordenada’ se encontram, aqui, somente em Hegel.”

Se por soberania popular se compreende a forma da república e, mais precisamente, da democracia, então – em face da idéia desenvolvida, não se pode mais falar de tal representação.” E por quê?

Ao contrário da monarquia, a democracia pode ser explicada a partir de si mesma. Na democracia nenhum momento recebe uma significação diferente daquela que lhe cabe. Cada momento é, realmente, apenas momento do demos inteiro. (…) A monarquia é uma espécie e, definitivamente, uma má espécie. A democracia é conteúdo e forma. A monarquia deve ser apenas forma, mas ela falsifica o conteúdo.”

Hegel parte do Estado e faz do homem o Estado subjetivado; a democracia parte do homem e faz do Estado o homem objetivado.”

A democracia, em um certo sentido, está para as outras formas de Estado como o cristianismo para as outras religiões. O cristianismo é (…) o homem deificado como uma religião particular.” “A democracia relaciona-se com todas as outras formas de Estado como com seu velho testamento.”

Os franceses modernos concluíram, daí, que na verdadeira democracia o Estado político desaparece. O que está correto, considerando-se que o Estado político, como constituição, deixa de valer pelo todo.”

Nos Estados antigos o Estado político constituiu o conteúdo estatal por exclusão das outras esferas; o Estado moderno é um compromisso entre o Estado político e o não-político.”

A luta entre monarquia e república é, ela mesma, ainda, uma luta no interior do Estado abstrato. A república política é a democracia no interior da forma de Estado abstrata. A forma de Estado abstrata da democracia é, por isso, a república; porém, aqui, ela deixa de ser a constituição simplesmente política.”

A propriedade etc., em suma, todo o conteúdo do direito e do Estado é, com poucas modificações, o mesmo na América do Norte assim como na Prússia. Lá, a república é, portanto, uma simples forma de Estado, como o é aqui a monarquia. O conteúdo do Estado se encontra fora dessas constituições.”

Dentre os diversos momentos da vida do povo, foi o Estado político, a constituição, o mais difícil de ser engendrado.” “A tarefa histórica consistiu, assim, em sua reivindicação, mas as esferas particulares não têm a consciência de que seu ser privado coincide com o ser transcendente da constituição ou do Estado político e de que a existência transcendente do Estado não é outra coisa senão a afirmação de sua própria alienação. A constituição política foi reduzida à esfera religiosa, à religião da vida do povo, o céu de sua universalidade em contraposição à existência terrena de sua realidade.”

A vida política, em sentido moderno, é o escolasticismo [formalismo] da vida do povo.”

Onde o comércio e a propriedade fundiária ainda não são livres nem independentes, também não o é a constituição política. A Idade Média foi a democracia da não-liberdade.” Imperialismo não permite liberdade.

A abstração do Estado como tal pertence somente aos tempos modernos porque a abstração da vida privada pertence somente aos tempos modernos. A abstração do Estado político é um produto moderno.

Na Idade Média havia servos, propriedade feudal, corporações de ofício, corporações de sábios etc.; ou seja, na Idade Média a propriedade, o comércio, a sociedade, o homem são políticos; o conteúdo material do Estado é colocado por intermédio de sua forma; cada esfera privada tem um caráter político ou é uma esfera política; ou a política é, também, o caráter das esferas privadas. Na Idade Média, a constituição política é a constituição da propriedade privada, mas somente porque a constituição da propriedade privada é a constituição política. Na Idade Média, a vida do povo e a vida política são idênticas. O homem é o princípio real do Estado, mas o homem não-livre.”

Ou a res publica é, como na Grécia, a questão privada real, o conteúdo real do cidadão (Bürger), e o homem privado é escravo; o Estado político como político é o verdadeiro e único conteúdo de sua vida e de seu querer; ou, como no despotismo asiático, o Estado político é apenas o arbítrio privado de um indivíduo singular, e o Estado político, assim como o Estado material, é escravo.” Não deixa de ser um grande elogio aos orientais.

Já ouvimos que a subjetividade é sujeito e que o sujeito é necessariamente indivíduo empírico, Uno. Aprendemos, agora, que a determinação da naturalidade, da corporeidade, reside no conceito da singularidade imediata. Hegel não demonstrou nada senão o óbvio, a saber, que a subjetividade existe apenas como indivíduo corpóreo e, evidentemente, o nascimento natural pertence ao indivíduo corpóreo.” Se não nasceu para ser o rei, não presta para ser rei – o ruim é que não prestará também para ser deitado à guilhotina!

A soberania, a dignidade do monarca seria, portanto, de nascença. O corpo do monarca determina sua dignidade. No ponto culminante do Estado, então, o que decide em lugar da razão é a mera physis. O nascimento determinou a qualidade do monarca, assim como ele determina a qualidade do gado.” “O nascimento do homem como monarca é tão pouco passível de se converter em verdade metafísica quanto a imaculada concepção de Maria.”

Hegel diz que a conversão da soberania do Estado (de uma autodeterminação da vontade) no corpo do monarca inato (na existência) é, no fundo, a passagem do conteúdo em geral que a vontade faz a fim de realizar um fim pensado, de traduzi-lo em existência. Mas Hegel diz: no fundo. A diferença peculiar que ele indica é, portanto, tão peculiar que suprime toda analogia e põe a magia no lugar da ‘natureza da vontade em geral’.”

O meio é a vontade absoluta e a palavra do filósofo; o fim particular é novamente o fim do sujeito filosofante, construir o monarca hereditário a partir da Idéia pura. A realização do fim é a mera garantia de Hegel.”

Na assim chamada prova ontológica da existência de Deus é a mesma conversão do Conceito absoluto no ser, conversão que constituiu a profundidade da Ideia nos tempos modernos, mas que mais recentemente foi considerada como inconcebível.”

§ 282. Da soberania do monarca decorre o direito de indultar os criminosos, pois somente a ela compete a realização do poder do Espírito, de tornar o acontecido não-acontecido e anular o delito no perdão e no esquecimento.”

O direito de indultar é o direito da graça. A graça é a mais alta expressão do arbítrio acidental, significativamente concebido por Hegel como um atributo próprio do monarca.”

§ 284. Apenas esses cargos ou indivíduos deliberativos estão sujeitos à responsabilidade, na medida em que o objetivo da decisão, o conhecimento do conteúdo e das circunstâncias, os fundamentos legais e os outros fundamentos de determinação são os únicos passíveis de responsabilidade, isto é, de prova da objetividade e, por isso, ela pode recair em uma deliberação distinta da vontade do monarca como tal; mas a majestade própria do monarca, como subjetividade que decide em última instância, é elevada acima de toda responsabilidade pelos atos do governo.

Hegel descreve aqui de modo inteiramente empírico o poder ministerial, tal como ele é na maior parte das vezes determinado nos Estados constitucionais. Tudo o que a filosofia acrescenta é fazer deste ‘fato empírico’ existência, o predicado do ‘momento da particularidade no poder soberano’.”

O momento especulativo é, portanto, bastante escasso. Em contrapartida, o desenvolvimento depende, em especial, de fundamentos inteiramente empíricos e, de fato, muito abstratos e muito ruins. Assim, por exemplo, a eleição dos ministros é deixada ao ‘arbítrio ilimitado’ do monarca, ‘já que eles têm a ver com a sua pessoa imediata’, isto é, já que eles são ministros. Do mesmo modo, a ‘eleição ilimitada’ do criado de quarto do monarca pode ser desenvolvida a partir da Idéia absoluta.” HAHAHA

Em um organismo racional a cabeça não pode ser de ferro e o corpo de carne. Para que os membros se conservem, eles precisam ser de igual nascimento, de uma só carne e um só sangue. Mas o monarca hereditário não é de igual nascimento, ele é de outra matéria. A prosa da vontade racionalista dos outros membros do Estado defronta-se aqui com a magia da natureza.”

Em segundo lugar, a irresponsabilidade. Se o príncipe infringe o ‘todo da constituição’, as ‘leis’, cessa sua irresponsabilidade, porque cessa sua existência constitucional; mas precisamente essas leis, essa constituição, o fazem irresponsável. Elas contradizem, portanto, a si mesmas, e esta única cláusula suprime a lei e a constituição. A constituição do monarca constitucional é a irresponsabilidade.”

Em vez de o Estado ser produzido como a mais elevada realidade da pessoa, a mais elevada realidade social do homem, ocorre que um único homem empírico, uma pessoa empírica, é produzido como a mais alta realidade do Estado. Esta inversão do subjetivo no objetivo e do objetivo no subjetivo (que decorre do fato de Hegel querer escrever a biografia da Substância abstrata, da Idéia;¹ que, portanto, a atividade humana etc. tenha que aparecer como atividade e resultado de uma outra coisa; que Hegel queira deixar agir como uma singularidade imaginária o ser do homem para si, em lugar de deixá-lo agir na sua existência real, humana) tem necessariamente como resultado que uma existência empírica é tomada de maneira acrítica como a verdade real da Idéia”

¹ Significado de fenomenologia do Espírito.

Desta maneira, portanto, produz-se também a impressão de algo místico e profundo. É muito banal que o homem tenha que nascer e que esta existência, posta pelo nascimento físico, eleve-se ao homem social etc., até ao cidadão do Estado; o homem se torna, pelo nascimento, tudo o que ele se torna. Mas é muito profundo, é chocante que a idéia do Estado nasça imediatamente e que, no nascimento do príncipe, ela mesma se engendre como existência empírica.”

Qual é, então, a diferença última, precisa, de uma pessoa em relação a todas as outras? O corpo. A mais alta função do corpo é a atividade sexual. O ato constitucional mais elevado do rei é, portanto, sua atividade sexual, pois por meio dela ele faz um rei e dá continuidade a seu corpo. O corpo de seu filho é a reprodução de seu próprio corpo, a criação de um corpo real.”

A explicação ordinária do poder governamental. O que se pode indicar como peculiar a Hegel é, apenas, que ele coordena poder governamental, poder policial e poder judiciário, enquanto geralmente os poderes administrativo e judiciário são tratados como poderes opostos.”

Como a sociedade civil é o campo de batalha do interesse privado individual de todos contra todos, então tem lugar, aqui, o conflito desse interesse com as questões comuns particulares e o conflito destas, juntamente com aquele, contra os mais elevados pontos de vista e disposições do Estado.”

Este é o segredo do patriotismo dos cidadãos no sentido de que eles sabem o Estado como sua substância”

Isso é estranho

1) pela definição da sociedade civil como bellum omnium contra omnes;

2) porque o egoísmo privado é revelado como o ‘segredo do patriotismo dos cidadãos’ e como ‘a profundidade e a força do Estado na disposição’;

3) porque o ‘cidadão’, o homem do interesse particular em oposição ao universal, o membro da sociedade civil, é considerado como ‘indivíduo fixo’, do mesmo modo que o Estado se opõe, em ‘indivíduos fixos’, aos ‘cidadãos’.”

§ 291. As tarefas governamentais são de natureza objetiva, para si já decidida segundo a sua substância e devem completar-se e realizar-se por meio de indivíduos. [!!!] Entre os dois não há qualquer enlace imediato, natural; por isso, os indivíduos não são destinados a elas por meio da personalidade natural e do nascimento. O momento objetivo para a sua destinação àquelas tarefas é o conhecimento e a demonstração de sua aptidão”

Realmente, ninguém pediu pra ser funcionário público!

O serviço público, como se lê na nota,

exige […] o sacrifício da satisfação independente e caprichosa dos fins subjetivos e dá, precisamente por isso, o direito de encontrar satisfação na prestação conforme o dever, mas somente nela. Nisso se encontra, por esse lado, a ligação do interesse universal com o particular, que constitui o conceito e a estabilidade interna do Estado.

(…)

Porém, que a impassibilidade, a legalidade e a benevolência da conduta se tornem costume, isto depende, em parte, da direta formação ética e de pensamento, que serve de contrapeso espiritual àquilo que a aprendizagem das assim chamadas ciências dos objetos dessas esferas, a prática exigida das funções, o trabalho efetivo etc. têm em si de mecânico e algo semelhante; por outro lado, o tamanho do Estado é um momento capital, por meio do qual tanto o peso dos laços familiares e outros laços privados são enfraquecidos, quanto a vingança, o ódio e outras paixões semelhantes se tornam mais impotentes e, com isso, mais inofensivas; na ocupação com os grandes interesses existentes em um grande Estado, estes lados subjetivos desaparecem para si e produz-se o hábito dos interesses, das opiniões e das funções universais.”

§ 297. Os membros do governo e os funcionários do Estado constituem a parte principal do estamento médio (Hauptteil des Mittelstandes), no qual se encontram a inteligência cultivada e a consciência jurídica da massa do povo. Que esse estamento não assuma a posição de uma aristocracia e que a sua cultura e habilidade não se tornem um meio de arbítrio e de dominação, isto é assegurado pelas instituições da soberania, pelo alto, e pelos direitos das corporações, por baixo.”

O que Hegel diz sobre o ‘poder governamental’ não merece o nome de desenvolvimento filosófico. A maior parte dos parágrafos poderia figurar, literalmente, no código civil prussiano e, entretanto, a administração propriamente dita é o ponto mais difícil do desenvolvimento.”

A burocracia deve, portanto, proteger a universalidade imaginária do interesse particular, o espírito corporativo, a fim de proteger a particularidade imaginária do interesse universal, seu próprio espírito. O Estado deve ser corporação tanto quanto a corporação quer ser Estado.”

O espírito burocrático é um espírito profundamente jesuítico, teológico.” “a burocracia transforma o ‘espírito formal do Estado’, ou a real falta de espírito do Estado, em imperativo categórico. A burocracia se considera o fim último do Estado.” “Os fins do Estado se transmutam em fins da repartição e os fins da repartição se transformam em fins do Estado. A burocracia é um círculo do qual ninguém pode escapar. (…) A cúpula confia aos círculos inferiores o conhecimento do particular, os círculos inferiores confiam à cúpula o conhecimento do universal e, assim, eles se enganam reciprocamente.”

Cada coisa tem, por isso, um duplo significado, um real e um burocrático, do mesmo modo que o saber é duplo, um saber real e um burocrático (assim também a vontade).” “A burocracia tem a posse da essência do Estado, da essência espiritual da sociedade; esta é sua propriedade privada.” “O espírito universal da burocracia é o segredo, o mistério; guardado em seu interior por meio da hierarquia e, em relação ao exterior, como corporação fechada. Por isso o espírito público do Estado, assim como a disposição política aparecem para a burocracia como uma traição de seu mistério.”

No seu interior, porém, o espiritualismo se torna um materialismo crasso, o materialismo da obediência passiva, da fé na autoridade, do mecanismo de uma atividade formal, fixa, de princípios, idéias e tradições fixos. Quanto ao burocrata tomado individualmente, o fim do Estado se torna seu fim privado, uma corrida por postos mais altos, um carreirismo.”

O Estado existe apenas como diferentes espíritos de repartição, imóveis, cuja coesão consiste na subordinação e na obediência passiva. A ciência real aparece como desprovida de conteúdo, assim como a vida real aparece como morta, uma vez que este saber imaginário e esta vida imaginária valem pela essência.”

Enquanto, por um lado, a burocracia é este materialismo crasso, o seu espiritualismo crasso se mostra, por outro lado, no fato de ela querer fazer tudo, isto é, de ela fazer da vontade a causa prima, pois ela é mera existência ativa e recebe o seu conteúdo do exterior e, portanto, só pode demonstrar a própria existência ao formar e limitar este conteúdo. Para o burocrata, o mundo é um mero objeto de manipulação.”

Quando Hegel chama o poder governamental de lado objetivo da soberania inerente ao monarca, ele está correto no mesmo sentido de que a Igreja católica era a existência real da soberania, do conteúdo e do espírito da Santíssima Trindade.”

Os interesses particulares das corporações e das comunas têm, dentro de sua própria esfera, um dualismo que conforma o caráter de sua administração.”

A oposição entre Estado e sociedade civil está, portanto, consolidada; o Estado não reside na sociedade civil, mas fora dela; ele a toca apenas mediante seus ‘delegados’, a quem é confiada a ‘gestão do Estado’ no interior dessas esferas. Por meio destes ‘delegados’ a oposição não é suprimida, mas transformada em oposição ‘legal’, ‘fixa’. (…) A ‘polícia’, os ‘tribunais’ e a ‘administração’ não são deputados da própria sociedade civil, que neles e por meio deles administra o seu próprio interesse universal, mas sim delegados do Estado para administrar o Estado contra a sociedade civil.”

Essa possibilidade de cada cidadão se tornar servidor público é, portanto, a segunda relação afirmativa entre sociedade civil e Estado, a segunda identidade. Ela é de natureza muito superficial e dualística. Todo católico tem a possibilidade de se tornar padre (isto é, de separar-se dos leigos, do mundo). Com isso, o clero, como potência externa, opõe-se menos ao católico? Que cada um tenha a possibilidade de adquirir o direito de uma outra esfera, demonstra apenas que sua própria esfera não é a realidade desse direito.” “A identidade, por ele construída, entre sociedade civil e Estado, é a identidade de dois exércitos inimigos, em que cada soldado tem a ‘possibilidade’, por meio da ‘deserção’, de se tornar membro do exército ‘inimigo’ e, com isso, de fato, Hegel descreve com exatidão a situação empírica atual.”

Em um Estado racional, um exame se faz mais necessário para se tornar sapateiro do que para se tornar funcionário público executivo; pois o ofício de sapateiro é uma habilidade sem a qual se pode ser um bom cidadão do Estado, um homem social; mas o ‘saber político’ é uma condição sem a qual o homem vive, no Estado, fora do Estado, separado de si mesmo, privado de ar. O ‘exame’ não é senão uma fórmula maçônica, o reconhecimento legal do saber cívico como um privilégio.

O exame, o ‘vínculo’ do ‘cargo público’ e do ‘indivíduo’, este laço objetivo entre o saber da sociedade civil e o saber do Estado, é apenas o batismo burocrático do saber, o reconhecimento oficial da transubstanciação do saber profano no saber sagrado (e é evidente que, em todo exame, o examinador sabe tudo). Nunca se ouviu falar que os homens de Estado gregos ou romanos tenham prestado exames. Mas o que é um homem de Estado romano em face de um homem de governo prussiano!”

Além do momento objetivo da profissão de fé burocrática (o exame), faz-se necessário ainda, para que a fé dê frutos, o momento subjetivo da graça do príncipe.” A nomeação.

No § 294, Hegel desenvolve a remuneração dos funcionários a partir da Idéia. É aqui, na remuneração dos funcionários ou no fato de o serviço público garantir simultaneamente a segurança da existência empírica, que está posta a identidade real da sociedade civil e do Estado. O soldo dos funcionários é a mais alta identidade construída por Hegel.”

é exato que a remuneração dos funcionários constitui a estabilidade interna das grandes monarquias modernas.”

a hierarquia pune o funcionário na medida em que ele peca contra ela ou comete um pecado que para ela é supérfluo; mas ela o protege, tão logo a hierarquia peque no funcionário”

Se, portanto, perguntamos a Hegel qual é a proteção da sociedade civil contra a burocracia, ele nos responde:

1) A ‘hierarquia’ da burocracia. O próprio abuso. O controle. O fato de que o adversário se encontra ele mesmo com pés e mãos atados e, se para baixo ele é martelo, para cima ele é bigorna.”

O belo é que Hegel contrapõe a ‘direta formação ética e de pensamento’ ao ‘mecanicismo do saber e do trabalho burocráticos’!” Ou seja, não há pensamento nem ética, nem pode haver, na burocracia.

“‘Assim, o aperfeiçoamento de um estado de coisas’, conclui Hegel, ‘é, aparentemente, tranqüilo e imperceptível. Depois de um longo tempo, uma constituição passa a uma condição totalmente diferente da anterior.’ § A categoria da transição gradual é, em primeiro lugar, historicamente falsa e, em segundo lugar, não esclarece nada.”

O poder legislativo fez a revolução francesa; lá onde ele, em sua particularidade, apareceu como dominante, ele fez, em geral, as grandes revoluções universais orgânicas; ele não combateu a constituição, mas uma particular constituição antiquada, precisamente porque o poder legislativo era o representante do povo, da vontade genérica. Em contrapartida, o poder governamental fez as pequenas revoluções, as revoluções retrógradas, as reações; ele não fez a revolução por uma nova constituição, contra uma antiga, mas a fez contra a constituição, precisamente porque o poder governamental era o representante da vontade particular, do arbítrio subjetivo, da parte mágica da vontade.” Curiosamente vemos o exato reverso da medalha hoje no Brasil.

Corretamente posta, a pergunta significa apenas: tem o povo o direito de se dar uma nova constituição? O que de imediato tem de ser respondido afirmativamente, na medida em que a constituição, tão logo deixou de ser expressão real da vontade popular, tornou-se uma ilusão prática. § A colisão entre a constituição e o poder legislativo é apenas um conflito da constituição consigo mesma, uma contradição no conceito da constituição. § A constituição não é senão uma acomodação entre o Estado político e o Estado não-político; por isso, ela é, necessariamente em si mesma, um tratado entre poderes essencialmente heterogêneos. É, portanto, aqui, impossível para a lei enunciar que um desses poderes, uma parte da constituição, deva ter o direito de modificar a constituição mesma, o todo.”

Em um povo irracional, não se poderia falar, de modo algum, de uma organização racional do Estado. Aqui, na filosofia do direito, o nosso objeto é, acima de tudo, a vontade geral. § O poder legislativo não faz a lei, ele apenas a descobre e a formula.”

A primeira colisão não-resolvida era aquela entre a constituição inteira e o poder legislativo. A segunda é aquela entre o poder legislativo e o poder governamental, entre a lei e a execução.”

Mediante o dinheiro, a justiça da igualdade pode ser mais bem-realizada. De outro modo, o homem talentoso seria mais onerado do que aquele sem talento, se a prestação dependesse da capacidade concreta.” Que pena que os talentosos costumem receber menores remunerações, mantendo-se o mesmo dilema! A inflação corrói qualquer vantagem que o assalariado pudesse ter quanto a prestações em pecúnia.

Mas, no que concerne à vontade especialmente boa dos estamentos para o bem geral, já se notou acima que é próprio da opinião da plebe, do ponto de vista do negativo em geral, supor no governo uma vontade má ou menos boa; – uma suposição que, sobretudo se tivesse que ser respondida de forma igual, teria, por consequência, a recriminação de que os estamentos, uma vez que provêm da singularidade, do ponto de vista privado e dos interesses particulares, são inclinados a empregar a sua atividade em favor destes, em detrimento do interesse universal, enquanto, em contrapartida, os outros momentos do poder do Estado estão, já para si, postos no ponto de vista do Estado e consagrados ao fim universal.”

Não se deve condenar Hegel porque ele descreve a essência do Estado moderno como ela é, mas porque ele toma aquilo que é pela essência do Estado. [em todos os tempos] Que o racional é real, [que a Idéia seja o empírico] isso se revela precisamente em contradição com a realidade irracional, que, por toda parte, é o contrário do que afirma ser e afirma ser o contrário do que é. [O empírico é uma contradição não-resolvida, daí que a Idéia e o Absoluto não vêm a se realizar no Estado e na Filosofia de Hegel]

Hegel quer o luxo do elemento estamental [cidadãos e seus interesses privados] apenas por amor à lógica.”

Em seguida, ele ainda censura a consciência comum por ela não se contentar com essa satisfação lógica, por ela não querer ver a realidade resolvida na lógica mediante uma abstração arbitrária, mas querer ver a lógica transformada em verdadeira objetividade.” Isto é: censura as pessoas por dizerem ‘O Estado é mau!’, ‘os políticos só cuidam de seus próprios interesses’, etc.

O Estado moderno, no qual tanto o ‘assunto universal’ quanto o ato de ocupar-se com ele são um monopólio, e no qual, em contrapartida, os monopólios são os assuntos universais reais, realizou o estranho achado de apropriar-se do ‘assunto universal’ como uma mera forma.”

O elemento estamental é a mentira sancionada, legal, dos Estados constitucionais: que o Estado é o interesse do povo ou o povo é o interesse do Estado. (…) O poder metafísico do Estado [poder legislativo, aquele que tem mais condições de atender ao ‘universal’] era a sede mais apropriada da ilusão metafísica, universal, do Estado.”

E, finalmente, o trecho já reproduzido anteriormente, agora sim passível de compreensão, no seu contexto: “Que esse momento [o momento ‘estamental’, de participação do povo no ‘universal’, mediante o legislativo e seus representantes, momento este anterior e subordinado ao momento do monarca absoluto…] seja uma determinação da Idéia desenvolvida até a totalidade, essa necessidade interna, que não se deve confundir com necessidades e utilidades externas, decorre, como em toda parte, do ponto de vista filosófico.

Assim como os burocratas são delegados do Estado na sociedade civil, do mesmo modo os estamentos são delegados da sociedade civil no Estado. São sempre, portanto, transações entre duas vontades opostas.”

Estado e governo são sempre colocados do mesmo lado, como idênticos; do outro lado, é colocado o povo, dissolvido nas esferas particulares e nos indivíduos.” “Os estamentos situam-se como órgão mediador entre os dois.” “Não é demonstrado, porém, por onde os estamentos devem começar a unir, neles mesmos, duas disposições contraditórias.”

Em um Estado, no qual a ‘posição’ dos ‘estamentos’ impede que os indivíduos ‘venham a se apresentar como uma multidão ou uma turba, como uma opinião e um querer inorgânicos, como um simples poder de massa contra o Estado orgânico’ – o ‘Estado orgânico’ existe fora da ‘multidão’ e da ‘turba’, ou a ‘multidão’ e a ‘turba’ pertencem à organização do Estado; apenas que sua ‘opinião e querer inorgânicos’ não devem chegar a se pôr como ‘opinião e querer contra o Estado’, sob cuja orientação determinada eles se tornariam opinião e querer ‘orgânicos’. Do mesmo modo, esse ‘poder de massa’ deve permanecer apenas ‘de massa’, de modo que o entendimento esteja fora da massa e, com isso, ela não coloque a si mesma em movimento, podendo ser posta em movimento apenas pelos monopolistas do ‘Estado orgânico’ e ser explorada como poder de massa. (…) Os ‘estamentos’ protegem o Estado da turba inorgânica apenas por meio da desorganização dessa turba.”

Com isso, ou o poder soberano deixa realmente de ser o extremo do poder soberano (e o poder soberano existe apenas como um extremo, como uma unilateralidade, porque ele não é um princípio orgânico), tornando-se um poder aparente, um símbolo, ou, então, ele perde apenas a aparência do arbítrio e do simples poder dominante.”

É digno de nota que Hegel desenvolve menos o conteúdo da atividade estamental, o poder legislativo, do que a posição dos estamentos, sua estatura política.”

Se ela [a oposição ao governo], enquanto tem sua manifestação, não ficasse apenas na superfície, mas se tornasse realmente uma oposição substancial, então o Estado estaria em vias de perecer.”

Embora na concepção de tais teorias os estamentos da sociedade civil em geral e os estamentos em sentido político se encontrem distantes uns dos outros, a linguagem conservou, ainda, essa união que, aliás, existia anteriormente.”

es(go)tamento

O ponto culminante da identidade hegeliana era, como ele mesmo o confessa, a Idade Média. Lá, os estamentos da sociedade civil em geral e os estamentos em sentido político eram idênticos.”

Mas Hegel parte da separação da ‘sociedade civil’ e do ‘Estado político’ como de dois opostos fixos, duas esferas realmente diferentes. De fato, essa separação é, certamente, real no Estado moderno.” “Se a identidade dos estamentos civil e político expressasse a verdade, ela não poderia ser, portanto, mais do que uma expressão da separação das sociedades civil e política!” Que agora são separadas na linguagem, como não o eram na Idade Média!

Ora, a disposição não está, certamente, ligada a um patrimônio – mas a conexão relativamente necessária é que aquele que possui um patrimônio independente não está limitado por circunstâncias exteriores e pode, assim, proceder sem impedimentos e agir em prol do Estado.”

Apologia do morgadio (herança exclusiva do primogênito) como base de sustentação do cargo público não-remunerado, o que inclusive é contraditório com tudo o que Hegel já disse e ainda dirá sobre a classe dos servidores remunerados, o que demonstra a cisão irreparável em sua “unidade”: senhores de terras e uma classe média que estudou a burocracia, dois elementos que não podiam ser mais ‘água e óleo’.

Hegel realizou a proeza de desenvolver, a partir da Idéia absoluta, os pares por nascimento, o bem hereditário etc. etc., este ‘sustentáculo do trono e da sociedade’.”

Hegel não chamou a coisa de que aqui se trata por seu nome conhecido. É a controvérsia entre constituição representativa e constituição estamental. A constituição representativa é um enorme progresso, pois ela é a expressão aberta, não-falseada, conseqüente, da condição política moderna. Ela é a contradição declarada.”

O estamento universal, que se dedica mais de perto ao serviço do governo, tem imediatamente, em sua determinação, o universal como fim de sua atividade essencial.

A sociedade civil ou o estamento privado não tem isso como sua determinação; sua atividade essencial não tem a determinação de ter como fim o universal, ou seja, sua atividade essencial não é uma determinação do universal, não é determinação universal. O estamento privado é o estamento da sociedade civil contra o Estado. O estamento da sociedade civil não é um estamento político.” Burguês, o anti-político.

Esse ato político é uma completa transubstanciação. Nele, a sociedade civil deve separar-se de si completamente como sociedade civil, como estamento privado, e deve fazer valer uma parte de seu ser, aquela que não somente não tem nada em comum com a existência social real de seu ser, como, antes, a ele se opõe diretamente.”

Como cidadão real, ele se encontra em uma dupla organização, a burocrática – que é uma determinação externa, formal, do Estado transcendente, do poder governamental, que não tangencia o cidadão e a sua realidade independente – e a social, a organização da sociedade civil.” “Portanto, para se comportar como cidadão real do Estado, para obter significado e eficácia políticos, ele deve abandonar sua realidade social, abstrair-se dela, refugiar-se de toda essa organização em sua individualidade; pois a única existência que ele encontra para sua qualidade de cidadão do Estado é sua individualidade nua e crua, já que a existência do Estado como governo está completa sem ele e que a existência dele na sociedade civil está completa sem o Estado.”

Hegel quer demonstrar que os estamentos da sociedade civil são os estamentos políticos e, para provar isso, supõe que os estamentos da sociedade civil sejam a ‘particularização do Estado político’, isto é, que a sociedade civil seja a sociedade política. A expressão ‘o particular no Estado’ só pode significar, aqui, ‘a particularização do Estado’. Hegel, por uma má consciência, escolhe a expressão indeterminada.” “Muito prudente é, também, a determinação de que o particular ‘liga-se’ ao universal. Ligar é coisa que pode ser feita com as coisas mais heterogêneas.”

É um progresso da história que os estamentos políticos tenham se tornado estamentos sociais, de modo que, assim como os cristãos são iguais no céu e desiguais na terra, também os membros singulares do povo são iguais no céu de seu mundo político e desiguais na existência terrena da sociedade. A transformação propriamente dita dos estamentos políticos em sociais se deu na monarquia absoluta. [começo da modernidade]”

Somente a Revolução Francesa completou a transformação dos estamentos políticos em sociais, ou seja, fez das distinções estamentais da sociedade civil simples distinções sociais, distinções da vida privada, sem qualquer significado na vida política. A separação da vida política e da sociedade civil foi, assim, consumada.”

Em seu sentido medieval, o estamento permanece, ainda, apenas no interior da própria burocracia, onde a posição social e a posição política são imediatamente idênticas. A ele se opõe a sociedade civil como estamento privado.”

A única distinção geral, superficial e formal é, aqui, apenas aquela entre cidade e campo. Mas dentro da própria sociedade a distinção se forma não em círculos fixos, mas em círculos móveis, cujo princípio é o arbítrio. Dinheiro e cultura são os critérios principais.” “É uma divisão de massas que se formam fugazmente, cuja própria formação é arbitrária e que não é uma organização.”

um estamento que é, ele próprio, por sua vez, apenas uma determinação exterior do indivíduo, pois não é inerente ao seu trabalho nem se relaciona com ele como uma comunidade objetiva, existente, organizada segundo leis estáveis e mantendo com ele relações estáveis. Ao contrário, ele não mantém qualquer relação real com o agir substancial do indivíduo, com seu estamento real. O médico não forma nenhum estamento particular na sociedade civil. Um comerciante pertence a um estamento diverso daquele de outro comerciante, isto é, ele pertence a outra posição social. (…) O princípio do estamento social ou da sociedade civil é o gozo e a capacidade de fruir.”

A atual sociedade civil é o princípio realizado do individualismo; a existência individual é o fim último; atividade, trabalho, conteúdo etc., são apenas meio.”

O modo de vida, atividade etc. deste último, em lugar de fazer dele um membro, uma função da sociedade, faz dele uma exceção da sociedade, é o seu privilégio. Que essa distinção não seja apenas uma distinção individual, mas se concretize como comunidade, estamento, corporação, isso não apenas não suprime a sua natureza exclusiva, como é, antes, somente sua expressão. Em vez de ser função da sociedade, a função individual se converte em uma sociedade para si.”

A Idade Média é a história animal da humanidade, sua zoologia. A era moderna, a civilização, comete o erro inverso.”

A única oposição que ainda é possível aqui parece ser aquela entre os dois representantes das duas vontades do Estado, entre as duas emanações, entre o elemento governamental e o elemento estamental do poder legislativo; parece ser, portanto, uma oposição no interior do próprio poder legislativo.”

O poder soberano perdeu o seu inacessível, exclusivo, Uno empírico; a sociedade civil perdeu seu inacessível, vago, Todo empírico; um a sua rigidez, a outra sua fluidez.”

Assim como, do lado do poder do príncipe, o poder governamental já tem essa determinação, assim também, do lado dos estamentos, um momento deles tem de estar voltado para a determinação de existir essencialmente como o momento do termo-médio.

Já vimos, porém, que Hegel opõe, aqui, de forma arbitrária e inconseqüente, príncipe e estamentos como extremos. (…) Os estamentos … fazem, do lado da sociedade civil, mais do que o poder governamental o faz do lado do poder soberano, uma vez que é propriamente este último que se contrapõe ao povo como seu oposto.

(*) ponte de asnos: “Marx faz aqui um trocadilho, empregando a expressão ‘ponte dos asnos’ tanto em seu sentido escolástico (pons asinorum), do diagrama utilizado para descobrir as possibilidades de termos-médios de um silogismo, quanto no sentido literal. Os estamentos são os asnos sobrecarregados de funções, que têm de ser, ainda, a própria ponte – o termo-médio – que os une ao governo. (N.T.)”

O príncipe deveria, por conseguinte, fazer-se, no poder legislativo, de termo-médio entre o poder governamental e o elemento estamental; porém, o poder governamental é justamente o termo-médio entre ele e a sociedade estamental, e esta é o termo-médio entre ele e a sociedade civil!” Triangulações vesgas da Idéia.

São cabeças de Jano, que ora se mostram de frente, ora de costas, e que de frente têm um caráter diverso do de costas.” “Tal como um homem que se encontra entre dois litigantes e, então, um destes, por sua vez, coloca-se entre o intermediário e o outro litigante. É a história do homem e da mulher que brigavam e do médico que queria servir de conciliador entre eles, com o que, então, a mulher devia se colocar entre o médico e o marido e, este, entre a mulher e o médico. Tal como o leão no Sonho de uma noite de verão, que exclama: ‘Eu sou um leão e não sou um leão, eu sou Marmelo’.(*) Assim, cada extremo é, aqui, ora o leão da oposição, ora o Marmelo da mediação.” Hahaha!

(*) “Marx comete, aqui, um pequeno equívoco: no entremez representado no interior da peça, o ‘leão’ é protagonizado pelo marceneiro Pino (Schnock) e não pelo carpinteiro Marmelo (Squenz).” É tanta confusão que talvez tenha errado de propósito! O governo não é leão nem Marmelo nem carpinteiro nem marceneiro, mas sim um pino (nas horas vagas!).

Trata-se de uma sociedade belicosa em seu âmago, mas que tem muito medo das manchas roxas para se bater realmente, e os dois, que querem brigar, se ajustam de tal modo que o terceiro, que se encontra entre eles, deva receber as pancadas; mas, então, um dos dois apresenta-se novamente como o terceiro, e, diante de tamanha precaução, eles não chegam a qualquer decisão.”

Extremos reais não podem ser mediados um pelo outro, precisamente porque são extremos reais. Mas eles não precisam, também, de qualquer mediação, pois eles são seres opostos. Não têm nada em comum entre si, não demandam um ao outro, não se completam. Um não tem em seu seio a nostalgia, a necessidade, a antecipação do outro. (Mas quando Hegel trata a universalidade e a singularidade, os momentos abstratos do silogismo, como opostos reais, é esse precisamente o dualismo fundamental da sua lógica …)”

No que concerne ao primeiro ponto, polo norte e polo sul são, ambos, polo; sua essência é idêntica; do mesmo modo, os sexos feminino e masculino são um gênero, uma essência, a essência humana. Norte e sul são determinações opostas de uma essência; a diferença de uma essência em seu mais alto desenvolvimento. Eles são a essência diferenciada. Eles são o que são apenas como uma determinação diferenciada, e precisamente como essa determinação diferenciada da essência. Verdadeiros extremos reais seriam polo e não-polo, gênero humano e inumano. A diferença é, aqui, uma diferença da existência, lá uma diferença da essência, de duas essências.”

Contraposição (superação, a não-mediação) à dialética: poesia.

o espírito é apenas a abstração da matéria [conceito derivado, duas essências, porém a matéria é existente, possuindo um avesso formal]

Outro exemplo: O fascismo existiu historicamente, o socialismo não (não foi logrado). O fascismo empírico é apenas a abstração do socialismo (forma-se um conceito do que deveria ser o socialismo, com base na má-fé de juízo empírica do fascista). Dado que o socialismo é o antípoda e o remédio do fascismo (ou a tentativa de socialismo é a inimiga por definição da consumação do fascismo), é possível a “inferência”.

A posição não é igual. Por exemplo, cristianismo ou religião em geral e filosofia são extremos. Mas, em verdade, a religião não constitui uma oposição verdadeira à filosofia. Pois a filosofia compreende a religião em sua realidade ilusória. A religião, enquanto quer ser uma realidade, está, portanto, para a filosofia, dissolvida na própria filosofia.”

A crítica vulgar cai em um erro dogmático oposto. Assim ela critica, por exemplo, a constituição. Ela chama a atenção para a oposição entre os poderes etc. Ela encontra contradições por toda parte. Isso é, ainda, crítica dogmática, que luta contra seu objeto, do mesmo modo como, antigamente, o dogma da santíssima trindade era eliminado por meio da contradição entre um e três. A verdadeira crítica, em vez disso, mostra a gênese interna da santíssima trindade no cérebro humano. Descreve seu ato de nascimento. Com isso, a crítica verdadeiramente filosófica da atual constituição do Estado não indica somente contradições existentes; ela esclarece essas contradições, compreende sua gênese, sua necessidade.”

Esse momento do elemento estamental é o romantismo do Estado político, o sonho de sua substancialidade ou de seu acordo consigo mesmo. É uma existência alegórica.”

Um dos estamentos da sociedade civil contém o princípio que, por si mesmo, é capaz de ser constituído como essa relação política, isto é, o estamento da eticidade natural.

(o estamento dos proprietários fundiários).”

no que diz respeito à ‘vida familiar’ como base, parece que a eticidade ‘social’ da sociedade civil esteja situada acima dessa ‘eticidade natural’. Ademais, a ‘vida familiar’ é a ‘eticidade natural’ dos outros estamentos, ou do estamento dos cidadãos da sociedade civil, tanto quanto do estamento dos proprietários fundiários. Porém, que a ‘vida familiar’ seja, no estamento dos proprietários fundiários, não apenas o princípio da família, mas a base da sua existência social em geral, isso parece, antes, tornar esse estamento inapto para a mais elevada tarefa política, já que ele aplicará leis patriarcais a uma esfera não-patriarcal e fará valer o filho ou o pai, o senhor e o servo, lá onde se trata do Estado político, da qualidade de cidadão do Estado (Staatsbürgerthum).

No que concerne à determinação natural do elemento soberano, Hegel desenvolveu não um rei patriarcal, mas um rei moderno, constitucional.”

ele não é cidadão do Estado porque proprietário fundiário, mas proprietário fundiário porque cidadão do Estado! Eis aqui, portanto, uma inconseqüência de Hegel no interior de seu próprio modo de ver, e uma tal inconseqüência é acomodação.”

O ‘morgadio’ seria o constituir-se político do estamento dos proprietários fundiários.” O “rei” de cada família, sustentado pelo direito burocrático do Estado.

Primeira tese. O Estado não se contenta com ‘a mera possibilidade da disposição’, ele deve contar com uma ‘necessidade’.

Segunda tese. ‘A disposição não está ligada a um patrimônio’, isto é, a disposição do patrimônio é uma ‘mera possibilidade’.

Terceira tese. Mas há uma ‘conexão relativamente necessária’; a saber: ‘aquele que possui um patrimônio independente’ etc. pode ‘agir em prol do Estado’, ou seja, o patrimônio dá a ‘possibilidade’ da disposição de Estado, embora esta ‘possibilidade’ não satisfaça, de acordo com a primeira sentença.

Além disso, Hegel não demonstrou que a propriedade da terra é o único ‘patrimônio independente’.”

Além disso, entre nós, a filosofia não é exercida como o era, aproximadamente, entre os gregos, como uma arte privada, mas ela tem, antes, uma existência pública, em contato com o público, principalmente ou unicamente a serviço do Estado.”

As oposições assumiram, aqui, uma forma totalmente nova e muito material, como mal poderíamos esperá-las no céu do Estado político. § A oposição, tal qual Hegel a desenvolve, expressa em sua agudeza, é a oposição de propriedade privada e patrimônio.”

Porque ela não é transmitida ‘aos filhos de acordo com a igualdade do amor’, ela é separada, independente até mesmo da pequena sociedade, da sociedade natural, da família, de sua vontade e de suas leis; e conserva, portanto, a natureza rude da propriedade privada também em relação à passagem no interior do patrimônio familiar.” “Mas ele mesmo qualificou o ‘amor’ como a base, o princípio, o espírito da vida familiar [acima]. No estamento que tem a vida familiar como sua base, falta, portanto, a base da vida familiar, o amor como princípio real, por conseguinte eficiente e determinante.”

Em seu mais alto desenvolvimento, o princípio da propriedade privada contradiz o princípio da família. Contrariamente, portanto, ao estamento da eticidade natural, da vida familiar, é, antes, apenas na sociedade civil que a vida familiar chega a ser vida da família, vida do amor. O estamento da eticidade natural é, antes, a barbárie da propriedade privada contra a vida familiar.

Essa seria, portanto, a soberana grandeza da propriedade privada, da propriedade fundiária, sobre a qual houve, recentemente, tantos sentimentalismos e sobre a qual tantas lágrimas multicores de crocodilo foram derramadas.”

Há, em Hegel, uma certa decência, a dignidade do intelecto. Ele não quer justificar e construir o morgadio em si e para si, ele o quer apenas com referência a outro, não como autodeterminação, mas como determinidade de um outro, não como fim, mas como meio para um fim.” Pelo menos o morgadia não é um simples momento da Idéia!

Qual é, então, o poder do Estado político sobre a propriedade privada? O próprio poder da propriedade privada, sua essência trazida à existência.” “A propriedade privada não é mais um objeto determinado do arbítrio, mas sim o arbítrio é o predicado determinado da propriedade privada.” “Que filosofia do direito é essa, em que a independência da propriedade privada tem no direito privado um significado diverso daquele do direito público?”

Uma tal monstruosidade, como a de definir o morgadio como uma determinação da propriedade privada por meio do Estado político, é, em suma, inevitável, quando se interpreta uma velha visão de mundo no sentido de uma nova, quando se dá a uma coisa, como aqui a propriedade privada, um duplo significado, um no tribunal do direito abstrato e outro oposto no céu do Estado político.”

“‘A certeza que se funda na verdade’, que ‘é a disposição política’, é a certeza fundada em seu ‘próprio terreno’ (em sentido literal).”

A incorruptibilidade aparece como a mais alta virtude política, uma virtude abstrata. Além disso, a incorruptibilidade é algo tão à parte no Estado construído por Hegel, que ela tem de ser construída como um poder político particular, provando, precisamente por isso, que ela não é o espírito do Estado político, não é a regra, mas a exceção, e que é construída como uma tal exceção. Para preservá-los da corruptibilidade, corrompem-se os senhores do morgadio por meio de sua propriedade inalienável.”

Mas não é mais cômico que a mais alta dignidade do poder legislativo seja confiada a uma raça particular de homens? Não há nada mais ridículo do que Hegel contrapor a designação por ‘nascimento’ do legislador, do representante do cidadão do Estado, à sua designação por meio da ‘acidentalidade de uma escolha’.” “Em toda parte, Hegel cai de seu espiritualismo político no mais crasso materialismo. No cume do Estado político, é o nascimento, por toda parte, que faz de determinados indivíduos a encarnação das mais altas tarefas públicas.” “Nesse sistema, a natureza faz, imediatamente, reis, ela faz, imediatamente, pares etc. assim como faz olhos e narizes.”

Eu sou humano por nascimento, sem o consentimento da sociedade; mas é apenas por meio do consentimento geral que esse nascimento determinado se torna nascimento de um par ou de um rei. Somente o consentimento faz do nascimento dessa pessoa o nascimento de um rei; assim, é o consenso e não o nascimento que faz o rei. Se é o nascimento, diferentemente das outras determinações, que dá imediatamente ao homem uma posição, então é seu corpo que faz dele este funcionário social determinado.” “e é naturalmente essa concepção zoológica que tem na heráldica a sua ciência correspondente. O segredo da nobreza é a zoologia.” HAHAHA!

Há dois momentos a salientar no morgadio hereditário:

1) O permanente é o bem hereditário, a propriedade fundiária. Ele é o constante na relação, a substância. O senhor do morgadio, o proprietário, é, na verdade, apenas acidente. A propriedade fundiária se antropomorfiza nas diversas gerações. É como se a propriedade fundiária herdasse sempre o primogênito da casa, como um atributo preso a ela. (…)

2) A qualidade política do senhor do morgadio é a qualidade política do seu bem hereditário, uma qualidade política inerente a esse bem hereditário.” Geografia física!

os membros do Estado político recebem sua independência de um ser que não é o ser do Estado político, mas de um ser do direito privado abstrato, da propriedade privada abstrata.”

O fato de o Estado ser o monarca hereditário, uma personalidade abstrata, significa apenas que a personalidade do Estado é abstrata ou que é o Estado da personalidade abstrata; como, de resto, também os romanos desenvolveram o direito do monarca puramente segundo as normas do direito privado ou o direito privado como a suprema norma do direito público. Os romanos são os racionalistas, os alemães os místicos da propriedade privada soberana.”

Combateu-se Hegel muitas vezes por seu desenvolvimento da moral. Mas o que ele fez foi desenvolver a moral do Estado moderno e do direito privado moderno. Quis-se separar mais a moral do Estado, emancipá-la mais!”

a separação do Estado atual da moral é moral, … a moral é não-estatal e o Estado é imoral. É, antes, um grande mérito de Hegel, ainda que inconsciente sob um certo aspecto …, ter apontado à moral moderna o seu verdadeiro lugar.”

Comércio e indústria, em suas nuances particulares, são a propriedade privada de corporações particulares. Dignidades da côrte, jurisdição etc. são a propriedade privada de estamentos particulares. As diversas províncias são propriedades privadas de príncipes singulares etc. O serviço militar ao país etc. é a propriedade privada do soberano. O espírito é a propriedade privada do clero. Minha atividade conforme ao dever é propriedade privada de outrem, assim como meu direito é uma propriedade privada particular. A soberania, aqui a nacionalidade, é propriedade privada do imperador.”

Onde os príncipes atacaram a independência da propriedade privada, como na França, eles atentaram contra a propriedade privada das corporações, antes de atentar contra a propriedade privada dos indivíduos.”

O príncipe constitucional expressa, por isso, a idéia do Estado constitucional em sua abstração mais aguda. (…) Ele é, igualmente, uma mera imaginação, como pessoa e como príncipe, ele não tem nem poder real, nem atividade real.”

Os romanos, na verdade, foram os primeiros a desenvolver o direito da propriedade privada, o direito abstrato, o direito privado, o direito da pessoa abstrata. O direito privado romano é o direito privado em seu desenvolvimento clássico. Nos romanos, no entanto, não encontramos, em nenhuma parte, que o direito da propriedade privada tenha sido mistificado, tal como nos alemães. Ele não se tornará jamais, também, direito público.”

O verdadeiro fundamento da propriedade privada, a posse, é um fato, um fato inexplicável, não um direito. É somente por meio das determinações jurídicas, conferidas pela sociedade à posse de fato, que esta última adquire a qualidade de posse jurídica, a propriedade privada.”

No que concerne ao vínculo, nos romanos, entre constituição política e propriedade privada, aparecem:

1) O homem (como escravo), assim como nos povos antigos em geral, como objeto da propriedade privada.

Nisso, nada de especial.

2) As regiões conquistadas são tratadas como propriedade privada; nelas, é feito valer o jus utendi et abutendi [uso e abuso].

3) Em sua própria história, aparece a luta entre pobres e ricos, patrícios e plebeus etc.

De resto, a propriedade privada se faz valer no todo, como nos antigos povos clássicos em geral, como propriedade pública, seja como despesa da república nos tempos prósperos, seja como benfeitoria geral luxuriosa (banhos etc.) perante a massa.”

Se não como prisioneiro de guerra, como se “legitima” a existência do escravo?

Aplicando a idéia a um mundo futuro, que veja o instituto como inevitável e inerente à condição social humana, haveria de ser: 1) os arredios ao conceito de uma sociedade anti-capitalista; 2) os que falharam na “nova educação”, pelos novos mestres pedagogos; 3) aqueles que entendem a vida empírica como uma maldição (todos os religiosos da atualidade que persistirem em seus credos no futuro).

O poder imperial era, por isso, hereditário apenas de fato. [não de direito]” “quando o direito privado atingiu o pleno desenvolvimento em Roma, o direito público foi abolido, caminhou para sua dissolução, enquanto na Alemanha ocorreu o inverso.”

As dignidades do Estado nunca são hereditárias em Roma” Um senador tem de ser apto, demonstrar-se apto.

Ao contrário do morgadio germânico etc., a liberdade de testar aparece em Roma como uma emanação da propriedade privada. Nesta última oposição reside toda a diferença dos desenvolvimentos romano e germânico da propriedade privada.”

Na medida em que estes últimos são deputados pela sociedade civil, é imediatamente claro que esta faz aquilo como aquilo que ela é – portanto, não enquanto dissolvida atomisticamente nos indivíduos e reunindo-se, num breve momento, apenas para um ato isolado e temporário, sem atitude subseqüente, mas sim enquanto organizada nas suas associações, comunidades e corporações, constituídas sem demora, que recebem desse modo uma conexão política.”

Então quando organizados nas suas associações, comunidades e corporações os deputados se despojam de seu corpo físico e dos ritos burocráticos para determinar o destino das massas? É isto que a assembléia legislativa é – indivíduos, átomos, que comparecem rotineiramente a sessões e precisam cumprir vários protocolos demorados. Suas reuniões ocupam apenas breves momentos de alguns dias da semana. E muitos dos deputados, não é necessário dizer, são bastante inconseqüentes! Imagine-se, para terminar, quanto esforço e tempo não demanda organizar e constituir associações, comunidades e corporações, o que não depende sequer da presteza e agilidade de um deputado! Afinal, estamos falando de dois sistemas burocráticos diferentes – o de uma associação qualquer e outro do poder legislativo, o que só contribui para tornar ainda mais lento o processo e dissolver eventuais responsabilidades.

Câmara dos deputados e câmara dos pares (ou como quer que elas se chamem)¹ não são, aqui, diferentes existências do mesmo princípio, mas sim fazem parte de dois princípios e condições sociais essencialmente diferentes. A câmara dos deputados é, aqui, a constituição política da sociedade civil em sentido moderno; a câmara dos pares o é em sentido estamental.”

¹ Aqui, embora queira-se dizer senado, o significado é outro, no tempo de Marx e na Alemanha (e Inglaterra, como se verá mais abaixo): os senadores eram os morgados, senhores do morgadio, latifundiários, não-eleitos, mas empossados por direito no cargo graças, essencialmente, ao seu nascimento e à primogenitura dentro da aristocracia.

A sociedade civil, portanto, tem na câmara estamental a representante de sua existência medieval e, na câmara dos deputados, a representante de sua existência política (moderna).” “A existência política empírica que Hegel tem diante dos olhos (Inglaterra) guarda, portanto, um significado bem diferente daquele que ele lhe imputa.”

Nesse sentido, também a constituição francesa representa um progresso. Ela reduziu, em verdade, a câmara dos pares a uma pura nulidade, mas essa câmara, segundo o princípio da monarquia constitucional, tal como Hegel tencionava desenvolvê-lo, só pode ser, por sua natureza, uma nulidade, a ficção da harmonia entre príncipe e sociedade civil, ou do poder legislativo ou Estado político consigo mesmo como uma existência particular e, precisamente por isso, mais uma vez contraditória.”

A paridade é realmente, nessa constituição, um estamento na sociedade civil, um estamento que é puramente político e criado a partir do ponto de vista da abstração do Estado político; mas ele aparece mais como decoração política do que como estamento real, provido de direitos particulares. A câmara dos pares, sob a restauração, era uma reminiscência. A câmara dos pares da revolução de Julho(*) é uma criação efetiva da monarquia constitucional.” Inicialmente o senado (na monarquia constitucional) não era como hoje, de mandato temporário, mas com cargos vitalícios.

(*) Não é a revolução francesa: “Revolução de julho de 1830, que depôs o rei Bourbon Carlos X e alçou ao trono Luís Filipe de Orléans, conhecido como ‘o rei burguês’. Seu reinado (a Monarquia de Julho), caracterizado por alterações de caráter liberal na constituição restauracionista de 1814, duraria até a revolução de 1848.”

O mérito dos franceses é, portanto, o de ter estabelecido a câmara dos pares como produto próprio do Estado político”

Que existência elevada é essa, que necessita de uma garantia fora de si mesma? e que deve, além disso, ser a existência universal desta mesma garantia e, portanto, sua real garantia? Em suma, no desenvolvimento do poder legislativo, Hegel retrocede, por toda parte, do ponto de vista filosófico ao outro ponto de vista, que não considera a coisa em relação consigo mesma.”

O direito político, como direito das corporações etc., contradiz totalmente o direito político enquanto político, ou direito do Estado, ou qualidade do cidadão do Estado”

Que todos devam participar singularmente nas deliberações e decisões sobre os assuntos gerais do Estado, pois estes todos são membros do Estado, cujos assuntos são assuntos de todos e no qual esses têm um direito de ser com seu saber e querer –, essa concepção, que gostaria de colocar o elemento democrático, sem nenhuma forma racional, no organismo estatal, que é tal somente por meio da referida forma, apresenta-se tão óbvia porque permanece circunscrita à abstrata determinação de ser membro do Estado, e o pensamento superficial se atém a abstrações.” O pensamento superficial se atém a abstrações seria um ótimo resumo da inteira filosofia de Hegel!

Nada como duas guerras européias para fazer com que o voto universal se tornasse de repente muitíssimo racional!

Já esclarecemos que Hegel desenvolve apenas um formalismo de Estado. O verdadeiro princípio material é, para ele, a Idéia, a abstrata forma pensada do Estado como um Sujeito, a Idéia absoluta, que não guarda em si nenhum momento passivo, material.”

A questão sobre como a sociedade civil deve tomar parte no poder legislativo, que ela ingresse nele por meio de deputados, ou que ‘todos singularmente’ participem de forma direta, é ela mesma uma questão no interior da abstração do Estado político, ou no interior do Estado político abstrato; é uma questão política abstrata.”

A totalidade não é algo por meio do qual o singular perde a determinação da singularidade abstrata; a totalidade é apenas o número total da singularidade.” Que todos participassem, ainda assim isso não mudaria o fato de que o fazem apenas por interesse próprio, idiossincraticamente.

“‘Todos’ devem ‘participar singularmente nas deliberações e decisões sobre os assuntos gerais do Estado’; isto é, portanto: todos devem participar, não como todos, mas sim como ‘singular’.”

Ser parte consciente de alguma coisa é lhe tomar, com consciência, uma parte, participar nela conscientemente. Sem essa consciência, o membro do Estado seria um animal.”

Quando se diz ‘os assuntos universais do Estado’, produz-se a aparência de que os ‘assuntos universais’ e o ‘Estado’ são algo de diferente. Mas o Estado é o ‘assunto universal’, portanto realmente os ‘assuntos universais’.”

Se se trata, portanto, dos reais membros do Estado, então não se pode falar dessa participação como de um dever.”

Não se trata, aqui, de determinar se a sociedade civil deve exercer o poder legislativo por meio de deputados ou todos singularmente, mas se trata, sim, da extensão e da máxima generalização possível da eleição, tanto do sufrágio ativo como do sufrágio passivo. Esse é o ponto propriamente controverso da reforma política, tanto na França quanto na Inglaterra.”

a eleição é a relação imediata, direta, não meramente representativa, mas real, da sociedade civil com o Estado político.” Um Marx ainda muito comedido!

É somente na eleição ilimitada, tanto ativa quanto passiva, que a sociedade civil se eleva realmente à abstração de si mesma, à existência política como sua verdadeira existência universal, essencial.”

Eles não se encontram, com isso, na situação de serem mandatários comissionados ou portadores de instruções, tanto menos que a assembleia tem a determinação de ser uma reunião viva, em que se debate, se persuade mutuamente e se decide em conjunto.”

Ele reconhece, portanto, na determinação material, aquilo que ele converteu em sua determinação formal, a abstração de si mesma da sociedade civil em seu ato político; e sua existência política não é senão essa abstração.”

Que os deputados entendam ‘mais’ dos assuntos universais e não entendam ‘simplesmente’, Hegel só pode afirmá-lo mediante um sofisma.”

A separação entre Estado político e sociedade civil aparece como a separação entre os deputados e seus mandantes.”

É significativo que Hegel qualifique, aqui, a confiança como a substância da deputação, como a relação substancial entre representantes e representados. Confiança é uma relação pessoal.”

Primeiramente, a primeira câmara, a câmara da propriedade privada independente fôra construída como garantia, para o príncipe e o poder governamental, contra a disposição da segunda câmara, como a existência política da universalidade empírica; e, agora, Hegel exige novamente uma nova garantia, que deve garantir a disposição etc. da própria segunda câmara.”

O que ele realmente exige, aqui, é que o poder legislativo deva ser o real poder governativo. Ele expressa isso de tal forma que exige a burocracia duas vezes: uma como representação do príncipe, outra como representação do povo.” “Falta apenas que Hegel exija que os estamentos prestem um exame ao digníssimo governo.” HAHAHA

Vê-se que Hegel é completamente contagiado pela soberba miserável do mundo do funcionalismo prussiano, que, nobre em sua limitação de gabinete, olha de cima a ‘autoconfiança’ da ‘opinião subjetiva do povo sobre si mesmo’.”

Sobre as eleições mediante muitos indivíduos, pode ainda ser observado que, especialmente nos grandes Estados, ocorre necessariamente a indiferença em dar o próprio voto, como se ele tivesse, na multidão, um efeito insignificante, e os que têm o direito ao voto, ainda que isso lhes seja apresentado e apregoado como alguma coisa de elevado, não comparecem para votar – de forma que resulta, de tal instituição, muito mais o oposto de sua destinação, e a eleição cai em poder de poucos, de um partido e, portanto, do interesse particular, contingente, justamente aquilo que devia ser neutralizado.”

Ou seja: para que as eleições não recaiam em interesses particulares, não se as deve tornar públicas!!! Grosseiro.

§ 313. Mediante essa separação, não apenas a maturação das decisões recebe sua maior segurança, graças a uma pluralidade de instâncias, e é afastada a acidentalidade de um voto do momento, assim como a acidentalidade da decisão por maioria dos votos, como também, principalmente, o elemento estamental possui menos ocasiões de se opor diretamente ao governo, ou, no caso de o elemento mediador se encontrar igualmente do lado do segundo estamento, o peso de sua opinião será tanto mais reforçado quanto mais ele aparecer como imparcial e sua oposição aparecer como neutralizada.”

Por que não três ou quatro câmaras para aperfeiçoar o bicameralismo?

CRÍTICA DA FILOSOFIA DO DIREITO DE HEGEL – INTRODUÇÃO

Na Alemanha, a crítica da religião está, no essencial, terminada; e a crítica da religião é o pressuposto de toda a crítica.” Incipit tragoedia.

Ela é a realização fantástica da essência humana, porque a essência humana não possui uma realidade verdadeira. Por conseguinte, a luta contra a religião é, indiretamente, contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião.”

A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração, assim como o espírito de estados de coisas embrutecidos. Ela é o ópio do povo.” Como toda droga, a desintoxicação deve ser gradual. Pois o que se quer dizer é que é um supremo consolo; hoje em dia tem-se a tendência de ver nessa censura mais moralismo do que poderia haver mesmo no séc. XIX, até por seu autor ser quem é, de entender a frase meramente como reprovação unilateral, “costume milenar” que deve ser cortado de imediato (com o que não se sonha, nem entre os círculos mais revolucionários): Arranque-se essa vem-vergonhice, vício imundo e que desencadeia ilusões, todas maléficas ao organismo!

A supressão [Aufhebung] da religião como felicidade ilusória do povo é a exigência da sua felicidade real.”

é a exigência de que abandonem uma condição que necessita de ilusões. A crítica da religião é, pois, em germe, a crítica do vale de lágrimas”

A crítica arrancou as flores imaginárias dos grilhões, não para que o homem suporte grilhões desprovidos de fantasias ou consolo, mas para que se desvencilhe deles e a flor viva desabroche.”

Portanto, a tarefa da história, depois de desaparecido o além da verdade, é estabelecer a verdade do aquém.” “A crítica do céu transforma-se, assim, na crítica da terra, a crítica da religião, na crítica do direito, a crítica da teologia, na crítica da política.”

Mesmo a negação de nosso presente político é já um fato empoeirado no quarto de despejo histórico das nações modernas. Se nego as perucas empoadas, fico ainda com as perucas desempoadas. Quando nego a situação alemã de 1843, não me encontro nem mesmo, segundo a cronologia francesa, no ano de 1789, quanto menos no centro vital do período atual.”

A história alemã, é verdade, orgulha-se de um desenvolvimento que nenhuma nação no firmamento histórico realizou antes dela ou chegará um dia a imitar. Tomamos parte nas restaurações das nações modernas, sem termos tomado parte nas suas revoluções.” Duas vezes! Tentará de novo?

Tendo nossos pastores à frente, encontramo-nos na sociedade da liberdade apenas no dia do seu sepultamento.”

A escola histórica do direito alemã teria inventado a história alemã, não fosse ela uma invenção da história alemã.”

(*) “Savigny, defensor da tese de que o direito refletia a própria ‘alma’ de um povo – sua cultura, seus costumes –, sendo, portanto, refratário a qualquer reformulação do direito orientada pelos princípios racionalistas, foi professor de Marx na Universidade de Berlim entre 1836 e 1837 e o influenciou quanto ao método de estudo, já que era uma prerrogativa da Escola Histórica o estudo exegético dos textos e documentos relacionados ao seu objeto de investigação.”

Em contrapartida, entusiastas bonacheirões, chauvinistas alemães por sangue e liberais esclarecidos por reflexão buscam nossa história de liberdade além de nossa história, nas primitivas florestas teutônicas. Mas, se ela só pode ser encontrada nas florestas, em que se diferencia a história da nossa liberdade da história da liberdade do javali?”

E mesmo para os povos modernos, essa luta contra o teor limitado do status quo alemão não carece de interesse, pois o status quo alemão é a perfeição manifesta do ancien régime, e o ancien régime é o defeito oculto do Estado moderno.” “Para as nações modernas, é instrutivo assistir ao ancien régime, que nelas viveu sua tragédia, desempenhar uma comédia como fantasma alemão.” “Na medida em que o ancien régime, como ordem do mundo existente, lutou contra um mundo que estava então a emergir, ocorreu de sua parte um erro histórico-mundial, mas não um erro pessoal. Seu declínio foi, por isso, trágico.”

Os deuses da Grécia, já mortalmente feridos na tragédia Prometeu acorrentado, de Ésquilo, tiveram de morrer uma vez mais, comicamente, nos diálogos de Luciano. Por que a história assume tal curso? A fim de que a humanidade se separe alegremente do seu passado. É esse alegre destino histórico que reivindicamos para os poderes políticos da Alemanha.”

a relação da indústria, do mundo da riqueza em geral, com o mundo político é um dos problemas fundamentais da era moderna. Sob que forma começa este problema a preocupar os alemães? Sob a forma de tarifas protecionistas, do sistema de proibição, da economia política. O chauvinismo alemão passou dos homens para a matéria e, assim, nossos cavaleiros do algodão e heróis do ferro viram-se, um belo dia, metamorfoseados em patriotas.”

A situação antiga, apodrecida, contra a qual essas nações se rebelam teoricamente e que apenas suportam como se suportam grilhões, é saudada na Alemanha como a aurora de um futuro glorioso que ainda mal ousa passar de uma teoria astuta(*) a uma prática implacável.

(*) Listig, em alemão, astuto. Jogo de palavras com o nome de Friedrich List (1789-1846): economista e defensor do protecionismo, teórico da burguesia ascendente nos anos anteriores a 1848 e promotor da união alfandegária (Zolverein), da qual aproveitava-se, também, a Prússia.”

Assim como as nações do mundo antigo vivenciaram a sua pré-história na imaginação, na mitologia, nós, alemães, vivenciamos a nossa pós-história no pensamento, na filosofia. Somos contemporâneos filosóficos do presente, sem sermos seus contemporâneos históricos.” “O que, para as nações avançadas, constitui uma ruptura prática com as modernas condições políticas é, na Alemanha, onde essas mesmas condições ainda não existem, imediatamente uma ruptura crítica com a reflexão filosófica dessas condições.”

A filosofia alemã do direito e do Estado é a única história alemã situada al pari com o presente moderno, oficial.”

É com razão, pois, que o partido político prático na Alemanha exige a negação da filosofia.”

Reivindicais que se deva seguir, como ponto de partida, o germe da vida real, mas esqueceis que o germe da vida real do povo alemão brotou, até agora, apenas no seu crânio. Em uma palavra: não podeis suprimir a filosofia sem realizá-la.”

A crítica da filosofia alemã do direito e do Estado, que com Hegel alcançou sua versão mais consistente, rica e completa, consiste tanto na análise crítica do Estado moderno e da realidade com ele relacionada como na negação decidida de todo o modo da consciência política e jurídica alemã, cuja expressão mais distinta, mais universal, elevada ao status de ciência, é justamente a própria filosofia especulativa do direito. Se a filosofia especulativa do direito só foi possível na Alemanha – esse pensamento extravagante e abstrato do Estado moderno, cuja efetividade permanece como um além, mesmo que esse além signifique tão somente o além do Reno –, a imagem mental alemã do Estado moderno, que faz abstração do homem efetivo, só foi possível, ao contrário, porque e na medida em que o próprio Estado moderno faz abstração do homem efetivo ou satisfaz o homem total de uma maneira puramente imaginária. Em política, os alemães pensaram o que as outras nações fizeram. A Alemanha foi a sua consciência teórica. A abstração e a presunção de seu pensamento andaram sempre no mesmo passo da unilateralidade e da atrofia de sua realidade.”

Pergunta-se: pode a Alemanha chegar a uma práxis à la hauteur des principes, quer dizer, a uma revolução que a elevará não só ao nível oficial das nações modernas, mas à estatura humana que será o futuro imediato dessas nações?

A arma da crítica não pode, é claro, substituir a crítica da arma, o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a teoria também se torna força material quando se apodera das massas.”

Ser radical é agarrar a coisa pela raiz. Mas a raiz, para o homem, é o próprio homem.”

A crítica da religião tem seu fim com a doutrina de que o homem é o ser supremo para o homem, portanto, com o imperativo categórico de subverter todas as relações em que o homem é um ser humilhado, escravizado, abandonado, desprezível.”

O passado revolucionário da Alemanha é teórico – é a Reforma. Assim como outrora a revolução começou no cérebro de um monge, agora ela começa no cérebro do filósofo. § Sem dúvida, Lutero venceu a servidão por devoção porque pôs no seu lugar a servidão por convicção. Quebrou a fé na autoridade porque restaurou a autoridade da fé. Transformou os padres em leigos, transformando os leigos em padres. Libertou o homem da religiosidade exterior, fazendo da religiosidade o homem interior. Libertou o corpo dos grilhões, prendendo com grilhões o coração.”

Mas, assim como a emancipação não se limita aos príncipes, tampouco a secularização dos bens se restringirá à confiscação da propriedade da Igreja, que foi, sobretudo, praticada pela hipócrita Prússia. Naquele tempo, a Guerra dos Camponeses, o fato mais radical da história alemã, fracassou por culpa da teologia. Hoje, com o fracasso da própria teologia, nosso status quo, o fato menos livre da história alemã, se despedaçará contra a filosofia. Na véspera da Reforma, a Alemanha oficial era a serva mais incondicional de Roma. Na véspera de sua revolução, ela é a serva incondicional de menos do que Roma: da Prússia e da Áustria, dos aristocratas rurais [Krautjunker] e dos filisteus.”

Como poderia ela, com um salto mortale, transpor não só suas próprias barreiras como também, ao mesmo tempo, a das nações modernas, barreiras que, na realidade, ela tem de sentir e buscar atingir como uma libertação de suas próprias barreiras reais?”

Mas, se a Alemanha acompanhou o desenvolvimento das nações modernas apenas por meio da atividade abstrata do pensamento, sem tomar parte ativa nas lutas reais desse desenvolvimento, ela compartilhou, por outro lado, das dores desse desenvolvimento, sem compartilhar de seus prazeres, de suas satisfações parciais. À atividade abstrata, por um lado, corresponde o sofrimento abstrato, por outro. Por isso, a Alemanha se encontrará, um belo dia, no nível da decadência européia sem que jamais tenha atingido o nível da emancipação. Poder-se-á compará-la a um idólatra que padece das doenças do cristianismo.”

Haverá, por exemplo, algum país no mundo que participe tão ingenuamente de todas as ilusões do regime constitucional sem compartilhar das suas realidades como a chamada Alemanha constitucional?”

Assim como os deuses de todas as nações se encontravam no Panteão romano, também os pecados de todas as formas de Estado se encontrarão no Sacro Império Romano-Germânico. Que esse ecletismo atingirá um grau até então inédito é garantido, sobretudo, pela glutonaria político-estética de um rei alemão [Frederico Guilherme IV] que pretende desempenhar todos os papéis da realeza: o papel feudal e o burocrático, o absoluto e o constitucional, o autocrático e o democrático, se não na pessoa do povo, pelo menos na sua própria pessoa, e se não para o povo, ao menos para si mesmo.” Infelizmente profético com relação ao nazismo. São inúmeros – não inúmeros, ok, mas são dignos de nota – os grandes intelectuais do século XIX que cheiraram a pólvora da condição alemã imperial, previram a catástrofe, que veio a suceder apenas após suas mortes.

Em que se baseia uma revolução parcial, meramente política? No fato de que uma parte da sociedade civil se emancipa e alcança o domínio universal; que uma determinada classe, a partir da sua situação particular, realiza a emancipação universal da sociedade. Tal classe liberta a sociedade inteira, mas apenas sob o pressuposto de que toda a sociedade se encontre na situação de sua classe, portanto, por exemplo, de que ela possua ou possa facilmente adquirir dinheiro e cultura.

Nenhuma classe da sociedade civil pode desempenhar esse papel sem despertar, em si e nas massas, um momento de entusiasmo em que ela se confraternize e misture com a sociedade em geral, confunda-se com ela, seja sentida e reconhecida como sua representante universal; um momento em que suas exigências e direitos sejam, na verdade, exigências e direitos da sociedade, em que ela seja efetivamente o cérebro e o coração sociais. Só em nome dos interesses universais da sociedade é que uma classe particular pode reivindicar o domínio universal.”

Para que a revolução de um povo e a emancipação de uma classe particular da sociedade civil coincidam, para que um estamento [Stand] se afirme como um estamento de toda a sociedade, é necessário que, inversamente, todos os defeitos da sociedade sejam concentrados numa outra classe, que um determinado estamento seja o do escândalo universal, a incorporação das barreiras universais; é necessário que uma esfera social particular se afirme como o crime notório de toda a sociedade, de modo que a libertação dessa esfera apareça como uma autolibertação universal. (…) O significado negativo-universal da nobreza e do clero francês condicionou o significado positivo-universal da classe burguesa, que se situava imediatamente ao lado deles e os confrontava.

Na Alemanha, porém, faltam a todas as classes particulares não apenas a consistência, a penetração, a coragem e a intransigência que delas fariam o representante negativo da sociedade. A todos os estamentos faltam, ainda, aquela grandeza de alma que, mesmo que por um momento apenas, identifica-se com a alma popular”

A relação entre as diferentes esferas da sociedade alemã não é, portanto, dramática, mas épica.” “Até mesmo o autossentimento moral da classe média alemã assenta apenas sobre a consciência de ser o representante universal da mediocridade filistina de todas as outras classes.” Uma classe média autoconsciente: um prodígio!

cada classe, tão logo inicia a luta contra a classe que lhe é superior, enreda-se numa luta contra a classe inferior.”

Na França, basta que alguém queira ser alguma coisa para que queira ser tudo. Na Alemanha, ninguém pode ser nada se não renunciar a tudo.”

Assim, o papel de emancipador é sucessivamente assumido, num movimento dramático, pelas diferentes classes do povo francês, até alcançar, por fim, a classe que realiza a liberdade social não mais sob o pressuposto de certas condições externas ao homem e, no entanto, criadas pela sociedade humana, mas organizando todas as condições da existência humana sob o pressuposto da liberdade social. Na Alemanha, ao contrário, onde a vida prática é tão desprovida de espírito quanto a vida espiritual é desprovida de prática, nenhuma classe da sociedade civil tem a necessidade e a capacidade de realizar a emancipação universal, até que seja forçada a isso por sua situação imediata, pela necessidade material e por seus próprios grilhões.”

O proletariado começa a se formar na Alemanha como resultado do emergente movimento industrial, pois o que constitui o proletariado não é a pobreza naturalmente existente, mas a pobreza produzida artificialmente, não a massa humana mecanicamente oprimida pelo peso da sociedade, mas a massa que provém da dissolução aguda da sociedade e, acima de tudo, da dissolução da classe média, embora seja evidente que a pobreza natural e a servidão cristão-germânica também engrossaram as fileiras do proletariado.”

Quando o proletariado exige a negação da propriedade privada, ele apenas eleva a princípio da sociedade o que a sociedade elevara a princípio do proletariado, aquilo que nele já está involuntariamente incorporado como resultado negativo da sociedade.”

BELAS PALAVRAS, HOJE TRISTES: “A emancipação do alemão é a emancipação do homem. A cabeça dessa emancipação é a filosofia, o proletariado é seu coração. A filosofia não pode se efetivar sem a suprassunção [Aufhebung] do proletariado, o proletariado não pode se suprassumir sem a efetivação da filosofia. Quando estiverem realizadas todas as condições internas, o dia da ressurreição alemã será anunciado pelo canto do galo gaulês.”

DE LINGUA LATINA – M. Terenti Varronis

LIBER V

I.

Quemadmodum vocabula essent imposita rebus in lingua Latina, sex libris exponere institui. De his tris ante hunc feci quos Septumio[?] misi: in quibus est de disciplina, quam vocant etymologiken: quae contra eam dicerentur, volumine primo, quae pro ea, secundo, quae de ea, tertio. In his ad te scribam, a quibus rebus vocabula imposita sint in lingua Latina, et ea quae sunt in consuetudine apud populum et ea quae inveniuntur apud poetas.

Cum unius cuiusque verbi naturae sint duae, a qua re et in qua re vocabulum sit impositum (itaque a qua re sit pertinacia cum requiritur, ostenditur esse a pertendendo; in qua re sit impositum dicitur cum demonstratur, in quo non debet pertendi et pertendit, pertinaciam esse, quod in quo oporteat manere, si in eo perstet, perseverantia sit), priorem illam partem, ubi cur et unde sint verba scrutantur, Graeci vocant etymologian, illam alteram peri semainomenon. De quibus duabus rebus in his libris promiscue¹ dicam, sed exilius de posteriore.

¹ O sentido gramatical é “possuir um só gênero”; a acepção pejorativa do português parece ser inexistente no latim clássico.

Quae ideo sunt obscuriora, quod neque omnis impositio verborum exstat, quod vetustas quasdam delevit, nec quae exstat sine mendo omnis imposita, nec quae recte est imposita, cuncta manet (multa enim verba litteris commutatis sunt interpolata), neque omnis origo est nostrae linguae e vernaculis verbis, et multa verba aliud nunc ostendunt, aliud ante significabant, ut hostis: nam tum eo verbo dicebant peregrinum qui suis legibus uteretur, nunc dicunt eum quem tum dicebant perduellem. [em sentido oposto]

In quo genere verborum aut casu erit illustrius unde videri possit origo, inde repetam. Ita fieri oportere apparet, quod recto casu quom, dicimus impos, obscurius est esse a potentia quam cum dicimus impotem; et eo obscurius fit, si dicas pos quam impos: videtur enim pos significare potius potem quam potentem.”

Quem puerum vidisti formosum, hunc vides deformem in senecta.”

Quem vê formosura na infância, necessariamente há de ver deformidade na velhice.

Tertium seculum non videt eum hominem quem vidit primum.”

Um homem jamais vê três séculos.

Quorum verborum novorum ac veterum discordia omnis in consuetudine communi, quot modis commutatio sit facta qui animadverterit, facilius scrutari origines patietur verborum:¹ reperiet enim esse commutata, ut in superioribus libris ostendi, maxime propter bis quaternas causas. Litterarum enim fit demptione aut additione et propter earum traiectionem aut commutationem, item syllabarum productione aut correptione, denique adiectione aut detrectione; quae quoniam in superioribus libris cuiusmodi essent exemplis satis demonstravi, hic ammonendum esse modo putavi.

¹ Problema (solução?) imutável da língua.

Nunc singulorum verborum origines expediam, quorum quattuor explanandi gradus. Infimus quo populus etiam venit: quis enim non videt unde argentifodinae [excavação de prata] et viocurus? Secundus quo grammatica escendit antiqua, quae ostendit, quemadmodum quodque poeta finxerit verbum, quod confinxerit, quod declinarit »

Tertius gradus, quo philosophia ascendens pervenit atque ea quae in consuetudine communi essent aperire coepit, ut a quo dictum esset oppidum, vicus, via. Quartus, ubi est adytum et initia regis: quo si non perveniam ad scientiam, at opinionem aucupabor, [relativo à caça, caça de palavras] quod etiam in salute nostra nonnunquam facit cum aegrotamus medicus.”

Non enim videbatur consentaneum quaerere me in eo verbo quod finxisset Ennius causam, neglegere quod ante rex Latinus finxisset, cum poeticis multis verbis magis delecter quam utar, antiquis magis utar quam delecter.¹ An non potius mea verba illa quae hereditate a Romulo rege venerunt quam quae a poeta Livio relicta?

¹ A lei do imperador pouco importa em questões lingüísticas: os poetas consolidam a língua muito mais. Quem é Rômulo perto de Lívio, que ressignifica o que outrora se falava?

Igitur quoniam in haec sunt tripertita verba, quae sunt aut nostra aut aliena aut oblivia, de nostris dicam cur sint, de alienis unde sint, de obliviis relinquam [resta ou some, verbo ambíguo]: quorum partim quid tamen invenerim aut opiner scribam. In hoc libro dicam de vocabulis locorum et quae in his sunt, in secundo de temporum et quae in his fiunt, in tertio de utraque re a poetis comprehensa.

Pythagoras Samius ait omnium rerum initia esse bina[rio] ut finitum et infinitum, bonum et malum, vitam et mortem, diem et noctem. Quare item duo status et motus, utrumque quadripertitum: quod stat aut agitatur, corpus, ubi agitatur, locus, dum agitatur, tempus, quod est in agitatu, actio. Quadripertitio magis sic apparebit: corpus est ut cursor, locus stadium qua currit, tempus hora qua currit, actio cursio.” “quod neque unquam tempus, quin fuerit motus: eius enim intervallum tempus; neque motus, ubi non locus et corpus, quod alterum est quod movetur, alterum ubi; neque ubi is agitatus, non actio ibi.”

Na minha opinião Varro começou pelo mais difícil quando fala de planetas e seus deuses-representantes, mais à frente, deveria ter exposto o tema logo em seguida a céu e terra.

II.

Incipiam de locis ab ipsius loci origine. Locus est, ubi locatum quid esse potest, ut nunc dicunt, collocatum. Veteres id dicere solitos apparet apud Plautum:

Filiam habeo grandem dote cassam atque inlocabilem

Neque eam queo locare cuiquam.

Apud Ennium:

O Terra Thraeca, ubi Liberi fanum inclutum

Maro locavit. »

Sic loci muliebres, ubi nascendi initia consistunt.”

III.

Loca naturae secundum antiquam divisionem prima duo, terra et caelum, deinde particulatim utriusque multa. Caeli dicuntur loca supera et ea deorum, terrae loca infera et ea hominum. Ut Asia sic caelum dicitur modis duobus. Nam et Asia, quae non Europa, in quo etiam Syria, et Asia dicitur prioris pars Asiae, in qua est Ionia ac provincia nostra.”

[em itálico, palavras não-dicionarizadas em edições modernas de dicionários de latim clássico.]

Caelum dictum scribit Aelius, quod est caelatum, aut contrario nomine, celatum quod apertum est; non male, quod impositor, multo potius caelare a caelo quam caelum a caelando. Sed non minus illud alterum de celando ab eo potuit dici, quod interdiu celatur, quam quod noctu non celatur.”

cavum caelum”

Quae cava caeli

Signitenentibus conficis bigis;”

In altisono caeli clipeo:

cavum enim clipeum;”

Caeli ingentes [imenso] fornices.”

Quare ut a cavo cavea et caullae et convallis, cavata vallis, et cavernae a cavatione ut cavum, sic ortum, unde omnia apud Hesiodum, a chao cavo caelum.”

IV.

Terra dicta ab eo, ut Aelius scribit, quod teritur. Itaque tera in augurum libris scripta cum R uno.” Vem de terra ou <tera> também o nome “término”.

Igitur tera terra et ab eo poetae appellarunt summa terrae quae sola teri possunt, <sola terrae>.”

et quod terra sit humus, ideo is humatus mortuus, qui terra obrutus; ab eo qui Romanus combustus est, si in sepulcrum, eius abiecta gleba non est aut si os exceptum est mortui ad familiam purgandam, donec in purgando humo est opertum (ut pontifices dicunt, quod inhumatus sit), familia funesta manet. Et dicitur humilior, qui ad humum, demissior, infimus humillimus, quod in mundo infima humus.”

HUMOR, DE HUMO (inclusive segue a curio em Português: “A grafia húmus está correta, sendo a forma mais usada da palavra.”), como “a terra líquida”.

Etimologia: “Do latim humor.oris ‘fluido, linfa’.”

Humor hinc. Itaque ideo Lucilius:

Terra abiit in nimbos humoremque.”

humidam humectam; hinc ager uliginosus humidissimus; hinc udus uvidus; hinc sudor et udor.”

A puteis oppidum ut Puteoli,¹ quod incircum eum locum aquae frigidae et caldae multae, nisi a putore potius, quod putidus odoribus saepe ex sulphure et alumine. Extra oppida a puteis puticuli, quod ibi in puteis obruebantur homines, nisi potius, ut Aelius scribit, puticuli quod putescebant ibi cadavera proiecta, qui locus publicus ultra Esquilias. Itaque eum Afranius putilucos in Togata appellat, quod inde suspiciunt per puteos lumen.

[¹ Atual Pozzuoli. Cidade da província da Nápoles, com cerca de 80 mil hab.]

Lacus lacuna magna, ubi aqua contineri potest. Palus paululum aquae in altitudinem et palam latius diffusae. Stagnum a Graeco, quod ii stegnon quod non habet rimam. Hinc ad villas rutunda stagna, quod rutundum facillime continet, anguli maxime laborant.”

inter haec hoc interest, quod stillicidium eo quod stillatim cadit, flumen quod fluit continue.”

Ab hoc qui circum Aternum habitant, Amiternini appellati. Ab eo qui populum candidatus circum it, ambit, et qui aliter facit, indagabili ex ambitu causam dicit. Itaque Tiberis amnis, quod ambit Martium Campum et urbem; oppidum Interamna dictum, quod inter amnis est constitutum; item Antemnae, quod ante amnis, qua Anio influit in Tiberim, quod bello male acceptum consenuit.”

Sed de Tiberis nomine anceps historia. Nam et suum Etruria et Latium suum esse credit, quod fuerunt qui ab Thebri vicino regulo Veientum, dixerint appellatum, primo Thebrim.”

V. [texto na íntegra]

Ut omnis natura in caelum et terram divisa est, sic caeli regionibus terra in Asiam et Europam. Asia enim iacet ad meridiem et austrum, Europa ad septemtriones et aquilonem. Asia dicta ab nympha, a qua et Iapeto traditur Prometheus. Europa ab Europa Agenoris, quam ex Phoenice, Manlius scribit taurum exportasse, quorum egregiam imaginem ex aere Pythagoras Tarenti.

Europae loca multae incolunt nationes. Ea fere nominata aut translaticio nomine ab hominibus ut Sabini et Lucani, aut declinato ab hominibus, ut Apulia et Latium, aut utrumque, ut Etruria et Tusci. Qua regnum fuit Latini, universus ager dictus Latius, particulatim oppidis cognominatus, ut a Praeneste Praenestinus, ab Aricia Aricinus.

Ut nostri augures publici disserunt, agrorum sunt genera quinque: Romanus, Gabinus, peregrinus, hosticus, incertus. Romanus dictus unde Roma ab Romulo; Gabinus ab oppido Gabiis; peregrinus ager pacatus, qui extra Romanum et Gabinum, quod uno modo in his servantur auspicia; dictus peregrinus a pergendo, id est a progrediendo: eo enim ex agro Romano primum progrediebantur: quocirca Gabinus quoque peregrinus, sed quod auspicia habet singularia, ab reliquo discretus; hosticus dictus ab hostibus; incertus is, qui de his quattuor qui sit ignoratur.”

VI.

Ager dictus in quam terram quid agebant, et unde quid agebant fructus causa; alii, quod id Graeci dicunt agron. (…) Eius finis minimus constitutus in latitudinem pedes quattuor (fortasse an ab eo quattuor, quod ea quadrupes agitur); in longitudinem pedes centum viginti; in quadratum actum et latum et longum esset centum viginti. Multa antiqui duodenario numero finierunt ut duodecim decuriis actum.”

Qua ibant, ab itu iter appellarunt; qua id anguste, semita, ut semiter dictum.”

Ager cultus ab eo quod ibi cum terra semina coalescebant, et ubi non consitus incultus. Quod primum ex agro plano fructus capiebant, campus dictus; posteaquam proxuma superiora loca colere coeperunt, a colendo colles appellarunt; quos agros non colebant propter silvas aut id genus, ubi pecus possit pasci, et possidebant, ab usu salvo saltus nominarunt. Haec etiam Graeci neme, nostri nemora.”

Ager quod videbatur pecudum ac pecuniae esse fundamentum, fundus dictus, aut quod fundit quotquot annis multa. Vineta ac vineae a vite multa. Vitis a vino, id a vi; hinc vindemia, quod est vinidemia aut vitidemia. Seges ab satu, id est semine. Semen, quod non plane id quod inde; hinc seminaria, sementes, item alia.”

Ubi frumenta secta, ut terantur, arescunt, area. Propter horum similitudinem in urbe loca pura areae; a quo potest etiam ara deum, quod pura, nisi potius ab ardore, ad quem ut sit fit ara; a quo ipsa area non abest, quod qui arefacit ardor est solis.”

Arvus et arationes ab arando; ab eo quod aratri vomer sustulit, sulcus; quo ea terra iacta, id est proiecta, porca. [estéril]”

Prata dicta ab eo, quod sine opere parata. Quod in agris quotquot annis rursum, facienda eadem, ut rursum capias fructus, appellata rura.”

VII.

Ubi nunc est Roma, Septimontium nominatum ab tot montibus quos postea urbs muris comprehendit; e quis Capitolinum dictum, quod hic, cum fundamenta foderentur aedis Iovis, caput humanum dicitur inventum.”

quod Saturnia Porta quam Iunius scribit ibi, quam nunc vocant Pandanam, quod post aedem Saturni in aedificiorum legibus privatis parietes postici ‘muri Saturnii’ sunt scripti.

Aventinum aliquot de causis dicunt. Naevius ab avibus, quod eo se ab Tiberi ferrent aves, alii ab rege Aventino Albano, quod ibi sit sepultus, alii Adventinum ab adventu hominum, quod commune Latinorum ibi Dianae templum sit constitutum.”

Merces (dicitur a merendo et aere) huic vecturae qui ratibus transibant quadrans. Ab eo Lucilius scripsit:

Quadrantis ratiti.”

VIII.

Reliqua urbis loca olim discreta, cum Argeorum sacraria septem et viginti in quattuor partis urbis sunt disposita.”

E quis prima scripta est regio Suburana, secunda Esquilina, tertia Collina, quarta Palatina.

In Suburanae regionis parte princeps est Caelius mons a Caele Vibenna, Tusco duce nobili, qui cum sua manu dicitur Romulo venisse auxilio contra Tatium regem. Hinc post Caelis obitum, quod nimis munita loca tenerent neque sine suspicione essent, deducti dicuntur in planum.”

In Sacris Argeorum scriptum sic est:

Oppius Mons: princeps Esquiliis uls lucum Facutalem; sinistra via secundum moerum est.

Oppius Mons: terticeps cis lucum Esquilinum; dexteriore via in tabernola est.

Oppius Mons: quarticeps cis lucum Esquilinum; via dexteriore in figlinis est.

Cespius Mons: quinticeps cis lucum Poetelium; Esquiliis est.

Cespius Mons: sexticeps apud aedem Iunonis Lucinae, ubi aeditumus habere solet.”

Quartae regionis Palatium, quod Pallantes cum Euandro venerunt, qui et Palatini; alii quod Palatini, aborigines ex agro Reatino, qui appellatur Palatium, ibi consederunt; sed hoc alii a Palanto uxore Latini putarunt. Eundem hunc locum a pecore dictum putant quidam; itaque Naevius Balatium appellat.”

Germalum a germanis Romulo et Remo, quod ad ficum ruminalem, et ii ibi inventi, quo aqua hiberna Tiberis eos detulerat [trouxe] in alveolo expositos. Veliae¹ unde essent plures accepi causas, in quis quod ibi pastores Palatini ex ovibus ante tonsuram inventam vellere lanam sint soliti, a quo vellera dicuntur.” Regiões da cidade de Roma aparentemente mais novas que as 4 primeiras.

¹ “Vélia (em latim: Velia ou Veliae; em italiano: Velia) é uma selada ou um esporão que avança do meio da face norte do monte Palatino na direção do monte Ópio, este também um esporão do monte Esquilino, em Roma. Na Antiguidade Tardia, o Vélia foi chamado de Summa Sacra Via (‘cume da Via Sacra’) — ali a via atingia seu ponto mais alto. A colina foi em grande parte desbarrancada na década de 1930 para permitir a abertura da Via dei Fori Imperiali, com um grande muro de contenção visível no limite nordeste da via sustentando o que restou.”

IX. [na íntegra]

Ager Romanus primum divisus in partis tris, a quo tribus appellata Titiensium, Ramnium, Lucerum. Nominatae, ut ait Ennius, Titienses ab Tatio, Ramnenses ab Romulo, Luceres, ut Iunius, ab Lucumone; sed omnia haec vocabula Tusca, ut Volnius, qui tragoedias Tuscas scripsit, dicebat.

Ab hoc partes quoque quattuor urbis tribus dictae, ab locis Suburana, Palatina, Esquilina, Collina; quinta, quod sub Roma, Romilia; sic reliquae triginta ab his rebus quibus in Tribuum Libro scripsi.”

X.

Quod ad loca quaeque his coniuncta fuerunt, dixi; nunc de his quae in locis esse solent immortalia et mortalia expediam, ita ut prius quod ad deos pertinet dicam. Principes dei Caelum et Terra. Hi dei idem qui Aegypti Serapis et Isis, etsi Harpocrates digito significat, ut taceam. Idem principes in Latio Saturnus et Ops.”¹

¹ “Harpócrates (em grego: ρποκράτης), na mitologia grega, é o deus do silêncio, do segredo e da confidencialidade. Foi adaptado pelos antigos gregos a partir da representação infantil do deus egípcio Hórus. Para os antigos egípcios, Hórus representava o Sol recém-nascido, surgindo todo dia ao amanhecer. Quando os gregos conquistaram o Egito, com Alexandre, o Grande, acabaram por transformar o Hórus egípcio numa divindade helenística conhecida como Harpócrates (do egípcio Har-pa-khered ou Heru-pa-khered, lit. ‘Har, a Criança’). Vide entidade feminina equivalente cultuada pelos romanos, a deusa Tácita. (…) Os mesmos primeiros deuses eram chamados, no Lácio, de Saturno e Ops.”

Haec duo Caelum et Terra, quod anima et corpus. Humidum et frigidum terra, sive

Ova parire solet genus pennis condecoratum,

Non animam

Ennius

Post inde venit divinitus pullis

Ipsa anima

Zenon Citieus

Istic est de sole sumptus ignis;

idem de sole:

Isque totus mentis est,

ut humores frigidae sunt humi, ut supra ostendi.

Epicharmus

« Inde omne corpus, ubi nimius ardor aut humor, aut interit aut, si manet, sterile. Cui testis aestas et hiems, quod in altera aer ardet et spica aret, in altera natura ad nascenda cum imbre et frigore luctare non volt et potius ver expectat. Igitur causa nascendi duplex: ignis et aqua. Ideo ea nuptiis in limine adhibentur, quod coniungitur hic, et mas ignis, quod ibi semen, aqua femina, quod fetus ab eius humore, et horum vinctionis vis Venus. »

« Hinc comicus:

Huic victrix Venus, videsne haec?

Non quod vincere velit Venus, sed vincire. Ipsa Victoria ab eo quod superati vinciuntur. Utrique testis poesis, quod et Victoria et Venus dicitur caeligena: Tellus enim quod prima vincta Caelo, Victoria ex eo. Ideo haec cum corona et palma, quod corona vinctum capitis et ipsa a vinctura dicitur vieri, id est vinciri;

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« Hoc idem magis ostendit antiquius Iovis nomen: nam olim Diovis et Diespiter dictus, id est dies pater; a quo dei dicti qui inde, et dius et divum, unde sub divo, Dius Fidius. Itaque inde eius perforatum tectum, ut ea videatur divum, id est caelum. Quidam negant sub tecto per hunc deierare oportere. Aelius Dium Fidium dicebat Diovis filium, ut Graeci Dioskopon Castorem, et putabat hunc esse Sancum ab Sabina lingua et Herculem a Graeca. Idem hic Dis pater dicitur infimus, qui est coniunctus terrae, ubi omnia ut oriuntur ita aboriuntur; quorum quod finis ortuum, Orcus dictus. »

« (Apollinis vocabulum Graecum alterum, alterum Latinum) »

« Hinc Epicharmus Ennii Proserpinam quoque appellat, quod solet esse sub terris. Dicta Proserpina, quod haec ut serpens modo in dexteram modo in sinisteram partem late movetur. Serpere et proserpere idem dicebant »

« Bellona ab bello nunc, quae Duellona a duello. Mars ab eo quod maribus in bello praeest, aut quod Sabinis acceptus ibi est Mamers. Quirinus a Quiritibus. Virtus ut viritus a virilitate. Honos ab onere: itaque honestum dicitur quod oneratum, et dictum:

Onus est honos qui sustinet rem publicam. »

XI. (na íntegra)

Quod ad immortalis attinet, haec; deinceps quod ad mortalis attinet videamus. De his animalia in tribus locis quod sunt, in aere, in aqua, in terra, a summa parte ad infimam descendam. Primum nomina omnium: alites ab alis, volucres a volatu. Deinde generatim: de his pleraeque ab suis vocibus ut haec: upupa, cuculus, corvus, hirundo, ulula, bubo; item haec: pavo, anser, gallina, columba.

Sunt quae aliis de causis appellatae, ut noctua, quod noctu canit et vigilat, lusciniola, [rouxinol] quod luctuose [doloroso] canere existimatur atque esse ex Attica Progne in luctu facta avis. Sic galeritus [peruca] et motacilla, altera quod in capite habet plumam elatam, altera quod semper movet caudam. Merula, quod mera, [simples, puro, único] id est sola, volitat; contra ab eo graguli, quod gregatim, ut quidam Graeci greges gergera. Ficedulae et miliariae [milho] a cibo, quod alterae fico, alterae milio fiunt pingues. [gordura]”

XII. (na íntegra)

Aquatilium vocabula animalium partim sunt vernacula, partim peregrina. Foris muraena [moréia], quod myraina Graece, cybium et thynnus, [atum] cuius item partes Graecis vocabulis omnes, ut melander [atum!] atque uraeon. Vocabula piscium pleraque translata a terrestribus ex aliqua parte similibus rebus, ut anguilla, lingulaca, sudis [estaca; provavelmente um peixe fino e longo]; alia a coloribus, ut haec: asellus, [asinus, jumento recém-nascido] umbra, turdus; alia a vi quadam, ut haec: lupus, canicula, torpedo. Item in conchyliis aliqua ex Graecis, ut peloris, ostrea, echinus. Vernacula ad similitudinem, ut surenae, pectunculi, ungues.”

XIII. (na íntegra)

Sunt etiam animalia in aqua, quae in terram interdum exeant: alia Graecis vocabulis, ut polypus, hippos potamios, crocodilos, alia Latinis, ut rana, anas, [pato] mergus [mergulhão]; a quo Graeci ea quae in aqua et terra possunt vivere vocant amphibia. E quis rana ab sua dicta voce, anas a nando, mergus quod mergendo in aquam captat escam. [dica para os nomes: verbos associados a ações dos animais]

Item alia in hoc genere a Graecis, ut querquedula, [carvalho] quod kerkedes, alcedo, [alcíone] quod ea halkyon; Latina, ut testudo, quod testa tectum hoc animal, lolligo, [chico ou siba, peixe] quod subvolat, littera commutata, primo volligo. Ut Aegypti in flumine quadrupes sic in Latio, nominati lutra et fiber. Lutra, quod succidere dicitur arborum radices in ripa [litoral] atque eas dissolvere: ab luere lutra. Fiber, ab extrema ora fluminis dextra et sinistra maxime quod solet videri, et antiqui februm [febre] dicebant extremum, a quo in sagis fimbriae [franjas, limites] et in iecore [fígado] extremum fibra, fiber dictus.”

XIV.

De animalibus in locis terrestribus quae sunt hominum propria primum, deinde de pecore, tertio de feris scribam. Incipiam ab honore publico.”

Dictator, quod a consule dicebatur, cui dicto audientes omnes essent. Magister equitum, quod summa potestas huius in equites et accensos, ut est summa populi dictator, a quo is quoque magister populi appellatus. Reliqui, quod minores quam hi magistri, dicti magistratus, ut ab albo albatus.”

XV.

Sacerdotes universi a sacris dicti.”

Flamines, quod in Latio capite velato erant semper ac caput cinctum habebant filo, filamines dicti.”

XVI.

In re militari praetor dictus qui praeiret exercitui. Imperator, ab imperio populi qui eos, qui id attemptassent, oppressit hostis. Legati qui lecti publice, quorum opera consilioque uteretur peregre magistratus, quive nuntii senatus aut populi essent. Exercitus, quod exercitando fit melior. Legio, quod leguntur milites in delectu.”

cohors quae in villa, quod circa eum locum pecus cooreretur, tametsi cohortem in villa Hypsicrates dicit esse Graece Xorton apud poetas dictam.”

ETIMOLOGIA DE MILITAR: “Milites, quod trium milium primo legio fiebat ac singulae tribus Titiensium, Ramnium, Lucerum milia militum mittebant.”

DE FORA”: “Auxilium appellatum ab auctu, cum accesserant ei qui adiumento essent alienigenae.”

Insidiae item ab insidendo, cum id ideo facerent quo facilius deminuerent hostis.”

Turma terima (E in V abiit), quod ter deni equites ex tribus tribubus Titiensium, Ramnium, Lucerum fiebant.” Turma vem de terma, que vem de três vezes, remetendo novamente às 3 tribos originárias de Roma.

Classicus a classe, qui item cornu aut lituo canit, [canta] ut tum cum classes comitiis ad comitiatum vocant.”

XVII.

Quae a fortuna vocabula, in his quaedam minus aperta ut pauper, dives, miser, beatus, sic alia.”

Mendicus a minus, cui cum opus est minus nullo est. »

« Opulentus ab ope, cui eae opimae; ab eadem inops qui eius indiget, et ab eodem fonte copis ac copiosus. »

XVIII.

« Artificibus maxima causa ars, id est, ab arte medicina ut sit medicus dictus, a sutrina sutor, non a medendo ac suendo, quae omnino ultima huic rei: hae enim earum rerum radices, ut in proxumo libro aperietur. »

« vestigator a vestigiis ferarum quas indagatur; venator a vento, quod sequitur cervum ad ventum et in ventum. »

XIX.

« Haec de hominibus: hic quod sequitur de pecore, haec. »

Capra carpa, a quo scriptum

Omnicarpae caprae.”

Porcus, quod Sabini dicunt aprunum porcum; proinde porcus, nisi si a Graecis, quod Athenis in libris sacrorum scripta est porke et porkos.”

Pecori ovillo quod agnatus, agnus. Catulus a sagaci sensu et acuto, ut Cato Catulus; hinc canis: nisi quod ut tuba ac cornu, aliquod signum cum dent, canere [que canta, porque late a noite inteira] dicuntur, quod hic item et noctulucus in custodia et in venando signum voce dat, canis dictus.”

XX.

Ferarum vocabula item partim peregrina, ut panthera, leo: utraque Graeca, a quo etiam et rete [realmente] quoddam panther et leaena et muliercula Pantheris et Leaena.”

Camelus suo nomine Syriaco in Latium venit, ut Alexandrea camelopardalis nuper adducta, quod erat figura ut camelus, maculis [manchas] ut panthera.”

Apri [javali] ab eo quod in locis asperis, nisi a Graecis quod hi kaproi.”

Cervi, quod magna cornua gerunt, gervi, [bosque] G in C mutavit ut in multis.”

Lepus, quod Siculi, ut Aeolis quidam Graeci, dicunt leporinLábio de coelho.

Volpes, ut Aelius dicebat, quod volat pedibus.” Pés volantes, que voam.

XXI.

(…)

XXII.

Quod edebant cum pulte, ab eo pulmentum, ut Plautus; hinc pulmentarium dictum: hoc primum defuit pastoribus.” Diz-se que comidas de textura pastosas vêm do fato de virem do pasto (grãos).

XXIII.

(…)

XXIV.

Arma ab arcendo, quod his arcemus hostem. Parma, [escudo redondo] quod e medio in omnis partis par. Conum, [elmo] quod cogitur in cacumen versus. Hasta, quod astans solet ferri. Iaculum, quod ut iaciatur fit. Tragula a traiciendo. Scutum a sectura ut secutum, quod a minute consectis fit tabellis. Umbones [cone, escudo] a Graeco, quod ambones.

Gladium C in G commutato a clade, quod fit ad hostium cladem gladium;”

Balteum, [cinto] quod cingulum [cinto, faixa] e corio [couro] habebant bullatum, balteum dictum.”

Vallum [trincheira] vel quod ea varicare [afastar] nemo posset vel quod singula ibi extrema bacilla furcillata habent figuram litterae V.”

XXV.

Mensam escariam cillibam appellabant; ea erat quadrata ut etiam nunc in castris est; a cibo cilliba dicta; postea rutunda facta, et quod a nobis media et a Graecis mesa, mensa dicta potest; nisi etiam quod ponebant pleraque in cibo mensa.”

ANEDOTAS HISTÓRICAS: “O convite do patrono para que o cliente sentasse a sua mesa nem sempre se dava por consideração, mas era para compor o triclinium que era uma sala reservada para as refeições, com 3 leitos dispostos à volta de uma mesa [baixa], e em cada leito cabiam 3 pessoas. O cliente sentava-se longe do patrono, no 3º colchão, isto é, estavam juntos por estarem debaixo do mesmo teto, mas distante do alcance e dos olhares do seu senhor.”

Segundo CASTELLI a palavra banquete origina-se de banco, parecendo indicar que os banquetes eram ceias onde as pessoas sentavam-se enquanto comiam.” Para mais, ler Juvenal e Petrônio.

trua: buraco

truleo/truleum: trolha, espátula

truella/trulla: pá

Pelvis pedelvis a pedum lavatione.”

A bacia de banho vai dos pés até a pélvis em altura, aproximadamente, por isso recebe esse nome.

XXVI.

Pocula a potione, unde potatio et etiam posca.”

Pocula (copo) vem de potione (beber), daí também poção (uma dose ou drink) e bebida ácida (vinagre).

Vas vinarium grandius sinum ab sinu, [bolso] quod sinum maiorem cavationem quam pocula habebant.”

cartibulum: carteira

columela. |é| (co·lu·me·la) s.f. 1. Pequena coluna. 2. [Botânica] Eixo vertical dos frutos. 3. [Zoologia] Eixo interior das conchas. 4. Botão calcário no centro do cálice das madréporas (colônia de pólipos).

columela”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2023, https://dicionario.priberam.org/columela.”

columella: estela, monólito

XXVII.

Praeterea erat tertium genus mensae item quadratae vasorum; vocabatur urnarium quod urnas cum aqua positas ibi potissimum habebant in culina.”

Urnae dictae, quod urinant in aqua haurienda ut urinator. Urinare est mergi in aquam. [Urinar (antigamente) e(ra) mergulhar na água.]

Amburvom [queima] fictum ab urvo, quod ita flexum ut redeat sursum versus ut in aratro [arado] quod est urvum.”

XXVIII.

Ab sedendo appellatae sedes, sedile, solium, sellae, siliquastrum; deinde ab his subsellium: ut subsipere quod non plane sapit, sic quod non plane erat sella, subsellium. Ubi in eiusmodi duo, bisellium dictum.”

Armarium et armamentarium ab eadem origine, sed declinata aliter.”

XXIX.

Mundus ornatus muliebris dictus a munditia.”

XXX.

amictui: toga

Osce: osco (idioma, etnia)

XXXI.

em azul: adicionado ao SUPERGLOSSÁRIO: LATIM (com mais detalhes)

corbula: coração

falces: foice

fiscina: cesta; de fiscus, fisco.

lumecta lumen

mola: moinho

pistrix: baleia, tubarão, outra criatura marinha

XXXII.

aesculo: planta Aesculus hippocastanum

cypro: cobre

moenia: cidade murada

moerus: muro!

XXXIII.

(…)

XXXIV.

(…)

XXXV.

feretrum: féretro = “Padiola para transportar oferendas, despojos e também os mortos.”

lectulis: diminutivo de cama

opercula: tampa

Qua simplici scansione scandebant in lectum non altum, scabellum; in altiorem, scamnum. Duplicata scansio gradus dicitur, quod gerit in inferiore superiorem. Graeca sunt peristromata et peripetasmata, sic alia quae item convivii causa ibi multa.” Indicativo de que escabelo e scanner têm uma etimologia comum, quem diria!

Há um leito muito baixo, mais fácil de subirem, que chamamos escabelo [em português: apenas banco baixo]; se o leito for mais alto, se chamo um escano.” OBS: Em português ESCABELO = ESCANO! Então, para a frase fazer sentido talvez tivéssemos de dizer beliche ou apenas uma cama alta.

XXXVI.

Aeris minima pars sextula, quod sexta pars unciae. [uma onça ou a duodécima parte] Semuncia, [meia onça, um vinte quatro avos; figurativamente, ‘quase nada’] quod dimidia pars unciae: se valet dimidium, ut in selibra [meia libra] et semodio. [meio pedaço, pequena porção]

quinarii, quod quinos; sestertius, quod semis tertius. Dupondius [duas libras] enim et semis antiquus sestertius:” O nome da moeda significa, literalmente “1/6”.

Eadem pecunia vocabulum mutat: nam potest item dici dos, arrabo, [verbo depositar] merces, [salário, renda] corollarium. [gorjeta, pequena gratificação] Dos, si nuptiarum causa data [dote]; haec Graece dotine: ita enim hoc Siculi. [Sicília] Ab eodem donum [dom]: nam Graece ut Aeolis doneion, et ut alii doma [casa] et ut Attici dosin. Arrabo sic data, ut reliquum reddatur: hoc verbum item a Graeco arrhabon.”

Lucrum ab luendo, [jogando, de ludo] si amplius quam ut exsolveret, quanti esset, receptum. Detrimentum a detritu, quod ea quae trita minoris pretii.”

Multa ea pecunia quae a magistratu dicta, ut exigi posset ob peccatum; quod singulae dicuntur, appellatae eae multae, et quod olim vinum dicebant multam: itaque cum in dolium aut culleum vinum addunt rustici, prima urna addita dicunt etiam nunc. Poena a poeniendo aut quod post peccatum sequitur. Pretium, quod emptionis aestimationisve causa constituitur, dictum a peritis, quod hi soli facere possunt recte id.”

Corollarium, si additum praeter quam quod debitum; eius vocabulum fictum a corollis, [grinalda] quod eae, cum placuerant actores, in scaena dari solitae. Praeda [caça, cativo de guerra, presa] est ab hostibus capta, quod manu parta, ut parida praeda. Praemium a praeda, quod ob recte quid factum concessum.”

Tributum dictum a tribubus, quod ea pecunia, quae populo imperata erat, tributim a singulis pro portione census exigebatur.”

Hoc ipsum stipendium a stipe [estoque] dictum, quod aes quoque stipem dicebant:”

XXXVII.

(…)

RELEITURA CRÍTICA APÓS FECHAMENTO DE UM CAPÍTULO

Brincadeira proposta: traduzir a primeira frase de cada título:

I. Quemadmodum vocabula essent imposita rebus in lingua Latina, sex libris exponere institui.

A etimologia de algumas palavras do Latim, a essa exposição se destinam os seis próximos livros. [fala dos livros 5 a 10, não dos capítulos 1 a 6 deste livro 5.]

II. Incipiam de locis ab ipsius loci origine.

Comecemos com os lugares que se originaram de nomes próprios de maneira lógica.

III. Loca naturae secundum antiquam divisionem prima duo, terra et caelum, deinde particulatim utriusque multa.

Segundo a antiga divisão, a natureza ocupa dois lugares, céu e terra, porém as particularidades dessa divisão são múltiplas.

IV. Terra dicta ab eo, ut Aelius scribit, quod teritur. Itaque tera in augurum libris scripta cum R uno. (obscuro)

Aélio (?) testemunha: a Terra provém do solo (território, terreno).¹ Daí que nos livros dos augúrios, <terra> era escrita com um <r> apenas.

¹ Como tera equivale a território e terreno em português, este ponto em que a língua latina evoluiu de 1 a 2 “r” se perdeu para nós. Como veremos mais abaixo, podemos “forçar” uma etimologia ligada a outro termo usado para dividir porções de terra, acre, este sim termo que carrega apenas uma consoante e tem uma ortoepia diferente.

V. Ut omnis natura in caelum et terram divisa est, sic caeli regionibus terra in Asiam et Europam.

Assim como toda a natureza (o mundo) está dividido em céu e terra, as regiões em que há terra e há céu são propriamente duas: Ásia e Europa.¹

¹ Obviamente já então se conhecia a África, mas esta era tida como a Europa então.

VI. Ager dictus in quam terram quid agebant, et unde quid agebant fructus causa; alii, quod id Graeci dicunt agron.

Acre [origem do termo agro] se diz de toda porção de terra trabalhada, e que uma vez trabalhada dá frutos [unidade mínima convencionada como necessária para gerar o alimento dos habitantes do local]. É o que os gregos denominavam agron.

VII. Ubi nunc est Roma, Septimontium nominatum ab tot montibus quos postea urbs muris comprehendit; e quis Capitolinum dictum, quod hic, cum fundamenta foderentur aedis Iovis, caput humanum dicitur inventum.

Em Roma há sete montanhas ou colinas que com o passar do tempo se tornaram grandes cidades muradas. Durante a construção do santuário dedicado a Jove (Zeus, Júpiter), no Monte Capitolino, diz-se que no local foi encontrada uma cabeça humana.

VIII. Reliqua urbis loca olim discreta, cum Argeorum sacraria septem et viginti in quattuor partis urbis sunt disposita.

O restante da cidade, composto de 27 santuários dos Argivos, passaram a constituir 4 zonas romanas.

IX. Ager Romanus primum divisus in partis tris, a quo tribus appellata Titiensium, Ramnium, Lucerum.

A parte rural de Roma foi primeiro dividida em três, cujas tribos representantes se chamavam Titienses, Ramneus e Luqueus/Lucerenses.

X. Quod ad loca quaeque his coniuncta fuerunt, dixi; nunc de his quae in locis esse solent immortalia et mortalia expediam, ita ut prius quod ad deos pertinet dicam.

Há lugares que são denominados por nomes mortais, e lugares denominados por nomes imortais; os segundos são ditos como sedes da regência de algum deus.

XI. Quod ad immortalis attinet, haec; deinceps quod ad mortalis attinet videamus.

O quanto havia para se falar dos imortais está acima; doravante falemos dos mortais.

XII. Aquatilium vocabula animalium partim sunt vernacula, partim peregrina.

As palavras que nomeiam os animais aquáticos são em parte vernáculos, em parte de origem estrangeira.

XIII. Sunt etiam animalia in aqua, quae in terram interdum exeant: alia Graecis vocabulis, ut polypus, hippos potamios, crocodilos, alia Latinis, ut rana, anas, mergus; a quo Graeci ea quae in aqua et terra possunt vivere vocant amphibia.

Há animais que vivem tanto na água quanto na terra, e seus nomes são derivados do grego, como em pólipo, hipopótamo, crocodilo; ou se originam do latim, como rã, ?, ?; . Os gregos chamavam a quem vive nos dois meios de anfíbios (i.e. vida dupla).

XIV. De animalibus in locis terrestribus quae sunt hominum propria primum, deinde de pecore, tertio de feris scribam.

De animais cujo habitat é a terra, primeiro falaremos do próprio homem, depois dos animais domesticados, e em terceiro lugar das feras.

XV. Sacerdotes universi a sacris dicti.

O sacerdote é considerado pelos pios universal.

XVI. In re militari praetor dictus qui praeiret exercitui.

Em assuntos militares podemos dizer principalmente as funções dos que executam ou realizem exercícios conforme segue.

XVII. Quae a fortuna vocabula, in his quaedam minus aperta ut pauper, dives, miser, beatus, sic alia.

A palavra fortuna diz respeito a quem tem mais ou menos sorte, sendo aquele com fortuna considerado isento de miséria, divino, beato, e assim por diante.

XVIII. Artificibus maxima causa ars, id est, ab arte medicina ut sit medicus dictus, a sutrina sutor, non a medendo ac suendo, quae omnino ultima huic rei: hae enim earum rerum radices, ut in proxumo libro aperietur.

XIX. Haec de hominibus: hic quod sequitur de pecore, haec.

Falaremos agora do homem; em seguida dos animais domésticos ou rebanhos.

XX. Ferarum vocabula item partim peregrina, ut panthera, leo: utraque Graeca, a quo etiam et rete quoddam panther et leaena et muliercula Pantheris et Leaena.

Feras é uma classe de palavras tanto peregrina, como pantera, leão; quanto grega, como se por pantera e leão. Esses animais machos também têm seus femininos, pantera (pantheris) e leoa.

XXI. Proxima animalia sunt ea quae vivere dicuntur neque habere animam, ut virgulta.

As próximas divisões de animais dizem respeito àqueles que têm e àqueles que não têm circulação sangüínea ou mesmo seiva (no caso vegetal).

XXII. Quae manu facta sunt dicam, de victu, de vestitu, de instrumento, et si quid aliud videbitur his aptum.

Aquilo que é fabricado pela mão, que se diz manual, pode ser alimentos, vestidos, instrumentos, e tudo que colabora no cotidiano do homem.

XXIII. Lana Graecum, ut Polybius et Callimachus scribunt.

Lã vem do grego, como Políbio e Calímaco nos lembram.

XXIV. Arma ab arcendo, quod his arcemus hostem.

A palavra guerra se origina da idéia de “manter afastados, à distância (os inimigos), protegidos (os amigos)”.

XXV. Mensam escariam cillibam appellabant; ea erat quadrata ut etiam nunc in castris est; a cibo cilliba dicta; postea rutunda facta, et quod a nobis media et a Graecis mesa, mensa dicta potest; nisi etiam quod ponebant pleraque in cibo mensa.

A “mesa de carne” era chamada de cama ou leito. Ela era de formato quadrado, como aliás persiste sendo o costume no campo. O nome “mesa de carne” vem do prato de comida chamado “cilliba”. [?, frase controversa, além de sentido da palavra não claro] Com o tempo a mesa de carne tornou-se redonda. Em latim pode-se falar, igualmente, media, além de mensa, mas os gregos chamam mesa. [curiosa reversão com o português! os romanos comiam onde deviam dormir e dormiam onde deviam comer.] A diferença é que na Grécia, respeitando o significado do nome, realmente se serve comida à mesa. Nós romanos herdamos apenas a nomenclatura, sem o respectivo costume.

XXVI. Mensa vinaria rotunda nominabatur cilliba ante, ut etiam nunc in castris.

A mesa redonda em que se punham as uvas ou o vinho também se chamava cilliba na cidade como no campo; ultimamente, porém, se tornou mesa vinária na cidade.

XXVII. Praeterea erat tertium genus mensae item quadratae vasorum; vocabatur urnarium, quod urnas cum aqua positas ibi potissimum habebant in culina.

Havia ainda um terceiro gênero de mesa, quadrada e em forma de vaso, chamada urnário. As urnas, recipientes para armazenar água, maioria das vezes alojados na cozinha, ficavam sobre o urnário.

XXVIII. Ab sedendo appellatae sedes, sedile, solium, sellae, siliquastrum; deinde ab his subsellium: ut subsipere quod non plane sapit, sic quod non plane erat sella, subsellium.

De sentar são chamados assentos, sofás, cadeiras, trenós. Subsellium: tomar um assento, assentar-se, o que não faz muito sentido, já que quem senta, senta sobre e não sob alguma coisa!

XXIX. Mundus ornatus muliebris dictus a munditia.

A palavra “ornato” ou “decoro” (decoração) as mulheres tiraram de “pureza”.

XXX. Prius deinde indutui, tum amictui quae sunt tangam.

Há uma roupa íntima que se oculta por debaixo da roupa habitual, chamada tanga.

XXXI. Instrumenta rustica quae serendi aut colendi fructus causa facta.

Instrumentos agrícolas que servem para semear e colher.

XXXII. Aedificia nominata a parte ut multa: ab aedibus et faciendo maxime aedificium.

Existem muitos tipos de edifícios: desde o menor (casa) ao maior (prédio).

XXXIII. Quoniam vicus constat ex domibus, nunc earum vocabula videamus.

Uma vila é um conjunto de casas, então vejamos alguns nomes de vilas.

XXXIV. [frase corrompida]

XXXV. Super lectulis origines quas adverti, hae: lectica, quod legebant unde eam facerent stramenta atque herbam, ut etiam nunc fit in castris; lecticas, ne essent in terra, sublimis in his ponebant; nisi ab eo quod Graeci antiqui dicebant lektron lectum potius.

Há várias palavras para designar leito ou cama. O mais antigo se refere ao móvel feito de madeira e grama usado no campo. Mas esses leitos ficavam no próprio chão. Depois se tornou costume suspender o leito e chamá-lo cama, com pernas para colocar a posição do corpo deitado alguns centímetros acima do solo.

XXXVI. Pecuniae signatae vocabula sunt aeris et argenti haec: as ab aere; dupondius ab duobus ponderibus, quod unum pondus assipondium dicebatur; id ideo quod as erat libra pondo.

Pecúnia ou dinheiro é feito de prata forjada, e tem esses nomes: libra dupla, porque tem dois pesos; ou libra, pois consiste de um peso. Libra, o nome, vem de “peso”, a balança, por ser considerado um objeto pesado (as moedas).

XXXVII.

Ad vocabula quae pertinere sumus rati ea quae loca et ea quae in locis sunt satis ut arbitror dicta, quod neque parum multa sunt aperta neque, si amplius velimus, volumen patietur.

Aqui tratamos das palavras que pertencem a um local ou derivam de algum local, das que podemos determinar. Muitas outras têm origem indeterminada, este volume de descobertas sendo pequeno em comparação.

LIBER VI

I.

Origines verborum quae sunt locorum et ea quae in his in priore libro scripsi.”

No livro anterior falamos de palavras que designavam locais.

Huius rei auctor satis mihi Chrysippus et Antipater et illi in quibus, si non tantum acuminis, at plus litterarum, in quo est Aristophanes et Apollodorus, qui omnes verba ex verbis ita declinari scribunt, ut verba litteras alia assumant, alia mittant, alia commutent, ut fit in turdo, [tordo, pássaro] in turdario et turdelice. Sic declinantes Graeci nostra nomina dicunt Lucienum Leukienon et Quinctium Kointion, et nostri illorum Aristarchon Aristarchum et Diona Dionem; sic, inquam, consuetudo nostra multa declinavit a vetere, ut ab solu solum, ab Loebeso Liberum, ab Lasibus Lares: quae obruta vetustate ut potero eruere conabor. [tentar resgatar]

II.

Dicemus primo de temporibus, tum quae per ea fiunt, sed ita ut ante de natura eorum: ea enim dux fuit ad vocabula imponenda homini.”

Primeiro falaremos sobre os tempos, depois sobre os eventos que se desdobraram neles, em sua essência: estes eventos guiaram o homem a criar as palavras.”

Duo motus solis: alter cum caelo, quod movetur ab Iove rectore, qui Graece Dia appellatur, cum ab oriente ad occasum venit, quo tempus id ab hoc deo dies appellatur. Meridies ab eo quod medius dies. D antiqui, non R in hoc dicebant, ut Praeneste incisum in solario vidi. Solarium dictum id, in quo horae in sole inspiciebantur, vel horologium ex aqua, quod Cornelius in Basilica Aemilia et Fulvia inumbravit. Diei principium mane [manhã], quod tum manat dies ab oriente, nisi potius quod bonum antiqui dicebant manum, ad cuiusmodi religionem Graeci quoque cum lumen affertur, solent dicere phos agathon.

Suprema summum diei, id ab superrimo. Hoc tempus XII Tabulae dicunt occasum esse solis; sed postea lex Plaetoria id quoque tempus esse iubet supremum quo praetor in Comitio supremam pronuntiavit populo. Secundum hoc dicitur crepusculum a crepero [escuro, incerto]: id vocabulum sumpserunt a Sabinis, unde veniunt Crepusci nominati Amiterno, qui eo tempore erant nati, ut Lucii prima luce in Reatino; crepusculum significat dubium; ab eo res dictae dubiae creperae, quod crepusculum [obscuridade, luz fraca] dies etiam nunc sit an iam nox multis dubium.”

id tempus dictum a Graecis hespera, Latine vesper; ut ante solem ortum quod eadem stella vocatur iubar, [estrela-da-manhã, glória, majestade] quod iubata”

Inter vesperuginem et iubar dicta nox intempesta, ut in Bruto Cassii quod dicit Lucretia:

Nocte intempesta nostram devenit domum.”

Intempestam Aelius dicebat cum tempus agendi est nullum”

solstitium, quod sol eo die sistere videbatur, quo ad nos versum proximus est. Sol cum venit in medium spatium inter brumam et solstitium, quod dies aequus fit ac nox, aequinoctium dictum. Tempus a bruma ad brumam dum sol redit, vocatur annus, quod ut parvi circuli anuli, sic magni dicebantur circites ani, unde annus.

Huius temporis pars prima hiems, quod tum multi imbres; hinc hibernacula, hibernum; vel, quod tum anima quae flatur omnium apparet, ab hiatu hiems. Tempus secundum ver, quod tum virere, incipunt virgulta ac vertere se tempus anni; nisi quod Iones dicunt er ver. Tertium ab aestu aestas; hinc aestivum; nisi forte a Graeco aithesthai. Quartum autumnus, ab augendis hominum opibus dictus frugibusque coactis, quasi auctumnus.

Ut annus ab sole, sic mensis a lunae motu dictus, dum ab sole profecta rursus redit ad eum. Luna quod Graece olim dicta mene, unde illorum menes, ab eo nostri.” A relação indelével entre menstruação e meses, lua e mulher/sexo.

Lustrum nominatum tempus quinquennale a luendo, id est solvendo, quod quinto quoque anno vectigalia et ultro tributa per censores persolvebantur. Seclum spatium annorum centum vocarunt, dictum a sene, quod longissimum spatium senescendorum hominum id putarunt. Aevum ab aetate omnium annorum (hinc aeviternum, quod factum est aeternum): quod Graeci aiona, id ait Chrysippus esse aei on.”

III.

Ad naturale discrimen civilia vocabula dierum accesserunt. Dicam prius qui deorum causa, tum qui hominum sunt instituti. Dies Agonales per quos rex in Regia arietem immolat, dicti ab <agon,> eo quod interrogat minister sacrificii <agone?>: nisi si a Graeca lingua, ubi agon princeps, ab eo quod immolatur a principe civitatis et princeps gregis immolatur. Carmentalia nominantur quod sacra tum et feriae Carmentis.”

Descreveremos algumas palavras do cotidiano que perderam seu sentido com o passar do tempo. Primeiro falarei das palavras cuja função é se referir aos deuses, depois daquelas que se referem ao homem em si. Agon vem do costume do rei, periodicamente, sacrificar um carneiro. A razão disso é que aquele que ministra o sacrifício pergunta agone? (“devo seguir adiante/agir?”). Na Grécia o sacrifício em honra da polis tinha como objeto sacrificado o melhor carneiro do rebanho. Esses rituais se chamam Carmentalia, devido aos feriados e banquetes serem acompanhados por música.

Rex cum ferias menstruas Nonis Februariis edicit, hunc diem februatum appellat; februm Sabini purgamentum, et id in sacris nostris verbum non ignotum: nam pellem capri, cuius de loro caeduntur puellae Lupercalibus, veteres februm vocabant, et Lupercalia Februatio, ut in Antiquitatum libris demonstravi.”

Feralia ab inferis et ferendo [repouso], quod ferunt tum epulas [mesa, banquete] ad sepulcrum quibus ius ibi parentare.”

LEMBRETE DE QUE MARÇO ERA O PRIMEIRO MÊS (setembrum, octobrum, novembrum, decembrum): “Terminalia, quod is dies anni extremus constitutus: duodecimus enim mensis fuit Februarius et cum intercalatur inferiores quinque dies duodecimo demuntur mense.”

In libris Saliorum quorum cognomen Agonensium, forsitan hic dies ideo appelletur potius Agonia.” Os dias do sacrifício agonístico descrito no caput eram no mês de agosto, daí seu nome.

Palilia dicta a Pale, quod ei feriae, ut Cerialia a Cerere.”

Quinquatrus minusculae dictae Iuniae Idus ab similitudine maiorum, quod tibicines tum feriati vagantur per urbem et conveniunt ad Aedem Minervae.”

Aliquot huius diei vestigia fugae in sacris apparent, de quibus rebus Antiquitatum Libri plura referunt. Nonae Caprotinae, quod eo die in Latio Iunoni Caprotinae mulieres sacrificant et sub caprifico faciunt;” Capricórnio, antigo mês nove.

Furrinalia a Furrina, quod ei deae feriae publicae, dies is”

Volcanalia a Volcano, quod ei tum feriae et quod eo die populus pro se in ignem animalia mittit.” Lançam animais à pira para comemorar a data.

Volturnalia a deo Volturno, cuius feriae tum. Octobri mense Meditrinalia dies dictus a medendo, quod Flaccus flamen Martialis dicebat hoc die solitum vinum novum et vetus libari et degustari medicamenti causa; quod facere solent etiam nunc multi cum dicunt:

Novum vetus vinum bibo: novo veteri morbo medeor. [Curarei o velho pelo novo: a velha doença se cura com o novo vinho (época da colheita das vinhas)]

Conexão de novo com (mês) nove.

De statutis diebus dixi; de annalibus nec die statutis dicam. » Onde termina o divino e começa o humano.

« Paganicae eiusdem agriculturae causa susceptae, ut haberent in agris omnis pagus, unde Paganicae dictae.” Até a origem de pagão é divina (aqueles que cultivavam o solo)!

IV.

De his diebus satis; nunc iam, qui hominum causa constituti, videamus. Primi dies mensium nominati Kalendae, quod his diebus calantur eius mensis Nonae a pontificibus, quintanae an septimanae sint futurae, in Capitolio in Curia Calabra sic: <Die te quinti kalo Iuno Covella> aut <Septimi die te kalo Iuno Covella.>

Nonae appellatae aut quod ante diem nonum Idus semper, aut quod, ut novus annus Kalendae Ianuariae ab novo sole appellatae, novus mensis ab nova luna Nonae; eodem die in Urbem qui in agris ad regem conveniebat populus. Harum rerum vestigia apparent in sacris Nonalibus in Arce, quod tunc ferias primas menstruas, quae futurae sint eo mense, rex edicit populo. Idus ab eo quod Tusci Itus, vel potius quod Sabini Idus dicunt.”

Agora falaremos dos nomes relativos aos dias cuja causa é o próprio homem. Os primeiros dias de cada mês são chamados de calendas, havendo uma celebração religiosa apontada para cada dia nono, seja ela realizada no Capitólio ou na Cúria Calábria (…)

No nono dia as pessoas do campo iam à cidade ver o rei. (…)”

Contrarii horum vocantur dies nefasti, per quos dies nefas fari praetorem ‘do’, [dar] ‘dico’, [dizer] ‘addico’; [adicionar] itaque non potest agi: necesse est aliquo eorum uti verbo, cum lege quid peragitur.” O adjetivo nefasto tem uma curiosa etimologia: deriva de dia sabático ou ocioso, de nada-fazer. Depois disso sua conotação ficou poluída: um dia nefasto (onde com certeza muitas coisas acontecem).

Intercisi dies sunt per quos mane et vesperi est nefas, medio tempore inter hostiam caesam et exta porrecta fas; a quo quod fas tum intercedit aut eo intercisum nefas, intercisi. Dies qui vocatur sic <Quando rex comitiavit fas,> is dictus ab eo quod eo die rex sacrificio ius dicat ad Comitium, ad quod tempus est nefas, ab eo fas: itaque post id tempus lege actum saepe.

Dies qui vocatur <Quando stercum delatum fas,> ab eo appellatus, quod eo die ex Aede Vestae stercus everritur et per Capitolinum Clivum in locum defertur certum. Dies Alliensis ab Allia fluvio dictus: nam ibi exercitu nostro fugato Galli obsederunt Romam.” Toda sociedade tem seu dia do lixo.

Quod ad singulorum dierum vocabula pertinet dixi. Mensium nomina fere sunt aperta, si a Martio, ut antiqui constituerunt, numeres: nam primus a Marte. Secundus, ut Fulvius scribit et Iunius, a Venere, quod ea sit Aphrodite; cuius nomen ego antiquis litteris quod nusquam inveni, magis puto dictum, quod ver omnia aperit, Aprilem. Tertius a maioribus Maius, quartus a iunioribus dictus Iunius.” Explicando os nomes dos meses, quando o calendário possui apenas 10, que não aludem diretamente a números: na verdade o número continua sendo a razão de seu batismo, via símbolos. Marte, deus da guerra, ou o planeta, é associado ao número 1 (março). De alguma forma bem sinuosa, o 2 (abril) é associado a Afrodite – mês do amor! O número 3 a Maia (despontar da primavera no hemisfério norte), e o 4 a Juno ou Hera, Iunio.

Ad hos qui additi, prior a principe deo Ianuarius appellatus; posterior, ut idem dicunt scriptores, ab diis inferis Februarius appellatus, quod tum his parentetur; ego magis arbitror Februarium a die februato, quod tum februatur populus, id est Lupercis nudis lustratur antiquum oppidum Palatinum gregibus humanis cinctum.” Sobre a reforma que tornou o ano duodecimal: o cristianismo, com Januário, influenciou a nomenclatura do (agora) 1º mês. Februa, no entanto, segue o panteão heleno: é a mãe de Marte, que vem depois, como o filho vem depois. Februatur é um tanto ambíguo, pois é relativo a febre, e fevereiro é normalmente um mês de festas populares (e, insinua-se, promiscuidade). Porém é lógico pensar que a mãe do deus da guerra tivesse um atributo ligado ao calor anormal do corpo ou a algum tipo de comoção!

V.

Quod ad temporum vocabula Latina attinet, hactenus sit satis dictum; nunc quod ad eas res attinet quae in tempore aliquo fieri animadverterentur, dicam, ut haec sunt: legisti, cursus, ludens; de quis duo praedicere volo, quanta sit multitudo eorum et quae sint obscuriora quam alia.”

Quanto às demais nomenclaturas latinas associadas ao tempo, já falamos o suficiente. Discorrerei agora sobre alguns casos isolados de verbos. Ler, correr, jogar: para essas ações há uma infinidade de verbos e demais palavras derivadas; e as etimologias são uma mais obscura que a outra.

TEMPORA & CASUS

Cum verborum declinatuum genera sint quattuor, unum quod tempora adsignificat neque habet casus, ut ab lego leges, lege; alterum quod casus habet neque tempora adsignificat, ut ab lego lectio et lector; tertium quod habet utrunque et tempora et casus, ut ab lego legens, lecturus; quartum quod neutrum habet, ut ab lego lecte ac lectissime: horum verborum si primigenia sunt ad mille, ut Cosconius scribit, ex eorum declinationibus verborum discrimina quingenta milia esse possunt ideo, quod a singulis verbis primigeniis circiter quingentae species declinationibus fiunt.” De mil palavras em sua forma original, é afirmado por Quinto Coscônio que, devido aos casos e flexões idiomáticas, o latim poderia ter por volta de 500 mil palavras únicas, uma vez que há 500 maneiras de flexioná-las.

Quare si quis primigeniorum verborum origines ostenderit, si ea mille sunt, quingentum milium simplicium verborum causas aperuerit una; sin nullius, tamen qui ab his reliqua orta ostenderit, satis dixerit de originibus verborum, cum unde nata sint, principia erunt pauca, quae inde nata sint, innumerabilia.” Nada se pode dizer sobre a origem de uma palavra, per se. A etimologia e a filologia não tratam disso: tratam do estudo das transformações, até as mais remotas registradas.

A quibus iisdem principiis antepositis praeverbiis paucis immanis verborum accedit numerus, quod praeverbiis inmutatis additis atque commutatis aliud atque aliud fit: ut enim et processit, et recessit, sic accessit et abscessit; item incessit et excessit, sic successit et decessit, discessit et concessit. Quod si haec decem sola praeverbia essent, quoniam ab uno verbo declinationum quingenta discrimina fierent, his decemplicatis coniuncto praeverbio ex uno quinque milia numero efficerentur, ex mille ad quinquagies centum milia discrimina fieri possunt.” Às palavras flexionáveis Varro adiciona os casos das palavras “únicas”, imutáveis, que podem se combinar com as primeiras para gerar novas palavras (advérbios). Exemplos: pro, re, ac, ab, in, ex, su[b/p], de, dis, con… Logo, se há hipotéticas 500 flexões que possam derivar de uma só palavra, mesmo em havendo tão-só 10 partículas desse tipo (já uma subestimação), o número de flexões da mesma palavra, procedendo a essa multiplicação, atingiria a assustadora cifra dos 5 mil!!

Democritus, Epicurus, item alii qui infinita principia dixerunt, quae unde sint non dicunt, sed cuiusmodi sint, tamen faciunt magnum: quae ex his constant in mundo, ostendunt. Quare si etymologus principia verborum postulet mille, de quibus ratio ab se non poscatur, et reliqua ostendat, quod non postulat, tamen immanem verborum expediat numerum.” Demócrito e Epicuro diziam que havia potencialmente infinitos mundos. Varro brinca com essa noção: há então infinitos mundos com infinitas palavras novas, incalculáveis.

Verborum quae tempora adsignificant ideo locus, difficillimus etyma, quod neque his fere societas cum Graeca lingua, neque vernacula ea quorum in partum memoria adfuerit nostra; e quibus, ut dixi, quae poterimus.”

VI.

Incipiam hinc primum quod dicitur ago. Actio ab agitatu facta. Hinc dicimus <agit gestum tragoedus,> et <agitantur quadrigae>; hinc <agitur pecus pastum.> Qua vix agi potest, hinc angiportum; qua nil potest agi, hinc angulus, vel quod in eo locus angustissimus, cuius loci is angulus.”

Dizemos “o piloto da quadriga age” e “as quadrigas estão agitadas”, pois a ação vem da idéia de agitação [não seria o contrário?]. E ainda “o gado pasta”. Beco ou viela (ango-portus) vem de “impossibilidade de andar”, caminho estreito, apertado ou sem-saída. [Ango é “(eu) aperto” e portum “entrada, passagem, abrigo”] De onde não se pode agir ou fazer nada a respeito, diz-se ângulo, [canto, mas também recinto e sala de aula!] sendo seu extremo (o ângulo muito apertado) o angustissimus [sem tradução], que quer dizer desfiladeiro, dificuldade, e começa a tanger o significado de angústia, que não por acaso possui o mesmo prefixo, portanto: dificuldade, grande aflição.”

Curare a cura dictum. Cura, quod cor urat; [coração que arde, inflama]¹ curiosus,² quod hac praeter modum utitur. Recordari, rursus in cor revocare. Curiae, ubi senatus rempublicam curat, et illa ubi cura sacrorum publica; ab his curiones. [I – de curĭa: Curião, sacerdote da cúria. Pregoeiro público. II – de cura: O que é consumido por preocupações, emagrecido por preocupações.]

¹ Inplicações heideggerianas.

² Dois significados antitéticos: curiosus,-a,-um. (cura). Que toma cuidado, cuidadoso. Excessivamente cuidadoso, minucioso. Indiscreto, impertinente.”

VII.

Narro, cum alterum facio narum, a quo narratio, per quam cognoscimus rem gestam.”

Hinc fana nominata, quod pontifices in sacrando fati sint finem; hinc profanum, quod est ante fanum coniunctum fano; hinc profanatum quid in sacrificio atque Herculi decuma appellata ab eo est quod sacrificio quodam fanatur, id est ut fani lege fit. Id dicitur polluctum, quod a porriciendo est fictum: cum enim ex mercibus libamenta porrecta sunt Herculi in aram, tum polluctum est, ut cum profanatum dicitur, id est proinde ut sit fani factum: itaque ibi olim in fano consumebatur omne quod profanatum erat, ut etiam nunc fit quod praetor urbanus quotannis facit, cum Herculi immolat publice iuvencam.”

Hinc dicuntur eloqui ac reloqui in fanis Sabinis, e cella dei qui loquuntur. Hinc dictus loquax, qui nimium loqueretur; hinc eloquens, qui copiose loquitur; hinc colloquium, cum veniunt in unum locum loquendi causa; hinc adlocutum mulieres ire aiunt, cum eunt ad aliquam locutum consolandi causa; hinc quidam loquelam dixerunt verbum quod in loquendo efferimus.”

Pronuntiare dictum a pro et nuntiare; pro idem valet quod ante, ut in hoc: proludit. Ideo actores pronuntiare dicuntur, quod in proscaenio enuntiant poetae cogitata, quod maxime tum dicitur proprie, novam fabulam cum agunt. Nuntius enim est a novis rebus nominatus, quod a verbo Graeco potest declinatum; ab eo itaque Neapolis illorum Novapolis ab antiquis vocitata nostris.” O verbo nunciar existe, mas é obsoleto em língua portuguesa! Assim como prenunciar, que não é o mesmo que vaticinar (vaticinar uma premonição, como o cognato poderia levar a crer) nem pronunciar.

Sic ab eadem origine novitas et novicius et novalis in agro et <sub Novis> dicta pars in Foro aedificiorum, quod vocabulum ei pervetustum, ut Novae Viae, quae via iam diu vetus.”

« Aenea! — Quis is est qui meum nomen nuncupat? »

Dico originem habet Graecam, quod Graeci deiknyo. Hinc etiam dicare”

Hinc iudicare, quod tunc ius dicatur; hinc iudex, [juiz] quod ius dicat accepta potestate; hinc dedicat, id est quibusdam verbis dicendo finit: sic, enim aedis sacra a magistratu pontifice praeeunte, dicendo dedicatur. Hinc, ab dicendo, indicium; hinc illa: indicit bellum, indixit funus, [funeral, peste] prodixit diem, addixit iudicium; hinc appellatum dictum in mimo, ac dictiosus;” “hinc dictator magister populi, quod is a consule debet dici; hinc antiqua illa addici numo et dicis causa et addictus.”

hinc doctor qui ita inducit, ut doceat.” “Ab eodem principio documenta, quae exempla docendi causa dicuntur.”

Disputatio et computatio e propositione putandi, quod valet purum facere; ideo antiqui purum putum appellarunt; ideo putator, quod arbores puras facit; ideo ratio putari dicitur, in qua summa fit pura: sic is sermo in quo pure disponuntur verba, ne sit confusus atque ut diluceat, dicitur disputare.” Vínculo improvável para nós do adjetivo puro e do verbo reputar.

Quod dicimus disserit item translaticio aeque ex agris verbo: nam ut holitor disserit in areas sui cuiusque generis res, sic in oratione qui facit, disertus.” Dissertar: dizer no deserto!

Hinc etiam, a quo ipsi consortes, sors; hinc etiam sortes, quod in his iuncta tempora cum hominibus ac rebus; ab his sortilegi; ab hoc pecunia quae in faenore sors est, impendium quod inter se iungit.”

Vicina horum quiritare, iubilare. Quiritare dicitur is qui Quiritum fidem clamans inplorat. Quirites a Curensibus; ab his cum Tatio rege in societatem venerunt civitatis. Ut quiritare urbanorum, sic iubilare rusticorum:”

Sic triumphare appellatum, quod cum imperatore milites redeuntes clamitant per Urbem in Capitolium eunti <Io triumphe>; id a thriamboi ac Graeco Liberi cognomento potest dictum.”

Ab eadem sponte, a qua dictum spondere, declinatum despondet et respondet et desponsor et sponsa, item sic alia. Spondet enim qui dicit a sua sponte <spondeo>; qui spopondit, est sponsor; qui idem ut faciat obligatur sponsu, consponsus.” Esponsais também? Realmente confirmado no parágrafo seguinte!

Etiam spes a sponte potest esse declinata, quod tum sperat cum quod volt fieri putat: nam quod non volt si putat, metuit, non sperat.” A ancestral esperança de não ouvir um não como resposta.

VIII.

—“Tertium gradum agendi esse dicunt, ubi quid faciant; in eo propter similitudinem agendi et faciendi et gerendi quidam error his qui putant esse unum. Potest enim aliquid facere et non agere, ut poeta facit fabulam et non agit, contra actor agit et non facit, et sic a poeta fabula fit, non agitur, ab actore agitur, non fit. Contra imperator quod dicitur res gerere, in eo neque facit neque agit, sed gerit, id est sustinet, tralatum ab his qui onera gerunt, quod hi sustinent.”

« Ut fictor cum dicit fingo, figuram imponit, quom dicit formo, formam, sic cum dicit facio, faciem imponit; a qua facie discernitur, ut dici possit aliud esse vestimentum, aliud vas, sic item quae fiunt apud fabros, fictores, item alios alia. »

IX.

(…)

X.

Sed quoniam in hoc de paucis rebus verba feci plura, de pluribus rebus verba faciam pauca, et potissimum quae in Graeca lingua putant Latina, ut scalpere a skaleuein, sternere a stronnyein, lingere a lichmasthai, i ab ithi, ite ab ite, gignitur a gignetai, ferte a pherete, providere a proidein, errare ab errein, ab eo quod dicunt strangalan strangulare, tinguere a tengein.”

XI.

Quod ad origines verborum huius libri pertinet, satis multas arbitror positas huius generis;”

…hunc de temporibus et quae cum his sunt coniuncta, deinceps in proximo de poeticis verborum originibus scribere incipiam.”

LIBER VII

Contempla et conspicare idem esse apparet, ideo dicere tum, cum templum facit, augurem conspicione, qua oculorum conspectum finiat. Quod cum dicunt conspicionem, addunt cortumionem, dicitur a cordis visu: cor enim cortumionis origo.”

intempesta nox dicta ab tempestate, tempestas ab tempore; nox intempesta, quo tempore nihil agitur.”

Eius signa sunt, quod has septem stellas Graeci ut Homerus vocant hamaxan, [martelo] et propinquum eius signum booten, [bota] nostri eas septem stellas triones [boves, ver abaixo] et temonem [escudo] et prope eas axem: [machado] triones enim et boves appellantur a bubulcis etiam nunca, máxime cum arant terram; e quis ut dicti

Valentes glebarii”

stegnon (GR)

FRAGMENTA

THE SCIENCE OF LIFE – H.G. Wells, Julian Huxley e G.P. Wells, 1931.

INTRODUCTION

So may he doubt whether in cheese and timber worms are generated; or if beetles and wasps in cows’ dung; or if butterflies, locusts, grasshoppers, shell-fish, snails, eels, and such like be procreated of putrefied matter, which is apt to receive the form of that creature to which it is by formative power disposed. To question this is to question reason, sense, and experience. If he doubts of this let him go to Egypt, and there he will find the fields swarming with mice, begot of the mud of Nylus to the great calamity of the inhabitants.” Alexander Ross

It was only in the middle 19th century that the concluding dispute took place over Bastian’s assertion that abundant bacterial life appeared in sterilized infusions of hay and other material.”

omne vivum ex vivo”

Seeds, small worms and microscopic animacula can be dried up and left totally inert for long periods of time, so that it is impossible to distinguish them from dead organisms; then at the touch of moisture they will resume the recognizable process of life.”

OS INTERESSANTES TEMPOS PRÉ-ASTRONÁUTICA (HOMEM, O PÁSSARO SEM PENAS, SEM DÚVIDA): “Mount Everest, more than 6 miles above the sea, was perhaps conquered by G.L. Mallory and A.C. Irvine in 1924. They started from a camp pitched at a height of 26,800 ft. on June 6th and never returned. From this camp they were watched struggling onward, and then they were hidden by driving mists and never seen again. Dr. Somerville and Lieutenant-Colonel Norton, with infinite pain and suffering, had previously got to 28,200 ft. Sommerville suffered horribly from the parching of his throat in the intensely cold and dry air, and Norton, after his return to camp, was stricken with snow-blindness. It is probable, but not certain, that Coxwell and Glaisher exceeded these limits in a balloon in 1862, and attained something over 30,000 ft. They were conscious above 29,000 ft. After Glaisher became insensible, Coxwell, by a last effort, pulled the valve cord with his teeth, his hands being too frost-bitten to use. Until recently, the height record for any living thing was the balloon record of Berson and a companion, made in July, 1901. They certainly reached 24,500 ft. but then they became unconscious in spite of their inhalation of oxygen. In November 1927, this was exceeded by Captain Gray, of the US Army Aviation Service, who reached 42,470 ft. He lost his life through his oxygen running out as he descended. No other living creature, so far as our knowledge goes, has ever transcended these limits. The condor of the Andes is credited with 23,000 ft. by Humboldt.” “42,000 ft., a trifle over 8 miles, not 1/10 of what a fast automobile can do in an hour on the level, but so far it is practically the limit of the upward range of life. Even to win that much demands elaborate preparation and frightful exertion. § Three main wants restrict the living body to the lower levels – deficiency of oxygen to breathe, deficiency of pressure upon the exterior of the body, and intense cold. The Everest expeditions of 1922 and 1924 met the former need by taking up large supplies of compressed oxygen, and the same thing is done in the attempts of aviators to break the height record. Within limits the body of the mountain climber can be gradually educated to the diminished pressure, but the aviator runs great danger of suffering from an extreme form of mountain sickness.”

There may be bleeding in ears, and lungs, and even from the eyes and gums. [gengivas]” “Major Hingston, the medical officer of the Mt. Everest expedition of 1924, says that ‘the very slightest exertion, such as the tying of a bootlace, the opening of a ration-box, or the getting into a sleeping-bag, was associated with marked respiratory distress’. At 27,000 ft. Dr. Somerville had to take 8 or 10 deep respirations for every step forward. Lieut.-Col. Norton at his highest ascended 80 feet in an hour of extreme exertion.”

Tissandier, who made a balloon ascent to 27,950 ft. from Paris in 1875, fainted at 26,500 ft. and when he recovered consciousness the balloon was descending and both his companions were dead.” “Glaisher stared at his instruments, but could not read them. ‘There is no suffering’, wrote Tissandier, ‘only an inward joy’.”

downwards it is increasing pressure and, in the solid earth, increasing temperature, against which life has to fight.” “At the St. Louis Bridge, under a pressure of 4½ atm., 100 workmen suffered seriously and 14 died out of a total of 600 men employed.”

If a ship’s hawser [sirga ou amarra, cabo de reboque ou ancoragem – no caso, não seria um cabo, por chamarmos tudo que é de cânhamo ou madeira de corda apenas], says Professor J. Arthur Thomson – a hempen hawser, of course, is meant – is sunk to the depths of a couple of thousand fathoms [~3600m], it is squeezed to less than the diameter of one’s wrist, and a piece of wood that has gone down so far will no longer float. Whatever lives at great depths – if it contains air or gas – must have its internal pressure as great as those about it.”

Sometimes some of the deep sea fishes fall upward. Many of them, like their surface kindred, have swimming bladders to accommodate themselves to varying levels. These bladders contain gas under enormous pressure. If one of the abyssal fishes rises too high in pursuit of its prey, the gas in its bladder may expand out of control of the muscles. The fish can no longer go down, but continues to rise helplessly, and as it rises to levels of less and less pressure, the expansive force of the gas within is less and less restrained, until at last the creature rushes up to the surface and arrives there distended or burst and dead.

The ocean at its deepest goes down perhaps for 7 miles. Life, therefore, so far as we know, is confined to a layer of air and a layer of water, having a total thickness of less than 14 miles, on this comparatively small planet Earth, and no one single form of life is able to span even these petty limits. Man’s vertical range seems to be as great as any creature’s and it is no more than 8 miles.”

Aristotle we may take as standing in this matter on the dividing line between the unsystematic intelligent person and the systematic inquirer.”

The systematic botanist kept a similar dump. He made a lovely classification of flowering plants, he never tired of arranging them and then hurled all the awkward cases together into a division of Cryptograms which had nothing in common except that they had no flowers to be dried and put neatly between sheets of blotting paper. It is among these queer, out-of-the-way, low-caste flowers and plants, as we shall see, that some of the most interesting and illuminating work of modern times has been done.”

Man was a biologist perforce long before the dawn of history, classifying plants into edible and inedible, and accumulating a lore of the animals he hunted, and perhaps of the animals that hunted him. In the Old Stone Age, perhaps 20,000 years ago, he was already making very competent drawings of the beasts that concerned him.”

Mythology hints at a disposition to attempt the most extraordinary hybridisations. Every conceivable combination of domesticated species was probably attempted by Neolithic man.”

Hanno, the Carthaginian, after his memorable coasting voyage about Africa, hung the skins of his gorillas in a temple with an inscribed record.”

We hear, for the first time, of dissection and of vivisection at Alexandria. (…) The question whether vivisection was actually performed upon human subjects in Alexandria is still an open one.”

The use of a water-flask for magnifying objects may have been known, and probably was known, to the jewelers of ancient Egypt, but it never seems to have got through to the philosophers.”

There are millions of people in the world who have never contemplated themselves unclothed in a mirror, and would not willingly do so.”

From Laputa to the Pickwick Club, British literature, for example, spits and jeers at its greater sister, [a ciência – mais para irmã pequena] and to devote a life to science and the service of truth is still to renounce most of the common glories and satisfactions of life for a hard and exalted mistress.”

In many of its branches the advance of biology has been determined by the progress of microscopy. A third great mine of contributory knowledge was opened up by the study of fossils, of which Nicholas Steno (1638-86) was the pioneer.”

EM 1800, EM 1900, EM 1910, EM 1920, EM 1930, EM 1990, EM 2020, EM QUALQUER DÉCADA: “In some of the more backward regions [eufemismo] of the US, moreover, there is a formidable campaign for the penalization of any biological teaching that may seem to run counter to the literal interpretation of the Bible.”

the anti-vivisection campaign displays all the unscrupulous exaggerations natural to tender and imaginative minds tormented beyond any possibility of patient and sober judgment.”

ecology – the observation of animals in their proper surroundings and of their normal interaction and ways of life, and what one may call field physiology

There are now even bacteriological zoos, so to speak, where collections of living cultures of this, that, and the other infection are available for the experimentalist.”

BOOK 1. THE LIVING BODY

1. THE BODY AS A MACHINE

O PAI DE FAMÍLIA AMERICANO: “For a time his attention is divided between swallowing to satisfy his interior need and reading the newspaper to employ a mind which might otherwise be bored while this primary business preoccupies him.” “At lunch again he may seek the distraction of a book or paper, [!] or talk with companions.” “He may find such a sedative drug as tobacco useful in slowing down the urgency of his bodily engines.”

Os heróis dostoievskianos não cagam.

A man was shut in a calorimeter (heat-energy measurer) for 19 periods of 24h each: on the average he have out 2,682 large calories in each period, and ate an amount of food which would yield if burnt a 2,688 calories. (A large calorie is the amount of heat required to raise one litre of water from 0º to 1º centigrade.)” “We are, therefore, justified in concluding that man and the animals generally are fundamentally mechanisms, driven by the energy liberated in the oxidation of food. A mouse or a man works in much the same way as a petrol motor”

1. THE COMPLEX BODY-MACHINE AND HOW IT WORKS

The writer of the text-book or the university lecturer is free from these perplexities. His readers and hearers are under compulsion to go on attending. He can say everything. (…) Yet our better-informed readers must allow us to run through, as compactly as possible, a certain amount of knowledge they no doubt acquired at school.”

occasionally we meet gifted individuals who have extra head muscles – thin films over the domed top of the skull by means of which they can waggle their scalp, delicate strips that allow them to twitch their ears.”

A frog has no neck; if a frog wants to snap at an insect he has to turn his whole body until his mouth is pointing in the right direction.”

Most of us have wondered at times why Nature never foresaw the kick and the stab at our lower vital centres. The liver and stomach indeed cower up under protection of the lower ribs, being able to do so because of the domed frame of the midriff, but the poor bowels are dreadfully exposed in a beast that walks erect. The rest of the contents of the abdomen need but the slash of a sharp knife to be spilled abroad, as happens in hara-kiri, that form of suicide so popular in Japan.”

In a fish the tail is even more important [than in the mouse]; it is the principal organ of locomotion, and includes all the bones, muscles, blood-vessels and nerves that are necessary for movement in a limb.” “In ourselves the tail is represented by a useless little curling end of the vertebral column that does not even project from the surface of the body.” Although we are conceived as tails!

The word ‘cell’ is a most unfortunate word in this connexion. That is why the triplex writer has put fastidious inverted commas about it in the last 2 sentences. He dislikes handling and using it. He has to do so, but thus he shows his reluctance. The old original meaning, the proper meaning of ‘cell’, was a compartment, an enclosure. We still talk of the hermit’s cell or a cell in a prison. [Not us!] And many people at the outset of their biological reading are misled, therefore, into imagining that our living tissues have a sort of honeycomb structure. Nothing could be farther from the reality. The proper word should be ‘corpuscle’ (little body) and not cell at all.” “the misnomer arose very easily and naturally. Hooke, in 1667, peered down a microscope at a thin slice of dead cork [cortiça], and found it to consist of an enormous number of tiny empty boxes fitted closely together, and cells seemed to be the only proper word for them.” “Very gradually the interest of investigators shifted from the boxes to the contents, but not abruptly enough to rechristen these objects. (…) It is the protoplasm and not its garment [o envoltório] which makes the cell. In animal tissues (…) The protoplasm may go bare”

The threads are called mitochondria, and are composed of albumen and a fat-like compound, lecithin. Though evidently of importance to the cell, their use has not yet been discovered.” [!]

In 2 or 3 days the multiplying and growing cells will have poisoned the serum with their own excretions and the ‘culture’ will die; but this death can be prevented by putting a little of the failing culture into a drop of fresh serum, when the reproduction of the cells will resume and go on until that drop also is fouled.” “By sub-culturing every few days it is possible to keep strains of detached cells alive for months, even years” “Cell-strains taken from a chick embryo have lived over 14 years, while the ordinary life of a fowl is not a third of that span.”

they cease to be typical muscle-cells, nerve-cells, or kidney-cells, and become more like the primitive connective-tissue cell that we have described above. They cease to be parts, they become wholes.”

A minute trace of calcium must, for example, be present if our muscle-cells are to obey our will. Withdraw that and they will begin a rhythmic twitching.”

The nitrogen has a free ride round the system, but apparently has no function whatever.” Pré-história do código genético e do estudo das proteínas!

Velocities always look deceptively high through the microscope, because the instrument magnifies distance without magnifying time.”

We cannot watch the blood as it travels, ever more swiftly, towards the heart; the frog is too opaque for our microscope to penetrate. The rest of the story has been pieced together by dissection and by experiment.”

Cells are able to accumulate little stores of sugar, fat, or a very important nitrogenous material, protein, in their own bodies, to be used when required” Ué, então por que ignoravam a função do nitrogênio no sangue?!

SUBSÍDIO CONTEMPORÂNEO: “I guess in school they didn’t tell you about the nitrogen at all, for the matter of simplification, because it is of no function in the body and the O² and CO² are the important gasses for biological function of breathing. § However, all of these small gas molecules are very small and generally the biological membrane is very permeable to them. That’s why the cell cannot decide to let O² and CO² in and N² not as you suggest.” https://biology.stackexchange.com/Mesmo assim, varrendo o google, acho que não avançamos tanto nessa questão do nitrogênio na “era nanotecnológica”! Será que todos os pesquisadores estão ficando gradualmente mais burros conforme se especializam e contam com as conquistas das gerações anteriores sem conseguir processá-las adequadamente durante suas carreiras?

There is a silence, then a long sound, then a short, sharp sound, then silence, then a long sound, then a short, sharp sound, then silence again – Lubb . . . dup, Lubb . . . dup, Lubb . . . dup. The filling of the heart from the veins and the contraction of the auricles to fill the ventricles are noiseless; the sudden, violent rush of blood when, in turn, the ventricles contract gives the long sound, Lubb . . . The short sound depends on a property of the arteries. The arteries have elastic walls. When blood is forced into them under considerable pressure by the ventricles they give, and when the ventricular contraction ceases they recoil. If it were not for the valves at their openings, the result of this recoil would be to drive blood back into the heart, but actually it closes the valves. The aorta, the main arterial trunk which supplies all the body except the lungs, is abruptly cut off from the ventricle and the slam of its valves causes that 2nd heart sound . . . dup.”

Moreover, the fact that the blood, instead of flowing along in one broad current, has been divided into a multitude of tiny parallel trickles, ensures that the surface of contact between blood and flesh is as great as possible.” “all the capillary vessels in a man’s muscles put end to end to form a continuous tube would girdle the Earth 2 and ½ times.” [!]

Lymph, [the mediator between flesh and blood] in the intercellular spaces, is simply a fluid through which substances diffuse. It comes from the blood and it is destined to return to the blood.” Os vasos linfáticos renovam essa substância: “They are indeed shadowy plasma veins.”

The flow of lymph in the lymphatics is slower even than that of blood in the veins, and, as in the veins, it is assisted by valves, by bodily movements, and probably by rhythmical contraction of the vessels themselves. The course of the lymphatic vessels is not so direct as that of the veins. They unite and separate again to form networks and their course is interrupted by passages through curious spongy labyrinthine filters, the ‘lymph-glands’, but ultimately the lymph is led to a great main lymphatic in the chest, the thoracic duct, and this trunk runs up the back of the chest and opens into one of the great veins near the heart. Thus the lymph is returned again to the blood-stream from which it originated.” O próprio linfa são “gotículas” do sangue que atravessam as paredes das terminações mais finas das artérias (as capilares/capilárias) e “hidratam” esse “meio-campo quase vazio” entre carne e sangue (vasos) em si.

Lights is the old word for lungs; in the bills of mortality of the 18th century, pulmonary consumption figures as ‘rising of the lights’.”

…leitura abandonada…

[ARQUIVO] METALLICA X NAPSTER: O CAPÍTULO MAIS NEGRO DA HISTÓRIA DA MÚSICA

Originalmente publicado em 6 de março de 2010.

A idéia original era dar curso a uma série intitulada “Os 10 atos mais estúpidos da Música Contemporânea” ou coisa próxima disso, mas por falta de dados bibliográficos e disponibilidade de tempo pude executar apenas “a parte mais nobre” desse “desonroso pódio”, se assim podemos dizer; e minha ansiedade é tanta (talvez do mesmo tamanho que meu amor pelos ofendidos neste artigo!) que decidi publicá-lo logo de cara, sem saber se um dia voltarei à baila com os outros 9 atos “quase tão estúpidos” quanto este no universo da indústria fonográfica.

* * *

Na virada do milênio, uns dinossauros da Música mostraram que realmente estavam caducos e caretas e perpetraram a atitude mais covarde da Música desde o advento do WWW, e que permanecerá no topo desse ranking infame por um bom tempo…

Este comentário é um recorte no tempo, por isso não interessa o que eles fizeram antes nem depois: o grupo de thrash metal / heavy metal / hard rock /pop rock (a depender da década e da taxa de ingestão alcoólica dos membros) mais popular da História (considerando-se que encabeça o Big Four californiano e que possui um leque de ouvintes tão ou até mais variado que outras bandas do estilo metal que se consagraram diante do grande público “exterior”, como o Iron Maiden) iniciou uma guerra perdida contra as novas tecnologias, o “barbarismo digital”. Tudo porque não enxergaram que o formato compact disc havia sido absolutamente suplantado pela disseminação das MP3, fazendo parte hoje apenas de um culto ou uma homenagem que os mais fanáticos sentem a necessidade de prestar aos músicos que tanto causaram impacto em suas vidas. Em outras palavras, tudo o que começa como diversão (4 rapazes sendo “autênticos”) termina com a guerra da única coisa que passa sem deixar nada de significativo no coração humano, mas que outrossim é a única importante no mundo atual: do dinheiro. Direitos autorais, isso o artista tem de saber: são mera convnção, bem anterior ao capitalismo e ao “profissionalismo”, privilégio consensual direcionado aos mais talentosos de uma sociedade, sob diferentes formas de acordo com a era e a religião. Não obstante, aquele que não é mais grato para com seu público perde a honra e o direito de estar sobre um palco, pois não há criação que se sustente sem quem a contemple, não há grandes espíritos sem mediocridade em torno deles e não há como não perder a dádiva dos deuses sendo avarento… Para o trio culpado, James Hetfield, Kirk Hammett e Lars Ulrich, serve a antiquíssima frase: “Aqui se faz, aqui se paga”. O que veio a seguir é a maior prova, e também está nesse top 10. Mas cansei de falar. Sou jovem e não vivi essa época, por isso trago à tona alguém que esteve lá, com consciência para discernir o que se passava, desde os idos dos anos 80:

Uma grande parte da cena thrash sobreviveu graças à troca de fitas K-7. Os trocadores se comunicavam por seções de pen-pal em revistas norte-americanas de hard rock como Kerrang! e a hoje defunta Sounds. Havia poucos estúdios de gravação preocupados com o metal àquele tempo; trocávamos demos e fitas ao vivo de dúzias de bandas que nunca tinham gravado nada oficialmente. O metal underground era tão legítimo quanto qualquer cena punk, especialmente na Bay Area de São Francisco. Algumas das bandas chegavam eventualmente a um sucesso limitado; poucas ainda estão por aí (destaques especiais para Anthrax, Megadeth e Slayer), mas a maior parte dessas bandas nunca chegou a lançar mais de um álbum ou um single, e a maioria está agora, de fato, esquecida (menções que não podem faltar: Jaguar, Blitzkrieg, Control e Anvil Chorus).

(…)

Em 1982, uma banda em início de carreira chamada Metallica abasteceu alguns amigos trocadores de fitas com uma demo contendo 7 músicas, chamada ‘No Life ‘Til Leather’. Copiada, re-copiada e re-re-copiada, a fita fez seu caminho da Califórnia a Chicago, de Nova Iorque à Inglaterra, à Holanda, à Alemanha. Em meses, a banda tinha fãs espalhados pelo mundo inteiro – sem a ajuda de um só jornalista, de alguém de assessoria ou de qualquer campanha de marketing. Não passam de chutes afirmações sobre quantas pessoas estavam envolvidas nessa rede de troca e multiplicação de fitas, mas um bom número desses fãs de carteirinha (casseteiros) do Metallica era contribuinte amador em vários zines underground da época (e destacamos aqui o Metal Mania, Whiplash, Aardschok, além do Metal Forcer); seu entusiasmo por essa banda desconhecida da costa oeste foi cedo retransmitido para milhares de outros leitores.

O resto, como dizem, é história. Kill ‘em All foi uma sensação; Master of Puppets ficou entre os 40 mais vendidos do planeta; alguns anos depois, o Black Album seria responsável pela venda de 12 milhões de unidades.

(…)

Avançamos rapidamente no tempo para 13 de abril de 2000, e o anúncio de que o Metallica e seus representantes haviam iniciado uma ação judicial contra a companhia de softwares Napster e as Universidades de Southern California, Yale e Indiana nos surpreendeu bastante. Não deixa de ser trágico e irônico vindo de uma banda que se ergueu sobre pirataria de fãs.”

(Fonte original das aspas: Brian Lew, 09/05/2000, Metallica, como você pôde?, traduzido e levemente modificado por mim.)