[ARQUIVO] A ESTRADA ASSASSINA (Tradução de The Killing Road do Megadeth)

De novo nos cercamos ao palco

Na velocidade do som nós vamos

Alimentando o ímpeto do povo

O gato grande deixou a sua jaula

De novo no ônibus

Pra pegar outro avião

Esse comportamento é doentio

Mas fazemos isso pela fama!

Eu perdi minha cabeça, eu perdi meu dinheiro (!?)

Eu perdi minha vida para a estrada assassina

A estrada nunca vai acabar

Sempre começa de novo

Outro show envolve a tensão

Outro grande amigo perdido

Sem expressão, como a neve

Não tem nada de mais na estrada

É só mais um esforço

É só que é muito comprida, isso é tudo

5 de fevereiro de 2011

AS AVENTURAS DE TOM SAWYER

PRIMEIRO CAPÍTULO

old fools is the biggest fools there is. Can’t learn an old dog new tricks, as the saying is.”

tolo velho é os mais tolos que tem. Não pode cachorro velho aprender truque novo, como diz o ditado.”

Spare the rod and spile the child, as the Good Book says.”

Deixa pra lá’ vara e’straga’ criança, como diz na Bíblia.”

ele é o garoto da minha falecida irmã, tadinho, não tenho coragem de surrá-lo. Toda vez que deixo barato, minha consciência dói, e toda vez que o castigo meu coração só falta espedaçar. Seja como for, homem que nasceu de mulher vive pouco e cheio de problema e aflição, como diz o Livro Sagrado, e assim creio.”

É mui difícil fazer ele trabalhar sábado, quando todo outro garoto dá de descanso.”

Em 2 minutos, ou talvez menos, ele esqueceu todos os seus problemas. Não porque seus problemas fossem agora um iota a menos em carga e amargura, como são os problemas para os homens, mas porque outro interesse, forte e novo, obnubilou-os de sua mente por ora – como as desgraças dos homens são olvidadas na excitação de novas empreitadas.”

Ele se sentiu como um astrônomo se sente quando descobre um planeta novo – sem dúvida, tanto quanto prazeres podem ser puros, profundos e poderosos, a vantagem estava com o garoto agora, não com o astrônomo!”

Alguém novo de qualquer idade e qualquer sexo era a curiosidade mais incrível na pobre e arruinada cidadezinha de St. Petersburg.”

– Posso te bater!

– Vamos ver se tem coragem!

– Posso fazer sim.

– Não, não tem coragem.

– Posso!

– Não pode!

– Posso.

– Não!

Uma pausa desconfortável. Então Tom abriu o bico:

– Qual seu nome?

– Não é da sua conta, talvez.

– Hmm… Tá bom, mas vou fazer ser.

– Então por que não faz?

– Se é o que você quer, tá feito.

– Ó, muito, muito, muito. Como despertou meu interesse.

– Ah, se acha muito esperto, né? Podia te derrubar com uma mão amarrada nas costas, se eu quiser.

– Então por que não derruba, você diz que pode.

– E eu vou, se você vacilar.

– Ah, não é o primeiro nem o último que canta de galo.

– Espertinho! Se acha, né, né não? Vai pa’ casa do chapéu, fi’.

– Chapéu. Tenta amassar esse ‘chapéu’ se você é o cara. Eu te desafio. Eu te desafio a amassar o meu chapéu. Nem é tocar em mim. O primeiro que tentar vai bancar o trouxa.

– Você é um mentiroso!

– E você outro.

– Você chama pra briga mas na hora amarela.

– Vai ver se tô na esquina.

– Vem cá – se você me dá mais uma dessas respostas vou tacar uma pedra na tua cabeça!

– Ah, sim, claro.

– Eu vou.

– Então… Taca, fazendo favor. Pra que você fica dizendo tudo que quer fazer? Por que não faz em vez? É porque é menino medroso.

– Não sou medroso.

– É.

– Não.

– Você é.”

– Dá o fora!

– Vai você primeiro!

– Não.

– Eu também não.”

– Você é um covarde e um pirralho. Vou dar o recado pro meu irmão mais velho. Ele pode te arrebentar com o mindinho. E eu vou falar pra ele fazer isso.

– E eu com teu irmão mais velho, cria? Meu irmão é maior que o teu. Ele pode atirar o teu por cima daquela cerca ali. (Ambos os irmãos eram imaginários.)

– Tá mentindo.

– Só porque você diz que tô mentindo não quer dizer que tô mentindo.

Tom riscou uma linha na poeira com seu dedão, e disse:

– Eu te desafio a pisar nessa linha. Se pisar vou te moer de pancada até ficar no chão. É a mesma coisa que tentar roubar uma ovelha dum rebanho. Vai pagar.

O novo menino logo pisou a linha, e retrucou:

– Agora que você disse que ia fazer, mas ver você fazer.

– Não chega perto, truta, tô avisando.

– Você já avisou mil vezes. Por que não pára de avisar?

– Desafiou! Faço até por 2 centavos, fi’.

O novo menino pegou dois moedões do bolso e os segurou em provocação. Tom deu um tapa e os derrubou no chão. Num instante os dois garotos rolavam agarrados na terra, impossíveis de desembolar, como dois gatos. E por bons 60 segundos cada um puxou e torceu o cabelo do outro, as roupas do outro, socou, arranhou o nariz, e cada um se sujou com glória o mais que pôde. A confusão estava armada, já não se via mais nada na poeira. Depois, a silhueta de Tom surgiu primeiro do bololô, triunfante, montado no novo garoto. Tom é quem socava.

– Grita ‘desisto’!

O menino se limitava a tentar se livrar de Tom. Já chorava – principalmente de raiva.

– Grita ‘desisto’! – e continuava com seus socos.

Finalmente o estranho cedeu e gritou seu DESISTO. Tom deixou ele se soltar e se erguer e disse:

– Aprendeu a lição. Melhor prestar atenção com quem vacila na próxima, fi’.

O novo menino saiu sacudindo e batendo a roupa tentando deixá-las o mais brancas, gemendo, convulsivo, seu fim de choro, fungando e olhando para trás de vez em quando e balançando a cabeça para ameaçar Tom: dá próxima, você tá ferrado! Tom respondeu com risadas, e se pavoneou todo. Assim que Tom virou as costas levou uma pedrada do garoto, acertando-o entre os ombros. O menino recuou num átimo e correu feito um antílope. Tom o perseguiu até em casa, e descobriu onde morava. Espreitou perto dos portões um tempo, como que desafiando o outro a sair, se ousasse. Mas o menino só estava interessado em fazer-lhe caretas pela janela. Já havia desistido. Por fim apareceu a mãe do rival, chamando Tom de mau, vicioso, criança vulgar, e ordenou que desse no pé. Assim Tom fez, mas dizendo que estava ansioso para agarrar de novo seu algoz.

Ele chegou em casa bem tarde aquela noite, e quando escalou com cuidado até a janela descobriu uma embocada, isto é, sua tia, esperando-o. E quando ela notou o estado de suas roupas se decidiu a tornar o sábado festivo do garoto em cativeiro e trabalho duro, sem falta.

SEGUNDO CAPÍTULO

Ela! Ela nunca trisca em ninguém – nem dar um cascudo na cabeça com aquele dedal – e quem é que liga, tô curioso pra saber. Ela fala feio, mas fala não ofende – pelo menos se ela não fala chorando. Jim, você vai ver uma maravilha. As melhores bolinhas de gude!

Jim começou a ceder.”

Existem gentlemen ricos na Inglaterra que dirigem carros de 4 cavalos de 20 a 30 milhas diariamente, no verão, em estradas reservadas para a elite. Ricos, porque o privilégio lhes custa um bom dinheiro! Mas pense: se lhes fosse oferecido ordenado pelo serviço, isso se tornaria um trabalho, coisa de lacaio, e dele abdicariam.”

TERCEIRO CAPÍTULO

ele se sentou num tronco à beira do rio e contemplou a monótona vastidão da corrente, desejando, quase inconscientemente, na verdade, se possível, se afogar e ali ficar, assim sem mais nem menos, para não necessitar passar pelas rotinas incessantes programadas pela natureza.”

QUARTO CAPÍTULO

Tom gastou todas as suas energias para decorar 5 versos, e escolheu parte do Sermão da Montanha, porque não encontrou versos mais curtos. Depois de meia hora Tom tinha uma vaga idéia geral de sua lição, mas nada mais; sua mente atravessava todo o campo do pensamento humano, e suas mãos se encontravam ocupadas em distrações recreativas. Mary pegou seu livro para ouvir-lhe a recitação, e Tom tentou percorrer o caminho de volta em meio à neblina:

– Abençados são os-ã-ã—

– Pobres-

– Isso – pobres; abençoados são os pobres em espírito, pois eles-eles—

– É deles…

– Pois é deles. Abençoados são os pobres em espírito, pois é deles o reino dos céus. Abençados são aqueles que lamentam, porque eles-eles—

– De-

– Porque eles-ã-ã—

– D, E, V,…

– Porque eles D, E – Ai, eu não sei o que é!

– Devem!

– Ah, devem! Porque eles devem – porque eles devem-ã-ã-devem… lamentar-ãã-ãã-abençoados são aqueles que devem—aqueles que—ãã—aqueles que devem lamentar, porque eles devem—ãã—devem o quê?! Por que você não me diz, Mary? – pra que tanta crueldade?

– Ah, Tom, pobre Tom cabeça-de-vento… Não faço por mal. Não é do meu feitio. Você deve se concentrar e tentar aprender outra vez. Não se desencoraje, Tom, você vai conseguir! – e se conseguir, vou dar-lhe um presente. Um presente que você irá gostar. Tudo bem, Tom, Tom, bom menino.

– Tá bom, Mary, mas o que é então, me fala o que é.

– Nada de mais, Tom. Só que quando digo que você irá gostar, saiba que é a verdade.

– Aposto que sim, Mary, eu acredito. Eu vou tentar de novo!

E Tom “tentou de novo” – e sob a dupla pressão da curiosidade e da esperança do ganho ele tentou com tanto espírito que obteve um grande sucesso. Mary deu-lhe uma Barlow¹ novinha em folha, vendida a 12 centavos e meio. As convulsões de alegria de Tom sacudiram seu sistema até seus fundamentos. (…) É claro que essa faca não tinha fio nenhum, mas “com certeza era” uma Barlow, e havia uma grandeza inconcebível nisso – embora fosse um mistério essa noção dos meninos ocidentais de que esta faca pudesse ser falsificada só para seu descontentamento ao arranjar uma Barlow que não fosse uma Barlow… Foi e deverá continuar sendo eternamente um mistério.”

¹ Uma faca negra famosa à época, uma das primeiras de seu tipo: uma faca de bolso, que hoje chamaríamos de canivete, pois a lâmina era retrátil em relação ao cabo de madeira.

ele achava que cachos eram algo afeminado, e seus próprios cachos enchiam-no de amargura”

Ele se encontrava tão desconfortável quanto aparentava estar. Havia qualquer coisa que tornava rapazes rígidos em trajes completos e tão asseados. Ele desejava que Mary esquecesse seus sapatos, mas sabia que era um desejo destinado ao fracasso; pois ela os ensebou bem-ensebados, como era o costume, e os retirou do guarda-roupa. Ele perdeu as estribeiras e gritou que sempre era forçado a fazer o que não queria.”

e as três crianças partiram para a missa de domingo – uma cerimônia que Tom odiava com todo o coração; já Sid e Mary adoravam a ocasião.

As horas do Sabá iam de 9 às 10:30. E depois o serviço da igreja. Duas das crianças sempre permaneciam para o sermão voluntariamente, e os outros também permaneciam – por razões de força maior.”

Todas as classes de Tom tinham o mesmo padrão – agitadas, barulhentas, problemáticas. Quando a turma recitava as lições, nenhum aluno sabia seus versos direito, tinha que recebê-los soprados.”

Quantos de meus leitores teriam a indústria e a aplicação para memorizar 2 mil versos, ainda que fosse por um exemplar da Bíblia de Doré?¹ E não obstante assim foi que Mary ganhou duas Bíblias de Doré – um paciente trabalho de 2 anos – sem falar no garoto de ascendência alemã que ganhou quatro ou cinco delas! Uma vez ele recitou 3 mil versos sem parar; mas o esforço custou a suas faculdades mentais, e ele era pouco mais que um rapaz idiota desse dia em diante – uma calamidade para a escola, uma vez que, em ocasiões especiais, diante de grandes públicos, o superintendente (como Tom mesmo falava) invariavelmente chamava o mesmo rapaz para ‘exercitar-se’.”

¹ Gustave Doré (1833-1883) não só ilustrou várias passagens da Bíblia como famosamente passagens da Divina Comédia de Dante.

Quando um superintendente de missa de domingo faz sua costumeira pregação, um livro de salmos à mão é uma necessidade incontornável, igual escrituras musicais para um cantor que desempenhará um concerto-solo. Se bem que por que isto é assim é que não sabemos: nem o solista nem o superintendente fazem uso, realmente, dos papéis a sua frente.”

O homem de meia-idade revelou-se um personagem prodigioso – nada menos que o juiz do condado – a mais augusta autoridade que essas crianças já haviam contemplado na vida – e as crianças se perguntavam de que ele era feito – simultaneamente queriam que ele esbravejasse e discursasse, mas temiam-no também ao máximo. Ele era de Constantinopla, a 12 milhas dali – é o quanto ele tinha viajado – uma enormidade, percorrendo o mundo – esses mesmos olhos já se tinham posto sobre a côrte do condado – que, diziam, tinha um telhado de metal.”

O bibliotecário ‘se exibia a todos’ – correndo de lá pra cá com vários livros em punho, aproveitando-se de cada burburinho e algazarra, que autoridades-insetos sempre acolhiam como bom sinal. As jovens professorinhas ‘se exibiam a todos’, inclinando-se com meiguice sobre alunos atrasados para compor as filas, erguendo dedinhos deliciosamente advertidores aos menininhos mais malvadinhos e acarinhando os menininhos mais bonzinhos na mesma medida, afetuosamente. Os jovens professorzinhos ‘se exibiam a todos’, com pequenas broncas e outras exibições de autoridade, manifestações de atenção em disciplinar qualquer polegada em seu entorno. E, sobretudo, professorzinhos de ambos os sexos sempre achavam que fazer à biblioteca, ou então perto do púlpito. Eram sempre emergências e que necessitavam ser refeitas uma, duas vezes até. Havia muito apuro nessas providências candentes. As menininhas ‘se exibiam a todos’ de várias formas, e os menininhos ‘se exibiam a todos’ com tamanha diligência que o ar parecia mais carregado do que nunca de papéis e brochuras importantes e dos sons de disputas controladas, limitadas a murmúrios. E acima de tudo o mais o grande homem sentado e a emanar um majestoso e judicial sorriso para a contemplação dos presentes, aquecendo-se no sol de sua própria importância – porque sem dúvida ele também estava ‘se exibindo a todos’.”

E agora, quando não havia mais esperanças, Tom Sawyer se pôs à frente com nove bilhetes amarelos, novo vermelhos e dez azuis, e requereu sua bíblia. Foi um trovão em pleno céu aberto. Walters jamais esperava uma aplicação dessa proveniência pelos próximos dez anos. Mas não havia nem como duvidar – ali estavam todos os bilhetes certificados, e Walters os inspecionou e não encontrou nada de errado. Tom foi elevado, perfilado com o juiz e os demais vencedores, e as grandes notícias logo tomaram a vila. Foi a maior surpresa da década, tão profunda sensação causou nos moradores o novo herói, investido agora da proteção até da autoridade judicial. A escola tinha não só uma maravilha, a autoridade, mas duas para contemplar aquele domingo. Todos os meninos se mordiam de inveja – mas quem mais se angustiou foram os que se aperceberam tarde demais que contribuíram diretamente para esse esplendor odioso, trocando seus próprios cartões pela riqueza que Tom acumulara vendendo sua cal. Esses agora menosprezavam a si mesmos, como os tolos do mais capcioso ardil, da cobra no jardim que seduziu-os todos.

O prêmio foi entregue a Tom com tanta efusão quanto o superintendente era capaz de demonstrar; só faltou talvez aquela reverência ou bajulação devida a um legítimo ganhador, porque os instintos do pobre senhor adivinhavam a existência de circunstâncias misteriosas rondando a ocasião, impossíveis de resolver em tão pouco tempo. Era ilógico imaginar que esse garoto tinha registrado na cabeça duas mil linhas da sabedoria das Escrituras – uma dúzia só já parecia exceder seus limites, disso o superintendente não tinha dúvida.

Amy Lawrence era só orgulho e contentamento, e ela tentou chamar a atenção de Tom como pôde para demonstrar-lhe – Tom, todavia, nem a olhava. Ela se pôs pensativa, espantada mas introspectiva. Com os minutos foi-se pondo desconfiada. A seguir, tentava se prender a alguma hipótese pouco nobre. Observava furtivamente como quem devia entender o inexplicável focando o olhar em qualquer coisa no salão. Foi então que seu coração partiu, sentiu ciúmes, revolta, lágrimas jorraram e passou a odiar todos em volta. Tom principalmente (ela assim pensava no momento).

Tom foi apresentado ao juiz. Sua língua se encontrava travada. Seu fôlego era escasso, o ar vinha com dificuldade. Seu coração chacoalhava – parte pela grandeza do homem, parte porque ele era o pai da menina. Ele teria adorado se prostrar e adorar este homem, se fosse no escuro e ninguém pudesse ver. O juiz colocou a mão na cabeça de Tom e disse que ele era um belo dum rapazinho, perguntando em seguida seu nome. O rapazinho balbuciou, engasgou, mas conseguiu emitir:

– Tom.

– Ah, Tom não, deve ser—

– Thomas.

– Isso! Foi o que pensei, que era um nome mais longo. Mas eu ouso dizer que ele é ainda mais longo, não? Não quer dizê-lo por completo?

– Diga ao senhor seu outro nome, Thomas – disse Walters, – e diga ‘senhor’. Não esqueça das maneiras!

– Thomas Sawyer – senhor!”

– Creio que você não se importe em contar a mim e a esta dama algumas das coisas que aprendeu. Não, tenho certeza que não se importaria! Pois temos muito orgulho de jovens que aprendem bem. É evidente que você sabe o nome dos doze discípulos, não é assim? Por que não diz, por exemplo, o nome dos dois primeiros que foram nomeados pelo Senhor?

(…) As tripas do senhor Walters deram um nó. Ele disse a si mesmo: é impossível que o garoto responda a mais simples das questões! Por que o juiz foi perguntá-lo? Assim mesmo ele se sentiu na obrigação de falar algo, e interveio:

– Responda o juiz, Thomas – nada receie!

A garganta de Tom ainda parecia arder em chamas.

– Ah, eu sei que você sabe – atalhou a dama. Que os nomes dos dois primeiros discípulos eram…

Davi e Golias!…

Baixemos as cortinas da cortesia e da caridade sobre a continuação desta cena.”

QUINTO CAPÍTULO

Tom não tinha cachecol. E achava que os meninos que tinham era uns esnobes.”

Havia, há certo tempo, um coro de igreja que não era nada mal, mas esqueci onde ele ficava. Isso foi há muito tempo. Lembro apenas de soslaio, mas devia ser num país estrangeiro.”

Nas reuniões sociais da igreja ele sempre era chamado para declamar poesia; e assim que ele terminava as madames erguiam suas mãos só para deixá-las recair sobre seus colos, depois tapavam a vista, de repente úmida, vibravam as cabecinhas, como que querendo dizer que palavras não podiam expressar o que sentiam. Tão belo, belo DEMAIS para este mundo mortal.

Depois de cantado o hino, o Reverendo Senhor Sprague se dirigia a um quadro de avisos e lia lembretes de encontros e cerimônias da comunidade e mais este e aquele jantar beneficente, até que a lista parecia que iria até o juízo final e… um costume estranho, talvez ainda corrente na América, mesmo nas cidades, subsistente nessa idade dos jornais… Muitas vezes quanto menos razões há para preservar um costume, mais difícil é se livrar dele!

O ministro então passava a rezar. Uma oração boa e generosa. Muito específica: pedia o bem da própria igreja, o bem das criancinhas da igreja, o bem das outras igrejinhas do vilarejo, o bem do vilarejo em si, o bem da prefeitura, o bem do estado, o bem dos funcionários do estado, o bem Estados Unidos da América, o bem das igrejas de todos os Estados Unidos da América, o bem do Congresso, o bem do Presidente, o bem dos funcionários do governo norte-americano, o bem dos pobres marinheiros, à mercê de tempestades marítimas, o bem de milhões oprimidos e gemendo sob a tirania dos monarcas europeus, e também dos déspotas do Oriente, o bem a todos os que têm em si a luz da razão e uma boa alma, mas que ainda não têm olhos para ver nem ouvidos para ouvir, por assim dizer; o bem dos pagãos nas ilhas mais remotas; e fechava, esta oração bem-feitinha, com uma súplica para que as palavras que ele acabava e que ainda ia acabar de dizer fossem agraciadas com o favor divino, como sementes num solo fértil, fortalecendo, devagar e com o tempo, o bem, frutificando as coisas boas deste mundo maravilhoso. Amém.”

ele considerava acréscimos injustos e torpes. No meio da pregação uma mosca pousou na parte de trás do banco justo diante de si. Uma mosca que parecia torturar seu próprio espírito como um crente em penitência. Esfregava calmamente as patas, depois esfregando-as na cabeça, tão vigorosamente que a cabeça parecia se descolar do corpo – o fio que era o pescoço da criatura se pôs à mostra. Raspando as asas com suas patas traseiras, aplainando-as com o resto de seu corpo, parecia agora que a mosca vestia um fraque. E seguia nessa espécie de higiene individual com a tranqüilidade de quem se sabe segura. De fato a mosca estava plenamente segura. Não importa quão intenso fosse o ímpeto das mãos de Tom, se coçando para esmagar ou espantar aquela mosca, Tom acreditava que sua alma seria sumariamente destruída no caso de cometer tal ato durante o sermão.”

O ministro não só leu toda sua exortação costumeira como seguiu, no tom monocórdio possível, auto-resolvendo um argumento tão prosaico, na continuação da leitura, que não foram poucas as cabeças que começaram a pescar – e não deixava pela mundanidade de ser um argumento envolto em fogo imorredouro e enxofre e parecia reduzir a casta dos predestinados a uma companhia tão pequena que, no fim das contas, não valia o esforço da redenção. Tom contou as páginas do sermão. Depois da igreja ele sempre sabia quantas páginas haviam no discurso, porque ele se concentrava em contá-las; mas nada do conteúdo lhe era familiar.”

Tom olhou, e esperou. Mas estava fora de alcance. É de confessar que outros fiéis desinteressados do sermão encontraram alívio no besouro, e passaram a fitá-lo também. De repente um cachorro de rua entrou, parecendo tristonho, lerdo devido à calidez do verão, muito comportado, cansado, talvez, do repouso e preguiça do estar parado o dia todo, arfando por uma mudança de ares. Ele mesmo observou o besouro. O rabo se ergueu começou a abanar. Ele começou a avaliar o prêmio. Circundou-o. Cheirou-o de distância segura, voltou a rodeá-lo com cautela. Avalentonou-se, cheirou de mais perto. Elevou seu focinho e tentou uma captura escrupulosa do inseto, mas errou de mira. Mais uma vez, e outra, e o besouro se desviava. O cão começava a gostar do esporte. Mera presa de seu estômago a roncar com o besouro já em suas patas, continuou seus experimentos. Uma hora fatigou-se e, indiferente, parecia não ligar para o alvo, nem para os objetos em torno. Dispersou-se. Balançou a cabeça, de pouco em pouco o queixo foi caindo e encostou mesmo no besouro, que não recusou a interação. O cão ganiu, chacoalhou a cabeça e o besouro caiu várias jardas para lá. E caiu mais uma vez de costas, inofensivo. Os vizinhos humanos, espectadores do espetáculo, deram risotas de uma alegria terna e interna, muitos dos rostos, consternados em ser assim flagrados, esconderam-se atrás de leques e lenços, e Tom, Tom também ficou contente! O cão parecia um tolo, e na verdade parecia ter alguma consciência disso. Não pensem que cães são incapazes de rancor, porque ele foi para se vingar. Aproximando-se do besouro iniciou um ataque mais desconfiado que todas as investidas anteriores, pululando em derredor cobrindo todos os pontos de um círculo imaginário, ameaçando com suas grandes patas a uma polegada da criatura, tentando a captura bucal com seus dentes rangidos, balouçando a cabeça até suas orelhas se porem eretas novamente. Mas esse cão não podia persistir por muito tempo, e se distraiu outra vez. Tentou se divertir com uma mosca próxima, mas isso era demasiado pouco. Seguiu os passos duma formiga, o nariz colado no chão da igreja, bocejou, suspirou, já havia esquecido do besouro inteiramente, a ponto de simplesmente sentar nele sem querer. Agora o uivo foi mais estridente que da outra vez, pareceu denotar muita dor. O cachorro foi em direção à nave da igreja, querendo distância dali. Ganiu ainda por um tempo. Ele cruzou a passagem entre os fiéis e o altar. Depois já estava na outra nave, saiu pelas portas. Já estava bom de se espreguiçar por hoje! Sua angústia aumentava a cada passo, era essa a impressão pelo menos, e no fim ele parecia um ponto de lã no horizonte em trajetória errática, cedendo talvez à força da gravidade, cometa que se aproximava em elipse a algum corpo celeste pesado. Mas o sofredor se recompôs e se dirigiu então… para aquele que era seu dono, então ele tinha uma casa um dono! Alguns latidos tristes ainda foram ouvidos, mas logo foram abafados pela janela recém-fechada…

Nesse ponto, a audiência da igreja já está sufocando, de cara vermelha, prendendo o riso, e o sermão chegou no fundo do poço, como se o tempo tivesse parado. O sermonista notou-o e interrompeu-se por um hiato, depois dos barulhos da aventura anterior; o retorno à lide foi célere, no entanto, e não pareceu a nenhum ouvinte, por isso, mais instigante nem ao menos ter sido afetado por qualquer traço emocional, o que era desabonador. Nada o alteraria até o fim. Mesmo risotas que escapassem eram recebidas com a mesma gravidade inalterável, tanto faz se sensível às risotas ou não. Só o que se ouvia além da voz e de alguns sons da platéia, para ser franco, era o ranger dos bancaços de madeira.

(…) Tom Sawyer caminhou aquele dia para casa um pouco alegre, pensando consigo que havia no fim de contas alguma satisfação a ser retirada dos serviços divinos quando as circunstâncias fossem favoráveis.”

SEXTO CAPÍTULO

A segunda-feira de manhã encontrou Tom Sawyer no estado mais lamentável. Segundas de manhã sempre encontravam Tom deste jeito – porque eram o vagaroso reinício dos sofrimentos escolares semanais. Geralmente ele começava o dia desejando que o sabá nunca tivesse existido – ser liberado só fazia voltar à prisão algo mais dorido e odioso.”

De repente ele se deu conta de algo. Um de seus dentes da frente e de cima estava frouxo. Isso significava sorte. Ele começava instintivamente a gemer, o <gatilho>, como ele mesmo costumava dizer, de, quando se lhe ocorresse propício, ganhar uma causa no tribunal – até que Tom lembrou de que talvez tudo terminasse com sua tia realmente arrancando seu dente – e decerto doeria.”

Em pouco tempo Tom estava diante do pária juvenil do vilarejo, Huckleberry Finn,¹ filho do alcóolatra local.”

¹ Novela que é a seqüência direta desta.

Huckleberry ia e vinha de acordo com sua própria vontade. Dormia no batente das portas no tempo bom e em barris vazios quando estava úmido. Ele não tinha de ir à escola ou à igreja, nem tinha qualquer adulto por mestre ou amo; não obedecia a ninguém. Ele podia ir pescar ou nadar quando e onde escolhesse, e demorar o quanto quisesse. Ninguém o proibia de brigar tampouco. E nem o mandava ir para a cama. (…) também não tinha de tomar banho, nem vestir roupas limpas. Podia xingar e praguejar que era uma beleza. Em resumo, tudo o que fazia a vida de um menino a mais preciosa, ‘Huck’ tinha.”

Tom cumprimentou o romântico pária:

– Olá, Huckleberry!

– Olá você, sinta-se servido.

– O que é isso que você tem aí?

– Gato morto.

– Deixa eu ver, Huck. Ó, ele tá bem duro. Onde você achou?

– Comprei dum garoto.

– Com o quê?

– Dei um bilhete azul e uma bexiga que consegui no açougue.

– Onde você achou o bilhete azul?

– Comprei do Ben Rogers faz duas semanas por um bastão de arco de ginástica.

– Fala… o que dá pra fazer com gatos mortos, Huck?

– O que dá pra fazer? Espremer verruga.

– Não! Sério? Eu sei uma coisa melhor.

– Duvido. O que é?

– Ora, água de gambá!

– Água de gambá! Eu não dava um vintém por água de gambá.

– Tem certeza que não? Já tentou tirar verruga com água de gambá alguma vez?

– Não, nunca, mas o Bob Tanner já.

– Quem disse?!

– Ué, ele disse pro Jeff Thatcher, e o Jeff contou pro Johnny Baker, e o Johnny contou pro Jim Hollis, e o Jim contou pro Ben Rogers, e o Ben contou prum negro, e o negro me contou. Aí tem!

– Sim, mas e então? Todos eles mentem. Todos isto é, menos o negro. Eu não conheço ele. Mas eu nunca vi um negro que não mentiria. Porra! Agora me diz como o Bob Tanner fez, Huck.

– Ué, ele afundou a mão numa poça depois da chuva.

– Durante o dia?

– Acho que sim.

– Com a cara pra poça?

– Sim. Pelo menos eu diria.

– Ele falou alguma coisa?

– Eu não diria que falou. Eu não sei.

– Arrá! Curar verruga com água de gambá desse jeito não dá! Não, isso não ia dar em nada. Você tem que ir sozinho, até o meio do bosque, onde você sabe que tem uma poça velha lá, e assim que der meia-noite você fica de costas pra água podre, enfia sua mão nela e então diz: Grão de cevada, grão de cevada, comida de índio, água de gambá, água de gambá, engole essas verrugas;

e depois ir embora correndo, 11 passos, com seus olhos fechados, e depois se virar umas 3 vezes e ir direto pra casa sem falar com ninguém. Porque se você falar, o charme quebra.

– Ué, parece legal. Mas não foi o jeito que o Bob Tanner fez.

– Não senhor, com certeza absoluta não, porque ele é o moleque mais verruguento da cidade! Se ele tivesse feito ele não ia ter verruga! Eu tirei umas mil verrugas da minha mão desse jeito, Huck. Eu brinco tanto com sapo que sempre me dá verruga! Eu tiro com vagem.

– Feijão é muito bom, já fiz isso.

– Já? Como você faz?

– Você pega e divide a vagem, e corta a verruga até sair um pouco de sangue, aí você põe o sangue num pedaço do feijão e pega e cava um buraco e enterra o feijão mais ou menos meia-noite na encruzilhada na sombra da lua, e depois você queima o resto do feijão. O pedaço com sangue vai virar um ímã e vai puxar a outra metade que você cortou, aí é só você usar isso pra ressecar a verruga, e puxar ela da sua pele.

– É, é isso aí, Huck, é isso aí! Mas quando você tá enterrando o feijão, se você diz ‘Desce feijão, cai verruga, não vem mais me perturbar!’, é melhor! É assim que o Joe Harper faz, e ele já foi em Coonville, e um bando de lugar. Mas me diz – como é pra sarar com gato morto?

– Ué, você pega seu gato e vai e chega no cemitério perto de meia-noite, ou na hora do enterro de alguém mau. E meia-noite um diabo vai aparecer, ou talvez dois, três… Mas o negócio é que você não pode ver eles, você só ouve uma coisa que parece co’ vento, ou uns burburinhos. E quando eles tão levando o cadáver do homem mau, você lança o gato pra eles e grita: ‘Diabo segue corpo, gato segue diabo, verruga segue gato, sai de mim verruga!’. Isso vai curar qualquer verruga.

– É, faz sentido. Você já tentou, Huck?

– Não, mas a velha madre Hopkins que me disse.

– Hm, eu acho que é verdade então. Porque falam que ela é uma bruxa.

– Falam! Ué, Tom, eu sei que ela é. Ela enbruxou meu pai. Meu pai sabe. Ele vinha vindo um dia, aí ele viu que ela tava embruxando ele, então ele pegou uma pedra, e se ela não tivesse desviado tinha peg’em chei’! A mesma noite ele caiu rolando dum barracão em que ele tava bebendo, e quebrou o braço, cê ‘credita?!

– Cara, que horrível! Como ele sabia que ela tava embruxando ele?

– Deus, meu pai jura de mão junta. Ele diz que se elas tão olhando fixo pra você, tão embruxando você. Se elas tão murmurando é certeza, certeza! Quando elas tão murmurando elas tão falando o pai-nosso de trás pra frente!

– Hucky, me diz… Quando você vai fazer a parada com o gato?

– Essa noite. Eu acho que vão vir pro velho Hoss Williams.

– Mas o enterro foi sábado. Não pegaram o corpo dele sábado de noite?

– Ué, sabe-tudo! Com’é que o charme funciona até meia-noite então? E aí meia-noite de sábado já é domingo. Os demônios não vadiam domingo, eu diria.

– Nunca pensei nisso. Deve ser assim. Deixa eu ir contigo?

– Claro! Se você não tiver com medo…

– Com medo!! Duvido muito. Você vai miar?

– Sim. E você mia de volta, se escutar. A última vez, você me fez ficar miando um tempão até o velho Hays me tacar pedra! E ele falou: ‘Maldito seja esse gato!’. E pra me vingar eu atirei um tijolo na janela dele. Mas você não me ouviu.

– Não ouvi. Eu não pude miar aquela noite, porque minha tia tava me vigiando. Mas dessa vez eu vou miar. Ei, o que é aquilo?

– Só um carrapato.

– Onde conseguiu?

– Na floresta.

– Quer vender pelo quê?

– Não sei. Não quero vender, eu acho.

– Tá bom. É um carrapatinhozinho pequenininho mesmo.

– Qualquer um pode pegar um carrapato que não tem dono. Tô satisfeito com esse. É um carrapato bom pra mim.

– Lógico, tem carrapato pra caraca! Eu podia ter mil se eu quisesse.

– Por que você não arranja uns? Ah, você não consegue! É um carrapato recém-nascido. É o primeiro que espio esse ano!

– Ei, Huck… Eu te dou meu dente pelo carrapato.

– Hm, deixa ver.

Tom tirou um pedaço de papel do bolso e com cuidado desenrolou-o. Huckleberry estudou o dente com certa nostalgia. Era uma bagatela. Então ele disse:

– É genhuíno?

Tom levantou o beiço e mostrou a banguela.

– Ué, muito bom! – disse Huckleberry, satisfeito – Negócio fechado.

Tom encerrou o carrapato numa lata velha daquelas de armazenar balas de armas, a mesma caixa em que ultimamente Tom vinha confinando um besouro-veado. E então os garotos se separaram, cada um achando que saiu no lucro.

– Thomas Sawyer!

Tom sabia que quando seu nome era pronunciado inteiro significa problema.

– Senhor!

– Venha aqui. Agora, senhor, por que está atrasado, como aliás quase sempre?

Tom estava para se refugiar em uma de suas mentiras cultivadas, quando viu duas longas tranças de cabelo amarelas repousando ao fundo, que ele imediatamente reconheceu pelo processo elétrico chamado simpatia do amor. E ao lado da portadora dessas tranças, eis o único lugar vago restante. Ele então preparou novo discurso direto das entranhas:

– Eu parei para conversar com Huckleberry Finn!

O pulso do professor até parou, dir-se-ia. Ficou sem reação. O barulho da sala também virou silêncio. Sem dúvida todos começaram a se perguntar mentalmente se aquele toleimas tinha virado o fio de vez.

– Você—você o quê?!

– Parei para conversar com Huckleberry Finn.

Não havia confusão na audição de qualquer palavra.

– Thomas Sawyer, essa é a mais espantosa confissão que jamais ouvi. Não é qualquer palmatória que limpará tamanha ofensa! Tire sua jaqueta.

O braço do mestre executou os golpes até se cansar, de modo que as estaladas foram aumentando de intervalo entre uma e outra até pararem por completo. Em seguida veio a ordem:

– Agora, senhor, vá, e se sente com as meninas! Que isso lhe sirva de máxima lição.

O tititi que percorreu a sala pareceu desconcertar o garoto. Mas o resultado externo, essa feição de abatimento, fôra em verdade causado por sua adoração infinita ao novo ídolo e aquele medo ou frio na barriga decorrente do ambíguo prazer de receber a honra de sentar-se ao seu lado. Ele sentou na extremidade do grande banco de pinheiro e a garota retraiu-se a sua passagem, jogando a cabeça para o lado. Cotoveladas e piscadinhas e sussurros atravessaram o cômodo, mas Tom sentou quieto, em postura tranqüila, de braços estendidos sobre a longa e baixa carteira diante de si, pelo menos afetando ler seu livro.”

Então o garoto começou a olhar às furtadelas para a garota. Ela não deixou de notar, franziu os lábios em sentido de repulsa e virou o rosto em relação a ele por completo por um minuto inteiro. Quando ela cautelosamente volveu à posição antiga, viu um pêssego sobre sua carteira. Ela o jogou longe. Tom, com ternura, devolveu-o ao mesmo lugar. Ela o jogou longe de novo, mas com menos animosidade. Tom pacientemente retornou a fruta ao mesmo sítio. Então ela deixou o pêssego ficar lá. Tom garatujou em sua ardósia: ‘Por favor, fique com ele. – Eu tenho mais’. A garota mirou as palavras, mas pareceu não saber interpretá-las. Agora o garoto começou a desenhar alguma coisa, escondendo ao mesmo tempo o conteúdo com a mão esquerda. Por um tempo a garota simplesmente se negou a reparar; mas sua curiosidade humana começou a se manifestar por sinais orgânicos bastante finos e bem-disfarçados. O garoto continuava em seu trabalho, aparentemente inconsciente desses sinais. A garota entrou numa postura como que de uma tentativa passiva de enxergar algo do desenho, mas o garoto não demonstrou nenhuma perturbação diante dessa nova tática. Por fim ela cedeu e cochichou, hesitante:

– Deixa eu ver.

Tom descobriu parcialmente uma horrível caricatura duma casa de duas cumeeiras e uma chaminé com fumaça em espiral. Isso fez com que o interesse da garota pela parte ainda oculta da figura se intensificasse. Ela esqueceu de afetar qualquer discrição. Quando o desenho terminou, e Tom deixou-o a descoberto, ela olhou um instante, depois cochichou:

– É bonito. Desenha um homem.

O artista então compôs um homem no jardim frontal. O homem parecia um guindaste. Pelo seu tamanho ele podia pisar na casa e usá-la como degrau. Mas a garota não era hipercrítica. Satisfez-se com o monstro, e cochichou:

– É um homem bonito. Agora me põe do lado dele.

Tom desenhou uma ampulheta com uma lua cheia no topo, com riscos por membros, sem dizer que armou os dedos protuberantes com um portentoso leque. A garota disse:

– É muito, muito bonita. Eu gostaria de saber desenhar.

– É fácil – cochichou Tom. Eu vou te ensinar.

– Sério? Quando?

– Meio-dia. Você vai pra casa almoçar?

– Eu fico se você ficar.

– Bom – negócio fechado. Qual seu nome?

– Becky Thatcher. Qual o seu? Ah, eu já sei: é Thomas Sawyer.

– Esse é o nome por que me chamam aqui. Eu sou Tom para os íntimos. Você vai me chamar de Tom, não vai?

– Vou.

(…)

– Se eu mostrar, você vai contar.

– Não, eu não vou. Juro, juro, beijo, beijo, que não vou contar.

– Não vai contar pra ninguém? Nunca, enquanto viver?

– Não, nunca vou contar pra ninguém. Agora deixa eu ver.

– Ah, você não quer ver isso!

– Já que você me trata assim, eu vou ver. – E ela pôs sua mãozinha sobre a dele e uma ligeira luta decorreu, Tom fingindo que resistia sinceramente, mas deixando-se vencer aos milímetros até revelar as palavras EU TE AMO.

– Ai, seu malvado! – e deu uma palmada na mão trigueira de Tom, mas corou e pareceu feliz com a situação.

Exatamente nesta conjuntura o garoto sentiu um lento, fatídico agarrão que envolveu sua orelha, e um empuxo firme. Foi dessa maneira, agarrado pela aba, que ele foi conduzido através de toda a sala para seu assento de origem, debaixo de gargalhadas ardentes de toda a classe. Então o professor continuou de pé olhando para baixo, ao seu lado, por agoniantes segundos; até decidir deslocar-se a seu trono, sem mais palavras. Muito embora a orelha de Tom ardesse como o inferno, seu coração rejubilava.”

na aula de leitura Tom estava de dar pena; na aula de geografia, trocou lagos por montanhas, montanhas por rios, e rios por continentes; na aula de pronúncia e ortografia as palavras mais básicas davam nós em sua língua e em sua pena. Era como esmigalhar com um pisão a medalha platinada que ganhara com tanto esforço no fim de semana.”

SÉTIMO CAPÍTULO

Enquanto um menino importunasse o carrapato com interesse absorvente, o outro se interessaria na mesma medida. Ambos inclinavam a cabeça sobre a ardósia em sincronia, e ambos estavam tão entretidos que excluíam a existência do mundo exterior.”

– Não vou deixar ele quieto!

– Você deve – ele tá do meu lado da linha.

– Ei, Joe Harper, de quem é esse carrapato?

– Eu não tô nem aí de quem é o carrapato – ele tá do meu lado da linha, e você não deve tocar nele.

– Então, só vou apostar que vou, e ponto. Ele é meu carrapato e eu vou fazer a merda que eu quiser com ele ou morrer!”

– Não, não ligo muito pra ratos. Eu gosto é de chiclete.

– Bem lembrado – queria ter um agora.

– Mesmo? Eu tenho alguns. Eu vou deixar você mascar um bocado, mas você tem que me devolver depois!

Isso era vantajoso, então ambos passaram a mascar em turnos, e balançavam as pernas contra o banco, de tanta satisfação.

– Já ‘teve no circo? – perguntou Tom.

– Já, e meu pai vai me levar de novo já, já, se eu me comportar.”

– Como é? Não tem comparação com nada. Você só fala pra um garoto que não vai ter nenhum outro garoto, a vida toda, só ele! Nenhum outro garoto, nunca, nunca, nunca, e depois vocês se beijam e isso é tudo. Todo mundo pode fazer isso!

– Beijar? Mas pra que beijar?

– Hm, beijar é, você sabe, é—ué, todo mundo beija.

– Todo mundo?!

– É, todo mundo que se ama! Você lembra o que eu escrevi na ardósia?

– Si-im.

– O que foi?

– Não posso te contar.

– Eu posso te contar?

– Si-im… Mas… não agora.

– Não, agora.

– Não, agora não. Ama-anhã…

– Nana nina! Agora. Por favor, Becky. – eu vou cochichar, eu vou cochichar bem baixinho.

Becky hesitava. Tom interpretou o silêncio como consentimento, passou o braço pela sua cintura e sussurrou a frase batida no tom mais brando que encontrou, com seus lábios o mais próximo possível da orelha de Becky. E ainda acrescentou:

– Agora você cochicha pra mim – igualzinho.

Ela resistiu, pelo menos por um hiato, então falou:

– Você olha pra lá pra não me ver, então eu cochicho. Mas você nunca vai contar pra ninguém, tá entendendo, Tom?! Você NÃO vai, Tom, tá bom?!

– Não, deixa. Pode deixar que eu não vou. Vamo’, Becky.

Ele virou o rosto. Ela se inclinou com timidez se aproximando até seu hálito fazer os cachinhos de Tom se moverem, e sussurrou:

– Eu… amo… você!

Então ela o repeliu e correu para longe, circulando as carteiras e bancos, Tom seguindo-a de perto. Becky se refugiou numa das quinas, com seu lencinho cobrindo o rosto. Tom amaciou seu pescoço e implorou:

– Vem, Becky, tá tudo bem. Quase acabando. Falta só o beijo! Não tem por que ter medo – é uma bobagem! Por favor, Becky! – E ele a puxou pelo lenço e as mãos.

Ela foi cedendo aos poucos, deixando as mãozinhas caírem. Seu rosto, fulgurante de tanta resistência, se aproximou do de Tom e se submeteu. Tom encostou sua boca na boca vermelha de Becky e disse:

– Agora terminou, Becky! Está feito! E depois disso, pra sempre, você nunca vai amar ninguém, só eu, e você vai poder casar com ninguém, só comigo, pra todo o sempre e a eternidade. Né?

– Não, nunca vou amar ninguém sem ser você, Tom, e eu nunca vou casar com ninguém, só com você, Tom… E você também não pode casar, só se for comigo, Tom.

– É claro! É óbvio! É parte do ritual. E sempre, indo pra escola, ou quando a gente ‘tiver indo pra casa, você tem que andar comigo… quando ninguém ‘tiver olhando… E você me escolhe e eu te escolho nas duplas, você é sempre meu par, eu sou sempre seu par, porque é assim que se faz quando um casal se compromete.

– É tão legal! Nunca tinha ouvido falar…

– É sempre tudo de bom! Sabe, eu e a Amy Lawrence

Os olhos arregalados contaram a Tom que ele tinha pisado em ovos – e ele parou, aturdido.

– Ai, Tom! Então eu não sou a primeira que você jurou que ia…!!!

A criança desatou a chorar. Tom disse:

– Não chora, Becky, eu não ligo pra ela mais!!

– Sim, você liga, Tom – você sabe que liga.

Tom tentou circunvolver Becky pelo pescoço, mas ela o empurrou e virou a cara para a parede, sem que as lágrimas parassem de deslizar pelo seu rosto. Tom tentou de novo, cheio de consolações em suas palavras, mas foi repelido outra vez. Era o cume para seu orgulho. Ele escapuliu e se viu a céu aberto. Parou um tempo, em frenesi e aflito, fincando o olhar na porta pelo lado de fora, desejando mil vezes que ela se arrependeria e viria atrás dele. Mas ela não o fez.”

Ela ouvia com atenção, mas não houve resposta. Ela não tinha como companheiros senão o silêncio e a solidão. Então ela se sentou novamente com o intuito de chorar e infligir um castigo a si mesma. Nesse meio-tempo os alunos começaram a se reagrupar, e ela teve de esconder toda sua tristeza, embora seu coração partido não fosse se emendar. Viver aquela tarde seria um longo calvário, sem ninguém dentre pessoas estranhas que lhe dirigisse um olhar terno ou com quem pudesse desabafar.”

OITAVO CAPÍTULO

Dava-lhe a impressão que a vida não passava de uma grande peça pregada, na melhor das hipóteses, e ele muito invejava Jimmy Hodges, morto recentemente. Deve ser muito tranqüilo, ele pensava, parar e descansar e sonhar pra sempre, acompanhado do uivar do vento nas folhas e sentindo o contato com a relva e as flores, ali em cima do túmulo. Nada para encher nem lamentar, nunca, nunca mais! (…) Ele quis o melhor, e até ali fôra tratado como um cão – como o mais rueiro dos cães. Ela se arrependeria um dia – talvez quando fosse tarde demais. Se ele pudesse morrer, nem que temporariamente!

E se ele virasse as costas agora e desaparecesse misteriosamente? E se ele fosse para longe – tão longe, para países desconhecidos além dos mares – e não voltasse jamais! Como ela se sentiria então? A idéia de se tornar um palhaço voltava recorrentemente, só para terminar enchendo-lhe de desgosto no presente. A frivolidade, as piadas e suspensórios de bolinhas soavam-lhe ofensivos, pelo menos quando bancavam os intrusos num espírito desassossegado nos augustos reinos do romance como o seu. Não, melhor seria se converter em soldado, e retornar após longos, longos anos, coroado de medalhas, famoso em todo o país. Não – melhor ainda: ele se aliaria aos índios e caçaria búfalos e seguiria as trilhas montanhosas e as planícies ainda não-documentadas do Extremo Oeste, e no futuro distante se sagraria o pajé de seu povo, todo adornado de penas, temível em pintura de guerra, pavoneando-se à entrada da igreja num domingo qualquer, como se nada, com um grito de desafio que anunciava a derramada de sangue – arrancaria os olhos de seus antigos companheiros de maneira implacável. Não, não, havia algo ainda mais satisfatório que isso! Ele seria um pirata! É isso! agora sim o futuro corria nítido diante de seus olhos, brilhando em esplendor inimaginável. Seu nome encheria as páginas dos jornais do mundo, todos estremeceriam ao ouvi-lo! Com que glória ele iria de porto em porto sacando riquezas, e como sey navio de casco negro dançaria sobre as ondas – ele já tinha um nome, o Espírito da Tempestade, com sua apavorante bandeira à frente!”

Quem vem é Tom Saywer, o Pirata! – o Vingador Negro da Esquadra Espanhola!”

A verdade é que uma superstição sua tinha falhado, aqui, uma que ele e tdos os seus camaradas tinham considerado como infalível. Se você enterrasse a bola de gude com certos encantamentos e deixasse-a intocada por 2 semanas, reabrindo o lugar com os mesmos encantamentos na hora indicada, com sílabas perfeitamente espelhadas, você constataria que todas as bolinhas de gude que perdera em toda sua vida estariam agora reunidas num só lugar, não importa quão longe estivessem antes de tudo. Mas agora tudo tinha ido água abaixo, sem lugar a dúvidas. Toda a fé de Tom chacoalhou até as fundações. Ele ouvira muitas vezes de sucessos semelhantes, mas nunca de fracassos. E ele nem sequer lembrava que já havia tentado muitas vezes antes… mas no fim ele esquecia onde havia enterrado a bola de gude, então deixava a questão de lado.”

Ele sabia que era inútil discutir com bruxas, então deu de ombros. Mas de repente se lembrou da bola de gude que perdera, dando-se ao trabalho de procurá-la com a maior paciência. Nada feito. Voltando a sua casa dos tesouros, postou-se igual se havia postado quando jogou a bola de gude fora. Depois pegou outra bola do bolso e atirou-a de maneira análoga, dizendo:

– Irmão, vá procurar seu irmão!

Ele assistiu o trajeto da bola e depois correu para o lugar. Mas ou o impulso foi fraco ou forte demais. Ele ainda tentou seu plano mais duas vezes. A última repetição, quem diria, deu resultado. As duas bolas de gude estavam a cerca de 30 centímetros uma da outra.”

– Quem és tu que ousas falar em tal linguagem?

– Eu, tu perguntas! Eu sou Robin Hood, como tua carcaça verminosa logo há de atestar!

– Ó, então és aquele famoso fora-da-lei? Com muita satisfação disputarei contigo quem manda nesses bosques! Em guarda!

Ambos sacaram suas espadas de ripa, largaram seus trapos no chão e começaram uma disputa de esgrima ferrenha, pé ante pé, com cautela e seriedade, em uma melhor de três. Tom disse:

  • Vamos ver do que és feito! Mais ímpeto!

Eles realmente injetaram mais ímpeto, pintando o sete e transpirando muito. De quando em vez Tom gritava coisas como:

  • Cai! Cai! Por que não cais?

  • Não devo, não posso! Por que não cais tu?! Irás te arrepender!

  • Ora, isso nada é! Não sou homem de cair. Não é o que está escrito no livro. O livro diz, ‘Então, com uma só estocada por trás, ele matou o infeliz Guy de Guisborne.’ Você agora tem que girar e me deixar acertar suas costas!

Não tinha como disputar a autoridade. Joe se virou, recebeu a pancada e simulou a queda.

  • Agora – disse Joe, se levantando – você tem que deixar eu matar você. Mais que justo!

  • Ué, não posso, não tá no livro!

  • Isso é muita sacanagem! Pra mim chega.”

Os garotos se vestiram, esconderam seus equipamentos e foram embora, lamentando-se de não haver mais bandidos, se perguntando o que a civilização poderia oferecer em troca por tamanha perda. E cada um dizia que preferia mil vezes ser um fora-da-lei por um ano Na Floresta Sherwood que ser Presidente dos Estados Unidos para sempre.”

NONO CAPÍTULO

Ele ficou feliz, porque o tempo cessou e a eternidade começou. Ele foi caindo no sono a despeito do esforço. O relógio bateu onze vezes, mas Tom não escutou.”

Huckleberry Finn estava ali, acompanhado de seu gato morto. Os dois se moveram e desapareceram no imenso breu. Depois de meia hora já avançavam pela grama alta do cemitério.”

– Eu não sabia o que fazia. Eu quero morrer nesse minuto se eu sabia. Era culpa do uísque e da empolgação, eu acho. Nunca usei uma arma na vida, Joe. Sempre briguei, é claro, mas nunca armado. Todos sabem disso. Joe, não abre o bico! Por favor, Joe – você é um bom sujeito! Sempre gostei de você joe, sempre ‘tive do seu lado, e você do meu, é claro. Não lembra? Você não vai contar, vai, Joe?

E a pobre criatura se pôs de joelhos diante do apático assassino, e juntou suas bonitas mãos.

– Não, você sempre foi honesto e direito comigo, Muff Potter, nunca vou dedurar você. É isso o mais justo que um homem pode ser, concorda?

– Joe, você é um anjo. Eu vou sempre lembrar até o fim da vida que você é o cara e me salvou.

E Potter começou a chorar.

– Vamos, vamos, não precisa disso. E nem é hora dessas coisas. Nada de abrir o berreiro aqui. Você sai por um lado, eu por outro – vai logo, e não deixa nenhuma pegada.

Potter foi num trote que logo se converteu numa corrida desabalada. O mestiço ficou olhando ele se distanciar.

DÉCIMO CAPÍTULO

Huck Finn e Tom Sawyer juram que não vão contar nada pra mãe sobre

Isso e

Eles desejam que

Eles vão

Cair mortos

De cara no chão

Na hora

Se

Eles

Contarem

E vão apodrecer pra sempre.

Huckleberry estava repleto de admiração diante da facilidade de Tom para escrever, e da sublimidade de sua linguagem.”

– Eu conheço essa voz, é Bull Harbison.(*)

(*) Nota do Autor: Se o Senhor Harbison tivesse um escravo chamado Bull, ele diria simplesmente dele como Bull do Harbison, mas um filho ou cachorro era um nome próprio e completo, nada mais, nada menos que Bull Harbison.

– Ué, isso é bom. Tom, eu estava morrendo de medo. Eu podia apostar que era um cachorro vadio!

O cachorro voltou a uivar. Os corações dos garotos pareciam querer parar novamente.

– Não, esse não é Bull Harbinson! – sussurrou Huckleberry. – …Tom?!

Tom, tremendo de pavor, sucumbium e fitou a rachadura. Seu sussuro ira quase inaudível:

– Ai, Huck, é um cachorro vadio!

– Rápido, Tom, rápido! Quem ele quer?

– Huck, acho que ele quer nós dois. A gente tá junto!

– Ué, Tom, acho que agora tamos fudidos. Eu acho que eu sei muito bem pr’onde tô indo! Eu fui muito malvado.

– Merda! Tudo isso é por ficar matando aula e fazer tudo que as pessoas boas falavam não faz isso, não faz!. Eu podia ser bom, como o Sid, se eu tivesse tentado. Mas não, eu não ia tentar ser, é óbvio. Mas se por um milagre eu escapar… Eu juro, eu juro que vou virar uma pedra na missa de domingo!”

Tom não chegou a chorar, mas fungou.

Você mau!! – Huckleberry começou a fungar também. – Vamo’ entrar de acordo, Tom Sawyer, você é fichinha, um nabo do que eu sou! Não passa nem raspando! Seu pior lado é melhor que meu lado mais bom! Ai, Jesus, Jesus, Jesusinho… Se eu tivesse metade das suas chances…

Tom engasgou e disse:

– Olha, Hucky, olha! Ele ficou des costas pra gente!

Hucky de fato olhou, e não sem estar prenho de alegria!

– Pelo pajé! Ele tá des costas! Ele ‘tav’assim?

– ‘Tava, mas eu ‘tava tão tonto que não pensei. Isso é uma peça… o tinhoso faz enigma… Agora quem você acha que ele tá atrás?

O uivo parou. Tom tapou as orelhas.”

– Fala, Tom… Dizem que um cachorro vadio veio uivando perto da casa do Johnny Miller, lá pra meia-noite, umas duas semanas atrás! E um noitibó pousou no corrimão e começou a cantar, nessa mesma noite! E ninguém morreu por lá até hoje!

– Ora, eu sabia dessa. E suponho que não morreu. Gracie Miller não caiu na cozinha e se queimou feio no fogo, logo no próximo sábado?

– Sim, sim, mas ela não morreu. E pior, ela tá melhorando da queimadura.

– ‘Tá tudo bem, mas você espera e verá. Ela tá marcada pra ir, tão finada quanto o Muff Potter! É o que os pretos dizem, e eles sabem mais dessas coisas, Huck!

Então eles se separaram, sem deixar, cada qual, de cogitar.”

Ele chorou, pediu perdão, prometeu se endireitar de novo e de novo, depois disse que podia ir embora, sentindo que vencera na argumentação, mas não de modo perfeito: estava com um mínimo de confiança.

A verdade é que ele saiu de lá tão miserável que nem teve vontade de se vingar de Sid. Era debalde, portanto, que Sid tinha empreendido a fuga pelo portão traseiro. Ele se arrastou absolutamente arrasado até a escola, e recebeu o costumeiro açoite, com Joe Harper, por matar aula no dia anterior. Mas sua mente não estava no castigo em momento algum. Na verdade, seu coração: ele tinha coisas mais pesadas que suportar. Nenhuma dessas bagatelas lhe suscetibilizava as veias.”

DÉCIMO PRIMEIRO CAPÍTULO

Não era nem meio-dia e a vila inteira já estava eletrizada com as péssimas notícias. Ninguém precisava de nenhum telegrama doutra parte. Não, não havia telegramas ainda na vila! Mas a estória foi de pé de ouvido em pé de ouvido, de bípede para bípede, como costumava ser. De grupo em grupo, de casa em casa, com pouco menos do que a velocidade miraculosa dos cabos e feixes elétricos. O diretor declarou que após as doze seria feriado. Seria muito estranho que o não fizesse.

Uma faca suja foi encontrada perto do cadáver, e testemunhas declararam reconhecê-la como pertencendo a Muff Potter (…) também foi espalhado por aí que a cidade foi saqueada por esse ‘assassino’ (o povo nunca é devagar quando o assunto é eleger evidências e chegar a vereditos definitivos), porém ele não pôde ser encontrado.”

Toda a cidade estava em procissão ao cemitério. Tom não sentia mais seu coração pesado, e se juntou à procissão, e não porque ele preferiria mil vezes estar em qualquer outro lugar, mas porque uma fascinação indescritível e assustadora o puxava.”

Sid disse:

– Tom, você se mexe e fala tanto no seu sono que não consigo dormir metade do tempo.

Tom ficou pálido e baixou os olhos.

– É um mau sinal – atalhou tia Polly, com severidade. – O que é que você tem na cabeça, Tom?

– Nada. Nada qu’eu saiba. – E no entanto a mão do garoto tremeu a ponto de derramar o café.

– E você fala cada coisa! – Sid continuou. – De madrugada você disse: É sangue, é sangue, é o que é!… Você não parou de repetir isso. E você disse também: Pára de me atormentar, eu vou contar! Contar o quê? O que é que você vai contar?

Tudo dançava diante de Tom. Não tinha como adivinhar o que iria acontecer mas, por sorte, tia Polly deixou de ligar muito para o estado de Tom e sem saber ela foi um tranqüilizante para ele. Indagou:

– Xi! É esse maldito assassinato… Eu mesma sonho com isso toda noite. Às vezes até sonho que sou eu a assassina.

Mary disse que ela se sentia do mesmo jeito, ficou muito afetada. Sid pareceu satisfeito. O fato é que Tom se afastou de todas as testemunhas de sua sofreguidão o mais rápido que pôde. Depois disso ele ainda reclamaria de dor de dente uma semana inteira. Toda noite ele amarraria um lenço em sua mandíbula. Vai saber se Sid não estava à espreita do corpo adormecido de Tom! E é o que ele fazia, e ele ainda removia a bandagem e ficava a escutar os murmúrios de Tom, captando cada sílaba discernível. Ele fazia de modo que quando Tom acordava não podia suspeitar de que a bandagem fôra desamarrada e amarrada de novo. Mas o pesar e a intranqüilidade notívaga de Tom foram reduzindo a cada dia e a estória da dor de dente já não convencia mais ninguém, nem fazia sentido para ele, e foi deixada de lado.”

DÉCIMO SEGUNDO CAPÍTULO

Ele não queria mais saber de guerra, nem de ser pirata.”

Ela acreditava em tudo que se publicava nesses jornais sobre “medicina”, e comprava qualquer teoria frenológica. A ignorância solene daquelas páginas era seu oxigênio. Toda esse besteirol sobre ventilação, e como dever-se-ia ir para a cama, e como acordar melhor, o que comer, o que beber, quanto se exercitar, qual postura mental conservar durante o dia, que roupa vestir, tudo era palavra sagrada para ela. Ainda assim, ela era incapaz de observar que todas as recomendações do número atual não faziam senão contradizer todas as indicações do número anterior. Ela era tão simples de coração e confiada como o dia era longo; a vítima perfeita. Ela reunia seus periódicos medicinais de charlatania e seus remédios-engodo e, armada para a guerra, cavalgava seu cavalo de batalha espectral, com ‘o inferno atrás’. Mas o que ela não podia suspeitar é que estava longe de ser um anjo que curava e o bálsamo de Gileade reencarnado, verdadeira bênção da vizinhança.”

Tom, de forma anti-natural, foi ficando mais e mais melancólico, lívido, deprimido, enfim. Ela acrescentava banhos quentes, banhos sentado, banhos de ducha, e até imersões. O garoto continuava tão lúgubre quanto um ataúde. Ela começou a receitar, junto com tudo que continha água na higiene, farinha de aveia fina à dieta do garoto, sem falar em bandagens em pontos ‘vitais’ das articulações. Para ela, era como calcular quantos miligramas ou mililitros de algo iam para a panela – o garoto era sua cobaia de placebos que ninguém sabia placebos.”

– Eu nunca vi nada igual. O que pode ter feito esse gato ficar assim?

– Eu sei lá, tia Polly. Gatos gostam de pregar peças em humanos.”

– Pois então, senhor, por que raios você faria uma coisa dessas com uma pobre criatura incapaz de se defender, pode-se saber?

– Foi por pena – porque ele não tem nenhuma tia.

– Não tem nenhuma tia! – seu paspalho. O que é que tem a ver isso?

– Pra caramba! Porque se ele tivesse uma ela é que queimaria ele! Ela ia fritar as tripas dele com a mesma maldade dm homem!”

Tom chegou à escola com tempo de sobra. Aliás, foi logo notado que esse acontecimento extraordinário vinha se repetindo todos os dias. E agora ele ficava ali perto do portão do parquinho em vez de jogando com seus camaradas. Ele estava doente, ele dizia, e parecia estar.”

DÉCIMO TERCEIRO CAPÍTULO

Joe opinava que podia-se viver como ermitão, nos recessos profundos da caverna mais remota; e daí que se morresse em poucos anos de frio, fome, solidão? Depois de ouvir Tom, porém, ele percebeu que havia vantagens conspícuas numa vida dedicada ao crime, então consentiu em se tornar pirata.”

Quem seriam as vítimas de suas piratarias ainda não era um problema na cabeça dos garotos. Foram atrás de Huckleberry Finn, que aderiu de pronto, porque para ele tudo era indiferente. Eles se separaram, combinando de se reencontrar na margem do rio duas milhas acima da vila, na melhor hora – meia-noite.”

– Quem é?

– Tom Sawyer, o Sombrio Vingador da Marinha Espanhola. Digam seus nomes.

– Huck Finn, o Mão-Rubra, e Joe Harper, o Terror dos Mares.

Tom é que havia concebido esses títulos, das estórias de pirata que conhecia.

– Tá bom. Hey! Dêem a contrasenha.

Dois ásperos sussurros entregaram as mesmas sílabas malditas simultaneamente, ecoando na noite escura:

San-gue!

O Sombrio Vingador seguia imóvel, de braços cruzados, “pensando pela última vez” nas cenas de sua felicidade pregressa, e também seus sofrimentos recentes, e desejando que “ela” pudesse vê-lo agora, longe, em alto-mar, encarando o perigo e a morte de coração aberto, dirigindo-se à destruição com um sorriso cruel nos lábios.”

Aproximadamente às duas da madrugada a jangada ancorou na barreira 200 metros acima da cabeça da ilha, e ela ficou a balançar de um lado pro outro até a toda a carga fosse desembarcada.”

– A verdade é que um pirata não faz nada, Joe, quando ele está em terra. Mas um ermitão fica rezando toda hora, e nunca se diverte, é um solitário.

– É, é assim mesmo – disse Joe. – mas eu nunca pensei a sério sobre isso, sabe? Eu preferia mesmo é ser pirata, agora que sei como é.

– A verdade é que as pessoas não falam dos ermitões, hoje, igual falavam. Mas um pirata… um pirata é sempre respeitado! E um ermitão tem que dormir nos lugares mais duros, e pôr andrajos e cinzas na cabeça, e ficar parado na chuva e—

– Mas pra que colocar andrajos e cinzas na cabeça? – perguntou de repente Huck.

– Eu sei-lá! Mas eles têm que fazer isso! Ermitões têm que fazer essas coisas. Não dá pra ser ermitão e não fazer essas coisas.

– A merda que eu ia fazer! – respondeu Huck.

– Ué, o que você ia fazer?

– Eu sei-lá! Mas eu não ia fazer essa porra!

– Mas Huck, você ia ter que fazer. Como você ia se safar?

– Uai, só não ia agüentar. Sairia pro mundo, fugiria.

– Fugir! Ora, você ia ser um bom dum ermitão de araque! Uma desgraça dos ermitões!”

Mas os outros garotos lhe disseram que as roupas boas viriam logo, assim que começassem a saquear. Fizeram-no entender que sua roupa de maltrapilho já eram o bastante pra começar, se bem que piratas mais ricos já se lançavam aos mares com o vestuário adequado.”

Eles começaram a pressentir que fizeram mal em fugir assim. Logo pensaram na carne roubada, e a tortura de verdade começou. Eles começaram a lembrar de quantas maçãs e guloseimas já não tinham roubado antes. Mas veja, a consciência e a memória não se alimentam sem a comida real.”

Eles então concordaram que enquanto continuassem no ramo o negócio da pirataria não seria manchado pelo do roubo. Aí sim a consciência deu uma trégua, e esses curiosamente inconsistentes piratas conseguiram cair no sono dos justos.”

DÉCIMO QUARTO CAPÍTULO

“‘Besourinha, besourinha, voe logo para casa, sua casa está em chamas, seus filhos sozinhos’, e então a besouro-fêmea estendeu as asas e saiu voando, o que em nada não surpreendeu o garoto”

Eles não sabiam que quão mais rápido um peixe de água fresca é assado após a pesca melhor fica. E também não pensaram muito sobre como dormir ao relento, passar o dia em atividades silvícolas, banhos de rio e tudo o mais agiam como excelentes temperos para qualquer comida.”

Mesmo Finn, o Mão-Rubra, já sonhava com o alpendre de sua casa e sua coleção de tambores vazios. Mas cada qual se envergonhava de sua fraqueza, e ninguém era valente o bastante para emitir o que pensava.”

Subitamente uma aura de heroísmo os revestia. Um tremendo triunfo. Estavam perdidos. Estavam sendo lamentados no vilarejo. Corações se rompiam por causa deles, ou da ausência deles. Lágrimas jorravam, denunciando culpas reprimidas perante esses pobres garotos finalmente aparecendo à luz do dia, desvelando arrependimentos e remorso. E o melhor de tudo: não podia haver outro assunto na cidade inteira, e os outros garotos sentiriam inveja, tanto quanto uma notoriedade tão macabra pudesse ser invejada. Tudo isso estava ótimo. Valia a pena ser pirata, afinal.”

DÉCIMO QUINTO CAPÍTULO

Sid! – Tom sentiu o olhar da velha sobre si, mesmo que não pudesse vê-la. – Nenhuma palavra contra o meu Tom, agora que ele se foi! Deus vai tomar conta dele – jamais se preocupe com essas coisas, senhor! Ah, senhora Harper, eu não sei como fazer isso passar! Eu não consigo fazer passar! Ele era tão querido pra mim, mesmo atormentando meu coração e quase botando meus bofes pra fora!

– O Senhor dá e o Senhor tira – Abençoado seja o nome do Senhor! Mas é muito duro – Ah, como é duro! No último sábado meu Joe estourou uma bombinha bem debaixo do meu nariz e eu dei-lhe um bofetão que deixou ele no chão. Se eu soubesse que logo mais… Ah, se eu pudesse voltar no tempo eu teria dado um abraço no meu Joe e dado as bênçãos pelo que ele fez!”

DÉCIMO SEXTO CAPÍTULO

Uma dificuldade se apresentava: índios hostis não podiam entrar em guerra sem primeiro fazer as pazes, e isso não era concebível sem fumar um cachimbo da paz. Não havia nenhum outro processo do qual eles tivessem ouvido falar. Dois dos selvagens quase desejaram em voz alta naquele momento não ter deixado de ser piratas. Mas, as coisas como eram, não havia outro jeito. Fingindo estar à vontade como melhor podiam, providenciaram o cachimbo e passaram de mão em mão, cada qual dando sua baforada, na forma estabelecida.

E finalmente os garotos estavam gratos de terem se tornado selvagens, porque tinham ganho algo: podiam dar umas baforadas sem ter de passar o tempo procurando uma faca perdida. Não estavam fora de si o bastante para se sentirem aporrinhados de verdade. Não queriam jogar essa oportunidade única fora por falta de esforço. Não, eles praticaram cautelosamente, depois da refeição, com êxito razoável, e passaram uma tarde esplêndida. Sentiam-se mais orgulhosos e contentes em suas novas posições do que se estivessem de fato no escalpo e na pele das Seis Nações.¹”

¹ As tribos nativas norte-americanas Mohawks, Oneidas, Onandagas, Cayugas, Senecas (todos somados eram os iroqueses) e os Tuscaroras, inimigos daqueles.

DÉCIMO SÉTIMO CAPÍTULO

Houve então uma disputa para determinar quem vira os meninos mortos por último, e cada um puxava a lúgubre façanha para si, e fornecia até provas, mais ou menos adulterada pela testemunha. E quando finalmente ficou estabelecido quem afinal viu os meninos mortos por último, e quem foi o último a trocar palavras com eles, os partidos eleitos ganharam uma espécie de aura, e foram objeto da estupefação e inveja de todo o resto. Um pobre rapaz, sem muito de que se gabar, disse com orgulho se lembrar de que ‘Tom Sawyer me deu uma sova certa vez’.

Mas essa tentativa de ter uma recordação venerável foi por água abaixo. Maioria dos garotos da vila podia dizer o mesmo, o que nivelava a distinção.”

Um hino enternecedor foi cantado, e assim dizia a letra: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’.

À medida que o serviço funerário prosseguiu, o pároco, pintando uma tal figura e uma tal imagem dos garotas perdidos, dessas promessas abortadas, da rareza de cada alma do bando, passou a acreditar na própria imagem que construía e foi abatido pelo remorso de, durante suas vidas, não ter-lhes dado o devido crédito, tendo olhos apenas para seus pecados e falhas. O ministro relatou ainda uma anedota para quase cada garoto da comitiva, que demonstrava suas naturezas doces e generosas, e para as pessoas se tornou mais fácil enxergar quão nobres e edificantes eram genuinamente tais episódios, mas a memória de que no passado tais momentos tivessem se assemelhado a velhacarias e torpezas das grandes só tornava o presente mais amargo e difícil de conciliar. A congregação se sensibilizava mais e mais pela vida das pobres criaturas, que antes só recebiam desconfiança e o jugo do chicote. As carpideiras não foram portanto as únicas a chorar no enterro. Mesmo o pastor não se conteve e se desmanchou sobre o púlpito.

Houve um farfalhar na galeria, não notado por ninguém. Um momento depois a porta da igreja rangeu, o ministro ergueu seus olhos úmidos para enxergar por sobre o lenço e pôs-se transfixo! Primeiro um par de olhos, depois dois, depois mais, seguiram o gesto do ministro. Como que fundida num só organismo, a congregação ergueu-se e fitou três garotos mortos caminhando pela nave, Tom na frente, Joe a seguir, Huck por último, todos em absolutos farrapos, mas Huck pior que os outros dois! Eles tinham se escondido na galeria abandonada durante todo o sermão!

Tia Polly, Mary e os Harpers se jogaram para abraçar seus restaurados ao reino dos vivos, cobriram-nos de beijos e deram as graças aos céus, enquanto o pobre Huck seguia cabisbaixo e pouco à vontade, sem saber o que fazer ou onde se esconder de tantos olhares perscrutantes.”

– Tia Polly, não é justo. Alguém tem de estar feliz por ver o Huck.

– E tem mesmo. Eu estou feliz por ver ele, pobre coisa órfã!

E a atenção amorosa que a tia Polly prestou a Huck foi justamente a única coisa capaz de deixar o menino ainda mais embaraçado do que já estava.

De repente o ministro gritou com todo o ímpeto de sua voz:

– Louvai a Deus por todas as bênçãos que Ele derrama – cantai! – e ponde todos os vossos corações nisto!”

Tom Sawyer o Pirata olhou ao redor entre todos os garotos cheios de inveja e confessou diante de seu coração que esse era o momento de sua vida que lhe dava mais orgulho.”

Tom recebeu mais abraços e beijos aquele dia – baseado nos humores de tia Polly – do que em todo o ano anterior. E ele tinha dificuldade em saber se o que eles mais expressavam era agradecimento ao bom Deus ou afeição pelo pequeno.”

DÉCIMO OITAVO CAPÍTULO

Esse era o grande segredo de Tom – o plano para regressar ao lar com seus irmãos-piratas e assistir seus próprios funerais.”

Tia Polly e Mary foram muito amáveis com Tom, e muito atentas a suas necessidades. Havia uma quantidade infreqüente de conversa. No decurso de uma delas tia Polly disse:

– Sabe, não digo que não tenha sido uma ótima piada, Tom, deixar todo mundo sofrendo bas’camente uma semana pra vocês garotos ficarem no bem-bom. Mas é uma pena que você pudesse ter o coração tão duro a ponto de fazer essa piada justo comigo. Se você podia vir num tronco para ver seu funeral, creio que podia ter vindo me ver só para me dar uma pista de que não estava morto de verdade.

– É, você podia, Tom – disse Mary – e eu acho que você teria se tivesse pensado nisso.

– Teria, Tom? – perguntou tia Polly, sua face reluzindo melancolicamente – Teria, se tivesse pensado nisso?

– Eu… não sei. Teria estragado tudo.

– Tom, eu esperava que você me amasse desse tanto. – respondeu tia Polly num tom enlutado que desconcertou o garoto – Já seria algo se você se importasse o bastante para pensar a respeito, mesmo que não fizesse.”

– Sid teria pensado. E aliás Sid teria pensado e vindo fazer. Tom, você vai olhar pra trás um dia, quando for muito tarde, e vai querer ter se importado um pouquinho mais comigo, quando não custava absolutamente nada!

– Não é nada de mais. Um gato seria capaz de sonhar com alguém. Mas é melhor que nada, eu acho. Com o que você sonhou?

– Quarta-feira à noite sonhei que você estava sentada ali do lado da cama, e Sid sentado perto da caixa de lenha, e Mary perto dele.

– Aconteceu isso mesmo. Acontece sempre. Fico feliz que seu sonho tenha se preocupado em nos mostrar como somos de verdade.

– Sonhei também que a mãe do Joe Harper estava aqui.

– Ué, ela tava aqui! Você sonhou algo mais?

– Ah, muita coisa. Mas já esqueci quase tudo agora.

– Tente se lembrar; não consegue?

– De algum jeito acho que o vento – o vento soprou a – a

– Tente com mais ímpeto, Tom! O vento realmente soprou alguma coisa. Vamos!

Tom apertou os dedos em sua testa por um ansioso minuto e então pronunciou:

– Lembrei! Lembrei! O vento apagou a vela!

– Misericórdia de nós! Continue, Tom, continue!

– E se não me engano nesse momento você falou: “Ué, eu acho que aquela porta—”

– Prossiga, Tom!

– Deixa eu pensar um pouco. Só um momento. Ah sim, você disse que acreditava que a porta estava aberta.

– Assim como estava sentada aqui, eu fiz isso! Não fiz, Mary? Continue!

– E depois… e depois… Não tem como ter certeza, mas era como se você mandasse o Sid conferir e… e…

– E então, e então?!? O que eu fiz o Sid fazer, Tom? O quê, o quê?

– Você fez ele… você… Ah, você mandou ele fechar a porta!

– Pela nossa terra santa! Eu nunca ouvi uma coisa assim em toda a minha vida! Não me diga que não existe nada nos sonhos… Sereny Harper tem que saber disso antes que eu seja uma hora mais velha. Quero só ver ela desmerecer esse sonho com aquele papinho anti-superstição. Que mais, Tom?

– Ah, tudo tá mais claro como o dia agora. Depois você disse que eu não era ruim, só muito malcriado e bicho-do-mato, e de modo algum mais responsável que… que… eu acho que você disse que um potro ou coisa assim.

– E foi isso mesmo! Deus é o maior! Continue, Tom!

– E depois você começou a chorar.

– E foi isso mesmo. Foi isso mesmo que eu fiz. Não a primeira vez. E depois…

– Depois a senhora Harper também começou a chorar e disse que o Joe era igual, e desejou que ela não tivesse chicoteado ele por pegar o creme que ela mesma tinha vomitado…

– Tom! O períspirito estava sobre você! Você estava profetizando – é o que você estava fazendo! Ó terra bendita do Senhor, continue, continue, Tom!

– Então o Sid disse… disse…

– Eu acho que eu não falei nada, não – interpolou Sid.

– Sim, você disse, Sid – atalhou Mary.

– Aquietem suas cabeças e deixem o Tom falar. O que foi que ele disse, Tom?

– Ele disse – eu acho que ele disse que esperava que eu ‘tivesse melhor pr’onde eu tinha ido, mas que se eu tivesse sido melhor algumas vezes…

É isso, você escutou isso?!? Foram essas mesmas as suas palavras!

– E você calou a boca dele de modo ríspido.

– Eu calei sim! Acho que foi um anjo que me auxiliou. Tinha um anjo lá, nalgum lugar!

– E a senhora Harper contou do Joe assustando ela com uma bombinha, e você falou de Pedro e do calmante…

– Tão genuíno quanto eu estar viva!

– E acho que depois falaram sobre drenar o rio pra procurar a gente, e sobre o funeral ser domingo, e depois você e irmã Harper mais velha se abraçaram e choraram, e elas foram embora.

– Aconteceu assim mesmo! Assim tintim por tintim, tão certo como eu estar sentada aqui com essas pernas! Tom, você não podia contar com mais precisura nem que ‘tivesse aqui na hora! E depois o quê? Desembucha, Tom!

– Acho que você rezou pra mim – e eu podia ver você e ouvir cada palavra que você disse. Você foi pra cama, e eu fiquei com tanta pena que escrevi num pedaço de casca de sicômoro “Não morremos… A gente só deu um tempo sendo piratas”. E deixei na mesa do lado da vela. E depois você parecia tão em paz dormindo… acho que eu fui e me inclinei e te dei um beijo nos lábios.

– Você fez isso, Tom? Fez isso? Eu te desculpo por tudo por esse gesto! E ela prendeu o garoto num abraço tão apertado que fê-lo se sentir o pior dos vilões.

– Muito bonito, Tom, mesmo sendo só um sonho – Sid, soliloquando, deixou-se ouvir.

Que herói não tinha se tornado Tom! E ele não andava mais saltitando e empinando o nariz, como antes, mas numa postura digna, não sem molejo, como a de um pirata que sabe que é alvo das atenções. Ele tentava não transparecer que reparava nos olhares ou escutava os comentários que despertava ao passar, mas eles eram como manjares para Tom. Os garotos mais novos que ele se apinhavam em seus tornozelos, orgulhosos por estarem por perto e por serem tolerados por Tom tanto quanto alguém se junta à bateria à cabeça duma procissão ou sobe ao elefante que capitaneia a caravana à cidade. Garotos da sua idade tentavam fingir que ele nunca esteve ausente da vila, mas a verdade é que estavam corroídos de inveja. Dariam tudo pela mesma pele bronzeada de Tom, ou sua reluzente notoriedade súbita. E Tom agradecia o fato de ter tantos puxa-sacos, não desejando o fim do espetáculo, que ele achava inclusive mais divertido que a chegada de um circo.

Nessas circunstâncias, seria estranho que o silêncio de Joe e Tom perdurasse por mais tempo. E então eles cederam e começaram a desabafar e aumentar suas histórias. Foi o acme da glória.

Tom decidiu que estava oficialmente em condições de declarar a independência em relação a Becky Thatcher agora. Bastava-lhe a glória não-amorosa. Agora tão distinguido por suas façanhas, quem sabe ela é que não se arrastasse atrás dele desejando ‘fazer as pazes’. Que ela tentasse, pois ele bancaria o perfeito indiferente. E chegou o dia em que ela apareceu em seu campo de visão. Tom fingiu que não a viu. Ele se moveu e se juntou a um grupo de garotas e garotos, puxando conversa. E ele percebeu que ela tentava capturar sua atenção, com o rosto vermelho e se movendo com graça e alegria para trás e para diante, o olhar nunca parado. Mas ela queria dar a impressão que na verdade estava atrás de outros garotos, ou sempre ocupada com alguém, para despertar-lhe ciúmes. E constantemente ela gargalhava alto para demonstrar que não estava carente de nada. Tom não era tolo e percebeu que ela sempre agia do modo mais eufórico bem perto dele, o que era suspeito. Toda a vaidade viciada de Tom se alimentava dessa atitude de Becky. Portanto, a tática da garota ia mal, e Tom só aumentava seu distanciamento e presunção. Becky se deu conta eventualmente e acabou desistindo. Ela notou que Tom se aproximara de Amy Lawrence mais que de qualquer outra pessoa em particular. Ela não conseguiu conter o desconforto. Mesmo tentando sair de cena, o fato era que seus pés tinham-na fincado no chão, e ela se sentia imobilizada. Ela disse a uma garota, praticamente às costas de Tom, com vivacidade simulada:

– Ora, Mary Austin! Marota, por que não apareceu no domingo?

– Mas eu vim; você não me viu?

– Ora, de modo algum. Você veio mesmo? Onde você sentou?

– Na sala da senhora Peters, como sempre. Inclusive, eu te vi.

– Você me viu? Ora, que engraçado, porque não te notei. Eu queria te falar do piquenique.

– Ah, que legal! Quem vai dar?

– Minha mãe vai dar um piquenique.”

– Ai, maravilha, espero que ela deixe eu participar!

– Vai sim! O piquenique é pra mim mesmo. Ela vai deixar qualquer um que eu queira, e quero que você apareça.

– Muito obrigada pela gentileza. E quando vai ser?

– Hm, acho que perto do período de férias.

– Vai ser muito divertido! Você vai chamar todos os garotos e garotas?

– Sim, todo mundo que é meu amigo – ou que queira ser. – Então ela olhou em direção de Tom, furtivamente, mas continuou falando com Amy Laurence sobre a terrível tempestade na ilha e como um relâmpago deixou o grande sicômoro em pedaços, caindo a um metro dele.

– Ei, posso ir? – disse Grace Miller.

– Sim.

– E eu? – essa foi Sally Rogers.

– Sim.

– Eu também? – Susy Harper dessa vez. – Com o Joe?

– Podem.

E essa cena continuou, cheio de bater de palmas, até que todo o grupo tinha, indivíduo após indivíduo pedido sua permissão, exceto Tom e Amy. Tom se virou e afastou com cálculo, ainda conversando, puxando Amy consigo. Os lábios de Becky tremeram e seus olhos umedeceram.”

Os ciúmes borbulharam no sangue de Tom. Ele começou a se odiar por jogar fora a chance de reconciliação que Becky lhe oferecera.”

ela sabia que estava ganhando a guerra, e estava contente por vê-lo sofrer enquanto ela mesma sofria.”

– Qualquer outro garoto! – Tom pensou, rangendo os dentes. – Qualquer outro da cidade, menos aquele espertinho de Saint Louis que acha que se veste como um dândi e que é aristocracia! Muito bem, eu te dei uma sova a primeira vez que você pisou nessa cidade, senhor, e vou te dar outra sova! Espere pelo seu! Só espere! Eu só vou—

E ele acompanhou a ameaça mental pelos gestos físicos de espancar um garoto invisível.

Becky continuou seu teatro com Alfred, mas como os minutos fossem passando e um Tom amargurado e mordido pelos ciúmes não apareceu sua vitória parecia agora um céu feio e cinzento, e ela foi perdendo o interesse. Ela foi ficando sisuda e distraída, logo depois melancólica. Duas ou três vezes ela focou a audição ao ouvir passos, mas eram falsos alarmes. Tom não veio. Ela por fim se arrependeu de levar sua provocação tão longe.”

DÉCIMO NONO CAPÍTULO

– Auntie, I know now it was mean, but I didn’t mean to be mean. I didn’t, honest. And besides, I didn’t come over here to laugh at you that night.

– What did you come for, then?

– It was to tell you not to be uneasy about us, because we hadn’t got drowned.”

VIGÉSIMO CAPÍTULO

– What a curious kind of a fool a girl is! Never been licked in school! Shucks! What’s a licking! That’s just like a girl – they’re so thin-skinned and chicken-hearted. Well, of course I ain’t going to tell old Dobbins on this little fool, because there’s other ways of getting even on her, that ain’t so mean; but what of it? Old Dobbins will ask who it was tore his book. (…) Girls’ faces always tell on them. They ain’t got any backbone. She’ll get licked. Well, it’s a kind of a tight place for Becky Thatcher, because there ain’t any way out of it.”

VIGÉSIMO PRIMEIRO CAPÍTULO

There is no school in all our land where the young ladies do not feel obliged to close their compositions with a sermon; and you will find that the sermon of the most frivolous and the least religious girl in the school is always the longest and the most relentlessly pious. But enough of this. Homely truth is unpalatable.”

VIGÉSIMO SEGUNDO CAPÍTULO

to promise not to do a thing is the surest way in the world to make a body want to go and do that very thing. Tom soon found himself tormented with a desire to drink and swear”

The dreadful secret of the murder was a chronic misery. It was a very cancer for permanency and pain.

Then came the measles. [catapora ou sarampo?]

During 2 long weeks Tom lay a prisoner, dead to the world and its happenings. He was very ill, he was interested in nothing. When he got upon his feet at last and moved feebly downtown, a melancholy change had come over everything and every creature. There had been a ‘revival’, and everybody had ‘got religion’, not only the adults, but even the boys and girls. Tom went about, hoping against hope for the sight of one blessed sinful face, but disappointment crossed him everywhere. He found Joe Harper studying a Testament, and turned sadly away from the depressing spectacle. He sought Ben Rogers, and found him visiting the poor with a basket of tracts. He hunted up Jim Hollis, who called his attention to the precious blessing of his late measles as a warning. Every boy he encountered added another ton to his depression; and when, in desperation, he flew for refuge at last to the bosom of Huckleberry Finn and was received with a Scriptural quotation, his heart broke and he crept home and to bed realizing that he alone of all the town was lost, forever and forever.

And that night there came on a terrific storm, with driving rain, awful claps of thunder and blinding sheets of lightning. He covered his head with the bedclothes and waited in a horror of suspense for his doom; for he had not the shadow of a doubt that all this hubbub was about him. He believed he had taxed the forbearance of the powers above to the extremity of endurance and that this was the result. It might have seemed to him a waste of pomp and ammunition to kill a bug with a battery of artillery, but there seemed nothing incongruous about the getting up such an expensive thunderstorm as this to knock the turf from under an insect like himself.

By and by the tempest spent itself and died without accomplishing its object. The boy’s first impulse was to be grateful, and reform. His second was to wait – for there might not be any more storms.”

When he got abroad at last he was hardly grateful that he had been spared, remembering how lonely was his estate, how companionless and forlorn he was. He drifted listlessly down the street and found Jim Hollis acting as judge in a juvenile court that was trying a cat for murder, in the presence of her victim, a bird.”

VIGÉSIMO TERCEIRO CAPÍTULO

he did not see how he could be suspected of knowing anything about the murder, but still he could not be comfortable in the midst of this gossip. It kept him in a cold shiver all the time. He took Huck to a lonely place to have a talk with him. It would be some relief to unseal his tongue for a little while; to divide his burden of distress with another sufferer.”

– Why, Tom Sawyer, we wouldn’t be alive 2 days if that got found out. You know that.

(…) After a pause:

– Huck, they couldn’t anybody get you to tell, could they?

– Get me to tell? Why, if I wanted that halfbreed [mestiço] devil to drownd me they could get me to tell. They ain’t no different way.”

– You’ve been mighty good to me, boys – better’n anybody else in this town. And I don’t forget it, I don’t. Often I says to myself, says I, ‘I used to mend all the boys’ kites and things, and show ‘em where the good fishin’ places was, and befriend ‘em what I could, and now they’ve all forgot old Muff when he’s in trouble; but Tom don’t, and Huck don’t – they don’t forget him, says I, ‘and I don’t forget them.’ Well, boys, I done an awful thing – drunk and crazy at the time – that’s the only way I account for it – and now I got to swing for it, and it’s right. Right, and best, too, I reckon – hope so, anyway. Well, we won’t talk about that. I don’t want to make you feel bad; you’ve befriended me. But what I want to say, is, don’t you ever get drunk – then you won’t ever get here. Stand a litter furder west – so – that’s it; it’s a prime comfort to see faces that’s friendly when a body’s in such a muck of trouble, and there don’t none come here but yourn.”

Tom went home miserable, and his dreams that night were full of horrors. The next day and the day after, he hung about the courtroom, drawn by an almost irresistible impulse to go in, but forcing himself to stay out. Huck was having the same experience.”

Counsel for Potter declined to question him. The faces of the audience began to betray annoyance. Did this attorney mean to throw away his client’s life without an effort?”

The perplexity and dissatisfaction of the house expressed itself in murmurs and provoked a reproof from the bench. Counsel for the prosecution now said:

– By the oaths of citizens whose simple word is above suspicion, we have fastened this awful crime, beyond all possibility of question, upon the unhappy prisoner at the bar. We rest our case here.”

-Your honor, in our remarks at the opening of this trial, we foreshadowed our purpose to prove that our client did this fearful deed while under the influence of a blind and irresponsible delirium produced by drink. We have changed our mind. We shall not offer that plea. [Then to the clerk:] Call Thomas Sawyer!

A puzzled amazement awoke in every face in the house, not even excepting Potter’s. Every eye fastened itself with wondering interest upon Tom as he rose and took his place upon the stand. The boy looked wild enough, for he was badly scared. The oath was administered.

– Thomas Sawyer, where were you on the 17th of June, about the hour of midnight?

– Tom glanced at Injun Joe’s [Joe o Mameluco] iron face and his tongue failed him. The audience listened breathless, but the words refused to come. After a few moments, however, the boy got a little of his strength back, and managed to put enough of it into his voice to make part of the house hear:

– In the graveyard!

– A little bit louder, please. Don’t be afraid. You were—

– In the graveyard.

A contemptuous smile flitted across Injun Joe’s face.

– Were you anywhere near Horse Williams’ grave?

– Yes, sir.

– Speak up – just a trifle louder. How near were you?

– Near as I am to you.

– Were you hidden, or not?

– I was hid.

– Where?

– Behind the elms that’s on the edge of the grave.

Injue Joe gave a barely perceptible start.

– Any one with you?

– Yes, sir. I went there with—

– Wait – wait a moment. Never mind mentioning your companion’s name. We will produce him at the proper time. Did you carry anything there with you?

Tom hesitated and looked confused.

– Speak out, my boy – don’t be diffident. The truth is always respectable. What did you take there?

– Only a—a—dead cat.

There was a ripple of mirth, which the court checked.

– We will produce the skeleton of that cat. Now, my boy, tell us everything that occurred – tell it in your own way – don’t skip anything, and don’t be afraid.

The strain upon pent emotion reached its climax when the boy said:

– …and as the doctor fetched the board around and Muff Potter fell, Injun Joe jumped with the knife and—

Crash! Quick as lightning the halfbreed sprang for a window, tore his way through all opposers, and was gone!

VIGÉSIMO QUARTO CAPÍTULO

SIDESHOW BOB’S PRECEDENT!

Tom was a glittering hero once more – the pet of the old, the envy of the young. His name even went into immortal print, for the village paper magnified him. There were some that believed he would be President, yet, if he escaped hanging.

As usual, the fickle, unreasoning world took Muff Potter to its bosom and fondled him as lavishly as it had abused him before. But that sort of conduct is to the world’s credit; therefore it is not well to find fault with it.

Tom’s days were days of splendor and exultation to him, but his nights were seasons of horror. Injun Joe infested all his dreams, and always with doom in his eye.”

Huck’s confidence in the human race was wellnigh obliterated.”

He felt sure he never could draw a safe breath again until that man was dead and he had seen the corpse.

Rewards had been offered, the country had been scoured, but no Injun Joe was found. One of those omniscient and awe-inspiring marvels, a detective, came up from St. Louis, moused around, shook his head, looked wise, and made that sort of astounding success which members of that craft usually achieve. That is to say, he ‘found a clew’. But you can’t hang a ‘clew’ for murder, and so after that detective had got through and gone home, Tom felt just as insecure as he was before.”

VIGÉSIMO QUINTO CAPÍTULO

There comes a time in every rightly-constructed boy’s life when he has a raging desire to go somewhere and dig for hidden treasures.”

Huck was always willing to take a hand in any enterprise that offered entertainment and required no capital, for he had a troublesome superabundance of that sort of time which is not money. ‘Where’ll we dig?” said Huck:

– Oh, most anywhere.

– Why, is it hid all around?

– No, indeed it ain’t. It’s hid in mighty particular places, Huck – sometimes on islands, sometimes in rotten chests under the end of a limb of an old dead tree, just where the shadow falls at midnight; but mostly under the floor in ha’nted houses.

– Who hides it?

– Why, robbers, of course – who’d you reckon? Sunday-school sup’rintendents?

– (…) I wouldn’t hide it; I’d spend it and have a good time.

– So would I. But robbers don’t do that way. They always hide it and leave it there.

– Don’t they come after it any more?

– No, they think they will, but they generally forget the marks, or else they die. Anyway, it lays there a long time and gets rusty; and by and by somebody finds an old yellow paper that tells how to find the marks – a paper that’s got to be ciphered over about a week because it’s mostly signs and hy’roglyphics.

– Hyro–which?

– Hy’rogryplhics – pictures and things, you know, that don’t seem to mean anything.

– Have you got one of them papers, Tom?

– No.

– Well then, how you going to find the marks?

– I don’t want any marks. They always bury it under a ha’nted house or on an island, or under a dead tree that’s got one limb sticking out. Well, we’ve tried Jackson’s Island a little, and we can try it again some time; and there’s the old ha’nted house up the Still-House branch, and there’s lots of dead-limb trees – dead loads of ‘em.

– Is it under all of them?

– How you talk! No!

– Then how you going to know which one to go for?

– Go for all of ‘em!

– Why, Tom, it’ll take all summer.

– Well, what of that? Suppose you find a brass pot with 100 dollars in it, all rusty and gray, or rotten chest full of di’monds. How’s that?

Huck’s eyes glowed.

– That’s bully. Plenty bully enough for me. Just you gimme the hundred dollars and I don’t want no di’monds.”

– Richard? What’s his other name?

– He didn’t have any other name. Kings don’t have any but a given name.

– No?

– But they don’t.

– Well, if they like it, Tom, all right; but I don’t want to be a king and have only just a given name, like a nigger. But say—where you going to dig first?”

– Well, I’ll have pie and a glass of soda every day, and I’ll go to every circus that comes along. I bet I’ll have a gay time.

– Well, ain’t you going to save any of it?

– Save it? What for?

– Why, so as to have something to live on, by and by.

– Oh, that ain’t any use. Pap would come back to thish-yer town some day and get his claws on it if I didn’t hurry up, and I tell you he’d clean it out pretty quick. What you going to do with yourn, Tom?

– I’m going to buy a new drum, and a sure’nough sword, and a red necktie and a bull pup, and get married.

– Married!

– That’s it.

– Tom, you – why, you ain’t in your right mind.

– Wait – you’ll see.

– Well, that’s the foolishest thing you could do. Look at pap and my mother. Fight! Why, they used to fight all the time. I remember, mighty well.

– That ain’t anything. The girl I’m going to marry won’t fight.

– Tom, I reckon they’re all alike. They’ll all comb a body. Now you better think ‘bout this awhile. I tell you you better. What’s the name of the gal?

– It ain’t a gal at all – it’s a girl. [Não é uma garota – é uma moça.]

– It’s all the same, I reckon; some says gal, some says girl – both’s right, like enough. Anyway, what’s her name, Tom?

– I’ll tell you some time – not now.

– All right – that’ll do. Only if you get married I’ll be more lonesomer than ever.

– No you won’t. You’ll come and live with me. Now stir out of this and we’ll go to digging.

They worked and sweated for half an hour. No result. They tolled another half-hour. Still no result. Huck said:

– Do they Always bury it as deep as this?

– Sometimes – not always. Not generally. I reckon we haven’t got the right place.”

– It is mighty curious, Huck. I don’t understand it. Sometimes witches interfere. I reckon maybe that’s what’s the trouble now.

– Shucks! [Putz?] Witches ain’t got no power in the daytime.

– Well, that’s so. I didn’t think of that. Oh, I know what the matter is! What a blamed lot of fools we are! You got to find out where the shadow of the limb falls at midnight, and that’s where you dig!

– Then consound it, we’ve fooled away all this work for nothing. Now hang it all, we got to come back in the night. It’s an awful long way. Can you get out?

– I bet I will. We’ve got to do it tonight, too, because if somebody sees these holes they’ll know in a minute what’s here and they’ll go for it.

– Well, I’ll come around and maow tonight.

– All right. Let’s hide the tools in the bushes.

The boys were there that night, about the appointed time. They sat in the shadow waiting. It was a lonely place, and an hour made solemn by old traditions. Spirits whispered in the rustling leaves, ghosts lurked in the murky nooks, the deep baying of a hound floated up out of the distance, an owl answered with his sepulchral note. The boys were subdued by these solemnities, and talked little. By and by they judged that 12 had come (…) Their interest grew stronger, and their industry kept pace with it. The hole deepened and still deepened, but every time their hearts jumped to hear the pick strike upon something, they only suffered a new disappointment. It was only a stone or a chunk.”

– (…) I feel as if something’s behind me all the time; and I’m afeard to turn around, becuz maybe there’s others in front a-waiting a chance. I been creeping all over, ever since I got here.

– Well, I’ve been pretty much so, too, Huck. They most always put in a dead man when they bury a treasure under a tree, to look out for it.

– Lordy!

– Yes, they do. I’ve always heard that.

– Tom, I don’t like to fool around much where there’s dead people. A body’s bound to get into trouble with ‘em, sure.

– (…) S’pose this one here was to stick his skull out and say something!

– Don’t Tom! It’s awful.;

– Well, it jus tis. Huck, I don’t feel comfortable a bit.

– Say, Tom, let’s give this place up, and try somewhere else.

– All right, I reckon we better.”

– Well, all right. We’ll tackle the ha’nted house if you say so – but I reckon it’s talking chances.”

VIGÉSIMO SEXTO CAPÍTULO

– Lookyhere, Tom, do you know what day it is?

Tom mentally ran over the days of the week, and then quickly lifted his eyes with a startled look in them—

– My! I never once thought of it, Huck!

– Well, I didn’t neither, but all at once it popped onto me that it was Friday.

– Blame it, a body can’t be too careful, Huck. We might ‘a’ got into an awful scrape, tackling such a thing on a Friday.

Might! Better say we would! There’s some lucky days, maybe, but Friday ain’t.

– Any fool knows that. I don’t reckon you was the first that found it out, Huck.

– Well, I never said I was, did I? And Friday ain’t all, neither. I hada rotten bad dream last night – dreamt about rats.

– No! Sure sign of trouble. Did they fight?

– No.

– Well, that’s good, Huck. When they don’t fight it’s only a sign that there’s trouble around, you know. All we got to do is to look mighty sharp and keep out of it. We’ll drop this thing for today, and play. Do you know Robin Hood, Huck?

– No. Who’s Robin Hood?

– Why, he was one of the greatest men that was ever in England – and the best. He was a robber.

– Cracky, I wisht I was. Who did he rob?

– Only sheriffs and bishops and rich people and kings, and such like. But he never bothered the poor. He loved ‘em. He Always divided up with ‘em perfectly square.

– Well, he must ‘a’ been a brick.

– I bet you he was, Huck. Oh, he was the noblest man that ever was. They ain’t any such men now, I can tell you. He could lick any man in England, with one hand tied behind him”

On Saturday, shortly after noon, the boys were at the dead tree again. They had a smoke and a chat in the shade, and then dug a little in their last hole, not with great hope, but merely because Tom said there were so many cases where people had given up a treasure after getting down within 6 inches of it, and then somebody else had come along and turned it up with a single thrust of a shovel. The thing failed this time, however, so the boys shouldered their tools and went away feeling that they had not trifled with fortune, but had fulfilled all the requirements that belong to the business of treasure-hunting.”

– They’ve stopped… No – coming… Here they are. Don’t whisper another word, Huck. My goodness, I wish I was out of this!

Two men entered. Each boy said to himself: ‘There’s the old deaf and dumb Spaniard that’s been about town once or twice lately – never saw t’other man before.’”

– Dangerous!, grunted the ‘deaf and dumb’ Spaniard – to the vast surprise of the boys. ‘Milksop!’

This voice made the boys gasp and quake. It was Injun Joe’s! There was silence for some time. Then Joe said:

– What’s any more dangerous than that job up yonder – but nothing’s come of it.”

– Look here, lad – you go back up the river where you belong. Wait there till you hear from me. I’ll take the chances on dropping into this town just once more, for a look. We’ll do that ‘dangerous’ job after I’ve spied around a little and think things look well for it. Then for Texas! We’ll leg it together!

This was satisfactory. Both men presently fell to yawning, and Injun Joe said:

– I’m dead for sleep! It’s your turn to watch.”

The boys drew a long, grateful breath. Tom whispered:

– Now’s our chance – come!

Huck said:

– I can’t – I’d die if they was to wake.

Tom urged – Huck held back. At last Tom rose slowly and softly, and started alone. But the first step he made wrung such a hideous creak from the crazy floor that he sank down almost dead with fright. He never made a second attempt. The boys lay there counting the dragging moments till it seemed to them that time must be done and eternity growing gray; and then they were grateful to note that at last the sun was setting.

Now one snore ceased. Injun Joe sat up, stared around – smiled grimly upon his comrade, whose head was drooping upon his knees – stirred him up with his foot and said:

– Here! You’re a watchman, ain’t you! All right, though – nothing’s happened.”

– I don’t know – leave it here as we’ve always done, I reckon. No use to take it away till we start south. 650 silver’s something to carry.”

accidents might happen; ‘tain’t in such a very good place; we’ll just regularly bury it deep.”

The boys forgot all their fears, all their miseries in an instant. With gloating eyes they watched every movement. Luck! – the splendor of it was beyond all imagination! 600 dollars was Money enough to make half a dozen boys rich! Here was treasure-hunting under the happiest auspices – there would not be any bothersome uncertainty as to where to dig. They nudged each other every moment – eloquent nudges and easily understood, for they simply meant – ‘Oh, but ain’t you glad now we’re here!’

Joe’s knife struck upon something.

– Hello!, said he.

– What is it?, said his comrade.

– Half-rotten plank – no, it’s a box, I believe. Here – bear a hand and we’ll see what it’s here for. Never mind, I’ve broken a hole.

He reached his hand in and drew it out—

– Man, it’s money!

The two men examined the handful of coins. They were gold. The boys above were as excited as themselves, and as delighted.

Joe’s comrade said:

– We’ll make quick work of this. There’s an old rusty pick over amongst the weeds in the corner the other side of the fireplace – I saw it a minute ago.

He ran and brought the boys’ pick and shovel. Injun Joe took the pick, looked it over critically, shook his head, muttered something to himself, and then began to use it.”

– Pard, there’s thousands of dollars here, said Injun Joe.”

– Now you won’t need to do that job.”

-You don’t know me. Least you don’t know all about that thing. ‘Tain’t robbery altogether – it’s revenge! – And a wicked light flamed in his eyes. – I’ll need your help in it. When it’s finished, then Texas. Go home to your Nance and your kids, and stand by till you hear from me.

– Well – if you say so; what’ll we do with this – bury it again?

– Yes. [Ravishing delight overhead.] No! by the great Sachem, no! [Profound distress overhead.] I’d nearly forgot. That pick had fresh earth on it! [The boys were sick with terror in a moment.] What business has a pick and a shovel here? What business with fresh earth on them? Who brought them here – and where are they gone? Have you heard anybody? – seen anybody? What! bury it again and leave them to come and see the ground disturbed? Not exactly – not exactly. We’ll take it to my den.

– Why, of course! Might have thought of that before. You mean Number One?

– No – Number Two – under the cross. The other place is bad – too common.

– All right. It’s nearly dark enough to start.

Injue Joe got up and went about from window to window cautiously peeping out. Presently he said:

– Who could have brought those tools here? Do you reckon they can be upstairs?

The boys’ breath forsook them. Injue Joe put his hand on his knife, halted a moment, undecided, and then turned toward the stairway. The boys thought of the closet, but their strength was gone. The steps came creaking up the stairs – the intolerable distress of the situation woke the stricken resolution of the lads – they were about to spring for the closet, when there was a crash of rotten timbers and Injun Joe landed on the ground amid the debris of the ruined stairway. He gathered himself up cursing, and his comrade said:

– Now what’s the use of all that? If it’s anybody, and they’re up there, let them stay there – who cares? If they want to jump down, now, and get into trouble, who objects? It will be dark in 15 minutes – and then let them follow us if they want to. I’m willing. In my opinion, whoever hove those things in here caught a sight of us and took us for ghosts or devils or something. I’ll bet they’re running yet.

Joe grumbled awhile, then he agreed with his friend that what daylight was left ought to be economized in getting things ready for leaving. Shortly afterward they slipped out of the house in the deepening twilight, and moved toward the river with their precious box.”

Follow? Not they. They were contente to reach ground again without broken necks (…) They did not talk much. They were too much absorbed in hating themselves – hating the ill luck that made them take the spade and the pick there. But for that, Injun Joe never would have suspected. He would have hidden the silver with the gold to wait there till his ‘revenge’ was satisfied, and then he would have had the misfortune to find that money turn up missing. Bitter, bitter luck that the tools were ever brought there!”

Very, very small comfort it was to Tom to be alone in danger! Company would be a palpable improvement, he thought.”

VIGÉSIMO SÉTIMO CAPÍTULO

the quantity of coin he had seen was too vast to be real.” “he was like all boys of his age and station in life, in that he imagined that all references to ‘hundreds’ and ‘thousands’ were mere fanciful forms of speech, and that no such sums really existed in the world.”

VIGÉSIMO OITAVO CAPÍTULO

– Yes! He was lying there, sound asleep on the floor, with his old patch on his eye and his arms spread out.

– Lordy, what did you do? Did he wake up?

– No, never budged. Drunk, I reckon. I just grabbed that towel and started!

– I’d never ‘a’ thought of the towel, I bet!

– Well, I would. My aunt would make me mighty sick if I lost it.

– Say, Tom, did you see that box?

– … U didn’t see the cross. I didn’t see anything but a bottle and a tin cup on the floor by Injun Joe (…) Don’t you see, now, what’s the matter with that ha’nted room?

– How?

– Why, it’s ha’nted with whiskey! Maybe all the Temperance Taverns have got a ha’nted room, hey, Huck?”

– I said I would, Tom, and I will. I’ll ha’ntt that tavern every night for a year! I’ll sleep all day and I’ll stand watch all night.”

That’s a mighty good nigger, Tom. He

TOM SAWYER .76

GLOSSÁRIO INGLÊS

andiron: cão-de-lareira (móvel antigo onde se deixavam as toras de madeira ainda não usadas)

brass: latão

clodding: tolo (arc.)

knob: maçaneta

marble: bola de gude (de vidro), por extensão white marble, já que o mármore é branco.

LEWIS CARROLL #SérieOsÚltimosPolímatas

polímata

(po·lí·ma·ta)

adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros

Que ou quem estudou e sabe muitas coisas ou muitas ciências (ex.: Santa Hildegarda era uma freira polímata; os polímatas são peritos em muitas áreas do conhecimento). = POLÍMATE, POLÍMATO

<polímata>, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2023, https://dicionario.priberam.org/pol%C3%ADmata.”

Traduzido do wikipedia English com algumas (muitas!) liberdades autorais…

Lewis Carroll

From Wikipedia, the free encyclopedia

 

Carroll em junho de 1857

Nascimento

Charles Lutwidge Dodgson
27 de janeiro de 1832
Daresbury, Cheshire, Inglaterra

Morte

14 de Janeiro de 1898 (aos 65 anos)
Guildford, Surrey, Inglaterra

Restos mortais

Mount Cemetery, Guildford, Surrey, Inglaterra

Ocupações

  • Escritor (atingiu a excelência)

  • Ilustrador

  • Poeta (atingiu a excelência)

  • Matemático (atingiu a excelência)

  • Fotógrafo (atingiu a excelência)

  • Professor

  • Inventor

Educação formal

Gêneros literários

  • Literatura fantástica

  • Literatura infantil

  • Matemática > Álgebra linear

  • Matemática > Lógica

  • Poesia

  • Política > Teoria do voto

  • Nonsense

Pais

Charles Dodgson (pai)

Família

 
 

O inglês Charles Lutwidge Dodgson (1832–1898), mais conhecido por seu nome de autor Lewis Carroll, foi escritor de prosa e poesia, matemático e fotógrafo, principalmente. Seus maiores trabalhos são Alice no País das Maravilhas (1865) e sua continuação (…) Através do espelho (1871). Se o considerava talentoso para os jogos de palavra, raciocínio lógico e criações fabulosas e imaginativas. Seus poemas em Jabberwocky (1871) e The Hunting of the Snark [ver tradução melhor] (1876) são considerados precursores da literatura do não-senso.

Carroll vem de uma família tradicional de anglicanos, tanto que toda sua educação formal se deu na Christ Church, onde também morou e lecionou a maior parte de sua vida.

Alice Liddell (1852-1934) – filha de Henry Liddell, o reitor de Christ Church – é quase tão famosa quanto Carroll e quase unanimemente identificada como a principal inspiração para seu personagem mais celebrado. Em vida, entretanto, Carroll negava veementemente que a Alice dos livros fosse inspirada por ou apenas pela menina dos Liddell.

Um ávido montador e propositor de quebra-cabeças, Carroll criou o jogo de word ladder (que ele chamava “doublets”, uma espécie de jogo de adivinhação de palavras, ou melhor, associação lógica de palavras),¹ publicados semanalmente em sua coluna da revista Vanity Fair (revista vitoriana que durou quase meio século) entre 1879 e 1881.

¹ Já podemos dizer que esse aparato é mais sofisticado que qualquer “metodologia” pseudanalítica de um século mais tarde.

(…)

Infância

(…) Maioria de seus antepassados masculinos eram oficiais do exército ou pastores da igreja. Seu bisavô chegou a bispo de Elphin no interior da Irlanda. Seu avô paterno, outro Charles, foi capitão do exército, morto em combate em 1803, quando o pai e os tios de Carroll não passavam de bebês. (…) Talento nato para a matemática, igual se mostraria o filho, o professor Dodgson poderia ter escolhido o caminho exclusivo do bacharelado. Em vez disso, ele preferia uma vida mais seclusa. Casou com a prima Frances Jane Lutwidge em 1830 e se tornou um modesto pároco de província.

Dodgson (Lewis) era a terceira de onze crianças do casal, sendo o primeiro menino. Aos 11 anos, mudou-se para Yorkshire devido a uma promoção de seu pai. Esta foi sua casa pelos próximos 25 anos de sua vida. Seu pai era um religioso extremamente ortodoxo e chegaria ainda ao cargo de Arqui-deão/Arqui-decano de Richmond. Era um polemista em questões de moral e cismas religiosos. O maior ídolo do homem era John Henry Newman (polímata e santificado pela igreja católica em 2019!), líder do Tractarian movement (a redação de um número de panfletos que queria dogmatizar a igreja anglicana especificamente inglesa à parte de outras conformações, como a da Irlanda).

Seu filho homem mais velho, nem precisamos dizer, não herdou todas as concepções ortodoxas e aristocráticas de seu progenitor, tendo preferido ser autor e professor de matemática antes de deão. Aos 7, Carroll, segundo anotações da família, lia livros para adultos – posto que montados sobre complicadas alegorias – como The Pilgrim’s Progress (…) de Bunyan. Ele e vários de seus irmãos e irmãs eram gagos, o que limitava suas perspectivas sociais. (…)

Auto-retrato circa 1856, aos 24.

Alegadamente, segundo seu diário, no período de 3 anos em que estudou na Rugby School Dodgson (e todos os mais jovens ou novatos), sofreu bullying. (…) Seu sobrinho Stuart Collingwood escreveria mais tarde: “Muito embora seja difícil de figurar meu tio como alguém diferente dessa persona meiga e retraída que todos conhecem, é também verdade que, mesmo anos depois de deixar de ser um estudante, seu nome era ainda recordado como o de alguém que sabia usar os punhos em auto-defesa dos mais fracos quando necessário”, referindo-se principalmente a lutas em que Lewis defendia não a si mesmo mas as outras vítimas de assédio da escola.

Em matemática, nunca vi alguém tão dotado em todos os meus anos na Rugby School quanto Dodgson”, escreveu o professor da instituição R.B. Mayor. (…) Seus estudos nesta instituição duraram de 1846 a 1849, no que poderíamos equivalê-los ao nosso ensino médio. Em maio de 1850 Dodgson já estava matriculado em Oxford na disciplina que tanto notabilizou não só a ele, mas a sua família como um todo, como se corresse no sangue. Apenas dois dias após o início das aulas, Lewis foi convocado para voltar ao lar: sua mãe havia morrido de uma “inflamação no cérebro”, talvez decorrente de um surto de meningite, ou um derrame, provocado ou não por alguma forte pancada. Ela tinha apenas 47 anos.

Seus anos na academia transitaram, segundo ele mesmo em seus diários, entre corresponder ao status de gênio que lhe era imputado pelos mais velhos e uma incrível capacidade de distração e “desleixo” para com a seriedade excessiva do ambiente. Em 1852 ele obteve uma menção honrosa como um dos mais destacados alunos da Universidade. Isso valeu-lhe uma bolsa oferecida pelo amigo de seu pai, o cânone da igreja Edward Pusey. Em 1854, imediatamente antes de se formar, adquiriria outra menção honrosa.

(…) Quando não atuava, de forma contínua ou intermitente, como professor da instituição na qual se formou, Lewis desempenhava uma miríade de cargos honoríficos, como o de sub-bibliotecário da própria Christ Church, algo parecido com a reitoria ou pró-reitoria da instituição.¹ (…)

¹ Assim como a denominação secretário, bibliotecário sofreu, no mundo profissional e na língua portuguesa, grande “baque” ou “recessão”…

Personalidade e aparência

Problemas de saúde

Fotografia de 1863 por Oscar G. Rejlander

Charles Dodgson, uma vez adulto, tinha cerca de 1.83m e era muito magro. Tinha cabelo encaracolado castanho e olhos entre azul e cinza (difíceis de definir conforme cada testemunho diferia). Foi descrito em seus anos finais como um “senhor excêntrico”, assimétrico, um tanto falto de harmonia e bizarro. Suspeita-se que esse quadro não seria veraz, dadas indicações de que também já havia possuído porte atlético, não fosse por uma lesão crônica no joelho que adquiriu à meia-idade.

Quando era criança sofreu de uma febre que o deixou surdo de um ouvido. Aos 17, teve um ataque severo de coqueluche, o que talvez explique a fraqueza de seus pulmões durante toda a vida madura. Sua gagueira permaneceu oscilante e relativamente controlada, mas de modo geral incurada, hoje um de seus traços mais conhecidos. A principal instância desse fato está auto-parodiada pelo Dodo (animal extinto no mundo real e que repetia sílabas, já no nome) de Alice no País das Maravilhas.

(…)

Lewis viveu em tempos em que a “alta sociedade” exigia certa fluência oratória, quando não talento lírico para as músicas e serões em grupos e bailes. Mas parece que Lewis não era mau cantor, nem se intimidava diante do público, assim como recitar poemas ou predicar a fé não lhe eram situações problemáticas. Outras de suas renomadas especialidades são a mímica e o conto improvisado de estórias (assim começou Alice no País das Maravilhas, inclusive). Melhor ainda, era um grande charadista.

Conexões

Entre seus primeiros escritos e o mega-sucesso da dobradinha Alice, Dodgson participava ativamente de um círculo de intelectuais “pré-rafaelitas” (eruditos e rebuscados, desejosos de disseminar uma cultura que antecedia mesmo o neo-classicismo, ainda que não fosse gótica como a da idade média). Assim foi que ele conheceu John Ruskin¹ em 1857. Em 1863 entabulou relações com Dante Gabriel Rossetti e sua família. Rossetti era outro polímata: poeta, pintor, tradutor. Outras celebridades do círculo eram William Holman Hunt, Arthur Hughes e John Everett Millais. Mas aquele autor com características mais similares as suas talvez fosse George MacDonald, nem que somente por haver se notabilizado pela autoria de obras “para crianças”. Na verdade parece que a entusiástica recepção dos esboços de Alice pelos filhos deste último encorajaram Carroll de forma decisiva para empreender sua reescrita e publicação finais. Carroll, notório fotógrafo, tiraria muitas fotos da família MacDonald e também da família Rossetti em seus jardins em Chelsea.

¹ Mais um polímata britânico do XIX retroativamente acusado pelos acadêmicos de pedófilo.

Política, religião e filosofia

Dodgson seguiu minimamente a tradição de seu pai: era um conservador purista em todos os tópicos sociais, mesmo os do pensamento humano, quando não acabava atingindo verdades póstumas via insights em suas novelas. Martin Gardner descreve Dodgson como um Tory preconceituoso e esnobe com as classes trabalhistas, o que nos causa estranheza. William Tuckwell, em Reminiscências de Oxford (1900), entendia-o como “austero, tímido, preciso, absorvido por demais em esquemas matemáticos, muito autoconsciente de seu senso de dignidade, algo conservador além do que parecia confortável a sua própria natureza, como que por inércia ou razões de família, e, enfim, prisioneiro de preconceitos vitorianos”.

(…)

Dodgson também foi um membro-fundador da Sociedade para a Pesquisa Psíquica, e ele era um claro defensor da teoria da telepatia (em Sílvia e Bruno dedica todo o poder e fé a essas crenças ao seu eu-lírico).

(…)

Na arte

Uma das ilustrações de Carroll

Literatura

Desde a adolescência se dedicou aos poemas e pequenos contos. Havia uma revista da família, Mischmasch, em que contribuía. Quando esses escritos foram revividos por publicações profissionais, obtiveram sucesso moderado. Nos anos 1850 ele se tornaria um autor nacionalmente conhecido (antes de Alice, quando se tornou mundialmente consagrado). Destacava-se mais nas publicações que fossem bem-humoradas, satíricas, etc.

Uma de suas peças de teatro para serem encenadas por marionetes por suas irmãs, nunca publicada em seus tempos, sobreviveu para nosso escrutínio: La Guida di Bragia. Seu primeiro poema realmente famoso foi Solitude (Solidão), num exemplar de The Train, em que Dodgson já usava o alter ego ou pseudônimo Lewis Carroll, a partir dali indissociável de sua carreira literária não-acadêmica. (…) Participou da escolha de seu nome artístico um dos editores de suas obras, Edmund Yates. Ele vetou outros nomes sugeridos por Dodgson: Edgar Cuthwellis, Edgar U.C. Westhill e Louis Carroll!

Os livros de Alice

The Jabberwock, ilustrado por John Tenniel, mais famoso pelas caricaturas dos dois volumes de Alice. Uma parte deste poema, autocontido, está em Através do Espelho.

Em 1856 o autor conheceu Henry Liddell e sua família. Não só o pai da família se tornou seu confidente (e basicamente patrão, pois era figura importante de Oxford) como a esposa Liddell, Lorina, e suas crianças também lhe amigaram muito rápido. Eram três irmãs mulheres, Lorina a Filha, Edith e Alice, a caçula. Em geral a Alice da pena de Lewis não lembra Liddell, realmente, em seus atributos físicos e em grande parte de sua personalidade infantil. É curioso, ainda mais em vista do que diremos a seguir sobre o “escândalo Carroll-Liddell”, que Lorina conste como figura proeminente no epílogo de País das Maravilhas…

Outra “pequena musa” de suas obras foi Gertrude Chataway (já de uma época em que Alice Liddell era uma mulher adulta), a quem dedica um poema com acrósticos no prelúdio de The Hunting of the Snark. Isso não sugere, ao contrário das lendas urbanas muito ou pouco exageradas no caso dos livros de mais fama, que Gertrude tenha sido tal e qual transposta para a narrativa ou tenha sido uma inspiração essencial da obra. Encara-se como uma simples dedicatória, como todo autor tem o direito de fazer, e costumeiramente o faz.

O que não nos permite tecer conclusões cabais de nenhum tipo sobre a força ou intensidade das relações com suas “musas” é que os diários do autor de 1858-62 estão irremediavelmente perdidos para nós. Isso não nos veda o conhecimento de que Lewis era realmente amigo íntimo da família Liddell e passeava de barco/gôndola com as crianças do casal em fins de semana e feriados, por exemplo, nas águas que circundam a Universidade de Oxford. Parece que a amizade com filhos de conhecidos não se mantinha após crescerem, no caso de Dodgson, mas com Alice Liddell a fofoca e as lendas urbanas atingiram o nível máximo na imprensa e nos estudos acadêmicosb.

(…)

Graças ao sucesso do primeiro livro de Alice, Dodgson se viu, pela primeira vez na vida, essencialmente um homem rico e independente. Anedoticamente se conta que a própria Rainha Vitória se enamorou tanto do livro que teria instado o autor a dedicar seu próximo livro a ela, mas este não foi um livro infanto-juvenil, e sim um maciço volume acadêmico chamado An Elementary Treatise on Determinants (Tratado Elementar sobre Determinantes Matemáticas). Mas, como com a frase “os boatos de minha morte foram um tanto exagerados”, podemos suspeitar da veracidade desta lenda: a dedicatória existe, porém não há registro fiável de que a rainha Vitória tenha feito esta súplica de homenagem.

Mesmo com o ganho satisfatório advindo de suas publicações, contudo, Lewis seguiu em Christ Church, como um professor comum. A continuação da primeira parte de Alice (não que a estória tenha terminado inconclusa) demoraria quase uma década, Através do Espelho. É um livro mais sinistro e sério, como aliás seria a tendência para Sílvia e Bruno, dificilmente catalogável, em sua metade “menos élfica” como “livro de crianças”!

Como sempre, os críticos querem encontrar em circunstâncias pessoais os motivos para o tom mais melancólico de uma obra, neste caso uma duologia que, dizem, começa muito mais alegre do que termina: o pai de Lewis morrera em 1868, entre as duas publicações. Fato muito fraco para ser causa de uma mudança de estilística ou de sentimento e humor num autor de grande envergadura.

The Hunting of the Snark¹

¹ Snark é uma criatura mitológica inventada por Carroll, portanto não me cabe traduzir o nome. O restante do livro sim: A Caça ou Caçada ao Snark.

Trata-se de um poema épico eivado de nonsense. Henry Holiday substitui Tenniel como seu ilustrador desta vez. Talvez seja uma releitura do mito de Ahab-Moby Dick. Entre 1876 e 1908 o livro teve 17 reimpressões, outro sucesso incontestável, desta vez noutro gênero. Hoje é comum vê-lo transposto para musicais, óperas, peças e músicae, embora muito menos lido que Alice, o que não é difícil, uma vez que Alice é um dos livros mais lidos de todos os tempos. Ainda falta o filme, bem como um maior reconhecimento para o legado de Sílvia e Bruno. Voltando a Snark, Dante Gabriel Rossetti costumava dizer que o poema era inteiro sobre ele.

Sylvie and Bruno

Como três/duas décadas atrás, eis Carroll produzindo um livro para o público infanto-juvenil em dois volumes mais uma vez, Sílvia e Bruno, um casal de irmãos-fada, numa trama um tanto mais elaborada que as anteriores, embora cheias dos mesmos jogos de palavras e absurdos temáticos encantadores sob a pena de Carroll. Na verdade há duas main plots que se desenvolvem de forma ora paralela, ora complementar, num enredo espiralado e interdependente. Um é o mundo real da Inglaterra interiorana cujo protagonista é um senhor idoso suscetível à crença nas tais fadas (muito parecido com o próprio Carroll em seu temperamento e humor) – este senhor não é chamado por um nome próprio no decorrer de todo o livro. (O Seclusão postará seus principais trechos em poucos dias.) A outra metade é dedicada às desventuras dos pequenos irmãos exilados de Exotilândia, peregrinos de Elfolândia e outros países ou mundos de faz-de-conta que vivem nos interstícios do nosso, neste enredo. A obra tem bastantes mensagens crít(p)icas e conteúdos inapreensíveis para pessoas demasiadamente jovens sem muita semelhança com a precocidade intelectual do próprio Dodgson, o que me permite situá-la na literatura universal do mais alto nível sem constrangimento algum. Mesmo não fazendo tanto sucesso comercial (comparativamente), o livro nunca esgotou seus exemplares ou saiu de circulação, recebendo reimpressões constantes, em mais de um século.

Hobby (em alto nível) da fotografia (1856–1880)

Foto de Alice Liddell tirada pelo próprio Lewis Carroll (1858)

Em 1856 Dodgson descobriu a nova arte da fotrografia e a abraçou por completo, sob influência de um primo, Skeffington Lutwidge, e do colega oxfordiano Reginald Southey. Em pouco tempo ver-se-ia que Carroll não era só um entusiasta da nova tecnologia e meio de expressão artística imagético, tendo muito tato e senso estético para suas imagens, como um fotógrafo vocacionado atual.

Um estudo exaustivo de Roger Taylor e Edward Wakeling conseguiu reunir todos os retratos sobreviventes do autor (https://www.abebooks.com/9780691074436/Lewis-Carroll-Photographer-Taylor-Roger-0691074437/plp). O objeto favorito de Carroll eram garotas pré-púberes (cerca de 50% de suas modelos fotográficas). Estima-se que mais da metade das fotos tiradas por Dodgson foram destruídas pelo autor antes de sua morte ou por seus parentes, talvez mediante pedido do autor em testamento. Ele também fez estudos de paisagens, garotos e homens adultos. Mesmo objetos inanimados: esqueletos, bonecas, estátuas, pinturas (primeiras instâncias de um mélange ou intersemiótica de fotografia e outras artes?); ou então animais, principalmente cães, e a vida vegetal. Sempre que fotografava crianças ele mantinha um dos pais como testemunha em toda a sessão. A famosa foto acima, uma das que nos permite conhecer a fisionomia da Alice “verdadeira”, foi tirada nos jardins da propriedade dos Liddell: era comum àquele tempo ser melhor tirar fotos aproveitando-se da luz solar, pois não havia ainda bons estúdios de fotografia nem lugares fechados com iluminação hoje dita profissional.

The Rossetti Family, Lewis Carroll (1863). L-R: Dante Gabriel RossettiChristina RossettiFrances Polidori e William Michael Rossetti

A fotografia de pessoas célebres também valeu-lhe contatos importantes e dinheiro: John Everett MillaisEllen TerryJulia Margaret CameronMichael Faraday (um dos nossos polímatas da série!)Lord SalisburyAlfred Tennyson.

Em 1880 Dodgson se aposentou da fotografia (foram 24 anos de carreira). Ele tinha um lugar para armazenar seus retratos no sótão de Tom Quad. O aposento constituía um acervo de 3 mil imagens. Como dito, conhecemos hoje menos de mil, então é uma estimativa, no melhor dos mundos. Algumas fotos foram perdidas unicamente pelo desgaste do tempo e não-atendimento dos requisitos de preservação do suporte, não por negligência, mas pela precocidade técnica do trabalho de Carroll.

Como fotógrafo da velha guarda, seu método de revelação estava se tornando obsoleto e ele tinha de perder muito tempo com fotografias, o que o privava das delícias da literatura e da matemática, daí sua “aposentadoria” anunciada, bem antes do fim de seus anos ativos.

Matemática

Pintura-retrato póstuma de Lewis Carroll por Hubert von Herkomer.

Suas sub-especialidades eram os campos da geometria, álgebra linear, álgebra de matrizes, lógica e matemática recreativa (podendo ser considerado o pai da ‘disciplina’), tendo escrito quase uma dúzia de livros no assunto, com seu nome de batismo, não Lewis Carroll.

Dodgson produziu a primeira prova impressa do Teorema de Rouché-Capelli; contribuiu com novas idéias e conceitos em probabilidade e estudos de eleições (“método Dodgson”).

Lógica

Esse é um legado redescoberto somente na segunda metade do século XX. Martin Gardner e William Warren Bartley III parecem ter voltado a situar Carroll no âmbito dos lógicos de relevo. Seu volume II dedicado à lógica é especialmente recomendado.

Álgebra

A condensação de Dodgson é uma maneira de avaliar determinantes. Esses foram os passos iniciais para o desenvolvimento de um novo teorema algébrico.

Matemática como passatempo

Fosse vivo durante a Segunda Guerra, é de supor que Carroll pudesse ajudar os Aliados contra os alemães, pois algumas de suas proposições sobre criptografia seguem bastante atuais. Para um homem que viveu antes dos computadores, essa é uma faceta marcante.

Correspondências

Estima-se que Dodgson tenha escrito e recebido espantosas 98.721 cartas. Poderíamos chamá-lo de Pelé das cartas.

Anos finais¹

¹ Odiaria ter uma página no wikipedia com essa seção contando minha vida.

 

 

Lewis Carroll retratado na terceira idade

Dodgson pouco mudou sua rotina após a fama e a riqueza, como dito. Uma de suas poucas aparições públicas, por exemplo, se deu na estréia de Alice no País das Maravilhas no teatro, no País de Gales, 30 de dezembro de 1886. Parece que a única ocasião em que viajou para fora do Reino Unido foi quando conheceu a Rússia em 1867, numa missão eclesiástica com o reverendo Henry Liddon. Na volta, parece ter feito escalas em cidades da Bélgica, Alemanha, Polônia e França, conforme seus diários. A partir dos 60 anos sua mobilidade foi severamente comprometida pela artrite e a gota. Sua causa mortis foi pneumonia seguida de influenza.

Controvérsias

Sexualidade de Carroll & Algumas considerações sobre o surgimento da arte da fotografia

Biógrafos do fim do século XX, com a pauta finalmente em moda, começaram a se questionar sobre a homossexualidade e a possível classificação de Dodgson como pedófilo, mas é importante ressaltar que para que esse diagnóstico seja válido ao se referir a pessoas de séculos anteriores a documentação comprobatória precisa dar respaldo, mais ainda do que para biografias contemporâneas, com testemunhos, testes, dentre outras evidências muito mais acessíveis. Mais do que trabalho historiográfico, a grande parte do que se publicou sobre o tema até hoje parece jornalismo marrom ou tentativa de vender mais exemplares, alimentando polêmicas anacrônicas. Para exemplos da conduta, vd. Morton Cohen, Lewis Carroll: A Biography, 1995; Donald Thomas, Lewis Carroll: A Portrait with Background, 1995; Michael Bakewell, Lewis Carroll: A Biography, 1996. Veja que todas as biografias são produtos de um tempo (uma década histérica com a Aids, talvez, e de retrocesso nas conquistas de liberação pós-guerra?)

 

 

Fotografia carrolliana de Beatrice Hatch, parente em grau distante de Aldous Huxley.

Circulam fake news de que Dodgson teria pedido a mão de Alice Liddell em casamento, mas essa informação não é encontrada em nenhuma de suas quase 100 mil correspondências, o que deveria servir de alerta ao baixo nível das biografias acadêmicas do autor.

(…)

Do lado dos historiógrafos mais honestos e menos sensacionalistas podemos encontrar Hugues Lebailly (Through a Distorting Looking-Glass: Charles Lutwidge Dodgson’s artistic interests as mirrored in his nieces’ edited version of his diaries; Charles Lutwidge Dodgson’s relationship with the weaker and more aesthetic sex re-examined). A era vitoriana promovia uma espécie de culto divino da infância e da criança, mesmo do corpo a-erótico das crianças. É natural que um homem do período desenvolvesse uma carreira vicária de fotógrafo com estes gostos em mente, e que fotos com roupas de luxo, simulando certa pobreza ou espontaneidade (a criança coberta de farrapos, ou como que em roupa de cama, surpreendida ao acordar) e até mesmo nus completos não produzissem o menor choque social – pelo contrário, era como retratar anjos visíveis. Palavras como pornografia e abuso infantil estavam longe sequer de ser cunhadas ou debatidas.

Longe de ser uma exclusividade de Carroll, muitos profissionais do período e do local são notáveis no campo da Estética por tratar exclusivamente do assunto e contribuir em Estética e Moda das perspectivas infanto-juvenis, como Oscar Gustave Reilander¹ (quem trabalhou com Darwin) e Julia Margaret Cameron (a mãe do close-up, até hoje uma das maiores influenciadoras de nosso imaginário plástico dos maiores gênios que estudamos desde a escola via livros-textos, pois dela são algumas das fotos mais difundidas de ingleses de renome; ataques misóginos no período – que surpresa! – classificavam seus “cliques” atemporais como “borrados e fora de foco” – nem Bernard Shaw² deixou de dizer as maiores asneiras sobre Julia Cameron, ainda que obrigado a reconhecer seu talento… para fotografar homens velhos!). “Nus” de crianças apareciam vulgarmente em cartões postais britânicos a cada comércio de esquina, então não é como se fossem uma commodity para “aficionados” ou “doentes”, como seriam considerados hoje. Não há como condenar Dodgson sem condenar um período histórico inteiro (e ainda assim estar-se-ia correndo o risco de cometer grave injustiça) – disso os biógrafos incautos deveriam ser avisados, se ousam tecer conclusões de longo alcance a fim de vender livros mais facilmente.

¹ A propósito, através dessa página encontrei essa outra e estou aqui gargalhando há 5min: https://en.wikipedia.org/wiki/Victorian_headless_portrait. Etimologia da lenda do cavaleiro sem cabeça (ou um dos epifenômenos dessa obsessão inglesa)?

² Um dos últimos reacionários com cérebro do planeta Terra.

Karoline Leach vai mais longe e entende o retrato (no pun intended) que se faz de Lewis como “desinteressado de mulheres adultas” como uma grande mitologização e falsificação da vida do autor, o que ganhou até nome próprio para larga utilização: O Mito de Carroll. Os primeiros biógrafos erraram sutilmente a esse respeito; os de uma segunda geração, utilizando os primeiros como referência, ampliaram o erro ao entender “eco” como “informação” inquestionável, até que o mercado de biografias de Carroll se tornasse indistinguível do mau jornalismo de superfície, com lupas que magnificavam os erros dos biógrafos precedentes.

Algumas das famosas “amiguinhas” de Carroll, como chamam suas modelos pejorativamente, porque assim ele as tratava nas cartas, sem por isso significar algo jocoso, que os biógrafos que o acusam de pedofilia gostam de citar como “prova”, com as quais ele se correspondia, tinham mais de 18 anos de idade, por exemplo. Imoralidade não deve ser confundida com ilegalidade nesse aspecto idiossincrático – se verdadeiramente idiossincrático – do eminente pastor-matemático-poeta-fotógrafo! Langford Reed, por fim, para citarmos novamente alguém do campo anti[t]ético, propôs em 1932 uma tese um tanto “leonardodicapriana” para os interesses interpessoais de Carroll: ele, alega o autor da biografia dos anos 30 do século passado, descartava suas amizades femininas quando elas chegavam aproximadamente ao aniversário de 14 anos. Como vimos no caso da família Liddell, a razão do “rompimento” pode ser de ordem completamente não-relacionada com o envelhecimento da criança-modelo (inclusive pode ter relação com ciúmes e paranóia dos pais da agora púbere rebenta, num tempo em que se fazia legitimamente a côrte a mulheres assim que elas já haviam visivelmente menstruado – e não falo de jovens de barba espessa, mas de sessentões ou setentões, muitas vezes). Outros defendem que Carroll era homossexual e usava essas correspondências para tentar camuflar o fato, que era contravenção conforme a Inglaterra do período ou pelo menos pecado na consciência de alguém tão religioso, sabendo-se que dificilmente um aristocrata britânico teria de cumprir pena pelo crime do “amor proibido”.

O claustro e não-ordenação

Dodgson deveria ter sido ordenado para viver em claustro cerca de 4 anos após ter completado seus estudos como matemático na Christ Church. Mas essa circunstância foi inúmeras vezes adiada e Carroll acabou sendo sempre um “leigo”, isto é, um pastor comum de sua congregação, e não alguém mais retirado da vida, um “monástico” (a igreja anglicana possui tantos pontos em comum com o catolicismo – vedação do sexo fora ou mesmo dentro do casamento sem fins reprodutivos, quando não do casamento em si – quanto com o protestantismo, dependendo da seita em questão).

Algo dos possíveis tormentos um tanto herméticos e apenas psicológicos de Carroll no que diz respeito a sua condição de pecador pode ser distinguido nas entrelinhas da narração em primeira pessoa da ficção Sílvia e Bruno, que comparado com Alice no País das Maravilhas, livro sem referencial religioso algum (dir-se-ia, bastante pagão), é uma verdadeira gospel novel.

Os diários perdidos

Pelo menos 4 volumes completos e 7 páginas de texto de outros diários estão faltando, num total de 13 volumes dos diários de Lewis Carroll. Não se sabe explicar o desaparecimento. A remoção das páginas aleatórias dentre os volumes preservados, por exemplo: especula-se que seja obra dos herdeiros, a fim de preservar a imagem do autor em pontos sensíveis de sua biografia. Os períodos mais afetados por essas omissões são 1853 a 1863 (dos 21 aos 31 anos de Lewis). Há especulações, no mesmo montante, de que fossem poemas abertos sobre interesses homossexuais, numa análise contextual de em que períodos Carroll mais produziu poeticamente (justamente esse intervalo). Novamente, especulações com algo de razão, porém sem qualquer evidência.

 

Descoberta documental (não-conclusiva) de 1996 (Karoline Leach): mais um indício apoiando que ambas as famílias jamais trataram de propostas matrimoniais entre “Carroll” Lutdwidge e Alice Liddell.

Parece que a principal causa do rompimento havido entre Carroll e a família Liddell (que não foi definitivo, mas que esfriou a relação entre as partes de modo irreversível) tinha razões bem menos nobres, se se confirma a veracidade do conteúdo da imagem exposta acima –– outros diriam: bem menos escandalosas ––, que uma negativa de Alice (na verdade o pai de Alice) em se casar (que sua filha se casasse) com Dodgson. Havia boatos, na casa paterna, de relações entre o escritor e uma certa governanta, ou mesmo com Lorina Liddell, a irmã mais velha de Alice (em idade legal para contrair o matrimônio, a propósito). Na verdade, pior ainda, Lorina podia ser a própria mãe de Alice, já que o nome da primeira filha e da mulher do Sr. Liddell era o mesmo! Affair socialmente escandaloso, sem dúvida, mas absolutório de Carroll no quesito “pedófilo que gostaria de casar com sua principal musa inspiradora” (o que nos importa neste séc. XXI, assumo), para a decepção de muitos tablóides acadêmicos extemporâneos! Caso isso pudesse ser provado efetivamente, e não apenas apontado com um pouco mais de probabilidade (só o que há são “fofocas” provenientes de uma página muito tardia redescoberta, realmente suprimida do diário, mas não-escrita pelo próprio Carroll, mostrando que ele foi alterado entre sua morte e sua divulgação, que bate com a data do rompimento nas relações familiares, em que constam essas explicações mais fundamentadas no senso comum – testes caligráficos apontam para as anotações serem das sobrinhas de Carroll, que alegavam não querer manchar a reputação da governanta para terem suprimido a página depois, enquanto que há outra vertente que acredita na declaração do sobrinho-neto de Carroll de que foi ele o autor da entrada no diário, baseando-se, de qualquer maneira, em ouvir-dizer corrente na família), realmente seria o maior marco ou revolução epistemológica desde que biografias de Carroll começaram a ser escritas, digno de um grande mea culpa dos especuladores em relação a Lewis Carroll! A página acima segue, entretanto, como curiosidade pitoresca sobre esta inútil polêmica.

Enxaqueca e epilepsia¹

¹Esta seção deveria obviamente estar em Problemas de saúde, não como tópico separado.

Na década de 1880 Dodgson descreveu em detalhes suas crises de enxaqueca com aura. Curiosamente, uma vertente de enxaqueca foi batizada de Síndrome de Alice no País das Maravilhas por médicos posteriores, graças aos efeitos visuais lisérgicos decorrentes da crise (há a sensação corpórea, concomitante, de aumento e diminuição do tamanho dos corpos em volta).¹

¹ Eu mesmo padeci de uma dessas crises (embora minhas enxaquecas, sempre com aura, sejam bastante raras) num momento fundamental de minha adolescência em que fui falsamente acusado pelos meus pais de empreender ações horríveis (namorar uma suposta prostituta-cafetã – acusação que na verdade partiu – e foi facilmente crida – de um trote da cunhada má, irmã da difamada, nas quais meus pais caíram como patos sem solicitar qualquer evidência além de uma convicta voz na ligação de telefone, como caem em qualquer conversa para boi dormir, de golpes de cartão a Bolsonaros…).a Com o tempo, o sistema de mentiras que eles (meus pais) erigiram para me difamar voltou-se contra eles, e as doenças auto-imunes também deixaram de me afetar para afetar Nadir Gomes e José de Jesus Ferreira ao invés. Enantiodromia psicossomática hereditária? Somatização enantiodrômica intergeracional? Destino trágico-irônico? Chamem do que quiser! Eu chamo de BBB: burlesco, belo e moral.

a Anos depois, ironicamente, a mesma pessoa (a cunhada caluniosa), com o mesmo expediente (telefonar para os meus pais) conseguiu realizar o efeito contrário na mente deteriorada de meus lamentáveis progenitores: num contexto diferente, em que as duas tinham se reconciliado e eu era “o ex tóxico da estória”, a irmã de minha ex-namorada (quero deixar claro que esta ex-namorada nunca foi prostituta, nem cafetina, nem agia como qualquer dessas coisas, como nas ilações feitas pela própria irmã meses antes!! parece que não só a minha família é um poço de lodo covarde e deletério…) comunicou aos meus pais que me processaria por tê-la eu ofendido no scrapbook do finado Orkut! Meu pai, machão como sempre, disse que se algo assim se repetisse eu não poderia concluir minha faculdade privada de jornalismo, que ele a duras penas (falso!) custeava, pois pararia de me financiar no ato.aa

aa Mais curiosamente ainda, numa dessas reviravoltas típicas na vida de pessoas sem-cérebro (falo do meu pai, que infelizmente tinha dinheiro e o monopólio sobre minha existência, quando eu era um jovem desempregado de 20 anos), ele revoltou-se anos mais tarde quando eu desisti voluntariamente da faculdade de jornalismo, pois não desejava mais seguir aquela profissão, e ser-me-ia fácil largá-la de imediato, uma vez que já inclusive cursava em simultâneo sociologia na Universidade de Brasília e comunicação social nessa pós-graduação de direito privado… Agora, porém, o “machão” não podia dizer que sem seu dinheiro eu não poderia me formar (numa instituição pública), e que ele era o deus-mecenas de minha existência presente-futura… Havia perdido um grande poder, ou sensação de poder, que os idosos usam no lugar das ereções! Ele não deixou, contudo, e hipocritamente, de estrebuchar-se por meia hora sobre os recursos que havia jogado fora em minha educação, só para que eu desistisse dum curso em que eu era excelente aluno (e do qual ele ameaçou me desmatricular se eu xingasse uma verdadeira RAMEIRA REPRODUTORA DE MENTIRAS EM SÉRIE num perfil de rede social, recapitulemos). Assim caminha a família tradicional brasileira: vários andares abaixo da família tradicional vitoriana, que já claudicava e não ia nada bem… Intermezzo talvez desnecessário neste post sobre Carroll, mas delicioso mesmo assim, uma vez que a página do wikipedia achou tão importante citar as enxaquecas com aura de Dodgson e tudo isso me veio à baila sub-repticiamente!

Três médicos teriam diagnosticado Carroll ao longo da vida, graças a alguns desmaios sem piores conseqüências, como epilético em algum grau, diagnósticos não-conclusivos (exatamente como muitos capítulos biográficos contendo opiniões fortes em forma de afirmações absolutas, mas nada mais). De qualquer maneira, foram tonturas ou mal-estares “epileptiformes” ou “epileptóides”, embora não epilepsia propriamente dita.

(…)

(Um último conselho aos editores do Wikipédia: parem de incluir informações irrelevantes ou não-confirmadas em seus artigos biográficos!)

Trabalhos completos

Literários

  • La Guida di Bragia, Ópera-Balada para Teatro de Marionetes (c. 1850)

  • Miss Jones”, música cômica (1862)

  • Alice’s Adventures in Wonderland (1865)

  • Fantasmagoria e Outros Poemas (1869)

  • Through the Looking-Glass,…and What Alice Found There [Através do Espelho…e o que Ela Encontrou Por Lá] (inclui a 1ª aparição de Jabberwocky e “A Morsa e o Carpinteiro”) (1871)

  • The Hunting of the Snark (1876)

  • Rhyme? And Reason? [Rima? Com ou Sem Sentido?, seria minha opção de tradução favorita] (1883) – tem vários poemas em comum com o livro de 1869 “Phantasmagoria”

  • Um Conto Emaranhado (1885) [Este título também seria ótimo como alternativa para Sílvia e Bruno.]

  • Sylvie and Bruno (1889)

  • A Pequena “Alice” (1890) [Ou “Alice para a Creche”, versão abreviada para crianças de 0 a 5 anos, segundo o próprio Carroll.]

  • Sylvie and Bruno Concluded (1893) [primeira aparição do 2º volume da obra, hoje vendida em vol. único]

  • Problemas de Travesseiro (1893)

  • O que a tartaruga falou para Aquiles (1895)

  • Três Crepúsculos e Outros Poemas (1898)

  • The Manlet (1903)

Matemáticos

  • Uma Sílaba de Geometria Algébrica Plana (1860)

  • O Quinto Livro de Euclides Tratado Algebricamente (1858; 1868)

  • Tratado Elementar sobre Determinantes, Com sua aplicação a equações lineares simultâneas e equações algébricas

  • Euclides e seus rivais modernos (1879), uma espécie de livro-híbrido entre literatura de não-ficção e pedagogia em matemática.

  • Lógica Simbólica Parte I

  • Lógica Simbólica Parte II (póstumo)

  • A Cifra do Alfabeto (1868) [sobre decriptação]

  • O jogo da Lógica (1887)

  • Curiosa Mathematica I (1888)

  • Curiosa Mathematica II (1892)

  • Uma discussão sobre os vários métodos para se conduzir eleições (1873), Sugestões para o melhor método de escrutínio popular, em que mais de dois assuntos devem ser votados (1874), Método de contagem de votos em mais de dois temas simultâneos (1876), todos compilados como Teoria dos Comitês e Eleições, editado, analisado e publicado em 1958 por Duncan Black.

Outros/miscelânea

  • Algumas Conhecidas Falácias sobre Vivissecção

  • Oito ou Nove Sábias Palavras sobre Escrever Cartas (1890)

  • Notes by an Oxford Chiel [Observações de um ‘Cara’ de Oxford, como nos referiríamos à gíria chiel, caída em desuso] (1865-74)

  • Princípios da Representação Parlamentar (1884) [não entendo por que não recairia em ciência política ou, ao menos, matemática, conforme os outros trabalhos de Carroll sobre votação]

Referências importantes

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Bibliografia

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Uma das primeiras biografias a revelar detalhes da infância de Carroll.

Talvez a biografia mais indicada até o presente.

  • Pizzati, Giovanni: “An Endless Procession of People in Masquerade”. Figure piane in Alice in Wonderland. 1993, Cagliari.

  • Reed, Langford: The Life of Lewis Carroll (1932. London: W. and G. Foyle)

  • Taylor, Alexander L., Knight: The White Knight (1952. Edinburgh: Oliver and Boyd)

  • Taylor, Roger & Wakeling, Edward: Lewis Carroll, Photographer. 2002. Princeton University PressISBN 0-691-07443-7.

Para um livro de fotografia, não achei tão caro!

Aprofundamento

  • Black, Duncan (1958). The Circumstances in which Rev. C. L. Dodgson (Lewis Carroll) wrote his Three Pamphlets and Appendix: Text of Dodgson’s Three Pamphlets and of ‘The Cyclostyled Sheet’ in The Theory of Committees and Elections, Cambridge: Cambridge University Press

  • Bowman, Isa (1899). The Story of Lewis Carroll: Told for Young People by the Real Alice in Wonderland, Miss Isa Bowman. London: J.M. Dent & Co.

  • Carroll, Lewis: The Annotated Alice: 150th Anniversary Deluxe Edition. Illustrated by John Tenniel. Edited by Martin Gardner & Mark Burstein. W. W. Norton. 2015. ISBN 978-0-393-24543-1

  • Dodgson, Charles L.: Euclid and His Modern Rivals. Macmillan. 1879.

  • Dodgson, Charles L.: The Pamphlets of Lewis Carroll

  • Douglas-Fairhurst, Robert (2016). The Story of Alice: Lewis Carroll and the Secret History of Wonderland. Harvard University Press. ISBN 9780674970762.

  • Goodacre, Selwyn (2006). All the Snarks: The Illustrated Editions of the Hunting of the Snark. Oxford: Inky Parrot Press.

  • Graham-Smith, Darien (2005). Contextualising CarrollUniversity of Wales, Bangor. PhD thesis.

  • Edward Guiliano (1982). Lewis Carroll, a Celebration: Essays on the Occasion of the 150th Anniversary of the Birth of Charles Lutwidge Dodgson, C. N. Potter, London.

  • Huxley, FrancisThe Raven and the Writing Desk. 1976. ISBN 0-06-012113-0. (Francis Huxley é sobrinho de Aldous Huxley)

  • Kelly, Richard: Lewis Carroll. 1990. Boston: Twayne Publishers.

  • Kelly, Richard (ed.): Alice’s Adventures in Wonderland. 2000. Peterborough, Ontario: Broadviewpress.

  • Lakoff, Robin T.: Lewis Carroll: Subversive Pragmaticist. 2022. Pragmatics: Quarterly Publication of the International Pragmatics Association, pp. 367–85

  • Lovett, Charlie: Lewis Carroll Among His Books: A Descriptive Catalogue of the Private Library of Charles L. Dodgson. 2005. ISBN 0-7864-2105-3

  • Richardson, JoannaThe Young Lewis Carroll. London: Max Parrish, 1963.

  • Waggoner, Diane (2020). Lewis Carroll’s Photography and Modern Childhood. Princeton: Princeton University Press. ISBN 978-0-691-19318-2.

  • Wakeling, Edward (2015). The Photographs of Lewis Carroll: A Catalogue Raisonné. Austin: University of Texas Press. ISBN 978-0-292-76743-0.

  • Wullschläger, Jackie: Inventing WonderlandISBN 0-7432-2892-8. – Also looks at Edward Lear (of the “nonsense” verses), J. M. Barrie (Peter Pan), Kenneth Grahame (The Wind in the Willows), and A. A. Milne (Winnie-the-Pooh).

  • N.N.: Dreaming in Pictures: The Photography of Lewis CarrollYale University Press & SFMOMA, 2004.

  • Gena Showalter, Alice in Zombieland. Um belo exemplo das incontáveis paródias que Alice no País das Maravilhas gerou; mas eu ainda preferiria jogar a franquia McGee’s Alice! 😉

  • Schütze, Franziska: Disney in Wonderland: A Comparative Analysis of Disney’s Alice in Wonderland Film Adaptations from 1951 and 2010

[ARQUIVO] A vida de Federico Nietzsche, o maior dos filósofos modernos, & de sua irmã nazista, sua antípoda.

Trechos selecionados de antigas postagens do primeiro blog do autor, de 18 de setembro de 2009 e 6 de novembro de 2009. Duas obras serviram de bibliografia para as citações e comentários: Vida de Federico, biografia de Daniel Halevy traduzida ao espanhol e My Sister and I, obra anônima, falsamente atribuída a Nietzsche, ambas, se e quando vertidas ao português, citadas em traduções minhas. Exemplares consultados na biblioteca da Universidade de Brasília à época.

* * *

Carl Ludwig. Pai luterano e também enfermiço. Gosto pela música e pela solidão! Tinha os reis em alta conta, daí provindo o nome do filho, Frederico Guilherme.

Desde sempre muito introspectivo: só foi falar aos 2 anos e meio!

Famoso registro de um sonho que teve aos 14 anos: prenúncio da morte de seu irmão caçula.

el Señor de los cielos fue nuestro único consuelo”

el pastorcito”, assim N. era chamado no círculo familiar.

Intensa produtividade literária já aos dez anos. Eu também tive esses impulsos – que pena que tratavam de jogar tudo o que eu fazia no lixo!

Pp. 19-30: ausentes do exemplar que li.

Embriagado de si mesmo, escreveu a história de sua infância” em 14 dias!

P. 37: será que seu ódio pela cerveja tem origens em um embebedamento que o fez se machucar a cavalo?

Na escola, gostava de brigar e chamar para o duelo.

Esta alegría infantil dura poco”

Hiato poético. Aluno de Ritschl.

SOBRE OS POSITIVISTAS: “N. os leu… mas não os releu”

Hegel, Fichte e Schelling viviam o seu auge no ambiente acadêmico.

Iniciou estudos em Bonn, mas transferiu-se para Leipzig. Na festa local, a do centenário da entrada de Goethe na instituição, o reitor desaconselha ser como ele (Goethe): um mau aluno! Um paradoxo: reconhece-se o fermento do grande homem, mas o homem erudito se recusa a replicá-lo.

este brônzeo monstro de força”, em referência a Schopenhauer. O pai que N. arranjou para si mesmo na idade em que é preciso ter um, biológico ou não (20).

CRISE FILOLÓGICA (PP. 53-4): “Que uma multidão de cabeças medíocres se ocupe de coisas cuja importância e conseqüência sejam graves e reais é um pensamento aterrador.”

Míope e aquartelado durante a guerra. Cai do cavalo e quebra uma costela.

A sutileza e a doçura platônica mostram já os signos da decadência.” Hipérbole!

Os gregos criam, então, como hoje os europeus, na fatalidade das forças naturais. E criam também que o homem deve se criar a si mesmo, e a suas virtudes e seus deuses. Um sentimento trágico, um valente pessimismo, que não os apartava da vida, pelo contrário, animava-os.”

Quando Nietzsche começa a ler Montaigne, ele mesmo o declara, sua desde sempre frágil amizade com Wagner, homem de outra geração, começa espiritualmente a derrocar…

Ciência, arte e filosofia crescem tão bem-ligadas em mim que creio que darei a luz a um centauro.”

no leía nunca los periódicos”

1870: A reunificação alemã em seu ápice imperialista, engolindo o sul ainda rupestre e provincial.

Aqui recomenda-se a leitura de “De Dioniso a Bismarck. Tragédia e Política em Nietzsche”, tradução de um artigo de Baeumler, 1931.

as guerras modernas são supérfluas”

Burckhardt

Na época de Nascimento da Tragédia Nietzsche soa como um discípulo hegeliano envergonhado. Seu objetivo é buscar uma finalidade na História a fim de lutar por ela – um longo caminho até Vontade de Potência

E se é certo que os gregos foram destruídos pela escravidão, ainda é mais certa esta outra afirmação: a falta de escravidão é causa de que essa nossa época pereça” Como negar? Criticar a democracia só pode significar apologia de um novo sistema hierárquico (não-burguês). Os direitos humanos nunca funcionaram na prática, não há senhores, apenas escravos. O artista é o protótipo do homem superior: não pensa no trabalho como trabalho, não pensa na riqueza como dinheiro. Tem fins maiores em vista.

Será que nos distanciamos tanto assim da ética da guerra antiga, em que os vencidos se tornavam escravos dos vencedores? O que se tornarão os ucranianos para os europeus desde este instante? Os ucranianos que não preferirem se tornar o que são, i.e., russos?

P. 116: Os sanguessugas inevitáveis do Estado-nação moderno: o general, o empresário obscuro (o oficial que nunca foi soldado, burocrata, homem de gabinete, anti-herói). Efeito colateral da “onda pacifista” européia. Homens da paz: homens do dinheiro. Assim como a humanidade não é mais digna de reis, não é mais digna de comandantes militares à antiga, apenas chefes nominais, farsas. O que se viu nos avanços bélicos da Prússia imperialista foram gritos de desespero de uma Alemanha nostálgica dos tempos nobres e épicos das guerras. Hoje continuariam havendo mais e mais gritos nostálgicos (mais do que os que já ocorrem por todo o planeta) não fosse a constatação de que quase todo conflito militar que se tem a intenção de iniciar não seria estrategicamente interessante, i.e., NÃO GERARIA LUCRO. “Lucro” é o único ser vivo do planeta habitado pelos economistas de Estado. Como dança uma nação atrofiada: tudo o que ela faz acaba por matar – dos miseráveis aos burgueses.

Polêmica contra o sufrágio universal: historicamente, é justificado como uma recompensa pela bravura da sociedade, dos nossos ancestrais. Efeito colateral: esteriliza as populações.

Quando um Estado não pode alcançar seu mais alto fim, cresce desmesuradamente. O império mundial dos romanos não tem nada de sublime frente a Atenas”: denúncia do perigo expansionista. Ademais, exemplar pulverização da teoria do espaço vital, a Lebensraum alemã.

N. se torna pensionista da Universidade da Basiléia aos 27 anos de idade devido à precarização de sua saúde.

P. 123: pérola do autor da biografia: “Nascimento da Tragédia, único verdadeiro livro que N. levara a cabo.”

Será o filósofo sempre um ser inútil para os homens?” “um lírico que não chega a ser artista”

De 3 mil em 3 mil anos as palavras se invertem? Há também um esgotamento do homem artístico, um niilismo às avessas? Morre-se de sede e afogado sucessivamente na História?!

Talvez se possa falar dos fins inconscientes de um formigueiro; mas de todos os formigueiros da Terra?…” Alusão à abstração do conceito de humanidade.

TALES – tudo deriva de um único elemento.

ANAXIMANDRO – a fuga das coisas é seu castigo.

HERÁCLITO – uma lei rege a fuga e a permanência das coisas.

PARMÊNIDES – a fuga e a permanência são mera ilusão. Apenas o Um existe.

ANAXÁGORAS – todas as qualidades são eternas: nelas não há devir.

PITAGÓRICOS – todas as qualidades são quantidades.

EMPÉDOCLES – todas as causas são mágicas.

DEMÓCRITO – todas as causas são mecânicas.

SÓCRATES – só o pensamento é imperturbável.”

Todos estão certos. Os germes mais antigos. Contra e por Homero.

De vez em quando me sobrevém uma repugnância infantil pelo papel impresso; parece-me não ver nele senão papel manchado.”

DAVID STRAUSS, A PRIMEIRA VÍTIMA: “Federico ha encontrado al hombre que desea destruir”

As idades do homem de Flaubert: paganismo, cristianismo e porquismo.

NIETZSCHE & ENGELS: O Anti-Dühring poderia ser uma obra conjunta, pois ambos gostavam de detratar o mesmo intelectual!

P. 206: “Me alimento quase exclusivamente de leite.”

IMPRESSÕES GERAIS DA FIGURA DE NIETZSCHE: “voz musical (…) falar lento (…) vista fixa (…) cabelos curtos escovados para trás (…) maçã do rosto eslava”

O método peripatético não diz respeito só a “filosofar em movimento”, como muito se veicula. Maneira de aprendizagem horizontal de dois ou mais sábios – significaria que Aristóteles não se considerava um mestre de escola nem que possuía “discípulos” no rigor da palavra. Uma conversa enquanto se passeia pelo bosque, por exemplo.

Não deves amar nem odiar o povo¹

Não te deves ocupar da política²

Não deves ser rico nem indigente³

Deves evitar o caminho dos ilustres e poderosos

Deves desposar uma mulher estrangeira4

Deves deixar a teus amigos o cuidado de educar teus filhos

Não deves aceitar nenhuma das cerimônias da Igreja”

¹ Anti-Dostoievski!

² Não deves ser ativista político se queres ser filósofo, que se ocupa, entretanto, totalmente da política.

³ Está muito além da própria escolha individual, mas sem dúvida seria um filtro para o exercício da vocação do filosofar.

4 Indecifrável em relação a tudo que deixou por escrito.

A influência da estilística de Pascal e La Rochefoucauld sobre a escrita de N.

Pseudônimos e iniciais: a salvação dos imorais! Que pena que a Constituição veda o anonimato. Não é mais possível fazer boa literatura de polêmica sem ser processado.

envelheci dez anos em uns poucos meses.”

um enfermo não tem o direito de ser pessimista.”

…e a saúde recomeça seu jogo mágico.” – Muitas das convalescenças de N. foram no clima prazenteiro do sul da Itália.

O espírito voltado para a oposição da dor vê as coisas debaixo de uma nova luz; e o indizível encanto que acompanha toda luz nova basta às vezes para vencer a tentação do suicídio, e para fazer a vida desejável. Aquele que sofre pensa com desprezo no mundo vago, tíbio e cômodo em que se compraz o homem são; pensa com desprezo nas ilusões mais nobres e mais queridas em que se deixa absorver; este desprezo é seu gozo, o contrapeso que o ajuda a se defrontar com o sofrimento físico, contrapeso cuja necessidade sente então… Seu orgulho se rebela como jamais se havia rebelado: defende com deleite a vida contra um tirano como o sofrimento, contra todas as insinuações desse tirano que nos quis obrigar a blasfemar contra a vida. Representar a vida frente a esse tirano é uma tarefa de incomparável sedução.”

Aurora

Este aforismo sempre representou minha vida. Atualmente dedico-o a W.O.

Uma independência que não moleste a ninguém; um orgulho doce, velado, um orgulho que, não invejando as honras e satisfações dos demais e se abstendo de burlas, não incomode a gente… Um sono ligeiro, uns modos livres e pacíficos; ausência de álcool, de amizades ilustres ou principescas, de mulheres e de jornais, de honras e de sociedade – que não seja a de espíritos superiores e, à falta destes, de gente humilde (da que é tão impossível prescindir quanto da contemplação de uma vegetação poderosa e sã) –; os pratos mais fáceis de preparar, se possível preparados por mim mesmo, ou que mal tenham necessidade de preparação.” Curiosidades insólitas e sem valor.

Por fim encontra N. aquela idéia cujo pressentimento o agita com tanta violência. Um dia em que caminhava pelos bosques de Sils-Maria, em direção a Silvaplana, sentou-se, não longe de Surlee, ao pé de uma rocha piramidal; naquele momento e naquele local concebeu o eterno retorno.” Romantização de biógrafo precoce.

a música e a nostalgia de um passado melhor”

Observações pessoais minhas: Cabal, Senhorita, 2005 – sensação de potência desperdiçada – por quê? À época eu apenas queria ser o que sou hoje, a própria vontade niet. Porém iludo-me dalguma forma, querendo retroagir para reaver estas possibilidades perdidas. E contudo, como minha cabeça era ali, só podia me levar até aqui – o INESPERADO, apenas agora verificável. Se eu voltasse no tempo com ESTA consciência, amadurecida, todas as cores imaginadas desbotariam em desprezo – não foi o mundo que piorou em 3 (18!) anos. Eu me tornei mais sensível em relação à essência deste mundo. Atenuante invencível: 2005 e sua sensação de estar no topo de um monte sagrado, isso se repetirá INDEFINIDAMENTE…

Pp. 265-6: “O tempo, cuja duração é infinita, deve repetir, de período em período, uma disposição idêntica das coisas. Isto é inadiável, uma necessidade; logo é necessário que todas as coisas voltem a ser. Dentro de tal número de dias, número imprevisível, imenso, apesar de limitado, um homem, semelhante em tudo a mim, eu mesmo, em suma, sentado à sombra deste rochedo, encontrarei de novo esta mesma idéia. E esta mesma idéia voltará a se encontrar com este homem, não somente uma vez, mas um número infinito de vezes, pois o movimento que repete as coisas é infinito. Logo devemos abandonar toda esperança e pensar firmemente: nenhum mundo celestial receberá os homens, nem os consolará nenhum destino melhor. Somos as sombras de uma natureza cega e monótona, os prisioneiros de cada instante. Mas não esqueçamos que esta tremenda idéia que nos proíbe toda esperança enobrece e exalta cada minuto de nossas vidas; se o instante se repete eternamente em um monumento eterno, dotado de valor infinito e – se a palavra divino tem algum sentido – divino. (…) Ápice da meditação.” (1881)

Aurora não teve o menor êxito [comercial]”

Eis aqui a pedra em formato de pirâmide, no lugar da qual, em 600, 1000 anos, se erigirá uma estátua ao autor de Aurora.” Carta a Paul Rée. Demorou muito menos do que isso.

ninguém se interessa por esse Zaratustra

N. supostamente interdito de lecionar em Leipzig por seu “ateísmo” – como se tivera saúde restante para tal!

Inicialmente, por ter passado um hiato sem editor, Assim Falou Zaratustra foi entregue apenas para 7 chegados: a irmã Elizabeth, Erwin Rohde, Overbeck, Paul Lanzky (jovem admirador niet., desconhecido hoje), Peter Gast (futuro co-editor), Mme. von Maysenbug e Burckhardt. Outro contato de N., Gersdorff, aparentemente já falecera. Rohde como que já havia rompido com o antigo amigo.

P. 380: páginas devotadas a Dostoievski e o “cristianismo revolucionário russo”.

P. 399: “As tendências humanitárias não são anti-vitais, pois convêm às massas, que vivem com lentidão; e, convindo a elas, convêm à humanidade, que necessita da satisfação das massas. As tendências cristãs são igualmente bonacheironas, e nada é tão desejável como a sua permanência, pois convém a todos os que sofrem, todos os débeis, e é necessário para a saúde das sociedades humanas que o sofrimento e as debilidades inevitáveis sejam recebidos sem rebelião, de modo submisso e, se possível, amorosamente. § Diga o que diga o cristianismo, não posso esquecer que lhe devo as melhores experiências da minha vida espiritual, e espero não ser nunca ingrato com ele no fundo do coração…” Já se imaginou tamanha isenção intelectual? Um homem que entende que o melhor para o futuro e para outros homens não é ou não será aquilo que é ou foi melhor para si mesmo? Houve filósofo mais probo?

P. 411: “Quando se estudam os últimos meses dessa vida, parece como se se assistisse ao trabalho de uma máquina de guerra que a mão humana já não governa mais”

O Código ou as Leis de Manu teriam sido uma das últimas leituras de N. Livro extenso e cansativo. Estou lendo-o há meses (agora em hiato).

* * *

O primeiro ou principal a refutar a obra Minha Irmã e Eu (Ich und meine Schwester) como de autoria nietzschiana foi Walter Kaufmann (1952, 1955). WIKI: “If legitimate, My Sister and I would be Nietzsche’s second autobiographical and final overall work, chronologically following his Wahnbriefe (Madness Letters), written during his extended time of mental collapse. (…) The book was tied quickly to controversial publisher Samuel Roth, the putative owner of Seven Sirens, who had spent jail time for the unlawful distribution of a version of James Joyce’s Ulysses (1922). In the book’s introduction, an anonymous publisher claimed to have received the manuscript from a fellow inmate of Nietzsche’s in Jena and to have hired Oscar Levy to translate the work only to have both German and English manuscripts confiscated, with only the latter surviving. (…) Kaufmann claimed in a footnote in his Nietzsche: Philosopher, Psychologist, Antichrist (first published 1950) to have received a ghostwriting confession from minor author David George Plotkin in 1965.” Creio que não preciso opinar que segundo o cânone da arquivologia ou filologia é impossível ceder e duvidar de que seja uma fraude. A ausência do manuscrito original e o lapso de tempo até o misterioso aparecimento das cópias são dois detrimentos inexcusáveis para o sucesso da teoria da autenticidade, por mais que seja um livro bem-escrito e prazeroso, e o estilo de N. seja até replicado com sucesso em suas páginas! Ainda assim: “Nietzsche scholar Walter K. Stewart, in his 185 page monograph Nietzsche: My Sister and I — A Critical Study published in 2007, argues for the original’s potential legitimacy by conducting a point-by-point analysis of Kaufmann’s book review.”

As informações mais sensacionalistas nessa pseudo-segunda autobiografia de N. são que teve envolvimento amoroso-incestuoso (assexual) com “Lama” Förster (como N. chamava sua irmã Elizabeth), que podemos dizer com segurança que ele odiava, e profundamente, e com Cosima Wagner, viúva de Richard Wagner – é até engraçado!! À época (2009), eu cria na possibilidade da autenticidade desta fabulosa história, tecendo o comentário de que os ciúmes muito intensos por Elizabeth demonstrados nas cartas de N. não eram “normais”. Porém, não levava em conta então costumes de família na Alemanha do séc. XIX, uma sociedade muito mais androcêntrica.

Eis a desculpa médica para tornar a história da escrita desse livro plausível: “Sua deterioração cerebral prejudicou seriamente a capacidade de N. responder as pessoas, mas seu fluxo de pensamentos não tinha sofrido alterações significativas, e ele não verificava, ao despejar suas idéias no papel, a mesma hesitação do contato falado.”

O primeiro capítulo já abre com uma “paródia” do relato niet. do sonho com a morte do irmão menor: no asilo, sonhava com a morte da mãe. A mãe de N. morreu poucos meses antes do próprio.

Para o odiador, a Alemanha é o lugar. Em primeiro lugar, há o kaiser, que se pode detestar a vida inteira.”

Tenho mãos e pés pequenos como os de uma mulher. Teria sido eu destinado a ser mulher? Sou acaso um descuido de Deus?”

meu cérebro vai se tornando pedra” “Como uma múmia egípcia que esqueceu de morrer por inteiro, eu sou o expectador da minha própria morte, sentindo meus olhos se tornarem poeira”

Esse é o paradoxo da minha existência? eu amei a vida ao máximo, mas não pude direcionar essa paixão do modo clássico” “Essa grande mente, a maior desde Aristóteles, está sendo dissolvida na imbecilidade da massa”

Eu cortei a história do mundo em duas ao escrever o Ecce Homo

Antes de mim os filósofos guerreavam em trincheiras contra o cristianismo. Eu promovi uma guerra total, e isso me deixou sem amigos.” Veja o anacronismo das expressões guerra de trincheiras e guerra total, compreensíveis apenas a partir dos anos 30 do séc. XX!

Sócrates e Schopenhauer são eunucos que perderam a capacidade de amar”

Na Grécia Antiga a riqueza de um homem era avaliada por seu número de filhos – em correlação positiva”

Voltaire foi a França que respirava aquele ar de liberdade ideológica inglês”

Todo pensador socialista falha ao não entender que a distribuição desigual de sabedoria, poder e talento é essencial em uma comunidade, para o contínuo exercício, ali, de sentimentos como piedade, compaixão, generosidade e proteção, que são os ingredientes das únicas civilizações que tiveram qualquer tipo de duração” O autor se esquece de que a ditadura do proletariado leva tudo isso em conta – como não levaria?

Talvez a autêntica tragédia na história do homem tenha se dado, não quando o homem se viu pela 1ª vez nu diante de sua comparsa, mas quando percebeu que era necessário sair de si para mostrar tributo à divindade. Ele não sabia que tinha sido expulso do Paraíso até se ver do lado de fora do portão.”

É difícil crer que aqueles pés das estátuas gregas precisavam mesmo da mediação de sandálias. Se tivéssemos pés tão fortes provavelmente arruiná-los-íamos com pedicures!”

Uma nação que tenha abdicado do sonho da conquista já abdicou há muito do sonho de viver” E no entanto isso colide com a crítica das nações expansionistas, vista mais acima.

Estamos excedendo as contas em tudo. O universo não é, para começar, tão grande quanto se relata. O mundo como um organismo é tremendamente importante para si mesmo, mas da mais banal significância para o sujeito. E, com todas as suas perfeições creditadas, o homem é uma criatura extremamente imperfeita! Sendo assim, poderíamos deixar de lado o sentimento de extravagância sobre o que não temos, ou de angústia pelo que possivelmente deixamos de fazer ou experimentar. Tudo humano que valha a pena está contido em alguns prédios em Roma, Paris e Londres, e eu não trocaria o resto do universo pelo conteúdo de um deles. Ainda assim, no momento em que escrevo pode ser que as forças armadas da humanidade estejam se preparando para devastar esses prédios para começar uma briguinha de homens, cuja real potencialidade é tal que se fossem estes os últimos e únicos homens sobre o globo toda a raça teria de morrer sem deixar herdeiros.”

CRISES ECONÔMICAS COMO CRISES PERMANENTES DE QUALQUER ESTADO E MORAL QUE NÃO SÃO INSTITUÍDAS POR UM POETA-LEGISLADOR

Como resultado da mistura dos economistas com leis científicas puras, sem legislação, certos princípios de economia aparentemente adquiriram um caráter duplo – o da generalização científica e o das regras que serão impunemente desobedecidas.”

Você por acaso já viu uma única jovem com a metade da beleza do mais abandonado dos gatos de rua?”

Se eu puder voltar a minha casa de novo, lerei o Livro dos Mortos egípcioMais sobre esta obra a seguir.

O europeu aspira a uma sinceridade cristã no viver, mas treina sua consciência de modo que solte uma risada sempre que cruza uma igreja”

Decidir o destino da comunidade via voto igualitário é tão razoável quanto escolher a mulher via loteria”

Quatro mulheres em minha vida: duas, prostitutas, me fizeram feliz. Felicidade de momento.” Mais um aforismo nada característico da pudicícia nietzschiana em revelar detalhes íntimos que encerra o debate sério sobre a inautenticidade deste livro.

Já fui tão maior que Schopenhauer que duvido que terei um sucessor” Alguém tendo-o escrito nos anos 50 tinha já cem por cento de segurança na afirmação…

A vitória militar, se por algum engano do destino for nossa, não vai nem ao menos por isso curar nosso jeito azedo e turrão”

Eu preferia ser um psicólogo do que o Deus do Gênesis”

Como a Alemanha é a negação da França, a Rússia é a negação da Alemanha. A Rússia tem 2 vantagens em relação a nós: tem mais salas onde se lutar e mais judeus com quem lutar.”

Uma querela entre 2 filósofos deve ser levada tão a sério quanto uma discussão filosófica entre 2 pedreiros.”

Toda mulher é uma prostituta no coração e até compreender isso um homem não pode conhecer a pureza virgem de seu ser”

Não só eu, mas os sofistas modernos estão em seu pôr-do-sol: por sofistas da modernidade quero dizer os humanistas, os empiristas, os relativistas, os utilitaristas e os individualistas.”

Um Aristófanes [comediante, sátiro] do séc. XX vai me tachar como um Demócrito, pilhando-me como este foi pilhado: Longa vida ao Deus Furacão que destronou Zeus!

quando em Turim eu vi um cavalo ser açoitado pelo cocheiro eu corri da minha casa e abracei o animal, preocupando-me com seu devir. [esse detalhe biográfico de N. é autêntico] § Essa foi a causa de minha ruína: a divisória entre minha pregação e minha prática, e isto foi parte também da grande linha entre o antes e o depois do pensamento ocidental, que como eu ficará louco.”

Se Deus tem pena de nós, ele está jogando com um dado interminável.”

Aquilo sobre o que outros filósofos escrevem livros eu me contento em escrever parágrafos.”

Só desenvolvemos 3 sistemas numéricos – contra mil línguas e 10 mil sistemas de raciocínio”

Kant teria sido um filósofo melhor se tivesse dado ao menos 10 anos de aula de Filologia, o que ter-lhe-ia aclarado a importância de se fazer entender antes de ter certeza de que é entendido

A democracia é de números e é sustentada diretamente pelos matemáticos anônimos cujas obras foram destruídas no incêndio da biblioteca de Alexandria. Que pena que a natureza humana não é delineada pelas simples linhas, vamos dizer, das proposições euclidianas!”

Se você é incapaz de ler Platão pelo simples prazer de lê-lo, leia-o visando ao ensinamento que ‘grita’ nas entrelinhas de cada diálogo: há somente um mundo, o mundo da experiência dos homens.”

CITAÇÃO DE MARX: “Os egípcios nos legaram uma verdadeira história de seu caráter nacional no Livro dos Mortos. Para caracterizar nosso tempo alguém deveria escrever um Livro dos Alemães Renegados – para incluir alguns que quiseram escapar mas não conseguiram – como eu. Se – os céus me proíbam – eu me tornasse o autor de tal obra, abriria com uma dedicatória a Heinrich Heine e encerraria com um comentário sobre Karl Marx, diante de quem os fins da criação teriam servido muito melhor se ele tivesse permanecido na Prússia, onde ele seria finalmente germanizado ou levaria um tiro. Como se sabe, Marx encontrou resguardo do germanismo na Inglaterra, de onde ainda nos dispara suas teorias pelo Canal da Mancha. [O humor do anacronismo do falsificador, o ‘Pseudo-Nietzsche’ que compôs a obra, é que isto devera ter sido escrito, se pela mão nietzschiana, em 1989, porém Marx morrera já em 1983 – tudo indica que jamais tendo ouvido falar de Nietzsche, e vice-versa.] Nesse cenário eu me desejaria qualquer lugar no centro, onde, aproximadamente, estou. [referência ao manicômio de Naumburg – wiki: “Naumburg is a town in the district Burgenlandkreis, in the state of Saxony-Anhalt, Central Germany.”]

Quanto a Marx, ele escreve num alemão tão ruim, o qual ele adorna com copiosas citações do latim e do francês [ironicamente a mesma crítica de estilo, pelo menos na parte das citações, poderia ser facilmente atribuída ao próprio N.] – línguas que ele parece não conhecer muito bem – a fim de impressionar a massa e confundir aqueles que esperavam poder entender.” Exagero evidente. Comparar Kant e Marx em questão estilística, p.ex., seria uma heresia – o segundo leva ampla vantagem!

Em Heine os judeus nos deram muito; em Marx, muito pouco”

Marx está para a lei da oferta e da demanda como Darwin está para a lei de sobrevivência do mais forte. Ambas as leis são o resultado de uma nova paixão produzida pelo séc. XVIII – pesquisa com ponto de vista.” Divertido especular sobre este comentário, sabendo que foi produzido no séc XX. Darwin não formulou a lei de sobrevivência do mais apto fora do reino animal, mas influenciou decisivamente seu emprego nas gerações posteriores. O que acontece com Marx sobre a lei de oferta-procura/demanda é um pouco diferente: ela é anterior a ele (efetivamente do próprio séc. XVIII); porém ele deve ser estudado mesmo pelos economistas liberais para que outros fundamentos da economia sejam compreendidos em relação com ela. Não há nada de correto em Adam Smith que não esteja em Marx, mas a lei da oferta e da demanda não é nada diante do escopo d’O Capital. Como Darwin deve ter muito mais informações preciosas em seus diários de viagem do que essa infame conseqüência política involuntária que gerou!

A verdade ainda ludibria; mas não é mais aquela moça formosa, e sim uma velha rabugenta e desdentada.”

Não quero ser mal-entendido: eu evito ler Marx tão apaixonadamente quanto enveredo por cada nova estrofe de Heine.”

O Capital descobriu duas coisas que são os temas básicos dos congressos socialistas: 1) a mais-valia, pois o operário trabalha para gerar mais do que é vitalmente necessário para si, e até para si e para o capitalista juntos; 2) esse novo poder de exploração da classe trabalhadora é levado a um extremo tal que o burguês se torna, no mundo do dinheiro, tão poderoso e superior aos homens quanto uma vez fôra o divino senhor feudal.”

O que não conseguirmos pela fé conseguiremos através dos métodos mágicos”

Hegel é um Spinoza guiado pela velocidade de nossa idade industrial”

É melhor que o mundo não saiba – ao menos enquanto ela viver – que Elizabeth cumpriu o mesmo papel em minha vida reservado a Augusta frente a seu [meio-]irmão caçula Byron.” WIKI: Augusta Maria Leigh was the only daughter of John ‘Mad Jack’ Byron, the poet Lord Byron’s father, by his first wife, Amelia, née Darcy.” Aparentemente, todo o significado do dito é que N. usava as cartas para E. a fim de caluniar sua mãe: “Augusta’s half-brother, George Lord Byron, did not meet her until he went to Harrow School, and even then only very rarely. From 1804 onward, however, she wrote to him regularly and became his confidante, especially in his quarrels with his mother. Their correspondence ceased for 2 years after Byron had gone abroad, and was not resumed until she sent him a letter expressing her sympathy on the death of his mother, Catherine in 1811.” Não gostaria de crer que o autor-falsificador de Minha Irmã & Eu quisesse pôr em evidência o ‘lado negro’ da relação entre Byron e sua irmã: “Not having been brought up together, they were almost like strangers to each other. But they got on well together and appear to have fallen in love with each other. When Byron’s marriage collapsed and he sailed away from England never to return, rumours of incest were rife.” Seja como for, a quem interessar possa: “Augusta is also the subject of Byron’s Epistle to Augusta (1816) and Stanzas to Augusta.”

Cinquenta anos depois de minha morte, quando eu tiver me tornado um mito, minha estrela brilhará no firmamento enquanto o Ocidente será eclipsado na escuridão, e pela própria luz que eu emito. Minha filosofia do poder será reexaminada, então, não como poder [político] mas como Providência.”

Mulheres são a única propriedade privada que tem total controle sobre seu proprietário.”

A idéia da transmigração das almas não é tão tola quanto parece, e meu conceito do eterno retorno é meramente a reencarnação moderna do credo pitagórico. Uma vez fomos cães e ainda regressaremos ao domínio primata dos caninos.”


IRA-ATA: AINDA VAMOS REGRESSAR AO DOMÍNIO PRIMATA DOS CANINOS

Torturando, espremendo cães. Qual foi o último que eu vi? Hoje sonhei de novo. Meus sonhos agora se relacionam a estar preso com os pais em algum lugar que não é a minha casa, e algo sem forma me tortura, algo de que eu não podia me esquecer. Foi o cão da Connie o último que toquei. Eu beijava a R. e de alguma forma me ocultava dos anfitriões indesejados. E por que tantos banheiros? Supra-homem Bill Lunch. “I spread disease like a dog…” Ter vivenciado caninamente a idade média não é absurdo, mas nada seria sem a CONDIÇÃO HUMANA, esse pathos que olha para baixo e para cima das cadeias com seus próprios olhos. Também já fui pedra e fui estrela. O pequeno príncipe me revive um tipo de consciência cósmica longamente entalada. A National Acrobat. Raul Seixas. Engraçado… o que eu estava fazendo dia 19 de janeiro de 2008? Tianguá e o demente. Surpreendente autocontrole. E interesse pelo tio-avô tão camponês. Moscas malditas e R. Eu sou a bomba atômica e sou a flor.

(06/11/2009)


Hegel incorreu num sexto sentido – o senso histórico”

O Homem do Subsolo de Dostoievski e o meu supra-homem são a mesma pessoa”

Talvez os pregadores de Alá me inscrevam em suas memórias como o único cristão honesto da Europa – um cristão honesto demais para aceitar a escravidão moral paulina e que preferiu, como Jesus ele mesmo, cremar-se no relâmpago do Velho Testamento.”

Salomão, o único judeu com ganas de imperador, promotor da Pax Judaica no mundo bárbaro. Seu império poderia se esticar até o fim do mundo, paraíso e terra sob a propaganda de Jeová.”

A suprema doutrina das mulheres seria a obtenção do infinito orgasmo.”


DEMOCRACIA                    X                          EUCLIDES, O “TRIGONOMÉTRICO”

estatísticas                                                                              forma

redução ao ideal                                                                não-números

paradigma do hospício                                                         potências

controle da maioria                                                  (eu sou um círculo maior)

razão                                                                           desprezo das minorias¹

¹ Provável alusão ao fato de que os gregos não se preocupavam com quantidades irracionais ou desprezíveis nas exressões matemáticas.


Há dois tipos de bárbaros; aquele que precede séculos de iluminismo e aquele que os sucede” Na mesma página cita Condillac, polímata da época iluminista.

O idealismo moral não pode suplantar a compulsão econômica de nossa era: Ruskin, Carlyle e outros britânicos obsoletos, especialmente o cabeça-de-vento John Stuart Mill, não aprenderam o básico sobre a modernidade. Se eu não fosse César seria Cristo, o Socialista, montaria num jumento e cavalgaria até Jerusalém com Marx. A ambição de poder dos marxistas complementa a ambição de poder dos nietzschianos, mas eu prefiro chegar a Jerusalém num cavalo de batalha árabe, ao invés de no lombo dum burro proletário.”

Brandes me chama de um anarquista aristocrático – e é exatamente o que eu sou. Quem, senão um judeu, para me desmascarar e contemplar esta face de Disraeli, o tory radical? O radical extremado e o reacionário extremado são irmãos debaixo da pele: ambos têm inclinação para demagogias liberais e humanitárias, e só conhecem um caminho rumo ao triunfo – a vontade de potência.” Moderados, demasiado moderados, assim nós da esquerda teríamos de nos classificar hoje.

As pessoas precisam ser governados com mãos de ferro, e eu profetizo uma época de Césares proletários [Lenin e Stalin?] que agirão como Rousseaus, enquanto Marx acaba construindo e sendo a vanguarda ideológica de ditaduras democráticas onde as iniciativas da companhia de água e esgoto e do fabricante de calças [!] são identificadas como a vontade de Deus e codificadas em leis draconianas escritas em letras de sangue.”

Dizem que por tomar o lugar do Senhor no meu sistema filosófico eu provei minha egomania. Mas na verdade eu sou extremamente modesto. Para mim, ocupar o lugar de Deus é um rebaixamento e humilhação, não uma rara promoção aos picos do Monte Sinai! § Ao invés disso, eu sequer deveria ter falado em deus na minha obra, deixando esse problema para os ingleses – Carlyles com mania de grandeza – resolverem.”

Não há lugar que não fique tedioso a longo prazo”

Me pergunto o que seria de Kant se tivesse sido induzido a viajar de navio”

Só num país como a Alemanha eu, o autor de Zaratustra, teria a necessidade de pagar do próprio bolso sua quarta e última parte!” Esse fato é verdadeiro.

O supra-homem não é uma fantasia privada: é nossa realidade biológica e transcendental”

Se Deus não tivesse morrido seguramente o século XX não ocorreria”

há mais segurança na caverna de Platão”

eu sou o fulcro da História (…) ainda que também o encontrem no Príncipe de Maquiavel”

o veneno anti-semita que cada alemão bebe do leite da mãe”

espero não viver o suficiente para ultrapassar este século”

Eu nunca imaginei o fim da raça humana porque eu tenho uma visão trágica da vida”

Berlioz, “o supra-homem da música”.

Em menos de 50 anos ser chamada de ‘wagnerete’ provocará processo por calúnia e difamação contra o ofensor, e quando uma ópera wagneriana for mencionada em nobre companhia haverá mal-estar na sala.”

Me ssa lina

Impregnemos nossas vidas com a impressão da eternidade! Vamos viver de modo que desejássemos sempre viver de novo: esse é meu credo, ontem, hoje, amanhã, e nos ontens que sucederão o amanhã.”

HISTORIOGRAFIA MARXISTA: Um intróito

Dando continuidade ao post de 17 de abril último, “SINOPSES DE (ALGUNS) LIVROS INDISPENSÁVEIS PARA A FORMAÇÃO DO HISTORIADOR – Episódio I”,¹ com 11 sinopses de importantes obras de introdução ao estudo da História, e conforme combinado àquela altura, dedicaremos outro post somente a sinopses de obras ligadas à historiografia da esquerda marxiana num segundo episódio das SINOPSES DE CLÁSSICOS DA HISTORIOGRAFIA. Antes, porém, uma ligeira tradução do início do verbete Marxist Historiography (https://en.wikipedia.org/wiki/Marxist_historiography) do wikipedia, para situar o leitor e aprendiz.

¹ https://seclusao.art.blog/2023/04/17/sinopses-de-alguns-livros-indispensaveis-para-a-formacao-do-historiador-episodio-i/

A historiografia marxista, ou historiografia materialista histórica, é uma escola muito influente da historiografia. Os pontos-chaves da historiografia marxista incluem a centralidade do conceito de classe social, as relações sociais de produção em sociedades divididas em classes em incessante conflito entre si e o estudo das limitações econômicas na determinação de resultados históricos (materialismo histórico). Os historiadores marxistas estudam o desenvolvimento da divisão de classes, especialmente nas sociedades moderno-capitalistas.

A historiografia marxista se expandiu de uma tal forma que deu lugar a ramificações regionais e políticas as mais díspares. É diferente falar de uma historiografia marxista ocidental e de uma historiografia marxista soviética, ou indiana, ou pan-africanista ou ainda de tradição afro-americana,¹ havendo sempre a adaptação a circunstâncias geográficas e políticas dos objetos de estudo.

¹ Chama a atenção o artigo wikia não citar sequer a China!

Com as lentes da historiografia marxista estabeleceram-se histórias do proletariado e uma metodologia para a história social ou popular.[1][2][3]

A historiografia marxista é criticada por seus adversários como sendo de veio determinista,[4][5][6] supostamente apontando uma direção futura e inevitável da História, incluindo, nessa premissa, o fim do Estado e uma sociedade sem-classes. A historiografia marxista nos círculos marxistas mais fiéis ao ideário original do autor é vista, honestamente, o que nega essa crítica acerba acima, mais como ferramenta de estudo histórico que como ideologia ou ambição política (o que o marxismo, sem o prefixo historiografia, sem dúvida é). É notável que há classes oprimidas pelos que até hoje criaram a História e até hoje não foram agentes de sua própria narrativa, entre outros fatores graças à ausência da consciência de classe, liberdade no sentido estrito. A História que precede a descoberta da luta de classes não deixa de ser uma história mecanicista ou “natural”, pseudo-história, destino ou fado, em que as reais questões ainda não foram colocadas e se encontravam inconscientes. De qualquer modo, para o marxista e, em geral, para o historiador marxista, a historiografia marxista conduzirá naturalmente a movimentos de liberação mundo afora.

Nem toda historiografia marxista é socialista ou comunista no senso acima apresentado. Métodos de historiografia marxista, como análise das classes, podem estar divorciados de interesses do espectro da esquerda. Historiadores podem usar sua metodologia ainda que discordem pessoalmente dos resultados ou do projeto político como um todo. Criou-se, devido a essa complexidade e ambigüidade, a nomenclatura “marxiano” para se diferenciar de “marxista”. A historiografia marxiana usa os métodos historiográficos inaugurados por Karl Marx e Friedrich Engels para analisar a sociedade, sem aderirem conscientemente a ideais revolucionários.[7]¹

¹ Acho essa tese da dicotomia –ista –iana bem fraca! Coisa de americano…

Enfim, essa tradução nos serve mais para nos pormos desconfiados e prevenidos quanto a “discursos neutros” nos círculos conservadores da História enquanto disciplina acadêmica do que como fonte informativa, e este foi meu intuito momentâneo! Não estaremos escavando material bem-vindo ou amigável aos senhores deste planeta no próximo post…

Referências

[1] BEN FINE; ALFREDO SAAD-FILHO; MARCO BOFFO (jan/2012). The Elgar Companion to Marxist Economics. Edward Elgar Publishing. p. 212. ISBN 9781781001226.

[2] O’ROURKE, J.J. (06/12/12). The Problem of Freedom in Marxist Thought. Springer Science & Business Media. p. 5. ISBN 9789401021203.

[3] STUNKEL, Kenneth (23/05/12). Fifty Key Works of History and Historiography. Routledge. p. 247. ISBN 9781136723667.

[4] = 1

[5] = 2

[6] = 3 [Curioso! Utilizavam-se 3 adversários do marxismo para conceituá-lo na “enciclopédia livre”! Interessante…]

[7] “Encyclopædia Britannica: Historiography – Marxist historiography”

TRILOGIA DIMMUBORGUIANA

O TORTURADOR DE ALMAS CRISTÃS

Poder-te-ia arrastar até meus aposentos,

desnudar-te ali mesmo longe da luz.

Poder-te-ia arrancar as unhas uma a uma,

deflorar-te até o fim de tuas esperanças,

sem luz no fim dos túneis.

.

.

Poder-te-ia estripar,

remover tuas entranhas,

pensamento meu calmante!

Ou deixar-te só, enquanto apenas observas,

ó gestante!, impotente a morte de teu feto.

.

.

Poder-te-ia deixar à míngua, apodrecer de fome.

Fazer baixar sobre ti um inextricável silêncio.

Mas isso é nobre demais para mim!

.

.

Não há prazer

na simples tortura física.

Quero fragmentar tua alma de cristã,

por dentro esfacelá-la em migalhas.

.

.

Su’alma’maldiçoada… de cristã!

.

.

Só depois… que testemunhar tua igreja em chamas,

e apanhar-te em prantos, começarei então a rir.

Só depois… que acompanhar cada segundo

de teu luto por teus entes queridos,

Contentar-me-ei– sobre as ruínas!

.

.

Gargalharei nas trevas,

Meu desejo alucinante!

Sou o torturador de almas

almas amaldiçoadas…

de critãs!

.

.

.

.

ORGIÁSTICO ARREBATAMENTO DA SÚCUBO

Pestes e ‘nfermidades mil,

misturadas com miséria e aniquilação

são o prato de regalo desta cozinheira,

troçadora das leis celestiais

e dos cânones morais.

Todos os machos no cio são

carne de carniça

para seus experimentos!

.

.

Dotada de poder,

abençoada com a mágica,

Ela contempla o mundo

com esguios olhos de corvo,

acima de todos.

.

.

Mulher da encruzilhada,

prostituta sedutora na estrada…

Princesa heresiarca:

do trono do demônio,

a próxima monarca!

.

.

Sua elegância sem par de meretriz,

é o bastante para perder todos os homens,

meros cornos extravagantes!

Beleza que não é deste mundo,

encanta menos tua mente

que teu irrefletido membro fecundo!

.

.

Maldita mulher,

prostituta enganadora.

Princesa heresiarca:

do trono do demônio

a iminente ocupadora!

.

.

Escuta agora a serenata,

homem de fé, a serenata negra

e desencantada!

.

.

Escuta enquanto abrasa tu’alma!

Estás perdido, marinheiro imundo,

Ela agora governa tua nau!

No ritmo das puras ondas do mal.

.

.

Sua elegância sem par de meretriz,

é o bastante para baixar-te ao inferno, ó homem!

.

.

.

IMPULSO VITAL PRIMITIVO E OMINOSO

Em demência irreversível,

contaminado de mundana vaidade,

com dignidade

carrego a Marca do Diabo.

.

.

Bestas triunfantes divinamente entronizadas.

Escondidas nas trevas…

Até que nos convoquem,

nós os da Marca do Diabo!

.

.

Cavalgo a besta mais odienta

acima das nuvens,

é um assalto e desafio ao céu!

Víboras que tornarão o mundo mais leve,

Ao despojar do homem toda a culpa,

das costas de Ájax toda a labuta!

.

.

Deixar-nos-ão entrar?

A luta não é alada!

Minha mente envenena,

de maus presságios

inoculada!

.

.

Ó, infiéis e espantalhos!!!

Decaí já!

Estais no lugar errado!

A Marca da besta é a vossa marca!

.

.

Hipnotizados, irrecuperáveis.

Jogados na tormenta da existência,

no turbilhão do egoísmo

dos marcados pelo Diabo!

.

.

Varridos sem resistência

pelo IMPULSO VITAL PRIMITIVO E OMINOSO.

Estuprados pela pureza da maldade,

revelem-se agora, portadores da Marca,

moradores do inferno insonhável!

.

.

Espantado, paralisado,

diante do IMPULSO VITAL PRIMITIVO E OMINOSO…

eu mesmo descamo. Não fui chamado?!

.

.

Varridos sem resistência

pelo IMPULSO VITAL PRIMITIVO E OMINOSO.

Perdidos no labirinto do Fauno

ou do Fausto, no trato apunhalado.

.

.

Em demência irreversível,

contaminado de mundana vaidade,

com dignidade

carrego a Marca do Diabo.

.

.

Mas o que é isso?

A Marca sumiu…

Olho-me no espelho–

eu sou o Diabo!

TRADUÇÃO DA PÁGINA “MANUSMRITI” (LEIS DE MANU) DA WIKIPEDIA ENGLISH CONFORME VERSÃO ENCONTRADA EM 16 DE JULHO DE 2023 (COM OMISSÕES E CONDENSAÇÕES, DADO O CARÁTER REDUNDANTE DO VERBETE)

Manusmṛiti (Sânscritoमनुस्मृति), também conhecido como Mānava-Dharmaśāstra ou Leis de Manu ou Código de Manu, é um dos vários textos legais e constitucionais no repertório dos Dharmaśāstras, pertencente ao Hinduísmo. Na Índia Antiga os sábios costumavam anotar em manuscritos suas concepções sobre como deveria se organizar a sociedade. Reputa-se que a forma original do Manusmriti foi alterada e interpolada com comentários e opiniões de escritores póstumos, uma vez que muitas informações contradizem umas às outras.

Mais de 50 manuscritos do Manusmriti são conhecidos, mas a primeira versão descoberta, a mais traduzida, difundida e reputada como autêntica desde o século XVIII seria o “manuscrito Kolkata (antigamente referido como Calcutta) com comentários de Kulluka Bhatta”. A academia moderna considera esta alegação de legitimidade uma farsa, e os múltiplos manuscritos do Manusmriti descobertos na Índia são inconsistentes entre si, mesmo internamente, o que leva a crer que haja problemas de legitimidade do texto ligados a inserções e interpolações feitas sobre uma hipotética fonte original.

O texto, em versos, está em sânscrito, e é geralmente datado como sendo do primeiro ao terceiro século d.C., apresentando-se como um discurso dado por Manu (Svayambhuva) e Bhrigu sobre assuntos do dharma como obrigações, direitos, leis, conduta, virtudes, entre outros. A influência do texto foi detectada fora do próprio território indiano pela historiografia. A lei búdica medieval de Myanmar e da Tailândia também são atribuídas a Manu, e o texto influenciou reinos hinduístas passados no Camboja e na Indonésia.

As Leis de Manu foram uns dos primeiros escritos sânscritos a ser traduzidos para a língua inglesa em 1776, pelo filólogo britânico William Jones; foram usadas como refência para a criação do código hinduísta da Colônia (o enclave da Companhia das Índias Orientais administrado pela Inglaterra).

Nomenclatura

O título Manusmriti é relativamente recente, cunhado provavelmente devido à natureza versificada do documento. Os mais de 50 manuscritos descobertos nunca usam esse título, e sim Manava Dharmasastra (sânscrito: मानवधर्मशास्त्र) em seus colofões no fim de cada capítulo. Na academia, ambos os títulos, portanto, se referem ao mesmo texto.

Cronologia

William Jones Karl Wilhelm Friedrich Schlegel dataram o Manusmriti como tendo sido escrito por volta de 1250 a.C. e 1000 a.C., respectivamente, o que, do ponto de vista da lingüística atual, é insustentável, uma vez que a linguagem do texto, que tem de ser atribuída a um período posterior ao texto védico mais tardio, não é anterior, de perspectiva alguma, a pelo menos 500 a.C. Ultimamente, porém, os escoliastas atualizaram a provável data do texto como provindo de período ainda mais recente: do primeiro ou segundo século da era cristã. Patrick Olivelle, filólogo e indologista, acrescenta que evidências numismáticas e a menção de moedas de ouro sugerem uma datação ainda mais avançada, séculos II ou III.

Maioria dos orientalistas considera o texto um compósito produzido por múltiplos autores durante um vasto período de tempo. Olivelle acredita que os textos indianos antigos e medievais passaram sem exceção por exaustivas revisões e reedições, e neste caso suas pesquisas indicariam um protótipo do Manusmriti contendo 100 mil versos e 1080 capítulos. Não obstante, a versão moderna, de acordo com o próprio Olivelle, seria uma supercondensação de autoria de um autor único, ou de um guru com uma equipe de assistentes.

O Manusmriti, segundo Olivelle, nunca foi um documento original – ele bebe de outros textos e reflete “uma cristalização do conhecimento acumulado” na Índia Antiga. A raiz dos modelos teóricos inscritos no Manusmriti pode ser dita como consistindo, no mínimo, de 2 shastras (“disciplinas”, em forma de um livro contendo um código moral) que o precedem: artha (política e direito) e dharma (conceito hindu muito antigo que engloba o que chamamos de obrigações, direitos, leis, condutas, virtudes e outras prescrições discutidas nos vários Dharmasastras, todos mais antigos que o Manusmriti). Seus conteúdos podem ser traçados como originados nos Kalpasutras da era védica, que levaram ao desenvolvimento dos Smartasutras, compostos dos Grihyasutras e Dharmasastras. Os textos fundadores do Manusmriti incluem vários desses sutras ou sastras, todos eles da era pré-cristã. Muitos deles inclusive conhecemos apenas de nome, sendo 4 os remanescentes: os códigos legais de Apastamba, Gautama, Baudhayana e Vasishtha.

Estrutura

A versão antiga do texto foi dividida pelos modernos em 12 Adhyayas (capítulos); aquela não possuía nenhuma divisão. O texto cobre vários temas, sendo único entre textos hindus antigos no uso de “versos de transição” que demarcam o fim de um assunto e o começo de outro. O texto pode ser, a rigor, dividido tematicamente em 4, com proporções bem diferentes entre as seções, e com algumas subseções:

  1. Criação do mundo

  2. A fonte do dharma

  3. O dharma das 4 classes sociais

  4. A lei do karma, do renascimento e da liberação final

O texto foi composto na métrica Shlokas (versos), na forma de um diálogo entre um mestre exortativo e discípulos ansiosos para aprender os vários aspectos da doutrina do dharma. Os primeiros 58 versos são atribuídos ao próprio Manu, enquanto os mais de 2 mil versos restantes são atribuídos ao seu discípulo Bhrigu. Olivelle lista as subseções como segue:

Fontes da lei

Dharmasya Yonih (Fontes da Lei) tem 24 versos e 1 verso de transição. Eles contêm o que o texto considera a justa e adequada fonte da lei:

वेदोऽखिलो धर्ममूलं स्मृतिशीले तद्विदाम् आचारश्चैव साधूनामात्मनस्तुष्टिरेव

Tradução 1: O Veda inteiro é a (primeira) fonte da lei sagrada, em seguida vêm a tradição e a conduta virtuosa daqueles que conhecem o Veda, além dos costumes de homens pios e, por fim, a auto-satisfação ou auto-contentamento (Atmana santushti).

Tradução 2: A raiz do dharma são, além do Veda, a tradição e os costumes daqueles que conhecem o Veda, além da conduta de pessoas virtuosas, considerando o que é útil e interessante para si mesmo.

— Manusmriti 2.6

वेदः स्मृतिः सदाचारः स्वस्य प्रियमात्मनः एतच्चतुर्विधं प्राहुः साक्षाद् धर्मस्य लक्षणम्

Tradução 1: O Veda, a tradição sagrada, os costumes dos homens virtuosos e o próprio prazer individual, declaradas como as fontes quádruplas da definição da sacralidade da lei.

Tradução 2: O Veda, a tradição, a conduta das pessoas boas e o que é prazeiteiro ao indivíduo – dizem que estes são os 4 caminhos do dharma.

— Manusmriti 2.12

Esta seção do Manusmriti, como outros textos de direito hindus, incluem 4 fontes do dharma, como enfatiza Levinson, o que inclui o Atmana santushtiSadachara (normas locais de indivíduos que se sobressaíram em vida), Smriti (a rememoração intergeracional da sabedoria) e Sruti (sermões ouvidos).

Dharma das 4 Varnas (castas)

Mais informações: Varna (Hinduism)

  • 3.1 Regras relativas à Lei (2.25 – 10.131) (notação: capítulo ponto verso)

    • 3.1.1 Regras da ação em tempos de paz (2.26 – 9.336)

      • 3.1.1.1 O Dharma quádruplo de um brâmane (2.26 – 6.96) (contém a seção mais longa do Manusmriti subseção 3.1, chamada dharmavidhi)

      • 3.1.1.2 Regras de ação para um rei secular (7.1 – 9.324) (Contém 960 versos, inclui a descrição de instituições e funcionários do Estado, como os funcionários devem ser escolhidos, leis de impostos, regras da guerra, o papel e os limites do poder do rei (o governante civil), e longas seções cobrindo 18 razões para litigância, incluindo aquelas relativas ao descumprimento de um contrato, quebras de contrato, o não-pagamento de salários, disputas de propriedade, disputas de herança, humilhação e difamação, agressão física, roubo, violência sob qualquer forma, lesões, crimes sexuais contra as mulheres, a segurança pública e outras. A seção inclui ainda regras sobre a formação de provas, regras sobre interrogatórios de testemunhas e a organização dos tribunais.)

      • 3.1.1.3 Regras de ação para Vaiśyas e Śūdras (9.326 – 9.335) (a menor seção, 8 regras para os vaishyas, 2 para os shudras, mas algumas dessas leis aplicáveis a estas duas classes são discutidas de maneira muito geral ainda nos versos 2.26 a 9.324)

    • 3.1.2 Regras de ação em tempos de adversidade (10.1 – 11.129) (contém regras estipuladas pelo aparato estatal às 4 varnas para tempos de guerra, fome ou outras emergências ou calamidades)

  • 3.2 Regras relativas à penitência (11.1 – 11.265) (inclui regras de punição proporcional ao delito; em vez de multas, encarceramento ou morte, discute sobre a auto-penitência ou isolamento social como forma de punir certos crimes brandos.)

Os versos 6.97, 9.325, 9.336 e 10.131 são também de transição. Olivelle observa instâncias de interpolação e inserção nos textos das seções, tanto na versão vulgar quanto na edição crítica, que nesse aspecto não diferem.

Determinação do Karmayoga

Os versos 12.1, 12.2 e 12.82 são transicionais. Esta seção está em um estilo diferente do restante do texto, suscitando a dúvida de se todo o capítulo não teria sido interpolado. Enquanto que há evidências para julgar que este capítulo foi redigido ao longo de vários séculos, não pode ser descartada a hipótese de que o capítulo inteiro seja uma interpolação única, anexada mais tardiamente a uma versão mais antiga do Manusmriti.

  • 4.1 Frutos da ação (12.3–81) (seção sobre ações e conseqüências, responsabilidade pessoal, ação como meio de alcance do moksha – a maior felicidade terrenal)

  • 4.2 Regras da ação para o supremo bem (12.83–115) (pequena seção sobre karma, obrigações e responsabilidades como meio para atingir o supremo bem)

O último verso do Manusmriti declara

एवं यः सर्वभूतेषु पश्यत्यात्मानमात्मना सर्वसमतामेत्य ब्रह्माभ्येति परं पदम्
Aquele que reconhece em sua alma individual (
SelfAtman) a alma universal que existe em todos os seres se torna Uno em consciência com todos os demais e ingressa no estado supremo, Brahman.

— Manusmriti 12.125, manuscrito de Calcutta com comentários de Kulluka Bhatta.

Conteúdo

A estrutura e o conteúdo do Manusmriti sugere ser este um documento predominantemente destinado aos brâmanes (a classe sacerdotal) e aos Kshatriyas (reis políticos, administração e classe guerreira). O texto dedica 1034 de seus versos, ou seja, mais da metade, a leis que concernem às virtudes bramânicas, e 971 à segunda classe. A declinação de regulamentos para os Vaishyas (classe mercante) e os Shudras (artesãos e trabalhadores braçais) é sempre mais breve e econômica. Olivelle sugere que tal característica pode ser explicada pela necessidade dos autores ou do autor de estabelecer, em prol do equilíbrio intercastas, “a mediação do poder político (temporal) e os interesses sacerdotais (espirituais)”. Teria sido, a da confecção do documento, uma época de aumento de invasões de povos estrangeiros à Índia.

Sobre as virtudes e a condição de pária

O Manusmriti enumera e prescreve virtudes em muitos de seus versos. Um exemplo seria o verso 6.75: a não-violência é a palavra de ordem, e a temperança um comportamento fundamental. No verso 10.63 consta que as 4 varnas devem se abster de machucar qualquer criatura, de mentir e de roubar bens e propriedades.

Analogamente, no verso 4.204, Olivelle ressalta, alguns manuscritos do Manusmriti descrevem as virtudes desejadas como sendo “compaixão, tolerância, veracidade, pacifismo, auto-controle, desapego dos desejos, meditação, serenidade, candura e honestidade” em primeiro lugar; logo depois viriam “purificação, sacrifício, trabalho ascético, caridade, recitação dos Veda, restrição dos órgãos sexuais, observâncias (dos preceitos védicos), jejuns, cultivo do silêncio e asseio”. Alguns manuscritos do texto contêm um verso 4.204 diferente, listando “não machucar ninguém, falar sempre a verdade, ser casto, sincero e nunca um ladrão” como virtudes centrais; enquanto “não ceder à ira, obedecer ao mestre, purificar-se, comer com moderação e vigilância” como as virtudes secundárias exigidas.

Em uma terceira variante de manuscritos do Manusmriti descoberta, incluindo o mais prolificamente traduzido (de Calcutá), o texto declara, no verso referido, que todos os preceitos dos Yamas, como a ahimsa, são essenciais; e que preceitos dos Niyamas, tais quais Ishvarapranidhana (veneração de um deus pessoal) são menores, e que os brâmanes que pratiquem apenas Niyamas e não Yamas se tornarão párias ou proscritos, excluídos das 4 varnas, destituídos de direitos.

Relevância do Manusmriti

Escolhas, comportamentos e ética

O Manusmriti possui muitos versos descrevendo obrigações de uma pessoa para consigo mesma e seus próximos, incluindo códigos morais e legais. Trata-se de um contraste similar à divisão moderna entre regras informais que imperam nas relações de matrimônio ocidentais (que não são objeto do código penal, mas tabus) e que rebaixam a condição de crianças nascidas fora de casamentos formais; mas que ao mesmo tempo buscam, na letra da lei, uma proteção do estatuto da infância, que deve ser digna independentemente do contexto do nascimento da criança. [Trecho muito mal escrito e inoportuno para uma página de enciclopédia, na minha opinião. Traduzi torcendo o nariz.]

Condutas individuais são extensamente previstas. Os versos 2.51–2.56 recomendam que um monge (asceta, sábio ou guru em treinamento) viva da mendicância, mas que sempre dê a comida e o dinheiro adquiridos primeiro a seu mestre antes de poder comer e usufruir ele mesmo da quantia. Deve-se reverenciar a comida obtida e comer tudo sem desdém, mas nunca recair na gula e intemperança, o que é prejudicial à saúde. No verso 5.47 o texto cita que o trabalho se torna menos árduo quando o homem medita durante sua execução e só executa aquilo que tem prazer em executar, e quando este ofício não prejudica outras criaturas.

Uma miríade de versos se concentra sobre as interdições e recomendações no tocante ao consumo de carne; normalmente ele implica o sofrimento animal e seu consumo é mau. Há uma apologia do vegetarianismo avant la lettre. E no entanto não parecem prescrições absolutas, pois o tom é temperado para que o praticante sempre escolha sua conduta e sua dieta com diligência conforme seu contexto (se não for possível evitar a carne, que se a coma). O verso 5.56 diz: “não é pecado comer carne ou ingerir licores, ou praticar o sexo; essas são atividades naturais das criaturas. Abster-se de tais atividades, entretanto, é gratificante para o sujeito”.

Sobre os direitos da mulher

O Manusmriti é mais inconsistente e contraditório consigo mesmo quando trata das funções da mulher na sociedade. Diz-se que o casamento não pode ser dissolvido por uma mulher ou por um homem (vv. 8.101–8.102); em outras seções o divórcio é autorizado para ambas as partes. Conforme os vv. 9.72–9.81 um casamento fraudulento pode ser anulado, bem como a relação abusiva, assim como os divorciados podem contrair cada qual um segundo matrimônio. Há também previsão legal para mulheres contraírem novo casamento mediante desaparecimento ou abandono comprovado do marido.

Prega-se, alhures, a castidade das viúvas (vv. 5.158–5.160), e interdita-se o casamento fora da própria casta (vv. 3.13–3.14). Nos vv. 2.67–2.69 e 5.148–5.155 o Manusmriti declara que toda garota deve obedecer e buscar a proteção do pai, a jovem a do marido, e a viúva a do filho. E que uma mulher deve sempre venerar seu marido, e seu filho, vicariamente, após a morte do marido. Essa veneração deve ser análoga à veneração de um deus; e o homem não deve considerar sua esposa menos do que a encarnação de uma deusa. Nos vv. 3.55–3.56 o Manusmriti cita: “as mulheres devem ser honradas e estar sempre adornadas”, e “onde as mulheres são reverenciadas, os deuses se regozijam; onde elas não o são, nenhum ritual sagrado gera qualquer benefício”. Nos vv. 5.147–5.148 temos: “uma mulher nunca deve buscar viver sozinha”.

E, concomitantemente, o texto enumera numerosas práticas de casamentos intercastas (anulomapratiloma, etc.), mesmo o de um brâmane com uma Sudra (primeira com quarta casta) (vv. 9.149–9.157), uma viúva que engravida de um outro homem (vv. 9.57–9.62), ou ainda o de casais fugitivos [!] – que depois de haverem fugido para contrair relações que não seriam autorizadas pelas famílias podem ser legalmente reconhecidos no direito de família caso regressem, conforme os vv. 9.143–9.157 –, sem ignorar ainda [como antecipado mais acima] os direitos que não deixam os menores em situações excepcionais desassistidos socialmente.

O texto tampouco se cala diante da situação da gravidez da mulher casada de um homem que não seja o marido, dedicando-lhe os vv. 8.31–8.56: a custódia deve ser da mãe e do marido legalmente constituído, e não do pai biológico.

O Manusmriti prevê que a mulher tem direito a possuir 6 diferentes tipos de propriedade (vv. 9.192–9.200), quais sejam: dote, doação após fuga com o amado, resgate após seqüestro, presente facultativo do noivo ou de sua família sangüínea; e a última hipótese, a da herança.

Flavia Agnes, feminista indiana contemporânea, comenta que o Manusmriti não é de fácil interpretação da perspectiva feminina. A lei imposta pela colonização inglesa fundiu algumas das noções hindus com certos preceitos disseminados pelo islamismo, mas ignorou vários conteúdos de ambas as religiões, presentes na região da Colônia, enfatizando outros, criando um direito inédito. Toda essa intervenção inglesa (para pior, no caso do reconhecimento de direitos mais amplos às mulheres) criou mitos a respeito de um papel histórico precursor do Manusmriti no sul da Ásia. Embora possua pontos considerados avançados na isonomia dos sexos, a legislação de Manu não pode ser considerada “progressista” do ponto de vista atual.

Do Estado e da arte militar

O capítulo 7 se concentra no rei (líder da segunda casta): quais as suas obrigações, que virtudes deve cultivar e que vícios deve evitar. Os vv. 54 a 76 explicam como deve ser a nomeação de ministros, embaixadores e servidores. Descreve-se como deve ser estruturada a capital dum império. O Manusmriti segue explicando o direito de guerra, discriminando que a negociação pacífica e as tentativas de reconciliação devem ter sempre prioridade. Caso a guerra seja inevitável, o soldado não está autorizado a ferir civis, não-combatentes ou mesmo inimigos rendidos. Deve-se empregar força apenas proporcional, dentre outras noções éticas muito familiares ao direito moderno ocidental. Indiretamente relacionada ao assunto está a cobrança de tributos a povos submetidos, de 7.127 a 7.137.

Autenticidade e inconsistências nos vários manuscritos

Olivelle, creditado como tradutor de uma edição dos Manusmriti publicada em 2005 pela Oxford Press, prefacia que na academia pós-moderna (contemporânea) não há como falar em autenticidade ou inautenticidade do texto per se:

MDh foi o primeiro texto jurídico hindu a ser conhecido pelo Ocidente, em 1794. … Todas as suas edições, exceto a de Jolly, reproduzem o texto do manuscrito de Calcutta com os comentários de Kulluka. Eu denomino essa versão de vulgar ou popular (a vulgata do Código de Manu). Esta versão é a mais conhecida por ter ganhado traduções de W. Jones (1794), Burnell (1884), Bühler (1886) e Doniger (1991). … A crença na autenticidade do texto de Kulluka foi debatida por Burnell (1884, xxix): ‘Restam poucas dúvidas de que o texto recebido de Kulluka Bhatta, adotado por estudiosos europeus e indianos, seja muito próximo ao texto do manuscrito original.’ Essa é uma afirmação leviana. Quem já investigou a maioria da mais de meia centena de manuscritos existentes sabe que há mais divergências que coincidências em relação ao conteúdo.”

— Patrick Olivelle, Manu’s Code of Law (2005)

Sinha acredita que no máximo 1214 dos 2685 versos poderiam ser considerados genuínos. Apontam-se contradições internas em versos como 3.55–3.62 (glorificação da mulher) e 9.3 e 9.17 (extrema objetificação da mulher). Algumas passagens, direcionadas a Ganesha, seriam absolutamente forjadas. Robert E. Van Voorst hipotetiza que os vv. 3.55–60 podem se referir ao tratamento destinado à mulher no lar, e os trechos que a objetificam refletiriam apenas o aspecto público de uma sociedade estritamente patriarcal, o que seria segundo o autor perfeitamente conciliável.

Mahatma Gandhi disse o seguinte a respeito das contradições do Manusmriti:

Considero o Manusmriti uma parte dos shastras. Isso não significa que me comprometa com todos os versos impressos neste livro. É mesmo humanamente impossível fazê-lo.”

— Mahatma Gandhi, On Adi-Dravida’s Difficulties

Comentários

Há uma verdadeira escola de comentaristas (escoliastas) do texto já no período medieval da Índia. Bhāruci é o mais antigo dos comentadores. Kane data sua vida entre os séculos X e XI, Olivelle no VIII e J. Duncan M. Derrett entre o VII e o VIII. Significa que com base nesses três escoliastas modernos podemos inserir Bhāruci em qualquer ano do 600 a 1200 d.C. O comentário de Bhāruci é denominado Manu-sastra-vivarana e tem muito menos versos que a versão vulgar (Kullūka-Calcutta) em circulação desde a época da colonização britânica. Há algumas referências a textos mais antigos, reputados como para sempre perdidos. O comentário mais antigo é alternativamente chamado Raja-Vimala. Derrett aponta que Bhāruci é “no geral mais fidedigno ao propósito histórico do Manusmriti” do que qualquer outro exegeta.

O comentário de Medhātithi foi bastante estudado. Buhler, Kane e Lingat crêem que ele fôra um autor da Índia setentrional, provavelmente da Caxemira. A estimativa é que sua resenha tenha sido escrita entre os séculos IX e XI.

O comentário de Govindarāja, Manutika, é estabelecido com precisão como pertencente ao século XI. Isso porque foi referenciado por outros 2 comentários, Jimutavahana e Laksmidhara, tendo sido, segundo Olivelle, plagiado por Kullūka.

Kullūka ele mesmo, que escreveu o Manvarthamuktavali, além da propria versão mais consagrada do Manusmriti, criou basicamente toda a reputação não-erudita e grande parte da reputação erudita do Código de Manu, e seu manuscrito foi descoberto na Calcutá da época em que estava sob controle britânico. Não há “mérito” em sua maior reputabilidade, de fato: foi por sorte a versão achada primeiro. Sua datação é o séc. XIII, como período mais precoce possível, ou XV, previsão mais tardia.

O comentário de Nārāyana, intitulado Manvarthavivrtti, é mais provavelmente do século XIV. A vida de seu autor é um tanto obscura, embora o nome seja freqüentemente citado na literatura hindu. Tanto Nārāyana é considerado fonte indispensável que foi este comentador a principal base para a edição crítica do Manusmriti de 2005.

Nandana, do sul da Índia, em seu comentário Nandini, oferece pistas sobre todas as interpolações no manuscrito que derivem de gurus do hemisfério meridional do país.

Outros escoliastas medievos de somenos importância são Sarvajnanarayana, Raghavananda e Ramacandra.

Relevância e papel histórico

Para as Índias antiga e medieval

Há grande ceticismo sobre se o Código de Manu foi jamais uma fonte real do Direito na Índia antiga ou medieval (do nosso calendário). David Buxbaum: “Na opinião dos mais proeminentes comentaristas contemporâneos, a quantidade de prescrições inscrita neste único documento jamais foi um documento oficial do (proto-)Estado do Hindustão. É mais uma obra defendendo uma concepção ideal a ser implementada, como A República de Platão.”

Donald Davis: “não há evidência histórica de uma ativa propagação ou implementação do Dharmasastra (entender como sinônimo do Manusmriti) por iniciativa de qualquer governador ou instituição – o texto foi sempre uma matéria sacerdotal passada adiante. Categorizar o texto como peça de direito, portanto, seria compreendê-lo mal.”

Outros estudiosos corroboram a visão de Davis, seja via fontes epigráficas, arqueológicas ou textuais da época medieval do hinduísmo e os reinos então constituídos, no Gujarat, em Kerala e em Tamil Nadu, reconhecendo, muito embora, certa influência dos mandamentos éticos sobre as legislações do sul da Ásia, nem que apenas como fonte teórica de códigos ali instalados a posteriori, sem tanta verossimilhança prática.

Fora da Índia

Os Dharmasastras, particularmente o Manusmriti, diz Anthony Reid, foram muito venerados na Birmânia (a já citada atual Myanmar). Wareru Dhammathat cita outras regiões: Sião (Tailândia), Camboja e Java-Bali (Indonésia). Os reis destes lugares seguiam o Manusmriti literalmente, diferente da própria Índia pré-moderna, que afinal é a mãe do documento. Em Java havia maior flexibilidade e tolerância quanto aos mandamentos de Manu. Deve-se esclarecer, entretanto, que os manuscritos que circulavam pelo Sudeste Asiático diferem consideravelmente da versão vulgar mais célebre. Há interpolações no manuscrito Calcutta feitas em séculos mais recentes, próximos à invasão anglo-saxã da Índia.

Para a Índia britânica

Artigo principal: Lei hindu (em inglês)

Antes da lei britânica, a Sharia (lei do Islã) fôra codificada pelos muçulmanos espalhados no sul da Ásia e rebatizada como Fatawa-e-Alamgiri. A Sharia é posterior ao Alcorão em si, mas foi aceita pelos maometanos como a “parte legal” derivada do Corão. No entanto, a lei para não-muçulmanos (hindus, budistas, sikhs, jainistas, parsis) – não fôra instituída. Com a chegada da marinha britânica o Manusmriti desempenhou um papel histórico de construção de um sistema não-muçulmano legal onde previamente havia um vácuo de normas oficiais e escritas. A percepção européia da Índia foi muito condicionada pelo conteúdo do texto. Como antes do século XVIII não havia virtualmente quase nada de empírico e sério veiculado no Ocidente sobre os hindus, estas foram as “primeiras impressões sérias” da nação, o que decerto distorceu ainda por muitas décadas a compreensão do Oriente pelo Ocidente (processo cuja mitigação ainda está em curso).

Os britânicos apoiaram o imperador de Mughal. Nasceram ali o legislativo e o judiciário indianos, por assim dizer. A Companhia das Índias Orientais, posteriormente apenas a Coroa Britânica, buscava o lucro nas suas relações com os lugar-tenentes ingleses ali estabelecidos e a manutenção da ordem política via controle militar, mais ou menos relaxado ou autoritário, conforme o contexto. A administração recém-modernizada do país nunca praticou tantas arbitrariedades quanto, p.ex., os lusos e espanhóis na América, pelo menos em teoria – buscava-se uma via racional do “menor esforço”, associando-se as autoridades inglesas a intermediários locais, “convertidos” aos valores do Ocidente, a fim de governar de maneira indireta e menos truculenta, mas igualmente eficiente e monopolista.

É claro que houve transigência no processo: os ingleses também recuavam e se adaptavam a costumes hindus que a população não aceitasse modificar ou reformar em absoluto. Sendo assim, com a lei muçulmana e o Código de Manu, a Inglaterra manteve sua grande Colônia sob controle e estabilidade, respeitando minimamente a cultura e as religiões locais. Até mesmo conflitos entre etnias hindus não sofriam pesada interferência do exército inglês. Essa política de mínima intervenção não mudaria até o final do século XIX.

No que concerne a heranças, casamento, castas e instituições de outras religiões [em relação à Igreja Anglicana], o Alcorão, para os de fé islâmica, e o Shaster (shastras) para os gentoos (hindus) são os dois únicos sistemas legais vigentes.”

— Warren Hastings, Governador-Geral das Índias, 15 de agosto de 1772

Chama a atenção, contudo, como os oficiais britânicos interpretavam o Manusmriti como um código de leis, penal, civil, etc., nos moldes ocidentais, não compreendendo que se tratava de um comentário sobre costumes, ética e leis sacerdotais (transcendentais), o que muito difere das Constituições positivistas modernas. Ademais, muitas autoridades do Império não sabiam que o Código de Manu era apenas uma pequena parte de toda uma tradição milenar de dezenas de milhares de páginas. Ou seja, que o Código de Manu não era uma autoridade absoluta para o brâmane, mas sua própria fiabilidade derivava do reconhecimento do Veda e dos Upanishads como instâncias supremas da normatização da vida da casta superior e, em decorrência, das demais três e dos párias.

A codificação das duas leis pelos britânicos começou em 1772 e continuou séc. XIX adentro, com ênfase em apenas alguns textos, e em algumas passagens dos textos que julgavam mais importantes, ignorando quão dinâmica era a estrutura da sociedade hindu. O status da mulher se viu, por exemplo, estagnado por completo, graças à transigência inglesa quanto às tradições indianas que eles próprios só compreendiam pela metade. A economia e sua evolução pareciam a preocupação prioritária do Império e único elemento que admitia avanços e reformas. No processo de codificação legal, os ingleses deram ouvido principalmente aos prosélitos muçulmanos e hindus, nem sempre os mais recomendáveis pregadores da própria religião. Muitas leis de costumes que não consideraríamos hindus em povoados relativamente isolados ou autônomos sofreram uma “islamização” ou “bramanização” indiscriminada, tanto quanto os ingleses conseguiam penetrar o território. Em suma, séculos de desenvolvimentos plurais foram achatados numa lei de formato unívoco e linear que não refletia de forma alguma o cotidiano da população local.”

— Abdullahi Ahmed An-Na’im, Islam and the Secular State: Negotiating the Future of Sharia [O Islã e o Estado Secular: Negociando o Futuro da Sharia]

Comparações com outros dharmasastras

Mais informações: Dharma e Dharmashastra

Além do Código de Manu a Índia contava com de 18 a 36 dharmasastras ou shastras “concorrentes entre si”, nas palavras de John Bowker. Muitos destes, todavia, foram irremediavelmente perdidos. Alguns sobreviveram em fragmentos. Poucos em sua completude, e mesmo assim nas mesmas condições do presente objeto de estudo (interpolados, modificados, com fragmentos irreconciliáveis entre si, etc.). No entanto há sempre notícias desses shastras nos inúmeros textos da religião hindu, e uns influenciam ou influenciaram os outros numa grande rede. Quanto aos comentários de natureza jurídica, depois do smriti, foi o dharma sutra mais arcaico, o Yajnavalkya Smriti, o que mais atraiu a atenção dos estudiosos. Em seguida poderíamos citar o Narada Smriti e o Parashara Smriti. De acordo com Ghose et al., o Yajnavalkya Smriti era mais citado que o Código de Manu na temática da governança (prática política). Este texto não tem datação definida e sua composição é nitidamente uma junção de outros escritos. Possivelmente ele é vários séculos mais recente que o próprio Manusmriti, mais “conciso, metódico, bem-dividido em seções e algo mais liberal quanto aos costumes muito rígidos prescritos à casta sacerdotal”.

Pelos 18 títulos de suas leis, o Yajnavalkya segue o mesmo padrão do Código de Manu, com ligeiras modificações. No tópico dos direitos das mulheres, incluindo a herança, no status dos Sudras, nas penas criminais, o Yajnavalkya é muito mais liberal. … Ele lida exaustivamente com a criação de documentos válidos, a lei das hipotecas e negócios em associação (o direito de corporações e empresas).”

M. Rama Jois, Legal and Constitutional History of India

Jois sugere que a verve mais liberal do Yajnavalkya Smriti possa decorrer da influência do budismo. As diferenças também incluem a adição, por Manu, de versos concernentes à organização de monastérios, arrendamento de terras, execuções de obrigações, etc. O Yajnavalkya era mais referenciado por reinos hindus na era medieval, como exposto no comentário do Vijñāneśvara chamado Mitakshara, do séc. XII.

Recepção moderna

Figuras indianas proeminentes divergem bastante na interpretação do Manusmriti. B.R. Ambedkar (à esq.) queimou o manuscrito em 1927. Gandhi (à dir.) prefere considerá-lo uma mistura de exposições elevadas com ensinamentos contraditórios. Gandhi sugere, portanto, uma leitura crítica, desconsiderando as partes contrários à ahimsa.

Entre os principais críticos nativos do texto no século XX podemos citar, que Ambedkar culpa o texto pela consolidação do sistema de castas. Como referenciado, em protesto, ele queimou um exemplar do Código de Manu numa fogueira em ato público em 25 de dezembro de 1927. Gandhi era contra a queima de livros, não importando seu teor. Mahatma considerava que as discriminações de casta, muito nocivas para o desenvolvimento nacional e espiritual do povo hindu, não estão inerentemente ligadas aos indianos como Estado nem muito menos ao sistema hindu de crenças. O texto reconhece diferentes vocações e profissões, define mais obrigações que direitos e se parece muito mais com um manifesto da importância equivalente do guru e do “zelador” (o que nós devemos entender muito mais como o verdadeiro papel do Kshatriya no lugar da enganosa palavra “rei”), ou do não-aristocrata, pois entende-se nas entrelinhas que sem os segundos não há sentido de ser da classe sacerdotal – visto que um povo não pode viver apenas de seus sacerdotes. Assevera ainda que o original podia ter um sentido diferente da versão que conhecemos, depois de séculos de emendas. O mérito maior do Manusmriti seria pregar a não-agressão e a resistência pacífica, tão úteis na independência da Índia no século XX.

A versão lida por Friedrich Nietzsche é a tradução de Louis Jacolliot. O filósofo tanto elogia quanto critica o Manusmriti:

  • O Código de Manu seria “um trabalho incomparavelmente superior, em espiritualidade”, aos escritos sagrados do cristianismo. “O livro brilha em todos os seus versos” e sua deontologia “é a de uma classe de nobres, composta de filósofos ou guerreiros, [quem] está em posição hierárquica mais alta que a da população comum”. Nietzsche não defende o sistema de castas, enfatiza David Conway, mas endossa o princípio da possibilidade da exclusão política conforme exposto pelo Código de Manu. Nietzsche considerava a ordem social de Manu muito distante da perfeição, mas entendia que a idéia da separação em castas não é incomum entre as culturas, sendo uma imposição social de uma minoria sobre uma população, sendo um fato sociológico ou antropológico, independentemente de ser desejável ou não. Nietzsche considera que qualquer hierarquia grupal, de classe ou de casta, apenas reflete a inerente necessidade humana de elaborar um ranqueamento dos próprios valores, ainda que se tratasse de uma lista individual, por exemplo, hierarquizando nomes próprios da História, ou de virtudes de uma mesma pessoa em ordem de relevância, o que parece ser um comportamento universal do homem. No fim, a formação social hindu poderia ser resumida como uma tentativa de obtenção da, uma busca pela, excelência.  Julian Young, intérprete de Nietzsche: “A natureza, e não Manu, estabelece separações: pessoas predominantemente espirituais, pessoas consideradas fortes de temperamento e também fisicamente, e um terceiro grupo de medíocres.”

  • Abaixo vem a parte criticada por Nietzsche. Segundo Walter Kaufmann, em contradição com Conway, N. “denuncia a forma como o Código de Manu lida com os proscritos, alegando que nada ofende nem indigna o sentimento do ocidental mais do que o ali estabelecido para os menos privilegiados…” Nietzsche de fato escreveu o seguinte: “esses regulamentos, produtos de uma etnia ariana bastante remota, ‘pura’, nos ensinam que o conceito de pureza de sangue é o exato oposto de uma ‘idéia inofensiva’”.

A historiadora Romila Thapar descarta por completo a opinião de Ambedkar, dita como estereotipada até o ridículo. Para Thapar, evidências arqueológicas nunca confirmaram uma pretensa perseguição aos budistas por Pushyamitra, conforme Ambedkar alegava. Ao contrário, existe uma epígrafe no portão de Bharhut, do tempo dos Shungas, que parece exalter o budismo.

Pollard et al. pensam que o Código de Manu se refere à reconstrução de uma nação devastada por uma grande série de enchentes. Swami Dayananda Saraswati, o fundador da Arya Samaj (espécie de cisma extremista em relação ao hinduísmo, pregando, paradoxalmente, o monoteísmo), considera o manuscrito de Calcutta autêntico e digno de ser seguido literalmente. Entre os maiores admiradores do escrito se encontra Annie Besant, feminista, franco-maçon e socialista.

Como epílogo, as exortativas aspas de Friedrich Nietzsche em Vontade de Potência: “Feche a Bíblia e abra o Código de Manu. Ele é afirmador da vida, transmite uma sensação agradável emanando dos elementos vitais; erigir um livro da lei como o de Manu significa dar ao homem a primeira palavra, almejar à perfeição, ter ânsia de realizar a mais alta arte do viver possível”.

Edições e traduções

Versão lida pelo Seclusão Anagógica, com publicação de trechos prevista para breve: sacred-texts.com/ ­

Veja ainda

Notas [não-assinaladas acima para não truncar a leitura]

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Referências

SINOPSES DE (ALGUNS) LIVROS INDISPENSÁVEIS PARA A FORMAÇÃO DO HISTORIADOR – Episódio I

HERÓDOTO, Histórias

Histórias, ou simplesmente História ou A História, de Heródoto de Halicarnasso, é considerado o primeiro trabalho no campo do que hoje entendemos pela disciplina história ou historiografia no Ocidente, fundador por excelência, portanto, de uma ampla e milenar tradição. Escrita por volta de 430 a.C. no dialeto jônico, aquele mais rico em produções culturais no mundo helênico durante a vida do “pai da História”, esta é uma obra de valor e repercussões inestimáveis a fim de compreender as sociedades grega, médio-oriental e africana setentrional, raio geográfico do berço das civilizações. Heródoto viajou extensamente para colher boa parte de seus relatos, inaugurando, portanto, ademais da historiografia, a etnografia e o estudo de campo, fundamentos da disciplina antropológica.

Através da pena de Heródoto as gerações futuras obtiveram, por exemplo, seus primeiros esclarecimentos acerca do surgimento do império persa e das causas e do desenrolar das guerras pérsicas (travadas contra os próprios gregos no mesmo século de Heródoto). Para o autor, tratava-se da luta decisiva entre os bárbaros, a representar a escravidão, e a liberdade, bandeira levantada pela confederação das cidades-Estados helenas capitaneadas pela democracia ateniense. Post mortem os escritos de Heródoto, indivisos, passaram a ser transmitidos em 9 livros ou partes, compartimentação que persiste na atualidade, cada qual tendo como subtítulo uma das nove Musas do Olimpo.

Controvérsias

Hecateu, estudioso que precedeu Heródoto, é segundo algumas fontes o verdadeiro pai da História, sendo, portanto, retrospectivamente, rival de Heródoto em fama. Os críticos dessa visão asseveram que Hecateu, a despeito de dotado de respeitável espírito crítico, comparável ao moderno, pré-requisito para a boa historiografia, pecava por não ter logrado se libertar das correntes representadas pelo discurso mitológico. Onde Heródoto utilizava a mitografia como elemento entre outros de seu método histórico inovador, cujas regras estritas levavam a primazia sobre narrações fantásticas, Hecateu seria seu antípoda ideal: contaminado pelos mitos, subordinava o relato da História a essas fontes mais tradicionais e impossíveis de delimitar no tempo. O próprio Heródoto critica em Hecateu suas genealogias ingênuas e a falsa imagem que teria pintado dos atenienses. O que deve ser cedo aprendido pelo historiador neófito, entretanto, é que “atacar” um predecessor nem sempre significa rejeitá-lo por completo ou deixar de admirá-lo, pois é patente que Hecateu tem sua parcela de contribuição como influenciador de Heródoto, por sinal um assunto ainda muito espinhoso e de árdua deglutição entre nossos acadêmicos. Porfírio e Eusébio, autores da Antiguidade, acusam Heródoto de haver tomado as descrições naturalistas de Hecateu do crocodilo, do hipopótamo e da fênix sem citar a Circunavegação do Mundo Conhecido/Periegesis como sua verdadeira fonte (Histórias 2:78).

Outra distinção marcante entre Hecateu e Heródoto, que compartilham a primeira sílaba do nome e o ofício, é que Hecateu não contava com o presente como fonte de informações para sua história, ao contrário de Heródoto, que ensina que sem verificações no tempo atual o passado estará perdido e o historiador se confinará ao mero reino das conjeturas. Heródoto antecipou em muitos séculos uma tendência em voga: a revalorização da história oral, método praticamente olvidado pelo cânone da historiografia européia clássica.

Com efeito, o caráter sui generis de Heródoto é seu maior trunfo e, igualmente, a razão de ser vilipendiado e incompreendido por certa parcela de seus pósteros. Sendo o “Hipócrates da História”, posto não pouco invejado, a dificuldade em determinar qualquer fonte principal para a forja de seu método, em termos de nomes célebres, torna-o alvo fácil do menosprezo e exageros retóricos dos historiadores mais oportunistas e pedantes. Pois nenhum outro autor partícipe da formação intelectual do grego precursor teve importância hegemônica em sua obra, como acabamos de ver por Hecateu, que o influenciou marginalmente ou, pelo menos, acabou por ser completamente ofuscado pelas realizações mais impressionantes do discípulo indireto. Como não há, em várias instâncias, como atribuir identidade às inspirações empíricas de Heródoto, historiadores de um espectro extremado contestam o valor de seus achados históricos e põem em dúvida sua boa-fé em seguir o próprio método investigativo que consolidou. De fato, não é possível verificar uma por uma as referências de Heródoto colhidas em entrevistas e testemunhos em suas viagens. Seria fácil desqualificar qualquer autor antigo usando o mesmo argumento, incluindo filósofos e tragediógrafos. E não obstante os séculos XX e XXI estão repletos de fraudes em trabalhos de história, o que não significa que o historiador médio seja um ficcionista sem ética.

Dentre alguns raciocínios atemporais de Heródoto hoje ratificados encontramos sua afirmação de que os continentes então conhecidos não possuíam aproximadamente a mesma extensão, como costumava-se pensar a respeito da Europa, da Ásia e da África, noção hoje sem qualquer sustentação.

E, gostando-se ou não, Heródoto ainda é a única fonte para um sem-número de episódios históricos dos mundos grego e persa, do século VII ao V a.C. Não só: a arqueologia dos sécs. XIX e XX elevou o status do sábio de Halicarnasso em mais de um episódio desconectado da Grécia e da Pérsia. Um deles foi a descoberta, um tanto recente, aliás, de vestígios de Gelonus, cidade da Cítia, em 1975. Heródoto descreveu Gelonus como milhares de vezes maior que Tróia, juízo por muito tempo ridicularizado. O mesmo se sucedeu com Heracleion, cidade egípcia, que Heródoto afirmou ter sido fundada durante o novo reino do Egito, informação posta em dúvida até que achados empíricos (a estela de Naucratis) lhe prestassem renovada credibilidade.

Como dito, Heródoto nunca desprezou as fontes mitológicas, embora tenha lidado com elas de forma inédita. Em que pese os deuses nunca apareçam nos relatos de Heródoto (se pensarmos na freqüência desse expediente em Homero e Ésquilo, alguns de seus espíritos formadores), ele teve a sensibilidade dificilmente pueril de afirmar: “Muitas coisas me provam que os deuses participam dos negócios do homem” (9:10). Tal sentença deve ser encarada no contexto da interpretação filosófica da História por Heródoto, que não prescindia do importante, por mais que sujeito a intermináveis debates, conceito de destino.

A última grande polêmica em torno de Heródoto – se é que de fato vale a pena um tal questionamento “comezinho” – seria determinar quem foi um historiador mais completo: se ele ou se Tucídides, que lhe foi parcialmente contemporâneo, apesar de mais jovem, e afigura-se como rival muito mais competitivo para a obtenção do título de progenitor da disciplina histórica que Hecateu. Hoje o valor epistemológico daqueles dois autores, os maiores historiadores da Antiguidade, está fora de dúvida entre os mais reputados dos especialistas; mas qual levaria a palma num fabricado concurso, já que falamos de personalidades helênicas, regidas pelo agon?

Tucídides sem dúvida pertence a uma outra escola historiográfica em relação a Heródoto, que poderíamos chamar, grosso modo, de história bélica ou militar, e muito mais ligada à retórica e à psicologia interior das personalidades que movem a História. Sendo assim, é muito mais difícil comparar a ambos, dado que todo historiador terá a princípio uma predileção por uma das duas abordagens, e acabará tomando cada autor pela disciplina ou ramificação da disciplina que ajudou a fundar e desenvolver. Felizmente, não precisamos responder à pergunta que encerra o último parágrafo, e não deixaremos de falar mais detidamente de Tucídides em seu próprio espaço, mais abaixo, o que muito ajudará quem estiver interessado neste tira-teima – haja vista que no mínimo uma das obras tucidídicas também vem a ser um clássico indispensável da historiografia.

Legado e Legado, Inspiração e Inspiração

Heródoto utilizou Os Persas de Ésquilo como fonte bibliográfica. A derrota da frota da Pérsia em Salamina teria sido necessária para determinar a derrota que se deu também em terra firme diante de Atenas, conforme seu livro oitavo, e ele absorveu este ensinamento da peça do escritor trágico. Em contrapartida, o sucessor de Ésquilo no teatro grego, Sófocles, utilizou os conhecimentos de Heródoto em seus escritos. Caso exemplar seria a cena da morte de Intafernes na Antígona, replicada de História volume III.

TUCÍDIDES, História da Guerra do Peloponeso

HGP é obviamente um relato do conflito homônimo, transcorrido entre 431 e 404 antes de Cristo, envolvendo a liga de cidades-Estados espartanas contra a liga de cidades-Estados lideradas por Atenas, com vitória desta última. Tucídides foi ele mesmo ator daquilo que narra, uma vez que foi general do exército vencedor. Sua História é dividida em 8 tomos. A questão central, se podemos extrair alguma, está na ambígua sobreposição entre poder bruto e justiça em nível nacional.

Em geral, os historiadores contemporâneos julgam Tucídides um escritor mais “objetivo” e rigoroso que Heródoto, com um estilo conciso e preciso (“mais pesado e menos prazeroso” que o herodótico, dirão outros). Dialeticamente, entretanto, Tucídides sofrerá das mesmas críticas de falta de critério e invenção de fatos direcionadas a seu colega imediato, o Pai da História, como seria inevitável. Destaque-se, porém, que Tucídides procura transmitir o conhecimento do período assinalado acima muitas vezes através de diálogos “ficcionalizados”, que ele não presenciou e não se deram literalmente, que carregam grande dose de verossimilitude e probabilidade, i.e., bem podiam ter mesmo acontecido assim, baseados que estão na bem-constituída personalidade dos interlocutores. A boa-fé de Tucídides está em que ele nunca esconde o quanto seus diálogos “imaginados” não passam de artifício para ensinar o leitor acerca da realidade grega. Talvez o fragmento mais famoso do autor a seguir este método para nós um tanto inusual seja não um diálogo, mas o monólogo ou discurso de Péricles, governante de Atenas, sua oração fúnebre, no segundo tomo.

Também em oposição a Heródoto Tucídides prima pela transcrição cronológica dos fatos, preferindo dividir os acontecimentos da guerra ano a ano (ou mais precisamente estação a estação, já que durante o inverno havia tréguas entre os soldados devido ao clima), em vez de proceder a um relato que chamaríamos hoje de holístico ou global.

SIMA QIAN & al., Registros do grande historiador

O Shiji (chinês para o título acima) só está disponível em inglês entre as línguas mais faladas e lidas pelos brasileiros, por isso é a leitura mais inacessível dentre estas três primeiras apresentadas; mas ao menos não precisamos aprender mandarim para apreciâ-la. Foi publicado pela primeira vez aproximadamente em 91 antes de Cristo, mas provavelmente não há qualquer chance de intercâmbio de conhecimentos entre a tradição grega da fundação da História e esta magnum opus do Império Chinês, o que nos leva a enveredar por uma segunda proposição da disciplina, uma vertente ou etimologia alternativa para o conhecimento do passado dos povos, ou, particularmente, de um povo ou nação, neste caso. Trabalho monumental por si só, os Registros do Grande Historiador (RGH) são apenas a história da primeira das 24 dinastias de imperadores. Sima Qian na verdade empreendeu a continuação do trabalho de seu pai, também historiador (à época, ‘escriba’), Sima Tan (Qian SIMA e Tan SIMA na notação ocidental).

A abrangência do tratado também é espantosa, se considerarmos os empreendimentos mais modestos dos gregos Heródoto e Tucídides: 2500 anos, desde o lendário Imperador Amarelo até o reinado de Wu Han, contemporâneo de Qian (há uma gradual transição entre lendas e história de facto). O foco do trabalho é a dinastia Han, que controlava a China. Na verdade poderíamos dizer que, dada a complexa e rica história chinesa, aqui entra-se em pormenores somente sobre a dinastia Han do Ocidente (da China). Não quer dizer que houve em simultaneidade uma dinastia Han do Oriente. Esta, com efeito, viria a surgir apenas séculos mais tarde, e alegadamente seus imperadores descendiam dos Han do oeste. Atrás apenas de Confúcio, que está mais para um teólogo ou filósofo em nossa classificação, e do primeiro imperador de Qin, Qian pode ser considerada a figura mais importante para a formação da China como hoje a entendemos, isto é, uma nação unificada. Poderíamos ser mais ousados, todavia, e dizer que sem Qian não haveria primeiro imperador Qin nem Confúcio: o próprio autor do livro que aqui nos interessa narrou a biografia destas duas personalidades no monumental tratado de História, ajudando a consolidar suas reputações. Desnecessário afirmar que RGH é o modelo para todas as subseqüentes histórias de dinastias chinesas e redações de biografias, gênero nascente. Será possível diagnosticar que a própria noção de tempo histórico no Oriente diverge muito da nossa própria tradição.

Uma obra de várias mãos

É sábido que não recebemos a obra na sua forma original, pois já no primeiro século depois de Cristo outro historiador, Chu Shaosun, adicionou interpolações ao texto mais antigo. É reportado que, pela escassez de exemplares da obra e as condições de degradação física do material, em algum ponto entre os sécs. II e III d.C., já durante a dinastia Han Oriental, historiadores da côrte tiveram de reescrever porções irremediavelmente perdidas de alguns capítulos (10 dos 130 legados por Qian). Como se vê, diferentemente da Grécia Antiga, a própria vida intelectual era basicamente restrita a funcionários do governo; portanto, quando se fala em escribas ou historiadores desta época e lugar, são sempre funcionários públicos trabalhando para o monarca absoluto – são histórias oficiais.

Do séc. V ao X (atravessando 500 anos de História), muitos escribas de novas dinastias trabalharam em Comentários do Shiji ou RGH, não mais modificando a obra já então clássica, mas aumentando seu cânone e, de certo modo, facilitando sua compreensão. Um dos volumes de comentários mais famosos é o Sanjiazhu (Comentários dos Três Sábios).

Somente nos anos 1930 os Registros foram preparados para disseminação moderna e passaram a estar ao alcance dos historiadores profissionais e amadores estrangeiros interessados, bem como se tornaram legíveis para grande fatia da população da própria China. Nesta nova edição, os Comentários dos Três Sábios estão em apêndice. Subsistem, ainda, blocos de madeira antigos com trechos do manuscrito original, guardados em museus.

As circunstâncias especiais da produção de livros na China Antiga

Em volume, trata-se de uma obra quatro vezes maior que a História da Guerra do Peloponeso que, recordemos, é hoje dividida em 8 livros separados, para comodidade do leitor! O próprio Antigo Testamento é menor que os Registros. Com os materiais de madeira usados por Qian (antes que ele finalizasse a obra e a disponibilizasse para copistas que utilizaram suporte papel), estima-se que ela, do início ao fim, contida em centenas de toras de bambu (estima-se que entre 600 e 700), pesaria de 40 a 60kg, dificultando bastante seu transporte para outros escribas ou interessados em consultá-la. Lembre-se que, ademais, essa “economicidade” em bambus (pois deviam ser necessárias bem mais toras) só foi possível graças ao caráter bastante sintético dos caracteres chineses, que contém muito mais informações que nossas letras do alfabeto. A conta acima, entretanto, que coloca os Registros acima da Bíblia em espessura, considera palavras utilizadas, não espaço ocupado, considerando quantas caberiam numa página normal, e mesmo com uma notação diferente na escrita o trabalho da vida de Qian permanece mais comprido e capaz de ocupar mais páginas que o Velho Testamento, sobretudo nas traduções ocidentais.

Conteúdo

Em muitos aspectos, sobretudo nos primeiros capítulos, RGH se assemelha a relatórios públicos da Administração, pois diversos acontecimentos e decisões do governo centralizado constam de crônicas, no sentido oriental desta palavra (semelhante a relatórios, notas técnicas, dossiês). Para períodos anteriores a registros escritos e antes da vida de Qian, ele obviamente se fiou nas tradições para remontar a dois milênios atrás. O curioso é que, como com Heródoto, excavações recentes têm confirmado muitas das informações contidas nos Registros, embora tantos elementos permaneçam obscuros ou em suspenso, dada a limitação de materiais à disposição para fazer inferências e atestar a veracidade dos discursos. Mesmo inscrições funerárias, quando descobertas, representam um fantástico achado para a ciência, mas seu alcance interpretativo em termos de refutar ou confirmar um tratado histórico de envergadura colossal permanece irrisório.

Outra parte do livro se devota aos Tratados, narrativas de grande fôlego, mais congruentes com o método ocidental de registrar a história, e narram a evolução dos rituais, da música, dos artefatos tecnológicos, do calendário da astronomia, da geografia e hidrografia (principalmente rios e canais) e administração das finanças ou economia ao longo do maciço tempo enfocado por Qian.

A quarta parte estabelece as árvores genealógicas de diferentes casas ou dinastias. Para os Han foram também escritas biografias, de menor porte, inscritas no próprio estudo da dinastia como um todo.

É a quinta parte a mais relevante e também a responsável por quase metade do tamanho da obra, e ela é voltada exclusivamente para amplas biografias de figuras destacadas da História chinesa. O peso dessa seção do livro é o que faz com que até mesmo exegetas ocidentais mais rigorosos ou preconceituosos avaliem este Shiji como um livro de História propriamente dita, sem deixar a dever, em rigor, às nossas próprias obras fundacionais. Essas biografias não são elitizadas, do ponto de vista de que só contemplassem indivíduos da família real ou altos funcionários (como nas poucas biografias da parte precedente), consistindo numa verdadeira radiografia da sociedade chinesa, dos grupos ou trabalhadores mais humildes, que tiveram o privilégio de preservarem suas famas, a todo tipo de intelectual ou governante, incluindo desde figuras de proa da escola dos confucionistas (os primeiros grandes reformadores culturais da China de que se tem notícia) até artistas, assassinos e oficiais do exército. O impacto dessas biografias da quinta parte ainda pode ser sentido na China contemporânea, através da adoção de provérbios retirados dos Registros usados persistentemente nas conversas cotidianas.

E a despeito da inscrição dessa obra na “história oficial” da dinastia reinante, a verdade é que Qian foi mais imparcial que os historiadores do período pós-confuciano que endeusaram os imperadores e tentaram apagar das crônicas todos os postulantes ao trono que fracassaram. Podemos chamar Qian de um escritor liberal avant la lettre, muito mais dissociado de dogmas ancestrais e inscrito numa modalidade de historiografia social. Sua charmosa prosa influenciou novelistas e poetas do país. O relato da tentativa de Jing Ke de assassinar o rei de Qin foi escorado em declarações de uma testemunha ocular do evento, Xia Wuju, médico do rei, que estava presente na cerimônia diplomática em que sucedeu o ataque. Xia contou a história a conhecidos, esses entrevistados por Sima Qian. Mesmo hoje há muitos trabalhos históricos considerados isentos e científicos que só utilizam fontes muito mais indiretas.

IBN KHALDUN, Os Prolegômenos ou Filosofia Social

Os Prolegômenos – palavra erudita para Introdução – ou Muqaddimah em árabe são a grande obra de Ibn Kaldhun, raro filósofo, jurista e historiador medieval que segue relevante, publicada em 1377. Com efeito, muitos epistemólogos a vêem como a primeira obra de filosofia da história e das ciências sociais, séculos antes de Comte e Durkheim fundaram tal ciência. Será enriquecedor para o discípulo de História que ainda não teve qualquer contato com autores muçulmanos. Outros ainda enxergam Khaldun, não sem alguma controvérsia, como precursor de Malthus, por já incluir uma análise ecológica e demográfica em seus escritos, e da corrente do darwinismo social, que não tem relação com Darwin, mas é a aplicação de sua lei natural às ciências sociais a partir do fim do século XIX (além de que, numa famosa passagem do primeiro capítulo da Muqaddimah, Khaldun tece a conjetura de que os grupamentos humanos devieram do macaco, embora reconheça a insuficiência de dados empíricos à disposição para referendar sua tese). É verdade que, como entrega o nome, Khaldun desejava que este livro já extenso (dividido atualmente em 3) fosse uma mera introdução a sua grande obra sobre a História, mas morreu antes de realizar esta outra meta mais ambiciosa. Podemos dizer que os Prolegômenos são, sim, auto-suficientes e sua leitura não deve ser evitada pelo seu caráter de intróito (inclusive, se fôssemos aplicar este critério Tucídides não poderia ser recomendado, já que deixou de fora 6 anos da Guerra do Peloponeso de sua obra-mor).

Durkheim formularia muitos conceitos que se tornariam instrumentos obrigatórios da análise da sociedade. A asabiyyah pode ser lida, neste contexto, como uma primeira versão do termo mais famoso coesão social. Como Khaldun expunha a asabiyyah de uma determinada civilização ao longo do tempo, prescrevendo que ela funciona como um organismo, nascendo, se desenvolvendo, entrando em ocaso e eventualmente se dissipando, ao lado de outras, há certos ecos de sua teoria na obra de Oswald Spengler. Desde Ibn Khaldun já não seria possível dizer, no mundo moderno, que a história segue leis do progresso, sem com isso se defrontar com uma escola inteira da historiografia. Por estas linhas, torna-se óbvio que Khaldun, mesmo podendo ter sido uma influência para a biologia do século XIX, já reconhecia o papel da decadência em contraposição ao da evolução, sobretudo quando se passava da história natural para o estudo das culturas. Numa famosa citação, demonstra seu anti-maquiavelismo, pré-Maquiavel: se o governante tiver de optar entre ser temido ou amado, sempre deverá eleger a segunda alternativa, pois é contra a lei de Deus (Alá) subjugar o povo de forma violenta e não-consensual, ainda que pudesse ser materialmente lógico perseguir determinados fins por meio da força.

Outro aspecto antevisto por Khaldun em relação à sociologia durkheimiana ou mesmo o marxismo é a divisão do trabalho: quão mais complexa é a sociedade, mais as formações econômicas exigem a divisão e especialização do trabalho. Ele também relaciona esse raciocínio com o crescimento populacional e o supérfluo criado numa economia em expansão, que explica os bens de consumo inessenciais e a necessidade de mais mão-de-obra para expandir o ciclo de produção. Também em antecipação ao otimismo dos liberais do iluminismo europeu, Khaldun dirá que o preço é regulado pela lei de oferta e demanda, raciocínio, pelo visto, já velho antes do aparecimento de figuras celebradas do pensamento econômico hegemônico. Pode parecer incrível que até mesmo um estudo do avanço tecnológico tenha sido possível na época de Ibn Khaldun, mas é necessário lembrar que o autor vivia numa civilização até então próspera, antes do recuo e entrincheiramento moral e civilizatório experimentado pelo Islã, o que realçava o contraste com as forças paralisadas da Europa do século XIV, que dificilmente se poderia dizer depender essencialmente das urbes, sendo ainda uma conformação campesina. Outros ainda vêem certos comentários de Khaldun como keynesianos, antes de Keynes, principalmente quando ele culpa Estados que não investem em aspectos vitais a longo prazo pela decadência econômica da sociedade. Não só isso, mas Khaldun já advogava por reformas tributárias que não sufocassem as classes médias, embora elas sequer tivessem esse nome. Para não dizer que a análise econômica do autor seria perfeita, um dos vários pontos cegos de Khaldun foi não perceber que bens como o ouro e a prata apresentam valor relativo, o que já era óbvio no tempo de Montesquieu, por exemplo.

Embora de profissão de fé islâmica, e não um autor secular ou ateu, como seria mais comum encontrar na França a partir da Revolução, Khaldun defendia desde sua época a separação formal dos estudos em teologia e em filosofia. Sua posição enquanto jurista num país que aplicava o Alcorão era que mudanças culturais e relativizações ético-morais eram inevitáveis no decorrer das gerações, de forma que mesmo a letra sagrada se obsolescia na agonia de uma asabiyyah. Em um dos capítulos dos Prolegômenos, Khaldun também se preocupou em refutar a então ‘ciência’ da alquimia, tanto do ponto de vista moral quanto utilizando seu método científico. Aqui cabe a observação: acusando os alquimistas de charlatães, Khaldun diz que se todos fossem capazes de transformar metais não-nobres em ouro da noite para o dia, isso geraria uma súbita desvalorização da substância, o que colapsaria a economia (em outros termos, embora na sociedade vigente Khaldun não reconhecesse a flutuação do padrão-ouro, ele era engenhoso o suficiente para vislumbrar essa possibilidade num cenário hiperbólico, de superabundância do material – decerto ele teria captado outras leis do Capital se pudesse testemunhar a rapina européia nas minas americanas).

Em síntese, o grau de maturidade do modelo de historiografia proposto por Ibn Khaldun pode ser chamado de sem paralelos até o surgimento do Idealismo Alemão, tornando a consulta a seus escritos visionários algo mandatório.

DAVID HUME, História da Inglaterra

Já transportados para a Europa moderna deparamo-nos com Hume. Apesar de sua notável contribuição filosófico-epistemológica, o trabalho do escocês que permanece mais atual é no ramo da História, em que formula a primeira história da Inglaterra (mais propriamente falando, da Grã-Bretanha, por incluir ainda o País de Gales, a Escócia e a Irlanda, ainda não-dividida pelos cismas da Igreja) de leitura considerada obrigatória. A obra antecede a Revolução Francesa em cerca de três décadas. Coincide, portanto, com os primórdios da Revolução Industrial. Como as outras obras que aqui listamos, talvez para infelicidade dos leitores e historiadores incipientes com disposição de mergulhar de cabeça nos clássicos da disciplina, porém temerosos de calhamaços, está dividida em alguns volumes (seis). Como antecipa a capa acima, da editora Unesp, o período retratado vai das campanhas bretãs de César, com a colonização do território mais ao norte de Roma sendo levada a efeito, ao período da irreversível perda do poder absoluto pela família real e a conseqüente constitucionalização do regime político da Ilha (eventos anteriores ao nascimento do próprio David Hume).

Obviamente o renome desta história da Inglaterra em detrimento de outras que poderiam ser igualmente recomendadas em listas que-tais, além da excelência da escrita de Hume, se deve ao período privilegiado de sua produção, especialmente conturbado para os Estados europeus. Os intelectuais conservadores desejavam sedimentar o regime constitucionalista em meio a um ambiente propenso a revoluções e derrubadas de dinastias, de forma que a política do século XVII inglês, conforme estudamos hoje, é sobretudo uma antecipação local das reflexões mais amplas do Século das Luzes francês, i.e., uma série de eventos que os próprios britânicos foram capazes de dimensionar com propriedade apenas retrospectivamente. Não é estranho que um escocês tenha captado o momento, mais de meio século depois, melhor que qualquer inglês propriamente dito – a rigor mais distanciado, embora sem deixar de estar implicado na narrativa, sua História nacional tornou-se um parâmetro de objetividade atingível.

A primeira controvérsia que Hume tenta resolver (ou gera, para seus comentadores) é se a adoção de uma Bill of Rights teria sido uma reforma ou evolução previsível da organização política ou uma ruptura ou revolução em relação ao passado monárquico. E ao longo dos volumes que tratam deste período mais recente seu posicionamento será em favor da segunda hipótese. O principal defensor da carta de direitos inglesa como mera evolução legal dada sem sobressaltos e, portanto, rival ideológico de Hume, seria Edmund Burke, outro autor importante para entender os 1600 ingleses. Incrível como toda essa discussão essencialmente política e jurídica está totalmente fundada nos surtos de guerra civil transcorridos no território por conta da Reforma Protestante, que, na Inglaterra, tomou um rumo diferente de toda a Europa continental. Talvez ainda surpreenda alguns leitores que execuções de reis fossem “lugar-comum” nestes tempos na (hoje batizada como) Terra da Rainha (Elizabeth II, morta em 2022), e que a tendência regicida não tenha sido inaugurada pelos franceses. Talvez a historiografia – não a de Hume, mas outras fontes mais próximas de nós – tenha também muito a dizer sobre como foi que o mito do jacobino radical (a extrema esquerda francesa) como sendo a primeira e maior “peste” daqueles tempos adquiriu tanta dominância.

Hume sustenta que o absolutismo foi inaugurado na Inglaterra com Henry VII, o primeiro rei da dinastia Tudor. Antes disso o monarca era eleito pela aristocracia, prática semelhante à, e talvez importada da, Polônia. Também nessa região o tipo de governo, mais próximo de uma aristocracia ou oligarquia que de uma monarquia, cairia em desuso, sendo substituído pelas autocracias dos Hohenzollern, Habsburgo e Romanov. A dinastia Bourbon na França também foi importante para a centralização e consolidação de várias monarquias pela Europa. No período anterior ao que estudamos como monarquias clássicas das nações européias dificilmente havia a sucessão do trono por critérios hereditários. A aristocracia, vale lembrar, foi definida pelos gregos como sendo “o governo dos melhores”. Como tais, eles escolhiam entre si seu representante máximo. A Escócia, nos períodos em que se conservou independente da Inglaterra, jamais aderiu ao absolutismo. No tocante à lenta porém segura transição entre o direito consuetudinário ligado ainda ao que podemos chamar de evoluções de clãs bárbaros, i.e., gentios originários do território, e o direito moderno dos reis, associado com a influência do Império Romano, as conclusões de Hume muito se assemelham às de Montesquieu, jurista e historiador igualmente bastante estudado, senão mais, graças a sua doutrina dos pesos e contrapesos. Outra figura associada à Hume, inclusive na vida pessoal, foi Adam Smith, desta vez no campo do liberalismo econômico.

Desde os primórdios, porém, os autocratas ingleses tiverem menos prerrogativas que em outras partes, vide a necessidade de consultar o parlamento a fim de aprovar aumentos de impostos, o que ajuda a explicar a tendência natural de evolução do absolutismo bretão a um regime constitucionalista ou de monarquia decorativa.

Num posicionamento que entendemos salutar e engrandecedor do legado humeano, David afirmou que Thomas Hobbes, outro dos historiadores bretões mais reputados por seu povo, enquanto pensador político não passa de um promotor da tirania e da licenciosidade ético-moral. E ainda que inimigo da religião – como não foi Hume –, Hobbes nada tinha de cético (enquanto Hume é com mais justiça do que injustiça conhecido hoje sobretudo pelo epíteto de “O Cético”. Ainda comentando Hobbes, Hume dirá que este filósofo é sobretudo repulsivo por ser um dogmático e fanático secular, levando o racionalismo aos últimos limites, quase inumanos. E que só um homem de temperamento muito cruel poderia mostrar-se tão seguro de si em suas afirmações. Em termos biográficos, curiosamente Thomas Hobbes parece ter sido celebrado como homem virtuoso; seu sistema parecia uma projeção de todo um conteúdo reprimido em seus assuntos pessoais. Por outro lado, outro autor fundador da ciência política nesta nação é muito elogiado por David Hume: trata-se de Harrington, que só não incluo nesta série de livros introdutórios recomendados por, confesso, ainda não ter lido sua magnum opus Oceana, ligada às tendências democráticas, uma espécie de Thomas More evoluído. Contudo, o homem de letras que Hume mais admirou talvez tenha sido Francis Bacon, mais até que o próprio Shakespeare. Talvez tão moralista quanto Hobbes, embora num outro sentido, Hume é célebre por ter advogado a pena de morte a John Milton por haver exprimido idéias regicidas. E no entanto, ironicamente, Hume faleceu entusiasta da Independência Americana, então em curso.

GIBBON, História do Declínio e Queda do Império Romano

Continuando na tradição inglesa, Edward Gibbon escreveu uma história do Império Romano em 6 volumes, desde o auge de Roma (quando em seus territórios incluíam-se civilizações islâmicas e mongólicas) até seu definhamento e derrocada final (da parte ocidental do Império Romano, de quem somos “herdeiros culturais”), à queda de Bizâncio, Mégara (para os gregos antigos) ou simplesmente Constantinopla, como somos ensinados na escola como o marco para o fim da Antiguidade Clássica. O projeto iniciou sua publicação em 1776 (quatro séculos após os eventos narrados) e o último tomo apareceu em 1789, data simbólica, outrossim, para a instituição da modernidade européia.

O Império Romano é o alvo completo da historiografia, com os tempos da República Romana sendo deixados de fora. Isso representa uma abrangência cronológica de 98 depois de Cristo a 1590, ainda com as lentas repercussões da tomada de Constantinopla pelos turcos. Obviamente, dentro deste escopo, não poderia faltar a história do Cristianismo dentro do período. Com efeito, podemos considerar esta obra como a primeira historiografia de grande porte em que a religião ocupa o papel central, a despeito de ser uma narrativa civil e secular de um poder político de sua apoteose à extinção.

Ao invés de apenas anotar ou registrar a seqüência linear dos fatos, Gibbon é um dos primeiros¹ que se arrisca a determinar a causa da decadência romana como formação geopolítica. Sua tese primordial é a perda da virtude política dos romanos, pari passu as invasões bárbaras, cada vez mais significativas diante do enfraquecimento interno do regime imperial. Diferentemente de outros autores, Gibbon não atribui essa perda da virtude cívica do cidadão romano ao advento e propagação do Cristianismo, fosse por autocensura ou convicção própria, embora ele situe o governo de Constantino (o primeiro imperador declaradamente cristão) como um ponto-chave para a irreversível recessão do Império Romano, sobretudo do ponto de vista militar. Ainda segundo Gibbon, a História “foi sustada” entre a Queda de Constantinopla e os ideais iluministas da Europa, significando que nada de proveitoso adveio desta corrosão e destruição imperial.

¹ Bibliografia para esse período não era tão profusa como hoje (e hoje ela ainda existe aquém do desejável), então muitos dos dados apresentados por Gibbon foram extraídos de duas fontes, Montesquieu e Bossuet, predecessores seus nas especulações sobre como o maior poder político da Terra sucumbiu ao longo dos séculos.

O estilo desapaixonado de Gibbon foi confundido por muitos com um pessimismo invencível. É possível, tirando suas afirmações de contexto, argumentar que o autor britânico chamava a História Universal de “nada além do registro dos crimes, loucuras, tolices e tragédias dos mortais”. Com efeito, Gibbon destaca que descobertas para o mal agem de forma muito mais ágil sobre o espírito humano – como a descoberta da pólvora – que descobertas construtivas – o espírito pacificador, o método científico, o cultivo das artes e da filosofia.

Gibbon também denuncia o genocídio dos judeus em inúmeras oportunidades: no Egito, no Chipre, em Cirene (atual Líbia). Razões da diáspora judia e da associação da etnia com o espírito de rebelião, mero reflexo do instinto de sobrevivência, podem ser apuradas em suas pesquisas, o que ajuda os historiógrafos sucedâneos a determinar fontes e raízes do antissemitismo do Velho Continente.

Uma das maiores críticas à abordagem gibboniana é como deixou de lado a continuidade do Império Romano Oriental, desprezando toda a cultura bizantina, como que de propósito. De modo a corroborar uma maior neutralidade de Gibbon em relação à expansão do Cristianismo, sobretudo na forma do Catolicismo (afinal, conta da era pré-Reforma), ele que foi acusado de herege por autoridades eclesiásticas de seu tempo, cabe a ressalva de que Gibbon se opunha de modo geral às grandes crenças monoteístas, e chega a acusar o Islamismo e Maomé de atrasarem a condição da mulher por onde quer que promovessem revoluções.

Gibbon também foi um refutador de hagiografias (biografias de santos promovidas pela Igreja), questionando a validade de milagres ou de detalhes das vidas de vários dos mais famosos pregadores da fé cristã. Se havia algo que Gibbon mais reprovava no Cristianismo era seu dogma monástico, tentativas hipócritas ou infrutíferas de “se distanciar dos problemas temporais”, enclausurando-se em instituições exclusivamente religiosas, como se fôra possível tal abandono da história. Esse espírito ascético, migrando para a mentalidade dos plebeus e mesmo oligarcas do Império, era o que sem dúvida mais prejudicava a clássica visão de domínio e de Grande Política cultivada pelos romanos de gerações anteriores.

Como com Hume, a publicação de seu trabalho, necessariamente em fragmentos devido a suas dimensões, suscitou a cada tempo reações divergentes do clero ou dos historiadores contemporâneos. Sempre que suas conclusões iam contra um grupo social, o autor era rechaçado por esta parcela da sociedade com a mesma segurança com que era enaltecido caso as conclusões viessem a corroborar suas visões de mundo. Uma das qualidades que Gibbon viu no Cristianismo foi o “amolecimento” do espírito bélico e desregrado das diversas populações setentrionais européias, os então considerados “bárbaros”, o que teria favorecido uma assimilação intercultural. Obviamente, o que à primeira vista poderia parecer um indicativo de fortalecimento do Império a longo prazo acabou significando que a identidade latina do Império Romano foi-se perdendo mais e mais, conforme ia-se instalando uma maioria de “bárbaros convertidos ao cristianismo”.

Algumas edições modernas possuem o título Ascensão e Queda no lugar de Declínio e Queda, já que o período estudado por Gibbon começa no apogeu do Império e não retrata apenas os anos de derrocada. Autores como Piers Brendon (1940-) vêem no trabalho de Gibbon uma alegoria do Império Britânico, ou uma tentativa de ensinar aos governantes do “novo império mundial” lições para não repetir os erros dos poderosos do passado.

CARLYLE, História da Revolução Francesa

Thomas Carlyle é o terceiro inglês (escocês, em verdade) consecutivo desta lista. Não há dúvida que devemos muito à historiografia inglesa deste período pós-Revolução Constitucional da “Terra da Rainha”. Nesta ocasião, em vez de uma avaliação da própria história recente ou de um povo extinto e remoto, trata-se de investigar um grande evento transcorrido ao sul do Canal da Mancha, entre os vizinhos franceses. Em conformidade com todas as obras anteriores, esta está dividida em fascículos, mas talvez seja a mais curta de todas: são 3 exemplares para lê-la na íntegra. A pesquisa, desenvolvida à segunda metade do séc. XIX, debruça-se sobre os poucos anos que vão de 1789 a 1795, principalmente em Paris, com repercussões para toda a Europa (quase o “mundo” de então, para a historiografia de nossa cultura etnocêntrica no seu ápice). É a análise de um acontecimento revolucionário, adianta-se, de uma ótica conservadora.

Uma anedota interessante que se conta é que uma faxineira de John Stuart Mill, amigo pessoal de Carlyle que receberá a primeira versão integral do primeiro volume, cópia única, teria destruído o trabalho usando-o para alimentar a lareira, confundindo-o com lixo comum. Carlyle procederá então a uma apaixonada reescritura de todo este tomo em poucas semanas.

Carlyle não é um historiador por vocação, sendo mais um filósofo, poeta e moralista, então seu trabalho é visto como distanciando-se da narrativa historiográfica metodológica mais aceita. Enquanto alguns vêem nisso um mérito, evidentemente a maioria cita-o como crítica. Carlyle toma posição evidente nos episódios narrados. Acontece que um estilo de escrita “perfeitamente impessoal” poderia ser muito mais tendencioso, embora mascarasse sua opinião com ajuda da técnica de maneira superior. Podemos acusar Carlyle de imprecisão muito mais do que de má-fé ou desonestidade intelectual. O relato da execução de Robespierre é um exemplo máximo do estilo carlyleano e mediante sua leitura o estudioso poderá instantaneamente simpatizar com o autor ou compreender que seria melhor deixá-lo de lado, tamanha a ambivalência suscitada pelas escolhas de Thomas Carlyle no registro dos acontecimentos revolucionários.

Outras anedotas, bem-vindas neste caso, tratando-se de um autor tão emocional e controverso, incluem, por exemplo, a observação de que Charles Dickens andava para cima e para baixo com este livro (ou um dos exemplares) nos braços. Oscar Wilde chama Carlyle de “Tácito britânico”. Se uma terceira figura greco-latina tivesse de ser selecionada para estas sinopses, creio que Tácito seria o escolhido. Um terceiro escritor, Mark Twain, teria lido por último este livro antes de falecer. O filósofo americano Waldo Emerson disse que escritor mais imaginativo só apareceu antes nas peças e poemas de Shakespeare. Jules Michelet pode ser considerado o antípoda de Carlyle em termos de escrita da Revolução Francesa. Some-se a isso o fato de que este posicionou-se explicitamente contra aquele e que Michelet é um ícone da historiografia francesa; temos, neste par, além de uma rivalidade acadêmica, uma verdadeira rixa nacional. Taine, outra figura de igual ou senão maior peso que Michelet, também destroça o trabalho de Carlyle, segundo ele mero puritanismo especulativo, que desprezou o movimento iluminista e a importantíssima figura de Voltaire. É de fato um livro polêmico, que merece ser lido acima de tudo para se entender como a produção de uma História nunca poderá ser hegemônica nem consensual, mas apenas uma versão dos fatos dentre outras, aprendendo-se a filtrar desde cedo o joio do trigo da pena de um escritor clássico.

BURKE, Reflexões Sobre a Revolução na França

Diferentemente do trabalho do quase-compatriota Carlyle, Reflexões é assumidamente panfletário e escrito por um homem de Estado, um político, publicado pouquíssimo tempo após a própria Declaração dos Direitos do Homem, ainda durante o furacão da Revolução no país vizinho (a família real francesa sequer tinha sido submetida a julgamento popular àquela altura). Pode ser interpretado, portanto, como um relato ainda mais crítico e ferrenho que o de Carlyle, mas talvez um que tenha envelhecido menos. O irlandês Edmund Burke é um escritor que deve ser lido por todo estudioso da aristocracia, da monarquia e, portanto, do conservadorismo modernos. Mais do que ícone da historiografia, este tratado é onipresente nas ementas de ciência política e sociologia do século XX. Muito desse renome, entretanto, podemos atribuir ao mccharthismo e anticomunismo imperantes no mundo acadêmico ocidental, fomentado antes, durante e ainda posteriormente a todo o período da Guerra Fria (um ilustre apoiador das teses burkianas, que não hesitava em distorcê-las, ou simplesmente não era capaz de compreendê-las, é o infame Friedrich Hayek, que provavelmente se alterava mais ao ver a cor vermelha que um touro no cio). O que torna o “revanchismo contra-revolucionário” de Burke complexo de analisar é que ele foi um entusiasta, do início ao fim, da própria Revolução Americana, evento quase simultâneo e primo-irmão deste primeiro, tendo isso em comum com Hume. O crítico Alfred Cobban declara, sobre Burke e suas Reflexões: ‘Burke estava muito bem-informado sobre os Estados Unidos, a Irlanda e a Índia, [de quem também desejava a independência] mas suas fontes de informação sobre a situação na França eram escassas e contestáveis; como resultado, suas teses não são pertinentes em relação ao que sucedia realmente no alvorecer da Revolução, quando e onde estava claro para os nativos que as instituições francesas que lhes eram contemporâneas tinham se tornado insustentáveis e não havia a possibilidade de uma reforma de cunho gradual. Como literatura, teoria política e qualquer outra coisa que não seja História, as Reflexões são magníficas.’’

BURCKHARDT, A Cultura do Renascimento Italiano

Abandonando a exaustiva polêmica franco-inglesa em tempos revolucionários, dirigimo-nos agora à renomada historiografia alemã, mais especificamente ao grande estudioso da cultura e arte Jacob Burckhardt e sua exemplar A Civilização da Renascença Italiana (CRI) (ambos os títulos citados até aqui já foram escolhidos em diferentes traduções), de 1860. Primeiro, um merecido excurso pela biografia do autor. Burckhardt foi um suíço que viveu durante nove das dez décadas do século XIX. Hoje é considerado o pai da historiografia cultural e o primeiro grande redescobridor moderno do período do Renascimento Italiano, analisando a estética do período através de inéditas lentes sociais. Dois de seus grandes mestres foram os historiadores von Ranke e Franz Kugler. Na Universidade de Basel, onde lecionou, conheceu Friedrich Nietzsche, então professor de Filologia. Ambos se tornaram amigos e trocaram cartas pelo resto de suas vidas, as quais podemos hoje ler. Tendo sido o livro que aqui nos interessa escrito na meia-idade do autor – e Burckhardt pertencendo a uma geração anterior à de Nietzsche –, CRI mais influenciou este último (até pela especificidade do campo daquele) do que qualquer obra relevante de Nietzsche chegaria a influenciar Burckhardt, uma vez que a produção acadêmica de Nietzsche na filosofia continental enceta apenas na década posterior (os anos 1870). Ambos são figuras históricas que já superaram, por exemplo, as pretensões positivistas – ou de qualquer outra “escola” ou “sistema” fechado e dogmático, incluindo o Hegelianismo, com que ainda conviveram – no campo do conhecimento e representam uma nova hermenêutica ou cosmovisão da ciência, da arte e da história. Outra coincidência entre ambos é que encerraram suas contribuições intelectuais ao mundo em anos próximos e nunca deram aula em universidades alemãs propriamente ditas, embora o Alemão fosse a primeira língua dos dois; ambos são equivocadamente tratados como “pessimistas sobre o papel do Ocidente no futuro”, muito pelo fato de serem complicados e nuançados; não é de se estranhar que acabem defendendo posições políticas semelhantes. O pai de ambos, para finalizar, foi pastor protestante.

A Cultura do Renascimento Italiano ainda é a obra de referência da perspectiva artístico-cultural da história para esta época e inclusive há indícios de que J.B. foi o inaugurador do termo “modernidade” em seu sentido atual e influenciou nosso conceito de “homem moderno” como talvez nenhum outro escritor. A Renascença era uma totalidade fechada em si mesma (isto o que ele quereria dizer com Kultur), sem que sua arte, filosofia, religião e política possam estar subordinadas a outras disciplinas ou outros períodos (não são mero efeito ou emulação ou reação à Europa Medieval ou à Antiguidade Clássica, de onde, decerto, os grandes artistas italianos se nutriram a fim de gerar obras novas e ‘universais’). Os principais discípulos ou continuadores diretos de Burckhardt foram Kenneth Clark e Desmond Seward. No século XX, podemos associar as contribuições de Werner Kaegi e Johan Huizinga ao legado de Burckhardt.

É importante esclarecer que A Cultura do Renascimento Italiano é em verdade uma metade de um todo maior, que engloba a “obra-gêmea” História do Renascimento Italiano. Para mergulhar ao máximo na historiografia burckhardtiana seria necessário estudar os dois volumes. Dado que os títulos se parecem e que o primeiro deles tem duas traduções em Português, vários estudantes são induzidos a erro, pensando se tratar o par de um só livro.

TOYNBEE, Um Estudo da História

Voltamos aos tomos enciclopédicos, i.e., livros que na verdade são uma série de exemplares, de tão extensos: o Estudo da História de Arnold Toynbee consiste em 12 volumes separados. Já falamos aqui de um autor que publicou do Entre-Guerras ao Pós-II Guerra, bem mais próximo de nós. Incrivelmente popular nos anos 60 e 70, é também surpreendente que hoje seja necessário citar a obra em introduções sinópticas como esta para muitos leitores que, embora algo versados em Humanidades, a ignoram por completo. A História toynbeeana é uma de decadências e tem um quê de Ibn Khaldun: destina-se a explicar como várias civilizações pereceram no globo ao longo de milênios. Segundo Toynbee, toda civilização perpassa pelos seguintes estágios: gênese, expansão, tempos de crise, Estado universal (congelamento artificial) e desintegração. Em outras palavras, ele sugeriu um modelo estrutural explicativo do ciclo das civilizações. Seu modelo não é tão rígido a ponto de não aceitar exceções, o que chamará de desenvolvimentos civilizatórios abortados, citando como exemplo a civilização Escandinava, Otamana, Judaica e Polinésia, entre outras.

As 7 mil páginas escritas tratam cada etapa do ciclo na ordem cronológica necessária; em seguida ele se dedica às interações entre diferentes civilizações nos volumes oitavo e nono; e os últimos volumes vão dedicados à metodologia do historiador. Existe uma famosa edição abreviada, a de Oxford, que possui 3 volumes (25% do tamanho original).

Os sintomas de Toynbee para uma sociedade em sua desintegração final podem ser todos diagnosticados no Ocidente: arcaísmo (idealização do passado), futurismo (idealização do futuro), dessensibilização ou busca da impessoalidade (fuga da realidade imediata da decadência), o que inclui uma forte onda de individualismo, e por fim transcendência, a mais criativa das soluções adotadas (contrapondo os desafios aparentemente insolúveis do esgotamento de um modo de vida e de uma cultura com criações de novos valores, sejam espirituais, sejam materiais). Com restrições, podemos chamar Samuel Huntington um continuador ou ampliador das idéias de Toynbee.

MCNEILL, A Ascensão do Ocidente: Uma História da Comunidade Humana

O último livro que selecionamos por ora neste princípio de série (posts relacionados por vir). Numa perspectiva ora antitética, ora suplementar à de Toynbee, o norte-americano William McNeill dá ênfase às interações entre as civilizações para contar a História do mundo, principalmente as interações promovidas pela hegemonia da civilização ocidental nos últimos 500 anos. Grosso modo, na dinâmica historiografia proposta por McNeill, em cada era “unipolar” ou com dominância de uma civilização ou império podemos dividir o mundo ou as culturas em “a central ou dominante” e “as periferias”, isto é, a nação ou conjunto de nações que lideram o mundo vs. todo o resto – a história representaria a disseminação gradual dos valores do centro, que iriam modificando os ‘influenciados’. Obviamente, as revoluções políticas e industrial e a prevalência de valores da Europa branca nos últimos 250 anos merecem uma análise especial, diferente dos ciclos pregressos, dado seu caráter expansionista e tecnológico inauditos, potencialmente sem limite, tendo contaminado, por exemplo, a virtual totalidade da superfície do planeta, pelo menos do ponto de vista estritamente geográfico. O que nos deixa reticentes quanto ao livro, que – confessamos – ainda precisamos ler na íntegra é que ele foi incensado pelo liberal epistemologicamente descompromissado Trevor-Roper. Seja como for, as conclusões de McNeill fundamentam hoje as pesquisas nas escolas das teorias dos sistemas-mundo, não necessariamente confinadas a um só espectro (liberal ou marxista, por exemplo), e da teoria da dependência, situada algo entre o reconhecimento da culpa dos países ex-colonizadores e a crítica, a partir das zonas subdesenvolvidas, dos preceitos da globalização unipolar, sem uma proposição clara para o problema, no entanto (como fará a escola marxista). De certa forma, ao contrário de clássicos antigos ainda legíveis, um forte contra-argumento que já podemos tecer a McNeill é que ele pensa os Estados Unidos da América e a Europa Ocidental ainda em seu auge, premissa que envelheceu terrivelmente nos últimos 30 anos (e, não estranhamente, a última edição de Uma História da Comunidade Humana data de 1991, época do Consenso de Washington).

Devido ao espaço já ocupado pelas demais resenhas (e me esforcei para incluir apenas 11!), e sendo indesculpável a falta de múltiplas obras inscritas na historiografia marxista, dedicaremos outro post somente a sinopses de obras ligadas à historiografia da esquerda marxiana logo no segundo episódio de SINOPSES DE CLÁSSICOS DA HISTORIOGRAFIA.

ALICES‘ ABENTEUER IM WUNDERLAND – trad. Antoine Zimmermann

Alice no País das Maravilhas revertido ao Português a partir da tradução alemã e (levemente) modificado a gosto. – Apenas as melhores passagens. Com as atualizações para este século espero não ofender a memória de Carroll!

E de que valem os livros”, concluiu Alice, “sem figuras e diálogos?”

Em meio à queda ela pegou, de um dos quadros, um potinho com os dizeres: “LARANJAS EM CONSERVA”, porém, para imenso pesar seu, ele estava vazio.

Ah!“ disse Alice de si para si, “depois de tamanha queda nunca vou conseguir subir de volta ainda que me depare com uma escada! Quão longe de casa ela já não estaria! Já falei tanto em voz alta desde que comecei a cair que acho que falei mais do que em toda a minha vida anterior!” (O que muito provavelmente era verdade.) “Gostaria de falar menos, pois significa que cairia menos!”

Pra baixo, pra baixo, pra baixo! Esse precipício não quer acabar nunca? „Quantos kilômetros será que eu ainda vou cair?“ Continuou a menina em voz alta. „Eu devo estar lá pela metade do trajeto! Deixa ver… isso deve dar uns 1350 kilômetros, segundo os meus cal–“(é bom que se saiba: Alice só tinha aprendido uma ou outra coisa na escola, e embora essa não fosse uma ocasião tão oportuna para exibir seus conhecimentos, até porque ninguém a ouvia, talvez ela não estivesse tão longe de acertar, chutando como o Messi) – “É, mais ou menos por aí; mas em que latitude e longitude seria isso?” (Alice não ligava o mínimo para o conceito de latitude e longitude; ela só queria mesmo era usar substantivos bonitos.)

Logo ela estaria batendo na mesma tecla. “Ah, como eu queria cair de uma vez no chão! Que engraçadas não devem ser, lá embaixo, as pessoas andando de ponta-cabeça! Como eles se chamam mesmo? Os Antipáticos, eu acho.” (Dessa vez ela no fundo agradecia de todo coração ninguém poder ouvir, pois a palavra estava muito mal-empregada.) “Claro que assim que chegar eu devo perguntar como é que se chama o país. Por gentileza, senhora, essa é a Nova Zelândia ou a Austrália? (E ela tentou se ajoelhar – para fazer a mímica de quem agradece a informação, mas é meio difícil fazer isso em queda livre! Poderia ela conseguir com muito esforço?) „Mas ela me tomaria por uma menininha muito tola, ao ouvir essa pergunta! Não, não é pergunta que se faça! Quem sabe eu consiga ler em alguma placa.”

DINÁ com certeza vai sentir minha falta à noite!” (Dinah era a gata.) “Tomara que não esqueçam de colocar leite no pires dela na hora do chá. Diná! Bichinha! eu queria que você estivesse aqui embaixo comigo. Só o que me preocupa é que não tem nenhum rato no espaço; mas tenho certeza que ela acharia um papagaio. Aposto que ela ia adorar esse salto infinito! E gatos caçam papagaios?” . . . “Será que gatos gostam de caçar papagaios? Gostam gostam gostam? Gostam papagaios de caçar gatos?“

A primeira idéia de Alice foi que essa chave deveria ser a de uma das portas do corredor. Porém, todas as chaves ou eram demasiado grandes, ou demasiado pequenas; logo, ela estava de volta ao início. Quando ela repassava pelos mesmos lugares, deparou-se com cortinas baixinhas que não havia percebido na primeira volta. Afastou-as e viu que detrás havia uma portinhola, de coisa de uns 40 centímetros, no máximo. Ela testou a chavinha dourada no trinco na fechadura, e, para euforia sua, a tranca deu um click.

Ao abrir a porta Alice se achou no meio de um corredor pequenito, não muito maior que uma casa de rato.

Dessa vez ela encontrou uma garrafinha. “Isso com certeza não estava aqui antes”, disse Alice; e do gargalo do objeto pendia uma etiqueta, escrito “BEBA-ME!” em belas e garrafais (sem trocadilhos!) letras, digo, fontes, nada úmidas. Na verdade, minto: estava escrito “Beba-me”, em caixa baixa. É que a sede e o desespero nos fazem ver tudo maior, e com pontos de exclamação! Mas a precoce Alice, parecendo uma adulta, não queria se resolver tão rápido a cumprir ordens alheias, pois quem é adulta não adula. “Não nos precipitemos! Vai que é um veneno – melhor prevenir!”

e aquilo cheirava muito bem (era uma mistura de torta de cereja com chantilly, abacaxi, peru assado e rabanada), então ela não resistiu e bebeu tudo, glut-glut!

agora Alice tinha 25 centímetros de altura, e seu rosto demonstrava satisfação com a própria genialidade, posto que ela passava a ter o tamanho certo para atravessar a porta e ir ao belo jardim!

COMA-ME!“, estava escrito numa bela letrinha. “Ótimo, vou comê-lo com gosto”, disse Alice, “e quando eu ficar maior vou alcançar o molho de chaves; depois que encolher uma segunda vez vou poder rastejar pelo buraco da porta. No fim das contas vou chegar ao jardim – então dá tudo na mesma!

Ela mastigou um pedacinho, e falou intrigada para si mesma: “Pra cima ou pra baixo?” Ela encostou a mão na cabeça e ficou estupefata: como estava grande! Claro que ela já contava com isso; é que tudo estava dando tão certo que ela não podia deixar de se maravilhar com cada coisa!

Ela não hesitou e comeu o bolo todinho.

Ai, meus pobres pezinhos! quando vou poder calçar umas meias e sapatos em vocês, meus queridinhos? … vou presenteá-los todo Natal com um par de botas novo!”

Pobre Alice! de súbito, antes de que se pudesse aperceber, ela já estava na ponta dos sapatos, com um olho espionando o jardim; mas logo o que se passaria lhe daria muito o que pensar. Ela se sentou e se segurou para não recomeçar a chorar.

Era o coelho branco, que vinha exuberantemente bem-vestido e com brilhantina no penteado, com um par de luvas numa mão e um leque na outra. Ele aloprava em grandes passadas enquanto deixava escapar: “Ó! a duquesa, a duquesa! logo ela vai sair, e eu deixando-a esperar!” … O coelho a seguia, deixando o par de luvas brancas e o leque cair, arranjando-se noite adentro, como podia.

Eu certamente não sou Ida“, dizia ela, “pois ela possui longos cachos, ao passo que meu cabelo não é nada cacheado; e na melhor das hipóteses Clara eu também não sou, pois que eu sou tão clarinha, e ela, ah, ela de clara não tem nada! Além do mais, ela é ela mesma, e eu sou eu, e, ah, como tudo é tão confuso! … Deixe-me ver: 4 vezes 5 é 12, e 4 vezes 6 é 13, e 4 vezes 7 é – ai ai! nessa arte do cálculo não sei passar do 20! Ah, mas a tabuada também não vai a tanto… Agora vamos de Geografia. Rondônia é a capital de Porto Velho, e Roráima é a capital de Cegueira, e Romaria––não, eu acho que tudo isso está errado! Eu preciso ser como a Clara!…”

…quando Clara eu for, gostaria de aqui embaixo ficar!…”

mas tão pequenina eu sou como nunca se viu, não, nunquinha! E devo dizer que isso é deveras horrível, ah se é!”

* * *

Ô rato, sabe o que é? desde que pulamos nesse lodo todo estou cansadíssima de nadar, ô rato!” (Alice meditou com que idioma devia dirigir-se a um rato falante; Alice não tinha certeza de todo, mas sua memória tão prodigiosa recordava que na gramática teutônica de seu irmão lia-se “Eine Maus – einer Maus – einer Maus – eine Maus – Maus!”)

Talvez ele não seja civilizado”, pensou Alice, “quem sabe é um selvático, aquele que acompanhava Guilherme o King Kongquistador” (apesar do conhecimento anedótico de Alice em História, ela não tinha muita noção de quanto tempo havia passado desde cada evento que podia evocar, e andava misturando as lições com videogames e filmes do Tarzan). Ela conseguiu se lembrar de uma coisa das suas aulas de Espanhol: “donde queda mi gatita?”. Na verdade era a primeira frase do seu livro-texto de conversação. O rato aumentou o ímpeto de suas patinhadas n’água, revelando pavor no tremor.

Não gosto de gatos!”, gritou o rato, todo eriçado, com uma voz fora de si.

Você ia gostar de gatos, se estivesse no meu lugar?”

Não, nunquinha”, Alice respondeu num tom displicente: “não seja mais mau! Se você se comportar não te vou mostrar nossa gata Diná…”

…e ela é uma caçadora de ratos tão famosa –– ó, eu peço perdão!” repetiu Alice, se contendo para não amedrontar ainda mais o pobre rato; ela realmente não podia evitar, mas não fazia por mal. “Prometo que não volto a tocar no assunto enquanto você não quiser!”

Então o rato nadou rápido como nunca, superando em muito a agilidade de Alice, evadindo o grande lodaçal num átimo.

lá estavam um pato e um dodô, um papagaio de penas vermelhas e uma jovem águia, e ainda uma variedade de criaturas exóticas. Alice meteu-se de penetra nesta distinguida sociedade assim que chegou à margem do grande lago-poça.

* * *

A primeira questão foi, para tentar resumir: … Uma grande diatribe com o papagaio, tipo ranzinza, que gostava de ficar repetindo: “eu sou mais velho que você e portanto devo ser mais sábio”; Alice não deixava por menos e questionava a idade da ave teimosa, mas isso o papagaio não sabia ou não queria esclarecer. No fim nada ficou decidido, ninguém levou a melhor na discussão desarrazoada. Esse papagaio gostava de repetir o argumento!

…Guilherme o Kongquistador do Chic-eiro, que exigiu privilégios da Peppa, foi muito querido pelos selvagens, e logo se tornou o líder que eles tanto procuravam; não custaria muito para Guilherme usurpar e conquistar o Cacho de Bananas. Edviges e Hog-Verrugartz, Grafeno de Mércia e Niobitumba“

AAAH!“, bocejou o papagaio.

Foi o que me pareceu“, disse o rato – “Vou mais longe: Edviges e Hog-Verrugartz, Grafeno de de Mércia e Niobitumba, esclareceu em adição; o próprio Stigândhi, o patriota arcebispo de Canterbury achou melhor—„

Achou O QUÊ?“ perguntou a formiga.

ACHOU“, redarguiu o rato já um tanto fora de si: “você quer saber mais do o narrador o que cada palavra significa…”

Eu sei muito bem o que PALAVRAS significam, quando EU as acho”, continuou a formiga: “De praxe o que se acha é um sapo ou um verme. A pergunta é: o que achou o arcebispo?”

O rato fingiu que não ouviu a pergunta, e deu prosseguimento: “…achou melhor, acompanhado de Edu Moscóvis, recusar a coroa a Guilherme. Guilherme apesar de muito ponderado, cedeu ao seu temperamento primata insolente, não é mesmo, minha querida?”, foi se voltando para Alice conforme discorria.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra”, foi cortando Alice: “não ponha palavras na minha boca.”

Nesse caso”, disse o dodô, todo solene: “eu proponho que a assembléia entre em recesso até que possamos efetivamente esmiuçar os novos fatos e…”

Fale direito!”, respondeu a águia. “Eu não distingo o sentido de suas longas palavras, e nem pretendo!”, terminou de dizer contraindo o pescoço, e se esforçando para ocultar um risinho de canto. Todas as outras aves começaram a piar em visível aprovação.

O que se queria dizer”, falou o dodô, em tom exaltado, “era que o melhor meio para nos decidirmos seria organizar uma corrida eleitoral.”

O que é uma corrida eleitoral?” perguntou Alice, sem muita vontade de saber, na verdade; mas o dodô seguia seu raciocínio, como se não ouvira a pergunta; e nenhum outro animal se dispôs a respondê-la.

Então”, emendou o dodô, “a melhor arte, aquela que esclarece, é o jogo.”

Antes do “um, dois, três, já!” ela já partiu em disparada, queimando a largada, vendo-se logo que isso não era algo fácil de organizar, pois nem mesmo se havia decidido ainda qual seria a linha de chegada (e haveria quantos turnos?). Decorria cerca de meia hora desde que o corre-corre tinha começado quando o dodô aclamou de súbito: “A corrida terminou!”, e ninguém queria mesmo continuar a correr (votar!), com dor nos dedos. E todos se perguntaram ao mesmo tempo: “E quem diabos ganhou?”

Essa dúvida o dodô não respondeu sem muita prévia reflexão, de modo que ele se sentou com um dedo apoiando a testa (a mesma postura de Shakespeare em um de seus retratos), enquanto a multidão conservava o silêncio, na expectativa. Finalmente disse o dodô: “Cada um ganhou, e todos devem receber o prêmio, pois isto é uma democracia!”

Mas quem deve DAR o prêmio?” perguntou todo um coro uníssono de vozes.

Obviamente que ela!”, disse o dodô, com a pata a apontar Alice. E assim todos daquele círculo se dirigiram a Alice, gritando: “Prêmio, prêmio!”

Alice não fazia a menor idéia do que fazer; em seu desespero, meteu a mão no bolso e achou um pacotinho de doces (afortunadamente fechado, não estragado pela água salgada); o que ela ofereceu como recompensa. Ela distribuiu um quitute para cada.

Contudo, saibam vocês que a menina também deve receber um prêmio”, interveio o rato.

É justo”, respondeu com equanimidade o dodô. “O que tem você ainda no bolso?”

Só um dedal”, respondeu Alice, desolada.

Para mim, é bom o bastante”, continuou o dodô, embora o presente não fôra para ele. Todos estavam em círculo ao redor de Alice, no momento em que o dodô se apossava cerimoniosamente do dedal para examiná-lo com mais cuidado, e também para fazer o papel de presenteador, e logo encetava outro discurso com ar grandiloqüente: “Solicitamos que a menina aceite gentilmente esse elegante dedal, o qual eu do-dou, comparável a deliciosas ba-bagas de nossa pra-praça!”; e ao encerrar dis-discurso um tanto efêmero e pouco espetaculoso para tanta cerimônia, receberam, tanto o orador como a presenteada pelo seu próprio dedal, o aplauso geral. Tudo bem quando termina bem.

Alice achou tudo aquilo muitíssimo tolo; mas essa assembléia dos animais parecia se levar tão a sério e ser tão compenetrada no que fazia que ela não se permitiu rir em voz alta, preferindo, em vez disso, e na falta do que falar, inclinar-se em agradecimento em gesto simples, estendendo as mãos depois a fim de receber seu dedal de volta por graça dos animais. Foi uma performance bastante respeitável.

Você me prometeu contar sua história“, disse Alice – „e donde vem isso de você desdenhar os kás e agás?“

Ah“, suspirou o ratinho, „você decreto não ia querer conhecer minha história; pois é uma história muito longa e muito hemorrágica.“

Com isso, foi o ratinho que fez perguntas a Alice.

O seu rabo não te deixa mentir? Será possível? Deve ser verdade!“

Alice via com admiração como a rabicha do ratinho se encolhia toda por entre suas patas traseiras; „mas como, hemorrágica? Que mágica faz você então?

…Vamos, coragem, não se esquive tanto! eu tenho de te fazer perguntas, senão não terei com o que passar os próximos dois dias.“

…caro Senhor, sem juiz, sem testemunhas, nada disso é necessário!“

Eu sou testemunha, eu sou juiz“, falou, com uma careta astuta e cortante, „A pergunta me convém e condena-o à morte!“

Não passe da medida!“, pronunciou o rato, se sentindo enforcado pelas palavras de Alice. „O que é que você está pensando?!“

Peço perdão“, respondeu Alice, muito contristada: „mas é que você mudou de assunto umas 50 vezes, eu acho, mudou mais que de mão o bilhete premiado…“

Pré…miado!!“, exclamou o rato, resoluto e já fora de si.

Premiado!“, exclamou Alice, que gostava tanto de fazer novos amigos, e via no rato mais um. „Ó, mas e agora, quer mudar de assunto quando o papo eu engato??“

En…gato!!“, contestou o rato por reflexo, começando, incomodado, a se mexer do lugar. „Já não posso mais escutar uma palavra quando você brinca com essas coisas!“

Eu não fiz por mal!“, se desculpou outra vez a pobre Alice. „Ah, mas você é tão, tão sensível!”

O rato só resmungou em resposta.

Por favor, volte, e conte-me sua história direito!“, insistiu Alice num berro; e os demais, todos em coro: „Isso, por favor, vai, conta!“ – mas o ratinho se tremeu todo, de medo ou de raiva, balançou a cabeça e seguiu adiante a passos rápidos.

e uma velha sapa aproveitou o ensejo para confidenciar a sua filha: „Sim, sim, minha criança! aproveite essa lição, nunca deixe o mau humor prevalecer! „Ó, cale esta língua grande, mamãe!“, respondeu a jovem sapa malcriada.

Eu queria muito que Diná estivesse aqui, ah, como eu queria!“, exclamou Alice em voz alta, mas sem se dirigir a ninguém em específico. „Diná iria atrás dele com toda certeza!“

E quem é Diná, se posso lhe perguntar?“, ousou o papagaio.

Alice respondeu com firmeza e comoção, com aquela firmeza e comoção de quem fala do coração: „Diná é nossa gata, e o passatempo dela é caçar ratos, caça tão bem que vocês nem imaginam! E, ah!, ela já persegue pássaros também! Uma vez ela comeu uma avezinha que foi uma beleza! Ela fica com uma careta tão assustadora nessas horas!“

Essa confidência deu azo a uma bagunça muito maior que a da corrida eleitoral de agora há pouco. Num piscar de olhos os bichos que voavam haveriam de dar o fora: uma pega-rabuda velhinha, coitada, se encolheu toda; antes de pronunciar: „Eu tenho mesmo de ir para casa! Esse sereno não é nada bom para minha garganta!“ e um canário pipilou para seus filhotes: „Vamos, vamos, criançada! Já está na hora de dormir, vamos para a cama, vamos!“ Com essas convincentes desculpas e fórmulas protocolares foram-se afastando todos, deixando Alice completamente sozinha no meio da sede daquela grande assembléia, agora deserta.

* * *

a duquesa! a duquesa! Ah, minhas patas tão molengas! ah, minha pelugem e minha barba! Ela vai me tosar e enforcar, tão certo como furões são furões! Ah, onde elas podem ter caído no caminho? Eu não entendo!“

Que é que você faz aqui, Mariana? Vá neste instante a sua casa e me arranje um par de luvas e um leque! Depressa!

Entrementes, chegou Alice a um quartinho bem arrumadinho, com mesa que dava para uma janela e, lá fora (como Alice já esperava) um leque e dois ou três parzinhos de luvas de tafetá … Dessa vez, nada de bilhetes nem recados como „BEBA-ME“. Mesmo assim, embebida em confiança, se me permitem a expressão, Alice puxou a tampa e botou a garrafa entre os lábios.

Mas“, disse Alice, „quer dizer que não fiquei mais alta? Bem, isso é um alívio! – não ser uma mulher altona… – se bem que… meninas altas não têm de fazer dever de casa nem ir pra escola! Ah, ISSO eu não queria ter de fazer!“

Ah, simplória Alice!“, disparou ela para si mesma. „Como poderia você estudar por aqui? Olhe ao redor, por um acaso você está vendo algo parecido com uma escola? Nem muito menos um livro-texto eu vi, desde que cheguei!“

…Aqui, Abelagarto! o senhor exclamou: você tem de trepar pela chaminé!“

Primeiro ouviu um coro geral: „Lá está o Abel a voar!“, depois a voz do coelho, solo: „Na queda, entalou o seu traseiro!“, e em seguida um grande silêncio. Por último, de novo uma confusão de vozes:

– Não, prendeu foi a cabeça!

– Mais aguardente!

– Não o sufoquem!

– Como vai, meu velho? que foi que lhe aconteceu? conte-nos a todos!

Eu mesmo não sei – Mas estou bem, obrigado! Estou muito melhor – mas ainda estou muito irritado para contar“

Chovia muitíssimo, mas Alice conseguiu correr logo para debaixo duma mata bem espessa.

O principal a fazer agora“, disse Alice consigo, enquanto aguardava debaixo do arvoredo, „é esperar juntinho do maior tronco dessa floresta; e, em segundo lugar, achar a estrada para aquele jardim tão lindo. É, não tem plano melhor!”

Soou mesmo como um plano primoroso, bem-feito, como se de há muito pensado e repensado. O único problema era que ela podia até ser boa para planejar, mas era péssima para executar!

* * *

O bom conselho da lagartixa.

A lagartixa e Alice se entreolharam longamente. Finalmente, a lagartixa agarrou seu hookah e o levou à boca, aproveitando, enlanguescida, cada parcela da fumaça. Sua voz saiu toda lerda e anestesiada: „Quem é você?“

Não foi um começo de conversa promissor. Alice respondeu: „Eu – eu não sei bem, agora – talvez eu soubesse quem eu era hoje quando acordei; mas tanta coisa aconteceu e me transformei tantas vezes que agora estou confusa!“

Que quer dizer?“, respondeu a lagarta, insolente. „Me esclareça!“

Receio que eu não possa esclarecer nada, lagartixa, porque eu não sou eu, a senhora vê agora?“

Eu não vejo, não.“

Eu não consigo mesmo explicar…“, emendou Alice, muito polida: „…o que eu não consigo entender. Quando alguém encolhe e aumenta tantas vezes num só dia, fica todo atrapalhado!“

Não, não fica, não!“

Talvez você não tenha percebido, mas é que quando você está no casulo se metamorfoseia, fica mais curta ou mais longa, quer dizer, os dois, porque umas partes suas encolhem e até somem, outras encompridam, até nascem! E aí vira uma borboleta, não é engraçado isso?“

De modo algum.“

Você muda muito, muito mesmo, parece outra! até onde EU sei isso é uma coisa muito curiosa de ver!“

VOCÊ!“, a lagarta respondeu com desprezo. „Quem é você então?“

E aqui estávamos de volta ao começo do diálogo outra vez! Alice já estava irritada com a situação, porque falava muito, com cortesia e afeto, e recebia respostas curtas e grossas. Parecia que não ia dar liga! Ela atirou a cabeça pra trás e falou, muito convencida, mudando de estratégia: „Eu ACHO que VOCÊ devia me falar PRIMEIRO QUEM É VOCÊ?!“

POR QUÊ?“

Ai, outra pergunta difícil. E Alice estava quase sem chão ou meios de se desembaraçar. Alice decidiu que não ia conseguir nada ficando ali e tentando seu melhor, então já estava prestes a seguir o seu caminho.

Venha cá!“, disse inesperadamente a lagartixa, „eu tenho algo importante a dizer!“

Alice, por mais brava que estivesse, achava difícil de resistir à curiosidade. Deu meia-volta e, fingindo relutância, aproximou-se.

Não seja desconfiada!“, observou a esperta lagartixa.

Isso é tudo?“, perguntou Alice, incrédula e decepcionada demais para tentar se comportar diante da estranha interlocutora.

Não…“

Alice pensou: quer saber? Vou esperar e ter paciência, não tenho mesmo nada melhor que fazer! Talvez, quem sabe, essa daí desembucha e fala alguma coisa de útil. Vale o esforço, já que já estou aqui! Alguns minutos depois, exalou fumaça a lagartixa, sem a menor pressa; até que, por fim, tirou o hookah da boca e pronunciou: Você está dizendo, mocinha,… que t a m b é m se t r a n s f o r m a ?!“

Eu não consigo, lagartixa, passar dez minutos simplesmente vendo as coisas gigantescas ou minúsculas… Estou sempre tendo que trocar tudo!“

Não consegue ver as coisas só dum jeito?“

É isso que eu estava tentando dizer esse tempo todo! Como se eu fosse uma estranha pro meu próprio corpo, entende? Mas não posso evitar!“, finalmente pôs tudo para fora a borocoxô Alice.

E dizia: Você é velho, Pai Martinho“, disse a lagartixa.

Alice cruzou as mãos sobre o peito e começou a recitar:

Você é velho, Pai Martinho“, assim dizia Juca Troll,

E suas cãs tão compridas;

Mesmo assim você fica o tempo todo de ponta-cabeça;

Como é que você nem transpira?”

Quando eu era jovem,“ o Pai Martinho respondia,

Exclamava: Ai, para o cérebro esse frio não é bom!

Foi aí que descobri que eu não tinha nada a perder

Então encarei com coragem a questão,

Aquecendo meu cérebro no chão!“

Você é velho“, dizia o rapaz, „e é tão gordo!

Não tinha como dar cambalhotas para trás na sua idade sem tombar!

Cruzes vezes mil! Como é que você dá conta?“

Quando eu era jovem“, respondia o velho ao jovem tão confuso,

Eu me machuquei e caí no chão, que estorvo!

Aí passei essa pomada, que me deixou tão elástico

Como dois de você, sua anta!“

Você é velho“, dizia o rapaz, „e todo desdentado,

Como é que pode conseguir a carne dura mastigar?

Seu segredo você me contará!“

Ah, eu muito discuti na vida porque era magistrado,

Sobretudo com minha querida mulher, dona do lar;

Nessa arte fiquei tão refinado,

Que minha boca até aço tritura se deixar!“

Você é velho“, dizia o rapaz, „e nem era assim tão graçola;

Agora fica aí todo-prosa

Igual artista de circo! Até uma enguia

Equilibra – na ponta do nariz!

Me explica todo esse dom!“

Três respostas tiveste tu, ó besta, e já basta!

Ou vou te ensinar uma lição (das boas),

No quadro-negro e de giz

Para ver se esta tua cabeça quente esfria!“

Tem algo errado“, disse a lagartixa.

É, tem uns errinhos na canção, eu acho“, disse Alice, acanhada; „Eu sou boa em trocar umas palavras pelas outras sem querer…“

Não é isso: está errado do começo ao fim“, disse a lagartixa toda empertigada. Seguiu-se um silêncio comprido de um minuto.

A lagartixa foi quem voltou a falar primeiro: „Quão grande você QUER ficar?“.

Ah, não é ficar desse ou daquele tamanho que eu acho ruim, é só ficar toda hora trocando de tamanho que não é lá muito agradável, concorda?”, respondeu Alice com vivacidade.

Não, não concordo, não!“

Alice nem respondeu. Nunca na vida ela se sentiu tão contrariada por alguém! Ou essa lagartixa não prestava ou, ela pensou, estava ficando muito suscetível à opinião alheia!

Você está satisfeita agora?“, deu corda de novo à conversa a lagartixa.

Eu queria ficar, na verdade, um pouquinho mais alta, senhora lagartixa, se me fosse permitido escolher… três polegadas e meia não é um tamanho muito bom!“

Pelo contrário, isso é ser bastante alto, a altura ideal, eu acho“, rebateu a exasperada lagartixa, que não admitia contrariedades. Para acompanhar a fala, se estirou toda como estava em cima da folha, para parecer mais impávida, o que a deixava com 3 polegadas de altura.

Mas é que eu não estou habituada!“, lançou a modo de escusa a pobre menina, não sem muita manha na voz. E neste momento ela pensava: „Eu queria poder pegar numa mão todas essas criaturas atrevidas cheias de más-línguas!“

Pois com o tempo todo mundo se acostuma“, disse a lagartixa sonolenta antes de voltar a fumar seu hookah, toda apascentada.

Dessa vez Alice aguardou pacientemente, pois queria muito pedir um favor à senhora lagartixa. Depois de dois ou três minutos com o hookah na boca, e depois de dois arrastados bocejos, a conversa podia reiniciar.

A lagartixa voltou com muitos cogumelos, rastejando sob o peso de tantos. Ao fim da trilha dividiu os cogumelos em dois montes, na grama: „Os deste lado a aumentam; os do outro lado a encolhem“.

Deste, do outro? Qual é qual?“

Dos cogumelos!“, e de repente tinha sumido do campo de visão de Alice.

Finalmente, para saber quais cogumelos faziam o quê, os do bolso esquerdo e os do bolso direito, que ela tomou o cuidado de manter separados, ela colocou na palma das mãos uma pequena amostra de cada bolsinho e se dispôs a experimentá-los, mordicando-os.

Agora vejamos, qual é o efeito dos pedaços de cogumelo da mão direita?“ Hora de provar o efeito: num piscar de olhos ela sentiu imensa dor no queixo, pois ele se chocou com os seus pés!

Ela se assustou com sua rápida transformação, mas não havia tempo a perder agora que ela sabia que comer do bolso direito fá-la-ia cada vez mais anã. Logo ela se pôs a mordiscar da mão esquerda. Foi trabalhoso, já que seu queixo estava tão perto dos pés que quase não havia como abrir a boca e fazer passar um pedacinho de cogumelo.

Ah, por fim minha cabeça está livre!“, exclamou Alice, com bastante entusasimo, o que não a impediu de, num piscar de olhos, se encontrar novamente angustiada, ao perceber que seus ombros não podiam ser vistos em lugar algum: tudo o que ela podia enxergar, olhando para baixo, era seu monstruoso pescoço, que começava num pontinho lá embaixo e chegava até sua cabeça agora elevada aos céus. Era como uma vareta ou um mastro muito fino estendido por sobre um mar verde.

O que será que é toda essa coisa verde?“, pensou Alice. „E cadê meus ombrinhos, pra onde eles foram? Mesmo minhas pobres mãozinhas, não consigo nelas reparar! Só sei que ainda tenho olhos porque vejo – não os olhos, é claro…“ Mas evidente que ela ainda sentia seus membros, então experimentou tocar as coisas. Nada ela alcançava, mas ainda sentia seus pezinhos sobre a grama. No entanto nada se produziu em sua visão: tudo era menos do que um ponto escuro lá no chão.

Pelo visto e pelo não visto, ela era incapaz de alcançar seu rosto com suas mãozinhas. Ela teve então a idéia de baixar sua cabeça, comprimindo seu enorme pescoço. Para arroubo seu, ao flexionar este membro, ele obedecia seus comandos como se fôra o corpo de um animal invertebrado, uma serpente mesmo. Alice então serpenteou pelo ar, de forma um tanto circense e risível, um zigue-zague após o outro. Naturalmente que foi-se dirigindo cada vez para mais perto do mar verde, curiosa. Agora que podia ver de mais perto, notou que os tons mais escuros nada mais eram que as folhas das copas das árvores mais elevadas do grande jardim! Assim que ela se embrenhou por ali todos os galhos começaram a farfalhar, que confusão! Uma pomba, incomodada com a intrusão, apareceu diante dos olhos da serpente-Alice, e cutucou sua carita com acintosas chicotadas das asas.

Olha a cobra!!“, guinchou a valente pomba.

Eu não sou uma cobra!“, defendeu-se imediatamente Alice, indignada pela ofensa, aliás. „Me deixe em paz!“

É cobra sim, senhora!“, repetiu a pomba, mas com um pouco mais de receio, chiando em vez de guinchando. „E o pior é que nenhuma cobra deixa de ser má e traiçoeira!“, completou a pomba, já soluçando, a muito custo, tanto era seu medo instintivo da criatura superior.”

Eu não sei do que você está falando!“, foi a resposta de Alice.

Nas raízes das árvores eu procurei, no riacho eu procurei, na sebe eu procurei…”, sem reparar na aflição de Alice; “…mas essas cobras! Nenhuma que conheci era boa!“

Alice quase não entendia a situação em que se metera; cogitou, contudo, que era inútil continuar arrazoando com a pomba e que o melhor era dar no pé (no pescoço, propriamente) dali.

Você não sabe o trabalho que é até chocarem esses ovos“, arremeteu a pomba. „vigiar dia e noite para que bichos como cobras não se banqueteiem com meus próprios filhotes ainda nem nascidos! Não prego o olho há três semanas, imagine!“

Ó, lamento muitíssimo, parece que você teve muitos dissabores na vida“, disse Alice, que não via outro jeito de entabular conversa que não expressando sua sincera opinião.

…e então foi que eu procurei outra árvore dessa floresta, um galho bem alto, onde não pudesse chegar nenhuma cobra“, continuou a pomba, ainda cheia de desconfiança. „Eu realmente não esperava que uma cobra me caísse do céu perto do meu ninho!! Xôôô, cobrona!“

Mas eu já disse que não sou nenhuma cobra! Eu sou uma – eu sou uma–“

…É uma o quê, então? Já vi tudo: você quer é me passar a perna, sua cobra-raposa! A mim você não engana!“

Eu – eu sou uma menininha“, prosseguiu Alice, quase gaga, com cara de coitada. Depois de tantas transformações no mesmo dia, e de comer as migalhas que o cão amassou, a jovem se sentia em verdadeira crise de identidade, não muito diferente das adolescentes com o dobro de sua idade.

Um papinho muito bonito, realmente!“, atalhou a pomba, com profundo desdém. „Eu passei penas e penúrias toda a minha vida, muito mais que uma menininha com certeza já passou, e vi muita coisa, viu, mas nunca uma pessoa com um pescoço de coooobra…! Não, não! Você é uma cobra safada e mentirosa! Você não pode esconder os fatos! Nem vem que não tem, hoje você não come UM ovinho no que depender de mim!“ Um discurso digno de uma fábula de La Fontaine!

Eu comi ovos hoje, mais cedo“, não resistiu a confessar Alice, com a melhor das intenções. „Mas é que menininhas comem ovos igualzinho as cobras!“

Eu acho que não!“, retrucou a pomba, alerta: „Porque quem faz uma atrocidade dessas só pode ser uma serpente muito da esperta, mas não mais esperta do que eu!“

Toda essa linha de raciocínio era tão nova para Alice que ela parou um par de minutos a refletir, em silêncio. A pomba interrompeu sua meditação com a seguinte estocada: „O que você quer são ovos, isso eu sei bem demais, mais do que gostaria de saber, na verdade; só que pouco me importa se você é uma menininha comedora de ovos ou uma serpente, o que me importa é que não vai parar ovo nenhum na sua barriga, está me entendendo?!?“

Pra você pouco importa, mas pra mim importa muito! E além do mais eu não estou querendo ovo nenhum e, quando eu quiser comer, não vou comer dos seus. Eu não como ovo cru!“

Então vá embora de uma vez, ora ovas!“, disse a pomba, no auge da irritação, enquanto sentou empertigada em seus ovos. Alice foi baixando a cabeça o melhor que podia pelo emaranhado de galhos e troncos. Mas, como se pode imaginar, como uma criança faz um nó cego no seu cadarço que mal aprendera a amarrar, não duraria até Alice se enroscar no próprio pescoço e entre as árvores! „Ai, ai, quantos ramos, socorro!“ Como uma aprendiz de costureira, ela teve de retroceder várias vezes e desfazer o que tinha feito. Nisso um bocado de tempo já havia passado. Finalmente ela alcançou com a cabeça as mãozinhas, com pedacinhos de cogumelo à espera. Dessa vez ela tomou muito mais cuidado, mordiscando porções bem pequenininhas, ora duma mão, ora da outra, para não ter mais surpresas desagradáveis. Depois de mil transformações para mais e para menos, ela finalmente ficou grandinha do jeitinho que queria.

E o que ela queria era voltar ao seu „tamanho original“, se é que é possível uma criança de 7 anos assim pensar e fazer sentido. Mas o fato é que Alice voltava a ter o tamanho de uma menininha de sua idade, poucos centímetros a mais ou a menos, que importa! No começo ela se sentiu muito engraçada, desacostumada que estava com o mais prosaico dos normais. Mas logo voltou a seu costume de falar alto consigo mesma, da forma mais lúcida que as circunstâncias permitiam: „Ótimo, meu plano deu certo! Nunca pensei que fosse tão confuso crescer e diminuir! Depois de mudar tanto, não sei o que pode me acontecer no momento seguinte! Agora sou da altura correta: mas quem me garante que daqui a uns minutos não vou estar do tamanho deste capim, ou gigante como aquela árvore? Bom, estou do tamanho certo para passear no jardim!“ Enquanto falava, ela caminhava, e veio a deparar com uma clareira com uma edícula ao centro. Ela tinha a altura de algumas polegadas. „Quem eu sou agora não me permite entrar aí, pois sou enorme para quem quer que habite nesta casa! Fora que eu ia deixar quem quer que esteja aí muito assustado, se me olhasse pela janela!“ E lá foi a esperta Alice mordiscar de leve do cogumelo que a diminuía… Isto é, ela mordiscou uma porçãozita da mão direita. E diminuindo ora demais até para a portinha, outrora aumentando demais para caber ali dentro, finalmente ela chegou às dimensões certas para bater e entrar. Alguém abriria?

* * *

Por que seu gato ri assim?“

É um gato amarelo, porque o sorriso do gato é amarelo!“

Eu não sabia que os gatos riam tanto, muito menos amarelo; aliás eu não sabia que esses animais PODIAM rir!“

Vê-se que você não sabe muito…“, disse a duquesa, „…pois é assim como lhe digo.“

Eu só queria varrer a entrada da minha casa“, deu um rouco rosnar a dequesa. „o mundo vai continuar girando como sempre – e ninguém devia falar da vida alheia!“

24 horas, penso eu; ou seriam 12? Eu–“

Repreenda teus jovens pra lá,

E dê-lhes uma sova se alguém espirrar;

Ah, tudo são cachos e cores

Quem é que se irrita com esses dissabores?“

CORO

(a cozinheira e o bebê completaram.)

Au! au! au!“

Eu dou uma bronca no meu moleque,

E dou-lhe uma sova quando espirra;

Ora, eu sei que pimenta irrita

Quando cai nas suas narinas!

CORO

Au! au! au!“

* * *

Não tem assento! Não tem assento!“, gritaram, assim que Alice se aproximou. „Pra mim tem lugar o bastante, sim, vejo cadeiras vazias!“, disse Alice, relutante diante da má vontade geral, sentando-se na grande cadeira com braços ao final da mesa.

Cai-lhe bem um vinho?“, ouviu-se da lebre-de-março, como que coagindo ao perguntar.

Eu não gostaria, esta é SUA mesa; não é para mais de três pessoas.“

Seu cabelo deve ocupar o resto“, disse o Chapeleiro.

Como vê, você não pode afirmar que ‘eu vejo porque eu como’ no lugar de ‘eu como porque eu vejo’.”

Sim, você também não pode afirmar…”, contemporizou a lebre, “…‘eu quero porque eu posso‘ no lugar de ‘eu posso porque eu quero‘!“

“’Eu respiro quando eu durmo‘ nunca vai querer dizer ‚eu durmo quando eu respiro‘!“

O que mais temos pra hoje?“ … ele tinha seu relógio colocado sobre a mesa, e ficava muito nervoso e angustiado, sempre consultando-o, e quando não observava os ponteiros se punha intrigado, chacoalhava o dispositivo e punha-o na orelha para ver se não teria parado. Alice caiu em si e então respondeu: „É o quarto.“

Dois! Dia errado!“, pareceu se rejubilar o Chapeleiro. „Eu lhe disse que a manteiga estragaria!“, pronunciou, sentando-se e olhando com repulsa para a lebre.

Era a melhor manteiga“, respondeu ela, cabisbaixa.

Sim, mas agora temos que comer torrada sem acompanhamento“, resmungou o Chapeleiro. „Aqui essa faca não serve para nada, pois não temos no que passar!“

A lebre pegou o relógio e o observou, taciturna; em seguida molhou-o em sua xícara de chá e olhou-o de novo, mas em vão! “Era mesmo a melhor manteiga…“

Esse relógio é muito engraçado!“, observou – com a boca – Alice. „Ele mostra o dia, não as horas!“

E não deveria?“, resmungou a lebre; „Que mostrasse as horas, ainda vai… mas onde mostraria o ano?“

Em lugar nenhum, é lógico…“, respondeu a esperta Alice, „…porque não é preciso relógio para indicar algo tão longo!“

Pois é este o propósito do MEU relógio“, respondeu o Chapeleiro.

Mas qual é a resposta?“, perguntou a menina.

Ora, não faço a menor idéia“, respondeu o Chapeleiro.

Nem eu!“, respondeu a lebre.

Alice suspirou, irritada. “Eu acho que vocês não sabem usar o tempo, se propõem charadas das quais não sabem a resposta!”

Se você soubesse usar o tempo tão bem quanto eu…“, arremeteu o Chapeleiro, “…você não diria isso, porque nós sim é que sabemos usar o tempo!“

Eu não sei o que você quis dizer.“

É claro que você não pode saber, nem sabe poder!“, respondeu o Chapeleiro, meneando a cabeça depreciativamente, e depois olhando a menina do alto. “Você não faz a mínima idéia da noção de tempo!“

Eu acho que não“, respondeu Alice com cautela. “Mas ontem mamãe me disse que eu devia passar o tempo com minha irmã mais velha.“

É? Ela devia estar de muito mau humor para lhe dizer algo assim; pois o tempo não é alguém com quem outr’alguém consiga fazer alguma coisa, muito menos passar! Quando alguém quer ser firme com o tempo, usa um relógio. Por exemplo, uma certa vez eram 9 da manhã. Não adianta fazer nada, por mais rápido que seja, sequer dar bom dia, que depois já não são mais 9 da manhã! Porque o tempo a usou, não foi você que usou o tempo! Faça a experiência, e quando você acabar, vai ter de escrever outra coisa no relógio! Bobeou e… Uma e meia da tarde–é assim que é o tempo!”

Ah, isso seria esplêndido!“, disse Alice, pensativa, “mas então eu não estaria faminta quando desse a hora, não é verdade?“

De início talvez não…“, respondeu o Chapeleiro, “…mas até uma e meia com certeza estaria!”

Mas então, o que é que todos vocês fazem aqui, estão comemorando alguma coisa, ou tomam chá aqui todos os dias?“

O Chapeleiro não pôde evitar baixar a cabeça. “Eu não venho aqui todos os dias! Nós tínhamos nos reunido a última vez na última Páscoa…”

Ah, papagaio, ah, papagaio!

Quão verde é sua pena!,

Será que você conhece essa música?”

Eu acho que já ouvi algo parecido!“

E continua assim“, foi puxando o Chapeleiro, mais empolgado:

Você não verdeja só na calmaria,

mas até quando chove e quando neva!

Ah, papagaio, ah, papagaio!“

Aqui se juntou a capivara para cantar, sonolento: “Ah, papagaio, ah, mamagaia, ah, papagaio, ah, mamagaia!“

Obrigado, eu tinha me esquecido de que a rainha declamara: ‘Abominável aquele que mata o tempo com algazarras. Este deve ser decapitado!’“

Ó, que horror! que desalmada!“, exclamou Alice.

E pra mim, depois disso, é como se não existisse o tempo! Agora são sempre seis horas!”

Isso fez Alice ter de concluir, de forma inteligente: “Por isso é que tem tantas xícaras de chá na mesa?”

Exato. Sempre é hora de servir o chá, e não temos tempo nem de lavar as xícaras.”

Então vocês estão sempre sentados aqui? O tempo todo?”

Assim o é. Enquanto as xícaras servirem.”

Mas e quando vocês precisarem começar do início uma nova rodada de chá?”

Ora, quando o assunto acabar nós iniciamos outro. A pequena dama pode por exemplo contar uma estória.”, bocejou verbalmente a capivara.

Ah, no momento não consigo pensar em nada!”, disse Alice, preocupada em acabar cometendo algum desaforo.

Então deixe a capivara falar!”, pronunciaram os outros dois. “Vamos, capizzzzara, acorda!” E deram-lhe, de cada lado, um beliscão caprichado.

A capivara foi despertando e abrindo seus olhos vermelhos lentamente. “Eu nem dormi”, falando com voz de sono: “Eu ouvi cada palavra dessa última conversa.”

Conte-nos uma estória!”, pediu a lebre.

Era uma vez três irmãzinhas…”, começou a capivara. “Chamavam-se Maria, Lúcia e Aparecida, e viviam juntas num poço–”

Como viviam assim?”, perguntou Alice, parecendo excessivamente interessada. Queria saber como faziam para beber e comer, na verdade.

Elas viviam de xarope”, explicou a capivara, depois de pensar um minuto inteiro.

Mas isso seria impossível; elas iam ficar doentes rapidinho!”

Elas eram isso mesmo, as três eram muito, muito doentinhas.”

Mas POR QUE elas viviam logo no fundo do poço?”

Não quer mais um pouco de chá?”, perguntou a lebre a Alice com muita pompa.

Um pouco mais? Eu não cheguei a beber nem uma gota! Se não bebi nada, não posso beber mais.”

Você quis dizer que não pode beber menos”, interveio o Chapeleiro. “É muito fácil beber mais do que nada.”

Ninguém pediu a sua opinião!“

Por que elas viviam num poço?, anda!”

A capivara piscou lentamente e em seguida respondeu, repetindo o que já havia dito: “Era um poço de xarope.”

Era nada!“, disse Alice, furiosa. Mas o Chapeleiro e a lebre responderam juntos: “Xxxxxhhh!”. E a capivara resmungou:

Quem é mal-educado não pode ouvir estórias!”

Não ligue! Continue sua estória!”, disse Alice, apaziguadora. “Não vou mais interrompê-la. Vou ser toda ouvidos!”

As três irmãzinhas também – aprendem a criar coisas, saiba você!”

O que elas criaram?”, perguntou Alice, interrompendo, antes que se esquecesse do que queria perguntar.

Xarope”, disse a capivara sem pensar, mas com as pálpebras a pesar.

Eu preciso de xícara limpa”, atalhou o Chapeleiro, “nós precisamos de mais espaço aqui!”

O Chapeleiro foi o único que tirou vantagem da troca, e Alice continuou com tanto chá quanto antes (zero mililitros), como a lebre teve de se contentar em lamber o prato raso, pois a leiteira estava quase vazia. Na tentativa de beber o pouquinho de leite ainda disponível, derrubou tudo.

Mas não entendo. Como elas conseguiram fazer o xarope?”

Ora, não é necessária nenhuma técnica em especial para fazer qualquer xarope”, contemporizou o Chapeleiro. “Você nunca viu como é fácil fazer um xarope de qualidade, de muita qualidade, da melhor qualidade? Ai ai, sua cabeça de vento!…”

…então elas fizeram uma mistura – de tudo que começasse com X.”

Por que com X?” perguntou Alice, cheia de inocência.

E por que não?”, contestou a lebre.

Alice permaneceu calada.

…tudo o que começa com X, como xícara de chá, xampu do Xenofonte, xixi de rato, xarrua do Xá, xérox de uma foto da lua, xô!, xeiro e até algumas vezes o ‘x’ do tesouro!”

Ora, não me xame de Xuxa“, disse o Chapeleiro.

Isso foi o estopim, indelicado demais para a menina Alice: ela ficou muito, muito magoada, se levantou e se afastou. A capivara continuava piscando como se fôra cair dormindo a qualquer instante, e os outros dois nem repararam em sua saída, muito embora ela tenha olhado para trás ainda umas duas vezes, na esperança infantil de que eles pudessem se desculpar e de que ela voltaria a se sentar com eles. Da útima vez que ela olhou para trás viu a capivara desmaiada com a cara metida no bule de chá.

Essa foi a companhia para tomar chá mais XATA que XÁ encontrei, na minha vidinha toda inteira!”

Ela passou um bom tempo caminhando e contemplando aquele jardim maravilhoso, passando por debaixo das flores do canteiro e das tão cheirosas e frescas filhas primaveris da mãe-natureza.

* * *

Atenção, Cinco! Vê se não respinga tinta em mim!”

Sete resvalou no meu cotovelo!”

Isso não TE ajuda em nada, Dois”, falou o Sete.

Suas cabeças! Suas cabeças—”

Disparate!”, respondeu Alice, bem alto e segura de si, e a rainha se conservou em silêncio, mas por bem pouco.

O rei levou a mão ao seu braço e disse brandamente: “Espere, querida, não passa de uma criança!”

A rainha olhou para o rei com cara de poucos amigos um só instante, depois fingiu que se esqueceu do marido e da garota e falou aos valetes de copas deitados de bruço: “Levantem daí!”

Vocês não precisam morrer!“, disse Alice, metendo as cartas num vaso de flores das proximidades. Os três soldados foram daqui para ali, atrás dela, e depois os trancaram com placidez.

Suas cabeças caíram?”, berrou a rainha.

Suas cabeças já eram, conforme as ordens de vossa majestade!”, bradaram os soldados em resposta.

Isso é bom!”, berrou a rainha. “Você sabe jogar croquet?”

Os soldados seguiram quietos, observando a reação que a pergunta produziria em Alice.

Sim!”, berrou Alice.

Então junte-se a nós!“, bramiu a rainha, e Alice se juntou aos jogadores, com cara de enxerida.

Est… está um dia lindo!”, pronunciou uma voz acanhada perto de si. Ela se aproximou do coelho branco, que ao contrário das palavras que dizia manifestava intensa preocupação no olhar.

Demais! Cadê a duquesa?”

Sh, shhh!“, chiou o coelho, bem baixinho, com o dedo indicador encostando na boca. Seu nervosismo aumentou. Avhegou-se ao pé do ouvido de Alice e confidenciou: “Ela foi condenada à morte.”

Por quê?”

Você quis dizer: que tragédia?”, perguntou o coelho.

Não, não, não foi isso que eu quis dizer. Eu não acho nada, não acho que é uma tragédia! Eu perguntei: POR QUÊ?”

Ela deu uma bofetada na rainha”, esclareceu o coelho. Alice riu alto. “Shhh, quieta!”, sussurrou o coelho cada vez mais baixo. “A rainha vai ouvi-la!” Com efeito, nesse mesmo instante a rainha se aproximava, gritando: “Vamos, todos em seus lugares!”

O terreno era todo sulcado, cheio de subidas e descidas, montículos e buracos. A bola era na verdade um ouriço, e cada taco um flamingo, que os soldados eram obrigados a carregar no colo e manipular.

Como vai você?“, disse o gato, que na verdade era só um sorriso de gato.

Alice esperou os olhos aparecerem para assentir com a cabeça. “Mas não adianta nada conversar com você”, disse a menina, “até suas orelhas aparecerem, pelo menos”. Enfim surgiu a grande cabeça, em sua totalidade. Ali estava Alice com seu flamingo-taco; contou-lhe tudo que transcorrera até agora no jogo, finalmente certa de que o gato, com suas orelhas, podia ouvir cada palavrinha.

Como lhe pareceu a rainha?” perguntou o gato, num sussurro prudente.

À vezes acho muitas coisas, às vezes nada. Tenho muito o que falar sobre isso…”

Vendo que a rainha se aproximava, não continuou sua fala, à espera de que ela se aproximasse mais. A rainha ia exortando todos que encontrava pelo caminho a não ficarem à toa no campo, ordenando que cada atleta se esforçasse por demonstrar seu valor, e relembrando que o ócio era contra a lei.

Quando chegou perto o bastante de Alice, esboçou um sorriso e perguntou com quem ela conversava. Fitou aquela cabeça aérea do gato com muita curiosidade sem esperar resposta.

É um amigo meu – um gato-sorridente. Permiti Vossa Majestade que que vo-lo apresente.”

Sua aparência não me agrada“, disse a rainha. “Ele deve beijar minha mão agora, em sinal de devoção.”

Ó, preferiria não!”

Ora, não seja impertinente! E pare de me olhar assim!” A cabeça do gato se deslocou para trás de Alice enquanto ouvia essas queixas da rainha.

O gato olha para a rainha, a rainha olha para o gato”, disse Alice. “Li isso em algum lugar, só não lembro onde!”

O carrasco afirmou que não era possível decapitar uma cabeça que não tinha nenhum corpo. Que nunca vira coisa semelhante. E que mesmo quando se é avançado em idade é ainda possível aprender algo de novo.

A rainha objetou, por seu lado, que todos que tivessem uma cabeça deviam poder ser decapitados, e que isso sequer merecia virar tema de discussão.

* * *

Alice não estava gostando de várias coisas em seu aspecto: em primeiro lugar, que a duquesa fosse tão feia; em segundo, que fosse tão gorda; e terceiro, que seu queixo pontudo chegasse quase a espetar o ombro da menina. Com um queixo tão afiado, era como estar refém de uma espada!

Você por um acaso chegou a ver o FALSO CÁGADO?”

Não”, respondeu Alice. “Eu nem sei o que é um FALSO CÁGADO!”

É um cágado que vira uma falsa sopa de cágado”, explicou a rainha.

Eu nunca vi até hoje, nem nunca ouvi falar de uma coisa assim.”

Venha já; ela deve contar-lhe a história.”

Logo ela chegou perto de um grifo, que dormitava ao sol. [Se não sabe o que é um grifo, olhe o desenho, fazendo o favor – não, não olhe, pensando bem, porque aqui não tem (o desenho)!]

Venha aqui, vá acolá, faça isso, façaquilo… Nunca em toda a minha vida fui tão mandada pelos outros!”

Por que chamam-na Mamãe Broncaqui?”, perguntou Alice.

Ela RALHA AQUI ou ralha ali o dia todo”, disse o falso cágado, emburrado. “Você é realmente estúpida.”

Ah, então você nunca freqüentou boas escolas…”, condescendeu o falso cágado, achando-se, aliás, muito generoso por isso. “Em nossa escola as contas sempre vêm ao final – depois de Francês, aula de Piano, aula de costura. Essas são mais importantes.”

Muito importante, tanto a nova como a velha, Marografia. A aula de Fonte – o professor de Fonte e Esguicho era um velho bacalhau, que costumava ensinar sua disciplina semanalmente. Ele ensinava a Fricção de Nadadeira e Manias, Fonte Oceânica, Cintilação Oceânica e Impressão Oceânica!”

E quantas horas durava a classe?”, quis saber Alice, ou na verdade pronunciou essas palavras, querendo muito mesmo era mudar de assunto.

Dez no primeiro dia”, respondeu o falso cágado, “nove no seguinte, e assim por diante.”

Que escola mais gozada essa!”

Esta é a razão de ser de um professor.”

Então no décimo primeiro dia todos estão livres?”

Naturalmente!”

E o que acontece no décimo segundo dia então?”, perguntou Alice, excepcionalmente entusiasmada em termos de assuntos escolares.

É o suficiente por ora”, interrompeu o grifo, no melhor dos intentos: “Conte agora você sobre o jogo.”

* * *

O balé das lagostas.

Reparem se ela não tem ossos no pescoço!”

Talvez você nunca tenha vivido debaixo d‘água”—(“Não”, respondeu Alice)— “e talvez você não tenha familiaridade com as lagostas”—(Alice queria ter dito “eu já provei uma vez”, mas se apercebeu a tempo da gafe e, no lugar, disse, simplesmente: “Não, nunquinha!”—“você não faz idéia de quão emocionante o balé das lagostas é.”

Não, realmente não, que tipo de dança é?”

Antes”, respondeu o grifo, “façam uma fila na praia—”

Deve ser uma dança muito bonita”, disse Alice, ansiosa.

Então você não vem

você não vem

você não vem dançar comigo?

Não, eu não quero, não posso,

não irei dançar contigo!

Você sabe por que esse peixe se chama lixa?”

Não tenho a menor idéia. Por quê?”

É porque”, respondeu o grifo, com uma voz solene e profunda, “o homem SE LIXA para conhecê-lo bem. Dessa forma você já tem uma coisa interessante para contar sobre suas aventuras!”

…Veja minha terra e minhas marés verdes…”

Essa é a coisa mais abstrusa que já ouvi!“.

É, também acho, mmas é melhor ouvir até o fim”, aconselhou o grifo. E Alice continuou na escuta.

Ma – ravilhosa so – pa!

Ma – ravilhosa so – pa!

Ra – inha das so – pas,

Mara-maravilhosa Sô! Pá!

* * *

No centro do tribunal havia uma mesa com uma torta tamanho família. Parecia tão apetitosa que uma mera espreitada na sobremesa deixava Alice morta de fome.

O juiz era na verdade o rei, que trazia a coroa em cima da peruca, e toda hora ele rodava a coroa, de modo que o frontispício ora estava na testa, ora na nuca; decerto que ele se sentia muito incomodado e pouco à vontade na posição.

E aqueles 12 animaizinhos lá na frente, aposto que são os jurados”, pensou Alice.

Ela se repetiu essa palavra duas ou três vezes, porque parecia muito briosa aprendendo coisas assim difíceis. Depois ela pensou, com razão, que muitas menininhas de sua idade se sentiriam assaz invejosas por não saberem tudo isso que ela agora sabia.

Mas que coisa mais tola!”, pensou alto Alice. De todo modo o coelho foi o próximo a falar: “Silêncio no salão!”. O rei sentou com seu monóculo e começou a espiar os arredores, para ver quem tinha aberto a boca.

Alice pôde ver com exatidão como todos os jurados anotavam “Mas que coisa mais tola!” em seus quadros, e reparou também que um deles não sabia como a frase se escrevia, de modo que teve de consultar o seu vizinho. “Ai, ai! o quadro dele vai estar uma maravilha quando o interrogatório terminar!”, pensou Alice.

Todos os jurados têm uma pena de escrever, então por que não eu?”, guinchou aquele que não sabia escrever direito. Isso foi demais para nossa menina Alice; ela levantou e foi ao outro lado da sala, conseguiu se enfiar entre toda aquela aglomeração do tribunal e logo achou um ensejo de furtar a pena. E ela foi tão serelepe que o pobrezinho do jurado ia demorar trezentos anos para se dar conta de quem fôra o responsável pelo sumiço da pena.

Arauto, anuncie a promotoria!“

Rainha Amada, ela assa o bolo,

Valete de Copas, meu caro, vem com o bolo na mão.

Onde está ele agora? Ai!”

Que entrem as últimas testemunhas!“

Sou um pobre homem, Vossa Majestade”, começou o timorato Chapeleiro, com a voz trêmula, “e preciso primeiro tomar o meu chá – não demora mais que uma palavrinha –, afora a rala fatia de pão com manteiga – e veja, basta uma xicrinha, um pratinho, um bulinho.”

E que é que tem um prato e um bule?”, perguntou despeitada a rainha.

Precisam estar quando tomo o chá”, emendou o Chapeleiro.

Naturalmente que um serviço de chá requer prato e bule. Tem-me por uma besta por um acaso? Quero lhe ouvir!”

Eu sou um pobre homem“, seguiu sem avançar o Chapeleiro, “e desde então não tenho mais como tomar meu chá – a lebre é testemunha!”

Mas O QUÊ disse a capivara?”, perguntou um dos jurados.

E-eu esqueci!”

Mas é preciso que lembre”, disse a rainha, “…senão corto-lhe a cabeça!”

O infeliz Chapeleiro deixou a xícara e o pão mirrado caírem e deixou-se, também, cair, parando de joelhos diante da autoridade. “Eu sou um homem miserável, muito, muito reles, Vossa Majestade!”, era só o que ele sabia dizer.

Você é um orador miserável!”, não perdeu a brecha a rainha.

Eu gostaria muito de voltar ao meu chá”, respondeu o Chapeleiro com um olhar perplexo e desesperado dirigido em súplica à rainha, como desde o início do interrogatório, como um velho cantor pobre de repertório que só sabe repetir o mesmo estribilho.

Você pode ir“, disse a rainha, ao que o Chapeleiro se dirigiu apressado para fora do tribunal, só que tão apressado que um de seus sapatos ficou pelo caminho.

Pimenta, principalmente“, disse a cozinheira.

Xarope“, respondeu uma vozinha sonolenta detrás de si.

Prendam essa capivara!“, exclamou a rainha, voz esganiçada. “DeCAPIvarem essa CAPIta! Expulsem essa capivara do tribunal! Suprimam-na! Belisquem-na! Arramquem-lhe o bigode!”

O coelho branco retirou os óculos. “Como ordena Vossa Majestade; por onde devo começar?”

Comece do começo”, disse o rei, como quem explica um problema matemático. “E chegue ao final, passando pelo meio.”

Esses eram os versos, igual o coelho branco os cantou:

O que escutei de você,

me deixou com inveja;

Ela dizia que comigo se embevecia

quando eu só nadar podia!

Eles escreveram que eu não ia

(Era só o que sabíamos):

Quando eles nada fazem,

O que será de nós?

Eu lhe dava um, ela lhe dava dois,

Eles me davam três vezes quatro;

Mas ela está aqui, ela está ao meu lado;

Todos estão comigo!

Talvez eu e ela

Um dia nos desencontremos,

Mas ela sempre vai

Esperar eu voltar!

Eu pensava muito nos meus erros,

E ela dava muitos faniquitos,

Eu esperava o fim de tudo aquilo,

Enquanto isso ofendido.

Não tem preço, eles dirão,

O amor de alguém;

Não há alma nesse mundo

Que a conheça tão bem!”

Essa é a maior revelação que ouvimos até agora!”, disse o rei, esfregando as mãos. “Deixem os jurados trabalharem.”

Se é que alguém consegue entender alguma coisa que eles fazem”, disse Alice (ela estava tão por fora do que acontecia nestes últimos minutos que já não tinha coragem sequer de perguntar o significado de nada a ninguém, e essa foi a vez que ela passou mais tempo calada). “Dessa missa não acredito na metade! E digo mais, não enxergo nisso nenhum sentido!”

Os jurados escreveram tudo em suas pranchetas: “Ela acha que não há nenhum sentido nisso”, mas nenhum deles pensava no sentido daquelas palavras.

Quando não faz sentido,” disse o rei, esclarecedor, “isso nos poupa um grande volume de trabalho! Quer dizer que não temos que nos preocupar com nada! Só sei que nada sei.”

Mas aí vem alguém e diz: ‘E elas ainda estão aqui’”, disse Alice.

De fato, eles ainda estão! ela segue aqui!”, disse o rei, triunfante, ao tempo em que colocava uma fatia de torta em cima da mesa, perto do valete de copas. “Nada pode ser mais claro! De novo: ‘Ah, lá vem o chilique!’”.

(Os pobres jurados, perdidos, ouviram e começaram a escrever a mesma coisa em suas lousas: não faz nenhum sentido. E eles copiavam tudo como ouviam nos menores pingos, a ponto de terem de mergulhar a pena no tinteiro diversas vezes sem parar.)

Então não foi culpa sua!”, disse o rei, e dei um risinho, olhando de par em par para todo o júri. Todos pareciam ter levado uma pi(c)ada letal de escorpião. Ficaram paralisados, e com semblante pesado.

Ora, foi uma pi(c)ada!”, saiu-se com essa o rei, demonstrando nervosismo – foi então que após segundos muito tensos sem se ouvir um farfalhar de papel nem mesmo ruído de cadeiras atritando contra o solo, todos soltaram o ar de seus pulmões e gargalharam sonoramente.

Ai, que idiotice!”, falou Alice, em voz alta, sem conseguir se conter. “Se a decisão é só a opinião dela!”

Cale a boca!”, disse a rainha, enquanto sua cara se tornava violeta.

Eu não quero!”

Cortem-lhe a cabeça!“, bradou a rainha o mais alto que podia. Mas as cartas não saíram de seus postos.

Quem perguntou algo a vocês?”, ousou Alice, no cúmulo de seu justificado despeito. “Vocês não são nada além de um baralhinho inofensivo!”

Com essas palavras, ergueu-se todo o carteado no ar, circundando a menina. Ela soltou um grito, meio de susto, meio de ira, instintivamente soergueu os braços, sentindo-se cercada, dos pés à cabeça, isto é, dos cabelos aos sapatos. Cada uma daquelas cartas parecia se mover conforme flutuam as folhas secas de uma árvore ao capricho dos ventos numa refrescada tarde outonal! Significa que elas podem até demorar, mas vão, então, finalmente cair no chão, indefesas?! Ela ouvia agora, de repente, a tranqüilizadora voz de sua irmã mais velha, que a segurava em seu regaço:

Calma, Alicinha! Foi só um pesadelo!”

Mas sua irmã ali continuava, perfeitamente sentada e tranqüila, com a cabeça apoiada numa das mãos, enquanto a outra folheava o grande livro, ambas debaixo da sombra da copa da árvore, naquela linda tarde nublada. E a pequena Alice sonhava, a sua distinta maneira, com maravilhosas aventuras, e só agora percebia: foi tudo um longo, longo sonho inocente!

Espera, não é possível! Ela estava no País das Maravilhas, e talvez eu também conheça este lugar!” E tentou fechar os olhos e abri-los de novo, para ver se mudava de lugar. Mas ao reabri-los olhava em volta e via a realidade, o pomar de sua casa, na Inglaterra, não em outra terra, se maravilhosa era! Aquela graminha verde não deixava ninguém mentir, ela bem a conhecia. E aquele velho e familiar farfalhar calmo da brisa gentil… Sim, tudo aquilo era muito conhecido da irmã de Alice. Até o mesmo laguinho, à margem do qual, ouvindo aquelas ondinhas diminutas, ela estava acostumada a perder os sentidos e embalar no sono, outrora…

GLOSSÁRIO

Adler: águia

angenehm: agradável

Apfelsine: laranja = ORANGE

Atem: fôlego

bescheiden: contrito, modesto

Brett: quadro

Dachspitze: sótão, abóbada

durchkriechen: rastejar

eilig(e): com pressa, apessado(a)

einmachen: conservar

Ende: pato

entweder: equivalente ao either inglês

Entzücken: arroubo

Faselhase: ??? “[Brasil] Zoologia. Tipo de esquilo (Sciurus aestuans) que, sendo encontrado na Amazônia e em certas partes do litoral brasileiro, possui aproximadamente 20 centímetros de comprimento, de pelagem marrom-oliácea e possuidor de uma longa cauda.” A tradução mais difícil foi a desse personagem. Vemos que em cada tradução o autor escolhe um novo animal, apesar de o esquilo ser o protótipo ideal (ainda que a ilustração nada tenha de esquilo, a ser franco!), então eu fiz o mesmo e parti para a inovação, optando por uma brasileiríssima capivara!

gewiss: decerto

Gipfel: copa, topo (como duma árvore)

Herzogin: duquesa

indem: enquanto

Kaninchenbau: toca do coelho

knabbern: mordiscar

Mäuseloch: casa de rato (hoje sem o trema)

mutig: corajoso, valente, brioso

nützen: ajudar

Rätsel: charada

rieseln: escorrer

schnur: fio

stolpern: deparar-se com

Tat: delito (jurídico)

Todtenkopf: veneno

Töpf: pote

Trost: alívio

übel: mau

Übrigen: restante

Ufer: margem

Verdruss: descontentamento, desprazer, irritação, decepção

vertreiben: expulsar; sentido de ‘passar’ quando usado com o tempo como objeto.

Verzweiflung: desespero

Vorbeifallen: ??? (vorbei: prévio, passado; Fallen: queda)

vorsichtig: cautelosamente

Zuckerplätzschen: docinhos

TROCADILHOS INTERESSANTES OU NEM TANTO

Mausoleum: Mouse ao léu. Um rato vivíssimo, mas tão folgado e preguiçoso que parecia estar morto!

PADRÕES DE REPETIÇÃO APLICADOS ÀS HISTÓRIAS CHINESA, MUÇULMANA & OUTRAS

Um conceito oriental que exibe verossimilhanças com conceitos ocidentais da recorrência histórica é aquele chinês do Mandato do Firmamento, segundo o qual um governante injusto perderá o apoio do Firmamento e o governo será derrubado. No mundo islâmico, Ibn Khaldun (1332-1406) escreveu que Asabiyyah (coesão social ou unidade de grupo) tem um papel fundamental no ciclo de um reinado ou dinastia, sua ascensão e queda.

G.W. Trompf descreve vários paradigmas históricos de recorrência, incluindo alguns que compreendem fenômenos históricos de grande escala como “cíclicos”, “flutuantes”, “recíprocos”, “repetidos” ou “revividos”. Ele ainda observa: “a perspectiva provinda de uma crença na uniformidade da natureza humana – porque a natureza humana não muda, a mesma cadeia de eventos pode recorrer ao longo do tempo.” “Outros casos menores de pensamentos recorrentes incluem o isolamento de dois eventos específicos que guardam entre si uma similaridade espantosa, e a preocupação com o paralelismo, isto é, com as semelhanças, sejam gerais ou meticulosas, advindas de fenômenos históricos a priori separados.”

Maquiavel cita essa oscilação argumentando que a virtu (valor e efetividade política) produz paz, a paz produz ócio (ozio), o ócio, a desordem, e a desordem a ruína (rovina). Em contrapartida, da rovina adviria a ordem, da ordem a virtu, e a partir dela a bem-aventurança. Maquiavel, assim como o historiador grego antigo Tucídides, via a natureza humana como notavelmente estável – firme o bastante para a formulação de regras de conduta política. Maquiavel anotou em seus Discorsi:

Quem queira que considere o passado e o presente chegará à conclusão de que todas as cidades e todos os povos … sempre foram animados pelos mesmos desejos e paixões; sendo assim, mediante um diligente estudo do passado, é fácil prever o futuro de qualquer república, e aplicar os mesmos remédios usados pelos antigos ou, verificando a ausência de soluções aplicadas por eles, conceber novas decorrentes de eventos similares.

Em 1377, o erudito muçulmano Ibn Khaldun, em seu Muqaddima (ou Prolegômenos), escreveu que quando tribos nômades se unem em Asabiyya – clanismo ou a solidariedade de grupo já citada – sua organização superior bem como melhor exército subjugam as intrigas nas urbes. Inspirados o mais das vezes pela religião, conquistam cidades e criam novos regimes. Porém, com o passar de algumas gerações, as tribos vitoriosas confederadas perdem o espírito de solidariedade, corrompidos pela luxúria, extravagância e ociosidade. O governante, desconfiado da qualidade dos novos guerreiros, tem de aumentar os tributos sobre seus territórios a fim de contratar forças mercenários, o que leva a uma série de outros problemas que resultam eventualmente no fim de uma dinastia ou do Estado como um todo.

CORRENTES DA HISTORIOGRAFIA HINDU

A “Escola de Cambridge”, liderada por Anil Seal, Gordon Johnson, Richard Gordon e David A. Washbrook, menospreza o fator ideológico. Esta corrente é criticada devido a seu viés ocidentalista e eurocêntrico.

A escola nacionalista focou no congresso, Gandhi, Nehru e outros políticos de alto escalão. Há grande ênfase no motim de 1857 enquanto guerra de libertação, e no “Saia da Índia” gandhiano de 1942 em diante, como dois grandes eventos históricos. Esta corrente recebe críticas por seu elitismo.

Os marxistas focaram em estudos de desenvolvimento econômico, posse das terras e conflitos de classe na Índia pré-colonial e na desindustrialização do período colonial. Os marxistas consideram o movimento de Gandhi, no fundo, como uma tática desviacionista da burguesia local para prejudicar as forças potencialmente revolucionárias e populares, objetivando controlar seus passos. Os marxistas são acusados de ser ideologicamente influenciados “em demasia”.

A “escola subalterna” foi fundada nos anos 80 por Ranajit Guha e Gyan Prakash. Remove o foco das elites e políticos em prol de uma “história desde a base”, abordando os camponeses e seu folclore, poesia, piadas, provérbios, canções, história oral e métodos inspirados pela antropologia. Sua época de abrangência é da era colonial pré-1947 e enfatiza tipicamente o sistema de castas, desprezando as classes, para a irritação da escola marxista.

Mais recentemente, nacionalistas hindus criaram uma versão da história para apoiar suas demandas por uma Hindutva (que poderíamos traduzir como “hinduinidade”, como “americanidade”, “brasilidade”, “europeidade”…) como esteio da sociedade indiana. Essa escola de pensamento ainda está em suas origens. Em março de 2012, Diana L. Eck, professora de Religião Comparada e Estudos Hindus em Harvard, publicou em seu livro India: A Sacred Geography [Índia: Uma Geografia Sagrada] que a idéia de Índia remonta a um período muito mais antigo que o da invasão britânica ou dos mughals. Sua tese é que a Índia atual nunca foi, antes da configuração como Estado-nação unificado, mero amontoado de regiões autônomas com escassas identificações culturais entre territórios vizinhos, muito menos pequenos países ou povos étnica ou racialmente segregados. A noção de um todo coerente, a Índia, preexiste às colonizações ao longo de vários séculos que teriam unificado os territórios do ponto de vista ocidental.

CODICOLOGIA

A demarcação da codicologia é imprecisa. Alguns vêem-na como uma disciplina completa em si mesma, outros como disciplina auxiliar da análise textual crítica e sua transmissão, que são aspectos estudados na filologia. Codicologistas também podem estudar a história das bibliotecas, coleções de manuscritos, catalogação de livros e os escribas, campos pertencentes, por outro lado, ao ramo da história do livro. Alguns codicologistas alegam que seu campo do conhecimento engloba a paleografia, o estudo da escrita manual ou caligrafia, ao passo que certos paleógrafos insistem que seu campo abrange justamente a codicologia. O estudo de porções da escrita como a marginália (anotações nas margens), glosas, autoria de inscrições, etc., acaba sendo compartilhado por ambos os campos, como o estudo de aspectos físicos de decorações, que, não fosse a abordagem codicológica, seria uma subespecialidade exclusiva da história da arte. Ao contrário da paleografia tradicional, a codicologia presta mais ênfase ao aspecto cultural dos livros. O foco na parte material é referido como codicologia stricto sensu, enquanto uma abordagem mais holística, incorporando ferramentas e métodos paleográficos, filológicos e das histórias da arte e dos livros, é referida como codicologia lato sensu, e na verdade as fronteiras são continuamente definidas pelo próprio codicologista individual.

Técnicas paleográficas são utilizadas em concerto com técnicas codicológicas. A análise do trabalho dos escribas, estilos de escrita e variações pode vir a revelar o caráter, o valor, o propósito, a data e a importância atribuída às diferentes partes de um livro.

Muitos incunabula (uma espécie de elo perdido entre a era dos manuscritos puros e simples e a invenção da imprensa de Gutenberg), livros impressos até o ano de 1500, foram finalizados inteira ou parcialmente à mão, fato que liga seu estudo eminentemente ao domínio da codicologia.

TRADUÇÕES ISOLADAS II: ROUSSEAU, Do amor próprio

“O amor de si (amour de soi), que se importa apenas conosco mesmos, está satisfeito quando nossas necessidades básicas estão atendidas; mas o amor-próprio (amour-propre), que faz comparações, nunca está satisfeito, e nunca o poderia, porque esse sentimento, ao preferir a nós próprios que a outros, também requer que outros prefiram a nós que a eles mesmos – uma coisa simplesmente impossível. (…) É assim que o que faz do homem essencialmente bom é ter poucas necessidades e comparar-se pouco com os outros; e o que faz do homem essencialmente mal é ter muitas necessidades e dar grande importância às opiniões.”

TRADUÇÕES ISOLADAS I: ROUSSEAU, Da herança

“<Mas>, diz você, <meu pai serviu à sociedade ao acumular sua propriedade>. Que seja; ele já pagou a própria dívida, mas não a sua. Você deve mais, não menos, aos outros por isso, como se nascesse exatamente sem propriedade; você foi favorecido ao nascer. Não é justo que o que um homem legou à sociedade devesse isentar outro de cumprir a mesma obrigação; cada qual, sendo dono de si mesmo, pode pagar apenas por si mesmo, e nenhum pai pode transmitir a seu filho o direito de ser inútil a seus convivas; mas é isso o que ele faz, de acordo consigo, ao deixar-lhe suas riquezas, que são a prova e a recompensa do trabalho. (…) Fora da sociedade, um homem isolado, não devendo nada a quem quer que seja, tem o direito de viver como bem entende; mas, em sociedade, em que ele vive necessariamente às expensas de outros, ele lhes deve em trabalho o preço de seu sustento; não existem exceções. Trabalhar é, pois, uma obrigação indispensável ao homem social, vulgo homem. Rico ou pobre, poderoso ou fraco, todo ocioso não passa de um patife.”

HISTÓRIA DAS IDÉIAS 2: HEGELIANISMO(S): O PENSAMENTO ÚNICO QUE FALHOU

LEGENDA:

Em vermelho: trechos importantes, possivelmente contendo uma idéia completa.

Em negrito, sublinhado, itálico: trechos importantes, normalmente contendo alguma idéia incompleta ou detalhe secundário que não deve ser perdido de vista (parte da teoria que não deve ser ignorada para o entendimento completo desta).

Em vermelho e grifado: trechos mais importantes.

Em verde: pérolas do filósofo ou idéias abstrusas. Quando grifado, muito abstrusas!

Em azul: comentários meus (exegese e julgamento do filósofo).

ÍNDICE (Use control+F para pular para a seção desejada)

s/nº INTRODUÇÃO

1. PRELIMINARES

2. COMEÇA O CURSO – AS RELAÇÕES DA FILOSOFIA COM A HISTÓRIA, COM PRIMAZIA DA SEGUNDA

2.1 INDIVÍDUOS X IDÉIAS: UM FALSO DEBATE

2.2 SOBRE A BUSCA PELA VERDADE AO LONGO DO TEMPO: A ELABORAÇÃO DE SISTEMAS FILOSÓFICOS MUTUAMENTE CONTRADITÓRIOS.

2.3 PRIMEIROS ELEMENTOS DO HEGELIANISMO

2.4 DELIMITAÇÃO DO MÉTODO DO ESTUDO DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA; A PAIXÃO HEGELIANA PELA RELIGIÃO E PELA ESCATOLOGIA.

2.5 DELIMITAÇÃO DO QUE É FILOSOFIA

3. PANORAMA GERAL DA FILOSOFIA GREGA

4. ANAXÁGORAS

5. PARMÊNIDES

6. PITÁGORAS

7. HERÁCLITO

8. OS ATOMISTAS

9. PROTÁGORAS

10. SÓCRATES

10.1 O PROBLEMA DA ÉTICA DIVINA: NEGANDO E AFIRMANDO SÓCRATES

10.2 O INDIVÍDUO SÓCRATES & O OCASO ATENIENSE: O LADO NEGATIVO DA FILOSOFIA

11. PLATÃO

11.1 O PLATONISMO

11.2 O PLATONISMO COMO ÁPICE PRECOCE DO FILOSOFAR & O LIMBOBOL COMO TÊNIS METAFÍSICO (onde o Pensamento Único é o estilo característico de cada atleta-pensador)

11.3 A MAIÊUTICA OU TEORIA DAS REMINISCÊNCIAS

11.4 TEORIA DAS IDÉIAS

11.5 O HERMETISMO PITAGÓRICO EM PLATÃO

11.6 A REPÚBLICA

11.6.1 DAS QUATRO VIRTUDES DA POPULAÇÃO DA REPÚBLICA

11.6.2. CONTINUIDADE DA REPÚBLICA NO TEMPO

11.7 ESTÉTICA

11.8 CONCLUSÃO

12. ARISTÓTELES

12.1 O VERDADEIRO TAMANHO DO LEGADO DE ARISTÓTELES; DISTORÇÕES HISTÓRICAS DE HEGEL

12.2 METAFÍSICA ARISTOTÉLICA

12.3 FÍSICA ARISTOTÉLICA

12.4 ÉTICA ARISTOTÉLICA

12.5 LÓGICA ARISTOTÉLICA

13. A RESSACA: FILOSOFIA PÓS-PLATÔNICA E PÓS-ARISTOTÉLICA

13.1 ESTOICISMO, EPICURISMO, CETICISMO & OUTRAS ESCOLAS PERIFÉRICAS DO PENSAMENTO: UMA VISÃO COMPARATIVA.

13.2 IDADE DAS TREVAS: DO NEOPLATONISMO À ESCOLÁSTICA OU O MILÊNIO PERDIDO

14. REALISMO X IDEALISMO: POR TRÁS DAS CORTINAS, NACIONALISMO.

15. BACON

16. DESCARTES

17. SPINOZA

18. O CÉTICO EMPIRISMO OU EMPÍRICO CETICISMO DOS BRITÂNICOS

19. LEIBNIZ

20. JUÍZO HEGELIANO ACERCA DA DEFICIENTE METAFÍSICA MODERNA

21. O MATERIALISMO FRANCÊS SUI GENERIS

22. KANT: A NÊMESE DO ESPÍRITO DE HEGEL

s/nº QUIXOTADAS, DITIRAMBOS & AFORISMOS SÁBIOS

s/nº MAIS HEGEL (& ASSOCIADOS)? OUTROS POSTS DO SECLUSÃO.

INTRODUÇÃO

O ensaio a seguir possui um caráter fragmentário, aforismático. Na realidade batizo-o de ensaio por falta de palavra melhor. Na sua maior extensão, são apenas citações do próprio Hegel. Mas condensam e apanham todas as observações que teci a seu respeito em outras postagens do blog, referenciadas ao final. É, primeiro, um modo de encontrar todos os meus juízos mais importantes proferidos sobre a filosofia hegeliana num único post; e uma maneira mais resumida e direta ao ponto de conhecer as próprias afirmações de Hegel. Para se ter idéia, todo o material aqui colhido se concentra em obra póstuma sua considerada periférica, e no entanto bem abrangente e reveladora: a História da Filosofia são cursos universitários ministrados por Hegel. Através deles podemos conhecer a idéia central (ou ‘a idéia que Hegel fazia da idéia central’) de praticamente todos os filósofos relevantes até sua própria época (e também a filosofia de muitas figuras irrelevantes!) – talvez exceto por Blaise Pascal, que, embora não tivesse sua existência completamente ignorada pelo “Idealista Alemão” ou “Pai da Dialética Moderna”, é citado apenas de passagem. Mas o mais importante é: através dos erros e acertos fulcrais de Hegel, podemos entender o que é o Historicismo ou Teleologia do sistema do pensamento hegeliano. Mesmo prejudicados por não adentrarmos em obras como a Filosofia do Direito, a Fenomenologia do Espírito, o Curso de Estética, a Filosofia da História (cuja proposta é simetricamente oposta à deste curso – entender o devir dos acontecimentos humanos COM BASE na filosofia hegeliana, e não explicar a sucessão dos pensamentos cronologicamente) e a Enciclopédia, espero trazer resultados conclusivos ou, pelo menos, nada desprezíveis sobre o valor do Hegelianismo, ou dos Hegelianismos, sem sobrecarregar e estafar o leitor. Uma das principais razões para isso é que o linguajar de um curso oral depois transcrito em papel é muito mais leve e didático do que o tipo de exposição bem característico de Hegel nas suas obras publicadas em vida. O homem é um só: não importa quantos livros tenha escrito, se o assunto é geral o suficiente, poderemos perscrutar seu interior e suas intenções – seu mérito, enfim.

Muito se fala de Georg Wilhelm Friedrich Hegel; mas o que podemos jogar no lixo da História e o que ainda devemos levar em conta? Em que pese haver 50 mil iniciativas do gênero, faço minha própria tentativa neste espaço. Devo dizer que não gosto de carranca: recorro ao humor para quebrar o gelo e satirizar os absurdos com que eventualmente depararemos. Ou à poesia. Porém, aquele que disser que não encontra aqui filosofia, estará distorcendo descaradamente o conteúdo do “ensaio”. Depois de explorar o cerne do pensamento de Hume e Kant de forma relativamente breve, nada mais justo que continuar a série HISTÓRIA DAS IDÉIAS, que agora sim se tornou série, com “O Homem da História”, o homem para quem a História representa ou representou pela primeira vez um papel todo especial. Não deixará de ser uma História das Idéias sobre a História em si, mas com uma limitação evidente: pára no início do século XIX. É por isso que meus comentários em azul são tão necessários, mesmo que o leitor pudesse compreender cada palavra de Hegel: dou uma perspectiva adicional, contraposta o mais das vezes, elimino certos pontos cegos que uma alma medíocre de hoje em dia pode enxergar muito bem no gênio hegeliano, existência que passou há quase 200 anos. Hegel é o continuador natural de Kant, e como todo continuador resenha seus antecessores: como Kant parte de Hume, Hegel parte de Kant e tem muito a dizer a respeito destas duas figuras, por exemplo. Hume, no entanto, que já ficava ofuscado diante de Kant, é apenas uma estrelinha num amplo firmamento iluminado nas “anotações do sistema fonador hegeliano”. Não deixa de ser, portanto, um complemento do primeiro capítulo da HISTÓRIA DAS IDÉIAS, embora o objetivo inicial seja descolado da Crítica kantiana. Desta vez a massa informacional será muito maior – páginas, páginas e páginas no seu ecrã! –, por isso prepare o corpo e a mente!

Para facilitar, minha exposição obedeceu, também, como o próprio livro que aqui usamos como base, o critério cronológico. Dividi os tópicos pelos filósofos ou fases ou escolas que Hegel comenta. Observações gerais sobre como Hegel pensava poderão, portanto, estar espalhadas por qualquer dos 22 ‘capítulos’. Achando necessário, separei algum tema que se tornava muito recorrente e insistente num tópico dedicado (os melhores exemplos são quando entramos em Platão e Aristóteles, os filósofos mais importantes da História até a época de Hegel – seus capítulos possuem várias subseções). Por fim, minhas tiradas mais sarcásticas e/ou impossíveis de contextualizar estão posicionadas num epílogo ou anexo próprios.

É importante ainda que saibam que a obra que li está em espanhol, mas para aumentar a acessibilidade desse material traduzi todos os trechos de Hegel que usei. Junto, poderão ser despejadas, na bacia, além do bebê, outras águas: citações dos filósofos que Hegel comenta. Claro que a cada novo filósofo, todos os filósofos precedentes reaparecem, de alguma forma, corroborando Hegel (embora ele exagere demais a esse respeito), e tornando tudo mais labiríntico e nuançado. Saibam de uma vez: Sócrates, Platão e Aristóteles são presença obrigatória em qualquer novo pensador que apresente seu legado ao mundo. No fim, creio que nunca me arrependerei de ter começado a HISTÓRIA DAS IDÉIAS “pelo meio”, isto é, com autores modernos, porque sem os antigos eles, por assim dizer, não existem: assim, introduzo desde o 1º capítulo da série o pensamento antigo, mesmo sem dedicar, por enquanto, um post específico a ele.

1. PRELIMINARES

CRÍTICA DOS FILOSOFASTROS¹ CONTEMPORÂNEOS DE HEGEL: “[Hegel corrigiu o erro dos historiadores de filosofia até sua época, que cometiam] o absurdo intento de destacar Anaximandro de tal forma que chegou-se mesmo a colocá-lo depois de Heráclito no história do pensamento, como se se tratasse de autor mais maduro.” É muito comum que pensemos na história como progresso. E é mais comum ainda que se escreva uma história levando-se em conta, às vezes inconscientemente, apenas uma linha reta temporal, tendente a valorizar mais só aquilo que vem a seguir em detrimento do que já é passado. Ora, Heráclito aparece primeiro; mas Hegel ajudou nossa historiografia a revisar a importância que concedíamos a ele: hoje ele é tido como um dos pré-socráticos (início da filosofia ocidental) mais importantes, superando as contribuições de Anaximandro. Os alunos de Hegel (os responsáveis por editar o livro da História da Filosofia) destacam essa faceta pioneira do mestre: ignorou a linha temporal em alguns casos em que isso melhorava o didatismo e a qualidade de seu curso. “Assim, quando Hegel não considera Heráclito entre os primeiros jônios, senão que o coloca depois dos pitagóricos e eleatas, não se encontra na cúspide da erudição de nossos dias, [ironia para se referir aos filisteus daquele tempo, filosofastros, filósofos apenas no nome] que decidiu sozinha que lugar corresponde a Heráclito baseando-se tão-somente em superficialidades.” Estas aspas são de Michelet, um dos editores da obra.

¹ “substantivo masculino Indivíduo, que se supõe filósofo, e que discorre sem acerto.”

Porém, também é verdade que, apesar de reconhecer a primazia de Heráclito na “hierarquia atemporal dos filósofos”, Hegel comete o erro de superestimar além do que seria aceitável outro filósofo pré-socrático, nomeadamente Anaxágoras, considerado o primeiro que filosofou séria e abstratamente (por conceitos determinados). Ver capítulo 4.

HEGEL, O PROLIXO: “Entre outras causas, esta História da Filosofia de Hegel conservou o caráter de conferência pela falta de tempo que tinha o autor [enquanto professor para ministrar seu curso ao longo de um semestre (na realidade entre 3 e 4 meses)]. Hegel teve de ser muito mais lacônico ao final do curso que em seu princípio. [Engraçado, eu não tive essa impressão: minhas anotações são maiores sobretudo para o terceiro volume da História, que começa, é verdade, no neoplatonismo, o que é quase um contra-senso, já que significa que ao iniciar o capítulo final da trilogia ele ainda está no próprio mundo antigo, e percorre a Idade Média e a Idade Moderna ‘na velocidade do relâmpago’ – só que o que permite que sua obra não seja tão assimétrica é que a filosofia antiga é muito mais rica que a posterior, e ainda sentimos que Hegel ‘enrola’ muito ao se arrastar sobre pensamentos nefandos, banais, irrelevantes, de joões-ninguém europeus; além disso, é muito mais raro que conheçamos a vida e a obra de Fichte¹ ou Böhme¹ do que os ensinamentos de Platão e Aristóteles, por isso a tendência é registrarmos mais informações dos sistemas mais novos, em efeito. Quem sou eu para contradizer Michelet, que estava no curso ministrado por Hegel! Mas para o leitor contemporâneo quase que só os 2 primeiros volumes têm significância; e, no 3º, pontos focais: Descartes, Spinoza, Leibniz, os intelectuais franceses e Kant.] Seja como for, a partir de Aristóteles, cuja exposição já se dava na 2ª metade do curso, as aulas já não duravam tanto tempo.” No livro, a filosofia aristotélica está no 2º volume – a verdade é, também, que Hegel não iniciava diretamente com Tales (o “primeiro filósofo”), mas dava uma Introdução Geral enorme, falando da História e da Filosofia em todos os tempos, antes de iniciar a jornada mais ou menos cronológica que se exige de uma abordagem histórica. Só esse expediente já significa que uns bons 20% ou 25% do curso já teriam se passado após sua introdução. Se ainda posso opinar mais, Fichte e Schelling, como veremos ao final, são, para mim, completamente inócuos e não faz sentido arrematar o curso com eles, desperdiçando 10 minutos sequer, considerando que antes veio o próprio Immanuel Kant, e que toda a filosofia hegeliana é – veremos – um ensaio de resposta (ou anseio de resposta, seria melhor) ou pura e simples contraposição a Kant!

¹ Porém, Fichte e Böhme não possuem relevância a ponto de estarem neste ensaio-resumo. Na continuidade do parágrafo faço o mesmo juízo de Schelling.

2. COMEÇA O CURSO – AS RELAÇÕES DA FILOSOFIA COM A HISTÓRIA, COM PRIMAZIA DA SEGUNDA

2.1 INDIVÍDUOS X IDÉIAS: UM FALSO DEBATE

longe disso, aqui as criações são tanto melhores quanto menos imputáveis forem, por seus méritos ou sua responsabilidade, ao indivíduo, [Hegel está falando da proeminência do estudo de vidas isoladas na História e, portanto, na História da Filosofia, método que ele considera equivocado] quanto mais corresponderem ao pensamento livre, ao caráter geral do homem como tal homem, quanto mais se vê através das individualidades e contingências biográficas, por trás do sujeito criador, o próprio pensamento, que não é patrimônio exclusivo de ninguém.” Toda esta lição de Hegel, não obstante, é supérflua: pouco importa. O método socrático, por exemplo, é universal, mas foi um homem chamado Sócrates que o pariu. É claro que falar de Sócrates é atingir todos os tempos, e só descrevendo Sócrates é que entendemos o método socrático. Alexandre, o Grande, para citar um não-filósofo, tem tanto de pessoal quanto tinha Sócrates: era um homem, um tipo de homem, uma síntese especial de vários indivíduos, historicamente marcada – e por isso atemporal.

2.2 SOBRE A BUSCA PELA VERDADE AO LONGO DO TEMPO: A ELABORAÇÃO DE SISTEMAS FILOSÓFICOS MUTUAMENTE CONTRADITÓRIOS.

Com efeito, ante o espetáculo de tão variegadas opiniões, de tão numerosos e diversos sistemas filosóficos, alguém sente-se arrastado pela confusão, sem encontrar um ponto de apoio firme em que se fixar. Vemos como, em torno dos grandes temas que o homem se vê solicitado a explorar filosoficamente, mesmo os maiores espíritos [homens!] erram e se equivocam,¹ invariavelmente refutados e contraditos por outros. ‘E se isso ocorre a tão insignes espíritos, como posso, ego homuncio [eu, homenzinho], ter a pretensão de decidir tais problemas?’

[¹ Hegel diz “yerran”; errar em português também tem duplo sentido: cometer um erro e andar por todo canto, explorar muitos lugares, às vezes por desorientação, às vezes por não guardar um propósito claro.]

Esta conclusão, que se extrai da grande diversidade dos sistemas filosóficos, é considerada como daninha, mas representa, ao mesmo tempo, uma vantagem subjetiva.” “…Todas as filosofias asseguram que são verdadeiras, todas indicam signos e critérios distintos por meio dos quais se há de reconhecer a verdade; por isso, o pensamento sóbrio e sereno tem que sentir, forçosamente, grandes escrúpulos antes de se decidir por uma [filosofia].

Este é o interesse maior a que deve servir a história da filosofia.”

Uma premissa correta, porém impossível de ser praticada – sem severos danos – durante a era sistemática. Heidegger teria algo a dizer sobre isso… Mas a elaboração desse meu comentário fica para um outro HISTÓRIA DAS IDÉIAS… Reparem, por ora, uma coisa que será vista com freqüência: Hegel expõe todo um argumento impecável para, a partir dele, emitir um juízo completamente deformado pela sua forma tão “presa ao século em que vivia” de enxergar todas as coisas… Isso é o que eu chamo de passar a prova toda prestes a tirar um 10 e no momento decisivo pôr tudo a perder e zerar a nota!

2.3 PRIMEIROS ELEMENTOS DO HEGELIANISMO

Seu erro consistiu em imaginar-se mais qualificado que Platão. Hierarquia entre IDÉIA-CONCEITO: “O produto do pensamento é o pensado em geral; mas o pensamento é ainda algo formal, o conceito é já o pensamento mais determinado e a idéia, finalmente, o pensamento em sua totalidade e determinado como o ser em-e-para-si.¹ Por conseguinte, a idéia é o verdadeiro e somente o verdadeiro; a natureza da idéia consiste, essencialmente, em desenvolver-se e em chegar a compreender-se somente por obra da evolução, em chegar a ser o que é.”

¹ Não se assuste com as nomenclaturas. Não é preciso desvendá-las AGORA. Continue lendo com confiança. Vamos fazer uma imersão aos poucos neste caldeirão, menos dolorosa, acostumando cada célula de nossa pele à temperatura…

A IDÉIA (de PLATÃO, que é de onde Hegel tira sua “idéia de Idéia”) NÃO EXISTE – ERA UMA METÁFORA! CONSELHO SÉRIO: Eis porque não se deve levar a filosofia tão a sério! O alemão: sujeito sem senso de humor. Destarte: incompleto. O grego é mais rico e sinuoso do que se pode pensar por meros vocábulos: quando você menos imagina, Platão deu-lhe um laço.

Por enquanto, concentre-se em mentalizar esta hierarquia básica, para Hegel, do menor para o maior:

1. pensamento

2. conceito (já é filosofia, propriamente)

3. Idéia (em maiúscula), a Verdade obtenível através da filosofia levada a cabo corretamente: primeiro por pensamentos, depois por conceitos, e finalmente pela forma correta de elaborar os conceitos num sistema coerente. Para Hegel só há uma filosofia correta, uma verdade. E é sobre esse dilema que ele – e nós, em conseqüência – irá se debater por todo o livro.

4. a Idéia consciente de si mesma – para Hegel, Platão chegou apenas à terceira etapa, não realizando todo o potencial da Filosofia. A Idéia, o pensamento supremo, que se entende enquanto ser e essência (um homem no mundo, que filosofa sobre coisas eternas) é o “fim da filosofia”, em todos os sentidos. A chave de Hegel para explicar a ocorrência da Idéia consciente de si mesma no mundo é a própria História.

PONTO NEVRÁLGICO DO HEGELIANISMO (salve este trecho como você salva seu editor de texto enquanto redige sua monografia; salve este trecho como você salva seu progresso no seu RPG favorito, porque você fatalmente terá de voltar a estas linhas varias vezes):

a possibilidade [ou] (…) ser-em-si”: o latim ESSENTIA

a realidade (entelequia)¹ [ou] ser-para-si”: o latim IN CONCRETO

¹ Só poderemos exaurir nossa explicação de enteléquia (em português) quando estivermos estudando Aristóteles via Hegel (12.2).

Todo ser-para-si é ser-em-si (toda aparência e ato está contido na essência e nas condições de possibilidade),

porém nem todo ser-em-si é ser-para-si (nem toda possibilidade torna-se realidade).

Repetindo com um pouco de economia de palavras:

Toda aparência¹ ou enteléquia (ato concreto) é essência (realização de potência).

Mas a essência não está em todas as fases (faces) da aparência.

¹ O termo aparência é pego de empréstimo das filosofias sucedâneas de Schopenhauer, Nietzsche e do existencialismo e fenomenologia do século XX.

O real (Real) de Hegel não é real.

A razão (Razão) de Hegel é onipresente (o deus operando a máquina).

Todo acontecer é deus, mas deus é algo mais que a soma dos aconteceres.

Hegel é um teleólogo.

Teleologia: substantivo feminino Ciência que se pauta no conceito de finalidade (causas finais) como essencial na sistematização das alterações da realidade, existindo uma causa fundamental que rege, através de metas, propósitos e objetivos, a humanidade, a natureza, seus seres e fenômenos.”

O mundo se revela com uma epifania. A própria realidade (fenômeno)¹ é epifenômeno.² O mundo é mero sintoma do Espírito.

¹ O mesmo que aparência.

² Trocadilho de epifenômeno com fenômeno, citado anteriormente na frase. Epifenômeno é aquilo que pode ser causado por algo, mas nunca interfere nesse algo, ou seja, um efeito secundário que não produz nova causa. Sinônimo de sintoma usado na próxima frase. Em Hegel, é Deus, ou o Espírito realizando-se na História (no tempo), através do próprio homem, o responsável pela união do ser-em-si e do ser-para-si, o objetivo final de toda Filosofia.

Desdobrar-se, realizar o que já é em essência não são processos estranhos ao homem mesmo atingindo-se algo de diferente ou pioneiro em sua vida: o filósofo tem de ser homem; nem todo homem é filósofo; todo filósofo nasce homem e devém filósofo eventualmente. Agora ele é filósofo e homem. Ele se desdobrou, duplicou, tornou-se dois, mesmo sendo um. Sem essa pseudo-duplicação (ou duplicação abstrata), não há a reunião do ser-em-si e do ser-para-si.

Tudo o que acontece no céu e na terra – o que acontece eternamente –, a vida de Deus e tudo o que sucede no tempo, tende somente a um fim: que o espírito se conheça a si mesmo, que se faça objeto para si mesmo, que se encontre, devenha para si mesmo, que conflua consigo mesmo; começa sendo duplicação, alienação, mas só para se encontrar a si mesmo, para poder retornar a si.” Muito bonito, porém sem fundamento. Ou melhor dizendo, irreal. Por isso, ao mesmo tempo que o estudo de Hegel é epistemologia e Primeira filosofia (metafísica), é também, e sem contradição, teleologia (ciência dos fins) e teologia (ciência do conhecimento humano de deus). Ele representa uma continuidade da filosofia cristã (escolástica), e não uma ruptura completa com ela, como ele mesmo pensava. Porém, sua dialética influencia a filosofia póstuma e ainda pensamos usando suas categorias lógicas.

Es un prejuicio corriente creer que la ciencia filosófica sólo maneja abstracciones, vacuas generalidades; que, por el contrario, la intuición, la conciencia empírica de nosotros mismos, el sentimiento de nosotros mismos y el sentimiento de la vida, es lo concreto de suyo, el reino determinado de suyo.”

O ÚLTIMO CONTRA-ATAQUE DO OBJETIVISMO: “É um preconceito corrente crer que a ciência filosófica só maneja abstrações, vácuas generalidades; (ou então,) pelo contrário, que a intuição, a consciência empírica de nós mesmos, o sentimento de nós mesmos e o sentimento da vida, são seu (terreno) concreto, seu reino determinado.”

Eis um exemplo da péssima escrita de Hegel (aqui podemos responsabilizar, também, seus alunos, na transcrição de sua oratória, que eram hegelianos, afinal). Para evidenciá-lo, mantive o original (ou melhor, a tradução alemão-espanhol) em cinza, expondo minha tradução logo abaixo. Havia a possibilidade de traduzir “concreto por si só”, “reino determinado por si só”, mas isso aumenta o nonsense do parágrafo e não é fundamental neste caso. Preferi manter a sintaxe mais óbvia ao leitor: remetendo o objeto ao sujeito inicial da frase. Se se quer que o pronome da 3ª pessoa do singular “seu” se refira a algo, tem de ser, pelo contexto, a “a ciência filosófica”. A 2ª metade da frase, após o sinal de ponto-e-vírgula, consiste naturalmente na enumeração de elementos do método hume-kantiano (empirismo, ceticismo, criticismo subjetivistas), tudo aquilo a que Hegel faz ferrenha oposição. O conhecimento mais elevado, para ele, só pode ser mediado pelo Espírito. Como Kant era o maior nome da filosofia na juventude de Hegel, era sobre ele que se deveria centrar o ataque. Expressões como “abstrações, vácuas generalidades” já resumem numa carapuça todo o objetivismo incompetente anterior a Hegel (e Kant). Quanto ao postulado da apercepção imediata de Kant,¹ o “real adversário”, nas linhas seguintes Hegel proporá sua síntese, “sua versão” (antípoda) do a priori sintético daquele filósofo.

¹ Para entender o sentido de apercepção, temos que chegar a Leibniz, tópico 19. A priori ficará claro em vários trechos referentes ainda à filosofia antiga. Mas podemos adiantar: o a priori de Kant era a consciência e aquilo de que ela era formada (tempo, espaço e noção de causalidade); o a priori de Hegel é o Espírito do Mundo, também chamado de Absoluto.

“‘A matéria tem de ser 1 de 2 coisas: ou um todo contínuo ou formada por pontos’, diz-se; e, sem embargo, vemos como obedece aos 2 critérios.” O inteligente expresso de forma que hoje nos soa burra: o ponto é uma convenção abstrata; porém se se dissera ‘a matéria enquanto onda (contínua) ou a matéria enquanto partícula (reduzida a elementos distinguíveis)’, como na física do séc. XX, aí Hegel teria acertado em cheio. Visionário, portanto.

Aqui Hegel faz o Kantismo (quando diz “o entendimento”, inferior ao “saber”, ao ‘verdadeiro’ pensar) consistir num jogo de eleição estereotipado entre sim/não, ‘isto ou aquilo’, generaliza a Crítica da razão pura como uma mera retórica ou erudição binária, escrava do PRINCÍPIO DA NÃO-CONTRADIÇÃO (Aristóteles), enquanto arroga ao seu sistema ‘Espiritual’ a supremacia por comportar dentro de si o sim e o não em simultâneo (a síntese totalizante).

Necessariamente tem que se produzir o destino destas determinações, o qual consiste, precisamente, em que se enlacem e somem todas elas, descendendo assim ao nível de simples momentos. A modalidade em que cada momento se estabelecia como algo próprio e independente se vê, por sua vez, suspensa (no sentido físico e topográfico e no sentido legal do adjetivo); após a expansão vem a contração – a unidade de que todos aqueles momentos partiram. E este terceiro termo só pode ser, por sua vez, o começo de uma nova evolução. Poder-se-ia pensar que este processo se desenvolve ao infinito; mas não é assim; pois também ele tem uma meta absoluta, que mais tarde saberemos qual é; têm que se produzir, contudo, muitas viragens antes de que o espírito cobre sua liberdade, ao adquirir a consciência de si mesmo.” Mero messianismo travestido.

A grande premissa, a de que também no mundo seguiram as coisas um curso racional, o que dá verdadeiro interesse à história da filosofia, não é outra coisa senão a fé na Providência, só que numa outra forma.” Ao menos o reconhece (que não passa de um messias imanente!).

Um dos maiores contra-argumentos a Hegel é por que o Espírito demorou tanto para “se revelar” (em sua filosofia, é óbvio), ou então ‘por que não demorou mais’, e por que houve tantos solavancos e retrocessos nessa ‘jornada’. Isso poderia ser dito por qualquer contemporâneo de Hegel. Mas o que mais nos autoriza a dizer que ele errou é que vivemos séculos depois dele, e vimos que a História não persegue um fim objetivo.

hoje já não pode haver platônicos, aristotélicos, estóicos ou epicuristas; querer ressuscitar estas filosofias equivaleria a fazer regredir a uma etapa anterior o espírito mais desenvolvido, mais imerso em si.” Não devia haver. Mas não poder é um pouco de autoritarismo, você não acha?!

2.4 DELIMITAÇÃO DO MÉTODO DO ESTUDO DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA; A PAIXÃO HEGELIANA PELA RELIGIÃO E PELA ESCATOLOGIA.¹

¹ O mesmo que teleologia, porém num contexto religioso. No Cristianismo, é um estudo delimitado ao livro do Apocalipse ou de João (não confundir com o outro apóstolo João). Aquele que tiver familiaridade com esta literatura notará muitas convergências na parte dos símbolos e números com a doutrina pitagórica, que iremos investigar junto com Hegel (6.).

Esta conexão, [filosofia e história] essencial, apresenta 2 lados. O 1º é o propriamente histórico; o 2º, o que se refere (…) às relações entre a filosofia e a religião, etc.; [improcedente: num estudo de história da filosofia, investigar relações da filosofia com a religião do seu tempo não tem primazia, e estas relações poderiam ser apuradas residualmente no 1º lado, o puramente histórico] o que nos ajudará, ao mesmo tempo, a determinar com maior precisão o que é a filosofia.”

A velha teoria civilização-cultura: sempre que a primeira se funda, a segunda ainda mal começou a se consolidar. Quando a última está em seu auge, a civilização já está em decadência. E é só em períodos de efervescência cultural e, portanto, ruína civilizacional, que um povo filosofa. Sócrates-Platão-Aristóteles e o mundo heleno em desagregação; São Tomás e o mundo pós-Império Romano do Ocidente sem esteio, ao mesmo tempo em que o Estado-moderno está na pré-História; Schopenhauer, Nietzsche e a desagregação da civilização ocidental, ou pelo menos da Europa como protagonista; a Escola Crítica e a falência do Socialismo Real; os franceses dos loucos anos 1960 e avante em plena inércia pós-modernista… Curiosamente, Hegel não parece participar de um desses momentos, mas está integrado na Prússia fortalecendo-se nacionalmente. Não há cultura, há apenas filisteus (Hegel admite-o). Sempre que é necessário, nessa época, citar a cosmovisão de um grande homem, recorriam os alemães a Goethe, que foi da geração anterior.

Curiosamente, já antecipa a principal crítica anti-hegeliana de Feuerbach: “Ainda que na verdadeira religião se tenha revelado e se revele o pensamento infinito, o espírito absoluto, ela é também a taça que verte no coração, na consciência representativa e na inteligência do finito. A religião não só se dirige a toda modalidade de cultura —‘o Evangelho se predica aos pobres’— como também deve estar dirigida expressamente ao coração e ao ânimo, penetrar na esfera da subjetividade e, com isso, no campo das representações finitas.”

FILOPÊNDULO: Na época de Hegel o ateísmo estava “datado”. Dataria de novo logo depois o teísmo. Essas condições espirituais vão e voltam nos povos como modas.

sabemos que as últimas palavras de Sócrates foram para suplicar a seus amigos que sacrificassem um galo a Esculápio,¹ desejo que combinava mal, decerto, com os pensamentos sustentados por Sócrates sobre a essência de Deus e, principalmente, sobre a ética. Platão predica apaixonadamente contra os poetas e seus deuses.

¹ Divindade da medicina.

Hegel foi extremamente ingênuo nessa colocação, pois este Sócrates que conhecemos pela pena de Platão, o Sócrates “do galo de Esculápio”, é o próprio Platão, isto é, não é o Sócrates histórico, mas um personagem que serve ao Platonismo, e portanto sai de sua boca mais o que convém ao pensamento desenvolvido pelo próprio discípulo que ao ‘biografado’ em si. Sabemos, ademais, e Hegel não o nega, que Sócrates não foi condenado à morte por impiedade aos deuses, ou não exatamente por questões religiosas; se sua acusação não envolvesse corromper a juventude, não haveria como a democracia de Atenas condenar este cidadão.

Não atua de mediador entre Ormuz e Ahriman, à maneira de um pacificador, deixando subsistentes ambas as forças; não participa do bem e do mal, como um lamentável híbrido, senão que se coloca resolutamente do lado de Ormuz, e peleja com ele contra o mal. Ahriman é chamado, às vezes o filho primogênito da luz, mas só Ormuz nela permaneceu. Ao ser criado o mundo visível, Ormuz se encarregou de estender sobre a terra, em seu incompreensível reino luminoso, a firme abóbada celeste, circundada, ainda, na parte de cima, pela primeira luz primigênia. No centro da terra está a montanha Albordi, tão alta que alcança a luz primigênia. O reino luminoso de Ormuz campeia sem que nada o empane sobre a firme abóbada celeste e no alto da montanha Albordi; campeou também sobre a terra até chegar a sua terceira época. Uma vez chegada, Ahriman, cujo reino da noite se achava até agora escondido debaixo da terra, estende seus domínios ao mundo de Ormuz e reina conjuntamente com ele. O espaço que separa o céu da terra se divide ao meio entre a luz e a noite. Como Ormuz, até agora, só governava sobre um reino de espíritos da luz, Ahriman governava somente sobre um reino de espíritos tenebrosos; mas, então, ao estender seu reino, Ahriman opõe à criação luminosa da terra uma criação da terra tenebrosa. Contrapõem-se, desse modo, a partir deste instante, 2 mundos, um mundo puro e bom e outro impuro e mau, e esta contraposição se estende através de toda a natureza.

No alto do Albordi, Ormuz cria Mitra como mediador para a terra; a finalidade da criação do mundo físico não é outra senão a de voltar a seu ponto de partida, à essência, desviada de seu criador, fazê-la de novo boa e desterrar, no processo, para sempre, o mal.” Toda a sua filosofia jaz no Zend-Avesta, ó Hegel! Trata-se do livro sagrado da religião dos maniqueus.

É certo que Platão é louvado com freqüência em virtude de seus mitos, e diz-se que ele dá provas, neles, de um gênio superior ao da generalidade dos filósofos. Entende-se, ao dizer-se isso, que os mitos de Platão estão por sobre a maneira abstrata de se expressar; e não resta dúvida de que este pensador se expressa com grande beleza.” No geral, entretanto, Hegel não compreende bem Platão.

Assim, por exemplo, pode-se dizer que a eternidade é um círculo, uma serpente que morde a própria cauda; isto não passa de uma imagem, e o espírito não necessita se valer de semelhantes símbolos.” Pelo contrário: é muito diferente afirmar que o universo é infinito e eterno, simplesmente, a compará-lo à cobra que se digere a si mesma, a Ouroboros: significa que há um fim e uma genealogia determinados, que podem, no entanto, ser qualquer ponto do círculo, e que o caminho do círculo não deixa por isso de ser infinito. Isso traz conseqüências extremamente importantes para a consideração do conceito de causa e efeito na filosofia. Atende ao requisito fundamental de todo filosofar numa só imagem, também: o Um no múltiplo e o múltiplo no Um. Ao contrário do Espírito, a Vontade¹ se alimenta de si mesma, ferindo-se mortalmente, condição sine qua non de sua própria perpetuidade canibal. O Espírito não tem carne, nada sofre ao se desenrolar, entrar em sínteses e voltar a si mesmo; é morto, não é a ‘vida viva’ (a expressão é do próprio Hegel) –, ao contrário de Ouroboros, que sente na carne cada etapa da eterna criação/destruição. Quem mata, morre, quem morre mata, e participam ambos da dança e do jogo inelutável. Todo lixo é luxo e todo luxo é lixo a seu devido tempo…

¹ Expressão para se referir a um “em-si” em Schopenhauer e Nietzsche. Porém, observar: aqui o em-si foi caracterizado de forma tão dinâmica que não passa de uma simplificação grosseira falar nesses termos; falo assim apenas para que se vislumbre imediatamente a amplitude deste conceito, que merece ser estudado à parte. Além do mais, a Vontade schopenhaueriana e a Vontade nietzschiana não são concordes.

Da mesma forma que os franco-maçons manejam símbolos considerados como uma profunda sabedoria – profunda à guisa de um poço do qual não se enxerga o fundo –, o homem se inclina facilmente a considerar profundo o oculto, como se por debaixo dele houvesse algo verdadeiramente profundo.” Ao chato, o abismo não parece profundo. Não gosto dessa estreiteza hegeliana em desconsiderar o ocultismo a priori, i.e., recusando-se a investigar qualquer coisa que extrapole seus próprios critérios racionais. Não estou defendendo a maçonaria, mas há muito mais no irracionalismo do que apenas seitas “para-cristãs”, por assim dizer.

2.5 DELIMITAÇÃO DO QUE É FILOSOFIA

O verdadeiro ponto de arranque da filosofia deve ser buscado ali onde o absoluto já não existe como representação e onde o pensamento livre não pensa simplesmente o absoluto, mas capta sua idéia; isto é, ali onde o pensamento capta como pensamento o ser (que pode ser também o pensamento mesmo), conhecido por ele como a essência das coisas, como a totalidade absoluta e a essência imanente de tudo, por mais que não seja, no fim das contas, mais que um ser exterior.” “Este critério geral, o do pensamento que se pensa a si mesmo, é uma determinabilidade abstrata; é o começo da filosofia, o qual é, por sua vez, um algo histórico, a forma concreta de um povo, cujo princípio [axioma, i.e., não no sentido de ‘começo’] cifra-se no que acabamos de dizer.”

Se não fôramos capazes de dizer por nós próprios que só os gregos foram filósofos, esta afirmação (que só os gregos foram filósofos!) seria verdadeira. Como podemos enunciá-lo sem problemas, também deve ser possível a nós o filosofar. Ou seja, é uma afirmação falsa. E quando Hegel diz que a filosofia começou na Grécia Antiga, essa sua afirmação é correta de um ponto de vista evolucionista como é aquele que usaremos para investigar a história da Filosofia aqui, mas não passa de arbitrariedade, pois o fundamento para afirmá-lo é místico. Somos e não somos herdeiros dos gregos, ao mesmo tempo, pois toda cultura tem autonomia de pensamento.

O homem que vive sob o medo e o que domina pelo medo os outros homens ocupam, ambos, a mesma fase; a diferença não é outra senão a maior energia da vontade, a qual pode tender a sacrificar todo o finito a um fim especial.” “da passividade da vontade, como escravidão, se passa na prática à energia da vontade, mas sem que, tampouco, esta seja outra coisa a não ser arbitrariedade. Também na religião nos encontramos com o império absoluto dos sentidos em forma de culto religioso e, como reação contra isto, dá-se, ademais, entre os orientais, a evasão à mais vácua das abstrações como infinito, a sublimidade da renúncia a tudo, principalmente entre os hindus, que por meio do tormento remontam à abstração mais íntima; há hindus que passam 10 anos seguidos olhando fixamente a ponta do próprio nariz, alimentados pelos circunstantes, sem nenhum outro conteúdo espiritual que o da abstração consciente; indivíduos cujo conteúdo é, portanto totalmente finito. Não é este, destarte, o terreno em que pode brotar a liberdade.” Curioso como o abaixo-de-zero de Hegel (o puro arbítrio, uma espécie de estado sub-humano) é o fim-final (o mais glorioso, a meta suprema) para Schopenhauer, a liberdade fenomênica pura perante uma agora-tida-como-tirânica Vontade! Sem me estender muito, me explico: Schopenhauer crê que a vida é dor e sofrimento incessantes. Não há fuga do fenômeno, e quem rege o fenômeno é a Vontade, um substrato sem aparência que excede o controle ou a vontade humana (ironicamente, dada a nomenclatura). Mas a parte positiva de sua filosofia é uma espécie de budismo adaptado em que a meditação, o misticismo, até o êxtase do auto-suplício, são benéficos ao homem – apesar de não alterarem o único fixo e indelével da condição humana (a dor, o sofrimento e o despropósito), são a fuga em seu estado máximo, uma fuga imanente à pura aparência, uma espécie de sonífero para a Vontade, que faz parte do inconsciente humano, do impulso vital, dos instintos. Ao negar, com a ajuda da consciência, a si mesmos, ao se auto-negar, o homem atinge o único estado digno, para Schopenhauer. Não é em vão que me estendo um pouco a respeito de Arthur Schopenhauer, que viveu na geração seguinte a Hegel: ele será provavelmente o tema do HISTÓRIA DAS IDÉIAS 3.

É certo que o espírito nasce no Oriente, mas de tal modo que o sujeito, aqui, não existe ainda como pessoa, senão no substancial objetivo, que em parte se representa de um modo supra-sensível e em parte também de um modo mais ligado ao material, como algo negativo e que tende a desaparecer.” A típica arrogância ocidental. Porém, se o Espírito deverá retornar a si mesmo…

Antes, se exagerava a importância da sabedoria indiana, muito embora se ignorasse o que havia por detrás disso; agora sim a compreendemos, e temos razões para afirmar que esta sabedoria não é, se nos atemos ao caráter geral, uma sabedoria filosófica.” A força do pêndulo não perdoa ninguém: como moda, o hinduísmo vai e volta na Europa…

Na Grécia vemos florescer a liberdade realpor mais que simultaneamente ainda prisioneira de uma determinada forma e com uma clara limitação, posto que na Grécia existiam escravos e os Estados gregos se achavam condicionados pela instituição da escravidão.” No superexigente molde hegeliano, a dialética do senhor-escravo nunca tem fim.

¹ Lembrete de que, em Hegel, o ideal (ou essencial) é maior do que o real, que não passa do momento concreto.

3. PANORAMA GERAL DA FILOSOFIA GREGA

No que se refere ao estado histórico externo da Grécia nesta época, diremos que os começos da filosofia grega recaem no século VI antes do nascimento de Cristo, no tempo de Ciro, na época do ocaso dos estados jônios livres da Ásia Menor. No momento em que desaparece esse formoso mundo, que havia logrado conquistar por si mesmo um elevado nível de cultura, surge a filosofia. Creso¹ e os lídios foram os primeiros que puseram em perigo a liberdade dos jônios; mas foi mais tarde a dominação persa aquela que a destruiu totalmente, obrigando a maioria dos habitantes a abandonar aquelas terras e a fundar colônias, sobretudo na parte ocidental.

[¹ Wikipédia: “Creso foi o último rei da Lídia, da dinastia Mermnada, (560 a.C.–546 a.C.), filho e sucessor de Alíates que morreu em 560 a.C. Submeteu as principais cidades da Anatólia (salvo a cidade de Mileto)”.]

E, ao mesmo tempo em que se fundiam as cidades jônicas, a outra Grécia deixava de ser governada pelas dinastias dos antigos príncipes; haviam desaparecido os Pelópidas e as outras linhagens régias, estrangeiras em sua maioria. A Grécia havia estabelecido, em parte, múltiplos contatos com o exterior e, em parte, esforçava-se por encontrar um vínculo social dentro de si mesma; a vida patriarcal havia passado à história, e em muitos Estados sentia-se a necessidade de constituir-se livremente, subordinando-se a normas e instituições legais.” Aqui é-se forçado a perguntar: que conceito de patriarcado era esse dos alemães, para julgar que justamente quando o homem se distancia mais e mais do matriarcado e sedimenta o patriarcado ele estaria fugindo do que era patriarcal?!

Uma das mais famosas sentenças dos Sete Sábios é a que se atribui a Sólon em uma conversa com Creso, que Heródoto (I, 30-33) relata, segundo seu estilo próprio, muito prolixamente e que podemos resumir assim: ‘Que ninguém pode se considerar feliz antes de morrer.’Nem Deus escapa!

Comparado com a filosofia hindu, o eudemonismo¹ é, cabalmente, o contrário daquela. No hinduísmo, o destino do homem é a liberação da alma em relação ao corporal, a abstração perfeita, a alma como algo que vive exclusivamente para si.” Cabe ainda o questionamento: no Ocidente pós-moderno, o que devemos buscar prioritariamente, sendo na prática impossível qualquer um dos dois de forma autêntica? A fuga ascética ou esse contentamento no sereno fenomênico?

¹ Eudemonismo é uma terminologia aristotélica. Para simplificação didática, podemos equiparar as correntes epicurista e estóica, na somatória, à busca de um eudemonismo, isto é, felicidade terrenal ou serenidade. Ver 12.4 e 13.1.

Mérito de Atenas para H.: ciência e belas-artes; a filosofia.

Mérito de Esparta para H.: subsumir¹ as individualidades na idéia de Estado.

¹ “[Filosofia] Conceber como compreendido dentro de um conjunto: subsumir um indivíduo numa espécie, uma espécie num gênero.”

Assim como a individualidade que se separa do geral cai na impotência e perece, tampouco pode se manter de pé o unilateralmente geral, o costume da individualidade.” Obviamente, para H., “o filósofo do Estado”, a Prússia era a síntese de Esparta-Atenas.

OS SECRETOS DESÍGNIOS DO NADA: “Assim, p.ex., na idéia de que Deus, por sua sabedoria, governa o universo no que tange aos fins, o fim se estabelece para si numa essência representativa, [contradição em termos] sábia. [?] Mas o geral do fim consiste em que, sendo uma determinação fixa para si, que domina a existência, o fim seja o verdadeiro, a alma de uma coisa. O bom encontra seu conteúdo no fim mesmo, de tal modo que, atuando com este conteúdo e depois de se manifestar ao exterior, não brote nenhum outro conteúdo além do que já existia com anterioridade.” Primeiro, devo dar os parabéns ao autor pela péssima escrita. Nem minha exímia tradução pôde salvar este trecho! Segundo, o fim de Hegel era procurar seu conceito de fim perfeito, a Idéia – mas antecipo-lhes que isso ele não logrou… Hegel é um autor que ora ou outra manda essas pérolas monumentais que estão nos anais da filosofia… Não é sua incapacidade, leitor, que o impede de ver o que há no parágrafo, mas simplesmente o fato de que não há mesmo nada a não ser uma pura tempestade de palavras pomposas (defeito que H. se jacta em colocar nos outros, aliás!).

O exemplo mais importante disto no-lo oferece a vida mesma. A vida é movida por impulsos, e estes impulsos são seus fins; mas, enquanto algo vivo simplesmente, não tem a menor noção destes fins, os quais são, simplesmente, determinações primárias e imediatas, fixas. O animal labora para satisfazer estes impulsos, isto é, para cumprir o fim; comporta-se ante as coisas exteriores mecanicamente, umas vezes, e outras vezes quimicamente. Mas a relação de sua atividade não é algo puramente mecânico ou químico; o produto é mais como o animal mesmo, o qual só se produz a si mesmo como fim de si mesmo em sua atividade enquanto que destrói e inverte aquelas relações mecânicas e químicas.” “A própria conservação é um produzir constante, na qual não nasce nada novo, mas apenas renasce, continuamente, o velho; é um constante retorno da atividade a si mesma, encaminhada a sua própria produção.” Trecho com saborzinho de Lavoisier. Marx saberia retirar de tudo isso conseqüências melhores… Por enquanto ainda não está planejado um capítulo da HISTÓRIA DAS IDÉIAS com Karl Marx como protagonista, mas diria que, a longo prazo, sua presença é mais do que certa na série…

* * *

A partir de agora segmentaremos a exposição por filósofos ou escolas de pensamento. Se parecer que passamos muito de soslaio sobre um autor ou um grupo de autores neste primeiro momento da Grécia, não tema: em Platão e Aristóteles muitos deles serão revisitados, e seu estudo adensado.

4. ANAXÁGORAS

Aristóteles (e, quase, por isso Hegel) considera o finalista Anaxágoras o primeiro filósofo “profissional”, comparado ao amadorismo anterior.

Com ele vemos a filosofia instalada na verdadeira Grécia, que até então não havia tido filosofia alguma, e, concretamente, em Atenas” Perfeito para o seu sistema de “razão da História”… E o engraçado é que isto anula tudo o que Hegel diz sobre Parmênides ser o REAL iniciador da filosofia, , no tópico seguinte!… (Não entender este REAL como o real de Hegel, i.e., mera coisa secundária!!)

5. PARMÊNIDES

a verdadeira filosofia começa, a rigor, com Parmênides.” Pouco cito Parmênides aqui, em que pese ser O MAIS IMPORTANTE DOS PRÉ-SOCRÁTICOS, por já ter publicado no blog posts dedicados ao autor.

Um dos dados mais importantes que de sua vida conhecemos é a viagem que fez com Zenão a Atenas, onde Platão os apresenta, num de seus diálogos, conversando com Sócrates.E tomas tal poema como a verdade absoluta? Pois acertaste em cheio: nada mais sensato do que atribuir imenso valor à prosa de Platão!

6. PITÁGORAS

O fundamental para nós é a filosofia pitagórica, não tanto a do próprio Pitágoras como a dos pitagóricos, tal como se expressam Aristóteles e Sexto Empírico; [comentadores posteriores] claro está que há que se distinguir entre ambas as coisas, e o cotejo do que passa por ser a doutrina pitagórica revela imediatamente uma série de diferenças e discrepâncias.” Me parece mais difícil até determinar um Pitágoras histórico do que um Sócrates histórico… Há casos em que menor número de fontes é salutar, na contramão do senso comum; ainda mais quando dentre os poucos indivíduos encarregados de perfilar Sócrates temos Platão e Xenofonte; ainda que tenham distorcido ou caricaturado alguns pontos, estão longe de ser fanáticos. Platão, ao menos, tem uma agenda própria, o que permite certo nível de isenção e distanciamento em relação ao seu outrora mestre.

7. HERÁCLITO

É um modo formoso, espontâneo, infantil de expressar a verdade em termos verdadeiros. Apresenta-se aqui pela 1ª vez o geral e a unidade da essência da consciência e do objeto, e a necessidade da objetividade.” “O verdadeiro ser não é este ser imediato, mas a mediação absoluta, o ser concebido, o pensamento.” Aqui se diluem as fronteiras do que é Heráclito e do que é superinterpretação à la Hegel.

8. OS ATOMISTAS

Assim concebido, o principio atomístico não fôra superado, nem pode sê-lo; permanece para sempre; o ser para-si tem de apresentar-se necessariamente em toda filosofia lógica como um momento essencial, ainda que não como momento último.” Para quem ainda tinha dúvidas, essa é uma História da Filosofia Hegeliana (“todos os autores que me influenciaram”) e não uma história da filosofia…

9. PROTÁGORAS

Vemos em Protágoras uma grande reflexão; concretamente, é a reflexão sobre a consciência aquilo que cobra consciência em Protágoras. [seu pensamento único, o que realmente há de “progresso” em sua filosofia] Mas isto não é senão a forma do fenômeno, retomada e desenvolvida pelos céticos posteriores. O fenômeno, a aparência, não é o ser sensível, senão que, ao estabelecer isto como aquilo que aparece, estabeleço, ao mesmo tempo, seu não-ser. A tese de que ‘o que é, é somente para a consciência’, ou esta outra: ‘a verdade de todas as coisas é a manifestação destas coisas na-e-para-a consciência’, parece contradizer-se por completo a si mesma. Parece, de fato, que nela vai implícita, simultaneamente, a afirmação exatamente oposta: por um lado, nada é em-si como aparece e, por outro, tudo é verdadeiramente assim como aparece.”

Refutação de Hegel: A aparência é o ser sensível, o ser mesmo. O que é não é de forma alguma o mesmo para o outro. Essência e aparência coincidem no sujeito. Porém, cada sujeito é um mundo fenomênico à parte. Portanto, como Protágoras não considera o absoluto, seu raciocínio é impecável.

10. SÓCRATES

10.1 O PROBLEMA DA ÉTICA DIVINA: NEGANDO E AFIRMANDO SÓCRATES

Partamos de duas premissas: 1) o homem é burro, isto é, vil demais para criar-se uma ética. 2) o homem é sábio, isto é, virtuoso o bastante para criar-se uma ética. Ponto de vista da religião monoteísta: o homem só pode ser burro demais, do contrário não haveria religiões nem necessidade de religiões. Deus precisa ensinar a ética ao homem, eis o fundamento e o fim último da crença. Porém, se o homem é burro demais para criar-se uma ética, ele também é vil demais para aprender uma ética, incapaz que é de entender os desígnios de deus. Não está à altura de uma ética divina para os homens.

Posto que sabemos o que é ética, ela deve ser atingível. Posto que há religiões, é seguro dizer que via de regra prescinde-se de ética. Posto que há religiões há muito tempo, porém, e sua presença milenar não demonstra a aquisição da virtude pela humanidade como um todo, conclui-se que: poucos notáveis são virtuosos, a maioria é tola. Alguns notáveis assumiram papéis de pregadores, profetas, sacerdotes religiosos. Alguns notáveis seguiram o caminho da autoformação. A grande massa se subdivide igualmente entre os dois caminhos. Muitos crêem-se éticos (sábios) sem sê-lo. Sábios autointitulados, intitulados pela comunidade laica ou sancionados por aqueles que controlam os dogmas espirituais. Se a virtude fosse passível de se ensinar, não só Deus como os sábios ensiná-la-iam.

As gerações da humanidade repetem a proporção entre sábios e tolos. Desde sempre, para sempre. De qualquer modo, apenas uma pimenta para a discussão: não é possível conhecer-se a si mesmo. O sábio não se conhece; vive sempre na berlinda entre uma pretensa sabedoria e a estultícia. O muito burro vive na vaidade, crendo-se sábio. Ao notar esse comportamento dos muito estultos, o sábio aprende que ter certeza sobre sua própria sabedoria é um indício pouco auspicioso. Ele sempre oscila entre considerar-se um hipócrita ou um tolo, não importa como conduza sua vida, e a reputação que obtém entre “os outros homens”. Sua vida é uma comédia, pois só é possível agir com ética inconscientemente. Os autointitulados tolos podem ser considerados uma multitude de coisas: sábios (e portanto suscetíveis de ser tolos debaixo do véu), hipócritas que desejariam o status da sabedoria empregando uma falsa modéstia para enganar os homens, um espírito que conhece suas limitações; mas não muda o fato de que todas essas possibilidades não são dignas de crédito. Não se confia no tolo só porque ele assume sua tolice. E o parâmetro para o sábio, por mais que sábios existam, não é deste mundo. Permanece como mistério insondável da existência. Como num jogo de pega-pega entre a cabeça e a cauda, aporia, contradição insolúvel.

IRONIAS DO NÚMERO 3 (O PREFERIDO DE HEGEL): A ironia socrática não é o método socrático, mas o destino inelutável e externo do filósofo: jovem soldado, serviu três vezes. Três vezes regressou triunfante do Peloponeso, e ao cumprir regiamente seu dever para com sua pátria, ajudou a consumar o desfecho da cultura grega. Da própria cultura, da cultura socrático-platônica, modelo dos modelos de homem. O que tem de ‘cabalístico’ nisso? Pedro negou Cristo por 3 vezes!

10.2 O INDIVÍDUO SÓCRATES & O OCASO ATENIENSE: O LADO NEGATIVO DA FILOSOFIA.

nós propendemos a ver nas virtudes, como realmente são hoje, antes aspectos dos dotes ou do temperamento do homem, ou a revesti-las sob a forma do genérico e necessário; em Sócrates, no entanto, não apresentam a forma dos bons costumes, do temperamento do homem ou de uma necessidade qualquer, senão a forma de uma determinação independente. É sabido que a fisionomia de Sócrates indicava um temperamento dominado pelas paixões feias e baixas, que seu espírito soube refrear e governar, como ele mesmo nos diz em algum lugar.” Além de tudo que aqui afirma, tece depois que o belo é o santo e o sábio — mas que doutrina esta do Romantismo europeu!! Hegel, horroroso, não podia dominar nada e seria, de acordo consigo mesmo, um grande mandrião! Porém, Sócrates nunca afirmou que conseguira voluntariamente contrariar sua má natureza; o fato de ele ser feio e de Alcebíades ser belo nada tem que ver com ambos os temperamentos. Lição primária, na qual sou obrigado a reprovar o aluno extravagante Hegel.

Isto é somente um dos lados, em que Sócrates faz caso omisso de tudo o que seja contradição e apresenta como conteúdo afirmativo as leis, i.e., o direito, tal como cada qual se o representa. Porém, se perguntamos quais são estas leis, veremos que são precisamente aqueles que regem, tais como se acham presentes no Estado e na representação das gentes e que, chegado o momento, são levantadas (suspensas) como algo determinado, o que quer dizer que não são absolutas.” O que ainda é melhor que afirmar numa Filosofia do Direito que o Estado da monarquia constitucional é o non plus ultra do Espírito!

11. PLATÃO

11.1 O PLATONISMO

esta filosofia fôra concebida, em cada época, de modo distinto e sofrera, principalmente, as ingerências e tergiversações de mãos muito torpes nos tempos modernos, mãos que não acharam inconveniente introduzir nestes escritos suas próprias concepções, incapazes de captar espiritualmente o espiritual, ou considerando como o mais essencial e mais notável da filosofia platônica o que, em realidade, não pertence ao campo da filosofia, mas ao modo de pensar e de representar as coisas; todavia, a rigor, é o desconhecimento da filosofia o que entorpece a compreensão da filosofia platônica.” Que ironia, já que Hegel põe Platão abaixo de Aristóteles e não reconhece sua verdadeira grandeza!

[Por outro lado,] fazer de Platão insuperável, como o ponto de vista em que nós mesmos deveríamos nos situar, [a Alemanha do XIX!] é uma das debilidades próprias do nosso tempo.” Basta substituir debilidades por forças ou qualidades e vemos o quanto H. acertaria em cheio! A roda do tempo não perdoa, e hoje gostaríamos de poder ter ao menos a força de suportar esse pensamento: usar Platão como uma estrela-guia. O pós-modernismo é fraco demais, mas tem, melhor que a época de Hegel, esse arrependimento vivo no lugar da hipocrisia etnocêntrica.

E se se o retirasse da caverna, ficaria cego dada a luz do sol e, deslumbrado com tanta claridade, não poderia ver as coisas que chamamos reais e odiaria quem lhe houvesse arrastado à luz, como se odeia quem nos arrebatou a verdade, legando-nos, em troca, só dor e lástima.” Ao invés de mero joguete de uma má consciência (como é levado a crer freqüentes vezes em seus primeiros encontros com o absurdo e o tragicômico, principalmente na infância, adolescência e juventude), o filósofo é o único que vive verdadeiramente. Quantos milhares de seres humanos eu já não conheço, com alguma certidão, que vivem apenas nas aparências mais foscas?

A obra iniciada por Sócrates foi levada a cabo por Platão, que só reconhece como essencial o geral, a idéia, o bom. Mediante a exposição de suas idéias, Platão pôs a descoberto o mundo intelectual, sem no entanto nele ver um mundo situado mais além da realidade, no firmamento, num lugar distinto, senão no mundo real, do mesmo modo que Leucipo [atomista] havia aproximado o ideal da realidade, sem colocá-lo – metafisicamente – por trás da natureza. A essência da teoria das idéias se há de buscar, portanto, na concepção de que o verdadeiro não é o que existe para nossos sentidos, mas que o verdadeiro e único ser do mundo está no determinado por si, no geral em-e-para-si: o mundo intelectual é, assim, o verdadeiro, o digno de ser conhecido, o eterno, o divino em-e-para-si. As diferenças não são essenciais, apenas transitórias; sem embargo, o que Platão chama absoluto é, ao mesmo tempo, como algo único e idêntico consigo mesmo, algo concreto por si, enquanto que é um movimento que retorna a si mesmo e que permanece eternamente em si. E o amor pelas idéias é o que Platão chama entusiasmo.” Um lugar aqui mesmo, no mundo das aparências, em que os sábios podem conferenciar entre si, sem medo de estarem falando com espectros (solipsistas em alucinação): o termo médio em que os privilegiados realmente se entendem, porque a natureza do saber é una. Curioso que aqui H. resuma o próprio programa, sem tirar nem pôr: posteriormente, no entanto, exaltando os méritos de Aristóteles e dos filósofos modernos, ele desmentirá reiteradas vezes que Platão atinge o absoluto em-e-para-si (note que ele o citou duas vezes aqui), alegando que sua filosofia, perfeita no tocante ao geral, é carente no que respeita ao determinado, e que, portanto, desconsiderando a individualidade, não chegou a efetuar o movimento dialético completo do Espírito – coisa que H. apontou como inequivocamente realizada por Platão neste trecho!!

11.2 O PLATONISMO COMO ÁPICE PRECOCE DO FILOSOFAR & O LIMBOBOL COMO TÊNIS METAFÍSICO (onde o Pensamento Único é o estilo característico de cada atleta-pensador)

O segundo erro com que nos encontramos, no tocante às idéias, consiste não em situá-las fora de nossa consciência, mas em considerá-las como ideais necessários para nossa razão, porém de modo que os produtos desta razão não terão realidade agora nem a adquirirão jamais.”

Aí já depende, meu caro Hegel: do que estamos falando? De simples ‘discussões triviais entre filósofos’ (sobre um mundo-verdade e um mundo das aparências)a – o que é relativamente simples de imaginar que se possa ter cotidianamente, pois muitos são os filósofos, embora sejam minoria, e qualquer filósofo concebe bem esta distinção, ou não seria, por definição, filósofo –; ou do Bem e da Justiça? Porque estes seriam sóis, realmente meras figuras de linguagem, inobteníveis a não ser que estejamos falando de seres muito crédulos e supersticiosos, pasme, maioria deles filósofos! O absoluto por definição não se toca.

a Quem está acostumado com a refutação nietzschiana de um mundo-verdade pode ter ficado confuso com este parágrafo – mas alto lá! Um mundo-verdade cristalizado e eterno na acepção chinfrim de frades, é a isto que Nie. objetava! (‘Chega deste Bem, unilateral, estilizado! Para esta concepção ultrapassada, ofereço uma nova discussão, que vá além deste bem e deste mal, mal condicionado por esta visão de bem tão limitada, mal que está prestes a se tornar universal no meio acadêmico ocidental! Só assim é que poderemos recomeçar com coisas sérias! Os idiotas saturaram o nosso meio, o nosso mundo-verdade vivo, precisamos recolher o lixo – são 23:59, mas amanhã é um novo dia!’ – Esta é uma paráfrase bem realista de um Nie. mais direto ainda do que estamos acostumados a ler, explicando-se para quem tiver olhos e ouvidos. Sua presença pormenorizada na HISTÓRIA DAS IDÉIAS virá no tempo certo.) Mas o mundo-verdade exclusivo da mentalidade dos filósofos (dos filósofos verdadeiros, palavra tão desvalorizada com o tempo!) nada tem de ossificado e estável – simplesmente porque é orgânico e cambiante enquanto o filósofo vive individualmente e enquanto a raça dos filósofos vive coletivamente, jamais sendo igual a si mesmo – isso! –, um mundo-verdade riacho heraclítico! Uma verdadeira imagem do inferno para o ante-filósofo, um quadro expressionista, tolices e nada mais (estou falando novamente daquele que não tem acesso ao privilégio, o prisioneiro da caverna de Platão – para ser anti-filósofo ele ainda teria de merecê-lo; como aquele que está ‘antes do’ filosófico na gradação espiritual, ainda não merece esse título de antípoda, pois está aquém desta discussão).

Exemplo do que significa perseguir o absoluto, porém jamais tocá-lo: Posso discutir com o Pablo (outro esclarecido) sobre o ser-do-ente e o ser-aí, mas nunca poderemos propor uma síntese da condição humana ou um propósito para a existência – essa faculdade está além de qualquer evento da existência, de qualquer conciliábulo entre os grandes filósofos da História mesmo que se pudessem reunir num auditório além do tempo. De tal encontro nada sairia além do que sói acontecer nas noitadas de bar das gentes mais simples. Mas Hegel imaginou que continha esta sementinha em suas mãos, quanta candura! O girassol escolhido pelo Espírito do Mundo – perfume dos perfumes, essência das essências! ‘Não pedi para nascer no lugar e no tempo certos, ainda assim nasci…’, seria mais ou menos o que ele teria a dizer a respeito de tão imensa (e grata, para ele mesmo) coincidência… O primeiro falastrão europeu a poder dizê-lo, bem como o último!

Parafraseando Górgias, ainda que fosse possível combinar entre alguns entes um propósito para a existência, este acordo simplesmente não seria fechado nem posto em prática! Mas a verdade é que faltam inclusive as condições de possibilidade dessa suposta negociação – mesmo que houvesse um ente em algum ponto capaz de levantar um propósito universal (o que já seria absurdo), ele sequer saberia como formulá-lo em sua mente; e se, mais incrível ainda, houvesse dois desses seres, separados por várias gerações e milhares de quilômetros, e mesmo se eles pudessem conferenciar fluentemente num mesmo idioma numa representação miraculosa em que coabitassem o mesmo universo, digo, o mesmo cômodo, e pudessem até mesmo se tocar, conversar francamente tanto quanto estimassem necessário –– mesmo assim, ainda assim, esses dois seres acabariam apenas gastando saliva, quem sabe brigando feio, indo às vias de fato! Supondo que se concedesse ainda o fato de ambos estarem munidos da idéia perfeita e que entrassem em harmonia absoluta entre si, ainda assim eles se esfumariam de sua sala metafísica logo após este evento único da ‘pós-História universal hegeliana’ e não poderiam repassar as novas à humanidade – QUE PENA! Não estava na lista das coisas que as Parcas coseriam, definitivamente… Não, o jogo do filosofar é infinito, e Platão o sabia, antes do século XX, época em que encontramos seus primeiros comparsas e intérpretes à altura.

A forma ansiosa do filósofo é como ele se apresenta externamente, no mundo das aparências. O “ser” do filósofo é o anti-ansioso por excelência: ele não quer se apressar a um fim, a conclusões, ele aproveita as raquetadas do jogo! Legislador ou não (de toda forma no capitalismo é impossível), o filósofo sempre foi e sempre será pelo menos o que hoje se convenciona chamar de artista em sua arte do filosofar… É sem dúvida um jogo que se joga a sua maneira, mas essa maneira, essas regras, são idênticas para todo filósofo sério, que joga. E ainda há espaço de sobra para idiossincrasias nesses torneios e nessas justas: Roger Federer, Nadal, Sampras, Rod Laver, Borg, John McEnroe, todos eles tinham suas técnicas e estilos bem diferentes, embora compartilhassem um mesmo fim enquanto dentro da quadra… Como tenista metafísico, Hegel é um menino mimado que perde para o paredão, seu único adversário. Como poderia ele superar Platão só de boca, sem experimentar jogar contra ele? O engraçado é que os piores filósofos foram os únicos que tiveram match points. Todos perderam, entretanto…

É preciso imaginar um jogo de reflexão exaustivo, mas em que a massagem poderia nos restituir à partida, sem que jamais abandonássemos o confronto… Seria este o Sísifo contente que Albert Camus figurou?! E mesmo ele passou o jogo inteiro pensando que o principal era definir se desistia ou não…

Falando em existencialistas, esse podia muito bem ser o parágrafo que inspirou Sartre a intitular sua magnum opus: “A opinião [quando, na história da metafísica, a metafísica essencial começa a ficar chata, e o tenista prefere se desconectar do jogo, dar uma viajada, i.e., dar maior peso às aparências que ao desgastado mundo-verdade – chamemos esse momento de ‘entressafra de talentos’] é, portanto, o intermediário entre a ignorância e a ciência [o impossível] e seu conteúdo uma mescla do ser e o nada.” Chamemos esse tênis espiritual de LIMBOBOL! Quando a opinião passa a prevalecer em termos filosóficos, seria, para continuar nesta alegoria que acabo de inventar, como se alguém da arquibancada se levantasse e desafiasse um tenista profissional – e para calamidade de todos conseguisse fazer frente a ele, por um set inteiro! Filosofar com opiniões… Uma tarde (Zeitgeist) bem atípica, daquelas de que se poderá dizer: há tempo e lugar para tudo nesse mundo ao menos uma vez…

Pensamento único como lobby único do jogador! Você pode até ter e tentar outros, mas é aquele que o levará mais longe, e entrará para a história como sua marca registrada

11.3 A MAIÊUTICA OU TEORIA DAS REMINISCÊNCIAS

Claro está que a palavra ‘rememoração’(*) é, num sentido, uma expressão desafortunada:¹ concretamente, no sentido em que alude à reprodução de uma representação que se tivera já noutro tempo.²

(*) “Hegel analisa aqui o termo Erinnerung, que possui também o sentido que ele lhe atribui, [O 2º sentido, após o 1º sentido evidenciado nesta passagem, o de mergulhar em si mesmo – escolhi esta palavra em português porque ‘recordo’, do castelhano, apesar de remeter a recordação não seria o mais adequado, haja vista que –cordação não nos evoca nada; já ‘memoração’ é uma palavra dicionarizada. Por outro lado, anamnese seria ainda mais pertinente que rememoração, em termos de filosofia platônica. Obviamente, reminiscência é um sinônimo virtualmente perfeito de anamnese, exceto que esta última também seria mais empregada no sentido medicinal hoje. Ambos os termos possuem, de qualquer maneira, um sentido mitológico ou sobrenatural em Platão, que faz uma analogia com a reencarnação da alma.] implícito também no prefixo ‘re’ do termo castelhano [Editor espanhol].”

¹ Pelo contrário: é uma expressão muito afortunada, H.!

² Há mais implicações aqui do que se poderia pensar levianamente. Por exemplo, há alguma relação de continuidade entre a teoria da reminiscência e o princípio nietzschiano do eterno retorno, uma vez que se entenda que ambos os filósofos usam o termo apenas em sentido metafórico. Não existe um Espírito que começou ex nihilo e ainda não se desenvolveu completamente, nem em Platão nem em Nietzsche, e por isso Hegel é um estranho no ninho aqui e não pode ser levado muito em conta. O que Platão quer assinalar? Que o mundo já é perfeito e tudo é ‘sabido’ no fenômeno, não importa se no ‘passado’ ou no ‘futuro’, já que o tempo em si (essencialmente) não existe (apenas para o indivíduo em questão – o que também aproxima esta percepção plantonista do a priori kantiano). Só que o indivíduo não é o filósofo, i.e., é só o recipiente carnal do conhecimento filosófico, objetivo, uno. Então, por mais que para nós no cotidiano o tempo seja algo fora de nós com uma existência própria e independente, do ponto de vista filosófico consciência, conhecimento (e especificamente aquisição de conhecimento) e tempo estão como que fundidos numa unidade.

Quando Platão chama de ‘rememoração’ a este fato de que a ciência brote da consciência, vai implícito nisto o critério de que este saber tem que haver existido realmente, alguma vez, nesta consciência, ou seja, de que a consciência concreta tem por conteúdo este saber não somente em si, por sua essência, mas também enquanto consciência concreta, e não como consciência geral. Mas este momento do concreto forma simplesmente parte da representação, e a rememoração não é pensamento, pois a lembrança se refere ao homem como a um este sensível, não de um modo geral.” Hegel se atém a detalhes técnicos de zero importância. E é surpreendente que leve tão a sério o signo lingüístico nesta ocasião, quando constatamos o que escreveu na Enciclopédia (ver post anterior estrelando Derrida, “SPEECH AND WRITING ACCORDING TO HEGEL” (Fala e escrita de acordo com Hegel): https://seclusao.art.blog/2021/08/10/speech-and-writing-according-to-hegel-derrida-1971-in-w-f-hegel-critical-assessments-ed-robert-stern-1993/). Repito a indicação ao final do post.

No que se refere agora à educação e à formação da alma, é este um ponto que guarda relação com o anterior. É necessário, no entanto, não conceber o idealismo de Platão como um idealismo subjetivo, como aquele idealismo ruim que, sem dúvida, se apresenta nos tempos modernos, como se o homem não fôra capaz de aprender nada nem fôra determinado exteriormente, senão que todas as representações emanassem do sujeito.” No trecho em verde H. está dirigindo uma crítica, visivelmente, a Kant – acontece que essa crítica não procede (ele estereotipa Kant, numa retórica para atender aos seus próprios interesses).

Sobre o conteúdo do parágrafo acima, em referência, unicamente, à formação do filósofo em Platão: há um Estado em que essa formação é facilitada, mas esse Estado nunca aconteceu historicamente (e não estamos aqui apenas repetindo Platão, afirmando que até sua Atenas isso não ocorrera – estamos dizendo que nenhum Estado-nação moderno o logrou!). A República de Platão é este Estado. Mais sobre isso no tópico específico sobre a República, 11.6.

Esta noção, segundo a qual o saber vem, ìntegramente, de fora aparece sustentada nos tempos modernos por certos filósofos empíricos completamente abstratos e toscos, que afirmaram que tudo o que o homem sabe do divino sabe-o por obra da educação e do hábito e que o espírito não é, por conseguinte, uma possibilidade totalmente indeterminada. O ponto extremo disto é a doutrina da revelação, segundo a qual tudo é infundido a partir do exterior.” Já aqui H. fala de forma tão áspera que só posso imaginar que se refira aos ingleses e escoceses, e não a Kant, sem sequer dar-se ao trabalho de citar nomes! Com efeito, Kant voltar-se-á contra o empirismo extremo de Locke, Berkeley e Hume, portanto nele a experiência fica desvalorizada. São estes autores que tornaram a expressão tábula rasa consagrada (mas ela vem desde o latim, bastando suprimir o acento agudo). Chama-se de tábula rasa a mente do indivíduo para John Locke, p.ex., que nasce vazia, rudimentar.

11.4 TEORIA DAS IDÉIAS

O equívoco está em que um conteúdo não é o verdadeiro pelo mero fato de que se incorpore a nosso sentimento. Por isso, a grande lição de Platão consiste em sustentar que o conteúdo só se torna pleno mediante o pensamento, posto que é o geral, que só se pode captar por meio da atividade do pensamento. Este conteúdo geral é precisamente o que Platão determina como a idéia.” Feuerbach se sentiria devastado caso H. fosse vivo e o rebatesse com este parágrafo. Para contextualizar, Feuerbach foi o primeiro filósofo do pós-hegelianismo que, em vez de ser seu discípulo, voltou-se contra ele numa crítica ao Sistema hegeliano. Porém, seu empreendimento fracassou, era incompleto, não passava de um esboço – calcava-se numa crítica da razão e numa exortação pueril dos sentimentos e do amor, sem contudo conseguir definir nada em termos nem concretos, nem abstratos. Essa primeira crítica seria finalmente retomada com método pelo jovem Marx, no agitado século XIX alemão, desembocando no materialismo histórico-dialético, a famosa inversão do idealismo hegeliano em prol do estudo da História e das condições materiais do ponto de vista fenomenológico e da agência humana no mundo, em detrimento de um Espírito ou Idéia que regeria a História universal (que agora não existe, pois toda História tem um ponto de vista) de forma autônoma, manifestando-se na humanidade a fim de se corporificar e se auto-realizar. Foi antes, diria Marx, o próprio homem quem criou esta noção de um Espírito impessoal – a verdadeira liberdade ou maturidade filosófica seria o aprendizado de que o homem, ser social, deve carregar a responsabilidade pelo seu próprio destino (auto-determinação). Quanto a Feuerbach, novamente, sua crítica ao hegelianismo não vai além de um ateísmo exacerbado, sem o mesmo refino dialético de Hegel, recuperado e dirigido agora a outros fins por Karl Marx.

ACIMA DA CIÊNCIA BACONIANA, O AXIOMA; ACIMA DO AXIOMA, A ONTOLOGIA SÁBIA: Conhecimento que necessite e possa ser provado é um degrau muito inferior quando o assunto é Primeira Filosofia. Quando notamos a importância que os geômetras gregos tinham para Platão, notamos por que a matemática não pode ser considerada uma ciência moderna, embora seja o protótipo para todos os campos empíricos da atualidade. Além das formas e figuras abstratas, entretanto, jaz o que só aqueles capacitados para explorar o mundo-verdade podem acessar. É por isto que a comunicação do filósofo, do saber, não existe, a rigor, com os mortais (aprendizes); [fora do LIMBOBOL] eles só podem se comunicar entre si, e quem queira se comunicar com eles deve se elevar. O legado deles é meramente para almas gêmeas, nunca para ‘o populacho’. Eles não enriquecem o mundo, quer dizer, pelo menos não diretamente.

ESCADA DO MUNDO-VERDADE À PURA REPRESENTAÇÃO: — Compreendo algo, mas não o bastante. Me parece que queres afirmar que o conhecimento que dos seres inteligíveis se adquire pela via da dialética é mais claro que o que se adquire pela via daquelas ciências para as quais as hipóteses são princípios e estão obrigadas a se valer da inteligência e não dos sentidos; mas como aquelas ciências especulam a partir de pressupostos e não se elevam até o princípio absoluto, parece que não se dá, nelas, o pensamento que se daria caso se tratasse de entes pensados segundo um princípio. Me parece, ainda, que chamas de intelectivo o modo de proceder da geometria e das ciências afins, e de tal modo que ocupam um lugar intermediário entre a razão e a representação.

Compreendeste perfeitamente bem meu pensamento. Quanto a estas 4 distinções, indicarei agora quais são as 4 maneiras da alma de se comportar: o pensamento compreensivo tende ao supremo; a inteligência ao segundo; o terceiro se chama , a última é o saber figurado. [a opinião] Ordena-as segundo sua maior ou menor evidência, segundo seus objetos participem mais ou menos da verdade.”

MAIS TRECHOS (também em português traduzido) do diálogo FILEBO em https://seclusao.art.blog/2020/01/07/filebo-ou-dos-prazeres-da-inteligencia-e-do-bem/.

CONSTRUÇÃO DO MUNDO-VERDADE NO SEIO DO MUNDO DAS APARÊNCIAS: “[Platão,] em geral, concebe o absoluto como a unidade do ser e do não-ser no devir, conforme as próprias palavras de Heráclito, como a unidade do uno e do múltiplo. Ademais, Platão incorpora à dialética objetiva de Heráclito a dialética eleática,¹ que consiste na ação exterior do sujeito encaminhada a pôr de manifesto a contradição, de tal modo que a mutabilidade externa das coisas é substituída agora por seus câmbios interiores em si mesmas, quer dizer, em suas idéias, que são, aqui, suas categorias.” “Os sofistas se limitam a considerar o fenomênico, cuja sede é a opinião: também eles tomam, pois, como base, evidentemente, pensamentos, mas não os pensamentos puros ou o que é em-e-para-si. § É este um dos motivos que fazem com que alguns saiam insatisfeitos do estudo das obras platônicas. Quando se começa a ler um destes diálogos, depara-se com esta maneira livre de se expressar de Platão, belas cenas naturais, uma maravilhosa introdução que promete guiar-nos à filosofia —à mais alta de todas, à filosofia platônica— através de pradarias cobertas de flores. Descobrimos aqui coisas sublimes, de que a juventude sempre gosta bastante; mas esta 1ª impressão não tarda a desaparecer. (…) Ao aterrissar no campo do verdadeiramente dialético e especulativo, o leitor tem de marchar por ásperas e empinadas veredas, deixando-se espetar pelos espinhos da metafísica.”

¹ H. desgina “dialética objetiva” o método da filosofia heraclitiana, considerada a criadora da forma lógica da dialética (raciocínio dinâmico). Aqui, ele defende que Platão funde as concepções de Heráclito e de Parmênides, dois dos pré-socráticos mais importantes, a fim de forjar sua filosofia – embora não o cite nominalmente, Parmênides era um dos “eleatas”. Acontece que, a não ser por amplos comentários aristotélicos que ficaram muito famosos, Zenão, por exemplo, outro eleata, não mereceria ser citado ao lado de Parmênides. Outros dois filósofos eleatas têm menor expressividade: Xenófanes (não confundir com Xenofonte nem Xenócrates) e Melisso.

11.5 O HERMETISMO PITAGÓRICO EM PLATÃO

Deus, mesclando o idêntico e o outro com a essência e fazendo dos três um, divide de novo este todo em partes, em tantas como julga conveniente.”

Ora, o modo de classificação desta subjetividade contém os famosos números platônicos, cujas origens se há de buscar, sem dúvida alguma, nos pitagóricos, em torno dos quais os pensadores antigos e modernos empregaram grandes esforços interpretativos, inclusive o próprio Kepler¹ em seu Harmonice Mundi, embora sem sucesso de nenhum deles em chegar a compreender exatamente o sentido [dos números].” Convenhamos: nem os pitagóricos entendiam a si mesmos, trabalho inútil aqui!

¹ O astrofísico Johannes Kepler.

Quis-se fazer de Platão o santo patrono dos estados de entusiasmo e arroubamento; mas isto é, como vemos, completamente falso.” Platão atribui as adivinhações e as profecias apenas à parte ‘má’ do organismo, a jocosa, a excretória, particularmente o fígado, na anatomia de seu tempo; daí decorreria a fascinação da consulta às vísceras de animais, ritual comum entre os antigos, e, em todos os tempos, a fascinação pelos padrões aleatórios e gesltálticos (mais propriamente falta de qualquer padrão!) das borras do café, etc.

11.6 A REPÚBLICA

(RE)VOLTANDO A/À REPÚBLICA: “e reconhecia e proclamava que a natureza moral (a livre vontade em seu caráter racional) só podia chegar a impor seus direitos e cobrar realidade¹ dentro de um verdadeiro povo.” O qual ainda não presenciamos na Terra.

¹ Expressão contumaz de Hegel. Em seu sistema, algo só pode intervir na realidade (o ato, o para-si, que emana da potência, da essência ou em-si quando as condições são logicamente satisfeitas) com o ‘aval’ do Espírito, daí o real em Hegel ser algo ‘menor’ do que a ‘existência’ em si. Quando Hegel diz que “todo real é racional” e vice-versa (famosa passagem da Fenomenologia do Espírito), significa que tudo aquilo que é parte do processo da Razão aparecerá sob alguma forma em algum momento na História – o irracional é aquilo que não pode ser formulado num determinado estágio, necessitando ser esclarecido ou iluminado, i.e., aparecer racionalmente, modificado dialeticamente como fenômeno. O irracional é aquilo que não pode cobrar realidade. Embora ‘exista’, considerando que o Espírito faz essa mediação, o irracional enquanto irracional não é ainda real. Isso nos leva ao paradoxo em que Hegel e Platão finalmente concordam: embora existente enquanto Idéia e representável mediante conceitos filosóficos, a República de Platão – que não é uma fantasia ou utopia, já que o autor captou seus fundamentos da sua realidade imediata (a Atenas antiga) – ainda não se realizara no mundo real-racional. Poderíamos, de nossa posição no século XXI, demonstrar mais ceticismo quanto a essa possibilidade – mas jamais negar o caráter sério e empírico (no bom sentido) da obra platônica, que versa sobre a formação do homem bom e quais são os limites dessa formação, i.e., da própria humanidade e em seu estrato mais superior ou excelente. Quanto a Hegel, ele imaginava que as condições do Estado ou sociedade perfeito(a), regido(a) por homens que compreendessem a Idéia absoluta, seriam satisfeitas na Alemanha dentro em breve. Hoje rimos dessa puerilidade, batizando-a de etnocêntrica. É que, para Hegel, só um povo liderava a História em cada período. Os gregos lideraram a humanidade e a cultura, criando a Filosofia, nos últimos séculos pré-cristãos; atualmente (quero dizer, no tempo de Hegel) a ‘tocha olímpica’ estaria com os teutos e o Idealismo alemão, povo eleito pelo Espírito para realizar, cobrando realidade, essa apoteose da História universal. Obviamente a partir de Marx o foco muda por completo. Não mais há um verdadeiro povo nacional ou étnico, mas uma classe internacional e cosmopolita que, impelida pelo desenvolvimento do modo produtivo vigente, haveria de suceder a burguesia na História, superando as contradições internas do capitalismo financeiro. Pior ainda, a partir do século XX não temos mais qualquer fé em nenhuma dessas teses. Podemos ser socialistas, sem dúvida, mas não vemos mais a iminência da vitória de uma classe proletária, e aliás uma análise das condições materiais nos aponta que as noções de classe, e portanto da luta entre classes, foram completamente pulverizadas (no pós-modernismo). Essencialmente, o otimismo de Marx e Engels ainda era uma espécie de avatar da fé no progresso, que com certeza já sublimamos – o problema é que estamos em estágio de carência, sem haver colocado nada no lugar. Um impasse histórico que se arrasta.

Obviamente, aqui começa a exposição a dos erros de H. a olho nu, confundindo eternamente cultura e natureza, principalmente o estado de natureza ou direito natural, concepções arbitrárias e no entanto universais no tempo de H.. Naturalizando (fetichizando, apud Marx) o Estado jurídico-moderno, imaginando a natureza enquanto o oposto da cultura letrada e filistéia exatamente como esse puro arbitrário e negativo pertencente aos primórdios do homem (sempre uma inferência nesses autores, sem qualquer base), que em realidade já vemos hoje como o próprio jogo de forças inútil e paralisante dos Estados-nações. H. serve no máximo como cura de um ultra-romantismo desenvolvido após a leitura descuidada de Rousseau (21.), mas sua Teoria do Estado chega a ser tão fabulosa quanto qualquer outra meta-narrativa antitética do período.

Estamos acostumados a partir da ficção de um estado natural, o qual não é, em realidade, um estado do espírito, da vontade racional, senão dos animais entre si. Por isso Hobbes observava, com razão, que o verdadeiro estado de natureza é a guerra de todos contra todos.” Como H. pode demonstrar tamanha lucidez ao mesmo tempo em que diz que o que vê (um número 4 gigantesco!) é tudo menos aquilo que vê (um 5 indesmentível)?!? Pois é isso que Hegel faz nessa passagem: reconhece que o estado natural é mero folclore, mas dá razão ao folclorista Hobbes (isto é, quase só falta afirmar que 2 + 2 = 5)! Nem os animais (quanto mais os humanos) vivem em guerra; a cadeia alimentar não pode ser comparada ao instituto-cultura humano(a) do conflito organizado. Essa analogia é desastrosa. Nada há de qualitativamente diferente entre o homem pré-histórico e nós. A estrondosa ingenuidade hegeliana se torna mais palpável quando se percebe seus 2 componentes principais: um biologismo rústico aplicado a um humanismo muito mal-concebido e distorcido (excessivamente confiante no Direito, no direito burguês, que é o mesmo que cria a ilusão do indivíduo livre, que ele tanto ataca como concepção desviante da legitimidade coletiva do Estado!), posto que estruturado à imagem e semelhança daquele primeiro, ainda que, nas piruetas sucessivamente negadoras do ‘Espírito’, pareça sua brilhante correção, i.e., o contrário do que é. Caminhando desde uma espécie de darwinismo social avant la lettre à apologia pura e simples da moral burguesa, nada se ganha nessa estreita jornada rumo à verdade do Espírito, num sentido hegeliano ou noutro qualquer.

Por isso se formulou acerca da República de Platão o juízo de que seu autor nela traça o chamado ideal de uma constituição política, que se cola logo à obra como um epíteto proverbial, no sentido de que esta concepção não passa de ser uma quimera, que pode, sem dúvida, se pensar e que seria também, tal como Platão a descreve, excelente e verdadeira, e mesmo realizável, mas só sob a condição de que os homens fossem excelentes, como talvez possam sê-lo na lua, mas não como é o homem na terra, com referência ao qual é simplesmente irrealizável.” Esse juízo de H. é correto: realmente é assim que a República é vista genericamente (como uma espécie de introdução à Ciência Política, como engenharia constitucional da Idade Antiga); e claro está que não pode ser chamado de um tratado político (empírico no sentido da empiria da ciência política, uma ciência de matizes ingleses – 18.), muito menos ainda de uma projeção de um ESTADO IDEAL (à guisa de um Thomas More)! Esse é, porém, um preconceito entranhado demais para se desfazer a essa altura. Enxergá-lo como um tratado ético do e para o filósofo, sem para isso tocar em nada que seja do Estado, é o mais raro entre nós. Hegel não pode enxergar a filosofia sem a questão do Estado embutida, mas nós podemos.

Eis a filosofia platônica da natureza: o mundo eterno, como o Deus bem-aventurado em si, é a realidade, não no mais-além, não na outra vida, senão que no mundo presente considerado em sua verdade, e jamais do modo que se oferece aos sentidos de quem apenas vê, escuta, etc., este mundo. Se consideramos assim o conteúdo da idéia platônica, veremos que Platão expõe, na realidade, a moralidade dos gregos em seu modo substancial, pois é a vida do Estado grego¹ e não outra o que forma o verdadeiro conteúdo da República de Platão. Platão não é homem que se perca em teorias e princípios abstratos; seu espírito verdadeiro sabe reconhecer e expor o verdadeiro.”

¹ Só um ligeiro corretivo: a vida dos espartanos, no máximo. O que os espartanos – modelo de constituição já realizada na História até o tempo de Platão que o filósofo mais admira, vivenciando já a decadência da democracia ateniense, iniciada no tempo de Sócrates, e não podendo concordar com o princípio da democracia que recai ou para o populismo ou para a tirania (um fenômeno nada estranho a nós!) – realizam em sua aristocracia bélica é o ponto de partida para Platão ir ainda além, mas não no sentido de além deste parágrafo de H., evidentemente (o outro mundo): ir além filosoficamente, ir além no raciocínio político-social imanente. Um homem dotado de arete poderá beber desse ensinamento em qualquer época da humanidade. O que mais separa Platão de Aristóteles, veremos, é que para Aristóteles e para a ciência política moderna, sua herdeira direta, Esparta seria uma espécie de ponto de chegada. A Platão não interessa estudar as boas práticas e os defeitos da constituição espartana historicamente falando, como um guia político para a posteridade. O que lhe interessa são os princípios gerais de um bom governo e de uma boa educação do povo que, enxergados indiretamente, via as instituições existentes num dado tempo (a Esparta do séc. IV a.C.), podem servir de norte atemporal do homem. Aristóteles diria “posto que temos isso, aquilo e aquiloutro, e nada mais, ‘isso’ é o máximo que se pode fazer em políticas; então façamos isso”. Esse é um curso de pensamento tão pobre comparado à Teoria das Idéias platônica de realização do potencial humano muito acima da simples pedagogia pragmática dos governantes que às vezes duvidamos que ambos tenham mesmo sido professor e aluno.

11.6.1 DAS QUATRO VIRTUDES DA POPULAÇÃO DA REPÚBLICA

A primeira virtude da República, obviamente, entre as 4 descritas por Platão, na ordem de maior para menor, é: a sabedoria, monopólio da minoria no píncaro da formação estratificada.

A segunda, a dos guerreiros, é a valentia.

A terceira, a dos comerciantes e demais profissionais liberais, é a temperança ou moderação.

A quarta, que deve ser praticada dos mais humildes aos mais sábios, é a justiça, a base incondicional da boa sociedade.

Sabedoria não é nada sem valentia. Valentia não é nada sem temperança. E temperança não é nada sem justiça. Conforme aumenta a posição hierárquica da casta, aumentam também a carga, a responsabilidade e o número de virtudes que se deve acumular.

CONTRASTE COM CÓDIGOS RELIGIOSOS OU PENAIS CIVIS: No momento em que é preciso começar a ensinar que não se devem cometer homicídios, já não há nobreza e justiça no coração dos homens. No momento em que se codificam as horas de lazer e as vestimentas, já nada há. Nem mesmo merece-se o qualificativo de escravo nessa situação. A República nada traz sobre isso.

11.6.2. CONTINUIDADE DA REPÚBLICA NO TEMPO

Os costumes não devem ser independentes das instituições; i.e., as instituições não devem se dirigir simplesmente aos costumes mediante estabelecimentos educativos, [formais], religiosos, etc. As instituições devem se considerar como o primordial, como aquilo que faz nascer os costumes, já que estes não são nada além do modo como cobram as instituições uma existência subjetiva. O próprio Platão dá a entender até que ponto espera encontrar contraditores. E entretanto hoje sói encontrar-se, como defeito seu, o de ser demasiado idealista: se é que cabe assinalar um defeito em Platão, este é cabalmente o de não ser idealista o bastante.” O que Hegel quer dizer é: Platão tem consciência de que nenhum Estado subsiste historicamente desta forma pela eternidade; há um apogeu, e há uma decadência, por mais que se tente preservar os costumes mediante as instituições, e as instituições espelhadas nos costumes. É esta queda que Platão exprime do modo mais incontroverso possível na República.

11.7 ESTÉTICA

Mas este algo geral não conserva, tampouco, a forma da generalidade, mas o geral é o conteúdo que tem como forma o modo sensível; nisso precisamente estriba a determinação do belo. Na ciência, o geral assume de novo a forma do geral ou do conceito; o belo, ao contrário, se apresenta como uma coisa real ou como uma representação em forma de linguagem, que é o modo pelo qual o real vive no espírito. A natureza, a essência e o conteúdo do belo só podem ser conhecidos e julgados pela razão, pois trata-se do mesmo conteúdo que tem a filosofia. Mas como a razão no belo [o a priori] se manifesta também de um modo real, [no fenômeno] temos que também o belo cai sob o prisma do conhecimento. [sensibilidade]Uma vez que a Crítica da Faculdade do Juízo, de Kant, é apenas uma variação do tema da Estética platônica, economizaremos em nosso curso citando apenas os pensamentos de Kant fora da ciência estética no capítulo 22.

11.8 CONCLUSÃO

Com o dito, fica exposto o conteúdo fundamental da filosofia platônica. O ponto de vista de Platão é este: em primeiro lugar, aparece a forma fortuita do diálogo, em que aparecem conversando uns tantos homens nobres e livres, sem outro interesse que não o da vida espiritual da teoria; em segundo lugar, à medida que vão mergulhando no conteúdo, descobrem os mais profundos conceitos e os mais belos pensamentos, como pedras preciosas com que se tropeçasse, não num deserto, mas propriamente num caminho seco e pedregoso; [não num meio estéril, mas numa trilha em que é possível avançar, apesar da esterilidade das opiniões] em terceiro lugar, não encontraremos aqui nenhuma conexão sistemática, ainda que tudo emane e flua de um só interesse” Hegel ainda nos dá mais duas etapas, mas elas não nos interessam.

12. ARISTÓTELES

12.1 O VERDADEIRO TAMANHO DO LEGADO DE ARISTÓTELES; DISTORÇÕES HISTÓRICAS DE HEGEL.

Embora o sistema de Aristóteles não apareça desenvolvido em suas partes partindo do conceito mesmo, mas como uma série de partes que caminham lado a lado, não resta dúvida de que [as partes] formam uma totalidade de filosofia essencialmente especulativa.” Para H. isso é um grande mérito, devido às ‘semelhanças’ que encontramos entre o próprio H. e Aristóteles. Para nós, não obstante, este consiste no maior defeito destes dois filósofos.

Uma razão para ser prolixo, tratando-se de Aristóteles, temo-la em que nenhum outro filósofo fôra objeto de tanta injustiça por parte das tradições totalmente órfãs de pensamento que se mantiveram à margem de sua filosofia e que ainda se acham na ordem do dia hoje, apesar de ter sido este pensador, durante longos séculos, o mestre de todos os filósofos.” “E, enquanto que lê-se muito Platão, o tesouro da obra aristotélica permaneceu pouco menos que ignorado séculos e séculos, até vermos reinando, até os tempos mais recentes, os mais falsos prejuízos em torno de Aristóteles.” Totalmente ao revés! A Escolástica bebeu de Aristóteles; Platão era um anexo turvo para todo um milênio, e por isso a filosofia afundou tanto na Idade Média!

É, por exemplo, uma opinião muito generalizada a de que a filosofia aristotélica e a platônica se enfrentam e opõem uma à outra, concebendo-se esta como baseada no idealismo e aquela como baseada sobre o realismo, o realismo mais trilhado e trivial.” Opinião generalizada corretíssima!

Alexandre o Grande, quando em meio a suas conquistas e achando-se já muito dentro da Ásia inteirou-se de que Aristóteles havia dado a conhecer em obras especulativas (metafísicas) a parte acromática¹ de sua filosofia, enviou-lhe uma carta reconvidando-o a dar a conhecer ao povo vulgar os frutos dos trabalhos e investigações de ambos;² a isso Aristóteles retrucou que, apesar de lhe haver dado a conhecer esta filosofia (ao povo chão), os resultados seguiriam tão desconhecidos como antes. (Aulo Gélio, Noites Áticas)”

¹ Refere-se ao mito comum de que haja uma vertente esotérica (de elite, filosófica, propriamente dita) e outra popular ou vulgar em certos autores como Platão e Aristóteles, em que a gente comum pudesse lê-lo e entendê-lo. A acromática seria esta “filosofia” vulgar (exotérica) para iniciantes. Talvez a origem do termo seja a constatação pejorativa de que esses trechos são sem cor e sem vida, inertes, desbotados? Hahaha! (acromatia: aquilo que não tem cor) Fato é que este trecho comprova que: 1) não havia esta divisão binária e didática na filosofia aristotélica, nem provavelmente em qualquer outra; 2) mesmo uma filosofia exotérica não é absorvida ou compreendida pelo povo, se é séria; ou seja, por mais elitista que soe o discurso, toda boa filosofia é esotérica, para poucos espíritos ilustrados. Há, é claro, pseudo-filósofos, mas esses realmente só escrevem para o povo, e não têm conteúdo esotérico apreciável.

² É sabido que Aristóteles foi o mestre de Alexandre, mas daí a conceber que Alexandre filosofou ao lado de Aristóteles, sendo co-responsável de seus escritos, é um exagero!

O que na educação deste personagem pode ser atribuído ao ensino filosófico de Aristóteles é o haver sabido libertar interiormente seus talentos naturais, a peculiar grandeza de seus dotes de espírito, elevando-os a um plano de completa independência consciente de si mesma, como o vemos comprovado melhor que nunca nos próprios fins buscados por Alexandre e em seus feitos. Alexandre alcançou, com efeito, essa absoluta certeza de si mesmo que só a intrepidez infinita de pensamento e a independência do espírito diante dos planos especiais, pequenos e limitados permitem. Essa intrepidez o elevava à finalidade perfeitamente geral que o animava: a ambição de organizar o mundo numa vida e num intercâmbio comuns e coletivos, mediante a fundação de Estados subtraídos à individualidade contingente e fortuita.

Alexandre pôs em prática, dessa forma, o plano que já concebera seu pai sem haver podido chegar a realizá-lo: o de se colocar à cabeça dos gregos para vingar a Europa na Ásia e submeter a Ásia à Grécia; de tal modo que, assim como no começo da história da Grécia os gregos haviam marchado unidos na guerra contra Tróia, esta união servira agora de final e de remate ao verdadeiro mundo helênico.” Tem certeza que os motivos de Filipe e Alexandre eram tão coletivos e étnicos e, o que é pior, alheios à própria dinastia? Seria único na História do Mundo, efetivamente. Não creio que Alexandre tenha submetido a Ásia para “se vingar pela Grécia”, isto me parece um daqueles absurdos possíveis apenas no Hegelianismo…

SUPERESTIMA ARISTÓTELES A PONTO DE CONCEBÊ-LO COMO MASTERMIND POR TRÁS DAS AÇÕES DE ALEXANDRE: “primeiro visitou e consultou o oráculo dos amonitas (hoje, Siwa), procedendo logo a destruir o reino persa e incendiar Persépolis, a velha inimiga da teologia hindu, para se vingar, assim, de todas as vexações causadas por Dario contra os hindus e seus irmãos de religião.”

Pularei o relato de que Aristóteles foi o dono da primeira biblioteca do mundo, pois toda essa história já está muito detalhada em meu post HIPÓCRATES OBRAS COMPLETAS VOL. I, nos prefácios especiais de Littré a essas obras, acessível em https://seclusao.art.blog/2021/04/07/les-oeuvres-completes-dhippocrate-tome-premier-trad-classica-de-littre/.

Tem diante de si a intuição em sua integridade e plenitude, e nada passa por alto, por muito vulgar que isto ou aquilo sejam.” Deveríamos criar o termo endução para explicar os casos de indução e dedução (ou endo-ção, de fora) indistintos (raciocínios perfeitos que são ambos e nenhum, não são de dentro nem de fora, apenas são).

ORA, ORA, SE NÃO É DEUS! “Ao enfocar todos os momentos contidos na representação, como se formassem uma unidade, não prescinde de nenhuma determinabilidade, não se atém primeiro a uma determinação e logo depois a outra, senão que afronta-as todas a um só tempo, enquanto que a reflexão intelectiva, [Platão] que tem como regra a identidade, só pode sair adiante com ela pela simples razão de que, ao afirmar uma determinação, olvida [ignora] a outra e dela prescinde.” Infelizmente, ainda que fosse verdade, precisamos de novos deuses e novas verdades… Claramente Aristóteles é venerado com toda a parcialidade por H. e não podemos levar sua resenha deste filósofo muito a sério!

O empirismo de Ar. é um empirismo total, posto que ele o leva, de novo, constantemente, à especulação; podemos, então, dizer que, como empirista consumado, é, ao mesmo tempo, um espírito pensante.” Já vimos esse movimento se consumar umas 300x na História; estou nauseado…

12.2 METAFÍSICA ARISTOTÉLICA

Aristóteles distingue, mais detalhadamente, 2 formas fundamentais: a da potência e a do ato.” GROSSO MODO, podemos dizer que a fonte de toda a concepção da síntese hegeliana está aqui (voltar aos trechos em negrito do 2.3): essência e aparência, racional e real, em-si e para-si. Importante frisar que o segundo, embora o fenômeno não seja o principal de Hegel, posto que seu “deus”, por assim dizer, é a Razão, é importantíssimo como esteio da essência compreendida no mundo antigo como enteléquia e hoje como teleologia ou ciência dos fins. Devemos entender o fenômeno nesse mais nobre sentido, em que participa da dialética da enteléquia, para não gerar mais dúvidas, como o nível de realidade consumada ou efetiva, ou seja, em que o Espírito exerce toda sua potência, no que Hegel chama de O CONCRETO (APARÊNCIA) ELEVADO A CONCEITO (aparência que Aristóteles chama de substantia – em oposição à Idéia platônica, que ele entendeu unilateralmente –, mas ambos são o mesmo); e no que eu chamaria de ‘fenômeno sagrado’, se posso ‘blasfemar’ o vocabulário hegeliano e neologizar à minha maneira e à minha conveniência para facilitar meu trabalho e a compreensão que o leitor deve ter de Hegel ao fim desta excursão. Muito se dirá em autores modernos pré-hegelianos que a substância é a matéria viva, em movimento ou, propriamente, contempladas por nós, i.e., não de uma maneira estritamente mecanicista (como na Física).

Curiosamente, Hegel é o acme do Idealismo e seu centro nevrálgico é o concreto ou empírico. Na filosofia subsecutiva, que teve de reparar seus pontos de vista, temos o império da Fenomenologia, em que o centro tem de ser a própria potência ou vontade (configurando a ‘substância pós-moderna’), que havia sido menosprezada até ali como provocadora última da realidade. Fazendo uma última simplificação, podemos assinalar a filosofia pós-platônica e pré-Marx-nietzscheana como excessivamente preocupada com o começo e o fim; e as filosofias DE PLATÃO SOMENTE, NA ANTIGUIDADE INTEIRA, e de Marx, Schopenhauer e Nietzsche EM DIANTE como aquelas atentas ao devir. Não preciso, espero, ter de ressalvar que a genealogia e a teleologia continuam sendo tratadas dentro da fenomenologia do séc. XX em diante e que o devir já era “conhecido” e tratado até mesmo pelos insofisticados pré-socráticos. O que eu quis dizer é que o eixo de preocupação de primeira plana sofreu uma inversão quase simétrica em termos do que é o objeto da filosofia. Numa sentença, regressamos a Platão e reiniciamos de onde ele havia parado, com alguns conselhos muito úteis achados no caminho do calvário que antecedeu nossa chegada ao deserto chamado fim do milênio. (!!!)

INFINITO É O FENÔMENO (A AÇÃO): “quando dizemos a essência, não estabelecemos com isso, ainda, a atividade, pois a essência é somente o em-si, a potência, sem forma infinita.”

Portanto, enquanto que o predominante, em Platão, é o princípio afirmativo, a idéia, como algo somente idêntico consigo mesmo no abstrato, em Aristóteles predomina o momento da negatividade, mas não como mudança, nem tampouco como o nada, senão como distinção, como determinação, destacado por ele enquanto tal. Este princípio da individuação, não no sentido de uma subjetividade contingente, particular, senão no sentido da subjetividade pura, é característico de Aristóteles.” O principium individuationis como o erro do milênio ou, antes, dos últimos três milênios!

O devir de Heráclito é uma determinação certeira e essencial; mas, em compensação, carece ainda da determinação da identidade consiga mesma, da firmeza da generalidade. O rio se modifica constantemente, mas se mantém também perene e tem, ainda mais, uma existência geral.¹ De onde se deduz imediatamente que Ar. (Metafísica IV, 3-6) polemiza principalmente contra Heráclito e outros quando diz que o ser e o não-ser não são um e o mesmo, fundamentando assim aquela famosa tese da contradição de que um homem não é ao mesmo tempo um barco.” Hahaha?!

¹ Quando Nietzsche diz que Heráclito poderia ter enunciado o eterno retorno, o que quer dizer é: faltava-lhe a condição subjetiva para afirmar a figura de linguagem do rio (o eterno, a essência) como aquilo que também se desdobra sobre si mesmo em fenômeno, repetindo-se como aparência e transitoriedade finita e fugidia (além das águas deste rio, o próprio rio, que no fim de contas é apenas um subterfúgio para se referir ao universo).

PRESENTE ETERNO (Conceito escolástico influenciado por Ar.): “Deus é a substância [ponto de encontro] em cuja potência vai também implícito, como algo inseparável, o ato; nela, a potência não se distingue da forma, já que produz a partir de si mesma suas determinações de conteúdo.” Aristóteles cria que a Idéia de Platão estava situada fora do tempo, portanto do presente, do movimento e da realidade (existência); por isso achava ter reparado Platão. Tão ingênuo quanto parece! Nível de argumentação: “Meu absoluto é melhor que o seu! Crê em Deus-Pai!”.

Deve-se considerar como a verdadeira essência, prossegue Ar. (Metaf. XII, 7) o que se move em si mesmo, o que ‘se move em círculo; e isto não se deve buscar somente na razão pensante [principium cognoscendi], senão também no fato’. (…) Como o igual a si mesmo e como algo visível, esta essência absoluta é ‘o céu eterno’; 2 modos de representação do absoluto são, portanto, a razão pensante e o céu eterno.” Formulação superingênua do eterno retorno.

CURIOSA NOTA DE RODAPÉ, DEMONSTRANDO QUE AS AULAS DE HEGEL ERAM PESADAS, INSOSSAS E CONFUSAS, E QUE O FORMATO FINAL DO LIVRO É MAIS LEVE DEVIDO À INTERFERÊNCIA DOS DISCÍPULOS: “Como esta explicação hegeliana da famosa passagem de Aristóteles tem em seu favor o testemunho de tantas autoridades, o editor não pode seguir aqui, como tantas vezes no transcurso dessas Lições, a norma estabelecida pela sociedade de amigos de Hegel a cujo encargo corre a edição de suas obras, que é a de corrigir tacitamente os erros e inexatidões que tenham podido deslizar pela exposição do autor. É evidente, de todo modo, que Ar. fala de 3 substâncias de um mundo sublunar, que move o firmamento; do firmamento mesmo, como o centro, que é ao mesmo tempo o motor e o movido, e de Deus, como o motor imóvel.” Frase original de H., para contrastar: “O céu é algo movido e é também, ao mesmo tempo, algo que move. E sendo, assim, o esférico algo tanto movente como movido, tem que haver necessariamente um centro que mova, mas seja por si mesmo imóvel e, simultaneamente, eterno e uma substância e a energiaSuas sentenças não são pontuadas, e vai elencando sinônimos após as conjunções de ligação como se enriquecesse a exposição (por si inócua) acrescentar mais nomes e sinônimos ao que já tinha nome (Deus), e aumentando a barafunda do que é, pois que estas coisas são também outras coisas: enfim, que o primum mobile ou deus aristotélico é também ETERNO (Qual a definição de eternidade? Há algum deus que seja mortal ou limitado?), é também SUBSTÂNCIA (Qual a definição de substância? Por que não é redundante ser Deus e substância ao mesmo tempo?), é também ENERGIA (Qual é a definição de energia? Por que não é redundante ser Deus, substância e energia tudo ao mesmo tempo? No que deus ficaria pior se fosse retirado algum desses sinônimos arbitrários?)!… Uma absoluta perda de tempo – e energia!

Me parece incrível, fabuloso até, que nem Ar. nem H. tenham percebido que só estão reescrevendo Platão sem o mesmo talento literário (ou percebem-no, mas fazem disso, dessa redação tecnicista, seu cínico ganha-pão): “Este sistema dura eternamente. ‘Mas a nós [como indivíduos] só por um breve tempo nele nos está reservada uma residência, que é a mais excelente que poderíamos desejar.’E ainda mais: o “filósofo da ação” (Ar., segundo a introdução de H.) é o mais contemplativo de todos! “o pensamento é fim último e absoluto para si mesmo.”

O momento fundamental da filosofia aristotélica consiste, portanto, em que a energia do pensamento e o pensado objetivo sejam uma e a mesma coisa” Ironia: Aristóteles cobra o porquê do Bem, p.ex., de Platão e Leucipo, mas tampouco dá o seu porquê energético. Não que seja um defeito seu; a energia é a mera referência de uma força física, e portanto um não-conceito, filosoficamente falando; o simples infundamentado e inessencial sobre o qual não se deve falar. O que pega mal é a hipocrisia do Estagirita (epíteto aristotélico): o parco entendimento dos outros (hipercrítica que exerce sobre o próprio mestre) e a excessiva indulgência em relação a si mesmo (a própria filosofia não é depurada e desenvolvida como seu lado crítico da tradição nos faz pensar que fosse capaz). Nesse sentido ele é o pai ancestral de filósofos como Deleuze!

BLÁ, BLÁ, BLÁ… “Em nossa linguagem, designamos o absoluto, o verdadeiro, como a unidade do subjetivo e do objetivo que, portanto, não é um nem outro, ainda que seja ambos de uma vez; pois bem, Ar. se debatera com estas formas especulativas, que ainda hoje seguem sendo as mais profundas, e as expressou com a maior clareza. (…) A unidade é, portanto, uma expressão ruim, antifilosófica, e a verdadeira filosofia não é o sistema da identidade, [referência a Platão] mas seu princípio há de se buscar numa unidade que é atividade, movimento, repulsão e, na distinção, algo idêntico a si mesmo.” Tudo isso continua a nos mostrar que, se queremos derrubar Hegel de vez, devemos levar também tudo de aristotélico a pique!

12.3 FÍSICA ARISTOTÉLICA

No que se refere ao outro caso, ou seja, a diferença entre o pesado e o leve, que se aprecia nos corpos mesmos, temos que aquele se move mais ligeiramente que este através do mesmo espaço; ‘mas esta diferença se dá somente no espaço cheio, pois o corpo pesado separa mais rapidamente o cheio, graças a sua força’. Esta concepção é absolutamente exata e vai dirigida principalmente contra uma série de representações que fazem estragos em nossa física. Estas representações [fenômeno observável] acerca do movimento igual do pesado e do leve, como as que se referem à gravidade pura, [una] ao peso puro, à matéria pura, etc., são uma abstração, como se se tratara de coisas iguais em si e diferentes somente pela resistência casual do ar. [múltipla]¹Aristóteles não tem ‘culpa’ alguma de não conhecer a aceleração da gravidade em uma mesma pressão atmosférica, mas Hegel não deveria ignorar Newton! Lembrando que nesta parte não se procede exatamente à história da filosofia, mas da própria física…

¹ Hegel confunde os reinos da aparência e da essência, como se a essência fosse figurada na própria representação! Mas, apesar do modo oblíquo que elegeu para se expressar, Hegel não colide aqui com o modelo da física experimental (contra o que ele mesmo pensa): o que ele quis dizer é simplesmente que não existe o vácuo perfeito, então, na prática, se um bloco compacto de uma liga metálica muito pesada, digamos, de 1 tonelada, cai retilineamente por um abismo ao lado de uma pessoa de 80kg, por mais que essa pessoa seja maior que o bloco e possua ‘mais superfície’ (sofrendo a resistência do vento oposto em uma área maior que a do bloco), não significa que ambos chegariam ao fim do abismo – que deveria ser profundo o suficiente – simultaneamente (após o fim da aceleração da gravidade e o começo da trajetória em que ambos cairiam a 10m/s, uniformemente), pois a resistência do ar ainda seria maior contra o bloco de metal, mais ‘pesada’, anulando sua massa gravitacional. Um tubo de ensaio em que o vácuo perfeito fosse possível seria contraditório com o célebre modelo das ‘quedas idênticas’ porque aí já nem haveria possibilidade de queda dos corpos, apenas repouso. Isso serve para nos darmos conta da futilidade da física como ensinada nos livros-textos escolares em enunciados de exercícios matemáticos: “desprezando-se a resistência do ar, etc.”

Quando a água se converte em ar, ganha em extensão; mas a matéria segue sendo a mesma, sem que a ela se some nenhuma outra coisa distinta: o que ocorre é que o que antes era em potência é-o agora em ato.” Também é incrível como o mundo moderno levou tantos séculos para chegar ao mesmo entendimento formal. Dito isto, Ar. continua péssimo metafísico; mas exímio cientista natural!

Dão uma de espertos aqueles que nos reprovam o fato de incluirmos entre os elementos a água, o ar, etc. Mas nem sequer sob o nome de ‘neutralidade’ os físicos modernos chegaram a uma generalidade concebida como unidade, como a que Ar. atribui aos elementos; em realidade, o hidrogênio, quando combinado com uma base, não segue existindo como tal, segundo às vezes se afirma, dentro da nova combinação.” É verdade que o modo descritivo moderno é pobre, mas H. se esforça além do aceitável para encimar Ar. sobre a Física moderna, vendo na física do Estagirita algo mais do que é.

12.4 ÉTICA ARISTOTÉLICA

RESERVATÓRIO: “O pensamento se converte em entendimento passivo, isto é, em algo objetivo; e assim se aclara agora até que ponto é o nihil est in intellectu, quod non fuerit sensu [nada está no intelecto que já não tenha sido sentido/passado pelos sentidos] o sentido [pun not intended] da filosofia de Ar..” Não pode ser pensado aquilo que não foi sentido Não pode ser pensado aquilo que não foi pensado, pois intelecção e sensação estão imbricados. Tudo que foi pensado foi sentido, etc., etc.. E implicações com os trechos destacados por Derrida na Enciclopédia. (ver link, já citado em outro capítulo, novamente referenciado nas referências bibliográficas ao final)

Quando o conhecimento é mau ou inclusive inexistente, mas o coração, apesar disso, se comporta bem, poderá, segundo Ar., existir bondade, mas não virtude, já que falta o fundamento, ou seja, a razão, sem a qual a virtude não pode existir.” Sempre traduzir conhecimento na Ética de Aristóteles como sabedoria no sentido schopenhaueriano, para facilitar. E coração como o verdadeiro ethos contemporâneo. Ar. repercute aqui o mito do burro bom. Na verdade eu entendo que ele pode ser no máximo inofensivo (já que a maioria dos burros é realmente ). Falo em Schopenhauer, porque ambos são concordes neste aspecto (diferença entre sabedoria e caráter). Já eu descartaria a existência de um burro bom, ou dum inteligente mau: sabedoria e caráter estão acoplados no caráter do indivíduo, muitas vezes com sua índole ou inteligência camuflada (no caso dos pseudosábios, que são maus mas ocultam sua falta de inteligência socialmente; e dos pseudobons, que são burros mas só não aparecem como maus por falta de oportunidades para exercer a maldade publicamente).

Daí que Ar., segundo víamos, censure Sócrates por condicionar a virtude exclusivamente ao conhecimento.” Naturalmente que Ar. censura Sócrates, pois que não o entendeu. Aristóteles endeusou (literalmente!) a Razão, mas não entendeu tampouco a razão socrático-platônica: não significa usar o pensamento ou acumular informações. Significa ser sábio. Logicamente, o sábio socrático é virtuoso. Não existe inteligência, para Sócrates, dissociada de caráter – logo se vê que minha concepção descrita acima não é original, mas que sou partidário de Sócrates e Platão neste tema! Ar. entende que aquele que possui a ciência filosófica alcançaria como que por milagre noções éticas em Sócrates e Platão, o que é distorcer seus pensamentos! É muito fácil estereotipar esse entendimento, dizendo que para Sócrates a virtude era uma iluminação individual. Mas esta não é a correta leitura da doutrina platônica (e afinal não sabemos exatamente o quanto da concepção socrática da virtude é apenas uma criação platônica ou não). A ocorrência moderna que chamamos de “erudito que na verdade não passa de velhaco” não refuta ‘a ingenuidade socrática’: ele é um erudito, pois que seja, porquanto querem chamá-lo de erudito, ou permitem que se chame a si de erudito; isto não importa para nós! Ele é um hipócrita que nada tem que ver com a figura do sábio. Tampouco pode-se chegar a essa condição por esforço. Daí a força atual que conserva a metáfora da reminiscência em Platão: ou se nasce bom (sábio) ou mau (ignorante). O fato de uma criança ainda ser ignorante tampouco refuta a tese: através da reminiscência, aquele nascido sábio reencontrará a sabedoria que já está dentro de si. Outro exemplo: um político maquiavélico é tolo, pois não compreende que tudo é vaidade.

Por conseguinte, na virtude, enquanto esta tende à realização e é atributo do indivíduo, não se pode dizer que seja a razão o princípio único, senão que é a inclinação o elemento propulsor, concreto, o que precisamente na prática e no sujeito tende à realização.” Hegel descreve apropriadamente Ar.. O grifo verde se destina a criticar a compreensão aristotélica da moral: ele decompõe a conduta ética em teórica e prática. Sua delimitação ética é sem dúvida a que norteia a disciplina Ética moderna. Porém, isso é um mal, um retrocesso em relação a Platão. Nietzsche foi o primeiro filósofo a apontar tal erro. A virtude é um atributo inato do indivíduo. Não se pode realizar a virtude quando é-se dela carente, daí a ilusão de que alguém dotado da capacidade teórica (todo homem) de ser virtuoso falha na execução (só executa a virtude aquele que nasceu virtuoso e sábio). Ter conhecimento teórico da virtude e não aplicá-lo na prática é o mesmo que dizer que é-se meio-virtuoso, virtuoso incompleto. Ora, ou é-se virtuoso ou não se o é. É redundante falar em virtude não-realizada, por isso Aristóteles discorda de Platão – pois crê que vale a pena falar desse tipo de meia-virtude. A razão é o princípio único, porém não a razão aristotélica. Isso faz com que Aristóteles tenha de recorrer à ‘inclinação’ como elemento propulsor, uma nomenclatura vazia. Essa inclinação é inata à razão corretamente compreendida no platonismo, e não existe tal decomposição em 2 palavras ou conceitos, em que um se subordina aleatoriamente ao outro. Assim, não é que a Ética seja uma disciplina voltada à prática; ela é teórico-prática, uma unidade, desde o início. Mas o homem moderno não enxerga a validade do teórico, preferindo expulsá-lo do campo ético.

ainda que se tenha censurado como algo muito insuficiente e indeterminado o fato de que Ar. determine a virtude mais como uma diferença de grau, há que se reconhecer que isto é algo que está implícito na natureza mesma da coisa. A virtude, e mais que nenhuma outra a virtude determinada, entra numa órbita em que ocupa um lugar o quantitativo; o pensamento aqui não permanece em-si, sendo indeterminado o limite quantitativo.” Essa definição é satisfatória no mundo dos moralistas e autores de auto-ajuda, no mundo dos comuns e plebeus. Para um filósofo, é um achado muito aquém do desejável.

Aristóteles se dava conta, mais ou menos claramente, [?] de que a substância positiva, a necessária organização e realização do espírito prático no Estado, é realizada por meio da atividade subjetiva de tal modo que esta encontra naquele sua determinação. Por isso também é que Ar. vê na filosofia política toda a filosofia prática e o fim do Estado como a felicidade geral. [eudemonismo]De novo, o mesmo erro. Não existe política apenas prática. A ciência política moderna é Aristóteles desenvolvido: é o que temos, mas não é ciência nem um conhecimento sobre política, ainda. Uma verdadeira ciência política seria A República desenvolvida sobre a Terra, na educação dos povos.

o princípio moderno, segundo o qual a vontade particular do indivíduo se erige, como o absoluto, no ponto de partida; [a revolução francesa] e assim todos contribuem, mediante a emissão de seus sufrágios, para decidir o que há de reger como lei, estabelecendo a comunidade sobre estas bases. Em Ar., ao contrário, como em Platão, o Estado¹ é o prius, [fundamento originário, pressuposto, dado a priori] o substancial, o fundamental, pois seu fim é o mais alto de todos, desde o ponto de vista da prática.”²

¹ Essa generalização de H. pode custar muito caro em mal-entendidos: “Estado” significa coisas diferentes para Platão, Aristóteles e para o próprio Hegel.

² O leitor fica tentado a se perguntar: se o princípio moderno é o individual e o princípio antigo é o coletivo, qual deve prevalecer, qual é o melhor? A resposta curta e grossa é: nenhum. Não podemos mais defender uma Teoria do Estado, nem tampouco continuar com os pressupostos do Liberalismo, que institui o Homo oeconomicus atomizado, um inútil político.

Nenhum país como a Grécia abundava tanto em múltiplas constituições quanto em variações dentro de cada uma delas num só Estado, apesar do quê os gregos não chegaram a conhecer em nenhum momento esse direito abstrato dos Estados modernos que isola o indivíduo, deixa-o viver como quer e, não obstante, mantém-no em coesão com todos os outros como num espírito invisível, de tal modo que em nenhum se dê nem a consciência nem a atividade com vistas ao conjunto, mas que cada qual atue para o todo, sem saber-se bem como, tão-só na medida em que se o reconhece essencialmente como pessoa e em que só se preocupa com a proteção de sua individualidade.¹ É uma atividade dividida, de que cada um só tem em suas mãos um fragmento: analogamente como, numa fábrica, ninguém forma um todo, senão só uma parte, e não possui as demais habilidades necessárias, já que somente alguns determinam a coesão do conjunto.” Trecho fundamental para a funda(menta)ção do Marxismo.

¹ H. exagera – e muito – a “perfeição” desse tipo de sociedade…

A liberdade burguesa, nesse sentido, consiste precisamente na carência do geral, no princípio do isolamento; mas esta liberdade constitui um momento necessário que os antigos Estados não conheciam” É como dizer que Diógenes, o Cínico era uma existência necessária – quase uma confissão de messianismo!

só agora torna-se possível a consistência interior e a indestrutível generalidade, real e consolidada em suas partes.” O Estado moderno é realmente muito consistente – como exemplifica muito bem a arbitrariedade racional-legal chamada Israel –; só esperamos que não seja exatamente indestrutível! Felizmente, entretanto, Hegel não perde muitas páginas comentando a Política de Ar., um livro ao meu ver extremamente defasado, talvez o mais obsoleto do próprio autor. Como H. deixa claro, a política, em Ar., como atividade prática, está contida na sua Ética (sobre ética, Aristóteles escreveu 3 livros, dos quais temos 2 inteiros e fragmentos de um 3º).

12.5 LÓGICA ARISTOTÉLICA

Os conceitos determinados se predicam com união ou sem união: assim, p.ex., cabe dizer: o homem vence, o boi anda, ou então: o homem, o boi, vencer, andar.”

As determinações da lógica aristotélicas já foram há muito tempo absorvidas por todos os que filosofam. Quatro noções básicas (abaixo resumo 3 delas) são: o gênero, o geral, o particular e o individual. Hoje achamos tudo isso muito “bobinho” e autoevidente.

EXPLICAÇÃO CONTIDA NA DEFINIÇÃO DE GÊNERO: “O conceito é uma realidade lógica e, portanto, algo em si puramente pensado, i.e., possível. No juízo, postula-se o conceito A como um sujeito real e se o combina com outro algo real, como conceito B; trata-se de que B seja o conceito e de que A se ache dotado de ser com respeito àquele, mas B é somente o conceito mais geral. No silogismo, trata-se de imitar a necessidade: ao passo que no juízo contém-se a síntese de um conceito e um dever-ser, no silogismo dá-se a tal síntese a forma da necessidade, equiparando ambos os termos contrapostos dentre de um terceiro como através do termo-médio da razão, p.ex. no justo meio da virtude. A premissa maior expressa um ser lógico, a menor uma possibilidade lógica, uma vez que Caio [nome próprio] é, para a lógica, um algo simplesmente possível; a conclusão serve de laço de união entre ambos os termos.” Pela explicação, parece muito mais difícil do que é!

Há um problema com a Lógica aristotélica quando avaliada por Hegel, pois falta-lhe a noção do Absoluto, presente na lógica hegeliana. Por isso, o “geral” em Ar. é uma determinação “pobre”, aquém do “geral moderno”, ou geral em H. Veja abaixo:

O GERAL: Aquilo que não é nem ser-em-si (essência, potência, o abstrato) nem ser-para-si (aparência, ato, o concreto). Porém é algo determinável, via diferenciação (pelo princípio da individuação de Aristóteles).

O PARTICULAR: O concreto, partícipe do geral, a aparência que o sujeito pode nomear como momento seu. O predicado determinado-com-referência-a. Poderíamos dizer que se houvesse a reflexão sobre a reflexão nesse processo, seria o Absoluto hegeliano (o ser-em-e-para si); mas aqui não há este desdobrar e retornar a si mesmo da consciência individual, então o processo é incompleto.

O INDIVIDUAL: A aparência pura (fenômeno, representação). O predicado indeterminado. Chamado, em outro tópico do livro, de categoria da substância. Como é mera ação cega, um nível abaixo da concretude, mal é conceituável.

Enfim, ‘memorizar’ essas sutilezas a nada leva, senão que o raciocínio filosófico e o pensamento lógico se formam naturalmente no filósofo. O acrescer o tempo todo homônimos só confunde a cabeça dos neófitos.

A segunda obra [a Lógica é dividida em vários livros desde a Antiguidade, mas hoje todas essas partes compõem um só livro] é a que versa sobre a interpretaçãoProvavelmente o que hoje ensina-se como RACIOCÍNIO LÓGICO propriamente dito. Proposições, verdade ou falsidade (inferência e juízo do conteúdo que se contradiz).

13. A RESSACA: FILOSOFIA PÓS-PLATÔNICA E PÓS-ARISTOTÉLICA

13.1 ESTOICISMO, EPICURISMO, CETICISMO & OUTRAS ESCOLAS PERIFÉRICAS DO PENSAMENTO: UMA VISÃO COMPARATIVA.

Com efeito, se os estóicos remontassem sobre o simples conceito de agir ao serviço do fim que é em-si e penetrassem no conhecimento do conteúdo, não necessitariam expressar isto como um sujeito. A própria conservação racional do homem é, para eles, a virtude.” A filosofia estóica é uma primeira desagregação, ou segunda, após Aristóteles, da ética teórico-prática platônica: é quem dita uma ética apenas prática, como o Ocidente já a entende, mas unilateral de acordo conosco, pois que necessita da “escola gêmea”, o epicurismo, para ser total, ser uma ética completa da virtude prática (que já é em si inferior ao platonismo).

A realidade moral consiste precisamente nisto, em ser; pois do mesmo modo que a natureza é um sistema permanente e ente, [ser, contido em si mesmo, ‘independente’ do homem] também o espiritual tem que ser isso: um mundo objetivo. Mas a esta realidade não chegaram os estóicos. E este pensamento poderia se expressar também assim: sua realidade moral é só o modo, [a forma] um ideal e não uma realidade” A.k.a. Platão, principalmente n’O Banquete e no Fédon. Afinal, quem nunca foi queimado dentro dum cavalo de madeira nem cortou a própria jugular a mando do imperador nem tomou de livre e espontânea vontade a cicuta após ser condenado na assembléia ateniense nada pode discorrer sobre essas 3 consumações (a morte ‘dolorosa’): não pode dizer que morrer queimado vivo é em si pior ou melhor do que infligir-se um corte ou tomar veneno, ou mesmo que ser banido de sua polis. O sábio resigna-se ao seu fado, e é só.

H. começa a especular, p.ex., se estaria vivendo estoicamente um estóico que declarasse que é irracional, em que pese de certa forma natural, respeitar a propriedade privada, para polemizar com os apologistas do ideal estóico (já que isso não parece ter importância alguma no estoicismo concreto ou histórico): “Tratar de justificar por meio de um fundamento semelhante conteúdo é, por conseguinte, confundir o conhecimento das coisas em detalhe com o conhecimento de toda a realidade; é a superficialidade do conhecimento que se nega a reconhecer algo por não reconhecê-lo desde tal ou qual ponto de vista ou em tal ou qual aspecto, e única e exclusivamente porque só indaga e conhece as razões imediatas, sem que possa saber se existem também outros aspectos e outras razões.”

sou eu, então, quem faz surgir estas razões sábias e boas. Não são as razões mesmas a coisa, o objetivo, senão que são obra de minha livre vontade, do meu capricho, algo de que me valho eu para justificar ante mim mesmo minhas nobres intenções” Para o sábio, isto faz sentido e é seu mundo – para a maioria massacrante da população, não.

A firmeza formal do espírito que se abstrai de tudo não nos sugere nenhuma evolução de princípios objetivos, mas apenas um sujeito que se mantém em pé nesta imutabilidade e nesta indiferença, não cega, porém querida; e nisto consiste a infinitude da consciência de si mesmo.” “A força da repulsa à existência é grande e a energia desta atitude negativa, sublime.” “Ao desaparecer a existência política e a realidade moral da Grécia, e quando mais tarde tampouco o império romano pôde encontrar satisfação no presente, este mundo se recolheu sobre si mesmo, buscando dentro de si o justo e moral que havia desaparecido já da vida geral exterior. § Platão proclamou o ideal de uma república, ou seja, de uma vida racional dos homens dentro do Estado, pois esta vigência do direito, moralidade e costume era, para ele, o fundamental, o que forma o lado da realidade do racional; e só mediante este estado racional do mundo podia, segundo ele, existir a harmonia do exterior com o interior, neste sentido concreto.” H. superestima a esperança platônica de que teríamos o Estado do sábio, que fosse um programa para seguir, ainda que não fosse uma utopia no sentido de Thomas More. Como o próprio H. determinou no lugar certo, tratava-se de uma “Esparta melhorada”, concebível, ao menos, no mundo grego, antes do ocaso completo de Atenas. Ainda assim, não há nada de histórico na República. É realmente muito mais um subterfúgio para imaginar onde e quando um autoeducado sábio poderia viver para sua máxima plenitude, ao lado de outros raros como ele. A não ser que projetemos para um futuro indefinido essa realização social. De toda forma, Hegel apenas repisa a grandeza de Platão com sua escrita estrambótica (é estrambótico dizer estrambótico), i.e., empregando seus jargões “lado da realidade racional”, “estado racional do mundo”, “sentido concreto”, etc., hegelianizando o platonismo (enfeiando o belo).

É aquela anuência com que nos encontrávamos nos estóicos como o assentimento que o pensamento dava a um conteúdo; contudo, o pensamento que reconhece a coisa como algo seu e o incorpora a si não passa, nos estóicos, de algo puramente formal. Em Epicuro, ao contrário, também a unidade da representação do objeto consigo mesma se acha presente na consciência como uma recordação, mas esta recordação tem como ponto de partida o sensível; a imagem, a representação, é o assentimento prestado a uma sensação.” “O nome é certamente algo geral, pertence ao pensamento, faz do múltiplo uma coisa simples, é inclusive o mais ideal que cabe conceber: porém de tal modo que sua significação e seu conteúdo são o sensível e não devem valer como este algo simples, mas como o sensível. Esta coisa simples nos conduz não ao saber, mas à opinião.” “A opinião é, com efeito, uma representação como aplicação da opinião-como-algo-pressuposto, isto é, uma aplicação do tipo a um objeto presente, que se investiga a fim de ver se a representação do objeto coincide ou não com o objeto.” Opinião como representação fundamentada. Isto é: representação pura é apresentação. Opinião é que é re-presentação. Que são as estrelas, o firmamento? Uma apresentação à qual damos fé em virtude de nossas representações terrenas. Uma quase-opinião.

Tais são os pontos fundamentais da canônica de Epicuro, a pauta geral para a verdade; é tão simples que não pode haver nada mais simples, mas é também muito abstrata. São representações psicológicas correntes, justas em seu conjunto, embora completamente superficiais; é simplesmente a mecânica da representação do ponto de vista das primeiras manifestações da percepção.” Acontece que a filosofia voltará a essa ‘simplicidade’ depois da derrocada do Idealismo universalista.

Hoje até os céticos falam dos fatos da consciência; está claro que o que eles nos dizem não vai, tampouco, além da canônica epicurista que acabamos de expor.” Céticos: menos céticos que os cínicos; cínicos: mais cínicos que os céticos. O cinicismo (para diferenciar de cinismo, adjetivo corrente no nosso idioma e que quer dizer agora outra coisa) foi historicamente bastante anterior, em parte contemporâneo ao sofismo e a Sócrates, em parte apenas herdeiro de ambos. Não tem relevância para o percurso da Primeira filosofia, mas apenas certa repercussão biográfico-historiográfica, com relatos pitorescos de algumas personalidades como Diógenes, o pensador sarcástico ateniense que vivia, de uso, num tonel, e apenas de posse do sumamente necessário. Por essa razão (não é de absorção obrigatória para o entendimento da mais alta Filosofia), a escola cínica não consta deste Curso (até consta, mas não no meu resumo das aulas de H.).

Enquanto que Epicuro considera as coisas, segundo acabamos de ver, como repletas da multiplicidade dos átomos, temos que o pensamento é o outro momento além dos átomos, o vazio, os poros, o que permite erguer um dique diante desta enxurrada de átomos.” “apartamos a vista de algo, ou seja, interrompemos precisamente este fluxo.” Princípio da individuação e coerência – ou viver tornar-se-ia impossível. Um filósofo do momento presente.

Os átomos, enquanto átomos, devem permanecer indeterminados; mas os atomistas se viram arrastados à inconseqüência de lhes atribuir qualidades” Surpreendentemente contemporâneo, considerando os desenvolvimentos posteriores da Química. Mas o que interessa para nós é: o epicurismo é uma espécie de ‘correção de rota’ dos filósofos pré-socráticos da escola atomista.

A birra-mor de H. com o epicurismo é que seu sistema não pode ser teleologizado! “conseqüente com seus atos, Epicuro se declara imediatamente contrário à existência de um fim último geral do universo e de toda relação de fim em geral, como, p.ex., da finalidade do orgânico em si mesmo, assim como também é contra as representações teleológicas da sabedoria de um criador do universo, de seu governo do mundo, etc.;¹ e nisto sua atitude não pode ser mais lógica consigo mesma, já que em sua concepção resta eliminada toda unidade, qualquer que seja o modo como esta se represente, seja como fim da natureza nela mesma, seja como um fim que, ainda que residindo noutra coisa, faz-se valer na natureza; nos estóicos, em compensação, encontramos este ponto de vista teleológico e, ademais, bem-desenvolvido.”

¹ Agora entendo melhor a acusação de ateísmo e heresia contra Epicuro! (Não lançada por H., mas pelos próprios antigos.)

a partir do conhecido podemos deduzir o desconhecido.” Que é o homem?, teria perguntado Drácula. E ele mesmo respondeu, sem aguardar seu estupefato interlocutor, mero humano que não filosofava: É alguém incapaz de seguir Hegel! É alguém que prefere seguir pelas sendas de Epicuro e Kant para conhecer a natureza e aquilo que excede à natureza! E Drácula estava correto em seu juízo sobrenatural, i.e., de semideus que refletia sobre essas coisas…

Grosso modo, podemos ainda dizer: Hegel é aquele para quem o desconhecido é aquilo que podemos deduzir do conhecido – nenhum descalabro maior!

é, em realidade, o mesmo princípio que segue regendo hoje em dia na ciência natural comum e corrente.” Só bastaria, aliás, mais tato aos físicos quânticos: se não imaginassem demais, deduziriam coisas mais fidedignas e modestas, longe de buracos de minhoca e que-tais…

Chega-se à noção de representações, leis e forças gerais, tais como a eletricidade e o magnetismo, as quais se aplicam depois aos objetos e atividades não-suscetíveis de ser diretamente percebidas por nós. Assim, p.ex., sabemos da existência dos nervos e de sua interdependência em relação ao cérebro; e dizemos que as sensações, etc., se transmitem desde a ponta do dedo, suponhamos, até o cérebro mesmo. (…) A anatomia pode nos revelar os nervos, mas não seu modo de atuar; pois bem, não há nada senão se representar tal modo por analogia com outros fenômenos, p.ex. com as vibrações de uma corda tensa, equiparando às cordas vibráteis as vibrações dos nervos até chegar aos centros cerebrais. Ou como no conhecido fenômeno que se observa, sobretudo, numa série de bolas de bilhar colocadas muito juntas umas das outras, em que a última da fila avança quando empurra-se a primeira, enquanto que as intermediárias, cada uma das quais impulsa aquela que segue, não se movem, na aparência; nada resta, pois, senão imaginar-se os nervos como formados por bolinhas pequeníssimas, invisíveis ainda que através das mais poderosas lentes de aumento, a última destas bolas aquela que salta ao contato das anteriores e toca (movimenta) a alma. Analogamente, a luz concebe-se como uma série de fios ou raios, como vibrações do éter ou como bolinhas etéreas que se chocam entre si. [!]” Espantosamente, H. sabia muito bem no que o epicurismo repercutia em nossa epistemologia atual – mas decidia jogar tudo no lixo, enquanto se trata de hegelianismo decantado de ‘impurezas indesejáveis’. Se soubeste descrever a luz antes do séc. XX, este é um sinal de que acertaste!

Advirta-se que, nesta classe de explicações, Epicuro é expressamente bem liberal, eqüitativo e tolerante, posto que diz que as diversas representações que se formem em nós com relação aos objetos sensíveis – todas elas, por demasiadas que sejam – podem ser aplicadas ao que não podemos observar diretamente por nós mesmos; que não se pode afirmar um só modo como o acertado, mas que se pode chegar ao resultado que se busca por diversos caminhos.”

O raio pode ser explicado por meio de toda uma série de possíveis representações, p.ex. a da fricção e colisão das nuvens, que produzem a figuração do fogo e provocam o raio.” “É exatamente o mesmo método a que recorrem nossos físicos, ainda hoje, a fim de explicar como se produz a chispa elétrica nas nuvens, ao se chocarem. Com efeito, como tanto no raio como eletricidade se observa uma fagulha, toma-se este elemento comum como base para chegar a conclusões acerca da analogia entre ambos os fenômenos, afirmando-se que também o raio é um fenômeno elétrico. Ora, as nuvens não são corpos duros, e a umidade, longe de produzir eletricidade, na verdade dispersa-a; por isso estas conversas fiadas dos físicos de hoje são em realidade tão vazias como a representação de Epicuro.” Tá bom, Hegel, doutor em física fenomenológica (física do mundo experimental)!

A filosofia epicurista jogou pela janela todas aquelas crenças supersticiosas em torno do vôo das aves num sentido ou outro, da significação que podia ter a lebre cruzar o caminho, da inspeção das entranhas dos animais, da alegria ou tristeza das galinhas, [!] etc.” De novo apenas reprise de Platão.

Sendo assim, não existe qualquer diferença essencial entre o tipo de vida do estóico e do verdadeiro epicurista que se ajuste às normas e aos preceitos de seu mestre. § Todavia, ainda que à 1ª vista pareça que já os cirenaicos [escola periférica de filosofia] proclamavam o mesmo princípio moral que mais tarde haviam de preconizar os epicúreos, Diógenes Laércio (X, 139, 136-137) se encarrega de assinalar a diferença nos seguintes termos:¹ os cirenaicos se propunham como fim antes o prazer como algo concreto, ao passo que Epicuro predica-o como um meio, afirmando como prazer a ausência da dor, sem admitir nenhum estado intermediário.” Reflexões pessoais (recomendo a leitura apenas para quem já se familiarizou com Nietzsche): Talvez Nietzsche tenha compreendido mal o epicurismo e o estoicismo. Bom, não é impossível: julgo que compreendeu mal Parmênides, ao não alçá-lo à altura de um Heráclito… Ausência de dor não é um critério nobre, supra-hominídeo. Nietzsche ataca os estóicos e é claramente favorável ao epicurismo. No entanto, como enaltece o valor da dor como escape da polêmica hedonismo vs. ascetismo, procurando pensar além do binômio estéril e superficial dor-prazer, cabe aqui assinalar, se H. está correto neste ponto (e creio que esteja, que estoicismo e epicurismo são os dois lados de uma mesma moeda), que os epicuristas não haviam conseguido, ainda, escapar desse dilema, sobrevalorizando a dor em sua ética.

¹ Finalmente uma contribuição conceitual de Laércio! Diógenes Laércio, que é um historiador da filosofia, e não filósofo, é infelizmente um mau historiador. Às vezes, em termos de filosofia antiga, torna-se inevitável consultá-lo dada a falta de fontes – mas eu não recomendo sua leitura completa, muito menos de maneira inocente; é preciso sempre estar desconfiado da veracidade de suas afirmações. Ele se enquadra mais no que o próprio Hegel chamaria de “fofoca filosófica”, contando anedotas e curiosidades sobre a vida dos grandes pensadores. É difícil vê-lo falando algo relevante sobre os conceitos filosóficos desses mesmos personagens.

Além disso, os cirenaicos consideravam as dores do corpo como piores do que as da alma, ao passo que o ponto de vista de Epicuro era o oposto.” Dor física é bom demais – vocês já experimentaram correr até a exaustão?!

Epicuro quer que o homem se forme uma noção exata da morte, para que esta não turve sua tranqüilidade. (…) ‘Em seguida, acostuma-te a pensar que a morte não deve nos preocupar o mínimo que seja, pois todo o bom e o mau reside nas sensações, e a morte é o despojo de toda sensação. Daí que o pensamento certeiro de que a morte não nos afeta faça do caráter mortal da vida uma fonte de gozo, já que este pensamento nos aparta da infinitude e da ânsia da imortalidade. Pois nada há de temível na vida para quem chegou verdadeiramente a conhecer que o não-viver não tem nada de temível.’Famoso trecho de Epicuro que, creio, Sartre citou n’O Ser e o Nada e eu cheguei a anotar num papelito que guardava na carteira, coisa de 10 anos atrás – até as chuvas brasilienses esfarelarem o pobre material!

TODOS FILHOS DE GÓRGIAS: “Há que se distinguir entre o ceticismo antigo e o novo ceticismo; a nós só nos interessa o primeiro: só ele apresenta uma natureza verdadeira e profunda, uma vez que o novo está mais próximo de ser um epicurismo. [?] Deste modo, nos últimos tempos, Schulze vem predicando em Göttingen seu ceticismo e escreveu um livro intitulado Enesidemo, com o intuito de comparar-se com este cético [este obscuro Enesidemo!], interpretando, em outras obras, o ceticismo em contraste com as doutrinas de Leibniz e Kant.” “Este e outros autores tomam como base de sua concepção a crença de que se deve ter por verdade o ser sensível, o que a consciência sensível nos entrega, duvidando, em troca, de tudo o mais. O que opinaríamos seria o último, o único importante, os fatos da consciência.” Algo me diz que estamos todos em Schulze neste momento da humanidade… Não conheço Schulze nem Enesidemo, detesto desapontá-los!

O ceticismo moderno é a subjetividade e a vaidade da consciência, evidentemente insuperável, claro que não nos terrenos da ciência e da verdade, mas somente no terreno da própria consciência, ou seja, no da subjetividade.” Não sejais cético; sede ético!

CONSUMISMO E CETICISMO ABSOLUTO: Falta de ética

O consumismo é o ceticismo individual elevado a modo de produção. Mero deixar-passar hesitante robótico. Hiato indefinido de cultura e humanidade. Recesso da História. Se o momento pode ser procrastinado por meio de simulações, há de haver uma pane da engrenagem de simulação, da matriz simulacional. Do motor que emite todos os simulacros, a simulação das simulações. Há de vir, advirá, porém são séculos de filme mudo enquanto isso…

Sexto Empírico viveu e ensinou aproximadamente em meados do século II d.C.. Suas obras se dividem em 2 partes: 1) Suas Pyrrhoniae Hypotyposes, em 3 livros, oferecem-nos, de certo modo, uma exposição geral do ceticismo em seu conjunto; 2) De seus livros Adversus Mathematicos —isto é, contra a ciência em geral e especialmente contra os geômetras, aritméticos, gramáticos, músicos, lógicos, físicos e éticos—, que constituem 11 livros no total, somente 6 são dirigidos de fato contra os matemáticos, já que os 5 restantes se dedicam a polemizar contra os filósofos.” [!]

Quem busca um objeto tem: ou que encontrá-lo; ou que negar que ele possa ser encontrado; ou seguir buscando-o. Outro tanto acontece com as investigações filosóficas: uns afirmam haver encontrado o verdadeiro, outros negam que seja possível chegar a captá-lo; os terceiros, por fim, perseveram em sua busca. Os primeiros, tais como Aristóteles, Epicuro, os estóicos e outros, são chamados dogmáticos; quem afirma a impossibilidade de chegar a captar a verdade são os acadêmicos [platônicos]; os céticos seguem na busca. Existem, pois, 3 filosofias: a dogmática, a acadêmica e a cética.” Neste conceito Platão é o rei dos céticos, e com Razão! Mas falando sério: é genialmente estúpido, ou estupidamente genial, já que Sexto Empírico inverte exatamente sua própria escola (o ceticismo não deixa de ser um dogma) com o Platonismo: a Idéia entendida corretamente (anti-hegelianamente) é a busca eterna pela sabedoria. Não estou inventando, a menos que queiram me dizer que o dito no Banquete é mera figura de retórica e que fui ludibriado: levo essa passagem ao pé da letra. Quanto ao cético, é aquele que já desistiu de encontrar a coisa, mesmo quando finge para si mesmo que se empenha em procurá-la!

O princípio eficiente do ceticismo é a esperança da imperturbabilidade.” É como dar-se por vencedor hoje de todas as tribulações do amanhã. O amanhã já foi, mas quê importa, que é que tem de mais, ser um perdedor?!? Confessar-se nada mais que um fodido é o princípio (pun intended) da vitória (Sócrates, alguém?). Tens que ter um prato de comida preferido, uma banda favorita e, claro, hobbies, ou serás só um vento mau!

OS 5 TROPOS DOS CÉTICOS (DOGMAS QUE, UMA VEZ REFUTADOS NA PRÁTICA, E NÃO NA RETÓRICA, CURAM O FILÓSOFO DO MAL DO CÉTICO, DIGO, DO MAL DO SÉCULO!)

1. As opiniões divergem. Não as ‘opiniões’ (sensações) animais nem as opiniões do simples ‘homem’. Mas as opiniões dos sábios! (rever 2.2) O argumento poderia ser resumido da forma seguinte: Se fosse possível um consenso filosófico e uma filosofia universal, este consenso e esta universalidade já teriam sido alcançados. Implicações, se não se refuta o ponto: Hegel tenta a Síntese Suprema – falha; Nietzsche, a Escola Crítica & os pós-modernos insistem em acusar o erro. Ainda estamos recolhendo os cacos e estilhaços em que a Filosofia Continental se partiu então. De fato só o ceticismo chega a sua meta em cada geração. Se muito se diz por aí que “o século XX ainda não terminou”, eu poderia levar ao extremo essa noção dizendo que, se Sexto Empírico segue atual, “o século II ainda não terminou”! O verdadeiro filósofo deve viver esta verdade (este tropo), mas seguir buscando a sua verdade, que, se for verdadeira, será universal… Deve aprender a lidar com esta contradição interna.

2. O axioma da queda no progresso (ou recesso) infinito. Cada afirmação necessita um princípio ou axioma; cada princípio ou axioma necessita de uma nova fundação; que necessita de um novo dogma assentador, etc. Um sério inimigo do Idealismo Romântico; mas Kant, p.ex., parece nada sofrer com este tipo de refutação! A cura é o a priori. E o a priori kantiano leva de volta à teoria das reminiscências ou metempsicose, que muitos atribuem, originalmente, ao hinduísmo. Podemos fazer 2 analogias a respeito do axioma da progressão/regressão infinita: a criança que sempre perguntará “por quê?” após qualquer resposta a um outro por quê; na própria mitologia hindu, quando se diz que o mundo é um disco sustentado por um elefante que jaz sobre o dorso de uma tartaruga, que faz as vezes de Átlas… Já se vê onde (não) quero chegar. Interessantíssimo: descobri que há pelo menos 3 versões independentes do mesmo mito com pequenas variações (o da tartaruga-suporte): a indiana, a chinesa e a de aborígenes americanos.

3. O tropo que eu chamo de “Zagallo” (o patriota fake): Nenhum juiz é isento para julgar o que quer que seja, pois só ocupa um lugar relativo, e portanto errado de acordo com todo outro juiz. Com efeito, é um argumento muito sagaz contra patriotas de última ocasião e/ou numerólogos maníacos (Olavos)! Falando mais sério, significa que nem mesmo se se admitisse em geral que Platão é ‘o filósofo’ e encontrara a Verdade, por exemplo, nem mesmo isto é aceito pelos céticos.

4. Este argumento é engenhoso porque parece uma refutação cética contra os próprios argumentos 1-2-3: Existe sim este Absoluto do qual derivam todas as causas. Ex: a matemática de Euclides. Ou seja, é possível aceitar um princípio sem prova. Mas o hic salta (o momento da verdade ou, neste caso, da falta de verdade) é: o cético se beneficiaria da mesma regra. Significa parar de remar e aceitar que tudo é água (mais uma vez atestando que são os céticos que “param de procurar”, não os platônicos!). A suprema resignação. A opinião do sábio aplanada, nivelada à opinião vulgar. (Argumento engenhoso, que já denota, porém, o desespero do filósofo cético.)

5. Prova circular. Variante do 2º tropo, mas em que em vez de derivar-se de axioma em axioma em linha reta ao infinito, deriva-se em um círculo vicioso. Situação do viajante no tempo e do destino inalterável: tudo é a causa de tudo, nada é a causa de nada. A e B se sobredeterminam. Aporia. É um infinito-no-finito. A solução parece ser a mais fácil de todas: a correta compreensão da imanência (compreensão do mundo como aparências auto-suficientes, contidas em si mesmas, consigo mesmas como fundamento primeiro e fim último) leva à consideração desta derivação axiomática não como um círculo vicioso, mas como um círculo virtuoso. Autoevidência da verdade.

Esses 5 pontos seriam os Elementos ou a Bíblia dos Céticos. Atemporais e independentes de demonstrações no mundo fenomênico.

De modo que os adversários de Sexto Empírico se vêem forçosamente na situação do ladrão que perdeu e foi pego já antes de empreender sua fuga, pois não conseguem abstrair até que ponto vai a malícia e a antecipação do daimon (gênio) de seu rival, o captor:

Supondo que o ladrão antecipasse que, na única via que pode usar para fazer a travessia, o amontoado de moitas estranhamente situado sobre a grama ou a estrada na verdade ocultam um insidioso alçapão, e pule para a esquerda ou para a direita, rente ao muro, para tentar atravessar pelo estreito umbral que lhe resta, eis que descobre que o umbral era a verdadeira armadilha, pois aciona uma corrente que o prende ou então uma bigorna que cai do céu em sua cabeça; não que a moita realmente não cobrisse um buraco, mas ela servia apenas para dar confiança ao suposto astuto ladrão e forçá-lo ao xeque-mate (distração antecipada). Uma amarelinha maldosa em que o jogador já perdeu antes de começar.

Como falei de Kant como panacéia ao 2º tropo, H. também o considera na continuidade do texto (aula): “Para o criticismo, que não conhece em-si algum, nada absoluto, todo saber sobre o que é em-si como tal é dogmatismo, quando em realidade é o mais furioso dos dogmatismos, enquanto assegura que o Eu, a unidade da consciência de si mesmo, oposta ao ser, é em-e-para-si e que à margem dela está o em-si, como 2 fatores que não podem, em absoluto, coincidir.” O engraçado é que Hegel vê em Kant tudo o que nós não vemos: uma repulsão extrema ao Absoluto. Quando o que mais se critica na epistemologia kantiana é seguir se referindo ao que não existe como se existisse (este em-si divorciado da realidade fenomênica)! Ou seja: Hegel tacha Kant de radical; nós de carola! Ainda era possível ir além, e a filosofia pós-hegeliana mostrou que a solução era voltar a Kant para enfim superá-lo. De certo modo a Filosofia Continental sempre pode ser caracterizada como a oposição polar de 2 figuras, desde Platão-Aristóteles a várias duplas mais recentes, Marx-Nietzsche, por exemplo: dois sucessores-negadores. Marx continua o historicismo hegeliano subvertendo-o; Nietzsche, acerbo crítico da moral (cristã, ocidental), na verdade é um salvador da moral (no sentido mais universal) e da noção de valor, destarte tributário do Kantismo…

* * *

Honra ao ceticismo o haver chegado a adquirir esta consciência acerca do negativo, concebendo as formas do negativo deste modo determinado.”

Se, não obstante, o ceticismo se atreve a se enfrentar com este algo propriamente especulativo, não poderá atentar contra ele em nada; seu procedimento contra o racional consiste, pois, em geral, em fazer dele algo determinado, nele introduzindo uma determinação finita do pensamento ou um conceito de relação ao qual se atém, mas que não reside, muito menos, no infinito, argumentando logo contra ele; quer dizer, consiste em concebê-lo de um modo falso, assim o refutando. Ou antes diríamos que arma ele mesmo ao infinito com as unhas com que há de arranhá-lo.” The dog that bites the hand that feeds. O cachorro que morde a mão que alimenta.

Hoje até o especulativo se converte em algo tosco; pode alguém ater-se à palavra e, no entanto, aparece invertida a coisa, ao despojar-se o especulativo da identidade do determinado.” Convenhamos que não teria graça refutar Max Stirner pela lógica.

Ora, o saber do especulativo requer, além da disjuntiva, um terceiro termo; é um tanto este como o outro e um nem este nem o outro.”

Um todo, ou o Um, não é só Um, embora não seja dois. É que o Um é a negação de si. Neste sentido é que H. prefacia sua história com a estranha terminologia “o Um (se des)dobra”, a consciência, o filosofar, se duplica sobre si mesmo(a). O todo é sempre o todo em relação consigo. A consciência é sempre a consciência de si mesma (consciência x consciência, onde ‘x’ é o terceiro termo ou a ‘relação’ – relação-com-a-consciência é uma contradição ou insuficiência, pois só pode haver relação-com-a-consciência-e-a-consciência, desdobramento ensimesmado). Toda consciência necessariamente se nega, porém necessariamente apenas para se reafirmar ao fim do processo. “O compreender-se a si mesma da razão é precisamente o modo como o todo compreende todas as suas partes, quando se o enfoca em seu verdadeiro sentido especulativo, e só neste sentido pode-se falar aqui desta relação.” “O ceticismo pertence, portanto, ao período de decadência da filosofia e do mundo.”

13.2 IDADE DAS TREVAS: DO NEOPLATONISMO À ESCOLÁSTICA OU O MILÊNIO PERDIDO

FOSSILIZAÇÃO DO MUNDO-VERDADE CUJO AUGE SE DEU EM PLATÃO: “O ponto de vista geral da filosofia neoplatônica ou alexandrina consiste, portanto, em se criar sobre a base da perda do universo que seja, dentro de sua exterioridade, um mundo interior e, portanto, um mundo reconciliado; e este mundo é o da espiritualidade, que aqui começa.”

A mesma liberdade, bem-aventurança, imperturbabilidade que perseguiam como fim o epicurismo, o estoicismo e o ceticismo segue sendo agora, é verdade, uma aspiração para o sujeito; mas facilitadas essencialmente pela orientação em direção a Deus, do interesse pelo verdadeiro em-e-para-si, e não da evasão do objetivo” Eis o maior erro: pressupor que as massas podem cumprir esse desígnio sábio imanente!

É falso o que sói dizer-se, que não é necessário conhecer Deus para conceber esta relação. Porquanto Deus é o primeiro, é Ele quem determina a reação; destarte, a fim de chegar a saber o quê é o verdadeiro da relação é necessário conhecer Deus.” Supondo que isso estivesse correto, também estaria correto que matar Deus é igualmente necessário ao final do processo…

A palavra tem sido considerada sempre como uma manifestação de Deus, porque não é corporal; enquanto som, desaparece imediatamente; sua existência é, pois, imaterial.” A música e a palavra como símiles eternos de Hegel para a transitoriedade e o efêmero, como a chave para entender, ao menos, sua Estética.

em realidade, quando estabelecemos o ser, o nada do ser é o pensamento, algo muito positivo.” Por mais boba, pedestre e trivial que soe, esta frase é fundamental para compreender H.!

Proclo marca a culminação da filosofia neoplatônica; ora, esta filosofia segue se manifestando até uma época muito tardia, inclusive através de toda a Idade Média.” Período nulo em termos de filosofia. Não perder nenhum segundo com estes autores!

Um paradoxo: Hegel chama os gregos de incompletos e ingênuos, mas a primeira parte de suas aulas, módulo 1 de 3, dedicado ao mundo antigo, ocupa 75% de sua obra… Agora a marcha do Espírito mal tem o que fazer…

Dessa forma, a Igreja se acha governada pelo Espírito para poder se ater às determinações da idéia, mas sempre de um modo histórico. Tal é a filosofia dos Padres da Igreja” Em outras palavras: os Padres da Igreja estavam certos até serem abandonados pelo Espírito, que se alojou em Luteros e Calvinos! Pra onde Ele foi? Onde estará agora?!

A maior obra do período escolástico (que alguns subdividem em patrística-escolástica, sendo esta pertencente à 1ª parte), Cidade de Deus, de Sto. Agostinho, não consta das palestras hegelianas…

14. REALISMO X IDEALISMO: POR TRÁS DAS CORTINAS, NACIONALISMO.

H. deixa claro – realismo e idealismo não são 2 rios ou 2 vias de mão única. Não há simetria. O realismo certamente só pode confluir num sentido – do particular (dados imediatos, que não deixam por isso de ser mentais), pois são fenômenos, para AS IDÉIAS; e ainda assim não A IDÉIA, isto é, a mais elevada de todas, o ABSOLUTO. Para H., a investigação empírica só funciona para descobrir leis da física ou uma ou outra lei política ou princípio ou axioma do Direito. Mas o idealismo conflui nos 2 sentidos, é muito mais perfeito. Pelo pensamento (o Único) se acessam as coisas; pelas coisas – o particular – se chega ao geral, ao pensamento do absoluto (A IDÉIA). Em síntese, a experiência é limitada, embora seja humana e, de qualquer forma, melhor do que a abstração vácua (escolástica). Veja que há “geral” e “geral” em H.: gerais e gerais; uns são apenas conceitos (o limite do realismo), outros são apenas uma fase intermediária do idealismo. O geral está sempre em contraposição ao determinado, que é o fenômeno puro, poder-se-ia dizer, carente da generalização sistemática – mas tem-se de perguntar: em qual contexto? De qual geral se está falando? Sempre que se ler H. isto tem sua importância.

I – As coisas são sempre meio, nunca fins.

II – Os fins, se determinados pela experiência, são apenas meios para os fins absolutos ideais.

E contudo ambas as direções vêm convergir num ponto comum, já que também a experiência, por sua vez, se esforça por derivar das observações princípios e leis gerais; já o pensamento, partindo do geral abstrato, necessita se dar um conteúdo determinado, por onde o apriorístico e o aposteriorístico não formem 2 campos absolutamente deslindados. Na França, impôs-se preferencialmente o geral abstrato; na Inglaterra prevaleceu, na contramão, o geral, o critério da experiência, que ainda hoje goza de grande recomendação naquele país; a Alemanha, em compensação, tomou como ponto de partida a idéia concreta, o interior do homem, pleno de ânimo e espírito.” Nonsense. Hegel quer dizer que em seu país se está no melhor dos mundos; que em sua filosofia se está no verdadeiro. No mais verdadeiro que os outros verdadeiros! O difícil para Hegel é ir além do a priori kantiano, que é um tipo muito especial de a priori, mais elevado que o a priori francês, se podemos assim dizer. Aqui não é o lugar para tratar do criticismo kantiano, que é, efetivamente, a síntese correta, e antes mesmo de Hegel aparecer. Seja como for, Hegel tem de recorrer a um suposto Espírito do Mundo para pretender estar um grau acima de Kant em objetividade. Uma objetividade divina (em-si!)! Alega que não só a representação mental, mas o mundo como matéria viva, o em-si kantiano, não-partícipe da experiência, é sinônimo com sua representação mental, mas se, e somente se, se souber “rastreá-lo”, “sentir seu cheiro”, que é o que ele faz em seu Historicismo. Isso, no entanto, é o vulgar e depreciativo de sua filosofia. O em-si só pode ser em-si enquanto for inessencial no sentido hegeliano, i.e., o que se chama a partir de Schopenhauer de vontade, e que a terminologia existencialista abandonará, mas continuará usando implicitamente. O que é inessencial não tem “agenda própria”, não tem fim em vista, teleologia, apenas é, com-o-homem.

15. BACON

Ainda que não o soubesse nem se desse conta, a filosofia de Bacon empurrava a essa confusão quanto ao conteúdo. Pois ainda que em rigor rechaçasse a dedução de um modo geral e só admitisse as conclusões indutivas, não resta dúvida de que ele mesmo incorre, inconscientemente, em deduções. Em parte, todos aqueles heróis da experiência que, seguindo Bacon, puseram em prática seus postulados e que crêem chegar ao conhecimento puro da coisa pela via da observação, o experimento e a experiência, o que fazem é proceder sem nenhuma classe de conclusões nem conceitos, compreendendo e concluindo tanto pior quanto mais crêem não ter nada a ver com os conceitos e, ademais, não remontam nunca o plano da indução até o conhecimento imanente e verdadeiro. Portanto, quando Bacon contrapõe a indução ao silogismo, formula uma contraposição puramente formal; toda indução é, ao mesmo tempo, uma dedução, coisa que já sabia também Aristóteles. Toda observação é ideológica. Mas é possível construir novas ideologias mediante observações. Isso se conforma ao que eu havia afirmado parodicamente sobre criarmos o neologismo endução (12.1).

16. DESCARTES

A 2ª fase é a da conciliação metafísica; e é realmente aqui onde, com Descartes, começa a filosofia da época moderna enquanto pensamento abstrato.” Descartes resumido como SUSPENSÃO ACEITAÇÃO. Pseudo-suspensão, já que depois todo o fenomênico é automaticamente aceito, pois provém de Deus em última instância, i.e., provém imediatamente de mim, da consciência pensante, e Deus não pode dotar meu intelecto de um erro ou de uma fraude metafísica. E no entanto isto já é suficiente, conforme H., para se adentrar a modernidade: “E assim se apresenta o problema de como é ou pode ser o pensamento idêntico ao objetivo. Com isso, destaca-se por si mesmo e se converte em objeto o interior, o que serve de base a esta metafísica; estamos já plenamente dentro da filosofia moderna.” “agora os pensadores vivem em condições completamente distintas daquelas em que viveram os filósofos dos tempos antigos.”

Para que haja um silogismo tem de haver 3 termos; aqui, concretamente, teria que haver um 3º que servisse de mediador, de elo entre o pensar e o ser; mas este 3º termo não existe. [13.1] O «logo» ou «portanto» que enlaça ambos os lados não é o «logo» ou o «portanto» de um silogismo; a conexão entre o ser e o pensar se estabelece somente de um modo imediato. Esta certeza é, desta forma, o prius; todas as demais proposições vêm depois.” penso existo – um pleonasmo, redundância, tautologia, auto-referência e nada mais. Não no sentido de deboche do que é. A auto-referência por excelência, além do mais. O “ponto zero” do plano cartesiano, de onde parte todo o pensamento metafísico moderno.

no ser não há de representar-se, muito menos, um conteúdo concreto; daí que é a mesma identidade imediata a que constitui também o pensamento. (…) a imediatidade é uma determinação unilateral; o pensamento não contém esta determinação somente, senão também a de servir de mediador consigo mesmo: a imediatidade existe precisamente pelo fato de que o mediar é, simultaneamente, suspender [erguer e sustar] a mediação.” eu penso eu existo; (eu) (eu); je = je, eu = eu; a rigor, não existe sequer o “”, elemento relacional, que designa ou conota MEDIAÇÃO, já que é uma Imediação. O (je)² é a própria mediação. pensexisto. pensamentosser. É o principio de individuação de Aristóteles em seu grau máximo formulado da forma mais sintética. Esta imediação não contempla, ainda, o inconsciente enquanto talo ser no aqui e agora, mas não o Ser total).

como com freqüência sucede em sonhos, posso crer que vejo ou que me desloco, apesar de que sequer abra meus olhos nem me mova do lugar” A rigor, pensa-se no sonho, o que enfraquece o discurso cartesiano. Ainda que em simulacro, há uma certeza na representação onírica de que se pensa, pois apesar de não ser em vigília o ato é efetivamente levado a cabo, idêntico ao pensar.

O 3º é, assim, o trânsito desta certeza rumo à verdade, ao determinado; também este trânsito apresenta em Descartes um caráter simplista, e com isso se oferece a nossa consideração, pela 1ª vez, a metafísica cartesiana.” “Ora, a verdade de todo saber descansa sobre a prova da existência de Deus” Podemos resumir as meditações cartesianas como uma tentativa mal-sucedida (mas corajosa) de resgatar a alegoria da caverna de Platão; obviamente, o que este magnânimo pensador consegue de modo completo numa fábula autocontida, Descarte mal e mal consegue em uma frase, ou seja, não consegue sustentar por mais do que 3 palavras, com o mesmo poder, o tipo de raciocínio-em-direção-à-essência. Não é culpa do francês: o fato de haver um Deus monoteísta a que se deve remeter todos os achados atrapalha bastante…

A suprema ironia é que o que prova ontologicamente o eu e a outridade neste caso é o princípio <NIHIL EX NIHILO> (nada deriva do nada), quando na era cristã, justamente, tudo depende desse motto. Ter-se-ia que imaginar uma sociedade (a Atenas clássica?) que não crê em genealogia ou escatologia (o contrário dos modernos) e que fundamentasse sua filosofia no Nada (o contrário dos modernos) para se dar conta de tamanho paradoxo!

17. SPINOZA

Muito encontrado em outras grafias, como Espinosa.

«Deus é causa imanente, mas não transitiva (transiens) de todas as coisas», quer dizer, externa. Sua essência e sua existência são o mesmo, a saber: a verdade. Uma coisa que fôra determinada a fazer algo, fôra necessariamente determinada por Deus, já que Deus é a causa: e sendo esse seu destino, não pode carecer de determinação. Na natureza não há nada contingente. A vontade não é uma causa livre, senão exclusivamente necessária, exclusivamente um modo; isto quer dizer que se acha determinado por outro. Deus não atua com vistas a causas finais (sub ratione boni). Quem o afirma parece estatuir, ao lado de Deus, algo que não depende de Deus e sem relação com os desígnios de Deus, como se fôra um fim. Concebido assim o problema, Deus não seria uma causa livre, mas achar-se-ia submetido ao fatal. E igualmente insustentável é querer submeter tudo à arbitrariedade, isto é, a uma vontade indiferente de Deus.” Sp., Éticaos trechos em vermelho são muito importantes, pois mostram que Spinoza não está submetido a nenhuma teleologia, i.e., historicismo, hegelianismo… Obviamente ele é muito criticado por H. devido a essa escolha filosófica.

O desenvolvimento de seu pensamento é extraordinariamente simples ou, melhor dizendo, não é desenvolvimento algum; arranca diretamente do espírito.” Algo mais específico eu deixarei para evidenciar quando ler a Ética em si, por isso não sublinhei de verde, embora desse vontade! Quem sabe Spinoza não figurará num novo capítulo da HISTÓRIA DAS IDÉIAS?

Spinoza afirma que o que se chama universo não existe de modo algum, pois é só uma forma de Deus e não algo em-e-para-si. O universo não possui uma realidade verdadeira; o todo se lança ao abismo de uma identidade única. Nada é, portanto, na realidade finita: esta não possui verdade alguma; para Spinoza, somente Deus é.” H. chama isso de acosmismo (meu deus, quanta expressão feia nesse trabalho!).

Quem pinta nosso filósofo com cores tão negras esquece de manter Deus de pé, valorizando em troca o finito, o temporal; e esfrega na cara de Spinoza sua própria anulação e a do mundo.” Porque ele disse que tudo era vaidade, em termos filosóficos, aí está! Todo filósofo é odiado por isso pelos filosofastros…

O sistema spinozista é o do panteísmo e o do monoteísmo absolutos, elevados ao plano do pensamento. O spninozismo dista muito, então, de ser um ateísmo no sentido corrente da palavra; mas efetivamente o é no sentido de que nele não se concebe Deus como espírito. Nesse mesmo sentido poderíamos, todavia, acusar de ateísmo muitos teólogos que só denominam Deus o Ser supremo, onipotente, etc., e que não querem, na realidade, reconhecer Deus, só atribuindo verdade ao finito; e as doutrinas destes são bastante mais perigosas que as de Spinoza.” Um livro interessante para quem está no seminário DE PADRES (me refiro a este de H., mas não nego que a Ética de Spinoza, pelas citações já lidas, também deva sê-lo bastante!).

E, assim como Spinoza se limitava a considerar estas representações, já que o mais alto, para ele, era sua desaparição na Substância una, Locke se detém a investigar como nascem estas representações [filósofo especializado no para-si] e Leibniz, por sua parte, contrapõe a Spinoza a pluralidade infinita dos indivíduos, se bem que todas as suas mônadas têm como essência fundamental a mônada una. [filósofo especializado no em-si] Ambas as filosofias surgem, pois, como reação contra as unilateralidades spinozistas, aqui postas de manifesto.” Podemos dizer que Spinoza foi o maior filósofo do ser-em-si-e-para-si até seu tempo (obviamente estou excluindo Platão), na nomenclatura de Hegel. Até mesmo H. – que é nosso antípoda tantas vezes – teria de concordar!

18. O CÉTICO EMPIRISMO OU EMPÍRICO CETICISMO DOS BRITÂNICOS

A idéia de substância (que Locke toma em pior sentido que Spinoza), idéia complexa, procede do fato de que percebemos, com freqüência, idéias simples tais como a idéia de azul, a idéia de algo pensado, etc. Nos representamos esta justaposição como algo que sustenta por igual aquelas idéias simples, no que estas idéias existem, etc. Assim deduz Locke também o conceito geral de potência. E pela mesma via deriva, à continuação, as determinações de liberdade e necessidade, de causa e de efeito.” Tudo o que Kant resolve em um enunciado este senhor tem de debulhar mal e mal em páginas e páginas…

Bem podemos afirmar que não cabe conceber nada mais superficial que esta derivação das idéias.” “Ao falar do espaço, p.ex., confessa Locke que não sabe o que é em-si. Esta chamada análise lockeana das representações complexas e sua chamada explicação das mesmas lograram encontrar uma acolhida geral em razão de sua clareza e nitidez pouco comuns. Afinal, existe algo mais claro que dizer que o conceito de tempo provém de que percebamos o tempo, e o conceito de espaço de que vejamos o espaço? Os franceses, sobretudo, aceitaram-no de contínuo e o desenvolveram; sua Ideologia não contém, na verdade, mais do que isso.”

ali onde o pensamento é algo concreto por natureza, onde o pensamento e o geral aparecem identificados com o extenso, carece de todo interesse e inclusive de sentido o perguntar-se qual é a relação entre ambos, que o pensamento desdobrara. Como supera o pensamento das dificuldades que ele mesmo [o pensamento] criara? Ocorre que em Locke não se cria nem se desperta nenhuma dificuldade. [muito menos solução] E para que possa se satisfazer a necessidade de reconciliação é necessário que se comece por sentir a dor do desdobramento.” Na filosofia continental, filosofa-se com a dor (digo, ela é sintoma, ou pode ser sintoma, de que se está filosofando, efetivamente); na filosofia britânica, filosofa-se com o tédio, l’ennui.

A sociabilidade, p.ex., é um momento que encontramos na experiência, já que o homem obtém da sociedade múltiplos benefícios. Ora, em que se baseia a necessidade do Estado, da sociedade? Em uma inclinação social. Esta é a causa. Exatamente o mesmo que na Física: o físico efetua sempre este tipo de tradução formal. [vazia] A necessidade de uma existência, p.ex. a dos fenômenos da eletricidade, encontra sua fundamentação em uma causa que os produz; é simplesmente a forma da redução do exterior ao interior, do ente ao pensado, o qual se representa, não obstante, por sua vez, como um ente.” A conta quem paga somos nós, dos séculos XX e XXI, herdeiros da Colônia inglesa nas Américas. Do mais vil imperialismo que já grassou neste so-called planet. Se Hegel soubesse que o Espírito do Mundo reuniria a Terra numa Aldeia Global com estes ‘capitães’, teria reformulado seu sistema ainda em vida.

Newton foi indubitavelmente quem mais contribuiu para a difusão da filosofia de Locke ou da maneira inglesa de filosofar, em geral, e em particular para sua aplicação a todas as ciências físicas. Seu lema era «Física, guarda-te de metafísica!», o que vem a querer-dizer, mais ou menos: ciência, guarda-te de pensar!HAHAHAHAHA!

A natureza mesma se encarrega de refutar essa deplorável maneira de experimentar, pois a natureza é algo muito mais excelente que o que esses míseros experimentos dela nos dizem: ela mesma e o contínuo experimentar dão o melhor desmentido desses falsos métodos. E, assim, vemos que dos esplêndidos descobrimentos newtonianos em matéria de ótica só um fica de pé: a divisão da luz em 7 cores: em parte porque o que se ventila aqui é o conceito do todo e das partes, e também graças a uma determinação insensível perante o contraposto.” Já dediquei até um post sobre isso. Mas uma última palavra: creio que um dia diremos, esquecendo Cristo, e nos lembrando de Isaac Newton somente para esquecê-lo (lembrarmo-nos constantemente de conservá-lo esquecido): ANO XXX DEPOIS DE NÃO-NEWTON (ex: 272 d.¬N., para assinalar que não vivemos mais no mundo ocidental ou na modernidade que conhecemos). Obviamente meus tetranetos já serão caveiras até lá. Mas já vivemos em algum ano a.¬N., se serve de consolo!

O HOMEM-ESCADA: “Devemos expor, na seqüência, o ceticismo de Hume, que adquiriu maior notoriedade histórica do que em si merece; o importante nele, do ponto de vista histórico, consiste em que Kant arranca, em realidade, desta doutrina a fim de construir sua própria filosofia.”

19. LEIBNIZ

Muito encontrado em outras grafias, como Leibnitz.

Gottfried Wilhelm (barão de) Leibniz nasceu em 1646, em Leipzig, onde seu pai era professor de filosofia.” Deve ser o único filósofo da história filho de outro filósofo!

Todas estas ocupações, tão díspares, não foram obstáculo para que descobrisse, em 1677, o cálculo diferencial, a propósito do qual se viu arrastado a uma disputa com Newton, na qual, por certo, mantiveram uma atitude pouco nobre tanto este como a Sociedade de Ciências de Londres. Os ingleses, que propendiam a atribuir todo este método matemático a Newton e eram bastante injustos com os demais, não levavam em conta que os Principia newtonianos viram a luz com posterioridade ao descobrimento de Leibniz, e em uma nota à 1ª edição, que mais tarde desapareceu, faz-se o elogio do filósofo alemão.” ‘Obscenidades’ que não deveriam estar num livro hegeliano de história da filosofia, digo, do Espírito do Mundo. A verdade é que este assunto, além disso, mesmo para uma historiografia da matemática, seria controverso e haveria necessidade de abordá-lo em mais parágrafos: ao que tudo indica, Newton já possuía o conhecimento do cálculo diferencial (não se descobre algo assim, o termo correto seria inventar), porém tinha o hábito de publicar apenas muito vagarosamente, após reunir mais material e ‘sentir a recepção’ das idéias na comunidade matemática, ao passo que outros autores como René Descartes e o próprio Leibniz publicavam imediatamente após concluírem artigos e teses, sem constrangimento em se autocontradizerem ou desmentirem de seguida. Aqui o patriotismo de H. foi provavelmente em vão, apesar de estar certo quanto ao caráter protecionista dos ingleses! Ler https://seclusao.art.blog/2021/05/26/historia-da-matematica-uma-visao-critica-desfazendo-mitos-e-lendas-tatiana-roque-2012/.

às percepções da consciência Leibniz chama apercepções.” O vocabulário da filosofia vai enriquecendo, mas com isso não se garante que enriqueça a filosofia mesma. Apercepção, que em Kant é um termo incognoscível (o que não compromete compreendê-lo), significa, pois, originalmente: a representação conceituável (pensável). O que é mais que pura aparência (a dor, as cores, o mais primitivo de cada sentido), embora decorra evidentemente do fenômeno.

+ 2 VOCABULÁRIOS KANTIANOS: «Estas verdades eternas descansam sobre 2 princípios: um é o da contradição, outro o da razão suficiente

20. JUÍZO HEGELIANO ACERCA DA DEFICIENTE METAFÍSICA MODERNA

À filosofia antiga podemos retornar constantemente, compreendendo-a e reconhecendo-a; é uma filosofia satisfatória, situada em sua própria fase de evolução, um ponto central concreto que dá satisfação à missão do pensamento, tal e como se a enfoca. Em troca, esta metafísica moderna a que nos estamos referindo não faz outra coisa senão desenvolver os antagonismos até convertê-los em contradições absolutas. Tudo bem que se indica a solução absoluta delas, Deus, mas somente como uma solução abstrata, situada no além; no aquém, ficam de pé todas as contradições, sem resolução quanto a seu conteúdo.”

21. O MATERIALISMO FRANCÊS SUI GENERIS

Esta essência vazia é para nós, em geral, o pensamento puro, o que os franceses chamam o être suprème (ser supremo), ou se representa objetivamente como algo que é, como algo que aparece diante da consciência, como a matéria.” “É o conceito que se apresenta numa atitude puramente destrutiva, que não se desenvolve de novo com base nesta matéria ou neste pensamento puro, nesta pura substancialidade. Aqui vemos manifestar-se livremente, então, o chamado materialismo e ateísmo, como resultado necessário da pura consciência-de-si compreensiva. “Só permanece a essência presente e real, pois a consciência-de-si só reconhece o em-si como algo que existe para ela como consciência-de-si, na qual se sabe, portanto, real: a matéria, como aquilo em que pode estender-se e realizar-se na pluralidade, a natureza. No presente, tenho a consciência de minha realidade; e, em conseqüência, a consciência-de-si se encontra a si mesma como matéria, a alma como algo material, as representações como movimentos e câmbios no órgão interior do cérebro, que seguem as impressões externas dos sentidos.” Ultrapassado? Talvez. Mas sempre que relembramos esta etapa do pensamento, nos excitamos, como por exemplo diante das ingênuas questiúnculas de Descartes. Ah, França!

O estado religioso, com seu poder e sua magnificência, com a corrupção dos costumes, com a cobiça, a sede de honras, a canalhice, para as quais se pede, entretanto, reverência e acatamento: toda esta contradição que existia na realidade se deve ter bem presente se se quiser compreender o sentimento de rebelião que se apoderou destes escritores.” Atualíssimo!

H. diz: apesar de Hume muito ter contribuído, a verdadeira transição da filosofia carente-moderna ao Kantismo (a filosofia moderna verdadeira que começa, não isso de cartesianismo!) se dá mesmo é com Rousseau. Ele é a ponte entre a Grã-Bretanha e a Alemanha, (!) nada de Canal da Mancha!

22. KANT: A NÊMESE DO ESPÍRITO DE HEGEL

O próprio espírito deve dar testemunho ao espírito de que Deus é o espírito; o conteúdo deve ser o verdadeiro. Mas isto não se comprova porque se me revele a mim, porque a mim se me assegure.” E com esse delírio que é um recuo escolástico, mas que H. pensa que é seu passo a mais, chegamos à conclusão de que ele e Kant são como água e óleo, pois K. é opaco a H.!

Claro está que agora tudo se chama intuição, inclusive o pensamento, a consciência; Deus, apesar de pertencer só ao pensamento, pode ser captado também mediante a intuição, por meio da chamada consciência imediata.” O que há que resetar do kantismo é a parte em verde.

Trata-se de uma faculdade de caráter especial; e somente quando se sucedem ambas as coisas, i.e., quando os sentidos prescrevem a matéria, e o entendimento tenha com ela combinado seus pensamentos, brota o conhecimento. Os pensamentos do entendimento como tal são, destarte, pensamentos limitados, pensamentos do finito.

Pois bem, a lógica, enquanto lógica transcendental, estabelece os conceitos que o entendimento encontra a priori nele mesmo e mediante os quais pensa os objetos completamente a priori. Os pensamentos têm esta forma: são a função sintetizadora através da qual o múltiplo se reduz à unidade. Esta unidade sou eu, é a apercepção transcendental, o aperceber puro da consciência de si, eu = eu; o eu deve «acompanhar» todas as nossas representações.” Recordando: Percepção: sensação pura e simples. Apercepção: sensação que é mais geral que a anterior, embora siga sendo imediata, e que não é conceitual por assim dizer, dado nosso próprio nível de exigência do que deva ser um conceito. Isto é: não só as rachaduras da parede do meu quarto, cujo padrão é mais ou menos indescritível, mas os próprios tempo e espaço: estas são apercepções. Diferente da qualidade da mesa na qual apóio agora meus cotovelos, a umidade de meus cachos agora que acabei de sair de um banho, o ruído ambiente… Espaço e tempo são de onde emanam todos esses fenômenos, e eu apenas acabo de abstrair o que é a extensão territorial e a dinâmica da sucessão em duas palavras específicas; porém não posso manusear tempo e espaço como um relógio e dizer mais do que isso sem incorrer em besteirol; esse é meu limite. Posso fazer poesia sobre espaço e tempo, sobre as rachaduras na minha parede (sobre estas últimas, posso até escrever de forma técnica), mas continuará sendo uma determinação fundamental que determina meu próprio ânimo (visão, tato, no máximo, no caso das rachaduras) e o limite do que posso expressar nesta poesia.

Existem, portanto, segundo Kant, 12 categorias fundamentais, divididas em 4 classes; e não deixa de ser curioso, e ademais meritório, que cada gênero esteja formado, por sua vez, por uma tríade.” Poderemos seguir fazendo uma pseudometafísica só reformulando essas categorias ad infinitum… Pouco importa seu número, seus nomes… Pelo menos pouco importa segundo o que o indivíduo quer com o mundo e com a vida – que esteja claro! E essa obsessão hegeliano-pitagórica pelo número 3 é algo que não cabe em filosofia séria.

4) A 4ª classe são as categorias da modalidade, da relação do objetivo sobre nosso pensamento; possibilidade, existência (realidade) e necessidade. A possibilidade deveria ser o 2º; mas, com relação ao pensamento abstrato, a representação vazia é o 1º.” Incluí esse trecho para ilustrar um dos vários momentos em que não sabemos se é H. que está superinterpretando e julgando ou se está apenas expondo ipsis litteris a filosofia kantiana. Como é um detalhe sem relevância da Crítica da Razão Pura, eu não me recordo dessa passagem – não sei se quem o diz é Kant ou Hegel, querendo corrigi-lo! Eu até chutaria que é o 2º, pois julgo que Kant não concordaria com o termo “representação vazia”.

O enlace deste algo duplo é, a propósito, uma das páginas mais belas da filosofia kantiana, em que se unem a sensibilidade pura e o entendimento puro, predicados anteriormente como termos absolutamente antagônicos. Contém-se aqui um entendimento intuitivo ou uma intuição intelectiva; mas não é assim como o entende Kant, que não junta estes pensamentos: não compreende que unifica, deste modo, ambas as partes integrantes do conhecimento, expressando com isso o em-si do mesmo.” O mais engraçado dos grandes filósofos é que avançam precursoramente dizendo aquilo que nem eles mesmos entendem, para que em seguida alguém os interprete corretamente (e por sua vez cometa mais erros parecidos lá na frente)! Se isso não é intuição transcendental da mais enraizada e incontestável eu não sei o que é!

A razão é, portanto, segundo Kant, a faculdade para conhecer a partir de princípios, i.e., para conhecer o particular no geral, por meio de conceitos; o entendimento, pelo contrário, chega ao particular pela via da intuição. Mas as próprias categorias são algo particular. O princípio da razão em geral é, segundo Kant, o geral, enquanto que encontra o incondicionado para o conhecimento condicionado do entendimento. Sendo assim, o entendimento é, para ele, o pensamento em condições finitas; a razão, na outra mão, o pensamento que faz do incondicionado seu objeto. Desde então, a terminologia filosófica se acostuma a distinguir entre o (simples) entendimento e a (elaborada) razão, distinção com que não nos encontramos nos filósofos antigos. O produto da razão é, segundo Kant, a idéia—expressão platônica—; por idéia entende Kant o incondicionado, o infinito. É uma grande frase esta de que a razão produz idéias; mas em Kant a idéia é somente o geral abstrato, o indeterminado.” E se Platão concorda com Kant, como ficamos, H.?

é o Eu, o pensante, uma substância, uma alma, uma coisa anímica? Mais adiante se pergunta se é algo permanente, imaterial, incorruptível, pessoal, imortal, e algo que mantenha uma comunidade real com os corpos. A falsidade do raciocínio consiste em que a idéia racional necessária da unidade do sujeito transcendental predique-se como uma coisa, pois só assim se converte em substância o que há nela de permanente. De outro modo, encontrar-me-ia a mim mesmo evidentemente como algo permanente em meu pensamento; mas somente na consciência perceptiva e não fora dela. O Eu é, assim, o sujeito vazio, transcendental, de nossos pensamentos, que só por meio de seus pensamentos é conhecido; mas sem que, partindo daí, possamos chegar a formar-nos nem o mais leve conceito do que é em-si. (É esta uma distinção demasiado repelente, pois o pensamento não é outra coisa que o em-si!) Não podemos predicar dele nenhum ser, pois o pensamento é uma mera forma, e não obtemos a representação da essência pensante por uma experiência externa, mas simplesmente pela consciência-de-si, ou seja, porque não podemos tomar o Eu nas mãos, não podemos vê-lo, cheirá-lo, etc. Sabemos perfeitamente bem, sem dúvida, que o Eu é o sujeito; mas, se remontamos sobre a consciência-de-si e dizemos que é substância, vamos além do que temos o direito de ir. O Eu não pode, pois, dar ao sujeito nenhuma realidade.

Aqui vemos Kant cair na contradição entre a barbárie das idéias que refuta e a barbárie de suas próprias idéias, que não saem do marco daquelas refutadas. Tem, em 1º lugar, toda a razão quando afirma que o Eu não é uma coisa anímica, um algo permanente e morto, dotado de existência sensível; e, em realidade, se houvesse de ser uma coisa comum e corrente, teria que cair também, necessariamente, dentro do campo da experiência; em 2º lugar, Kant não sustenta o contrário disso, a saber, que o Eu, como este pensar-o-geral e pensar-se-a-si, tenha em si mesmo a verdadeira realidade que exige como modo objetivo, senão que não sai da representação da realidade segundo a qual esta consiste em ser uma existência sensível, em vista do quê, como o Eu não se dá em nenhuma experiência externa, não é real. (…) dito de outro modo: Kant só concebe a consciência-de-si, pura e simplesmente, como algo sensível.” Ao exportar o em-si, K. recai para trás até de Descartes com sua certeza!

A necessidade destas contradições é justamente o lado interessante que Kant (Crítica da razão pura, p. 324) traz a nossa consciência, já que segundo a metafísica comum e corrente se o um rege há que dar-se o outro lado por refutado. E, no entanto, o que há de importante nesta afirmação de Kant vai dirigido contra sua intenção. Pois ainda que seja certo que Kant (Crítica da razão pura, pp. 385 e seguinte) dissolva estas antinomias, dissolve-as somente no peculiar sentido do idealismo transcendental, que não nega ou põe em dúvida a existência das coisas exteriores, apenas «permite que as coisas sejam intuídas no espaço e no tempo» (para o qual não se necessita contar com nenhuma autorização); porém, para ele «o espaço e o tempo não são, em si mesmos, tais <coisas>; eles não existem fora de nosso ânimo»; quer dizer, todas estas determinações de princípio no tempo, etc., não correspondem às coisas, ao em-si do mundo mesmo dos fenômenos, que existe para-si fora de nosso pensamento subjetivo.” Sim, são mera retórica kantiana, que ‘inventa’ uma antinomia, i.e., uma possibilidade de refutação de seu sistema, que apenas jogará aos leões, porque seu sistema já nasce irrefutável. A lógica usada em cada uma é a antiga (pré-criticismo), e a síntese é a lógica a partir de Kant. É um artifício que infla muito a espessura da Crítica da Razão Pura.

Isto é, Kant não chega a estabelecer justo aquela síntese do conceito e do ser, ou seja, a compreender a existência, a estabelecê-la como um conceito; a existência segue sendo para ele simplesmente algo diferente do conceito.” Não chegou aos existencialistas.

Deste ponto de vista, a consciência-de-si-mesmo é sua própria essência, enquanto que a razão teórica tinha outra, distinta: concretamente, no primeiro caso o Eu é, em seu caráter individual, essência imediata, generalidade, objetividade; a subjetividade tende, em segundo lugar, à realidade, mas não à realidade sensível, a que antes encontrávamos, senão que, aqui, [na Crítica da Razão Prática] a razão faz-se passar pelo real. Aqui, é o conceito aquele que tem a consciência de sua defeituosidade, coisa que não devia ter a razão teórica, já que o conceito tem de seguir sendo tal conceito. Impõe-se, então, aqui, o ponto de vista do absoluto, já que o homem encerra em seu peito algo infinito. Tal é o que há de satisfatório na filosofia kantiana: ela cifra o verdadeiro ao menos no ânimo do homem, só mediante o qual reconheço aquilo que se acha em harmonia com minha própria determinação.” Obviamente que a Crítica da Razão Prática seria o livro mais adorado pelo protestante Hegel! Matou o Sol Absoluto de Platão no peito e saiu jogando – fintando dialeticamente – no time da Metafísica (talvez contra o Entendimento Pensante Futebol Clube) para marcar um GOOOLAÇO… Infelizmente para Hegel, não aposentaram a camisa 10 após sua morte, porque a despeito de toda sua autopresunção ele não era Pelé e as próximas gerações ofuscaram-no…

Uma das determinações extraordinariamente importantes da filosofia kantiana é a de que deve se reduzir a si mesma aquilo que a consciência-de-si considera como a essência, a lei e o em-si. Conforme o homem persiga este ou aquele fim, conforme julgue desta ou doutra maneira o mundo ou a história, o quê deve reputar como seu fim último? Para a vontade, não existe outro fim senão aquele retirado dela própria, o fim de sua liberdade.” A brecha perfeita para o Historicismo hegeliano: uma mal-formulada ética laico-cristã!

QUIXOTADAS, DITIRAMBOS & AFORISMOS SÁBIOS

Todos queriam ser Hegel.

Todos queriam estar depois de Hegel.

Não, todos queriam estar depois deste sujeito pós-hegeliano!

Eis o pau que não matará nenhuma cobra

Nem mostrará o instrumento homicida a ninguém!

Quem chegar por último…

Morre nauseado e solteiro.

Dom Quixote tem uma história. Não existe um Dom Quixote que se olvide.

O filósofo não tem o direito de censurar seus amigos por esquecerem que ele existe! Esse é um problema muito pessoal

O FILÓSOFO COMO UM ELETRICISTA: Fases de curto-circuito da verdade.

TWIN PEAKS & DAVID LYNCH: Tudo tem um propósito, o resto é garmonbozia.

QUANDO O IDEAL É MAIS REAL DO QUE O REAL: O real é uma parte pequena do meu feudo. O contrato ideal.

Como se poderia pensar que se poderia pensar exatamente o que Tales pensou?! Tendo uma auto-estima de mil Budas, talvez, ou nem assim!

Eu escrevo que Hegel escreveu que Aristóteles escreveu que Tales disse (escreveu, por suposto, mas este escrito não sobreviveu) que o princípio (não no sentido de começo mas de importância) de todas as coisas era a água. Ironicamente qualquer manuscrito único, por mais importante que fosse, não poderia dar notícias ao futuro se fosse umedecido.

Um elo entre um nada e outro nada ainda menor.

A avant-garde do Nada. A retaguarda do império.

Não só mataram Deus como transaram com seu cadáver.

Nem todo humanismo é uma filosofia, mas toda filosofia é um humanismo.

Quando você desenvolve uma dialética só para poder ser autocontraditório à vontade (e se masturbar para o número 3)!

Na missa a missiva: às premissas, mas sem pressa!

Um filósofo que subestima Platão NÃO é um filósofo.

Diógenes Laércio e Plutarco só servem para confundir as gerações futuras. São ilegíveis hoje!

Nunca se conseguiu comprovar se Pitágoras realmente existiu. Às vezes era só uma pegadinha de estudantes, e deram o nome de Pitágoras a um burro que era o mascote oficial da seita!

O MONÓLOGO-DIÁLOGO ILUSTRADO

Kant: O conceito é pensável porque é antes de tudo sensível…

Hegel: O conceito é sensível porque é antes de tudo pensável!!!

Kant & Hegel: O conceito só pode ser pensado porque é essência-e-aparência!

Kant: Sim, finalmente estamos de acordo em alguma coisa!…

Hegel: No que mais poderíamos concordar?

Kant: Hm, deixe-me ver… Se eu fosse você, acho que me aprazeria exprimir assim: o não-conceito não pode ser pensado, pois ou é só essência ou é só aparência.

Hegel: Com efeito! E você, Kant, escreve frases tais quais: o não-conceito pode ser sentido quando é só aparência; o não-conceito não pode ser sentido quando é só essência (sua coisa-em-si!). Ou seja, o conceito é sentido como não-conceito (apenas como aparência)…

Kant: Ficamos bons na arte de invertermos os papéis! E assim você concluiria, Hegel: a essência pura é inacessível enquanto não integrar um conceito.

Esculpir bebês para parir estátuas.

Sócrates foi condenado à morte porque descobriu o inconsciente. 2200 anos depois um austríaco fraudulento vai criar uma associação internacional para enganar a civilização dizendo que ele descobriu o inconsciente!

mundo verdade, mundo-vedado.

Hegel se embaralha metendo Deus no bagulho do Um!

O único espelho do mundo é o mundo mesmo.

Portanto, desça do púlpito e volte ao mundo-verdade verdadeiro!

Percebe o que deixaste para trás na primeira olhada abstrato-panorâmica do cenário!

Conceptos como cáscaras vacías del Ser.

Deus como uma rodinha de skate.

O ponto euclidiano como patas de uma aranha em eterno debate descoordenado.

Seria o niilismo apenas um subconjunto do hegelianismo? A exportação lenta e gradualíssima de um mal da intelligentsia ao “povão”? A história desse espraiamento?

Talvez o maior livro de meta-dados que se pudesse escrever fosse uma biografia de Diógenes Laércio! Fonte: Diog. Laér.

Os maiores rivais dos escépticos eram os assépticos, pois gostavam de ter uma discussão muito limpa!…

6º “Empírico” era cético, grande tirada!

É essencial que saibas que a essência não existe!

Em si o ceticismo está correto – era uma piada!! Cof, cof… A evolução final do sofista, o SUPERSOFISTA.

A Roma nossa de todos os dias. O Protestantismo da Filosofia procrastina a morte da Filosofia, para o mal de todos… Rola-se a dívida especulativa (duplo sentido desdobrado, arrotado e peidado em si mesmo saindo como suor pelos poros respirados em seqüência)…

Jesus, o primeiro teleólogo da Terra.

A solução mundial deveria consistir em vedar qualquer trânsito e comunicação entre ocidente e oriente. Cultural ou de ogivas nucleares. Tudo que for cultura ocidental e bomba atômica fica do lado do Tio Sam. A nós, orientalistas, nossos nirvanas sutis, mil odores de rosas que aprendemos a distinguir… E então chega-se à Unidade do Mundo verdadeira, já que o Ocidente – para lá – é só um além, nem é mais mundo

Aporia… Ah, poria… algo mais?! Limite fenomênico. Limite-se, fenomênico! KNOW HOW TO LIE – LIE & REST. Já deuS.

MAIS HEGEL (& ASSOCIADOS)? OUTROS POSTS DO SECLUSÃO, referenciados durante o artigo.

HISTÓRIA DAS IDÉIAS 1: Introdução à Epistemologia Hume-kantiana

https://seclusao.art.blog/2021/05/13/historia-das-ideias-introducao-a-epistemologia-hume-kantiana/

SPEECH AND WRITING ACCORDING TO HEGEL – Derrida, 1971 (in: W.F. Hegel, Critical Assessments, ed. Robert Stern, 1993). https://seclusao.art.blog/2021/08/10/speech-and-writing-according-to-hegel-derrida-1971-in-w-f-hegel-critical-assessments-ed-robert-stern-1993/

FILEBO, Ou: Dos prazeres, da inteligência e do Bem – tradução comentada de trechos [Platão]

https://seclusao.art.blog/2020/01/07/filebo-ou-dos-prazeres-da-inteligencia-e-do-bem/

LES OEUVRES COMPLÈTES D’HIPPOCRATE – Tome Premier (trad. clássica de Littré) [Hipócrates, ‘Pai da Medicina’]

https://seclusao.art.blog/2021/04/07/les-oeuvres-completes-dhippocrate-tome-premier-trad-classica-de-littre/

O QUE ARISTÓTELES E STEPHEN HAWKING TÊM EM COMUM? Um pouco sobre a contenda edipiana Física x Metafísica: Mal-entendidos comuns entre uma e outra, do ponto de vista filosófico, passando por figuras ilustríssimas como Von Humboldt, Freud e Alfred Jarry!

https://seclusao.art.blog/2021/08/05/o-que-aristoteles-e-stephen-hawking-tem-em-comum-um-pouco-sobre-a-contenda-edipiana-fisica-x-metafisica-mal-entendidos-comuns-entre-uma-e-outra-do-ponto-de-vista-filosofico-passando-por-figuras-il/

HISTÓRIA DA MATEMÁTICA: Uma visão crítica, desfazendo mitos e lendas – Tatiana Roque, 2012.

https://seclusao.art.blog/2021/05/26/historia-da-matematica-uma-visao-critica-desfazendo-mitos-e-lendas-tatiana-roque-2012/

RÁDIO-CABEÇA

RÁDIO 1

Primeiro Solilóquio

Eu acho tudo igual,

porque dessemelhante permanece, e só um fraco feixe de luz cai. Sabes tu, o raio alumia meu tempo minha vida, aponta o caminho ao Mundo de Alexandre. Esse mundo me promete a volta do mal, assim como a penumbra dos tumultuados tijolos é um louvor à existência.

Cômico. O papel de parede não volta a seu lugar…

Sabes tu, o mundo vem sempre com esse deslocamento do papel de parede no jogo. O raio de luz evanescente acompanha todo o jogo. E então os Arcanjos Gabriel e Micael me apontam coisas, com mórbida fascinação. Embora abstrato, absurdo até, é, digo-te, a mais clara e completa claridade.

A claridade se consuma em cada homem, sobretudo na morte! Eu sei, creia-me! É toda uma canção humana e patética. Mas aqui não se trata de humanidade, mas do papel de parede jamais voltar a seu lugar! Do umbral eu antevejo,

talvez me espere alguém. Gabriel, quem sabe? Logo saberei. Estranho. Tudo que era ruidoso e barulhento está agora em calmaria. Ah, naturalmente… – ela dirá! Mas não, isso não extingue nosso angustiante tormento. Ah, diga, diga… não há nada como uma extravagante canção! Deixe estar…

Eu me pergunto se a estática do rádio e essa sensação de chiado silêncio e solidão tem algum significado, isto é, pode ser um diálogo. Por favor, guardem para si vossos comentários, pois eu só busco minha própria atenção.

Muito obrigado.

Segundo Solilóquio

Merda! Devo eu retornar à monótona noite e quem sabe com cicatrizes palpitantes me render à própria realidade de Mammon?

Onde é nu esta bosta de rádio? Ontem eu contemplei outra vez o espetáculo deplorável do louco, aquela dança horrenda de sapatilhas que deslizavam como trenós. Seja como for, senti aquela sensação banal, como se ele procurasse algo no rádio. Vou pensar naquele estranho quartinho de menina na casa. Finalmente eu encontrei os diários em capa dura das três garotinhas.

Intitulados “Sombras do Mundo de Alexandre”. Eis o homem… Estranho!

RádiŒpílogo 1

Eu cavalgo a cobra e acho o chacal.

E Jesus Cristo come, ávido, sua barra de Milka.

Deus gosta dessa música, é o que eu acho.

Deus, vai pro inferno! vão todos vocês juntos!

Preciso pensar na lagosta e não em isso-cantar.

IRRELIGIOSIDADE VELADA

Carência é minha Palavra

Derradeiros os meus gestos

Sem lastro o meu olhar

Apática minha devoção

E no entanto é grande a ânsia de

do fundo do abismo a que a luz escapa

por meio do instinto mais primordial

ascender, À luz mais esquálida

Um pássaro preto

paira sobre as ondas

Um último raio de sol

fere a escuridão encouraçada

GULLIVER’S TRAVELS INTO SEVERAL REMOTE NATIONS OF THE WORLD – Trechos traduzidos por Rafael Aguiar

AS VIAGENS DE GULLIVER A VÁRIAS NAÇÕES REMOTAS DO MUNDO

Jonathan Swift, deão de São Patrício em Dublin, primeiro publicado no verão 1726-7 e agora finalmente trazido para os modernos conhecedores do Idioma Português, nesta pandemia de 2020!

PARTE I – VIAGEM A LILLIPUT

“Meu pai tinha algumas poucas posses em Nottinghamshire: eu era o terceiro de 5 filhos.” (Incrível semelhança com Robinson Crusoe! – https://seclusao.art.blog/2018/06/06/a-vida-e-as-aventuras-de-robinson-crusoe-em-291-293-paragrafos-traducao-inedita-para-o-portugues-com-a-adicao-de-comentarios-e-notas-de-rafael-a-aguiar/)

“Meu pai costumava me remeter esporadicamente algumas somas de dinheiro que bastavam para minhas módicas despesas; eu as aplicava aprendendo a Náutica, bem como outros segmentos da Matemática úteis àqueles que desejam empregar seus dias viajando. Algo me dizia que, quer queira, quer não, mais cedo ou mais tarde, eu estaria destinado a este ofício! (…) Estudei Física 2 anos e 7 meses, conhecendo sua utilidade ao percorrer longos trajetos.”

“aconselhado a abandonar o celibato, casei-me com a senhorita Mary Burton, segunda filha do senhor Edmund Burton, tecelão e dono de armazém na rua de Newgate, de quem recebi, como dote,  8 mil xelins.”

“Fui cirurgião em dois navios subsecutivamente, vindo a fazer diversas viagens ao longo de 6 anos, às Índias Orientais e Ocidentais, excursões que também acresceram minha fortuna. Minhas horas de ócio eu empregava lendo os melhores autores, antigos ou modernos, nunca me encontrando nalgum lugar sem uma penca de livros; a bordo, ao poder observar os hábitos e os costumes de outros povos, aprendia sobre sua cultura, aproveitando para aprender também sua língua. Creio que eu nasci predisposto a esse tipo de aprendizado, pois minha prodigiosa memória me poupava dos mais ásperos esforços.”

“Acabei por aceitar uma proposta muito vantajosa do capitão William Prichard, regente do navio Antílope, que excursionaria em breve rumo aos mares do Sul. Partimos de Bristol dia 4 de maio de 1699, e posso dizer que no começo nossa jornada foi bastante próspera.”

“Na medição, encontrávamo-nos na latitude de 30 graus e 2 minutos sul. Doze de nossos tripulantes já haviam morrido de excesso de fadiga e escassez de víveres.”

“Nadei a esmo, conforme a fortuna me ditou, e de algum modo avancei graças ao vento e à maré. Constantemente deixava minhas pernas caírem, e não era capaz de sentir nenhum fundo. Mas, quando já não podia me agüentar, percebi que estava incrivelmente perto da praia, a uma profundidade propícia para um homem atravessar andando. Nesse momento a tempestade já havia enfraquecido deveras. O declive do solo neste litoral era tão pequeno que caminhei, ainda com as pernas submersas, mais de um quilômetro até me achar finalmente em terra seca. Calculei que devia ser umas 8 da noite.”

“Dentro em pouco senti algo vivo se movendo pela minha perna esquerda, deslizando e subindo suavemente, escalando até meu peito, e depois quase alcançando uma de minhas bochechas. Ao baixar minha vista para resolver o mistério – que será? –, vejo uma criatura humana de 6 polegadas, armada de arco-e-flecha, com uma aljava às costas. Não tive tempo de raciocinar antes que sentisse mais umas 40 criaturinhas semelhantes formigando por minha cútis! Claro, estão seguindo a primeira, conjeturei. Meu espanto carecia de expressão”

Hekinahdegul!, os outros repetiram as mesmas palavras diversas vezes, e nesse ponto da estória eu não sabia o que isso queria dizer.”

“Tolgophonac”

“Langrodehulsan”

“Peplomselan”

“Essas pessoinhas são exímios matemáticos, e atingiram a perfeição em engenharia, muito devido à industriosidade e empenho do imperador, um grande mecenas do conhecimento, se me é permitido o trocadilho.”

“Passei algumas horas bastante premido pelas necessidades da natureza; é de admirar que eu tenha agüentado tanto, já que fazia já 2 dias que eu não evacuava. Meu caso era grave: ao mesmo tempo que se insinuava essa emergência corporal, meu sentimento de decência me refreava. A melhor solução que encontrei, enfim, foi enfiar-me o mais fundo que pudesse no que me deram como moradia; segui, portanto, até a corrente que me prendia não me permitir ir mais longe, e detrás de bem-fechados portões descarreguei aquele excesso desconfortável de dentro de mim. Mas juro que essa foi a única ocasião em minha vida que me tornei culpável por uma ação tão abjeta!”

“Deste dia em diante, meu hábito passou a ser, assim que acordava, praticar ‘o ato’ a céu aberto, no limite do alcance de minha corrente. Além disso, graças a minha prevenção e também ao susto do incidente anterior, todo o cuidado era tomado pelo governo para que, antes de qualquer trânsito de pessoas pela rua, dois servos especialmente designados removessem a matéria ofensiva com a ajuda de carrinhos de mão. Eu não perderia tanto tempo da narrativa com detalhes tão escatológicos, à primeira vista absolutamente inoportunos, se não cresse imprescindível justificar minha conduta, meu asseio e minha higiene perante a boa sociedade”

“Ele era pelo menos uma unha (minha) mais alto que todo o restante da côrte, o que, por si só, é de saltar às vistas, naquele mundinho em miniatura!” “Ele já estava na metade descendente da vida, nos seus 28 anos e 9 meses, dos quais ele reinou por 7 na mais plena tranqüilidade e prosperidade.” “Seus trajes eram simples, diria que a moda de seu povo se situava entre a asiática e a européia; porém, à cabeça usava um portentoso elmo dourado, todo cravado de jóias, encimado por uma pluma.”

“tentava me comunicar com eles em quantas línguas eu sabia e em quantas eu não sabia (qualquer palavra decorada já me servia de auxílio), as quais eu enumeraria como as seguintes: o Holandês erudito e o vulgar, Latim, Francês, Espanhol, Italiano e a língua franca; mas não se espantem quando eu disser que nada dessa minha poliglotia servia para eu me fazer entender.”

“Eles perceberam o quanto seria oneroso eu ser mantido pela tribo. Que minha dieta custar-lhes-ia o suor de muitos e muitos homúnculos, eventualmente causando até fome e miséria em seu país. Então a dado ponto eles me submeteram praticamente a uma greve de fome ou jejum compulsório. Mas não era uma solução definitiva. Então um dia me flecharam na face e nas mãos com setas envenenadas, esperando, senão matar-me (porque o veneno seria reduzido comparado a meu volume relativo de rios de sangue), ao menos livrarem-se de mim (esperando que eu fugisse). Na verdade só posso considerar este como o plano desde o início, ao pensar melhor, pois a própria possibilidade da minha morte e da transformação do meu corpo em cadáver seria o bastante para desencadear uma grave crise: uma porção imensurável de carne putrefata, um odor pestífero que logo se alastraria, e que talvez iniciasse uma epidemia capaz de dizimar aquela civilização na micro-metrópole de Lilliput! O melhor para eles é que eu me fosse embora, voluntariamente.”

“Foi ordenada uma comissão de 6 habitantes, que ganhariam salários, para serem meus domésticos; foram-lhes erguidas moradias equidistantes e ao redor da minha própria<casa>. Foi também estipulado que 300 alfaiates se encarregariam de me confeccionar alguns vestuários conforme a moda local”

“em cerca de 3 semanas eu fiz grandes progressos no aprendizado da língua nativa”

Imprimis: no bolso direito da jaqueta do grande homem-montanha (pelo menos é assim que eu decifro a expressão quinbusflestrin), após a mais meticulosa busca, nada encontramos além de uma flanela gigante, gigante o bastante para servir de carpete da maior sala do palácio real. (…) Obrigamo-lo então a revelar o que se encontrava no extremo da corrente; pareceu-nos uma espécie de globo. Meio-prata e meio-translúcido, embora esta segunda parte também fosse de um material metálico; nessa metade transparente constatamos algumas estranhas figuras desenhadas em círculo; muito embora fôssemos capazes de <tocá-las>, era apenas uma ilusão de perspectiva, pois o tato nos revelava que tocávamos com os dedos apenas a superfície transparente do hemisfério do globo, e não os desenhos inscritos por debaixo daquele domo. Ele aproximou este globo de nossos tímpanos, queria que verificássemos uma coisa – o estranho mecanismo não parava de emitir um certo som como o de um moinho de vento, a intervalos regulares! Conjeturamos: será um animal desconhecido? Ou o deus que o homem-montanha venera? Achamos mais provável esta última opção, pois ele mesmo nos afiançou (se compreendemo-lo bem, pois ele não domina nossa língua e o conceito parecia um tanto abstrato) que rara era a ocasião em que ele fazia qualquer coisa sem consultar seu objeto ou talismã primeiro. Ele o chamou de <seu oráculo>, e declarou que tal globo ou entidade era o responsável por indicar-lhe precisamente o tempo destinado a cada ação do seu ciclo de existência.”

“a pólvora eu havia deixado amarrada, impermeável, dentro da algibeira, precaução de todo bom marinheiro quando infelizmente tem de se jogar no mar”

“Ele ficou espantado diante do barulho contínuo que o cilindro produzia, e também do rastro da bala no ar, que ele podia claramente discernir (a vista dos liliputianos é muito mais perfeita que a nossa)”

“Minha cimitarra, minhas pistolas e algibeira foram todas estocadas em carruagens nos depósitos de sua majestade; o resto dos meus pertences, ao menos, foi-me devolvido.

Eu tinha um bolso bem escondido em minhas vestes, que escapou a toda inspeção minuciosa deste povo singular. Nele eu guardava um par de óculos (porque algumas vezes eu tinha fraqueza nos olhos), um monóculo portátil e outras bagatelas que, não sendo de maior consequência para o imperador, bem julguei que não valesse a pena revelar-lhe a existência. Além do quê, cogitei que, de tanto manusearem esses instrumentos delicados, podiam acabar quebrando alguma lente.”

“Algumas vezes eu me deitava, de mãos espalmadas, e deixava que 5 ou 6 liliputianos dançassem sobre elas; com o passar do tempo, foram-se acostumando a mim e até os garotos e garotas da vila se aventuravam a conhecer-me de perto e tocar-me. As crianças gostavam de jogar esconde-esconde em minha cabeleira.”

“essa gente excelia qualquer nação que eu jamais conhecera em destreza e magnificência.”

“Quando um cargo de relevo fica vago, por morte ou desgraça (e desgraças acontecem), 5 ou 6 candidatos pleiteavam ao imperador sua posse na função renomada, através de um teste bem fora do comum: sua majestade e o restante da côrte deviam testemunhar uma dança sobre a corda!” “Não raro os próprios ministros em atividade eram convocados a demonstrar sua perícia equilibrista, a fim de convencer o imperador de que ainda possuíam a mesma habilidade que os levara ao cargo no passado.”

“Mas não pense que esses espetáculos nunca terminassem em acidentes fatais – isso era o mais comum, inclusive. Os documentos do governo registraram uma infinidade desses casos. Eu vi pessoalmente 2 ou 3 dos candidatos fraturarem algum membro. Mas o maior perigo se apresenta, mesmo, nas danças dos ministros; ciosos de superar os pretendentes aos novos cargos e de superarem a própria reputação já auferida, e buscando sobressair-se em relação a todos os demais funcionários, eles se aplicam até os limites de seus talentos corporais; nessa situação, raríssimo era o ministro que durante toda sua vida não sofria nenhuma queda da corda; está certo que nem todas as quedas matavam ou deixavam aleijado, pois vi muitos homens com a saúde perfeita que relatavam já haver tombado 2 ou 3 vezes…”

“Golbasto Momarem Evlame Gurdilo Shefin Mully Ully Gue, Todo-Poderoso Imperador de Lilliput, júbilo e terror supremos do universo, cujos domínios se estendem por 5 mil blustrugs (eu diria que coisa de 10km de raio), até os extremos do globo; monarca dos monarcas, mais alto que os filhos dos homens; cujo pé empurra para baixo e submete tudo com a gravidade, até o mais fundo; cuja cabeça altiva ameaça até o sol.

(…)

Art. 6º. Que ele deverá ser nosso aliado contra os inimigos da ilha de Blefuscu, e devotar-se ao máximo a fim de dizimar sua frota, que agora se organiza para invadir-nos.

(…)

Art. 8º.  Que o supracitado homem-montanha deverá, dentro de no máximo 2 luas a contar da promulgação desta Lei, fornecer uma medição precisa da circunferência de nossos domínios mediante o cômputo dos seus passos como unidade de medida, circunscrevendo a costa.

Último artigo. O homem-montanha prestará juramento solene de que observará todos os artigos desta constituição. Sua retribuição por seus serviços será uma ração diária de carne e bebida o suficiente para nutrirem 1.724 (hum mil setecentos e vinte e quatro) liliputianos médios, com livre acesso à presença de nossa pessoa real, bem como outros privilégios e distinções.

Redigida em nosso palácio de Belfaborac, ao décimo segundo dia da 91ª lua de nosso reino.”

“O leitor talvez queira observar que, no último artigo da constituição que regulamenta a retomada de minha liberdade, o imperador estipula uma quantidade de carne e de bebida para minha pessoa equivalente à que seria destinada a alimentar 1724 indivíduos liliputianos. Algum tempo depois, perguntando a um de meus amigos da côrte como foi que eles chegaram a esta medição tão exata, fui relatado que os matemáticos a serviço de sua majestade, utilizando minha altura como parâmetro e com o auxílio do quadrante, chegaram à conclusão de que eles próprios estavam em proporção a mim como o número 1 está para o número 12; e, havendo analogia orgânica e estrutural entre nossos corpos, intuíram que o meu deveria possuir uma massa de 1724 homenzinhos e, conseqüentemente, meu metabolismo deveria queimar energia nas mesmas bases.”

“Eu ultrapassei o grande portão ocidental e avancei bastante sutilmente, esgueirando-me por entre as duas principais vias, não vestindo mais do que meu colete, um tanto justo, por medo de danificar, se usasse um tecido mais longo, os telhados e esquinas das casas.”

“nós lutamos contra dois grandes males: uma violenta facção em nosso lar e a constante ameaça do invasor do lado de fora, inimigo este que nos é superior militarmente. Quanto ao primeiro mal, vós deveis compreender que, há já 70 luas nesta nação há dois partidos que racham a unidade do império, sob as alcunhas de Tramecksan e Slamecksan, distinguindo-se os partidários dum e doutro conforme calçam cano-alto ou sapatos rasos. Alega-se que os de cano-alto ou coturno são a facção mais agradável posto que fiel às nossas maiores tradições e leis mais arcaicas; seja como for, sua majestade determinou compor seu quadro apenas dos sapatos-comuns, ficando a facção mais ortodoxa como mera expectadora dos eventos da Coroa. (…) (drurr é uma unidade de medida correspondente mais ou menos a 1/14 de uma polegada) (…) Os Tramecksan ou canos-altos são de fato a maioria; mas nós concentramos o poder. (…) Quanto ao que afirmas, que há outros reinos e Estados neste mundo, habitados por seres humanos tão grandes quanto tu, nossos filósofos estão muito céticos; sua opinião é de que caíste da lua, ou de uma das estrelas; porque, com certeza, se 100 mortais tão grandes quanto tu existissem, todos os víveres, toda a fauna de sua majestade extinguir-se-iam num piscar de olhos. Ademais, nossa História de 6 mil luas de idade não faz menção de nenhuma outra região para além dos impérios de Lilliput e Blefuscu. (…) A contenda principal é: o modo primitivo de quebrar os ovos, antes de comê-los, é pelo lado mais largo; mas quando o avô da majestade vigente, em sua infância, prestes a comer um ovo, e quebrando-o conforme o costume antigo, cortou um de seus dedos, seu pai, isto é, o bisavô de sua majestade vigente, decretou, prevendo pesadas punições para os infratores, que os ovos deviam, doravante, ser quebrados pelo seu lado mais estreito. O povo ficou descontente com os novos usos, tendo havido 6 rebeliões originadas pela promulgação desta lei; como resultado, um rei perdeu sua vida, e outro sua coroa. Essas comoções civis foram fomentadas muito visivelmente pela nobreza de Blefuscu, que não vacilou uma só vez em receber todos os refugiados e hereges de Lilliput, para reforçar seus exércitos. Foram computados 11 mil mortos, que preferiram a punição a quebrar os ovos pela parte mais estreita. Centenas de calhamaços foram então publicados na matéria. Os livros dos ‘coturnos’ ou ‘larguistas’, foram completamente proibidos, e os partidários desta crença foram declarados inaptos para a assunção de cargos. Durante todas essas instabilidades os imperadores de Blefuscu sempre maquinaram mediante seus embaixadores, acusando-nos de cisma religioso, alegando grave ofensa a uma doutrina fundamental do grande profeta Lustrog, exposta no capítulo XLIV do Blundecral (que é o Alcorão dos liliputianos). Mas esses versos parecem estar corrompidos ou sujeitos no mínimo a uma má-interpretação, uma vez que as palavras são estas: <todo verdadeiro crente deverá quebrar seus ovos do lado conveniente.>. E qual seria esse lado conveniente? Na minha humilde opinião, este problema deveria ser deixado à consciência de cada cidadão, ou pelo menos dos magistrados, que têm toda a competência para eleger um lado favorito.”

“O império de Blefuscu é uma ilha a nordeste de Lilliput, do qual jaz separado por um canal que não ultrapassa as 800 jardas.”

“Tão triviais são todos os serviços prestados a um príncipe, quando no outro prato da balança ele situa aquela única ocasião em que nos recusamos a satisfazer um capricho seu!”

Burglum! Burglum! Burglum! O palácio real estava em chamas e fui acordado no meio da noite. (…) Por puro golpe do destino, na noite anterior aconteceu de eu ter tomado uma generosa quantidade de um deliciosíssimo vinho chamado por nós de glimigrim, e pelos blefuscudianos de flunec, do qual porém nos orgulhávamos de cultivar as melhores safras e os melhores vinhedos. Bebida muito diurética, esta! O acaso mais feliz é que eu não havia, até o momento, despejado nenhuma gota desta substância pelo meu canal uretral, até ser chamado pelos meus desesperados convivas a ajudar no combate ao incêndio. E o vívido contato com o calor daquelas chamas, após o fatigante trabalho de carregar tonéis de água que pudessem debelar o mal (para mim tais tonéis não passavam de tampas), finalmente acendeu em mim a vontade de desopilar! Dei vazão a meus instintos: urinei em tal quantidade, em tal abundância, e apliquei o jato tão adequadamente nos focos do incêndio, que em 3 minutos o fogo estava completamente extinto, e o resto dos escombros reais, que levaram tantas luas para serem erguidos, foram preservados da destruição.”

“Havia, sem embargo, uma questão: era interdito a qualquer pessoa, de qualquer condição, sangue-azul ou plebeu, aliviar-se nas dependências do palácio. Nisto, fiquei apreensivo: seria eu condenado à morte por tal blasfêmia sem tamanho? Mas sua majestade me tranqüilizou com o recado de que daria pessoalmente ordem ao grande-inquisidor para me anistiar formalmente por qualquer ofensa ao código neste caso tão excepcional.”

“Assim como a estatura média dos habitantes é ligeiramente inferior a 6 polegadas, também cada animal e planta existe em miniatura e nas mesmas proporções que em nosso mundo.”

“Sua maneira de escrever é um tanto peculiar, não sendo nem da esquerda para a direita, como com os europeus, nem da direita para esquerda, como os árabes fazem, nem de cima para baixo, como é o caso dos chineses, mas obliquamente, duma diagonal à outra, cruzando o papel, como as madames na Inglaterra.

Eles enterram seus mortos de ponta-cabeça, na vertical, porque eles acreditam que em 11 mil luas todos os mortos reviverão, e neste dia a terra (que eles crêem ser plana) virará do avesso, e por esse método eles procuram que, à ressurreição, os liliputianos acordem já sobre seus pés, prontos para caminharem para fora de suas tumbas. É verdade que os mais eruditos dentre os liliputianos confessam a absurdez dessa doutrina; mas a prática remanesce, havendo complacência com a sabedoria popular.”

“o símbolo da Justiça, presente nas côrtes de judicatura, é uma figura de 6 olhos, 2 à frente, 2 às costas e mais 1 de cada lado, significando circunspecção; com um saco de ouro aberto em sua mão direita, e uma espada embainhada à sinistra, o símbolo quereria dizer com isso que seu papel é mais recompensar do que punir.”

“não é concebível, entre os liliputianos, que uma criança esteja obrigada a obedecer ao pai biológico pelo simples fato de trazê-la ao mundo, tampouco à mãe (…) sua opinião é que os pais são os menos confiáveis para decidir sobre a educação da criança”

“As crianças são vestidas pelos adultos até os 4 anos; depois disso devem se vestir sozinhas, não importa se é um menino ou menina da aristocracia; as atendentes do sexo feminino, cuja idade é mais ou menos, proporcionalmente, a de 50 para nossos anos solares, só executam algumas tarefas consideradas mais vis, muito limitadas em número.”

“Os pais só podem ver seus filhos duas vezes ao ano; cada visita deve durar uma hora; pode-se dar um beijo à chegada e outro beijo à saída; mas um guardião do Estado, que deverá testemunhar esses encontros, não permitirá cochichos nem expressões de ternura exageradas e afetadas, nem troca de presentes, brinquedos espalhafatosos, guloseimas e que-tais.”

“Se for percebido que alguma dessas babás se atreve a entreter ou assustar as mocinhas com estórias tolas ou aberrantes, ou qualquer tipo de tolice, como as que soem praticar pela Inglaterra, a culpada será açoitada em praça pública, não só numa mas em três sessões separadas, em diferentes pontos da cidade, além de encarcerada por um ano, ao fim do qual é devolvida à liberdade, conquanto banida da sociedade para viver nas partes mais remotas. Esse sistema faz das donzelas tão ou mais embaraçadas diante de demonstrações de covardia e asneirice que os próprios homens, de modo que também detestam ornamentos corporais, indecentes e contrários ao asseio: com efeito, crescer homem ou mulher em Lilliput é absolutamente idêntico, a não ser, talvez, por uma suavização tênue nos exercícios físicos das mulheres (…) a esposa deve ser companhia prudente e agradável, já que nem sempre será jovem. Aos 12 anos as garotas atingem à maioridade (lembrando que sua escala de tempo é diferente da nossa); seus pais ou guardiães trazem-na para casa, demonstrando gratidão aos professores (um dos quais é o guardião estatal a que me referi nos reencontros semestrais entre pais e filhos durante a infância destes), mas sem choro de mulheres e coisas assim.”

“Como Sua Majestade é excepcionalmente benévola, e em consideração a teus incomensuráveis serviços à Coroa, ela está decidida a poupar-te a vida, sendo o bastante que arranquemos ambos os teus olhos, humilde punição que te quitará com a lei. (…) Claro que a extração de tuas córneas não fará de ti um homem fraco; mesmo um cego como tu, posto que gigante, poderá ser de utilidade para Sua Alteza. Aquele que, mesmo cego, serve ao rei demonstra redobrada valentia, e cremos mesmo que a falta de visão seja uma vantagem, por acrescer certa valentia interna ao ser; o medo que tiveste de que acontecesse algo a teus olhos foi a maior dificuldade que tivemos para capturar a frota rival. Ademais, para ti está de bom tamanho que vejas pelos olhos dos ministros, pois sabemos que assim são os príncipes (em metáfora, é claro).”

“O rei tem boas razões para crer que és um larguista no fundo de teu coração. E, como a traição principia no coração, antes de manifestar-se nos atos, sua majestade acusou-te como traidor da pátria com fundamento sólido, e insistiu em condenar-te à morte.”

“Foi decidido meticulosa e rigorosamente que o projeto de matar-te por inanição gradual permanecesse um segredo de Estado”

“Foi um costume introduzido pelo monarca atual e seu ministério (que contrasta vivamente com o uso dos antigos) que, após a côrte pronunciar qualquer sentença capital, fosse para bajular o ressentimento do rei ou excitar a malícia de um ou outro cortesão favorito, o imperador deveria proceder a um discurso perante seu conselho, expressando hipocritamente sua misericórdia e ternura infinitas, qualidades altamente reputadas e veneradas em todo o mundo. E este discurso era, posteriormente à transcrição do escriba, publicado em todo o reino; e nada amedrontava tanto as pessoas quanto esses encômios autodirigidos à benevolência de Sua Majestade! Quanto mais pomposas eram estas palavras, verificava-se a cada execução, mais inumana e cruel se mostrava a punição, e não raras eram as vezes em que o réu não passava de um inocente. Confesso, não havendo nascido para a côrte, nem sido educado para compor a mesma, ser tão mau juiz e árbitro das coisas que não encontrei em canto algum da sentença essa leniência e esse favor tão aventados! Considerei então (talvez erroneamente) que havia nesta peça mais rigor que gentileza!”

“Ruminava sobre meu futuro, e estava propenso a resistir a minha punição, uma vez que, de fato, não estando eu despojado do movimento em meus membros, minha força era suficiente para derrubar todo esse império. Bastaria arremessar algumas pedras e a capital estaria completamente arruinada. Mas meu remorso começou a crescer dia a dia e desisti desta resolução inicial, relembrando meu juramento para com o imperador, e todas as honras que dele recebi, incluindo meu título de nardac (o mais nobre da nação).”

“Devo admitir que a preservação de meus olhos – e minha conseqüente liberdade – deveu-se a meu caráter um tanto afoito e minha completa falta de experiência. Porque se eu conhecesse bem, àquela altura, a natureza de príncipes e ministros, que hoje eu posso me jactar de conhecer após visitar muitas outras côrtes, seus métodos de tratar criminosos menos detestáveis do que eu, ah, se de tudo isso fizesse idéiaentão!…creio mesmo que, cheio de alacridade e circunspecção, resignar-me-ia a minha dura sentença.”

“e o embaixador declarou que, a fim de manter a paz e a amizade entre os dois impérios, o imperador de Lilliput esperava que seu irmão de Blefuscu ordenasse minha extradição de volta ao país liliputiano, de pernas e braços bem-amarrados, para ser devidamente punido pela minha traição.”

“o acaso, bom ou mau isso eu não sei, atirou em minha direção um barco, em que eu não hesitaria em embarcar, oceano adentro. Não quis continuar a ser um objeto de disputas entre dois ilustres monarcas! O mesmo imperador que me mantinha como hóspede não se mostrou de todo insatisfeito com minha decisão. Na verdade, por acidente, acabei por apurar que ele estava, ao contrário, muito contente, assim como a maioria absoluta de seus ministros.

Essa descoberta me fez apressar minha partida. A côrte, já manifestamente impaciente pela minha ida, muito me auxiliou na empreitada. Quinhentos operários foram designados para confeccionar velas para meu barco, seguindo minhas meticulosas instruções; cada vela era o produto de 13 dobraduras do seu linho mais forte e resistente!

“Um mês depois do começo dos trabalhos, com tudo ajeitado, comuniquei oficialmente a Sua Majestade de Blefuscu minha partida imediata. (…) O monarca me regalou com 40 bolsas contendo 200 sprugs – a moeda blefuscudiana – cada, com um quadro enorme (para seus padrões) seu, o qual eu pus dentro de uma de minhas luvas para manter seco.”

“Abasteci a embarcação com carcaças de 100 bois e 300 ovelhas, além da mesma proporção em pão e bebida, quantidade que um blefuscudiano demoraria 400 refeições normais para consumir. Fiz questão de levar, ainda, 6 vacas e 2 touros vivos, bem como os mesmos números em ovelhas e carneiros, respectivamente, com o fito de exibi-los em minha terra natal e, quem sabe, proceder à criação desta micro-espécie. Para alimentá-los enquanto estivessem a bordo trouxe comigo um bom naco de feno, e uma saca de milho.”

“Lancei-me ao mar em 24 de setembro de 1701.”

“Meu propósito era atingir, se possível, uma das ilhas que, eu cria, se localizavam a nordeste da Terra de Van Diemen.¹ Mas não me deparei com terra nesse dia; no próximo, contudo, lá pelas 3 da tarde, após, pelos meus cálculos, navegar 24 ligas marítimas desde Blefuscu, avistei velas a sudeste (eu seguia sentido oeste-leste).”

¹ Cujo nome foi mudado para Ilha da Tasmânia na década de 1850. Fica próxima da Austrália.

“Era um navio mercante de minha terra, regressando do Japão pelos mares setentrional e meridional. O capitão, Senhor John Biddel, de Deptford, era bastante cortês e excepcional marinheiro.

Estávamos agora a 30 graus sul de latitude; havia 50 homens no navio. Aqui encontrei um velho camarada, Peter Williams, o que só aumentou minha estima pelo capitão John. Este camarada me tratou com a maior consideração. Ele logo desejou saber de que lugar eu vinha, e se fôra feito prisioneiro; eu não hesitei em resumi-lo minhas aventuras em breves palavras, mas ele obviamente pensou que eu delirava. Natural que um marinheiro perceba num discurso incrível sintomas de alguém que passou pelas piores atribulações em alto-mar, e não dê crédito. Porém, para comprovar tudo, retirei do bolso meu gado e rebanho, o que, por fim, após um grande espanto e turbação causados ao camarada, serviram para convencê-lo da autenticidade do meu relato.” “Dei-lhe duas bolsas de 200 sprugs. Afiancei-lhe que, chegados à Inglaterra, dar-lhe-ia também uma de minhas vaquinhas e uma de minhas ovelhinhas adultas, junto com as crias, quando já as tivessem.”

“Ancoramos em Downs dia 13 de abril de 1702. Minha única infelicidade foi que os ratos do navio levaram uma de minhas ovelhas.”

“Durante minha curta nova estada em meu lar, lucrei algum dinheiro exibindo meu gado-miniatura a pessoas distintas. Antes que começasse minha segunda viagem, consegui vendê-los, por fim, a 600 libras. Ao regressar mais tarde eu contemplaria o crescimento exponencial dos espécimes, especialmente dos carneiros, o que, penso eu, contribuirá muito para o progresso da manufatura de lã do país, dado que realmente a lã destas micro-ovelhas é de altíssima procedência!

Para resumir, fiquei parado apenas por mais 2 meses, ao lado de esposa e família, pois meu insaciável desejo de conhecer novos povos não me permitiria continuar por mais tempo. Deixei 1500 libras nas mãos de minha mulher, comprando também uma casa para todos se instalarem com conforto em Redriff. O resto de meu dinheiro levei comigo, parte em espécie, parte em bens, com o intento de voltar a multiplicar minha fortuna. Meu tio mais velho, John, morrera e deixara, em herança, terras nas proximidades de Epping, que geravam um lucro de aproximadamente 30 libras ao ano. (…) Meu filho Johnny, batizado em homenagem a esse tio, estava no primário, mas eu já podia ver o quanto o menino era adiantado. Minha filha Betty (hoje, enquanto escrevo, uma mulher casada e com filhos) começava a desempenhar seu ofício de costureira. Despedi-me, então, de minha esposa, da garota e do garoto, com lágrimas nos olhos, de ambas as partes, e embarquei para novas aventuras, num navio mercante de 300 toneladas, com destino ao Surat, grande entreposto comercial das Índias Ocidentais, capitaneado por John Nicholas, de Liverpool.”

* * *

PARTE II – VIAGEM A BROBDINGNAG

“Tivemos ventos muito favoráveis até chegarmos ao Cabo da Boa Esperança, onde desembarcamos para coletar água doce; porém, descobrindo um vazamento, desembarcamos também todos os nossos pertences e a carga e acampamos por ali; com o capitão padecendo de febre, não pudemos seguir nosso curso até o fim de março.”

“Nossa trajetória era leste-nordeste, o vento seguia o rumo sudoeste-nordeste.”

“fomos levados, pelos meus cálculos, 500 ligas além da conta para leste, desorientados a ponto de o marinheiro mais experiente a bordo nada saber de nosso paradeiro. Nossas provisões ainda estavam em boa quantidade, nosso navio seguia firme e inabalado, a tripulação compartilhava um bom estado, mas o problema foi que a água se tornou terrivelmente escassa. Preferimos seguir no mesmo curso, ao invés de dirigirmo-nos mais para o norte, o que podia nos levar à costa noroeste da Grande Tartária, ou quem sabe ao mar congelado. No dia 16 de junho de 1703, o garoto no topo do mastro avistou terra.

“Quando aportamos em terra não vimos água corrente nem nenhuma fonte, muito menos sinais de povoação.”

“para mim era impossível escalar esse lance de escadas, porque cada degrau tinha quase 2m de altura e o topo da pedra estava lá pelo sexto metro de altura do chão.”

“avistei um dos habitantes, nas planícies das proximidades, avançando em nossa direção, do mesmo tamanho do colosso que flagrei perseguindo nosso barco! Ele tinha a altura dum campanário gótico e sua passada percorria 5m, pelo menos! Meu espanto não tinha dimensões, de modo que corri até o pé-de-milho mais próximo para me esconder. O gigante se ergueu sobre aquela enorme montanha de pedra, para nós, que para ele não passava de um escabelo ou plataforma, mirando ao longe, nos campos do lado oposto, com a mão direita em concha sobre os olhos. Eu ouvi seu chamado numa voz muitas e muitas vezes mais elevada que uma trombeta militar; o som ecoou de modo tão grave e assustador pelo ar que demorei a entender que não se tratava de um trovão. Imediatamente, 7 monstros da sua estatura se aproximaram portando gadanhas, o gancho de cada uma tão largo quanto 6 foices humanas inteiras!”

“Eu chorei minha viúva desolada e meus filhos órfãos de pai. Lamentei profundamente minha loucura e meu capricho, depois de tantos apuros arriscando-me numa segunda viagem, contra o conselho de meus mais próximos. Nessa terrível agitação, podia menos ainda suportar lembrar de Lilliput, onde os nativos me olhavam como o maior prodígio aparecido naquele mundo; lá eu mesmo podia encerrar toda a tropa imperial em minhas mãos, afora inúmeras outras ações que estarão para sempre gravadas nas crônicas daquela civilização de milhares de luares de duração, a ponto de provavelmente haver no futuro discussões entre as velhas e as novas gerações – porque decerto que uns chamarão todos os relatos historiográficos oficiais de mitologia e contos de fadas impressionáveis, mas outra corrente sempre acreditará em sua realidade efetiva!”

“Considerando a criatura humana mais selvagem e mais cruel em proporção a seu tamanho, o que poderia eu esperar senão tornar-me o pão do dia de um desses enormes bárbaros, o primeiro que me avistasse e me apanhasse? Pela primeira vez acreditei de corpo e alma nos filósofos, que dizem: nada é grande ou pequeno, a não ser relativamente. A natureza sabia o que fazia quando colocou liliputianos e blefuscudianos como vizinhos – imagine se os micro-homens tivessem de se haver com estes gigantes, gigantes para o único <gigante> que eles mesmos conheceram! E não duvido que um dia pudessem encontrar, os liliputianos, outros liliputianos deles mesmos: uma civilização menor ainda, que meu olho demasiado humano sequer pudesse distinguir em meio à relva! Mas o que me parecia mais estranho era que, houvesse gigantes para estes gigantes, não sei que continente terrestre poderia abrigá-los!… Sem dúvida o mundo era uma vastidão ainda longe de ser completamente conhecida pelo gênero humano, de qualquer tamanho ou espécie, pensei eu — tudo isso eu pensei, não organizada nem pachorrentamente, como aparece agora no papel, num curto intervalo de tempo, em meio aos temores mais macabros e à maior incerteza sobre os próximos eventos!”

“O gigante agiu com cautela, a mesma do caçador que não ignora que um animal, ainda que pequeno, pode vir a arranhá-lo ou mordê-lo. Na Inglaterra eu sabia caçar doninhas como poucos! Por fim, o homem-montanha me espreitou pelas costas, e envolveu meu tão largo lombo suavemente, entre seu indicador e polegar, depositando-me depois a cerca de 3m de seus olhos, para estudar minha fisionomia com mais precisão.”

“Ele <falava> bastante comigo; mas o som de sua voz feria meus tímpanos, chacoalhava meu organismo como se fôra todo o núcleo de um engenho ou moinho trabalhando a todo vapor. Apesar de tudo, eu conseguia distinguir as sílabas que ele emitia. Eu respondia o mais alto que conseguia, tentando em várias línguas, no que meu dono aproximava sua orelha de mim menos de 2m, o que para ele devia ser quase contato epidérmico; mas sempre em vão, porque não parecíamos dois seres inteligíveis. Parecíamos dois animais incapazes da comunicação entre nós.”

“Ele chamou sua mulher, e me exibiu a ela. Ela gritou e correu para longe, como a dona de casa inglesa ao ver um sapo ou uma aranha. Porém, depois de contemplar meu comportamento por algum tempo, e como eu parecia entender a reagir aos sinais de seu marido, ela passou a se acostumar a mim gradualmente, até considerar-me com bastante afeto, eu diria.”

“Eu segurei com bastante dificuldade o vaso com as duas mãos, e demonstrando grande respeito bebi à saúde da senhora, pronunciando o mais alto que pude as palavras em Inglês, o que fez todos os presentes rirem do fundo do coração. E essas gargalhadas quase me ensurdeceram. Esse licor tinha gosto de sidra, e estava longe de ser ruim.”

“lembrando quão naturalmente malvadas são nossas crianças com papagaios, coelhos, gatinhos e cães ainda filhotes, prostrei-me de joelhos e, apontando para o garoto, fiz com que meu mestre entendesse, tão bem quanto podia, que eu perdoava a ação de seu filho. O pai entendeu e concordou, e o garoto pôde se sentar à mesa novamente”

“como sempre me contaram, e por experiência própria confirmei em minhas viagens, fugir ou demonstrar medo diante dum animal feroz sempre o faz persegui-lo e ter mais motivos para atacá-lo, resolvi, então, nessa hora crítica, dissimular indiferença.”

“Tive muito menos apreensão dos cachorros, que se atulhavam na sala, como é usual em chácaras, em 3 ou 4; um era um mastim, que para mim tinha o tamanho de uns quatro elefantes, e havia também um galgo, algo mais alto que o mastim, mas muito mais esbelto.

Quando o jantar estava por terminar, a babá apareceu com um bebê de um ano de idade, que imediatamente me espiou e começou a guinchar e lamuriar na típica linguagem da idade duma forma que tenho certeza ouvir-se-ia da ponte de Londres a Chelsea, tal era seu desejo de brincar comigo.”

“Devo confessar que nada me causava mais horror que a vista de seus monstruosos seios, que não sei no momento com o quê comparar a fim de transmitir ao leitor curioso a correta proporção de seu vulto, de sua forma e de sua cor. Cada um era da altura de um homem da nossa civilização, e em circunferência creio que beirava os 5 metros. O mamilo era metade da minha cabeça, e sua cor, como a dos demais detalhes da teta, com pintas, cravos e sardas monstruosos, eram-me nauseantes. (…) Isso me fez refletir acerca da maciez da pele de nossas senhoras inglesas, que tão belas nos parecem, mas, no fim das contas, só porque estão adaptadas ao nosso próprio tamanho! Os defeitos da nossa mulher só poderiam ser assim apreciados com a ajuda de lentes de aumento.”

“Lembro de, em Lilliput, ter considerado a compleição daqueles micro-habitantes talvez a coisa mais linda sob o sol. Ao falar sobre isso com um sábio da nação, com quem estabeleci amizade, ele me disse que meu rosto parecia muito mais bonito e jovem quando me observava desde o solo, e que eu já não parecia o mesmo quando se me observava em close, nas vezes em que eu pegava meu interlocutor pela palma da mão a fim de aproximá-lo dos meus ouvidos. Ele confessou, com sinceridade, que se espantara quando vira meu rosto de perto pela primeira vez. Ele percebia enormes buracos, e dizia que cada fio de minha barba parecia mais rígido que as cerdas de um javali, e minha compleição, composta de um sem-número de cores, era um caleidoscópio doloroso aos olhos e, enfim, repulsivo. Devo dizer ao leitor que, na Inglaterra, eu sou dono de uma beleza mediana quando o assunto é o meu sexo, e que minha pele tem poucas imperfeições e queimaduras de sol, a despeito de tantas andanças e viagens!”

“A filha de meu dono se afeiçoou muito a mim, e me confeccionou 7 camisas e algumas outras roupas de linho, dos melhores tecidos disponíveis, que para o meu tato eram mais ásperos que roupas de juta. (…) Ela também foi minha professora do idioma local. (…) Eu fui batizado por ela de Grildrig, o que a família acolheu de forma voluntariosa. Em pouco tempo eu seria conhecido por todo o reino. Essa palavra carrega o mesmo significado do latim nanunculus, italiano homunceletino, inglês mannikin, isto é, <pigmeu>. Se não fosse essa mulher creio que pereceria em minha estada nesse país. Ela sempre me mantinha consigo e a salvo em suas peregrinações – eu a chamava de minha Glumdalclitch, ou <pequena babá>.”

“A vizinhança já andava dizendo que meu dono havia encontrado um estranho animal no mato, do tamanho de um splacnuck, embora constituído em toda sua compleição como um ser humano (como um ser-montanha!). E não escapava às observações que em tudo eu me comportava humanamente também, fosse inerentemente ou por imitação. E notaram que eu tinha uma linguagem totalmente própria e que me alfabetizava rapidamente na língua deles, andava ereto sobre duas pernas, era educado e gentil, aparecia quando era chamado, obedecia qualquer instrução, tinha membros muito hábeis e elegantes, e que meu pequeno rosto era mais formoso que o de qualquer menina aristocrata de três anos de idade.”

“Minha mestra me considerava humilíssimo, não desprovido de honra e amor-próprio, e que era-me degradante ser exposto no mercado por dinheiro para os tipos mais vulgares. Ela me afiançou que conseguiu de seu papai e de sua mamãe a promessa de que Grildrig seria dela e só dela; mas em breve ela percebeu que queriam fazer como fizeram com seu carneirinho do ano passado. De início seu mascote, ele foi engordado e logo vendido para o açougueiro.”

“o cavalo avançava mais de 10 metros a cada passo e trotava tão alto que a sensação não era outra senão a de ver-se solto num navio na mais agitada das tempestades. Nossa jornada era algo mais extensa do que seria o percurso de Londres a Saint Alban.”

“quase não me deixavam descansar nesse tempo, a não ser às quartas-feiras, que eram o Sabbath nessa região.”

“Cruzamos 6 ou 7 rios, no mínimo muito mais profundos e largos que o Nilo e o Ganges. Devo admitir que raramente havia regaço menor que o Tâmisa, nosso rio de pouco menos de 400km de comprimento. Já havia 10 semanas que estávamos nessa jornada; eu fui exibido em 18 grandes cidades do império, afora cidadezinhas e vilarejos ou famílias campesinas à parte. Em 26 de outubro chegamos à capital, chamada Lorbrulgrud, <Orgulho do Universo>.”

“Eu já era basicamente um usuário fluente da língua, podendo entender cada palavra dos interlocutores.”

“Minha ama trazia consigo um livrinho de bolso, não muito maior que um átlas de Sanson. Tratava-se de um manual muito disseminado entre as jovenzinhas desta nação, uma espécie de sinopse dos preceitos e da história da religião ali adotada. Ela utilizou este volume para alfabetizar-me.”

“Eles concluíram pela análise minuciosa de meus dentes que eu era um animal carnívoro. Mas, ao mesmo tempo, eles não podiam imaginar como eu podia me sustentar, uma vez que mesmo os quadrúpedes mais inofensivos e menores, como ratos, eram demasiado perigosos para minha acanhada existência. Cogitaram se eu não tinha de recorrer a lesmas e demais insetos.”

“Eles jamais se dignariam a classificar-me como um de seus iguais, um exemplar de sua espécie que teve sua maturação interrompida precocemente, i.e., um anão, porque minha pequenez estava muito abaixo de qualquer grau de aceitação do que devia ser um anão para eles. O menor indivíduo de todo o reino, o bobo favorito da rainha, tinha, ao que me parece, 9,14m. Após muitos debates, eles chegaram portanto a um consenso, o de que eu era um mero relplumscalcath, literalmente um lusus naturae conforme à moderna filosofia européia, definição vazia que não deixa de ser apenas um arremedo dos escolásticos aristotélicos para disfarçar sua extrema ignorância das coisas: queriam dizer, em suma, que eu era uma dessas aberrações de circo, e nada mais.”

“a rainha (mulher de estômago fraco!) se serviu, duma garfada, dum monte de comida equivalente à massa que uma dúzia de fazendeiros ingleses poderiam consumir num banquete suntuoso. Depois de ver essa cena, confesso que a cada nova lembrança voltava a me sentir enjoado como na ocasião. Isso se repetiria ainda por muitos dias”

“Confesso que, após falar copiosamente de minha terra-natal Grã-Bretanha, de descrever nossos comércios e guerras através de tantos mares e terras, e como os negócios de Estado estavam divididos em partidos assim e assado, de nossos cismas religiosos, dos preconceitos pedagógicos, etc., etc., Sua Alteza, não resistindo ao charme da crônica, fez-me subir a sua destra espalmada e me transportou, muito delicadamente, até bem perto de seu rosto real. Então, afetuosamente me afagando às costas e à cabeça como se fosse seu cachorrinho, e após uma sincera gargalhada, perguntou-me: Tu és um whig ou um tory?

“Quão desprezível não é a grandeza humana, capaz de ser emulada em todos os seus ínfimos detalhes por insetos diminutos como tu e teus semelhantes! Imagino que vós levais bem a sério a questão das distinções honoríficas. E tal como em nosso reino vós construís casas e cidades, que para nós não seriam mais que uma toca de coelho! Aposto que a aristocracia se admira ao espelho com vestimentas aprumadas e adornos mil; ama e peleja; contende, trai, engana, vilipendia!”

“E o rei continuava, enquanto eu, desconfortável, ora empalidecia, ora ruborizava, fosse de vexação ou pura indignação. Não era fácil ouvir falar assim tão galhofeiramente do nosso nobre país, da nossa invencível marinha e de nossa perícia e indústria sem iguais. Segundo a visão deste homem, a França era ainda mais digna de pena, quando lhe disse que nossa rival era apenas a segunda dentre as nações; e para ele a Europa não passava de um amontoado de arbitrariedades sem propósito. O que poderiam significar, nesse contexto tão irrelevante, virtude, piedade, honra, verdade, altivez e a ambição de conquistar o mundo inteiro? Nosso ridículo papel no jogo do universo era manifesto, e eu não fui poupado de ouvi-lo com todas as sílabas.”

“Nada me mortificava e me indignava tanto quanto este anão da rainha. Como eu disse, ele tinha <apenas> 9,14m, ou seja, era com toda a certeza o campeão dentre os pigmeus do reino – ninguém de sua própria espécie conseguia ser mais baixo do que ele. E parece que à minha vista ele também se sentia terrivelmente mortificado, interpretava minha existência como um insulto – uma ofensa direta à sorte que lhe cabia de ser o primeiro em alguma coisa. Sua inveja e ciúmes se tornaram evidentes. Pois eu duvido que vocês encontrem um bobo da côrte mais presumido do que este em todos os mundos nos quais pisarem!”

“ela costumava me perguntar se as pessoas do meu país eram tão covardes quanto eu.”

“A totalidade da extensão dos domínios do príncipe girava em torno dos 9500km em longitude e dos 4800km aos 8000km (especulava-se, sem muita certeza) em latitude. Isso me leva a crer que os geógrafos europeus encontram-se muito equivocados em seus cálculos ao supor que nada há entre o Japão e a Califórnia senão o oceano! Eu, particularmente, sempre acreditei que devia haver uma quantidade de terra equivalente para compensar, nas coordenadas opostas do globo, os desertos da Tartária. Proponho, doravante, uma reformulação dos mapas e cartas atuais, acrescentando este vasto continente dos gigantes na circunvizinhança da porção noroeste da América. Ofereço meus préstimos para o que se fizer necessário.”

“desnecessário dizer que essa gente se encontra excluída de todo comércio com qualquer outra nação do mundo.”

“a natureza, ao produzir as plantas e animais deste espaço, de dimensões tão extraordinárias, formou um ecossistema perfeitamente fechado, limitado a este continente, mantendo outras zonas terráqueas sem qualquer interferência ou comunicação com este espaço que padece de gigantismo. Parece que isso ocorre em benefício tanto desta terra dos gigantes quanto do resto do mundo, de forma que nenhuma das fisionomias da natureza sai prejudicada. Se há uma moral por trás destes fatos, deixo para os filósofos descobrirem.”

“As madames da côrte amiúde convidavam Glumdalclitch a seus apartamentos, e encorajavam-na a levar-me consigo, a fim de me contemplar e me tocar. Essas mulheres se compraziam em deixar-me pelado e inserir-me por inteiro entre os seus dois seios; eu tinha tremenda repulsa dessa gracinha, até porque o cheiro da pele das gigantes me era nauseabundo. Não digo isso para depreciar a honra dessas – no demais – prestigiosas damas, mas, como já deixei claro em minha narrativa, o fato de eu ser muito menor que elas me fazia exageradamente sensível para estas coisas. Qualquer cheiro, aparência ou som inexistentes ou desprezíveis para esta raça me eram muito notáveis e chamativos; numa palavra, ofensivos. Essas ilustres pessoas não deviam ser menos agradáveis para seus pares do que as melhores cortesãs inglesas, mas eu não podia participar deste encanto. Além do mais, qualquer aroma natural era menos traumatizante do que perfumes e loções, que estas aristocratas usavam em abundância e que me davam alergia ou simplesmente me faziam perder a consciência.”

“A mais adorável de todas estas damas da côrte, uma espirituosa adolescente de 16 anos, costumava me deixar sentado sobre um de seus mamilos, e cada vez inventava uma nova brincadeira ou um jeito inusitado de se entreter as minhas custas – estripulias dessas de moças, sem maiores conseqüências… mas que o leitor me escusará de eu não publicar neste recatado tratado. Estas coisas me deixavam tão inquieto e apreensivo que um certo dia pedi a Glumdalclitch que me arranjasse uma desculpa que me desobrigasse dali em diante de comparecer a essas <reuniões íntimas de comadres> de uma vez por todas.”

“Certa vez, um dos servos, cuja atribuição era encher-me o cantil com água fresca a cada 3 dias, se distraiu e deixou que um sapo enorme pulasse no balde e lá ficasse, sem de nada se dar conta. Ele abasteceu meu cantil derramando o bebê junto com a água, quer dizer, derramando o sapo junto com minha água, aposto, sem olhar o que estava fazendo, e se retirou. Eu tinha um barco próprio para velejar em uma banheira que este povo gentilmente construiu-me, como se se tratasse de um veleiro de brinquedo. Velejar consistia num dos meus melhores passatempos. O sapo adentrou a banheira, subiu ao barco, e eu só fui percebê-lo quando comecei a navegar. O sapo, com seu peso descomunal comparado ao do barco, fê-lo se inclinar em excesso para um dos lados, no que fui forçado a servir de contrapeso na parte oposta. Depois o sapo saltou até o meio do navio e, em seguida, sobre minha cabeça, e não parou de saltitar para frente e para trás, emporcalhando minha cara e minhas vestes com um lodo odioso. A largura horizontal deste bicho só o fez parecer, para mim, àquela altura, o animal mais deformado que podia existir. Mas, orgulhoso, mesmo Glumdalclitch tendo notado meu apuro, pedi para cuidar disso sozinho. Eu peguei um dos meus remos e dei-lhe umas boas pancadas, até ele finalmente achar melhor saltar de meu barquinho.”

“o macaco, sendo muito ágil e olhando em todas as direções, ótimo para detectar movimentos e encontrar meu paradeiro, deixou-me em tal estado de aflição que eu tirei sabe-se lá daonde firmeza de espírito e força mental para me esconder debaixo da cama e não dar um sinal de vida. Fato é que, depois de espreitar irrequieto uns instantes, urrando e fazendo caretas, ele conseguiu detectar minha presença. E enfiando uma de suas mãos pela porta da minha casa-miniatura, como um gato faria ao brincar com um rato, embora eu tentasse ludibriá-lo mudando de lugar rapidamente, ele por fim agarrou-me pelo cordão do capuz do meu casaco e me arrancou da casa de brinquedo.”

“Eu creio piamente que ele me tomou por um filhote de sua própria espécie, sempre acariciando simiescamente minha cara com sua outra mãozorra.”

“o macaco foi avistado por centenas na côrte, sentado num telhado, segurando-me como se fôra seu bebê, me alimentando, inserindo em minha boca certos víveres que ele havia amassado após retirá-lo das provisões que um dos macacos de seu bando carregava. Ele me fazia carinho e exortações se eu me recusava a comer. Os gigantes lá embaixo começaram a rir da cena. E não posso culpá-los: a cena deve ter parecido das mais ridículas e engraçadas, menos para mim mesmo, é claro. Seja como for, alguns jogaram pedras, esperando com isso fazer o macaco descer. Mas outros logo proibiram que se fizesse isso, porque se uma só dessas pedras me acertasse, era provável que meu próprio cérebro virasse uma papinha.”

“Eu quase morri engasgado com a comida amassada que o macaco insistia em enfiar minha goela abaixo. Minha querida <pequena babá> usou uma agulha para tirar tudo do fundo de minha garganta, no que comecei a vomitar, o que muito me aliviou. Mas eu me encontrava tão fraco a essa altura, e tão machucado nas costelas, de tanto ser abraçado pelo símio, que fiquei de cama umas boas duas semanas.”

“O macaco que me seqüestrou foi executado, e uma ordem expedida de que nenhum animal da espécie deveria ser deixado circulando nas dependências do palácio.”

“O rei me perguntou: O que tu te punhas a pensar enquanto no colo do macaco? Agradou-te a comida? Como ele fez para alimentar-te? O ar fresco dos cimos do telhado causou-te algum tipo de alteração no estômago? O que tu terias feito se isto te tivesse acontecido em teu próprio país? Sobre essa última pergunta, eu contei a Sua Majestade, com simplicidade, que na Europa quase não tínhamos macacos, só mesmo aqueles trazidos por curiosidade de outros países distantes, mas que estes eram tão pequenos que eu sozinho poderia lidar sem problemas com uma dúzia deles.”

“O fato é que a cada dia que passava eu alimentava a côrte com mais uma história burlesca e ridícula. Glumdalclitch, muito embora se afeiçoasse muito a mim, maliciosamente informava à rainha cada uma dessas ocorrências – porque ela não podia perder a oportunidade de tanto agradar a realeza.”

“Tinha um cocô de vaca no caminho, e eu tive de exercer minhas faculdades atléticas tentando saltá-lo. Peguei muito impulso, mas infelizmente o salto saiu fraco e eu afundei até os joelhos na substância. Eu percorri aquele monte de esterco como se fôra um terrível mangue, e um dos soldados me limpou tão bem quanto pôde com seu lenço. Deve-se imaginar o meu estado. Glumdalclitch me confinou a minha caixa até que voltássemos para casa. Obviamente a rainha foi logo informada do ocorrido, e o próprio soldado que me limpou espalhou o conto jocosamente por todo o reino. Todas as gargalhadas da cidade foram tiradas as minhas expensas por uma sucessão de dias.”

“Um dia o rei me posicionou para ouvir uma execução da banda real, mas eu duvido que todas as baterias e trombetas da Inglaterra poderiam ter feito um som tão ofensivo a meus ouvidos.”

“Quando criança eu aprendi a tocar a espineta. Glumdalclitch tinha uma em seu quarto e recebia aulas de um professor da aristocracia duas vezes por semana. Bom, pelo menos eu chamava o instrumento de espineta, porque me lembrava uma. Uma idéia surgiu em minha mente: de que eu pudesse entreter o rei e a rainha com uma canção inglesa com a ajuda deste instrumento. Mas, pensando bem, não passava de devaneio: a espineta tinha pelo menos uns 20m.”

“Um dia, talvez imprudentemente, tomei a liberdade de dizer ao rei que o desprezo com o qual ele aprendeu a imaginar a Europa, além do resto do mundo, é claro, não parecia condizente com toda sua sabedoria e caráter virtuoso; que a razão não aumenta com o tamanho do corpo; que, ao contrário, na Europa os mais altos eram geralmente os mais desprovidos de inteligência. Que, dentre os animais, os mais distintos por sua indústria e sagacidade eram as abelhas e formigas. E que, por mais que ele me tivesse em conta como um mero bobo da côrte, eu esperava poder viver para honrá-lo com algum serviço extraordinário. O rei me ouviu atentamente e começou a conceber uma opinião muito melhor de minha pessoa. Ele me pediu então uma minuciosa descrição do governo britânico, a mais minuciosa que eu pudesse fornecer. Acredito que, por mais orgulhosos de seu próprio reino, todos os príncipes gostam de ouvir sobre costumes de outras terras, para ver o que se pode melhorar na sua própria.

O leitor pode imaginar vivamente como eu desejava, nestas horas, ter o talento oratório de um Demóstenes ou Cícero, que me daria a chance de celebrar minha querida terra natal e exaltá-la ao grau máximo, num estilo condizente com seus méritos e sua prosperidade.

Seja como for, iniciei meu longo colóquio informando Sua Majestade da geografia da Inglaterra: disse que nosso país eram duas ilhas, que em seu todo constituíam 3 importantes reinados, unificados, porém, sob um só monarca; isso sem falar de nossas colônias na distante América. (…) Discorri então sobre a constituição inglesa e o funcionamento do nosso parlamento; detalhei portanto nosso ilustre corpo da Câmara dos Lordes, onde só exerciam mando os mais distinguidos dentre os sangue-azul, os mais tradicionais de berço e as famílias com mais patrimônio. Descrevi nosso sistema educacional e nossa imensa preocupação em incutir nos jovens o ensino das artes, da técnica e do combate militar. Apenas os melhores podiam se tornar conselheiros do rei. E demonstrei que se tornar legislador ou juiz era uma das maiores honras que se podia almejar. Enfim, esses eram os heróis de nossa pátria.”

“Outras pessoas, consideradas sagradas, também compunham aquela assembléia, os bispos, cujo ofício era zelar pela religião, bem como por todos os de hierarquia inferior no corpo eclesiástico. O rei e os mais sábios conselheiros se encarregavam de nomear os bispos dentre os mais compenetrados e santos dentre os padres. Os padres eram os mais espirituais do povo e da nação, o sustentáculo do clero.

A outra parte do parlamento era composta pela Câmera dos Comuns, gentis-homens livremente escolhidos pelas próprias pessoas do povo, baseadas principalmente na habilidade e no patriotismo de seus principais cidadãos. Contei então que a Câmara dos Comuns junta da Câmara dos Lordes constituíam a mais augusta assembléia de toda a Europa; este, que era o parlamento, em conjunção com o rei, decidia todos os mais importantes negócios de Estado e vigiava a aplicação da Lei.

Falei também das nossas côrtes de justiça, presididas pelos mais doutos e eruditos conhecedores do Direito, árbitros dos litígios civis, penais, morais… Relatei como era prudente e meticulosa nossa administração contábil e orçamentária. Estimei o valor e as glórias de nossas forças, da marinha e da infantaria. Fiz um censo tão bem quanto me lembrava de nossa população, quantos milhões se declaravam de uma confissão ou de outra, quantos se declaravam conservadores ou liberais. Não omiti sequer nossos desportes e passatempos favoritos, nem nenhuma outra particularidade que julguei que aumentaria a estima deste rei pelo meu país. Finalizei esses meus discursos com uma história resumida da Inglaterra nos últimos 100 anos.

Foram ao todo 5 audiências, cada uma delas de várias horas. O rei raramente me interrompia e parecia hipnotizado e concentrado em minha narrativa; às vezes ele se punha a anotar certas coisas; bem como anotava perguntas para me lançar no dia subseqüente.”

“Quais métodos são usados para aperfeiçoar as mentes e corpos de vossa jovem nobreza? Em que tipo de negócios os rebentos desta casta despendem seu tempo, seja na primeira infância ou na juventude mesma? Quando uma família da aristocracia se extingue, que medida é tomada e como se seleciona uma nova família para a Câmara dos Lordes? Qualé o pré-requisito para ser nomeado Lorde: conquistar a confiança do príncipe? Uma soma de dinheiro, talvez? Ou demonstrar engenhosidade e estrategismo políticos? As inovações, procurando sempre melhorar os costumes, chegam a causar algum tipo de perturbação ou ameaça de revolução? O interesse público é o último fim visado pelo monarca, ou há outros mais importantes? Quanto um lorde médio sabe sobre as Leis, e como vem a saber o que porventura sabe? Como um juiz faz para saber o que decidir numa questão vital sobre as propriedades de alguém em litígio? Está tua sociedade livre de vícios como a avareza, o partidarismo, a miséria? Poderia ser que a aristocracia esteja sujeita a se corromper por subornos, negociatas ou qualquer tática suja do ser humano sedicioso? Os bispos, eles são sempre nomeados com base na autenticidade de sua reputação e a honestidade de suas vidas, na extensão de seus conhecimentos em religião? Nunca houve um só que se tornasse um conspirador depois de ascender ao topo, mesmo que tivesse sido um bom padre? A fé é forte em todos os padres? As idéias são prostituídas entre aqueles que não querem perder suas ligações com a aristocracia, ou impera a sinceridade acima de tudo? Como são escolhidos os tais ‘comuns’? Um forasteiro eventualmente muito rico poderia vir a comprar votos ou exercer influência sobre a população? Por que todos estão inclinados a fazer parte desta assembléia, se é um trabalho tão duro e encerra tantas responsabilidades,e mesmo sem receber pensões ou salários, correndo o risco de levar a própria família à ruína?!? Os nobres estão sempre dispostos a tirar de seu próprio bolso a fim de auxiliar os outros? Mesmo se for um príncipe cheio de vícios e de pulso fraco?”

Enfim, eu senti que sua majestade duvidava do exaltado patamar de virtude e do espírito de abnegação de meu povo! Ele não cessava de multiplicar suas perguntas. Cada resposta gerava novas perguntas, e eu não sabia mais de onde peneirar tantas respostas! Suas objeções eram tamanhas, e tão impudentes, que me reservo ao direito de não incluí-las todas neste relato!”

“Quanto tempo leva para determinar o que é justo e o que é injusto? Quanto esforço, dinheiro e tudo o mais é gasto nesta operação? Advogados e oradores têm liberdade irrestrita de expressão ainda em casos de notórios assassinos ou maus-exemplos, cujos réus sejam indignos ou cuja defesa comprometa sua própria honra? (…) Quais são as possibilidades de reformar as Leis já instituídas? E como evitar que um juiz interprete uma Lei a seu bel prazer?”

“Quem são os credores dos ingleses? De onde tirais vós os recursos para pagá-los? – ele queria muito me ouvir falar dessas tais caríssimas e pesadas guerras. Deveis ser supinamente belicosos, ou então estais acostumados a viver em meio a inúmeros vizinhos de nações guerreiras e de mau temperamento! Não posso imaginar que vossos generais não sejam mais ricos ainda que vossos reis! … E que tipo de comércio ou empresa vós executais fora de suas ilhas, ademais dos naturalíssimos escambos e escoltas marítimas de rotina para manter-vos em paz?”

“Se nós fôssemos governados por nosso próprio consentimento, i.e., se meu povo fosse livre e o soberano de si mesmo, que elege seus próprios representantes, acho que nada nem ninguém teríamos, e não concebo do que os ingleses possam ter medo! E afinal de onde vêm todos esses inimigos de que falas?! Uma simples residência, não é ela muito mais bem-defendida pelo seu dono, seus filhos e família, enfim, que por meia dúzia de patifes recrutados nas ruas a baixos soldos, que lucrariam 100x mais cortando as próprias gargantas?”

“E essa coisa chamada jogo de cartas, a que idade começa-se a praticá-lo? E quando se pára? Quanto tempo é dedicado a isso a cada semana?! Essas apostas são perigosas – interferem no tamanho da fortuna de uma família?! Pessoas de caráter duvidoso podem se aproveitar de seu talento no jogo para amontoar riquezas? O título de nobre é comprável? Os vossos aristocratas conseguem viver em meio a rufiões ou não suportam essa perspectiva?”

“Teu último século e o de teu país, ó inglesinho, não passou de uma seqüência vertiginosa de conspirações, rebeliões, assassinatos a sangue frio, massacres, revoluções, exílios e banimentos, uma seleção das piores conseqüências dos mais graves vícios tais quais a avareza, a sedição, a hipocrisia, a perfídia, a crueldade, a fúria, a loucura, o ressentimento, a inveja, a luxúria, a malícia, a ambição!”

“Meu pequeno amigo Grildrig, fizeste um excelente panegírico de teu país. Provaste-me que a ignorância, a preguiça, o vício são os ingredientes mais aptos para formar os legisladores! Que as leis são mais bem-explicadas, interpretadas e aplicadas por aqueles cujos interesses e habilidades estão em perverter, confundir, enganar. Vejo em vós as linhas de uma instituição que, em sua origem, pode ter beirado o tolerável, mas que agora, metade apagada, em suas melhores partes, está agora infectada pela corrupção!”

“E quanto a ti, Grildrig, que passaste a maior parte de tua vida viajando, tenho muitas esperanças de que tu mesmo não cultivas muitos destes abomináveis vícios de tua nação!”

“Não posso concluir outra coisa senão que a grande maioria de teus conterrâneos é constituinte da raça mais perniciosa de pequenos e odientos vermes que a natureza jamais deu-se ao trabalho de perpetrar sobre a superfície da terra!”

“este monarca se mostrou tão cioso e inquisitivo em conhecer cada particular de minha vida e de meu povo que algumas informações e demandas não poderiam soar mais do que como ingratidão e descortesia, seja da parte dele ou da minha, ao me negar a responder ou dar satisfação de alguns detalhes. Às vezes não era por discrição: eu simplesmente desconhecia a resposta.”

“Se bem que devemos ser tolerantes com um rei que vive tão secluso do resto de todas as nações, e portanto nada deve saber em termos de maneiras e costumes ordinários para estrangeiros: nunca seu preconceito será aniquilado uma vez que há essa ignorância, e será sempre natural qualquer estreiteza conceitual, mais ou menos grave conforme o contexto. Creio que nós e o restante da Europa estamos, pelo menos, isentos deste defeito. Seria realmente bizarro se os padrões de vícios e virtudes adotados por um príncipe tão remoto e isolado tivessem utilidade universal!”

“Ele ficara abismado como um inseto rastejante tão impotente como eu (aqui uso suas expressões, literalmente) podia dar vazão a idéias tão desumanas, ainda mais sem o menor pudor na forma de dizê-lo, parecendo alheio a tantas cenas de violência e desolação que eu mesmo pintara como as conseqüências evidentes do uso dessas máquinas destrutivas. Algum gênio mau deve ter invadido vossa civilização, ele disse. Quanto a ele próprio, declarou que, embora poucas coisas o comovessem tanto quanto novas descobertas na arte e na natureza, ele preferiria perder metade de seu reino que ficar a par desses segredos sórdidos. E me recomendou dali em diante jamais voltar a esse assunto. Estranho caráter, estreitos princípios e visão tão limitada!”

“Eu tenho para mim que assim é essa gente porque ela não chegou ainda ao estágio em que se reduz a política a uma ciência. Uma vez eu lhe disse que <há dezenas de milhares de livros sobre a arte do governo entre nós>, o que, ao contrário do que eu projetava, gerou-lhe grande repulsa, uma péssima opinião de nós e muitos mal-entendidos!”

“A educação dos gigantes é muito precária, pois considera apenas a ética, a história, a poesia e a matemática, na qual, por sinal, eles são como que obrigados a exceler. Só que toda essa matemática é aplicada apenas em coisas práticas da vida cotidiana, p.ex., o aperfeiçoamento da agricultura e de outras artes mecânicas ou que chamaríamos de artesanato. Dentre nós creio que esta educação teria valor zero. Nunca vira povo tão pouco filosófico: idéias, entidades, abstrações e qualquer noção que fosse de transcendência eram-lhes particularmente impossíveis!”

“Desde épocas imemoriais eles já haviam descoberto a imprensa, como os chineses fizeram entre nós. Mas suas bibliotecas são até hoje acanhadíssimas. Mesmo a do rei, que é tida como a mais suntuosa, não possui mais do que mil volumes, distribuídos por uma galeria da coisa de uns 350 metros de extensão. Ganhei permissão real para pegar emprestado o livro que eu quisesse.”

“nada é mais alvejado pelos autores deste país que evitar qualquer palavra desnecessária ao discurso, ou mesmo a criação de sinônimos, porque se uma palavra comunica algo, essa palavra basta e eis tudo. Eu peregrinei minhas vistas por inúmeros de seus livros, principalmente os de história e moral.”

“seria bem razoável imaginar, homenzinho, que as espécies de hominídeos eram originalmente muito maiores, mas que pessoas do nosso tamanho e também da tua diminuta estatura sempre existiram em paralelo. Não só a tradição e os mitos nos falam de gigantes incomparáveis, não só alguma parcela de nossa história escrita, mas também provas fósseis, casualmente escavadas em diferentes porções de nosso reino; falo de esqueletos muito maiores que os dos homens atuais, que tu chamas de homens-montanhas.”

“Um cavaleiro montado num belo corcel chegava aos 30 metros de altura.”

“Eu estava bastante curioso para saber como esse príncipe, cujos domínios eram praticamente inacessíveis para qualquer outro país, sem falar que seriam inexpugnáveis por quaisquer de nossas forças armadas<diminutas>, avaliava os exércitos ou a falta de um, isto é, se ele estaria propenso, caso a necessidade se apresentasse, a ser um competente general de guerra ou se não passava de um rematado pacifista, desses que jamais veríamos dentre os líderes das nossas nações conhecidas.Será que ele ensinava a seus súditos a disciplina das batalhas e as treinava para enfrentar emergências?Essa minha ânsia, afinal, não durou muito, haja vista eu ter sido informado, tanto pelos livros de História quanto por alguns interlocutores, que, no decorrer das eras, houve na terra dos gigantes muitas pestes e doenças contagiosas, como essas que ajudaram a conter, assolar e subjugar aspopulaçõesna Europa, não muito tempo atrás. Também fiquei sabendo que – exatamente como em nosso Velho Continente – a nobreza dos gigantes vivia sempre sediciosa e ávida por mais poder ou por manter seus privilégios, enquanto que as massas contendiam o tempo todo arriscando a vida pela própria liberdade, e o rei, à parte, pelo domínio absoluto e nada mais.”

“O navio em que embarquei foi o primeiro jamais visto naquela costa, e o rei deu ordens estritas de que, a qualquer tempo que uma nova nau fosse contemplada no horizonte, outras embarcações dali em diante fossem capturadas e trazidas à terra firme, com todos os passageiros e tripulação intactos, que deviam ser transportados a Lorbrulgrud em carroças de duas rodas. O rei estava muito convencido nos últimos tempos da idéia de providenciar-me uma fêmea de meu tamanho, a fim de propagar minha nanica espécie – mas, sinceramente, de minha parte, preferia morrer que ser forçado a perpetuar uma espécie que passaria sua existência confinada em gaiolas como canários adestrados e, com o tempo, provavelmente vendida nos mercados para consumidores curiosos. Eu fui tratado com toda a deferência no reino; era o cortesão favorito do rei e da rainha, o deleite de uma côrte inteira. Mas considero isso um simples acaso individual, e a raça humana que de mim derivasse, creio, não teria a mesma sorte.”

“Já fazia 2 anos que estava entre os gigantes. Certa feita eu e Glumdalclitch fomos convocados a comparecer a uma audiência diante do rei e da rainha.”

“Eu olhava através das minhas janelas, mas nada podia ver além das nuvens e do céu. (…) alguma águia agarrou a argola de minha gaiola pelo bico, com o provável intento de deixá-la se quebrar numa rocha, como faria quando captura uma tartaruga, a fim de quebrar seu casco. E aí essa ave coletaria meu cadáver dos destroços, ou antes o devoraria sem pestanejar ali mesmo! A esperteza e o olfato desse animal permitem-no descobrir comida a centenas ou milhares de metros de distância, muito embora eu mesmo estivesse oculto ao olhar também muito agudo da criatura, por estar confinado nesta gaiola, que às vezes eu também chamava simplesmente de <minha caixa> ou <minha casa>; enfim, eu estava tão invisível para esse predador do mundo dos gigantes quanto estaria um homúnculo ou inseto bem-escondido num compartimento de 5cm³.”

“Percebi então que havia caído em alto-mar.”

“Ah, quantas vezes não desejei voltar a estar ao lado de minha querida Glumdalclitch! E pensar que cada hora separado desta minha babá era uma eternidade durante minha estada neste país! E além da situação lamentável em que estava não pude deixar de me entristecer também por Glumdalclitch, pensando o que ela estaria sentindo e pensando naqueles exatos instantes, de que forma ela lidaria com o luto de minha perda, o pesar da rainha, essas circunstâncias todas…”

“Ou, se eu escapasse desses perigos por um ou dois dias, o que sobraria para mim a não ser a morte mais miserável de frio e fome? Meu estresse máximo e perigo real de morrer a qualquer instante duraram 4 horas; eu esperava, não, eu desejava que cada segundo fosse literalmente o meu último.”

“Se há qualquer corpo aí embaixo, deixem que fale.”

“Alguns deles, ouvindo-me gritar tão selvagemente, pensaram logo que eu estava louco; outros ainda puseram-se a rir; de fato, a ficha demorou a cair: eu estava agora com pessoas da minha própria estatura e do mesmo nível de força que o meu!”

“Os marinheiros estavam todos admirados, me fazendo mil perguntas, às quais, para ser sincero, eu não desejava responder. Eu estava confuso à vista de tantos pigmeus ao mesmo tempo, porque era só o que pensava que eles poderiam ser: pigmeus da terra dos gigantes! Meus olhos estavam desacostumados com objetos e corpos pequenos.”

“Um deles disse:

– Eu distingui 3 águias voando rumo ao norte; mas confesso que não reparei se eram gigantescas ou do tamanho normal. Isso nem veio a minha mente.

Imagino que isso se deva à grande altura nas quais as águias se encontravam. Mas duvido que este homem entendesse as razões para minha pergunta.”

“como grandes criminosos, noutras nações, haviam sido forçados a embarcar em barcos pouco confiáveis e com provisão alimentícia muito minguada… Embora o capitão estivesse tão pesaroso da situação de racionar os bens, também se compadecia da miséria deste homem desgraçado e doente que caíra em seu navio, e prometia cumprir sua palavra e me levar a salvo para terra firme, nem que fosse no primeiro porto que tivesse a oportunidade de atracar, nem que fosse muito distante da Inglaterra, ou mesmo da Europa.”

“serão os olhos deste homem maiores que sua barriga? Não sei, meus caros, não sei, e não vejo mal nisso, ainda que fossem, porque este homem passou um dia inteiro sem comer!”

“Eu propus deixar todos os meus pertences como fiança de todos os favores de que me proveram. Porém o capitão se recusava a aceitar um tostão furado.¹ Despedimo-nos amavelmente, e fi-lo prometer que me visitaria em Redriff. Contratei um cavalo e um cocheiro por 5 xelins, que tomei emprestado do capitão.

Na estrada, observando a pequeneza das casas, das árvores, do gado e mesmo das pessoas, alucinei que estava ainda em Lilliput. Tinha verdadeiro receio de tropeçar e machucar qualquer viajante que encontrava, e não-raro gritava para que eles me dessem licença, como se falasse com pigmeus. Não menos de duas vezes quiseram quebrar minha cabeça pela minha atitude impertinente.”

¹ Outra situação idêntica a uma das cenas de Robinson Crusoe!

“Admoestei minha esposa dizendo que ela fôra frugal demais nos gastos, a ponto de pôr a si e a nossa filha quase em estado de penúria. Mas eu parecia tão fora de mim mesmo que elas opinaram omesmo que o capitão assim que me resgatara: achavam que eu tinha ficado louco. Digo isso porque o hábito e o preconceito parecem exercer uma extraordinária impressão sobre nós!”

“Minha esposa me aconselhou a jamais embarcar novamente, muito embora meu destino não estivesse alinhado com este plano de vida. Mas disso o leitor será informado a seu tempo!”

* * *

PARTE III – VIAGEM A LAPUTA, BALNIBARBI, LUGGNAGG, GLUBBDUBDRIB E AO JAPÃO

“Não pude recusar essa proposta. Minha ânsia por conhecer o mundo, a despeito de meus infortúnios passados, continuava violenta como sempre.”

“Tripulando a chalupa de 14 homens, 3 deles ingleses, ele me nomeou capitão da expedição”

“Ao décimo dia fomos perseguidos por dois piratas, que logo nos alcançaram; minha chalupa estava tão pesada com suprimentos que não conseguia velejar a contento; tampouco tínhamos aparato militar para defendermo-nos.”

“Lamento encontrar mais misericórdia num pagão que num irmão em Cristo, eu confessei ao holandês.”

“Considerei quão impraticável seria preservar minha vida num lugar tão desolado, e quão miseráveis não seriam meus últimos dias”

“O leitor jamais há de conceber meu espanto ao descobrir uma ilha flutuante, habitada por homens, que eram capazes (ao que parece) de levitar e afundar de novo sua ilha-nave e movê-la como bem desejassem”

“nunca na vida eu contemplara uma tal sorte de mortais, seres absolutamente singulares em suas formas, hábitos e tabus. Suas cabeças eram totalmente reclinadas, fosse para a direita, fosse para a esquerda; um de seus olhos apontava para dentro, isto é, para a parte de baixo do corpo e para o chão, e o outro para o zênite (o cume do firmamento)! Era um costume muito assíduo que a aristocracia do lugar conservasse sempre junto a si, em caráter imprescindível para a comunicação com o <mundo externo>, dois servos ou escravos, empregados faz-tudo.”

“Enquanto ascendíamos, inúmeras vezes perdiam o fio da conversação, de modo que eu tinha de relembrá-los. Às vezes de nada adiantava, e eu tinha de esperar que eles voltassem a si sozinhos. Mesmo diante de uma raça alienígena (o que eu era para eles), não podiam manifestar nada além da mais completa indiferença. Eu podia notar que lidava com indivíduos da aristocracia desse país, porque outros da mesma espécie, que eu chamaria de plebeus ou gente vulgar, tinham pensamentos mais ansiosos e contínuos, e viviam a gritar, mas os primeiros não lhes davam qualquer atenção.”

“Sua Majestade sequer pareceu me notar, ou a comitiva inteira, mesmo que nossa entrada tenha sido algo barulhenta. Ele estava ensimesmado num problema: como conseqüência, tivemos de esperar uma hora pelo seu <retorno>. De cada lado do rei havia um pajem ou servo; quando eles percebiam que o rei estava <de volta ao mundo real>, voltavam a se comunicar com ele. Um dos pajens servia-lhe de boca, o outro de ouvido. Assim ele se comunicava com o mundo exterior. Quando o rei percebeu nossa chegada, teve um sobressalto.”

“O rei me direcionou uma série de perguntas, de modo que eu (não pela primeira, nem pela última vez) tentei dar-lhe satisfação em várias línguas que conhecia. (…) esse rei era especialmente distinguido, reputado acima de seus predecessores no trono como excelente anfitrião de estrangeiros.”

“Tivemos duas refeições, de três pratos cada. Na primeira, havia uma paleta de cordeiro cortada em formato de triângulo equilátero, um pedaço de bife em rombóide (paralelogramo), e um pudim em ciclóide. A segunda refeição consistia em patos amarrados em forma de violino; salsichas e pudim idênticos a flautas e oboés, afora um peito de vitela imitando uma harpa”

“Em poucos minutos aprendi, na língua deles, a pedir pão e algo para beber, ou alguns outros petiscos.”

“Ele me trouxe pena, tinta e papel, além de 3 ou 4 livros, dando a entender pela linguagem de sinais que fôra enviado para ensinar-me as letras. Ficamos em labuta por 4 horas, tempo que me foi o bastante para redigir uma imensidão de palavras em colunas, com as respectivas traduções; também me esforcei para aprender as principais expressões curtas de uso cotidiano; meu tutor me ensinou como dar ordens aos meus serventes, tais quais pegar isso ou aquilo, ir embora, se apresentar, fazer reverência, sentar-se, erguer-se, andar, etc.

“Em poucos dias, com a ajuda de uma memória em que podia depositar minha inteira confiança, podia me expressar razoavelmente bem neste idioma.”

Lap, na antiga língua obsoleta, significa alto; e untuh, governador; daí é que dizem ter derivado o nome Laputa, antes Lapuntuh. Terra alta ou terra da altura, mais-alto-governo, como queiram.”

“O rei deu instruções para a locomoção leste-nordeste, rumo ao ponto vertical acima de Lagado, a metrópole de todo este alto-reino, localizada mais abaixo. Isso era a 145km de distância de onde estávamos; nossa viagem durou 4 dias e meio.”

“Ele me confidenciou que os residentes da ilha tinham os ouvidos adaptados para ouvir <a música das esferas, que toca inelutavelmente de período em período, de modo que a côrte está agora preparada para realizar sua parte, cada qual no instrumento em que mais excele>.”

“A facilidade que eu tinha com matemática me capacitou a absorver um pouco de sua fraseologia altamente avançada, que, por assim dizer, tinha a aritmética e a geometria como bases sólidas; a música também. (…) Suas idéias sempre percorrem figuras geométricas ou linhas cartesianas. Para elogiar, p.ex., a beleza de uma mulher, ou de algum animal, descrevem-na em losangos, círculos, trapézios, elipses e qualquer termo de especialista afim. Quando figuras imagéticas não são o suficiente, recorrem a metáforas musicais.”

“Suas casas não são nada bem-construídas; as paredes são sinuosas, nenhuma forma um ângulo reto ou simular ao das outras quinas em cômodo algum! Isso deriva do extremo desprezo desse povo pela geometria prática, que consideram coisa vulgar e de operário ou gente bruta, arte mecânica, enfim. Suas instruções, portanto, de engenheiros e arquitetos, abstratas e refinadas demais para os simples pedreiros, acarretam inúmeras falhas. Tanto quanto eles são destros e habilidosos num pedaço de papel, com o lápis, o compasso e os esquadros, são incompetentes e lassos no trato social, na ação concreta, no bê-á-bá da vida. Jamais vira nem veria dali em diante um povo tão estranho, anti-social e destrambelhado. Qualquer conceito estranho a sua sabedoria milenar consolidada deixava-os perplexos e sem reação. Se não fosse matemática ou música, era melhor que esquecêssemos!Eles são muito fáceis de contrariar, suscetíveis e teimosos, conservando o bom senso apenas quando têm a razão de seu lado; e numa discussão eles nunca cedem, então o melhor a fazer para se poupar é sempre dizer que eles têm razão. Eles desconhecem imaginação criativa, devaneio, invenção! Sequer pode-se nomear tais coisas em sua língua.”

“Mas, para não exagerar na crítica desse povo, o que mais me admirou neles foi sua forte disposição para novidades em política, sempre preocupados com o bem-estar social e os negócios da ilha; cada cidadão possuía suas opiniões e juízos particulares sobre negócios de Estado, e havia muitas facções que apreciavam o debate apaixonado. Na realidade já observara a mesma inclinação entre os matemáticos que conhecera na Europa, embora jamais atinasse com qualquer analogia entre as exatas e a ciência política! A não ser que essas pessoas imaginem que, como os menores círculos possuem tantos graus quanto os maiores, a regulação e a administração do mundo inteiro não requeiram nem menos nem mais habilidade que pôr um globo terrestre em movimento!”

“Essas pessoas se encontram perpetuamente angustiadas, jamais atingindo a tranqüilidade de espírito por mais do que alguns minutos. Suas perturbações derivam de causas que quase não afetam a vida do restante dos mortais. Suas apreensões despertam à causa de inúmeras mudanças dos corpos celestes que elas observam e temem. Por exemplo: temem que a Terra, devido à contínua aproximação do sol, seja, ao longo do tempo, absorvida ou engolida; que o disco solar vá gradativamente desmilingüindo por conta do próprio calor produzido em seu núcleo, até apagar-se por completo; e contam assustados como a Terra, que há pouco escapou, de forma miraculosa, de uma colisão fatal com o último cometa que adentrou o sistema solar,pode virar cinzas siderais à próxima visita de um desses corpos celestes de movimento inopinado! Não inopinado a ponto de escapar a seus meticulosos cálculos, é claro:afirma-se que em exatos 31 anos terrestres um novo cometa nos destruirá irrevogavelmente.”

“o sol, gastando diariamente seus nutrientes emitindo raios, sem reposição alguma, será inapelavelmente consumido e aniquilado (…) enfim, não queria ser tão repetitivo, mas estes meus novos amigos vivem tão alarmados e apreensivos sobre essas coisas tão distantes e remotas, senão improváveis, afora muitas outras calamidades sequer citadas, que são todos uns insones que não aproveitam os pequenos prazeres da vida. Quando cumprimentam um conhecido pela manhã, a primeira pergunta é sobre o estado do sol, como ele parecia estar ao se pôr no dia de ontem e se houve percepção de mudança no seu nascer hoje, e quão esperançosos podem ser os habitantes da ilha de evitar a catástrofe iminente! Esse tipo de diálogo é levado a cabo com a mesma desenvoltura de dois garotos que compartilham contos de terror, estórias de fantasmas e duendes. Como no caso dos garotos, eles se comprazem imensamente durante a conversa e manifestam extrema curiosidade – mas depois se arrependem e não conseguem dormir no escuro ou ir à cozinha de madrugada beber água.

As mulheres da ilha, verdadeiras Xantipas!, são muito, muito vivazes: não param de brigar com seus maridos e se afeiçoam facilmente a forasteiros, sendo esta ocasião tudo menos rara, pois muitas vezes a ilha pousa nos continentes telúricos. E muitas vezes visitantes são autorizados a subir a bordo e visitar a côrte, como eu. Não só issomas visitam as cidades e corporações sob os menores pretextos. Se bem que, coletivamente, são todos desprezados, por parecerem sempre querer o mesmo tipo de coisa – são utilitaristas, não há dúvida!”

ah, mas os maridos… os maridos estão sempre tão absortos em especulações que a mulher e seu amante podem se dar ao luxo de proceder às maiores amabilidades e familiaridades inclusive no mesmo cômodo, bem debaixo de seus narizes, contanto que eles estejam com papel, caneta e livros ao alcance das mãos, i.e., devidamente distraídos – e desacompanhados de seus dedicados servos, é claro!

As esposas e filhas sem dúvida lamentam muito seu confinamento à ilha, embora eu, particularmente, julgue-a o pedaço de terra mais magnífico do planeta! Embora vivam aqui em meio à maior abundância e magnificência, e com permissão para circular sem restrições pelo habitat flutuante, elas anseiam ver o mundo lá de baixo e conhecer o tipo de entretenimento presente em Lagado, a capital baixa do império (…) me relataram que uma senhora distinta da côrte, repleta de filhos, desceu a Lagado sob o pretexto de tratar da saúde, mas que lá viveu ocultamente vários e vários meses.” “Essa senhora, mesmo com marido tão gentil e abnegado, e por mais que ele a tenha recebido de volta sem o menor indício de reprovação, pouco tempo depois conseguiu empreender nova fuga, com todas as suas jóias, e foi viver com o mesmo indivíduo, e dessa vez nunca mais voltou — seu paradeiro segue desconhecido na côrte.

Imagino que essa história toda pareça uma alegoria para retratar as famílias britânicas desestruturadas, o que seria mais fácil imaginar – que eu sou um autor de ficção, que não precisaria ter viajado a um país tão remoto para redigir esse tipo de coisa! Mas ao leitor que assim pensar eu alerto: o sexo feminino não difere em clima ou nação algum, consistindo num espécime muito mais uniforme do que se pode esperar!”

“Sua majestade não tinha o menor interesse em indagar sobre as leis, o governo, a história, a religião, os costumes dos países em que estive; suas perguntas se resumiam ao estado em que se encontrava nossa Matemática, mas mesmo assim minha resposta era recebida com desprezo e indiferença”

“A ilha flutuante, creio ser desnecessário até mencionar, é perfeitamente circular, possui um diâmetro de 7,166153km, possuindo, portanto, uma superfície de 10 mil acres.”

“É jurisdição do monarca elevar a ilha acima da região das nuvens e vapores, garantindo assim que só haja orvalho ou chuva quando ele bem entender.”

“Quando a pedra é posicionada paralela ao horizonte, a ilha fica estacionária; suas extremidades ficando a uma altitude isonômica da terra, a força gravitacional age em equivalência com a força normal, anulando qualquer possibilidade de aceleração.

Essa preciosa pedra, espécie de ímã-volante de toda a ilha, leme tão excepcional, é guardada por certos astrônomos que, de tempos em tempos, mudam sua posição conforme as prescrições do monarca. Estes especialistas passam a maior parte da vida observando os corpos celestes, assistidos por lentes telescópicas ‘n’ vezes mais avançadas que as européias!”

“Em seus catálogos científicos constam 10 mil estrelas fixas, enquanto que nossos mais vastos registros não contabilizam 1/3 deste número. Eles também descobriram duas estrelas-menores, ou satélites, rodopiando Marte; o que traslada mais próximo do planeta vermelho está distante de seu centro geométrico cerca de 3x a extensão de seu próprio diâmetro; o satélite externo, 5x.” “Eles conhecem 93 cometas e sabem seus períodos de passagem pelo nosso sistema com grandíssima exatidão.”

“Este rei seria o rei dos reis do universo, se ele pudesse unicamente reunir homens de igual capacidade em seus ministérios! Mas eu ousaria dizer que não há na ilha ninguém como este homem, nem que chegue perto do intelecto e da visão deste homem; os segundos certamente estão em nossa terra, em nossa altitude habitual, e eu duvido que um rei precavido aceitasse jamais como subordinados tão poderosos e influentes pessoas estranhas, arriscando a escravidão de seu país!”

“o rei, quando se põe animoso e, portanto, decidido a exterminar uma de suas cidades, ordena com fleuma a descida da ilha, dissimulando uma visita benevolente aos cidadãos do lugar escolhido para extermínio; mas tudo isso é por medo de quebrar o fundo da ilha, adamantino, duro como o diamante.”

“Diz a lei do lugar que nem o rei, nem ninguém do reino, nem qualquer de seus dois filhos mais velhos, estão permitidos a sair da ilha. Nem a rainha, até o término de sua infância.”

“Após conhecer todas as singularidades da ilha, eu desejava muito partir. Essas pessoas se tornaram muito cansativas para mim. Eram excelentes em duas ciências pelas quais nutro grande estima, e nas quais confesso ser algo versado; mas, ao mesmo tempo, eram consciências tão abstratas e especulativas, que com o passar do tempo creio que não poderia encontrar companhias mais desalentadoras! Passei a conversar apenas com as mulheres, com comerciantes, servos e pajens. Assim foram meus últimos 2 meses. Não podendo mais ocultar meu desprezo por tal gente, passei a me conduzir de forma impertinente, mas minha mudança só podia ser detectada por essas mesmas pessoas em quem eu ainda encontrava qualquer tipo de aprovação ou reciprocidade!”

“Ele me ouviu com bastante atenção e remeteu-me diversas observações sapientes, relacionadas ao meu discurso. Ele possuía, como sempre nesta classe, 2 servos, mas quase nunca os utilizava – só mesmo em visitas à côrte e em cerimônias. Quando estávamos a sós, ele apenas comandava que se retirassem do aposento.”

“Dia 16 de fevereiro eu me despedi de Sua Majestade e da côrte. O rei me presenteou com o que eu converteria para 200 libras esterlinas, sendo que meu protetor e seus apaniguados também me deram somas em dinheiro, que remontavam mais ou menos ao mesmo valor na somatória. Também levaria comigo uma carta de recomendação para um seu amigo em Lagado, a referida metrópole do reino, mais mundana. A ilha revolvendo cada vez mais baixo e em torno de duas montanhas, uns 3km mais abaixo, fui conduzido ao mundo telúrico da mesma forma como me fizeram subir da primeira vez.” “Encontrei rapidamente a casa da pessoa a quem fui recomendado na carta, e fui recebido, claro, devido à chancela real, com as maiores honrarias.”

“À manhã seguinte ele me levou em passeio de charrete para conhecer a capital, que seria, diria, metade de Londres em tamanho. As casas são esquisitíssimas, e maioria necessitando reparos urgentes! As pessoas nas ruas andam rápido, parecem bárbaras, olhos fixos, geralmente maltrapilhas. Atravessamos um dos portões da cidade e avançamos coisa de 5km campo adentro, onde testemunhei o trabalho de vários camponeses utilizando um sem-fim de utensílios, embora não tenha entendido a função de um deles sequer.”

“não podia atinar com tantas cabeças, mãos e rostos ocupados, no campo ou na cidade! Não entendia o conceito de produtividade dessa nação. Para falar a verdade, nunca vira um solo mais mal-cultivado, casas tão precárias e degradadas, nem pessoas de aspecto mais miserável e necessitado.

O senhor Munodi era um aristocrata, ex-governante de Lagado, mas soube que devido a uma insurreição dos ministros fôra demitido por alegada incompetência. Ainda assim, o rei o recebia com muita ternura e gentileza, como um homem benfazejo, cujo único defeito era a falta de entendimento.”

“Em nossa jornada ele me mostrou diversos métodos empregados por fazendeiros na administração de suas terras, os quais para mim eram todos imprestáveis; raro era o terreno em que eu distinguia um pé de milho ou pedaço de grama. Em 3h de viagem, entretanto, o cenário mudou completamente: chegamos a um meio rural muito bonito, a casas camponesas, umas próximas das outras, todas muito bem-erigidas, os campos compactos e repletos de vinhas e de milharais, além de campos para pastagem. Na verdade nunca vira uma paisagem tal na Inglaterra! (…) os camponeses de Lagado desprezavam e ridicularizavam o jeito do senhor Munodi fazer as coisas em suas propriedades, crendo-o um péssimo exemplo para o reino. Esse tipo de contra-exemplo (a produtividade no campo!) era também seguido por umas raras exceções, reputadas como os excêntricos, velhacos, teimosos, velhos rabugentos e fracos de espírito do lugar.

Chegamos enfim a seu lar, uma mansão bastante nobre e brilhantemente estruturada. Encontro nas leis deste projeto arquitetônico o que de melhor os antigos nos deixaram. As fontes, os jardins, as passarelas, avenidas e pomares eram distribuídos de forma justa e regular e sem dúvida havia bom gosto em sua disposição.”

“ele me contou com um ar melancólico que até consideraria seriamente a idéia de derrubar suas edificações e restaurá-las ao gosto dos atuais cidadãos de Lagado; de destruir todas as suas plantations e adotar as <modernizações> em voga, para seu próprio prejuízo, mas temia que tudo isto não fosse apreendido pelos demais senão como orgulho, afetação, ignorância e capricho, manchando ainda mais sua reputação em relação a Sua Majestade.”

“Cerca de 40 anos atrás, muitos subiram a Laputa, ou a negócio ou a lazer, e, depois de 5 meses de estada, voltaram cheios de novas concepções e invencionices matemáticas, o que na verdade eu chamo de preconcepções absurdas e desconhecimento – essas pessoas se tornaram muito voláteis, provavelmente em virtude de haverem respirado o ar rarefeito e elevado demais daquela região. Foi aí que os habitantes de Lagado começaram a tomar gosto pela falta total de administração de seus negócios, i.e., passaram a desprezar toda e qualquer coisa <material> e <mundana>. Tudo em que pensavam era na reforma imediata das técnicas, artes, ciências e linguagens. Eles providenciaram uma patente real a fim de erigir em Lagado uma academia de projetistas (mal consigo usar a palavra <engenheiros>). As idiossincrasias prevalecem em tal medida nessa gente extravagante da capital que não há, na atualidade, uma só província que não tenha sucumbido a seu amalucado exemplo. Nessas novas escolas os professores ensinam regras e métodos inauditos em agricultura e engenharia civil, concebem novos instrumentos e ferramentas para todos os negócios e manufaturas; dizem eles que assim, devido à revolução que acabarão por promover, um homem trabalhará por 10, um palácio será erguido numa semana, e será feito de materiais tão duráveis que jamais carecerá de reparos. Que todos os frutos da terra chegarão à maturidade em qualquer estação e terão dimensões 100x maiores que as atuais. Isso e muito mais eles prometem. O único inconveniente é que nenhum desses projetos jamais chegou à perfeição ou a qualquer resultado satisfatório. E enquanto esse dia não chega, o país vive na miséria e desperdiça seu potencial, as casas permanecem ruinosas e as pessoas sem quase o que comer ou vestir. Mas isso, ao invés de desencorajá-las, torna-as 50x mais agressivas e obstinadas. Não sei o que mais as move, se a esperança ou o desespero. Quanto a mim, senhor Gulliver, sou despido desse tal ‘novo espírito de empreender’! Hei de viver como vivi desde que nasci, como meus antepassados viveram, e não pretendo mudar. Mas a verdade é que os poucos de nós contrários às inovações são vistos como inimigos do povo, das artes, uns plebeus ignorantes! O que dizem de nós é que somos preguiçosos que preferem se ater a envelhecidas fórmulas de sucesso e que nos falta o ímpeto do sacrifício coletivo!”

“A um quilômetro de sua casa esse homem tinha um engenho movido pela correnteza de um grande rio que por ali passava. Essa construção atendia as suas necessidades, as de sua família e as de muitos outros amigos. Mas há exatos 7 anos os tais projetistas acadêmicos o procuraram com propostas de destruir o moinho e construir um outro na região montanhosa, em que pretendiam erguer um grande canal bem no meio dos desfiladeiros, enchendo-os com água, abastecendo-os de motores, sistemas condutores e certas engenhocas.Alegavam que os ventos e o ar, a grandes alturas, agitavam a água e, quanto mais ela pudesse ser movimentada, e de quão mais alto ela viesse, mais energia seria produzida. Munodi, não vendo saída, em desprestígio com a coroa e pressionado por muitos de seus vizinhos, cedeu. Apesar de terem aplicado 100 homens no projeto ao longo de 2 anos, o trabalho descarrilhou, tudo deu errado e os projetistas foram-se embora, culpando o próprio Munodi! Agora esses acadêmicos andam por aí procurando outras almas como o benévolo Munodi, a fim de engabelá-las por seu turno, prometendo sempre os melhores resultados e as mais altas probabilidades de êxito, com o mínimo esforço. Mas, na prática, tudo acontece ao revés.”

“Essa academia não se resume a um simples prédio, mas é mais como um condomínio ou um campus, com prédios dos dois lados de uma rua que, barata e desvalorizada, foi comprada para servir de sede aos projetistas.”

“O primeiro homem que vi era um senhor muito raquítico, de cara e mãos muito sujas; seu cabelo e barba eram compridos, esfrangalhados e chamuscados em vários lugares. Suas roupas, sua camisa e sua cara, enfim, eram para mim da mesmíssima cor. Ele se encontrava há 8 anos entretido num só projeto: extrair a luz solar de pepinos, os quais eram inseridos em frascos hermeticamente selados, e depositados ao ar livre em pleno verão, debaixo do sol mais inclemente. Ele me contou que, sem dúvida, em no máximo mais uns 8 anos, já terá podido iluminar todos os jardins do governador, e isso a custos irrisórios.”

“O projetista dessa cela era o estudante mais antigo da academia. Seu rosto e barba eram de um amarelo pálido, suas mãos e roupas eram recobertas por uma camada de poeira. Quando fomos apresentados ele me deu um entusiástico abraço, um cumprimento que em outra ocasião eu bem poderia ter desculpado! Desde sua entrada na academia, ele estava envolvido numa operação a fim de reduzir os excrementos humanos à comida original, separando as partes, removendo a tintura emprestada às fezes pela bile, dissipando o mau cheiro e drenando o suco gástrico. Ele contava com parcos recursos da sociedade de cientistas, dentre eles uma remessa semanal de um recipiente abastecido de bosta, mais ou menos das dimensões de um barril de chope de Bristol.

Também vi um professor tentando calcinar o gelo até virar pólvora; este último me mostrou um tratado que redigira, sobre a maleabilidade do fogo, o qual ainda não se encontrava publicado.

Havia um arquiteto dos mais engenhosos, que descobrira um novo método de construir casas, começando pelo teto e descendo progressivamente à base. Sua justificativa? Ele me contou que devíamos copiar os insetos peritos em construção, isto é, as abelhas e as aranhas!”

“ora, empregando aranhas o trabalho de tingir a seda será todo poupado.”

“Ele me exibiu uma vasta quantidade de moscas das cores mais belas, com as quais alimentava suas aranhas, garantindo que as teias sairiam com a mesma tintura das moscas. Como ele tinha um repertório de todas as cores de moscas, ele esperava assim conquistar a aprovação universal, ao menos a partir do momento em que encontrasse alimento apropriado para todas as variedades de moscas, constituído de certas gomas, óleos e matérias viscosas, a fim de dar a consistência e a força necessárias aos fios.”

“Eu me queixava no momento de uma pequena crise de cólica, quando meu guia me conduziu à sala de um renomado físico, que conseguia curar essa inconveniência através de operações contrárias de um mesmo instrumento. Havia um par de berrantes enormes, com o bocal muito alongado e estreito feito de marfim. Ele inseria essa parte (de uns 20cm!) no ânus do paciente. Fazendo ventar para aquelas partes, ele garantia poder tornar o intestino tão murcho e isento de gases quanto uma bexiga depois de estourada! O problema era que quando o mal era mais crônico e violento ele precisava retirar os berrantes várias vezes para repetir o procedimento de ventilação. Nesse intervalo em que retirava o berrante para reintroduzi-lo, o doutor precisava tapar o orifício do reto do paciente com seu dedo polegar, para não deixar nada escapar; depois que isso era feito 3 ou 4 vezes, no mais grave dos casos, o <vento adventício> podia finalmente ser liberado com todos os gases (funcionava exatamente como uma bomba d’água). O paciente recebia alta. Eu vi este homem fazer o experimento com um cão, mas não pude perceber qualquer resultado na primeira aplicação do berrante. Com a repetição da operação, vendo que o caso era grave, o doutor aplicou tanto vento no animal,e logo ele peidou tão feio, que foi impossível permanecer na sala… O cachorro morreu no ato! – mas o doutor iria tentar a ressuscitação do animal aplicando a mesma técnica… eu não fiquei para ver o resultado e segui adiante em minha visita…

Com efeito eu visitei muitos outros apartamentos de projetistas-especialistas, mas não vou desperdiçar o tempo do meu leitor com as curiosidades que acabei por observar, preferindo um relato mais breve da aventura.”

“A invenção mais brilhante que encontrei foi um dispositivo que pretendia reunir todo o conhecimento universal da humanidade mediante o registro de todas as palavras concebíveis e de sua repetição na mesma proporção em que ocorrem nos livros conforme sua classe gramatical (advérbios, preposições, conjunções, verbos, adjetivos, substantivos…), e tudo isso de uma forma dinâmica, um aparato gigantesco operado por muitos auxiliares. Achei meu colega, o inventor deste mecanismo (veja a imagem), tão aplicado e original que prometi que, se um dia eu voltasse ao Velho Continente, tornaria público o fato de que ele, e somente ele, era o inventor genuíno desta grandiosa máquina revolucionária. E eu disse a ele, encorajando-o: <Embora seja o costume do europeu o furtar, por assim dizer, invenções uns dos outros, nosso sistema tem, ao menos, essa vantagem: sempre fica dúbio, no final, quem fôra o descobridor do Ovo de Colombo…>, mas – complementei –<…agirei com tanta precaução que você pode estar certo de ficar como detentor derradeiro dos direitos sobre sua invenção, sem um rival sequer!>

“A seguir nós nos dirigimos à faculdade de letras, onde 3 professores estavam em debate, cujo tema era: como aperfeiçoar o idioma natal? O primeiro projeto proposto foi o de diminuir o discurso, cortando polissílabos, e eliminando verbos e particípios, uma vez que coisas imaginadas não são senão normas. O segundo projeto era um esquema extremista em que se aboliam de vez todas as palavras; argumentou-se que seria uma ação altamente valiosa tanto no campo da saúde quanto no da objetividade científica. E para isso evidenciou-se que cada palavra que pronunciamos representa uma ligeira diminuição de nossa capacidade pulmonar por corrosão e que, por extensão, a língua contribui para o encurtamento da vida humana. Pregou-se uma solução: <Uma vez que as palavras são apenas nomes para as coisas, seria mais conveniente que cada homem carregasse consigo todas as coisas necessárias a fim de expressar idéias particulares.> Essa invenção, alegou-se, já teria sido possível e já seria uma realidade, se as mulheres e a gente vulgar e iletrada não ameaçasse, sempre, rebelião quando esta era a pauta do dia. Aquilo que nossos avós e pais faziam, é-nos muito difícil de abdicar. São esta gente os inimigos maiores do fazer-ciência. (…) Entrando em mais detalhes sobre esta curiosa proposta, à objeção levantada de um homem cuja profissão fosse muito abrangente, abarcando muitos tipos de objetos, este homem teria, proporcionalmente aos campos que domina, numa lei de igualdade compensatória, de carregar mais coisas nas costas, a não ser que fosse rico o bastante para ter um ou dois servos que o ajudassem nesse tocante. Eu vi dois dos sábios defensores desta proposta quase que afundando sob o solo dado o enorme peso de sua bagagem, como os nossos mascates. Aí, então, a pessoa que carregasse todos os objetos de que necessita para <falar>, quando encontrasse um conhecido seu na rua, depositaria sua sacola no chão, retiraria seus objetos e poderia, assim, dialogar mudamente por cerca de uma hora! A ajuda de terceiros com implementos ou o camaradismo a fim de que todos e cada um lograssem carregar sem maiores dificuldades toda sua <mercadoria de fala> em peso (com o perdão do trocadilho!) seriam aspectos indispensáveis desse novo e promissor modo de vida. (…) Como seria de se imaginar, a casa ou escritório de alguém nesta sociedade seria atulhado de coisas para que diálogos fossem sempre possíveis. Essa operação não é coisa simples: a habilidade no rápido e coordenado manejo de objetos sendo essencial, diria que é uma verdadeira ARTE da conversação!

Mas mais uma vantagem aludida com o emprego dessa nova técnica seria que finalmente cumpriríamos os desígnios de Babel: teríamos atingido a língua universal! Em nenhuma nação que adotasse esse método qualquer forasteiro que jamais estudou os costumes locais deixaria de ser plenamente compreendido! (…) Embaixadores tratariam com quantas autoridades internacionais pudesse haver, sem maiores inconvenientes.”

“nada há de tão extravagante e irracional que alguns filósofos não tenham proclamado como verdadeiro.”

“Propôs então o doutor: <Na assembléia do senado, alguns médicos deveriam comparecer nos seus três primeiros dias, e, à hora da saída, medir o pulso de cada um dos debatedores. Após o quê, considerando com sabedoria e consultando sobre os sintomas das mais variadas doenças, bem como seus métodos de cura, ao quarto dia, retornariam em companhia de seus apotecários munidos dos medicamentos adequados. Antes mesmo desta quarta reunião, eles administrariam todos os lenitivos, aperitivos, abstergentes, abrasivos, corrosivos, restringentes, detergentes, paliativos, laxativos, analgésicos, anti-cefalóides, anti-ictéricos, anti-apopléticos, acústicos, etc., na dosagem e na qualidade que o quadro de saúde de cada paciente demandasse. Conforme esses remédios sanassem ou não a doença, e em que grau, os médicos e farmacêuticos regressariam, ainda, para repetir, alterar ou omitir o tratamento.>

“Como sucede de os favoritos do príncipe sofrerem, em geral, de curta e péssima memória, o mesmo doutor ainda prescrevera: <Quem quer que se encontre com o primeiro-ministro, após relatar o assunto, da forma mais lacônica e simples possível, deveria, no instante de despedir-se, dar um beliscão no nariz do sumo ouvinte, ou senão um chute no estômago, ou dar-lhe um pisão, ou puxar ambas as suas orelhas por no mínimo três vezes, ou então enfiar-lhe uma agulha no traseiro, ou deixar hematomas no seu braço, tudo pela melhor das causas: prevenir seu esquecimento. E, se se tratar de uma sucessão de muitos encontros, deveria repetir a operação a cada um deles, até que o negócio esteja fechado, i.e., que o primeiro-ministro dê, enfim, seu sim ou seu não e conclua a questão.>

“O mesmo médico propôs uma bela medida contra as dissensões agudas e violentas entre os partidos. O método de fazer a reconciliação era o seguinte: reúnem-se 100 líderes de cada partido; eles são dispostos dois a dois entre aqueles com cabeças de tamanho mais próximo; dois cirurgiões qualificados serram o occipúcio de cada par da dupla simultaneamente. Os occipúcios extraídos são intercambiados, vindo a pertencer agora à cabeça de um antigo rival. Parece absolutamente um trabalho que exige a mais milimétrica precisão ou algo pode dar muito errado! Porém, o médico-cirurgião afiançou que <se a dupla-cirurgia for realizada com êxito, a cura é inescapável. Com as duas metades antagônicas de um cérebro pós-cirúrgico deixadas à vontade para debater o tema em questão, dentro do mesmo crânio, não poderiam deixar de se entender logo, porquanto não há outra saída, e produziriam nos pacientes assim operados aquela moderação e regularidade de pensamento, justo neles, que, previamente à intervenção da medicina, julgavam que sua existência neste mundo decorria tão-somente do eterno movimento praticado pelos corpos celestes e que por isso julgavam que seus defeitos eram predestinados e que não valia a pena esforçarem-se por minorá-los!>.”

“O método mais justo seria impor um imposto sobre os vícios e tolices; a soma fixada para cada homem seria estabelecida de forma eqüitativa por um júri composto de seus vizinhos.”

“As mulheres deveriam ser taxadas segundo sua beleza e destreza no vestirem-se, no que elas deveriam ter os mesmos privilégios que o homem, em valores a ser determinados por seu próprio juízo. Mas a constância, a castidade, o bom-senso e a gentileza não poderiam ser mensurados, porque daria muito trabalho e ademais os impostos seriam tão altos que quebrariam a economia.”

“Outro professor mostrou-me um artigo muito extenso com instruções para descobrir intrigas e conspirações contra o governo. Seu aconselhamento era, em síntese, o de que o governante devia prestar atenção na dieta dos suspeitos; as horas das refeições; em que posição dormiam; com qual das duas mãos coçavam o traseiro; analisar detidamente seus excrementos, de modo a retirar opiniões conclusivas de sua cor, odor, gosto, consistência, nível avançado ou inicial da digestão, enfim, tudo o que, segundo este nobre autor, permite que leiamos nas entrelinhas os pensamentos e intenções mais profundos daqueles que conspiram; é de fato sabido por todas as civilizações (que possuem vaso sanitário) que um homem nunca se põe tão sério, grave e deliberativo como quando está no trono. Após longos experimentos, este doutor conseguiu descobrir que aqueles que se punham a pensar, enquanto defecavam, na melhor maneira de matar o rei tinham as fezes esverdeadas; porém, se o caso fosse apenas o de levantar uma insurreição ou incendiar a metrópole, aí então as cores resultavam bem díspares, etc.”

“Pois saiba o senhor que na Tribnia,¹ dentre os nativos chamados Langdon,² na qual habitei muitos de meus anos em meio a minhas intermináveis viagens, o grosso da população consiste, no fim das contas, em grandes descobridores, inventores, investigadores, testemunhas, informantes, acusadores, procuradores, provadores, conjuradores, incitadores, sempre no uso de seus instrumentos subalternos, i.e., outros langdoninos. E todos, sem exceção, estão sempre, quaisquer que sejam sua índole e conduta, submetidos à vontade dos ministros de Estado e aos congressistas, senão outras marionetes ou avatares destes primeiros. As intrigas, nesse reino, são obra daqueles que querem se tornar proeminentes e marcar a história como grandes personalidades, o velho desejo de ser um GRANDE POLÍTICO. Se não é isso que os conspiradores querem, só posso cogitar alguns outros motivos: revigorar uma administração que se tornara louca? sufocar ou dividir minorias de descontentes (ou seja, conspirar apenas como isca para apanhar conspiradores)? encher seus cofres? piorar ou melhorar a imagem do império em face das outras nações (aquele dos dois que for mais vantajoso no momento para a fortuna individual)? E não duvide de que as coisas são tão bem encenadas na Tribnia que muitos até decidem mutuamente seus papéis antes da peça: talvez tirem no palitinho ou dalguma outra forma quem serão os bodes expiatórios da vez, aqueles que serão acusados e condenados pelo poder público; medidas formais são tomadas para confiscar seus pertences e rastrear suas cartas e correspondências; e, enfim, se os prende. Os papéis encontrados que sirvam de prova da conspiração são distribuídos para uma caterva de artistas, muito hábeis em decifrar significados misteriosos em palavras esdrúxulas e quase arbitrárias, prestando entonação às menores sílabas. Há uma interpretação de tudo quanto for informação num sentido bem elaborado – p.ex.: uma referência a uma latrina fechada numa carta de comadres pode ser o símbolo para conselho privado; uma revoada de gansos, símbolo do senado; um cachorro furibundo, um invasor; a peste, um exército à espreita; um abutre, o primeiro-ministro; a gota, o sumo-pontífice; o patíbulo, o secretário de Estado; uma retrete, um comitê de especialistas; uma peneira, uma dama da côrte; uma vassoura, a revolução; uma ratoeira, uma estratégia; um abismo sem fundo, o Tesouro; um naufrágio ou escolhos, a própria côrte; um chapéu de bobo com sinos nas pontas, um favorito; uma cana quebrada, a côrte de justiça; um tonel oco, o general; uma ferida aberta, a própria administração.(*)

(*) Este parágrafo é a versão revisada do dr. Hawksworth (1766); na edição original de 1726, a introdução era: Pois saiba o senhor que, vivesse eu num país em perpétua crise e rebuliço…Portanto, não havia ainda este código dual Tribnia-Langdon nem tampouco a figura do vaso sanitário fechado na enumeração simbólico-irônica que vem a seguir.”

¹ Forma velada de o autor se referir à Bretanha.

² Os londrinos – referência aos habitantes da capital Londres ou London no original.

“Se falhar esse jogo de associações na interpretação da linguagem empregada entre os comparsas, há nesta terra ainda dois métodos efetivos que os mais versados possuem de desbaratar conspirações: os acrósticos e os anagramas. Quanto ao primeiro método: todas as iniciais podem conter sentidos políticos. N pode querer dizer uma trama;¹ B, aludir à cavalaria; L, uma esquadra no mar… Quanto ao segundo método: transpondo as letras do alfabeto em qualquer <documento suspeito>, as verdades mais ocultas e impensadas podem vir à tona, principalmente o descontentamento do partido vencido. Então, p.ex., se eu dissesse, numa carta, a um amigo, em tom de desabafo, <O FLAGELO FERIDO TEM UM PESO!>, um decifrador competente poderia deslindar a seguinte sentença subjacente na primeira: <O REI SEM LEGADO É MOFO, PLUFT!>,² o que parece insinuar que quereriam assassinar ou desaparecer com o rei, que julgavam nada estar deixando para a glória futura do país, sendo mera relíquia de um passado desinteressante.”

¹ Não é nenhuma palavra com “n” em inglês; aqui, Swift escreve plot, deliberadamente para o efeito cômico da explicação, e assim nos dois próximos exemplos nonsense.

² “Our brother Tom has just got the piles” e “Resist—, a plot is brought home – The Thour” no original.

“O professor me agradeceu muitíssimo meu relato detalhado, e garantiu que na versão final de seu artigo eu ganharia diversas citações.

A verdade é que nada vi nesse país que me convencesse a uma estadia longa, então comecei a planejar meu retorno à Inglaterra.”

“O continente, do qual esse reino ocupa apenas uma parte, se estende, pelo menos creio, a oriente, até aquela obscura borda da América conhecida como costa oeste ou Califórnia. Ao norte, o limite de seus domínios é o Oceano Pacífico, que não dista mais de 250km da capital Lagado no centro. Nesta costa setentrional há um grande porto e bastante comércio com a grande ilha de Luggnagg, mais ou menos a noroeste de onde eu me encontrava então, aos 29° de latitude e aos 140° de longitude. Essa ilha chamada Luggnagg situa-se, portanto, a sudeste do Japão, mais ou menos a 800km. Há uma aliança restrita entre o imperador japonês e o rei de Luggnagg; com isso, viagens entre ambos os arquipélagos se tornam mais fáceis. Foi assim que decidi tomar meu rumo para a Europa por esta via.”

“Dessa vez, por incrível que pareça, minha jornada não contou com acidentes ou aventuras extraordinários que valham a pena narrar. Chegando ao porto de Maldonada nenhum navio estava ancorado na parte reservada para as embarcações de Luggnagg, nem havia qualquer aparência de que esperavam a chegada de alguma nau. Esta cidade em que desembarquei era mais ou menos do tamanho de Portsmouth. (…) Um gentleman me disse: <Como navios para Luggnagg não sairão no próximo mês, seria uma honra, se o senhor concordar, ser o guia do senhor numa excursão pelo pequeno arquipélago de Glubbdubdrib, que dista daqui não mais que 5 ligas marítimas a sudoeste.>

“Glubbdubdrib, tanto quanto eu posso interpretar, significa ‘Ilha dos magos e feiticeiros’. Tem mais ou menos um terço do tamanho da ilha de Wight,¹ é de vegetação bastante frutífera e de prospectos excepcionais, governada por uma tribo inteiramente composta de magos. Nessa tribo todos os casamentos são endógamos, sendo que a sucessão cabe ao filho mais velho. Seu palácio mais seus jardins dão uma área de 3 mil acres,² toda cercada de uma muralha de pedra polida de 6 metros de altura.”

¹ Ou seja, tem por volta de 127km².

² O acre vale um número diferente em metros quadrados em cada notação, e são diversas as existentes. Não deve ser a mais comum delas, em que 1 acre = 4km², pois sendo assim 3 mil acres x 4km² dariam 12 mil km², o que seria o mesmo que dizer que o próprio palácio do rei da ilha e adjacências são CERCA DE 100X MAIORES QUE A PRÓPRIA ILHA (nota 1)! Ou a notação é uma que me é inacessível ou trata-se de um imenso efeito cômico (burlesco, aliás) do autor!

“Mestre da necromancia, o governante deste lugar pode chamar dentre os mortos qualquer um que desejar, contanto que os serviços do finado não durem mais do que 24h. Também há a limitação de não se poder chamar a mesma pessoa de novo num espaço de 3 meses, a não ser em circunstâncias extraordinárias.”

“Este rei entendia a língua de Balnibarbi, embora não fosse o idioma desta ilha. Ele me solicitou, portanto, relatos de minhas viagens e, para provar-me que eu seria tratado sem cerimônia nem etiqueta excessivas, dispensou todos os atendentes da côrte num simples voltear de seu dedo. Ao concretizar esse gesto – não falo por metáforas! – todos os seus súditos sumiram, escafederam, como vapor ou imagens oníricas, num só instante! (…) Sentindo-me encorajado, comecei uma breve narração que incluía uma seleção de minhas melhores aventuras até então. (…) Logo me pus tão familiar à aparição de espíritos que, depois da terceira ou quarta vez já não me sobressaltava com os visitantes! Mesmo que um ou outro me parecesse ainda assustador em um aspecto ou outro, minha curiosidade ultrapassava em muito esse ligeiro mal-estar. Sua alteza determinou, então, que eu tinha inteira liberdade para fazê-lo convocar qualquer personalidade morta que eu quisesse, e aliás que eu continuasse a fazê-lo até me contentar de todo, não importasse o número daqueles que eu gostaria de entrevistar nesta minha curta estada por tão poderosa côrte! Podia ser qualquer nome, desde o início dos tempos até os dias atuais, e eu teria liberdade irrestrita no interrogatório. Mas ele me fez observar que as perguntas que eu dirigisse deveriam estar confinadas ao tempo de existência do sujeito, sob pena de não obter nenhuma resposta que fizesse sentido. Além disso, o rei me assegurou: <Tu ouvirás a verdade e nada menos que a verdade, posto que mentir não é talento que possua qualquer valor no submundo>.”

“O primeiro que decidi convocar foi Alexandre o Grande, encabeçando seu exército da batalha de Arbela:¹ após um leve volver de dedo no ar pelo governante, este excelso imperador imediatamente se materializou, em meio a uma vasta planície, visível através da janela que se abria a nossa frente. Alexandre foi chamado a sentar-se diante de nós. Foi com muita dificuldade que compreendi seu grego, e eu mesmo não falo mais do que o básico neste idioma. Ele me jurou: <Não fui envenenado, morri de febre decorrente do excesso de bebedeira.>

¹ Que terminou com a derrota de Dario III e representou a conquista dos persas pelo mundo helênico, tentada desde a formação da nação grega. Alexandre tinha muito menos soldados que seu adversário.

“Em seguida eu vi Aníbal cruzando os Alpes, dizendo: <Eu não tenho uma gota sequer de vinagre em meus campos>.¹”

¹ Uma anedota popular diz que o conquistador Aníbal conseguiu desintegrar enormes rochas que bloqueavam o caminho de suas tropas usando fogo e vinagre (ou azeite) como catalisador das chamas. Ou seja: entrevistando as personalidades históricas, Gulliver sempre se depara com desmentidos.

“Vi (não fui, ele que veio; nem venci, mas afianço que eu vi!) César e Pompeu na dianteira de suas tropas, prontos para qualquer assalto. O primeiro deles estava na forma física de seu último grande triunfo. Eu desejava também a convocação do senado romano para diante de nós. E num amplo salão eu pude ver todas as ilustres figuras daquele senado republicano, além de, ao seu lado, uma assembléia dos tempos mais recentes de Roma, do Império corrompido. Os componentes do primeiro salão pareciam heróis, semi-deuses; a outra turba parecia um amontoado de mascates, batedores de carteira, andarilhos e fanfarrões!

O rei necromante, a minha instância, fez sinal para que César e Bruto se adiantassem. Fui presa de verdadeira veneração ao contemplar este homem Bruto! Pude distinguir nele a mais resoluta das virtudes, um caráter intrépido e uma mente firme, um sincero amor pela sua nação e grande humanidade e benevolência em cada gesto seu. E percebi também que ambos se davam muito bem. César me confessou: <As maiores ações que perpetrei nem sequer igualam, em vários graus, a glória de quem as suprimiu deste mundo!>. Instado por esse comentário, conversei bastante com Bruto. E dele ouvi: <Meu ancestral Junius, Sócrates, Epaminondas, Cato o Jovem, Thomas More e eu andamos sempre juntos no Hades>. Um sextunvirato, decerto, a que nenhuma idade poderia acrescentar um sétimo elemento!

Mas seria tedioso fazer o leitor repassar por todos os meus encontros e conversações daquela ocasião, que foram saciando minha sede por ver e conhecer as pessoas mais renomadas dos séculos dos antigos! Também não poupei meus olhos da vista dos maiores destruidores e tiranos e usurpadores de nossa História; bem como surgiram diante de mim grandes restauradores da liberdade e da paz a nações antes subjugadas…”

“Propus então que aparecessem Homero e Aristóteles, seguidos de sua horda de comentadores. Mas os comentadores eram tão numerosos que algumas centenas tiveram de se pôr em fila, fora das dependências do palácio, aguardando sua vez. Assim que o bando apareceu, de longe, já podia distinguir Homero e Aristóteles dos demais, e até mesmo entre um e outro. Homero era mais alto e cavalheiresco, andava muito ereto para um velho, e seus olhos, ao contrário da crença comum, eram alguns dos mais perspicazes e fulminantes de que já se teve notícia! Aristóteles andava muito encurvado, necessitando do auxílio de um cajado. Sua vista era débil e cansada, seu cabelo ralo e fino, sua voz minguada. Percebi num átimo o quanto cada um deles era desconhecido pela própria turba de comentadores que os seguiam! E também percebi que nem no além estes dois travaram contato com quaisquer daqueles. Recebi um cochicho no ouvido de um fantasma, cuja identidade preservarei: <Acontece que estes comentadores ficam o mais distantes possível dos seus mestres, tamanha a vergonha e a culpa que carregam – enfim se deram conta de quão mal interpretaram seus ensinamentos e distorceram tudo quanto estes homens nos legaram, prejudicando incontáveis gerações de novos homens!>. Introduzi, destarte, Dídimo¹ e Eustácio a Homero, e consegui que ele os tratasse, quiçá, melhor do que mereciam. Homero, muito atento, logo percebeu que estes coitados não tinham gênio de poeta! Já Aristóteles não foi tão benevolente nem contido: pôs-se furioso quando contei-lhe sobre Scotus² e Ramus,³ ao mesmo tempo que lhe apresentava seus espectros, emanando daquela multidão. Aristóteles, sem meias-palavras, indagou se todos os demais eram tão asnáticos quanto aqueles dois!”

¹ Há muitos Dídimos na História, nenhum especialmente vinculado apenas à obra de Homero, então é difícil dizer a qual deles Swift se refere. O mesmo vale para Eustácio.

² Duns Scotus, frade franciscano do XIII. Um dos poucos filósofos da idade média ainda relevantes e talvez a única figura de destaque destes séculos que sirva como contraponto metafísico a Tomás de Aquino, foi um dos prefiguradores isolados e muito prematuros do existencialismo, cf. Heidegger. Beatificado em 1993.

³ Lógico francês do XVI. Na sua época inovou sobre Aristóteles e foi moda, mas logo caiu em esquecimento e suas teses foram consideradas esdrúxulas.

“Neste ponto, solicitei ao rei que trouxesse Descartes e Gassendi das trevas. Com Aristóteles ainda presente, pus-me como intermediário para explicar seus sistemas ao Peripatético. Diante do que ouviu, Aristóteles, cheio de humildade, reconheceu seus erros e imperfeições em filosofia natural, e que isto não lhe era nem um pouco degradante, pois em muitos pontos ele raciocinou por conjeturas. Ele também disse, implacável e austero, que a ética de Gassendi, que parecia um epicurista de primeira linha, e os vórtices de Descartes, por exemplo, um dia seriam também completamente refutados pelos filósofos da posteridade. Ele deu o mesmo diagnóstico para a lei da atração, que os eruditos da contemporaneidade defendem com todo o zelo. Em suas próprias palavras, Aristóteles deixou bem claro: <Novos sistemas da natureza são como novas modas, sendo que cada idade tem a sua; mesmo aqueles que alegam poder demonstrar suas teorias por axiomas matemáticos não prevalecem mais que por uma porção de tempo determinada, brevíssima considerando a infinita sucessão dos homens>.

Eu passei 5 dias inteiros conversando com muitos outros sábios antigos. Vi a maioria dos primeiros imperadores de Roma. Pedi ao necromante que nos mandasse servir um jantar feito pelos cozinheiros de Heliogábalo, o imperador mais hedonista de todos os tempos. Porém, seus dotes culinários não ficaram atestados, porque nas dependências do palácio não havia tantos ingredientes quanto eles desejavam. Um hilota (escravo espartano) de Agesilau nos preparou, também, um ensopado, mas, urgh!, não consegui dar uma segunda colherada.

Os dois gentlemen que me acompanhavam na visita à ilhota tinham necessidade, por razões particulares, de regressar dentro de mais 3 dias, após esses primeiros 5, então eu decidi empregar o tempo que ainda me restava com a idade moderna, o que ainda não tinha feito. Decidi me limitar a nossa Europa de 300 anos para cá. Sendo um conhecedor e admirador das famílias mais tradicionais, pedi logo que se apresentassem uma ou duas dúzias de reis, acompanhadas de seus ancestrais até a oitava ou nona geração, se possível. Minha decepção foi imensa e aterradora. Ao invés de semblantes superiores com diademas reais, o que vi foi, numa família, rabequistas, dândis afetados, prelados (profissão muito comum entre os italianos); noutra, barbeiros, um abade, dois cardeais, e assim por diante. Não conseguia suportar essa frustração histórica, haja vista minha mais alta reverência por cabeças coroadas. Quanto a condes, marqueses, duques, barões e que-tais, não fui tão escrupuloso, e confesso que me locupletei com a baixeza de suas árvores genealógicas! Percebi, após analisar muitos traços, de que famílias alguns dos meus contemporâneos descendem com mais probabilidade. E até conseguia fazer a mesma analogia e adivinhar mais ou menos de que raças de antigos e de que personalidades específicas estes nobres de algumas gerações passadas devem ter descendido.”

Nec vir fortis, necfoemina casta [Nem homem viril, nem mulher casta] (Virgílio); é incrível como a crueldade, a covardia e a falsidade se tornaram tão evidentes que são praticamente sinônimas das características mais enraizadas duma família, dizendo muito mais que seus escudos e brasões. Era fácil ver como um celerado, um tratante, vinha como a sífilis e logo contaminava toda uma nobre casa, cujos descendentes não passavam de escrofulosos tumoríferos!”

“Me preocupava muito com os destinos de nossa história moderna. Analisando todos os rostos dos grandes das côrtes, percebi como o mundo foi tirado dos eixos por escritores venais, prostitutos bajuladores, que teciam loas a grandes espoliadores, amantes da guerra e covardes! Percebi logo como fui enganado pelos nossos historiadores a respeito de tantos tolos pintados como sábios, tantos mentirosos pintados como almas pias; vi até que a tal virtude romana não passava de traição da pátria. A piedade decerto não se encontrava nestes ateus que diziam pregá-la acima de tudo! A castidade era defendida na minha frente pelos mais desabridos sodomitas! A verdade era espezinhada na boca de alguns fofoqueiros. Ó, quantos indivíduos de excelência e perfeitamente inocentes não foram condenados à morte ou ao exílio perpétuo pela prática corrupta de juizecos e pela malícia de intermináveis facções!”

“Com que baixa opinião eu não saí a respeito da suposta ‘sabedoria humana’, da integridade, disso e daquilo, quando me dei conta da raiz e das motivações vis por trás de tão robustas e tão nobres empresas e revoluções registradas em nossos anais! É realmente miserável de se ver como as melhores coisas, maioria das vezes, se produziam da forma mais aleatória e acidental, em meio a um sem-fim de patifaria!

Sobretudo, veio-me um asco por todos aqueles que adoram escrever anedotas com um fundo moral, isto é, os vilões que imaginam escrever a ‘história secreta’ dos povos. Quanta trapaça e ignorância não há em suas sentenças! Poder-se-iam empilhar os reis enterrados por envenenamento… E esses escrevinhadores se comprazem nesses relatos mórbidos; replicam falas exatas e riquíssimas de príncipes e ministros sem que sequer tenha havido qualquer testemunho dessas frases; desvendam como que por mágica os pensamentos e procederes de embaixadores e secretários de Estado que nunca soubemos, nem mediante seus diários íntimos! Ah, sim, quem faz e quem escreve a história está sempre e invariavelmente incorrendo em erro! Descobri a causa de muitos eventos que pareceram surpreendentes quando grassaram no mundo: como uma puta governou por trás das cortinas um conselho inteiro; como generais conseguiram vitórias principalmente devido a seu caráter acanhado e às decisões mais estapafúrdias! (…) todos estes homens mais ‘elevados’ me mostraram da forma mais crua como é impossível um homem ocupar um trono real sem estar infectado de corrupção até a medula, porque o caráter reflexivo, sóbrio, confiante e otimista não combina em nada com os negócios públicos; inclusive poder-se-ia dizer que o bom caráter do monarca seria a principal pedra no sapato e empecilho do ‘comezinho transcorrer das coisas’!… O rei incita o irrealismo.”

“Minha nova viagem durou um mês. Sofremos numa violenta tempestade, de modo que foi preciso seguir o rumo oeste a fim de pegar ventos propícios. Por 60 ligas marítimas esse vento embalaria nossa embarcação. Em 21 de abril de 1708, chegamos ao rio de Clumegnig, uma cidade-porto, a sudeste de Luggnagg.”

“Senti-me premido a ocultar minha procedência e sustentei ser holandês. Como minha intenção era seguir posteriormente ao Japão, esse era o certo a fazer, uma vez que os Países Baixos são a única nação européia com permissão para visitar este império.”

“Toda minha ‘comitiva’ era esse pobre rapaz como intérprete, que persuadi a me acompanhar de forma remunerada; ganhamos cada qual uma mula para a cavalgada.”

“Há um costume que não posso aprovar: quando dá na veneta do rei condenar um de seus nobres à morte, e de maneira indulgente, manda que o chão seja espargido com determinado pó amarronzado, venenoso, que, ao ser lambido, mata infalivelmente em 24 horas. Contudo, para fazer jus à imensa clemência do príncipe regente, bem como à prestatividade deste para com a vida de seus súditos (no que devia, aliás, ser emulado pelos monarcas europeus), devo mencionar, honradamente, que ordens estritas são emitidas para que as partes infectadas do chão sejam bem-lavadas ao término de cada execução, coisa que, se seus domésticos negligenciam, pode resultar na pena de morte ou algum castigo mais brando para todos os encarregados da limpeza. Eu vi pessoalmente como sua majestade mandou chicotear um pajem que estava em sua vez de lavar o chão, mas que, maliciosamente, após uma execução, omitiu seus deveres! Devido a sua indolência, um jovem barão muito promissor, visitando o palácio para uma audiência, foi sem querer envenenado, por mais benquisto fosse pelo rei! Vê-se, porém, como era benevolente o príncipe, ao perdoar tão gritante falta de seu servo, desde que ele prometesse nunca mais agir assim.”

“Inckpling gloffthrobb squut serummblhiop mlashnalt zwin tnodbalkuffh slhiophad gurdlubh asht. Esses são os cumprimentos, expostos na lei local, devidos a qualquer pessoa admitida à presença do rei. Seria mais ou menos o seguinte em inglês: <Que Vossa Alteza Celestial sobreviva ao Sol, onze luas e meia!> A essa fórmula de etiqueta o rei respondia alguma outra coisa ritual, que não pude entender, havendo aprendido apenas a recitar minha parte. Então eu devia proceder à tréplica (não sei o significado – apenas decorei as sílabas): Fluft drin yalerick dwuldom prastrad mir push. Eu disse que não sei o significado porque eu não sei interpretar o que quer dizer, embora saiba traduzir: <Minha língua está na boca de meu amigo>. Mas acho que isso tinha alguma coisa a ver com chamar meu intérprete para junto da conversa, para assim podermos proceder à conversação! Com a ajuda do rapaz que contratei, pude responder todas as perguntas que Sua Alteza me dirigiu, o que durou mais de hora. Eu falei na língua balnibarbiana; meu guia convertia tudo no idioma luggnagguês.”

“Permaneci 3 meses ali. O rei adquiriu muita simpatia por mim, fazendo-me diversas propostas de cargos na côrte. Eu, porém, julguei mais prudente e justo passar o restante de meus dias em companhia de minha esposa e família.”

“Um dia, num círculo da aristocracia, fui questionado por um dos nobres:

– Você já viu um de nossos struldbugs ou imortais?

– Nunca; mas muito anseio por que me expliquem o que é isso que designam por esta apelação, que decerto é aplicada a uma criatura mortal como todos nós!

– Às vezes, por muito raro que seja, uma criança nasce, numa família aleatória, com um sinal vermelho na testa, logo acima da sobrancelha esquerda, uma marca infalível de que aquele ser jamais morrerá. Esse sinal tem estas dimensões [ele fez um gesto com os dedos, e pude compreender que se tratava mais ou menos do tamanho de uma moeda de prata de 3 pêni¹] quando a criança acaba de nascer. Com o tempo, ele vai ficando maior, e inclusive mudando de cor. Até os 12 anos, já se tornou verde. Aos 25 se torna azul escuro. Aos 45, preto-carvão, e já grande assim [ele fez com os dedos uma mímica que eu aproximo ao xelim]. A partir desse ponto, porém, o sinal não muda sua coloração nem seu tamanho. Amigo, estes seres são tão raros que se houver mais de 1100 struldbrugs (contando homens e mulheres), isso muito me surpreenderá! Creio que uns 50 vivam na metrópole. Fora da capital, houve a notícia de um último struldbrug nascido 3 anos atrás, do sexo feminino. Não há qualquer chance de um struldbrug ser mais freqüente em umas famílias que em outras, não há qualquer correlação! Tampouco qualquer struldbrug, ao ter filhos, teve filhos que fossem iguais a si mesmo…”

¹ Pense numa moeda de 50 centavos, tanto com referência ao tamanho quanto com o valor aproximado de 3 pêni ou threepence àquela altura.

“Nação ditosa, em que toda criança tem pelo menos uma chance ínfima de ser imortal!”

“Dizia ainda ele que Sua Majestade, sendo tão judiciosa, jamais deixaria de escolher, dentre os struldbrugs, um bom número para compor seu conselho. Se bem que uma côrte é algo tão mundano, impuro e estulto para a alta sabedoria de um struldbrug envelhecido que se nenhum é visto por lá atualmente, isso não é culpa do rei. Comecei a mudar de idéia quanto aos planos de ficar ou não neste país. Me parecia um futuro promissor poder gastar meus anos conversando com sábios struldbrugs!”

“Após um breve silêncio, o mesmo interlocutor deu prosseguimento:

– Mas é impressionante! Nunca vi alguém com seu otimismo com respeito à vida eterna! Diga-me no que consistiria sua vida, caso você tivesse tido o privilégio de nascer um struldbrug?”

“Ora, se eu fosse bem-aventurado para tanto, assim que soubesse, pelos meus conterrâneos, ser um imortal, isto é, aprendendo a diferença entre a vida e a morte, a primeira coisa que procuraria seria me tornar rico. Sendo econômico e previdente, creio que em cerca de 200 anos eu já teria atingido a meta de ser o homem mais rico da nação. Em segundo lugar, desde minha juventude me aplicaria ao estudo das artes e ciências, o que me garantiria ser o número 1 em cada uma após algum cultivo. Em terceiro e último lugar, tomaria o cuidado de registrar todas as minhas ações e eventos biográficos de conseqüência num diário, sem deixar, evidentemente, de redigir uma história a mais imparcial possível dos meus próprios reis e ministros, com notas e opiniões pessoais a cada ponto. Não deixaria de catalogar todas as mudanças culturais, lingüísticas, dietéticas, estéticas e variedades tais. Seria eu um tesouro vivo de conhecimento e sabedoria acumulados, e certamente me fariam exercer o cargo de oráculo do país!

Depois dos 60, creio que não voltaria a me casar, vivendo de maneira celibatária, mas não reclusa. Me comprazeria muito ser o mentor de jovens mentes brilhantes, convencendo-os, de acordo com minha vasta experiência, a ser virtuosos na vida pessoal e na vida pública. Meus amigos íntimos, entretanto, seriam unicamente outros de minha raça e condição; e mesmo dentre eles eu seria seletivo: procuraria me acercar apenas da dúzia mais anciã de todas, e dificilmente procuraria contato com os struldbrugs mais jovens que eu mesmo.”

“Como um homem mortal se distrai contemplando a sucessão anual das rosas e tulipas de seu jardim, sem nunca lamentar pelas rosas e tulipas mortas da estação passada, assim eu viveria!”

“rios famosos que com o tempo se tornam modestos córregos; o oceano, que em seu perpétuo movimento acaba por recuar e aumentar uma de suas margens, só para engolir completamente uma outra; a descoberta de muitos países até agora ignorados; a barbárie avançando e ultrapassando as nações mais eruditas e cultivadas; a arte de medir, o moto perpétuo, a medicina universal, e muitas outras invenções e ciências eu veria chegarem à perfeição!

Quantas belíssimas coisas não descobriríamos na astronomia, só pelo fato de sobrevivermos até podermos confirmar nossas predições? Observando o progresso e o retorno dos cometas, as mudanças de movimento do sol, da lua e das estrelas, ah!…

Incorri numa infinidade de outros tópicos, todos a que o desejo natural pela vida eterna e pela felicidade sublunar poderia me incitar. Quando terminei meu discurso, e o essencial do que eu disse foi devidamente transcodificado e retransmitido pelo meu intérprete a todos os ouvintes, houve uns bons minutos de discussão entre os pares na língua do país; sem entender uma palavra, me era possível, entretanto, ver que eu me passava por ridículo, porque era evidente que riam as minhas expensas! Enfim aquele que havia sido meu intérprete fez o favor de explicar-me tudo que se havia conversado. Toda essa gente desejava, em suma, retificar alguns erros crassos acerca da idéia que eu fazia da imortalidade terrena. Não que fosse culpa minha, por assim dizer, mas da imbecilidade universal da espécie humana, que não tem como perceber o erro de seus raciocínios abstratos a menos que seja confrontada com a dura realidade. Tendo essa nação convivido com imortais por muitos séculos, estas pessoas se sentiam no direito de censurar-me, uma vez que tinham muito mais experiência no assunto em questão. Os struldbrugs, ao que tudo indica, são exclusivos deste recanto do mundo, e nenhum outro povo conhece as peculiaridades desta condição. Nem em Balnibarbi nem no Japão, vizinhos que às vezes recebiam struldbrugs como embaixadores, tinha-se uma perspectiva acertada a esse respeito. Na verdade, poucos criam na possibilidade mesma de que estivessem tratando com imortais, julgando que fosse uma espécie de mito, lenda ou que se desejava pregar uma boa peça. E julgaram que eu não me portei diferentemente, pois notaram como a princípio eu acolhi com muito espanto e ressalvas a possibilidade de alguém viver anos infindáveis; e que se agora eu acreditava na existência dos struldbrugs, sem dúvida isso se devia a minha credulidade incomum. E assim seria com todas as nações que não conhecem indivíduos da raça imortal, pelo menos não tão bem, isto é, em toda sua vida, mas apenas, quando muito, como embaixadores que não residem muito tempo no exterior, logo se aposentando de suas funções: todos os povos compostos apenas por mortais manifestam um grande anseio pela imortalidade. Toda pessoa velha, decrépita, com um pé na cova, dentre as nações desprovidas de struldbrugs, teme a morte, e não hesita em fugir da morte, tentando inutilmente afastar o outro pé, aquele que ainda não está na cova, diante do destino inevitável de todo ser vivo que não recebeu a marca da imortalidade na testa logo que nasceu. Dizem que os velhos, por mais doentes e senis, nunca deixam de nutrir as esperanças de dias melhores, e sempre querer viver um dia a mais, não importando o dia de hoje. Para os mortais, a morte é o maior mal, e por mais que ela seja inerente à natureza é um fato horroroso. Só na ilha de Luggnagg, lugar privilegiado, esse apetite insaciável pela infinidade dos anos havia sido abolido, pelo menos nas mentes de todos que bem conheciam histórias de struldbrugs.

Alegaram que meu sistema de vida eterna era injusto e irracional, pois supunha, em primeiro lugar, uma juventude eterna, uma saúde sem-fim, um vigor inacabável, o que não passa de quimera e tolice. E me corrigiram, dizendo que a questão não era se seria desejável viver para sempre na flor dos anos e na primavera da vida, próspero e feliz. Mas sim como é que seria desejável para qualquer um viver para sempre, com todas as inconveniências naturais do envelhecimento. Os luggnagguianos confessaram, enfim, que nunca viram alguém partir desta vida de bom grado em Balnibarbi ou no Japão, exceto aqueles que já estivessem à mercê das mais cruentas misérias ou vivendo sob tortura. O intérprete me perguntou, já certo da resposta, se, nos países que eu já havia visitado, assim como na minha terra natal, os homens se comportavam de maneira diferente ou análoga.

Depois deste longo prefácio, ele finalmente me relatou como é verdadeiramente a vida de um struldbrug. Ele disse que um struldbrug vive como qualquer mortal até seus 30 anos de idade; aos poucos, porém, eles se tornam cada vez mais melancólicos e apáticos. Progridem até os 80 anos num ritmo constante, isto é, cada vez mais melancólicos e apáticos conforme a idade. Isso era conhecido não só por observação mas da boca dos próprios struldbrugs. Claro que, nunca havendo, numa só geração de mortais, mais do que 2 ou 3 struldbrugs, seria difícil generalizar e chegar a conclusões confiáveis para todos os struldbrugs de todos os tempos. Mas, o que é mais espantoso, assim que um struldbrug supera seus 80 anos, que é mais ou menos reconhecido como o termo da vida do homem mortal, marca além da qual poucos chegam,ainda mais provido de lucidez, percebe-se que, independentemente do dom recebido da imortalidade, este ser sofre de todas as doenças e abastardamento mental comuns à terceira idade. Não só isso, mas um struldbrug, justamente por saber-se eterno, parece sofrer ainda mais que qualquer mortal de idade avançada que sabe que um dia irá morrer. Os que ainda se comunicam tornam-se obstinados e recalcitrantes, rabugentos, invejosos, indolentes, vãos, tagarelas, maus ouvintes, incapazes de cultivar a amizade. Logo, pelo menos metaforicamente, mortos às afeições humanas, tornam-se incapazes de sentir ternura por qualquer descendente seu mais jovem que seus próprios netos ou bisnetos. Tornam-se apenas vultos, por assim dizer, fontes que emanam unicamente desejos e paixões impotentes. E as duas coisas que eles mais passam a odiar são os vícios comuns à juventude e a morte dos velhos. Vendo como vivem os mais jovens, eles se vêem alijados de há muito dos prazeres da existência; e sempre que ocorre um funeral, lamentam profundamente que alguém tenha ido para um lugar de repouso e sossego, enquanto eles ali continuam. E é curioso observar que eles não guardam memória das coisas que acontecem em seu tempo de velhice; eles teimam em recordar apenas aquilo que viveram durante a juventude e a meia-idade. Se bem que cada vez menos, quanto mais envelhecem. Sendo que ninguém mais confia no juízo de um struldbrug muito ancião, preferindo dar crédito às tradições, ao ouvir-dizer popular, do que a qualquer entrevista que se possa ter com um struldbrug milenar. Os menos desagradáveis dos struldbrugs são os que atingem um estado de perfeita senilidade e se recolhem em si mesmos, perdendo qualquer lembrança ou sociabilidade; estes, confessava meu intérprete, ainda são vistos com piedade e condescendência pelos mortais, porque, afinal, não incomodam ninguém.

Mas se um struldbrug, por exemplo, casa com outro struldbrug, a lei do país, muito sensata, dissolve o casamento, assim que o mais jovem do casal completa seus 80. Porque a lei entende que um struldbrug é o que é, e não tem culpa de ter nascido sem poder morrer. E seria crueldade aumentar o peso dessa velhice eterna, se se permitisse que um imortal, ainda por cima, tivesse sempre um cônjuge!

Como já se vislumbrou, um struldbrug de 80 anos é só um pária não mais contemplado pela lei. Seus herdeiros passam a ter desde então direito à herança; é claro que a caridade ainda é fomentada, e eles continuam de posse de um naco de seus bens, que lhes permita seguir vivendo comodamente; mas tudo o que seria supérfluo é-lhes imediatamente retirado. Os struldbrugs que porventura cheguem pobres aos 80 anos são custeados por pensões estatais. A essa idade, ninguém lhes confia emprego algum, pelo menos não um trabalho útil. Proíbe-se-lhes comprar ou arrendar terras; ser testemunha nos tribunais – seja a causa cível ou criminal –, etc. A verdade é que nem como jurados de pequenas causas eles seriam de qualquer proveito.

Aos 90, eles já perderam todos os dentes e fios de cabelo da cabeça. Já não têm paladar, se bem que comem e bebem indiscriminadamente o que lhes puserem à mesa, sem gula nem muito menos satisfação. As doenças de que padeciam de há muito não os abandonam, mas chegam a um ‘equilíbrio’, e param de se agravar. Começam a esquecer os nomes mais óbvios, os nomes das pessoas, mesmo dos antigos melhores amigos ou chegados. E, por isso, ler não é mais um hábito que faça sentido para eles, porque sua memória já não pode conduzi-los do início ao fim de uma frase sem que eles exclamem:<O quê? Nada compreendo disso!>. Nessa amnésia eterna, portanto, eles perdem a capacidade de se engajar em qualquer distração construtiva.

Como é sabido, em todos os lugares e inclusive em Luggnagg, a língua, como os costumes, vai mudando com o tempo, de modo que um struldbrug, ainda que pudesse dialogar com outro struldbrug muito mais velho ou mais novo, não poderia entendê-lo, nem fazer-se entender, porque cada qual aprendeu um idioma um tanto diferente. Aliás, a menor e mais banal conversação se torna materialmente impossível aos 200 anos. É verdade que eles ainda podem balbuciar palavras soltas, como bebês fariam. É assim que, embora sustentados pelo Estado, eles passam a viver como estrangeiros em seu próprio lar.

Foi isso que me contaram desta raça dos struldbrugs!Depois desse extenso relato tive a oportunidade de conhecer pessoalmente 5 ou 6 destes seres, o caçula ainda não bicentenário. Como eu fiz muitos amigos na ilha, eles sempre viajavam com struldbrugs para trazê-los a mim. Muito embora dissessem aos struldbrugs trazidos que eu era um grande viajante que viu inumeráveis partes do globo, eles naturalmente não demonstravam a mínima curiosidade nem me dirigiam perguntas; só o que pediam era um pouco de slumskudask, i.e., uma lembrancinha do estrangeiro. Na verdade não se enganem: nem esse ato era desinteressado, e descobri que essa era uma forma de burlar a lei e pedir esmolas, o que era diretamente proibido. Como eu disse, struldbrugs, quando envelhecem, são mantidos pelo Estado, e sua pensão não é lá muito elevada…

Eles são, em suma, desprezados e mesmo odiados por todos os tipos de habitantes locais. Quando um nasce, já recai sobre todos a certeza de um acontecimento ominoso, em nenhum grau mais evitável pelo fato de que seria uma desgraça sentida somente a longo prazo. Por isso é que eles registram nos cartórios com muito esmero a data de nascimento de um struldbrug, para que qualquer cidadão possa descobrir a idade de um só de olhar nos registros: quanto mais velho um struldbrug, mais longe dele se deve passar! Esse registro é arcano, mas a prática não retrocede a mais de 1000 anos ou, até onde pude entender, registros mais antigos que um milênio de idade já haviam sido destruídos ou tornados ilegíveis por intempéries climáticas, alguma catástrofe natural ou simples desorganização administrativa. Tirante esse registro do parto, há também uma forma mais simples e informal de se inteirar da idade de um struldbrug: pergunta-se-lhes de que reis ou grandes nomes da História ele se lembra; naturalmente que, muitas vezes, é necessário seguir essa entrevista de uma consulta aos livros de História. É um dogma que o último monarca lembrado por um struldbrug subira ao trono invariavelmente antes de seu octogésimo aniversário, prestando grande confiabilidade a esse método.

Honestamente, os struldbrugs foram a visão mais mortificante que tive em minha vida. E a mulher era sempre mais horrenda que o homem. Além das deformidades verificáveis em qualquer idoso mortal, havia uma aura infecta indefinível que envolvia cada struldbrug, mais e mais, conforme o avanço etário. Isso era tão palpável, embora tão difícil de descrever, que, batendo o olho,eu conseguia descobrir, sem hesitação, qual era o mais velho dos seis que eu vim a conhecer. E digo isso ressaltando que entre este e o segundo mais idoso não havia uma diferença espetacular, mas coisa de entre 100 e 200 anos!

O leitor facilmente adivinhará que, diante de tudo que aprendi e vi com meus próprios olhos, minha ânsia pela imortalidade terrena sofreu o mais duro golpe. Desde então, nunca deixei de guardar uma profunda vergonha dos antigos pensamentos fantásticos que eu nutria a respeito dessa possibilidade quimérica!”

“O rei soube de tudo que se passara comigo e meus recém-amigados, além de toda minha obsessão inicial pela imortalidade e sua súbita conversão em repulsa e desalento. De forma espirituosa ele me disse que desejava que eu levasse comigo, na volta, 2 ou 3 exemplares de struldbrugs para exibição em minha terra natal. Ele disse que assim toda minha nação seria devidamente ensinada a jamais temer a morte. Mas o rei só estava brincando: eu soube que, segundo as severas leis do reino, era interdita a exportação de struldbrugs. E esta era uma cláusula pétrea de sua avançada constituição. Confesso que, não fôra isso, a repelência (e as despesas!) de tê-los por perto durante uma longa viagem por mar seria vencida pelo meu altruísmo educador, e eu mostraria os struldbrugs de bom grado aos ingleses!”

“Sendo a avareza inseparável amiga da velhice, creio que, no tempo devido, dando-se-lhes o direito, os imortais chegariam a ser os grandes proprietários de toda a nação, depauperando os poderes civis em igual proporção. Por isso, concordo em absoluto com a lei que considera os struldbrugs avançados em idade meros párias.”

“Em seis dias encontrei um navio apto a zarpar comigo para o Japão, viagem que durou 15 dias.” “No porto, mostrei aos oficiais da alfândega a carta do rei de Luggnagg endereçada à Sua Majestade Imperial. Eles estavam habituados àquele selo; era, para falar a verdade, uma insígnia do tamanho da minha mão. Uma inscrição acompanhava o símbolo, dizendo: Um Rei que ergue um mendigo ignoto da terra. O magistrado daquela cidade costeira, ao ficar sabendo de meu documento real, recebeu-me como um verdadeiro ministro de Estado. Deram-me carruagens e servos para minha expedição, e encarregaram-se também de expedir minha bagagem para Edo. Em Edo fui convidado a uma audiência pública e ali me devolveram a carta do rei. Abriram-na de uma forma imensamente ritualística e cerimoniosa; trataram de explicar seu conteúdo ao Imperador via intérprete, e ele finalmente se dignou a me receber. Assim pronunciou: <Peça o que quiser e será atendido, em nome de Seu Real Irmão de Luggnagg!> – é claro que diz-se<Irmão> não por consangüinidade, mas pelo vínculo de suprema autoridade entre as duas nações vizinhas.”

<Você é o primeiro holandês escrupuloso quanto a isso; você é mesmo um holandês?! Você não se porta como um destes, como é que se diz?, protestantes…>De qualquer maneira, ele não quis me interrogar mais seriamente – acredito que por consideração a Seu Amigo-Rei. Na verdade, o que pedi era muito incomum naquela côrte, mas o Rei é Soberano Absoluto, e muito Misericordioso e Benevolente! Ele ressalvou:<Se essa informação se torna pública entre os holandeses, esteja prevenido, nenhuma amizade entre nações evitará que cortem-lhe a garganta ainda no meio da sua viagem!>

“Em 9 de junho de 1709 cheguei a Nagasaki; a viagem não foi breve nem muito menos sossegada. Aconteceu de eu estabelecer relações com alguns marinheiros de uma robusta embarcação de 450 toneladas, que eram justamente holandeses,de Amboyna, Amsterdã. Vivi muitos anos nos Países Baixos, estudando em Leyden, e meu Holandês não era menos que impecável, então consegui disfarçar minha identidade de súdito da rainha da Inglaterra. Seja como for, estes homens foram logo informados de que eu era um viajante crônico, e se mostraram muito curiosos sobre que aventuras eu vivi. Condensei os detalhes o mais que pude e ocultei o essencial, i.e., a maior parte dos acontecimentos. Eu conhecia muitos indivíduos holandeses. Podia facilmente inventar nomes de família para meus pais, que, alegava eu, eram gente simples da província de Gelderland. Eu pagaria de bom grado o exigido pelo meu traslado pelo capitão do navio (um tal Theodorus Vangrult, a propósito); porém, descobrindo que eu era cirurgião, este homem aceitou baixar a taxa pela metade, desde que eu servisse como médico. O fato é que nos dias de preparativos para incursão em alto-mar fui incessantemente interrogado pela tripulação sobre se eu ‘participara da cerimônia ou não’, pergunta que, dependendo da resposta, podia custar minha vida…Que cerimônia? Aquela em que se pede algo de todo súdito que deseja atestar Sua Lealdade Absoluta exceto no caso do simples comerciante holandês: lamber o piso da sala do Imperador do Japão!

“Ah, nada aconteceu durante esta viagem que mereça ser citado. O vento foi favorável até o Cabo da Boa Esperança, onde paramos só para nos guarnecer de mais água potável. Em 10 de abril de 1710 chegamos sãos e salvos a Amsterdã, tendo perdido apenas 3 homens de doença, e um quarto que caíra do mastro nas águas, mais ou menos próximo da costa da Guiné. De Amsterdã foi um pulo para voltar à Inglaterra, num barco menor, saído daquela mesma cidade.

Dia 16 de abril lá estava eu de volta a Downs. Eu estive ausente de minha terrinha por 5 anos e 6 meses. Fui incontinenti a Redriff, lá chegando em 17 de abril, às 2 da tarde, e me reencontrei com minha esposa e família, todos na mais perfeita saúde.”

PARTE IV – VIAGEM AO PAÍS DOS HOUYHNHNMS

“Por mais 5 meses incompletos segui em casa, ao lado de mulher e filhos,feliz, devo dizer, e não sairia desse estado se já tivesse aprendido a lição, i.e.,sabido desde já no que consiste realmente a felicidade. Porque aí então no fim deste curto período eu deixei mais uma vez minha mulher, com a barriga bem visível,esperando mais um descendente meu, tendo eu resolvido aceitar uma oferta, que eu julgava aliás irrecusável, do capitão do Adventurer, um grande navio mercante de 350 toneladas. Bom navegante, e muito mais experiente agora, além de enjoado de exercer a medicina, que, se me desse na telha, eu poderia voltar a predicar por breves instantes, levei conosco um colega médico, Robert Purefoy, para ser o responsável pela saúde dos meus homens – eu ia, portanto, apenas como mercador e a fim de lucrar e de desvendar o desconhecido!¹ Desancoramos de Portsmouth no 7º dia de setembro de 1710; dia 14 cruzamos com o Capitão Pocock, de Bristol, no Teneriffe, cujo destino era a baía de Campechy, onde iriam atrás de madeira. Dois dias depois, acabamos nos separando por conta de uma tempestade. Dali a muito tempo, quando retornarianovamente ao lar, fiquei sabendo, afinal, que sua embarcação naufragara, e só um garoto, pajem, sobrevivera. É, o Capitão Pocock era um homem honesto, e bom capitão, mas um pouco otimista demais e obstinado em seguir uma rota sem nunca improvisar, mesmo diante de circunstâncias ruins. Foi isso que precipitara sua morte e a de quase toda sua tripulação, o que não foi a primeira nem será a última vez nos sete mares! Se ele tivesse seguido meu conselho, estaria hoje confortavelmente instalado diante da lareira de sua sala de estar, ao ladodos parentes, tão bem quanto eu – tão bem quanto eu chegaria a estar um dia–, mas agora não é a hora!

[¹ As semelhanças com Robinson Crusoe não param!]

Quanto a minha viagem, muitos colegas morreram da febre dos trópicos, ocasionada pela insolação; isso me levou, como capitão de meu próprio navio, a decidir nossa sorte, para o bem ou para o mal, recrutando gente de Barbados e das Ilhas Leeward, onde afinal desembarquei. Eu depressa me arrependeria de minha escolha: muitos destes sujeitos já haviam sido piratas e não eram confiáveis. Havia 50 mãos a bordo. Minhas ordens eram: comerciar com autóctones dos mares austraise coletar o máximo de informações. Bem, esses mercenários que contratei corromperam meus marujos fiéis e todos, ensandecidos, conspiraram para tomar o navio. E assim se deu:uma bela manhã, arrombaram a porta de minha cabine e completarem seus planos com facilidade; começaram por imobilizar meus pés e mãos atando-os.”

“Eles me davam, como um favor!, das minhas próprias carnes, e goles das minhas bebidas, enquanto lá fora se tornavam os donos do navio e deles mesmos. Seu objetivo era voltar ao ofício de piratas e render um navio espanhol.Para realizar esta façanha, porém, eles ainda precisavam recrutar mais homens.”

“Eles velejaramsemanas a fio. Negociaram com indígenas. Eu, contudo, ignorava quais podiam ser as coordenadas, tendo sido mantido prisioneiro em minha cabine, sem maiores expectativas além de ser morto a qualquer momento, já que ameaças não faltavam.

A 9 de maio de 1711, um James Welch baixou ao meu calabouço e relatou que tinha ordens do ‘capitão’ para me deixar na costa. Eu tentei barganhar com eles um destino melhor, mas sem sucesso. Ele nem mesmo aceitou revelar o nome do novo capitão do navio, o líder da rebelião. Me forçaram a subir no barco, concedendo-me ao menos o direito de vestir minhas melhores roupas, que eram de fato como se fossem novas, além de levar comigo um novelo de linho; porém, nada de armas, exceto um gancho de cabide. Não nego que tivessem alguma honra: não revistaram meus bolsos, onde por acaso eu guardara todo o dinheiro que levava na viagem, junto de alguns pequenos itens de sobrevivência. O barco seguiu por uma liga marítima, até que estivesse raso o bastante para eu descer à praia. Eu ainda supliquei para que me dissessem que lugar era aquele; mas a resposta que obtive foi <não sabemos mais do que você>. Completaram: <O capitão estava resolvido, após a venda da carga, a livrar-se de mim ao aparecimento da primeira terra firme>.”

“Após me hidratar e espairecer, comecei a explorar o sítio, decidido a entregar-me aos primeiros selvagens que surgissem. Quem sabe eu não conseguisse comprar minha vida com alguns braceletes, anéis de vidro ou outros desses itens insignificantes, que os grandes navegantes sempre levavam, expressamente para o escambo com os mui admirados nativos de países remotos…”

“Eu cheguei a uma estrada batida, onde percebivárias pegadas humanas, e também bovinas mas, sobretudo, eqüinas, a maioria delas. Foi então que contemplei diversos animais num campo mais aberto, e sempre um ou dois do bandoassentados em cada árvore. Suas formas eram muito singulares e deformadas, o que me desconcertou a princípio, e me fez, por prudência, conservar distância e seguir observando pordetrás da moita.”

“Sua cabeça e busto eram cobertos por uma espessa pelugem, alguns a tinham cacheada, outros lisa. Eles possuíam barbas como bodes, e uma espécie de crina muito avantajada descendo lombo abaixo, além de pêlos nas pernas e nos pés; mas o restante de seus corpos era nu e deixava transparecer uma pele de um marrom lustroso, quase cáqui. Eles subiam nas árvores com a agilidade de esquilos, e pude notar que possuíam garras muito compridas nas quatro patas, pontiagudas, em forma de gancho. Eles saltavam com agilidade igualmente prodigiosa. As fêmeas eram menores. Levavam compridas cabeleiras escorridas, embora sem nenhum pêlo facial, e sem pêlos noutras partes que eram peludas nos machos, exceto nas pudendas e no ânus. Suas tetas ficavam dependuradas entre suas patas dianteiras e ficavam rentes ao solo,enquanto caminhavam de quatro! Os pêlos de ambos os sexos, ao contrário da uniformidade da cor da pele, eram multicoloridos, podiam ser castanhos, mas também ruivos, negros ou loiros. Eu jamais vira, em todas as minhas andanças, animal tão repelente, ou não exatamente repelente, mas capaz de me inspirar a mais arraigada e preconcebida antipatia e aversão! Tanto que, julgando que játinha visto o bastante, imerso em nojo e desprezo, ergui-me e retornei à estrada batida, na esperança de chegar a alguma cabana com seres humanos. Eu não tinha caminhado muito quando uma dessas criaturas se encontrou frente a frente comigo, e se aproximou parecendo reconhecer-me, sem desviar o olhar. O monstro horrendo, ao ver-me melhor, entretanto, contorceu suas feições, diria que todos os músculos da face, e sua vista petrificou, como que de súbito, tanto elese espantara diante de algo que provavelmente nunca vira. Movendo-se novamente, chegando mais e mais perto, ergueu uma de suas patas, ou em ato de inocente curiosidade ou em sinal de animosidade, não sei dizer ao certo. Eu imediatamente saquei meu cabide-gancho e com o lado não-perfurante dei-lhe uma boa bordoada. Quem sabe de quem seria esse animal? Eu não ousava feri-lo gravemente. Quando a besta sentiu a pancada, recuou, mas grunhiu tão alto que quarenta membros de sua manada vieram acudi-lo, parecendo que uivavam, instigando-me com suascaretas medonhas. Eu corri até o tronco de uma árvore, nele apoiei as costas e mantive os quadrúpedes à distância empunhando e balançando meu gancho no ar. Alguns dessa horda demoníaca se apoiaram nos galhos da árvore e a escalaram facilmente, no que –verticalmente alinhados comigo –, começaram a expelir seus excrementos em minha cabeça! Eu minimizei os danos procurando ficar o mais rente possível ao caule; o problema é que aquele odor e material pestilentos foram me sufocando, pois em poucos segundos eu fiquei conspurcado de fezes…

Em meio a este pandemônio, notei todavia que muitos deles partiram em disparadao mais depressa que puderam, no que me aproveitei para abandonar a vizinhançadaquela árvore e correr estrada afora, enquanto tentava refletir no quê é que poderia tê-los assustado tanto. Ao perceber um vulto à esquerda, voltei-me e contemplei um cavalo que caminhava sossegadamente pelo campo. Percebi bem rápido que era dele que os outros haviam corrido. O cavalo hesitou, espantado, diante da minha figura. Aproximando-se, no entanto, parecendo manifestar muito mais auto-controle e prenda que o meu horrendo rival de ainda há pouco, fitou-me fundo nos olhos com sinais de admiração no focinho. Ele dirigiu a vista para minhas mãos e pés, rodeou-me para investigar melhor – e não escassas vezes! Eu seguiria viagem, evidentemente, mas ele fez questão de bloquear a estrada, embora parecesse sereno e nada ameaçador. Seguimos nos fitando um bom naco. Criando coragem, levei minhas mãos à altura do pescoço do animal a fim de afagá-lo, como fazem os jóqueis quando estabelecem um primeiro contato com sua montaria. O animal pareceu receber meu gesto com um infinito desdém, afastou a cabeça e como que franziu o sobrolho – se tivesse sobrolho! –, erguendo – suavemente – a pata dianteira direita a fim deapartar meu braço. Ele relinchou 3 ou 4 vezes, mas numa cadência tão única que eu comecei a delirar que ele falava comigo numa língua de cavalo!

Enquanto essa bizarra cena transcorria, outro cavalo se achegou. Dirigindo-se ao primeiro em postura que julguei um tanto formal, ambos tocaram-se mutuamente pela sola de seus cascos da pata posterior direita, relinchando em seqüências estranhas, e um se alternando com o outro! Eu mais uma vez testemunhei a diferença na modulação dos sons, que pareciam sílabas. Esses animais articulam a fala?! Eles se afastaram de mim alguns passos, como se fosse para conferenciarem mais à vontade (eu não podia dar crédito a minhas alucinações, aquilo era demais para mim!). Eles seguiram trotando a passos apascentados, um ao lado do outro, como se fossem dois seres humanos deliberando algo deveras importante! E às vezes voltavam a cabeça e me espiavam, como se estivessem a me vigiar. Eu não acreditava nessas ações provindas de tais bestas, animais brutos e silvestres! Comecei a refletir: se os habitantes deste lugar forem proporcionalmente tão inteligentes quanto seus animais, creio que cheguei ao povo mais sábio da Terra, é isto! Essa conclusão me tranqüilizou de tal maneira que eu decidi juntar-me a eles na caminhada, até que vislumbrasse alguma casinha ou vilarejo nohorizonte. Onde estão os humanos deste lugar?! Na verdade não era minha intenção seguir de perfil com os cavalos –deixai cada qual com seu cada qual, eu iria apressar o passo e fazê-los comer a poeira de meus passos. Mas foi aí que o primeiro cavalo, de um cinza sarapintado, muito atento aos meus movimentos, relinchou de forma tão expressiva que eu tive a nítida sensação de que ele me chamava!”

“A perplexidade em torno de meus sapatos, meias e calças era extraordinária; eles não paravam de relinchar uns aos outros toda vez que dirigiam o olhar para os meus acessórios. Eles também usavam linguagem gestual, e diria que em nada ficavam a dever ao filósofo europeu, quando este se punha concentrado a fim de resolver um problema elaborado!

No geral, o comportamento destes animais era tão ordeiro e racional, tão sensível e judicioso, que por fim concluí que eles deviam ser magos, que se autometamorfosearam por alguma razão e, encontrando um estranho enquanto assim permaneciam, resolveram dar lastro à brincadeira por mais algum tempo. Ou, talvez, estes animais estivessem apenas imensamente maravilhados com um homem da civilização como eu, com minhas roupas e feições e posturas mais delicadas que as de qualquer nativo vivendo num habitat tão remoto! Cada vez mais convicto de uma dessas hipóteses, resolvi, portanto, dirigir-me a eles da seguinte maneira:

– Respeitáveis gentlemen, se fordes feiticeiros, no que tenho motivos para acreditar, podeis então entender minha língua! Destarte eu exorto sua senhoria a reconhecer minha proveniência: eu sou um pobre e desgraçado homem das Ilhas Britânicas, dirigido por suas desventuras a este porto remoto. Eu solicito, mui educadamente, portanto, que um dentre vós me deixe cavalgar em suas costas, como se fôra cavalo de verdade, até que eu encontre alguma vila povoada neste país, onde possa encontrar abrigo e sustento. Se concordardes, presentear-vos-ei com esta faca e bracelete…,

no que logo os tirei de meu bolso. As duas criaturas daquela primeira cena após o tumulto na árvore ficaram paralisadas ouvindo todo o meu discurso, com parecença de ouvir e sorver cada sílaba do que eu dizia. Quando terminei, eles não pararam de ‘conversar em cavalês entre si’, como eu agora o chamo, cansado de comparar seus relinchos hiper-delicados com os dos cavalos ingleses. O debate parecia muito sério. Eu não pude deixar de notar que sua linguagem averbal e no entanto melodiosa expressava as paixões com bastante precisão; eu poderia, me dedicando por mais tempo, decerto, catalogar os diferentes fonemas e até registrar o alfabeto destes seres curiosos! Acho até que seria mais fácil que aprender chinês…

Prova disso é que toda hora eu distinguia a palavra Yahoosaindo de suas bocas dentuças, pronunciada por cada um da companhia, e sem parcimônia. Embora fosse vão tentar conjeturar sobre seu significado, enquanto os dois primeiros cavalos conferenciavam em particular, eu comecei então, para testar sua reação, a articular esta mesma palavra. Assim que se calaram eu pronunciei Yahoo forte e claramente, não sem tentar imitar, não nego, o mais que podia, o ‘sotaque’ de meus convivas, isto é, gritei relinchando! Nisso eles ficaram ainda mais sobressaltados. O cinza repetiu a mesma palavra duas vezes, como se quisesse ‘aperfeiçoar meu acento’. Eu cavalheirescamente anuí, tentando melhorar a pronúncia, o que julgo ter realizado, inclusive melhor e melhor à medida que tentava de novo e de novo. Mas reconheço que não poderia, mesmo depois de alguma prática, ser acusticamente confundido com um cavalo, ainda. O exemplar loiro jogou uma segunda palavra para eu tentar efetuar o mesmo. Essa era mais difícil. Transcrevendo-a para a ortografia inglesa, creio que equivalesse a Houyhnhnm. Minha competência foi menor, mas depois de algumas teimosas tentativas, creio que finalmente ‘os agradei’. Os dois estavam simplesmente maravilhados.

Depois de mais debate entre eles, que só podia se referir a mim, os dois amigos deram sinais de partir um em relação ao outro, da mesma forma que se haviam cumprimentado momentos antes: tocando-se os cascos. O cinza fez sinais de que queria que eu o seguisse, ou que o conduzisse, deveria dizer, posto que eu sou o mestre e ele a montaria! Bom, a mim não restava alternativa até finalmente encontrar o que eu desejava. Quando eu afrouxei meu passo, de fadiga, ele gritou hhuunhhuun.”

“um povo que podia civilizar animais brutos desta maneira esplêndida só podia exceler em todos os campos e ser a nação mais sábia e próspera desta terra! O cinza se pôs à frente e indicou que não toleraria comportamentos abusivos para comigo. Ele relinchou bastante em público, parecendo ter grande autoridade sobre os cavalos dessa cidade-estrebaria, e era correspondido com assentimentos subservientes e timoratos.”

“Comecei a achar que essa casa devia pertencer a alguém muito importante, porque havia grande cerimônia antes de eu poder entrar. Mas, enfim, que um homem pudesse ser inteiramente atendido e hospedado por cavalos, isso escapava completamente de minha concepção. Começava a temer que meu cérebro era o pivô da história toda: tão maltratado pelas agruras da viagem, começava a interpretar mal todas as percepções dos sentidos! Eu me recompus, portanto, e comecei a examinar os objetos do cômodo em que me haviam hospedado, sozinho: este estava mobilhado como o primeiro, apenas que mais elegantemente. Eu esfreguei os olhos muitas vezes, mas não podia ser miragem por desidratação ou cansaço! Belisquei meus braços e meus flancos, quem sabe assim eu acordaria… E nada.”

“Percebi que logo eu morreria de fome, a menos que encontrasse urgentemente alguém de minha própria espécie. Porque quanto a esses imundos Yahooscom que deparara antes no campo, embora houvesse, creio, àquela altura, no mundo inteiro, poucos que amassem a humanidade tanto quanto eu a amava, confesso que jamais vira um ser vivo senciente mais abominável em todos os aspectos! De algo que remetesse aos seres humanos, mais que os Houyhnhnms, pelo menos, isso era evidente, eles só tinham a capa, pois quanto mais eu me aproximava de um Yahoo, e quanto mais de perto eu os analisava, e quanto mais aprendia sobre eles, mais detestável essa raça se me tornava! Tal sensação nunca me abandonou de todo enquanto estive neste país. Isso o mestre-cavalo apreendeu quase instantaneamente, no meu primeiro encontro com estes bichos após ter sido conduzido à vila, graças aminhas atitudesum tanto enérgicas e minha incapacidade de disfarçar tamanha aversão. Ao notar que eu não os suportava de modo algum, e que seus hábitos alimentares me repugnavam ao extremo, ao contrário do que ele esperara inicialmente,o mestre-cavalo mandou os Yahoos de volta para o canil e, então, levou seu casco dianteiro à boca, o que muito me estupidificou, dada a imensa naturalidade com que ele desempenhou essa operação!Ele parecia querer se comunicar comigo, tentando entender que tipo de alimento mais me aprazaria. Porém, nada do que eu dissesse ou gesticulasse fazia-o entender o que é que eu queria comer. E mesmo que ele compreendesse, duvido muito que isso me ajudaria nalguma coisa, porque o problema era justamente achar os gêneros alimentícios de que eu tinha tanta precisão! Íamos nessa toada, eu inconsolável, ele sem entender, quando avistei uma vaca pastando ao longe, no que apontei para ela e demonstrei meu intenso desejo de beber de seu leite. Finalmente isso produziu seu efeito: o mestre-cavalo me conduziu de volta para seu estábulo e relinchou a uma serva-égua algo como <Abra o depósito!>, no que um cômodo foi aberto pela súdita e eu vi quehavia ali muitos vasos de barro e de madeira repletos de leite! Pareceu-me um aposento demasiado limpo e organizado, devo admitir. A serva-égua deu-me uma tigela cheia, e eu sorvi o líquido sem cerimônia. Finalmenteme refresquei um pouco desde o momento em que pisei nesta ilha!”

“Mandaram-me reproduzir as poucas palavras do vernáculo eqüino que eu já havia sido capaz de assimilar. Enquanto todos pastavam – isto é, jantavam – o mestre-cavalo me ensinou nomes para aveia, leite, fogo, água e alguns outros substantivos básicos, o que eu mui rapidamente pude sair repetindo, copiando sua pronúncia. Como já disse várias vezes, eu tenho um talento nato para aprender idiomas!”

“Aveia entre eles chama-se hlunnh. Pronunciei-o duas ou três vezes. Apesar de ter recusado os grãos de aveia quando primeiro mos ofereceram, logo mudei de opinião, considerando que isso podia servir-me de substituto para o pão, por ora. Com aveias, portanto, mais o leite, eu poderia manter minha saúde até achar um jeito de escapar deste lugar”

“Às vezes eu me embrenhava na mata atrás de uma lebre ou de um pássaro. Eu usava elásticos feitos de cabelo de Yahoo para compor minhas armadilhas. Também aprendi a apanhar as ervas mais benignas, que eu fervia e comia com a aveia, à guisa de salada. Aqui e acolá conseguia fazer minha própria manteiga e bebia seu soro. No começo sofri muito pela falta de sal, mas não há nada como o costume e a repetição para o paladar! Hoje, creio que a frequência com que comemos sal na Europa é um hábito caprichoso de nababo, do qual se perdeu a origem: imagino que a intenção dos primeiros que serviam sal nos repastos fosse somente a de provocar a sede, a menos que falemos da função de conservação da carne em longas viagens!”

“Mas o leitor já teve detalhes suficientes sobre minha dieta entre os Houyhnhnms. Uma coisa que detesto nos livros de viagem é quantas páginas os autores desperdiçam narrando seus hábitos culinários, como se quem lê se importasse realmente se quem escreve passa bem ou passa mal! Mas foi necessário fornecer essas descrições, ou nossas nações civilizadas achariam pouco crível que eu tenha conseguido me manter por 3 longos anos nestes confins, ao ladode companhia tão atípica, e vivendo quase só de vegetais!”

“Meus maiores esforços consistiram em aprender de uma vez esse idioma, que meu mestre (de agora em diante vou me referir a ele sem o uso do <cavalo>) e seus filhos, e todos os servos da casa, aliás, se mostravam desejosos de ensinar-me. Eles nunca deixaram de considerar uma espécie de prodígio que um animal selvagem como eu pudesse dar tantos sinais de racionalidade! Eu apontava todo e qualquer objeto, e perguntava qual era seu nome, que eu redigia em meu diário de navegador assim que  me punha só. E eu corrigia meu sotaque solicitando que todos os membros daquela família pronunciassem as palavras.”

“Eles falavam pelas narinas e pela garganta, e sua língua é mais aparentada ao Alto-Holandês e ao Alemão do que aos outros idiomas europeus – mas um tanto mais gracioso e expressivo, devo dizer. O imperador Carlos V, por sinal, fez a mesma observação, certa feita: <Se fosse para conversar com meu cavalo, certamente falaríamos em Alto-Holandês>.

A curiosidade e a impaciência de meu mestre eram tamanhas que ele dispendia várias horas de seu dia para me instruir.”

“O que mais o deixava perplexo eram minhas roupas. Creio que ele mesmo não entendia se elas eram ou não parte do meu corpo, isso porque eu jamais as retirava antes de ir para a cama, e já as vestia antes do café da manhã. Meu mestre me perguntou várias coisas: de onde eu vinha, como eu cheguei a desenvolver esses lampejos de quase-razão que eu demonstrava em minhas ações, e ele queria sobretudo ouvir minha biografia de minha própria boca, o que ele estava esperançoso de conseguir em pouco tempo, dada minha enorme proficiência no aprendizado do idioma houyhnhnmês. A fim de auxiliar minha memória, compilei tudo que aprendi no alfabeto britânicocom sua tradução logo ao lado. Em dado momento, passei a fazer isso não só no meu quarto, mas na frente do meu mestre. Me deu muito trabalho explicar que diabos eu estava fazendo. Creio ser desnecessário explicar que os habitantes deste lugar não conheciam livros nem Literatura.

Em dez semanas eu já entendia quase todas as suas perguntas. Em 3 meses, dava respostas satisfatórias para várias de suas perguntas. Uma das coisas que ele queria muito saber era de que parte do país eu procedia, e quem me ensinou a imitar os Houyhnhnms. Porque, segundo ele, os Yahoos (que tinham a mesma cabeça e mãos que eu – e outras partes do corpo ele não poderia saber, porque eu as ocultava com minhas roupas) eram criaturas cheias de malícia, mal-dispostas, e impróprias para domesticar. Eu respondi que eu vim d’além-mar, de um lugar remoto, onde havia muitos como eu, transportado por um <vaso oco> (eles não tinham palavra para navio) feito do tronco das árvores; e que meus próprios companheiros me forçaram a desembarcar nesta praia, abandonado a mim mesmo.”

“Ele redargüiu que sem dúvida eu cometia um engano, isto é, que eu falava a coisa que não era. Acontece que eles não têm palavra para indicar mentira, falsidade ou erro. Ele alegava ser impossívelhaver um país além-mar (que isso era a coisa que não havia), ou que animais brutos, fossem quantos fossem, pudessem mover um vaso de madeira por onde quisessem sobre as águas. Ele tinha certeza que nenhum Houyhnhnm vivo seria capaz de construir tal meio de transporte, e com muito maior razão nenhum Yahoo seria capaz de pilotá-lo.

A palavra Houyhnhnm significa cavalo e, na etimologia local, perfeição de natureza. Eu disse ao meu mestre que <me falta a forma de me exprimir, mas melhorarei depressa e espero, num dia não tão distante, contar-lhe as maiores maravilhas>. Ele instava sua fêmea, seu potro e sua potra e todos os servos, de boa vontade, a ajudar na aceleração do meu aprendizado. Desnecessário dizer que, por 2 ou 3 horas, todos os dias, ele mesmo se encarregava da tarefa. Não só isso, mas muitos garanhões e éguas da vizinhança visitavam a residência de meu mestre, curiosos com <o grande Yahoo que podia até falar como um Houyhnhnm e que aparentava, em suas palavras e atos, poder chegar até a alguns vislumbres da razão!>. Estes residentes locais tinham um imenso prazer em conversar comigo e, não menos que meu mestre, me dirigiam pergunta atrás de pergunta. Eu não conseguia responder tudo, mas boa parte sim. Com todo esse convívio, fui fazendo progressos ainda mais notáveis. Em 5 meses, já escutava como um nativo e já falava como quem está um pouco aquém disso.”

“Já narrei ao leitor que, toda noite, uma vez que todos estivessem deitados, era meu costume desnudar-me e usar minhas roupas como coberta. Aconteceu, certa manhã bem cedo, de meu mestre mandar o pangaré acastanhado, um alazão mordomo da família, vir me ver. Quando o mordomo entrou eu ainda estava dormindo, e por um acaso minhas roupas tinham caído para o lado. Acordei com o relincho que este mordomo produziu, e escutei como ele voltou para contar ao mestre o que viu, todo atabalhoado. Vesti-me rapidamente e fui à sala. Meu mestre perguntou qual era o significado do que seu vassalo acabara de contar-lhe, i.e., que eu não era a mesma coisa quando eu dormia do que eu era quando estava acordado. O mordomo relatou-lhe assombrado que uma parte do meu corpo era branca, outra amarela, ou ao menos um pouco menos branca, e algumas partes marrons.

Eu vinha até ali guardando segredo sobre ‘isso das minhas vestes’, a fim de distinguir-me o mais possível dos aberrantes Yahoos. Mas vira que doravante este cuidado se tornara vão.”

“De onde eu vim, todos da minha espécie recobrem seus corpos com as peles de alguns animais, preparadas expressamente para isso por determinadas técnicas, tanto para fins de decência quanto para evitar as inclemências do ar.”

“ele simplesmente não podia entender por que a natureza deveria ensinar-nos a ocultar o que a natureza mesma nos deu”

“Meu mestre não deixou de me observar com o olhar mais atento. Seu rosto expressava grande curiosidade e admiração. Ele apanhou toda a minha roupa em sua quartela, peça por peça, para examinar com diligência. Então ele apalpou muito delicadamente meu corpo nu, e rodeou-me, embasbacado, umas tantas vezes. A primeira coisa que ele disse, após esse intervalo de exame silencioso, foi que sem dúvida alguma eu era um Yahoo. Mas que eu me distinguia, com efeito, de minha espécie, pois minha carne era mais macia, branca e minha pele bem mais branda. E que, além disso, ao contrário dos outros eu não tinha pêlos em muitas porções de meu corpo e que o formato de minhas garras era diferente, e elas eram menores. Que eu era o único exemplar que tinha essa afetação de caminhar continuamente sobre minhas duas patas traseiras. E que ele já tinha saciado sua curiosidade, dando-me permissão para voltar a vestir-me, uma vez que, ele bem observou, eu estava tremendo de frio.

Eu desabafei que me sentia desconfortável em ser comparado sempre a um Yahoo, animal odioso, que eu desprezava do fundo da minha alma: eu implorei que ele restringisse essa apelação somente aos demais, e que estendesse esse meu rogo a todos os seus entes e amigos que ele permitia que o visitassem. Também solicitei que meu segredo, o de levar uma cobertura falsa sobre meu corpo, não fosse compartilhado com mais ninguém, ao menos enquanto minhas roupas durassem. Expus que, pelo comportamento do seu valete, seria prudente de sua parte fazê-lo.

Meu mestre, muito consciencioso, logo anuiu a minha proposta. O segredo manteve-se guardado até que o tecido começou a se desfazer. Como alternativa para meus trapos, fui obrigado a usar de alguns expedientes, que mais tarde narrarei. Então ele me encorajou a continuar a aprender seu idioma, porque ele achava muito mais espantoso o fato de eu saber falar e raciocinar do que o aspecto do meu corpo, trajado ou nu.”

“Seria tedioso continuar entrando em detalhes sobre meu progresso no idioma. Reproduzirei, apenas, o relato mais completo que pude dar de mim mesmo nesta terra:

<Vim de um país muito distante, com uns 50 de minha própria espécie. Viajávamos sobre os mares dentro de um grande vaso oco feito de madeira, maior que sua casa. Descrevi-lhe então o navio da melhor forma que me coube, com a ajuda de meu lenço, para mostrar como a embarcação era impelida pelo vento. Numa briga entre nós eu fui deixado no litoral deste país, comecei a explorar o continente, sem nada dele conhecer, até você me encontrar e me livrar da perseguição daqueles execráveis Yahoos.>

Ele quis saber quem fez o navio e como era possível que os Houyhnhnms de minha nação legassem aos brutos tal empresa. Eu respondi:

<Só continuarei se você me der sua palavra de que não se sentirá ofendido. Se você der sua palavra, poderei contar todas as maravilhas que prometi!>

Ele empenhou sua palavra. Eu prossegui:

<O navio foi feito por criaturas como eu. Por todos os países aos quais já viajei, exatamente como em minha terra natal, seres a minha imagem e semelhança são os únicos animais racionais. Ao chegar a este país, fiquei tão espantado em ver Houyhnhnms agindo como homens dotados de razão quanto você mesmo e seus amigos ficaram ao ver-me e constatar minhas ações, sendo eu parecidocom um Yahoo. Mesmo que minha aparência seja a de um Yahoo, eu não enxergo homens quando olho para eles, só degenerescência e bruteza. Se a fortuna me agraciar com a volta a minha terra, quando relatar minhas aventuras, o que eu quero fazer, todos os animais racionais de lá dirão que eu disse a coisa que não era, que eu inventei tudo. Nenhum inglês diria que era a coisa (acreditaria possível) que um Houyhnhnm fosse o mestre de outro país, enquanto os Yahoos não passavam de selvagens.>”

“duvidar ou simplesmente não-acreditar são tão desconhecidos neste país que os habitantes não sabem como se portar em circunstâncias como as que eu suscitei entre eles.”

“O uso da língua é a mútua compreensão, receber a informação dos fatos. Se alguém diz a coisa que não é, a língua não tem uso. Quem escuta quem fala a coisa que não é não entendequem fala a coisa que não é! Porque o entendimento da coisa que não é é coisa que não é! Receber a coisa que não é é mais distante de receber uma informação doque permanecer em ignorância. Eu acreditaria uma coisa ser preta, quando a coisa é branca, e pequena, quando é grande.”

“Há Houyhnhnms entre vocês? Qual papel eles desempenham em sociedade?”

“Um grande número. No verão eles pastam nos campos, e no inverno são guardados nas estrebarias com muito feno e aveia, onde Yahoos servos dos donos dos Houyhnhnms devem escová-los, cuidar de seus cascos, servir-lhes comida, preparar seus leitos…”

“Entendo. Está evidente, segundo seu discurso, que qualquer chispa de razão que os Yahoos aparentam possuir não oculta o fato de os Houyhnhnms serem os verdadeiros mestres em sua sociedade. Eu desejaria de coração que nossos Yahoos fossem tão dóceis!”

“Mestre, se você deseja que eu continue o relato terá de escusar minhas palavras, que decerto o ofenderão.”

“Eu insisto, amigo, e escuso-o – eu quero saber o pior e o melhor de sua sociedade.”

“Não tenho escolha senão obedecê-lo. Os Houyhnhnms de minha sociedade, chamados cavalos, são dos animais mais formosos e afáveis que conhecemos. São também excepcionais em força e agilidade. Quando pertencem a pessoas de qualidade, são empregados em viagens, corridas ou para levar carruagens. São tratados com a maior ternura e o maior cuidado, até adoecerem fatalmente ou tornarem-se irreversivelmente mancos e inválidos. Ainda assim, os seus donos vendem os cavalos já doentes ou aleijados, que desempenham todo tipo de lide para seus novos donos, até a morte. Depois de morrer, um cavalo ainda oferece sua pele, que é esfolada e vendida para diversos fins. O cadáver é deixado para cães e aves de rapina. Falo dos cavalos mais nobres. A maioria dos cavalos não tem tanta sorte. São os cavalos dos camponeses e carroceiros, ou de outro cidadão de baixa extração qualquer. Estes não são poupados dos mais árduos serviços, e são mal-alimentados.”

“Não deixei de descrever, tão bem quanto pude, a arte da equitação; tudo sobre as rédeas, a sela, a espora, o chicote, o arreio e as rodas. Acrescentei: <Amarramos placas de uma substância rígida chamada ferro debaixo de suas patas a fim de resguardar seus cascos contra o atrito com os caminhos pedregosos de hábito percorridos.>

“Como pode ser uma coisa que é, montar às costas de um Houyhnhnm! Tenho certeza que o servo mais débil de minha casa tem força o bastante para derrubar de seu corpo o Yahoo mais forte de todos. Se se jogasse no chão, este meu servo poderia rolar sobre si mesmo e matar qualquer ser primata!”

“Nossos cavalos são treinados, desde os 3 ou 4 anos de idade, para se acostumarem aos maiores suplícios e às condições mais severas, de modo que não se rebelem em relação ao trabalho que lhes está destinado. Se um cavalo se mostra intoleravelmente arredio ainda na infância acabam sendo empregados em carruagens, sendo severamente fustigados a cada má conduta. Os machos, geralmente usados para simples cavalgadas ou a coisa que é luta entre seres que são (meu jeito de dizer ‘fins militares’), são castrados logo aos 2 anos, para que seu espírito de garanhão se torne submisso, dócil e adestrável. Os cavalos são inteligentes e aprendem após ser recompensados ou castigados. Porém, mestre, saiba que os cavalos, de onde eu venho, não demonstram tinturas de razão, não mais do que os Yahoos de sua terra!”

“Era penoso explicar essas noções ao meu mestre, de modo que eu adentrava em circunlóquios em houyhnhnmês. Se suas carências são menores, suponho que sua linguagem terá menos vocábulos.”

“Se a coisa que é é um país no mundo com Yahoos inteligentes, só e somente só os Yahoos dentre todos os animais, é natural que Yahoos sejam os mestres. A sutileza da razão, aliada ao tempo e seus efeitos consolidadores, falará sempre mais alto que a força bruta. Mas o físico yahoo, especialmente do Yahoo de sua sociedade, se você for bom exemplo, é o pior físico de coisa que é para viver a vida que é.”

“Nasci de bons pais numa ilha chamada Inglaterra. A distância da Inglaterra para este país, em dias de jornada de um Houyhnhnm forte e saudável que trotasse do raiar ou pôr-do-sol na mesma direção, é, mais ou menos, um ano. Eu me eduquei cirurgião, profissão dos que curam feridas e machucados no corpo, decorrentes de acidentes ou violência. Meu país é governado por um Yahoo-fêmea, que denominamos rainha. Eu o evadi para conquistar riquezas, com as quais pudesse manter minha família e eu por muitos anos, ao meu retorno. Em minha última viagem eu era comandante do navio, chefiando cerca de 4 dúzias de Yahoos, muitos dos quais morreram afogados ou desidratados ou adoentados. Eu fui obrigado a reabastecer a tripulação com marujos de outras nações nas quais desembarcamos no caminho. Duas vezes quase naufragamos. A primeira vez por culpa de uma feroz tempestade; a segunda, em virtude da colisão com um penhasco.”

“Durante meu discurso meu mestre não se fez de rogado e me interrompeu inúmeras vezes. Necessitei gastar muitas palavras e frases até descrever de modo minimamente concebível a natureza dos crimes dos tripulantes que recrutei que haviam sido exilados de seus países de origem. Na verdade, só o consegui a duras penas, após dias e dias de conversação. Mas meu mestre finalmente me compreendeu. Era-lhe imensamente complicado captar qual seria a utilidade de agir de forma viciosa. Só pude fazê-lo conceber tal imagem dando muitos exemplos de cobiças e ambições dentre nós; fornecendo ilustrações das terríveis conseqüências da luxúria, intemperança, malícia e inveja (nomes que evidentemente não existem no vocabulário houyhnhnm. Foi praticamente o trabalho de um filósofo que conceitua estas coisas pela primeira vez, hipostasiando casos concretos e enfileirando suposições.” “Poder, governo, administração, guerra, lei, punição, castigo e mil outras coisas também tinham de ser expressas pela primeira vez no vernáculo.”

“O que me deixa aflito é que eu jamais poderei fazer justiça, em meras palavras, aos argumentos e raciocínios de meu mestre, pois minha incapacidade intelectiva forçosamente empobrece sua descrição. Nem falar de uma tradução ao nosso bárbaro Inglês, que vilipendia e muito o idioma original!”

“Obedecendo ao meu mestre, relatei-lhe a Revolução durante o Principado de Orange, a longa guerra com a França, iniciada pelo próprio Príncipe de Orange, continuada por seu sucessor ao trono, a rainha atual, não sem o consentimento dos maiores poderes da Cristandade, de modo que a guerra subsistia até o momento.A sua instância, enumerei: <Estima-se em mais de 1 milhão os Yahoos mortos no decorrer de todo este conflito; mais de uma centena de cidades foi sitiada e no mínimo 500 embarcações foram incendiadas ou afundaram.>

“Divergências de opinião espoliaram milhões de vidas. P.ex., se carne é pão ou se pão é carne; se o suco de um dado fruto é sangue ou vinho; se assoviar é vício ou virtude; se é melhor beijar uma carta ou queimá-la; qual a melhor cor para uma casaca – preto, branco, vermelho, cinza…?; qual é o melhor comprimento e forma para ela – longa, curta, justa, folgada; e quanto à condição – suja ou limpa? E muitas questões mais!”

“Às vezes o desentendimento entre dois príncipes acarreta a deposição de um terceiro alheio à questão – na verdade quando acaba assim, o vencedor sempre espolia um príncipe vizinho mais fraco, mas diz que foi pela força das circunstâncias, pois não é seu direito natural o fazê-lo. Algumas vezes um príncipe só entra em guerra com outro por medo de que o outro entre em guerra consigo. Às vezes uma guerra é iniciada porque o inimigo é muito forte; às vezes, porque ele é muito fraco. (…) É um pretexto legítimo para a guerra invadir um país depois de sua população ter sido reduzida à miséria, destruída pela peste ou rachada em facções. É igualmente justificável entrar em guerra contra nosso mais valioso aliado, se acharmos que uma de suas cidades é altamente conveniente para nós; cidade, sim, mas pode ser também um território maior; por exemplo, se esse pedaço nos der acesso à faixa litorânea ou a estradas de comércio importantes. É um direito de um povo ter um território completo. Se um rei manda atacar uma nação de gentalha pobre e ignorante, não é ilegítimo matar metade desses pobres coitados nem escravizar a metade que sobrou. A razão disso é o imperativo de civilizar e educar os povos, e reduzir o grau de barbárie da face da terra. É não só permitido como é uma prática assaz honorável quando um rei deseja o auxílio de outro a fim de proteger-se melhor de um invasor; e que este ajudante, em consequência de ter expulsado o inimigo, tome para si todo o governo da nação amiga que salvou, podendo prender ou exilar o primeiro príncipe, afinal passou a ter crédito! A aliança de sangue, ou o que chamamos de casamento, é uma causa freqüente de guerras entre príncipes; quão mais próximos forem os laços familiares, mais encarniçado será o confronto. As nações mais pobres são famélicas, as ricas são altivas; e o orgulho e a fome estarão sempre se digladiando e alterando humores. E é por isso que a profissão de soldado é tida como a mais honrosa de todas. Um soldado é basicamente um Yahoo contratado para matar, a sangue frio, o máximo de outros Yahoos que ele nunca viu na vida.

Há uma certa quantidade de príncipes mendicantes na Europa, destes que não têm recursos para fazer a guerra eles próprios, mas que ao menos tem pequenos exércitos que lhes podem ser úteis. O que eles fazem é alugar seus homens para as nações ricas que estão a pelejar, normalmente estipulando um salário por dia por cada cabeça. Desta quantia recebidaa título de aluguel, o que não vai para o bolso destes soldados, que chamamos de ‘mercenários’, por empréstimo – assumindo que algum soldado consiga voltar para casa são (ou mesmo não são!) e salvo –, ¾ ficam para eles próprios (os monarcas que cederam mercenários), e digo que estes príncipes mendicantes subsistem das guerras alheias! Muitas nações assim há na parte norte da Europa.”

“Afortunadamente a vergonha ainda é maior que o perigo entre vocês Yahoos estrangeiros! Assim a natureza obrou para que vocês não causassem ainda mais desgraças. Suas bocas sendo planas e vocês não tendo focinho, é mais difícil que vocês se agridam com mordidas. Quanto às garras de suas patas traseiras e dianteiras, estas são tão diminutas e inofensivas que um só Yahoo de nossa terra derrubaria uma dúzia dos seus!”

“Sendo de certa forma um especialista na arte da guerra, eu me ri da ignorância do meu mestre nestes assuntos. Então eu forneci-lhe uma descrição algo exata de nossos artifícios bélicos: canhões, colubrinas, mosquetes, carabinas, pistolas, balas, pólvora, espadas, baionetas, formações de batalhas, o que são os cercos, fugas e recuadas, ofensivas de manual, a tática de estender o conflito num aparente empate estagnado até esgotar os suprimentos dos rivais, o contra-ataque a este tipo de tática, bombardeios remotos, batalhas navais, navios que mesmo com uma tripulação de 4 casas (mil homens) são inclementemente destroçados, batalhas em que 20 mil morrem facilmente de cada lado, os terríveis gemidos e uivos de dor dos que caem sem salvação no campo, membros e outras partes do corpo cortando o ar, fumaça, poeira, todos os barulhos infernais, a confusão, aqueles que morrem esmagados por cavalos descontrolados, já disse fugas?, perseguições, extermínios e vitórias!”

“Eu entraria de bom grado em mais particulares, mas meu mestre me pediu silêncio. Ele disse:

<Quem quer que entenda a natureza yahoo pode conceber até onde chega a vileza de um tal animal, i.e., provado que sua astúcia e sua força igualem sua malícia.>

Como, porém, meu discurso só repugnou-o ainda mais acerca de minha espécie, ele se sentiu terrivelmente perturbado e precisava de tempo para absorver todos estes horrores. Ele pensou sinceramente que se seus tímpanos continuassem expostos a estas palavras abomináveis num ritmo tal, logo, logo ele as admitiria com menos repulsa. E completou que, embora odiasse os Yahoos de seu país, ele não mais os culparia por suas qualidades inferiores, tanto quanto pudesse, comparando-os agora a meros gnnayh (uma ave de rapina), animal também cruel, ou então a uma simples pedra pontiaguda que calha de ferir-lhe o casco.”

“Meu mestre afirmou resolutamente que em detrimento de razão, nós éramos movidos ou possuídos por alguma qualidade inerente que expandia mais e mais nossos vícios naturais e garantia nossa sobrevivência. E que, como tudo que é distorcido e ruim em pequena escala, nossa civilização só podia ser uma ampliação defeituosa da natureza individual do Yahoo.”

“ele muito refletiu mas nunca chegou a uma opinião segura sobre a razão de que a lei, que foi feita para a preservação de todos e de cada um, devesse conduzir tantos indivíduos à ruína.”

“Há uma sociedade de homens entre nós criada desde a mocidade para convencer das coisas que não são, pela palavra. Estes homens conseguem fazer os outros verem que o branco é preto, e o preto é branco, tanto melhor quanto mais bem-pagos eles são! A esse tipo de sociedade dentro da sociedade os outros homens são escravos. Por exemplo: se meu vizinho cobiça minha vaca, ele contrata um destes, um advogado, para arrancar minha vaca de mim! Eu tenho, então, de contratar um outro advogado, para defender meu direito de continuar com minha vaca. É contra todo o Direito estabelecido (contra todo o fundamento de todas as leis) que qualquer homem advogue em causa própria. Continuando neste exemplo, eu, que sou o legítimo proprietário da vaca, estou em uma dupla desvantagem: primeiro, meu advogado, sendo treinado praticamente desde o berço a santificar a falsidade, não se sente confortável de ter de defender um cliente justo, o que é anômalo em seu campo do saber. Advogados que se submetem a essa tarefa fora de sua rotina diária acabam fazendo o serviço mal-feito ou de má-fé! A segunda desvantagem, meu mestre, é que meu advogado deve agir com muita cautela, ou será vítima de reprimendas pelos juízes, sendo malvisto por todos os seus colegas como um advogado que avilta os cânones de sua profissão. Sendo assim, eu fico com apenas 2 métodos de preservar minha vaca: o primeiro é pagando ao advogado de meu acusador uma taxa acima do que é publicamente a norma, fazendo-o trair seu próprio cliente ao insinuar, por meio de minha tática astuciosa, que a justiça estava do lado deste cliente que o procurou! A segunda maneira de vencer a causa é se meu advogado conseguir dar a meu pleito a aparência mais injusta possível; p.ex., concedendo que a vaca na verdade seria do meu vizinho. Se isso for adequadamente executado, é óbvio que o juiz ficará convencido do meu lado da história!”

“É uma máxima entre os advogados que o que já foi feito antes pode ser feito legalmente outra vez: então, a coisa que eles mais fazem é registrar todas as decisões anteriormente proferidas contra o bom senso da espécie humana. Sob o nome de <precedentes>, eles mostram tais provas às autoridades competentes e justificam, assim, as opiniões mais iníquas. Os juízes jamais deixarão de acatar estas novas verdades, uma vez que se tratam de provas, que são inquestionáveis.”

“É de se observar que esta sociedade cultiva um jargão peculiar, i.e., um jeito próprio de dizer as coisas, que nenhum outro mortal é capaz de compreender. Sob estas regras é que todas as suas leis são escritas. No estágio em que se encontram as leis hoje, depois de muitas gerações desta prática, falsidade e verdade ficaram tão embaralhadas que nem o mais sábio e honesto dos homens poderia dizer a diferença. É comum que leve 30 anos para se decidir se o pedaço de terra que ganhei de herança e que meus pais e avós por sua vez também ganharam de herança, ascendendo à sexta geração dos meus ancestrais, pertencem de fato a mim ou a algum estranho que vive a 500 quilômetros de distância!”

“Os advogados e juristas, em tudo aquilo que não se refere a suas próprias tratativas, são dos mais ignorantes e estúpidos dentre nós Yahoos europeus. Os mais fúteis em conversações, inimigos jurados do conhecimento, da sabedoria e da educação, e tão estultos quanto perversos quando o assunto é insultar e deformar a razão humana milenar, num esforço contínuo por destruir a obra de tantas gerações das outras classes de Yahoos com quem convivem.”

“eu não sei como consegui descrevê-lo o uso do dinheiro…” “o rico se apropria do fruto do trabalho dos pobres, sendo que estes últimos, em verdade, existem numa proporção de 1000 para cada rico”

“meu mestre insistia que todos os animais tinham direito a sua parte na distribuição dos produtos da terra”

“…toda esta vasta planície, digo, o triplo disto, deve ser devastado para que nossa melhor Yahoo-fêmea tenha seu excelente café-da-manhã, além dos utensílios de mesa necessários para consumi-lo.”

“Desta forma, deve haver países muito pobres que não têm condições de alimentar seus habitantes! Mas me diga uma coisa: como porções tão gigantescas de seu continente não possuem um só vaso de água fresca, sendo preciso enviar Yahoos pelos mares só para acharem de que beber?!”

“A Inglaterra em particular, segundo nossos cálculos, produz três vezes a quantidade de comida que seus habitantes são capazes de consumir; bem como muito licor extraído de grãos ou prensado das frutas de algumas árvores, que dão beberagens das mais deliciosas, e na mesma proporção superabundante. Diria que tudo ali, não só comida e bebida, é produzido muito acima da necessidade da população. Mas, para alimentar a luxúria e a intemperança das Yahoos-fêmeas, exportamos uma vasta proporção desses bens para outras nações, ainda que isso deixe parte de nossos habitantescarente, para, em troca, recebermos fontes de doenças, tolices mil, vícios sem conta, que distribuímos igualitariamente entre todos nós!!”

“O vinho não é importado para suplantar a sede nem para substituir alguma outra bebida, mestre. Este é um líquido especial que nos produz certo contentamento ao nos fazer evadir de nós mesmos, privando-nos de nossos sentidos por um tempo. Toda a melancolia que sentimos é temporariamente deixada de lado, e cedemos às mais caprichosas e extravagantes fantasias alojadas no cérebro, de repente não somos nada temerários, temos esperança ilimitada no amanhã, durante esse período não precisamos trabalhar, e, alterados até perder o império sobre nossas próprias pernas, acabamos, assim, ficando entorpecidos, até dormirmos profundamente. O lado ruim é que acordamos sempre doentes após tais ocasiões, fatigados e inclinados ao ócio. E é verdade, outrossim, que o uso desse licor, em abundância e a longo prazo, torna nossa vida cada vez mais desconfortável e repleta de enfermidades, quando não encurta esta mesma vida de forma anti-natural.”

“Nossa dieta engloba milhares de alimentos que são contraditórios entre si. Além disso, comemos quando não estamos com fome e bebemos sem sede. Sentamos e bebemos licores fortíssimos a noite inteira, sem nem mesmo forrar o estômago, o que nos predispõe à preguiça e a contrair diversas inflamações, precipitando ou arruinando a digestão. Yahoos-fêmeas prostituídas transmitem certa doença, capaz de apodrecer os ossos do Yahoo-macho que aceitaro seuabraço. Mas essa infecção e muitas outras são propagadas mui naturalmente de pai para filho. Muitos já nascem desfigurados e defeituosos. Seria interminável catalogar todas as doenças que nos afligem, mestre. Eu creio que esse número ultrapassa as 500 ou 600. Não há junta ou membro que não tenha seu mau estado particular.”

“A pretensão desses que chamamos de médicos – curandeiros em seu vernáculo – é a de que todas as doenças vêm da repleção (barriga cheia). Daí concluírem que uma grande evacuação do corpo é necessária, seja pela passagem natural ou pelo caminho de onde veio (a boca). Esses médicos conhecem inúmeras ervas, minerais, gomas, óleos, cascas, sais, sucos, algas, excrementos, extratos de cascas de árvore, serpentes, sapos, carne e ossos de homens mortos, pássaros, animais selvagens, peixes, etc., que utilizam para produzir os medicamentos de cheiro e gosto mais atrozes, abomináveis, nauseantes de que se tem notícia, tipo de composição que o estômago imediatamente ejetará – isso se chama vômito. Vindos do mesmo lugar, que chamamos de farmácia, além de outros venenos, os médicos nos prescrevem mais substâncias para engolir ou inserir pelo orifício traseiro (dependerá do humor do médico saber por qual buraco ele quer que entre a medicação), remédios esses não mais nem menos daninhos que os anteriores. Nossas entranhas se abalam da mesma forma com estes laxativos. Produzindo um relaxamento artificial dos músculos do nosso sistema digestório, levam junto, como faz a forte correnteza de um rio, tudo que pode estar impedindo o bom funcionamento do organismo. Isso os médicos chamam de purgação ou clister. Tendo a natureza prescrito somente o orifício superior para a intromissão de sólidos e líquidos, e o inferior para ejeções, fazia-se necessária uma arte engenhosa como a deles para agir conforme a doença – isto é, espelhar o mau funcionamento que ela provoca no organismo: ao forçarmos sólidos e líquidos pelo ânus e evacuar pela boca, podemos restabelecer o equilíbrio corporal.”

“Em política, um mau sinal é quando você passa a receber promessas, especialmente essas que demandam um juramento formal. Deste dia em diante o Yahoo mais inteligente sabe que está perdido.

Há 3 métodos de um homem chegar a ser chefe de Estado. O primeiro é o caminho da prudência, formando uma família, constituindo casamento, tendo uma filha, ou pelo menos uma irmã apta ao casório – a família é a base de tudo em nossa civilização! O segundo jeito é traindo e superando o predecessor no cargo. O terceiro modo é, com um zelo furioso, nas assembléias, engajar-se contra a corrupção generalizada da côrte. Um príncipe competente prefere, sem dúvida, empregar este terceiro tipo de homem. Este tipo de homem zeloso é quase sempre também o mais obsequioso e subserviente à vontade e aos caprichos de seu patrono.

Seja como for, esses ministros de Estado, portanto, tendo toda a máquina da nação a seu dispor, têm todas as condições necessárias para se conservarem no poder, chantageando ou aliciando maiorias no senado ou nos conselhos ou ainda empregando o expediente a que chamam de anistia(que expliquei-lhe em detalhes). Dessa forma eles se previnem contra atos de ressentimento ou vingança e auferem de sua carreira pública as maiores riquezas.

O palácio do chefe de Estado é um seminário para criação de lacaios: pajens, mordomos, porteiros, que macaqueiam seu superior em tudo que podem, se é que desejam, por sua vez,se elegerem delegados em seus distritos de origem. Esses vocacionados para a vida política devem exceler em 3 categorias: insolência, mentira e chantagem. Cada um deles, quando bem-sucedido ou bem-sucedida, terá uma côrte inteira a ele ou ela devotada, composta pelas pessoas de mais refinada linhagem. Algum desses lacaios (sub-prefeitos, prefeitos, ministro disso ou ministro daquilo) pode, a depender da sorte, da destreza pessoal e mesmo do seu nível de impudência, chegar a atingir o posto máximo na carreira e vir a ser o sucessor do próprio chefe de Estado que uma vez tanto bajulou!”

“Entre os nossos Houyhnhnms, o branco, o castanho-alaranjado e o cinzento não são tão bem-constituídos quanto o castanho-rubro, o cinza sarapintado e o negro, nem exibem os mesmos talentos ou inteligência, nem parecem melhores para se adestrar. Sendo assim, aqueles quase sempre são empregados nos ofícios subalternos, sem qualquerexpectativa de que excedam o destinomédio de sua própria raça. Essa hierarquia das raças eqüinas baseada na aparência exterior que se vêem toda a Europa seria considerada monstruosa e anômala aqui em seu país, meu mestre!”

“Quanto a mim, mestre, por mais que você me enalteça quanto ao que esperava de meu biótipo, a verdade é que sou de origens mais para humildes que para nobres, tendo sido eu criado por um par de europeus modestos porém mui dignos, cujo esforço e perseverança me proporcionaram uma educação tolerável, i.e., quase acima das expectativas para gente da minha condição. Mas ‘nobreza’ entre nós significa outra coisa que para um Houyhnhnm, posso assegurar-lhe. Prova disso é que os nobres são acostumados desde a mais tenra idade ao ócio e ao luxo, tornando-se moles e cansados com a idade e cheios de doenças venéreas que contraem com fêmeas promíscuas. E quando suas antigas fortunas são dissipadas, casam-se com uma mulherzinha de árvore genealógica qualquer, de um caráter qualquer, falto de inteligência ademais de incompatível com o próprio caráter, tudo pensando-se só no dinheiro. Como resultado, os casais se odeiam e desprezam. O produto de tais uniões? A escrófula, o raquitismo, a deformidade – em forma de novos seres! Dessa forma a família, vê-se bem, muito raramente chega aos netos (à terceira geração); a não ser que uma das filhas consiga um mui bom partido, i.e., um macho saudável para procriar fora do matrimônio, dentre seus vizinhos e serviçais, o que garantirá a continuação sem piora ou até mesmo a melhora da raça. (…) uma fisionomia saudável e robusta é tão inconveniente num homem de berço aristocrata que não resta remédio ao mundo diante de um tipo desses senão considerar que se trata de um bastardo, filho de cavalariço ou cocheiro.”

“Não havia passado um ano dentre os Houyhnhnms e já contraíra tal amor e veneração pelo seu povo que cheguei a tomar a resolução de nunca expatriar-me, na contemplação e na prática de todas as virtudes, nesta terra onde eu não tinha qualquer exemplo ou incitação ao vício. Mas o destino, ah, o destino!, esse meu inimigo mortal, determinaria a impossibilidade desse final feliz.”

“Os Yahoos são conhecidos por odiar-se uns aos outros, até mais do que odeiam as outras espécies. A razão para isso é que o caráter odiento de sua forma, que se pode contemplar nos outros indivíduos como se fôra um outro eu, torna cada Yahoo indisposto para com seu próximo. Eu duvido que cada indivíduo, egoísta como é, não se ache, em realidade, diferente dos demais.”

“De acordo com o que dissera meu mestre, ele havia achado excelente o costume dos Yahoos europeus de vestirem-se. Dessa forma ocultavam muitas de suas deformidades, de um e de todos, o que seria insuportável às vistas gerais. Porém, meu mestre reconheceu que dissera então a coisa que não era, porque cotejando meu relato dos Yahoos com o comportamento dos Yahoos locais, ele concluiu que a causa primeira da dissensão entre irmãos Yahoos, tanto num caso como noutro, devia ser a condição natural do Yahoo, tal qual ele aprendeu de minha boca. <Porque se você dá a 5 Yahoos comida que bastaria para 50, em vez de comerem em paz eles se pegarão pelas orelhas, cada um desejando tudo somente para si.>

“Havia uma espécie de raiz, muito suculenta, mas algo rara e escondida, de que os Yahoos muito gostavam e que, quando a encontravam, chupavam-na sem moderação. Essa raiz produzia-lhes os mesmos efeitos do vinho no europeu. Algumas vezes isso os levava a se abraçarem e se amigarem, mas podia com a mesma facilidade metê-los em ranhenta discórdia. Eles uivavam, gargalhavam, se punham barulhentos, perdiam o equilíbrio, tropeçavam e rolavam pelo chão e terminavam adormecidos na lama.

Observei também que os Yahoos eram a única espécie animal deste país sujeita a doenças, conquanto esta ocorrência fosse bem mais rara entre eles que entre nossos cavalos, p.ex. A causa não era maus-tratos pelos Houyhnhnms, mas a própria sordidez daquele bicho. Em hoyuhnhnmês só havia uma mesma palavra para falar de todo o conjunto de enfermidades, hnea-yahoo, isto é, <mal de Yahoo>. A cura prescrita pelos pseudo-curandeiros Yahoos para eles próprios, segundo me pareceu, era uma mistura de cocô e xixi, forçada goela abaixo do doente. Não se trata de um gracejo, pois eu observei que o doente realmente fica bom logo depois. Eu recomendaria sem restrições essa mesma receita para meus conterrâneos, portanto, visando ao bem coletivo. Toda disenteria de comermos demais, todos os banquetes que nos empanturram, deixariam de ser problemáticos.”

“os machos brigam com as fêmeas com tanta brutalidade como a que usariam entre si.”

“Eles sabem nadar de nascença, igual girinos, podem passar muito tempo debaixo d’água, e utilizam essa vantagem para caçar peixes; as fêmeas levem o produto da caçada submarina para os filhotes.”

“quando explicava ao meu mestre alguns de nossos sistemas de filosofia natural, ele sempre ria e dizia algo como: <Uma criatura que se presume arrazoada avaliar-se a si mesma sobre o conhecimento fundado na conjetura de outras pessoas, e usar essa avaliação em coisas nas quais, por mais que este conhecimento fosse seguro, não há a menor utilidade!>.Meu mestre mostrou simpatizar com a personalidade do Sócrates platônico. Nada poderia honrar mais o príncipe dos filósofos. Não pude deixar de refletir desde então que destruição essa doutrina, se bem-compreendida, não poderia produzir nas bibliotecas de toda a Europa! Quantos caminhos fáceis dos homens eruditos não seriam para sempre interditados quando compreendessem Platão!”

“Em seus casamentos, os Houyhnhnms escolhem pela cor, para que nenhuma mistura desagradável se produza na prole. A força é o atributo mais valorizado no macho, e o decoro na fêmea. Não contraem matrimônio por amor, mas pensando no futuro da raça. Se a fêmea excede em força, seu consorte geralmente é o macho mais decoroso.”

“A violação da fidelidade conjugal, ou qualquer outra demonstração de promiscuidade, nunca existiu no país dos Houyhnhnms. O par unido passa o resto de suas existências em constante amizade e benevolência recíproca, que por sinal é a mesma camaradagem, guardadas as devidas proporções, que todo Houyhnhnm tem com outros Houyhnhnms. Não há inveja, ciúme, empáfia, fofoca, altercações nem descontentamentos.”

“Uma das questões polêmicas neste lugar é se dever-se-ia proceder ao extermínio dos Yahoos. Um dos favoráveis demonstrou argumentos de muito valor, como <Não bastasse serem os mais sujos, barulhentos e deformados animais que a natureza já produziu, os Yahoos são, ainda, rebeldes, intratáveis, indomesticáveis, astuciosos e malignos. Aqueles que conseguem mamam os úberes das vacas leiteiras dos Houyhnhnms escondido, matam e devoram gatos, esmagam e pisoteiam as plantações de aveia e o capim destinado ao pasto ao menor sinal de fraqueza na vigilância. As maldades e extravagâncias que eles são capazes de cometer é sem fim.> Ele ainda observou sagazmente uma peculiaridade sobre as origens dos Yahoos, a de que <eles não existem desde o sempre neste país; muitas idades atrás, dois desses inclassificáveis apareceram sobre uma montanha. Se eles nasceram devido ao sol inclemente sobre a lama e o calor daí decorrente ou do lodo podre, ou devido à estranha interação do lodo do continente com a escuma marítima, ou de qualquer outra forma, isso jamais saberemos. Mas esse casal de Yahoos engendrou novas vidas; e em pouco tempo sua espécie se tornou tão populosa que infestou a nação inteira. Para se livrarem das más conseqüências, os Houyhnhnms antepassados aprisionaram dois bebês Yahoos num canil, tratando de domesticá-los ao máximo. Este máximo não é de todo satisfatório, mas ao menos os bichos originais e todos os seus descendentes servem para ajudar nos serviços mais pesados>. Este Houyhnhnm garantiu que havia muita plausibilidade nessa tradição oral do seu povo sobre a gênese dos Yahoos e que acreditava piamente que eles não eram animais autóctones (yinhniamshy em houyhnhnmês), principalmente pelo ódio manifesto e inato aos Houyhnhnms. Além disso, todos os outros animais da ilha aborrecem a convivência com Yahoos. Embora suas disposições malignas provoquem naturalmente a repulsa, seria impossível que essa repelência de todos os outros animais do país a eles chegasse a tais extremos se eles fossem oriundos de lá, é o que se argumentava com muita lógica. Fosse isso verdade, seria como dizer que a natureza falhou nesta região, e esta raça já estaria extinta, pois geraria um imenso desequilíbrio na fauna. Seja como for, graças à misteriosa existência dessas excrescências odiosas diante das próprias criações da natureza, os Houyhnhnms puderam dispensar os serviços das mulas e outros indivíduos estéreis, que afinal são animais muito tratáveis e dignos! Mas, disse também este nobre Houyhnhnm, chegaria o dia em que seria mais vantajoso voltar a criar mulas, que são dóceis e boas serviçais, e higiênicas, do que continuar confiando trabalhos importantes do cotidiano a uma raça tão degenerada! Mulas e burros não fedem, são mais fortes, só um pouco menos ágeis que os Yahoos, fora que o zurro de um burro é ‘n’ vezes menos desagradável que o horrífico urro yahoo!”

“a andorinha (ou ao menos é assim que eu traduzo lyhannh, embora seja uma variedade de andorinha gigante se comparada às da Europa)”

“Eles mensuram o ano pelas revoluções do sol e da lua, mas não empregam subdivisões hebdomadárias. Eles têm um perfeito conhecimento astronômico destes dois corpos, conhecendo o fenômeno do eclipse. Eu diria que a isto se limita sua astronomia.

Na poesia, creio que superam todos os outros mortais do mundo; seja pela justeza de suas analogias, o caráter apropriado e exato de suas descrições, enfim, digo que a poesia houyhnhnmiana é inimitável. Seus versos o mais das vezes exaltam o valor da amizade e da benevolência comum e fazem odes aos ganhadores de competições de corrida e outros exercícios que soem praticar.”

“Os Houyhnhnms usam o intervalo entre a quartela e o casco de suas pernas dianteiras como mãos, e com destreza inimaginável para qualquer homem branco. Eu vi uma égua branca de nossa família costurar com uma agulha (que eu a emprestei de propósito) perfeitamente. Eles são perfeitamente capazes de ordenhar, colher aveia e, enfim, desempenhar qualquer trabalho cotidiano que entre nós requeira o uso das mãos. Eles foram capazes de fabricar uma espécie de pederneira que, atritada com outras pedras, constrói todo tipo de utensílio, equivalente às nossas cunhas, machados, martelos, etc. Assim eles conseguem instrumentos afiados para cortar o feno, apanhar a aveia, cultivar qualquer plantação que a natureza lhes permite. Os Yahoos transportam os feixes carpidos conduzindo carruagens, bem como os cavalos mais humildes amontoam a colheita em espécies de choupanas, onde o grão é extraído e levado aos depósitos. Como eu já disse, eles dominam o artesanato rústico da madeira e a olaria, sabendo coser vasos ao sol.”

“A expectativa de vida de um Houyhnhnm é de 70 a 75, mas alguns atingem os 80 anos.”

“A essa altura não sei se seria redundante observar: os Houyhnhnms não possuem palavra em seu idioma para expressar o <mal> nem nada que a ele se relacione. Na verdade, quando querem falar de algo de qualidade ruim, tomam de empréstimo as qualidades que enxergam nos Yahoos. Dessa maneira, a estupidez de um servo, a omissão de uma criança, uma pedra que fira seus cascos, um clima obstinadamente fechado e ruim para a agricultura, tudo isso são yahooíces, por assim dizer. Quando traduzo seus discursos com palavras como <maligno> ou <pérfido>, estou apenas retomando nosso léxico. Ou seja, se algo é mau ou ruim neste país, é hhnm Yahoo, mwhnaholm Yahoo, ynlhmndwihlma Yahoo… Uma casa mal-construída seria uma ynholmhnmrohlnw Yahoo.

Não me seria incômodo enumerar mais e mais dos costumes e virtudes desse excelente povo. Mas, almejando publicar brevemente um volume com minhas aventuras neste continente, não este aqui, mas um especialmente para descrever a civilização Houyhnhnm em sua completude, devo me interditar este enorme prazer e encaminhar o leitor interessado a esta outra publicação.¹ Nas páginas que me restam, doravante, nada me resta a não ser narrar minha própria tragédia.”

¹ Tudo indica que nosso amado Gulliver não cumpriu esta promessa – que pena!

“Era hábito meu pegar mel do oco das árvores, que eu misturava com a água ou comia no meu pão. Nenhum homem mais que eu mesmo podia atestar a verdade dessas duas máximas: A natureza se satisfaz com bem pouco; A necessidade é a mãe da invenção. Nesse tempo eu gozava de saúde perfeita e serenidade mental. Nem mesmo o caráter traiçoeiro e inconstante de um amigo me eram sensíveis nesta ilha. Quanto mais as injúrias de um inimigo tácito ou manifesto! Não havia a menor ocasião para desavença, lisonja ou mexerico. Não havia personalidades de renome que agradar ou assecla que temer. Não era necessário se precaver contra a fraude ou a opressão. (…) Nada de chacota, polêmica, censura, reproches, vendetas, parasitas, aproveitadores de meia-tigela, incendiários, inconvenientes, advogados, prostitutas, bufões, viciados, bêbados, políticos, vigaristas, velhos ranzinzas, tagarelas enfadonhos, jornalistas, brutamontes, assassinos, ladrõezinhos, eruditos, convencidos, moralistas; nenhum líder, nem seguidores, nenhum partido, nem facções; nem encorajadores de vícios, bons retóricos ou maus exemplos; nada de prisões, armas brancas, ou pólvora, algemas, pelourinho ou cadafalso; nada de mercados e feiras, nem regateios ou engabelações; nada de orgulho, vaidade ou afetação; nada de dândis efeminados nem valentões; vadiagem; a sífilis; esposas, gastadeiras, temperamentais e lascivas! nada de pedantes tão altivos quanto estúpidos! nenhuma importunação, atrito insuportável, barulho, muvuca, companheiro cheio de palavras e modos e sem nada na cabeça; zero canalhas exaltados pelo que têm de pior! nenhuma nobreza que dita as regras de etiqueta que ela mesma inventou; nenhum senhor, falsificador, grande proprietário, juiz, rabequista, professor de dança, mestre de esgrima!… Não, não, nada disso!!!”

“Eu não falava se não fôra perguntado; e quando o fazia, respondia com pesar, porque parecia que eu prejudicava a harmonia destes habitantes no vão intuito de me melhorarem. Mas eu era todo ouvidos nas conversas entre Houyhnhnms. Nenhuma sílaba era inútil ou profana, toda comunicação era sucinta e pragmática, nenhuma palavra supérflua ou desgastada! (…) ninguém falava a contragosto ou em tom de reclamação, todos eram fonte de prazer para seus companheiros (…) Eles têm uma noção de que quando pessoas estão reunidas, um pouco de silêncio ocasional é muito mais saudável a fim de melhorar o nível da conversação do que um falatório constante. Isso eu provei na pele, e entendi que, nesses interstícios, evocava com naturalidade idéias frescas e altamente propícias para a continuidade do discurso!”

“Sem falsa modéstia, devo acrescentar que tão-só minha presença já era um estimulante para inúmeras conversas. Meu mestre sempre inteirava seus convivas dos detalhes de minha história que ele havia recentemente aprendido, e relatava as coisas que aprendera sobre minha terra natal. Todos se compraziam em discorrer sobre esse mar de novidades, necessariamente com resultados pouco lisonjeiros para a Europa. Serei pudico o bastante para não reproduzir aqui essas conversas.”

“Quando sucedia de eu fitar meu reflexo na superfície dum lago ou duma fonte, virava o rosto por reflexo, enojado, detestando meu próprio aspecto. Por outro lado, isso foi me fazendo tolerar um pouco mais o aspecto dos Yahoos da ilha. De tanto conversar com os Houyhnhnms e apreciá-los com os olhos, admirado de sua nobreza e superioridade, fui adquirindo seus maneirismos. Primeiro era simples emulação, depois se cristalizou em hábito. Meus amigos me dizem, hoje em dia, de forma bastante áspera, Você trota como um cavalo!, o que eu, no entanto, tomo como elogio. Tampouco desminto que ocasionalmente, no meio da fala, emito de repente sons guturais de Houyhnhnms, sem dar por mim. Os Yahoos europeus me ridicularizam, mas isso em nada me mortifica.”

“na última assembléia geral, quando o assunto dos Yahoos foi abordado, você estando ausente por motivos óbvios, os representantes do plano de extermínio Yahoo se expressaram ofendidos de que eu criasse um Yahoo em meio à própria família, e aliás, mais como Houyhnhnm que como um animal selvagem. Disseram que eu era sempre visto dialogando com você, o que aos olhos dos locais parecia significar que eu extraía prazer e edificação dessas conversações. Que, enfim, sua companhia me era extremamente agradável. Reiteraram que essa prática é inaceitável de acordo com a razão e a natureza, nem fôra jamais ouvida de antanho. A assembléia, sendo assim, exortou-me a ou tratá-lo como os demais de sua espécie, ou providenciar para que você fosse mandado embora, nadando, de volta ao lugar de onde veio. O assunto foi votado entre todos. O primeiro expediente foi rejeitado de pronto por todos os Houyhnhnms que já o viram em minha casa e que com você trataram durante esse tempo. A rejeição se baseava nestas razões elementares: como Yahoo capaz de demonstrar uma proto-razão, você me distinguia nitidamente dos outros Yahoos, depravados inatos; misturá-los seria correr o risco de que você os seduzisse com seus talentos para constituir uma nação isolada entre os bosques e montanhas da ilha, e, preparando um exército, invadisse e pilhasse nosso vilarejo durante a madrugada. Porque é óbvio que uma raça que abomina o trabalho preferiria roubar nossos rebanhos que se dar trabalho de criar algum. Meu mestre acrescentou: Sou constantemente cobrado por meus concidadãos e vizinhos, portanto, para cumprir o segundo desígnio daquela reunião. Infelizmente não posso procrastinar mais esta partida, meu amigo! Creio que, como você mesmo explicou, é-lhe impossível nadar até outro país. Por isso, é razoável iniciar os preparativos para construir-se um veículo capaz de fazê-lo singrar pelas águas até sua terra! Você já descreveu como se faz um navio, então nós podemos fazer isso!”

“Enorme tristeza e pesar recaíram sobre mim ao terminar de ouvir o discurso de meu mestre. Incapaz de suportar este sofrimento, desabei sobre seus pés. Quando readquiri consciência dos meus atos, ele continuou: Eu pensei que você havia morrido. Isso porque nenhum Houyhnhnm está sujeito a esses surtos de imbecilidade. Respondi, ainda com voz embargada: Ó, preferira mesmo a morte! Não posso culpar os habitantes do lugar nem a votação da assembléia, nem a disposição solícita de todos os nossos amigos mais próximos. Não obstante, no meu corrupto e débil juízo, considero que seria mais razoável ter havido menos rigor nesta sentença. Pois é de conhecimento de todos que eu não conseguiria nadar nem sequer 10km, sendo que o pedaço de terra habitado mais próximo deve distar mais do cêntuplo desta distância. Além disso, muitos dos materiais necessários para construir um barco (navio pequeno) estão simplesmente em falta neste país! Ainda assim, em obediência e gratidão a você, mestre, e a sua hospitalidade, eu irei tentar, até o fim, esta construção – embora tema ser a coisa que não era, não é e nem será! Por isso, mestre, não me considere ainda mais vil se lhe parecer que eu me comporto como alguém já condenado à destruição!”

“em 6 semanas, com a ajuda do servo acastanhado, que para ser franco executou as partes mais árduas, eu concluí o que posso chamar de uma vertente indiana de canoa, embora maior do que qualquer uma que eu tenha conhecido, tendo feito um teto de peles de Yahoo, firmemente amarradas com fios de cânhamo que eu mesmo extraí da vegetação e preparei.”

“quando me dispus a prostrar-me, para beijar seu casco, ele gentilmente ergueu sua pata alguns centímetros até minha boca. Eu não ignoro quão gravemente fui censurado entre meus colegas Yahoos europeus por citar essa parte de minhas viagens. Digam o que disserem os detratores, que é improvável tudo isso, i.e., que tão ilustre indivíduo, autêntico garanhão, tenha se prestado a rebaixar-se ao meu nível, não se incomodando de ser visto numa posição humilhante com uma criatura inferior, etc., etc.! Eu mesmo já li muita literatura de viagem: sei o quanto os viajantes adoram se jactar de enormes favores que receberam de estrangeiros!”

“Comecei minha desalentada viagem dia 15 de fevereiro de 1714, ou teria sido 1715? 9AM.”

“Eu ouvi, ainda, de alguma distância, o serviçal acastanhado, que nutria por mim uma grande estima, e que gritava: Hnuyillanyha, majah Yahoo! (Cuide-se, o nobre Yahoo!).

Meu intuito, agora que estava em alto-mar, era, se possível, descobrir qualquer ilhota desabitada mas que fôra propícia para, com meu suor, me servir de abrigo para as necessidades mais básicas da vida. Àquele momento eu acharia este módico fim muito mais feliz do que me tornar primeiro-ministro na nação mais culta. Na verdade eu estava com pavor de voltar aos homens, i.e., aos Yahoos organizados!”

“Baseado em nada além de conjeturas, deu em mim de rumar para leste, imaginando poder assim atingir as ilhas da costa sudoeste da Nova Holanda¹”

¹ Nada mais, nada menos que o então recém-descoberto continente australiano!

“Em 8 horas eu havia chegado ao litoral sudeste da Nova Holanda. Isso confirmou minhas já antigas suspeitas de que mapas e cartas geográficas situam este país ao menos 3 graus mais a leste do que ele realmente está localizado; eu já comuniquei este pensamento há muitos anos para meu grande amigo o Senhor Herman Moll,¹ dando justificativas plausíveis, muito embora este emérito estudioso tenha optado por outro viés baseado em outros autores.”

¹ Cartógrafo do XVII e XVIII. Sua data de nascimento e nacionalidade não estão bem-consolidados, mas seria holandês (radicado em Londres). Nessa época o oceano Atlântico ainda era chamado de “Mar do Império Britânico”. Um mapa de Moll serviu de pretexto para os franceses alegarem possessão de uma certa colônia, contra os ingleses, argumento que foi refutado pelas expedições de James Cook. Defoe (o autor mais parecido com Swift que existe!) era amigo pessoal de Moll. Outro detalhe curioso: no séc. XIX (ou seja, muito depois de Swift), um homônimo Herman Moll, alemão, foi preso e condenado a passar seus dias numa penitenciária na… AUSTRÁLIA! Esse degredo, ao contrário do que poderia parecer, não teve a ver com homicídio, mas apenas com questões de contravenção comercial (roubou dinheiro do patrão, comerciante de tabaco). Cumprido apenas ¼ da pena de 10 anos, ele foi solto e pôde lecionar em York.

Um globo terrestre fabricado e comercializado por Herman Moll.

“Não encontrei moradores na costa. Sem carregar nenhuma arma, tive receio de explorar o interior. Encontrei alguns crustáceos na areia e os comi crus, pois se acendesse fogo podia ser que nativos hostis me detectassem. Prossegui por 3 dias me alimentando de ostras e lapas ou outro molusco qualquer. Dessa forma eu não gastava minhas próprias provisões do barco. Encontrei uma excelente fonte de água doce, o que muito me reconfortou!

No quarto dia, me arriscando de manhãzinha um pouco imprudentemente, divisei de 20 a 30 aborígenes a não mais do que meio quilômetro de distância. Eram índios completamente nus, havia homens, mulheres e crianças no bando, estavam em volta duma fogueira; não vi fogo, mas vi fumaça. Um deles, incontinente, reparou em mim e logo avisou seus amigos. Cinco vieram correndo em minha direção, deixando as mulheres e crianças para trás. Eu também corri para salvar minha vida. Pulei na canoa e parti. Os selvagens, notando que não daria tempo de me alcançarem, atiraram flechas; uma me atingiu profundamente na parte interna do joelho esquerdo: tenho a cicatriz até hoje. Temendo o pior – que a flecha ainda por cima tivesse sido embebida em curare –, remei intensamente até fugir do alcance de qualquer projétil (era um lindo dia, o mar estava calmo). Quando me senti fora de perigo imediato, comecei a chupar a ferida para tirar o eventual veneno, e tratar a hemorragia com o que tinha em mãos.”

“Entre todos os meus impulsos, meu ódio pelos Yahoos foi o que falou mais alto: virei minha canoa e velejei e remei no rumo sul, atingindo o mesmo córrego que atravessara pela manhã, calculando que seria menos pior lidar com esses selvagens do que viver entre os europeus mais uma vez.”

“Os marinheiros, quando aportaram, notaram na minha canoa e, inspecionando-a, conjeturaram logo de cara que o dono não podia estar muito longe. Quatro deles, bem-armados, começaram a busca, revirando qualquer fenda ou buraco que achassem. Me encontraram totalmente vulnerável atrás da rocha. A primeira reação deles foi de espanto, com meus trajes tão bárbaros. Meu casaco era de peles, as solas dos meus sapatos de madeira, minha calça de pêlos. Eles, porém, adivinharam rapidamente que eu não era um nativo, pois que todos ali viviam pelados. Um dos homens da tripulação, um português, mandou que eu me erguesse e perguntou quem era eu. Eu compreendia seu idioma, então obedeci e comecei: Sou um pobre Yahoo banido de entre os Houyhnhnms. Por favor, deixai-me partir! Eles ficaram ainda mais atônitos ouvindo minha resposta em português fluente e, estudando melhor minhas feições, também arrazoaram que eu era um europeu como eles. Porém, não podiam compreender nada disso de Yahoos e Houyhnhnms. Caíram na risada, não nego, diante do meu acento um tanto… gutural. Disseram na minha cara que eu parecia um cavalo relinchando! Na hora eu senti grande indignação misturada com medo, e pus-me a tremer. Eu pedi novamente para ser deixado em paz e abandonado, e sem esperar resposta fui tranqüilamente caminhando para minha canoa. Eles me impediram e perguntaram: De que país vens tu? Na verdade eles perguntaram muitas coisas que eu não posso me lembrar. Eu disse que nascera na Inglaterra, de onde saíra 5 anos atrás – naquele ano Portugal e os ingleses se entendiam muito bem. Então eu voltei a demonstrar confiança e a esperar a concórdia que existe entre pessoas de duas nações civilizadas, desejando ir embora. Em minha pressa eu expliquei que era um Yahoo miserável procurando qualquer lugar desolado para passar o resto de minha desafortunada vida.

Quando eles começaram a discutir entre si eu senti que nada do que eu escutava ou contemplava podia ser mais anti-natural. Para mim era como ver cachorros raciocinando e falando! Vacas falando inglês, Yahoos inteligentes no País dos Houyhnhnms!”

“Eles tinham certeza que o capitão aceitaria levar-me de graça (como dizem em Português) para Lisboa, de onde eu poderia me virar e voltar sozinho à Inglaterra. Informaram que 2 da companhia voltariam agora ao navio para relatar do achado ao capitão e saber de sua decisão. Nesse meio-tempo, a menos que eu jurasse solenemente que não fugiria, disseram que iam me manter sob custódia. Eu achei melhor ceder a estes apelos. Eles estavam bastante curiosos para saber toda minha história, mas eu não pude satisfazê-los. Creio que isso os fez pensar que eu sofri alguma desgraça que comprometeu o meu juízo.”

“O cheiro deles quase me fazia desmaiar. Por fim, não mais agüentando de fome, eu pedi licença para apanhar algo de minha própria canoa. Mas o capitão, querendo ser gentil, ordenou que me trouxessem galinha e um bom vinho, além de preparar uma cama para mim numa cabine asseada. Eu não queria de maneira alguma tirar meus trajos, nem quando estava só. Enrolei-me na coberta, portanto, e em meia hora, imaginando que a tripulação estivesse comendo, saí de minha cabine – planejava pular no mar, por uma das laterais do navio, e nadar de volta para a ilha. Qualquer coisa a viver entre Yahoos! No entanto, tive a infelicidade de que um dos marinheiros detectou-me e preveniu meu ato. Informando o capitão, foi acorrentado na cabine.

Depois do jantar, Dom Pedro veio a mim, desejando saber a razão do meu desespero, capaz de conceber um plano tão absurdo. Ele garantiu que só queria meu bem e fazer por mim o que estivesse a seu alcance nessa situação. Ele se expressou de uma forma tão terna que me comoveu, a ponto de eu conseguir tratá-lo, a partir desse momento, como um animal capaz de alguma faísca de razão! Eu elaborei um resumo conciso de minha última aventura. Contei da conspiração de meus homens a bordo. Do país misterioso em que me deixaram e dos meus 5 anos de vida ali. Mas ele reagiu como se eu não tivesse narrado mais do que um delírio ou sonho. Não pude esconder minha reprovação. Pois estava agora fora de minha natureza o dom de mentir, tão peculiar aos Yahoos! Não importa a nação, um Yahoo nunca muda sua conduta – eles estão sempre resguardados contra o discurso dos outros, sabendo que, como eles próprios, outros Yahoos são bem capazes de mentir por qualquer coisa. Eu perguntei a Dom Pedro: É costume, em Portugal, falar a coisa que não é? Isso de que qualificas minha história é algo que tenho de refletir muito para lembrar que existe, falsidade, conto, falácia, ilusão!… Se eu tivesse vivido mil anos no País dos Houyhnhnms ainda assim não teria escutado uma só mentira do mais estropiado dos serviçais! Eu não dou valor ao fato de ser acreditado ou não; tu estás me ajudando muito, então não concederei qualquer importância à corrupção de tua natureza interior. Me prontifico a responder qualquer questionamento teu! A verdade existe para quem queira compreendê-la!

O capitão Dom Pedro, homem vivido, depois de muito me testar e confrontar minhas respostas a diferentes perguntas, típico procedimento para apanhar alguém na mentira, começou, enfim, depois de um tempo, a considerar que minha veracidade fosse-lhe plausível. Já que tu dizes que tens um apego inviolável pela verdade, tu deves dar-me palavra, Gulliver, palavra de honra, palavra de homem, de que me farás companhia nessa viagem, até o final, sem atentar, outra vez, contra tua própria vida; porque se tu fizeres o que fizeste de novo, e fores apanhado, ou se não concordares com meus termos, passarás todo o trajeto até Lisboa confinado, tratado como prisioneiro. Eu prometi que seguiria com ele até o fim da viagem, embora protestando e antecipando meu futuro: Sofrerei as mais amargas inclemências, para mim está bem! Mas não volto a viver entre Yahoos!

Nossa viagem transcorreu sem nenhum imprevisto. Em gratidão ao capitão pela simpatia que demonstrou para comigo, por mais que achasse repelente lidar com Yahoos, sentei ao seu lado e tentei ser sociável. Mas às vezes eu não podia esconder que aquilo tudo ofendia meu ser. Mas ele, eu via bem, fingia que não notava. Além do mais, a maior parte do dia eu ficava sozinho na cabine. Eu não gostava de ver Yahoos o tempo todo. O capitão tentou me convencer por diversas vezes a tirar minhas roupas rústicas e ofereceu as melhores roupas que tinha no armário. Eu jamais cederia. Sinceramente, me causava nojo pensar em revestir meu corpo com algo que já foi vestido por um Yahoo! Eu na verdade, devido à insistência do capitão, tolerei apenas que me arranjasse duas peças limpas, nunca usadas, as mais simples. Ou, se não fosse possível, ao menos que houvessem sido lavadas. Pensei que isso não denegriria, apesar de não ser o ideal. Toda noite eu retirava a roupa usada ao longo do dia e me encarregava eu mesmo de lavá-la cuidadosamente.

Chegamos em Lisboa em 5 de novembro de 1715. Quando desembarcamos, o capitão obrigou-me a colocar sua capa por cima de minha roupa andrajosa, para evitar aglomerações e rebuliço. Ele me alojou em sua própria casa. Ao meu próprio pedido, deixou-me ficar no cômodo mais afastado, no sótão e nos fundos. Eu implorei que ele ocultasse de todos os demais Yahoos tudo que confiei-lhe a respeito dos Houyhnhnms. Imaginei que qualquer detalhe dessa história causasse um sem-número de Yahoos vindo atrás de mim, além de ser uma coisa tão difícil para as mentes limitadas dos Yahoos compreenderem que com certeza eu poderia ser acusado de ir contra a moral e ser preso, se é que não queimado pela Inquisição! O capitão assentiu e me convenceu, por seu turno, a aceitar vestes limpas e novas. Eu cedi, mas não aceitei que o costureiro tomasse minhas medidas. Dom Pedro, sendo por acaso aproximadamente da mesma altura e peso que eu, não obstante, as roupas ficaram ótimas em mim. Ele providenciou tudo que melhorasse minha condição; mas eu não aceitava entrar em contato com nenhum objeto antes que ele se desempesteasse dos germes yahoos após pelo menos 24h ao ar livre!

O capitão não era casado, nem tinha mais do que 3 discretos empregados. Eu roguei que nenhum deles fosse visto durante nossas refeições. Devo confessar que a postura do capitão foi tão digna e honrada, sua camaradagem tão desinteressada e rara, seu entendimento humano tão elevado, que eu comecei a tolerar sua companhia, de verdade, não apenas por obrigação! Ele foi me conquistando e me socializando de tal maneira que eu já começava a olhar pela janela do meu cubículo. Gradativamente fui passando para outros quartos e, tomando coragem, depois de muito observar alguns pedestres, dei os primeiros passos na rua. Meu pavor estava bem diminuído. Mas meu desprezo e descontentamento pelo Yahoo em geral, esses creio que jamais se embotarão. E quanto mais nos engajamos em interações sociais, digo-vos, mais tende a aumentar esse ódio! Enfim, eu aceitava dar passeios, sempre em sua companhia. Mas o que mais ofendia minha sensibilidade continuava a ser o cheiro horrível dessas criaturas, de modo que eu precisava deixar meu olfato insensível com arruda ou até mesmo tabaco antes dessas ocasiões!

Depois de dez dias, Dom Pedro, a quem também prestei algumas informações sobre minha vida européia prévia, deu sua palavra que não se sentiria de consciência leve enquanto eu não retornasse a meu próprio país e vivesse em meu lar com minha esposa e meus filhos. Ele me relatou que havia um navio mercante inglês no porto, prestes a seguir viagem, e que ele me daria tudo que fosse necessário para empreender essa pequena viagem. Ah, seria tedioso repetir item por item todos os seus argumentos, e todas as minhas objeções, uma e a uma! Dom Pedro disse: É inviável achar uma ilha tão deserta e remota como este lugar em que tu desejas te confinar! Mas usa tua prudência e sabedoria, confina-te em tua própria casa, passa teu tempo de maneira reclusa como mais te aprouver!

Sem remédio, tive de aceitar sua proposta. Deixei Lisboa dia 24 de novembro, no navio mercante britânico. Nunca perguntei quem era o capitão da embarcação. Dom Pedro me acompanhou até a nave e me emprestou 20 libras. Se despediu muito cortesmente e até me abraçou, o que tolerei tão bem quanto pude. Nesta última viagem eu não travei contato nem com capitão nem com contra-mestre. Simulando estar doente, enclausurei-me na cabine. No quinto dia de dezembro de 1715, ancoramos em Downs, às 9 da manhã, aproximadamente. Às 3 da tarde eu estava no umbral de minha própria casa em Rotherhith.(*)

(*) A edição original e a de Hawkworth trazem este nome. Como o leitor pôde perceber, entretanto, Redriff era a casa de Gulliver na estória, de modo que pode ser uma simples omissão do autor.

Minha mulher e meus filhos me receberam com a mais cândida surpresa e euforia – eles imaginavam, e com razão, que eu já estava sete palmos sob a terra. Devo confessar, contudo, que à primeira vista eu senti esse contato com eles como repelente, quando muito indiferente. Embora eu tivesse jurado e me obrigado, desde que abandonei os Houyhnhnms, a ser tolerante e condescendente com os defeitos yahoos, tendo ademais resolvido honrar a promessa que fiz a Dom Pedro de Mendez, minha memória e imaginação estará perpetuamente embebida na virtude e nos elevados conceitos houyhnhnmianos. Vencendo essa minha resistência pouco a pouco, acabei por copular com outro de minha degradante raça yahoo (isto é, com minha esposa) e dei origem a novos espécimes, já na metade declinante da vida. Ainda hoje, quando paro para pensar, me encho de vergonha, confusão e um certo horror atenuado por ajudar a propagar essa espécie…

Voltando ao momento em que adentrei meu lar após tanto tempo, minha esposa me abraçou, beijou, etc., e eu, não estando acostumado ao toque desse animal odioso, como que desfaleci, e meus parentes foram me reanimando aos poucos ao longo de cerca de uma hora. Neste momento em que escrevo, já faz 5 anos que voltei. Durante o primeiro desses anos, não suportava a constante presença de minha esposa e das crianças. Seu cheiro era pestilento! Muito menos comer no mesmo aposento que eles!! Até hoje, devido a minhas interdições daquela época, eles mal ousam tocar o meu pão, ou beber do meu copo. Ainda é muito difícil pegar na mão de qualquer pessoa que seja.

Na minha nova vida, a primeira coisa em que gastei dinheiro foi num par de cavalos de raça que criei muito confortavelmente num estábulo próximo de casa. Depois do aroma destes dois animais, o cheiro que mais me agrada é o do meu cocheiro. Sinto que remoço com o cheiro que aquele estábulo exala e deixa em quem passa muito tempo ali!

Meus cavalos me entendem. Eu converso com eles 4 horas por dia. Eles nunca viram rédeas nem sela. Vivem em grande companheirismo comigo mesmo, e em intensa harmonia um com o outro.”

“Caro leitor, confiei-lhe a mais verídica história possível de um viajante nato, que dedicou 16 anos e 7 meses de sua módica existência a explorar novos recantos do globo. Meu estilo é tão rústico quanto a verdade o exige: minha intenção é comunicar um sentimento, não ornar palavras vãs! Ao contrário dos autores deste gênero literário tão questionável, eu poderia lançar mão de recursos narrativos fabulosos para cativar a atenção do público, coisa que não fiz. Narrei com simplicidade apenas os fatos, da forma mais direta que me coube, num estilo sem afetação. A informação, a meu ver, tem de vir antes do entretenimento.”

“Eu desejaria a promulgação de uma lei que estabelecesse que o viajante, antes de poder publicar suas memórias ou diário de viagem, seria obrigado a jurar, diante da Suprema Côrte, que tudo aquilo que ele manda imprimir é a absoluta verdade ou pelo menos aquilo que há de mais veemente e sincero partindo de seu coração e de seu conhecimento e experiência. Uma medida simples e que deixaria o mundo um lugar muito menos traiçoeiro. Muitos escritores, com fins populistas, impõem as piores malversações e forjas de fatos que sempre engabelam o tipo do leitor desatento. Com muito desgosto, fucei de cabo a rabo inúmeros livros de viagem antes de escrever minha obra. Confesso que, quando nem tinha isso em mente, esses volumes me causavam prazer – à minha juventude, plena de tolice. Tendo eu mesmo conhecido de perto quase todo país e quase todos os costumes, tendo tido o privilégio de contradizer pessoalmente muitas das fábulas que chegara a ler, posso afirmar minha autoridade e minha distância destes autores. Não poderia indicar um só, além de mim mesmo, que não me desperte aversão e que não se apoie impudentemente na incrível credulidade humana.”

“Nec si miserum Fortuna Sinonem

Finxit, vanumetiam,

mendacemque improba finget.¹

Sei muito bem quão vil a longo prazo é a reputação de quem escreve sem gênio ou erudição, sem nem, aliás, talento algum, exceto uma boa memória ou uma precisão de publicista ou de capitão de navio. Também sei que escritores de viagem, como autores de dicionários, acabam chafurdando sob o peso dos inúmeros novos exemplares que são preparados todos os anos neste mesmo ramo, sendo o sucesso de uns o mesmo que o esquecimento de tantos outros. Sei o quanto tudo isso são correntes e modas passageiras. É até bastante provável, inclusive, que os viajantes que venham a visitar os mesmos locais por que passei e descrevi, detectando erros e omissões minhas (se houver), e complementando com novas descobertas de autoria própria, obliterem minha fama deste mundo, tornando-me no mínimo dispensável, no máximo completamente ignoto. Mas essa ‘mortificação’ seria o melhor dos mundos para mim, se eu escrevesse apenas por vaidade: mas quem escreve pelo bem coletivo não poderá reclamar de ser ultrapassado no futuro após dar sua parcela de contribuição! (…) Não vou preencher uma linha com os costumes dos Yahoos dessas nações remotas e corrompidas – diria que os menos corrompidos de todos são os brobdingnaguianos. As máximas que coletei em meio a este povo, em moral e política, sobrepassam tudo que se vê na Europa.”

¹ Mesmo se a Fortuna fez Sinona miserável, Ela não o tornou mendaz e improbo.

a Teve papel ativo na invasão, pelos gregos, da cidade de Tróia.

“Foi-me solicitado, assim que minha fama se espalhou, após meu retorno, como cidadão inglês, o relato preciso, a um secretário de Estado, de minhas expedições. A principal alegação para esta abordagem formal é que <se o primeiro que travou contato com estas civilizações é um inglês, então é justa a reivindicação da posse destas terras pela Coroa>. Porém, sem medo de ser censurado, declaro que tenho minhas dúvidas acerca de se a colonização dos lugares que visitei pode trazer qualquer progresso ou mesmo se ela é possível. Nem todos são índios americanos e nem todos são Fernando Cortez! Os liliputianos, para começo de conversa, mal pagariam o investimento: uma esquadra para submetê-los seria uma inútil despesa para o Tesouro. Já quanto aos brobdingnaguianos, minha pergunta é se qualquer tentativa nesse sentido é minimamente prudente ou segura! Além disso, será a marinha inglesa páreo para as Ilhas Flutuantes sobre nossas cabeças?! Não sentiríamos vertigens mesmo que <os conquistássemos>? Os Houyhnhnms me parecem os menos preparados para se defender militarmente. No entanto, fosse eu ministro de Estado, jamais aconselharia uma tal expedição – invadi-los!!! Sua prudência, consenso interno, coesão social e adaptação ao meio, despojo das preocupações fúteis e falta de temor, seu amor pátrio, seriam talvez substitutos mais do que perfeitos para a inocência na arte militar. Imaginem 20 mil deles colidindo de frente com uma armada britânica! Furando nossas fileiras, capotando nossas carruagens, esmagando os crânios de nossos infantes com seus sólidos cascos até serem transformados em papa! De fato penso que os Houyhnhnms merecem o adágio atribuído a Augusto César: Recalcitrat undique tutus (Recalcitrância onipresente é segurança).

Ao invés de propostas insolentes de colonização deste paraíso na terra, eu desejaria a inclinação da Coroa por enviar uma delegação diplomática solicitando que os Houyhnhnms, quem sabe, se dispusessem a perder alguns de seus indivíduos mais pacientes para nos ensinar e nos civilizar, para transformar a Europa e ensiná-la, finalmente, pela primeira vez, as bases da honra, justiça, verdade, temperança, espírito público, resiliência, bravura, castidade, amizade, benevolência e fidelidade. Todas as virtudes que nomeamos em todas as nossas línguas que se podem encontrar na literatura moderna ou também na antiga, em todas essas os Houyhnhnms se sobressaem. Com minha parca erudição, é o que posso com certeza afirmar.”

“eles matam duas ou três dúzias de nativos, trazem outras tantas nos navios, obviamente na base da violência, como amostra grátis; ao voltar para casa são perdoados. E a colônia conquistada ganha a bênção e o direito divino. Naves são novamente despachadas à primeira oportunidade. Os autóctones são, então, conduzidos à destruição inexorável. Seus monarcas são torturados até revelarem a localização de seu ouro; o monopólio sobre as riquezas daquela extinta nação é imediatamente concedido para que nos banhemos no sangue de inocentes, lição de crueldade e luxúria incomparável!”

“Mesmo assim, a descrição desse processo escravizador e desumano não parece afetar a auto-estima britânica, que deveria ser o exemplo do mundo em termos de sabedoria, delicadeza e imparcialidade ao implantar Colônias! Seus dons liberais no avanço da religião e da educação; seus devotos cabeças na propagação da cristandade; sua precaução em habitar a terra de vidas pacatas e tementes a Deus. Enfim, deveria partir deste Reino, deste Império-Mãe da humanidade, a iniciativa no emprego da justiça e na exportação de um modelo de administração civil impecável para todas as colônias incivilizadas do globo terrestre, sem se deixar conspurcar ou corromper pelos barbarismos estrangeiros. Para corar, por assim dizer, oportunamente, todo este estado de coisas, a Grã-Bretanha deveria delegar aos homens mais judiciosos de todos, interessados exclusivamente na felicidade geral, a missão de ser os representantes da Rainha e do Rei nestas paragens remotas, nestes recantos tão distantes da metrópole!”

“E no entanto, se aqueles que realmente cuidam destes assuntos julgarem que cometo uma irresponsabilidade, estou disposto a me render, baixar a cabeça e sofrer o jugo de sua Lei. Mas jamais direi uma mentira: nenhum europeu pisou nestes países antes de mim. Se os habitantes de cada um destes reinos tiver voz, eles confirmarão o que digo. Claro que essa primazia quiçá possa ser também atribuída aos dois Yahoos lendários que foram vistos no topo de uma montanha no País dos Houyhnhnms. Eis a única exceção que eu admito.”

“Semana passada comecei a autorizar minha mulher a sentar comigo para jantar, mas na outra ponta da mesa, por enquanto. E dei-lhe a devida vênia para responder (com concisão) as perguntas que eu a dirigir, se estiver no humor.”

DO EDITOR AO PÚBLICO (POSFÁCIO: Problemas de família!) (tal qual na 1ª edição da obra)

“O autor destas Viagens, o Senhor Lemuel Gulliver, é meu mais antigo e íntimo amigo. Há algum parentesco entre nós do lado materno, inclusive. Cerca de 3 anos atrás, o Senhor Gulliver, cansado de receber curiosos em sua habitação, em Redriff, comprou um pequeno naco de terra, com uma casa não-luxuosa, mas confortável, nas proximidades de Newark, Nottinghamshire, seu condado de nascença. Agora o Senhor Lemuel vive mais afastado dos homens do que nunca, pelo menos enquanto não esteve em suas viagens. Apesar desse retraimento social, meu primo algo distante não é por isso menos querido pelos seus vizinhos.”

“Antes de deixar Redriff, ele deixou-me em posse dos referidos papéis, um relato de suas viagens pelo mundo, dando-me a liberdade para fazer com eles o que eu bem entendesse. Eu li suas memórias com esmero, três vezes.” “Há um indistinto ar de verdade por toda a obra. O próprio autor foi tão reconhecido por seus iguais como sendo uma pessoa veraz que se tornara uma espécie de provérbio entre seus vizinhos de Redriff, quando qualquer um afirmava alguma coisa, que tal coisa era tão verdadeira como se o Senhor Gulliver a tivesse dito.”

“Esse volume seria pelo menos duas vezes maior, se eu não tivesse tomado a iniciativa de suprimir trechos inteiros, inúmeras passagens, diria eu, referentes a ventos e marés e todas essas coisas chatas… Ninguém quer saber que clima fazia durante o trajeto, ou qual o ângulo do navio em relação a não sei que objeto! Como nos diários de bordo dos capitães, redigiu-se, nos manuscritos originais, com precisão milimétrica, cada procedimento, como o que se faz diante da ocorrência de uma tempestade, naquele linguajar técnico dos navegadores. Longitudes, latitudes, graus isso, graus aquilo, abundam. Temo que o Senhor Gulliver possa ter se arrependido de conceder-me liberdade para mexer em sua papelada, mas, enfim, sigo minha consciência.”

“Se minha ignorância em assuntos marítimos pode ter me levado a cometer erros e omissões, digo, pois, que me responsabilizo abertamente por essas deficiências. Se qualquer viajante vier a apresentar a curiosidade pela versão integral desses relatos, como haviam sido deixados pela pena do escritor, sem minha intervenção, eu terei a bondade de atender essas pessoas.”

Richard Sympson

CARTA DO CAPITÃO GULLIVER A SEU “PRIMO” SYMPSON

“Espero que você esteja pronto para admitir publicamente, quando de oportunidade, que por seu imenso e assíduo sentimento de urgência você me convenceu a publicar um relato muito vago e impreciso de minhas viagens, com, entretanto, a promessa de que minha falta de estilo seria consertada por jovens senhores acadêmicos, assim como fizera meu outro primo Dampier, após aconselhamento meu, em sua obra intitulada Viagem ao redor do mundo.¹ Porém, diferente do que você diz no começo do posfácio, não lembro de ter-lhe dado poder total para omitir trechos de minha narrativa, e muito menos para fazer interpolações. Sendo assim, quanto às últimas, eu abdico formalmente mediante esta comunicação de qualquer responsabilidade de autoria nos casos em que foi o editor quem escreveu pela minha pena! Devo citar, ilustrativamente, um parágrafo inteiro sobre sua majestade, a Rainha Ana, cujo nome é sinônimo da mais pia glória: embora a reverencie e a estime mais do que qualquer ser humano, vejo que o editor se excedeu ao enaltecer tanto um bípede, em cotejo ao meu mestre Houyhnhnm. (…) Sendo assim, você me fez falar a coisa que não era. E também faço referência à academia dos projetistas, e a inúmeras outras passagens – parece que no último quarto do livro é pior! – dos meus diálogos com o mestre Houyhnhnm. Ou você omitiu circunstâncias materiais importantes ou fez questão de mutilar meus pensamentos ou desfigurá-los de tal forma que o desiderato tornou-se irreconhecível até para mim mesmo.”

¹ Mais um exemplo do que poderíamos chamar de proto-derrubadas da quarta parede promovidas por Swift, ao trazer fatos do mundo real para prestar ainda mais realismo a sua prosa: Dampier completou a circunavegação do globo pelo menos 3x e realmente registrou seus achados numa obra com este título.

“Você poderia fazer o favor de explicar como uma coisa que eu disse, tantos anos atrás, a cerca de 5 mil ligas de distância, em outro reino, poderia se aplicar livremente a qualquer dos Yahoos, que, diz-se, em seu conjunto governam o rebanho. Tanto mais que, àquela ocasião, eu mal temia ou mal pensava na possibilidade infeliz de voltar a estar entre eles! Não tenho eu muitas razões de queixa, quando vejo esses mesmos Yahoos sendo puxados por Houyhnhnms em veículos, como se estes não passassem de brutos, e aqueles chegassem a criaturas racionais? Para evitar visão tão monstruosa e mesquinha, entre outros motivos, é que eu decidi me recolher ao campo!”

“Favor considerar, tanto quanto eu já lhe pedi que considerasse, em prol, como você mesmo diz, do <bem comum>, que os Yahoos não passam de uma espécie de animais completamente incapazes de reabilitação ou de aperfeiçoamento via preceitos morais: assim está provado. Porque vê-se que, em vez de um brusco cessar de todos os abusos e corrupções, ao menos nesta pequena Ilha, como eu teria meus motivos para suspeitar, vê-se, dizia eu, após 6 meses do escândalo que foi a publicização do meu livro, que nada mudou; não veio ao meu conhecimento uma só notícia de <efeito favorável> após a divulgação de minhas boas intenções. Como estou retirado no campo, portanto, peço-lhe que me envie, por carta, o informe do fim dos partidos e facções, da justiça imparcial dos juízes, da modéstia e honestidade dos advogados – com tinturas de bom senso –, da transformação desse sórdido bairro londrino chamado Smithfield numa praça para piqueniques, com muitas árvores e uma biblioteca cheia de livros de boas leis em detrimento do pelourinho de execuções hipocritamente ladeado por igrejas góticas, que é o que lá se encontra hoje, da verdadeira nobreza na formação de nossos nobres sem-caráter, do banimento dos atuais médicos, da virtude, honra, sinceridade e bom senso das Yahoos-fêmeas, das côrtes daninhas e torrentes de ministros varridos para sempre, da inteligência, presença de espírito e mérito finalmente recompensados da forma que merecem, da condenação à morte por inanição de todos esses espalhadores de desgraças em prosa chamados jornalistas (mande-lhes comer seu próprio algodão se estiverem famintos! mande-lhes secar seus potes de tinta, se estiverem com sede!);  deixe-me saber de todas essas coisas, se um dia elas vierem a ocorrer!… (…) 7 meses, creio eu, seria tempo mais que suficiente para corrigir todo vício e tolice a que os Yahoos são sujeitos, se, e somente se, sua natureza fosse de fato minimamente capaz de aprendizado e inclinada à sabedoria!”

“Leio, ainda, que sou acusado de refletir sobre pessoas de altos cargos sobre quem eu não teria nada a dizer; acusado de degradar a natureza humana! – que natureza humana?, sou aqui obrigado a contestar –, e de difamar o sexo frágil!! Conquanto essas críticas não me venham em uníssono, afinal o bando dos escritores é sempre desunido e cheio de desavenças de opinião, e alguns deles, em vez de me atacarem por dizer o que digo, preferem se negar a acreditar que este livro é de minha pena, i.e., que eu tenha sido o autor de minhas próprias viagens! Para estes, eu achei ou roubei estes escritos de alguém ou algum outro lugar. Mas, de acordo com uns terceiros, eu não só escrevi As Viagens de Lemuel Gulliver como eu escrevi uma outra horda de livros, que eles inclusive se dão ao trabalho de elencar!

Digo que seu tipógrafo foi tão negligente que confundiu a cronologia, havendo trocado as datas de muitas das minhas partidas e regressos! Às vezes nem sequer o ano ele imprimiu corretamente, quem dirá o mês. Seria pedir demais que ele acertasse O DIA! Ouvi dizer que o manuscrito original foi, infelizmente, destruído e que desde a publicação da primeira tiragem não temos mais acesso a seu conteúdo veraz. Eu não me dei ao trabalho de produzir uma cópia antes de enviar-lhe este manuscrito, e portanto ele era o único no mundo. Sem embargo, ainda diante de tamanhos desconsolos, eu lhe enviei uma variedade de correções, as mais importantes, para que você gentilmente insira nos lugares corretos – se, é claro, vier a existir uma segunda edição!”

“Nas minhas primeiras viagens, enquanto ainda jovem, fui ensinado pelos mais experientes marinheiros, e portanto aprendi a redigir como eles. Desde então, contudo, verifiquei que os Yahoos marítimos da nova geração são tão aptos quanto os telúricos para inventar gírias e maneirismos de linguagem, de forma que as expressões que eles empregam mudam de ano a ano.”

“Se a censura dos Yahoos pudesse afetar-me em algum grau, teria eu imensas razões para reclamar. Alguns são tão convencidos e opiniosos que consideram meu livro de viagens como mera ficção ou delírio mental, e foram longe o bastante a ponto de teorizar que os Houyhnhnms e os Yahoos são tão ‘reais’ quanto os habitantes da ilha de Utopia de Thomas More!

Quanto aos povos de Lilliput, de BrobdingRag (como é a correta grafia da palavra, e não Brobdingnag como consta da 1ª edição!) e de Laputa, confesso que nunca me deparei com um Yahoo presunçoso a ponto de questionar suas existências, nem as informações sobre suas culturas que eu tornei públicas. Isso, claro, porque a veracidade tem um poder de convencimento imediato sobre o leitor. Quanto ao meu relato dos Houyhnhnms e Yahoos, se há menos plausibilidade, a culpa não é minha: vejo milhões neste mesmo continente desta última espécie! Nossas diferenças para com os Yahoos do país dos Houyhnhnms podem se resumir a duas: uma é que os urros que eles utilizam à guisa de linguagem soam estranhos a nossos ouvidos; a outra é que não andamos pelados (ou será que eles é que não andam pelados, já que a pelugem deles recobre todo o corpo, enquanto nós precisamos de tecidos para esse mesmo fim?). Eu escrevi sobre os povos que conheci, e sobretudo sobre os Yahoos, para emendar os nossos Yahoos, e não para bajulá-los! Enaltecer com palavras inócuas toda nossa espécie seria mais inconseqüente, para mim, do que os relinchos dos dois Houyhnhnms ‘degenerados’ que eu crio em meu estábulo. Porque estes, a despeito de decaídos em relação aos seus ancestrais, eu ainda consigo educar e corrigir-lhes os vícios até um certo ponto!”

“Concluo que eu jamais deveria ter concebido um projeto tão absurdo como o da reforma da raça Yahoo deste reino. Mas deixe estar, isso era coisa de meu eu idealista de outrora: já deixei estes esquemas visionários para trás, em definitivo.

2 de Abril de 1727.”

“A VIDA E AS AVENTURAS DE ROBINSON CRUSOE” EM 291 (293) PARÁGRAFOS – Tradução inédita para o português, com a adição de comentários e notas, de Rafael A. Aguiar

Daniel Defoe

DISCRETO GLOSSÁRIO PARA MARINHEIROS DE PRIMEIRA VIAGEM

boatswain: oficial, contramestre da embarcação, o primeiro na linha de comando após o master (vide baixo).

capful: tampa

capful of wind: brisa repentina

curlew: ave pernalta (maçarico)

dram: dose

master: capitão, autoridade máxima num navio

punch: ponche

supercargo: sobrecargo (espanhol), comissário de navio mercante

uncouth: tosco, bruto

urge: (subs.) desejo, necessidade;

(verb.) (u. somebody to) encorajar;

argumentar, defender, endossar;

(u. on) incitar, pressionar, compelir.


TRADUÇÃO DOS PRINCIPAIS TRECHOS DA OBRA

1

Eu nasci no ano de 1632, na cidade de Iorque, de boa família (…) meu pai, sendo um forasteiro de Bremen (…) amealhou uma boa fortuna no comércio, deixando seus negócios para casar com minha mãe e se estabelecer em Iorque. Dela eu herdei meu sobrenome Robinson, pertencente a uma nobre família rural. Meu nome de batismo é Robinson Kreutznaer; mas, devido à corrupção corrente das palavras no Inglês, somos agora chamados – aliás, chamamo-nos a nós mesmos, e assim o escrevemos – Crusoe”

2

Eu tinha dois irmãos mais velhos, um dos quais foi morto na batalha de Dunkirk contra os espanhóis. O que veio a ser do meu segundo irmão, eu jamais soube, ou soube tanto quanto meus pais vieram a saber de mim. (…) Meu pai, que já era muito velho, me deu uma boa educação, tanto quanto permite a educação doméstica numa cidade de interior desprovida de escolas, e me preparou para o Direito; mas eu não desejava nada que não fosse rumar ao mar; e minha estranha inclinação tanto me conduziu contra as vontades, digo, os comandos do meu pai, e contra todas as tentativas e persuasões da minha mãe e amigos da família, que só podia haver algo de fatal nessa propensão anti-natural à natureza, uma correnteza que me empurrava para a vida de misérias em que eu me veria afogado.”

3

minha condição de vida era mediana, ou o que se poderia chamar de estrato superior da vida humilde, que meu pai, inclusive, considerava, baseado em sua não-depreciável experiência, a melhor condição na face da terra, a mais apropriada à felicidade humana, não exposta às misérias e durezas, ao trabalho duro e sofrimentos típicos da parte mecanizada da humanidade, e ao mesmo tempo não contaminada pelo orgulho, luxúria, ambição, e inveja dos situados acima.” “reis lamentaram com frequência os miseráveis efeitos de terem nascido para grandes coisas” “o homem sábio já deu seu testemunho sobre isso, dizendo que o segredo da felicidade é não desejar riquezas nem pobrezas.”

4

se eu não me sentia bem e feliz no mundo, isso devia se atribuir ao mero destino ou a uma falha exclusivamente minha” “meu pai decidira que no que dependesse dele eu não seria um azarado que tivesse de buscar sustento noutros recantos, e que me seria dada uma tranqüila existência no seio dos negócios da família” “Fiquei profundamente afetado pela sinceridade desse discurso, e, de fato, como não ficar?” “Tinha agora dezoito anos, o que já era demasiado tarde para se tornar aprendiz de negociante ou secretário de advogado”

5

Esse garoto pode ser feliz se escolher permanecer em casa; mas se se aventurar pelo mundo exterior, será a criatura mais miserável a ter nascido: não posso dar meu consentimento a isso.”

6

1º de setembro de 1651 (…) Nunca nenhuma desgraça na vida de um jovem aventureiro, acredito eu, apareceu tão cedo, ou durou tanto quanto a minha.”

7

Ao longo dessas primeiras aflições eu me sentia estúpido, paralisado em minha cabine, localizada na entreponte, e mal posso descrever meu temperamento de então: como pôr em palavras a penitência que me adveio quando pensei ter passado pelo pior que eu poderia passar: achava, com efeito, que a amargura da morte era coisa do passado, e que na minha segunda vez o mal-estar não se repetiria.”

8

soubemos que dois navios próximos de nós cortaram seus mastros por inteiro, pesados que estavam; e nossos homens gritaram que um navio que navegava cerca de uma milha à frente havia afundado.”

9

e, quando eles cortaram o mastro dianteiro, o mastro principal ficou tão torto, e balançou tanto o navio, que foram obrigados a cortá-lo também, deixando o convés plano. (…) a tempestade continuou com tamanha fúria que os próprios marinheiros admitiram nunca ter visto uma pior. (…) Me era vantajoso, pensando bem, o fato de que eu não fazia idéia do que eles realmente queriam dizer com naufrágio até eu ver tudo com os meus próprios olhos

10

os homens me ergueram e me contaram que eu, que não havia podido fazer nada da outra vez, podia agora bombear a água tão bem quanto qualquer outro; no que eu me agitei e me dirigi à bomba, trabalhando sem desdém. (…) Estava tão espantado que como que desmaiei. Como era uma ocasião em que ninguém podia vacilar sob o preço da própria vida, ninguém reparou em mim; mas um homem que chegou à bomba me empurrou para o lado com o pé, e ali me deixou, me imaginando morto”

11

o capitão seguiu disparando por ajuda; e uma pequena embarcação, que veio até nós com os tiros, lançou um barco. Foi com um supremo esforço que ele conseguiu chegar até nós; mas nos era impossível subir a bordo, ou para o barco se conservar perto da borda do navio, até que os homens, remando desesperadamente, arriscando suas vidas para salvar as nossas, receberam a corda que nossos homens jogaram por sobre a popa com uma bóia na ponta e esticaram com tanta dificuldade, até estar ao alcance. Puxamo-los com vigor rente a nossa popa, e todos conseguimos subir no barco. Mas era em vão para eles ou para nós pensar em conseguir atingir de novo o navio deles (…) Não estávamos muito mais do que um quarto de hora fora do nosso navio até que vimos a embarcação soçobrar. Foi então que entendi pela primeira vez o que é que queria dizer efetivamente um naufrágio marítimo.

12

Conseguimos embarcar (…) e assim que chegamos em segurança à terra firme seguimos a pé a Yarmouth, onde, como miseráveis que éramos, fomos tratados com a maior humanidade, tanto pelos magistrados da cidade, que nos designaram bons dormitórios, quanto por mercadores e donos de navios, que nos deram dinheiro suficiente para nos levar a Londres ou Hull ou aonde achássemos melhor.

Se eu tivesse tido a prudência de voltar a Hull, e de lá para casa, teria sido um homem feliz, e meu pai, como na parábola do Nosso Abençoado Salvador, teria mesmo sacrificado um bezerro gordo em minha honra; porque o terem ouvido que o navio em que me encontrava não foi mais visto desde Yarmouth foi muitas semanas antes, e demoraria até que meu pai obtivesse qualquer comprovação de que eu não havia morrido afogado.

13.0 (original)

I know not what to call this, nor will I urge that it is a secret overruling decree, that hurries us on to be the instruments of our own destruction, even though it be before us, and that we rush upon it with our eyes open. Certainly, nothing but some such decreed unavoidable misery, which it was impossible for me to escape, could have pushed me forward against the calm reasonings and persuasions of my most retired thoughts, and against two such visible instructions as I had met with in my first attempt.”

13A (versão contextual ou “ousada”)

nem sei do que chamá-la, nem alego em definitivo que se trate de um decreto invencível e inevitável, incompreensível para nós, meros mortais, essa coisa que nos leva a ser os instrumentos de nossa própria destruição, ainda quando podemos ver esta última distintamente à frente, e que nos defrontemos em vão com o perigo com todas as nossas forças e astúcias. Antes, mediante todos os nossos esforços, apressaríamos o mau desfecho ao invés de detê-lo. Porém, estou quase convencido de que nada senão essa hipótese de uma desgraça previamente decretada, inescapável, poderia explicar minha conduta resolutamente errônea e sem discernimento, quando eu sempre havia sido, até ali, um sujeito tão ponderado e meticuloso. Como se não bastasse, eu ainda fui alertado, recebendo, por assim dizer, sinais explícitos no sentido de que deveria reformar minha conduta, através de duas catástrofes consecutivas, nas duas únicas vezes em que me havia aventurado em alto-mar.”

13B (versão mais literal ou “conservadora”)

Eu não sei do que chamar isso, nem defenderei que é um mandato soberano secreto, que nos conduz a ser os instrumentos de nossa própria perdição, ainda que esteja diante de nós, e que corramos a isso de olhos abertos. Certamente, nada a não ser uma infelicidade imperativa similar, de que me era impossível fugir, poderia ter me empurrado contra a análise ponderada e as exortações dos meus mais retirados pensamentos, e contra duas instruções tão visíveis como as com que me deparei na minha primeira provação.”

13C (versão-síntese ou “cristã”)

Parece incrível, quase milagroso, eu diria, que ignoremos assim, dessa maneira estúpida, tola e arredia os sinais mais claros e proeminentes da Providência em nossas vidas, o que sempre nos custa muito caro. Em nossa cegueira concorremos a nossa própria queda. Nossa razão, numa avaliação depois dos fatos, depois da poeira baixar, se encontrava indubitavelmente comprometida, mergulhada na insânia. Tudo isso eu sou obrigado a chamar de destino do pecador ou decreto dos céus.

14

– Talvez tudo isso tenha nos sucedido por sua causa, como Jonas no navio de Társis¹. Diga-me, filho, o que você faz da vida; e com que propósito decidiu viajar por mar?”

¹ Localização citada na Bíblia (Tarshish na versão inglesa) pelo menos em Reis I, Crônicas II, Ezequiel, Salmos e Isaías, além da ocorrência mais famosa, no livro do profeta Jonas (daí a alusão do interlocutor de Crusoe nesta fala admoestadora: ambos, Robinson e Jonah, podem ser considerados descrentes amaldiçoados cujo arrependimento nunca se manifestará tarde demais). E desde que esta cidade aparece em diferentes livros de distintos profetas, referindo-se aparentemente a coordenadas geográficas dessemelhantes, torna-se um problema determiná-la realmente em sua identidade. Especialistas inferem que pode se tratar de Cartago, algum outro entreposto do Mar Vermelho usado pelos Antigos, da Fenícia (atual Líbano e proximidades), ou quem sabe até da Espanha (onde o profeta Jonas teria supostamente desembarcado caso completasse a viagem desastrosa, ponto geográfico que deveria ser bem afastado do Oriente Médio considerando o alcance das navegações antigas). Outros defendem que a locução “de Társis” usada para navios no Antigo Testamento era um epíteto para se referir, além de a embarcações provindas da tal localidade, a qualquer veículo mercante e de grande porte, guiado com muitos remadores ao invés de com velas, já que este porto poderia ter sido tão famoso que ajudou a popularizar a nomenclatura entre todas as nações que praticavam trocas de víveres e gêneros. Um navio de Társis seria, portanto, segundo esse último raciocínio, um tipo de navio enorme que estaríamos seguros de transportar várias riquezas. Salomão teria, por exemplo, uma frota de navios de Társis, mesmo que eles nem passassem pelo local, significando-se com isso que era um monarca opulento.

15

<Eu não pisaria no mesmo navio que você de novo nem por mil libras.> Essa foi, como eu disse, uma divagação de suas disposições, ainda muito agitadas pela perda da véspera, e já era mais longe do que ele tinha brevê para conduzir as coisas.”

16

Desde esse dia passei constantemente a observar algumas incongruências e irracionalidades do ser humano normal, especialmente dos jovens – por exemplo, eles nunca têm vergonha de pecar, mas se envergonham de se arrepender; não têm vergonha pela ação pela qual eles seriam acertadamente considerados imbecis, por outro lado têm vergonha do que vem depois, vergonha que só os tornaria homens mais sábios. (…) Uma relutância irresistível continuou adiando a minha decisão de ir para casa; e como passei muito tempo viajando, a lembrança de toda a desgraça foi se dissipando, e com ela também o ímpeto de voltar ao meu lar. Até o ponto de eu praticamente deixar essa idéia de lado, preferindo procurar-me outra viagem.”

17

O vento soprava do norte-nordeste, o que contrariava meus desejos, porque se soprasse do sul estaria seguro de fazer a costa da Espanha, e de atingir a baía de Cádiz”

18

Depois de pescarmos por algum tempo, sem conseguir nada – porque mesmo com peixes no gancho eu não os puxava, para que ele não os visse –, eu disse ao mouro, <Isso não vai dar certo; nosso senhor não vai ter nada para a mesa; precisamos pescar além.>”

19

<Xury, se você for fiel a mim, far-lhe-ei um grande homem; mas se você não pretende cumprir a condição> – isto é, jurar por Maomé e a barba de seu pai – <eu devo jogá-lo no mar também.> O menino sorriu, e falou tão inocentemente que não podia duvidar mais dele, então ele jurou fidelidade a mim, jurou que iria para qualquer canto do mundo comigo”

20

É impossível descrever os barulhos horrendos, e os gritos insanos, e os uivos que brotaram, fosse na faixa litorânea, fosse na parte interiorana, depois do disparo das armas, coisas que tenho minhas razões para crer que essas criaturas desconheciam até então: só isso já me convenceu de que o melhor era não desembarcar no escuro, sendo que mesmo de dia essa empresa seria arriscadíssima; cair nas mãos de selvagens como esses não teria sido melhor do que se nas garras de leões e tigres”

21

Como anteriormente já havia passado por estas costas, sabia muito bem que as Ilhas Canárias e as Ilhas de Cabo Verde não distavam do litoral. Mas como estava sem instrumentos para observar a latitude, não me lembrando ou não sabendo com exatidão a latitude dessas ilhas, mal sabia por onde começar a procurá-las, ou quando era o melhor tempo; minha expectativa era, continuando pela costa, chegar às partes onde os ingleses realizavam comércio, podendo assim pedir ajuda.

Segundo os meus cálculos mais confiáveis, o lugar onde estávamos devia ser aquele país que, estando entre os domínios do Imperador do Marrocos e os negros, seguia inabitado e inabitável, exceto por feras selvagens; os negros nunca conseguiram ali se fixar, tendo se dirigido ao sul por medo dos mouros, e os mouros consideraram, por sua vez, essas terras inférteis; e, com certeza, ambos fugiam também do prodigioso número de tigres, leões, leopardos e outras bestas furiosas cujo habitat é ali; destarte, aquela era uma zona apenas para caça, para os mouros, que só a visitavam com exércitos, de 2 a 3 mil homens de uma vez; avançando pela costa, por aproximadamente cem milhas não vimos nada senão um deserto litorâneo, de dia, e não ouvimos nada senão uivos e bramidos terríveis à noite.”

22

Xury, cujos olhos eram muito mais aptos que os meus, me chama de forma branda e tenta me persuadir de que o melhor a fazer seria tentar o máximo pela costa; <Porque,>, disse ele, <bem ali, olha, fica monstro horripilante, bem do ladinho colina, agora dormindo.>”

23

<Me mata ele! ele me come numa boca!> – uma bocada, ele queria dizer.”

24

Foi a nossa caça, mas não servia para comer; e eu estava muito lamentoso por termos perdido três cargas de pólvora atirando no que se tornaria carcaça inutilizável para nós. No entanto, Xury disse que gostaria de comer um pouco; então ele sobe a bordo e me solicita a machadinha. <Para quê, Xury?>, perguntei. <Eu corto fora sua cabeça,> ele respondeu. E contudo, Xury não pôde cortar-lhe a cabeça, se bem que cortou pelo menos uma pata, e a trouxe consigo, e era uma pata monstruosa.

Me peguei pensando, então, que, apesar de tudo, pelo menos a pele desse animal devia acabar nos servindo para alguma coisa; então me resolvi a extrair sua pele, se me fosse possível. Xury e eu logo fomos ao trabalho; ou quase só o Xury, que era muito melhor do que eu nisso”

25

É impossível expressar o espanto dessas pobres criaturas quando ouvem o fogo de nossas armas: alguns desses aborígenes estavam inclusive prontos para morrer de simples medo, havendo desfalecido no solo como cadáveres enrijecidos, tamanho seu terror; mas quando viram a fera alvejada de fato morta, e afundando n’água, e que eu gesticulei para que avançassem, eles criaram coragem e vieram, e começaram a buscar o corpo da criatura. Eu fui o primeiro a apalpá-la graças à mancha de sangue; com o auxílio de uma corda, que eu amarrei em sua circunferência, fiz os negros puxarem. Vimos que se tratava de um leopardo bastante curioso, todo pintalgado, muito bonito de se olhar; os negros ergueram as mãos de pura admiração, pensando que eu, pelas minhas próprias forças, havia matado o monstro.

As outras criaturas, espantadas pelo brilho da pólvora e o barulho da arma, nadaram em velocidade na contra-mão, até as montanhas de onde tinham vindo; dessa distância, já não podia distingui-las. Descobri que os negros ansiavam por comer a carne da criatura abatida, então logo aprovei o banquete, procurando lisonjeá-los (…) ainda que sem qualquer faca, com um simples pedaço de madeira afiada eles extraíram facilmente sua pele, mais facilmente, aliás, do que eu poderia com uma boa lâmina. Eles me ofereceram um pouco da carne, mas eu a recusei, instando-os a usufruírem cem por cento do meu presente; fiz apenas sinais para a pele, que me interessava; eles ma deram sem qualquer objeção; trouxeram-me, inclusive, muitas outras de suas provisões, algumas incompreensíveis para mim, que eu julguei conveniente aceitar sem restrição, porém. Depois fiz sinais sobre querer água, e lhes repassei algumas jarras vazias, virando-as de cabeça para baixo, significando que queria que mas enchessem. Eles logo chamaram seus amigos, e vieram duas mulheres, trazendo a bordo um grande recipiente feito de barro cozido ao sol, pelo menos supu-lo; enquanto isso, mandei minhas jarras com Xury, que desceu e encheu todas as três. As mulheres estavam tão peladas quanto os homens.”

26

Ele era um homem caridoso e um justo capitão; ordenou a todos os seus homens que não tocassem em nada meu: depois, alojou tudo como se fosse seu mesmo, e me repassou tudo listado em inventário, exatamente como era, sem se esquecer mesmo dos três potes de barro.”

27

Tivemos uma excepcional viagem para os Brasis¹, e eu cheguei à Bahia de Todos los Santos, ou Baía de Todos os Santos, cerca de 22 dias depois. E agora que havia sido livrado uma vez mais da mais miserável das condições em vida, devia considerar o que fazer a seguir.

Jamais poderei enaltecer o suficiente o generoso tratamento a mim dispensado pelo capitão português: não só deixou que eu desembarcasse sem pagar um tostão pela viagem, como me deu 20 ducados pela pele de leopardo, e 40 pela de leão, que tinha no meu barco, e fez com que todos os meus bens no navio fossem diligentemente devolvidos a mim; tudo que eu lhe quis vender ele fez questão de comprar, garrafas, duas das minhas armas, e até mesmo um pedaço dum torrão de cera de abelha – pedaço porque eu tinha gastado um tanto do torrão para confeccionar velas”

¹ Robinson sempre se referirá ao Brasil como “The Brazils”, daí a necessidade de manter alguma correspondência com a expressividade do original.

28

Não estava há muito tempo nos Brasis quando fui recomendado para a casa de um homem bom e honesto, como eu mesmo, que possuía um ingenio, como eles o chamam por lá (i.e., uma monocultura com uma casa de engenho de cana-de-açúcar, plantation). (…) resolvi me tornar eu também um agricultor entre iguais: determinado a isto, isto é, prosperar rapidamente, como vi que era possível pelos relatos de brusca ascensão social desses empreendedores portugueses, que vinham do nada e se tornavam muito ricos, busquei meios de reaver meu patrimônio que estava retido em Londres, a fim de investir no negócio das plantações. Com esse fito, providenciei uma espécie de carta de naturalização, pré-requisito para se possuir terras brasileiras. E comprei tantas terras incultas quantas meu dinheiro inglês permitira. Tracei um plano para minhas plantações e meu estabelecimento, proporcional a meu capital inicialmente investido.”

29

Esse capital podia ser considerado pequeno, assim como o do meu vizinho, um português de Lisboa de pais ingleses, chamado Wells, sujeito com quem comecei a me entender muito bem. Por dois anos plantamos apenas para nossa subsistência. Mas depois começamos a aumentar a produção, e nossas terras entraram em ordem; no terceiro ano, experimentamos cultivar tabaco, reservando um bom terreno para a cana já na temporada seguinte. Ah, realmente cometi um erro em partir com meu servo Xury!”

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Era, realmente, um empreendimento algo alheio a meu gênio, e diretamente contrário à vida que eu usufruíra nesses últimos tempos, ansiada vida aventureira pela qual eu tinha inclusive abandonado a casa de meu pai, desobedecendo todos os seus bons conselhos. Acho até que por alguma profunda ironia estava chegando àquela condição mediana, ou estrato superior da vida humilde, que meu pai previamente tanto recomendara. Tudo isso do outro lado do mundo, quando eu não teria precisado ter me esforçado tanto nem rodado além-mar.”

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mas uma existência verdadeiramente solitária, numa ilha cheia de desolação, deveria ser minha sina, eu, que vivi a vida civilizada inteira descontente, sempre comparando minha sorte com a dos meus próximos, e que ao me ver tão sozinho e abandonado só gostaria, enfim, de voltar à condição antiga, tão de repente enfeitada de riquezas e idílios que eu era incapaz de enxergar.”

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a primeira coisa que eu fiz foi comprar um escravo negro, mais um criado europeu – i.e., outro além daquele que o capitão me trouxe de Lisboa. No entanto, como a prosperidade mal-administrada tantas vezes nos conduz as nossas maiores adversidades, assim deu-se comigo. Entrei o ano seguinte com grande sucesso no meu negócio: plantei 50 grandes rolos de tabaco em meu terreno, muito mais do que poderia dispor eu mesmo e nas trocas com meus vizinhos; e esses rolos, pesando cada um umas 100 libras (coisa de 40kg), foram muito bem-curados, para aguardar remessa assim que retornasse o navio lisboeta”

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Continuasse eu nesse ritmo, teria ocasião de colher os melhores frutos, bem melhores do que meu pai talvez desejasse para mim como condição benfazeja, tranqüila e retirada, sem que ele tivesse deixado de me inculcar, incansavelmente, vários exemplos dos pequenos prazeres de que a <estação intermediária da vida> está abarrotada”

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Você deve supor que, tendo vivido praticamente 4 anos nos Brasis, e tendo começado a prosperar acima das expectativas na minha plantation, eu tinha não só aprendido o idioma, mas até amealhado reputação e amizades respeitáveis entre os demais plantadores, bem como entre os mercantes de São Salvador, que era o nome do nosso porto; e que, nas minhas conversações com eles, eu teria uma hora ou outra tocado no assunto do meu par de viagens pelas costas da Guiné: a maneira como se traficava com os negros de lá, e como era fácil auferir muitas riquezas através do escambo de quinquilharias – como colares de contas, brinquedos, facas, tesouras, machados, pedaços de vidro e similares – obtendo não só ouro em pó, grãos da Guiné¹, dentes de elefante, etc., como outros negros, para trabalhar nos Brasis, em grande quantidade.

Eles escutavam os meus discursos sobre esses temas com muita atenção, principalmente no tocante à compra e venda de negros, que ainda não era um tráfico dos mais comuns daqueles tempos, tanto que seu monopólio era exercido por assientos, isto é, corporações pessoalmente designadas pelos reis de Espanha e Portugal, e quase todos os escravos obtidos ficavam como que estocados pelo poder público; poucos negros vinham para cá para serem comprados, e isso a um valor exorbitante.”

¹ Cardamomos ou ainda grãos-do-paraíso.

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numa palavra, a questão era se eu aceitaria ir como comissário no navio, para gerenciar o comércio no litoral da Guiné; como benesse, me ofereceram uma parte igual na divisão dos negros, sem a necessidade de desembolsar qualquer soma.

Seria uma boa proposta, devo dizer, caso fosse destinada a qualquer homem sem latifúndios nos Brasis, ou pelo menos a quem cuidava de terras pequenas e sem perspectivas de melhora a curto prazo; para mim, já estabelecido, que só tinha mesmo de repetir o que tinha feito até ali por mais 3 ou 4 anos para ficar rico; e considerando que minha remessa de tabacos me traria ainda mais de 3 a 4 mil libras esterlinas, na pior das hipóteses – para mim, pensar em tal aventura seria a coisa mais precipitada que alguém na minha posição pudesse conceber.

Mas eu, que nasci para ser o meu próprio destruidor, não pude resistir à oferta; não mais do que quando cedi aos meus primeiros impulsos nômades, fugindo das asas de meu pai. Numa palavra, encorajei os homens, disse que aceitava a proposta de coração, desde que vigiassem minhas possessões nesse ínterim, agindo conforme algumas ordenações genéricas de minha parte. Estabelecemos tudo em um contrato”

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Subi a bordo numa data maligna, Primeiro de Setembro de 1659, sendo este o aniversário de 8 anos da minha saída da casa dos meus pais em Hull, bancando o rebelde, em relação à autoridade parental, e o tolo, em relação a meus próprios interesses.

Nosso navio tinha cerca de 120 toneladas de carga, levava 6 armas e 14 homens, além do capitão, seu contínuo e eu mesmo. Não havia, dentre essa carga, grande volume de coisas pessoais; todo o espaço fôra aproveitado para o escambo com os negros, incluindo artesanatos, vidros, conchas e coisas do gênero, mimos que os agradam em especial, como espelhos, facas, tesouras, machadinhas, etc.”

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Desfrutávamos de tempo favorável, apesar de muito quente, enquanto navegávamos nossa própria costa, até atingirmos a altura do Cabo Santo Agostinho; daí, perdendo contato com a faixa litorânea, seguimos rente como se fôssemos desembarcar na ilha de Fernando de Noronha, mantendo o curso norte-nordeste, com a diferença de que contornamos a ilha pelo oeste. Nesse trajeto atravessamos a linha do Equador em 12 dias, e, conforme o último registro de navegação, nos encontrávamos a 7°22’ de latitude norte, quando um violento tornado, ou furacão, nos desorientou totalmente. Os ventos começaram de sudeste, sentido noroeste, apresentando leves e contínuas mudanças de direção, até se estabelecer sentido nordeste; neste ponto, explodiram em terríveis rajadas, que nos impediram por 12 dias inteiros de mudar de direção; só podíamos seguir viagem empurrados para o que o destino e a fúria da natureza nos reservasse; nem preciso dizer que durante cada momento desses 12 dias eu esperava ser engolido pelo mar; de fato, ninguém no navio estava certo de sair-se com vida da empreitada.”

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o capitão descobriu estarmos próximos à costa da Guiana, isto é, os confins setentrionais do Brasil¹, além do rio Amazonas, em direção ao rio Orinoco, comumente chamado o Grande Rio”

¹ Aqui o autor Defoe realmente escreve Brazil, no singular. Seria the Brazils então mero maneirismo?

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concluímos não haver país habitado para emergências antes de chegarmos ao círculo das ilhas do Caribe, então resolvemos rumar a Barbados, o que levaria uns 15 dias e não seria complicado, em casos normais, contanto que evitássemos as perigosas correntes da Baía ou Golfo do México.”

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Com esse intuito, alteramos nosso curso, virando oeste-noroeste, a fim de alcançar algumas das ilhas britânicas, que concebíamos como de águas mais calmas. Contudo, nossa viagem era determinada por outros desígnios. Na latitude de 12°18’, uma segunda tempestade nos atingiu, deslocando-nos para oeste com a mesma impetuosidade da primeira. Isso nos subtraiu de tal forma de qualquer possibilidade de contato humano que, se fosse para nos salvarmos das tormentas marítimas, estaríamos sob perigo muito maior de ser devorados por selvagens do que de voltar à civilização.”

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Não é fácil para ninguém que nunca esteve em situação parecida descrever ou conceber sequer a consternação da tripulação. Não sabíamos mais onde estávamos, ou para onde a tempestade nos dirigia – se para alguma ilha ou o continente, se para algum lugar ermo ou habitado.”

42

embora a tempestade tenha cedido consideravelmente, o mar continuava temerosamente alto comparado à linha da praia, e seria corretamente chamado nesse momento den wild zee, como dizem os holandeses durante as tempestades.”

43

apressávamos nossa destruição com nossas próprias mãos, puxando o navio conforme podíamos para terra firme.”

44

à medida que chegávamos mais perto da costa, o panorama parecia mais e mais assustador, pior do que o mar.”

45

A onda que veio me afundou bem uns 5 ou 10 metros”

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e duas vezes mais fui erguido pelas ondas e levado em direção à praia, como antes, uma praia bem plana.”

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Finalmente estava em terra e a salvo da maré, então comecei a olhar para cima e agradecer a Deus pela minha vida, quando há alguns minutos eu não podia esperar mais por nenhuma salvação.”

48

Até alegrias repentinas, como as desgraças, confundem, a princípio.”

49

quanto aos homens, jamais os vi de novo, nem sinal deles, a não ser três de seus chapéus, uma boina, e dois sapatos que não eram do mesmo par.”

50

Eu não tinha nada comigo a não ser uma faca, um cachimbo e um pouco de tabaco numa caixa. Essas eram todas as minhas provisões; e isso me transportou a tamanhas angústias que por alguns instantes corri pela praia feito um louco.”

51

Descobri que todos os mantimentos do navio estavam secos e intocados pela água, e passando pela pior das fomes, fui ao armazém de pão e enchi meus bolsos de biscoito (…) também achei algum rum na cabine-mor do qual tomei uns bons goles, coisa de que estava precisado, haja vista a determinação que eu tinha de possuir para enfrentar o que me aguardava à frente.”

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Ainda ignorava onde eu pudesse estar; se num continente ou numa ilha; se em terras habitadas ou não; se em meio a feras selvagens ou não.”

53

Sim, eu me encontrava numa ilha envolta pelo mar de todos os lados: nenhuma terra no horizonte a não ser algumas rochas, a considerável distância; e outras duas ilhas, menores que esta, uns 15km a oeste.

Descobri, ainda, que a ilha era um deserto, e, como tive boas razões para acreditar, inabitado por seres humanos; nem de animais selvagens eu tive indícios. Se bem que vi muitas aves, mas não conhecia suas espécies; e quando as matava não sabia dizer se eram comestíveis. Enquanto voltava pelo caminho que tracei a fim de circundar a ilha, atirei num pássaro grande que vi pousado na copa de uma árvore, nos limiares de uma espessa floresta. Acho que foi a primeira arma disparada por ali desde a criação do mundo. Logo que atirei, de todas as imediações da vegetação irromperam inumeráveis pássaros, dos mais díspares gêneros, criando uma orquestra de grasnados e lamentos confusos. Eram muitos os cantos e as notas, cada um diferente do vizinho, mas nenhum deles eu tinha antes ouvido. Quanto ao animal que matei, tomei-o por uma espécie de gavião, pela cor e pelo bico, mas ele tinha garras muito pequenas para um. Infelizmente sua carne não passava de carniça.”

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Comecei a pensar na possibilidade de pegar ainda outras coisas que estavam estocadas no navio, particularmente o cordame e as velas; então me resolvi a empreender uma nova excursão até os destroços, se é que seria possível.”

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Alarguei um sorriso sem testemunhas à vista daquele dinheiro: <Ô, merda!>, bradei alto, <pra que você me serve agora? Não vales nada – não, nem o esforço de me curvar e apanhar-te do chão! Uma dessas facas já vale todas essas moedas amontoadas; não tenho utilidade para vós – ficai aí, e ide para as profundas como criatura cuja vida não vale a pena ser salva.> No entanto, após reconsiderações, eu levei o dinheiro comigo; e embrulhando tudo numa lona, comecei a pensar em elaborar mais uma jangada; porém, no meio desses preparativos, assisti o céu enegrecendo, e senti o vento começar a soprar; num quarto de hora estourou o vendaval.”

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A primeira vez que atirei em meio a essas criaturas, matei uma cabra, que levava uma cabritinha consigo, na lactação, o que me muito me flagelou; quando a mãe tombou, a criança permaneceu estática a seu lado, até eu vir e pegá-la; assim que decidi carregar o cadáver da mais velha nos ombros, a cabritinha me seguiu até a boca de meu esconderijo; não podia deixá-la a esmo lá fora, então a trouxe para dentro, na esperança de poder domesticá-la; no entanto, a cabrita nunca comeu; fui forçado a matá-la e comê-la. Essas duas carnes me sustentaram por um bom período, porque eu não estava comendo muito, procurando conservar meus mantimentos, especialmente o pão, o máximo possível.”

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Ora, você se encontra numa condição desolada, é a pura verdade; mas, faça o favor de lembrar: onde estão, agora, todos os outros companheiros? Não eram onze no barco? Onde estão os 10? Por que eles não foram salvos, e você, apenas, <se perdeu> dos demais? Por que só você escapou? Quem teve o melhor desfecho?”

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<Particularmente,> dizia eu, alto (embora para mim mesmo), <o que eu poderia ter feito sem uma arma, sem munição, sem nenhuma ferramenta para construir qualquer coisa, ou com o que trabalhar, sem roupas, forragem para um leito, uma tenda, ou qualquer tipo de lona?>”

59

Era, segundo os meus cálculos, 30 de setembro, quando, da forma como eu relatei mais acima, pisei pela primeira vez nessa ilha horrenda (…) eu considerava minha latitude presente como 9°22” norte.

Depois dos primeiros 10 ou 12 dias, me veio à tona a probabilidade de que eu perderia a noção do tempo e dos dias por pura falta de livros, papéis, caneta e tinta, enfim, e acabaria deixando de observar até mesmo os dias do Sabá; para preveni-lo, comecei a cortar com uma faca numa grande trave, em letras maiúsculas – e, transformando-a numa cruz gigante, cravei-a no lugar onde primeiro pisei –, <APORTEI NESTA ILHA EM 30 DE SETEMBRO DE 1659.>

Na lateral dessa trave retangular eu cortava a cada dia uma lasca vertical, e cada sétima lasca era um risco horizontal que cortava as 6 lascas anteriores, demarcando a conclusão de mais uma semana – todo primeiro dia do mês eu também riscava todas as lascas do mês anterior; e assim eu fui mantendo meu rude calendário, para reconhecer as semanas, meses e anos.

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Encontrei três bíblias muito bem-conservadas dentre meus suprimentos com coisas da velha Inglaterra, e que tinha sem muito porquê embrulhado junto com outras coisas mais práticas para minha longa viagem; havia ainda alguns livros portugueses; dentre eles, dois ou três livros de reza católicos¹; e muitos mais, que eu fiz questão de estocar diligentemente em minha caverna. Não devo esquecer de mencionar que tínhamos no navio um cachorro e dois gatos, sobre cuja eminente história devo tecer observações em tempo apropriado; isso porque levei ambos os gatos comigo; quanto ao cão, ele pulou do navio por si mesmo, e nadou até a praia, me achando, no dia em que recuperei minhas primeiras provisões do navio, e foi meu fiel escudeiro por anos a fio; eu não tinha necessidade de nada que ele me trouxesse, nem de sua diuturna companhia; eu só queria que ele um dia conversasse comigo, mas esse dia jamais chegaria. Encontrei penas, tinta e papel em meio aos destroços aproveitáveis do navio, e os utilizei ao máximo; enquanto sobrava alguma tinta, mantive registros muito exatos, mas depois não tive mais como, porque com a matéria-prima da ilha me era impossível produzir mais tinta.

E isso me fez ver que eu desejava muitas coisas não obstante as tantas coisas muito preciosas que por milagre pude reunir comigo nesta desolação; dessas coisas, a tinta era uma das que mais me faziam falta; como também uma pá, uma picareta, uma enxada, qualquer coisa que me ajudasse a cavar a terra; agulhas, alfinetes, linha; quanto ao linho, logo senti essa carestia também.”

¹ Popish no original

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Que necessidade tinha eu de lamentar o tédio das minhas tarefas mais demoradas, uma vez que eu tinha todo o tempo do mundo para realizá-las com toda a calma?”

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Eu fiz questão de deixar um relato da minha vida de náufrago sobrevivente por escrito, não tanto para legar minha experiência solitária à posteridade – principalmente diante da perspectiva de não ter herdeiro algum –, mas como que para me libertar dos pensamentos repetidos, que eu ruminava e me afligiam”

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eu contrapus assaz imparcialmente, como bom e simultâneo devedor e credor, os confortos de que eu usufruía e as misérias a que estava sujeito, dessa forma — [segue uma tabela de duas colunas, intituladas “Mal” e “Bem”, numa infinidade de linhas, das quais eu transcrevo apenas duas]:

Mal.

Bem.

Não tenho roupas com que me agasalhar.

Se bem que eu me encontro no clima quente, onde, se tivesse roupas, mal poderia vesti-las.

Não tenho uma alma penada com quem conversar ou espairecer.

Se bem que Deus enviou o navio, maravilhosamente, para perto o bastante da costa, para que eu pudesse aproveitar o maior número de suprimentos necessários para suster minha nova vida, suprir algumas de minhas carências mais profundas e me manter forte e revigorado tanto quanto meu corpo me permita, pelo tempo que for preciso.

[Um verdadeiro Homo oeconomicus!]

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Comecei a me dedicar, então, a alguns expedientes que julguei necessários neste momento, conforme a sensação de luxo na minha ilha ia aumentando, satisfeitas as necessidades mais prementes. Eu queria muito uma cadeira e uma mesa; sem elas não podia desfrutar de alguns poucos dos confortos conhecidos que ainda me estariam acessíveis; não poderia escrever nem comer, isto é, como um ser civilizado, e com o prazer que se demanda de um homem. Desta feita, fui ao trabalho.”

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todo homem pode ser, com a ajuda do tempo, mestre de qualquer arte mecânica.”

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Foi nessa época que comecei de fato a manter um diário completo dos meus afazeres; antes disso, nos primeiros instantes, estive sempre em correrias e aflições, então a fadiga física, ademais da minha confusão mental, não me permitiam nenhuma ocupação saudável e regular que fosse considerada supérflua. Na verdade teriam sido edições deploráveis do meu pequeno jornal da ilha, pois acabaria descrevendo meus tormentos de consciência, o que não teria fim produtivo algum. Um exemplo hipotético: <dia 30. – Após alcançar a areia, me salvando de um afogamento, ao invés de estar grato a Deus pela minha salvação, após, primeiro, vomitar, de tanta água salgada que havia no meu estômago, recuperando-me o mais que podia, corri pela beira-mar crispando minhas mãos e batendo na minha cabeça e no meu rosto…>”

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30 de Setembro, 1659. – Eu, o mísero e desgraçado Robinson Crusoe, tendo soçobrado em meio a uma terrível tempestade, acabei atingindo essa ilha desafortunada e deprimente, que eu batizei de <A Ilha do Desespero>”

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1º de Novembro. – Fixei minha tenda debaixo duma rocha, e passei minha primeira noite ali; fi-la o mais larga possível, com estacas que sustentassem uma maca.”

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4 de Novembro. – Essa manhã comecei a organizar meus turnos de trabalho, minha ronda diária armado, minha sesta, o período para recreação – p.ex., toda manhã eu caminhava com minha espingarda por 2 ou 3 horas, se não chovesse; em seguida trabalhava em algo até as onze; comia o que tinha à disposição; das 12 às 2 necessitava cochilar, o clima sendo tão quente; no entardecer eu voltava ao trabalho manual. Meu período de labuta nesses dois dias foi inteiramente gasto construindo minha mesa, já que eu ainda era um marceneiro bem desajeitado, embora o tempo e a necessidade me fizessem, dentro em pouco, um mecânico nato e completo, pelo menos tanto quanto a natureza poderia fazer de qualquer um.

5 de Novembro. – Esse dia eu passeei com meu rifle e meu cão, tendo matado um gato selvagem; sua pele era muito macia, mas a carne era inútil; como se há de observar, eu extraía e preservava as peles de todas as criaturas que eu matava.”

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7 de Novembro. – O tempo começou a melhorar. Dias 7, 8, 9, 10, e parte ainda do dia 12 (porque o 11 caiu num domingo), eu passei fazendo uma cadeira, e com um supremo esforço consegui dar-lhe um formato tolerável

(…)

Nota. – Logo eu negligenciaria meu repouso aos domingos; omitindo sua marcação na trave de que falei, acabei esquecendo que dia do mês correspondia a que dia da semana.”

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18 de Novembro. – No dia seguinte, explorando o bosque, achei uma árvore daquele tipo de madeira, ou bem parecido, que nos Brasis chamam de árvore-de-ferro, tamanha sua resistência.”

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10 de Dezembro. – Já dava minha caverna ou catacumba por terminada; quando de repente (parece que escavei-a muito ampla) uma grande quantidade de terra desmoronou de um dos lados; foi o bastante para me atemorizar, e com razão, porque se eu estivesse ali debaixo naquele instante jamais teria necessitado de um coveiro.”

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27 de Dezembro. – Matei um cabrito, e incapacitei outro, então o capturei e o trouxe para casa amarrado numa corda; imobilizei sua perna quebrada e a amarrei numa tala.

Nota bene – Fui tão bom veterinário que o cabrito sobreviveu, e a perna cresceu vigorosa como nova; porém, involuntariamente, por ter sido o enfermeiro dessa cabra por tanto tempo, ela ficou domesticada, comendo sempre da relva perto da minha porta, de modo que ela não quis ir embora depois disso. Foi a primeira vez que considerei criar um rebanho, o que manteria meu sustento uma vez que minha pólvora tivesse se esgotado.”

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1º de Janeiro. – (…) Explorando os vales que estão além da parte central da ilha até mais tarde, deparei-me com múltiplas cabras, muito embora um tanto tímidas e arredias; tive a idéia de trazer meu cachorro para ver o que ele conseguiria caçar.

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2 de Janeiro. – No dia seguinte, como planejado, voltei com meu cão, e mandei-o para cima das cabras, mas errei meus cálculos: todas se juntaram para encarar meu mascote, e ele se deu conta do perigo, evitando se aproximar.”

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Encontrei uma espécie de pombo selvagem, que construía seu ninho diferente dos pombos-torcazes¹, que nidificam no topo das árvores, mas como pombos domésticos², que fazem seu lar no topo de penhascos, geralmente em fendas rochosas³. Apanhando alguns, me dediquei a domesticá-los; contudo, quando cresceram logo revoaram, o que, julguei, devia ter sido por falta de comida, porque raramente tinha com o que alimentá-los; ainda assim, continuei encontrando seus ninhos, e pegando os filhotes desses primeiros pombos, que tinham uma carne deliciosa.”

¹ Espécie européia

² A espécie que nos é familiar

³ Daí a predileção dos pombos urbanos por se aninharem no topo de edifícios, em sacadas e parapeitos, seu ponto preferencial instintivamente.

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Àquela altura eu clamava por velas; assim que escurecia, mais ou menos às 7, era obrigado a ir deitar. Lembrei-me então do torrão de cera com que produzi velas em minhas aventuras africanas; só que eu não tinha nenhuma cera!”

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após testemunhar vários pés-de-cevada em pleno crescimento, nesse clima absolutamente impróprio para grãos germinarem, sem saber a causa do milagre, quedei-me estupefato, e comecei a acreditar que Deus interveio no caso; e que sua ação benévola foi tão dirigida a minha sobrevivência neste lugar desolado quanto isolado do mundo eu me encontrava.” “Mas devo confessar que minha gratidão devota à Providência divina começou a definhar, igualmente, assim que me dei conta de que isso não passava de um fato lógico, quando me lembrei de que, certa vez, alimentei galinhas naquele mesmo sítio com sementes que havia trazido da embarcação”

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conservei cuidadosamente as folhas dessas espigas, que pode-se ter certeza de que estavam na sua estação (mais ou menos fim de junho); estocando cada grão, me decidi a replantá-los, esperando tê-los em quantidade o bastante para me fornecer pão. Mas não foi antes do quarto ano que eu pude me permitir usufruir dessa colheita, e ainda assim modicamente, como farei questão de detalhar mais à frente; perdi tudo na primeira temporada por ignorar a época adequada da semeadura; eu fiz o plantio logo antes da estação seca, o que matou minha safra desde sua pré-concepção, salvo raríssimas plantas”

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fui ao meu pequeno armazém e traguei um pouco de rum; e que, aliás, desde que cheguei à ilha procurei fazer bem frugalmente, sabendo que um dia minha escassa provisão de destilados poderia acabar.”

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4 de Maio. – Depois de uma jornada inteira de pescaria, não conseguindo nenhum peixe que eu ousasse comer, já na última tentativa de obter um almoço, acabei fisgando um polpudo e tenro golfinho. Eu utilizava uma linha de cânhamo, mas não dispunha de anzol; o que não me impedia de às vezes voltar para casa de mãos cheias. Antes de proceder à refeição eu deixava os peixes ao relento, secando ao sol.”

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16 de Junho. – Na descida para a praia encontrei uma tartaruga, ou cágado, grande. Foi a primeira vez que vi esse animal na ilha; depois eu descobriria que foi por puro azar, porque me aventurando pelo outro lado da ilha mais tarde chegaria à conclusão de que era fácil obtê-las às centenas.

17 de Junho. – Passei o dia cozinhando a tartaruga. Encontrei dentro dela o equivalente a umas 5 dúzias de ovos; a carne de tartaruga era a refeição mais deliciosa que já havia provado na vida, talvez porque passei tantos meses à custa tão-só de carne de bode e aves.”

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21 de Junho. – Estou muito doente; e muito apreensivo com minha condição – sozinho dessa forma. Rezei pela primeira vez desde a tempestade em Hull, mas essa reza deve ter parecido mais um delírio, tamanha minha desorientação mental.

22 de Junho. – Um pouco melhor; mas com muito medo do que pode me acontecer.

23 de Junho. – Piorei novamente; febre e calafrios, e também uma dor-de-cabeça violenta.

24 de Junho. – Muito melhor.

25 de Junho. – Febre muito violenta; a crise durou umas 7h; sentindo frio e calor alternadamente, cheio de suor frio.

26 de Junho. – Melhor; sem mais carne, saí armado, mas me achei muito fraco no meio do caminho. Mesmo assim, matei uma cabra, trazendo-a para a caverna com a maior dificuldade. Comi um pouco dela assada; preferiria tê-la cozido para comer como sopa, mas eu não tinha nenhuma panela.

27 de Junho. – A febre regressou tão violenta que me contorci na cama o dia inteiro, sem comer nem beber. Estava prestes a morrer de sede; muito debilitado, mal poderia me suster de pé, muito menos sair e procurar água. Rezei de novo, sentindo tonteira e confusão quase sempre; e quando ela me deixava um pouco, minha lucidez era a do ignorante, que não tem idéia do que pedir; por fim, gritei, <Senhor, olhe por mim! Tenha piedade de mim! Misericórdia, Senhor!> Acredito que não saí desse transe por 2 ou 3h; até que, baixando a febre, adormeci, para acordar só à noite. Despertei muito mais disposto, mas ainda fraco e sedento. Sem água na caverna, não me atrevi a sair do lugar e esperei o sono vir novamente. Nesse segundo sono do dia tive esse horrível pesadelo: estava sentado no chão, do lado de fora do meu abrigo, no mesmo lugar onde fiquei logo que começou uma forte chuva, após aquele desmoronamento parcial do meu teto; e dali eu observei um homem descendo de uma grande nuvem negra, circundado pelas brilhantes chamas do fogo, iluminando tudo abaixo de si. Aliás, minto: ele era a própria luz, ele emanava luz, radioso, a ponto de me doer a vista fitá-lo; não bastasse, sua fisionomia era severa, indescritivelmente severa. (…) Assim que ele pisou em terra (ele vinha flutuando em direção ao solo lentamente), aproximou-se de mim sem hesitar, de posse de um longo bastão ou qualquer arma do tipo, com a visível intenção de me matar (…) <Depois de tudo isso, não estás arrependido, então vais morrer!> (…) Ninguém que ler esse relato deve esperar que eu seja capaz de descrever as angústias de minha alma durante essa terrível visão. Isto é, por mais que tivesse sido apenas um sonho, era sempre com a própria realidade que eu sonhava. Quando eu despertei não parecia minimamente liberto daquela forte impressão; acho mesmo que demorei vários segundos para me dar conta de que tinha sido tudo imaginário.

Ai de mim! Até ali, não tinha nenhum conceito da divindade. O pouco que me foi transmitido pela educação paterna foi simplesmente desperdiçado graças a uma longa série de oito anos de ininterruptas perversidades marítimas”

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Todos os acontecimentos anteriores da minha história fazem mais críveis as desgraças que ainda preciso relatar. Porque o que virá na seqüência é decerto mais miserável, e tinha de sê-lo, para me fazer perceber que havia a mão de Deus nisso, e que tudo isso era a punição devida pelo meu pecado passado – meu comportamento rebelde para com meu pai – ou meus pecados presentes, abundantes – ou a justa recompensa pela trajetória da minha existência maldita como um todo.”

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Quando fui salvo e resgatado em alto-mar pelo capitão português, bem-empregado, e tratado de forma tão honorável e justa, para não dizer caritativa, me parece que não fui grato internamente por isso. Depois, de novo, quando naufraguei, me arruinei, e quase me afoguei antes de chegar a esta ilha, eu ainda me encontrava tão longe quanto antes de qualquer remorso (…) Eu apenas me repetia com freqüência que eu era um cachorro desgraçado, nascido para a miséria.”

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Essa é a condição compartilhada pelos marinheiros, a da euforia subsecutiva à sobrevivência ao naufrágio, a do esquecimento de tudo, como se nunca tivesse acontecido, após a primeira tigela de ponche”

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Mesmo o terremoto, talvez a mais terrível das tragédias naturais, a que mais faz pressentirmos o Poder invisível que dirige todas as circunstâncias, não basta para inculcar na gente essa reverência e fixar em nossa mente as fortes impressões do incidente.”

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quando comecei a estar doente, e uma visão ociosa e ponderada das misérias da morte pôde se formar em minha mente; quando minha alma começou a afundar sob o peso do meu forte destempero, e meu corpo estava já exausto pela violência da febre; a consciência, minha consciência dormente por tanto tempo, decidiu acordar, e comecei a reprovar a mim mesmo e ao meu passado, em que eu, com bastante evidência, com uma insolência sobrenatural, provoquei a justiça divina, consecutivamente; os primeiros golpes foram terríveis e imprevisíveis, mas dada a insistência com que eu me obstinava na minha cegueira, Deus, que não falha, promoveu mais uma vez seu julgamento.”

89

Se eu me perguntar: por que não fui aniquilado num desses incidentes? Por que não se afogou você, seu idiota, em Yarmouth Roads; nem foi assassinado na luta de quando o navio foi tomado por piratas de Salé; devorado pelas bestas selvagens na costa da África; ou por que não se afogou aqui, quando toda a tripulação pereceu menos eu?”

90

me ocorreu ao pensamento que os brasileiros não atribuem a seu clima, mas a seu tabaco todos os destemperos, e eu tinha um rolo de tabaco num dos baús, quase seco, e alguns que estavam verdes, ainda úmidos.

Eu, pela interferência de Deus, sem dúvida, achei as coisas certas; é, nesse baú eu encontrei a solução para dois problemas: o da alma e o do corpo. Abri-o e encontrei o que eu queria, o tabaco; e vendo os poucos livros que tinha no navio, ali ao lado, e salvos, eu peguei uma das Bíblias de que já tinha comentado. Sem a calma e a disposição necessárias, não havia sequer aberto esse livro até aquele mesmo dia. Pois então, eu deixei o livro e o tabaco para mim sobre a mesa. Em meu despropósito, não saberia como usar aquele tabaco.”

91

Comecei a repetir, como as crianças de Israel quando lhes foi prometida carne que comer, <Pode Deus colocar uma mesa no deserto?> então eu comecei a dizer, <Pode Deus Ele mesmo me libertar deste lugar?>”

92

decerto perdi um dia no meu cômputo, e nunca soube quando.”

93

4 de Julho. – De manhã apanhei a Bíblia; e começando pelo Novo Testamento, empreendi uma leitura a sério, e me impus a obrigação de ler por um bocado todas as manhãs e também todas as noites; procurando não considerar o número de capítulos, mas com o fito de ir até onde meus pensamentos me levassem. Não muito tempo passou nesse trabalho até que eu achei meu coração muito mais profunda e sinceramente afetado pelo meu passado reprovável.”

94

Cheguei a estas palavras: <Ele é enaltecido um Príncipe e um Salvador, concede o arrependimento e o perdão.>¹ Deixei cair a Bíblia; e com meu coração e minhas mãos erguidas aos céus, numa espécie de transe de contentamento, gritei com toda a força, <Jesus, tu filho de Davi!…> Essa foi a primeira vez que pude dizer, no sentido verdadeiro das palavras, que rezei em toda a minha vida; agora eu rezava com a consciência do meu estado”

¹ Atos 5:31, com omissões

95

é até difícil imaginar quão afundado eu estava, e a que debilidade eu estava reduzido.”

96

Tive freqüentes convulsões em meus nervos e em meus membros por algum tempo. Aprendi com isso algo em particular, que sair na estação da chuva era a coisa mais perniciosa para a minha saúde que podia haver”

97

Foi em 15 de Julho que iniciei uma investigação mais pormenorizada da ilha.”

98

Encontrei muitos pés-de-cana, silvestres, imperfeitos para o cultivo.”

99

eu observei tão escassamente enquanto estava nos Brasis que pouco sabia dessas plantas no campo; pouco, ao menos, para quem pretendia tirar algum proveito em meio à calamidade.”

100

As vinhas se espalharam por sobre as árvores, e os cachos de uva estavam agora em seu acme, maduros e suculentos. Essa foi uma descoberta e tanto, que me deixou extremamente contente; mas fui alertado, pela minha experiência, a desfrutar com moderação deles; considerando que quando estava no litoral da Barbária¹, comer uvas matou vários dos nossos britânicos, escravos então, ocasionando-lhes febres e constipações. Mas encontrei uma bela utilidade para essas uvas; antes de consumi-las, deveria curá-las ou secá-las ao sol, e conservá-las como uvas secas ou passas são conservadas, pelo que julguei que ficariam, e de fato ficaram, apetitosas e saudáveis para a ingestão, justamente quando estivéssemos fora da estação das uvas.

Passei a noite ali, sem voltar a minha habitação; foi esta a primeira vez, desde que desembarquei na ilha, que pernoitei fora.”

¹ Norte da África

101

Encontrei cacaueiros em abundância, além de limão, laranja e citronelas; nenhum pé de gêneros com que eu estivesse habituado. Podia-se ver que as árvores davam poucos frutos. Os limões verdes que tive a chance de experimentar não só eram uma delícia como muito nutritivos; misturei seu suco com água, o que fez da substância ainda mais aprazível, muito refrescante. Eu já tinha provisões o bastante para regressar à caverna; e eu estava resolvido a manter também um estoque de uvas, citronelas, limões… Assim eu chegaria preparado à estação das chuvas, da qual eu sabia estar na véspera.”

102

Fiquei surpreso ao me deparar com minha pilha de uvas, tão suculentas quando as havia extraído, desfigurada, com frutos espalhados pelo chão de forma irregular, muitos deles já devorados ou esbagaçados. Minha primeira conclusão foi: a ilha possui criaturas selvagens, as quais eu ignorava”

103

Enquanto regressava à moradia principal após essa jornada, contemplava o vale, frutífero, o ar prazenteiro do panorama, as correntes de água doce mais à mão, os bosques circundantes, cheios de víveres, e que facilitavam o abrigo às tempestades: em suma, me dei conta, de súbito, que o lugar em que resolvera fixar minha primeira morada foi simplesmente o pior daquele país.”

104

quando pensei melhor sobre o assunto, achei que por outro lado eu estava bem mais perto do litoral naquela habitação mais antiga, e esse tipo de vantagem não podia ser desprezado”

105

e embora em reconsiderações tenha me resolvido a ficar no mesmo lugar, construí-me uma espécie de caramanchão, circundando-o a certa distância por uma cerca considerável de vegetação, de duas camadas, tão alta quanto eu mesmo conseguiria atravessar, bem compacta e espessa; e nele eu poderia ficar seguro, por até duas ou três noites com suprimentos, sem sair do lugar”

106

deste dia em diante – 14 de Agosto –, choveu quase que todo dia até meados de Outubro; e às vezes tão violentamente que não podia me aventurar fora da caverna dias a fio.

Durante a estação, surpreendi-me com o crescimento de minha família, até porque logo no começo das chuvas perdi um membro, uma das minhas duas gatas domésticas trazidas no navio (ela fugira ou morrera, e seu cadáver não pudera ser encontrado, ou assim eu pensava, até que ela voltaria ao lar no fim de Agosto com três filhotes). Isso me pareceu sobremaneira estranho já que a única espécie de gatos que eu pude encontrar vivendo na ilha era selvagem, incluindo aquele exemplar que abati com minha arma no último novembro; e para mim seria impossível a reprodução entre esses gatos selvagens e minhas felinas. Os gatos (ou qualquer coisa que fossem) da ilha eram bem diferentes do gênero europeu com que estamos habituados. Quando minha gata apareceu com crias, ter cruzado com algum destes machos nativos parecia a única explicação provável; mas os filhotes não aparentavam ser híbridos ou mestiços; eram gatos europeus por inteiro. Eu estava perplexo: só havia dois gatos-fêmeas de linhagem européia na ilha – como explicar esta propagação da raça? Seja como for, continuando minha história, desses três primeiros gatos eu vim, depois, a ficar tão empesteado de gatos nos meus domínios que tive que matar vários deles, como se fossem vermes ou bestas selvagens; e os que sobraram ainda tive de enxotar para mais longe.”

107

minha comida era assim administrada: comia uma diversidade de cereais no café; como almoço, um pedaço de carne de cabra, ou de tartaruga, grelhada – porque, para minha infelicidade, eu não dispunha de qualquer recipiente para preparar nenhum ensopado; e dois ou três ovos de tartaruga de jantar.”

108

30 de Setembro. – Triste dia do meu primeiro aniversário nesta ilha. Ou pelo menos a contagem dos riscos na trave agora chegava a 365 dias.

(…)

Durante todo esse período não observei o Sabá; no princípio, porque não tinha qualquer senso de religião em minha mente, mas depois porque tinha perdido os meios de distinguir entre os dias da semana, já que confundi os riscos do poste com o passar do tempo, errando na contagem, ou omitindo alguns dias, por puro esquecimento; mas o fato é que eu chegava a meu segundo ano na minha nova casa, aproximadamente. E, decidindo refundar o calendário, estabeleci que a cada sétimo dia desde este dia de aniversário eu comemoraria o Sabá. Pouco tempo depois, a tinta começou a faltar, então eu me contentava agora com registros os mais sucintos; abandonei a forma de memorandos diários e detalhados acerca de meus progressos na ilha.”

109

Metade de abril, maio, junho e julho inteiros e ainda a metade de agosto – estação seca, época do ano em que o sol está para o norte da linha do Equador.

A outra metade de agosto, setembro e a primeira metade de outubro – estação chuvosa, quando o sol mais se esconde.

A segunda metade de outubro, novembro, dezembro, janeiro e a primeira metade de fevereiro – secura, o sol estando mais para o hemisfério sul.”

110

Tentei de várias formas me produzir uma cesta. No entanto, todos os galhos que eu apanhava para a tarefa se provavam tão quebradiços que era tudo em vão. De toda forma, foi uma grande vantagem para mim que quando criança eu passasse um bom tempo ocioso observando um desses cesteiros da vila fazendo seu trabalho; observar aquelas peças de vime era muito prazeroso. Garotos, diferentemente de homens crescidos, são sempre muito oficiosos e maleáveis, oferecendo ajuda no trabalho dos adultos e aprendendo rotinas com extrema facilidade. O método me era conhecido, portanto; o que me faltava eram os materiais. Foi aí que eu pensei que se eu usasse a madeira mais resistente que já usara para fundar meu cercado a coisa com as cestas poderia dar certo. Ela devia se parecer minimamente com a madeira dos salgueiros típicos da Europa que mais se usavam para produzir artesanato. O dia seguinte à idéia, portanto, me dirigi a minha casa de campo, como eu chamava, e cortando alguns dos ramos menores, verifiquei que sua qualidade era ainda melhor do que nas minhas expectativas; na próxima vez que fiz a viagem, pois, vim preparado, com uma machadinha, para extrair uma maior quantidade de matéria-prima, que de fato era abundante nesta porção da ilha.”

111

embora não sejam uma referência estética, meus cestos rudimentares serviram bem ao seu propósito; dali em diante eu sempre estava carregando alguns nas minhas andanças; e quando acabava o vime eu providenciava mais; e fui me especializando e produzindo cestos cada vez maiores e mais resistentes para armazenar todo o meu milho. Era muito mais prático que em sacos.”

112

eu consegui discernir terra – se uma ilha ou continente, impossível dizer; mas era visível um promontório se estendendo do oeste a oeste-sudoeste, por uma grande distância; de acordo com meus cálculos, não poderiam ser menos do que de 80km a 100km.

Eu não poderia dizer que parte do mundo era essa, a não ser que era com certeza uma parte da América, e, conclusão a que cheguei depois das minhas observações, devia se tratar de uma das partes do domínio espanhol, quiçá totalmente habitada por selvagens, onde, se ali eu tivesse desembarcado, estaria em situação muito mais grave que a atual; isso me resignou quanto aos desígnios da Providência, que eu agora cria determinar todas as coisas para o melhor; sim, eu achei a resignação e serenei minha mente, deixando de lado aflitivos desejos de estar lá ao invés de aqui.

Além do mais, depois de alguma ponderação sobre o caso, raciocinei que se essa terra fosse mesmo espanhola, mais cedo ou mais tarde eu veria passar alguma embarcação por estas águas; e, se não, quase com certeza este lugar seriam as costas selvagens entre as colônias espanholas e os Brasis, terra-de-ninguém apinhada dos piores aborígenes; eles são canibais, ou devoradores de homens, e não hesitam em assassinar e comer todos os corpos que caem em suas mãos.

113

vira papagaios em abundância, e gostaria muito de ter levado um para mim, se possível, para adestrá-lo e ensiná-lo a falar. Depois de algum sacrifício, capturei um papagaio tenro, nocauteando-o com um galho; depois de tratá-lo, trouxe-o para a caverna; mas levaria anos até que ele começasse a me repetir com a voz; daí em diante as coisas fluíram, e ele sempre estava a chamar meu nome como um velho parente.”

114

Esse passeio foi muito frutífero. Deparei-me com lebres (ou era o que pareciam ser) e raposas; mas todas de gêneros bem distintos dos conhecidos até então por mim. Nessa ronda eu matei e preparei várias como refeição, mas descobri que não forneciam uma carne que valesse a pena.”

115

Nessas andanças eu nunca percorri mais do que uns 3km em linha reta num só dia; mas eu dava tantas voltas e rodeios tentando descobrir cada metro quadrado da flora que não se podia dizer que eu não me deitasse exausto onde eu escolhesse me assentar para passar a noite.”

116

Por esses lados eu também encontrava aves as mais inauditas, a verdade é que nem todas tão misteriosas assim, pois em minhas prévias aventuras pelo Atlântico já havia conhecido várias espécies exóticas; o melhor de tudo é que a carne de algumas delas era deliciosa; os nomes dessas aves, jamais poderia dizer, salvo pelos pingüins¹.”

¹ Pode parecer que Defoe não sabia nada de zoologia ao lermos este parágrafo, mas realmente existe uma única espécie de pingüim, o Pingüim de Galápagos, que vive em clima tropical e pouco lembra o nosso típico “amiguinho polar” das representações mais corriqueiras.

117

Eu naveguei contornando a costa com rumo leste, imagino que uns 20km, e fincando uma vara na areia como referência, concluí dever voltar pra casa, e que a próxima jornada seria pelo outro lado da ilha a leste da minha habitação, continuando a volta em torno ao litoral, tal que no fim estaria de volta à vara havia plantado na areia, circunavegando assim minha ilha.”

118

Nessa jornada meu cachorro encontrou uma cabrinha, e nela avançou; e eu, correndo para tomar o controle, cheguei a tempo, e a salvei viva do cão. Minha idéia era trazê-la para casa, porque a caça desses animais esquivos é sempre muito difícil por aqui. Meu plano era arranjar duas cabras para que procriassem, e eu tivesse filhotinhos domesticados para mim. Além do mais, a pior das tragédias, acabar a minha munição, seria compensada com uma criação regular desses animais a fim de garantir a minha carne.”

119

Eu sentia visivelmente quão mais feliz essa vida era, com todas as suas circunstâncias miseráveis, do que a vida que levei durante todo o meu passado.”

120

Antigamente, enquanto perambulava, ou caçando ou explorando o país, a angústia da minha alma quanto a minha condição extrema podia explodir a qualquer momento, e meu coração como que morria, considerando as florestas, as montanhas, os desertos em que eu me encontrava, sem que eu passasse de um prisioneiro, enjaulado nessas grades eternas e aferrolhado pelo próprio oceano, numa vastidão inabitada, sem redenção. Em meio à pior confusão mental, na tempestade do espírito, eu só podia retorcer as mãos e chorar feito criança. Às vezes essas crises me afetavam no meio do meu expediente, com a arma na mão, e eu só podia me sentar no meio do caminho e suspirar, olhando ao meu redor por uma ou duas horas inteiras antes de conseguir me mexer; e na verdade isso era pior do que quando a explosão me fazia chorar, porque então eu não descarregava o que me oprimia; a pior desgraça é aquela que não se exaure e não o abandona de uma vez.

121

Eu nunca tinha aberto a Bíblia, ou dado a mínima, para ser sincero, até minha fatídica viagem; mas acho que Deus providenciou cuidadosamente para que um exemplar do Livro se encontrasse no navio, volume dado a mim por um amigo da Inglaterra, que embalou-o como que por acaso junto com outros de meus pertences à ocasião em que solicitei provisões pessoais, sem que eu tivesse sequer cogitado pedir-lhe esse favor. E agora a Bíblia era minha única e última assistência depois do naufrágio. E Deus salvou-a de perecer nas águas!”

122

Empreendi 42 dias numa prateleira para minha caverna; eu aposto que dois serralheiros, com ferramentas e uma serra, é lógico, teriam produzido 6 delas em meia-jornada, com a madeira da mesma árvore.”

123

Eu me encontrava novamente perplexo e impotente: como descascar o milho e fazer refeições com ele? Mais básico ainda: como limpá-lo? Como, uma vez já tendo aprendido a fazer várias comidas, produzir pão? Não, não adiantaria saber como fazer, se eu não tinha material para assá-lo… Essas vontades todas, aliadas à minha necessidade de estocar milho, para as vicissitudes climáticas, me fez deixar a colheita inteira intocada, esperando a próxima estação de semeadura”

124

Agora eu poderia dizer com franqueza que estava trabalhando pelo meu pão. Duvido que a não ser um número muito pequeno de pessoas tenha pensado a sério sobre a multitude de pequenas coisas necessárias no fabrico do pão: o plantio, a colheita, o desfolhamento, a cura, a fermentação,…”

125

Logo eu já estava desejando um moinho para me ajudar a peneirar todos os grãos, fermento e sal, e um forno; mas eu me virei sem todas essas maravilhas; e ainda assim o milho resultante era-me um luxo inestimável.”

126

todo meu tempo de trabalho eu me distraía conversando com meu papagaio, ensinando-o mais e mais vocabulário; ensinei-o rapidamente seu nome, e a repeti-lo bem alto, <Poll>, que foi a primeira palavra que eu escutei pronunciada na ilha por outro alguém que não eu mesmo. Trabalho, aliás, que eu considerava um extra.

Uma tarefa hercúlea pela frente: ponderei longamente sobre a possibilidade de cozer alguns vasos de terra para estocar meus bens, sem saber nada de olaria. Considerando o calor intenso, imaginei que assim que me deparasse com alguma argila propícia, poderia deixar o material ressecar ao sol, tornando-o rígido o suficiente para moldar as formas à vontade”

127

Qual não foi o meu desconsolo quando vi que, depois de ter selecionado uma grande árvore no bosque, tendo-a arduamente derrubado, e com minhas rústicas ferramentas talhado o exterior como o de um casco de navio com boa aerodinâmica, e queimado e cortado na medida as partes internas da madeira tornando-a oca, aplicando o princípio do navio ideal — quando vi que, depois de tudo isso eu devia deixar minha obra-prima abandonada onde estava por falta de meios para lançá-la na água, longe da costa que estava?

Pode-se pensar que eu empreendi esse trabalho como um louco, sem projetar nada; mas eu estava tão concentrado em fazer uma embarcação capaz de enfrentar as águas do oceano profundo que sinceramente esse <pequeno detalhe> ficou ignorado e postergado para o depois: e, com efeito, era mais fácil navegar 50 milhas marítimas do que avançar 50m com aquela estrutura de madeira por sobre terra firme.”

128

Eu derrubei um cedro tal que não sei se Salomão contou com um tão magnânimo para a construção do Templo de Jerusalém; tinha uns bons 1.80m de diâmetro na parte mais baixa próxima ao toco, e 1.50m, na altura de seus quase 7m de longitude (…) eu passei 20 dias só cortando a base desse cavalo de tróia; outros 14 me livrando dos ramos, numa inexprimível labuta de machadadas repetitivas (…) me custou 3 meses mais limpar o interior, lapidando a forma de um barco; tudo isso sem fogo, apenas com marreta e cinzel, graças à teimosia; o resultado foi uma charmosa periagua¹, grande o bastante para levar 26 homens, ou seja, eu e todos os meus mantimentos, com segurança”

¹ Adaptação de piragua (espanhol), termo usado para designar as embarcações construídas por aborígenes americanos feitas de um só tronco de árvore. Não é exatamente o mesmo que uma piroga ou tsé-tsé, por isso mantive no original.

129

Se tivesse conseguido levar esse mamute de madeira para a água, não resta dúvida de que eu empreenderia a viagem mais insana e improvável da história.

Mas, como eu já disse, todos os expedientes que empreguei para tentar levar a embarcação à água falharam; isso muito embora eu não tenha desistido senão depois de muitos suor, tempo e fracassos.”

130

quem há de se ressentir das dores se vê a felicidade logo ali adiante?”

131

Medi a distância de terra que separava o barco do mar e projetei cavar uma doca ou canal, para, levando a montanha a Maomé, trazer a água ao barco. (…) mas demoraria de 10 a 12 anos (…) finalmente, com grande relutância, dei por encerrada aquela tentativa.”

132

Eu tinha o bastante para comer e satisfazer minhas necessidades, então o que era o excedente? Se eu matasse mais carne do que poderia ingerir, o cachorro a comeria, ou o verme; se eu plantasse mais milho do que poderia comer, estragaria; as árvores que eu cortasse e cuja madeira não aproveitasse apodreceriam no solo; para mim, bastava pouca madeira para combustível, e como vivia numa ilha tropical o único fogo que eu usava era para a comida.”

133

O mais descarado cobiçador, a mais descarada ave-de-rapina no mundo, teriam sido curados desse vício se estivessem no meu lugar; eu possuía infinitamente mais do que poderia saber utilizar.”

134

Eu até tinha, como citei en passant lá atrás, dinheiro físico, bem como ouro e prata, e enfim, mais de 16kg em libra esterlina. Para quê?! Deixei tudo encostado no recanto mais imprestável da caverna, porque não havia o mínimo comércio por aqui (…) eu trocaria tudo por uma lata de tinta.”

135

Gastei horas inteiras, aliás, dias inteiros, me representando, nas cores mais vívidas, como agiria caso tivesse chegado à ilha sem poder contar com nada do que retirei do navio. E raciocinava que não poderia chegar a comida alguma que não fosse peixes e tartarugas; o que significa que teria perecido, porque até comer meu primeiro peixe ou localizar a primeira tartaruga vários dias haviam-se passado! E que mesmo que eu tivesse sobrevivido, viveria como o pior dos selvagens; mesmo que matasse cabras e pássaros à mão, não teria como abri-los, destrinchá-los, dividir sua carne, separá-la da pele e das entranhas; seria obrigado a rasgá-la com meus próprios dentes ou garras, feito besta-fera.”

136

<Alguma aflição é como a minha?> É muito fácil ver que outras pessoas recaem em cenários muito mais desastrosos, e como muitos só não recaem por causa da Providência.”

137

Mas ai de mim! Sucumbindo cedo ao nomadismo marinho, a vida mais destituída do temor a Deus, porque ignara dos terrores d’Ele, que estão sempre à mostra!”

138

Minha tinta, como observei, acabou a dada altura. Isto é, quando restava apenas um bocado, diluí-o na água para aumentar o tempo de uso, mas no fim a letra saía tão pálida que o papel mal podia ser lido.”

139

há uma estranha coincidência nos dias em que a Providência decidiu se mostrar para mim (…) Primeiro, observei que no mesmo dia em que rompi com meu pai e amigos e disparei para Hull, com o fito de ser marinheiro, foi também o dia do ano que fui tomado prisioneiro pelos piratas de Salé; e esse foi ainda o mesmo dia do calendário em que escapei do naufrágio do navio em Yarmouth; como se não bastasse, foi o exato dia em que empreendi minha fuga da própria escravidão de Salé, com um pequeno barco; e pasmem, porque, agora estou disposto à revelação – esse dia é aquele em que vim ao mundo, o 30 de Setembro; para não dizer que desde o nascimento só me ocorreram tragédias, foi no 26º aniversário que celebrei o milagre de escapar vivo do último naufrágio, este que me trouxe à ilha; a maldição e a solidão sempre andaram de mãos dadas em minha existência. Mas eu prefiro encarar essa data como um recomeço positivo.

A primeira coisa de que sofri a escassez depois do esgotamento da minha tinta foi o pão – digo, o biscuit de trigo que trouxe do navio; esse eu racionei ao máximo, permitindo-me um por dia apenas por mais de um ano; e não comi nada parecido por mais um ano, até que conseguisse fazer pão do meu milho; lembro-vos do quanto foi extravagante ver milharais crescendo na ilha, devido àquele curioso acidente, então posso me considerar um cara de sorte.”

140

eu não poderia sair pelado por aí – não, mesmo que eu fosse inclinado a essas coisas, coisa que eu não sou –, primeiro devido à infração moral que isso representa, mesmo estando-se sozinho; e, depois, por uma razão puramente prática: não me era possível agüentar a abrasão solar, de modo que estar vestido era menos pior; o contato direto com o poderoso sol causava bolhas na minha pele; qualquer tecido era imperativo. Depois de um tempo de aprendizado, eu já não me prestava a sair da caverna em plena luz do dia sem um boné ou chapéu.”

141

entreguei-me ao trabalho, costurando, ou melhor seria dizer, remendando da pior forma, porque meu serviço com um novo colete¹ para mim era um autêntico vexame”

¹ “Waistcoat” no original. Não devemos esquecer que um gentleman (ou mesmo uma pessoa de classe inferior) da Inglaterra do século XVII não saía de casa com menos de 3 camisas sobrepostas, e podemos também nos assegurar de que esse hábito indumentário não fosse fácil de abandonar, como Robinson diz sobre a parte “imoral” de ficar pelado diante de si mesmo, uma vez que Deus não deixou sequer que Adão e Eva andassem descobertos após o Pecado Original. Por maior que fosse o calor, e por mais que não se necessitasse de tantas peças para se proteger das assaduras ou queimações do sol, não é absurdo imaginar que um inglês médio, jogado numa ilha tropical subitamente, não dispensasse, ainda assim, a elegância na aparência (não importa o quão cafona isso soe hoje). Adicione a isso o fato de que a aristocracia conservadora e anglicana daquela época tinha extrema predileção por casacas e sobrecasacas de tons negros (os primeiros ancestrais da estética dos góticos e metaleiros?).

142

Já mencionei por diversas vezes que sempre preservara as peles das criaturas que matara, i.e., de todas as de 4 patas; algumas, no entanto, foram completamente inutilizadas pelo sol forte, que as endurecia, mas algumas se salvavam e me eram imprescindíveis.”

143

se eu já era um mau carpinteiro, eu era um costureiro ainda pior.”

144

eu gastei uma quantidade incrível de tempo e agonias até terminar um guarda-chuva (…) eu tinha visto esse tipo de artesanato nos Brasis, onde esses objetos são muito usados contra o calor”

145

a maior dificuldade era conseguir fazer o guarda-chuva fechar. Podia fazer tranqüilamente um que ficasse sempre aberto, mas assim ele não seria portátil e fácil de carregar em todos os meus périplos. Porém, ao final meus esforços foram recompensados. Usei algumas das minhas peles, os pêlos para cima, de forma que o objeto aparava completamente a água da chuva, como um belo toldo, além de me privar do sol durante tempo aberto. Pela primeira vez pude andar pela ilha despreocupado nos momentos de intensidade solar. De fato, eu me sentia melhor nessas caminhadas, protegido assim, que nos tempos abertos mais frescos (menos abafados) de antes, desguarnecido. Quando usar o guarda-chuva era contra-indicado podia simplesmente retraí-lo e carregá-lo para cima e para baixo debaixo do braço.”

146

Isso fez da minha vida um tanto mais sociável (suportável): quando aprendi a desprezar a carência de conversações, mantendo diálogos com meus próprios pensamentos, e em última instância com Deus, via exortações, não era esse proceder muito mais elevado do qualquer tipo de sociedade com os homens no mundo civilizado?”

147

Era 6 de Novembro, do sexto ano do meu reino – ou cativeiro, o que achar melhor. Nas minhas contínuas explorações, eu estava averiguando condições do terreno na parte oriental da ilha. Havia uma região cheia de saliências rochosas que continuavam em direção ao mar, e de fato prosseguiam visíveis, mesmo uns 10km mar adentro; o mais intrigante, logo depois dessa distância era discernível um banco de areia, com um belo topo seco, acima do nível do mar, com a respeitável extensão de pelo menos uns 2,5km. Eu precisava verificar essa ocorrência pessoalmente!”

148

Havia encontrado uma tartaruga na praia, tão grande quanto eu podia erguer, e a enfiei no barco; e eu tinha comigo uma grande jarra de água fresca, ou melhor, um dos meus jarros de barro; mas do que isso podia me servir no meio do vasto oceano, onde, com certeza, nenhuma praia havia, nenhuma terra firme ou ilha, por pelo menos uns 5000km?

Agora eu percebia quão fácil era para a Providência piorar até mesmo a condição humana mais deplorável. E eu reavaliava meu anterior estado desolado e solitário como um dos melhores da terra; e considerava ficar preso naquela ilha o paraíso. Estirei as mãos, apontando para o céu – <Ó deserto abençoado!> disse eu, <Talvez nunca mais o veja. Ah, criatura miserável que és! aonde a corrente te leva?> Depois, censurei meu temperamento ingrato, e o ter repudiado minha segura condição de solitário; agora, o que eu não daria para estar de volta na ilha! Concluo que nunca percebemos nosso verdadeiro estado até sermos afetados por um duro contraste, nem sabemos valorizar as coisas boas senão na falta delas.

149

E no entanto eu trabalhei duro, lutei até o limite de minhas forças, e mantive meu barco o mais ao norte possível, ou seja, em aproximação do ponto em que a corrente virava (…) nada de bússola a bordo, sem referência para como voltar à ilha, caso eu perdesse a concentração por um instante”

150

Quando eu cheguei de novo em terra, prostrei-me e agradeci a Deus minha salvação, deixando de lado definitivamente qualquer projeto de fuga com meu barco”

151

calcule você, que lê minha história, a minha surpresa ao ser acordado por uma voz que me chamava pelo nome repetidas vezes, <Robin, Robin, Robin Crusoe: pobre Robin Crusoe! Onde está você, Robin Crusoe? Onde está você? Por onde você andou?>”

152

a voz insistia, <Robin Crusoe, Robin Crusoe>, e o que era parte do sonho foi gradualmente me despertando e me pondo em alerta, embora terrivelmente amedrontado, já entregue à pior das consternações; logo que abri meus olhos, lá estava meu Poll sentado no topo da cerca; soube de imediato que era ele que me chamava o tempo todo; porque foi nesse linguajar lamentoso que ensinei-lhe a falar; e ele aprendeu com tamanha perfeição que se apoiava no meu dedo, aproximando o bico do meu rosto, e berrava, <Pobre Robin Crusoe! Onde está você? Como chegou aqui?> e coisas do tipo.”

153

contente em meus pensamentos, abdiquei de livre e espontânea vontade de conservar qualquer barco, mesmo que tenham sido o produto de incontáveis meses de muito trabalho, fora todo o esforço despendido em empurrar um deles até a água.”

154

nunca me vangloriei tanto ou me alegrei tanto de algo quanto quando consegui terminar um cachimbo de tabaco; e em que pese se tratasse de uma coisa tão feia e assimétrica, de uma cor igualmente feia, do vermelho que fica o barro queimado endurecido, era forte e firme e servia para canalizar a fumaça, ou seja, servia para meu conforto, porque antes de cair aqui eu sempre costumava fumar; e havia cachimbos no navio, mas esqueci de trazê-los à primeira exploração, imaginando que não haveria, de qualquer jeito, tabaco na ilha”

155

Então eu verifiquei que minha pólvora estava consideravelmente diminuída; esta seria uma carência impossível de suprir, logo, comecei a ponderar seriamente o que eu deveria fazer assim que toda ela acabasse; ou seja, como eu faria para matar os animais.”

156

Estando agora em meu décimo primeiro ano na minha nova residência, com a pólvora escasseando, passei a praticar artes de capturar e enganar as cabras, para testar o que podia fazer sem a ajuda das armas; particularmente, meu objetivo era conseguir uma fêmea grávida. Produzi algumas armadilhas; acredito até que elas funcionaram para atrair as vítimas; mas a matéria-prima não era boa, e sem um fio resistente esses animais acabavam escapando, e a isca era devorada sem mais. Por fim, pensei em forjar pequenos precipícios”

157

Eu não podia imaginar àquela altura o que aprenderia depois, i.e., que a fome pode domar um leão.”

158

em cerca de um ano e meio eu já tinha um rebanho de 12 cabras, crianças inclusas; em dois anos mais a população cresceria para 34, sem contar muitos que eu matava para o jantar.”

159

Mas isso não era tudo; agora não só eu tinha carne de cabra quando quisesse, como leite – uma coisa em que, no começo, eu nem tive tempo para pensar, mas que, conforme fui me instalando na ilha, começou a fazer falta; fazia ordenhas rotineiras e produzia de 4 a 9 litros por dia, dependendo da época. (…) Eu, que nunca havia ordenhado uma vaca, muito menos uma cabra, ou visto a manteiga e o queijo sendo feitos quando menino, depois de tantos entreveros e infortúnios, cá estava a fazer manteiga e queijo, além de sal”

160

Quanta misericórdia Nosso Senhor não pode distribuir a Suas criaturas, mesmo aquelas em condições lamentáveis, que se julgavam abandonadas e destinadas à destruição!”

161

Tenho certeza que a visão da minha pequena família sentada no jantar faria um estóico sorrir. Ali estava sua majestade, o rei e senhor supremo de toda a ilha; tinha a vida de todos os meus servos a meu inteiro dispor; podia enforcar, afogar, conceder a liberdade, ou suprimi-la, e não havia descontentes na côrte.”

162

Poll, como meu súdito favorito, era o único a quem era permitido me dirigir a palavra. Meu cachorro, agora velho e louco, sem ter podido encontrar uma parceira para propagar a prole, sentava-se à direita; dois gatos, um de cada lado da mesa, na expectativa de uma esmola de minhas mãos aqui e acolá, como que esperançosos da magnanimidade da realeza e cientes de que os bons criados são recompensados com favores especiais.”

163

Minha barba crescera mais de 20 centímetros de comprimento; mas um dia, de posse de tesouras e lâminas afiadas o suficiente em minha <base>, resolvi-me a apará-la. Deixei toda ela curta, exceto pelo bigode, que deixei crescerem à moda maometana dos dois lados, como vi alguns turcos usarem em Salé; essa aparência não era seguida entre os mouros”

164

Não pude deixar de me pegar pensando que aquela pegada isolada na areia só podia se tratar da pegada do diabo; por que como qualquer outra forma humana (que não Robin Crusoe!) poderia chegar a esse lugar? Onde estaria a embarcação que trouxe tais quimeras? Cadê qualquer outra pegada ou vestígio antropóide? E como raios um homem chegaria ali?”

165

Mas então meditei que o diabo encontraria um sem-número de maneiras diferentes de assinalar sua presença, ou melhor, de me assustar; como eu morava do outro lado da ilha, não fazia sentido deixar uma singular marca, passageira, num recanto em que minha chance de a perceber era mesmo de 1 em 10 mil; a primeira maré alta, a primeira ventania forte, seriam o bastante para desfigurar completamente essa pegada.”

166

A freqüência com que essas coisas ocorrem me dissuadia de associar o episódio do aparecimento dessa pegada na praia remota ao demônio; então comecei a avaliar que ela devia pertencer a uma criatura mais perigosa – i.e., o pé de um selvagem do continente que veio de canoa com seus companheiros, arrastada para cá seja devido às correntes marítimas seja devido a ventos rebeldes”

167

Não podia deixar de pensar na chegada de muitos deles para me devorar; e, doutra forma, podia ser que não me achassem, mas achassem minha gruta, meu palácio subterrâneo, que depredassem todo o meu milharal, ou dispersassem todo o meu rebanho domesticado de cabras, o que me faria morrer ignominiosamente de fome. Meu pavor diante desta perspectiva baniu de mim toda esperança devota, toda aquela confiança em Deus, fundada em tantas e maravilhosas experiências que me provaram Sua benevolência”

168

Que estranho jogo-de-xadrez da Providência é a vida do homem!”

169

Hoje amamos o que amanhã odiaremos; hoje procuramos aquilo de que amanhã nos esquivamos; hoje desejamos o que amanhã tememos, aliás, mais que isso, aquilo diante do que trememos de pavor. Isso tinha sua perfeita ilustração em mim mesmo, nesta ocasião, da forma mais convincente possível; eu, cujo maior drama um dia fôra estar alijado da convivência com outros homens, sozinho, limitado pelo oceano sem-fim, solapado da humanidade, condenado ao silêncio; eu, a quem os céus nem se importavam em enumerar entre os vivos, ou de ser visto em comunhão com qualquer outra criatura semelhante; eu, que ver um da mesma espécie que eu teria sido nessa época o mesmo que uma Ressurreição, e a maior bênção concedível a um filho de Adão, depois da redenção no dia do Juízo, claro; esse mesmo eu era agora quem se sentia apavorado frente à possibilidade de ver um outro homem, e preferia no momento se ver debaixo da terra a encarar um hipotético vulto silencioso de um homem.”

170

Bem no meio dessas cogitações, apreensões e reflexões, veio à tona o pensamento de que toda essa representação podia não passar de uma quimera, de uma peça pregada pela minha imaginação; ou simplesmente um engodo, nomeadamente, a marca do meu próprio pé conservada na areia. Sim, porque eu já havia feito aquele caminho invertido, chegando do mar das minhas peregrinações com meu barco: e isso bastou para me persuadir do caráter ilusório de tudo aquilo”

171

Teria eu interpretado o papel daqueles tolos que tentam fazer estórias de fantasmas e aparições sobrenaturais, mas que acabam, depois, acreditando e temendo essas figuras mais do que qualquer outro?

172

Quando reencontrei a marca e medi-a com meu próprio pé, achei-a muito maior que minha própria sola.”

173

Quão ridículas nossas resoluções quando possuídos pelo medo!”

174

o medo do perigo é 10 mil vezes mais assustador que o próprio perigo, quando aparente; e consideramos o peso da ansiedade ainda maior, e por boa margem, do que o próprio mal que desencadeia essa ansiedade: (…) eu parecia, a meu ver, Saulo, que resmungava não só de que os filisteus o perseguiam como que Deus o havia abandonado; porque eu não agia como quem quisesse recompor a lucidez, clamando por Deus em minha angústia e estando seguro de Seus caminhos, como já havia sido capaz de fazer, em prol de mim mesmo; se eu fosse um bom devoto, estaria mais reconfortado neste momento de atribulação”

175

posso testemunhar, pela minha experiência, que um ânimo calmo, beato, amoroso e afetivo é muito mais propício para a reza do que o um ânimo atemorizado e descomposto.”

176

estive, um tempo antes, propenso a experimentar transformar um pouco da minha cevada em malte, para fermentar uma cerveja.”

177

Como sei eu o que Deus diria desse caso em particular? É certo que essas pessoas não cometem esse ato considerando-o criminoso; não agem contra a própria consciência, contra sua cultura; eles ignoram que seja uma ofensa, e ao contrário de nós não a cometem pensando em desafiar a justiça divina. Eles não acham mais errado matar um prisioneiro de guerra do que nós achamos matar um boi; ou comer carne humana, mais do que nós consideraríamos comer uma deliciosa carne de carneiro.”

178

isso justificaria a conduta dos espanhóis em todas as barbaridades praticadas na América, quando destruíram milhões dessas gentes; gentes que, por mais idólatras e selvagens, e repletas de ritos desumanos e sangrentos, como oferecer homens em sacrifício a seus ídolos, eram, ainda, pelo menos em relação aos espanhóis, demasiado inocentes; e pensar que a expulsão (devastação!) desses índios de suas terras seja comentada pelos próprios espanhóis, a essa altura, com tamanhas repelência e ojeriza arrependidas, sem falar das outras nações cristãs da Europa, que referenciam o episódio como mero massacre, uma amostra sangrenta e inatural da crueldade humana, injustificável perante Deus ou mesmo perante o próprio homem (…) é como se o reino da Espanha fosse particularmente conhecido por gerar uma raça de homens sem princípios ou ternura, má até as entranhas, incapaz da piedade aos mais fracos, um traço reconhecido da disposição de caráter generosa.”

179

Eu me encontrava agora no vigésimo terceiro ano da minha estadia na ilha, e já estava tão em simbiose com o lugar e a maneira de viver nele que, pudesse eu desfrutar da certeza de não mais ser perturbado pelas visitas dos selvagens, me contentaria em passar o resto dos meus dias neste cenário, igualzinho a um bode que encontrei agonizante numa caverna subterrânea que descobri tardiamente na ilha. (…) Havia, como é sabido, ensinado meu Poll a falar; e ele o fazia com tanto desprendimento, com tanta articulação e simplicidade, que isso me satisfazia inteiramente; e ele co-habitou comigo não menos do que 26 anos. O quanto ele ainda poderia ter sobrevivido, eu não sei, mas sei que nos Brasis dão por certo que esse animal vive 100 anos. Meu cão me foi um companheiro prazenteiro e fiel por não menos do que 16 anos, morrendo de simples velhice. Quanto aos meus gatos, multiplicaram-se, como observei anteriormente, a um grau em que fui obrigado a usar da pólvora para controlar a população, se é que eu desejava não ser devorado no lugar, e todos os meus suprimentos; mas fato é que quando os dois originais (as duas fêmeas, como também já expliquei) se foram, e depois de várias vezes ter de efetuar esse <controle populacional>, ou mesmo conservá-los por perto mas sem providenciar-lhes alimento diretamente, todos foram, uns após os outros, tornando-se selvagens, fugindo para as matas, com a exceção de dois ou três favoritos, que mantive como animais de estimação, cujos filhotes eu sempre afogava ao nascerem. Nem todos, no entanto: 2 ou 3 eu mantinha comigo na caverna, ensinando a comer na minha própria mão; e tive ainda mais dois papagaios, que também tagarelavam bem, todos capazes de chamar <Robin Crusoe>, mas nenhum como Poll, o original”

180

Com que habitualidade, no curso de nossas vidas, o mal de que mais buscamos evadir, quando nele recaímos, temido o quanto seja, não acaba se tornando a janela para nossa salvação?”

181

detectei 9 ou mais selvagens nus sentados em torno de uma pequena fogueira feita por eles, não com o fito de aquecer, porque ninguém sente calor nestas latitudes, mas, como eu bem supunha, para preparar porções de sua bárbara dieta de carne humana que traziam consigo”

182

Observei que, ao longo de 1h ou mais, antes de se irem, dançaram, e eu pude ver os detalhes de seus gestos e posturas através de minha luneta. Mas não podia precisar a cena tão bem a ponto de afirmar se estavam cem por cento nus ou não cobriam as partes com alguma folhagem ou tecido; nem mesmo apurar quem era homem ou mulher eu podia, àquela distância.”

183

nem parei para pensar que, se eu matasse um bando – de 10 ou 12 –, teria, no dia, na semana, no mês, ou enfim, no ano seguinte, de matar outro e depois outro, ad infinitum, até não ser mais do que um homicida frio, pior que um canibal”

184

enquanto lia a Bíblia, e refletindo com muita severidade sobre minhas atuais circunstâncias, muito me surpreendi com o barulho de uma arma, ou assim pensava, vindo do mar. Esse foi um tipo de surpresa inédito para mim”

185

Assumi de imediato que se trataria de um navio com problemas perto da costa, e que podia ser uma viagem em frota, ou que esperassem haver uma outra embarcação nas proximidades, apta a socorrê-los. Tive presença de espírito, num momento tão alarmante, onde cada segundo conta, de notar que dali eu nada poderia fazer, mas quem sabe eles é que podiam me ajudar! Reuni toda a madeira seca que consegui e, fazendo uma pilha de dar inveja, taquei-lhe fogo, sobre uma colina.”

186

não demorou um instante para eu ouvir outra arma ser disparada assim que meu fogo ardeu, e depois do primeiro tiro outros tantos, todos do mesmo local.”

187

Em todo meu tempo de vida solitária nunca sentira um tão forte e premente desejo de estar em sociedade com meus iguais, ou um lamento mais profundo por estar tão longe de tudo.”

188

Creio mesmo ter repetido as palavras, <Ah, se tivesse pelo menos um homem vivo!> umas mil vezes; e eu nutria tamanho desejo de que isso acontecesse que ao pronunciar esta frase minhas mãos crispavam-se, e meus dedos pressionavam a palma de minhas mãos, de forma a estraçalhar qualquer coisa despida de muita dureza, que eu porventura pudesse estar segurando, contra minha vontade; e meus dentes se entrebatiam, e tão intensamente, que eu não conseguia desfazer essa tensão mandibular por algum tempo.”

189

Mas não era para ser o que não era para ser; fosse o destino deles, ou o meu, ou ambos, impediam-nos; até meu último ano de estadia na ilha, mediante pormenores que ainda irei mostrar, nada soube do paradeiro real desses supostos afogados; e o pior de tudo foi ter me deparado com o cadáver de uma criança na praia logo no dia seguinte.”

190

Quando me aproximava da rocha, um cachorro, notando minha chegada, ganiu e latiu; e, atraído pelo meu chamado, se atirou ao mar. Logo o puxei para o barco, e vi que estava quase morto de sede e fome. Dei-lhe um bocado do meu pão, e ele devorou como um lobo em fúria faminto há duas semanas na nevasca; também dei água fresca para a pobre criatura, água na qual, se eu não a administrasse com solicitude, ele certamente teria se afogado. Cheguei a bordo da carcaça do navio, mas o que eu vi foram dois corpos feito um no refeitório ou castelo de proa, completamente abraçados em sua agonia final.”

191

Além do cachorro, nada no navio que conservasse a vida; nem sequer suprimentos aproveitáveis, só podridão invadida e corroída pela água do mar. Havia alguns tonéis de licor, se de vinho ou brandy¹, não sei dizer, preservadas, no porão, que eu agora podia ver, depois da vazão das águas; mas eram recipientes grandes e pesados demais para valerem meu tempo.”

¹ Espécie de cachaça feita da uva, mais forte que o vinho típico, um pouco mais parecido com o cognac, de origem inglesa ao contrário do rival, de origem francesa.

192

penso que esse navio vinha com mercadorias de Buenos Ayres¹, ou do Rio da Prata, no extremo sul da América, e seu trajeto seria mais ou menos os Brasis, depois Havana, depois o Golfo do México até quem sabe desembarcar na Espanha.”

¹ Mantive o charmoso erro ortográfico de Defoe.

193

Peguei uma pá-de-lareira e algumas tenazes, que eu já desejava com ardor há muitos anos, bem como duas pequenas chaleiras de metal, um pote de cobre para fazer chocolate, e uma grelha”

194

Descobri que o tonel de licor era dum tipo de rum, mas não das safras que costumamos ter nos Brasis; em outras palavras, um não muito bom”

195

Eu tinha, agora, dois pares de sapatos, que removi dos pés de dois afogados que flagrei nos destroços, e achei, ainda, outros dois pares num dos baús, o que eu recebi com todas as boas-vindas; mas não eram como os sapatos ingleses, nem no conforto nem no acabamento, estando mais para sandálias do que sapatos de verdade.”

196

minha cabeça desafortunada, que sempre me dava indícios de que nascera para fazer do meu corpo miserável”

197

a grande praga da humanidade, de onde advém, até onde eu sei, metade das suas misérias: o não estar satisfeito com a condição que lhe fôra dada por Deus e pela Natureza – aprendi isso da pior forma, contrariando os bons conselhos de meu pai, no que eu enxergo meu pecado original, sem falar nos meus erros subseqüentes e do mesmo tipo que esse; a soma de todos esses fatores resultou na minha condição insólita; porque se a Providência tivesse me abençoado com a moderação nos desejos, aquela posição privilegiada que ganhei nos Brasis, a de monocultor, teria gradualmente me elevado – e eu estaria usufruindo disso nesse momento, depois de décadas na ilha – a uma das maiores plantações da colônia – eu estou bem convencido de que, com os melhoramentos que eu vinha empreendendo no solo no pouco tempo em que me estabeleci ali, minhas terras e suas commodities agora me valeriam cerca de uma centena de milhar de moidores¹ –, mas lá fui eu com meu espírito irrequieto largar o certo pelo duvidoso, mexer com viagens ousadas para as Guinés para capturar negros, sendo que sem nada de aventureiro no sangue, com muita parcimônia e a ajuda do tempo, eu simplesmente poderia comprar mão-de-obra escrava da soleira da minha própria porta de quem se arriscasse a traficar, os verdadeiros traficantes que nasceram para isso? e mesmo que houvesse um pouco de ágio nessa operação, a diferença de preço não valia todos os riscos que eu aceitei correr.”

¹ Um “moidore” ou “moeda d’oiro”, moeda em circulação em Portugal e no Brasil colonial, valia quase 30 xelins, a forte moeda inglesa. A conta é fácil: 100.000×30=3.000.000 xelins, uma verdadeira fortuna.

198

o erro de cálculo se apoderou tão poderosamente de meu temperamento que eu divisava sempre novos planos para estragar minha vida pacata”

199

meu estado retornou ao antigo: eu tinha mais posses do que antes, mas não era de forma alguma, por isso, mais rico; eu explico: não havia mais utilidade para minha riqueza insular do que para os silvícolas do Peru antes dos espanhóis invadirem aqueles domínios.”

200

a pior das danações possíveis – i.e., cair nas mãos dos canibais e selvagens, que cairiam sobre mim da mesma forma que eu cairia sobre um bode ou uma tartaruga; e não sentiriam mais remorso do que eu quando sacrifico, para meu estômago, um pombo ou um maçarico de águas rasas.”

201

algo tão abaixo da brutalidade em si – devorar a própria raça! (…) me ocorreu de especular: de que parte do mundo provinham afinal esse bando de desgraçados? quão longe da costa era esse lugar? o que eles pretendiam nessas excursões? que tipo de barcos eles possuíam? e por que não me planejar para poder visitar eu mesmo este misterioso país, do mesmo modo como eles me visitam?”

202

Note bem que toda essa cadeia de raciocínios era mero fruto de uma mente perturbada, misturada com um temperamento impaciente, já intensificado até o desespero devido à situação que se prolongava, e as decepções acumuladas que eu tivera desde o naufrágio que vivenciei”

203

era o primeiro som de voz humana que eu ouvia, salvo a minha, nos últimos vinte e cinco anos ou mais.”

204

eles faziam suas espadas de madeira tão afiadas, tão pesadas, e a madeira era tão rígida, que era até possível degolar alguém com elas, trucidar, aliás, todas as partes do corpo, com um golpe só para cada uma, como esses bárbaros adoram fazer.”

205

A sua cor de pele era de um matiz diferente do negro, mas ainda assim muito fulvo ou pardacento; mas não de um amarelo feio e nauseante, como dos brasileiros e virginianos, fora outros nativos da América, mas de uma espécie de bege de azeite, lustroso, que tinha algo de um inefável agrado, embora, como vêem, dificílimo de descrever.”

206

Num piscar de olhos eu já estava falando com ele; e ensinando-o a falar comigo: e a primeira coisa foi fazê-lo saber que seu nome seria Sexta-feira¹, que foi o dia da semana em que salvei sua vida: batizei-o assim em memória da ocasião. Da mesma forma, ensinei-o a chamar-me de Mestre; que para ele esse deveria ser absolutamente o meu nome: eduquei-o, ainda, para falar Sim e Não e me certifiquei de que entendesse o que significavam.”

¹ Friday, no original. Eis aqui um dos personagens secundários mais célebres da Literatura.

207

Notei que Sexta-feira ainda sentia ânsia de vômito comendo apenas as carnes animais que eu lhe dava, e que ele ainda era, em sua natureza, um canibal.”

208

nunca homem nenhum teve um servo mais fervoroso, fiel e amável do que Sexta-feira foi para mim: sem paixões, rompantes de mau humor ou caprichos, perfeitamente devotado e comprometido; todas as suas afeições eram destinadas a mim, como as de uma criança a um pai; e devo dizer que ele sacrificaria sua vida pela minha a qualquer ocasião”

209

Agora minha vida começou a ser tão fácil que eu já dizia para mim mesmo que, estivesse eu a salvo de outros selvagens, não ligaria de morrer nestas coordenadas.”

210

A pobre criatura, que, de determinada distância, me viu matando o selvagem, seu inimigo tribal, mas que não podia intuir ou conceber como eu fiz aquilo, não podia se demonstrar senão absorto, comovido, chocado, maravilhado, a ponto de parecer que iria bater as botas. Pois bem; semanas se passaram. Ele não viu a causa nem o momento exato em que matei o cabrito; mas correu para o animal a apalpá-lo, para verificar se ele não estaria ensangüentado; e, sem raciocinar direito, imaginou que eu também, movido por algum ímpeto extraordinário, estaria prestes a matar ele próprio: ele veio a mim totalmente subserviente, prostrado, implorante, abraçando meus joelhos, murmurando numa língua estranha para mim; mesmo assim, seu conteúdo não poderia ser muito diferente do que <Salve-me, por tudo o que é mais sagrado, tenha compaixão!>.

211

Eu vi quão espantado ele estava, ainda mais porque não me viu inserir nada na arma, mas deve ter interpretado tudo o que se passou como um meio mágico de matar e destruir, não importa o quê: homem, besta, ave, qualquer coisa que se aproximasse, ou mesmo algo longínquo de mim; e o pavor despertado em Sexta-feira era de tal monta que não pôde ser controlado senão com certo tempo; e eu acredito que, se eu nada explicasse, ele me idolatraria, e idolatraria minha arma comigo como uma deusa. Mas, quanto à arma, ele ficaria dias receando sequer tocá-la; mas ele se aproximava e falava com ela, e parecia responder depois de uns instantes, como se tivesse recebido uma resposta; depois eu vim a entender seu procedimento: ele estava implorando para que ela não o matasse.”

212

Depois de comer um pouco eu dei uns pedaços para meu homem, que pareceu muito agradecido, e demonstrou apreciar o gosto; mas o mais estranho para Sexta-feira foi ver-me colocar sal na comida. Ele fez sinais para comunicar que o sal era péssimo para ingerir; e, colocando um pouco na própria boca, como mímica, pareceu nauseado, querendo cuspir o conteúdo a qualquer custo, e depois lavando a boca com água fresca: seguindo seu modelo, me servi de um pouco de carne sem sal, e fiz as mesmas caretas, tão exageradas quanto as dele; mas isso não o convenceu”

213

ele me relatou, tão bem quanto podia, que não voltaria a comer carne humana nunca mais, o que ouvi muito encantado.”

214

em pouco tempo Sexta-feira já podia me substituir no trabalho e sem que a qualidade fosse menor.

Comecei a calcular que, havendo duas bocas para alimentar ao invés de uma, eu devia me reservar mais solo para a plantação, investindo em mais milho; eu demarquei essa terra extra e comecei a limpar o terreno da mesma maneira que antes. Sexta-feira trabalhou comigo árdua e até alegremente: e eu o revelei para que era tudo aquilo; era para cultivar mais milho, que geraria mais pão, porque agora ele estava comigo, e eu queria ter o bastante para ele e para mim.”

215

Esse foi o ano mais prazenteiro de toda a minha vida neste lugar. Sexta-feira já começava a falar bem melhor, e entendia os nomes de quase todas as coisas que eu citava, e de todos os lugares a que eu mandava que ele fosse, e conversava muito comigo também; em suma, voltei a usar minha própria língua, órgão com que eu estava desacostumado. Ademais do prazer que nossos diálogos ocasionavam, eu nutria muito contentamento por este rapaz: sua honestidade simples e sem simulações me parecia mais cristalina a cada dia, e eu começava realmente a amar a criatura; de sua parte, creio que ele me amava mais do que lhe era facultado amar qualquer coisa em sua vida pregressa.

Uma vez eu o testei, para ver se ele tinha alguma inclinação a voltar a seu velho habitat; e, tendo-lhe ensinado o Inglês tão bem até que ele pudesse responder qualquer pergunta minha, eu o questionei se a nação à qual ele pertencia nunca conquistara outras em batalha.”

216

Mestre. – Você é o melhor guerreiro que eu já vi; como você veio a se tornar prisioneiro, Sexta-feira?

Sexta-feira. – Minha nação bater muito bem para escravizada.

Mestre. – Como assim bater? Se sua nação bate nas outras, como você foi capturado?

Sexta-feira. – Eles mais grande número que nação, no lugar que estava eu; eles pegar um, dois, três, e eu: minha nação vencer eles no lugar antigo, onde eu não estar; lá minha nação pegar um, dois, muito mil.

Mestre. – Mas por que sua facção não o resgatou das mãos do inimigo?

Sexta-feira. – Eles correr, um, dois, três, e eu, e fazer ir canoa na; minha nação ter não canoa esse tempo aí.

Mestre. – Então, Sexta-feira, o que faz sua nação com os homens que pega? Ela os leva e os come, como estes fizeram?

Sexta-feira. – Sim, minha nação comer homens também; comer tudinho.

Mestre. – Para onde eles os levam?

Sexta-feira. – Ir outro lugar, onde eles pensar.

Mestre. – Eles vêm aqui??

Sexta-feira. – Sim, sim, eles irem aqui; ir outro lugar mais.

Mestre. – Você já esteve aqui com eles?

Sexta-feira. – Sim, eu estever aqui. (aponta para o lado noroeste da ilha, que, aparentemente, era sua <base>.)

Mediante esse diálogo esclarecedor, descobri que meu amigo Sexta-feira formava parte dos selvagens que desembarcavam esporadicamente na parte mais remota da minha ilha, para fazer a mesma coisa que quase teriam feito com ele, não fosse minha intervenção; algum tempo depois, quando criei coragem para levá-lo àquele canto, o canto noroeste, ele estava familiarizado com o lugar, e narrou como já estivera ali por exemplo quando se banquetearam de 20 homens, 2 mulheres, e 1 criança; ele não podia dizer 20 em Inglês, a bem da verdade; mas ele enumerou essa quantidade enfileirando pedrinhas, e pedindo que eu mesmo dissesse.”

217

Ele me contou que não havia perigo, nenhuma canoa afundava: mas depois de algum tempo em alto-mar, entrava-se numa corrente e num vento forte que sopravam sempre para o mesmo lado de manhã, e para o lado oposto à tarde. Eu havia entendido essa descrição como a maré baixando e subindo, na hora; mas posteriormente compreendi que era algo mais, tratava-se da correnteza e do refluxo do poderoso Orinoco, em cuja garganta nossa ilha repousava; e que essa nação de Sexta-feira, que apurei estar a oeste e a noroeste, ficava na grande ilha de Trinidad, no ponto setentrional dessa mesma foz. Enchi Sexta-feira de perguntas sobre a tribo, seus membros, o mar, a costa e que nações rivais estavam próximas; ele me relatou toda a extensão de seus conhecimentos com a maior abertura imaginável. Eu lhe perguntei os nomes das múltiplas nações canibais, mas ele na verdade chamava todos os seus inimigos e amigos por um só nome, Caribes; agora eu sabia com certeza onde eu me encontrava no mapa, sendo os Caribes essa região que se estende do estreito do Rio Orinoco até as Guianas, e que também está limitada por Santa Marta¹. Sexta-feira me falou que muito além da lua, ou seja, do lugar em que se põe a lua, no extremo oeste, habitavam homens brancos barbados, como eu, e apontou para meus bigodes invejáveis, que já descrevi; e que eles matar muito homens, essas foram literalmente suas palavras: do que entendi, ele se referia aos espanhóis, cujas crueldades na América se alastraram por todo o Caribe, e eram lembradas por todas as nações do mundo, e recontadas de pai para filho.”

¹ Atual Martinica

218

As respostas de Sexta-feira muito me enterneciam; comecei a alimentar a esperança de, mais cedo ou mais tarde, achar um jeito de escapar da ilha, e muito contava nisso com o auxílio desse pobre selvagem. Durante o já longo tempo que Sexta-feira estava a meu lado, e que podíamos conversar em Inglês, me eximi de introduzir qualquer noção religiosa em sua mente; o máximo que fiz foi perguntar-lhe, certa feita, quem foi que o fez. A criatura mostrou não entender a pergunta, mas pensou que eu perguntava quem era seu pai – então eu reiniciei, com outra abordagem, indagando quem fez o mar, a terra em que pisávamos, as colinas e as florestas. Ele me disse, <sido Benamuckee, um que viver além tudo>. Ele não podia dar descrições acessórias desse ser excelente, só sabia dizer que era extremamente antigo, <velho velho mais>, disse Sexta, <que mar, terra, que também estrelas e lua>.”

219

Ele ouvia com muita atenção e recebia com evidente alegria a noção de Jesus Cristo ter sido enviado para redimir todos nós; e sobre a maneira como devíamos nos dirigir a nosso Deus, e Sua capacidade de nos escutar, mesmo de tão longe. Ele me disse, um dia, que se nosso Deus podia nos ouvir, lá de cima do sol, ele devia ser mesmo um Deus superior a Benamuckee, que vivia bem abaixo, no topo de uma montanha, e mesmo assim não podia escutar nada até que alguns caribes se aproximassem de sua morada. Ele continuou, <Não; eles nunca irem quem moço ser; só homem velho ir”, pajés que ele chamava de Oowokakee; sim, estes eram os membros do restrito clero primitivo, os sacerdotes de sua nação; e segundo Sexta-feira eles subiam a montanha para dizer O (assim ele chamava o fazer preces), e depois desciam e repassavam aos demais os proclames de Benamuckee. Nisso, observei que havia tentativa de luzes mesmo entre os mais cegos e ignorantes pagãos do mundo; e a política de fazer da religião um segredo indevassável, para preservar o sentimento da veneração entre a população, submetendo-a ao clero, longe de ter nascido com os romanos, era um dado universal da humanidade, presente até entre esses selvagens bárbaros e brutais! Eu me dei ao trabalho, para esclarecer essa fraude ao meu amigo Sexta-feira, de dizer-lhe que a pretensão de seus anciãos que simulam idas às montanhas para dizer <O> ao seu <deus> Benamuckee não passava de artifício; e ainda que o fato de trazerem notícias do que teria dito Benamuckee era apenas um graveto a mais nessa fogueira; que se é que eles obtinham alguma resposta ou conversavam com alguém, era decerto com um espírito mau; então dissertei demoradamente acerca do demônio, sua origem, sua rebelião contra Deus, sua inimizade e inveja do homem, a razão dela, sua reclusão teimosa e vingativa num recanto obscuro do mundo de seu Pai, buscando amealhar seguidores, sendo uma paródia de um deus, e os diversos estratagemas por ele empregados para iludir o gênero humano e levá-lo à ruína; como ele tinha acesso em segredo a nossas paixões e sentimentos mais profundos, adaptando suas armadilhas a nossas tentações, de modo a jogar uns homens contra os outros para que o homem se tornasse a perdição do próprio homem, e para que escolhêssemos espontaneamente a danação eterna, sua única forma de vencer o Pai.

Descobri não ser tão fácil incutir-lhe essas últimas noções quanto fôra inspirar-lhe o Espírito Santo. A natureza era meu colaborador automático em meus argumentos para evidenciar a onipotência do Criador e para sustentar a necessidade de uma Causa Primeira emanada de um Poder que governava a Providência mediante expedientes por todos os mortais ignorados; era fácil ensinar acerca da eqüidade e justiça que se concretizam ao pagarmos tributo e homenagearmos Este Ser, que nos fez, afinal; mas nada parecido parecia funcionar quando se tratava do Coisa-Ruim, sua gênese, sua pessoa, seu caráter e, acima de tudo, sua propensão inata ao mal, e a combater o homem; a pobre criatura, atônita, também me confundiu quando perguntou coisas da forma mais inocente possível, sem que eu soubesse como responder.”

220

<Mas Mestre>, diz Sexta-Feira, <você dizer Deus tão forte, tão grande; Ele é forte grande terrível mais não que demônio?> <Sim, sim, Sexta-feira; Deus é mais poderoso que o diabo – Deus está acima do diabo, por conseguinte oramos a Deus para sobrepujarmos o diabo, e para que Ele nos conceda resistir a suas provações e apagar o fogo de nossas paixões e repentes.> <Mas>, insistiu Sexta-feira, <se Deus muito forte mais, terrível mais que diabo mau, por que Deus matar não diabo, fazer ele mais não fazer mal?> Eu fui arrebatado por esse raciocínio tão simples; e, em que pese eu ser já um coroa experimentado, não passava de um douto noviço em termos bíblicos, recém-auto-convertido, mal-qualificado para bancar o casuísta ou resolvedor de enigmas capciosos; assim de chofre não sabia nem o que dizer; então simulei não tê-lo escutado bem, para ganhar tempo; ele era muito dócil e estava muito ansioso por uma resposta para deixar o assunto de lado, e se repetiu da mesma forma, palavra por palavra. Mas eu já tinha amortecido parte do impacto e me dispunha a responder algo construtivo: <Deus ainda irá puni-lo com severidade; mas essa punição está reservada para o dia do Juízo Final, e neste dia o diabo será arremessado de encontro ao abismo infindável, e condenado ao fogo eterno>.”

221

mas por que matar não diabo agora; matado não muito atrás??”

222

<Ahhhhh… Hmmm…>, continuou Sexta, tão ternamente, <dizer então que você, eu, demônio, tudo mau ruim, todos preservado, rependido, Deus perdoar todos.> Aqui eu desmoronei de novo ao âmago mais fundo do paradoxo. Isso era um testemunho preciso de que as noções mais básicas da natureza, embora guiem as criaturas capazes da razão ao conhecimento de Deus, e ao devido culto ao Ser Supremo, seres naturais que somos, ainda assim, não bastam; só a revelação divina é capaz de ensinar o que quis transmitir Jesus Cristo, i.e., a redenção destinada a nós; ensinar do Mediador do novo pacto, do intercessor no escabelo do trono de Deus”

223

Depois expliquei-lhe tão bem quanto pude por que nosso Messias não veio na forma de anjo, mas tomou a forma da semente de Abraão; e como, por esta mesma razão, os anjos caídos não podiam partilhar da redenção; que ele veio tão-só para as ovelhas perdidas da casa de Israel, etc.”

224

quando me dei conta de que nessa vida de ermitão que vinha levando a tendência natural era ser movido a olhar para o céu, e procurar a Mão que me trouxe até aqui, pareceu de repente óbvio que a conseqüência disso era que eu também era um instrumento da Providência, destinado a salvar a vida e, até onde eu sei, a alma de um pobre selvagem, declarando-lhe a verdadeira Palavra, ensinando-o a doutrina cristã, pois só em Jesus Cristo a vida é eterna; eu dizia que, quando refletia sobre essas coisas, uma alegria secreta escorria por todas as partes da minha alma, e eu exultava de felicidade por ter sido aqui trazido, para este lugar, que eu considerei por tanto tempo e em várias ocasiões o mais pavoroso de todos em que eu podia estar.”

225

<Eu vir barco assim chegar porto minha nação> Eu não entendi Sexta-feira durante um bom tempo; mas, por fim, quando havia ruminado o suficiente, compreendi que um barco, igual àquele, aportou no litoral de seu país; ou ainda melhor, como ele explicou, foi levado pelo mau tempo até a praia.”

226

Sexta-feira me descreveu o barco bem o bastante; mas fui concebê-lo perfeitamente quando acrescentou com alguma afeição, <Nós salvar homem brancos de afogo>. Então perguntei, para confirmar, se não havia homens brancos, como ele os chamou, no barco. <Sim,> ele disse; <barco cheio homem brancos!> Eu quis saber quantos. Ele disse, com a ajuda dos dedos, 17. Perguntei, então, o que foi deles. Ele contou, <Eles viver, eles morar minha na nação.>

Isso fez minha mente girar; porque inferi que se tratassem dos homens do meu próprio navio, cuja tripulação sumira sem vestígios no naufrágio; como havia botes a bordo, considerando a embarcação maior já condenada, pode muito bem ser que um grupo tivesse se preparado a tempo, mas que as fortes correntes tenham-nos levado para mais longe da ilha, até a costa dos selvagens. Então voltei a questioná-lo, mais acuradamente, o que aconteceu com eles. Ele me confirmou que sem sombra de dúvida eles ainda viviam por lá; que eles já lá estavam há cerca de 4 anos; que os selvagens não tocaram neles, pelo contrário, deixaram que vivessem à parte sem ser incomodados, e até deram-lhes comida no início. Então perguntei como eles, canibais, não devoraram os homens brancos. Ele respondeu, <Não, eles fazer irmão com eles;> isto é, pelo que entendi, estabeleceram uma trégua; Sexta-feira completou, <Eles não comer homens mas quando fazer guerra e lutar;>”

227

se Sexta-feira pudesse voltar a sua nação, poderia ser que ele esquecesse toda sua religião como toda sua devoção a mim, e estaria em ótimas condições para relatar da minha presença aqui, voltar com mais homens, quem sabe 100 a 200, e banquetear-se comigo, no que ele não apresentaria qualquer remorso, imerso novamente em sua inconsciência antiga. Mas eu cometi um erro de avaliação e subestimei o caráter desta pobre e humilde criatura, o que muito me remordeu a minha própria consciência. Contudo, como meus ciúmes ainda se mantiveram sensíveis durante algumas semanas, passei a agir de modo mais circunspecto”

228

<Você viraria um selvagem de novo, comeria carne humana de novo, e seria tão selvagem quanto antes?> Ele me olhou cheio de tristeza, e balançando a cabeça, agitado, bradou, <Não, não, Sexta-feira contar eles para viver bem; contar eles para rezar a Deus; contar a eles para comer pão-de-milho, criar carne, leite; comer não homem mais.> <Mas então,> eu me manifestei, <vão te matar, Sexta-feira.> Ele me olhou sério, e disse, <Não, não, eles matar eu não, eles querer aprender amar.>”

229

podíamos achar uma maneira de fugir de lá, uma vez estando no continente, junto com todos os homens brancos; pelo menos, seria melhor do que partindo sozinho dessa ilha a 40 milhas da costa.”

230

<Pois então, Sexta-feira, devemos ir agora a sua nação?> Ele pareceu muito incomodado com meu dizer; atribuo isso a ele achar o barco muito pequeno para fazer essa viagem. Então eu disse que tinha um maior; no dia seguinte fui com ele até o local em que depositei meu primeiro barco, aquele que eu não pude levar até a água. Ele disse que era grande o bastante; o problema agora era que, como eu não o conservara, e como ele havia ficado por lá uns 22 ou 23 anos, o sol tinha rachado e apodrecido a madeira de tal forma que o tornou inavegável.”

231

ele se tornou um marinheiro excepcional, salvo que não pude ensiná-lo a usar a bússola.”

232

<Ah, Mestre! Ah, mestre! Ah, desgraça! Ah, ruim!> – <Qual o problema, Sexta?> <Olha ali,> disse ele, <um, dois, três canoas; um, dois, três!> Dessa forma de falar eu apreendi que havia 6; mas chegando mais perto vi que eram mesmo só 3. <Vamos, Sexta, não fique com medo.> Assim encorajei-o como pude. No entanto, ele estava cada vez mais atemorizado, porque nada passava pela sua cabeça a não ser que eles tinham vindo procurá-lo, e o retalhariam e o comeriam”

233

eu não tinha medo de seu número, pois eles estavam todos nus, desarmados, eram uns miseráveis, e eu tinha certeza de ser superior – isso mesmo se estivesse sozinho. Mas de súbito me veio um pensamento: qual era minha necessidade, ou meu direito, de ir e me meter com eles, de sujar minhas mãos com sangue, ir e atacar pessoas que não me fizeram nem me quiseram fazer o mal?”

234

é verdade, Sexta-feira podia justificar-se, pois era um inimigo natural desses homens, vivia em estado de guerra com essa nação, e era absolutamente honroso para ele atacá-los – mas eu não podia dizer o mesmo.”

235

Ele me disse que não era alguém de sua nação, mas um dos barbados de que ele falara, que chegaram de barco.”

236

Eu o ergui e perguntei, na língua portuguesa, o quê ele era. Ele me respondeu em Latim, Christianus

237

Eis o saldo do assalto sanguinário: Três mortos no nosso primeiro disparo, da árvore; dois no seguinte; dois mortos por Sexta-feira no barco; dois mortos por Sexta-feira daqueles feridos no primeiro tiro; um morto por Sexta-feira nos bosques; três mortos pelo espanhol; quatro mortos, aqui e ali, espalhados pelo campo de batalha, em decorrência dos ferimentos, ou então assassinados pelo meu homem Sexta em sua perseguição implacável; quatro que escaparam de barco, um dos quais muito ferido, se é que não morto já – 21 ao todo.”

238

eu fiquei muito apreensivo com essa fuga, porque podiam avisar seu povo e voltar com centenas de canoas para nos devorar estritamente calcados na vantagem numérica; então consenti em persegui-los por mar, correndo para uma de suas canoas abandonadas; pulei para dentro e convoquei Sexta-feira para me seguir: mas logo que subi a bordo percebi inesperadamente outra criatura viva largada ali, amarrada nos pés e mãos, como estava antes o espanhol, preparado para ser imolado, em pânico absoluto, sem saber quem eu era; ele não conseguia se mexer nem olhar para fora do barco de tão apertado que estava amarrado. Estava quase morto.”

239

Quando Sexta-feira chegou, eu solicitei que falasse com ele, e contasse de sua salvação; e, puxando minha garrafa, pedi para dar-lhe na boca, o que, junto com a boa notícia, reviveu o espírito do cativo, e ele já pôde ao menos pôr-se sentado na embarcação.”

240

quando Sexta-feira enfim voltou a si, me revelou: era seu pai!”

241

Minha ilha era agora bem habitada, e me imaginava um monarca extremamente rico; era uma reflexão curiosa me tomar por uma majestade. Em primeiro lugar, todo o país era minha própria propriedade, então meu direito de domínio era absoluto. Segundo, meu povo estava perfeitamente sujeito a mim – eu era senhor absoluto e o legislador supremo –: todos deviam suas próprias vidas a mim, e estariam dispostos a arriscar suas vidas por mim. Uma outra coisa marcante é que havia 3 súditos, e cada um de uma confissão religiosa diferente – meu primeiro homem, Sexta-feira, era Protestante¹, seu pai um pagão e canibal, e o espanhol um Papista. Eu, entretanto, permitia a liberdade de consciência na ilha. Mas que importância tem tudo isso!”

¹ Já de há muito, à primeira vez que li o livro, mas sobretudo com estas palavras, pude concluir com segurança: o objetivo final da obra The Life and Adventures of Robinson Crusoe era ser um panfleto luterano.

242

Sua visão era de que os selvagens do barco jamais poderiam ter sobrevivido à tempestade que desabou aquela mesma noite em que escaparam, e de que pereceram afogados com certeza, ou no mínimo foram levados para o sul a litorais de outras nações, onde era mais certo ainda que morressem, devorados por seus incontáveis inimigos; quanto ao que poderiam fazer caso chegassem sãos e salvos ao próprio país, o velho afirmou que de nada sabia; a questão é que eles estavam tão apavorados pela maneira como foram atacados, com o barulho, o fogo, etc., que mesmo que eles escapassem e pudessem relatar o ocorrido aos compatriotas o mais provável é que contassem que foram atacados e assassinados pelo trovão e o relâmpago, por entidades divinas e não homens; e que os dois que apareceram – Sexta-feira e eu – eram dois espíritos celestes, ou erínias, que baixaram à terra a fim de destruí-los. (…) era-lhes impossível sequer conceber que um homem pudesse soltar fogo, falar a língua dos céus (trovões) e matar de tanta distância, sem nem mesmo erguer as mãos: e esse velho selvagem tinha toda a razão; como eu mesmo vim a testemunhar em seguida, os selvagens nunca tentaram voltar, tão aterrorizados pelo relato dos 4 sobreviventes (eu julgo mesmo que eles tenham escapado vivos do incidente), acreditando ser essa uma ilha encantada com a qual não deveriam se meter.”

243

Preferia mil vezes estar entregue aos selvagens e ser devorado vivo do que cair nas garras impiedosas dos padres da Inquisição.”

244

<Embora os filhos de Israel tenham a princípio celebrado sua fuga do Egito, depois se rebelaram contra o mesmo Jeová, O que os libertou, quando se amotinaram pedindo pão no meio do deserto.>

245

Seguindo meus comandos, o espanhol e o velho selvagem, o pai de Sexta-feira, foram embora numa das canoas em que, poder-se-ia dizer, haviam chegado, cativos, ou seja, em que foram trazidos, para serem jantados. Dei a cada um um rifle, com travas, e umas oito cargas de pólvora e projéteis, instruindo-os a cuidar bem dos meus <filhotes>, e não empregá-los a não ser em caso de extrema necessidade.”¹

¹ Poderia batizar as linhas gerais do comportamento do protagonista e a ideologia (ou “espírito de época”) de Defoe na singela alusão weberiana: A ÉTICA PROTESTANTE & O ESPÍRITO DO ARMAMENTISMO!

246

Em primeiro lugar, comecei a considerar o que um navio inglês estaria fazendo nesse quadrante do mundo, uma vez que não era a rota de nenhuma das partes com que comerciava a Inglaterra; e não houve tempestade recente que os carregasse para cá; sendo assim, se fossem mesmo ingleses, a probabilidade é de que estivessem aqui por motivos escusos; então, era melhor seguir no meu plano do que arriscar cair nas mãos de bandidos e assassinos.

Nunca se devem desprezar os sinais secretos do perigo que sobrevêm quando menos se pensa estar sujeito a ele. Que esses sinais secretos nos alcançam a tempo hábil de evitar o mal, acredito que ninguém possa negar; que esses indícios ou presságios sejam descobertas de um mundo invisível, onde há comunicação de espíritos, disso não devemos duvidar; e se eles são inclinados a nos alertar do perigo, por que não supor que são uma agência amigável (e se estamos falando de deus em pessoa ou de meros subordinados, isso não modifica a questão) e que vêm para o nosso bem?

247

havia ao todo 11 homens, dos quais 3 estavam desarmados e, como eu suspeitava, amarrados; e quando os primeiros 4 ou 5 pularam na praia, trouxeram os três como prisioneiros: um do trio, pude perceber que empregava os gestos mais ternos e apaixonados, indicando apelo, aflição, e desespero, beirando aliás a extravagância.”

248

– Ah, mestre! Você ver homens inglês comer prisioneiro igualzinho homens selvagem.

– O quê, Sexta, você acha que eles vão comê-los?

– Sim, eles vão comer o.

– Não, fora de questão, Sexta; receio que vão matá-los, sim; mas de uma coisa estou certo: não vão devorá-los.”

249

<Estarei falando com Deus ou um homem? É um homem de verdade ou um anjo?> <Não tema, senhor,> disse eu; <se Deus houvera mandado um anjo para salvá-lo, ele viria mais bem-trajado, e armado de outra maneira; por gentileza, deixe os medos e anseios de parte; eu sou um homem, um inglês, e estou disposto a ajudá-lo; veja você, tenho apenas um e único servo…>”

250

<Em suma, meu senhor, eu era o comandante do navio – meus homens se amotinaram; eles estavam resolvidos a não me matar, e, ao menos, me desembarcaram neste ermo desolado, com mais estes dois – um o meu subordinado, e outro um passageiro – onde nossa expectativa era perecer, porque pensávamos ser um local inabitado, e sinceramente ainda não sei o que pensar.>

251

Ele me disse que havia dois vilões alucinados aos quais, no meu lugar, ele não dirigiria nenhuma misericórdia; e que se eles fossem abatidos, ele acreditava que todos os outros amotinados retomariam os seus postos.”

252

<Veja, senhor, se eu estiver disposto a colaborar com sua empreitada, você estaria disposto a atender duas condições? (…) falo de 2 somente; 1º, que enquanto você permanecer nesta ilha comigo, não aspirará a nenhuma autoridade; e se eu puser armas nas suas mãos, você irá, em qualquer ocasião, mas devolver depois, sem ter prejudicado nenhuma gente dessa ilha em suas ações, limitando-se a obedecer minhas ordens como as de um general militar; 2º, que se o navio for recuperado você me levará, eu e meu escudeiro Sexta-feira, para a Inglaterra, sem custo de passagem.>

253

O capitão contou-lhes que iria poupar suas vidas se fosse-lhe dada uma prova de sua repugnância e arrependimento, acerca da traição que cometeram, e se jurassem fidelidade no procurar recuperar o navio, e mais tarde em conduzi-lo de volta à Jamaica, de onde a embarcação viera.”

254

…e assim nossa vitória estava completa.”

255

Tudo o que lhes mostrei, tudo que eu lhes disse, era perfeitamente admirável, mas o que o capitão apreciou acima de tudo foi minha fortificação, e com que grau de precisão eu forjara meu abrigo escondido pelas copas das densas árvores, brotos que, plantados 20 anos atrás, assomavam agora formando uma verdadeira floresta, e era incrível como as árvores cresciam mais rápido aqui que na Inglaterra”

256

Eu lhe disse que esse era meu castelo e minha casa, mas que eu também tinha um sítio no interior, como muitos príncipes possuem, para onde eu podia me retirar quando oportuno, e que eu iria mostrá-lo adequadamente qualquer hora; mas que no momento nosso negócio era considerar como reaver o navio. Ele concordou, mas confessou que estava perdido quanto a que medidas tomar, uma vez que ainda havia 26 mãos a bordo, todas pactuadas numa conspiração maldita, arriscando suas vidas contra a lei, e que sua força seria aumentada pelo desespero, e levariam a insubordinação às últimas conseqüências, se preciso. Nada mais natural, já que se fossem vencidos seu destino natural eram as galés inglesas, ou então as colônias penitenciárias da Coroa, o que quer dizer que era inviável atacarmos com tão pouca gente como éramos.”

257

Pudemos escutar quando uns se lamentavam com os outros, angustiados: estamos presos numa ilha encantada; ou há aborígenes insidiosos aqui, e vamos irremediavelmente ser assassinados, ou então são demônios e espíritos maus, e vamos ser levados para o inferno e ser consumidos pelas chamas.”

258

Ao estampido da pólvora eu avancei com todo o meu exército, que era agora de 8 homens, quer seja, eu mesmo, generalissimo; Sexta-feira, meu tenente-general; o capitão e seus 2 homens, e os 3 prisioneiros de guerra a que também confiamos armas.”

259

<Tom Smith! Tom Smith!> Tom Smith respondeu de imediato, <É Robinson?> porque ao que tudo indica reconheceu minha voz. O outro respondeu, <Sim, isso mesmo; Pelo devido temor a Deus, Tom Smith, largue as armas e se renda, ou todos vocês são homens mortos.> <A quem devemos nos render? Onde estão?>, tentou blefar Smith. <Aqui estão>, disse a voz; <aqui estão o capitão e 50 homens com ele, que os caçaram essas duas horas inteiras; o oficial do navio está morto; Will Fry foi ferido, e eu sou um prisioneiro; e se vocês não se renderem agora estão todos perdidos.>”

260

Também lhes contei a história dos 17 espanhóis que eram esperados, para quem deixei uma carta, e fi-los prometerem tratá-los como iguais. Aqui deve-se notar que o capitão, que possuía tinta a bordo, muito se admirou de que eu nunca tivesse encontrado uma solução para minha escassez de tinta, com tanto carvão e água a minha disposição, ou então qualquer outro material suplente, uma vez que eu havia elaborado muitas outras coisas e derivado luxos de matérias-primas que demandavam muito mais trabalho duro.”

261

E assim deixei minha ilha, a 19 de Dezembro, como descobri de acordo com a datação do navio, do ano de 1686, depois de 28 anos, 2 meses e 19 dias de confinamento; sendo assim redimido de minha segunda prisão acidental no mesmo dia do mês em que escapei dos mouros de Salé. Nesse navio, depois de uma viagem comprida, aportei na Inglaterra em 11 de Junho, do ano 1687, tendo estado ao todo 35 anos ausente de minha pátria.

Quando cheguei à Inglaterra eu não passava de um perfeito estranho a todos, como se nunca tivesse nascido. Minha benfeitora e fiel escudeira, que eu deixara a cargo das minhas posses, estava viva, mas não sem muitas intempéries na vida; tornou-se viúva uma segunda vez, e empobrecida. Deixei-a tranqüila quanto ao que poderia pensar que me devia, dizendo que isso não tinha mais a menor importância; pelo contrário, em gratidão pelo seu cuidado atencioso e fidedignidade, confortei-a com o pouco que pude de provisões; de fato, nem chegava a ser um grande ato de gentileza”

262

Depois de um tempo fui para Yorkshire; meu pai já estava morto, minha mãe e o restante da família também extintos, exceto duas irmãs além de duas sobrinhas do meu irmão que me restava antes das minhas viagens, agora também falecido; e como já de há muito eu tinha sido dado como um parente morto, não havia qualquer fortuna no meu nome; numa palavra, eu não estava numa situação confortável; o pouco dinheiro que eu trouxera da minha ilha talvez não me garantisse a subsistência por muito tempo.”

263

Decidi viajar a Lisboa, para ver se não podia por este meio obter informações do estado de minhas plantações nos Brasis, e saber do meu antigo parceiro, que com certeza também me considerava morto. Cheguei a Portugal no Abril seguinte, sempre acompanhado de meu inseparável Sexta-feira, o meu favorito, e mais confiável de todos os servos que já tive. Investigando, para minha surpresa e contentamento, descobri que meu velho amigo, capitão do navio português que me ajudou no meu primeiro incidente de relevo, me retirando do continente africano a troco de nada, vivia ainda.”

264

dada a extrema probabilidade de eu ter naufragado e acabado no fundo do mar, meus provedores financeiros repassaram meus ganhos de produção ao procurador-fiscal, que estabeleceu propriedade sobre o montante, no caso de eu jamais aparecer para reclamá-lo, distribuindo-o na seguinte proporção: um terço destinado ao rei e 2/3 ao monastério de Santo Agostinho, destinado à caridade e a um fundo para a conversão de índios à fé católica: mas, no caso de eu aparecer, ou alguém que me representasse, para clamar a herança, ela ser-me-ia devolvida; os lucros da produção anual, sendo distribuídos para fins não-lucrativos, porém, não poderiam ser recuperados: se bem que me asseguraram que o tesoureiro real para as questões das terras, e o mecenas que mantinha o monastério, tomaram o devido cuidado de exigir contas ao incumbente (meu velho amigo e vizinho de plantation), que nunca deixava de divulgar as rendas anuais do negócio agrário, soma da qual, para simplificar, eu tinha direito à metade, que o mecenas e o tesoureiro recebiam diligentemente.”

265

a terça parte do rei que, pelo visto, acabava indo parar em outra instituição religiosa, só para se ter idéia, equivalia a mais de 200 moidores/ano¹”

¹ Conforme explicação no fragmento 197, trata-se de 6.000 shillings, uma quantidade esmagadoramente incalculável, ou incalculavelmente esmagadora. Em suma, Robinson Crusoe se tornou um bilionário da noite para o dia!

266

o valor da minha terra era calculado em 19.446 crusadoes, o que equivalia a aproximadamente 3.240 moidores.¹”

¹ Talvez Robinson fosse ainda mais que um bilionário: um trilhardário; alguém impossível de conceber nos dias de capitalismo financeiro e integrado globalmente de hoje, em que estimar fortunas é menos complicado e em que há mecanismos mais garantidos de redistribuição de renda e controle e taxação de riquezas exorbitantes (ver n. 268 e 269).

267

lembrai que os últimos momentos de Jó foram melhores que o próspero início.”

268

Eu era o dono, não mais que de repente, de mais de 5.000 libras esterlinas em dinheiro, e tinha um patrimônio, nos Brasis, que me rendia mais de 1.000 libras/ano, tão seguro e rentável quanto outras rendas provindas de terras londrinas: então, para resumir, eu me encontrava agora numa condição que eu mal poderia entender, muito menos aprender a desfrutar.”

269

Eu não dispunha mais de uma caverna onde esconder meus tesouros, ou de um lugar qualquer onde pudessem ser guardados sem tranca ou chave, sem me preocupar, até enferrujar, desbotar e criar bolor, porque ninguém ia conseguir encontrá-los; pelo contrário, eu não tinha câmaras ou depósitos o bastante para alojar tantas posses, ou na verdade a quem confiar os papéis que me certificavam essas riquezas.”

270

Comecei a despertar a inclinação para regressar aos Brasis e me estabelecer lá em definitivo, afinal aquela fazenda me soava o lugar mais natural para me fixar; apesar de me acostumar lentamente à idéia, eu tinha escrúpulos religiosos que me impediam de dar o passo decisivo. Mas admito que não foi a religião católica dos Brasis o fator determinante para adiar minha viagem no presente”

271

é que, quando comecei a pensar em viver e morrer ao lado deles, comecei a me arrepender haver-me professado um Papista, e achava agora que não era essa a melhor crença na qual morrer.

Mas, como eu já disse, não era essa a razão principal da minha hesitação, mas que eu realmente não sabia aos cuidados de quem relegar todas as minhas posses; finalmente, tomei a decisão de ir à Inglaterra, onde eu deveria, uma vez chegado, estabelecer alguma relação, ou rede de relações, em que pudesse me escorar”

272

eu tinha me apegado demais ao mar, e ainda assim manifestava uma estranha aversão à ida para a Ilha Britânica pela via marítima, desta vez”

273

É a mais pura verdade que meus maiores infortúnios se devem ao mar, e essa era a razão mais evidente da minha apreensão; mas não subestime o menor pressentimento instintivo de um homem em iguais circunstâncias: duas das embarcações que eu havia fretado para meu deslocamento, sem minha presença mas com vários dos meus pertences, simplesmente malograram. Uma foi atacada por piratas argelinos, e a outra afundou em Start, nas proximidades de Torbay¹, deixando apenas 3 sobreviventes; ou seja, em qualquer destes navios que eu estivesse teria resultado para mim uma nova desgraça.

Assediado pelos meus próprios pensamentos temerosos de tal maneira, meu mais experiente piloto, a quem eu tudo comunicava, me pressionou vivamente a não fazer essa viagem inteiramente pelo mar, antes desembarcando o mais cedo possível, por exemplo no porto de Groyne² e cruzando por terra da Baía de Biscay³ até La Rochelle4, partindo de onde eu teria uma jornada fácil e segura até Paris, de lá para Calais, de Calais para Dover5; de Dover para Madri, e seguindo sempre pelas estradas francesas.”

¹ Inglaterra

² Não consegui apurar a localidade

³ Gasconha, região do sudoeste francês próxima dos Pirineus e da Espanha, cuja população é em alto grau composta por descendentes de bascos. É a terra natal de D’Artagnan (Dumas).

4 França

5 Sudeste da Inglaterra, na menor distância verificada entre a França e a Ilha, bastando atravessar um estreito para se cruzar a fronteira.

274

foi o inverno europeu mais severo na memória de todos os viventes”

275

Sendo o urso uma criatura pesada e desajeitada, que não galopa como o lobo, habilidoso e ligeiro, ele tem duas qualidades particulares, que geralmente são a regra de suas ações; primeiro, quanto a homens, que não são sua caça em específico (ele só os ataca se for o primeiro a ser atacado, ou se estiver morrendo de fome, o que é provável que fosse o caso agora, estando o terreno coberto de neve), se você não se meter com eles, eles não se meterão consigo; isso significa ser muito civil com um urso, e dar licença para deixar-lhe a passagem, porque ele é no fundo um gentleman; ele não vai sair do caminho nem para um príncipe; se você está morrendo de medo, o conselho é nem olhar na direção dele e seguir seu caminho; porque se você der uma parada, e der uma olhadela de viés, ele vai interpretar como uma afronta; e se você jogar alguma coisa nele, mesmo que seja um pedacinho de galho tão grande quanto um dedo mindinho, ele vai se sentir violado de verdade, e vai ignorar todos os outros negócios até acertar as contas com você, este é um ponto de honra – essa é sua primeira qualidade: a segunda é, uma vez afrontado, um urso nunca deixará o afrontador escapar, noite e dia, até dar-se o tira-teima, mesmo que o acompanhe apenas de longe, tão de longe que não possa ser pressentido ou detectado; ele é um perseguidor implacável.”

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Todos ficamos surpresos ao contemplá-lo; mas quando Sexta-feira o viu, nele se via o semblante da coragem e da alegria. <O! O! O!>, repete Sexta três vezes, apontando: <Ah, mestre, você me deixar ir, eu apertar mão com ele; eu você fazer rir.>

Não tem como dizer que não fiquei atônito com essa reação. <Tolo! Ele vai devorá-lo!> – <Comer eu!!! Comer eu!!>, repetiu Sexta-feira duas vezes; <EU comer ele; eu fazer você rir.> Então Sexta-feira se sentou e descalçou suas botas num átimo, vestindo no lugar um par de sandálias (como chamamos esses sapatos frouxos que eles usam, e que ele levava no bolso), deu ao meu outro assistente o arreio do cavalo, e sem sua arma ele literalmente deslizou pela neve, como um cervo, ou melhor ainda, como o vento.

O urso caminhava devagar, e não parecia querer encrenca, até Sexta-feira se aproximar um tanto, chamá-lo, como se o urso pudesse entendê-lo. <Escuta tu, escuta tu! eu falar contigo.> Contemplamos à distância, estávamos na borda de uma floresta da Gasconha, onde o terreno é plano e aberto, com árvores esparsas. Sexta-feira, que estava, como dizemos popularmente, nos calcanhares do urso, se pôs frente a frente com ele na maior ligeireza, se apoderou de uma pedra grande das proximidades, e atirou-a nele, acertando-o bem na cabeça, mas sem conseguir machucá-lo mais do que se atirasse contra um muro; mas isso era o que Sexta-feira realmente queria, porque o pilantra o fez visivelmente só para atrair a atenção do urso e fazê-lo seguir suas pegadas na neve, e ainda por cima nos fazer rir enquanto o chamava e o instigava mais e mais. Assim que o urso sentiu o impacto da pedrada e fitou o índio, não hesitou em segui-lo, com passadas largas, sacudindo de forma estranha, o que com certeza poria mesmo um cavalo em fuga; Sexta-feira desenhou uma escapatória em nossa direção, como se quisesse a nossa ajuda; logo empunhamos as carabinas e estávamos prontos para os disparos, para salvar nosso homem; mesmo muito bravo com sua conduta intempestiva, atraindo esse predador para cima de nós, sendo que antes ele nada queria conosco; então eu bradei, <Cachorro! isso é o ‘nos fazer rir?’. Venha e monte seu cavalo, nós cuidamos dele agora.> <Não disparar, não disparar; calminha aí, e vocês rir muito ainda>”

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Nem bem o urso abandonou aquela parte mais frágil do galho, <Rá!>, fez Sexta-feira para nós, <agora vocês ver eu ensinar urso dançar!>: então ele começou a pular e sacudir o galho corpulento, no que o urso começou a cambalear, mas sem perder o equilíbrio, e olhando sempre para trás, pensando como poderia voltar e descer; aí foi que nós rimos realmente com vontade.”

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<O quê? Você não vir longe mais? Favor ô, vir mais!>; e Sexta-feira continuou pulando e fazendo o galho vibrar cada vez mais; e o urso, como que entendendo a língua dele, realmente se aproximou, prosseguindo enroscado ao galho; Sexta-feira retomou seus saltos ritmados, e o urso parou de novo. Achávamos a oportunidade perfeita para dar um tirombaço na cabeça da fera, e dissemos para Sexta-feira não se mexer: mas ele gritou firmemente, <Ah, favor! Favor, gente! Não atirar, eu atirar depois só>: foi o que ele seguiu dizendo a fim de nos acalmar. Para encurtar logo essa história, Sexta-feira caprichou tanto em sua dança, e o urso ficou tão refém do procedimento, que não paramos de rir por um longo período, mas mesmo assim não podíamos entender como aquilo acabaria, pois Sexta-feira seguia encurralado: primeiro, pensávamos que ele contava em derrubar o urso com um de seus pulos; acontece que o urso era esperto demais para cair dessa maneira; ele não ficava parado nas partes mais sensíveis da grande ramagem, e segurava-se firme com suas garras enormes; ansiávamos, em verdade, pelo fim do longo espetáculo. Mas Sexta-feira nos removeu a neblina e a dúvida dos pensamentos com a mesma celeridade de sempre: <Ora, Ora, você não se adiantar mais, né ursão, eu ir então; você não vir mim; eu vir tu;> e dizendo isso Sexa-feira não hesitou em ir à extremidade mais leve do ramo da árvore, que provavelmente racharia com seu peso, mas deixou-se cair suavemente, agarrando numas folhagens para amortecer a queda, no que pisou em terra e rapidamente armou-se. <Ora,> interpelei-o, <Sexta, o que fará agora? Por que não atira de uma vez?> <Não atirar,> me respondeu Sexta-feira, <não ainda; eu atirar agora, não matar; eu ficar, fazer mais risada>. E o índio cumpriu a palavra: o urso, vendo seu contendor escapulir-se, tentou baixar mais rápido, mas morrendo de medo de se desequilibrar do galho, olhando para trás a cada recuo de poucos centímetros, vinha de marcha à ré bem devagar, até finalmente alcançar o tronco; então desceu, ainda com todo o cuidado e sem pressa, prendendo-se com as garras na madeira e movendo uma pata traseira de cada vez; nessa conjuntura, e antes que pudesse pisar a neve, Sexta-feira se aproximou, destravou a espingarda e o matou. Então o sacana nos olhou para ver nossa reação; e quando viu que todos nós estávamos a gargalhar depois de pensarmos que ele estava o tempo todo em apuros, ele começou a rir alto também. <Assim matar nós urso na nossa nação!”> <Assim que vocês matam? Como, se vocês não têm armas de fogo…> <Não,>, não arma, não, mas disparar flecha grande.> Esse foi um excelente entretenimento para todos nós; mas, convenhamos, ainda nos encontrávamos em meio silvestre, com nosso guia ferido, e não sabíamos direito o que fazer; o uivar de lobos repercutia em minha mente; exceto um uivo que ouvi na costa d’África, que sempre recordava na memória, esse era o som mais horripilante que já tinha ouvido.”

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Tínhamos que atravessar uma senda perigosíssima, e nosso guia nos alertou que, houvesse mais lobos na região, certamente com eles nos depararíamos; esse era um planalto estreito, cercado de árvores, e além de tudo comprido, o que perfazia uma garganta, que devíamos atravessar para superar as florestas espessas, e só além estaria o vilarejo onde repousaríamos. Já estava a meia hora do pôr-do-sol quando nos vimos nesse cenário desanimador: seja como for, nos arredores do primeiro bosque nada havia de ruim, exceto que vimos 5 grandes lobos a coisa de meio quilômetro de distância, em velocidade, como se estivessem no meio da caça; mas não vinham na nossa trajetória e pareciam não ter-nos notado sequer, tendo saído também de nossa vista num instante.”

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não vimos mais nenhum lobo até nos embrenharmos, na segunda seção de árvores espessas, por coisa de 2km, até termos de novo planalto liso pela frente e repararmos em mais lobos. Vimos um cavalo morto; isto é, a carcaça do banquete lupino, e uma dúzia deles ainda se livrando dos restos, mas já estava quase tudo terminado, estavam só a roer os ossos.”

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Não cruzáramos metade do planalto que nos faltava quando ouvimos de novo uivos vindos da floresta esquerda que nos encheram de calafrios. Vimos uma centena de lobos se aproximando numa alcatéia, como que em fila, na perfeita organização de um calejado exército. Não fazia idéia de como recebê-los todos; raciocinando rápido, concluí que manter uma linha de frente densa era a única resposta apropriada; isso nós perfizemos rápido; só solicitei que metade abrisse fogo, e enquanto essa metade recarregava sua arma, a outra disparasse, para não darmos intervalo algum às feras, se elas não demonstrassem nenhum receio em avançar. E na verdade no segundo lance de disparos devíamos usar as pistolas (pois cada qual tinha tanto um fuzil quanto um par de pistolas). Dessa forma, poderíamos disparar 6 rajadas a metade de nosso bando; mas todo esse planejamento foi exagerado, pois a linha de frente do inimigo se assustou e recuou logo com os primeiros disparos. O barulho os assustava tanto quanto o próprio fogo. Quatro caíram com tiros na cabeça; muitos outros estavam feridos, manchando bastante a neve branca; é verdade, eles pararam, mas não desistiram. Nesse ínterim, me lembrando de que já havia escutado que a mais feroz das criaturas se assustava com o som da voz humana, instei todos os meus colegas a berrar tanto quanto conseguissem; e descobri na prática que essa noção não era equívoca; com nossos gritos eles começaram a dar meia-volta. Então eu coordenei uma segunda torrente de disparos logo a suas costas, o que os fez galopar em retirada de vez, e sumiram-se nas árvores. Isso nos deu tempo para carregar nossas armas; e era importante continuarmos nos deslocando em direção à vila sem perder tempo. Mas mal recarregamos nossas espingardas e apontamos, ouvimos ruídos horríveis daquela mesma floresta para onde se afugentaram os feridos vivos e os assustados, só que provinha de um ponto mais adiantado, onde deveríamos chegar ainda.

A noite se impunha, a luz era cada vez mais cinza e opaca, o que só piorava as coisas; a princípio o som era indistinto, mas com nossa lenta aproximação foi ficando claro: eram uivos e rugidos daquelas criaturas infernais; de súbito percebemos três bandos compactos de lobos, um à esquerda, um por trás de nós, outro pela frente, de modo que parecíamos irremediavelmente emboscados: porém, como eles não caíram em cima de nós de imediato, fomos galgando pela neve, devagar, porque puxar nossos cavalos era um problema. Foi assim que chegamos à clareira da floresta, com o intuito de atravessar esta última como nosso obstáculo final; nesse instante fomos pegos de surpresa ao nos deparar com um número indeterminado de lobos à espreita, semi-oculto pela vegetação. Sem nos dar tempo para pensar ouvimos um tiro, de outra abertura na floresta próxima; vimos um cavalo trotando no nosso rumo, só com sela e arreios, sem cavaleiro, avançando como o vento, perseguido por 16 ou 17 lobos no que parecia ser o limite da velocidade dos animais na natureza: e o cavalo podia ir mais depressa; mas imaginávamos que ele não poderia manter esse ritmo nesse terreno pouco propício a seu tipo: e assim se deu.

Outra visão ainda mais horrenda nos sobreveio; aproximando-nos com alguma cautela do local em que lobos e cavalo entraram em contato, que foi pior para o último, vislumbramos a carcaça de outro cavalo e de dois homens, devorados pelo apetite infame dessas criaturas; e um dos homens era sem dúvida o autor do disparo que ouvíramos, porque a seu lado estava um fuzil ainda fumegante; ele já estava sem cabeça, pescoço e algumas outras partes superiores. Isso terminou de nos desesperar; nossa confusão teve de cessar porque as criaturas nos premiam a achar uma solução instantânea, e nós seríamos o banquete lupino (a sobremesa) se não pensássemos em alguma coisa para virar o jogo; eu acredito que em todo esse cenário havia coisa de 300 lobos para nos destroçar. Creio que aquilo que nos salvou foi que havia muita lenha empilhada na horizontal, perto da referida clareira, porque muitas das árvores desse bosque haviam sido desmatadas em alguma estação anterior pelos locais (só podia ser no verão). Eram troncos enormes de pinheiro, e nos dariam uma grande vantagem na defesa. Não sei por que todo o madeirame não havia ainda sido transportado, mas tínhamos de usá-lo a nosso favor. Organizei meu bando como em trincheiras, em formação triangular, ou seja, três lados de frente para o que pudesse atacar de fora; envolvemos com este “cordão retilíneo” os cavalos, que ficaram no centro, guarnecidos. Nunca vi nem em ficção um assalto tão furioso de bestas selvagens contra o que quer que fosse, e nem sei como estou aqui a contar. Eles vieram emitindo sons que eu mal podia associar aos grunhidos que já ouvira até então, e tentaram subir pelos troncos de madeira para nos abocanhar; acredito que essa fúria estivesse acentuada justamente por causa da ânsia pela carne de cavalo que eles farejaram. Coordenei os lances de tiros, como daquela outra vez; e os disparos foram tão precisos que vi inúmeros desses predadores caírem já sem vida; mas eram muitos e não podíamos parar, e eles seguiam vindo como demônios, sem perderem a confiança, como no assalto anterior, que não era comparável a este. E os de trás premiam os da frente, de modo que mesmo que algum lobo mais covarde quisesse retroceder não teria podido.

Quando foi ejetada a segunda carga de nossos canos, alguns segundos me deram a falsa impressão de que houve intimidação por parte deles, mas eles retomaram a caça com o mesmo vigor de antes; demos mais duas salvas de tiros; acredito que nessas 4 primeiras saraivadas o número de abatidos foi de 16, 17, 18… com pelo menos o dobro de feridos, mas o exército de quatro patas não parava por nada.

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despachamo-los num instante, e os demais estavam tão apavorados com a luz que a noite contrastante – pois agora a escuridão era quase total – só fazia da ameaça do fogo algo mais terrível e opressor, então recuar era para eles inevitável; ordenei que carregássemos nossas pistolas uma última vez numa sessão sincronizada de tiros, e depois dela gritamos com todas as forças dos pulmões; nisso, os lobos simplesmente meteram o rabo entre as pernas, e demos cabo de uns 20 que ainda vimos espalhados pela neve, agonizando ou rastejando, rasgando-os barbaramente com nossas espadas, o que produziu o efeito que eu esperava: os gemidos de morte desses infelizes animais que ficaram para trás terminaram, por nós, o serviço de terror psicológico nos sobreviventes em fuga; não sobrou um que ousasse nos desafiar.

Fazendo as contas, acho que matamos umas cinco dúzias dessas feras, e se houvesse luz do dia creio que o massacre teria sido mais amplo. O campo de batalha varrido das ameaças, seguimos em frente, porque cerca de 5km ainda nos separavam da cidade.”

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em uma hora de caminhada estávamos no vilarejo onde nos hospedaríamos, cujos moradores estavam visivelmente apreensivos e andando armados; parece que a noite passada os lobos e até alguns ursos assaltaram o local, forçando-os a manter-se em vigília se não quisessem perder seus rebanhos de ovelhas e mesmo os próprios entes.”

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aqui fomos obrigados a contratar um novo guia e ir rumo a Toulouse, onde a temperatura era mais agradável e quente, sem dúvida uma localidade deliciosa, sem neve nenhuma, sem lobos, nem nada similar; quando contamos nossa saga em Toulouse, nem ficaram surpresos; disseram que é o normal da estação nas florestas ao pé das montanhas, especialmente em nevascas; mas o que acharam estranho foi que tipo de guia resolveu nos conduzir assim tão perigosamente por aquelas trilhas, justo nessa época do ano, e que foi extraordinário ninguém de nós terminar sendo devorado. Quando relatamos nossa tática de esquadrão, com os cavalos ao centro, nos culparam severamente, e disseram que era 50 para 1 a probabilidade da morte face à da salvação, usando tal expediente. Era a vista dos cavalos que deixava os lobos enraivecidos, e que em outras circunstâncias eles têm medo das armas; só que passando fome e sob a loucura instintiva da caça à presa natural, a expectativa de abocanhar a carne eqüina tornava-os insensíveis ao perigo; se não tivéssemos mantido rajadas contínuas de balas, e se não tivéssemos atirado em invólucros de pólvora para causar detonações, o mais provável é que não teríamos para quem contar essas histórias senão no outro mundo.”

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disseram que o melhor nessa ocasião seria agruparmo-nos todos, deixando para trás nossos cavalos, e assim nos livraríamos com a maior facilidade, ou pelo menos assim reza a inteligência e a experiência. Nunca senti tanto remorso por desafiar tolamente o perigo quanto agora, por incrível que pareça; três centenas de lobos querendo devorá-lo, sem nenhum escudo na paisagem ou refúgio no horizonte, sendo que não precisávamos estar naquele local e podíamos ter evitado atrair tantas feras, era mais terrível do que um súbito mal marítimo, muitas vezes imprevisível, inevitável; achei mesmo que minha hora estava encomendada, nalgum ponto daquela noite”

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Em suma, preferia circunavegar o globo, mesmo que estivesse certo de cruzar com uma tempestade por semana.

Felizmente, dos próximos dias não tenho nada sobrenatural a relatar, enquanto ainda estive percorrendo a França – nada que outros viajantes não tenham relatado previamente com muito mais propriedade. Fui de Toulouse a Paris, e sem muito me demorar já estava em Calais, pisando em Dover em segurança dia 14 de Janeiro, já no fim desse rigoroso inverno.”

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Meu maior guia e conselheiro privado não podia deixar de ser minha preciosa viúva, a minha antiga tutora, que, em gratidão pelo dinheiro que lhe enviei, não considerava nunca excesso de zelo nem cuidado fazer tudo que estivesse a seu alcance pelo meu bem; e eu depositava tanta confiança nela que não tive a menor intranqüilidade em atribuir-lhe toda a responsabilidade pela administração da minha fortuna; na verdade não só isso, como me senti um tanto aliviado depois de tudo; não é comum poder contar com alguém de tamanha integridade ao seu lado.

Resolvido, afinal, a arrematar a questão das minhas plantations nos Brasis, escrevi ao meu amigo lisboeta, que, comunicando minha sobrevinda aos dois empresários que agora usufruíam dos meus direitos de terra, os descendentes dos meus investidores originais, ambos residentes nos Brasis, recebeu a resposta em sinal de aprovação pela minha oferta, e remeterem imediatamente 33.000 dólares espanhóis¹ a um receptor em Lisboa, que me indicaram.”

¹ “Pieces of eight” no original, uma das primeiras moedas aceitas quase que irrestritamente em nível global por algum tempo.

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E assim se conclui, basicamente, a primeira metade de uma vida devotada ao acaso e à aventura – uma vida sujeita às tramas da Providência, e duma variedade que o mundo poderia replicar em uma multitude de indivíduos; começando tolamente, mas terminando de forma muito mais feliz do que qualquer um dos capítulos dessa história poderia sinalizar.

Qualquer um adivinharia que nesse estado de eterno sucumbente da Fortuna (e falo do azar, não do dinheiro!) esse meu epílogo não significaria um verdadeiro fim – e esse <qualquer um> teria acertado em cheio. Não é que eu simplesmente não conseguisse parar. Eu tentei. Mas novas circunstâncias sempre me retiravam do repouso. Eu nascera inclinado ao nomadismo, não tinha família, nem muitos conhecidos tão próximos; nem mesmo a riqueza me trouxera esses <luxos> humanitários; depois de liquidar minha propriedade nos Brasis, capitalizando bastante, ainda não podia retirar esses trópicos da cabeça, parecia que meu destino <morava> ali; o vento me levaria ao meu destino; e mais que isso, eu tinha no íntimo uma vontade de rever a minha ilha, de saber se os espanhóis que estavam para lá chegar quando parti estavam bem.”

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Me casei, e confesso que nada perdi com isso, e tive 3 filhos, 2 meninos e 1 menina; mas, ficando viúvo prematuramente, e meu sobrinho retornando ao lar enriquecido após uma viagem à Espanha, meu eterno ímpeto de viajar, e sua importunidade, prevaleceram, e este meu parente logrou me convencer a embarcar em seu navio como comerciante autônomo em direção às Índias Orientais; este era o ano de 1694.

No decorrer dessa viagem visitei minha nova colônia na ilha, vi meus sucessores os espanhóis, me informei de tudo que se passara desde minha partida – e posso dizer-lhe, eles sofreram nas mãos dos vilões que eu deixei que residissem por ali; soube como foram insultados, os humildes hispânicos, como se entenderam, voltaram a se desentender, entraram em comunhão, e em atrito uma vez mais, e como por último os espanhóis, em legítima defesa, foram obrigados a recorrer à violência; como os ingleses corsários terminaram por se tornarem servos dos espanhóis, mas como apesar de tudo os espanhóis sempre os trataram com bondade, mesmo durante a vigência dessa desigualdade – um conto, enfim, que se fosse pormenorizado aqui, se desdobraria nos acidentes mais maravilhosos concebíveis, não sem minha participação nisso tudo. Eu cheguei em tempo de colaborar com eles numa guerra travada contra os caribes, que continuavam a fazer visitas cerimoniais à costa. A ilha se modificara muito, 5 dos novos habitantes inclusive arriscaram-se na navegação ao continente, e seqüestraram 11 homens e 5 mulheres aborígenes, razão pela qual encontrei, ao aportar na minha segunda visita, 22 crianças na ilha.

Eu permaneci por 20 dias, entreguei-lhes suprimentos os mais variados, particularmente armas, pólvora, balas, roupas, ferramentas, e ainda 2 mãos-de-obra, isto é, 2 trabalhadores, que trouxe da Inglaterra, um carpinteiro e um ferreiro.”

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De lá, voltei à costa brasileira, de onde fretei um navio com mais gente para povoar a ilha; e no novo navio, além de novos recursos, enviei 7 mulheres, as quais selecionei muito bem, para serem esposas devotas para aqueles a quem coubesse a sorte de ser seus consortes.”

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Mas de todas essas coisas, com o relato composto e minucioso de como 300 caribes vieram e atacaram a ilha, destruindo suas plantações, e como houve luta dos novos habitantes contra esse exército selvagem, não só uma, mas duas vezes, e de que aqueles foram primeiro derrotados mas depois venceram, com a ajuda providencial de uma tempestade, e como renovaram e recuperaram suas provisões e cultivos, e seguiram vivendo ali, de tudo isso…

…, e com o acréscimo de outros incidentes ocorridos longe da ilha, nas mais remotas coordenadas do globo terrestre, novas aventuras protagonizadas por mim, por 10 anos mais de minha atribulada existência, de tudo isso devo eu falar, na Segunda Parte de minha História.

CONTINUA NO SECLUSÃO!…

A CASA DE JACÓ [traduzido do Alemão]

“(*) Esse conto é um dos mais populares nas creches, conhecido em Inglês como <The House that Jack Built> (A casa que José construiu), presente no folclore de inúmeros povos. Na Alemanha, circula esse lenga-lenga, variação condensada: as pêras se recusando a cair de determinado pé, o proprietário mandou chamar, sucessivamente, um menino, um cachorro, um graveto, o fogo, a água, um bezerro, um matador e um carrasco para fazerem o serviço. Todos se recusando, o proprietário decide chamar o demônio. O demônio se prepara para levar o carrasco, que se prepara para enforcar o matador. O matador se voluntaria para matar o bezerro, que agora está resolvido a sorver a água. A água pretende apagar o fogo, o fogo queimar o graveto, o graveto espancar o cachorro, o cachorro morder o menino, o menino sacudir a árvore; quando cada um resolve fazer o seu, as pêras consentem em cair.”

“Era uma vez um homem, o homem era bom, o homem se chamava Jacó. O homem Jacó falou: <Eu preciso de uma casa. Eu preciso de uma boa casa. É, eu preciso de uma nova e boa casa.> O homem Jacó construiu uma casa. A nova casa era grande. A nova casa era, também, bonita. Então disse Jacó: <Eu tenho uma nova e boa casa. Minha casa é também bonita. Mas minha linda casa está vazia. Eu preciso de milho.> Jacó compra milho. Ele (Jacó) compra muito milho. O milho estava na casa, que Jacó havia construído. Jacó disse: <Isso é ótimo! Tenho muito milho, um ótimo milho, na minha casa!>

              Era uma vez um rato, o rato era pequeno, mas o rato estava faminto, muito faminto. O pequeno rato disse: <Estou faminto, ah, estou tão faminto! Jacó tem milho em sua nova casa. Eu irei para lá. Eu comerei milho!>.

              O rato foi à casa de Jacó. O rato encontrou o milho. <Bom!>, disse o rato. <Aqui temos milho do bom. Aqui posso comer, então comerei muito. Ah, está uma delícia, muito, muito bom!>.

              O rato estava muito faminto, e comeu muito milho.

              Jacó tinha um gato. O gato era enorme. O gato também estava faminto. O gato disse: <Estou tão faminto, onde tem um ratinho? Comerei um ratinho!>.

              O gato viu o ratinho, aquele que comeu milho na casa de Jacó, e disse: <Ah! ali está um belo dum ratinho. Comerei o rato.> O gato capturou o rato, e o rato disse: <Oh, querido gato, eu sou tão pequenino, deixe-me viver, deixe-me viver!>.

              <Não!>, disse o gato. <Não! você comeu o milho da casa de Jacó, você deve morrer, ratinho, você deve morrer!>

              <Ai!>, disse o ratinho. <Eu estava tão faminto, querido gato! Eu nem comi muito milho. Eu não quero morrer!>

              <Você deve morrer!>, disse o gato. E o gato mau comeu o ratinho.

              Jacó tinha um jardim. O jardim era belo. O gato disse: <Vou ao jardim!> O gato foi ao jardim e se estirou ao sol quente. <Ah!>, disse o gato. <O sol está tão bom e quente!>

              Mas aí veio um cão, um grande cão. Era o cão de Jacó. <Ah!>, disse o cão, <ali está um gato. O gato descansa no sol quente. Isso é bom! Vou infernizar o gato!>.

              O cachorro veio silenciosamente e disse: <Gato, gato, cá estou eu! Vou te infernizar, querido gato!>.

              O gato trepou numa árvore, e o cão ficou ao pé d’árvore a latir. Ele latia tão alto que o pobre gato se amedrontou.

              <Ai!>, disse o pobre gato, <o cão é tão grande! o cão late tão alto! Eu tenho medo, eu tenho muito medo!>.

              Aí veio a vaca de Jacó. A vaca tinha longos cornos. A vaca viu o cão no jardim. A vaca viu o gato também. A vaca disse: <Ah! ali está o cão malvado. O cão aterroriza o gato. O gato comeu o rato. O rato comeu o milho, o milho que tinha na nova casa de Jacó.>

              Então continuou a vaca: <Irei ao jardim. Aterrorizarei o cão malvado, ele que aterrorizou o gato, eu irei aterrorizá-lo!>.

              A vaca veio ao jardim e correu atrás do pobre cachorro, e o gato pulou da árvore para dentro da casa, da nova e bela casa, que Jacó construiu.

              Aí veio uma donzela. Era uma moça bonita, muito bonita, mas a moça estava triste, muito triste, e chorava muito, muito mesmo.

              <Oh!>, disse a donzela. <Eu estou triste, muito triste. Eu preciso chorar, chorar muito! Não tenho pai. Não tenho mãe. Não tenho irmão. Não tenho irmã nem amigo. Ai! Eu estou triste!>

              A donzela disse: <Onde está minha vaca, minha bela vaca marrom? Preciso ordenhar a vaca. Jacó quer leite!>.

              A donzela veio ao jardim. A donzela viu a vaca.

              <Ah!>, disse, <cá está minha bela vaca marrom. Minha vaca infernizou o cachorro. O cachorro infernizou o gato. O gato comeu o rato. O rato comeu o milho de Jacó. Jacó comprou o milho. O milho estava na casa, na nova e bela casa, que Jacó construiu>.

               A donzela veio até a vaca. A vaca ficou parada. O cão saltou para dentro de casa, da nova casa de Jacó.

                A triste senhorita disse: <Boa vaca, tenho que ordenhá-la. Jacó quer leite, o bom e delicioso leite. Você deve ficar quietinha, boa vaca.>

                A vaca ficou parada. A donzela ordenhou a vaca. Lá vinha um homem jovem. O homem era jovem e belo, mas o homem era pobre, muito pobre. Ele veio ao jardim e viu a senhorita.

                <Ah!>, disse o pobre e jovem homem, <eis uma bela mulher. Mas a moça está triste, ela precisa chorar, chorar muito. Ela não tem pai nem mãe, irmão nem irmã, amigo nem casa. Ela tem de ordenhar a vaca com longos cornos, a vaca má, que infernizou o cão. O cão infernizou o gato, mas o gato comeu o rato. O gato comeu o milho, o bom milho, que Jacó comprou e estava em sua nova casa>.

                Então veio o pobre homem e disse à donzela: <Bela senhorita, você está triste, você chora, porque você tem de ordenhar a vaca. Você não tem pai nem mãe, irmão ou irmã, amigo ou casa. Venha comigo. Eu sou pobre, mas amo-a. Quer ser minha mulher, minha querida?>.

              <Oh, sim!>, disse a senhorita, e ela já não estava triste nem chorava, pois amava um bom homem.

                O homem disse: <Venha, minha querida, vamos ao padre. O padre é bom, muito bom. O padre tem um livro, um livrinho. Ele (o livro) é um livro de orações, e o padre irá nos casar o quanto antes. Venha, minha querida, venha.>

                A senhorita disse: <Sim,> e foi com o pobre homem ver o padre.

                O padre estava em sua casa. A casa era pequena, bem pequena. O padre estava na cama. O padre dormia. O padre tinha um galo. O galo estava no jardim, e o galo cantou alto, bem alto. O galo cantava todas as manhãs, e toda manhã despertava o padre com seu canto alto.

                O galo cantou alto esta manhã, e o padre despertou. E despertou cedo, bem cedinho.

                O padre pegou seu livrinho, seu livro de orações, e foi à igreja (a casa de deus). A igreja era bela e pequena. Na igreja estavam o homem jovem e belo e a bela moça.

                Disse o homem jovem ao padre: <Bom padre, abra seu livro de orações. Cá está esta bela jovem, e aqui estou eu. Nós queremos ser marido e mulher. Case-nos, ó bom padre, case-nos.>

                <Bom>, disse o padre, <eu os casarei!>, e o bom padre abriu seu pequeno livro de orações e casou o pobre e jovem homem e a bela senhorita. Eles eram marido e mulher.

                Em seguida falou o padre: <Ah, que bom, muito bom mesmo, que meu galo cantou tão alto e me despertou tão cedo!>

                <Pois é>, respondeu o jovem homem, <que bom mesmo. O senhor despertou, e o senhor veio à igreja, e me casou com a triste rapariga. A moça chorava e ordenhava a vaca marrom. A vaca marrom infernizava o cachorro mau. O cachorro mau infernizava o gato. O gato comeu o ratinho. O rato comeu o bom milho, o milho que Jacó comprou. O milho estava na casa, na nova e bela casa, que Jacó havia construído.>

                O jovem marido e a bela senhora foram para casa. O padre também foi para sua casa e disse: <Final feliz, todos felizes!>.