[ARQUIVO] PIAMENTA

Originalmente publicado em 10 de janeiro de 2010.

(…)

Tinha alguma coisa além de cabelo caindo, saindo… Alguma substância, alguma nojeira… Coisas amarelas, líquidos preto e verde… e a torneira aberta, e aquilo se acumulando, entupindo a pia. Talvez até bosta tivesse ali, a água estava realmente abjeta. Houve um momento em que o nível d’água na bancada da torneira estava acima da própria pia, de modo que deveria a água cair em direção ao chão ou então estar acumulada desde o chão do cômodo e já batendo no meu peito, como se fôra uma piscina, no entanto não era o que provocava a minha repulsa – meus membros estavam dormentes. Engraçado, eu olhei ao redor e achei que aquela água estava desrespeitando as leis da física!

(…) eu comia pão com alguma outra coisa apimentada. Mas nunca conseguia colocar pimenta o bastante. Ao meu lado, um amigo de certa ocasião em que virei sem querer o vidro de pimenta sobre uma pobre lingüiça contava esse cômico caso a outra pessoa, um estranho qualquer. Ambos riam, gargalhavam, eu também estava de bom humor e ria junto, porém sentia que ambos não se davam conta de minha presença, eu estava ausente do recinto. Manuseei de novo o vidro, tentei virar seu conteúdo sobre minha mão. Só caíram duas ou três gotículas. Lambi-as.

[ARQUIVO] DIÁRIO DE UMA VIAGEM A FORTALEZA

Originalmente publicado em 10 de janeiro de 2010. Escrito entre 30 de janeiro e 1º de fevereiro de 2008.

30/01/2008

Talvez também sob influência de meu pessimismo contumaz, das minhas mais recentes leituras (num prazo de dois anos) e do desprezo que sinto por interlocutores de pensamento vil é que apresento este fragmento. É necessário deixar claro que o “interlocutor vil” em questão é um magnata cearense de nome Pelé, sem embargo, não conservo a mínima vergonha de meus antecedentes familiares (ele vem a ser meu tio-primo), resquício algum de racismo regional (vulgo xenofobia) ou aversão por cidadãos financeiramente afortunados. O que não tolero é a incapacidade dos ricos em complementar sua educação socratizando-se um pouco que seja – para ser mais atual-televisivo: vestindo as sandálias da humildade. Tampouco apresento, então, a essa altura, qualquer desprezo pela nomenclatura do maior atleta da História deste universo! É só um codinome, e ter chegado a ele tem lá seu método… Seu erro, meu algoz, foi ter aberto a boca demais! Isso e apenas isso…

Eu, tão lento para apreender opiniões concisas acerca de terceiros, descrevê-lo-ia como um sujeito de mediano para bom no entender político, no que dependesse de nosso primeiro encontro. Mas, de segunda, afirmo: és um parvo, um paspalho! Das coisas da vida, da essência invisível, do mundinho paralelo, do faz-de-conta de que I. falou tu nada entendes! Como aquele povaréu de Tianguá, só há uma coisa que mova sua vida: o dinheiro. É inútil encobrir teus anseios com esta capa, homúnculo! Para essas futilidades se é sempre competente, se desejável. De resto você não passa de um velhaco com alma de menino – não, nada de “puro”… Apenas parece distante do olhar filosófico e próximo demais do seu útero-sol, padece de um complexo de Édipo mal-resolvido. Por tabela, é um amoral inconsciente. E não são estas bestas (ou burros de carga) da igreja os mais perigosos? A filha, N., não pode julgá-lo porque não o conhece. Olha para cima ao divisá-lo – aliás, como toda e qualquer Electra. Eu não sofro desse problema, incontornável na terra (não-física) do cabresto, onde ser de elite não significa muito, no meu mundo de (não-)valores.

Sua infantil presunção de que, assim se julga e não esconde nem por um minuto à mesa, se trata de um homem culto quase me comove. Porque homens cultos não podem afirmar a juventude como único período de erro. Sua concepção assoberbada da vida, neste ponto, só já não me assustava pelas prévias revelações de seu caráter fascista.

No momento troco poucas frases com meu tio – menos pretensioso e de raciocínio mais ligeiro que o de Pelé, o pseudo-mecenas da família Ferreira. Mas tais balbuciações já se afiguram como material suficiente, meu caro “Maluco Beleza das Metamorfoses Ambulantes”, para tecer o único elogio à pessoa aqui em evidência: seu correr na praia – ou caminhada, já que é um frágil, mesmo – é meu escrever. Sim, que falta me faz descascá-lo, debulhá-lo nestas folhas como insípido feijão que vem a ser! Enquanto isso (já não sei mais se falo dele ou para você – de você ou para ele; com você ou 2ª pessoa, com tu ou a terceira), nosso nobre magnata precisa de seu retiro existencial bi-semanal. Pode me enganar, vou fingir que no pacote não está inclusa aquela masturbadela na água quentinha do nascer do sol – coisas bem-aceitas para um cara casado que enfrenta a crise da meia-idade.

Mas o papo, comigo, raras vezes esteve ou foi tão prosaico. Parece (ou mais do que parece) que peguei uma raiva excessiva do sujeito. É que realmente usar Darwin para a raça humana é chumbo grosso… E um indivíduo, ou menos, ente, que se auto-define como conhecer e interessado em buscar mais conhecimento, tolerante, bom ouvinte, reflexivo, sempre aberto a novas quebras de paradigmas (e que não sabe por certo o que representa um sintagma, p.ex.), não pode ter 10% do utilitarismo neo-yuppie (ops, embaralhei dois nomes) apresentado na pior festa que freqüentei desde que boêmio sou (o churrasco do enterro e da fossa). Se foi uma ocasião ruim é por dois (e entrelaçados) motivos: não bebi o suficiente e você (de novo minha mistura pronominal, já não dou um dedo mínimo) estava presente. (Mesmo Dostoievsky mistura pessoas na conjugação.)

O que depõe a meu favor neste cenário de aparente sordidez é que, se não bebi e não usufruí dos dotes das convidadas como mais desejaria (além dos regalos alimentícios), ao menos posso lembrar de cada ato falho seu (do Pelé!) sem a mínima distorção. O caro colega, deixe-me ver, acredita no bem e no mal. Nunca ouvira falar de Nietzsche. E nem que o Raul é um dos brasileiros mais escutados e idolatrados fora de palco de todos os últimos 400 anos. O que pode ser mais ridículo que um homem que acredita no diploma universitário como sinônimo de credibilidade irrefutável? Nem Descartes e Kant juntos!

31/01/08

(fim do 1º mês de um ano de até agora agonia gástrica)

Sabe o que é bastante interessante também?”

O quê?

Que em virtude de meu atual patamar…”

Vá às favas, com todo o respeito que seu ar grisalho merece mas que as ligações neurais comprometem!

Eu sob a mais crônica das diarréias certamente tenho, ainda, um pensamento mais ajustado e coerente que o seu! [Neste ponto decidi-me pelo emprego definitivo da interpelação direta, num misto de falta de vontade de escrever “fascista” a cada duas linhas e de excesso de disposição de fantasiar uma repulsa à la genro-sogro – explicando melhor: gosto da alternativa impossível em que sou um desafiante jovem, apontando o dedo de maneira não-acovardada para a cara do tolo pai de uma princesinha metida a roqueira… Em termos mais breves: meus devaneios com o corpo, o sorriso, a ginga e a burrice da distante prima N. — infelizmente distante em vários sentidos – parecem tornar Pelé alguém mais custoso de engolir, até porque a filha já é comida o suficiente]

01/02/08

Torcendo para escapar do Inferno…

#offtopic MEGADETH et al. (A luz no fim do túnel)

(comentando execuções aleatórias no meu MP3 player.)

  1. Train of Consequences

A estória de um assaltante de trem cargueiro e a moral por trás de seus atos me convocam novamente a uma série de questionamentos de natureza recente: o bem, o mal, os subjugados a eles e os acima dos valores. Minha opinião não é escutada por ninguém que não eu mesmo. A teoria dos grupos de influência não precisa ser lembrada aqui porque considero as pessoas suficientemente autônomas para escolherem seus veículos de comunicação, interlocutores e ações por si próprias. Eu sou apenas mais um canal, uma fonte informativa, integrante de um todo mais complexo ou descartável.

Figuras como Deus são ambíguas, duais. E representações como o diabo ou o ladrão são consideradas “puras” no sentido da essência. Mas hoje ouço falar tão pouco no diabo! Ninguém razoável e com mais de 6 anos realmente acredita em uma forma de vida (ou de morte) parecida, pois já incorporou as lições fundamentais do processo de socialização: o mal está no homem, que ejeta os direitos humanos não por outro motivo que a necessidade de controlar seus sórdidos e irrefreáveis (doutro modo) impulsos.

Fazer o certo e fazer o errado. Ser sacana e ter peso na consciência. Receber o castigo merecido. Essas discussões estão enredadas ao passado. Na situação da sociedade dos jogos ou niilista o único valor de si é aquele percebido por si mesmo, imortalizado em alguma imagem auto-louvável. O ladrão de cargas dilapida todas as vidas dos passageiros e trabalhadores do trem ao pilhar seus pertences. Conquanto não se é um deles, seus atos variam da aprovação à indiferença, em cujo trajeto mora a inveja. Às vezes penso como a vida do roubo é fácil: um sujeito se apropriou do meu televisor e do meu micro sem executar nenhuma transação financeira. Usou da violência, da imprevisibilidade física. Mas o complicado é cogitar-se pondo em prática esse “fácil”. Por que eles podem e eu não posso? Questões de berço (não literalmente, mas de uma ótica fatalista – há os furtadores provenientes de berços de ouro maciço).

  1. Killing Yourself to Live (Black Sabbath)

O ano deve ser um dos da irreversível crise do welfare state. “This is not the way the world was meant” e “Take a look around, what do you see? Pain, suffering and misery”. Além, claro, do título da música. Um ambiente de insegurança suportável graças às benesses teatrais da liquidez do dinheiro. Só o que almejo é o mesmo lar doce lar alheio, e com menos papel-moeda. O montante suficiente, que seja.

A onda de violência obriga o indivíduo a desconfiar de todos e se ver seguro – se possível – apenas dentro de seus próprios portões, ou jaula, a dita propriedade privada, capaz de resguardar até certo ponto todos os outros, tudo que já perdeu sua liquidez e não é mais pertencente a nada nem ninguém. Nem ao capital estrangeiro.

  1. Gears of War

Se a cultura não fosse a simples negação da natureza e respeitasse mais os princípios de sua Mãe o ser humano, além de cagar novas vidas e impor-lhes o ônus do trabalho, não fabricaria um arsenal nuclear, terminando, com tal atitude, por mais desestabilizar que “ajudar” (não precisa ser ajudada) sua biosfera. Uma mente tão corrupta olha a Terra com bons olhos só enquanto não coleciona as prometidas colônias espaciais que permitirão nossa continuidade. Vã continuidade. Viagem modorrenta. Muito curioso esse desenvolvimento, no sentido cíclico mesmo. Nada de linhas retas ascendentes. As marchas da guerra [ou equipamentos, armas] não pensam na preservação da espécie. Não há a menor garantia de que uma hora a rachadura não abra de vez. É um empreendimento de incomensurável risco, bem ao gosto do modo de produção ocidental e… está caduco dizer ocidental. No passado foram os muçulmanos, depois os soviéticos, japoneses… Agora qualquer olhos-puxados. O mundo. A família acabou. O Eu a engoliu juntamente com tudo. Os co(o)rporativistas ainda carregam aqueles livros debaixo do braço, mas, tal qual qualquer imbecil adaptado ou jogado de lado, só aguardam uma brecha para aparecer. Cada um com sua colossal melancia, preocupados que estão todos em se mostrar. Saldo final: não há um singular juiz. Os tecnicistas criaram um monstro que pode reduzir toda a filosofia ao nada instantaneamente… É… venceram!

* * *

Esses boletins sonoros estão me agradando e podem “intervir” na programação futura (Filosofia – Chauí).¹ Terei cerca de cem possibilidades extras…

¹ Este foi um presente de um primo distante do meu pai pelo qual sou muito grato, especialmente dado meu momento desarticulado em terras estranhas e possuído pelas terríveis marcas da saudade (do quê é que não sei, mas tenho certeza que é a parte de maior desamparo no anthropological blues). Neste preciso momento o amigo atencioso está em seus últimos minutos de praia e já vai retornar a seu meio. Eu não. Acrescento que, para saldar honrosamente meu débito, devo reler esses fragmentos ao chegar em casa e cumprir com o combinado: enviar-lhe por e-mail as ementas solicitadas da área de sociologia da UnB. a Mesmo que seu presente – e o meu futuro – não lhe – me – tenha custado nada, considero a necessidade dessa troca para a continuidade sem turbulências do cotidiano; afinal, humanos, culturalmente, vivem se devendo favores.

a Aposto que me esqueci disso!

Uma de minhas maiores vontades momentâneas é tomar uma cerveja gelada, não obstante meu sistema digestório-excretor precisar de um tempo até se restabelecer. Consolar-me-ei em pensar – e só pensar – no dia em que serei auto-sustentável e terei um novo lar – ainda que eu esteja pensando no aluguel: enquanto se pagar em dia, é todo seu. A independência… Uma cerveja gelada é um pedaço disso, por isso a quero tanto. Porém, conforme venho tentando me ensinar ultimamente, em lembretes mentais esporádicos, vive-se um dia de cada vez e, exilado, é-se plenamente impotente, o inverso de plenipotente. Um exílio implica em um outro exílio ao fim do primeiro, pois a terra natal terá mudado, eu mesmo terei, e será necessária uma readaptação ao local e aos afazeres de origem. E em verdade desconheço se poderei fazê-los todos, esses afazeres. Depende muito das circunstâncias. Ainda assim, ainda se puder, teimosamente deles prorrogarei minha licença, em prol de um só: as leituras atrasadas, que só parecem se agigantar enquanto os prazos encolhem e se tornam onerosos. Pelo menos já me livrei da autofobia e, no horizonte, nem o amor eu vejo. Agora bastam as músicas e as renovações, transferências, trancamentos e reda(reden)ções…

[ARQUIVO] SÓ É BOM PRA QUEM NÃO TEM (O²)

Originalmente publicado em outubro de 2006. Editado em 8 de janeiro de 2010. Editado novamente em 27 de fevereiro de 2024.

A crônica abaixo, assinada com pseudônimo, havia sido publicada em 2006 num “blog de parceria” entre escritores e jornalistas. Em 2010 foi republicado por mim pela primeira vez.

Não existe uma ordem. Possivelmente corroo, outrora – ao ser inalado – proporciono a sustentação biológica. Não sou, porém, justo. Mato e concedo o dom da vida por conveniência. Minhas conveniências mudam rapidamente. Não me mato porque sou imortal, o que não quer dizer que nunca tenha tentado. Apesar de um blog ser exclusivo do reino dos humanos, dentro do próprio gênero Homo existem de amebas a baleias, de briófitas a elefantes, de lagartixas a um filósofo. Sou unilateral, não ligo para o valor, moral, de nenhuma dessas entidades. O² para os íntimos. Um nome mais curto não representa a ausência de rusgas. Você precisa de mim e briga comigo. Você fecha o blog, não me lê mais, não obstante tudo que disse ecoará em sua mente. Até que o Oxigênio não queira mais sustentar vidas – pela escolha dessas vidas.

Sinceramente não sei o nível de metáfora ou literalidade do parágrafo acima, seja para mim, seja para um círculo restrito, seja para o anônimo – aquele para quem EU sou anônimo. Minha primeira reflexão é a seguinte: gostarei do que sou? A resposta da maioria é não. E do que posso vir a ser? “Se alcançasse esse objetivo, finalmente me daria por satisfeito.” Essa noção está errada.

Não tenho (mais) namorada (o que representa muito, posto que é a queda do céu ao inferno). Não sou assalariado. Não que não tenha trabalhado, mas receber aquele quinhão ao final do mês é um privilégio do qual me sinto virgem. Minhas idéias não entram em conformidade com a ordem social – eu gosto da desigualdade, mas me irrito ao ver que na maioria das vezes me encontro do lado de baixo. E então… Projeto-me no corpo de um amigo. Três anos de namoro, vai casar, estágio onde trabalha pouco e é bem-pago – pelo que dele sei, é realizado musicalmente (esqueci de dizer: gostaria de tocar bateria ou cantar, o que me é impossível, por razões genéticas, de humor e de tempo), apolítico, sabe, daqueles que não se esquentam com facilidade… Sente-se bem. Não tem um blog oficial ou outros dez em que “bica” – e eu, que sempre ANOTO MAS NÃO ESCREVO no meu, acabo fazendo o bom trabalho no dos outros! Quis dizer que meu amigo, codinome Plutônio, é a vida que eu projeto para mim mesmo.

Minhas aspirações são essas. Alguém para “comer todo dia” (sendo bem direto), dinheiro para gastar a curto, médio e longo prazo. Uma banda. Despreocupações. As aspirações de Plutônio são… Não tenho a intimidade necessária.

Despreocupação é o que eu não teria sendo Plutônio. Isso porque eu sou eu, mesmo dentro dele. Começaria a me perguntar: “Quando vamos casar?”, “Ela vai terminar comigo?”, “Quando, como porque e onde? O que eu lhe teria feito? Vou sofrer tanto assim – de novo?!”, “E a separação dos bens?”… Os ciúmes, ah, os ciúmes… Afinal, a namorada dele é novinha, mas é bonita. Tenho certeza que Plutônio não pensa nessas coisas. Quanto ao dinheiro, “em que gastar?”, “tê-lo-ei para sempre?”, “E se eu for demitido? Por justa causa?”. Bandas são como relacionamentos, outrossim. Descobri que a vida de Plutônio é tão insatisfatória quanto a minha, afinal – pelo menos “pra mim”!

Ah, Estou bem. E ontem eu fiquei ainda melhor do que numa sexta-feira normal, porque me perguntaram “Para que isso de escrever em blog?” (não foi meu colega de time Sódio). Respondi-lhe: Para ser contra-argumentado. Pelo meu bem, espero que sim. O céu está cinza. O de Plutônio também, embora ele não se dê conta. Não, apaga tudo, o que foi que eu escrevi?! Plutônio, você está bem?!

(Post Scriptum de dezembro de 2006:) Para azular o cinzento… eu já sei! Vou dizer a todas que pensam que eu (ainda) as amo que não é bem assim.

Por Oxigênio

Monica em

EM NOME DA HONRA”

Originalmente publicado em 8 de janeiro de 2010.

Inspirado na fábula da Chapeuzinho Vermelho

Cabelos loiros, lisos e que mal chegavam aos ombros. Nariz afilado e empinado. Lábios finos e rosas. Uma flor delicada. Monica tinha dezesseis anos e começava a ser uma preocupação para os pais. Filha de um poderoso industrial da Wolfstation – pequena vila inglesa – do século XIX, sua beleza aliada a sua riqueza a tornavam um objeto de intensa cobiça por parte dos homens da cidade. Galanteios de meninotes, rapazolas e mesmo dos amigos do pai nunca foram surpresa na vida da colegial. Porém a atenta Sra. Williams percebeu que a filha não mais recusava as investidas de imediato com um firme: “Não desejo um faz-de-conta burguês e ambas as nossas infelicidades”. Na sala de visitas, dava a entender que não cederia, mas já não era tão resoluta como antes. Se não se tratasse de uma moça rica, poder-se-ia pensar que Monica gostaria de prolongar os casos, quem sabe forjar um noivado, unicamente em busca de dinheiro. A Sra. Williams, como qualquer mulher madura, conhecia muito bem aquelas transformações no corpo e mente da adolescente, da menina-adulta. No entanto, sentia-se constrangida diante dos arroubos de sensualidade da criatura fervilhante que se exibia pela primeira vez debaixo de seu teto e diante dos seus olhos. Cantarolava ao espelho, perfumava-se toda. Nunca havia visto sua filha assim. Resolvera esperar até o dia do baile escolar para dar um passo além da simples observação: chamou Monica a um canto, na cozinha, enquanto assava alguns bolinhos, e pediu que não comprometesse a posição da família na alta sociedade com burlas namoradeiras. Monica sabia o que a palavra burla queria dizer.

Manteve-se afastada de bons partidos na escola; reprimiu seus sentimentos até aquela idade, em que já não era possível ocultar os batimentos acelerados e a maçã rubra das faces quando o assunto das garotas adentrava o sexo oposto. Julgava usufruir de uma vida muito mais confinada do que a das amigas, e mais recatada do que o necessário. Mas não ousava afrontar o pai. Não se sabe ao certo se planejava algo, se nutria rancor pela educação severa que recebia, porém tudo indica que o respeito que demonstrava pelo Sr. Williams não devia ser dissimulação. Acontece que toda santa alma um dia se cansa…

Há meses Monica observava, de longe e sem ser notada por nenhum dos colegas, um bando de alunos da série superior. Populares entre a juventude e malvistos pelos professores, constituíam seis ou sete bolsistas da região pobre da cidade. Não provinham de família abastada, mas freqüentavam a mesma escola da filha de Henry Williams. Este, dono de tecelagens por todo o país e bem-informado pelas amizades e pelos jornais, sabia da política acolhedora da instituição de ensino, e espumava de raiva a cada lembrete do tipo de gente que podia sentar-se às carteiras adjacentes à de seu tesourinho.

Talvez se inclinasse a lutar no parlamento por mudanças na aceitação de estudantes pobres, mas adiava a iniciativa, combinando com o advogado os argumentos perfeitos para a sessão plenária (onde pisava quando bem entendesse), além de aguardar que um célebre comerciante, conhecido seu, assumisse a cátedra de diretor, no rodízio previsto pelo regimento da escola, em apenas dois meses. Poder-se-ia dizer que o inconveniente de misturar a rebenta com uns pobretões da zona operária de Wolfstation não era de trato urgente. Enquanto isso, fazia vistas grossas até mesmo às filhotas dos outros industriais, a inculcar em Monica a idéia de comprar novos vestidinhos, tomara-que-caias, que deixavam as rapariguinhas de ombros escandalosamente desnudos, ou saiões com cortes indecentes.¹ Considerava as filhas dos outros capitalistas putas de luxo, sem exceção.

¹ A tomara-que-caia é “invenção” do século XX, mas esse conto se dispensa da obrigatoriedade de fugir de anacronismos.

Monica decidiu que se aproximaria dos bolsistas na festa do baile. Sabia que, quando muito, um ou dois valeriam a pena; os outros seriam grosseiros por saberem quem ela era – se tem uma coisa por que os sem-dinheiro zelam é o velho orgulho de classe. Não disfarçar antipatias. Não alimentar falsas esperanças de “subir na vida se casando com uma princesa ao invés de uma plebéia”. Não quando seria de cortar o coração de tão humilhante, e aquele Sr. Henry não era o tipo de pai que deixaria barato em uma entrevista eliminatória. Quando se estuda em escolas assim, além do mais, seria muito mais gratificante descontar essa frustração de berço cuspindo no chão e apontando o dedo para ricaças insinuantes.

A princesa penetra da história já desconfiava do gênio desses rapazes. Mas é provável que a cólera direcionada aos burgueses não fosse uniforme. Um ou dois poderiam pensar diferente, no íntimo. E estava cada vez mais complicado para uma loira vistosa e enfeitada de jóias hipnotizantes ao longo do pescoço, dos pulsos, das orelhas e dos dedos, quando não incrustadas nos vestidos, enfim, para uma baronesa com corpo de sereia, lidar com esses novos impulsos: a necessidade de amigos descolados das tradições, o instinto de buscar o diferente, o exótico, o rebelde. Todos têm a idade desse despertar. Ao mesmo tempo, continuar fiel às amigas. E, para isso, deveria ter alguma proeza para contar. Era a mais inexperiente do grupo, e já gerava risitos incontidos nos falatórios no departamento “homens”. Não tinha opinião formada sobre casamento, sobre o melhor estágio da vida para descobrir o marido ou o grau de liberdade que deve ser tolerado entre casais não-reconhecidos pela Igreja. Tudo veio rápido demais para essa moça. Monica quis apenas se auto-afirmar em seu grupo de amigas, não que isso implicasse em ser uma Williams maculada.

Foi no baile que, surpreendentemente, Monica, sem tomar nenhuma iniciativa, foi cortejada pelos famosos bolsistas da Wolfstation Noble School. Do mesmo jeito que costumava ser, debaixo das vistas da própria mãe, só que agora num amplo salão sem obrigações de sangue a interferir. Sorriu muito com o mais alto, aparentemente o “líder”. Respondeu todas as perguntas com inocência e temeu fazer alguma. Confirmou que era filha de Henry Williams, o famoso cidadão freqüentador número 1 do único banco da cidadezinha. Sabe-se lá o que vai fazer duas vezes por dia, religiosamente, às catorze e às dezoito horas, sempre demorando quinze minutos do lado de dentro. Assentiu também às suspeitas de que o pai era dono inclusive de termelétricas e exploradoras de carvão em Northsville, a cidade mais próxima de Wolfstation. E que aqui ele ainda era dono de uma companhia de bondes, mas adorava seus passeios de charrete. Possuía um cocheiro, três cavalos de elite e um carro pintado de ouro. Se era a tinta ou se era ouro de verdade, sobre isso não especulou. Dúvidas tão tolas as daqueles rapazes. E eles aparentavam segurança e auto-domínio quando conversavam longe de seus ouvidos, no gramado. Pessoalmente, não passavam de molecotes. Havia entre eles uma mulher, que Monica não tardou em julgar ser uma prostituta literal. Tinha aquela pinta perto dos lábios que rapidamente se associa à profissional mais antiga do mundo. E aquele sorriso de canto de boca, naquela noite de gala com um decote que fazia os gorilas do sexo oposto arfarem.

* * *

Dois dias depois de ter trajado aquele vestido vermelho de brilhantes e aquela tiara da mesma cor, com sapatos pontiagudos e de salto, além de uma pesada maquiagem, Monica e Edward, o rapaz alto do bando, já trocavam juras intensas de amor. Um amor infantil, diga-se. Nem mesmo se beijavam, só davam-se as mãos, cruzavam os braços ao caminhar, mal se tocavam. Ela já se sentia à vontade entre os bolsistas, no horário das classes. Ou melhor, nos intervalos, uma vez que as regras da distinta instituição eram rígidas e Monica tinha medo de que as fofocas viajassem alguns quilômetros até o escritório do pai.

A Sra. Williams, dotada daquele clássico sexto sentido feminino e materno, esperava a melhor ocasião para abordar a filha. Não perguntaria: “Está se encontrando com um homem às escondidas?”, mas “Qual o nome dele?”. Justo numa tardinha, quando ambas silenciavam na sala e a mãe tricotava ensaiando o discurso na cabeça, uma carruagem deu sinal à janela. Segundo consta, era o criado de Henry, dizendo que Monica devia seguir com ele até onde estava o pai. “Uma conversa no meio do expediente?”, pensou a madame. Mas se tranqüilizou ao se dar conta de que o pai também notava os pormenores da agitada vida da filha: “Vá, vá conversar com ele!”.

Era de fato o criado, mas no banco de trás estava Edward. Ele havia pagado duas libras para que o condutor enganasse a dona da mansão. Capataz muito confiável, sucumbiu à pomposa gorjeta. É um valor que um bolsista duvidosamente poderia desperdiçar pelos cantos. Monica se sentiu divina com este regalo apaixonado. Ambos foram deixados a sós em um parque, o mais espesso da região. Brincaram, rolaram pelo gramado, se enroscaram pelos troncos. E aí Monica percebeu que toda a sua etiqueta não seria suficiente contra pulsões tão selvagens. Pediu, quase tremendo, de excitação, não de pavor, que só continuasse enquanto ela consentisse. O rapaz balançou a cabeça verticalmente. Ambos se embrenharam nas matas mais altas e no canto mais afastado daquele passeio verde, e Monica tentou fazer silêncio. Quando a afoiteza de Edward já era evidente, aliás, o único que se podia notar nele, ela pediu para seu namorado parar. O garotão não podia se conter diante daquela beleza loira tão frágil e agora corrompida. O sangue, o suor, a água da garoa que caía, tudo se juntou com outro fluido. Como nas garras de alguém com quem não se pode comunicar, Monica apenas rangia os dentes, paralisada pela dor do arrependimento e da genitália azarada. Tudo estava turvo demais para reações precisas como aquelas da polida sala-de-estar de antigamente, e ela sequer soube em qual segundo as coisas tinham passado de uma brincadeira entre dois inconseqüentes para uma outra coisa, uma violação; em que momento ela própria se converteu de aventureira intrépida em vítima de estupro.

Edward a largou de bruços, esgotada, e se retirou, como se nada tivesse acontecido. Depois daquele encontro voraz, Monica regressou a pé para casa, de saltos quebrados nas mãos, trancou-se no quarto durante três dias e só aceitou duas visitas: a mãe e a criada que trazia a comida, ainda que quase não a tocasse. A par do que talvez tivesse ocorrido, desconhecendo contudo os detalhes mais ásperos, a Sra. Williams apenas consolava a filha: “Há homens que não revelam sua natureza lupina logo ao segundo encontro”. O senhor e a senhora da casa julgavam ser uma fatalidade natural, o primeiro desengano amoroso de uma garotinha, e se aliviaram por saber que a preocupação com os desordeiros do colégio e as precipitações de Monica não iriam se repetir, resolvidas ambas de uma cajadada.

O que os amigos de papai iriam dizer?”, foi a frase fixa, o fluxo neurótico que latejava na má-consciência daquela adolescente em prantos e frangalhos. Mas a experiência não fôra tão traumática, a ponto de no quarto dia o bom humor ter instantaneamente se restabelecido. Na escola, pôs as conversas com as antigas amigas, com quem rompera brevemente, em dia, chegando a uma concordata. Não contou nada a ninguém sobre “o bosque”. Na saída, Edward apareceu. Monica se limitou a fitá-lo com uma extraordinária repulsa, curvando-se em meia-circunferência, ainda abalada. Foi agarrada pelo braço esquerdo. Mas quando virou o oleoso pescoço, banhado em suor frio, não era o rosto do rapagote canalha, aquele arquétipo de Don Juan com requintes de maníaco, aquele que enxergou. Era um de seus comparsas, que defendeu o parceiro Eward: “Olha, ele achava que você era um tipo mais arrojado de garota. Ele chorou no meu ombro, disse que confundiu tudo, pensou que sua aflição fazia parte daquele momento de quebra de regras, da nova vida aflorando, de não ser mais uma menininha do papai…”. Uma bofetada na cara seria a reação mais natural, mas Monica apenas baixou ainda mais o rosto, constrangida.

* * *

Passaram-se mais duas semanas sem que ela dirigisse palavra àquela turma. Um dia antes do recesso de fim de ano, decidiu finalmente endereçar uma mensagem a Edward, ao vê-lo desacompanhado. Entregou-lhe um bilhete: “Encaminhe-se ao mesmo local do nosso primeiro encontro. Eu, Monica Williams, por ter sido manchada em meu sangue azul, dou-lhe uma segunda chance, com o ônus de que seja meu pelo resto da eternidade. Contei a meu pai sobre você.” As extremidades do corpo de Edward gelaram. Pensava vertiginosamente em todo o conteúdo do bilhete. Queria saber o que era contar ao pai sobre si, a que nível de profundidade o relato chegara. E conjeturava – se aquilo era mesmo uma proposta de casamento, quão rude não havia sido! Porém, como se esperasse por um acontecimento não muito diferente desse, pôs-se mais uma vez sereno, ajeitou a gola da camisa, pigarreou, socou uma mão na outra, suspirou, relaxou as costas e começou a andar em velocidade até uma casa, de propriedade anônima. Telefonou para a mansão Williams e disse: “Banco Wolfstation. Por favor, transmita o recado. O Sr. Williams precisa falar com o gerente de saldos, ele estará presente apenas às dezoito horas”. Era meio-dia e ele teria tempo para agir.

No reencontro, nenhum movimento suspeito, ainda que num certo breu das árvores. Pelo contrário, rumaram para a casa de Edward, onde a mãe os recebeu com pães de queijo e tagarelices amistosas. No correr da modesta reunião, mudança de planos: “Vamos nos reunir todos, os bolsistas do décimo ano, na casa de Mike”. Lá, um sobrado cinzento, a campainha tocou três vezes até que um risonho Mike desse as caras. Um teto a quatro metros de altura dos convivas, escadas em espiral, sofás fedendo a mofo. Um sítio suntuoso, embora semi-abandonado.

Onde estão os outros? – perguntou Monica.

Não haverá outros. Você está em cativeiro.

Alguém veio por trás e abafou-lhe o grito agudo com um saco grosso de algodão, que agora encobria toda sua cabeça. Monica foi levada para o sótão.

Enquanto isso, a garota soube que seu pai seria conduzido a uma cilada. O mais velho do grupo, ainda um rapaz, entretanto mais robusto e barbudo o suficiente para se passar por um respeitável representante bancário, interceptou o Sr. Williams antes que ele pisasse no banco, pelo fim da tarde. Passeavam pela cidade a quatro rodas enquanto conversavam, mas Henry percebia o tom abstrato do “sermão matemático”.

Conte-me de uma vez, furtaram o meu cofre? E onde está o Sr. Phillips?

Não, mas iremos… – respondeu o adolescente parrudo, ignorando por completo a segunda pergunta, sobre o real gerente do banco.

Henry Williams nunca havia levado um tiro. Ao ler romances e estórias de detetive sempre se indagava como seria a dor da bala perfurando a pele e a carne após disparo à queima-roupa. Era um ardor ou trauma semelhante a uma mordida brutal. A mordida de um urso, por exemplo. Foi na tíbia direita, pouco acima do osso do tornozelo. A perna inteira parecia ter sido tragada por uma fogueira. Mas fogueiras não fazem sangrar. O vermelho que grassava e se espalhava agora pelo chão da carroça mudou também o tom da dor, agora um repuxar insuportável dos músculos. O atirador puxou o homem pela camisa, imperativo: “Estamos com sua filha; se quiser que os jornais de amanhã contem o que está acontecendo na casa onde ela está, senhor industrial, não faça nada, e nos mande pra cadeia, inclusive. Não vai nos matar porque somos muitos”. “Tu…do bem.” E prosseguiu: “Nós queremos que na sua próxima visita ao banco peça ao gerente, o gerente de verdade, que aumente seu limite de transferências e deposite o lucro do ano anterior da sua tecelagem Wearing Co., que eu conheço pelas notas da imprensa, nestas quinze contas. Vai dizer que essa bala partiu de um ex-cliente furioso que não pôde identificar e que está fazendo isso para sua segurança legítima, pela integridade de seus bens e de seus familiares”. Depositou então um papelote no bolso do sobretudo daquele grisalho outrora imponente. “Não vai perguntar sobre sua filhinha, não é mesmo?… O que importa é… Bem, ela lhe será entregue assim que confirmarmos as transferências; esteja neste mesmo lugar.” Chutou-o para fora da charrete de ouro: “Esteja aqui, não chame a polícia! Nós temos tudo que a força da guarda desta cidade não tem!”. E não era mero blefe. O Sr. Williams mal se mexeu por duas horas, reclinado sobre um tronco, recusando até mesmo a assistência vespertina de uns andrajosos que passavam por perto. Até que percebeu que, pelos dizeres do malfeitor, deveria caminhar de contínuo até o banco, não longe dali, ferido como estava, para realizar o protocolo. Estava atrasado, atrasaria ao todo em mais de meia hora em relação ao combinado. Os cuidados médicos poderiam esperar.

Em torno de oito e meia da noite, com a conta da Wearing esvaziada e o referendo da matriz do banco em Londres (a soma era vultosa), chegava àquela clareira do parque público o reluzente carro do próprio Henry Williams em que um tiro havia soado, dessa vez com três capangas e Monica, toda encolhida. A filha parecia feliz e aliviada ao ver seu progenitor. Abraçaram-se, e ele perguntou:

Aconteceu alguma coisa?

Nada, papai… Claro que não houve nada!…

[ARQUIVO] PSICÓLOGO OU PSIQUIATRA? A REDENÇÃO

Postado originalmente em 30 de julho de 2009

Curar a dor: a promessa do século XXI. Uma conversa semanal ou uma, duas, três caixas de um remédio tarja preta solucionarão, dissolverão, as contendas familiares? Talvez para reafirmá-las em sua própria cabeça, o que deveria estar feito desde o início. Uma atividade capitalista, e nada mais. Mesmo as pessoas que se perdem estão apenas obedecendo à própria bússola. O que há de mais elevado que a Arte? Para ensinar o doutor Freud a me analisar melhor eu simplesmente pediria que acessasse meu blog, onde todo o trabalho já está feito. Paciência se só não tive tempo ou disposição para organizar tudo, pôr um índice!¹ O que vale é esta soberba, este momento. Estar no controle, no meio de mil vendavais.

¹ [P.S. 2024] Megalomania à parte, é ao que estou dedicado nesta “segunda metade da vida”, principalmente! Segunda metade não no sentido aritmético, de quem terá apenas 42 anos de vida, mas “ocaso e maturidade da carreira de escritor”, selecionando e lapidando seu passado para publicação, enquanto continua a ventilar idéias e colocá-las no papel, com algo menos de ambição, mas visão mais extensa e aberta.

Ameaçado de desalojamento. Produto da imaginação ou vontade íntima, visceral? Sob constante perigo de blecaute. Mundo dos cegos – e dos surdos. Sinestesia, regresso à infância. Anthropological blues sem blues. Nunca ouvi falar de Narciso ter um pai… Mas não tenho um lago em casa.

A falta de amigos e a estrutura da cidade – mazelas que sugam para o bueiro. O mais confiável dos trouxas não passa de um trocista, invejoso mal-disfarçado. O que ninguém pode eliminar é que vivi e fiz o que fiz. O que fibras óticas tentam evitar – a contra-mão da conformidade! – é o que elas são obrigadas a veicular. Horas vazias pensando se bebe. O ato é mágico e relampejante. Depois, se remoer. Trair o melhor amigo, fundir-se com a pseudo-amada. Mais 5 minutos e ela teria cedido aos meus encantos. Terapia, ah sim, psicoterapia! Acho que errei duas das letras…¹

¹ [P.S. 2024] Eu não estava preparado para uma vida como paciente psicoterapêutico, como agora.

Vamos lá, desaparecedores de dilemas em pacote! Exterminadores de um futuro, para mais além de 1992. Mil continuações. Imagine-se um desbotado: descerebrado, narcoléptico, sem irmão nem pai. Um asco. Sem emoções, sem idéias, sem sangue, sem escrita, sem criação, sem razão.

Enquanto houver caneta, tinta no refil, papel branco ou marrom ao alcance das trêmulas mãos… O pão será comprado. O diabo exorcizado. E ninguém pisará no que não deve acidentalmente.

Amigos, muy amigos. Estes urubus-abelhas. Lágrimas de adoçante.

Silêncio no tribunal da inquisição esquizofrênico do desafortunado sujeito que foi criado no salão impenetrável de uma muralha oca!¹

¹ [P.S. 2024] A inspiração desse período foi o clipe The Trial do Pink Floyd, em que uma muralha que se dobra sobre si mesma é representada: é como se o indivíduo se encontrasse preso dentro de um torreão medieval, muito pior que confinado por uma muralha numa só direção.

Bolhas no pé ou no corpo-inteiro – nenhuma é eterna, nenhuma cicatriza…

O ALIENISTA – Machado de Assis

As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia.”

Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas,—únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.

D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência,—explicável, mas inqualificável,—devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes.

Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção,—o recanto psíquico, o exame de patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de ‘louros imarcescíveis’, — expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.

A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico.

Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boticário da vila, e um dos seus amigos e comensais.

A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é argüida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua. Simão Bacamarte entendeu desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença à Câmara para agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí, e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio, que a Câmara lhe daria quando a família do enfermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se desarraigam hábitos absurdos, ou ainda maus. A idéia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma sintoma de demência e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico.

Olhe, D. Evarista, disse-lhe o Padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo.

D. Evarista ficou aterrada. Foi ter com o marido, disse-lhe ‘que estava com desejos’, um principalmente, o de vir ao Rio de Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a intenção da esposa e redargüiu-lhe sorrindo que não tivesse medo.”

A matéria do imposto não foi fácil achá-la; tudo estava tributado em Itaguaí. Depois de longos estudos, assentou-se em permitir o uso de dois penachos nos cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche mortuário pagaria dois tostões à Câmara, repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da última bênção na sepultura. O escrivão perdeu-se nos cálculos aritméticos do rendimento possível da nova taxa; e um dos vereadores, que não acreditava na empresa do médico, pediu que se relevasse o escrivão de um trabalho inútil.”

Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo; tinha cinqüenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A idéia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude aliás pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente.

A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí. (…) D. Evarista, contentíssima com a glória do marido, vestiu-se luxuosamente, cobriu-se de jóias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira rainha naqueles dias memoráveis; ninguém deixou de ir visitá-la duas e três vezes, apesar dos costumes caseiros e recatados do século, e não só a cortejavam como a louvavam; porquanto,—e este fato é um documento altamente honroso para a sociedade do tempo, —porquanto viam nela a feliz esposa de um alto espírito, de um varão ilustre, e, se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores. § Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí, tinha finalmente uma casa de orates.”¹

¹ Casa em que “se poderia falar com deus”.

De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de 4 meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais 37. O Padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! um rapaz que ele vira, 3 meses antes, jogando peteca na rua!”

Não falo dos casos de monomania religiosa; apenas citarei um sujeito que, chamando-se João de Deus, dizia agora ser o deus João, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros; e depois desse, o licenciado Garcia, que não dizia nada, porque imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma só palavra, todas as estrelas se despegariam do céu e abrasariam a terra; tal era o poder que recebera de Deus.”

Ilustre dama, no fim de dois meses, achou-se a mais desgraçada das mulheres: caiu em profunda melancolia, ficou amarela, magra, comia pouco e suspirava a cada canto. Não ousava fazer-lhe nenhuma queixa ou reproche, porque respeitava nele o seu marido e senhor, mas padecia calada, e definhava a olhos vistos.”

Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros, o alienista fitava-a, e dizia-lhe ao ouvido com a mais pérfida das alusões:

Quem diria que meia dúzia de lunáticos…

D. Evarista compreendeu, sorriu e respondeu com muita resignação:

Deus sabe o que faz!”

Conquanto as lágrimas de D. Evarista fossem abundantes e sinceras, não chegaram a abalá-lo. Homem de ciência, e só de ciência, nada o consternava fora da ciência; e se alguma coisa o preocupava naquela ocasião, se ele deixava correr pela multidão um olhar inquieto e policial, não era outra coisa mais do que a idéia de que algum demente podia achar-se ali misturado com a gente de juízo.”

A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”

Assim, apontou com especialidade alguns personagens célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula, etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e até acrescentou sentenciosamente:

A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.”

Naquele tempo, Itaguaí, que, como as demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma notícia; ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e da matriz;—ou por meio de matraca.

Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.”

De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam,—um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano, etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, um dos vereadores,—aquele justamente que mais se opusera à criação da Casa Verde,—desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema.”

Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca?

Sobre o lábio fino e discreto do alienista rogou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas.

Quatro dias depois, a população de Itaguaí ouviu consternada a notícia de que um certo Costa fora recolhido à Casa Verde.

Impossível!

Qual impossível! foi recolhido hoje de manhã.

Mas, na verdade, ele não merecia… Ainda em cima! depois de tanto que

ele fez…

Costa era um dos cidadãos mais estimados de Itaguaí, Herdara 400 mil cruzados em boa moeda de El-rei Dom João V, dinheiro cuja renda bastava, segundo lhe declarou o tio no testamento, para viver ‘até o fim do mundo’. Tão depressa recolheu a herança, como entrou a dividi-la em empréstimos, sem usura, mil cruzados a um, 2 mil a outro, 300 a este, 800 àquele, a tal ponto que, no fim de 5 anos, estava sem nada. Se a miséria viesse de chofre, o pasmo de Itaguaí seria enorme; mas veio devagar; ele foi passando da opulência à abastança, da abastança à mediania, da mediania à pobreza, da pobreza à miséria, gradualmente.”

Um dia, como um desses incuráveis devedores lhe atirasse uma chalaça grossa, e ele se risse dela, observou um desafeiçoado, com certa perfídia: —Você suporta esse sujeito para ver se ele lhe paga.

Costa não se deteve um minuto, foi ao devedor e perdoou-lhe a divida.

Não admira, retorquiu o outro; o Costa abriu mão de uma estrela, que está no céu.”

Ninguém queria acabar de crer, que, sem motivo, sem inimizade, o alienista trancasse na Casa Verde uma senhora perfeitamente ajuizada, que não tinha outro crime senão o de interceder por um infeliz.”

Crispim Soares derretia-se todo. Esse interrogar da gente inquieta e curiosa, dos amigos atônitos, era para ele uma consagração pública. Não havia duvidar; toda a povoação sabia enfim que o privado do alienista era ele, Crispim, o boticário, o colaborador do grande homem e das grandes coisas; daí a corrida à botica. Tudo isso dizia o carão jucundo e o riso discreto do boticário, o riso e o silêncio, porque ele não respondia nada; um, dois, três monossílabos, quando muito, soltos, secos, encapados no fiel sorriso constante e miúdo, cheio de mistérios científicos, que ele não podia, sem desdouro nem perigo, desvendar a nenhuma pessoa humana.

Há coisa, pensavam os mais desconfiados.”

A Casa Verde é um cárcere privado, disse um médico sem clínica.

Nunca uma opinião pegou e grassou tão rapidamente. Cárcere privado: eis o que se repetia de norte a sul e de leste a oeste de Itaguaí,—a medo, é verdade, porque durante a semana que se seguiu à captura do pobre Mateus, vinte e tantas pessoas,—duas ou três de consideração,—foram recolhidas à Casa Verde.

Sucediam-se as versões populares. Vingança, cobiça de dinheiro, castigo de Deus, monomania do próprio médico, plano secreto do Rio de Janeiro com o fim de destruir em Itaguaí qualquer gérmen de prosperidade que viesse a brotar, arvorecer, florir, com desdouro e míngua daquela cidade, mil outras explicações, que não explicavam nada, tal era o produto diário da imaginação pública.”

O momento em que D. Evarista pôs os olhos na pessoa do marido é considerado pelos cronistas do tempo como um dos mais sublimes da história moral dos homens, e isto pelo contraste das duas naturezas, ambas extremas, ambas egrégias. D. Evarista soltou um grito,—balbuciou uma palavra e atirou-se ao consorte—de um gesto que não se pode melhor definir do que comparando-o a uma mistura de onça e rola. Não assim o ilustre Bacamarte; frio como diagnóstico, sem desengonçar por um instante a rigidez científica, estendeu os braços à dona que caiu neles e desmaiou. Curto incidente; ao cabo de dois minutos D. Evarista recebia os cumprimentos dos amigos e o préstito punha-se em marcha.”

Ela era a esposa do novo Hipócrates, a musa da ciência, anjo, divina, aurora, caridade, vida, consolação; trazia nos olhos duas estrelas segundo a versão modesta de Crispim Soares e dois sóis no conceito de um vereador. O alienista ouvia essas coisas um tanto enfastiado, mas sem visível impaciência. Quando muito, dizia ao ouvido da mulher que a retórica permitia tais arrojos sem significação. (…) Um dos oradores, por exemplo, Martim Brito, rapaz de 25 anos, pintalegrete acabado, curtido de namoros e aventuras, declamou um discurso em que o nascimento de D. Evarista era explicado pelo mais singular dos reptos. Deus, disse ele, depois de dar o universo ao homem e à mulher, esse diamante e essa pérola da coroa divina (e o orador arrastava triunfalmente esta frase de uma ponta a outra da mesa), Deus quis vencer a Deus, e criou D. Evarista.”

Verdade é que, se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo? Esta idéia fê-la tremer outra vez, embora menos; menos, porque o alienista sorria agora para o Martim Brito e, levantados todos, foi ter com ele e falou-lhe do discurso.”

D. Evarista ficou estupefata quando soube, três dias depois, que o Martim Brito fora alojado na Casa Verde. Um moço que tinha idéias tão bonitas! As duas senhoras atribuíram o ato a ciúmes do alienista. Não podia ser outra coisa; realmente, a declaração do moço fora audaciosa demais.”

Positivamente o terror. Quem podia emigrava. Um desses fugitivos chegou a ser preso a 200 passos da vila. Era um rapaz de 30 anos, amável, conversado, polido, tão polido que não cumprimentava alguém sem levar o chapéu ao chão; na rua, acontecia-lhe correr uma distância de 10 a 20 braças para ir apertar a mão a um homem grave, a uma senhora, às vezes a um menino, como acontecera ao filho do juiz de fora.” “Pois o Gil Bernardes, apesar de se saber estimado, teve medo quando lhe disseram um dia que o alienista o trazia de olho; na madrugada seguinte fugiu da vila, mas foi logo apanhado e conduzido à Casa Verde.”

note-se que o Porfírio, desde que a Casa Verde começara a povoar-se tão extraordinariamente, viu crescerem-lhe os lucros pela aplicação assídua de sanguessugas que dali lhe pediam; mas o interesse particular, dizia ele, deve ceder ao interesse público. E acrescentava:—é preciso derrubar o tirano! Note-se mais que ele soltou esse grito justamente no dia em que Simão Bacamarte fizera recolher à Casa Verde um homem que trazia com ele uma demanda, o Coelho.”

É falso! interrompeu o presidente.

Falso?

Há cerca de duas semanas recebemos um ofício do ilustre médico em que nos declara que, tratando de fazer experiências de alto valor psicológico, desiste do estipêndio votado pela Câmara, bem como nada receberá das famílias dos enfermos.

Para acrescentar ao mal um dos vereadores que apoiara o presidente ouvindo agora a denominação dada pelo barbeiro à Casa Verde—‘Bastilha da razão humana’—achou-a tão elegante que mudou de parecer.”

Já não eram 30 mas 300 pessoas que acompanhavam o barbeiro, cuja alcunha familiar deve ser mencionada, porque ela deu o nome à revolta; chamavam-lhe o Canjica—e o movimento ficou célebre com o nome de revolta dos Canjicas.” Ora, se o Professor José não faz uma equivalência muito falsa ao chamar os bolsolóides de canjicas…

e os trezentos que caminhavam para a Casa Verde,—dada a diferença de Paris a Itaguaí,—podiam ser comparados aos que tomaram a Bastilha.” Incendiaram alguma carruagem, pelo menos?

Não é patuscada, não, senhora; eles estão gritando: — Morra o Dr. Bacamarte!!! o tirano! dizia o moleque assustado.

Cala a boca, tolo! Benedita, olha aí do lado esquerdo; não parece que a costura está um pouco enviesada? A risca azul não segue até abaixo; está muito feio assim; é preciso descoser para ficar igualzinho e…

Morra o Dr. Bacamarte!!! morra o tirano! uivaram fora trezentas vozes. Era a rebelião que desembocava na Rua Nova.

D. Evarista, se não resistia facilmente às comoções de prazer, sabia entestar com os momentos de perigo. Não desmaiou; correu à sala interior onde o marido estudava. Quando ela ali entrou, precipitada, o ilustre médico escrutava um texto de Averróis; os olhos dele, empanados pela cogitação, subiam do livro ao reto e baixavam do reto ao livro, cegos para a realidade exterior, videntes para os profundos trabalhos mentais.”

Levantou-se da cadeira de espaldar em que estava sentado, fechou o livro, e, a passo firme e tranqüilo, foi depositá-lo na estante. Como a introdução do volume desconsertasse um pouco a linha dos dois tomos contíguos, Simão Bacamarte cuidou de corrigir esse defeito mínimo, e, aliás, interessante. Depois disse à mulher que se recolhesse, que não fizesse nada.”

O alienista sorriu, mas o sorriso desse grande homem não era coisa visível aos olhos da multidão; era uma contração leve de dois ou três músculos, nada mais.”

Foi nesse momento decisivo que o barbeiro sentiu despontar em si a ambição do governo; pareceu-lhe então que, demolindo a Casa Verde e derrocando a influência do alienista, chegaria a apoderar-se da Câmara, dominar as demais autoridades e constituir-se senhor de Itaguaí.”

Infelizmente a resposta do alienista diminuíra o furor dos sequazes.” Também absolutamente incompatível com qualquer paralelo que se faça com os neofascistas amarelos.

Nada mais imprudente do que essa resposta do barbeiro; e nada mais natural. Era a vertigem das grandes crises. Talvez fosse também um excesso de confiança na abstenção das armas por parte dos dragões; confiança que o capitão dissipou logo, mandando carregar sobre os Canjicas. O momento foi indescritível.” Outra situação sem qualquer paralelo político contemporâneo.

A derrota dos Canjicas estava iminente quando um terço dos dragões,—qualquer que fosse o motivo, as crônicas não o declaram,—passou subitamente para o lado da rebelião. Este inesperado reforço deu alma aos Canjicas, ao mesmo tempo que lançou o desanimo às fileiras da legalidade. Os soldados fiéis não tiveram coragem de atacar os seus próprios camaradas, e um a um foram passando para eles, de modo que, ao cabo de alguns minutos, o aspecto das coisas era totalmente outro. O capitão estava de um lado com alguma gente contra uma massa compacta que o ameaçava de morre. Não teve remédio, declarou-se vencido e entregou a espada ao barbeiro.”

Toda a gente advertiu no absoluto silêncio desta proclamação acerca da Casa Verde; e, segundo uns, não podia haver mais vivo indício dos projetos tenebrosos do barbeiro. O perigo era tanto maior quanto que, no meio mesmo desses graves sucessos, o alienista metera na Casa Verde umas 7 ou 8 pessoas, entre elas duas senhoras e sendo um dos homens aparentado com o Protetor.” Agora sim: o verdadeiro rapace-marajá que hipnotiza gado nas horas vagas (e ele tem horas vagas!) bem-caracterizado!

Machado não faz boas transições em sua estória um tanto corrida, e seu estilo é cru, conjugando mal os verbos, como aqui: “O barbeiro faz expedir um ato declarando feriado aquele dia, e entabulou negociações com o vigário para a celebração de um Te-Deum, tão conveniente era aos olhos dele a conjunção do poder temporal com o espiritual; mas o Padre Lopes recusou abertamente o seu concurso.” Incensado além da conta, não era o melhor de sua geração.

a tortura moral do boticário naqueles dias de revolução excede a toda a descrição possível. Nunca um homem se achou em mais apertado lance:—a privança do alienista chamava-o ao lado deste, a vitória do barbeiro atraía-o ao barbeiro. Já a simples noticia da sublevação tinha-lhe sacudido fortemente a alma, porque ele sabia a unanimidade do ódio ao alienista; mas a vitória final foi também o golpe final.”

Engana-se Vossa Senhoria, disse o barbeiro depois de alguma pausa, engana-se em atribuir ao governo intenções vandálicas. Com razão ou sem ela, a opinião crê que a maior parte dos doidos ali metidos estão em seu perfeito juízo, mas o governo reconhece que a questão é puramente científica e não cogita em resolver com posturas as questões científicas.. Demais, a Casa Verde é uma instituição pública; tal a aceitamos das mãos da Câmara dissolvida. Há entretanto—por força que há de haver um alvitre intermédio que restitua o sossego ao espírito público.

A generosa revolução que ontem derrubou uma Câmara vilipendiada e corrupta, pediu em altos brados o arrasamento da Casa Verde; mas pode entrar no ânimo do governo eliminar a loucura? Não. E se o governo não a pode eliminar, está ao menos apto para discriminá-la, reconhecê-la? Também não; é matéria de ciência.”

Onze mortos e vinte e cinco feridos, repetiu o alienista depois de acompanhar o barbeiro até a porta. Eis aí dois lindos casos de doença cerebral. Os sintomas de duplicidade e descaramento deste barbeiro são positivos. Quanto à toleima dos que o aclamaram, não é preciso outra prova além dos onze mortos e vinte e cinco feridos.—Dois lindos casos!

Só vos recomendo ordem. E ordem, meus amigos, é a base do governo…

Viva o ilustre Porfírio bradaram as trinta vozes, agitando os chapéus.

Dois lindos casos! murmurou o alienista.”

Dentro de cinco dias, o alienista meteu na Casa Verde cerca de 50 aclamadores do novo governo. O povo indignou-se. O governo, atarantado, não sabia reagir. João Pina, outro barbeiro, dizia abertamente nas ruas, que o Porfírio estava ‘vendido ao ouro de Simão Bacamarte’, frase que congregou em torno de João Pina a gente mais resoluta da vila.”

Duas horas depois caía Porfírio ignominiosamente e João Pina assumia a difícil tarefa do governo!”

Nisto entrou na vila uma força mandada pelo vice-rei e restabeleceu a ordem. O alienista exigiu desde logo a entrega do barbeiro Porfírio e bem assim a de uns 50 e tantos indivíduos que declarou mentecaptos; e não só lhe deram esses como afiançaram entregar-lhe mais 19 sequazes do barbeiro, que convalesciam das feridas apanhadas na primeira rebelião.”

O alienista, desde que lhe falaram da momentânea adesão de Crispim Soares à rebelião dos Canjicas, comparou-a à aprovação que sempre recebera dele ainda na véspera, e mandou capturá-lo. Crispim Soares não negou o fato, mas explicou-o dizendo que cedera a um movimento de terror ao ver a rebelião triunfante, e deu como prova a ausência de nenhum outro aro seu, acrescentando que voltara logo à cama, doente. Simão Bacamarte não o contrariou; disse, porém, aos circunstantes que o terror também é pai da loucura, e que o caso de Crispim Soares lhe parecia dos mais caracterizados.”

Um homem não podia dar nascença ou curso à mais simples mentira do mundo, ainda daquelas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo metido na Casa Verde. Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagramas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almotacé enfunado, ninguém escapava aos emissários do alienista. Ele respeitava as namoradas e não poupava as namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural e as segundas a um vício. Se um homem era avaro ou pródigo, ia do mesmo modo para a Casa Verde; daí a alegação de que não havia regra para a completa sanidade mental. Alguns cronistas crêem que Simão Bacamarte nem sempre procedia com lisura, e citam em abono da afirmação (que não sei se pode ser aceita) o fato de ter alcançado da Câmara uma postura autorizando o uso de um anel de prata no dedo polegar da mão esquerda, a toda a pessoa que, sem outra prova documental ou tradicional, declarasse ter nas veias duas ou três onças de sangue godo. Dizem esses cronistas que o fim secreto da insinuação à Câmara foi enriquecer um ourives amigo e compadre dele; mas, conquanto seja certo que o ourives viu prosperar o negócio depois da nova ordenação municipal, não o é menos que essa postura deu à Casa Verde uma multidão de inquilinos; pelo que, não se pode definir, sem temeridade, o verdadeiro fim do ilustre médico. Quanto à razão determinativa da captura e aposentação na Casa Verde de todos quantos usaram do anel, é um dos pontos mais obscuros da história de Itaguaí; a opinião mais verossímil é que eles foram recolhidos por andarem a gesticular, à loa, nas ruas, em casa, na igreja. Ninguém ignora que os doidos gesticulam muito. Em todo caso, é uma simples conjetura; de positivo, nada há.”

Um dia de manhã—dia em que a Câmara devia dar um grande baile,—a vila inteira ficou abalada com a notícia de que a própria esposa do alienista fora metida na Casa Verde. Ninguém acreditou; devia ser invenção de algum gaiato. E não era: era a verdade pura. D. Evarista fora recolhida às duas horas da noite. O Padre Lopes correu ao alienista e interrogou-o discretamente acerca do fato.

Já há algum tempo que eu desconfiava, disse gravemente o marido. A modéstia com que ela vivera em ambos os matrimônios não podia conciliar-se com o furor das sedas, veludos, rendas e pedras preciosas que manifestou logo que voltou do Rio de Janeiro. Desde então comecei a observá-la. Suas conversas eram todas sobre esses objetos; se eu lhe falava das antigas côrtes, inquiria logo da forma dos vestidos das damas; se uma senhora a visitava na minha ausência, antes de me dizer o objeto da visita, descrevia-me o trajo, aprovando umas coisas e censurando outras.”

Ninguém mais tinha o direito de resistir-lhe—menos ainda o de atribuir-lhe intuitos alheios à ciência. § Era um grande homem austero, Hipócrates forrado de Catão.”

E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que ficou a vila ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos ser postos na rua.

Todos?

Todos.

É impossível; alguns sim, mas todos…

Todos. Assim o disse ele no ofício que mandou hoje de manhã à Câmara.

De fato o alienista oficiara à Câmara expondo: — § 1º: que verificara das estatísticas da vila e da Casa Verde que 4/5 da população estavam aposentados naquele estabelecimento; § 2º que esta deslocação de população levara-o a examinar os fundamentos da sua teoria das moléstias cerebrais, teoria que excluía da razão todos os casos em que o equilíbrio das faculdades não fosse perfeito e absoluto; § 3º que, desse exame e do fato estatístico, resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto, que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto; § 4º que à vista disso declarava à Câmara que ia dar liberdade aos reclusos da Casa Verde e agasalhar nela as pessoas que se achassem nas condições agora expostas; § 5º que, tratando de descobrir a verdade científica, não se pouparia a esforços de toda a natureza, esperando da Câmara igual dedicação; § 6º que restituía à Câmara e aos particulares a soma do estipêndio recebido para alojamento dos supostos loucos, descontada a parte efetivamente gasta com a alimentação, roupa, etc.; o que a Câmara mandaria verificar nos livros e arcas da Casa Verde.”

Não descrevo as festas por não interessarem ao nosso propósito; mas foram esplêndidas, tocantes e prolongadas. E vão assim as coisas humanas! No meio do regozijo produzido pelo ofício de Simão Bacamarte, ninguém advertia na frase final do § 4º, uma frase cheia de experiências futuras.”

O barbeiro Porfírio, ensinado pelos acontecimentos, tendo ‘provado tudo’, como o poeta disse de Napoleão, e mais alguma coisa, porque Napoleão não provou a Casa Verde, o barbeiro achou preferível a glória obscura da navalha e da tesoura às calam idades brilhantes do poder; foi, é certo, processado; mas a população da vila implorou a clemência de Sua Majestade; daí o perdão. João Pina foi absolvido, atendendo-se a que ele derrocara um rebelde. Os cronistas pensam que deste fato é que nasceu o nosso adágio:—ladrão que furta ladrão tem cem anos de perdão;—adágio imoral, é verdade, mas grandemente útil.”

Dizem as crônicas que D. Evarista a princípio tivera idéia de separar-se do consorte, mas a dor de perder a companhia de tão grande homem venceu qualquer ressentimento de amor-próprio e o casal veio a ser ainda mais feliz do que antes.

Não menos íntima ficou a amizade do alienista e do boticário. Este concluiu do ofício de Simão Bacamarte que a prudência é a primeira das virtudes em tempos de revolução e apreciou muito a magnanimidade do alienista, que ao dar-lhe a liberdade estendeu-lhe a mão de amigo velho.”

O próprio Martim Brito, recluso por um discurso em que louvara enfaticamente D. Evarista, fez agora outro em honra do insigne médico—‘cujo altíssimo gênio, elevando as asas muito acima do sol, deixou abaixo de si todos os demais espíritos da terra’.”

O vereador Freitas propôs também a declaração de que, em nenhum caso, fossem os vereadores recolhidos ao asilo dos alienados: cláusula que foi aceita, votada e incluída na postura apesar das reclamações do vereador Galvão. O argumento principal deste magistrado é que a Câmara legislando sobre uma experiência científica, não podia excluir as pessoas dos seus membros das conseqüências da lei; a exceção era odiosa e ridícula. Mal proferira estas duas palavras, romperam os vereadores em altos brados contra a audácia e insensatez do colega; este, porem, ouviu-os e limitou-se a dizer que votava contra a exceção.

Simão Bacamarte aceitou a postura com todas as restrições. Quanto à exclusão dos vereadores, declarou que teria profundo sentimento se fosse compelido a recolhê-los à Casa Verde; a cláusula, porém, era a melhor prova de que eles não padeciam do perfeito equilíbrio das faculdades mentais. Não acontecia o mesmo ao vereador Galvão, cujo acerto na objeção feita, e cuja moderação na resposta dada às invectivas dos colegas mostravam da parte dele um cérebro bem-organizado; pelo que rogava à Câmara que lho entregasse. A Câmara sentindo-se ainda agravada pelo proceder do vereador Galvão, estimou 0 pedido do alienista e votou unanimemente a entrega.”

O Padre Lopes, por exemplo, só foi capturado 30 dias depois da postura, a mulher do boticário 40 dias. A reclusão desta senhora encheu o consorte de indignação. Crispim Soares saiu de casa espumando de cólera e declarando às pessoas a quem encontrava que ia arrancar as orelhas ao tirano. Um sujeito, adversário do alienista, ouvindo na rua essa noticia, esqueceu os motivos de dissidência, e correu à casa de Simão Bacamarte a participar-lhe o perigo que corria. Simão Bacamarte mostrou-se grato ao procedimento do adversário, e poucos minutos lhe bastaram para conhecer a retidão dos seus sentimentos, a boa-fé, o respeito humano, a generosidade; apertou-lhe muito as mãos, e recolheu-o à Casa Verde.”

E, parecendo-lhe vantajoso reuni-los, porque a astúcia e velhacaria do marido poderiam de certo modo curar a beleza moral que ele descobrira na esposa, disse Simão Bacamarte:

O senhor trabalhará durante o dia na botica, mas almoçará e jantará com sua mulher, e cá passará as noites, e os domingos e dias santos.

A proposta colocou o pobre boticário na situação do asno de Buridan. Queria viver com a mulher, mas temia voltar à Casa Verde; e nessa luta esteve algum tempo, até que D. Evarista o tirou da dificuldade, prometendo que se incumbiria de ver a amiga e transmitiria os recados de um para outro. Crispim Soares beijou-lhe as mãos agradecido. Este último rasgo de egoísmo pusilânime pareceu sublime ao alienista.”

Desenganados da legalidade, alguns principais da vila recorreram secretamente ao barbeiro Porfírio e afiançaram-lhe todo o apoio de gente, de dinheiro e influência na corte, se ele se pusesse à testa de outro movimento contra a Câmara e o alienista. O barbeiro respondeu-lhes que não; que a ambição o levara da primeira vez a transgredir as leis, mas que ele se emendara, reconhecendo o erro próprio e a pouca consistência da opinião dos seus mesmos sequazes; que a Câmara entendera autorizar a nova experiência do alienista, por um ano: cumpria, ou esperar o fim do prazo, ou requerer ao vice-rei, caso a mesma Câmara rejeitasse o pedido. Jamais aconselharia o emprego de um recurso que ele viu falhar em suas mãos e isso a troco de mortes e ferimentos que seriam o seu eterno remorso.

O que é que me está dizendo? perguntou o alienista quando um agente secreto lhe contou a conversação do barbeiro com os principais da vila. Dois dias depois o barbeiro era recolhido à Casa Verde.

Preso por ter cão, preso por não ter cão! exclamou o infeliz.”

O desfecho deste episódio da crônica itaguaiense é de tal ordem e tão inesperado, que merecia nada menos de dez capítulos de exposição; mas contento-me com um, que será o remate da narrativa, e um dos mais belos exemplos de convicção científica e abnegação humana.”

Era a vez da terapêutica. Simão Bacamarte, ativo e sagaz em descobrir enfermos, excedeu-se ainda na diligência e penetração com que principiou a tratá-los. Neste ponto todos os cronistas estão de pleno acordo: o ilustre alienista faz curas pasmosas, que excitaram a mais viva admiração em Itaguaí.”

Suponhamos um modesto. Ele aplicava a medicação que pudesse incutir-lhe o sentimento oposto; e não ia logo às doses máximas,—graduava-as, conforme o estado, a idade, o temperamento, a posição social do enfermo. Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado; em outros casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de brilhantes, às distinções honoríficas, etc. Houve um doente poeta que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar da cura, quando teve a idéia de mandar correr matraca para o fim de o apregoar como um rival de Garção e de Píndaro.”

Outro doente, também modesto, opôs a mesma rebeldia à medicação; mas, não sendo escritor (mal sabia assinar o nome), não se lhe podia aplicar o remédio da matraca. Simão Bacamarte lembrou-se de pedir para ele o lugar de secretário da Academia dos Encobertos, estabelecida em Itaguaí. Os lugares de presidente e secretários eram de nomeação régia, por especial graça do finado Rei Dom João V, e implicavam o tratamento de Excelência e o uso de uma placa de ouro no chapéu. O governo de Lisboa recusou o diploma; mas, representando o alienista que o não pedia como prêmio honorífico ou distinção legitima, e somente como um meio terapêutico para um caso difícil, o governo cedeu excepcionalmente à súplica; e ainda assim não o faz sem extraordinário esforço do ministro da marinha e ultramar, que vinha a ser primo do alienado. Foi outro santo remédio.”

Casos houve em que a qualidade predominante resistia a tudo; então o alienista atacava outra parte, aplicando à terapêutica o método da estratégia militar, que toma uma fortaleza por um ponto, se por outro o não pode conseguir.”

No fim de cinco meses e meio estava vazia a Casa Verde; todos curados! O vereador Galvão, tão cruelmente afligido de moderação e eqüidade, teve a felicidade de perder um tio; digo felicidade, porque o tio deixou um testamento ambíguo, e ele obteve uma boa interpretação corrompendo os juízes e embaçando os outros herdeiros. A sinceridade do alienista manifestou-se nesse lance; confessou ingenuamente que não teve parte na cura: foi a simples vis medicatrix da natureza.”

Plus ultra! era a sua divisa. Não lhe bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecido em Itaguaí o reinado da razão. Plus ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado, cogitativo; alguma coisa lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novíssima teoria.”

…a moderação e a singeleza, virtudes tão ajustadas à pessoa de um sábio.”

Mas deveras estariam eles doidos, e foram curados por mim,—ou o que pareceu cura não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro?

A de gozo foi por ver que, ao cabo de longas e pacientes investigações, constantes trabalhos, luta ingente com o povo, podia afirmar esta verdade:—não havia loucos em Itaguaí. Itaguaí não possuía um só mentecapto. Mas tão depressa esta idéia lhe refrescara a alma, outra apareceu que neutralizou o primeiro efeito; foi a idéia da dúvida. Pois quê! Itaguaí. não possuiria um único cérebro concertado? Esta conclusão tão absoluta, não seria por isso mesmo errônea, e não vinha, portanto, destruir o largo e majestoso edifício da nova doutrina psicológica?

A aflição do egrégio Simão Bacamarte é definida pelos cronistas itaguaienses como uma das mais medonhas tempestades morais que têm desabado sobre o homem. Mas as tempestades só aterram os fracos; os fortes enrijam-se contra elas e fitam o trovão.”

Isso é isto. Simão Bacamarte achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral; pareceu-lhe que possuía a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto. Duvidou logo, é certo, e chegou mesmo a concluir que era ilusão; mas, sendo homem prudente, resolveu convocar um conselho de amigos, a quem interrogou com franqueza. A opinião foi afirmativa.

Nenhum defeito?

Nenhum, disse em coro a assembléia.

Nenhum vício?

Nada.

Tudo perfeito?

Tudo.

Não, impossível, bradou o alienista. Digo que não sinto em mim essa

superioridade que acabo de ver definir com tanta magnificência. A simpatia é que vos faz falar. Estudo-me e nada acho que justifique os excessos da vossa bondade.”

Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras:—a modéstia.

Era decisivo. Simão Bacamarte curvou a cabeça juntamente alegre e triste, e ainda mais alegre do que triste. Ato continuo, recolheu-se à Casa Verde. Em vão a mulher e os amigos lhe disseram que ficasse, que estava perfeitamente são e equilibrado: nem rogos nem sugestões nem lágrimas o detiveram um só instante.

Reúno em mim mesmo a teoria e a prática.”

Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a 17 meses no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada. Alguns chegam ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco além dele em Itaguaí, mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde que o alienista expirou, não tem outra prova senão o boato”

Seja como for, efetuou-se o enterro com muita pompa e rara solenidade.”

DICIONÁRIO:

almotacé: atual almotacel: “Oficial municipal encarregado da fiscalização das medidas e dos pesos e da taxação dos preços dos alimentos e de distribuir ou regular a distribuição dos mesmos em tempos de maior escassez”

almude: “é o nome de uma antiga medida de capacidade, correspondente à 12 canadas (VIDE CANADA), ou cerca de 32 litros.” O presidente da Câmara havia pedido 30 almudes de sangue dos Canjicas, o que resultaria em 960L!

O QUE É LOLICON? Debate acadêmico compreensivo e supramoral.

Na cultura pop nipônica, lolicon (ロリコン, em algumas instâncias transliterado lolicom) é um gênero de mídia ficcional em que garotas jovens (ou apenas de aparência jovem) surgem em contextos sexuais ou ao menos românticos. O termo, um portmanteau (contração, fusão) das palavras inglesas “Lolita” e “complexo” (como em “complexo de Édipo” – ironicamente, Vladimir Nabokov, autor de Lolita, odiava a psicanálise; para um conceito de complexo “melhorado” no reino da psicologia, cfr. Jung, Os arquétipos e o inconsciente coletivo). Mas lolicon pode também significar afeto ou desejo, por parte do consumidor, direcionado a personagens com essa característica (ロリ, as lolis), e por extensão ser empregado para designar fãs dos respectivos personagens ou obras que os contemplam.

Associado com formas irrealistas e estilizadas presentes nos mangás, animes e videogames, [conforme abaixo] lolicon na cultura otaku é entendido como diferente da atração por materiais reais vinculados a garotas jovens ou atração direta por garotas jovens (parafilia, pedofilia, efobofilia) (Galbraith 2016, McLelland 2011b, Kittredge 2014). Dessa forma, o conceito de lolicon cruza com o de moe.

POLÊMICA ATRÁS DE POLÊMICA:

SOCIOLOGIA, PSICOLOGIA, SEXOLOGIA, LITERATURA, ECONOMIA, RELIGIÃO, HISTÓRIA JAPONESA E DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA NOS SÉCULOS XX E XXI: Não há esfera que fique de fora da discussão!

O primeiro termo deriva da novela Lolita, vertida pela primeira vez ao japonês na década de 1970, época em que no Japão imagens hoje chamadas “do gênero shōjo” (idealização artística da mulher não-adulta) se expandiam e adquiriam imensa popularidade. Durante o “lolicon boom”, como chamaremos esse período iniciado nos anos 1970 e completamente desenvolvido nos anos 80 (no Japão), a terminologia se sedimentou entre os otakus, querendo dizer atração por bishōjo (idealização artística da mulher não-adulta considerada esteticamente bela – é isso que o prefixo bi- acrescenta à conceituação de shoujo dada acima: a idéia, ademais, de beleza) precoces.

Onde, no shoujo, a idade da “heroína” pode flutuar dos 8 aos 18 anos, aproximadamente, o acréscimo do adjetivo jovem tende a restringir o alvo da atração do leitor a uma faixa etária mais estrita e inferior, flutuando entre os 8 e os 15, genericamente falando, isto é, a pubescência tardia ou a maturidade do desenvolvimento feminino são descartadas, havendo preferência por personagens mais jovens que “colegiais” (equivalentes à idade em que cursariam o ensino médio).

Com o tempo, essa restrição etária, baseada nas preferências dos otakus, foi baixando, isto é, se tornando ainda mais estreitamente intervalada. O alvo da atração ou afeição recuou para uma preferência por representações mais infantis, variando dos 8 aos 12 anos, de forma geral, excluindo-se, agora, as séries finais do ensino fundamental, oitavo e nono ano, antigas sétima e oitava série (para tomar as séries escolares como referência-base). Doze anos era a idade da protagonista da novela de Vladimir Nabokov (idade em que, se espera, conclua-se a sexta série ou sétimo ano).

O artwork comum nesse boom (explosão, em termos midiáticos) foi fortemente influenciado pelo caráter arredondado dos traços dos mangás shōjo já existentes antes do fenômeno (é importante destacar que inicialmente este gênero é/era marqueteado, no Japão, para garotas como leitoras-padrão ou consumidoras finais). Isso significa que na arte destinada aos homens houve um recuo do realismo dos traços para favorecer formas mais “graciosas” e estilizadas, o que por fim é entendido como a aproximação a um conceito de “eroticismo” ou “erotização” fofos (kawaii ero). Nos anos 80 este era um estilo artístico subcultural, porém hoje em dia, em escala global, trata-se de fenômeno mainstream.

Para quem desconhece o histórico do fenômeno, no entanto, pareceria que o lolicon boom seria extinto no fim da década 1980 e não seria exportado do Japão, pois houve um grande arrefecimento do movimento e o que sobrou do subgênero foram alguns poucos mangás de natureza abertamente erótica. O que explica que o fenômeno tenha se revigorado desde então, após um hiato que será discutido mais abaixo, e com receio de tornar-me repetitivo aqui, é que o lolicon boom representava um tempo em que o material era dirigido a garotas jovens e no entanto houve a reapropriação do material pelo público masculino como efeito colateral imprevisto (podemos dizer, então, que duas vezes num período de 20 anos). Quando o público reage de uma forma diferente e amplia-se a base de consumo, mudam as regras da produção cultural.

Além disso, uma onda de pânico moral direcionado contra “mangás [ditos] perniciosos”, especificamente na década de 90, quando atingiu seu auge, tornou lolicon quase uma palavra proibida ou maculada, sendo a explicação “extra-estética” de sua decadência temporária. Leis de pornografia infantil em certos países abrangem material ficcional (desenhos provocativos de crianças), enquanto que noutros a legislação é mais branda, incluindo o próprio Japão (McLelland 2016). Logo houve uma divisão geral em dois campos mutuamente opostos, ditos militantes ou ativistas, nos pólos mais extremos: os adversários e os apoiadores da tese de que representar crianças imageticamente em atos pré-sexuais ou sexuais seria um crime de abuso sexual e contra os direitos da infância.

Críticos de mídia geralmente associam o lolicon a uma separação muito mais discernível entre ficção e realidade do que seria permitido, antes de tudo, para que o debate acima referido fizesse sentido. Antes de tudo – a repetição da expressão não é à toa –, o que se quer entender é a sexualidade sui generis daqueles que se enquadram no rótulo otaku (parte desse complexo debate já foi empreendida nos primeiros artigos enciclopédicos desta série no rafazardly, que chega com este post ao terceiro episódio, e faz sua primeira ‘ponta’ ou participação no blog-afiliado Seclusão Anagógica, devido à natureza eminentemente mais filosófica da discussão; os dois anteriores tratavam diretamente do fenômeno moe – recomendo a leitura, aqui e aqui).

Embora a referência principal seja ao trabalho de Nabokov,¹ os japoneses também extraíram sua concepção de “Lolita”, “loli” e “Lolita complex” do livro – e particularmente do título do livro – de outro autor, quase no mesmo período, que leu ou não leu Nabokov (certamente sabia do livro e do título do livro), mas que escreveu de forma não-ficcional sobre o assunto: Russell Trainer, The Lolita Complex (1966, traduzido ao japonês em 1969) (Takatsuki 2010).

¹ Que, a essa altura do campeonato (embora me seja irritante ter de esclarecer algo tão patente e óbvio), exige a imediata clarificação, para evitar mal-entendidos e novos pânicos morais: a novela de Nabokov que – eu dizia – NÃO faz apologia à pedofilia (concepção muito difundida por quem não leu ou leu mal o livro), sendo um trabalho de ficção que antes contém uma mensagem subjacente contrária, pois retrata Dolores Haze –“Lolita”– como uma criança abusada cuja infância foi roubada pelo protagonista e narrador. Este seu abusador, primeiro padrasto e depois amante de Lolita (ou talvez primeiro amante e depois padrasto, dependendo da perspectiva), auto-apelidando-se Humber Humbert, vem a ser claramente, na novela, desde as primeiras páginas, quando inicia sua história num presídio, como confessa, um doente psiquiátrico, além de criminoso e homicida (ele não assassina Lolita, receio dar o spoiler, mas quem ainda quiser conferir a obra depois deste alerta, não tendo-o feito até hoje, fique à vontade para descobrir a que me refiro quando chamo o protagonista de autor de um homicídio…).

O livro de Trainer é o que se pode chamar de um tratado de psicologia “popular” (compreensível para não-iniciados) em que seu autor usa o termo complexo de Lolita para designar os homens adultos que sentem atração por garotas pré-pubescentes e púberes (Stapleton 2016). A única diferença entre o sentido antigo de Trainer (década de 70) e o mais atual do termo, usado na esfera otaku, seria a transposição da atração erótica, de forma completa, de pessoas reais para representações gráficas e ficcionais, o que Trainer não pesquisou. Daí ser este um assunto necessariamente polêmico, mas não-necessariamente condenável, ao menos para quem puder manter uma posição impessoal e algo compreensiva ou tolerante (no sentido de que não é preciso concordar com uma determinada estética para entender que ela é possível de existir, ou que mesmo que seja repulsiva isso não signifique automaticamente que é criminosa ou apologética da prática da pedofilia; no sentido, ainda, de que concepções morais de um pesquisador, sobretudo ocidental, não deveriam preestabelecer o resultado de suas pesquisas e antecipar suas conclusões sobre o assunto) (Matt 2014, Galbraith 2021).

Por fim, lolicon, defendem outros estudos mais recentes que a exposição de Trainer, seria apenas um macrocosmo de representações visuais em que o erotismo velado ou o erotismo explícito (pornografia) representam apenas microcosmos, de forma que o conteúdo leve e associado apenas ao carisma de tais personagens costuma recair sob o manto do conceito de moe, o que complexifica sobremaneira a questão, fazendo ver que existem no mínimo duas vertentes do que vem se chamando todo este tempo de lolicon. Portanto, a primeira asserção que podemos elaborar em resposta à pergunta mais imediata que com certeza o parágrafo inicial deste artigo suscita é (a pergunta seria: “Lolicon é pornografia?”): Depende. Há obras lolicon pornográficas e obras lolicon não-pornográficas.

PULSÃO & SENTIMENTO:

Tentando equilibrar extremos inconciliáveis

Conforme Akira Akagi (1993), que além de acadêmico ocupa posição editorial no mercado japonês, o termo se afastou muito do que seria intuível de acordo com a novela de Nabokov: a anteposição de um parceiro, homem, muito mais velho a uma – basicamente – criança do sexo feminino. Para Akagi não há dúvida de que lolicon descreve ou exprime um desejo ou necessidade por coisas “fofas, agradáveis, bonitas […] impregnadas de feminilidade infantil” nas páginas dos mangás e nos quadros dos animes lidos e assistidos pelo público otaku ou lolicon em específico. Além disso, Akagi já não vê o fenômeno como confinado ao universo masculino, nem ao adulto masculino: essa pulsão viria de diferentes extratos do público, tanto homens quanto mulheres, de qualquer faixa etária.

Galbraith pesquisou enfaticamente a obsessão do público japonês pelo 2D da questão: a bidimensionalidade e inanidade do alvo da preferência loli, citando os conceito parelhos de “two-dimensional fetishism” (nijikon fechi, fetichismo bidimensional) e “two-dimensional syndrome” (nijikon shōkōgun, síndrome bidimensional ou síndrome das duas dimensões).

Por mais que soe repulsiva ao leitor-padrão qualquer tentativa de tolerar esse comportamento considerado “anômalo” por nossos standards, é salutar observar que, como todas as fake news e qualquer clima de histeria suscitado em nossas sociedades, os eventos repressivos ao lolicon boom dos anos 90 no Japão sucederam a um gatilho sensacionalista que partiu da dita imprensa marrom ou de tablóide estilo inglês, como sói acontecer: por causa de manchetes de jornais pouco esclarecedoras e artigos no geral contendo assunções, lolicon passou a ser uma ofensa ou estigma, sobretudo depois da prisão, em 1989, de Tsutomu Miyazaki, serial killer (incomum o suficiente na sociedade japonesa) de garotas jovens reputadas como lolitas. Miyazaki foi retratado como o estereótipo perfeito do que queriam demonizar como otakulolicon. Mais adiante entraremos em detalhes sobre os crimes de Miyazaki e seus traços de personalidade. O que nos interessa agora, independentemente da veracidade das alegações, seria colocar o caso num contexto adequado de causa-efeito sem tentar extrapolá-lo ou situá-lo como o big bang de vários males sociais que – sim – existem na cultura conservadora do Japão.

Para esse fim gosto de evocar um exemplo mais próximo de nós. Culpar toda a indústria e todos os fãs de um determinado gênero pelas ações de um criminoso, seja uma série de crimes ou um crime, seria como dizer que um assassino em série brasileiro que fosse fã da seleção brasileira exemplificaria que o futebol é pernicioso para as pessoas. Uma hipérbole simplificadora. Faz-nos lembrar como o Ocidente passou a demonizar os videogames em inúmeras instâncias, principalmente na era Mortal Kombat – também nos “puritanos” 90, mas dessa vez nos Estados Unidos – e depois, de novo, após o Massacre de Columbine (o que é uma longa, longa história para ser tratada aqui…). Até hoje nenhum estudo concluiu que videogames aumentam a violência no mundo real e, creia-me, há milhares deles, partindo de todos os espectros – portanto, ajamos com prudência e cautela neste assunto “parente” (violência e sexo parecem estar sempre coligados em nossa sociedade, seja a ocidental específica ou quando travamos conhecimento e intercâmbio com os gostos orientais, já repararam?).

(*) Aproveito este ponto da discussão para explicar o termo “supramoral” presente no título do post: aplico-o aqui no mesmo sentido de “extra-moral” no artigo de Nietzsche, Sobre a Verdade e a Mentira em um Sentido Extra-Moral, uma lição de humildade em epistemologia e perspectivismo (algumas traduções trazem não-moral no lugar, mas esse termo tende a confundir o leitor, sendo mais próximo de amoral ou mesmo de imoral, o que geraria o que aqui queremos evitar, o clássico pânico moral). Como Nietzsche também escreveu Muito além do bem e do mal, continuando suas idéias deste primeiro artigo em época mais madura de sua filosofia, super- ou supra- é um bom termo ou prefixo para designar a tentativa de uma discussão que esteja ou pretenda estar acima da moral (burguesa, em que vivemos), não sem prescindir da ética, mas tentando desviar de suas principais armadilhas limitadoras (a moral de uma época e sua capacidade de achatar e deformar o pensamento dos observadores, efeito jamais subestimado o bastante, i.e., a noção de que o bem e o mal são conceitos absolutos definidos desde o início dos tempos e imutáveis).

Esse mesmo episódio catalisador (a prisão de Miyazaki) pode ter influenciado a criação, na subcultura otaku, do termo moe, justamente para evitar as conotações pejorativas que contaminaram o termo lolicon (Galbraith 2016), pelo menos durante a postura da mídia japonesa de atacar o fenômeno (o que foi revertido posteriormente). O termo lolicon, no entanto, nunca foi abandonado de todo. Desde a passagem do ápice do pânico moral da grande mídia e do “furacão caso Miyazaki” parece ser menos pejorativo e menos malvisto (embora eu não tenha como avaliar como se dá seu uso cotidiano no próprio território japonês em diferentes contextos públicos).

A LONGA HISTÓRIA DO MANGÁ E O ETERNO BINARISMO SHOUNEN-SHOUJO/BISHOUNEN-BISHOUJO

Por incrível que possa parecer, o que vem acima foi tencionado como mera introdução ao tópico! Primeiro precisamos traçar o histórico do veículo mangá antes de compreendermos ainda melhor o lolicon (dos três meios de comunicação de massa invariavelmente citados ao lado dessa estética, o mangá é o mais influente de todos, tendo ditado vários cânones às animações televisivas e cinematográficas e aos jogos eletrônicos).

Após certa estagnação (seja de vendas ou de inovações estéticas) nos mangás direcionados ao público feminino jovem durante os anos 50 e 60, os anos 1970 foram muito prolíficos no terreno do shōjo. Novas maneiras de desenho, novas narrativas e roteiros, novos temas envolvidos nas páginas, como conflitos psicológicos, papéis sociais e, por que não, a sexualidade. Inegavelmente foi a incorporação deste último tema pelos mangakas que atraiu mais homens a consumir também shoujo em detrimento de apenas seus “mangás típicos”, os shounen. Alguma assimetria pode ser percebida aqui: enquanto que hoje muitas mulheres lêem shounen, tendo esse termo perdido seu significado de raiz, nos anos 70 era menos comum que garotas lessem mangás de garotos, ou pelo menos não na mesma proporção avassaladora que os gostos masculinos se metamorfosearam. O que acontece com a cultura japonesa e é difícil para um não-iniciado introjetar é que a intenção mercadológica não determinou o interesse público neste contexto, e lá a indústria tentara segmentar as leituras por sexo, o que, se é feito aqui, tem contornos menos pronunciados. Por exemplo: nunca fui censurado ou tratado pejorativamente porque via Powerpuff Girls na infância; meninas não são necessariamente tomboy só porque lêem Marvel e DC (excluamos os gatekeepers da análise, os fãs tóxicos, que existem em qualquer terreno cultural!).

Sucede que o fenômeno japonês não é nada curioso, olhando de uma perspectiva mais afastada. Continuando com exemplificações, e mal comparando, seria como se Alice no País das Maravilhas, um livro em tese destinado a crianças, fosse um dia lido por gente adulta, e muito comentado e pesquisado –– Ora, isso realmente aconteceu e acontece, contrariando “o intuito original do criador”, se é que Lewis Carroll pensava que sua multifacetada obra era tão unidimensional assim… Talvez os editores ingleses da época tivessem uma visão mais estreita? De todo modo, pouco adiantou, e o público, que é também agente, seguiu seus próprios gostos e orientações.

Por falar em Alice e Carroll, a primeira aparição do termo “Lolita complex” num mangá (e não num livro de psicologia) deu-se precisamente em Kyabetsu-batake de Tsumazuite, Stumbling Upon a Cabbage Patch [Deparando-se com/Tropeçando em uma folha de repolho é como eu traduzo, mas não cacei uma tradução oficial em português], inspirado em Alice no País das Maravilhas, serialização iniciada em junho de 1974 na revista de shoujo Bessatsu Margaret. Shinji Wada, o autor, desenhou uma cena em que um personagem masculino diz num balão que “Lewis Carroll era um homem de caráter bizarro por gostar só de crianças pequenas”, fala que evidentemente não deve ser confundida com a opinião do autor nem servir para subestimar o leitor, que não encara falas ficcionais como verdades, ainda mais tendo em conta que era um mangá humorístico. Uma piada inocente, estilo Michael Jackson, que não é nada estranha a qualquer conhecedor 101 de Alice no País das Maravilhas e o processo de criação do livro, parte da biografia do matemático e poeta Lewis Carroll. (Mais um caso em que teremos que encerrar o debate ou recorrer a opiniões infundadas, pois não há nada que comprove mais do que realmente se sabe, i.e., que Carroll era um sujeito apartado e nunca cometeu nenhum ato de pedofilia nem manifestava expressa atração por “garotinhas”, nem por Alice Liddell, sua “musinha” inspiradora – inclusive esse epíteto é questionável; ela apenas recebeu o livro, mas a heroína parece ter sido criada com outros arquétipos infantis em vista, fora da família Liddell, talvez uma síntese mental de todas as crianças vitorianas, como sói acontecer com escritores. Dou a mesma margem de presunção de inocência ao vilipendiado rei do pop Michael Jackson até que me provem o contrário.)

COMPLICAÇÕES:

A CULTURA JAPONESA NÃO É PARA PRINCIPIANTES!

Os primeiros exemplos da estética lolicon foram influenciados por desenhistas homens que conscientemente introjetaram traços shōjo em sua técnica (Schodt 1996, Kinsella 1998), bem como por mangás eróticos criados por mulheres mesmas, material esse em tese dirigido a homens conforme os editoriais das revistas em que era publicado (Shigematsu 1999). O nu artístico, fotografia de crianças reais, no âmbito shōjo, era popular na época (anos 70): uma coleção intitulada Nymphet: The Myth of the 12-Year-Old (Ninfeta: O mito dos doze anos de idade) foi publicado na Terra do Sol Nascente em 1969, até antes da década em estudo. Em 1972 e 1973 é que se reportam “ondas de Alice” ou um Alice boom específico, dentro do boom shoujo maior. Nessa onda estratificada, fotos de pessoas reais eram o tema.¹

¹ Mais uma vez: sobre fotografias nudistas de crianças (não-pornográficas) e a época vitoriana de Carroll, indico a leitura cuidadosa de https://seclusao.org/2023/12/02/lewis-carroll-serieosultimospolimatas/, em particular as seções “Hobby (em alto nível) da fotografia (1856–1880)”, “Sexualidade de Carroll & Algumas considerações sobre o surgimento da arte da fotografia” e “Os diários perdidos”.

A tendência não se limitou aos mangás. Na mídia impressa, revistas dedicadas ao homem adulto possuíam fotos eróticas, relatos ficcionais e ensaios sobre a beleza única da garota jovem. Por que essa evolução da preferência do homem japonês, entretanto? Teoriza-se que a própria legislação coercitiva fomentou esse gosto: havia a interdição de mostrar pêlos das partes íntimas; uma saída menos óbvia – talvez para nós – do que promover ensaios com mulheres em idade legal que praticavam a raspagem total (o que nós só fomos adotar também mais tarde, no Ocidente, como “prática higiênica” ou “padrão”) foi então adotada pelas editoras: procurar modelos femininas na idade em que ainda não exibiam pelugem. Essa lei “anti-obscenidade” que data do Japão imperial só foi corrigida de fato em 1991, quando já não importava muito. Mesmo assim, a lei continua proibindo pêlos, por exemplo, na indústria pornô. Mas em representações artísticas e desenhos a restrição caiu. Às vezes parece que as autoridades japonesas se preocupam mais com a aparição de pêlos vaginais ou escrotais que com toda a psique do ser humano, todavia.

Primeira página do mangá mais famoso de Hideo Azuma (1950-2019), Cybele. Gō Itō identifica este trabalho como a transposição do erotismo ficcional para figuras mais redondas e irrealistas (Circularidade, redondez – atributos que raramente associamos a imagens que suscitem sex appeal no Ocidente, pelo menos nas últimas décadas – nosso ideal de beleza prefere linhas magras nas personagens, tornando o trabalho de Azuma imensamente inocente e pueril a quaisquer olhos contemporâneos!), mais próximas aos traços revolucionários e à “redondez” ou rotundidade dos personagens (totalmente a-sexualizados) de Osamu Tezuka nos anos 50 (Tezuka é praticamente o Pai do Mangá, e sua arte é AINDA MAIS RECHONCHUDA que o visto acima!).

ANOS 80:

FORMAÇÃO DA ESTÉTICA LOLI & IMPORTÂNCIA DAS CONVENÇÕES OU ANIME EVENTS NIPÔNICOS

O advento do lolicon não teria sido possível sem a criação da Comiket (sigla para Comic Market), uma convenção feita principalmente para comercializar dōjinshi (material de fãs, sem intermediação de editoras) entre o público leitor e autores amadores. A feira foi criada em 1975 pelo grupo Meikyu (Labirinto), composta por homens adultos fãs dos traços shōjo. Em 1979 apareceu o fanzine Cybele, de Hideo Azuma, que continha em seu primeiro exemplar uma paródia erótica do conto da Chapeuzinho Vermelho. Azuma seria batizado posteriormente como o “fundador oficial” do lolicon. Antes de Cybele o estilo dominante nos seinen (o shoujo para adultos) e nos mangás abertamente pornográficos era o gekiga, resumível em seu ultra-realismo, ângulos pontudos, certa atmosfera carregada (sombria e séria) e dark hatching (não traduzirei o termo – para entendê-lo, verificar o esquema de cores, digo, sombreamentos, já que mangás nascem em preto e branco, de Berserk, que personifica muito bem essa técnica). Em suma, havia mangás eróticos até esse momento, basicamente fotorrealistas em suas representações. O que o trabalho de Azuma fez foi uma abrangente estilização imagética, com sombreamentos, quando necessários, bastante tendentes ao branco ou cinza mais claro, linhas circulares, atmosfera fantástica, tomada de empréstimo dos shōjo, segundo o próprio Azuma. Essa indicação é muito importante na compreensão do fenômeno loli como, se é que é, uma perversão ficcional, que se desconecta do desejo por crianças do mundo real.

Embora as figuras tenham deixado de ter tão “circulares” ou “rechonchudas” quanto eram sob o lápis de Azuma, o espírito de “irrealismo” cartunesco das personagens foi o que perdurou na estética lolicon até a atualidade. Mas além do fator erótico Azuma nunca se levou a sério – todas as suas criações eram mangás de humor ou sátira. Em que pese Azuma achar que seus cartuns tivessem um apelo erótico, somente uma minoria concordava consigo a princípio. Porém, gradualmente o gekiga foi sendo deixado de lado mesmo pelos leitores de pornografia, que aderiram a sua revolução no traço. Houve um período de transição com corpos mais realistas e faces infantilizadas, até que o azumismo (tanto corpo quanto rosto) se tornasse hegemônico no mangá.

E a feira Comiket, introduzida acima, ironicamente criada por homens para receber majoritariamente mulheres, teve uma “invasão” de otakus homens em edições de anos subseqüentes. Registra-se que no primeiro ano do evento, 1975, 9 em cada 10 participantes eram do sexo feminino. Em 1981 a demografia já era parelha (50-50%) (Lam 2010). Argumenta-se, ainda, que o lolicon ganhou força como reação ao yaoi (mangá com imagens homoeróticas de homens vendido mais entre as mulheres, e desenhados também por autoras mulheres).

Faltava a “profissionalização” do fenômeno de nicho, que veio a acontecer principalmente por intermédio das publicações de grande porte Lemon People e Manga Burikko, ambas iniciadas em 1982. No primeiro editorial, a Lemon People até declarava com orgulho: “Temos o monopólio dos quadrinhos lolicon!”, demonstrando que naqueles anos pioneiros o termo não era derrogatório (como se tornou nos 90) (Kimi 2021). Houve ainda magazines (mensais, com vários mangás serializados dentro) como Manga Hot Milk (nome sugestivo…), Melon Comice Halfliter. Tudo como que se confundia nessa época despida ainda dos conceitos norteadores da atualidade: ilustrativamente, a própria palavra otaku só foi cunhada na própria revista Burikko, e em 1983!

Inicialmente uma revista sem fins lucrativos exclusivamente com arte gekiga, a Burikko se transformou totalmente um ano depois, esse mesmo 1983, quando passou a ser editada por Eiji Ōtsuka (Nagayama 2020), que sempre propalou a idéia de “vender mangás shoujo para garotos”. Em novembro daquele ano, ainda dividindo páginas entre gekiga e lolicon, a equipe da revista começou a receber cartas de leitores solicitando que parassem com os traços gekiga. De dezembro em diante o subtítulo da Burikko se tornou “Totally Bishōjo Comic Magazine” [revista para quadrinhos completamente bishoujo].¹

¹ Se não é uma instância de dessexualização popular de uma mídia consumível, diria que é pelo menos uma bidimensionalização e caricaturização dessa sexualização (além do caráter 2D associado a fotografias em contraste com as “mulheres reais”, as mesmas que são fotografadas, é importante reparar no “salto” da foto ao desenho, retirando os resquícios de 3D que ainda havia no hobby, e em seguida o salto do desenho realístico ao desenho cada vez mais auto-referente ou inverossímil).

Manga artists mulheres ficaram famosas durante esse boom de publicações, como Kyoko Okazaki e Erika Sakurazawa. Essas eram “rainhas” ou precursoras do movimento. Se há um “pai do lolicon”, Azuma, há um “rei do loli”, Aki Uchiyama, quem produzia 160 páginas de mangá por mês para cumprir suas metas.¹ Uchiyama teve mangás publicados não só na Lemon People como na revista ainda mais mainstream Shōnen Champion.

¹ Mais de 5 páginas por dia. Levando em conta que os autores de shounen que adoecem cumprindo agendas de séries semanais com poucos recessos anuais precisam cumprir uma cota de aproximadamente 3 páginas/dia hoje, essa cifra é assustadora e terrível na esfera das leis trabalhistas japonesas – quanta desumanidade!

Imagens de Clarisse (1979) são mais difíceis de encontrar do que se pensa! Créditos: https://fullfrontal.moe/

AS PRIMEIRAS ANIMAÇÕES DE MANGÁS EROGE

&

AS PRIMEIRAS VEDETES (ASSEXUALIZADAS COMO ROBÔS)

O primeiro anime pornô foi o nada-criativamente-batizado Lolita Anime, que durou de 1984 a 1985. Personagens icônicas desse período são Clarisse do filme Lupin III: Castle of Cagliostro (1979) e Lana do desenho para TV Future Boy Conan (1978), ambos dirigidos por Hayao Miyazaki (que odeia o fato de Clarisse ter se tornado um ícone loli). Clarisse se tornou instantaneamente objeto de culto, ajudada por resenhas em Gekkan Out, Animec e Animage. Uma série de zines ou mangás amadores com novas estórias de Clarisse era tão numerosa que virou um subgênero em si: Clarisse mangas! Essas mangás quase nunca eram abertamente eróticos, tendiam mais para uma leitura segura para garotas e garotos a partir dos 14 ou 15 anos.

Uma peculiaridade que só mesmo sendo japonês para entender por completo é que muitas das primeiras personagens lolicon nasceram do entrecruzamento entre mecha e bishoujo, mecha sendo o segmento com estórias que contenham e que se centrem em máquinas futuristas.¹ Kaoru Nagayama destaca a estréia de Daicon III Opening Animation (um anime que nem veio a ser comercializado ou terminado, mas que hoje é cultuado apenas com base na sua abertura, um grande feito técnico para o período, tendo sido mostrada numa convenção em 1981) como o marco zero desse crossover tão bizarro lolicon/sci-fi.

¹ A versão japonesa de “carros possantes e mulheres”? Cremos que não falte o elemento musical (os japoneses adoram o rock), mas com certeza a cerveja, ou doses copiosas de saquê, não entram nessa equação tríplice ou quádrupla!

Como já foi verificado neste artigo, animes inicialmente propagandeados para meninas, como Magical Princess Minky Momo (1982–1983), um dos primeiros do subgênero hoje profuso magical girls/isekai, explodiram em audiência – de ambos os sexos. Helen McCarthy sugere que os animes (diferente dos mangás, mais antigos, lembre-se) lolicon estão enraizados em shows de garotas com poderes mágicos como Minky Momo, pois a presença de heroínas metamorfas teria o poder de nublar as linhas entre a menina e a mulher (McCarthy & Clements 1998).¹,²

¹ Eu como criança não podia esconder a fascinação que as seqüências de transformação das sailors me provocavam – mesmo que eu fosse um pirralho de 7-8 anos vendo o anime na finada Rede Manchete. OBS: Repare no tamanho das pernocas – sempre me dizem, gracejando, que 2/3 do corpo dessas beldades são pura perna. Nada chubby como a arte dos 70/80-85, e tampouco nada loli: são legítimas adolescentes (no enredo) com aparência/corpo de mulher, diria Naoko Takeuchi, autora do mangá que explodiu mesmo quando virou anime. Isso se explica pelo que será dito no próximo tópico, já que Sailor Moon é dos anos 90. Acima, Minako, a Sailor Venus, como “garota normal” e depois de se transformar com a ajuda do broche, com uniforme estilizado de marinheiro. Veremos o “fetiche do uniforme” ressurgir em comentários sobre Evangelion e Kill la Kill, mais abaixo!

² Quantas teorias da genealogia do lolicon já percorremos? Isso mostra a complexidade do fenômeno. Com o perdão da expressão, a complexidade do complexo…

FLUTUAÇÕES: RETRAÇÃO DO BOOM E REVIVAL 90

(+ TODO PAÍS TEM SEU CHARLES MANSON)

Na reta final do boom, que extinguir-se-ia por si mesmo, segundo alguns, porque “os leitores/espectadores não tinham qualquer compromisso com o loliconper see “não tinham meninas jovens como seu objeto sexual”, a maioria dos criadores e consumidores do nicho erótico já havia migrado para um estilo mais diversificado e mesclado de traço bishoujo, resumível em “caras de bebê e peitões”, híbrido fetichista menina-mulher o que já não se consideram aspectos lolicon. Na própria Comiket, mangás lolicon declinaram sensivelmente em popularidade a partir de 1989, sendo substituídos por dōjinshi eróticos nas novas bases, abrangendo “novos tipos de fetiche” e uma onda de “erotismo softcore” que caía e ainda cai bem, segundo as demografias, entre homens e mulheres indistintamente, em particular quando se fala de yuri (subgênero de mangá de romance lésbico).¹

¹ Uma coisa que me chama a atenção é que o mangá erótico homem-homem surgiu e proliferou primeiro que o lésbico no Japão: normalmente em sociedades patriarcais a aceitação do lesbianismo se dá muito antes, ou desde o início (vide a Grécia Antiga), enquanto que o homoerotismo macho-macho é visto com muito mais reticência, senão completa interdição (Europa moderna ~1500-~1950). Os gregos tinham uma sociedade regulada pelo amor pederasta homem mais velho-moço, mas havia um código de ética tão estrito sobre essas relações que este assunto não podia ser discutido em público nem interferir na vida familiar heteronormativa da polis (seria mais grave que pular a cerca entre casados entre nós – não, pior do que falar abertamente sobre ‘ser traído’ pelo parceiro formal!). Já o lesbianismo era “ignorado” e não sofria sanções (ainda falando de Grécia Antiga), ao passo que imaginamos que, se uma mulher sáfica fosse descoberta, em coordenadas geográficas não muito distantes de onde floresceu a Filosofia, 1000 anos depois, seria levada imediatamente às torturas, ao “julgamento” (unilateral da Igreja Católica) e à sentença de queimar na fogueira.

Apesar de ser um parágrafo policialesco, temos que cobrir esta parte da história também: no mesmo 1989, lolicon e otaku se transformaram da noite para o dia em tópicos controversos, com o pânico moral pós-prisão de Tsutomu Miyazaki, um adulto na casa dos 20 anos que seqüestrou e matou 4 garotas entre os 4 e os 7 anos, além de violar os corpos já sem vida. Fotos do quarto de Miyazaki abarrotaram os jornais de então: uma extensa coleção de VHS, incluindo filmes de terror/slashers (subgênero de maníaco que age sozinho e mata suas vítimas com armas brancas em estórias ficcionais) supostas inspirações de seus atos; volumes de mangá, dentre eles shōjo e lolicon, etc. A “culpa” dos atos de Miyazaki foi atribuída pelo jornalismo japonês à cultura de então (poderíamos dizer que a mídia estava culpando a própria mídia? sim, o nicho ultra-conservador dos telejornais e mídia impressa para velhos ortodoxos culpando mídias que não compreendiam ou que eram fenômenos de menos de 20 anos de idade). Diziam que ao ler e assistir o que leu e assistiu Miyazaki sentiu sua inibição para cometer crimes reduzida, e achou mais fácil trafegar a tênue linha que separa ficção de realidade. Todos argumentos espúrios. Até onde sei a linha que separa páginas de mangá ou o écran da vida real continua sendo grossíssima! Curiosamente, nenhum outro Miyazaki apareceu, para confirmar a “empiria” da tese criminalística… De qualquer forma, o que aqui nos interessa é que este serial killer foi tachado de otaku, e a imagem do otaku impressa na população nacional como “gente social e sexualmente imatura”. Talvez os imperadores pedófilos que causavam guerras envolvendo milhões de vidas fossem gente social e sexualmente muito mais madura – que regressão, meu Japão!! (contém #ironia) A conseqüência natural e imediata foi um expurgo das redações, estúdios, bancas e livrarias de material “tendente ao grotesco” ou a estéticas ditadas pelo mundo otaku. Muitos subgêneros de mangá foram considerados perniciosos por um tempo. Alguns artistas da subcultura dōjinshi foram presos na esteira do escândalo Miyazaki. E demoraria alguns anos até a poeira voltar a baixar…

Em suma, os anos 90 viveram basicamente da volta da dicotomia shounen/shoujo, com séries como Sailor Moon (vide nota acima) e Magic Knight Rayearth supostamente fazendo sucesso apenas com seu público tencionado: garotas. Não sei se aqui no Brasil é que a atração por algo tão “diferente do que estávamos acostumados” funcionou diferente, mas desconfio que o fenômeno do “macho que assistiu/leu Sailor Moon religiosamente” no Japão está subestimado pela fonte bibliográfica do artigo da Wikipédia e outros consultados!

Como tudo na vida, a estética lolicon não mais parecia decadente e enjoativa para o público otaku e nem voltou a ser problematizada com o mesmo ardor pelos veículos de comunicação quando voltou a despontar no fim do milênio e começo dos 2000. A principal revista mensal com compilados de capítulos de mangás lolicon deste período revivalista foi a Comic LO

¹ Obviamente que LOli era um trocadilho intencional a ser evocado, mas o O também é acrônimo para “only”: “Só” lolitas.

E ENTÃO, O QUE É (UM)A LOLITA JAPONESA?

Deu para perceber que nenhum conceito de lolicon é exaustivo e definitivo – infelizmente. Alguns persistem em defini-lo com base na idade dos personagens expostos (mas principalmente personagens femininas), outros entendem ser um tipo de traço, estilo ou técnica de desenho, resultando em personagens necessariamente pequenos, normalmente representando mulheres de busto chato, independentemente da idade (adultas podem ser lolis, segundo a cultura japonesa, modificando o que Nabokov instalou com sua obra). Para tentar adicionar algum conteúdo a tais definições já tentadas, diríamos que a maioria dos lolicon works fixa-se em tropos como personagens ingênuos, antagonizando ou contrastando com personagens “precoces” (com um senso anômalo de perversão ou conhecimento erótico-sexual), ou personagens nuançados, coquettes. Para complicar, lolicon é usado indiscriminadamente para artes explicitamente eróticas, implicitamente eróticas ou com zero erotismo (Aoki 2019).

Kaoru Nagayama (2020) constata que leitores de mangá eles mesmos definem lolicon como mangás a conter “heroínas [protagonistas] de idade inferior à de uma estudante do ensino médio”, o que novamente não nos ajuda, pois os tais “leitores de mangá” discordam entre si, segundo o próprio Nagayama. Outros nichos “preferem” caracterizar o lolicon como estrelando “qualquer figura menor de idade”, outros dizem que “abrange a sociedade inteira, desde que as personagens se enquadrem na estética”, outros vão além e citam “que não tenham excedido o ensino primário” (ala fanática e considerada abertamente pedofílica em seus gostos). Elisabeth Klar (2013) observa que female characters “oscilam em idade”, seja porque cada mangá estabelece seus parâmetros, seja porque uma mesma personagem pode apresentar uma idade física “x” com comportamento atribuível a uma idade mental “y”, e Klar alega que é esse contraste, o mais das vezes, que gera o conflito que possibilita o relato da estória, ou sua categorização no lolicon. Ilustração peculiar seria a roribabā, (arquétipo da “Lolita vovó”), deliberadamente de design infantil e que se porta como alguém idoso. Ao contrário do que se disse acima (que quando o fenômeno arrefeceu nos 80 os traços mais curvilíneos para o corpo já não eram loli), traços secundários que denotem madurez corporal podem ser tolerados ou catalogados dentro do lolicon (Galbraith 2011). Argumentos da plot podem ainda justificar a aparência demasiado jovem de entidades não-humanas ou sobre-humanas (vampiras, bruxas, monstros que tomaram a forma humana) (Galbraith 2009).¹

¹ Me reservo ao direito de explicar, neste momento, um personagem que vem a calhar para enriquecer a discussão: trata-se de Biscuit Krüger de Hunter X Hunter, que considero uma subversão ou paródia do tropo. Sempre faço questão de ressaltar, para os que não sabem, que o autor do mangá, Yoshihiro Togashi, é casado com Takeuchi, a autora de Sailor Moon. Não significa que ela o influenciou – mas ao mesmo tempo significa. Explico: Togashi com certeza está informado e influenciado por toda a repercussão do shoujo que veio antes de sua própria produção. Ambos são quase da mesma idade, mas Hunter X Hunter, sendo um mangá de 1999, incorpora todas as lições dos anos 90, diferentemente de Yu Yu Hakusho, mangá de Togashi contemporâneo a Sailor Moon e, com efeito, bastante diferente – enquanto que HxH produz uma quebra do binarismo de gêneros e é mais do que nunca uma aproximação com o shoujo – na época de YYH ambos não eram casados, então podemos considerar que Togashi era um de Takeuchi (talvez vice-versa?), mais famosa então –: Togashi não tinha como não se interessar por uma produção tão influente como foi Sailor Moon, independentemente de quem a criou. Sigamos à personagem que para mim sintetiza uma forma de “contar a estória de uma loli de forma inusitada para o fã, sem desagradá-lo” (e destaco que só seria loli segundo aqueles que defendem que o lolicon é definível pelo traço, não pelo psicológico ou idade das personagens):

TRANSITANDO ENTRE O LOLI E O NÃO-LOLI:

Estudo de caso de Biscuit Krüger

Biscuit Krueger (Bisky ou Bisky-chan para os íntimos) é uma mulher de 57 anos, mestra do shingen-ryu (espécie de karate neste mundo ficcional) e é um hunter (caçador) de 2 estrelas. Na obra de Togashi, hunters são as criaturas mais poderosas, pois a seleção para se tornar um caçador são bastante rigorosas e secretivas; dentre os próprios hunters, aqueles que obtêm mais destaque (como possuir 2 estrelas de mérito, das 3 possíveis) são a nata em termos de poder e eficiência. Eis uma dessas pessoas, no frágil corpo que se contempla acima. Embora muito nos interessasse discorrer sobre todas as suas técnicas e um pouco do sistema de poder do anime, nos ateremos ao que é necessário para a discussão do lolicon (ou crítica ao lolicon) aqui.

Introduzida num momento tardio da estória, ela é supostamente, por alguns episódios, uma antagonista dos 2 co-protagonistas, garotos de 12 anos de idade (Gon e Killua): “Garotinhos são tão inocentes. E é tão divertido arruinar suas amizades…”, ela diz, de si para si, enquanto banca a stalker ou parte rumo à captura de suas presas, em sentido metafórico.

Porém, sua antipatia por ambos era só uma fachada para conseguir aproximar-se: testemunhando a inexperiência conjugada com o talento não-polido de ambos durante a missão em que os três estavam envolvidos (vencer um jogo entre caçadores numa ilha gigantesca), ela não pode evitar, dada sua natureza de “mãezona”, se converter de imediato em figura de mestre e conselheira para os dois (a segunda mestra oficial de nen da dupla – nen sendo o equivalente ao ki ou força vital neste universo). “Vou treinar vocês a partir de agora, e de graça. Mas definitivamente não pegarei leve!!” (aos dois) / “Por que coisas que brilham como pérolas polidas sempre aceleram o meu coração?” (para si mesma)

A primeira subversão vem do fato de que Bisky não é um “artefato”, “coisa”, cobiçado(a) por homens mais velhos e que ignora suas intenções (paradigma dos personagens ingênuos ou tapados), resiste ou tenta “transitar” entre os dois (tornando-se uma companheira coquete do bando). Antes, a relação dela com os personagens é absolutamente assexual – mesmo quando Gon e Killua pensavam que ela fosse apenas uma garota, como eles – Bisky não está em relação com homens mais velhos, então o estereótipo de loli fica comprometido –– por outro lado seu design evoca o lolicon… E, ao mesmo tempo, bem no princípio parecia que ela seria a predadora e eles os predados… Dupla, tripla subversão…

Cedo na estória – desde a introdução de Biscuit, i.e. – o espectador aprende algo que os garotos continuarão ignorando por um bom tempo, através de outro personagem (Gon, em realidade, a série inteira; Killua sendo o único a desvendar o segredo, eventualmente): Binolt, um assassino infiltrado no jogo, possui o talento de aprender tudo sobre o físico e mental de seu adversário ao comer fios de seu cabelo. É nesse momento que o personagem ergue sua guarda e entra em desesperação, pois ao “comer” alguns cachos de Biscuit após cortá-los com sua tesoura de assassino, se dá conta de que seu alvo não é uma pobre e vulnerável criança, mas uma verdadeira senhora in disguise, a Loba e não Chapeuzinho num vestido mais claro… Porém os motivos de por que Biscuit é ou está dessa maneira são ainda obscuros para o expectador por mais alguns episódios… Pode ter a ver com sua técnica antropomórfica, uma espécie de boneca espiritual massagista que ajuda usuários de nen a relaxar e conservar por mais tempo a juventude… Mas isso fica como hipótese ou conjetura – e ainda não explica o ar cutesy e a falta de intenção de Bisky de confessar sua idade (ela até a revela para os garotos, mas há evidentemente alguma peça faltando, e isso aumenta a intriga de quem acompanha a trama…).

Como caçadora de tesouros, ela ingressa na ilha atrás de uma das cartas, que para o vencedor será convertida no item que contém; mas durante a competição, ao treinar os protagonistas, o presente sai melhor do que a encomenda: ela descobriu duas jóias humanas que ajudou a polir. Sua personalidade deliberadamente astuta e mentirosa num corpo “que não deveria ser o seu” é o cerne da personagem. E o talento de Biscuit para ludibriar é atestado quando o grupo é forçado a se aliar temporariamente com uma figura ambígua, pode-se dizer, um rival do tenro passado de Gon: o veterano e caprichoso hunter Hisoka. Bisky percebe instintiva e instantaneamente que ele mente, porque está acostumada a mentir e enganar pessoas, sendo sincero no que diz, mas escondendo coisas dos garotos. Ela própria consegue enganá-lo, ou mantê-lo curto na coleira, demonstrando que é mestra no quesito.

Vários eventos depois, fica claro que para ganhar o jogo o trio teria de lutar fisicamente com um esquadrão terrorista que estava mais perto de coletar as cartas necessárias para se sagrarem campeões. O problema é que esse trio de rivais não cogitava a possibilidade de dividir o prêmio nem travar um duelo honroso, recorrendo a táticas extremas, manipulando e matando suas vítimas se necessário. E – um dos charmes do anime em todo seu curso, aliás – Killua e Gon especialmente são mais fracos que os três adultos: eles são hunters (o que já é excepcional o bastante) crianças tentando sobreviver entre outros hunters adultos. Pelo menos dessa vez eles estão acompanhados de Bisky, que sabe muito bem o que fazer. O trio forma um plano cuidadoso e há lutas individuais para sanar a situação (o grupo de Gon não cederá as cartas a Genthru, o Bomber, usuário de um nen com características literalmente explosivas). No momento mais fenomenal da personagem, Biscuit se isola com um dos lutadores do trio Bomber. Ele não entende por que ela se afastaria de seus amigos, se isso a deixaria em visível desvantagem, afinal ela era a “menininha” do trio. Mostrando seu grande trunfo, ela responde que seu oponente é um tolo e não percebeu a diferença de nível de poder entre os dois: ela quer eliminá-lo sem testemunhas (nesse momento Bara, o alvo, sente o suor frio descer-lhe a nuca). Bisky começa a reverter de forma: seu corpo adquire uma massa incomparável e ela libera sua verdadeira força, ficando com este aspecto:

Com um só soco ela deixa seu adversário inconsciente – parece que não precisava matá-lo, afinal de contas. Mas antes disso ele havia, de olhos arregalados, perguntado por que ela se escondia sob a aparência de uma criança. Ela diz que tem dois motivos: 1) esconder seu real potencial dos inimigos; 2) ela odeia sua aparência verdadeira e pouco feminina. O tropo que Togashi gostaria de comentar fica aqui muito mais claro: por conveniência, até personagens que não são loli gostariam de ser loli se pudessem, sendo algo esteticamente mais aprazível e bastante vantajoso num shounen ou coisa do tipo (mangá de batalhas). É como uma queda da quarta parede na discussão do lolismo. Gostaria de me estender ainda mais sobre essa personagem fascinante que ainda ajuda os dois garotos-protagonistas ulteriormente no enredo, porém sairia do escopo do artigo!

Folha de designs de Bisky, incluindo sua “massagista de nen”, criatura artificial.

Coloração equivocada: não é tão raro nas adaptações mangá-anime. No mangá, obviamente, ela possui um design preto e branco, exceto quando aparece na capa (e o erro parece ter decorrido daí mesmo, cf. capa do volume 15, que não deve ter tido a aprovação prévia de Togashi), que DEVERIA CORRESPONDER à iteração mais conhecida de Bisky (o anime iniciado em 2011, retificado). Antes disso, porém, o anime de 1999 (num arco OVA) a representou com base no cabelo e olhos colorizados de forma errônea na capa do vol. 15, em que aparece com mechas castanhas e íris azul no lugar dos olhos rosa e cachos louros canônicos (talvez internamente não tenham entendido que Togashi quis realmente posicionar apenas a boneca que serviu de inspiração para o design da personagem como cover da edição, e não a personagem per se!). Essa Bisky “equivocada” dos anos 90 é hoje considerado um design mais realista (?) devido às cores mais escuras e expressões mais sérias dos rostos como eram a praxe então.

Um exemplo mais moderno, ainda “em execução” ou “em andamento”, do “tropo comentado/invertido” da loli ou do pós-loli, como eu batizaria, é Jewelry Bonney de One Piece. Esperaria o término do mangá ou de sua participação no mangá antes de uma análise idêntica à que fiz com Bisky.

FUTURO E INOVAÇÕES?¹

¹ Este tópico do Wikipedia já estaria mais para “passado”, por isso eu o abreviei aqui.

O lolicon é proeminente hoje no Superflat,¹ a uma espécie de escola de arte fundada por Takashi Murakami. Entre os desenhistas desse movimento encontramos Mr. (esse é o nome estilizado do artista!) e Henmaru Machino (Darling 2001). Murakami ficou famoso por promover um ensaio de fotos com Britney Spears na temática lolicon¹ para a capa da revista japonesa Pop (Ashcraft 2010).

¹ Sobre o SUPOSTO envolvimento da pop idol ocidental e Princess of Pop em controvérsias relativas à sexualização de under-age girls no Japão (!), vide a partir do 3º parágrafo do tópico “ANATOMIA DO LOLICONISMO”, abaixo!

LOLICON X MOE

A resposta típica a moe characters seria o amor platônico. No lolicon isso não é tão simples. Estamos presos numa tempestade nebulosa aqui: o moe está incluso, inclui o lolicon, ou ambos são antagônicos, ou interpenetram-se em alguns pontos? Por exemplo: em Neon Genesis Evangelion, qual é o “coeficiente de sexualização das personagens”? Das colegiais e da principal adulta da trama, Misato, que num spin-off beija o protagonista Shinji de 14 anos de idade (para apimentar aqui a discussão), um beijo romântico, não apenas “selinho” – na cena, a personagem adulta sabia que morreria nos segundos subseqüentes e que o destino da criança era provavelmente o mesmo… na sua opinião isso atenua o impacto do “beijo molhado” na cena? Asuka e Rei, para começo de conversa, são moe ou loli? É possível que sejam moe e loli? O que elas insinuam e não mostram pode ser catalogado como “do gênero”? Por exemplo, não vemos nada erótico partindo de Asuka, vemos cenas semi-eróticas de Rei; por outro lado, Asuka fala quase sempre em sexo, e Rei é “frígida” e andrógina. São designs fofos, mas são também atraentes para o público masculino mais velho? E qual das pulsões prevalece no final, se é possível dar uma resposta unívoca? O autor de Neon Genesis Evangelion evoca em várias entrevistas a vontade de subverter o próprio gênero anime como um todo, quem dirá as sub-noções a ele atreladas de moe e lolicon – porém não podemos deixar o autor falar pela obra, até porque: 1) ele pode estar errado; 2) pode estar apenas fazendo campanha de marketing, autopromoção. Para complicar a equação, Shinji tem um envolvimento homoerótico velado – talvez interpretável como narcisismo, uma vez que a criatura em questão, Kaworu, não é humana, é, aliás, no lore de Evangelion, um anjo, denominação per se de entidades assexuadas – no anime clássico; mais explícito nos filmes Rebuild – mas não se consuma, é um relacionamento platônico. Já com Asuka, o “herói melindroso e realista” Shinji divide seu primeiro beijo…

Com o perdão da rima, menos em comum com o moe/loli, mais em comum com a estética adulta e angular de Sailor Moon. Além disso, Asuka “se transforma” num mecha, componente essencial dos anos 70 resgatado por Anno 20 anos depois.

Kaworu Nagisa, “o último anjo” ou “a tentação final”, um anjo antropomorfo que dá a liberdade de escolha ao EVA-01 e provavelmente serve de gatilho para o fim do projeto da Instrumentalidade Humana (fim da individuação, e da humanidade como a conhecemos, o bad ending da estória).

A icônica cena no elevador entre Asuka e Rei, o que mais se aproxima de uma DR entre “amigas” em NGE.

Curiosamente, no último filme de Evangelion (Evangelion: 3.0+1.0 Thrice Upon A Time), que estende a estória original (na verdade contradizendo-a, inclusive no sobrenome de personagens como Asuka), Shinji, envolto no acidente que demarca o fim do antigo anime, fica suspenso em criogenia por alguns anos. A realidade que ele conhecia (se o anime já era pós-apocalíptico, digamos que este quarto filme da série final de Hideaki Anno seria pós-pós-apocalíptico em seu máximo) não existe mais. Todos os seus companheiros de escola se tornaram pessoas adultas. Mesmo o seu novo interesse amoroso (ou antes o interesse é que parte dela…), Mari Makinami (não mais Asuka) – que é capaz de se abrir quanto aos sentimentos mais íntimos, ao contrário de Asuka –, é uma mulher mais velha (não tanto quanto Misao, que já está morta) – menos Rei, mas Rei descobre não ser humana, num sentido bastante melancólico… Fato é que os personagens da trama foram tão deslocados do ambiente original que já não há qualquer traço de loliconismo feminino na produção (antes, há lolilaconismo, se puderem perdoar o poeta). A vedetização das heroínas em seus supersuits e supermechas obliterando Anjos (os “vilões” da narrativa) ainda são presença obrigatória, servindo de pretextos excitantes por alguns minutos, mas num soft adult mode, conjugado com o carisma moe de suas atuações e falas um tanto infantis ou menos pretensiosas que o enredo total no meio das trocas de tiro.

Redesign anos 2010 de Asuka e a personagem-piloto exclusiva da tetralogia Rebuild of Evangelion, Mari Makinami (“retirando sex-appeal da piloto-mulher”, diriam alguns). Sobre Asuka Langley: “O character designer, Yoshiyuki Sadamoto, concebeu Asuka para ser a protagonista da série, mas ao contemplar melhor as opções percebeu que haveria muita verossimilhança com outros animes já co-digiridos por Anno e desenhados por ele, como Gunbuster e Nadia.” Sobre este último anime, conferir a dinâmica do casal protagonista Jean-Nadia, dita como protótipo da relação Shinji-Asuka.

John Oppliger da AnimeNation identifica Ro-Kyu-Bu!, Kodomo no Jikan e Moetan como exemplos de séries que desafiam a distinção entre moe e lolicon mediante o uso de innuendos sexuais: “Satiriza-se a santidade casta do moe; “Essas produções não hesitam em brincar com os espectadores e demonstrar como as linhas demarcatórias entre loli e moe são puramente perspectivísticas e idiossincráticas”. Por fim: “O ’moe-style’ lolicon apresenta um erotismo leve e  domado, com meros traços gráficos eróticos, como vislumbres de roupa íntima, desistindo de qualquer cena sexual propriamente dita”

¹ TERCEIRO ESTUDO DE CASO?

Bom, quase tudo sobre isso eu já expressei em minha análise de NGE acima. Gostaria de citar Kill la Kill como outra produção (também do estúdio Gainax, não há coincidência aí) como obra (deliberadamente) divisiva, com uma protagonista andrógina, tomboy, voz grossa – demorou até o episódio 2 para eu identificar que era do sexo feminino –, obrigada a vestir um uniforme de batalha sexy (ridiculamente sexy, over-the-top, como se diz na gringa, e que parece nada tapar, quase só mesmo os mamilos e a própria vagina) – uma entidade viva – para ganhar poderes, embora com o tempo ela se torne a melhor amiga do dito uniforme e o introjete casualmente, como faria uma sailor transformada. A protagonista, Ryuko Matoi, não deixa de lutar de maneira rude e bárbara, exibindo tantos panty-shots (panchira, grande tropo do gênero) quantos murros e golpes no estilo JoJo’s Bizarre Adventure old school ou Hokuto no Ken (protótipos da porradaria de macho alfa, com ligeiras nuances de romance bem no pano de fundo), ao contrário de Sailor Moon e seus movimentos de balé graciosos e magia ou os mechs envenenados e que entram em “modo berserk” de Evangelion (sendo, numa palavra, uma protagonista badass). Neste caso, porém, há um innuendo, como o artigo original do Wikipedia dizia – innuendo é insinuação –, de que, se há, o interesse amoroso de Ryuko é sua melhor amiga Mako, mas o final é “aberto” nesse sentido.

Numa só palavra, sendo grosseiro como não permite um artigo acadêmico: se Ryuko Matoi fosse de verdade, e se nós fôssemos outro personagem do enredo, preferencialmente um(a) colega de sua idade, gostaríamos tanto de abraçá-la, compadecendo-nos de seu indizível sofrimento emocional durante a saga, quanto de fodê-la e de sermos seu/sua namoradinho(a) e andarmos de mãos dadas por aí. De novo a Gainax acertou no meio da cultura otaku, com bombas de efeito moral (pun intended) capazes de confundir os próprios otakus-receptores tanto ou mais que a crítica especializada e as autoridades “policialescas” (já que não podemos dizer que haja padrecos ou crentes “enchendo o saco” por bobagens no Japão como os há por aqui).

Nota extra: meu primeiro pensamento sobre a série, confirmado, diria, em sua maior parte após terminar de assistir o curto anime, foi que Kill la Kill é a mais ambiciosa e mais bem-conduzida paródia-hômage a Sailor Moon jamais produzida. Se pode ser argumentado qualquer ponto antitético a essa tese e “pró-moe” em relação a Kill la Kill é que apesar de ser mais velha que uma sailor no começo da estória de Takeuchi (14), Ryuko, 17, parece mais jovem.

A comilona Mako Mankanshoku: essa cena faz sem dúvida referência ao último episódio de Evangelion clássico, em que, após a recusa da instrumentalidade humana, Rei aparece correndo para a aula atrasada, também com trajes azuis, segurando uma torrada com a boca.

ANATOMIA DO LOLICONISMO E MESCLA COM DADDY ISSUES OCIDENTAIS

(Inútil, inútil, inútil!…, diria Dio Brando)

Akira Akagi identificou 5 temas primordiais dos lolicon mangas em sua análise de 1993: sadomasoquismo, “objetos tentaculares” [agora eu ri] (literalmente tentáculos aliens ou robôs em formato peniano), fetiches “mecha” [isso não estaria incluso no tema anterior?] (fusão máquina-mulher), paródias eróticas de animes e mangás do mainstream e “material simplesmente indecente ou pervertido”, observando também [mas que observador tendencioso… quase me arrependo de tê-lo colocado nesse artigo, pois ele retirou a discussão das profundezas oceânicas e a atirou na superfície de uma piscina de plástico!] “lesbianismo” e “masturbação” [ou seja, esse autor carola considera que lolicon representa tudo que é degenerado, e na mente de pessoas caducas tudo é degenerado… mesmo o amor sáfico ou o ato de masturbar-se!]. O crítico de mídia [creio que a esse ponto da minha matéria, que traduz alguns trechos da Wikipedia, devo esclarecer que no Brasil essa expressão certamente seria substituída por “antropólogo” ou “sociólogo”, que são as faculdades que formam os críticos dos mass media por excelência – nada tem que ver com jornalismo, embora um jornalista possa ser crítico de mídia também…] Setsu Shigematsu argumenta que essas formas de substituição e mímica possibilitam ao lolicon “transformar o sexo heteronormativo e tradicional numa paródia completa da sociedade”. Obras mais extremas neste universo figuram ainda coerção, estupro, incesto, bondage [já foi citado acima em sadomasoquismo] e hermafroditismo [não há nada de extremo nisso!!!], este último tópico corroborado por Matthews 2011.

Nagayama, terceiro estudioso citado neste subtítulo, diz que maioria dos mangás lolicon PORNOGRÁFICOS [agora sim foi traçada uma linha, porque o lolicon-sem-mais não pode ser resumido aos atributos do parágrafo precedente de forma alguma] lidam com “a consciência do pecado”, ou servem como sensibilizantes de tabus, da culpa e da compulsão [isso por si só explicaria sua origem específica na sociedade japonesa – mas hoje trata-se de fenômeno mundial]. Alguns mangás retratam a mulher como a beneficiária da experiência libertadora como resultado, a parceira realmente ativa da relação, a sedutora de homens. Noutros, o tropo e a realidade misógina do “homem como mal absoluto que preda vítimas indefesas” têm mais relevância. Seria uma exposição nua e crua da fragilidade dos personagens, ou quase sempre das personagens, das mulheres. O autor alega que se um mangá mostra o sexo entre duas crianças estaria isento da “consciência do pecado” validado pela inocência mútua do ato, além de evocar no leitor nostalgia e uma visão idealizada do passado, mais puro. Outros mangás tentam instilar esse desejo de nostalgia-agora, de repetir a infância, na psique problemática de seus personagens, principalmente nos mais abstratos em termos de estória e também character design. Mas Nagayama alerta: “É só porque é ficção e porque a ficção se distingue claramente da realidade que alguém experiencia a parte moe, estando implícito na fala que a “parte lolicon” é o resto maldito da equação. Não saberia o público (especificamente lolicon) apreciar a diferença entre ficção e realidade mais – teria perdido essa capacidade, que presumo inata no homem?

O governo da cidade de Tóquio já lançou campanhas maciças de banimento de artes eróticas questionáveis em animes, mangás e videogames. Durante um destes fuzuês que parecem cíclicos, My Wife Is A Grade Schooler [Minha Esposa é uma Colegial], mangá hoje fora de circulação, foi lançado. E esse trabalho foi a maior vítima da campanha. Quando o mangá foi mostrado na TV (não como anime, mas em canais de notícia, que filmaram suas páginas), post-its foram usados para censurar os locais mais sugestivos das caricaturas. Porém, aí ocorreu um efeito histérico reverso: os tais post-its induziram o público a imaginar as cenas ainda mais sugestivas do que eram de fato. O mangá era de “humor extremo” ou gag manga e criticava o cinismo da sociedade japonesa, incluindo sua hipocrisia pedofílica. Não são poucas as teorias de que o mangá foi parar no noticiário para servir de bode expiatório para toda uma geração de content creators, mas, novamente, o público underground passou a ter mais acesso à obra graças a essa tática asinina (mostrar o que se quer esconder… e mostrar apenas de forma censurada). Faremos um cruzamento inesperado do mundo totalmente japa ao mundo mais american way impossível ao descrever a capa do primeiro tankoubon de My Wife… como bastante alusivo a uma série de fotografias da super pop idol Britney Spears… Com efeito, a ascensão de Britney ao estrelato coincide com a exportação definitiva (segunda, terceira onda, não importa qual onda, mas dessa vez sem a recessão das outras, pois que vige até o momento) do modelo mangá-anime-videogames com estética japonesa traduzidos para os nossos continentes. Basta ver que digitando-se o nome do mangá “proibido” o google remete primeiro a sites sobre Britney Spears. Como se deu essa súbita associação transoceânica inimaginável? Não sei se essa capa e esse material é tão difícil de encontrar mesmo hoje na internet, mas vejo paródias-de-paródias como “If my wife became a high school student…” aparecendo na pesquisa… o que isso conota é o famoso meme: a namorada pergunta ao namorado: “Você ainda me amaria se eu virasse um verme?”. E creio que fique no terreno do meme. Ou, o que é mais grave e sensacionalista por parte da mídia ocidental, existe a hipótese de que o título japonês sempre tenha comportado a restritiva “se…” e que não estejamos falando de um mangá que parodia um gag manga, i.e., o círculo completo da auto-paródia, mas apenas de um e mesmo produto, da década passada, conforme encontrei visualmente na seguinte forma:

No que isso divergiria de um Goku magicamente transformado em criança num shounen absolutamente de classificação livre, ainda casado com uma idosa, faz meu cérebro coçar… pois não há resposta possível! Talvez o problema seja que a estória aqui contada seja mais interessante que Dragon Ball GT (uma chance de mais de 99,9%)… Realmente indignante para os puritanos. Desculpe não manter um tom neutro, mas às vezes a neutralidade é mentirosa, e aqui a desfaçatez da “discussão” (nem chamaria disso) ultrapassa todos os limites da inocuidade das picuinhas humanas… Que políticos japoneses percam tempo com esse tipo de palavrório contra “esse tipo de mangá” em vez de convencer sua população de que precisam de emigrantes (do ponto de vista do resto do globo), e jovens, e racialmente ecléticos, isso sim me deixa possesso! Uma sociedade que prefere, sendo uma exportadora de cultura, deixar-se morrer aos poucos por pura e simples xenofobia… Não deixa de ser irônico!

Mesma mochila vermelha, [parece que a obra da capa acima É a original; logo, a tradução anglófona da Wikipedia conduz a um erro fatal] mesma camisa de malha azul, vestido de noiva tal qual. Não é coincidência. Murakami, fotógrafo, dentre outros ofícios, e Seiji Matsuyama, o autor de My Wife Is A Grade Schooler (IF MY WIFE WAS, retificando, o que é grotescamente diferente, ainda mais no mundo da ficção – aliás, IF já denota que é ficção!), estiveram conversando no twitter sobre fotografia e sua relação com mangás ero. Matsuyama postou alguns links da Pop Magazine em seu website, com trabalhos que ele realizou como freela. Matsuyama chama suas criações de “Takashi Murakami x Britney Spears x My Wife Is A Grade Schooler collaboration” (uma tríade do mangá do polêmico autor, do ditocujo autor e do fotógrafo avant-garde com a cantora – diria influencer se essa palavra já existisse até seu auge lá pelos 2007 – que mais vendia no momento, e ainda sustenta inúmeros recordes que, se pensarmos nas mudanças no mercado da música, parecem inquebrantáveis para sempre). Murakami defende no twitter que esse tipo de projeto se destina precipuamente a indicar que mangá é arte. Aqui eu pego o bonde sensacionalista de um artigo da Kotaku (que não sabe se é pró-ocidente, pró-oriente, anti-todo mundo, site de fofoca, de games…).¹ Ashcraft (jornalista da Kotaku) pondera, a respeito:

“Se a legislação [japonesa] sobre crianças virtuais deveria ter passado [sido aprovada] ou se essas imagens são arte ou pornografia [veremos abaixo que COM CERTEZA não são (mais) pornografia, in this day an age, e felizmente!] está além do escopo deste artigo [5 parágrafos mal-redigidos!]. O que está em discussão aqui é se Britney Spears ‘sabia o que estava fazendo’. Ela sabia que estava participando? [em quê, esclareça o leitor! nas filmagens de Eyes Wide Shut, de Kubrick por acaso?!?] Estava por dentro do plano? Que essas imagens nessas fotografias estão conectadas ao que alguns críticos [que críticos?] estão chamando de pornografia infantil?”

Título isentão da matéria: Was Britney Spears Bamboozled Into Virtual Child Porn Protest Art?

¹ Pergunte-se por que Tim Rogers, o mais celebrado resenhista de lá, pulou do barco e hoje consegue muito mais audiência em seu canal-solo no YouTube!

MINHA PRAGMÁTICA E SUPRAMORAL OPINIÃO SOBRE TODA ESSA POLÊMICA-CHINFRIM, NÃO SEM ANTES APRESENTAR AS TAIS FOTOS DO “POLÊMICO” ENSAIO DE BRITNEY POR MURAKAMI, SE É QUE PRECISA (Hollywood, você já foi bem melhor com suas vedetes!):

Uma coisa podemos dizer: não é uma mulher recatada e do lar! Ah, e nem de longe as poses mais provocativas da diva, sou obrigado a dizer a quem não sabe ainda… Acho que homens babões atrás de mero fetiche imagético ficaram bastante decepcionados… E peraí… quantos anos Britney tem aqui? “Pornografia infantil”?!? Faz-me rir!

Se algo o desagrada, você, leitor, censor, ou se algo soa-lhe eticamente inconveniente, ignore, faça shadow ban, mas NÃO TENTE SUPRIMIR O MATERIAL com a ajuda de leis governamentais – isso fomentará a circulação do material de forma ilícita. Esse raciocínio ÓBVIO ainda não chegou à mente da maioria do público nem muito menos das autoridades escandalizadas, por sinal, daí a profusão de polêmicas inócuas com que lidamos! E especificamente sobre Spears: não subestimem a inteligência desta mulher e artista! “Sim e não”, caro Ashcraft (repórter homem sem qualquer tipo de suscetibilidade ou mesmo libido, imagino, o que inclui senso artístico); ela sabia “no que estava se metendo”, mas sua opinião era de que essas fotos ingénues nada tinham a ver com pornografia infantil, nem com pornografia dela mesma – fim do debate e da “polêmica”!

Meme que flagrei hoje, 20 de janeiro de 2024, na minha timeline: “If my father was a…?” parece ser a “idéia” central, para além de algumas referências implícitas a alguns animes para quem souber saborear os detalhes. Memes não possuem uma lógica que deva ser encarada com um códice moral ou olhar de julgador, simplesmente se ri deles ou se os ignora… Quanto mais eu demorar para publicar este artigo, mais referencial memético encontrarei para acrescentar, então é melhor terminar de uma vez!

PALAVRAS FINAIS, POR ORA

(estou ficando cansado…)

Em 2014 estabeleceu-se que obras lolicon ficariam de fora das leis de restrição japonesas em pornografia infantil. Um jurista do caso declarou que “Pornografia de mangá, anime e feita em CG [computer graphics] não viola diretamente os direitos de garotas e garotos. Não foi cientificamente validado que esse material possa vir a causar danos mesmo de modo indireto. Sem essa validação, punir autores, veiculadores e usuários se torna ditatorial”.

Estatisticamente, o abuso de menores está em queda no Japão desde os anos 60-70, justamente anos do boom lolicon. McLelland diz que “garotos” ou “garotas”, personagens desse tipo de mídia, são na verdade a hipóstase de um “terceiro gênero”. Steven Smet defende que o lolicon é um “exorcismo de fantasias” que inclusive ajuda a explicar a queda da criminalidade sexual no país. Galbraith sustenta ainda que esse tipo de arte e movimento, tornando-se profundo, promove o debate aberto dos temas da otaku culture com os meios de comunicação de massa, pondo a descoberto seus principais problemas éticos.

Um estudo de 2012 da Sexologisk Klinik (governo dinamarquês) não encontrou evidências de que desenhos que ilustrem explícito abuso sexual de crianças conduzam a abusos no mundo real. Sharalyn Orbaugh defende que mangás que contêm menores vítimas de abuso ou pelo menos engajados em atividades sexuais podem ser uma ferramenta de auxílio para menores que foram vítimas lidarem com o trauma.

Hiroshi Nakasatomi, do campo do direito, diz que a estética lolicon pode distorcer os desejos sexuais do leitor e induzir a crimes [alguém do direito falando em causa-efeito de forma tão simples, quanta novidade!]. Nakasatomi crê ainda que esse tipo de arte viola os direitos da criança, visão compartilhada pela ONG CASPAR (fundada em meio à repercussão do caso do serial killer Miyazaki).

A feminista Kuniko Funabashi entende que o lolicon contribui, sim, para a violência sexual por iconografar principalmente garotas em posições passivas e subordinadas e “apresentar o corpo feminino como uma posse do homem”. Mais um do Direito, o sr. Shin’ichirou Harata, toma o cuidado de ressalvar que qualquer lei sobre o assunto não pode indistintamente tratar material ficcional e real sob o mesmo crivo, cabendo ao “fã” ter discrição e “noção da quarta parede” em trabalhos potencialmente ambivalentes. Este jurista acredita que há ética no meio, e que o selo moe representaria justamente o lado ou metade “mais benigno(a)” deste universo, sendo o baluarte de uma ética otaku (a segunda vez que lemos essa opinião nesta espécie de suma de resenha crítica que vimos desempenhando).

Dilton Rocha Ferraz Ribeiro analisa que até o momento atual leis para restrição e leis que são contra restrição de materiais lolicon se mantêm estáveis nos últimos anos, sem tendência para reviravoltas acentuadas seja para um lado, seja para outro. Catherine Driscoll e Liam Grealy acreditam que há pressão internacional sobre o Japão para aprovar leis de censura e que no direito local tende-se a falar de um “excepcionalismo cultural” aplicável à cultura nipo. Deveríamos nos perguntar também por que legislações anti-armamentistas aprovadas pela própria ONU não encontram qualquer salvaguarda nos Estados Unidos da América, se não queremos ser aqui hipócritas!

Alguns mangakás e estudiosos dos mangás comparam o caso do lolicon (obviamente a taxa de pedófilos entre os leitores é muito baixa, como em qualquer segmento social) com a do público yaoi: a maioria dos leitores habituais desses mangás com enredos homossexuais masculinos é composta por heteros. Uma preferência literária não-condizente com a sexualidade cotidiana, portanto.

O teórico queer Yuu Matsuura (não confundir com o personagem fictício de mesmo nome) afirma em alto e bom som que personagens 2D são artefatos não-humanos e que desejo orientado a tais dispositivos não é qualificável como desejo sexual, a não ser que fosse de uma outra espécie não-humana, não-animal, figurativa, nova, sem precedentes, mesmo no campo do imaginário (pois é diferente até de ler um romance de cavalaria e sonhar com uma consumação platônica ou carnal). Matsuura diz que quem qualifica lolicon como “pornografia infantil” incorre num conceito para isso por ele formulado, “hiper-sexualismo antropomorfo”(*), alegando que há mais na natureza e nas pulsões humanas que essa visão clássica e ultrapassada. Segundo Matsuura essa tendência possui implicações bem desumanas, quer seja, a marginalização dos classificáveis como adeptos do nijikon, palavra que apareceu mais cedo no texto quando expusemos Galbraith (se quisermos passar grosso modo por esse conceito sem perder tanto de seu conteúdo originário, pensar basicamente na categorização “assexual” que cunhamos no Ocidente em tempos recentes). Só o que sabemos é que, enquanto seres vivos, temos pulsão-por-algo, esse algo não necessitando ser de nossa espécie, ou mesmo tridimensional, ou real.

(*) 対人性愛中心主義, taijin seiai chūshin shugi.

Akira Akagi entende que de décadas para cá a idealização do herói típica do público masculino sofreu intensa metamorfose (fenômeno ligado à decadência do gekiga): “Leitores de lolicon não necessitam de um pênis para ter prazer, eles sentem necessidade de êxtase por uma garota. […] Identificam-se COM A garota, e sentem com isso um prazer que o Ocidente até Freud classificaria de masoquista”. Gō Itō vai além e diz que já ouviu em entrevistas com mangakás: “A criança loli que eu desenhei sendo estuprada era eu”. Ele entende esse tipo de comentário, generalizadamente, como uma metáfora: o sujeito sendo estuprado pela sociedade e seu grito de protesto.

Kaoru Nagayama complementa essas posições dizendo que o leitor de lolicon não é estático e flui entre a perspectiva do observador voyeur onisciente e insensível num segundo para no outro identificar-se com cada personagem da trama e seus sofrimentos ou deleites, fazendo sínteses existenciais dessa experiência em poucos instantes. Co-autora do Book of Otaku (1989), a feminista Chizuko Ueno entende que o lolicon, sendo uma orientação clara para o bishōjo fictivo, é “completamente alheio à pedofilia”, e não perdeu a essência cute atribuída ao fenômeno moe em nenhum momento de sua evolução. Teria sido, sim, uma resposta masculina, dos que se sentiam excluídos dessa estética mais “fofa”, para também passarem a fazer parte do circuito bishoujo, apesar da demografia das editoras inicialmente direcionar-lhes apenas material shoujo. Em outros termos, o “homem”, para o “japonês médio”, já não é o mesmo, dos anos 50 para cá. Isso é tão óbvio, e tão corrente para nós, que até esquecemos que o Japão viveu um sistema rígido de patriarcado muito mais severo e estendido que os nossos diferentes patriarcados (considerando os dois tipos de colonização da América, a Europa, a Oceania, a Rússia, etc.), e que a revolução de costumes deles, ao menos nos meios de expressão artística, foi muito mais acelerada.

Partindo para a análise da sexualidade japonesa e deixando um pouco de lado os mangás, abstraindo o fenômeno evidente de que “a arte-influencia-a-vida-e-a-própria-arte” por um parágrafo apenas, e considerando somente as mudanças sociais e seus efeitos na arte (análise de causação linear), o sociólogo Kimio Itou atribui a emergência do lolicon às mudanças progressivas das relações intergênero no país. Para Itou a resposta mais óbvia que a juventude masculina japonesa do pós-guerra encontrou ao se sentir inferiorizada e imatura diante de mulheres cada vez mais independentes e assertivas, liberadas para o mercado de trabalho, foi procurar um refúgio imediato em formas de arte em que “dispunham de objetos passionais ainda fáceis de administrar, como na época de seus próprios pais [pais no coletivo de ‘apenas homens’] para com suas esposas submissas”. Eixo simplista de pensamento, como o dos que espumam por uma isonomia completa entre material de ficção e realidade para punição por pedofilia, porém agrega à discussão, sem dúvida, pois é uma das facetas do fenômeno.

Kinsella, informado pelo comentário de Itou, concorda, mas diz que há obviamente a influência feminina: a parcela das consumidoras mulheres também se interessa por ver homens mais vulneráveis e “desnudos”, mais convincentes e vulneráveis, em suas estórias, o que efetivamente acontece nos mangás que derrubam os tropos clássicos do shounen. Kinsella resume: o lolicon é um modo de lidar com a ansiedade social, prevalente na sociedade japonesa, em que participam ambos os sexos.

Este artigo é parte de uma série de traduções da Wikipédia inglesa sobre animes ou tópicos tangentes, mas acrescento ou removo detalhes ou conteúdos conforme minha predileção – a ponto de o artigo final se tornar quase irreconhecível se cotejado ao artigo da Wikipedia, tantas modificações e inserções eu faço. De fato, se tornou meu artigo em vez de apenas mera tradução. Às vezes – mas não sempre –, com o intuito de facilitar ao leitor, grifo os trechos mais pessoais de azul. Meus hiper-links não conduzem ao próprio site wikia, mas a outros artigos do rafazardly ou do seclusão (meus blogs), quando presentes.   

próximo da série “anime & mangá”: O QUE É SHOTACON? (o oposto diametral de LOLICON, ou antes a complementaridade de sexo do LOLICON, i.e., o mesmo fenômeno, só que espelhado para o masculino)

NIETZSCHE’S SELF-EVALUATION AS THE DESTINY OF PHILOSOPHY AND HUMANITY (Ecce Homo, ‘Why I Am a Destiny 1’) – Werner Stegmaier, Univ. de Greifswald, 2010. (trad. Lisa Marie Anderson)

No philosopher before Nietzsche spoke in this way; none declared himself the destiny of philosophy and of humanity. We must confront even this unheard-of claim and ask why he spoke in this way.” “Martin Heidegger especially insisted upon this; he saw Ecce Homo not as the ‘apotheosis of uninhibited self-presentation and boundless self-mirroring’ nor as ‘the harbinger of erupting madness’, nor even simply as a ‘biography’, but rather in fact as ‘a <destiny>, the destiny not of an individual but of the history of the era of modern times, of the end of the West.’ (Nietzsche. Vols. III/IV, ed. David Farrell Krell, San Francisco: Harper & Row, 1987, p. 3).”

Rodolphe Gasché, ‘Autobiography as Gestalt: Nietzsche’s Ecce Homo’, in Daniel O’Hara, ed., Why Nietzsche Now? (Bloomington 1985), 271-290.

Peter Sloterdijk confirms Nietzsche’s ‘<selfishness>’ (45) or ‘<megalomania>’ (40), both of which he places in quotation marks: ‘The light values of Nietzsche’s most exposed statements about himself are so excessive that even the most benevolent and freethinking readers, even those who, in their intoxication, are agreeable to him, avert their eyes at these moments’ (40). But Sloterdijk also legitimizes this selfishness in describing ‘the event of Nietzsche as a catastrophe in the history of language’ (8) and his ‘obscene abundance of self-praise’ as the unleashing of the ‘eulogistic power of language’ or of ‘speaking well [Gutreden]’ – of speaking well not for Nietzsche’s own sake, but in order to overcome the ressentiment-laden ‘speaking-poorly-systems [Schlechtrede-Systeme]’ of metaphysics and morality (28f.). Sloterdijk writes that Nietzsche pursued ‘the revaluation of all embarrassments [Peinlichkeiten]’ with the ‘cynicism’ of a Diogenes of Sinope (46) and offered his readers a new innocence of extravagant speaking well through the ‘gift-giving virtue’ [virtude dadivosa, bela expressão] with which he has his Zarathustra speak (51). Of course, in the end Sloterdijk counts Nietzsche only as a ‘trend designer’ of the ‘individualistic wave’, as a ‘life-style-brand’: ‘Only a fool, only a poet, only an ad writer’ (54, 57). And not a philosopher? Peter Sloterdijk, Über die Verbesserung der guten Nachricht. Nietzsches fünftes ‘Evangelium’. Rede zum 100. Todestag von Friedrich Nietzsche, gehalten in Weimar am 25. August 2000 (Frankfurt 2001).

But this claim could also be ironic – in the sense of Socrates, whose assertion that he knew nothing could likewise only appear presumptuous in the face of his superior knowledge. Yet only under the protection of this presumption could Socrates question his interlocutors in such a presumptuous way as he did, thereby exposing all their knowledge as groundless. With irony he approached even the Oracle of the god of Delphi, which proclaimed destinies and had proclaimed that no one was wiser that Socrates – a proclamation that Socrates did not accept, as one generally would a divine oracle, but rather steadfastly set out to test.”

With this double presumption, which cost him his life, he became the destiny of philosophy and of humanity and attained world-historical importance with his ‘world-historical irony’, as Nietzsche calls it (EH, WA 4).”

By raising himself up, with world-historical irony, to the level of a divine standard, Nietzsche exposes the putatively divine standards as human ones.”

O CARAÇO DO ANGU: “Nietzsche’s thought cannot be measured by the standards it calls into question. Therefore one has to rely, as an experiment, on Nietzsche’s own standards. But these standards are, for their part, not readily grasped.”

PERFEITO ESPELHO DE PLATÃO: “Only this practice, as extensive and time-consuming as it is, guarantees a methodological analysis of Nietzsche’s philosophy that satisfies his methodological demand that his writings be read ‘slowly’ in their own contexts, without prematurely extracting general ‘lessons’ from them.”

Alexander Nehamas remarks that irony, which in Socrates’ case consists of saying <too little,> functions for him just as hyperbole, which is saying <too much,> functions for Nietzsche.’” Nehamas, Nietzsche: Life as Literature, (Cambridge, Mass./London 1985), 26.

Nietzsche speaks of ‘destiny’ [Schicksal] in his writings several hundred times. Here he uses the word in the title of the section but not in its first aphorism itself; there he uses the words ‘fate’ [Loos] and ‘calamity’ [Verhängniss].”

to that end I must first go down deeper than ever I descended—deeper into pain than ever I descended, down into its blackest flood. Thus my destiny wants it. Well, I am ready.”

“‘destiny’ is a concept that we make for ourselves out of an unforeseeable and inalterable occurrence, in order to identify (and sometimes also to personify) the unidentifiable.” “in consciously unleashing the unforeseeable and inalterable, one can also ‘play destiny’ and thus ‘be destiny’ for someone or something.”

According to its usual concept, a destiny is unwilled, ‘imposed’. To will one’s destiny is thus to make yet another paradox of the already paradoxical concept of destiny.” “That is why Nietzsche has Zarathustra call destiny an ‘experience’, something that can be experienced but not comprehended [begriffen].”

To be sovereign is to be able to make something that one wills out of anything that happens. And those who will their destinies can also themselves function as destinies: they arrive ‘like destiny, without cause, reason, consideration, or pretext; they appear as lightning appears, too terrible, too sudden, too convincing, too “different” even to be hated’.”

In the aphorism Ecce Homo, Why I Am a Destiny 1, which comprises little more than a page (in the KSA edition [Kaufmann in English]), Nietzsche orients all the major themes of Western philosophy (destiny, religion, truth and politics) toward one vanishing point: himself and his revaluation of all values.”

if one does not want to succumb to destiny, one must be hard and inexorable like destiny – by accepting that which is beyond his control as his own will”

I find it necessary to wash my hands after I have come into contact with religious people”

Abluções cotidianas.

I contradict as has never been contradicted before and am nevertheless the opposite of a No-saying spirit.”

only beginning with me are there hopes again.”

For when truth enters into a fight with the lies of millennia, we shall have upheavals, a convulsion of earthquakes, a moving of mountains and valleys, the like of which has never been dreamed of. The concept of politics will have merged entirely with a war of spirits; all power structures of the old society will have been exploded into the air”

Still so far…

Aforismo nº 1 dividido em 22 seções.


[1]

the word ‘lot’ [Los] emphasizes that which is random and uncontainable.”

straw


But prophets (at least those of the Hebrew Bible) do not foretell destinies so much as they primarily ‘see’ – despite the resistance of common foolishness – and then proclaim what has already happened (in the case of the biblical prophets, primarily the turning away of the chosen people from God) and what the consequences must be.”

Fritz Bamberger, eds., Die Lehren des Judentums nach den Quellen, 3 vols (Munich/Darmstadt 1999)

It was and is his lot to be both an unheard and an unheard-of prophet, and he reveals this lot in the preliminary sections of Ecce Homo through a genealogy of his thought, from the random circumstances that came together to form his inevitable and necessary destiny, his destiny to be, with his ‘uncovering’, a ‘destiny of humanity’.”

[2]

apparent certainty”

whether he will become a destiny in the future depends on whether others recognize him as a destiny”

It is dependent upon their future ‘memory’ of his ‘name’, upon whether individuals remember his name so that it lives on; the memory of others is his destiny.”

A name, for its part, is a generally used sign for an individual; it is given by others before the individual himself can speak or say ‘I’.” E depois vêm os epítetos: O Filósofo do Martelo, A Dinamite Humana, Cila, O Grande, o Cínico, o Breve, etc….

Even the name, then, is a destiny that one makes his own.” Even our dead parents (dead inside us, dead to us).

Keith Ansell-Pearson & Howard Caygill, ‘On the Fate of the New Nietzsche,’ Ansell-Pearson and Caygill, eds., The Fate of the New Nietzsche (Aldershot 1993) 1-11:1. These are always supposed to be different Nietzsches, and yet also the true, only justified Nietzsches – or, in Zarathustra’s language, the ‘last’ Nietzsches. Nietzsche’s philosophy (and all ‘identities’, even that of the human being) is ‘mistaken’ at the very moment one wants to ‘determine’ it. Nietzsche opened EH with the adjuration: ‘Hear me! For I am such and such a person. Above all, do not mistake me for someone else’ (EH, Preface 1); perhaps he also designed EH as a kind of test for his readers, that they should mistake him and thus compromise themselves – using the notorious ‘self-parody’ that mocks all attempts to ascribe to him a true ‘self’. Daniel W. Conway, ‘Nietzsche’s Doppelgänger: Affirmation and Resentment in Ecce Homo’, The Fate of the New Nietzsche 55-78. Conway’s pugnacious essay targets the idolatry that he believes Alexander Nehamas and Richard Rorty [ora, ora!] have committed with Nietzsche and especially with Ecce Homo, which he thoroughly excoriates.”


Que moral você tem para…?

Mas que moral?, é a primeira questão.


Derrida quotes EH, Why I Am A Destiny 1 in its entirety – in the context of the extent to which the ‘great politics’ with which the aphorism ends is implicated in the politics of the National Socialists who, fairly or not, invoked Nietzsche (31f.).” Cada um com seu presente.

Habermas calls Nietzsche the ‘turning point’ that has turned the ‘discourse of modernity’, with the ‘goal of exploding modernity’s husk of reason’.” O problema é que Habermas enxerga isto com maus olhos! Como pode dialogar um homem que perdeu sua sombra?

Aquele que sempre tinha uma adversão – Aberman


Nietzsche critiqued the metaphysical concept of reason … but also developed a new, quite differentiated concept of reason, which has yet to be explored in its contexts by Nietzsche researchers. For a critique of Lukács’s Nietzsche-critique, see Henning Ottmann, ‘Anti-Lukács. Eine Kritik der Nietzsche-Kritik von Georg Lukács,’ Nietzsche-Studien 13 (1984), 570-586, and Ottmann, Philosophie und Politik bei Nietzsche (Berlin/New York 1999), 429-433.

one only remembers that which one wants to remember or is compelled to remember. And Nietzsche aims at such a compulsion: with the aphorism in question he wants to ensure that his name will be remembered, will have to be remembered, that we cannot forget what was written in this name.” Se todos os séculos fossem pessoas, aliás, garotinhas com mesada do papai (moe concept), o XX seria um misto de spoiled brat com zero cents no bolso: séc. mais pobre, a despeito de si mesmo – era seu destino: teve pais ruins que viveram tempos melhores, eis tudo. O fato de eu ter nascido e sido feliz naquele século já é uma redenção, ou podemos dizer que ele durou apenas 87 anos.

[3]

o something tremendous

Habermas judges Nietzsche to be just as dangerous as Nietzsche judged himself to be.” Ele não sabia brincar!

When Kant conceived his ‘Critique’ of reason he was still very much certain that reason, though it had overstepped its bounds in the course of millennia and thus been merely ‘groping about’ among unprovable metaphysical belief systems, could be brought to the ‘secure course of a science’ through a secure measuring of its bounds.” Era então como poder um jardineco. Agora é preciso levar a mão de fora – e também a de dentro…

Here reason was still the authority for a critique of itself, and as such also above experience and thus capable of a priori knowledge independent of temporal or personal circumstances.” Um verdadeiro jogo de sires!

the critique of reason had arrived at a crisis and now demanded a reorientation from the ground up, especially in Europe, which had believed so firmly in one, timeless reason. But as Nietzsche noted in his Lenzer Heide note, this reorientation would lead initially to a massive disorientation, to the liberation of forces that can, in their desperation, only destroy and thus also want to destroy; and this ‘crisis’ would erupt in a ‘paroxysm’, a ‘blind raging’ ‘of nihilism and delight in destruction’.” Esperar algo mais brando seria esperar a revolução comunista sem a ditadura do proletariado – esperar a encenação de uma nova farsa européia.

The ‘dangerous consequences’ became a prophecy: the world wars, totalitarianisms, genocides and terrorisms that characterized the twentieth century could be understood (at least in part) as the outcomes of the intellectual crisis that had befallen the fundamental convictions of European thought, in particular the conviction in the beneficial effects of a reason that was common to all.”

[4] Nietzsche becomes a pop star

The dynamite metaphor, in opposition to the concept of a man, has held an extremely strong fascination for Nietzsche’s interpreters – especially for Sarah Kofman, whose whole interpretation of Ecce Homo comes under the title ‘Explosion’. [tão jurássico diante de Baudrillard!] She understands the Nietzsche revealed here precisely as a sudden explosion of long-accumulated forces, and she says herself Nietzsche’s text explodes tenacious, forceful interpretations. This is how she justifies his outlandishness (‘Bien compris, tout cela n’a vraiment rien de fou …’). Explosion I: De l’‘Ecce Homo’ de Nietzsche (Paris 1992), 21.” Seulement feu.

Even the idea of the ‘equality of souls before God’ was, as Nietzsche says in The Antichrist 62, an ‘explosive of a concept which eventually became revolution, modern idea, and the principle of decline of the whole order of society – [was] Christian dynamite’.”

[5]

A bullsola de Nie.: certamente apontando para um norte hiperbóreo inusitado, sozinho no labirinto com o Minotauro! Tem que ter colhões – e fundadores de religiões são eunucos.

A revaluation of all values like the one Nietzsche proclaims had to trigger a strong impetus for new religions – an impetus that we are also experiencing today.” E que época modorrenta essa das turning tables que nada viram! Metafísica da capotada. Trezentos e sessenta inúteis graus de inércia.


MELTDOWN

I found religion! (double sense)

I founded and I found.

But if I founded… triple sense!

Will find and will found and will found… a fond creed.


Philosophers operate in dangerous proximity to founders of religion, only philosophers are less successful.” Síndrome de Licurgo.


Pythagoras and Plato […] had souls and talents that fitted them so obviously for the role of religious founders that one can scarcely marvel enough that they should have failed. Yet all they managed to found were sects.”

Fico feliz em saber!


“‘None of the great Greek philosophers was a leader of the people: attempted most consistently by Empedocles (after Pythagoras), but also not with pure philosophy, but instead with a mythicized version of it. Others reject the people from the outset (Heraclitus). Others have a wholly refined circle of educated people as their public (Anaxagoras). Socrates displays the strongest democratic-demagogic tendency: the result is the establishment of sects, in other words, counterevidence. How could lesser philosophers ever be successful where philosophers of this sort were not? It is not possible to base a popular culture on philosophy. Thus, with regard to culture, philosophy never can have primary, but always only secondary, significance. How is it significant?”

Em fragmentos apenas recentemente publicados (provavelmente também da época de Gaia Ciência). Se considerarmos que os memes são uma religião, temos o Zizekismo – ji-jequismo, de ‘jeca’.

Nietzsche also has Zarathustra make an attempt with disciples – and fail.” No final, os animais são os únicos que permanecem fiéis (duplo sentido).

Infiel!


[6]

Only here does he use the formula ‘affairs of the rabble’ [Pöbel-Affairen]. No decent person wants to be the rabble – Nietzsche least of all.” Não cultivar a mesma religião que o lumpeNproletariado! Na gramática, quem fala mais alto, o português ou o alemão?

But the scholar too is a ‘rabble man’, who because of his ‘faith in his superiority … treats the religious man as an inferior and lower type that he has outgrown, leaving it behind, beneath him’ (Beyond Good and Evil)¹”

¹ Jamais um livro (EH) foi um bricolage tão perfeito da obra de alguém. Não uma suma que só acrescenta, mas que realmente resume, comprime. Engenharia suprema, e de espantar Kubitschek (obra de poucos dias, duas mãos). É certo que a dívida externa de Nie. (sua falta de saúde) mais que decuplicou como resultado…

In philosophy too there is the rabble, people who follow the prevailing truths and valuations in order to find approval and acclamation.” Rabble everywhere.

[7]

Quem nunca teve um amigo crente que atire a primeira pedra! clean attire

[8]

To be evil is to do evil things to others, to do something that they believe harms them; to be malicious, on the other hand, is to remind others of what evil could be within them that they do not admit: a malicious person brings others to enlightenment about themselves.” Interessante. True nature post-pure malice: Gon x Killua.

“‘I think’ can easily indicate ‘I believe’ in German; in this case Nietzsche’s sentence would mean: ‘I believe I am too malicious to believe in myself’.”

it assures the self to oneself and renders the self unsure at the same time.”

On the other hand, ‘I think’ was precisely the signal for the modern Enlightenment, the call with which Descartes initiated it, so that no belief could go untested.” I think therefore I am too malicious. I am too malicious therefore I think.

Never to speak to the masses is never to speak with masses, but only doubts.


For an enlightener, there is no certainty beyond this belief. Nietzsche’s phrasing is malicious in that it ironically allows for both readings, and only both of them together allow us to see what Nietzsche ‘wants’: to believe in his powers of enlightenment without ever being able to be sure of them.” Therefore he wants what he wants or he does not want (because he also has his fanatics).

Nietzsche pays homage in Ecce Homo to Voltaire’s noble manner of enlightenment, to his ‘war without powder and smoke, without warlike poses, without pathos and strained limbs. […] One error after another is coolly placed on ice; the ideal is not refuted—it freezes to death.—Here, for example, <the genius> freezes to death; at the next corner, <the saint>; under a huge icicle, <the hero>; in the end, <faith>, so-called <conviction>; <pity> also cools down considerably—and almost everywhere <the thing in itself> freezes to death’ (EH, HH 1). See also HH II, WS 237.” E é óbvio que o herói-santo-autopiedoso congelado é Rousseau. Impossível pensar num Voltaire rosa na sala sem evocar o elefante da moral (V.xR.)…

[9]

In the published text, ‘fanatic’ and ‘prophet’ have been contracted to ‘founder of a religion’, and ‘holy man’ replaces ‘god’: thus Nietzsche raises the ‘fanatic’ to the level of a ‘founder of a religion’ and pulls ‘god’ back to the level of a ‘holy man’.”

Heinrich Köselitz pronounced Nietzsche ‘holy’ at his graveside; Alfred Kubin called Nietzsche ‘truly – our Christ’. Elisabeth Förster-Nietzsche tried unsuccessfully to have a mausoleum in the shape of an Egyptian pyramid erected for her brother on the Chasté peninsula near Sils-Maria; she was successful in establishing the Nietzsche archive she founded in Weimar as a cultic site and a place of pilgrimage. [mais uma instância repulsiva da irmã divinizadora do irmão, Lisbeth Artemisia – ver “NOTA SOBRE DISCUSSÕES (SAUDÁVEIS) EM TRADUÇÃO!” em https://seclusao.org/2023/12/21/depois-de-desligar-o-videogame-o-supercompendio-de-final-fantasy-viii/#]”

George’s disciple Ernst Bertram (Nietzsche. Versuch einer Mythologie, Berlin 1918) wanted to immortalize Nietzsche as a tragic hero. And countless half-moral, half-religious ‘movements’ have invoked Nietzsche, including vegetarianism,¹ feminism¹ and Zionism.¹ Indeed, this kind of thing has happened to no other philosopher to date.”

¹ Mas se não é o tríplice cúmulo do absurdo – venerar um “deus” misógino, onívoro depreciativo de quem não comia carne e mais que tudo deprecador do Estado!

[10]

A buffoon is malicious without being taken seriously. His malice does not offend, but is enjoyed.” Mestre Trágico do Existir, early icon do blog.

the holy man constrains one to an either-or. [Kierk.] But one is free before the buffoon; one can believe him one time and then laugh at him another time. This is the freedom that is important to Nietzsche, given the seriousness of the ‘destiny’ of the ‘task’ that he has taken on as his destiny.”

[11]

The tension of this text – the loftiest in Nietzsche’s oeuvre – is now heightened to the extreme, evincing the agitation, passion and anger of a great prophet and thereby calling into question all objectivity. Nietzsche is now writing, speaking, breathlessly: with ellipses (‘…’), as if there were not enough time to utter the words; with insertions (parentheses), as if interrupting himself; with breaks marked by dashes (‘—’), as if there were no space for logical conjunctions.”

According to Schlaffer, a literary scholar, Nietzsche’s style is responsible for the unfettering of German prose and, consequently, of German history: ‘Such an energy of language and style intensified the meaning of German literature at the beginning of the modernist period, but also intensified the confusion of German intelligence and the catastrophe of German politics’ (12f.). What must the condition of an intelligence and a politics have been, that they were so confused by a literary style?” Hahahaha!

[12]

In John’s Gospel (14:6) Christ said of himself: ‘I am the way and the truth and the life’. Nietzsche does not say ‘I am the truth’ but rather ‘the truth speaks out of me’

The other side of the truth is either the unintentional error or the intentional lie. The unintentional or intentional ‘mendaciousness’ of a holy man – or of a man who is believed to be holy, even if he is a philosopher – lies in the exclusion of the alternative that is always possible.”

[13]

This revaluation cannot itself be a truth in the traditional sense, but rather only a ‘formula’.”

Indeed Nietzsche insinuates autobiographical material more than he narrates it, and the little that he does narrate (which Samuel compiles on the basis of a control text that Montinari has rendered obsolete) he also pointedly stylizes and puts into riddles: ‘I am, to express it in the form of a riddle, already dead as my father, while as my mother I am still living and becoming old.’ EH, Why I Am So Wise 1.” “If EH is an autobiography, then it is, as Sarah Kofman notes in her interpretation, one that radically subverts the ‘<genre> autobiographique’, including the self (‘autos’), life (‘bios’) and writing (‘graphein’), as well as their alleged simple unity.”

[14]

A genius is simply someone who, in his own hardship, rather randomly finds new and far reaching possibilities for others (see HH I 231).”

Thus genius is more a matter of destiny than of merit. The genius does not even hold in his hands impact of the forces that are stored up in him; it is rather circumstances and the age that set off this impact”

[15]

Nietzsche’s use of the term ‘decency’, like that of ‘destiny’, ‘rabble’, and ‘fear’, is shot through with an astonishing revaluation, which I cannot trace here. Again the revaluation is directed toward himself, toward that which he calls ‘intellectual integrity’ and does not find to a similar degree in anyone else.”

[16]

He has nothing more than this opposition, his personal opposition to the moral opposition of truth and lie that has reigned in European thought for millennia. Millennia are Nietzsche’s philosophical measure of time: he has in mind primarily the two millennia that have passed since the founding of philosophy and Christianity, but also the fact that Europe must ‘cast its goals millennia hence’, that it stands under the ‘compulsion to great politics’ (BGE 208). This is the measure of time that measures up to his revaluation.”

[17]

One does not bother to contradict them anymore, but rather stumbles into opposition to them by living differently, experiencing differently, thinking differently. Nietzsche approaches metaphysical oppositions from the place that their millennia-old cult has most staunchly excluded: experience.” Experiências não-replicáveis em laboratório. For Philistines demise!

[18]

Where someone stands in relation to himself, how someone deceives himself, whether he persists in dealing with himself unequivocally, — whether he can bear himself or finds it necessary to have an <ideal> … The idealist smells bad to me…”

Espólio


Nostrils are the olfactory organs of horses: Nietzsche is likely alluding to Plato’s famous myth of the soul as a chariot (Phaedrus, 246 a-b), in which reason directs the horses but is also dragged along by them.”

[19]

Não diga não

refluxo é um crime gástrico

hediondo die-o’-niza

[20]

glad tidings”

[21]

amen como ainda uma vez

[22] EPÍLOGO-PRÓLOGO

The event of the ‘revaluation of all values’ will surpass everything that has been; the painful struggle in philosophy, science, morality and religion will transcend those realms and shock even the common orientation from the ground up. In this crisis Christian morality, as dogmatized by the Greeks, will manifest its deep rootedness in the thought of Europeans and will thus determine the politics whose most extreme means is war. But wars over values will no longer be mere struggles for power, [o que é ‘poder’?] which can be ended by dynasties or nations as easily as they were incited, but rather ‘war[s] of spirits’ with and over truths, morals, religions – in short, ideologies, which creep and spread for a long time and then suddenly make an explosive impact. They are, as the twentieth century sufficiently demonstrated, the most

dangerous dynamite, further and literally employed by terrorism in the twenty-first century, as well.” O terrorismo é passivo-reativo. Pode durar mil anos. Mas aqui repito o que disse na análise do livro de Dugin: ele acertou só que do avesso: o liberalismo (cristianismo, a essa altura) morreu, e a guerra travada é entre fascismo e socialismo – o fascismo no entanto é natimorto, é a anti-vida. Essa é a lenta história que estamos prestigiando, ainda no prólogo do prólogo… Que este fosse o ponto cego de Nietzsche – enxergar o socialismo como movimento do lumpenproletariado – era inevitável…

“‘And if you cannot be saints of knowledge, at least be its warriors’ (Z I, On War and Warriors).” Idealismo, porém são. Nem parece idealismo.

As his notes in the margin of EH show, Nietzsche does not take sides with peoples or nations, estates or classes, even less with races. Instead he wants to ‘found a party of life, strong enough for great politics’ (Nachlass December 1888 – early January 1889, 25[1], KSA 13, 637f.” “It is ‘madness’, for Nietzsche, that wars among dynasties or nations would ‘put elites of strength and youth and power before the cannons’ (ibid., 25[15], KSA 13, 645”


I honestly think it possible to bring order to the whole absurd situation of Europe by means of a kind of world-historical laughter, without even a drop of blood having to flow. In other words: the Journal des Débats is enough …”

(Nietzsche to Jean Bourdeau, presumably January 1, 1889, KSB 8, No. 1232, p. 570)


According to Balke, Nietzsche is only drawing the consequences from that which Michel Foucault would call ‘biopolitics’, and which had been immanent in European politics for ages, as Peter Sloterdijk then pointed out.” Foucault está sendo superestimado nesse panorama.


Now wars are no longer waged in the name of a sovereign who must be defended; they are waged on behalf of the existence of everyone.”

Michel Foucault, The History of Sexuality, Vol. 1

ok! posso rever meu juízo sobre F….


But this is not a manifesto for the killing of the disabled and certainly not for the murder of European Jews. The National Socialists, with their nationalism, socialism and anti-Semitism, would have been an abomination to Nietzsche” What socialism? In the name? Stupidity of a high level. O nome ‘socialismo’ foi o que permitiu a Hitler vencer as eleições em 1932. E só essa função exerceu no regime nazista.


I know nothing that would be more opposed to the noble meaning of my task than this execrable incitement to the egoism of a nation [Volk] or a race that now lays claim to the name ‘great politics’; I have no words to express my contempt for the intellectual standard that now, in the form of the German Reich Chancellor and with the Prussian officer-attitudes of the Hohenzollern house, believes itself called to be the ruler of the history of humanity […]. There is more dynamite between heaven and earth than is dreamt of by these bloodstained idiots…”

(Nachlass 1888/89, 25[6]2, KSA 13, 640f.).


OVERMAN IS GREAT MAN: “Nietzsche used the phrase ‘great politics’ early on, at first (and ironically) for the new German Empire. In his later work ‘great’ means not that which towers over other things, but rather that which is not negated by its opposition, does not perish by it, but rather can make it fruitful for himself and grow from it. In this way the ‘great reason of the body’ makes the ‘little reason’, pure reason, its ‘instrument and toy’ (Z I, On the Despisers of the Body); a ‘great health’ can ‘give itself up’ to grave sickness and thus become more robust (GS 382); ‘the great life’ itself lives off of war (TI, Morality as Anti-Nature 3); ‘great tolerance’ can, with ‘magnanimous self-mastery’, [deixar os fracos viverem, embora confinados e tornados inofensivos – o ideal para um mundo em que bolsominions insistam em nascer] tolerate intolerance and grow from it (AC 38); and ‘great style’ can unite the highest pathos with sobriety and cheer (EH, Why I Write Such Good Books 4). In this sense, ‘great politics’ is a politics that includes that which is usually opposed to it: spirit, in the form of morality, religion, science, philosophy, or ‘a war of spirits’. In his alarming ‘promemoria’ to ‘great politics’, written at the turn from 1888 to 1889, Nietzsche is still concerned with a politics of war ‘not between nation and nation’ and ‘not between classes’, but rather ‘straight through all absurd accidents of nation, class, race, profession, upbringing, education: a war as between rise and fall, between the will to life and vengefulness against life, between integrity and treacherous mendacity…’Insisto em que a classe proletária madura é a classe que representa a vida. E outra coisa: a Europa não ressurgirá das cinzas. N. foi o primeiro pós-europeu, como Platão o último pré-europeu significativo.

Nietzsche’s title Ecce Homo, which appears 3 times in his work might also recall the traditional ceremony of the ‘Ecce’ in Schulpforta, the memorial ceremony for deceased professors and alumni on the day before the final Sunday of the liturgical year, which clearly had a deep impact on its participants. Pupils and teachers sang ‘Ecce quomodo moritur justus’. According to numerous reports, the ceremony made such an impression on the students that they automatically connected the ‘Ecce’ to their own deaths. Even the National Socialists preserved the ‘Ecce’ ceremony when they turned Schulpforte into a ‘National Political Institute of Education’ in 1935. See Reiner Bohley, Die Christlichkeit einer Schule: Schulpforte zur Schulzeit Nietzsches, ed. Kai Agthe (Jena/Quedlinburg 2007), 135-8. Nietzsche experienced 5 general and 7 special ‘Ecce’ ceremonies, which he mentions primarily in his letters: see, for example, Nietzsche to Franziska Nietzsche, August 20, 1860, KSB 1, No. 169, p. 120. Thus, with his Ecce Homo, he could have been (again, ironically?) singing his own death song. In ‘Joke, Cunning, and Revenge’, the ‘Prelude in German Rhymes’ to The Gay Science, he included a poem, modelled after Goethe, called ‘Ecce homo’:

Yes! I know from where I came!

Ever hungry like a flame,

I consume myself and glow.

Light grows all that I conceive,

Ashes everything I leave:

Flame I am assuredly’

(No. 62)

But he also knows that ‘some wretched loafer of a moralist’ can ‘paint himself on the wall’ as the image of the human ‘and comment, <Ecce homo!> (TI, Morality as Anti-Nature 6). And he ultimately titled the genealogy of his ‘destiny’ Ecce Homo – which earns him the charge of ‘duplicity’ and ‘resentment’ from Conway (‘Nietzsche’s Doppelgänger’, 63-6).”

* * *

Paul supported the Christian truth of love, so that he could spread it around the world, through the Greek truth of the universal; Paul’s successors retained the Greek truth in the name of the Christian truth, so that both truths, despite their very different origins, found stability in each other for millennia. If the absolute value of this Greek-Christian truth has now become unbelievable, then the ‘tasks’ of giving to humanity new values and the ‘hopes’ that rest upon them fall, according to Nietzsche, back to individuals with the power to do so, a power that must match or even exceed that of Socrates and Jesus of Nazareth. Nietzsche tried to give form to such power in his Zarathustra, the figure of an individual person with a proven ‘courage to stand alone’ and to be ‘lonely’ even and especially in his thought. Moreover, Nietzsche placed his philosophy under the ‘concept of Dionysus’, the god who unites in himself all oppositions in which humans arrange their world and thus brings them into motion ever anew, against the desire to solidify them as much as possible so as to achieve a lasting stability.

Thus can one take even this unheard-of aphorism philosophically seriously and at its word.”

A INTERPRETAÇÃO EVOLUTIVA DE WERNER JAEGER DA METAFÍSICA DE ARISTÓTELES: Uma análise crítica – Guilherme Cecílio

In: ANAIS DE FILOSOFIA CLÁSSICA, edição v. 10, n. 20, 2016.


só pouco a pouco teria Aristóteles conseguido distanciar-se do platonismo e alcançar um pensamento maduro e original.”

Urmetaphysik X Spätmetaphysik

para que uma obra seja verdadeira e completamente unitária, não basta que ela seja autêntica.”


A pergunta “onde termina a física – e a biologia, na também – e começa a metafísica” faz sentido sobretudo quando o assunto é o Estagirita!

Assim como Heidegger pergunta o que é o ser?, temos o direito de perguntar, face a determinados “pergaminhos”: o que é um livro? o que é a obra?


todo estudo posterior a 1923 é uma tomada de posição a favor ou contra a tese de Jaeger.”

A principal razão de não se ter até agora procurado estudar o desenvolvimento intelectual de Aristóteles é, em suma, a ideia escolástica de sua filosofia como um sistema estático de conceitos.” J., sempre em laranja agora

Thomas Case, ‘Aristotle’, 1910 (1996). (artigo da enciclopédia britânica)


É ilógico, meu caro Watson!

O quê?

O princípio elementar da não-contradição!


A HAGIOGRAFIA DE UM PAGÃO: “Partindo das informações contidas nas diversas Vidas de Aristóteles, a meta do intérprete era reconstruir a história espiritual do Estagirita, desde o período acadêmico até seus últimos anos.”

as contradições e duplicações textuais – Dubletten – são o primeiro passo para que se reconstrua a história por trás de um texto.”

De Philosophia como seu primeiro grande livro (abortado).


Então quando foi mestre de Alexandre ele era ainda um “aluno”?

Desviar de Platão, no entanto, é sempre regredir. Melhor ter ficado à sombra luminosa.


teoria revisionista do suprassensível”


Se houvera logrado êxito, Heidegger não teria precisado publicar nada.

O bizarro elo da ontologia aristotélica à astronomia.


(*) “Stephen Menn disponibilizou no site da Humboldt-Universität zu Berlin uma primeira versão de sua obra ainda não publicada em mídia impressa, The Aim and the Argument of Aristotle’s Metaphysics.”

(*) “ao folhear qualquer introdução ao pensamento de Aristóteles e até mesmo estudos especificamente voltados à Metafísica, é comum encontrar esse tipo de afirmação.” Engraçado, podia jurar que era o contrário: livros-didáticos ou interpretações rasas ou panorâmicas citam a Metafísica como magnum opus indelevelmente unitária. Mas sem dúvida cogitar uma unidade tão absoluta neste tratado em Ar. e argumentar que Nietzsche “só escreveu dois livros propriamente ditos” é o que há de mais espúrio em termos de filosofastros!


Não se pode emendar dois sonetos tão desafinados!

Os filósofos são ótimos, o que estraga são os editores e os fãs!


Penélope Aristóteles, a cosedora.

De niilista a baconiano.

Aporistóteles

Quando Aristóteles Chorou


Aristóteles não resolveu a tensão entre ontologia e teologia porque tal tensão seria, de fato, insolúvel.”

cada esfera especial conserva seu caráter de tentativa e indagação, que não encontra jamais satisfação na forma exterior de uma construção perfeita e impecável, mas está sempre se corrigindo e aperfeiçoando” Qualquer semelhança com seu mestre não é mera coincidência.

Pierre Aubenque, Le problème de l’être chez Aristote, 1962.

(*) “a ontologia é um projeto que jamais se conclui: seria impossível apreender completamente o ser, pois quando se tenta fazê-lo, o máximo que se atinge é o ente. Tal tese, de claro sabor heideggeriano, conjuga-se no pensamento do estudioso francês com um severo juízo acerca da teologia.”

Descortinar-se-ia a verdadeira face de Aristóteles: o filósofo do perene questionar, do revisionismo honesto.” Mas isso ainda é demasiado véu de Maia! Não basta ser honesto, se ser revisionista da perfeição é hediondo. O mesmo vale para o marxismo (Marx//Platão).

MUITO ALÉM DO CIDADÃO JAEGER: “O primeiro a adotar o método evolutivo e aplicá-lo à Metafísica, atingindo, porém, resultados opostos aos de Jaeger, foi Hans von Arnim. (…) Relevantes são também as interpretações de Emilio Oggioni, Paul Gohlke, Max Wundt e Josef Zürcher” Todos entre os 1920 e os 50. Cf. Reale, 2008: “A componente teológica é, para todos, completa ou parcialmente representante do espírito platônico; mas, para Jaeger, o platonismo é o ponto de partida do qual Aristóteles tende a se distanciar; para Gohlke e Wundt, o platonismo é a linha de chegada, no sentido de uma meditada recuperação; para Oggioni, tratar-se-ia de um retorno ao platonismo, contra a tendência, mais autenticamente aristotélica, em direção ao empirismo crítico. [p. 7] Ou seja: uma dupla Odisséia, círculo perfeito.


Podem os analíticos ingleses avaliar o inapreciável (ontologias)?


(*) “Talvez o melhor exemplo dos extremos atingidos pelos defensores do método histórico-genético seja a fantasiosa interpretação de Josef Zürcher. Este autor defendeu que o corpus contém, sim, fortes sinais de evolução; essa seria, contudo, a evolução não de Aristóteles, mas a de Teofrasto! O Estagirita teria se mantido platônico durante toda sua carreira, ao passo que Teofrasto teria evoluído de uma postura platônica ao empirismo radical. O discípulo teria editado a obra de seu mestre, justapondo seus próprios escritos aos textos compostos por Aristóteles.” Daria uma boa novela. E Eco devia ter sido seu autor.

Jaeger serviu-se dessa tese geral como fio condutor para empreender uma ‘restauração’ do corpus: ele julgou ser capaz de datar, ao menos aproximativamente, não só cada obra de Aristóteles, mas até mesmo seções do que tradicionalmente se considerara como sendo uma única obra.”


Aristóteles é o Xenofonte de Platão, diz uma fonte estrangeira (maybe Daily Mirror?).


os textos que dariam testemunho do período puramente platônico da evolução filosófica do Estagirita estariam praticamente restritos às chamadas obras exotéricas, as quais, como se sabe, ou se perderam totalmente ou só nos chegaram de modo extremamente fragmentário.” Hipótese bastante conhecida.

Antes de tudo, é preciso reconhecer que a tese de Jaeger revigorou enormemente o estudo das obras exotéricas de Aristóteles, estudo que vêm produzindo excelentes resultados.” Migalhas, migalhas, migalhas…


Tão diferente de si mesmo que chega a ser idêntico!

Foi Aristóteles jamais discípulo de Platão?

Platão existiu?!


CAUSA MORTIS PEAK NONFICTION: O problema com Ar., agora falando sério, tanto quanto eu o compreendo, é que ele não compreendeu a teoria das idéias. Portanto, opor-se ou não opor-se a elas é o de menos. Quiçá eu não tenha compreendido Aristóteles, no entanto – mas, questão de lógica, se compreendi Platão, compreendi Aristóteles, pois Platão é o summum bonum da epistemologia – se não compreendi Aristóteles, é verdade que me enganei com Platão?!

Teresa Oñate y Zubía (2001, p. 65) chega ao extremo de sugerir que o modo como Jaeger descreve a dicotomia ‘platônico’–‘aristotélico’ reproduziria uma perspectiva renascentista do conflito entre os dois filósofos, a saber, a visão que representa Platão, por um lado, como o filósofo da transcendência, do espírito religioso, e Aristóteles, por outro, como o filósofo da imanência, o campeão do espírito laico e científico, visão que foi imortalizada no celebérrimo afresco da Escola de Atenas, no qual Platão figura apontando para o céu e Aristóteles para a terra.” Eram os renascentistas (deuses) escolásticos? Sabiam voar? Flutuar, ao menos?


Na Ética, vai de Buda a Maquiavel. Queda pura, diria Heid.

O dia que a transcendência for um fardo estaremos todos perdidos (insustentável leveza do Untermensch).


Não tratar como caricatura quem trata os outros como caricatura.


ao falar de um estágio ‘platônico’ e outro ‘genuinamente aristotélico’, Jaeger sub-repticiamente reintroduz a noção de sistema, pois cada um destes estágios teria uma unidade de pensamento tal que os faz merecer, em nossa opinião, o título de pequeno sistema. (…) Jaeger flerta, assim, com um círculo interpretativo assaz vicioso.”

O método histórico-genético, para ser verdadeiramente histórico, deveria construir-se sobre dados de fato incontroversos, sobre datas seguras e bem provadas; ao invés, umas e outros faltam completamente” R. De acordo! É por isso que a filologia é uma merda!

Mas, como se sabe, as referências cruzadas também são, em última instância, inconfiáveis, visto que, por vezes, elas operam nos dois sentidos: o texto α contém uma frase do tipo “como dissemos em β”, o que parece ser um sinal de que β seja o texto mais antigo dos dois; mas às vezes encontra-se em β o mesmo tipo de remissão a α, o que, pela mesma lógica, sugeriria que α seria anterior a β, despedaçando assim a coerência da tentativa de determinar a ordem de composição dos tratados aristotélicos com auxílio das referências cruzadas.” Aristrollteles. Tell, troll!

Liaisons hyper-dangeureuses

À procura do meu Urblog.


(*) Cf. Décarie, 1972 “se Aristóteles acrescenta uma nota para corrigir uma opinião que ele não mais aceita, não pode ele simplesmente eliminar as passagens que dela guardam quaisquer resquícios? Se ele não o faz, é porque ele aceita o que se crê serem os estágios antigos e recentes de seu pensamento.” Até isso é suposição. Gostamos dos “filhos” que superamos… Já outros queimam obras-primas insuperáveis… Exemplo vivo são as minhas Teorias Supremas (de um adolescente sem mestre) à venda aqui.

YOU CHOOSE, REGARDING THE SEASON: “a uns parecerá mais crível que Aristóteles tenha sido um platônico em sua juventude, a outros será mais verossímil que ele tenha sido um anti-platônico.” See a son, see a sun.

o método jaegeriano tende fortemente a optar pela solução cronológica para ‘solucionar’ (supostas) inconsistências, ao invés de tentar resolvê-las filosoficamente, ou melhor, ao invés de tentar mostrar como Aristóteles teria resolvido o problema (ou, no mínimo, como uma solução poderia ser licitamente extraída de sua filosofia).” Quem o lê e não conhece, pode pensar que J. era um tolo. Porém sua Paideia é ainda inigualável em termos de compreender Platão, e se há método “histórico-genético” ali, é sua suprema evolução (pun superintended²). Mas enfim, sobre Jaeger’s Aristotle, tudo volta à moda, basta esperar.

…apesar de todas as críticas, o valor de Jaeger como filólogo é inegável.”

Metafísica, cujos ‘livros sobre a substância’ – Substanzbücher –, isto é, ΖΗΘ (os quais, como vimos, foram eleitos por Jaeger como o paradigma do ‘Aristóteles maduro’), têm recebido, há quase um século, a maior parte da atenção por parte da crítica especializada, ao passo que seções cruciais da obra, tais como Metaph. Α, Β, E e Λ, têm sido consideravelmente negligenciadas.” Convenhamos: Metafísica é um mau livro. Faríamos bem em lê-lo menos, ele todo.


Edição recomendada, se um dia eu não tiver o que fazer: ARISTÓTELES. Metafísica: ensaio introdutório, texto grego com tradução e comentário de Giovanni Reale. Tradução para o Português de Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 2005. 2º v.

Minha edição, à propos, é uma de bolso da Gradifco (espanhol).

Ainda falta o livro maduro de Jaeger sobre A. para eu ler, de toda maneira (11 anos depois deste primeiro).

P.S.: Esse Menn parece bom mesmo! (Só que 8 anos depois parece que o livro ainda não foi publicado!) https://www.philosophie.hu-berlin.de/de/lehrbereiche/antike/mitarbeiter/menn/contents

Para quando eu melhorar meu italiano: OGGIONI, Emilio. La filosofia prima di Aristotele: Saggio di ricostruzione e di interpretazione. Milano: Vita e Pensiero,1939.

* * *

Moral da estória: estou mais confortável apenas transcrevendo Plínio o Velho, o maior copista de Aristóteles que jamais existiu – fazendo de mim um plagiário consciente e informado dos conhecimentos botânicos e zoológicos de Ari!

[ARQUIVO] A TEIA DE ESCOLHAS E DETERMINISMO NAS TEMPORADAS MAIS RECENTES DE LOST

Originalmente publicado em 11 de maio de 2009.

A despeito da atratividade da idéia de que se pode viajar para o passado, o autor dessa série escolheu o fatalismo, a irrevogabilidade das culpas: o passado refeito é exatamente o passado que havia sido feito! Um círculo histórico fechado.

Paradoxo do avô – mato meu avô quando meu pai sequer havia nascido. Mas e então? Resposta: não matei, eis o impossível. O que está no passado é imutável. Significa que qualquer viagem no tempo “já houve” nesta época para onde se viajou. Você já esteve diante do seu jovem avô, apontou-lhe a arma, a bala pegou de raspão, você voltou à máquina e quando perguntou a seu pai se o pai dele já havia sofrido um atentado à vida, ouviu falar do maluco que era você.

APLICAÇÃO NA ILHA Nunca começa, mas eis o universo. Os viajantes que “aparecem do nada” e assumem cargos. Normal do ângulo dos nativos. Ah, o Ben sabia que um avião viria a cair ali… A primeira rixa, do ângulo do Ben, entre ele e Sayid foi: “Sim, sou um assassino!” – tiros no peito. “Por que aquele homem, dos outros, me agrediu?” Sem embargo, como mostrou o desenrolar do capítulo sua memória infantil foi extirpada. Todos os “novos dharma” estarão envolvidos na questão do massacre, mas é de se pensar quantos anos ainda faltam. Mais reflexões poderão ser ensaiadas por essa mente balbuciante assim que flashes do futuro forem exibidos (Locke x Ben; Sun, a esposa do desaparecido Jin, etc.).

* * *

Originalmente publicado em 8 de junho de 2009.

A viagem nº 1 de Desmond não foi como a de todos os outros. Ele foi para o futuro, mas se estava lá não podia morrer no passado. Daniel sofreu na carne ao subestimar, com seu novo corpo, sua sina.

ESSAYS ON SUICIDE AND THE IMMORTALITY OF THE SOUL – Hume, 1755 (1783, edição comentada de um eclesiástico desocupado!). BÔNUS: fragmentos da ELOISE de Rousseau, em inglês.

NOTA DO EDITOR

Hume’s essays on the suicide and the immortality of the soul were completed around 1755 and printed as part of a book of essays titled Five Dissertations. When pre-release copies of Five Dissertations provoked controversy among influential readers, Hume and his printer Andrew Millar agreed to have the 2 essays physically removed from the printed copies. (…) Rumours about the 2 withdrawn essays circulated for years, and clandestine copies appeared anonymously in French (1770) and later in English (1777). In 1783 the 2 essays were published more openly, and this time with Hume’s name attached. Like the 1770 and 1777 publications, the 1783 publication was not authorized by Hume. [e quem disse que precisava?] Along with Hume’s 2 essays, the anonymous editor of the 1783 edition included his own critical notes to Hume’s 2 pieces, and excerpts from Rousseau’s La Nouvelle Heloise on the subject of suicide.” “A copy of the original 2 essays as they were printed in Five Dissertations is in the possession of the National Library of Scotland. That copy contains 19 corrections in Hume’s hand and is Hume’s final surviving revision of the essays. None of these corrections appear in the 1783 edition.” Mau trabalho, editor! Aliás, veremos quão ruim é esse editor que sabia quão pouco “valia” ao ocultar seu nome no devido tempo!

ON SUICIDE

IF Suicide be criminal, it must be a transgression of our duty either to God, our neighbour, or ourselves. — To prove that suicide is no transgression of our duty to God, the following considerations may perhaps suffice.”

Every event is alike important in the eyes of that infinite being, who takes in at one

glance the most distant regions of space, and remotest periods of time.” Tudo importa. Até Hume viu isso. Schopenhauer, que elogiou este artigo, não o viu! Não importa que um cristão ou um fenomenólogo o diga.

judgement” “judgment”

burden” “burthen”

Formas americana e britânica da ortografia, respectivamente. Realmente faltou uma revisão minimamente competente do material!

What is the meaning then of that principle, that a man who tired of life, and hunted by pain and misery, bravely overcomes all the natural terrors of death, and makes his escape from this cruel scene: that such a man I say, has incurred the indignation of his Creator by encroaching on the office of divine providence, and disturbing the order of the universe? Shall we assert that the Almighty has reserved to himself in any peculiar manner the disposal of the lives of men, and has not submitted that event, in common with others, to the general laws by which the universe is governed? This is plainly false; the lives of men depend upon the same laws as the lives of all other animals; and these are subjected to the general laws of matter and motion. The fall of a tower, or the infusion of a poison, will destroy a man equally with the meanest creature; an inundation sweeps away every thing without distinction that comes within the reach of its fury.”

In order to destroy the evidence of this conclusion, we must shew a reason why this particular case is excepted; is it because human life is of such great importance, that ‘tis a presumption for human prudence to dispose of it? But the life of a man is of no greater importance to the universe than that of an oyster.” “If I turn aside a stone which is falling upon my head, I disturb the course of nature, and I invade the peculiar province of the Almighty, by lengthening out my life beyond the period which by the general laws of matter and motion he had assigned it.” “It would be no crime in me to divert the Nile or Danube from its course, were I able to effect such purposes. Where then is the crime of turning a few ounces of blood from their natural channel? — Do you imagine that I repine at Providence or curse my creation, because I go out of life, and put a period to a being, which, were it to continue, would render me miserable? Far be such sentiments from me; I am only convinced of a matter of fact, which you yourself acknowledge possible, that human life may be unhappy, and that my existence, if further prolonged, would become ineligible; but I thank Providence, both for the good which I have already enjoyed, and for the power with which I am endowed of escaping the ill that threatens me.”

When I fall upon my own sword, therefore, I receive my death equally from the hands of the Deity as if it had proceeded from a lion, a precipice, or a fever.” Suponho que tal ‘panteísmo’ fosse inaceitável em sua época, daí a censura!

JESUS CRISTO ESCOLHEU O SUICÍDIO, i.e., previu sua morte e não resistiu a ela (seria blasfemo que imitássemos o ato de Deus-enquanto-homem?): “If my life be not my own, it were criminal for me to put it in danger, as well as to dispose of it; nor could one man deserve the appellation of hero, whom glory or friendship transports into the greatest dangers, and another merit the reproach of wretch or miscreant¹ who puts a period to his life, from the same or like motives.”

¹ A edição traz “misereant”. Misery ant!

“‘Tis impious, says the old Roman superstition, to divert rivers from their course, or

invade the prerogatives of nature.¹ ‘Tis impious, says the French superstition, to inoculate for the small-pox,² or usurp the business of providence by voluntarily producing distempers and maladies. ‘Tis impious, says the modern European superstition, to put a period to our own life, and thereby rebel against our Creator; and why not impious, say I, to build houses, cultivate the ground, or fail upon the ocean?”

¹ Verdade seja dita, isso hoje seria um crime ecológico hediondo, a menos que estudos mostrassem de forma incondicional que isso beneficiaria a natureza e as populações em torno do curso original e do novo curso do rio!

² Resta-nos saber o que seria inocular a varíola…

But you are placed by providence, like a sentinel,¹ in a particular station, and when you desert it without being recalled, you are equally guilty of rebellion against your almighty sovereign, and have incurred his displeasure.”

¹ “Centinal” no original.

I ask, why do you conclude that providence has placed me in this station?” “But providence guided all these causes, and nothing happens in the universe without its consent and co-operation. If so, then neither does my death, however voluntary, happen without its consent; and whenever pain or sorrow so far overcome my patience, as to make me tired of life, I may conclude that I am recalled from my station in the clearest and most express terms.” De fato, o suicida seria especial nesse sentido: estaria em maior comunhão com deus no momento de seu ato supremo: poderia até se comunicar com ele, como uma sibila.

The difference to the whole will be no greater than betwixt my being in a chamber and in the open air. The one change is of more importance to me than the other; but not more so to the universe.” Lição de humildade, verdadeiramente.

A man may disturb society[,] no doubt, and thereby incur the displeasure of the Almighty: But the government of the world is placed far beyond his reach and violence.”

A MAN who retires from life does no harm to society: He only ceases to do good; which, if it is an injury, is of the lowest kind. — All our obligations to do good to society seem to imply something reciprocal. I receive the benefits of society, and therefore ought to promote its interests; but when I withdraw myself altogether from society, can I be bound any longer? But allowing that our obligations to do good were perpetual, they have certainly some bounds; I am not obliged to do a small good to society at the expense¹ of a great harm to myself; why then should I prolong a miserable existence, because of some frivolous advantage which the public may perhaps receive from me? If upon account of age and infirmities, I may lawfully resign any office, and employ my time altogether in fencing against these calamities, and alleviating, as much as possible, the miseries of my future life: why may I not cut short these miseries at once by an action which is no more prejudicial to society?”

¹ “Expence” no original.

A MAN is engaged in a conspiracy for the public interest; is seized upon suspicion; is threatened with the rack; and knows from his own weakness that the secret will be extorted from him: Could such a one consult the public interest better than by putting a quick period to a miserable life? This was the case of the famous and brave Strozi of Florence.”¹

¹ Strozzi, família itálica, rival dos Médici ou Medici. Banqueiros e posteriormente financistas e políticos. Tendo perdido na luta civil pelo controle de Florença, foram banidos e arruinados em 1434. Os Strozzi se recompuseram e posteriormente governaram Siena; houve então uma guerra entre Florença e Siena. Depois as famílias tiveram casamentos entre si – a família Médici, considera-se, teve mais benefícios dessa união que a primeira família. O evento a que alude David Hume é provavelmente este: “After the republic was overthrown in 1530 Alessandro de’ Medici attempted to win Filippo Strozzi’s support, but Strozzi declined and instead, retired to Venice. After the murder of Alessandro in 1537, Strozzi assumed leadership of a group of republican exiles with the object of re-entering the city but having been captured and subsequently tortured he committed suicide.”

He invades the business of providence no more than the magistrate did, who ordered his execution; and his voluntary death is equally advantageous to society, by ridding it of a pernicious member.”

I believe that no man ever threw away life, while it was worth keeping. For such is our natural horror of death, that small motives will never be able to reconcile us to it; and though perhaps the situation of a man’s health or fortune did not seem to require this remedy, we may at least be assured that any one who, without apparent reason, has had recourse to it, was curst with such an incurable depravity or gloominess of temper as must poison all enjoyment, and render him equally miserable as if he had been loaded with the most grievous misfortunes.” Um problema congênito no cérebro, diria Sakyo, O Apostador.

Um ensaio muito mais morno do que o esperado, mas pelo menos mantém Hume no esquadrão dos filósofos ocidentais que realmente merecem ser lidos, nem que uma só vez!

ON THE IMMORTALITY OF THE SOUL

Matter and spirit are at bottom equally unknown, and we cannot determine what qualities inhere in the one or in the other.” “Abstract reasonings cannot decide any question of fact or existence.”

As the same material substance may successively compose the bodies of all animals, the same spiritual substance may compose their minds” “The most positive asserters of the mortality of the soul never denied the immortality of its substance. And that an immaterial substance, as well as a material, may lose its memory or consciousness, appears in part from experience, if the soul be immaterial.”

what is incorruptible must also be ingenerable. The Soul therefore[,] if immortal, existed before our birth; and if the former existence no ways concerned us, neither will the latter.”

But if any purpose of nature be clear, we may affirm, the whole scope and intention of man’s creation, so far as we can judge by natural reason, is limited to the present life.” Se intenção houvesse, seria esse o caso. Acontece que não há nenhuma finalidade preconcebida (assada no forno para nosso consumo) na existência humana – o que não nos impede de viver o presente como finalidade.

WHAT cruelty, what iniquity, what injustice in nature, to confine all our concern, as well as all our knowledge, to the present life, if there be another scene still waiting us, of infinitely greater consequence?” Hume quer dizer, em poucas palavras: não haver céu e inferno não é objeção à imortalidade d’alma, se os padrecos insistem tanto em que a alma TEM de ser imortal; logo, não estou sendo um herege ao dizê-lo.

A pair of shoes perhaps was never yet wrought to the highest degree of perfection which that commodity is capable of attaining. Yet it is necessary, at least very useful, that there should be some politicians and moralists, even some geometers, poets, and philosophers among mankind.” Sócrates se sentiria orgulhoso da analogia!

ON the theory of the Soul’s mortality, the inferiority of women’s capacity is easily accounted for. Their domestic life requires no higher faculties, either of mind or body. This circumstance vanishes and becomes absolutely insignificant, on the religious theory: the one sex has an equal task to perform as the other; their powers of reason and resolution ought also to have been equal, and both of them infinitely greater than at present.”

Shall we therefore erect an elysium for poets and heroes like that of the ancient¹ mythology?”

¹ “Antient”

Punishment, according to our conception, should bear some proportion to the offence. Why then eternal punishment for the temporary offences of so frail a creature as man? Can any one approve of Alexander’s rage, who intended to exterminate¹ a whole nation because they had seized his favorite horse Bucephalus?”

¹ “Extirminate”

CILA OU CARIBDE: “HEAVEN and Hell suppose 2 distinct species of men, the good and the bad; but the greatest part of mankind float betwixt vice and virtue. — Were one to go round the world with an intention of giving a good supper to the righteous, and a sound drubbing to the wicked, he would frequently be embarrassed in his choice, and would find that the merits and the demerits of most men and women scarcely amount to the value of either.”

By the Roman law those who had been guilty of parricide and confessed their crime, were put into a sack alone with an ape, a dog, and a serpent, and thrown into the river. Death alone was the punishment of those who denied their guilt, however fully proved. A criminal was tried before Augustus, and condemned after a full conviction, but the humane emperor, when he put the last interrogatory, gave it such a turn as to lead the wretch into a denial of his guilt. ‘You surely (said the prince) did not kill your father.’ This lenity suits our natural ideas of right even towards the greatest of all criminals, and even though it prevents so inconsiderable a sufferance.¹ Nay[,] even the most bigotted priest would naturally without reflection approve of it, provided the crime was not heresy or infidelity; for as these crimes hurt himself in his temporal² interest and advantages, perhaps he may not be altogether so indulgent to them.”

¹ “Sufference”.

² O grifo em “temporal” é do próprio Hume.

The damnation of one man is an infinitely greater evil in the universe, than the subversion of a thousand millions of kingdoms. Nature has rendered human infancy

peculiarly frail and mortal, as it were on purpose to refute the notion of a probationary state; the half of mankind die before they are rational creatures. Muito bom – e lamentável sabermos sobre a alta taxa de mortandade infantil à época (ou queria Hume dizer que maioria dos adultos não passava de crianças grandes?)!

THE Physical arguments from the analogy of nature are strong for the mortality of the soul, and are really the only philosophical arguments which ought to be admitted with regard to this question, or indeed any question of fact.” Porque se uma “alma” reencarna ou transmigra, não faz sentido falar que é uma alma, se a memória lhe é extirpada.

The last symptoms which the mind discovers are disorder, weakness, insensibility, and stupidity, the forerunners of its annihilation.”

Trees perish in the water, fishes in the air, animals in the earth. Even so small a difference as that of climate is often fatal. What reason then to imagine that an immense alteration, such as is made on the soul by the dissolution of its body and all its organs of thought and sensation, can be effected without the dissolution of the whole?” “yet no one rejects the argument drawn from comparative anatomy. The Metempsychosis is therefore the only system of this kind that philosophy can harken to.”

NOTHING in this world is perpetual, every thing however seemingly firm is in continual flux and change, the world itself gives symptoms of frailty and dissolution. How contrary to analogy, therefore, to imagine that one single form, seemingly the frailest of any, and subject to the greatest disorders, is immortal and indissoluble?”

How to dispose of the infinite number of posthumous existences ought also to embarrass the religious theory. Every planet in every solar system we are at liberty to imagine peopled with intelligent mortal beings, at least we can fix on no other supposition. For these then a new universe must every generation be created beyond the bounds of the present universe, or one must have been created at first so prodigiously wise as to admit of this continual influx of beings.” E quanto gasto energético – um universo não é coisa barata! Mas é o religioso que estiola até o zero o valor deste único universo conhecível…

When it is asked whether Agamemnon, Thersites, Hannibal, Varro, and every stupid clown that ever existed in Italy, Scythia, Bactria or Guinea, are now alive; can any man think, that a scrutiny of nature will furnish arguments strong enough to answer so strange a question in the affirmative? The want of argument without revelation sufficiently establishes the negative.” Ri demais do trecho, pois Hume enfia no mesmo saco romanos e bárbaros, como que para despeitar os eclesiásticos de seu tempo, e junta numa fila só Agamêmnon, herói mitológico (embora seja uma figura homérica cinza, trágica, num sentido bem inferior a Aquiles…), com Térsites, o “palhaço” do mito – embora não respaldado por Homero ele mesmo, mas por modificações futuras, como a de Shakespeare –, quase “térmites”, aliás, e conquistadores da historiografia, como Aníbal, e, por fim, intelectuais inofensivos, legíveis até (estou estudando latim por ele): Varro, o “maníaco da etimologia” (conquanto todo homem das artes daquele tempo participasse também da política)!

Were our horrors of annihilation an original passion, not the effect of our general love of happiness, it would rather prove the mortality of the soul. For as nature does nothing in vain, she would never give us a horror against an impossible event.” Só o que protege a imortalidade da alma é a convicção na imortalidade da alma. Essa sim será imortal, quanto dure o homem! Wishful thinking arquetípico.

“‘TIS an infinite advantage in every controversy to defend the negative. If the question be out of the common experienced course of nature, this circumstance is almost, if not altogether, decisive.”

Some new species of logic is requisite for that purpose, and some new faculties of the mind, that may enable us to comprehend that logic.”

Como seria de esperar, essa “edição crua” não viria à luz, mesmo em tempos pós-censura (brincadeira, esses tempos são uma fábula!) sem os obrigatórios comentários morais e “atenuadores”, objetando o autor original… E aqui vamos nós a esses anexos, para um tico de diversão!…

ANTI SUICIDE

Organizado em notas, entre parênteses, ao artigo ON SUICIDE…

(1) “THIS elaborate eulogium on philosophy points obliquely at religion, which we Christians consider as the only sovereign antidote to every disease incident to the mind of man.”

Neither priestcraft, nor magisterial powers, however, cramped the progress of improving reason, or baffled the genius of enquiring man.” Hahaha! A ousadia

In truth, the superior advantage and necessity of the Christian religion seems manifest from this particular circumstance, that it has taken away every possible restraint from natural religion, allowing it to exert itself to the utmost in finding out the fundamental truths of virtue,¹ and in acquiescing in them, in openly avowing and acknowledging them when revealed, in extending the views and expectations of men, in giving them more just and liberal sentiments,² and in publickly and uniformly disclaiming any intention of establishing a kingdom for its votaries or believers in this world.” O argumento mais estúpido que já li: o cristianismo é uma forma superior de moral porque veio depois dos antigos, i.e., os antigos eram o cume da filosofia – que razão Deus teria para suprimi-los senão para colocar em seu lugar o que vem a ser melhor na seqüência – a fé cristã?! Argumento “histórico” e uma imbecil faca de dois gumes: tudo o que acontece, deve acontecer!… inclusive a MORTE DE DEUS, no futuro de Hume e desse editor…

¹ Como se por séculos não matassem na fogueira qualquer um que se desviasse 1mm das poderosas e absurdas constrições do monoteísmo mais tirânico! Como o helenismo foi livre, talvez unicamente livre acima de qualquer outro modo de vida possível, só podemos tentar entender por contraste com nossa própria servidão voluntária…

² Justamente com o enfraquecimento da religião… Que grande coincidência! Mas, ó!, era tudo parte do plano divino!

They tally exactly with the present circumstances of mankind, and are admirably adapted to cure every disease, every disorder of the human mind, to beget, to cherish, and confirm every pure, every virtuous, every pious disposition.” Não creio que agüentarei mais muito tempo lendo essas groselhas velhas!

MANKIND are certainly at present in a state of the deepest corruption and depravity, and at the same time apt to continue strangely insensible of the misery and danger to which, under the government of infinite wisdom, it necessarily renders them.” Sou obrigado a concordar que essa insensibilidade estranha não é só muito estranha como um tanto mórbida! Que ratos religiosos como esse ainda vivam entre nós após a força civilizacional, em 300 anos, ter finalmente descrido da autenticidade transcendental dessas velhas escrituras, no entanto, é algo que me tira do sério a cada dia!… Porque que quisessem ser idiotas no século XVIII inglês não me afeta no mais mínimo… mas outro papo é continuar com esse discurso, num mundo igualmente corrupto e depravado (porque ainda e persistentemente cristão)!

(2) CLEOMENES, king of Sparta, when suffering under misfortune, was advised to kill himself by Tharyceon. ‘Thinkest thou, wicked man, to shew thy fortitude by rushing upon death, an expedient always at hand, the dastardly resource of the basest minds? Better than we, by the fortune of arms, or overpowered by numbers, have left the field of battle to their enemies; but he who, to avoid pain, or calamity, or censures of men, gives up the contest, we are to seek death, that death ought to be in action. It is base to live or die only for ourselves. All we gain by suicide is to get our own reputation, or doing the least service to our country. In hopes, then, we may yet be of some use to others, both methinks are bound to preserve life as long as we can. Whenever these hopes shall have altogether abandoned us, death, if sought for, will readily be found.’ Quanta cretinice argumentar pró-cristianismo pelas aspas de um espartano (provavelmente forjadas) – QUANTO DESPEITO A TUDO QUE É NOBRE! Além disso, curioso como os religiosos, antes de Durkheim, nunca tenham percebido um só exemplo de suicídio altruísta!

(3) “Is it possible to conceive the author of nature capable of authenticating a deed, which ultimately terminates in the total annihilation of the system?” Não, e por isso me pergunto todo santo dia: como foi o cristianismo possível?

IMMORTALITY OF THE SOUL [comments]

Uma pergunta, antes de tudo: nós filósofos não nos queremos meter em escolástica – por que então os escolásticos insistem em meter o pé na filosofia? Exigem dos filósofos uma lógica sobre-humana, eu diria in-umana! Por que os comentam e criticam, então, em vez de relegá-los ao ostracismo? Deve se explicar por um sentimento cruel de inveja irreprimível

(1) “How many live and die in this salutary conviction, to whom these refined speculations must forever remain as unintelligible as if they had never been formed!” E ainda assim temos aqui um refinado crítico de tais opiniões refinadas!

(2) “The substance of the soul we do not know, but are certain her ideas must be immaterial.” Idéias materiais?! Coisa nova!

(3) “Whoever, yet, of all the assertors of the soul’s immortality, presumed to make a monopoly of this great privilege to the human race? Who can tell what another state of existence may be, or whether every other species of animals may not possess principles an immortal as the mind of man?” Olha, muitos e muitos eclesiásticos já excluíram os animais do paraíso (ou do inferno)! Aposto que a maioria veio até antes de seus comentários, senhor apócrifo!

(4) “There is not a single word in all this elaborate and tedious deduction, which has not been urged and refuted five hundred times.” Cuidado com a postura de atacar não prestando atenção aos próprios flancos – pode ser um ataque suicida (no Brittish pun intended)! Se um curto artigo de um mero cético é tão tedioso, vá ler a bíblia, ora pois!

(5) “The truth is, that form which all mankind have deemed immortal, is so far from being the frailest, that it seems in fact the most indissoluble and permanent of any other we know. All the rational and inventive powers of the mind happily conspire to proclaim her infinitely different in nature, and superior in dignity to every possible modification of pure matter.” “Que a vida não tenha se extinguido no planeta – este é meu divino argumento de por que a alma é indubitavelmente imortal!”, diz esse paspalho.

What judgement should we form of that principle which informed and enlightened a Galileo, a Copernicus, or a Newton?” Que ele era natural, pagão, conseqüente, imanente (não insipirado!). E não vamos esquecer que todos eles foram perseguidos pela Igreja – porque deus quis, na sua opinião! Strange ways… até mesmo para Jeová! Fora que os artistas mais inspirados também o foram…

Antes de abandonar esse mar de merda aos 70% da extensão do documento (anexos que, confesso, não li por inteiro), chequemos, ao menos, algo literariamente elogiável, i.e., as visões antitéticas de Rousseau (que não é nenhum santo, acrescentemos, o que aumenta a hipocrisia do editor que resolveu utilizar um filósofo mundano para atacar outro, só porque aquele concordava consigo!).

The following Letters on SUICIDE are extracted from Rousseau’s ELOISA. LETTER CXIV. To Lord B——-.

I will never dispose of it, till I am certain that I may do it without a crime, and till I have not the least hope of employing it for your service.” Como é tolo(a) – pare de hamletianizar sobre isso e faça-o de uma vez!

I adore the supreme Being — I owe every thing to you; I have an affection for you; you are the only person on earth to whom I am attached.” O(a) autor(a) da carta se dirige com efeito a um humano (o que é óbvio – mas poderia ser uma “carta de suicídio endereçada a Deus”, numa hipótese excepcional).

Roebeck¹ [sic] wrote an apology for suicide before he put an end to his life. I will not, after his example, write a book on the subject, neither am I well satisfied with that which he has penned, but I hope in this discussion at least to imitate his moderation.”

¹ “Johan Robeck (1672–1739) was a Swedish-German theologian and philosopher who justified and committed suicide.” O mais interessante do verbete na wikipedia: “He wrote a book permitting suicide from a theological point of view, entitled Exercitatio philosophica de morte voluntaria (A philosophical exercise about voluntary death, 1736). His book started a debate among Europeans of his time, which included Rousseau and Voltaire, especially after he himself committed suicide by drowning in the river Weser near Bremen, Germany. Robeck’s argument is based upon the idea of life as a gift, given by God, who therefore gave up for his rights in the gift. Anyone can destroy a gift, according to Robeck’s argument; therefore, suicide is legitimate. (…) (…) Robeck’s suicide is referenced in the old woman’s story at the end of chapter XII in Voltaire’s 1759 novel Candide, ‘…but I have met only 12 who have voluntarily put an end to their misery—3 negroes, 4 Englishmen, 4 Swiss, and a German professor called Robeck.’ [Cândido ou O Otimismo: leitura muito melhor que A Nova Heloísa, pelo visto…]

if I sacrifice my arm to the preservation of something more precious, which is my body, I have the same right to sacrifice my body to the preservation of something more valuable, which is the happiness of my existence.”

They consider a man living upon earth as a soldier placed on duty. God, say they, has fixed you in this world, why do you quit your station without his leave? But you, who argue thus, has he not stationed you in the town where you was born, why therefore do you quit it without his leave? is not misery, of itself, a sufficient permission? Whatever station Providence has assigned me, whether it be in a regiment, or on the earth at large, he intended me to stay there while I found my situation agreeable, and to leave it when it became intolerable.”

I agree that we must wait for an order; but when I die a natural death, God does not order me to quit life, he takes it from me; it is by rendering life insupportable, that he orders me to quit it. In the first case, I resist with all my force; in the second, I have the merit of obedience.”

This is one of the quibbles of the Phaedo, which, in other respects, abounds with sublime truths. If your slave destroys himself, says Socrates to Cebes, would you not punish him, for having unjustly deprived you of your property. § Prithee, good Socrates, do we not belong to God after we are dead? The case you put is not applicable; you ought to argue thus: if you encumber¹ your slave with a habit which confines him from discharging his duty properly, will you punish him for quitting it, in order to render you better service? the grand error lies in making life of too great importance; as if our existence depended upon it, and that death was a total annihilation. Our life is of no consequence in the sight of God; it is of no importance in the eyes of reason, neither ought it to be of any in our sight; when we quit our body, we only lay aside an inconvenient habit.”

¹ “incumber”.

Socrates being condemned, by an unjust judgment, to lose his life in a few hours, had no occasion to enter into an accurate enquiry whether he was at liberty to dispose of it himself. Supposing him really to have been the author of those discourses which Plato ascribes to him, yet believe me, my lord, he would have meditated with more attention on the subject, had he been in circumstances which required him to reduce his speculations to practice; and a strong proof that no valid objection can be drawn from that immortal work against the right of disposing of our own lives, is, that Cato read it twice through the very night that he destroyed himself.”

What is the fate of those sons of sensuality, who indiscreetly multiply their torments by their pleasures? they in fact destroy their existence by extending their connections in this life; they increase the weight of their crimes by their numerous attachments; they relish no enjoyments, but what are succeeded by a thousand bitter wants; the more lively their sensibility, the more acute their sufferings; the stronger they are attached to life, the more wretched they become.”

It would be as ridiculous to suppose that life can be a blessing to such men, as it was absurd in the sophister Possidonius to deny that is was an evil, at the same time that he endured all the torments of the gout.”

We drag a painful and melancholy life, for a long time before we can resolve to quit it; but when once life becomes so insupportable as to overcome the horror of death, then existence is evidently a great evil, and we cannot disengage ourselves from it too soon.”

This is not all. After they have denied that life can be an evil, in order to bar our right of making away with ourselves; they confess immediately afterwards that it is an evil, by reproaching us with want of courage to support it.”

O Rome, thou victrix of the world, what a race of cowards did thy empire produce! Let ArriaEponina,² Lucretia,³ be off the number; they were women. But Brutus, Cassius, and thou great and divine Cato, who didst share with the gods the adoration of an astonished world, thou whose sacred and august presence animated the Romans with holy zeal, and made tyrants tremble, little did thy proud admirers imagine that paltry rhetoricians, immured in the dusty corner of a college, would ever attempt to prove that thou wert a coward, for having preferred death to a shameful existence.”

¹ “Árria era casada com o cônsul romano Aulo Cecina Peto. Quando o marido e o filho ficaram gravemente doentes ao mesmo tempo e a criança morreu, ela fez todos os preparativos para o funeral e compareceu pessoalmente, sem que o marido soubesse de nada. Toda vez que visitava o marido, Árria dizia-lhe que o menino estava melhorando. Quando a emoção ameaçava denunciá-la, ela se desculpava, saía do quarto e, nas palavras de Plínio, o Jovem, ‘entregava-se à dor’, em seguida, retornava para o marido com um comportamento mais calmo. (…) Escriboniano foi morto e Peto foi levado para Roma de navio. Árria queria embarcar no navio como escrava, o que não lhe foi permitido fazer. Então ela alugou um barco de pesca e nessa pequena embarcação seguiu o grande navio. (…) Na presença do imperador Cláudio, Árria atacou abertamente a esposa do líder da rebelião, Escriboniano, por fornecer voluntariamente provas à acusação, gritando: ‘Ouço-a dizer que poderia continuar vivendo após Escriboniano ter morrido em seus próprios braços?’ Foi esta a frase que alertou a todos sobre sua intenção de morrer ao lado de Peto. § Seu genro, Trásea, tentou convencê-la a viver, perguntando se ela iria querer que sua própria filha se matasse caso ele fosse condenado à morte. Árria insistiu que ela não se oporia, contanto que sua filha (também chamada Árria) tivesse pelo menos vivido muitos anos felizes com Trásea antes do eventual suicídio, assim como ela mesma tinha vivido com Peto. (…) Essa resposta aumentou a ansiedade dos parentes e ela foi observada com mais atenção. Percebendo isso, Árria disse que eles não poderiam impedi-la de se matar. Enquanto falava, pulou da cadeira e bateu a cabeça com grande força contra a parede, caindo inconsciente. Quando voltou a si, disse: ‘Eu disse a vocês que encontraria uma maneira difícil de morrer se vocês me negassem uma maneira fácil.’ § Quando o marido hesitou em se suicidar, Árria pegou a adaga, enfiou-a no peito e devolveu-a ao marido com as palavras ‘Paete, non dolet’ (‘Peto, não dói.’).” Grande mulher! Cf. John Nicholson, Paetus and Arria. A tragedy, in five acts. Lackington, Allen, and Co., Londres, 1809.

² Esta é figura mais obscura e não consegui apanhar detalhes diretos de seu êxito: Júlio Sabino escondeu-se com sua esposa Eponina ou Peponila por 9 anos, mas seria posteriormente capturado e levado à capital imperial, onde foi executado em 78 sob ordens do imperador Vespasiano (r. 69–79). A história do casal, e principalmente a figura de Eponina, tornar-se-ia popular na França durante os séculos XVIII e XIX.”

³ Lucrécia é o exemplo mais famoso de mulher suicida da Roma antiga, por isso não deslindei o verbete.

but tell me, thou great and valiant hero, who dost so courageously decline the battle, in order to endure the pain of living somewhat longer; when spark of fire lights upon your hand, why do you withdraw it in such haste? how? are you such a coward that you dare not bear the scorching of fire? nothing, you say, can oblige you to endure the burning spark; and what obliges me to endure life? was the creation of a man of more difficulty to Providence, than that of a straw? and is not both one and the other equally the work of his hands?”

none but a fool will voluntarily endure evils which he can avoid without a crime; and it is very often a great crime to suffer pain unnecessarily.” Maldito seja o dogma do “arrependimento”, manhoso dispositivo milenar de tortura psicológica de povos inteiros!

cut off this leg, which endangers my life. I will see it done without shrinking, and will give that hero leave to call me coward, who suffers his leg to mortify, because he dares not undergo the same operation.”

let a magistrate on whom the welfare of a nation depends, let a father of a family who is bound to procure subsistence for his children, let a debtor who might ruin his creditors, let these at all events discharge their duty; admitting a thousand other civil and domestic relations to oblige an honest and unfortunate man to support the misery of life, to avoid the greater evil of doing injustice; is it, therefore, under circumstances totally different, incumbent on us to preserve a life oppressed with a swarm of miseries, when it can be of no service but to him who has not courage to die?” Considerando o sexo de Eloísa/Heloísa, em tempos tão machistas, de “mulheres serem menos que homens” (e, o que é mais, considerando o Cristianismo como inerentemente machista), me admira que ainda quisessem condená-la ao inferno eterno só por se matar!

Though hunger, sickness, and poverty, those domestic plagues, more dreadful than savage enemies, may allow a wretched cripple to consume, in a sick bed, the provisions of a family which can scarce subsist itself, yet he who has no connections, whom heaven has reduced to the necessity of living alone, whose wretched existence can produce no good, why should not he, at least, have the right of quitting a station, where his complaints are troublesome, and his sufferings of no benefit?”

In fact, why should we be allowed to cure ourselves of the gout, and not to get rid of the misery of life? do not both evils proceed from the same hand?” A gota e a vida. A água. Poético.

let them shew how it can be less criminal to use the bark for a fever, than to take opium for the stone. (…) if we regard the means, both one and the other are equally natural”

are we then to make no alteration in the condition of things, because every thing is in the state he appointed? must we do nothing in this life, for fear of infringing his laws, or is it in our power to break them if we would? no, my lord, the occupation of man is more great and noble.” = It is not against law to kill yourself.

THE CRUX: “My lord, I appeal to your wisdom and candour; what more infallible maxims can reason deduce from religion, with respect to suicide? If Christians have adopted contrary tenets, they are neither drawn from the principles of religion, nor from the only sure guide, the Scriptures, but borrowed from the Pagan philosophers. Lactantius and Augustine, the first who propagated this new doctrine, of which Jesus Christ and his apostles take no notice, ground their arguments entirely on the reasoning of Phaedo, which I have already controverted” “In truth, where do we find, throughout the whole bible, any law against suicide, or so much as a bare disapprobation of it; and is it not very unaccountable, that among the instances produced of persons who devoted themselves to death, we do not find the least word of improbation against examples of this kind? nay, what is more, the instance of Samson’s voluntary death is authorized by a miracle” “would this man, who lost his strength by suffering himself to be seduced by the allurements of a woman, have recovered it to commit an authorised crime, as if God himself would practice deceit on men?” Parece que o europeu-médio da época odiava Sansão pela sua “fraqueza feminil”, outro indício de misoginia neste livro.

Thou shalt do no murder, says the decalogue; what are we to infer from this? if this commandment is to be taken literally, we must not destroy malefactors, nor our enemies: and Moses, who put so many people to death, was a bad interpreter of his own precept. If there are any exceptions, certainly the first must be in favour of suicide, because it is exempt from any degree of violence and injustice, the two only circumstances which can make homicide criminal; and because nature, moreover, has, in this respect, thrown sufficient obstacles in the way.”

True repentance is derived from nature; if man endures whatever he is obliged to suffer, he does, in this respect, all that God requires of him; and if any one is so inflated with pride, as to attempt more, he is a madman, who ought to be confined, or an impostor, who ought to be punished.”

If we would offer a sacrifice to the supreme Being, is it nothing to undergo death?” “Such are the liberal precepts which good sense dictates to every man, and which religion authorises.”

you do not endure less than myself; and your troubles, like mine, are incurable; and they are the more remediless, as the laws of honour are more immutable than those of fortune. You bear them, I must confess, with fortitude. Virtue supports you; advance but one step farther, and she disengages you. You entreat¹ me to suffer; my lord, I dare importune you to put an end to your sufferings;² and I leave you to judge which of us is most dear to the other. Why should we delay doing that which we must do at last? shall we wait till old age and decrepit baseness attach us to life, after they have robbed it of its charms, and till we are doomed to drag an infirm and decrepit body with labour, and ignominy, and pain? We are at an age when the soul has vigour to disengage itself with ease from its shackles, and when a man knows how to die as he ought; when farther advanced in years, he suffers himself to be torn from life, which he quits with reluctance. Let us take advantage of this time, when the tedium of life makes death desirable; and let us tremble for fear it should come in all its horrors, at the moment when we could wish to avoid it. I remember the time, when I prayed to heaven only for a single hour of life, and when I should have died in despair if it had not been granted. Ah! what a pain it is to burst asunder the ties which attach our hearts to this world, and how advisable it is to quit life the moment the connection is broken!” Não pense que você é um deus ou um Átlas que pode carregar tudo nas costas! A mente doentia de Rousseau fazia com que ele cancelasse todas as suas conclusões perfeitas, mas não importa a antítese, com tamanha tese que se auto-sustenta! Ou seja: dane-se o que diz a carta de resposta mais abaixo, esta primeira é a melhor e mais ética delas, com toda certeza.

¹ “intreat”

² Esse trecho me fazia pensar, à primeira leitura, que a autora era a própria Heloísa, e que essa fosse a correspondência de um casal apaixonado. Como veremos abaixo esta não é a interpretação correta! Ainda mantenho, no entanto, meu elogio aos “casais suicidas perfeitos”, da ficção ou da História, como Árria e Peto mais acima, em outra nota deste artigo.

May the friendship which invites us preserve our union to the latest hour! O what a pleasure for 2 sincere friends voluntary to end their days in each others arms, to intermingle their latest breath, and at the same instant to give up the soul which they shared in common! What pain, what regret can infect their last moments?” Romeu e Julieta, Meruem & Komugi. E todos os casais perfeitos. Belo e moral.

LETTER CXV. ANSWER.

I am an Englishman, and not afraid to die” Then die already! E se parece infantil de minha parte dizê-lo, saibam que assim R. terminará essa carta fictiva de resposta a alguém meditando o suicídio: “If it has no power to restrain you, die! you are below my care.”

Thou art no man; thou art nothing; and if I did not consider what thou mightest be, I cannot conceive any thing more abject.” #misoginia

It is certainly most probable that the life of man is not without some design, some end, some moral object.” E se você não criar os seus próprios objetos morais, passará toda a vida ensinando aos outros aquilo que nem sequer sabe ou tem (predicadores religiosos, os “virtuosos” da modernidade!).

Is it lawful for you therefore to quit life? I should be glad to know whether you have yet begun to live?” Cuidado, você acabará incitando seu interlocutor ao suicídio falando dessa forma, caro “cavalheiro”!

Thou unhappy wretch! point out to me that just man who can boast that he has lived long enough”

You are not ashamed to exhaust common-place topics, which have been hackneyed over a hundred times” Todos nós fazemos isso, porque nunca houve nada de novo sob o sol da eternidade, idiota! Ei, o que é que há com esses europeus centuplicadores que sequer entendem o Um (a inexistência do indivíduo, ou seja, a inaplicabilidade da moral cristã)? Todos censuram seus antípodas com “isso já foi dito 100, 500 vezes”, mas isso também já foi dito infinitas vezes!!

Life is an evil to a wicked man in prosperity, and a blessing to an honest man in distress: for it is not its casual modification, but its relation to some final object which makes it either good or bad.” Essa sentença só admite algum grau de aceitabilidade após o marxismo: temos pelo que lutar quando somos uns miseráveis!

I have lost all hope of seducing a modest woman, I am obliged therefore to be a man of virtue; I had much rather die.” Ou essa é uma novela moral lésbica da época do Iluminismo (impossível!) ou eu errei: o autor da primeira carta não era Eloísa/Heloísa; talvez da segunda? Mas não, o escritor foi identificado no cabeçalho da 1ª carta como Lord B. Portanto, não se trata de um ataque misoginista repentino entre um “casal de amigos-amantes”, pelo menos – é uma carta misoginista, com certeza, mas falando da categoria mulher em geral, não a uma mulher em específico, o que não ajuda muito Rousseau quando consideramos sua obra como um todo (cria-se um educador sem preconceitos)! Agora vejo cem por cento justificado o juízo nietzschiano de que Rousseau era uma tarântula moral. Moral da história, enfim: deixa teu amigo sofrer pela mulher que ele quiser, não o menoscabes!

correct your irregular appetites” Uau, que profundas palavras! Se apenas todos as sorvessem! A panacéia universal!

Grief, disquietude, regret, and despair, are evils of short duration, which never take root in the mind”

Reflect thoroughly, young man; [cry baby na linguagem hodierna] what are ten, 20, 30 years, in competition with immortality? Pain and pleasure pass like a shadow; life slides away in an instant; it is nothing of itself; its value depends on the use we make of it.” Muito bem-dito, mas isso não é em nada um argumento anti-suicídio!

The good that we have done is all that remains, and it is that alone which marks its importance.” O final do parágrafo é que é hediondo: quem disse que o bem que fazemos remanesce? Falta-lhe niilismo!, diria um irmão mais velho de Rousseau ou Senhor B., se ele tivesse nascido na Vila da Folha! Os amigos são o bem que fazemos pelo caminho!… ops, espera aí…

Your death does injury to no one? I understand you! You think the loss I shall sustain by your death of no importance; you deem my affliction of no consequence.” Não, imbecil – teu amigo até te convidou para te matares junto com ele; não sejas tão presunçoso!

Are not you apprehensive left your death should be attended with a loss more fatal, which would deprive the world and virtue itself of its brightest ornament?” Tudo isso de uma pessoa que você acaba de chamar de wretched?! O que é um fodido para o mundo, se talvez nem Platão tivesse sido nada de mais? Deixe que os outros trabalhem e superem cristianamente sua perda – ou não seriam ovelhinhas dignas de seu bom pastor!

And if she should survive you, are not you afraid to rouse up remorse in her bosom, which is more grievous to support than life itself?” Mais uma vez subestimando a força mental feminina, Rousseau, apenhei-o no pulo! Ou era só um tique de um de seus personagens?! Mas cuidado quando, ao redigir uma ficção, não acabe recheando a trama apenas de elementos do mundo real – como essa podre religião milenarista que é o alvo de toda a discussão pelo correio! Ou vai acabar estragando a própria “coisa real”, os resquícios de dignidade que ainda pudessem haver em ser cristão!

do you owe nothing to your native country, and to those unhappy people who may need your existence!” Ah sim, sempre somos mais úteis como potenciais soldadinhos que levarão canhonadas no bucho à próxima briguinha de príncipes que surgir no “jardim Europa”!

The laws, the laws, young man! did any wise man ever despise them? Socrates, though innocent, out of regard to them refused to quit his prison.” Errado: Sócrates seria muito mais obediente à lei se aceitasse o exílio. Ele foi egoísta e anti-ateniense. Não só isso, mas seu ato de fato derrubou Atenas, iniciou sua lenta decadência… Poder-se-ia inverter a sentença rousseuana com total certeza de não incorrer em erro algum: algum homem sábio já deixou de desprezar as leis de seu país? E é Rousseau quem fala aqui, um revolucionário, ou pelo menos um dos antepassados dos revolucionários europeus que conhecemos e enaltecemos… que ironia repulsiva!

Thou weak and abject man! what resemblance is there between Cato and thee?” Agora o cristão está fazendo acepção de pessoas? Quando antes não fazia nem entre humanos e pulgas!

Ah vain wretch! hold thy peace: I am afraid to profane his name by a vindication of his conduct. At that august and sacred name every friend to virtue should bow to the ground, and honour the memory of the greatest hero in silence.” Parece que CATO, O SUICIDA era inexoravelmente adorado pelos moralistas de Pla(n)tão do século de Rousseau! Sendo assim, não é o suicídio que irá macular a imagem de ninguém para as gerações futuras, estou correto?!

When Rome was no more, it was lawful for the Romans to give up their lives” Cada um tem seu conceito privado de Roma – interessante, pois eu tenho também o meu!

But thou, what art thou? what hast thou done?” Ainda bem que isso é ficção. Mas estou com medo – extemporâneo, embora – da possibilidade de Rousseau ter induzido mais de um de seus “amigos” à auto-supressão após a leitura de suas delicadas cartinhas, em sua vida pessoal! “Você é um verme, você não tem a grandeza necessária para recorrer ao suicídio” – é como pedir a prova, chamar ao desafio! Imagine o estado de espírito de alguém já muito aflito lendo tais “exortações”!

Know, that a death, such as you meditate, is shameful and surreptitious. It is a theft committed on mankind in general.” Foda-se! A humanidade nada tem a ver com a droga do suicida, ESSE É TODO O DEBATE, e isso não devia escapar à pena do mais sensaborão dos romancistas! Ajuste a perspectiva, pare de falar da grandeza do mundo, reduza-a até os olhos de uma mosca – ou de um depressivo – se preciso!

distribute my fortune; make me rich.” Melhor frase de Rousseau em todos esses fragmentos! Enfim, na escala “evolucionária” R. é o elo perdido entre os padrecos metafísicos que escreviam para o público em vez de apenas meditar de si para si mesmos (sem importunar ninguém) e “os filósofos”, no sentido clássico. Rousseau era uma aranha que não suportava tecer teias, e odiava os filósofos mais do que qualquer filósofo médio já os odeia, por necessidade da vocação… Com um ódio não-justificável, isto é! Porque a postura de Hume, Kant ou Schopenhauer contra a filosofia é bem diferente, bem mais digna…

NOTAS ACERCA DAS “CARTAS”

Surpreendentemente os autores das notas a Rousseau parecem não ter relação com os autores das notas a Hume (autênticos padrecos de paróquia), ou então eram os mesmos sujeitos em dias muito mais bem-humorados ou ensolarados de suas vidas, porque não grifei nenhuma passagem em verde, nada li de absurdo nessas linhas finais!

Is the letter a forgery, or does the author reason only with an intent to be refuted? [toda ficção é forjada, ora] What makes our opinion in this particular dubious, is the example of Robeck, which he cites, and which seems to warrant his own. Robeck deliberated so gravely that he had patience to write a book, a large, voluminous, weighty, and dispassionate book; and when he had concluded, according to his principles, that it was lawful to put an end to our being, he destroyed himself with the same composure that he wrote.” O que dizer desse tal Robeck ou Roebeck ou Röbeck? Nem o conheço e já o estimo tanto, muito mais que Tertuliano (autor de uma homília chamada Sobre a virtude da paciência)!

how many instances are there, well attested, of men, in every other respect perfectly discreet, who, without remorse, rage, or despair, have quitted life for no other reason than because it was a burden to them, and have died with more composure than they lived?”

The power of committing suicide is regarded by Pliny as an advantage which men possess even above the Deity himself.

Deus non sibi potest mortem consciscere si velit quod homini dedit optimum in tantis vitae paenis.’

Lib. II. Cap. 7”

LOLITA (recuperação de citações e observações) – Nabokov

Originalmente publicado em 19 de fevereiro de 2013, porém com bastantes modificações e acréscimos à data da republicação.

se o nosso dementado diarista¹ tivesse, no fatal verão de 1947, consultado um psicoterapeuta competente, não haveria tragédia nenhuma mas, nesse caso, também não haveria este livro.”

¹ Publicista, cronista, autor de memórias. Tradução não muito legal…

Como caso clínico, Lolita tornar-se-á, sem dúvida, um clássico nos círculos psiquiátricos.”

5 feet 1 inch”: 1,55m. 36,5kg. 12 anos. Ao longo da estória, Dolores cresce alguns centímetros e engorda alguns kilos, por óbvio: 2cm quando H.H. vai buscá-la no acampamento de verão (sua mãe morreu), 5cm como referido à p. 163 após um bom tour d’hôtels

H.H. conhece sua segunda esposa aos 37.

aquele frenesi de posse mútua só poderia ser apaziguado se, verdadeiramente, absorvêssemos e assimilássemos todas as partículas da carne e da alma um do outro” Da carne nem tantas, talvez dos ossos. “Lolita começou com Anabela.” Personagem de Poe.

(“Viúvo”) Aos 13…

O espiritual e o físico tinham-se fundido em nós com uma perfeição por certo incompreensível aos jovens práticos, grosseiros e de mentalidade estandardizada nos nossos dias. [anos 1930]” “As suas pernas, as suas pernas encantadoramente vivas, não estavam muito unidas, e, quando a minha mão encontrou o que procurava, gravou-se-lhe nas feições infantis uma expressão sonhadora e misteriosa, em que havia prazer e dor. (…) com uma generosidade disposta a oferecer-lhe tudo, eu lhe dava a segurar na mão inexperiente o cetro da minha paixão.”

os meus sentidos ameaçaram, subitamente, romper todas as barreiras.”

Enquanto estudei em Londres e Paris, as damas pagas bastavam-me.”

Instalou-se em mim uma exaustão peculiar – sinto-me oprimido, doutor! – e transferi o meu interesse para a literatura inglesa, onde tantos poetas frustrados vão acabar como professores” Mais autobiográfico impossível.

nós, os ninfoleptos”

Leptus: Ácaros Erythraeidae, seres aracnídeos e quase-microscópicos. No fim das contas, sou sim uma espécie de aracnofóbico, ou para-aracnoalérgico.

WIKIPÉDIA

A palavra acari deriva do grego akares, ‘pequeno’. A maioria dos adultos mede entre 0,25 e 0,75mm de comprimento, embora existam espécies ainda menores. Os carrapatos são os que alcançam maior tamanho, chegando a até 3 cm, após ingerirem sangue, como por exemplo, o carrapato-estrela, vetor da bactéria causadora da febre maculosa. O grupo apresenta aproximadamente 55 mil espécies descritas, compondo aproximadamente 5.500 gêneros e 1.200 subgêneros, representados em 540 famílias. Entretanto, estimativas do real número de espécies de ácaros vão de 500 mil a 1 milhão, pois novas espécies são encontradas rotineiramente, até mesmo em substratos que já foram bem estudados. (Krantz & Walter, A Manual of Acarology, 2009 -3ed-.)”

A grande capacidade de adaptação, relacionada com a plasticidade evolutiva e o pequeno tamanho relativo, possibilitou a conquista de diversos ambientes aquáticos e terrestres, de forma que os ácaros ocupam uma variedade maior de habitats do que qualquer outro grupo de artrópodes. São componentes significantes do zooplâcton e associados a algas, bem como da fauna arbórea. Também ocorrem em grande número nas camadas de húmus que cobrem florestas, gramas e solos agrícolas. Além disso, por causa do tamanho, são facilmente levados pelo vento, compondo o ‘plâncton aéreo’. Os ácaros do pó domiciliar, por exemplo, são visíveis apenas ao microscópio e medem entre 200 e 500 micrômetros.” Quando disse que meus inimigos eram anões, não imaginava estar empregando um eufemismo.

O grupo Parasitiae possui um forâmen mediano na quelícera móvel, o espermatotrema, uma estrutura que preenche e dá a forma do espermatóforo nesse grupo. Os outros três grupos de Mesostigmata (Dermanyssiae, Heterozerconina e Celaenopsoideae) possuem modificações na quelícera e na posição da abertura genital dos machos para a transferência de esperma. Carrapatos e outros Mesostigmatas mais basais depositam o espermatóforo diretamente no interior na abertura genital primária das fêmeas usando a quelícera ou contato ventre-a-ventre, enquanto Dermanyssiae machos transferem o esperma para uma abertura genital secundária nas fêmeas, o poro de indução de esperma, usualmente próximo a base das pernas nas fêmeas.”

Vivem 2 a 3 meses, durante os quais acasalam 1 a 2 vezes, dando origem a uma postura de 20 a 50 ovos. O período mais propício para o acasalamento é entre a primavera e o outono. Os ácaros são frequentemente responsáveis por quadros de alergia respiratória como rinite alérgica e asma.” O que significa que no verão devíamos estar livres deles. Dentre as espécies encontradas na poeira caseira acham-se fêmeas capazes de reprodução autônoma (não apenas assexuada, mas sem receber esperma do macho de nenhuma forma indireta, nenhuma “polinização”).

Foram descritos até hoje três tipos de feromônios sexuais em Acari: 1) Arrestantes: produzidos por fêmeas imaturas para estimular a resguarda pré-copulatória de machos adultos. 2) Atrativos: produzidos por fêmeas maduras para machos maduros. 3) Feromônios de contato: secretados por fêmeas adultas para estimular o comportamento copulatório competitivo entre machos.”

Em nossas casas, os ácaros alimentam-se de partículas resultantes da descamação de pele humana e de animais. Por dia, o homem perde cerca de 1g destes pedaços de pele. Os ácaros abundam nos colchões, mantas de lã, almofadas de penas, tapetes, alcatifas, sofás e bonecos de pelúcia, desenvolvendo-se em condições ótimas de umidade superior à média de 70% a 80% e de temperatura superior a 20 °C.” Quando a secura é uma bênção.

Em altitudes superiores a 1200 metros, os ácaros deixam de ter boas condições de vida. Por este motivo, a estadia em regiões montanhosas pode conduzir ao alívio de certas alergias.”

Apesar das alergias e parasitismos, muitas espécies são benéficas para o homem por predarem outros invertebrados, considerados pestes para a agricultura e plantações ornamentais, além de predarem plantas daninhas. São importantes, também, para a reciclagem de nutrientes no ecossistema, quebrando-os em tamanhos menores para que possam ser utilizados por outros decompositores. (Ruppert & Barnes, Zoologia dos Invertebrados, 2005)”

SUBTÍTULO ALERGOLOGIA

Os excrementos dos ácaros e os ácaros mortos dispersam-se em poeira fina, sendo inalados e podendo provocar alergias. A maioria dos casos de alergia a ácaros são mediadas pelo IgE, mas existem descrições de pacientes com imunorreatividade e hipersensibilidade a ácaros mediada por mecanismos celulares.”

Para que se dê a sensibilização aos ácaros é necessária uma taxa de antigênio Der p1 superior ou igual a 2 micra por grama de pó domiciliar, o que seria equivalente a 100 ácaros por grama de poeira fina. Calcula-se que a prevalência da sensibilização aos ácaros na população geral seja de cerca de 10 a 20%. São os responsáveis pela maioria dos casos de rinite e asma alérgica perene, tendo também um papel importante na dermatite atópica. Já foram descritos casos raros de anafilaxia após ingestão de alimentos contaminados por grandes quantidades de D. farinae (farinha, pizzas, peixe e legumes, entre outros).”

SUBTÍTULO PREVENÇÃO

exposição ao ar e ao sol dos colchões, edredons e almofadas;” “lavagem frequente a 60 °C dos colchões, edredons e almofadas;” [tem como colocar água quente na máquina?] “aspiração regular e frequente dos colchões e tapetes com aspiradores munidos de filtros HEPA;” “acaricidas” [muito mais fácil que os 2 últimos] “manutenção de uma atmosfera seca no interior das habitações (umidade relativa a 50% a 60% e temperatura entre 18 e 20 °C);” “Não está demonstrada a eficácia dos ionizadores e purificadores de ar”

Porém, regressando a Lolita, Nabokov jamais quis evocar ácaros, a não ser que fizesse parte de seu jogo de linguagem: “nós os ninfoleptos” se referia a ninfa+Lepidoptera, asa com escamas, borboletas… Amantes de ninfas pequenas, em síntese. Há o trocadilho, ainda, com o sufixo que não existe de forma independente, -lepsia, como em narcolepsia ou epilepsia, conotando uma condição passiva diante de um mal (sofre-se de um sono incontrolável e involuntário, de convulsões). Portanto, Humbert Humbert também é um “escravo das ninfas”, doente de… não, seu mal não é a ninfomania, mas a ninfolepsia!

Do aracnídeo ao inseto: quanta diferença!

WIKIPÉDIA

Sometimes, the term Rhopalocera is used for the clade of all butterfly species, derived from the Ancient Greek ῥόπαλον (rhopalon) and κέρας (keras) meaning ‘club’ and ‘horn’, respectively, coming from the shape of the antennae of butterflies.

The origins of the common names ‘butterfly’ and ‘moth’ are varied and often obscure. The English word butterfly is from Old English buttorfleoge, with many variations in spelling. Other than that, the origin is unknown, although it could be derived from the pale yellow color of many species’ wings suggesting the color of butter. (Harpe, Douglas; Dan McCormack, Online Etymology Dictionary / Arnett, Ross H., American insects: a handbook of the insects of America north of Mexico) The species of Heterocera are commonly called moths. The origins of the English word moth are clearer, deriving from Old English moððe (cf. Northumbrian dialect mohðe) from Common Germanic (compare Old Norse motti, Dutch mot and German Motte all meaning ‘moth’). Perhaps its origins are related to Old English maða meaning ‘maggot’ or from the root of ‘midge’,¹ which until the 16th century was used mostly to indicate the larva, usually in reference to devouring clothes.”

¹ H.H. chama Lolita de larva em algumas ocasiões.

The etymological origins of the word ‘caterpillar’, the larval form of butterflies and moths, are from the early 16th century, from Middle English catirpel, catirpeller, probably an alteration of Old North French catepelose (from Latin cattus, ‘cat’ + pilosus, ‘hairy’).”

* * *

Since the Middle Ages, nymphs have been sometimes popularly associated or even confused with fairies.” “The Greek word nýmphē has the primary meaning of ‘young woman; bride, young wife’ but is not usually associated with deities in particular. Yet the etymology of the noun nýmphē remains uncertain.”

Um homem normal a quem se mostre uma fotografia de um grupo de colegiais ou escoteiras e se peça que indique a mais bonita não escolherá necessariamente a ninfeta que porventura se encontre entre elas. É preciso ser um artista e um louco, um ser infinitamente melancólico” Veja-se a influência de Nabokov sobre os dicionários: “NINFETA [pequena ninfa, ‘ninfa-borboleta’] Menina adolescente que, podendo ou não ter a intenção de parecer sensual, é considerada pelos olhos de quem a vê como muito sensual; lolita.”

Ninfetina, a mistura de ninfeta com cafeína.

Bem mais segura que a ninfetamina do extreme gothic metal!

deve haver um hiato de vários anos – eu diria que nunca menos de 10 – entre donzela e homem, para que este possa ser apanhado pelo encantamento de uma ninfeta.” “um certo contraste que a mente apreende com um suspiro sufocado de perverso deleite.”

Uma civilização que permite a um homem de 25 anos cortejar uma rapariga de 16, mas não uma de 12.” “monstruosa duplicidade” “As mulheres humanas [adult woman no original] com as quais me era consentido lidar não passavam de agentes paliativos.”

O mais vago dos meus sonhos profanadores [com polução, molhados, no original] era mil vezes mais deslumbrante do que todo o adultério que o mais viril escritor de gênio ou o mais talentoso impotente poderiam imaginar.” Nabokov gosta de brincar: H.H. é um simplório; ele mesmo, um escritor de gênio.

Entre os 20 e os 30 e poucos anos não compreendi as minhas angústias com tanta clareza. Se o meu corpo sabia o que desejava, o meu espírito repelia todos os seus apelos.” “Os tabus estrangulavam-me.”

O fato de, para mim, os únicos objetos de frêmito amoroso serem irmãs de Anabela parecia-me, por vezes, um prenúncio de insanidade.”

em Inglaterra, depois da aprovação da Lei das Crianças e Jovens de 1933, a expressão ‘rapariga-menina’ [provavelmente woman-child] é definida como uma menina de mais de 8 e menos de 14 anos (depois disso, dos 14 aos 17, a definição legal é ‘jovem’ [youthful w., youthful lady, talvez maiden, mas a tradução mais assertiva teria de ter sido donzela]).”

Rahab era uma prostituta aos 10 anos de idade. Tudo isso é muito interessante e ouso supor que já me estais vendo com a boca a espumar, num ataque.”

Aqui está Virgílio, que podia cantar a ninfeta em tom singelo, mas que talvez preferisse o peritônio [abdome] de um rapaz.” <Que homofóbico! Cancelem Nabokov!>, gritarão alguns contemporâneos.

Dante apaixonou-se loucamente por Beatriz quando ela tinha 9 anos”

O casamento e a coabitação antes da puberdade ainda se praticam em certas províncias da Índia oriental. Velhos lepchas de 80 anos copulam com rapariguinhas de 8 e ninguém se importa.”

« criança-demônio, enfant charmante et fourbe » « Humbert era perfeitamente capaz de ter relações íntimas com Eva, mas era Lilith que desejava.”

A fase inicial do desabrochar do seio começa cedo (10 anos e 2/3 [8 meses]), na seqüência de alterações somáticas que acompanham a puberdade.” “[em seguida,] o aparecimento dos primeiros pêlos púbicos pigmentados (11 anos e 1/5 [2 meses e 12 dias, que exatidão clínica! Não bastava dizer algo como 2 meses e meio?].”

Ah, deixai-me sozinho no meu parque pubescente, no meu jardim musgoso! Deixai-as brincar eternamente em meu redor, sem nunca crescerem!” “Possuí-a e ela nunca o soube.” O maior dilema mental de H.H.: ele não consegue parar o tempo, não é Peter Pan nem Tinker Bell.

A MADAME HAZE ERA UMA MILF BASTANTE CONSERVADA (O FILME DE 1997 NÃO LHE FEZ JUSTIÇA): “Gostei das suas pestanas compridas e do vestido justo, de bom corte, que cingia de cinzento-pérola o seu corpo jovem que ainda conservava – e isso foi o eco nínfico, o arrepio do gozo, o sobressalto da minha virilidade – um não-sei-quê de infantil, de mistura com o frétillement profissional do seu pequeno e ágil traseiro.” “Perguntei-lhe o preço e ela respondeu prontamente, com uma precisão melodiosa e argentina (um pássaro, um vero pássaro!): Cent. Tentei regatear, mas ela viu o desesperado e solitário desejo que se espelhava nos meus olhos baixos (…) e, com um bater de cílios, replicou-me: Tant pis, e fez menção de se afastar. Talvez 3 anos antes, apenas, eu a pudesse ter visto regressar à casa, da escola!” “Jamais esquecerei o modo como os seus infantis lábios parisienses pareceram explodir ao emitir o bas, pronunciando com um apetite que praticamente transformou o ‘a’ num breve e impetuoso ‘o’, como na palavra inglesa bot.” Só um lingüista consumado teria podido escrever essa novela… Bot na época de Nabokov, talvez, só existisse em inglês como “picada de inseto”, e não como ferramenta robótica, hoje tão predominante.

eu sou um varão¹ excepcionalmente interessante!” “A virilidade excepcional reflete, muitas vezes, nas feições visíveis do indivíduo, um não-sei-quê de sorumbático e congestionado, que se relaciona com o que ele tem de ocultar. Era esse o meu caso. Bem sabia – ai de mim! – que podia obter, com um estalar de dedos, qualquer mulher adulta que quisesse. Efetivamente, até adquirira o hábito de não me tornar demasiado atencioso com as mulheres, por temer que me chovessem como fruta madura no regaço frio.”² “Eu, pelo meu lado, era ingênuo como só um pervertido pode ser.”

¹ Essa tradução lusa é péssima!

² Regaço, interior (subjetivo), colo, também pernas e virilhas por extensão: Humbert é impotente quando se fala em mulheres de sua meia-idade, ou bem pior, aquelas que já superaram a puberdade – ou pior: aquelas que já estão na segunda metade da adolescência!

espinhos nas canelas rapadas”

Nansen, passaporte que se concede a apátridas, que tem o nome de um norueguês Prêmio Nobel da Paz.” “a América, o país das crianças rosadas e das grandes árvores”¹ “começou a abanar a cabeça de cão-d’água² com toda a força”

¹ Hoje: dos obesos rosados e da poluição.

² Raça de cão portuguesa.

triplicava o queixo para chegar ao decote da blusa”

a idéia de calçar as minhas botas de montanhista e aplicar-lhe um pontapé no traseiro foi impossível de pôr em prática”

o baixo mais entroncado Maximovich¹ parecia feito de ferro gusa.”²

¹ Botanista russo do séc. XIX, então é impossível que Vladimir Nabokov não o conhecesse.

² “Geralmente nos processos industriais, o ferro gusa é considerado como uma liga de ferro e carbono, contendo de 2,11% a 5% de carbono e outros elementos ditos residuais, como silício, manganês, fósforo e enxofre.” Tão duro como o aço. Os 3 maiores produtores de ferro gusa na atualidade são China, Japão e Rússia. O Brasil, sexto no ranking da produção, é o maior exportador.

Não há ninfas nas regiões polares.”

O suborno de uma enfermeira deu-me acesso a algumas fichas e descobri, quase a rebentar de riso, que me classificavam de potencialmente homossexual¹ e totalmente impotente.”

¹ Faceta nada incomum em anos mccarthistas.

passei uma noite fantástica no comboio, imaginando em todos os pormenores possíveis a enigmática ninfeta, a quem ensinaria francês e acariciaria humbertinianamente.”

a verde-e-rosada Ramsdale”¹

¹ Cidade do Novo México. Procurar informações sobre ela tem se tornado difícil graças à fama do jogador de futebol de mesmo nome!

doçura de praias em tecnicolor”¹ “uma daquelas casas que sabemos de ciência certa terem um tubo de borracha enfiado na torneira da casa de banho, em vez de chuveiro.”

¹ A TV em cores era uma novidade.

o banal mais-que-tudo da classe média com peneiras artísticas: a Arlesiana de Van Gogh.”

ainda a bater com o indicador no cigarro.”

palavras que podem refletir a freqüência de um clube do livro ou de bridge, ou qualquer outro chato convencionalismo.”

E ela chamava aquele quarto de criada semiestúdio!”

um louco com um gosto indecente pelo fruit vert.”

minha letra mais pequenina e mais satânica”

Os sorvetes com frutas e nozes causam acne. Mas as ninfetas não têm acne, embora se empanturrem de alimentos ricos.” “Um sorvete duplo de baunilha com creme quente de chocolate”

possuo todas as características suscetíveis de despertar uma rapariguinha: queixo bem talhado, mãos musculosas, voz profunda e sonora, ombros largos.”

seus lábios são vermelhos como um chupa-chupa¹ vermelho lambido”

¹ Horrendo! Não podemos ler essa novela num português que não é o nosso! Todo o contexto nos faz pensar que trata-se dum picolé, e que o filme de 97 apenas “modifica” o objeto de matiz erótico, mas não, era de início um pirulito. Importante observar, ainda: pirulito em inglês é LOLLIpop.

[Portugal] Guloseima feita de rebuçado ou chocolate enfiado em palito por onde se pega para ser sugada ou lambida. (Equivalente no português do Brasil: pirulito.) = CHUPA

chupa-chupa’, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2023, https://dicionario.priberam.org/chupa-chupa.”

Mutável, mal-humorada, alegre, desajeitada, graciosa com a graciosidade picante da sua subadolescência inexperiente” “As pombinhas dos seus seios parecem já bem-formadas. Precoce armadilha!” “Sou como uma dessas pálidas e inchadas aranhas que se costumam ver nos velhos jardins.” “A minha teia está estendida por toda a casa, enquanto eu escuto na minha cadeira, na qual estou sentado como um manhoso feiticeiro.” “lavar os dentes (o único ato de higiene que Lo pratica com verdadeiro interesse)” “e, meu Deus, quanto eu não daria para beijar naquele momento aqueles pés simiescos, de ossos delicados e dedos compridos!”

Para um pedófilo, qualquer lista de chamada é um poema.

o tumor oculto de uma paixão inconfessável.” “e dir-se-ia que nada poderia impedir o meu musculoso polegar de alcançar o quente recesso das suas virilhas.”

A sua reserva européia e o seu sentido do decoro talvez se sintam escandalizados com a ousadia de uma mulher americana!” “deve ter havido ocasiões em que tentei analisar, desmedidamente, a idéia de casar com uma viúva madura e sem nenhum parente vivo neste vasto mundo cinzento, apenas para levar a minha avante com a filha (Lo, Lola, Lolita).”¹ “Confesso isso sob tortura. Tortura imaginária, quiçá, mas por isso mesmo mais horrível.”

¹ Como já demonstrei em CHASING LOLITA (https://seclusao.org/2021/07/16/chasing-lolita-how-popular-culture-corrupted-nabokovs-little-girl-all-over-again-graham-vickers-2008/), 2 anos e meio atrás, Nabokov escreveu um conto em que o pedófilo executa o plano, falha e se suicida; e também chegou a escrever outro esboço em que o protagonista apenas idealiza a façanha numa conversa, sem nunca ter a coragem de executá-la.

De súbito, cavalheiros do júri, senti um sorriso dostoievskiano nascer como um sol distante e terrível.”

Segurar-te levemente sobre um meigo joelho e depositar na tua face macia um beijo paternal…” “Ou mentes, Dolores Haze, ou foi um íncubo. Não, eu não iria tão longe.”

a autobiografia da minha mulher era tão desprovida de interesse quanto o seria a sua autópsia.”

tentando ver as coisas como nos lembraremos depois de as ter visto”

Hoje em dia, se se quer ser assassino, tem de se ser cientista.” “a maioria dos delinqüentes sexuais que anelam por qualquer relação física, mas não forçosamente coital, com uma rapariguinha, são inofensivos, inadaptados passivos e tímidos desconhecidos que só pedem à comunidade que lhes consinta o seu chamado comportamento aberranteNabokov é o melhor em termos de tipificar um… tipo! Então H.H. muda da terceira para a primeira pessoa: “Somos suficientemente bem-integrados para sabermos controlar os nossos impulsos na presença de adultos, mas dispostos a dar anos e anos de vida pela possibilidade de tocar numa ninfeta.”

eu achava-lhe as compridas pernas bronzeadas quase tão atraentes como as de uma égua alazã.”

Não imaginam como é difícil esconder coisas, principalmente quando a nossa mulher passa a vida às voltas com os móveis.”

os grandes artistas insones, que tinham de morrer durante algumas horas a fim de viverem durante séculos.”

Adoro enganar médicos”

minha penugenta”

Permitam que dessa vez seja piegas! Estou tão cansado de ser cínico!”

Já escrevi mais de cem páginas e ainda não disse nada.”

durante um segundo, pareceu-me que o seu rosto era menos bonito do que a imagem mental que adorara durante mais de um mês.” “até as plúmbeas sombras debaixo dos olhos tinham sardas” “o tempo passa à frente das nossas fantasias!”

O élan de suas meias¹ brancas estava visado para baixo, no nível que tão bem recordava”

¹ Me recuso a dizer, como um português, “peúgas”!

o gosto a hortelã-pimenta da sua saliva” “soltava o vestido, que se metera na racha do pêssego”

um homem muito velho, desses que são hóspedes permanentes de velhos hotéis.”

refrescava as hemorróidas na relva úmida”

Entre os sicilianos, as relações sexuais entre pai e filha são consideradas naturais, e a rapariga que participa nessas relações não é olhada com desaprovação pela sociedade a que pertence.” Nada entre os <sicilianos> (provado que ainda existam esses sicilianos) é normal…

LEGISLAÇÃO IANQUE (CONSULTADA EM 2013)… DESNECESSÁRIO DIZER QUE LÁ HÁ UMA BARAFUNDA DE ESTADO A ESTADO! CHAMAR ÀQUILO DE FEDERAÇÃO É FORÇAR MUITO A BARRA!

Uma menor do sexo feminino, que permite a uma pessoa de mais de 21 anos conhecê-la carnalmente, implica a sua vítima em estupro estatutário ou sodomia de 2º grau, conforme a técnica adotada, e a pena máxima são 10 anos.” Referida sodomia – legislação ianque. Emenda de jurisprudência do STF (caso de extradição de um americano infrator, não-deferida por prescrição) – “Correspondência admitida entre o crime de sodomia de 2º grau, previsto na legisl. Do Estado do Oregon (USA) e o delito de atentado violento ao pudor, definido no Código Penal Brasileiro (art. 214, combinado com o art. 224, ‘a’).”

THIS IS WEST COAST: “visões publicitárias de celestiais taças de sorvete, metade de um bolo de chocolate debaixo de uma redoma de vidro e diversas moscas, horrivelmente experientes, a zumbir por cima do pegajoso açucareiro”

Admiramos a maior estalagmite do mundo numa gruta onde 3 estados do Sudoeste têm uma reunião de família.” “Um carrapato na minha virilha. Danças rituais índias, estritamente comerciais.”

Um rapaz pálido, magro e de 1,80m, com um pomo-de-adão muito ativo, a devorar Lo e sua cintura nua castanho-alaranjada com os olhos”

rastros de um dinossauro num canyon deserto, deixados há 30 milhões de anos, quando eu era criança.” “Missão Dolores: bom título para um livro.”

ver as crianças saírem da escola – sempre um bonito espetáculo.”

eu era um amigo tão solícito, um pai tão apaixonado, um pediatra tão excelente que satisfazia todas as necessidades do corpo da minha pequenina moreno-arruivada!” “não há no mundo prazer que se compare ao de acariciar uma ninfeta. É um prazer hors concours

À p. 159 desta edição, a abominação inominável, presente no doloroso filme indicado por Jean Baudrillard Chinatown: o fetiche da netinha ninfeta, em que imagina sentir os mesmos prazeres pré-púberes em quem sabe 20 anos (supondo que Dolores engravidasse aos 20 dele mesmo) com sua neta, ele, H.H., já um idoso seboso. A única diferença para Chinatown é que aqui não se trataria de incesto genético, apenas “cultural”.

há poucos físicos que me despertem mais aversão que a pelve pesada e descaída, as barrigas das pernas grossas e a cútis deplorável da média das universitárias” “o caixão onde as minhas ninfetas são sepultadas vivas [a universidade]”

a localização de uma estrela é importante, mas o lugar mais prático para arrumar um frigorífico, na cozinha, pode ser ainda mais importante para a dona de casa principiante.” “Que interesse pode Dorothy Hummerson ter pela Grécia e pelo Oriente, com os seus haréns e os seus escravos?”

(2013) Cinco coisas ou pessoas sem as quais não consigo viver: minhas crises de ansiedade, gente que não quer ir a Londres, goleadas de “n” times sobre o Flamengo, revistas que assino mas não leio nem a metade e vampiros (pessoas que, ainda que com muitos espelhos em casa, jamais conseguem neles se enxergar)!

observações meteorológicas de alguns cordiais vizinhos.”

temperatura correta: nunca grosseiro, mas sempre distante.”

vivia, grátis, coisas que o mais batido voyeur daria uma pequena fortuna para observar.” “Vestia sempre de preto, raramente tomava banho” “E não há ninguém mais conservador que uma criança, sobretudo do que uma rapariguinha, mesmo que ela seja a mais ruiva e corada, a ninfeta mais mitopoética da bruma do pomar de Outono.” “claro que o meu ciúme cravava sempre as garras pontiagudas nos finos tecidos da falsidade ninfítica”¹ “o meu penteado preferido – franja à frente, canudos [tranças duplas, marias-chiquinhas] aos lados e os caracóis naturais atrás” “uma madeixa quase hitleriana caída para a testa pálida.”

¹ Primeiros sinais da possessividade do abusivo em duplo sentido.

O leitor sabe a importância que atribuo a ter um enxame de pajenzinhas, ninfetas de prêmio de consolação, à volta da minha Lolita.”¹

¹ O ciumento não costuma pensar no ciúme do seu próprio par romântico – pelo contrário, faz-lhe pouco caso, o menos que puder: hipocrisia máxima.

e eu sabia, também, que tinha um tremendo sinal cor de chocolate nas costas feminis”

Fale-me de Ball-Zack, por favor.”

bóu zéki

Ainda hesita entre os estágios anal e genital de desenvolvimento.”

todos nós gostaríamos de saber se alguém da família a instruiu quanto ao processo da reprodução dos mamíferos. É impressão geral que ela, apesar dos 15 anos, permanece morbidamente desinteressada de assuntos sexuais” “devia encarregar o médico da família de lhe revelar os fatos da vida” Quanto os Estados Unidos da América, quanto o Ocidente, não regrediram nos últimos 70 anos!

Deveria casar com a Pratt e estrangulá-la?”

a maneira como ela andava de bicicleta, o movimento dos seus quadris, causavam-me supremo prazer”

assistir aos ensaios, como alguns pais ridículos faziam” “Detesto teatro, que considero uma prática primitiva e pútrida”

“‘sinto-me muito mal comigo mesma’, como costumavam falar essas meretrizezinhas.”

C’est entendu? – só falava francês quando se portava como uma boa rapariguinha.”

existencialismo, coisa ainda muito apaixonante na época”

Deves, também, vigiar a tua dieta. O diâmetro da tua coxa não deverá exceder 43,7cm.”

beijei as solas amareladas dos seus pés de dedos compridos, imolei-me…” Segunda ode ao macaco.

Idiota, triplamente idiota! Podia tê-la filmado!”

Já alguma vez disse que o seu braço nu tinha a cicatriz em 8 da vacina?”

Ali estava ela, a brincar com um maldito cão, e não comigo.” “Quem poderá avaliar a mágoa que se causa a um cão ao abandonar uma brincadeira com ele?”

Sabia que as ninfetas histéricas tinham propensão para as temperaturas altas, às vezes excedendo, até, a máxima fatal.”

Os pensamentos vagabundos e fragrantes deste gênero têm sido sempre um bálsamo para mim, em momentos de tensão fora do vulgar”

é espantosa a velocidade com que se movem e o pouco que fazem estas enfermeiras de grandes nádegas!”

Não utilizava caneta de tinta permanente, fato que, como qualquer psicanalista lhes dirá, caracteriza um indivíduo como ondinista reprimido. [adepto do golden shower!]”

O MOLESTADOR E SUA SOMBRA: “Que calafrio de triunfo e ódio sacudiu o meu frágil arcabouço quando, entre os nomes simples e inocentes de um registro de hotel, o seu diabólico espírito charadístico ejaculava na minha cara” “Dolorés Disparue”

As estudantes jovens gostam de muitas pregas – que c’était loin, tout cela!“Todos nós conhecemos pessoas com o desagradável hábito de arrancar as cutículas das unhas nas festas do escritório.”

Cairei onde as ervas daninhas apodrecem

E o resto é dissolução e poalha¹ estelar”

¹ “Poeira leve na atmosfera”

Psicanalisando este poema, verifico que se trata, efetivamente, da obra-prima de um maníaco.”

Seria um velhaco se dissesse, e o leitor um tolo se acreditasse, que o abalo de perder Lolita me curou da pederosis. [pedofilia]”

Rita, 26 ou 28 ou 30 anos, a nova cônjuge da estória: “Comparadas com ela, Valechka era uma Schlegel e Charlotte [Haze] uma Hegel.” Grandes estetas-filósofos, mas incomensuravelmente feios, realmente! “[Rita] me salvou do manicômio”

O tamanho de certos parasitas é 1/6 do tamanho do hospedeiro.” Talvez mais uma referência velada ao que me levou a inserir extensas passagens do WIKIPÉDIA sobre ácaros no início do post, “nós, os ninfoleptos”.

Meias para meninas, 39 centavos.”

quanto menos vemos determinada pessoa, mais nos compraz verificar, sempre que dela temos notícias, como respeita obedientemente a idéia que fazemos a seu respeito.” “Preferíamos não ter conhecido o nosso vizinho, vendedor reformado de cachorros-quentes, (sic) se vimos a saber que acaba de publicar o melhor livro de poesia do século.”

5cm mais alta.¹ Óculos de aros cor-de-rosa.”² A visão de alguém subitamente mais feia, porque grávida. “embora as suas feições houvessem, de fato, estiolado, compreendi com clareza, tão irremediavelmente tarde, quanto ela se parecia – se pareceria sempre – com a Vênus ruiva de Botticelli – o mesmo suave nariz, a mesma beleza indistinta.” E em seguida as mentiras deslavadas, antes de finalmente expelir algo verídico…

¹ Chegando ao 1,62m final.

² Mais famosa ficou a representação cinematográfica (pôster de propaganda) para o filme de 1962 (curiosamente ausente do próprio longa!) com as lentes dos óculos escuros em formato de coração, chupando o lollipop.

– Que coisas, exatamente?

– Ora, coisas!… Oh, eu… francamente eu…”

Não desistia, recusava-se a entrar em pormenores, com aquele bebê dentro dela.

Tinha lógica”

Só que tinha mesmo a idade duma bastarda – a iminente santa! –, não 6 anos a mais…¹

¹ [2023] Aqui, imagino, eu faço uma alusão ao fato de no epílogo Lolita ter ainda 14 anos e não 20, a idade de minha primeira namorada (eu fui seu lolito, tinha 16). Mas posso estar errado – a memória é uma merda!

MORAL DA ESTÓRIA: O malandro que chega DE CARONA faz o estrago (os malandros: tanto H.H. como Quilty, ou seriam ambos a mesma pessoa?) e se dá bem – depois um idiota qualquer (uma pessoa adequada a Lolita, de sua faixa etária, mais inocente, mais virgem) aparece para bancar o prejuízo!

ali estava ela, irremediavelmente gasta aos 17”¹

¹ [2023] Tem razão! Como 3 anos, aproximadamente, haviam se passado na novela, desde a morte de Charlotte Haze, Lolita devia ter 15 anos quando se desgarrou de Clare Quilty (doppelgänger de um H.H. dobrado e louco?). E depois mais 2 anos até esse reencontro melancólico entre “pai” e “filha” na véspera de ela dar a luz… Na minha matemática acima tinha desprezado o quanto durou a novela. Catorze anos teria sido uma idade muito precoce – mas o que não foi precoce para Dolores? Em verdade ela pode ter casado (no México isso seria possível) aos 15, levando a gravidez os 16 adentro, por isso minha conta envolvia “15”. Era esse número que eu comparava, na nota anterior, ao da minha primeira namorada: “tinha 14 [mas 14 estava errado, na verdade, 15] e não 20”; mas na hipótese de eu ter levado isso em conta, o que me faria dizer “não tinha 6 anos a mais…”? Minha referência podia ser mesmo 15. Quando terminei meu primeiro namoro, E. tinha 21. E logo depois engravidou de um homem mais velho, sebento, como Quilty, fisicamente, como Humbert Humbert, psicologicamente… E esmoreceu, murchou como flor… 15 para 21: 21 é uma idade consensual em todos os países do mundo, imagino. Já 15… só bastardas podem casar, ou ter filhos fora do casamento, daí o qualificativo. Uma nota comprida e desnecessária, mas queria mesmo voltar a entender minha própria anotação de 2013, mais de uma década depois!

o suave eco da folha morta da ninfeta” “sim, porque ela está morta mas é imortal se estão a ler isto [daí o ‘suave eco’]”

que me consigam provar que no curso infinito da vida não tem a mínima importância o fato de uma criança norte-americana Dolores Haze ter sido privada da sua infância por um maníaco.” Ou para impressionar o júri ou por legítimo remorso, Humbert admite todo seu crime hediondo no final de seu “romance de prisão”.

[2023] Eu pulei basicamente 1/3 da narrativa – pouco citei aspas do arco dos hotéis, ou da aparição e desaparição trágica de Clare Quilty… Mas um complemento e enriquecimento desse post, cobrindo essas fissuras, será publicado mais tarde (2024? Ainda não sei), porque no momento leio LOLITA ANNOTATED, a versão original, em inglês, com muitas notas bibliográficas e explicações daquele que talvez tenha se notabilizado por ser seu maior crítico – e me fez ter interesse por obras de Nabokov depois de muitos anos… ainda não li Ada or Ardor, por exemplo…

e depois puxaria para trás o prepúcio da pistola” Ah sim, havia olvidado – H.H. só foi caçar Quilty depois do reencontro! Seu último ato como homem livre!

de repente, ironicamente, horrìvelmente, a luxúria impunha-se de novo”

As idéias de meados deste séc. XX no tocante às relações criança-pais têm sido consideravelmente corrompidas pelo palavreado escolástico e pelos símbolos estandardizados do negócio psicanalítico.”

Preferi sempre a higiene mental da não-interferência”

a horrível conclusão a que quero chegar é que tornara-se gradualmente evidente à minha convencional Lolita, durante a nossa singular e bestial coabitação, que até a mais miserável das vidas familiares era melhor do que a paródia de incesto que era o melhor que eu podia oferecer à desamparada criança.”

ele é, evidentemente, muito melhor dentista do que você. § Não sei se algum dos meus leitores terá, jamais, ensejo de dizer uma coisa dessas. Causa uma deliciosa sensação de sonho.”

Suponho que, na sua forma impressa, [irônico!] este livro [dentro do livro] será lido nos primeiros anos de 2000 d.C.” Voilà

visto ter desrespeitado todas as leis da humanidade, também podia desrespeitar as leis do trânsito.”

bonitas moscas de um verde-brilhante” Ler https://seclusao.org/2023/11/10/arquivo-existencialismo-aos-7-as-abelhas-os-homens-e-a-espinha-metafisica/, de minha autoria.

eu sou símile ao nada!”

como poderias, com razão, criticar um ato involuntário?”

consenti que eu enlace teu corpo que eu não mais esperava encontrar.”

Desgraçados esteios de um desgraçado!”

Tu o geraste, de modo que, nem se ele cometer contra ti os mais ímpios dentre os piores males, pai, te é lícito retribuir-lhe os males.”

Cronos contempla, contempla tudo eternamente, derrubando uns e, no outro dia, alçando-os de volta ao topo”

O quê? Atirará um raio? Temo isto, pois nunca o lança em vão” “um ignífero raio do deus o fez sumir”

No local onde posteriormente seria fundada a cidade de Tebas, Cadmo semeou os dentes do dragão que matara. Surgiram então os espartos, ‘homens semeados’

prole da Terra e do Tártaro”

Ó, Cão Cérbero, se tu guardas para que vivos não entrem e mortos não saiam, não se frustra a 1ª missão, se para parar o vivo tens de despedaçá-lo e feri-lo? Aquele que quer atravessar assim morre, em rebeldia.”

 

SINOPSES DE (ALGUNS) LIVROS INDISPENSÁVEIS PARA A FORMAÇÃO DO HISTORIADOR – Episódio II: A historiografia marxista: Parte 1: Os fundadores

A parte 1 privilegiará os fundadores da historiografia marxista, Marx e Engels. A parte II, subsecutiva a este post, dará ênfase aos escritos de cunho mais histórico e político do período posterior. Pode soar estranho dizer que num compilado historiográfico não estejamos, num episódio ou outro, dando ênfase a escritos históricos, mas o historicismo marxista é tão rico que há uma parte complementar, talvez até mais numerosa, destinada à análise da História também do prisma estrutural, envolvendo Filosofia, Direito, Economia, Geografia (no que pode se distanciar da guerra, política e história o bastante a fim de ser considerado um livro marxista ‘fora da disciplina da História’, artificialmente falando; apenas para advertir o leitor de que será dada ênfase a conceitos econômicos aos quais seria legítimo se introduzir primeiro), Cultura (Estética embutida), Antropologia, Sociologia, dentre outros campos do saber.

É na função de síntese ou panorama geral de toda essa infra-estrutura que regula a superestrutura simplesmente “histórico-econômica” dos acontecimentos vigentes que se faz necessário esse segmento “introdutório” a Marx, Engels e seus continuadores.

Brevemente, procuraremos incluir numa SINOPSE: Episódios III ou qualquer número em diante (ou seja, SINOPSE: Marxismo: partes 2 em diante) – varredura marxista que pode levar algum tempo na série historiográfica como um todo – algumas obras dos seguintes autores (antecipamos estes pratos de comida para salivar o intelecto insaciável do leitor):

Hobsbawm

Dobb

Chomsky

Eagleton

Plekhanov

Lenin

Clara Zetkin

Rosa Luxemburgo

Guevera

Baudrillard

Arrighi

Braudel

Carr

Gramsci

Lafargue

Lukács

Althusser

Schumpeter

Malm

Wallerstein

Mao Zedong,

não necessariamente nessa ordem!

Esclarecimento importante: o grande fecho, i.e., a análise integral d’O Capital e dos Grundrisse, obras máximas do Marxismo, virão no epílogo da vertente marxista dessas sinopses!

[Os fundadores]

Índice dos livros que serão apresentados em panorama neste artigo:

ENGELS, As guerras camponesas na Alemanha

ENGELS, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra

ENGELS, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado

MARX & ENGELS, O Manifesto Comunista

MARX, O Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte


ENGELS, As Guerras Camponesas na Alemanha

 

Der deutsche Bauernkrieg no original, este é um livreto de Friedrich Engels, maior colaborador vivo de Marx e divulgador do marxismo no século XIX, contendo relatos dos levantes camponeses do século XVI no território da atual Alemanha, conhecidos como Guerra dos Camponeses, evento que durou apenas alguns meses entre 1524 e 1525. Foi a resposta de Engels, no exílio na Inglaterra, aos levantes operários que sacudiram a Europa no período imediatamente precedente (a redação da obra é de 1850). Compara-se uma revolta na época do socialismo organizado com uma revolta 300 anos adiantada, antes mesmo da sedimentação da própria dominação burguesa e do proletariado urbano, ou seja, tentativa de uma revolução destinada ao fracasso, posto que de uma fase hiper-precoce do Capital. E no entanto essencialmente trata-se do mesmo fenômeno em estudo: trabalhador(es) oprimido(s) X opressor(es) (dono(s) dos meios), embora haja aqui um ingrediente extra: o cisma protestante, que torna a leitura muito interessante para quem julga que Marx e Engels não tratavam o assunto com a atenção ou o respeito devido (a variável da religião na História). Uma das principais fontes de Engels foi o também alemão e historiador seu contemporâneo Wilhelm Zimmermann.

Resumo geral

Engels identifica os cavaleiros como a “classe média” teutônica do século XVI, fazendo o papel da pequena-burguesia que ainda inexistia. Como sempre, esta “classe intermediária”, embora de origem popular, trai os mais pobres, escolhendo se aliar à elite. Seria o caso de Martim Lutero, o revolucionário religioso, como retratado no livro. Em vez de usar a popularização dos escritos sagrados em prol de uma liberalização das camadas inferiores, Lutero, que, ao mesmo tempo, atacava os príncipes e líderes seculares corruptos de então, punha uma coleira nas reivindicações sociais dos camponeses, apelando para as passagens mais reacionárias da Bíblia, que pediam submissão e resignação à vontade divina (nada mais que à vontade dos senhores). Em outros termos, transformava o Novo Testamento numa apologia da hierarquia social de seu tempo. Faltava consciência de classe aos camponeses e artesãos emergentes para se organizarem contra as velhas autoridades do regime feudal, o que explica o conflito e seu fracasso em transgredir a ordem vigente, bem como o não-maturamento de outras condições materiais.

A Alemanha ainda submetida à organização colonial do Império Romano e as classes emergentes do século XVI, com mais detalhes

Composta essencialmente de cidades-Estados do velho regime, o território da atual Alemanha era governado em cada pequena porção por seu próprio déspota/suserano. O que desencadeou chamas de revoltas populares foi o progressivo aumento dos impostos, um problema a que nós não somos estranhos. As despesas militares dos príncipes não paravam de crescer, bem como a nobreza e até a classe média dos isentos de taxação (incluindo, evidentemente, o clero, sempre defensor do status quo), sobre os quais a autoridade destes autoproclamados príncipes divinos em verdade jazia, só aumentavam a carga sobre as camadas mais pauperizadas. O campo minado estava armado para a explosão de um conflito civil.

Ao mesmo tempo, em contraste, o Direito Romano ia renascendo, neste meio um tanto feudal, e era canalizado para centralizar a administração dos pequenos feudos e principados e explorar cada vez mais a mão-de-obra barata. Não havia, fora das classes médias urbanas e da elite, o que se pudesse chamar de cidadania. Era difícil que rebeliões ultrapassassem o caráter de episódios inconseqüentes, isolados. Thomas Müntzer e outros radicais enxergaram a potencialidade da união dos oprimidos e intentaram organizar uma sublevação conjunta (principalmente a partir da Turíngia).

Mesmo os cavaleiros, guerreiros de tipo medieval, foram perdendo importância e, conseqüentemente, renda, pois a descoberta da pólvora e o cultivo da ciência militar tornou exércitos numerosos e imensas cavalarias uma arte obsoleta para a guerra. Não havia mais a necessidade do soberano residir em fortalezas, castelos, então inexpugnáveis, antes da introdução das armas de fogo. Ademais, o não-rebaixamento do clero nas mesmas proporções indignou ainda mais a classe decadente dos cavaleiros.

Mesmo que ocupando posição relativamente privilegiada, o mundo se secularizava, e as ordens religiosas perdiam autoridade política. O mercantilismo, a difusão da imprensa e até valores humanistas como os do Renascimento Italiano foram corroendo a aura da Igreja Católica, e os protestantes iniciavam sua história, nunca de forma pacífica, já que se tratava sempre de ocupar espaços (sobre quem eram os legítimos porta-vozes de Deus). Não à toa Lutero é produto deste meio de rápida corrupção da religião oficial e dos “santos”. Sua campanha anti-clerical iniciou em 1517 na cidade de Wittenberg. Mas Lutero pode ser considerado um Müntzer “amaciado” e “moderado”, e aquele que ficou mais famoso e consagrado, porque não desejava uma reforma “de cima a baixo” do organismo social – era o que Marx e Engels chamariam de um revolucionário de tipo burguês em um ambiente feudal decadente.

O camponês alemão do século XVI não podia caçar, pescar ou plantar sem pagar altas taxas aos donos das terras; não havia nascido ainda o conceito de propriedade pública como hoje a conhecemos e, por outro lado, os senhorios em seu conjunto haviam se apoderado de todas as faixas de terra (podemos falar em escala européia, embora o livro dê ênfase à “Alemanha”, ainda não-unificada). Além disso, se uma praga devastasse as plantações o senhor feudal nada devia aos miseráveis trabalhadores rurais. Até o matrimônio era pesadamente taxado. O camponês tampouco podia legar testamento aos seus, suas posses sendo apropriadas pelo suserano após a morte de cada indivíduo. O direito romano não alcançava essa camada de verdadeiros párias neste momento histórico.

Um documento que expressava o descontentamento dos camponeses organizados sob Müntzer veio à luz sob o título Os Doze Artigos da Floresta Negra, o manifesto deste movimento revolucionário de antanho. A tática dos soberanos de então foi fazer “pazes separadas”, isto é, dividir os revoltosos, fazendo concessões mínimas a cada bando, desmembrando e desarticulando a oposição. O francês Carlos V, reivindicando um trono acima dos demais senhores feudais, em nome do ainda nominalmente existente Império Romano, viria a ser um monarca ainda mais tirânico e opressivo para o camponês nas décadas vindouras à tentativa revolucionária destes anos 1520.

Seu parente Ferdinando recebeu o poder centralizador de que precisava em relação às províncias alemãs. Lutero ele mesmo não abraçou o movimento de Müntzer e – ele próprio à época considerado um herege segundo Edito de Worms – tachou os müntzeristas de hereges, pois “iam longe demais”. Lutero evocou o direito do príncipe e do senhor sobre suas ovelhas citando Romanos 13:1-7 (basicamente a enésima reiteração do dito Dai a César o que é de César, despolitizando inteiramente a questão). Müntzer, mais tarde incorporado ao cânone dos anabatistas, foi executado após a derrota dos camponeses. Se não o ímpeto revolucionário “total”, ao menos o burguês e protestante anabatista não arrefeceriam com o tempo, reverberando ainda em ondas sucessivas Alemanha, Suíça e Holanda afora.

ENGELS, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra

Livro que precede o da revolta camponesa em 5 anos. Dessa vez trata-se do estudo de uma sociedade já industrializada, a Inglaterra vitoriana, de onde muitos revolucionários do séc. XIX tiravam as esperanças de que surgiria a deposição da burguesia, uma vez que era o centro burguês mais desenvolvido do mundo. Com efeito, trata-se do escrito longo de estréia de Friedrich Engels. A primeira tradução, do alemão para o inglês, demoraria 4 décadas. Engels o redigiu na própria Manchester, coração da Revolução Industrial. O livro foi escrito antes de Engels haver conhecido Marx e, portanto, não sofreu sua influência. Ainda assim, o método historiográfico de Engels foi bastante elogiado por aquele autor.

Resumo

A expectativa de vida do trabalhador industrial de Liverpool e Manchester era desalentadoramente mais baixa que a de qualquer outro trabalhador, mas mais acentuadamente que a do trabalhador rural. Só em Carlisle, cidade pequena, após a industrialização, a mortalidade infantil aumentou rapidamente em 7%. O problema é que a mortalidade infantil na região já era absurda (quase metade das crianças dos moinhos morria). Nas mesmas condições, a mortalidade dos adultos com menos de 40 anos de idade também cresceu 25%. Mais do que estatísticas, Engels apresentou o quadro trágico e cruento: agora trabalhando mais horas diárias, os trabalhadores recebiam bem menos por hora e viviam em condições higiênicas muito piores. A maior ironia talvez seja meta-histórica: Friedrich Engels cresceu filho de um barão da indústria têxtil bávara. Desde a primeira juventude foi um jornalista-ativista. Após sua viagem a trabalho para a Ilha, suas convicções se tornaram ainda mais extremas e embasadas.

ENGELS, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado

Longe de ser cronologicamente o primeiro trabalho da dupla Marx & Engels (seja como escritores-solo ou a quatro mãos), A Origem (…) é contudo um misto original de antropologia e economia primitiva e familiar, com bastante influência do etnógrafo Lewis Morgan, quem estudou os iroqueses e os senecas (tribos norte-americanas). Na verdade, foi o primeiro trabalho engeliano após a morte de Karl Marx e pode ser considerada uma co-autoria, embora Engels seja o editor final, uma vez que há subsídio de anotações antropológicas não previamente publicadas de Marx para a formação do volume. Uma triáide de terminologias cunhadas na obra e de importância central é a das famílias punaluanas, (1) sindiásmicas (2) e monogâmicas, (3) conforme seu modo de organização e perpetuação.

(1) Suposto estado original em que não havia o tabu do incesto com exceção do intergeracional e o casamento era livre entre irmãos e irmãs e primos e primas de qualquer ascendência. Além disso, as uniões tendiam a ser coletivas e os bens comuns a toda a “grande casa”, com poucas distinções entre os parceiros, exceto os sexos masculinos e femininos como designadores de papéis sociais bem-estabelecidos para os membros dessas uniões (seria uma situação intermédia entre o abandono do matriarcado, que faria parte de nossa pré-História e é tão difícil de estudar empiricamente, e a adoção de parâmetros androcêntricos. (2) Certa protomonogamia adquire relevo, mas não há clara transição entre os estágios 1, 2 ou 3. Assim como na poligamia islâmica atual, há algumas regras hierárquicas que passam a viger nos casamentos: algumas mulheres e/ou homens adquirem precedência sobre as(os) outras(os), assim como na poligamia de um homem que pode ter até quatro esposas a primeira esposa continua a ser a mais importante da família na configuração muçulmana. Adicionalmente, em caráter sintético, Engels afirma que alguns traços do feminismo, que hibernariam durante a terceira fase até sua reconquista nas lutas pelas revoluções européias, podiam ser detectados nesse tipo de sociedade ou “matrimônio híbrido”. (3) Formato patriarcal atualmente em vigor na maioria dos Estados-nações modernos, se não de caráter exclusivo pelo menos hegemônico (um homem e uma mulher, um lar). Reuniões homoafetivas já seriam extrapolações, toleráveis apenas a partir do fim do século XIX ou século XX em determinadas sociedades (o modo de produção em que vivemos ainda considera esta situação excepcional).

Alguns destes postulados, principalmente por derivarem de Morgan, que foi muito contestado em suas descobertas e modelos na Antropologia, já foram refutados, o que não prejudica o argumento-cerne do livro: o momento em que as sociedades ágrafas transitam para o patriarcado e a família proto-moderna, condições sine qua do estabelecimento do Estado (burguês) e da propriedade privada como norma absoluta.

MARX & ENGELS, O Manifesto Comunista

A chave para entender a historiografia marxista é seu conceito de trabalho. “A realidade histórica nada mais é que o trabalho objetificado, e todas as condições de trabalho fornecidas pela natureza, incluindo o corpo orgânico dos homens, são meras pré-condições e ‘momentos evanescentes’ do processo de trabalho.” [tradução minha] A inédita ênfase na matéria (daí o termo “materialismo”) como o fator determinante na História representa uma ruptura com todos os historiógrafos pregressos. Até o desenvolvimento da teoria do materialismo histórico por Marx, o fator determinante colocado acima de todas as relações de causa e efeito, diretor e motor da História, não deixava de ser de forma alguma uma espécie de agência divina, mais ou menos disfarçada, mesmo dentre historiadores ditos “fisicalistas” (que priorizavam o mundo físico em detrimento do “espiritual”). Faltava-lhes o senso dinâmico da matéria.

Deus tornou-se mera projeção da imaginação humana” – e mais: “ferramenta da opressão”. Aboliu-se essa esfera transcendental que objetificava indelevelmente o homem. O trabalho humano passa a ser o autor da História. Toda ideologia anterior – finalmente descoberta como descrição ideológica – é apenas o avatar ou a apologia do poder dominante, uma “história-contra-o-trabalhador”. “O primeiro ato histórico é… a produção da vida material em si mesma.” Portanto, a historiografia não só começa com o trabalho como termina necessariamente com a produção: “a história não se subsume ou auto-realiza em ‘auto-consciência’ ou ‘espírito do espírito’; [Hegel] em cada estágio histórico há um resultado material: uma soma de forças produtivas, uma relação historicamente criada entre e pelos indivíduos com a natureza, que é legada a cada geração subseqüente sem tirar nem pôr.” Este é um resumo ainda grosseiro do marxismo, tem-se de ter em mente, mas já nos serve como bússola.

Marx, O Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte

Princípios gerais do pêndulo da História da Europa

Há duas trajetórias de uma revolução: a ascensional e a decrescente. A primeira se dá quando partidos cada vez mais radicais vão se sucedendo na liderança do movimento, para que ao fim, na configuração do modo de produção capitalista, o mais paradoxal deles seja engolido pela própria fome revolucionária e arrancado de qualquer posto de comando. A segunda é seu espelho, posto que gradualmente igual, embora invertida. Neste segundo modelo de revolução, os jacobinos, ou a população revoltada, o extrato mais anárquico, são os primeiros na linha de frente. Estes são sucedidos por revolucionários de parlamento, que acabam entregando o poder aos burgueses. Estes, por fim, vêem-se salvos temporariamente pelo exército, que não obstante os descarta tão logo a espiral da revolução tenha completado seu movimento descendente. Assim, recai-se na ditadura. É uma lição maquiavélica destrinchada por Marx ao longo do livro (descrevem-se aqui os três anos do jocoso parlamento burguês de meados do século XIX na França, sob o mando do sobrinho de Napoleão, Napoleão III, um simulacro da ditadura napoleônica clássica).

 

Em ambos os casos, o elo mediano, o desfecho equilibrado que parece ser o mais longevo, é o da classe revolucionária vitoriosa de 1789, não outra senão a burguesia, que é a solução considerada “menos ruim” na luta promovida entre as diversas classes. Não há a autoridade pusilânime de um ditador, porém ainda ali se encontram as forças armadas e sua “honra”. Ademais, com a segurança constitucional, o indivíduo parece se ver num mundo melhor que o estágio da guerra de todos-contra-todos. Voltou-se à estaca zero do mundo moderno.

 

Karl Marx foi o primeiro indivíduo a compreender acima do razoavelmente tal situação antitética e oscilatória, tal todo contraditório que em vez de dinâmico era estático em essência. Procura ensinar ao proletário que, justamente, não existe um “ensino” a ser transmitido: deve ser encontrada uma forma inédita de revolução, ao invés de se mimetizar o êxito burguês, que foi único, ao vencer o Antigo Regime e secularizou o indivíduo burguês (chamando-o de “homem universal”), tornando-o, por fim, e ao menos, histórico.

 

A este propósito, a alusão ao personagem da literatura alemã, Schlemiel (de etimologia iídiche, dialeto hebreu, particularmente disseminado entre os judeus radicados na Alemanha, querendo dizer tolo, estúpido, empregado de forma corrente como adjetivo), que vende sua sombra para o diabo em troca de privilégios pessoais porém vê tudo se perder, é perfeita: os políticos franceses são sua versão invertida, sombras sem homem. História sem acontecimentos efetivos. Uma aula de fenomenologia (corrente filosófica do séc. XX), já no século XIX.

Superando suas influências: Parto do materialismo histórico

O conceito de destino manifesto de um povo, de verve hegeliana, é duramente contradito por Marx nesta obra. A visão de que cada nação possui o governo que merece é ilusória e precisa ser abolida. Sequer há o que se pode chamar de “nação”, e não porque o Estado-nação não respeite nações, mas porque o próprio conceito de nação está seriamente em xeque. Não existe o povo, por mais que o tópico-frasal da socio-logia (estudo ou conhecimento sobre o povo) coaja qualquer sociólogo incipiente a dizer o contrário. O que acontece em um país como o Brasil, por exemplo, é a tendência auto-implosiva do Capital: o enraizamento de uma plutocracia que impede o movimento revolucionário, porquanto este só representa perigo sendo massivo. Uma vez que estão destruídas as condições para que ele o seja (tome como base a mídia brasileira, que impossibilita o menor pensamento transgressor e injeta desinformação incessantemente e em larga escala), fica na mão do (escasso) indivíduo consciente a decisão: dada a impossibilidade democrática de atingir a verdadeira meta coletiva e a inviabilidade de qualquer negociação pacífica com o Estado e demais forças, baluartes da moral do Ocidente, diria um Nietzsche, eu devo lutar e arriscar a piorar ainda mais drasticamente minhas condições de existência neste mundo ou eu devo me conformar, manter minha propriedade, minha liberdade, enfim, meus direitos civis, minha relação com a família, meus estudos e meu emprego (dilema básico do “proletário empregado”)? Parece que, diante de impasse de tal ordem, sempre escolheremos a segunda opção. Mas, para ser auxiliado por um provérbio simples contudo verdadeiro, “nada é eterno”.

O que se depreende disso? Na aparência, durante uma época corriqueira do regime burguês, o momento da luta pela ruptura irreversível do sistema é invariavelmente empurrado para frente e jamais concretizado. Não há como imaginarmos, de fato, que poderia haver uma “anarquização” da sociedade moderna a ponto de transformar poderios incalculáveis como o produto nacional bruto e o exército americanos em cenários tão imprevisíveis quanto as Farc no território colombiano ou as milícias mexicanas em guerra de trincheiras com o Estado. No entanto, a relação de hegemonia relativa norte-americana já decresceu bastante nas últimas duas décadas (2000-2020). De qualquer forma, para o indivíduo regrado pela ideologia ainda hegemônica, a própria constituição do “rebelde” como exceção e minoria absoluta é já a quase refutação de qualquer esperança revolucionária.

Onde está, pois, a mágica que torna o inimigo invencível do homem no único sentido autêntico (a classe dominante) um respeitante do ditado de que “nada seja eterno”? Nele próprio. O invencível (figura sem corpo, apenas a idéia que temos enquanto somos escravos do próprio Ideal) é a vítima derradeira de seu próprio sucesso. As contradições do Capitalismo tornam-se mais agudas à medida que seu êxito se torna mais inquestionável (paradigma do fim do milênio anterior: o neoliberalismo venceu o “socialismo real” e não há mais “ideologias”). Há um ponto de ruptura nas auto-vitórias do maleável Capital e da casca de todo seu conteúdo, a moral do Ocidente. As fendas já aparecem com muito mais nitidez para nossa geração.

Existirá um momento em que as condições de existência do regime não poderiam ser mantidas nem que se o almejasse: contramedidas apenas acelerarão o colapso, e por mais que tal lição seja aprendida o colapso, em si, não pode ser evitado. Os estratagemas recentes dos Estados Unidos da América e a irreversibilidade da desdolarização da economia mundial posta em marcha pelos BRICS são a demonstração perfeita.

Não procede a crítica liberal feita a Marx de que “o que um homem vê, os outros vêem, ou o vêem vendo”, apontando para o fato de que, se o homem faz sua História, então ao se corrigir o rumo da História que Marx queria levar a cabo (não é Marx, é a classe oprimida), a história realizada é o capitalismo em si, um oximoro ou hipóstase, posto que a palavra carece de definição e chega a ser deliberadamente igualada a um “fim da História” pelos ideólogos (sim, eles ainda existem) do establishment.

Numa análise pessoal, antes de confrontar-me com a obra marxista na fonte, em 2006, eu era partidário dessa ideologia paralisante de que “eu fazia parte da vitória”, e de que não havia mais classes, nem portanto luta pelo poder (este limitando-se a espelhar os desenvolvimentos econômicos em margens estreitas que jamais desestabilizariam as conformações do Estado moderno).

Digamos que apenas se espera pelo inevitável, uma vez que se tem consciência de que não houve fim da história. Longe de uma visão de espírito fatalista (neo-hegeliana), trata-se da constatação, pelo homem que se enredou no pólo natureza-cultura, percebendo-se sua síntese e culminação crítica, de que ele, o homem, junto de seus produtos, é a natureza e a cultura em simultâneo. Como fenômeno pensante e pulsante – vida viva –, não pode se negar a vivê-la excedendo o limite “x”, isto é, não pode destemporizar a história e a corrosão de determinado arranjo decadente das forças produtivas. Esse limite “x” é o dia da derrocada do sistema capitalista em decorrência das próprias ultra-contradições e da soma das vontades individuais da grande maioria de manter o sistema intacto, que só poderá ser reconhecido retroativamente. Pode ser que o século XXI seja o “limite x” para o historiador do futuro, que analisa os agentes da História passada.

A tal ponto as contradições se acirram que o tal dilema da escolha pessoal, lutar ou conformar-se, perde inclusive o sentido ou deixa de figurar no paradigma de uma escolha racional burguesa. Não significa que o homem moderno rompa de repente e integralmente com seu passado, uma vez que coexistirá (e coexiste, pois há homens modernos hoje, embora não no comando do que quer que seja) com os pseudo-modernos, criaturas que atualmente parecem ditar a História e que no entanto não compreendem ou não podem evitar o problema futuro de ter compreendido hoje que não alcançaram a modernidade (não abortaram em definitivo a revolução social), mas que são entes mais fracos, pré-modernos, pré-históricos, no sentido da história dialética.

A diferença fundamental é que no leme da embarcação histórica encontraremos, na coexistência reformulada do fim do Capital, os modernos como classe ou casta dominante. Lembre-se que, coletivamente, ao olhar ao redor, jamais fomos modernos. Há uma certa metafísica ou sentimento coletivo, não-falseável, e não equivocado, de que a classe dirigente atual atingiu seus limites e encontra-se diante de um apocalipse ou exaustão global. As próprias mudanças climáticas e a crise energética iminente com o fim das reservas de combustíveis fósseis são arautos deste “apocalipse do sistema financeiro”.

Aplicação da fenomenologia de Heidegger e outros filósofos continentais ao marxismo do XIX

Se há algo de desesperador na vida, é a vida, aquela mesma que cria o sentimento do desespero (e já é um privilégio usufruí-lo!), que recai no auto-perceptível fatalismo. O Ocidente é um monstro que se devora a si mesmo e quanto mais come de seu tecido em sua dieta canibal mais julga o prato delicioso, sendo portanto apenas bom senso e não qualquer dom premonitório que permite aos revolucionários com método asseverar que ele, este mundo, nunca deixará de se comer até que suas funções vitais sejam desligadas – porque ele acredita piamente que está cada vez mais corpulento, quando seu aspecto ao observador alheio (o moderno, imerso no estômago do monstro e que pode ser ejetado na ocasião oportuna) é o do definhamento. O mundo, coabitado por homens, no entanto, seguirá existindo temporal e geograficamente. E não há meios de um monstro que só triturou tudo com seus dentes de repente aprender a fazer outra coisa, pois seguiu um instinto, o de refutar o materialismo histórico… Não existe um estado de equilíbrio na natureza, apenas uma ideologia de alguns homens que tem fé nesse equilíbrio.

De volta ao século XIX europeu

 

Marx demonstra como os maus resultados econômicos franceses dos anos de 1851 e 1852 não se relacionam com a esfera política (contenda parlamento burguês enfraquecido X Luís Napoleão), mas apenas com os próprios resultados cíclicos das indústrias e do terceiro setor, uma vez que a próspera Inglaterra também sente o baque (com uma economia cada vez mais global, mesmo nações politicamente estáveis podem de um mês para o outro enfrentar reveses em sua balança comercial, e o século XIX foi o primeiro em que esse fenômeno, prenunciador da integração das economias nacionais em escala ainda mais severa, pôde ser observado). Especialmente na Grã-Bretanha, a superpotência de então, foi o crescimento exacerbado que causou a mordaça nos lucros dos capitalistas (intensificação da competição): o capitalismo é vítima de seu próprio sucesso.

 

O império do segundo Napoleão (nominalmente o terceiro) é um fantasma das lendas camponesas, refeito. É o idílio da massa camponesa que não quer a revolução; quer uma impossível volta ao passado, quer um imperador justo que governe para si, sem ter de se sentir historicamente responsável. Uma reprise de Napoleão que devia ser, no entanto, mais comedida: a França já não podia praticar aventuras militares pela Europa de forma igualmente impune.

O livro famosamente inicia recordando a frase de Hegel de que cada personagem histórico existiria duas vezes, quer seja, o original e sua cópia, a farsa. Luís Napoleão, Napoleão III, é o protagonista de uma comédia involuntária, um maquiavelismo embotado que se sabia, no íntimo, uma mera paródia. A nação inteira, em todas as suas classes e subclasses, fornece também os títeres desta cópia, deste teatro de marionetes. O regime de Napoleão III não tinha condições de se sustentar.

CONTINUA…

TITUS ANDRONICUS (com notas explicativas) – Shakespeare

SCENE I. Rome. Before the Capitol.

The Tomb of the ANDRONICI appearing; the Tribunes and Senators aloft. Enter, below, from one side, SATURNINUS¹ and his Followers; and, from the other side, BASSIANUS² and his Followers; with drum and colours”

¹ Qualquer que seja a fonte, só houve dois Saturninos historicamente importantes na história romana: um usurpador que foi morto pelas próprias tropas antes de se consumar imperador e outro usurpador de circunstâncias semelhantes, porém biografia provavelmente inventada. Shakespeare, portanto, está bastante justificado em sua escolha para o “imperador romano” da peça!

² Senador romano do século IV. Morto sob a acusação de conspirador. Ver https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_C%C3%ADbalas.

SATURNINUS

Noble patricians, patrons of my right,

Defend the justice of my cause with arms,

And, countrymen, my loving followers,

Plead my successive title with your swords:

I am his first-born son, that was the last

That wore the imperial diadem of Rome;

Then let my father’s honours live in me,

Nor wrong mine age with this indignity.

BASSIANUS

Romans, friends, followers, favorers of my right,

If ever Bassianus, Caesar’s son,¹

Were gracious in the eyes of royal Rome,

Keep then this passage to the Capitol

And suffer not dishonour to approach

The imperial seat, to virtue consecrate,

To justice, continence and nobility;

But let desert in pure election shine,

And, Romans, fight for freedom in your choice.

[¹ O título de César (imperator), não o nome próprio.]

Enter MARCUS ANDRONICUS,¹ aloft, with the crown

[¹ Apesar do patronímico existir, todos os personagens da peça são fabulosos. Existiu apenas um Lucius, mas ele era poeta e dramaturgo, uma ‘jovem projeção ou auto-referência de Shakespeare’, se assim se quiser.]

MARCUS ANDRONICUS

Princes, that strive by factions and by friends

Ambitiously for rule and empery,

Know that the people of Rome, for whom we stand

A special party, have, by common voice,

In election for the Roman empery,

Chosen Andronicus, surnamed Pius

For many good and great deserts to Rome:

A nobler man, a braver warrior,

Lives not this day within the city walls:

He by the senate is accit’d home

From weary wars against the barbarous Goths;

That, with his sons, a terror to our foes,

Hath yoked a nation strong, train’d up in arms.

Ten years are spent since first he undertook

This cause of Rome and chastised with arms

Our enemies’ pride: five times he hath return’d

Bleeding to Rome, bearing his valiant sons

In coffins from the field;

And now at last, laden with horror’s spoils,

Returns the good Andronicus to Rome,

Renowned Titus, flourishing in arms.

Let us entreat, by honour of his name,

Whom worthily you would have now succeed.

And in the Capitol and senate’s right,

Whom you pretend to honour and adore,

That you withdraw you and abate your strength;

Dismiss your followers and, as suitors should,

Plead your deserts in peace and humbleness.

SATURNINUS

How fair the tribune speaks to calm my thoughts!

BASSIANUS

Marcus Andronicus, so I do ally

In thy uprightness and integrity,

And so I love and honour thee and thine,

Thy noble brother Titus and his sons,

And her to whom my thoughts are humbled all,

Gracious Lavinia, Rome’s rich ornament,

That I will here dismiss my loving friends,

And to my fortunes and the people’s favor

Commit my cause in balance to be weigh’d.

Exeunt the followers of BASSIANUS”

SATURNINUS

[monologando]

Rome, be as just and gracious unto me

As I am confident and kind to thee.

Open the gates, and let me in.”

Drums and trumpets sounded. Enter MARTIUS and MUTIUS; After them, two men bearing a coffin covered with black; then LUCIUS and QUINTUS. After them, TITUS ANDRONICUS; and then TAMORA, with ALARBUS, DEMETRIUS, CHIRON, AARON, and other Goths, prisoners; Soldiers and people following. The Bearers set down the coffin, and TITUS speaks”

TITUS ANDRONICUS

Romans, of five-and-twenty valiant sons,

Half of the number that King Priam had,¹

Behold the poor remains, alive and dead!

These that survive let Rome reward with love;

These that I bring unto their latest home,

With burial amongst their ancestors:

Here Goths have given me leave to sheathe my sword.

Titus, unkind and careless of thine own,

Why suffer’st thou thy sons, unburied yet,

To hover on the dreadful shore of Styx?

Make way to lay them by their brethren.

[tomb]

O sacred receptacle of my joys,

Sweet cell of virtue and nobility,

How many sons of mine hast thou in store,

That thou wilt never render to me more!

LUCIUS

Give us the proudest prisoner of the Goths,

That we may hew his limbs, and on a pile

Ad manes fratrum sacrifice his flesh,

Before this earthy prison of their bones;

That so the shadows be not unappeased,

Nor we disturb’d with prodigies on earth.

TITUS ANDRONICUS

I give him you, the noblest that survives,

The eldest son of this distressed queen.

TAMORA

Stay, Roman brethren! Gracious conqueror,

Victorious Titus, rue the tears I shed,

A mother’s tears in passion for her son:

And if thy sons were ever dear to thee,

O, think my son to be as dear to me!

Sufficeth not that we are brought to Rome,

To beautify thy triumphs and return,

Captive to thee and to thy Roman yoke,

But must my sons be slaughter’d in the streets,

For valiant doings in their country’s cause?

O, if to fight for king and commonweal

Were piety in thine, it is in these.

Andronicus, stain not thy tomb with blood:

Wilt thou draw near the nature of the gods?

Draw near them then in being merciful:

Sweet mercy is nobility’s true badge:

Thrice noble Titus, spare my first-born son.

TITUS ANDRONICUS

Patient yourself, madam, and pardon me.

These are their brethren, whom you Goths beheld

Alive and dead, and for their brethren slain

Religiously they ask a sacrifice:

To this your son is mark’d, and die he must,

To appease their groaning shadows that are gone.

[Mercy’s for the weak and meeke.]

LUCIUS

Away with him! and make a fire straight;

And with our swords, upon a pile of wood,

Let’s hew his limbs till they be clean consumed.”

¹ Seria um ancestral de Roma, no sentido em que o rei Príamo é pai de figuras mitológicas como Heitor, Páris e Cassandra, que participaram da Guerra de Tróia. Mais abaixo veremos sobre Hécuba, sua outrossim mitológica esposa.

TAMORA

O cruel, irreligious piety!

CHIRON

Was ever Scythia half so barbarous?

DEMETRIUS

Oppose not Scythia to ambitious Rome.

Alarbus goes to rest; and we survive

To tremble under Titus’ threatening looks.

Then, madam, stand resolved, but hope withal

The self-same gods that arm’d the Queen of Troy

With opportunity of sharp revenge

Upon the Thracian tyrant in his tent,

May favor Tamora, the Queen of Goths–¹

When Goths were Goths and Tamora was queen–

To quit the bloody wrongs upon her foes.”

¹ Os góticos ou godos são em si mesmos de mau agouro para o Império Romano, participando ativamente de sua dissolução histórica.

LUCIUS

See, lord and father, how we have perform’d

Our Roman rites: Alarbus’ limbs are lopp’d,

And entrails feed the sacrificing fire,

Whose smoke, like incense, doth perfume the sky.

Remaineth nought, but to inter our brethren,

And with loud ‘larums welcome them to Rome.

TITUS ANDRONICUS

Let it be so; and let Andronicus

Make this his latest farewell to their souls.

Trumpets sounded, and the coffin laid in the tomb”

Here lurks no treason, here no envy swells,

Here grow no damned grudges; here are no storms,

No noise, but silence and eternal sleep:

In peace and honour rest you here, my sons!

Enter LAVINIA¹

LAVINIA

In peace and honour live Lord Titus long;

My noble lord and father, live in fame!

Lo, at this tomb my tributary tears

I render, for my brethren’s obsequies;

And at thy feet I kneel, with tears of joy,

Shed on the earth, for thy return to Rome:

O, bless me here with thy victorious hand,

Whose fortunes Rome’s best citizens applaud!”

TITUS ANDRONICUS

Kind Rome, that hast thus lovingly reserved

The cordial of mine age to glad my heart!

Lavinia, live; outlive thy father’s days,

And fame’s eternal date, for virtue’s praise!”

¹ Lavínia é inspirada numa figura mitológica romana. Segue a wikia: “Lavínia estava prometida como esposa a Turno, rei dos rútulos. Mas, com a chegada de Enéias ao Lácio, Latino deu sua mão ao herói troiano, pois o oráculo de seu pai Fauno dizia que ela devia casar com um estrangeiro. O rompimento da promessa conjugal desencadeou a guerra entre troianos-latinos e os rútulos de Turno. A guerra terminou com a derrota de Turno.”

MARCUS ANDRONICUS

Long live Lord Titus, my beloved brother,

Gracious triumpher in the eyes of Rome!

TITUS ANDRONICUS

Thanks, gentle tribune, noble brother Marcus.”

Shakespeare tinha uma peculiar predileção por retratar os campeões do povo em vez dos imperadores (pelo menos o fazia em mais ocasiões) quando se tratava de Roma. Note-se o quanto os trechos grifados em vermelho acima entrarão em contradição com o sucedido na peça!

Titus Andronicus, the people of Rome,

Whose friend in justice thou hast ever been,

Send thee by me, their tribune and their trust,

This palliament of white and spotless hue;

And name thee in election for the empire,

With these our late-deceased emperor’s sons:

Be candidatus then, and put it on,

And help to set a head on headless Rome.”

A better head her glorious body fits

Than his that shakes for age and feebleness:

What should I don this robe, and trouble you?

Be chosen with proclamations to-day,

To-morrow yield up rule, resign my life,

And set abroad new business for you all?

Rome, I have been thy soldier 40 years,

And led my country’s strength successfully,

And buried one-and-twenty valiant sons,¹

Knighted in field, slain manfully in arms,

In right and service of their noble country

Give me a staff of honour for mine age,

But not a sceptre to control the world:

Upright he held it, lords, that held it last.”

¹ O que significa que só lhe restaram 4: Mutius, Lucius, Lavinia e Quintus. Ao fim da peça, um só!

SATURNINUS

[a Marcus]

Proud and ambitious tribune, canst thou tell?”

SATURNINUS

Romans, do me right:

Patricians, draw your swords: and sheathe them not

Till Saturninus be Rome’s emperor.

Andronicus, would thou wert shipp’d to hell,

Rather than rob me of the people’s hearts!”

TITUS ANDRONICUS

Content thee, prince; I will restore to thee

The people’s hearts, and wean them from themselves.¹

[¹ O carisma é intransferível, pelo menos quando aquele que em tese o recebe com o beneplácito do carismático original o odeia, pois a população percebe essas nuances e não perdoa a ingratidão do “mau afilhado”, ainda que leve anos para se rebelar.]

BASSIANUS

[Se eu devesse adivinhar, é o pusilânime da peça]¹

Andronicus, I do not flatter thee,

But honour thee, and will do till I die:

My faction if thou strengthen with thy friends,

I will most thankful be; and thanks to men

Of noble minds is honourable meed.”

¹ Errei e errei feio – vide além!

TITUS ANDRONICUS

Tribunes, I thank you: and this suit I make,

That you create your emperor’s eldest son,

Lord Saturnine; whose virtues will, I hope,

Reflect on Rome as Titan’s rays on earth,¹

And ripen justice in this commonweal:

Then, if you will elect by my advice,

Crown him and say ‘Long live our emperor!’

¹ Talvez um prenúncio de sua queda, como a dos Titãs na Titanomaquia.

MARCUS ANDRONICUS

With voices and applause of every sort,

Patricians and plebeians, we create

Lord Saturninus Rome’s great emperor,

And say ‘Long live our Emperor Saturnine!’

A long flourish till they come down”

And, for an onset, Titus, to advance

Thy name and honourable family,

Lavinia will I make my empress,

Rome’s royal mistress, mistress of my heart,

And in the sacred Pantheon her espouse:

Tell me, Andronicus, doth this motion please thee?”

And here in sight of Rome to Saturnine,

King and commander of our commonweal,

The wide world’s emperor, do I consecrate

My sword, my chariot and my prisoners;

Presents well worthy Rome’s imperial lord:

Receive them then, the tribute that I owe,

Mine honour’s ensigns humbled at thy feet.”

SATURNINUS

The least of these unspeakable deserts,

Romans, forget your fealty to me.”

TITUS ANDRONICUS

[To TAMORA]

Now, madam, are you prisoner to

an emperor;

To him that, for your honour and your state,

Will use you nobly and your followers.

SATURNINUS

A goodly lady, trust me; of the hue

That I would choose, were I to choose anew.

Clear up, fair queen, that cloudy countenance:

Though chance of war hath wrought this change of cheer,

Thou comest not to be made a scorn in Rome:

Princely shall be thy usage every way.

Rest on my word, and let not discontent

Daunt all your hopes: madam, he comforts you

Can make you greater than the Queen of Goths.

Lavinia, you are not displeased with this?¹

LAVINIA

Not I, my lord; sith [since] true nobility

Warrants these words in princely courtesy.

SATURNINUS

Thanks, sweet Lavinia. Romans, let us go;

Ransomless here we set our prisoners free:

Proclaim our honours, lords, with trump and drum.

Flourish. SATURNINUS courts TAMORA in dumb show

BASSIANUS

Lord Titus, by your leave, this maid is mine.

Seizing LAVINIA

TITUS ANDRONICUS

How, sir! are you in earnest then, my lord?

BASSIANUS

Ay, noble Titus; and resolved withal

To do myself this reason and this right.

MARCUS ANDRONICUS

Suum cuique’ is our Roman justice:

This prince in justice seizeth but his own.

LUCIUS

And that he will, and shall, if Lucius live.

TITUS ANDRONICUS

Traitors, avaunt! Where is the emperor’s guard?

Treason, my lord! Lavinia is surprised!

SATURNINUS

Surprised! by whom?

BASSIANUS

By him that justly may

Bear his betroth’d from all the world away.

Exeunt BASSIANUS and MARCUS with LAVINIA”

¹ Possível insinuação de poligamia?

TITUS ANDRONICUS

Follow, my lord, and I’ll soon bring her back.

MUTIUS

My lord, you pass not here.

TITUS ANDRONICUS

What, villain boy!

Barr’st me my way in Rome?

Stabbing MUTIUS”

LUCIUS

My lord, you are unjust, and, more than so,

In wrongful quarrel you have slain your son.

TITUS ANDRONICUS

Nor thou, nor he, are any sons of mine;

My sons would never so dishonour me:

Traitor, restore Lavinia to the emperor.

LUCIUS

Dead, if you will; but not to be his wife,

That is another’s lawful promised love.

Exit”

I’ll trust, by leisure, him that mocks me once;

Thee never, nor thy traitorous haughty sons,

Confederates all thus to dishonour me.

Was there none else in Rome to make a stale,

But Saturnine? Full well, Andronicus,

Agree these deeds with that proud brag of thine,

That said’st I begg’d the empire at thy hands.

TITUS ANDRONICUS

O monstrous! what reproachful words are these?”

A valiant son-in-law thou shalt enjoy;

One fit to bandy with thy lawless sons,

To ruffle in the commonwealth of Rome.”

TITUS ANDRONICUS

These words are razors to my wounded heart.

SATURNINUS

And therefore, lovely Tamora, queen of Goths,

That like the stately Phoebe ‘mongst her nymphs¹

Dost overshine the gallant’st dames of Rome,

If thou be pleased with this my sudden choice,

Behold, I choose thee, Tamora, for my bride,

And will create thee empress of Rome,

Speak, Queen of Goths, dost thou applaud my choice?

And here I swear by all the Roman gods,

Sith priest and holy water are so near

And tapers burn so bright and every thing

In readiness for Hymenaeus² stand,

I will not re-salute the streets of Rome,

Or climb my palace, till from forth this place

I lead espoused my bride along with me.

TAMORA

And here, in sight of heaven, to Rome I swear,

If Saturnine advance the Queen of Goths,

She will a handmaid be to his desires,

A loving nurse, a mother to his youth.”

¹ O mesmo que Artemis, deusa da lua.

² Deus grego do casamento (“a hymenaios is a genre of Greek lyric poetry that was sung during the procession of the bride to the groom’s house in which the god is addressed, in contrast to the Epithalamium, which is sung at the nuptial threshold. He is one of the winged love gods, the Erotes.”); daí, himeneu em português.

MARCUS ANDRONICUS

O Titus, see, O, see what thou hast done!

In a bad quarrel slain a virtuous son.

TITUS ANDRONICUS

No, foolish tribune, no; no son of mine,

Nor thou, nor these, confederates in the deed

That hath dishonour’d all our family;

Unworthy brother, and unworthy sons!

TITUS ANDRONICUS

And shall!’ what villain was it that spake

that word?

QUINTUS

He that would vouch it in any place but here.

TITUS ANDRONICUS

What, would you bury him in my despite?

MARCUS ANDRONICUS

No, noble Titus, but entreat of thee

To pardon Mutius and to bury him.

TITUS ANDRONICUS

Marcus, even thou hast struck upon my crest,

And, with these boys, mine honour thou hast wounded:

My foes I do repute you every one;

So, trouble me no more, but get you gone.

MARTIUS

He is not with himself; let us withdraw.”

MARCUS and the Sons of TITUS kneel

MARCUS ANDRONICUS

Brother, for in that name doth nature plead,–

QUINTUS

Father, and in that name doth nature speak,–

TITUS ANDRONICUS

Speak thou no more, if all the rest will speed.

MARCUS ANDRONICUS

Renowned Titus, more than half my soul,–

LUCIUS

Dear father, soul and substance of us all,–

MARCUS ANDRONICUS

Suffer thy brother Marcus to inter

His noble nephew here in virtue’s nest,

That died in honour and Lavinia’s cause.

Thou art a Roman; be not barbarous:

The Greeks upon advice did bury Ajax

That slew himself; and wise Laertes’ son¹

Did graciously plead for his funerals:

Let not young Mutius, then, that was thy joy

Be barr’d his entrance here.”

¹ Aquiles

The dismall’st day is this that e’er I saw,

To be dishonour’d by my sons in Rome!

Well, bury him, and bury me the next.

MUTIUS is put into the tomb”

SATURNINUS

So, Bassianus, you have play’d your prize:

God give you joy, sir, of your gallant bride!

BASSIANUS

And you of yours, my lord! I say no more,

Nor wish no less; and so, I take my leave.”

BASSIANUS

Rape, call you it, my lord, to seize my own,

My truth-betrothed love and now my wife?

But let the laws of Rome determine all;

Meanwhile I am possess’d of that is mine.

SATURNINUS

Tis good, sir: you are very short with us;

But, if we live, we’ll be as sharp with you.

BASSIANUS

My lord, what I have done, as best I may,

Answer I must and shall do with my life.

Only thus much I give your grace to know:

By all the duties that I owe to Rome,

This noble gentleman, Lord Titus here,

Is in opinion and in honour wrong’d;

That in the rescue of Lavinia

With his own hand did slay his youngest son,

In zeal to you and highly moved to wrath

To be controll’d in that he frankly gave:

Receive him, then, to favor, Saturnine,

That hath express’d himself in all his deeds

A father and a friend to thee and Rome.”

TAMORA

My worthy lord, if ever Tamora

Were gracious in those princely eyes of thine,

Then hear me speak in indifferently for all;

And at my suit, sweet, pardon what is past.

SATURNINUS

What, madam! be dishonour’d openly,

And basely put it up without revenge?

TAMORA

(…)

Lose not so noble a friend on vain suppose,

Nor with sour looks afflict his gentle heart.

Aside to SATURNINUS

be won at last;

Dissemble all your griefs and discontents:

You are but newly planted in your throne;

Lest, then, the people, and patricians too,

Upon a just survey, take Titus’ part,

And so supplant you for ingratitude,

Which Rome reputes to be a heinous sin,

Yield at entreats; and then let me alone:

I’ll find a day to massacre them all

And raze their faction and their family,

The cruel father and his traitorous sons,

To whom I sued for my dear son’s life,

And make them know what ‘tis to let a queen

Kneel in the streets and beg for grace in vain.

Aloud

Come, come, sweet emperor; come, Andronicus;

Take up this good old man, and cheer the heart

That dies in tempest of thy angry frown.

SATURNINUS

Rise, Titus, rise; my empress hath prevail’d.”

This day all quarrels die, Andronicus;

And let it be mine honour, good my lord,

That I have reconciled your friends and you.

For you, Prince Bassianus, I have pass’d

My word and promise to the emperor,

That you will be more mild and tractable.

And fear not lords, and you, Lavinia;

By my advice, all humbled on your knees,

You shall ask pardon of his majesty.”

ACT 2

SCENE I. Rome. Before the Palace.

AARON

Now climbeth Tamora Olympus’ top,

Safe out of fortune’s shot; and sits aloft,

Secure of thunder’s crack or lightning flash;

Advanced above pale envy’s threatening reach.

As when the golden sun salutes the morn,

And, having gilt the ocean with his beams,

Gallops the zodiac in his glistering coach,

And overlooks the highest-peering hills;

So Tamora:

(…)

Then, Aaron, arm thy heart, and fit thy thoughts,

To mount aloft with thy imperial mistress,

And mount her pitch, whom thou in triumph long

Hast prisoner held, fetter’d in amorous chains

And faster bound to Aaron’s charming eyes

Than is Prometheus tied to Caucasus.

Away with slavish weeds and servile thoughts!

I will be bright, and shine in pearl and gold,¹

To wait upon this new-made empress.

To wait, said I? to wanton with this queen,

This goddess, this Semiramis,² this nymph,

This siren, that will charm Rome’s Saturnine,

And see his shipwreck and his commonweal’s.

Holloa! what storm is this?”

¹ Trocadilho súbito e hoje controverso de Shakespeare: o mouro, negro, mesclando-se com a goda (branca).

² A lendária fundadora da Babilônia. Há registros de uma rainha assíria de mesmo nome que pode ter iniciado o culto da deusa, quase mil anos antes de Cristo. Sua história é muito parecida com a de Artemísia, rainha muito discutido no post recente https://seclusao.org/2023/12/21/depois-de-desligar-o-videogame-o-supercompendio-de-final-fantasy-viii/.

CHIRON

(…)

Tis not the difference of a year or two

Makes me less gracious or thee more fortunate:

I am as able and as fit as thou

To serve, and to deserve my mistress’ grace;

And that my sword upon thee shall approve,

And plead my passions for Lavinia’s love.

AARON

[Aside]

Clubs, clubs! these lovers will not keep

the peace.”

AARON

[Coming forward]

Why, how now, lords!

So near the emperor’s palace dare you draw,

And maintain such a quarrel openly?

Full well I wot the ground of all this grudge:

I would not for a million of gold

The cause were known to them it most concerns;

Nor would your noble mother for much more

Be so dishonour’d in the court of Rome.

For shame, put up.”

AARON

Away, I say!

Now, by the gods that warlike Goths adore,

This petty brabble will undo us all.

Why, lords, and think you not how dangerous

It is to jet upon a prince’s right?

What, is Lavinia then become so loose,

Or Bassianus so degenerate,

That for her love such quarrels may be broach’d

Without controlment, justice, or revenge?

Young lords, beware! and should the empress know

This discord’s ground, the music would not please.”

AARON

Why, are ye mad? or know ye not, in Rome

How furious and impatient they be,

And cannot brook competitors in love?

I tell you, lords, you do but plot your deaths

By this device.”

DEMETRIUS

Why makest thou it so strange?

She is a woman, therefore may be woo’d;

She is a woman, therefore may be won;

She is Lavinia, therefore must be loved.

What, man! more water glideth by the mill

Than wots the miller of; and easy it is

Of a cut loaf to steal a shive, we know:

Though Bassianus be the emperor’s brother.

Better than he have worn Vulcan’s badge.”¹

¹ O mesmo que dizer: Ele pode ser o irmão do imperador, mas isso não o faz temível como um deus-guerreiro.

AARON

For shame, be friends, and join for that you jar:

Tis policy and stratagem must do

That you affect; and so must you resolve,

That what you cannot as you would achieve,

You must perforce accomplish as you may.

Take this of me: Lucrece¹ was not more chaste

Than this Lavinia, Bassianus’ love.

A speedier course than lingering languishment

Must we pursue, and I have found the path.

My lords, a solemn hunting is in hand;

There will the lovely Roman ladies troop:

The forest walks are wide and spacious;

And many unfrequented plots there are

Fitted by kind for rape and villany:

Single you thither then this dainty doe,

And strike her home by force, if not by words:

This way, or not at all, stand you in hope.

Come, come, our empress, with her sacred wit

To villany and vengeance consecrate,

Will we acquaint with all that we intend;

And she shall file our engines with advice,

That will not suffer you to square yourselves,

But to your wishes’ height advance you both.

The emperor’s court is like the house of Fame,

The palace full of tongues, of eyes, and ears:

The woods are ruthless, dreadful, deaf, and dull;

There speak, and strike, brave boys, and take

your turns;

There serve your lusts, shadow’d from heaven’s eye,

And revel in Lavinia’s treasury.”

¹ Grande foreshadowing da peça: “Lucrece, was a noblewoman in ancient Rome, whose rape by Sextus Tarquinius (Tarquin) and subsequent suicide precipitated a rebellion that overthrew the Roman monarchy and led to the transition of Roman government from a kingdom to a republic.

ACT 2

SCENE II. A forest near Rome. Horns and cry of hounds heard.

DEMETRIUS

Chiron, we hunt not, we, with horse nor hound,

But hope to pluck a dainty doe to ground.”

ACT 3

SCENE III. A lonely part of the forest.

TAMORA

My lovely Aaron, wherefore look’st thou sad,

When every thing doth make a gleeful boast?

The birds chant melody on every bush,

The snake lies rolled in the cheerful sun,

The green leaves quiver with the cooling wind

And make a chequer’d shadow on the ground:

Under their sweet shade, Aaron, let us sit,

And, whilst the babbling echo mocks the hounds,

Replying shrilly to the well-tuned horns,

As if a double hunt were heard at once,

Let us sit down and mark their yelping noise;

And, after conflict such as was supposed

The wandering prince and Dido once enjoy’d,

When with a happy storm they were surprised

And curtain’d with a counsel-keeping cave,¹

We may, each wreathed in the other’s arms,

Our pastimes done, possess a golden slumber;

Whiles hounds and horns and sweet melodious birds

Be unto us as is a nurse’s song

Of lullaby to bring her babe asleep.²

[¹ Quando Enéias e Dido fizeram amor às ocultas, algo que estava destinado pelos deuses (ou pelas deusas): “Aphrodite and Hera come together to create a storm, forcing Dido and Aeneas into a cave together. There, they declare their feelings for each other and consummate their love.”

² Quase um quadro digno de princesas da Disney!]

AARON

Madam, though Venus govern your desires,

Saturn is dominator over mine:

What signifies my deadly-standing eye,

My silence and my cloudy melancholy,

My fleece of woolly hair that now uncurls

Even as an adder when she doth unroll

To do some fatal execution?

No, madam, these are no venereal signs:

Vengeance is in my heart, death in my hand,

Blood and revenge are hammering in my head.¹

Hark Tamora, the empress of my soul,

Which never hopes more heaven than rests in thee,

This is the day of doom for Bassianus:

His Philomel² must lose her tongue to-day,

Thy sons make pillage of her chastity

And wash their hands in Bassianus’ blood.

Seest thou this letter? take it up, I pray thee,

And give the king this fatal plotted scroll.

Now question me no more; we are espied;

Here comes a parcel of our hopeful booty,

Which dreads not yet their lives’ destruction.”

¹ A cruel Tamora é uma vilã care-free; Aaron, igualmente – senão mais – mau, no entanto, está concentrado demais em seus próximos planos criminosos para pensar no prazer erótico no momento.

² Semi-deusa, irmã de Procne, a ser citada na peça como Progne. Filomela é estuprada por Tereu(s), marido de Procne, que se vinga deste (junto com sua irmã) da mesma maneira que se vingará Titus de Tamora (que também contará com o auxílio de Lavínia) no fim da peça. No mito, após o estupro Filomela é resgatada pelo Olimpo sendo transformada num rouxinol (podendo assim continuar vivendo, com a honra restaurada). Filomela ou Philo-mela significaria amante da melodia (devido à beleza do canto da ave). Novamente Shakespeare se inspira mais na versão ovidiana, o que é natural, devido ao contexto romano da peça. Sófocles tem uma tragédia chamada Tereus, perdida. O estupro de Filomela por Tereu também se deu num bosque. Então, deixando-a viva e para não ser descoberto em seu ato vil, o estuprador fará o que logo farão os dois irmãos godos… Mesmo assim, Shakespeare ainda foi além em gore e crueldade! Outro ponto em comum entre personagens: tanto Procne quanto Titus não hesitam em matar seus próprios filhos quando necessário em seus projetos de vingança! A Medéia de Eurípides também narra uma saga semelhante…

Enter BASSIANUS and LAVINIA

BASSIANUS

Who have we here? Rome’s royal empress,

Unfurnish’d of her well-beseeming troop?

Or is it Dian, habited like her,

Who hath abandoned her holy groves

To see the general hunting in this forest?¹

TAMORA

Saucy controller of our private steps!

Had I the power that some say Dian had,

Thy temples should be planted presently

With horns, as was Actaeon’s; and the hounds

Should drive upon thy new-transformed limbs,

Unmannerly intruder as thou art!

LAVINIA

Under your patience, gentle empress,

Tis thought you have a goodly gift in horning;

And to be doubted that your Moor and you

Are singled forth to try experiments:

Jove shield your husband from his hounds to-day!

Tis pity they should take him for a stag

BASSIANUS

Believe me, queen, your swarth Cimmerian

Doth make your honour of his body’s hue,³

Spotted, detested, and abominable.

Why are you sequester’d from all your train,

Dismounted from your snow-white goodly steed.

And wander’d hither to an obscure plot,

Accompanied but with a barbarous Moor,

If foul desire had not conducted you?

LAVINIA

And, being intercepted in your sport,

Great reason that my noble lord be rated

For sauciness. I pray you, let us hence,

And let her joy her raven-colour’d love;

This valley fits the purpose passing well.4

BASSIANUS

The king my brother shall have note of this.

LAVINIA

Ay, for these slips have made him noted long:

Good king, to be so mightily abused!

TAMORA

Why have I patience to endure all this?

Enter DEMETRIUS and CHIRON

DEMETRIUS

How now, dear sovereign, and our gracious mother!

Why doth your highness look so pale and wan?

TAMORA

Have I not reason, think you, to look pale?

These two have ‘ticed me hither to this place:

A barren detested vale, you see it is;

The trees, though summer, yet forlorn and lean,

O’ercome with moss and baleful mistletoe:

Here never shines the sun; here nothing breeds,

Unless the nightly owl or fatal raven:

And when they show’d me this abhorred pit,

They told me, here, at dead time of the night,

A thousand fiends, a thousand hissing snakes,

Ten thousand swelling toads, as many urchins,

Would make such fearful and confused cries

As any mortal body hearing it

Should straight fall mad, or else die suddenly.

No sooner had they told this hellish tale,

But straight they told me they would bind me here

Unto the body of a dismal yew,

And leave me to this miserable death:

And then they call’d me foul adulteress,

Lascivious Goth, and all the bitterest terms

That ever ear did hear to such effect:

And, had you not by wondrous fortune come,

This vengeance on me had they executed.

Revenge it, as you love your mother’s life,

Or be ye not henceforth call’d my children.

DEMETRIUS

This is a witness that I am thy son.

Stabs BASSIANUS

CHIRON

And this for me, struck home to show my strength.

Also stabs BASSIANUS, who dies

LAVINIA

Ay, come, Semiramis, nay, barbarous Tamora,

For no name fits thy nature but thy own!

TAMORA

Give me thy poniard; you shall know, my boys

Your mother’s hand shall right your mother’s wrong.

DEMETRIUS

Stay, madam; here is more belongs to her;

First thrash the corn, then after burn the straw:

This minion stood upon her chastity,

Upon her nuptial vow, her loyalty,

And with that painted hope braves your mightiness:

And shall she carry this unto her grave?

CHIRON

An if she do, I would I were an eunuch.

Drag hence her husband to some secret hole,

And make his dead trunk pillow to our lust.

TAMORA

But when ye have the honey ye desire,

Let not this wasp outlive, us both to sting.

CHIRON

I warrant you, madam, we will make that sure.

Come, mistress, now perforce we will enjoy

That nice-preserved honesty of yours.

LAVINIA

O Tamora! thou bear’st a woman’s face,–

TAMORA

I will not hear her speak; away with her!”

¹ A deusa Diana não gostava da cidade – vivia nas florestas, caçando.

² Lavínia sabe que Arão e Tamora são amantes (que o imperador tem “galhos” ou “chifres” na testa).

³ Bárbaros. Novamente se alude à cor escura de Arão de modo depreciativo, associando a cor preta a coisas ruins, vis, sujas.

4 Foreshadowing do buraco escuro em que logo serão depositados dois dos Andronicus – e o próprio Bassiano, já cadavérico.

LAVINIA

When did the tiger’s young ones teach the dam?

O, do not learn her wrath; she taught it thee;

The milk thou suck’dst from her did turn to marble;

Even at thy teat thou hadst thy tyranny.

Yet every mother breeds not sons alike:

To CHIRON

Do thou entreat her show a woman pity.

CHIRON

What, wouldst thou have me prove myself a bastard?

LAVINIA

Tis true; the raven doth not hatch a lark:

Yet have I heard,–O, could I find it now!–

The lion moved with pity did endure

To have his princely paws pared all away:

Some say that ravens foster forlorn children,

The whilst their own birds famish in their nests:

O, be to me, though thy hard heart say no,

Nothing so kind, but something pitiful!”

LAVINIA

O, let me teach thee! for my father’s sake,

That gave thee life, when well he might have

slain thee,

Be not obdurate, open thy deaf ears.

TAMORA

Hadst thou in person ne’er offended me,

Even for his sake am I pitiless.

Remember, boys, I pour’d forth tears in vain,

To save your brother from the sacrifice;

But fierce Andronicus would not relent;

Therefore, away with her, and use her as you will,

The worse to her, the better loved of me.

LAVINIA

O Tamora, be call’d a gentle queen,

And with thine own hands kill me in this place!

For ‘tis not life that I have begg’d so long;

Poor I was slain when Bassianus died.

TAMORA

What begg’st thou, then? fond woman, let me go.

LAVINIA

Tis present death I beg; and one thing more

That womanhood denies my tongue to tell:¹

O, keep me from their worse than killing lust,

And tumble me into some loathsome pit,

Where never man’s eye may behold my body:²

Do this, and be a charitable murderer.

TAMORA

So should I rob my sweet sons of their fee:

No, let them satisfy their lust on thee.”

¹ Como sempre nessas obras trágicas, os personagens acidentalmente narram seu terrível futuro: “Imploro aquilo que minha língua, como mulher, não pode pronunciar.” Não pode porque seria indecente. Em breve, porém, não poderá, literalmente, mesmo que quisesse e a moral o permitisse.

² Isso também faz parte da previsão: em vez de ser abandonada no escuro, Lavínia será flagrada em seu estado mais lamentável, pelo tio Marcus.

LAVINIA

No grace? no womanhood? Ah, beastly creature!

The blot and enemy to our general name!

Confusion fall–

CHIRON

Nay, then I’ll stop your mouth. Bring thou her husband:

This is the hole where Aaron bid us hide him.

DEMETRIUS throws the body of BASSIANUS into the pit; then exeunt DEMETRIUS and CHIRON, dragging off LAVINIA.

TAMORA

Farewell, my sons: see that you make her sure.

Ne’er let my heart know merry cheer indeed,

Till all the Andronici be made away.

Now will I hence to seek my lovely Moor,¹

And let my spleenful sons this trull deflow’r.

Exit”

¹ Choca a ingenuidade dos irmãos em ato futuro da peça quando “descobrem” o produto de dois amantes, como se não fosse conseqüência natural, ao se indignarem com Aaron (ATO 4).

AARON

Come on, my lords, the better foot before:

Straight will I bring you to the loathsome pit

Where I espied the panther fast asleep.

QUINTUS

My sight is very dull, whate’er it bodes.

MARTIUS

And mine, I promise you; were’t not for shame,

Well could I leave our sport to sleep awhile.

Falls into the pit

QUINTUS

What, art thou fall’n? What subtle hole is this,

Whose mouth is cover’d with rude-growing briers,

Upon whose leaves are drops of new-shed blood

As fresh as morning dew distill’d on flowers?

A very fatal place it seems to me.

Speak, brother, hast thou hurt thee with the fall?

MARTIUS

O brother, with the dismall’st object hurt

That ever eye with sight made heart lament!

AARON

[Aside] Now will I fetch the king to find them here,

That he thereby may give a likely guess

How these were they that made away his brother.

Exit”

QUINTUS

Aaron is gone; and my compassionate heart

Will not permit mine eyes once to behold

The thing whereat it trembles by surmise;

O, tell me how it is; for ne’er till now

Was I a child to fear I know not what.

MARTIUS

Lord Bassianus lies embrewed here,

All on a heap, like to a slaughter’d lamb,

In this detested, dark, blood-drinking pit.

QUINTUS

If it be dark, how dost thou know ‘tis he?

MARTIUS

Upon his bloody finger he doth wear

A precious ring, that lightens all the hole,

Which, like a taper in some monument,

Doth shine upon the dead man’s earthy cheeks,

And shows the ragged entrails of the pit:

So pale did shine the moon on Pyramus

When he by night lay bathed in maiden blood.”¹

¹ Píramo e Tisbe: mais um casal trágico de Metamorfoses de Ovídio. Essa história provavelmente inspiraria Romeu & Julieta: dois amantes de duas famílias rivais que cometem cada qual suicídio devido a um mal-entendido (o primeiro achar que o segundo está morto, então se matar de verdade; o segundo acordar e ver o cadáver do primeiro, se matando finalmente). A luz da lua iluminando Píramo, coisa que não existe em Ovídio, pode ser uma referência ao apodo dado por Arão a Tamora: Artemis, deusa da lua, responsável por armar tamanho horror.

QUINTUS

Reach me thy hand, that I may help thee out;

Or, wanting strength to do thee so much good,

I may be pluck’d into the swallowing womb

Of this deep pit, poor Bassianus’ grave.

I have no strength to pluck thee to the brink.

MARTIUS

Nor I no strength to climb without thy help.

QUINTUS

Thy hand once more; I will not loose again,

Till thou art here aloft, or I below:

Thou canst not come to me: I come to thee.

Falls in

Enter SATURNINUS with AARON

SATURNINUS

Along with me: I’ll see what hole is here,

And what he is that now is leap’d into it.

Say who art thou that lately didst descend

Into this gaping hollow of the earth?

MARTIUS

The unhappy son of old Andronicus:

Brought hither in a most unlucky hour,

To find thy brother Bassianus dead.

SATURNINUS

My brother dead! I know thou dost but jest:

He and his lady both are at the lodge

Upon the north side of this pleasant chase;

Tis not an hour since I left him there.

MARTIUS

We know not where you left him all alive;

But, out, alas! here have we found him dead.

Re-enter TAMORA, with Attendants; TITUS ANDRONICUS, and Lucius

TAMORA

Where is my lord the king?

SATURNINUS

Here, Tamora, though grieved with killing grief.

TAMORA

Where is thy brother Bassianus?

SATURNINUS

Now to the bottom dost thou search my wound:

Poor Bassianus here lies murdered.

TAMORA

Then all too late I bring this fatal writ,

The complot of this timeless tragedy;

And wonder greatly that man’s face can fold

In pleasing smiles such murderous tyranny.

She giveth SATURNINUS a letter

SATURNINUS

[Reads] ‘An if we miss to meet him handsomely–

Sweet huntsman, Bassianus ‘tis we mean–

Do thou so much as dig the grave for him:

Thou know’st our meaning. Look for thy reward

Among the nettles at the elder-tree

Which overshades the mouth of that same pit

Where we decreed to bury Bassianus.

Do this, and purchase us thy lasting friends.’

O Tamora! was ever heard the like?

This is the pit, and this the elder-tree.

Look, sirs, if you can find the huntsman out

That should have murdered Bassianus here.

AARON

My gracious lord, here is the bag of gold.

SATURNINUS

[To TITUS] Two of thy whelps, fell curs of

bloody kind,

Have here bereft my brother of his life.

Sirs, drag them from the pit unto the prison:

There let them bide until we have devised

Some never-heard-of torturing pain for them.

TAMORA

What, are they in this pit? O wondrous thing!

How easily murder is discovered!

TITUS ANDRONICUS

High emperor, upon my feeble knee

I beg this boon, with tears not lightly shed,

That this fell fault of my accursed sons,

Accursed if the fault be proved in them,–

SATURNINUS

If it be proved! you see it is apparent.

Who found this letter? Tamora, was it you?

TAMORA

Andronicus himself did take it up.

TITUS ANDRONICUS

I did, my lord: yet let me be their bail;

For, by my father’s reverend tomb, I vow

They shall be ready at your highness’ will

To answer their suspicion with their lives.

SATURNINUS

Thou shalt not bail them: see thou follow me.

Some bring the murder’d body, some the murderers:

Let them not speak a word; the guilt is plain;

For, by my soul, were there worse end than death,

That end upon them should be executed.

TAMORA

Andronicus, I will entreat the king;

Fear not thy sons; they shall do well enough.

TITUS ANDRONICUS

Come, Lucius, come; stay not to talk with them.

Exeunt”

ACT 2

SCENE IV. Another part of the forest. [na íntegra]

Enter DEMETRIUS and CHIRON with LAVINIA, ravished; her hands cut off, and her tongue cut out.

DEMETRIUS

So, now go tell, an if thy tongue can speak,

Who ‘twas that cut thy tongue and ravish’d thee.

CHIRON

Write down thy mind, bewray thy meaning so,

An if thy stumps will let thee play the scribe.

DEMETRIUS

See, how with signs and tokens she can scrowl.¹

CHIRON

Go home, call for sweet water, wash thy hands.

DEMETRIUS

She hath no tongue to call, nor hands to wash;

And so let’s leave her to her silent walks.

CHIRON

An ‘twere my case, I should go hang myself.

DEMETRIUS

If thou hadst hands to help thee knit the cord.

Exeunt DEMETRIUS and CHIRON

Enter MARCUS”

¹ Outro foreshadowing!

Curioso para saber como representam tantos membros amputados no teatro!

MARCUS

Who is this? my niece, that flies away so fast!

Cousin, a word; where is your husband?

If I do dream, would all my wealth would wake me!

If I do wake, some planet strike me down,

That I may slumber in eternal sleep!

Speak, gentle niece, what stern ungentle hands

Have lopp’d and hew’d and made thy body bare

Of her two branches, those sweet ornaments,

Whose circling shadows kings have sought to sleep in,

And might not gain so great a happiness

As have thy love? Why dost not speak to me?

Alas, a crimson river of warm blood,

Like to a bubbling fountain stirr’d with wind,

Doth rise and fall between thy rosed lips,

Coming and going with thy honey breath.

But, sure, some Tereus hath deflowered thee,

And, lest thou shouldst detect him, cut thy tongue.

Ah, now thou turn’st away thy face for shame!

And, notwithstanding all this loss of blood,

As from a conduit with 3 issuing spouts,

Yet do thy cheeks look red as Titan’s face

Blushing to be encountered with a cloud.

Shall I speak for thee? shall I say ‘tis so?

O, that I knew thy heart; and knew the beast,

That I might rail at him, to ease my mind!

Sorrow concealed, like an oven stopp’d,

Doth burn the heart to cinders where it is.

Fair Philomela, she but lost her tongue,

And in a tedious sampler sew’d her mind:

But, lovely niece, that mean is cut from thee;

A craftier Tereus, cousin, hast thou met,

And he hath cut those pretty fingers off,

That could have better sew’d than Philomel.

O, had the monster seen those lily hands

Tremble, like aspen-leaves, upon a lute,

And make the silken strings delight to kiss them,

He would not then have touch’d them for his life!

Or, had he heard the heavenly harmony

Which that sweet tongue hath made,

He would have dropp’d his knife, and fell asleep

As Cerberus at the Thracian poet’s feet.¹

Come, let us go, and make thy father blind;

For such a sight will blind a father’s eye:

One hour’s storm will drown the fragrant meads;

What will whole months of tears thy father’s eyes?

Do not draw back, for we will mourn with thee

O, could our mourning ease thy misery!

Exeunt”

¹ Referência a Orfeu, que conseguia fazer dormir até o cão tricéfalo que guardava o Hades.

ACT 3

SCENE I. Rome. A street.

O earth, I will befriend thee more with rain,

That shall distil from these two ancient urns,

Than youthful April shall with all his showers:

In summer’s drought I’ll drop upon thee still;

In winter with warm tears I’ll melt the snow

And keep eternal spring-time on thy face,

So thou refuse to drink my dear sons’ blood.”

LUCIUS

O noble father, you lament in vain:

The tribunes hear you not; no man is by;

And you recount your sorrows to a stone.”

Why, tis no matter, man; if they did hear,

They would not mark me, or if they did mark,

They would not pity me, yet plead I must;

Therefore I tell my sorrows to the stones;

Who, though they cannot answer my distress,

Yet in some sort they are better than the tribunes,

For that they will not intercept my tale:

When I do weep, they humbly at my feet

Receive my tears and seem to weep with me;

And, were they but attired in grave weeds,

Rome could afford no tribune like to these.

A stone is soft as wax,–tribunes more hard than stones;

A stone is silent, and offendeth not,

And tribunes with their tongues doom men to death.”

Why, foolish Lucius, dost thou not perceive

That Rome is but a wilderness of tigers?

Tigers must prey, and Rome affords no prey

But me and mine: how happy art thou, then,

From these devourers to be banished!

But who comes with our brother Marcus here?

Enter MARCUS and LAVINIA

MARCUS ANDRONICUS

Titus, prepare thy aged eyes to weep;

Or, if not so, thy noble heart to break:

I bring consuming sorrow to thine age.

TITUS ANDRONICUS

Will it consume me? let me see it, then.

MARCUS ANDRONICUS

This was thy daughter.

TITUS ANDRONICUS

Why, Marcus, so she is.

LUCIUS

Ay me, this object kills me!

TITUS ANDRONICUS

Faint-hearted boy, arise, and look upon her.

Speak, Lavinia, what accursed hand

Hath made thee handless in thy father’s sight?

What fool hath added water to the sea,

Or brought a faggot to bright-burning Troy?

My grief was at the height before thou camest,

And now like Nilus, it disdaineth bounds.

Give me a sword, I’ll chop off my hands too;

For they have fought for Rome, and all in vain;

And they have nursed this woe, in feeding life;

In bootless prayer have they been held up,

And they have served me to effectless use:

Now all the service I require of them

Is that the one will help to cut the other.

Tis well, Lavinia, that thou hast no hands;

For hands, to do Rome service, are but vain.

LUCIUS

Speak, gentle sister, who hath martyr’d thee?

MARCUS ANDRONICUS

O, that delightful engine of her thoughts

That blabb’d them with such pleasing eloquence,

Is torn from forth that pretty hollow cage,

Where, like a sweet melodious bird, it sung

Sweet varied notes, enchanting every ear!

LUCIUS

O, say thou for her, who hath done this deed?

MARCUS ANDRONICUS

O, thus I found her, straying in the park,

Seeking to hide herself, as doth the deer

That hath received some unrecuring wound.”

This way to death my wretched sons are gone;

Here stands my other son, a banished man,

And here my brother, weeping at my woes.

But that which gives my soul the greatest spurn,

Is dear Lavinia, dearer than my soul.

Had I but seen thy picture in this plight,

It would have madded me: what shall I do

Now I behold thy lively body so?

Thou hast no hands, to wipe away thy tears:

Nor tongue, to tell me who hath martyr’d thee:

Thy husband he is dead: and for his death

Thy brothers are condemn’d, and dead by this.

Look, Marcus! ah, son Lucius, look on her!

When I did name her brothers, then fresh tears

Stood on her cheeks, as doth the honey-dew

Upon a gather’d lily almost wither’d.

MARCUS ANDRONICUS

Perchance she weeps because they kill’d her husband;

Perchance because she knows them innocent.”

Gentle Lavinia, let me kiss thy lips.

Or make some sign how I may do thee ease:

Shall thy good uncle, and thy brother Lucius,

And thou, and I, sit round about some fountain,

Looking all downwards to behold our cheeks

How they are stain’d, as meadows, yet not dry,

With miry slime left on them by a flood?”

Or shall we cut away our hands, like thine?

Or shall we bite our tongues, and in dumb shows

Pass the remainder of our hateful days?

What shall we do? let us, that have our tongues,

Plot some deuce of further misery,

To make us wonder’d at in time to come.”

TITUS ANDRONICUS

Mark, Marcus, mark! I understand her signs:

Had she a tongue to speak, now would she say

That to her brother which I said to thee:

His napkin, with his true tears all bewet,

Can do no service on her sorrowful cheeks.

O, what a sympathy of woe is this,

As far from help as Limbo is from bliss!”

AARON

Titus Andronicus, my lord the emperor

Sends thee this word,–that, if thou love thy sons,

Let Marcus, Lucius, or thyself, old Titus,

Or any one of you, chop off your hand,

And send it to the king: he for the same

Will send thee hither both thy sons alive;

And that shall be the ransom for their fault.

TITUS ANDRONICUS

O gracious emperor! O gentle Aaron!

Did ever raven sing so like a lark,¹

That gives sweet tidings of the sun’s uprise?

With all my heart, I’ll send the emperor My hand:

Good Aaron, wilt thou help to chop it off?

LUCIUS

Stay, father! for that noble hand of thine,

That hath thrown down so many enemies,

Shall not be sent: my hand will serve the turn:

My youth can better spare my blood than you;

And therefore mine shall save my brothers’ lives.

MARCUS ANDRONICUS

Which of your hands hath not defended Rome,

And rear’d aloft the bloody battle-axe,

Writing destruction on the enemy’s castle?

O, none of both but are of high desert:

My hand hath been but idle; let it serve

To ransom my two nephews from their death;

Then have I kept it to a worthy end.

AARON

Nay, come, agree whose hand shall go along,

For fear they die before their pardon come.

MARCUS ANDRONICUS

My hand shall go.

LUCIUS

By heaven, it shall not go!

TITUS ANDRONICUS

Sirs, strive no more: such wither’d herbs as these

Are meet for plucking up, and therefore mine.

LUCIUS

Sweet father, if I shall be thought thy son,

Let me redeem my brothers both from death.

MARCUS ANDRONICUS

And, for our father’s sake and mother’s care,

Now let me show a brother’s love to thee.

TITUS ANDRONICUS

Agree between you; I will spare my hand.

LUCIUS

Then I’ll go fetch an axe.

MARCUS ANDRONICUS

But I will use the axe.

Exeunt LUCIUS and MARCUS

TITUS ANDRONICUS

Come hither, Aaron; I’ll deceive them both:

Lend me thy hand, and I will give thee mine.

AARON

[Aside] If that be call’d deceit, I will be honest,

And never, whilst I live, deceive men so:

But I’ll deceive you in another sort,

And that you’ll say, ere half an hour pass.

Cuts off TITUS’s hand

Re-enter LUCIUS and MARCUS

TITUS ANDRONICUS

Now stay your strife: what shall be is dispatch’d.

Good Aaron, give his majesty my hand:

Tell him it was a hand that warded him

From thousand dangers; bid him bury it

More hath it merited; that let it have.

As for my sons, say I account of them

As jewels purchased at an easy price;

And yet dear too, because I bought mine own.”

¹ Aqui, sem saber, Titus inverte uma das últimas metáforas de Lavínia – e está bastante enganado ao fazê-lo!

AARON

(…)

Let fools do good, and fair men call for grace.

Aaron will have his soul black like his face.

Exit”

MARCUS ANDRONICUS

O brother, speak with possibilities,

And do not break into these deep extremes.

TITUS ANDRONICUS

Is not my sorrow deep, having no bottom?

Then be my passions bottomless with them.

MARCUS ANDRONICUS

But yet let reason govern thy lament.”

When heaven doth weep, doth not the earth o’erflow?

If the winds rage, doth not the sea wax mad,

Threatening the welkin with his big-swollen face?

And wilt thou have a reason for this coil?

I am the sea; hark, how her sighs do blow!

She is the weeping welkin, I the earth:

Then must my sea be moved with her sighs;

Then must my earth with her continual tears

Become a deluge, overflow’d and drown’d;

For why my bowels cannot hide her woes,

But like a drunkard must I vomit them.”

Enter a Messenger, with two heads and a hand

Messenger

Worthy Andronicus, ill art thou repaid

For that good hand thou sent’st the emperor.

Here are the heads of thy two noble sons;

And here’s thy hand, in scorn to thee sent back;

Thy griefs their sports, thy resolution mock’d;

That woe is me to think upon thy woes

More than remembrance of my father’s death.

Exit

MARCUS ANDRONICUS

Now let hot Aetna cool in Sicily,

And be my heart an ever-burning hell!

These miseries are more than may be borne.

To weep with them that weep doth ease some deal;

But sorrow flouted at is double death.”

That ever death should let life bear his name,

Where life hath no more interest but to breathe!

LAVINIA kisses TITUS

MARCUS ANDRONICUS

Alas, poor heart, that kiss is comfortless

As frozen water to a starved snake.

TITUS ANDRONICUS

When will this fearful slumber have an end?

MARCUS ANDRONICUS

Now, farewell, flattery: die, Andronicus;

Thou dost not slumber: see, thy two sons’ heads,

Thy warlike hand, thy mangled daughter here:

Thy other banish’d son, with this dear sight

Struck pale and bloodless; and thy brother, I,

Even like a stony image, cold and numb.

Ah, now no more will I control thy griefs:

Rend off thy silver hair, thy other hand

Gnawing with thy teeth; and be this dismal sight

The closing up of our most wretched eyes;

Now is a time to storm; why art thou still?

TITUS ANDRONICUS

Ha, ha, ha!

MARCUS ANDRONICUS

Why dost thou laugh? it fits not with this hour.

TITUS ANDRONICUS

Why, I have not another tear to shed:

Besides, this sorrow is an enemy,

And would usurp upon my watery eyes

And make them blind with tributary tears:

Then which way shall I find Revenge’s cave?¹

For these two heads do seem to speak to me,

And threat me I shall never come to bliss

Till all these mischiefs be return’d again

Even in their throats that have committed them.

Come, let me see what task I have to do.

You heavy people, circle me about,

That I may turn me to each one of you,

And swear unto my soul to right your wrongs.

The vow is made. Come, brother, take a head;

And in this hand the other I will bear.

Lavinia, thou shalt be employ’d: these arms!

Bear thou my hand, sweet wench, between thy teeth.

As for thee, boy, go get thee from my sight;

Thou art an exile, and thou must not stay:

Hie to the Goths, and raise an army there:

And, if you love me, as I think you do,

Let’s kiss and part, for we have much to do.

Exeunt TITUS, MARCUS, and LAVINIA

LUCIUS

Farewell Andronicus, my noble father,

The wofull’st man that ever lived in Rome:

Farewell, proud Rome; till Lucius come again,

He leaves his pledges dearer than his life:

Farewell, Lavinia, my noble sister;

O, would thou wert as thou tofore hast been!

But now nor Lucius nor Lavinia lives

But in oblivion and hateful griefs.

If Lucius live, he will requite your wrongs;

And make proud Saturnine and his empress

Beg at the gates, like Tarquin and his queen.²

Now will I to the Goths, and raise a power,

To be revenged on Rome and Saturnine.

Exit”

¹ A caverna da vingança, como veremos, será a própria casa de Titus Andronicus.

² Figura despótica que bem inspira Saturninus, e que ao mesmo tempo compartilha o primeiro nome com quem fala: Lucius Tarquinius Superbus (died 495 BC) was the legendary 7th and final king of Rome,a reigning 25 years until the popular uprising that led to the establishment of the Roman Republic. [segundo o historiador Lívio] He is commonly known as Tarquin the Proud, from his cognomen Superbus (Latin for proud, arrogant, lofty).” Adicionalmente, o que não se sabe se é História ou mito, este Tarquínio teria matado seu próprio irmão, o rei anterior (estamos falando da monarquia pré-república Romana, que por sua vez é pré-Império Romano, ou seja, período bem remoto e historiograficamente difícil de avaliar), e sua esposa, a fim de sentar no trono, o que excede em maldade tudo que se via ao tempo e acelerou sua ruína e a ruína do sistema monárquico na cidade (realmente houve reis em Roma antes das instituições da República, daí os traços de autenticidade da fábula).

a A quem aprecia superstições, o número 7 aqui está eivado de maldições!

ACT 3

SCENE II. A room in Titus’ house. A banquet set out.

TITUS ANDRONICUS

So, so; now sit: and look you eat no more

Than will preserve just so much strength in us

As will revenge these bitter woes of ours.

Marcus, unknit that sorrow-wreathen knot:

Thy niece and I, poor creatures, want our hands,

And cannot passionate our tenfold grief

With folded arms. This poor right hand of mine

Is left to tyrannize upon my breast;

Who, when my heart, all mad with misery,

Beats in this hollow prison of my flesh,

Then thus I thump it down.”

MARCUS ANDRONICUS

Fie, brother, fie! teach her not thus to lay

Such violent hands upon her tender life.

TITUS ANDRONICUS

How now! has sorrow made thee dote already?

Why, Marcus, no man should be mad but I.

What violent hands can she lay on her life?

Ah, wherefore dost thou urge the name of hands;

To bid Aeneas tell the tale twice o’er,¹

How Troy was burnt and he made miserable?

O, handle not the theme, to talk of hands,

Lest we remember still that we have none.

Fie, fie, how franticly I square my talk,

As if we should forget we had no hands,

If Marcus did not name the word of hands!”

¹ Durante a Eneida Enéias tem de recontar várias vezes suas desventuras desde a queda de Tróia até suas viagens meridionais. Recontar o passado sofrido equivale a revivê-lo, em toda sua dor.

Here is no drink! Hark, Marcus, what she says;

I can interpret all her martyr’d signs;

She says she drinks no other drink but tears,

Brew’d with her sorrow, mesh’d upon her cheeks:

Speechless complainer, I will learn thy thought;

In thy dumb action will I be as perfect

As begging hermits in their holy prayers:

Thou shalt not sigh, nor hold thy stumps to heaven,

Nor wink, nor nod, nor kneel, nor make a sign,

But I of these will wrest an alphabet

And by still practise learn to know thy meaning.”¹

¹ Uma linguagem bem sibilina, mais avançada que libras, posto que libras exigem mãos!

MARCUS strikes the dish with a knife

What dost thou strike at, Marcus, with thy knife?

MARCUS ANDRONICUS

At that that I have kill’d, my lord; a fly.

TITUS ANDRONICUS

Out on thee, murderer! thou kill’st my heart;

Mine eyes are cloy’d with view of tyranny:

A deed of death done on the innocent

Becomes not Titus’ brother: get thee gone:

I see thou art not for my company.”

Poor harmless fly,

That, with his pretty buzzing melody,

Came here to make us merry! and thou hast

kill’d him.”

MARCUS ANDRONICUS

Pardon me, sir; it was a black ill-favor’d fly,

Like to the empress’ Moor; therefore I kill’d him.

TITUS ANDRONICUS

O, O, O,

Then pardon me for reprehending thee,

For thou hast done a charitable deed.

Give me thy knife, I will insult on him;

Flattering myself, as if it were the Moor

Come hither purposely to poison me.–

There’s for thyself, and that’s for Tamora.

Ah, sirrah!

Yet, I think, we are not brought so low,

But that between us we can kill a fly

That comes in likeness of a coal-black Moor.”

He takes false shadows for true substances.”

TITUS ANDRONICUS

Come, take away. Lavinia, go with me:

I’ll to thy closet; and go read with thee

Sad stories chanced in the times of old.

Come, boy, and go with me: thy sight is young,

And thou shalt read when mine begin to dazzle.

Exeunt”

ACT 4

SCENE I. Rome. Titus’ garden.

Young LUCIUS [neto de Titus]

Help, grandsire, help! my aunt Lavinia

Follows me every where, I know not why:

Good uncle Marcus, see how swift she comes.

Alas, sweet aunt, I know not what you mean.”

TITUS ANDRONICUS

She loves thee, boy, too well to do thee harm.

Young LUCIUS

Ay, when my father was in Rome she did.

MARCUS ANDRONICUS

What means my niece Lavinia by these signs?”

Ah, boy, Cornelia¹ never with more care

Read to her sons than she hath read to thee

Sweet poetry and Tully’s Orator.”²

¹ Grande mulher romana, considerada uma intelectual, e mãe de vários políticos do tempo republicano (matrona da dinastia Graco). Em outros termos, a preceptora ideal, grande elogio a Lavínia, a tia que educou o sobrinho Lucius o Jovem da peça. “Rome worshipped her virtues, and when she died at an advanced age, the city voted for a statue in her honor.”

² Orações de Túlio Marco Cícero.

For I have heard my grandsire say full oft,

Extremity of griefs would make men mad;¹

And I have read that Hecuba of Troy

Ran mad through sorrow:² that made me to fear;

Although, my lord, I know my noble aunt

Loves me as dear as e’er my mother did,

And would not, but in fury, fright my youth:

Which made me down to throw my books, and fly–³

Causeless, perhaps. …”

¹ Clever wordplay com “extremidades”… os extremos da tristeza, os extremos dos braços, decepados…

² Hécuba, que perdeu muitos parentes na derrota de Tróia, teria ficado louca de tanto sofrimento. Assim o sobrinho justifica o medo de que sua tia Lavínia tivesse também perdido a razão. Shakespeare cita Hécuba mais uma vez em Hamlet: “And all for nothing – For Hecuba! What’s Hecuba to him, or he to Hecuba / That he should weep for her?” Quando o tema é vingança, uma mulher que perdeu tudo e que depois conseguiu se vingar de alguns dos assassinos de seus entes queridos é uma das melhores figuras a ser citadas…

³ To fly… correr, fugir. Na cena anterior, a do triste banquete, matam uma mosca (fly). Throw my books, derrubar os livros, como quem não consegue segurá-los por falta de mãos. Creio que Shakespeare tenha utilizado essas referências conscientemente para brincar novamente com a duplicidade do discurso do sobrinho que vê sua dinastia em pedaços.

LAVINIA turns over with her stumps the books which LUCIUS has let fall”

Some book there is that she desires to see.

Which is it, girl, of these? Open them, boy.

But thou art deeper read, and better skill’d

Come, and take choice of all my library,

And so beguile thy sorrow, till the heavens

Reveal the damn’d contriver of this deed.”

MARCUS ANDRONICUS

I think she means that there was more than one

Confederate in the fact: ay, more there was;

Or else to heaven she heaves them for revenge.”

Young LUCIUS

Grandsire, ‘tis Ovid’s Metamorphoses

My mother gave it me.

MARCUS ANDRONICUS

For love of her that’s gone,

Perhaps she cull’d it from among the rest.”

¹ Um dos livros mais importantes como pano de fundo da peça, com vários de seus episódios trágicos citados ao longo dos atos.

This is the tragic tale of Philomel,

And treats of Tereus’ treason and his rape:

And rape, I fear, was root of thine annoy.”

TITUS ANDRONICUS

Lavinia, wert thou thus surprised, sweet girl,

Ravish’d and wrong’d, as Philomela was,

Forced in the ruthless, vast, and gloomy woods? See, see!

Ay, such a place there is, where we did hunt

O, had we never, never hunted there!–

Pattern’d by that the poet here describes,

By nature made for murders and for rapes.

MARCUS ANDRONICUS

O, why should nature build so foul a den,

Unless the gods delight in tragedies?”

Apollo, Pallas, Jove, or Mercury,

Inspire me, that I may this treason find!

My lord, look here: look here, Lavinia:¹

This sandy plot is plain; guide, if thou canst

This after me, when I have writ my name

Without the help of any hand at all.”

¹ Se, na Antiguidade, alguém soubesse que os próprios deuses aprovam seu desejo de vingança, este alguém se sentiria absolutamente justificado. Titus adia sua vingança até ter certeza, por todos os métodos das adivinhações, que conta com o favor dos deuses – para consumar a única coisa que o manteve vivo por tanto tempo.

He writes his name with his staff, and guides it with feet and mouth”

Write thou good niece; and here display, at last,

What God will have discover’d for revenge;

Heaven guide thy pen to print thy sorrows plain,

That we may know the traitors and the truth!

She takes the staff in her mouth, and guides it with her stumps, and writes

TITUS ANDRONICUS

O, do ye read, my lord, what she hath writ?

Stuprum. Chiron. Demetrius.’

MARCUS ANDRONICUS

What, what! the lustful sons of Tamora

Performers of this heinous, bloody deed?

TITUS ANDRONICUS

Magni Dominator poli,¹

Tam lentus audis scelera? tam lentus vides?

¹ Titus, obviamente arrependido de ter apontado Saturnino como o novo imperador, evoca no vernáculo: Ó, Senhor dessa cidade, vês e ouves tu tão horrendos crimes praticados pelos teus?

MARCUS ANDRONICUS

O, calm thee, gentle lord; although I know

There is enough written upon this earth

To stir a mutiny in the mildest thoughts

And arm the minds of infants to exclaims.

My lord, kneel down with me; Lavinia, kneel;

And kneel, sweet boy, the Roman Hector’s hope;¹

And swear with me, as, with the woful fere

And father of that chaste dishonour’d dame,

Lord Junius Brutus² sware for Lucrece’ rape,

That we will prosecute by good advice

Mortal revenge upon these traitorous Goths,

And see their blood, or die with this reproach.”

¹ Numa nação guerreira, de toda criança espera-se que seja um dia um grande herói como o foi o antepassado dos romanos Heitor.

² Referência ao fabuloso Lucius Junius Brutus, um dos vingadores da honra da estuprada Lucrécia (evento já comentado em nota anterior).

You are a young huntsman, Marcus; let it alone;

And, come, I will go get a leaf of brass,

And with a gad of steel will write these words,

And lay it by: the angry northern wind

Will blow these sands, like Sibyl’s leaves, abroad,

And where’s your lesson, then? Boy, what say you?

Young LUCIUS

I say, my lord, that if I were a man,

Their mother’s bed-chamber should not be safe

For these bad bondmen to the yoke of Rome.”

TITUS ANDRONICUS

Come, go with me into mine armoury;

Lucius, I’ll fit thee; and withal, my boy,

Shalt carry from me to the empress’ sons

Presents that I intend to send them both:

Come, come; thou’lt do thy message, wilt thou not?

Young LUCIUS

Ay, with my dagger in their bosoms, grandsire.

TITUS ANDRONICUS

No, boy, not so; I’ll teach thee another course.¹

Lavinia, come. Marcus, look to my house:

Lucius and I’ll go brave it at the court:

Ay, marry, will we, sir; and we’ll be waited on.

Exeunt TITUS, LAVINIA, and Young LUCIUS”

¹ Até nessa sanguinária peça Titus tem um freio para sua ambição de vingança, como “bom velhinho” (digito essas palavras em 24/12): seu neto não precisará se envolver diretamente, sua mensagem será apenas isso: uma mensagem, para trazer a cobra ao covil inóspito dos Andronici. As crianças não precisam participar da orgia de sangue (mais do que já participaram nas guerras de Roma, na frente de batalha, os adolescentes, ou simplesmente perdendo seus pais, os mais jovens).

MARCUS…

Revenge, ye heavens, for old Andronicus!

Exit”

Here comes! Revenge is the true protagonist of this oeuvre:

ACT 4

SCENE II. The same. A room in the palace.

CHIRON

Demetrius, here’s the son of Lucius;

He hath some message to deliver us.

AARON

Ay, some mad message from his mad grandfather.

Young LUCIUS

My lords, with all the humbleness I may,

I greet your honours from Andronicus.

[Aside] And pray the Roman gods confound you both!

DEMETRIUS

Gramercy, lovely Lucius: what’s the news?

Young LUCIUS

[Aside] That you are both decipher’d, that’s the news,

For villains mark’d with rape.–May it please you,

My grandsire, well advised, hath sent by me

The goodliest weapons of his armoury

To gratify your honourable youth,

The hope of Rome; for so he bade me say;

And so I do, and with his gifts present

Your lordships, that, whenever you have need,

You may be armed and appointed well:

And so I leave you both:

[Aside] like bloody villains.

Exeunt Young LUCIUS, and Attendant”

Integer vitae, scelerisque purus,

Non eget Mauri jaculis, nec arcu. »

O, ‘tis a verse in Horace; I know it well:

I read it in the grammar long ago.”

AARON

Now, what a thing it is to be an ass!

Here’s no sound jest! the old man hath found their guilt;

And sends them weapons wrapped about with lines,

That wound, beyond their feeling, to the quick.

But were our witty empress well afoot,

She would applaud Andronicus’ conceit:

But let her rest in her unrest awhile.

And now, young lords, was’t not a happy star

Led us to Rome, strangers, and more than so,

Captives, to be advanced to this height?

It did me good, before the palace gate

To brave the tribune in his brother’s hearing.”

DEMETRIUS

I would we had a thousand Roman dames

At such a bay, by turn to serve our lust.

CHIRON

A charitable wish and full of love.

AARON

Here lacks but your mother for to say amen.¹

CHIRON

And that would she for 20,000 more.

DEMETRIUS

Come, let us go; and pray to all the gods

For our beloved mother in her pains.

AARON

[Aside] Pray to the devils; the gods have given us over.

Trumpets sound within

DEMETRIUS

Why do the emperor’s trumpets flourish thus?

CHIRON

Belike, for joy the emperor hath a son.²

DEMETRIUS

Soft! who comes here?

Enter a Nurse, with a blackamoor Child in her arms

Nurse

Good morr ow, lords:³

O, tell me, did you see Aaron the Moor?

AARON

Well, more or less, or ne’er a whit at all,

Here Aaron is; and what with Aaron now?

Nurse

O gentle Aaron, we are all undone!4

Now help, or woe betide thee evermore!”

¹ Os parvos filhos de Tamora não entenderam o duplo sentido de Aaron – até que ele fosse mais explícito no chiste!

² Não o imperador, mas a imperatriz apenas!

³ Shakespeare não perde uma oportunidade: Good Morning, Good morrow, se torna Good morr [quase good moor]… O espaço confirma que é um chiste intencional.

4 A fala da enfermeira ecoa o própria “pensamento alto” de Aaron de segundos atrás, ou seja: agora há dois grandes problemas para ele e Tamora.

Nurse

Our empress’ shame, and stately Rome’s disgrace!

She is deliver’d, lords; she is deliver’d.”

AARON

Well, God give her good rest! What hath he sent her?

Nurse

A devil.”

Nurse

A joyless, dismal, black, and sorrowful issue:

Here is the babe, as loathsome as a toad¹

Amongst the fairest breeders of our clime:

The empress sends it thee, thy stamp, thy seal,

And bids thee christen it with thy dagger’s point.

AARON

Zounds, ye whore! is black so base a hue?

Sweet blowse, you are a beauteous blossom, sure.

DEMETRIUS

Villain, what hast thou done?

AARON

That which thou canst not undo.

CHIRON

Thou hast undone our mother.

AARON

Villain, I have done thy mother.²

DEMETRIUS

And therein, hellish dog, thou hast undone.

Woe to her chance, and damn’d her loathed choice!³

Accurse[e]d the offspring of so foul a fiend!

CHIRON

It shall not live.

AARON

It shall not die.4

Nurse

Aaron, it must; the mother wills it so.

AARON

What, must it, nurse? then let no man but I

Do execution on my flesh and blood.5

DEMETRIUS

I’ll broach the tadpole on my rapier’s point:

Nurse, give it me; my sword shall soon dispatch it.

AARON

Sooner this sword shall plough thy bowels up.

Takes the Child from the Nurse, and draws

Stay, murderous villains! will you kill your brother?

Now, by the burning tapers of the sky, [pelo sol: vide glossário ao fim]

That shone so brightly when this boy was got,

He dies upon my scimitar’s sharp point

That touches this my first-born son and heir!

I tell you, younglings, not Enceladus,6

With all his threatening band of Typhon’s brood,

Nor great Alcides, nor the god of war,7

Shall seize this prey out of his father’s hands.

What, what, ye sanguine, shallow-hearted boys!

Ye white-limed walls! ye alehouse painted signs!8

Coal-black is better than another hue,

In that it scorns to bear another hue;

For all the water in the ocean

Can never turn the swan’s black legs to white,

Although she lave them hourly in the flood.

Tell the empress from me, I am of age

To keep mine own, excuse it how she can.9

DEMETRIUS

Wilt thou betray thy noble mistress thus?

AARON

My mistress is my mistress; this myself,

The vigour and the picture of my youth:10

This before all the world do I prefer;

This maugre all the world will I keep safe,

Or some of you shall smoke for it in Rome.

DEMETRIUS

By this our mother is forever shamed.

CHIRON

Rome will despise her for this foul escape.

Nurse

The emperor, in his rage, will doom her death.”

¹ Certamente alguém cujo fenótipo “traidor” da traição ao imperador não o qualifica como príncipe, portanto é um sapo.

² E aqui, com 9 meses de retardo, os ineptos filhos de Tamora entenderam que Aaron se convertera em seu padrasto! Os godos são devagar com piadas…

³ “Graças às péssimas escolhas de mamãe, sua sorte de sobreviver e reinar acabaram…”

4 Esse tipo de contraditório transforma esses momentos da peça em comédia – lembra até Chavo del Ocho, se ainda é mais econômico que as tantrums de Seu madruga, Chaves e Quico, p.ex.! Certamente continuaria a comédia pastelão, não fosse pela preocupada intervenção da nurse!

5 O astuto Arão já começa a ganhar tempo… Tanto quanto Demetrius e Chiron são uns parvos e umas lesmas, o mouro pensa rápido!

6 Titã grego e espécie de semi-deus egípcio (a influência da mitologia grega permeia essa identidade), filho de filho do lendário rei Aegyptus (descendente de Belus e Nilus, dois deuses locais, e um dos responsáveis pelo nome Egito). A razão da analogia aqui é que Enceladus termina assassinado.

7 Alcides não é ninguém menos que Hércules em outra denominação. Godo f war poderia ser Zeus, o rei dos deuses, o Ares, especificamente o deus-guerreiro do Olimpo. Repare que o Word auto-corrigiu (auto-errou!) minha digitação de god of war para godo’f war, o que não deixa de nos vir a calhar nesse mar de trocadilhos shakespeariano! Ou seja: ninguém – humano ou deus – assassinará meu filho, quis dizer Aaron.

8 Uma instância de “racismo reverso”, diriam os bolsonaristas! Aaron sabe mesmo como ofender in the brink of an eye (num piscar de olhos); sua língua é tão ferina quanto seus planos são malignos.

9 Ao contrário, primeiro, de seus filhos tão infantis; e ao contrário de seu filho mútuo, ainda um bebê: não importa, ele será seu guardião. Com efeito, essa é a única cena que redime Aaron e talvez não nos permita qualificá-lo como o vilão mais atroz das peças de Shakespeare!

10 “Questões amorosas são questões amorosas – mas aqui se trata de mim, e eu não sou cavalheiro o suficiente para me subordinar a uma imperatriz.”

Fonte: seattleshakespeare.org

AARON

Why, there’s the privilege your beauty bears:

Fie, treacherous hue, that will betray with blushing

The close enacts and counsels of the heart!

Here’s a young lad framed of another leer:

Look, how the black slave smiles upon the father,

As who should say ‘Old lad, I am thine own.’

And from that womb where you imprison’d were

He is enfranchised and come to light:

Nay, he is your brother by the surer side

Although my seal be stamped in his face.”

¹ Alusão a uma mãe ser sempre reconhecível devido a ser a grávida afinal de contas; mas também a Tamora ser a própria rainha de Roma.

Nurse

Aaron, what shall I say unto the empress?

DEMETRIUS

Advise thee, Aaron, what is to be done,

And we will all subscribe to thy advice:

Save thou the child, so we may all be safe.”

Aqui todos os 3 que contrapunham Arão já estão vendidos: foram psicologicamente convencidos, e acabarão morrendo.

DEMETRIUS

How many women saw this child of his?”

Nurse

Cornelia the midwife and myself;

And no one else but the deliver’d empress.

AARON

The empress, the midwife, and yourself:

Two may keep counsel when the third’s away:

Go to the empress, tell her this I said.

He kills the nurse

Weke, weke! so cries a pig prepared to the spit.”

And now be it known to you my full intent.

Not far, one Muli lives, my countryman;

His wife but yesternight was brought to bed;

His child is like to her, fair as you are:

Go pack with him, and give the mother gold,

And tell them both the circumstance of all;

And how by this their child shall be advanced,

And be received for the emperor’s heir,

And substituted in the place of mine,

To calm this tempest whirling in the court;

And let the emperor dandle him for his own.

Hark ye, lords; ye see I have given her physic,

Pointing to the nurse

And you must needs bestow her funeral;

The fields are near, and you are gallant grooms:

This done, see that you take no longer days,

But send the midwife presently to me.

The midwife and the nurse well made away,

Then let the ladies tattle what they please.

CHIRON

Aaron, I see thou wilt not trust the air

With secrets.

DEMETRIUS

For this care of Tamora,

Herself and hers are highly bound to thee.

Exeunt DEMETRIUS and CHIRON bearing off the Nurse’s body”

O tropo das crianças trocadas no berço é um dos mais antigos da humanidade, e Sh. como bom dramaturgo, que aumenta as coisas pequenas e reles, não hesita em usá-lo.

Come on, you thick lipp’d slave, I’ll bear you hence;

For it is you that puts us to our shifts:

I’ll make you feed on berries and on roots,

And feed on curds and whey, and suck the goat,

And cabin in a cave, and bring you up

To be a warrior, and command a camp.

Exit”

Ah, como o próprio Arão não deixa o sarcasmo de lado e a auto-imolação ao conversar com e qualificar seu próprio filho! A caverna, sempre a caverna, é a origem de muitas conseqüências interessantes em Titus Andronicus

ACT 4

SCENE III. The same. A public place.

Ah, Rome! Well, well; I made thee miserable

What time I threw the people’s suffrages

On him that thus doth tyrannize o’er me.

Go, get you gone; and pray be careful all,

And leave you not a man-of-war unsearch’d:

This wicked emperor may have shipp’d her hence;

And, kinsmen, then we may go pipe for justice.”

MARCUS ANDRONICUS

Kinsmen, his sorrows are past remedy.

Join with the Goths; and with revengeful war

Take wreak on Rome for this ingratitude,

And vengeance on the traitor Saturnine.

TITUS ANDRONICUS

Publius, how now! how now, my masters!

What, have you met with her?

PUBLIUS

No, my good lord; but Pluto sends you word,

If you will have Revenge from hell, you shall:

Marry, for Justice, she is so employ’d,

He thinks, with Jove in heaven, or somewhere else,

So that perforce you must needs stay a time.”

I’ll dive into the burning lake below,

And pull her out of Acheron by the heels.

Marcus, we are but shrubs, no cedars we

No big-boned men framed of the Cyclops’ size;

But metal, Marcus, steel to the very back,

Yet wrung with wrongs more than our backs can bear:

And, sith there’s no justice in earth nor hell,

We will solicit heaven and move the gods

To send down Justice for to wreak our wrongs.”

To Saturn, Caius, not to Saturnine

You were as good to shoot against the wind.

To it, boy! Marcus, loose when I bid.

Of my word, I have written to effect;

There’s not a god left unsolicited.”

¹ Trocadilho com Saturno ou Cronos, o deus do tempo: o tempo de Saturnino está expirando…

MARCUS ANDRONICUS

Kinsmen, shoot all your shafts into the court:

We will afflict the emperor in his pride.”

TITUS ANDRONICUS

Ha, ha!

Publius, Publius, what hast thou done?

See, see, thou hast shot off one of Taurus’ horns.”

And who should find them but the empress’ villain?

She laugh’d, and told the Moor he should not choose

But give them to his master for a present.”

Clown

Alas, sir, I know not Jupiter; I never drank with him

in all my life.”

TITUS ANDRONICUS

Then here is a supplication for you. And when you

come to him, at the first approach you must kneel,

then kiss his foot, then deliver up your pigeons, and

then look for your reward. I’ll be at hand, sir; see

you do it bravely.

Clown

I warrant you, sir, let me alone.”

ACT 4

SCENE IV. The same. Before the palace.

Sweet scrolls to fly about the streets of Rome!

What’s this but libelling against the senate,

And blazoning our injustice every where?

A goodly humour, is it not, my lords?

As who would say, in Rome no justice were.

But if I live, his feigned ecstasies

Shall be no shelter to these outrages:

But he and his shall know that justice lives

In Saturninus’ health, whom, if she sleep,

He’ll so awake as she in fury shall

Cut off the proud’st conspirator that lives.”

TAMORA

My gracious lord, my lovely Saturnine,

Lord of my life, commander of my thoughts,

Calm thee, and bear the faults of Titus’ age,

The effects of sorrow for his valiant sons,

Whose loss hath pierced him deep and scarr’d his heart;

And rather comfort his distressed plight

Than prosecute the meanest or the best

For these contempts.”

Why, thus it shall become

High-witted Tamora to gloze with all:

But, Titus, I have touched thee to the quick,

Thy life-blood out: if Aaron now be wise,

Then is all safe, the anchor’s in the port.”

Clown

Tis he. God and Saint Stephen¹ give you good den:

I have brought you a letter and a couple of pigeons here.

SATURNINUS reads the letter

SATURNINUS

Go, take him away, and hang him presently.

Clown

How much money must I have?

TAMORA

Come, sirrah, you must be hanged.

Clown

Hanged! by’r lady, then I have brought up a neck to

a fair end.

Exit, guarded”

¹ Santo Stefano ou Estêvão é o primeiro santo canonizado pela igreja católica. Teria nascido em 5 a.C. e morrido em 34 d.C., um ano após a crucificação de Cristo, sendo um de seus primeiros pregadores (foi morto por apedrejamento sentenciado pelos judeus romanos). Sua data de celebração é 26 de dezembro, mesma da publicação desse post e da escrita desse parágrafo. Por que pela primeira vez Shakespeare cita um elemento posterior ao paganismo greco-romano? Talvez para indicar a proximidade de uma transição de poder…

May this be borne?–as if his traitorous sons,

That died by law for murder of our brother,

Have by my means been butcher’d wrongfully!

Go, drag the villain hither by the hair;

Nor age nor honour shall shape privilege:

For this proud mock I’ll be thy slaughterman;

Sly frantic wretch, that holp’st to make me great,

In hope thyself should govern Rome and me.”

AEMILIUS

Arm, arm, my lord;–Rome never had more cause.

The Goths have gather’d head; and with a power

high-resolved men, bent to the spoil,

They hither march amain, under conduct

Of Lucius, son to old Andronicus;

Who threats, in course of this revenge, to do

As much as ever Coriolanus did.

SATURNINUS

Is warlike Lucius general of the Goths?

These tidings nip me, and I hang the head

As flowers with frost or grass beat down with storms:

Ay, now begin our sorrows to approach:

Tis he the common people love so much;

Myself hath often over-heard them say,

When I have walked like a private man,

That Lucius’ banishment was wrongfully,

And they have wish’d that Lucius were their emperor.”

TAMORA

King, be thy thoughts imperious, like thy name.

Is the sun dimm’d, that gnats do fly in it?

The eagle suffers little birds to sing,

And is not careful what they mean thereby,

Knowing that with the shadow of his wings

He can at pleasure stint their melody:

Even so mayst thou the giddy men of Rome.”

I will enchant the old Andronicus

With words more sweet, and yet more dangerous,

Than baits to fish, or honey-stalks to sheep,

When as the one is wounded with the bait,

The other rotted with delicious feed.”

I can smooth and fill his aged ear with golden promises; that, were his heart almost impregnable, his old ears deaf, yet should both ear and heart obey my tongue.”

To Aemilius

Go thou before, be our ambassador:

Say that the emperor requests a parley

Of warlike Lucius, and appoint the meeting

Even at his father’s house, the old Andronicus.

SATURNINUS

Aemilius, do this message honourably:

And if he stand on hostage for his safety,

Bid him demand what pledge will please him best.”

TAMORA

Now will I to that old Andronicus;

And temper him with all the art I have,

To pluck proud Lucius from the warlike Goths.”

ACT 5

SCENE I. Plains near Rome.

First Goth

Brave slip, sprung from the great Andronicus,

Whose name was once our terror, now our comfort;

Whose high exploits and honourable deeds

Ingrateful Rome requites with foul contempt,

Be bold in us: we’ll follow where thou lead’st,

Like stinging bees in hottest summer’s day

Led by their master to the flowered fields,

And be avenged on cursed Tamora.

All the Goths

And as he saith, so say we all with him.”

Second Goth

Renowned Lucius, from our troops I stray’d

To gaze upon a ruinous monastery;

And, as I earnestly did fix mine eye

Upon the wasted building, suddenly

I heard a child cry underneath a wall.

I made unto the noise; when soon I heard

The crying babe controll’d with this discourse:

Peace, tawny slave, half me and half thy dam!

Did not thy hue bewray whose brat thou art,

Had nature lent thee but thy mother’s look,

Villain, thou mightst have been an emperor:

But where the bull and cow are both milk-white,

They never do beget a coal-black calf.

Peace, villain, peace!’–even thus he rates

the babe,–

For I must bear thee to a trusty Goth;

Who, when he knows thou art the empress’ babe,

Will hold thee dearly for thy mother’s sake.’

With this, my weapon drawn, I rush’d upon him,

Surprised him suddenly, and brought him hither,

To use as you think needful of the man.

LUCIUS

O worthy Goth, this is the incarnate devil

That robb’d Andronicus of his good hand;

This is the pearl that pleased your empress’ eye,

And here’s the base fruit of his burning lust.

Say, wall-eyed slave, whither wouldst thou convey

This growing image of thy fiend-like face?

Why dost not speak? what, deaf? not a word?

A halter, soldiers! hang him on this tree.

And by his side his fruit of bastardy.”

AARON

An if it please thee! why, assure thee, Lucius,

Twill vex thy soul to hear what I shall speak;

For I must talk of murders, rapes and massacres,

Acts of black night, abominable deeds,

Complots of mischief, treason, villanies

Ruthful to hear, yet piteously perform’d:

And this shall all be buried by my death,

Unless thou swear to me my child shall live.”

LUCIUS

Who should I swear by? thou believest no god:

That granted, how canst thou believe an oath?

AARON

What if I do not? as, indeed, I do not;

Yet, for I know thou art religious

And hast a thing within thee called conscience,

With 20 popish tricks and ceremonies,

Which I have seen thee careful to observe,

Therefore I urge thy oath; for that I know

An idiot holds his bauble for a god

And keeps the oath which by that god he swears,

To that I’ll urge him: therefore thou shalt vow

By that same god, what god soe’er it be,

That thou adorest and hast in reverence,

To save my boy, to nourish and bring him up;

Or else I will discover nought to thee.”

AARON

First know thou, I begot him on the empress.

LUCIUS

O most insatiate and luxurious woman!

AARON

Tut, Lucius, this was but a deed of charity

To that which thou shalt hear of me anon.

Twas her two sons that murder’d Bassianus;

They cut thy sister’s tongue and ravish’d her

And cut her hands and trimm’d her as thou saw’st.

LUCIUS

O detestable villain! call’st thou that trimming?

AARON

Why, she was wash’d and cut and trimm’d, and ‘twas

Trim sport for them that had the doing of it.”

AARON

I train’d thy brethren to that guileful hole

Where the dead corpse of Bassianus lay:

I wrote the letter that thy father found

And hid the gold within the letter mention’d,

Confederate with the queen and her two sons:

And what not done, that thou hast cause to rue,

Wherein I had no stroke of mischief in it?

I play’d the cheater for thy father’s hand,

And, when I had it, drew myself apart

And almost broke my heart with extreme laughter:

I pry’d me through the crevice of a wall

When, for his hand, he had his two sons’ heads;

Beheld his tears, and laugh’d so heartily,

That both mine eyes were rainy like to his:

And when I told the empress of this sport,

She swooned almost at my pleasing tale,

And for my tidings gave me 20 kisses.

First Goth

What, canst thou say all this, and never blush?

AARON

Ay, like a black dog, as the saying is.

LUCIUS

Art thou not sorry for these heinous deeds?

AARON

Ay, that I had not done a thousand more.

Even now I curse the day–and yet, I think,

Few come within the compass of my curse,–

Wherein I did not some notorious ill,

As kill a man, or else devise his death,

Ravish a maid, or plot the way to do it,

Accuse some innocent and forswear myself,

Set deadly enmity between two friends,

Make poor men’s cattle break their necks;

Set fire on barns and hay-stacks in the night,

And bid the owners quench them with their tears.

Oft have I digg’d up dead men from their graves,

And set them upright at their dear friends’ doors,

Even when their sorrows almost were forgot;

And on their skins, as on the bark of trees,

Have with my knife carved in Roman letters,

Let not your sorrow die, though I am dead.’

Tut, I have done a thousand dreadful things

As willingly as one would kill a fly,

And nothing grieves me heartily indeed

But that I cannot do ten thousand more.

LUCIUS

Bring down the devil; for he must not die

So sweet a death as hanging presently.

AARON

If there be devils, would I were a devil,

To live and burn in everlasting fire,

So I might have your company in hell,

But to torment you with my bitter tongue!

LUCIUS

Sirs, stop his mouth, and let him speak no more.

Enter a Goth

Third Goth

My lord, there is a messenger from Rome

Desires to be admitted to your presence.

LUCIUS

Let him come near.

Enter AEMILIUS

Welcome, Aemilius what’s the news from Rome?”

LUCIUS

Aemilius, let the emperor give his pledges

Unto my father and my uncle Marcus,

And we will come. March away.

Exeunt”

ACT 5

SCENE II. Rome. Before TITUS’ house.

TAMORA

Thus, in this strange and sad habiliment,

I will encounter with Andronicus,

And say I am Revenge, sent from below

To join with him and right his heinous wrongs.

Knock at his study, where, they say, he keeps,

To ruminate strange plots of dire revenge;

Tell him Revenge is come to join with him,

And work confusion on his enemies.

They knock

Enter TITUS, above”

TAMORA

If thou didst know me, thou wouldest talk with me.

TITUS ANDRONICUS

I am not mad; I know thee well enough:

Witness this wretched stump, witness these crimson lines;

Witness these trenches made by grief and care,

Witness the tiring day and heavy night;

Witness all sorrow, that I know thee well

For our proud empress, mighty Tamora:

Is not thy coming for my other hand?

TAMORA

Know, thou sad man, I am not Tamora;

She is thy enemy, and I thy friend:

I am Revenge: sent from the infernal kingdom,

To ease the gnawing vulture of thy mind,

By working wreakful vengeance on thy foes.

Come down, and welcome me to this world’s light;

Confer with me of murder and of death:

There’s not a hollow cave or lurking-place,

No vast obscurity or misty vale,

Where bloody murder or detested rape

Can couch for fear, but I will find them out;

And in their ears tell them my dreadful name,

Revenge, which makes the foul offender quake.

TITUS ANDRONICUS

Art thou Revenge? and art thou sent to me,

To be a torment to mine enemies?

TAMORA

I am; therefore come down, and welcome me.

TITUS ANDRONICUS

Do me some service, ere I come to thee.

Lo, by thy side where Rape and Murder stands; [os dois irmãos estupradores de Lavínia]

Now give me some surance that thou art Revenge,

Stab them, or tear them on thy chariot-wheels;

And then I’ll come and be thy waggoner,

And whirl along with thee about the globe.”

TAMORA

These are my ministers, and come with me.

TITUS ANDRONICUS

Are these thy ministers? what are they call’d?

TAMORA

Rapine and Murder; therefore called so,

Cause they take vengeance of such kind of men.

TITUS ANDRONICUS

Good Lord, how like the empress’ sons they are!

And you, the empress! but we worldly men

Have miserable, mad, mistaking eyes.

O sweet Revenge, now do I come to thee;

And, if one arm’s embracement will content thee,

I will embrace thee in it by and by.

Exit above”

Whate’er I forge to feed his brain-sick fits,

Do you uphold and maintain in your speeches,

For now he firmly takes me for Revenge;

And, being credulous in this mad thought,

I’ll make him send for Lucius his son;

And, whilst I at a banquet hold him sure,

I’ll find some cunning practise out of hand,

To scatter and disperse the giddy Goths,

Or, at the least, make them his enemies.”

TITUS ANDRONICUS

Long have I been forlorn, and all for thee:

Welcome, dread Fury, to my woful house:

Rapine and Murder, you are welcome too.

How like the empress and her sons you are!

Well are you fitted, had you but a Moor:

Could not all hell afford you such a devil?

For well I wot the empress never wags

But in her company there is a Moor;

And, would you represent our queen aright,

It were convenient you had such a devil:

But welcome, as you are. What shall we do?”

TAMORA

Show me a thousand that have done thee wrong,

And I will be revenged on them all.

TITUS ANDRONICUS

Look round about the wicked streets of Rome;

And when thou find’st¹ a man that’s like thyself.

Good Murder, stab him; he’s a murderer.

Go thou with him; and when it is thy hap

To find another that is like to thee,

Good Rapine, stab him; he’s a ravisher.

Go thou with them; and in the emperor’s court

There is a queen, attended by a Moor;

Well mayst thou know her by thy own proportion,

for up and down she doth resemble thee:

I pray thee, do on them some violent death;

They have been violent to me and mine.

TAMORA

Well hast thou lesson’d us; this shall we do.

But would it please thee, good Andronicus,

To send for Lucius, thy thrice-valiant son,

Who leads towards Rome a band of warlike Goths,

And bid him come and banquet at thy house;

When he is here, even at thy solemn feast,

I will bring in the empress and her sons,

The emperor himself and all thy foes;

And at thy mercy shalt they stoop and kneel,

And on them shalt thou ease thy angry heart.

What says Andronicus to this device?”

¹ Muito estranho que a grafia (os apóstrofos no lugar do ‘e’) variem durante a peça. Será exato?

TITUS ANDRONICUS

Nay, nay, let Rape and Murder stay with me;

Or else I’ll call my brother back again,

And cleave to no revenge but Lucius.

TAMORA

[Aside to her sons] What say you, boys? will you

bide with him,

Whiles I go tell my lord the emperor

How I have govern’d our determined jest?

Yield to his humour, smooth and speak him fair,

And tarry with him till I turn again.”

DEMETRIUS

Madam, depart at pleasure; leave us here.

TAMORA

Farewell, Andronicus: Revenge now goes

To lay a complot to betray thy foes.”

TITUS ANDRONICUS

Fie, Publius, fie! thou art too much deceived;

The one is Murder, Rape is the other’s name;

And therefore bind them, gentle Publius.

Caius and Valentine, lay hands on them.

Oft have you heard me wish for such an hour,

And now I find it; therefore bind them sure,

And stop their mouths, if they begin to cry.

Exit

PUBLIUS, &c. lay hold on CHIRON and DEMETRIUS”

Re-enter TITUS, with LAVINIA; he bearing a knife, and she a basin [como, na cabeça?!]

TITUS ANDRONICUS

Here stands the spring whom you have stain’d with mud,

This goodly summer with your winter mix’d.

You kill’d her husband, and for that vile fault

Two of her brothers were condemn’d to death,

My hand cut off and made a merry jest;

Both her sweet hands, her tongue, and that more dear

Than hands or tongue, her spotless chastity,

Inhuman traitors, you constrain’d and forced.

What would you say, if I should let you speak?

Hark, wretches! how I mean to martyr you.

This one hand yet is left to cut your throats,

Whilst that Lavinia ‘tween her stumps doth hold

The basin that receives your guilty blood.

You know your mother means to feast with me,

And calls herself Revenge, and thinks me mad:

Hark, villains! I will grind your bones to dust

And with your blood and it I’ll make a paste,

And of the paste a coffin I will rear

And make two pasties of your shameful heads,

And bid that strumpet, your unhallow’d dam,

Like to the earth swallow her own increase.

This is the feast that I have bid her to,

And this the banquet she shall surfeit on;

For worse than Philomel you used my daughter,

And worse than Progne I will be revenged:

And now prepare your throats. Lavinia, come,

He cuts their throats

Receive the blood: and when that they are dead,

Let me go grind their bones to powder small

And with this hateful liquor temper it;

And in that paste let their vile heads be baked.

Come, come, be every one officious

To make this banquet; which I wish may prove

More stern and bloody than the Centaurs’ feast.”¹

¹ O Centauro (ou Minotauro, o que é uma figura diferente, mas que às vezes se confunde – um seria um homem-cavalo o outro um homem-touro, o primeiro sendo animal na metade inferior, o segundo no hemisfério superior, isto é, sua cabeça é que seria de touro, enquanto não passaria de um bípede ereto) da mitologia grega que comia virgens entregas como tributo pela ilha de Creta.

ACT 5

SCENE III. Court of TITUS’ house. A banquet set out. [DESFECHO]

LUCIUS

Good uncle, take you in this barbarous Moor,

This ravenous tiger, this accursed devil;

Let him receive no sustenance, fetter him

Till he be brought unto the empress’ face,

For testimony of her foul proceedings:

And see the ambush of our friends be strong;

I fear the emperor means no good to us.”

The trumpets show the emperor is at hand.

Enter SATURNINUS and TAMORA, with AEMILIUS, Tribunes, Senators, and others”

MARCUS ANDRONICUS

Rome’s emperor, and nephew, break the parle;

These quarrels must be quietly debated.

The feast is ready, which the careful Titus

Hath ordain’d to an honourable end,

For peace, for love, for league, and good to Rome:

Please you, therefore, draw nigh, and take your places.”

Enter TITUS dressed like a Cook, LAVINIA veiled, Young LUCIUS, and others. TITUS places the dishes on the table”

TITUS ANDRONICUS

My lord the emperor, resolve me this:

Was it well done of rash Virginius

To slay his daughter with his own right hand,

Because she was enforced, stain’d, and deflower’d?¹

SATURNINUS

It was, Andronicus.

TITUS ANDRONICUS

Your reason, mighty lord?

SATURNINUS

Because the girl should not survive her shame,

And by her presence still renew his sorrows.

TITUS ANDRONICUS

A reason mighty, strong, and effectual;

A pattern, precedent, and lively warrant,

For me, most wretched, to perform the like.

Die, die, Lavinia, and thy shame with thee;

Kills LAVINIA

And, with thy shame, thy father’s sorrow die!”

Que personagem, Shakespeare! Que personagem!

¹ A origem de uma lei romana que inocentou o pai de Virgínia quando este a matou para preservar-lhe a virgindade. Muitos sustentam que Lucrécia e Virgínia não passam de figuras mitológicas.

SATURNINUS

What hast thou done, unnatural and unkind?

TITUS ANDRONICUS

Kill’d her, for whom my tears have made me blind.

I am as woful as Virginius was,

And have a thousand times more cause than he

To do this outrage: and it now is done.

SATURNINUS

What, was she ravish’d? tell who did the deed.

TITUS ANDRONICUS

Will’t please you eat? will’t please your

highness feed?

TAMORA

Why hast thou slain thine only daughter thus?

TITUS ANDRONICUS

Not I; ‘twas Chiron and Demetrius:

They ravish’d her, and cut away her tongue;

And they, ‘twas they, that did her all this wrong.

SATURNINUS

Go fetch them hither to us presently.

TITUS ANDRONICUS

Why, there they are both, baked in that pie;

Whereof their mother daintily hath fed,

Eating the flesh that she herself hath bred.

Tis true, ‘tis true; witness my knife’s sharp point.

Kills TAMORA

SATURNINUS

Die, frantic wretch, for this accursed deed!

Kills TITUS

LUCIUS

Can the son’s eye behold his father bleed?

There’s meed for meed, death for a deadly deed!

Kills SATURNINUS. A great tumult. LUCIUS, MARCUS, and others go up into the balcony”

MARCUS ANDRONICUS

O, let me teach you how to knit again

This scatter’d corn into one mutual sheaf,

These broken limbs again into one body;

Lest Rome herself be bane unto herself,

And she whom mighty kingdoms court’sy to,

Like a forlorn and desperate castaway,

Do shameful execution on herself.

But if my frosty signs and chaps of age,

Grave witnesses of true experience,

Cannot induce you to attend my words,

To LUCIUS

Speak, Rome’s dear friend, as erst our ancestor,

When with his solemn tongue he did discourse

To love-sick Dido’s sad attending ear

The story of that baleful burning night

When subtle Greeks surprised King Priam’s Troy,

Tell us what Sinon hath bewitch’d our ears,¹

Or who hath brought the fatal engine in

That gives our Troy, our Rome, the civil wound.

But floods of tears will drown my oratory,

And break my utterance, even in the time

When it should move you to attend me most,

Lending your kind commiseration.

Here is a captain, let him tell the tale;

Your hearts will throb and weep to hear him speak.”

¹ Quem convence os troianos a abrirem o portão para receber a prenda do cavalo de madeira (Eneida).

Alas, you know I am no vaunter, I;

My scars can witness, dumb although they are,

That my report is just and full of truth.

But, soft! methinks I do digress too much,

Citing my worthless praise: O, pardon me;

For when no friends are by, men praise themselves.”

MARCUS ANDRONICUS

Now judge what cause had Titus to revenge

These wrongs, unspeakable, past patience,

Or more than any living man could bear.

Now you have heard the truth, what say you, Romans?

Have we done aught amiss,–show us wherein,

And, from the place where you behold us now,

The poor remainder of Andronici

Will, hand in hand, all headlong cast us down.

And on the ragged stones beat forth our brains,

And make a mutual closure of our house.

Speak, Romans, speak; and if you say we shall,

Lo, hand in hand, Lucius and I will fall.

AEMILIUS

Come, come, thou reverend man of Rome,

And bring our emperor gently in thy hand,

Lucius our emperor; for well I know

The common voice do cry it shall be so.

All

Lucius, all hail, Rome’s royal emperor!

MARCUS ANDRONICUS

Go, go into old Titus’ sorrowful house,

To Attendants

And hither hale that misbelieving Moor,

To be adjudged some direful slaughtering death,

As punishment for his most wicked life.”

O, take this warm kiss on thy pale cold lips,

Kissing TITUS

These sorrowful drops upon thy blood-stain’d face,

The last true duties of thy noble son!”

LUCIUS

Come hither, boy; come, come, and learn of us

To melt in showers: thy grandsire loved thee well:

Many a time he danced thee on his knee,

Sung thee asleep, his loving breast thy pillow:

Many a matter hath he told to thee,

Meet and agreeing with thine infancy;

In that respect, then, like a loving child,

Shed yet some small drops from thy tender spring,

Because kind nature doth require it so:

Friends should associate friends in grief and woe:

Bid him farewell; commit him to the grave;

Do him that kindness, and take leave of him.

Young LUCIUS

O grandsire, grandsire! even with all my heart

Would I were dead, so you did live again!

O Lord, I cannot speak to him for weeping;

My tears will choke me, if I ope my mouth.¹

Re-enter Attendants with AARON

AEMILIUS

You sad Andronici, have done with woes:

Give sentence on this execrable wretch,

That hath been breeder of these dire events.

LUCIUS

Set him breast-deep in earth, and famish him;

There let him stand, and rave, and cry for food;

If any one relieves or pities him,

For the offence he dies. This is our doom:

Some stay to see him fasten’d in the earth.”

¹ Sem dúvida não importa como intercalemos a leitura desta peça, ficamos exaustos ao final, tantas as lágrimas vertidas!

Ten thousand worse than ever yet I did

Would I perform, if I might have my will;

If one good deed in all my life I did,

I do repent it from my very soul.”

Que falastrão o Seu Arão! E gosta dos números 20 e 10 mil!

As for that heinous tiger, Tamora,

No funeral rite, nor man in mourning weeds,

No mournful bell shall ring her burial;

But throw her forth to beasts and birds of prey:

Her life was beast-like, and devoid of pity;

And, being so, shall have like want of pity.

See justice done on Aaron, that damn’d Moor,

By whom our heavy haps had their beginning:

Then, afterwards, to order well the State,

That like events may ne’er it ruinate.

Exeunt”

GLOSSÁRIO:

adder: víbora

blowse: mulher envergonhada, de face rubra

dainty doe: corça delicada

desert (em Shakespeare): “often deserts

Something that is deserved or merited, especially a punishment: They got their just deserts when the scheme was finally uncovered.” Punição ou mérito.

lark: cotovia

leer: olhar malicioso

maugre: obsoleto para guilty pleasure (prazer culposo, coisa má que defendo com todas as forças, embora talvez um pouco envergonhado, etc.)

peal: ribombar

shive: nesse contexto, rolha

spleenful: irritável(is)

stag: veado

stumps: toco, coto, cotoco

tadpole: girino

taper(s): nas três citações da peça, vela(s)

trull: prostituta, do alemão Trulle

[ARQUIVO] SAÚDE NOS MAUS HÁBITOS

Originalmente postado em 8 de janeiro de 2010. de novembro de 2009. Atualizado em 25 de dezembro de 2023.

Excluindo-se uma piora sensível da saúde, parece concludente que não consigo suportar mais do que 5 dias sem ao menos um cigarro.

Se é verdade que o ser humano viciado tem livre-arbítrio, a escolha é entre:

– sustentá-lo;

– explodir de outras maneiras.

Como as condições vigentes não me permitem exercer as atividades de artista quando eu bem quiser (posso passar imensos períodos lidando apenas com procedimentos burocráticos), isso significa eminentemente: duelos familiares. Muitas acusações e nenhum resultado.

Portanto, sei que minha garganta se condói, e o calor é infernal, mas a carteira deve estar sempre à mão. Horas em que morar sozinho não é só ilusão de autonomia…

Ciclo semanal (esse que só eu percebo):

inviabilização do fumo principalmente na dolorosa terça-feira. Prerrogativas, prerrogativas… Canário que não sou…

De resto, parece um paliativo ao efeito Diogo. Mal-aproveitado até aqui. Fumar com música e fumar em silêncio: ambos me agradam.

Apenas não esquecer que até os doentes têm uma saída…

[ARQUIVO] HOMEM-BORRACHA hombre borracho

Originalmente postado em 4 de novembro de 2009. Retocado em 25 de dezembro de 2023.


Especialização: que papinho ridículo de porteiro semi-letrado-afilhado!

O mestre-psicólogo com bacharel em sociologia: brindado com o descrédito, o tabu, portas na cara.

Cara bonita, letra bonita.

Você vai atender os loucos? Engana-se quem pensa no anti-boêmio.


RIR & RECEBER

Salário

Já estou pago

Ora, vim ao mundo nu

Paraíso das almas de mendigo

Sou um Sócrates

Um maduro

Mas não farto

Faltam alguns

(desobrigados) partos.


Quantos alimentos minhas paredes podem suportar

Antes de dissolver com a própria comida vermífuga

(sim, porque essa carne exótica os mata, Dr. Benway!)


Rendered useless to mankind

destroy the logic volume

in the confines of the mind.

I saw tomorrow becoming today

Pântano de lixo curioso e danoso

O mundo é uma bola jocosa


7 anos debaixo dos panos

101 110 160 o quanto o motor

bitolado agüenta

gasto de folhas

cigarra fanha festa celulóide

Meu próprio enigma –

[ARQUIVO] CONSTANTINO SEVERINO, O FUMANTE

Originalmente postado em 5 de novembro de 2009. Retocado em 25 de dezembro de 2023.

Constantemente tragando através de um terceiro olho. Na verdade de uma chupeta. Bem o que uma criança deve fazer.

Mais um blasé

Música quadrada Prodigy não podia faltar

A aposta entre deus e o diabo – humano campo neutro

O olho do gato

Carros velhos retorcidos orcs

O seu destino é o meu destino?

Ele se sente tão cansado quanto eu. Apuro para essas novas coisas.

Híbridos vomitados neste mundo e o rebotalho espertalhão

O filho rebelde do filho rebelde é o santo

Que a casa transtorna

Mosc’azul blockbust’encial

Wasteland

Alguém é blasé só até conhecermos melhor? Idade dos homens-capa. Desembrulhei todos até agora.

como andar de bicicleta” – eu tenho certeza que ressuscitei num corpo novo.

the black guy

O lamacento presidiário italiano de Prison Break

Como você efetuou suas escolhas profissionais?

[ARQUIVO] PARTICIPAÇÃO EM SUBLEVAÇÕES II

Originalmente postado em 7 de janeiro de 2010.

Ah, se apenas me afetasse!

Lembro do bloqueio do trânsito (da reflexão? Modo de ficar bêbado de cara limpa.) da W3 no 1º mês do CEUB: aquela censura poderia num curto espaço de tempo redirecionar minha carreira…

Vejamos se fosse hoje e com um texto realmente meu: eu me limitaria a assistir e a agradecer àquele bando de jovens, torceria mesmo para outros se juntarem. Além do mais havia ali outra incumbência: a de “noticiar” (até “participar”!) do representante de turma… Eu via muitos burgueses, não esse tipo de playboy sujismundo artificial da UnB.

Para não discutirmos acerca de duas medidas, o que é que geraria um efeito parecido?

R: Se suprimissem a licenciatura, a-rá!

Há muita coisa pela qual eu faria isso – mas dançando…

Que aula mais monológica!

[ARQUIVO] IMPOSSÍVEL SER CLÁSSICO (no senso nietzschiano)

Originalmente postado em 2 de janeiro de 2010. Atualizado em 25 de dezembro de 2023.

Já abdiquei desse intuito nostálgico. O metal e seu caráter iconoclasta não poderiam existir sem que se estivesse “perdendo o jogo”, e os gregos não o estavam… Minha condição de duplo gauche não é por acaso. Há ainda o cigarro, as pernas fracas que não me permitem sonhar sequer com caminhadas homéricas montanha acima ou simples trilhas cachoeiras abaixo. Sou um simplório, mas um grande simplório! Não estou em busca de uma nova arte sublime, mas estou interessado tão-somente em chegar às culminâncias entrópicas do desenvolvimento de uma das mais antigas, uma bem judia… Para isso eu não preciso ser um anjo, aliás, pairar tão além do bem e do mal a ponto de subverter a ascese pela própria ascese!

[ARQUIVO] O ÓRFÃO

Originalmente postado em 30 de dezembro de 2009. Atualizado em 24 de dezembro de 2023, incluindo a revelação, via tratamento artístico, da inspiração ficcional que percorre o texto – a conhecida opressão dos saiyajins pelo monstro Freeza (o que não quer dizer que meu pai não seja um tirano) e seu melancólico final…

Querer o mal de um filho é muito mais cruel e insidioso do que desejar o mesmo para um pai? E quando essas não são as intenções declaradas, mas há a verificação desse prejuízo, de igual modo? Dolo ou culpa importa aqui? Não posso carregar o mundo nas costas!

Aquele que se volta contra quem o pôs no mundo, o lugar de onde afinal saiu, desencadeia um contra-senso fisiológico, mas se auto-golpear-se é possível e até mesmo bem razoável, essa cena trágica se mostra quase que uma regra, com regularidade na História. Há aí um despeito provocado por antecedentes, coisas que não dizem respeito ao ente desafiante. Assim parece ser com todos os homens desde Adão, a erguer a vista para os céus e indagar: “Por quê, Deus-Pai?”. Postura compreensível, se bem que o fim seja tristonho. A humanidade ainda não é forte e estabelecida o suficiente para sair do quintal de casa? Prefere ser tiranizada pelo dono do barro que a moldou? Fim da adolescência: momento de passos hesitantes, será que dá pra ir?, e se quiser voltar? Insustentável… “É terrível! Ele foi cortado em dois!” As histórias de rebeldia juvenil, escravização intra-genos/clã e tentativa de parricídio me atraem…

O sujeito que decide atacar, menospreza em demasia ou fere de fato a própria criatura que inseriu no mundo – essa é uma maldade genuinamente nascida ali, sem antecedentes, gerada numa realidade em corte, independente das situações antigas… porque aí recairíamos no problema do rabo da cobra! Que espécie de covardia louca é essa? Há mais tempo no mundo, muito mais chances de vencer! Provocar um inimigo que a gente sabe que vai derrubar. Existe algum mérito nisso? Em última instância, o filho está sempre num beco sem-saídas… a menos que haja um deus ex machina – mas se Deus é o inimigo! O ódio do filho contra o pai é sempre mais inocente, porque foi estimulado pela faísca pervertida do mais poderoso! Em nenhuma época uma classe mais alta cedeu caminho voluntariamente à mais baixa. A passagem de cetro é traumática. E se cada família, ou determinado número de famílias, for essa história do universo em microcosmo? Mas o filho não mata o pai! Ele furta o lugar do pai: “a cabeceira da mesa é minha!”. O último filho… é um sortudo ou um azarado? Às vezes o ar rabugento e despretensioso do dia a dia acaba levando à esterilidade do próprio sistema reprodutor, da própria extensão do sistema reprodutor! O egoísmo e a cegueira que fatiam inclusive o derradeiro tablete de carne, fazem respingar o último filete de sangue! Uma raça que já sofreu deveras!

Fazer mal inconscientemente não é desculpa. Parece que esse sempre foi o problema: títulos e fachadas. O mundo seria menos bárbaro se houvesse menos santos. No momento em que vem à tona o que a divindade fez… ela tem que se emendar! Se Ele resolve dissimular a tranqüilidade de um dia após o outro rumo ao infinito e não presta contas dos próprios atos, não pode haver mais mundo, senhor de que inteligência? Tombo, amargura e leito de morte. Os dinossauros se extinguiram por ambíguas imprudência e frieza glacial.

Vou narrar a história de um filho adotivo e orgulhoso de sua origem supostamente real, em algum confim do universo… Seu pai – o único de que se recorda – era um homem muito rico que odiava compartilhar as suas posses. Seu filho foi educado para construir seu próprio império a sua maneira, única forma de demonstrar seu valor e pedigree. Mas ai! O mundo muda! Se torna mais duro e impressionante, sob o preço de enfraquecer seus habitantes! O que o mais antigo fez, o novo e ainda valente já não podia! Pois cortam suas asas… O príncipe era sistematicamente humilhado pelo Rei na frente de seus humildes servos e também diante de seus asseclas, os nobres da côrte.

E sob as vistas, outrossim, dos amigos daquele. E como tais rapazes eram em parte afetados pela depreciação e pelas grosserias perpetradas pelo todo-poderoso, se solidarizavam. Assim ocorre com os mais fracos – se juntam para sofrer em bando. Foram formuladas as promessas de um destino melhor: ter, conquistar o império. E não devia haver mais impérios, aquele era o único, já englobava tudo! Para isso, o eterno empecilho teria que ser afastado! Isso era uma labuta incalculável. A muito custo, só se podia amealhar parcas migalhas… ah, mas se se era tenaz, e sangue daquele sangue… O mais perigoso era, ainda antes da idade, crer que descobriu um atalho. Não há atalhos para o Grande Poder! E nem satisfaz ser o segundo em Roma.

Foi aí que aconteceu de encontrar, em meio às peregrinações pelas províncias, um outro aventureiro-solo bastante combativo. Talvez fosse outro deserdado, a crescer longe dos auspícios do pai. Fato é que tinha muita sede de alguma coisa. O príncipe e seu bando viraram inimigos desse guerreiro e salteador anônimo. Pensando bem, tudo que esse tipo devia querer eram boas histórias para contar aos netos. E o bando principesco foi aniquilado por este inusitado personagem até o protagonista de nossa lenda se encontrar terrivelmente solitário.

Sem poder vencer seu adversário, mas tendo, em contrapartida, eliminado muitas vidas e deixado o algoz alquebrado, partiu em debandada. Orgulho ferido e, ambivalentemente, ampliado – era só cicatrizar as feridas. Tinha rompido com o pai, não pretendia mais se sujeitar aos caprichos e despotismos do Rei, mas precisava de seus médicos. Felizmente, descobriu que ele estava em viagem ao chegar ao seu palácio e, como fosse muito querido ali, dele cuidaram em segredo. O que de sua cabeça tomava conta era um misto de sensações estranhas… Do cumprimento final de seus planos à simples realização da vingança contra o último verme que se lhe opôs e o deixou nesse estado. Até que desse choque de idéias brotou uma conveniência.

Uma iluminação! Reordenar os peões, convocar os traidores, promover fissuras nas fileiras do exército paterno, torná-lo vulnerável a ameaças externas, ver o céu azul transmutar num verdadeiro caos de deposição de governo! Tudo isso graças ao forasteiro petulante! Iria pedir uma trégua. Seu sangue azul se enojava, mas era por nobre causa! Finalmente se aproximava, o dia com que tanto sonhara!

O príncipe e o forte guerreiro em farrapos e sem status, que só podia contar com a bravura, estabeleceram aliança. Um novo equilíbrio de forças era necessário para matar o Rei. Cheio de artimanhas e de astúcia, o príncipe agiu nos bastidores o quanto pôde e minou as forças da base de sustentação da Coroa de seu padrasto. O resto teria de ser em um duelo franco, mas se imaginava que um capitão resfriado já não podia com uma nau prestes a virar! Assim latejava o pulso do príncipe-escravo, à beira da planejada assinatura da alforria… Tantos anos pela frente para praticar o que quisesse, sem a “intervenção divina”!

O seu auxiliar, que com ele dividiria a vitória, não era problema para agora. Não havia espaço em seu coração mutilado pelo fado do berço! Na batalha final, o cruzamento crepuscular entre as hostes insurgentes e a cavalaria oficial, a exibição cavalar e inesperada de um poder que se mantinha latente só para enganar os jovens e os de memória desafortunada… Era assombroso o que o Rei era capaz de fazer. Depois de tantos anos, esmagaria o ingrato do filho adotivo, junto com aquela raça de depravados e taberneiros que levava consigo. A abelhinha e o enxame. Mas não podiam fazer muito mal. Eram insetos contra o “homem mais rico” – é ganancioso. A crueldade monstruosa vem sempre do mesmo lado. Do lado de quem está ganhando. E a justiça é medida em atos: quem morre merece morrer.

Por isso, meus irmãos, é que eu disse que inexistem atalhos. E o penetra plebeu não é alvo de nosso conto nuclear e de intrigas entre gerações, por isso não nos importa o que lhe aconteceu. Resta que o espectador saiba: o filho fracassou por subestimar aquele ímpeto oculto de alguém que ainda se mantém de pernas fortes e que já foi filho um dia. Na decisão, a diferença de forças flagrante paralisou os músculos do príncipe. Um ex-herdeiro angustiado, derramando suas primeiras lágrimas, em prantos, ou nem isso, pois perdeu a vontade de tudo. A marreta desce-lhe cachola abaixo. Estatelado, ainda grita encolerizado para o reino do nada o seu estribilho de oprimido. A última cólera. Que lhe estiola a alma, exaure o naco reserva de energia para soerguer-se e tentar lutar. Pouco importa. Nenhuma quantidade de esforço empregado surtiria efeito, o outro lado resistirá incólume. Esse é o superlativo da anemia e do fracasso, e da náusea, para quem lê. Uma vítima – desenhada desde os tempos antigos? A estrela não brilhou para este Édipo pela metade. Não era hora de arriscar.

Não agora, não ainda!

Por que montanhas levam milênios para se porem duras – e o caráter leva um pouco menos…

E a vida do Rei não perdeu o sentido, porque na posteridade haveria uma legião de descontentes de quem cuidar – talvez nos dois sentidos, bajular, absorver, converter, depois estar pronto para quando a cria resolver se desvencilhar, contra-atacar, arremessa-lo de encontro às pedras! –, muitos noviços e imprudentes, impacientes para tomar o lugar deste Júlio César de outras galáxias! E o hábito afia o tirano!

Consolo: no tempo apropriado, até o juízo de reis vacila, cambaleia, a justiça trai a pujança ancestral. A digestão do ódio não é imediata!